domingo, 20 de março de 2011 By: Fred

Lançamento Gênesis do Conhecimento - Olimpo em Guerra Livro 01 - Pegasus e o Fogo do Olimpo - Kate O'Hearn


KATE O'HEARN

OLIMPO EM
GUERRA
LIVRO 01

PEGASUS E O FOGO
DO OLIMPO

Tradução
Cassius Medauar

LeYa
2011

Como sempre, sem o apoio e o amor de minha família, sem
minhas incríveis editoras Anne e Naomi e sem meu
fantástico agente V, este livro nunca teria visto a luz do dia.
Obrigada, gente, vocês são o máximo! (OTB nunca morrerá)
Também gostaria de dedicar este livro a todos os cavalos do
mundo, especialmente os que sofrem em condições
horríveis de trabalho e abusos. Gostaria que Pegasus pudesse
resgatar todos vocês. Sem ele, cabe a nós fazer com que
tenham uma vida melhor.
Meu caro leitor, por favor, ajude quando e onde puder.
Cavalos que sofrem abuso estão por aí, esperando seu amor e
assistência.


Prólogo

A guerra chegou ao Olimpo. Não houve aviso. Nenhuma
pista de que algum inimigo desconhecido estava construindo
um exército contra eles. Um exército cuja meta era a
destruição completa. Em um momento havia paz; no outro,
a luta por sua própria existência. A batalha foi sangrenta,
brutal e totalmente inesperada, mas, para os Olímpicos, era a
oportunidade perfeita de realizar um sonho.
Paelen se abaixou atrás de uma coluna e viu os melhores
guerreiros Olímpicos se reunirem para lutar contra os
invasores. Júpiter liderava o ataque, carregando seus raios e
trovões nas mãos. Sua esposa, Juno, estava à esquerda,
pronta e com o rosto sério. À direita, Hércules parecia forte
e preparado, da mesma forma que Apolo e sua irmã gêmea,
Diana, que trazia um arco na mão. Marte também estava lá,
assim como Vulcano e seu arsenal de armas. Parado atrás
deles, com suas sandálias aladas e seu elmo, estava Mercúrio,
o mensageiro do Olimpo. Todos se preparavam para a
batalha.
O olhar de Paelen alcançou Pegasus. Os olhos do garanhão
faiscavam e suas asas tremiam enquanto seus cascos de ouro
batiam no chão, com a expectativa da batalha que estava por
vir. Mais atrás, outros Olímpicos se reuniam, todos
preparados para defender sua casa.
Mas Paelen náo pretendia lutar. Ele não era um guerreiro, e
sim um ladrão com planos próprios que não envolviam ser
morto em uma batalha que eles náo poderiam ganhar. A
guerra era problema dos outros. Ele estava muito ocupado se
concentrando em como lucrar com tudo aquilo. Com os
guardas preocupados em se defender dos Nirads, um ladrão
poderia entrar no palácio de Júpiter e pegar o que quisesse,
mas não eram os tesouros de Júpiter que interessavam a
Paelen. Ele desejava as rédeas de ouro usadas por Pegasus.
Todos no Olimpo sabiam que as rédeas eram o maior tesouro
de todos, pois eram a chave para conquistar o poderoso
garanhão alado. Se controlasse Pegasus, Paelen poderia ir
aonde quisesse e tomar o que quer que chamasse sua
atenção, sem que ninguém pudesse se opor a ele. Isso sim
era um verdadeiro prêmio, e não jóias estúpidas ou moedas
de ouro, que podiam ser encontradas no palácio
abandonado.
Quando Júpiter chamou seus soldados à frente, Paelen se
esgueirou mais para perto, a fim de ouvir seu discurso
desesperado.
- Meus filhos - ele falou gravemente —, estamos em nosso
momento mais sombrio. Nunca antes em nossa história
tivemos de enfrentar um perigo tão terrível. Os soldados
Nirad invadiram nossas fronteiras e neste momento estão
atrás do Fogo do Olimpo. Se conseguirem apagá-lo, todos os
nossos poderes desaparecerão e tudo o que conhecemos
estará perdido. Temos que detê-los! A Chama é a nossa
própria existência. Não podemos deixar que saiam vitoriosos.
Se não pudermos resistir a eles agora mesmo, tudo o que
conhecemos será destruído!
Paelen ouviu os murmúrios da multidão e sentiu a tensão
crescer. Seus olhos ainda estavam travados em Pegasus. O
garanhão sacudiu a cabeça e bufou, fazendo com que suas
rédeas douradas tilintassem encantadoramente, de um jeito
que nenhum outro ouro forjado poderia fazer.
Ouvir o som das rédeas fez com que os dedos de Paelen
coçassem de vontade de se esticar e agarrá-las, mas ele se
controlou. Ainda não era a hora. Seus olhos escuros foram
atraídos novamente para o líder desesperado.
- Nós, que nunca morremos, agora estamos diante de nossa
destruição - Júpiter continuou. — Mas não é apenas o nosso
mundo que precisamos defender. Todos os mundos que
protegemos cairão se os Nirads nos derrotarem. Temos que
lutar por eles!
Júpiter levantou seus raios e o som feroz de seus trovões
ecoou por todo o Olimpo.
- Vocês estão comigo? - gritou. - Vão se levantar contra os
invasores e fazer com que eles voltem para o lugar de onde
vieram?
Os olhos de Paelen se arregalaram com a visão de todos os
Olímpicos erguendo seus braços em direção a Júpiter.
Pegasus se apoiou apenas em suas patas traseiras e abriu as
asas em uma saudação. Os gritos de batalha tomaram o
ambiente.
- Pelo Olimpo! - Júpiter gritou enquanto se virava e liderava
seus guerreiros para a batalha.

Capítulo 1

Emily colocou a mão na janela e sentiu o vidro tremendo
por causa dos pesados trovões que ribombavam no céu.
Durante todo o dia as emissoras de rádio estiveram
noticiando as violentas tempestades que atingiram a costa
leste dos Estados Unidos de cima a baixo. No lugar onde
Emily morava, o coração de Nova York, a tempestade estava
pior do que nunca. Sentada sozinha no apartamento que
dividia com seu pai, que era policial, nunca imaginara que
uma tempestade de raios e trovões poderia ser tão ruim
assim.
Ela apertou o celular e se sentiu mal por mentir para o pai.
Ele só tinha ligado para ver se estava tudo bem.
- Todos os policiais foram convocados para trabalhar, que-
rida - explicou seu pai. - Estamos fazendo dois ou três turnos
seguidos. A cidade está uma loucura por causa do tempo e
eles precisam de todo o efetivo nas ruas. Pode me fazer um
favor? Fique longe das janelas. Os raios estão atingindo toda
a cidade e nosso apartamento, por ser no último andar, está
mais exposto.
Mas, mesmo com o aviso dele e de sua promessa de se afas-
tar, Emily estava sentada no sofá, ao lado da janela,
assistindo a tempestade. Aquele sempre foi o lugar preferido
de sua mãe. Ela dizia que aquele era seu "poleiro", seu lugar
especial de se sentar e ver o mundo se movendo vinte
andares abaixo. Desde a morte de sua mãe, Emily passou a se
sentar ali mais e mais, como se, de alguma forma, aquilo as
aproximasse.
Mas esse não era o único motivo. Daquele lugar privilegiado,
Emily podia ver o topo do Empire State e quanto ele estava
sendo castigado pela tempestade. Certa vez seu pai lhe
dissera que aquele edifício funcionava como um grande
para-raios que protegia os prédios vizinhos. Mas quanto mais
raios duplos atingiam sua grande antena, mais Emily se
perguntava quanto ele poderia aguentar.
A garota abraçou forte os joelhos para que não tremessem.
Ela nunca teve medo de trovões quando sua mãe estava
viva. Juntas, sempre davam um jeito de transformar o tempo
ruim em algo divertido e animado. Mas agora, sozinha e
com o pai trabalhando, Emily sentia a morte de sua mãe tão
forte quanto no dia em que ela tinha morrido.
- Queria que estivesse aqui, mãe - sussurrou tristemente
enquanto olhava pela janela. E, como já ocorrera muitas
vezes, seus olhos se encheram de lágrimas, que depois
escorreram por suas bochechas.
De repente houve um trovão ainda mais forte. Um flash de
raio muito brilhante atingiu o Empire State com tanta força
que a antena no alto do prédio explodiu em meio a
estilhaços e faíscas de eletricidade.
Emily mal podia acreditar no que testemunhara. Enquanto
limpava as lágrimas dos olhos, as luzes do prédio acendiam e
apagavam. Imediatamente, o mesmo aconteceu com os
prédios ao redor. A escuridão se espalhava como uma
mancha de suco de uva no tapete. A cidade estava sofrendo
um apagão.
Emily seguia a progressão do apagão olhando em direção à
Broadway. Um quarteirão escurecendo atrás do outro. Até
mesmo as luzes da rua e os semáforos estavam apagados.
Não demorou muito para que a falta de luz atingisse o seu
quarteirão e deixasse seu prédio no escuro. Ela encostou-se
no vidro da janela tentando ver onde acabaria o apagão, mas
ele seguiu em frente e toda a cidade ficou mergulhada na
escuridão.
Ela pulou quando seu celular tocou. Com as mãos tremendo,
abriu o aparelho e viu o nome do pai no pequeno visor.
- Pai! — ela falou alto. - O senhor não vai acreditar no que
acabou de acontecer! O topo do Empire State explodiu! Um
raio o atingiu e ele explodiu, com pedaços voando para todos
os lados!
- Acabaram de me falar - disse o pai um pouco ansioso. -
Você está bem? Alguma coisa acertou o nosso prédio?
- Não, está tudo bem - Emily respondeu, escondendo a
verdade, pois estava começando a ficar com medo. - Mas
acabou a força. Pelo que estou vendo, a cidade toda está sem
luz.
Do outro lado da linha, Emily pôde ouvir uma segunda voz.
Seu pai soltou um palavrão antes de voltar a falar com ela. -
Estamos recebendo relatos de que o apagão se espalhou por
toda a cidade e agora está atingindo Nova Jersey. Este é dos
grandes, Emily, e, pelo que acabaram de me falar, não será
resolvido rapidamente. Quero que vá até o banheiro e encha
a banheira de água. Depois encha tudo o que puder na
cozinha também. Não sei quanto tempo isso vai durar e
vamos precisar de água.
- Pode deixar - ela prometeu. Depois, antes que desistisse,
perguntou com a voz fraca. - Pai, quando você vem para
casa?
- Não sei, querida - ele respondeu. — Espero que logo. Olha,
quer que eu ligue para a tia Maureen e peça para ela ir até aí
e ficar com você?
Emily adorava a tia, mas não queria parecer um bebê. Ela já
tinha treze anos e era velha o suficiente para tomar conta de
si mesma.
— Não pai, obrigada. Estou bem.
— Tem certeza? — o pai perguntou. — Aposto que ela
gostaria de companhia.
— Sim, tenho certeza - ela respondeu. - Só fiquei um pouco
assustada com a tempestade, mas tenho muito que fazer por
aqui. Sem falar que é perigoso demais para a tia Maureen vir
até aqui no meio de tudo isso e ainda subir vinte andares de
escada. Estou bem, de verdade.
Houve certa hesitação na voz do pai antes de dizer:
— Tudo bem, mas se precisar de mim ou de qualquer coisa é
só ligar, entendeu?
— Pode deixar. Obrigada, pai. Agora é melhor eu desligar
antes que a água acabe.
Emily desligou e usou a luz do celular para iluminar o
caminho até a cozinha. Logo encontrou a lanterna para
emergências e foi até o banheiro.
Aquele era o procedimento padrão em apagões: encher a
banheira e tudo o mais que fosse possível com água. Uma
das coisas ruins de morar em um prédio alto em um apagão
era que as bombas logo paravam de bombear a água para os
apartamentos. Se não estocassem o máximo de água
possível, logo estariam com problemas.
Emily começou a encher a banheira e depois os potes e
panelas na cozinha. Assim que acabou de encher uma
grande tigela de sopa, a pressão da água começou a
enfraquecer. Não demoraria muito para que acabasse
completamente.
- Bom, melhor que nada. - Ela suspirou alto e depois fechou
todas as torneiras.
Enquanto trabalhava, Emily conseguiu se esquecer da
tempestade por alguns minutos, mas, com as torneiras
fechadas, o barulho dos trovões e das sirenes provenientes
da cidade eram os únicos sons no apartamento.
Pela janela do banheiro pôde ver outro raio e ouviu um
trovão poderoso. O raio foi tão brilhante que a deixou vendo
flashes, mesmo depois de ter fechado os olhos. Não houve
pausa entre a luz e o som, o que significava que tinha caído
bem perto.
Enquanto o trovão ribombava nervosamente, Emily se
afastou da janela; dessa vez ela seguiria os conselhos do pai e
ficaria longe delas. A tempestade estava bem ali, e piorava a
cada minuto.

Capítulo 2

Paelen observou chocado a destruição à sua volta. Ele jamais
tinha visto algo assim. O palácio estava em ruínas, bem
como as construções mais próximas.
Ele tentara acompanhar os defensores, mas acabou ficando
para trás. Agora, bem longe, ouvia os constantes barulhos
dos trovões de Júpiter e via os clarões dos raios no céu. A
violenta batalha continuava furiosa, mas distante da área
devastada.
O coração de Paelen parou ao ver Mercúrio no chão. O
mensageiro estava deitado de lado, com uma lança fincada
em seu peito. Havia sangue em seus cabelos loiros e seu
rosto estava todo machucado. Paelen se abaixou para ver se
ele ainda estava vivo.
Mercúrio abriu devagar seus pálidos olhos azuis.
— Paelen — disse ofegante —, já acabou? Eles apagaram o
Fogo?
Paelen pensou se deveria pedir ajuda a alguém, mas não ha-
via mais ninguém por ali. Pelo que viu, todos por perto
estavam mortos ou morrendo.
— Acredito que ainda esteja aceso. Vi os outros indo em
direção ao templo.
— Temos que deter os Nirads! — Mercúrio segurou no braço
de Paelen e tentou se levantar. - Me ajude a ficar em pé.
Paelen o ajudou a se levantar e, quando ficou em pé,
Mercúrio arrancou a lança do peito. O ferimento se abriu e o
sangramento aumentou. Suas pernas cederam e ele caiu no
chão novamente, enfraquecido.
- A guerra acabou para mim. Estou acabado! — Mercúrio
ofegou.
- Não está não - disse Paelen com receio, enquanto se
ajoelhava ao lado do mensageiro e o apoiava em seu colo. —
Você tem que se levantar, Mercúrio.
O mensageiro fez que não com a cabeça.
- É tarde demais...
Ele começou a tossir e o sangue escorreu dos cantos de sua
boca.
- Ouça, Paelen - ele ofegou. - Você precisa se unir à batalha.
Os Nirads não podem extinguir o Fogo.
- Eu? Lutar? - Paelen repetiu. Depois sacudiu a cabeça. —
Não posso. Olhe para mim, Mercúrio. Não tenho poderes de
verdade, não sou grande e forte como Hércules e não sei
lutar como Apolo. Não sei usar armas e não sou rápido como
você. Só sei ser um ladrão. Minha única habilidade é a de
esticar meu corpo para fugir de prisões e me espremer em
lugares apertados. E sabe como odeio fazer essas coisas,
porque dói muito. Sou um covarde e nada mais.
Mercúrio pegou a mão de Paelen e o puxou para perto.
- Me ouça, Paelen. Sei que ainda é muito jovem - ele ofegou
- e sei que não é tão grande e forte como o resto de nós, mas
é mais inteligente e corajoso do que imagina. Você pode
fazer a diferença!
Novamente, Paelen balançou a cabeça em sinal de negação.
- Você está pedindo demais. Não sou a pessoa que acha que
sou. Não sou nada!
Mercúrio apertou a mão de Paelen enquanto se esforçava
para conseguir falar.
- Você é especial, Paelen. Talvez esta seja a única chance
que terá para provar isso. Sei que nunca se considerou um
verdadeiro Olímpico, mas você é um e carrega em si o que é
necessário para ser alguém formidável. Este é o momento de
se juntar ao seu povo e defender o seu lar. Mostre para mim,
Paelen. - Mercúrio tossiu. - Mostre a todos nós do que é
capaz.
- Mas eu... eu... - Paelen balbuciou.
- Por favor! - Mercúrio implorou. - Nos ajude!
O grito de guerra dos Nirads furiosos preencheu o ambiente.
Não demoraria muito para que eles chegassem.
- Uma segunda onda de inimigos está chegando - Mercúrio
continuou, quase sem forças. - Precisa sair daqui. Pegue
minhas sandálias aladas. O meu elmo se foi, mas ainda
poderá voar com elas. Use-as e se junte à batalha.
- Suas sandálias? — Paelen clamou. — Não posso! Elas só
funcionam com você!
O mensageiro caído engasgou e tossiu. Seus olhos começa-
ram a se fechar.
- Estou morrendo, Paelen — ele falou suavemente. — Eu as
dou a você, agora é o novo mestre delas. As sandálias
obedecerão aos seus comandos.
Com um grito final de agonia, Mercúrio fechou os olhos e
ficou imóvel. Paelen não conseguia acreditar que o
mensageiro estava morto. De alguma forma, os invasores
Nirads tinham o poder de matar os Olímpicos mais fortes. Se
Mercúrio podia morrer, todos os outros também podiam.
Ele deitou Mercúrio gentilmente no chão e lutou consigo
mesmo ao se lembrar das últimas palavras do mensageiro.
Uma parte dele ainda queria roubar as rédeas de Pegasus e
fugir, mas a outra estava pensando se Mercúrio não tinha
razão. Será que havia mais nele do que Paelen pensava? Será
que ele tinha mesmo coragem de se juntar a batalha? Ele
tinha sido um ladrão a vida toda; era a única coisa que sabia
fazer. Paelen não tinha a força dos outros Olímpicos. Se
estavam sendo derrotados pelos Nirads, que chance teria?
Paelen finalmente decidiu que fugir era sua única opção. Por
que sacrificar sua vida em uma guerra que já estava perdida?
Se Pegasus ainda não tivesse sucumbido à batalha, agora era
a hora de agir e capturar o garanhão.
- Me desculpe, Mercúrio - disse ele tristemente -, mas você
estava errado. Não sou a pessoa que pensava que eu fosse.
Ele se abaixou, removeu com cuidado as sandálias aladas do
mensageiro e as colocou em seus pés, torcendo para que
Mercúrio tivesse razão quanto a elas funcionarem com ele.
Paelen ouviu rugidos e grunhidos atrás de si. Seus olhos se
arregalaram aterrorizados ao ver incontáveis guerreiros
Nirad se aproximando. Ele nunca tinha visto um de perto.
Eram enormes, tinham a pele cinza-mármore e pareciam ser
duros como pedra. Cada um de seus quatro braços sacudia
uma arma e seus olhos queimavam com um ódio assassino.
Aquelas criaturas não tinham intenção de negociar e nem de
fazer prisioneiros. Tudo o que Paelen via naqueles olhos
negros como pérolas era o desejo de matar. Ao ver os
invasores de perto, entendeu contra o que todos estavam
lutando. Eles não tinham chance. O Olimpo estava
condenado.
Ele olhou rapidamente para as sandálias.
- Voem, pelo amor de Júpiter. Voem! — gritou.
As pequenas asas começaram a bater. Ele subiu para o ar ao
mesmo tempo em que os primeiros guerreiros Nirad
começaram a chegar. Tomado pelo pânico, Paelen gritou:
- Vamos embora, sandálias! Não importa para onde. Voem!
As sandálias de Mercúrio obedeceram e Paelen foi carregado
para longe dos furiosos Nirads, ao som de seus grunhidos
raivosos por perderem sua presa.
Com o perigo imediato ficando bem para trás, Paelen olhou
para a frente.
- Parem! - ordenou.
As sandálias obedeceram a sua ordem e ficaram paradas no
ar. Ele olhou em volta atordoado, não acreditando na
devastação abaixo, e se sentiu mal ao ver que não havia
nenhuma construção intocada e nem estátuas inteiras. Os
Nirads estavam destruindo tudo.
- Voem - falou finalmente. - Me levem ao Templo do Fogo.
Preciso encontrar Pegasus.
Quando as sandálias o carregaram na direção do templo, os
sons dos trovões de Júpiter ficaram mais intensos e flashes
brilhantes iluminavam a área. A batalha ainda era feroz, mas
agora havia chegado à entrada do Templo do Fogo.
Paelen viu mais Olímpicos caídos, mas não havia nenhum
Nirad morto ou ferido entre aqueles corpos. Nenhum. Era
como se os invasores não pudessem ser mortos, nem mesmo
pelos Olímpicos mais fortes.
Ele olhou para a frente e viu fumaça subindo a distância. O
Fogo no templo ainda estava aceso, mas, quando se
aproximou do coração da batalha, viu Apolo e Diana
agachados de costas um para o outro, cercados por Nirads.
Diana usava seu arco, mas cada flecha que disparava nos
invasores não causava dano algum. Apolo usava sua lança,
que tinha os mesmos resultados da arma da irmã.
Um guerreiro Nirad saltou para a frente e deu uma rasteira
em Apolo. Outros também avançaram e Diana lutou
bravamente para salvar seu irmão gêmeo, mas foi arrastada
com rapidez. Quando Paelen voou silenciosamente sobre a
luta, ouviu os gritos angustiados de Diana enquanto Apolo
era assassinado pelos invasores. Pegasus. Ele tinha que
encontrar Pegasus. As sandálias o levaram para longe
daquela cena horrível.
Mais perto do Templo do Fogo, viu Júpiter lutando e
protegendo a entrada. Urrando de raiva, o líder do Olimpo
lançava raios e trovões sobre os Nirads, sem nenhum
resultado. Os invasores continuavam avançando
firmemente, subindo os degraus de mármore.
Finalmente Paelen viu Pegasus, que estava em pé sobre as
patas traseiras, dando coices nos invasores com as patas da
frente. Ele estava coberto de sangue, por causa de vários
cortes feitos pelos Nirads, que, com suas terríveis armas,
golpeavam e tentavam dominar o poderoso garanhão. Um
Nirad pulou e cravou fundo sua lança no flanco do garanhão,
que se apoiava nas patas traseiras. Pegasus soltou um
guincho de dor e caiu sobre as quatro patas, chutando
violentamente o Nirad com seu casco dourado, mas, mesmo
com o guerreiro ferido se afastando, outros chegaram para a
matança, segurando suas asas e tentando arrancá-las.
Pegasus continuou lutando, mas acabou sendo dominado
rapidamente. Quando outros Nirads se aproximaram e
continuaram a atacá-lo, o garanhão foi derrubado,
quebrando a lança que havia em seu flanco, fazendo com
que ela se cravasse ainda mais fundo.
Paelen assistiu horrorizado quando Pegasus desapareceu
embaixo de uma montanha de guerreiros inimigos. Não
havia como escapar daquilo.
Então Diana surgiu com seu grito de guerra e, atacando os
Nirads que tentavam matar Pegasus, golpeou com a lança de
seu irmão e usou todas suas forças com sua dor transformada
em cólera.
Um Nirad passou por ela e chegou perto da cabeça do
garanhão, mas quando suas quatro mãos tocaram as rédeas
de ouro, ele urrou de dor. Diana se virou para ele e o atacou
com a lança de seu irmão. Diferentemente das tentativas
anteriores de deter os Nirads, dessa vez a lança funcionou e
ela conseguiu matar seu primeiro invasor. Com a ajuda de
Diana, Pegasus se levantou. Mas aquela fora apenas uma
pequena vitória em uma batalha perdida.
- Paelen!
Júpiter estava cercado por invasores Nirads, mas apontava
para o templo.
- Rápido! - ele gritou. - Detenha-os!
Paelen se virou para o templo e viu outros Nirads passando
pelos defensores e quase chegando ao fim dos degraus de
mármore.
- Detenha-os, Paelen! - Júpiter ordenou novamente. - Eles
não podem extinguir o Fogo!
Paelen sabia que, no momento em que a Chama do Olimpo
se apagasse, a guerra terminaria e o Olimpo tombaria. Mas se
o próprio Júpiter não conseguia deter os invasores, o que um
ladrão poderia fazer?
No tempo que levou para decidir se entraria ou não na luta,
a batalha foi perdida. Os guerreiros Nirad arrebentaram os
portões do templo, jogaram os Olímpicos escada abaixo e
entraram no templo, uivando raivosamente. Momentos
depois, ouviu-se o lúgubre som do suporte do Fogo sendo
derrubado. Rugidos guturais de triunfo preencheram o ar
quando os invasores começaram a apagar a Chama.
Logo, mais e mais Nirads abandonaram o campo de batalha e
correram pelos degraus para se juntarem à destruição. Os
sobreviventes do Olimpo não podiam fazer muita coisa, a
não ser assistir aterrorizados enquanto seu mundo acabava.
Paelen viu Júpiter correr até Pegasus. Segurando as rédeas do
garanhão ferido, ele apontou para cima e gritou algo. Pegasus
resfolegou e assentiu com a cabeça.
Momentos depois, os poucos sobreviventes se afastaram
para que Pegasus pudesse abrir as asas. Com um grito, o
cavalo se lançou no ar.
O coração de Paelen bateu mais forte. Aquela era a sua hora!
Finalmente uma oportunidade de pegar as rédeas e controlar
o garanhão voador.
- Vá atrás de Pegasus! - Paelen ordenou para suas sandálias. -
Vamos pegar o garanhão!

Capítulo 3

Emily voltou ao quarto depois de terminar de coletar água.
Sem energia elétrica não havia TV, rádio ou luz, e, sem ter o
que fazer, se deitou na cama.
Ela sabia que não conseguiria dormir. Mesmo que a
tempestade não estivesse tão barulhenta, Emily estava no
limite. Gostaria de não estar sozinha. Sua mãe saberia o que
fazer em situações como aquela, mas ela estava morta, e
nada que a garota fizesse mudaria aquilo. Emily estava
sozinha, e começou a se arrepender de não ter pedido para
que tia Maureen fosse ficar com ela.
Outro flash ofuscante e a terrível explosão do trovão de um
raio surgiram do lado de fora. Emily sentiu o prédio inteiro
tremer. Mas havia algo mais além daquele trovão.
Exatamente acima de si, Emily ouviu o som de algo muito
grande e pesado atingindo o prédio.
Como ela e o pai moravam no último andar, acima havia
apenas a área do terraço, que utilizavam por pagarem uma
taxa extra. Lá, havia um jardim e uma horta feitos pela mãe
de Emily, mas ninguém mais tinha ido até lá desde que ela
ficou doente e morreu. Emily ficou preocupada com a
possibilidade de um pedaço da antena do Empire State ter
acertado seu prédio, ou talvez um raio tivesse caído e
destruído o jardim de sua mãe.
Ela pensou se deveria ligar para o pai e perguntar o que
fazer. Será que o raio começaria um incêndio e seu prédio
estava prestes a se queimar inteiro? A chuva caía em rajadas
fortes, mas será que conseguiria apagar o fogo, se é que havia
mesmo fogo? Quanto mais perguntas e medos surgiam, mais
o coração de Emily batia devagar, quase parando.
Outros sons continuaram vindo lá de cima. Era como se
alguém ou algo estivesse chutando o telhado do prédio.
Apontando a lanterna para o alto, Emily prendeu a
respiração quando o facho de luz revelou uma grande
rachadura no gesso do teto. O lustre balançava e pequenos
pedaços de tinta e gesso começaram a cair.
Ela pegou o celular, mas, mesmo depois de apertar o botão
de discagem rápida, desistiu e desligou. O que iria dizer ao
pai? Que algo grande tinha atingido o prédio e rachado o
teto de seu quarto? Talvez ele dissesse para Emily sair do
prédio, mas isso significaria ir até o corredor escuro e achar
o caminho para as escadas. Depois teria que descer vinte
andares e sair para a rua, onde chovia sem parar.
- Melhor não, Em - disse a si mesma. - Não tem nada lá em
cima. É só algo do jardim que caiu e a porta batendo com o
vento.
Mas antes de conseguir se convencer de que não era nada
sério, as batidas começaram novamente.
- Isso é loucura! - disse já saindo da cama. - Você não vai
subir...
Era como se o seu corpo e sua mente não entrassem num
acordo. Quanto mais a mente de Emily tentava fazer com
que a garota desistisse, mais seu corpo mostrava
determinação em investigar os estranhos sons que vinham lá
do terraço do prédio.
Emily vestiu seu sobretudo para chuva, pegou as chaves do
apartamento e foi até a porta. Com um pensamento tardio,
mas rápido, pegou o taco de beisebol que ficava ao lado da
porta por motivos de segurança.
Com apenas o facho de luz da lanterna iluminando o
caminho, Emily subiu as escadas, ouvindo sons de passos e
vozes de outros moradores que usavam as escadas para
chegar em casa.
— Isto não é algo inteligente, Em. Tem raios lá em cima! -
ela avisou a si mesma. Mas, mais uma vez, uma parte dela
não estava ouvindo.
Emily chegou ao fim das escadas e encarou a porta fechada
que dava acesso ao terraço do prédio. Com a lanterna em
uma mão e o taco na outra, precisou se esforçar para colocar
a chave na fechadura. Quando conseguiu girar, a porta se
abriu um pouco. De repente, uma rajada de vento surgiu e a
maçaneta escapou de sua mão. A porta se abriu com força,
fazendo um som terrível quando quase foi arrancada de suas
dobradiças.
— E eu querendo entrar silenciosamente... - repreendeu-
se. Emily caminhou para a chuva, que caía forte, e começou
a
examinar o lugar com a lanterna, procurando por algum foco
de incêndio. Fazia quase um ano que ela estivera ali pela
última vez. As plantas tinham crescido desordenadamente.
O mato dominara o local e cobria o que antes era um belo
jardim florido.
A horta estava irreconhecível. No escuro e com a
tempestade no auge, aquele não era mais o jardim que Emily
conhecera. Agora era apenas um lugar sombrio e assustador,
cheio de mistérios e perigos.
Apesar do barulho da chuva, Emily ainda conseguia ouvir
outros sons. Eram aquelas batidas novamente.
Mas agora havia mais batidas. Quando se concentrou para
ouvir por cima de todo o barulho da tempestade, teve a
impressão de ter escutado um lamento, ou um som
semelhante a um choramingo de dor.
Andando devagar, passou o facho de luz pelo jardim. A di-
reita dela estava o grande caminho de rosas, que tinha sido o
orgulho e a alegria de sua mãe. Todos os verões, sem falta, o
apartamento era preenchido com a fragrância das flores
recém-colhidas que sua mãe cultivava ali. Agora as roseiras
se tornaram selvagens e cresciam pelo beiral do terraço.
Um movimento repentino no meio das roseiras chamou a
atenção de Emily, que redirecionou a lanterna e achou que
avistara algo dourado brilhando. Ela andou mais um pouco e
manteve a luz no mato. Ai! O brilho dourado novamente.
Dando mais um passo nervoso, Emily levantou o taco.
- Quem quer que esteja aí, saia agora!
Quando deu mais um passo hesitante, um raio iluminou o
céu e banhou todo o terraço com sua luz. O que Emily viu
no jardim das rosas era algo impossível. Ela cambaleou para
trás, perdeu o equilíbrio e caiu com tudo no chão.
- Não é real - disse a si mesma. Se apoiando nas mãos e
joelhos, ela pegou a lanterna. - Você não viu o que acha que
viu, Em. É só a tempestade mexendo com a sua cabeça. É só
isso!
Ao direcionar a luz novamente para o mato, seu coração
batia tão rápido que ela achou que fosse desmaiar.
Cambaleando, Emily ficou em pé e avançou lentamente.
- Não é real, Em, não é real - repetia para si mesma enquanto
se aproximava. - Você não viu nada! - Mas quando apontou
a lanterna para o mesmo lugar, não conseguiu negar a
verdade. Era bem real.
Um grande cavalo branco estava deitado de lado no jardim
das rosas. O brilho que ela notara vinha de um de seus
cascos. Ao prestar mais atenção, Emily prendeu a respiração.
Era de ouro. Levantando a lanterna, ficou ainda mais
chocada. O animal tinha asas enormes, cobertas de barro,
folhas e pétalas, mas inconfundíveis com suas longas penas
brancas.
— Não! - Emily gritou. - Isso é impossível!
Outro raio iluminou o terraço, confirmando o que ela tenta-
va negar tão fortemente. Um cavalo branco com cascos
dourados e enormes asas brancas estava deitado de lado no
meio do jardim de rosas de sua falecida mãe.
Sem conseguir se mover e quase sem respirar, Emily
observava o animal sem acreditar no que via. Enquanto
olhava, as asas se moveram, seguidas de um terrível urro de
dor, que fez o coração de Emily ficar apertado. O animal
estava ferido e sentindo dor. Avançando sem se preocupar
com os espinhos afiados que rasgavam sua pele, Emily
adentrou os arbustos e começou a afastá-los do cavalo ferido.
Ela conseguiu passar pelo animal até chegar a sua cabeça,
que estava caída no chão e completamente presa em
roseiras, cujos espinhos penetravam na pele macia do
garanhão.
Emily gritou de dor quando os espinhos perfuraram sua pele
no momento em que começou a livrar a cabeça do animal
daquelas roseiras cruéis. Ele estava acordado e olhava para
ela com seus grandes olhos negros.
- Está tudo bem, não vou machucar você - ela falou
calmamente. — Vou soltá-lo em um minuto, então talvez
possa ficar em pé, se não estiver muito machucado.
Quando a maior parte da cabeça ficou livre, ele tentou se
levantar, mas soltou um grito de agonia quando a asa que
estava à vista se moveu.
- Pare, pare! - Emily acariciou o pescoço trêmulo do cavalo. -
Não se mova. Vou tentar ver o que está errado.
Emily continuou a acariciar seu pescoço forte e quente
enquanto levantava a lanterna e passava o facho de luz pelo
corpo do animal. Ela via uma das asas descansando, mas não
conseguia ver a outra.
- Imagino que você não tenha apenas uma asa, não é
mesmo? O animal levantou a cabeça e olhou para ela como
que implorasse por ajuda.
- Não - ela suspirou. - Pelo visto não mesmo.
Emily logo livrou o cavalo das roseiras. Quando levantou a
lanterna de novo, pôde ver a ponta da asa, mas ela estava em
uma posição estranha, presa embaixo de todo o peso do
corpo do animal.
- Sua outra asa está presa embaixo de você, mas imagino que
já sabia disso.
Depois de tirar as últimas roseiras de cima do animal, ela
voltou até a cabeça.
- Fiz tudo o que podia, mas precisamos tirá-lo de cima da asa.
Se eu der a volta e empurrá-lo, você pode tentar se levantar?
Como que em resposta àquela pergunta, o cavalo pareceu
assentir com a cabeça.
- Você está mesmo ficando louca, Em - murmurou para si
mesma. - É um cavalo. Ele não entende o que está dizendo.
Ela se ajoelhou na lama escorregadia e acariciou o lado da
barriga do animal.
- Certo, me desculpe, mas isso provavelmente vai doer.
Quando eu começar a empurrar, quero que tente se
levantar.
Apoiando as mãos firmemente nas costas do cavalo, Emily
se inclinou para a frente e começou a empurrar com toda a
força que tinha.
- Agora! - ela bufou. - Se levante agora!
Emily podia sentir os músculos das costas do animal se
tensionando sob suas mãos enquanto ele se esforçava para se
levantar.
- Isso mesmo! - Empurrando e tensionando, ela começou a
sentir seus joelhos escorregando na lama. — Não pare! Você
consegue!
Jogando todo o seu peso contra o cavalo, Emily sentiu o
animal se mover, mas quando ele rolou para a frente, a asa
presa se soltou e a acertou no rosto. Emily gritou quando foi
derrubada para trás, no meio das roseiras. Deitada no jardim,
os espinhos afiados fizeram grandes furos em sua calça jeans
e em seu casaco e penetraram em sua pele.
Mas a dor logo foi esquecida quando as luzes dos raios
revelaram o cavalo, agora em pé, olhando para ela. Apesar
de estar sujo de lama, com folhas cobrindo seu corpo e
emaranhadas em sua crina, e ignorando os muitos cortes e
arranhões feitos pelos espinhos, Emily estava maravilhada.
Ela nunca vira algo tão incrível quanto aquilo em toda a sua
vida.
No momento em que descobriu o cavalo no telhado e viu
suas asas, um nome surgiu em sua mente.
Uma história de um velho livro de mitologia, há muito
esquecido, que sua mãe costumava ler para ela. Mas a
preocupação com o animal a tinha distraído daquele
pensamento, que agora tinha voltado e inundava sua mente.
Saindo do meio das roseiras, Emily se aproximou. O cavalo
fez o mesmo, indo em sua direção.
- É você mesmo, não? - ela sussurrou calmamente enquanto
corajosamente acariciava o focinho dele. - Você é o Pegasus,
não é? Quer dizer, o Pegasus de verdade.
O garanhão pareceu fazer uma pausa. Depois cutucou a mão
da menina, convidando-a a fazer outro carinho em seu
focinho. Naquele instante, completamente ensopada pela
chuva, Emily sentiu seu mundo mudar. E para sempre.

Capítulo 4

Paelen acordou sentindo muitas dores. Parecia que suas cos-
tas estavam pegando fogo e cada músculo de seu corpo
gritava em protesto.
Ele podia ouvir vozes à sua volta. Mantendo os olhos
fechados, tentou imaginar o que tinha acontecido. A última
coisa de que se lembrava era de finalmente ter alcançado
Pegasus e esticado a mão para pegar suas rédeas douradas,
tirando-as do animal e sentindo o peso delas em suas mãos.
Então houve um ofuscante flash de luz... Depois tudo
desapareceu.
Abrindo os olhos, Paelen descobriu que estava em uma
cama, num quarto bem estranho. As paredes eram brancas,
sem decoração, e o cheiro era bem diferente. À direita,
havia outra cama, mas estava vazia. A tempestade
continuava nervosa do lado de fora da grande janela. Paelen
ficou chocado ao ver os raios brilhantes e ouvir o ribombar
dos trovões. Do jeito que a batalha estava indo, ele achou
que tudo já teria acabado.
Paelen deu as costas para a janela e viu coisas estranhas, com
sons diferentes e luzes piscando. Acima dele havia umas
bolsas transparentes com um fluido que descia por tubos que
entravam em seu braço esquerdo, e aquilo o alarmou.
- Ele acordou, doutor — disse uma mulher ao lado da cama.
Paelen olhou para um homem que usava um longo jaleco
branco e se aproximava da cama.
- Bem-vindo de volta à terra dos vivos, meu jovem! Sou o
doutor Bernstein e você está no hospital Belleview. Por um
momento achamos que iríamos perder você, pois a sua
queda foi bem feia.
Paelen não disse nada quando o homem se inclinou para a
frente e passou uma luz brilhante em seus olhos. Depois que
acabou, o homem se endireitou e assobiou.
- Não tenho a menor ideia de como você fez isso, mas está
se recuperando muito mais rápido do que qualquer um que
eu já tratei. Nessa velocidade, os ossos que você quebrou
estarão curados rapidamente e a queimadura em suas costas
irá sarar enquanto olhamos para ela - ele apagou a luzinha e
a colocou no bolso. - Pode me dizer o seu nome?
Quando Paelen abriu a boca para falar, as luzes piscaram e se
enfraqueceram.
- Espero que os geradores continuem funcionando - disse a
mulher enquanto olhava para as luzes. - Ouvi dizer que o
blecaute é na cidade inteira, e estão dizendo que é tão ruim
quanto o de setenta e sete.
Paelen entendeu as palavras, mas não o que significavam. O
que era um blecaute? Setenta e sete o quê? O que significava
tudo aquilo?
- Está tudo bem com os geradores, Mary - o médico
respondeu e depois tocou no braço de Paelen para confortá-
lo. — O hospital gastou uma fortuna para manter os
geradores de emergência em bom estado. Não se preocupe,
temos bastante energia elétrica e você está completamente
seguro.
Paelen ia perguntar onde estava quando outra pessoa entrou
no quarto. O homem, vestido todo de preto, foi até a cama.
- Sou o policial Jacobs, do décimo distrito - disse segurando
um distintivo. — Me chamaram para saber mais detalhes
sobre o seu enigmático paciente. Então este é o misterioso
jovem que caiu do céu? — O médico e a enfermeira
confirmaram com a cabeça.
- Sou o doutor Bernstein - o médico disse e esticou a mão.
— Esta é a enfermeira Johnston. Sobre o paciente, bom,
ainda não sei seu nome, ia perguntar isso agora.
O policial Jacobs abriu seu caderninho.
- Me permita - então se virou para Paelen. - Então, meu
jovem, pode nos dizer seu nome?
Respirando fundo, Paelen levantou a mão fazendo o floreio
e se curvou o melhor que pode, mesmo estando na cama.
- Sou Paelen, o Grandioso, ao seu dispor.
- Paelen, o Grandioso? — repetiu o médico, erguendo as
sobrancelhas. - Está mais para Paelen, o Sortudo! - então se
virou para o policial. - Este jovem foi encontrado no
cruzamento da Rua 26 com a Broadway. Os paramédicos
acreditam que ele estava em uma festa à fantasia, ficou perto
demais da janela e foi atingido por um raio, e acham que ele
pode ter caído. Temos tratado queimaduras de raio e pessoas
eletrocutadas a noite toda, mas devo admitir que a maioria
não teve tanta sorte.
- Você foi atingido por um raio? - o policial Jacobs
perguntou.
Paelen pensou novamente na última coisa de que se lembra-
va e franziu a testa.
- Talvez, não tenho certeza.
O policial começou a escrever.
- Tudo bem, Paelen. Pode me dizer o seu sobrenome? De
onde é e qual o seu endereço, para que possamos avisar sua
família que você está aqui?
Paelen olhou para os dois homens e depois para aquele lugar
estranho. De repente, seu instinto de ladrão assumiu o
controle e disse a ele para não dizer mais nada sobre quem
era e de onde vinha.
- Eu... eu não me lembro.
- Não se lembra? - O médico repetiu. - Bom, você realmente
bateu a cabeça com força, mas tenho certeza de que a perda
de memória é temporária. Talvez isso ajude... - Ele andou até
o pequeno armário do outro lado do quarto, pegou uma
sacola, tirou as coisas que havia dentro dela e as colocou na
cama.
- Quando foi encontrado, estas eram as coisas que você
vestia: uma túnica pequena e um par de sandálias com asas.
E segurava estas rédeas de cavalo. Foi muito difícil tirá-las de
sua mão.
- Isso tudo é meu! - Paelen protestou enquanto tentava
pegar as coisas. - Quero tudo de volta!
- Ei, elas parecem de ouro de verdade - disse o policial ao
esticar a mão para pegar as rédeas. Sentindo o peso delas,
franziu a testa. - E segurando parecem mais ainda.
- Não pode ficar com isso! - Paelen gritou enquanto ar-
rancava as rédeas do policial. Depois estremeceu quando elas
bateram em suas costelas quebradas. - Eu disse que são
minhas.
- E onde as conseguiu? - o policial perguntou.
- Consegui? - ele repetiu. - Eu... eu... - ele fez uma pausa
tentando pensar em como enganar aquelas pessoas. E
finalmente encontrou uma solução. - Foi um presente.
- Um presente? - O policial perguntou curioso. - Está me
dizendo que não se lembra de seu nome completo, nem
onde mora, mas consegue se lembrar que isto foi um
presente?
- Sim - Paelen disse confiante. - É isso mesmo. Foi um
presente.
O policial Jacobs chegou mais perto da cama e fez uma
careta.
- Bom, Paelen, quer saber o que eu acho? — sem esperar a
resposta, continuou. — Não acho que isto foi um presente.
Aliás, nem acredito que você caiu de uma janela; acho que
foi empurrado. - Ele levantou as rédeas. - Se isto é ouro de
verdade, e acho que é, então deve valer uma fortuna. Tenho
certeza de que alguém da sua idade não ganharia isto de
presente. Quantos anos você tem? Dezesseis? Talvez
dezessete? Vou perguntar de novo: onde conseguiu isto?
Paelen não iria contar a eles quantos anos tinha ou que não
tinha sido empurrado de uma janela. E, principalmente, não
poderia contar a respeito das rédeas ou de onde ela tinha
vindo. Em vez disso, deu de ombros.
- Não me lembro.
- Essa sua memória é muito conveniente - sugeriu o policial
Jacobs. - Disse que foi um presente, mas não diz quem deu a
você.
Então ele olhou para as belas sandálias com asas. Penas belas
e coloridas adornavam as pequenas asas e também havia
diamantes, safiras e rubis perfeitamente costurados no couro
macio.
- E o que pode me falar sobre elas? Também parecem ser
muito valiosas. - O policial Jacobs piscou para o doutor antes
de dar uma risadinha. - Ou vai dizer que Mercúrio, o
mensageiro dos deuses, deu estas sandálias para você?
- É exatamente isso - Paelen respondeu com simplicidade.
- É isso o quê? - perguntou o policial, ficando confuso de
repente.
- Elas foram um presente de Mercúrio. - Paelen baixou os
olhos e sentiu a garganta ficar apertada. - Ele me deu as
sandálias antes de morrer.
O policial fez uma careta e sacudiu a cabeça negativamente.
- Como assim? Quem morreu? Paelen, quem deu as sandálias
para você antes de morrer?
Paelen sentiu que a conversa estava indo para o caminho
errado.
- Ninguém. Eu já disse que foi um presente.
- Não, você acabou de dizer que alguém morreu e sei que
não foi Mercúrio. Então quem foi? E onde está agora?
- Eu me enganei - Paelen disse defensivamente. - Mercúrio
não morreu. Os Nirads não estão invadindo o Olimpo e não
existe uma guerra. Todos estão bem e felizes.
- Nirads? Olimpo? — repetiu o policial Jacobs. - Do que está
falando?
Paelen percebeu que falara demais.
- Eu... eu não me lembro. Minha cabeça está doendo... - Ele
ficou agradecido quando o doutor Bernstein interrompeu.
- Acho que por hoje chega, policial. Este jovem claramente
passou por algo terrível. É melhor a gente deixar que
descanse.
O policial manteve os olhos aguçados em Paelen, mas
finalmente concordou com a cabeça.
- Está bem, hoje pararemos por aqui - disse, colocando as
rédeas, sandálias e toga de volta na sacola do hospital —,
mas, enquanto isso, acho que ficarei com estas coisas até
descobrirmos quem é o dono delas.
Paelen começou a entrar em pânico. Ele lutara muito para
pegar as rédeas de Pegasus e não queria que aquele homem
ficasse com elas. Depois de tirar as cobertas, tentou se
levantar, mas os pesados gessos em suas pernas o impediram.
- Por favor, essas coisas são minhas. Não pode ficar com
elas.
- Se acalme, Paelen! — O doutor Bernstein gentilmente o
deitou novamente no travesseiro. - Você não pode andar;
suas duas pernas estão quebradas e quase todas as suas
costelas também. Precisa descansar. O policial Jacobs não vai
levar suas coisas para longe, apenas as manterá a salvo até
que possamos descobrir a quem elas pertencem.
- Mas elas pertencem a mim! - Paelen insistiu.
- Doutor?
Outra enfermeira entrou no quarto segurando o prontuário
do paciente com as mãos trêmulas. As cores tinham sumido
de seu rosto e ela parecia estar muito assustada ao olhar para
Paelen. Com a voz trêmula, falou:
- Os resultados do exame de sangue do paciente acabaram de
chegar.
Ela entregou o prontuário como se estivesse queimando suas
mãos. Sem esperar por uma resposta, lançou um último
olhar para Paelen e saiu rapidamente do quarto.
Chocado com o estranho comportamento da moça, doutor
Bernstein abriu o prontuário e começou a olhar os
resultados. Sua expressão mudou quando seus olhos foram
dos exames para Paelen e depois de volta aos exames.
- O que foi? - o policial perguntou.
Sem responder, o doutor olhou todos os papéis, checando e
rechecando os resultados. Quando terminou, fechou a pasta
e se concentrou em Paelen.
- Quem, ou melhor, o que diabos é você?

Capítulo 5

Emily continuava no teto do prédio com Pegasus.
Em algum momento daquela noite que parecia interminável
a tempestade terminou abruptamente, do mesmo jeito que
começara. A chuva parou e o céu se abriu. Com a cidade
completamente às escuras por causa do blecaute, Emily pôde
ver, pela primeira vez na vida, as estrelas brilhando na noite
nova-iorquina. Ela olhou para a Broadway e ouviu o
estranho silêncio. Havia alguns carros na grande avenida,
mas nada demais. Apenas buzinas e sirenes de polícia
ocasionais quebravam a paralisia da cidade.
Pegasus estava parado bem perto, enquanto ela observava o
mundo lá embaixo, com a mão fazendo carinho no pescoço
dele de forma automática.
- Está tão estranho lá embaixo - ela disse suavemente. -
Parece que somos os únicos sobreviventes na cidade toda.
Olhando para o garanhão, Emily ainda não conseguia
acreditar no que via. Mesmo o fato de poder encostar-se a
ele não parecia melhorar as coisas. Era pedir demais
acreditar que o verdadeiro Pegasus estava ali em Nova York,
ao lado dela, no terraço do prédio onde morava.
Mas foi quando o sol começou a nascer que ela finalmente
pôde ver o animal com clareza. A chuva tinha limpado
quase toda a lama de seu pelo, que estava branco de novo.
Dando a volta nele, viu que a asa esquerda estava solta em
um ângulo estranho. Mesmo sem saber nada sobre cavalos,
ou pássaros, naquele caso, ela soube imediatamente que a asa
tinha quebrado feio.
Emily ficou surpresa ao encontrar, na parte de baixo do
lombo do cavalo, uma queimadura que não tinha percebido
antes. Dava para ver o pelo queimado e o ferimento aberto.
- Você foi atingido por um raio?
Pegasus virou a cabeça para ela. Quando Emily olhou em
seus olhos negros e inteligentes, sentiu que ele a entendia.
Mas não houve resposta.
- Bom, deve ter sido um raio, considerando quanto a
tempestade estava ruim na noite passada. - Ela suspirou antes
de continuar. - Pobrezinho, deve ter doído muito.
Quando a luz do dia aumentou de intensidade, outra olhada
no corpo revelou que o que Emily achara ser lama do jardim
de rosas cobrindo o corpo do cavalo era, na verdade, sangue.
Muito sangue. Dando a volta no animal, Emily logo
descobriu que a maioria dos ferimentos em Pegasus não fora
causada por um raio ou pelos espinhos das roseiras.
- Você lutou com alguém! - disse alto enquanto examinava
com atenção os talhos profundos nas costas e pernas do
cavalo. - Quem era? Quem queria ferir você?
Pegasus não respondeu. Em vez disso, estendeu sua asa boa,
convidando Emily a olhar embaixo dela. Ao fazer isso, ela
ficou sem ar. Escondida embaixo da dobra da asa estava a
ponta quebraua de uma lança; havia outra cravada no flanco
traseiro do cavalo.
- Enfiaram uma lança em você!
Com as mãos trêmulas, Emily sentiu a região em volta do
ferimento da lança.
- Está cravada bem fundo... - ela falou. - Preciso fazer algo.
Talvez chamar um veterinário.
Pegasus relinchou e sacudiu a cabeça veementemente de
forma negativa. Emily não precisava falar a língua dele para
entender que o cavalo não queria que ela falasse com
ninguém.
- Mas você está ferido! - ela insistiu. — Eu não sei o que
posso fazer para ajudar.
Mais uma vez Pegasus bufou, arranhou o chão com a pata e
fez que não com a cabeça. Depois se virou para ela e
acariciou sua mão. Emily acariciou seu focinho macio e
depois encostou sua testa nele. Tinha sido uma noite
interminável e a exaustão estava tomando conta dela.
- Você precisa de ajuda, Pegasus - ela disse calmamente. -
Mais do que eu posso dar.
À leste, o sol finalmente surgiu acima do alto prédio. Sua luz
brilhou dourada no jardim do último andar e bateu no rosto
cansado de Emily, causando nela uma sensação boa, mas
também a fez perceber que qualquer um que estivesse em
um prédio mais alto que o dela conseguiria ver Pegasus ali.
- Temos que esconder você — ela avisou. — Se alguém o
vir, podem chamar pessoas que o levariam embora.
Pegasus rapidamente fez que não com a cabeça, resfolegou e
começou a arranhar o chão novamente com sua pata.
- Não se preocupe, não deixarei que isso aconteça! — Emily
prometeu. - Só temos que achar um lugar para esconder
você até que sua asa fique boa.


O primeiro pensamento de Emily foi o de levar Pegasus para
o apartamento, assim seu pai voltaria e poderia ajudar a
decidir o que fazer, mas ela logo desistiu daquela idéia.
Mesmo que o elevador de carga fosse até o terraço do
prédio, não estaria funcionando sem energia elétrica e as
escadas não eram uma boa opção. Se iria esconder Pegasus,
teria que ser lá mesmo. Os olhos dela, então, encontraram o
barracão de jardinagem da mãe.
- Vai ter que servir. Sei que provavelmente não é o que você
está acostumado, mas é o que temos no momento.
Com Pegasus a observando pacientemente, Emily logo
esvaziou o barracão dos acessórios e suprimentos de
jardinagem. Quando terminou, ficou surpresa com o tanto
de espaço que havia lá dentro.
- Bom, não é chique - ela falou enquanto limpava a terra das
mãos e convidava Pegasus para entrar -, mas pelo menos o
esconderá até pensarmos em algo. Tudo bem para você? -
Pegasus começou a andar e entrou no barracão.
Com o primeiro problema resolvido, Emily colocou as mãos
na cintura e olhou para o garanhão.
- Agora precisamos limpar seus ferimentos. Não podemos
deixar que infeccionem. Me espere aqui que vou descer até
o apartamento e pegar água e panos limpos.
Quando ela começou a sair, o cavalo a seguiu. Emily fez que
não com a cabeça e sorriu.
-Você precisa ficar aqui, Pegasus. Não vai conseguir descer
as escadas e o elevador não está funcionando. Prometo que
volto logo.
Quando chegou ao apartamento, Emily correu para o
banheiro e, ao ver seu reflexo no espelho ficou chocada. Ela
estava terrível, com folhas e pétalas de rosa emaranhadas em
seus cabelos e com o rosto e braços cobertos por lama seca e
sangue por causa dos espinhos. Mas o que mais a
surpreendeu foi o olho roxo. Ao encostar de leve na região,
percebeu que todo o lado direito de seu rosto estava
machucado e dolorido por causa da pancada da asa de
Pegasus.
- Que ótimo... - ela murmurou para si mesma. - Como vou
explicar isso ao papai?
Emily decidiu que era melhor se preocupar com aquilo mais
tarde. Então abriu o armarinho de remédios, que estava
cheio de cremes medicinais que eles tinham usado para
cuidar das feridas de sua mãe quando a doença a tinha
confinado à cama. Nem ela, nem seu pai tinham tido
coragem de jogar aquelas coisas fora. Pla ficou agradecida
por isso.
Pegando tudo o que conseguia carregar, Emily foi para a
cozinha e juntou panos limpos, desinfetante e uma das
panelas grandes com água. Ao guardar tudo em sacolas,
percebeu uma poça de água no chão em frente à geladeira.
Sem energia elétrica, 0 congelador tinha começado a
descongelar. Ela abriu a porta e viu dois potes de sorvete
junto com saquinhos de vegetais congelados. De repente
percebeu que estava morrendo de fome, pois não tinha
comido nada desde o almoço do dia anterior. Emily pegou
um dos potes, uma colher e colocou em sua sacola de
suprimentos para levar ao terraço. Depois pensou em levar
algumas cenouras, vagens e maçãs para Pegasus. Por último
pegou a lanterna e voltou ao terraço do prédio.
O sol estava cada vez mais alto no céu, mas quando saiu para
o terraço, Emily continuou achando a cidade
enervantemente silenciosa. Era quarta-feira e normalmente
os caminhões de lixo saíam cedo e faziam o máximo de
barulho possível. Mas não naquele dia. Ela imaginou que,
por causa do apagão, eles teriam folga. Também assumiu que
sua escola estaria fechada. Mesmo se não estivesse ela não
iria à aula, pois Pegasus precisava dela e a escola não. —
Voltei — ela falou ao caminhar até o barracão do jardim.
Uma parte dela esperava não encontrar nada lá, como se
tudo o que tinha acontecido fosse parte de um sonho
estranho. Mas, quando se aproximou, ouviu o som de cascos
se mexendo lá dentro. Pegasus colocou sua cabeça branca
para fora e relinchou suavemente para ela.
- Falei que não ia demorar - Emily disse enquanto começava
a tirar as coisas das sacolas. — Certo, trouxe água,
antisséptico e uns cremes medicinais que usávamos para
tratar as feridas da minha mãe. Na embalagem está escrito
que também servem para queimaduras, por isso acho que vai
ajudar você.
Pegasus ficou olhando para as sacolas enquanto ela as
esvaziava. Emily riu quando a longa crina dele fez cócegas
em seu rosto. Ele logo achou o pote de sorvete e o tirou de
uma das sacolas.
- Ei, isso é meu! — Emily reclamou, tentando pegar o pote.
— Trouxe maçãs e vegetais para você.
Mas o cavalo a ignorou, colocou o pote no chão, o segurou
com as patas e arrancou a tampa com seus dentes poderosos.
Logo sua língua comprida estava lambendo o sorvete de
chocolate já meio derretido.
- Não sei se você deveria comer isso - Emily alertou. -
Chocolate não faz bem para os cães e talvez isso valha
também para os cavalos.
Pegasus parou e olhou para Emily. Sua expressão mostrava
que não tinha se importado de ser chamado de cavalo.
- Olha, me desculpe - Emily falou. - Só não quero que você
fique doente, afinal, já tem problemas demais.
Pegasus ficou olhando para ela por mais um tempo antes de
voltar a atacar o sorvete.
- Está bem, fique à vontade — disse enquanto abria uma
cadeira de praia e se sentava para comer as frutas e os
vegetais que Pegasus não quis.

Durante a manhã, Emily fez o que pôde para limpar e tratar
os muitos ferimentos de Pegasus. Enquanto cuidava do
pescoço dele, seu celular tocou.
- Oi, pai! - disse depois de olhar o visor do celular.
- Oi, filhota! Você está bem?
Emily olhou para os cortes em seus braços e depois para
Pegasus.
- Sim, está tudo bem. Você não vai acreditar no que
aconteceu ontem à noite. Houve um barulho enorme no
teto do prédio e...
Antes que pudesse continuar, Pegasus a cutucou e bateu no
chão com seu casco. Depois fez que não com a cabeça e
bufou. Emily entendeu que seu novo amigo não queria que
ela contasse sobre ele.
- O que aconteceu? - o pai perguntou. - Aconteceu algo,
Emily?
- Hã, não, pai. Foi só o barracão do jardim. O vento o
derrubou. Mas está tudo bem por aqui, a não ser pela falta de
luz. E você, como está?
O pai dela suspirou.
- Estou com muito trabalho, por isso demorarei para voltar
para casa. Estou no hospital Belleview tentando fazer um
relatório sobre um garoto que caiu de uma janela. As coisas
passaram de estranhas para inacreditáveis.
Emily estava olhando para Pegasus, que ainda a observava
com atenção, como se estivesse ouvindo cada palavra que
ela dizia.
- Ainda está na linha, Em? - o pai perguntou.
- Claro, pai - ela respondeu rapidamente. - Me desculpe, o
que tem de estranho no garoto?
- Não posso falar disso agora. Conto quando voltar para casa,
que será perto da hora do jantar. Fique tranquila.
- Pode deixar - ela prometeu.
Depois que desligou, Emily olhou de novo para o cavalo.
- Você não queria que eu contasse nada ao meu pai, né?
Pegasus fez que não com a cabeça e resfolegou. Mais uma
vez, Emily teve a estranha sensação de que ele entendia
exatamente o que estava dizendo.
- Mas não entendo. Meu pai é uma ótima pessoa. Ele é poli-
cial e poderia ajudar você. E jamais o machucaria ou o
entregaria.
Pegasus fez que não com a cabeça e bateu o casco.
- Gostaria que você pudesse me dizer qual é o problema -
Emily suspirou. - Bom, se não quer que meu pai saiba, não
contarei nada, mas preciso de ajuda. Não consigo tirar a
lança sozinha e sua asa precisa ser colocada no lugar. Não
tenho força suficiente para fazer essas coisas.
Pegasus moveu a cabeça para mais perto de Emily e
gentilmente fez um carinho em sua mão. Ela deitou em seu
robusto pescoço enquanto tentava pensar no que fazer.
Finalmente outra pessoa passou por sua cabeça. Alguém de
sua escola que seria forte o suficiente para tirar a lança e que
estava sempre desenhando cavalos alados em seus cadernos.
O problema é que ele era o pior garoto da classe de Emily e
provavelmente o pior da escola.
Joel DeSilva tinha entrado na classe dela havia apenas dois
meses, mas já tinha se metido em várias brigas, não
conversava com ninguém e não tinha nenhum amigo. A
maioria dos meninos da classe morria de medo dele e por
isso o deixava em paz. Joel DeSilva era a última pessoa no
mundo com a qual Emily gostaria de falar, mas era o único
em que ela conseguia pensar.
- Pegs, acho que conheço um garoto que você me deixará
chamar - Emily falou. - Ele é da minha classe, se chama Joel,
é um pouco mais velho do que eu, mas é bem grande e
forte. E sei que adora você, pois sempre te desenha nos
cadernos e livros. Os professores gritam e reclamam, mas ele
não liga. A casa dele é em frente à escola, então eu poderia
pedir que viesse nos ajudar. Pode me deixar fazer isso, por
favor?
O cavalo considerou as palavras dela e depois relinchou
suavemente.
- Obrigada - Emily falou, dando tapinhas carinhosos nele. -
Se for agora, acho que volto logo. Com a ajuda de Joel,
podemos tirar a lança de você e cuidar de sua asa.
Ela pegou o celular e se afastou um pouco.
- Vou tirar uma foto sua, assim será mais fácil convencer o
Joel de que você está mesmo aqui. - Ela tirou a foto,
garantindo que a asa aparecesse nela.
- Perfeito. Estou indo. Tem mais água para você beber e
ainda sobraram umas cenouras e vagens, se ficar com fome.
Não devo demorar, mas, se por acaso isso acontecer,
continue escondido no barracão, por favor. Não quero que
ninguém veja você e o leve para longe de mim.
Emily pensou se deveria trancar o barracão, mas achou
melhor não. Se Pegasus ficasse assustado poderia arrebentar
a porta ou até destruir o barracão, e assim não haveria mais
lugar para escondê-lo. Ela achou melhor deixar a porta
aberta e torcer para que o garanhão permanecesse lá dentro.
- Volto logo — ela disse ao ligar a lanterna e descer as
escadas.
Emily ficou surpresa ao ver quantas pessoas estavam usando
as escadas. Algumas tinham lanternas como ela, outras
usavam isqueiros ou velas. Todos pareciam estar animados.
Vizinhos que nunca falavam uns com os outros riam e
conversavam enquanto desciam ou subiam vagarosamente
as escadas.
Demorou bastante para que ela chegasse lá embaixo, mas
quando chegou ao saguão, Emily percebeu que descer tinha
sido muito mais fácil do que seria subir na volta. Ela esperava
pelo menos conseguir trazer Joel consigo.
Quando saiu, Emily foi atingida pelo estranho silêncio da
cidade. Havia pessoas nas calçadas, mas pouco tráfego. Todas
as lojas estavam fechadas. Era como se fosse um feriado
estranho.
Emily ignorou os olhares das pessoas que passavam. Ela ti-
nha se esquecido de pentear o cabelo e até mesmo de lavar o
rosto e sabia que devia estar com uma aparência pior que a
de Pegasus. A jornada parecia interminável, mas, quando
chegou à esquina da Rua 21 com a Segunda Avenida, olhou
para a linha de tijolos marrons que ficavam diante da escola
e ficou imaginando qual seria a casa de Joel.
Ela pensou em chamar o nome dele e torcer para que
alguém ouvisse e dissesse onde ele morava, mas, ao descer a
rua, viu um menino forte sentado em frente a uma das casas.
Seus ombros largos estavam curvados e sua cabeça, com seus
cabelos pretos e ondulados, estava abaixada. Ao se
aproximar, ela ficou feliz em ver que era Joel, mas logo
começou a ficar nervosa.
Emily não sabia bem como deveria falar com ele, pois sua
expressão era tão ameaçadora quanto a tempestade da noite
anterior. Ela respirou fundo e subiu os poucos degraus que
levavam à entrada da casa.
- Oi, Joel.
Ele a olhou de cima a baixo.
- Sou Emily Jacobs — ela continuou. — Fazemos algumas
matérias juntos, como Matemática. - Seu comentário
recebeu apenas um olhar vazio em troca.
- Que tempestade maluca foi aquela de ontem a noite, hein?
- Emily falou com uma animação forçada. — Vi um raio
atingir o Empire State e destruir o topo! Ele causou mais
estragos que o King Kong!
Joel olhou para ela sem nenhuma expressão. Então,
finalmente quebrou o silêncio:
- Sai daqui.
Naquele momento, ao ver o rosto pouco amistoso dele e sua
raiva, ir embora era tudo o que ela mais queria no mundo,
mas pensar na lança cravada em Pegasus fez com que seus
pés continuassem firmes ali.
- Olha Joel, sei que nunca nos falamos antes, mas eu preciso
muito de sua ajuda...
Os olhos negros dele faiscaram.
- Você é surda ou só muito idiota? Falei para ir embora!
- Adoraria fazer isso, mas não posso — Emily respondeu
desesperada. - Aconteceu algo na noite passada e você é a
única pessoa que consegui pensar que poderia ajudar. Por
favor, apenas escute o que tenho para dizer. Se ainda achar
que devo ir embora, então eu vou.
- O que você quer? - ele perguntou. - O que é tão importante
para que você venha aqui e fique me perturbando? Você já
se olhou no espelho hoje? Está terrível.
Emily ficou brava. A dor que sentia em seu olho inchado e
nos arranhões diziam a ela qual era sua aparência, mas sabia
que Pegasus era sua prioridade. Ele era mais importante do
que o seu orgulho.
- Quer mesmo saber o que é tão importante? - ela retrucou.
— Por que eu viria aqui falar com você quando sei muito
bem que odeia todo mundo? Por causa do Pegasus. Ele é o
que é tão importante!
A expressão de Joel se alterou por apenas um instante e
Emily pôde ver um sinal de interesse, mas rapidamente o
véu da raiva voltou mais forte do que nunca.
- E o que é que tem ele? - Joel perguntou desafiador.
Emily chegou mais perto do brigão.
- Já vi os desenhos que fez em seus cadernos e livros. Você
só desenha ele.
- E daí?
Emily olhou para o céu sem saber o que fazer. Será que ela
devia contar o segredo para ele? Será que tinha escolha?
- E se ele existisse de verdade? - ela começou a dizer. — E se
existisse e estivesse ferido, você iria querer ajudar ele?
A raiva surgiu novamente nos olhos marrons-chocolate do
garoto. Joel se levantou e se inclinou para ela.
- Que tipo de pergunta imbecil é essa? Está tirando um barato
de mim porque gosto do Pegasus? Se estiver, juro que vai
apanhar.
- Não estou fazendo piada! — Emily respondeu rapidamente
e com raiva. — Joel, me ouça, por favor...
Ela colocou a mão no bolso e pegou o celular, abriu e mos-
trou a foto do cavalo alado.
- Pode não acreditar no que vou dizer, mas na noite passada
o Pegasus, o verdadeiro, com asas e tudo, foi atingido por
um raio e caiu no teto do meu prédio. Ele está lá agora e está
bem machucado. Fiz tudo o que podia, mas uma de suas asas
está quebrada e eu não sei o que fazer. Se realmente se
importa com ele como imagino, venha comigo e o ajude!
As mãos de Emily tremiam muito, não deixando Joel ver a
foto na pequena tela, por isso ele tomou o celular dela.
- Ele caiu nas roseiras da minha mãe, por isso estou assim
suja. E quando tentei ajudá-lo a se levantar, sua asa quebrada
bateu no meu rosto e fiquei com este olho roxo.
De repente a exaustão da longa noite passada a atingiu e ela
se sentou.
- Por favor! - ela implorou. - Ele está sentindo muitas dores e
não sei o que fazer para ajudar.
Joel ainda segurava o celular quando se sentou devagar ao
lado dela.
- Continue, estou ouvindo.
- O Pegasus está ferido. Muito mesmo - Emily explicou,
aliviada por Joel finalmente estar ouvindo. - Ele esteve em
algum tipo de batalha terrível e não consegue me contar por
que ou com quem, mas está com vários cortes pelo corpo e
ainda há uma enorme lança cravada nele. Não tenho força
para arrancá-la de lá, por isso pensei em você.
- E por quê? Só porque sou grande e forte? - Joel a desafiou,
ficando com raiva e na defensiva novamente. - Um italiano
grande e burro?
Emily fez que não com a cabeça.
- Não, é claro que não! Ouça o que estou dizendo. O Pegasus
está ferido! Vim aqui porque pensei que você se importava e
não iria querer que ele fosse capturado.
Joel hesitou. Havia agora uma crescente expressão de dúvida
em seu rosto.
- Como vou saber que não é um golpe? Ou algum tipo de
piada malvada?
Emily sacudiu a cabeça novamente e se levantou.
- Olha só pra mim - Ela falou cansada. - Está parecendo que
estou brincando? Este olho roxo parece maquiagem? Acha
que fiz todos estes cortes em uma roseira só pra vir aqui
encher você? Não é uma piada, Joel; juro pela alma da minha
mãe! O Pegasus precisa de nossa ajuda!
Joel ficou em silêncio por tanto tempo que Emily quase
desistiu. Começando a descer as escadas, ela se virou para
ele.
- Não posso deixar Pegasus sozinho por muito tempo. A
pergunta é simples: você vem ou não?
Joel olhou para Emily, depois para as portas atrás dele e para
ela de novo. Finalmente começou a descer as escadas.
- Certo, eu vou.
Quando chegou à calçada, ele parou ao lado dela e alertou:
- Mas se isso for uma piada, não ligo se você é menina; juro
que arrancarei sua cabeça fora!

Capítulo 6

Joel e Emily mal conversaram enquanto voltavam ao prédio
de esquina onde ela morava. Quando chegaram, Joel parou
em frente à porta do saguão.
- Qual a altura do prédio? - perguntou olhando para cima.
- Vinte andares - ela falou. - Moro no último andar e o
Pegasus está no terraço do prédio.
- Quê? Vinte andares? - Joel reclamou. - Quer que eu suba
vinte andares de escada?
- Já falei que o Pegasus está no terraço do prédio.
Quando ele hesitou, Emily suspirou.
- Olha, você já veio até aqui. Vai embora só porque precisa
subir umas escadas?
- Vinte andares não são apenas umas escadas! - ele reclamou.
- É uma maratona!
Cansada demais para brigar, Emily sacudiu a cabeça
negativamente.
- Tudo bem, Joel, pode ir embora. Acho que me enganei
quando achei que você gostava do Pegasus. Só me faça um
favor. Fique com a boca fechada. Pode não acreditar que ele
está aqui, mas talvez outras pessoas acreditem.
Emily não disse mais nada, pegou sua lanterna e entrou no
saguão, indo em direção às escadas. Quando abriu a pesada
porta de metal, ouviu passos atrás dela; se virou e viu Joel.
- Ainda são vinte lances de escada - ela alertou.
Joel deu de ombros.
- Eu sei, mas não tenho nada melhor pra fazer mesmo.

Subir os primeiros cinco andares foi fácil. Chegar até o
décimo foi cansativo. No décimo quinto andar, Emily e Joel
estavam sem ar e se sentindo enjoados. Eles resolveram
descansar e se sentaram na escada.
- Não achei que seria tão difícil - Emily ofegou. - Achei que
ir a pé para a escola já era exercício suficiente, mas, pelo
visto, estou bem fora de forma.
- Eu também - Joel respondeu entre uma respiração e outra.
- Eu morava em Connecticut e jogava futebol americano na
escola, mas isso já faz tempo.
Sob a luz fraca da lanterna, Emily olhou para ele.
- Então você é de Connecticut?
Joel fez que não com a cabeça.
- Sou de Roma, na Itália, sabe? Mas meu pai arranjou em-
prego nas Nações Unidas quando eu era pequeno, então nos
mudamos para os Estados Unidos e arranjamos uma casa em
Connecticut. Meus pais viajavam até aqui todos os dias para
trabalhar.
Emily estava surpresa. Joel não parecia ter sotaque nenhum.
Ela jamais adivinharia que ele era estrangeiro. Desde que
entrara em sua classe, ela nunca soube nada dele, apenas que
era um criador de casos.
- E agora você se mudou para a cidade grande e vive naque-
las casas de tijolinhos?
- Não exatamente... - ele começou a falar e depois parou.
De repente seu humor mudou e ele ficou em pé
abruptamente. - Não quero mais falar sobre isso! Vamos
subir ou não? - Sem esperar por ela, Joel adentrou a
escuridão da escada e subiu.
Os últimos cinco andares foram percorridos em silêncio.
Quando chegaram ao fim das escadas, Emily pegou em seu
bolso a chave da porta do terraço e foi para o lado de Joel.
- Ele sabe que você está vindo, mas acho que não ficou
muito feliz com isso, então vá com calma. Pode ficar bravo
comigo quanto quiser, mas não quero que grite com ele.
Entendeu?
- Eu não gritei com você - Joel desafiou.
-Tá, o que quer que tenha sido aquilo então — ela
respondeu enquanto colocava a chave e abria a porta. —
Não quero que faça o mesmo com Pegasus. Ele está
machucado e com dores. É bom ser simpático com ele ou
juro que vou empurrar você lá de cima.
Joel ficou surpreso com a repentina mudança nela.
- Se ele estiver mesmo aí, prometo que não farei nada de
errado.
- Ah, mas ele está aqui sim.
Emily abriu a porta e adentrou o terraço do prédio.
- Ele está naquele barracão. Ainda está aqui, Pegs? - ela
chamou.
Um relincho suave veio do barracão. A expressão de Joel
mudou de dúvida para admiração.
- Não se esqueça — Emily levantou um dedo ameaçador -, é
bom ser simpático ou aprender rapidamente a voar!
Ela o levou até o barracão.
- Sentiu minha falta? - ela perguntou a Pegasus quando ele
foi recebê-la. Emily também se aproximou e começou a
acariciar o alvo rosto macio do animal. Tudo o que ela ouviu
de Joel foi uma respiração rápida. Ao se virar, viu a
expressão de incredulidade do garoto.
- Pegasus, quero que conheça o Joel - ela gesticulou para que
ele se aproximasse. — Joel, este é Pegasus.
Joel entrou no barracão e ficou parado um minuto inteiro
diante do garanhão antes de conseguir se mover ou falar.
Por fim, acabou sacudindo a cabeça e levantando a mão
numa tentativa de fazer carinho na cabeça de Pegasus.
- Não acredito que o Pegasus é real e está mesmo aqui! — Os
olhos dele brilhavam.
Emily assistia a espessa armadura de raiva de Joel se derreter.
- Ele é real, mas também está muito machucado. - Ela lhe
mostrou a asa quebrada. - Isto precisa ser consertado, mas
não sei como.
Depois ela o levou para o outro lado.
- Pegs? - disse ela suavemente. - Pode levantar sua asa boa
para que eu mostre a lança para o Joel? Ele vai me ajudar a
retirá-la de você.
Sem hesitar, o cavalo levantou sua asa, revelando vários
centímetros de uma lança quebrada saindo de sua lateral.
- Oh, meu Deus! - Joel exclamou ao examinar a coisa. -
Quem fez isso com ele?
Emily deu de ombros.
- Não faço idéia. Só sei que ele precisa de nossa ajuda antes
que alguém o encontre e o leve embora.
Enquanto falava, Emily começou a franzir a testa. Parecia
que vários dos cortes profundos e arranhões estavam muito
menores do que antes. Um exame mais minucioso mostrou
que a queimadura do raio também diminuíra e estava quase
cicatrizada. E os arranhões dos espinhos tinham
desaparecido.
- Você está se curando muito rápido! - Emily ofegou, depois
olhou para Joel. - Hoje de manhã os cortes eram muito mais
profundos. Está vendo estes arranhões em mim? Os dele
eram dez vezes piores, mas todas as marcas de espinho
sumiram.
- Isso não me surpreende - disse Joel enquanto examinava a
lateral do cavalo. - Pegasus é um Olímpico. Ele é imortal,
então é óbvio que vai se curar muito rápido.
- E o que ser um Olímpico tem a ver com isso? Ele ainda é
um ser vivo como eu e você, e com certeza não nos
curamos assim tão rápido!
- Sim, ele é um ser vivo - Joel começou a responder -, mas
também é muito diferente de nós. Se me perguntasse antes,
eu nem acharia que ele pudesse ser ferido.
- Se eu tivesse perguntado antes, você arrancaria a minha
cabeça fora.
Joel fez uma careta e retrucou:
- Não faria isso não.
Emily deixou aquele assunto para lá antes que uma nova
discussão começasse. Joel tinha o pavio curto e qualquer
provocação o acendia.
- Bom, Olímpico ou não, temos que tirar aquela lança dali e
nem sei como colocar a asa dele no lugar.
Joel passou a mão pelas penas brancas e macias da asa boa do
garanhão.
- Nos filmes, as pessoas apenas puxam a perna ou o braço
ferido para colocar no lugar. Depois colocam uma tala e
pronto.
- Mas isto não é um braço ou uma perna, é uma asa - Emily
respondeu. — A maioria das asas não possui ossos ocos?
Poderíamos causar mais estragos se puxássemos e
arrumássemos errado.
Joel concordou com a cabeça.
- Talvez, mas também não podemos deixá-lo assim. - E,
então, ele teve uma idéia. — E se observarmos bem a asa
boa dele? Podemos estudá-la e ver como funciona. Assim,
quando olharmos para a asa quebrada, conseguiremos ver a
diferença e saberemos o que fazer. Depois poderemos tentar
consertar.
- Boa idéia! - Emily concordou. - Por onde começamos? Pela
asa ou pela lança?
Quem respondeu a pergunta foi Pegasus. Como se estivesse
ouvindo tudo desde o começo. Ele levantou a asa boa,
relinchou e bateu no chão do barracão.
Emily fez um carinho na crina dele.
- Quer que tiremos a lança primeiro?
Pegasus respondeu acariciando a mão dela.
Joel se juntou a Emily ao lado da cabeça do garanhão.
- Então acho que vamos começar pela lança - ele falou.

Emily e Joel desceram até o apartamento para pegar mais
coisas. Ele olhou em volta e assobiou.
- O seu apartamento é bem mais legal que o lixo onde moro!
É só você e seus pais?
- Minha mãe morreu de câncer há três meses. Agora sou só
eu e meu pai. - Emily sentiu um nó conhecido surgir em sua
garganta. Respirando fundo, ela se forçou a parar, antes que
as lágrimas viessem. - E a sua casa? Sempre ouvi dizer que
aquelas casas de tijolinhos são muito espaçosas e você ainda
tem um quintal.
Joel negou com a cabeça.
- Não onde moro. Nossa casinha é pequena e está caindo aos
pedaços. O encanamento não funciona e a pintura está
descascando.
Emily pegou o último creme medicinal e o antisséptico do
gabinete dos remédios.
- Sua mãe ensinou você a costurar? - Joel perguntou.
- Costurar? Por quê?
- Porque quando tirarmos a lança de Pegasus ele vai sangrar.
1'recisaremos costurar o ferimento para estancar o sangue e
ele começar a cicatrizar.
- Você quer que eu costure o ferimento do Pegasus?
- Tem alguma idéia melhor? - ele perguntou.
- Tenho - Emily respondeu. - Supercola. Às vezes os médi-
cos usam cola em vez dos pontos em microcirurgias. Aliás,
eles usaram isso em uma das cirurgias da minha mãe. Depois
que contaram ao meu pai, ele fez um estoque de emergência
aqui em casa.
Joel fez uma careta.
- Jura? Cola?
Emily confirmou e foi até a cozinha para pegar a cola e a
guardou na sacola de suprimentos. Depois abriu o
refrigerador e pegou o último pote de sorvete.
- Ofereci vegetais para o Pegasus hoje cedo, mas ele só quis
comer o meu sorvete. Então pode ser que queira mais um
pouco.
- O Pegasus gosta de sorvete?
Quando Emily fez que sim com a cabeça, Joel pareceu ficar
envergonhado.
- Será que posso comer alguma coisa? Anda não comi nada
hoje e estou morrendo de fome.
Emily parou e olhou para ele, como se o visse pela primeira
vez. Aquele Joel não tinha nada a ver com o nervosinho de
mais cedo.
- É claro. Pegue o que quiser, mas vamos logo lá pra cima.
Eles voltaram ao terraço e tiraram as coisas da sacola. Emily
tinha razão; assim que Pegasus sentiu o cheiro do sorvete,
foi direto para o pote. Quando acabou, roubou a caixa de
cereal que era o café da manhã de Joel.
- Ei — Joel protestou -, isso é meu! Você tem sua própria
comida!
- Não acho que ele goste de coisas saudáveis - Emily falou. -
Olha só, ele nem encostou nas maçãs que deixei aqui. E nem
nos vegetais. Ele só quer as coisas doces.
- Bom, mas podia pelo menos ter deixado um pouco para
mim... - Joel reclamou. - Todo aquele açúcar não deve fazer
bem para ele. Não é como se ele estivesse lá no Olimpo... -
De repente Joel estalou os dedos. — Mas é claro, agora estou
entendendo! Faz todo sentido!
- O que faz sentido?
- Ainda não entendeu? O Pegasus precisa de comidas doces.
É só isso que ele come no Olimpo!
- Como você sabe? — Emily quis saber.
- Porque já li tudo a respeito - Joel respondeu, parecendo
cada vez mais animado. — Os livros de mitologia romana
são os meus preferidos! Todas as lendas dizem que, no
Olimpo, os deuses comiam ambrosia e bebiam néctar. É isso
que os mantêm imortais. E é por isso que Pegasus quer
doces; para ajudá-lo a se curar. Aguns dizem que a ambrosia,
que é uma coisa que eles adoram, é bem parecida com o
mel. Você tem mel lá na sua casa?
- Mel? - ela repetiu. - Isso é loucura, Joel; são apenas lendas.
Não podemos basear o tratamento do Pegasus em velhos
mitos empoeirados.
Joel sacudiu a cabeça afirmativamente.
- Ah, podemos sim. O Pegasus não é real?
Emily assentiu.
- E ele é um mito, não é verdade? - Quando ela assentiu
novamente, ele continuou. - Então se ele existe, os outros
devem existir também.
- Espera um minuto - Emily falou, levantando a mão. - Está
me dizendo que Zeus, Hera, Poseidon e todos os outros são
reais?
- Júpiter, Juno e Netuno - Joel corrigiu. - Zeus é o nome
grego dele. Como sou italiano, prefiro a mitologia romana,
na qual o líder do Olimpo é Júpiter.
- Zeus ou Júpiter - Emily protestou -, não interessa. Não
pode estar achando que todos esses mitos são verdadeiros,
né?
- Por que não? - Joel respondeu, se levantando com um
pulo. — Olhe só para ele! Pegasus está bem aqui, tão real
quanto eu ou você. E se ele é real, por que não os outros?
Emily também ficou em pé.
- Porque se também existirem, qual a razão de não terem
vindo buscar Pegasus? Se Zeus...
- Júpiter - Joel a corrigiu.
- Tudo bem! - Emily disse já sem paciência. — Se Júpiter é
real, por que não sabe que Pegasus está machucado e não
vem resgatá-lo?
- Não sei - Joel admitiu. - Talvez não possa. Ou ainda não
saiba. Mas sei que se não ajudarmos Pegasus, Júpiter ficará
muito bravo com a gente quando chegar aqui.
- Não ligo para o Júpiter ou qualquer um dos outros - ela
falou começando a pegar os suprimentos médicos. - Só me
importo com o Pegasus, então vamos logo com isso.
Os dois limparam a área do ferimento próxima à lança e
depois Emily se virou e disse ao cavalo:
- Me desculpe, mas isso vai doer.
Em pé ao lado dele, com uma toalha pronta, Emily ajudava a
manter a pesada asa levantada. Ao seu lado, Joel segurou
firme na parte da lança quebrada que estava para fora e se
apoiou na lateral do garanhão. Juntos, contaram três, dois,
um, agora! Usando toda a sua força e peso, Joel começou a
puxar.
Pegasus fez o que pôde para não se mexer enquanto a lança
saía lentamente de seu corpo.
- Rápido, Joel! — Emily falou, tentando manter o cavalo
parado.
A cabeça de Pegasus estava para trás e se sacudindo no ar.
Seus grandes olhos revelavam sua agonia, seus cascos da
frente rasgavam o chão do barracão e seus guinchos
cortavam o coração de Emily.
- Rápido! Isso está matando ele!
Com um esforço final, Joel arrancou a terrível lança dentada
da lateral do garanhão e o sangue começou a jorrar do
ferimento profundo.
- Faça pressão! - Joel falou ofegante e tentando se recuperar
do esforço. — Temos que parar o sangramento!
Emily pegou a toalha pendurada em seu ombro e pressionou
contra o ferimento, sentindo Pegasus tremer por baixo de
suas mãos.
- Está tudo bem, Pegasus - ela falou carinhosamente. - Você
vai ficar bem. O pior já passou; já tiramos a lança.
- Ainda não acabamos - Joel falou severamente enquanto
ajudava a estancar o ferimento. - Pegue a cola, Emily. Temos
que fechar isto aqui.
Com a ajuda de Joel, Emily juntou as bordas do ferimento
aberto e usou a cola para mantê-lo fechado. Depois cobriram
com bandagens limpas e prenderam com fita adesiva.
- Bom, não ficou bonito, mas acho que vai funcionar - Joel
deu um tapinha carinhoso na lateral de Pegasus e então se
virou para Emily. - Ótima idéia essa da cola. Jamais teria
pensado nisso.
Emily deu de ombros.
- Fico contente por ter funcionado. Não acho que conse-
guiria dar pontos nele.
- Nem eu — Joel concordou. - Agora temos que dar um
jeito na asa, e então ele estará a caminho da recuperação.

Já era fim de tarde quando os dois terminaram de ajeitar a
asa de Pegasus. Apesar da preocupação de Emily, foi bem
mais fácil do que retirar a lança. A ideia de Joel de usar a asa
boa como modelo funcionou perfeitamente. Logo eles
tinham colocado os ossos quebrados no lugar certo, da
melhor maneira que puderam e depois prenderam uma tala
com bandagens e fita adesiva para segurar tudo.
Quando terminaram, antes que pudessem comemorar o
sucesso da empreitada, o telefone de Emily começou a tocar.
- É o meu pai. Ele não sabe sobre você ou o Pegs, então fique
quieto!
Quando Joel concordou com a cabeça, ela atendeu o
telefone.
- Oi pai!
- Em, onde você está? - ele perguntou parecendo preocu-
pado. - Estou em casa e você não está aqui.
Emily olhou para o relógio e ficou surpresa ao ver o horário.
- Estou no terraço - explicou.
- O que está fazendo aí em cima?
Ela improvisou.
- Bom, lembra que falei que tinha ouvido um barulho aqui
em cima? Queria ver os estragos que a tempestade causou
ontem à noite e acabei perdendo a noção do tempo.
- Fique aí, já estou subindo.
O pânico se apoderou dela.
- Não, pai, não suba! Estou, hã, fazendo uma surpresa para
você e não quero que veja ainda. Já vou descer!
Antes que o pai pudesse dizer algo, ela desligou.
- Meu pai está em casa — ela explicou. — Preciso descer até
lá para que ele não venha aqui. Pode ficar com o Pegs?
Prometo voltar assim que meu pai for dormir. Ele tem
trabalhado dia e noite e deve estar muito cansado. Quando
dormir, trarei comida para todos nós.
- Não se esqueça do mel, se tiver em casa - Joel falou
enquanto ela saía. - E qualquer outra coisa com açúcar.
Pegasus vai precisar para poder se curar.
- Não vou me esquecer - Emily prometeu enquanto se diri-
gia à entrada do terraço. Depois de ligar a lanterna, acenou
para Joel antes adentrar a escadaria escura.
Enquanto descia, Emily tentou pensar no que iria dizer ao
seu pai. Ela estava preocupada com o que ele faria ao ver seu
olho roxo. Mas, qualquer que fosse a desculpa, sabia que não
poderia falar sobre Pegasus, pois prometera a ele que não
falaria e iria cumprir a promessa, mesmo sendo seu pai.
Emily abriu a porta do apartamento.
- Pai?
- Estou na cozinha — ele respondeu.
Respirando fundo, Emily foi até a cozinha e viu seu pai
olhando a geladeira, ainda em seu uniforme da polícia, e de
cosias para ela. Era quase engraçado vê-lo pegar um monte
de coisas ao mesmo tempo e tentar segurar tudo nos braços.
- Mas que bagunça! - disse sem se virar para ela. - Está tudo
descongelando. É melhor comermos o máximo que
pudermos antes que estrague.
Depois que se virou e viu o rosto da filha, Steve derrubou
tudo o que segurava. Vidros de picles e vegetais rolaram pelo
chão da cozinha.
- O que aconteceu, Em? Seu olho está quase preto!
- Eu sei — ela respondeu tentando parecer casual. —
Tropecei quando estava lá em cima no terraço e caí nas
roseiras, e não sei como bati o olho. Para falar a verdade —
ela se corrigiu -, acho que me acertei com o joelho.
Quando o pai examinou o rosto dela, assobiou ao avaliar o
machucado.
- Caramba! Não vejo um olho roxo assim há muito tempo.
Deve estar doendo muito!
- Um pouco - Emily admitiu. - Mas não tanto quanto os
Arranhões dos espinhos. — Ela levantou as mangas e
mostrou os ferimentos nos braços. — Acho que as rosas
ganharam o primeiro round.
- Parece que elas venceram a luta - o pai concordou. — Te-
mos que limpar esses ferimentos.
Emily imediatamente se lembrou de que todos os cremes e
bandagens tinham sido levados para o terraço para que
pudessem cuidar de Pegasus.
— Está tudo bem, pai! — ela respondeu rapidamente. — Já
passei remédio. Estou bem, de verdade.
— Está bem - ele respondeu meio relutante —, mas não
quero mais que suba até o terraço sozinha. Pelo jeito, aquele
local ficou perigoso.
— Mas pai - ela protestou —, quero fazer uma coisa especial
para você. Eu... estou arrumando o jardim! Sabe quanto a
mamãe amava aquele jardim; aliás, todos nós o adorávamos.
Depois de tanto tempo abandonado ele virou um matagal.
Deixe-me continuar, por favor. Isso está me ajudando a
superar tudo.
Emily detestava ter que usar a dolorosa morte da mãe como
desculpa para continuar indo lá em cima, mas não podia
deixar que seu pai a proibisse de subir, principalmente
porque Pegasus ainda estava lá e precisava muito de sua
ajuda.
— Por favor, pai, preciso muito fazer isso!
Ele finalmente suspirou.
— Bom, pelo menos espere por mim, posso ajudar você.
Depois do blecaute terei alguns dias de folga. O que acha de
fazermos disso um projeto especial nosso?
Emily sabia que aquilo era o melhor que iria conseguir de
seu pai.
— Seria ótimo. Mas se eu prometer não fazer nada pesado,
posso pelo menos subir para ir limpando um pouco antes de
começarmos o trabalho de verdade?
— Está bem - ele respondeu. - Mas só se me prometer tomar
cuidado e ficar longe das beiradas.
- Prometo! - Emily mudou rápido de assunto antes que seu
pai mudasse de idéia. - Então, que estão falando a respeito do
blecaute?
- Que não foi nada bom - ele respondeu voltando a olhar o
que tinha na geladeira. — A companhia elétrica colocou
todos os funcionários para trabalhar, mas mesmo assim
parece que ficaremos sem energia elétrica por dois ou três
dias. - Ele fez uma pausa e olhou de novo para ela. - Sabe o
que isso significa, né?
Emily fez que sim com a cabeça.
- Significa que você precisa voltar para o trabalho, certo?
- Eu ia dizer que você não terá escola por alguns dias. —
Depois, relutantemente, acrescentou. — Mas sim, tenho que
voltar ao trabalho. Meu turno começará à meia-noite. Só
consegui sair por algumas horas porque você estava sozinha.
Emily pegou a jarra de leite do braço de seu pai.
- Então é melhor não perder tempo aqui. Vá se sentar que
prepararei algo para o jantar. Depois acho que você deveria
tentar dormir um pouco.
Quando seu pai sorriu, suas covinhas apareceram.
- Ei, quem é o pai aqui? - ele perguntou, rindo.
- Sou eu! - provocou Emily enquanto pegava o máximo de
ingredientes que conseguia para começar a fazer a refeição.
- Está bem - ele concordou. - As últimas vinte e quatro
horas foram pra lá de estranhas. - Ele suspirou
profundamente enquanto se sentava à mesa da cozinha. —
Tem havido saques e roubos por toda a cidade por causa do
apagão e dos sistemas de segurança desligados. As pessoas
estão ficando histéricas nos subúrbios. Agumas foram às
delegacias alegando terem visto criaturas enormes com a
pele cinza e quatro braços saindo dos esgotos. E insistiam
que elas eram algum tipo de demônio e que era o fim do
mundo.
- Uau! — disse ela enquanto colocava a frigideira sobre o
fogão a gás. — Que coisa estranha...
- Mas isso não é o pior. Lembra que liguei para você do
hospital? Estava lá para fazer um relatório sobre um garoto
misterioso. Ele parecia ter sido atingido por um raio e caído
de uma janela.
- Ui! Isso deve ter doído! - Emily falou ao mesmo tempo em
que começou a bater alguns ovos. - Ele morreu?
- Não - o pai respondeu. - O médico disse que ele devia ter
morrido. Mas não só não morreu como está se recuperando
mais rápido do que qualquer um que já tenha passado por lá.
Seus ossos se juntaram em tempo recorde e a queimadura
em suas costas diminuía a cada minuto.
Emily parou de fazer os ovos mexidos.
- Ele está se curando bem rápido? Quem é ele?
O pai deu de ombros.
- Não sei bem. Disse que se chamava... - O pai parou, se
levantou, fez uma reverência e um floreio com a mão. -
"Paelen, o Grandioso, ao seu dispor!"
Emily não conseguiu segurar a risada quando seu pai repetiu
o gesto formal.
- De onde ele é?
- Não tenho a menor idéia - o pai respondeu se sentando
novamente. - Ele diz que não se lembra de muita coisa, mas,
depois de tantos anos trabalhando como policial, reconheço
uma mentira quando ouço uma. - Ele fez uma pausa como se
estivesse tentando pegar algo fora de seu alcance. - É algo
muito estranho, Em. Tem alguma coisa muito errada naquele
garoto, mas não consigo dizer exatamente o que é.
- Como assim?
- As pequenas coisas, sabe? O modo estranho de falar...
muito formal, sabe? E também o jeito que foi achado, vestin-
do apenas uma túnica manchada de sangue e sandálias aladas
cravejadas de jóias. E óbvio que foi atingido por um raio,
mas conseguiu sobreviver a isso e também à queda, e
quando os paramédicos chegaram, o encontraram segurando
firme umas rédeas douradas belíssimas. As sandálias e as
rédeas juntas devem valer uma fortuna, mas ele se recusou a
me dizer de onde veio e como conseguiu aquelas coisas.
Emily sentiu sua pulsação se acelerar. Paelen, o Grandioso?
Se curava rápido? Usava túnica, sandálias e tinha rédeas com
ele? Ela percebeu que aquilo tinha algo a ver com Pegasus,
só não sabia exatamente o quê. Os ovos foram esquecidos e
Emily se sentou à mesa ao lado do pai.
- E ele ainda está no hospital?
- Não — ele respondeu sombriamente. - Essa é outra história
estranha. Quando o pessoal viu o resultado dos exames de
sangue dele quase tiveram um ataque, e as coisas se
complicaram a partir daí.
Uma campainha tocava nos ouvidos de Emily. Tudo o que
seu pai dizia gritava Olimpo. De algum jeito havia outro
Olímpico em Nova York! Ela tinha que avisar Joel o mais
rápido que pudesse.
- Mas, como assim? O que aconteceu? - perguntou.
- Parece que uma das enfermeiras chamou a UCP quando viu
os resultados. Um pouco depois, vários agentes chegaram ao
hospital para levá-lo. Quando eu os desafiei, ligaram para o
meu chefe e acabei recebendo ordens de retornar
imediatamente para a delegacia e esquecer tudo. Como
sempre, é aquela coisa do silêncio governamental. Não
tenho a menor idéia de para onde o levaram e o que
pretendem fazer com ele, mas, pelo que conheço da UCP,
não gostaria de usar os sapatos daquele garoto. Ou as
sandálias aladas, no caso.
Capítulo 7

Paelen estava sentado na cama de um hospital de segurança
máxima. Homens de jaleco branco colocavam estranhos fios
nele; vários presos em seu peito e outros em seu rosto e
cabeça. Paelen tentou arrancar tudo, mas dois homens
usando macacão branco correram e o seguraram pelas mãos.
Quando se mostrou forte demais para os dois, outros
homens vieram e abaixaram os braços de Paelen até
finalmente conseguirem prendê-los com algemas nas laterais
da cama.
- Onde estou? - Paelen quis saber enquanto lutava contra as
algemas de aço presas em seus pulsos. - Que lugar é este? Por
que me prenderam com correntes?
- Nós é que fazemos as perguntas, e não você - respondeu
um dos homens de macacão. — Fique aí deitado quietinho
enquanto terminamos de ligar tudo em você.
- Mas não estou entendendo! - disse Paelen enquanto olhava
para as máquinas assustadoras que eram trazidas para o lado
da cama. - Como assim ligar coisas em mim? O que vocês
vão fazer comigo?
- Apenas relaxe — o médico respondeu. — Não vamos
machucá-lo. Este equipamento nos dirá um pouco mais a
seu
respeito, gravando o seu ritmo cardíaco e seus impulsos
cerebrais. Ele mostrará se você é muito diferente de nós.
- Mas é claro que sou diferente de vocês — Paelen falou
indignado. — Vocês são humanos e eu sou Olímpico!
Os homens de macacão levantaram as sobrancelhas um para
o outro.
- Olímpico, né? - um deles retrucou. - E imagino que seja o
grande Zeus em pessoa?
- Se eu fosse, receberia um tratamento melhor de vocês?
O homem deu de ombros.
- Talvez.
- Então sou mesmo ele, Zeus - Paelen respondeu
rapidamente. - E por isso exijo que me libertem.
- Me desculpe, Zeusinho, velho amigo, mas não vai dar —
respondeu o homem depois de se certificar que as algemas
estavam bem presas. — Tem várias pessoas por aqui que
estão muito interessadas em falar com você. Então fique
quieto e seja paciente. Elas logo estarão aqui.
Vendo que seus pedidos eram inúteis, Paelen relaxou e se
acalmou. Ele não conseguia acreditar no que estava
acontecendo. Tudo o que queria era pegar o Pegasus e ser
livre. Livre do Olimpo, de Júpiter e todas as suas regras, dos
Nirads e da guerra.
Nunca quis visitar este mundo ou se encontrar com as pes-
soas que vivem aqui. Quando pequeno, ouviu muitas
histórias sobre o estranho povo que vivia por aqui e como
eles veneravam o Olimpo, mas nunca ficou curioso a
respeito deles ou tentado a visitá-los, afinal, eram apenas
humanos. O que poderiam oferecer a alguém como ele?
Mas, ao seguir Pegasus até ali, acabou atingido por um dos
raios de Júpiter e agora estava preso.
Já tinha sido bem estranho acordar no lugar que chamavam
de hospital Belleview, mas as coisas tinham ido de mal a pior
quando outros homens chegaram e o levaram embora. Ele
tentou resistir, mas seus ferimentos eram muito extensos. E
agora estava ali, naquela pequena ilha, aguentando outros
horrores.
Paelen não pôde impedir que roubassem mais de seu
precioso sangue. Também cortaram pedaços de seu cabelo e
apontaram luzes brilhantes para seus olhos até que não
conseguisse mais enxergar. Ele foi estudado do mesmo jeito
que as crianças do Olimpo estudavam os insetos que
encontravam na escadaria do palácio de Júpiter. Foi furado,
cortado e colocado em uma máquina que disseram que fazia
uma tal de ressonância magnética.
Quando se cansaram da tortura, Paelen foi levado àquele
quarto, que não tinha janelas e nenhum outro meio de
escapar dele a não ser pela porta. Paelen podia sentir a terra
fazendo pressão por trás das paredes, e sabia que, onde quer
que estivesse, era um tipo estranho de labirinto subterrâneo
e bem profundo.
Ele ficou imaginando se aquelas pessoas também tinham
capturado Pegasus. Será que o garanhão incrível estaria em
algum lugar por ali assim como ele? Uma parte de Paelen
queria perguntar, mas a outra pensou melhor no assunto.
Aquelas não eram boas pessoas e, se Pegasus não tivesse sido
capturado, não seria ele que as alertaria sobre a existência
dele. Era o mínimo que podia fazer depois de tudo.
Observando os homens que voavam ao seu redor como
abelhas, Paelen tentou imaginar qual seria a melhor maneira
de escapar, afinal, aquele sempre foi um de seus talentos no
Olimpo. Não importava onde Júpiter o prendia, ele sempre
dava um jeito de escapar.
Mas com aquelas coisas brancas e pesadas, chamadas gesso,
em suas pernas e com os ossos quebrados e queimaduras,
aquele não era o momento certo de tentar. Em vez disso, ele
iria tolerar seus captores, jogar o jogo deles, provocá-los e
fazer o máximo para aprender todas as suas fraquezas.
Apenas quando estivesse recuperado e forte de novo é que
iria tentar algo. Ele fugiria daquele local de dor e desespero e
então, finalmente, capturaria Pegasus.

Capítulo 8

Emily mexeu sua comida sem conseguir comer. A história
que seu pai acabara de lhe contar ainda girava em sua ca-
beça. Ela estava convencida de que Paelen tinha alguma
coisa a ver com Pegasus. Mas Emily não tinha como saber
qual era a conexão entre eles, pois o cavalo não falava e
Paelen fora levado pela UCP.
Não muito depois do jantar, Steve foi para a cama descansar
algumas horas antes de voltar ao trabalho. No instante em
que fechou a porta do quarto, Emily correu para a cozinha e
juntou comida e bebida para levar para Joel e Pegasus.
- Você não vai acreditar no que vou contar! — Emily chegou
sem fôlego ao terraço. - Tem outro Olímpico em Nova
York! O nome dele é Paelen e...
No momento em que Emily disse aquele nome, Pegasus
começou a relinchar alto e a arranhar o assoalho do
barracão.
- O que foi, Pegasus? - Ela aproximou-se rapidamente e
começou a acariciar o focinho trêmulo do garanhão. -
Conhece Paelen?
Pegasus bufou nervosamente, empinou se apoiando nas pa-
tas traseiras e desceu batendo com tudo no chão. Seus cascos
aliados furaram a madeira, que soltou grandes farpas.
- Pare, por favor! - Emily falou alto. - Precisa se acalmar.
Meu pai está dormindo no apartamento abaixo da gente. Se
ouvir algo, virá aqui e descobrirá você!
Pegasus parou de quebrar o chão, mas sacudiu a cabeça,
ainda bufando e relinchando. Emily olhou para Joel
desesperada.
- O que será que tem de errado com ele?
- Sossegue, garoto, calma - Joel falou e então se virou para
Emily. - Parece que Pegasus não gosta do tal Paelen, seja ele
quem for.
- É isso? - ela perguntou ao cavalo. - Você não gosta do
Paelen?
Pegasus ficou parado, estranhamente em silêncio, e olhou
diretamente nos olhos de Emily. Naquele instante ela sentiu
uma forte conexão com ele e, de alguma forma, soube que
Paelen era alguém que machucara Pegasus e lhe causara
muitos problemas. Enquanto encarava aqueles grandes olhos
negros, estranhas imagens começaram a inundar sua mente.
Ela viu Pegasus em um céu escuro e tempestuoso, com raios
brilhando a sua volta. Ela sentiu sua determinação, seu medo
e sua necessidade urgente de chegar a um lugar, sabendo
que era uma questão de vida ou morte. Então ela viu um
garoto no céu, ao lado do garanhão branco. O menino era
mais velho que Joel, mas muito menor. Ele voava ao lado de
Pegasus e se esticava para pegá-lo. Então ela o viu arrancar as
rédeas douradas do cavalo e, de repente, surgiu a ofuscante
luz de um raio e uma dor cortante...
- Emily? - Joel repetiu. - O que aconteceu, Emily?
Quebrando a conexão, Emily piscou e cambaleou.
- Joel? - ela falou num tom de voz baixo e distante.
- Você está bem?
- Sim, estou. Acho que sim. — Sua mente começou a clarear
e ela se concentrou em Joel, que agora a encarava com
ansiedade.
- Acabei de ver uma coisa muito estranha - ela falou.
- O quê?
Emily olhou para o cavalo alado.
- O que foi que vi, Pegasus? Algo que aconteceu mesmo,
certo? Paelen roubou suas rédeas e foi por causa dele que
você foi atingido por um raio.
Ele bufou e encostou a cabeça gentilmente em Emily.
Aquilo era um sim.
- Me conte, por favor - Joel pressionou. - O que você viu?
- Não sei como explicar, mas foi como se eu estivesse vendo
TV, só que foi muito mais intenso. Quando Paelen arrancou
as rédeas douradas de Pegasus, elas atraíram um raio e os
dois foram atingidos.
- Então temos que achar esse tal Paelen e pegar as rédeas de
volta - Joel sugeriu.
- Isso será impossível - Emily respondeu. Enquanto acari-
ciava Pegasus, contou para Joel sobre a conversa que tivera
com o pai e como Paelen fora pego pela agência secreta UCP.
- Nunca ouvi falar de uma agência upa - Joel falou perplexo.
— E olha que meu pai trabalha nas Nações Unidas!
- Não é upa, - Emily corrigiu - é u-c-p, Unidade Central de
Pesquisas. Não é todo mundo que conhece essa agência; eles
lidam com coisas estranhas e científicas e tudo o que for
relacionado a alienígenas. Meu pai diz que quando a UCP
leva alguém, a pessoa nunca mais é vista, nem se ouve falar
dela. Ele já precisou lidar com a agência algumas vezes
durante sua carreira e, em todas elas, ou foi ameaçado ou o
mandaram ficar em silêncio, senão haveria problemas. Se a
UCP ficar sabendo sobre o Pegasus, eles o levarão e nunca
mais o veremos.
- Se eles são tão maus quanto você está dizendo,
provavelmente nós também desapareceríamos apenas
porque vimos o Pegasus.
- Tem razão — Emily falou. - Por isso temos que ser muito
cuidadosos até que a asa dele fique boa. Pegasus tem que
conseguir partir em segurança para fazer o que quer que seja
que tenha vindo fazer.
- E por acaso ele mostrou a você o que era?
- Não. Só vi o Paelen roubando as rédeas dele e os dois
sendo atingidos por um raio, mas deu pra perceber que era
uma questão de vida ou morte. - Ela se virou para o
garanhão. - Não era, Pegasus?
O cavalo assentiu com a cabeça e bateu com o pé no chão.
- Bom, se não podemos ir atrás de Paelen para pegar as
rédeas, o que faremos? - Joel perguntou.
Emily deu de ombros.
- Acho que devemos manter o Pegasus seguro e bem até que
fique curado.
Joel concordou com a cabeça.
- E para isso ele precisa de muita comida e cuidados. Achou
mel lá embaixo?
Emily começou a mexer nas sacolas que tinha trazido.
- Trouxe mel, xarope de milho, açúcar branco e mascavo e
mais cereal doce. Mas ainda não acredito que um cavalo
deva comer tudo isso.
Pegasus protestou ruidosamente.
- Sinto muito, Pegs - Emily se desculpou e depois olhou para
Joel com um meio sorriso. - Ele odeia ser chamado de
cavalo, né?
- Você também não odiaria se fosse ele? - Joel retrucou.
Enquanto Emily colocava metade da caixa de cereal em uma
grande tigela de plástico, Joel abriu a lata de xarope de milho
e jogou por cima. Depois acrescentou várias colheres de
açúcar mascavo.
- Eca! - Emily exclamou enquanto o garanhão comia
vorazmente. - Como consegue comer isso, Pegs? Depois de
ver essa cena, acho que nunca mais chegarei perto de
cereais matinais...
Depois que Pegasus estava alimentado, Joel se sentou para
comer os sanduíches que Emily preparara para ele.
- Que horas você precisa chegar em casa? - ela perguntou,
olhando para o relógio. Era apenas um pouco depois das seis
da tarde. O sol ainda brilhava, mas já tinha atravessado a
cidade e logo começaria a se pôr.
- Não vou voltar - ele disse casualmente, depois de tomar
um grande gole de leite direto da caixa.
- Não vai voltar? - Emily perguntou apreensiva. — Seus pais
não vão ficar preocupados?
Joel olhou para o outro lado.
- Meus pais morreram. Estou morando em um orfanato. As
pessoas lá não ligam para mim, então acho que ninguém
ficará preocupado. - Ele tentou parecer indiferente, mas
Emily pôde ouvir o tremor em sua voz aparecendo por baixo
daquela bravata. Ela não sabia bem o que dizer, afinal, não
fazia idéia sobre o passado dele.
- Eu não sabia, Joel, me descul...
- Está tudo bem - ele respondeu rapidamente. — Não é
como se eu tivesse contado para todo mundo. - Ele olhou
para baixo, evitando o olhar dela, e começou a falar devagar.
— Três anos atrás, eu morava com minha família em
Connecticut. Estávamos indo viajar quando um motorista
bêbado perdeu o controle do carro e nos acertou. Meus pais
e meu irmão menor morreram na hora. Também fiquei
ferido, mas acabei sobrevivendo. Apesar de que, todos os
dias depois do acidente, eu desejei não ter sobrevivido.
- Oh, Joel... - Emily disse em um sussurro. - Deve ter sido
horrível.
Joel não falou nada por um bom tempo, depois finalmente
olhou para ela.
- Tenho estado em orfanatos desde então, mas eu odeio isso.
Emily estava surpresa demais para falar. Jamais teria
imaginado aquilo. Ela sabia o que era sofrer com a dor
interminável de perder um dos pais, mas não conseguia
imaginar como seria perder a família inteira.
- E não tem ninguém lá na Itália com quem você possa ficar?
- Não — Joel respondeu de pronto. - Ninguém me quer,
então estou preso aqui. - Ele levantou o queixo de modo
desafiador. — Mas não será por muito tempo, pois estou
planejando fugir. Encontrarei um lugar onde ninguém mais
me dirá aonde ir, o que fazer ou qualquer outra coisa, nunca
mais. Finalmente serei livre!
Joel ficou em pé de repente e foi até Pegasus. Emily perce-
beu a tensão em seus ombros desaparecer quando ele
começou a acariciar a face do garanhão.
- Vou ficar aqui esta noite - ele falou de costas para Emily. —
Não gostaria de deixar o Pegasus sozinho.
Emily se levantou e colocou as mãos na cintura. Ele podia
ter tido uma vida difícil, mas não precisava ofender.
- Nossa, valeu pelo voto de confiança! - disse ofendida. -
Mas, pra sua informação, caso não tenha percebido, eu estou
aqui, então ele não está sozinho.
- Você entendeu o que eu quis dizer. Precisa voltar ao
apartamento antes que seu pai saia para trabalhar hoje à
noite. Eu posso ficar aqui para que o Pegasus não se assuste.
Emily ia retrucar, mas algo no olhar dele a deteve. Aquele
não era mais o rapaz raivoso que ela tinha encontrado de
manhã em frente de casa. De repente, ela viu em seus olhos
a necessidade. Ele precisava ficar com Pegasus.
- Tudo bem - ela disse. - Você pode ficar. Posso trazer uns
cobertores e travesseiros. Mas só para você saber, também
estou planejando ficar aqui em cima. Depois que meu pai for
trabalhar, podemos trazer tudo para cá, será como se
estivéssemos acampados.
- Mas sem os marshmallows — Joel acrescentou.
- Acho que temos isso lá embaixo - ela retrucou. - Mas, se
conheço o Pegasus, ele vai pegá-los de mim antes mesmo
que eu abra a sacola!
Capítulo 9

Depois que todos os aparelhos foram ligados a Paelen, os
médicos se dirigiram até seus computadores para checar as
leituras. Paelen os observou curioso, mas não disse nada. Em
vez disso, se concentrou no que o cercava. Na parede de
trás, bem acima da cama, havia uma pequena grade de
ventilação. Dava para sentir um vento gentil soprando sobre
ele, além de ser possível ouvir sons de outros quartos vindos
da grade. Isso significava que havia um sistema de túneis
acima, pelos quais ele poderia deslizar facilmente. Túneis
eram a sua especialidade. Não havia um único túnel no
Olimpo no qual ele não pudesse passar ou achar a saída,
incluindo o grande labirinto do Minotauro. Paelen sabia que,
assim que estivesse livre dos gessos em suas pernas,
conseguiria achar um caminho até a superfície.
É claro que ainda havia o problema das algemas, mas ele
notara que os homens de macacão tinham a chave. Se
trabalhasse direito, conseguiria pegá-las. E se não desse
certo, Paelen poderia usar seu talento de esticar o corpo,
apesar de preferir não fazer isso.
Enquanto sua mente trabalhava no problema, Paelen ouviu a
mesma série de bipes estranhos que escutara antes. Um
pouco depois, a porta se abriu e dois homens entraram. Um
deles era um homem de meia-idade com os cabelos
grisalhos, que usava terno preto e tinha uma expressão
sombria. O outro era mais jovem, tinha cabelos loiros e
curtos, também usava terno preto e tinha uma expressão não
muito boa no rosto.
De costas para ele, começaram a sussurrar com os médicos.
Paelen não conseguiu segurar o sorriso em seu rosto. Eles
não tinham ideia de que ele podia ouvir claramente que eles
discutiam os resultados dos exames e o que tinham
descoberto até então, do mesmo jeito que não sabiam que
ele podia ouvir as outras vozes através da grade de ventilação
acima dele.
Mais uma vez, Paelen foi lembrado de como era diferente
daqueles humanos. Mesmo que o significado de algumas das
palavras não fosse claro, ele entendeu o suficiente. Estavam
discutindo quão extraordinários eram seus padrões cerebrais,
que ele tinha força e densidade muscular superior, que seus
ossos eram flexíveis e diferentes dos ossos humanos, o que
explicava parcialmente como ele sobrevivera à queda.
Também tinham encontrado vários órgãos que não
conseguiam identificar. Quando perguntado, um dos
médicos sugeriu que Paelen não tinha mais do que dezessete
anos.
Aquele comentário quase fez com que Paelen caísse na
gargalhada. Ele teve que morder a língua para não rir alto. Se
soubessem a verdade sobre sua idade, tinha certeza de que
nunca acreditariam nele. Ou talvez acreditassem. E aquilo só
faria as coisas ficarem piores para ele.
Finalmente os dois homens se sentaram em cadeiras ao lado
da cama de Paelen. O mais velho tirou um pequeno aparelho
preto do bolso e apertou um botão. Depois o segurou perto
da boca e começou a falar.
- Relatório UCP, C.49.21-J. Primeira entrevista. Data: dois de
junho, às dezenove horas. O indivíduo é um homem. Sua
idade aproximada é dezessete anos. Exames médicos
revelam ferimentos múltiplos consistentes com ter sido
atingido por um raio e sofrido uma queda de uma grande
altura.
- Outros testes revelaram anomalias físicas profundas. Os
órgãos do indivíduo não estão onde deveriam. Identificamos
vários outros órgãos cujas funções ainda não foram
determinadas. Precisaremos de mais investigações. O
indivíduo tem vários ossos fraturados que estão se
recuperando em uma velocidade incrível. O exame de
sangue revelou um tipo sanguíneo desconhecido, com
propriedades estranhas. O indivíduo é muito forte, apesar de
ser pequeno e ter a aparência bem jovem...
Paelen ficou observando o homem falar para o aparelho.
Parecia que estava descrevendo um tipo de monstro, e não
ele. Quanto mais ouvia, mais começava a entender em que
tipo de encrenca se encontrava.
O homem finalmente terminou e se virou para Paelen.
- Diga o seu nome para o registro - ele falou, aproximando o
aparelho de Paelen.
A princípio, ele ficou em silêncio, mas quando o homem
repetiu a frase, achou que seria um bom momento para
começar sua investigação. Então respondeu:
- Indivíduo.
- Esse não é o seu nome - o homem falou.
- Talvez não seja - Paelen concordou. - Entretanto, é o
nome que você me deu, e um nome é tão bom quanto
qualquer outro, não?
- Não chamei você de indivíduo.
- Chamou sim.
- Não, acho que não - o homem mais velho falou.
- Chamou sim - Paelen insistiu. — Agora mesmo. Você es-
tava falando para a pequena caixa preta e disse "o indivíduo
tem vários ossos fraturados que estão se recuperando em
uma velocidade incrível". E depois: "O indivíduo é muito
forte, apesar de ser pequeno e ter a aparência bem jovem".
Então, se você fica feliz em me chamar de Indivíduo, então
este deve ser o meu nome. Sou o Indivíduo.
- Não quero chamar você de Indivíduo - disse o homem já
com certa irritação. - Só queremos saber como devemos nos
dirigir a você antes de continuarmos com as perguntas.
Paelen percebeu que aquele homem ficava perturbado
facilmente. Ele era pior do que Mercúrio, que era o
Olímpico mais fácil de ser perturbado. Linhas de frustração e
raiva já surgiam em seu rosto; seus lábios estavam bem
apertados e suas sobrancelhas se erguiam em uma careta.
Ele, então, decidiu testar o homem e forçar um pouco mais a
barra.
- Você parece confuso. Se isso já acontece com algo simples
como o meu nome, tenho certeza de que será um grande
desafio conseguir compreender as respostas que darei às
perguntas que fizer.
O homem, cuja frustração aumentava, sacudiu a cabeça de
forma negativa.
- Não estou confuso — disse nervosamente — e sei que seu
nome não é Indivíduo. Indivíduo não é um nome, é o que
você é.
- E ainda assim você insiste em me chamar disso. - Paelen se
recostou nos travesseiros, se divertindo com aquele jogo. —
Não entendo você. É óbvio que é um homem de
inteligência questionável. Vá embora, por favor.
O rosto do homem ficou vermelho. Ele respirou fundo
várias vezes para se acalmar.
- Talvez seja melhor começarmos tudo de novo — falou. -
Bem simples e fácil: qual é o seu nome?
- Pode me chamar de Júpiter.
- Como? Você disse Júpiter?
- Além de ignorante você também é surdo? - Paelen
perguntou e se virou para o homem mais jovem. — Acho
que é hora de você levá-lo embora. Ele não está bem,
obviamente, e deveria ser contido.
O homem mais velho ficou em pé, furioso.
- Ah, seu pequeno arrogante...
- Se acalme, agente J - disse o jovem segurando o braço do
mais velho. - Sente-se e me deixe tentar.
Paelen estudou cuidadosamente a relação entre os agentes.
O mais velho claramente estava no comando, mas pareceu
aceitar o conselho do mais jovem, pois se acalmou um
pouco. Este direcionou sua atenção para Paelen.
- No hospital, você disse ao médico que seu nome era Pae-
len, o Grandioso. Qual deles é o verdadeiro? Júpiter ou
Paelen?
- Se você insiste em saber - ele respondeu -, sou Paelen, o
Grandioso. Agora, me liberte.
- Ou então o quê? - o homem mais velho desafiou.
- Ou eu farei com que a ira do Olimpo recaia sobre vocês.
- A ira do Olimpo! - ele clamou.
- Você precisa repetir tudo o que falo? - Paelen perguntou. -
Isso é bem perturbador!
O homem esticou a mão e segurou no pulso de Paelen.
- Já cansei de suas brincadeiras, meu jovem. Agora já chega.
Não vamos deixar você ir embora. Nem agora e nem nunca.
Então nos diga quem é, de onde vem e por que está aqui.
O homem segurava firme em seu pulso, mas não o suficiente
para machucar Paelen, que percebeu que aquela era a
verdadeira intenção do homem.
- Responderei suas perguntas apenas depois que responde-
rem algumas das minhas - disse. - Exijo saber onde estou.
Quem são vocês? Por que estão me prendendo?
- Somos nós que fazemos as perguntas, e não você — o
homem mais velho respondeu e apertou mais o pulso de
Paelen.
- Então não temos mais nada para conversar - Paelen
respondeu, se virando para longe dos olhos curiosos de
ambos. — Podem pedir para os outros homens trazerem
ambrosia para mim agora.
- Não vamos fazer nada disso - o jovem respondeu.
- Olha, garoto, isso não é engraçado. Se deixar o meu colega
mais nervoso, ele vai quebrar seu pulso.
Paelen ficou sério e se sentou, ignorando a dor proveniente
de suas costelas quebradas. Ele olhou para os dois homens e
então se concentrou no mais velho.
- Se acha que pode me machucar apertando meu pulso
como uma criança, está muito enganado. Já enfrentei a ira
do Minotauro e da Hidra. Lutei contra os Nirads e ganhei.
Certamente não tenho medo de um humano como você ou
das ameaças vazias que faz.
- Garanto que minhas ameaças não são vazias - o mais velho
alertou. - Não me force fazer algo de que se arrependerá
depois. Nos diga quem é e de onde veio.
Paelen não gostava nem um pouco daqueles homens.
- Se insiste, sou Mercúrio — ele respondeu finalmente. —
Vim fazer uma visita ao seu mundo, mas fui ferido durante
uma tempestade. Quando me recuperar, devo voltar ao
Olimpo.
- Continua com esse papo de mitologia grega? - o agente J
falou sombriamente.
- Mercúrio é da mitologia romana - o mais jovem corrigiu. -
O nome grego é Hermes.
Paelen viu o mais velho lançar um olhar fulminante para o
outro — Tanto faz! - e depois se virar novamente para ele.
- Isso não foi uma resposta. Me diga o que quero saber.
- Mas eu já falei! - Paelen insistiu. - Sou o Mercúrio. Você
está com as minhas sandálias; tenho certeza que reparou nas
asas dela. Quem mais, além do Mensageiro do Olimpo, usaria
algo assim?
O agente J respirou fundo e segurou o ar. Quando soltou,
colocou os ombros para trás e se sentou.
- Se continuar a se recusar a responder, prometo que farei
com que as coisas fiquem bem desconfortáveis para você.
- As coisas já estão bem desconfortáveis para mim - Paelen
falou. - Mas estou dizendo a verdade. Não tenho culpa se
você não quer acreditar.
O agente J olhou para seu jovem companheiro.
- Não vamos a lugar nenhum com ele. - Depois olhou para o
relógio e falou para o aparelho. - Dezenove horas e vinte
minutos. Fim da entrevista.
Nervoso, ele desligou o aparelho e olhou para Paelen.
- Chamar você de Mercúrio, Júpiter, Paelen ou Indivíduo
não importa nem um pouco. O que importa é que agora
você é meu. Logo, responderá todas as minhas perguntas,
nem que eu tenha que arrancar uma palavra de cada vez da
sua boca!
Paelen viu a ameaça crescer nos olhos do agente J. Aquele
homem queria dizer exatamente o que disse.
Os dois homens se levantaram e foram até o pequeno
aparelho cinza ao lado da porta. Paelen prestou ainda mais
atenção quando o mais velho apertou vários botões. Aquilo
fez soar os mesmos bips de antes de eles entrarem no
quarto.
- Uma trava de som - Paelen murmurou para si mesmo
enquanto os via empurrar a porta e sair. - Se Júpiter não
conseguiu criar uma prisão que me segurasse, o que faz
vocês acharem que podem?

Capítulo 10

Uma hora antes da meia-noite, o pai de Emily começou a se
aprontar para ir trabalhar.
- Tem certeza que ficará bem aqui sozinha?
Emily fez que sim com a cabeça e entregou a ele a marmita
que tinha preparado.
- Estou bem cansada de tanto trabalhar no jardim hoje.
Aposto que vou dormir na hora que puser a cabeça no
travesseiro!
- Está bem, então — o policial disse, dando um beijo na testa
da filha. — Só não fique nervosa por não ter luz. Você tem a
lanterna e várias pilhas extras. Prefiro que não use velas, se
não se importa.
- Eu entendo - ela respondeu. - A que horas voltará para
casa amanhã?
O pai de Emily suspirou.
- Tarde, infelizmente. Farei mais um turno dobrado. Não
volto antes do jantar, mas tem bastante comida e água aqui;
você não precisará sair. E lembre-se, se precisar de mim...
- Já sei, eu ligo, pode deixar. - Emily sorriu e gentilmente
começou a levar o pai até a porta. — Vá trabalhar, pai. A
cidade precisa de você.
- Espero que você precise de mim também - disse enquanto
colocava seu quepe.
- Sempre vou precisar de você - garantiu Emily enquanto
ficava na ponta dos pés para dar um beijo na bochecha do
pai. — Tome cuidado e volte inteiro para casa, por favor!
- Pode deixar - ele prometeu enquanto ligava sua lanterna de
policial e adentrava o corredor escuro. Se virando uma
última vez, falou:
- Tranque a porta e deixe o taco à mão.
- Pode ir embora logo? — ela falou, rindo.
Depois que o pai partiu, Emily esperou um pouco antes de ir
até as escadas. Ao chegar ao terraço, mais uma vez ficou
impressionada com a linda noite estrelada que viu.
- Uau! — ela exclamou. — Nunca vi tantas estrelas!
- Incrível, não? - Joel concordou, afastando-se de Pegasus. -
Nem precisa usar sua lanterna.
Depois do pôr do sol, Pegasus podia sair do barracão e andar
livremente pelo terraço, sem temer ser visto por algum
vizinho curioso. Emily percebeu que o garanhão estava
parado em frente à horta de morangos de seu pai, ocupado
em comer todas as frutas maduras que encontrasse.
- Ele não parou de comer desde que anoiteceu - Joel expli-
cou. - Se está maduro e é doce, ele come. Infelizmente,
Pegasus destruiu o que restava da horta de tomates.
- Tomates? - Emily repetiu. - Não plantamos tomates este
ano. Com minha mãe doente, nem subimos aqui nos últimos
tempos.
- Devem ter crescido das mudas do ano passado — Joel
sugeriu. - Aliás, tem muita coisa crescendo aqui, mas ele só
quis os tomates.
Emily se aproximou de Pegasus, que continuava perto dos
morangos.
- Oi, garoto - ela falou enquanto acariciava sua asa dobrada.
Pegasus soltou um morango maduro na mão dela.
- Valeu, Pegs! - surpreendeu-se Emily, saboreando a fruta
adocicada.
- Não acredito que você comeu isso! - disse Joel horrorizado.
- Estava na boca dele!
- E daí?
- E daí que é nojento! Deve estar cheia de germes...
- Não seja bobo! - ela retrucou. - Aposto que temos muito
mais germes do que ele. - Depois se virou para Pegasus. -
Então, como está se sentindo agora?
- Ele está melhorando - Joel respondeu. - Até já esticou a asa
para testar. Não acho que vai demorar para que esteja
curado.
- De repente, Emily sentiu uma grande pontada de tristeza.
Pegasus não poderia ficar ali para sempre, ela sabia disso,
mas depois da perda recente da mãe, ficar sem ele parecia
demais para ela.
Como se soubesse o que Emily estava pensando, o garanhão
ofereceu mais um morango e aquele gesto simples fez com
que a garota ficasse com lágrimas nos olhos.
- Obrigada, Pegasus - disse calmamente.
- Ei, você está chorando? - Joel perguntou. - O que foi?
- Nada! — Emily respondeu, limpando rapidamente as
lágrimas. - Estou muito cansada. Não dormi a noite passada e
estamos resolvendo as coisas desde cedo. Só preciso
descansar um pouco.
- Você não disse que iríamos acampar aqui em cima hoje? -
Quando Emily fez que sim com a cabeça, ele prosseguiu. -
Bom, então vamos até o apartamento pegar uns cobertores e
depois podemos dormir.
Emily assentiu novamente e limpou suas últimas lágrimas
silenciosas.
- Prometi marshmallows a Pegasus, então também pegarei
alguns.

Emily e Joel voltaram logo com dois sacos de dormir, vários
cobertores e dois travesseiros.
Um dos cobertores foi enrolado em Pegasus para que ele
ficasse aquecido, mas, quando os dois se ajeitaram em duas
espreguiçadeiras, foram surpreendidos pelo garanhão, que se
deitou no chão entre eles para descansar.
- Por que acha que ele está aqui? - Joel perguntou deitado
em sua espreguiçadeira e olhando para as estrelas.
- Não sei - Emily respondeu, deitando de lado e acariciando
o pescoço de Pegasus. - Sei que é algo muito importante,
mas não consegui ver o motivo.
- Talvez tenha algo a ver com o outro Olímpico, o Paelen.
- Pelo que vi, Pegasus já estava a caminho quando Paelen
roubou as rédeas dele. Acho que o garoto foi mais um
obstáculo do que o problema principal.
Depois disso, o silêncio tomou conta do lugar. A noite
estava fresca, mas não fria, e as estrelas no céu e o silêncio
da cidade passavam a impressão de que os garotos estavam
realmente acampando.
- Joel - Emily falava com curiosidade -, como é morar em
um orfanato?
Ela o ouviu respirar fundo e imediatamente se arrependeu
de ter perguntado aquilo.
- Por que quer saber? - Joel perguntou desafiadoramente,
com um tom de voz mais severo.
- Não fique bravo de novo, por favor - ela pediu. - Foi só
uma pergunta.
- Não estou bravo - ele retrucou -, só não gosto de falar
sobre isso.
- Me desculpe, não devia ter perguntado — disse Emily
rapidamente, virando-se na cadeira e se cobrindo. - Vamos
esquecer isso e dormir.
Joel ficou um bom tempo em silêncio. Ela podia ouvir sua
respiração pesada, mas não tinha ideia do que ele estaria
pensando.
- Me desculpe, Emily — ele acabou falando. — Não devia ter
descontado em você, mas entenda que, quando meus pais
morreram, eu perdi todos que conhecia na vida. Todos que
eu gostava, e tenho estado sozinho desde então.
Emily se virou novamente para ele, mas não disse nada. Joel
respirou fundo de novo.
- As coisas não deram certo com a primeira família com a
qual fui morar. A gente sempre brigava, então eles me
mandaram para a nova casa. Mas eu odeio aquele lugar; lá
tem um monte de outras crianças e os nossos pais estão
sempre gritando. Odeio dividir o quarto com outros quatro
garotos. Eles sempre roubam minhas coisas.
- Você não pode ir para algum outro lugar? - ela perguntou.
- Tentei conversar com as assistentes sociais, mas elas
sempre dizem não, e falam que tenho que agradecer por ter
onde morar. Elas não ligam para o modo como as coisas
funcionam por lá.
- Não é nenhuma surpresa você querer fugir - Emily falou
de forma compreensiva. — Eu também fugiria.
- E é o que farei, logo depois que curarmos o Pegasus. - Joel
esticou a mão para fazer carinho no garanhão. - Talvez ele
me leve junto quando for embora. — Então fez uma pausa e
sua voz se tornou sonhadora. — O Pegasus e eu. Isso sim
seria a realização de um sonho.

Capítulo 11

Bem antes do amanhecer, o céu se abriu e surpreendeu
Emily e Joel, acordando-os com uma chuva gelada. O tempo
que levou para acharem a lanterna e levar Pegasus até o
barracão foi suficiente para que ficassem ensopados e
tremendo de frio. Amontoados no barracão, ficaram
olhando a chuva pesada que caía.
- Pelo menos não tem raios - Emily falou com os dentes
batendo.
- Era só o que faltava - Joel concordou e, quando viu quanto
ela estava com frio, aproximou-se mais. - Acho que não
devemos continuar aqui em cima. Estamos ensopados e
congelados.
- Mas não quero deixar o Pegasus sozinho.
- Eu também não - Joel respondeu -, mas não vamos poder
ajudá-lo se pegarmos pneumonia.
Emily esticou a mão e fez carinho no pescoço do cavalo
alado. Sua pele estava quente e ele não estava tremendo.
- Você tem razão, estou mesmo congelando. - Emily chegou
mais perto de Pegasus. — Voltaremos logo, Pegs — ela
prometeu. Então os dois correram até as escadas e desceram.
Já no apartamento, Emily pegou algumas roupas de seu pai
para Joel e depois foi até o seu quarto se trocar. Quando
voltou, achou Joel dormindo no sofá.
Então pegou um cobertor e cobriu seu novo amigo. Depois
de um momento de hesitação, voltou para o quarto e caiu na
cama. Pouco tempo depois já estava dormindo.

A chuva continuou no dia seguinte e, apesar de ser o
começo do verão, a temperatura caiu, o que impediu Joel e
Emily de passarem o dia todo no terraço com Pegasus. Os
dois ficaram um pouco lá e por vezes iam até a cozinha
buscar comida para o garanhão.
- Acabou o açúcar — Emily falou. — E também o xarope, os
cereais e o mel.
- Nunca vi um apetite tão grande! - Joel acrescentou. - Esse
cavalo não para de comer!
- Não deixe ele ouvir você o chamar de cavalo - Emily disse
rindo. — Pegasus odeia!
- É verdade! — Joel riu também. Depois foi até uma das
muitas janelas do apartamento. - A chuva está diminuindo
um pouco e estou vendo que umas duas lojinhas do outro
lado da rua estão abertas.
- Mesmo sem energia? - Emily perguntou ao mesmo tempo
em que se juntava a ele.
- Parece que sim - Joel respondeu. - Onde é o mercado mais
próximo?
- Tem um grande a alguns quarteirões daqui — ela falou. —
Normalmente eu e meu pai vamos lá aos sábados.
- Vou até lá - Joel falou. - Esgotamos as coisas da sua cozinha
e o Pegasus precisa de mais comida, sem falar que seu pai vai
perceber que tem um monte de coisas faltando.
- Mas como você vai fazer com as compras? Não tem luz,
Joel, e nada de elevador. Se o mercado estiver aberto, você
terá que subir vinte andares carregando sacolas pesadas.
Lembra de como nos sentimos quando subimos tudo na
primeira vez?
- Eu sei, mas preciso tentar.
- Então eu vou com você - Emily falou decidida. - Assim
podemos trazer mais coisas.
Joel fez que não com a cabeça.
- Obrigado, mas acho que você não deve ir. Sabe como o
Pegasus fica chateado quando você não está. É melhor ficar
lá em cima com ele. Prometo que não vou demorar.
Emily queria mesmo ajudar, mas sabia que Joel tinha razão.
Pegasus estava ficando cada vez mais agitado na medida em
que ia se curando. Tornava-se cada vez mais difícil mantê-lo
no barracão.
- Tem razão - ela acabou concordando e depois foi ao quarto
do pai para pegar o dinheiro que eles escondiam em uma
gaveta secreta. - Meu pai guarda dinheiro aqui para as
emergências. Isso deve dar para tudo o que precisamos.
Joel aceitou o dinheiro e também o casaco de chuva do pai
de Emily, depois pegou a lanterna e as sacolas de
supermercado que a garota deu a ele e a guiou até o terraço.
Então, ao descer novamente as escadas, se virou e sorriu
para ela.
- Não faça nenhum teste de vôo sem mim!
Emily também sorriu e prometeu não fazer, depois fechou a
porta do terraço e foi até o barracão.
- Ele foi buscar um monte de coisas doces para você - Emily
explicou enquanto ajeitava o cobertor sobre as asas do
garanhão.
Espero que o mercado esteja aberto. Quando fez um carinho
no pescoço dele, Emily sentiu que Pegasus começava a
tremer, e não era por causa da chuva fria. O cobertor estava
limpo e seco e a pele dele estava quente, mas ele estava
ficando cada vez mais ansioso e o bater dos cascos no chão
evidenciava isso.
- O que foi, Pegs? Qual o problema? Está sentindo dor?
Preocupada com o cavalo alado, Emily checou sua asa
quebrada. Ela conseguiu sentir que os ossos quebrados
tinham se colado novamente, de alguma forma.
- Bom, não é a sua asa. Por acaso é o ferimento da lança? -
Dirigindo-se até o outro lado, Emily levantou a asa boa e
arrancou a fita adesiva do curativo, ficando surpresa ao ver
que o ferimento já estava totalmente curado.
- Uau! - ela exclamou. - Está ótimo! Como fez isso? Foi todo
aquele açúcar?
Pegasus bateu o pé no chão. Seus olhos estavam brilhantes e
alertas, mas havia algo neles que a preocupava.

Eles ficaram vendo a chuva pesada cair e Emily perdeu a
noção do tempo. Já estava preocupada com Joel, quando o
ouviu chamar seu nome lá das escadas.
- Você está bem? - ela perguntou correndo até ele.
- Vou ficar depois que vomitar - Joel respondeu ofegando e
se apoiando ao lado da porta que dava acesso às escadas.
Emily foi pegar as sacolas das mãos dele e ficou surpresa
com seu peso.
- Nossa, quantas coisas você comprou?
- Comprei o máximo que pude. Está uma loucura lá fora, as
pessoas estão comprando como se fosse o fim do mundo.
Tive que brigar com uma senhora pelos dois últimos potes
de mel. E nem me pergunte como foi na seção de cereais.
Pegasus começou a relinchar no barracão.
- Parece que alguém está com fome de novo - Joel falou,
cansado, pegando uma caixa de cereais coloridos para
crianças, abrindo e dando para Pegasus comer.
- Não é só fome — Emily falou. — Tem alguma coisa o
incomodando, e muito.
- Alguma idéia do que possa ser?
Ela fez que não com a cabeça.
- O que quer que seja, estou sentindo que não é algo bom.
Depois de garantir que Pegasus tinha bastante coisas para
comer, Emily e Joel desceram até o apartamento para
guardar o resto da comida.
- Meu pai vai voltar para casa daqui a pouco. Acho que ainda
não é uma boa idéia vocês se encontrarem.
- Por que não? — ele perguntou parecendo ofendido. —
Não quer que ele me conheça?
- Meu pai é policial, Joel - Emily explicou. - Ele é desconfia-
do por natureza. Se descobrir que você mora em um lar
adotivo, vai querer contatar os responsáveis pela casa e eles
podem querer levar você embora. O Pegasus precisa de nós
dois.
- E o que você sugere? - Joel perguntou.
Emily suspirou.
- Odeio mentir para ele, mas acho que você devia ficar aqui,
mas continuar escondido.
- Onde? - perguntou, olhando para o apartamento. - Este
lugar não é tão grande.
- Você poderia ficar no meu quarto.
E onde você vai ficar?
- No meu quarto também - ela respondeu. - Tem bastante
espaço no chão lá e, além disso, vamos passar a maior parte
do tempo com o Pegs. Será só quando meu pai estiver por
aqui, e ele está fazendo turnos duplos por causa do blecaute.
- Eu também podia ficar lá em cima com o Pegasus - Joel
sugeriu.
Emily fez que não com a cabeça.
- Ainda está chovendo. Você não poderia dormir lá fora, iria
congelar.
- Mas e se o seu pai me pegar aqui?
- Você vai ter que tomar cuidado para que isso não aconteça,
só isso - ela respondeu.
Joel deu de ombros.
- É mais fácil falar do que fazer.
No momento em que o pai de Emily voltou do trabalho, Joel
correu para o quarto e, apesar de sua preocupação, acabou
dormindo bem no chão, ao lado da cama de Emily. Quando
acordou no dia seguinte, a garota já tinha se levantado e seu
pai saíra para trabalhar novamente.
- Dormiu bem? - perguntou entregando um copo com suco
de laranja a ele.
- Muito bem. Acho que foi a melhor noite de sono que tive
em muito tempo.
Quando subiram novamente até o terraço, Pegasus estava
estranho. Ele tinha saído do barracão e estava resfolegando e
raspando o chão nervosamente. Seus cascos afiados tinham
feito vários sulcos no chão de concreto. Emily percebeu que
se não o fizessem parar, logo ele acabaria fazendo um furo
até seu apartamento.
- O que foi, Pegs? - Emily perguntou enquanto corria em sua
direção. - Qual é o problema?
- Emily, olha - Joel falou apontando para a comida do
garanhão. - Ele não tocou em nada. Será que todo aquele
açúcar começou a fazer mal para ele?
- Não sei — ela acariciou o pescoço do cavalo alado e pôde
sentir os nervos tensos de seu corpo. - Ele não parece
doente, veja os olhos de Pegasus, Joel, ele está com medo.
- Do quê?
Emily deu de ombros.
- Seja lá o que for, se deixou ele com medo, deve ser algo
muito ruim.
Joel e Emily ficaram com Pegasus a manhã toda, mas, em
vez de se acalmar, ele foi ficando cada vez mais agitado, e
arranhou tanto o chão que acabou abrindo um buraco.
Emily olhou através dele e viu o quarto de seu pai.
- Como vamos explicar isso? — exclamou. - Pegs, por favor...
Você tem que se acalmar!
Mesmo assim, nada do que fizeram conseguiu acalmar
Pegasus. Durante a tarde, começaram a ouvir gritos de aviso
vindos do prédio alto do outro lado da rua.
- Oh, não! — Emily olhou desesperada para as pessoas que
estavam nas janelas. Elas gritavam e apontavam para o
terraço do prédio dela. - Eles viram o Pegasus, Joel!
Joel olhou para os montes de pessoas que se reuniam diante
de suas janelas e viu mais do que curiosidade em seus rostos.
Ele viu medo.
- Elas também estão aterrorizadas - ele falou. - Olha só para
elas, Emily, não estão apontando para o Pegasus. Estão
apontando para a lateral do seu prédio.
Quando prestaram mais atenção no que as pessoas diziam,
perceberam que elas gritavam para que eles saíssem do teto
do prédio e corressem.
- Por que querem que a gente corra? - Emily perguntou
enquanto se aproximava da beirada.
De repente, Pegasus ficou insano, empinou e começou a
relinchar alto. Quando suas asas se abriram, ele acertou
Emily, jogando-a para longe da beirada e depois avançando
na direção dela. Pegasus relinchava raivosamente e chutava
com as pernas da frente.
- Para trás, Emily! — Joel gritou. — Ele ficou louco!
Enquanto Joel tentava puxar Emily para longe, Pegasus foi
em frente, passou trombando nele e investiu contra a
beirada do terraço no momento em que uma criatura
monstruosa surgia ali.

Capítulo 12

Veja Joel! - Emily gritou e apontou. Ele se virou e viu várias
criaturas de quatro braços surgindo na beirada do prédio.
Elas tinham a pele cinza mosqueada como mármore.
Pegasus chutou a cabeça do primeiro e o jogou girando lá
para baixo, mas, quando partiu para cima da segunda
criatura, uma terceira subiu na borda, soltou um rugido feroz
e partiu para cima do garanhão.
- Não! - Emily gritou.
Joel correu até a porta onde Emily deixara o bastão de
beisebol, o pegou e correu de volta em direção à criatura.
— Solta ele! - Joel gritou. - Deixe o Pegasus em paz!
Joel bateu com força e depois tentou de novo, mas cada vez
que o taco encostava nas costas da criatura, nada acontecia.
A única coisa que parecia ter algum efeito era quando
Pegasus os acertava com seus cascos de ouro. Mais criaturas
assassinas de pele cinzenta surgiam na beirada do prédio,
todas focadas em Pegasus, determinadas a matá-lo.
Os instintos de Emily assumiram o controle e ela correu até
onde tinha deixado as coisas de jardinagem, pegou um
forcado grande, o levantou e correu contra o monstro que
tentava matar Pegasus e que estava mais próximo dela. Mas,
no meio da luta, um deles desviou a atenção para Emily e
partiu em sua direção.
- Joel! - Emily gritou e depois golpeou a criatura. Quando
ficaram mais próximos, o cheiro do monstro era quase
insuportável. Emily percebeu que os olhos da criatura eram
completamente negros, sem nenhum ponto branco ou
colorido, seus dentes eram afiados e pontudos e ela babava
ao soltar sons guturais e ferozes. Aquele monstro que a
atacava usava trapos amarrados na cintura e nada na parte de
cima do corpo. Emily podia veios músculos saltando,
quando ele flexionava seus quatro braços que terminavam
em mãos nojentas com garras afiadas no lugar dos dedos.
Emily tentou se defender, mas o forcado não causava ne-
nhum dano à criatura, apenas escorregava em sua pele como
se ela fosse feita de aço.
- Ataque os olhos! - Joel gritou, correndo na direção de
Emily. Ele levantou seu bastão e bateu com toda a força na
parte de trás da cabeça do monstro.
A pancada só distraiu a criatura por um momento, mas foi o
suficiente. Emily foi em frente e enfiou os dentes do forcado
nos olhos negros do monstro. Uivando raivosamente, ele
caiu no chão e levou duas mãos ao rosto. Um líquido preto
escorreu por entre seus dedos e pingou no chão de
concreto. No local onde pingou, o chão começou a derreter
e fumegar.
- Desça agora! - Joel exclamou enquanto levantava o bastão
sobre a criatura que se contorcia.
- Não vou abandonar Pegs!
Ela correu para atacar outra das criaturas que estavam
próximas do garanhão que, por sua vez, continuava
empinado e chutado cinco monstros que o atacavam. Eles
tinham entendido os danos que seus cascos dourados
causavam e se mantinham fora do alcance de seus chutes.
Em vez disso, avançavam e recuavam rápido, tentando
acertar a parte debaixo dele que ficava exposta.
— Voe para longe, Pegs! - Emily gritou. - Fuja daqui!
Em vez de fugir, Pegasus relinchou raivosamente e caiu
pesadamente nas quatro patas, depois abaixou a cabeça,
investiu contra o grupo de monstros e foi na direção de
Emily. Antes que a garota pudesse reagir, ele a pegou pela
camiseta e a levantou sem esforço e, com um movimento
rápido e fluido, a jogou por cima de sua cabeça e asas,
fazendo com que ela caísse em suas costas.
Então correu até Joel e, do mesmo jeito que fizera com
Emily, o agarrou pela camiseta, mas, em vez de jogá-lo em
suas costas, apenas o segurou firme com os dentes e correu a
toda velocidade para a beirada do prédio. Emily percebeu o
que Pegasus estava planejando e se esticou para segurar sua
crina espessa e alva. Um instante depois, ele se lançou no ar
e abriu suas enormes asas brancas.
Aterrorizada, mas sem conseguir evitar, Emily olhou para
baixo. Eles estavam acima da beirada do prédio, vinte
andares acima da Rua 29.
- Cuidado, Emily; atrás de você! - Joel gritou pendurado na
boca de Pegasus.
Emily se virou e gritou. Uma das criaturas havia pulado do
prédio atrás deles, mas tinha calculado mal a distância e
estava pendurada nas pernas traseiras do garanhão. Pegasus
tentou dar um coice para se soltar, mas o monstro estava
bem seguro e começou a cravar suas garras no traseiro do
cavalo alado para subir até suas costas. Emily podia ver a
fúria e a sede de sangue em seus olhos negros. Ele queria
matar. Mais que isso, ele queria matar Emily.
Ela soltou uma mão da crina do garanhão, deslizou mais para
trás e começou a chutar a criatura.
— Tome cuidado! — Joel falou, se esforçando para olhar
para trás.
Ela sabia que a única chance que tinha era atacar os olhos do
mostro, mas, cada vez que dava um chute, a criatura se
esquivava dela. Emily se ajeitava em uma posição melhor
para um novo chute quando uma mão grotesca se esticou e
agarrou sua perna esquerda. Ela nunca tinha sentido uma dor
como aquela quando a coisa apertou sua panturrilha. As
garras afiadas rasgaram sua calça jeans e perfuraram sua pele,
músculos e osso. Chorando de agonia, ela sentiu a criatura a
puxar para baixo.
- NÃO! - ela gritou.
De repente, Pegasus fez uma manobra no céu e seguiram
direto para a lateral de um prédio. Mas, um instante antes de
colidirem, Pegasus bateu as asas e mudou de direção,
fazendo com que a criatura batesse de costas em uma grande
janela.
O vidro explodiu com o impacto e alguns pedaços se cra-
varam no traseiro do cavalo alado. Logo o sangue começou a
escorrer e deixou suas costas escorregadias demais para a
criatura conseguir escalar. Quando se recuperou do impacto
brutal com a janela, o monstro não conseguiu mais se
segurar tão bem. Ele soltou a perna de Emily e se esforçou
para continuar se agarrando ao garanhão.
Aproveitando o momento, Emily se esticou para trás e
começou a soltar os dedos da criatura do flanco de Pegasus.
As garras soltas escorregaram e arranharam as pernas do
cavalo alado antes de o monstro despencar os vinte andares
até o chão.
- Você está bem, Emily? - Joel perguntou.
Ela não queria contar ao seu amigo sobre a perna.
- Estou, mas o Pegasus está sangrando! - Ela gritou para que
Joel a ouvisse em meio a todo aquele vento. - Temos que
pousar.
- Não aqui - Joel gritou de volta. — Veja!
Com todo o medo e a excitação do momento, Emily ainda
não tinha conseguido pensar direito ou perceber que
Pegasus tinha baixado bastante e mudado de direção. Agora
eles voavam pela Quinta Avenida, a apenas oito ou nove
andares do chão. Apesar do blecaute, havia milhares de
turistas por ali e a maioria deles apontava para o cavalo
voando acima deles.
- Mais alto, Pegs! Você tem que voar mais alto! - Emily
exclamou.
Agarrada à crina dele, a garota podia sentir que o cavalo
forçava suas asas para voar mais alto, mas não conseguia.
Eles estavam perdendo altura aos poucos.
- O parque - Joel gritou. - Podemos nos esconder no Central
Park!
Emily sentia muita dor, mas estava tão preocupada com
Pegasus que nem ficou com medo por voar nas costas dele.
Isso sem falar na asa quebrada, que mal tinha tido tempo de
se curar. Agora ela segurava sua crina e rezava para que
conseguissem chegar à segurança do parque.
- Vamos lá! - Emily o encorajou, já conseguindo ver as ár-
vores a distância. - Só mais um pouco e poderemos parar!
Enquanto Pegasus se esforçava para se manter voando,
Emily percebeu que eles estavam a apenas alguns andares do
chão. Ela olhou para a asa quebrada e viu algo vermelho se
espalhando pelas penas brancas, bem no local onde os ossos
estavam quebrados.
Deslizando para a frente, alcançaram a Rua 59. O Central
Park estava à esquerda.
- Entre no parque, Pegasus. Podemos nos esconder no meio
das árvores!
Pegasus virou na direção do parque, mas o esforço foi
demais para sua asa quebrada. Quando sobrevoaram o
descampado, ela não resistiu e os ossos se quebraram
novamente. Eles começaram a cair.

Capítulo 13

Emily acordou sentindo uma dor terrível. Suas costas doíam,
seu ombro estava bem machucado e sua perna parecia estar
pegando fogo. Ela ouviu vozes e sentiu algo molhado em seu
rosto. Quando abriu os olhos, viu uma grande língua rosa
lambendo sua bochecha, e então soltou um gemido fraco.
- Não se mexa - uma voz de homem falou. - Estou termi-
nando de fazer os curativos.
Focando os olhos, Emily viu um jovem usando uniforme de
soldado mexendo em sua perna com Joel, que segurava seu
tornozelo para cima, enquanto o soldado começava a enrolar
pedaços de pano no ferimento que sangrava. Sua calça jeans
tinha sido cortada na altura do joelho. Ela podia ver os
buracos fundos e os grandes ferimentos causados pela garra
do monstro. Atrás deles, uma jovem mulher rasgava pedaços
de uma toalha de mesa e os passava ao soldado.
Pegasus descansava no chão, ao lado dela. Um grande
cobertor usado em piqueniques cobria suas asas. Ele lambeu
o rosto de Emily novamente.
- Eu estou bem, Pegs - ela disse fracamente enquanto
levantava a mão para acariciar o focinho dele. - O que
aconteceu? - continuou falando com a voz fraca e
estremecida enquanto o primeiro nó era dado para apertar
bem o pano em sua perna.
- Nós caímos - Joel explicou. - Carregar nós dois foi demais
para o Pegasus. A asa dele se partiu e despencamos nos
limites do gramado, mas por sorte não estava cheio de gente.
- Só nós estávamos aqui - o soldado falou. - E ainda bem,
pois se estivesse cheio como sempre, vocês teriam causado
um grave acidente. - Ele se inclinou para a frente e esticou a
mão para Emily. - Sou o Eric e esta é minha namorada,
Carol. Servi como médico no Iraque e achei que tinha visto
muitas coisas estranhas por lá, mas não acreditei quando
avistei vocês no céu!
- Eu ainda não estou acreditando - Carol completou
nervosamente. - E estou bem aqui, olhando para vocês. Uma
parte da minha mente diz que é real, e outra fala que vocês
são apenas uma alucinação.
- Nós somos reais, pode acreditar - Joel falou -, e estamos
com um problemão.
Eric terminou de dar o último nó no pano que prendeu à
perna de Emily.
- Bom, isso resolve por enquanto, mas temos que levar você
para o hospital assim que possível. Os cortes chegam até o
osso, a parte muscular foi seriamente afetada e, pela
aparência da coisa, vai precisar tomar antibióticos para
conter a infecção.
- Não podemos ir para um hospital. - Emily se esforçou para
levantar. A dor em sua perna a fazia se sentir enjoada. —
temos que ficar aqui com o Pegasus.
Eric se agachou e olhou para o garanhão.
- Um cavalo com asas - falou, sacudindo a cabeça. - Isso é
incrível. O Pegasus existe de verdade.
- Sim, existe mesmo - Joel concordou. - Mas as criaturas que
tentaram nos matar também existem. Se o Pegasus não ti-
vesse voado do terraço do prédio, estaríamos todos mortos
agora.
Joel explicou a Eric e Carol o que tinha acontecido nos
últimos dias, e eles ouviram sem interromper. Quanto mais
ouviam, mais Carol ficava com medo.
- O que quer que sejam - Joel concluiu -, aquelas coisas ainda
estão por aí, e nada parece conseguir detê-las. Fiquei
olhando a criatura que o Pegasus derrubou. Depois de atingir
o chão ela se levantou e tentou nos seguir!
Emily não sabia daquilo.
- Mas ela caiu de uma altura de vinte andares! Como pode ter
se levantado?
Joel deu de ombros.
- Não sei. E também não sei como eles rastreiam o Pegasus,
mas estão fazendo isso. As criaturas pareciam saber que ele
estava naquele terraço com a gente.
- Mal consigo acreditar em tudo isso! - Eric falou. - Pegasus
em Nova York? Monstros terríveis de quatro braços?
- Eu juro que é verdade - Emily falou. - E eles querem matar
o Pegs.
- Não estou dizendo que não acredito - Eric respondeu. —
Estou olhando para o Pegasus e também vi o estrago que a
coisa fez em sua perna. Mas de onde eles vieram?
Emily se lembrou de algo que seu pai lhe contou.
- Dos esgotos embaixo da cidade! Meu pai é policial e disse
que tem ouvido relatos de pessoas afirmando que demônios
de quatro braços estão saindo dos esgotos. Essas pessoas
eram dispensadas como se fossem loucas, mas aposto que
eram os mesmos monstros!
Eric sacudiu a cabeça.
- Se essas criaturas estão soltas em Nova York, temos que
avisar o exército.
- Não podemos - Emily disse rapidamente. — A UCP já
capturou outro Olímpico. Se descobrirem o Pegasus,
também o levarão embora.
- O que é UCP? - Carol perguntou.
Um calafrio atravessou Eric e ele segurou a mão da
namorada.
- Você não vai querer saber. Eles são uma agência
governamental terrível. Não vai querer que venham atrás de
você, pode acreditar em mim.
- Agora já era - Joel falou. - Metade da cidade nos viu
voando sobre a Quinta Avenida. Se ainda não sabiam sobre
nós, agora já sabem.
- Então temos que sair daqui! - Emily tentou se levantar, mas
a dor em sua perna a fez se sentar de novo.
- Você não vai a lugar nenhum com essa perna, a não ser
para o hospital — Eric falou.
- Mas já disse que não posso ir para o hospital! — Emily
insistiu, tentou ficar em pé de novo e caiu. Finalmente ela
olhou para Joel. — Por favor, me deixe aqui e vá esconder o
Pegasus lá no meio das árvores. E não deixe a UCP ou
aquelas criaturas pegarem ele.
Pegasus bufou e sacudiu a cabeça. Emily se virou para ele.
- Eles estão atrás de você, não de mim, e não podemos
deixar que o peguem, por isso precisa ir com o Joel.
- Ele entende a gente? - Eric perguntou, parecendo ainda
mais impressionado.
Emily fez que sim com a cabeça.
- Por favor, Pegasus, vá com o Joel!
O garanhão bufou mais uma vez e, teimando, fez que não
com a cabeça.
- Então iremos todos juntos! - disse Joel, tomando uma
decisão. - Mas precisamos sair deste lugar aberto e nos
esconder agora mesmo.
Todos se levantaram, inclusive Pegasus. Quando Joel pegou
Emily no colo, o garanhão o cutucou.
- Está tudo bem, Pegasus - Joel garantiu a ele. - Ela vai com a
gente.
O cavalo o cutucou de novo.
- Está tudo bem - Joel insistiu.
Mas Pegasus o cutucou outra vez.
- O que você quer? — Joel se virou para o garanhão.
- Ele quer me carregar - disse Emily ao ver o jeito que
Pegasus olhava para ela.
- Mas como? - Joel perguntou. - A asa dele está quebrada de
novo e o monstro e os cacos de vidro fizeram um belo
estrago nele também. É capaz de ele cair e derrubar você!
Emily viu a promessa de proteção nos olhos de Pegasus.
- Isso não vai acontecer. Me coloque em cima dele.
Joel resmungou e acomodou Emily nas costas de Pegasus,
murmurando para si mesmo:
- Não acredito que estou recebendo ordens de um cavalo!
Pegasus deixou o insulto passar dessa vez, ficando imóvel e
quieto enquanto Joel ajeitava Emily em cima do cobertor
que havia sobre ele e os levava até a densa cobertura de
árvores do parque que os protegeria.
- Eric - Emily chamou -, já que você é médico, acha que
consegue cuidar de uma asa quebrada?
- A asa dele, você quer dizer? - ele respondeu apontando
para Pegasus. - Talvez. Mas ele vai deixar?
Emily deu um tapinha no pescoço musculoso do garanhão.
-Tudo bem, Pegasus? Sua asa precisa ser consertada de novo,
e o Eric é melhor nisso do que eu e o Joel.
Como Pegasus não bufou nem protestou, eles tomaram
aquilo como uma permissão. Emily foi tirada de suas costas e
ficou em pé apoiada na cabeça do animal enquanto Eric e
Joel trabalhavam para arrumar a asa. Três pedaços de galhos
foram usados como talas e Carol rasgou o que sobrara da
toalha para amarrar em volta do local. Quando terminaram,
Eric pôs as mãos na cintura.
- Fui treinado para fazer muitas coisas estranhas, mas duvido
que o exército pudesse preparar alguém para isso!
- Muito obrigado - Emily falou. - Sei que o Pegasus também
agradece.
- Todos estamos agradecidos - Joel acrescentou. - Agora
precisamos de muito açúcar.
Emily percebeu que Eric ficara confuso e explicou:
- Açúcar e comidas doces parecem ajudá-lo a se recuperar
mais rápido. O Joel acha que é porque o açúcar é parecido
com a ambrosia, que é o alimento lá do Olimpo.
- Temos bolo de chocolate - Carol ofereceu, segurando a
cesta de piquenique. - Acha que ele vai gostar?
Emily assentiu com a cabeça.
- Ele gosta de sorvete de chocolate. Aposto que vai gostar de
bolo também.
Quando Carol tirou o grande bolo da cesta, Pegasus sentiu o
cheiro do açúcar e se aproximou. Ela mal teve tempo de tirar
a cobertura de plástico antes de ele começar a mastigar o
bolo vorazmente.
- Já é um começo — Joel falou —, mas ele vai precisar de
muito mais que isso; este garanhão come demais!
- Bom - Eric falou -, minha mãe tem amigos que moram nas
redondezas. Não há lojas perto do parque; as pessoas têm
que pedir comida para viagem, mas vimos algumas lojas
abertas na Terceira Avenida, vou até lá ver o que encontro.
- Vou com você! - Carol falou na mesma hora, e depois se
virou para Joel e Emily. - Fiquem aqui; a gente já volta.
Quando partiram, Joel foi até Emily.
- Acha que podemos confiar neles? Eric é do exército; e se
ele ligar para alguém assim que sair do parque?
- Não sei - ela respondeu —, mas temos alguma alternativa?
- Tive uma idéia! - Joel respondeu.
Ele correu até Eric e Carol. Emily pôde ouvi-lo se oferecer
para ir junto e ajudar a trazer as compras pesadas, e pediu a
Carol que ficasse com Pegasus e ela. Mesmo a distância, dava
para ver os olhos arregalados e assustados de Carol.
- Mas e se as criaturas nos encontrarem? - ela falou. - Ou
então a UCP?
- Eles estavam lá na Rua 29 - Joel garantiu. - Tenho certeza
que não são tão velozes assim.
- O Joel tem razão — Eric concordou. — Não vamos demo-
rar. Fique aqui, por favor, enquanto tentamos achar comida.
- Ele olhou para Emily. — Se você acha que sua perna está
doendo agora, vai ver só depois. A noite, estará gritando de
dor. Tentarei trazer um antisséptico, bandagens e algo para
tratarmos isso.
Carol concordou com relutância, mas sua expressão mostra-
va que ela não tinha ficado nem um pouco feliz com aquilo.
Joel colocou Emily nas costas de Pegasus e todos
caminharam mais para o meio das árvores.
- Tentem ficar escondidos - Joel alertou. — Voltaremos o
mais rápido possível. - Ele deu um passo para trás e olhou
para Emily em cima de Pegasus. - Sabe que com esse
cobertor cobrindo as asas e você sentada aí, ele quase parece
um cavalo comum?
- A não ser por ele parecer mais alvo que o branco normal -
Eric acrescentou. - Perceberam como ele quase brilha?
- Achei que era um problema com meus olhos - Joel retru-
cou. - Mas é verdade, ele é muito brilhante. Talvez
tenhamos que fazer algo a respeito disso também.
- O que, por exemplo? - Emily perguntou. - Cobri-lo com
lama?
- Não sei - Joel respondeu. - Vou pensar no assunto.

Quando Joel e Eric partiram, Emily e Carol quase não se
falaram. Emily percebeu que ela estava aterrorizada, mas não
tinha certeza se era apenas das criaturas ou também por
passar um tempo quase sozinha com Pegasus. Seus olhos
arregalados procuravam por algo em todos os lados e ela
pulava a cada pequeno som di-I crente. Os esquilos nas
árvores próximas quase a fizeram chorar. Emily ficou feliz
ao ouvir seu celular tocar. Quando o abriu, viu o nome de
seu pai na tela.
- Pai, que bom que é você...
- Emily! - Ele a interrompeu com certa urgência. - Graças a
Deus! Não fale, apenas me ouça. Não diga onde está, a UCP
provavelmente está ouvindo a gente. Sei o que aconteceu!
Sei sobre o apartamento, o cavalo alado e o vôo de vocês
sobre a Quinta Avenida! Eles estão atrás de você, Em. Onde
quer que esteja, não fique parada, você precisa partir e se
manter em movimento.
- Pai, eu... — Emily começou a falar enquanto seu coração
batia forte. — Tem uns monstros de quatro braços na
cidade!
- Eu sei! Os tiros não surtem efeito. Eles estão rumando para
o norte da cidade. Ouça bem o que vou dizer, Em. Lembre-
se de Robin. Pense nele e eu estarei lá!
- O quê? Não entendi, pai! - respondeu amedrontada.
- Não temos mais tempo. Me desculpe, querida, mas você
precisa destruir seu celular ou eles vão rastreá-lo. Destrua
agora. Eu te amo, Emily! Lembre-se de Robin!
A ligação caiu. As mãos de Emily tremiam quando fechou o
celular. Rapidamente ela abriu a parte de trás, tirou a bateria
e jogou tudo no chão.
- Pise nisso, Pegs! - ela pediu. - Você precisa destruir meu
celular!
Com seu casco dourado, Pegasus pisou com tudo no telefone
e, quando terminou, não havia sobrado nada exceto vários
pedacinhos irreconhecíveis.
- O que aconteceu, Emily? - Carol estava prestes a entrar em
pânico.
Dessa vez Emily também estava com medo.
- As criaturas estão vindo atrás de nós. - Ela olhou na direção
para onde Joel e Eric tinham ido. - Espero que eles não
demorem. Meu pai falou que a UCP está atrás de nós
também.

Capítulo 14

Paelen não tinha certeza de quanto tempo tinha passado
naquele lugar estranho e terrível. Sem janelas, não havia
como manter uma noção de tempo, mas cada dia que
passava se tornava pior que o anterior.
Ele foi levado a outro laboratório e, dessa vez, não tiraram
mais amostras do seu precioso sangue nem o ligaram a
máquinas que o estudavam. Também não colocaram luzes
brilhantes em seus olhos e nem pegaram pedaços de sua pele
para testar. Em vez disso, o homem mais velho, a quem
chamavam de agente J, mandou que o prendessem em uma
desconfortável cama de metal, situada de frente para uma
grande tela branca que parecia brilhar como cetim.
- Assista isso! - o agente J ordenou.
As luzes foram apagadas e a tela se acendeu. As cores da
imagem eram quase como os mosaicos coloridos que havia
em volta do Olimpo. Quase. Estudando as estranhas
imagens, Paelen reconheceu os prédios altos que avistou
quando chegou a este estranho mundo na noite da
tempestade.
- Reconhece alguma coisa? - o agente J perguntou.
- É o seu mundo - Paelen respondeu, olhando com
curiosidade para o agente e tentando adivinhar qual seria a
nova tortura.
- É sim. Nós chamamos de Nova York.
- Nova York - Paelen repetiu. - É muito bonita. Obrigado
por me mostrar. Posso ir agora?
- Não, não pode - o agente respondeu. - Fique sentado onde
está e continue assistindo.
Paelen virou novamente para a tela e viu imagens diferentes
da cidade, algumas tiradas do céu e outras do chão. Depois
mostraram uma coleção de fotos de várias pessoas que ele
não conhecia e, enquanto as imagens iam passando,
percebeu que todos na sala o estudavam.
- Sabe quem são? - o agente J perguntou quando a imagem
mudou novamente.
Paelen olhou para a imagem de muitos pombos em um
parque.
- Pássaros - ele respondeu. - Também temos pássaros no
Olimpo. Júpiter fica furioso quando eles sujam a estátua dele.
- Tenho certeza de que ele fica bravo - o agente respondeu
com sarcasmo. - E isso?
Paelen viu a imagem de um cão, e depois outra do mesmo
cão com seu dono.
- Também temos cães por lá — respondeu. - E temos o
Cérbero. Ele tem três cabeças e é bem malvado. Vocês têm
um Cérbero aqui?
- Não — o agente J respondeu. - Mas recentemente
descobrimos que temos alguns desses aqui.
Os olhos de Paelen se arregalaram quando a foto do cão foi
substituída por várias criaturas de quatro braços andando
pelas ruas da cidade.
- Nirads! - ele exclamou.
- Do que os chamou? — perguntou o agente J chegando
mais perto.
- Nirads - Paelen repetiu. Ele estava chocado e não conse-
guia desgrudar os olhos da imagem dos invasores furiosos.
- Quem são esses monstros? Eles também vieram em sua
nave espacial?
Paelen ignorou a pergunta e olhou com medo para o agente
J.
- Eles estão mesmo neste mundo?
- Sim - ele respondeu -, e estão causando tumulto e des-
truição na cidade. Contamos pelo menos vinte, mas
recebemos relatórios de outros avistamentos. É praticamente
impossível pará-los! Conseguimos capturar apenas dois, mas
eles são tão fortes e ferozes que não podem ser sedados. Nós
os prendemos em outro prédio de segurança máxima. Agora
me diga, o que são eles? Você pode controlá-los?
- Controlar esses monstros? Eu? - Paelen falou alto e depois
fez que não com a cabeça. - Ninguém controla os Nirads.
Eles são criaturas selvagens com instinto assassino, além de
serem indestrutíveis! Você precisa me soltar, por favor. Eles
me seguiram lá do Olimpo, preciso fugir. Eles me matarão se
me encontrarem aqui. - Paelen lutou com a cadeira,
desesperado para se soltar. - E matarão todos vocês também.
- Quem são eles? - o agente quis saber.
- São os destruidores do Olimpo! - Paelen exclamou.
- Já chega! — o agente exclamou. - Estamos no meio da
maior crise de segurança que este país já enfrentou e você
continua falando sobre o Olimpo? - Ele se inclinou para
Paelen até que seus rostos ficassem a apenas centímetros de
distância. – O Olimpo não existe, é apenas um mito criado
por mentes fracas em um tempo de necessidade. Agora me
diga, de onde você veio? Onde está sua espaçonave?
- Não sei o que quer de mim - Paelen falou. - Digo que sou
do Olimpo, mas você afirma que é apenas um mito. Por que
fica insistindo que eu venho das estrelas?
- Porque alienígenas existem, o Olimpo não! - respondeu
com impaciência.
Paelen recuperou o controle.
- Mas é claro que o Olimpo existe! - exclamou indignado. —
É de onde venho e não gosto que diga que é um mito. Não
somos mitos! Quanto aos Nirads, tudo o que sei é que eles
destruíram meu lar. O Olimpo está em ruínas. Agora eles me
seguiram até aqui e não sei por quê.
O agente J se endireitou e, furioso, virou-se para a tela.
- Muito bem, está dizendo que eles estão atrás de você? Se
isso é verdade, por que os Nirads estão perseguindo eles!
Na tela, Paelen viu a foto de Pegasus deslizando pelo ar no
meio do labirinto de prédios. A imagem não era tão clara
quanto a dos Nirads, mas Paelen podia ver dois jovens
humanos com o garanhão, que parecia ter novos ferimentos
em seu traseiro. Mesmo a imagem não sendo muito clara,
Paelen conhecia Pegasus o suficiente para perceber o terror
em sua face.
- Por que eles estavam atacando aquele cavalo e as duas
crianças? - perguntou o agente.
Paelen quase gritou "Pegasus não é um cavalo!", mas
conseguiu segurar o comentário, pois percebeu que já tinha
cometido um erro terrível revelando tudo o que já tinha
contado. O choque de ver os Nirads naquele mundo tinha
feito ele baixar a guarda, mas não iria cometer o mesmo erro
de novo.
- Não sei.
- Você está mentindo! - o agente disparou. - Vi em seu rosto
que os reconheceu. Aqueles garotos são seus amigos? Vocês
são do mesmo planeta? E o cavalo alado, como é possível ele
voar?
- Ele voa porque tem asas - Paelen respondeu
sarcasticamente. - Imaginei que até mesmo você poderia
entender isso sozinho, mas eu já respondi suas perguntas.
Não sei quem são. Por favor, me solte antes que os Nirads
cheguem aqui.
O olhar de Paelen acompanhou o agente J, que foi até um
homem de avental branco.
- Pode dar o soro - Paelen ouviu. - Ele não está falando o que
queremos saber.
Momentos depois, o homem de avental injetou algo no
braço de Paelen. Quando a droga correu por suas veias, o
rapaz começou a sentir o que era ser como a Medusa. Sua
cabeça estava cheia de cobras raivosas se retorcendo e suas
veias queimavam como fogo. Ele não conseguia mais
enxergar claramente.
Quando Paelen estava se sentindo o pior dos piores, o agen-
te J repetiu as mesmas perguntas que havia feito momentos
antes: de onde tinha vindo, quem eram os Nirads, quem
eram os garotos com o cavalo alado e por que as criaturas
queriam matar todo mundo.
Apesar da sensação das cobras se espremendo em sua cabe-
ça, Paelen ainda tinha controle completo de seus
pensamentos. Ele não iria responder as perguntas e,
especialmente, não trairia Pegasus. Então, como sempre,
Paelen fez o que fazia melhor: mentiu. Ele contou ao agente
J a história mais extraordinária que conseguiu imaginar.
Dessa vez, afirmou que era Hércules, filho de Júpiter e herói
do Olimpo. Depois contou em detalhes todos os seus feitos
como Hércules, relatando uma história incrível atrás da
outra e assumindo todas as glórias para si. Quanto mais ele
falava, mais nervoso o agente ficava.
Quando ficou furioso, começou dar tapas violentos no rosto
de Paelen, mas em vez de machucar, os golpes serviram para
clarear sua mente das cobras e do fogo que corria por seu
corpo. Paelen recebeu os golpes em silêncio. Do mesmo
jeito que antes, a força humana não era nada comparada ao
soco que levara do verdadeiro Hércules por roubar coisas
dele.
Quando outras pessoas foram segurar o agente, Paelen
deslizou a mão no bolso de um dos ajudantes e pegou a
chave das algemas e, apertando-a bem em sua mão, fingiu
desmaiar.
Ele ouviu a respiração ofegante do agente J quando este foi
afastado dele.
-Terminamos por hoje - o agente soltou. — Levem-no
embora antes que eu o mate!
Paelen ficou totalmente imóvel e com os olhos fechados.
Dois assistentes o levantaram em uma maca e o levaram de
volta ao seu quarto. Depois o colocaram na cama e
prenderam as algemas em suas barras laterais.
— Moleque idiota! — Paelen ouviu um deles murmurar. —
Se continuar pressionando o agente J desse jeito, o homem
vai mandar ele ser fatiado, cortado e colocado em potes de
vidro!
— Antes ele do que nós - o outro falou. - De onde acha que
ele vem?
— Não sei e nem quero saber.
— E o que acha que farão com ele?
— Acho que vão esperar até capturarem todos os outros
seres estranhos. Então interrogarão muito a todos, até que
ponham as tripas pra fora. Depois, quando não houver mais
nada a ser contado, farão o que sempre fazem. Congelarão
todos eles.
- Que pena - o segundo assistente falou. - Eu até que gosto
desse garoto. Ele tem um fogo dentro de si e é o primeiro
que vi levar a melhor sobre o agente J. Vamos falar a
verdade aqui, o cara precisa melhorar aquele temperamento
e este garoto é a pessoa certa para isso!
- Se ele viver o suficiente.
Quando terminaram de garantir que ele estava bem preso,
Paelen ouviu os dois rumando para a porta.
- Bom, meu turno acabou. Hora de ir embora - ouviu um
deles dizer. — Quer tomar uma cerveja comigo e os outros
rapazes mais tarde?
Paelen ouviu os bips da fechadura. Quando a porta se fe-
chou, ainda permaneceu imóvel por um momento, e então
finalmente abriu os olhos e viu que estava sozinho.
Ele ainda não conseguia acreditar que havia Nirads naquele
mundo. O agente J tinha razão em uma coisa: os Nirads
estavam atrás de Pegasus, e não dele. Tentando fazer com
que seu coração batesse mais devagar, Paelen relembrou a
última coisa que tinha visto no Olimpo, como os Nirads
estavam especificamente indo atrás de Pegasus. Se Diana não
tivesse intervindo, eles certamente teriam matado o
garanhão.
Mas por que os Nirads queriam matar Pegasus? E por que
havia dois humanos com ele? Paelen percebeu que as
respostas não seriam encontradas naquele lugar estranho e
horrível; era preciso fugir dali.
Ele então se lembrou das últimas palavras de Mercúrio,
moribundo, implorando que ele se juntasse à luta pelo
Olimpo.
Para sua vergonha, Paelen virara as costas para seu povo e
fugira da batalha. Mas a batalha o seguiu até aquele mundo.
Ele não podia dar as costas novamente. Paelen iria escapar
daqueles humanos, encontraria Pegasus e, então, finalmente,
entraria na luta.

Capítulo 15

Emily sentiu o terror crescendo dentro de si enquanto
estava sentada nas costas de Pegasus esperando os outros
voltarem. Parecia que tinham se passado horas desde que
Eric e Joel partiram, mas finalmente houve um movimento
nas árvores e ela ouviu Joel chamando o seu nome.
- Estamos aqui! - disse Emily. - Se apressem!
Eric e Joel surgiram momentos depois.
- Estamos com problemas - Eric falou enquanto colocava as
compras no chão e abraçava a namorada. - Todas as folgas
militares foram canceladas. Recebi ordens de me encontrar
com a minha unidade não muito longe daqui. Parece que há
uma ameaça na cidade.
- Nós somos a emergência - Emily falou. - Meu pai ligou. A
polícia sabe sobre o Pegasus, nosso vôo sobre a Quinta
Avenida e também a respeito das criaturas. Ele disse que a
UCP também está atrás da gente.
Eric assentiu.
- E estão nos convocando para ajudar a encontrar vocês. Me
desculpe, mas preciso ir embora.
- Você não vai dizer onde estamos, vai? - Emily perguntou
com medo.
- É claro que não! - Eric respondeu. - Farei tudo o que puder
para levá-los para longe de vocês. Mas eles também estão
atrás daquelas criaturas, e farei o que puder para ajudar a
detê-las.
- Boa! - Joel falou. - Quando acertei uma delas na cabeça
com um bastão de beisebol, isso só a fez hesitar por um mo-
mento. Mesmo a queda de vinte andares não fez com que a
coisa parasse.
- Sendo assim, a cidade tem muito mais com o que se
preocupar do que ir atrás do Pegasus - disse Eric pegando
Carol pela mão. - Precisamos ir. Quero que saiam da cidade
o mais rápido possível.
Carol sorriu timidamente, virou-se para Emily e deu de
ombros.
- Sinto muito que estejam nessa enrascada, garotos, mas
simplesmente não tenho estômago para isso.
- Eu entendo - Emily respondeu calmamente. Se tivesse
escolha, também adoraria fugir. Mas não podia, pois Pegasus
ainda precisava dela.
Eric anotou dois nomes e números de telefone em um pe-
daço de papel que tirou do bolso.
- Memorizem se puderem - falou entregando a Emily. - São
os telefones do meu irmão no Brooklyn e dos meus pais em
Nova Jersey. Ligue para eles se ficarem sem saída. Meu pai é
ex-militar; diga que eu falei para vocês ligarem e eles os
ajudarão. Gostaria de poder fazer mais, mas a cidade está um
inferno e preciso ir.
Quando ele e Carol começaram a se afastar, Eric ainda
continuou:
- Tem bandagens e antisséptico nas sacolas; limpe sua perna
o mais rápido possível. E não se esqueça de decorar os
números de telefone, pode ser que precisem deles.
- Pode deixar! - Emily prometeu. - Muito obrigada por tudo.
- Boa sorte, garotos! Que Deus os abençoe! — Eric dizia,
acenando enquanto ele e Carol desapareciam por entre as
árvores.
Quando se foram, Emily começou a tremer.
- O que vamos fazer, Joel? A UCP está atrás de nós!
Ele deu de ombros.
- Não sei, mas não podemos fazer nada até que escureça. -
Então começou a mexer nas sacolas. - Se tivermos sorte, a
UCP e o exército vão se concentrar em achar as criaturas
antes de virem atrás de nós. Enquanto isso, vamos alimentar
o Pegasus e limpar essa sua perna.

Quando o sol começou a se pôr, Emily e Joel limparam e
cuidaram dos cortes no traseiro de Pegasus, depois de terem
feito o mesmo com a perna de Emily. O remédio estava
fazendo efeito e ela se sentia bem melhor.
- Pelo menos agora sabemos quem enfiou aquela lança no
Pegasus - disse Emily enquanto passava gentilmente um
creme antisséptico em um ferimento na perna traseira do
animal.
- Mas a questão agora é: por quê? — Joel perguntou.
Emily deu um beijinho no focinho do garanhão, depois se
sentou e pegou uma maçã. Antes que a fruta pudesse chegar
em sua boca, seus olhos se arregalaram.
- Robin! - ela exclamou.
- Como? - Joel correu até ela. - O que aconteceu?
- A última coisa que meu pai me disse foi para que eu me
lembrasse de Robin! — Emily se apoiou em Joel e,
dolorosamente, ficou em pé. — Não tinha entendido o que
ele queria dizer, pois era um código para o caso de a UCP
estar ouvindo, mas agora me lembrei!
- Lembrou o quê? Do que você está falando, Emily?
Enquanto falava, Emily foi guardando as coisas na cesta de
piquenique de Eric e Carol.
- Quando eu era bem pequena, meus pais me traziam ao
parque e a gente ia até uma área bem escondida na
extremidade norte. Meu pai fingia que era o Xerife de
Nottingham, minha mãe era a Lady Marion e eu era o Robin
Hood! Todo domingo a gente vinha aqui e brincava de luta
de espadas.
- Anda não entendi nada... - Joel disse confuso.
- Antes de desligar, meu pai disse para eu me lembrar de
Robin e depois falou que estaria lá. Entendeu agora? Ele
estava me dizendo para levar você e o Pegasus para o lugar
onde brincávamos de Robin Hood. É uma área muito
reservada, ninguém nos encontrará. Poderemos nos
esconder por um tempo e planejar o que faremos a seguir.
- E o que estamos esperando, então? — Joel exclamou. -
Vou colocar você em cima do Pegasus e seguiremos em
frente!
Permanecendo na segurança das árvores, eles caminharam
para o norte do parque. O sol finalmente se pôs, por isso a
maior parte do caminho foi feita no escuro. Enquanto
seguiam, ouviram os sons de vários helicópteros
sobrevoando o Central Park e, olhando para cima, por entre
as árvores, viram as luzes brilhantes de buscas apontadas
para baixo.
- Estão procurando a gente - disse Joel sombriamente.
Emily olhou para Pegasus e percebeu que ele estava ainda
mais branco no escuro, não se parecendo mais com um
cavalo comum. Não havia dúvida de que ele era diferente.
Se acertassem o facho de luz no garanhão não haveria
escapatória.
-Joel, espere, temos que parar. Me ajude a descer, por favor.
- Não podemos parar, temos que nos encontrar com seu pai
na área... - Ele parou quando viu Emily se esforçando para
descer sozinha. - O que foi? - perguntou enquanto a ajudava.
- Qual o problema?
- Você brilha de tão branco que é, Pegs! Temos que fazer
algo em relação a isso. - Depois se virou para Joel. - Ele não
estava assim quando o encontrei lá no teto do meu prédio, e
mesmo a noite passada o branco não era tão brilhante. Mas
olhe agora, ele parece brilhar mais a cada minuto!
- Tem razão, ele está brilhando cada vez mais.
Joel colocou a cesta de piquenique no chão e começou a
mexer nas coisas dentro dela.
- Enquanto estávamos fazendo compras eu tive uma idéia.
Trouxemos o máximo que pudemos.
- O que vocês compraram?
Joel levantou um pacote, mas, no escuro, Emily não
conseguiu ver o que era.
- O que é isso?
- Tintura de cabelos - Joel explicou. - Mas temos um pe-
queno problema: não são todas da mesma cor. Temos
castanho escuro e preto. - Ele fez uma pausa e depois
acrescentou. - E também não são da mesma marca. Acha
que isso pode causar algum problema?
Emily deu de ombros.
- Não sei. Eu ajudava minha mãe a pintar os cabelos, mas ela
sempre usava o mesmo tipo de tintura. Nem sei se isso
funcionará em um cavalo.
E, outra vez, Pegasus reclamou quando o chamaram de
cavalo.
- Desculpe, Pegs - Emily falou e fez um carinho na face dele.
- Você entendeu o que eu quis dizer. Esse produto é feito
para humanos, espero que não machuque você.
-Temos que tentar - Joel falou. - Ele está brilhando como
uma estrela. Não vai demorar para a UCP nos encontrar se
continuar assim. Não é tão ruim de dia, mas agora ele parece
um sinalizador.
Logo, a decisão de usar a tintura de cabelo estava tomada.
Eles caminharam mais um pouco entre as árvores até
encontrarem um dos muitos laguinhos do Central Park. A
maior parte do trabalho seria feito sob a cobertura das
árvores. Eles só iriam se arriscar a ficar expostos quando
tivessem que enxaguar o Pegasus.
- Você começa com a cabeça e a crina e eu faço o rabo e a
parte de trás. Podemos nos encontrar no meio — Joel suge-
riu. — Está escuro, não dá para ler as instruções, você sabe o
que fazer?
Emily explicou que primeiro sua mãe misturava os produtos,
antes de aplicar no cabelo. Os dois colocaram as luvas de
borracha que vinham com as tinturas e começaram a
trabalhar.
- Me desculpe, Pegs - Emily disse enquanto aplicava o lí-
quido negro e com cheiro forte em seu belo rosto -, mas isso
é para ajudar a escondê-lo. Vamos fazer com que se pareça
com um cavalo comum de cor escura. Assim, se alguém vir
você, não vai descobrir sua verdadeira identidade tão
facilmente.
Cobrir o garanhão pareceu demorar séculos e eles usaram
ioda a tintura que tinham, tomando cuidado para não
espirrar nada nas penas das asas. Quando terminaram, Emily
tirou suas luvas de borracha.
Agora temos que esperar - afirmou e se sentou, cansada de
todo o trabalho. Sua perna estava começando a doer
bastante. - Demorava uns trinta minutos para a cor pegar
bem na minha mãe.
- Então vamos esperar uns trinta e cinco - Joel respondeu
olliando seu relógio digital e se sentando ao lado dela.
Imquanto esperavam, continuaram ouvindo o interminável
som dos helicópteros vasculhando o parque. Eles passaram
mais de uma vez bem em cima dos garotos, mas a cobertura
das árvores impediu que fossem vistos.
- Deu o tempo - Joel finalmente falou e ajudou Emily a se
levantar.
- Vamos enxaguar você, Pegs - Emily falou enquanto colo-
cava um novo par de luvas.
Saindo da proteção das árvores, olharam para cima a fim de
checar a posição dos helicópteros. Os militares estavam
concentrando seus esforços do outro lado do parque.
Pegasus entrou nas águas escuras do lago e Emily começou a
segui-lo.
- Pode parar, Emily! — Joel levantou uma mão em sinal de
aviso.
- Mas eu posso ajudar! - ela protestou.
- É claro, e sua perna pode piorar muito com essa água
imunda —Joel retrucou. - Fique aí na margem e preste
atenção em tudo. Me avise se alguém estiver vindo.
Emily se ressentiu de alguém dizer a ela o que fazer, afinal,
podia ajudar tanto quanto ele, mas, no fundo, sabia que Joel
tinha razão. Sua perna latejava bastante, tinha algo muito
errado com ela e entrar na água suja poderia piorar muito as
coisas.
- Tudo bem - ela concordou -, mas faça isso o mais rápido
que puder.
Parada na margem, Emily assistiu nervosamente os
helicópteros sobrevoarem o parque enquanto Joel levava
Pegasus mais para o fundo. O garanhão afundou e Joel o
esfregou rapidamente.
- Depressa! — Emily falou quando dois helicópteros se
separaram dos outros e começaram a se mover na direção
em que estavam. - Estão vindo pra cá!
Os helicópteros eram rápidos demais. Não daria tempo de
Joel e Pegasus saírem da água antes de chegarem onde
estavam.
- Se abaixe! - Joel gritou e ele e o garanhão afundaram.
Emily mal teve tempo de correr para as árvores antes que
um facho de luz brilhasse bem no lugar onde estava parada
antes. Com o coração acelerado, Emily observou o progresso
dos helicópteros, que continuaram indo para o norte.
- Tudo bem! - ela gritou enquanto mancava de volta para a
beira do lago.
Joel e Pegasus cautelosamente levantaram suas cabeças aci-
ma da superfície. Com mais urgência ainda, o garoto
terminou de enxaguar o garanhão. Pegasus emergiu das
águas parecendo escuro como a noite, apesar de suas asas
ainda serem brancas e muito brilhantes. Enquanto Emily as
cobria com um cobertor, uma voz nova os surpreendeu.
- O que fizeram com ele?
Uma mulher alta surgiu e se aproximou rapidamente. Ela
vestia trapos sujos, mas tinha elegância e autoridade ao
caminhar. Segurava uma longa lança com a ponta afiada e
que brilhava como ouro. Seus olhos eram de um azul
elétrico e também brilhavam na escuridão.
- Como ousaram tocar nele? — ela desafiou empurrando
Emily para o lado e indo em direção a Pegasus. — E que
coisa horrível foi essa que fizeram com ele?
Então ela se dirigiu ao garanhão.
- Como pôde deixar essas crianças tolas tocarem em você
desse jeito?
- Desculpe - Joel falou -, mas ele é nosso.
- Pegasus não pertence a ninguém — a mulher respondeu
furiosa. Depois se virou novamente para o cavalo alado e sua
voz se suavizou. - Olhe só para você, meu velho amigo. Está
parecendo um cavalo de arado.
Enquanto continuava examinando Pegasus, o garanhão
relinchou animado. Ela encostou a testa nele e baixou a voz.
- Nós tombamos, Pegasus - falou tristemente. — Meu pai
está acorrentado. Apolo está morto e o Olimpo está em
ruínas. Os Nirads nos derrotaram.
- Nirads? - Emily perguntou com cuidado.
A mulher olhou para a perna machucada de Emily.
- Posso sentir o cheiro deles em sua perna - ela falou. - Você
lutou com os Nirads? Tem sorte de ainda estar viva.
- É esse o nome daquelas criaturas de quatro braços? - Joel
perguntou. - Nirads?
A mulher confirmou com a cabeça.
- Eles assassinaram meu irmão e muitos outros e
conquistaram o Olimpo.
- Apolo, que você disse que mataram, era seu irmão? - Joel
perguntou sem fôlego. — Você... você é Diana?
- Esse é um dos meus nomes - a mulher alta respondeu e
depois o estudou por um momento. — E você é romano.
O som de helicópteros se aproximando acabou com a
conversa.
- Por favor, Diana - Joel rogou a ela. - Sei que é uma grande
guerreira, mas acredite em nós... não pode ficar aqui.
Aquelas máquinas voadoras vão nos capturar. Temos que
nos esconder.
- Esconder? - ela repetiu confusa. — Eu não me escondo em
uma batalha!
- Mas agora você terá que fazer isso - Emily falou e se
moveu até Pegasus. - Vamos, Pegs. Temos que ir antes que
vejam você.
Pegasus relinchou suavemente para Diana, mas seguiu Emily
se afastando do lago.
- Pegs? — Diana repetiu enquanto ia atrás deles. - Eu ouvi
você chamá-lo de Pegs?
Quando estavam a salvo sob a cobertura das árvores, Emily
se virou para ela.
- Ele não liga, e acho que é um nome fofo.
Diana não estava acreditando.
- Fofo? Tem alguma idéia de sobre quem está falando,
criança? Este é Pegasus, o grande garanhão do Olimpo! Fazê-
lo sofrer tamanha indignidade está além de qualquer
tolerância.
- Mas é claro que sei quem é o Pegasus! — Emily retrucou
enquanto acariciava o focinho preto do garanhão. - Mas ele
também é meu amigo.
- Pare, Emily - Joel alertou com medo. - Você não entende
com quem está falando. É melhor demonstrar mais respeito!
- Respeito? - ela repetiu. - E onde está o respeito dela por
mim? — Então se virou para Diana. - Se o Pegs não liga de
eu chamá-lo assim, por que você se importa?
Sua pequena insignificante e insolente! — Diana exclamou,
se aproximou e levantou a mão para acertar Emily. - Você
precisa aprender qual o seu lugar...
Pegasus rapidamente se colocou entre as duas. Depois olhou
para Diana e soltou uma série de sons estranhos. A expressão
no rosto dela se suavizou. A mulher alta olhou várias vezes
para Emily antes de abaixar a cabeça.
- Me desculpe, meu comportamento foi imperdoável. Pega-
sus acabou de me contar o que você fez por ele e como o
ajudou. Me perdoe, por favor. Eu testemunhei a derrota de
meu pai, o assassinato de meu irmão e a destruição de meu
lar. Não estou no meu melhor momento.
Emily franziu a testa. Diana conseguia entender Pegasus? Ela
olhou com inveja e uma boa dose de ciúme para a mulher e,
secretamente, desejou que também fosse uma Olímpica,
pois assim poderia se comunicar de verdade com Pegasus.
- Eu entendo - Emily finalmente respondeu. - Sinto muito
por tudo o que aconteceu com vocês.
- O Olimpo está mesmo destruído? — Joel perguntou,
aproximando-se timidamente. - Mas como? Vocês são
deuses! Quem poderia derrotá-los?
- Os Nirads - Diana respondeu tristemente. - E eles logo
destruirão o seu mundo também, a menos que façamos
alguma coisa.
- Destruir o nosso mundo? - Emily falou chocada. - Por quê?
O que eles querem?
- Não sabemos - Diana respondeu. - Nunca tínhamos visto
os Nirads antes. Não sabemos nada sobre eles ou de onde
vieram. Ides não fizeram nenhuma exigência e nem
pegaram nada de nossas ruínas. Tudo o que almejam é a
destruição. A menos que encontremos um meio de detê-los,
tudo estará perdido.
- Mas como poderemos detê-los? - Emily perguntou. - Pa-
rece que nada os fere, nem uma queda de vinte andares
parou um deles!
- Nós descobrimos uma coisa. No meio da batalha, logo
antes de Pegasus voar para este mundo, consegui ferir um
Nirad. Mas isso só aconteceu depois que ele tocou as rédeas
douradas de Pegasus. Ele foi envenenado por elas.
Acreditamos que ele morreu por tocar nas rédeas, e não por
causa da minha lança.
- Então você precisa das rédeas dele? — Emily perguntou,
tentando entender tudo o que acabara de ouvir.
Diana assentiu com a cabeça.
- Foi por isso que vim até aqui. Preciso delas para forjar
novas armas, que serão usadas contra os Nirads. Vi que as
tirou dele para fazer a pintura; será que pode me dar?
- Elas não estão aqui - Emily falou. - Um Olímpico chamado
Paelen roubou as rédeas do Pegasus um pouco antes de os
dois serem atingidos por um raio. Ele ficou com as rédeas, e
agora a UCP o pegou.
- Paelen? - o rosto de Diana ficou sombrio. - Aquele
ladrãozinho tolo! Mesmo ele não ficaria com as rédeas se
soubesse o que elas podem fazer pelo nosso povo. — Ela
olhou novamente para Emily. - O que é essa UCP que o
capturou? Onde posso achá-los?
- Não pode — Joel respondeu. - Eles são muito perigosos.
- Eu lutei contra os melhores exércitos da Grécia e dos
romanos. Não tenho medo dessas pessoas.
- Mas deveria - Emily advertiu. - Eles são muito perigosos.
Joel olhou para Diana.
- Quanto tempo faz desde a última vez que esteve aqui?
Diana parou e pensou na pergunta.
Muitas eras. Seu povo não tinha máquinas como aquelas
voando lá em cima. Vocês viajavam a cavalo e lutavam com
espadas.
Este não é mais o mesmo mundo que você conheceu - Joel
falou. - Nós mudamos.
- É verdade - Emily concordou. — Hoje em dia, as pessoas
nem acreditam em você.
- É isso mesmo — Joel continuou. — E temos novas armas
que podem machucá-los. Veja o Pegasus. Ele quebrou a asa
e, mesmo se curando mais rápido, precisou de tempo para
isso. Se ele foi ferido, você também pode ser.
- Não é o seu mundo ou aqueles veículos voadores
barulhentos que podem nos ferir - Diana falou parecendo
derrotada. - A morte do Fogo do Olimpo foi o que nos
enfraqueceu.
- O que é o Fogo do Olimpo? - Emily perguntou curiosa.
Diana olhou para Emily e suspirou pesadamente.
- O Fogo, que é a fonte de todo o nosso poder e força,
queima no Olimpo desde o início. Mas recentemente sua
força diminuiu e, então, ficamos enfraquecidos. Os Nirads
usaram isso para lançar um ataque contra nós. Se a Chama
estivesse com sua força máxima, eles teriam sido derrotados
facilmente, mas do jeito que estava, os Nirads conseguiram
chegar ao Templo do Fogo e o apagaram completamente.
Todos nós acreditávamos que iríamos morrer sem ele, mas
não foi o que aconteceu.
- Mas você perdeu seus poderes? - Joel arriscou.
Diana assentiu.
- Meu pai esperava usar as rédeas para derrotar os Nirads e
reacender o Fogo. Momentos antes de ser capturado, ele
usou o que restava de seus poderes para me mandar aqui
para pegar as rédeas de Pegasus e ajudá-lo em sua missão.
- E qual é essa missão? - Emily perguntou. - Ele não pode se
comunicar conosco.
Diana olhou para Pegasus.
- Por que o Pai enviou você aqui?
Joel e Emily ficaram em silêncio enquanto Pegasus começou
a relinchar suavemente, continuando por vários minutos.
- Nunca soube nada disso - Diana falou em um sussurro. -
Nenhum de nós sabia; apenas meu Pai, Vesta e Pegasus
sabiam.
- O quê? - Emily perguntou impaciente.
- Por favor, pare de forçar sua perna machucada e sente-se -
Diana falou, ajudando Emily a se ajeitar embaixo de uma
árvore. Joel, ainda atordoado, sentou-se ao lado dela.
- Pegasus está em uma missão preciosa — falou — e diz que
a busca está destinada a fracassar sem a ajuda de vocês. A
sobrevivência do Olimpo e do seu mundo dependem
totalmente de vocês.
De repente Emily não tinha mais certeza se queria ouvir
aquilo.
- Muito antes de eu nascer, no final da Grande Guerra entre
os Olímpicos e os Titãs, o Fogo surgiu no coração do
Olimpo. Vesta ficou encarregada de manter aquele novo
Fogo aceso e forte. O poder dele era o nosso poder. A vida
dele era a nossa vida. Um templo maravilhoso foi erguido
em volta do Fogo e, desde então, ele queimou
brilhantemente lá no Olimpo.
-Vesta? - Joel falou abruptamente. - A Deusa do Fogo? Ela
usava as Virgens Vestais para manter o fogo aceso em um
templo na Roma antiga!
Diana concordou com a cabeça.
- Esse era o Fogo do Olimpo simbólico e as virgens eram as
servas de Vesta. O Fogo verdadeiro sempre esteve no
Olimpo, mas, desde o começo, meu pai se preocupou com
o fato de que perderíamos nossos poderes se a Chama fosse
apagada um dia. Por isso ele enviou Vesta à Terra com o
coração do Fogo e mandou que ela o escondesse em uma
criança humana, uma menina. Essa Filha secreta de Vesta
carregaria o coração do Fogo com ela sem que viesse a saber
disso.
- Mas isso foi há muito tempo - Emily falou, fazendo uma
Careta. - Ela já deve ter morrido.
- Ela morreu mesmo - Diana continuou -, mas Vesta ga-
rantiu que, na ocasião da morte dela, o coração fosse passado
para outra garota que estivesse nascendo. O coração passaria
de geração em geração, por todas as águas da Terra.
- Então há por aí — Joel começava a entender o que ela
acabara de contar — outra Filha de Vesta carregando o
coração do Fogo do Olimpo?
- Isso é loucura - Emily falou. - Como o Fogo tem um
coração?
- Emily - Joel alertou.
- Não, Joel, isso já é demais! - ela o interrompeu. —
Primeiro o Pegasus é real e ele cai no terraço do meu prédio.
Agora Diana, também uma Olímpica, está aqui e diz que o
Fogo tem um coração e que ele está sendo passado de uma
garota para outra. Eu acredito em muita coisa, mas isso é
demais! Como pode aceitar tudo isso tão facilmente?
- Porque eu li os livros! - Joel atacou. - Não sou só um bri-
gão, sabia? Eu leio. A Ilíada e a Odisséia são os meus
favoritos, e eles contam algumas das histórias dos deuses!
- Mas são só histórias - Emily desafiou. - Isto aqui é a vida
real, e na vida real um fogo não pode ter coração!
- Eu também conheço esses livros, Emily — Diana falou. -
Meu pai os tinha em seu palácio antes dos Nirads atacarem.
Não se tratam de mentiras; eles apenas recontam alguns
acontecimentos, acredite em mim. O Fogo do Olimpo tem
um coração vivo e meu pai mandou Pegasus aqui para
descobrir a garota que o possui. Ele foi encarregado de levá-
la de volta ao Olimpo para reacender o fogo.
- Uau... - Emily disse calmamente, lutando para absorver
tudo que tinha ouvido. - Mas depois de tantas gerações,
como ele vai saber quem é a garota se nem mesmo ela tem
idéia de quem seja?
Diana sorriu.
- Pegasus pode ver o Fogo queimando dentro dela. Ele será
atraído por essa garota e não poderá resistir, pois ela é a
fonte da força dele.
Joel concordou com a cabeça.
- Então o Pegasus veio à Terra para buscar essa garota, mas se
machucou e acabou caindo no terraço do prédio de Emily.
- Exatamente - Diana respondeu. - Com sua asa quebrada,
ele não pode voar até ela.
- E onde ela está? - Emily perguntou. — Aqui nos Estados
Unidos, pelo menos?
Pegasus relinchou suavemente.
- Ele disse que a filha desta geração está neste país - Diana
traduziu - e que não está longe, mas há algo de errado com
ela, porque o Fogo dentro dela se enfraqueceu. É por isso
que ele ficou tão fraco no Olimpo e permitiu que os Nirads
nos atacassem e nos derrotassem.
- Talvez ela esteja doente? - Emily sugeriu.
- Talvez - Diana concordou -, mas seja ela quem for, essa
garota tem um grande destino a cumprir, mas que também é
trágico. Ela deverá fazer o maior sacrifício de todos.
- Como assim? - Joel perguntou.
- Quando a Filha de Vesta é levada de volta ao Olimpo, ela
deve se sacrificar voluntariamente ao Fogo. Ele a consumirá.
Com o oferecimento, o Olimpo renascerá e todos os nossos
poderes serão restaurados.
- Ela precisa morrer? — Emily perguntou em um sussurro.
Diana confirmou com a cabeça.
- Ela precisa estar disposta a se sacrificar para que o Fogo
renasça, não pode ser forçada.
- Mas o que nós podemos fazer? - Joel perguntou.
Diana abaixou a cabeça.
- Pegasus precisa que vocês falem com a garota quando a
acharmos, pois são deste mundo e podem explicar melhor as
coisas. Precisam fazer com que a criança entenda que seu
sacrifício não salvará apenas o Olimpo, mas o mundo de
vocês também.
- A Filha de Vesta é uma criança? — Emily perguntou. — E
querem que a gente diga a ela que precisa morrer para salvar
todo mundo?
- Nem a pau! - disse Joel sacudindo a cabeça. - Sei que vocês
Olímpicos têm o seu jeito especial de fazer as coisas, mas
isso é demais. Não pode querer que a gente peça para uma
criança se matar.
- Não sei qual é a idade dela e Pegasus também não - Diana
explicou. - Ele só sabe que ela está perto, mas pode ser uma
senhora próxima de sua morte natural ou um bebê que
acabou de nascer. Mas quem quer que seja, no fim, a decisão
tem que ser apenas dela. Nenhum de nós pode forçá-la a se
sacrificar.
- Então — Emily começou a falar devagar — vamos bater na
porta de alguém e pedir que a pessoa se suicide para que o
mundo seja salvo. - Ela se sentiu tonta com aquilo. - O que
faria se fosse você, Joel?
- Eu mandaria a gente ir passear e chamaria a polícia.
- Eu também - Emily concordou.
- Então tudo está perdido e nossos mundos perecerão! -
Diana falou secamente. — Os Nirads escravizaram os
sobreviventes e destruíram nosso lar. Vocês já os viram por
aqui; eles sabem da missão de Pegasus e mandarão outros
para matá-lo antes que consiga achar a Filha de Vesta. Estou
aqui para ajudar o máximo que puder.
- E nós também - Emily finalmente falou e olhou para Joel.
— Não temos escolha. Se há mais Nirads a caminho, temos
que fazer algo para detê-los.
- Espera aí — uma idéia surgiu na cabeça de Joel. - E se
conseguirmos as rédeas de volta? Podemos usá-las para fazer
armas e destruir os Nirads. Depois podemos levar a Filha de
Vesta ao Olimpo e Júpiter terá tempo de pensar em outra
maneira de acender o Fogo sem que ela precise se sacrificar.
Emily olhou para Diana.
- Acha que isso é possível?
- Não sei - ela respondeu. - Mas talvez possa dar certo.
- Estou disposto a tentar - disse Joel. - É melhor do que ter
que dizer a uma pobre garotinha que ela precisa se matar.
- Concordo - Emily disse animada.
Joel animou o grupo a seguir em frente.
- Vamos, não podemos ficar parados!

Capítulo 16

Paelen abriu os dedos. A chave que roubara do bolso do
assistente continuava na palma de sua mão. Ele deu um jeito
de colocá-la na algema e abrir. Com uma mão livre foi bem
fácil soltar a outra algema.
Ele sabia que seu corpo estava quase curado. A queimadura
nas costas tinha sumido e suas costelas não doíam mais. Os
médicos tinham engessado suas pernas, mas suspeitava que
fizeram isso para evitar que ele escapasse, pois, ao esticar os
pés e flexionar os músculos da panturrilha, sentia o gesso
rachando e nenhuma dor nos ossos das pernas. Então se
sentou, jogou as cobertas para o lado e começou a quebrar os
gessos. Logo suas pernas estavam livres e ele testou seus
músculos. Estavam um pouco enferrujados pela falta de uso,
mas, fora isso, os ossos estavam curados.
Com as pernas livres, Paelen desceu da cama em silêncio,
colocou o ouvido contra a porta de metal e ficou escutando.
Ainda tinha muita gente lá fora. Então se lembrou dos
assistentes fazendo planos para a noite. Eles iriam para casa.
Enquanto continuava prestando atenção, Paelen ouviu a
troca dos guardas lá fora. Dois homens estavam indo embora
e reportavam os eventos do dia para o homem que ficaria do
lado de fora da porta durante a noite. Paelen iria esperar um
pouco mais antes de agir. Seus melhores trabalhos sempre
eram feitos tarde da noite.

Então Paelen esperou. De alguma forma, sempre sentia
quando era a hora certa de agir, não precisando fazer
nenhum plano específico. Deitado, se lembrou de tudo o
que vira naquele lugar até o momento. Sabia que estavam no
subterrâneo, bem abaixo da superfície, que havia muitos
corredores, incontáveis portas e vários andares. Sabia
também que já tinha sido levado a três laboratórios
diferentes para testes e que todos ficavam dois andares
abaixo.
Cada vez que o tiravam do quarto, Paelen se preocupava em
memorizar exatamente aonde iam. Ele tinha passado por
duas portas com o símbolo de escadas em cima e, mais de
uma vez, viu pessoas entrando ou saindo de lá. Ali seria sua
rota de fuga após encontrar o laboratório que guardava as
rédeas de Pegasus e as sandálias de Mercúrio.
Agora Paelen se concentrava na grade de ventilação acima
de sua cama. O som de pessoas conectadas pelos túneis
diminuía devagar. Aos poucos aquele lugar encerrava suas
atividades.
Passado um bom tempo, Paelen sentiu o estranho
formigamento que dizia a ele que era hora de agir, então
caminhou em silêncio até a porta e não ouviu nada lá fora, a
não ser um fraco som de páginas sendo viradas e uma
respiração tranquila. O guarda estava lá fora, sozinho.
Olhando para o teclado que controlava a fechadura de som,
Paelen contou doze botões. Para abrir a porta os homens
sempre apertavam quatro. Mas quais seriam? Do ângulo da
cama ele não conseguia ver quais eram exatamente, e aquilo
o deixava com apenas duas opões: começar a apertar os
botões até ouvir o som da combinação que precisava, ou
simplesmente usar sua força para fazer a porta a se abrir.
Nenhuma das duas parecia atraente. Como apertar os botões
fazia barulho, qualquer tentativa seria ouvida pelo guarda,
mas a chance de o guarda escutá-lo forçando a porta
também era a mesma.
Finamente Paelen escolheu a primeira opção, mas com uma
pequena mudança. Mesmo com aquele formigamento em
seus sentidos dizendo para agir, ele se segurou e esperou...
esperou...
Então ouviu um movimento do lado de fora. O guarda dizia
algo sobre deixar seu posto para ir ao banheiro. Um
momento depois, outra voz deu autorização e o guarda saiu
imediatamente da mesa, deixando a porta de Paelen sem
ninguém vigiando.
Paelen olhou para os botões do teclado. Começando com o
número um, ele fechou os olhos e apertou, ouvindo o som
que fazia. Não era um dos que tinha ouvido antes.
Então apertou os doze botões, um por um, decorando o som
que faziam. Quando apertou o último e ouviu seu som
único, sorriu. Confiante, esticou a mão e apertou a sequência
correta de quatro botões para abrir a porta. Um clique baixo
se seguiu e Paelen girou a maçaneta, que se abriu sem
resistência.
Paelen não viu ninguém por ali, então disparou pelo cor-
redor em direção às escadas e desceu dois andares, até onde
os laboratórios estavam localizados. Permanecendo na
escada, Paelen deitou-se no chão. Todos os seus sentidos
estavam alerta para quaisquer sons. Havia duas pessoas no
corredor dos laboratórios. Ele as ouviu se aproximando,
passando pelas portas das escadas e depois se afastando na
direção oposta. Quando desapareceram, ele saiu
silenciosamente das escadas.
Havia uma série de portas no longo corredor. Paelen
reconheceu o primeiro laboratório para o qual fora levado e
estremeceu ao se lembrar do que tinham feito com ele
naquele lugar. Mais à frente naquele corredor largo e
branco, Paelen se aproximou de uma grande caixa de metal
encostada na parede. Antes mesmo de chegar perto ele
podia sentir o cheiro da doce fragrância que fazia sua boca se
encher de água e seu estômago roncar. Era quase igual à
ambrosia, mas não exatamente.
Paelen pedira várias vezes para levarem ambrosia para ele,
mas, em vez disso, lhe deram uma comida que ele não
conseguia comer. A única coisa que dava alguma nutrição a
ele era algo que os médicos chamavam de sobremesa, mas
nunca era o suficiente.
Um tanto quanto esfomeado, Paelen se aproximou do vidro
da máquina de venda automática e viu vários itens coloridos
atrás dele. Todos tinham o mesmo cheiro doce e delicioso.
Sua necessidade por comida logo superou a vontade de pegar
as rédeas e as sandálias. Ao lado da máquina, encontrou uma
pequena fechadura onde cabia uma pequena chave. Paelen
usou toda a sua força para arrebentar a fechadura, abriu a
porta de vidro da máquina e pegou o primeiro item,
arrancando o papel e devorando avidamente o doce macio.
Ele quase chorou de alegria quando o chocolate desceu por
sua garganta e só então percebeu quanto estava com fome.
Enquanto abria outra barra de chocolate e a colocava inteira
na boca, deu uma rápida checada no corredor. Ele estava
exposto e vulnerável, mas precisava comer. Segurando a
barra de seu avental de paciente para cima, Paelen fez uma
espécie de sacola para encher com o máximo de doces e
chocolates que conseguisse, mas teria o cuidado de deixar o
suficiente na máquina para que quem a usasse em seguida
não notasse que ele estivera ali.
Quando acabou de pegar o máximo que podia, Paelen fe-
chou a porta de vidro da máquina e correu de volta para as
escadas, se enfiando embaixo de um lance e se escondendo.
Não era o melhor esconderijo do mundo, mas era melhor do
que nada.
Paelen começou a comer e, à medida que abria as embala-
gens, descobria novos sabores deliciosos. Até aquele
momento, não havia gostado de nada naquele mundo, mas,
enquanto enchia a cara de chocolate e doces, percebeu que
havia pelo menos uma coisa muito boa ali: o açúcar.
Quando acabou de comer o último doce, Paelen se recostou
e suspirou de contentamento. Era a primeira vez que ficava
satisfeito desde que chegara e já se sentia mais forte, com o
açúcar trabalhando em seu corpo e curando suas últimas
feridas.
Logo Paelen estava pronto para ir em frente. Saindo de seu
esconderijo, ele se sentiu revigorado, vivo e alerta. Todos os
seus sentidos estavam funcionando bem. Ele voltou a ser o
Paelen de antes.
Paelen podia ouvir o som de outras pessoas andando nos
andares acima, mas estava sozinho ali. Quando se moveu
pelo corredor, percebeu um cheiro que não sentia desde que
deixara o Olimpo: era o cheiro terrível de sujeira e podridão,
o cheiro dos... Nirads!
Aquele odor foi ficando pior conforme caminhava. O fedor
vinha de trás de uma porta trancada. Ele encostou o ouvido
na porta, mas não ouviu nada. O cheiro indicava que havia
um Nirad ali, mas algo estava errado; não era o mesmo
aroma de antes. Este tinha o cheiro de um morto.
Paelen usou o mesmo código de sua porta, mas nada
aconteceu. Ele empurrou a porta com força, pois se havia
um Nirad morto ali, precisava saber como tinha morrido e se
havia um jeito de derrotar aquelas terríveis criaturas. Talvez
ele pudesse salvar o Olimpo com aquela informação.
Com o açúcar em seu corpo, Paelen se sentia tão forte quan-
to era em casa. Nenhuma porta humana poderia segurar o
seu poder Olímpico. Com um forte empurrão, a fechadura e
as dobradiças cederam e a porta se abriu de uma vez.
Paelen se viu em outro laboratório, mas bem diferente dos
em que estivera antes. Aquele cheirava a morte e
deterioração. Havia máquinas parecidas ali, além de algo
terrível. No meio da sala Paelen viu uma grande mesa de
metal com uma grande luz redonda em cima iluminando o
que havia sobre ela. A mesa tinha abas de metal que eram
dobradas para cima para que o sangue e os fluidos não
espirrassem no chão. Deitado sobre ela havia um Nirad
morto.
Paelen viu os quatro braços imóveis de ambos os lados da
criatura. O fedor era tão terrível que ele precisou tapar o
nariz para que não colocasse para fora a preciosa comida que
tinha acabado de comer, mas a visão do Nirad morto quase
já era suficiente para fazê-lo passar mal.
Os médicos daquele lugar claramente tinham aberto a
criatura para ver o que havia dentro. Paelen não queria
olhar. Em vez disso, seus olhos foram atraídos para uma
grande ferida de queimadura na pele dobrada do peito aberto
do monstro. Uma observação mais próxima revelou várias
outras escoriações no resto do corpo da criatura. Havia uma
grande ferida no rosto inchado do Nirad. Quando se
aproximou, Paelen imediatamente reconheceu o formato da
escoriação. Tinha sido causada pelos cascos de Pegasus.
De repente, todas as peças se encaixaram. No Olimpo, foram
Pegasus e Diana que mataram o primeiro Nirad. Aquele ali
também tinha morrido por causa de um encontro com o
garanhão. Pegasus era o único Olímpico que podia matá-los
e eles sabiam disso. Os Nirads precisavam matar Pegasus
antes de completarem a destruição do Olimpo e de todos os
outros mundos; por isso, seguiram-no até ali para acabar
com ele. Paelen precisava alertar o garanhão. Pegasus
precisava ser protegido, pois era a única arma dos Olímpicos
contra os ferozes Nirads.
— Ele era seu amigo?
Paelen deu um pulo e, se virando rapidamente, viu o agente
J parado ali, com vários guardas ao lado dele.
— Você precisa me soltar - Paelen disse desesperadamente. -
Pegasus está correndo muito perigo. Os Nirads estão aqui
para matá-lo!
— Pegasus? - o agente J perguntou.
— Sim, Pegasus — Paelen insistiu. - Precisamos ajudá-lo! Ele
é o único que pode derrotar os Nirads. Preciso ir até ele.
— Você não vai a lugar nenhum. Não achou que poderia
escapar da gente tão facilmente, né? Estamos seguindo você
pelas câmeras dos corredores desde o momento em que saiu
do quarto.
— Câmeras? - Paelen repetiu. — Não sei o que é isso.
— Sim, câmeras — o agente J sacudiu as mãos teatralmente
no ar. — É como se fossem grandes olhos de serpente que
nos mostram o que você está fazendo. Você nunca esteve
sozinho. Te observamos o tempo todo e devo dizer que foi
um belo truque aquele na máquina de doces. Fiquei surpreso
por você não passar mal depois de comer todos aqueles
chocolates.
- Eu lhe disse que preciso de ambrosia - Paelen insistiu - e
você não providenciou para mim. Aquela comida foi a coisa
mais próxima de ambrosia que encontrei. Agora, por favor,
preciso ajudar o Pegasus.
Paelen começou a andar, mas vários seguranças bloquearam
seu caminho.
- Não quero lutar com vocês, mas farei isso se precisar.
Preciso ir.
- Já disse que você não vai a lugar nenhum - o agente J
repetiu. Depois olhou para seus homens. - Peguem ele.
Paelen atacou quando os guardas o cercaram. Não foi difícil
lutar com eles; Paelen os lançava pelo laboratório como se
fossem bonecos de pano. Quando todos estavam caídos, ele
empurrou o agente J para o lado e saiu para o corredor,
correndo na direção das escadas.
- Ele está fugindo! Ele está fugindo! Fechem essa instalação!
Repetindo, o indivíduo está fugindo! Fechem tudo! - gritou
o agente.
Alarmes muito altos começaram a tocar no prédio. Paelen
olhou para trás e viu homens correndo atrás dele. Então se
concentrou em chegar às escadas, mas assim que as
alcançou, ouviu o som de muitos pés descendo em sua
direção.
- Pare! — eles ordenaram. - Pare ou vamos atirar!
Paelen sentiu picadas afiadas de abelhas. Ao olhar para baixo,
viu vários dardos em seu peito. Ele os arrancou e os jogou
nos homens que tinham atirado nele e, quando estes foram
atingidos, caíram inconscientes no chão. Paelen percebeu
que os dardos eram para fazê-lo dormir.
Ele continuou a subir, usando os dardos restantes contra os
homens que o atacavam, mas, para cada um que caía, outro
aparecia em substituição. Em pouco tempo as escadas
estavam cheias de homens subindo atrás dele. - Pare! - eles
gritaram.
Mas Paelen não podia parar. Ele tinha que encontrar Pegasus
e o alertar. Continuando sempre em frente, começou a lutar
com os guardas, mas, apesar de ser mais forte que todos, eles
eram muitos, e logo conseguiram dominá-lo.
Ele recebeu um golpe brutal na parte de trás da cabeça.
Paelen se virou e viu um homem preparando a arma para
atacar novamente, mas não era necessário. Quando o mundo
de Paelen começou a ficar escuro, mais homens pularam
sobre ele e o derrubaram.
Capítulo 17

Eles pareceram levar metade da noite para conseguir chegar
ao local onde Emily brincava com sua família no Central
Park. Ela estava novamente montada em Pegasus e tentava
mostrar o caminho ao grupo, mas sem uma lanterna ou as
luzes da cidade para ajudar, o caminho era escuro e
traiçoeiro. O som constante dos helicópteros era uma
lembrança do perigo em que estavam metidos.
- Tem certeza de que sabe aonde estamos indo? - Joel
perguntou.
- Não muito - Emily admitiu. - Faz anos que não entro tão
fundo no parque, mas não deve faltar muito.
Enquanto continuavam caminhando entre as árvores, Pega-
sus parou repentinamente. Suas orelhas negras se levantaram
e ele raspou o chão com a pata. Diana também parou,
levantou a mão como um aviso e ficou ouvindo.
-Tem alguém se movendo à frente — disse baixinho
enquanto levantava a lança do irmão e se preparava para
lutar.
- Em? — chamou uma voz baixa. - É você?
- Pai! - Ela respondeu. - Estamos aqui, pai! - Enfraquecida e
aliviada, esticou a mão e deu um tapinha no pescoço de
Pegasus. - Está tudo bem, Pegs. É o meu pai.
Esquecendo de sua perna machucada, Emily desceu das
costas do garanhão, mas quando seu pé tocou no chão, a
perna fraquejou e ela caiu. Seu pai estava ao seu lado no
momento seguinte e a tomou em seus braços.
- Oh, Em, fiquei tão preocupado com você!
Emily abraçou o pai e imediatamente se sentiu melhor.
- Sinto muito por não ter contado o que estava acontecendo,
pai.
- E o que está acontecendo? - ele perguntou. - A cidade está
uma bagunça! - Então viu a perna enfaixada da filha. - O que
aconteceu com você?
- Lembra da noite da grande tempestade? Não muito depois
do topo do Empire State explodir, Pegasus foi atingido por
um raio e caiu em nosso terraço. Foi assim que fiquei com o
olho roxo. Fui ajudá-lo e a asa dele bateu em mim sem
querer.
- Pegasus? - o pai repetiu. - O cavalo alado de que ouvi falar
é o Pegasus da mitologia grega?
- Romana - Joel corrigiu saindo das sombras. - E não são
mitos, eles são bem reais. Sou o Joel, senhor, amigo de
Emily da escola.
O pai de Emily apertou a mão de Joel, que apontou para
Diana.
- Policial Jacobs, gostaria de lhe apresentar outro Olímpico.
Esta é Diana.
- Diana, a grande caçadora? — O pai de Emily perguntou,
examinando aquela mulher tão alta.
Diana assentiu formalmente.
- Policial Jacobs, é uma honra conhecer o pai de Emily.
- Me chame de Steve - disse um pouco sem jeito e então
olhou de novo para Emily. - Não estou entendendo nada. O
que está acontecendo? Como e por que os Olímpicos estão
em Nova York?
Emily e Joel tentaram explicar o melhor que puderam, até
chegarem ao ponto onde estavam.
- É difícil acreditar em tudo isso. - Steve olhou para Pegasus
e sacudiu a cabeça. - Ouvi dizer que você estava cavalgando
em um garanhão branco. O que aconteceu?
- Ele era branco - Emily falou. - Branco demais. À medida
que foi melhorando, Pegasus começou a brilhar, então
tivemos que tingir ele de preto para escondê-lo da UCP.
Emily deu um beijinho no focinho do garanhão.
- Pegs, este é o meu pai. E pai, conheça o Pegasus.
Steve fez um carinho de leve no focinho do animal e então
levantou a ponta do cobertor para ver as penas brancas das
asas que descansavam ao lado do corpo escuro.
- Estou te vendo, mas não acredito que você está aqui. —
Ele deu um tapinha carinhoso no pescoço de Pegasus. - E
mesmo encostando em você a situação não muda.
- Ele é real, pai, mas quebrou a asa de novo e agora aquelas
criaturas terríveis estão atrás dele.
- Os Nirads - Diana corrigiu.
- Eu... ainda não entendi direito. - Steve sacudiu a cabeça
novamente. - Como tudo isso pode ser real? E o que
significa?
- Quer dizer que a guerra no meu mundo chegou ao seu —
Diana falou. — A menos que consigamos as rédeas douradas
de volta, os nossos mundos deixarão de existir.
Emily explicou sobre as rédeas douradas ao pai e como elas
ajudaram a matar Nirads, sobre a história do Fogo do Olimpo
e como Pegasus precisava encontrar a Filha de Vesta para
reacendê--lo. Steve passou os dedos pelos cabelos e falou um
palavrão.
- Tive as rédeas douradas em minhas mãos alguns dias atrás.
Bem que podia ter ficado com elas! - Então olhou para
Diana. - Por que não fazem mais armas de ouro?
- Minerva fez as rédeas de Pegasus - ela explicou -, mas não
sabemos como as criou ou que outros metais usou. Ela foi
uma das primeiras a ser capturada pelos Nirads. Vulcano
tentou forjar ouro olímpico. — Ela mostrou a ponta de sua
lança. - Ela pode ferir os Nirads, mas apenas o ouro especial
das rédeas consegue matá-los. Precisamos recuperá-las se
quisermos derrotar aqueles monstros!
- Não vai ser fácil. Conheci o garoto que a roubou de Pega-
sus e, na mesma noite que ele chegou, a UCP foi informada.
Eles o levaram com todas as coisas que possuía e não tenho
idéia de onde o estão mantendo. As instalações da agência
são secretas.
Pegasus relinchou atrás de Diana.
- Ele está dizendo que nossa preocupação principal é com a
Filha de Vesta - Diana traduziu. - Temos que levá-la de volta
ao Olimpo.
- Mas precisamos esperar até que a asa dele fique boa - Emily
argumentou. - Isso quer dizer que devemos nos esconder
em um lugar seguro até lá.
- Bom, não podemos ficar aqui - Steve falou. - Vocês viram
os helicópteros, de manhã? O parque estará lotado de
agentes da UCP e soldados! Temos que continuar em
movimento e nos manter um passo à frente deles.
- E como escondemos um cavalo desses no meio de Nova
York? - Joel falou. — Sem querer ofender, Pegasus, mas
você entendeu o que quis dizer.
O garanhão ficou em silêncio, descansando a cabeça no
ombro de Emily. Ela, então, teve uma idéia.
- Já sei! Vamos escondê-lo bem à vista! Pai, lembra que
tentaram acabar com os passeios de carruagem por causa de
uma campanha para melhorar o tratamento dos cavalos?
- Lembro - falou. Então olhou para Diana e explicou. -
Vários grupos de defesa dos animais não estão felizes com o
tratamento que os cavalos recebem na cidade, e concordo
com eles, é algo terrível. Finalmente o número de
carruagens está diminuindo.
- Exatamente - Emily falou animada. - Por isso devem ter
carruagens sobrando nos estábulos...
- Entendi! - Joel falou. - Quer roubar uma e prender Pegasus
a ela, mantendo suas asas escondidas. Depois é só sair
tranquilamente daqui e procurar a Filha de Vesta!
- Ótima idéia! - Steve falou. - Vamos pôr em prática!

Sair do Central Park com Pegasus se mostrou mais difícil do
que esperavam. Já tinha passado da meia-noite, mas ainda
havia muito tráfego nas ruas. O que mais os preocupou foi o
grande número de carros de polícia que corriam com as
sirenes desligadas mas as luzes acesas, seguidos por inúmeros
veículos do exército, que também trafegavam pela cidade. O
grupo esperou até duas da manhã, aproximadamente, antes
de agir e saíram do parque na Rua 104. A cocheira mais
próxima ficava na Rua 50.
- Vamos ter que andar cinquenta quarteirões com o Pegasus?
— Joel reclamou.
- A menos que a asa dele já esteja curada, terá que ficar no
chão igual a todos nós - Steve falou. - Vamos até a avenida
que estiver mais tranquila e seguiremos por ela até o centro.
A noite foi passando e Emily sentiu a perna começar a in-
char, mas não falou nada para ninguém, tentou esquecer a
sensação de náusea e se concentrou em chegar aos
estábulos. Acima deles os helicópteros continuavam as
buscas, por isso o grupo se mantinha próximo da proteção
dos prédios.
- Eles não deveriam procurar os Nirads primeiro? - Joel
perguntou.
- Achei que sim - Steve respondeu. - Tenho certeza de que
pensam que Pegasus ainda está no parque.
- Espero que os dois estejam certos - Diana falou, olhando
para cima. - Não gosto nem um pouco dessas máquinas
voadoras.
De repente, a cidade ao redor deles explodiu em luz quando
o blecaute finalmente terminou. O ar logo foi preenchido
com o terrível som de alarmes disparando, no momento em
que os incontáveis sistemas de segurança voltaram a
funcionar. As luzes das ruas começaram a voltar e a Décima
Avenida se iluminou como um parque de diversões.
- A luz não podia ter esperado mais alguns minutos antes de
voltar? - Joel reclamou. - Só mais uns minutinhos, droga! Ou
seria pedir demais?
- Tudo bem - Steve disse tranqüilizador. - Não esperávamos
por isso, mas só faltam alguns poucos quarteirões. Vamos
acelerar o passo.
Eles não tinham andado mais do que um quarteirão quando
ouviram sirenes se aproximando; então se abaixaram em
frente a uma grande porta bem na hora em que vários carros
passaram.
- Eles nem diminuíram para olhar pra nós - Emily
comentou.
Mais carros de polícia passaram correndo por eles.
- Alguma coisa grande está acontecendo - Joel falou. - E
tenho uma sensação ruim a respeito disso.
- Há Nirads por aqui — Diana alertou enquanto farejava o ar.
- Posso sentir o cheiro deles.
Embaixo de si, Emily podia sentir Pegasus tremendo.
- O Pegs também está sentindo.
- Eu não. - Joel acrescentou. — Onde estão?
Diana aspirou o ar novamente e apontou em direção à Quin-
ta Avenida.
- Estão pra lá.
- É a entrada do parque! - Emily exclamou. - Os Nirads
chegaram ao Central Park? - Então olhou para o cavalo
alado. - Pegs, como eles estão rastreando você?
- Eles provaram o sangue dele - Diana respondeu - e estão
usando isso para segui-lo. Não temos como fazê-los perder a
nossa trilha. A única coisa a nosso favor é que eles não
conseguem correr muito rápido.
- Se os Nirads estão há apenas alguns quarteirões daqui, nem
precisam correr pra pegar a gente - Joel acrescentou.
- Vamos - Steve falou. - Vamos pegar a carruagem e sair
correndo desta cidade!

Quando chegaram à Rua 50, o pai de Emily levou o grupo
até um portão cinza de correr. Sobre ele havia uma placa
com a inscrição: "Cocheira do O'Brian".
- É aqui? — Joel perguntou. — Mas que lugar caído!
- Como vamos entrar? - Emily perguntou.
- Vamos arrombar - o pai respondeu.
Emily observou o pai em seu uniforme de policial e
percebeu quanto aquilo significava para ele, por causa de seu
trabalho.
- Não vai ser fácil. - Ele examinou o cadeado. - Não posso
usar minha arma, faria muito barulho.
- Tem outra entrada por aqui - Joel sugeriu, parado em
frente a uma porta de tamanho normal, que ficava ao lado
do portão grande.
- Sim, mas não vamos conseguir sair com a carruagem por
aí. Precisamos abrir o portão grande.
- Deixa eu tentar - disse Diana esticando a mão e arrancando
facilmente o cadeado do portão. Todos olharam surpresos
para ela.
- Posso ter perdido meus poderes, mas não minha força.
Steve levantou o portão, abrindo-o.
- Isso veio bem a calhar!
Emily se abaixou quando Pegasus passou por baixo do por-
tão. Depois que todos entraram, Steve o fechou novamente.
Enquanto olhavam em volta, o cheiro de cavalos e da palha
suja entrou em suas narinas. À frente havia várias carruagens
em uma longa fileira. Acima deles, em outros andares, era
possível ouvir o som de cavalos choramingando.
- Eles sabem que estamos aqui — disse Diana prestando
atenção no chamado dos cavalos. — Eles estão sofrendo.
- E nós também sofreremos se não pegarmos a carruagem e
sairmos logo daqui — Joel alertou.
- Vocês escolhem a carruagens, preciso ir até os cavalos. -
Diana começou a subir uma rampa que levava aos outros
andares.
- Diana, espere! Não temos tempo pra isso! - Joel falou.
- Sempre há tempo para os animais - Diana respondeu
enquanto desaparecia pela rampa.
Embaixo de si, Emily podia sentir Pegasus, reagindo ao
chamado dos cavalos. Ela olhou para os lados e viu as
paredes imundas e descascando.
- Este lugar é nojento, pai.
- Eu sei, querida. Adoraria que todos os estábulos da cidade
fossem fechados, mas até lá, precisamos ir andando.
Emily queria ajudar o pai e Joel a examinar tudo, mas estava
se sentindo muito mal e agora sabia que tinha algo muito
errado com sua perna. Sentindo a dor da garota, Pegasus se
virou para olhar. Emily pôde ver a pergunta nos olhos dele.
- Não estou me sentindo muito bem, Pegs - ela admitiu
baixinho. - Ainda não posso contar a eles. Primeiro temos
que sair da cidade e encontrar a Filha de Vesta.
Ao olhar para a bela face do animal, Emily sentiu uma ponta
de inveja surgir. Em algum lugar lá fora havia outra garota o
chamando e essa estranha era a dona do coração dele, e não
Emily. Apesar de todo o perigo que estavam correndo, ela se
viu invejando a garota desconhecida e o papel que ela teria
na vida de Pegasus.
- Achamos algo! — Joel avisou lá dos fundos. - Traga o
Pegasus aqui, Emily!
De repente surgiram gritos e barulhos lá em cima. Emily mal
teve tempo de se segurar na crina de Pegasus antes de o
garanhão disparar até a rampa e subir por ela. Ele alcançou o
primeiro andar e já começava a correr em direção à Diana e
ao segundo andar quando um homem inconsciente caiu lá
de cima.
- Diana! — Emily gritou quando um segundo homem foi
jogado e caiu pela rampa.
- Estou aqui.
Pegasus pulou por cima do segundo homem e chegou ao
andar seguinte, correndo pelo corredor estreito entre os
estábulos c parando a uma curta distância de Diana. Ela
estava diante da porta de uma cocheira. Sua cabeça estava
abaixada e Emily pôde ver lágrimas brilhando em suas
bochechas.
- O que foi? - perguntou, olhando para dentro e vendo uma
égua castanha deitada imóvel.
- Está morta - Diana falou baixo. — Aqueles homens a
fizeram trabalhar até morrer e não estavam nem aí, pois
ouvi os dois a amaldiçoando. Ela viveu uma vida miserável
neste lugar terrível e eles reclamavam sobre quanto teriam
que gastar para substituí-la.
Quando o pai de Emily chegou, Diana o pegou pelo cola-
rinho e o levantou no ar.
- No que vocês transformaram este mundo para tratarem
seus animais desse jeito?
- Diana, ponha ele no chão, por favor! - Emily gritou. - Ele
não fez nada!
-Talvez não, mas vive em um mundo que permite esse tipo
de coisa. - Diana o abaixou até o chão. - Isso é imperdoável.
Joel e Steve olharam para o cavalo morto.
- Sei que é terrível — Steve falou - e tenho vergonha do que
nos tornamos e de como tratamos nossos animais, mas
alguns de nós estão tentando mudar as coisas, fazê-las
ficarem melhor.
- Então estão falhando em seus esforços! — Diana atacou e
apontou para o cavalo morto. - Fiquei longe tempo demais.
Quando tudo isso acabar e meu mundo for restaurado,
retornarei e não permitirei que isso se repita. Lugares como
este conhecerão minha fúria! - Então olhou para Joel. - Você
disse que me conhece dos livros? Nesse caso deve saber
como me sinto em relação aos animais. Não vou tolerar esse
tipo de abuso. - Ela foi até outra cocheira e começou a abrir
a porta. — Esses cavalos têm de ser libertados; isso não é
vida para eles.
— Concordo completamente com você — Steve falou,
caminhando até Diana e colocando sua mão sobre a dela -,
mas não temos tempo para ajudar todos eles, Diana. Ouça,
não vai demorar para aqueles dois caras acordarem ou
alguém perceber que estamos aqui. Talvez até já tenhamos
acionado algum alarme. Quem você acha que vai se
interessar em saber sobre a invasão de um estábulo? Um
grande estábulo, Diana? A UCP, é claro. E em quem eles
pensarão? - Sem esperar pela resposta, ele apontou para
Pegasus. - Vão pensar nele. Precisamos sair daqui o mais
rápido possível.
Pegasus bateu a pata e começou a relinchar. Diana parou.
Depois, finalmente se acalmou, caminhando até o garanhão
e acariciando seu pescoço.
— É claro, meu caro amigo, você tem razão.
Então olhou para os outros.
— Precisamos pegar a carruagem e partir. Mais tarde voltarei
para libertar esses cavalos.
Emily olhou para os tristes animais, esperando ansiosos que
Diana abrisse a porta de suas cocheiras. O coração dela ficou
com eles. Quando a guerra acabasse, ela prometeu que se
juntaria a Diana e libertaria todos.
A caminho da rampa, Emily viu que um dos homens
desmaiados começava a se mexer. Não demoraria até que ele
acordasse.
Quando chegaram até o térreo novamente, Joel os levou até
os fundos.
- Encontramos isso no depósito deles - Joel explicou en-
quanto apontava para uma carruagem branca um pouco que-
brada. A capota estava rasgada, mas as rodas e os eixos
pareciam firmes. - Eles não darão por falta dela tão rápido
quanto se pegássemos uma das novas.
- Também achei isso aqui - Steve segurou dois macacões.
Não posso sair vestido assim - falou, apontando para o
uniforme da polícia. — E Diana? Você com certeza não
pode usar esses trapos.
Ela concordou e, sem dizer nada, pegou o macacão e foi se
trocar em outra área.

Capítulo 18

Emily descansava ao lado de Pegasus enquanto seu pai,
Diana e Joel faziam o possível para prender o garanhão à
carruagem. Enquanto se esforçavam e discutiam qual seria o
melhor jeito de colocar os arreios nele, Emily percebeu
quanto Pegasus era diferente dos cavalos normais. Sua
estrutura era bem maior e nenhum dos arreios chegava
perto de servir. O grande par de asas também não ajudava.
No fim, tiveram que juntar várias peças de arreios diferentes
para prendê-lo mais ou menos na carruagem. Pegasus não
permitiu que as tiras de couro ficassem por cima de suas
asas, o que faria com que ficassem presas ao seu corpo. Ele
insistiu para que permanecessem livres. Para conseguir isso,
tiveram que tentar prender tudo por baixo das enormes asas
e torceram para que o cobertor as ocultasse o suficiente para
que não parecessem suspeitas à luz do dia.
- Me desculpe por fazer isso com você, velho amigo - Diana
falou suavemente. - Você merece muito mais.
Emily olhou para Pegasus tingido de marrom e preto e preso
à carruagem branca. Ele estava coberto de arreios que não
serviam bem e tinha rédeas pesadas que repousavam
desconfortavelmente sobre sua cabeça e face. Não se parecia
em nada com o majestoso garanhão que caíra em seu terraço
havia algumas noites. Emily se sentiu horrível por ter que
fazer aquilo com ele.
- Me desculpe, Pegs — murmurou se encostando nele. - Só
precisamos sair da cidade e então podemos tirar tudo isso de
você.
Pegasus relinchou baixo e lambeu o rosto da garota. A língua
dele se deteve um momento em sua bochecha e então ele
relinchou para Diana.
- Febre? - Diana olhou para Emily, levantou a mão, sentiu a
testa dela e fez uma careta. - Você está com febre.
- Caramba! - Steve também pôs a mão na testa da filha. -
Você está fervendo, Em!
Emily sabia que Pegasus fizera aquilo por ela, mas tinha sido
no momento menos apropriado.
- Não me sinto muito bem - ela finalmente admitiu. — Acho
que é a minha perna.
- Deixa eu ver — seu pai insistiu.
Ela foi ajudada a subir na carruagem e seu pai começou a
soltar as bandagens de sua perna ferida.
- Meu Deus! — ele exclamou quando viu a terrível infecção
causada pelas garras do Nirad. - Por que não disse nada?
- Não podia. Temos que nos preocupar em manter o Pegasus
a salvo da UCP e dos Nirads. E ele precisa encontrar a Filha
de Vesta e levá-la de volta ao Olimpo para reacender o Fogo.
- A Emily tem razão — Diana falou. - Reacender o Fogo do
Olimpo é a única chance para nossos mundos.
- Mas temos que levá-la para um hospital — Steve insistiu.
Olhe só para isso. Ela não está bem!
Pegasus começou a relinchar e a bater a pata no chão.
- Ele discorda de você - Diana traduziu. - Pegasus sabe muito
bem que ela está doente, mas os Nirads também provaram
seu sangue e podem rastreá-la. Se levá-la a algum lugar para
que seja cuidada, garanto que os Nirads irão atrás. Ela precisa
ficar conosco para que possamos protegê-la.
Joel levantou a cesta de piquenique.
—Temos mais antisséptico e bandagens para curativo -
assegurou a Steve. - Podemos limpar o ferimento e fazer um
curativo novo. Então, quando acharmos a Filha de Vesta e
Pegasus a levar para o Olimpo, Emily poderá ir para o
hospital.
- É o único jeito, pai - Emily acrescentou fracamente. -
Manter o Pegasus a salvo é muito mais importante do que
minha perna. Se ele falhar em sua missão os Nirads
destruirão nosso mundo, e então não importará muito se eu
estiver doente ou não.
Steve suspirou. Depois, relutantemente, tirou-a da carrua-
gem e a carregou até uma pia suja, para que pudesse limpar o
ferimento dela. Feito isso, ele passou o que sobrara da
pomada antisséptica e fez um novo curativo com as
bandagens limpas.
- Isso não vai durar muito - falou quando terminou.
- E nem precisa - Emily respondeu. - Apenas o suficiente
para tirarmos Pegasus da cidade...
De repente Pegasus começou a guinchar.
- Nirads! - Diana exclamou sentindo o cheiro no ar. - Eles
estão chegando!
- De que lado? - Steve perguntou.
- De lá! - Diana pegou sua grande lança e apontou para o
portão cinza de metal.
- É a única saída! Estamos encurralados! - Joel falou.
Lá de cima vieram sons dos cavalos reagindo à aproximação
dos Nirads. Eles também relinchavam alto em suas cocheiras
e batiam fortemente contra as portas.
- Tive uma idéia! - Steve gritou. - Joel, Diana, venham
comigo. Em, fique aqui com o Pegasus. Se eles arrombarem
a porta, corram. Vocês precisam dar um jeito de fugir.
- O que vocês vão fazer? - Emily perguntou.
- Vamos soltar os cavalos.
Capítulo 19

Pegasus raspava o chão e bufava nervoso enquanto os uivos
doentios dos Nirads se aproximavam do grande portão cinza
de metal.
- O que está acontecendo aqui?
Emily viu os dois homens que Diana tinha atacado descerem
meio zonzos da rampa. Seus rostos estavam machucados e
com sangue e os dois mancavam do encontro que tiveram
com a Olímpica raivosa.
- Você atacou a gente! - um deles gritou. - Quem é você? -
Ele então reparou em Pegasus preso na velha carruagem
branca. - De onde veio esse cavalo? Não é um dos nossos.
- Mas a carruagem é! - o outro homem falou com irritação.
- Me ouçam, por favor. - Emily apontou para o portão de
metal. - Tem criaturas de quatro braços lá fora e elas estão
atrás de nós. Elas matarão vocês se os virem, mas não sabem
que estão aqui. Se escondam até a gente ir embora!
Os homens ficaram pálidos ao ouvir os terríveis sons que
vinham do lado de fora do estábulo.
- O quê de quatro braços? - um deles perguntou fracamente.
- Criaturas, monstros, demônios - Emily respondeu. – Pode
chamá-los como quiser. Vamos soltar os cavalos para distraí-
los e assim conseguir escapar. Ouçam o que estou dizendo,
por favor, vocês precisam se esconder.
Lá de cima vieram mais sons de cavalos relinchando
nervosamente e chutando a porta de suas cocheiras. Eles
estavam ficando fora de controle.
- Vocês não vão soltar os meus cavalos! — um dos homens
gritou. Os dois se viraram e começaram a subir a rampa de
novo. - Fique onde está! Vamos chamar a polícia!
Todos ouviram o som de batidas no chão vindas lá de cima e
depois de cascos correndo pela rampa. Os dois homens
pularam para o lado quando o primeiro cavalo passou,
liderando seus companheiros, que correram direto para a
carruagem com pânico no olhar.
Emily tinha certeza que eles bateriam na carruagem e a
virariam, mas Pegasus abriu suas asas bem na hora e
empinou, ficando em pé sobre as patas traseiras. Ainda na
carruagem, Emily foi jogada para o alto. O garanhão
relinchou alto e os cavalos aterrorizados pararam na hora.
- Mas que diabos está acontecendo aqui? - um dos homens
exclamou enquanto seus olhos se arregalavam com a visão
das enormes asas de Pegasus. Ele se virou novamente para
Emily.
- Quem é você?
- O que é você? - o outro perguntou.
Os Nirads começaram a bater no portão cinza. Seus rugidos
e rosnados prometiam uma morte terrível a todos, caso
conseguissem entrar.
- Pai! - Emily gritou quando a carruagem desceu novamente
ao chão. - Eles estão aqui!
- Estamos indo! - Joel falou lá de cima enquanto mais cavalos
desciam.
Emily podia ver as narinas abertas e o terror nos olhos dos
animais que se reuniam em volta de Pegasus. O cavalo alado
estava em pé sobre as quatro patas mais uma vez, mas suas
asas tremulavam e ele sacudia a cabeça nervosamente.
Steve, Joel e Diana reapareceram, caminhavam por entre os
cavalos na rampa, tentando alcançar a carruagem. Quando
Diana viu os dois homens, atacou furiosamente.
- Vocês merecem o destino que os aguarda atrás daquela
porta, por tudo que fizeram com os cavalos. Não esperem
nenhuma ajuda minha; vocês estão à mercê dos Nirads!
- Não temos tempo pra isso, Diana — Steve alertou e depois
se virou para os homens aterrorizados - Subam e se
escondam. Os Nirads querem a gente, não vocês. Fiquem
escondidos e talvez consigam sobreviver!
Sem esperar que falassem de novo, os dois homens passaram
por entre os cavalos assustados e correram rampa acima.
- Vamos chamar a polícia do mesmo jeito!
- Pode chamar - Steve respondeu. - Eu sou policial.
- Pai! — Emily gritou apontando para o portão de metal. —
Estão tentando arrebentar o portão. Ele estava começando a
ceder diante do brutal impacto dos punhos dos Nirads.
- O portão não vai aguentar muito tempo. — Steve correu e
pegou um cobertor que estava no chão. - Na hora que o
portão se for, os cavalos devem ir em frente. Com sorte,
abrirão uma brecha entre os Nirads para nós. Pegasus, a
responsabilidade de nos tirar daqui o mais rápido possível
será sua.
Pegasus bufou e sacudiu a cabeça. Seus cascos afiados
rasparam o chão de concreto enquanto seus grandes olhos
selvagens observavam o grande portão de metal começar a
ceder. Steve pulou na carruagem e pegou as rédeas. Joel e
Diana entraram atrás dele.
- Segurem firme - Steve alertou se sentando no lugar do
condutor. - A viagem não vai ser calma.
Mais amassados surgiam no portão, que começou a ceder na
parte de cima. As longas e afiadas garras de vários Nirads
surgiram e cortaram o metal. O portão finalmente ficou livre
de seu trilho e foi arrancado, caindo na rua e prendendo dois
Nirads embaixo dele.
Pegasus relinchou alto. Os cavalos entraram em pânico e,
aterrorizados, começaram a debandar, correndo em direção
ao portão caído e esmagando os Nirads embaixo dele. Sem se
importar com os companheiros, os outros Nirads foram em
frente, tentando forçar a passagem por entre os cavalos que
saíam.
- Agora, Pegasus! - Steve gritou. - Vamos agora!
Emily sentiu a carruagem se mover para a frente quando
Pegasus começou a correr. Vários Nirads lutaram para tentar
passar por cima dos cavalos e atacá-los. Um deles conseguiu
pular por cima dos cavalos em pânico e pousou ao lado da
carruagem. Enquanto dois braços seguravam nela, outros
dois se esticaram para Emily e a pegaram pelos cabelos. Ela
gritou e arranhou os braços musculosos que a puxavam. Joel
reagiu instantaneamente e foi direto nos olhos do Nirad, mas
o monstro soltou um dos braços que segurava a carruagem e
deu um soco em Joel, empurrando-o para trás no momento
em que Diana levantou a lança e atacou. Quando a ponta da
arma acertou o peito exposto do Nirad, ele soltou Emily,
gritou em agonia e caiu da carruagem.
- Se segurem! - o pai de Emily gritou quando se aproximaram
da saída.
Pegasus pulou em cima do portão de metal e a carruagem o
seguiu. Com os dois Nirads ainda presos embaixo, o portão
serviu como rampa, fazendo com que a carruagem saltasse
no fim dele e voasse vários metros. Todos gritaram.
Ela pousou novamente e, apesar de seus ocupantes terem
sido jogados dos assentos, a carruagem continuou inteira.
Sem parar, Pegasus disparou pela Rua 50 a toda velocidade.
Emily se esforçou para voltar para seu assento e então olhou
na direção do estábulo e ficou sem fôlego. Mais Nirads
tinham surgido e levantavam os quatro braços ameaçando e
grunhindo raivosos por terem deixado o grupo escapar. Eles
ignoravam os cavalos em pânico e se concentravam em
perseguir a carruagem.
- Corra Pegasus, corra! — Emily gritou.
Ela só conseguiu contar até doze antes de perder a conta de
quantos Nirads os estavam seguindo. Com os dois embaixo
do portão, eram pelo menos quatorze Nirads em Nova York,
todos caçando Pegasus.
- Você está bem, Emily? - Diana procurou nervosamente por
novos cortes. - Ele a machucou?
Emily negou com a cabeça e passou a mão com cuidado em
seu dolorido couro cabeludo.
- Não, estou bem, mas acho que ficarei careca no lugar onde
aquela coisa puxou meu cabelo.
- Isso não é nada — Joel reclamou apertando com as mãos o
lado do corpo. - Acho que quebrei algumas costelas! Esses
Nirads têm um soco poderoso!
- Eles venceram Hércules — Diana explicou. - Não é surpre-
sa terem derrotado você.
Após vários quarteirões, Pegasus diminuiu o ritmo e passou a
trotar e, depois de mais alguns quarteirões, parou
completamente. Todos saíram trêmulos da carruagem. Emily
mancou até o cavalo alado e fez carinho em seu focinho.
- Você está bem, Pegs?
Os olhos do garanhão estavam arregalados e brilhando de
medo e suas narinas continuavam abertas. Ele gentilmente
acariciou o pescoço de Emily.
- Essa foi por pouco - Joel falou enquanto Steve inspeciona-
va a carruagem para ver se estava danificada. - Esta coisa já
estava pronta para quebrar antes do ataque. Mais um vôo
daqueles e ela não dura nem um minuto.
- Tivemos sorte lá atrás - Steve falou seriamente enquanto
testava as grandes rodas. - Temos que ficar um passo à frente
dos Nirads; aqueles quatro braços são letais.
- São mesmo - Diana falou. - E seus três olhos dão a eles uma
visão panorâmica.
- Três olhos? — Joel perguntou. — É mesmo? Onde fica o
terceiro?
- Atrás da cabeça, no meio daqueles cabelos imundos -
Diana explicou. - Pelo que aprendemos, eles não enxergam
bem por esse olho, mas é suficiente para que nunca sejam
pegos de surpresa.
- E como vamos conseguir derrotá-los? — Emily perguntou.
A febre aumentara, fazendo com que se sentisse ainda mais
fraca e cansada. — Eles são fortes demais.
- Precisamos daquelas rédeas - Diana afirmou. - Podemos
vencê-los com elas.
- E mais o Fogo - Joel acrescentou. — Quando Pegasus levar
a Filha de Vesta para o Olimpo e reacender o Fogo, você
conseguirá seus poderes de volta, certo?
Diana assentiu com a cabeça.
- É isso mesmo, mas temos que ficar longe dos Nirads até o
Pegasus estar pronto para voar novamente. Ele é nosso
único jeito de ir para casa.
Emily estava com todo seu peso apoiado em Pegasus quando
seu pai pôs a mão novamente em sua testa.
- Você está piorando - ele disse preocupado. - Venha, vou
colocar você de volta na Carruagem, precisa dormir um
pouco.
Emily não resistiu quando seu pai a levantou e a colocou na
carruagem. Ele pegou um cobertor que tinham guardado
embaixo do assento e a cobriu.
- Deite e descanse - ele aconselhou. - Vou tentar achar um
lugar para nos escondermos durante a noite. Quando a
cidade começar a despertar, poderemos nos misturar com as
outras carruagens e dar um jeito de sair de Manhattan.
Quando o pai dela se sentou novamente no assento do
condutor, Diana se ajeitou ao lado de Emily e colocou o
braço em volta dela de um jeito bem protetor.
- Durma, criança. Em breve iremos para casa.

Quando Emily acordou, o sol já estava alto no céu e os sons
da cidade tinham voltado ao seu normal. Mas ainda parecia
haver mais sirenes policiais do que de costume, e o barulho
assustador dos helicópteros ainda podia ser ouvido nos céus.
Diana ainda estava ao lado dela, mas Joel e seu pai tinham
sumido.
- Onde eles estão? - Emily perguntou sonolenta, olhando em
volta.
Eles pareciam estar em um prédio em obras, protegido por
várias betoneiras em volta. Havia um grande andaime acima
deles, que os escondia dos helicópteros que ainda
sobrevoavam baixo pela cidade.
— Seu pai se lembrou deste lugar e nos trouxe aqui — Diana
explicou. - Ele disse que estaremos a salvo por enquanto.
Falou também que este lugar se chama centro, mas não sei
bem o que isso significa.
Emily se sentiu aliviada.
— Significa que estamos bem longe dos estábulos.
Pegasus ainda estava preso à carruagem. Ele relinchou
suavemente e tentou olhar para ela.
— Bom dia, Pegs.
— A bela adormecida acordou - ela ouviu seu pai dizer.
Steve e Joel estavam entrando por um buraco na cerca alta
que protegia a construção. Os dois traziam várias sacolas de
comida e, quando se aproximaram, Pegasus relinchou.
— Ele sentiu o cheiro do açúcar - Joel falou e então olhou
para Diana. — Aposto que você também precisa de um
pouco. Trouxemos um monte pra vocês dois.
— E consegui mais coisas para cuidar da sua perna — Steve
falou colocando as sacolas no chão e sentindo a testa da
filha. - A febre abaixou, mas só um pouco. Como está se
sentindo?
— Não tão mal — ela mentiu. A verdade é que se sentia
terrível. Sua cabeça latejava, o corpo doía e, na perna
machucada, sentia umas pontadas no ritmo das batidas de
seu coração. - Por enquanto acho que ficarei bem. Só espero
que a gente consiga sair de Nova York antes que os Nirads
nos encontrem.
- Vamos conseguir - o pai falou. - Agora vamos comer os
bagels frescos com CREAM CHEESE que compramos. Diana,
você e o Pegasus podem comer o cereal matinal.
- E adivinhem só? - Joel falou, pegando algo em uma das
sacolas. - Saímos na primeira página de todos os jornais! -
Ele entregou vários jornais para Emily. — Veja as
manchetes. "Revelado que o cavalo voador era uma farsa."
Acredita nisso? Meio milhão de pessoas nos viu voando pela
Quinta Avenida e agora dizem que era apenas uma grande
farsa!
Emily olhou para as fotos granuladas da fuga voadora deles.
As imagens pareciam ter sido tiradas com uma câmera de
celular e ampliadas várias vezes para que fosse possível ver
os detalhes. Ela via Pegasus e suas grandes asas brancas, mas
não dava para enxergar o rosto dela e o de Joel.
Depois de ler rapidamente o artigo, ela comentou:
- Um dublê de cinema? Eles esperam que as pessoas
acreditem mesmo que era um dublê promovendo um novo
filme? E olha só, eles nem mencionam os Nirads! Estão
achando que as pessoas são idiotas?
- Eles não pensam que elas são idiotas. — Steve pegou outras
coisas da sacola. - Mas pode apostar que a UCP ordenou aos
jornais que publicassem isso. Tenho certeza de que se
alguém tentar desafiar a história receberá a visita de um
agente não muito amistoso da UCP para um bate-papo. Mas
isso, provavelmente, é a melhor coisa que poderia ter
acontecido para nós. O público não estará procurando por
nada, especialmente agora que o Pegasus é... - o pai dela
parou e pensou na melhor palavra para usar. Então,
finalmente falou: - Agora que ele não é mais branco.
Em plena luz do dia, Emily podia ver que o tingimento que
fizeram em Pegasus na noite anterior ficara horrível. A
cabeça e uma parte do pescoço e da crina estavam pretos,
mas, descendo para as pernas, havia uma linha divisória e a
cor mudava para marrom. Então, na parte de baixo das
costas ele ficava marrom mais claro e seu traseiro e cauda
estavam pretos como a cabeça e o pescoço. Ele parecia mais
estranho agora do que antes, quando era branco brilhante.
-Vamos comer e partir logo - Steve pegou o resto da comida.
Temos muito que fazer hoje e o tempo é curto.
Como já era de se esperar, Pegasus estava faminto. Ele
devorou três caixas de cereal açucarado com três pacotes de
açúcar mascavo e mel antes de começar a ir mais devagar.
Diana comeu praticamente o mesmo. Emily assistia
impressionada enquanto Diana devorava porções generosas
direto da caixa, seguidas por goles de mel direto do pote.
- Isto é delicioso! - Diana falou com a boca cheia. - Qual é o
nome disso aqui?
- Alguns chamam de café da manhã - Steve falou rindo. - A
maioria de nós chama de lixo. Nesse cereal tem açúcar
suficiente pra manter uma criança hiperativa o dia todo.
- Mas é o mais próximo da ambrosia que conseguimos
comprar — Joel acrescentou.
- É mesmo muito bom - Diana concordou. - É diferente da
ambrosia e do néctar, mas serve muito bem.
Depois do cereal, Diana e Pegasus comeram duas caixas de
donuts de mel. Ao ver Diana comer desesperadamente,
Emily achou que ela ia passar mal. Seu pai lhe trouxera um
BAGEL, mas ela não conseguia comer. Viu que ele a
observava e ficou agradecida por não obrigá-la a comer.
- O mundo de vocês mudou muito desde que estive aqui
pela última vez — Diana falou, pegando o último DONUT —,
e não foi só para pior.
- É, nós temos coisas boas também - Steve falou enquanto
começava a limpar os ferimentos de Emily e a trocar o
curativo. Apesar de não pressionar Emily a comer, ele a fez
tomar seus remédios para dor. Quando terminou de pôr as
bandagens em sua perna, se sentou e sacudiu a cabeça.
- Vamos precisar levar você para que alguém examine essa
perna em breve. Ela está piorando.
Emily não precisava que seu pai lhe dissesse isso, ela já sabia,
e suspeitava que Pegasus também soubesse. O garanhão
continuava olhando para trás às vezes, para ver como ela
estava, e relinchando baixinho.
- Bom, já são quase sete horas — Steve falou, olhando seu
relógio. — É melhor irmos andando. Os trabalhadores
voltarão para a obra a qualquer minuto. Não quero que nos
achem aqui e vejam o que fizemos na cerca deles.
- Não está cedo demais para ter carruagens nas ruas? - Emily
perguntou.
- Não temos escolha - o pai respondeu. - Se formos devagar,
talvez ninguém perceba.
Depois que a comida foi guardada e as asas de Pegasus
cobertas novamente, o pai de Emily se sentou no lugar do
condutor.
- Está pronto, Pegasus? - O cavalo alado relinchou e ficou
em posição. — Temos que chegar na ponte da Rua 59.
- Na 59? - Diana repetiu. - Me desculpe, Steve, mas não é
onde a UCP está concentrando seus esforços para nos
encontrar? Você quer ir lá?
- Não temos escolha - Steve explicou novamente. - A ponte
é o caminho mais rápido para se sair de Manhattan. - Ele
segurou as rédeas. - Não podemos pegar os túneis e nem as
balsas, e com os Nirads furiosos e soltos na cidade, tenho
certeza de que a UCP e o exército estão bem ocupados.
Vamos torcer para que consigamos não chamar a atenção
deles. - Ele se virou para o garanhão. - Certo, Pegasus,
vamos nessa, mas devagar e sempre. Não queremos atrair
atenção. — Pegasus relinchou e começou a andar.

Capítulo 20

Paelen foi algemado à cama novamente, mas dessa vez seus
tornozelos também receberam algemas. A pancada em sua
cabeça o tinha deixado atordoado apenas por alguns
momentos, mas quando acordou e implorou para que os
homens ajudassem Pegasus, seus pedidos foram ignorados.
Ao lado da cama e olhando para ele estava o agente J.
— Sugiro que reconsidere suas escolhas e fale conosco —
disse. — Estou autorizado a usar a força para conseguir o que
preciso de você. Tem até o amanhecer para decidir: ou me
diz a verdade, ou usarei métodos infinitamente piores do
que os que você já conhece. A escolha é sua.
Mas Paelen já sabia o que ia fazer. Ele não tinha a menor
intenção de colaborar; seu único pensamento era o de
encontrar um modo de chegar até Pegasus e alertá-lo.
Quando o agente J e seus homens foram embora, Paelen se
concentrou no problema que tinha em mãos. Tirar as
algemas não seria difícil; complicado mesmo seria sair
daquela instalação. O agente J afirmou que ele era vigiado
por olhos de serpente e o fato de terem-no capturado no
andar de baixo provava que aquilo era verdade. Mas será que
algo o observava naquele quarto?
Paelen estudou cuidadosamente cada parede e área do local,
procurando algo que parecesse com olhos de serpente, mas
não encontrou nada de diferente. Então se convenceu de
que os olhos de serpente estavam apenas nos corredores.
Com aquela rota bloqueada, seria preciso achar outro
caminho para sair daquela instalação. Olhando para cima
novamente, viu a grade de ventilação. Aquela seria sua rota
de fuga e ele teve a sensação de que não haveria olhos de
serpente por lá. Com a decisão tomada, Paelen voltou sua
atenção para as algemas e, relutante, usou a única habilidade
Olímpica que tinha.
Era incrivelmente doloroso. Começando por seu pulso di-
reito, dobrou o dedão para dentro e começou a empurrar.
Do mesmo jeito que fizera todas as outras vezes em que
tinha sido acorrentado no Olimpo, Paelen esticou os ossos
de sua mão até que o metal da algema deslizasse e saísse. Ele
repetiu o mesmo processo com a mão esquerda. Depois de
soltar as mãos, Paelen se sentou e segurou as algemas dos
pés. Ele estremeceu de dor quando os ossos de seus pés se
esticaram até que as algemas caíssem. Quando ficou livre,
retornou as coisas ao seu formato original e suspirou
aliviado.
Paelen encostou o ouvido na porta e ouviu vozes, contou
pelo menos três homens de guarda lá fora. Eles conversavam
animadamente sobre algo chamado futebol americano.
Como estavam distraídos, não o ouviriam fugir. Ele então
subiu na cama e pisou sobre seus travesseiros enquanto
examinava a grade de ventilação. Seria bem apertado,
mesmo para ele, mas se se esticasse o suficiente, sabia que
conseguiria passar.
Apenas quatro parafusos prendiam a grade. Paelen se segu-
rou em uma das extremidades e começou a fazer força, mas
não foi preciso se esforçar muito para arrancar a grade da
parede. Ele a escondeu embaixo do travesseiro.
Paelen deu mais uma olhada rápida para a porta e, então,
colocou as mãos dentro do túnel de ventilação, prendendo
as palmas firmemente contra as paredes e subindo seu corpo
até lá.
Como suspeitara, a entrada do duto de ar era absurdamente
pequena. Ele teve que dolorosamente esticar todos os ossos
de seu corpo para passar por ela e, só então, percebeu que
suas costelas não estavam totalmente curadas. Enquanto se
movia, sentia pontadas de dor vindas do formato alterado de
sua caixa torácica.
Ignorando a dor e estremecendo a cada movimento, Paelen
entrou no grande labirinto de incontáveis túneis do sistema
de ventilação. Os dutos em si eram bem maiores que a
entrada, por isso ele pôde retornar seu corpo ao formato
normal.
Rastejando de joelhos, Paelen usou todos os seus sentidos
para ficar alerta aos perigos. Quando chegou a uma
encruzilhada, fez uma pausa. A sua esquerda não ouviu
nada; ainda era de madrugada e não havia muita gente no
lugar. Mas, à direita, ele ouviu vozes e reconheceu uma
delas. Era o agente J. Não estava claro o que ele falava, mas
Paelen tinha certeza de que ouviu a palavra "Pegasus". O
agente J falava do garanhão!
Ele foi em direção às vozes, se movendo o mais rápido e
silenciosamente que conseguia. A cada momento a voz do
agente J ficava mais forte. Chegando em um túnel curto, ele
viu uma luz brilhando no final, onde havia outra saída da
ventilação. Por ela ouviu o agente J falando com dois
homens.
Paelen foi até a abertura e descobriu que, se colocasse sua
cabeça na posição certa, conseguia enxergar através da grade
e ver o escritório. O agente J estava sentado em uma grande
escrivaninha, de costas para a grade de ventilação. Paelen
quase exclamou ao ver uma das sandálias de Mercúrio sobre
a mesa; o agente sacudia a outra no ar enquanto falava.
Paelen olhou para os outros homens e viu o agente O, o
jovem que já conhecia, sentado em frente à escrivaninha.
Um outro homem estava sentado ao lado do jovem agente e
era desconhecido para Paelen.
- E então, o que acha? - O agente J perguntou.
O agente O deu de ombros.
- Não sei não. Há coincidências demais para não ser verdade.
Os resultados dos testes do garoto e o jeito que ele manteve
sua versão da história até agora. Tem as sandálias e o cavalo
alado, o Pegasus? E as criaturas na cidade? Odeio admitir
isso, mas estou começando a acreditar nele. Acho que
podemos mesmo estar lidando com um monte de Olímpicos
e não com alienígenas, como pensamos.
O agente J se voltou para o outro homem.
- E o que acha, agente T?
- Concordo com o agente O. Temos centenas de homens
nas redondezas procurando por sinais de queda ou pouso de
uma espaçonave. Contatamos o NORAD para que fizessem
buscas por satélite, mas não há nenhum sinal de nada vindo
do espaço.
O agente J soltou um palavrão.
- E como vou explicar isso, diabos? - ele perguntou. - O alto
comando está obcecado para encontrar extraterrestres e,
mais importante do que isso, tecnologia deles. Lembrem-se
de todas as armas que foram desenvolvidas graças aos
achados no incidente em Roswell! Isso sem falar nas
capturas mais recentes. A tecnologia alienígena é
inestimável e o comando espera que nós providenciemos
informação!
— Se acalme, senhor - o agente O falou. - Assim vai acabar
tendo um derrame!
O agente J levantou um dedo ameaçador.
— Não me diga para ficar calmo. Somos a nação mais po-
derosa do planeta! E por quê? Porque temos as maiores
armas desenvolvidas com tecnologia alienígena. E como vou
explicar que esse garoto e o cavalo voador não são
extraterrestres, mas sim um monte de velhos mitos que
estão se mostrando verdadeiros? O que virá a seguir,
vampiros? Lobisomens? Quem sabe doces fadinhas
montadas em um unicórnio?
— Sei que é duro de engolir — o agente O continuou —,
mas seríamos tolos se não considerássemos essa
possibilidade.
— E todos os outros? - o agente J perguntou. - Júpiter, Apo-
lo, Cupido e os outros personagens da mitologia? Está
dizendo que também existem? Se sim, por que não ouvimos
falar deles até agora?
Paelen viu o agente O dar de ombros.
— Não sei. Talvez eles preferissem ser discretos e ficaram
escondidos em nosso mundo moderno. Mas a mitologia
conta que Mercúrio viajava pelo mundo com suas sandálias
aladas. Veja o que está segurando. O que os cientistas
disseram sobre elas?
— Nada - o agente J retrucou furiosamente. - É impossível
rastrear os materiais. Disseram que são rubis, diamantes e
safiras de verdade costurados nas laterais. Mas as penas das
asas não são de nenhum pássaro conhecido na Terra. E nem
o couro. Eles não têm como nos dizer de onde essas coisas
vieram.
— Então o garoto pode mesmo ser o Mercúrio? - o agente T
perguntou.
O agente O assentiu.
- Ele afirmou que este era um de seus nomes.
O agente J bufou.
- E também disse que era Hércules, Júpiter e Paelen, o
Grandioso. Eu não confiaria nas coisas que ele disse até
agora.
- E as rédeas? - o agente T perguntou novamente.
- O mesmo das sandálias - o agente J respondeu amarga-
mente. — Materiais impossíveis de serem rastreados. E sim,
é ouro de verdade, mas tem muita coisa misturada a ele.
Acharam saliva nele, mas o DNA não bate com nenhuma
espécie de cavalo conhecida. Aliás, não bate com nenhum
ser vivo deste planeta, igual ao garoto e a criatura que temos
lá embaixo.
- Então pode ser que pertença ao verdadeiro Pegasus? - o
agente O perguntou.
O agente J suspirou pesadamente.
- Espero que não, pelo amor de Deus. Estamos aqui para
achar extraterrestres, e não Olímpicos! Mas não vamos ter
certeza até que venham para cá e possamos testar o
garanhão nós mesmos.
Paelen quase desmaiou. Será que tinham encontrado
Pegasus?
- E quando será isso? - O agente O perguntou.
Ele viu o agente J olhar em um pequeno aparelho em seu
pulso.
- Com base na atual movimentação deles, imagino que os
teremos capturados e entregues aqui antes do almoço.
- Como os encontrou? - o agente T quis saber. - A última
coisa que soube é que estavam escondidos no parque.
- Eles deixaram o parque há horas - o agente J respondeu. -
Acabamos de interrogar dois caras de um estábulo da Rua
50. Eles chamaram a polícia e afirmaram que quatro pessoas
e um cavalo alado invadiram seu estábulo e roubaram uma
carruagem. Com essa informação não foi difícil encontrar a
carruagem e ficar de olho neles.
- Quatro pessoas? - o agente O repetiu. - Na foto, havia dois
garotos com o Pegasus. Quem são os outros?
- Os caras disseram que um deles era uma mulher alta e
superforte, que os outros chamavam de Diana, e contaram
que ela carregava uma lança e os atacou do nada, só por
causa do jeito que eles tratam os animais.
Paelen precisou cobrir a boca para continuar em silêncio.
Diana estava naquele mundo! Se Pegasus contasse a ela sobre
o roubo das rédeas, ele sabia que não teria como escapar de
sua ira, mas ouvir aquelas pessoas dizendo que iriam trazer a
filha de Júpiter e Pegasus para aquela instalação era mais do
que podia aguentar.
- O outro adulto que estava com eles é um policial de Nova
York, Steve Jacobs. A garota da foto é a filha dele de treze
anos. O que não sabemos é como ou por que eles se
envolveram nisso e nem quem é o garoto da foto. Ele pode
ser como o nosso Mercúrio aqui ou pode ser humano. Os
donos do estábulo disseram que os monstros chegaram
pouco depois de o grupo ter invadido o local. Acabei de ver
as fotos que nossos rapazes tiraram de lá. As criaturas
rasgaram o portão de metal como se fosse manteiga.
- O que eles queriam? - o agente O perguntou.
- O garanhão. Pelo menos é o que os caras disseram.
- E se eles os encontrarem antes de nós? - o agente T
perguntou.
- Não vão - o agente J retrucou confiante. - Nosso pessoal já
está posicionado. Pegasus e a carruagem estão
completamente cercados por todos os lados. Eles não farão
nenhum movimento sem que a gente saiba. A ponte da Rua
59 está bloqueada e segura. Só estamos esperando a nossa
presa cair na armadilha. O agente O sacudiu a cabeça
negativamente.
- Isso me parece arriscado. Se sabemos onde estão, por que
não agimos agora e os pegamos? Como pode ter certeza de
que eles vão tentar a ponte?
O agente J ficou em pé, bocejou e se espreguiçou.
- Porque é o que eu faria se fosse eles. Olha, se tentarmos
capturá-los em um local aberto, sempre há a chance de o
garanhão fugir voando. Precisamos pegá-los em um lugar
onde ele não possa usar as asas, e a pista central da ponte é
perfeita para isso. A ponte funcionará como uma grande
gaiola.
- E você tem certeza de que eles vão tentar sair da cidade? O
agente O quis saber.
O agente J assentiu.
- Eles têm que sair da cidade antes que as criaturas os
encontrem de novo e a ponte é a rota mais próxima para se
sair de Manhattan. Eles não podem se dar ao luxo de perder
tempo indo até alguma das outras pontes, e mesmo que
façam isso a gente também está nelas. A cidade de Nova
York está toda vigiada. Não há como sair.
Ele soltou a sandália.
-Temos algumas horas antes de jogarmos a rede e a noite foi
longa, por isso vou descansar. Se chegarem aqui antes do
previsto, garanta que sejam separados. Quero falar com cada
um deles sozinho, especialmente as crianças. Tenho o
pressentimento de que a mulher que está com eles não é
humana. Se ela for parecida com o nosso Mercúrio, não
falará nada, mas tenho certeza de que as crianças abrirão o
bico.
O agente T não parecia convencido.
- Se o Mercúrio não falou, o que o faz pensar que as crianças
falarão?
- Tenho certeza porque sabemos que pelo menos uma delas
é humana - o agente J respondeu. — E, diferentemente de
nosso estranho amigo alienígena ou Olímpico, estou certo
de que ela se mostrará bem mais suscetível aos poderes
persuasivos da dor.
Paelen ficou chocado com o que estava ouvindo. Eles
planejavam torturar a menina humana que viram na foto
com o Pegasus. Ela era apenas uma criança, mas aqueles
homens não pareciam se importar.
Os agentes finalmente saíram do escritório e fecharam a
porta atrás deles. Paelen esperou um pouco para garantir que
não iriam voltar. Quando teve certeza, segurou na grade, fez
uma pequena força e os parafusos cederam facilmente, mas
dessa vez ele foi mais cuidadoso. Em vez de empurrá-la
completamente, apenas a dobrou. Quando havia espaço
suficiente, estremeceu enquanto esticava seus ossos
novamente.
Pouco a pouco, Paelen manipulou seus ossos até conseguir
escorregar para o escritório do agente J, descendo
suavemente até o chão. Sem retornar seu corpo à forma
normal, pegou as sandálias de Mercúrio e as jogou no duto
de ventilação, subindo rapidamente atrás delas. Depois
fechou bem a grade, pegou as sandálias e voltou a sua forma
normal, andando rapidamente pelos túneis e retornando ao
seu quarto.
Paelen deixou as sandálias no túnel, perto do quarto, então
se transformou dolorosamente mais uma vez, desceu para o
quarto e recolocou a grade. Assim que garantiu que tudo
parecia normal, deitou na cama e algemou novamente os
pulsos e os tornozelos, depois retornou a sua forma normal.
Seu plano inicial era fugir e encontrar Pegasus, mas Paelen
sabia que as chances de conseguir isso naquele mundo
estranho eram, no máximo, remotas. Ouvindo o agente J
dizer como estavam próximos de capturar o garanhão e
Diana e levar ambos para aquela mesma instalação, ele soube
o que precisava fazer: nada.
Ele sofreria as torturas e o que quer mais que planejassem.
Ele não lutaria, não tentaria fugir, apenas esperaria até que os
outros estivessem ali também. Então, no momento certo,
Paelen pegaria as sandálias de Mercúrio e ajudaria Pegasus e
Diana a fugir e juntos retornariam ao que sobrou do Olimpo.

Capítulo 21

Enquanto a carruagem ia devagar pela Rua 18, Emily estava
contente por ninguém prestar muita atenção neles. Fora os
helicópteros circulando pela cidade e quão mal ela estava se
sentindo, em qualquer outro dia ela apreciaria muito aquele
passeio, e se esforçou para manter os olhos abertos. Ela se
sentiu muito quente e sabia que a febre estava aumentando.
Diana continuava a abraçando com um braço e checava sua
testa a toda hora.
- Aguente firme, criança - ela murmurou. - Não vai demorar
muito.
Em seu estado febril, Emily achou que estava ouvindo a voz
de sua mãe falando gentilmente com ela, encorajando-a a ir
em frente.
- Pode deixar, mãe — ela balbuciou.
Diana a apertou carinhosamente. Grogue, Emily ouviu Diana
falar com o seu pai.
- Onde está a mãe de Emily, Steve?
- Ela morreu há três meses - contou tristemente. - Isso foi
muito duro para Emily. Ela e a mãe eram muito apegadas.
Ao ouvir a resposta do pai, Emily sentiu um nó na garganta.
Sua mãe teria adorado Pegasus e estaria ali lutando com eles.
- Então vocês estão de luto - Diana respondeu gentilmente e
depois abraçou Emily carinhosamente outra vez. - Pobre
criança. Agora eu entendo.

A carruagem fez uma curva e começou a subir a Primeira
Avenida. Lutando para se manter acordada, Emily via as ruas
ficando para trás. Logo passaram pelos prédios das Nações
Unidas. A cada quarteirão que deixavam para trás ela
esperava ver os Nirads atacando, mas até o momento a
viagem tinha sido calma e tranquila.
- As carruagens são permitidas na ponte, Steve? - Joel
perguntou baixinho.
- Não, mas estou com meu distintivo para mostrar, se al-
guém tentar nos parar.
Logo eles estavam na rampa de acesso à entrada da ponte da
Rua 50.
- Aqui vamos nós - Steve avisou. - É melhor irmos pela via
interna e coberta ou pela pista externa e descoberta?
Pegasus relinchou várias vezes e depois bufou. Diana se
inclinou para a frente para traduzir.
- Ele diz que prefere ir pela descoberta para o caso de algo
dar errado. Disse que sente sua asa bem recuperada e que
deve conseguir carregar a carruagem com ele se precisar.
- Se ele tem certeza disso... - Steve falou. - Fique à direita,
Pegasus, assim pegaremos a pista descoberta.
Mas, quando a carruagem foi se aproximando, viram que
havia congestionamento na ponte.
- Parece que muita gente teve a mesma idéia e está tentando
sair da cidade - Joel falou. - A pista externa está lotada e
completamente parada.
- Mas daquele lado as coisas estão andando — Diana sugeriu,
apontando para as pistas centrais que levavam para a parte
coberta da ponte. - Devemos ir por ali para não ficarmos
parados.
- Você ouviu a dama, Pegasus - disse Steve. — Nos leve pela
ponte e para fora de Manhattan.
Quando a carruagem se juntou ao tráfego que fluía bem, foi
possível ouvir o estranho som dos cascos de ouro do
garanhão batendo no chão de aço da ponte. Os outros carros
reduziam a velocidade quando eles passavam, mas, fora isso,
ninguém prestava atenção à carruagem puxada por um
cavalo.
Quando estavam mais ou menos na metade, Emily viu que
estavam sobre a Ilha Roosevelt, e tentou se lembrar quando
fora a última vez que passaram por ali. Foi quando sua mãe
ainda estava viva, bem mais de um ano atrás. Eles tinham
ido fazer uma caminhada fora da cidade. Ela se lembrava da
emoção de ir para Long Island e para o Parque Estadual de
Wildwood e de como ela ficou feliz quando nadaram juntos
e...
- Opa, opa! - disse Steve. — Isso não é nada bom.
Arrancada de suas memórias febris, Emily tentou entender o
que estava acontecendo. O tráfego estava ficando mais lento
e parando.
- Olhe lá, está tudo parado — Joel alertou apontando para as
pistas que vinham no sentido contrário.
Pegasus soltou um relincho de aviso e começou a sacudir a
cabeça; suas orelhas se levantaram e ele rangeu os dentes.
- O que está acontecendo? - Diana perguntou enquanto se
sentava na frente e olhava em volta.
- Estou com um mau pressentimento a respeito disso - Joel
falou.
- Pegasus também - Diana concordou.
Emily se sentou e olhou em volta. Seus olhos se arregalaram
aterrorizados quando passaram pela entrada da ponte. Vários
carros parados, atrás deles estavam caminhões do exército,
de onde soldados saíam com as armas preparadas.
- Pai...
De repente, helicópteros armados surgiram de ambos os la-
dos da ponte e pairaram perto deles, com suas armas
apontadas diretamente para a carruagem.
- É uma armadilha! - o pai dela gritou.
- E nós caímos nela - Joel exclamou.
- Não se movam! Fiquem onde estão! - alertou uma voz
vinda do alto-falante de um dos helicópteros. - Vocês estão
completamente cercados. Fiquem onde estão!
Sem parar para pensar Steve pulou da carruagem.
- Me ajude aqui, Joel. Temos que soltar o Pegasus!
Emily tentou ficar em pé, mas sua perna infeccionada não
conseguiu suportar seu peso e ela caiu sentada no assento. A
garota não conseguia mais se mover sozinha. Tudo o que
podia fazer era ver Diana ficar em pé acima dela e levantar
sua lança, se preparando para atacar os militares.
- Diana, não faça isso! - Emily esticou a mão devagar e
pegou a ponta do cabo da lança. - Eles vão matar você. Vá
com o Pegs. Fuja, por favor. Salve o Olimpo!
- Não fale coisas sem sentido — Diana respondeu. — Não
deixarei que esses homens tolos te machuquem. Se quiserem
lutar, ficarei feliz em realizar seus desejos.
Todos ouviram as batidas de muitos pés na ponte quando os
soldados começaram a vir de todas as direções.
- Ele está livre! - Steve gritou quando retirou a última das
amarras de couro de Pegasus. Joel tirou o cobertor de cima
das asas do garanhão e deu um tapa no traseiro dele.
- Vá em frente, Pegasus. Agora! - Joel gritou. — Fuja daqui!
Encontre a Chama e salve nossos mundos!
Livre dos arreios, Pegasus se virou e correu para perto da
carruagem. Relinchando alto para Emily, ele se inclinou para
a frente e tentou levantá-la pela camiseta.
- Não, Pegs, não estou conseguindo me mexer muito! —
Emily exclamou enquanto se esticava fracamente até ele. —
Vá embora, por favor. Pegue Diana e fuja. Não posso deixar
que capturem você. - Lágrimas caíram de seus olhos
enquanto ela fracamente tentava empurrar o garanhão para
longe. - Por favor... vá embora!
- Parem! - Vários soldados se aproximaram e levantaram suas
armas. - Levantem as mãos e não se mexam!
- Vai logo, Pegs! - Emily gritou com suas últimas forças.
O ar foi tomado por um estranho som de tiros. A princípio,
Emily achou que os soldados estavam simplesmente atirando
neles, mas então viu muitos dardos atingindo Pegasus. Em
segundos o traseiro dele parecia uma almofada de alfinetes
cheia de dardos coloridos.
- Que loucura é essa? — Diana gritou furiosa quando também
foi atingida por dardos tranquilizantes e os arrancou de seus
braços e jogou longe. Steve e Joel também foram atingidos e
caíram no chão no mesmo instante, inconscientes.
Por causa de sua posição, Emily não foi atingida, mas quando
mais homens se aproximaram, Pegasus abriu suas asas para
protegê-la, recebendo os dardos que seriam para ela.
- Não se preocupe comigo, Pegs! Vá embora, por favor!
Mas Pegasus se recusou a partir, empinando nas patas
traseiras, jogando a cabeça para trás e relinchando
raivosamente. Suas patas da frente cortavam o ar de maneira
furiosa e prometiam uma morte violenta para qualquer
soldado que tentasse se aproximar. Diana se juntou a ele no
grito de guerra, levantando sua lança e se preparando para
atacar os soldados.
Então Emily sentiu uma picada no pescoço quando um
dardo a atingiu. Ela ouviu o guincho enraivecido de Pegasus
e o viu partir para o ataque no exato momento em que tudo
ficou escuro.

Capítulo 22

Emily abriu os olhos. Ela estava deitada em uma cama de
hospital, em um quarto branco e limpo. Havia soro em seu
braço e várias bolsinhas com líquido que o alimentavam. Ao
lado de sua cama, vários equipamentos com fios estavam
ligados em seu peito e cabeça; eles soltavam bips de acordo
com as batidas de seu coração. A perna machucada estava
levantada e envolvida por grossas camadas de bandagens e,
apesar dos cuidados, ainda latejava dolorosamente.
- Bom dia, Emily. - Uma enfermeira se levantou de uma
cadeira ao lado da cama. — Não tente se mexer, por favor.
Vou chamar o médico.
Emily se esforçou para lembrar o que havia acontecido, e
então tudo voltou de uma vez. A UCP, a ponte, Pegasus
relinchando loucamente, Diana segurando a lança e pronta
para atacar. Lembrou-se do dardo a atingindo e do mundo
escurecendo. Aquela última lembrança fez com que sentisse
um calafrio na espinha.
Ela tentou se levantar da cama, mas a dor e a posição na qual
estava sua perna a impediram. Ofegando, deitou-se
novamente. Ela não tinha nenhuma condição de lutar. A
enfermeira retornou com dois homens. Um estava vestido
como médico, mas o outro usava um terno preto e tinha
uma expressão austera no rosto. Ambos eram de meia-idade.
— Bom dia, Emily — o médico falou em um tom amigável
que não combinava com seus olhos frios. — Como estamos
nos sentindo hoje?
O outro homem nem fingia ser legal. Naquele instante
Emily compreendeu tudo o que o pai lhe contara sobre
aquela agência governamental secreta. Ela estava com um
grande problema.
— Estamos? Não sei você, mas eu me sinto péssima — disse
e olhou para o outro homem. - Você é da UCP?
— Sim, eu trabalho para a Unidade Central de Pesquisas - ele
respondeu friamente. - Pode me chamar de agente J. Tenho
perguntas muito importantes para lhe fazer. — Então olhou
para o médico. - Pode sair agora. Emily e eu vamos bater um
papo.
— Eu realmente preciso examinar a minha paciente - o
médico respondeu.
— E você vai, mas mais tarde.
Aquele tom de voz sugeria que não havia possibilidade de
discussão. Suas ordens deviam ser obedecidas. Sem dizer
mais nada, o médico saiu da sala.
— Onde está o meu pai? - Emily perguntou nervosa. - Posso
vê-lo, por favor?
— Infelizmente, você não está bem o suficiente para receber
visitas. Ainda está com uma grave infecção e sofreu muitos
danos musculares. Aliás, tem sorte de nossos cirurgiões
terem conseguido salvar sua perna, mas, me desculpe ter
que falar isso, encontrará dificuldades para andar de agora
em diante.
Emily não se sentia nem um pouco com sorte. Ela se sentia
terrível e, mais do que isso, estava aterrorizada. Onde
estava? O que fariam com seu pai e Joel? Será que estavam
machucando Pegasus? E Diana?
- Por favor, me diga onde está o meu pai.
- Ele está por perto. — O agente se aproximou da cama. -
Nossa primeira preocupação é tomar conta de você. Talvez
com o tempo, se cooperar, eu deixe que ele a visite.
Emily viu frieza naqueles olhos pálidos.
- Cooperar?
- Sim, cooperar - disse o agente se sentando na cadeira ao
lado da cama. — Tenho muitas perguntas que precisam de
respostas e você é a pessoa certa para isso.
- Eu? Mas não sei nada! Só quero ver o meu pai.
- Primeiro você vai responder minhas perguntas, depois
veremos o que fazer a respeito de seu pai.
O agente J pegou um pequeno gravador do bolso e o ligou.
- Agora quero que me conte o que aconteceu. Onde você
encontrou o cavalo voador? De onde ele vem?
- O nome dele é Pegasus — ela corrigiu. - Ele não é um
cavalo e veio do Olimpo, mas foi atingido por um raio e caiu
no terraço do meu prédio. Isso é tudo o que sei.
- Tenho certeza de que sabe um pouco mais do que isso - o
agente J provocou.
- Não sei não - Emily insistiu. - Onde ele está? Preciso vê-lo,
por favor. Ele não entenderá o que está acontecendo e vai
ficar com muito medo de você.
- O garanhão está bem - o homem falou. - Ele nos deu muito
trabalho no começo e matou muitos de meus homens na
ponte, mas conseguimos acalmá-lo depois daquilo.
Emily ficou confusa com aquela resposta, mas ficou ainda
mais preocupada e temerosa por Pegasus. Ela se lembrou dos
soldados com as armas apontadas para eles na ponte.
- Vocês não atiraram nele, né?
- Tivemos que atirar. Ele estava matando meus homens.
- Vocês atiraram no Pegasus! - Emily exclamou. - Por quê?
Ele só estava nos protegendo! Ele está bem? Está vivo?
- Já disse que ele está bem, Emily. Seus ferimentos estão
sendo tratados e ele está bem mais calmo agora.
- Por que não deixa a gente em paz? - Lágrimas surgiram em
seus olhos. - Não estávamos fazendo mal a ninguém! O
Pegasus só quer ir pra casa!
- E onde é a casa dele? - o agente J perguntou, parecendo
bem alerta.
- Já falei - Emily respondeu fungando. - No Olimpo.
- Sim, você me falou, mas onde exatamente é o Olimpo? —
ele pressionou. — Como se chega lá?
- Não sei - ela falou. - Posso vê-lo, por favor?
- Ainda não. Você não está em condições de andar. Emily
odiava ter de concordar, mas ele tinha razão. Ela estava
mesmo se sentindo péssima.
- Há quanto tempo estamos aqui?
- Quatro dias.
- Quatro?! - ela exclamou, ficando meio sem ar.
- Já disse que estava muito mal - o agente J continuou. -
Você está com uma infecção séria e achamos que não ia
sobreviver; estava à beira da morte, mas conseguiu se
recuperar. Você é uma jovem muito determinada. Agora
vou perguntar de novo: o que sabe sobre o cavalo alado? Por
que ele está aqui?
— Já falei que ele não é um cavalo! - Emily esbravejou se
sentando. Tão rapidamente quanto se sentou, teve que se
deitar, pois o movimento a fez se sentir enjoada. — Ele é o
Pegasus — ela falou devagar - e não deveria estar aqui. Você
tem que soltá-lo. E a Diana também.
— Ah sim, a Diana - o agente J falou. — Uma mulher muito
interessante mesmo. Incrivelmente forte. Ela conseguiu
resistir a todas as nossas perguntas. Nossos cientistas ainda
estão tentando descobrir o que ela é.
— Ela é a filha de Júpiter! - Emily falou, ficando mais furiosa.
- É o que ela é! E quando Júpiter descobrir o que você fez
com ela e com Pegasus, ficará muito bravo!
— Júpiter, é? Bom, se eles são mesmo do Olimpo como você
diz, por que Júpiter ainda não veio nos ver? O que está
esperando? Eu ficaria mais do que contente em conversar
sobre Diana com ele.
Olhando aqueles olhos frios e curiosos, algo dentro de Emily
a alertava a não falar mais nada. Se depois de quatro dias ele
ainda precisava de respostas, provavelmente seu pai e Joel
também não tinham cooperado. Logo entendeu que quanto
mais falasse, pior seria para os outros. Então fechou os olhos.
— Não estou me sentindo bem, estou muito cansada. Me
deixe dormir, por favor.
— Daqui a pouco - ele respondeu. - Apenas me diga por que
Pegasus e Diana estão aqui?
— Não sei — Emily insistiu. — Por que não pergunta
diretamente a eles?
O agente J sacudiu a cabeça parecendo nervoso.
- Eu perguntei. Diana não fala comigo e eu pareceria um
idiota se tentasse falar com um cavalo.
- Pegasus não é um cavalo! — ela gritou. Seu pai sempre a
ensinou que a violência nunca é a solução, mas naquele
momento ela queria muito dar um soco na boca do agente J.
— Ele é um Olímpico!
- Cavalo ou não, quero saber por que eles estão aqui e você
vai me dizer!
- Já falei. Não sei por que estão aqui. Só sei que você tem
que deixá-los ir; eles não pertencem a este mundo.
- E o Mercúrio? - o agente perguntou.
- Mercúrio? - ela repetiu confusa. - O planeta?
Ele fez que não com a cabeça.
- Não o planeta - disse irritado. - Mercúrio, o mensageiro do
Olimpo. Ele também está aqui. Se a história deles for
verdadeira, quer dizer que tenho pelo menos três Olímpicos
na minha cidade, e nem estou levando em consideração
aquelas criaturas, seja lá o que forem.
- São os Nirads - Emily respondeu sem pensar, mas na hora
ela percebeu o erro que havia cometido. O agente J a tinha
enganado e a feito contar mais do que queria.
- Nirads — ele repetiu. - E por que estão aqui?
Emily não queria responder mais nenhuma pergunta. Ela
estava se sentindo muito mal e estava cometendo muitos
deslizes, por isso fechou os olhos e se recostou.
- Quero ver o meu pai.
- Responda a minha pergunta — ele pressionou.
Emily não disse nada. Com os olhos ainda fechados, podia
ouvir a respiração dele, que estava cada vez mais nervoso.
De repente ela sentiu uma dor lancinante em sua perna
machucada. Urrando de agonia, abriu os olhos e pôde ver
um sorriso maligno surgir no rosto do agente J, que, com a
mão em sua perna levantada, apertava cruelmente os
ferimentos.
- Por que eles estão aqui? - perguntou. - Me fale!
A dor era excruciante. Emily nunca sentira tamanha agonia,
que roubava o grito de sua garganta e o ar de seus pulmões.
Ela começou a ver estrelas e a ouvir o som de água corrente.
Momentos depois, desmaiou.

Capítulo 23

Paelen cobriu a boca com as mãos enquanto assistia aquela
cena pela grade de ventilação que havia sobre a cama da
garota. Ele sabia que o agente J podia ser cruel em seus
interrogatórios, mas jamais imaginaria que ele poderia fazer
aquilo com uma criança.
Enquanto voltava, ficou agradecido por ela ter desmaiado,
pois achava que nem mesmo ele aguentaria uma pressão
daquelas em um ferimento recente. Quando tudo aquilo
acabasse, Paelen prometeu a si mesmo que o agente J
descobriria que machucar aquela garota tinha sido um
grande erro.
Desde que os outros chegaram na instalação, os agentes J e
O pareciam ter perdido o interesse nele, gastando cada vez
menos tempo na tentativa de fazê-lo falar. As vezes Paelen
passava o dia todo sem ver ninguém, o que dava a ele tempo
para escapar do quarto e procurar por Diana e Pegasus, mas
ele não tinha ideia de onde os outros Olímpicos estavam
sendo mantidos. Até o momento, só tinha conseguido
encontrar o quarto de Emily, que ficava no mesmo corredor
que o dele e, pela grade da ventilação, ouviu os médicos
falando sobre ela.


No duto que levava ao seu quarto, Paelen avistou as sandálias
de Mercúrio bem a sua frente. Empurrou-as de lado para
poder passar e murmurou:
- Onde está você, Diana? Preciso encontrá-la!
Paelen ainda estava encostado nas sandálias quando falou
aquilo. Imediatamente as pequenas asas ganharam vida e
começaram a flutuar e se mover. Paelen deu um pulo e
quase gritou no apertado túnel de ventilação quando elas
bateram em sua mão. Instintivamente, jogou-as para longe.
As asas pararam de bater na hora e voltaram ao estado
normal de inércia. Paelen esticou a mão e cutucou a mais
próxima com cuidado. Nada aconteceu. Então esticou a mão
de novo e a pegou. Nada. Pegou a outra sandália e mesmo
assim as asas continuaram imóveis.
- Encontrem Diana - disse baixinho.
As asas começaram a bater loucamente, dando vida às
sandálias. Paelen as segurou firme, mas não estava preparado
para a repentina mudança de direção e os giros em uma área
tão apertada. Se ele não tivesse a habilidade de esticar o
próprio corpo, o poder das sandálias teria quebrado todos os
seus ossos quando o viraram e seguiram em frente para
obedecer o comando recebido.
Se segurando para não gritar de dor e surpresa, Paelen foi
sendo levado, mal conseguindo ver, arrastado
incontrolavelmente e com muito barulho pelo extenso
labirinto de dutos de ventilação daquela instalação. Ele
temeu por sua vida. Em um momento as sandálias seguiram
para a esquerda, depois, em outra bifurcação, entraram à
direita e, no momento seguinte, elas o levaram até a beirada
de um duto que descia.
- Não, esperem, por favor! - exclamou quando viu o que as
sandálias de Mercúrio pretendiam fazer. — Nããããooo...
Sem parar, elas o puxaram da beirada e mergulharam no
duto. Paelen gritou e ouviu o eco de seu terror deslizando
pelo túnel interminável, mas mesmo assim elas não pararam.
Batendo cotovelos, ombros e joelhos nas paredes do duto,
ele continuava caindo. As sandálias não estavam
obedecendo ao seu comando de achar Diana. Estavam
tentando matá-lo!
Muito antes de chegar ao fundo, elas mudaram de direção e
dispararam em uma nova série de túneis que se afastavam do
duto por onde desceram. Finalmente, entraram em um
longo túnel, que acabava abruptamente em outra saída de
ventilação.
- Parem, por favor! - Paelen implorou pouco antes de ba-
terem na grade.
As sandálias obedeceram imediatamente ao seu comando e
pararam, dobrando as pequenas asas e ficando
completamente imóveis. Paelen também ficou deitado e
inerte, tentando recuperar o fôlego. Aquele tinha sido o pior
passeio de sua vida; pior até do que a vez em que roubara as
sandálias de Mercúrio e tentara usá-las. Os malvados
monstrinhos alados voaram direto para uma coluna e Paelen
bateu com tudo nela. Quando acordou, Mercúrio flutuava
furioso acima dele.
Mas mesmo aquilo não fora tão terrível quanto o assustador
vôo que tinha acabado de fazer. Paelen tinha certeza de que
ia vomitar. Deitado de barriga para cima, respirou fundo
várias vezes e tentou fazer seu coração bater mais devagar.
Quando voltou a pensar com clareza, virou-se e, apoiando-
se nas mãos e joelhos, seguiu até a grade de ventilação.
Paelen perdeu o fôlego novamente quando viu Diana em
uma cama estreita, presa em grossas correntes que estavam
enroladas em sua cintura. Estas ligavam as correntes que
prendiam seus pulsos e, pelo que podia ver lá de cima, os
tornozelos estavam na mesma situação. Todas aquelas
correntes estavam presas à parede atrás dela.
- Estou ouvindo você. Apareça se tiver coragem.
Paelen ficou parado. Aquela era Diana, filha de Júpiter,
conhecida por seu temperamento feroz. Mais de uma vez
ele a viu deixar Hércules de joelhos, com sua língua afiada e
força feroz. Até o tio, Netuno, tinha medo da sobrinha e
fazia o possível para agradá-la. O único que conseguia
controlá-la era seu irmão gêmeo, Apolo, mas Paelen o viu
morrer no Olimpo. Ele próprio passara a vida toda tentando
evitá-la. Se Diana sabia o que ele fizera com Pegasus, Paelen
realmente duvidava que aquelas correntes poderiam segurá-
la.
Respirando fundo, empurrou um canto da grade de
ventilação. Quando ela cedeu, colocou a cabeça para fora
cautelosamente.
- Diana?
- Paelen! - ela respondeu furiosa. - Me disseram que estava
neste mundo. Você roubou as rédeas de Pegasus, seu
pequeno e tolo ladrão! Tem alguma idéia do que fez?
- Me perdoe Diana, por favor! - Paelen pediu enquanto se
esticava dolorosamente para passar pela saída de ventilação.
Depois voltou a sua forma normal e se ajoelhou ao lado da
cama. - Sei que errei, eu realmente sinto muito. Só queria
melhorar minha vida.
- Roubando as rédeas douradas?
Paelen assentiu.
- Achei que se as roubasse de Pegasus e depois as devolvesse,
ele passaria a gostar de mim e talvez até me deixasse montar
nele. Então todos no Olimpo veriam que sou tão bom
quanto o resto de vocês e talvez até me respeitassem e não
me vissem apenas como um ladrão. Juro que não queria
fazer mal a ninguém.
- Você fez o que fez para ser respeitado? - ela falou
incrédula. Ele assentiu com a cabeça.
- Só queria ser igual a todos vocês - ele murmurou.
Diana sacudiu a cabeça.
- Seu jovem tolo. Fez tudo isso apenas para provar que era
igual a todos nós? Você não enxerga? Como pode ser tão
cego? Paelen, você é um Olímpico, exatamente igual a mim,
ao meu pai e ao meu irmão. Não somos melhores que você,
mas, agora, o dano que causou é incomensurável. Você,
sozinho, condenou todos nós.
- Eu? Como? - Paelen perguntou. - O que fiz além de fugir
da batalha e pegar as rédeas de Pegasus?
Diana sacudiu a cabeça negativamente.
- Precisamos daquelas rédeas para lutar contra os Nirads.
- Não entendi - Paelen disse, confuso. - O que elas podem
fazer que o Pegasus não possa? Eu vi o que os cascos dele
fizeram a um Nirad. Um deles está morto, nesta instalação, e
ele morreu por causa de Pegasus, não das rédeas.
- Não são especificamente as rédeas, e sim o ouro de que são
feitas - Diana explicou. - Eu não sabia que o Pegasus podia
matá-los com seus cascos, mas lá no Olimpo descobrimos
que o ouro das rédeas era venenoso para os Nirads. Apenas
um toque já os deixava mais fracos e um contato mais
prolongado os matava. As rédeas são nossa única esperança
de termos armas contra os Nirads, mas agora elas se foram, o
Olimpo caiu e meu pai está acorrentado, talvez até morto.
Paelen se sentou sobre os calcanhares e olhou para Diana.
Em toda a sua vida, ele nunca a vira tão derrotada. Deitada
naquela cama e acorrentada, o olhar de desespero em seu
rosto era mais do que ele podia aguentar.
- Você está errada, Diana. As rédeas não estão perdidas, elas
estão aqui, neste lugar estranho. Estou com as sandálias de
Mercúrio e elas podem me guiar até as rédeas do mesmo
jeito que me trouxeram até você. Ainda podemos forjar
armas e derrotar os Nirads. Deixe-me ajudar, por favor.
Deixe eu provar a você e a todos que sou mais do que um
simples ladrão.
Diana sacudiu a cabeça tristemente.
- É tarde demais, Paelen. Os homens daqui também pegaram
o Pegasus e atiraram nele; eu o vi caindo. Talvez esteja
morto.
- Ele não está morto. - Paelen contou a Diana o que tinha
ouvido no quarto de Emily. - O agente J insistiu que Pegasus
está vivo. Sei que as sandálias podem me levar até ele se
quisermos.
- E a Emily? Você realmente a viu?
Paelen assentiu.
- O quarto dela é bem próximo do meu, mas ela está muito
doente. Sua perna está bastante ferida e o agente J disse que
ela quase morreu.
- Os Nirads a pegaram - Diana falou. - Ela e outro garoto, o
Joel, lutaram bravamente para proteger o Pegasus.
- A garota humana lutou contra um Nirad? - Paelen
perguntou incrédulo.
- Ela é uma criança muito especial. Quando partirmos, temos
que levar ela e Joel conosco. Precisamos deles para salvar o
Olimpo.
- Não entendo. Como simples humanos podem salvar nosso
lar?
- É complicado demais para explicar agora - ela respondeu -,
mas precisamos deles se quisermos ter sucesso em nossa
empreitada.
Paelen balançou a cabeça.
- Vai ser difícil. Aquele homem, o agente J, já a torturou
uma vez para tentar conseguir respostas sobre nós. Tenho
certeza de que fará muito mais para obrigá-la a falar.
- Ele torturou Emily? - Diana exclamou. - Eu vou matar
aquele maldito! - Ela fez força e esticou as correntes que a
prendiam. - Ele não tem idéia do que está fazendo. Sem ela e
Joel estaremos todos condenados!
Diana se esforçou para soltar as mãos das correntes, mas elas
resistiram.
- Não como ambrosia há muito tempo, por isso estou fraca e
não consigo quebrar estas correntes. - Ela olhou para Paelen.
- Gostaria de poder mudar a forma do meu corpo como
você. Seria muito mais fácil de escapar destas coisas.
Desistindo do esforço, ela se largou na cama.
- Ouça o que vou dizer, Paelen. Se está sendo sincero em
querer ajudar, você pode fazer algo. Use as sandálias de
Mercúrio para encontrar todo mundo. Conte a Pegasus o
que aconteceu e diga que quer ajudar. Conte sobre Emily e o
que o agente J fez com ela. Depois encontre Joel e Steve, o
pai de Emily, e conte-lhes o que sabe. Precisamos sair daqui
assim que ela estiver bem o suficiente para viajar. Talvez
ainda haja tempo para salvarmos os dois mundos, mas você
tem que ser muito cuidadoso. Use todas as suas habilidades
de ladrão; não deixe que o peguem. Se você falhar, todos
falhamos.
- Tomarei muito cuidado - Paelen prometeu, ficando em pé.
- Farei isso pelo Olimpo.
Parado orgulhosamente diante de Diana, Paelen começou a
esticar seus ossos e tentou esconder a dor que aquilo
causava, para que ela não percebesse sua fraqueza.
- Não vou falhar — ele prometeu enquanto entrava pelo
duto de ventilação.

Capítulo 24

Quando Emily acordou de novo, estava sozinha em seu
quarto. Sua perna latejava impiedosamente no local onde
aquele homem terrível a tinha pressionado. Ela se lembrava
de suas perguntas curiosas e da cruel expressão em seus
olhos quando lhe contou que tinha atirado em Pegasus. Será
que estava mentindo ou Pegs tinha mesmo levado um tiro?
Será que estava morto? E os outros?
O peso da preocupação caiu sobre ela enquanto permanecia
ali, deitada e sozinha. A UCP era tão maligna quanto seu pai
lhe havia dito. Talvez até pior. O agente J era a pessoa mais
perversa que ela já tinha conhecido e a última coisa de que
se lembrava era do sorriso cruel em seu rosto e o brilho em
seus olhos enquanto ele apertava sua perna machucada.
Emily olhou em volta. Enquanto esteve inconsciente, ela
tinha sido desconectada do monitor cardíaco e das outras
máquinas. Mas ainda recebia soro na veia e várias bolsas do
líquido a alimentavam através de seu braço. O que quer que
fosse, aquilo estava surtindo efeito. Ela se sentia bem
melhor, apesar da perna ainda doer, mas a febre tinha
diminuído e ela não mais estava confusa.
Com o quarto silencioso, ouviu os estranhos sons que vi-
nham de cima de sua cama e, ao olhar para o alto, deu um
pulo quando viu dedos empurrando silenciosamente a grade
de ventilação, que se abriu, e duas mãos estranhamente
longas saíram do duto.
- Olá? - ela chamou.
Emily ficou olhando hipnotizada quando dois braços muito
longos e magros deslizaram para fora, depois um
emaranhado de cabelos castanho escuros trazendo consigo
uma cabeça de formato bem estranho. Depois, ombros
dolorosamente finos saíram e, segundo a segundo, mais
daquela coisa que parecia uma cobra saía do duto de
ventilação.
Os olhos dela se voltaram para a porta e Emily pensou se
deveria pedir ajuda. Será que aquilo era um novo tipo de
criatura que tinha vindo matá-la? Será que tinha sido
mandada pelos Nirads? Quando ela abriu a boca para gritar, a
criatura-cobra falou.
- Não se assuste, Emily, estou aqui para ajudar.
Segurando o grito, a garota percebeu que a coisa usava uma
camisola de hospital igual à dela, mas o recheio da camisola
era a coisa mais estranha que Emily já vira na vida. Era quase
humano, com dois braços, duas pernas e uma cabeça, mas
totalmente distorcido.
A criatura pousou suavemente no chão de seu quarto. Emily
ouviu o terrível som de ossos se quebrando quando a
criatura começou a retornar a sua forma humana. Agora um
jovem rapaz estava ao lado de sua cama. Ele era quase
bonito, de um jeito meio estranho. Parecia um pouco mais
velho que Joel, mas era menor e tinha calorosos e
sorridentes olhos castanhos. Quando olhou para ele, Emily
teve certeza de que já o vira antes e, então, de repente, seus
olhos se arregalaram quando finalmente se lembrou.
- Paelen! - disse. - Você é Paelen, certo? Vi você roubando
as rédeas de Pegasus antes dos dois serem atingidos por um
raio.
Uma expressão de total surpresa surgiu no rosto dele.
- Como você me conhece?
- O Pegasus me mostrou - disse e, então, sua voz tornou-se
furiosa. - Vi o que você fez! Ele não teria sido atingido se
você não tivesse roubado as rédeas e atraído o raio!
- Eu sei, e sinto muito por isso - Paelen falou abaixando a
cabeça. - Estou tentando compensar o que fiz e por isso vim
aqui para ajudar. Me ouça, por favor, pois não tenho muito
tempo. Já falei com Diana...
- Você viu a Diana? - Emily interrompeu. - Ela está bem? E o
Pegs? Me disseram que atiraram nele, é verdade? Ele está
vivo? Estou com tanto medo por ele! E o meu pai? Você
encontrou ele e o Joel?
Paelen levantou as mãos para silenciar aquela enxurrada de
perguntas.
- Uma pergunta de cada vez, por favor. Sim, eu vi Diana, ela
também está neste lugar com a gente e parece bem, apesar
de estar acorrentada. Ainda não vi o Pegasus, mas vou atrás
dele depois de falar com você. Também não vi seu pai ou
Joel. - Ele fez uma pausa e se aproximou dela. - Só vim ver
se estava bem. Eu estava escondido ali em cima - falou
apontando para a entrada de ar - e vi o que aquele agente fez
com sua perna. Ele é um homem perigoso e cruel. Tive mais
de um encontro desagradável com ele.
Paelen se aproximou mais, ansioso para passar logo sua
mensagem.
- Ouça bem, Emily. Quando aquele homem voltar, e acre-
dite, ele voltará, diga a ele tudo, menos a verdade. Faça com
que suas afirmações pareçam verdadeiras. Não se recuse a
responder as perguntas, ou ele a machucará mais do que da
última vez. Diana me contou o que você fez pelo Pegasus e
como se feriu tentando protegê-lo. Ela também disse que
você e Joel nos ajudarão a salvar o Olimpo, mas para isso
você precisa ficar boa. Não podemos deixar este lugar até
que esteja pronta para viajar.
- A Diana falou mesmo tudo isso?
Paelen assentiu.
- Agora preciso encontrar os outros e dizer a eles o que está
acontecendo. Depois planejaremos nossa fuga, que só
ocorrerá depois que você estiver bem o suficiente para
viajar.
- Eu estou bem o suficiente para partir agora mesmo —
Emily falou e se inclinou para a frente, a fim de soltar as
amarras que seguravam sua perna suspensa no ar, mas, ao
fazer isso, ela ficou tonta.
- Pare, você ainda não está bem! - ele retrucou.
- Eu estou ótima! - Emily insistiu e se esforçou para se
mover.
- Não está não! - Paelen retrucou, segurando gentilmente os
ombros dela e a recostando de volta. - Você precisa de um
pouco mais de tempo para se recuperar. E eu ainda tenho
que achar os outros antes de fazermos qualquer coisa. Se o
Pegasus levou mesmo um tiro, talvez também precise de
tempo para se recuperar.
Emily se rendeu. Paelen tinha razão, ela realmente ainda
não estava bem para andar por aí.
- Ele vai precisar de açúcar. O Pegs não come comida de
cavalo, ele precisa de coisas doces.
- Eu sei. - Um sorriso charmoso e meio torto surgiu no rosto
de Paelen. - Sou exatamente igual. Prefiro comer chocolate.
- Eu também - Emily concordou mas as pessoas daqui acham
que o Pegs é um cavalo e não darão o que ele precisa comer
de verdade.
- Então eu farei isso - Paelen falou. - Prometo a você, Emily.
Pegasus terá tudo o que necessitar para recuperar sua força,
mas o que precisamos agora é que você descanse, assim
poderemos agir logo.
Emily assentiu com a cabeça e deitou novamente.
- Acho que tem razão, mas existe uma coisa que pode mudar
todos os nossos planos.
- E o que é? — ele perguntou.
- Os Nirads. Eles podem rastrear o Pegasus e a mim também.
Diana disse que é porque eles provaram o nosso sangue e
por isso conseguem nos seguir a qualquer lugar que formos -
Emily explicou. - Se já estamos aqui há quatro dias, eles
talvez estejam bem perto, mas como não sei onde estamos,
não tenho idéia de quão perto possam estar.
Paelen assentiu e pareceu estar pensando no que ela dissera
enquanto coçava o queixo.
- Quando eu estava em um lugar chamado Hospital
Belleview os homens daqui foram me pegar. Eles me
acorrentaram a uma cama estreita e me carregaram em uma
estranha máquina voadora. Nós viajamos uma curta distância
até uma pequena ilha próxima de onde estávamos. Este lugar
fica bem fundo na terra, sob aquela ilha, mas não sei a que
profundidade.
- Uma pequena ilha? - Emily repetiu. - Estamos em uma ilha
ao lado de Manhattan?
Paelen deu de ombros.
- Acho que sim. Havia uma estátua bem alta na água, uma
mulher verde segurando uma tocha, e ela olhava para nós.
- A estátua de uma mulher verde? - Emily refletiu e então
estalou os dedos. - Bom, só pode ser a Estátua da Liberdade!
Deixa eu pensar onde estamos... Talvez na Ilha Roosevelt?
— Ela negou com a cabeça. - Não, espere, isso fica do outro
lado da cidade. Talvez a Ilha Ellis? Será que a Estátua da
Liberdade fica de frente para a Ilha Ellis?
Paelen parecia confuso.
- Este é o seu mundo, não o meu.
Emily concordou com a cabeça.
- Sim, eu sei. Mas, pelo que me lembro, a Dona Liberdade
não fica de frente para a Ilha Ellis. — Então a resposta
finalmente surgiu em sua mente: a Ilha do Governador.
Quando ela era pequena, sabia que os filhos dos funcionários
da guarda costeira moravam lá, mas então precisaram sair e
foram realocados. Até onde todos sabiam, a Ilha do
Governador agora estava vazia. Que lugar melhor para
esconder uma agência secreta do governo do que uma ilha
vazia?
- Já sei onde estamos, Paelen.
- Isso é bom.
- Não, não é! - Emily esticou o braço e pegou na mão dele. -
Você não entende. Estamos na Ilha do Governador, que é
perto demais de Manhattan. Se os Nirads souberem nadar, é
uma viagem bem curta pela água e logo estarão aqui. - Ela
olhou intensamente para Paelen. - Eles podem nadar?
Paelen fez que não com a cabeça.
- Não, eles afundam. No Olimpo, foram os rios que os
atrasaram, até que descobriram outras maneiras de atravessá-
los.
- Eles sabem usar barcos? - Emily perguntou ansiosa.
Paelen deu de ombros de novo.
- Não sei. A verdade é que sei muito pouco a respeito dos
Nirads. Até eles atacarem o Olimpo, nunca tinha ouvido
falar deles.
- Temos que sair daqui o mais rápido possível; estamos mui-
to perto da cidade. Contei pelo menos quatorze Nirads atrás
de nós, e, se roubarem barcos no ancoradouro, podem vir
com eles até aqui. Mesmo se estivermos bem abaixo da
superfície, eles são fortes o suficiente para chegar até nós.
- Preciso contar tudo para o Pegasus e você precisa se
concentrar em melhorar. Se for mesmo como diz e os
Nirads estiverem perto, precisaremos partir em breve.
- Pode deixar - Emily concordou. - Apenas encontre o Pegs
e diga a ele o que sabe. Depois ache o meu pai e o Joel, por
favor. Eles também precisam saber de tudo.
- Sim, claro - Paelen deu um passo para trás e Emily assistiu
com um fascínio macabro enquanto ele começava a
manipular seu corpo novamente.
- Isso dói? - ela perguntou, tremendo ao ouvir o som de
ossos estalando.
- Sim, na verdade dói. E bastante! - Paelen respondeu quan-
do terminou de se esticar. - Mas me permite caber em
espaços bem apertados que ninguém mais consegue passar.
Júpiter ficou furioso quando consegui escapar de sua prisão.
- Júpiter colocou você na prisão?
A cabeça de cobra fez que sim.
- Ele me pegou roubando em seu palácio e mandou me
prender, mas acabei escapando. Talvez, se eu sobreviver a
isso tudo, ele me perdoe e me deixe livre.
- Se conseguirmos sobreviver a isso e salvarmos o Olimpo,
tenho certeza de que ele fará muito mais do que perdoar
você. Ele o considerará um herói.
Paelen sorriu alegremente.
- Acha que ele faria isso?
Em sua forma de cobra, o sorriso de Paelen era horrível de
se ver. Emily desviou os olhos para não passar mal.
- Tenho certeza de que ele fará isso — disse.
- Então farei o melhor que puder por todos nós.
Quando Paelen terminou de se enfiar novamente no duto de
ventilação, Emily se ajeitou na cama. Tudo estava
acontecendo tão rápido que ela mal conseguia manter os
pensamentos alinhados. Eles estavam no subterrâneo, bem
abaixo da Ilha do Governador. Pegasus parecia ter levado um
tiro e Diana estava acorrentada. Seu pai e Joel tinham sido
escondidos em algum lugar desconhecido e os Nirads
estavam a apenas uma curta viagem de barco daquele lugar.
Emily rezou para que Paelen estivesse falando a verdade e
que realmente os ajudasse. Caso contrário, ela não conseguia
ver um jeito de escaparem. Enquanto tentava pensar na
melhor maneira de agirem, o sono dominou seu corpo
exausto. Logo Emily se rendeu a ele e adormeceu.

Capítulo 25

Paelen estava em um duto de ventilação pensando no que
deveria fazer a seguir. Ele sabia que era tarde da noite por-
que houve a troca da guarda do lado de fora de seu quarto e
as atividades no prédio diminuíram.
Ele tinha tempo, pois ninguém apareceria em seu quarto até
a manhã seguinte. Aonde ele iria agora, ver o pai de Emily?
Joel? Ou aquele que ele mais temia encontrar, Pegasus?
Encarar Diana foi difícil, mas, no fim, ela podia ser
convencida. Com Pegasus seria diferente. Ele não tinha
como escapar do fato de ter roubado as rédeas do garanhão e
ter pensado em domá-lo.
Ele sabia e Pegasus também. Será que conseguiria convencê-
lo de que tinha mudado e que queria ajudar? Alguma hora
ele teria que encarar o garanhão e aquele era um momento
bom como outro qualquer.
- Me levem até Pegasus - Paelen ordenou.
Às asas das sandálias começaram a bater imediatamente e,
apesar de ele tentar se preparar para ser arrastado
dolorosamente por um labirinto de dutos através do prédio,
a experiência continuou sendo dura e o machucou.
Pegasus era mantido na parte mais subterrânea da instalação,
abaixo do andar onde estava o Nirad morto. Enquanto as
sandálias levavam Paelen pelo sistema de ventilação, ele
sentiu o cheiro do duto que levava ao laboratório onde o
monstro havia sido cortado e ficou feliz por elas não terem
parado. As sandálias finalmente começaram a desacelerar e
viraram em um túnel que terminava em uma grade de
ventilação. Paelen sentiu o cheiro adocicado do garanhão.
- Parem - ordenou.
Ele colocou as sandálias de lado e se arrastou até a grade.
Quando olhou por ela, Paelen ficou sem ar com a primeira
visão que teve do garanhão.
Pegasus estava irreconhecível. A única coisa remotamente
familiar nele eram suas asas, que ainda eram brancas
enquanto o resto do corpo era uma terrível combinação de
marrom e preto. Mas ainda pior do que as cores era o estado
dele.
Pegasus estava deitado e imóvel em um monte de palha. Seu
peito e a lateral estavam cobertos por bandagens grossas e
suas asas estavam abertas e mantidas em ângulos não
confortáveis. Por um momento Paelen temeu que o grande
garanhão estivesse morto. Mas, enquanto observava,
percebeu as laterais dele subirem e descerem em uma
respiração fraca.
Depois de abrir a grade, Paelen desceu até o quarto.
- Pegasus? - ele chamou baixinho.
Nada.
Paelen chamou de novo enquanto se aproximava com
cuidado da cabeça do animal.
- Por favor, sou eu, Paelen. Vim aqui para ajudá-lo.
Quando se ajoelhou ao lado de Pegasus, ele acordou. Do
mesmo jeito que com Diana, Paelen jamais vira tanta dor e
desespero em um olhar. Ele sentiu os olhos marejados
enquanto acariciava a face do garanhão.
- Eu fiz isso com você — ele falou miseravelmente. — Por
favor, me perdoe. Se soubesse o que iria acontecer, teria
encarado a minha destruição no Olimpo com alegria em vez
de vê-lo assim.
Pegasus soltou um suspiro longo e inquisidor.
- Emily está aqui - Paelen respondeu fungando. - Está viva,
se recuperando dos ferimentos e muito preocupada com
você. Vou vê-la mais tarde. O que quer que eu diga a ela?
Pegasus fez vários sons fracos.
- Não vou dizer a ela que está morto! — Paelen exclamou
horrorizado. - Não falarei isso porque não está morto. Você
não pode morrer! Você é o Pegasus e tem que viver!
Pegasus resmungou novamente e tentou levantar a cabeça,
olhando Paelen nos olhos.
- Sim, eu vi Diana. Ela também está aqui e não está ferida,
mas também está muito preocupada com você.
Deitando a cabeça, Pegasus soltou mais um som suave.
- Sim, é claro que fugiremos daqui — Paelen garantiu. —
Vamos todos juntos. Você não vai ficar aqui, Pegasus; eu
não permitirei. Sei que está ferido e com dores terríveis, mas
vai se recuperar. Precisa apenas de descanso e boa comida.
Paelen olhou em volta e viu que Emily tinha razão. As
pessoas aqui pensavam que Pegasus era um cavalo e a
comida que trouxeram não era o que ele precisava. Com os
vários ferimentos que tinha e sem ambrosia, Pegasus estava
morrendo.
- Ouça, Pegasus. Eu causei isso e agora vou me redimir. Emi-
ly precisa de você; todos nós precisamos. Você não vai
morrer. Vou buscar comidas que o ajudarão a se recuperar.
Funcionou comigo e vai funcionar com você, mas precisa
lutar para viver.
Paelen ficou em pé e olhou para o garanhão caído.
— Não desista, Pegasus. O Olimpo precisa de você. - Quan-
do começou a caminhar, se virou mais uma vez. - Emily se
preocupa muito com você. Pense nela.
Pegasus levantou a cabeça e lançou um olhar suplicante para
Paelen.
— Você precisa se cuidar. Se morrer, terá falhado com ela e
a deixará a mercê dessas pessoas cruéis. O agente J já a
machucou uma vez e a machucará de novo, por isso aguente
firme, ela precisa de você. Voltarei logo.
Em seguida ele entrou pelo duto de ventilação e pegou as
sandálias.
— Espero sinceramente que saibam aonde ir - ele falou
segurando as sandálias, e então ordenou:
— Me levem até a cozinha onde eles preparam a nossa
comida.
Paelen não tinha idéia de como as sandálias funcionavam,
mas aquilo dava certo. Não muito depois eles entraram em
outro duto e a boca de Paelen começou a salivar com o
cheiro doce do açúcar.
— Obrigado, sandálias - disse enquanto se aproximava da
grade. Seus aguçados sentidos de ladrão ouviam e sentiam,
em busca de qualquer sinal de vida, mas não havia nenhum.
Ele se arrastou por uma grande entrada de ventilação e
desceu em uma cozinha espaçosa. Tudo parecia ser feito de
metal e todas as superfícies brilhavam.
Aquele lugar era enorme e ele demoraria séculos para
encontrar o que precisava, mas com sua própria fome
fazendo o estômago roncar e seu nariz comandando as
ações, levou pouco tempo para que Paelen achasse os
tesouros doces na cozinha. No armário atrás de açúcares,
encontrou melado, geleias e um grande estoque de
chocolate para cozinhar. Quase chorou de alegria quando
achou um congelador cheio de sorvete. Ele teria que fazer
várias viagens para levar tudo para o garanhão, mas com toda
a noite pela frente, havia muito tempo para isso.
Paelen descobriu um longo avental de cozinheiro e o
encheu com várias coisas, incluindo os dois primeiros potes
de sorvete, amarrando-o depois como se fosse um
embrulho. Ele subiu na pia e colocou tudo no duto de ar o
mais rápido que pôde, olhando para trás para ter certeza de
que tinha deixado tudo como havia encontrado. Satisfeito
porque ninguém notaria que estivera ali, Paelen subiu para o
duto atrás da comida.
- Me levem até Pegasus - ordenou às sandálias e acrescentou
-, mas não tão rápido, pois estou carregando coisas
importantes.
As sandálias obedeceram. Pouco depois Paelen estava de
volta ao quarto de Pegasus, abrindo o avental e pegando a
comida. Ele tirou a tampa do primeiro pote de sorvete e o
entregou ao garanhão.
- Tome Pegasus, coma.
Apesar de fraco e exausto, Pegasus começou a lamber o
sorvete, que começava a derreter do pote. Não muito tempo
depois, Paelen já abria o outro pote, que também foi
devorado rapidamente. Quando todo o sorvete acabou,
Paelen misturou um saco de açúcar, melaço e um pouco de
água em um dos potes e deu para o garanhão, que outra vez
bebeu vorazmente.
Enquanto segurava o pote, Paelen deu uma mordida em uma
barra de chocolate. Era diferente da que tinha pegado na
máquina, mas tão boa quanto. Antes que pudesse acabar
com ela, Pegasus se esticou para comer também.
- É claro - disse oferecendo seu doce para o garanhão. - Você
precisa mais do que eu.
Durante metade daquela noite, Paelen trouxe o máximo de
comida que conseguiu para Pegasus, que estava faminto; em
determinado momento ele ficou preocupado que o que
trouxera não seria suficiente. Mas, finalmente, quando havia
sobrado menos de um quarto dos suprimentos, Pegasus
soltou um suspiro e se deitou na palha.
Paelen se sentou ao lado do garanhão e pediu desculpas mais
uma vez por ser a causa de todos os problemas dele. Logo
antes de Pegasus cair em um sono restaurador, ele fixou o
olhar em Paelen e avisou que eles conversariam sobre aquilo
quando estivesse recuperado.
Depois que o garanhão finalmente dormiu, Paelen se
levantou. Ele olhou para Pegasus dormindo e sentiu um
enorme arrependimento por ter pensado em tentar ser o
dono dele, percebendo que era tão culpado quanto os
humanos daquele lugar. Ele via Pegasus apenas como um
cavalo alado e uma maneira rápida de ficar rico. Nunca o
enxergara como o magnífico Olímpico que realmente era.
- Durma bem, Pegasus - ele falou enquanto ia embora em
silêncio. - Durma e fique bom.

Capítulo 26

De volta aos dutos, Paelen escondeu em um deles o que
sobrara das comidas doces. Pegasus precisaria de mais nos
dias seguintes, a menos que as pessoas dali começassem a
entender que tipo de dieta ele precisava seguir. Diana
precisaria daquilo também. Como ainda era noite e Paelen
sabia que tinha tempo, pegou novamente as sandálias. — Me
levem ao pai de Emily.
Quando elas o arrastaram, Paelen logo descobriu que aquela
seria a sua pior jornada. Ela começou igual às outras, mas
logo as sandálias o levaram ao longo túnel vertical que
conectava todos os andares da grande instalação. Como
estavam no chão, Paelen olhou para cima e pôde ver
incontáveis andares.
As sandálias entraram no túnel principal e começaram a
subir. Mais alto e mais alto. Paelen reconheceu o duto que
levava ao seu quarto e ao de Emily. As sandálias passaram
rápido por ele e continuaram a subir. Elas se moviam cada
vez mais velozes enquanto continuavam a voar cada vez
mais para o alto. Paelen percebeu os curiosos sons de
máquinas pesadas e então ouviu o inconfundível som de
algo girando. O que quer que fosse, as sandálias o estavam
levando direto para aquilo.
Ele percebeu que, quanto mais perto se aproximava do som,
mais rápido as sandálias voavam. Naquele duto de
ventilação, longo e escuro, Paelen não conseguia ver
claramente para onde estava indo, mas quando olhou para
cima, seus olhos enxergaram o brilho de estrelas lá no alto.
O único problema é que aquele brilho parecia piscar quando
algo o bloqueava e depois saía da frente dele. Se
concentrando naquilo, os olhos de Paelen foram se
ajustando à escuridão e ele ficou sem ar, aterrorizado. As
sandálias o estavam levando em direção a um enorme
ventilador em movimento.
Aquele era o coração do sistema de ventilação. O ventilador
puxava o ar fresco de fora e o forçava para baixo, em direção
a todos os andares da instalação, e aquilo estava prestes a
fazer Paelen em pedaços.
As enormes lâminas afiadas estavam se aproximando. Paelen
tentou ordenar que as sandálias parassem, mas não teve
tempo. Elas continuavam acelerando. Ele só teve tempo de
olhar para cima e esperar pela morte.
Mais perto.
Mais perto.
Ele fechou os olhos e se preparou para o pior. Um instante
depois, sentiu o ar jorrando à sua volta e então uma
mudança brusca. Quando abriu os olhos, ficou assustado ao
descobrir que estava fora da instalação e voando bem alto no
ar da noite.
- Parem, sandálias! - ele ordenou.
Suspenso no ar acima da Ilha do Governador, Paelen olhou
para baixo e para dentro da larga chaminé de onde saíram
voando.
Era possível ver as lâminas mortais do grande ventilador
girando. De algum jeito, as sandálias o carregaram por entre
elas sem que fosse atingido.
Com um grande arrepio, Paelen desviou o olhar. As luzes de
Manhattan brilhavam do outro lado da água. Um pouco mais
à frente ele viu a mesma moça verde segurando sua tocha.
Emily a tinha chamado de Dona Liberdade, mas ao olhar
direito para baixo, Paelen ficou ainda mais surpreso.
- Casas! Bem bonitas e nem um pouco ameaçadoras!
Ele olhou de novo para a grande chaminé e viu que era parte
de uma enorme casa de tijolos. Na frente, ela tinha belos
pilares, altos e brancos, e era muito parecida com algumas
casas do Olimpo. Mais à frente, na rua com árvores alinhadas
e bem aparadas, Paelen viu uma linda casinha amarela no
meio de um grupo de outras belas casas.
Examinando a área, Paelen não conseguia entender o que
via. Como aquelas belas casinhas podiam esconder um
segredo tão sombrio e perigoso? Não tinha como alguém que
olhasse para aquela sublime ilha suspeitar que ela continha
algo terrível como a UCP.
Agora do lado de fora, ele pensou onde o pai de Emily
estaria. Perto de onde flutuava, Paelen viu um prédio baixo
de tijolinhos, com barras de ferro nas janelas. Parecia uma
prisão, e ele imaginou que seria um bom lugar para
prenderem o pai de Emily.
- Me leve ao pai de Emily - Paelen falou, esperando que as
sandálias o levassem em direção ao prédio de tijolinhos, mas,
em vez disso, elas o levaram mais para cima e para o céu
estrelado, depois o carregaram por cima da água e para longe
da ilha.
Quando, por fim, sobrevoaram terra firme novamente,
Paelen mandou as sandálias pararem.
- Onde quer que o pai de Emily estivesse preso, não era na
Ilha do Governador.
- É melhor me levarem até Joel.
Elas voaram de volta para a Ilha do Governador e ele pôde
ver barcos na água e algumas poucas luzes acesas nas casas
da ilha, mas não viu ninguém se movendo.
- Esperem - ele falou. - Me levem para o chão.
As sandálias baixaram Paelen suavemente na grama.
Enquanto se abaixava, tentou ouvir o som de soldados ou de
alguém se movendo por ali, mas tudo o que escutou foram
os insetos da ilha e o barulho que vinha da enorme cidade
do outro lado da água. Ele estava sozinho.
Paelen examinou a área e de repente percebeu que, se
quisesse, poderia simplesmente calçar as sandálias e dizer
para que o levassem a qualquer lugar que desejasse. Ele
poderia ficar naquele mundo ou voltar para o que tinha
sobrado do Olimpo. Pela primeira vez em sua longa vida,
Paelen estava completa e verdadeiramente livre.
Mas, enquanto pensava em partir, se lembrou da terrível
visão de Pegasus deitado, quebrado, ferido e derrotado, e,
depois, da orgulhosa Diana, acorrentada a uma cama,
faminta e sem poder se mexer. Finalmente seus
pensamentos chegaram à garota, Emily, e o som de seu
choro agonizante quando o agente J apertou sua perna
machucada.
Se ele partisse agora, estaria livre fisicamente, mas nunca
conseguiria escapar daquelas imagens dignas de um
pesadelo. Mesmo pensando que talvez acabaria sendo um
ladrão para o resto da vida, Paelen sabia que não conseguiria
viver com sua consciência se abandonasse os outros à
própria sorte na UCP. Ficando em pé de novo, Paelen
levantou as sandálias.
- Me levem alto o suficiente sobre a ilha, para que eu possa
procurar os Nirads.
Obedecendo ao seu comando, as sandálias o levantaram no
ar. Paelen usou seus sentidos para procurar por sinais de
Nirads atacando a pequena ilha. Depois de uma boa busca,
ficou feliz em não encontrar nenhum. Talvez não tivessem
achado um jeito de chegar até lá. Enquanto olhava para o
pequeno trecho de água que os separava de Manhattan,
pensou se era o suficiente para manter os Nirads longe.
— Já está bom - ele disse finalmente. — Me levem até Joel.


Capítulo 27

Paelen chegou ao duto de ventilação que dava no quarto de
Joel ainda tremendo por conta da viagem angustiante que
fizera para voltar à instalação. Sair pelo grande ventilador
fora aterrorizante. Voltar foi ainda pior.
Joel estava preso no mesmo andar que Diana. Paelen se
arrastou para a frente e olhou através da grade. O garoto
estava dormindo.
— Joel — ele chamou.
O garoto se virou na cama e resmungou.
— Acorde, Joel.
Mais resmungos vieram da cama.
Paelen sabia muito bem quão brutal era o agente J. Se tinha
sido capaz de machucar Emily, que estava ferida, temia o
que poderia ter feito com o garoto. Ele forçou a grade e
entrou no quarto, ficando ao lado da cama e tocando no
ombro do menino adormecido.
— Acorde, Joel.
Joel abriu os olhos e lançou a Paelen um olhar grogue.
— Me deixe em paz — ele resmungou.
- Por favor, Joel - Paelen sussurrou. — Emily me pediu para
achar você.
- E-Emily? - Joel repetiu.
- Sim. Ela está ferida, mas se recuperando. Também vi Diana
e Pegasus. Você precisa acordar, por favor.
O rosto de Joel estava machucado e inchado, com os olhos
vermelhos e pesados. Quando empurrou as cobertas e se
esforçou para ficar em pé, Paelen viu mais machucados
pretos em seu pescoço, peito e braços. Também havia
marcas onde os homens tinham injetado suas drogas.
- Quem é você? - Joel perguntou, tentando acordar de uma
vez.
- Meu nome é Paelen.
- Paelen! — disse Joel pulando para a frente e segurando seu
pescoço. - Você causou tudo isso! - a raiva o fez acordar de
vez. Começando a correr, ele empurrou Paelen contra a
parede.
- Nada disso teria acontecido se você não tivesse pegado as
rédeas! Pegasus não teria sido atingido pelo raio! Emily não
teria sido ferida pelos Nirads! Devia te matar pelo que fez!
Paelen sentia os dedos de Joel em volta de seu pescoço, mas
neles não havia pressão de verdade. O garoto estava furioso,
mas não era um assassino. Paelen também achava que Joel
tinha todo o direito de estar bravo, pois, de fato, ele causara
tudo aquilo. Por isso não lutou com ele, mesmo sabendo que
era muito mais forte. Em vez disso apenas o deixou gritar e
esbravejar para que botasse tudo para fora. Pouco depois, a
energia de Joel acabou e ele soltou Paelen.
- Por quê? - ele perguntou furioso. - Por que fez aquilo?
Paelen notou que Joel estava trêmulo. O agente J o tinha
machucado bastante. Mais do que aqueles ferimentos
visíveis em seu corpo, aquilo era notório pelo modo como
ele se mantinha em pé, se segurando. A raiva tinha lhe dado
energia, mas os estragos do interrogatório estavam
mostrando a cara novamente.
- Volte para a cama, Joel, por favor. Você não está bem. -
disse segurando-o gentilmente pelos braços.
- Estou bem o suficiente para acabar com a sua raça! - Joel
desafiou, por ser um palmo mais alto do que o Olímpico.
Paelen sorriu. Apesar daquela situação difícil, ele gostou
muito do espírito do jovem humano.
- É claro que está, mas devia guardar energia para a luta que
está por vir. Agora, Emily precisa de você.
A menção do nome Emily acalmou Joel, que deixou Paelen
o levar de volta para a cama.
- Onde ela está? Emily está bem? O que fizeram com ela?
- Ela está com medo - Paelen explicou - e com razão. O
agente J a machucou, apesar de eu suspeitar de que ele te
machucou muito mais.
- Estou bem — Joel falou defensivamente.
- Eles injetaram em você uma droga que queima como fogo
em suas veias?
Joel assentiu e uma sombra surgiu em seu rosto.
- O que fizeram com Emily?
- O agente J fez um monte de perguntas e, quando Emily se
recusou a responder, apertou sua perna ferida. A dor foi tão
grande que ela desmaiou.
- Vou matar ele! - Joel disparou. - Não ligo se vão me pren-
der pelo resto da vida, vou matá-lo por ter machucado a
Emily!
Paelen deu uma risadinha.
—Acredito que terá de lutar com Pegasus e Diana por esse
privilégio. Pode ficar orgulhoso de sua amiga, ela não disse
nada a eles.
- Eu tentei não falar nada — Joel falou em um sussurro baixo
— e acho que não contei da guerra no Olimpo, mas não
tenho certeza. Estou acostumado a brigar, então quando me
bateram, apenas ri na cara deles, mas depois vieram as
drogas...
Joel começou a tremer. A expressão de terror voltou aos
seus olhos. O que quer que tenham feito com ele, seria
lembrando por muito tempo.
- Tudo vai ficar bem - Paelen falou calmamente. - Vamos
sair daqui.
- Como? Eu nem sei onde estamos.
- A Emily sabe. Ela disse que estamos na Ilha do Governa-
dor. Sei que esta instalação é subterrânea e bem profunda,
mas consigo andar por onde quiser. Há olhos de serpente
vigiando tudo nos corredores, mas não nos túneis que uso
ou nos quartos.
- Olhos de serpente? — Joel perguntou.
Paelen assentiu.
- O agente J diz que pode ver tudo o que acontece por aqui.
Foi assim que descobriram que eu tinha escapado do meu
quarto. Estava no corredor e eles me viram.
- Ah, você quer dizer câmeras! — Joel finalmente entendeu
e olhou em volta de seu quarto. — Você tem razão, não há
nenhuma por aqui. Acho que não colocam câmeras nos
quartos porque não querem que ninguém grave as torturas
que fazem com os prisioneiros.
-Talvez - Paelen concordou, imaginando os horrores que
elas teriam testemunhado sendo feitos com ele. — Mas isso
me deixa livre para visitar todos vocês, desde que eu use os
dutos. Quando Pegasus estiver bem o suficiente para viajar,
nós fugiremos.
- Qual o problema com Pegasus? É a asa de novo?
Paelen abaixou os olhos, envergonhado, e explicou que o
garanhão tinha sido alvejado.
- Levei toda a comida de que ele precisava, mas não sei se
era tarde demais. Ele está muito mal. Tenho medo de que
Pegasus possa estar morrendo.
Joel esticou as mãos e segurou os braços de Paelen.
— Ele não pode morrer! Se isso acontecer, estamos mortos
também! Pegasus é o único que pode encontrar a Filha de
Vesta!
Paelen fez uma careta.
- O que a Vesta tem a ver com Pegasus?
- Emily não contou a você o que Pegasus veio fazer aqui?
Quando Paelen negou com a cabeça, Joel contou tudo o que
sabia sobre a Filha de Vesta e o Fogo do Olimpo. Paelen
começou a andar de um lado para o outro.
— Então é por isso que não fomos destruídos quando os
Nirads apagaram o Fogo do Templo. Temos que sair deste
lugar para que Pegasus complete sua missão e leve o Fogo de
volta ao Olimpo!
— Não brinca! — Joel falou com sarcasmo. — O que acha
que estivemos tentando fazer todo esse tempo? Mas agora
que estamos aqui...
— Podemos escapar — Paelen insistiu. — Só precisamos
garantir que Pegasus viva.
- Você é um Olímpico, certo? - Joel perguntou depois de um
momento.
— Sou sim.
- Você é tão forte quanto Diana? Pode me tirar deste quarto
para que possamos ir até Emily?
- Sou bem forte - Paelen concordou - e posso arrombar a
porta sim, mas ainda não é o momento de agir. Pegasus
precisa de tempo para se recuperar, e você também.
- Eu estou bem - Joel falou, acariciando o queixo ferido
pensativamente. - Certo, faça o seguinte. Continue dando
açúcar para o Pegasus, o máximo que puder. No instante em
que ele ficar bem, volte aqui e me liberte. Então soltaremos
Emily, depois Diana e Steve. Acho que teremos gente o
suficiente para enfrentá-los e fugir daqui. Então iremos
encontrar a Filha de Vesta e Pegasus a levará de volta ao
Olimpo.
Paelen voltou ao duto de ventilação. Ele achou melhor não
contar ao rapaz que o pai de Emily não estava lá, então
apenas assentiu.
- Muito bom. Verei Emily mais tarde e direi a ela como você
está. Se voltarem aqui para te interrogarem, faça o que puder
para evitar responder as perguntas deles. Não vai demorar
muito agora, Joel. Logo você estará livre.

Capítulo 28

Emily estava se sentindo melhor. Os antibióticos que
tomava estavam vencendo a infecção causada pelo
ferimento do Nirad, e o remédio para dor fazia com que ela
quase não sentisse mais a perna doer e latejar. Deitada na
cama, observou a enfermeira, que obstruía a visão do
machucado, trocar o curativo de seu ferimento.
- Está muito feio? - Emily perguntou.
- Está feio - a enfermeira respondeu. — Infelizmente houve
muitos danos. Os cirurgiões fizeram o possível, mas a
infecção estava muito avançada.
Emily estava com medo de fazer aquela pergunta, mas não
tinha opção.
- Eu vou conseguir andar de novo?
A enfermeira parou o que estava fazendo e se virou para ela.
- Eu realmente não sei. Provavelmente vai precisar de ajuda,
talvez uma bengala ou até mesmo uma muleta, mas não
pense nisso agora. Seu trabalho é se concentrar em ficar boa.
- E o que vai acontecer depois?
A enfermeira encarou Emily por mais um momento e então
voltou à sua tarefa de trocar o curativo da perna. O silêncio
dela disse mais a Emily do que ela gostaria de saber. A
resposta era simples: não havia futuro. Quando a UCP
tivesse terminado, ela simplesmente desapareceria.
- Você viu o Pegasus? - Emily acabou perguntando.
- O seu cavalo alado?
Emily estava cansada de corrigir as pessoas. Se queriam
chamar o Pegasus de cavalo, tudo bem. Ela sabia a verdade e
isso era o suficiente.
- Não tenho permissão para vê-lo. Veterinários estão
cuidando dele, mas, pelo que ouvi, a coisa não vai bem.
Parece que recebeu muitos tiros e eles duvidam de que vá
sobreviver.
- O Pegs vai morrer? — Emily exclamou, tentando sair da
cama. — Tenho que vê-lo!
- Pare, Emily - a enfermeira alertou, lutando para mantê-la
na cama. - Você não tem forças para isso e pode acabar
prejudicando ainda mais a sua perna.
Emily começou a entrar em pânico.
- Você não entende, eu tenho que ver o Pegasus! Ele me
salvou dos Nirads, não posso perdê-lo, não agora!
Enquanto lutava com a enfermeira, Emily não ouviu os bips
da porta e nem os dois homens que entraram no quarto.
Tudo o que via era que precisava chegar até Pegasus. De
repente, mais braços a seguraram e impediram que saísse da
cama.
- Me solte! - Emily gritou. — Tenho que ir até o Pegasus!
- Pare, Emily! - O agente J ordenou.
- Me deixe em paz! - ela gritou em resposta. - Preciso ir até
ele!
- Está bem! - o agente gritou enquanto ele e o outro homem
a seguravam firme, deitada na cama. - Está bem. Se quer
tanto vê-lo, permitiremos, mas pare de se debater.
Emily ofegava. Olhou para os agentes com os olhos cheios
de lágrimas.
- Me levem até ele, por favor.
- Nós a levaremos, mas com uma condição - o agente falou.
- Depois de vê-lo, você responderá nossas perguntas, sem
resistir nem mentir. Se quer ver o Pegasus, prometa que vai
dizer tudo o que queremos saber.
Ao encarar aqueles olhos frios, Emily se lembrou da
conversa que tivera com Paelen e como ele tinha dito para
ela não se negar a responder nada, mas dizer o máximo de
mentiras que pudesse. Então assentiu com a cabeça.
- Se me levar até ele agora, prometo responder todas as suas
perguntas, mas só depois de ver o Pegasus.
O agente J se virou para o outro homem.
- Consiga uma cadeira de rodas, agente O. Se Emily quer ver
Pegasus, ela o verá.

Pouco tempo depois, Emily estava em uma cadeira de rodas
e sendo levada a Pegasus através dos corredores da
instalação. Ela quase se esqueceu da dor na perna enquanto
seus temores em relação ao garanhão dominavam todos os
seus sentidos. Ao chegar ao elevador, percebeu que o agente
J apertara o último botão. Pegasus era mantido no andar mais
subterrâneo da instalação.
Quando chegaram, desceram por um longo corredor até um
quarto que ficava no final dele. O agente J foi até a trava de
som e se preparou para digitar o código, mas antes se virou e
olhou para ela.
- Tenho a sua palavra de que vai responder minhas perguntas
depois de vê-lo?
Emily não disse nada e apenas assentiu com a cabeça.
Ao digitar o código, o agente não teve cuidado em esconder
o que fazia, e Emily pode ver os números da senha que ele
digitava. Quando a luz verde piscou e a porta soltou um
clique, a sequência já estava bem guardada em sua memória.
O agente J abriu a porta e o agente O empurrou a cadeira de
rodas para a frente. Ao observar o local, o coração de Emily
quase parou de agonia. Pegasus estava deitado no feno, no
meio do quarto, coberto de bandagens e mal respirando.
- Pegs! - Emily se levantou da cadeira, mas sua perna
machucada não sustentou seu peso e ela caiu no chão.
O agente J tentou colocá-la de volta na cadeira.
- Pare, Emily. Não há nada que você possa fazer por ele
agora. Lágrimas surgiram em seus olhos da mesma forma
que o ódio surgiu em seu coração.
- Não encoste em mim! - gritou ferozmente enquanto
empurrava a mão dele para longe. Depois ignorou a terrível
dor em sua perna e se arrastou até Pegasus.
- Pegs - sussurrou enquanto esticava sua mão trêmula até a
cabeça, agora preta, do garanhão. - Sou eu, Pegs. Não morra,
por favor. Preciso de você.
Ela não segurou as lágrimas, que caíram incontroláveis
enquanto a garota beijava o focinho do animal.
- Por favor, Pegs, você não pode morrer! Simplesmente não
pode!
Quando deitou a cabeça em seu robusto pescoço e chorou
pelo belo garanhão, Emily ouviu uma mudança sutil na
respiração dele. Não sabia se os outros também podiam ouvir
ou ver algo, mas ela podia. Pegasus respirou fundo e
calmamente. Ele sabia que ela estava lá e estava
respondendo a isso.
- Emily - disse o agente J ao se aproximar. - Fiz o que
prometi, deixei você ver Pegasus. Agora é a sua vez. Venha
aqui e vamos conversar.
Naquele instante, sem saber como, Emily soube que não
deveria deixá-lo. Pegasus precisava desesperadamente dela
ali. Ela podia sentir. Mais do que isso, Emily também
precisava dele. Sem olhar para o agente, ela respondeu:
- Se quer respostas para suas perguntas, você as terá, mas só
responderei aqui. Não deixarei o Pegasus sozinho.
- Isso não era parte do acordo - disse o agente em tom
ameaçador.
- Não - disse Emily olhando friamente para ele. - Não era
mesmo, mas agora é. Qual é o problema em me deixar ficar
aqui enquanto respondo às suas perguntas? Você consegue o
que quer e eu posso ficar ao lado dele.
- Não é bom para você ficar aqui - o agente J retrucou. - E se
ele morrer enquanto estiver aqui?
- Então alguém que o ama será a última pessoa ao lado dele,
e não você! - respondeu ferozmente. - Se tentar me levar de
volta para o quarto, juro que nunca mais direi nenhuma
palavra, não importa o que façam comigo!
Uma sombra de raiva passou pelos olhos do agente J.
- Está bem - cedeu ele. - Se quer ficar com um cavalo que
está morrendo enquanto falamos, tudo bem. - Ele se
inclinou sobre ela. - Espero que aprecie o tanto de regras
que estou deixando de lado por você, minha jovem. Espero
a mesma consideração de sua parte. Você responderá todas
as minhas perguntas sem hesitar e com a verdade. Entendeu
bem?
Emily continuou deitada sobre o pescoço do garanhão e
acariciando o rosto dele.
- Entendi perfeitamente.
Um cobertor e duas cadeiras foram trazidos para aquele
quarto. Quando levaram o cobertor até ela, Emily sentiu
Pegasus ficar tenso. Ele não estava tão mal a ponto de não
perceber o que acontecia à sua volta, e não gostava do
homem que se aproximou dos dois.
Quando os agentes da UCP se sentaram em suas cadeiras,
Emily se ajeitou confortavelmente no feno. Ela estava o
mais próximo possível de Pegasus, com seu corpo apoiado
na área do pescoço e cabeça dele, acariciando seu rosto e
orelhas. Estar perto dele já era o suficiente para que ela se
sentisse melhor.
- Muito bem, Emily - disse o agente enquanto ligava seu
gravador. - Vamos começar do começo. Como foi que você
encontrou Pegasus?
Ela respirou fundo. Emily sabia que jamais poderia contar a
eles o verdadeiro motivo para ele e Diana estarem em Nova
York, o Fogo e a guerra no Olimpo, mas queria passar o
máximo de tempo que pudesse com o garanhão, então
resolveu seguir os conselhos de Paelen e mentiu. Começou
contando a verdade, falando da grande tempestade e de
como Pegasus fora atingido por um raio e caído no terraço
de seu prédio, mas, desse ponto em diante, a verdade se
transformou em uma história fantástica que se equiparava
aos melhores mitos gregos ou romanos.
O agente J se inclinou para a frente.
- E por que eles vieram até aqui?
- Bom - ela começou -, Diana me disse que lá no Olimpo um
ladrão roubou as rédeas douradas de Pegasus e escapou
usando as sandálias do mensageiro.
- Então não é o Mercúrio que temos preso aqui?
Emily fez que não com a cabeça.
- É só um ladrão. Diana me disse que ela e Pegasus têm
perseguido esse homem através do cosmos, pulando de
mundo em mundo e de cidade em cidade, e eles finalmente
acabaram aqui em Nova York. Ela disse que eles foram
atingidos pelo raio e por isso se separaram. Pegasus caiu no
terraço do meu prédio e Diana caiu no Central Park.
- E o tal ladrão? — o agente J perguntou. - Você sabe o
nome dele?
- Não consigo me lembrar - ela disse, coçando a cabeça. -
Acho que Diana me disse um nome que começava com a
letra P.
- Paelen? - o agente O perguntou. - O nome dele é Paelen?
- Isso mesmo! - Emily concordou. - É esse nome. Diana
disse que Paelen também roubou um saco de moedas de
ouro do pai dela, Júpiter, e que ela e Pegasus vieram até aqui
para resgatar tudo antes que ele descobrisse e perdesse a
paciência. Ela falou que quando Júpiter perde a cabeça,
mundos inteiros são destruídos.
- Mas se já tinha as moedas, por que Paelen foi atrás das
rédeas de Pegasus? - o agente J quis saber.
Emily deu de ombros.
- Acho que ele é ganancioso. Diana disse que Júpiter não liga
muito para as moedas, mas ficaria furioso se descobrisse a
respeito das rédeas, por isso eles esperavam conseguir
recuperá-las antes de ele perceber.
- Ouro é ouro - o agente J falou tranquilamente. - Ele tinha o
suficiente, mas queria mais.
- Espere um pouco — interveio o agente O. - Tem mais
coisa aí. Na mitologia, quem possuir as rédeas de Pegasus
poderá controlar o garanhão. - Ele se concentrou em Emily.
- Paelen queria o Pegasus, não é mesmo?
Aquela era a primeira vez que Emily ouvia aquela história da
mitologia, por isso deu de ombros.
- Não sei, Diana não me disse nada sobre isso. Só me falou
que precisavam conseguir tudo de volta antes que seu pai
descobrisse. Mas agora que as moedas e as rédeas se
perderam, não dá pra saber o que ele fará.
- As rédeas não se perderam — o agente O falou. - Elas estão
aqui.
- Aqui? - Emily perguntou. - É mesmo? As moedas de ouro
também?
O agente O negou com a cabeça.
- Nada de moedas, mas tínhamos as sandálias.
- Como assim tinham? - ela perguntou enquanto continuava
acariciando o Pegasus.
O agente J concordou com a cabeça.
- Parece que alguém as roubou.
Emily deu de ombros novamente.
- Talvez elas tenham saído voando. Diana me falou que elas
têm vontade própria, então talvez tenham voado de volta
para o Olimpo.
- Pode ser - disse o agente J não parecendo muito conven-
cido. - Ou temos um ladrão entre nós. Agora me diga, onde
fica o Olimpo?
Emily sacudiu a cabeça e respondeu a verdade.
-Juro que não sei. - Então olhou para os olhos fechados de
Pegasus. - Diana falou que Pegasus era seu único jeito de
voltar para casa. Se morrer, ela ficará presa aqui.
- Não, isso também está errado - o agente O interrompeu
novamente. - Na mitologia antiga, os deuses sempre vinham
para a Terra e não há nenhuma menção sobre Diana cavalgar
Pegasus. Como quer que tenha vindo aqui, ela veio usando
seus próprios poderes. O que mudou?
- Não sei - Emily deu de ombros. - A Diana não fala muito
comigo, acho que não gosta de mim. Ela ficou furiosa
comigo e com o Joel por termos tingido Pegasus com essas
cores, para tentar escondê-lo de vocês. Quase nos matou
quando o viu assim.
- Não é surpresa ela ter ficado brava - o agente O falou. -
Olha o trabalho feio que você fez com o primo dela.
- O Pegs é primo dela? - Emily perguntou genuinamente
surpresa.
- Diana é a filha de Júpiter, certo? — O agente O perguntou.
Quando ela assentiu, ele foi em frente. - Bom, na mitologia,
Pegasus surgiu da união de Medusa e Netuno e, como todos
sabem, Júpiter e Netuno são irmãos, então isso faz com que
Pegasus e Diana sejam primos.
Emily olhou para Pegasus.
- Medusa e Netuno são seus pais? Como isso é possível?
- Nos diga você - o agente J falou. - É você que está afir-
mando que todos eles vieram do Olimpo e que passou um
tempo com eles. Imagino que tenham contado tudo isso.
- O Pegasus não fala - Emily retrucou. - Só sei o que Diana
me contou, e, como já disse, não foi muito. Ela realmente
me odeia pelo que fizemos com o Pegs.
- Pelo que vimos, Diana odeia todo mundo - o agente J
completou amargamente. — E o que ela falou sobre os
Nirads? O que eles são? E mais importante: por que estão
tentando matar você e o Pegasus?
Emily já temia que ele fizesse aquela pergunta. O que pode-
ria dizer que seria plausível? Era o Joel que conhecia a
mitologia romana, não ela, mas Emily sabia que se não
dissesse algo, eles a levariam para longe de Pegasus, e ela não
podia deixar aquilo acontecer.
- Fui ferida por acidente - acabou dizendo. - Eles não es-
tavam atrás de mim; pareciam estar atrás do Pegasus. Eu
estava no lugar errado na hora errada e aquele Nirad acabou
segurando na minha perna.
- Mas o que são eles? — o agente J pressionou. — E por que
estão aqui?
- Não sei - Emily respondeu honestamente. — Nem a pró-
pria Diana sabe. Tudo o que me falou é que estão atrás do
Pegasus por alguma razão, provavelmente porque ele pode
matá-los quando ninguém mais consegue. Ela disse que a
última vez que o Olimpo teve inimigos foi há muito tempo,
numa grande guerra contra outra raça, mas não lembro qual.
Talvez eles tenham mandado os Nirads aqui para pegarem o
Pegasus.
- Os Olímpicos estiveram em guerra contra os Titãs — o
agente O ofereceu.
- Isso, foi esse o nome que Diana falou. - Emily concordou
rapidamente e olhou para o agente J. - Não sei por que está
me fazendo todas essas perguntas quando ele parece ter
todas as respostas - falou apontando para o agente O.
- Eu estudei a mitologia - o agente O respondeu. - Isso é
muito diferente de saber as respostas para as perguntas que
temos. Se o Pegasus e os outros vieram mesmo do Olimpo,
então as velhas histórias podem ser verdadeiras, mas, se for
esse o caso, onde estiveram esse tempo todo?
— Finalmente uma pergunta que posso responder! - se
preparando para oferecer mais uma mentira plausível. -
Perguntei exatamente a mesma coisa para Diana. Ela
respondeu que não precisávamos mais dos Olímpicos, então
eles ficaram no Olimpo e pararam de vir ao nosso mundo. O
pai dela diz que é perigoso demais com todas as nossas novas
armas e tecnologias. Ele, inclusive, proibiu qualquer um dos
Olímpicos de vir para cá, o que é uma das razões para Diana
e Pegasus perseguirem o ladrão até aqui. Não queriam que
ele fosse pego e que o segredo da existência do Olimpo fosse
revelada.
- Então parece que não fizeram um bom trabalho, não é
mesmo? - O agente J disse sarcasticamente. - Mas isso ainda
não responde a questão dos Nirads. Se Diana precisa do
garanhão para voar, qual o meio de transporte que eles
usam?
Emily fez uma pausa. Aquela era uma boa pergunta. Como
os Nirads chegaram a Nova York?
— Não sei, de verdade — ela respondeu. — Diana não me
falou. Só disse que ela usou o Pegasus e que o ladrão usou as
sandálias do mensageiro para chegar aqui, mas não
mencionou como os Nirads vieram para Nova York. Meu
pai me disse que, no começo, várias pessoas afirmaram
terem visto demônios de quatro braços saindo dos esgotos,
mas isso não explica como chegaram aqui ou se há mais
deles à caminho. Sinto muito, mas realmente não sei.
O agente O olhou para seu parceiro.
- Acho que está dizendo a verdade. Ela não sabe mesmo.
Temos que conseguir essas respostas de Diana.
- Mas aquela mulher é impossível! - disse, furioso, o agente J.
- Será mais fácil tirar sangue de uma pedra! Nada funciona
nela, e com Paelen é a mesma coisa. Drogas, torturas,
ameaças; nada solta a língua deles. A Emily aqui é nossa
única chance de conseguir a verdade.
Ele se concentrou novamente na garota.
- Certo, vamos tentar do começo de novo. Conte mais uma
vez o que aconteceu na noite do blecaute.

Emily finalmente se deitou em sua cama, exausta e esgotada
depois de dar tantas informações. Ela não tinha idéia de
quanto tempo passara sendo interrogada pelos agentes, mas
provavelmente tinha sido quase o dia todo. Eles repetiam as
mesmas perguntas várias vezes para ver se ela cometia um
erro e contava algo a mais.
Com Pegasus ao seu lado e o aviso de Paelen ressoando em
seus ouvidos, Emily tinha tomando muito cuidado para não
se desviar de sua história, e ficou agradecida quando eles
finalmente pararam, pois estava começando a ficar muito
cansada e tinha que se esforçar mais para manter as mentiras
em sua cabeça.
Quando o interrogatório terminou, Emily implorou para
poder ficar com Pegasus, mas o agente J negou o pedido, e
ela viu quão prazeroso foi para ele dizer não. Enquanto
tentavam arrastá-la, Emily sentiu Pegasus se mexer. Deitada
o dia todo em seu pescoço, ela sentiu o pulso do animal se
fortalecer embaixo dela. Ele estava voltando a ser ele mesmo
rapidamente. Por esse motivo, ela ficou com medo de que
Pegasus tentasse atacar os homens. Se fizesse algo, Emily
tinha certeza de que o agente J mandaria matá-lo e que
depois o dissecariam para ver como as asas funcionavam.
Para alertar o garanhão, Emily se jogou por cima do pescoço
dele e começou a se debater histericamente, dizendo que
não queria ir. Quando dois ajudantes vieram pegá-la, ela
conseguiu sussurrar no ouvido dele.
- Não se mova, Pegs, por favor. Eu voltarei.
Continuando com seu chilique, Emily sentiu que ele se
acalmava e que não iria se mover, e finalmente foi arrastada,
colocada na cadeira de rodas e levada de volta para seu
quarto.

Capítulo 29

Paelen passou a maior parte do dia, quando possível, no duto
de ventilação do lado de fora da sala onde Pegasus estava
preso e ficou maravilhado com as histórias que Emily
contou aos agentes. Aquelas mentiras se igualavam a
qualquer coisa que ele pudesse ter inventado. Ela poderia ser
uma grande ladra, mesmo sendo humana.
Quando todos partiram, Paelen entrou silenciosamente na
sala e levou mais comida para o garanhão, ficando
impressionado com quão melhor ele estava, e sabia que
aquilo tinha a ver com Emily. Pegasus tentou esconder, mas
Paelen viu claramente a conexão entre o garanhão e a
garota.
Depois de se assegurar de que Pegasus tinha comido tudo o
que queria, Paelen voltou ao quarto de Emily, chegando
momentos antes de todos e esperando em silêncio no duto
de ventilação. Logo ouviu o código sonoro da porta. Era o
mesmo do seu quarto. Agachado mais para trás no duto, ele
viu a porta se abrir.
- Foi um longo dia — o agente J falou. - Quero que
descanse. Amanhã podemos continuar de onde paramos.
Quando a enfermeira e o ajudante a colocaram na cama,
Emily olhou para o agente J.
- Não entendi. Respondi tudo o que me perguntou. Não sei
mais nada.
- Ah, isso não é exatamente verdade, é Emily? - ele pergun-
tou desconfiado. - Tenho certeza de que há alguns
pedacinhos e detalhes que está escondendo.
- Não tem não - ela insistiu. - Você disse que eu poderia ver
o Pegasus se falasse a verdade e foi o que fiz. Não há mais
nada para contar.
- Você passou vários dias com o garanhão, Emily - o agente
O apontou -, e tempo mais do que suficiente com Diana para
saber o que está acontecendo e por que estão aqui de
verdade.
Quando Emily começou a protestar novamente, Paelen viu
o agente J levantar um dedo como um aviso.
- Não se esforce. Sei que ainda está escondendo coisas de
nós. Descanse esta noite, amanhã iremos discutir tudo de
novo.
Sem falar mais nada, eles saíram do quarto. Enquanto o
assistente arrumava a bandeja com o jantar e a colocava
perto da cama, a enfermeira ajudava Emily a colocar a perna
no suporte.
- Se eu fosse você, diria a eles o que querem saber. — A
enfermeira alertou. — Esses agentes não são boas pessoas.
- Mas eu já disse tudo que sabia! - Emily exclamou. - O que
mais eles querem?
- Eles querem a verdade, e vão conseguir de um jeito ou de
outro, mas o modo como conseguirão depende de você.
- Como assim?
- Você pode dar a eles o que querem. Ou então, acredite em
mim, eles conhecem maneiras que você jamais imaginaria
de tirar tudo de uma pessoa.
Emily jogou os braços para o alto.
- Como posso dizer a eles o que eu não sei?
- Não sei, querida, mas é melhor ter mais a dizer, ou amanhã
pode ser o pior dia de sua vida.
Quando terminaram, os dois deixaram o quarto. Emily
empurrou a bandeja nervosamente para longe da cama.
- Eu comeria se fosse você - Paelen falou calmamente da
grade de ventilação. - Você nunca sabe quando será
alimentada de novo.
Emily olhou rapidamente para cima.
- Paelen!
Os dedos do ladrão abriram a grande gentilmente. Depois de
ter visto a mesma coisa no dia anterior, observá-lo esticar o
corpo agora já não era tão assustador, embora o som de ossos
se quebrando ainda a deixassem bem nervosa.
- Estou muito feliz por você estar aqui. Ouviu o que a
enfermeira disse? Eles vão me torturar amanhã!
Paelen assentiu.
- Também ouvi o que contou a eles hoje, quando estava com
o Pegasus.
- Você estava lá? - Emily disse incrédula. - Como? Não ouvi
você no duto de ventilação. Eles não sentem sua falta
quando sai de seu quarto?
- Você se esqueceu de que sou um ladrão? Ficar em
completo silêncio é uma de minhas habilidades especiais. E
eles desistiram de ir toda hora ao meu quarto quando
descobriram que não podem me obrigar a falar, então me
deixam em paz na maior parte do dia e a noite toda. Parece
que todos os esforços estão concentrados em você, mas
devo admitir que o Joel não teve vida fácil também.
- Você encontrou o Joel? - Emily perguntou ansiosamente. -
Como ele está? E o meu pai?
- O Joel está relativamente bem - Paelen falou -, mas
infelizmente tenho que dizer que usaram de violência para
tentar fazê-lo falar. Até agora, igual a você, ele resistiu
bravamente e falou bem pouco, mas não sei por quanto
tempo aguentará a tortura. Ele está com raiva, mas muito
determinado. Ele me atacou assim que ouviu meu nome pela
primeira vez.
- Desculpe, isso aconteceu por culpa minha - Emily disse
timidamente. - Eu contei a ele o que você fez com Pegasus e
as rédeas douradas. Mas Joel é um cara legal depois que você
o conhece direito. Pode ter cara de poucos amigos, mas é
muito gentil por dentro.
- Ele já se acalmou um pouco. - Paelen puxou a mesinha
com bandeja para perto da cama. - Agora coma, por favor.
Precisará estar forte para o que vai enfrentar. — Ele viu o
medo surgir nos olhos dela. — O que quer que aconteça,
Emily, eu estarei com você. Não desista, por favor.
- Não desistirei - ela disse, pegando a comida. Então segurou
a taça de pudim de chocolate e deu para ele. - Tome, você
precisa disso mais do que eu.
Paelen aceitou contente a sobremesa. Ele tinha voltado
várias vezes à cozinha, mas roubara a maior parte das
comidas açucaradas para Pegasus e Diana poderem se
recuperar, e tinha comido bem pouco.
- Acha que o Pegasus está indo bem? - ela perguntou
enquanto comia sem o menor interesse.
- Se recuperando. Ele está comendo bem e sua força está
voltando.
- Ele parecia morto quando eu o vi hoje de manhã - Emily
falou com a voz trêmula. - Isso me deixou muito assustada.
Mas então sua respiração se acertou e ele se mexeu um
pouco.
- O Pegasus gosta muito de você. Não tenho dúvida de que
vê-la hoje fez mais bem a ele do que todo o sorvete que
tenho levado.
Emily sorriu e seu rosto todo se iluminou.
- Ele adora mesmo tomar sorvete - Emily lalou e então sua
expressão ficou séria. — Temos que tirar ele daqui. E você e
Diana também. Vocês não pertencem a este mundo; se não
formos logo, tenho medo de que matem Pegasus apenas para
ver como ele funciona por dentro.
- Tenho medo disso também - Paelen admitiu. - Já estou no
limite da minha sorte. Eles estão furiosos comigo por não
cooperar e, se não tomar cuidado, tenho certeza de que
tentarão me matar também.
- Certo, então quando vamos embora? - ela perguntou.
Paelen a estudou, fascinado. Ele podia ver as ideias girando
na cabeça dela.
- Logo - ele respondeu.
- Você precisa pegar as rédeas e entregá-las a Diana, para que
ela possa fazer as armas para reconquistarmos o Olimpo -
Emily falou. - É a única coisa que pode matar os Nirads.
Depois, precisamos tirar Joel e meu pai de seus quartos.
Paelen respirou fundo e segurou o ar. Depois o soltou
devagar.
- Emily, preciso lhe contar uma coisa. Seu pai não está aqui.
A testa da garota se franziu de preocupação.
- Como assim ele não está aqui? Ele tem que estar aqui!
Paelen negou com a cabeça.
- As sandálias de Mercúrio me levam a qualquer lugar que
peço. Na noite passada, dei a ordem para que me levassem
até o seu pai. Elas me carregaram para fora deste lugar e para
o céu. Depois cruzamos as águas e fomos nos afastando desta
pequena ilha.
- E onde ele está? Onde as sandálias levaram você?
- Não sei - Paelen admitiu. - Pedi para elas pararem e me
trazerem de volta, para que pudesse ajudar todos vocês.
- Espere um minuto - Emily disse confusa. - Você saiu
daqui? Estava lá fora, livre?
Paelen assentiu com a cabeça.
- E por que não foi embora? Diana falou que você era um
ladrão que só pensava em si mesmo. Não entendo por que
não fugiu.
- Eu poderia ter fugido, e devo admitir que, por um mo-
mento, pensei nisso, mas então pensei em Pegasus e Diana.
O que aconteceria com eles? E depois pensei em você e
percebi que não poderia deixá-la à mercê dessas pessoas.
- Você voltou por nossa causa?
- Sim - Paelen admitiu. - Sou o único que pode visitar todos
aqui. Só eu posso ajudar a libertar todos nós deste maldito
lugar.
Paelen viu a dúvida no rosto dela. Será que Emily tinha uma
idéia tão ruim dele que não imaginava que pudesse mudar de
verdade?
- Me desculpe por não ter conseguido achar o seu pai.
Lágrimas escorreram pelo rosto da garota.
- Acha que ele está morto?
- Acho que não, pois as sandálias estavam me levando até ele
- Paelen argumentou. - Duvido que teriam feito isso se ele
estivesse morto. Por razões que desconheço, eles prenderam
seu pai em outro lugar.
- Mas onde? - Emily perguntou. - E por quê? O que estão
fazendo com ele?
- Me desculpe, eu não sei - Paelen disse suavemente. — Mas
o resto de nós ainda pode escapar daqui, e então talvez
possamos encontrar seu pai e o libertar.
Emily fungou, limpou as lágrimas e assoou o nariz.
- Ainda temos que achar as rédeas.
- Então devo começar a procurar agora mesmo - Paelen
prometeu. - Trarei as rédeas para cá e então planejaremos
nossa fuga.

Capítulo 30

Quando Paelen foi embora, Emily se deitou e tentou não
deixar que o medo em relação ao destino de seu pai a
dominasse, mas era impossível. Ela ainda não via nenhum
agente da UCP bom ou decente. Eles eram tão maus e cruéis
quanto seu pai havia descrito. Será que ele estava sendo
torturado naquele momento? O que estariam fazendo?
Paelen disse que já haviam torturado Joel para tentar fazê-lo
falar. O que será que fizeram com ele?
Enquanto se ajeitava, tentou se acalmar. As coisas não
estavam completamente perdidas. Paelen conseguia andar
livremente por aquela instalação e era ágil e inteligente, mas
mais do que isso ele se importava com eles e, com sua ajuda,
iriam conseguir soltar Pegasus, depois libertariam Diana e
Joel e começariam a procurar por seu pai.
Emily repassou os eventos do dia. Não as perguntas e nem as
expressões assustadoras dos agentes; ela pensou em Pegasus.
No começo ele parecia muito vulnerável, mas conforme o
dia foi passando, ela tinha certeza de que sentiu ele se
fortalecer e sabia que o garanhão fingiu estar mais fraco do
que realmente estava. Ele entendeu que se reagisse colocaria
todos eles em perigo, então fez o que ela pediu e entrou no
jogo. Mas será que Pegasus estaria forte o suficiente para se
levantar e fugir com eles? E se não conseguisse, será que os
quatro teriam força suficiente para levantar e carregar o
garanhão?
Emily estava começando a se acalmar quando sirenes
absurdamente altas começaram a soar por toda a instalação.
Ela se sentou e escutou repentinos passos pesados e gritos no
corredor do lado de fora de sua porta. Era como se um
monte de pessoas estivesse correndo para cima e para baixo
em pânico.
"Paelen!", ela pensou, e o medo surgiu em seu coração. "Ele
foi pego!" Aquele pensamento atravessou o cérebro dela
como uma bala. Todos os planos de fuga sumiram em um
instante. Paelen era a única esperança que tinham de
escapar, e agora tudo estava perdido. Quando o desespero
ameaçava dominá-la por completo, Emily ouviu a voz de
Paelen chamar seu nome urgentemente mais alto do que os
alarmes furiosos.
- Emily! - ele gritou novamente do duto de ventilação.
Ela olhou para cima e o viu abrindo a grade. Paelen gritou de
dor ao esticar seu corpo bem mais rápido do que ela estava
acostumada, então passou pela pequena abertura. Emily viu
o brilho das rédeas bem apertadas na mão dele.
- Eles sabem que você escapou, Paelen! Precisa sair daqui!
Leve as rédeas para Diana e depois vá com ela até o Pegs.
Você não pode ser pego agora.
- Não fui eu quem causou esse caos. São os Nirads! Eles estão
aqui e vieram atrás de você e do Pegasus!
- Nirads! Achei que não podiam atravessar a água.
- Parece que acabaram encontrando um jeito. Tenho que
tirar você daqui. — Ele se abaixou para calçar um belo par de
sandálias, que tinham pequenas asas e eram cobertas por
pedras preciosas.
- As sandálias de Mercúrio! - Emily disse ofegante.
- Olhe para a minha perna, Paelen. Não posso andar. Deixe-
me aqui e vá libertar Diana e o Pegs. Você é a única
esperança deles. Vá salvá-los, por favor.
- Eu vou - Paelen prometeu —, mas acabei de ver o Pegasus
e ele está de pé e se movendo bem, e disse que me mataria
se eu não levasse você até ele. Eu já o traí uma vez e não
pretendo fazer isso novamente.
Paelen afastou as cobertas e depois começou a soltar a perna
dela do suporte.
- Me desculpe, mas isso pode doer.
- Nem ligo pra isso - ela respondeu. - Apenas me solte logo.
- Ela estremeceu enquanto sua perna era retirada das
amarras. -Você viu os Nirads? Quantos são?
- Eu não os vi - Paelen admitiu —, mas posso sentir o cheiro
deles e não são poucos. Os homens desta instalação estão se
reunindo para lutar contra eles, mas vão falhar. Não temos
muito tempo antes que nos alcancem.
Paelen deu as rédeas douradas para Emily.
- Segure isso para mim. Se um Nirad chegar perto de nós,
acerte ele com as rédeas, mas não jogue neles, pois vamos
precisar delas. - Ele se virou e ofereceu as costas para ela. —
Suba. As sandálias podem nos carregar muito mais rápido do
que eu consigo correr.
Emily segurou as rédeas com cuidado e subiu nas costas de
Paelen.
- Não sou muito pesada para você?
Ele se virou e deu um sorriso torto para ela.
- Nem um pouco. Agora se segure!
Paelen carregou Emily até a porta e digitou o código para
abrir a fechadura. Quando saíram para o corredor, o som dos
alarmes tinha chegado a um nível assustador. Emily ficou
surpresa ao ver uma massa de soldados armados correndo
pelo longo corredor.
-Vocês dois, voltem para o quarto! - um dos homens orde-
nou enquanto passava correndo por eles.
Paelen ignorou a ordem.
- Está pronta? - ele gritou por sobre o som das sirenes.
- Vamos lá! - Emily gritou de volta.
Ela apertou as rédeas de Pegasus em sua mão e abraçou
Paelen com força enquanto ele gritava uma série de palavras
estranhas. De repente, flutuaram.
- Me leve até Diana o mais rápido possível! - Paelen
ordenou.
Quando ele falou que as sandálias podiam se mover mais
rápido do que ele corria, Emily não fazia idéia de quão
rápido seria aquilo. Ela se segurou com força, temendo por
sua vida, enquanto as sandálias dispararam, passando pela
multidão de soldados correndo. Quando se aproximaram das
escadas, Paelen mal teve tempo de esticar o braço e abrir a
porta antes de as sandálias os arrastarem para dentro.
Eles desceram voando em uma velocidade assustadora e
derrubando os soldados no caminho. Quando chegaram ao
andar de Diana, ouviram os terríveis rugidos e grunhidos dos
Nirads vindos do andar de cima.
- Eles estão nas escadas! - Emily falou no ouvido de Paelen!
Ele praguejou.
- Se segure bem firme, vou pedir para as sandálias irem mais
rápido.
- Mais rápido? - ela exclamou.
No tempo que teria levado para Emily gritar de medo, as
sandálias arrebentaram as portas e voaram pelo corredor até
pararem em frente a uma porta trancada. Como aquela área
já estava quase vazia, pois os soldados tinham corrido para as
escadas, Paelen colocou Emily no chão.
- Afaste-se que eu vou arrombar a porta.
Apoiada em sua perna boa, Emily viu Paelen chegar perto da
porta.
- Diana, sou eu, Paelen! - Ele gritou bem alto por causa dos
alarmes. — Se solte dessas correntes, se conseguir. Os Nirads
estão aqui e precisamos ir embora!
Ele se afastou da porta e olhou para as sandálias.
- Me levantem - ele exclamou — e arrebentem aquela porta!
Obedecendo a ordem, as sandálias levantaram Paelen no ar.
Então, quando as asas bateram a uma velocidade mais rápida
do que os olhos podiam ver, ele soltou um grito. Emily não
tinha certeza se era um grito de guerra ou de puro terror por
voar na direção de uma porta de segurança. Qualquer que
fosse o caso, o estrondo foi bem mais alto do que todos os
alarmes da instalação no momento ele foi carregado para a
frente e usado como um aríete para derrubar a porta, como
se ela fosse feita de palitos de sorvete.
A porta explodiu com o impacto do corpo de Paelen. Emily
foi pulando em um pé só até a abertura e olhou. Paelen
estava deitado inconsciente em um canto.
- Emily! - Diana exclamou arrancando as últimas correntes
que a prendiam. — Estou muito feliz em vê-la! — Ela se
ajoelhou e examinou Paelen para ver se havia algum
ferimento sério. — Ladrãozinho tolo - falou gentilmente. -
Devia haver um jeito melhor de abrir a porta sem se
arrebentar todo, tonto.
- Não havia tempo - Emily falou. — Os Nirads estão nas
escadas. Há soldados lutando com eles, mas não vai demorar
para que cheguem até Pegasus.
- Então precisamos alcançá-lo primeiro - Diana respondeu.
Ela colocou Paelen sentado e começou a dar tapinhas de
leve em seu rosto.
-Vamos, Paelen, acorde. Nossa jornada está apenas
começando.
Paelen soltou um resmungo baixo e abriu os olhos. Quando
viu quem o apoiava, seus olhos se arregalaram.
- Diana! - ele exclamou alarmado.
- Não tenha medo de mim, ladrãozinho. Você conquistou o
meu respeito. Está bem o suficiente para se levantar?
Paelen fez que sim com a cabeça e se levantou meio
trêmulo.
- Nirads! - ele gritou. — Eles estão aqui.
- A Emily já me contou. Temos que ir até o Pegasus.
- E até o Joel - Emily falou. - Não podemos esquecer o Joel.
- É claro que não - Diana concordou. - Vamos pegar o Joel
primeiro e depois buscamos o Pegasus. - Diana viu o que
Emily estava carregando. - Você está com as rédeas!
Ela as ofereceu a Diana, que recusou com um movimento de
cabeça.
- Não, criança. Fique você com isso. Talvez precise delas se
os Nirads nos alcançarem.
Finalmente recuperado, Paelen foi até a porta.
- Joel está neste mesmo andar, não muito longe daqui. Diana
ajudou Emily a subir nas costas dele.
- Como está a perna? — ela perguntou.
- Não muito boa - Emily admitiu -, mas não vou deixar isso
nos atrasar.
Em um gesto que surpreendeu Emily, Diana se inclinou e
deu um beijo em sua bochecha.
— Esta é a minha garota corajosa! Vamos, temos que partir.
Arrombar a porta de Joel não foi tão dramático. Com os dois
Olímpicos usando sua força superior, a fechadura não
resistiu e pouco depois a porta foi aberta. Emily ficou
agradecida por Joel não ter sido acorrentado. Ele estava
parado no meio do quarto, esperando por eles.
— Você demorou para voltar, hein? — ele reclamou com
Paelen. Então viu Emily e a abraçou forte. - Fiquei tão
preocupado com você!
- Eu também - ela concordou e o abraçou também. — Os
Nirads estão aqui, Joel. Temos que buscar o Pegs!
Joel olhou para o pequeno grupo.
- Cadê o seu pai?
Emily lutou com suas emoções, que ameaçaram encher seus
olhos de lágrimas.
— Ele não está aqui, parece que o levaram para outro lugar,
mas não sei onde.
Joel a abraçou de novo.
- Não se preocupe, Em, vamos encontrá-lo.
- Bom, não vamos achar ninguém se os Nirads nos pegarem
- Paelen alertou. - Temos que buscar o Pegasus e sair logo
daqui!
Emily foi colocada novamente nas costas de Paelen e eles
seguiram até as escadas.
— Pegasus está preso no último andar lá de baixo — Paelen
falou -, mas não me agrada ter de usar as escadas de novo.
Os Nirads estão descendo por elas.
- Não temos escolha - Diana falou, abrindo as portas e os
guiando em frente.
Todos ouviram os ferozes sons dos Nirads misturados com
tiros e homens gritando, que pareciam vir de vários andares
acima.
- Eles estão se aproximando - Diana alertou. - Temos que
andar rápido.
Quando desceram e viraram em uma das curvas da escada,
deram de cara com os agente J e O.
- Não se movam! - o agente J ordenou, pegando sua arma.
- Não seja tolo! - Diana respondeu com desdém. - Os Nirads
estão aqui e vão matar você e todos neste lugar. Eles querem
o Pegasus. Se o tirarmos daqui, eles nos seguirão e os seus
homens não precisarão morrer.
- Você não vai levar aquele cavalo a lugar nenhum! — ele
respondeu.
- Cavalo? - Diana vociferou furiosa. - Chamou ele de cavalo?
Se movendo mais rápida do que um raio, Diana atacou.
- Como ousa? - perguntou enquanto empurrava os dois
agentes contra a parede com a força de um trem de carga. —
Ele é o Pegasus!
Os homens não tiveram a menor chance contra a Olímpica
enraivecida. O ar saiu tão rápido de seus pulmões que eles
desmaiaram na hora e caíram no chão. Diana passou por
cima deles.
- Considerem-se afortunados - falou para os corpos inertes. -
Se tivesse tempo, mostraria a vocês quanto estou furiosa
pelo que fizeram com Emily e Pegasus.
Em vez disso, ela empurrou as portas que davam para o
corredor com força suficiente para arrancá-las das
dobradiças. Emily olhou para Joel, que, assustado, deu de
ombros. Eles entraram no corredor onde ficava o quarto de
Pegasus e os poucos soldados que lá estavam não queriam
brigar, tinham visto as portas serem arrancadas das
dobradiças e não pretendiam enfrentar a Olímpica furiosa.
- Pegasus está lá no final - disse Emily, apontando para a
grande porta do quarto ao qual fora levada. Quando
chegaram, Paelen a pôs no chão e se preparou para arrombar
a porta com Diana.
- Esperem! - Emily falou. - Sei o código, não precisam
arrombar.
Joel a ajudou a alcançar o teclado e digitar o código que vira
o agente J usar. Imediatamente a luz verde piscou e a porta
se abriu. Mesmo antes de entrar, Emily ouviu o melhor som
de sua vida: o relinchar de Pegasus. Quando passou pela
porta, seu coração se iluminou com a visão do garanhão em
pé.
- Pegs! - disse ela, jogando seus braços em volta do robusto
pescoço do garanhão e sentindo sua força. - Ó, Pegs, pensei
que você fosse morrer!
- Ele ainda pode morrer se não sairmos daqui - Joel lembrou.
- Esqueceu os Nirads? Aqueles caras de quatro braços,
fedidos e com dentes grandes, lembra? Eles estão nas escadas
e, se não andarmos logo, vão nos encurralar aqui!
- Ele tem razão — Diana falou e foi até Emily. — Pode me
dar as rédeas, por favor?
Quando Emily as entregou, Diana usou sua incrível força
para quebrar as rédeas de ouro em vários pedaços grandes.
- Infelizmente não temos tempo para forjar armas melhores
- ela disse, dando um pedaço para cada um. - Por enquanto
terá que servir. Se os Nirads chegarem perto de vocês, usem
isso contra eles e o ouro os matará, mas não larguem seus
pedaços; eles serão sua única arma.
Diana deu o maior e mais afiado pedaço para Emily.
- Não, é melhor ficar com você - Emily protestou. - Você
luta melhor do que eu.
- Mas você é mais importante - Diana retrucou.
- Quê? — ela disse confusa. — Não, não sou. Você e o
Pegasus é que são. É melhor ficar com você... - Emily viu
algo bem no fundo dos olhos de Diana.
- Oh - ela acabou dizendo suavemente.
Pegasus relinchou impaciente com suas orelhas para a frente
e seus olhos arregalados.
- Eles estão se aproximando! - disse Diana, se virando para
Paelen. - Me ajude a colocar Emily sobre o Pegasus. Ele vai
cuidar dela a partir de agora. O resto de nós lutará se for
preciso.
Emily fez o possível para ficar em silêncio enquanto eles a
colocavam nas costas de Pegasus, mas gritou quando
mexeram na perna machucada para a deixarem na posição
certa.
- Me desculpe, criança - Diana falou gentilmente. - Quando
tudo isso acabar, vamos cuidar de sua perna.
Lágrimas de dor surgiram nos olhos de Emily, mas ela não
disse nada enquanto seus companheiros se posicionavam.
Diana ia à frente; Paelen estava um passo atrás e depois
vinha Joel. Emily podia ver o medo nos olhos brilhantes de
seu amigo, mas sua postura era de determinação. Ele estava
preparado para lutar e morrer junto com os Olímpicos.
- Muito bem - Diana falou. - Quando avançarmos, temos que
tentar chegar até aquela grande caixa de metal que nos
levará até a superfície.
- Isso se chama elevador - Emily falou. - Tem um na outra
ponta do corredor. - Ela se segurou na crina do garanhão. -
Estamos quase lá, Pegs.
Pegasus deu uma olhadela para trás e relinchou suavemente.
Diana liderou seu grupo em frente. Quando passaram
correndo pela entrada das escadas, Emily percebeu que os
agentes J e O tinham desaparecido. O barulho alto e gutural
dos Nirads estava mais próximo. Não demoraria muito para
eles chegarem àquele andar.
- Corram! - Diana gritou. - Vamos até o elevador antes que
eles cheguem a este andar!
Todos correram e, quando alcançaram o elevador de carga,
Joel apertou o botão e, impaciente, começou a pular de um
pé para o outro.
- Espero que essa coisa ainda esteja funcionando.
- Se não estiver, teremos um grande problema - Paelen
concluiu.
Momentos antes de ouvirem o barulho do elevador parando,
os primeiros Nirads chegaram àquele andar. Eles entraram
no corredor e encararam o grupo. Com o reconhecimento
queimando em seus olhos negros, atacaram furiosamente.
- Rápido! - Joel exclamou - Mais rápido, por favor!
Quando as portas do elevador de carga se abriram, Emily se
abaixou e Pegasus entrou, com Joel bem atrás deles, mas
quando se viraram, Diana e Paelen não os seguiram.
- Diana, Paelen, entrem logo! - Emily gritou. - Rápido, antes
que eles nos alcancem!
Diana se negou com a cabeça.
- Não, criança. Devo ficar aqui e manter os Nirads afastados
de você. — Ela olhou para Pegasus. - Você sabe o que está
em jogo, não se preocupe comigo. Leve o Fogo para o
Olimpo!
Pegasus estremeceu, depois relinchou alto e bateu no chão
com seu casco de ouro.
- Não, eu tenho que ficar - Diana repetiu. - Conte ao meu
pai o que aconteceu. Liberte o Olimpo, Pegasus. Agora a
tarefa cabe a você.
- Paelen, Diana, por favor - Emily implorou.
Quando as portas começaram a se fechar, Emily viu Paelen
dar um empurrão brutal em Diana, que perdeu o equilíbrio e
caiu dentro do elevador, ao lado das patas de Pegasus.
Quando as portas se fecharam, ela o ouviu gritar:
- Me perdoe!

Capítulo 31

- Paelen! - Emily gritou e se virou rapidamente para Joel. -
Abra as portas! Não podemos deixar os Nirads pegarem ele!
- Não! — Diana se levantou e bloqueou o caminho de Joel. -
Paelen se sacrificou por nós. Não podemos desonrá-lo
falhando em nosso objetivo.
- Mas eles vão matá-lo! - Emily gritou.
- Sim, vão — Diana falou seriamente —, mas enquanto
fazem isso, graças a Paelen teremos tempo para escapar.
Emily sentiu seu coração se despedaçar ao pensar naquelas
terríveis criaturas estraçalhando o gentil Paelen.
- Paelen... - ela choramingou baixinho enquanto o elevador
subia devagar.
Quando as portas se abriram, foram recebidos por uma visão
terrível. Soldados mortos e feridos cobriam o chão e o choro
e os murmúrios dos que agonizavam aumentavam a horrível
sensação de perda. Emily não conseguia entender onde eles
estavam. Parecia uma casa bonita, em estilo sulista. Eles
emergiram em um grande salão, com mobílias antigas
alinhadas com as paredes e um carpete espesso e caro
cobrindo o chão. Aquilo não podia ser parte da instalação,
podia?
- Onde estamos? - Joel perguntou também confuso enquan-
to olhava aquele salão.
- Na Ilha do Governador — Emily respondeu —, mas eu não
sabia que tinham casas como esta aqui.
- Venham, temos que ir andando — Diana os alertou.
Eles chegaram a um salão de entrada grandioso. À direita
havia uma elegante escada que levava ao andar de cima e
outros cômodos ao redor davam para aquela entrada. Para
todos os lados que olhavam viam soldados mortos nos belos
pisos de madeira. Um enorme candelabro de cristal estava
pendurado no teto alto. Quando Emily olhou para ele, um
calafrio passou por seu corpo. Havia sangue naquelas gotas
de cristal.
- Quantos Nirads estão aqui? — Joel perguntou.
- Nirads demais - Diana falou.
De repente os agentes J e O apareceram no salão de entrada.
- Eu disse que vocês não iam a lugar nenhum! — o agente J
gritou, apontando sua arma e olhando furioso para Diana. -
As balas talvez não a detenham, mas Emily e o garoto são
humanos. A menos que se rendam agora mesmo, juro que
matarei um deles.
Emily sentiu a tensão de Pegasus embaixo de si. Suas orelhas
viraram para a frente enquanto ele jogava a cabeça para trás
e soltava um guincho alto e feroz. O garanhão empinou e
então atacou velozmente. Um de seus cascos dourados
acertou o agente O no peito; o outro acertou a cabeça do
agente J em um impacto letal. Quando os dois homens
caíram, Pegasus caminhou até a entrada da casa, se inclinou
nas patas traseiras e chutou as belas portas de madeira antiga,
que foram estraçalhadas pela força do garanhão nervoso.
Emily ficou surpresa ao ver que agora estavam na varanda de
uma grande casa com pilares. Do outro lado da rua
arborizada, à luz de lamparinas, viu outras casas enormes,
iluminadas e parecendo muito acolhedoras.
- Minha família foi para Atlanta há alguns anos - Joel disse
surpreso. - Algumas casas lá eram exatamente iguais a estas.
Tem certeza de que estamos na Ilha do Governador?
Emily se inclinou para a frente em cima de Pegasus e viu as
luzes brilhantes de Manhattan a distância.
- Lá está a cidade. Aqui é a Ilha do Governador.
- Onde estamos não importa mais - Diana falou rispida-
mente, ajudando o garanhão a descer os íngremes degraus
de madeira. - É para aonde vamos que interessa. Não vai
demorar muito para que os Nirads voltem à superfície.
Temos que partir antes disso.
Ela olhou para o garanhão.
- Pegasus, está recuperado o suficiente para levar todos nós
ou eu devo ficar?
Ele fez um carinho gentil em sua prima e relinchou
suavemente.
- Mas é claro - ela respondeu. Depois se virou para Joel. -
Suba, ele pode nos carregar.
- E a Filha de Vesta? - Joel perguntou enquanto Diana o
ajudava a subir nas costas do garanhão. - Teremos lugar para
ela também?
Diana pulou sobre Pegasus atrás dele.
- Ela já está conosco - falou suavemente.
- Quê? — Joel exclamou.
Emily se virou e olhou para Diana.
- Sou eu, não é? Sou a Filha de Vesta e o Fogo do Olimpo.
Sem dizer nada, Diana assentiu com a cabeça.
- Não, Emily! - Joel falou. - Não pode ser você!
- Está tudo bem, Joel - ela disse calmamente. - Eu já
suspeitava disso há um tempo.
- Como foi que teve certeza, criança?
Emily deu um tapinha no pescoço do garanhão.
- Foi mais de uma coisa, na verdade. Comecei a pensar nisso
lá na ponte. Você e o Pegs poderiam ter escapado. Se a Filha
de Vesta estivesse em algum lugar por aí, Pegasus teria me
deixado e ido atrás dela, mas não fez isso; ele lutou com os
soldados para me proteger. Então, quando ouvi que estava
morrendo, soube que tinha que ir até ele, que de alguma
forma eu poderia ajudar. Quando o toquei, senti-o reagir.
Depois de algumas horas comigo, Pegasus ficou bem mais
forte. E finalmente tive certeza quando você disse que eu
era mais importante. Você não teria dito isso se eu não fosse
a Filha de Vesta.
- Tem razão - Diana confirmou. - Você é mais importante
do que todos nós. O Fogo está muito forte e brilhante dentro
de você agora. É por isso que Pegasus se cura tão rápido
quando está em sua companhia, primeiro no terraço de seu
prédio e depois neste lugar. Quando seus sentimentos por
ele cresceram, seus poderes de cura também cresceram.
Você salvou o Pegasus, Emily.
- E com sorte, talvez também possa salvar o Olimpo - Emily
falou séria.
- Não - Joel insistiu. - Não vou deixar você se sacrificar. - Ele
engasgou e olhou para Emily. - Você não pode morrer.
Emily esticou o braço para trás e deu a mão para Joel.
- Está tudo bem, acredite em mim. Se eu fizer isso, o Olimpo
será restaurado e você, meu pai e o mundo todo estarão
salvos. Eu quero fazer isso. Por favor, me deixe fazer o que
devo fazer.
- Mas Emily... - Joel abaixou a cabeça sem conseguir articu-
lar as palavras. Ele apertou a mão dela e desviou o olhar.
O terrível barulho dos Nirads surgiu no ar. Eles estavam na
casa e seguiam em direção à porta da frente.
- Eles estão vindo - Emily falou. - Pegs, nos leve para o
Olimpo.


Capítulo 32

Sentada bem atrás das asas de Pegasus, Emily sentiu a força J
dele crescendo enquanto trotava para longe da casa. Quando
chegaram a uma área aberta, ele se virou e relinchou.
- Ele disse para se segurarem — Diana traduziu. — A asa dele
está recuperada, mas ainda não foi testada. Talvez nosso vôo
não seja tranquilo.
— Você consegue, Pegs — Emily falou dando tapinhas no
pescoço dele. - Sei que você pode.
Quando Pegasus passou do trote para um bom galope, abriu
suas grandes asas brancas. Emily se segurou em sua crina
quando ele começou a voar de forma confiante. Ela sentiu
Joel apertar mais sua cintura quando Pegasus subiu e voou
por cima da água escura.
Manhattan estava bem à frente. Quando olhou para as belas
e brilhantes luzes, Emily percebeu que aquela seria a última
vez que veria sua casa. Se chegassem a salvo no Olimpo, ela
morreria no Templo do Fogo.
O que aconteceria com seu pai? Onde ele estava? Ela iria
partir sem que ele soubesse o que havia acontecido, que ela
o amava e tinha feito aquilo por ele. Aquela era a pior dor de
todas.
Respirando fundo, Emily olhou para Nova York. A cidade
ficaria a salvo e os milhões de pessoas que viviam nela nunca
veriam ou ouviriam um Nirad.
- Ei, esperem por mim! - chamou uma voz fraca atrás deles.
- Paelen?
Ao se virarem, Emily e Joel viram Paelen se esforçando para
alcançá-los voando de forma instável pela noite escura.
Apenas as asas de uma sandália batiam e ele estava coberto
de sangue.
- Paelen! - Emily exclamou. - Você sobreviveu aos Nirads!
- Você está bem? - Joel perguntou.
- Não! - respondeu. - Mas vou sobreviver. Será que podem
desacelerar, por favor, para que eu possa alcançá-los? Os
Nirads feriram uma sandália e só a outra está funcionando.
O garanhão bufou.
- Pegasus disse que pode segurar na cauda dele - Diana falou
para Paelen. - Ele pode ajudar a carregá-lo, mas devemos ir
mais rápido se queremos chegar ao Olimpo.
Era difícil para Emily ver Paelen claramente no céu
noturno, mas enquanto voavam por cima de Nova York, as
luzes da cidade revelaram seus ferimentos profundos.
- O que eles fizeram com você? - Emily exclamou.
- Tentaram me desmembrar - ele respondeu -, mas consegui
esticar meu corpo e assim eles não puderam fazer o que
queriam, mas acabei com muitos ossos quebrados.
- Sua bravura será recompensada, Paelen - Diana prometeu. -
Meu pai vai saber o que fez por nós.
Antes que ele pudesse responder, Pegasus relinchou para
Diana.
- Emily, Joel - ela chamou. - Segurem firme. Estamos quase
entrando na Corrente Solar para o Olimpo.
- Vamos entrar onde? - Joel tentou perguntar.
Repentinamente eles estavam se movendo a uma velocidade
impossível. A luz das estrelas à volta deles virou um borrão
de luz branca. Para Emily, aquilo parecia efeito especial de
um filme de ficção científica, mas não era um filme, aquilo
era muito real.
Olhando para trás, viu Paelen quase surfando na luz en-
quanto se esforçava para segurar na cauda de Pegasus. Sua
única sandália batia as asas freneticamente para acompanhar
o ritmo e os gritos de terror de Paelen iam ficando para trás.
Mas o que a surpreendeu de verdade foi Pegasus, que ainda
batia suas grandes asas. O que aconteceria se ele parasse?
Emily imaginou sombriamente. E como Diana tinha
conseguido chegar à Terra sem asas?

Enquanto esses pensamentos giravam em sua cabeça, Emily
se esqueceu de seu terrível destino por um momento, mas
quando Pegasus diminuiu a velocidade e a luz branca voltou
a ser apenas a luz das estrelas, ela sentiu o medo retornar.
Não muito à frente, Emily viu o que parecia ser o topo de
uma montanha se erguendo com o sol brilhando nela. Eles
saíram do céu estrelado para um belo dia de sol. O céu era
de um azul brilhante, mais azul do que o azul da Terra, e em
volta deles havia muitas nuvens espessas, brancas e fofas.
Quando Pegasus voou entre elas, Emily pôde sentir uma rica
doçura em seus lábios. Voando a uma altura cada vez menor,
logo puderam ver exuberantes campos verdes abaixo. A
montanha surgia do verde e Emily percebeu que iam em
direção a ela.
- Aquele é o Monte Olimpo? - ela perguntou a Diana.
- Tudo isto é o Olimpo, não só a montanha - ela respondeu -
, mas nós vivemos mesmo no topo da montanha.
- Igual à mitologia - Joel acrescentou enquanto olhava em
volta maravilhado. - Existe o Monte Helicon, onde vivem as
Musas?
- Existe. Foi por onde os Nirads entraram em nosso mundo.
As Musas foram as primeiras a ser capturadas e o Monte
Helicon foi o primeiro a ser tomado.
Quando se aproximaram da montanha, Emily tentou ver
tudo o que era possível. Havia enormes estruturas de
mármore branco brilhante, mas, quando chegaram perto,
percebeu que haviam sido derrubadas e destruídas.
- Os Nirads fizeram isso? - ela perguntou.
- Sim, e outras coisas muito piores — Diana falou.
Emily e Joel olharam para as ruínas do Olimpo e finalmente
entenderam contra quem estavam lutando. Antes de ser
destruído, aquele mundo devia ter sido o lugar mais bonito
que se possa imaginar.
Abaixo deles, a quantidade de entulho aumentou quando
entraram no que devia ter sido uma área de grande
concentração populacional. Mais do que isso, para seu
horror, Emily começou a ver cadáveres de Olímpicos. Ver
os homens mortos na instalação da Ilha do Governador
tinha sido ruim, mas aquilo era muito pior. Havia pessoas de
todas as idades e até crianças e animais estranhos; todos
mortos.
- Isto é tudo culpa minha - Emily fungou.
- Não é não! - Joel falou horrorizado. - Não fala besteira!
- Não é besteira, Joel. Se eu sou o Fogo do Olimpo, então
quando ele ficou fraco em mim, enfraqueceu aqui também.
Eu permiti que os Nirads atacassem e matassem todas essas
pessoas.
- Não, você está errada! - ele protestou. - Não vou deixar que
se culpe por isso. Os Nirads são os culpados, não você.
- Me desculpe, Joel - Diana interrompeu. — Emily não está
totalmente errada. Ela é o Fogo do Olimpo. — Ela olhou
para Emily. — Mas ela não causou isso intencionalmente.
Agora entendo o que causou tudo.
- O quê? — Emily perguntou fracamente.
- O amor - ela respondeu. - O amor profundo que você
tinha por sua mãe. Quando ela morreu, a tristeza a dominou
e isso diminuiu a Chama. Não foi uma doença, como eu
suspeitei no começo. Era a tristeza.
- Mas e agora? - Emily perguntou com um sussurro. - Sobrou
Fogo suficiente em mim para salvar o Olimpo e o mundo?
Diana assentiu com a cabeça.
- Ah, sim, criança. Até mesmo eu posso senti-lo brilhando
forte aí dentro. Você está se recuperando. Acredito que o
Pegasus tenha muito a ver com isso.
O garanhão resfolegou suavemente. Emily sentiu o coração
cheio de sentimentos por Pegasus. Diana tinha razão.
Conhecer o garanhão e se importar com ele tinha
finalmente apagado a dor cortante que ela sentia pela perda
da mãe. Ela olhou para Diana:
- Quando o Templo do Fogo for aceso novamente, você
poderá salvar essas pessoas? Seu irmão viverá de novo?
- Espero que sim. Sem essas pessoas o Olimpo não existe.
Pegasus começou a planar sobre as ruínas.
- Estamos descendo - Diana falou. - Temos que ficar
preparados. Ainda corremos muito perigo. Pegasus nos
trouxe o mais perto possível do Templo, mas ainda há
legiões de Nirads por aqui. O único objetivo deles será matar
Pegasus e Emily.
- Eles sabem quem eu sou?
- Acho que não — Diana respondeu. - Como você já foi
ferida antes, eles pensarão que você é importante o
suficiente para ser morta, e a perseguirão tanto quanto
Pegasus.
- Seremos cuidadosos - Joel falou -, mas se tivermos que
lutar, lutaremos.
- Eu estou pronto para lutar - Paelen concordou.
Emily olhou para ele e viu os ferimentos profundos e os
ângulos estranhos de seus braços e pernas. Não eram apenas
alguns ossos que estavam quebrados.
Pegasus pousou um pouco depois e Emily ficou surpresa
com quanto o ar estava parado em volta deles.
- É sempre tão silencioso por aqui?
Diana sacudiu a cabeça negativamente enquanto descia do
garanhão e depois ajudava Joel a fazer o mesmo.
- Não, é que todos os animais, pássaros e insetos fugiram do
massacre dos Nirads.
Quando Paelen tocou o chão, Diana o fez ir até Emily.
- Segure a mão dela. Isso vai ajudá-lo a se curar.
Emily esticou o braço e segurou a mão dele. Quando fechou
os dedos em torno do pulso de Paelen, sentiu os ossos
mudarem de forma, deslizarem e se juntarem novamente.
Depois de alguns momentos ele já podia ficar em pé mais
tranquilamente e não parecia sentir tanta dor.
- Não estou entendendo nada - Paelen falou, olhando para
Emily com admiração. - Como está fazendo isso?
Joel colocou o braço em volta dos ombros de Paelen.
- É uma longa história e agora não temos tempo de contar.
Está se sentindo bem o suficiente para lutar?
Paelen lançou o seu sorriso torto para Emily.
- Eu poderia vencer o Júpiter agora! - ele falou.
Diana riu daquilo.
- Não deixe meu pai ouvir você falando isso. — Depois ela
olhou em volta. — Temos que ir andando. O Templo está
um pouco distante daqui. Todos ainda estão com seus
pedaços de ouro?
Emily e Joel levantaram seus pedaços das rédeas douradas de
Pegasus. Paelen sacudiu a cabeça negativamente.
- O meu ainda está enfiado na cabeça de um Nirad, lá na Ilha
do Governador.
Diana pegou o pedaço de Emily, dividiu em dois e deu uma
parte para a garota e a outra para Paelen.
- Não perca este aqui. Vamos precisar de todos os pedaços
agora.

Emily continuou montando Pegasus enquanto o grupo
caminhava devagar entre os escombros que um dia foram o
Olimpo. Em muitas ocasiões ela teve que desviar o olhar de
cenas horríveis encontradas pelo caminho. Com os nervos à
flor da pele, concentrou os olhos e os ouvidos para
detectarem qualquer sinal dos Nirads, mas não viu nada,
apenas destruição, e ouviu apenas o vento suave soprando.
- Onde estão os Nirads?
- Não sei - Diana respondeu olhando em volta -, mas isto me
preocupa. Havia milhares deles aqui não muito tempo atrás.
Temos que continuar alerta. Não acredito que já tenham
partido.
Avançando, chegaram ao local que fora o cenário da batalha
mais feroz. No meio daquelas ruínas, Emily viu degraus altos
que levavam ao que sobrara de um templo. Os grandes
portões de metal no alto tinham sido arrancados das
dobradiças e colocados nos degraus. Instintivamente ela
reconheceu aquele lugar.
- Este é o Templo do Fogo, não é? - perguntou, apontando as
ruínas.
Diana assentiu, mas não disse nada. Ela se ajoelhou ao lado
do corpo de um Olímpico que tinha tombado, esticou a mão
e acariciou gentilmente os cabelos pretos que cobriam um
rosto ferido e ensanguentado. Lágrimas silenciosas
escorreram por suas bochechas. Ao ver aquela mulher forte
e confiante ajoelhada e chorando, Emily percebeu todos os
sacrifícios que já tinham sido feitos.
- É o seu irmão? - Joel perguntou.
Diana fungou e assentiu com a cabeça.
- É o Apolo. Ele era um guerreiro corajoso e honrado, e eu o
amava muito. — Ela olhou em volta para os outros
guerreiros mortos. — Todos eram muito corajosos.
- Ele será vingado - Paelen falou determinado. - Prometo,
Diana, que todos eles serão vingados.
Os terríveis grunhidos dos Nirads sacudiram serenidade do
lugar. Emily olhou para trás e seus olhos se arregalaram com
a visão de centenas deles surgindo do nada e se
aproximando.
- Temos que correr! - Diana exclamou ao se levantar, afastar-
se do irmão morto e ir rapidamente até Emily e Pegasus. -
Agora é com você, criança. Você é a única esperança deste
mundo. Seu sacrifício pode salvar todos nós. Compadeço-
me com o que terá de enfrentar agora, mas juro que seu
nome e seu sacrifício não serão esquecidos por nenhum
Olímpico!
Ela trouxe o rosto de Emily para perto de si e a beijou na
bochecha.
- Sua mãe ficará muito orgulhosa de você quando se
encontrarem nos Campos Elísios.
Lágrimas surgiram nos olhos de Emily no momento em que
ela percebeu que a hora de sua morte havia chegado. Depois
de apenas treze curtos anos, sua vida iria acabar na agonia do
fogo em um mundo devastado.
- Vá com Pegasus e Emily, Joel. Pegasus os levará até o
Templo - Diana ordenou. - Paelen e eu faremos o possível
para deter o máximo de Nirads que conseguirmos. - Ela
olhou novamente para Emily. - Vá agora, criança, cumpra o
seu destino!
Emily nem teve tempo de se despedir de Paelen e Diana,
pois Pegasus disparou. Joel teve que se esforçar para
acompanhar e correr ao lado deles enquanto seguiam rumo
ao Templo do Fogo. Quando chegaram nas escadas, Emily
viu centenas ou talvez milhares de Nirads atacando seus
companheiros. Diana jogou a cabeça para trás e soltou o
grito de guerra mais alto que Emily já ouvira. Com Paelen ao
seu lado, levantaram os afiados pedaços das rédeas douradas
e atacaram a massa de Nirads que chegava.
Já nos degraus, Pegasus hesitou.
- Me leve até lá, Pegs — Emily falou suavemente enquanto
as lágrimas rolavam de seus olhos. — Se eu não fizer isso
agora, eles matarão você e o Joel. Me deixe fazer isso por
você.
Ainda hesitando, Pegasus começou a subir os degraus de
mármore e Emily ouviu Joel fungando ao seu lado.
- Não sei se consigo assistir isso — Joel sussurrou.
Emily olhou bem nos olhos vermelhos e marejados do
amigo.
- Está tudo bem, Joel. De verdade. Se você por acaso conse-
guir sobreviver a isto, por favor, me prometa que voltará à
Terra e achará o meu pai. Se a UCP ainda estiver com ele,
ajude-o a escapar, traga-o para cá e não deixe que o
machuquem.
Joel olhou para ela, mas não conseguiu falar nada. Ele as-
sentiu com a cabeça. No alto das escadas, Pegasus parou e
Emily olhou novamente para Joel.
- Pode me ajudar a desmontar?
Joel a ajudou a descer de Pegasus e depois a se apoiar na
perna boa.
- Quer que eu a ajude a entrar no Templo? — ele sussurrou.
Pegasus bufou e relinchou de maneira suave. Emily fungou e
sacudiu a cabeça negativamente.
— Acho que não é permitido. — Com a tristeza tomando
conta de si, ela colocou os braços em volta do pescoço de
Joel e o abraçou apertado. - Fiquem bem, por favor - ela
choramingou.
- Vou tentar - ele prometeu e, quando se separaram, beijou
Emily na testa. - Obrigado por ser minha amiga, Emily. -
Então, depois de um vislumbre final para trás, ele pegou seu
pedaço de ouro e desceu correndo os degraus do templo
para se juntar a Diana e Paelen na resistência contra os
Nirads.
— Joel, não! — Emily gritou, mas ele não demonstrou ter
ouvido e continuou correndo e gritando para a legião de
Nirads.
— Ah, Pegasus — ela choramingou.
Pegasus foi até ela e fez um carinho com seu focinho. Emily
sabia que ele estava dizendo que era hora de ir. Ela tinha um
destino a cumprir: salvar o Olimpo. Quando ele abriu sua asa
recém-curada, Emily a usou como apoio enquanto pulava
em um pé só para chegar à entrada.
As ruínas do Templo estavam vazias, a não ser pela enorme
concha de mármore onde um dia o Fogo do Olimpo tinha
ficado e queimado. Ela tinha sido derrubada de seu suporte e
estava rachada.
Pegasus a levou devagar até a concha. Lá, Emily soube que
estava prestes a morrer. Pulando para a frente, ela chegou
perto da cabeça do garanhão. As lágrimas caíam como uma
cachoeira e ela já não enxergava claramente.
- Fico feliz que seja eu, Pegs - falou com a voz trêmula. -
Não queria que você se importasse com mais ninguém.
Mesmo sabendo que vou morrer, no fundo do meu coração,
sei que pelo menos por um tempo você foi meu. Só gostaria
de termos tido mais tempo juntos...
Emily abraçou a cabeça dele e, quase sem voz, falou:
- Eu te amo, Pegasus.
Soltando-o, Emily pulou até a grande concha de mármore.
Ao lançar um último olhar para trás, viu o garanhão preto e
marrom e de asas brancas abaixando a cabeça e arranhando o
chão de tristeza.
- Lembre-se de mim, Pegs, por favor - ela falou enquanto
virava a cabeça e subia na grande concha de mármore.

Capítulo 33

No momento que Emily ficou em pé e ereta na concha,
sentiu uma dor cortante em seu coração. Ela apertou o peito
e gritou em agonia. Era o momento. A morte. Estava prestes
a ser queimada viva.
Um momento depois, chamas brilhantes e enormes saíram
de seu peito. A explosão de fogo e energia preencheu o
Templo com uma luz branca e se espalhou como se fosse
grandes ondas na água. Voando em todas as direções, ele
saiu do Templo e se espalhou por todo o Olimpo. O fogo saía
de cada pedacinho dela, a consumindo e sendo lançados de
cada poro de seu corpo.
Parada no meio daquelas chamas, a dor foi diminuindo aos
poucos até desaparecer completamente. Emily olhou em
volta procurando por sua mãe. Ela sempre tinha ouvido que,
no momento que uma pessoa morre, a família vai buscá-la.
Mas onde estava sua mãe? E o seu avô? E todos os outros que
já tinham partido?
Tudo o que ela via era o fogo e a luz brilhante. Emily sentiu-
se dominada por uma crescente sensação de paz. Emily
esperou, mas não sabia por quanto tempo. Tudo o que sabia
era que, de algum jeito, ainda era ela mesma. Podia pensar,
sentir e se lembrar de todo o amor e de todas as memórias
que tinha. Lembrava-se de tudo a respeito de sua vida, os
anos felizes com a mãe e o pai em Nova York, a doença da
mãe e sua morte. E apesar de haver certa dor naquela
memória, Emily sabia que não era tão grande quanto antes,
mas ela também sabia que a mãe estaria esperando por ela do
lado de fora do fogo.
Ela pensou em Joel, o doce, bravo e ferido Joel e a primeira
vez que subiram as intermináveis escadas de seu prédio.
Aquilo parecia ter acontecido há muito tempo. Prometera a
si mesma que encontraria a família dele e contaria tudo o
que ele tinha feito por ela. Então se lembrou do sorriso torto
de Paelen e de sua esperteza e de Diana, a bela e poderosa
Diana chorando por seu irmão morto, mas mais do que tudo,
Emily se lembrava de... Pegasus. Pensar no garanhão trouxe
um sorriso aos seus lábios incandescentes. De todos os
novos amigos em sua vida, Emily sabia que, ao morrer, era
dele que sentiria mais falta.
Depois do mais curto dos momentos, ou talvez da mais
longa eternidade, Emily sentiu algo mudar. As chamas
estavam retornando. Logo, ela podia enxergar de novo e, de
alguma forma, sabia que era hora de sair do fogo.
Uma nova jornada a esperava. Emily tinha certeza de que a
mãe estaria esperando por ela. Quando se moveu até a ponta
da concha, pôde ver por entre as chamas, e o que viu trouxe
mais alegria do que ela poderia imaginar... Pegasus.
Ele não era mais marrom e preto. Pegasus era novamente de
um branco brilhante e nenhuma pena estava fora do lugar
em suas belas asas. Majestoso e orgulhoso, ele era perfeito.
Emily se abaixou e segurou na beirada da concha para se
apoiar, percebendo que a rachadura tinha desaparecido. Não
só isso. Ela não estava mais no chão do templo. De algum
jeito, tinha voltado ao seu alto plinto.
Segurando na beirada e se esticando toda, Emily pousou sua
perna boa no chão. Quando também colocou a outra, não
sentiu dor. "Então era verdade!", ela pensou. "Todas as dores
acabam quando você morre." Mas, quando se apoiou nela,
viu que a perna ainda não conseguia suportar seu peso.
Perdendo o equilíbrio, ela caiu com tudo no chão de
mármore. Pegasus estava ao seu lado em um instante.
- Pegs? — perguntou confusa enquanto olhava para seus
acolhedores olhos castanhos e sentia a língua dele em sua
bochecha. - Você está me vendo?
- Todos podemos vê-la, criança — Diana falou.
Emily olhou para a frente e viu Diana parada na entrada do
Templo vestida com uma deslumbrante túnica branca. Outra
bela mulher estava parada ao seu lado. Emily sentiu que
devia conhecê-la, mas não conseguia lembrar seu nome.
Diana caminhou rapidamente até ela e ajudou Emily a se
levantar. Deu à garota um manto Olímpico e a abraçou forte.
- Estamos muito orgulhosos de você.
- Mas eu morri - Emily falou. - Não estou entendendo nada.
- Você renasceu — a outra mulher falou. Depois caminhou
em sua direção e a abraçou também. — Minha bela criança,
meu Fogo. Eu sou Vesta.
Os olhos de Emily se arregalaram.
- Você é a Vesta? Jura? E eu estou viva?
As duas mulheres sorriram. Diana finalmente apontou com a
cabeça para Pegasus.
- Se não acredita em mim, pergunte a ele. Pegasus jamais saiu
do seu lado. Ele esperou aqui todo esse tempo pelo seu
retorno.
Emily se virou para Pegasus e ele se aproximou. Ela
encostou em seu focinho brilhante.
- Pegs? - falou ainda não acreditando na verdade, até que
finalmente abraçou o pescoço dele. — Estou viva, Pegs!
- Todos nós estamos - Diana falou - graças a você. Por causa
do que fez, do seu sacrifício, o Olimpo foi restaurado.
- Como? O que eu fiz?
- Vista-se e venha ver você mesma.
Emily colocou o manto e o amarrou na cintura. Depois se
apoiou em Diana e Pegasus e os três foram até a entrada do
Templo. Atrás deles, o Fogo continuou queimando brilhante
sobre o seu suporte.
Os olhos de Emily se arregalaram incrédulos. Paradas na
base dos degraus do Templo havia milhares de pessoas.
Quando a viram emergir da entrada com Diana, Pegasus e
Vesta, todos levantaram as vozes e gritaram em saudação.
- Este é o seu povo, Emily - Diana falou. - Todos estão vivos
graças a você. Meu irmão está lá embaixo, esperando para
agradecê-la pessoalmente. Logo o meu pai se juntará a nós e
também oferecerá sua gratidão.
—JÚPITER? - Emily falou surpresa.
Diana sorriu e assentiu.
Era muita coisa para absorver. Quando os olhos de Emily
examinaram a multidão interminável, pousaram em Joel e
Paelen, parados lado a lado no começo dos degraus.
- Joel! — Emily gritou e começou a acenar freneticamente. -
Paelen!
Os dois começaram a subir os degraus, correndo em sua
direção. Paelen chegou primeiro, envolveu a garota em seus
braços e a abraçou forte. Joel veio logo atrás e, ao abraçá-la
apertado, a rodopiou no ar como se dançassem.
- Não sei que diabos você fez lá dentro, ou como fez — Joel
riu enquanto girava Emily mais uma vez -, mas funcionou!
Emily ficou sem palavras.
- Também não sei o que fiz - ela falou, rindo.
Pegasus a empurrou alegremente.
- Ele quer que você monte de novo - Diana traduziu. — E
vai carregar você até lá embaixo.
Joel ajudou Emily a subir nas costas de Pegasus. Quando
estava acomodada, o garanhão relinchou suavemente.
- Não, Pegasus - Vesta falou de maneira severa. - O Fogo do
Olimpo acabou de emergir. Ela deve se encontrar com seu
povo.
Emily olhou para Diana com mil perguntas em seus olhos.
Diana riu.
- O Pegasus falou para você segurar firme. Ele vai mostrar o
Olimpo a você, mas do jeito dele.
Antes que Vesta pudesse protestar mais, Pegasus abriu suas
asas, se apoiou nas patas traseiras e jogou a cabeça para trás
em um animado relinchar, pulando com confiança do alto
do Templo para o ar.
O coração de Emily se emocionou sentindo a força do
garanhão embaixo dela. Enquanto segurava sua crina e sentia
a batida forte de suas asas, a garota era parte dele. Eles eram
um. Emily também jogou a cabeça para trás e gritou de
alegria.
Pegasus fez um círculo completo no alto do Templo e, com
Emily se segurando firme e a salvo em suas costas, bateu as
asas mais rápido e a levou embora, passando por sobre as
cabeças da massa que os aplaudia. Emily acenava para o povo
enquanto passava, ainda mal acreditando no que estava
acontecendo. Abaixo dela as cicatrizes da guerra iam se
curando, à medida que os trabalhadores reconstruíam as
belas construções.
Faltava apenas uma coisa: seu pai. Steve ainda era prisioneiro
da UCP. Enquanto voava montada em Pegasus e sentia uma
alegria incomparável, Emily sabia que não demoraria muito
para que seu pai fosse libertado e eles ficassem juntos de
novo. O que quer que viesse a seguir, Emily sabia que tudo
daria certo enquanto Pegasus estivesse com ela.

 
 
 
 
 
Lançamento Gênesis do Conhecimento
Olimpo em Guerra Livro 01 - Pegasus e o Fogo do Olimpo
Kate O'Hearn
 
 
 
links ao final da mensagem
 
 
digitalização, formatação e revisão - Lucia Garcia
 
 
 
 
Sinopse:
 
     A Guerra Chegou ao Olimpo!
 
Não houve aviso. Nenhuma pista de que um inimigo desconhecido estava  reunindo um exército contra eles. Um exército cujo único objetivo era a destruição. Em um momento havia paz e no seguinte os Olímpicos lutavam por sua própria sobrevivência. Uma batalha sangrenta, brutal e totalmente inesperada. Mercúrio foi um dos primeiros a tombar e mesmo poderoso Júpiter não conseguiu deter os invasores.
Enquanto os Nirads, terríveis monstros cinzentos com quatro braços e pele resistente como o aço, destruíam o Olimpo e começavam a vencer a batalha, Pegasus fugiu para a terra, mas foi seguido por Paelen, um Olímpico que desejava roubar as rédeas douradas do garanhão e estava quase conseguindo quando os dois foram atingidos por um raio.
Pegasus cai no terraço do prédio de Emily, uma garota de treze anos cuja vida jamais será a mesma. Ela terá que ajudar o garanhão alado a escapar dos terríveis Nirads e de uma agência governamental secreta que capturou Paelen e acha que alienígenas estão invadindo a Terra.
E, em meio a lutas incríveis e vôos emocionantes, Emily contará com a ajuda de Joel, seu amigo de escola, do próprio Pegasus e de outras pessoas inesperadas e surpreendentes para tentar encontrar a Chama escondida na Terra que poderá reacender o Fogo do Olimpo e salvar toda a humanidade.
 
 
 
 

 
PASTAS LANÇAMENTOS Genesis do Conhecimento:
 
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