sábado, 2 de abril de 2011 By: Fred

<> livros-loureiro <> A Lista de Schindler.txt, Gulag, Uma história dos campos dos prisioneiros soviéticos - Anne Applebaum.txt e Miklos Nyiszli (Dr.) - Auschwitz, O Testemunho de um Médico (txt)(rev).txt

Dr. MIKLOS NYISZLI
AUSCHWITZ
O testemunho de um médico
PREFÁCIO
Foi COM ALGUMA hesitação que aceitei o convite para prefaciar este livro. Auschwitz é, fora de dúvida, um livro honesto e importante. Ele fala de acontecimentos
que, apesar de chocantes, precisam ser contados e recontados até que seu significado seja compreendido em nosso tempo. Não é um livro de penetração direta no significado
dos campos de extermínio, mas no destino do autor reside muito de sua significação. Além de tudo, apesar da alegação do autor, é o livro de um médico. Outros médicos
já escreveram outros livros sobre suas experiências nos campos de concentração: por exemplo, o psiquiatra Dr. Victor E. Frankl, que também escreveu sobre Auschwitz.
Mas Frankl não ajudou os SS em suas experiências com seres humanos; ele não aviltou sua profissão, unindo-se aos outros tão justamente chamados de doutores da infâmia.
Ao invés de ajudar os médicos SS a matar gente, sofreu como ser humano. Falando de suas experiências, ele cita Hebbel: "Existem coisas que devem causar a perda da
razão, ou então não se tem nenhuma para perder". Um dos colegas de profissão do Dr. Nyiszli perdeu a razão, e a descrição de como isso aconteceu não é apenas uma
das melhores partes do livro, é, principalmente, a mais reanimadora. Houve, e ainda há, gente que perde o juízo quando há razão suficiente para isso.
Outros não enlouqueceram porque, como o Dr. Franlcl e milhares de prisioneiros de outros campos de concentração, nunca aceitaram sua sorte, mas lutaram contra
ela. Muito justamente o Dr. Nyiszli dedica bastante do seu espaço aos homens do décimo-segundo Sonderkommando, prisioneiros encarregados das câmaras de gás. Únicos
de todos os kommandos, esses homens redescobriram a liberdade nos últimos dias de suas existências, e justo no último dia ganharam essa liberdade; portanto, eles
morreram como homens, não como cadáveres ambulantes. Bastaria o relato desse Sonderkommando para tornar esse livro um importante documento. Mas a sorte desse kommando
levanta ainda mais agudamente a questão: por que apenas um dos quatorze kommandos se rebelou? Por que todos os restantes marcharam submissos para a morte? Por que
milhões de prisioneiros fizeram o mesmo? Seguramente a história desses 800 homens é uma saga heróica dos campos de extermínio; é uma história que restaura nossa
confiança no ser humano. Eles fizeram o que se espera que todo ser humano faça: usar a sua morte, se não puder salvar a vida, para enfraquecer ou atrapalhar o inimigo,
o máximo possível; usar seus corpos condenados para tornar o extermínio mais difícil ou talvez impossível, mas não um processo suave e contínuo. A história deles,
assim, permanece numa dimensão humana. Se puderam fazê-lo, também os outros o poderiam. E por que não o fizeram? Por que atiraram fora suas vidas ao invés de tornar
as coisas mais difíceis para o inimigo? Por que presentearam os SS com suas vidas ao invés de fazê-lo a suas famílias, a seus amigos ou mesmo a seus companheiros
de cativeiro? Essa é a questão cruciante.
Em seus indícios para uma resposta está a importância desse livro. É uma história inacreditável, mas que todos nós sabemos ser verdadeira. Desejamos esquecê-la.
Ela simplesmente não se encaixa no nosso sistema de idéias e de valores. E pior do que reformá-la, nós queremos negar a história dos campos de extermínio nazistas.
Se pudéssemos, preferiríamos pensar que ela jamais aconteceu.
A história da Humanidade e, em particular, a do mundo Ocidental, está repleta de perseguições por motivos religiosos ou políticos. Milhares de pessoas foram
exterminadas em outros séculos também. A própria Alemanha foi despovoada pela Guerra dos Trinta Anos, durante a qual morreram milhões de civis. E se duas bombas
atômicas não tivessem sido suficientes, teríamos talvez outros tantos milhões exterminados no Japão. A guerra é horrível, e a crueldade do homem para com o próprio
homem o é ainda mais. Assim, a importância dos relatos sobre o que se passou nos campos de concentração reside, não nas histórias, que já nos são bem familiares,
mas em algo muito mais incomum e horrorizante. Está numa nova dimensão do homem, num aspecto que todos nós desejamos esquecer, mas esquecer por nossa própria conta.
Estranho como pode parecer, o extraordinário nos campos de extermínio não é o fato dos alemães terem matado milhões de pessoas, pois até isso nos é possível aceitar
pela imagem que temos do homem, embora por séculos nada semelhante tenha sido feito nessa proporção e nunca talvez com tamanha perversidade. O que é novo, singular
e terrificante, é que milhões de pessoas tenham marchado como carneirinhos para a morte. É isso que é inacreditável, é isso que nós temos de chegar a compreender.
Bastante estranho também é o fato de ter sido um austríaco quem construiu o instrumento para esse entendimento, c outro austríaco cujos atos forçaram uma
inelutável necessidade para compreendermos. Anos antes de Hitler enviar milhões de seres humanos para a câmara de gás, Freud afirmava que a vida humana é uma longa
batalha contra o que ele chamava de instinto de morte, e que nós precisávamos aprender a manter essa tendência destrutiva sob controle, caso contrário ela nos levaria
à destruição. O século XX acabou com as antigas barreiras que até então impediam nossas tendências destrutivas de correr à solta, não só na sociedade como também
em nós mesmos. Estado, família, igreja, sociedade, todos foram questionados e julgados carentes. Assim, seu poder para restringir ou canalizar nossas tendências
destrutivas foi enfraquecido. A reavaliação de todos os valores que Nietzsche (profeta de Hitler, apesar do "führer", como outros, não compreendê-lo nem um pouco)
prognosticava que seria exigida do homem ocidental, caso ele quisesse sobreviver à era da máquina, esta reavaliação ainda não havia sido conseguida. Os velhos meios
de controle do instinto de morte haviam perdido muito de sua força, e a nova e mais alta moralidade que deveria substituí-los ainda não havia surgido. Nesse interregno
entre a velha e a nova organização social — entre a obsoleta organização interna do homem e a nova estrutura ainda não alcançada — pouca coisa havia sido deixada
para controlar os instintos destruidores do homem. Nesse tempo, somente sua habilidade pessoal para controlar seu próprio instinto destruidor pode protegê-lo quando
as forças destrutivas de outros, como no caso de Hitler, correm à solta.
Esse não ser o dono de seu próprio instinto de morte pode assumir várias formas. A forma que tomou naqueles campos de extermínio, a de prisioneiros encaminhando-se
passivamente para as câmaras de gás, começou com a adesão deles à idéia de que os negócios devem continuar como de costume. Aqueles que tentaram servir seus carrascos,
continuando a fazer o que era antes sua ocupação civil, (nesse caso a medicina), estavam apenas continuando, senão negócios, pelo menos a vida como de costume.
Assim abriram as portas para a morte.
Muito diferente era a reação daqueles que interromperam os negócios costumeiros e não se juntaram aos SS nas experimentações e extermínios. Alguns desses,
que sobreviveram para contar suas experiências, faziam desesperadamente uma pergunta: Como era possível que as pessoas negassem a existência da câmara de gás quando
diariamente viam os fornos queimando e sentiam o cheiro da carne queimada? Como é que preferiam não acreditar no extermínio somente para evitar ter que lutar por
suas próprias vidas? Por exemplo, Lengyel (em Five Chimneys, a história de Auschwitz, Chicago: Ziff Davis, 1947) relata que, embora ela e seus companheiros
vivessem apenas a poucas dezenas de metros do crematório e das câmaras de gás, e soubessem do que se tratava, ainda assim, durante meses, muitos prisioneiros negaram
ter conhecimento deles. Os civis alemães negavam as câmaras de gás também, porém a negativa por parte deles não tinha o mesmo significado. Civis que enfrentaram
os fatos e se rebelaram estavam atraindo a morte. Os prisioneiros de Auschwitz já estavam condenados. A rebelião poderia somente ter salvo ou a vida que eles iriam
perder de qualquer maneira ou a de outros. Quando Lengyel e muitos outros prisioneiros foram selecionados para serem enviados para a câmara de gás, eles não tentaram
escapar como ela o fez e foi bem sucedida. Pior ainda, quando ela tentou escapar pela primeira vez, alguns dos prisioneiros selecionados com ela para a câmara
de gás chamaram os supervisores e contaram-lhes que Lengyel pretendia fugir. Lengyel não dá maior explicação para o fato, exceto que não viam com bons olhos qualquer
um que quisesse safar-se do destino comum, Porque eles não tinham coragem suficiente para se arriscar. Eu creio que agiam desta forma porque haviam aberto
mão do desejo de viver e, assim, permitido que seus instintos de morte dominassem a situação. O resultado disso é que eles agora se identificavam mais com os SS
que se devotavam a executar suas tendências destrutivas, do que com os prisioneiros que ainda se mantinham agarrados à vida e tentavam escapar da morte.
Mas, desistir da própria vida e não mais desafiar o instinto de morte, que em termos mais científicos é chamado o princípio da inércia, foi somente o último
passo. O primeiro foi dado muito tempo antes de entrarem nos campos da morte. Foi a inércia que levou milhões de judeus aos guetos que a SS criou para eles. Foi
a inércia que fez milhares de judeus ficarem sentados em casa, esperando por seus carrascos quando estavam sob prisão domiciliar. Aqueles que não se deixaram levar
pela inércia fizeram da imposição dessas restrições um aviso de que era chegada a hora de descer aos subterrâneos, juntar-se aos movimentos de resistência, conseguir
papéis forjados, etc, se ainda não o tivessem feito há mais tempo. A maioria sobreviveu. Por outro lado, a inércia entre os não judeus não era a mesma coisa. Não
era a morte certa que os encarava de frente, mas a opressão. A submissão e a negativa dos crimes da Gestapo eram, no caso deles, uma tentativa desesperada de sobreviver.
A margem deixada para a vida humana era mínima, mas ainda existia. Então o mesmo padrão de comportamento que em um caso o ajudava a sobreviver, no outro não adiantava.
Era um comportamento realista para os alemães, enquanto que os judeus e prisioneiros do campo, cuja maioria esmagadora era judia, estavam se enganando a si próprios.
Quando os prisioneiros começaram a servir seus executores, a ajudá-los a apressar a morte de seus companheiros, então as coisas passaram além da simples inércia.
Nesse momento, o instinto de morte, correndo livre, havia se aliado à inércia.
Lengyel também menciona o Dr. Mengele, um dos protagonistas de Auschwitz, como um típico exemplo da atitude de que apesar de tudo — os negócios devem continuar
como de costume —, pois possibilitava alguns prisioneiros e certamente os SS a manter o mínimo equilíbrio interno que fosse, apesar do que estavam fazendo. Ela descreve
como o Dr. Mengele tomava todas as precauções médicas corretas durante um parto; por exemplo, a observância rigorosa de todos os princípios higiênicos, o corte do
cordão umbilical com o maior cuidado, etc. Mas somente meia hora depois, ele enviava mãe e filho para serem queimados no crematório.
A mesma atitude — os-negócios-devem-continuar-como-de--costume —. que possibilitou ao Dr. Nyiszli funcionar como médico no campo e que o levou a voluntariamente
auxiliar os SS, possibilitou a milhões de judeus viverem nos guetos onde não só trabalhavam para os nazistas, como também selecionavam patrícios seus para irem para
as câmaras de gás. Foi a mesma inércia, senão também a atitude de que apesar de tudo os-negócios-devem-continuar-como-de-costume", que adiou o levante do gueto
de Varsóvia até que quase ninguém ou nenhuma força sobrasse para a luta, e certamente já eram muito poucos para abrir a brecha que poderia ter salvo milhares de
vidas. Tudo isso seria história passada não fosse pelo fato de que a mesmíssima atitude de — negócio-como-de-costume — está por trás da nossa tentativa de esquecer
duas coisas: que homens do século XX, como nós, enviaram milhões de pessoas para as câmaras de gás, e que milhões de pessoas como nós caminharam sem resistência
para a morte. Em Buchenwald, tive oportunidade de conversar com centenas de prisioneiros judeus-alemâes, que foram para ali levados no outono de 1938. Perguntei-lhes
por que não haviam deixado a Alemanha diante das condições degradantes e discriminatórias a que haviam sido submetidos. Sua resposta foi: como poderíamos partir?
Isso significaria abandonar nossas casas, nossos locais de trabalho. Suas propriedades terrenas tinham-se apropriado tanto deles que não podiam sair; ao invés
de usá-las eles estavam sendo usados por elas. Aliás, as leis discriminatórias contra os judeus tinham o objetivo de forçá-los a abandonar a Alemanha, deixando lá
a maior parte de seus bens. Por muito tempo, a intenção dos nazistas era forçar as minorias indesejáveis, tais como a dos judeus, a emigrar. Somente quando isso
não funcionou é que foi instituída a política de extermínio, seguindo também a lógica da ideologia racial nazista. Mas nós nos perguntamos se a idéia de que milhões
de judeus e, mais tarde, os naturais de países ocupados se submeteriam passivamente ao extermínio não viria da constatação de que estavam aceitando a degradação
sem se revoltar? A perseguição aos judeus foi-se acentuando gradativamente, quando nenhuma resistência violenta era oposta. Deve ter sido a aceitação judaica, sem
luta retaliatória, de uma discriminação e degradação cada vez maiores que deu à SS a idéia de que eles poderiam ser levados até o ponto de marchar, por sua própria
conta, para a câmara de gás. Muitos judeus da Polônia, que não acreditavam no "negócio-como-de-costume", sobreviveram à Segunda Guerra Mundial. À medida que
os alemães se aproximavam, eles abandonaram tudo e fugiram para a Rússia. Muitos não confiavam no sistema soviético, mas se lá eram cidadãos de segunda categoria,
pelo menos eram vistos como seres humanos. Aqueles que ficaram e continuaram com seus negócios habituais atiraram-se nas garras da degradação e morreram. Então,
no fundo, o caminhar para a câmara de gás é somente a última conseqüência da filosofia do — "negócio-como-de-costume" É verdade que o mesmo comportamento
suicida tem outro significado. Significa que o homem pode ser levado até um certo ponto e não mais; que além desse ponto de prefere a morte a uma existência desumana.
Mas o passo inicial para essa terrível opção foi precedido pela inércia.
Talvez uma observação no sucesso universal do livro Diário de Atine Frank possa enfatizar o quanto todos nós desejamos subscrever a filosofia do — "negócio-como-de-costume
— e esquecer que ela apressa nossa destruição. É uma tarefa ingrata ter que criticar um relato tão humano, tão comovente que suscita compaixão pela doce
Anne Frank. Mas creio que o aplauso mundial à sua história só pode ser explicado se nós reconhecermos nosso desejo de esquecer as câmaras de gás e glorificar a atitude
de continuar com "os negócios de costume - mesmo em meio ao holocausto. Enquanto os Franks se preparavam passivamente para a deportação, milhares de judeus, na
Holanda e em outros lugares da Europa, estavam tentando escapar para o mundo livre, para melhor poder combater seus verdugos. Outros que não podiam fazê-lo foram
para a clandestinidade — não simplesmente para esconder-se dos SS, esperando passivamente, sem querer lutar, o dia em que sejam capturados — mas para lutar contra
os alemães, e pela Humanidade. Tudo que os Franks queriam era que a vida continuasse o máximo possível do jeito costumeiro. A pequena Anne também queria continuar
vivendo como de costume e ninguém pode culpá-la. Mas o que lhe aconteceu certamente não era seu destino necessário, muito menos heróico. Era um destino sem sentido.
Os Franks poderiam ter encarado os fatos e ter sobrevivido, como muitos outros judeus na Holanda. Anne poderia ter tido uma boa chance de sobreviver, como tiveram
muitas outras crianças judias na Holanda. Mas para isso, ela precisaria ter se separado de seus pais e ido morar com uma família holandesa como se fosse filha deles.
Todos que reconheciam o óbvio, sabiam que a maneira mais difícil de ir para a clandestinidade era fazê-lo em família; pois esconder-se em família aumentava as possibilidades
de localização por parte dos SS. Os Franks, que tinham excelentes amizades com famílias holandesas não-judias, poderiam ter levado uma boa vida, escondendo-se individualmente,
cada um em uma família diferente. Mas ao invés de planejarem algo desse tipo, seus planos giravam todos em torno de continuar o máximo possível com o tipo de vida
familiar a que estavam acostumados. Qualquer outro caminho não significaria simplesmente abrir mão da estimada família, mas também aceitar a realidade de crueldade
do homem para com o próprio homem. Mais do que tudo, isso os teria forçado a aceitar que a atitude de — "os-negócios-devem-continuar-como-de-costume» - não era um
valor absoluto mas podia às vezes, ser a mais destrutiva de todas as atitudes! Não há muita dúvida de que os Franks, que tinham condições de se proverem de tanta
coisa, poderiam ter conseguido um ou dois revólveres se o desejassem. Poderiam ter liquidado um ou dois dos SS que vieram à sua procura. Não havia um numero ilimitado
de SS. A morte de cada SS para um judeu preso teria danificado fatalmente a máquina policial. A sorte dos Franks não teria sido muito diferente, porque de qualquer
forma todos eles morreram, com exceção do pai de Anne, apesar de não ter pretendido comprar a sobrevivência com o extermínio de sua família Elas poderiam ter vendido
caro suas vidas ao invés de caminhar sem resistência para a morte
Há uma boa razão para o tão aclamado livro terminar com Anne manifestando a sua crença no que existe de bom em todo homem O que é negado é a importância
de se aceitar a realidade das ,das câmaras de gás para que elas nunca mais venham a existir. Se todos os homens são basicamente bons, se continuar com a vida íntima
em família, como se nada tivesse acontecido, é o que deve ser mais admirado, então, sem duvida devemos continuar levando a vida como sempre e esquecer Auschwitz.
Exceto que Anne Frank morreu porque seus pais não quiseram acreditar em Auschwitz. E a história da pequena Anne encontrou grande receptividade porque ela nega implicitamente
que Auschwitz tenha existido. Se todos os homens são bons, não pode haver Auschwitz.
Encontrei muitos judeus e não-judeus antinazistas que sobreviveram na Alemanha e nos países ocupados. Mas eram pessoas que perceberam que, quando o mundo
se está desintegrando, quando a desumanidade reina soberana, não se pode continuar vivendo como se nada tivesse acontecido Deve-se então, fazer uma reavaliação
radical de tudo que se fez. Resumindo, deve-se firmar pé na nova realidade, pisar de verdade e não se retirar para uma realidade idealizada.
Se hoje em dia os negros lutam na África contra as armas da Polícia que defende o apartheid — mesmo que centenas tombem feridos e alguns milhares vão parar
em campos de concentração — a sua revolta, a sua luta irão cedo ou tarde assegurar-lhes a chance de liberdade e de igualdade. Os judeus da Europa poderiam também
ter lutado como homens livres contra os SS, ao invés de rastejar e esperar serem arrebanhados e levados para as câmaras de gás. Sua passividade ao esperar que a
Polícia do Reich batesse à sua porta, sem antes empunhar uma arma para acertar pelo menos um SS antes de serem mortos, foi o primeiro passo na caminhada voluntária
para os crematórios do III Reich.
Enquanto todos os outros relatos de campos de concentração que chegaram às minhas mãos foram feitos por pessoas que nunca conscientemente ajudaram os SS,
o livro do Dr. Nyiszli foi o único relatório escrito por um prisioneiro de campo de concentração que voluntariamente se tornou um instrumento dos SS para permanecer
vivo. Ao fazer a sua opção, o que o Dr. Nyiszli fez, porém, na verdade, foi iludir-se constantemente para conseguir viver consigo mesmo e com sua experiência. E
aqui reside a verdadeira importância desse documento, pelo amparo que a compreensão dele pode oferecer. Porque mesmo no cenário opressivo de Auschwitz, certas defesas
ainda serviam à vida e não ao instinto de morte. Mais importante que tudo era a compreensão do que se estava passando dentro de si mesmo e por quê. Com suficiente
compreensão, o indivíduo não se enganaria tentando acreditar que salvar sua própria pele era salvar-se como pessoa. Ele seria capaz de reconhecer que muito do que
aparentemente parecia protetor era autodestrutivo.
Exemplo disso é o caso dos prisioneiros que se ofereciam para trabalhar nas câmaras de gás, pensando que isso lhes poderia salvar a vida. Todos eles foram
mortos depois de algum tempo. Mas a maioria morria mais cedo e após semanas de uma vida mais terrível do que se eles não se tivessem oferecido para colaborar.
Que o Dr. Nyiszli procurava se iludir, pode ser visto, por exemplo, nas suas referências constantes a seu trabalho como médico, embora trabalhasse como assistente
de um criminoso ignóbil. Ele fala do Instituto de Investigação de Raças, Biologia e Antropologia como "um dos mais qualificados centros médicos do III Reich", embora
o objetivo do instituto fosse provar mentiras deslavadas. Que o autor era médico não muda absolutamente o fato de que, assim como todos os prisioneiros que serviam
aos SS com mais devoção inclusive que alguns SS, foi um participante, um acessório para os crimes nazistas. Como, então, poderia ele fazer isso e sobreviver? Vangloriando-se
de sua capacidade profissional, sem ligar às finalidades para as quais era usada. Aqui e ali o orgulho em sua capacidade profissional é entremeado com o próprio
relato do seu sofrimento e dos outros prisioneiros. O ponto importante é que o Dr. Nyiszli, o Dr. Mengele e centenas de outros médicos muito mais ilustres, homens
treinados muito antes do advento de Hitler, participaram dessas experiências com seres humanos e das pesquisas pseudocientíficas que se seguiram. É esse orgulho
na capacidade e nos conhecimentos profissionais, independente das implicações morais, que é tão perigoso. Essa face da sociedade moderna, orientada para a competência
tecnológica, ainda está viva em nós, apesar de que os fornos crematórios, os campos de concentração e o extermínio de milhões por motivos raciais não mais existam.
Auschwitz se foi, mas enquanto esta atitude permanecer não estaremos a salvo da indiferença criminosa à vida na sua essência.
Recomendo a leitura cuidadosa da descrição de como a primeira tarefa de cada novo Sonderkommando era cremar os cadáveres do kommando anterior, exterminados
poucas horas antes. Recomendo para especulação do leitor a questão: por que, após o décimo-segundo Sonderkommando ter-se revoltado, o décimo-terceiro caminhou passivamente
para a morte sem nenhuma resistência?
Nesta única revolta do décimo-segundo Sonderkommando, setenta SS foram eliminados, incluindo um oficial graduado e dezessete oficiais não graduados; um dos
fornos foi totalmente destruído e o outro seriamente avariado. Todos os oitocentos e cinqüenta e três prisioneiros do kommando morreram, mas isso prova que a posição
do Sonderkommando deu aos prisioneiros uma chance em dez de destruir os SS, uma percentagem maior do que a que existia nos campos de concentração comuns. O Sonderkommando
que se revoltou e impôs aquelas severas baixas ao inimigo não morreu de maneira muito diferente de todos os outros Sonderkommandos. Por que, então, — e essa é a
pergunta que obceca todos que estudam os campos de extermínio — por que, então, milhões de pessoas caminharam calmamente, sem nenhuma resistência, para a morte,
quando bem diante delas havia o exemplo desse kommando que conseguiu destruir e danificar suas próprias câmaras da morte e matar dez por cento de seu próprio número
em SS? Por que tão poucos dos milhões de prisioneiros morreram como homens, como o fizeram os homens desse único kommando?
Talvez que comparando os relatos dos dois médicos que sobreviveram em Auschwitz possamos esboçar uma resposta.
O Dr. Frankl, que durante a prisão procurou continuamente o significado pessoal de sua experiência como prisioneiro de um campo de concentração, dessa forma
encontrou significação profunda de sua vida e da vida em geral. Outros prisioneiros que, como o Dr. Nyiszli, estavam somente preocupados com a simples sobrevivência
— mesmo que isso significasse auxiliar os médicos SS em seus nefandos experimentos com seres humanos — não tiraram conclusões mais profundas de sua horrível experiência.
E assim, eles sobreviveram em corpo, assaltados pelo remorso e pelas recordações dantescas.
Esse livro, pois, é antes de tudo uma fábula de advertência tão velha quanto a Humanidade. Aqueles que procuram proteger o corpo a todo custo, morrem muito
mais vezes. Aqueles que arriscam o corpo para sobreviver como homem têm uma boa chance de viver.
— BRUNO BETTELHEIM
Universidade de Chicago
Maio de 1960
NOTA SOBRE AS ILUSTRAÇÕES
A-s ILUSTRAÇÕES DESTE VOLUME, com três exceções (as de número 1, 2 e 14), foram cedidas pelo Comitê Internacional de Auschwitz, uma organização destinada
a ajudar os sobreviventes do Campo de Concentração de Auschwitz.
Têm particular interesse as fotografias de 5 a 12. O Comitê tem em seus arquivos cerca de 200 fotos, que foram descobertas no Museu Judaico, em Praga. Em
sua grande maioria, as fotografias foram tiradas na primavera ou no verão de 1944, durante a chegada de um comboio de judeus húngaros; em outras palavras, precisamente
o período descrito pelo Dr. Nyiszli em seu livro.
Até mesmo as fotos de Auschwitz na época da libertação são extremamente raras (uma pesquisa realizada nos arquivos da maior agência de fotografias revelou-se
infrutífera — nenhuma foto de Auschwitz) e naturalmente as que datam do período da guerra são ainda mais raras, uma vez que era terminantemente proibido a qualquer
um tirar fotos da rampa de chegada em Birkenau. No caso das fotografias de posse do Comitê Internacional de Auschwitz, no entanto, parece que um membro da SS recebeu
instruções especiais de um dos "Institutos de Pesquisa da Raça" para fotografar a chegada dos comboios na rampa.
Após a libertação da Tchecoslováquia, uma judia hospedou-se numa cidade da área dos sudetos, numa casa anteriormente habitada por um membro da SS — provavelmente
a mesma pessoa que tirou as fotos. Quando examinava as coisas abandonadas pelo ex-oficial nazista descobriu uma série de mais de 200 fotografias, algumas até emolduradas
e com legendas. Vendeu-as ao Museu Judaico de Praga, onde seu extraordinário valor documental permaneceu desconhecido até que um antigo prisioneiro de Auschwitz
apareceu e identificou-as sem qualquer dúvida.
INTRODUÇÃO
EM MEADOS DE MARÇO DE 1944, os alemães invadiram a Hungria. Todos os judeus foram imediatamente colocados sob prisão domiciliar; a deportação começou logo
depois. Em abril, junto com todos os outros judeus de sua cidade, o Dr. Miklos Nyiszli foi despachado para Auschwitz.
Assim que chegou, foi separado de sua mulher e filha, e escolhido pelo carrasco-chefe dos crematórios de Auschwitz, o Obersturmführer Dr. Mengele, para ficar
encarregado de todo o trabalho patológico levado a efeito no campo. Como tal, o Dr. Nyiszli tornou-se membro do Soriderkommando, um grupo de prisioneiros especialmente
qualificado e privilegiado, que trabalhava exclusivamente dentro dos crematórios. Esse Soriderkommando, também conhecido como o "hommando dos mortos-vivos", era
constituído de 860 prisioneiros do sexo masculino, escolhidos por sua capacidade profissional, sua força ou boa constituição física. Enquanto viviam, tinham uma
vida relativamente boa, porém viviam somente durante quatro meses a partir do dia em que entravam no crematório; no fim desse período, eram liquidados e substituídos
por novo grupo de prisioneiros.
Dessa forma, os nazistas esperavam manter longe dos olhos do mundo qualquer indício das ações perpetradas naquelas "fábricas da morte". Eles quase conseguiram:
dos vários relatos e documentos baseados na vida no KZ (os campos de concentração), nenhum, que eu saiba, contou com detalhes as condições dentro do crematório,
pela simples razão de que o portão de entrada para os crematórios era o portão da morte. Quase milagrosamente, o Dr. Miklos Nyiszli sobreviveu. Através de seus olhos,
nós revivemos não somente os horrores do dia-a-dia da vida no KZ, como também testemunhamos a lenta desintegração de um império que duraria mil anos. Da pena sem
estilo do Dr. Nyiszli, descortina-se o período que vai desde as organizadíssimas "seleções", passando pelos extermínios metódicos dos princípios de 1944, até o impressionante
êxodo que marcou o colapso germânico na primavera de 1945. Digo "pena sem estilo" porque ele próprio declara: "Quando vivi aqueles horrores que ultrapassavam qualquer
imaginação, eu era um médico e não um escritor. Hoje, escrevendo sobre eles, o faço não como um repórter, mas como médico". Aqueles que procuram uma narrativa bem
construída, um estilo literário elegante e expressivo, ficarão desapontados e talvez até irritados algumas vezes com o relato hiperbólico e impressionista da experiência
do autor. Mas num livro dessa natureza, a pedra bruta é o que importa.
_ Naquilo que o Dr. Nyiszli testemunhou poucos acreditarão ou desejarão acreditar, pois a mente humana procura fugir dos sofrimentos e do que lhe é repugnante.
Daí para negar que o tratamento e as torturas aqui descritos pudessem ter acontecido é um simples passo. Mas o fato permanece, eles realmente existiram.
Mas, perguntarão alguns, por que trazer ao público esse documento do sofrimento, por que remexer em velhas cinzas e avivar antigas animosidades? Não seria
melhor esquecer o passado? Belas perguntas, sem dúvida, e talvez fosse realmente melhor não reavivar essas lembranças. Aqueles que viveram nos campos de concentração
não falam abertamente de suas experiências. Eu, pessoalmente, encontrei vários que estiveram em Dachau, Bergen-Belsen e Auschwitz, e raramente ou nunca eles falaram
abertamente sobre esses anos trágicos. A maioria voltou para suas casas e trabalhou para reconstruir suas vidas da melhor maneira possível. Alguns morreram, meses
ou anos após sua libertação, das doenças contraídas no confinamento. Doenças, freqüentemente, tanto mentais quanto físicas: conheci uma menina que tinha dezesseis
anos quando foi libertada e suicidou-se em Paris, em 1954, quase dez anos após a libertação. Ela havia retornado à sociedade, casara-se, tinha um filhinho que adorava,
estava muito bem financeiramente e demonstrava ser uma pessoa de personalidade forte, completamente restabelecida. Seis meses antes de morrer, havia tido um colapso
nervoso e fora mantida sob constante vigilância; porém, seu estado piorava a passos largos, até que depois de várias tentativas o passado conseguiu vir à tona. Assim
como aqueles que tombaram diante das metralhadoras dos SS ou nas câmaras de gás, ela foi vítima tardia do KZ.
Não foi, porém, para condenar uma raça nem para angariar simpatia para aqueles que sofreram e ainda sofrem hoje em dia, que quisemos trazer esse documento
para os leitores. Fizemos isto porque Meyer Levin uma vez disse: "Essas vitimas das atrocidades nazistas deixaram registros fragmentários de suas experiências, elas
arranharam palavras nas paredes, e morreram na esperança de que o mundo viesse algum dia a saber, não por estatísticas, mas por compreensão. Nós temos obrigação
de ouvir"1. Além do mais, um livro como esse pode servir para nos lembrar, apesar da distância que nos separa da realidade dantesca que revela, do que os subprodutos
da guerra podem ser, do que, quando as sociedades se deixam bajular e conduzir por fórmulas baseadas no ódio e no desprezo, o homem é capaz de fazer ao seu semelhante.
Mesmo num mundo de "guerra fria" ou de guerrinhas setoriais quentes, o tratamento sórdido dispensado pelo homem ao seu semelhante nos horroriza e nos parece
inconcebível. Da Coréia, Indochina e Norte da África também nos chegam relatos tão sórdidos quanto esses que vocês vão ler. O turbilhão de acusações e contra-acusações
torna difícil estabelecer quem é o culpado e a qual dos lados cabe a responsabilidade. O que importa, porém, não é a censura aos perpetradores de atrocidades, mas
sim a contínua existência dessas atrocidades. "Não permita a nenhum homem pensar que ele ou sua raça é superior". Auschwitz relembra-nos constantemente, embora de
maneira indireta, esse pensamento. Porque sem a teoria da Raça Superior, os horrores dos campos de concentração nunca teriam acontecido. A teoria da supremacia ariana
foi mais que um simples pretexto para liquidar os judeus da Europa: muitos, mas muitos mesmo, foram seduzidos por essa infame propaganda e começaram a acreditar
ardentemente nela. Assim, meter uma bala na nuca de milhares de homens, ou atirar centenas de homens, mulheres e crianças numa câmara de gás, não precisava de maiores
justificativas. Como membros da Raça Superior, os oficiais nazistas estavam cumprindo sua tarefa sagrada.
O perigo é coletivo; a responsabilidade é individual. Mesmo aqueles que não participaram diretamente das atrocidades, mas tiveram conhecimento, embora vagamente,
de que elas existiam, são culpados. A suástica, assim como a cruz ardente, grassa num clima de medo e ódio. Mas conta com a apatia como seu principal aliado.
Agora, a suástica voltou a aparecer nas paredes dos templos em todo o mundo, lembrando-nos de que não foi totalmente erradicada, como inocentemente achávamos.
Se formos apáticos o bastante, se desculparmos isso como sendo trabalho de desordeiros irresponsáveis (Hitler e seus asseclas foram durante muito tempo "desculpados"
como desordeiros irresponsáveis"), assim como o câncer, poderá crescer e se disseminar. Se o presente documento dá uma contribuição mínima que seja para dissipar
essa apatia perigosa, já serviu a seu propósito.
Nós revelamos também o segredo do suicídio universal. Não é impossível que essa percepção tenha mantido o mundo numa paz relativa desde que Auschwitz foi
destruído há quinze anos. Não é impossível que essa percepção venha a manter o mundo em paz pelas décadas que se sucederão para que, desta forma, o homem possa dirigir
sua energia para o bem ao invés do mal, para dignificar a vida ao invés de destruí-la. Somente se isso acontecer é que os incontáveis milhões de seres humanos que
sofreram e padeceram durante essas guerras não terão morrido em vão.
— RlCHAHD SEAVER
Nova York
Abril de 1960
DECLARAÇÃO
Eu, ABAIXO ASSINADO, Dr. Miklos Nyiszli, médico, antigo prisioneiro dos campos de concentração nazistas, declaro que esse trabalho, que relata os dias mais
negros da História da Humanidade, retrata fielmente, sem o menor exagero, a realidade dos fatos; foi elaborado por mim na condição de testemunha ocular e participante
involuntário do trabalho nos crematórios de Auschwitz, em cujas chamas, milhões de chefes de família, mães e crianças desapareceram.
Como médico-chefe dos crematórios de Auschwitz, expedi numerosos atestados de dissecação e de descobertas em medicina legal, que assinei com meu número tatuado.
Enviei esses documentos pelo correio, endossados com a assinatura de meu superior, Dr. Mengele, para o Instituto de Pesquisa da Raça, Biologia e Antropologia, um
dos mais qualificados centros médicos do III Reich. E ainda deve ser possível encontrá-los lá, nos arquivos desse instituto.
Ao escrever esse trabalho, não objetivo nenhum sucesso literário. Quando passei por esses horrores, que estão além de qualquer imaginação, foi como médico
e não como escritor. Hoje, ao falar sobre eles, escrevo não como um repórter e sim como médico.
Escrito em Oradea-Nagyvarad, março de 1946.
Assinado:
Dr. MIKLOS NYISZLI
AUSCHWITZ
O testemunho ocular de um médico
Para minha esposa e filha
— que retornaram do Campo da Morte
I
MAIO DE 1944. Dentro de cada um dos vagões fechados, noventa pessoas se amontoavam. O fedor das latas de urina, que de tão cheias derramavam, era tão forte
que tornava o ar irrespirável.
O trem dos deportados. Durante quatro dias, quarenta vagões idênticos rodaram sem parar. Primeiro passaram pela Eslováquia, depois pelo território do Governo
Central, conduzindo-nos para um destino desconhecido. Nos éramos parte do primeiro grupo de mais de um milhão de judeus húngaros condenados à morte.
Deixando para trás Tatra, passamos pelas estações de Lublin e Krakau. Durante a guerra, essas duas cidades foram usadas como campos de reagrupamento ou,
para ser mais exato, campos de extermínio, pois ali eram jogados todos os anti-nazistas da Europa para serem eliminados.
Quase uma hora depois de Krakau, o trem fez uma parada diante de uma estação de alguma importância. Tabuletas em letras góticas anunciavam-na como sendo
Auschwitz , nome que nada significava para nós, pois nunca havíamos ouvido falar dele.
Espiando por uma rachadura na parede do vagão, notei um movimento incomum no trem. As tropas SS que até agora nos tinham acompanhado foram substituídas por
outras, o maquinista deixou o trem. Por trechos de conversas, ouvidas ao acaso, percebi que nossa jornada estava chegando ao fim.
Os vagões começaram novamente a rodar e vinte minutos depois parávamos com um prolongado e estridente apito da locomotiva. Pela rachadura pude ver um terreno
desértico: a terra era de argila amarelada igual à da Sibéria Oriental, ponteada aqui e ali por grupos de árvores verdes. Estacas de concreto enfileiravam-se até
a linha do horizonte e, passando por elas, linhas de arame farpado de cima a baixo. Tabuletas avisavam-nos que a cerca era eletrificada e com corrente de alta tensão.
Dentro das imensas praças cercadas pelas estacas estavam milhares de barracões cobertos de papel encerado verde, construídos de maneira a formar uma rede de ruas,
longa e retangular, que ia até onde a vista podia alcançar.
Figuras esfarrapadas, com o uniforme listrado dos prisioneiros, moviam-se no interior do campo. Alguns estavam carregando tábuas, outros balançavam pás e
picaretas e ainda havia aqueles que estavam colocando enormes caixotes em cima de caminhões.
A cerca de arame farpado era interrompida a cada vinte ou trinta metros por torres de observação, no topo da qual havia um SS com uma metralhadora de tripé.
Esse era o campo de concentração de Auschwitz, ou de acordo com os alemães, que adoram abreviar tudo, era o KZ, pronunciado "katset" Não era uma visão nada
estimulante, mas para o momento nossa curiosidade despertada ofuscou grande parte de nosso medo. Olhei em tomo para meus companheiros. Nosso grupo era formado
por vinte e seis médicos, seis farmacêuticos, seis mulheres, nossos filhos e algumas pessoas idosas de ambos os sexos — nossos pais e parentes. Sentados sobre suas
bagagens ou no chão, pareciam cansados e apáticos, seus rostos demonstravam um tipo de pressentimento que mesmo a excitação da chegada não conseguia dissipar. Várias
crianças estavam adormecidas. Outras ficavam catando os restos de comida que havia. O resto, não achando nada para comer, simplesmente tentava molhar os lábios ressecados
com a língua seca.
Do lado de fora, veio o som de passos pesados sobre a areia. Ordens gritadas quebraram a monotonia da espera. As trancas dos vagões foram tiradas. A porta
deslizou devagar e já podíamos ouvi-los dando-nos ordens.
— Saiam todos e tragam apenas a bagagem de mão. A bagagem pesada fica no vagão.
Pulamos para fora e, então, ajudamos a descer nossas mulheres e filhos, pois o chão do vagão ficava a uns dois metros do nível do solo. Os guardas nos alinharam
ao longo dos trilhos. Diante de nós estava um jovem oficial SS, com o uniforme impecável, uma roseta dourada enfeitando a lapela, as botas muito bem polidas. Apesar
de desconhecer as patentes da SS, supus, pela braçadeira, que era um médico. Mais tarde soube que era o médico-chefe do campo de concentração de Auschwitz. Como
"selecionador médico" para o campo, ele estava presente à chegada de todos os trens.
Nos momentos que se seguiram, presenciamos certas fases do que, em Auschwitz, era chamada "seleção". Todos sobreviveriam ou não a essas fases, de acordo
com a sua própria sorte.
Para começar, os SS dividiram-nos por sexo, deixando todas as crianças com menos de quatorze anos com suas mães. Assim, nosso grupo, que era unido, foi separado
em dois. Mas os guardas respondiam a nossas perguntas ansiosas num tom paternal, quase afável. Não precisávamos nos preocupar. Elas estavam sendo levadas para
um banho desinfetante, como de costume. Mais tarde nós nos reuniríamos às nossas famílias novamente. Enquanto nos selecionavam, tive chance de dar uma olhada em
volta. Sob a luz do poente, a imagem vista anteriormente através da fenda do vagão parecia ter mudado, estava mais assustadora e ameaçadora. Uma coisa imediatamente
chamou minha atenção: uma imensa chaminé quadrada, feita de tijolos vermelhos. Tinha o tamanho de um edifício de dois andares e parecia uma estranha chaminé de
fábrica. O que mais me impressionou foram as enormes línguas de fogo subindo pelas hastes colocadas nos quatro ângulos da boca da chaminé. Tentei imaginar que
diabólica comida deviam estar fazendo para precisar de tanto fogo. De repente me lembrei que estávamos na Alemanha, o país dos fornos crematórios. Eu havia passado
dez anos nesse país, primeiro como estudante, depois como médico, e sabia que até a menor cidade tinha seu forno crematório.
Então, a "fábrica" era um crematório. Um pouco mais adiante avistei uma segunda construção com sua chaminé; depois, quase escondida pelas árvores, uma terceira,
cuja chaminé soltava labaredas. Uma brisa suave trouxe a fumaça até nós. Meu nariz e minha garganta se encheram do odor nauseante de carne queimada e cabelo chamuscado.
Bastante comida, pensei. Mas enquanto isso, a segunda fase da seleção havia começado. Numa única fila, homens, mulheres, crianças e velhos tinham
de passar diante do comitê de seleção.
O Dr. Mengele, o "selecionador" médico, fez um sinal. Dividiram-nos novamente em dois grupos. A coluna da esquerda incluía os velhos, os aleijados, os doentes,
as mulheres e as crianças de menos de quatorze anos. A coluna da direita consistia somente de mulheres e homens de bom físico: aptos para o trabalho. Nesse último
grupo notei minha mulher e minha filha de quatorze anos. Não tínhamos mais nenhum jeito de conversar, apenas podíamos fazer sinais um para o outro.
Aqueles demasiado enfermos para andar, os velhos e os dementes, foram colocados em caminhões da Cruz Vermelha. Alguns dos médicos mais idosos do meu grupo
pediram também para ir nos caminhões. Os caminhões partiram e o grupo da esquerda, ladeado pelos SS, foi posto em marcha. Em alguns minutos eles se perderam de vista,
por trás de um grupo de árvores.
A coluna da direita permaneceu parada. O Dr. Mengele ordenou a todos os médicos que dessem um passo à frente; aproximou-se do novo grupo composto de uns
cinqüenta médicos e quis saber quem havia estudado em universidades alemãs, quem tinha bons conhecimentos de patologia e prática em medicina legal. Que desse um
passo à frente.
— Tenham cuidado — advertiu. — Você precisam servir direito para a tarefa, porque do contrário...
- Seu gesto de ameaça não deixou muito para a imaginação. Olhei de relance para os meus companheiros. Na certa estavam intimidados. Qual era a diferença?
Eu já havia me decidido.
Saí da fila e dei um passo à frente. Mengele interrogou-me sem pressa, perguntando onde havia estudado os nomes dos meus professores de patologia, como eu
havia conseguido meu diploma em medicina legal, quanto tempo tinha praticado, etc Aparentemente minhas respostas foram satisfatórias, pois ele imediatamente separou-me
dos outros e ordenou a meus colegas que voltassem a seus lugares. Pelo momento eles estavam livres. Porque eu devo dizer uma coisa agora que naquele momento naturalmente
ignorava, isto é que o grupo da esquerda e aqueles que seguiram nos caminhões passaram momentos depois pelos portões do crematório. Dos quais nunca ninguém voltou.
2
II
Ao ficar sozinho, um pouco afastado dos outros, comecei a pensar nos estranhos e intrincados caminhos do destino. Mas meu pensamento estava na Alemanha,
país onde passei os anos mais felizes da minha vida.
Agora, sobre minha cabeça, as estrelas pontilhavam o céu e a brisa fresca da noite seria muito reconfortante se, de tempos em tempos, não trouxesse o cheiro
dos corpos queimados nos fornos do Terceiro Reich.
Centenas de holofotes, colocados no alto das torres, varriam a escuridão. E já agora atrás da cadeia de luzes parecia que o ar tinha ficado mais denso, envolvendo
o campo num véu espesso através do qual só se viam as silhuetas dos barracões. Já então os carros haviam sido esvaziados. Alguns homens, vestidos com uniforme do
campo, chegaram e descarregaram a bagagem pesada que havíamos deixado, enchendo com elas alguns caminhões. Na escuridão da noite, os quarenta vagões iam lentamente
se afastando até que se fundiam na planície. O Dr. Mengele, tendo acabado de dar instruções às tropas SS, sentou-se ao volante de seu carro e ordenou-me que viesse
junto. Sentei-me no banco de trás, ao lado de um oficial SS, e partimos. O carro pulava loucamente naqueles caminhos de terra do campo, esburacado e cheio de poças
d'água feitas pelas chuvas de inverno. Os holofotes passavam por cima de nós sem cessar, até que paramos, finalmente, em frente a um portão blindado. Uma sentinela
SS veio correndo para dar passagem ao carro. Rodamos mais algumas centenas de metros pela estrada principal do campo, que era margeada de ambos os lados por fileiras
de barracões. Então paramos em frente a uma construção em melhor estado que as outras; pela placa na porta pude ver que se tratava do "Escritório do Campo" Do
lado de dentro, várias pessoas estavam trabalhando em suas mesas. Todos tinham olhar inteligente e expressão refinada. Estavam usando o uniforme de prisioneiros
e imediatamente a nossa chegada ergueram-se. O Dr. Mengele dirigiu-se a um deles um homem de seus cinqüentas anos e de cabeça raspada. Uma vez que eu estava atrás
do Obersturmführer, era-me impossível ouvir o que diziam. O Dr. Sentkeller prisioneiro, e como vim a saber mais tarde, médico do Campo F acenou com a cabeça em
assentimento. A seu pedido, eu me aproximei da mesa de outro prisioneiro. O funcionário mexeu em alguns cartões de arquivo e então fez uma série de perguntas sobre
mim; registrou as respostas primeiro no cartão, depois num livro enorme e entregou o cartão a um guarda SS. Então nós deixamos a sala. Ao passar em frente ao Dr
Mengele inclinei ligeiramente a cabeça. Observando isso, o Dr. Sentkeller não pode deixar de alterar a voz e dizer, mais ironicamente do que com
maldade que tais gentilezas não eram comuns ali e que eu faria bem em não querer bancar o gentleman do KZ.
Um guarda levou-me para outro barracão, em cuja entrada estava escrito "Banhos e Desinfecção", onde eu e meu cartão fomos para outro guarda. Um prisioneiro
aproximou-se de mim e tirou-me a maleta médica, revistou-me e ordenou que me despisse.
Um barbeiro aproximou-se e raspou primeiro a minha cabeça, depois o resto dos pêlos de todo o corpo e me mandou para o chuveiro. Esfregaram minha cabeça
com uma solução de cloreto de cálcio, que queimou tanto meus olhos que não pude abri-los durante vários minutos.
No outro quarto minhas roupas foram trocadas por um paletó pesadão, quase novo, e umas calças listradas. Devolveram-me os sapatos após terem-nos mergulhado
num tanque com a mesma solução de cloreto de cálcio. Experimentei minhas roupas novas e constatei que me serviam razoavelmente bem. (Pensei, quem teria sido o pobre
infeliz que as usara antes de mim?). Antes que pudesse ir adiante em meus pensamentos, veio outro prisioneiro, arregaçou a manga do meu paletó, conferiu o numero
do cartão que eu trazia e habilidosamente começou a fazer uma série de pequenas tatuagens no meu braço, usando uma agulha com um reservatório cheio de tinta azul.
Uma porção de pintinhas azuladas começaram a surgir quase que imediatamente.
— Seu braço inchará um pouco, — ele me explicou — mas daqui a uma semana vai sarar e o número surgirá bem visível.
E assim, eu, Dr. Miklos Nyiszli, tinha deixado de existir; dali por diante seria simplesmente prisioneiro do KZ. número A 8450.
Na mesma hora, outra cena me veio à mente. Quinze anos antes, o Reitor da Faculdade de Medicina da Universidade Friederick Wilhelm, de Breslau, apertava
minha mão e me desejava um brilhante futuro ao me entregar o diploma "com as congratulações do conselho".
III
POR ORA MINHA situação era tolerável. O Dr. Mengele naturalmente queria que eu trabalhasse como médico. Provavelmente seria mandado para alguma cidade alemã
onde o médico local deveria ter sido convocado para o serviço militar e cujas atribuições eram a medicina legal e a patologia. Além do mais, estava cheio de esperança,
pois, devido a ordens expressas do Dr. Mengele, não estava usando o uniforme grosseiro dos prisioneiros e, sim ótimas roupas civis.
Já era quase meia-noite, mas minha curiosidade impedia-me de dormir. Ouvia cada palavra do chefe do barracão. Ele conhecia a completa organização do KZ,
o nome dos comandantes SS de cada seção do campo, assim como o nome dos prisioneiros que ocupavam postos importantes. Fiquei sabendo que Auschwitz não era um campo
de trabalho e, sim, o maior campo de extermínio do III Reich. Ele também me contou da "seleção" que era feita diariamente nos barracões e hospitais. Centenas de
prisioneiros eram embarcados todos os dias em caminhões e levados para os crematórios, somente umas dezenas de metros adiante.
Por intermédio dele tomei conhecimento da vida nos barracões. De oitocentas a mil pessoas eram enfiadas nos compartimentos apertados dos barracões. Sem poder
se estirar completamente, elas dormiam tanto ao comprido quanto sentadas, com os pés de um no pescoço ou peito de outro. Despojadas de qualquer dignidade humana,
elas se chutavam, se mordiam e se empurravam, a fim de conseguir uns centímetros a mais para poder dormir com um pouco mais de conforto, pois não tinham muito tempo
para dormir: o toque de alvorada soava às três da manhã. Então, os guardas, armados com porretes de borracha, arrancavam os prisioneiros de suas "camas". Ainda meio
dormindo, eles eram jogados para fora dos barracões a cotoveladas e pontapés, e imediatamente alinhados. Começava a parte mais desumana do programa do KZ: a chamada.
Os prisioneiros ficavam em fileiras de cinco. Os encarregados colocavam-nos em ordem por altura, os mais altos na frente. Então um outro guarda chegava, o guarda
de serviço do dia para a seção, e, puxando o homem da frente, empurrava-o para trás, de onde trazia o menor da fila. Finalmente o chefe do barracão chegava, bem
vestido e bem alimentado. Ele também vestia o uniforme do campo, porém limpo e passado. Examinava pausadamente as filas para verificar se estava tudo em ordem. Naturalmente
não estava, então agitava os punhos cerrados para aqueles que usavam óculos e os arrastava para trás. Por quê? Ninguém sabia. Na verdade você nem pensa sobre isso,
pois você está no KZ, e aqui ninguém procura respostas racionais para as coisas.
Esse divertimento continuava por várias horas. Eles contavam as filas de homens mais de quinze vezes. De frente para trás, de trás para a frente e de qualquer
outra direção possível de se imaginar. Se uma fila não estivesse irrepreensivelmente reta, todos os outros teriam que ficar lá por mais uma hora — as mãos suspensas
sobre a cabeça e as pernas tremendo de cansaço e frio. Pois, mesmo durante o verão, as madrugadas de Auschwitz eram frias e o uniforme de tecido leve dos prisioneiros
não oferecia muita resistência à chuva e ao frio. No verão e no inverno, a chamada começava às 3 e terminava às 7 da manhã, quando chegavam os oficiais SS.
O chefe do barracão, um obsequioso servidor dos SS, era, na maioria das vezes, um criminoso comum, cuja insígnia verde o distinguia dos.outros prisioneiros.
Ele chamava a atenção e advertia a todos, passando em revista os homens sob seu comando. Depois era a vez dos SS inspecionarem as fileiras: contavam as colunas e
faziam anotações nos caderninhos. Se houvesse algum morto no barracão — e sempre havia geralmente cinco ou seis, às vezes até dez por dia — eles também tinham que
estar presentes, não somente em número, mas fisicamente presentes. Completamente nus, eram segurados por prisioneiros vivos até que a inspeção terminasse. Vivos
ou mortos, o número esperado de prisioneiros tinha que conferir. Acontecia, às vezes, quando havia excesso de trabalho, do kommando, cuja função era passar pelos
barracões recolhendo os mortos em carrinhos de mão, deixar de passar vários dias. Enquanto isso, cada dia os mortos tinham que se apresentar à chamada até que o
kommando os recolhesse e seus nomes pudessem finalmente ser riscados da lista.
Depois de tudo que aprendi, não estava arrependido por ter agido daquela maneira e tentado melhorar o meu lado. Ao ser recolhido no primeiro dia para trabalhar
como médico, pude escapar de me perder na massa e ser atirado na miséria do campo de quarentena 3.
Graças aos meus trajes civis, pude manter uma aparência humana e naquela noite iria dormir numa cama, no aposento médico do décimo-segundo barracão-"hospital".
As sete da manhã: a alvorada. Os médicos da minha seção, bem como todo o pessoal do hospital, enfileiraram-se em frente aos barracões para serem contados.
Isso levou de três a quatro minutos. Os acamados e os mortos também foram contados. Aqui também os mortos ficavam ao lado dos vivos.
Durante o café da manhã, que era feito em nossos quartos, fiquei conhecendo meus colegas. O médico-chefe do barracão-hospital no. 12 era o Dr. Levy, professor
da Universidade de Estrasburgo, e seu assistente, o Dr. Gras, professor da Universidade de Zagreb; ambos eram bem conhecidos por sua capacidade, em toda a Europa.
Com praticamente nenhum remédio, trabalhando com instrumentos deficientes e em lugares onde os princípios higiênicos e anti-sépticos eram inexistentes, indiferentes
à sua tragédia pessoal, sem ligar para o cansaço e o perigo, eles davam o melhor de si para minorar o sofrimento de seus semelhantes.
Nos campos de Auschwitz, o indivíduo mais são tinha três ou quatro semanas para morrer de fome, contaminação pela promiscuidade e trabalho insano. Como se
pode descrever o estado de alguém, que já chega organicamente enfermo ao campo? Naquelas circunstâncias era difícil esquecer-se que se tratava de um ser humano,
e os médicos exerciam sua profissão com a maior devoção. O exemplo deles era fielmente seguido pelos corpos médicos subalternos, compostos de seis médicos, todos
jovens gregos e franceses. Há três anos que comiam pão feito no KZ com castanha silvestre e polvilhado de serragem. Suas esposas, seus filhos, parentes e amigos
haviam sido liquidados desde a chegada. Se por acaso tivessem sido dirigidos para a coluna da direita, eles poderiam permanecer vivos por mais de dois ou três meses,
e depois, como os "escolhidos", iriam desaparecer nas chamas.
Assolados pelo desespero, resignados, apáticos, eles, no entanto, tentavam com a maior devoção ajudar aos mortos-vivos, cujos destinos estavam em suas mãos.
Pois os prisioneiros desse hospital eram mortos-vivos. Tinha-se que estar seriamente doente para ser admitido no hospital do KZ. A maior parte ficou transformada
em esqueletos ambulantes: desidratados, descarnados, os lábios rachados, os olhos saltados e uma disenteria incurável. Seus corpos estavam cobertos de enormes e
repulsivas feridas abertas e úlceras supuradas. Estes eram os doentes do KZ. Estes eram aqueles a quem devíamos tratar e confortar.
IV
EU AINDA NÃO TINHA uma função definida. Durante uma visita pelo campo em companhia de um médico francês, notei uma espécie de anexo ao lado de um barracão
do KZ. Do lado de fora parecia mais uma oficina. Dentro, porém, vi uma mesa da altura da cabeça de um homem, feita de tábuas grosseiras e desiguais; uma cadeira;
uma caixa de instrumentos de dissecação e, num canto, um balde. Perguntei ao meu colega qual era a finalidade daquela construção.
— É a única sala de dissecação do KZ — explicou-me. — Há tempos que não é usada. Aliás, não conheço nenhum especialista no campo habilitado para fazer dissecações
e não ficaria muito surpreso se viesse a saber que a sua presença aqui tem alguma coisa a ver com os planos de Mengele para reativar a sala.
Esse pensamento turvou meu espírito, porque tinha-me imaginado trabalhando numa moderna sala de dissecação e não nesse depósito do campo. No transcurso de
toda a minha carreira médica, nunca havia trabalhado com instrumentos tão deficientes e numa sala tão primitivamente montada. Mesmo quando era chamado para atender
a casos de assassinatos e suicídios no interior, e a autópsia tinha que ser feita no local, estive melhor equipado e instalado.
No entanto, resignei-me diante do inevitável e aceitei tal eventualidade, pois no KZ essa era uma posição privilegiada. Mas ainda não havia entendido por
que me haviam fornecido trajes civis quase novos se eu estava destinado a trabalhar num galpão sujo. Aquilo não fazia sentido. Decidi, porém, não perder tempo quebrando
a cabeça com essas aparentes contradições.
Ainda em companhia de meu colega francês, espiei através da cerca de arame farpado. Crianças nuas de pele mais escura estavam correndo e brincando. Mulheres
com feições latinas e roupas alegres e coloridas e homens seminus sentados no chão, em grupos, conversavam enquanto as crianças brincavam. Esse era o famoso "Campo
Cigano". Os experts em etnologia do III Reich haviam classificado os ciganos como raça inferior. Assim sendo, não só os da Alemanha como os de todos os territórios
ocupados deveriam ser confinados aqui. Por serem católicos lhes era permitido a graça de permanecerem em família.
Eram uns 4.500 ao todo. Não trabalhavam, mas sua função era policiar os campos judeus vizinhos, e exerciam esta autoridade com uma crueldade inimaginável.
O Campo Cigano oferecia uma curiosidade: os barracões experimentais. O diretor do Laboratório de Pesquisa, Dr. Epstein, foi professor na Universidade de
Praga, pediatra de renome internacional e prisioneiro do campo desde 1940. Seu assistente era o Dr. Bendel, da Faculdade de Medicina da Universidade de Paris.
Três categorias de experiência eram ali realizadas: a primeira consistia na pesquisa da origem dos nascimentos duplos, estudo esse que estava sendo empreendido
com renovado interesse desde o nascimento das quíntuplas Dionne, há dez anos. A segunda, uma investigação para descobrir as causas do nascimento de anões e gigantes.
E a terceira era o estudo das causas, e o tratamento de uma doença comumente chamada de "gangrena seca da face".
Essa terrível doença era excepcionalmente rara; na clinica diária um médico raramente se depara com ela. Mas aqui no Campo Cigano era muito comum nas crianças
e adolescentes. E, por isso, devido a seu alto grau de incidência, as pesquisas foram grandemente facilitadas e ótimos progressos foram obtidos no sentido de se
achar um método de tratamento eficiente para a moléstia.
De acordo com os conceitos médicos, a "gangrena seca da face" aparecia geralmente conjugada com sarampo, escarlatina e febre tifóide. Mas essas moléstias
e mais as deploráveis condições sanitárias do campo pareciam ser apenas fatores que favoreciam o desenvolvimento da "gangrena", uma vez que também existia nos campos
tchecos, poloneses e judeus. A incidência maior, porém, era entre as crianças ciganas, dai ter-se deduzido que sua presença estava relacionada diretamente com a
sífilis hereditária, pois a taxa de sífilis no campo cigano era extremamente alta.
Dessas observações foi elaborado e desenvolvido um novo tratamento que consistia numa combinação de vacinas de malária e doses de uma droga cujo nome comercial
era "Novar-senobenzol", que estava apresentando resultados promissores.
Diariamente o Dr. Mengele visitava o barracão experimental e participava ativamente de todas as fases da pesquisa. Ele trabalhava em colaboração com dois
prisioneiros-médicos e uma pintora chamada Dina, cuja habilidade artística era de grande importância para o empreendimento. Dina era natural de Praga e há três anos
prisioneira do KZ. Como assistente do Dr. Mengele, ela usufruía de certos privilégios completamente fora do alcance dos prisioneiros comuns.
V
DR. MENGELE era incansável no exercício de suas funções. Passava horas a fio em seus laboratórios, daí corria para as plataformas de desembarque, onde a
chegada diária de quatro ou cinco trens de deportados húngaros mantinha-o atarefado metade do dia.
Sem parar, os novos deportados marchavam em colunas de cinco, flanqueados pelos guardas SS. Observei um desses grupos descer e enfileirar-se. Embora onde
eu estava fosse um pouco longe da plataforma e as cercas de arame farpado me obstruíssem a visão, pude observar que tinham vindo de alguma cidade grande: suas roupas
eram bem confeccionadas, alguns estavam usando modernas capas de chuva e as valises que traziam eram de couro do mais caro. Nessa cidade, fosse qual fosse, eles
haviam conseguido criar para si uma vida agradável e requintada. E esse era o grande pecado pelo qual estavam agora pagando tão caro.
Apesar de suas várias funções, o Dr. Mengele ainda encontrava tempo para mim. Uma carroça puxada por prisioneiros parou em frente à sala de dissecação. Dois
corpos foram descarregados. Em seu peito viam-se as letras Z e S (Zur Sektion), escritas com um giz especial, indicando que deviam ser dissecados.
O chefe do barracão 12 indicou um inteligente prisioneiro para me ajudar. Juntos colocamos um dos cadáveres sobre a mesa de dissecação. Notei uma linha grossa
e escura em volta de seu pescoço. Enforcou-se ou foi enforcado. Dando uma rápida olhada para o segundo corpo, vi que sua morte havia sido causada por eletrocussão.
Isso podia ser deduzido das pequenas queimaduras superficiais e pelas manchas vermelho--amareladas à sua volta. Fiquei pensando se ele havia se atirado contra a
rede de alta tensão ou se tinha sido empurrado. Ambas as coisas eram normais em Auschwitz.
As formalidades eram as mesmas, tanto fosse suicídio como assassinato. De madrugada, na hora da chamada, seus nomes seriam riscados da lista e seus corpos
jogados nas carretas e transportados para o necrotério do campo. Ali um caminhão os pegaria, numa média de quarenta ou cinqüenta por dia, e os levaria até o crematório.
Os dois cadáveres que o Dr. Mengele havia enviado para mim eram os primeiros que me foram dados para examinar. No dia anterior, ele tinha me avisado para trabalhar
neles cuidadosamente e fazer um bom serviço. Eu planejava usar o máximo de minha habilidade para executar suas ordens.
Um carro parou em frente. A ordem de "atenção" foi gritada alto. O Dr. Mengele em pessoa e dois oficiais SS acabavam de chegar. Eles ouviram primeiro os
relatórios do chefe do barracão e do médico, e então foram direto para a sala de dissecação, seguidos pelos prisioneiros médicos do Campo F. Dispuseram-se num círculo
em volta da sala, como se aquilo fosse uma aula de patologia de algum importante centro médico e, no caso em questão, uma aula particularmente interessante. De repente,
percebi que ia ser examinado e aqueles eram os jurados diante de mim, um júri altamente importante e perigoso. Eu também sabia que meus colegas prisioneiros estavam
torcendo por mim.
Nenhum dos presentes sabia que eu havia passado três anos no Instituto de Medicina Legal de Boroslo, onde tivera a oportunidade de estudar toda e qualquer
forma possível de suicídio, sob a supervisão do Dr. Strasseman. Percebi que, para o bem do prisioneiro médico A 8450. eu deveria lembrar-me de tudo que o Dr. Miklos
Nyiszli tinha aprendido.
Comecei a dissecação. Primeiro abri o crânio, depois o tórax e a cavidade abdominal. Extraí todos os órgãos, registrei tudo que estivesse anormal e respondi
sem afobação a cada uma das dezenas de perguntas que me foram feitas. Seus rostos indicavam que sua curiosidade havia sido saciada e, pelos acenos de cabeça
e olhares, compreendi que tinha passado no exame. Após a segunda dissecação, o Dr. Mengele ordenou-me que fizesse um relatório das minhas conclusões. Alguém
passaria para apanhá-lo no dia seguinte. Depois que os oficiais SS saíram, pude conversar um pouco com meus colegas prisioneiros.
No dia seguinte, mais três cadáveres chegaram para dissecação. O mesmo público apareceu, mas dessa vez a atmosfera estava menos tensa, — eles já me conheciam
e tinham visto meu trabalho. Os presentes demonstraram um vivo interesse, fizeram muitos comentários astutos e provocativos, e houve ocasiões em que a discussão
ficou bastante animada.
Assim que os médicos SS partiram, fui visitado por vários colegas franceses e gregos que me pediram que lhes ensinasse a técnica das punturas lombares. Eles
também me pediram que lhes desse autorização para fazer a operação em alguns dos corpos que eu recebia, pedido esse que prontamente acolhi. Fiquei profundamente
emocionado em saber que, no interior das cercas de arame farpado, eles continuavam a manifestar interesse por sua profissão. Tentaram a puntura e depois de seis
ou sete tentativas conseguiram finalmente acertar e se retiraram, satisfeitos com o seu trabalho daquele dia.
VI
NOS TRÊS DIAS SEGUINTES não tive nada para fazer. Eu estava ainda auferindo da ração suplementar destinada aos médicos, mas passava a maior parte do tempo
estirado na cama ou então sentado nas arquibancadas do estádio, que não ficava muito distante do Campo F. Sim, é verdade, mesmo Auschwitz tinha seu estádio, mas
destinado, porém, aos prisioneiros alemães que trabalhavam como funcionários nas várias seções do Campo. Aos domingos o estádio se transformava num animado centro
de atividades esportivas, mas durante a semana ficava deserto. Somente uma cerca de arame farpado separava o estádio do crematório no.1. Eu gostaria muito de saber
o que se passava à sombra daquela imensa chaminé que não parava de cuspir línguas de fogo. De onde estava sentado, não podia ver muita coisa. E aproximar-se da cerca
não era uma atitude muito inteligente, pois as metralhadoras das torres de vigia varriam a área sem aviso para assustar quem quer que se aventurasse a perambular
por essa terra de ninguém.
Não obstante, vi que homens em trajes civis estavam formando no pátio do crematório, bem defronte à construção de tijolo vermelho: devia haver uns 200 ao
todo, com um SS à frente. Pareceu-me uma chamada e concluí que aquela era a mudança da guarda. A guarda da noite passava o serviço à guarda do dia, pois os crematórios
funcionavam em regime de 24 horas por dia. Mais tarde, vim a saber que o pessoal dos crematórios era chamado de Sonderkommando, que significava simplesmente kommandos
aos quais eram atribuídos trabalhos especiais. Eram bem alimentados e usavam roupas civis. Nunca lhes era permitido sair dos limites dos crematórios e a cada quatro
meses, quando já haviam aprendido demais para o seu próprio bem, eram sumariamente eliminados. Até o momento, aquela havia sido a sorte de todos os Sonderkommandos
desde a fundação do KZ, e isso explica por que ninguém escapou para contar ao mundo o que se vinha passando no lado de dentro daqueles muros há vários anos.
Voltei para o barracão 12 no exato momento da chegada do Dr. Mengele. Estacionou e foi recebido pelo chefe do barracão; depois mandou chamar-me e pediu-me
que fosse com ele no carro. Desta vez não havia nenhum guarda nos acompanhando. Partimos antes mesmo que pudesse me despedir dos meus colegas. Ele parou em frente
ao escritório e pediu ao Dr. Sentkeller que pegasse meu cartão; em seguida arrancou de novo pela estrada esburacada.
Durante cerca de doze minutos rodamos através do labirinto de arame farpado e entramos por portões muito bem guardados, passando de uma seção para outra.
Só então percebi a imensidão do KZ. Pouquíssimos tinham a possibilidade de verificar este fato, pois a maioria morria no exato lugar onde eram levados no momento
de sua chegada. Mais tarde soube que o campo de concentração de Auschwitz, em certos períodos, abrigava mais de 100.000 pessoas dentro de suas fronteiras de arame
eletrificado.4
O Dr. Mengele, de repente, interrompeu minhas meditações. Sem se voltar, disse:
— O lugar para onde o estou levando não é nenhum hospital, mas você irá verificar que as condições lá não são tão más.
Deixamos o campo e passamos pela rampa de desembarque de judeus. Diante de nós abriu-se um grande portão blindado. Entramos num pátio espaçoso, coberto de
grama verde. O gramado e a sombra dos pinheiros tornariam aquele lugar um recanto agradável se não fosse pela construção e pela chaminé de tijolos vermelhos sempre
com suas labaredas saltando ao espaço. Estávamos em um dos crematórios. Permanecemos no carro. Um SS correu em nossa direção e saudou o Dr. Mengele. Então saímos,
cruzamos o pátio e entramos no crematório.
— A sala está pronta? — o Dr. Mengele perguntou ao guarda.
— Sim, senhor. — Respondeu o SS.
Dirigimo-nos para lá, o Dr. Mengele à frente.
A sala em questão tinha sido toda pintada de branco e era bem iluminada por um janelão que, no entanto, era gradeado. A mobília, comparando-se com a dos
barracões, surpreendeu-me: uma cama branca, um armário também branco, uma mesa espaçosa e algumas cadeiras. Sobre a mesa, uma toalha de veludo vermelho. O chão de
concreto era forrado de bonitos tapetes. Tive a impressão de que me esperavam. Os homens do Sonderkommando haviam pintado e arrumado a sala. Passamos, então, por
um corredor escuro, e entramos em outra sala, uma completa e moderna sala de dissecação com duas janelas. O chão era de concreto vermelho; no centro da sala, montado
sobre pilastras de concreto, estava um tampo de mármore polido — uma mesa de dissecação, equipada com vários ralos. Na borda da mesa, uma bacia niquelada e, na parede,
três pias de porcelana. As paredes eram pintadas de verde-claro e os janelões gradeados, cobertos com telas de metal verde para impedir a entrada de moscas e mosquitos.
Deixamos a sala de dissecação e fomos para o aposento seguinte: a sala de trabalho. Ali havia cadeiras modernas e quadros na parede; no centro do quarto,
uma mesa coberta por um pano verde, e poltronas. Contei três microscópios sobre a mesa. Num canto do quarto erguia-se uma estante contendo os últimos e melhores
livros de medicina. No outro canto, um armário onde estavam guardados jalecos, aventais brancos, toalhas e luvas de borracha. Em suma, a réplica exata de qualquer
instituto de patologia de cidade grande.
De repente, compreendi tudo e fiquei paralisado de medo. Assim que chegara ao portão principal, percebera que estava no pátio da morte. Uma morte lenta,
abrindo suas garras sobre mim. Senti que estava perdido.
Agora entendia por que me deram roupas civis. Esse era o uniforme do Sonderkommando — o hommando dos mortos--vivos.
Meu chefe estava se preparando para sair; ele informou ao SS que, enquanto o "serviço" durasse, eu receberia ordens somente dele. O pessoal SS do crematório
não tinha jurisdição sobre mim. A cozinha deveria me fornecer a alimentação; eu poderia conseguir toda a roupa branca e roupas suplementares de que precisasse no
almoxarifado SS. Para a barba e cabelo, poderia usar a barbearia SS e também estava dispensado das chamadas da noite e da manhã.
Além do meu trabalho anatômico e de laboratório, eu ficava também responsável pela assistência médica a todo o pessoal SS dos crematórios, cerca de 120 homens,
e ainda dos 860 prisioneiros do Sonderkommando. Remédios, instrumentos médicos, roupas, tudo em quantidades suficientes, estavam à minha disposição. Para que eles
recebessem atenção médica, eu deveria visitar os doentes do crematório uma vez por dia e, às vezes, duas. Podia circular pelos quatro crematórios, de 7 da manhã
às 7 da noite. Minha obrigação era fazer um relatório diário ao comandante SS e ao Oberschaarführer Sonderkommando Mussfeld, relatando o número de doentes acamados
e pacientes do ambulatório.
Eu ouvia quase paralisado a lista das minhas obrigações e de meus direitos. Sob tais condições deveria ser a figura mais importante do KZ, se não estivesse
num Sonderkommando e se isso não se passasse no "Crematório Número Um".
O Dr. Mengele partiu sem dizer uma palavra. Nunca, por mais baixa que fosse sua patente, um SS poderia cumprimentar um prisioneiro do KZ. Tranquei a porta
da sala de dissecação, daquele momento em diante sob a minha responsabilidade.
Voltei ao meu quarto e sentei, procurando ordenar meus pensamentos. Não era fácil. Voltei onde tudo começara. A imagem de minha casa abandonada veio-me à
mente. Podia ver a pequena casinha impecável, com seu terraço ensolarado e os quartos agradáveis, quartos onde passara tantas horas difíceis com meus pacientes,
mas com a satisfação de saber que lhes estava dando conforto e forças. A mesma casa onde passara horas felizes com minha família.
Já fazia uma semana que estávamos separados. Onde deveriam estar, perdidas, na massa, anônimas como todos, engolidas por essa gigantesca prisão? Será que
minha filha conseguiu ficar com a mãe? Ou será que elas já foram separadas? O que terá acontecido com meus velhos pais, cujos últimos dias eu estava tentando tornar
mais felizes? O que teria sido de minha querida irmã mais nova, que eu praticamente criei como filha desde que nosso pai caiu doente? Fora uma felicidade amá-los
e ajudá-los. Não tinha dúvida sobre o seu destino. Eles certamente estariam a caminho, num trem que os descarregaria na rampa de Auschwitz e dali para a câmara da
morte. Com um gesto mecânico, o Dr. Mengele indicaria para eles a coluna da esquerda. E, na certa, minha irmã se juntaria a essa coluna, pois mesmo que lhe fosse
indicada a outra, ela se ajoelharia e imploraria para seguir com mamãe. Então eles a deixariam ir e ela agradeceria ardorosamente, com lágrimas nos olhos.
A notícia da minha chegada espalhou-se como fogo na mata por todo o crematório. Não só o pessoal SS que servia ali, como o Sonderkommando, vieram me visitar.
A porta foi aberta primeiro por dois suboficiais SS. Dois homens bastante altos, feições hieráticas, eram os Shaarführer. Eu sabia que a atitude que assumisse naquele
momento iria determinar a conduta deles em relação a mim dali por diante. Recordei a ordem de Mengele: eu ficara somente sob sua responsabilidade. Conseqüentemente,
devia considerar essa visita como mera cortesia, e permaneci sentado ao invés de levantar-me como era de praxe. Cumprimentei-os e pedi que se sentassem.
Pararam no meio do quarto e me examinaram. Senti toda a importância desse momento: era a primeira impressão que contava. Parecia-me que minha atitude era
a melhor que podia ter adotado, pois seus rígidos músculos faciais se relaxaram um pouco e, com um gesto de indiferença descontraída, eles se sentaram.
O assunto de nossa conversa era extremamente limitado. Como havia sido minha viagem? O que estava fazendo no KZ? Essas eram perguntas que eles não podiam
fazer, pois as respostas poderiam embaraçá-los. Da mesma forma, a política, a guerra, as condições no KZ eram assuntos que eu não podia abordar. Contudo, não me
atrapalhei — os anos que passara na Alemanha, antes da guerra, me forneceram bastante material para conversar. Os SS ficaram muito impressionados pelo fato de falar
a língua deles melhor do que eles ou, pelo menos, de uma maneira mais culta. Logo percebi que havia mesmo algumas expressões que não compreendiam, embora tentassem
com esforço não me deixar perceber isso. Conhecia bem o país deles, estava informado sobre suas cidades, sobre a vida doméstica de uma família alemã típica, sobre
a religião, a moral etc. Tive o pressentimento de que essa prova também foi um sucesso, pois eles sairam sorrindo.
Mais visitantes chegaram, homens em trajes civis, barbeados e bem vestidos. O kapo-em-chefe 5 e dois de seus homens entraram em meu quarto. Essa também era
uma visita de cortesia. Soube que tinham sido eles que pintaram e arrumaram o quarto. Ouviram falar da minha chegada e vieram convidar-me para jantar em sua companhia
e dos outros prisioneiros.
Aliás, já era quase hora do jantar. Segui-os escada acima até o segundo andar do crematório, onde viviam os prisioneiros: um quarto espaçoso, com beliches
encostados nas paredes. Os beliches eram feitos de madeira crua, mas sobre cada um havia colchas limpas e travesseiros bordados. A roupa de cama, colorida e cara,
estava em total desacordo com o ambiente. Aquilo não havia sido feito lá, fora deixado por gente de comboios anteriores, que trazia suas coisas para o cativeiro.
Ao Sonderkommando era permitido apanhar coisas assim dos depósitos e usá-las.
O aposento estava completamente banhado por uma luz forte, pois aqui não se economizava energia como nos barracões. Passamos pela longa fila de beliches.
Somente metade do kommando estava presente; a outra metade, cerca de 100 homens, trabalhava no turno da noite. Alguns dos que estavam presentes dormiam ainda, enquanto
outros liam. Havia muitos livros, pois nós, judeus, gostamos de ler. Cada prisioneiro sempre trazia livros; a quantidade e o tipo dependiam de seu nível intelectual
e formação. Ter livros e poder lê-los era ainda outro privilégio do Sonderkommando. No KZ, quem fosse apanhado lendo seria punido com um confinamento de vinte dias
na solitária, uma espécie de caixa de concreto com espaço suficiente para se ficar de pé. A menos que as pancadas recebidas antes não matassem o infrator.
A mesa que nos aguardava era coberta de um pesado tecido de seda brocada, finíssimos pratos de porcelana gravados com iniciais e talheres de prata: mais
objetos que um dia pertenceram aos deportados. A mesa estava atulhada dos mais variados pratos, tudo que um deportado podia trazer junto para um futuro incerto:
toda sorte de conservas, bacon, geléias, diversos tipos de salames, bolos e chocolate. Pelas etiquetas notei que parte daquela comida pertencera aos prisioneiros
húngaros. Tudo que fosse perecível passava a ser propriedade dos herdeiros legais — isto é, do Sonderhommando.
Sentados em volta da mesa estavam o kapo-em-chefe, o engenheiro, o chofer, o líder do kommando, os "arrancadores de dentes" e o chefe dos fundidores de ouro.
Suas boas-vindas não podiam ser mais cordiais. Ofereceram-me tudo que tinham, e havia abundância de tudo, porque os comboios húngaros continuavam a chegar sem parar
e traziam grande quantidade de comida.
Eu não conseguia engolir direito apesar disso. Não podia deixar de pensar em meus companheiros de infortúnio, que antes de iniciarem o êxodo haviam juntado
e preparado suas provisões. Passaram fome durante a viagem, porém refrearam a vontade de comer, pensando em guardar o pouco que traziam para seus filhos, seus pais
e para quando chegassem os tempos mais difíceis. Só que os tempos mais difíceis nunca chegaram: no salão do crematório a comida havia permanecido intacta.
Tomei um pouco de chá com rum. Depois de algumas xícaras, consegui relaxar. Minha mente clareou e libertou-se dos pensamentos trágicos que a estavam turvando.
Um calor agradável tomou conta de meu corpo: os efeitos voluptuosos do álcool agiam como uma carícia de mãe.
Os cigarros que estávamos fumando também haviam sido "importados da Hungria". No campo propriamente dito, um único cigarro valia toda uma ração de pão; ali
sobre a mesa estavam centenas de maços.
Nossa conversa tornou-se mais animada. A Polônia, a Grécia, a França, a Alemanha e a Itália estavam ali representadas. Uma vez que quase todos falavam alemão,
ele serviu de língua comum. Nessa conversa fiquei sabendo da história dos crematórios. Milhares de prisioneiros construíram-nos de pedra e concreto, terminando o
trabalho no meio de um inverno extremamente rigoroso. Cada pedra estava manchada com seu sangue. Trabalharam noite e dia, mesmo sem comer e beber, vestidos com uns
poucos trapos, para que essas infernais fábricas da morte, cujas primeiras vítimas seriam eles, pudessem ser terminadas a tempo.
Desde então, quatro anos se passaram. Milhares e milhares tinham descido dos vagões de carga e atravessado os portais do crematório. O atual Sonderhommando
era o décimo-segundo desde o começo do campo.
Conheci a história do 'reinado" de cada kommando anterior e fui relembrado de um fato que já sabia: que a duração da vida de um Sonderkommando era apenas
de alguns meses. Quem quer que ali praticasse a fé judaica poderia ir preparando, desde o dia de sua chegada, a cerimônia da purificação para a morte. Porque a morte
viria para ele tão certa como veio para todos os membros dos Sonderkommandos anteriores.
Era quase meia-noite. A turma, reunida em volta da mesa, estava fatigada pelo dia de trabalho e sonolenta devido ao. consumo de álcool da noite. Nossa conversa
ficava cada vez mais desinteressante. Um SS que fazia a ronda veio lembrar-nos que já era tarde e que devíamos ir dormir. Despedi-me de meus novos companheiros e
retirei-me para meu quarto. Graças ao rum e aos meus nervos exaustos, aquela noite transcorreu relativamente tranqüila.
Cópia fotostática da página de abertura da tese doutoral defendida pelo Dr. Nyiszli em Breslau, 1930. (Cortesia da senhora Nyiszli).
Cópia fotostática da confissão voluntária assinada por Rudolph Hess: o assassinato de dois milhões de pessoas durante seu período de dois anos e meio como
comandante de Auschwitz. (Cortesia da UF1)
Entrada do campo principal de Auschwitz, com uma tabuleta sobre o portão que dizia: O TRABALHO LIBERTA. À esquerda, em frente ao portão, está o quarteirão
onde ficavam os aposentos dos chefes.
Entrada do campo de Birkenau. Os trilhos conduzem diretamente aos crematórios.
Um novo comboio chega a Auschwitz e os prisioneiros saltam.
Alinhamento e seleção.
Obersturmführer SS dirige os fisicamente capazes - aqueles ainda aptos para o trabalho - para a direita ...
...enquanto as mulheres...
as crianças ...
... os velhos e aqueles julgados incapazes para o trabalho são enviados para a esquerda, que era o lado da morte.
A caminho das câmaras de gás. Sem suspeitar de nada às vitimas pensavam que iam para os banhos de desinfecção. Atrás, a cerca eletrificada de arame farpado.
Se as câmaras de gás estivessem lotadas, as vitimas eram levadas para uma floresta vizinha a fim de aguardarem sua vez.
Os fornos crematórios de Auschwitz.
Vista dos fornos crematórios de Weimar tirada por ocasião da libertação do campo. (Cortesia da UPl)
Cabelo humano exibido no Museu de Auschwitz. No momento da libertação do campo foram encontradas sete toneladas de cabelos.
Verdadeiras montanhas de sapatos, encontradas em Auschwitz
na hora da libertação.
Óculos dos prisioneiros
Prisioneiros após a libertação de Auschwitz, em 27 de janeiro de 1945..
VII
UM APITO ESTRIDENTE de um trem foi ouvido, vindo da plataforma de desembarque. Era ainda muito cedo. Aproximei-me da janela, de onde tinha uma visão perfeita
da linha e vi um longo comboio. Alguns segundos depois as portas correram e despejaram milhares e milhares de criaturas do povo escolhido de Israel. O alinhamento
e a seleção não levaram nem meia hora. A coluna da esquerda dirigiu-se lentamente para seu destino.
Ordens ríspidas cortaram o ar e o ruído de passos chegou imediatamente aos meus ouvidos. O barulho vinha das fornalhas do crematório: eles estavam se preparando
para dar as boas-vindas ao novo comboio. O rugir dos motores se fez ouvir. Tinham colocado enormes ventiladores para avivar as chamas, a fim de obter o grau desejado
dos fornos. Quinze ventiladores estavam trabalhando simultaneamente, um em frente de cada forno. A sala de incineração tinha mais ou menos uns 350 metros de comprimento:
era uma sala ensolarada, caiada, com chão de concreto e janelas gradeadas. Cada um desses quinze fornos estava instalado numa estrutura de tijolo vermelho. Imensas
portas de ferro, bem polidas e brilhando, alinhavam-se ao longo da parede. Em cinco ou seis minutos os deportados chegavam ao portão, cujas portas se abriam para
dentro. Em colunas de cinco, o grupo entrava no pátio; o mundo jamais soube o que se passava daí por diante, pois quem quer que soubesse algo sobre isso, depois
de ter feito o percurso da rampa até o centro do crematório, não voltava para contar a história. Aqueles que haviam sido selecionados para a coluna da esquerda tinham
o crematório como destino. E não, como os alemães mentiam para dissipar a ansiedade da coluna da direita, um campo de repouso para doentes e crianças.
Eles avançavam com passos lentos e cansados. As crianças tinham os olhos pesados de sono e se agarravam à roupa de suas mães. Em sua maioria os bebês eram
levados nos braços dos pais, ou então empurrados em seus carrinhos. Os guardas SS permaneciam do lado de fora do crematório, onde uma tabuleta advertia: "Entrada
Proibida Para Todos Aqueles Que Não Trabalham Aqui, Inclusive os SS".
Os deportados imediatamente notaram as mangueiras para regar o gramado, que estavam caídas no pátio. Começaram a tirar panelas e potes de sua bagagem para
enchê-los de água e sairam da formação, empurrando-se uns aos outros num esforço para chegar perto das mangueiras e encher os recipientes. Que estivessem impacientes
não era de se estranhar: durante os últimos cinco dias não tiveram nada para beber. Se por acaso tinham achado alguma água, esta era estagnada e não matara a sua
sede. Os guardas SS, que recebiam os comboios, estavam acostumados àquela cena. Esperavam pacientemente até que cada um matasse a sede e enchesse seus recipientes.
De qualquer forma, os guardas sabiam que, enquanto não tivessem bebido, não conseguiriam fazê-los voltar à formação. Lentamente eles voltavam a entrar nas filas.
Então caminhavam uns cem metros por um caminho cinzento ladeado de grama verde até uma rampa de ferro, da qual dez ou doze degraus de concreto levavam a um subterrâneo,
a uma sala enorme onde tabuletas escritas em francês, alemão, grego e húngaro diziam: "Sala de Banho e Desinfecção". O aviso era tranqüilizador e dissipava desconfianças
mesmo dos mais desconfiados dentre eles. Desceram os degraus quase com alegria.
A sala para onde os deportados iam tinha uns 200 metros de comprimento: suas paredes eram caiadas de branco e estava bem iluminada. No meio, uma fileira
de colunas; ao longo das paredes havia números e sob eles ganchos para pendurar roupas. Diversos avisos, em vários idiomas, advertiam a todos para o fato de que
deveriam amarrar as roupas e os sapatos juntos. Especialmente que não esquecessem o número do gancho onde haviam pendurado as roupas para evitar uma confusão desnecessária
quando voltassem do banho.
— Isso é que é organização, — comentavam alguns, que tinham inclinação para admirar os alemães.
Eles estavam certos. Aliás era por causa da organização que essas medidas tinham sido adotadas; para que milhares de bons sapatos, necessitados com urgência
pelo III Reich, não se misturassem. O mesmo quanto às roupas; assim, as populações das cidades bombardeadas poderiam facilmente fazer uso delas.
Havia 3.000 pessoas na sala, homens, mulheres e crianças. Alguns soldados chegaram e anunciaram que todos deveriam ficar completamente despidos em 10 minutos.
Os velhos, avós e avôs; as crianças; esposas e maridos; todos ficaram surpreendidos e chocados por essa ordem. Mulheres e mocinhas modestas entreolharam-se interrogativamente.
Talvez não tivessem entendido direito as palavras em alemão. Mas não tiveram muito tempo para pensar sobre isso, pois a ordem foi repetida e desta vez num tom mais
alto e mais ameaçador. Estavam perplexos; sua dignidade rebelava-se, porém, com a resignação peculiar à sua raça e tendo aprendido que as coisas iam até aonde deviam
ir, vagarosamente começaram a se despir. Os velhos, os paralíticos e os loucos foram ajudados pelos homens do Sonderkommando, que vieram especialmente para isso.
Em dez minutos todos estavam completamente nus, suas roupas penduradas e seus sapatos atados juntos pelos cordões. Os números de cada cabide foram cuidadosamente
guardados.
Abrindo caminho entre a multidão, um SS escancarou as portas de um largo portão no fundo da sala. Meus compatriotas passaram imediatamente desta sala para
a outra igualmente bem iluminada. Essa segunda sala era do mesmo tamanho que a primeira, só que não havia nem bancos nem ganchos. No centro, colunas que iam do chão
até o teto se alinhavam, com intervalos de cinco metros entre elas. Essas não eram colunas de sustentação, mas sim tubulões de ferro quadrados que continham várias
perfurações nos lados.
Todos haviam entrado. Uma voz metálica gritou:
— SS e Sonderkommando deixem a sala.
Eles obedeceram e saíram. As portas se fecharam e as luzes se apagaram.
Nesse mesmo instante, do lado de fora, chegava um carro: um modelo luxuoso, fornecido pela Cruz Vermelha Internacional. Um oficial SS e um SDG (Sanitãtsdienstgefreiter:
Oficial Chefe do Serviço de Saúde) saltaram do carro. O Chefe do Serviço de Saúde carregava três caixas metálicas verdes. Ele passou pelo gramado, de onde, a cada
dez metros, pequenas torres de concreto saiam do solo. Depois de colocar sua máscara, ele levantava a tampa de concreto de uma dessas torres e despejava o conteúdo
de uma das caixinhas — grãos cor de malva — dentro da abertura. A substância granulada caia até o fundo. O gás que produzia escapava pelas perfurações e, em poucos
segundos, inundava a sala onde os judeus estavam trancados. Em cinco minutos todos estavam mortos. Para cada comboio a mesma história. Carros da Cruz Vermelha traziam
o gás de fora. Nunca havia dessa substância no crematório. Essa precaução era escandalosa, porém ainda mais escandaloso era o fato do gás ser trazido num carro da
Cruz Vermelha Internacional.
A fim de assegurar a eficácia de seu trabalho, os dois verdugos esperavam mais cinco minutos. Aí então acendiam seus cigarros e partiam de carro. Eles tinham
acabado de matar três mil inocentes. Vinte minutos mais tarde os ventiladores elétricos eram ligados para dissipar o gás. As portas eram abertas, os caminhões chegavam
e um esquadrão do Sonderhommando carregava separadamente os caminhões com as roupas e os sapatos. Tudo aquilo ia para a desinfecção. Mas desta vez era desinfecção
real. Mais tarde seriam transportadores para diversas partes da Alemanha.
Os ventiladores da marca "Exhator" rapidamente expeliam o gás da sala, mas, nas fendas entre os corpos e nas rachaduras das portas, pequenas quantidades
ainda ficavam. Mesmo duas horas depois ele causava uma tosse sufocante. Por esse motivo o grupo do Sonderhommando que primeiro entrava na sala usava máscara contra
gases. Novamente a sala era fortemente iluminada, revelando a cena dantesca.
Os corpos não ficavam caídos aqui e acolá, estavam empilhados num monte até o teto. A razão disso é que o gás primeiro inundava as partes mais baixas e depois,
vagarosamente, subia até o teto. Isso forçava as vítimas a treparem umas por cima das outras numa tentativa desesperada de escapar ao gás que subia. Porém, alguns
centímetros a mais e ele os alcançava. Que luta deveria ser! Mesmo assim, aquilo era coisa de dois ou três minutos. Se tivessem condição de pensar no que estavam
fazendo, perceberiam que estavam subindo sobre os corpos de seus próprios filhos, de suas esposas e mães. Mas não podiam pensar. Suas ações não eram mais que reflexos
do instinto de autopreservação. Notei que os corpos das crianças, dos velhos e das mulheres estavam embaixo da pilha e no alto os mais fortes. Seus corpos, cobertos
de horríveis arranhões e hematomas devido à batalha travada, freqüentemente ficavam entrelaçados. Sangue escorria de suas bocas e de seus narizes. Seus rostos entumescidos
e azulados estavam tão deformados que era praticamente impossível reconhecê-los Não obstante, alguns homens do Sonderkommando às vezes reconheciam parentes e amigos.
O encontro não era fácil e eu mesmo o temia. Não tinha razão para estar lá e, no entanto lá estava eu entre os mortos. Senti que era meu dever para com meu povo
e para com o mundo ser capaz de fazer um relato pormenorizado do que tinha visto caso, graças a alguma circunstância miraculosa, eu viesse a sair vivo dali.
O esquadrão do Sonderkommando, equipado com botas de borracha, formou em frente à pilha humana e atirou poderosos jatos dágua sobre os corpos nus. Isto era
necessário porque o ato final daqueles que morrem afogados ou por gás é a defecação involuntária. Todos os corpos estavam sujos e tinham que ser lavados. Assim
que o "banho" dos mortos acabava — um trabalho que o Sonderkommando fazia num ato impessoal e num estado de comoção profunda —, começava a separação dos corpos emaranhados.
Era um trabalho penoso. Eles atavam correias que ficavam presas a manivelas aos pulsos dos mortos e então puxavam-nos para cima pelos elevadores até uma outra sala.
Quatro elevadores de carga estavam funcionando. Vinte a vinte e cinco corpos eram jogados no elevador. O soar de uma campainha era o sinal de que o elevador estava
carregado e podia subir O elevador parava na sala de incineração do crematório, onde as grandes portas corrediças se abriam automaticamente. O kommando que operava
os vagonetes estava a postos esperando. Novamente correias eram colocadas nos pulsos dos mortos e estes, atirados em rampas especialmente construídas
para despejá-los em frente às fornalhas. Os corpos jaziam em fileiras próximas uma das outras: os velhos, os jovens e as crianças. O sangue escorria de suas bocas,
narizes e também da pele — raspada pelo atrito - e se misturava com a água corrente das canaletas do chão de concreto.
Então uma nova fase de exploração e utilização dos cadáveres dos judeus tinha início. O Terceiro Reich já havia levado roupas e sapatos. O cabelo também
era um material precioso devido ao fato de que se distendia e se contraía de uma maneira uniforme, independente da umidade do ar. Cabelo humano era freqüentemente
usado na fabricação de bombas de ação retardada, onde suas qualidades particulares tornavam-no bastante útil para efeito de detonação. Por isso cortavam o cabelo
dos mortos.
Mas não era tudo. De acordo com os slogans que os alemães gritavam nos desfiles, em seu próprio pais e no estrangeiro, o Terceiro Reich não se baseava no
"padrão ouro" e sim no "padrão trabalho". Talvez quisessem dizer que tinham de trabalhar mais do que a maioria dos países para obter seu ouro. Os mortos eram
enviados depois para o kommando "arranca dentes", que formava em frente aos fornos. Esse kommando de oito homens era equipado com duas ferramentas,
ou, se quiserem, instrumentos. Numa mão uma alavanca, na outra um alicate para extrair dentes. Os corpos deitados de barriga para cima; os kommandos abriam-lhes
as mandíbulas cerradas com a alavanca e depois, com o alicate, tiravam ou quebravam todos os dentes, pontes ou obturações de ouro que tivessem. Todos os membros
dos kommandos eram ótimos estomatologistas e cirurgiões-dentistas. Quando o Dr. Mengele convocara candidatos capazes de realizar delicados trabalhos de estomatologia
e cirurgia dental, eles se apresentaram de boa fé, acreditando que poderiam exercer sua profissão no campo. Assim como eu acreditei.
Os dentes de ouro eram jogados dentro de recipientes cheios de um ácido que dissolvia o osso ou a carne que viesse agarrada a eles. Outros valores usados
pelos mortos, tais como pulseiras, anéis, alianças, eram jogados pela abertura de um cofre. O ouro é um metal pesado e calculo que de 6 a 8 quilos eram recolhidos
diariamente no crematório. Naturalmente que isso variava de um comboio para outro; enquanto uns eram relativamente ricos, outros vindos de localidades rurais eram
mais pobres. Os comboios húngaros chegavam quase sem nada. Mas os holandeses, tchecos e poloneses, mesmo depois de vários anos nos guetos, conseguiam guardar e trazer
suas jóias, seu ouro e seus dólares. Dessa forma, a Alemanha arrebanhava consideráveis tesouros.
Quando o último dente de ouro havia sido removido, os corpos iam para o kommando de incineração. Lá eram levados de três em três numa espécie de carrinho
de mão feito com uma folha de metal. As pesadas portas dos fornos se abriam automaticamente; o carrinho entrava na fornalha aquecida até a incandescência.
Os corpos eram cremados em vinte minutos. Cada crematório trabalhava com quinze fornos e havia quatro crematórios. Isso significava que vários milhares de
seres humanos poderiam ser cremados num só dia. Assim, durante semanas, meses — e anos — milhares de pessoas passavam diariamente pelas câmaras de gás e daí para
as fornalhas. Nada além de um monte de cinzas sobrava nos fornos. Os caminhões as levavam para o Vístula, onde eram despejadas nas águas agitadas do rio.
Depois de tanto sofrimento e horror ainda não havia paz nem para os mortos.
VIII
O LABORATÓRIO DE PATOLOGIA fora instalado por ordem do meu superior, o Dr. Mengele, para satisfazer suas ambições na área da pesquisa médica. Tinha recebido
os últimos retoques somente alguns dias antes. Tudo que estava faltando para que começasse a funcionar era um médico que assumisse a chefia. O KZ oferecia vastas
possibilidades para a pesquisa, primeiro no campo da medicina legal, devido à alta taxa de suicídios, e também na área da patologia, graças à taxa relativamente
alta de anões, gigantes e outras aberrações humanas. A abundância de cadáveres — sem igual em qualquer canto do mundo — e o fato de que se podia dispor livremente
deles — abria largos horizontes.
Eu sabia, por experiência, que as clínicas das maiores cidades do mundo conseguiam fornecer a seus institutos médicos legais de 100 a 150 corpos para pesquisa.
O KZ de Auschwitz estava capacitado a fornecer literalmente milhões. Qualquer um que tivesse transposto os portões do KZ era candidato à morte. Aquele que o destino
colocara na coluna da esquerda seria transformado em cadáver em menos de uma hora após sua chegada. Menos afortunado aquele que ia para a coluna da direita. Ele
ainda era candidato à morte, mas com uma diferença durante os três ou quatro meses, ou quanto mais tempo fosse que ele durasse, teria que se submeter a todos os
horrores que o KZ tinha para oferecer, até que sucumbisse por exaustão extrema. Sangraria pelas centenas de ferimentos. Seu estômago se contorceria de fome, seus
olhos ficariam esbugalhados e andaria a gemer como um demente. Iria arrastar seu corpo pelos campos gelados até que não pudesse mais. Cães treinados lhe morderiam
o corpo esfrangalhado e descarnado: então quando até mesmo os piolhos abandonassem seu corpo esquelético, aí a hora do alívio, a hora da redenção estava perto. Quem,
então, — de nossos pais, irmãos e filhos — era mais felizardo, aquele que ia para a esquerda ou o que ia para a direita?
Quando os trens chegavam, os soldados vasculhavam as fileiras formadas em frente aos vagões, à procura de gêmeos e anões. As mães, esperando que aquilo pudesse
representar tratamento especial para seus filhos, imediatamente os entregavam aos guardas. Gêmeos adultos, sabendo que eram foco de interesse científico, ofereciam-se
voluntariamente na esperança de um tratamento melhor. O mesmo acontecia com os anões. Eles eram separados do resto e mandados para a direita Permitiam-lhes ficar
com as roupas civis; os guardas conduziam-nos a barracões especiais, onde eram tratados com certas regalias. Sua alimentação era boa, suas camas confortáveis e
as condições de higiene muito mais humanas.
Ficavam acomodados no Barracão 14 do Campo F e lá escoltados pela guarda, iam para os barracões de experiências do Campo Cigano, e ali submetidos a todo
e qualquer exame que se possa fazer em seres humanos: exame de sangue, punções lombares, trocas de sangue entre irmãos gêmeos, assim como outros exames, todos fatigantes
e deprimentes. Dina, a pintora de Fraga, fazia o estudo comparativo da estrutura craniana dos gêmeos, bem como das orelhas, ouvidos, bocas, mãos e pés. Cada desenho
era classificado num arquivo feito para esse propósito, completado depois com todas as características individuais; desse arquivo também constaria o resultado final
da pesquisa. O mesmo era feito com os anões.
As experiências, em linguagem médica chamadas in vivo, isto é experiências realizadas em seres humanos vivos, estavam longe de esgotar as possibilidades
da pesquisa no estudo dos gêmeos Cheias de lacunas, só ofereciam resultados parciais O estudo m vivo era sucedido da fase mais importante do estudo dos gêmeos: o
exame comparativo do ponto de vista anatômico e patológico. Aqui o problema era de examinar os órgãos sadios e compará-los com aqueles de funcionamento anormal,
ou de comparar suas doenças. Para esse estudo, assim como para todos os estudos de natureza patológica, eram necessários cadáveres. Uma vez que era preciso proceder
à dissecação para a avaliação simultânea das anomalias, os gêmeos tinham de morrer ao mesmo tempo. E assim, eles encontravam a morte na seção B, em um dos barracões
de Auschwitz, pelas mãos do Dr. Mengele.
Esse fenômeno era único na história da ciência médica do mundo. Irmãos gêmeos morriam juntos, e era possível fazer a autópsia em ambos. Onde, em circunstâncias
normais, poder-se-ia achar irmãos gêmeos que morressem no mesmo lugar e ao mesmo tempo? Pois os gêmeos, como qualquer um, são separados por circunstâncias diversas.
Eles vivem afastados um do outro e rarissimamente morrem ao mesmo tempo. Um pode morrer com dez anos, outro com cinqüenta. Sob tais condições, a dissecação comparativa
é impossível. No campo de Auschwitz, porém, havia centenas de pares de gêmeos e, assim, muitas possibilidades de dissecação. Por esse motivo, na chegada dos
comboios, o Dr. Mengele sempre separava os gêmeos e anões dos demais prisioneiros. Por esse motivo, os dois grupos de especiais iam para a coluna da direita e dali
para os barracões Por esse motivo, eles recebiam melhor alimentação e condições higiênicas mais favoráveis — para que não se contaminassem um ao outro e não morresse
um antes do outro. Eles deveriam morrer juntos e com boa saúde.
O chefe do Sonderkommando veio me procurar dizendo que um soldado SS estava esperando por mim na porta do crematório com uma guarnição de transportadores
de cadáveres. Saí à procura deles, pois eram proibidos de entrar no pátio. Peguei os documentos relativos aos corpos da mão do SS. Continham as fichas de dois pequenos
gêmeos. A guarnição do hommando, formada inteiramente de mulheres, deixou o caixão tampado diante de mim. Levantei a tampa. Dentro estava um par de gêmeos de dois
anos de idade. Ordenei a dois de meus homens que levassem os corpos para a mesa de dissecação.
Abri as fichas e examinei-as. Exames clínicos minuciosos, acompanhados de raios X, descrições e desenhos, indicavam os diferentes aspectos, do ponto de vista
científico, desses dois pequenos seres. Somente o relatório patológico estava faltando, e era meu trabalho fornecê-lo. Os gêmeos haviam morrido ao mesmo tempo e
estavam, agora, deitados um ao lado do outro na mesa de dissecação. Eram eles — ou seus pequenos corpos— que deveriam resolver o segredo da reprodução da raça.
Dar um passo à frente para a revelação do segredo de multiplicar a raça dos seres superiores destinados a governar era uma meta nobre". No futuro, cada mãe alemã
deveria carregar em seu ventre tantos gêmeos quantos fossem possíveis! Esse projeto concebido pelos teóricos do III Reich, era completamente louco. E ao Dr. Mengele,
médico-chefe do KZ de Auschwitz, o notório "médico criminoso", é que essas experiências tinham sido confiadas.
Entre os malfeitores e criminosos, o tipo mais perigoso é o médico criminoso", especialmente quando investido de tão grandes poderes, tais como os do Dr.
Mengele. Ele enviou milhões para a morte, simplesmente porque, de acordo com sua teoria racial, eram seres inferiores e, portanto, conspurcadores da humanidade.
Esse mesmo médico assassino passava horas ao meu lado, ora no microscópio ou nos fornos de desinfecção, ora nos tubos de ensaio ou de pé, com a mesma paciência,
ao meu lado na mesa de dissecação, com seu avental todo manchado de sangue, suas mãos ensangüentadas, examinando e testando como um possesso. O objetivo imediato
era a produção de alemães puros para substituir os tchecos, húngaros e poloneses, todos condenados à destruição, mas que, no momento, estavam vivendo em territórios
ocupados e declarados vitais para o III Reich.
Terminei a dissecação dos pequenos gêmeos e fiz um relatório minucioso da dissecação. Trabalhei bem e meu chefe parecia satisfeito comigo. Porém ele teve
dificuldades para ler meu manuscrito, pois escrevi tudo em letras maiúsculas, um hábito que pegara na América 6. E então eu lhe disse que se ele quisesse uma cópia
limpa e clara teria que me fornecer uma maquina de escrever, pois era assim que eu estava acostumado a trabalhar.
— Que marca você usava? — perguntou-me.
— Olympia Elite — respondi.
— Muito bem, vou enviar-lhe uma. Amanhã você a terá aqui. Quero uma copia limpa, porque esse material vai para o Instituto de Pesquisa Racial, Biológica
e Evolutiva, em Berlim — Dahlem.
Então, fiquei sabendo que as pesquisas feitas aqui eram checadas por altas autoridades médicas num dos mais avançados institutos científicos do mundo.
No dia seguinte, um SS trouxe uma "Olympia". Mais corpos de gêmeos me foram enviados. Recebi quatro pares do Campo Cigano; todos tinham menos de dez anos.
Comecei a dissecação de uma das crianças e registrei cada fase de meu trabalho. Removi a calota craniana. Depois procedi à abertura do tórax e à remoção
do esterno. Em seguida, separei a língua por meio de uma incisão feita abaixo do queixo. Com a língua veio o esôfago, com as vias respiratórias vieram ambos
os pulmões. Lavei os órgãos para examiná-los mais detalhadamente. A mais débil mancha ou a menor diferença na cor poderia fornecer informações valiosas. Fiz uma
incisão transversal no pericárdio e removi o fluido. Tirei o coração e lavei-o. Com ele nas mãos, virei-o várias vezes para examiná-lo. No tampão exterior do ventrículo
esquerdo via-se uma pequena mancha avermelhada, causada por uma injeção bipodérmica, que pouco diferia do tecido em volta. Não podia haver engano. A injeção fora
dada com uma agulha muito pequena. Sem dúvida; uma agulha hipodérmica. Para que teria ele recebido uma injeção? Injeções no coração só podem ser dadas em casos
extremamente sérios, quando ele começa a falhar. Eu logo saberia. Abri o coração, começando pelo ventrículo. Normalmente o sangue contido no ventrículo esquerdo
é tirado e pesado. Esse método não podia ser empregado no presente caso porque o sangue estava coagulado numa massa compacta. Extraí o coágulo com um fórceps
e cheirei-o. Fui atingido pelo odor característico do clorofórmio. A vítima tinha recebido uma injeção de clorofórmio no coração, de forma que o sangue no ventrículo,
coagulando-se, iria se depositar nas válvulas e causaria a morte instantânea por colapso cardíaco. Minha descoberta do mais monstruoso segredo da ciência médica
do III Reich fez meus joelhos fraquejarem. Não somente matavam com gás, como também com injeções de clorofórmio no coração. Um suor frio começou a brotar em minha
testa. Felizmente eu estava sozinho. Se outros estivessem presentes seria muito difícil para mim dissimular meu estado. Terminei a dissecação e registrei as
diferenças encontradas. Mas o clorofórmio, o sangue coagulado no ventrículo esquerdo, a perfuração visível na capa externa do coração não figuravam entre minhas
descobertas. Era uma precaução útil de minha parte. Os registros do Dr. Mengele, no assunto dos gêmeos, estavam em minhas mãos. Eles continham exames precisos, chapas
de raios X, desenhos da já mencionada pintora, mas nenhuma referência à causa da morte. Nem tampouco preenchi essa lacuna no relatório de dissecação. Não era de
bom alvitre exceder as fronteiras autorizadas do conhecimento ou relatar tudo que se testemunhou. E aqui, menos do que em qualquer outro lugar. Eu não era temeroso
por natureza e meus nervos eram bons. Durante minha prática médica, trouxera à luz as causas das mortes. Tinha visto cadáveres de pessoas assassinadas por vingança,
por inveja ou para a obtenção de vantagens materiais, bem como de suicidas e de pessoas que morreram de morte natural. Estava acostumado ao estudo de obscuras causas
de morte. Em várias ocasiões ficara chocado com as minhas descobertas, mas agora uma onda de medo tomava conta de mim. Se o Dr. Mengele descobrisse que eu sabia
das injeções secretas, enviaria, em nome da política da SS, dez médicos para atestar a minha morte.
De acordo com as ordens que recebi, devolvi os corpos aos prisioneiros encarregados de queimá-los. Eles fizeram seu trabalho sem demora. Eu tinha que guardar
quaisquer órgãos que por acaso tivessem interesse científico para que o Dr. Mengele os examinasse. Aqueles que pudessem interessar ao Instituto Antropológico de
Berlim-Dahlem seriam conservados em álcool. Esses órgãos eram especialmente embalados para serem enviados pelo correio. Com a etiqueta de "Material de Guerra — Urgente",
a eles era dada a prioridade máxima de trânsito. No transcurso do meu trabalho no crematório, despachei um número considerável desses pacotes. Recebia em resposta
precisas informações científicas ou instruções. A fim de classificar essa correspondência, tive de organizar arquivos especiais Os diretores do Instituto Berlim-Dahlem
sempre agradeciam calorosamente por esse raro e precioso material.
Terminei de dissecar os três outros pares de gêmeos e maquinalmente registrei as anomalias encontradas. Em todos os três casos, a causa da morte fora a mesma:
uma injeção de clorofórmio no coração.
Dos quatro pares de gêmeos, três tinham globos oculares de cor diferente entre si. Um olho era azul e outro castanho.
Esse fenômeno é bastante raro em não-gêmeos. Mas no caso presente, notei que em 8 gêmeos isso ocorria seis vezes. Uma coleção de anomalias extremamente interessantes.
A ciência médica classifica-os como heterecromos, o que significa simplesmente de cores diferentes. Cortei os olhos e coloquei-os numa solução de formaldeído, anotando
pormenorizadamente suas características, a fim de não misturá-las. Durante o exame dos quatro pares de gêmeos, descobri outro fenômeno ainda mais curioso: ao remover
a pele do pescoço, notei imediatamente acima da extremidade do esterno um tumor do tamanho de uma pequena noz. Pressionando-o com o fórceps, vi que estava cheio
de pus. Essa rara manifestação, conhecida na ciência médica com o nome de tumor de DuBois, indicava a presença de sífilis hereditária. Observando mais, vi que ele
existia em todos os oito gêmeos. Seccionei o tumor, deixando-o cercado de tecido sadio, e mergulhei-o em outro vidro de formaldeido. Em dois pares de gêmeos descobri
também a evidência de uma ativa e cavernosa tuberculose. Registrei meus achados, mas deixei a cláusula "causa da morte" em branco.
Durante a tarde fui visitado pelo Dr. Mengele. Fiz um relato detalhado do meu trabalho de manhã e entreguei-lhe o relatório. Ele sentou-se e começou a ler
cada caso atenciosamente. Ficou muito interessado pela característica heterocromática dos olhos, porém ainda mais interessado na descoberta do tumor de DuBois. Deu-me
instruções para despachar aqueles órgãos e incluir meu relatório na remessa. Ordenou-me também que preenchesse o item "causa da morte". A escolha das causas ficava
a meu critério e discrição; a única recomendação era de que cada causa fosse diferente. Quase que se desculpando, quis fazer-me ver que aquelas crianças, como eu
mesmo pudera notar, eram tuberculosas e sifilíticas, e morreriam mais cedo ou mais tarde... Não tocou mais no assunto. Aquela tinha sido sua explicação para a morte
das crianças. Contive-me ao máximo para não fazer qualquer comentário. Mas aprendi mais uma coisa: aqui, tuberculose e sífilis não eram tratadas com remédios e,
sim, com injeções de clorofórmio no coração.
Fiquei estarrecido só de pensar o quanto tinha aprendido durante a minha curta estada aqui, e o quanto ainda teria que testemunhar sem protestar, até que
minha própria hora chegasse. No momento que entrara neste lugar tivera a exata sensação de que já era um morto-vivo. Mas agora, de posse de todos esses segredos
fantásticos, estava certo de que nunca mais sairia vivo dali. Como era possível que o Dr. Mengele ou o Instituto Berlim-Dahlem fossem permitir que eu deixasse com
vida este lugar?
IX
JÁ ERA TARDE E ESTAVA ficando escuro. O Dr. Mengele tinha saído e eu fiquei só com meus pensamentos. Mecanicamente, arrumei os instrumentos usados para as
autópsias e depois de lavar as mãos fui para a sala de trabalho e acendi um cigarro, pensando em ter um minuto de paz. De repente, ouvi um grito que me deu calafrios
na espinha. Imediatamente depois um baque que soou como um corpo caindo. Fiquei escutando, meus nervos ficaram tensos pelo que os próximos minutos trariam. Antes
que o minuto seguinte tivesse passado, ouvi outro grito seguido de um estampido e de um baque surdo. Contei setenta gritos, estampidos e baques. Percebi o ruído
de passadas pesadas se afastando e tudo ficou quieto.
A tragédia sangrenta que tinha acabado de acontecer passara-se no aposento contíguo à sala de dissecação. O corredor levava diretamente a ele. Era um lugar
mal iluminado, de chão de concreto e janelas gradeadas que davam para o pátio dos fundos. Eu o usava para guardar os corpos, mantendo-os ali até que chegasse a vez
de serem dissecados, devolvendo-os para lá até que fossem apanhados para serem queimados. Roupas surradas de mulher, sapatos gastos de madeira, óculos, pedaços de
pão dormido — o conjunto costumeiro de artigos femininos das mulheres do KZ — estavam caídos no chão, empilhados na entrada do quarto. Depois do que tinha ouvido,
estava preparado para qualquer coisa de extraordinário. Entrei no quarto e olhei rapidamente em volta. Uma cena dantesca gradualmente se descortinou: diante de
mim estavam esparramados os corpos nus de setenta mulheres. Contorcidas, banhadas em seu próprio sangue e no das outras, elas se misturavam num conjunto diabólico.
À medida que meus olhos ficavam mais acostumados à escuridão do quarto, fui descobrindo, para meu horror, que nem todas as vítimas estavam mortas. Algumas
ainda respiravam, movendo os braços e as pernas lentamente; com o olhar vidrado, tentavam levantar a cabeça ensangüentada. Ergui a cabeça de algumas delas, duas
ou três, que ainda viviam, e percebi que, além da morte por gás e injeções de clorofórmio, havia uma terceira maneira de matar aqui: uma bala na nuca. O ferimento
revelava que a bala era de 6 mm: não havia o buraco de saída. Dessas observações concluí que o material utilizado na bala foi chumbo macio, porque só esse tipo de
bala iria se alojar na estrutura craniana. Infelizmente, eu conhecia alguma coisa sobre o assunto e pude caracterizar a situação em todo seu horror. Não havia nada
de surpreendente que essas balas de pequeno calibre não causassem a morte instantânea em todos os casos, mesmo tendo sido o tiro desferido de uma distância de poucos
centímetros da medula espinhal, e as queimaduras de pólvora na pele provocavam isso. Parecia que, em alguns casos, a bala tinha-se desviado ligeiramente do seu caminho;
desta forma a morte não fora instantânea.
Registrei isso também, mas não pensei mais; temia ficar louco.
Saindo para o pátio, perguntei a um membro do Sonderkommando de onde tinham vindo as mulheres.
— Foram trazidas da Seção C — respondeu. — Toda noite um caminhão traz setenta delas. Todas recebem uma bala na nuca.
Com minha cabeça girando de terror, caminhei pelo caminho estreito que dividia o bem guardado gramado do pátio do crematório. Meu olhar perambulou pelo pátio
onde estava sendo feita a chamada do Sonderkommando. Naquela noite não houve mudança de guarda. O crematório no. 1 não estava trabalhando. Olhei na direção dos
nos. 2, 3 e 4: suas chaminés estavam cuspindo labaredas e fumaça — os negócios não podem parar.
Ainda era cedo para o jantar. Os homens do kommando organizaram uma partida de futebol. Os times formaram no gramado: "SS x SK". Num lado do campo os guardas
SS do crematório, no outro os homens do Sonderkommando Começou o jogo e gargalhadas sonoras encheram o pátio. Os espectadores tornaram-se torcedores entusiasmados,
gritavam e torciam pelo time de sua preferência, como se aquele fosse o campo de futebol de uma pacífica cidadezinha. Estupefato, também registrei isso mentalmente.
Sem esperar o fim do jogo, voltei para o meu quarto. Depois do jantar, engoli duas pílulas para dormir e caí no sono. Eu precisava desesperadamente dormir, pois
sentia que meus nervos estavam a ponto de estourar. Nesses casos, as pílulas para dormir eram o melhor remédio.
X
NA MANHÃ SEGUINTE, acordei com um tremendo mal-estar. Dirigi-me para o chuveiro no quarto ao lado e deixei as águas geladas do Vístula caírem sobre mim durante
uma meia hora. Aquilo refrescou meus nervos cansados e dissipou a sononlência causada pelas pílulas.
Como os alemães se preocupavam conosco! Construíram dez maravilhosos banheiros para uso exclusivo do Sonderkommando. Aqueles que lidam com cadáveres devem
se lavar constantemente, por isso o banho de chuveiro era obrigatório duas vezes por dia, um regulamento ao qual todos nós nos submetíamos alegremente.
Examinei o conteúdo de minha maleta médica. Encontrei um estetoscópio, aparelho de medir pressão, algumas boas seringas, um certo número de outros instrumentos,
remédios e varias ampolas para injeções de emergência. Estava satisfeito em ter tudo aquilo porque sabia que seria necessário durante as minhas visitas".
Aqui no Sonderkommando, «visitas" significavam fazer a ronda pelos quatro crematórios. Comecei em meu próprio crematório. Primeiro parei nos alojamentos SS planejando
examinar a todos que se apresentassem, pois havia sempre alguém. Nos crematórios, todos simulavam doença de tempos em tempos a fim de conseguir um descanso breve
daquele trabalho exaustivo e neurotizante. Surgiam também casos mais sérios algumas vezes, mas não havia problema para se cuidar deles quanto aos estoques
de remédios estávamos tão bem abastecidos quanto a maior farmácia de Berlim.
A um kommando especial era dada a incumbência de checar todas as bagagens deixadas na ante-sala da morte pelos deportados e recolher todos os remédios antes
que as roupas e bagagens fossem levadas. Esses remédios me eram entregues para que eu procedesse a uma classificação de acordo com o seu tipo e finalidade. Não era
um trabalho fácil porque os remédios que chegavam a Auschwitz pertenciam a pessoas vindas de todos os lugares da Europa. Desta forma, havia rótulos em holandês,
grego e polonês, e eu devia decifrar todos. Devo mencionar, de passagem, que, em geral, os remédios eram sedativos de diversas espécies. Sedativos para acalmar os
nervos dos judeus perseguidos na Europa.
Após minha visita aos SS, subi para o alojamento do Sonderkommando. Enquanto estava lá, tratava de alguns cortes e arranhões comuns entre os motoristas.
Os homens do kommando raramente sofriam de alguma enfermidade orgânica, pois eram muito bem alimentados, andavam muito limpos e a roupa de cama era sempre nova.
Além disso, eram, na maioria, jovens, escolhidos a dedo por sua força e constituição física. No entanto, a quase totalidade tinha uma tendência para distúrbios nervosos,
pois recebiam uma carga tremenda, sabendo que seus irmãos, esposas e pais — sua raça inteira — estavam sendo dizimados aqui. Dia após dia carregavam milhares e milhares
de cadáveres para os crematórios onde, com suas próprias mãos, os atiravam nos incineradores. O resultado era uma aguda depressão nervosa e, freqüentemente, neurastenia.
Todos aqui tinham um passado que relembrariam consternados e um futuro contemplado com desespero. O futuro do Sonderkommando estava firmemente circunscrito ao tempo.
A dolorosa experiência de quatro anos mostrava que esse tempo era de quatro meses. No fim desse período, uma companhia de SS chegava. O kommando inteiro era reunido
no pátio dos fundos do crematório. Uma metralhadora espocava. Meia hora depois um novo esquadrão de Sonderkommando chegava. Eles tiravam a roupa de seus companheiros
mortos, dos quais, alguns minutos depois, só cinzas restavam. A primeira tarefa de cada Sonderkommando era cremar seus predecessores. Durante as minhas visitas,
havia sempre alguém que me implorava um veneno rápido e indolor. Eu invariavelmente recusava. Hoje me arrependo disso. Estão todos mortos. Sua morte era rápida,
é verdade — não auto-administrada como eles teriam preferido, mas pelas mãos dos carrascos nazistas.
XI
MINHA VISITA SEGUINTE foi ao Crematório no. 2, que estava separado do n.° 1 por um caminho através de alguns campos e pela mesma plataforma de desembarque.
Ele fora construído segundo os mesmos padrões do número um. A única diferença que pude notar foi que a sala reservada para a dissecação no número 1 tinha sido ocupada
por uma fundição de ouro. Fora isso, o desenho da ante-sala da morte, da câmara de gás, dos incineradores e dos alojamentos dos SS e dos Sonderkommandos eram exatamente
iguais.
Era para essa fundição que todos os dentes, as pontes e obturações dos prisioneiros dos quatro crematórios eram levados. Também vinham todas as jóias, moedas
de ouro, pedras preciosas, jóias de platina, relógios, cigarreiras de ouro e qualquer outro objeto de metal precioso achado nas malas, valises, roupas ou nos corpos
das vítimas. Três ourives eram empregados lá. Primeiro eles desinfetavam as jóias, depois as separavam e classificavam. Removiam as pedras preciosas e enviavam os
engastes para a fundição. Os dentes de ouro e as jóias fornecidas cada dia pelos quatro crematórios produziam, uma vez fundidas, entre 30 e 40 quilos de ouro.
A fundição era feita num crisol de grafita com aproximadamente 5 cm de diâmetro. O peso do cilindro de ouro era de 140 gramas. Eu sabia esse peso com exatidão
porque pesei mais de um numa balança de precisão na sala de dissecação. Os dentistas que removiam os dentes de ouro não atiravam todo o metal precioso no vasilhame
de ácido — uma parte ia para o bolso dos SK na hora que esses mórbidos tesouros estavam sendo recolhidos. O mesmo acontecia com as jóias e pedras costuradas nas
barras das roupas e as moedas de ouro deixadas no vestiário. Em última instância, era o Sonderkommando encarregado de vasculhar a bagagem que lucrava. Aquilo era
um jogo extremamente perigoso, pois os SS tinham a estranha faculdade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo e mantinham uma vigilância rigorosa sobre essa
propriedade que, daí em diante, pertenceria ao III Reich. Nem é preciso dizer que eles mantinham um controle ainda mais rigoroso sobre as jóias.
A princípio eu não compreendia como é que, do ponto de vista judicial e moral, o Sonderkommando podia embolsar o ouro. Alguns dias mais tarde, quando consegui
perceber toda a situação, inclinei-me a admitir que se alguém devesse ser o herdeiro único e legal de todos os tesouros que ali chegavam, era o Sonderkommando.
Os homens do Sonderkommando também fundiam seu ouro. Apesar da estrita vigilância, havia sempre um jeito de levá-lo até os ourives e depois retomá-lo já
em forma de "moedas" de 140 gramas. Mas botar esse ouro para trabalhar, quer dizer, trocá-lo por mercadoria útil, essa era uma tarefa bem mais difícil. Eles não
sonhavam em acumular esse ouro, pois sabiam que dentro de quatro meses estariam mortos; embora, para nós, quatro meses fosse um longo tempo. Ser condenado à morte
e ainda por cima obrigado a fazer trabalhos tais como os que fazíamos todos os dias era para arrebentar o corpo e a alma dos mais fortes, e levar muitos às raias
da loucura. Era, pois, necessário tornar a vida mais fácil, mais suportável, ainda que fosse por algumas semanas. Com ouro isso era possível, mesmo nos crematórios.
Assim foi criada, no tempo do primeiro Sonderkommando, uma unidade de troca: o cilindro de ouro de 140 gramas. Essa mesma unidade estava ainda sendo usada
pelo décimo-segundo Sonderkommando. Os ourives não tinham nenhum crisol de diâmetro menor, assim não havia jeito de se fazer "moedas" menores.
No crematório, um objeto não tinha "valor" no sentido ordinário da palavra. Qualquer um que pagasse alguma coisa com ouro já tinha pago com sua vida na hora
em que entrara aqui. Mas a pessoa que dava algo em troca de ouro arriscava duplamente o pescoço; a primeira vez quando trazia os artigos que eram difíceis de passar,
pois desde o lado de fora havia barreiras de SS onde todos que passavam eram minuciosamente revistados; e depois, ao sair levando seu pagamento em ouro, pois também
passava por revista rigorosa.
Em seu caminho para fora, o ouro era carregado no bolso de um homem do Sonderkommando até o portão do crematório. Lá passava para outras mãos. O homem que
o carregava aproximava-se do guarda e trocava umas palavras com ele. Esse último virava-se e afastava-se do portão. Na seção da via férrea que passava em frente
ao "krema", um grupo de 20 a 25 poloneses trabalhava. A um sinal do homem do Sonderkommando, o seu chefe se aproximava com um saco dobrado e pegava o ouro, que estava
embrulhado em papel. Assim, o saco contendo os artigos desejados passava em segurança para dentro do crematório.
O homem do Sonderkommando entrava na casa da guarda, que ficava perto do portão, tirava cerca de cem cigarros e uma garrafa de brandy do saco. O soldado
SS entrava e imediatamente escondia os cigarros e a bebida. Evidente que ele ficava muitíssimo satisfeito, pois os SS recebiam apenas dois cigarros por dia e nenhuma
bebida alcoólica. E, no entanto, ambos eram indispensáveis aqui. Os SS bebiam e fumavam com sofreguidão, como também o faziam os homens do Sonderkommando.
Outros artigos indispensáveis tais como manteiga, ovos, bacon e cebolas eram contrabandeados por esse mesmo método. Porém, com os deportados comuns nada
disso acontecia. Uma vez que o ouro era obtido através de um esforço coletivo, a distribuição da mercadoria conseguida em sua troca era feita também coletivamente.
Assim, não só o pessoal do Sonderkommando como os soldados SS recebiam uma provisão considerável de alimentos, cigarros e bebidas. Todos fechavam os olhos àquele
tráfico, pois era vantajoso para todos que ele continuasse. Tomado individualmente, qualquer SS do crematório era subornável. Só não confiavam neles próprios, pois
sabiam que o Sonderkommando nunca traíra ninguém e nem nunca trairia. Por isso é que a comida, a bebida e os cigarros eram entregues aos SS por um "homem de confiança"
do Sonderkommando.
Pelo mesmo caminho "subterrâneo", o órgão oficial do III Reich, o Võotkischer Beobachter, era levado todos os dias ao crematório, cada vez por um trabalhador
diferente. Uma assinatura mensal custava um cilindro de 140 gramas. Qualquer um que arriscasse a vida trinta dias por mês, para trazer o jornal aos prisioneiros,
merecia o preço pago.
Desde minha chegada ao crematório, fui o primeiro a receber um exemplar. Li-o num lugar escondido e seguro, e depois relatei os principais acontecimentos
do dia a um dos prisioneiros-funcionários, que então passava a outro as notícias e assim sucessivamente, até que todos ficassem a par das ultimas notícias.
O Sonderkommando era um grupo de elite; suas vantagens e privilégios já foram contados. Em contraste com os prisioneiros do campo propriamente dito, que
minguavam em barracos infectos, lutando furiosamente por um naco de pão ou um pedaço de tomate, seu tratamento era relativamente bom. Consciente dessa situação de
desequilíbrio, o Sonderkommando distribuía comida e roupas aos seus companheiros menos afortunados sempre que podia.
Durante os últimos dias, um kommando feminino de cerca de 500 operárias esteve trabalhando duro, não muito longe dos portões do crematório. Eram vigiadas
por dois SS e quatro cães pastores. Alguns homens do Sonderkommando, com permissão dos seus superiores, aproximaram-se dos dois SS que guardavam as prisioneiras
e deram um maço de cigarros a cada um. Com isso o acordo estava selado. O trabalho das mulheres era carregar pedras para a construção de uma estrada. Então, algumas
delas, carregadas de pedras, aproximaram-se do nosso portão como se seu trabalho as tivesse levado lá, e imediatamente apanharam todas as roupas que tinham sido
juntadas para elas. Levaram também pão, bacon e cigarros. Depois saíram e vieram outras do kommando até que cada uma tivesse recebido sua parte. Não havia nunca
favoritismo por parte do Sonderkommando, pois nenhum de nós conhecia qualquer das mulheres pessoalmente. Radiantes com os presentes, elas voltaram ao trabalho. No
dia seguinte, outro grupo substituía o anterior e a mesma cena se repetia.
Os imensos armazéns dos crematórios possuíam uma quantidade enorme de roupas e sapatos, aguardando o embarque, e creio que vários milhares de mulheres foram
ajudadas pelo Sonderkommando dessa maneira. Eu também tentava dar a minha contribuição: enchia meus bolsos com vitaminas, tabletes de sulfa, vidros de iodo, esparadrapo
e tudo que considerava pudesse ser de utilidade, entregava às mulheres que passavam.
Quando meu estoque chegava ao fim, voltava ao quarto e enchia novamente os bolsos; para aqueles que recebiam esses medicamentos eles freqüentemente representavam
a diferença entre a vida e a morte. Pelo menos por algum tempo.
Depois de visitar o número 2, passei para o no. 3 e o no. 4 Enquanto o número 3 era composto, em sua grande maioria, de gregos e poloneses (notei também
cerca de cem húngaros), o número 4 era quase que totalmente de poloneses e franceses. Em todas essas fábricas da morte, o trabalho estava a todo vapor. Da plataforma
de desembarque de judeus, que era dividida em quatro grandes divisões (como dedos de uma mão), similares ao delta de algum rio, as vítimas eram despejadas para a
morte com uma fúria insana. Notei, horrorizado, com que ordem e automatismo os assassinos agiam, como se aquelas fabricas estivessem ali para durar toda a eternidade.
Se por um milagre eu conseguir sair vivo desse lugar pensei comigo mesmo, e tiver uma chance de contar tudo que testemunhei e pelo qual passei, quem acreditará
em mim? Palavras, descrições são totalmente impotentes para dar a quem quer que seja uma idéia exata do que seja isso aqui. Então meu esforço desesperado para tudo
gravar e registrar em minha mente e em vão.
Com esse pensamento desencorajador na cabeça, completei meu primeiro dia de ronda pelos quatro crematórios.
XII
CONSEGUI UM VOLUME do dicionário francês Petit Larousse. Com a ajuda de seus mapas, tentei localizar os nomes dos vários lugares mencionados nos jornais
que lia. Sozinho em meu quarto, estudei a situação militar ao longo das frentes oriental e sul. Passos pesados ressoaram no corredor. Imediatamente escondi o dicionário
e fiquei olhando impaciente para a porta. O comandante do crematório entrou para informar-me que uma importante comissão chegaria às duas horas da tarde, e que eu
deveria estar com a sala de dissecação pronta para recebê-la.
Antes da comissão chegar, entrou um caixão fechado, completamente enrolado em tecido negro. Dentro estava o corpo de um capitão SS. Coloquei-o sobre a mesa
de dissecação assim como me foi entregue.
A comissão, constituída de altos oficiais trajados impecavelmente, chegou com pontualidade: um coronel SS do Corpo Médico, um juiz, dois funcionários da
Gestapo e um relator da corte marcial. Alguns minutos depois, entrou o Dr. Mengele. Pedi-lhes que se sentassem. Teve lugar, então, uma pequena conferência, onde
os dois homens da Gestapo relataram com alguns detalhes as circunstâncias da morte de seu colega.
Os ferimentos, causados por arma de fogo, apontavam ou para assassinato premeditado ou crime comum; a hipótese do suicídio foi logo afastada, pois o revólver
do capitão ainda estava no coldre quando o cadáver foi encontrado. Pela hipótese do crime comum achavam que podia ter sido cometido por outro oficial ou então
por algum subalterno que tivesse algo contra ele. Mas a possibilidade do assassinato premeditado era mais aceitável: era comum haver crimes de morte na cidade polonesa
de Gleiwitz, onde havia atividade constante de grupos da Resistência.
O objetivo da autópsia era determinar se o tiro fora desferido pela frente ou pelas costas, qual o calibre e as características da arma usada e a distância
aproximada entre o atirador e a vítima. No momento não havia nenhum médico qualificado em Gleiwitz, que ficava a apenas quarenta quilômetros de Auschwitz, sendo
este o ponto mais próximo onde uma autópsia podia ser efetuada em condições satisfatórias.
No meu papel de observador, permaneci a uma distância respeitosa do grupo enquanto a conversa prosseguia e aguardei no paciente mutismo que é esperado de
todo prisioneiro do KZ, que o Dr. Mengele desse as ordens.
Nunca podia imaginar que a um judeu prisioneiro do KZ, como eu, fosse permitido sujar, com meu contato, o corpo de um oficial SS. Quanto a caber a mim fazer
a autópsia, nunca nem mesmo sonhara com isso, especialmente levando em conta, mesmo sendo chamado de cidadão livre, que as leis raciais me impediam de prestar qualquer
assistência médica aos cristãos, ou, mais exatamente, aos arianos. Por isso fiquei surpreso quando o Dr. Mengele me ordenou que prosseguisse com a autópsia.
A primeira tarefa, que não era nada fácil, foi tirar a roupa do morto. Somente para retirar as botas seriam necessários dois homens. Solicitei, ao Dr. Mengele
permissão para chamar dois assistentes. Enquanto o cadáver estava sendo despido, os membros da comissão empenharam-se numa discussão acalorada e praticamente não
prestaram atenção em mim e em meus auxiliares.
Ao fazer a primeira incisão comecei a defrontar-me com um ataque de medo e um absurdo sentimento de inferioridade. Cortei a pele do crânio e, com um movimento
rápido e preciso, puxei metade da pele do rosto e a outra metade até a nuca. O passo seguinte seria mais difícil: tratava-se de serrar o crânio e remover a calota
craniana. Quase mecanicamente procedi a essas operações.
Chegara a vez agora de examinar os dois ferimentos causados pela bala. Se ela tivesse atravessado o corpo, deveria haver naturalmente dois furos, um
na entrada e outro na saída . Na maioria dos casos, o médico não tem problema para apontar qual é qual: o ponto por onde a bala entra é sempre menor do que aquele
por onde sai. Neste caso, porém, havia dois orifícios exatamente do mesmo tamanho, um abaixo do mamilo esquerdo e o outro perto da face superior da omoplata.
O caso não estava nada claro e, por conseguinte, muito mais interessante. O que poderia ter causado a uniformidade desses dois ferimentos? O Dr. Mengele
era de opinião que tinha havido dois tiros, um pela frente e outro por trás. Esse poderia muito bem ser o caso, se o oficial tivesse caído após o primeiro tiro e
levado o segundo quando já estivesse no chão. Nenhuma das duas balas atravessara todo o corpo, e isso explicaria os dois ferimentos idênticos. Essa teoria parecia
bastante plausível, mas faltava ser verificada. Para tanto, eu teria de acompanhar o caminho que as balas haviam percorrido. Ao fazer isso, descobri que a bala que
entrara no corpo pelo mamilo esquerdo perfurara o coração, batera na extremidade esquerda da coluna vertebral e continuara a subir num ângulo de 35° até alcançar
a extremidade de cima da omoplata, onde batera e saíra do corpo. Não podia haver dúvidas quanto a isso; somente uma bala havia sido disparada pela frente, pois o
caminho por ela percorrido era ascendente, da frente para trás, num ângulo de 35°. A razão da existência de dois buracos do mesmo tamanho era que a bala havia raspado
a coluna vertebral e tirado um pedaço da omoplata; consideravelmente atenuada por esses obstáculos, a bala deixara o corpo depois de grande parte de seu impulso
ter-se perdido. Alem disso, é bastante duvidoso que alguém apontasse para baixo num ângulo de 35° ao atirar. Para fazer tal coisa, seria necessário que o assassino
erguesse seu braço bem acima da cabeça. Assim, parecia-me óbvio que a bala havia sido disparada de frente, e que a arma fora apontada um pouco acima da linha horizontal
no momento do tiro, que foi desferido de perto. Provavelmente o assassino fora impedido por algum obstáculo imprevisto de erguer um pouco mais a arma. Mas essa era
uma questão para o inquérito decidir.
Notei que minhas observações satisfizeram os membros da comissão, pois me comunicaram que, no futuro, todos os casos que exigissem autópsia seriam enviados
para cá. Eles acharam esse arranjo bastante satisfatório. Assim eu me tornei, com essa única autópsia, o médico-legista do KZ encarregado de todos os assuntos pertinentes
à medicina legal no distrito de Gleiwitz.
XIII
UMA MADRUGADA RECEBI um telefonema ordenando-me que fosse imediatamente à "pira" para trazer de volta ao crematório no. 1 todos os remédios e óculos que
haviam sido recolhidos lá. Depois de classificados, seriam remetidos para vários pontos da Alemanha.
A pira ficava localizada a uns quatrocentos ou quinhentos metros do crematório no. 4, bem atrás da pequena floresta de vidoeiros de Birkenau, numa clareira
cercada de pinheiros. Ficava do lado de fora da cerca eletrificada de arame farpado do KZ, entre a primeira e a segunda linha de guardas. Uma vez que eu não estava
autorizado a me afastar além dos limites do confinamento, requisitei permissão por escrito. Eles me forneceram um salvo-conduto para três pessoas, pois eu planejava
levar dois homens para que me ajudassem a carregar o material para fora do crematório.
Caminhamos em direção aos rolos espirais de fumaça grossa. Todos os infelizes que eram levados para lá viam aquelas colunas de fumaça, visíveis de qualquer
ponto do KZ. A qualquer hora do dia ou da noite podia-se vê-las, e desde o momento em que os prisioneiros eram despejados dos vagões de carga, aquela era uma das
visões para a qual tinha o olhar atraído. Durante o dia ela cobria o céu de Birkenau com uma nuvem espessa; à noite, toda a área ficava iluminada com aquela resplandescência
infernal.
Nosso caminho nos levou para além dos crematórios. Após mostrarmos aos guardas SS o salvo-conduto, passamos por uma abertura no arame farpado e alcançamos
uma estrada aberta. Os arredores — um terreno todo coberto de grama verdejante — espelhavam tranqüilidade. Porém, meus olhos observadores logo descobriram, a cerca
de uns cem metros, os guardas da segunda linha descansando sobre a grama ou sentados ao lado de suas metralhadoras e cães pastores.
Atravessamos a clareira e chegamos a uma pequena floresta de pinheiros. Novamente nosso caminho foi barrado por uma cerca e portão de arame farpado. Uma
grande tabuleta, igual às dos portões dos crematórios, estava pendurada lá:
A ENTRADA É ESTRITAMENTE PROIBIDA PARA TODOS QUE NÃO TRABALHAM AQUI. INCLUSIVE PARA O PESSOAL DA SS NÃO AUTORIZADO POR ESSE COMANDO.
Apesar do aviso, entramos sem que os guardas nos pedissem o passe. A razão era simples: os guardas SS de serviço eram do crematório e os sessenta homens
do Sonderkommando que trabalhavam na pira eram também do crematório no. 2; no momento, a troca do dia já tinha sido feita. Eles trabalhavam de 7 da manhã às 7 da
noite, quando eram substituídos pelo pessoal do turno da noite, que também se compunha de sessenta homens do crematório no. 4.
Depois de passar pelo portão, alcançamos um lugar aberto que parecia um pátio no meio do qual havia uma casa de telhado de palha, cujo reboco estava soltando.
Seu estilo era das típicas casas de campo alemãs e suas pequenas janelas estavam cobertas com tábuas. Aliás, não havia dúvida de que havia sido casa de campo durante
pelo menos cento e cinqüenta anos, a julgar pelo telhado de palha, que há muito tornara-se enegrecido, e pelas paredes várias vezes remendadas.
O Estado alemão havia expropriado toda a aldeia de Birkenau, perto de Auschwitz, a fim de estabelecer lá o KZ. Todas as casas, com exceção dessa, haviam
sido demolidas e a população removida.
Em que esta casa deveria estar sendo usada? Teria sido destinada a servir de habitação? Nesse caso, seu interior deveria ter sido dividido em quartos. Ou
teria sido ela originalmente um único e espaçoso aposento sem divisões, idealizada para ser usada como depósito? Eram as perguntas que fazia a mim mesmo e não conseguia
me dar uma resposta satisfatória. De qualquer modo, ela era agora usada como quarto de despir para aqueles que iam para a pira. Era aqui que depositavam suas roupas
surradas, seus óculos e seus sapatos.
Era para cá que vinha o "excedente" da "rampa dos judeus isto é, aqueles para quem não havia lugar nos quatro crematórios. A pior espécie de morte os aguardava.
Aqui não havia mangueiras d'água para saciar a sede de uma viagem de vários dias nem tabuletas mentirosas que alimentavam suas esperanças, nem câmara de gás, com
a qual os alemães pudessem enganá-los, fazendo-a passar por sala de desinfecção. Era somente uma casa de camponeses, algum dia pintada de amarelo e coberta de palha,
cujas janelas haviam sido fechadas com tábuas.
Atrás da casa, enormes colunas de fumaça subiam ao céu. espalhando o cheiro de carne queimada e cabelo chamuscado. No pátio, uma multidão aterrorizada de
cerca de 5.000 almas; por todos os lados, fileiras compactas de SS, segurando cães furiosos. Os prisioneiros eram levados em grupos de 300 ou 400 de cada vez para
se despirem. Lá, sob uma chuva de cacetadas, largavam suas roupas e saíam pela porta do lado dos fundos da casa, dando lugar aos que se seguiam. Uma vez do lado
de fora da porta, não tinham tempo nem mesmo de olhar em volta ou de perceber o horror de sua situação. O Sonder-kommando puxava-os pelos braços, conduzindo-os diante
de uma fileira dupla de SS, alinhados no caminho serpenteante que era ladeado por uma floresta. A pira, até então escondida pelas arvores, surgia à vista.
A pira era uma vala de uns quarenta metros de comprimento, cinco metros de largura e três de profundidade, uma caldeira de queimar corpos. Os soldados SS,
formados em intervalos de quatro metros uns dos outros, ao longo da vala, aguardavam suas vítimas. Eles usavam armas de pequeno calibre (seis milímetros) que, no
KZ, eram utilizadas para administrar uma bala na nuca dos condenados. No fim do caminho, dois homens do Sonderkommando arrastavam as vítimas pelo braço por uns vinte
metros até diante dos SS. Seus gritos de terror abafavam o estampido dos tiros. Um tiro e, imediatamente depois, mesmo antes de morrer, a vítima era atirada nas
chamas. Quatro metros adiante a mesma cena se repetia O Oberschmrführer Molle era o comandante desses carniceiros. Como médico, e como testemunha ocular, juro que
era o mais abjeto, diabólico e empedernido assassino do III Reich. Mesmo o Dr. Mengele mostrara uma vez ou outra sinais de que era humano. Durante as seleções na
rampa de desembarque, quando notava uma mulher jovem e saudável que se esforçava por juntar-se à sua mãe na coluna da esquerda, ele gritava e a xingava com violência,
ordenando que voltasse para a coluna da direita. Mesmo o animal do crematório no.1, o Oberschaarführer Mussfeld, dava um segundo tiro naqueles a quem o primeiro
não havia liquidado. Molle, no entanto, não perdia tempo com essas banalidades. Aqui, a maior parte dos homens era jogada com vida nas labaredas. E pobre de qualquer
Sonderkommando que, por qualquer motivo, interrompesse a corrente viva que se estendia da sala de despir até a pira, deixando algum membro do esquadrão de fuzilamento
parado por alguns segundos à espera de nova vitima.
Molle estava em todos os lugares ao mesmo tempo. Corria incansável de uma pira para outra, de lá para a casa e novamente para as piras. A maior parte das
vezes os condenados se deixavam levar sem resistência, o terror paralisava-os de tal modo que não percebiam o que estava prestes a lhes acontecer. Quase todos os
velhos e as crianças reagiam dessa forma. Havia, no entanto, muitos adolescentes que instintivamente tentavam resistir, com uma força nascida do desespero. Se acontecia
de Molle testemunhar uma tal cena, ele tirava sua arma do coldre. Um tiro, uma bala disparada geralmente a quarenta ou cinqüenta metros de distância, e a vítima,
que se debatia nos braços do Sonderkommando, caía morta.
Suas balas freqüentemente atravessavam os braços dos homens do Sonderkommando quando se mostrava insatisfeito com o trabalho deles. Nesses casos, apontava
para os braços sem, no entanto, manifestar sua insatisfação, mas também sem dar nenhum aviso prévio.
Quando duas piras estavam operando simultaneamente, a produção variava de quinhentos ou seiscentos mortos por dia. Ligeiramente melhor do que os crematórios,
mas aqui a morte era um milhão de vezes mais terrível, pois se morria duas vezes, primeiro de um tiro na nuca e depois pelo fogo.
Depois da morte por gás, por injeções de clorofórmio no coração e por uma bala na nuca, eu tinha agora visto esse quarto método "combinado".
Juntei os remédios e óculos abandonados pelas vítimas. Apavorado, com os joelhos ainda tremendo de emoção, voltei para casa, isto é, para o crematório no.1
que, no dizer do Dr. Mengele, "não era um hospital, mas um lugar onde se podia viver de maneira decente".
Depois de ter visto as piras, estava inclinado a concordar com ele.
Uma vez em casa, entrei em meu quarto, mas ao invés de arrumar os remédios e óculos, tomei um sedativo e caí na cama. A dose de hoje era de trinta centigramas,
suficiente para combater os efeitos das náuseas causadas pela pira funerária. Pelo menos, eu esperava.
XIV
NA MANHÃ SEGUINTE acordei imaginando que nova revelação esse dia traria, pois aqui cada dia tinha sua revelação, cada uma mais horripilante que qualquer
ser humano jamais pensou existir.
Soube através do Sonder, que invariavelmente conseguia ficar a par de todas as últimas informações, que o KZ estava em rigorosa prontidão. Isso significava
que ninguém podia deixar os barracões. Os soldados SS e seus cães estavam com toda corda. Hoje eles iriam liquidar o Campo Tcheco.
O Campo Tcheco era constituído de 15.000 deportados trazidos do gueto de Theresienstadt. Assim como o Campo Cigano, ele tinha um certo ar familiar. Os deportados
não haviam sido selecionados na hora da chegada, sendo enviados intactos para seus "aposentos". Todos, independente da idade ou compleição física, tiveram permissão
para viver juntos e continuar com sua própria roupa. Seu tratamento era duro, mas não insuportável. Ao contrário das outras seções, os prisioneiros tchecos não trabalhavam.
Assim eles viveram por dois anos, até que a hora do extermínio chegou, como cedo ou tarde chegava para todos no KZ. Em Auschwitz não era nunca uma questão
de se você iria viver ou não, mas simplesmente uma questão de tempo, de quando você iria morrer. Ninguém escapava. Os trens de deportados húngaros, ou como se costumava
dizer no KZ — os fretes — chegavam num fluxo constante, às vezes até dois num mesmo dia, e despejavam no campo seus infelizes ocupantes Para todos, o incansável
Dr. Mengele dispensava o mesmo tratamento de seleção. Ele permanecia lá, como uma estátua, seu braço sempre apontando numa direção: a esquerda. Assim, comboios inteiros
eram enviados para as câmaras de gás e para as piras.
O campo de quarentena, o Campo C, o Campo D e a seção F estavam superlotados, embora os prisioneiros fossem embarcados, as centenas, diariamente, para campos
mais distantes . NO Campo 1 checo, as crianças e os velhos estavam bastante enfraquecidos pelos dois anos de subalimentação: as crianças estavam praticamente em
pele e osso, e os prisioneiros mais velhos tão fracos que mal podiam caminhar. Ambos deveriam ceder lugar para os recém-chegados, que ainda tinham forças e podiam
trabalhar.
Mas algumas semanas antes a situação deles havia piorado ainda mais. Quando os primeiros trens húngaros começaram a chegar suas rações foram radicalmente
reduzidas. Depois alguns dias mais tarde, o fluxo da chegada de comboios atingiu o máximo e as autoridades do campo se defrontaram com o problema da escassez de
comida. Como sempre, a solução foi drástica e eficiente: praticamente foram suprimidas por completo as rações do Campo Tcheco.
A fome, então, reduziu os prisioneiros a uma multidão de loucos famintos. Em poucos dias, seus organismos enfraquecidos se desintegravam totalmente. Disenterias,
diarréias e tifo começaram a fazer seu trabalho mortal. Cinqüenta ou sessenta mortes por dia era normal. Seus últimos dias eram transcorridos num sofrimento indescritível,
até que, finalmente, vinha a morte para libertá-los.
O fechamento de todos os barracões foi ordenado ainda de madrugada. Centenas de SS cercaram a área e ordenaram que os cadáveres ambulantes se reunissem.
Seus gritos de terror ao serem embarcados nos caminhões eram tenebrosos de se ouvir, pois após dois anos de permanência no KZ, eles não tinham mais ilusões sobre
o destino que os aguardava. O "Dia do Extermínio" veio encontrar 12.000 prisioneiros no Campo Tcheco. Desse número, uns 1.500 homens e mulheres em condições físicas
razoáveis e oito médicos foram poupados. O resto foi enviado para os crematórios 2 e 3. No dia seguinte, o Campo Tcheco estava silencioso e deserto. Vi um caminhão
carregado de cinzas deixar o campo em direção às águas do Vístula.
Desta forma as folhas de chamada de Auschwitz ficaram reduzidas em mais de 12.000 "unidades", e mais uma página sangrenta foi adicionada aos arquivos do
KZ. A página continha somente uma breve inscrição: "A seção tcheca do Campo de Concentração de Auschwitz foi liquidada nessa data devido a um surto de tifo entre
os prisioneiros. Assinado: Dr. Mengele, Hauptsturmführer I Lageratz.
Os oito médicos do Campo Tcheco, que, graças à intervenção do Dr. Epstein, tinham sido poupados, foram enviados para os barracões hospitais do Campo F, devido
ao fato de estarem física e mentalmente exaustos depois do esforço sobre-humano de cuidar de seus companheiros ou por estarem com tifo.
No dia que se seguiu ao extermínio do Campo Tcheco, fiz uma visita oficial ao Campo F. Ali encontrei os oito médicos que haviam escapado da morte e tive
oportunidade de conversar com eles, em particular com o Dr. Heller, cujo nome era bem conhecido nos círculos médicos. De seus lábios trêmulos, ouvi a história do
sofrimento e da morte da elite judaica da Tcheco-Eslováquia. Desde aquela época, os oito já morreram. Eram médicos de verdade. Guardo a memória deles numa profunda
estima e consideração.
XV
O Campo C, que ficava perto do Campo Tcheco, era composto de mulheres judias húngaras, freqüentemente uma média de 60 000, apesar dos embarques diários
para outros campos mais distantes. Foi nesse super povoado campo que os médicos descobriram entre as prisioneiras sintomas de escarlatina. Por ordem do Dr. Mengele,
os barracões afetados e os em sua proximidade foram postos em quarentena que, por sinal, não durou muito: de manhã à noite, cerca de doze horas. A noitinha, os caminhões
chegaram para carregar as esqueléticas prisioneiras para os crematórios. Tais eram os métodos eficazes utilizados pelo Dr. Mengele para evitar o surto de moléstias
contagiosas. O Campo Tcheco e o Campo C já haviam sentido na pele os efeitos da batalha do Dr. Mengele contra as epidemias. Felizmente os médicos dos barracões
aprenderam logo o método do Dr. Mengele e, daí por diante, não revelaram nenhum caso de doença infecto-contagiosa às autoridades médicas SS. Sempre que possível,
isolavam a pessoa doente num canto do barracão e cuidavam dela o melhor que podiam com os ínfimos recursos de que dispunham. Evitavam a todo custo enviar os
doentes para os hospitais, pois os médicos SS examinavam os pacientes que ali chegavam e o sinal de uma moléstia contagiosa significava a destruição não só do barracão
de onde provinha o doente como também dos barracões vizinhos. Na linguagem médica dos SS. isso era "a luta intensa contra o surto de infecções". O resultado dessa
luta era um ou dois caminhões cheios de cinzas...
Depois dessas considerações, recebi dois cadáveres de mulheres, trazidos do hospital do Campo B, com ordens do Dr. Mengele para que procedesse à autópsia.
Como sempre, recebi as fichas contendo detalhadas informações sobre as mortas Na coluna reservada ao diagnóstico, notei respectivamente febre tifóide" e "colapso
cardíaco". As duas expressões eram seguidas de pontos de interrogação.
Não sou muito dado a pesar os prós e os contras antes de agir. Decido e ajo rapidamente, sobretudo quando se trata de tomar uma decisão importante. Os resultados
desse comportamento nem sempre eram brilhantes. O fato de ter acabado nesse crematório foi conseqüência de uma decisão instantânea.
Novamente decidi-me rapidamente. Não podia enviar meu diagnóstico ao Dr. Mengele, confirmando a febre tifóide. A descrição da enfermidade da vítima estava
cheia de lacunas. O diagnóstico estava seguido de um ponto de interrogação. O médico provavelmente ficara inseguro no assunto. A autópsia determinaria se seu julgamento
tinha sido ou não correto. Por essa razão os dois corpos me foram enviados.
Procedi à autópsia. O intestino delgado em ambos os corpos estava num estado de ulceração característico de uma tifóide de três semanas. O baço apresentava-se
também inchado. Sem nenhuma sombra de dúvida, ambas as mortas tinham sido vítimas de febre tifóide.
O Dr Mengele chegou, como de costume, às cinco da tarde. Estava de bom humor. Entrou e perguntou-me, cheio de curiosidade, sobre o resultado da autópsia.
Os dois cadáveres jaziam abertos sobre a mesa. Os intestinos grosso e delgado de ambos já haviam sido lavados e colocados num vidro, prontos para serem examinados.
Eu lhe dei o meu diagnóstico: inflamação do intestino delgado, com extensa ulceração. Expliquei-lhe como era o estado ulcerado dos intestinos delgados durante
uma terceira semana de febre tifóide e comparei-o com as ulcerações surgidas em conseqüência da inflamação desse órgão. Chamei a sua atenção para o fato de que a
inchação do baço freqüentemente acompanha uma inflamação do intestino e, conseqüentemente, isso não era um caso de febre tifóide e sim uma séria inflamação do intestino
delgado, causada por envenenamento alimentar.
O Dr. Mengele era um biólogo racial e não um patologista. Assim, não foi difícil convencê-lo da exatidão de meu diagnóstico. No entanto, ser enganado aborrecia-o;
ele virou-se para mim e disse:
— Se quer saber a minha opinião, pessoas capazes de cometer erros tão crassos seriam mais úteis ao KZ como trabalhadores braçais do que como médicos. Diagnósticos
falhos como estes podem causar um bom número de mortes desnecessárias.
Ele apanhou os atestados e as fichas, mas antes de colocá-los na pasta, anotou a seguinte frase na margem de um atestado: "Responsabilizar as médicas", que
li por cima de seu ombro. Fiquei profundamente arrependido de ter agido dessa forma com as minhas colegas, pois seus diagnósticos estavam certíssimos. Talvez agora
perdessem seus cargos e acabariam indo fazer trabalho pesado; se o Dr. Mengele cumprisse sua ameaça, eu teria sido o culpado.
Segundo o costume médico vigente do outro lado do arame farpado, eu agira totalmente contra a ética, e estava com plena consciência de minha culpa. Errei
contra dois ou três inocentes. Mas até onde teria o Dr. Mengele ido em sua luta contra as epidemias, e qual teria sido o número de vítimas se tivesse agido de outra
forma?
No dia seguinte recebi notícias animadoras com relação ao destino de minhas colegas. O Dr. Mengele as havia repreendido severamente, mas tinha deixado as
coisas como estavam. As médicas permaneceram em seu trabalho. Depois disso, muitos outros cadáveres me foram enviados juntamente com suas respectivas fichas, mas
a cláusula "diagnóstico" estava sempre em branco. Eu preferia assim. A indignação do Dr. Mengele em relação ao erro de diagnóstico continuou a martelar na minha
cabeça por vários dias. Tanto cinismo misturado a tanta maldade em um médico me surpreendia, mesmo estando no KZ. Ele não era um médico comum, era um criminoso,
ou melhor, um "médico criminoso".
XVI
UM DIA o DR . MENGELE ordenou-me que fosse falar imediatamente com o comandante do Campo F. Naturalmente, fiquei muito feliz com isso, porque assim poderia
escapar um pouco do ambiente deprimente dos crematórios, nem que fosse por algumas horas. Eu sabia que andar me faria bem porque tinha pouca oportunidade de me exercitar.
E depois do cheiro constante da sala de dissecação e das fornalhas, estava realmente precisando de um pouco de ar puro. Além disso, a visita me daria o ensejo de
conversar com meus colegas do Campo F, que me haviam recebido tão calorosamente quando eu chegara ao KZ. Preparei-me para a "viagem", enchendo meus bolsos com remédios
valiosos e vários maços de cigarros, pois não queria voltar de mãos vazias para a minha antiga "casa", isto é, o hospital-barracão 12.
Saí pelo portão de ferro do crematório, onde os guardas anotaram meu número. Depois dirigi-me para o Campo F, sem pressa, para melhor saborear este pequeno
passeio. Passei ao lado da cerca de arame farpado do campo das mulheres, o "FKL", onde milhares e milhares de prisioneiras andavam para cá e para lá no meio daqueles
miseráveis barracões. Todas elas se pareciam, e todas, com suas cabeças raspadas e roupas surradas, eram repulsivas. Pensei na minha mulher e na minha filha, com
aqueles seus cabelos cacheados, suas roupas elegantes e sua maneira graciosa de se vestir, e todas aquelas horas que elas passavam discutindo os tão importantes
problemas femininos. Já se haviam passado três meses desde a nossa separação na plataforma de desembarque. O que teria acontecido com elas? Estariam vivas? Juntas?
Será que ainda estavam na seção de mulheres do KZ ou foram, talvez, enviadas para algum campo mais distante no III Reich? Três meses é um bocado de tempo, principalmente
no KZ. No entanto, eu tinha o pressentimento de que elas ainda se achavam em Auschwitz. Mas onde? Nesse complicado labirinto de arame farpado, qual seria a cerca
delas? Para qualquer lugar que olhasse, só via uma vasta rede de arame farpado, torres de concreto e tabuletas proibindo a saída ou a entrada. O KZ era somente arame
farpado; toda a Alemanha estava cercada de arame farpado, o III Reich era, ele próprio, um enorme KZ. Cheguei ao portão do Campo F. A entrada era guardada pelo Blockführerstube.
Um soldado e um suboficial SS com cara de gorila estavam de serviço. Aproximei-me da janela da casinhola, puxei a manga de meu paletó e, de acordo com o regulamento,
anunciei meu número: A 8450. Quando puxei a manga do paletó, o relógio de pulso que o Dr. Mengele me autorizara a usar tornou-se visível. Possuir um tal objeto era
uma das mais hediondas ofensas no KZ. Com a velocidade e a fúria de um tigre raivoso, o SS ergueu-se e saiu correndo da casinhola.
— Que diabo pensa que é para usar relógio de pulso? — gritou com uma voz de possesso. — E o que veio fazer no Campo F?
Três meses de permanência nos crematórios foram para mim uma escola que havia deixado sua marca. Sem perder a calma, sem nem mesmo piscar, respondi numa
voz suave:
— Estou aqui porque o Dr. Mengele me enviou, mas se é impossível para mim chegar ao Campo F, então é melhor retornar ao crematório e avisar o Dr. Mengele
pelo telefone.
O nome "Dr. Mengele" funcionou como mágica. Somente a sua menção era suficiente para fazer a maioria das pessoas tremer. O meu suboficial ficou mansinho
em frações de segundo. De uma maneira quase amável, perguntou-me quanto tempo eu pretendia ficar no campo.
— Você sabe, não é, eu tenho que registrar a informação — ele falou, quase se desculpando.
Olhei para o meu relógio. Eram dez horas.
— Devo ficar até duas da tarde — respondi. — A essa hora meu negócio com o Dr. Mengele já terá certamente acabado.
Para acentuar minha frase, tirei um maço de cigarros do bolso e ofereci ao meu interlocutor. Obviamente satisfeito com o presente, ele falou comigo num tom
quase amigável, e chegou ao extremo de dizer que ficaria contente em ver-me da próxima vez que eu aqui viesse.
Não havia como negar, o nome "Dr. Mengele", o fato de haver mencionado o crematório e a ostentação dos cigarros impressionaram fortemente o escravo SS. Agora
tinha certeza de poder passar pelo menos uma hora ou duas com meus velhos amigos. Mas primeiro deveria descobrir por que o Dr. Mengele havia me enviado.
Entrei no barracão do comandante do campo e esperei no hall que um funcionário viesse me perguntar o que desejava. Disse-lhe. Ele apontou para a porta do
lado oposto do aposento. Dirigi-me para lá e entrei num escritório muito bem mobiliado. As paredes eram cobertas de gráficos e mapas que mostravam as variações da
população e a composição do campo durante os vários períodos de sua existência. Ostensivamente colocado numa moldura ornada, notei uma enorme fotografia de Himmler,
com seu pince-nez colocado delicadamente sobre o nariz.
Três pessoas estavam sentadas no aposento. O Dr. Mengele, o Hauptsturmführer Thilo, cirurgião-chefe do KZ, e o Obersturmführer Wolff, diretor do Serviço
Médico Geral. O Dr. Mengele informou ao Dr. Wolff, a quem eu não conhecia pessoalmente, que era eu que fazia as autópsias no crematório.
— Muito interessante — disse o Dr. Wolff, coçando o queixo. — O Dr. Mengele me falou de seu trabalho. Estou especialmente interessado em patologia, doutor,
e já teria dedicado alguma atenção a um de seus casos mais delicados se a falta de tempo não me tivesse impedido.
Esperei pelo que estava para vir.
— No momento, estou me dedicando a um estudo científico de alguma importância. Mas para resumir, devo dizer que vou precisar de sua ajuda. Foi por isso
que pedi ao Dr. Mengele que o enviasse aqui hoje — fez uma pausa e continuou: — Como o senhor sabe, a diarréia é extremamente comum no campo e em noventa por cento
dos casos ela é fatal. Eu conheço tudo que há para saber sobre a evolução da doença, pois já fiz milhares de exames e tenho tudo minuciosamente anotado. Mas meu
trabalho está incompleto porque além da observação clínica, um estudo científico requer relatórios patológicos de um número suficiente de casos de disenteria para
que seja conclusivo.
Comecei a compreender do que se tratava. O Dr. Wolff também estava se dedicando à pesquisa. No meio do fedor e da fumaça dos crematórios, ele também desejava
ter o seu quinhão nas centenas de milhares de cobaias disponíveis no KZ, a maioria das quais reduzida pela disenteria a um peso inacreditável. Através da dissecação
de um número considerável de cadáveres, ele desejava descobrir as manifestações internas de disenteria ainda desconhecidas da ciência médica.
O Dr. Mengele queria resolver o problema da multiplicação da raça pelo estudo do material humano — ou melhor, dos gêmeos — que ele tinha à sua disposição
na quantidade e à hora que desejasse. O Dr. Wolff procurava as causas da disenteria. No momento tais causas não eram difíceis de apontar, até mesmo um camponês saberia
dizer. A disenteria é causada pela aplicação da seguinte fórmula: pegue qualquer indivíduo — homem, mulher ou criança inocente — arranque-o de seu lar, ponha-o junto
com centenas de outros num vagão fechado no qual um balde de água foi anteriormente colocado de maneira estratégica, e os remeta, depois de terem passado seis semanas
num gueto, para Auschwitz. Ali empilhe-os aos milhares em barracões que não serviriam nem de estábulos. Como comida, dê-lhes uma ração de pão dormido feito de castanha
silvestre, uma espécie de margarina cujo ingrediente básico é linhita, trinta gramas de chouriço feito de carne de cavalo doente que, no total, não excederá a setecentas
calorias. Para ajudar a descer essa ração, meio litro de sopa feita de urtiga e ervas daninhas, sem nenhum sal, nenhuma gordura e nenhum cereal. Em quatro semanas
a disenteria invariavelmente aparecerá. Três ou quatro semanas mais tarde o paciente estará "curado", porque morrerá, apesar de qualquer tratamento que possa receber
dos médicos do campo.
Segundo o Dr. Wolff, seriam necessários pelo menos cento e cinqüenta cadáveres para o capítulo de seu estudo devotado ao aspecto patológico da questão. O
Dr. Mengele interrompeu a conversa:
— Fazendo sete autópsias por dia, você conseguirá acabar o número requisitado pelo Dr. Wolff em apenas três semanas.
Não concordei.
— Desculpem-me, cavalheiros, mas se querem um trabalho sério e bem feito, o que não tenho dúvida, então só poderei fazer três autópsias por dia.
Depois de alguma discussão, todos concordaram com meu ponto de vista e, com um sumário aceno de cabeça, fui dispensado.
Fiz uma visita aos meus colegas residentes no hospital-barracão no. 2. Exultaram ao receber os remédios que eu trouxe e com ar de satisfação fumaram os
cigarros que distribui. Seus rostos e palavras traíram o sentimento de extrema fadiga e o desânimo que se apossaram deles. O fim trágico e repentino do campo tcheco
teve um efeito bastante forte sobre eles. Pouco a pouco, desesperançados com a sua situação, iam-se entregando ao desespero. Eu também estava totalmente desesperançado,
mas com uma diferença: esse sentimento em mim não veio pouco a pouco, mas sim abruptamente, no momento em que cruzara os portões do crematório.
No entanto, fiz o melhor que pude para encorajá-los, exortando-os a perseverar. Descrevi-lhes o quadro da situação militar e mostrei como dia a dia a situação
estava caminhando para um fim que nos fosse favorável. Uma vez que eu lia o jornal todo dia, estava apto a respaldar as minhas afirmações em fatos concretos. Nós
nos despedimos com um caloroso aperto de mão. No KZ, a expressão "deixar um amigo é morrer um pouco" tinha uma segunda conotação.
Deixei-os com a sensação de que poderia dizer, sem medo de estar fazendo demagogia, que tenho um espírito forte, pois mesmo na situação em que me encontrava,
ainda conseguia encorajar outros a perseverar...
O Obersturmführer Wolff mandou todos os seus antigos pacientes, vitimas de disenteria, para serem autopsiados. Já tinha acabado as primeiras trinta autópsias
e estava anotando os resultados de minhas observações. Em todos os casos a mucosa estomacal estava inflamada, o que resultava numa queima, ou melhor, num ressecamento
das glândulas que secretam ácido clórico no estômago. A ausência de sucos gástricos torna a digestão impossível mas, por outro lado, aumenta proporcionalmente a
fermentação.
Minha segunda observação dizia respeito às condições inflamatórias em que se encontrava o intestino delgado, o que era acompanhado por um adelgaçamento das
paredes intestinais. Minha terceira observação concernia ao suco digestivo mais importante do intestino delgado, a bílis, que é indispensável para a assimilação
das gorduras. Abrindo o fígado, encontrei, ao invés da normal secreção amarelo-esverdeada, um líquido quase incolor, que mal afetava o material que ia parar no intestino
e que, de qualquer forma, era totalmente incapaz de realizar sua função digestiva.
Minha quarta observação dizia respeito à inflamação do intestino grosso, que resultou num ressecamento, num adelgaçamento e numa excessiva fragilidade das
paredes intestinais, que se apresentavam tão grossas e tão fortes quanto um papel de cigarro. Na verdade, não eram mais tubos digestivos e, sim, esgotos através
dos quais tudo fluía de um extremo a outro num espaço de poucos minutos.
Tais observações, em linhas gerais e reduzidas a uma linguagem que qualquer leigo entenda, foram as principais conclusões das autópsias. O trabalho que me
foi encomendado era, na realidade, bastante monótono e desprovido de qualquer interesse. Os testes bacteriológicos provavelmente estavam sendo efetuados na aldeia
de Risgau, situada a três quilômetros do crematório, no "Instituto do Exército SS de Higiene e Bacteriologia". Lá, o renomado professor Mansfeld, catedrático da
cadeira de Bacteriologia da Faculdade de Medicina de Pecs, estava encarregado do trabalho.
XVII
ESTAVA TIRANDO minha soneca da tarde quando o Oberschaarführer Mussíeld entrou no meu quarto empurrando três prisioneiros. Informou que o Dr. Mengele me
arranjara três assistentes; assim falando, lançou um olhar na direção dos homens, e sua expressão era uma mistura de cinismo e pena.
Eles, na verdade, inspiravam pena, ali em pés, esfarrapados, emudecidos pelo tratamento desumano a que haviam sido submetidos, morrendo de medo e com uma
sensação de desconforto e desconfiança pela mudança brusca de ambiente. Também haviam deixado a esperança do lado de fora dos portões do crematório. Cumprimentei-os
amigável e calorosamente. Nós nos apresentamos. O primeiro a apertar minha mão foi o Dr. Dênis Gorog, médico e patologista do Hospital Estadual de Szombathely.
Era de estatura baixa, esguio, cerca de 45 anos e usava óculos grossos. Tive uma impressão favorável dele e uma sensação de que nos tornaríamos bons amigos. O
segundo tinha 50 anos, baixo, encurvado quase ao ponto de parecer corcunda. Era barrigudo e tinha um rosto bem desagradável. Seu nome era Adolph Fischer. Durante
vinte anos havia sido assistente de laboratório do Instituto de Patologia de Praga. Aquele judeu tcheco tinha cinco anos de KZ. O terceiro recém-chegado era
o Dr. Joseph Kolner, de Nice, França, e há três anos prisioneiro do KZ. Era um homem ainda moço, de seus 32 anos, não muito loquaz, mas bastante competente.
O Dr. Mengele os pescara no Campo D e os enviara a mim para que o trabalho de dissecação não sofresse atrasos. Eu continuaria responsável pela pesquisa,
pelos arquivos e pelos relatórios de cada autópsia. Os dois médicos iriam me ajudar nas dissecações e o assistente de laboratório, de acordo com a sua profissão,
prepararia os corpos. Seu trabalho consistia em abrir os crânios, na retirada e preparação de certos órgãos para futuro exame. Depois da dissecação, ele retiraria
os corpos da mesa e seria o responsável pela limpeza da sala.
Assim, ganhei colaboradores competentes e qualificados que dividiriam comigo a pesada carga. Para mim isso representava um alívio imenso.
XVIII
No MEU PAPEL de médico do Sonderkommando, sai em campo para fazer a ronda matutina. Os quatro crematórios trabalhavam a todo vapor. Na noite anterior tinham
queimado os judeus gregos da ilha de Corfu, uma das mais antigas comunidades da Europa. As vítimas foram mantidas por vinte e sete dias sem comer ou beber, primeiro
nos lanchões, depois nos vagões selados. Quando chegaram à plataforma de desembarque em Auschwitz, as portas foram abertas, mas ninguém desceu para a fila de seleção.
Metade já havia morrido e a outra metade estava em estado de coma. Todo o comboio, sem exceção, foi enviado para o crematório no. 2.
O trabalho foi acelerado durante a noite, de maneira que, pela manhã, tudo que sobrou do comboio foi uma pilha de roupas sujas e rasgadas no pátio do crematório.
Olhei com profunda tristeza para aquela montanha de trapos, que pouco a pouco ia ficando molhada e empapada com a chuva do outono. Dirigindo o olhar para cima, notei
que os quatro pára-raios colocados nos cantos das chaminés dos crematórios estavam retorcidos e caídos, como resultado da alta temperatura da noite anterior.
Hoje, durante a ronda, um caso grave esperava por mim no crematório no. 4. Um dos motoristas do Sonderkommando tentara o suicídio, tomando uma dose excessiva
de pílulas para dormir. Esse era o método mais comum do suicídio em Auschwitz Os homens do Sonderkommando não tinham dificuldade em obter essas pílulas, pois encontravam
todos os dias um grande número delas entre os pertences dos mortos.
Ao aproximar-se da cama do suicida, fiquei emocionado e penalizado ao ver que o coitado não era outro senão o "capitão". Era assim que todos o tratavam,
porque ninguém sabia qual seu nome verdadeiro. Natural de Atenas, ele havia sido capitão do exército regular e tutor dos filhos da família real grega. Um homem educado,
inteligente, com três anos de KZ nas costas. Sua esposa e seus filhos foram para a câmara de gás assim que chegaram. Agora, inconsciente, ele dormia em paz. Provavelmente
tomara as pílulas várias horas antes e, no entanto, eu achava que, pelo menos no momento, não corria perigo mais sério. Os homens do Sonderkomimando, reunidos em
volta de sua cabeceira, me pediram, com brandura e resignação, para "deixar o capitão ir".
— Não o salve — um deles disse. — Só estará prolongando sua agonia. O senhor mesmo pode ver que ele quis sair disso agora, ao invés de esperar pelo pelotão
de fuzilamento daqui a algumas semanas.
Os outros argumentavam da mesma maneira, mas eu, silenciosamente, comecei a preparar meus instrumentos. Vendo que seus argumentos não tinham tido efeito
e que estava me preparando para injetar-lhe um antídoto, alguns dos homens perderam o controle e não me pouparam injúrias pelo que eu iria fazer. Não obstante, acabei
de aplicar as injeções e abandonei o quarto. A menos que contraísse pneumonia nos próximos cinco ou seis dias, o capitão iria viver. Por mais algumas semanas, ele
continuaria a alimentar as fornalhas com os corpos de milhares e milhares de seus semelhantes torturados e mortos pelo gás. Até que um dia, todo o Sonderkommando
seria alinhado nos fundos do crematório. Uma metralhadora iria matraquear e tudo estaria terminado. Ele e os outros cairiam com os olhos cheios de horror e pasmo.
Agora que não estava mais ao lado de sua cama, agora que seu rosto não mais estava diante do médico que existe em mim, o lado puramente humano de minha natureza
era forçado a admitir que os amigos do capitão estavam certos. Eu deveria tê-lo "deixado seguir o seu caminho", não em frente do cano frio de uma metralhadora, mas
na inebriante narcose que o envolvia, onde estava livre de todas as dores físicas e morais. Terminei minha ronda e voltei ao no.1. Olhei para dentro da sala de dissecação
e vi que meus novos colegas estavam atarefados, trabalhando com o zelo próprio dos neófitos nos corpos fornecidos pelo Dr. Wolff. Estavam limpos, barbeados, usavam
aventais imaculados, roupas novas e sapatos decentes. Pareciam humanos novamente. Vê-los em volta da mesa de dissecação com seus aventais brancos e luvas de borracha
poderia parecer a qualquer um não tão familiarizado com o trabalho que era levado a efeito aqui, que se tratava da sala de trabalho de algum instituto científico.
Mas eu, que trabalhava nesse lugar há três meses, sabia que não se tratava de um instituto de ciência, mas de uma pseudociência. Como os estudos etnológicos, como
as noções de raça superior, as pesquisas do Dr. Mengele sobre a origem dos nascimentos duplos não eram mais do que uma pseudociência, tão falsa quanto a teoria da
degeneração dos anões e aleijados enviados para o carrasco a fim de demonstrar a inferioridade da raça judaica. É claro que tudo isso não seria divulgado imediatamente,
pois o novo alemão ainda não estava pronto para engolir essa. Mas quando a raça dos super-homens conseguisse sua vitória final, depois de vencer a guerra e de ter
conquistado todo o território vital para suas necessidades, aí então os esqueletos desses aleijados e anões, que foram assassinados aqui, seriam colocados em exposição
num espaçoso hall de um grande museu, com uma plaqueta onde se leria seu nome, idade, nacionalidade, ocupação etc. No aniversário do Dia da Vitória, milhares de
estudantes desse III Reich, construído para durar mil anos, seriam conduzidos através dessas galerias por seus professores, para homenagear seus ilustres antepassados.
Esses antepassados que, com a sua vitória e a realização da sagrada missão que a História confiara à Raça Superior, escorraçavam os povos vizinhos — franceses, belgas.^
russos, poloneses — para uma posição correspondente à sua inferioridade. Melhor ainda, eles teriam aniquilado completamente um povo, os judeus, portadores de uma
longa história, uma história de 6.000 anos, mas que não tinha o direito de viver alguns séculos a mais. Por quê? Porque no decurso de sua longa história, a raça
judaica degenerou-se num povo de anões e aleijados. Ao se misturar com outras raças, haviam se conspurcado e ameaçavam contaminar com sua degeneração a única raça
pura: os arianos.
Por causa do seu sangue, os judeus eram nocivos à grande raça. Além do mais eram perigosos por causa de seus professores, artistas, comerciantes e financistas,
que se tornaram tão poderosos que ameaçavam escravizar toda a Europa. Ao destruir essa raça, o primeiro führer do III Reich elevara seu nome a uma dimensão imortal
e ganhara o respeito e a gratidão de todas as nações civilizadas do mundo.
Era com base nessa teoria insana que os nazistas moviam guerra contra o resto do mundo e destruíam, depois da deportação, todas as comunidades européias
de judeus, do mais velho ao recém-nascido.
Tudo na Alemanha era falso. Eles chamavam essa guerra de cruzada. Aos seus olhos toda a Rússia era uma estepe selvagem, povoada por bárbaros mongóis, que
representavam uma ameaça à civilização. A França era uma nação sifilítica, a caminho da dissolução Os ingleses, do Primeiro-Ministro para baixo, eram todos alcoólatras
incuráveis, a maior parte deles sofrendo de delirium tremem. Por outro lado, os japoneses, que a maioria classificaria como mongóis, eram considerados arianos respeitáveis,
pois as exigências do momento assim o determinavam.
Toda a sua visão de mundo era uma mentira. Suas filhas e as viúvas causadas pela guerra poderiam ser engravidadas por qualquer alemão e receberiam o agradecimento
do Estado por isso. As crianças nascidas dessa maneira poderiam receber o nome que suas mães escolhessem para elas entre os nomes daquele homens freqüentemente numerosos,
para quem elas se tinham dado. A multiplicação da raça exigia isso. Seu cinismo era completo e terrível. Detalhes como aquelas tabuletas do lado de fora das câmaras
de gás, que anunciavam em sete línguas, "BANHOS", onde na realidade existiam câmaras de morte;
as caixas de gás ciclon 7, que estavam rotuladas "VENENO: PARA A DESTRUIÇÃO DE PARASITAS", os parasitas eram, naturalmente, as incontáveis multidões de judeus
inocentes trucidados no espaço de alguns minutos. Quem pode dizer até onde ia a mentira? Talvez os próprios sinais nas cercas eletrificadas do KZ também fossem mentirosos
ou talvez houvesse realmente uma corrente de 6.000 volts eletrificando a cerca. Mas não, isso não era mentira, pois eu me lembro de ter visto uma vez o gigantesco
cachorro do Oberschaarführer Mussfeld correr de contra a cerca, num ponto não muito longe do portão do crematório, e morrer instantaneamente.
Ainda no assunto dos- avisos, não posso me esquecer de mencionar um especial, que era lido por todos os prisioneiros, pois estava colocado à entrada do campo.
Ele exortava-os com essas palavras: "LIBERDADE ATRAVÉS DO TRABALHO". Aqui temos um exemplo concreto do que essas palavras realmente significam. Um dia, um trem de
carga parou na plataforma de desembarque de Auschwitz. As portas se abriram e trezentos prisioneiros foram despejados. Sua pele tinha uma coloração esverdeada e
seu estado esquelético estava além de qualquer descrição. Quando entraram no pátio do crematório, aproveitei uma chance para conversar com alguns deles. Aqui esta
em resumo o que disseram:
- Há três meses fomos embarcados em Auschwitz para trabalhar em uma fábrica de ácido sulfúrico. Quando partimos éramos três mil, mas muitos morreram de
vários tipos de doenças. Agora, só trezentos estão de volta e estamos todos sofrendo de envenenamento sulfúrico.
Antes de serem enviados de volta, disseram para eles que viriam se curar e descansar. Meia hora depois eu vi seus cadáveres esquálidos sangrando em frente
aos fornos do crematório. "A liberdade através do trabalho!" "Campo de Repouso . Ate onde uma mente diabólica pode ir? E esses são apenas alguns dos muitos exemplos.
Só para citar mais alguns: durante os meses de junho e julho, milhares de cartões-postais foram distribuídos entre os prisioneiros dos barracões, com instruções
para que fossem enviados a seus parentes ou amigos. Foi rigorosamente especificado que os cartões, em nenhum circunstancia, deveriam conter o nome "Auschwitz" ou
"Birkenau , mas sim "Am Waldsee", que é uma cidade de veraneio localizada perto da fronteira suiça. Os cartões foram inocentemente enviados, e numerosas respostas
foram recebidas. Eu vi algumas dessas respostas serem queimadas, umas cinqüenta mil, segundo testemunhas fidedignas; queimadas numa fogueira montada no meio do pátio
do crematório. Entregar esses cartões de resposta aos remetentes estava totalmente fora de cogitação, pois os últimos tinham precedido os primeiros, isto é, os remetentes
foram queimados antes das cartas. Dessa forma é que a coisa foi feita.
O propósito desse pequeno esquema linha sido o de abrandar os temores crescentes do povo e colocar um ponto final nos rumores que estavam se espalhando a
respeito de campos como Auschwitz.
XIX
NA CÂMARA DE GÁS do crematório no. 1, mil e trezentos cadáveres estavam empilhados. O Sonderkommando já tinha, inclusive, começado a deslanchar os corpos
entrelaçados. O barulho dos elevadores e o ruído metálico do abrir e fechar das suas portas chegavam ao meu quarto. O trabalho estava sendo tocado com força redobrada.
A câmara de gás tinha que ser evacuada, pois outro comboio estava para chegar.
O chefe do Sonderkommando quase botou minha porta abaixo ao entrar como um furacão, sem fôlego, e com os olhos esbugalhados de surpresa e espanto.
— Doutor — disse ele, resfolegando — acabamos de achar no fundo da pilha de mortos uma menina ainda viva.
Agarrei minha maleta que estava sempre pronta e voei para a câmara de gás. Contra à parede semicoberta por outros corpos, vi uma menina presa de convulsões,
debatendo-se desesperadamente contra a morte. O kommando da câmara de gás à minha volta estava em estado de pânico. Nada desse gênero havia jamais acontecido ao
longo de sua terrível carreira.
Removemos o corpo ainda com vida de sob os corpos que a estavam imprensando. Peguei aquele corpinho miúdo de adolescente nos braços e o levei para o quarto
contíguo à câmara da morte, onde geralmente homens do kommando mudavam de roupa para trabalhar. Deitei o corpo num banco. Uma frágil jovenzinha, ela teria no máximo
quinze anos. Aprontei minha seringa e tomando seu braço — ela ainda não havia recobrado a consciência e respirava com dificuldade — apliquei-lhe três injeções intravenosas.
Meus companheiros trouxeram um casacão grosso para cobrir o seu corpo congelado. Outro foi até a cozinha e voltou correndo com um pouco de chá quente e uma sopa.
Todos queriam ajudar, como se se tratasse da própria filha.
A reação não se fez esperar. A jovem foi acometida por um acesso de tosse, que provocou o vômito de uma gosma grossa que veio dos pulmões. Abriu os olhos
e olhou fixamente para o teto. Fiquei atento a qualquer manifestação de vida. Sua respiração tomou-se mais funda e mais regular. Seus pulmões, torturados pelo gás,
inalavam avidamente o ar fresco. Seu pulso começou a tornar-se perceptível, como reação às injeções. Eu esperava impacientemente. As injeções ainda não haviam sido
completamente absorvidas, mas eu sabia que, dentro de alguns minutos, ela iria recobrar a consciência: sua circulação começou a trazer a cor para suas bochechas
e seu rosto delicado tornou-se outra vez humano.
Ela olhava em torno de si com espanto, e nos viu. Ainda não percebera o que lhe havia acontecido e estava incapaz de distinguir as coisas, de saber se estava
sonhando ou realmente acordada. Um véu de brumas obscurecia-lhe a mente. Talvez tivesse uma vaga lembrança de um trem, e da longa viagem que a trouxera até aqui.
Talvez também se lembrasse que entrara na forma para a seleção e antes que pudesse entender o que se passava, viu-se espremida na multidão afoita numa sala muito
iluminada. Tudo tinha acontecido tão depressa. É provável que se recordasse também que ordenaram que se despisse. Essa lembrança lhe era desagradável, mas como todo
mundo, ela submeteu-se resignadamente à ordem. E assim, nua, foi empurrada para outra sala. Esta segunda sala também era fortemente iluminada. Pasma, tinha deixado
seu olhar correr pela multidão espremida ali. Não encontrou ninguém de sua família. Uma angústia muda se apossara de todos. Espremida contra a parede pela massa,
aguardava, com o coração gelado, o que viria em seguida. De repente, as luzes se apagaram e ela foi envolvida numa escuridão absoluta. Alguma coisa havia atingido
seus olhos, agarrado sua garganta e a tinha sufocado. Desmaiou. Aqui sua memória interrompia-se.
Seus movimentos estavam tornando-se mais e mais animados, ela tentou mover as mãos, os pés, mexer a cabeça para um lado e para o outro. Seu rosto foi tomado
por um esgar convulsivo. De repente, agarrou o colarinho do meu casaco e o puxou convulsivamente, tentando com todas as forças erguer-se. Eu a coloquei deitada
várias vezes, mas continuava a repetir o mesmo movimento. Pouco a pouco, porém, foi-se acalmando e deitou-se, completamente exausta. Lágrimas brilhavam em seus olhos
e rolaram pelas maçãs do rosto. Ela não estava chorando. Recebi a primeira resposta às minhas perguntas. Não querendo fatigá-la, fiz-lhe poucas perguntas. Fiquei
sabendo que tinha dezesseis anos e que tinha vindo com os pais da Transilvânia para Auschwitz.
O kommando deu-lhe um pouco de sopa quente que ela bebeu com voracidade. Continuaram trazendo todo tipo de pratos, porém eu não podia permitir que lhe dessem
mais nada. Cobri-a com um cobertor e disse-lhe que deveria tentar dormir um pouco.
Meus pensamentos voaram loucamente. Voltei-me para meus companheiros na esperança de encontrar uma solução. Nós esquentamos a cabeça, pois estávamos diante
de um problema: o que fazer com a garota, agora que fora trazida de volta à vida? Sabíamos que não poderia ficar aqui por muito tempo.
O que poderíamos fazer com uma mocinha no Sonderhommando do crematório? Eu conhecia o passado histórico desse lugar: ninguém saía vivo daqui, nem Sonderkommandos
nem deportados.
Não houve mais tempo para reflexão. Mussfeld chegou, como de costume, para supervisionar o trabalho. Ao passar pela porta ele nos viu agrupados. Aproximou-se
e perguntou-nos o que estava acontecendo ali. Antes mesmo que pudéssemos responder, ele viu a mocinha deitada no banco.
Fiz um sinal para que meus companheiros se retirassem. Eu iria tentar algo que sabia de antemão estar fadado ao insucesso. Três meses no mesmo campo e no
mesmo meio havia criado, apesar de tudo, uma espécie de intimidade entre nós. Além do mais, os alemães geralmente apreciam gente capaz, e enquanto precisam dessa
gente de um certo modo eles os respeitam. Assim era com os alfaiates, sapateiros, carpinteiros e serralheiros. Dos nossos vários contatos, pude concluir que Mussfeld
me tinha em grande consideração pelas minhas dualidades profissionais. Ele sabia que o meu superior era o Dr. Mengele, a figura mais temida do KZ que, estimulado
pelo orgulho racial, tinha-se tornado uma das figuras mais representativas da ciência médica alemã. Ele considerava o envio de milhares e milhares de judeus para
as câmaras de gás como um dever patriótico.
O trabalho executado na sala de dissecação era o porvir da ciência médica do Reich dos Mil Anos. Como expert em patologia do Dr. Mengele, eu também tinha
uma participação nesse progresso e talvez daí viesse a explicação para um certo tipo de respeito que Mussfeld tinha por mim. Ele vinha me ver com freqüência na sala
de dissecação, onde conversávamos sobre política, a situação militar e vários outros assuntos. Parecia-me que o seu respeito também vinha do fato de que considerava
a minha tarefa de dissecar cadáveres e seu sangrento ofício de matar gente como trabalhos afins. Ele era o comandante e o melhor atirador do crematório no. 1. Três
outros SS atuavam como seus subalternos imediatos. Juntos, eles executavam com uma bala na nuca. Esse tipo de morte era reservada para aqueles escolhidos no campo,
ou então, enviados para o assim chamado "campo de repouso". Quando havia apenas uns quinhentos ou menos, eles eram liquidados com uma bala na nuca, pois a grande
fábrica da câmara de gás estava reservada para os números importantes. O mesmo gás necessário para eliminar quinhentos servia para três mil. Nem valia a pena chamar
o carro da Cruz Vermelha para trazer os carrascos do gás e as caixinhas. Nem mesmo era interessante mandar o caminhão recolher um punhado de trapos. Tais eram os
fatores que determinavam se o grupo iria morrer pelo gás ou pelo tiro dos SS.
E esse era o homem com o qual eu teria que "negociar", o homem ao qual eu deveria pedir para poupar uma única vida. Calmamente relatei o terrível caso com
o qual nos defrontávamos. Descrevi o que a menina deveria ter sofrido na sala de despir e as cenas horríveis que precediam a morte na câmara de gás. Quando a sala
ficou às escuras, ela respirou umas golfadas de ciclon. Somente poucas, pois seu corpo frágil sucumbiu sob a multidão, na enlouquecida luta pela vida. Por acaso,
ela caiu com o rosto num canto onde havia umidade. Essa pequena umidade a manteve viva, pois o ciclon não atua sob condições úmidas.
Estes eram os meus argumentos e lhe pedi que fizesse alguma coisa por ela. Ele me escutou em silêncio e então perguntou o que exatamente eu propunha fazer.
Notei, por sua expressão, que o havia colocado face a um problema praticamente insolúvel. Era óbvio que a moça não podia permanecer no crematório. Uma solução seria
colocá-la em frente ao portão do crematório. Um kommando de mulheres sempre trabalha ali. Ela nunca contaria o que lhe havia acontecido. A presença de uma cara nova
em meio a milhares de prisioneiras nunca seria notada, pois ninguém no campo conhecia todos os prisioneiros.
Se fosse uns três ou quatro anos mais velha, o plano poderia ter funcionado. Uma moça de vinte anos seria capaz de compreender claramente as circunstâncias
miraculosas de sua sobrevivência e teria bastante percepção para não falar a ninguém sobre essas circunstâncias. Esperaria por tempos melhores, como tantos milhares
estavam esperando para contar o que tinha passado. Mas Mussfeld achava que uma menina de dezesseis anos, em toda a sua vaidade, iria dizer à primeira pessoa que
encontrasse de onde tinha vindo, o que havia presenciado e pelo que havia passado. A notícia se espalharia como um rastilho de pólvora e todos nós teríamos que pagar
por isso com a própria vida.
— Não há como sair disso — concluiu ele — a menina deve morrer.
Meia hora depois, ela foi arrastada para a sala das fornalhas e aí Mussfeld enviou outro para fazer o trabalho. Uma bala na nuca.
XX
NA PORTA AO LADO do alojamento SS, no segundo andar do crematório no. 2, funcionava uma carpintaria onde três carpinteiros trabalhavam, atendendo a qualquer
ordem que lhes era dada. No momento, estavam cumprindo uma "ordem particular". Mussfeld havia ordenado aos carpinteiros que fizessem um sofá-cama. Ele deveria estar
pronto mais breve possível.
Não era um trabalho fácil, mas nos crematórios não havia a palavra "impossível" quando se tratava de cumprir uma ordem recebida. Os carpinteiros haviam juntado
suficiente madeira pelos arredores do crematório. As molas vieram de poltronas trazidas pelos deportados para tornar a viagem um pouco mais confortável para seus
pais idosos. Centenas dessas poltronas estavam abandonadas no pátio do crematório e nós as usávamos para sentar depois do trabalho, para descansar e respirar um
pouco de ar puro.
Assim, o sofá foi construído de acordo com as instruções. Para mim, ele havia se tornado um objeto de curiosidade. Eu acompanhava todas as fases de sua construção
até vê-lo acabado. Observei a instalação das molas e sua cobertura com finas tapeçarias Dois eletricistas franceses haviam instalado uma lâmpada de cabeceira e um
lugar para o rádio. Depois de envernizado, ficou bem elegante. Numa casinha burguesa em Mannheim, ele ficaria ainda melhor do que no sinistro ambiente do crematório.
Pois o sofá-cama deveria ser mandado até o fim de semana para a casa de Mussfeld, em Mannheim. Lá esperaria que o vitorioso Ober voltasse da guerra para descansar
os ossos cansados sobre suas molas.
Um dia, uma semana antes do embarque, estava eu no meu quarto e vi uma meia dúzia de pijamas de seda — um complemento natural para o sofá — esperando para
ser juntados à remessa. Eram de seda importada e sua obtenção seria certe-mente impossível lá fora, onde os bilhetes de rações eram necessários para os artigos mais
essenciais. O KZ também tinha seu sistema de rações, um sistema muito melhor do que o imposto em toda a Alemanha, pois fornecia aos que o utilizavam os artigos desejados.
Na sala de despir dos deportados, os artigos estavam à espera de quem os quisesse comprar. Custavam somente um ponto por artigo, um ponto de fogo do revólver do
Ober, quando mandava uma bala na nuca do proprietário.
Em troca desses "pontos", os oficiais SS recebiam jóias, casacos de pele, artigos de couro, sedas e sapatos finos. Não se passava uma semana sem que mandassem
alguns pacotes para casa.
Nos pacotes que enviavam, podiam ser encontrados também, além do já mencionado, chá, café, chocolate e milhares de comidas enlatadas, tudo possível de se
encontrar na antecâmara da morte. Assim, o Ober tivera a idéia de mandar fazer um sofá-cama e enviá-lo para casa.
À medida que eu observava, dia após dia, as fases da construção, uma idéia começou a tomar forma em.minha cabeça. Pouco a pouco transformou-se num projeto.
Em poucas semanas o Sonderkommando seria uma coisa do passado. Nós todos morreríamos e tínhamos plena consciência disso. Até mesmo já nos acostumáramos à idéia,
pois sabíamos que não havia outra saída. No entanto, uma coisa me aborrecia. O Sonderkommando onze também fora exterminado e levara consigo o segredo terrível dos
crematórios e dos carniceiros. Mesmo que nós não sobrevivêssemos, era nosso dever fazer com que o mundo tomasse conhecimento das inimagináveis crueldades e da sordidez
de um povo que fingia ser superior. Era uma necessidade imperiosa que uma mensagem dirigida ao mundo saísse daqui. Mesmo que só fosse descoberta daqui a alguns anos
ainda assim seria um terrível libelo. Essa mensagem seria assinada por todos os membros do Sonderkommando do crematório no. 1, totalmente consciente de sua morte
próxima. Levada para fora das cercas de arame farpado, no sofá-cama, ela ficaria na casa do Oberchaar-führer Mussfeld, em Mannheim.
A mensagem foi aprontada a tempo. Descrevia em suficientes detalhes os horrores perpetrados em Auschwitz, desde o dia de sua fundação até hoje. Os nomes
dos torturadores do campo também estavam incluídos, bem como a nossa estimativa do número de pessoas eliminadas, com uma descrição dos métodos e instrumentos utilizados
para isso.
A mensagem foi redigida em três grandes folhas de papel pergaminho. O editor do Sonderkommando, um pintor parisiense, copiou a mensagem maravilhosamente
em letras desenhadas, como era de costume nos manuscritos antigos, usando tinta da índia para que a cor da escrita não fenecesse. A quarta folha continha a assinatura
dos duzentos homens do Sonderkommando, As folhas foram amarradas juntas com um cordão de seda, depois enroladas, colocadas em um cilindro de zinco, feito especialmente
para esse fim e, finalmente, selado e soldado para proteger o manuscrito da umidade do ar. Nossos carpinteiros colocaram o tubo nas molas do sofá-cama, entre os
enchimentos do acolchoado.
Outra mensagem, exatamente igual à primeira, foi enterrada no pátio do crematório n° 2.
XXI
Eu HAVIA ME ACOSTUMADO a ver um caminhão passar pelo portão do crematório toda noite, por volta das sete horas, carregando setenta a oitenta homens e mulheres
para serem liquidados . Vindos das enfermarias, eram o resultado da seleção diária do KZ. Prisioneiros de vários anos ou de apenas algumas semanas, todos tinham
total consciência do destino que os aguardava. Quando o caminhão entrava no pátio, as paredes ressoavam com os gritos e urros dos infelizes. Sabiam que ao pé das
fornalhas toda esperança de fuga se dissipava.
Não querendo testemunhar a cena diária, eu geralmente me isolava no ponto mais distante do crematório, onde ficava sentado à sombra de umas árvores. O estampido
dos revólveres e os gritos lancinantes chegavam até mim já bastante atenuados.
Uma noite, porém, minha sorte acabou. De cinco horas. em diante tive que ficar trabalhando na sala de dissecação. Era preciso examinar um caso de suicídio
de um Oberschaar-führer SS, cujo corpo me havia sido enviado de Gleiwitz. Um capitão SS (um dos juizes da corte marcial) e um funcionário sentaram-se para assistir
à autópsia.
Por volta das sete horas, quando estava ditando o atestado para o funcionário SS, o caminhão carregado de prisioneiros entrou no pátio. Duas janelas gradeadas
e cobertas com tela contra mosquitos davam para o pátio dos fundos. Todos os ocupantes do caminhão estavam extremamente calmos. Por esse motivo deduzi que não haviam
sido selecionados nos barracões, mas sim nos hospitais. Estavam fracos e doentes demais para gritar ou mesmo para pular do caminhão.
Os guardas SS começaram a ficar nervosos e a gritar, incitando-os a descer. Ninguém se moveu. O motorista também começou a perder a paciência. Entrou novamente
no caminhão e ligou o motor. Pouco a pouco a imensa caçamba começou a se erguer e, de repente, toda aquela massa de infelizes foi atirada ao chão, uma massa agitada,
enlouquecida. Ao cair batiam com a cabeça, se socavam, batiam com os joelhos e rosto no chão de concreto. Finalmente, um grito coletivo de dor ecoou pelo pátio.
O juiz SS, levado pelos gritos e lamentos, interrompeu a investigação para me perguntar:
— O que está acontecendo lá fora?
Chegou até a janela e eu lhe expliquei o que estava acontecendo. Aparentemente não estava acostumado a tais cenas, pois virou-se e disse com ar de desaprovação:
— Mesmo assim, não deviam fazer isso!
O Sonderkommando tirou as roupas dos prisioneiros e amontoou os trapos no pátio. Às vítimas foram levadas até a sala das fornalhas e colocadas diante do
revólver do Oberschaar-führer. O assassino de serviço era Mussfeld. De pé, perto das fornalhas, usando luvas de borracha, ele segurava sua arma com a mão firme.
Um a um os corpos caíam, cada qual deixando seu lugar para o próximo da fila. Em poucos minutos ele havia "tombado" (esse era o termo comumente usado) os oitenta
homens. Meia hora depois todos haviam sido cremados.
Mais tarde, Mussfeld procurou-me para que lhe fizesse um check-up. Estava com problemas cardíacos e sofria de fortes dores de cabeça. Tirei a pressão arterial,
tomei o pulso e ascultei o coração com um estetoscópio. O pulso estava um pouco alto. Dei-lhe minha opinião: seu estado era, sem dúvida, resultante do "trabalhinho"
que havia feito na sala das fornalhas. Minha intenção era tranqüilizá-lo, mas o resultado foi exatamente o oposto. Ele ergueu-se indignado e falou:
— Seu diagnóstico está errado. Não me importa mais matar cinco ou quinhentos homens. Se estou indisposto é somente porque bebo muito.
E assim dizendo, virou-se e foi embora, vivamente contrariado.
XXII
ACABEI ADQUIRINDO O hábito de ler todas as noites na hora de dormir. Uma noite, quando fazia isso, as luzes se apagaram e a sirene começou a soar esganiçada.
Sempre que havia um alarme como esse, todo o Sonderkommando era reunido por guardas SS fortemente armados e levado para o abrigo, isto é, para a câmara de gás.
Cruzamos os portais da câmara de gás com o coração pesado. O kommando em peso estava presente, duzentos homens. Era uma sensação terrível ficar naquela sala,
sabendo que milhares e milhares de pessoas encontraram um fim doloroso lá. Além disso, sabíamos que a vida do Sonderkommando estava por um fio. Se esse fosse o caso,
os SS poderiam simplesmente fechar a porta e derramar quatro caixas de ciclon pelas chaminés, e estaríamos liquidados.
Aliás, tal atitude tinha um precedente. Uma parte do décimo primeiro Sonderkommando havia sido transferida dos alojamentos D para o barracão 13, e foi informado
que, de acordo com as ordens recebidas de cima, eles não ficariam mais nos crematórios e sim nos barracões. Continuariam a trabalhar nos fornos, porém iriam para
o crematório em dois grupos separados. Nessa mesma noite foram levados do alojamento D para tomarem banho e mudar de roupa. Depois do banho foram para outra sala
pegar roupas desinfetadas. Aquela era realmente uma sala de desinfecção e, como tal, tinha de ficar hermeticamente fechada. Normalmente era lá que ficavam as roupas
cheias de piolhos, recolhidas no campo, para serem desinfetadas. Quatrocentos homens do Sonderkommando haviam sido liquidados dessa maneira. De lá, os caminhões
tinham levado seus cornos para a pira funerária.
Assim, nossa ansiedade, enquanto o alarme não acabava, não era infundada. Durou três horas essa angústia. Afinal, saímos da escuridão e pudemos contemplar
a quilométrica cerca de arame farpado novamente iluminada pelos feixes de luz dos inquietos holofotes. Voltei para a cama e tentei dormir, mas o sono demorou bastante
a chegar.
No dia seguinte, ao fazer minha ronda pelo crematório no. 2 o chefe do Sonderkommando de lá me informou muito confidencialmente que, durante o alarme da
noite anterior, um grupo da Resistência entrara no campo. Num ponto distante eles haviam cortado o arame, e deixaram no pátio três metralhadoras e vinte granadas
de mão. Os homens do Sonderkommando descobriram as armas de madrugada e as esconderam num lugar seguro.
As notícias nos deram ligeira esperança para o futuro. Sabíamos que as mãos que nos forneceram essas armas não poderiam estar longe. A partir de uma série
de fatos, pude deduzir que eles estavam operando clandestinamente a uns vinte e cinco ou trinta quilômetros do campo. Tínhamos esperança de que, protegidos por novo
alarme, conseguiriam nos passar mais armas. Ultimamente tinha havido alarme quase todo dia. Mas para nós, os que realmente importavam eram os que ocorriam durante
a noite e duravam um tempo relativamente longo, pois só assim nossos devotados e anônimos amigos poderiam se aproximar do campo. Depois de uns três ou quatro desses
alarmes talvez tivéssemos armas suficientes para abrir caminho para a liberdade.
A organização dessa futura operação estava sendo coordenada pelo crematório no. 3, que mantinha contatos com todos os outros. A coisa estava sendo conduzida
com o máximo cuidado e sigilo absoluto. A morte, na forma das mortíferas metralhadoras dos guardas, rondava cada passo que dávamos Queríamos viver. Queríamos sair
dali. Mas mesmo se a maioria talhasse, mesmo se só um ou dois conseguissem escapar, ainda assim teríamos vencido, pois haveria alguém para contar ao mundo os negros
mistérios dessas fábricas da morte.
Quanto àqueles destinados a pagar com suas vidas, pelo menos não teriam morrido como vermes, esmagados pelas mãos sujas dos carniceiros. Ao contrário, seriam
os primeiros na história do KZ, apesar de estar totalmente em desvantagem numérica e de armas, a semear a morte e a destruição entre seus torturadores antes de morrer
orgulhosamente como homens.
XXIII
O DIA DO EXTERMÍNIO havia chegado para os 4.500 habitantes do Campo Cigano. As medidas tomadas foram idênticas às da liquidação do Campo Tcheco. Todos os
barracões foram postos de quarentena. Os guardas SS, com seus cães, invadiram os barracões e puseram todos para fora, obrigando-os a formar. Rações de pão e salame
foram distribuídas entre os prisioneiros. Aos ciganos foi dito que seriam levados para outro campo, e engoliram a história. Um meio muito fácil e eficaz de acalmar
os ânimos. Ninguém pensou nos crematórios, pois então para que teriam sido distribuídos o pão e o salame?
Essa estratégia da SS era ditada, não por pena nem por consideração aos condenados à morte, mas simplesmente para que pudessem despachar para a câmara de
gás um grupo numeroso, sem incidentes e retardamentos desnecessários, e guardados por uma patrulha relativamente pequena. A estratégia funcionou com perfeição. Tudo
correu como planejado. Durante toda a noite as chaminés do no. 1 e do 2 soltaram imensas labaredas, iluminando sinistramente todo o campo.
No dia seguinte, o Campo Cigano, que era tão agitado e barulhento, estava silencioso e deserto. O único e monótono som que se ouvia era o do arame farpado
roçando um contra o outro e o bater incessante de portas e janelas sob a força do vento das estepes da Volínia.
Mais uma vez os piromaníacos da Europa tinham organizado uma exibição de fogos de artifício. Mais uma vez o cenário fora o campo de concentração de Auschwitz.
Dessa vez, no entanto, as vitimas não foram os judeus, e sim os cristãos: ciganos católicos da Alemanha e da Áustria. Pela manhã, seus corpos haviam sido transformados
numa pilha prateada de cinzas, esperando ser recolhida no pátio do crematório. Os corpos de doze pares de gêmeos não foram entregues às chamas. Mesmo antes de enviá-los
para a câmara de gás, o Dr. Mengele já havia escrito ZS em seus peitos com giz especial.
Nessa coleção de corpos, havia gêmeos de várias idades, de recém-nascidos a adolescentes de dezesseis anos. No momento, eles estavam estendidos no chão do
"necrotério". Corpos de crianças morenas e de cabelos negros. O trabalho de classificá-los por pares era bastante cansativo. Eu precisava ter o cuidado para não
misturá-los, pois se algo acontecesse que tornasse esses raros espécimes imprestáveis para a pesquisa, o Dr. Mengele me faria pagar com a vida.
Dias antes, eu estava com ele examinando as anotações já feitas sobre os gêmeos quando notou uma pequena e tênue mancha de gordura na capa azul de um dos
livros. Eu freqüentemente manuseava os livros no decurso das dissecações, e provavelmente o manchara com um pingo de gordura. O Dr. Mengele lançou-me um olhar furioso
e disse muito sério:
— Como é que pode ser tão descuidado com esses registros que compilei com tanto amor? .
Ao ouvir a palavra "amor" pronunciada pelo Dr. Mengele fiquei estupefato, incapaz de pensar em uma resposta.
XXIV
Eu CONDUZIA o ESTUDO dos doze pares de gêmeos com o maior cuidado possível. Como todos sabem, existem duas espécies de gêmeos — de um óvulo e de dois óvulos.
Gêmeos nascidos do mesmo óvulo são sempre idênticos, não só em suas manifestações internas, como externas, e sempre são do mesmo sexo. São conhecidos também como
idênticos, uniovulares ou monozigóticos. Gêmeos nascidos de óvulos diferentes parecem-se em suas manifestações externas e internas, porém assim como irmãos e irmãs,
se parecem normalmente. Eles são conhecidos como fraternais, biovulares e dizigóticos.
Tais observações constituem, sob o ponto de vista médico, uma das leis básicas de hereditariedade concernente aos gêmeos. Essa lei tem sido utilizada por
aqueles que afirmam que os fatores ambientais, tais como educação, nutrição, as doenças que a pessoa sofreu etc, exercem influências ligeiras sobre a constituição
física, mental e temperamental do indivíduo, e que a hereditariedade tem um papel muito mais relevante. Se os traços que a pessoa herdou de seus antepassados ocorrerem
repetidamente por várias gerações, serão conhecidos como as características hereditárias dominantes.
Essas características hereditárias dominantes podem beneficiar ou prejudicar o indivíduo. Podem, por exemplo, causar uma saudável constituição dentária ou
uma cabeleira generosa que não rareia com o passar dos anos, como também uma hipertensão e, em algumas famílias, diabete. Entre as doenças mentais, a depressão nervosa.
Esses fenômenos hereditários, vantajosos ou não, freqüentemente se manifestam nos recém-nascidos: uma criança nascida com um número excessivo de dedos da
mão ou do pé é um exemplo. Outros fenômenos se desenvolvem mais tarde e se tornam moléstias crônicas, como por exemplo a epilepsia, a asma, a gota, certas formas
de hipertensão, alguns casos de câncer e a catarata, que ocorre somente dos sessenta anos em diante.
Entre esses fenômenos hereditários, geralmente se encontra a peculiaridade da ocorrência maior em um sexo do que em outro. O daltonismo ou a cegueira de
cor congênita e a anemia são duas manifestações mais freqüentes desse fenômeno hereditário definido pelo sexo. Ambas as doenças aparecem somente nos homens, nunca
nas mulheres. A anemia é o exemplo mais óbvio: a forma de anemia hereditária mais comum é aquela que passou de um avô anêmico, através de uma filha saudável, para
a metade dos netos homens. Os filhos homens nunca herdam diretamente do pai anêmico. Cada filho homem e todos seus descendentes permanecerão saudáveis, sejam eles
homens ou mulheres. Mas as filhas de um pai anêmico, embora saudáveis, carregarão com elas as sementes da anemia e cada uma transmitirá a anemia aos seus filhos
homens.
Eu tinha os corpos de um par de gêmeos de quinze anos diante de mim, sobre a mesa. Comecei uma dissecação paralela e comparativa nos dois corpos. Nada digno
de registro foi encontrado nas cabeças. A fase seguinte era a remoção do esterno. Aqui um fenômeno extremamente interessante surgiu: um timo persistente que continuava
á existir. Normalmente o timo é encontrado só em crianças. Ele vai da borda superior do esterno até o coração, cobrindo assim uma extensa área. Com a puberdade,
começa a encolher rapidamente e logo desaparece por completo. Assim que o indivíduo alcança a maturidade sexual, tudo que resta dele é uma pequenina bolsa de gordura
e as sobras de tecido fibroso da antiga glândula.
O timó exerce grande influência no crescimento. Quando murcha muito depressa, o crescimento do indivíduo será pouco, talvez até fique anão e, além disso,
seus ossos serão muito frágeis. Superdesenvolvimento e hipersecreção da glândula são também encontrados em autópsias de crianças que morreram de repente sem motivo
claro, sem terem estado doentes. A hipersecreção é encontrada também em gente jovem que se revelou muito vulnerável às moléstias infecciosas.
Por isso, a descoberta do timo nos gêmeos era de particular interesse, pois não somente estava existindo num jovem de quinze anos, quando deveria ter desaparecido
aos doze, como também era excepcionalmente grande. Dissequei outros dois pares de gêmeos, um de quinze e outro de dezesseis anos, e encontrei o timo murcho em ambos
os casos.
De cada um dos oito gêmeos idênticos, extraí a parte cervical da coluna. A quarta e a quinta vértebras apresentavam uma anomalia: não haviam se fechado na
idade de doze ou treze anos, mas permaneceram abertas, mesmo no caso dos gêmeos de quinze e dezesseis anos. Essa anomalia, chamada "spina bífede , é um estado patológico
cujas conseqüências podem ser extremamente sérias.
Um indivíduo desenvolve-se para ambas as direções da coluna, isto é, para cima, em direção ao crânio, e para baixo em direção a pelvis, ou melhor, aos ossos
caudais. O desenvolvimento e chamado caudal ou craniano, dependendo da tendência predominante. No caso presente, a tendência fora craniana em todos os gêmeos, uma
vez que a "spina bifide" e o osso transverso que permaneceu aberto eram fenômenos degeneratórios.
Outra anomalia que encontrei em em cinco pares de gêmeos foi a não fixação da décima costela. Normalmente essa costela é soldada ao esterno. O fato de estar «flutuando»
resultava de uma irregularidade do crescimento da coluna na direção da pélvis.
Passei essas observações para o papel de um modo mais precioso e científico do que usei para descrevê-las aqui. Mais tarde passei metade do dia numa discussão
com o Dr Mengele tentando esclarecer alguns pontos duvidosos. Na sala de dissecação e no laboratório eu deixava de ser um humilde prisioneiro do KZ e consequentemente
podia defender e explicar meus pontos de vista, como se aquilo fosse uma conferência médica da qual eu era membro. Contradisse o Dr. Mengele em várias ocasiões e
discordei de uma de suas hipóteses.
Conheço bem os homens. Parecia-me que minha atitude firme minhas frases medidas e mesmo meu silêncio eram as qualidades pelas quais conseguira fazer com
que o Dr. Mengele, que a todos fazia tremer, me oferecesse um cigarro durante uma discussão particularmente animada, esquecendo "por alguns momentos as circunstâncias
do nosso relacionamento.
XXV
UMA VEZ, quando dissecava o corpo de um homem já idoso, descobri umas maravilhosas pedras em sua vesícula. Sabendo que o Dr. Mengele era um ardoroso colecionador
de tais artigos, lavei as pedras, sequei-as e depois coloquei-as num vidro grande, que tampei com uma "rolha de vidro". Colei uma etiqueta no frasco, dizendo o nome
da pessoa, que tipo de pedras eram e suas características patológicas. Quando o Dr. Mengele voltou à minha sala, entreguei-lhe as pedras. Ele admirou os cristais.
Girando os frascos nas mãos, não deixava de admirar as pedras e, de repente, virando-se para mim, perguntou-me se conhecia a balada do guerreiro Wallenstein. Sua
pergunta estava completamente em desacordo com a situação e o ambiente, mas respondi:
— Conheço a história do guerreiro Wallenstein, mas não a balada.
Sorrindo, ele começou a recitar:
"Im Besitze der Familie Wallenstein
Ist merh Gallenstein, wie Edelstein."
o que, traduzido, seria mais ou menos assim:
"Na família Wallenstein
Existem mais cálculos renais do que pedras preciosas"
Meu superior recitou várias estrofes dessa balada cômica. Ele estava de tão bom humor que resolvi pedir-lhe um grande favor: que me deixasse ir procurar
minha mulher e minha filha. Somente depois de ter formulado o pedido, percebi o quanto de ousadia ele encerrava, mas já era tarde para retroceder. Ele encarou-me
cheio de surpresa.
— Você é casado e tem uma filha?
— Sim, capitão, sou casado e tenho uma filha de quinze anos — respondi com a voz embargada pela emoção.
— Acha que ainda estão vivas?
— Sim, capitão, pois quando de nossa chegada, há três meses, o senhor mandou-as para a fila da direita.
— Elas podem ter sido enviadas para outro campo — disse. De repente, meu pensamento se prendeu na fumaça do crematório: talvez já tenham sido despachadas
com essa fumaça para algum campo celestial. O Dr. Mengele permaneceu sentado, sua cabeça pendendo para a frente como se imerso em profundos pensamentos. Eu continuei
parado atrás dele.
— Vou lhe dar uma autorização para procurá-las, mas... — e colocando o dedo indicador sobre os lábios, me olhou ameaçadoramente.
— Entendi, capitão, muito obrigado.
O Dr. Mengele saiu. Voltei para meu quarto completamente eufórico, segurando firme a autorização com ambas as mãos. Uma vez no quarto, comecei a ler: "O
no. A 8450 está autorizado a circular livremente dentro do KZ de Auschwitz. Assinado, Dr. Mengele, SS Hauptsturmführer." Nunca, pelo que me constava, havia tal coisa
acontecido na história do campo. Eu realmente não sabia por onde começar. As mulheres ficavam confinadas nos Campos C, B3 e FK4. Pelo que sabia, a maioria das mulheres
húngaras estava no campo C. E decidi que seria por lá que a busca teria inicio.
No dia seguinte, acordei ainda cansado, pois não havia conseguido pregar olho a noite toda. Dúvidas terríveis me assaltavam. Aqui, três meses eram uma eternidade,
e uma infinidade de coisas poderia ter acontecido. Minha posição no KZ fez-me perceber muito bem o que acontecia no interior dessas paredes sangrentas.
Entrei no escritório da SS para comunicar minha partida e despedir-me de meus companheiros, que me desejaram toda a sorte do mundo. Embora ainda fosse bem
cedo, o sol do outono já estava queimando quando iniciei minha jornada de três quilômetros. Em linha reta, o Campo C ficava consideravelmente perto, mas tinha que
permanecer dentro dos limites das cercas, e por isso fui obrigado a dar diversas voltas. Com uma mistura de curiosidade e medo, entrei na zona neutra cercada de
arame eletrificado. Eles nunca atiram sem antes advertir, após se ter passado pelo arame farpado. Patrulhas de motociclistas com a plaqueta — "Lagerpolizei" (Policia
do Campo) — rondavam o campo. Encontrei várias dessas patrulhas durante minha caminhada, mas nenhuma molestou-me.
Ao chegar ao Campo C, avistei um imenso portão de ferro plantado à minha frente. Suas portas tinham vários isolantes de porcelana, reforçados com arame farpado.
Em frente ao portão, a inevitável casa da guarda. Alguns soldados SS estavam apanhando sol. Olharam-me de cima a baixo, pois eu era um hóspede incomum, porém nada
disseram. Não se intrometiam em negócios que só diriam respeito aos seus camaradas na casa da guarda. Aproximei-me e dei-lhes o número tatuado. Olharam-me cheios
de curiosidade. Tirei o passe do Dr. Mengele do bolso e entreguei a eles. Depois de examiná-lo, ordenaram aos outros soldados que abrissem o portão, e me perguntaram
por quanto tempo eu pretendia permanecer no campo, pois, como sempre, precisavam registrar a informação.
— Até o meio-dia — disse calmamente. Eu sabia que estava exagerando, mas o costumeiro suborno do maço de cigarros foi suficiente para conseguir seu assentimento.
Dei-lhes o maço e passei pela fronteira de arame.
A estrada principal do campo C, flanqueada por barracões esverdeados caindo aos pedaços, estava muito animada. Algumas mulheres estavam carregando um imenso
caldeirão de sopa, pois aqui o almoço era servido às dez horas. Outro grupo — um kommando de estrada — estava em plena atividade, carregando pedras para a reparação
das estradas do campo. Várias mulheres estavam estendidas ao sol, ao longo de ambos os lados da via principal. Tinham os corpos cobertos de trapos, as cabeças raspadas;
eram um triste espetáculo. Muitas estavam vestidas da maneira mais fantástica possível — uma usava uma camisola sem mangas — e estavam sentadas no chão, ocupadas
em catar seus próprios piolhos ou os da companheira. As partes expostas de seus corpos estavam cobertas de feridas, arranhões e hematomas. Era dessa seção que partiam
grupos de prisioneiras para campos mais distantes. Pelo que pude saber, as seleções eram feitas com muito rigor, pois todas que sobravam aqui pareciam ser as
mais combalidas. Felizardas eram aquelas enviadas para campos mais distantes, pois ainda tinham uma chance de sobreviver, enquanto o destino dessas estava selado,
um destino idêntico ao do Campo Cigano.
Caminhei em direção ao primeiro barracão. De repente me vi cercado de gritos e súplicas. Aqueles corpos que vi estendidos, cobertos de trapos ou arrastando-se
pelos cantos, ganharam vida e, deixando seus lugares, correram em minha direção. Fui reconhecido por cerca de vinte mulheres que me cercaram e suplicavam angustiadas
por notícias de seus maridos e filhos
Se me reconheceram foi porque eu tinha conseguido viver de modo a ainda parecer um ser humano. Para mim, era quase impossível reconhecê-las, de tanto que
haviam mudado. Minha situação no meio daquela multidão histérica estava começando a ficar embaraçosa. Cada vez, mais mulheres vinham se juntar à roda. Todas queriam
saber alguma coisa sobre suas famílias. Por três meses haviam vivido sob um regime implacável e um medo constante. Aqui, havia seleção uma vez por semana. Três meses
era tempo suficiente para que aprendessem a ter saudades do passado e a temer o futuro.
Muitas me perguntavam se era verdade o que tinham ouvido falar sobre os crematórios. O que era aquela fumaça saindo todos os dias das chaminés e as labaredas
que as substituíam à noite? Eu tentava acalmá-las, negando tudo.
—- Não, não é verdade — repeti depois de cada pergunta ou afirmação. — Além disso, a guerra está quase no fim e logo iremos para casa — disse, sem muita
convicção.
Deixei-as sem ter tido notícias de minha filha e de minha mulher. Entrei no primeiro barracão e pedi à supervisora, uma moça eslovaca, para chamar os nomes
de minha mulher e minha filha. Havia entre oitocentas e mil mulheres acotoveladas nos beliches ao longo das paredes. Uma só voz feminina chamando os nomes em meio
à incrível balbúrdia feita por todas aquelas infelizes não era nada fácil. A supervisora voltou minutos depois para me dizer que a busca tinha sido infrutífera.
Agradeci a sua gentileza e entrei no segundo barracão.
Aqui a situação não era muito diferente; a mesma cena se repetiu com o mesmo resultado negativo. No terceiro barracão fiquei parado no meio do salão. Novamente
recorri à supervisora e ela enviou duas mocinhas, uma para cada extremo do alojamento, para chamar os nomes que pedi. Em poucos minutos voltaram trazendo minha
filha e minha mulher!
Elas se aproximaram de mãos dadas, os olhos arregalados de medo, sabendo das prováveis conseqüências de chamadas pessoais. Mas no mesmo instante me reconheceram.
Pararam, perplexas, sem acreditar no que viam, fulminadas. Eu me aproximei delas, tomei-as nos braços e apertei seus corpos magros num longo abraço. Elas não foram
capazes de falar, mas se contentaram em chorar baixinho. Tentei consolá-las, tranqüilizá-las, mas novamente a multidão nos cercou. Naquelas circunstâncias, não era
possível conversar. Pedi à supervisora que nos deixasse usar seu quartinho por alguns minutos. Ai, finalmente, pudemos ficar a sós.
Contaram-me sobre sua triste experiência nos últimos três meses: as temidas seleções das quais até agora haviam escapado; porém cada vez que pensavam nisso
tremiam de pavor. Vestidas com trapos, sofriam perpetuamente de frio e de fome. Chovia dentro do barracão e suas roupas nunca chegavam a secar completamente. A comida
era intragável e o pior é que não podiam dormir. O lugar que lhes fora destinado havia sido concebido para alojar sete pessoas: doze estavam amontoadas lá. Mulheres
cujo nível social em suas antigas vidas era bem alto chutavam-se e empurravam-se para obter alguns centímetros a mais, esperando assim dormir menos mal, mesmo que
isso custasse o sacrifício de suas companheiras. Todas aqui haviam perdido sua antiga personalidade. Amigas ou estranhas, cada qual se preocupava única e exclusivamente
com seu próprio bem-estar, incapazes de fazer a mínima concessão. Minha filha informou-me que dormia no chão de concreto, pois ninguém lhe dava espaço no catre onde
sua mãe dormia. Minha esposa perguntou-me acerca do meu trabalho. Expliquei-lhe que era assistente do Dr. Mengele e, como tal, membro do Sonderkommando. Depois de
três meses de KZ, as duas haviam aprendido que Sonderkommando era o kommando dos mortos--vivos. Ambas olharam-me consternadas. Tranqüilizei-as o melhor que pude
e prometi voltar no dia seguinte.
A noticia do meu encontro com minha mulher e filha causou euforia no crematório. Peguei roupas quentes, meias e roupa de cama do departamento de roupas;
escovas de dentes, cortador de unhas e pentes da seção de artigos de toalete. Da farmácia consegui um estoque de vitaminas, lenimento para as feridas e tudo
mais que pudesse ser útil. Peguei o que podia levar, o que era muito mais do que as duas precisavam. Além disso, enchi minha sacola com açúcar, manteiga,
geléia e pão em quantidade suficiente para distribuir entre as outras prisioneiras. Assim parti lotado para o Campo C. Mas tudo que é bom dura pouco.
Durante três semanas, visitei-as diariamente. Um dia, o que temia finalmente aconteceu. Eu já havia chegado à conclusão de que depois do extermínio do Campo
Tcheco e do Campo Cigano, tudo era somente uma questão de tempo. Cedo ou tarde o fim viria para aqueles que passavam seus dias na miséria extrema do confinamento
de Auschwitz.
Uma tarde estava sentado em minha mesa de trabalho no laboratório. O Dr. Mengele e o Dr. Thilo estavam presentes discutindo problemas concernentes à administração
do KZ. O Dr. Mengele ergueu-se subitamente, como se tivesse tomado uma decisão, e falou para seu colega:
— Não estou mais disposto a aumentar as miseráveis do Campo C. Vou mandar exterminá-las nas próximas semanas.
Essas cenas quase sempre aconteciam na minha presença. Assuntos de natureza superconfidencial eram discutidos na minha frente como se eu não existisse. Afinal,
quem iria se preocupar com um morto-vivo, cuja presença era igual a nada?
Fiquei totalmente aturdido com aquela revelação, pois afetava não só a minha família como a milhares de compatriotas. Eu tinha que agir imediatamente.
Assim que o Df. Mengele e o Dr. Thilo deixaram o crematório, saí atrás deles e segui para o Campo D, onde estava instalada uma turma da SS que supervisionava
a incorporação de prisioneiros estrangeiros aos batalhões de trabalhos forçados. Nesse campo ficavam recolhidos os prisioneiros escolhidos para trabalhos forçados
em fábricas de toda a Alemanha. O chefe era um Oberschaarführer. Encontrei-o a sós em seu quarto. Apresentei-me e mostrei-lhe o passe do Dr. Mengele.
Expliquei que minha mulher e minha filha estavam no Campo C. Depois de tê-las encontrado com o auxilio do Dr. Mengele, estive fazendo tudo que podia por
elas. No entanto, sabia o destino que aguardava ó Campo C e por isso queria dar um jeito de mandar minha família para longe. Ele prometeu ajudar-me.
Naquela semana, 3.000 prisioneiras do Campo C iriam ser enviadas para as fábricas da Alemanha Ocidental.
— Essas fábricas são o que há de melhor — explicou. — O alojamento e a comida não são preparados para exterminar, mas para manter o bom estado físico a fim
de que se consiga o máximo de produtividade.
Deixei uma caixa com cem cigarros sobre sua mesa. Ele aceitou e prometeu que se minha mulher e minha filha se oferecessem como voluntárias, durante a seleção,
seriam encaixadas no primeiro ou no segundo comboio. Eu tinha conseguido o que queria. Corri para o Campo C, mas lá meu trabalho seria ainda mais difícil. Tive de
fazer minha família compreender a necessidade de sair dali. É claro, a verdade não poderia ser dita, pois iniciaria o pânico e isso seria fatal para todos. Usei
de todos os argumentos para fazê-las entender que, por mais doloroso que fosse para nós, teriam de partir. Elas teriam que renunciar à minha ajuda. De minha parte,
eu também teria que renunciar ao prazer de vê-las e ajudá-las. Em algum dia dessa semana iria haver uma seleção para o preenchimento de uma cota de comboio. Elas
deveriam se oferecer como voluntárias para um dos comboios, de preferência o primeiro. Expliquei à minha esposa que sérios motivos me obrigavam a avisá-las e pedi-lhe
que contasse a todas as suas conhecidas, mas não dissesse nada além disso.
Devo acrescentar que, durante a seleção para o preenchimento de cotas, os SS primeiro aceitavam as voluntárias e só usavam a incorporação arbitrária quando
o número de voluntárias não alcançava o previsto. Houve poucas voluntárias, uma vez que ninguém queria trocar as vantagens da presente situação — isto é, não trabalhar
— por outra. Poucas quiseram oferecer-se para os trabalhos forçados, mesmo sabendo que a comida no KZ era insuficiente para sustentar a vida. Pobres mulheres de
pouca visão! Se ao menos tivessem compreendido a mentalidade das autoridades do KZ, teriam percebido que quem não trabalha não vive.
Minha mulher e minha filha, no entanto, compreenderam as minhas razões para pedir-lhes que tomassem aquela atitude e prometeram se apresentar na convocação
inicial. Despedi-me delas, mas avisei que voltaria dai a dois dias para trazer agasalhos e comida para a viagem.
No fim de dois dias, voltei ao Campo C para me despedir e levei roupas e provisões. Mas não fui sozinho. Era possível encontrar alguns oficiais pela frente
e eles podiam ficar curiosos. Por isso pedi a um dos guardas SS do crematório, a quem eu havia tratado de pleurisia, para vir comigo e me ajudar a carregar os embrulhos.
Desta vez não as visitei no barracão, mas arranjei para que fossem me encontrar num ponto distante e deserto, num entroncamento da cerca de arame farpado. Foi lá
que conversamos. Jogamos os pacotes por cima da cerca. O lugar era tão distante que ninguém nos viu. Com o arame farpado separando-nos, era impossível nos beijarmos.
Nos poucos minutos que passamos juntos, minha esposa assegurou-me que tudo havia corrido como o planejado. Ela e nossa filha tinham sido aceitas no comboio
assim não precisei recorrer à ajuda do Oberschaarführer. Fiquei feliz em saber que muitas das outras mulheres do campo aceitaram o conselho de minha esposa e ofereceram-se
para ir no comboio.
XXVI
TRÊS DIAS MAIS TARDE voltei ao Campo C para verificar e ter certeza de que haviam partido. Obtive essa certeza; elas partiram no primeiro comboio. Eu não
sabia o que o futuro teria planejado para elas, mas de qualquer forma fiquei aliviado, pois ali a morte seria tão certa como dois e dois são quatro. Agora, com um
pouco de sorte poderiam escapar com vida. As indicações de que a guerra estava chegando ao fim ficavam cada vez mais evidentes. O túmulo do III Reich já estava sendo
cavado. Eu tinha o pressentimento de que, a essa altura do jogo, as chances de sobrevivência de um prisioneiro estavam em função da distância em que ele se achava
de campos de concentração do tipo de Auschwitz. O que significava que minhas próprias chances estavam ficando menores a cada dia que se passava. Qualquer que fosse
a minha sorte, eu agora estava tranqüilo, sabendo da distância que separava minha família das piras funerárias. Não era nem medo nem desespero que mantinha a idéia
da morte predominar na minha cabeça, mas sim a lembrança do sangrento fim do décimo-primeiro Sonderkommando, pressagiando o nosso, e ainda uma atitude fria e objetiva
desprovida de qualquer sentimentalidade.
Assim que sai do Campo C, deixei minha vista vaguear pelas fileiras de barracas. Foi com uma mistura de tristeza e compaixão que mais uma vez observei o
espetáculo grotesco de nossas mulheres e meninas: elas, que um dia foram atraentes, tão meticulosas em se maquilar e se arrumar, estavam agora carecas e cadavéricas,
vestidas com farrapos, despidas de qualquer dignidade humana, fantasmas de sua antiga figura.
Voltando ao crematório, de repente me encontrei tiritando de frio e percebi que o outono havia chegado: já estávamos no final de setembro. O vento norte,
que descia dos picos nevados das montanhas, cantava em meio ao arame farpado e batia as janelas diabolicamente. O único pássaro que habitava essa região esquecida
de Deus, o corvo, voava sob o céu de chumbo. Dos crematórios construídos para durar eternamente, o vento levava nuvens de fumaça e com elas o odor característico
de carne e cabelos queimados.
Meus dias transcorriam na indolência, minhas noites eram passadas em claro. Estava terrivelmente deprimido, toda a vontade de viver havia-me abandonado desde
a partida de minha família. A solidão me oprimia e minha própria inatividade me assombrava. Durante aqueles últimos dias, o silêncio e o tédio pairaram pesadamente
sobre Auschwitz. Um mau sinal — e minha intuição era simplesmente infalível — um presságio de que mais ações sangrentas estavam por vir. O décimo-segundo Sonderkommando
já tinha vivido seus quatro meses. As areias de nosso tempo restrito estavam escorrendo velozmente. Tínhamos somente mais alguns dias — no máximo uma semana ou duas
— para viver.
A decisão do Dr. Mengele de exterminar o Campo C foi levada adiante. Toda noite, cinqüenta caminhões traziam as vítimas (quatro mil por noite) para os crematórios.
Uma visão dantesca esses caminhões em caravana, seus faróis tateando a escuridão, cada um carregando sua carga humana de oitenta mulheres que, ou enchiam o ar com
seus gritos, ou ficavam sentadas, mudas, paralisadas de medo.
Num desfile lento, os caminhões chegavam e despejavam as mulheres, já totalmente despidas, ao pé da escadaria que conduzia à câmara de gás. Dali eram rapidamente
empurradas para baixo. Todas sabiam para onde estavam indo, mas os rigores desses quatro meses de cativeiro, os castigos corporais que sofreram e a desintegração
de seu sistema nervoso reduziram-nas a tal estado de penúria geral que elas não estavam mais em condições de opor nenhuma resistência nem de sentir dor. Elas se
deixavam passivamente conduzir para a câmara da morte. Exaustas de tanto serem perseguidas, de viver no medo constante, apalermadamente esperavam as mãos do médico
infalível — a morte. Para elas a vida havia perdido todo o significado e todo o propósito. Prolongá-la significava simplesmente prolongar o sofrimento.
E que longo caminho haviam percorrido para chegar até aqui. Como estava cheio de dor cada passo dessa estrada. Primeiro, seus lares aconchegantes e confortáveis
se viram invadidos e saqueados. Depois, juntamente com seus maridos, filhos e pais, transportadas até os fornos de cozer tijolos num ponto afastado da cidade, onde
por semanas foram obrigadas a viver e dormir nos lamaçais formados pelas chuvas da primavera. Aqueles eram os guetos, dos quais pequenos grupos eram levados todos
os dias para as câmaras de torturas especialmente preparadas com os mais recentes instrumentos para fazer "falar". Durante horas e dias foram interrogados, até confessarem
o esconderijo de seus bens ou com quem haviam ficado. Muitos morreram em conseqüência desses interrogatórios. Os que sobreviveram viram-se aliviados ao serem embarcados,
oitenta ou noventa de cada vez nos vagões selados, pois aquilo significava que estavam deixando as câmaras de tortura para trás.
Ou pelo menos assim pensavam. Durante cinco ou seis dias viveram naqueles vagões, observando os mortos se empilharem ao seu lado, até que, por fim, chegaram
à rampa de desembarque de judeus em Auschwitz.
Já sabemos o que lhes aconteceu aqui. Com o coração em pedaços ao verem-se separadas dos maridos e filhos, transidas de medo, mandadas na hora da seleção
para a coluna da direita, elas finalmente chegaram ao seu novo lar — o Campo C. Mas antes de entrar nos infectos barracões, eram obrigadas a passar por outra humilhação
degradante: os banhos.
Mãos brutais cortavam seus cabelos e lhes arrancavam as roupas. Depois dos banhos, recebiam trapos que nem o mais vil mendigo teria ao menos tocado. Nessas
"roupas" recebiam o primeiro dividendo do III Reich: piolhos.
Após essa recepção, começavam suas vidas no confinamento das cercas de arame farpado do KZ, a vida das mortas-vivas. A comida que recebiam era suficiente
para mantê-las com vida, mas insuficiente para fazê-las viver. A inexistência de albumina em seus sistemas fazia com que suas pernas pesassem como chumbo. A ausência
de gorduras provocava inchação nos corpos. A menstruação cessava. Como resultado disso, tornavam-se irritadiças e cada vez mais nervosas, tinham enxaquecas e hemorragias
nasais. A falta de vitamina B causava um entorpecimento perpétuo e amnésias parciais: freqüentemente não conseguiam mais se lembrar dos nomes das ruas onde moraram
ou do número de suas casas. Somente seus olhos ainda estavam vivos, mas mesmo neles a luz da inteligência não brilhava mais.
Sob essas circunstâncias é que se submetiam às chamadas diárias, que demoravam várias horas. Quando desmaiavam, eram acordadas com um balde de água gelada
no rosto, seus olhos invariavelmente viravam-se para as nuvens de fumaça que cobriam o campo ou para as labaredas que fugiam da boca das chaminés. Esses dois sinais,
fumaça e chamas, lembravam-nas dia e noite que estavam vivendo à portas de outro mundo.
As prisioneiras do Campo C viveram durante quatro meses à sombra dos portões dos crematórios; levou apenas dez dias para que quarenta e cinco mil corpos
atormentados passassem por eles e lá entregassem a alma. Sobre o Campo C, cujos arames tinham cercado tantas tragédias, desceu um silêncio sepulcral.
XXVII
O SONDERKOMMANDO estava só esperando o golpe final. Dias após dia, semana após semana, o terror vinha rondando nossas cabeças, sustentado por cordéis finíssimos.
E agora, em um dia ou dois, ele desceria fulminante, trazendo consigo a morte instantânea, deixando em sua esteira apenas um monte de cinzas prateadas. Nós estávamos
prontos para ele. A cada minuto esperávamos a chegada dos nossos executores SS.
Na madrugada de 6 de outubro de 1944, um tiro partiu de uma das torres de vigia, matando um prisioneiro que escapara da zona neutra para a área entre a primeira
e a segunda linha de guardas que cercavam o campo. O prisioneiro, um ex-oficial russo, fora mandado para cá por ter tentado escapar de um campo de prisioneiros de
guerra. Tudo indica que tentava fugir de novo quando um guarda o acertou.
Uma comissão política, chefiada pelo Dr. Mengele, saiu em campo para proceder às investigações de praxe. Se a vítima tivesse sido um judeu, seu corpo teria
sido embarcado diretamente para o necrotério e de lá para o crematório, e isso encerraria o caso. Mas uma vez que se tratava de um oficial russo cujo nome e dados
pessoais se achavam registrados nos livros de campo, tal norma não podia ser seguida. O laudo da autópsia seria necessário para explicar sua morte. O Dr. Mengele
mandou enviar seu corpo para o necrotério com ordens de que fosse feita a autópsia. O laudo deveria estar pronto às 14:30.
O Dr. Mengele viria pessoalmente apanhá-lo para conferir seus resultados com um exame que faria no corpo.
Eram nove horas da manhã quando o Dr. Mengele saiu da sala de dissecação. O corpo já estava estirado sobre a mesa e eu teria completado a autópsia em trinta
ou quarenta minutos se aquele não fosse o dia 6 de outubro de 1944, o penúltimo dia do tempo de vida destinado ao Sonderkommando. Não tínhamos certeza de nada, mas
eu sentia a iminência da morte.
Uma vez que estava incapaz de trabalhar, deixei a sala e fui para o meu quarto, planejando tomar uma dose reforçada de pílulas para dormir. Fumei um cigarro
atrás do outro, tinha os nervos completamente estraçalhados. Sem condições de ficar parado, saí caminhando e passei pela sala de incineração, onde um kommando trabalhava
sem muita pressa, apesar das pilhas de corpos amontoados em frente às fornalhas. Estavam reunidos em pequenos grupos e falavam aos sussurros. Subi para os alojamentos
dos kommandos e notei que algo não ia bem. Normalmente depois da chamada da manhã e do café, o turno da noite mudava, mas àquela hora, quase dez da manhã, todo mundo
ainda estava lá. Também notei que usavam suéteres e botas, embora o alojamento estivesse banhado pelo sol quente de outubro. Aqui muitos homens estavam reunidos,
enquanto outros moviam-se ativamente, arrumando e empacotando suas roupas em valises. Era óbvio que alguma espécie de trama estava sendo engendrada. Mas o quê?
Entrei na casinhola que servia de alojamento ao chefe do kommando e encontrei vários líderes do turno da noite sentados em torno da mesa: o engenheiro o mecânico,
o chefe dos motoristas e o chefe da câmara de gás' Nem bem eu me sentara, o chefe do kommando pegou uma garrafa quase vazia e encheu-me um copo de hrandy. Era uma
eau-de-vie polonesa, bastante forte. Esvaziei meu copo de um so gole. Agora, nas derradeiras horas dos quatro meses do Sonderkommando, a bebida não podia ser chamada
de elixir da longa vida, mas era, sem sombra de dúvida, um excelente remédio para disfarçar o medo da morte. Meus companheiros traçaram um panorama detalhado
de nossa situação. Tudo indicava que a liquidação do Sonderkommando não se daria antes do dia seguinte ou talvez mais tarde. Planos minuciosos haviam sido feitos
para os 860 homens do Sonderkommando abrirem caminho a bala para fora do campo. A revolta estava marcada para aquela noite.
Uma vez do lado de fora, iríamos em direção à curva do Vístula, dois quilômetros acima. Nessa época do ano, o no estava mais raso e poderia ser atravessado
facilmente. A oito quilômetros do Vístula existiam grandes florestas, que se estendiam até a fronteira polonesa, nas quais poderíamos viver durante semanas e, quem
sabe, até meses se necessário, em relativa segurança. Ou talvez encontrássemos algum grupo da Resistência pelo caminho. Nosso estoque de armas era suficiente. Durante
os últimos dias, centenas de caixas com explosivos chegaram ao campo vindas de uma fábrica de munição que empregava judeus poloneses como operários. Os alemães os
usavam para explodir estradas de ferro. Além desse material, tínhamos cinco metralhadoras e vinte granadas de mão.
— Isso deve bastar — disse um do grupo. — Com o elemento surpresa ao nosso lado, poderemos desarmar os guardas, usando somente nossas armas. Então pegaremos
os SS de surpresa nos dormitórios e os forçaremos a ir conosco até que nao precisemos mais deles.
O aviso para atacar seria dado por sinais de lanterna do crematório no. 1. O no. 2 imediatamente transmitiria o sinal ao no. 3, que por sua vez alertaria
o no. 4. O plano me parecia exeqüível pelo simples fato de que o único crematório de serviço era o no. 1. E mesmo ele pararia de trabalhar as dezoito horas, o que
significava que naquele dia o turno da noite não trabalharia. Sempre que isso acontecia os guardas tinham uma tendência para relaxar a vigilância. Havia três guardas
SS em cada crematório.
Suspendemos a reunião até a noite e a ordem era de que até o momento em que o sinal fosse dado todos deveriam continuar cumprindo suas tarefas como se nada
houvesse, evitando qualquer ato que pudesse provocar suspeitas.
Voltando para o quarto, passei novamente pela sala de incineração. Os homens pareciam estar trabalhando ainda mais lentamente que antes. Informei a meus
dois colegas sobre o que estava se passando, mas evitei falar com o assistente de laboratório Ele naturalmente seria arrastado junto quando a coisa começasse,
mas pelo momento não vi necessidade de informá-lo. O tempo movia-se lentamente. A hora do almoço finalmente chegou. Comemos devagar e depois fomos para o pátio nos
aquecer com o, cálidos raios do sol de outono. Notei que não havia guardas SS à vista. Mas provavelmente nada havia de incomum naquilo, pois não era a primeira
vez que acontecia. Sem dúvida estavam em seus alojamentos. Os portões estavam fechados. Do lado de fora do campo os guardas SS permaneciam em seus postos. Assim,
não dei importância à ausência dos SS dentro do pátio. Fumei meu cigarro em paz. Saber que dentro de algumas horas estaríamos do lado de fora desses arames farpados
e novamente livres, era o bastante para afastar a nuvem negra de minha mente, uma nuvem que havia se formado desde que entrara no KZ. Mesmo que tudo fracassasse,
eu não teria perdido nada.
Consultei meu relógio. Uma e meia da tarde. Subi e pedi a meus colegas que me auxiliassem na autópsia, pois o laudo deveria estar pronto quando o Dr. Mengele
viesse apanhá-lo Seguiram-me silenciosamente até a sala de dissecação, e começamos a autópsia imediatamente. Um dos meus colegas realizou a dissecação enquanto eu
ia datilografando suas descobertas.
Estávamos trabalhando há uns vinte minutos quando tremenda explosão sacudiu as paredes. No silêncio que se seguiu o matraquear das metralhadoras chegou
aos nossos ouvidos. Espiando através da tela verde que cobria as janelas, pude ver o telhado e as vigas do crematório no. 3 irem pelos ares, seguidos de uma imensa
língua de fogo e uma espiral de fumaça negra. Menos de um minuto depois o fogo das metralhadoras espocava bem em frente à porta da sala onde estávamos. Não tínhamos
a mínima idéia do que estava acontecendo. Nossos planos eram para aquela noite. Ocorreram-me duas possibilidades: ou alguém nos havia traído, possibilitando
assim aos SS entrar em ação e pôr abaixo a fuga planejada, ou uma considerável força de guerrilheiros da Resistência resolvera atacar o campo As sirenas dos crematórios
1 e 2 começaram a gritar As explosões tornavam-se cada vez mais persistentes. Logo em seguida pudemos ouvir os estampidos característicos das metralhadoras de chão.
Eu já havia decidido o que fazer. Fosse caso de traição ou ataque de fora, parecia melhor para o momento permanecer na sala de dissecação e ver quais os rumos dos
acontecimentos. Da janela vi chegarem uns oitenta a cem caminhões. O primeiro parou em frente ao portão do nosso crematório. Metade de uma companhia desceu e formou
em posição de batalha em frente às cercas de arame farpado.
Comecei a compreender o que tinha acontecido. Os homens do Sonderkommando haviam tomado o crematório no.1 e, de cada porta e janela, estavam rechaçando os
SS a rajadas de metralhadoras e granadas. Sua defesa parecia efetiva, pois vi vários SS tombarem, mortos ou feridos. Vendo isso, os alemães resolveram lançar mão
de métodos mais drásticos. Trouxeram cinqüenta cães bem treinados e os soltaram em direção ao Sonderhommando, entrincheirado atrás das paredes do crematório no.
1. Mas por alguma estranha razão esses cães, geralmente tão ferozes e obedientes, recusaram-se a atacar: orelhas abaixadas, rabo entre as pernas, eles se esconderam
atrás de seus donos. Talvez porque tivessem sido treinados para atacar prisioneiros enfraquecidos e desarmados, os cães estivessem momentaneamente assustados com
o cheiro de pólvora e de carne chamuscada, mais ainda o barulho e a confusão de uma batalha renhida. De qualquer modo, os SS imediatamente perceberam seu erro e,
sem parar de atirar, começaram a trazer algumas bazucas para a posição de tiro.
Era impossível o Sonderhommando resistir a essa vantagem numérica e material. Exultantes, irromperam pelos portões do crematório. Atirando sempre, escapuliram
por um buraco previamente aberto na cerca de arame farpado e rumaram para a curva do Vístula.
Durante dez minutos o tiroteio continuou. Aos violentos estampidos das metralhadoras pesadas das torres respondia o matraquear persistente das metralhadoras.
Em meio aos tiros irrompiam explosões de granadas de mão e dinamite. Então, como começou, de repente tudo ficou quieto.
Os SS que estavam diante do crematório avançaram carregando as bazucas que não haviam sido usadas. De baioneta calada, atacaram o edifício por todos os lados,
invadindo os quartos do térreo e do subsolo. Um grupo entrou na sala de dissecação. Com as armas apontadas para nós, eles nos cercaram e nos arrastaram sob uma chuva
de pancadas ate o pátio. Ali nos puseram deitados de braços. Uma ordem foi dada:
- Um só movimento e levam uma bala na nuca!
Alguns minutos mais tarde pude notar que, pelo som dos passos, os SS haviam capturado e trazido mais homens do Sonderhommando. Eles também foram obrigados
a se deitar de cara no chão ao nosso lado. Quantos seriam? Com a minha face enfiada no chão era impossível saber ao certo. Três ou quatro minutos mais tarde outro
grupo foi trazido e colocado na mesma posição.
Enquanto estávamos deitados, uma chuva de chutes e cacetadas caiu sobre nossas cabeças, costas e pernas. Pude sentir o sangue quente escorrendo pelo rosto
até que seu gosto salgado foi sentido pela minha língua. Mas somente as primeiras pancadas me machucaram. Com a cabeça girando, os ouvidos zumbindo, sobreveio-me
um vazio na mente. Não estava sentindo mais nada. Tinha a impressão de estar dormindo na indiferença que precede a morte.
Por uns vinte ou trinta minutos ficamos assim, esperando a bala dos SS na nuca. Nessa posição, eu sabia que era com uma bala na nuca que eles pretendiam
nos liquidar. A mais rápida das mortes e, naquelas circunstâncias, a menos terrível Em minha mente, imaginei minha cabeça recebendo o impacto de uma bala atirada
à queima-roupa, meu crânio explodindo em mu pedaços.
De repente, ouvi o som de um carro se aproximando. Deve ser o Dr. Mengele, pensei. Os SS políticos estavam só aguardando a sua chegada. Não ousei levantar
a cabeça, mas pude facilmente reconhecer sua voz. Uma ordem dos lábios de um SS:
— Os médicos, de pé!
Nós quatro nos levantamos, esperando pelo que viria O Dr. Mengele fez um sinal para que nos aproximássemos. Minha cara e minha camisa, cobertas de sangue,
meu corpo enlameado, assim fui diante dele. Três oficiais SS estavam ao seu Iado. O Dr. Mengele perguntou qual havia sido nossa participação em tudo aquilo.
— Nenhuma participação — respondi. — A não ser que cumprir as ordens do Hauptsturmführer possa ser considerado uma falta. Estávamos dissecando o corpo do
oficial russo quando o incidente ocorreu. Foi a explosão que interrompeu nosso trabalho. O relatório ainda está na minha máquina. Não abandonamos nossos postos e
estávamos lá quando nos encontraram.
O comandante SS confirmou o que eu disse. O Dr Mengele olhou-me duro e falou:
— Vá se lavar e volte para o seu trabalho.
Virei-me e saí, seguido por meus três colegas. Não havíamos dado nem vinte passos quando disparos de metralhadoras se fizeram ouvir. O Sonderkommando tinha
deixado de existir.
Não olhei para trás, pelo contrário, apressei o passo e voltei para meu quarto. Tentei enrolar um cigarro, mas minhas mãos estavam trêmulas demais, e não
conseguia deixar de rasgar o papel fino Finalmente, consegui enrolar um, acendi, tirei profundas baforadas; depois, com as pernas bambas, fui para a cama e me
deitei. Só então comecei a sentir as dores dos ferimentos e hematomas por todo o corpo.
Tanta coisa havia acontecido e ainda eram 3 horas da tarde. O fato de ter escapado com vida não me dava conforto nem alegria. Sabia que aquilo representava
somente uma trégua. Conhecia o Dr. Mengele e a mentalidade dos SS. Também tinha plena consciência da importância do meu trabalho; no momento, era indispensável.
Além de mim não havia outro médico no KZ capacitado para atender às necessidade do Dr. Mengele. E mesmo se houvesse, seria bastante cuidadoso para não se revelar
e tornar públicas suas habilidades profissionais, pois fazer isso representava cair nas mãos de Mengele e, por conseguinte, abreviar a vida: como todo membro do
Sonderkommando, eles também se achariam dentro do limite de quatro meses para viver.
Quando meus nervos se acalmaram, levantei-me e fui olhar em volta. Desejava saber exatamente o que havia sucedido essa tarde Será que realmente existia um
traidor entre nós? E os SS acabaram com a revolta ao liquidar o Sonderkommando? Mesmo que estivessem procurando um pretexto, não poderia haver melhor razão para
exterminar o kommando. Era muito provável que, por ser o último dia do período de quatro meses que nos concediam para viver, os SS tivessem recebido ordens para
nos liquidar. Eles, na certa, se preparavam para cumprir as ordens quando, para sua surpresa, descobriram que o décimo-segundo Sonderkommando não tinha intenção
de formar no pátio. Nem estava disposto a engolir que a reunião no pátio era para se fazer alguma proclamação ou chamada. Nosso kommando, consciente do fato dos
SS terem vindo para nos exterminar, aparentemente optara por morrer lutando.
Agora meus camaradas estavam deitados em longas fileiras, em frente às fornalhas do crematório. Um após outro, identifiquei os corpos daqueles que conhecia;
pelo menos morreram achando que a liberdade estava logo ao dobrar a esquina. Eles haviam sido trazidos de volta em carretas do lugar onde tombaram, algum ponto dentro
da linha externa de guardas. Aqueles que foram executados no pátio também ali estavam. Depois que toda a resistência havia cessado, os corpos foram removidos dos
crematórios nos. 2, 3 e 4 para o no. 1, que estava sendo operado por trinta novos homens de Sonderkommando, recrutados às pressas.
Encontrei-me ao lado de um oficial que estava atarefado, registrando os números tatuados dos mortos. Sem que lhe perguntasse, me informou que faltavam doze
homens. Dos outros, todos, menos sete, estavam mortos. Esses sete eram meus dois assistentes, o laboratorista, eu, o engenheiro encarregado dos dínamos e dos ventiladores,
o chefe dos motoristas e o "Pipel", isto é, o quebra-galhos encarregado de servir ao pessoal SS e cujas funções variavam desde tomar conta de suas roupas e botas
até cuidar da cozinha e atender o telefone. Foi ele que me fez um relato detalhado do que tinha acontecido. Não houve traição. Aqui vai a versão do "Pipel":
Às duas horas da tarde, um caminhão de SS políticos chegou ao crematório no. 3. O comandante ordenou que os homens do Sonderkommando se reunissem, mas ninguém
se moveu. Ele deve ter tido um vislumbre do que estava fermentando. De qualquer forma, preferiu achar que conseguiria melhores resultados se mentisse aos homens
e Deus sabe que os SS são mestres renomados na arte de mentir. De pé, no centro do pátio, ele disse:
— Homens, vocês trabalham aqui há bastante tempo. Por ordem de meus superiores, serão enviados para um campo de repouso. Lá receberão boas roupas, terão
uma alimentação farta e sua vida será bem mais fácil. Aqueles cujo número eu chamar dêem um passo à frente e entrem em forma.
Então, começou a chamada. Primeiro chamou os números dos húngaros do crematório n° 3, cem ao todo. Os mais "jovens" do KZ formaram sem protestar. Suas expressões
demonstravam mais medo do que coragem. Um destacamento SS imediatamente envolveu-os e marcharam para fora do pátio até o barracão 13 do Campo D, onde foram trancados.
Enquanto isso, a chamada continuava no crematório no. 3. Agora era a vez dos gregos, que não foram tão submissos em obedecer, mas de qualquer forma enfileiraram-se.
Em seguida, um grupo de poloneses. Grunhidos e protestos abafados encheram o ar. O SS chamou outro número. Silêncio, ninguém se moveu. Quando o oficial levantou
a cabeça e franziu o cenho, uma garrafa d'água mineral caiu aos seus pés e explodiu. A garrafa havia sido jogada por um dos poloneses. Os SS abriram fogo contra
os revoltosos, que recuaram e tomaram posição dentro do crematório. Assim protegidos, eles começaram a atirar garrafas cheias de explosivos no pátio. Uma rajada
de metralhadoras liquidou com os gregos que ainda estavam formados no pátio. Alguns tentaram escapar, mas foram derrubados antes de chegarem ao portão.
Sem parar de atirar, os SS avançaram em direção à entrada do crematório. Não foi um trabalho fácil para os poloneses sustentar aquela posição. Sua cascata
de garrafas explosivas conseguiu manter os soldados a uma distância respeitável. Somente então uma tremenda explosão sacudiu toda a área, derrubando todos os atacantes
que se aproximaram demais do edifício. O teto do crematório voou pelos ares, levando junto pedaços de madeiras, pedras e ferro retorcido em todas as direções, enquanto
que rolos de fumaça e labaredas subiam aos céus. Quatro enormes galões de gasolina haviam explodido reduzindo o edifício ao monte de escombros que soterrou os homens
do kommando. Os poucos que escaparam tentaram prosseguir a luta, mas as metralhadoras SS deram cabo deles. Outros, feridos mas ainda capazes de andar, saíram para
o pátio com as mãos na cabeça, mas outra rajada os liquidou sumariamente. Eles sabiam que isso iria acontecer; o fogo, porém, estava lavrando no interior do prédio
e escolheram a morte mais rápida. Ao mesmo tempo, às centenas, os húngaros foram trazidos rapidamente para o pátio e executados no local.
Assim foi que a revolta começou no no. 3. No no. 1, o trabalho continuava normalmente, até que se ouviu a explosão no no. 3. O barulho da explosão elevou
a tensão, que já estava alta, devido à espera, para um paroxismo. Ninguém sabia exatamente o que fazer durante os primeiros minutos. Os homens que trabalhavam nos
fornos abandonaram seus postos e foram espiar na janela que existia no fim da sala, para tentar descobrir o que estava se passando e que passos dar.
Não tiveram que pensar muito, pois um guarda SS chegou e, rispidamente, perguntou quem lhes dera permissão para abandonar os fornos. Aparentemente a resposta
do chefe do crematório não o satisfez porque ele deu-lhe uma cacetada na cabeça com a extremidade curva de sua bengala (cada SS carregava uma bengala para "encorajar"
os homens do kommando a trabalhar mais). Comenta-se também que um segundo homem do Sonderkommando teve sua cabeça aberta pela mesma bengala. Mas o chefe, o homem
mais duro de todo o kommando, ficou apenas tonto com a pancada. Seu rosto estava coberto de sangue, mas ele ainda estava de pé. Num piscar de olhos puxou uma faca
de dentro de sua bota e mergulhou-a no peito do SS. Assim que o guarda tombou, outros dois membros do kommando o agarraram, abriram a tampa do forno mais próximo
e o atiraram lá dentro, de cabeça.
Tudo aconteceu em segundos, mas outro SS entrou na sala a tempo de ver duas botas serem tragadas pelas chamas. Ele sabia que a vítima só podia ser ou um
kommando ou um SS, mas antes que pudesse chegar a qualquer conclusão, um dos homens derrubou-o com um poderoso murro e, com a ajuda de um companheiro, deu-lhe o
mesmo destino do anterior.
Depois disso, foram necessários apenas alguns segundos para aparecerem as metralhadoras, granadas e dinamites que estavam escondidas. A luta começou entre
os SS, num extremo do edifício, e os homens do Sonderhommando, em outro. Uma granada de mão, atirada no centro dos guardas, matou sete e deixou muitos outros feridos.
Vários homens do Sonderkommando foram também mortos ou feridos e a situação, para os sobreviventes, começou a ficar desesperadora. Porém, quando mais alguns SS tombaram,
os prisioneiros remanescentes, cerca de vinte, conseguiram escapar pela porta do crematório. Lá receberam reforços mais do que suficientes para virar a luta a seu
favor.
O resto era história. Sete ficaram no interior do crematório. Os doze fugitivos foram cercados e capturados à noite. Eles tinham conseguido cruzar o Vístula,
mas estavam esgotados e procuraram abrigo numa casa. O dono desta informou a uma patrulha SS, que vasculhava a área, e todos foram capturados.
Eu estava deitado, quase dormindo, quando uma nova rajada de metralhadora tirou-me do meu estado de semi-inconsciência. Poucos minutos depois, pesadas passadas
ressoaram no corredor. Minha porta se abriu e dois SS entraram, seus rostos cobertos de sangue.
Os doze prisioneiros tinham atacado a patrulha que os trazia de volta ao campo, num esforço desesperado para tomar-lhes as armas. Os prisioneiros tinham
apenas os punhos como armas; o resultado foi rápido e seguro: todos os doze foram imediatamente eliminados. Mas tinham conseguido fazer uns estragos nos guardas,
que agora me pediam que tratasse de seus ferimentos. Sem dizer uma palavra, obedeci.
A perda dos doze companheiros foi um golpe terrível para mim. Depois de tanto esforço e de tantas vidas perdidas, ninguém conseguira escapar para contar
ao mundo a história dessa diabólica prisão.
Mais tarde vim a saber que as notícias dessa revolta tinham chegado ao mundo exterior. Alguns dos prisioneiros do KZ contaram o caso para os civis que trabalhavam
com eles. Além disso, ao que tudo indica, parece que a língua de certos SS andou batendo nos dentes.
Aquilo foi, sem dúvida, um acontecimento histórico, o primeiro do gênero, desde a fundação do KZ. Oitocentos e cinqüenta e três prisioneiros e setenta SS
foram mortos, incluindo entre os últimos um Obersturmführer, dezessete Oberschaar-führer e Schãarführer e cinqüenta e dois Sturmmãnner. O crematório no. 3 ficou
completamente incendiado e o no. 4, em virtude dos sérios estragos em seu equipamento, ficou inutilizado.
XXVIII
Acordei deprimido após uma noite mal dormida. Meus nervos estavam em pior estado que nunca: mesmo as conversas sussurradas de meus colegas, o som de seus
passos, faziam-me terrível mal.
Eu estava num péssimo humor à medida que, junto com meus assistentes, caminhávamos em direção à sala de dissecação. No caminho tivemos que passar à sala
de incineração. Aquele chão de concreto frio e antipático, que se estendia até os fornos. Tinham acabado de queimar nossos colegas às doze horas da noite anterior.
Os fornos, ao esfriar, produziam uma quentura débil. O décimo-terceiro Sonderhommando, atingido pela tragédia que havia acabado de presenciar, estava sentado
ou deitado sobre as camas dos antigos kommandos, num silêncio tumular.
Mas essa situação durou pouco e logo a vida voltou ao seu ritmo normal, o que era evidenciado pelo desejo deles por boa comida e cigarros, e especialmente
pelo brandy, o remédio de todos os Sonderkomrnandos, a panacéia para a enfermidade do crematório. Depois da nudez deplorável nos barracões do KZ, estavam gozando
o conforto de roupas novas. A higiene pessoal era novamente uma realidade: chuveiros, sabonete, toalhas à vontade. Eu os observava como um velho sargento deve observar
um grupo de recrutas. Eles se acostumariam logo com tudo aquilo.
Na sala de dissecação, na falta de algo melhor para fazer, inventei alguns trabalhos para manter meus colegas ocupados. Pedi que limpassem os instrumentos
cirúrgicos até que ficassem brilhando como novos, depois que os separassem por tipo e os guardassem. A tela de mosquitos, depois da batalha do dia anterior, também
estava precisando de alguns reparos. Quanto a mim, sentei-me à mesa, com a cabeça cheia de esparadrapos, e comecei a preparar uma lista de reclamações e reivindicações
para entregar ao Dr. Mengele o mais cedo possível.
Planejava dizer-lhe que nenhum dos aposentos do crematório era adequado para uma sala de dissecação, pela simples razão de que não importava onde você estivesse
aqui dentro não conseguia deixar de ouvir os gritos lancinantes dos deportados em seu caminho para a morte, gritos que penetravam na medula dos ossos. Fosse a câmara
de gás ou uma bala na nuca, os gritos eram os mesmos. Tornava-se impossível para mim concentrar-me no trabalho. Desde o dia de minha chegada, quando soube do destino
dos onze kommandos anteriores, vinha vivendo num mundo de medo constante: quatro meses de tensão alucinante, esperando, dia após dia, pelo momento que o nosso kommando
teria o mesmo destino.
Também planejava pedir-lhe para ter mais paciência com meu trabalho no futuro, se algo não saísse perfeito. Por quê? Porque, há não muito tempo atrás, dia
6 de outubro de 1944, para ser mais exato, quando recebi ordens para fazer a autópsia no corpo de um oficial russo e preparar o laudo, o crematório no. 3 foi pelos
ares diante dos meus olhos e fomos atacados por um batalhão da SS. Bazucas foram trazidas e cães policiais açulados contra nós. Granadas de mão explodiram à nossa
volta. Soldados de baioneta calada irromperam por esse assim chamado instituto científico que eu supunha dirigir e nos puseram para fora aos chutes e cacetadas.
Fomos obrigados a nos deitar no chão lamacento. Por um triz eu não passei de dissecador a um objeto de dissecação. Era verdade que o Dr. Mengele me tinha livrado
desse destino e me resgatado das hostes dos condenados, mas somente para ser obrigado a voltar a essa casa de horrores para uma nova etapa de quatro meses. Eu
lhe perguntaria se ele não achava que a nossa situação era insustentável. Após o pior ter passado, fui obrigado a prestar os primeiros socorros a dois
SS, que horas antes haviam me espancado sem piedade e depois esperado, com a arma engatilhada e apontada para a minha nuca, a hora de puxar o gatilho.
Essas eram as reclamações que tinha a fazer ao meu chefe. Mas a minha maior reivindicação era para que transferisse a sala de dissecação para outro lugar
longe daqui.
No momento exato em que acabava de pensar isso, a porta se abriu e o próprio Dr. Mengele entrou. Como mandava o regulamento, eu me ergui e, em posição de
sentido, anunciei:
— Capitão, três médicos e um assistente de laboratório às ordens.
Ele olhou com ares de surpresa para minhas bandagens.
— O que foi que lhe aconteceu? — perguntou com um sorriso enigmático que parecia meio sério, meio brincalhão.
A natureza de sua pergunta deu-me a impressão de que ele preferiria que os acontecimentos do dia anterior nunca tivessem ocorrido. Assim sendo, não respondi.
Minha lista de reclamações murchou, porém uma reivindicação tinha de ser feita.
— Capitão, — disse sem muita convicção — esse lugar é altamente inadequado para a pesquisa científica. Não seria possível transferir a sala para um lugar
melhor?
Ele olhou-me fixamente, sua expressão endurecendo.
— O que há de errado? — disse friamente. — Está ficando sentimental?
Lamentei ter-me deixado levar. Ter abandonado a discrição que geralmente mantinha em sua presença. Ousara criticar o único lugar, o único ambiente no qual
meu superior se sentia em casa: o fulgor infernal das piras e a fumaça negra dos crematórios; o ar pesado com o cheiro de carne crestada; as paredes ressoando com
os gritos dos infelizes e o matraquear metálico das metralhadoras disparadas à queima-roupa; era para esse lugar que ele voltava depois de cada seleção, depois de
cada seção de fogos de artifício. Esse era o lugar onde passava todo seu tempo livre; aqui nesse inferno humano o carniceiro de Auschwitz obrigava-se a retalhar
centenas de cadáveres recentes, cuja carne era também usada para cultivar bactérias numa incubadora elétrica. Obcecado com a idéia de que havia sido escolhido para
descobrir a causa dos nascimentos múltiplos, o Dr. Mengele sentava-se durante horas ao microscópio.
Hoje, no entanto, notei que ele parecia cansado. Tinha acabado de chegar da plataforma de desembarque de judeus, onde permanecera horas sob a chuva, fazendo
a seleção dos habitantes do gueto de Riga. Como de costume, seleção não era bem o termo, pois todos tinham sido mandados para a esquerda. Os dois crematórios em
operação estavam cheios, assim como a imensa pira. Para lidar com esse acúmulo de serviço, as fileiras do novo Sonderkommando foram engrossadas com mais 460 homens.
O Dr. Mengele aproximou-se da mesa sem se preocupar em tirar a capa e o quepe, que estavam ensopados. Na verdade, nem parecia notá-los.
— Capitão, — falei — deixe-me levar seu quepe e o seu casaco para junto dos fornos. Logo estarão secos.
— Deixe para lá — respondeu — De qualquer forma, a água não passará de minha pele.
Pediu-me para ver o laudo da autópsia do oficial russo. Entreguei a pasta. Após ler quatro ou cinco linhas, ele a devolveu.
— Estou muito cansado, leia para mim. — No entanto, mal comecei a ler, ele me interrompeu. — Deixe para lá, não é necessário. — E seu olhar passeou, ausente,
pela sala.
O que poderia ter acontecido a esse homem? Seria possível que estivesse cansado desses horrores. Também era possível que a tensão dos meses anteriores tivesse
começado a deixar sua marca.
Durante nossos vários contatos e conversas, o Dr. Mengele nunca me proporcionou o que eu pudesse chamar de conversa particular. Mas agora, vendo-o tão deprimido,
criei coragem.
— Capitão, quando terminará toda essa destruição? Olhou-me e respondeu:
— Mein Freund! Es geht immer weiter, immer weiter! Meu amigol Isso vai continuar, e continuar...
Suas palavras pareciam trair uma nota de resignação. Levantou-se da cadeira e deixou o laboratório com a valise na mão. Acompanhei-o até o carro.
— Nos próximos dias, você terá um trabalho interessante — disse; depois, entrou no carro e partiu.
Dei de ombros com indiferença. Não há dúvida de que o "trabalho interessante" significava um novo grupo de gêmeos.
XXIX
OS CREMATÓRIOS estavam sendo reconstruídos. Os homens do Sonderkommando refaziam as superfícies refratárias das entradas das fornalhas, pintando as pesadas
portas de ferro e azeitando as dobradiças. Os dínamos e ventiladores voltaram a trabalhar vinte e quatro horas por dia. Um especialista garantiu que estavam funcionando
bem. A chegada do gueto de Litzmmanstadt tinha sido anunciada.
Esse gueto fora estabelecido pelos alemães em 1939. No começo abrigou 500.000 pessoas, que trabalhavam nas enormes fábricas de material bélico. Em troca
de seu trabalho eram pagos em "marcos de gueto", mas somente em quantidade suficiente para comprar uma ração magra de comida. Não é preciso dizer que a diferença
entre o grande esforço exigido no trabalho e a alimentação insuficiente era uma alta taxa de mortalidade. Numerosas epidemias também deixaram marcas profundas. Assim,
no outono de 1944, somente 70.000 dos 500.000 iniciais haviam sobrevivido.
E agora, a hora fatal para os remanescentes havia chegado. Eles desciam a rampa em grupos de 10.000. A seleção mandou 95% para a esquerda e somente 5% para
a direita.
Perseguidos e torturados, física e moralmente esfacelados por cinco anos de vida de gueto, atormentados pela consciência do trágico destino de sua raça,
envelhecidos pelos trabalhos forçados, chegavam completamente apáticos. Mesmo quando percebiam que ao cruzar os portais do crematório estavam queimando o último
cartucho de suas vidas, havia neles um ar de indiferença.
Desci à antecâmara. Suas roupas e sapatos estavam espalhados pelo chão. Naturalmente, seria muito difícil pendurar nos cabides aqueles restos de couro e
madeira que passavam por sapatos. Nem mesmo o número nos cabides, que deveriam guardar de memória, suscitou seu interesse. Eles deixavam a bagagem de mão em qualquer
lugar. Os homens do Sonderkommando, cujo serviço era separar os pertences abandonados, abriram alguns embrulhos e mostraram-me: uns biscoitos feitos de farinha de
milho e um quase nada de óleo de linhaça e, em alguns casos, alguns gramas de farinha de aveia, isso era tudo que tinham.
Quando os comboios chegaram, o Dr. Mengele percebera entre os deportados um homem corcunda de seus cinqüenta anos. Não estava sozinho. Ao seu lado, um rapaz
alto e simpático, de quinze ou dezesseis anos. O rapaz tinha um defeito no pé, que estava sendo corrigido por um aparelho formado de uma chapa de metal e uma bota
ortopédica. Eram pai e filho. O Dr. Mengele pensou ter descoberto, na figura do pai corcunda e do filho aleijado, um exemplo inconteste da degeneração da raça judaica.
Ordenou que os dois saíssem fora de forma imediatamente. Apanhou seu caderninho e escreveu nele qualquer coisa. Entregou dois pedaços de papel a um guarda SS e mandou
que levasse, juntamente com os dois deportados, para o crematório no. 1.
Era quase meio-dia. O n° 1 não estava trabalhando. Não tendo o que fazer, eu fiquei no meu quarto esperando o tempo passar. O SS de guarda veio me procurar
e pediu-me que fosse até o portão. O pai e o filho, acompanhados pelo SS, já estavam lá. Peguei o bilhete, que me era destinado, e li: "Sala de dissecação, crematório
no. 1, esses dois homens devem ser examinados sob o ponto de vista clínico; que sejam tiradas as medidas exatas deles; o relatório clínico deve incluir todos os
detalhes interessantes e mais especialmente aqueles relativos às causas que provocaram tais anomalias".
Um segundo bilhete era dirigido ao Oberschaarführer Mussfeld. Mesmo sem lê-lo eu sabia o que devia conter. Pedi a um Kommando que o entregasse.
Pai e filho, seus rostos expressando toda uma vida miserável de cinco anos de gueto. Cheios de maus pressentimentos, me olhavam interrogativamente. Levei-os
pelo pátio que, a essa hora, estava banhado pela luz do sol. A caminho do crema-tório, tranqüilizei-os com palavras amenas. Felizmente, não havia nenhum cadáver
sobre a mesa de dissecação; teria sido uma visão terrível para eles.
Para poupá-los um pouco, resolvi não fazer o exame na austera sala de dissecação constantemente impregnada com o cheiro do formaldeido e sim na agradável
e bem iluminada sala de estudo. Pela nossa conversa, fiquei sabendo que o pai tinha sido um respeitável cidadão de Litzmmanstadt, atacadista de roupas. Durante os
períodos de paz entre as guerras, ele, por várias vezes, levara o filho em suas viagens de negócios a Viena, onde o submetera a exames e tratamentos pelos maiores
especialistas.
Primeiro examinei o pai detalhadamente, sem omitir nada. O desvio de sua coluna vertebral era conseqüência de raquitismo retardado. E apesar de exames completos,
não descobri nenhum sintoma de outra doença.
Tentei consolá-lo dizendo que provavelmente ele seria enviado para um campo de trabalho.
Antes, de começar a examinar o rapaz, conversei longamente com ele. Tinha um olhar inteligente e uma aparência bastante agradável, mas seu moral estava abaixo
da crítica. Tremendo de medo, relatou-me, numa voz sem expressão, os tristes, penosos e, muitas vezes, terríveis acontecimentos que haviam marcado seus cinco anos
de gueto. Sua mãe, criatura frágil e sensível, não conseguira suportar por muito tempo as provações a que fora submetida. Tornou-se melancólica e deprimida. Por
semanas a fio ela quase não se alimentava para que seu marido e seu filho tivessem uma ração um pouco maior. Uma verdadeira esposa e mãe judia que amou os seus a
ponto de enlouquecer; morreu como mártir durante o primeiro ano de vida no gueto. E foi assim que viveram lá, o marido sem a esposa e o filho sem a mãe.
E agora, estavam no crematório no. 1. Mais uma vez eu tinha sido golpeado pela terrível ironia da situação. Eu, um médico judeu, tinha de examiná-los clinicamente
antes que morressem e depois, nos seus corpos ainda quentes, fazer a autópsia. Fiquei tão abalado com a situação que, de repente, me achei girando bem próximo da
loucura. Qual seria a origem de tanto mal, de tal sucessão de horrores que se abatera sobre o nosso infeliz povo? Seria a vontade de Deus? Não, não posso acreditar.
Com um esforço imenso, me contive e examinei o rapaz. Em seu pé direito notei uma deformação congênita: alguns músculos estavam faltando.
O termo médico para descrever tal deformação é hipomielia. Pude notar que mãos extremamente habilidosas tinham praticado várias operações naquele pé, mas
como resultado disso, um pé era menor que o outro. Mas, com uma bandagem e sapatos ortopédicos, ele podia andar perfeitamente bem. Não vi nenhuma outra enfermidade
que pudesse ser indicada.
Perguntei-lhes se desejavam comer alguma coisa.
— Não comemos nada há bastante tempo — responderam.
Chamei um homem do Sonderkommando e mandei que trouxessem comida para eles: bife e macarronada, um prato que não seria achado fora dos limites do Sonderkommando.
Começaram a comer com vontade, sem imaginar que era sua "Última Ceia".
Menos de meia hora mais tarde, Mussfeld apareceu com quatro homens do Sonderkommando. Eles levaram os prisioneiros para a sala das fornalhas e tiraram-lhes
as roupas. Aí o revólver do Ober disparou duas vezes. Pai e filho ficaram caídos no chão de concreto frio, banhados em sangue, mortos. O Oberschaarfükrer Mussfeld
tinha fielmente cumprido as ordens do Dr. Mengele.
Agora era a minha vez novamente. Os dois cadáveres foram trazidos de volta à sala de dissecação. Fiquei tão acabrunhado com o episódio que pedi aos meus
colegas que procedessem à autópsia, e me limitei a registrar o que iam encontrando. A autópsia não revelou nada além do que eu já havia constatado no exame in vivo.
Eram casos banais mas poderiam ser utilizados como propaganda para sustentar a teoria do III Reich da degeneração da raça judaica.
Quase à noitinha, depois de ter enviado pelo menos 10.000 pessoas para a morte, o Dr. Mengele chegou. Escutou atenciosamente meu relatório concernente aos
exames in vivo e post mortem feitos nas duas vítimas.
— Os cadáveres não serão cremados — disse. — Devem ser preparados para que os esqueletos sejam enviados para o Museu Antropológico de Berlim. Que sistemas
conhece para a preparação de esqueletos?
— Existem dois métodos — expliquei. — O primeiro consiste na imersão dos corpos em cloreto de cálcio, que consome todas as partes moles do corpo em duas
semanas. Depois, o que sobra é imerso em gasolina que dissolve toda a gordura e seca o esqueleto, deixando-o sem cheiro e branco. E existe um segundo método: o cozimento.
Que se faz jogando o corpo na água fervente até que a carne possa ser facilmente destacada dos ossos, depois o mesmo banho de gasolina faz o resto.
O Dr. Mengele me ordenou que usasse o método mais rápido, ou seja, o cozimento.
No KZ, as ordens eram sempre taxativas. Como os prisioneiros deveriam fazer para conseguir o material necessário para a execução da ordem não seria especificado.
A ordem tinha de ser cumprida e isso era tudo que se sabia. Eu estava, portanto, diante de um sério problema: onde acharia lugar para cozinhar os corpos? Expliquei
o caso ao Ober Mussfeld. Disse-lhe que tinha de cozinhar dois corpos mas não sabia como...
Até ele ficou horrorizado com a história. Pensou por um instante e se lembrou de dois caldeirões de ferro que estavam no pátio e que eram geralmente usados
na despensa. Mussfeld deixou-os à minha disposição e disse-me para colocá-los sobre tijolos e acender o fogo embaixo.
A base foi preparada e os dois caldeirões, com os corpos dentro, colocados sobre ela. Dois homens do Sonderhommando foram incumbidos de catar madeira para
o fogo e mantê-lo aceso. Depois de cinco horas, examinei os corpos e vi que as partes moles estavam agora facilmente destacáveis do corpo. Ordenei que o fogo fosse
apagado, mas os corpos não deviam ser retirados até que esfriassem.
Não tendo o que fazer, permaneci sentado à sombra de um arvoredo não muito longe dos caldeirões. Um profundo silêncio me envolveu. Alguns prisioneiros-pedreiros
estavam reconstruindo as chaminés do crematório. A noite vinha caindo. Os caldeirões já deviam estar frios a essa hora. Eu estava prestes a ir esvaziá-los quando
um de meus homens veio me avisar:
— Doutor, os poloneses estão comendo a carne dos caldeirõesl
Saí correndo o mais rápido que minhas pernas permitiam. Quatro homens vestidos com o uniforme listrado dos prisioneiros estavam ao lado dos caldeirões, traumatizados
de horror. Eram os pedreiros poloneses que eu havia notado antes. Tinham acabado seu trabalho e estavam esperando no pátio que os guardas viessem e os levassem de
volta para Auschwitz ! Esfomeados, estavam à cata de algo para mastigar quando deram com os caldeirões que, por azar, haviam ficado sem guarda por alguns minutos.
Pensando tratar-se da carne que o Sonde-kommando estava cozinhando, eles cheiraram primeiro e depois pegaram algumas partes que não estavam cobertas de pele; então
comeram-nas.
Não haviam ido muito longe, pois os dois homens do Sonderhommando encarregados de vigiar os caldeirões chegaram a tempo de ver o que ocorria.
Quando souberam que espécie de carne estavam comendo, os poloneses ficaram nauseados, horrorizados, petrificados...
Após o banho de gasolina, o assistente de laboratório juntou as partes do esqueleto e colocou-as sobre a mesa onde, na noite anterior, eu havia examinado
aqueles homens ainda vivos.
O Dr. Mengele estava satisfeito. Trouxe vários outros oficiais e, pomposamente, começaram a examinar certas partes dos esqueletos e a soltar altissonantes
termos científicos, falando como se as duas vítimas representassem um fenômeno médico extremamente raro. Eles se abandonaram totalmente à sua pseudociência.
E, no entanto, longe de ser uma anormalidade extraordinária, aquilo é comum a milhares de homens de todas as raças e climas. Mesmo um médico de clínica reduzida,
freqüentemente se depara com isso. Mas os dois casos, por sua própria natureza, poderiam ser explorados na propaganda. A máquina de propaganda nazista nunca hesitou
em mascarar suas mentiras monstruosas com uma face cientifica. O método sempre funcionara, pois aqueles a quem a propaganda era dirigida tinham pouca ou nenhuma
faculdade crítica, e aceitavam como fato consumado tudo que trazia o selo do regime.
Os esqueletos foram embrulhados em grandes sacos de papel resistente e endereçados a Berlim com o carimbo: — Urgente: defesa nacional. Fiquei aliviado por
estarem longe da minha vista, pois os dois homens me proporcionaram horas bastante amargas, não só quando vivos, como também depois de mortos. No fim da semana,
o extermínio do gueto de Litzmannstadt havia sido consumado. Uma chuva fria substituiu o sol que vinha aquecendo os dias de outubro. O nevoeiro envolveu os barracões
do KZ; meu passado e meu futuro também estavam se dissolvendo num mar de nevoeiro. A chuva continuou por vários dias e o frio úmido penetrou até a medula de meus
ossos, tornando minha amargura ainda mais aguda. Onde ia, para onde olhava só via cercas de arame farpado fazendo-me lembrar que toda esperança era vã.
No terceiro dia que se seguiu à liquidação do gueto de Litzmannstadt, o chefe do Sonderkommando trouxe uma mulher e duas crianças ensopadas até a alma e
tiritando de frio. Elas haviam escapado quando o último comboio foi enviado para a morte Pressentindo o que lhes estava reservado, esconderam-se atrás de uma pilha
de madeira que era usada para o aquecimento e que, por falta de um lugar melhor, ficava amontoada no pátio. Seu comboio havia desaparecido, engolido pela terra bem
diante de seus olhos. E ninguém jamais voltou. Tremendo de frio e medo, haviam esperado lá que alguma reviravolta miraculosa do destino viesse salvá-las. Mas nada
aconteceu. Por três dias, ela e as crianças ficaram escondidas na chuva e no trio, sem nada para comer e com seus trapos não lhes oferecendo nenhuma proteção contra
os elementos até que finalmente, o chefe do Sonderkommando, ao fazer sua ronda, deu com elas já quase inconscientes. Impotente para ajudá-las de qualquer forma,
levou-as ao Oberscharführer.
A mulher, que devia ter uns trinta anos, mas parecia ter cinqüenta, reuniu suas últimas forças e se atirou aos pés de Mussfeld, implorando que poupasse sua
vida e a dos seus filhos de dez e doze anos. Ela havia trabalhado durante cinco anos numa fabrica de roupas no gueto, explicou, fazendo uniformes para o exercito
alemão. Ainda podia trabalhar, fazer qualquer coisa, se eles apenas deixassem-na viver.
Tudo era inútil. Aqui não havia salvação. Mais uma vez o passado do KZ deve ter afetado o Ober; ele mandou outro em seu lugar para praticar o crime.
8
XXX
ESTE FOI OUTRO pequeno episódio que nós esquecemos, pois era absolutamente necessário esquecer, se não quiséssemos ficar loucos. Escuridão à frente e escuridão
atrás...
Como sempre, a bebida era uma grande ajuda, um alívio momentâneo, mas necessário. Quando pensava no passado tudo isso me parecia um terrível pesadelo. Meu
único desejo era não pensar em nada, esquecer tudo.
Estávamos em novembro de 1944. A neve caía em flocos pesados escondendo tudo com seu véu branco. Mal se viam as torres de vigia, vagos dedos cinzentos erguendo-se
sobre nós. O vento cantava cada vez mais forte por entre o arame farpado, e os únicos pássaros no céu ainda eram os corvos.
Saí para dar uma volta antes que a noite caísse completamente. O tempo não estava nada convidativo, mas o vento frio agia como estimulante, aliviando meus
nervos cansados. Dei várias voltas pelo pátio; meus pés me levaram até próximo das escadas que conduziam à câmara de gás. Parei lá por alguns segundos, lembrando-me
que era Dia de Todos os Santos. Um silêncio mortal reinava sobre Auschwitz. Os frios degraus de concreto desciam e se fundiam na escuridão. Esses mesmos degraus
onde quatro milhões de pessoas, que nenhum crime cometeram, se despediram da vida e desceram, sabendo que mesmo após a morte seus corpos torturados não teriam a
paz de um túmulo. Sozinho, senti que era meu dever parar e pensar neles por um momento com uma profunda compaixão, em nome de seus parentes e amigos, que talvez
estivessem bem e felizes em algum lugar do mundo.
Deixei aquele lugar abandonado por Deus e voltei para o meu quarto. Ao abrir a porta, notei que o quarto não estava, como de costume, muito bem iluminado
por uma lâmpada forte e sim mergulhado na luz bruxuleante de uma vela. Minha primeira impressão foi a de que devia ter havido alguma coisa errada com a eletricidade.
Aí percebi meu colega, ex-professor da Faculdade de Medicina de Szombathely, sentado com os cotovelos apoiados na mesa e a cabeça entre as mãos, fitando a chama
com os olhos vazios, seus pensamentos a milhões de quilômetros de distância. Ele nem notou a minha presença. A luz fantasmagórica emprestava uma expressão sobrenatural
ao seu rosto. Toquei de leve seu ombro.
— Dênis — falei mansamente — em memória de quem acendeu esta vela?
Sua resposta foi confusa. Ele murmurou alguma coisa sobre seu sogro e sua sogra que, pelo que eu sabia, haviam morrido há uns quinze anos, e nem sequer mencionou
sua esposa e seu filho, que segundo os homens do Sonderkommando, tinham morrido aqui. Era fácil verificar que estava com todos os sintomas de melancolia depressiva
e amnésia regressiva.
Pegando-o pelos ombros, conduzi-o para a sua cama, e fiquei lá velando por ele.
Pobre amigo, excelente médico, meu companheiro amável e sensível ao invés de tratar e curar os doentes, você próprio caiu sob as garras da Morte e agora
pertencia ao seu reino. Por muitos meses presenciou horrores e sofrimentos que a mente humana nem pode conceber. Talvez seja até bom que seus nervos o tenham traído,
que o benevolente véu do esquecimento lhe tenha descido sobre a mente. Agora, pelo menos, não precisará mais se angustiar nem temer o que o futuro lhe reserva.
XXXI
APÓS VÁRIOS DIAS de silêncio, o barulho costumeiro dos crematórios recomeçou. Os motores dos gigantescos ventiladores giravam novamente reavivando as chamas
das fornalhas. A chegada do gueto de Theresienstadt havia sido anunciada.
Desde a fundação da República da Tcheco-Eslováquia, Theresienstadt tinha sido originalmente sede de uma guarnição militar. Os alemães mudaram completamente
a feição da cidade, a ponto de remover a população civil e instalar um gueto modelo. Esse gueto abrigava judeus deportados da Áustria, Holanda e da própria Tcheco-Eslováquia,
num total de 60.000. As condições de vida de seus habitantes eram relativamente boas. Podiam exercer livremente suas profissões, enviar e receber correspondência
e eram auxiliados pela Cruz Vermelha. Na verdade. equipes da Cruz Vermelha Internacional faziam visitas periódicas ao gueto e todas as vezes divulgavam relatórios
favoráveis concernentes às condições de vida e tratamento dos prisioneiros.
Assim, os alemães conseguiram o que queriam com a criação de um gueto modelo, pois tais relatórios da Cruz Vermelha Internacional tinham o efeito de neutralizar
ou, melhor ainda, de qualificar como calúnias maldosas os rumores sobre horrores dos KZ e dos crematórios.
Mas agora, às vésperas do colapso, o III Reich não mais se preocupava em abrandar a opinião pública mundial e rejeitava até mesmo a máscara de seu humanismo
duvidoso. Começou, então, a liquidar sem demora os judeus sob sua custódia. Assim, havia soado a hora do gueto-modelo de Theresienstadt Quando chegaram a Auschwitz,
os homens ainda saudáveis desse gueto traziam a seguinte nota de convocação:
COMITÊ GOVERNAMENTAL SS DO
REICH PARA O RECRUTAMENTO
E O EMPREGO DE TRABALHADORES
ESCRAVOS
Aviso: O judeu X Y, do protetorado do Reich, fica avisado de que, por ordem da supracitada autoridade, foi designado para o Serviço de Trabalho Obrigatório.
O convocado deve, antes de sua partida, depositar seus instrumentos, as ferramentas necessárias ao exercício de sua profissão, uma provisão de roupas de inverno
e comida suficiente para uma semana, com a autoridade representativa. A data da partida será anunciada publicamente.
THERESIENSTADT, DATA
Assinatura
Toda aquela história de trabalho obrigatório era, naturalmente, uma mentira deslavada, um mero pretexto para se proceder o extermínio sem maiores problemas
e ainda por cima conseguir algumas ferramentas de que a população alemã tanto necessitava Vinte mil homens, aptos para o trabalho e na flor da juventude, morreram
nas câmaras de gás e foram cremados nos fornos dos crematórios. Levaram 48 horas para exterminá-los. Por vários dias, novamente o silêncio reinou sobre os crematórios.
Duas semanas mais tarde, mais comboios começaram a chegar, um atrás do. outro. Milhares de mulheres e crianças foram cuspidas na rampa de desembarque. Não
houve seleção. Todas foram encaminhadas para a esquerda.
No chão da antecâmara estavam centenas de notificações que diziam:
COMITÊ GOVERNAMENTAL SS DO REICH
PARA O RECRUTAMENTO E EMPREGO
DE TRABALHADORES ESCRAVOS
Aviso: A supracitada autoridade autoriza esposa e filhos do judeu X Y, do protetorado do III Reich, convocado para o Trabalho Obrigatório, a se reunir ao
citado judeu e a morar com ele pela duração de seu emprego. Alojamentos adequados serão fornecidos. Roupas de inverno, roupa de cama e provisões para uma semana
serão fornecidas pelos viajantes.
THERESIENSTADT, DATA
Assinatura
Como resultado dessa trama diabolicamente concebida, vinte mil mulheres e crianças, que desejavam apenas ir ao encontro de seus maridos e pais, seguiram-nos
nas câmaras de gás e nos fornos dos crematórios.
XXXII
NA A MANHÃ DE 17 DE NOVEMBRO de 1944, um guarda SS veio ao meu quarto e me informou muito confidencialmente que ordens recebidas de altas autoridades especificavam
que, dali por diante, era expressamente proibido matar qualquer prisioneiro do KZ. Após ter testemunhado tantas mentiras, achei impossível acreditar no que dizia
e expressei minhas dúvidas sobre o assunto. Porém, me reafirmou vivamente que ele próprio havia recebido a notícia pelo rádio alguns instantes atrás. Logo veríamos
se era verdade ou não. Pessoalmente, temi que fosse apenas outro truque.
Antes do meio-dia, porém, tive ocasião de verificar a veracidade de sua afirmação. Um trem de cinco vagões, trazendo quinhentos prisioneiros doentes e debilitados
que pensavam estar sendo transferidos para um campo de repouso, parou entre os crematórios um e dois. Foram recebidos por SS políticos, que conversaram demoradamente
com o comandante e os guardas SS que acompanhavam os comboios. Finalmente, diante dos portões da morte, o trem voltou e seus ocupantes foram enviados para os hospitais
do Campo F.
Era a primeira vez, durante a minha estada nos crematórios, que um comboio enviado para o "campo de repouso" não era liquidado pelo gás ou pelo revólver
do Ober uma hora após sua chegada à rampa. Pelo contrário, o que aconteceu é que receberam cuidados médicos e lhes foi permitido repousar nas camas do barracão-hospital.
Menos de meia hora depois, outro trem chegou, trazendo 500 judeus eslovacos: um grupo de gente idosa, mulheres e crianças. Assim que saíram dos vagões, observei-os
atentamente para ver o que acontecia. A forma e a seleção constituíam os procedimentos normais na rampa dos judeus. Mas o que eu estava testemunhando era totalmente
fora do comum. Os viajantes, exaustos, desciam dos vagões carregando toda sua bagagem e seguiam em direção ao Campo D. Mães empurrando carrinhos de bebê e os mais
jovens ajudando os velhos a caminhar. Minha reação imediata foi de entusiasmo. Não podia haver mais dúvida: os portões dos crematórios tinham permanecido fechados
diante dos comboios enviados para a morte.
Para os prisioneiros do KZ, o acontecimento foi uma verdadeira dádiva, aumentando a esperança. Para os homens do Sonderkommando, no entanto, aquilo era um
mau presságio, pois significava que o fim estava próximo. Eu estava certo de que seríamos liquidados mesmo antes do período de quatro meses.
Uma nova vida começou no KZ. Não havia mais mortes violentas, mas o passado sangrento tinha de ser apagado. Os crematórios tinham que ser demolidos, as valas
cobertas de terra e quaisquer testemunhas ou participantes dos horrores ali perpetrados teriam que desaparecer. Totalmente conscientes do que nos aguardava, saudamos
a mudança com uma mistura de alegria e resignação. Dos quatro milhões de almas enviadas dos quatro cantos da Europa por ordem de um führer demente — o piromaníaco
do III Reich — para serem queimadas pelos carniceiros de Maydanek, Treblinka, Auschwitz, Birkenau, uns poucos milhares saíram com vida.
Sentindo-me angustiado, tornei a visitar, por volta do meio-dia, o SS que me havia informado da boa nova pela manhã. Queria saber que decisões tinham sido
tomadas no decorrer da manhã. Existia alguma coisa já deliberada sobre o Sonderkommando? Em caso afirmativo, o quê? Felizmente estava sozinho e pude falar com ele
livremente.
— O Sonderkommando? Ah, sim! — respondeu afável. — Em poucos dias vocês serão enviados para uma fábrica de guerra subterrânea, não muito longe de Breslau.
Não acreditei em nenhuma palavra do que disse. Pela primeira vez, porém, senti que suas mentiras não tinham a intenção de me impingir um falso senso de segurança:
Ele simplesmente queria me poupar das más noticias, pois não fazia muito tempo eu o tinha curado de uma moléstia grave.
XXXIII
O RELÓGIO MARCAVA duas horas da tarde. Tinha acabado de almoçar e estava sentado diante da janela do meu quarto, olhando o céu e as nuvens que traziam a
promessa de neve muito em breve, quando um grito estridente na sala de incineração veio quebrar o silêncio:
— Alie antreten, alie antreten!
Essa era uma ordem que estávamos acostumados a ouvir duas vezes por dia, uma de manhã e a outra à tarde, a chamada.
Vindo a essa hora, no entanto, ela na certa não significava nada de bom.
— Antreten, alie antreten! — a ordem foi repetida, desta vez mais persistente e impaciente que antes.
Passos pesados ressoaram junto à minha porta. Um SS abriu-a com estrondo e gritou:
— Antreten, antreten!
Com o coração apertado, fomos para o pátio do crematório, onde um grupo de SS bem armado cercou os homens que chegaram. Não houve surpresa nem protestos
de ninguém. Os SS, com as metralhadoras apontadas, esperaram pacientemente que os últimos retardatários chegassem e se reunissem ao grupo. Olhei em volta pela última
vez. Os pinheiros imóveis que formavam um túnel no fundo do pátio estavam agora cobertos de neve. Tudo estava quieto e em paz.
Em poucos minutos veio a ordem:
— Para a esquerda.
Saímos do pátio, e ao invés de seguirmos a estrada, os guardas nos mandaram ir na direção do crematório no. 2. Cruzamos o pátio, sabendo que esta seria nossa
última caminhada. Eles nos meteram dentro da sala de incineração, mas nenhum dos guardas permaneceu ali conosco. Espalharam-se, em círculo, em volta do crematório,
principalmente nas proximidades das janelas e portas, suas armas engatilhadas, prontas para atirar. As portas estavam trancadas e as janelas fechadas com pesados
suportes de ferro, impedindo, assim, qualquer possibilidade de fuga. Nossos companheiros do n9 2 também estavam presentes, e alguns minutos mais tarde abriram a
porta e entrou o kommando do n° 4. Ao todo eram 460 homens esperando a morte. A única coisa que não sabíamos com certeza era o método que seria usado para nos exterminar.
Éramos especialistas no assunto, tendo visto todos os métodos em operação. Seria na câmara de gás? Dificilmente, não com o Sonderkommando. Metralhadoras? Não muito
conveniente numa sala como esta. Era mais provável que quisessem matar dois coelhos com uma só cajadada, ou seja. dinamitar o crematório conosco dentro. Um plano
digno da SS. Ou talvez fossem jogar uma bomba de fósforo aqui dentro através das janelas. Esse também seria um meio eficiente e que já havia sido testado com sucesso
nos deportados do gueto de Milo. O que foi feito na ocasião foi colocar os deportados nos vagões caindo aos pedaços e depois jogar uma bomba lá dentro.
Os homens do Sonderkommando estavam no chão da sala das fornalhas, esperando pacientemente e em silêncio pelo próximo movimento.
De repente o silêncio foi quebrado. Um homem do kommando, magrinho e pálido, de seus trinta anos, cujos olhos estavam escondidos atrás de um par de lentes
grossas, ficou em pé de um salto e começou a falar numa voz suficientemente alta para que todos ouvissem. Era o Dayen rabino de uma sinagoga de uma pequena cidade
da Polônia. Um autodidata, cujos conhecimentos eram grandes não só no campo espiritual como no temporal, ele era o membro ascético do Sonderkommando. De conformidade
com os ditames de sua religião, aceitava apenas pão, margarina e cebolas da despensa bem provida do kommando. Tinha sido encarregado da cremação, mas devido ao seu
fanatismo religioso, eu próprio fui interceder junto ao Ober em seu favor para ver se o dispensava daquele tenebroso trabalho. O argumento que usei foi simplesmente
o de que aquele homem não iria servir muito no trabalho pesado do crematório, pois era fraco em conseqüência da dieta rigorosa a que se submetia.
— Além disso — argumentei — ele somente iria atrasar o trabalho, parando cada corpo para murmurar orações pela sua salvação. E teria freqüentemente milhares
de almas por dia para encomendar.
Tais foram meus argumentos e bastaram. Por estranho que pareça, o Ober designou-o para a queima da pilha de refugo que se acumulava infinitamente no pátio
do no. 2. O refugo, chamado de "Canadá" pelos SS, era composto de objetos que haviam pertencido aos deportados, objetos de tão pouco valor material que nem eram
considerados dignos de ser guardados: passaportes, certidões de casamento, condecorações militares, livros de orações, objetos religiosos e Bíblias que os deportados
traziam consigo para o cativeiro.
A pequena montanha chamada Canadá consumia diariamente centenas de milhares de fotografias — retratos de casamento de jovens casais, grupos de velhos amigos,
crianças encantadoras e moças bonitas — junto com os incontáveis livros de oração nos quais em muitos encontrei anotações de datas de acontecimentos importantes
— casamentos, mortes, nascimentos — nas vidas de várias famílias. Algumas vezes havia flores dos túmulos de entes queridos, vindas de todos os cemitérios da Europa,
amassadas entre as páginas e cuidadosamente conservadas. Rosários e toda sorte de miudezas amontoavam-se no Canadá.
Esse era o lugar onde Dayen trabalhava, ou melhor, não trabalhava, pois tudo que fazia resumia-se em observar a pilha queimar. Mesmo assim, sentia-se infeliz
porque suas crenças religiosas proibiam-no de queimar livros de oração ou objetos sacros. Eu sentia pena dele, mas não podia fazer nada para ajudá-lo. Era impossível
conseguir-lhe um trabalho mais fácil; afinal de contas, todos nós éramos apenas membros do kommando dos mortos-vivos.
Esse foi o homem que começou a falar:
— Camaradas judeus... Uma Vontade inescrutável enviou nosso povo para a morte; o destino nos reservou a mais ingrata das tarefas, aquela de participar de
nossa própria destruição, de testemunhar nosso próprio desaparecimento até as cinzas às quais seremos reduzidos. Em nenhum momento os céus se abriram para enviar
a chuva que apagaria as chamas das piras funerárias. Nós devemos aceitar, rcsignadamente, como Filhos de Israel que somos, o caminho que as coisas devem seguir.
Deus assim ordenou. Por quê? Não cabe a nós, miseráveis mortais, responder a essa pergunta. Esse é o destino que caiu sobre nossas cabeças. Não temam a morte. Do
que valeria a vida, mesmo se por algum estranho milagre conseguíssemos sair daqui? Voltaríamos às nossas cidades para encontrar o frio je as nossas casas saqueadas.
Em cada quarto, em cada canto, a memória daqueles que desapareceram estaria presente espreitando nossos olhos cheios de lágrimas. Sem parentes, sem família, perambularíamos
como incansáveis sombras de nossas antigas figuras, de nossos passados, sem encontrar paz ou descanso.
Seus olhos faiscavam, sua face estava transfigurada. Talvez enquanto falava já estivesse em contato com o além. Um silêncio sepulcral encheu a sala, interrompido
apenas pelo ruído de riscar de fósforos para acender cigarros. Aqui e ali um suspiro pesado expressava o último adeus de alguns de nós ao mundo dos vivos.
As portas maciças abriram-se de repente. O Oberschaar-(ührer Steinberg entrou, acompanhado de dois guardas armados de metralhadora.
— Ârtze heraus. Todos os médicos para fora! — gritou, com impaciência.
Meus dois colegas, o assistente de laboratório e eu levantamo-nos e saímos da sala. Steinberg e os dois SS pararam no meio do caminho entre os dois crematórios.
O Ober deu-me umas folhas de papel nas quais havia várias colunas de números. Ordenou-me que procurasse meu número e os de meus colegas, e passasse um traço em volta.
O papel continha os números de todos os homens do Sonderkommando. Peguei minha caneta e, depois de procurar um pouco, achei os números e cerquei-os. Isso feito,
ele nos levou até o portão no. 1 e ordenou que fôssemos para o quarto e dali não saíssemos sob hipótese alguma. Fizemos como ele ordenou.
Na manhã seguinte, um comboio de cinco caminhões chegou ao pátio do crematório e despejou sua carga de cadáveres — os do décimo-terceiro Sonderkommando.
Um novo grupo de trinta homens carregou-os para a sala de incineração, onde os corpos ficaram espalhados em frente aos fornos. Estavam cobertos de queimaduras terríveis.
Rostos e roupas estavam tão carbonizados que era impossível qualquer reconhecimento, especialmente devido ao desaparecimento dos números tatuados.
Depois da morte na câmara de gás, com injeções de clorofórmio, com uma bala na nuca, com bombas de fósforo, agora eu conhecia a sexta modalidade de matar.
De noite, nossos companheiros tinham sido levados para uma floresta perto do campo e assassinados com lança-chamas. O fato de nós quatro estarmos vivos não
significava de modo algum que eles pretendiam poupar-nos, mas simplesmente que ainda lhes éramos indispensáveis. Ao nos permitir continuar vivendo, o Dr. Mengele
tinha somente nos concedido outro adiamento. Mais uma vez esse pensamento não nos trouxe nem conforto nem alegria.
XXXIV
O Sonderkommando — o décimo-terceiro na história dos crematóríos — foi assim aniquilado. Agora nossos dias transcorriam em silêncio e monotonia. Desarvorados,
perambulava-nos pelos corredores frios, pelos muros proibidos. O som dos meus passos no silêncio era profundamente doloroso aos meus ouvidos. Não tínhamos ordem
alguma, nada para fazer. À noite deitávamos na cama, incapazes de dormir. Só nós quatro ficamos no edifício. Os trinta homens que trabalhavam no crematório não eram
Sonderkommandos, e sim prisioneiros comuns do KZ que aqui vinham todos os dias para cremar os corpos daqueles que morriam no hospital.
Mudos, introspectivos, prostrados pela dor, aguardávamos o nosso fim. Era um mau sinal o fato de Mussfeld, como se se tivesse tornado uma pessoa diferente,
deliberadamente evitar de nos encontrar. Talvez sentisse que o espetáculo havia chegado ao fim: a tragédia sangrenta terminara e logo chegaria a vez do destino que
acompanha os portadores de segredos proibidos se abater também sobre ele. Durante dias a fio, permaneceu trancado em seu quarto, bebendo com uma sede aparentemente
insaciável para esquecer o passado e o obscuro futuro.
Um dia o Dr. Mengele chegou inesperadamente e veio à nossa procura no quarto, pois devia saber que não estávamos na sala de dissecação, agora que os negócios
andavam parados. Anunciou que, de acordo com ordens recebidas de cima, Auschwitz devia ser totalmente destruído. Não, no momento não se referia aos prisioneiros
e sim à própria instituição. Dois crematórios seriam demolidos, o terceiro serviria temporariamente para cremar os mortos dos hospitais. A sala de dissecação, e
nos com ela seria transferida para o número quatro, que continuaria em operação. Os números um e dois seriam destruídos imediatamente. O número três já estava destruído
desde a revolta de outubro.
Foi um momento histórico e de felicidade quando, na manhã seguinte, um kommando chegou ao pátio, dividiu-se em dois grupos e começou a demolição dos prédios.
Ao ver as paredes de tijolos vermelhos caírem uma após a outra tive a sensação de estar presenciando a própria demolição do III Reich. Os judeus as tinham erguido,
os judeus as estavam derrubando. Nunca eu tinha visto prisioneiros do KZ trabalharem com tanta tenacidade como a que vi nos rostos daqueles homens, cujas expressões
refletiam as esperanças de uma vida melhor.
Na sala de dissecação tudo que fosse removível estava sendo empacotado. Quanto à mesa de dissecação, somente as lajes de mármore foram desmanteladas e substituídas
por suportes de concreto. A mudança terminou em poucas horas e passamos a noite no no. 4. Depois de arrumar a mesa — colocar os pedestais e os coletores em posição
- a sala de dissecação estava novamente pronta para funcionar.
Por dez dias nada aconteceu. Nossa vida indolente continuou Cada vez mais nossos guardas SS buscavam refugio na bebida. Era muito raro eles ficarem sóbrios
mais que alguns minutos por dia.
Uma noite, enquanto jantávamos, Mussfeld entrou cambaleando, debruçou-se sobre a mesa e disse: - Guten abend _ Gutert abend Jungs... Ihr werdet bald alie
kepieren, nachne aber kommen wir (Boa noite, crianças, logo vocês irão morrer mas depois nossa vez chegará..) Por essas palavras saídas dos lábios de um bêbado,
fiquei conhecendo a verdade que já suspeitava. Nossos guardas iriam sumir conosco.
Ofereci uma xícara de chá com rum ao Ober que a esvaziou tão rápido quanto eu a enchi, com uma satisfação infantil. Sentou-se em nossa mesa e, como se quisesse
descontar seu silêncio passado, começou a falar. Contou-nos como sua mulher havia morrido durante um raid aéreo e que seu filho estava na frente russa.
— Está tudo acabado — disse. — Os russos estão a menos de 40 quilômetros de Auschwitz. A Alemanha inteira está em êxodo pelas estradas. Todos estão abandonando
as áreas fronteiriças para buscar refúgio a oeste.
Suas palavras nos fizeram um bem enorme. E vendo o desespero do Ober, um raio de esperança começou a brilhar dentro de mim. Talvez, apesar de tudo, conseguíssemos
sair vivos daqui.
XXXV
CONDENADOS ÀQUELA região situada entre a esperança e o desespero, chegamos a 1º. de janeiro de 1945. A neve cobria a paisagem até onde a vista podia alcançar.
Saí do crematório para dar um pequeno passeio pelo pátio.
De repente, o barulho de um potente motor alcançou meus ouvidos e um minuto mais tarde um enorme caminhão marrom apareceu. Usado para transportar prisioneiros,
esse caminhão era chamado de "Brown Toni" (Toni Marrom) pelos deportados, porque era pintado todo de marrom-escuro. Um oficial grandalhão saltou de dentro dele.
Não podia deixar de reconhecer o Dr. Klein, major SS, um dos mais sanguinários carrascos do KZ. Fiquei em posição de sentido e saudei-o como de costume. Ele havia
trazido uns 100 prisioneiros do barracão no. 10, isto é, da prisão.
— Aqui está algum trabalho para começar o Ano Novo — disse ele, dirigindo-se ao Ober que se apressara a vir saudá-lo.
O Ober estava tão bêbado que mal se agüentava de pé. Aparentemente tinha celebrado demais o Ano Novo. Quem sabe, se não estava tentando fugir do fim iminente
que o aguardava? De qualquer forma, era evidente que não ficou nada satisfeito ao saber que tinha de sujar as mãos de sangue logo no primeiro dia do ano. Cem prisioneiros
poloneses, cristãos, trazidos para cá para serem assassinados. Guardas SS os levaram para a sala das fornalhas e ordenaram que se despissem imediatamente.
O Dr. Klein e o Ober, enquanto isso, davam um passeio pelo pátio.
Corri até a sala onde estavam os prisioneiros e comecei a perguntar-lhes sobre os motivos de suas prisões. Um deles disse-me que havia dado abrigo a um parente
em Krakau. A Gestapo acusou-o de ajudar a Resistência e levou-o a julgamento pela Corte Marcial. Enquanto aguardava a sentença, foi enviado para o barracão n» 10.
Embora ainda não soubesse, a Corte já o havia condenado à morte. Por isso ele estava ali. Sua impressão, no entanto, era de que tinha sido trazido para tomar um
banho de chuveiro antes de ser enviado para os trabalhos forçados.
Um outro foi preso por haver estimulado a inflação. Uma falta grave, sem dúvida. Mas o que exatamente ele fez? Simplesmente comprou um pouco de manteiga
no mercado negro. Um terceiro foi preso por estar perambulando pela zona proibida. Acusaram-no de ser espião da Resistência. E a história se repetia a todas as minhas
perguntas: pequenos deslizes transformados em crimes sem perdão.
Agora que não havia mais Sonderkommando, os guardas SS conduziram os prisioneiros para diante do revólver do Ober.
Novamente o barulho do Brow Toni. Cem novas vítimas chegavam, todas mulheres bem vestidas. Foram enviadas para a mesma_ sala onde, minutos antes, os homens
tinham se despido. Então, uma a uma as mulheres foram levadas para o revólver do Ober. Elas também eram polonesas c cristãs; elas também pagaram com a vida por infrações
insignificantes.
Assim que se certificou que o trabalho havia sido executado, o Dr. Klein deixou o crematório. Não havia nada de contraditório entre a ordem de 17 de novembro
proibindo a prática da morte violenta e o extermínio de hoje. Ao contrário, tudo que os SS fizeram foi cumprir as sentenças ditadas por um tribunal.
XXXVI
MEUS DIAS TRANSCORRIAM calmamente sem interrupção. Ouvi rumores de que o Dr. Mengele havia abandonado Auschwitz. O KZ tinha um novo médico e, o que era mais
importante, de agora em diante o local não seria mais chamado de KZ, mas sim de Arbeitslager isto é, Campo de Trabalho. Tudo estava desmoronando e caindo aos pedaços.
No dia l de janeiro chegou-me às mãos, casualmente, um jornal que noticiava o começo da ofensiva russa. O barulho da artilharia estremecia as janelas; a
linha de fogo ia ficando cada vez mais próxima. A 17 de janeiro, fui mais cedo para a cama, embora não estivesse cansado. Queria ficar sozinho com meus pensamentos.
Aquecido pelo calor agradável do fogão de lenha, eu logo adormeci.
Devia ser meia-noite quando fui acordado por uma série de violentos estrondos, rajadas de metralhadoras e clarões estonteantes. Ouvi o barulho de portas
batendo e de correrias nas corredores. As luzes da sala de incineração estavam acesas e as portas dos alojamentos SS escancaradas, testemunhando a rapidez de sua
partida.
Os pesados portões do crematório também estavam abertos. Nenhum guarda à vista. Olhei rapidamente para as torres de vigia. Pela primeira vez em meses estavam
vazias. Corri de volta para avisar meus companheiros. Vestimo-nos apressadamente e nos preparamos para a grande jornada. Os SS haviam fugido. Não ficaríamos aqui
nem mais um minuto, aqui onde durante oito meses a morte rondara nossas cabeças a cada minuto, a cada hora. Não devíamos esperar pelos russos, uma vez que os SS
da retaguarda poderiam nos encontrar e não hesitariam em matar-nos. Felizmente, tínhamos excelentes roupas — suéteres, capas, sapatos — que eram de grande valia,
pois a temperatura lá fora descia a pelo menos 10 abaixo de zero. Cada um levou algumas latas de comida e enchemos os bolsos de cigarros e remédios.
Partimos sentindo a sensação febricitante da liberdade. Direção: o KZ de Birkenau a dois quilômetros dos crematórios. Labaredas dançavam no horizonte, à
altura de Birkenau. Provavelmente o KZ estava em chamas.
Cruzando a sala de incineração, passamos em frente à sala onde era guardado todo o ouro do KZ. Caixas contendo fortunas incalculáveis ainda permaneciam lá,
mas nem mesmo pensamos em parar para pegar alguma coisa. De que servia o dinheiro quando a própria vida estava em jogo? Nós aprendemos que tudo é efêmero e que nenhum
valor é absoluto. A única exceção à regra: a liberdade.
Saímos pelo portão principal. Ninguém nos deteve. A mudança abrupta parecia inacreditável. Nosso caminho nos conduzia através da pequena floresta de Birkenau,
cujas árvores estavam cobertas por uma grossa camada de neve. O mesmo caminho que conduzira milhões para a morte... Passamos ao lado da rampa dos judeus, enterrada
sob a neve. Daqui eles desciam dos vagões para a seleção... A imagem das duas colunas, a da esquerda e a da direita, separadas para sempre, veio imediatamente aos
meus olhos. Mas para todos eles, a questão tinha sido simplesmente de ordem cronológica: agora estavam todos mortos.
Sim, o KZ de Birkenau estava em chamas. Alguns dos aposentos dos SS, onde eram guardados os registros e documentos, estavam pegando fogo. Uma multidão de
talvez umas três mil pessoas foi reunida em frente ao campo e esperava pela ordem de iniciar a marcha. Sem pensar duas vezes, juntei-me a eles. Ninguém me conhecia.
Aqui eu não era mais o portador de segredos mortais, não era mais um membro do Sonderkommando e, conseqüentemente, não tinha obrigatoriamente que morrer. Aqui eu
era apenas outro prisioneiro perdido na multidão. Parecia-me ser esta a melhor solução. Meus colegas concordaram com minha decisão. Todos estavam fugindo de Birkenau,
mas eu achava muito improvável que conseguissem nos levar muito longe. Em um dia ou dois, os russos nos alcançariam. Antes, porém, que isso acontecesse os SS iriam
desertar. Enquanto isso, o melhor que tínhamos a fazer era caminhar com os outros entre as duas linhas de fogo.
Era uma hora da manhã. O último SS tinha abandonado o campo. Ele fechou os portões de ferro e cortou a luz. Birlkenau, o enorme cemitério do judaísmo europeu,
mergulhou nas trevas. Meus olhos percorreram por um longo momento as linhas de arame farpado do campo e as silhuetas dos barracões. Adeus cemitério de milhões, cemitério
sem um único túmulo!
Iniciamos a marcha ladeados por uma companhia de SS. Discutimos com nossos amigos recentes tudo que estava acontecendo, e o que poderia acontecer agora,
tentando desvendar o que o futuro nos traria. Conseguiriam os SS nos levar para nova prisão? Ou, como esperávamos, desertariam no meio do caminho?
Tínhamos caminhado aproximadamente cinco quilômetros quando nosso flanco esquerdo tornou-se alvo de um fogo mortal. A guarda avançada russa nos vira e, tomando-nos
por uma coluna militar, abrira fogo. Estavam usando submetralhadoras e o apoio de um tanque leve. Os SS responderam ao fogo, e gritaram para que nos jogássemos ao
chão. Rastejamos até umas valas no outro lado da estrada. A fuzilaria estava pesada de ambos os lados. Então, num instante, tudo se aquietou novamente e continuamos
nossa jornada através da terra estéril e coberta de neve da Silésia.
Pouco a pouco o sol começou a aparecer. Calculei que tínhamos percorrido uns 15 quilômetros durante a noite. Mas ainda marchávamos sobre a neve mole. Por
todo o caminho notei vasilhas, lençóis, sapatos de madeira, abandonados pelas mulheres que nos haviam precedido.
Alguns quilômetros adiante, deparamos com uma visão muito mais consternadora: de dez em dez metros, um corpo ensangüentado jazia na vala ao lado da estrada.
Durante quilômetros e quilômetros a cena se repetia: um rastro de cadáveres. Exaustos, ficaram incapazes de dar sequer um passo a mais; quando se afastavam das fileiras,
os SS os despachavam com uma bala na cabeça.
Assim, eu infelizmente não deixara os crimes e a violência para trás. Ao que parecia os SS tinham ordens de não deixar ninguém para trás com vida. Um pensamento
desencorajador.
A visão daqueles corpos impressionou profundamente a todos nós, e apressamos o passo. Caminhar significava viver.
Agora os primeiros tiros começaram a se ouvir no nosso comboio também. Os corpos de dois companheiros de sofrimento caíram nas valas. Impotentes para dar
sequer um passo, eles haviam se sentado: uma bala na nuca. Não se passavam dez minutos sem que se repetisse a cena.
Por volta de meio-dia, alcançamos Plesow, onde fizemos nossa primeira parada. Passamos uma hora num estádio de futebol. Todos que tinham algo para comer,
comeram um pouco. Fumamos um cigarro e então retomamos a marcha através da estrada nevada, sentindo-nos bastante revigorados. Uma semana se passou, duas semanas
se passaram, mas ainda caminhávamos. Durante vinte dias andamos até que, finalmente, alcançamos uma estação ferroviária. Ao todo, havíamos coberto mais de duzentos
quilômetros, não tendo praticamente nada para comer nessas três semanas. À noite, dormíamos ao relento, sob o frio cortante. Quando chegamos a Ratibor, somente dois
mil de nós foram contados. Aproximadamente mil tinham sido fuzilados ao longo do caminho. Por isso todos nos sentimos muito aliviados ao ver os vagões à nossa espera.
Subimos para os vagões e depois de uma noite inteira de espera começamos a rodar. A viagem durou cinco dias. Não contei o número de companheiros que morreram
congelados. O que sei é que somente mil e quinhentos chegaram ao destino — o KZ Mauthausen. Alguns dos quinhentos que faltavam não estavam mortos, pois houve alguns
que, tirando partido da situação escaparam do comboio.
XXXVII
O KZ DE MAUTHAUSEN ficava no topo de uma colina, dominando a cidade do mesmo nome. Esse campo de extermínio, que parecia uma cidade fortificada, foi feito
com blocos de granito. Com seus bastiões, suas torres e vigias, parecia mais um castelo medieval.
Aquela teria sido uma imagem rara e maravilhosa se as pedras estivessem cobertas com líquens centenários ou acinzentadas pelo embate constante do vento,
da chuva e da neve através dos anos. Mas não, sua fachada era de um branco ofuscante que destoava da paisagem em redor, composta de florestas escuras. Pois o "castelo"
tinha sido construído há pouco tempo, e suas paredes ainda não estavam marcadas com a austera beleza das antigas construções. O III Reich mandara construí-lo para
servir de KZ. Quarenta mil republicanos espanhóis, refugiados na França, para aqui haviam sido trazidos depois da ocupação, assim como centenas de milhares de judeus
alemães. Foram eles que trabalharam nas pedreiras de Mauthausen, cortando os blocos de granito. Foram eles que carregaram as pedras, depois de cortadas, pelos sete
quilômetros montanha acima, onde antes somente carneiros selvagens pastavam. E foram eles que construíram as poderosas paredes que circundavam sua casa de penitência
composta de barracões de madeira. Eles terminaram o castelo ao preço de um sofrimento inacreditável. Sob o peso dessa grande massa de pedra e concreto, todos acabaram
perecendo, como os escravos do Antigo Egito.
O campo, porém, não permaneceu desocupado por muito tempo. Milhares dos que lutaram na Resistência Iugoslava assim como os membros de todos os movimentos
de Resistência da Europa —7 e naturalmente a raça condenada, os judeus, — foram confinados aqui, abarrotando os barracões da imensa fortaleza. Aqui viveram durante
o breve período que precedeu a sua morte.
Agora, outro comboio, dizimado pela longa viagem e pelo frio insuportável, vagarosamente subia o árduo caminho coberto de neve, montanha acima. Estávamos
já sem forças, mas finalmente transpusemos os portões do KZ e formamos sob a tênue luz do poente no "Appelplatz".
Olhei em volta à procura de meus companheiros. Fisher, o assistente de laboratório, não estava presente. Não o tinha mais visto desde Plesow. Lá, ainda o
vira deitado na neve, completamente exausto. Pela sua contraída expressão facial, suspeitei que seu fim estava próximo. Ele tinha cinqüenta e cinco anos e passara
cinco no KZ, assim, não era de admirar que seu organismo não suportasse a longa caminhada e o frio. O Dr. Korner estava em bom estado, mas por outro lado, o Dr.
Gorog parecia-me em estado crítico. Seus problemas mentais haviam-se agravado, e mesmo nos dias de crematório, manter sua condição em segredo tinha sido fonte constante
de preocupação para mim. Fiz o que pude para evitar que seu estado chegasse ao conhecimento do Dr. Mengele. Mussfeld também chegou perto. Se qualquer um dos dois
percebesse o que se passava com ele, sua vida não valeria um centavo.
Antes de sairmos do crematório, ele me informara de seus últimos desejos.
— Nicholas, — falou — você é um homem forte e um dia vai conseguir sair daqui com vida. Quanto a mim, sei que estou acabado. — Tentei protestar, mas ele
não prestou atenção a minhas palavras de encorajamento, e prosseguiu: — Tenho provas de que minha mulher e minha filha morreram na câmara de gás. Mas meu filho de
doze anos ficou bem guardado com os monges do mosteiro de Koszeg. Se um dia você voltar para casa, procure-o e cuide dele como se fosse seu. Estou dizendo isso de
posse completa de todas as minhas faculdades mentais, com a consciência de que não viverei muito.
Prometi fazer tudo que me pediu no caso de escapar e ele não.
Agora, felizmente, ele havia deixado o local da morte certa para trás. Morrer agora, tão perto do fim do caminho, no momento em que a esperança de liberdade
enchia nossos corações, seria realmente trágico demais.
Depois da tradicional chamada, fomos enviados através de um caminho tortuoso para os banhos. Lá encontramos grupos de recém-chegados de outros campos: devia
haver aproximadamente uns dez mil amontoados naquele pequeno espaço. Um vento forte assoviava entre os muros do castelo. A montanha na qual o campo estava encravado
assinalava o começo dos Alpes e os invernos aqui eram extremamente rigorosos. Soubemos que seriamos levados para os banhos em grupos de quarenta. De qualquer modo,
calculei que levaria no mínimo três dias para todos tomarem banho.
Os guardas que serviam aqui tinham sido recrutados entre os criminosos alemães, homens que cumpriam pena por assassinato, assaltos e coisas do gênero. Nem
era preciso dizer que eram servidores fiéis dos SS. Agora, seu trabalho consistia em agrupar os deportados para o banho. Os prisioneiros arianos eram os primeiros.
Na verdade, aqui havia tantos arianos que cheguei a pensar que os judeus não se banhariam antes do terceiro dia. Esperar tanto tempo tornou-se caso de vida ou morte,
pois um prisioneiro não podia entrar nos barracões ou ser inscrito na lista dos que receberiam rações sem primeiro passar pelo banho. Para uma pessoa que já estava
exausta, uma espera de dois dias sem comida significaria praticamente morte certa, pois ou suas pernas fraquejariam ou seus olhos se fechariam de sono e ele afundaria
na neve fofa para nunca mais se levantar. Dezenas de prisioneiros já estavam estirados na neve à minha volta. Ninguém lhes prestava a mínima atenção pois cada um
estava fazendo o possível e o impossível para continuar vivo. Esta era a nossa última arrancada em direção à meta final — a Vida.
Refletindo sobre a minha situação, decidi que não podia passar a noite ao relento sem colocar em jogo minhas já precárias chances de sobrevivência. Tinha
que ir aos banhos naquele dia. Pobre Dênis, vagava sem rumo, sem o chapéu, sem os óculos, como um sonâmbulo. Seu olhar estava parado e murmurava palavras ininteligíveis
à medida que cambaleava sobre a neve. Peguei-o pelo braço e arrastei-o comigo, na esperança de que, de alguma maneira, conseguíssemos chegar aos banhos. Mas antes
que tivéssemos avançado alguns passos, nós no perdemos um do outro na incrível massa de deportados.
Chamei-o pelo nome, gritando com todas as forças dos pulmões, sem resultado. O vento estava tão forte que eu mal ouvia minha própria voz. Pressentindo o
perigo, abri caminho no meio da multidão e aproximei-me dos degraus que conduziam aos banheiros. Finalmente, consegui atingir a fileira da frente. Vários SS, armados
de cassetetes de borracha, estavam guardando a entrada. Um grupo de quarenta pessoas aguardava para entrar. Eram todos arianos.
Novamente tomei uma decisão instantânea. Saindo do meio da massa humana, aproximei-me de um Oberschaarfuhrer e dirigi-me a ele no tom de voz mais firme que
consegui arranjar:
— Her Oberschaarfuhrer, sou o médico do comboio de Auschwitz. Deixe-me entrar.
Olhou-me de cima a baixo. Minhas roupas respeitáveis, talvez minha maneira determinada de falar ou mais ainda meu perfeito domínio do alemão pareceram causar
uma forte impressão nele. Virou-se para seus colegas postados mais próximos à entrada, e falou:
— Deixem entrar o doutor.
Desci sozinho, precedendo o primeiro grupo de quarenta que esperava no alto da escada para entrar. Salvo! E como fora fácil! Às vezes vale muito mais a pena
decidir as coisas em meio ao turbilhão dos acontecimentos.
O ar quente dos banhos logo veio trazer novas forças para as minhas pernas quase congeladas. Após dias e dias de frio intenso, enfim um lugar quente! O banho
em si me fez um tremendo bem. Nossas roupas foram consideradas contaminadas e, por isso, tivemos de abandoná-las. Senti muito ter de largar meu casaco, minha camisa
e a suéter de lã mas, pelo menos, fiquei feliz em constatar que podia ficar com os sapatos. Um bom par de sapatos poderia facilmente ser a diferença entre a vida
e a morte no KZ.
Calcei novamente os sapatos e juntei-me ao grupo que havia acabado de tomar banho. Ainda despido, voltamos pelo caminho que nos conduziu aos chuveiros e
esperamos durante meia hora até que houvesse gente suficiente para encher todo um barracão. Depois de um banho quente, permanecer sob aquele vento gelado, com a
temperatura beirando o zero, era flertar com a morte.
Logo em seguida, outro grupo de quarenta juntou-se a nós e então pudemos partir para o barracão. Os guardas SS obrigaram-nos a marchar acelerado, mas apenas
trinta metros depois chegamos ao barracão trinta e três do campo de quarentena.
Um prisioneiro, usando o distintivo verde dos criminosos comuns, estava colocado em frente à porta de entrada: era o chefe do nosso barracão. Entregou a
cada um pequeno pedaço de pão; um pouco adiante, outro funcionário passou um punhado de margarina feita de gordura de carne sobre o nosso naco de pão. Recebemos
também um golinho de café quente.
Após dez dias de privações, aquilo parecia um banquete real. De posse da comida, procurei um lugar para ficar e finalmente me ajeitei num canto onde achei
que minhas chances de ser pisoteado seriam menores. Deitei no chão, pois não havia camas no campo de quarentena. Apesar de tudo, dormi pesadamente até a alvorada.
Ao acordar, meus primeiros pensamentos foram para aqueles que provavelmente ainda estavam do lado de fora, congelando-se e aguardando pelos banhos.
Permanecemos no barracão durante três dias, sem ter nada que fazer. A comida não era tão má e, de certa forma, tínhamos condições de nos recuperar da penosa
marcha de três semanas.
No terceiro dia de nossa estada, chegou um oficial SS acompanhado de um general. Visitaram o barracão e ordenaram a todos que tinham pertencido ao KZ de
Auschwitz que dessem um passo à frente.
Meu sangue congelou-se nas veias. Os alemães eram uma gente metódica e, sem dúvida, tinham uma lista contendo o nome e o número daqueles que trabalharam
em Auschwitz. Pareceu-me provável. E assim, pensando sobre isso, cheguei à conclusão de que se tratava simplesmente de um ardil para tentar destacar da massa aqueles
capazes de revelar os sórdidos mistérios dos crematórios. Se realmente tivessem uma lista, tudo que precisavam fazer era conferir com os números tatuados. Ninguém
me conhecia aqui. Esperei, o sangue latejando nas minhas orelhas; fez-se o silêncio total no barracão. Depois de alguns segundos, eles partiram. Eu havia vencido
outra vez. Novamente a foice da morte passara sobre a minha cabeça sem me atingir.
Naquela noite, recebemos o uniforme listrado dos prisioneiros e fomos levados pelo caminho da montanha para a estação de Mauthausen. Lá, fomos empacotados
nos inevitáveis vagões, sete mil almas ao todo, e enviados para o campo de concentração de Melk an der Donau. Desta vez, o trajeto era curto e, para variar, fomos
imprensados como sardinha mas apesar disso havia espaço para sentar. Três horas depois de termos subido nos vagões, o trem parou e nós descemos.
O KZ de Melk, assim como o de Mauthausen, ficava no alto de uma colina, dominando a povoação do lugar. Originalmente fora um presídio comum, com o nome de
Freiherr Von Birabo, e seus imensos alojamentos eram suficientes para acomodar quinze mil criminosos de uma só vez. A beleza da paisagem minimizou nossa dor e desconforto:
o enorme mosteiro barroco, encravado na rocha, e o curso sinuoso do Danúbio formavam um quadro de inesquecível beleza. O Danúbio era o rio que associávamos com nossos
lares, nossas pátrias. Ao vê-lo agora, uma sensação de proximidade se apoderou de todos nós.
XXXVIII
A PRIMAVERA DE 1945 chegou mais cedo. Estávamos no começo de abril e as árvores que flanqueavam as valas em frente as cercas de arame farpado já estavam
totalmente verdes. Nos bancos do Danúbio, um tapete verde substituiu a neve da qual somente pequenas manchas sobraram para nos relembrar o rigoroso inverno que havíamos
enfrentado.
Oito semanas se passaram desde que cheguei ao KZ e períodos bons e maus se alternaram, mas essa experiência solapou minhas forças, deixou-me cansado e fraco.
Somente a esperança da libertação próxima impediu-me de cair num estado de letargia e indiferença.
Aqui tudo era desintegrador. A fase final do colapso do III Keich estava se desenrolando diante de nossos olhos. Exércitos derrotados passavam em colunas
intermináveis em direção ao interior do país, já reduzido a ruínas carbonizadas. No Danúbio, cujas águas voltaram a fluir depois de derretido o gelo, centenas de
barcos e barcaças desciam, transportando os habitantes das cidades que estavam sendo evacuadas. O sonho do Reich, de mil anos, estava desmoronando. A convicção de
um povo nascido para comandar de que era a Raça Superior estava se desvanecendo amargamente. Os povos da Europa ávidos de liberdade, não mais viviam sob o medo de
que sua cidade ou aldeia pudesse, por um simples capricho do conquistador, ser varrida do mapa. Não havia mais o perigo de ver suas casas saqueadas, de se verem
a si próprios despojados de seus pertences, de sentir a ponta fina da agulha tatuar números em seus braços, de serem embarcados para os campos de trabalhos forçados
e guardados por cães policiais e tropas SS.
Os piromanícos do III Reich estavam agora interpretando a cena final no palco do mundo: eles, que haviam incendiado o mundo, estavam sucumbindo sob suas
próprias chamas. O homem vaidoso, cujas palavras Deutschland Über Alies tinham sido ouvidas nos mais distantes confins do planeta, estava agora tremendo em seu bunker
subterrâeno. O orgulho incomensurável do III Reich tinha sido quebrado pela colaboração dos povos não ávidos de conquista, mas sim de liberdade.
A sete de abril de 1945, a cadeia de luzes que, do alto dos postes, iluminava o KZ, não foi acesa ao cair da noite. A escuridão e o silêncio envolveram todo
o lugar. O campo foi abandonado e o portão fechado. Os sete mil prisioneiros tinham sido levados para o interior do país, primeiro em barcos, depois pelas estradas
junto com os refugiados. Durante sete longos dias e noites, viajamos até que, finalmente, chegamos a nosso destino, o campo de concentração de Ebensee, o quarto
KZ cujos portões eu atravessei.
Logo após a chegada, a inevitável e interminável chamada. Depois os banhos. E então, novamente, o campo de quarentena, com suas barracas imundas, seus guardas
armados de cassetetes de borracha e o chão duro. Indiferentemente submeti-me a essas três fases costumeiras. Durante a chamada soprou um vento frio, caindo uma chuva
torrencial que empapou minhas roupas. A amargura tomou conta de mim. Sabia que era somente questão de dias até que fôssemos libertados, porém, no momento, ainda
estávamos vivendo num mundo de confusão e indecisão. E assim, quando o momento da decisão finalmente chegasse, seria talvez uma hora dolorosa para todos nós. O fim
de nosso cativeiro poderia muito bem se transformar numa tragédia sangrenta: eles certamente nos matariam antes que a hora H chegasse.
Após doze meses de prisão, num tempo em que todas as leis deixaram de existir, um tal fim estaria, sem dúvida, coerente com os costumes do Terceiro Reich.
Mas esse não foi o caso. A 5 de maio, uma bandeira branca tremulou na torre de vigia de Ebensee. Estava tudo acabado. Eles haviam deposto as armas. O sol
brilhava no alto quando, às nove horas, um tanque leve americano, dirigido por três soldados, chegou e tomou posse do campo.
Nós estávamos livres.
EPÍLOGO
DOENTE DO CORAÇÃO e fisicamente enfermo, iniciei a longa viagem de volta a casa. Não foi nada agradável: para onde quer que olhasse, via lugares que antes
eram cidades florescentes e que agora não passavam de ruínas fumegantes, e túmulos coletivos pontilhados de dezenas de cruzes brancas.
Temia a verdade, apavorava-me a idéia de retornar a um lar vazio, a uma casa despojada, a uma casa onde nem pai, nem esposa, nem filha, nem irmã estariam
esperando para saudar-me com carinho e afeição. Perseguição e dor, os horrores do crematório e das piras funerárias, meus oito meses no kommando dos mortos-vivos,
tudo isso havia embrutecido meu senso do bom e do mau.
Senti que precisava repousar, tentar recuperar as forças. Mas continuava a me perguntar, para quê? Por um lado, as enfermidades me corroiam o corpo, por
outro meu passado sangrento me congelava o coração. Meus olhos tinham seguido um número incontável de almas inocentes em seu caminho para as câmaras de gás, testemunharam
o espetáculo inacreditável das piras funerárias. E eu mesmo, executando as ordens de um médico demente, havia dissecado centenas de corpos para que uma ciência,
baseada em falsas teorias, pudesse se beneficiar com as mortes daqueles milhões de vítimas. Eu havia retalhado a carne de jovens saudáveis e preparado alimento para
as culturas bacteriológicas daquele louco. Havia mergulhado os corpos de anões e aleijados em cloreto de cálcio ou então colocara-os a cozinhar para que os esqueletos,
cuidadosamente preparados, pudessem chegar aos museus do III Reich para justificar, para futuras gerações, a destruição de toda uma raça. E mesmo que tudo isso agora
fizesse parte de um passado, eu ainda teria que conviver com esses fantasmas nos meus pensamentos, nos meus sonhos. Jamais conseguiria apagar essas lembranças da
minha memória.
Pelo menos duas vezes havia sentido as asas da morte roçarem em mim: uma vez prostrado no chão, em companhia de SS treinados na arte da execução sumária,
prontos para executarem seu trabalho, escapei ileso. Três mil de meus companheiros, que também tinham conhecimento dos terríveis segredos do crematório, não tiveram
a mesma sorte. Marchei por centenas de quilômetros através de campos de neve, lutando contra o frio, a fome e meu próprio cansaço, simplesmente para chegar a outro
campo de concentração. A estrada que percorri, sem dúvida, foi bastante longa.
Agora, de volta a casa, nada. Vagava sem rumo pelos aposentos silenciosos. Livre, mas não do meu passado sangrento, não do luto profundo que enchia minha
mente e ameaçava minha sanidade. E o futuro parecia da mesma forma tão obscuro. Perambulei como meu próprio fantasma, uma figura penada nas ruas uma vez tão familiares.
As únicas vezes que algo conseguiu sacudir-me de meu estado de letargia e depressão, foi quando, por engano, pensei ter visto, por um breve segundo, algum conhecido
ou membro de minha família.
Uma tarde, várias semanas após meu retorno, sentia muito frio e, por isso, sentei perto da lareira, esperando usufruir do pequeno conforto que o calor alegre
das brasas emprestava ao aposento. Estava ficando tarde; a noite já caía. A campainha da porta arrancou-me de meus pensamentos. Antes que pudesse levantar-me, minha
esposa e minha filha irromperam pela sala!
Estavam com boa saúde e tinham sido libertadas de Bergen--Belsen, um dos campos de extermínio mais famosos do III Reich. Mas aquilo foi tudo que conseguiram
me dizer antes de cair num choro convulso. Durante horas e horas soluçaram incontrolavelmente. Eu me contentei simplesmente em tê-las nos braços, enquanto a torrente
de sua dor fluía de suas mentes e de seus corações torturados. Pouco a pouco, sobrevieram os soluços, uma linguagem que me era muito familiar.
Tínhamos muito que fazer, muito para contar, muito para reconstruir. Sabia que levaria muito tempo e uma paciência infinita antes que pudéssemos retornar
ao que se chama de vida normal. Mas tudo que importava era que estávamos vivos... e juntos novamente. A vida havia de repente readquirido significação. Eu voltaria
a clinicar, sem dúvida... Mas jurei que, enquanto vivesse, jamais abriria um corpo.
3 . O campo de quarentena era uma área na qual os prisioneiros selecionados para a coluna da direita eram primeiramente mandados. Ficavam lá até que tomassem
banho, fossem desinfetados e raspados. Depois de trocar as roupas civis pelo uniforme de prisioneiro eram enviados às várias seções do campo.
4 Rudolf Hess, comandante do campo, testemunhando em Nuremberg, declarou que o campo chegava a ter 140.000 prisioneiros, sendo essa sua capacidade máxima.
5 Kapo é a abreviatura de Kamaradaschafs Polizei. O frapo-em-chefe era geralmente um prisioneiro alemão cumprindo pena por algum delito não-político.
Poucos tentavam abrandar o sofrimento de seus companheiros de prisão, mas a maioria era servidora fiel dos SS.
6 O Dr. Nyiszli foi para os Estados Unidos no verão de 1939 e ficou até fevereiro de 1940, como membro da delegação romena para a Feira Mundial. Ele pretendia levar
toda sua família e estabelecer-se nos Estados Unidos. Mas durante sua estada, estourou a guerra e teve de voltar para junto da família. Uma vez de volta, foi impossível
deixar o país. Como resultado, Auschwitz.
7 Em resposta ao inquérito concernente à origem e composição do gás ciclon, o Dr. Nyiszli escreveu que ele era fabricado, durante a guerra, pela I. G.
Farben Co., e que, embora fosse classificado como gucheim-mittel, isto é, confidencial ou secreto, ele conseguiu descobrir que o nome "ciclon" vem da abreviatura
de seus elementos essenciais: cíanido, cloro e nitrogênio. Durante o julgamento de Nuremberg, a Farben alegou que o gás era fabricado somente como desinfetante.
Mas o Dr. Nyiszli fez questão de realçar em seu testemunho que havia dois tipos de ciclon, o tipo A e o tipo B. Eles vinham em caixas idênticas, somente as letras
A e B os diferenciavam. O tipo A era desinfetante e o B usado para exterminar milhões.Suas localizações eram um segredo, mas o medo que despertavam era bem conhecido por russos, lituanos, poloneses, armênios e outros tantos que viveram sob a influência
da antiga União Soviética. Os campos de concentração do Gulag - literalmente acrônimo para Glavnoe Upravlenie Lagerei, ou "Administração Central dos Campos", palavra
que por fim passou a descrever todo o sistema soviético de punição e trabalhos forçados voltado a prisioneiros criminais e políticos, crianças e mulheres - espalhavam-se
por todo o país, da gélida Sibéria às inóspitas regiões da Ásia Central, passando pelas florestas dos Urais e os subúrbios de Moscou. Eles surgiram antes mesmo de
seus infames contrapartes nazistas como Auschwitz, Sobibor e Treblinka, e continuaram a crescer muito tempo depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Mas só agora,
após o colapso do comunismo, a história desse sistema de repressão e punição que aterrorizou milhões vem à luz com toda a sua força.
Embora a existência desses campos já fosse conhecida no Ocidente graças a clássicos como Um dia na vida de Ivan Denisovitch e Arquipélago Gulag, do dissidente Alexander
Soljenitsin, é com esse premiado trabalho de Anne Applebaum que temos o primeiro retrato completo e acurado de um dos maiores crimes cometidos contra a humanidade.
Longe de se limitar à frieza dos documentos oficiais, finalmente acessíveis, Applebaum enriquece a história com entrevistas e relatos de sobreviventes, que se sobressaem
não só pela força da prosa, mas também pela capacidade de sondar abaixo da superfície do horror cotidiano.
Anne Applebaum
Este livro é dedicado àqueles que descreveram o que aconteceu.
Nos anos pavorosos do terror de Yezhov, passei dezessete meses esperando na fila do lado de fora da prisão de Leningrado. Um dia, alguém na multidão me identificou.
Em pé atrás de mim, estava uma mulher, de lábios azulados de frio, que, é claro, nunca antes me ouvira ser chamada pelo nome. Agora, ela de repente saía de nosso
torpor habitual e me perguntava num sussurro (ali, todo o mundo sussurrava): "A senhora consegue descrever isto?"
Respondi que conseguia.
Nisto, algo semelhante a um sorriso passou rapidamente pelo que um dia fora seu rosto...
Atina Akhmatova, "À guisa de prefácio: réquiem, 1935-40"
Introdução
E o destino fez todos iguais
Fora dos limites da lei,
Filho de kulak ou comandante vermelho,
Filho de sacerdote ou comissário...
Aqui as classes eram todas igualadas,
Todos os homens eram irmãos, todos companheiros de campo,
Todos tachados de traidor...
Alexander Tvardovsky, "Por direito de memória"
Esta é uma história do Gulag - uma história da vasta rede de campos de trabalhos forçados que outrora se espalhavam por todo o comprimento e toda a largura da URSS,
das ilhas do mar Branco às costas do mar Negro, do Círculo Ártico às planícies da Ásia central, de Murmansk a Vorkuta e ao Cazaquistão, do centro de Moscou à periferia
de Leningrado. A palavra Gulag é um acrônimo de Glavnoe Upravlenie Lagerei, ou Administração Central dos Campos. Com o tempo, passou também a indicar não só a administração
dos campos de concentração, mas também o próprio sistema soviético de trabalho escravo, em todas as suas formas e variedades: campos de trabalhos forçados, campos
punitivos, campos criminais e políticos, campos femininos, campos infantis, campos de trânsito. De modo ainda mais amplo, Gulag veio a significar todo o sistema
repressivo soviético, o conjunto de procedimentos que os presos outrora denominaram "o moedor de carne": as prisões, os interrogatórios, o traslado em vagões de
gado sem aquecimento, o trabalho forçado, a destruição de famílias, os anos de degredo, as mortes prematuras e desnecessárias.
O Gulag tinha precedentes na Rússia czarista, nas turmas de trabalho forçado que operaram na Sibéria desde o século XVII até o início do século XX. Quase imediatamente
após a Revolução Russa, ele assumiu sua forma moderna e mais familiar, tornando-se parte integral do sistema soviético. O terror em massa contra oponentes reais
ou pretensos foi parte da Revolução desde o começo - no verão de 1918, Lênin, o líder revolucionário, já exigira que "elementos indignos de confiança" fossem encarcerados
em campos de concentração fora das cidades principais. Uma enfiada de aristocratas, negociantes e outras pessoas definidas como "inimigos" em potencial foi devidamente
aprisionada. Em 1921, já havia 84 campos de concentração em 43 províncias, a maioria destinada a "reabilitar" esses primeiros inimigos do povo.
A partir de 1929, os campos adquiriram nova importância. Naquele ano, Stalin resolveu usar o trabalho forçado tanto para acelerar a industrialização da URSS quanto
para explorar os recursos naturais no extremo norte, quase inabitável, do país. Também naquele ano, a polícia secreta soviética começou a assumir o controle do sistema
penal soviético, lentamente arrebatando ao Judiciário todos os campos e prisões. Com o impulso das prisões em massa de 1937 e 1938, os campos entraram num período
de rápida expansão. No final da década de 1930, podiam ser encontrados em cada um dos doze fusos horários da URSS.
Ao contrário da idéia corrente, o Gulag não parou de crescer quando chegou o final dos anos 1930; ao invés disso, continuou a expandir-se durante toda a Segunda
Guerra Mundial e a década de 1940, atingindo seu apogeu no começo dos anos 50. Nessa época, os campos já desempenhavam papel crucial na economia soviética. Produziam
um terço do ouro do país, boa parte de seu carvão e madeira e muito de quase tudo o mais. No decorrer da existência da URSS, surgiram pelo menos 476 complexos distintos
de campos, consistindo em milhares de campos individuais, cada um dos quais tendo de algumas centenas a muitos milhares de pessoas. Os presos trabalhavam em quase
todas as atividades imagináveis - derrubada e corte de árvores, transporte dessa madeira, mineração, construção civil, manufatura, agropecuária, projeto de aviões
e peças de artilharia - e, na realidade, viviam num Estado dentro do Estado, quase numa civilização em separado. O Gulag tinha suas próprias leis, seus próprios
costumes, sua própria moralidade, até sua própria gíria. Gerou sua própria literatura, seus próprios vilões, seus próprios heróis, e deixou sua marca em todos os
que passaram por ele, fosse como presos, fosse como guardas. Anos depois de libertados, os habitantes do Gulag muitas vezes eram capazes de reconhecer ex-condenados
na rua, simplesmente pelo "olhar".
Tais encontros se mostravam freqüentes, pois a rotatividade nos campos era grande. Embora as prisões fossem constantes, as solturas também o eram. Presos eram libertados
porque cumpriam as sentenças, porque se deixava que fossem para o Exército Vermelho, porque eram inválidos ou mães com filhos pequenos, porque haviam sido promovidos
de cativos a guardas. Em conseqüência, o número total de prisioneiros nos campos costumava girar em torno de 2 milhões, mas o número total de cidadãos soviéticos
que tiveram alguma vivência dos campos, na condição de presos políticos ou comuns, é muito maior. De 1929, quando o Gulag iniciou sua maior expansão, a 1953, quando
Stalin morreu, as melhores estimativas indicam que cerca de 18 milhões de pessoas passaram por esse enorme sistema. Aproximadamente mais 6 milhões sofreram o degredo,
desterrados para os desertos cazaques ou as florestas siberianas. Legalmente obrigados a permanecer em suas aldeias de degredo, também eles eram galés, mesmo que
não tivessem de viver atrás do arame farpado.
Como sistema de trabalho forçado em massa que envolveu milhões de pessoas, os campos desapareceram com a morte de Stalin. Embora ele houvesse acreditado a vida toda
que o Gulag era essencial ao crescimento econômico soviético, seus herdeiros políticos bem sabiam que os campos, na realidade, eram um dos motivos para o atraso
nacional e a política de investimento deturpada. Dias após a morte de Stalin, seus sucessores começaram a desmantelá-los. Três grandes rebeliões, mais um sem-número
de incidentes menores porém não menos perigosos, ajudaram a acelerar o processo.
No entanto, os campos não desapareceram por completo. Em vez disso, eles evoluíram. Durante toda a década de 1970 e o começo da década de 80, alguns foram reformulados
e usados como cárcere para uma nova geração de ativistas democráticos, de nacionalistas anti-soviéticos - e de criminosos. Graças à rede de dissidentes soviéticos
e ao movimento internacional de direitos humanos, notícias sobre esses campos pós-stalinistas chegavam regularmente ao Ocidente. Aos poucos, elas começaram a desempenhar
um papel na diplomacia da Guerra Fria. Mesmo nos anos 1980, o presidente americano, Ronald Reagan, e seu equivalente soviético, Mikhail Gorbatchev, ainda discutiam
os campos da URSS. Gorbatchev - ele próprio neto de prisioneiros do Gulag - só começaria a dissolver os campos políticos em 1987.
Contudo, embora tenham durado tanto quanto a URSS e milhões de pessoas tenham passado por eles, a verdadeira história dos campos de concentração da União Soviética
não era de modo algum bem conhecida até recentemente. Mesmo os fatos concisos até aqui relacionados, ainda que já sejam familiares à maioria dos estudiosos ocidentais
da história soviética, não penetraram na consciência popular ocidental. "O conhecimento humano", escreveu Pierre Rigoulot, historiador francês do comunismo, "não
se acumula como os tijolos de uma parede, que se eleva gradualmente, acompanhando o trabalho do pedreiro. Seu desenvolvimento, mas também sua estagnação ou recuo,
depende da estrutura social, cultural e política."
Poder-se-ia dizer que, até agora, não existia a estrutura social, cultural e política para o conhecimento do Gulag.
A primeira vez que percebi esse problema foi vários anos atrás, quando caminhava pela Karluv Most, a ponte Carlos, grande atração turística em Praga, cidade que
acabava de redemocratizar-se. Ao longo da ponte, havia músicos de rua e garotas de programa, e mais ou menos a cada cinco metros alguém vendia exatamente o que se
esperaria encontrar à venda num cartão-postal tão perfeito. Expunham-se pinturas de ruas adequadamente bonitinhas, junto com pechinchas de bijuteria e com chaveiros
com a palavra "Praga". Em meio ao bricabraque, podia-se comprar parafernália militar soviética (quepes, insígnias, fivelas) e pequenos buttons, as imagens de Lênin
e Brejnev que os escolares soviéticos outrora prendiam nos uniformes.
A cena me pareceu estranha. A maioria dos que compravam esses objetos era de americanos ou europeus-ocidentais. Todos eles ficariam enojados com a idéia de usar
uma suástica. No entanto, ninguém ali fazia objeções a ostentar a foice e o martelo numa camiseta ou num boné. Foi um episódio menor, mas às vezes é justamente por
coisas assim que se observa melhor o clima cultural. Pois ali a lição não poderia ter sido mais clara: se o símbolo de uma matança nos enche de horror, o de outra
nos faz rir.
Se entre os turistas em Praga havia falta de sensibilidade sobre o stalinismo, isso em parte se explicava pela escassez de imagens sobre o tema na cultura popular
ocidental. A Guerra Fria produziu James Bond e thrillers, mais os russos de gibi do tipo que aparecem nos filmes de Rambo; nada, porém, tão ambicioso quanto A lista
de Schindler ou A escolha de Sofia. Steven Spielberg, provavelmente o principal diretor de Hollywood (gostem disso ou não), preferiu fazer filmes sobre campos de
concentração japoneses (Império do sol) e sobre campos de concentração nazistas, mas não sobre campos de concentração stalinistas. Esses últimos não conquistaram
da mesma maneira a imaginação de Hollywood.
A cultura dita elevada não se tem mostrado muito mais aberta ao sistema. A reputação do filósofo alemão Martin Heidegger foi profundamente prejudicada pelo breve
apoio explícito ao nazismo, um entusiasmo que se desenvolveu antes de Hitler ter cometido suas maiores atrocidades. Por outro lado, a reputação do filósofo francês
Jean-Paul Sartre não sofreu nada com o vigoroso apoio ao stalinismo durante todos os anos do pós-guerra, quando provas abundantes das atrocidades de Stalin estavam
disponíveis para qualquer interessado. "Já que não éramos membros do Partido", registrou Sartre, "não era obrigação nossa escrever sobre os campos soviéticos de
trabalhos forçados; desde que nenhum fato de importância sociológica tivesse ocorrido, estávamos livres para permanecer distantes das desavenças sobre a natureza
do sistema." Em outra ocasião, ele disse a Albert Camus: "Assim como você, acho esses campos execráveis, mas acho igualmente execrável o uso que todos os dias se
faz deles na imprensa burguesa".
Algumas coisas mudaram desde o colapso soviético. Em 2002, por exemplo, o romancista britânico Martin Amis sentiu-se afetado o suficiente pela questão de Stalin
e do stalinismo para dedicar a ela um livro inteiro. Seu trabalho levou outros autores a indagar por que tão poucos membros da direita política e literária mencionam
o tema. De outra parte, algumas coisas não mudaram. Para um acadêmico americano, (ainda) é possível publicar um livro que dê a entender que os expurgos dos anos
1930 foram úteis porque promoveram a mobilidade social e, assim, estabeleceram as bases para a perestroika. Para um editor de página literária britânica, (ainda)
é possível rejeitar um artigo porque este é "demasiado anti-soviético". Muito mais comum, entretanto, é a reação de fastio ou indiferença em face do terror stalinista.
A resenha (de resto franca) de um livro que escrevi nos anos 1990 sobre as repúblicas ocidentais da antiga URSS continha o seguinte trecho: "Ali ocorreu a fome da
década de 1930, na qual Stalin matou mais ucranianos do que Hitler assassinou judeus. No entanto, quanta gente no Ocidente se lembra disso? Afinal, a matança foi
tão... tão... maçante, aparentemente nada dramática".
São todas coisas pequenas: a compra de bugigangas, a reputação de um filósofo, a presença ou ausência de filmes de Hollywood. Mas junte-as todas e terá uma história.
Intelectualmente, americanos e europeus-ocidentais sabem o que aconteceu na URSS. Em 1962-3, Um dia na vida de Ivan Denisovich, o aclamado romance de Alexander Soljenitsin
sobre a vida nos campos, foi publicado no Ocidente em diversas línguas. Em 1973, Arquipélago Gulag, a história oral dos campos que Soljenitsin escreveu, tornou-se
motivo de muito comentário quando lançado, de novo em vários idiomas. De fato, Arquipélago Gulag causou uma pequena revolução intelectual em alguns países, sobretudo
na França, convertendo a uma posição anti-soviética segmentos inteiros da esquerda daquele país. Durante a década de 1980 - os anos da glasnost -, fizeram-se muito
mais revelações sobre o Gulag, e também elas receberam a devida publicidade no exterior.
Para muitas pessoas, porém, os crimes de Stalin não inspiram a mesma reação visceral que os de Hitler. Certa vez, o ex-parlamentar britânico Ken Livingstone, hoje
prefeito de Londres, forcejou para explicar-me a diferença. E, os nazistas eram "perversos". Mas a URSS fora "desvirtuada". Essa visão reflete o sentimento de muitas
pessoas, mesmo daquelas que não são esquerdistas à moda antiga: de alguma forma, a URSS simplesmente deu errado, mas ela não era fundamentalmente errada da maneira
que a Alemanha de Hitler o era.
Até recentemente, era possível explicar essa ausência de sentimento popular a respeito da tragédia do comunismo europeu como o resultado lógico de uma série específica
de circunstâncias. O passar do tempo é parte disso: com o decorrer dos anos, os regimes comunistas se tornaram mesmo menos repreensíveis. Ninguém ficava muito apavorado
com o general Jaruzelski, ou mesmo com Brejnev, embora ambos fossem responsáveis por um bocado de destruição. A falta de informações sólidas, embasadas em pesquisa
arquivai, também era claramente uma daquelas circunstâncias. Durante muito tempo, a escassez de trabalhos acadêmicos sobre o tema se deveu à escassez de fontes.
Arquivos estavam fechados aos interessados. O acesso aos locais dos campos era proibido. Nenhuma câmera de cinema ou TV jamais filmou os campos soviéticos nem as
vítimas deles, ao contrário do que os cinegrafistas tinham feito na Alemanha no fim da Segunda Guerra Mundial. Não dispor de nenhuma imagem correspondia a ter menos
entendimento da questão.
Mas a ideologia também distorceu o modo pelo qual compreendemos a história da URSS e da Europa oriental. A partir dos anos 1930, uma parte pequena da esquerda ocidental
deu duro para explicar e às vezes exculpar os campos e o terror que os criou. Em 1936, quando milhões de lavradores soviéticos já trabalhavam nos campos ou viviam
em degredo, os socialistas britânicos Sidney e Beatrice Webb publicaram um vasto levantamento sobre a URSS, o qual explicava, entre outras coisas, que "o oprimido
camponês soviético vai aos poucos adquirindo a sensação de liberdade política". Na época dos grandes julgamentos de Moscou, enquanto Stalin arbitrariamente condenava
aos campos milhares de membros inocentes do Partido, o dramaturgo Bertold Brecht disse ao filósofo Sidney Hook que, "quanto mais inocentes eles são, mais merecem
morrer".
Mesmo na década de 1980, ainda havia acadêmicos que continuavam a descrever as vantagens do sistema de saúde alemão-oriental ou das iniciativas de paz polonesas;
ainda havia ativistas que se aborreciam com o fuzuê criado por causa dos dissidentes que estavam nos campos de prisioneiros da Europa oriental. Isso talvez se devesse
ao fato de que os filósofos fundadores da esquerda ocidental (Marx e Lênin) eram os mesmos da URSS. Parte da linguagem também era compartilhada: as massas, a luta,
o proletariado, os exploradores e os explorados, a propriedade dos meios de produção. Condenar a URSS com demasiada veemência seria condenar parte do que alguns
na esquerda ocidental também haviam prezado.
Não foi apenas a extrema esquerda, nem apenas os comunistas ocidentais, os que ficaram tentados a arranjar para os crimes de Stalin desculpas que nunca teriam apresentado
para os de Hitler. Os ideais comunistas - justiça social, igualdade para todos - são simplesmente muito mais atraentes para a maioria das pessoas no Ocidente do
que a defesa nazista do racismo e do triunfo do mais forte. Mesmo que na prática a ideologia comunista significasse algo muito diferente, era mais difícil aos descendentes
intelectuais da Guerra de Independência dos Estados Unidos e da Revolução Francesa condenarem um sistema que, pelo menos, parecia semelhante ao deles próprios. Talvez
isso ajude a explicar por que, desde o começo, relatos em primeira mão sobre o Gulag eram freqüentemente repudiados ou depreciados pelas mesmíssimas pessoas que
jamais teriam colocado em dúvida o testemunho do Holocausto escrito por Primo Levi ou Eli Wiesel. Desde a Revolução Russa, informações oficiais sobre os campos soviéticos
também estavam acessíveis de imediato para qualquer interessado - o mais famoso relato soviético sobre um dos primeiros campos, o do Canal do Mar Branco, foi até
publicado em inglês. A ignorância, por si só, não basta para explicar por que os intelectuais ocidentais preferiram evitar o assunto.
A direita ocidental, por outro lado, realmente forcejou para condenar os crimes soviéticos, mas às vezes usou métodos que prejudicavam sua causa. O homem que mais
danos causou ao anticomunismo foi certamente o senador americano Joe McCarthy. Documentos recentes que mostram que algumas de suas acusações eram verdadeiras não
modificam o impacto que teve seu excesso de entusiasmo na perseguição aos comunistas na vida pública americana: os "julgamentos" públicos que ele realizou de simpatizantes
do comunismo acabariam por macular com patriotada e intolerância a causa do anticomunismo. No fim das contas, as ações de McCarthy não fizeram mais pela causa da
pesquisa histórica neutra do que as dos oponentes daquele senador.
Entretanto, nem todas as nossas atitudes para com o passado soviético se relacionam à ideologia política. Na realidade, muitas delas estão mais para um subproduto
desvanecente de nossas lembranças da Segunda Guerra Mundial. No momento, temos a firme convicção de que aquela foi uma guerra absolutamente justa, e poucos desejam
abalar tal convicção. Rememoramos o Dia D, a libertação dos campos de concentração nazistas, as crianças que, eufóricas, davam as boas-vindas aos pracinhas americanos
nas ruas. Ninguém quer saber que a vitória Aliada teve outro lado, mais sombrio, ou que os campos de Stalin, nosso aliado, se expandiam justamente quando os de Hitler,
nosso inimigo, eram libertados. A certeza moral de nossas recordações daqueles tempos ficaria solapada se reconhecêssemos que os Aliados Ocidentais, ao mandarem
milhares de russos para a morte certa quando os repatriaram à força após a guerra, ou ao condenarem milhões de pessoas ao domínio soviético em Yalta, podem ter ajudado
outros a cometerem crimes contra a humanidade. Ninguém quer concluir que derrotamos um chacinador com a ajuda de outro. Ninguém quer lembrar quanto esse outro chacinador
se dava bem com estadistas ocidentais. "Eu gosto realmente de Stalin", disse a um amigo o então ministro do Exterior britânico, Anthony Eden. "Ele nunca faltou com
a palavra." Há muitas fotos, muitas mesmo, de Stalin com Churchill e Roosevelt, todos juntos, todos sorridentes.
Por fim, a propaganda soviética não deixou de fazer efeito. Tiveram certo impacto, por exemplo, as tentativas soviéticas de semear a dúvida sobre os escritos de
Soljenitsin, pintando-o como demente, anti-semita ou bêbado. A pressão soviética sobre acadêmicos e jornalistas ocidentais também ajudou a enviesar o trabalho deles.
Na década de 1980, quando eu estudava história russa nos Estados Unidos, conhecidos me diziam para não continuar com essa matéria no curso de graduação, pois haveria
dificuldades demais: naquele tempo, quem escrevia "favoravelmente" sobre a URSS ganhava mais acesso a arquivos, mais acesso a informações oficiais, vistos para permanências
mais longas naquele país. Quem não o fazia arriscava-se a ser expulso e encontrar dificuldades profissionais em conseqüência. Desnecessário dizer, é claro, que a
ninguém de fora se permitia o acesso a qualquer material sobre os campos de Stalin ou sobre o sistema prisional pós-stalinista. O assunto simplesmente não existia,
e os que metiam demais o bedelho perdiam o direito de ficar naquele país.
Outrora, todas essas explicações em conjunto tinham certo sentido. Quando comecei a ponderar seriamente o tema (em 1989, época em que o comunismo entrava em colapso),
até vi a lógica por trás delas: parecia natural e óbvio que eu devesse saber muito pouco sobre a União Soviética de Stalin, cuja história secreta a tornava ainda
mais fascinante. Mais de uma década depois, meus sentimentos são muito diferentes. Agora, a Segunda Guerra Mundial pertence a uma geração anterior. A Guerra Fria
também já acabou, e as alianças e dissensões internacionais que ela produziu mudaram de vez. Hoje, a esquerda e a direita ocidentais competem entre si a respeito
de outras questões. Ao mesmo tempo, o surgimento de novas ameaças terroristas à civilização ocidental torna ainda mais necessário o estudo da velha ameaça comunista
a essa mesma civilização.
Em outras palavras, a "estrutura social, cultural e política" mudou - e o mesmo vale para nosso acesso a informações sobre os campos. No final da década de 1980,
na URSS de Mikhail Gorbatchev, começou a aparecer uma enxurrada de documentos a respeito do Gulag. Pela primeira vez, jornais publicavam histórias da vida nos campos
de concentração soviéticos. Novas revelações faziam as revistas esgotarem-se. Ressurgiam velhas discussões estatísticas - quantos mortos, quantos presos. Após o
trabalho pioneiro da Sociedade Memorial de Moscou, historiadores e associações historiográficas da Rússia passaram a publicar monografias, histórias de campos e
indivíduos específicos, estimativas e listas de nomes de mortos. Esse esforço repercutiu e se ampliou entre historiadores nas ex-repúblicas soviéticas e nos países
do antigo Pacto de Varsóvia e, posteriormente, entre historiadores ocidentais.
Apesar de muitos percalços, essa investigação do passado soviético continua. Ê bem verdade que a primeira década do século XXI se mostra muito diferente das décadas
finais do século XX e que a busca pela história já não é mais parte destacada do discurso público soviético, nem é mais tão dramática quanto pareceu em certo período.
A maior parte do trabalho que vem sendo realizado por estudiosos, russos ou não, é verdadeiramente monótona, implicando esquadrinhar milhares de documentos e passar
horas em arquivos gelados e cheios de correntes de ar, ou dias à procura de fatos e números. Mas isso está começando a dar frutos. Devagar, pacientemente, a Memorial
não só alinhavou o primeiro guia dos nomes e localizações de todos os campos de que se tem registro, mas também publicou uma série inovadora de livros de história
e compilou enorme arquivo de narrativas orais e escritas de sobreviventes. Junto com o Instituto Sakharov e a editora Vozvrashchenie (nome que significa "Regresso"),
ela colocou parte dessas memórias em circulação pública. Jornais acadêmicos russos e publicações internacionais também começaram a imprimir monografias baseadas
em novos documentos, assim como coletâneas desses próprios documentos. Trabalho semelhante está sendo executado em outros lugares, sobretudo pela Fundacja Karta,
na Polônia; por museus históricos na Lituânia, Letônia, Estônia, Romênia e Hungria; e por um punhado de estudiosos americanos e europeu-ocidentais que dispuseram
de tempo e energia para trabalhar nos arquivos soviéticos.
Enquanto fazia pesquisas para este livro, tive acesso ao trabalho deles, assim como a dois outros tipos de fonte que não estariam disponíveis dez anos atrás. O primeiro
foi a enxurrada de novas memórias que começaram a ser publicadas nos anos 1980 na Rússia, Estados Unidos, Israel, Europa oriental e outros lugares. Ao escrever este
livro, fiz amplo uso delas. No passado, alguns estudiosos da URSS relutavam em confiar nesse material sobre o Gulag, argumentando que os memorialistas soviéticos
tinham motivos políticos para distorcer suas histórias; que a maioria escrevera muitos anos após a soltura; e que muitos tomavam histórias emprestadas uns dos outros
quando a lembrança lhes falhava. Não obstante, após ter lido centenas de reminiscências dos campos e entrevistado umas duas dúzias de sobreviventes, julguei ser
possível filtrar o que parecia implausível, plagiado ou politizado. Também concluí que, embora as memórias não fossem confiáveis no referente a nomes, datas e números,
elas ainda assim constituíam fonte inestimável de outros tipos de informação, em especial aspectos cruciais da vida nos campos: os relacionamentos entre presos,
os conflitos entre grupos, o comportamento de guardas e administradores, o papel da corrupção, até a presença de amor e entusiasmo. De modo consciente, fiz muito
uso de apenas um autor (Variam Shalamov) que escreveu versões ficcionalizadas de sua vida nos campos, e isso porque suas histórias se baseiam em acontecimentos reais.
Tanto quanto possível, também respaldei as memórias com ampla utilização de arquivos - outra fonte que, paradoxalmente, nem todo mundo gosta de empregar. Conforme
ficará claro no decorrer do livro, o poder da propaganda na URSS era tal que ele freqüentemente modificava as percepções da realidade. Por isso, os historiadores
outrora tinham razão em não confiar nos documentos oficiais que o governo soviético trazia a público, pois estes muitas vezes tinham o propósito de obscurecer a
verdade. Mas documentos secretos - os documentos hoje conservados em arquivos - têm função diferente. A fim de gerir os campos, a administração do Gulag precisava
manter certos tipos de registro. Moscou necessitava saber o que estava acontecendo nas províncias, as províncias tinham de receber instruções da administração central,
era preciso preservar estatísticas. Isso não significa que tais arquivos sejam de todo confiáveis - burocratas tinham suas razões para distorcer até os fatos mais
comezinhos -, mas, se usados com critério, podem explicar algumas coisas sobre a vida nos campos que as memórias não elucidam. Sobretudo, ajudam a explicar por que
se construíram os campos - ou, pelo menos, o que o regime stalinista acreditava que eles viriam a alcançar.
Também é verdade que os arquivos são muito mais variados do que muitos previam; e que eles contam a história dos campos de muitas perspectivas diferentes. Tive acesso,
por exemplo, ao arquivo da administração do Gulag, com relatórios de fiscais, registros contábeis, cartas de diretores de campos a seus supervisores em Moscou, relatos
de tentativas de fuga e listas de montagens musicais nos teatros dos campos, tudo isso mantido no Arquivo Estatal Soviético em Moscou. Também consultei atas de reuniões
do Partido e documentos reunidos numa parte do osobaya papka de Stalin, seu "arquivo especial". Com a ajuda de outros historiadores russos, pude utilizar não só
alguns documentos dos arquivos militares soviéticos, mas também os arquivos dos guardas dos comboios, os quais contêm coisas como listas do que os presos podiam
ou não levar consigo. Fora de Moscou, tive ainda acesso a alguns arquivos locais (em Petrozavodsk, Arcangel, Syktyvkar e Vorkuta e nas ilhas Solovetsky) onde se
registraram acontecimentos cotidianos dos campos, assim como ao arquivo do Dmitlag (o campo que construiu o canal Moscou - Volga), que fica em Moscou. Todos contêm
registros do dia-a-dia nos campos, formulários de requisição, históricos de presos. Em certa altura, trouxeram-me parte considerável do arquivo de Kedrovyi Shor
(uma pequena subdivisão de Inta, campo de mineração ao norte do Círculo Ártico) e educadamente me perguntaram se eu gostaria de comprá-la.
Juntas, essas fontes possibilitam que se escreva sobre os campos de maneira nova. Neste livro, não mais precisei comparar as "alegações" de um punhado de dissidentes
com as "alegações" do governo soviético. Não tive de pesquisar um meio-termo entre os relatos dos refugiados soviéticos e os relatos das autoridades soviéticas.
Em vez disso, para descrever o que aconteceu, pude utilizar a linguagem de muitos tipos diferentes de pessoa - guardas, policiais, diferentes tipos de presos cumprindo
diferentes tipos de pena em diferentes épocas. Nem as emoções nem a política que por muito tempo cercaram a historiografia dos campos de concentração soviéticos
estão no cerne deste livro. Tal espaço é reservado, isto sim, às vivências das vítimas.
Esta é uma história do Gulag. Com isso, quero dizer que é uma história dos campos de concentração soviéticos: suas origens na Revolução Bolchevique, seu desenvolvimento
até se tornarem parte importante da economia, seu desmantelamento após a morte de Stalin. Também é um livro sobre a herança do Gulag: sem nenhuma dúvida, os regimes
e rituais que podiam ser encontrados nos campos de prisioneiros dos anos 1970 e 80 evoluíram diretamente daqueles criados numa era anterior, e, por esse motivo,
achei que cabiam no mesmo livro.
Ao mesmo tempo, este é um livro sobre a vida no Gulag e, por tal razão, conta a história dos campos de duas maneiras. A primeira e a terceira parte do livro são
cronológicas. Descrevem de modo narrativo a evolução dos campos e de sua administração. A segunda parte disserta sobre a vida nos campos e o faz tematicamente. Embora
a maioria das citações nessa parte central se refira aos anos 1940, a década do apogeu dos campos, eu também remeto - a-historicamente - a períodos anteriores e
posteriores. Certos aspectos da vida nos campos se desenvolveram com o passar do tempo, e julguei importante explicar como isso aconteceu.
Tendo dito o que este livro é, eu também gostaria de dizer o que ele não é: não é uma história da URSS, nem dos expurgos, nem da repressão em geral. Não é uma história
do reinado de Stalin, nem de seu Politburo, nem de sua polícia secreta, cuja complexa história política procurei, de caso pensado, simplificar o máximo possível.
Embora eu realmente utilize os escritos de dissidentes soviéticos, muitas vezes produzidos sob grande tensão e com muita coragem, este livro não contém uma história
completa do movimento soviético pelos direitos humanos. Da mesma forma, ele tampouco faz justiça às histórias de nações e grupos de prisioneiros específicos - entre
eles, poloneses, baltas, ucranianos, tchetchenos e prisioneiros de guerra alemães e japoneses -, que sofreram com o regime soviético, tanto dentro quanto fora dos
campos da URSS. Não explora por completo as matanças de 1937-8, que ocorreram principalmente fora dos campos, nem o massacre de milhares de oficiais poloneses em
Katyn e outros lugares. Por ser um livro destinado ao público geral, e não pressupor nenhum conhecimento especializado da história soviética, todos esses acontecimentos
e fenômenos serão mencionados. Entretanto, teria sido impossível fazer justiça a todos num único volume.
Talvez o mais importante: este livro não faz justiça à história dos "degredados especiais", os milhões de indivíduos que freqüentemente eram arrebanhados ao mesmo
tempo e pelas mesmas razões que os presos do Gulag, mas que então eram enviados não para campos, e sim para longínquas aldeias de degredo, onde muitos milhares morreram
de inanição, frio e excesso de trabalho. Uns foram degredados por motivos políticos, como os kulaks (camponeses ricos), nos anos 1930. Outros o foram por causa de
sua etnia, como poloneses, baltas, ucranianos, alemães do Volga e tchetchenos, só para citar alguns, nos anos 1940. Tiveram destinos os mais diversos no Cazaquistão,
na Ásia central e na Sibéria - diversos demais para que se possa abrangê-los num relato sobre o sistema de campos. Optei por mencioná-los, de modo talvez idiossincrático,
quando as vivências deles me pareceram especialmente próximas ou relevantes na comparação com as dos presos do Gulag. Mas, embora a história desses degredados esteja
estreitamente ligada à do Gulag, contá-la por inteiro exigiria outro livro com a extensão deste. Espero que alguém o escreva em breve.
Ainda que esta seja uma obra sobre os campos de concentração soviéticos, é impossível tratá-los como fenômeno isolado. O Gulag cresceu e se desenvolveu numa época
e num lugar específicos, em conjunto com outros acontecimentos - e especialmente em três contextos. Para sermos exatos, o Gulag pertence à história da URSS; à história
tanto russa quanto internacional das prisões e degredos; e ao ambiente intelectual próprio da Europa continental em meados do século XX, que também produziu na Alemanha
os campos de concentração nazistas.
Com "pertence à história da URSS", refiro-me a algo muito específico: o Gulag não surgiu prontinho do nada; em vez disso, refletiu os padrões gerais da sociedade
ao redor. Se os campos eram imundos, se os guardas eram brutais, se as turmas de trabalho eram desleixadas, isso em parte se devia ao fato de que a imundície, a
brutalidade e o desleixo eram bem abundantes em outras esferas da vida soviética. Se a vida nos campos era horrível, insuportável, desumana, se a mortalidade era
alta, isso tampouco chegava a ser surpresa: em certos períodos, a vida na URSS também era horrível, insuportável e desumana, e a mortalidade se mostrava tão elevada
fora quanto dentro dos campos.
Por certo, tampouco é coincidência que os primeiros campos soviéticos tenham sido estabelecidos imediatamente após a sangrenta, violenta e caótica Revolução Russa.
No decorrer da Revolução, do terror imposto depois dela e da subseqüente Guerra Civil, pareceu a muitos na Rússia que a própria civilização fora destruída de modo
permanente. "Sentenças de morte eram impostas arbitrariamente", escreveu o historiador Richard Pipes, "pessoas eram fuziladas sem motivo ou soltas de modo igualmente
imprevisível." A partir de 1917, todo o conjunto de valores de uma sociedade ficou de pernas para o ar: a riqueza e a experiência acumuladas durante uma vida inteira
se tornavam uma desvantagem, o roubo era glamorizado como "nacionalização", o assassínio virava parte aceite da luta em prol da ditadura do proletariado. O aprisionamento
inicial de milhares de pessoas por Lênin, simplesmente porque antes tinham riqueza ou títulos aristocráticos, nem chegava a parecer estranho ou despropositado.
Da mesma forma, as altas taxas de mortalidade nos campos de prisioneiros em certos anos eram, em parte, reflexo de acontecimentos que se desenrolavam por todo o
país. Dentro dos campos, elas se elevaram no começo da década de 1930, quando a fome assolou a URSS inteira. Tornaram a subir durante a Segunda Guerra Mundial: a
invasão alemã provocou não apenas milhões de mortes em combate, mas também epidemias de disenteria e tifo, assim como fome, o que afetou as pessoas tanto fora quanto
dentro dos campos. No inverno de 1941-2, quando um quarto da população do Gulag pereceu de inanição, talvez 1 milhão de habitantes de Leningrado tenham também morrido
de inanição, isolados pelo bloqueio alemão. Lidiya Ginzburg, uma cronista desse bloqueio, descreveu a fome de então como "um estado permanente [...] ela sempre
estava presente e sempre se fazia sentir [...] durante o processo de consumir alimento, o mais desesperador e excruciante era que a comida acabava com terrível rapidez
sem produzir nenhuma saciedade". Conforme o leitor verá, as palavras de Lidiya lembram, de modo estranho e inquietante, as utilizadas por ex-condenados.
Claro, é bem verdade que os moradores de Leningrado morriam em casa, ao passo que o Gulag destroçava vidas, destruía famílias, arrancava os filhos dos pais e condenava
milhões a viverem em ermos a milhares de quilômetros de seus familiares. Ainda assim, as vivências medonhas dos presos podem com justiça ser comparadas às terríveis
lembranças de cidadãos soviéticos "livres" como Elena Kozhina, que foi evacuada de Leningrado em fevereiro de 1942. Durante a jornada, ela viu o irmão, a irmã e
a avó morrerem de inanição. Enquanto os alemães se aproximavam, Elena e a mãe atravessaram a estepe a pé, deparando com "cenas de derrocada e caos desenfreados [...].
O mundo se despedaçava. Tudo estava permeado de fumaça e um cheiro horrível de queimado; a estepe era claustrofóbica e sufocante, como se espremida num punho quente
e fuliginoso". Embora nunca tenha vivido nos campos de prisioneiros, Elena conheceu o frio, a fome e o pavor atrozes antes mesmo de ter completado dez anos de idade,
e as lembranças disso a assombrariam pelo resto da vida. Nada, ela escreveu, "conseguiria apagar minha lembrança de quando levaram o corpo de Vadik, com um cobertor
por cima; de quando Tanya sufocou, agonizante; de quando mamãe e eu, as que sobraram, caminhamos com dificuldade pela estepe em chamas, através da fumaça e dos estrondos".
A população do Gulag e a população do resto da URSS compartilhavam muitas outras coisas além do sofrimento. Dentro e fora dos campos, era possível encontrar as mesmas
técnicas de trabalho desleixadas, a mesma burocracia criminosamente estúpida, o mesmo descaso sombrio pela vida humana. Quando redigia este livro, descrevi a um
amigo polonês o sistema de tufta (a burla com relação às normas de trabalho) que os prisioneiros soviéticos desenvolveram, o qual será descrito mais adiante. Meu
amigo caiu na gargalhada: "Você acha que foram prisioneiros que inventaram isso?! O bloco soviético inteiro praticava a tufta". Na URSS de Stalin, a diferença entre
a vida nos campos e a vida fora deles era apenas de grau. Talvez por isso, o Gulag foi muitas vezes descrito como a quintessência do sistema soviético. Mesmo na
gíria dos presos, o mundo fora do arame farpado era não a "liberdade", e sim a bolshaya zona, a "zona prisional grande", maior e menos letal que a "zona pequena"
do Gulag, mas não mais humana - e certamente não mais humanitária.
Todavia, se o Gulag não pode ser de todo apartado da experiência de vida no resto da URSS, tampouco pode a história dos campos ser de todo separada da história longa,
multinacional e transcultural das prisões, degredos, encarceramentos e campos de concentração. O degredo em lugares distantes, onde os prisioneiros podem "pagar
a dívida para com a sociedade", tornar-se úteis e não contaminar outros com suas idéias ou sua criminalidade, é prática tão antiga quanto a própria civilização.
Os governantes da Roma e da Grécia antigas mandavam os dissidentes para colônias longínquas. Sócrates preferiu a morte em Atenas ao tormento do exílio. O poeta Ovídio
foi desterrado para um porto infecto no mar Negro. A Grã-Bretanha georgiana despachava seus punguistas e ladrões para a Austrália. A França oitocentista enviava
condenados para a Guiana. Portugal mandava seus indesejáveis para Moçambique.
Em 1917, a nova liderança da Rússia não precisou inspirar-se em precedentes de outros países. Desde o século XVII, o país tinha um sistema próprio: na legislação
russa, a primeira menção de degredo é de 1649. Na época, ele era considerado uma forma nova e mais humana de punição judiciária - muitíssimo preferível à pena de
morte, ou à mutilação e às marcas a fogo -, e era aplicada numa gama enorme de delitos de menor e maior gravidade, desde o consumo de rapé e a prática da adivinhação
até o homicídio.23 Grande número de intelectuais e escritores russos, entre eles Pushkin, sofreu alguma forma de degredo, ao passo que a simples possibilidade já
atormentava outros: em 1890, no auge da fama literária, Anton Tchekhov surpreendeu todos os seus conhecidos quando foi visitar as colônias penais na ilha de Sacalina,
ao largo da costa russa do Pacífico. Antes de ter partido, escreveu a seu perplexo editor, explicando-lhe os motivos:
Permitimos que milhões de pessoas apodreçam nas prisões, sem nenhum propósito, sem nenhuma consideração, barbaramente; conduzimos gente por dezenas de milhares de
verstas no frio, acorrentadas; nós as infectamos com a sífilis, as pervertemos, multiplicamos o número de criminosos [...], mas nada disso tem nada que ver conosco;
simplesmente não é algo interessante [...].
Em retrospecto, é fácil achar na história do sistema prisional czarista muitos antecedentes de práticas adotadas no Gulag. Assim como esse último, o degredo siberiano,
por exemplo, nunca se destinou exclusivamente a criminosos. Uma lei de 1736 declarava que, se uma aldeia decidisse que algum de seus habitantes fosse uma má influência,
os líderes locais podiam repartir as posses do infeliz e mandar que se mudasse para outro lugar. Caso ele não conseguisse achar outra morada, o Estado podia degredá-lo.
(Aliás, essa lei seria citada por Khrutchev em 1948, como parte de sua - bem-sucedida - argumentação para que se degredassem os membros das fazendas coletivas que
fossem considerados insuficientemente entusiásticos e trabalhadores.)
A prática de degredar pessoas que simplesmente não se ajustavam continuou por todo o século XIX. Em seu livro A Sibéria e o sistema de degredo, George Kennan (tio
do estadista americano homônimo) descreveu o sistema de "processo administrativo" que ele observou na Rússia em 1891:
A pessoa inconveniente pode não ser culpada de crime nenhum [...], mas, se na opinião das autoridades locais sua presença em determinado lugar é "nociva à ordem
pública" ou "incompatível com a tranqüilidade pública", ela pode ser detida sem mandado, mantida de duas semanas a dois anos na prisão, removida à força para qualquer
outro lugar dentro dos limites do Império e ali ser colocada sob vigilância policial por um a dez anos.
O degredo administrativo - que não exigia julgamento nem sentença - era punição ideal não apenas para os encrenqueiros propriamente ditos, mas também para os opositores
políticos do regime. Nos primórdios, muitos desses opositores eram aristocratas poloneses contrários à ocupação de seu território e suas propriedades pelos russos.
Posteriormente, incluíram-se entre os degredados os dissidentes religiosos e os membros de grupos "revolucionários" e sociedades secretas, como os bolcheviques.
Embora não fossem degredados administrativos (pois foram julgados e sentenciados), os mais tristemente célebres "colonos forçados" da Sibéria oitocentista também
eram prisioneiros políticos: os dezembristas, um grupo de aristocratas de alto escalão que encetaram uma débil rebelião contra o czar Nicolau I em 1825. Numa desforra
que chocou toda a Europa da época, o Czar sentenciou cinco dezembristas à morte. Os outros ele privou de seus títulos e mandou, acorrentados, para a Sibéria; as
esposas de alguns, excepcionalmente corajosas, também foram para lá, a fim de reunir-se aos maridos. Só uns poucos viveram o suficiente para ser perdoados por Alexandre
II (o sucessor de Nicolau), trinta anos depois, e reinstalar-se em São Petersburgo, quando já eram idosos. Fiodor Dostoievski, condenado em 1849 a quatro anos de
servidão penal, foi outro prisioneiro político famoso. Após ter retornado do degredo siberiano, escreveu Recordações da casa dos mortos, ainda hoje o relato mais
lido sobre a vida no sistema prisional czarista.
Assim como o Gulag, o sistema czarista de degredo não foi criado apenas como forma de punição. Os governantes da Rússia também queriam que os degredados, tanto criminais
quanto políticos, resolvessem um problema econômico que incomodara durante muitos
séculos:### a baixa densidade demográfica do extremo leste e extremo norte da Rússia
e a conseqüente incapacidade do Império para explorar seus recursos naturais. Tendo isso em mente, o Estado russo começou, já no século XVIII, a sentenciar alguns
presos aos trabalhos forçados - modalidade de punição que se tornou conhecida como katorga, do verbo grego kateirgon (forçar). A katorga tinha velhos antecedentes
na Rússia. No começo do século XVIII, Pedro, o Grande, utilizara condenados e servos para construir estradas, fortalezas, fábricas, navios e a própria cidade de
São Petersburgo. Em 1722, o mesmo czar promulgou uma diretiva mais específica, mandando criminosos para o degredo, com as mulheres e filhos, perto das minas de prata
de Daurya, na Sibéria oriental.
Na época, o uso do trabalho forçado por Pedro foi considerado um grande êxito econômico e político. Aliás, a história das centenas de milhares de servos cujas vidas
se consumiram na construção de São Petersburgo teria enorme impacto sobre as gerações seguintes. Muitos morreram durante as obras - e, no entanto, a cidade se tornou
símbolo de progresso e europeização. Os métodos eram cruéis - e mesmo assim a nação saía ganhando. O exemplo de Pedro provavelmente ajuda a explicar a pronta adoção
da katorga pelos sucessores daquele czar. E não há nenhuma dúvida de que Stalin era grande admirador dos métodos de construção de Pedro.
No século XIX, todavia, a katorga foi uma forma de punição relativamente rara. Em 1906, só uns 6 mil condenados por esse sistema cumpriam pena; em 1916, às vésperas
da Revolução, eram apenas 28.600. Importância econômica muitíssimo maior tinha outro tipo de prisioneiro: os colonos forçados, sentenciados ao degredo, mas não
à prisão, em regiões subpovoadas do país, escolhidas por causa do potencial econômico. Somente entre 1824 e 1889, cerca de 720 mil colonos forçados foram mandados
para a Sibéria. Muitos estavam acompanhados das famílias. Eles, e não os condenados agrilhoados, povoaram aos poucos os ermos da Rússia ricos em minerais.
As sentenças desses colonos não eram necessariamente leves, e alguns deles achavam sua sina pior que a dos prisioneiros em regime de katorga. Designados para áreas
remotas, de solos pobres e vizinhos escassos, muitos morreram de inanição durante os longos invernos, ou se mataram de tanto beber por causa do tédio. Havia poucas
mulheres (cujo número nunca passou dos 15%), ainda menos livros e nenhum entretenimento.
Em sua viagem pela Sibéria até Sacalina, Tchekhov conheceu e descreveu alguns desses colonos degredados:
A maioria é financeiramente pobre, tem pouca força física e pouco preparo prático e não possui nada senão a capacidade de escrever, que freqüentemente não é de nenhuma
utilidade para ninguém. Alguns começam vendendo, peça por peça, suas camisas de linho holandês, seus lençóis, suas echarpes e lenços de bolso, e, depois de dois
ou três anos, acabam morrendo numa penúria medonha [...].
Mas nem todos os degredados eram infelizes e degenerados. A Sibéria ficava muito longe da Europa, e no leste as autoridades eram mais lenientes, e a aristocracia,
muito menos presente. Dentre os degredados e ex-presos, os mais abonados às vezes construíam grandes propriedades. Os mais instruídos se tornavam médicos e advogados
ou administravam escolas. A princesa Maria Volkonskaya, esposa do dezembrista Sergei Volkonsky, patrocinou a construção de um teatro e sala de concertos em Irkutsk;
embora ela, assim como o marido, houvesse sido privada do título nobiliárquico, os convites para seus saraus e jantares eram muito cobiçados, sendo comentados até
em Moscou e São Petersburgo.
No começo do século XX, o sistema já abandonara parte de seu rigor. A moda da reforma carcerária que se disseminara pela Europa no século anterior finalmente chegara
também à Rússia. Os regimes prisionais se tornaram mais brandos, e o policiamento, mais indulgente. De tato, em contraste com o que viria depois, a rota para a
Sibéria agora parecia, se não exatamente aprazível, pelo menos não uma punição pesada para o pequeno grupo de homens que lideraria a Revolução
Russa. Na prisão, os bolcheviques, por serem condenados presos políticos e não criminosos, usufruíam tratamento relativamente benévolo e podiam ter livros e material
de escrita. Grigory Ordzhonikidze, um dos chefes bolcheviques, mencionaria que leu Adam Smith, David Ricardo, Plekhanov, William James, Frederick W. Taylor, Dostoievski
e Ibsen (entre outros autores) quando preso na fortaleza Schlüsselberg, em São Petersburgo. Pelos padrões posteriores, os bolcheviques também estavam bem alimentados,
bem trajados e até muito bem penteados. Uma foto de Trotski quando prisioneiro na fortaleza de Pedro e Paulo, em 1906, mostra-o de óculos, terno, gravata e camisa
de colarinho admiravelmente alvo. A vigia na porta atrás dele é a única pista do lugar onde se encontrava. Outra foto, tirada no degredo na Sibéria oriental, em
1900, mostra Trotski de capote e gorro de pele, rodeado por outros homens e mulheres, também de botas e peles. Meio século depois, todos esses itens seriam luxos
raros no Gulag.
E, quando a vida no degredo czarista se tornava insuportavelmente desagradável, havia sempre a opção de fugir. O próprio Stalin foi preso e degredado quatro vezes.
Escapou três vezes, uma da província de Irkutsk e duas da de Vologda - região que depois ficaria salpicada de campos do Gulag. Em conseqüência, adquiriu um desdém
ilimitado pela "moleza" do regime czarista. Dimitri Volkogonov, seu biógrafo russo, caracterizou assim a opinião de Stalin: "A gente não precisa trabalhar, pode
ler quanto quiser e pode até fugir, bastando ter vontade".
Desse modo, a vivência siberiana proporcionou aos bolcheviques um modelo anterior que eles poderiam aperfeiçoar - e uma lição sobre a necessidade de regimes punitivos
excepcionalmente severos.
Se o Gulag é parte integral da história russa e soviética, também é indissociável da história européia: no século XX, a URSS não foi o único país do continente a
ter desenvolvido uma ordem social totalitária, nem a ter erigido um sistema de campos de concentração. Embora não seja a intenção deste livro comparar e contrastar
os campos soviéticos com os nazistas, o assunto tampouco pode ser comodamente deixado de lado. Os dois sistemas foram construídos mais ou menos na mesma época. Hitler
sabia do Gulag, e Stalin sabia do Holocausto. Houve prisioneiros que vivenciaram e descreveram os campos de ambos os sistemas. Num nível muito profundo, os dois
eram aparentados.
Antes de tudo, eram aparentados porque tanto o nazismo quanto o comunismo surgiram da experiência brutal da Primeira Guerra Mundial e, logo na seqüência, da Guerra
Civil Russa. Na época, os métodos de "guerra industrializada" amplamente utilizados durante tais conflitos geraram enorme reação intelectual e artística. Menos notado
- exceto, é claro, pelos milhões de vítimas - foi o uso generalizado de métodos igualmente "industrializados" de encarceramento. A partir de 1914, os dois lados
construíram pela Europa afora campos de internamente e campos de prisioneiros de guerra. Em 1918, havia 2,2 milhões de prisioneiros de guerra em território russo.
A nova tecnologia - a produção em massa de armas de fogo, tanques e até arame farpado - possibilitou esses e os campos posteriores. De fato, alguns dos primeiros
campos soviéticos foram construídos sobre campos de prisioneiros da Primeira Guerra Mundial.
Os campos soviéticos e nazistas também são aparentados porque, juntos, se inserem na história mais ampla dos campos de concentração, a qual começou em fins do século
XIX. Com o termo "campos de concentração", refiro-me a campos construídos para encarcerar pessoas não pelo que elas fizeram, mas pelo que elas eram. Diferentemente
dos campos de criminosos condenados e dos campos de prisioneiros de guerra, os de concentração foram criados para um tipo específico de prisioneiro civil não-criminoso,
membro de um grupo "inimigo" ou, pelo menos, de uma categoria de pessoa que, pela raça ou suposta tendência política, era considerada perigosa ou estranha à sociedade.
Segundo tal definição, os primeiros campos de concentração modernos foram estabelecidos não na Alemanha, nem na Rússia, mas na Cuba colonial, em 1895. Naquele ano,
num esforço para pôr fim a uma série de insurreições locais, o poder imperial espanhol começou a preparar uma política destinada a tirar os camponeses cubanos da
terra e "reconcentrá-los" em campos, assim privando os insurgentes de alimento, abrigo e apoio. Em 1900, a palavra espanhola reconcentración já fora traduzida para
o inglês e estava sendo usada para descrever um projeto britânico parecido, iniciado por motivos semelhantes, durante a Guerra dos Bôeres, na África do Sul: os civis
daquele povo eram concentrados" em campos, de modo a negar guarida e amparo aos combatentes bôeres.
A partir de então, a idéia se disseminou ainda mais. Um exemplo: parece que o termo konstlager surgiu em russo como tradução do inglês concentration camp, provavelmente
graças à familiaridade de Trotski com a história da Guerra dos Bôeres. Em 1904, colonizadores alemães no Sudoeste Africano também adotaram o modelo britânico -
com uma variação. Em vez de simplesmente aprisionarem os habitantes nativos da região (uma tribo chamada herero), eles os fizeram realizar trabalhos forçados para
a colônia alemã.
Há vários vínculos estranhos e inquietantes entre esses primeiros campos de trabalhos forçados germano-africanos e os construídos na Alemanha nazista três décadas
depois. Por exemplo, foi graças a tais campos de trabalho no sul da África que a palavra Konzentrationslager (campo de concentração) apareceu pela primeira vez na
língua alemã, em 1905. O primeiro comissário imperial do Sudoeste Africano Alemão foi um certo dr. Heinrich Göring, pai do Hermann que, em 1933, estabeleceria os
primeiros campos nazistas. Também foi naqueles campos africanos que se realizaram as primeiras experiências médicas alemãs com cobaias humanas: Theodor Mollison
e Eugen Fischer, dois dos professores de Joseph Mengele, fizeram pesquisas com os hereros; Fischer o fez na tentativa de corroborar suas teorias sobre a superioridade
da raça branca. As crenças desses acadêmicos não eram nada incomuns. Em 1912, um best-seller teutônico, o livro O pensamento alemão no mundo, afirmava que nada poderá
convencer pessoas racionais de que a preservação de uma tribo de pretos da África meridional é mais importante para o futuro da humanidade do que a expansão das
grandes nações européias e da raça branca em geral [...] só quando os povos nativos aprendem a produzir algo de valor a serviço da raça superior [...] é que se pode
dizer que eles têm um direito moral de existir.
Embora essa teoria raramente fosse enunciada com tanta clareza, sentimentos parecidos muitas vezes jaziam logo abaixo da superfície da prática colonial. Com certeza,
algumas formas de colonialismo tanto reforçavam o mito da superioridade racial branca quanto legitimavam o uso da violência contra outra raça. Por conseguinte, pode-se
argumentar que a vivência corruptora de alguns colonizadores ajudou a abrir caminho para o totalitarismo europeu no século XX. E não apenas europeu: a Indonésia
é um exemplo de Estado pós-colonial cujos governantes começaram aprisionando seus críticos em campos de concentração, tal qual os colonizadores haviam feito.
O Império Russo, que com muito sucesso conquistara seus próprios povos nativos na marcha para o leste, não era exceção. Durante um dos jantares festivos que acontecem
no romance Ana Karenina, de Tolstoi, o marido da protagonista (o qual tinha algumas responsabilidades oficiais sobre "tribos nativas") pontifica acerca da necessidade
de que as culturas superiores absorvam as inferiores. Em algum grau, os bolcheviques, assim como todos os russos instruídos, deviam estar cientes de que o Império
dizimara os quirguizes, buriatas, tungúsios e outros. O fato de que isso não interessasse particularmente a esses revolucionários - logo eles, de resto tão preocupados
com o destino dos oprimidos - já indica algo de seus pressupostos tácitos.
Por outro lado, para desenvolver os campos de concentração europeus, dificilmente se faria necessário ter total ciência da história da África meridional ou da Sibéria
oriental: no início do século XX, a idéia de que alguns tipos de pessoa são superiores a outros já era bastante comum na Europa. E isso, enfim, é o que liga no sentido
mais profundo os campos soviéticos e nazistas: em parte, ambos os regimes se legitimavam pelo estabelecimento de categorias de "inimigos" e "subumanos" aos quais
perseguiam e destruíam em escala maciça.
Na Alemanha nazista, os primeiros alvos foram os aleijados e os retardados. Posteriormente, os nazistas se concentraram nos ciganos, nos homossexuais e, sobretudo,
nos judeus. Na URSS, as vítimas foram primeiro a "gente de antes" (supostos partidários do antigo regime) e depois os "inimigos do povo", termo vago que viria a
abranger não apenas os pretensos opositores políticos do regime, mas também certos grupos nacionais e étnicos, caso eles parecessem (por motivos igualmente vagos)
ameaçar o Estado soviético ou o poder stalinista. Em épocas diferentes, Stalin procedeu a prisões em massa de poloneses, baltas, tchetchenos, tártaros e (às vésperas
da morte) judeus.
Embora tais categorias nunca fossem inteiramente arbitrárias, elas também nunca foram inteiramente estáveis. Meio século atrás, Hannah Arendt escreveu que tanto
o regime nazista quanto o bolchevique criaram "opositores objetivos" ou "inimigos objetivos", cuja "identidade muda conforme as circunstâncias predominantes - de
modo que, tão logo uma categoria é liqüidada, se pode declarar guerra a outra". Da mesma forma, ela acrescentava, "a função da polícia totalitária não é descobrir
crimes, e sim estar à mão quando o governo resolve prender determinada categoria da população". Mais uma vez, as pessoas eram aprisionadas não pelo que tinham feito,
mas pelo que eram.
Em ambas as sociedades, a criação dos campos de concentração foi, na realidade, o estágio final num longo processo de desumanização desses inimigos objetivos - processo
que teve início com a retórica.
Na autobiografia Minha luta, Hitler explicou como ele de súbito percebera que os judeus eram responsáveis pelos problemas da Alemanha e que, na vida em sociedade,
"todo empreendimento escuso, toda forma de infâmia", estava ligado aos judeus: "ao examinar-se aquele tipo de abscesso com o bisturi, descobria-se de imediato, qual
larva num corpo putrescente, um judeuzinho que muitas vezes ficava ofuscado pela brusquidão da luz".
Lênin e Stalin também começaram culpando "inimigos" pelos inumeráveis fracassos econômicos da URSS: tratava-se de "destruidores", "sabotadores", agentes de potências
estrangeiras. A partir do final dos anos 1930, à medida que a onda de prisões começava a expandir-se, Stalin levava essa retórica a novos extremos, acusando publicamente
seus opositores de serem uma "imundície" que precisava "submeter-se a limpeza contínua" - tal qual a propaganda nazista identificaria os judeus a imagens de bichos
nocivos, parasitas, doenças infecciosas.
Uma vez demonizado o inimigo, o isolamento legal dele começava para valer. Antes que tivessem sido arrebanhados e deportados para os campos de concentração nazistas,
os judeus foram privados da condição de cidadãos alemães. Viram-se proibidos de trabalhar no funcionalismo público, na advocacia, na magistratura; proibidos de desposar
arianos; proibidos de freqüentar escolas arianas; proibidos de ostentar a bandeira alemã; forçados a usar estrelas de Davi amarelo-ouro; e sujeitos a espancamentos
e humilhações na rua. Antes que se tivesse chegado a prendê-los na URSS de Stalin, os "inimigos" também eram rotineiramente humilhados em assembléias públicas,
demitidos de seus empregos, expulsos do Partido Comunista, abandonados pelos cônjuges indignados e publicamente acusados pelos filhos furiosos.
Dentro dos campos, o processo de desumanização se aprofundava e radicalizava, ajudando tanto a intimidar as vítimas quanto a reforçar a crença dos vitimadores na
legitimidade do que estavam fazendo. Em seu livro-entrevista com Franz Stangl (o comandante de Treblinka), a escritora Gitta Sereny lhe perguntou por que os prisioneiros
do campo, antes de serem mortos, eram também espancados, humilhados e privados das roupas. Stangl respondeu: "Para condicionar quem tinha de levar as ações a cabo.
Para possibilitar que eles fizessem o que faziam". Em A ordem do terror: o campo de concentração, o sociólogo alemão Wolfgang Sofsky também demonstrou de que maneira
a desumanização dos prisioneiros nos campos nazistas era metodicamente inserida em todos os aspectos da vida ali, desde os uniformes rotos e idênticos até a expectativa
constante da morte, passando pela abolição da privacidade e pelo regulamento severíssimo.
Veremos que, no sistema soviético, o processo de desumanização também começava no momento da prisão, quando os presos eram privados das roupas e da própria identidade,
viam-lhes negado o contato com gente de fora e eram torturados, interrogados e submetidos a julgamentos farsescos, isso quando chegavam de fato a ser julgados. Numa
peculiaridade tipicamente soviética do processo, os prisioneiros eram, de maneira proposital, "excomungados" da vida social, proibidos de chamarem uns aos outros
de "camarada" e, a partir de 1937, proibidos de receber o cobiçado título de "trabalhador de choque", não importando quão bem se comportassem ou quão duro trabalhassem.
Segundo muitos relatos de prisioneiros, os retratos de Stalin, que eram expostos nos lares e repartições por toda a URSS, quase nunca apareciam no interior dos campos
e prisões.
Nada disso significa que os campos soviéticos e nazistas fossem idênticos. Conforme qualquer leitor com algum conhecimento geral do Holocausto descobrirá no decorrer
deste livro, a vida no sistema de campos soviético diferia de muitas maneiras (quer sutis, quer óbvias) da vida no sistema de campos nazista. Havia diferenças na
organização do cotidiano e do trabalho, diferentes tipos de guardas e punições, diferentes tipos de propaganda. O Gulag durou muitíssimo mais e passou por ciclos
de relativa crueldade e relativa humanidade. A história dos campos nazistas é mais curta e apresenta menos variações: eles simplesmente se tornaram cada vez mais
cruéis, até serem destruídos pelos alemães em retirada ou libertados pelos Aliados. O Gulag também continha variedade maior de campos, desde as letais minas auríferas
da região de Kolyma até os "luxuosos" institutos secretos nas cercanias de Moscou, onde cientistas aprisionados projetavam armas para o Exército Vermelho. Embora
existissem diferentes espécies de campo no sistema nazista, a gama era muitíssimo menor.
Sobretudo, duas diferenças entre os sistemas me parecem fundamentais. Em primeiro lugar, a definição de "inimigo" na URSS sempre foi muito mais vaga que a de "judeu"
na Alemanha nazista. Nesta, com número muito pequeno de exceções incomuns, nenhum judeu podia alterar sua condição, nenhum judeu preso num campo podia ter esperança
racional de escapar à morte, e todos os judeus estavam cientes disso o tempo todo. Embora milhões de prisioneiros soviéticos temessem pela própria vida - e milhões
deles tenham realmente morrido -, não havia nenhuma categoria de prisioneiro cuja morte estivesse absolutamente garantida. Por vezes, certos presos podiam melhorar
sua situação em postos de trabalho relativamente confortáveis, como os de engenheiro ou geólogo. Em cada campo, havia uma hierarquia de prisioneiros, na qual alguns
eram capazes de subir à custa (ou com a ajuda) de outros. Outras vezes - quando o Gulag se via sobrecarregado de mulheres, crianças e idosos, ou quando se necessitava
de soldados para a frente de batalha -, os presos era soltos graças a anistias maciças. Em certos momentos, acontecia que categorias inteiras de "inimigo" se beneficiavam
subitamente de uma mudança de condição. Em 1939, por exemplo, no começo da Segunda Guerra Mundial, Stalin prendeu centenas de milhares de poloneses - e depois, em
1941, ele os libertou de chofre, quando a Polônia e a URSS se tornaram temporariamente aliadas. O oposto também se aplicava: na URSS, os próprios opressores podiam
virar vítimas. Guardas e administradores do Gulag e até altos funcionários da polícia secreta também podiam ser aprisionados e condenados aos campos. Em outras palavras,
nem todas as "víboras" conseguiam manter as presas - e não havia nenhum grupo específico de prisioneiros soviéticos que vivesse na expectativa constante da morte.
Em segundo lugar (conforme, mais uma vez, ficará claro no decorrer do livro), o propósito primordial do Gulag, segundo tanto a linguagem privada quanto a propaganda
pública daqueles que o fundaram, era econômico. Isso não significa que o sistema fosse humanitário. Nele, os prisioneiros eram tratados como gado, ou melhor, como
pedaços de minério de ferro. Os guardas os faziam ir para lá e para cá a seu bel-prazer, embarcando-os e desembarcando-os de vagões de gado, pesando-os e medindo-os,
alimentando-os se parecia que poderiam vir a ser úteis, deixando-os à míngua quando não o eram. Para usarmos a linguagem marxista, os prisioneiros eram explorados,
reificados e mercantilizados. A menos que fossem produtivos, suas vidas não valiam nada para seus senhores.
Sua vivência, porém, era muito diferente daquela dos judeus e dos outros prisioneiros que os nazistas enviavam para um grupo especial de campos que se chamavam não
Konzentrationslager, mas Vernichtungslager - campos que não era realmente "campos de trabalhos forçados", e sim usinas da morte. Havia quatro deles: Belzec, Chelmno,
Sobibor e Treblinka. Já Majdanek e Auschwitz continham tanto campos de trabalhos forçados quanto campos de extermínio. Ao entrarem nesses campos, os prisioneiros
passavam por uma "seleção". Um número ínfimo era designado para algumas semanas de trabalhos forçados. O restante era mandado direto para as câmaras de gás, onde
os assassinavam e então cremavam de imediato.
Até onde pude comprovar, essa forma específica de homicídio, praticada no auge do Holocausto, não teve equivalente na URSS. É bem verdade que esse último país encontrou
outras maneiras de chacinar centenas de milhares de cidadãos. Geralmente, eles eram conduzidos à noite para uma floresta, alinhados, baleados na nuca e enterrados
em sepulturas coletivas antes mesmo de chegarem perto de um campo de concentração - modalidade de homicídio não menos "industrializada" e anônima que a usada pelos
nazistas. Há mesmo histórias de que a polícia secreta soviética usou gás de escapamento (uma forma primitiva de gás venenoso) para matar prisioneiros, da mesma forma
que os nazistas fizeram no começo. No Gulag, os prisioneiros também morriam, em geral graças não à eficiência dos captores, e sim à incompetência e à negligência
crassas. Em certos campos soviéticos em determinadas épocas, a morte era praticamente certa no caso dos escolhidos para cortar árvores nas florestas hibernais ou
trabalhar nas piores minas auríferas de Kolyma. Prisioneiros também eram trancados em celas punitivas até morrerem de frio ou inanição, largados sem tratamento em
hospitais subaquecidos ou simplesmente baleados por "tentativa de fuga" quando dava na telha dos guardas. Entretanto, o sistema soviético de campos como um todo
não era propositalmente organizado para produzir cadáveres em escala industrial - mesmo que às vezes o resultado fosse esse.
São distinções sutis, mas importantes. Embora o Gulag e Auschwitz realmente pertençam à mesma tradição intelectual e histórica, eles ainda assim são fenômenos separados
e diferentes, tanto um do outro quanto dos sistemas de campos estabelecidos por outros regimes. A idéia de campo de concentração talvez seja genérica o bastante
para que a usem em culturas e situações muito diversas, mas até um estudo superficial da história transcultural desse tipo de campo revela que os detalhes específicos
- como se organizava a vida, como o estabelecimento se desenvolvia no decorrer do tempo, quão rígido ou desorganizado se tornava, quão cruel ou liberal permanecia
- dependiam do país, do regime político e da cultura. Para quem estava encurralado atrás do arame farpado, esses detalhes eram cruciais para a vida, a saúde e a
sobrevivência.
Na realidade, lendo os relatos daqueles que sobreviveram a ambos os sistemas de campos, impressionam mais as diferenças entre as vivências das vítimas do que as
diferenças entre os dois sistemas de campos. Cada história tem suas características próprias, cada campo apresentava tipos diferenciados de horror para pessoas de
caráter diferente. Na Alemanha, podia-se morrer pela crueldade; na Rússia, pela desesperança. Em Auschwitz, podia-se morrer na câmara de gás; em Kolyma, congelar
na neve até a morte. Podia-se morrer numa floresta alemã ou num ermo siberiano, num acidente de mineração ou num vagão de gado. Mas, ao fim e ao cabo, cada um tinha
sua história de vida.
Parte I - AS ORIGENS DO GULAG (1917-39)
1. PRIMÓRDIOS BOLCHEVIQUES
Teu espinhaço foi esmagado,
Minha época bela e lastimável,
E, com sorriso inane,
Olhas para trás, cruel e fraca,
Tal qual bicho que já passou do apogeu,
Para as marcas de suas patas.
Osip Mandelstam, "Vek"
Um de meus objetivos é destruir o mito de que a fase mais cruel da repressão começou em 1936-7. Penso que, no futuro, as estatísticas mostrarão que a onda de prisões,
condenações e degredos já se iniciara no começo de 1918, antes mesmo da declaração oficial, naquele outono, do "Terror Vermelho". A partir daquele momento, a onda
simplesmente ficou cada vez maior, até a morte de Stalin.
Dmitrii Likhachev, Vospominaniya
No ano de 1917, duas ondas revolucionárias cobriram a Rússia, varrendo a sociedade imperial como se esta fosse um castelo de cartas. Depois que o czar Nicolau abdicou
(em fevereiro), tornou-se extremamente difícil que alguém conseguisse deter ou controlar os acontecimentos. Alexander Kerensky, o líder do primeiro governo provisório
pós-revolucionário, escreveria que, no vácuo subseqüente ao colapso do antigo regime, "todos os programas políticos e táticos existentes, não importando quão ousados
e bem concebidos, pareciam flutuar no espaço, sem rumo e sem utilidade".
Mas, embora o governo provisório fosse fraco, embora o descontentamento popular fosse generalizado, embora a raiva com a carnificina causada pela Primeira Guerra
Mundial fosse grande, poucos contavam que o poder caísse nas mãos dos bolcheviques, um dos vários partidos socialistas radicais que agitavam a favor de mudanças
ainda mais rápidas. Fora do país, eles eram muito pouco conhecidos. Uma narrativa apócrifa ilustra muito bem a atitude estrangeira: consta que, em 1917, um burocrata
entrou às pressas no gabinete do ministro do Exterior austríaco, gritando: "Excelência, houve uma revolução na Rússia!" O ministro riu com desdém: "Quem conseguiria
fazer uma revolução lá? Com certeza não esse inofensivo herr Trotski, lá no Café Central?"
Se o caráter dos bolcheviques era um mistério, seu líder, Vladimir Iliich Ulianov (o homem que o mundo viria a conhecer pelo pseudônimo revolucionário "Lênin"),
o era ainda mais. Durante seus muitos anos de revolucionário refugiado no exterior, Lênin fora reconhecido por conta de seu brilhantismo, mas também antipatizado
por causa de sua imoderação e seu sectarismo. Vivia arrumando briga com outros líderes socialistas e tinha o pendor de transformar em grandes polêmicas as discordâncias
menores sobre questões dogmáticas aparentemente irrelevantes.
Nos primeiros meses após a Revolução de Fevereiro, Lênin esteve muito longe de ocupar uma posição de autoridade inconteste, mesmo dentro de seu próprio partido.
Ainda em meados de outubro de 1917, um punhado de lideranças bolcheviques se opunha a seu plano de desfechar um golpe de Estado contra o governo provisório; argumentavam
que o Partido não estava pronto para tomar o poder e nem sequer tinha apoio popular. Lênin, porém, ganhou a discussão, e, em 25 de outubro, ocorreu o golpe. Sob
a influência da agitação promovida por Lênin, uma turba saqueou o Palácio de Inverno. Os bolcheviques prenderam os ministros do governo provisório. Num período de
horas, Lênin se tornara o líder do país, que ele rebatizou de Rússia Soviética.
No entanto, embora Lênin houvesse logrado tomar o poder, seus críticos bolcheviques não estavam de todo errados. Os bolcheviques estavam mesmo muitíssimo despreparados.
Em conseqüência, a maioria das decisões iniciais deles, aí incluída a criação do Estado unipartidário, foi tomada para atender às necessidades do momento. O apoio
popular aos bolcheviques era realmente fraco, e quase de imediato eles começaram a travar uma sangrenta Guerra Civil, apenas para que pudessem permanecer no poder.
A partir de 1918, quando o Exército Branco (dos partidários do antigo regime) se reagrupou para combater o recém-criado Exército Vermelho (liderado pelo "herr Trotski"
do "Café Central"), ocorreram nas regiões rurais da Rússia alguns dos combates mais brutais e encarniçados já vistos na Europa. E nem toda a violência se limitava
aos campos de batalha. Os bolcheviques se desdobravam para suprimir todo tipo de oposição intelectual e política, atacando não apenas os representantes do antigo
regime, mas também outros socialistas - mencheviques, anarquistas, social-revolucionários. Só em 1921 o novo Estado soviético conheceria relativa paz.
Nesse contexto de improvisação e violência, nasceram os primeiros campos soviéticos de trabalhos forçados. Assim como muitas outras instituições da URSS, foram criados
de modo contingencial, às pressas, como medida de emergência no calor da Guerra Civil. Isso não significa que a idéia já não se mostrara atraente. Três semanas antes
da Revolução de Outubro, o próprio Lênin esboçava um plano (vago, é verdade) para organizar um "serviço laborai obrigatório", destinado a capitalistas ricos. Em
janeiro de 1918, irado com a intensidade da resistência antibolchevique, ele foi ainda mais veemente, escrevendo que veria com bons olhos "a prisão desses sabotadores
bilionários que viajam em vagões de primeira classe. Sugiro sentenciá-los a seis meses de trabalhos forçados nas minas".
A visão de Lênin dos campos de trabalhos forçados como forma especial de punição para certo tipo de "inimigo" burguês se coadunava com outras crenças suas sobre
o crime e os criminosos. Por um lado, o primeiro líder soviético era ambivalente no que se referia ao encarceramento e punição dos criminosos tradicionais (ladrões,
punguistas, homicidas), os quais considerava aliados em potencial. Na perspectiva de Lênin, a causa básica dos "excessos sociais", ou seja, da criminalidade, era
"a exploração das massas". A eliminação dessa causa, acreditava ele, "levará ao esvanecimento dos excessos". Assim, não era necessário impor nenhuma punição especial
para deter os criminosos: com o tempo, a própria Revolução os faria desaparecer. Por isso, parte da linguagem no primeiro Código Penal bolchevique teria reconfortado
os reformadores penais mais radicais e progressistas do Ocidente. Entre outras coisas, o Código estabelecia que "não existe culpa individual" e que a punição "não
deve ser encarada como vingança".
Por outro lado, Lênin - assim como os teóricos jurídicos bolcheviques que o seguiram - também supunha que a criação do Estado soviético daria origem a um novo tipo
de inimigo: o "inimigo de classe". Este se opunha à Revolução e trabalhava às claras (ou, mais freqüentemente, às escondidas) para destruí-la. O inimigo de classe
era mais difícil de identificar que o inimigo comum, e muito mais difícil de regenerar. Diferentemente do que acontecia com o criminoso comum, nunca se podia confiar
no inimigo de classe para cooperar com o regime soviético, e ele exigia punição mais severa que a dada ao homicida ou ladrão comum. Em maio de 1918, por conseguinte,
o primeiro "decreto da propina" promulgado pelos bolcheviques determinava:
Se o culpado de receber ou oferecer propina pertencer às classes ricas e usá-la para conservar ou adquirir privilégios relacionados aos direitos de propriedade,
ele deverá ser condenado aos trabalhos forçados mais severos e rudes, e todas as suas posses deverão ser confiscadas.
Em outras palavras, desde os primeiros dias do Estado soviético, as pessoas seriam condenadas a cumprir pena não pelo que fizessem, mas pelo que fossem.
Infelizmente, ninguém jamais forneceu uma explicação clara do que exatamente era um "inimigo de classe". Como conseqüência, o número de detenções de todo tipo aumentou
em grau enorme após o golpe bolchevique. A partir de novembro de 1917, tribunais revolucionários, compostos de "partidários" da Revolução escolhidos de modo aleatório,
começaram a condenar de maneira também aleatória "inimigos" da Revolução. Penas de prisão, de trabalhos forçados e até de morte se aplicavam arbitrariamente a banqueiros,
esposas de comerciantes, "especuladores" (com o que se referiam a qualquer pessoa dedicada à atividade econômica independente), ex-carcereiros czaristas e todo o
mundo que parecesse suspeito.
A definição do que e de quem não era "inimigo" também variava de um lugar para outro, às vezes coincidindo com a de "prisioneiro de guerra". Ao ocupar uma cidade,
o Exército Vermelho, de Trotski, freqüentemente fazia reféns burgueses, que poderiam ser fuzilados caso o Exército Branco voltasse, como muitas vezes acontecia ao
longo das linhas cambiantes da frente de batalha. Nesse ínterim, tais reféns podiam ser postos para fazer trabalhos forçados, com freqüência abrindo trincheiras
e construindo barricadas. A distinção entre presos políticos e criminosos comuns era igualmente arbitrária. Membros sem instrução das comissões e tribunais revolucionários
temporários poderiam, por exemplo, resolver de súbito que um homem que fora apanhado ao viajar de trem sem ter pago passagem cometera delito contra a sociedade e
condená-lo por crimes políticos. No fim das contas, muitas de tais decisões eram deixadas aos policiais ou soldados que faziam as prisões. Feliks Dzerzhinsky, fundador
da Cheka (a polícia secreta de Lênin, antecessora da KGB), mantinha um caderninho preto no qual anotava os nomes e endereços de "inimigos" com os quais deparava
aleatoriamente ao fazer seu trabalho.
Essas distinções continuariam vagas até o próprio colapso da URSS, oitenta anos depois. No entanto, a existência de duas categorias de presos - "político" e "comum"
- teve profundo efeito sobre a formação do sistema penal soviético. Durante a primeira década de domínio bolchevique, as penitenciárias soviéticas até se cindiram
em dois tipos, um para cada categoria. A divisão surgiu espontaneamente, como resposta ao caos do sistema prisional existente. Logo nos primeiros dias da Revolução,
todos os prisioneiros eram encarcerados sob a jurisdição de alguma autoridade "tradicional" (primeiro o Comissariado da Justiça, depois o Comissariado do Interior)
e colocados no sistema prisional "comum". Ou seja, eram jogados nos remanescentes do sistema czarista, em geral nas prisões de pedra, sujas e sombrias, que ocupavam
localização central em todos os grandes centros. Nos anos revolucionários de 1917 a 1920, essas instituições ficaram em total confusão. Turbas tinham invadido as
cadeias, comissários autodesignados haviam demitido os guardas, prisioneiros tinham recebido amplas anistias ou simplesmente ido embora.
Quando os bolcheviques assumiram o controle, as poucas prisões que continuavam funcionando eram superlotadas e inadequadas. Já algumas semanas após a Revolução,
o próprio Lênin exigia "medidas extremas para melhoria imediata do abastecimento de alimentos às prisões de Petrogrado". Alguns meses depois, um integrante da Cheka
de Moscou visitou a prisão Taganskaya e relatou "um frio e uma sujeira terríveis", assim como tifo e fome. A maioria dos detentos não podia cumprir suas penas de
trabalhos forçados porque não tinha roupas. Uma matéria de jornal alegava que a prisão Batyrka, também em Moscou, projetada para abrigar mil presos, já tinha 2.500.
Outro jornal se queixava de que os Guardas Vermelhos "prendem assistematicamente centenas de pessoas todos os dias e não sabem o que fazer com elas".
A superlotação suscitava soluções "criativas". Na falta de coisa melhor, as novas autoridades encarceravam presos em porões, sótãos, palácios vazios e velhas igrejas.
Um sobrevivente recordaria que foi colocado no porão de uma casa abandonada, num único cômodo com cinqüenta pessoas, nenhuma mobília e pouca comida: quem não recebia
alimento das próprias famílias simplesmente morria de inanição. Em dezembro de 1917, uma comissão da Cheka discutiu o destino de 56 presos diversos ("ladrões, bêbados
e 'políticos' variados") que estavam sendo mantidos no porão do Instituto Smolny, o quartel-general de Lênin em Petrogrado.
Nem todos sofriam com as condições caóticas. Em 1918, Robert Bruce Lockhart, diplomata britânico acusado de espionagem (com justiça, aliás), foi aprisionado num
porão do Kremlin. Ele se ocupava jogando paciência e lendo Tucídides e Carlyle. De tempos em tempos, um ex-serviçal imperial lhe trazia chá quente e jornais.
Mas, mesmo nas cadeias tradicionais remanescentes, o regime prisional era imprevisível, e os carcereiros, inexperientes. Na cidade de Vyborg, no norte da Rússia,
um preso descobriu que, no bagunçado mundo pós-revolucionário, seu antigo motorista se tornara guarda de prisão. O homem ficou encantado em ajudar o ex-patrão a
ir para uma cela melhor (mais seca) e, por fim, a escapar. Um coronel do Exército Branco também lembraria que, em dezembro de 1917, na prisão de Petrogrado, os
detentos entravam e saíam à vontade e os sem-teto dormiam nas celas durante a noite. Recordando aquele tempo, um alto funcionário soviético diria que "só os muito
preguiçosos não fugiam".
A confusão obrigou a Cheka a apresentar soluções novas - os bolcheviques não podiam permitir que seus "verdadeiros" inimigos ficassem no sistema prisional comum.
Cadeias caóticas e guardas indolentes podiam servir para punguistas e delinqüentes juvenis; mas, para os sabotadores, parasitas, especuladores, oficiais do Exército
Branco, padres, capitalistas burgueses e outros que tanto assomavam na imaginação bolchevique, eram necessárias soluções mais criativas.
Uma delas foi encontrada já em 4 de junho de 1918, quando Trotski requereu que um grupo de prisioneiros tchecos refratários fosse pacificado, desarmado e colocado
num konstlager - campo de concentração. Doze dias depois, num memorando endereçado ao governo soviético, Trotski tornou a falar em campos de concentração, prisões
ao ar livre nas quais
a burguesia das cidades e vilarejos [...] deverá ser mobilizada e organizada em batalhões de retaguarda para fazer serviço braçal - limpar casernas, acampamentos
e ruas, cavar trincheiras etc. Quem se recusar deverá ser multado e mantido na cadeia até pagar a multa.
Em agosto, Lênin também se utilizou do termo konstlager. Num telegrama aos comissários de Penza (local de um levante antibolchevique), ele demandou que se empregasse
"terror em massa contra os kulaks, padres e Guardas Brancos" e que os "elementos indignos de confiança" fossem "aprisionados num campo de concentração fora da cidade".
As instalações já existiam: durante o verão de 1918 – na seqüência do Tratado de Brest-Litovsk, que pôs fim à participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial -,
o regime libertou 2 milhões de prisioneiros de guerra, e os campos vazios foram de imediato transferidos para a Cheka.
Na época, a Cheka certamente pareceu a entidade ideal para assumir a tarefa de encarcerar "inimigos" em "campos" especiais. Organização totalmente nova, foi concebida
para ser "a espada e o escudo" do Partido Comunista, não se subordinando ao governo soviético oficial nem a nenhum departamento deste. Não tinha nenhuma tradição
de legalidade, nenhuma obrigação de respeitar o Estado de direito, nenhuma necessidade de consultar a polícia, os tribunais ou o comissário da Justiça. O próprio
nome indicava sua condição especial: a Comissão Extraordinária de Combate à Contra-revolução e à Sabotagem, ou (usando as iniciais russas de "Comissão Extraordinária")
Ch-K, Cheka. Era "extraordinária" justamente porque existia fora da legalidade "ordinária".
Quase tão logo foi criada, a Cheka recebeu uma dessas tarefas extraordinárias. Em 5 de setembro de 1918, Dzerzhinsky foi instruído a implementar a política do Terror
Vermelho, de Lênin. Lançada após um atentado contra a vida desse último, era uma onda de terror (detenções, encarceramentos, assassínios) mais organizada que o terror
aleatório dos meses anteriores. Na realidade, tratava-se de um componente importante da Guerra Civil, sendo dirigido contra os suspeitos de atuarem para destruir
a Revolução na "frente interna". O Terror Vermelho foi sangrento, impiedoso e cruel - tal qual pretendiam seus perpetradores. A Krasnaya Gazeta, órgão do Exército
Vermelho, o descreveu:
Sem piedade, sem moderação, mataremos nossos inimigos às centenas e mais centenas. Ou melhor, aos milhares - deixemos que se afoguem no próprio sangue. Pelo sangue
de Lênin [...], deixemos que corram rios de sangue da burguesia - o máximo possível [...].
A política do Terror Vermelho foi crucial na luta de Lênin pelo poder. Os campos de concentração, os chamados "campos especiais", foram cruciais para o Exército
Vermelho. Eram mencionados já no primeiro decreto do Terror Vermelho, que determinava não apenas a captura e encarceramento de "representantes importantes da burguesia,
proprietários de terras, industriais, comerciantes, padres contra-revolucionários, oficiais anti-soviéticos", mas também o "isolamento deles em campos de concentração".
Embora não existam dados confiáveis sobre o número de prisioneiros, havia 21 campos registrados na Rússia no final de 1919. No fim do ano seguinte, eram 107 - cinco
vezes mais.
Naquele estágio, contudo, o objetivo dos campos permanecia ambíguo. Os prisioneiros deveriam trabalhar - mas com que propósito? O trabalho se destinava a reabilitá-los?
A humilhá-los? Ou a ajudar a construir o Estado soviético? Diferentes líderes e instituições tinham diferentes respostas. Em fevereiro de 1919, o próprio Dzerzhinsky
fez um discurso eloqüente para defender o papel dos campos na reabilitação ideológica da burguesia. Os novos campos
utilizarão a mão-de-obra dos detidos; dos senhores que vivem sem ter ocupação; e dos que só trabalham quando forçados. Tal punição deveria ser aplicada àqueles que
atuam em instituições soviéticas e demonstram atitudes inconscienciosas no que se refere ao trabalho, à pontualidade etc. [...] Dessa maneira, criaremos escolas
de trabalho.
Mas na primavera de 1919, quando se publicaram os primeiros decretos sobre os campos especiais, prioridades ligeiramente diferentes pareceram assumir a precedência.
Os decretos (uma lista surpreendentemente longa de normas e recomendações) sugeriam que cada capital regional estabelecesse um campo, para não menos que trezentas
pessoas, "no limite da cidade, ou em construções próximas como mosteiros, grandes propriedades, fazendas etc.". Estipulavam uma jornada de trabalho de oito horas;
horas extras e atividade noturna só seriam autorizadas quando "seguissem a lei trabalhista". Os presos ficavam proibidos de receber comida de fora. Permitiam-se
visitas de familiares imediatos, mas só nos domingos e feriados. Os presos que tentassem fugir uma vez teriam as penas multiplicadas por dez; os que tentassem de
novo seriam punidos com a morte - procedimentos extremamente severos se comparados com a leniente legislação czarista, que os bolcheviques conheciam tão bem. O mais
importante: os decretos também deixavam claro que o trabalho dos presos se destinava não apenas a reabilitá-los, mas também a pagar pela manutenção dos campos. Presos
com alguma incapacidade física deveriam ser mandados para outro lugar. Os campos deveriam ser auto-sustentáveis. De maneira otimista, os fundadores do sistema acreditavam
que ele se pagaria.
Graças ao fluxo irregular de fundos estatais, quem administrava os campos logo se interessou pela idéia de autofinancia-se ou, pelo menos, fazer algum uso prático
dos prisioneiros. Em setembro de 1919, um relatório secreto apresentado a Dzerzhinsky se queixava de que as condições sanitárias num campo de trânsito estavam "abaixo
da crítica", em grande parte porque deixavam tanta gente doente e incapaz para o trabalho: "Na umidade do outono, não serão lugares para reunir pessoas e empregar
sua mão-de-obra, mas viveiros de epidemias e outras enfermidades". Entre outras coisas, o autor propunha que os incapacitados de trabalhar deveriam ser enviados
para outro local, assim tornando o campo mais eficiente - tática que depois seria muitas vezes utilizada pela liderança do Gulag. Já naquela época, os responsáveis
pelos campos se preocupavam com a doença e a fome só na medida em que presos doentes e famintos não eram presos úteis. A dignidade e a humanidade deles, para nem
falar de sua sobrevivência, praticamente não interessavam aos encarregados.
Na prática, aliás, nem todos os comandantes se preocupavam com a reabilitação ou o autofinanciamento. Preferiam, isto sim, punir os ex-abonados, humilhando-os, dando-lhes
um gostinho do sofrimento dos trabalhadores. Um relatório da cidade ucraniana de Poltava, redigido por uma comissão de inquérito do Exército Branco após a recaptura
temporária do lugar, observava que os burgueses aprisionados durante a ocupação bolchevique haviam recebido tarefas que
se destinavam a escarnecer deles, tentando aviltá-los. Um detento, por exemplo [...], foi obrigado a limpar com as mãos uma grossa crosta de terra num chão imundo.
Mandaram outro limpar um sanitário e [...] lhe deram uma toalha de mesa para fazer o serviço.
É bem verdade que essas sutis diferenças de intenção provavelmente faziam pouca diferença para as muitas dezenas de milhares de presos, muitos dos quais consideravam
humilhação suficiente o simples fato de terem sido aprisionados por nenhum motivo. Elas provavelmente também não afetavam as condições de vida dos detentos, as quais
eram horrorosas em toda a parte. Um padre enviado para um campo na Sibéria se recordaria da sopa de tripa, dos alojamentos sem eletricidade e do aquecimento praticamente
inexistente no inverno. Aleksandr Izgoev, político de destaque no período czarista, foi mandado para um campo ao norte de Petrogrado. No caminho, seu grupo de prisioneiros
parou na cidade de Vologda. Em vez de encontrarem a comida quente e as acomodações aquecidas que lhes haviam sido prometidas, os presos foram conduzidos a pé de
um lugar para outro, em busca de abrigo. Não se preparara nenhum campo de trânsito para eles. Por fim, foram alojados no que fora uma escola, "com bancos compridos
e paredes nuas". Quem tinha dinheiro acabou comprando a própria comida na cidade.
Todavia, esses tipos de maus-tratos caóticos não eram reservados apenas aos prisioneiros. Em momentos decisivos da Guerra Civil, as necessidades emergenciais do
Exército Vermelho e do Estado soviético se sobrepunham a tudo o mais, da reabilitação à vingança, passando pelas considerações referentes ao que fosse justo ou injusto.
Em outubro de 1918, o comandante da frente setentrional solicitou à comissão militar de Petrogrado oitocentos trabalhadores, urgentemente necessários para abrir
estradas e trincheiras. Gomo conseqüência, "vários cidadãos das antigas classes mercantis foram convidados a comparecer ao quartel-general soviético, supostamente
para serem registrados para possíveis funções de trabalho em alguma data futura. Quando esses cidadãos apareceram para fazer tal registro, foram presos e mandados
ao quartel Semenovsky, onde esperariam até ser despachados para a frente de batalha". Quando nem isso resultou em número suficiente de trabalhadores, o soviete (conselho
governante local) de Petrogrado simplesmente cercou parte da Nevsky Prospekt (a principal rua comercial da cidade), prendeu todos os que não tinham carteirinha do
Partido nem atestado de que trabalhavam para uma instituição do governo e os fez marchar para um quartel ali perto. Mais tarde, liberaram-se as mulheres, mas os
homens foram despachados para o norte; "nenhum dos que foram mobilizados dessa maneira estranha pôde antes resolver seus assuntos de família, despedir-se dos parentes
ou obter trajes e calçados adequados".
Embora certamente horrível para os pedestres assim detidos, esse episódio pareceria menos esquisito aos trabalhadores de Petrogrado - porque, mesmo naquele estágio
inicial da história soviética, a distinção entre "trabalhos forçados" e trabalho comum era pouco clara. Trotski falava abertamente em transformar o país inteiro
num "exército de trabalhadores" ao estilo do Exército Vermelho. Desde cedo, os trabalhadores foram obrigados a registrar-se em repartições centrais do trabalho,
de onde podiam ser enviados para qualquer parte do país. Aprovaram-se decretos especiais que proibiam certos tipos de trabalhador (os mineiros, por exemplo) de largar
seus empregos. Nesse período de caos revolucionário, os trabalhadores livres tampouco desfrutavam condições de vida muito melhores que as dos presos. Olhando de
fora, nem sempre teria sido fácil dizer qual era o local de trabalho e qual era o campo de concentração.
Mas também isso era um prenúncio: durante a maior parte da década seguinte, as definições de "prisão", "campo" e "trabalhos forçados" estariam permeadas de confusão.
O controle das instituições penais continuaria mudando constantemente de mãos. Os departamentos responsáveis seriam rebatizados e reorganizados sem cessar, à medida
que diferentes comissários e outros burocratas tentavam assumir o controle do sistema.
No entanto, evidencia-se que, no final da Guerra Civil, já se estabelecera um padrão. A URSS desenvolvera dois sistemas prisionais, com regras, tradições e ideologias
distintas. O Comissariado da Justiça (e depois o Comissariado do Interior) administrava o sistema "regular", que lidava principalmente com o que o regime soviético
denominava "criminosos". Ainda que esse sistema também fosse caótico na prática, seus presos eram mantidos em prisões tradicionais, e os objetivos declarados de
seus administradores, conforme apresentados num memorando interno, seriam perfeitamente compreensíveis em países "burgueses": regenerar os criminosos pelo trabalho
correcional - "os presos devem trabalhar para aprender habilidades que possam utilizar a fim de levar vida honesta" - e impedir que cometessem mais crimes.
Ao mesmo tempo, a Cheka (depois rebatizada GPU, OGPU, NKVD, MGB e, por fim, KGB) controlava outro sistema prisional, que de início era conhecido como sistema de
"campos especiais", ou "campos extraordinários". Embora a Cheka usasse neles parte da mesma retórica de "reabilitação" e "regeneração", esses campos não se destinavam
mesmo a parecer instituições penais comuns. Estavam fora da jurisdição das outras instituições soviéticas e não eram visíveis ao público. Tinham normas especiais,
penalidades mais duras para quem tentava fugir, regimes mais severos. Seus presos não haviam necessariamente sido condenados por tribunais comuns - se é que algum
tribunal os condenara. Tais campos, estabelecidos como medida emergencial, acabaram por tornar-se maiores e mais poderosos, à medida que se ampliava a definição
de "inimigo" e aumentava o poder da Cheka. E, quando os dois sistemas penais, o ordinário e o extraordinário, enfim se juntaram, eles o fizeram sob as regras do
segundo. A Cheka devorou seus rivais.
Desde o início, o sistema prisional "especial" se destinava a lidar com prisioneiros especiais: padres, antigos altos funcionários czaristas, especuladores burgueses,
inimigos da nova ordem. Mas uma categoria de presos políticos em particular interessava às autoridades mais que as outras. Tratava-se de membros dos partidos socialistas
revolucionários não-bolcheviques, sobretudo os anarquistas, a esquerda e a direita social-revolucionárias, os mencheviques e todos os outros que haviam lutado pela
Revolução, mas que não tiveram o tino de unir-se à facção bolchevique, de Lênin, e não tomaram parte por completo no golpe de outubro de 1917. Como ex-aliados no
combate revolucionário contra o regime czarista, mereciam tratamento especial. O Comitê Central do Partido Comunista debateria repetidas vezes o destino deles, até
o final dos anos 1930, quando a maioria dos que continuavam vivos foi presa ou fuzilada.
Em parte, essa categoria específica de prisioneiro incomodava Lênin porque, assim como todos os líderes de seitas exclusivistas, ele reservava aos apóstatas o maior
ódio de que era capaz. Durante um colóquio típico, chamou um de seus críticos socialistas de "escroque", "cãozinho cego", "adulador da burguesia" e "lacaio de sanguessugas
e canalhas", que só servia para o "esgoto dos renegados". Aliás, muito antes da Revolução, Lênin já sabia o que faria com aqueles correligionários socialistas que
se opunham a ele. Um de seus companheiros revolucionários recordou uma conversa sobre o assunto:
Eu lhe disse: "Vladimir Iliich, se você chegar ao poder, vai começar a enforcar os mencheviques no mesmo dia". Ele me deu uma olhadela e respondeu: "Só depois que
tivermos enforcado o último social-revolucionário". Aí, franziu as sobrancelhas e deu uma risada.
Contudo, os presos que pertenciam a essa categoria especial também eram bem mais difíceis de controlar. Muitos haviam passado anos em prisões czaristas e sabiam
como montar greves de fome, como pressionar seus carcereiros, como estabelecer comunicação entre as celas para trocar informações, como organizar protestos em conjunto.
O mais importante: sabiam como contatar o exterior - e quem contatar por lá. A maior parte dos partidos socialistas russos não-bolcheviques ainda tinha diretórios
de exilados (geralmente em Berlim ou Paris) cujos membros podiam causar grandes prejuízos à imagem mundial dos bolcheviques. Em 1921, no III Congresso da Internacional
Comunista, representantes do diretório externo dos social-revolucionários, o partido ideologicamente mais próximo dos bolcheviques (durante breve período, alguns
de seus membros até chegaram a trabalhar em coalizão com esses últimos), leram em voz alta uma carta de seus camaradas encarcerados na Rússia. A carta provocou sensação
no congresso, em grande parte porque afirmava que as condições prisionais na Rússia revolucionária eram piores que nos tempos do czar. "Nossos camaradas estão semimortos
de fome", proclamava. "Muitos deles se encontram presos há meses, sem visita de parentes, sem correspondência, sem exercício físico."
Os socialistas exilados tinham condições de agitar em favor dos prisioneiros, e o faziam, tal qual antes da Revolução. Imediatamente após o golpe bolchevique, vários
revolucionários célebres, aí incluídas Vera Figner (autora de memórias sobre a vida em prisões czaristas) e Ekaterina Peshkova (mulher do escritor Máximo Gorki),
ajudaram a restabelecer a Cruz Vermelha Política, uma organização de auxílio a presos que atuara clandestinamente antes da Revolução. Ekaterina conhecia bem Dzerzhinsky
e se correspondia com ele de modo regular e cordial. Graças aos contatos e ao prestígio dela, a Cruz Vermelha Política recebeu o direito de visitar locais de encarceramento,
falar com presos políticos, enviar-lhes remessas e até requerer a soltura daqueles que estavam enfermos - privilégios que a organização manteve durante boa parte
da década de 1920. Posteriormente, essas atividades pareceriam tão inverossímeis ao escritor Lev Razgon, aprisionado em 1937, que ele ouvia as histórias da Cruz
Vermelha Política contadas pela esposa (o pai dela fora um dos presos socialistas) como se fossem "contos de fadas".
A má publicidade gerada pelos socialistas ocidentais e pela Cruz Vermelha Política incomodava um bocado os bolcheviques. Muitos tinham vivido anos no exílio e, por
conseguinte, eram sensíveis às opiniões de seus antigos camaradas internacionais. Muitos também ainda acreditavam que a Revolução poderia propagar-se para o Ocidente
a qualquer momento e não queriam que o progresso do comunismo fosse retardado pelas notícias negativas. Em 1922, as matérias da imprensa ocidental já os preocupavam
o bastante para lançarem a primeira do que seriam muitas tentativas de disfarçar o terror comunista atacando o "terror capitalista". Com esse propósito, criaram
uma associação "alternativa" de auxílio a prisioneiros: a Sociedade Internacional de Ajuda às Vítimas da Revolução (MOPR, conforme seu acrônimo russo), que supostamente
trabalharia para assistir aos "100 mil presos do capitalismo".
Embora a seção berlinense da Cruz Vermelha Política tenha de
imediato atacado a MOPR por tentar "silenciar os gemidos daqueles que estão morrendo nas prisões, campos de concentração e locais de degredo da Rússia", outros engoliram
a história. Em 1924, a MOPR afirmava ter 4 milhões de membros e até organizou sua primeira conferência internacional, com representantes do mundo inteiro. A propaganda
deixou sua marca. Quando pediram ao escritor francês Romain Rolland que comentasse a publicação de uma coletânea de cartas de socialistas encarcerados na Rússia,
ele respondeu afirmando o seguinte:
Há coisas quase idênticas acontecendo nas prisões da Polônia; nós as temos nas prisões da Califórnia, onde estão martirizando os trabalhadores da IWW; nós as temos
nos calabouços ingleses das ilhas Andaman [...].
A Cheka também procurou amenizar as notícias negativas, mandando os socialistas encrenqueiros para mais longe de seus contatos. Alguns foram enviados por decreto
administrativo para o degredo em regiões longínquas, tal qual o regime czarista fizera. Outros foram mandados para campos remotos perto da cidade boreal de Arcangel
e, em especial, para um campo estabelecido no antigo mosteiro de Kholmogory, centenas de quilômetros ao norte de Petrogrado, próximo ao mar Branco. Todavia, mesmo
os desterrados para os locais mais distantes acabavam achando meios de comunicar-se. De Narim, longínqua região da Sibéria, um pequeno grupo de presos políticos
num minúsculo campo de concentração conseguiu mandar carta para um jornal socialista no exílio, queixando-se de que estavam "tão categoricamente isolados do resto
do mundo que apenas cartas referentes à saúde de parentes ou à nossa própria podem ter a esperança de chegar aos destinatários. Nenhum outro tipo de mensagem [...]
nos chega". Esses presos assinalavam que, entre eles, encontrava-se Olga Romanova, anarquista de dezoito anos que fora despachada para um lugar particularmente remoto
da região, "onde a fizeram passar três meses a pão e água".
Tampouco o degredo distante garantia sossego para os carcereiros. Em quase toda a parte, os presos socialistas, acostumados ao tratamento privilegiado outrora dado
aos prisioneiros políticos nas cadeias czaristas, exigiam jornais, livros, caminhadas, o direito ilimitado a correspondência e, sobretudo, o direito de escolherem
os próprios porta-vozes ao lidarem com as autoridades. Quando os agentes locais da Cheka não entendiam e se negavam a conceder essas coisas (eles decerto não sabiam
a diferença entre anarquista e baderneiro), os socialistas protestavam, às vezes com violência. Segundo uma descrição do campo de Kholmogory, um grupo de prisioneiros
descobriu que
era necessário travar uma lula pelas coisas mais elementares, como a concessão aos socialistas e anarquistas dos direitos comuns dos presos políticos. Nessa luta,
eram submetidos a todos os castigos conhecidos, como confinamento solitário, espancamento, fome, disparos concertados do destacamento militar contra o edifício etc.
Basta dizer que, no final do ano, a maioria dos detentos de Kholmogory podia acrescentar a seu histórico greves de fome que duravam de trinta a 35 dias [...].
Esse mesmo grupo de presos acabou sendo transferido de Kholmogory para outro campo, em Petrominsk, também um mosteiro. De acordo com a petição que enviariam às autoridades,
foram recebidos ali com "gritos e ameaças grosseiras", trancafiados seis de uma vez em minúsculas celas de monge e proibidos de praticar exercício ou ter acesso
a livros ou material de escrita. O camarada Bachulis, comandante de Petrominsk, tentou quebrar o ânimo dos presos privando-os de luz e calor .- e, de tempos em
tempos, atirando contra as janelas deles. Os presos reagiram lançando outra rodada interminável de greves de fome e cartas de protesto. No fim das contas, exigiram
ser tirados do próprio campo, o qual afirmavam ser malárico.
Outros chefes de campo também reclamavam de tais prisioneiros. Em carta a Dzerzhinsky, um deles escreveu que em seu campo "os Guardas Brancos que se julgam presos
políticos" se organizaram numa "turma enérgica", impossibilitando que os guardas trabalhassem: "eles difamam a administração, caluniam-lhe o nome [...] desprezam
o nome bom e honesto do trabalhador soviético". Alguns guardas resolviam as coisas eles mesmos. Em abril de 1921, um grupo de prisioneiros de Petrominsk se recusou
a trabalhar e exigiu mais rações de comida. Fartas dessa insubordinação, as autoridades de Arcangel ordenaram que todos os 540 fossem condenados à morte. Foram devidamente
fuzilados.
Em outros lugares, as autoridades tentavam manter a paz pelo caminho oposto, atendendo a todas as reivindicações dos socialistas. Berta Babina, membro dos social-revolucionários,
recordaria sua chegada à "ala socialista" da prisão de Butyrka (em Moscou) como um reencontro jubiloso com amigos, gente "da clandestinidade em São Petersburgo,
dos meus anos de estudante e das muitas cidades e lugares menores onde morei durante minhas erranças". Os presos podiam fazer o que quisessem na prisão. Organizavam
sessões matinais de ginástica, fundaram uma orquestra e um coro, criaram um "grêmio" que dispunha de periódicos estrangeiros e boa biblioteca. Conforme a tradição
(remontando aos tempos pré-revolucionários), todo preso deixava seus livros quando era solto. Um conselho dos prisioneiros designava celas para todos, algumas das
quais eram muitíssimo bem supridas de tapetes no chão e tapeçarias nas paredes. Outro preso lembraria que "flanávamos pelos corredores como se fossem bulevares".
Para Berta, a vida na prisão parecia inverossímil: "Será que eles não conseguem nos prender a sério?"
A liderança da Cheka se fazia a mesma pergunta. Num relatório a Dzerzhinsky datado de janeiro de 1921, um irado fiscal das prisões se queixou de que, na Butyrka,
"homens e mulheres caminham juntos, e slogans anarquistas e contra-revolucionários ficam expostos nas paredes das celas". Dzerzhinsky recomendou regime mais severo
- mas, quando este foi instituído, os presos tornaram a protestar.
O idílio da Butyrka terminou logo depois. Em abril de 1921, segundo carta que um grupo de social-revolucionários escreveu às autoridades, "entre três e quatro horas
da manhã, um grupo de homens armados entrou nas celas e começou o ataque [...] mulheres foram arrastadas pelos braços, pernas e cabelos para fora das celas; outras
foram espancadas". A Cheka, em seus relatórios posteriores, descreveu esse "incidente" como uma rebelião que ficara fora de controle - e ela resolveu que nunca mais
deixaria tantos presos políticos se acumularem em Moscou. Em fevereiro de 1922, a "ala socialista" da prisão de Butyrka já fora dissolvida.
A repressão não funcionara. As concessões não haviam funcionado. Mesmo em seus campos especiais, a Cheka não conseguia controlar os presos especiais. Tampouco conseguia
impedir que notícias deles chegassem ao exterior. Era evidente que outra solução se fazia necessária, tanto para eles quanto para todos os outros contra-revolucionários
insubordinados que haviam sido reunidos no sistema prisional especial. Na primavera de 1923, já se encontrara a solução: Solovetsky.
2. "O PRIMEIRO CAMPO DO GULAG"
Há monges e padres,
Prostitutas e ladrões.
Aqui há príncipes e barões -
Mas suas coroas lhes foram tomadas...
Nesta ilha, os ricos não têm casa,
Nem castelo, nem palácio...
Poema anônimo escrito por um prisioneiro
nas ilhas Solovetsky, 1926
Olhando do alto do campanário na ponta do antigo mosteiro de Solovetsky, mesmo hoje se vêem os contornos do campo de concentração. Um espesso muro de pedras ainda
circunda o kremlin, o conjunto central de igrejas e construções do mosteiro, que remontam ao século XV e depois abrigaram a administração principal e a prisão central
do campo. Imediatamente a oeste, ficam as docas, agora lar de alguns barcos pesqueiros, outrora apinhadas com os presos que chegavam toda semana, e às vezes todo
dia, durante a curta temporada de navegação no extremo norte. Para além delas, estende-se a vastidão plana do mar Branco. Dali, o barco leva várias horas para chegar
a Kem, o campo de trânsito no continente, de onde os presos embarcavam com destino a Solovetsky. Chegar a Arcangel, capital regional e maior porto do mar Branco,
leva a noite toda.
Olhando para o norte, talvez se vislumbre de modo muito vago a Sekirka, a igreja que, no alto de um morro, continha as infames celas punitivas de Solovetsky. A leste,
ergue-se a usina de força construída pelos prisioneiros, ainda hoje em plena operação. Logo atrás, o terreno onde costumava ficar o jardim botânico. Ali, nos primeiros
tempos do campo, alguns dos prisioneiros cultivavam plantas experimentais, procurando determinar se poderiam semear alguma coisa com proveito no extremo norte.
Por fim, para além do jardim botânico, as outras ilhas do arquipélago de Solovetsky. Espalhadas pelo mar Branco, estão Bolshaya Muksalma, onde os presos criavam
raposas-prateadas para tirar-lhes a pele; Anzer, lugar de campos especiais para inválidos, para mulheres com filhos pequenos e para ex-monges; e Zayatsky Ostrov,
local do campo punitivo feminino. Não foi por acaso que Soljenitsin escolheu a metáfora do "arquipélago" para descrever o sistema soviético de campos de concentração.
Solovetsky, o primeiro a ter sido planejado e construído para durar, desenvolveu um verdadeiro arquipélago, expandindo-se de ilha a ilha, ocupando à medida que crescia
as velhas igrejas e construções monásticas da antiga comunidade de monges.
O complexo monástico já servira de prisão. Desde o século XVI, os monges de Solovetsky, fiéis servidores do czar, tinham ajudado a encarcerar os opositores políticos
dele (entre os quais padres refratários e um ou outro aristocrata rebelde). O isolamento, os altos muros, os ventos gelados e as gaivotas que antes atraíam certo
tipo de monge solitário também empolgavam a imaginação bolchevique. Já em maio de 1920, um artigo na edição de Arcangel do jornal governamental Izvestiya descrevia
as ilhas como lugar perfeito para um campo de trabalho: "o ambiente inóspito, o regime laborai, a luta contra as forças da natureza serão boa escola para todos os
elementos criminosos". O primeiro punhado de presos começou a chegar naquele verão.
Outros, mais acima na cadeia de comando, também estavam interessados nas ilhas. O próprio Dzerzhinsky parece ter convencido o governo soviético a transferir o mosteiro
confiscado, mais aqueles mosteiros de Petrominsk e Kholmogory, para a Cheka (então rebatizada GPU, depois OGPU, ou Administração Política Estatal Unificada) em 13
de outubro de 1923. Juntos, esses locais foram designados "Campos de Importância Especial". Posteriormente, seriam conhecidos como "Campos Setentrionais de Importância
Especial", ou Severnye Lagery Osobogo Naznacheniya, a rede Slon. Em russo, slon é "elefante". O nome se tornaria humorístico, irônico e ameaçador.
No folclore dos sobreviventes, Solovetsky seria sempre lembrado como "o primeiro campo do Gulag". Embora estudiosos tenham mais recentemente assinalado que já existia
uma ampla gama de campos e prisões, fica evidente que Solovetsky desempenhou papel especial não apenas nas lembranças dos sobreviventes, mas também na memória da
polícia secreta soviética. Solovetsky pode não ter sido a única prisão da URSS nos anos 1920, mas era a prisão deles, a prisão da OGPU, onde essa polícia aprendeu
a usar trabalho escravo com fins lucrativos. Em 1945, numa palestra sobre a história dos campos, o camarada Nasedkin, então principal administrador do sistema, afirmou
não só que este teve origem em Solovetsky na década de 1920, mas também que todo o aparelho soviético de "trabalhos forçados como método de reabilitação" se iniciou
ali em 1926.
O arquipélago de Solovetsky, no mar Branco
A primeira vista, essa declaração parece estranha, considerando que na URSS os trabalhos forçados já eram reconhecidos como forma de punição desde 1918. No entanto,
ela se assemelhará menos estranha se virmos de que maneira o conceito de trabalhos forçados evoluiu na própria Solovetsky. Isso porque, nos primórdios, embora nas
ilhas todos trabalhassem, os presos não estavam organizados em nada remotamente similar a um "sistema". Tampouco há provas de que o trabalho deles fosse rentável
de algum modo.
Antes de tudo, uma das duas categorias de presos em Solovetsky nem sequer trabalhava no começo. Eram os Cerca de trezentos presos políticos socialistas, que na realidade
tinham começado a chegar à ilha principal em junho de 1923. Mandados do campo de Petrominsk, assim como da Butyrka e de outras prisões de Moscou e Petrogrado, foram
de imediato levados para o Savvatvevo, um mosteiro menor, vários quilômetros ao norte do principal complexo monástico. Ali, os guardas de Solovetsky tinham como
garantir que ficassem isolados dos outros presos e não os contaminassem com aquele seu entusiasmo pelos protestos e greves de fome.
De início, concederam-se aos socialistas os "privilégios" de presos políticos que eles exigiam havia tanto tempo: jornais, livros e, dentro daquele cercado de arame
farpado, liberdade de movimento e de trabalho. Cada um dos principais partidos políticos - a esquerda e a direita social-revolucionárias, os anarquistas, os social-democratas
e depois os social-sionistas - escolhia seu próprio líder e ocupava recintos em sua própria ala do velho mosteiro.
Para Elinor Olitskaya, jovem social-revolucionária de esquerda presa em 1924, o Sawatyevo no começo "não se parecia em nada com uma prisão" e foi um susto após os
meses passados na sombria prisão de Lubyanka, em Moscou. O quarto de Elinor, uma antiga cela de monge no que se tornara a seção feminina da ala dos social-revolucionários,
era
claro, limpo e recém-lavado, com duas janelas abertas, grandes e largas. A cela era cheia de luz e ar. Nas janelas, não havia barras, é claro. No meio da cela, tinha-se
uma pequena mesa, coberta com uma toalha branca. Junto à parede, quatro camas, com lençóis arrumados com capricho. Ao lado de cada uma, um pequeno criado-mudo. Neste,
viam-se livros, cadernos e canetas.
Enquanto Elinor se admirava com o local, com o chá servido em bules e com o açúcar num açucareiro, suas companheiras de cela lhe explicavam que as presas haviam
criado aquele ambiente agradável de caso pensado: "queremos viver como seres humanos". Elinor logo descobriu que, embora sofressem de tuberculose e outras doenças
e raramente tivessem comida bastante, os presos políticos de Solovetsky se mostravam extraordinariamente bem organizados, estando o "decano" de cada célula partidária
responsável pelos serviços de almoxarifado, cozinha e distribuição de alimentos. Dado que ainda tinham status político especial, também podiam receber remessas tanto
de parentes quanto da Cruz Vermelha Política. Embora essa última começasse a encontrar dificuldades (em 1922, seus escritórios sofreram batidas, e suas posses foram
confiscadas), Ekaterina Peshkova, a bem relacionada líder da organização, ainda tinha autorização pessoal para mandar auxílio a presos políticos. Em 1923, ela despachou
um vagão inteiro de víveres para aqueles presos do Sawatyevo. Um carregamento de roupas seguiu para o norte em novembro do mesmo ano.
Era esta, portanto, a solução para o problema de relações públicas criado pelos presos políticos: dar-lhes mais ou menos o que pediam, mas colocá-los tão longe do
resto das pessoas quanto fosse possível. Tal solução não duraria: o sistema soviético não toleraria exceções por muito tempo. Entrementes, era fácil desmascarar
a ilusão - pois em Solovetsky havia outro grupo de prisioneiros, muitíssimo maior. "Ao desembarcarmos no chão de Solovetsky, todos sentíamos que estávamos entrando
numa fase nova e estranha da vida", escreveu um preso político. "Pelas conversas com os criminosos, ficamos sabendo do regime terrível que a direção lhes aplicava."
Com muito menos pompa e circunstância, a prisão principal do kremlin de Solovetsky também ia sendo rapidamente lotada com presos cuja situação não era tão garantida.
De umas poucas centenas de detentos em 1923, os números subiram para 6 mil em 1925. Entre eles, havia oficiais e simpatizantes do Exército Branco, "especuladores",
ex-aristocratas, marinheiros que haviam lutado no levante de Kronstadt e verdadeiros criminosos comuns. Para esses presos, era muito mais difícil ter chá em bules
e açúcar em açucareiros. Ou melhor, difícil para alguns, mais fácil para outros - pois o que caracterizava a vida na prisão criminal do campo especial de Solovetsky
naqueles primeiros tempos era sobretudo uma irracionalidade e uma imprevisibilidade que se iniciavam já no momento do desembarque. O memorialista e ex-condenado
Boris Shiryaev escreve que, na primeira noite no campo, ele e os outros recém-chegados foram recebidos pelo camarada A. P. Nogtev, o primeiro comandante de Solovetsky.
"Eu lhes dou as boas-vindas", disse-lhes Nogtev, com o que Shiryaev descreveu como "ironia". "Como vocês sabem, aqui não há autoridade soviética, apenas a autoridade
de Solovetsky. Podem ir esquecendo qualquer direito que tenham tido antes. Aqui, temos leis próprias." A frase "não há autoridade soviética, apenas a autoridade
de Solovetsky", seria usada inúmeras outras vezes, conforme atestam muitos memorialistas. Nos dias e semanas seguintes, a maioria dos presos vivenciaria a autoridade
de Solovetsky" como combinação de negligência criminosa com crueldade fortuita. As condições de vida nas igrejas e celas
monásticas adaptadas eram precárias, e pouca atenção se deu a melhorá-las. Na primeira noite na prisão de Solovetsky, o escritor OlegVolkov recebeu um lugar nos
sploshnye nary, leitos que na realidade era pranchas largas (das quais voltaremos a falar) onde vários homens dormiam enfileirados. No que Volkov se deitou, os percevejos
começaram a atacá-lo, "um depois do outro, como formigas; não consegui dormir". Ele saiu e foi de imediato envolvido por "nuvens de mosquitos [...] olhei com inveja
para aqueles que dormiam profundamente, cobertos de parasitas".
Fora do complexo principal do kremlin, as coisas não eram melhores. Oficialmente, a Slon compreendia nove campos distintos no arquipélago, cada um deles dividido
em batalhões. Mas também se mantinham alguns presos em condições ainda mais primitivas, nas matas, perto dos locais de atividade madeireira. Dmitrii Likhachev,
que depois se tornaria um dos mais famosos críticos literários da URSS, considerava-se privilegiado por não ter sido designado para um dos muitos campos anônimos
na floresta. Ao visitar um, "fiquei doente com a visão daquele horror: pessoas dormiam em valas que tinham cavado, às vezes com as mãos nuas, durante o dia".
Nas ilhas periféricas, a administração central dos campos exercia ainda menos controle sobre a conduta dos guardas e encarregados. Um preso, certo Kiselev, descreveu
em suas memórias certo campo em Anzer, uma das ilhas menores. Comandado por Vanka Potapov (outro integrante da Cheka), o campo consistia de três alojamentos e um
quartel de guardas, instalado numa antiga igreja. Os presos trabalhavam no corte de árvores, sem pausa, sem descanso e com pouca alimentação. Desesperados por conseguir
alguns dias de folga, decepavam as próprias mãos e pés. Segundo Kiselev, Potanov conservava essas "pérolas" numa grande pilha e as mostrava aos visitantes, para
os quais também se vangloriava de ter matado mais de quatrocentas pessoas com as próprias mãos. "Ninguém voltava de lá", escreveu Kiselev a respeito de Anzer. Mesmo
que seu relato seja exagerado, ele indica o verdadeiro terror que os campos periféricos representavam para os presos.
Em todas as ilhas, as catastróficas condições de higiene, o excesso de trabalho e a alimentação ruim levavam naturalmente à doença, sobretudo ao tifo. Dos 6 mil
prisioneiros a cargo da Slon em 1925, cerca de um quarto morreria no inverno de 1925-6, em conseqüência de uma epidemia particularmente grave. De acordo com algumas
estimativas, os números permaneceram altos: a cada ano, de um quarto a metade dos presos pode ter perecido de tifo, inanição e outras epidemias. No inverno de 1929-30,
um documento registra 25.552 casos de tifo na Slon (rede que então já era muito maior).
Para alguns presos, porém, Solovetsky representava algo pior que o desconforto e a doença. Nas ilhas, eram submetidos ao tipo de sadismo e tortura despropositada
que se encontrava mais raramente no Gulag em anos posteriores, quando, segundo Soljenitsin, "a capatazia de escravos já se tornara um sistema planejado". Embora
muitas memórias descrevam esses atos, a relação mais completa se acha no relatório de uma comissão de inquérito que seria enviada de Moscou mais para o final da
década de 1920. No decorrer da investigação, essas horrorizadas autoridades moscovitas descobriram que, no inverno, os guardas de Solovetsky regularmente deixavam
prisioneiros nus nos velhos campanários da igreja maior, sem nenhum aquecimento, tendo mãos e pés alados às costas com um único pedaço de corda. Também colocavam
presos "no assento", significando que os obrigavam a sentar em mastros por até dezoito horas sem se mexer, às vezes com pesos amarrados às pernas e pés, sem tocar
o chão, numa posição que com toda a certeza os deixaria aleijados. De quando em quando, faziam os presos irem nus para o banho, até a dois quilômetros de distância,
numa temperatura de congelar. Ou lhes davam de propósito carne podre. Ou lhes negavam socorro médico. Outras vezes, os prisioneiros recebiam tarefas despropositadas
e inúteis - deslocar enormes quantidades de neve de um lugar para outro, por exemplo, ou pular de pontes tão logo os guardas mandassem.
Outra forma de tortura própria das ilhas, sendo mencionada tanto em arquivos quanto em memórias, era ser mandado "aos pernilongos". A. Klinger, oficial do Exército
Branco que depois realizaria uma das poucas fugas bem-sucedidas de Solovetsky, escreveu que uma vez vira essa tortura ser aplicada a um preso que se queixara porque
uma remessa de gêneros destinada a ele fora confiscada. Guardas irados reagiram tirando-lhe todas as roupas, inclusive as de baixo, e amarrando-o a um mastro nas
matas, as quais, no verão boreal, estavam infestadas de mosquitos. "Passada meia hora, todo o seu corpo infeliz estava coberto de inchaços provocados pelas picadas",
escreveu Klinger. O homem acabou desfalecendo com a dor e a perda de sangue.
Execuções em massa pareciam ocorrer de modo quase aleatório, e muitos prisioneiros lembram-se de ter vivido aterrorizados com a perspectiva da morte arbitrária.
Likhachev afirma ter escapado por pouco a uma chacina no final de outubro de 1929. Documentos de arquivo realmente indicam que cerca de cinqüenta pessoas (e não
trezentas, número registrado por Likhachev) foram executadas na época, tendo sido acusadas de tentar organizar uma rebelião.
Quase tão ruim quanto uma execução direta era a sentença de envio para a Sekirka, a igreja cujos porões haviam se tornado as celas punitivas de Solovetsky. De fato,
embora se contassem muitas histórias sobre o que acontecia nos porões da igreja, tão poucos homens voltavam da Sekirka que fica difícil ter certeza de quais eram
realmente as condições ali. Mas uma testemunha chegou mesmo a ver as turmas sendo conduzidas ao trabalho: "uma fila de pessoas aterrorizadas, com olhar inumano,
algumas trajadas com sacas, todas descalças, rodeadas por uma guarda cerrada".
Segundo rezava a legenda de Solovetsky, a longa escadaria de 365 degraus de madeira que desciam a íngreme colina dessa igreja também desempenhava um papel nas matanças.
Em certo momento, quando as autoridades do campo proibiram que se atirasse contra os presos da Sekirka, os guardas começaram a providenciar "acidentes" - jogando
os detentos escadaria abaixo. Há poucos anos, descendentes de presos de Solovetsky ergueram uma cruz de madeira no pé da escadaria, para marcar o lugar onde esses
antepassados teriam morrido. Hoje, é um lugar sossegado e bem bonito - tanto que, no final da década de 1990, o museu de história local de Solovetsky imprimiu um
cartão de Natal que mostrava a Sekirka, a escadaria e a cruz.
Embora o clima reinante de irracionalidade e imprevisibilidade significasse que milhares morreriam na Slon na primeira metade da década de 1920, a mesma irracionalidade
e a mesma imprevisibilidade também ajudavam outros não apenas a sobreviver, mas também a cantar e dançar - literalmente. Em 1923, um punhado de presos já começara
a organizar o primeiro teatro do campo. De início, os "atores", muitos dos quais passavam dez horas cortando madeira nas florestas antes de ir ensaiar, não tinham
texto, de modo que encenavam os clássicos de memória. O teatro melhorou muitíssimo em 1924, quando chegou um grupo inteiro de ex-atores profissionais - todos condenados
como membros do mesmo movimento contra-revolucionário. Naquele ano, montaram Tio Vanya, de Tchekhov, e Os filhos do sol, de Gorki.
Posteriormente, encenaram-se óperas e operetas no teatro de Solovetsky, o qual também apresentava filmes e exibições acrobáticas. Certo sarau musical abrangia uma
peça orquestral, um quinteto, um coro e árias de uma ópera russa. A programação de março de 1924 incluía uma peça de Leonid Andreev (cujo filho, Danil, também escritor,
seria preso do Gulag), uma peça de Gogol e uma noite dedicada à memória de Sarah Bernhardt.
Tampouco era o teatro a única forma de cultura disponível. Solovetsky tinha uma biblioteca (que chegaria a possuir 30 mil livros) e o jardim botânico (onde os presos
faziam experiência com plantas do Ártico). Os cativos, muitos deles ex-cientistas de São Petersburgo, também organizaram um museu da flora, fauna, arte e história
locais. Alguns dos prisioneiros mais privilegiados faziam uso de um "clube" que, pelo menos nas fotos, parece verdadeiramente burguês. As imagens mostram piano,
parquete e retratos de Marx, Lênin e Lunacharsky (o primeiro ministro soviético da Cultura), tudo muito aconchegante.
Usando o velho equipamento litográfico dos monges, os presos de Solovetsky também produziam jornais e mensários que traziam cartuns, poesia extremamente saudosa
e ficção surpreendentemente franca. Na edição de dezembro de 1925 da Solovetskie Ostrova (nome que significa "ilhas Solovetsky"), um conto falava de uma ex-atriz
que chegara à ilha principal, fora obrigada a trabalhar como lavadeira e não se acostumara à nova vida. A história termina com esta frase: "Solovetsky é amaldiçoada".
Em outro conto, um ex-aristocrata que freqüentara "noitadas íntimas no Palácio de Inverno" consola-se com a nova situação só quando visita outro aristocrata e fala
dos velhos tempos. Pelo visto, os clichês do realismo socialista ainda não eram obrigatórios. Nem todas essas narrativas têm o final feliz que depois seria obrigatório,
e nem todos os prisioneiros ficcionais se adaptavam alegremente à realidade soviética.
Os periódicos de Solovetsky também continham artigos mais eruditos, indo desde a análise de Likhachev sobre as regras de etiqueta dos criminosos na jogatina até
trabalhos sobre a arte e a arquitetura das ruínas de igrejas de Solovetsky. Entre 1926 e 1929, a gráfica da Slon conseguiu lançar 29 edições do trabalho da Associação
de Estudos Locais de Solovetsky. Esta conduzia pesquisas sobre a flora e a fauna do arquipélago, concentrando-se em determinadas espécies (os cervos-boreais, as
plantas locais) e publicava artigos sobre olaria, correntes eólicas, minerais úteis e criação de animais de pele. Alguns presos ficaram tão interessados neste último
tema que, em 1927, quando a atividade econômica do arquipélago estava no auge, um grupo deles importou algumas raposas-prateadas "reprodutoras" para melhorar a qualidade
dos rebanhos locais. Entre outras coisas, a associação executou um levantamento geológico, o qual o diretor do museu de história das ilhas ainda usa.
Esses mesmos presos privilegiados também participavam dos novos ritos e comemorações soviéticos, eventos dos quais uma geração posterior de detentos dos campos seria
propositalmente excluída. Na edição de setembro de 1925 da Solovetskie Ostrova, um artigo descreve a comemoração do 1º de maio nas ilhas. Infelizmente, o tempo estava
ruim:
No 1° de maio, flores se abrem por toda a União Soviética, mas, em Solovetsky, o mar ainda está cheio de gelo, e há muita neve. Apesar disso, estamos nos preparando
para comemorar o feriado proletário. Desde manhã cedo, há agitação nos alojamentos. Alguns se lavam. Outros fazem a barba. Um remenda as roupas. Outro engraxa as
botas [...].
Ainda mais surpreendente (da perspectiva dos anos posteriores) era a grande persistência das cerimônias religiosas nas ilhas. Alexander V. A. Kazachkov, um ex-condenado,
lembrou a "grandiosa" Páscoa de 1926.
Não muito antes do feriado, o novo chefe da divisão exigiu que todos os que quisessem ir à igreja lhe apresentassem uma declaração. De início, quase ninguém o fez
- as pessoas tinham medo das conseqüências. Mas, pouco antes da Páscoa, um número enorme apresentou suas declarações [...]. Ao longo da estrada para a igreja Onufrievskaya,
a capela do cemitério, seguia uma grande procissão, com as pessoas caminhando em várias fileiras. Claro que nem todos coubemos na capela. Houve gente que ficou em
pé no lado de fora, e os que chegaram atrasados nem conseguiam ouvir o ofício.
Até a edição de maio de 1924 do Solovetskoi Lageram (outro periódico prisional) trazia um editorial cauteloso, mas positivo, a respeito da Páscoa, "um antigo feriado
que comemora a chegada da primavera", o qual, "sob o estandarte vermelho, ainda se pode celebrar".
Junto com os feriados religiosos, uns poucos dentre os monges que outrora habitavam o lugar também sobreviviam (para espanto de muitos presos) até bem depois de
1925. Serviam na condição de "monges-instrutores", supostamente transmitindo aos presos as habilidades necessárias para tocar os empreendimentos rurais e pesqueiros
de lá, antes bem-sucedidos (o arenque de Solovetsky costuma ir à mesa do czar), assim como os segredos do complexo sistema de canais que os religiosos haviam utilizado
durante séculos para ligar as igrejas da ilha principal. Com o passar dos anos, juntaram-se aos monges dezenas de outros padres soviéticos e membros da hierarquia
eclesiástica, tanto ortodoxa quanto católica, que tinham se oposto ao confisco das propriedades da Igreja ou violado o "decreto sobre a separação entre Igreja e
Estado". O clero, de certa maneira como os presos políticos socialistas, estava autorizado a viver à parte, num alojamento específico do kremlin, e também tinha
permissão para realizar ofícios religiosos na capelinha do antigo cemitério, e isso até 1930-31. Aos outros presos, tal luxo só era concedido em ocasiões especiais.
Esses privilégios parecem ter causado algum ressentimento, e havia tensões ocasionais entre os clérigos e os presos comuns. Uma detenta, removida para uma colônia
materna especial na ilha de Anzer após ter dado à luz, recordou que as freiras dali "mantinham-se afastadas de nós, as descrentes [...], eram bravas, não gostavam
das crianças e nos detestavam". Outros clérigos, conforme repetem várias memórias, tinham justamente a atitude oposta, dedicando-se à evangelização e às obras sociais
ativas, tanto entre os criminosos como entre os presos políticos.
Para quem o tinha, o dinheiro também podia comprar a dispensa do trabalho nas florestas e servir de seguro contra a tortura e a morte. Solovetsky contava com um
restaurante que podia atender (ilegalmente) os presos. Quem tinha condições de pagar o suborno necessário também trazia de fora a própria comida. Em certa altura,
a administração do campo até estabeleceu "lojas" nas quais os presos podiam adquirir itens de vestuário a preços duas vezes mais altos que nos estabelecimentos soviéticos
normais. Uma pessoa que teria conseguido livrar-se do sofrimento pagando era o "conde Violaro", uma figura de aventureiro cujo nome aparece (com ampla variedade
de grafias) em várias memórias. O conde, em geral descrito como o "embaixador mexicano no Egito", cometera o erro de, logo após a Revolução, ter ido visitar a família
da mulher na Geórgia soviética. Tanto ele quanto a esposa foram presos e deportados para o extremo norte. Embora de início ficassem encarcerados (com a condessa
tendo de trabalhar como lavadeira), a lenda do campo conta que, pela quantia de 5 mil rublos, o conde comprou o direito de morarem numa casa em separado, com cavalo
e serviçal. Outros se recordam da presença de um rico comerciante indiano de Bombaim, o qual depois foi embora com a ajuda do consulado britânico em Moscou. Posteriormente,
as memórias desse indiano seriam publicadas pela imprensa dos exilados.
Esses e outros exemplos de presos ricos que viviam bem (e se iam embora logo) eram tão notáveis que, em 1926, um grupo de detentos menos privilegiados escreveu carta
ao Presidium do Comitê Central do Partido Comunista, denunciando "o caos e a violência que dominam o campo de concentração de Solovetsky". Usando frases que pretendiam
influenciar a liderança comunista, queixavam-se de que "quem tem dinheiro consegue arranjar-se, dessa maneira jogando todas as dificuldades nos ombros dos operários
e camponeses sem tostão". Alegavam que, enquanto os ricos compravam tarefas mais fáceis, "os pobres trabalham de catorze a dezesseis horas por dia". No fim das
contas, não seriam eles os únicos descontentes com as práticas irregulares dos comandantes de campo de Solovetsky.
Se a violência fortuita e o tratamento injusto incomodavam os presos, quem estava em escalões mais altos da hierarquia soviética se inquietava com questões um tanto
diferentes. Na metade da década de 1920, já ficara claro que a Slon, assim como o sistema prisional "comum", não conseguira atingir a mais importante das metas estabelecidas
para os campos: que eles se tornassem auto-sustentáveis. Na realidade, não apenas os campos de concentração soviéticos - tanto os "especiais" quanto os comuns -
não vinham dando lucro, como também seus comandantes ficavam requerendo mais fundos o tempo todo.
Nisso, Solovetsky se assemelhava às outras prisões soviéticas da época. No arquipélago, os extremos de crueldade e conforto eram provavelmente mais flagrantes que
em outros lugares, devido à natureza especial dos presos e dos guardas; contudo as mesmas irregularidades caracterizavam outros campos e prisões pela URSS daquele
tempo. Em teoria, o sistema prisional comum também consistia em "colônias" de trabalho ligadas a fazendas, oficinas e fábricas, e sua atividade econômica era igualmente
mal organizada e não-lucrativa. Em 1928, o relatório de um inspetor sobre um desses campos, na região rural da Carélia (59 presos, sete cavalos, dois porcos e 21
cabeças de gado), se queixava de que apenas metade dos presos tinha cobertor; de que os cavalos estavam em mau estado (um deles tendo sido vendido, sem autorização,
a um cigano); de que outros cavalos eram regularmente usados para fazer servicinhos para os guardas; de que, quando libertaram o ferreiro do campo, ele foi embora
levando todas as suas ferramentas; de que nenhuma das construções do campo dispunha de aquecimento ou mesmo isolamento térmico, exceção feita à residência do administrador.
Pior: esse mesmo administrador-chefe passava três ou quatro dias por semana fora do campo; freqüentemente soltava presos antes de cumpridas as sentenças, sem autorização
para tanto; "recusava-se teimosamente" a ensinar agronomia aos presos; e afirmava abertamente sua crença na "inutilidade" do processo de reabilitação. Algumas das
mulheres dos presos moravam no campo; outras vinham para visitas demoradas e sumiam no mato com os maridos. Os guardas se permitiam "bebedeiras e rixas mesquinhas".
Não admira que, em 1929, autoridades mais altas tenham repreendido o governo da Carélia por "não se dar conta da importância nem dos trabalhos forçados como medida
de defesa social, nem do caráter vantajoso deles para o Estado e a sociedade".
Fica claro que tais campos não eram rentáveis, tendo sido assim desde o início, conforme mostram os registros. Já em julho de 1919, os líderes da Cheka em Gomei,
na Bielo-Rússia, enviaram carta a Dzerzhinsky requerendo um subsídio urgente de 500 mil rublos: a construção do campo local se interrompera por falta de recursos.
Na década subseqüente, os diferentes ministérios e instituições que disputavam o direito de controlar os campos prisionais continuaram a discutir por causa tanto
de financiamento quanto de poder. Para aliviar o sistema prisional, decretavam-se anistias periódicas, culminando numa bem grande no outono de 1927, no décimo aniversário
da Revolução de Outubro. No sistema prisional comum, soltaram-se mais de 50 mil pessoas, em grande parte pela urgência de aliviar a superlotação e economizar dinheiro.
Em 10 de novembro de 1925, a necessidade de "fazer melhor uso dos presos" já era reconhecida no mais alto escalão. Naquela data, G. L. Pyatakov, bolchevique que
tinha uma série de cargos econômicos importantes, escreveu a Dzerzhinsky:
Cheguei à conclusão de que, para criar as condições mais elementares de uma cultura laborai, terão de estabelecer-se colônias de trabalhos forçados em certas regiões.
Tais colônias poderiam aliviar a superlotação nos locais de encarceramento. Dever-se-ia ordenar à GPU que estudasse a questão.
Pyatakov então relacionava quatro regiões que precisavam ser desenvolvidas urgentemente, todas as quais - a ilha de Sacalina, no Extremo Oriente; as terras em torno
da foz do rio Ienissei, no extremo norte; a estepe cazaque; e as imediações da cidade siberiana de Nerchinsk - depois se tornariam campos de concentração. Dzerzhinsky
aprovou o memorando e o enviou a dois outros colegas para que o elaborassem mais.
De início, nada aconteceu, talvez porque o próprio Dzerzhinsky tenha morrido logo em seguida. Apesar disso, o memorando pressagiou mudanças. Até meados da década
de 1920, a liderança soviética ainda não deixara claro se suas prisões e campos de concentração se destinavam primordialmente a reabilitar os presos, puni-los ou
obter lucros para o regime. Agora, as muitas instituições com interesse no destino dos campos estavam chegando lentamente a um consenso: as prisões tinham de ser
auto-sustentáveis. No final da década, o mundo desordenado das prisões pós-revolucionárias estaria transformado, e um novo sistema surgiria do caos. Solovetsky se
tornaria não apenas um empreendimento econômico organizado, mas também um campo-modelo, exemplo a ser clonado muitos milhares de vezes ao longo da URSS.
Mesmo que na época ninguém estivesse consciente disso, a importância de Solovetsky ficaria bem clara em retrospecto. Posteriormente, reportando-se a um encontro
do Partido em Solovetsky, um comandante local chamado camarada Uspensky declararia que "a experiência de trabalho do campo de Solovetsky convenceu o Partido e o
governo de que o sistema prisional da União Soviética precisa ser substituído por um sistema de campos de trabalhos forçados correcionais."
No mais alto escalão, algumas dessas mudanças eram previstas desde o início, como mostra o memorando a Dzerzhinsky. Entretanto, as técnicas do novo sistema - os
novos métodos de administrar os campos, de organizar os presos e seu regime de trabalho - foram criadas no próprio arquipélago. Em meados da década de 1920, o caos
pode até ter reinado em Solovetsky, mas desse caos surgiu o futuro sistema do Gulag.
Pelo menos parte da explicação de como e por que a Slon mudara gira em torno da personalidade de Naftaly Aronovich Frenkel, um preso que foi sendo promovido até
se tornar um dos mais influentes comandantes de Solovetsky. Por um lado, Soljenitsin afirma em Arquipélago Gulag que o próprio Frenkel concebeu o sistema de alimentar
os presos segundo o trabalho produzido. Esse sistema fatal, que em questão de semanas destruía presos mais fracos, depois causaria incontáveis mortes, conforme veremos.
Por outro lado, uma ampla gama de historiadores russos e ocidentais contesta a importância de Frenkel e descarta como mera lenda as muitas histórias sobre a onipotência
dele.
De fato, Soljenitsin provavelmente atribui peso demasiado a Frenkel: prisioneiros de campos bolcheviques anteriores, pré-Solovetsky, também mencionam ter recebido
comida a mais pelo trabalho extra; e, de qualquer modo, a idéia, em certo sentido, é mesmo óbvia e não precisa necessariamente ter sido concebida por um único homem.
Não obstante, arquivos recém-abertos, em especial os arquivos regionais da Carélia (a república soviética à qual Solovetsky pertencia então), realmente deixam clara
a importância de Frenkel. Mesmo que não tenha inventado cada aspecto do sistema, ele encontrou um jeito de transformar um campo prisional numa entidade econômica
aparentemente rentável, e o fez numa época, num lugar e de uma maneira que podem muito bem ter chamado a atenção de Stalin para a idéia.
Mas a confusão tampouco é surpreendente. O nome de Frenkel aparece em muitas das memórias escritas sobre os primeiros tempos do sistema de campos, e por elas fica
claro que, mesmo em vida, a identidade daquele homem já estava envolta em mito. Fotos oficiais mostram um indivíduo de aparência calculadamente sinistra, usando
boné de couro e bigode muito bem aparado; um memorialista recorda que Frenkel "se trajava como um dândi". Um de seus colegas da OGPU, o qual o admirava muitíssimo,
surpreendia-se com sua memória infalível e sua aptidão para fazer contas de cabeça: "Ele nunca punha nada no papel". Depois, a propaganda soviética também se desfaria
em eloqüentes elogios à "incrível memória" dele e falaria de seus "excelentes conhecimentos do trabalho madeireiro e florestal em geral", sua perícia em matéria
de agricultura e engenharia e sua excelente cultura geral:
Certo dia, por exemplo, ele entabulou conversa com dois trabalhadores do truste que fabrica sabonetes, perfumes e cosméticos. Logo os reduziu ao silêncio, pois exibiu
enorme conhecimento sobre perfumaria e até se revelou perito no mercado mundial e nas preferências e aversões olfativas dos habitantes do arquipélago Malaio!
Outros o odiavam e temiam. Em 1928, numa série de reuniões especiais da célula do Partido em Solovetsky, os colegas de Frenkel o acusaram de organizar uma rede própria
de espiões, "de modo que ele, antes dos outros, sabe tudo sobre todos". Em 1927, histórias a seu respeito chegavam até Paris. Num dos primeiros livros sobre Solovetsky,
um anticomunista francês escreveu que, "graças às iniciativas pavorosamente insensíveis [de Frenkel], milhões de infelizes se vêem oprimidos por terríveis trabalhos
forçados, por sofrimentos atrozes".
Os contemporâneos de Frenkel não se mostram claros a respeito das origens dele. Soljenitsin o chama de "judeu turco nascido em Constantinopla". Outro o descreveu
como "industrial húngaro". Shiryaev alegava que Frenkel era oriundo de Odessa, ao passo que outros diziam que viera da Áustria, ou da Palestina, ou que trabalhara
na fábrica da Ford nos Estados Unidos. A história fica um tanto mais clara quando se lê seu registro de preso, que informa que ele nasceu em Haifa em 1883, época
em que a Palestina era parte do Império Otomano. De lá, ele provavelmente seguiu (talvez por Odessa, talvez pela Áustria-Hungria) para a URSS, onde se descreveu
como "comerciante". Em 1923, as autoridades o prenderam por "ter atravessado fronteiras ilegalmente", o que podia significar que era um comerciante que se permitia
fazer algum contrabando, ou que era apenas um comerciante que se tornara demasiado bem-sucedido para o gosto soviético. Foi condenado a dez anos de trabalhos forçados
em Solovetsky.
Também permanece um mistério o modo exato pelo qual Frenkel se metamorfoseou de preso em comandante de campo. A lenda diz que, ao chegar lá, ele ficou tão horrorizado
com a má organização, com o desperdício puro e simples de dinheiro e mão-de-obra, que sentou e escreveu uma carta muito ao ponto, descrevendo de maneira precisa
o que estava errado com cada uma das atividades econômicas locais, entre elas a silvicultura, a agropecuária e a olaria. Pôs a carta na "caixa de reclamações" dos
presos, onde ela chamou a atenção de um administrador, que, por sua vez, a enviou como curiosidade para Genrikh Yagoda, o chekista que então subia rapidamente na
burocracia da polícia secreta e acabaria por tornar-se o líder dela. Consta que Yagoda teria exigido conhecer de imediato o autor da carta. De acordo com um contemporâneo
(e com Soljenitsin, que não explicita nenhuma fonte), o próprio Frenkel afirmou que, em certa altura, foi levado às pressas para Moscou, onde teria discutido suas
idéias também com Stalin e um dos sequazes deste, Kaganovich. É aí que a lenda fica mais nebulosa: embora os registros realmente mostrem que Frenkel se encontrou
com Stalin nos anos 1930, e embora tenha sido protegido por esse último durante os expurgos no Partido, ainda não se achou nenhuma comprovação de uma visita na década
anterior. Isso não quer dizer que ela não tenha acontecido - pode muito ser que os registros não tenham perdurado.
Algumas provas circunstanciais corroboram tais histórias. Naftaly Frenkel foi, por exemplo, promovido de preso a guarda em surpreendentemente pouco tempo, até pelos
padrões caóticos da Slon. Em novembro de 1924, quando estava no campo havia menos de um ano, a administração da Slon já solicitara sua soltura antecipada. O requerimento
foi aprovado em 1927. Entrementes, a administração do campo apresentara regularmente declarações à OGPU que descreviam Frenkel nos termos mais elogiosos: "no campo,
ele se portou como trabalhador tão excepcionalmente talentoso que ganhou a confiança da administração da Slon e é tratado como autoridade [...] é um dos raros trabalhadores
responsáveis".
Sabemos ainda que Frenkel organizou e administrou o Departamento Econômico-comercial (Ekonomicheskaya Kommercheskaya Chast) da Slon e, nessa condição, procurou tornar
os campos de Solovetsky não apenas auto-sustentáveis, conforme requerido pelos decretos sobre os campos de concentração, mas também realmente lucrativos - a ponto
de terem começado a tirar trabalho de outros empreendimentos. Embora estes fossem estatais, e não privados, ainda havia elementos de concorrência econômica na URSS
dos anos 1920, e Frenkel se aproveitou disso. Em setembro de 1925, com o Departamento Econômico-comercial sob sua direção, a Slon já conquistara o direito de cortar
130 mil metros cúbicos de madeira na Carélia, tendo oferecido condições comerciais melhores que as de determinada empresa civil. A Slon também se tornara cotista
no Banco Comunal da Carélia e disputava o direito de construir uma estrada que iria de Kem à cidade de Ukhta, no extremo norte.
Desde o começo, as autoridades da Carélia ficaram enervadas com toda essa atividade, em especial porque inicialmente haviam se oposto a própria construção do campo.
Depois, suas queixas foram aumentando de intensidade. Numa assembléia convocada para discutir a expansão da Slon, autoridades locais reclamaram de que o campo tinha
acesso injusto à mão-de-obra barata e, portanto, deixava sem trabalho os madeireiros comuns. Posteriormente, o clima nessas reuniões mudou, e os presentes levantaram
objeções mais sérias. Em fevereiro de 1926, numa assembléia do Conselho Careliano de Comissários do Povo (o governo da República Careliana), vários líderes locais
atacaram a Slon por exagerar nos preços cobrados a eles e exigir dinheiro demais para construir a estrada de Kem a Ukhta. "Fica claro", resumiu um irado camarada
Yuzhnev, que "a Slon é um kommersant, um comerciante com mãos grandes e ávidas, e que seu objetivo básico é o lucro."
A estatal mercantil da Carélia também ficou em pé de guerra contra a decisão da Slon de abrir uma loja própria em Kem. A estatal não tinha recursos para estabelecer
negócio semelhante, mas a Slon, que podia exigir dos presos jornadas de trabalho mais longas e pagar-lhes bem menos (na realidade, nada), conseguiu fazê-lo. Pior:
as autoridades protestavam que os vínculos especiais da Slon com a OGPU lhes permitiam desconsiderar as leis locais e não contribuir para o orçamento da região.
A discussão sobre a lucratividade, eficiência e justiça da mão-de-obra prisional continuaria pelo quarto de século seguinte (e voltará a ser abordada mais adiante,
de modo mais completo). Contudo, em meados da década de 1920, as autoridades locais da Carélia não estavam levando a melhor no debate. Em seus relatórios de 1925
sobre as condições econômicas no campo de Solovetsky, o camarada Fyodor Eichmanns (na época o segundo de Nogtev, embora depois viesse a comandar o campo) se gabava
das realizações econômicas da Slon, afirmando que a olaria, antes em "estado deplorável", agora prosperava; que o corte de madeira já superava a meta anual; que
a usina elétrica fora concluída; e que a produção de pescado dobrara. Versões desses relatórios seriam publicadas para consumo popular tanto nos periódicos de Solovetsky
quanto em órgãos de outras regiões da URSS. Traziam cálculos cuidadosos: um relatório estimava em 29 copeques (centavos de rublo) o custo médio diário das rações
e em 34,57 rublos o custo anual da indumentária. Constava que o gasto total com cada preso, aí incluídos o traslado e a assistência médica, era de 211,67 rublos
por ano. Embora em 1929 o campo apresentasse um déficit de 1,6 milhão de rublos (bem possivelmente porque a OGPU estava afanando dinheiro do caixa), o suposto
êxito econômico de Solovetsky ainda era muito alardeado.
Tal êxito logo se tornou o principal argumento para que se reestruturasse todo o sistema prisional soviético. Se isso se fizesse ao custo de piores rações e condições
de vida para os presos, ninguém se importaria muito. Se o preço fosse o azedamento das relações com as autoridades locais, tampouco alguém se incomodaria.
No próprio campo, poucos tinham dúvidas sobre quem seria o responsável por esse pretenso sucesso. Todos identificavam peremptoriamente Frenkel com a mercantilização
do campo, e muitos o odiavam de modo igualmente peremptório por isso. Em 1928, numa rancorosa reunião do Partido Comunista de Solovetsky (tão rancorosa que parte
das atas foi declarada secreta demais para ser arquivada e, por isso, não está disponível), o camarada Yashenko, um comandante de campo, reclamou de que o Departamento
Econômico-comercial da Slon se tornara influente demais: "tudo é competência deles". Também atacou Frenkel, "um ex-condenado que foi solto após três anos de trabalhos
porque na época não havia gente suficiente [guardas] para operar o campo". Yashenko (cuja linguagem tem forte odor anti-semita) se queixou de que Frenkel ficara
tão importante que, "quando correu o boato de que iria embora, as pessoas disseram que não poderiam trabalhar sem ele".
Yashenko confessou que odiava tanto Frenkel que até pensara em matá-lo. Outros perguntavam por que Frenkel, um ex-condenado, tinha prioridade no atendimento e pagava
preços baixos nos estabelecimentos comerciais da Slon - como se fosse o dono. Outros ainda diziam que a Slon se tornara tão comercial que esquecera suas outras funções:
interrompera-se todo o trabalho de reabilitação nos campos, e os presos estavam sendo submetidos a exigências de trabalho injustas. Quando eles se mutilavam para
fugir às condições laborais, seus casos não eram apurados.
Mas, assim como a Slon ganharia a discussão contra as autoridades da Carélia, assim também Frenkel (talvez graças a seus contatos em Moscou) venceria o debate na
Slon acerca do tipo de campo que Solovetsky deveria tornar-se, de como os prisioneiros trabalhariam ali e de como eles seriam tratados.
Como já mencionei, o provável é que Frenkel não tenha inventado o tristemente célebre critério do "coma pelo que trabalha", conforme o qual os presos recebiam rações
segundo o trabalho produzido. Frenkel, porém, de fato presidiu ao desenvolvimento e florescimento desse sistema, que evoluiu de um arranjo atamancado, em que às
vezes se "pagava" o trabalho com comida, para um método muito preciso e regulado, pelo qual eram distribuídos os alimentos, e organizados os presos.
Na realidade, o sistema de Frenkel era bem simples. Ele dividia os presos da Slon em três grupos, consoante a aptidão física: os considerados capazes de trabalho
pesado; os capazes de serviços leves; e os inválidos. Cada grupo recebia uma série diferente de tarefas e metas. Eram então alimentados de acordo - e as diferenças
entre as rações se mostravam bem drásticas. Uma tabela, elaborada entre 1928 e 1932, destinava oitocentos gramas de pão e oitenta gramas de carne aos integrantes
do primeiro grupo; quinhentos de pão e quarenta de carne aos do segundo; e quatrocentos de pão e quarenta de carne aos do terceiro. Em outras palavras, a categoria
de trabalhador mais baixa recebia o equivalente a apenas metade do que comia a mais alta.
Na prática, o sistema dividia bem depressa os presos entre os que iriam e os que não iriam sobreviver. Os fortes, sendo relativamente bem alimentados, ficavam mais
fortes. Os mais fracos, estando privados de comida, se enfraqueciam e acabavam adoecendo ou morrendo. O processo se tornava mais rápido e mais radical porque as
metas de trabalho eram com freqüência muito elevadas - absurdamente elevadas para alguns presos, em especial a gente da cidade que nunca trabalhara escavando turfa
ou cortando árvores. Em 1928, as autoridades centrais puniram um grupo de guardas de campo porque eles, a fim de cumprir a meta, haviam forçado 128 pessoas a trabalhar
a noite inteira na floresta em pleno inverno. Um mês depois, 75% desses presos ainda estavam com graves queimaduras de frio.
No regime de Frenkel, mudou também a natureza do trabalho da Slon: ele não estava interessado em bobagens como a criação de animais de pele ou o cultivo de plantas
árticas exóticas. Em vez disso, mandava os presos para abrir estradas e cortar árvores, aproveitando-se da mão-de-obra gratuita e não-qualificada que a Slon possuía
em abundância. A natureza do trabalho logo mudou o caráter do campo, ou antes dos campos, pois agora a Slon começava a expandir-se para muito além do arquipélago
de Solovetsky. Sobretudo, Frenkel já não ligava se os presos eram mantidos num ambiente prisional, em cadeias ou atrás de arame farpado. Ele despachou turmas de
seus trabalhadores braçais para toda a República Careliana, para a região de Arcangel na República Russa e para onde mais fossem necessários, a milhares de quilômetros
de Solovetsky.
Tal qual um consultor administrativo que assume uma companhia em dificuldades, Frenkel "racionalizou" outros aspectos da vida no campo, descartando aos poucos tudo
o que não contribuísse para a produtividade econômica. Bem depressa, renunciou-se a toda pretensão de reabilitar. Como se queixavam os detratores de Frenkel, ele
fechara os jornais e outros periódicos do campo e suspendera as reuniões da Associação de Estudos Locais de Solovetsky. O museu e o teatro continuaram a existir,
mas só para impressionar os maiorais que chegavam de visita.
Ao mesmo tempo, a violência aleatória se tornava menos comum. Em 1930, a Comissão Shanin (uma delegação especial da OGPU) chegou à ilha para averiguar rumores de
maus-tratos aos presos. Seus relatórios confirmaram as alegações de tortura e espancamentos excessivos. Numa sensacional reversão da política anterior, a Shanin
condenou e executou dezenove dos responsáveis entre os membros da OGPU. Agora, tais condutas não eram tidas como condizentes com uma instituição que valorizava
acima de tudo a idéia de trudosposobnost - "capacidade de trabalho".
Por fim, sob a liderança de Frenkel, o conceito de "preso político" mudou em definitivo. No outono de 1925, abandonaram-se as distinções artificiais que se haviam
traçado entre quem fora condenado por atividades criminais e quem fora condenado por atividades anti-revolucionárias, uma vez que ambos os grupos eram mandados juntos
ao continente para trabalhar nos enormes projetos de abate de árvores e processamento de madeira na Carélia. A Slon já não reconhecia o status de preso privilegiado;
em vez disso, via todos os prisioneiros como trabalhadores braçais em potencial.
Os residentes socialistas do alojamento do Sawatyevo representavam um problema maior. Ficava claro que esses presos políticos não se encaixavam em nenhuma idéia
de eficiência econômica, pois se negavam, por princípio, a realizar qualquer tipo de trabalho forçado. Recusavam-se até a cortar a própria lenha. "Estamos em degredo
administrativo", reclamou um deles, "e a administração está obrigada a suprir todas as nossas necessidades." Não chega a surpreender que tal atitude começasse a
causar ressentimento na administração do campo. O comandante Nogtev, em especial, embora houvesse negociado pessoalmente com os presos políticos de Petrominsk na
primavera de 1923, e lhes tivesse prometido um regime mais livre em Solovetsky se concordassem em ir para lá pacificamente, parece ter-se melindrado com as intermináveis
exigências deles. Tinha de discutir com eles por causa da liberdade de movimentos, do acesso aos médicos, do direito de corresponderem-se com o mundo lá fora. Finalmente,
em 19 de dezembro de 1923, no auge de uma altercação particularmente azeda a respeito do toque de recolher, os soldados que guardavam o alojamento do Sawatyevo abriram
fogo contra um grupo de presos políticos, matando seis.
O episódio causou furor no estrangeiro. A Cruz Vermelha Política contrabandeou para fora do país informes sobre a fuzilaria. Surgiram relatos na imprensa ocidental
antes mesmo que na Rússia, e houve apressada troca de telegramas entre a ilha e a liderança do Partido Comunista. De início, as autoridades do campo defenderam os
disparos, afirmando que os presos haviam desobedecido ao toque de recolher e que os soldados tinham dado três advertências antes de atirar.
Depois, em abril de 1924, embora não chegasse a reconhecer que os soldados não tinham dado nenhuma advertência (e o consenso entre os presos é de que não deram mesmo),
a administração do campo forneceu uma análise mais detalhada do que ocorrera. Os presos políticos, explicava o relatório, eram uma "classe diferente" daquela à qual
pertenciam os soldados designados para guardá-los. Os presos passavam o tempo lendo livros e jornais; os soldados não tinham livros nem jornais. Os presos consumiam
pão branco, manteiga e leite; os soldados não recebiam nada disso. Era uma "situação anormal". Acumulara-se um ressentimento natural, dos trabalhadores para com
os não-trabalhadores; e, quando os presos desafiaram o toque de recolher, foi inevitável que houvesse derramamento de sangue.83 Numa reunião do Comitê Central do
Partido Comunista, em Moscou, os administradores do campo, para corroborar essas conclusões, leram em voz alta cartas dos presos: "Estou bem disposto e bem alimentado
[...] por ora, não precisam mandar roupas nem alimentos". Outras missivas descreviam as lindas vistas. Depois, quando algumas dessas cartas foram publicadas na
imprensa soviética, presos insistiram em que haviam escrito tais descrições idílicas da vida na ilha só para tranqüilizar os parentes.
Indignado, o Comitê Central resolveu agir. Uma comissão chefiada por Gleb Boky (o maioral da OGPU que estava encarregado dos campos) fez uma visita aos campos de
Solovetsky e ao estabelecimento prisional de trânsito de Kem. Em outubro de 1924, seguiu-se uma série de artigos no Izvestiya. "Quem acredita que Solovetsky seja
uma prisão deprimente e sombria, onde as pessoas ficam inativas, perdendo o tempo em celas superlotadas, está muito enganado", escreveu N. Krasikov. "O campo inteiro
consiste numa enorme organização econômica de 3 mil trabalhadores braçais, atuando nos mais diversos tipos de produção." Tendo entoado loas à indústria e à agricultura
do lugar, Krasikov passava a descrever a vida no alojamento dos socialistas no Sawatyevo:
A vida que levam pode ser caracterizada como anarcointelectual, com todos os aspectos negativos dessa forma de existência. A contínua ociosidade, a insistência nas
mesmas dissensões políticas, as brigas de família, as disputas sectárias e, sobretudo, uma atitude agressiva e hostil para com o governo, em geral, e a administração
local e os guardas do Exército Vermelho, em particular [...], tudo isso combinado faz que aquelas trezentas pessoas (mais ou menos) se mostrem refratárias a toda
medida e toda tentativa das autoridades locais para introduzir regularidade e organização em suas vidas.
Em outro periódico, as autoridades soviéticas afirmavam que os presos socialistas usufruíam rações melhores que as do Exército Vermelho. Ainda mais: tais presos
tinham liberdade para encontrar-se com parentes (de que outra maneira poderiam contrabandear informações para fora?) e dispunham de médicos à vontade, muito mais
do que o normal nas aldeias de trabalhadores. Desdenhosamente, o artigo também alegava que eles exigiam "medicamentos raros e caros", assim como coroas e pontes
de ouro nos dentes.
Era o começo do fim. Após uma série de discussões, durante as quais o Comitê Central ponderou e rejeitou a idéia de mandar esses presos para o exílio no exterior
(preocupava-se com o impacto disso sobre os socialistas ocidentais - especialmente, por alguma razão, sobre o Partido Trabalhista britânico), tomou-se uma decisão.
Ao amanhecer de 17 de junho de 1925, soldados cercaram o mosteiro de Sawatyevo. Deram duas horas para que os presos fizessem as malas. Em seguida, conduziram-nos
marchando para o porto, obrigaram-nos a embarcar e os despacharam para longínquas prisões na Rússia central, de regime realmente fechado - Tobolsk, na Sibéria ocidental,
e Verkhneuralsk, nos Urais -, onde os presos encontraram condições muito piores que as do Sawatyevo. Um deles escreveu:
celas trancadas, o ar contaminado pelo velho e fétido balde sanitário, os presos políticos isolados uns dos outros [...] nossas rações são piores que em Solovetsky.
A administração se nega a reconhecer nosso starosta [líder de grupo]. Não há nem hospital nem assistência médica. A prisão compreende dois pisos. As celas do térreo
são úmidas e escuras. Nelas ficam os camaradas doentes, alguns dos quais tísicos [...].
Embora continuassem lutando por seus direitos, enviando cartas para o exterior, telegrafando mensagens uns para os outros pelas paredes das prisões e organizando
greves de fome, a propaganda bolchevique seguia sufocando os protestos dos socialistas. Em Berlim, Paris e Nova York, as antigas associações de auxílio aos presos
começaram a encontrar maior dificuldade para coletar fundos. "Quando se deram os acontecimentos de 9 de setembro", escreveu um prisioneiro a um amigo que estava
fora da Rússia, referindo-se aos seis presos que haviam morrido baleados em 1923, "achamos subjetivamente que haveria uma convulsão no mundo - nosso mundo socialista.
Mas parece que ele não notou os acontecimentos de Solovetsky, e aí um som de risada adentrou na tragédia."
No final dos anos 1920, os presos socialistas já não tinham status diferenciado. Compartilhavam suas celas com bolcheviques, trotskistas e criminosos comuns. Na
década seguinte, os presos políticos (ou melhor, "contra-revolucionários") seriam considerados não uns privilegiados, mas elementos inferiores, ficando abaixo dos
criminosos na hierarquia dos campos. Não mais sendo cidadãos com direitos do tipo que os antigos presos políticos haviam defendido, eles interessavam a seus carcereiros
apenas na medida em que se mostravam aptos para o trabalho. E só quando trabalhavam recebiam comida suficiente para permanecer vivos.
3. 1929: A GRANDE GUINADA
Quando os bolcheviques chegaram ao poder, eram moles e bonzinhos com os inimigos deles [...] começamos cometendo um erro. A indulgência para com tal força foi um
crime contra as classes laboriosas. Isso logo ficou evidente [...].
Josef Stalin
Em 20 de junho de 1929, o navio Gleb Boky atracou no pequeno porto atrás do kremlin de Solovetsky. Bem acima, presos acompanhavam a cena com grande expectativa.
Em vez dos condenados emaciados e calados que costumavam desembarcar do Gleb Boky, um saudável e enérgico grupo de homens, e uma mulher, conversava e gesticulava
enquanto caminhava. Nas fotos tiradas naquele dia, a maioria parece estar de uniforme: entre eles, havia vários chekistas de destaque, inclusive o próprio Gleb Boky.
Um deles, mais alto que os restantes, dono de um basto bigode, estava trajado com mais simplicidade, usando sobretudo comum e boné de trabalhador. Era o romancista
Máximo Gorki.
Dmitrii Likhachev era um dos presos que assistiam da janela, e ele também se recordaria de alguns dos outros passageiros:
Dava para ver o morrote onde Gorki ficou muito tempo, em pé, junto com uma pessoa de aparência esquisita que usava jaqueta de couro, culotes também de couro, botas
de cano alto e quepe de couro. Era a nora de Gorki, a mulher de seu filho Maxim. Ficava evidente que, na opinião dela, estava vestida como uma autêntica chekista.
O grupo então subiu a uma carruagem do mosteiro, puxada por "um cavalo que só Deus sabe de onde veio", e partiu numa excursão pela ilha.
Como Likhachev bem sabia, Gorki estava longe de ser um visitante comum. Naquela altura da vida, ele era o mui enaltecido e mui homenageado filho pródigo dos bolcheviques.
O escritor, um socialista militante que fora íntimo de Lênin, nem por isso deixara de opor-se ao golpe bolchevique de 1917. Em artigos e discursos posteriores, continuara
a denunciar com veemência sincera o golpe e o terror subseqüente, falando das "políticas doidas" de Lênin e da "cloaca" em que Petrogrado se transformara. Em 1921,
ele finalmente emigrou, trocando a Rússia por Sorrento, onde, de início, continuou a lançar missivas condenatórias e iradas para seus amigos na pátria.
Com o tempo, seu tom mudou, tanto que, em 1928, ele resolveu voltar, por motivos que não estão de todo claros. Soljenitsin, de maneira um tanto mesquinha, afirma
que Gorki retornou porque não se tornara tão famoso quanto esperava no Ocidente e então sentia-se muito infeliz no desterro e não suportava a companhia de outros
exilados russos, a maioria dos quais era muito mais fanaticamente anticomunista do que ele. Qualquer que tenha sido a motivação, Gorki, uma vez tomada a decisão
de voltar, parecia determinado a ajudar o regime soviético o máximo possível. Quase de imediato, partiu numa série de viagens triunfais pela URSS e, de caso pensado,
incluiu Solovetsky no itinerário. Seu duradouro interesse por prisões remontava ao próprio passado de delinqüente juvenil.
Numerosos memorialistas recordam a ocasião da visita de Gorki a Solovetsky, e todos concordam que se fizeram extensos preparativos de antemão. Alguns lembram que
as normas do campo foram alteradas para aquela data e que os maridos se viram autorizados a ver as esposas, sendo de supor que isso se destinava a deixar todo o
mundo com ar mais alegre. Likhachev escreveu que se transplantaram árvores adultas em torno da colônia de trabalho, para dar-lhe aspecto menos desolador, e que
se removeram presos dos alojamentos, a fim de que parecessem menos apinhados. Mas os memorialistas se mostram divididos a respeito do que Gorki realmente fez quando
chegou. De acordo com Likhachev, o escritor percebeu todas as tentativas de lográ-lo. Enquanto lhe mostravam a enfermaria do hospital, onde toda a equipe médica
usava aventais novos, Gorki soltou um desdenhoso "Não gosto de desfiles" e foi-se embora. Passou meros dez minutos na colônia de trabalho e aí se fechou com um preso
de catorze anos, a fim de ouvir a "verdade". Quarenta minutos depois, saiu chorando. Tudo isso segundo Likhachev.
Por outro lado, Oleg Volkov, que também estava em Solovetsky quando da visita de Gorki, afirma que o escritor "só olhou para o que o mandaram olhar". E, embora
a história do menino de catorze anos apareça em outros relatos (conforme uma versão, ele foi fuzilado tão logo Gorki partiu), outros alegam que todos os presos que
tentaram aproximar-se do escritor acabaram repelidos. Parece certo que cartas de presos a Gorki foram depois interceptadas, e, de acordo com uma fonte, pelo menos
um dos missivistas foi subseqüentemente executado. V. E. Kanen, um agente da OGPU que tinha caído em desgraça e sido aprisionado, diz até que Gorki visitou as celas
punitivas da Sekirka e ali assinou o livro-diário da prisão. Um dos chefes da OGPU de Moscou que estava com Gorki teria escrito: "tendo visitado a Sekirka, encontrei
tudo em ordem, exatamente como seria de esperar". Abaixo disso, segundo Kanen, Gorki acrescentou: "Eu diria que [a prisão] é excelente".
Mas, embora não possamos ter certeza do que de fato ele fez ou viu na ilha, podemos ler o ensaio que escreveu depois, o qual assumiu a forma de impressões de viagem.
Ali, Gorki enalteceu a beleza natural das ilhas e descreveu as construções pitorescas e seus igualmente pitorescos habitantes. Na viagem de barco para a ilha, ele
até conheceu alguns dos antigos monges de Solovetsky. "E como a administração os trata?", pergunta-lhes. "A administração quer que todos trabalhem", respondem. "E
nós trabalhamos."
Gorki também escreve com admiração sobre as condições de trabalho, claramente pretendendo que seus leitores entendam que um campo soviético de galés não era de modo
algum a mesma coisa que um campo capitalista (ou czarista) de galés, e sim um tipo completamente novo de instituição. Em alguns dos cômodos, afirma, viu
quatro ou seis leitos, cada um deles adornado com objetos pessoais [...] há flores nos peitoris. Não se tem nenhuma impressão de que a vida seja regulada em excesso.
Não, não existe nenhuma semelhança com uma prisão. Em vez disso, é como se esses cômodos fossem habitados por passageiros resgatados de um navio que naufragou.
Indo aos locais de trabalho, ele depara com "rapazes saudáveis" que usam botas resistentes e camisas de linho. Encontra poucos presos políticos e, quando o faz,
descreve-os com desdém como "contra-revolucionários, tipos exaltados, monarquistas". Quando lhe contam que foram presos injustamente, ele presume que estejam mentindo.
Em certa altura, parece aludir ao legendário encontro com o menino de catorze anos. Escreve que, durante sua visita a um grupo de delinqüentes juvenis, um deles
lhe traz uma nota de protesto. Em resposta, ouvem-se "gritos agudos" dos outros menores, que chamam o rapaz de "dedo-duro".
Mas não eram apenas as condições de vida que, na descrição de Gorki, faziam de Solovetsky um novo tipo de campo. Os detentos, esses "passageiros resgatados", não
apenas eram felizes e sadios, como também desempenhavam papel vital num experimento grandioso: a transformação de personalidades criminosas e associais em cidadãos
soviéticos úteis. Gorki estava reavivando a idéia de Dzerzhinsky de que os campos deveriam ser não meras penitenciárias, mas "escolas do labor", especialmente concebidas
para moldar o tipo de trabalhador requerido pelo novo sistema soviético. A seu ver, a meta definitiva do experimento era assegurar a "abolição das prisões" - e ele
estava conseguindo. "Se alguma das supostas sociedades cultas da Europa se arrojasse a realizar uma experiência como a dessa colônia", concluía Gorki, "e se semelhante
experiência rendesse frutos como os que a nossa rendeu, tal país faria soar todas as trombetas e se vangloriaria de seu feito." Gorki imaginava que só a "modéstia"
dos líderes soviéticos os impedira de ter a mesma atitude.
Consta que, posteriormente, Gorki disse que nem uma única frase de seu ensaio sobre Solovetsky ficara "intocada pela pena do censor". Na realidade, não sabemos se
ele escreveu o que escreveu por ingenuidade, por um desejo calculado de enganar os leitores ou por imposição dos censores. Quaisquer que tenham sido suas motivações,
esse ensaio de 1929 sobre Solovetsky se tornaria uma pedra fundamental para firmar as atitudes tanto públicas quanto oficiais em face do novo e muitíssimo mais extenso
sistema de campos que estava sendo gestado naquele mesmo ano. A propaganda bolchevique anterior defendera a violência revolucionária como um mal necessário, ainda
que temporário, uma força depuradora transitória. Gorki, ao contrário, fez a violência institucionalizada dos campos de Solovetsky parecer um componente lógico e
natural da nova ordem e ajudou a levar o público a resignar-se ao poder crescente e totalitário do Estado.
Ao fim e ao cabo, 1929 seria lembrado por causa de muitas outras coisas além do ensaio de Gorki. Naquele ano, a Revolução já amadurecera. Quase uma década se passara
desde o fim da Guerra Civil. Lênin morrera havia muito. Experimentos econômicos de vários tipos - a Nova Política Econômica, o comunismo de guerra - tinham sido
testados e abandonados. Da mesma forma que o desconjuntado campo de concentração do arquipélago de Solovetsky se tornara a rede de campos conhecida como Slon, o
terror aleatório dos primeiros anos da URSS amainara, sendo substituído por uma perseguição mais sistemática àqueles que o regime considerava seus opositores.
Em 1929, a Revolução também já adquirira um tipo muito diferente de líder. No decorrer dos anos 1920, Josef Stalin suplantara ou eliminara primeiro os inimigos dos
bolcheviques e depois os inimigos dele próprio, em parte encarregando-se das decisões do Partido sobre pessoal, em parte fazendo pródigo uso de informações secretas
reunidas para seu benefício pela polícia secreta, na qual ele tinha particular interesse. Stalin lançou uma série de expurgos, que de início significavam a expulsão
do Partido, e providenciou para que eles fossem anunciados em assembléias de massa exaltadas e recriminatórias. Em 1937 e 1938, esses expurgos se tornariam letais:
à expulsão do partido freqüentemente se seguia uma pena de prisão - ou a morte.
Com extraordinária astúcia, Stalin também acabou com Leon Trotski, seu mais importante rival na luta pelo poder. Primeiro, desacreditou Trotski; depois, o desterrou
em uma ilha ao largo da Turquia; em seguida, usou-o para estabelecer um precedente. Depois que Yakov Blyumkin, agente da OGPU e ardoroso partidário de Trotski, visitou
seu herói no exílio turco (e voltou de lá com uma mensagem de Trotski a seus seguidores), Stalin fez que Blyumin fosse condenado e executado. Dessa maneira, demonstrou
que o Estado se dispunha a usar todo o poder de seus órgãos repressivos não apenas contra membros de outros partidos socialistas e o antigo regime, mas também contra
dissidentes dentro do próprio Partido Bolchevique.
Em 1929, porém, Stalin ainda não era o ditador que se tornaria no final da década seguinte. É mais exato dizer que, naquele ano, Stalin estabeleceu as políticas
que acabariam por consagrar o poder dele e, simultaneamente, transformar a economia e a sociedade soviéticas de tal maneira que elas ficariam irreconhecíveis. Historiadores
ocidentais deram a essas políticas o nome "Revolução de Cima Para Baixo" ou "Revolução Stalinista". Stalin as denominou a "Grande Guinada".
No cerne dessa revolução de Stalin estava um novo programa de industrialização extremamente - quase histericamente - rápida. Ao mesmo tempo, a Revolução Soviética
ainda não acarretara melhoria material real na vida da maior parte das pessoas. Pelo contrário: os anos da Revolução, da Guerra Civil e da experimentação econômica
haviam provocado maior empobrecimento. Então, talvez percebendo o crescente descontentamento popular com a Revolução, Stalin partiu para mudar as condições de vida
do povo comum - radicalmente.
Com esse objetivo, o governo soviético aprovou em 1929 um novo "Plano Qüinqüenal", um programa econômico que almejava um aumento anual de 20% na produção da indústria.
Reinstaurou-se o racionamento de comestíveis. Durante algum tempo, abandonou-se a semana de cinco dias úteis. Em vez disso, o trabalho se baseou em turnos, para
que as fábricas não parassem em momento algum. Em projetos de alta prioridade, não se desconheciam turnos de 36 horas, e alguns operários ficavam no trabalho uma
média de trezentas horas por mês. O espírito da época, imposto de cima mas entusiasticamente adotado embaixo, era uma forma de competição permanente, na qual burocratas
e diretores de fábrica, operários e escriturários disputavam uns com os outros para cumprir as metas do Plano Qüinqüenal, superá-las ou, pelo menos, propor maneiras
mais novas e mais rápidas de superá-las. Simultaneamente, a ninguém se permitia duvidar da sensatez do Plano. Isso valia para os mais altos escalões: líderes do
Partido que punham em dúvida o valor da industrialização apressada não ficavam muito tempo no cargo. Valia também para os escalões mais baixos. Um sobrevivente daqueles
tempos lembrou que, no jardim-de-infância, marchava pela sala de aula carregando um pequeno estandarte e cantando:
Cinco em quatro,
Cinco em quatro,
Cinco em quatro,
E não em cinco!
Infelizmente, o significado dessa frase - que o Plano Qüinqüenal seria completado em quatro anos - escapava inteiramente ao menino.
Como seria o caso com todas as grandes iniciativas soviéticas, o início da industrialização maciça criou categorias inteiramente novas de criminosos. Em 1926, o
Código Penal fora reescrito para incluir, entre outras coisas, uma definição ampliada do artigo 58, que definia crimes "contra-revolucionários". Tendo tido antes
apenas um ou dois parágrafos, o artigo 58 agora continha dezoito incisos - e a OGPU se utilizava de todos, sobretudo para prender especialistas técnicos. Como seria
de prever, não se conseguia acompanhar o ritmo acelerado da mudança. Tecnologia primitiva, aplicada com demasiada pressa, causava erros. Alguém precisava levar a
culpa. Donde as prisões dos "destruidores" e "sabotadores", cujos propósitos malévolos impediam a economia soviética de corresponder ao que a propaganda alardeava.
Alguns dos primeiros grandes julgamentos públicos - o de Shakhty, em 1928; o do Partido Industrial, em 1920 - eram na realidade processos contra engenheiros e integrantes
da intelligentsia técnica. O mesmo ocorria com o processo Metro-Vickers, de 1933, que atraiu muita atenção externa porque entre os réus estavam tanto russos como
britânicos, todos acusados de "espionagem e sabotagem" em favor da Grã-Bretanha.
Mas haveria outras fontes de presos. Isso porque, em 1929, o regi-|me soviético também acelerou o processo de coletivização forçada da agricultura, uma vasta convulsão
que, em certos sentidos, foi mais profunda que a própria Revolução Russa. Num período incrivelmente pequeno, os comissários rurais obrigaram milhões de camponeses
a abrir mão de suas pequenas propriedades e ingressar em fazendas coletivas, muitas vezes expulsando-os de terras que as famílias desses lavradores cultivavam fazia
séculos. A transformação enfraqueceu a agricultura soviética de maneira permanente e criou as condições para as terríveis e devastadoras fomes que ocorreriam na
Ucrânia e na Rússia meridional em 1932 e 1934 - e que matariam entre 6 milhões e 7 milhões de pessoas. A coletivização também destruiu - para sempre - a percepção
russa de continuidade com o passado.
Milhões resistiram à coletivização, escondendo cereais nos porões ou se negando a cooperar com as autoridades. Esses refratários eram tachados de kulaks (camponeses
ricos), um termo que (de modo muito semelhante à definição de "sabotador") era tão vago que quase todo o mundo se encaixava nele. Ter uma vaca ou um quarto extras
já bastava para qualificar como kulaks até camponeses que era visivelmente pobres; a acusação de algum vizinho invejoso tinha o mesmo efeito. Para quebrar a resistência
dos kulaks, o regime, na prática, ressuscitou a velha tradição czarista do degredo administrativo. De um dia para o outro, caminhões e vagões simplesmente chegavam
a uma aldeia e levavam embora famílias inteiras. Alguns kulaks foram fuzilados; outros, presos e condenados aos campos de concentração. Ao fim e ao cabo, porém,
o regime degredou a maioria deles. Entre 1930 e 1933, mais de 2 milhões de kulaks foram desterrados para a Sibéria, o Cazaquistão e outras regiões subpovoadas da
URSS, onde passaram o resto da vida como "degredados especiais", proibidos de sair das aldeias que lhes couberam. Outros 100 mil foram presos e mandados para o Gulag.
À medida que se instalava a fome (ajudada pela falta de chuva), seguiam-se mais prisões. Todo cereal disponível foi tirado das aldeias e propositalmente negado aos
kulaks. Os que eram pegos furtando quantidades ínfimas, mesmo que para alimentar os filhos, também acabavam na prisão. Uma lei de 7 de agosto de 1932 impunha a pena
de morte, ou uma longa pena nos campos de concentração, para todos esses "crimes contra a propriedade estatal". Logo depois, apareceram nos campos de concentração
as "respigadoras": camponesas que, para sobreviver, pegavam restos de cereal deixados na terra após a colheita. A elas se juntaram outros, como os famintos que recebiam
penas de dez anos por terem furtado meio quilo de batata ou algumas maçãs. Tais leis explicam por que os camponeses constituíam a imensa maioria dos presos nos
campos de concentração soviéticos durante toda a década de 1930; e por que eles continuariam a ser parte substancial da população carcerária até a morte de Stalin.
Nos campos de concentração, o impacto dessas prisões maciças foi enorme. Quase tão logo as novas leis entraram em vigor, os administradores dos campos começaram
a exigir uma reforma rápida e radical de todo o sistema. O sistema prisional "comum", que ainda estava a cargo do Comissariado do Interior - e continuava muito maior
que Solovetsky, o qual era administrado pela OGPU -, permanecera superlotado, desorganizado e deficitário durante toda a década anterior. No país inteiro, a situação
era tão ruim que, em certa altura, o Comissariado do Interior procurou reduzir o número de detentos condenando mais gente aos "trabalhos forçados sem privação da
liberdade", ou seja, designando-lhes tarefas sem encarcerá-los, o que aliviava a pressão sobre os campos.
A medida que aumentavam o ritmo da coletivização e a força da repressão, porém, milhões de kulaks sofriam despejo, e aquelas soluções começaram a parecer politicamente
inoportunas. Mais uma vez, as autoridades determinaram que criminosos tão perigosos - inimigos do grande impulso de Stalin à coletivização -, exigiam forma mais
segura de encarceramento, e a OGPU se preparou para estabelecer uma.
Em 1928, sabendo que o sistema prisional se deteriorava tão depressa quanto aumentava o número de presos, o Politburo do Partido Comunista criou uma comissão para
lidar com o problema. Na aparência, a comissão era neutra e incluía representantes tanto do Comissariado do Interior e do Comissariado da Justiça quanto da OGPU.
O camarada
Yanson, comissário da Justiça, seria o presidente da comissão. A tarefa desta era criar "um sistema de campos de concentração, organizados à maneira dos campos da
OGPU", e as deliberações se davam dentro de limites bem claros. Não obstante as frases líricas de Máximo Gorki sobre o valor dos trabalhos forçados na regeneração
de criminosos, todos os participantes da comissão empregavam a dura linguagem da economia. Todos expressavam as mesmas preocupações com a "rentabilidade" e falavam
freqüentemente do "uso racional da mão-de-obra".
É bem verdade que a ata redigida após a reunião de 15 de maio de 1929 registra algumas objeções práticas à criação de um sistema maciço de campos: estes seriam demasiado
difíceis de estabelecer, não havia estradas que levassem ao extremo norte, e assim por diante. O Comissariado do Trabalho achava errado submeter quem cometera crimes
de menor gravidade ao mesmo castigo destinado a reincidentes. Tolmachev, comissário do Interior, lembrou que o sistema seria visto de maneira negativa no exterior:
os "Guardas Brancos exilados" e a imprensa burguesa estrangeira afirmariam que, "em vez de construirmos um sistema penitenciário para regenerar os presos pelo trabalho
correcional, estabelecemos fortalezas chekistas".
No entanto, Tolmachev estava argumentando que o sistema pareceria mau, e não que seria ruim. Nenhum dos presentes objetou alegando que campos "ao estilo de Solovetsky"
fossem cruéis ou mortíferos. Tampouco alguém mencionou as teorias alternativas de justiça criminal das quais Lênin tanto gostara, aquela idéia de que o crime desapareceria
junto com o capitalismo. Por certo ninguém falou em reabilitação dos presos, na "transformação da natureza humana" que Gorki enaltecera em seu ensaio sobre Solovetsky
e que seria tão importante quando se apresentasse ao público a primeira série de campos. Em vez disso, Genrikh Yagoda, o representante da OGPU na comissão, expressou
com muita clareza os verdadeiros interesses do regime:
Já é tanto possível quanto absolutamente necessário remover de locais de confinamento na Rússia 10 mil presos cuja mão-de-obra poderia ser mais bem organizada e
mais bem utilizada. Ademais, fomos informados de que os campos e cadeias da República Ucraniana estão igualmente superlotados. E óbvio que a política soviética não
permitirá a construção de novas prisões. Ninguém dará dinheiro para isso. Por outro lado, construir grandes campos - que farão uso racional da mão-de-obra - é coisa
diferente. Temos muita dificuldade para atrair trabalhadores para o norte. Se mandarmos milhares de presos para lá, poderemos explorar os recursos setentrionais
[...] a experiência de Solovetsky demonstra o que é possível realizar nessa área.
Yagoda então explicou que a recolocação seria permanente. Após a soltura, os presos permaneceriam: "com diversas medidas administrativas e econômicas, poderemos
obrigar os presos a ficar no norte assim povoando nossas regiões mais distantes".
A idéia de que presos devessem tornar-se colonos - tão similar ao modelo czarista - não era nada que só houvesse ocorrido depois. Enquanto a Comissão Yanson deliberava,
uma comissão governamental distinta também começara a averiguar a crise de mão-de-obra no extremo norte, propondo saídas variadas, como enviar os desempregados,
ou imigrantes chineses. Ambas as comissões procuravam soluções para o mesmo problema ao mesmo tempo, e esse interesse não era de admirar. A fim de cumprir o Plano
Qüinqüenal de Stalin, a URSS precisaria de imensas quantidades de carvão, gás, petróleo e madeira, tudo isso disponível na Sibéria, no Cazaquistão e no extremo norte.
O país também necessitava de ouro para comprar maquinaria nova no exterior, e os geólogos haviam recentemente descoberto esse metal na região de Kolyma, no extremo
nordeste. Apesar das temperaturas baixíssimas, das condições de vida precárias e da inacessibilidade, tais recursos tinham de ser explorados com vertiginosa rapidez.
No espírito de competição interministerial (então acirrada), Yanson de início propôs que seu próprio comissariado assumisse o sistema e estabelecesse uma série de
campos florestais, com o objetivo de aumentar as exportações soviéticas de madeira, importante fonte de divisas externas. O projeto foi posto de lado, provavelmente
porque nem todo o mundo queria que o camarada Yanson e sua burocracia judiciária o controlassem. Em vez disso, quando o projeto foi subitamente ressuscitado, na
primavera de 1929, as conclusões da Comissão Yanson foram um tanto diferentes. Em 13 de abril, a comissão propôs instalar um novo sistema de campos, agora unificado,
que eliminaria a distinção entre os campos "comuns" e os "especiais". Algo mais importante: a comissão entregou esse sistema diretamente à OGPU.
A OGPU assumiu com assustadora celeridade o controle sobre a população prisional da URSS. Em dezembro de 1927, o Departamento Especial da OGPU tinha a seu cargo
30 mil detentos (cerca de 10% do número de presos do país), a maioria deles nos campos de Solovetsky.
O departamento empregava não mais que mil pessoas, e seu orçamento mal excedia 0,05% dos gastos estatais. Para comparação, o sistema prisional do Comissariado do
Interior mantinha 150 mil detentos e consumia 0,25% do orçamento estatal. Contudo, entre 1928 e 1930, a situação se inverteu. À medida que outras instituições estatais
iam gradualmente abrindo mão de seus presos, de seus cárceres, de seus campos e dos empreendimentos industriais ligados a eles, o número de presos sob a jurisdição
da OGPU inflou de 30 mil para 300 mil. Em 1931, a polícia secreta também assumiu o controle sobre milhões de "degredados especiais" (a maioria kulaks desterrados),
que na prática eram galés, pois estavam proibidos de sair das colônias e locais de trabalho que lhes tinham sido designados, sob pena de morte ou detenção. Em meados
da década de 1930, a OGPU teria sob seu domínio toda a vasta força de trabalho representada pelos presos da URSS.
A fim de dar conta das novas responsabilidades, a OGPU reorganizou aquele seu Departamento Especial e o rebatizou Administração Central dos Campos de Trabalho Correcional
e das Colônias de Trabalho. Esse título canhestro acabaria sendo encurtado para Administração Central dos Campos, ou, em russo, Glavnoe Upravlenie Lagerei. Donde
o acrônimo pelo qual o departamento, e por fim o próprio sistema, seria conhecido: Gulag.
Desde que os campos de concentração soviéticos surgiram em larga escala, seus detentos e seus cronistas discutem os motivos por trás da criação desses estabelecimentos.
Será que apareceram por acaso, como efeito colateral da coletivização, da industrialização e de outros processos que ocorriam no país? Ou será que Stalin tramou
o crescimento do Gulag com cuidado, planejando de antemão prender milhões de pessoas?
No passado, alguns historiadores afirmaram que não havia nenhum grande projeto subjacente à fundação dos campos. Um desses historiadores, James Harris, argumentou
que líderes locais, e não burocratas moscovitas, deram o impulso para que se construíssem novos campos na região dos Urais. Estando obrigadas a cumprir as exigências
impossíveis do Plano Qüinqüenal, por um lado, e enfrentando grave escassez de mão-de-obra, por outro, as autoridades dali aceleraram o ritmo e a crueldade da coletivização
para achar a quadratura do círculo: toda vez que tiravam um kulak das terras dele, criavam mais um trabalhador escravo. Outro historiador, Michael Jakobson, concluiu,
seguindo vim pensamento semelhante, que as origens do sistema prisional soviético tinham sido "banais":
Os burocratas perseguiam metas inalcançáveis de auto-sustentabilidade das prisões e de reabilitação dos presos. As autoridades queriam mão-de-obra e fundos, expandiam
suas burocracias e tentavam cumprir metas irreais. Os administradores e carcereiros aplicavam regras e regulamentos. Os teóricos racionalizavam e justificavam. Depois
tudo acabava revertido, modificado ou abandonado.
De fato, se as origens do Gulag houvessem sido acidentais, isso não teria sido surpreendente. Durante toda a primeira metade da década de 1930, a liderança soviética
em geral, e Stalin em particular, mudava constantemente de rumo, implementava políticas e então as revertia, fazendo pronunciamentos públicos para ocultar propositalmente
a verdade. Quando se lê a história daquela era, não é fácil detectar um grandioso plano maligno que tenha sido concebido por Stalin ou por quem quer que fosse.
Um exemplo: o próprio Stalin lançou a coletivização e então, assim parece, mudou de idéia, em março de 1930, quando atacou autoridades rurais excessivamente zelosas
que estavam "embriagadas pelo sucesso". (Qualquer que tenha sido a intenção desse pronunciamento, ele teve pouco efeito prático, e a destruição dos kulaks continuou
na mesma marcha durante anos.)
No começo, os burocratas e os secretas da OGPU que planejaram a expansão do Gulag também não parecem ter sido mais claros no que se refere a seus objetivos finais.
A própria Comissão Yanson tomou decisões e depois as reverteu. A OGPU também executava políticas que pareciam contraditórias. Durante todos os anos 1930, por exemplo,
ela com freqüência decretou anistias, destinadas a acabar com a superlotação nas prisões e campos. Invariavelmente, as anistias eram seguidas de novas ondas de repressão,
e novas ondas de construção de campos, como se Stalin e seus sequazes nunca soubessem ao certo se queriam ou não que o sistema crescesse - ou como se diferentes
pessoas estivessem dando diferentes ordens em diferentes momentos.
De modo semelhante, o sistema de campos passaria por muitos ciclos: ora mais repressivo, ora menos, ora mais repressivo de novo. Mesmo depois de 1929, quando os
campos já haviam sido colocados firmemente no rumo da eficiência econômica, subsistiam algumas anomalias no sistema. Em 1937, por exemplo, muitos presos políticos
ainda eram mantidos em celas, explicitamente proibidos de trabalhar - uma prática que pareceria contradizer o impulso geral de eficiência. Diversas mudanças burocráticas
tampouco eram lá muito significativas. Embora a divisão formal entre campos da polícia secreta e campos da polícia comum tenha mesmo chegado ao fim na década de
1930 continuou a haver uma divisão residual entre os campos, que supostamente se destinavam aos criminosos e elementos políticos mais perigosos, e as "colônias",
que seriam para os contraventores com penas mais curtas. Na prática, porém, a organização do trabalho, da alimentação e do cotidiano era muito parecida tanto nos
campos quanto nas colônias.
E no entanto... Hoje, há também um consenso crescente de que o próprio Stalin tinha, se não um plano cuidadosamente preparado, pelo menos uma crença muito grande
nas enormes vantagens da mão-de-obra prisional, crença em que ele se manteve até o fim da vida. Por quê?
Alguns, como Ivan Chukhin - historiador do sistema inicial de campos e ex-membro da polícia secreta - especulam que Stalin fomentou as primeiras e superambiciosas
obras de construção dos campos para reforçar seu prestígio pessoal. Na época, ele ainda estava apenas surgindo como líder do país, após uma longa e renhida luta
pelo poder. Talvez tenha imaginado que novas façanhas na frente industrial, realizadas com uso da mão-de-obra escrava do sistema prisional, o ajudassem a consolidar
sua autoridade.
Stalin pode também ter-se inspirado em precedentes históricos mais antigos. Robert Tucker, entre outros, já demonstrou fartamente o interesse obsessivo de Stalin
por Pedro, o Grande - mais um governante russo que empregou de maneira maciça a mão-de-obra de servos e condenados para realizar enormes feitos de engenharia e construção.
Em 1928, num discurso ao plenário do Comitê Central, feito justamente quando se preparava para lançar seu programa industrial, Stalin observou com admiração:
Quando Pedro, o Grande, fazendo negócios com os países do Ocidente, mais avançados, freneticamente construía fábricas para suprir o Exército e fortalecer as defesas
do país, tratava-se de um esforço especial para dar um salto à frente e livrar-se das restrições do atraso.
O grifo é meu, para enfatizar o vínculo entre a "Grande Guinada" de Stalin e as políticas de seu antecessor setecentista. Na tradição histórica russa, Pedro é lembrado
como líder tão grande quanto cruel, e não se acha que isso constitua contradição. Afinal, ninguém recorda quantos servos morreram durante a construção de São Petersburgo
mas todo o mundo admira a beleza da cidade. Stalin pode muito bem ter levado a peito o exemplo de Pedro.
Entretanto, o interesse de Stalin em campos de concentração nem precisa ter tido uma causa racional: o fato de ser obcecado por gigantescos programas de obras e
por turmas de galés mourejadores se relacionava, de algum modo, a seu tipo especial de loucura megalomaníaca. Certa vez, Mussolini disse de Lênin que este era "um
artista que trabalhou os homens como outros trabalharam o mármore ou o metal". Talvez a descrição se aplicasse melhor a Stalin, que gostava mesmo de ver grande
número de corpos humanos marcharem ou dançarem em perfeita sincronia. Ficava encantado com o balé, com as exibições orquestradas de ginástica e com os desfiles
em que apareciam gigantescas pirâmides construídas de figuras humanas anônimas e contorcidas. Ele, assim como Hitler, também era obcecado pelo cinema, em especial
pelos musicais de Hollywood, com seus enormes elencos de cantores e dançarinos em uníssono. É possível que ele tenha fruído um prazer diferente, mas correlato, ante
o espetáculo das vastas turmas de presos que escavavam canais e construíam ferrovias a uma ordem sua.
Qualquer que tenha sido a inspiração dele, política, histórica ou psicológica, fica claro que, desde os primeiros tempos do Gulag, Stalin demonstrou profundo interesse
pessoal pelos campos e exerceu enorme influência no desenvolvimento destes. Um exemplo: a decisão crucial de transferir todos os campos e prisões para a OGPU, tirando-os
do âmbito do sistema judiciário comum, quase certamente se deu a mando de Stalin. Em 1929, ele já se interessava muitíssimo pela polícia secreta. Acompanhava as
carreiras dos chefes da OGPU e supervisionava a construção de residências confortáveis para eles e suas famílias. Em contraste, a administração prisional do Comissariado
do Interior não lhe despertava interesse algum: seus líderes haviam apoiado os oponentes de Stalin nas implacáveis lutas internas do Partido à época.
Todos os que participaram da Comissão Yanson deviam conhecer muito bem esses detalhes, o que já deve ter sido suficiente para convencê-los a colocar as prisões nas
mãos da OGPU. Mas Stalin também interveio diretamente nas decisões da comissão. Em certa altura daquelas confusas deliberações, o Politburo chegou a reverter a própria
determinação original, declarando o propósito de tirar da polícia secreta o sistema prisional e tornar a entregá-lo ao Comissariado do Interior. Essa perspectiva
deixou Stalin indignado. Numa carta de 1930 a Vyacheslav Molotov (um colaborador muito próximo), atacou a idéia qualificando-a de "intriga" orquestrada pelo comissário
do Interior, que "é totalmente podre". Stalin mandou o Politburo implementar a resolução original e pôs fim ao Comissariado do Interior. A decisão de Stalin de
dar os campos à OGPU determinou o futuro caráter deles. Tirou-os da supervisão judiciária comum e os colocou firmemente nas mãos da burocracia de urna polícia secreta
cujas origens remontavam ao mundo obscuro e extralegal da Cheka.
Embora haja menos indícios sólidos para corroborar essa teoria, pode ser que também tenha vindo de Stalin a ênfase constante na necessidade de construir "campos
ao estilo de Solovetsky". Como já mencionamos, os campos de Solovetsky nunca foram rentáveis, nem em 1929, nem nunca. No ano administrativo que foi de junho de 1928
a junho de 1929, a Slon ainda recebia do orçamento estatal um subsídio de 1,6 milhão de rublos. Não obstante a Slon talvez ter parecido mais bem-sucedida que outras
empresas locais, qualquer um que entendesse de economia sabia que ela estava longe de oferecer concorrência justa. Um exemplo: os campos madeireiros que se utilizavam
de presos pareciam sempre mais produtivos que os empreendimentos comuns do setor só porque os camponeses empregados por esses últimos trabalhavam apenas no inverno,
quando ficavam impossibilitados de praticar a agricultura.
Apesar disso, achava-se que os campos de Solovetsky fossem rentáveis - ou pelo menos Stalin achava que fossem. Ele também acreditava que fossem rentáveis justamente
por causa dos métodos "racionais" de Frenkel - a distribuição de rações conforme o trabalho produzido pelo preso, a eliminação de "supérfluos". A prova de que o
sistema de Frenkel ganhara o beneplácito dos mais altos escalões está nos resultados: não apenas esse sistema se viu rapidamente copiado no resto do país, mas o
próprio Frenkel foi encarregado de chefiar a construção do Canal do Mar Branco, o primeiro grande projeto do Gulag na era stalinista, um cargo extremamente alto
para um ex-condenado. Depois, como veremos, Frenkel foi protegido da prisão e possível execução graças à intervenção do primeiríssimo escalão.
Indícios de que Stalin preferia a mão-de-obra prisional à comum também se acham no contínuo interesse dele pelas minúcias da administração dos campos. Durante toda
a vida no poder, ele exigiu informes regulares sobre a "produtividade por detento" nos campos, freqüentemente requerendo estatísticas específicas: quanto carvão
e petróleo os campos tinham produzido, quantos prisioneiros empregavam, quantas medalhas seus administradores haviam recebido. Estava particularmente interessado
na minas auríferas da Dalstroi, o complexo de campos na região de Kolyma, no extremo nordeste, e exigia informações regulares e precisas sobre a geologia de Kolyma,
a tecnologia mineira da Dalstroi e a exata qualidade e quantidade do ouro produzido. Para garantir que suas determinações pessoais fossem cumpridas mesmo nos campos
mais longínquos, enviava equipes de inspeção e, muitas vezes, mandava que os administradores viessem a Moscou.
Quando algum projeto lhe interessava em especial, ele às vezes se envolvia ainda mais. Os canais, por exemplo, cativavam sua imaginação, e de quando em quando parecia
que queria construí-los a torto e a direito. Certa feita, Yagoda foi obrigado a escrever a Stalin, objetando polidamente ao desejo irrealista de abrir um canal,
usando trabalho escravo, no centro de Moscou. A medida que Stalin assumia maior controle sobre os órgãos do poder, ele também forçava os colegas a focalizarem a
atenção nos campos. Em 1940, o Politburo discutia este ou aquele projeto do Gulag quase toda semana.
Contudo o interesse de Stalin não era apenas teórico. Também tinha interesse direto pelos seres humanos envolvidos no trabalho dos campos: quem fora detido, onde
fora condenado, o que seria feito de tal e tal pessoa. Lia, e comentava, ele mesmo as petições de soltura que lhe eram enviadas pelos presos ou pelas esposas destes,
freqüentemente respondendo com uma ou duas palavras ("Mantenha-o trabalhando" ou "Solte-o"). Numa fase posterior, exigiria com regularidade informações sobre presos
ou grupos de presos que lhe interessavam, como os nacionalistas da Ucrânia ocidental.
Também há indícios de que a curiosidade de Stalin por determinados presos nem sempre era puramente política e de que ela não se voltava apenas para seus inimigos
pessoais. Já em 1931, antes de consolidado seu poder, Stalin fez o Politburo aprovar uma resolução que lhe dava enorme influência pessoal sobre a prisão de certas
categorias de especialistas técnicos. E o padrão das detenções de engenheiros e especialistas naqueles primeiros tempos faz mesmo pensar em algum nível superior
de planejamento. Talvez também não tenha sido apenas coincidência que o primeiríssimo grupo de presos mandados para os novos campos nas jazidas auríferas de Kolyma
abrangesse sete conhecidos peritos em mineração, dois peritos em organização do trabalho e um experiente engenheiro hidráulico. E pode não ter sido mero acaso que
a OGPU haja prendido um dos principais geólogos da URSS às vésperas de uma expedição para, como veremos, construir um campo perto das reservas petrolíferas da República
Komi. Tais coincidências não podem ter sido planejadas por chefes regionais do Partido que apenas reagiam às pressões do momento.
Por fim, uma prova totalmente circunstancial, mas ainda assim interessante, sugere que as detenções em massa no final dos anos 1930 e nos anos 40 talvez também
tenham sido ordenadas, em certa medida, para saciar o desejo de Stalin por mão-de-obra escrava, e não - ao contrário do que a maioria sempre supôs - para punir seus
pretensos ou potenciais inimigos. Os autores da mais fidedigna história dos campos que até hoje se escreveu em russo assinalam a "relação positiva entre o sucesso
da atividade econômica nos campos e o número de presos enviados para lá". Eles argumentam que não deve ter sido por acaso que as penas para crimes de pouca gravidade
se tornaram muito mais severas justamente quando os campos se expandiam e, por isso, precisavam com urgência de mais trabalhadores.
Alguns documentos catados em arquivos aqui e ali fazem pensar o mesmo. Em 1934, por exemplo, Yagoda escreveu uma carta a seus subordinados na Ucrânia, requerendo
de 15 mil a 20 mil presos, todos "aptos para o trabalho": eram necessários com urgência para concluir as obras do canal Volga-Moscou. A carta estava datada de 17
de março, e nela Yagoda também exigia que os chefes locais da OGPU tomassem "medidas adicionais" para garantir que os detentos chegassem até 1º de abril. Todavia,
não ficava claro de onde deveriam aparecer esses 15 mil a 20 mil presos. Teriam sido detidos para atender à requisição de Yagoda? Ou - como acredita o historiador
Terry Martin - Yagoda estava simplesmente batalhando a fim de garantir um afluxo cômodo e regular de mão-de-obra para seu sistema de campos, uma meta que, na realidade,
ele nunca atingiu?
Se as detenções se destinavam a povoar os campos, então elas o fizeram com uma ineficiência quase ridícula. Martin e outros também assinalaram que toda onda de prisões
em massa parece ter pegado totalmente de surpresa os comandantes de campo, dificultando-lhes obter até mesmo um simulacro de eficiência econômica. Os policiais que
faziam as prisões tampouco escolhiam suas vítimas de maneira racional: em vez de restringirem-se aos varões jovens e saudáveis que teriam dado os melhores trabalhadores
braçais no extremo norte, também aprisionavam grande número de mulheres, crianças e idosos. A flagrante falta de lógica das detenções em massa parece contradizer
a idéia de que se planejou cuidadosamente a formação de uma força de trabalho escrava - o que leva muitos a concluir que as capturas se destinavam antes de tudo
a eliminar os que eram considerados inimigos de Stalin, e só depois a encher os campos.
Mas, ao fim e ao cabo, essas explicações para a expansão dos campos tampouco chegam a ser de todo mutuamente exclusivas. Stalin pode muito bem ter pretendido que
as capturas tanto eliminassem inimigos quanto criassem trabalhadores escravos. Pode ter sido motivado tanto pela própria paranóia quanto pelas necessidades de mão-de-obra
dos líderes regionais. Talvez o melhor seja formular tudo isso em termos simples: Stalin propunha o "modelo de Solovetsky" a sua polícia secreta, Stalin selecionava
as vítimas - e seus subordinados não deixavam passar a chance de obedecer a ele.
4. O CANAL DO MAR BRANCO
Onde antes água e penhascos limosos dormiam,
Ali, graças à força do trabalho,
Fábricas serão construídas,
E cidades crescerão.
Chaminés se erguerão
Sob os céus do norte,
E edifícios brilharão com as luzes
De bibliotecas, teatros e clubes.
Medvedkov, preso do Canal do Mar Branco, 1934.
No fim das contas, apenas uma das objeções levantadas durante as reuniões da Comissão Yanson viria a causar preocupação. Embora estivessem certos de que a grande
nação soviética superaria a falta de estradas, e embora sentissem poucos remorsos de usar presos como trabalhadores escravos, Stalin e seus sequazes continuaram
extremamente sensíveis à linguagem que os estrangeiros utilizavam no exterior para descrever os campos prisionais da URSS.
De fato, os estrangeiros daquele tempo, ao contrário do que reza a crença popular, descreviam com bastante freqüência esses campos de concentração. No Ocidente do
final dos anos 1920, sabia-se geralmente um bocado a respeito deles, talvez mais do que no final dos anos 40. Extensos artigos sobre as prisões da URSS haviam sido
publicados na imprensa alemã, francesa, britânica e norte-americana, sobretudo nos periódicos de esquerda, que tinham amplos contatos com socialistas russos aprisionados.
Em 1927, um escritor francês chamado Raymond Duguet publicou Uma colônia penal na Rússia Vermelha (Un bagne en Russie Rouge), livro surpreendentemente preciso sobre
Solovetsky, descrevendo tudo, desde a personalidade de Naftaly Frenkel até os horrores da tortura dos mosquitos. Em 1926, o georgiano S. A. Malsagov, oficial do
Exército Branco que conseguira fugir de Solovetsky e cruzar a fronteira, publicou Inferno na ilha, outro relato acerca das ilhas, em Londres. Como resultado de rumores
generalizados sobre os abusos da mão-de-obra prisional pelos soviéticos, a seção britânica da Sociedade Anti-escravagista até lançou uma investigação e escreveu
um relatório que deplorava os indícios de escorbuto e maus-tratos. Baseando-se no testemunho de refugiados russos, um senador francês escreveu um artigo, muito
citado, comparando a situação na URSS às descobertas do inquérito da Sociedade das Nações sobre a escravidão na Libéria.
Entretanto, após a expansão dos campos em 1929 e 1930, o interesse estrangeiro por eles se modificou, afastando-se do destino dos presos socialistas e enfocando
então a ameaça econômica que os campos pareciam representar para os interesses econômicos ocidentais. Empresas ameaçadas, e sindicatos idem, começaram a organizar-se
Sobretudo na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, aumentou a pres. são a favor de um boicote aos artigos soviéticos supostamente produzidos por galés. Paradoxalmente,
o movimento pelo boicote obscureceu toda a questão aos olhos da esquerda ocidental, que ainda apoiava a Revolução Russa, em especial na Europa, mesmo se muitos líderes
se sentiam pouco à vontade com o destino de seus irmãos socialistas. O Partido Trabalhista britânico, por exemplo, opôs-se a uma proibição de importar artigos soviéticos
porque suspeitava da motivação das companhias que a promoviam.
Nos Estados Unidos, porém, os sindicatos (especialmente a American Federation of Labor, AFL) saíram em apoio a um boicote. Por um curto período, tiveram sucesso.
Lá, o Tariff Act, de 1930, determinava que "todos os artigos [...] minerados, produzidos ou manufaturados [...] pelo trabalho de condenados e/ou pelo trabalho forçado
[...] não poderão ser admitidos em nenhum dos portos dos Estados Unidos". Com base nisso, o Departamento do Tesouro proibiu a importação de fósforos e madeira para
papel soviéticos.
Embora o Departamento de Estado não tenha apoiado a proibição (que durou apenas uma semana), o debate continuou. Em janeiro de 1931, a comissão orçamentária do
Congresso dos Estados Unidos se reuniu para considerar projetos de lei "relativos à proibição de artigos produzidos pelo trabalho de condenados na Rússia". Em 18,
19 e 20 de maio de 1931, o Times de Londres publicou uma série de artigos surpreendentemente detalhados a respeito dos trabalhos forçados na URSS, concluindo com
um editorial que condenava a recente decisão britânica de dar reconhecimento diplomático à URSS. Emprestar dinheiro à Rússia, escreviam os editorialistas, colocaria
"mais poder nas mãos daqueles que estão abertamente trabalhando [...] para destruir o Império Britânico".
O canal do mar Branco, Rússia setentrional, 1932-3
O regime soviético levou mesmo muito a sério a ameaça de boicote, e tomaram-se diversas medidas a fim de impedir que algo assim interrompesse o fluxo de moeda forte
para o país. Algumas foram cosméticas: por exemplo, a Comissão Yanson finalmente eliminou de todas as suas declarações públicas a palavra kontslager (campo de concentração).
A partir de 7 de abril de 1930, todos os documentos oficiais passaram a descrever os campos de concentração soviéticos como ispravitelno-trudovye lagerya (ITL),
ou "campos de trabalho correcional". Só esse termo viria a ser usado.
As autoridades dos campos fizeram outras mudanças cosméticas em nível local, sobretudo na indústria madeireira. Em certa altura, a OGPU alterou seu contrato com
a Karellis, o conglomerado madeireiro da Carélia, de modo a parecer que não mais se utilizavam presos. Naquela época, 12.090 detentos foram oficialmente "removidos"
dos campos da OGPU. Na realidade, continuaram trabalhando, mas sua presença era disfarçada pelos ardis burocráticos. Mais uma vez, a maior preocupação da liderança
soviética era com as aparências, não com a realidade.
Em outros lugares, presos que trabalhavam nos campos madeireiros foram efetivamente substituídos por trabalhadores livres - ou, mais freqüentemente, "colonos" degredados,
kulaks que não tinham mais voz ativa que os presos. Segundo alguns memorialistas, essa troca às vezes acontecia de um dia para o outro. George Kitchin, negociante
finlandês que passou quatro anos em campos da OGPU antes de ter sido libertado com a ajuda de seu governo, escreveria que, imediatamente antes da visita de uma delegação
estrangeira,
recebeu-se do escritório central em Moscou um telegrama secreto, em código, instruindo-nos a liqüidar nosso campo por completo, em três dias, e fazê-lo de tal maneira
que não ficasse nenhum vestígio. [...] Enviaram-se telegramas a todos os postos, os quais deviam cessar as operações em 24 horas, reunir os presos em centros de
evacuação e apagar as marcas dos campos penais, tais como cercas de arame farpado, torres de vigia e placas de sinalização; todos os principais encarregados deviam
vestir trajes civis, desarmar os guardas e aguardar novas instruções.
Kitchin, junto com vários milhares de outros presos, foi levado a pé pela floresta afora. Ele acreditava que mais de 1.300 detentos tivessem morrido nessa e em outras
evacuações-relâmpago.
Em março de 1931, Molotov, então presidente do Conselho dos Comissários do Povo, sentiu-se confiante de que não houvesse mais presos na indústria madeireira soviética
(pelo menos não visíveis) e convidou todos os estrangeiros interessados a visitarem e verificarem por si mesmos. Alguns já tinham vindo: em 1929, os arquivos do
Partido Comunista na Carélia registram a presença de dois jornalistas americanos, "o camarada Durant e o camarada Wolf", que escreviam para a Tass, a agência de
notícias soviética, e para "jornais radicais". Os dois foram recebidos com uma execução da Internacional, o hino operário, e o camarada Wolf prometeu "contar aos
trabalhadores da América como os trabalhadores da União Soviética vivem e criam uma vida nova". Não seria a última dessas encenações.
No entanto, embora a pressão por um boicote houvesse soçobrado em 1931, a campanha ocidental contra o trabalho escravo soviético não deixara de ter algum resultado:
a URSS era, e continuaria sendo, muito zelosa de sua imagem no exterior, mesmo sob o comando de Stalin. Alguns, dentre eles o historiador Michael Jakonson, agora
especulam que a ameaça de um boicote pode até ter sido importante fator por trás de outra mudança de diretrizes, esta maior. O negócio madeireiro, que demandava
grande quantidade de trabalho não-especializado, fora a maneira ideal de utilizar os presos. Mas as exportações de madeira, uma das principais fontes de moeda forte
da URSS, não podiam correr o risco de novo boicote. Os presos precisavam ser mandados para outro lugar - de preferência, algum onde sua presença pudesse ser comemorada,
e não escondida. Possibilidades não faltavam, mas uma em especial seduziu Stalin: construir um grande Canal do Mar Branco ao mar Báltico, atravessando terreno que,
em grande parte, era puro granito.
No contexto da época, o Canal do Mar Branco em russo, Belomorkanal, abreviado para Belomor - não era único. No momento em que se iniciou sua construção, a URSS já
começara a executar vários projetos que, de forma semelhante, eram grandiosos e faziam uso intensivo de trabalho braçal; entre eles, incluíam-se a maior siderúrgica
do mundo, em Magnitogorsk, gigantescas fábricas de tratores e automóveis e imensas "cidades socialistas" plantadas no meio de pântanos. Apesar disso, mesmo dentre
as outras crias da mania de gigantismo dos anos 1930, o Canal do Mar Branco se destacava.
Para começo de conversa, o canal representava, como sabiam muitos russos, a realização de um sonho bem antigo. Os primeiros projetos haviam sido elaborados no século
XVIII, quando os mercadores czaristas procuravam uma maneira de mandar das águas frias do mar Branco aos portos comerciais do Báltico navios carregados de madeira
e minerais, sem fazer a viagem de uns setecentos quilômetros pelo oceano Ártico e, depois, ainda descer a extensa costa da Noruega.
Também era um projeto de ambição extrema, até temerária, e talvez por isso ninguém houvesse tentado realizá-lo antes. O canal requeria 227 quilômetros de escavação,
mais cinco diques e dezenove eclusas. Os planejadores soviéticos pretendiam construí-lo utilizando a tecnologia menos sofisticada possível, numa região pré-industrial
do extremo norte, que nunca fora adequadamente desbravada e que, nas palavras de Máximo Gorki, era "hidrologicamente terra incógnita". Tudo isso, porém, pode até
ter sido parte do atrativo do projeto para Stalin. Ele queria um triunfo tecnológico - um que o antigo regime nunca conseguira -, e o queria o mais depressa possível.
Exigiu não apenas que construíssem o canal, mas também que o fizessem em vinte meses. Quando pronto, levaria o nome de Stalin.
Stalin foi o maior fomentador do Canal do Mar Branco - e desejava especificamente que o abrissem com o trabalho de presos. Antes de iniciadas as obras, condenou
com a maior violência quem indagava se um projeto tão caro era mesmo necessário, dado o volume relativamente pequeno de tráfego no mar Branco. "Disseram-me", escreveu
a Molotov, "que Rykov e Kviring querem pôr fim à idéia do canal do Norte, contrariando as decisões do Politburo. Eles deveriam ser colocados no devido lugar e receber
uns cascudos." Durante uma sessão do Politburo em que se discutiu o canal, Stalin também escreveu uma nota irritada, rabiscada às pressas, que falava de sua crença
no trabalho de presos:
Quanto ao trecho norte do canal, tenho em mente confiar na GPU [com mão-de-obra prisional]. Ao mesmo tempo, devemos designar alguém para calcular outra vez as despesas
da construção desse trecho. [...] O que me apresentam é caro demais.
As preferências de Stalin tampouco eram segredo. Depois que o canal ficou pronto, o principal administrador louvou Stalin tanto pela "bravura" em ter-se disposto
a construir aquele "gigante hidrotécnico" quanto pelo "fato maravilhoso de que esse trabalho não foi completado com mão-de-obra comum". Também se pode ver a influência
de Stalin na rapidez com que se partiu para as obras. A decisão de iniciá-las foi tomada em fevereiro de 1931, e elas começaram em setembro do mesmo ano, após meros
sete meses de projeto e levantamento topográfico.
Administrativa, física e até psicologicamente, os primeiros campos de prisioneiros associados ao Canal do Mar Branco brotaram da Slon. Os campos do canal se organizavam
com base no modelo da Slon, usavam equipamento dela e eram operados por quadros também seus. Tão logo as obras se iniciaram, os encarregados transferiram muitos
presos dos campos da Slon nas ilhas Solovetsky e no continente para trabalharem no novo projeto. Por algum tempo, a velha burocracia da Slon e a nova burocracia
do Canal do Mar Branco podem até ter competido pelo controle do projeto - mas o canal ganhou. Ao fim e ao cabo, a Slon deixaria de ser entidade independente. O kremlin
de Solovetsky foi designado prisão de segurança máxima, e o arquipélago se tornou simplesmente mais uma divisão do Campo de Trabalhos Correcionais Belomor - Baltiiskii
(mar Branco-Báltico), conhecido como Belbaltlag. Certo número de guardas e de destacados administradores da OGPU também foi transferido da Slon para o canal. Dentre
eles, como se observou, estava Naftaly Frenkel, que gerenciou desde novembro de 1931 até o término das obras o dia-a-dia do projeto.
Nas memórias dos sobreviventes, o caos que acompanhou a construção adquire natureza quase mitológica. A necessidade de economizar acarretava que os presos usassem
madeira, areia e pedra em vez de metal e cimento. Cortavam-se custos sempre que possível. Após muita discussão o canal foi escavado com profundidade de apenas quatro
metros, que mal era suficiente para embarcações da Marinha de Guerra. Já que a tecnologia moderna ou era cara demais, ou não estava disponível, os planejadores empregaram
enormes quantidades de mão-de-obra não-qualificada. Os cerca de 170 mil presos e "degredados especiais" que trabalharam no projeto ao longo dos 21 meses de construção
usaram pás de madeira, mais serras, picaretas e carrinhos de mão muito rústicos, para escavar o canal e construir seus grandes diques e eclusas.
Nas fotos da época, essas ferramentas decerto parecem muito primitivas, mas só um olhar mais atento revela quanto. Algumas ainda estão expostas em Medvezhegorsk,
outrora o portão de entrada do canal e a "capital" do Belbaltlag. Hoje uma aldeia esquecida da Carélia, Medvezhegorsk sobressai apenas pelo enorme hotel, vazio e
infestado de baratas, e pelo pequeno museu de história local. As picaretas em exibição ali são, na verdade, pedaços de metal mal afiados que foram amarrados com
couro ou barbante a hastes de madeira. As serras consistem em folhas planas de metal grosseiramente dentadas. Em vez de usarem dinamite, os presos quebravam grandes
pedras usando "martelos" - pedaços de metal parafusados a cabos de madeira - para inserir nelas barras de ferro.
Tudo, desde os carrinhos de mão até os andaimes, era feito à mão. Um preso recordou que
não havia absolutamente nenhuma tecnologia. Até automóveis comuns eram raridade. Tudo se fazia à mão, por vezes com ajuda de cavalos. Escavávamos a terra com as
mãos e a retirávamos em carrinhos de mão; também escavávamos através dos morros com as mãos e levávamos embora as pedras com a força dos braços.
Até a propaganda soviética se gabava de que as pedras eram removidas em "Fords Belomor": "carretas pesadas com quatro rodas de madeira sólida, feitas de tocos de
árvores".
As condições de vida não eram menos capengas, apesar dos esforços de Genrikh Yagoda, o chefe da OGPU, que tinha a responsabilidade política pelo projeto. Ele parecia
realmente acreditar que deviam dar condições decentes de vida aos presos caso se quisesse terminar o canal a tempo; e com freqüência doutrinava os comandantes dos
campos para tratarem melhor os detentos e "tomarem o máximo cuidado a fim de garantir que eles estejam alimentados, vestidos e abrigados de maneira adequada". Em
seguida, os comandantes fizeram o mesmo, assim corno o chefe da divisão Solovetsky do projeto do canal em 1933. Dentre outras coisas, esse último dirigente instruiu
seus subordinados a eliminar as filas para comida à noite, acabar com o furto nas cozinhas e restringir a contagem noturna dos presos a uma hora. Em geral, as normas
oficiais sobre alimentação eram mais responsáveis do que viriam a ser alguns anos depois, com salsicha e chá entre os produtos recomendados. Em teoria, os presos
recebiam um novo conjunto de roupas de trabalho a cada ano.
No entanto, a pressa extrema e a falta de planejamento criaram inevitavelmente muito sofrimento. A medida que as obras progrediam, era preciso construir novos acampamentos
ao longo do trajeto. Em cada um deles, os presos e degredados chegavam para as obras - e não encontravam nada. Antes de começarem a trabalhar, tinham de construir
os próprios barracões de madeira e organizar o suprimento de comida. Entrementes, às vezes acontecia de serem mortos pelo frio congelante do inverno careliano antes
de concluírem a tarefa. Conforme alguns cálculos, morreram mais de 25 mil presos, e esse número não inclui os que, soltos devido a doenças ou acidentes, pereceriam
logo depois. Escrevendo à esposa, o preso A. F. Losev afirmou que preferiria voltar para os porões da prisão moscovita de Butyrka, pois no canal tinha de dormir
em estrados tão apinhados que, "se durante a noite você rolar de um lado para o outro, pelo menos outras quatro ou cinco pessoas vão rolar também". Ainda mais desesperado
é o testemunho de um menino, filho de kulaks degredados, que foi deportado junto com toda a família para uma das povoações que acabavam de ser construídas ao longo
do canal:
Fomos morar num barracão com duas séries de estrados. Já que havia crianças pequenas, deram um dos estrados inferiores a nossa família. Os barracões eram compridos
e frios. Como a lenha era abundante na Carélia, os fogões ficavam acesos 24 horas por dia. [...] Nosso pai, e principal fonte de comida, recebia em nome de todos
nós um terço de balde de uma sopa esverdeada, em cuja água escura boiavam dois ou três tomates verdes ou um pepino e alguns pedaços de batata congelada, misturados
com cem ou duzentos gramas de cevada ou grão-de-bico.
O menino recordou que o pai, o qual trabalhava construindo casas para os colonos, recebia seiscentos gramas de pão. A irmã, quatrocentos gramas. Isso tinha de bastar
para todos os nove membros da família.
Na época, assim como mais tarde, alguns dos problemas se refletiam nos relatórios oficiais. Em agosto de 1932, numa reunião da célula partidária do Belbaltlag, houve
reclamações sobre a mal organizada distribuição de comida, as cozinhas sujas e o número cada vez maior de casos de escorbuto. Pessimista, o secretário da célula
escreveu: "não tenho dúvida de que o canal não será construído a tempo".
Para a maioria, não havia a opção de duvidar. Mas as cartas e os relatórios escritos pelos administradores do canal no período das obras tinham um tom de pânico
total. Stalin decretara que o canal seria construído em vinte meses, e os construtores compreendiam muito bem que seu padrão de vida, e possivelmente até sua própria
vida, dependia de completá-lo em vinte meses. Para acelerarem o serviço, os comandantes dos campos começaram a adotar práticas já em uso no mundo do trabalho "livre",
como as "competições socialistas" -disputas entre turmas de trabalho para ver quem cumpria metas, movia pedras ou cavava um buraco primeiro -, e as "investidas",
que atravessavam a noite inteira e nas quais os prisioneiros faziam "voluntariamente" jornadas de 24 ou 48 horas. Um preso se lembrou de quando instalaram luzes
elétricas ao redor do canteiro de obras, para que a atividade pudesse continuar 24 horas por dia. Outro preso ganhou dez quilos de farinha branca e cinco quilos
de açúcar como prêmio por bom desempenho. Levou a farinha aos padeiros do campo, e estes fizeram para ele vários pães brancos grandes, que o preso comeu todos de
uma vez, sozinho.
Além das competições, as autoridades aderiram ao culto do udarnik (trabalhador-padrão). Depois, os trabalhadores-padrão seriam renomeados "stakhanovistas", em homenagem
a Aleksei Stakhanov, um mineiro absurdamente superprodutivo. Os udarniki e stakhanovistas eram presos que haviam superado as metas e, por isso, recebiam comida adicional
e privilégios especiais, aí incluído o direito, impensável em anos posteriores, a um novo terno a cada ano e um novo conjunto de roupas de trabalho a cada seis meses.
Os trabalhadores de melhor desempenho também ganhavam alimentação consideravelmente melhor. Nos refeitórios, ficavam a mesas separadas, abaixo de cartazes que proclamavam:
"Para os melhores trabalhadores, a melhor comida", lá seus inferiores sentavam abaixo de cartazes com estes dizeres: "Aqui, os refratários, malandros e preguiçosos
têm comida pior". Os trabalhadores de melhor desempenho também eram soltos mais cedo: para cada três dias de trabalho em que se cumprisse 100% da meta, subtraía-se
um dia da pena. Em agosto de 1933, quando enfim o canal foi completado (no prazo), libertaram-se 12.484 presos. Inúmeros outros ganharam medalhas e prêmios. Um
comemorou a soltura antecipada numa cerimônia em que houve até as tradicionais boas-vindas russas com pão e sal, enquanto os circunstantes gritavam: "Vivam os construtores
do canal!" No calor do momento, o preso começou a beijar uma desconhecida. Os dois acabaram passando a noite às margens dó canal, juntos.
A construção do Canal do Mar Branco foi notável por muitos aspectos: o caos acabrunhante, a pressa extrema e a importância da obra para Stalin. Mas a retórica usada
para descrever o projeto era realmente única: o Canal do Mar Branco foi o primeiro, o último e o único projeto do Gulag que se expôs plenamente às luzes da propaganda
soviética, tanto no país quanto no exterior. E o homem escolhido para explicar, promover è justificar o canal na URSS e no resto do mundo foi ninguém menos que Máximo
Gorki.
Não se tratava de uma escolha surpreendente. Na época, Gorki era total e verdadeiramente parte da hierarquia stalinista. Depois que, em agosto de 1933, Stalin fez
uma triunfante viagem de vapor pelo canal pronto, Gorki levou numa expedição semelhante 120 redatores e escritores soviéticos. Estes estavam, ou pelo menos diziam
estar, tão empolgados com a viagem que mal conseguiam segurar as cadernetas de anotações: seus dedos "tremiam de assombro". Aqueles que decidiram escrever um livro
sobre a construção do canal também receberam farto encorajamento material, como o "esplêndido almoço à americana no Astoria" (grandioso hotel da era czarista em
Leningrado) para comemorar a participação deles no projeto.
Até para os baixos padrões do realismo socialista, o livro que emergiu desses esforços, O canal chamado Stalin (Kanal imeni Stalina), constitui extraordinário testemunho
da corrupção dos escritores e intelectuais nas sociedades totalitárias. Da mesma forma que o ensaio de Gorki sobre Solovetsky, o livro justifica o injustificável,
pretendendo não apenas documentar a transformação de presos em magníficos exemplos do Homo sovieticus, mas também criar um novo tipo de literatura. Embora O canal
tenha sido prefaciado e concluído por Gorki, a responsabilidade pela maior parte da obra foi atribuída não a um indivíduo, mas a um coletivo de 36 escritores. Usando
linguagem exuberante, hipérbole e suave maquiagem dos fatos, eles se esforçaram para captar o espírito da nova era. Uma das fotos do livro resume o tema: uma mulher,
em uniforme de presa, empunha uma broca com grande determinação. Abaixo, a legenda: "Ao mudar a natureza, o homem muda a si mesmo". O contraste com a linguagem desapiedada
da Comissão Yanson e com as prioridades econômicas da OGPU não poderia ser mais flagrante.
Para quem não está familiarizado com o gênero, alguns aspectos do realismo socialista de O canal chamado Stalin podem parecer um tanto surpreendentes. Para começo
de conversa, o livro não tenta disfarçar de todo a verdade, já que descreve os problemas criados pela falta de tecnologia e de especialistas. Em certa altura, cita-se
Matvei Berman, então comandante do Gulag. Berman diz a um subordinado seu da OGPU:
"Vocês receberão mil homens saudáveis. Eles foram condenados pelo governo soviético a vários períodos de prisão. E com essas pessoas que vocês devem cumprir a tarefa."
"Mas, permita-me perguntar, onde estão os guardas?", replica o homem da OGPU.
"Vocês deverão organizar os guardas no próprio local. Vocês mesmos os selecionarão."
"Muito bem, mas eu não entendo nada de petróleo e derivados." "Pegue o preso-engenheiro Dukhanovich para que seja seu assistente." "De que adianta isso? A especialidade
dele é a forja a frio."
"Você quer o quê? Será que devemos condenar aos campos de concentração os mestres universitários que você exige? Esse artigo não existe no Código Penal. E não somos
a empresa petrolífera."
Com essas palavras, Berman manda o agente da OGPU fazer o trabalho. "Uma coisa doida", observam os autores. Entretanto, em "um ou dois meses", o homem da OGPU e
seus colegas já se gabam uns para os outros das façanhas que realizaram com seu grupo mambembe de presos. "Tenho um coronel que é o melhor lenhador de todo o campo",
alardeia um deles. "Pois eu tenho um engenheiro militar cavando buracos - antes, havia sido condenado por desfalque", diz outro.
A mensagem é clara: as condições materiais eram difíceis, e o material humano era bruto - mas, embora isto pareça inacreditável, a onisciente e infalível polícia
política conseguiu transformá-los em bons cidadãos soviéticos. Desse modo, os fatos - a tecnologia primitiva, a falta de especialistas competentes - foram empregados
para dar verossimilhança a um retrato da vida nos campos que, de resto, era fantasioso.
Boa parte do livro é gasta com histórias comoventes e quase religiosas de presos que se regeneraram pelo trabalho no canal. Muitos dos assim renascidos eram criminosos,
mas nem todos. Ao contrário do ensaio de Gorki sobre Solovetsky, que negava ou minimizava a presença de presos políticos, Um canal chamado Stalin apresentava alguns
astros da conversão política. Ainda apegado ao "preconceito de casta, o engenheiro Maslov, ex-sabotador", tenta "cobrir com ferro os sombrios e profundos processos
de deturpação da consciência que se reiniciam continuamente em seu íntimo". O engenheiro Zubrik, outro ex-sabotador, mas oriundo da classe trabalhadora, "ganhou
honestamente o direito de retornar ao seio da classe em que nasceu".
O canal não foi de modo algum a única obra literária da época a louvar os poderes reabilitativos dos campos. Uma peça de Nikolai Pogodin, Aristocratas (Aristokraty,
comédia sobre o Canal do Mar Branco), é outro exemplo notável, até porque retoma um tema bolchevique anterior: quanto os ladrões podem ser "adoráveis". Encenada
pela primeira vez em dezembro de 1934, a peça - que viria a tornar-se um filme chamado Prisioneiros - ignora os kulaks e os presos políticos que constituíam o grosso
dos condenados do canal; em vez disso, mostra as alegres travessuras dos bandidos do campo de concentração (os "aristocratas" do título), usando uma forma muito
branda de gíria de meliantes. E verdade que há um ou dois momentos sinistros na peça. Num deles, um criminoso "ganha" uma garota num jogo de cartas, significando
que o perdedor deve capturá-la e obrigá-la a submeter-se ao outro. Na peça, a garota escapa; na vida real, provavelmente não teria tanta sorte.
No final, porém, todos confessam seus crimes anteriores, regeneram-se e começam a trabalhar com entusiasmo. Entoa-se uma canção:
Eu era um bandido cruel, sim,
Eu furtava as pessoas, detestava trabalhar,
Minha vida era negra como a noite.
Mas aí eles me trouxeram para o canal,
E tudo o que passou parece não ter sido mais que um sonho ruim.
É como se eu tivesse renascido.
Quero trabalhar, e viver, e cantar...
Na época, coisas desse gênero eram saudadas como uma forma nova e radical de teatro. Jerzy Gliksman, socialista polonês que assistiu a uma apresentação de Aristocratas
em Moscou em 1935, descreveu a experiência:
Em vez de ficar no lugar de costume, o palco foi construído no centro do edifício, com a platéia sentada em círculo ao redor. O objetivo do diretor foi trazê-la
para mais perto da ação, a fim de vencer a distância entre ator e espectador. Não havia cortinas, e os cenários eram extremamente simples, quase como no teatro elisabetano.
[...] O tema - a vida num campo de trabalho - já empolgava de per si.
Fora dos campos, esse tipo de literatura tinha dupla função. Por um lado, desempenhava um papel na incessante campanha para justificar a uma opinião pública estrangeira
cética o rápido crescimento dos campos prisionais. Por outro, servia provavelmente para acalmar os cidadãos soviéticos, inquietos com a violência da coletivização
e da industrialização, ao prometer-lhes um final feliz: até as vítimas da revolução stalinista teriam a chance de refazer a vida nos campos de trabalho.
A propaganda funcionou. Depois de ter visto Aristocratas, Gliksman pediu para visitar um campo de verdade. Um tanto surpreso, foi logo levado ao "campo-vitrine"
de Bolshevo, não longe de Moscou. Posteriormente, recordaria "boas camas e lençóis brancos, ótimos banheiros, tudo imaculado". Também se encontrou com um grupo de
presos mais jovens que lhe contaram as mesmas histórias edificantes que Pogodin e Gorki. Conheceu um ladrão que no momento estudava para tornar-se engenheiro; e
um desordeiro que se deu conta de que agira mal e agora administrava o almoxarifado. "Como o mundo poderia ser belo!", sussurrou ao ouvido de Gliksman um cineasta
francês. Infelizmente para Gliksman, cinco anos depois ele se viu no chão de um vagão de gado superlotado, em companhia de presos muito diferentes daqueles da peça
de Pogodin, indo para um campo que não tinha nenhuma semelhança com Bolshevo.
Nos campos, uma propaganda semelhante também desempenhava seu papel. Publicações do campo e "jornais murais" - folhas afixadas a quadros de avisos para que os presos
as lessem - continham apenas com ligeiras diferenças de ênfase, o mesmo tipo de história e poema que era apresentado a quem vinha de fora do país. Típico disso era
o jornal Perekovka ("Regeneração"), escrito e produzido pelos presos do Canal Moscou-Volga, projeto iniciado na esteira do "sucesso" do Canal do Mar Branco. Cheio
de elogios aos trabalhadores-padrão e de descrições de seus privilégios ("Eles não precisam ficar em filas, pois garçonetes lhes levam a comida diretamente à mesa!"),
o Perekovka gastava menos tempo que os autores de O canal chamado Stalin cantando loas às vantagens da transformação espiritual, e mais expondo os privilégios tangíveis
que os presos poderiam ganhar se dessem mais duro.
Também não havia tanta empulhação a respeito da superioridade moral da Justiça soviética. A edição de 18 de janeiro de 1933 reproduziu um discurso feito por Lazar
Kogan, um dos chefes do campo:
Não podemos julgar se alguém foi preso justa ou injustamente. Isso é o trabalho do promotor. [...] Vocês têm a obrigação de criar algo de valor para o Estado com
seu trabalho, e nós temos a obrigação de fazer de vocês pessoas de valor para o Estado.
No Perekovka, também era notável a seção de "reclamações", aberta e bastante franca. Os presos escreviam para reclamar das "brigas e palavrões" nos alojamentos femininos,
por um lado, e da "ladainha de hinos religiosos", por outro; das metas impossíveis; da escassez de calçados ou roupas de baixo limpas; do açoitamento desnecessário
dos cavalos; da feira do mercado negro no centro de Dmitrov, a sede do campo; e do mau uso da maquinaria ("não há máquinas ruins, apenas administradores ruins").
Posteriormente, desapareceria esse tipo de franqueza sobre os problemas dos campos, banido para a correspondência privada entre os inspetores dos campos e seus superiores
em Moscou. No início da década de 1930, porém, tal glasnost era bastante comum, tanto fora quanto dentro dos campos. Fazia parte natural do esforço urgente e frenético
para melhorar as condições de vida, melhorar os padrões de trabalho e - acima de tudo - acompanhar as exigências febris da liderança stalinista.
Caminhando hoje pelas margens do Canal do Mar Branco, é difícil imaginar aquela atmosfera quase histérica. Visitei-o num dia pachorrento de agosto de 1999, na companhia
de vários historiadores locais. Em Povenets, paramos rapidamente para olhar o pequeno monumento às vítimas, que traz uma inscrição curta: "Aos inocentes que morreram
na construção do Canal do Mar Branco, 1931-1933". Enquanto estávamos ali, um de meus companheiros insistiu em fumar ritualmente um cigarro Belomor. Explicou que
a marca, antes das mais populares na URSS, fora durante décadas o único outro monumento aos construtores do canal.
Ali perto, ficava uma velha trudposelok (colônia de degredados), agora praticamente vazia. As casas, grandes e outrora sólidas, feitas de madeira ao estilo da Carélia,
tinham as portas e as janelas cobertas por tábuas. Várias dessas residências já começavam a desabar. Um morador, que viera originariamente da Bielo-Rússia (até falava
um pouco de polonês), nos contou que tentara comprar uma delas alguns anos antes, mas que o governo local se recusara a vender. "Agora, está caindo aos pedaços",
disse ele. Numa pequena horta atrás da casa, plantava abóbora, pepino e amora. Ofereceu-nos licor caseiro. Com a horta e a aposentadoria de 550 rublos (na época,
cerca de 22 dólares por mês), disse ter o suficiente para ir vivendo. Naturalmente, não havia trabalho no Canal do Mar Branco.
Não era de espantar: ao longo do canal, meninos nadavam e atiravam pedras. Vacas vadeavam a água escura e rasa, e o mato crescia nas trincas do concreto. Junto a
uma das eclusas, numa cabine de cortinas cor-de-rosa (ainda com as colunas stalinistas originais do lado de fora), a mulher solitária que controlava a subida e a
descida das águas nos contou que, por dia, talvez passassem sete embarcações, quando muito; freqüentemente, eram apenas três ou quatro. Isso era mais do que Soljenitsin
tinha visto em 1966, quando permaneceu um dia inteiro ao lado do canal e contou só duas barcaças, ambas transportando lenha. Então como hoje, a maioria das mercadorias
seguia de trem - e, como um trabalhador do canal contou a Soljenitsin, a hidrovia é tão rasa que "nem submarinos conseguem passar com propulsão própria; têm de ser
carregados em barcaças".
No fim das contas, a rota de navegação do Báltico ao mar Branco parecia não ter sido tão urgentemente necessária.
5. OS CAMPOS SE EXPANDEM
Avançamos, e atrás de nós
Toda a brigada de trabalho caminha alegremente conosco.
A nossa frente, a vitória dos stakhanovistas
Abre um novo caminho...
Pois não conhecemos mais o velho caminho.
De nossas masmorras atendemos ao chamado
Pelo caminho do triunfo stakhanovista.
Ao acreditarmos, caminhamos para uma vida de liberdade...
Do periódico Kuznitsa, impresso no Sazlag, 1936.
Politicamente, o Canal do Mar Branco foi o projeto mais importante do Gulag na época. Graças ao envolvimento pessoal de Stalin, não se pouparam em sua construção
os recursos existentes. Uma propaganda exuberante também garantiu que o término bem-sucedido da obra fosse amplamente alardeado. No entanto, o canal não era representativo
dos novos projetos do Gulag, dos quais não seria nem o primeiro, nem o maior.
De fato, mesmo antes de iniciada a construção do canal, a OGPU já começara em silêncio a implementar o trabalho prisional por todo o país, com muito menos estardalhaço
e propaganda. Em meados de 1930, o sistema Gulag já tinha à disposição 300 mil presos, espalhados por cerca de uma dúzia de complexos de campos e algumas instalações
menores. Puseram-se 15 mil pessoas para trabalhar no Dallag, um novo campo no Extremo Oriente. Mais de 20 mil estavam construindo e operando indústrias químicas
no Vishlag, um campo organizado na sede da divisão Vishersky da Slon, no lado oeste dos montes Urais. No Siblag, no oeste da Sibéria, os detentos construíam as ferrovias
para o norte, faziam tijolos e derrubavam árvores. Os 40 mil presos da Slon, por sua vez, trabalhavam abrindo estradas, cortando madeira para exportação e processando
40% do pescado do mar Branco.
Diferentemente do que ocorrera com o Canal do Mar Branco, esses novos campos não eram para propaganda. Embora decerto tivessem maior importância econômica para a
URSS, nenhuma equipe de redatores foi despachada para descrevê-los. A existência deles não era (ainda) completamente secreta, mas tampouco se fazia publicidade:
as "reais" conquistas do Gulag não eram para consumo externo, nem mesmo para consumo interno.
À medida que os campos se expandiam, a natureza da OGPU também mudava. Assim como antes, a polícia secreta soviética continuava a espionar os inimigos do regime,
interrogar suspeitos de dissidências e desmascarar "complôs" e "conspirações". A partir de 1929, ela também assumiu parte da responsabilidade pelo desenvolvimento
econômico da URSS. Ao longo da década seguinte, seria até uma espécie de colonizadora, não raro organizando a busca e a exploração dos recursos naturais da URSS.
Planejou e equipou expedições geológicas que prospectaram carvão, petróleo, ouro, níquel e outros minerais que jaziam embaixo da tundra congelada nas regiões árticas
e subárticas do extremo norte soviético. Decidia quais das enormes florestas seriam as próximas a ser abatidas e transformadas em valiosas exportações de madeira
bruta. A fim de transportar esses recursos para as principais cidades e centros industriais da URSS, estabeleceu uma vasta rede de conexões rodoviárias e ferroviárias,
criando um sistema rudimentar de transportes através de milhares de quilômetros de áreas selvagens e desabitadas. De quando em quando, seus membros até participavam
desses empreendimentos, marchando pela tundra, trajados com pesados casacos de peles e espessas botas, informando suas descobertas por telegrama a Moscou.
Os presos, assim como seus captores, ganharam novos papéis. Durante toda a primeira metade da década de 1930, embora alguns continuassem a penar atrás do arame farpado,
minerando carvão ou cavando fossas, os condenados também remavam em canoas por rios ao norte do Círculo Ártico, carregavam o equipamento para as pesquisas geológicas
e abriam o chão para novas minas de carvão e poços de petróleo. Em novos campos, erguiam os alojamentos, desenrolavam o arame farpado e levantavam as torres de vigia.
Construíam as refinarias necessárias para o processamento dos recursos naturais, assentavam as estacas para as ferrovias e despejavam o cimento para as estradas.
Acabavam também se estabelecendo nos territórios recém-explorados, povoando os ermos virgens.
Depois, historiadores soviéticos designariam liricamente esse episódio da história de seu país como "o desbravamento do extremo norte, e é verdade que ele de fato
representou uma verdadeira ruptura com o passado. Mesmo nas últimas décadas do governo czarista, quando uma revolução industrial tardia enfim pipocava pela Rússia,
ninguém tentara explorar e povoar com aquela intensidade as regiões do extremo norte. O clima era rigoroso demais; o sofrimento humano potencial, grande demais;
a tecnologia russa, primitiva demais. O regime soviético ligava muito menos para essas preocupações. Embora sua tecnologia não fosse muito melhor, ele tinha pouca
consideração pela vida das pessoas que enviava para fazer o "desbravamento". Se algumas morressem... bem, podiam-se achar outras.
As tragédias eram muitas, sobretudo no início dessa nova época. Há pouco tempo, a veracidade de um episódio particularmente horripilante, que durante muito tempo
fora parte do folclore dos sobreviventes dos campos, viu-se confirmada por um documento encontrado nos arquivos de Novossibirsk. Assinado por um funcionário do Comitê
do Partido em Narym, na Sibéria ocidental, e enviado à atenção pessoal de Stalin em maio de 1933, descreve com precisão a chegada à ilha de Nazino, no rio Ob, de
um grupo de camponeses desterrados, descritos como "elementos retrógrados". Os camponeses eram degredados, e, como tais, esperava-se que se estabelecessem na terra
e, presumivelmente, a lavrassem:
O primeiro comboio trazia 5.070 pessoas, e o segundo, 1.044. Ao todo, 6.114. As condições de transporte eram chocantes: a pouca comida disponível não estava em condições
de consumo, e os deportados ficavam apinhados em espaços nos quais o ar quase não circulava. [...] O resultado foi uma mortalidade diária de 35 a quarenta pessoas.
Contudo, essas condições de vida eram luxuosas se comparadas ao que aguardava os deportados em Nazino. [....] A ilha é um lugar totalmente desabitado, desprovido
de povoações de qualquer tipo. [...] Não havia ferramentas, sementes nem comida. Foi assim que começou a nova vida deles. Em 19 de maio, no dia seguinte à chegada
do primeiro comboio, recomeçou a nevar, e o vento ficou mais forte. Famintos, emaciados após meses de alimentação insuficiente, sem abrigo e sem ferramentas [...],
estavam presos numa armadilha. Nem sequer conseguiam acender fogueiras para espantar o frio. Começaram a morrer em número cada vez maior. [...]
No primeiro dia, enterraram-se 295 pessoas. Foi somente no quarto ou quinto dia depois da chegada do comboio à ilha que as autoridades enviaram de barco um pouco
de farinha, não mais que algumas libras por cabeça. Depois de recebida a mísera ração, as pessoas corriam para a margem e tentavam misturar um pouco da farinha com
água, usando seus chapéus, suas calças ou seus casacos. A maioria simplesmente tentou comê-la assim mesmo, e alguns engasgaram até a morte. Essa minúscula quantidade
de farinha foi a única comida que os deportados receberam durante toda a estada na ilha. [...]
O funcionário do Partido contava que, três meses depois, em 20 de agosto já haviam perecido quase 4 mil dos 6.114 "colonos" originais. Os sobreviventes só não tiveram
o mesmo destino porque comeram a carne dos mortos. Segundo um preso que encontrou alguns desses sobreviventes na prisão de Tomsk, eles pareciam "cadáveres ambulantes",
e todos estavam detidos - acusados de canibalismo.
Mesmo quando a mortandade não era tão horripilante, as condições de vida em muitos daqueles projetos iniciais do Gulag mais conhecidos podiam ser quase tão atrozes.
O Bamlag, um campo organizado para a construção de uma ferrovia do lago Baikal ao rio Amur, no Extremo Oriente russo (parte do sistema da Transiberiana), era exemplo
notável de quanto as coisas podiam dar errado por simples falta de planejamento. Assim como no Canal do Mar Branco, a ferrovia se construiu muito às pressas, sem
nenhum preparativo. Os planejadores do campo fizeram o desbravamento, o projeto e a construção ao mesmo tempo; as obras começaram antes de concluído o levantamento
topográfico. Os desbravadores foram obrigados a elaborar em menos de quatro meses seu relatório sobre aquela rota de 2 mil quilômetros, sem calçados, sem trajes
e sem instrumentos adequados. Os mapas existentes eram precários, e, como resultado, cometeram-se erros dispendiosos. De acordo com um sobrevivente, "dois grupos
de trabalhadores [cada um fazendo o levantamento de um trecho diferente da linha] descobriram que não poderiam encontrar-se e terminar o trabalho, porque os dois
rios ao longo dos quais estavam caminhando só se encontravam nos mapas: na realidade, ficavam longe um do outro".
Tão logo se iniciou o trabalho, comboios começaram a chegar sem intervalo à sede do campo, na cidade de Svobodny, nome que significa "Liberdade". Entre janeiro de
1933 e janeiro de 1936, o número de presos subiu de uns poucos milhares para mais de 180 mil. Muitos já estavam fracos na chegada, descalços e inadequadamente vestidos,
sofrendo de escorbuto, sífilis, disenteria; entre eles, havia sobreviventes das epidemias de fome que tinham varrido a zona rural da URSS no início da década de
1930. O campo estava totalmente despreparado. Os ocupantes de qualquer comboio que chegasse eram postos em alojamentos frios e escuros e recebiam pão coberto de
poeira. Os comandantes do Bamlag não conseguiam enfrentar o caos, conforme reconheciam em relatórios que mandavam a Moscou, e estavam particularmente mal equipados
para lidar com presos debilitados. Como resultado, os demasiado enfermos para trabalhar eram simplesmente alimentados com rações "disciplinares" e deixados para
morrer de inanição. Todos os integrantes de um comboio de 29 pessoas morreram num período de 37 dias após a chegada. Até a conclusão da ferrovia, é bem possível
que tenham morrido dezenas de milhares de presos.
Histórias semelhantes se repetiam por todo o país. Em 1929, no canteiro de obras ferroviárias do Gulag no Sevlag (a nordeste de Arcangel), os engenheiros determinaram
que o número de presos designados para o projeto precisaria ser multiplicado por seis. Entre abril e outubro daquele ano, comboios de cativos começaram a chegar
conforme o combinado - e não encontraram nada. Um preso recordou:
Não existia alojamento nem vila. Havia tendas, ao lado, para os guardas e o equipamento. Não eram muitas pessoas, talvez umas 1.500. Na maioria, camponeses de meia-idade,
antigos kulaks. E criminosos. Não havia ninguém que parecesse ser da intelligentsia.
Mas, embora todos os complexos de campos criados no início da década de 1930 fossem, só para começo de conversa, desorganizados - e todos estivessem despreparados
para receber os presos debilitados que chegavam das áreas assoladas pela fome -, nem todos decaíram no caos assassino. Para alguns, havendo o conjunto certo de circunstâncias
(condições relativamente favoráveis no local, combinadas com apoio forte de Moscou), foi possível crescer. Com rapidez surpreendente, desenvolveram estruturas burocráticas
mais estáveis, construíram edificações mais permanentes e até deram origem a uma elite local da NKVD. Uns poucos acabariam ocupando enormes faixas de território,
transformando regiões inteiras do país em vastas prisões. Dos campos fundados naquela época, dois - a Expedição Ukhtinskaya e o Truste Dalstroi - alcançariam o tamanho
e o status de impérios industriais. Suas origens merecem exame mais detalhado.
A um passageiro desatento, a viagem de automóvel pela estrada de concreto caindo aos pedaços que vai desde Syktyvkar, capital administrativa da República Komi, até
Ukhta, um dos principais centros industriais daquela república, pareceria não oferecer muita coisa de interessante. Essa estrada de duzentos quilômetros, cujo estado
de conservação piora em alguns trechos, atravessa infindáveis pinheirais e banhados. Embora se cruzem alguns rios, a paisagem não é, em geral, digna de nota: trata-se
da taiga, a impressionantemente monótona paisagem subártica pela qual Komi (e de fato todo o norte da Rússia) é mais conhecida.
Ainda que a paisagem não seja espetacular, uma visão mais aproximada revela algumas coisas estranhas. Em certos lugares, caso se saiba para onde olhar, há indentações
no terreno logo à beira da estrada. São os únicos vestígios do campo que outrora acompanhava toda a estrada e dos grupos de presos que a construíram. Já que os canteiros
de obras eram temporários, os presos ficavam abrigados não em alojamentos, mas em zemlyanki, buracos feitos na terra - donde aquelas marcas no chão.
Em outro trecho da estrada, estão os restos de um tipo mais substancial de campo, antes ligado a uma pequena jazida petrolífera. Mato e ervas daninhas cobrem hoje
o local, mas é fácil afastá-los para deixar à mostra tábuas apodrecidas (possivelmente preservadas pelo petróleo que saía das botas dos presos) e pedaços de arame
farpado. Aqui não há nenhum monumento, embora exista um mais adiante na estrada, em Bograzdino, campo de trânsito que chegou a acomodar 25 mil pessoas. Dele não
ficou nenhum vestígio. Em outro ponto ainda à margem da estrada, atrás de um moderno posto de gasolina da Lukoil, uma empresa russa da atualidade, ergue-se uma velha
torre de vigia de madeira, cercada de sucata e pedaços de arame enferrujado.
Prossiga para Ukhta na companhia de alguém que conheça bem a cidade, e assim a história oculta da cidade logo se revelará. Todas as estradas que levam a Ukhta foram
construídas por presos, tal qual todos os prédios de escritórios e de apartamentos da região central. No próprio coração da cidade, há um parque planejado e construído
por arquitetos aprisionados; um teatro onde atores presos se apresentavam; e sólidas casas de madeira onde viveram os comandantes do campo. Hoje, os executivos da
Gazprom (outra nova companhia russa) moram em edifícios modernos na mesma rua arborizada.
Mas Ukhta não é um caso único na República Komi. Embora a principio seja difícil vê-los, indícios do Gulag podem ser achados por toda Komi, essa vasta região de
taiga e tundra que fica a nordeste de São Petersburgo e a oeste dos Urais. Presos planejaram e erigiram todas as principais cidades da república - não apenas Ukhta,
mas também Syktyvkar, Pechora, Vorkuta e Inta. Presos construíram as fer-rovias e estradas de Komi, bem como sua primeira infra-estrutura industrial. Para os condenados
que lá eram enviados nas décadas de 1940 e 50, Komi parecia ser tão-somente um vasto campo de concentração - e era mesmo. Muitas de suas aldeias ainda são chamadas
localmente pelos nomes da era stalinista: "Chinatown", por exemplo, onde se manteve um grupo de presos chineses; ou "Berlim", antes habitada por prisioneiros de
guerra alemães.
As origens dessa vasta república de prisões remontam a uma das primeiras expedições da OGPU, a Ukhtinskaya, que partiu em 1929 para explorar o que era um ermo. Pelos
padrões soviéticos, a Expedição Ukhtinskaya foi relativamente bem preparada. Tinha uma pletora de especialistas, a maioria dos quais já era prisioneira do sistema
Solovetsky: só em 1928, 68 peritos em mineração haviam sido enviados a Slon, vítimas das campanhas daquele ano contra os "destruidores" e "sabotadores" que supostamente
entravavam o esforço de industrialização da URSS.
Em novembro de 1928, numa coincidência misteriosamente feliz, a OGPU também prendeu o destacado geólogo N. Tikhonovich. Depois que o jogaram na prisão moscovita
de Butyrka, não conduziram um interrogatório comum. Em vez disso, o levaram a uma reunião de planejamento. Tikhonovich recordaria que,, sem perder tempo com preâmbulos,
um grupo de oito pessoas (ninguém lhe disse quem eram) lhe perguntou à queima-roupa como preparar uma expedição a Komi. Que indumentária ele levaria se fosse lá?
Quantas provisões? Que ferramentas? Que transporte? Tikhonovich, que estivera pela primeira vez na região em 1900, propôs duas rotas. Os geólogos poderiam ir por
terra, a pé e a cavalo, sobre a lama e as florestas da taiga desabitada, até a aldeia de Syktyvkar, na época a maior da região. Ou poderiam ir de barco, saindo do
porto de Arcangel, no mar Branco, navegando ao longo da costa norte até a foz do Pechora e continuando para o interior pelos afluentes desse rio. Tikhonovich recomendou
a segunda rota, salientando que os barcos poderiam transportar mais equipamento pesado. Seguindo suas recomendações, a expedição seguiu por mar. Tikhonovich, ainda
preso, tornou-se seu geólogo-chefe.
Não se perdeu tempo nem se poupou despesa, pois a liderança soviética considerava a expedição uma prioridade urgente. Em maio, a administração do Gulag em Moscou
nomeou dois chefes de alto escalão da polícia secreta para liderarem o grupo: E. P. Skaya, ex-responsável pela segurança no Instituto Smolny - primeiro quartel-general
de Lênin durante a Revolução - e depois responsável pela segurança no próprio Kremlin; e S. F. Sidorov, o mais importante planejador econômico da OGPU. Quase ao
mesmo tempo, esses líderes selecionaram sua "mão-de-obra": 139 dos detentos mais fortes e saudáveis do campo de trânsito da Slon em Kem, entre eles presos políticos,
kulaks e criminosos. Após mais dois meses de preparativos, estavam prontos. Em 5 de julho de 1929, às sete da manhã, os presos começaram a embarcar equipamento no
Gleb Boky, o vapor da Slon. Zarparam menos de 24 horas depois.
Não é de surpreender que a expedição náutica tenha encontrado muitos obstáculos. Vários dos guardas parecem ter fraquejado, e um até fugiu durante uma escala em
Arcangel. Pequenos grupos de presos também conseguiram escafeder-se em vários pontos ao longo do trajeto. Quando a expedição enfim chegou à foz do Pechora, foi difícil
achar guias locais. Mesmo se fossem pagos, os nativos de Komi não queriam ter nada que ver com os presos nem com a polícia secreta e se negaram a ajudar o vapor
a navegar rio acima. Apesar disso, passadas sete semanas, o navio alcançou seu destino. Em 21 de agosto, a expedição estabeleceu seu acampamento-base na aldeia de
Chibyu - depois rebatizada Ukhta.
Após a extenuante viagem, o estado de espírito geral deve ter sido excepcionalmente sombrio. Eles haviam viajado uma grande distancia - e aonde chegaram? Chibyu
oferecia pouco em matéria de conforto. Um dos presos especialistas, um geógrafo chamado Kulevsky, lembrou sua primeira visão do lugar:
O coração se apertava ao ver a paisagem selvagem e vazia; a torre de vigia absurdamente grande, negra, solitária; as duas miseráveis caba-nas; a taiga; a lama.
Kulevsky teria pouca folga para poder refletir mais. No final de agosto, sopros do outono já estavam no ar. Havia pouco tempo disponível. Tão logo chegaram, os presos
começaram a labutar doze horas por dia, construindo o acampamento e os locais de trabalho. Os geólogos partiram a fim encontrar os melhores lugares para procurar
petróleo. No outono, chegaram mais especialistas. Também chegaram novos comboios de presos, primeiro uma vez por mês e depois uma vez por semana, durante toda a
"temporada" de 1930. Ao final do primeiro ano da expedição, o número de presos aumentara para quase mil.
Apesar do planejamento prévio, as condições naqueles primeiros tempos, tanto para os presos quanto para os degredados, eram horrendas, como o eram em toda a parte.
A maioria tinha de viver em tendas pois não havia barracões. Tampouco havia roupas e botas de inverno suficientes, e a comida estava longe de ser bastante. Chegavam
farinha e carne em quantidades menores do que haviam sido pedidas, e o mesmo acontecia com os remédios. O número de presos doentes e enfraquecidos aumentou, como
reconheceram os líderes da expedição num relatório que enviaram depois. O isolamento não era menos difícil de suportar. Esses novos campos ficavam tão longe da civilização
- tão longe de estradas, para nem falarmos de ferrovias -, que não se usou arame farpado em Komi até 1937. Fugir era considerado inútil.
No entanto, continuavam chegando presos, e expedições suplementares continuavam partindo do acampamento-base em Ukhta. Se tivesse sucesso, cada uma delas fundava,
por sua vez, outro acampamento-base (lagpunkt), às vezes em lugares que eram bastante remotos, a vários dias ou semanas de caminhada de Ukhta. A partir dali, estabeleciam-se
novos subcampos, para construir estradas ou fazendas coletivas que atendessem às necessidades dos presos. Dessa forma, os campos se espalharam com rapidez, como
erva daninha, pelas florestas vazias de Komi.
Algumas das expedições se mostraram apenas temporárias. Foi esse o destino de uma das primeiras, que, no verão de 1930, partiu de Ukhta para a ilha de Vaigach, no
oceano Ártico. Expedições geológicas anteriores já haviam encontrado depósitos de chumbo e zinco na ilha, embora a Expedição Vaigach, como viria a ser conhecida,
também estivesse bem suprida de presos-geólogos. Alguns destes tiveram desempenho tão exemplar que a OGPU os recompensou: receberam permissão para trazer as esposas
e filhos para ficar com eles em Vaigach. O lugar era tão remoto que os comandantes do campo pareciam não se preocupar com fugas e permitiam que os presos andassem
por onde quisessem, na companhia de outros condenados ou de trabalhadores livres, sem necessidade de permissões ou passes especiais. A fim de encorajar o "trabalho-padrão
no Ártico", Matvei Berman, então o chefe do Gulag, concedeu aos presos de Vaigach dois dias comutados das penas para cada dia de trabalho. Em 1934, porém, a mina
se encheu de água, e no ano seguinte a OGPU retirou da ilha os presos e o equipamento.
Outras expedições se revelariam mais permanentes. Em 1931, um grupo de 23 partiu de Ukhta para o norte, pelos rios do interior, a fim de iniciar as escavações numa
enorme jazida de carvão - a bacia carbonífera de Vorkuta -, que, no ano anterior, fora descoberta na tundra ártica do norte de Komi. Como em todas essas expedições,
os geólogos mostraram o caminho, os presos tripularam os barcos, e um pequeno contingente da OGPU comandou a operação, remando e marchando através dos enxames de
insetos que habitam a tundra nos meses de verão Passaram as primeiras noites em campo aberto; depois, de algum modo montaram acampamento, sobreviveram ao inverno
e construíram, na primavera seguinte, uma minara Rudnik 1.
Ukhtpechlag, República Komi, 1937
A rota da Expedição Ukhtinskaya, República Komi, 1929
Usando picaretas, pás e carroças de madeira, sem nenhum equipamento mecanizado, os presos começaram a extrair carvão. Em apenas seis anos, a Rudnik 1 cresceria até
se tornar a cidade de Vorkuta e a sede do Vorkutlag, um dos maiores e mais duros campos de todo o sistema Gulag. Em 1938, o Vorkutlag já contava 15 mil presos e
produzira 188.206 toneladas de carvão.
Em termos estritos, nem todos os novos habitantes de Komi eram presos. A partir de 1929, as autoridades também começaram a enviar "degredados especiais" para a região.
De início, eram quase todos kulaks, que chegavam com as mulheres e filhos, e esperava-se que começassem a viver da terra. O próprio Yagoda declarara que se deveria
conceder aos degredados "tempo livre" para que cultivassem hortas, criassem porcos, pescassem e construíssem suas casas: "De início, viverão das rações de nosso
campo; depois, à própria custa". Na realidade, embora tudo isso pareça bem róseo, quase 5 mil dessas famílias de degredados (mais de 16 mil pessoas) chegaram em
1930 e, como de hábito, não encontraram quase nada. Até novembro daquele ano, construíram-se 268 barracões, quando pelo menos setecentos teriam sido necessários.
Três ou quatro famílias dividiam cada cômodo. Não havia quantidade suficiente nem de comida, nem de roupas, nem de botas de inverno. As aldeias dos degredados não
tinham banhos, estradas, serviços postais nem cabos telefônicos.
Embora alguns tenham morrido e muitos outros tenham tentado fugir (344 já no final de julho), os degredados de Komi se tornaram extensão permanente do sistema de
campos da região. Posteriormente, ondas repressivas levaram mais deles para lá, em especial poloneses e alemães. Donde as referências locais a algumas das aldeias
de Komi como "Berlim". Os degredados não viviam cercados pelo arame farpado, mas tinham as mesmas tarefas que os presos, às vezes nos mesmos lugares. Em 1940, um
campo madeireiro foi transformado em aldeia de degredo - prova de que, de certa maneira, os dois grupos eram intercambiáveis. Muitos degredados também acabariam
trabalhando como guardas ou administradores dos campos.
Com o tempo, esse crescimento geográfico se refletiria na nomenclatura dos campos. Em 1931, a Expedição Ukhtinskaya foi rebatizada Campo de Trabalho Correcional
Ukhto-Pechorsky, ou Ukhtpechlag. Ao longo das duas décadas subseqüentes, o próprio Ukhtpechlag seria rebatizado (e reorganizado e dividido) muitas vezes mais, para
refletir sua geografia mutável e seu império e burocracia crescentes. Aliás, no final da década, o Ukhtpechlag não seria mais um mero campo prisional. Ele dera origem
a toda uma rede de campos, duas dúzias ao todo, incluindo o Ukhtpechlag e o Ukhtizhemlag (petróleo e carvão), o Ustvymlag (madeira), Vorkuta e Inta (mineração de
carvão) e o Sevzheldorlag (ferrovia).
No decorrer dos anos seguintes, o Ukhtpechlag e seus descendentes também se tornaram mais densos, adquirindo novas instituições e novos edifícios de acordo com suas
necessidades sempre maiores. Precisando de hospitais, os administradores dos campos os construíam e ainda implantavam sistemas para treinar presos como farmacêuticos
e enfermeiros. Precisando de comida, estabeleciam suas fazendas coletivas, seus armazéns e seus sistemas de distribuição. Precisando de eletricidade, instalavam
usinas de força. Precisando de material de construção, criavam olarias.
Precisando de trabalhadores qualificados, treinaram os que tinham. Boa parte da mão-de-obra que fora kulak era analfabeta ou semi-alfabetizada, o que acarretava
enormes problemas quando se lidava com projetos de relativa complexidade técnica. Assim, a administração montou escolas técnicas, que por sua vez exigiam novos edifícios
e novos quadros: professores de matemática e física, bem como "instrutores políticos" para supervisionar o trabalho desses docentes. Na década de 1940, Vorkuta
- uma cidade construída sobre o permafrost, onde todo ano as estradas tinham que ser repavimentadas e as tubulações, consertadas - já ganhara um instituto geológico,
uma universidade, teatros e cinemas, teatros de marionetes, piscinas e creches.
No entanto, se a expansão do Ukhtpechlag não era muito divulgada, tampouco se fazia a esmo. Sem dúvida, os comandantes do campo desejavam que o projeto crescesse,
e seu prestígio pessoal junto com ele. A necessidade premente, e não o planejamento central levava à criação de muitos novos departamentos no campo. Mas havia clara
simbiose entre as necessidades do governo soviético (um lugar onde despejar seus inimigos) e as necessidades da região (mais gente para cortar árvores). Em 1930,
por exemplo, quando Moscou escreveu oferecendo-se para enviar colonos degredados, os líderes locais adoraram. O destino do campo também foi discutido nos escalões
mais altos. Vale a pena observar que, em novembro de 1932, o Politburo (com Stalin presente) dedicou a maior parte de uma sessão a discutir o estado corrente e os
planos futuros para o Ukhtpechlag, debatendo com surpreendente minúcia as perspectivas e o abastecimento do campo. A julgar pela ata da sessão, parece que o Politburo
tomava todas as decisões, ou pelo menos aprovava tudo o que fosse de alguma importância: quais minas o campo devia explorar, quais ferrovias devia construir, de
quantos tratores, carros e barcos precisava, quantas famílias de degredados conseguia absorver. O Politburo também alocou recursos para construir o campo: mais de
26 milhões de rublos.
Não pode ter sido por acaso que, nos três anos após essa decisão, o número de presos tenha quase quadruplicado, dos 4.797 de meados de 1930 para os 17.852 de meados
de 1933. No primeiríssimo escalão da hierarquia soviética, alguém queria muito que o Ukhtpechlag crescesse. Considerando o poder e o prestígio desse alguém, só
podia tratar-se do próprio Stalin.
Da mesma maneira que, na memória popular, Auschwitz se tornou o campo que simboliza todos os outros campos nazistas, a palavra "Kolyma" veio a significar as mais
severas agruras do Gulag. Um historiador escreveu: "Kolyma é um rio, uma cadeia de montanhas, uma região e uma metáfora". Rica em minerais (e sobretudo rica em
ouro), a vasta região de Kolyma, no extremo nordeste da Sibéria, junto ao Pacífico, é provavelmente a mais inóspita da Rússia. Kolyma é mais fria que Komi (no inverno,
as temperaturas regularmente caem abaixo de 49 graus Celsius negativos, o que a torna ainda mais remota). Para chegarem aos campos de Kolyma, os presos percorriam
de trem toda a extensão da URSS (às vezes, a viagem durava três meses), até Vladivostok. O resto do trajeto se fazia de barco, seguindo para o norte ao largo do
Japão, atravessando o mar de Okhotsk e aportando em Magadan, porta de entrada para o vale do rio Kolyma.
O primeiro comandante de Kolyma foi uma das figuras mais exuberantes da história do Gulag. Eduard Berzin, um velho bolchevique, comandara a Primeira Divisão de Fuzileiros
Letões, que guardava o Kremlin em 1918. Depois, ajudara a esmagar os social-revolucionários (opositores socialistas de Lênin) e a desmascarar o "complô britânico"
de Bruce Lockhart. Em 1926, Stalin incumbiu Berzin de organizar o Vishlag, um dos primeiros campos em larga escala. Ele desempenhou sua tarefa com enorme entusiasmo,
inspirando um historiador do Vishlag a falar de seu reinado ali como o auge do "período romântico" do Gulag.
A OGPU construiu o Vishlag ao mesmo tempo que o Canal do Mar Branco, e Berzin parece ter aprovado totalmente as idéias de Gorki sobre a reabilitação de presos (ou
pelo menos ter-lhes dado entusiástico apoio da boca para fora). Resplandecente de boa vontade paternalista, Berzin oferecia a seus presos cinemas, clubes de debates,
bibliotecas e refeitórios "ao estilo restaurante". Plantou jardins, inclusive com chafarizes e um pequeno zoológico. Também pagava salários regulares aos presos
e implementava a mesma política de "soltura antecipada por bom trabalho" que fora adotada pelos comandantes do Canal do Mar Branco. Nem todos aproveitavam esses
benefícios: os presos que fossem considerados trabalhadores medíocres, ou que simplesmente não tivessem sorte, podiam ser enviados para um dos muitos lagpunkts madeireiros
do Vishlag na taiga, onde as condições eram ruins, as taxas de mortalidade se mostravam mais altas e presos acabavam torturados e até assassinados sem alarde.
Ainda assim, pelo menos a intenção de Berzin era que seu campo parecesse uma instituição honrada. À primeira vista, tudo isso o tornava uma escolha estranha para
tornar-se o primeiro chefe da Administração de Construção do Extremo Norte (Dalstroi), o "traste", ou pseudo-sociedade anônima, que desenvolveria a região de Kolyma,
pois não havia nada de especialmente romântico nem idealista na fundação da Dalstroi. O interesse de Stalin na região datava de 1926, quando mandou um engenheiro
aos Estados Unidos para estudar técnicas de mineração. Depois, entre 20 de agosto de 1931 e 16 de março de 1932, o Politburo discutiu a geologia e a geografia de
Kolyma nada menos que onze vezes - com a freqüente participação de Stalin nas discussões. Assim como as deliberações da Comissão Yanson quando se organizara o Gulag,
o Politburo conduziu esses debates, nas palavras do historiador David Nordlander, "não com a retórica idealista da construção do socialismo, e sim com a linguagem
prática da prioridade e do retorno financeiros". Stalin dedicou sua correspondência posterior com Berzin a discutir a produtividade prisional, as cotas e a produção,
nunca mencionando os ideais de reabilitação dos detentos.
Kolyma, 1937
Por outro lado, o talento de Berzin para criar uma imagem pública auspiciosa pode ter sido exatamente o que a liderança soviética queria pois, embora a Dalstroi
viesse a ser diretamente absorvida pela administração do Gulag, no início o truste sempre era mencionado, em público, como entidade distinta, uma espécie de conglomerado
comercial, que nada tinha que ver com o Gulag. Sem alarde, as autoridades fundaram o Sewostlag, um campo do Gulag que "alugava" condenados para o Truste Dalstroi.
Na prática, as duas instituições nunca concorreram entre si. O chefe da Dalstroi era também o chefe do Sewostlag, e ninguém tinha dúvidas quanto a isso. No papel,
porém, mantinham-se separados; e, em público, pareciam ser entidades diferentes.
Havia certa lógica nesse arranjo. Para começo de conversa, a Dalstroi precisava atrair voluntários, em especial engenheiros e mulheres casadouras - sempre havia
escassez de uma e outra coisa em Kolyma -, e Berzin promoveu muitas campanhas de recrutamento, tentando convencer "trabalhadores livres" a emigrarem para a região
e até montando escritórios em Moscou, Leningrado, Odessa, Rostov e Novossibirsk. Essa talvez já fosse razão suficiente para Stalin e Berzin terem desejado evitar
uma identificação muito próxima de Kolyma com o Gulag, temendo que a ligação pudesse afugentar potenciais recrutas. Embora disto não haja nenhuma prova direta, tais
maquinações podem também se ter destinado a consumo externo. Assim como a madeira soviética, o ouro de Kolyma seria vendido direto ao Ocidente, em troca de tecnologia
e máquinas de que se necessitava desesperadamente. Trata-se de uma circunstância que pode ajudar a explicar por que a liderança soviética queria fazer que as minas
de ouro de Kolyma parecessem, tanto quanto possível, um empreendimento econômico "normal". Um boicote ao ouro teria sido muito mais danoso do que um boicote à madeira.
Em todo o caso, o envolvimento pessoal de Stalin com Kolyma foi bastante intenso desde o início. Em 1932, ele chegou a exigir relatórios diários sobre a produção
de ouro; e, como já observamos, interessava-se pessoalmente pelos detalhes dos projetos de exploração (e do cumprimento de cotas) da Dalstroi. Mandava inspetores
para fiscalizar os campos e exigia que os líderes da Dalstroi viajassem com fre-qúencia para Moscou. Quando o Politburo alocava fundos ao truste, Stalin também dava
instruções precisas de como gastá-los, tal como fazia com o Ukhtpechlag.
No entanto, a "independência" da Dalstroi não era de todo fictícia. Embora se reportasse a Stalin, Berzin também conseguiu deixar sua marca em Kolyma, tanto que
a "era Berzin" seria depois lembrada com alguma nostalgia. Ele parece ter compreendido sua missão de maneira muito simples: tinha por tarefa fazer os presos extraírem
tanto ouro quanto possível. Não estava interessádo em matá-los de inanição assassiná-los nem puni-los - só os números da produção importavam Portanto, sob a administração
do primeiro chefe da Dalstroi, as condições não eram nem de longe tão duras quanto viriam a tornar-se, e os presos não passavam tanta fome. Em parte como resultado
disso, a produção aurífera de Kolyma aumentou oito vezes nos primeiros dois anos de operação da Dalstroi.
E verdade que os primeiros anos foram repletos do mesmo caos e da mesma desorganização que predominavam em outros lugares. Em 1932, estavam trabalhando na região
quase 10 mil presos - dentre eles, o grupo de engenheiros e especialistas cujas qualificações combinavam tão maravilhosamente com a tarefa -, junto com mais de 3
mil voluntários, ou "trabalhadores livres" (trabalhadores do campo que não eram presos). Esses números elevados se faziam acompanhar de elevada taxa de mortalidade.
Dos 16 mil presos que viajaram para Kolyma no primeiro ano de Berzin, apenas 9.928 chegaram vivos a Magadan. O resto foi atirado, com roupas e proteção insuficientes,
às tempestades de inverno: os sobreviventes do primeiro ano afirmariam que só metade do contingente original não perecera.
Entretanto, assim que passou o caos inicial, a situação de fato melhorou aos poucos. Berzin trabalhou duro para amenizar as condições, ao que parece acreditando,
não sem razão, que os presos precisavam estar aquecidos e bem alimentados para extrair grandes quantidades de ouro. Como resultado, Thomas Sgovio, um sobrevivente
americano de Kolyma, escreveu que os "veteranos" do campo falavam com entusiasmo do reinado de Berzin:
quando a temperatura caía abaixo de quinze graus negativos, não eram mandados ao trabalho. Tinham três dias de descanso por mês. A comida era adequada e nutritiva.
Os zeks [presos] recebiam roupas quentes: gorros de pele e botas de feltro.
Variam Shalamov, outro sobrevivente - cujos Contos de Kolyma são dos mais amargos de toda a literatura dos campos -, também escreveu sobre o período Berzin como
época
de excelente comida; uma jornada de trabalho de quatro a seis horas no inverno e dez no verão; e salários colossais para os condenados, o que lhes possibilitava
retornar para casa como homens de posses quando as penas terminavam. [...] Os cemitérios que datam daquela época são tão poucos que os primeiros moradores de Kolyma
pareciam imortais àqueles que vieram posteriormente.
Se as condições de vida eram melhores do que seriam depois, o comando do campo também tratava com mais humanidade os presos. Na época, não era nítida a linha que
separava dos prisioneiros os trabalhadores livres voluntários. Os dois grupos se associavam normalmente; às vezes se permitia que os presos mudassem dos barracões
para morar nas vilas dos trabalhadores livres; e os detentos podiam ser promovidos a guardas armados, assim como a geólogos e engenheiros. Mariya Ioffe, degredada
em Kolyma em meados da década de 1930, obteve permissão para ter livros e papel; e lembrou que as famílias de degredados, na maioria, estavam autorizadas a ficar
juntas.
Os presos também podiam participar, até certo ponto, dos acontecimentos políticos de seu tempo. Assim como no Canal do Mar Branco, Kolyma promovia seus próprios
trabalhadores-padrão e stakhanovistas. Um preso chegou a tornar-se o "instrutor de métodos stakhanovistas de trabalho" da Dalstroi, e os condenados que tivessem
bom desempenho recebiam um pequeno distintivo, de "trabalhadores-padrão de Kolyma".
Da mesma maneira que no Ukhtpechlag, a infra-estrutura de Kolyma logo ficou mais sofisticada. Nos anos 1930, os presos construíram não apenas as minas, mas também
as docas e os quebra-mares do porto de Magadan, bem como a única estrada importante da região, a rodovia de Kolyma, que vai de Magadan para o norte. A maioria dos
lagpunkts do Sewostlag se localizava ao longo dessa estrada e, aliás, era comumente batizada de acordo com a distância de Magadan ("Campo do Quilômetro 47", por
exemplo). Os presos também construíram a própria Magadan, que tinha 15 mil habitantes em 1936 e continuaria a crescer. Ao voltar à cidade em 1947, depois de sete
anos servidos nos campos mais remotos, Evgeniya Ginzburg conta ter "quase desmaiado de surpresa e admiração" com a rapidez do crescimento de Magadan. "Só algumas
semanas depois percebi que se contavam nos dedos os edifícios grandes. Naquele primeiro momento, foi mesmo uma grande metrópole para mim."
Aliás, Evgeniya foi uma das poucas prisioneiras que perceberam um paradoxo curioso. Era estranho, mas verdadeiro: em Kolyma, assim como em Komi, o Gulag estava lentamente
trazendo para os ermos remotos a "civilização" (se assim podemos chamá-la). Abriam-se estradas onde houvera apenas florestas; construíam-se casas nos pântanos As
populações nativas iam sendo afastadas a fim de abrir caminho para cidades, fábricas e ferrovias. Anos depois, uma mulher cujo pai fora o cozinheiro de um distante
posto do Lokchimlag, um dos campos madeireiros de Komi, recordou para mim como era a vida ali quando o campo ainda funcionava: "Ah, tínhamos um depósito inteiro
cheio de hortaliças, mais campos repletos de abóboras - não era tudo estéril como hoje". Ela agitava o braço, desgostosa, na direção do minúsculo vilarejo que agora
ocupava o lugar e das antigas celas punitivas, ainda habitadas. "Também havia luz elétrica de verdade, e os chefes entravam e saíam em seus carrões quase todos os
dias."
Evgeniya Ginzburg fez, de modo mais eloqüente, a mesma observação:
Como é estranho o coração dos homens! Minha alma inteira amaldiçoava aqueles que haviam pensado na idéia de construir uma cidade nesse permafrost, descongelando
o chão com o sangue e as lágrimas de inocentes. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha consciência de uma espécie de orgulho ridículo... Como a nossa Magadan crescera e ficara
bonita durante minha ausência de sete anos! Estava irreconhecível. Eu admirava cada poste de luz, cada trecho de asfalto, até o cartaz que anunciava que a Casa da
Cultura estava apresentando a opereta A princesa dos dólares. Damos valor a todos os fragmentos de nossa vida, até aos mais amargos.
Em 1934, a expansão do Gulag em Kolyma, em Komi, na Sibéria, no Cazaquistão e em todas as outras partes da URSS seguira o mesmo padrão que em Solovetsky. Nos primeiros
dias, a negligência, o caos e a desordem causavam muitas mortes desnecessárias. Mesmo sem sadismo ostensivo, a crueldade irrefletida dos guardas, que tratavam seus
presos como animais domésticos, causou muito sofrimento.
Apesar disso, com o passar do tempo, o sistema parecia entrar precariamente nos eixos. As taxas de mortalidade, tendo atingido o ápice em 1933, caíam à medida que
a fome recuava pelo país e o Gulag se tornava mais organizado. Em 1934, segundo as estatísticas oficiais, elas giravam em torno de 4%. O Ukhtpechlag estava produzindo
petróleo; Kolyma, ouro; os campos da região de Arcangel, madeira. Abriam-se estradas através da Sibéria. Erros e acidentes não faltavam, mas isso valia para qualquer
lugar da URSS. A rapidez da industrialização, a falta de planejamento e a escassez de especialistas bem treinados tornavam inevitáveis os acidentes e os gastos excessivos,
como bem deviam saber os encarregados dos grandes projetos.
Apesar dos reveses, a OGPU depressa se tornava um dos agentes econômicos mais importantes do país. Em 1934, o Dmitlag, o campo que construiu o canal Moscou-Volga,
utilizava quase 200 mil presos, mais do que se empregara no Canal do Mar Branco. O Siblag também crescera, contando com 63 mil presos em 1934; e o Dallag mais do
que triplicara seus efetivos nos quatro anos desde a fundação, tendo 50 mil presos em 1934. Outros campos haviam sido fundados por toda a URSS: no Sazlag, no Uzbequistão,
onde os presos trabalhavam em fazendas coletivas; no Svirlag, perto de Leningrado, onde eles derrubavam árvores e preparavam produtos de madeira para a cidade; e
no Karlag, no Cazaquistão, que empregava presos como agricultores, operários e até pescadores.
Foi também em 1934 que se reorganizou e se rebatizou a OGPU, em parte para refletir o novo status e as responsabilidades ampliadas da organização. Naquele ano, a
polícia secreta se tornou oficialmente o Comissariado do Povo Para Assuntos Internos, passando a ser conhecida por outra sigla: NKVD. Sob a nova denominação, controlava
agora o destino de mais de 1 milhão de presos. Mas a calma relativa não duraria. O sistema estava prestes a virar a si mesmo pelo avesso, abruptamente, numa revolução
que destruiria tanto senhores quanto escravos.
6. O GRANDE TERROR E O PERÍODO SUBSEQÜENTE
Foi um tempo em que só os mortos
Conseguiam sorrir, livres de suas agruras,
E o lamento, a alma de Leningrado,
Pendia do lado de fora de sua prisão;
E os regimentos dos condenados,
Tocados como gado nos pátios das estações,
Encolhiam-se com o apito da locomotiva,
Que cantava: "Fora, párias!"
A estrela da morte pairava sobre nós.
E a Rússia, inocente, adorada, retorcida
Sob botas manchadas de sangue,
Sob as rodas de camburões.
Anna Akhmatova, Réquiem 1935-1940.
Em termos objetivos, os anos de 1937 e 1938 - que seriam lembrados como o Grande Terror - não foram os de maior mortalidade na história dos campos de concentração,
nem marcaram a maior expansão deles: os números de presos seriam muito maiores na década seguinte e atingiriam o máximo em 1952, muito depois do período que geralmente
se recorda. Embora as estatísticas disponíveis sejam incompletas, ainda fica claro que as taxas de mortalidade nos campos foram maiores tanto no auge da fome na
zona rural (1932 e 1933) como no pior momento da Segunda Guerra Mundial (1942 e 1943), quando o número total de pessoas mandadas para campos de trabalhos forçados,
prisões e campos de prisioneiros de guerra girou em torno de 4 milhões.
Gomo foco de interesse histórico, pode-se também argumentar que a importância de 1937 e 1938 foi exagerada. Até Soljenitsin reclamou que aqueles que condenaram os
abusos do stalinismo "insistem em apegar-se a 37 e 38, aqueles anos que estão entalados em nossas gargantas"; e, de certa forma, o escritor tem razão. Afinal, o
Grande Terror seguiu-se a duas décadas de repressão. Desde 1918, ocorriam regularmente prisões e deportações em massa, primeiro de políticos oposicionistas, no início
dos anos 20, e depois de kulaks, no início dos anos 30 Todos esses episódios de prisões em massa se fizeram acompanhar da captura regular dos responsáveis pela "desordem
social".
Ao Grande Terror também se seguiram ainda mais prisões e deportações: de poloneses, ucranianos e baltas dos territórios invadidos em 1939; de "traidores" do Exército
Vermelho capturados pelo inimigo; de pessoas comuns que ficaram do lado errado da frente de combate após a invasão nazista, em 1941. Depois, em 1948, haveria novas
prisões de antigos presos; e ainda depois, imediatamente antes da morte de Stalin, prisões em massa de judeus. Por isso, embora as vítimas de 1937 e 1938 talvez
fossem mais conhecidas, e embora jamais se repetisse nada tão espetacular quanto os julgamentos públicos daqueles anos, as prisões do Grande Terror seriam mais bem
descritas não como o auge da repressão, e sim como uma das ondas de repressão mais incomuns que varreram p país durante o reinado de Stalin: ela afetou mais a elite
- velhos bolcheviques, membros destacados do Exército e do Partido -; e, no geral, abrangeu maior variedade de pessoas e resultou em um número de execuções mais
alto que o costumeiro.
Mas, na história do Gulag, 1937 foi mesmo um divisor de águas. Naquele ano, os campos soviéticos se transformaram temporariamente de prisões administradas com negligência,
onde as pessoas morriam por acidente, em autênticos campos de extermínio - onde, de caso pensado, presos eram obrigados a trabalhar até a morte ou acabavam de fato
assassinados, em números muito maiores que antes. Embora essa mudança estivesse longe de ser sistemática, e embora em 1939 a natureza propositalmente mortífera dos
campos tenha amainado de novo - até a morte de Stalin, em 1953, as taxas de mortalidade cairiam e subiriam conforme o vaivém bélico e ideológico -, o Grande Terror
deixou sua marca na mentalidade tanto dos guardas quanto dos presos.
Assim como o resto do país, os habitantes do Gulag devem ter visto os primeiros sinais que os alertavam do terror vindouro. Após o ainda misterioso assassínio de
Sergei Kirov, o popular líder do Partido em Leningrado, em dezembro de 1934, Stalin forçou uma série de decretos que davam à NKVD poderes ainda maiores para prender,
julgar e executar "inimigos do povo". Em poucas semanas, dois importantes bolcheviques, Kamenev e Zinoviev, ambos antigos opositores de Stalin, já haviam se tornado
vítimas dos decretos: foram presos, junto com milhares de seus seguidores e supostos seguidores, muitos deles de Leningrado. Seguiram-se expulsões em massa do Partido
Comunista, embora de início elas não tenham sido muito mais amplas que as já ocorridas naquela década.
Aos poucos, o expurgo ficou mais sangrento. Durante toda a primavera e o verão de 1936, os interrogadores de Stalin trabalharam em Kamenev, em Zinoviev e num grupo
de ex-admiradores de Leon Trotski, preparando-os para "confessar" seus crimes num grande julgamento público, que ocorreu logo na seqüência, em agosto. Todos foram
depois executados, junto com muitos parentes. Em seguida, ocorreram outros julgamentos de bolcheviques proeminentes, dentre eles o carismático Nikolai Bukharin.
Suas famílias também sofreram.
A mania de prisões e execuções se espalhou pela hierarquia do Partido abaixo e por toda a sociedade. Era promovida de cima, por Stalin, que a utilizava para eliminar
seus inimigos, criar uma nova classe de líderes leais, aterrorizar a população soviética - e encher os campos de concentração. A partir de 1937, assinou ordens que
foram enviadas aos chefes regionais da NKVD, listando cotas de indivíduos que deveriam ser presos em determinadas áreas - não se deu nenhum motivo para as detenções.
Alguns deveriam ser condenados à "primeira categoria" punitiva (a morte) e outros à "segunda categoria" - o confinamento em campos de concentração por períodos que
variavam de oito a dez anos. Nessa última, os elementos mais "nocivos" deveriam ser colocados em prisões políticas especiais, sendo de supor que para impedi-los
de contaminar outros presos nos campos. Alguns estudiosos especulam que a NKVD, ao determinar cotas para diferentes partes do país, o fazia de acordo com sua percepção
de quais regiões tinham maior concentração de "inimigos". Mas, por outro lado, pode não ter havido nenhuma relação entre uma coisa e outra.
Ler essas ordens se assemelha muito a ler as ordens de um burocrata que elaborasse a última versão do Plano Qüinqüenal. Aqui está, por exemplo, uma datada de 30
de julho de 1937:
REPÚBLICA PRIMEIRA CATEGORIA SEGUNDA CATEGORIA TOTAL
Armênia 500 1.000 1.500
Azerbaijão 1.500 3.750 5.250
Basquíria 500 1.500 2.000
Bielo-Rússia 2.000 10.000 12.000
Buriato-Mongólia 350 1.500 1.850
Calmúquia 100 300 400
Carélia 300 700 1.000
Criméia 300 1.200 1.500
Daguestão 500 2.500 3.000
Geórgia 2.000 3.000 5.000
Kabardino-Balkar 300 700 1.000
Komi 100 300 400
Mari 300 1.500 1.800
Quirguízia 250 500 750
Tadjiquistão 500 1.300 1.800
Turcomenistão 500 1.500 2.000
Uzbequistão 750 4.000 4.750
Etc.
Fica claro que o expurgo não foi de forma alguma espontâneo: já se haviam até preparado novos campos para mais presos. O expurgo tampouco enfrentou muita resistência:
a administração da NKVD em Moscou esperava que seus subordinados nas províncias demonstrassem entusiasmo, e eles o fizeram. Em setembro de 1937, por exemplo, a NKVD
da Armênia pediu a Moscou: "Solicitamos permissão para fuzilar mais setecentos membros dos bandos do Dashnak e outros elementos anti-soviéticos". Stalin deferiu
pessoalmente um pedido semelhante: "Elevo para 6.600 o número de presos da primeira categoria na região de Krasnoyarsk". Muitas outras solicitações do mesmo tipo
foram assinadas por Stalin ou por Molotov. Em fevereiro de 1938, numa sessão do Politburo, concedeu-se permissão à NKVD da Ucrânia para prender mais 30 mil "kulaks
e outros elementos anti-soviéticos".
Parte da opinião pública soviética aprovou as novas detenções: a súbita revelação da existência de uma quantidade enorme de "inimigos , muitos deles nos escalões
mais altos do Partido, certamente explicava por que a URSS - apesar da Grande Guinada, apesar da coletivização, apesar do Plano Qüinqüenal - ainda era tão pobre
e atrasada. A maioria das pessoas, porém, ficou demasiado aterrorizada e confusa com o espetáculo de revolucionários famosos que confessavam, e de vizinhos que desapareciam
de noite, para expressar alguma opinião sobre o que acontecia.
No Gulag, o expurgo deixou suas marcas primeiro nos comandantes dos campos - ao eliminar muitos deles. Se em todo o resto do país o ano de 1937 seria lembrado como
aquele em que a Revolução devorou seus filhos, nos campos de concentração ele seria lembrado como aquele em que o Gulag consumiu seus fundadores, começando bem pelo
alto: Genrikh Yagoda, o chefe da polícia secreta que tinha a maior responsabilidade pela expansão do sistema, foi julgado e fuzilado em 1938, após ter implorado
pela vida numa carta ao Soviete Supremo. "É difícil morrer", escreveu o homem que mandara tantos outros para a morte. "Ajoelho-me perante o Povo e o Partido e peço-lhes
que me perdoem, que salvem minha vida."
Seu substituto, o diminuto Nikolai Yezhov (tinha só 1,52 metro), começou de imediato a livrar-se dos amigos e subordinados de Yagoda na NKVD. Também golpeou a família
de Yagoda - assim como golpearia as de outros -, prendendo-lhe a mulher e os pais, mais irmãs, sobrinhos e sobrinhas. Uma dessas últimas lembrou a reação da avó,
mãe de Yagoda, no dia em que ela e toda a família foram mandadas para o exílio:
"Se pelo menos Gena [Yagoda] pudesse ver o que estão fazendo conosco", alguém disse baixinho.
De repente, vovó, que nunca levantava a voz, virou-se para o apartamento vazio e gritou bem alto: "Malditos sejam!" Atravessou a porta de entrada e a bateu com força.
O som reverberou na escadaria, como o eco daquela maldição de mãe.
Muitos dos chefes e administradores, preparados e promovidos por Yagoda, tiveram o mesmo destino. Junto com centenas de milhares de outros cidadãos soviéticos, foram
acusados de grandes conspirações, aprisionados e interrogados em processos complexos, que podiam envolver centenas de pessoas. Um dos mais importantes foi o de Matvei
Berman, chefe do Gulag de 1932 a 1937. Seus anos de serviço ao Partido (ele se filiara em 1917) não lhe adiantaram de nada. Em dezembro de 1938, a NKVD acusou Berman
de ter liderado uma "organização direitista e trotskista de terrorismo e sabotagem", a qual criara "condições privilegiadas" para presos nos campos, enfraquecera
de propósito a "prontidão militar e política" dos guardas (donde o grande número de fugas) e sabotara os projetos de construção do Gulag (donde o lento progresso
deste).
Berman não caiu sozinho. Por toda a URSS, descobriu-se que comandantes e altos administradores dos campos do Gulag pertenciam à mesma "organização direitista e trotskista",
e eles foram condenados de um só golpe. Os autos de seus processos são um tanto surreais: era como se todas as frustrações dos anos anteriores - as metas não-alcançadas,
as estradas mal construídas, as fábricas que, tendo sido erguidas por presos, praticamente não conseguiam funcionar - houvessem atingido algum tipo de clímax insano.
Aleksandr Izrailev, por exemplo, vice-chefe do Ukhtpechlag, recebeu condenação por "ter obstruído o crescimento da mineração de carvão". Aleksandr Polisonov, coronel
que trabalhara na divisão de guardas armados do Gulag, viu-se acusado de ter criado "condições absurdas" para esses seus homens. Mikhail Goskin, chefe do departamento
de construção ferroviária do Gulag, teria "elaborado planos irrealistas" para a linha Volochaevka-Komsomolets. Isaak Ginzburg, chefe da divisão médica do Gulag,
foi considerado responsável pelas altas taxas de mortalidade prisional e acusado de ter fomentado condições especiais para outros presos contra-revolucionários,
permitindo que, por motivo de doença, fossem libertados antes do tempo. A maioria desses homens da NKVD acabou condenada à morte -embora as sentenças de vários tenham
sido comutadas para o confinamento nas prisões ou nos campos, e uns poucos até tenham sobrevivido, vindo a ser reabilitados em 1955.
Um número impressionante dos primeiros administradores do Gulag teve o mesmo destino. Fyodor Eichmanns, ex-chefe da Slon e depois do Departamento Especial da OGPU,
foi fuzilado em 1939. Izrail Pliner, o sucessor de Berman na chefia do Gulag, durou só um ano no cargo e foi fuzilado em 1939. Era como se o sistema precisasse
de uma explicação do porquê de vir funcionando tão mal - como se precisasse de pessoas para culpar. Ou talvez "sistema" seja uma expressão enganosa: talvez fosse
o próprio Stalin quem precisava explicar por que seus projetos de trabalho escravo, tão maravilhosamente planejados, avançavam tão devagar e apresentavam resultados
tão ambíguos.
Houve algumas curiosas exceções à destruição generalizada, pois Stalin não apenas tinha controle sobre quem era preso como às vezes também decidia quem não devia
sê-lo. E curioso que Naftaly Frenkel, apesar das mortes de quase todos os seus antigos colegas, tenha conseguido escapar à bala do carrasco. Em 1937, era o chefe
do Bamlag, na ferrovia Baikal-Amur, um dos mais caóticos e mortíferos campos do Extremo Oriente. No entanto, quando 48 "trotskistas" foram presos no Bamlag, em 1938,
Frenkel, de algum modo, não estava entre eles.
Sua ausência na lista de presos se mostra ainda mais estranha quando se sabe que o jornal do campo o atacara, acusando-o abertamente de sabotagem. Apesar disso,
o processo de Frenkel ficou misteriosamente retido em Moscou. O promotor local do Bamlag, que vinha conduzindo as investigações a respeito de Frenkel, achou a demora
incompreensível. "Não entendo por que essa investigação foi colocada sob 'decreto especial', nem quem expediu esse 'decreto especial'", escreveu a Andrei Vyshinsky,
o promotor-chefe da URSS. "Se não vamos prender espiões trotskistas diversionários, então quem devemos prender?" Stalin, ao que parece, ainda era perfeitamente capaz
de proteger seus amigos.
Talvez a saga mais dramática de um chefe de campo em 1937 tenha sido uma que ocorreu mais para o fim daquele ano, em Magadan, e que começou com a prisão de Eduard
Berzin, o chefe da Dalstroi. Na condição de subordinado direto de Yagoda, Berzin devia ter pressentido que sua carreira seria logo encurtada. Também devia ter ficado
desconfiado quando, em dezembro, recebeu todo um novo grupo de "lugares-tenentes" da NKVD, dentre eles o major Pavlov, oficial de posto mais alto que o próprio Berzin.
Ainda que Stalin com freqüência apresentasse dessa maneira os funcionários que logo cairiam em desgraça aos sucessores deles, Berzin não deu mostras de suspeitar
de nada. Quando entrou na baía de Nagaevo o navio com o agourento nome Nikolai Yezhov, trazendo a nova equipe de Berzin, este providenciou uma banda de música para
dar as boas-vindas. Em seguida, passou vários dias mostrando as operações e ensinando os macetes a sua nova "equipe" - embora ela praticamente não lhe desse atenção
-, antes de ter ele próprio embarcado no Nikolai Yezhov.
Em Vladivostok, tomou bem calmamente o Expresso Transiberiano para Moscou. Mas, embora Berzin tenha saído de Vladivostok como passageiro da primeira classe, chegaria
a seu destino como detento. No meio da noite de 19 de dezembro de 1937, o trem parou na cidade de Aleksandrov. Berzin foi preso na plataforma (ainda a setenta quilômetros
de Moscou, para não causar nenhum fuzuê no centro da capital) e levado para interrogatório na Lubyanka, a prisão central de Moscou. Rapidamente o indiciaram por
"atividades contra-revolucionárias de sabotagem e destruição". A NKVD o acusou de montar uma "organização de espionagem e diversionismo trotskista em Kolyma", a
qual supostamente enviava ouro para o governo do Japão e tramava a ocupação do Extremo Oriente soviético por aquele país. Também o acusaram de espionar para a Inglaterra
e a Alemanha. Obviamente, o chefe da Dalstroi andara mesmo muito ocupado. Acabaria fuzilado em agosto de 1938, no porão da Lubyanka.
O absurdo das acusações não afetou os prazos do processo. No final de dezembro, Pavlov, agindo com celeridade, já prendera a maioria dos subordinados de Berzin.
Sob tortura, I. G. Filippov, chefe do Sewostlag, fez uma confissão detalhada que implicava praticamente todos eles. Declarando ter "recrutado" Berzin em 1934, ele
reconheceu que sua "organização anti-soviética" planejara depor o governo do país mediante a "preparação de um levante armado contra o poder soviético em Kolyma,
[...] a preparação e execução de atos terroristas contra os líderes do Partido Comunista e do governo soviético, [...] o incitamento da população nativa [...] e
o encorajamento a atos generalizados de destruição", dentre outras coisas. Lev Epshtein, principal lugar-tenente de Berzin, depois confessou ter "reunido informações
secretas para a França e o Japão enquanto realizava sabotagem, diversionismo e atos de destruição". O médico-chefe da policlínica de Magadan foi acusado de "ligações
com traidores e elementos estrangeiros". Quando tudo terminou, centenas de pessoas ligadas a Berzin, desde geólogos até burocratas e engenheiros, estavam ou mortas,
ou presas.
Se olharmos em perspectiva, veremos que a elite de Kolyma não foi a única rede poderosa a ter sido eliminada em 1937-8. No final daquele período, Stalin já expurgara
do Exército Vermelho grande número de notáveis, aí incluídos o marechal Tukhachevsky, vice-comissário da Defesa, Ion Yakir, comandante de exército, seu colega Uborevich
e outros, junto com as mulheres e filhos; a maioria foi fuzilada, mas alguns terminaram em campos. O Partido Comunista conheceu destino semelhante. O expurgo atingiu
não apenas os inimigos potenciais de Stalin na liderança, mas também a elite partidária nas províncias, os primeiros-secretários, os chefes dos conselhos locais
e regionais e os diretores de importantes fábricas e instituições.
Em certos lugares e em certa classe social, conforme escreveria Yelena Sidorkina, ela mesma presa em novembro de 1937, a onda de prisões foi tão completa que
ninguém sabia o que aconteceria no dia seguinte. As pessoas tinham medo de conversar ou se encontrar umas com as outras, em especial com famílias nas quais o pai
ou a mãe já tivesse sido "isolado". Os raros indivíduos tolos o suficiente para manter-se leais àqueles presos acabavam automaticamente indicados para o "isolamento".
Mas nem todo mundo morreu, e nem todo campo foi aniquilado. Em geral, os chefes de campo mais obscuros até se saíram ligeiramente melhor que a média dos oficiais
da NKVD, como ilustra o caso de V. A. Barabanov, um protegido de Yagoda. Em 1935, quando era vice-comandante do Dmitlag, Barabanov foi preso, junto com um colega,
por ter chegado ao campo "em estado de embriaguez". Como resultado, perdeu o emprego, recebeu uma pena leve de prisão e, em 1938, estava trabalhando num longínquo
campo do extremo norte quando ocorreram as prisões em massa dos sequazes de Yagoda. Por volta de 1954, seu amor ao álcool já tendo sido perdoado, ele tornara a subir
na hierarquia e era o vice-comandante de todo o sistema Gulag.
Mas, na memória popular dos campos, 1937 não seria lembrado apenas como o ano do Grande Terror; também foi o ano em que finalmente se deixou de cantar loas à reabilitação
de criminosos, junto com qualquer apoio hipócrita àquele ideal. Em parte, isso talvez tenha se devido à morte e ao encarceramento das figuras mais intimamente relacionadas
com a campanha. Yagoda, ainda ligado na mente do público ao Canal do Mar Branco, já se fora. Máximo Gorki morrera repentinamente em junho de 1936. I. L. Averbakh,
colaborador de Gorki em O canal chamado Stalin e autor de do crime ao trabalho (volume subseqüente dedicado ao canal Moscou-Volga), foi denunciado como trotskista
e preso em abril de 1937. O mesmo ocorreu com muitos outros integrantes do coletivo que, sob a coordenação de Gorki, redigira O canal chamado Stalin. Mas a mudança
também tinha origens mais profundas. À medida que a retórica política ficava mais radical e a caçada aos criminosos políticos se intensificava, o status dos campos
onde esses perigosos criminosos políticos estavam também se modificava. Num país tomado pela paranóia e pela mania de procurar e delatar espiões, a própria existência
de campos para "inimigos" e "sabotadores" se tornou, se não exatamente segredo - na década de 1940, presos trabalhando na construção de estradas e prédios de apartamentos
eram espetáculo comum em muitas grandes cidades -, pelo menos assunto que nunca se discutia em público. Aristocratas, a peça de Nikolai Pogodin, foi banida em 1937
(sendo revivida, ainda que só por breve período, em 1956, bem depois da morte de Stalin). O canal chamado Stalin, organizado por Gorki, também acabou na lista de
livros proibidos, por motivos ainda incertos. Talvez os novos chefes da NKVD não tivessem mais estômago para agüentar os fátuos elogios a Yagoda, caído em desgraça.
Ou talvez aquele radiante retrato da exitosa reabilitação de "inimigos" não tivesse mais sentido numa época em que novos inimigos apareciam o tempo todo, e em que
centenas de milhares deles não eram recuperados mas executados. Por certo, as histórias sobre chekistas afáveis e oniscientes se tornavam difíceis de conciliar com
os expurgos maciços na NKVD.
Não desejando parecer frouxos na tarefa de isolar os inimigos do regime, os comandantes do Gulag em Moscou também impuseram novas normas internas de sigilo, que
acarretaram imensos custos adicionais. Agora, toda correspondência devia ser enviada por mensageiro especial. Só em 1940, os mensageiros da NKVD tiveram de entregar
25 milhões de itens de correspondência secreta. Doravante, quem escrevia cartas para os campos o fazia exclusivamente para caixas postais, já que os endereços se
tornaram secretos. Os campos também desapareceram dos mapas. Até a correspondência interna da NKVD se referia a eles eufemisticamente como "objetos especiais" (spetsobekty)
ou "subseções" (podrazdeleniya), de modo a ocultar as reais atividades de tais lugares.
Para referências mais específicas tanto aos campos quanto às atividades de seus habitantes, a NKVD criou um código complicado que podia ser usado em telegramas abertos.
Um documento de 1940 listava esses codinomes, alguns dos quais eram de uma criatividade grotesca. As grávidas deveriam ser chamadas "livros", e as mulheres com filhos,
"recibos". Já os homens eram "contas" (no sentido contábil). Degredados eram "lixo", e detidos para investigação, "envelopes". Campos de concentração eram "trustes",
e divisões de campo, "fábrica". Um campo recebeu o codinome "Livre".
A linguagem usada nos campos também mudou. Até o outono de 1937, documentos e cartas oficiais freqüentemente se referiam aos presos pela profissão - por exemplo,
simplesmente "lenhadores". Mas, em 1940, um preso já não era lenhador; era apenas preso, um zaklyuchennyi, ou, na maioria dos documentos, z/k (pronuncia-se "zek").
Um grupo de presos se tornava kontingent ("contingente" ou "cota"), termo burocrático e despersonalizado. Os presos tampouco podiam ganhar o cobiçado título de stakhanovista:
o administrador de um campo mandou carta indignada a seus subordinados, ordenando que se referissem a detentos que trabalhavam duro por circunlóquios como "presos
que atuam à maneira dos trabalhadores de choque" ou "presos que trabalham segundo os métodos stakhanovistas".
Naturalmente, todo uso positivo do termo "preso político" já desaparecera havia muito. Os privilégios concedidos aos presos políticos socialistas tinham terminado
em 1925, quando esses detentos foram transferidos de Solovetsky para prisões na Rússia central. Agora, o termo "preso político" sofria completa transformação, abrangendo
qualquer um condenado segundo o infame artigo 58 do Código Penal - que englobava todos os crimes "contra-revolucionários" - e tendo conotações totalmente negativas.
Cada vez mais, referiam-se aos criminosos políticos (às vezes chamados KRs, de "contra-revolucionários"; kontras; ou kontriks) como vragi naroda (inimigos do povo).
Esse termo, um epíteto jacobino que Lênin utilizara pela primeira vez em 1917, foi revivido por Stalin em 1927 para descrever Trotski e seus seguidores. Começou
a ter sentido mais amplo em 1936, depois que uma carta secreta - "da autoria de Stalin", na opinião de Dmitri Volkogonov, seu biógrafo russo - foi enviada do Comitê
Central às organizações do Partido nas regiões e repúblicas. Conforme a carta explicava, um inimigo do povo, ainda que pudesse "parecer manso e inofensivo", faria
todo o possível para "esgueirar-se sorrateiramente para dentro do socialismo", embora "secretamente não o aceitasse". Em outras palavras, os inimigos não podiam
mais ser identificados por opiniões expressas abertamente. Lavrenty Beria, chefe posterior da NKVD, também citaria Stalin com freqüência, observando que "um inimigo
do povo é não apenas quem comete sabotagem, mas também quem duvida da justeza das determinações do Partido". Portanto "inimigo" podia significar qualquer um que
se opusesse ao poder de Stalin, por qualquer motivo, ainda que aparentasse não fazê-lo.
Agora, nos campos de concentração, "inimigo do povo" se tornara termo oficial, usado em documentos. Aprisionavam-se mulheres como "esposas de inimigos do povo",
depois que um decreto da NKVD de 1937 autorizou tais capturas; e o mesmo se aplicava aos filhos. Uns e outros recebiam sentenças como ChSVR, "familiares de um inimigo
da Revolução". Muitas das esposas foram encarceradas juntas no campo de Temnikovsky, também conhecido como Temlag, na Mordóvia (uma república da Rússia central).
Anna Larina, mulher de Bukharin, o líder soviético caído em desgraça, lembraria que lá "nos tornamos iguais em nosso infortúnio - os Tukachevsky e os Yakir, os Bukharin
e os Radek, os Uborevich e os Gamarnik. Como diz o ditado, a desgraça compartilhada já é só meia desgraça".
Galina Levinson, outra sobrevivente do Temlag, recordou que o regime do campo era relativamente liberal, talvez porque "não tínhamos sentenças, éramos apenas esposas".
A maioria delas, observou Galina, eram pessoas que até então haviam sido "totalmente soviéticas" e ainda estavam convencidas de que seu encarceramento se devia às
maquinações de alguma organização fascista secreta dentro do Partido. Várias ocupavam o tempo escrevendo cartas diárias a Stalin e ao Comitê Central, nas quais reclamavam,
iradas, do complô que se armava contra elas.
Em 1937, "inimigo do povo", além dos usos oficiais, já virara ofensa. Desde o tempo de Solovetsky, os fundadores e planejadores dos campos haviam organizado o sistema
em torno da idéia de que os presos não eram humanos, mas "unidades de trabalho": mesmo na época da construção do Canal do Mar Branco, Máximo Gorki descrevera os
kulaks como "meio animais". Agora, porém, a propaganda descrevia os "inimigos" como algo inferior até a essa espécie de gado bípede. A partir do final dos anos
1930, Stalin começou a referir-se publicamente aos "inimigos do povo" como "praga", "poluição", "imundície" ou, às vezes, simplesmente "erva daninha", que precisava
ser arrancada.
A mensagem era clara: os zeks não eram mais considerados cidadãos plenos da URSS, se é que de alguma maneira podiam ser considerados pessoas. Um preso observou que
estavam sujeitos a "uma espécie de excomunhão da vida política e não tinham permissão para participar das liturgias e rituais sagrados de tal vida". Depois de 1937,
nenhum guarda usava a palavra tovarishch (camarada) para dirigir-se aos presos, e estes podiam ser espancados por utilizá-la quando se dirigiam aos guardas, os quais
tinham de tratar por grazhdanin (cidadão). Fotos de Stalin e outros líderes nunca apareciam nas paredes dos campos e prisões. Uma visão relativamente comum em meados
da década de 1930 - um trem carregando presos, tendo os vagões cobertos com retratos de Stalin e com faixas que declaravam serem seus ocupantes stakhanovistas -
já se tornara impensável depois de 1937. O mesmo ocorreu com as celebrações do 1º de maio, como aquelas outrora realizadas no kremlin de Solovetsky.
Muitos estrangeiros ficavam surpresos com o forte efeito que essa "excomunhão" da sociedade soviética tinha sobre os presos. Um prisioneiro francês, Jacques Rossi
- autor do Manual do Gulag, um guia enciclopédico da vida nos campos -, escreveu que a palavra "camarada" conseguia eletrizar presos que havia muito tempo não a
ouviam:
Uma turma que acabara de completar um turno de onze horas e meia concordou em ficar e trabalhar o turno seguinte apenas porque o engenheiro-chefe [...] disse aos
presos: "Peço-lhes que façam isso, camaradas"
À desumanização dos "criminosos políticos" seguiu-se uma mudança bem nítida (e em alguns lugares drástica) nas condições de vida deles. O Gulag dos anos 1930 fora
geralmente desorganizado, freqüentemente cruel e ocasionalmente mortal. Mas, em alguns lugares e em alguns momentos durante aquela década, oferecera-se até aos presos
políticos a oportunidade da redenção. Os trabalhadores do canal Moscou-Volga podiam ler o jornal Perekovka, cujo nome já significava "Regeneração". O final da peça
Aristocratas, de Pogodin, mostrava a "conversão" de um ex-sabotador. Em 1934, Flora Leipman (filha de uma escocesa que casara com um russo, mudara para São Petersburgo
e logo fora presa como espiã) visitou a mãe num campo madeireiro do norte e descobriu que "ainda havia um elemento de humanidade entre os guardas e os presos, pois
a [NKVD] ainda não era tão sofisticada e tão psicologicamente orientada como viria a ser alguns anos depois". Flora sabia do que estava falando, já que ela mesma
se tornou prisioneira "alguns anos depois". Depois de 1937, as atitudes realmente mudaram, sobretudo em relação àqueles presos condenados pelo artigo 58.
Nos campos, os presos políticos eram retirados dos postos de trabalho que haviam ocupado em planejamento ou engenharia e forçados a retornar ao "trabalho geral",
ou seja, ao trabalho braçal não-especializado em minas ou florestas: não se podia mais permitir que os "inimigos" tivessem qualquer posição de importância, por medo
de que se dedicassem à sabotagem. Pavlov, o novo chefe da Dalstroi, assinou pessoalmente a ordem que obrigava um preso-geólogo, I. S. Davidenko, a "ser utilizado
como trabalhador comum e em hipótese nenhuma ter autorização para conduzir trabalhos independentes. As tarefas de Davidenko devem ser controladas com cuidado e sujeitas
a observação diária". Num relatório arquivado em fevereiro de 1939, o comandante do Belbaltlag também alegava ter "escorraçado todos os trabalhadores indignos de
confiança política" e, sobretudo, "todos os ex-presos condenados por crimes contra-revolucionários". Ele asseverava que, dali em diante, as funções administrativas
e técnicas deveriam ser reservadas para "comunistas, membros do Komsomol [a Juventude Comunista] e especialistas de confiança". Fica claro que a produtividade econômica
já não era a maior prioridade dos campos.
Em todo o sistema Gulag, os regimes prisionais ficaram mais duros, tanto para os criminosos comuns como para os presos políticos. No começo dos anos 1930, as rações
de pão para o "trabalho geral" podiam chegar a um quilo por dia - mesmo para aqueles que não cumprissem 100% da meta -, e atingir até dois quilos para os stakhanovistas.
Nos principais lagpunkts do Canal do Mar Branco, servia-se carne doze dias por mês. No final da década, a ração garantida caíra a menos da metade, para entre quatrocentos
e 450 gramas de pão, e os que conseguiam cumprir 100% da meta de trabalho ganhavam duzentos gramas mais. A ração punitiva se reduziu para trezentos gramas. Falando
daqueles tempos em Kolyma, Variam Shalamov escreveu que:
Para tornar-se "baixa", um homem jovem e saudável, começando a carreira na mina de ouro no ar límpido e frio, só precisava de um período de vinte a trinta dias de
dezesseis horas de trabalho, sem folgas, combinados com a inanição sistemática, as roupas em farrapos, as noites a quinze graus negativos numa tenda de lona cheia
de furos [...] nas brigadas de trabalho que iniciavam a temporada de mineração, só sobreviviam o próprio encarregado, seu assistente e uns poucos dos amigos pessoais
do encarregado.
As condições também pioraram porque o número de presos aumentou, em alguns lugares com rapidez espantosa. E verdade que o Politburo tentara preparar-se com antecedência
para o influxo, instruindo o Gulag em 1937 a iniciar a construção de cinco novos campos madeireiros na região de Komi, bem como mais alguns "em áreas remotas do
Cazaquistão". A fim de apressar as obras, o Gulag até recebera um "adiantamento de 10 milhões de rublos" para organizar esses novos campos. Ademais, o Comissariado
da Defesa, o da Saúde e o dos Recursos Florestais receberam ordem de achar - imediatamente -240 comandantes e trabalhadores políticos, 150 médicos, quatrocentos
auxiliares médicos, dez eminentes especialistas em silvicultura e "cinqüenta formados pela Academia de Tecnologia Florestal de Leningrado", todos para trabalhar
no Gulag.
Entretanto, os campos já existentes estavam outra vez transbordando de novos presos, e repetia-se a superlotação do início da década de 1930. Num lagpunkt construído
para 250 a trezentas pessoas no Siblag (o campo madeireiro da Sibéria), um sobrevivente deduziu que o número de presos em 1937 passava de 17 mil. Ainda que o número
real tenha sido apenas um quarto disso, a estimativa exagerada indica quão amontoadas as pessoas deviam sentir-se ali. Na falta de alojamento, os presos construíam
zemlyanki, buracos na terra; mesmo estes eram tão apinhados que ficava "impossível mover-se sem pisar na mão de alguém". Os presos se recusavam a sair, por medo
de perder o lugar no chão. Não se dispunha de pratos nem de colheres, e havia longas filas para a comida. Teve início uma epidemia de disenteria, e os presos morreram
rapidamente.
Numa reunião posterior do Partido, até a administração do Siblag lembrou solenemente as "terríveis lições de 1938"; quanto mais não fosse, pelo "número de dias de
trabalho perdidos" durante a crise. No sistema de campos como um todo, o número oficial de mortes dobrou do ano de 1937 para o de 1938. Não se dispõe de estatísticas
para todos os locais, mas presume-se que as taxas de mortalidade tenham sido muito mais altas nos campos do extremo norte - Kolyma,Vorkuta, Norilsk -, para onde
os presos políticos eram enviados em grande número.
Mas os presos não morriam apenas de inanição e excesso de trabalho. No novo ambiente soviético, o encarceramento de inimigos logo começou a parecer insuficiente:
era melhor que deixassem de existir por completo. Em 30 de julho de 1937, a NKVD emitiu ordem para que se reprimissem "ex-kulaks, ladrões e outros elementos anti-soviéticos"
- ordem que continha cotas de execução também para presos do Gulag. Em 25 de agosto, Yezhov assinou mais uma ordem para a execução de detentos nas prisões políticas
de segurança máxima. A NKVD, disse ele, deve "concluir em dois meses a operação para reprimir os elementos contra-revolucionários mais ativos [...] aqueles condenados
por espionagem, diversionismo, terrorismo, atividades revolucionárias e banditismo, bem como os condenados por pertencerem a partidos anti-soviéticos".
Aos presos políticos ele acrescentou os "bandidos e elementos criminosos" atuantes em Solovetsky, que naquela altura também fora convertido em prisão política de
segurança máxima. Determinou-se a cota para Solovetsky: deveriam ser fuzilados 1.200 presos. Uma testemunha recordou o dia em que alguns foram levados:
Inesperadamente, forçaram todos a sair das celas abertas do kremlin para uma chamada geral. Nela, leram uma lista enorme de nomes -várias centenas - que seriam levados
para transporte. Foram-lhes dadas duas horas para preparar-se, e eles deveriam então reunir-se na mesma praça central. Seguiu-se uma confusão terrível. Algumas pessoas
correram para pegar suas coisas; outras, para dizer adeus aos amigos. Em duas horas, a maior parte daqueles que deveriam ser transportados estava em seus lugares
[...] colunas de presos marcharam para fora com malas e mochilas. [...]
Ao que parece, alguns também carregavam facas, que depois usaram para atacar aqueles que os fuzilariam, perto da aldeia de Sandormokh (norte da Carélia), ferindo-os
gravemente. (Após esse episódio, a NKVD passou a deixar todos os presos em roupas de baixo antes de atirar neles.) Posteriormente, o homem da NKVD a cargo da operação
foi recompensado com o que os arquivos descrevem apenas como um "valioso presente" pela bravura demonstrada no cumprimento da tarefa. Dali a alguns meses, ele também
foi fuzilado.
Em Solovetsky, a seleção de presos a assassinar parece ter sido feita ao acaso. Em alguns campos, porém, a administração aproveitava a oportunidade para livrar-se
de detentos especialmente difíceis. Esse pode ter sido o caso em Vorkuta, onde muitos dentre os selecionados eram antigos trotskistas - ou seja, autênticos seguidores
de Trotski, alguns dos quais envolvidos em greves nos campos e outras rebeliões. Uma testemunha ocular lembrou que, no início do inverno de 1937-8, a administração
de Vorkuta colocara cerca de 1.200 prisioneiros - sobretudo trotskistas, mais outros presos políticos e um punhado de criminosos - numa olaria abandonada e numa
série de tendas grandes e apinhadas, "transbordantes". Não se dava nenhuma comida quente aos presos: "a ração diária consistia apenas de quatrocentos gramas de pão
meio ressequido". Ficaram ali até o final de março, quando chegou de Moscou um novo grupo de oficiais da NKVD. Os oficiais formaram uma "comissão especial" e chamaram
os presos em lotes de quarenta. Disseram-lhes que partiriam num transporte. Cada um recebeu um pedaço de pão. Os presos na tenda os ouviram ir embora marchando -
"e, depois, escutaram o som de tiros".
O ambiente nas tendas ficou tétrico. Um camponês, preso pelo crime de "especulação" (vendera o próprio leitão numa feira), ficou deitado em seu estrado, de olhos
abertos, sem reagir a nada. "O que eu tenho que ver com vocês, presos políticos?", resmungava periodicamente. "Vocês lutavam por poder, por posição, e eu só quero
saber de tocar a vida." Segundo a testemunha, outro homem se suicidou. Dois enlouqueceram. Por fim, quando só haviam sobrado umas cem pessoas, os fuzilamentos pararam,
tão abrupta e inexplicavelmente como haviam começado. Os oficiais da NKVD tinham retornado para Moscou. Os presos restantes voltaram às minas. Em todo o campo, haviam
sido mortos cerca de 2 mil detentos.
Stalin e Yezhov nem sempre mandavam forasteiros de Moscou para executar essas tarefas. A fim de acelerar o processo em todo o país, a NKVD também organizava tróicas,
operando tanto dentro quanto fora dos campos. Uma tróica era exatamente o que o nome sugere: três homens, no mais das vezes o chefe regional da NKVD, o secretário-chefe
do Partido na província e um representante da promotoria ou do governo local. Juntos, tinham o direito de passar sentenças in absentia, sem direito a juiz, júri,
advogado ou mesmo julgamento.
Uma vez constituídas, as tróicas agiram rápido. Em 20 de setembro de 1937, um dia razoavelmente típico, a tróica da República Careliana condenou 231 presos do Belbaltlag.
Presumindo-se um dia de trabalho de dez horas, sem intervalos, teriam gasto menos de três minutos para considerar o destino de cada preso. A maioria dos condenados
recebera suas sentenças originais muito antes, no início da década. Agora, eram acusados de novos crimes, em geral, ligados ao mau comportamento ou à atitude insatisfatória
ante a vida nos campos. Dentre eles, havia antigos presos políticos (mencheviques, anarquistas, social-democratas); uma ex-freira que "se recusava a trabalhar para
as autoridades soviéticas"; e um kulak que fora cozinheiro no campo. Esse último se viu acusado de estimular a insatisfação entre os trabalhadores stakhanovistas.
Segundo alegaram as autoridades, o cozinheiro propositalmente provocara "longas filas para aqueles trabalhadores, tendo antes dado comida aos presos comuns".
A histeria não durou. Em novembro de 1938, os fuzilamentos em massa terminaram de modo repentino, tanto nos campos como no resto do país. Talvez o expurgo tivesse
ido longe demais, até para o gosto de Stalin. Talvez o expurgo já tivesse simplesmente cumprido a finalidade que deveria cumprir. Ou talvez estivesse causando danos
demais a uma economia ainda frágil. Fosse qual fosse a razão, Stalin disse ao Congresso do Partido Comunista em março de 1939 que o expurgo se fizera acompanhar
de "mais erros do que se podia ter esperado".
Ninguém pediu desculpas ou se penitenciou, e quase ninguém jamais foi punido. Apenas alguns meses depois, Stalin enviou circular a todos os chefes da NKVD, cumprimentando-os
por "terem infligido uma derrota esmagadora aos agentes subversivos e espiões de serviços estrangeiros de informações" e "terem expurgado o país de quadros voltados
para a subversão, a insurreição e a espionagem". Só então apontou algumas das "deficiências" da operação, corno os "procedimentos simplificados de investigação",
a falta de testemunhas e de provas que corroborassem as acusações.
Tampouco se interrompeu por completo o expurgo da própria NKVD. Em novembro de 1938, Stalin removeu de seu posto o suposto autor de todos esses "erros", Nikolai
Yezhov - e o sentenciou à morte. A execução ocorreu em 1940, depois de Yezhov ter implorado pela vida, da mesma forma que Yagoda antes dele. "Digam a Stalin que
morrerei com o nome dele nos lábios."
Os protegidos de Yezhov caíram junto, tal qual os asseclas de Yagoda alguns anos antes. Em sua cela na prisão, Evgeniya Ginzburg notou um dia que os regulamentos
colados na parede haviam sido removidos. Quando os recolocaram, o espaço no canto superior esquerdo, onde antes estava escrito "aprovado, Yezhov, comissário-geral
de Segurança do Estado", fora coberto com papel branco. Mas as mudanças não pararam aí:
Primeiro o nome de Weinstock [o comandante da prisão] foi coberto com tinta e substituído pelo de Antonov. Depois Antonov saiu, e em seu lugar se lia: "Administração
Central da Prisão". Rimos: "Isso lhes poupará o trabalho de trocar de novo".
A produtividade do sistema Gulag continuava a despencar. No Ukhtpechlag, entre 1936 e 1937, os fuzilamentos em massa, o número aumentado de presos enfermos e debilitados
e a perda de especialistas aprisionados haviam causado uma queda vertiginosa da produção. Em julho de 1938, convocou-se uma comissão especial do Gulag para discutir
o vasto déficit do Ukhtpechlag. A produtividade das minas auríferas de Kolyma também caiu. Nem o enorme influxo de novos presos conseguiu elevar a níveis comparáveis
aos do passado o total de ouro extraído. O próprio Yezhov, antes de ter sido deposto, pedira mais dinheiro para atualizar a antiquada tecnologia mineira da Dalstroi
- como se fosse esse o verdadeiro problema.
Enquanto isso, o comandante do Belbaltlag - aquele que tanto se gabara de seu sucesso em livrar de presos políticos o pessoal administrativo do campo - reclamava
da "urgente necessidade de pessoal administrativo e técnico". O expurgo decerto tornara o pessoal técnico politicamente "mais sadio" (escrevia de maneira cautelosa),
mas também aumentara "as deficiências dele". Na 14ª divisão do campo, por exemplo, havia 12.500 prisioneiros, dos quais só 657 não eram presos políticos. Desses
657, a maioria recebera sentenças criminais muito severas, o que também os desqualificava como especialistas e administradores, e 184 eram analfabetos - sobrando
apenas setenta que poderiam ser aproveitados como escriturários ou engenheiros.
Segundo as estatísticas oficiais, a receita da NKVD como um todo caiu de 3,5 bilhões de rublos em 1936 para 2 bilhões em 1937. O valor da produção industrial bruta
dos campos também caiu, de 1,1 bilhão de rublos para 945 milhões.
A ausência de lucratividade e a enorme desorganização da maioria dos campos, mais o crescente número de presos doentes e moribundos, não passaram despercebidas em
Moscou, onde, durante reuniões da célula central do Partido Comunista na administração do Gulag, ocorreram discussões extremamente francas sobre a economia do campos.
Numa reunião em abril de 1938, um burocrata reclamou do "caos e desordem" nos campos de Komi. Ele também acusou os comandantes do campo de Norilsk de terem criado
uma usina de níquel "mal projetada" e desperdiçado assim uma quantia enorme. Outro administrador se queixou de que, considerando-se o dinheiro gasto para estabelecer
novos campos madeireiros, "poderíamos esperar mais. Nossos campos estão organizados de forma nada sistemática. Grandes edifícios foram construídos na lama, e agora
é preciso sair deles e arranjar outros".
Em abril de 1939, as reclamações já haviam aumentado. Nos campos do norte, ocorria uma "situação particularmente difícil com relação ao suprimento de comida", o
que provocava "enorme porcentagem de trabalhadores enfraquecidos, enorme porcentagem de presos inaptos para trabalhar e alta taxa de mortalidade e doença". Naquele
mesmo ano, o Conselho dos Comissários do Povo reconheceu que até 60% dos presos dos campos sofriam de pelagra ou outras doenças relacionadas à desnutrição.
E claro que o Grande Terror não foi responsável por todos esses problemas. Como se observou, nem mesmo os campos madeireiros de Frenkel, tão admirados por Stalin,
jamais deram lucro. O trabalho de presos sempre fora (e sempre seria) muito menos produtivo do que o trabalho de indivíduos livres. Mas essa lição ainda não fora
aprendida. Em novembro de 1938, quando Yezhov foi removido do poder, seu substituto como chefe da NKVD, Lavrenty Beria, quase de imediato começou a alterar os regimes
dos campos, mudando as regras, racionalizando os procedimentos, tudo para recolocar o Gulag onde Stalin o queria: no coração da economia soviética.
Beria não concluíra - ainda - que o próprio sistema de campos era por natureza improdutivo e propenso ao desperdício. Em vez disso, ele parecia acreditar que os
encarregados do sistema de campos haviam sido incompetentes. Beria estava determinado a transformar os campos numa parte verdadeiramente rentável da economia soviética,
dessa vez para valer.
Nem então nem depois Beria libertou dos campos um número grande de presos injustamente acusados - embora a NKVD tenha soltado alguns das prisões. Os campos também
não se tornaram, e não se tornariam, nem um pouco mais humanos. A desumanização dos "inimigos" continuou a permear a linguagem dos guardas e administradores até
a morte de Stalin. Prosseguiram os maus-tratos aos presos políticos (aliás, a todos os presos): em 1939, sob o olhar vigilante de Beria, os primeiros detentos começaram
a trabalhar nas minas de urânio de Kolyma, praticamente sem nenhuma proteção contra a radiação. Beria mudou apenas um aspecto do sistema: ordenou aos comandantes
dos campos que mantivessem vivos mais presos e os utilizassem melhor.
Na prática, embora tal política nunca tenha sido clara, ele também suspendeu a proibição de "contratar" presos políticos com qualificações em engenharia, ciências
ou tecnologia para trabalharem em funções técnicas nos campos. Em nível local, os comandantes dos campos ainda estavam receosos de usar presos políticos como "especialistas",
e isso continuaria até o desmantelamento do Gulag, em meados da década de 1950. Mesmo em 1948, diferentes setores dos serviços de segurança ainda discutiam se presos
políticos deveriam ser proibidos de trabalhar como especialistas, com alguns argumentando que seria politicamente muito perigoso e outros alegando que seria muito
difícil fazer os campos funcionar sem eles. Apesar de Beria nunca ter resolvido esse dilema, ele estava por demais determinado a tornar a NKVD uma parte produtiva
da economia soviética para permitir que todos os cientistas e engenheiros mais importantes do Gulag perdessem os membros do corpo por congelamento no extremo norte.
Em setembro de 1938, começou a organizar oficinas e laboratórios especiais, conhecidos pelos presos como sharashki, para cientistas aprisionados. Soljenitsin, que
trabalhara numa sharashka, descreveu uma delas - "um estabelecimento de pesquisas secretíssimo, oficialmente designado apenas por um número de código" - no romance
O primeiro círculo:
Uma dúzia de presos foi trazida dos campos para essa velha mansão campestre nos arredores de Moscou, que fora devidamente cercada de arame farpado [...] naquela
ocasião, os presos não sabiam exatamente que tipo de pesquisa haviam sido trazidos a Mavrino para fazer. Estavam ocupados abrindo pilhas de caixotes que dois trens
de carga especiais haviam entregado, garantindo cadeiras e mesas confortáveis para si e separando equipamento.
De início, as sharashki foram batizadas "Departamentos Especiais de Construção". Depois, ficaram conhecidas coletivamente como "Quarto Departamento Especial" da
NKVD, e cerca de mil cientistas acabariam trabalhando nelas. Em alguns casos, o próprio Beria localizava cientistas talentosos e ordenava que fossem trazidos de
volta a Moscou. Os agentes da NKVD lhes proporcionavam um banho, um corte de cabelo, um barbear e um longo descanso - e os mandavam para trabalhar em laboratórios-prisões.
Entre os "achados" mais importantes de Beria, estava o projetista aeronáutico Tupolev, que chegou a sua sharashka carregando um saco com um pedaço de pão e alguns
torrões de açúcar (o projetista se recusou a abrir mão deles, mesmo depois de informado de que a comida melhoraria).
Tupolev, por sua vez, deu a Beria uma lista de outros que deveriam ser chamados de volta, entre os quais Valentin Glushko, o mais importante projetista de motores
de foguetes da URSS; e Sergei Korolev, que depois seria o pai do Sputnik, o primeiro satélite artificial - aliás, o pai de todo o programa espacial soviético. Korolev
retornou para a prisão de Lubyanka após ter passado dezessete meses em Kolyma e perdido muitos dentes por causas do escorbuto, parecendo "faminto e exausto", nas
palavras de seus companheiros de prisão. Contudo, num relatório preparado em agosto de 1944, Beria listaria vinte importantes itens de tecnologia militar inventados
em seus sharashki e discorreria sobre as muitas maneiras pelas quais esses estabelecimentos haviam sido úteis à indústria bélica durante a Segunda Guerra Mundial.
Em certos aspectos, o reinado de Beria pareceria melhor também para os zeks comuns. No geral, a alimentação de fato melhorou temporariamente. Conforme Beria assinalou
em abril de 1938, a norma de 2 mil calorias diárias para a dieta nos campos fora estabelecida para pessoas sedentárias em cadeias, e não para quem fazia trabalho
braçal. Dado que o furto, a fraude e as punições por mau desempenho no trabalho reduziam em até 70% aquela quantidade já escassa de comida, grande número de presos
estava morrendo de inanição. Beria lamentava isso, não porque se apiedasse, mas porque as taxas mais altas de mortalidade e doença impediam que a NKVD cumprisse
suas metas de produção para 1939. Ele requisitou a elaboração de novas normas nutricionais, a fim de que "a capacidade física da mão-de-obra dos campos possa ser
utilizada ao máximo em qualquer atividade".
Embora essas normas tenham sido melhoradas, o regime de Beria dificilmente indicava que se redescobriria a humanidade dos presos. Ao contrário, avançara várias etapas
a transformação deles de seres humanos em unidades de trabalho. Os presos ainda podiam ser condenados à morte nos campos - mas não por meras tendências contra-revolucionárias.
Agora, aqueles que se recusassem a trabalhar ou fomentassem a desorganização no trabalho deveriam ser submetidos a "um regime de campo mais severo, celas punitivas,
rações e condições de vida pioradas e outras medidas disciplinares". Os "preguiçosos" também receberiam novas sentenças, inclusive a de morte.
De imediato, os promotores locais iniciaram investigações sobre essa "malandragem". Em agosto de 1939, por exemplo, um preso foi fuzilado não apenas por ter-se recusado
a trabalhar, mas também por ter encorajado outros a não trabalharem. Em outubro, três presas, aparentemente freiras ortodoxas, foram acusadas tanto de se recusar
a trabalhar quanto de cantar hinos contra-revolucionários no campo de concentração; duas foram fuziladas, e a terceira recebeu uma pena adicional.
Os anos do Grande Terror também deixaram sua marca de outra forma. Nunca mais o Gulag trataria presos como seres plenamente dignos de redenção. Dissolveu-se o sistema
de "solturas antecipadas" por bom comportamento. O próprio Stalin, em sua única intervenção pública conhecida no operação cotidiana do Gulag, acabara com essas solturas,
argumentando que elas afetavam as atividades econômicas dos campos. Em 1938, falando numa sessão do Presidium do Soviete Supremo, ele perguntou:
Não poderíamos pensar em alguma outra forma de recompensar o trabalho deles - com medalhas ou algo assim? Estamos agindo incorretamente, perturbando o trabalho do
campo. Soltar essas pessoas pode ser necessário, mas, do ponto de vista da economia nacional, é um erro [...] soltaremos os melhores e deixaremos os piores.
Em junho de 1939, publicou um decreto que acabava com aquele procedimento. Alguns meses depois, outro decreto eliminou a liberdade condicional também para os inválidos.
O número de presos doentes aumentou na mesma proporção. Então, para os presos que davam duro, o maior incentivo seria a melhoria "das provisões e da comida" - e
as medalhas que Stalin pensava serem tão atraentes. Em 1940, mesmo a Dalstroi já começara a distribuí-las.
Várias dessas iniciativas contrariavam as leis da época e até encontraram resistência. Tanto o promotor-chefe, Vyshinsky, quanto o comissário da Justiça, Richkov,
opuseram-se ao fim da soltura antecipada, assim como à pena de morte para os acusados de "desorganizar a vida nos campos". Mas Beria, como Yagoda antes dele, tinha
claramente o apoio de Stalin e venceu todas as batalhas. A partir de 1º de janeiro de 1940, a NKVD ganhou até o direito de reaver uns 130 mil presos que tinham sido
"emprestados" a outros ministérios. Beria estava decidido a fazer que o Gulag se tornasse verdadeiramente rentável.
Com surpreendente rapidez, as mudanças de Beria tiveram mesmo impacto. Nos últimos meses antes da Segunda Guerra Mundial, a atividade econômica da NKVD voltou a
crescer. Em 1939, sua receita foi de 4,2 bilhões de rublos. Em 1940, de 4,5 bilhões. Durante os anos de guerra, à medida que mais presos começassem a fluir para
os campos, essas cifras aumentariam ainda mais depressa. Segundo as estatísticas oficiais, o número de mortes nos campos também caiu à metade entre 1938 e 1939,
indo de 5% para 3% do total de presos, muito embora o número destes continuasse a aumentar.
Agora, também havia muito mais campos, e eles eram muito maiores do que no início da década de 1930. A população de presos quase duplicara entre 1º de janeiro de
1935 e 1º de janeiro de 1938, tendo passado de 950 mil para 1,8 milhão, com aproximadamente mais 1 milhão de degredados. Os campos de concentração, que antes continham
nada mais que algumas tendas e um pouco de arame farpado, haviam se tornado verdadeiros gigantes industriais. O Sewostlag, o principal campo da Dalstroi, contava
quase 200 mil presos em 1940. O Vorkutlag, o campo de mineração que se desenvolvera do Rudnik 1, no Ukhtpechlag, tinha 15 mil presos em 1938; em 1951, já seriam
mais de 70 mil.
Dentre os campos da nova geração, talvez o mais sombrio fosse o Norillag, em geral conhecido como Norilsk. Localizado ao norte do Círculo Ártico (como Vorkuta e
Kolyma), ficava bem em cima de uma enorme jazida de níquel, provavelmente a maior do mundo. Os presos de Norilsk não apenas escavavam o níquel, mas também construíram
as próprias minas, a usina de processamento do metal e as usinas de força. Em seguida, ergueram uma cidade (Norilsk) para abrigar os homens da NKVD que administravam
as minas e as fábricas. Da mesma maneira que seus predecessores, o campo de Norilsk cresceu rapidamente. Em 1935, tinha 1.200 presos; em 1940, já eram 19.500. No
auge, em 1952, havia 68.849 pessoas aprisionadas ali.
Em 1937, a NKVD também fundou o Kargopollag, na região de Arcangel, seguido em 1938 do Vyatlag, na Rússia central, e do Kraslag, na Sibéria setentrional (na região
administrativa de Krasnoyarsk). Todos eram essencialmente campos madeireiros que assumiram atividades adicionais - olaria, processamento de madeira, movelaria. Todos
duplicariam ou triplicariam de tamanho na década de 1940, quando já continham uns 30 mil presos cada um.
Outros campos abriam, fechavam ou se reorganizavam com tanta freqüência que se torna difícil obter números precisos para qualquer ano em especial. Alguns eram bem
pequenos, construídos para atender às necessidades de determinada fábrica ou projeto de construção. Outros eram temporários, estabelecidos para servir as obras de
uma rodovia ou ferrovia e depois abandonados. A direção do Gulag, a fim de gerenciar os enormes números e os complexos problemas do sistema, acabou criando subdivisões:
uma Administração Central dos Campos Industriais, uma Administração Central da Construção de Estradas, uma Administração Central dos Trabalhos Florestais e assim
por diante.
Mas não fora apenas o tamanho dos campos o que mudara. A partir do final da década de 1930, todos os novos campos tinham caráter puramente industrial, sem os chafarizes
e "jardins" do Vishlag, sem a propaganda idealista que acompanhara a construção de Kolyma, sem os presos-especialistas presentes em todos os níveis da vida do campo.
OlgaVasileevna, administradora que trabalhou como engenheira e inspetora no Gulag e em outros canteiros de obras no final dos anos 1930 e nos 40, recordou que de
início "havia menos guardas, menos administradores, menos funcionários. [...] Na década de 1930, os presos eram designados para todo tipo de trabalho, como escriturários,
barbeiros, guardas". Na década de 40, porém, isso já acabara: "Tudo começou a adquirir caráter mais massificado [...] as coisas ficaram mais duras [...] à medida
que os campos se expandiam, o regime se tornava mais cruel".
O Gulag no apogeu, 1939-53
Na realidade, poder-se-ia dizer que, no final dos anos 1940, os campos de concentração soviéticos haviam adquirido sua forma definitiva. Nessa época, já tinham penetrado
em quase todas as regiões da URSS, em todos os seus doze fusos horários e na maioria das repúblicas. De Aktyubinsk a Yakutsk, não havia um único centro populacional
importante que agora não tivesse seu próprio campo ou colônia penal. Utilizava-se o trabalho de presos para construir de tudo, desde brinquedos infantis até aviões
militares. Em muitos lugares da URSS, já era difícil encontrar quem se dedicasse a seus afazeres cotidianos sem esbarrar em presos.
E o mais importante: os campos tinham evoluído. Eram não mais um grupo de locais de trabalho administrados de forma idiossincrática, e sim um verdadeiro "complexo
prisional-industrial", com práticas habituais, regras internas, sistemas especiais de distribuição, hierarquias. Uma vasta burocracia, também com sua cultura específica,
gerenciava de Moscou o imenso império do Gulag. Esse centro despachava regularmente ordens para os campos locais, fixando tudo, desde a política geral até detalhes
secundários. Embora os campos locais nem sempre seguissem (ou conseguissem seguir) a letra da lei, nunca mais se restabeleceu a natureza ad hoc dos primeiros tempos
do Gulag.
O destino dos presos ainda flutuava, conforme a política soviética, a economia e, acima de tudo, o rumo da Segunda Guerra Mundial. Mas a era da experimentação acabara.
O sistema estava estabelecido. No início dos anos 1940, já se consagrara o conjunto de procedimentos que os presos denominavam "moedor de carne" - os métodos de
captura, interrogatório, traslado, alimentação e trabalho. Na essência, ele mudaria muito pouco até a morte de Stalin.
PARTE II
A VIDA E O TRABALHO NOS CAMPOS
7. A DETENÇÃO
Quando ouvíamos falar da mais recente prisão, nunca perguntávamos: "Por que ele foi preso?" Mas éramos exceção. A maioria das pessoas, alucinada de medo, fazia aquela
pergunta apenas para dar a si mesmas um pouco de esperança; se outros foram presos por este ou aquele motivo, elas não o seriam, porque não tinham feito nada de
errado. Competiam umas com as outras afim de conceber razões inventivas para justificar cada detenção: "Bem, você sabe, ela é mesmo contrabandista", "De fato, ele
foi longe demais", "Já era de esperar, é um sujeito terrível", "Sempre achei que alguma coisa ali não cheirava bem", "Ele não é mesmo como a gente"...
Foi por isso que banimos a pergunta "Por que ele foi preso?".
"Por quê?!", Akhmatova gritava, indignada, sempre que alguma pessoa de nosso círculo, tomada pelo clima predominante, fazia a pergunta.
"O que é que você quer dizer com 'Por quê?'? Você já deveria ter entendido que prendem as pessoas por nada!"
Nadezhda Mandelstam, Contra toda esperança.
A poeta Anna Akhmatova (citada acima pela viúva de outro poeta) estava certa e errada ao mesmo tempo. Por um lado, desde meados da década de 1920 - época em que
a máquina de repressão soviética já se estabelecera -, o governo não mais pegava gente na rua e a punha na cadeia sem motivo e sem explicação: havia detenções, inquéritos,
julgamentos e sentenças. Por outro lado, os "crimes" pelos quais se detinham, julgavam e sentenciavam as pessoas eram absurdos, e os procedimentos de inquérito e
condenação se mostravam disparatados e até surreais.
Em retrospecto, eis um dos aspectos excepcionais do sistema soviético de campos de concentração: no mais das vezes, os detentos chegavam por obra de um sistema legal,
ainda que nem sempre se tratasse do sistema judicial comum. Ninguém julgava e sentenciava os judeus na Europa ocupada pelos nazistas, mas a imensa maioria dos presos
nos campos soviéticos fora interrogada (mesmo que às pressas), julgada (mesmo que de maneira farsesca) e considerada culpada (mesmo que em menos de um minuto). Não
há dúvida de que a convicção de estar agindo conforme a lei era parte do que motivava quem trabalhava nos serviços de segurança, assim como os guardas e administradores
que depois controlavam a vida dos presos nos campos.
Mas repito: o fato de que o sistema repressivo era legalizado não significa que fosse também lógico. Pelo contrário: em 1947, não era mais fácil que em 1917 prever
com alguma certeza quem seria preso. É bem verdade que se tornara possível adivinhar quem provavelmente o seria. Em especial durante ondas de terror, o regime parece
ter escolhido esta ou aquela vítima porque elas, de alguma maneira, haviam chamado a atenção da polícia secreta - um vizinho as escutara contar uma piada infeliz,
um chefe as vira adotar comportamento dúbio -; e, o mais importante, porque pertenciam a categorias populacionais que no momento estavam sob suspeita.
Algumas dessas categorias eram relativamente específicas - engenheiros e especialistas no final da década de 1920, kulaks em 1931, poloneses ou baltas nos territórios
ocupados durante a Primeira Guerra Mundial -, e algumas eram mesmo muito vagas. Durante todos os anos 1930 e 40, por exemplo, os "estrangeiros" se mostravam sempre
suspeitos. Por "estrangeiros", refiro-me a pessoas que de fato eram cidadãs de outros países; pessoas que podiam ter contatos no exterior; ou pessoas que podiam
ter algum vínculo, real ou imaginário, com outro país. Não importando o que houvessem feito, eram sempre candidatas à prisão - e estrangeiros que sobressaíssem de
qualquer maneira, por qualquer razão, encaravam probabilidade particularmente alta de ser encarcerados. Robert Robinson, um dos vários negros que se mudaram dos
Estados Unidos para Moscou nos anos 1930, depois escreveria: "Todo negro americano que conheci no começo da década de 30 e que se tornou cidadão soviético sumiu
de Moscou num período de sete anos".
Diplomatas não estavam isentos. Por exemplo, Alexander Dolgun, cidadão americano e funcionário de baixo escalão da embaixada dos Estados Unidos em Moscou, descreve
em suas memórias o modo pelo qual o apanharam na rua em 1948 e o acusaram, injustamente, de espionagem; em parte, a suspeita recaiu sobre ele porque Dolgun tinha
uma satisfação juvenil em evadir-se à vigilância da polícia secreta e porque era perito em convencer os motoristas da embaixada a emprestar-lhe carros, levando a
polícia secreta soviética a desconfiar de que ele fosse mais importante do que o cargo indicava.
Dolgun passaria oito anos nos campos; depois, só voltaria para os Estados Unidos em 1971.
Comunistas estrangeiros eram alvos freqüentes. Em fevereiro de 1937, Stalin, de modo alarmante, disse a Giorgi Dmitrov, secretário-geral da Internacional Comunista
(o Comintern, a organização dedicada a fomentar a revolução mundial), que "todos vocês do Comintern fazem o jogo do inimigo". Dos 394 membros da Comissão Executiva
do Comintern em janeiro de 1936, apenas 171 permaneciam em abril de 1938. Os restantes haviam sido fuzilados ou mandados para o Gulag, dentre eles pessoas de muitas
nacionalidades - alemães, austríacos, iugoslavos, italianos, búlgaros, finlandeses, até ingleses e franceses. Os judeus parecem ter sofrido de modo desproporcional.
Ao fim e ao cabo, Stalin matou mais integrantes do Politburo do PC alemão pré-1933 do que Hitler: dos 68 líderes que fugiram para a URSS após a tomada do poder pelos
nazistas, 41 morreram, por execução ou nos campos. O PC polonês talvez tenha sido ainda mais dizimado. Segundo uma estimativa, executaram-se 5 mil comunistas poloneses
na primavera e no verão de 1937.
Mas não era necessário pertencer a um partido comunista de outras terras: Stalin também visava meros simpatizantes estrangeiros, dos quais os 25 mil "fino-americanos"
eram provavelmente os mais numerosos. Tratava-se de pessoas de língua finlandesa (algumas imigrantes nos Estados Unidos, as outras já nascidas naquele país) que
foram para a URSS na década de 1930, os anos da Grande Depressão. Na maioria, eram operários fabris, a maior parte desempregada na América. Estimulados pela propaganda
soviética - recrutadores percorriam as colônias finlandesas nos Estados Unidos falando das maravilhosas condições de vida e oportunidades de trabalho na URSS -,
eles acorreram para a República Careliana, onde se falava o finlandês. Quase de imediato, criaram problemas para as autoridades soviéticas. A Carélia não se revelou
muito parecida com os Estados Unidos. Muitos assinalaram ruidosamente isso a quem quisesse ouvir e então tentaram voltar. Em vez disso, acabaram no Gulag no final
dos anos 1930.
Cidadãos soviéticos com vínculos externos não eram menos suspeitos. Os mais visados pertenciam às "diásporas": os poloneses, alemães e fino-carelianos que tinham
parentes e contatos além-fronteiras, assim como os baltas, gregos, iranianos, coreanos, afegãos, chineses e romenos espalhados pela URSS. Entre julho de 1937 e novembro
de 1938, conforme os próprios arquivos da NKVD, ela condenou 335.513 pessoas nessas operações "nacionais" (ou seja, referentes a nacionalidades). Veremos que ações
semelhantes se repetiriam durante e após a guerra.
Entretanto, para levantar suspeitas, nem era preciso falar uma língua estrangeira. Qualquer um com ligações além-fronteiras era suspeito de espionagem: filatelistas,
entusiastas do esperanto, toda pessoa que escrevesse para o exterior ou tivesse parentela fora da URSS. A NKVD também prendeu todas as pessoas que haviam trabalhado
na Ferrovia Oriental Chinesa - que atravessava a Manchúria e cujas origens remontavam aos tempos czaristas - e as acusou de espionagem para o Japão. Nos campos,
eram conhecidas como Kharbintsy, por causa da cidade manchu de Harbin (para os russos, Kharbin), onde muitas tinham morado. Robert Conquest descreve a detenção
de uma cantora de ópera que dançara com o embaixador japonês num baile oficial e a de um veterinário que cuidava de cães pertencentes a estrangeiros.
No final da década de 1930, a maioria dos soviéticos comuns já percebera o padrão e não queria absolutamente nenhum contato com estrangeiros. Karlo Stajner, comunista
croata casado com russa, lembrou que "só raramente os russos se atreviam a ter qualquer relacionamento com estrangeiros [...]. Os parentes de minha mulher continuaram
a ser praticamente estranhos para mim. Nenhum deles ousava visitar-nos. Quando souberam de nossa idéia de casar, todos eles advertiram Sonia disso". Mesmo em meados
dos anos 1980, quando visitei a URSS pela primeira vez, muitos russos se mantinham distantes dos estrangeiros, não lhes dando atenção ou se negando a encará-los
nas ruas.
E ainda assim... Nem todo estrangeiro era detido pela polícia, e nem todo acusado de ter vínculos externos os tinha. Também acontecia de pessoas serem presas por
motivos muito mais idiossincráticos. Em conseqüência, indagar "Por quê?" - a pergunta que Anna Akhmatova tanto detestava - produz uma gama verdadeiramente espantosa
de explicações alegadas.
Por exemplo, Osip Mandelstam (o marido de Nadezhda), foi preso em razão deste ataque poético a Stalin:
Vivemos sem sentir a terra debaixo dos pés.
Falamos, e ninguém nos ouve a dez passos.
Mas, onde houver uma conversa, mesmo que sussurrada,
O embusteiro, assassino e mata-campônios do Kremlin será mencionado.
Seus dedos, gordos como larvas, são untuosos.
Suas palavras, como pesos de chumbo, são finais.
Seu bigode de barata desdenha. As bordas de suas botas brilham.
E, em volta dele, uma panelinha de líderes frouxos,
Apenas meio humanos, serve-lhe de brinquedo.
Um choraminga, outro arrulha, outro geme.
Só ele berra e aponta,
Lançando decretos como se fossem ferraduras,
Acertando uma virilha, uma cabeça, um olho...
Toda sentença de morte é doce
Para o osseto de peito largo.
Embora se apresentassem diferentes razões oficiais, Tatyana Okunevskaya, uma das mais populares atrizes soviéticas do cinema, acreditava ter sido presa porque se
recusara a dormir com Viktor Abakumov, o chefe da contra-espionagem da URSS durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo Tatyana, para assegurarem-na de que esse era
o verdadeiro motivo, foi-lhe mostrado um mandado de prisão com a assinatura de Abakumov. Os quatro irmãos Starostin, todos excepcionais jogadores de futebol, viram-se
presos em 1942. Sempre acreditaram que isso se devia ao fato de seu time, o Spartak, ter tido o azar de derrotar o Dynamo - pelo qual Lavrenty Beria torcia - por
um placar demasiado elástico.
Tampouco se fazia necessário nada fora do comum. Lyudmila Khachatryan foi presa por ter-se casado com um estrangeiro, soldado iugoslavo. Lev Razgon narrou a história
de um camponês, Seryogin, que, ao saber que alguém matara Kirov, retrucou: "Como se eu desse a mínima!" Seryogin nunca ouvira falar de Kirov e presumiu que se tratasse
de alguém que morrera na aldeia vizinha. Pelo equívoco, recebeu pena de dez anos. Em 1939, contar (ou ouvir) uma piada sobre Stalin; atrasar-se para o trabalho;
ter a infelicidade de que um amigo aterrorizado ou um vizinho invejoso o denunciasse como "conjurado" num complô inexistente; possuir quatro vacas numa aldeia onde
a maioria tmha uma só; furtar um par de sapatos; ser primo da mulher de Stalin; afanar caneta e papel do escritório para dá-los a um escolar carente -tudo isso,
nas circunstâncias certas, acarretava pena de prisão num campo soviético. Por uma lei de 1940, parentes de quem houvesse tentado atravessar ilegalmente a fronteira
soviética estavam sujeitos a prisão, não importando se sabiam ou não da tentativa de fuga. Veremos que as leis dos tempos de guerra - sobre o atraso no trabalho
e a proibição de mudar de emprego - adicionariam ainda mais "criminosos" aos campos.
Se os motivos para detenção se revelavam muitos e variados, os métodos também o eram. Alguns presos tinham sido mais do que avisados. Durante semanas antes de sua
captura, em meados da década de 1930, AlexanderWeissberg fora seguidamente chamado para interrogatório por um agente da polícia secreta, perguntando-lhe repetidas
vezes como ele virara "espião": quem o recrutara? Quem ele recrutara? Para que organização estrangeira trabalhava? "Fez as mesmíssimas perguntas de novo e de novo,
e sempre lhe dei as mesmas respostas."
Mais ou menos na mesma época, Galina Serebryakova, autora de A juventude de Marx e mulher de um alto funcionário público, também foi "convidada" à Lubyanka todas
as noites, obrigada a esperar até as duas ou três da manhã, interrogada e liberada às cinco, quando voltava para seu apartamento. Agentes cercavam o prédio, e um
carro preto seguia Galina quando ela saía de casa. Ficou tão certa de que seria presa que tentou matar-se. No entanto, suportou vários meses dessa perseguição até
ser de fato presa.
Durante grandes ondas de prisões - de kulaks em 1929 e 1930, de ativistas do partido em 1937 e 1938, de ex-presos em 1948 -, muitos sabiam que sua vez se aproximava
porque simplesmente todos em volta estavam sendo capturados. Em 1937, Elinor Lipper (comunista holandesa que viera para Moscou naquela década) estava morando no
Lux, um hotel especial para revolucionários estrangeiros: "toda noite, mais algumas pessoas sumiam do hotel [...] de manhã, apareciam grandes lacres vermelhos nas
portas de mais alguns quartos".
Em épocas de verdadeiro terror, alguns até encaravam a detenção com uma espécie de alívio. Nikolai Starostin, um daqueles azarados astros do futebol, foi seguido
por agentes durante várias semanas; ficou tão incomodado com isso que finalmente foi até um deles e exigiu uma explicação: "Se vocês querem alguma coisa de mim,
chamem-me à sua repartição". Em conseqüência, no momento da prisão, ele sentiu não "espanto e medo", mas "curiosidade".
Outros, porém, eram pegos totalmente de surpresa. O escritor polonês Aleksander Wat, que então morava em Lvov (ocupada pelos soviéticos), foi convidado a uma festa
num restaurante, com um grupo de literatos. Perguntou ao anfitrião o que se comemorava. "Você verá", foi a resposta. Encenou-se uma briga, e ele foi preso ali mesmo.
Alexander Dolgun, o já citado funcionário da embaixada norte-americana, foi saudado na rua por um homem que acabou revelando-se um secreta. Dolgun recordaria que,
quando o homem o chamou pelo nome, "fiquei completamente aturdido; imaginei se não seria algum doido". Tatyana Okunevskaya, a atriz, estava de cama, muito resfriada,
quando vieram prendê-la; requereu que a polícia voltasse outro dia; mostraram-lhe o mandado de prisão (aquele com a assinatura de Abakumov) e a arrastaram escada
abaixo. Soljenitsin repete a história (provavelmente apócrifa) da mulher que foi ao Bolshoi com o namorado, interrogador profissional, que, por sua vez, a levou
direto do teatro para a Lubyanka. A sobrevivente e memorialista Nina Gagen-Torn conta o episódio de uma mulher que fora detida quando apanhava roupa no varal num
pátio de Leningrado; estava de roupão de banho e deixara o bebê sozinho no apartamento, achando que voltaria em poucos minutos; implorou para que a deixassem ir
pegá-lo, mas não permitiram.
Na realidade, tem-se a impressão de que as autoridades variavam propositalmente de tática, capturando algumas pessoas em casa, outras no trabalho; algumas na rua,
outras no trem. Um memorando de Stalin a Viktor Abakumov, datado de 17 de julho de 1947, confirma essa suspeita, observando que os visados eram rotineiramente "surpreendidos
pela polícia" para evitai que escapassem, resistissem ou alertassem outros em suas "conspirações" contra-revolucionárias. Em certos casos, continuava o documento,
"realiza-se uma detenção às escondidas na rua".
Entretanto, a captura mais comum era a que ocorria na casa da pessoa, no meio da noite. Em períodos de prisões em massa, difundiu-se muito o medo da "batida na porta"
à meia-noite. Há uma velhíssima piada soviética sobre o susto terrível que marido e mulher tiveram quando ouviram a batida na porta - e sobre o alívio que sentiram
quando souberam que era apenas o vizinho, avisando que o prédio estava pegando fogo. Um provérbio soviético também diz que "os ladrões, as prostitutas e a NKVD trabalham
mais à noite". Em geral, essas detenções noturnas se faziam acompanhar de uma busca, ainda que as táticas para essa última variassem com o passar do tempo. Osip
Mandelstam foi preso duas vezes, em 1934 e em 1938, e sua mulher descreveria as diferenças entre os dois procedimentos:
Em 1938, não perderam tempo procurando nem examinando papéis - de fato, os agentes da polícia não pareciam nem saber a ocupação do homem que tinham vindo prender
[...] simplesmente viraram todos os colchões, enfiaram os papéis dele num saco, fuçaram um pouquinho e sumiram, levando M. [Mandelstam] consigo. A operação toda
não durou mais que vinte minutos. Mas, em 1934, eles haviam ficado a noite toda, até a madrugada.
Durante a batida anterior, a polícia secreta, que obviamente sabia o que estava fazendo, passara um pente-fino na papelada de Mandelstam, deixando de lado manuscritos
antigos e procurando versos novos. Também se assegurara de que testemunhas "civis" estivessem presentes, assim como um "amigo" dos Mandelstam que estava a soldo
da polícia; tratava-se de um crítico literário, que recebera ordens de aparecer lá antes da chegada dos agentes, para garantir que a família não começasse a queimar
papéis tão logo ouvisse a batida na porta. Na batida de 1938, a polícia não se preocupou com tais detalhes.
Prisões em massa de grupos nacionais específicos, como as que ocorreram no que fora a Polônia oriental e os Estados bálticos - territórios tomados pelo Exército
Vermelho entre 1939 e 1941 -, costumavam ter caráter ainda mais aleatório. Janusz Bardach, adolescente judeu na localidade polonesa de Wlodzimierz-Wolynski, viu-se
obrigado a servir de "testemunha" civil durante uma dessas capturas. Na noite de 5 de dezembro de 1939, acompanhou um grupo de facínoras bêbados da NKVD que foram
de casa em casa, arrebanhando pessoas que seriam presas ou deportadas. Às vezes, atacavam os cidadãos mais ricos e mais bem relacionados, cujos nomes eram registrados
numa lista; outras vezes, simplesmente carreavam "refugiados" - em geral judeus que tinham fugido da Polônia ocidental, ocupada pelos nazistas, para a oriental,
ocupada pelos soviéticos -, sem se preocupar em anotar seus nomes. Numa casa, alguns refugiados tentaram resguardar-se lembrando a NKVD de que haviam sido membros
do Bund, o movimento socialista judaico. Apesar disso, ao saber que essas pessoas vinham de Lublin (cidade que, na época, ficava do outro lado da fronteira), Gennady,
o líder da patrulha da NKVD, começou a gritar:
"Seus refugiados sujos! Espiões nazistas!" As crianças caíram no choro, o que irritou Gennady ainda mais. "Façam-nas calar a boca! Ou vocês querem que eu mesmo cuide
disso?"
A mãe as puxou para junto de si, mas elas não conseguiam parar de chorar. Gennady agarrou as mãos [de um] menininho, arrancou-o dos braços da mãe e o jogou no chão.
"Cale a boca, eu já disse!" A mãe berrou. O pai tentou dizer alguma coisa, mas só conseguiu arfar. Gennady pegou o menino e o segurou por um instante, encarando-o
de perto; depois, atirou-o com força contra a parede.
Mais tarde, os homens destruíram a casa de amigos de infância de Bardach:
Ao lado, ficava o escritório do dr. Schechter. Sua escrivaninha escura de mogno estava no meio, e Gennady foi direto para ela. Passou a mão pela madeira lisa e então,
num momento de raiva inesperada, a golpeou com um pé-de-cabra. "Porcos capitalistas! Parasitas filhos da puta! Precisamos achar esses exploradores capitalistas!"
Cada vez com mais força, seguiu golpeando a mesa, sem parar, fazendo vários buracos na madeira.
Não tendo conseguido localizar os Schechter, os homens estupraram e mataram a mulher do jardineiro.
Nesses territórios recém-ocupados, quem executava tais operações, freqüentemente guardas de comboio (soldados que controlavam os trens de deportados) e não a NKVD,
recebera muito menos treinamento que os secretas que realizavam as detenções "normais" de criminosos também "normais". E provável que a violência não fosse cometida
a mando do Estado, mas, já que se tratava de soldados soviéticos prendendo "capitalistas" no Ocidente rico, a bebedeira, a baderna e até o estupro parecem ter sido
tolerados, como o seriam depois, na fase final da Segunda Guerra, durante o avanço do Exército Vermelho através da Polônia e da Alemanha.
No entanto, certos aspectos da conduta desses homens eram severamente impostos de cima. Em novembro de 1940, em Moscou, a Administração dos Guardas de Comboio determinou
que os seus homens, ao realizar as prisões, deveriam mandar os detidos trazerem roupas quentes e objetos pessoais em quantidade suficiente para três anos, pois naquele
momento a URSS sofria escassez desses produtos. Esperava-se que os detentos vendessem seus pertences. Antes, os soldados costumavam receber ordem de não dizer nada
aos presos sobre o lugar para onde iam, ou quanto tempo ficariam lá. A fórmula aceite era: "Por que se preocuparem? Por que carregarem o que quer que seja? Só vamos
levar vocês para uma conversinha". Às vezes, diziam aos deportados que estes estavam apenas sendo transferidos para outra área, mais longe das fronteiras, "para
a própria proteção de vocês". A idéia era impedir que os detidos se apavorassem, reagissem ou fugissem. O resultado era que se privavam as pessoas dos instrumentos
básicos de que precisariam para sobreviver num clima rude, com o qual não estavam familiarizadas.
Homem entra em sua primeira cela. Desenho de Thomas Sgovio, completado após a soltura do artista
Embora se possa relevar a ingenuidade de camponeses poloneses que deparavam com o regime soviético pela primeira vez e acreditavam nessas mentiras, a mesmíssima
fórmula também funcionava bem no caso dos intelectuais de Moscou e Leningrado e dos apparatchiki do Partido, freqüentemente tomados pela convicção da própria inocência.
Quando prenderam Evgeniya Ginzburg (na época funcionária do Partido em Kazan), disseram-lhe que ficaria fora "quarenta minutos, talvez uma hora". Em conseqüência,
ela não teve chance de despedir-se dos filhos. Yelena Sidorkina, filiada ao Partido, desceu a rua para a prisão "conversando tranqüilamente" com o policial, certa
de que logo estaria em casa.
Sofia Aleksandrovna, ex-mulher do chekista Gleb Boky, viu-se desestimulada a levar consigo um casaco leve quando a NKVD veio buscá-la ("a noite está quente, e voltaremos
no máximo em uma hora"). Isso fez seu genro, o escritor Lev Razgon, ponderar a estranha crueldade do sistema: "Para que mandar para a prisão uma mulher de meia-idade,
com saúde não muito boa, sem nem mesmo o saquinho de roupas de baixo e itens de higiene que, desde os tempos dos faraós, os detidos sempre foram autorizados a trazer
consigo?"
A mulher do ator Georgii Zhenov pelo menos teve o bom senso de começar a acondicionar as roupas do marido. Quando lhe disseram que Zhenov retornaria rapidamente,
ela rebateu: "Quem cai nas mãos de vocês não volta logo". Era verdade: na maioria das vezes, quando um detido adentrava os pesados portões de ferro de uma prisão
soviética, passavam-se muitos anos antes que tornasse à casa.
Se às vezes o método soviético de captura parece ter sido quase aleatório, os rituais que se seguiam já eram praticamente imutáveis nos anos 1940. Não importando
por que se detivera uma pessoa, os acontecimentos seguiam curso muito previsível tão logo ela chegava à prisão local. Como regra geral, os detidos eram registrados
e fotografados e tinham suas impressões digitais recolhidas bem antes de serem informados de por que haviam sido presos e de qual seria seu destino. Durante as primeiras
horas, e às vezes durante os primeiros dias, não topavam com ninguém de mais autoridade que os carcereiros, os quais não ligavam a mínima para o que seria feito
deles, não tinham a menor idéia dos crimes que podiam ter cometido e respondiam a todas as perguntas com um dar de ombros indiferente.
Muitos ex-condenados acreditam que as primeiras horas de cativeiro se destinavam a atordoá-los de propósito, para que ficassem incapazes de racionar com coerência.
Inna Shikheeva-Gaister, presa por ser filha de um inimigo do povo, sentiu isso acontecer com ela depois de poucas horas na Lubyanka, a cadeia central de Moscou:
Aqui na Lubyanka, você já não é uma pessoa. E não há gente a seu redor. Conduzem você por um corredor, fotografam-na, despem-na, revistam-na mecanicamente. Tudo
se faz de maneira totalmente impessoal. Você procura um olhar humano - não falo nem de uma voz humana, só mesmo de um olhar -, mas não o acha. Você fica em pé, desgrenhada,
diante do fotógrafo. Tenta de algum modo ajeitar-se nas roupas, e lhe mostram com o dedo onde sentar. Uma voz vazia diz "De frente'' e "De perfil". Não a vêem como
ser humano! Você se tornou um objeto.
Caso fossem levados para interrogatório numa das prisões centrais urbanas - e não colocados imediatamente em trens, como o eram os degredados -, os detidos se submetiam
a uma revista minuciosa, em várias etapas. Um documento de 1937 instruía os carcereiros especificamente a não esquecer que "o inimigo não interrompe a luta depois
da detenção" e que ele podia suicidar-se para ocultar suas atividades criminosas. Em conseqüência, os detentos eram privados de botões, cintos, suspensórios, cadarços,
ligas, elásticos de roupas de baixo e tudo o mais que pudessem pensar em usar para matar-se. Muitos se sentiam humilhados com esse procedimento. Nadezhda Joffe,
filha de um destacado bolchevique, viu-se despojada do cinto, da liga, dos cadarços e dos grampos de cabelo:
Lembro-me de como fiquei impressionada com a degradação e o absurdo que tudo aquilo representava. O que uma pessoa poderia lazer com grampos de cabelo? Mesmo se
alguém tivesse a idéia despropositada de enforcar-se com os cadarços, como é que se faria isso? Eles simplesmente tinham de colocar a pessoa numa posição asquerosa
e humilhante, em que as saias caíam, as meias arriavam e os pés se arrastavam.
A revista corporal que vinha a seguir era pior. No romance O primeiro círculo, Alexander Soljenitsin descreve a detenção de Innokenty, um diplomata soviético. Poucas
horas depois da chegada à Lubyanka, um carcereiro examina cada orifício do corpo de Innokenty:
Da mesma maneira que um negociante de cavalos, com seus dedos sujos cutucando dentro da boca de Innokenty, esticando uma bochecha e depois a outra, puxando para
baixo as pálpebras inferiores, o carcereiro se convenceu de que não havia nada escondido nos olhos nem na boca; empurrou a cabeça para trás, de modo que as narinas
ficaram iluminadas; em seguida, examinou ambas as orelhas, puxando-as para trás, e mandou Innokenty esticar as mãos, para mostrar que não havia nada entre os dedos,
e balançar os braços, para mostrar que não havia nada sob as axilas. No mesmo tom monótono e peremptório, ordenou:
"Pegue o pênis na mão. Puxe o prepúcio. Mais. Certo, já basta. Mova o pênis do alto para a direita, do alto para a esquerda. Certo, pode largar. Fique de costas
para mim. Abra bem as pernas. Mais. Incline-se e toque o chão. Com as pernas mais abertas. Abra as nádegas com as mãos. Certo. Agora, de cócoras. Depressa! De novo!"
Tendo cogitado sobre a detenção antes de ocorrida, Innokenty se imaginara num duelo de obstinação até a morte. Para tanto estava preparado, pronto para uma defesa
íntegra de sua vida e de suas convicções. Nunca presumira algo tão simples, tão deprimente e tão imperioso como aquela realidade. As pessoas que o haviam recepcionado
eram mesquinhas - pequenas autoridades, tão desinteressadas em sua personalidade quanto no que ele fizera.
Para as mulheres, o choque de tais revistas podia ser pior. Uma se recordaria de que o carcereiro que fazia a revista
tirou nossos sutiãs, nossas cintas-ligas e algumas outras partes de nossa lingerie que eram essenciais a uma mulher. Seguiu-se um exame ginecológico rápido e repulsivo.
Fiquei quieta, mas senti que me privavam de toda a dignidade humana.
Em 1941, durante uma estada de doze meses na prisão Aleksandrovsky Tsentral, a memorialista T. P. Milyutina foi revistada repetidas vezes. As mulheres das celas
eram levadas, cinco de cada vez, a uma escada sem aquecimento. Ali, recebiam ordem de despir-se por inteiro, colocar as roupas no chão e levantar os braços. Mãos
se metiam "em nossos cabelos, nossas orelhas, debaixo de nossas línguas, também entre nossas pernas", com as prisioneiras tanto em pé quanto sentadas. A memorialista
escreve que, após a primeira dessas revistas, "muitas caíram em lágrimas, e muitas ficaram histéricas".
Em seguida à revista, alguns presos iam para a solitária. "As primeiras horas de prisão", continua Soljenitsin, "destinam-se a subjugar o preso isolando-o do contato
com outros detentos, para que ninguém possa animá-lo, para que sinta que toda a força daquele aparato vasto e ramificado se exerce sobre ele, e apenas sobre ele."
A cela do diplomata soviético Evgenii Gnedin, filho de revolucionários, continha apenas uma pequena mesa, afixada ao piso, e duas banquetas, também afixadas ao piso.
A cama dobradiça na qual os presos dormiam à noite era presa à parede. Tudo, inclusive as paredes, banquetas, cama e teto, era pintado de azul-claro. "Tinha-se a
impressão de estar dentro de um camarote esquisito de navio", escreveria Gnedin em suas memórias.
Durante as primeiras horas de detenção, ou mesmo por alguns dias, também era bastante comum ser posto (a exemplo do que aconteceu a Alexander Dolgun) num bok, uma
cela "de mais ou menos 1,20 por 0,90 metro; uma caixa vazia com um banco comprido". O cirurgião polonês Isaac Vogelfanger viu-se numa cela com janelas abertas no
meio do inverno. Outros, corno Lyubov Bershadskaya - uma sobrevivente que depois ajudaria a liderar uma greve de presos em Vorkuta -, ficavam isolados durante todo
o período de interrogatório. Lyubov passou nove meses na solitária e escreveu que até ansiava por ser interrogada, só para ter alguém com quem falar.
Contudo, para o recém-chegado, uma cela superlotada podia ser ainda mais horripilante. Na descrição de Olga Adamova-Sliozberg, sua primeira cela parece um quadro
de Hieronymus Bosch:
A cela era enorme. As paredes abobadadas pingavam. De ambos os lados, deixando apenas uma passagem estreita, havia pranchas baixas que serviam de camas e estavam
apinhadas de corpos. Por cima, em varais, secavam andrajos diversos. O ar se espessava com a fumaça nojenta de fumo forte e barato e se enchia com o alarido de bate-bocas,
gritos e soluços.
Outro memorialista também procurou exprimir a sensação de susto:
Era uma visão tão terrível, homens de cabelo comprido, barbados, o cheiro de suor, nenhum lugar para sentar ou descansar. É preciso usar a imaginação para tentar
compreender o tipo de lugar em que eu estava.
A finlandesa Aino Kuusinen, mulher de Oleg Kuusinen (o líder do Comintern), acreditava que, na primeira noite, fora proposital-mente colocada onde pudesse ouvir
os presos que iam sendo interrogados:
Mesmo hoje, passados trinta anos, mal consigo descrever o horror daquela primeira noite na Lefortovo [prisão moscovita que leva o nome do bairro onde fica]. De minha
cela, dava para ouvir todo e qualquer ruído que se fazia do lado de fora. Depois descobri que, perto dela, ficava o "departamento de interrogatórios", uma estrutura
separada que, na realidade, era uma sala de torturas. Durante toda a noite, escutei urros atrozes e o repetido som de chibata. Um animal desesperado e torturado
dificilmente produziria berros tão medonhos quanto os das vítimas que, durante horas, eram atingidas por ameaças, golpes e xingamentos.
Mas, não importando onde se encontrassem na primeira noite de detenção - fosse numa antiga cadeia czarista, fosse num xadrez de estação ferroviária, fosse numa igreja
ou num mosteiro adaptados -, todos os presos encaravam uma tarefa urgente e imediata: recuperar-se do susto, ajustar-se às regras específicas da vida prisional -
e lidar com o interrogatório. A velocidade com que conseguissem fazer essas coisas ajudaria a determinar quão bem, ou quão mal, eles se sairiam ali na detenção e,
por fim, nos campos.
De todas as etapas pelas quais os presos passavam no caminho para o gulag, o interrogatório talvez seja aquela com a qual os ocidentais estão mais familiarizados.
Descreveram-se interrogatórios não apenas nos livros de história, mas também na literatura do Ocidente (por exemplo. no clássico Do zero ao infinito, de Arthur Koestler),
em filmes de guerra e em outras formas de cultura popular ou elevada. A Gestapo, assim como a Inquisição espanhola, contava com interrogadores tristemente célebres.
Suas táticas entraram para o imaginário popular. "Temos meios de fazê-lo falar" é uma frase que as crianças ainda usam quando brincam de guerra.
É claro que interrogatórios de presos também ocorrem em sociedades democráticas e respeitadoras do Estado de direito, às vezes seguindo a lei, às vezes não. A pressão
psicológica e até a tortura estão longe de ser exclusivas da URSS. A dobradinha "polícia bonzinho e polícia malvado" (na qual o primeiro, simpático e cortês, faz
perguntas e se alterna com o segundo, irado) se incorporou não apenas a vários idiomas, mas também a manuais de polícia americanos (hoje ultrapassados). Durante
interrogatório, em uma ou outra época, presos se viram pressionados em muitos países, quando não na maioria deles; aliás, tal pressão levou a Suprema Corte dos Estados
Unidos, no caso Miranda versus Arizona (1966), a determinar que os suspeitos de atos criminosos devem ser informados, entre outras coisas, de seu direito a permanecer
calados e contatar advogado.
Ainda assim, as "investigações" realizadas pela polícia secreta soviética eram únicas, se não nos métodos, pelo menos no caráter "maciço". Em alguns períodos, os
"casos" envolviam rotineiramente centenas de pessoas, que eram capturadas em toda a URSS. Típico de sua época era um relatório elaborado pelo departamento regional
da NKVD em Orenburg sobre "Providências operacionais para a liqüidação de grupos clandestinos de trotskistas e bukharinistas, assim como de outros grupos contra-revolucionários,
tomadas de 1º de abril a 18 de setembro de 1937". Segundo o relatório, a NKVD local prendera 420 membros de uma conspiração "trotskista"; 120 "direitistas"; mais
de 2 mil integrantes de uma "organização militar nipo-cossaca de direita"; mais de 1.500 oficiais e funcionários públicos czaristas degredados de São Petersburgo
em 1935; uns 250 poloneses indiciados como parte de um processo contra "espiões polacos"; 95 pessoas que haviam trabalhado na Ferrovia Oriental Chinesa e eram consideradas
espiões japoneses; 3.290 ex-kulaks; e 1.300 "elementos criminosos".
No todo, a NKVD de Orenburg detivera mais de 7.500 pessoas num período de cinco meses, o que não deixava muito tempo para um exame cuidadoso das provas. Isso nem
importava, pois, na realidade, os inquéritos sobre cada uma dessas conspirações haviam sido iniciados em Moscou. A NKVD estava apenas cumprindo obrigação, preenchendo
as cotas de presos que lhe tinham sido impostas de cima.
Por causa do grande volume de detenções, foi preciso estabelecer procedimentos especiais. Estes nem sempre acarretavam mais crueldade. Pelo contrário: às vezes,
o grande número de presos levava a NKVD a reduzir ao mínimo o trabalho de real investigação. O acusado era interrogado às pressas e condenado igualmente às pressas,
por vezes com uma audiência judicial extremamente rápida. O general Aleksander Gorbatov recordaria que sua audiência demorou "quatro ou cinco minutos" e consistiu
na confirmação de detalhes pessoais e numa única pergunta: "Por que você não confessou seus crimes durante o inquérito?" Em seguida, recebeu sentença de quinze anos
de prisão.
Outros nem sequer tinham julgamento: eram condenados in absentia, procedimento realizado ou por uma osoboe soveshchanie (comissão especial), ou por uma tróica de
altos funcionários. Foi o caso de Thomas Sgovio, cujo inquérito se mostrou inteiramente superficial. Nascido em Buffalo (estado de Nova York), Sgovio chegara à URSS
em 1935 como refugiado político, sendo filho de um comunista ítalo-americano que, por causa de suas atividades políticas, fora deportado dos Estados Unidos para
lá. Durante os três anos em que morou em Moscou, Sgovio foi aos poucos se desiludindo, até procurar reaver seu passaporte norte-americano (abrira mão dele quando
entrara na URSS), a fim de poder voltar para casa. Em 12 de março de 1938, foi preso ao sair a pé da embaixada americana.
O registro do inquérito subseqüente - que Sgovio, décadas depois, fotocopiou num arquivo de Moscou e doou à Hoover Institution - é sumário, no que, aliás, corresponde
à lembrança que o próprio acusado tem dos acontecimentos. Entre as provas contra ele, inclui-se uma lista do que se achou durante a revista corporal; entre outras
coisas, sua caderneta sindical, sua agenda de endereços e telefones, seu cartão de biblioteca, uma folha de papel ("com texto escrito em língua estrangeira"), sete
fotos, um canivete e um envelope com selos estrangeiros. Há uma declaração do camarada Sorokin, capitão da Segurança do Estado, atestando que o acusado entrara a
pé na embaixada dos Estados Unidos em 12 de março de 1938. Há também uma declaração de testemunha, atestando que ele deixara a embaixada às 13h15. O prontuário ainda
compreende as minutas do inquérito inicial e os dois breves interrogatórios, tendo sido cada página assinada por Sgovio e pelo interrogador. A declaração inicial
de Sgovio está transcrita assim: "Eu queria recuperar minha cidadania americana. Três meses atrás, fui à embaixada americana pela primeira vez e solicitei minha
cidadania de volta. Hoje voltei lá [...] a recepção me disse que o funcionário americano encarregado de meu caso tinha ido almoçar, e mandaram que eu retornasse
em uma ou duas horas".
Durante a maior parte do interrogatório subseqüente, pediram repetidamente a Sgovio os detalhes da visita à embaixada. Só uma vez lhe disseram: "Fale-nos de suas
atividades de espionagem". Depois que replicou que "Vocês sabem que não sou espião", eles parecem não tê-lo pressionado mais, embora o interrogador brincasse com
uma mangueira de borracha (do tipo em geral usado para espancar presos) de modo vagamente ameaçador.
A NKVD, ainda que não estivesse muito interessada no caso, não parece jamais ter duvidado do desfecho. Alguns anos depois, Sgovio requereu revisão do processo; a
promotoria cumpriu as formalidades e resumiu os fatos da seguinte maneira: "Sgovio não nega que fez uma solicitação na embaixada americana. Portanto creio não haver
motivo para revermos o processo". Fatalmente complicado pelo fato de que confessara ter entrado na embaixada americana (e ter desejado sair da URSS), Sgovio recebeu
de uma das "comissões especiais" a pena de cinco anos de trabalhos forçados, condenado como "elemento socialmente perigoso". Seu processo fora considerado de rotina.
Na onda de prisões da época, os investigadores só haviam feito o mínimo exigido.
Outros eram condenados com ainda menos provas, após inquéritos ainda mais superficiais. Dado que despertar suspeita já era considerado sinal de culpa, os presos
raramente eram soltos sem haver cumprido pelo menos uma pena parcial. Lev Finkelstein, judeu russo aprisionado no final da década de 1940, teve a impressão de que,
embora ninguém houvesse conseguido imputar-lhe culpa plausível, ele recebera uma pena curta de prisão nos campos simplesmente para mostrar que os órgãos de captura
nunca erravam. S. G. Durasova, outro ex-preso, até afirma que um de seus interrogadores lhe dissera especificamente que "nunca prendemos ninguém que não seja culpado.
E, mesmo se você não for culpado, não poderemos soltá-lo, porque aí as pessoas diriam que estamos pegando inocentes".
Por outro lado, quando a NKVD tinha algum interesse mais - e, ao que parece, quando o próprio Stalin demonstrava esse interesse -, a atitude dos investigadores para
com aqueles apanhados durante períodos de prisões em massa podia rapidamente passar de apática a sinistra. Em certas circunstâncias, a NKVD chegava a exigir que
os investigadores forjassem provas em larga escala - como aconteceu durante o inquérito de 1937 sobre o que Nikolai Yezhov denominou "a mais poderosa e provavelmente
mais importante rede diversionária da espionagem polaca na URSS". Se o interrogatório de Sgovio representa um extremo (o do desinteresse), a operação maciça contra
essa suposta rede de espiões representa o outro: os suspeitos eram interrogados com a determinação de fazê-los confessar.
A operação se iniciou com a ordem 00485 da NKVD, que estabeleceu o padrão para prisões em massa posteriores. Ela listava claramente o tipo de pessoa que se deveria
capturar: todos os prisioneiros de guerra poloneses remanescentes da Guerra Polaco-bolchevique de 1920; todos os refugiados e imigrantes poloneses na URSS; todo
mundo que houvesse sido membro de algum partido político polonês; e todos os "ativistas anti-soviéticos" das regiões de língua polonesa na URSS. Na prática,
qualquer indivíduo de origem polonesa que morasse em território soviético - e havia muitos, em especial nas regiões de fronteira da Ucrânia e da Bielo-Rússia
- tornava-se suspeito. A operação foi tão completa e minuciosa que o cônsul da Polônia em Kiev produziu um relatório secreto do que estava acontecendo, observando
que, em algumas aldeias, "todos cuja origem fosse polonesa, e até todos cujo nome parecesse polonês", tinham sido presos, não importando se eram diretores de fábrica
ou simples camponeses.
Mas as capturas eram só o começo. Já que não havia nada para incriminar alguém culpado de ter sobrenome polaco, a ordem 00485 instava os chefes regionais da NKVD
a "iniciar investigações simultaneamente às detenções. O objetivo básico da investigação deve ser o total desmascaramento dos organizadores e líderes do grupo diversionário,
a fim de revelar essa rede".
Na prática, isso significava (como em tantos outros casos) que os próprios detidos seriam obrigados a fornecer as provas com as quais se constituiria o processo
contra eles. O sistema era simples. Os poloneses detidos eram primeiro interrogados sobre sua participação na rede de espionagem. Aí, quando alegavam não saber nada
a respeito disso, eram espancados ou torturados de outras maneiras até "se lembrarem". Visto que o próprio Yezhov estava interessado no sucesso dessa iniciativa,
ele até comparecia a algumas das sessões de tortura. Quando os presos prestavam oficialmente queixa do tratamento, Yezhov ordenava a seus subordinados que não dessem
atenção àquilo e "continuassem na mesma linha". Após os presos terem confessado, exigia-se deles que denunciassem seus "conjurados". O ciclo então se reiniciava,
com o que a "rede de espionagem" crescia cada vez mais.
Dois anos após ter sido lançada, a chamada "linha polonesa de investigação" já resultara na captura de mais de 140 mil pessoas, o que, segundo algumas estimativas,
corresponderia a quase 10% de todos os presos durante o Grande Terror. Mas a operação também ficou tão tristemente célebre pelo uso indiscriminado de tortura e confissões
falsas que, em 1939, durante a curta reação violenta contra as prisões em massa, a própria NKVD iniciou um inquérito sobre os "equívocos" cometidos. Um policial
envolvido lembraria que "não era preciso ser delicado - não se necessitava de autorização especial para bater na cara das pessoas, para espancá-las sem restrições".
Aos que demonstravam certos pruridos (e parece ter havido alguns elementos assim), dizia-se explicitamente que era decisão de Stalin e do Politburo "bater nos polacos
até não mais poder".
De fato, embora Stalin depois denunciasse os "procedimentos simplificados de investigação" da NKVD, há indícios de que ele aprovava tais métodos. Naquele memorando
que Abakumov lhe enviou em 1947, por exemplo, observa-se especificamente que a função primordial do interrogador é tentar obter do detido uma "confissão verdadeira
e franca, para não apenas estabelecer a culpa dele, mas também desmascarar aqueles aos quais esteja ligado e aqueles que dirigem a atividade criminosa do detido
e os planos do inimigo".61 Abakumov evita a questão dos espancamentos e da tortura física, mas escreve que os investigadores recebem ordem de "estudar o caráter
do detido" e, com base nisso, determinar o regime prisional que lhe será imposto (se severo ou brando) e a melhor maneira de aproveitar-se de suas
convicções religiosas, vínculos familiares e pessoais, amor-próprio, vaidade etc. [...] Por vezes, a fim de sobrepujar em astúcia o detido e criar a impressão de
que os órgãos da MGB [sucessora da NKVD] sabem tudo a respeito dele, o investigador pode lembrá-lo de detalhes íntimos e variados de sua vida pessoal, segredos que
ele esconde daqueles a sua volta etc.
Os motivos pelos quais a polícia secreta soviética se mostrava tão obcecada por confissões continuam a dar pano para manga. Já se apresentou ampla gama de explicações.
Alguns acreditam que tal política emanava do alto. Roman Brackman, autor de uma biografia heterodoxa, O dossiê secreto de Joseph Stalin (The secret file of Joseph
Stalin), acredita que o líder soviético tinha a obsessão neurótica de fazer outros confessarem tipos de crime que ele próprio cometera: segundo o autor, Stalin fora
agente da polícia secreta czarista antes da Revolução e, por isso, sentia uma necessidade particular de ver pessoas confessarem ter sido traidoras. Robert Conquest
também acredita que Stalin estava interessado em obrigar pelo menos aqueles que conhecera pessoalmente a confessar: "ele queria não apenas matar seus antigos oponentes,
mas também destruí-los moral e politicamente", embora isso, é claro, se aplicasse apenas a alguns indivíduos dentre os milhões de detidos.
Mas as confissões também eram importantes para os agentes da NKVD que realizavam os interrogatórios. Talvez extraí-las os ajudasse a sentir confiança na legitimidade
de seus atos: isso fazia a loucura das prisões arbitrárias em massa parecer mais humana, ou pelo menos submetida à lei. Como no caso dos "espiões polacos", a confissão
ainda fornecia as provas necessárias para que se prendessem outros. O sistema político e econômico soviético também estava obcecado por resultados (cumprir planos
e metas), e as confissões eram a "prova" concreta de um interrogatório bem-sucedido. Nas palavras de Conquest, "estabelecera-se o princípio de que uma confissão
seria o melhor resultado alcançável. Quem conseguia obtê-la era considerado um agente de sucesso, e na NKVD os agentes de mau desempenho tinham expectativa de vida
reduzida".
Quaisquer que tenham sido os motivos da fixação da NKVD nas confissões, os interrogadores da polícia não costumavam buscá-las nem com a obstinação demonstrada no
caso dos "espiões polacos", nem tampouco com o desinteresse exibido com relação a Thomas Sgovio. Em geral, os presos vivenciavam uma mistura das duas atitudes extremas.
De um lado, a NKVD exigia que confessassem e incriminassem a si e a outros. De outro lado, ela parecia ter uma desleixada falta de interesse pelo desfecho do processo.
Esse sistema um tanto surreal já estava estabelecido na década de 1920, nos anos anteriores ao Grande Terror, e continuou presente muito tempo depois que esse último
amainara. Já em 1931, o policial que investigou Vladimir Tchernavin (cientista acusado de "destruição" e sabotagem) o ameaçou de morte caso não confessasse. Em outro
momento, disse-lhe que pegaria uma pena mais "leve" nos campos se confessasse. No fim das contas, até implorou a Tchernavin que apresentasse uma confissão falsa.
Rogando-lhe, disse: "Muitas vezes, nós, os investigadores, também somos obrigados a mentir; também dizemos coisas que não podem ser registradas e que nunca autenticaríamos".
Quando o desfecho tinha mais importância para a NKVD, recorria-se à tortura. No período anterior a 1937, os espancamentos parecem ter sido proibidos. Um ex-funcionário
do Gulag confirma que eles com certeza eram ilegais na primeira metade da década de 1930. Mas, conforme aumentou a pressão para fazer membros destacados do Partido
confessarem, passou-se a utilizar a tortura física, provavelmente em 1937 (embora ela tenha voltado a ser banida em 1939). O líder soviético Nikita Khrutchev reconheceria
publicamente isso em 1956:
Como é possível que uma pessoa confesse crimes que não cometeu? Só há um jeito: aplicando métodos físicos de pressão - torturas -levando a pessoa a um estado de
inconsciência, privando-a de raciocínio, tirando-lhe a dignidade humana. Era dessa maneira que se obtinham "confissões".
No período do Grande Terror, o uso da tortura se tornou tão disseminado (e despertou dúvidas tão freqüentes) que, no começo de 1939, o próprio Stalin mandou memorando
aos chefes regionais da NKVD, confirmando que, "a partir de 1937, o uso da pressão física [sobre os presos] foi autorizado pelo Comitê Central no âmbito da NKVD".
Stalin explicava que tal uso era permitido
apenas com referência a inimigos manifestos do povo que se aproveitam dos métodos humanos de interrogatório para negar-se desavergonhadamente a denunciar conspiradores;
que não depõem durante meses e tentam impedir o desmascaramento dos conspiradores ainda à solta.
Prosseguia dizendo que considerava a pressão física "um método absolutamente correto e humano", embora reconhecesse que de quando em quando a tivessem aplicado para
"encarcerar acidentalmente pessoas honestas". O que esse memorando tristemente célebre deixa claro é que Stalin sabia quais métodos haviam sido usados durante os
interrogatórios e os autorizara pessoalmente.
Por certo é verdade que, nesse período, inúmeros presos relatam ter sido chutados e espancados, ficando com o rosto arrebentado e órgãos rompidos. Evgenii Gnedin
descreve como foi golpeado na cabeça por dois homens ao mesmo tempo, um à esquerda e o outro à direita, e depois espancado com um cassetete de borracha. Isso ocorreu
no gabinete particular de Beria, em sua presença, na prisão Sukhanovka. A NKVD também empregava métodos de tortura conhecidos de outras polícias secretas em outras
eras, como acertar o estômago com sacos de areia, quebrar mãos ou pés ou amarrar os braços e as pernas às costas e suspender a vítima no ar. Um dos relatos de tortura
mais nauseantes foi escrito pelo diretor teatral Vsevelod Meyerhold, cuja queixa formal, uma carta, ainda consta de seu prontuário.
Os investigadores começaram a usar da força comigo, um enfermo de 65 anos. Fizeram-me deitar de rosto e golpearam-me nas solas dos pés e na espinha com uma correia
de borracha. Sentaram-me numa cadeira e me bateram mais nos pés, com força considerável [...]. Nos dias seguintes, quando aquelas partes de minhas pernas estavam
cobertas por grandes hematomas, eles tornaram a bater com a correia de borracha nas feridas, que estavam rubras, azuladas e amareladas; a dor era tão intensa que
senti como se água fervente estivesse sendo derramada nessas áreas sensíveis. Urrei e chorei de dor. Bateram em minhas costas com a mesma correia de borracha e me
esmurraram na cara, deixando que seus punhos se abatessem de bem alto [...].
Em certa altura, eu tremia de modo tão incontrolável que o guarda que me escoltava à saída do interrogatório perguntou: "Você sofre de maleita?" Quando me deitei
e adormeci no catre, após dezoito horas de interrogatório, só para voltar a ele dali a uma hora, fui acordado por meus próprios gemidos e espasmos, como um paciente
em estágio terminal de febre tifóide.
Embora esse tipo de espancamento viesse a ser oficialmente proibido em 1939, a mudança de política não fez necessariamente que o processo de investigação se tornasse
mais humano. Durante todos os anos 1920, 30 e 40, muitas centenas de milhares de presos foram torturadas não com espancamentos, nem com agressões, mas com o tipo
de suplício psicológico a que Abakumov alude no memorando de 1947 a Stalin. Quem teimava em não confessar podia, por exemplo, ser aos poucos privado de confortos
- primeiro as caminhadas, em seguida as remessas ou os livros, depois a comida. Podia ser colocado numa cela punitiva particularmente escabrosa, muito quente ou
muito gelada. Foi o caso do memorialista Hava Volovich, o qual seu interrogador também privava de sono:
Nunca esquecerei aquele primeiro gosto do frio na prisão. Não sou capaz de descrevê-lo; não consigo fazê-lo. O sono me empurrava numa direção; o frio, em outra.
Eu me levantava de um pulo e corria pela cela, adormecendo em pé e caindo de novo na cama, onde o frio logo me obrigava a levantar de novo.
Outros eram acareados com "testemunhas", como aconteceu a Evgeniya Ginzburg, que assistiu enquanto sua amiga de infância Nalya "dizia falas decoradas, feito um papagaio",
acusando-a de pertencer ao movimento secreto trotskista. Outros ainda viam as famílias serem ameaçadas; ou, após longos períodos de solitária, eram colocados em
celas com informantes, aos quais ficavam mais do que satisfeitos em desabafar. Mulheres eram violadas ou ameaçadas de estupro. Uma memorialista polonesa contaria
a seguinte história:
De súbito, sem motivo aparente, meu interrogador ficou muitíssimo insinuante. Levantou-se da escrivaninha e veio sentar-se a meu lado no sofá. Fiquei em pé e fui
tomar água. Ele me seguiu e se pôs atrás de mim. Habilmente, escapei e voltei para o sofá. Ele veio sentar-se comigo outra vez. E outra vez me levantei e fui beber
água. Esse tipo de manobra se prolongou por algumas horas. Senti-me humilhada e indefesa.
Também havia formas de tortura física menos diretas que os espancamentos; a partir dos anos 1920, foram usadas regularmente. Desde logo, Tchernavin foi submetido,
ainda que por pouco tempo, ao "teste vertical" (mandava-se que o preso permanecesse de pé, voltado para a parede, sem se mexer). Alguns de seus companheiros de cela
sofreram mais:
Um, o gravurista E, corpulento, com mais de cinqüenta anos de idade, ficara em pé por seis dias e meio. Não lhe deram nada para comer nem beber, e não permitiram
que dormisse; fora levado ao sanitário só uma vez por dia. Mas ele não "confessou". Depois dessa provação, não conseguiu caminhar para a cela, e o guarda teve de
arrastá-lo escada acima [...]. Outro, o artesão B., de uns 35 anos, que tivera a perna amputada acima do joelho e substituída por um membro artificial, ficou em
pé quatro dias e não "confessou".
Entretanto, o mais comum era simplesmente privar a pessoa de sono. Essa modalidade de tortura enganadoramente simples cujo emprego parece não ter necessitado de
nenhum tipo de autorização prévia era conhecida dos presos como "a esteira rolante" e podia estender-se por muitos dias ou até semanas. O método era prosaico: interrogavam
o preso a noite inteira e depois o proibiam de dormir durante o dia. Era acordado pelos guardas o tempo todo e ameaçado com a cela punitiva ou coisa pior se não
conseguisse ficar desperto. Uma das melhores descrições da esteira rolante, e de seus efeitos físicos, foi fornecida por Alexander Dolgun, o preso americano do Gulag.
Durante seu primeiro mês na Lefortovo, viu-se praticamente privado de sono, podendo dormir só uma hora, ou menos, por dia. "Em retrospecto, parece que uma hora era
muito; talvez tenham sido não mais que alguns minutos por noite." O resultado foi que sua cabeça começou a pregar-lhe peças:
Havia períodos em que, de repente, eu me dava conta de que não lembrava nada do que ocorrera nos minutos anteriores [...]. Brancos totais [...].
Depois, é claro, comecei a tentar dormir em pé, para ver se meu corpo conseguia aprender a manter-se ereto. Achei que, se isso desse certo, eu talvez pudesse escapar
à vigilância nas celas alguns minutos de cada vez, porque, pela viseira da porta, o guarda não acharia que eu estava dormindo se eu permanecesse em pé.
E assim eu ia levando, afanando dez minutos aqui, meia hora ali, às vezes um pouco mais se Sidorov desse a coisa por encerrada antes das seis da manhã e os guardas
me deixassem em paz até o toque de alvorada. Mas era muito pouco e tarde demais. Sentia que estava decaindo, ficando menos alerta e menos disciplinado a cada dia.
Tinha quase mais medo de ficar doido - não, tinha mesmo mais medo disso - do que de morrer.
Por muitos meses, Dolgun não confessou, um fato que lhe deu algo de que orgulhar-se pelo resto de seu encarceramento. Mas, muitos meses depois, quando o trouxeram
de volta a Moscou de um campo na cidade cazaque de Dzhezkazgan e tornaram a espancá-lo, ele assinou uma confissão, pensando: "Que diabo! Eles já me pegaram mesmo.
Por que foi que não fiz isso muito tempo atrás e evitei todo aquele sofrimento?"
E, por quê? Era uma pergunta que muitos se faziam, com respostas variadas. Alguns - ao que parece, uma porcentagem particularmente alta dos memorialistas - não confessavam
ou por princípio, ou pela crença equivocada de que, assim, evitariam a condenação. "Prefiro morrer a difamar meu nome", dizia o general Gorbatov a seu interrogador,
mesmo quando estava sendo torturado (o general não específica que tipo de tortura).
E, corno assinalam Soljenitsin, Gorbatov e outros, muitos acreditavam que uma confissão ridiculamente longa criaria um clima de absurdo tal que nem mesmo a NKVD
poderia deixar de notar. Gorbatov escreveu de seus companheiros de prisão:
Eles me davam a impressão de ser pessoas cultas e sérias. Por isso, fiquei ainda mais horrorizado ao saber que, durante seus respectivos interrogatórios, cada um
deles escrevera puro lixo, confessando crimes imaginários e incriminando outras pessoas [...]. Alguns tinham até a estranha teoria de que, quanto mais pessoas fossem
presas, mais cedo se perceberia que tudo aquilo era absurdo e prejudicial ao Partido.
Mas nem todo mundo achava que se deveria censurar tais pessoas. Lev Razgon, em suas memórias, responde a Gorbatov, a quem chama de "arrogante e imoral":
É errado transferir a culpa dos torturadores para as vítimas. Gorbatov teve sorte, e só. O interrogador dele ou era preguiçoso, ou não recebera ordens explícitas
para "pressionar" o interrogado. Os médicos, psicólogos e psiquiatras ainda não pesquisaram o suficiente para poder afirmar se a tortura consegue fazer um indivíduo
prestar falso testemunho contra si mesmo. No entanto, o século XX forneceu enorme quantidade de demonstrações disso. É claro que ela consegue.
Em retrospecto, também há opiniões muito variadas sobre se se negar a confessar realmente tinha importância. Susanna Pechora, interrogada durante mais de um ano
no começo dos anos 1950 - era membro de um minúsculo grupo de jovens que, quixotescamente, fora fundado para resistir a Stalin -, diria depois que "agüentar" não
valeu a pena. Para ela, recusar-se a confessar simplesmente prolongava o interrogatório. Ao fim e ao cabo, a maioria era condenada do mesmo jeito.
Todavia, o conteúdo do prontuário de Thomas Sgovio mostra claramente que decisões posteriores (sobre soltura antecipada, anistia etc.) eram de fato tomadas com base
no que constava do dossiê do preso, aí incluída a confissão. Em outras palavras, se a pessoa conseguira resistir, tinha uma chance muito pequena, ínfima mesmo, de
conseguir uma revisão positiva da sentença. Até os anos 1950, todos esses procedimentos judiciais, não importando quão surreais, eram levados bem a sério.
No final das contas, a maior importância do interrogatório estava na marca psicológica que ele deixava nos presos. Mesmo antes de se submeterem às longas viagens
para o leste, mesmo antes de chegarem a seus primeiros campos, eles já haviam, em alguma medida, sido "preparados" para a nova vida de trabalhador escravo. Já sabiam
que não tinham nenhum direito humano, nenhuma prerrogativa de receber um julgamento ou mesmo uma audiência justos. Já sabiam que o poder da NKVD era absoluto e que
o Estado podia fazer com eles o que bem entendesse. Se haviam confessado um crime que não cometeram, já se tinham em mais baixa conta. Mas, mesmo que não houvessem
confessado, já lhes fora roubado todo resquício de esperança, de convicção de que a injustiça de seu encarceramento seria logo desfeita.
8. A CADEIA
Uma cigana leu nas cartas... Uma estrada distante,
Uma estrada distante... E uma cadeia.
Talvez a velha cadeia central
Aguarde-me, moço outra vez...
Tradicional canção de cadeia na Rússia
A detenção e o interrogatório desgastavam os presos; os aturdiam para que se submetessem; os confundiam e desorientavam. Mas o próprio sistema das cadeias soviéticas,
onde se mantinham os presos antes, durante e com freqüência muito tempo após o interrogatório, também exercia enorme influência sobre o estado de espírito deles.
Num contexto internacional, não havia nada de excepcionalmente cruel nas prisões ou no regime prisional da URSS. Os cárceres soviéticos eram com certeza mais duros
que a maioria das prisões ocidentais e mais duros que as prisões czaristas. Por outro lado, na China ou em outras partes do Terceiro Mundo em meados do século XX,
as cadeias também eram extremamente desagradáveis. Todavia, componentes da vida prisional soviética continuaram sendo específicos da URSS. Alguns aspectos do cotidiano
dos cárceres, como o próprio processo de interrogatório, até parecem ter sido concebidos já pensando em preparar os presos para sua nova vida no Gulag.
Por certo, as atitudes oficiais para com as prisões refletiam mudanças nas prioridades de quem dirigia os campos de concentração. Em agosto de 1935, por exemplo,
justamente quando começavam a multiplicar-se as detenções de presos políticos, Genrikh Yagoda emitiu uma ordem que deixava claro que o "sentido" mais importante
de uma captura - se é que se pode dizer que aquelas detenções tinham algum "sentido" na acepção normal da palavra - era o de alimentar a demanda cada vez mais frenética
de confissões. A ordem de Yagoda colocava diretamente nas mãos dos homens da NKVD que investigavam os casos não apenas os "privilégios" dos presos, mas também as
mais elementares condições de vida desses últimos. Desde que o preso colaborasse (o que em geral significava confessar), ele ficaria autorizado a receber cartas,
remessas de comida, jornais, livros e visitas mensais de familiares e ter uma hora de exercícios por dia. Se não colaborasse, podia ser privado de todas essas coisas
e ainda perder a ração de comida.
Em contraste, em 1942 - três anos depois que Lavrenty Beria assumiu, prometendo transformar o Gulag numa máquina econômica eficiente -, as prioridades de Moscou
já haviam mudado. Os campos se tornavam importante fator na produção bélica, e os comandantes haviam começado a reclamar do grande número de presos que chegavam
sem nenhuma condição de trabalhar. Famintos, imundos e privados de exercício, eles simplesmente não conseguiam extrair carvão nem cortar árvores no ritmo necessário.
Por conseguinte, Beria estabeleceu novos procedimentos de interrogatório em maio daquele ano, exigindo que os diretores das carceragens respeitassem "as mínimas
condições de saúde" e restringissem o controle dos interrogadores sobre o dia-a-dia dos presos.
Conforme a nova ordem de Beria, os detentos fariam uma caminhada diária de "não menos que uma hora" - com a notável exceção daqueles que aguardavam o cumprimento
da pena de morte, cuja qualidade de vida não importava muito para as cifras de produção da NKVD. Os administradores prisionais também deviam assegurar-se de que
seus estabelecimentos possuíssem um pátio concebido especialmente para aquele propósito: "Nem um único preso permanecerá nas celas durante tais caminhadas [...]
os presos fracos e idosos devem ser auxiliados por seus companheiros de cela". Aos carcereiros se ordenava que garantissem que os detentos (menos aqueles diretamente
em interrogatório) tivessem oito horas de sono; que aqueles com diarréia recebem vitaminas extras e comida melhor; e que os parashi (os baldes que serviam de sanitário
nas celas) fossem consertados caso vazassem. Esse último tópico era considerado tão crucial que até se especificava o tamanho de um parasha: nas celas masculinas,
deviam ter de 55 a sessenta centímetros de altura; nas femininas, de trinta a 35 - e, para cada pessoa na cela, o balde deveria oferecer um volume de 750 mililitros.
Apesar desses regulamentos absurdamente específicos, os cárceres continuaram a diferir muitíssimo uns dos outros. Em parte, isso se devia às localizações. Gomo regra
geral, as prisões de província eram mais sujas e mais lenientes; as de Moscou, mais limpas e mais mortíferas. Entretanto, mesmo as três principais carceragens moscovitas
tinham caráter ligeiramente distinto. A infame Lubyanka, que ainda domina uma praça no centro da capital - e ainda serve de sede da FSB, a sucessora da NKVD, da
MGB e da KGB -, era usada para receber e interrogar os presos políticos cujos crimes eram considerados mais sérios. Havia relativamente poucas celas - um documento
de 1936 fala em 118 -, e 94 delas eram muito pequenas, podendo abrigar de um a quatro detentos. Na Lubyanka, antes o prédio de escritórios de uma seguradora, algumas
das celas tinham parquete, que os presos eram obrigados a lavar todos os dias. Anna Mikhailovna Garaseva, anarquista que depois seria secretária de Soljenitsin,
ficou presa na Lubyanka em 1926; ela recordaria que a comida ainda era servida por garçonetes uniformizadas.
Em contraste, a Lefortovo, também usada para interrogatório, fora uma prisão militar no século XIX. Suas celas, que nunca se destinaram a receber grande número de
presos, eram mais escuras, mais sujas e mais apinhadas. A Lefortovo tem o formato de um K, e no centro do conjunto, segundo o memorialista Dmitri Panin, "um auxiliar
se mantém em pé, de bandeira de sinalização na mão, orientando o fluxo de presos que entram e saem de interrogatório". No final dos anos 1930, a Lefortovo ficou
tão superlotada que a NKVD abriu um "anexo" no mosteiro Sukhanovsky, fora de Moscou. Oficialmente denominado "Objeto 110", e conhecido dos presos como "Sukhanovka",
o anexo ganhou fama apavorante por causa da tortura: "Não havia regulamento interno, nem tampouco normas de conduta para os investigadores". O próprio Beria tinha
um gabinete ali e supervisionava pessoalmente sessões de tortura.
A Butyrka, a mais antiga das três prisões, fora construída no século XVIII para ser um palácio, embora logo a tivessem transformado em cárcere. Entre seus detentos
oitocentistas célebres, estava Feliks Dzerzhinsky, junto com outros revolucionários poloneses e russos. Em geral utilizada para acomodar presos cujo interrogatório
terminava e que aguardavam traslado para os campos, a Butyrka também era apinhada e suja, mas mais leniente. Anna Garaseva lembra que, se na Lubyanka os guardas
obrigavam os presos a "exercitar-se" caminhando num círculo fechado, "na Butyrka a gente podia fazer o que quisesse". Anna, assim como outros, também menciona a
excelente biblioteca, cujo acervo se constituíra graças a gerações de presos, os quais deixavam os livros quando eram transferidos.
As prisões também diferiam de um período a outro. No começo da década de 1930, grande número de presos era condenado a meses ou até anos de isolamento celular. Para
manter a sanidade durante dezesseis meses de solitária, o russo Boris Chetverikov lavava as roupas, o piso e as paredes - e entoava todas as canções e árias de ópera
que conhecia. O americano Alexander Dolgun também foi mantido em solitária durante seu interrogatório; a fim de não enlouquecer, ele andava: contou os passos na
cela, calculou quantos dariam um quilômetro e começou a "caminhar", atravessando primeiro Moscou, até a embaixada dos Estados Unidos - "eu respirava aquele ar límpido,
frio e imaginário e me encolhia no casaco" -, depois a Europa e por fim o Atlântico, de volta para casa.
Evgeniya Ginzburg passou quase dois anos na prisão de isolamento celular de Yaroslavl, na Rússia central, a maior parte do tempo totalmente sozinha: "Até hoje, se
fecho os olhos, consigo ver cada calombo e risco naquelas paredes, pintadas até meia altura na cor favorita da prisão, um castanho-avermelhado, e dali para cima
num branco encardido". Entretanto, mesmo essa prisão "especial" começou a lotar, e Evgeniya ganhou uma companheira de cela. No final, a maioria dos tyurzeks (prisioneiros
de cela) foi transferida para os campos. Escreve Evgeniya: "Simplesmente não era factível manter tais multidões em celas por dez ou vinte anos; isso não se coadunava
com o ritmo e a economia da época".
Nos anos 1940, à medida que aumentava o número e a freqüência das capturas, tornava-se muito mais difícil isolar alguém, até presos novos, mesmo que por algumas
horas. Em 1947, Lev Finkelstein foi primeiro jogado numa vokzal (literalmente, "estação ferroviária"), uma "enorme cela comum onde os detentos ficam de início, sem
nenhuma comodidade. Eles aos poucos eram separados por grupos e mandados aos banhos e, depois, às celas". Na realidade, a superlotação atroz era experiência muito
mais comum que a solitária. Dois exemplos escolhidos ao acaso: a cadeia central de Arcangel, com capacidade para 740 presos, tinha entre 1.661 e 2.380 em 1941; a
de Kotlas, na Rússia setentrional, com capacidade para trezentos, abrigava até 460.
Em províncias mais distantes, os cárceres podiam ser piores. Em 1940, o de Stanislawwow, na recém-ocupada Polônia oriental, continha 1.700 pessoas, bem acima de
sua capacidade (472), e dispunha de apenas 150 jogos de roupa de cama. Em fevereiro de 1941, as cadeias da República Tártara (Tartarstão), com capacidade para 2.710
presos, continham 6.353. Em maio de 1942, as da República de Tashkent, na Ásia Central, com capacidade para 960, abrigavam 2.754." Esse apinhamento tinha efeito
particularmente severo sobre quem estava em interrogatório, cujas vidas inteiras eram submetidas a uma inquirição intensa e hostil todas as noites, e cujos dias
precisavam ainda se passar na companhia de outras pessoas. Um preso descreveu as conseqüências:
O processo inteiro de desintegração da personalidade ocorria à vista de todos na cela. Ali, um homem não conseguia esconder-se nem por um instante; até para evacuar,
tinha de usar o balde aberto, bem dentro do recinto. Quem queria chorar o fazia na frente de todo inundo, e a sensação de vergonha aumentava o tormento. Quem queria
matar-se - à noite, debaixo da coberta, tentando rasgar as veias do braço com os dentes - logo era descoberto por um dos insones da cela e impedido de terminar o
serviço.
Margarete Buber-Neumann também escreveu que a superlotação fazia as detentas voltarem-se umas contra as outras. Quando eram acordadas, às quatro e meia da manhã,
o efeito sobre nós era como se houvessem derrubado um formigueiro. Todo o mundo pegava suas coisas de higiene para, se possível, ser o primeiro, porque, é claro,
o sanitário nem de longe era suficiente para todas. No recinto onde nos lavávamos, havia cinco vasos e dez torneiras. Digo "vasos", mas, na realidade, eram cinco
buracos no chão, nada mais que isso. De imediato, formavam-se filas diante dos cinco buracos e das dez torneiras. Imagine ir ao sanitário de manhã com pelo menos
uma dúzia de pessoas observando e com outras esperando impacientes na fila, gritando e apressando você...
Talvez porque estivessem cientes do apinhamento, as autoridades prisionais se empenhavam muito em acabar com qualquer simulacro de solidariedade entre os presos.
Aquela ordem de Yagoda de 1935 já os proibia de conversar, gritar, cantar, escrever nas paredes, deixar marcas ou sinais em qualquer lugar da prisão, ficar em pé
às janelas ou tentar comunicar-se de toda e qualquer maneira com os ocupantes de outras celas. Quem violasse as regras podia ser castigado com a privação de exercício
ou correspondência ou com a ida para uma cela punitiva especialmente construída. O silêncio obrigatório é mencionado pelos encarcerados dos anos 1930 com freqüência:
"Ninguém falava alto, e algumas se faziam entender por meio de sinais", escreveu Margarete Buber-Neumann sobre a Butyrka, onde "os corpos semi-despidos da maioria
das mulheres tinham um tom peculiar, cinza-azulado, devido ao longo confinamento sem luz e sem ar".
Em alguns cárceres, a lei do silêncio permaneceria absoluta até quando a década seguinte já estava bem adiantada; em outros, menos Um ex-preso escreve do "completo
silêncio" na Lubyanka em 1949; em comparação com isso, "a cela 106 da Butyrka parecia uma feira, depois que se tivesse ido a uma lojinha". Outro, numa prisão da
República Tártara, lembra que, quando os presos começavam a cochichar, "a portinhola pela qual se passava a comida era aberta com estrondo e alguém sibilava um Psiu!".
Muitos memorialistas também descreveriam como os guardas, ao transferir os presos de cela ou levá-los para interrogatório, agitavam as chaves, estalavam os dedos
ou faziam algum outro ruído, para alertar aqueles mais adiante no corredor. Caso se desse um encontro de presos ali, um era rapidamente levado por outro corredor,
ou colocado num cubículo especial. Certa vez, V. K. Yasnyi, antes tradutor de literatura espanhola, ficou duas horas num cubículo assim, de meio metro quadrado,
na Lubyanka. Tais espaços parecem ter sido muito utilizados: o porão da antiga sede da NKVD em Budapeste (hoje um museu) tem um desses cubículos. O objetivo era
evitar que os presos encontrassem outros que pudessem estar implicados no mesmo "caso", assim como mantê-los longe de irmãos ou outros familiares que estivessem
detidos.
O silêncio obrigatório tornava aflitiva até a caminhada para as salas de interrogatório. Alexander Dolgun se recorda de ter andado pelos corredores atapetados da
Lubyanka:
Enquanto nos movíamos, o único som era o estalar da língua do guarda [...] todas aquelas portas de metal eram cinza-naval, e se revelava opressivo e desanimador
o efeito da penumbra, do silêncio e das portas cinzentas, que se repetiam pelo corredor até se fundirem às sombras.
A fim de impedir que presos de uma cela soubessem os sobrenomes daqueles em outras, eles eram chamados, para interrogatório ou transferência, não pelo nome, mas
por uma letra. O guarda gritava "G!", por exemplo, e todos os presos cujo sobrenome começava por essa letra se punham de pé e diziam o primeiro nome e o patronímico.
Mantinha-se a ordem - tal qual se faz na maioria das prisões -pela rígida regulação do cotidiano. Zayara Vesyolaya, filha de um famoso escritor russo que se tornara
"inimigo do povo", descreveu em suas memórias um dia típico na Lubyanka. Ele começava com a opravka, a ida ao sanitário. "Preparem-se para o sanitário!", berravam
os guardas, e as mulheres se alinhavam em silêncio, aos pares. Quando chegavam ao sanitário, tinham cerca de dez minutos - não apenas para fazer suas necessidades,
mas também para lavarem a si mesmas e às roupas que pudessem. À opravka seguia-se o desjejum: água quente, talvez com algo semelhante a chá ou café, mais a ração
diária de pão e dois ou três torrões de açúcar. Após o desjejum, vinha um guarda, que recebia as solicitações das que queriam ver o médico; depois, a "atividade
central do dia", uma caminhada de vinte minutos num "pequeno pátio fechado andando em círculos e em fila única junto ao muro". Só uma vez se perturbou essa ordem.
Certa noite, embora nunca lhe tenham contado por quê, Zayara foi levada ao telhado da Lubyanka depois que as detentas já haviam sido mandadas dormir. Dado que a
Lubyanka fica no centro de Moscou, Zayara conseguia ver, se não a cidade, pelo menos as luzes da cidade - as quais, nas circunstâncias, bem podiam ser de outro país.
Normalmente, o resto do dia era uma repetição: no almoço, sopa de cadeia, feita de vísceras, cereal ou repolho podre; no jantar, o mesmo. A noite, havia outra ida
ao sanitário. Nesse meio-tempo, as detentas sussurravam umas para as outras, ficavam sentadas nos catres e às vezes liam livros. Zayara recorda que lhe permitiam
um livro por semana, mas as regras variavam de prisão para prisão, assim como a qualidade das bibliotecas, que, como já se disse, às vezes eram excelentes. Em alguns
cárceres, os presos estavam autorizados a adquirir comestíveis do "comissário" quando os parentes lhes mandavam dinheiro.
Mas havia outras torturas além do tédio e da comida ruim. Todos os presos, e não apenas aqueles em processo de interrogatório, ficavam proibidos de dormir durante
o dia. Os carcereiros mantinham vigilância constante, espiando pelo "buraco de Judas" (a viseira na porta da cela) para garantir que se cumprisse a norma. Lyubov
Bershadskaya lembra que, "embora nos acordassem às seis, não nos permitiam sequer sentar na cama até as onze da noite. Tínhamos ou de ficar em pé, ou de sentar na
baqueta, sem poder encostar na parede".
A noite não era melhor. O sono era dificultado, quando não impossibilitado, pelas lâmpadas fortes das celas, que nunca se apagavam, e pela regra que proibia os presos
de dormir com as mãos debaixo da coberta. Zayara Vesyolaya começava tentando obedecer: "Era uma coisa canhestra e desconfortável, e ficava difícil pegar no sono
[...] mas, tão logo cochilava, eu instintivamente puxava o cobertor para o queixo. A chave rangia na fechadura, e o guarda vinha sacudir minha cama: 'As mãos!'"
Margarete Buber-Neumann escreveu que, "até a pessoa se acostumar, a noite era pior que o dia. Tente dormir à noite debaixo de lâmpadas fortes - as detentas estavam
proibidas de cobrir o rosto -, em pranchas nuas sem nem mesmo um travesseiro ou um saco de palha, talvez "até sem cobertor, espremida de ambos os lados contra as
outras detentas".
Talvez a ferramenta mais eficaz para impedir que os presos ficassem muito à vontade fosse a presença de informantes - que podiam ser igualmente encontrados em todas
as esferas da vida soviética. Eles também desempenhavam papel importante nos campos de concentração, mas ali era menos difícil evitá-los. Na cadeia, não se conseguia
fugir tão facilmente deles, o que obrigava as pessoas a medirem bem as palavras. Margarete Buber-Neumann recordaria que, com um única exceção, "nunca ouvi nenhuma
crítica ao regime soviético durante todo o tempo que fiquei na Butyrka".
Entre os presos, o consenso era de que havia no mínimo um informante por cela. Quando duas pessoas dividiam cela, uma desconfiava da outra. Em celas maiores, o informante
era freqüentemente identificado e evitado pelos outros detentos. Quando Olga Adamova-Sliozberg chegou à Butyrka, notou que, junto à janela, tinham deixado livre
um espaço de dormir. Disseram-lhe que poderia ficar com ele, mas que "a vizinhança não era das melhores". Revelou-se que a mulher que dormia sem ninguém perto dela
era uma informante, a qual ficava o tempo inteiro "escrevendo declarações que denunciavam todos na cela", e por isso ninguém falava com ela.
Nem todos os informantes eram tão fáceis de identificar, e a paranóia era tão grande que qualquer comportamento diferente já despertava hostilidade. A própria Olga
Adamova-Sliozberg achava que uma de suas companheiras de cela era com certeza espiã, tendo visto "a esponja com cara de artigo importado com que se lavava e a lingerie
rendada que usava". Depois, passou a considerar a mulher uma amiga. O escritor Variam Shalamov também escreveu que ser transferido de cela "não é experiência muito
agradável. Os novos companheiros de cela sempre ficam com um pé atrás e desconfiam que o preso transferido seja informante"
Não há dúvida de que o sistema era rígido, inflexível e desumano. Mas ainda assim... Quando podiam, os presos reagiam, contra o tédio, contra as pequenas humilhações
constantes, contra as tentativas de dividi-los e isolá-los. Mais de um ex-preso escreveu que a solidariedade entre eles era maior nas cadeias do que seria depois,
nos campos de concentração. Tão logo os presos chegavam aos campos, as autoridades podiam com muito mais facilidade dividir para reinar. A fim de fazer que os presos
se estranhassem, elas os tentavam prometendo posição mais cômoda na hierarquia do campo, comida melhor ou trabalho menos pesado.
Nas carceragens, em contraste, todos eram mais ou menos iguais. Embora houvesse incentivos para que colaborassem, estes eram menos numerosos. Para muitos presos,
os dias ou meses passados numa cela, antes do traslado, até constituíam uma espécie de curso de introdução a técnicas elementares de sobrevivência - e, apesar de
todo o empenho dos administradores, a primeira experiência deles de união contra a autoridade.
Alguns detentos simplesmente aprendiam com outros as maneiras básicas de conservar a higiene e a dignidade. Na cadeia, Inna Shikheeva-Gaister aprendeu a usar pão
mastigado para fazer botões que lhe segurassem as roupas, a confeccionar agulhas de costura com espinhas de peixe, a usar fios soltos para remendar os rasgos feitos
em suas vestes durante a revista; adquiriu ainda muitas outras habilidades que se mostrariam igualmente úteis nos campos. Dmitrii Bystrolev (ex-espião soviético
no Ocidente) descobriu como fazer "linha" com meias velhas: desmanchavam-se estas, e aguçavam-se as pontas dos fios com sabão. No campo, tal linha - assim como as
agulhas que Bystrolev aprendeu a fazer com fósforos - podia depois ser negociada por comida. Ensinaram Susanna Pechora, a jovem anti-stalinista, "a dormir sem que
percebessem, a costurar com palitos de fósforo e a andar sem cinto".
Os presos também preservavam algum controle sobre suas vidas graças à instituição do starosta, o líder de cela. Por um lado, nas cadeias, nos vagões e nos alojamentos
dos campos, o starosta era figura oficialmente reconhecida, com atribuições descritas em documentos oficiais. Por outro lado, suas muitas obrigações - que iam de
manter a cela limpa a garantir a ordem nas filas para o sanitário - acarretavam que a autoridade dele fosse aceita por todos. Por isso, os informantes e outros
favorecidos pelos carcereiros não eram necessariamente os melhores candidatos a starosta. Alexander Weissberg escreveria que, nas celas maiores, onde podia haver
duzentos ou mais presos, "a vida normal não era possível sem um responsável que organizasse a distribuição de comida, as disposições para os exercícios etc". Contudo,
já que a polícia secreta se negava a reconhecer toda e qualquer organização de presos - "a lógica era simples: uma organização de contra-revolucionários era uma
organização de contra-revolucionários" -, encontrou-se uma clássica solução soviética, segundo Weissberg: o starosta era eleito "ilegalmente" pelos presos; o diretor
da prisão ficava sabendo disso pelos informantes e então nomeava oficialmente o escolhido dos detentos.
Nas celas mais apinhadas, a principal função do starosta era receber os novos presos e assegurar que todos tivessem onde dormir. De maneira quase universal, mandava-se
que os detentos recém-chegados fossem dormir ao lado do parasha, o balde sanitário; depois, à medida que ganhavam tempo de cela, eles iam avançando dali para as
janelas. "Não se abre nenhuma exceção para os enfermos nem para os idosos", observou Elinor Lipper. O starosta também resolvia brigas e, em geral, mantinha a ordem
na cela, tarefa que estava longe de ser fácil. O detento polonês Kazimierz Zarod lembraria que, quando serviu como starosta, "os guardas me ameaçavam o tempo todo
com punições se eu não exercesse algum tipo de controle sobre os indisciplinados, em especial após as nove da noite; havia urna lei do silêncio depois do 'toque
de recolher'". Zarod acabou indo para uma cela punitiva por não ter conseguido manter a ordem. Mas, por outros relatos, tem-se a impressão de que as decisões do
starosta costumavam ser respeitadas.
Sem dúvida, os presos aplicavam a máxima engenhosidade para superar a regra mais severa: a estrita proibição de comunicarem-se, tanto entre as celas quanto com o
mundo lá fora. A despeito da séria ameaça de punição, eles deixavam recados para outros presos no sanitário ou arremessavam mensagens por cima dos muros. Lev Finkelstein
tentou jogar um pedaço de carne, um tomate e um pedaço de pão para outra cela: "quando nos levavam ao sanitário, eu procurei abrir a janela e passar a comida por
ali". Foi pego e posto numa cela punitiva. Presos subornavam guardas para que estes levassem mensagens, embora às vezes o fizessem por iniciativa própria. De vez
em quando, um carcereiro da prisão de Stravropol transmitia recados verbais à mulher de Lev Razgon.
Num testemunho apresentado ao governo polonês no exílio, um ex-detento, encarcerado catorze meses em Vilna depois que os soviéticos ocuparam essa cidade (antes sob
domínio da Polônia), descreveu como os componentes do sistema prisional anterior haviam aos poucos se dissolvido. Os presos foram perdendo seus "privilégios" um
a um: o direito de receber e mandar cartas, o uso da biblioteca da prisão, a posse de papel e lápis, o recebimento de remessas. Introduziram-se novos regulamentos,
do tipo comum à maioria das prisões soviéticas: as luzes tinham de ficar acesas nas celas a noite toda, e as janelas, tapadas por fora com folha-de-flandres. De
modo imprevisto, essa última medida criou uma oportunidade para comunicação entre as celas:
Eu abria a janela e, pondo a cabeça contra as grades, falava com meus vizinhos. Mesmo que a sentinela no pátio ouvisse a conversa, não conseguiria saber de onde
vinha a voz, pois, graças à folha-de-flandres, era impossível flagrar uma janela aberta.
Mas talvez a forma mais complexa de comunicação proibida fosse o "código Morse" dos presos, que se utilizavam das paredes ou dos encanamentos para "telegrafar".
O código fora concebido nos tempos czaristas - Variam Shalamov atribui sua autoria a um dos dezembristas. Elinor Olitskaya o aprendera com colegas social-revolucionários,
muito antes de 1924, quando foi aprisionada. A revolucionária russa Vera Figner já descrevera o código em suas memórias, que foi onde Evgeniya Ginzburg leu sobre
ele. Enquanto estava em fase de interrogatório, Evgeniya se recordou o suficiente para usá-lo na comunicação com uma cela vizinha. O código era relativamente simples;
o alfabeto cirílico se dispunha em cinco fileiras horizontais de seis letras:
Cada letra era então designada por um par de batidas, a primeira indicando a fileira, e a segunda, a posição na fileira:
1,1 1,2 1,3 1,4 1,5 1,6
2,1 2,2 2,3 2,4 2,5 2,6
3,1 3,2 3,3 3,4 3,5 3,6
4,1 4,2 4,3 4,4 4,5 4,6
5,1 5,2 5,3 5,4 5,5 5,6
Às vezes, mesmo quem não lera sobre o código nem o aprendera com outras pessoas acabava entendendo-o, pois havia métodos padronizados de ensiná-lo. Quem o conhecia
às vezes telegrafava o alfabeto, repetidamente, junto com uma ou duas perguntas simples, na esperança de que a pessoa que estava invisível do outro lado pegasse
o sentido. Foi assim que Alexander Dolgun aprendeu o código na Lefortovo, decorando-o com a ajuda de fósforos. Quando enfim conseguiu "falar" com um preso na cela
seguinte e entendeu que ele indagava "Quem é você?", sentiu "uma súbita torrente de puro amor por um homem que, havia três meses, perguntava quem eu era".
O código não esteve difundido em todos os períodos. Em 1949, Zayara Vesyolaya não conseguiu "achar ninguém que conhecesse o 'alfabeto da cadeia'" na Butyrka e inferiu
que a tradição só podia ter-se extinguido. Posteriormente, concluiu estar equivocada, tanto porque outros lhe contaram tê-lo usado na época quanto porque, certa
vez, um guarda irrompeu na cela quando ouviu som de batidas, querendo saber de onde vinha o ruído. Existiam variações. O escritor e poeta russo Anatolii Zhigulin
afirma ter inventado um código, também alfabético, que ele e um grupo de amigos (haviam sido todos detidos de uma vez só) utilizaram para comunicar-se durante o
inquérito.
Em determinados lugares e épocas, os métodos de auto-organização dos presos assumiam formas mais complexas. Uma delas é descrita no conto "Comitês dos Pobres", de
Variam Shalamov, e mencionada por outros. Suas origens se devem a uma norma injusta: em certa altura, no final dos anos 1930, as autoridades de repente resolveram
que presos submetidos a interrogatório não poderiam receber nenhuma remessa de seus familiares, com base na idéia de que até "dois pãezinhos franceses, cinco maçãs
e umas calças velhas já bastavam para levar qualquer comunicação à cadeia". Só se poderia mandar dinheiro, e apenas em quantias redondas, a fim de que as somas não
pudessem ser usadas para passar "mensagens". Entretanto, nem todas as famílias de presos enviariam dinheiro. Algumas eram demasiado pobres; outras, demasiado distantes;
e outras ainda podem até ter participado da delação dos parentes detidos. Isso tudo significava que, embora alguns presos tivessem acesso semanal ao comissário da
prisão - para adquirir manteiga, queijo, salsicha, fumo, pão branco, cigarros -, outros tinham de sobreviver apenas com a fraca dieta da cadeia e, o mais importante,
sentiam-se "deslocados no feriado geral" que era o "dia do comissário".
Para resolverem esse problema, os presos da Butyrka ressuscitaram um termo dos primeiros tempos da Revolução e organizaram "Comitês dos Pobres". Cada detento doava
10% de seu dinheiro ao comitê. Este, por sua vez, adquiria comestíveis para os presos que não tinham dinheiro nenhum. O sistema se manteve durante alguns anos, até
que as autoridades decidiram eliminar os comitês, prometendo a alguns presos "recompensas" de vários tipos se eles se negassem a participar. As celas, porém, reagiram,
condenando os refratários ao ostracismo dentro das próprias celas. E quem, pergunta Shalamov, "se arriscaria a colocar-se em oposição ao grupo inteiro, a pessoas
com as quais se está 24 horas por dia, onde apenas o sono pode salvar-nos da mirada hostil de nossos companheiros de cárcere?".
Curiosamente, esse conto é um dos poucos na extensa obra de Shalamov que termina em tom positivo: "À diferença do mundo 'livre' lá fora, ou dos campos de concentração,
a sociedade das celas está sempre unida. Nos comitês, ela encontrou uma maneira de afirmar o direito de todo homem a viver a própria vida".
Shalamov, um escritor tão pessimista, encontrara um fio de esperança nessa única forma organizada de solidariedade entre os presos. O trauma do traslado para os
campos, e o terror dos primeiros dias de perplexidade ali, logo destruía essa esperança.
9. TRANSLADO, CHEGADA, SELEÇÃO
Lembro-me do porto de Vanino
E do clamor do navio sombrio
Enquanto seguíamos pela prancha
Para o porão frio e escuro.
Os zeks sofriam com o balanço das águas,
O mar profundo uivava à volta deles...
E à frente se estendia Magadan,
A capital da terra de Kolyma.
Não brados, mas gemidos lastimáveis,
Saíram de cada peito
Quando disseram adeus à terra firme.
O navio jogava, forcejava, rangia...
Canção de presos soviéticos
Em 1827, a princesa Maria Volkonskaya, esposa do rebelde dezembrista Sergei Volkonsky, deixou a família, o filho e a vida segura em São Petersburgo para juntar-se
ao marido no degredo siberiano. O biógrafo da princesa descreveu a viagem, que, na época, foi considerada um sofrimento quase insuportável:
Dia após dia, o trenó avançava, célere, rumo ao horizonte infinito. Como se presa numa cápsula do tempo, Maria estava numa euforia febril. Havia um quê de irreal
na viagem, com a escassez de sono e de alimento. Parava apenas aqui e ali, para a troca de cavalos, e aí tomava um copo de chá quente com limão, feito no onipresente
samovar de bronze. A arrebatadora velocidade do trenó, puxado por três cavalos resfolegantes, ia devorando a galope aquelas distâncias ermas. "Em sempre! Em frente!",
gritavam os condutores, chispando enquanto grandes tufos de neves eram levantados pelos cascos dos cavalos e os sinos dos arreios tilintavam sem cessar, alertando
outros para a aproximação do veículo.
Mais de um século depois, a companheira de cela de Evgeniya Ginzburg leu uma descrição semelhante da viagem de uma aristocrata pelos Urais, e suspirou de inveja:
"E eu que sempre pensei que as mulheres dos dezembristas haviam encarado os sofrimentos mais atrozes..."
No século XX, nem cavalos nem trenós levavam presos com "arrebatadora velocidade" pela neve siberiana, e não havia chá quente com limão, feito em samovares de bronze,
para tomar nas escalas. A princesa Volkonskaya pode ter chorado durante sua jornada, mas os prisioneiros que vieram depois dela não podiam nem ouvir a palavra étap
- o jargão prisional para "traslado de presos" - sem sentir medo, até pavor. Toda viagem era um salto desolador no desconhecido, uma mudança para longe dos companheiros
e dos arranjos que tinham nas celas, com os quais, não importando quão ruins, já estavam acostumados. Pior: o processo de transferir presos dos cárceres para os
campos de trânsito e dali para os campos de concentração, ou de transferi-los de um campo para outro no sistema Gulag, era fisicamente acachapante e descaradamente
cruel. Em certo sentido, era o aspecto mais inexplicável da vida no Gulag.
Para aqueles que sofriam essa provação pela primeira vez, o fato era prenhe de simbolismo. A detenção e o interrogatório haviam sido uma iniciação no sistema, mas
a viagem de trem pela Rússia representava tanto uma ruptura geográfica com a vida pregressa quanto o começo de uma nova existência. As emoções sempre estavam à flor
da pele nas composições que saíam de Moscou e Leningrado, no rumo norte e leste. Thomas Sgovio, o americano que não conseguiu recuperar seu passaporte, recordaria
o que aconteceu quando partiu para Kolyma:
Nosso trem deixou Moscou na noite de 24 de junho. Era o começo de uma jornada para o leste que duraria um mês. Nunca conseguirei esquecer aquele momento. Setenta
homens [...] começaram a chorar.
Na maioria das vezes, viagens longas desse tipo se realizavam em etapas. Se os zeks estavam sendo mantidos em grandes prisões urbanas, eles eram primeiro levados
aos trens em caminhões cujo próprio desenho já apontava a obsessão de sigilo da NKVD. Do lado de fora, os "corvos pretos", como eram apelidados, pareciam ser
caminhões comuns para carga pesada, fechados. Nos anos 1930, tinham com freqüência a palavra PÃO pintada dos lados; depois, porém, usaram-se logros mais sofisticados.
Um preso, detido em 1948, lembraria ter viajado num caminhão com os dizeres COSTELETAS DE MOSCOU e em outro com a indicação HORTALIÇAS E FRUTAS.
Do lado de dentro, os caminhões às vezes se dividiam em "duas fileiras de minúsculas jaulas, asfixiantes e escuras como breu", na descrição de um preso. Outros
desses veículos, seguindo um desenho de 1951, simplesmente tinham dois longos bancos, nos quais os presos se espremiam. Os camponeses, e os desterrados no início
das deportações em massa dos Estados bálticos e da Polônia oriental, encaravam condições ainda mais rudes. Com freqüência, seguiam apinhados em caminhões comuns,
"como sardinhas", conforme me disse certa vez um lituano idoso: o primeiro preso sentava e abria as pernas, o segundo sentava entre elas e abria as suas próprias,
e assim por diante, até o caminhão lotar. Tais arranjos eram especialmente desconfortáveis quando era preciso ir pegando muita gente, e nesses casos a ida à estação
podia levar o dia inteiro. Em fevereiro de 1940, durante as deportações que ocorreram nos antigos territórios poloneses em pleno inverno, crianças morriam congeladas
antes mesmo de chegar aos trens, e adultos sofriam graves queimaduras provocadas pelo frio, das quais seus braços e pernas nunca se recuperavam.
Nas cidades de província, as normas de sigilo eram menos rigorosas, e os presos às vezes marchavam pelas localidades até a estação ferroviária, uma experiência que
freqüentemente lhes proporcionava o derradeiro vislumbre da vida civil - e que proporcionava aos civis um dos poucos vislumbres dos presos. Janusz Bardach rememoraria
a surpresa que sentiu ante a reação dos moradores de Petropavlovsk quando viram presos caminharem pelas ruas:
Ao redor, a maioria eram mulheres envoltas em xales e longos e pesados casacos de feltro. Para meu espanto, começaram a gritar com os guardas: "Fascistas... Assassinos...
Por que não vão lutar na frente de batalha?..." Aí, passaram a atirar bolas de neve neles. Dispararam-se vários tiros para o ar, e as mulheres recuaram uns bons
passos, mas continuaram a xingar e a nos seguir. Lançavam à coluna pacotes de comida, pães grandes, batatas e pedaços de toucinho. Uma mulher tirou o xale e o casaco
pesado e os deu a um homem que não tinha nenhum agasalho. Peguei um par de mitenes de lã.
Tais reações tinham muita tradição na Rússia: Dostoievski escreveu sobre as donas-de-casa que, nas festas natalinas, enviavam "pães finos da melhor farinha" para
os detentos das prisões czaristas. Nos anos 1940, porém, essas atitudes eram relativamente raras. Em muitos lugares - entre os quais Magadan era notória -, o espetáculo
de presos nas ruas era tão corriqueiro que não despertava reação alguma.
Fosse a pé, fosse de caminhão, os presos acabavam chegando à estação ferroviária. Às vezes, eram estações comuns; às vezes, eram especiais - "um pedaço de terra
cercado com arame farpado", na lembrança de Lev Finkelstein. Ele também recordaria que os presos se submetiam a uma série de rituais especiais antes de poderem embarcar:
Há uma longa coluna de prisioneiros. Você é contado, recontado e contado outra vez. O trem está lá [...] e então chega a ordem: "De joelhos!" O embarque é um momento
delicado: alguém pode começar a correr. Por isso, asseguram-se de que todos fiquem de joelhos. E é melhor você não se levantar, porque nessa hora eles são rápidos
no gatilho. Depois, fazem a contagem, põem as pessoas no vagão e as trancam. O trem nem se mexe - fica-se ali, em pé, horas a fio. Aí, de repente, "Estamos partindo!",
e começamos a nos mover.
Do lado de fora, os vagões pareciam absolutamente comuns - a não ser pelo fato de que eram mais bem protegidos que a maioria. Edward Buca, que fora aprisionado na
Polônia, observou seu vagão com o olhar cuidadoso de um homem que tinha esperança de escapar. Lembraria que "cada vagão estava envolto em muito arame farpado; do
lado de fora, havia plataformas de madeira para os guardas; tinham-se instalado lâmpadas elétricas no topo e na barriga de cada vagão; e as janelinhas exibiam grossas
barras de ferro". Mais tarde, Buca foi olhar embaixo do vagão para ver se havia espigões de ferro. Sim, havia. Finkelstein também se recorda de que, "toda manhã,
ouvia-se aquele martelar - os guardas tinham martelos de madeira e sempre ficavam batendo nos vagões, para garantir que ninguém tentasse fugir abrindo um buraco".
Muito raramente, faziam-se arranjos fora do habitual para presos especiais. Anna Larina, mulher do líder soviético Nikolai Bukharin, não viajou com outros presos;
foi colocada no compartimento dos guardas do trem. Contudo a imensa maioria dos presos e degredados viajava junta, num de dois tipos de trem. O primeiro eram os
Stolypinki, "vagões Stolypin" - batizados, ironicamente, com o nome . de um dos mais vigorosos e reformistas primeiros-ministros do czar, no inicio do século XX,
o qual teria introduzido esses carros. Eram vagões comuns que haviam sido adaptados para o traslado de presos. Podiam ser enfileirados numa enorme composição própria;
ou ser engatados, um ou dois de cada vez, a trens comuns. Um ex-passageiro os descreveu assim:
Um Slolypinka se assemelha a um vagão russo de terceira classe, excetuado o fato de que tem um monte de grades de ferro. As janelas, é claro, têm barras. Os compartimentos
individuais são separados por alambrados em vez de paredes, como gaiolas, e uma cerca comprida de ferro os aparta do corredor. Esse arranjo permite que os guardas
fiquem sempre de olho em todos os presos.
Os vagões Stolypin também eram apinhadíssimos:
Em cada um dos dois beliches de cima, deitavam-se dois homens, com os pés virados um para a cabeça do outro. Nos dois beliches do meio, havia sete, com as cabeças
voltadas para a porta e um atravessado aos pés dos outros. Sob cada um dos beliches inferiores, tinha-se um homem, com mais catorze empoleirados nos beliches e nas
trouxas de pertences amontoados no chão entre os beliches e a porta. A noite, todos aqueles ao rés-do-chão davam algum jeito de deitar-se um ao lado do outro:
Havia outra desvantagem, esta mais importante: dentro dos vagões Stolypin, os guardas tinham condições de vigiar os presos o tempo todo e, portanto, controlar o
que comiam, ouvir o que conversavam - e decidir quando e como podiam fazer suas necessidades. Praticamente todo memorialista que descreve os trens menciona os horrores
relacionados a elas. Uma, às vezes duas e às vezes nenhuma vez por dia, os guardas levavam presos ao sanitário, ou então paravam o trem para que os passageiros pudessem
descer:
O pior acontece quando, após um longo regateio com os guardas, deixam que saíamos dos vagões e todo o mundo procura um lugarzinho onde possa aliviar-se debaixo do
trem, sem se preocupar com a platéia que assiste de todos os lados.
Por mais constrangedoras que fossem essas paradas, os presos com distúrbios estomacais ou outros problemas de saúde estavam em muito pior situação, como recordariam:
Os que não conseguiam segurar-se sujavam, lamurientos, as próprias calças e freqüentemente os presos próximos a eles. Mesmo quando se compartilhavam os sofrimentos,
era difícil para alguns não odiarem os infelizes que faziam aquilo.
Por tal motivo, alguns presos realmente preferiam a outra forma de traslado prisional - os vagões de gado. Estes eram o que sugerem: vagões vazios, não necessariamente
equipados para seres humanos, às vezes dotados de beliches e às vezes aquecidos com um fogareiro no meio. Embora mais rudimentares que os vagões Stolypin, os de
gado não se dividiam em compartimentos, e havia mais espaço para movimentação. Também tinham "sanitários" (buracos no piso), mitigando a necessidade de precisar
implorar aos guardas.
Todavia, os vagões abertos também tinham seus tormentos específicos. Às vezes, por exemplo, os buracos no piso ficavam bloqueados. No trem de Buca, o buraco acabou
tapado pelo gelo. "Então o que fazíamos? Mijávamos por um fenda entre o piso e a parede e cagávamos num pedaço de pano, fazendo depois uma trouxinha e esperando
que o trem parasse em algum lugar e abrisse as portas, para que pudéssemos jogar aquilo fora." Nos trens cheios de deportados, em que adultos e crianças de ambos
os sexos eram jogados juntos, os buracos no piso criavam outros problemas. Uma degredada, desterrada como filha de kulak nos anos 1930, lembraria que as pessoas
ficavam "terrivelmente envergonhadas" por terem de urinar na frente umas das outras e era grata por poder fazê-lo escondida pelas saias da mãe.
Contudo o verdadeiro suplício não era a lotação, o sanitário nem o constrangimento. Era a falta de alimento - e, especialmente, de água. Às vezes, dependendo da
rota e do tipo de trem, servia-se comida quente aos presos. As vezes, não. Em geral, as "rações secas" para o traslado se constituíam unicamente de pão - o qual
era distribuído ou em pedaços pequenos, de trezentos gramas por dia, ou em quantidades maiores, de dois quilos mais ou menos, que deviam durar uma viagem de 34 dias.
Junto com o pão, os presos costumavam receber peixe seco - cujo resultado era deixá-los sedentos ao extremo. No entanto, era raro ganharem mais que uma caneca de
água por dia, mesmo no verão. Essa pratica predominava tanto que sempre emergem histórias da sede pavorosa experimentada pelos presos. "Uma vez, ficamos três dias
sem receber água, e, na véspera do ano-novo de 1939, em algum lugar perto do lago Baikal, tivemos de lamber o gelo preto que pendia dos vagões", escreveu um ex-zek.
Numa viagem de 28 dias, outra pessoa se lembra de terem-lhe dado água três vezes; de quando em quando, o trem parava "para retirarem os cadáveres".
Mesmo quem recebia aquela caneca diária sofria tormentos. Evgeniya Ginzburg recordaria a decisão excruciante a que tinham de chegar: tomar a caneca inteira de manhã
ou procurar poupar água.
"Quem bebericava de vez em quando e fazia a água durar o dia inteiro nunca tinha um instante de sossego. Pessoas ficavam de olho em nossas canecas o dia inteiro,
como gaviões." Isso, é claro, se os presos tinham canecas: até o fim da vida, uma prisioneira lembraria o momento trágico em que lhe roubaram o bule de chá que
ela conseguira levar consigo. O bule não deixava derramar a água, possibilitando que bebericasse pelo dia todo. Sem ele, não tinha onde guardar a água e foi supliciada
pela sede.
Piores eram as lembranças de Nina Gagen-Torn, que esteve num trem de traslado que, no meio do verão, permaneceu três dias parado nas imediações de Novossibirsk.
A cadeia onde os presos ficavam em trânsito na cidade estava lotada: "Era julho. Uma canícula. Os tetos dos vagões Stolypin começaram a brilhar, e nos púnhamos nos
beliches tal qual bolinhos no forno". O vagão de Nina decidiu fazer greve de fome, embora os guardas os ameaçassem com novas sentenças, mais longas. "Não queremos
pegar disenteria", as presas gritavam para eles. "Faz quatro dias que estamos sentadas na nossa própria merda." Com relutância, os guardas enfim as deixaram beber
um pouco de água e lavar-se.
Uma presa polonesa também se viu num trem que precisou ficar parado - mas na chuva. Como era natural, as prisioneiras tentavam coletar a água que vinha do teto.
Mas, "quando estendíamos nossas canecas entre as barras das janelas, o guarda que estava no teto gritou que atiraria, porque aquilo era proibido".
As viagens de inverno não eram necessariamente melhores. Outra polonesa desterrada lembraria que, na viagem de trem para o leste, só consumiram "gelo e pão congelado".
No verão ou no inverno, outros deportados viviam tormentos específicos. Quando um trem de degredados parou numa estação comum (coisa excepcional), os presos saíram
correndo para comprar alimentos da gente do lugar. "Nossos judeus chisparam atrás dos ovos", recordaria um passageiro polonês. "Preferiam morrer de fome a comer
algo que não fosse kosher."
Os muito idosos e muito novos eram os que mais sofriam. Barbara Armonas, lituana casada com americano, foi deportada junto com um grande grupo de conterrâneos, adultos
e crianças de ambos os sexos. Entre eles, estava uma mulher que dera à luz quatro horas antes, assim como uma paralítica de 83 anos que não conseguia limpar-se -"logo,
tudo a seu redor fedia, e ela estava coberta de feridas abertas". Havia também três bebês:
Os pais deles tinham grande problema com as fraldas, pois era impossível lavá-las regularmente. Às vezes, quando o trem parava depois da chuva, as mães saltavam
para lavá-las nas valas. Irrompiam brigas por causa dessas valas, já que alguns queriam lavar louça, outros o rosto e outros as fraldas sujas, tudo ao mesmo tempo
[...] os pais envidavam todos os esforços para manter os filhos limpos. As fraldas sujas eram deixadas para secar e então sacudidas. Rasgavam-se lençóis e camisas
para improvisar fraldas, e às vezes os homens amarravam as fraldas no pulso, tentando fazê-las secar mais depressa.
As crianças pequenas não passavam melhor:
Alguns dias eram escaldantes, o fedor nos vagões se tornava insuportável, e várias pessoas adoeciam. No nosso, um menino de dois anos estava com febre alta e chorava
o tempo todo por causa da dor. O único socorro que os pais conseguiram foi um pouco de aspirina que alguém lhes deu. O menino ficou cada vez pior e acabou morrendo.
Na parada seguinte, numa floresta desconhecida, os soldados tiraram seu cadáver do trem e, imagino, o enterraram. O pesar e a raiva impotente dos pais eram de partir
o coração. Em circunstâncias normais, com cuidados médicos, ele não teria morrido. Agora, nem se sabia ao certo onde fora enterrado.
Para os inimigos do povo - diferenciando-se dos deportados -, tomavam-se às vezes providências especiais, que não melhoravam necessariamente as coisas. Mariya Sandratskaya,
detida dois meses após ter dado à luz, foi colocada num trem lotado de mães que amamentavam. Durante dezoito dias, 65 mulheres e 65 bebês viajaram em dois vagões
de gado, cujo único aquecimento vinha de dois fogões muito pequenos e muito fumacentos. Não havia rações especiais, nem água quente para banhar as crianças ou lavar
as fraldas, que então ficavam "verdes de sujeira". Duas das mulheres se suicidaram, cortando a garganta com vidro. Outra enlouqueceu. As demais se encarregaram dos
três bebês. Mariya "adotou" um deles. Até o fim da vida, teve a convicção de que só o leite materno salvara seu bebê, que contraiu pneumonia. Desnecessário dizer
que não se dispunha de nenhum medicamento.
Ao chegarem à cadeia de Tomsk, onde ficariam até voltar a seguir viagem, a situação praticamente não mudou. A maioria das crianças ficou doente. Duas morreram. Mais
duas mães tentaram suicidar-se, mas foram impedidas. Outras realizaram uma greve de fome. No quinto dia da greve, foram visitadas por uma comissão da NKVD; uma das
mulheres atirou o filho contra eles. Só quando chegaram ao Temlag - o campo feminino, destinado sobretudo às "esposas" presas - Mariya Sandratskaya conseguiu organizar
um jardim-de-infância; depois, convenceu parentes a virem e levarem o bebê.
Por mais grotesca e desumana que a história de Mariya possa parecer, não era única. Uma ex-médica de campo também descreveu como fora colocada num "traslado de crianças",
junto com quinze mães que amamentavam, mais 25 outras crianças e duas "babás". Todas haviam marchado em comboio para a estação; sido postas não num trem comum, mas
num vagão Stolypin com grades nas janelas; e sido privadas de alimentação adequada.
De tempos em tempos, todos os trens de traslado faziam paradas, mas estas não ofereciam necessariamente algum alívio. Os presos eram desembarcados, colocados em
caminhões e levados para cadeias, onde ficariam em caráter provisório. O regime em tais lugares era semelhante ao das detenções onde se realizavam interrogatórios;
só que os carcereiros tinham ainda menos interesse pelo bem-estar dos presos, os quais provavelmente não tornariam a ver. Em conseqüência, o regime prisional era
absolutamente imprevisível.
Karol Harenczyk, polonês trasladado da Ucrânia ocidental para Kolyma no início da Segunda Guerra, lembraria os méritos relativos das muitas prisões transitórias
em que ficou. Num questionário que preencheu por solicitação do Exército polonês, observou que a cadeia de Lvov não tinha umidade, contava com "bons chuveiros" e
era "bastante limpa". Em contraste, a de Kiev era "superlotada, indescritivelmente suja" e infestada de piolhos. Em Kharkov, a cela de 96 metros quadrados onde o
puseram estava apinhada com 387 pessoas e milhares de piolhos. Em Aremovsk, a prisão ficava "quase completamente às escuras", e não se permitiam caminhadas; "não
se limpava o chão, de cimento, e os restos de peixe eram deixados ali. A sujeira, o cheiro e a falta de ar provocavam dor de cabeça e tontura", tanto que os presos
andavam de quatro. Em Voroshilovgrad, a cadeia também era "bastante limpa", e os presos podiam fazer as necessidades fora da cela, duas vezes por dia. No campo de
trânsito de Starobelsk, tinham permissão para caminhar só uma vez por semana, durante meia hora.
Talvez as mais primitivas dessas prisões transitórias fossem as do litoral do Pacífico, onde os presos permaneciam antes do embarque em navios para Kolyma. De início,
nos anos 1930, só existia uma: Vtoraya Rechka, perto de Vladivostok. No entanto, era tão superlotada que, em 1938, se construíram mais dois campos de trânsito: Bukhta
Nakhodka e Vanino. Mesmo então, não havia alojamento suficiente para os milhares de detentos que aguardavam os navios. Um preso esteve em Bukhta Nakhodka no final
de julho de 1947: "Mantinham 20 mil pessoas a céu aberto. Não se dizia nem uma palavra sequer sobre construir alguma coisa - eles sentavam, deitavam e viviam no
chão".
Quanto à água, a situação tampouco melhorava muito se comparada ao que vigorava nos trens, apesar do fato de que os presos ainda sobreviviam à base principalmente
de peixe seco, no auge do verão:
Por todo o campo, lia-se este aviso: "Não beba água sem ferver". E entre nós grassavam duas epidemias - tifo e disenteria. Mas os presos não davam atenção aos avisos
e bebiam a água que pingava aqui e ali [...] qualquer pessoa consegue entender quanto estávamos desesperados por um gole de água para matar a sede.
Para presos que viajavam fazia muitas semanas - e memorialistas relatam jornadas ferroviárias de até 47 dias para Bukhta Nakhodka -, as condições nos campos de
trânsito do Pacífico eram quase insuportáveis. Um deles registra que, quando o trem chegou a Bukhta Nakhodka, 70% de seus companheiros tinham cegueira noturna (efeito
colateral do escorbuto) e diarréia. Não havia muita assistência médica disponível. Em outubro de 1938, sem medicamentos e sem cuidados adequados, o poeta russo
Osip Mandelstam morreu em Vtoraya Rechka, paranóico e delirante.
Para quem não estava demasiado incapacitado, era possível ganhar um pouquinho de pão extra nos campos de trânsito do Pacífico. Os presos podiam carregar baldes de
cimento, descarregar mercadorias de vagões e cavar latrinas. Aliás, alguns se lembram de Bukhta Nakhodka como "o único campo onde os prisioneiros imploravam para
trabalhar". Uma polonesa recordaria que "eles só alimentavam quem podia trabalhar, mas, como havia mais presos do que trabalho, alguns morriam de fome [...]. A prostituição
florescia, como as íris nas campinas siberianas".
Thomas Sgovio lembraria que outros sobreviviam de trocas:
Existia um espaço grande e aberto que denominavam a feira. Ali, os presos se reuniam e praticavam o escambo [...]. O dinheiro de nada valia. A maior procura era
por pão, fumo e pedaços de jornal, usados para fazer cigarro. Havia presos não-políticos que cumpriam pena como pessoal de manutenção e serviço. Trocavam pão e fumo
pelas roupas dos recém-chegados; depois as revendiam para cidadãos do lado de fora, recebendo em rublos e acumulando assim uma soma para o dia em que, soltos, voltariam
ao mundo soviético. Durante o dia, a feira era o lugar mais concorrido do campo. Naquele buraco comunista, presenciei o que, na realidade, era a forma mais crua
de sistema de livre iniciativa.
No entanto, para esses presos, os horrores da viagem não acabavam nos trens nem nos campos de trânsito. A viagem para Kolyma tinha de completar-se de barco - tal
como no caso dos prisioneiros que subiam o rio Ienissei, de Krasnoyarsk a Norilsk, ou que, nos primeiros tempos, atravessavam o mar Branco em barcaças, de Arcangel
a Ukhta. Era raro o preso que, em especial quando embarcando nos navios para Kolyma, não sentia que fazia uma jornada rumo ao abismo, navegando pelo Estige para
longe do mundo conhecido. Muitos nunca haviam entrado num barco antes."
As embarcações em si não tinham nada de extraordinário. Velhos cargueiros a vapor holandeses, suecos, ingleses e americanos - que de modo algum haviam sido projetados
para o transporte de passageiros - faziam regularmente a rota para Kolyma. Tinham recebido nova designação, para adequar-se à nova tarefa, mas as mudanças eram sobretudo
cosméticas. As letras DS (de "Dalstroi") foram pintadas nas chaminés; instalaram-se ninhos de metralhadores nas cobertas; e construíram-se rústicos beliches de madeira
nos porões de carga, compartimentados por grades de ferro. O maior navio da Dalstroi, originaria-mente destinado a carregar enormes quantidades de cabo, foi de início
batizado Nikolai Yezhov. Depois que Yezhov caiu em desgraça, o barco foi rebatizado Feliks Dzerzhinsky - o que exigiu dispendiosa alteração no registro internacional.
Faziam-se poucas concessões à carga humana, que era obrigada a ficar fora das cobertas na primeira parte da viagem, quando os navios passavam perto do litoral japonês.
Durante esses poucos dias, a escotilha que levava da coberta ao porão ficava muito bem trancada, para a eventualidade de que aparecesse algum pesqueiro japonês.
De fato, essas viagens eram consideradas tão secretas que, em 1939, quando o Indigirka - um navio da Dalstroi com 1.500 passageiros, na maioria presos que retornavam
para o sul - se chocou contra um recife ao largo da ilha japonesa de Hokkaido, a tripulação preferiu deixar a maior parte dos passageiros morrer a pedir socorro.
Não havia aparato salva-vidas, e os tripulantes, não querendo revelar o verdadeiro conteúdo de seu "cargueiro", não solicitaram o auxílio de outras embarcações,
embora muitas estivessem disponíveis na área. Uns poucos pescadores japoneses vieram ajudar, por conta própria, mas não puderam fazer nada: mais de mil pessoas morreram
no desastre.
Mesmo quando não acontecia nenhuma catástrofe, os presos sofriam com o sigilo, que requeria o confinamento forçado. Os guardas jogavam a comida no porão e deixavam
que os cativos a disputassem. Os presos recebiam água em baldes, baixados lá de cima. Tanto a comida quanto a água eram escassas - e o mesmo valia para o ar. A anarquista
Elinor Olitskaya recordaria que as pessoas começavam a vomitar tão logo embarcavam. Descendo ao porão, Evgeniya Ginzburg também passou mal na mesma hora: "Se continuei
de pé, foi só porque não havia espaço para cair". Uma vez dentro do porão,
era impossível mexer-se; nossas pernas adormeciam, a fome e o ar marinho nos deixavam tontas, e todas estávamos mareadas [...] apinhadas às centenas, mal conseguíamos
respirar; sentávamos ou deitávamos no piso sujo ou uma sobre a outra, abrindo as pernas para acomodar quem estava na frente.
Depois que se passava a costa japonesa, os presos eram às vezes autorizados a subir à coberta para usar os poucos sanitários do navio, que de jeito nenhum bastavam
para milhares de passageiros. Memorialistas rememoram esperas de duração variada para usá-los: "duas horas", "sete ou oito horas", "o dia inteiro". Sgovio assim
descreveu esses sanitários:
Uma armação semelhante a uma caixa, improvisada com tábuas, era fixada ao costado do navio [...] da coberta do navio, que jogava, era bem complicado subir à amurada
e dali passar à tal caixa. Os presos que eram mais idosos e os que nunca haviam estado no mar tinham medo de entrar lá. Um cutucão do guarda, mais a necessidade
de aliviar-se, acabava por fazê-los superar a relutância. Dia e noite, durante toda a viagem, havia uma longa fila na escada. Na caixa, só deixavam entrar dois homens
de cada vez.
Entretanto, os suplícios físicos da vida a bordo eram superados pelas torturas inventadas pelos próprios presos - ou melhor, pelos criminosos entre eles. Isso era
especialmente verdadeiro no final dos anos 1930 e começo dos 40, quando a influência da bandidagem no sistema de campos estava no auge e os presos políticos e comuns
ficavam misturados de maneira indiscriminada. Alguns presos políticos já haviam topado com criminosos nos trens. A finlandesa Aino Kuusinen relembraria que "o pior
da viagem eram os menores delinqüentes, que ficavam com os leitos de cima e cometiam todo tipo de indecência - cuspir, lançar xingamentos obscenos e até urinar nos
presos adultos". Nos navios, a situação era pior. Elinor Lipper, que fez a viagem para Kolyma no final dos anos 1930, descreveu como as presas políticas
deitavam-se espremidas no piso alcatroado do porão, pois as criminosas tinham se apossado da plataforma de pranchas. Se alguma de nós se atrevesse a erguer a cabeça,
seria saudada com uma chuva de vísceras e cabeças de peixe. Quando alguma das criminosas mareadas vomitava, aquilo caía direto sobre nós.
Os presos polacos e baltas, que tinham melhor vestuário e pertences mais valiosos do que os de seus equivalentes soviéticos, eram ainda mais visados. Em certa ocasião,
um grupo de criminosos apagou as luzes do navio e atacou presos poloneses, matando alguns e assaltando o resto. "Os polacos que sobreviveram", escreveu um deles,
"souberam pelo resto da vida o que era estar no inferno."
Os resultados da mistura de homens com mulheres podiam ser muito piores até que os da mistura de presos políticos com criminosos. Estritamente falando, isso era
proibido: os dois sexos viajavam separados nos navios. Mas, na prática, podiam-se subornar os guardas para deixar homens entrarem no porão das mulheres, com conseqüências
terríveis. O "bonde de Kolyma" - os bandos de estupradores a bordo - era tema de conversa em todo o sistema de campos. Elena Glink, uma sobrevivente, descreveu esses
homens:
Eles estupravam conforme mandava o "condutor" do bonde [...] depois, à ordem Konchai bazar ["Acabou a festa"], eles se desembaraçavam, relutantemente, e davam vez
aos seguintes, que haviam ficado esperando em pé, prontinhos [...] as mortas eram arrastadas pelas pernas até a porta e empilhadas na soleira. As que permaneciam
eram trazidas de volta à consciência (jogava-se água nelas), e a fila recomeçava. Em maio de 1951, a bordo do Minsk [famoso em toda a região Kolyma por seu "bonde
grande"], os cadáveres das mulheres eram atirados ao mar. Os guardas nem sequer anotavam o nome das mortas.
Pelo que Elena sabia, ninguém jamais era punido pelo crime de estupro nesses navios. O adolescente polonês Janusz Bardach, que se viu num navio para Kolyma em 1942,
tinha a mesma opinião. Bardach esteve presente quando um grupo de criminosos planejou uma investida ao porão das mulheres; ele observou enquanto esses homens abriam
um buraco na grade de ferro que separava os dois sexos:
Tão logo passaram pelo buraco e viram as mulheres, os homens rasgaram as roupas delas. Vários atacavam uma mulher de cada vez. Eu podia ver os corpos alvos das vítimas
se retorcerem, as pernas chutarem energicamente, as mãos arranharem o rosto dos homens. As mulheres mordiam, choravam e gemiam. Os estupradores reagiam, esbofeteando-as
[...] quando acabaram as mulheres, alguns dos mais corpulentos se voltaram para os leitos, à cata de rapazes. Esses adolescentes foram acrescidos ao massacre; jaziam
ali, imóveis, de barriga, sangrando e chorando no chão.
Nenhum dos outros presos tentou deter os estupradores: "centenas de homens ficaram assistindo à cena de seus leitos, mas nenhum procurou intervir". Segundo Bardach,
o ataque só terminou quando os guardas na coberta superior varreram o porão com água. Em seguida, um punhado de mortas e feridas foi arrastado para fora. Ninguém
recebeu punição.
Conforme escreveu uma sobrevivente, "qualquer um que tenha visto o inferno de Dante diria que ele era fichinha se comparado ao que acontecia naquele navio".
Há muito mais histórias sobre os traslados, algumas delas tão trágicas que mal se consegue repeti-las. De fato, essas viagens eram tão horríveis que, na memória
coletiva dos sobreviventes, elas se tornaram um enigma tão difícil de compreender quanto os próprios campos. Aplicando psicologia humana mais ou menos normal, é
possível explicar a crueldade dos comandantes de campo, eles próprios sob pressão para cumprir normas e metas, como veremos. É até possível explicar as ações dos
interrogadores, cujas vidas dependiam do sucesso em obter confissões e que às vezes eram selecionados por serem sádicos. No entanto, é muito mais difícil explicar
por que um guarda comum de comboio se recusava a dar água a presos que estavam a ponto de morrer de sede; a arranjar aspirina para uma criança febril; ou a proteger
Mulheres de serem curradas até a morte.
Decerto não há prova de que os guardas de comboio fossem explicitamente instruídos a torturar os presos em traslado. Pelo contrário: existiam normas minuciosas de
proteção a esses traslados, e a ira oficial se desencadeava quando não eram cumpridas, o que acontecia com freqüência. Um decreto de dezembro de 1941, "sobre o aprimoramento
da organização do traslado de presos", descrevia com indignação a "irresponsabilidade" e o comportamento às vezes "criminoso" de alguns dos guardas e funcionários
de comboio do Gulag: "Como resultado, presos têm chegado famélicos aos lugares a eles designados e, por conseguinte, ficam certo tempo sem poder ser postos para
trabalhar". Em 25 de fevereiro de 1940, uma agastada ordem oficial reclamava não só de que se colocara em trens para os campos setentrionais um determinado número
de presos enfermos e incapacitados, coisa que, em si, já era proibida, mas também de que muitos mais não tinham recebido alimento nem água, não tinham sido providos
no caminho de trajes adequados para o inverno e não vinham acompanhados de suas fichas pessoais, que portanto deviam ter desaparecido. Em outras palavras, presos
entravam em campos onde ninguém sabia dos crimes nem das sentenças deles. Em 1939, de 1.900 prisioneiros num traslado para o extremo norte, 590 apresentavam "limitada
capacidade de trabalho" ao chegar, estando ou muito debilitados, ou muito doentes. A alguns faltavam poucos meses para cumprir suas penas; outros já as haviam cumprido
por completo. A maioria estava "mal calçada" e não tinha agasalho. Em novembro de 1939, outros 272 presos, nenhum dos quais tinha capotes para o inverno, foram levados
em caminhões abertos por uma distância de quinhentos quilômetros; como resultado, muitos adoeceram, e alguns vieram a morrer. Relataram-se todos esses fatos, com
a devida indignação e ira, e puniram-se guardas negligentes.
Numerosas instruções também regulavam as prisões onde os presos ficavam em caráter transitório. Em 26 de junho de 1940, por exemplo, uma ordem descreveu a organização
desses estabelecimentos, exigindo peremptoriamente que seus diretores construíssem cozinhas, banhos e sistemas de desinfestação. Não menos importante era a segurança
das embarcações prisionais da Dalstroi. Em dezembro de 1947, quando explodiu dinamite em dois navios ancorados em Magadan, redundando em 97 mortes e 224 hospitalizações,
Moscou acusou o porto de "negligência criminosa". Os responsabilizados foram a julgamento e receberam sentenças criminais.
Em Moscou, os chefões do Gulag estavam bem cientes dos horrores dos navios prisionais. Em 1943, um relatório da promotoria de Norilsk queixava-se de que os presos
que aportavam ali (eles subiam o Ienissei em barcaças) estavam
com freqüência, em más condições físicas [...] dos 14.125 presos que vieram para Norilsk em 1943, cerca de quinhentos foram hospitalizados em Dudinka [o porto de
Norilsk] no primeiro ou segundo dia após a chegada; até mil ficaram temporariamente inaptos para o trabalho, pois haviam sido privados de alimento.
Apesar de todo o escarcéu, o sistema de traslado mudou muito pouco no decorrer do tempo. Davam-se ordens, apresentavam-se queixas. No entanto, em 24 dezembro de
1944, um comboio adentrou a estação de Komsomolsk (no Extremo Oriente) no que até o promotor-assistente do sistema Gulag considerou condições abomináveis. Seu relatório
oficial do destino da SK 950 - essa composição de 51 vagões - só pode indicar uma espécie de nadir, mesmo na história horripilante dos traslados do Gulag:
Chegaram em vagões sem aquecimento que não tinham sido preparados para o transporte de presos. Em cada carro, havia entre dez e doze beliches, nos quais não podiam
caber mais que dezoito pessoas; apesar disso, contavam-se até 48 pessoas por carro. Os vagões não estavam providos de latões de água em número suficiente, de modo
que ocorriam interrupções no suprimento, às vezes por dias e noites inteiros. Deu-se pão congelado aos presos, e durante dez dias eles não receberam nem isso. Os
presos chegaram trajados com uniforme de verão, sujos, cobertos de piolhos, com sinais evidentes de ulceração pelo frio [...] os presos enfermos tinham sido largados
no piso dos vagões, sem socorro médico, e morreram ali mesmo. Mantiveram-se os cadáveres nos vagões por longos períodos [...].
Das 1.402 pessoas enviadas na composição SK 950, chegaram 1.291; 53 haviam morrido na viagem, e 66 haviam sido deixadas em hospitais pelo caminho. Na chegada, mais
335 foram hospitalizadas com queimaduras de frio de terceiro ou quarto grau, pneumonia e outras doenças. Ao que parecia, o comboio viajara sessenta dias, em 24 dos
quais ficara parado em vias laterais, "por causa da má organização". Contudo, mesmo nesse caso extremo de negligência, o responsável pela composição, um certo camarada
Khabarov, não recebeu mais que uma "repreensão com advertência".
Muitos sobreviventes de traslados semelhantes procurariam explicar esses grotescos maus-tratos sofridos pelos prisioneiros nas mãos de guardas de comboio jovens
e inexperientes, os quais estavam longe de ser os matadores treinados destacados para o sistema prisional. Nina Gagen-Torn especularia que "aquilo era prova não
de maldade, mas simplesmente de total indiferença. Não nos viam como pessoas. Éramos apenas carga viva". Antoni Ekart, polonês preso após a invasão soviética de
1939, também achava que
a privação de água não era proposital, para torturar-nos; antes, devia-se ao fato de que a escolta tinha de despender esforço extra para trazer água e só o faria
caso recebesse ordens. O comandante da escolta não estava nem um pouco interessado, e os guardas não se dispunham a escoltar os presos várias vezes por dia até os
poços ou torneiras das estações, correndo o risco de que houvesse fugas.
Contudo alguns presos relatam mais que indiferença:
De manhã, o chefe do comboio apareceu no corredor [...] em pé, de rosto para a janela e de costas para nós, gritou insultos e xingamentos: "Vocês me cansam!"
O tédio - ou melhor, o tédio misturado com a raiva de ter de executar trabalho tão degradante - também era a explicação de Soljenitsin para esse comportamento tão
difícil de explicar. Soljenitsin até procurou imaginar-se no lugar dos guardas de comboio. Lá estavam eles, já tão ocupados e assoberbados e mesmo assim tendo de
"carregar água em baldes - era preciso buscá-la longe, ainda por cima, e aquilo era uma ofensa: por que um soldado soviético deveria carregar água feito um burro
para os inimigos do povo?". Pior:
Tomava muito tempo distribuir aquela água. Os zeks não tinham canecas. Os que tinham acabavam sendo privados dela - de modo que, no fim das contas, era preciso dar-lhes
uma das duas canecas regulamentares e, enquanto bebiam, ficar lá de pé, esperando e esperando, pondo água e mais água, distribuindo e distribuindo...
Mas os guardas poderiam ter agüentado tudo isso, pegar a água e distribuí-la, se aqueles cachorros, depois de terem sorvido ruidosamente a água, não pedissem para
ir ao banheiro. Então, as coisas funcionam assim: se a gente não lhes dá água, eles não pedem para ir ao banheiro. É dar água uma vez, e eles vão ao banheiro uma
vez; duas vezes, e eles, vão duas vezes. Por isso, o bom senso, pura e simplesmente, é não dar nada para beberem.
Qualquer que fosse a motivação dos guardas - indiferença, tédio, raiva, orgulho ferido -, o efeito nos presos era devastador. Em geral, eles chegavam aos campos
não apenas desorientados e aviltados pela experiência do cárcere e do interrogatório, mas também fisicamente exauridos - prestes a encarar o estágio seguinte de
sua jornada para o Gulag: a entrada no campo.
Se não estava escuro, se não se encontravam doentes e se demonstravam interesse em olhar, a primeira coisa que os presos viam na chegada era o portão do campo. No
mais das vezes, o portão exibia um slogan. Da entrada de um dos lagpunkts, "pendia um arco-íris de compensado com uma faixa por cima, na qual se lia que 'Na URSS,
o trabalho é questão de honestidade, honra, bravura e heroísmo!'". Numa colônia de trabalho nos subúrbios de Irkutsk, Barbara Armonas foi acolhida com esta faixa:
"Com trabalho honesto, saldarei meu débito para com a pátria". Chegando em 1933 a Solovetsky (que se tornara prisão de segurança máxima), outro preso viu um aviso
que dizia: "Com mão de ferro, conduziremos a humanidade à felicidade!" Yurii Chirkov, detido aos catorze anos, também deparou com um aviso em Solovetsky: "Por meio
do trabalho, a liberdade!", slogan que é tão constrangedoramente parecido quanto possível com o Arbeit macht frei ("O trabalho liberta") que se via sobre os portões
de Auschwitz.
Assim como a chegada à cadeia, a chegada de um étap ao campo se fazia acompanhar de rituais: os detentos, exaustos pelo traslado, agora tinham de ser transformados
em zeks funcionais. O preso polonês Karol Colonna-Czosnowski lembraria:
Na chegada ao campo, ficamos um tempão sendo contados [...]. Naquela noite específica, parecia que isso não acabaria nunca. Inúmeras vezes, tivemos de nos alinhar
em fileiras de cinco, e a cada uma delas se ordenava que desse três passos à frente, e vários funcionários da NKVD, com ar preocupado, contavam em voz alta - Odin,
dva, tri - e registravam minuciosamente cada total em suas grandes pranchetas. Era de presumir que o número de vivos, acrescido ao número daqueles que tinham sido
fuzilados no caminho, não correspondia ao esperado.
Em seguida à contagem, tanto homens quanto mulheres eram levados aos banhos e tinham o corpo rapado - por inteiro. Esse procedimento, realizado segundo ordem oficial,
por motivos de higiene - presumia-se, em geral com razão, que os presos que chegavam das cadeias soviéticas estariam cobertos de piolhos -, também tinha grande
importância ritual. As mulheres o descrevem com especial horror e aversão, o que não é de admirar. Em muitas ocasiões, precisavam despir-se e, nuas diante dos soldados,
esperar a vez de serem rapadas. "Pela primeira vez", recordaria Elinor Olitskaya, que participou dessa cerimônia ao chegar a Kolyma, "ouvi prantos de protesto -
mulher é mulher..." Olga Adamova-Sliozberg sofrera a mesma coisa numa das prisões transitórias em que se ficava no trajeto para os campos:
Nós nos despimos e entregamos nossas roupas para serem tratadas. Já estávamos subindo para o lavatório quando percebemos que a escada eslava tomada por guardas de
alto a baixo. Envergonhadas, baixamos a cabeça e nos juntamos. Então ergui o olhar e acabei encarando o oficial encarregado. Ele me olhou carrancudo e berrou: "Vamos,
vamos! Mexa-se!"
De repente, fiquei aliviada, e a situação até me pareceu bem cômica.
"Para o diabo com eles", pensei. "Não são mais homens do que o Vaska, o touro que me assustava quando eu era menina."
Tão logo os presos estavam lavados e rapados, a segunda etapa do processo de transformar homens e mulheres em zeks anônimos era a distribuição de trajes. As normas
mudavam conforme a época e o campo; os presos podiam ou não usar as próprias roupas. Na prática, a decisão parece ter ficado a cargo dos responsáveis locais. "Em
alguns lagpunkts, a gente usava a roupa que tinha trazido; em outros, não", lembraria Galina Smirnova, prisioneira no Ozerlag no começo da década de 1950. Isso
nem sempre importava: quando se chegava aos campos, os trajes de muitos presos estavam em farrapos, se já não houvessem sido furtados.
Quem não tinha roupa usava os uniformes dos campos, que eram invariavelmente velhos, rotos, malfeitos e canhestros. Para algumas pessoas, em especial mulheres, às
vezes parecia que os trajes que lhes davam eram parte de uma tentativa de humilhá-las. Anna Andreevna, mulher do escritor espírita Danil Andreev, foi de início mandada
para um campo onde se podia usar as próprias roupas. Depois, em 1948, transferiram-na para um campo onde isso não era permitido. Ela achou a mudança bastante insultante:
"Eles haviam nos privado de tudo, de nossos nomes, de todas as coisas que são parte da personalidade, e nos feito usar - eu nem consigo descrever aquilo - um vestido
amorfo".
Não se fazia nenhum esforço para garantir que a numeração das roupas batesse com a dos presos. Janusz Bardach escreveu:
Cada um de nós recebeu ceroulas, túnica preta, calças e casaco acolchoados, boné de feltro com orelheiras, botas com solado de borracha e mitenes infestadas de piolhos.
Esses itens eram distribuídos sem nenhum critério, e cabia a nós achar a numeração certa. Tudo era grande demais, e passei horas trocando trajes com as pessoas para
conseguir o que me servisse melhor.
Igualmente contundente no que se referia à moda nos campos, uma presa escreveu que lhes foram dados
casacos curtos acolchoados, meias acolchoadas que iam até os joelhos e calçados de cortiça de bétula. Parecíamos bichos do outro mundo. Quase nada que era nosso
nos fora deixado. Tudo fora vendido às condenadas, ou melhor, trocado por pão com elas. Echarpes e meias de seda despertavam tal admiração que nos víamos obrigadas
a vendê-las. Teria sido muito perigoso recusar.
Visto que as roupas rotas pareciam destinar-se a privá-los de dignidade, muitos presos depois se empenhavam para melhorá-las. Uma prisioneira recordaria que, de
início, não se importava com os trajes "muito velhos e estragados" que lhe tinham dado. Mas, posteriormente, começou a efetuar remendos, colocar bolsos e aprimorar
as roupas, "como outras mulheres faziam"; desse modo, sentia-se menos aviltada. Em geral, as prisioneiras que sabiam costurar também conseguiam rações extras de
pão, pois até as mínimas melhorias no uniforme-padrão eram concorridíssimas: a capacidade de destacar-se, de ter aparência ligeiramente melhor que as outras pessoas,
estava, como veremos, relacionada a posições hierárquicas melhores, saúde melhor, privilégios maiores. Variam Shalamov entendia bem a importância dessas pequenas
mudanças:
Nos campos, há roupa de baixo "individual" e "comum"; é um exemplo das pérolas encontradas no discurso oficial. A "individual" é mais nova e um pouquinho melhor,
sendo reservada tanto para os presos de confiança que atuam como capatazes quanto para outros privilegiados [...] a "comum" é para todo mundo. É entregue no lavatório
logo após o banho, sendo trocada pela roupa de baixo suja, que antes é juntada e contada. Não há chance de escolher nada conforme o tamanho. Roupa de baixo limpa
é pura loteria, e senti um dó estranho e terrível ao ver homens crescidos chorarem por causa da injustiça de terem recebido roupa limpa e gasta em troca de roupa
suja e boa. Nada consegue fazer o ser humano deixar de pensar nas coisas desagradáveis que compõem a existência.
Ainda assim, o choque de ser banhado, rapado e trajado como zek era apenas a primeira etapa de uma longa iniciação. Imediatamente depois, os presos se submetiam
a um dos procedimentos mais cruciais de sua vida: a seleção - e a diferenciação em categorias de trabalho. Esse processo afetaria tudo, desde o status do preso no
campo até o tipo de alojamento onde ficaria, passando pela espécie de serviço que faria. Tudo isso, por sua vez, determinaria se ele conseguiria sobreviver. E preciso
registrar que não encontrei nenhum registro que descrevesse "seleções" do tipo que ocorria nos campos de extermínio alemães. Ou seja, não deparei com seleções regulares
em que os presos debilitados fossem postos à parte e fuzilados. Atrocidades desse tipo certamente aconteciam - um memorialista de Solovetsky afirma ter sobrevivido
a uma -, mas a prática costumeira, pelo menos no final dos anos 1930 e começo dos 40, era diferente. Os presos enfraquecidos não eram assassinados ao chegarem a
alguns dos campos mais distantes; em vez disso, ficavam de "quarentena", tanto para garantir que nenhuma doença que porventura tivessem se espalhasse, quanto para
permitir que "cevassem", a fim de recuperar a saúde após longos meses de cadeia e de viagens terríveis. Ex-presos confirmam que os chefes dos campos parecem ter
levado essa prática a sério.
Alexander Weissberg, por exemplo, recebeu boa alimentação e pôde descansar antes de o mandarem para as minas. Após um demorado traslado para o Ukhtizhemlag, proporcionaram
três dias de descanso a Jerzy Gliksman - o socialista polonês que tanto apreciara a apresentação da peça Aristocratas, de Pogodin, em Moscou -, período durante o
qual ele e os outros recém-chegados foram tratados como "hóspedes". Pyotr Yakir, filho do general soviético Ion Yakir, ficou catorze dias em quarentena no Sevurallag.
Evgeniya Ginzburg lembraria seus primeiros dias em Magadan, principal cidade de Kolyma, como um "redemoinho de dor, surtos de esquecimento e um abismo negro de inconsciência.
Ela, assim como outras, fora trazida direto do navio Dzhurma e colocada num hospital, onde se recuperou plenamente após dois meses. Algumas se mostravam céticas.
"Uma ovelha para o matadouro", disse Liza Sheveleva, outra presa. "Posso perguntar para quem você está se recuperando? Tão logo saia daqui, irá direto para os trabalhos
forçados e, em uma semana, voltará a ser o mesmo cadáver que era a bordo do Dzhurma."
Uma vez recuperados, caso lhes permitissem isso, e trajados, caso lhes tivessem dado novas roupas, a seleção e diferenciação dos presos começavam para valer. Em
princípio, era um processo extremamente regulamentado. Já em 1930, o Gulag emitiu ordens muito severas e complicadas sobre a classificação de presos. Teoricamente,
as tarefas designadas para eles deviam refletir dois conjuntos de critérios: a "origem social" e condenação; e a saúde. Naqueles primeiros tempos, os presos se distribuíam
em três categorias: "trabalhadores" que não haviam sido condenados por crimes anti-revolucionários, com penas não superiores a cinco anos; "trabalhadores" que também
não haviam sido condenados por crimes anti-revolucionários, com penas superiores a cinco anos; e condenados por crimes anti-revolucionários.
A cada uma dessas categorias se atribuía então um regime prisional: privilegiado; brando; e pesado, ou "de primeira ordem". Em seguida, os presos deviam ser examinados
por uma junta médica, que determinava se podiam realizar trabalho pesado ou apenas brando. Após ter levado em conta todos esses critérios, a administração do campo
determinava um serviço para cada preso. Conforme cumprissem as normas e metas de suas atribuições, os presos se enquadravam num dos quatro tipos de ração: básica;
de trabalho; "reforçada"; ou "disciplinar". Todas essas categorias mudaram muitas vezes. As ordens que Beria deu em 1939, por exemplo, dividiam os presos entre
"capazes de trabalho pesado", "capazes de trabalho leve" e "inválidos" - categorias às vezes denominadas respectivamente grupo A, grupo B e grupo C -, e seus efetivos
eram monitorados regularmente pela administração central do sistema, em Moscou, que desaprovava de modo severo os campos com "inválidos" em demasia.
O processo estava longe de ser ordeiro. Tinha tanto aspectos formais, impostos pelos comandantes de campo, quanto informais, na medida em que os presos se ajustassem
e fizessem acertos entre si. "ara a maioria, o primeiro gosto da classificação nos campos era relativamente grosseiro. George Bien, jovem húngaro preso em Budapeste
no fim da Segunda Guerra Mundial, comparou a uma feira de escravos o processo seletivo a que o submeteram em 1946:
Mandavam todo mundo para um pátio, onde nos diziam para despir-nos. Quando chamavam nosso nome, nós nos apresentávamos a uma junta de saúde, para exame médico. Este
consistia em puxar a pele das nádegas para determinar a quantidade de músculos. Avaliavam a força pela massa muscular, e, se passávamos, éramos aceitos e tínhamos
nossa documentação colocada numa pilha à parte. Isso era feito por mulheres de jaleco branco, e elas tinham pouco o que escolher naquele grupo de mortos-vivos. Selecionavam
os presos mais jovens independentemente da massa muscular.
Jerzy Gliksman também usou a expressão "feira de escravos" para descrever o processo de diferenciação que ocorria em Kotlas, o campo de trânsito que supria de presos
os campos setentrionais de Arcangel. Ali, os guardas acordaram os presos durante a noite e os mandaram reunir-se e apresentar-se pela manhã, com todos os seus pertences.
Cada um dos presos, até os gravemente enfermos, viu-se obrigado a comparecer. Depois, todos foram levados a pé para a floresta, fora do campo. Uma hora mais tarde,
chegaram a uma grande clareira, onde se alinharam em fileiras de dezesseis.
O dia todo, reparei que superiores desconhecidos, tanto de uniforme quanto à paisana, zanzavam entre os presos, ordenando a alguns que tirassem os casacos, apalpando-lhes
os braços e as pernas, olhando-lhes a palma das mãos, dizendo para outros se inclinarem. De quando em quando, mandavam um preso abrir a boca e lhe espiavam os dentes,
como negociantes de cavalos numa feira da roça [...] alguns procuravam engenheiros, torneiros ou chaveiros com prática; outros talvez necessitassem de carpinteiros;
e todos sempre precisavam de homens fisicamente fortes para trabalhar na derrubada de árvores, na agricultura, nas minas de carvão e nos poços de petróleo.
Gliksman percebeu que, para quem fazia essa inspeção, o mais importante era "não comprar gato por lebre, não levando aleijados, inválidos ou doentes - em suma, pessoas
que só serviam para comer. Era por essa razão que, de tempos em tempos, se enviavam representantes especiais para selecionar entre os presos os tipos adequados".
Desde o início, também ficou claro que as regras estavam lá para ser desobedecidas. Em 1947, Nina Gagen-Torn passou por uma seleção particularmente humilhante no
campo de Temnikovsky, a qual, porém, teve um resultado positivo. Quando chegou ao campo, o comboio de Nina foi de imediato mandado para os chuveiros, e as roupas,
colocadas numa câmara de desinfecção. Em seguida, foram conduzidas a um recinto, ainda molhadas e nuas; disseram-lhes que haveria "uma inspeção de saúde". "Médicos"
iriam examiná-las, e eles de fato fizeram isso - junto com o gerente de produção e os guardas do campo.
O major caminhou ao longo da fila, examinando rapidamente os corpos. Estava escolhendo mercadoria - para a produção! Para a oficina de costura! Para a fazenda coletiva!
Para a zona prisional! Para o hospital! O gerente de produção escreveu os sobrenomes.
Quando ouviu seu sobrenome, o major olhou para ela e perguntou:
"Qual o seu parentesco com o professor Gagen-Torn?"
"Sou filha dele."
"Ponham-na no hospital. Ela tem sarna, está com marcas vermelhas na barriga."
Como não tinha nenhuma marca vermelha na barriga, Nina presumiu - corretamente, como viria a descobrir - que o homem conhecera e admirara seu pai e a estava poupando,
ao menos por enquanto, do trabalho pesado.
Nos primeiros dias de vida nos campos, a conduta dos presos, durante e após o processo seletivo, podia ter profundas conseqüências para o destino deles. Em seus
três dias de repouso depois que chegou ao Kargopollag, por exemplo, o romancista polonês Gustav Herling avaliou a situação e, por novecentos gramas de pão, vendeu
suas botas de oficial, de cano alto, a um urka (preso comum) da turma de carregadores da ferrovia. Em retribuição, o criminoso usou seus contatos na administração
do campo para ajudar a garantir para Herling um serviço de carregador no centro de distribuição de alimentos. Era trabalho duro, disseram a Herling, mas pelo menos
ele poderia furtar rações extras - como acabou mesmo acontecendo. E, logo de cara, concederam-lhe um "privilégio". O comandante do campo o mandou
apresentar-se no armazém do campo para pegar bushlat [jaqueta acolchoada], boné com orelheira, calças acolchoadas, luvas impermeáveis de tecido de vela e valenki
[botas de feltro] da melhor qualidade, ou seja, novas ou pouco usadas - uma indumentária que, em geral, só davam às melhores turmas de presos "stakhanovistas".
A esperteza também assumia outras formas. Chegando ao Ukhtizhemlag, Gliksman imediatamente percebeu que o título de "especialista" que lhe haviam conferido no campo
de trânsito de Kotlas - foi classificado como economista formado - não tinha nenhum significado no campo de concentração. Entrementes, notou que, durante os primeiros
dias ali, seus conhecidos russos, mais descolados, não se preocupavam com as formalidades oficiais:
A maioria dos "especialistas" usava os três dias de folga para visitar os escritórios do campo, procurando antigos conhecidos aonde quer que fossam e realizando
negociações suspeitas com alguns dos superiores do campo. Estavam todos agitados e preocupados. Cada um tinha seus próprios segredos e temia que alguém viesse a
estragar suas chances e pegar o serviço mais confortável no qual estava de olho. Bem depressa, a maior parte dessas pessoas já sabia aonde ir, em qual porta bater
e o que dizer.
Em conseqüência, mandaram um médico polonês de elevada qualificação cortar árvores na floresta, enquanto um cafetão ganhava o cargo de contador num escritório, "embora
não tivesse absolutamente nenhuma noção de contabilidade e, no mais, fosse semi-analfabeto".
Os presos que assim conseguiam evitar o trabalho braçal haviam de fato estabelecido os fundamentos de uma estratégia de sobrevivência - mas só os fundamentos. Agora,
tinham de aprender as estranhas normas que regiam o cotidiano dos campos.
10. A VIDA NOS CAMPOS
O som de um sino distante
Entra na cela com a alvorada.
Ouço o sino me chamar:
"Onde estás? Onde estás?"
"Eis-me aqui!... "Então, saúdo com lágrimas,
Lágrimas amargas do cativeiro...
Não por Deus,
Mas por ti, Rússia.
SimeonVilensky, 1948.
Entre 1929 e 1953, segundo a mais precisa das estimativas disponíveis, houve 476 complexos de campos no universo do Gulag. Mas esse número engana. Na prática, cada
um daqueles complexos continha dezenas, ou mesmo centenas, de unidades menores. Essas unidades (lagpunkts) ainda não foram contabilizadas, e provavelmente nem podem
sê-lo, pois eram algumas temporárias, algumas permanentes e algumas oficialmente parte de campos diferentes em épocas distintas. Tampouco se pode afirmar muito sobre
os costumes e práticas dos lagpunkts que se aplique inquestionavelmente a todos eles. Mesmo durante o reinado de Beria - período que se estendeu de 1939 à morte
de Stalin, em 1953 -, as condições de vida e de trabalho no Gulag continuaram a variar enormemente, tanto de ano para ano quanto de lugar para lugar, até num mesmo
complexo.
"Cada campo é um mundo à parte, uma cidade distinta, outro país", escreveu a atriz soviética Tatyana Okunevskaya - e cada campo tinha caráter próprio. A vida num
dos grandes campos industriais do extremo norte era bem diferente daquela num campo agrícola da Rússia meridional. Durante a fase mais intensa da Segunda Guerra
Mundial, quando um em cada quatro zeks morria por ano, a vida em qualquer campo era bem diferente daquela no início dos anos 1950, quando as taxas de mortalidade
eram mais ou menos as que prevaleciam no resto do país. Campos dirigidos por comandantes relativamente liberais não eram a mesma coisa que campos dirigidos por sádicos.
Os lagpunkts também variavam amplamente em tamanho - com populações que iam de algumas dúzias a vários milhares de presos - e longevidade. Alguns perduraram dos
anos 1920 aos 80, quando ainda funcionavam como penitenciárias. Outros, como aqueles estabelecidos para construir rodovias e ferrovias na Sibéria, não duraram mais
que um verão.
Contudo, às vésperas da guerra, certos elementos da vida e do trabalho eram comuns à grande maioria dos campos. O ambiente ainda variava de lagpunkt a lagpunkt,
mas interromperam-se as enormes oscilações de prática nacional que haviam caracterizado a década de 1930. Assim, a mesma burocracia inerte que acabaria por deitar
suas mãos mortas sobre praticamente todos os aspectos da vida soviética foi aos poucos se apossando também do Gulag.
Nesse sentido, são notáveis as diferenças entre as normas e regulamentos um tanto vagos instituídos para os campos em 1930 e as regras mais detalhadas impostas em
1939, depois que Beria assumiu. Tais diferenças parecem refletir uma mudança na relação entre os órgãos de controle central (a direção do Gulag em Moscou) e os comandantes
dos campos. Durante a primeira década do Gulag, um período experimental, as ordens documentadas não procuravam ditar a aparência dos campos e quase nem tratavam
do comportamento dos presos. Elas esboçavam um esquema geral e deixavam que os comandantes locais preenchessem as lacunas.
Em contraste, as ordens posteriores eram mesmo muito específicas e muito detalhadas, fixando praticamente quase todos os aspectos da vida nos campos, desde o método
de construção dos alojamentos até o cotidiano dos presos, seguindo as novas metas do Gulag. Parece que, a partir de 1939, Beria - presumivelmente com o apoio de
Stalin - já não queria que os campos do Gulag fossem campos de extermínio (coisa que alguns, na prática, tinham sido em 1937 e 1938). Isso não queria dizer que agora
os administradores dos campos estivessem mais preocupados em preservar vidas, para nem falarmos em respeitar a dignidade humana. De 1939 em diante, as principais
preocupações de Moscou eram econômicas: os presos deviam encaixar-se nos planos de produção dos campos qual engrenagens numa máquina.
Com esse fim, as ordens que emanavam de Moscou determinavam controle rigoroso sobre os prisioneiros, a ser obtido mediante a manipulação das condições de vida deles.
Em princípio, como vimos, o campo classificava todo zek de acordo com a pena, a profissão e a trudosposobnost (capacidade de trabalho). Em princípio, o campo designava
para todo zek uma função e um conjunto de normas e metas. Em princípio, o campo provia todo zek com os requisitos básicos da existência - alimentação, indumentária,
habitação, espaço - segundo ele cumprisse aquelas normas e metas. Em princípio, todos os aspectos da vida nos campos eram concebidos para aumentar as cifras de produção
- até os departamentos "culturais e educacionais" existiam sobretudo porque os maiorais do Gulag acreditavam que isso poderia convencer os presos a darem mais duro.
Em princípio, as equipes de inspeção estavam lá para garantir que todos esses aspectos da vida nos campos funcionassem em harmonia. Em princípio, todo zek tinha
até direito de reclamar (ao comandante do campo, a Moscou, a Stalin) se os campos não operassem conforme as regras.
E no entanto... Na prática, as coisas eram muito diferentes. Pessoas não são máquinas, os campos não eram fábricas limpas nem funcionais, e o sistema nunca funcionou
como se pretendia. Guardas eram corruptos, administradores furtavam, e presos desenvolviam maneiras de combater ou subverter as normas dos campos. Nestes, os presos
também conseguiam estabelecer suas próprias hierarquias extra-oficiais, que às vezes se harmonizavam, e às vezes colidiam, com as hierarquias criadas pela administração.
Apesar das visitas regulares de inspetores de Moscou, freqüentemente seguidas de reprimendas e cartas iradas da capital, poucos campos correspondiam ao modelo teórico.
Apesar da aparente seriedade com que se tratavam as queixas dos presos - comissões inteiras existiam para analisá-las -, elas raramente resultavam em mudanças reais.
Esse choque entre o que a direção do Gulag em Moscou achava que os campos deviam ser e o que eles eram de fato - o choque entre as regras escritas e os procedimentos
efetivamente adotados - era o que dava à vida no Gulag seu sabor único e surreal. Em teoria, a direção moscovita determinava os aspectos mais ínfimos da vida dos
presos. Na prática, todos esses aspectos eram também influenciados pelas relações dos presos com aqueles que os controlavam - e uns com os outros.
A ZONA PRISIONAL: ATRÁS DO ARAME FARPADO
Por definição, a ferramenta mais importante à disposição dos administradores dos campos era o controle do espaço em que os presos viviam - a "zona", do termo "zona
prisional". Por lei, a zona se inscrevia num quadrado ou retângulo. "A fim de assegurar melhor vigilância", não se permitiam formatos de terreno orgânicos nem irregulares.
Nesse quadrado ou retângulo, não havia muito o que atraísse o olhar. A maioria das construções num lagpunkt típico era extraordinariamente parecida. Fotos tiradas
por administradores de Vorkuta, e conservadas em arquivo em Moscou, mostram um conjunto de construções rudimentares de madeira, diferenciadas apenas pelas legendas,
que descreviam uma como "cela punitiva" e outra como "refeitório". Em geral, perto do portão, havia um grande espaço aberto no centro do campo; ali, os presos se
perfilavam duas vezes por dia para ser contados. Do lado de fora, costumava haver alguns alojamentos de guardas e casas de administradores, também de madeira, bem
junto ao portão principal.
O que distinguia a zona prisional de qualquer outro local de trabalho era, claro, a cerca que a rodeava. No Manual do Gulag, Jacques Rossi escreve que a cerca
era geralmente feita de estacas de madeira, enterradas até um terço do comprimento. Dependendo das condições locais, variavam de 2,5 a seis metros de altura. Entre
os postos, colocados a intervalos de cerca de seis metros, estendiam-se horizontalmente sete a quinze fieiras de arame farpado. Diagonalmente, entre cada par de
estacas, estendiam-se mais duas fieiras.
Caso o campo ou colônia se localizasse no perímetro ou nas proximidades de um centro urbano, a cerca de arame farpado costumava ser substituída por um muro de tijolos
ou uma cerca de madeira, para que ninguém que se aproximasse conseguisse ver o lado de dentro. Esses cercados eram bem construídos: em Medvezhegorsk, por exemplo,
sede do Canal do Mar Branco, uma cerca alta de madeira, erguida no começo dos anos 1930 para guardar os presos, ainda estava de pé quando visitei o lugar em 1998.
Para atravessar a cerca, tanto presos quanto guardas tinham de passar pela vakhta (guarita). Durante o dia, os guardas da vakhta controlavam todos os que entravam
e saíam, verificando os passes dos trabalhadores livres que adentravam o campo e dos guardas de comboio que escoltavam presos para fora. No campo Perm 36 - que foi
restaurado para ficar com a aparência original -, a vakhta contém uma passagem bloqueada por dois portões. Os presos caminhavam pelo primeiro; paravam no pequeno
espaço que ali havia, para ser vistoriados; e só então eram autorizados a atravessar o segundo portão. Basicamente, era o mesmo sistema que se encontra na entrada
dos bancos sicilianos.
Mas o arame farpado e os muros não eram os únicos a definir os limites da zona prisional. Na maioria dos campos, guardas armados vigiavam os presos de altas torres
de madeira. Às vezes, cães também davam a volta aos campos, presos por correntes a um arame que se estendia por todo o perímetro da zona prisional. Esses cães, a
cargo de tratadores especiais entre os guardas, eram adestrados para latir para presos que se aproximassem e farejar e perseguir qualquer um que tentasse escapar.
Assim, os presos eram coibidos não apenas por arame farpado e tijolos, mas também por controles visuais, auditivos e olfativos. Também eram tolhidos pelo medo, que
às vezes bastava para mantê-los em campos que não tinham nenhuma cerca. Margarete Buber-Neumann ficou num campo de segurança mínima que permitia que se movessem
"à vontade até oitocentos metros além do perímetro; ultrapassada aquela marca, os guardas atiravam sem cerimônia". Mas esse arranjo era incomum: na maioria dos
campos, os guardas atiravam "sem cerimônia" muito antes de se chegar tão longe. Nos regulamentos que impôs em 1939, Beria ordenava a todos os comandantes de campo
que deixassem junto às cercas uma "terra de ninguém", uma faixa não inferior a cinco metros de largura. No verão, regularmente, os guardas passavam o ancinho nessa
terra; e, no inverno, a deixavam coberta de neve; tudo para que sempre ficassem visíveis as pegadas de presos em fuga. O começo da terra de ninguém também era marcado,
às vezes por arame farpado, às vezes por avisos em que se lia Zapretnaya zona ("Zona proibida"). A terra de ninguém também era ocasionalmente chamada "zona da morte",
pois os guardas tinham permissão de atirar para matar em qualquer um que entrasse nela."
E mesmo assim... As cercas, muros, cães e barreiras que rodeavam os lagpunkts não eram de todo impenetráveis. Se os campos de concentração alemães eram selados por
completo - "hermeticamente fechados", na descrição de um perito -, o sistema soviético se mostrava diferente nesse sentido.
Para começo de conversa, ele classificava os presos em konvoinyi (sob guarda) e beskonvoinyi (sem guarda), e a pequena minoria dos segundos estava autorizada a atravessar
sem vigia os limites da zona prisional, fazer pequenos serviços externos para os guardas, trabalhar durante o dia num trecho de ferrovia não-guardado e até morar
em alojamentos privados fora da zona prisional. Esse último privilégio fora estabelecido já no início da história dos campos, durante os tempos (mais caóticos) da
primeira metade da década de 1930. Embora depois viesse a ser categoricamente proibido várias vezes, ele persistiu. Um conjunto de regras escritas em 1939 lembrava
os comandantes de campo de que "todos os presos, sem exceção, estão proibidos de morar fora da zona prisional, em aldeias, aposentos particulares ou casas pertencentes
ao campo". Em teoria, os campos precisavam obter autorização especial até para deixar os presos morarem em acomodações guardadas, caso estas ficassem fora da zona
prisional. Na prática, tais normas eram com freqüência desrespeitadas. Apesar da imposição de 1939, relatórios de inspetores escritos muito após aquela data listam
ampla variedade de violações. Um inspetor se queixou de que, na cidade de Ordzhonikidze, os presos andavam pelas ruas, iam às feiras, entravam em residências particulares,
bebiam e roubavam. Numa colônia penal de Leningrado, permitira-se que um preso usasse um cavalo, com o qual fugiu. Na colônia de trabalho 14, em Voronezh, um guarda
armado deixou 38 presos esperando na rua enquanto ele entrava num estabelecimento comercial.
A promotoria de Moscou mandou carta a outro campo, perto da cidade siberiana de Komsomolsk, acusando comandantes de terem permitido que não menos que 1.763 presos
obtivessem o status de "sem guarda". Em conseqüência, escreviam irados os promotores, "é sempre possível deparar com presos em qualquer parte da cidade, em qualquer
instituição e em moradias particulares". Também acusavam outro campo de deixar 150 presos morarem em acomodações privadas, uma violação do regime prisional, o que
provocara "incidentes de bebedeira, vandalismo e até assalto contra a população local".
Nos campos, os presos tampouco eram privados de toda a liberdade de movimento. Pelo contrário, tratava-se de uma das idiossincrasias dos campos de concentração,
uma das maneiras pelas quais eles se diferenciam do regime celular: quando não estavam trabalhando nem dormindo, os presos, em sua maioria, podiam entrar e sair
dos alojamentos à vontade. Quando não estavam trabalhando, também podiam, dentro de certos limites, determinar como usariam seu tempo. Só os presos em regime de
katorga (instituído em 1943) ou em "campos de regime especial" (criados em 1948) ficavam trancados nos alojamentos à noite, circunstância da qual se ressentiam amargamente
e contra a qual viriam a rebelar-se.
Chegando das claustrofóbicas cadeias soviéticas aos campos, os condenados muitas vezes se surpreendiam e se mostravam aliviados com a mudança. Um zek descreveu assim
seu ingresso no Ukhtpechlag:
"Tão logo saíamos para o ar livre, nosso estado de ânimo ficou maravilhoso". Olga Adamova-Sliozberg recordaria que, ao chegar a Magadan, falou "de
manhãzinha à noite sobre as vantagens do campo de concentração se comparado à cadeia":
A população do campo (cerca de mil mulheres) nos pareceu enorme: tanta gente, tantas possibilidades de conversa, tantas amizades em potencial! E havia a natureza.
Dentro do complexo, que era cercado com arame farpado, podíamos andar à vontade, admirar o céu e os montes distantes, ir às árvores mirradas e tocá-las com as mãos.
Respirávamos o ar marinho úmido, sentíamos a garoa de agosto no rosto, sentávamos na grama molhada e deixávamos a terra escorrer entre os dedos. Durante quatro anos,
vivêramos sem fazer nada disso, que agora descobríamos ser essencial à nossa existência: sem aquilo, deixávamos de sentir-nos pessoas normais.
Lev Finkelstein concorda:
Era-se trazido, saía-se do camburão e ficava-se surpreendido com várias coisas. Em primeiro lugar, os presos andavam sem guarda - estavam indo a algum lugar para
cumprir suas obrigações, ou coisa assim. Em segundo lugar, pareciam completamente diferentes de nós. O contraste se assemelharia ainda maior quando eu já estava
no campo e traziam novos presos. Estes tinham todos a cara esverdeada - por causa da falta de ar puro, por causa da comida lastimável, por causa de tudo aquilo.
Nos campos, os presos tinham tez mais ou menos normal. Ali, nós nos víamos entre gente relativamente livre, relativamente bem-apessoada.
Com o passar do tempo, a aparente "liberdade" da vida nos campos costumava esvanecer-se. O preso polonês Kazimierz Zarod escreveu que, nas celas das prisões, ainda
era possível acreditar que ocorrera um erro, que a soltura não demoraria. Afinal, "ainda estávamos rodeados pela aparência de civilização - fora dos muros da prisão,
havia uma grande cidade". No campo de concentração, porém, Zarod se viu circulando livremente em meio a
uma estranha diversidade de homens [.,.] suspendia-se toda sensação de normalidade. A medida que passaram os dias, fui tomado por uma espécie de pânico que, devagar,
se tornou desesperança. Tentei reprimir esse sentimento, empurrá-lo para as profundezas do consciente, mas aos poucos comecei a dar-me conta de que eu fora apanhado
num ato cínico de injustiça do qual parecia não haver escapatória.
Pior: essa liberdade de movimento podia fácil e rapidamente transformar-se em anarquia. De dia, os guardas e as autoridades dos campos eram bastante numerosos dentro
do lagpunkt; à noite, entretanto, desapareciam por completo. Um ou dois permaneciam na vakhta, mas o resto se retirava para o outro lado da cerca. Só se achavam
que suas vidas corriam perigo, os presos iam pedir ajuda aos guardas na vakhta, e nem isso era certeza. Um memorialista recorda que, após um arranca-rabo entre presos
políticos e presos comuns - fenômeno corriqueiro no pós-guerra, como veremos -, os bandidos, que levaram a pior, "correram para a vakhta", pedindo socorro. No dia
seguinte, foram levados para outro lagpunkt, pois a administração do campo preferiu evitar uma carnificina. Também uma mulher, sentindo-se ameaçada de estupro e
talvez morte nas mãos de um preso comum, "entregou-se" na vakhta e pediu para ser colocada na cela punitiva do campo, durante a noite, a fim de ficar protegida.
Contudo a vakhta não era confiável como zona de segurança. Os guardas que ali ficavam não atendiam necessariamente aos rogos dos prisioneiros. Informados de alguma
ofensa cometida por um grupo de presos contra outro, eles podiam muito bem rir e não ligar a mínima. Tanto em memórias quanto em documentos oficiais, há relatos
de guardas armados que não deram importância a casos de homicídio, tortura e estupro entre presos. Descrevendo uma curra que ocorreu à noite num dos lagpunkts do
Kargopollag, Gustav Herling conta que a vítima
soltou um grito curto, do fundo da garganta, lacrimoso e abafado pela saia. Da torre de vigia, uma voz sonolenta gritou: "Vamos lá, rapazes, o que estão fazendo?
Vocês não têm vergonha?" Os oito homens puxaram a garota para trás das latrinas e continuaram.
Em teoria, as normas eram severas: os presos tinham de ficar na zona prisional. Na prática, desrespeitavam-se as regras. E a conduta que não parecesse excessiva
aos guardas, não importando quão violenta ou nociva, não era punida.
Rezhim: normas de Vida
A zona prisional controlava a movimentação dos presos no espaço. Mas era o rezhim - o "regime", como se costuma traduzir o termo -, o que controlava o tempo deles.
Em termos simples, o regime era o conjunto de normas e procedimentos conforme os quais o campo funcionava. Se arame farpado limitava à "zona" a liberdade de movimento
dos zeks, una série de ordens e sirenes regulava as horas que eles passavam ali.
O regime variava em severidade de lagpunkt a lagpunkt, segundo tanto prioridades cambiantes quanto o tipo de preso. Em épocas diversas, houve campos de regime brando,
para inválidos; de regime comum ("ordinário"); de regime especial; e de regime disciplinar. Mas o sistema básico se manteve o mesmo. O regime prisional determinava
como e quando o preso devia acordar; como devia ser conduzido ao trabalho; como e quando devia ser alimentado; como e por quanto tempo devia dormir.
Na maioria dos campos, o dia dos presos começava oficialmente com o razvod, o procedimento que organizava os presos em turmas e os fazia marchar para o trabalho.
Um toque de sirene, ou outro sinal, os despertava. Outro toque de sirene avisava que o desjejum acabara e que o trabalho estava para começar. Os presos então se
alinhavam em frente aos portões do campo para a contagem matinal. Valerii Frid, roteirista de filmes soviéticos e autor de uma memória de vivacidade pouco comum,
descreveu a cena:
As turmas de trabalho se organizavam em frente ao portão. O encarregado segurava uma tabuleta estreita e bem ordenada; nela, estavam escritos o número das turmas
e o número de trabalhadores (havia escassez de papel, e os números eram apagados da tabuleta [...] e reescritos no dia seguinte). O guarda e o distribuidor de tarefas
verificavam se todos estavam no lugar; em caso afirmativo, eram levados para o trabalho lá fora. Se estivesse faltando alguém, todos tinham de esperar enquanto procuravam
o folgado.
De acordo com instruções de Moscou, isso não podia tomar mais que quinze minutos. É claro que, conforme escreve Kazimierz Zarod, freqüentemente demorava muito mais,
mesmo com mau tempo:
Às 3h30, devíamos estar no meio do pátio, em pé em fileiras de cinco, esperando para ser contados. Muitas vezes, os guardas erravam na contagem, e aí era preciso
fazer outra. Nas manhãs em que nevava, isso era um processo demorado, gelado e aflitivo. Caso os guardas estivessem bem despertos e concentrados, a contagem levava
em geral trinta minutos; mas, se errassem, ficávamos até uma hora em pé ali.
Alguns campos adotavam contramedidas para "animar os presos" durante esse processo. Eis o que diz Frid: "Nosso razvod acontecia ao som de sanfona. Um preso, livre
de todas as outras obrigações de trabalho, tocava melodias alegres". Zarod também recorda a esquisitice que era ter uma bandinha matinal, constituída de músicos
presos tanto profissionais quanto amadores:
Toda manhã, a "banda" se punha próximo ao portão, tocando música marcial, e éramos exortados a marchar "com vigor e alegria" para nosso dia de trabalho. Tendo tocado
até que o fim da coluna houvesse passado pelo portão, os músicos deixavam os instrumentos e, unindo-se ao final da coluna, juntavam-se aos trabalhadores que caminhavam
para a floresta.
Dali, os presos eram conduzidos, marchando, ao trabalho. Os guardas gritavam as ordens diárias ("Um passo para a esquerda, ou a esquerda, será considerado tentativa
de fuga... A guarda disparará sem aviso... Marchem!"), e os presos marchavam, ainda em fileira de cinco. Se a distância era grande, iam acompanhados de guardas e
cães. Para o retorno ao campo à noitinha, o procedimento era bem parecido. Após uma hora para o jantar, os presos de novo formavam fileiras. E, de novo, os guardas
os contavam só uma vez (se os presos tivessem sorte) ou mais de uma (se não tivessem). As instruções de Moscou reservavam mais tempo para a contagem noturna (de
trinta a quarenta minutos), sendo de presumir que agissem assim porque o mais provável seriam as tentativas de fuga fora do campo, no local de trabalho. Depois,
a sirene soava outra vez, e era hora de dormir.
Essas normas e escalas de horário não eram imutáveis. Pelo contrário: o regime prisional mudou com o tempo, em geral ficando mais severo. Jacques Rossi escreve que
"o principal traço do sistema penitenciário soviético é sua sistemática intensificação, com a gradual elevação do puro e arbitrário sadismo à condição de lei", e
há alguma verdade nisso. Por toda a década de 1940, o regime prisional foi ficando mais rigoroso; as jornadas de trabalho, mais longas; os dias de descanso, menos
freqüentes. Em 1931, os presos da Expedição Vaigach (parte da Expedição Ukhtinskaya) faziam jornadas de seis horas, em três turnos. No começo dos anos 1930, na região
de Kolyma, os trabalhadores também seguiam jornadas normais, mais curtas no inverno e mais longas no verão. Naquela mesma década, porém, a jornada dobraria em extensão.
No final dos anos 1930, as mulheres na oficina de costura de Elinor Olitskaya trabalhavam "doze horas num salão sem ventilação", e a jornada de Kolyma também se
estendera a doze horas. Depois, Elinor trabalharia numa turma de construção: jornadas de catorze a dezesseis horas, com intervalos de cinco minutos às dez da manhã
e quatro da tarde e com uma hora de almoço ao meio-dia.
O caso de Elinor tampouco era único. Em 1940, a jornada no Gulag foi aumentada oficialmente para onze horas, ainda que até esse limite fosse desrespeitado e excedido
com freqüência. Em março de 1942, a direção do Gulag, em Moscou, despachou carta furiosa a todos os comandantes de campo, lembrando-os da regra de que "se devem
conceder aos presos não menos que oito horas de sono". A carta explicava que muitos comandantes não acatavam tal norma e só permitiam que os prisioneiros dormissem
quatro ou cinco horas por noite. O Gulag se queixava de que, em conseqüência, "os presos estão perdendo a capacidade de trabalho; tornam-se "trabalhadores fracos
e inválidos".
O desrespeito à norma continuou, em especial durante os anos de guerra, quando se acelerou a demanda produtiva. Em setembro de 1942, a direção do Gulag estendeu
oficialmente para doze horas a jornada dos presos que construíam instalações aeroportuárias, com uma hora de almoço. O padrão era o mesmo por toda a URSS. No Vyatlag,
durante a guerra, registraram-se jornadas de dezesseis horas. Em Vorkuta, no verão de 1943, houve jornadas de doze horas, embora elas fossem de novo reduzidas para
dez horas em março de 1944 - provavelmente por causa das elevadas taxas de mortalidade e doença. Sergei Bondarevskii, prisioneiro durante a guerra numa sharashka
(um daqueles laboratórios especiais para cientistas presos), também recordaria jornadas de onze horas, com intervalos. Num dia típico, Bondarevskii trabalhava das
oito às catorze; das dezesseis às dezenove; e das vinte às 22.
Em todos os casos, as normas eram violadas com freqüência. Os zeks designados para as turmas de trabalho que garimpavam ouro em Kolyma tinham de peneirar 150 carrinhos
de terra por dia. Quem não terminara essa quantidade ao fim da jornada simplesmente continuava trabalhando até cumprir a cota - por vezes já à meia-noite. Depois,
ia para o alojamento, tomava sua sopa e acordava às cinco para recomeçar o trabalho. A administração do campo de Norilsk aplicava principio semelhante no final
da década de 40; um homem que nessa época estava preso lá, escavando alicerces para novas construções no perma-frost, relataria: "Após doze horas de trabalho, eles
nos içavam do buraco, mas só se tivéssemos concluído o serviço. Do contrário, éramos simplesmente deixados ali".
Tampouco se concediam muitos intervalos durante o dia, como depois explicaria um preso dos tempos da guerra, designado para uma unidade têxtil:
Às seis da manhã, tínhamos de estar na fabrica. Às dez, havia intervalo de cinco minutos para um cigarrinho, com o que precisávamos correr para um porão a uns duzentos
metros de distância, o único lugar nas instalações da fábrica onde se permitia fumar. Infringir a norma acarretava mais dois anos de pena. À uma da tarde, tinha-se
meia hora de almoço. De cuia de cerâmica na mão, era necessário disparar freneticamente para a cantina, entrar numa fila comprida, receber uns grãos de soja nojentos
que faziam mal à maioria das pessoas - e estar impreterivelmente na fábrica quando os motores começavam a funcionar. Então, sem sairmos de nossos lugares, ficávamos
ali até as sete da noite".
O número de dias de folga também era determinado por lei. Os presos em regime comum tinham uma por semana; e aqueles em regimes mais severos, duas por mês. Mas,
na prática, essa norma também variava. Já em 1933, a direção do Gulag em Moscou emitiu ordem que lembrava os comandantes de campo da importância que tinham os dias
de descanso, muitos dos quais vinham sendo cancelados na corrida louca para cumprir as metas do Plano Qüinqüenal. Uma década depois, quase nada mudara. Durante
a guerra, Kazimierz Zarod tinha um dia de folga a cada dez. Outro preso se recordaria de ter um por mês. Gustav Herling lembraria que os dias livres eram ainda
mais infreqüentes:
Pelos regulamentos, os presos tinham direito a um dia inteiro de descanso a cada dez de trabalho. Na prática, entretanto, mesmo um dia de folga por mês ameaçava
diminuir a produção do campo, e, por isso, tornou-se costume anunciar cerimoniosamente a concessão de um dia livre sempre que o campo superasse suas metas de produção
para determinado trimestre... Naturalmente, não tínhamos nenhuma oportunidade de verificar as cifras nem o planejamento produtivo, de modo que esse acerto era uma
ficção que acabava nos deixando totalmente à mercê das autoridades do campo.
Mesmo nos raros dias de folga, acontecia às vezes que os presos fossem obrigados a fazer trabalho de manutenção dentro do campo, limpando os alojamentos, os sanitários,
a neve no inverno. Tudo isso torna especialmente patética uma ordem emitida por Lazar Kogan, o comandante do Dmitlag. Incomodado pelos muitos casos de cavalos que
desabavam de exaustão na lida do campo, Kogan começava observando que "o crescente número de cavalos doentes ou exauridos tem várias causas, inclusive o excesso
de carga, as condições difíceis das estradas e a ausência de descanso pleno e completo para que eles recuperem as forças".
Kogan então continuava, dando novas instruções:
1. A jornada de trabalho dos cavalos do campo não deve ser superior a dez horas, sem contar o intervalo obrigatório de duas horas para descanso e alimentação.
2. Na média, os cavalos não devem percorrer mais que 32 quilômetros por dia.
3. Aos cavalos se deve conceder um dia regular de descanso a cada oito, e esse descanso deve ser completo.
Sobre a necessidade de que os presos tivessem um dia de folga a cada oito, não se fazia, infelizmente, nenhuma menção.
Babaki: a morada
Na maioria dos campos, a maior parte dos presos ficava em barracões. Contudo, raros eram os campos cujos alojamentos já estivessem prontos quando os primeiros presos
chegavam. Aqueles presos que tinham o azar de ser enviados para construir um campo moravam em tendas, ou nem isso. Uma canção de prisioneiros dizia:
Seguíamos rápido pela tundra Quando, de súbito, o trem parou. Em volta, só floresta e lama... E ali construiríamos o canal.
Ivan Sulimov, prisioneiro em Vorkuta nos anos 1930, foi deixado, junto com um grupo de detentos, num "lote quadrado na tundra polar"; receberam ordem de armar tendas,
fazer uma fogueira e começar a erguer barracões e "uma cerca de lajes e arame farpado". O polonês Janusz Sieminski, prisioneiro em Kolyma após a guerra, também
participou de uma equipe que, em pleno inverno, construiu um lagpunkt "a partir do zero". A noite, os presos dormiam ao relento. Muitos morreram, sobretudo os que
perderam a batalha para ver quem dormiria perto do fogo. Em dezembro de 1940, presos que chegavam ao campo de Prikaspiiskii, no Azerbaijão, também dormiam, nas
palavras de um irritado inspetor da NKVD, "sob as estrelas, no chão úmido". E essas situações tampouco eram necessariamente temporárias. Mesmo em 1955, presos ainda
moravam em tendas em alguns campos.
Se e quando os presos erguiam barracões, estes sempre eram construções de madeira extremamente simples. Moscou determinava o projeto deles, e, por conseguinte, as
descrições são um tanto repetitivas: todo preso menciona os barracões compridos e retangulares de madeira, as paredes sem reboco, as lendas tapadas com barro, o
espaço interno tomado por fileiras e mais fileiras de beliches de madeira igualmente precários. Às vezes, havia uma mesa rústica; às vezes, não. Às vezes, havia
bancos compridos; às vezes, não. Em Kolyma e outras regiões onde a madeira era escassa, os prisioneiros construíam alojamentos de pedra, também baratos e apressados.
Quando não se dispunha de isolamento térmico, usavam-se outros métodos. Fotos dos alojamentos de Vorkuta tiradas no inverno de 1945 os fazem parecer quase invisíveis:
os telhados haviam sido construídos em ângulo agudo, mas muito perto do chão, de maneira que a neve que se acumulasse ao redor ajudasse a isolá-los do frio.
Com freqüência, os alojamentos nem sequer chegavam a ser construções, e sim zemlyanki (abrigos de trincheira). No começo dos anos 1940, A. P. Evstonichev ficou num
na Carélia:
No alojamento. Detentos ouvem músico prisioneiro. Desenho de Benjamin Mkrtchyan. Ivdel, 1953
Um zemlyanka era um espaço do qual se retiravam a neve e a camada superior de terra. As paredes e o teto eram feitos com toras redondas e não-desbastadas. A estrutura
toda era coberta com outra camada de terra e neve. A entrada do abrigo recebia uma porta de lona [...] num canto, havia um barril de água. No meio do abrigo, um
fogão de metal, com chaminé metálica saindo pelo teto, e um barril de querosene.
Nos lagpunkts construídos nos canteiros de obras de rodovias e ferrovias, sempre havia zemlyanki. Conforme exposto no capítulo 4, seus vestígios ainda marcam os
caminhos construídos por presos no extremo norte, assim como as margens do rio perto das áreas mais antigas da cidade de Vorkuta. Às vezes, os presos também ficavam
em tendas. Uma memória dos primeiros tempos do Vorkutlag descreve a armação, num período de três dias, de "quinze tendas com beliches triplos" para cem presos cada
uma, assim como de uma zona prisional com cerca de arame farpado e quatro torres de vigia.
Mesmo os verdadeiros barracões raramente correspondiam aos já baixos padrões que Moscou estabelecera. Quase sempre, eram terrivelmente superlotados, até depois que
já amainara o caos do fim dos anos 1930. Um relatório de inspeção de 23 campos, escrito em 1948, observava com raiva que, na maioria deles, "os presos não tinham
mais que um a 1,5 metro quadrado por pessoa", e mesmo esse espaço estava em condições insalubres: "os prisioneiros não têm lugar determinado para dormir, nem lençóis
e cobertores individuais". Por vezes, havia ainda menos espaço. Margarete Buber-Neumann registra que, na chegada ao campo, não se dispunha de nenhum espaço para
dormir nos barracões, e ela foi obrigada a passar as primeiras noites no chão do lavatório.
Os presos em regime "ordinário" deviam ter leitos, chamados vagonki, nome oriundo dos beliches encontrados nos vagões de passageiros. Eram beliches duplos, com espaço
para dois detentos em cada leito. Em muitos campos, os presos dormiam nos sploshnye nary, ainda menos sofisticados. Estes eram compridas prateleiras de madeira que
serviam de leito, não estando nem sequer divididas em beliches separados. Os presos simplesmente deitavam um ao lado do outro, numa longa fileira. Dado que esses
leitos comunais eram considerados anti-higiênicos, os inspetores dos campos também viviam denunciando-os. Em 1948, a direção do Gulag emitiu diretiva que exigia
que todos os sploshnye nary fossem substituídos por vagonki. Todavia, Anna Andreevna, prisioneira na Mordóvia no final dos anos 1940 e começo dos 50, dormia em
sploshnye nary; ela também lembra que muitas presas ainda dormiam no chão, debaixo dessas prateleiras.
As dotações de roupa de cama e banho também eram arbitrárias e variavam muito de campo para campo, apesar de mais regras severas (e um tanto modestas) instituídas
por Moscou. Os regulamentos determinavam que todos os presos recebessem uma toalha nova a cada ano; uma fronha a cada quatro anos; lençóis a cada dois; e um cobertor
a cada cinco. Na prática, "para cada leito, vinha um pretenso colchão de palha", escreveria Elinor Lipper:
Nele não havia nenhuma palha, e raramente tinha feno, pois não se dispunha de forragem suficiente para o gado; em vez dessas coisas, o colchão continha raspagem
de madeira ou roupas extras, se a prisioneira ainda possuísse roupas extras. Havia ainda um cobertor de lã e uma fronha que a gente podia encher com o que tivesse,
pois não existiam travesseiros.
Outros não dispunham de absolutamente nada. Mesmo em 1950, Isaak Filshtinskii, especialista em árabe aprisionado em 1948, ainda dormia coberto apenas pelo casaco,
usando trapos como travesseiro, no Kargopollag.
Aquela diretiva de 1948 também instruía que se cobrisse com piso de madeira o chão nu dos alojamentos. Mas, quando já se estava nos anos 1950, Irena Arginskaya morava
num barracão cujo piso não se podia limpar direito, pois era de argila. Mesmo quando os pisos eram de madeira, freqüentemente não se conseguia limpá-los por falta
de vassouras. Descrevendo sua vivência do Gulag a uma comissão no pós-guerra, uma polonesa explicou que, no campo onde estivera, um grupo de prisioneiras sempre
permanecia "de serviço" à noite, limpando os barracões e sanitários enquanto outras dormiam: "A lama no piso do barracão tinha de ser tirada a faca. As russas ficavam
alucinadas porque não conseguíamos fazê-lo e nos perguntavam como vivíamos em nossas casas. Nem sequer lhes ocorria que mesmo o chão mais sujo pode ser varrido e
escovado".
Com freqüência, o aquecimento e a iluminação eram igualmente primitivos, mas, também nisso, as circunstâncias variavam muito de campo para campo. Um preso lembraria
que os barracões ficavam praticamente às escuras: "as lâmpadas elétricas tinham brilho branco-amarelado, quase imperceptível, e os lampiões de querosene soltavam
fumaça e um cheiro repugnante". Outros se queixavam do problema oposto: as luzes costumavam ficar acesas a noite toda. Nos campos da região de Vorkuta, alguns
presos não tinham nenhum problema de aquecimento, visto que podiam trazer pedras de carvão das minas; mas Susanna Pechora, num lagpunkt perto das minas carboníferas
de Inta, recordaria que, dentro dos barracões, "fazia tanto frio no inverno que nossos cabelos congelavam e se grudavam à cama e a água de beber congelava nas canecas".
No alojamento de Susanna, tampouco havia água corrente, só a trazida em baldes pela dezhurnaya - mulher mais velha, já incapacitada para o trabalho mais pesado -,
que, durante o dia, limpava o barracão e cuidava dele.
Pior: "um mau cheiro terrível" permeava o alojamento, por causa das enormes quantidades de roupas sujas e mofadas que eram postas para secar na beira dos beliches
e das mesas ou em qualquer lugar onde fosse possível pendurar algo. Nos alojamentos dos campos especiais, onde as portas eram trancadas à noite e as janelas tinham
grades, o fedor tornava "quase impossível respirar".
A qualidade do ar não melhorava com a ausência de sanitários. Nos campos onde os presos ficavam trancados nos alojamentos à noite, os zeks tinham de usar o parasha
(balde sanitário), tal como nas cadeias. Um preso escreveu que, de manhã, era impossível carregar o parasha, "de modo que o arrastavam por aquele piso escorregadio;
o conteúdo invariavelmente entornava". Galina Smirnova, detida no começo dos anos 1950, lembraria que, "se a coisa era séria, a gente esperava até de manhã; do
contrário, o fedor era horrível".
Os sanitários eram casinhas, e estas ficavam a alguma distância dos alojamentos, o que era uma provação no frio do inverno. "As latrinas eram de madeira, ao ar livre",
disse Galina a respeito de outro campo, "e tinha-se de usá-las mesmo quando fazia trinta ou quarenta graus abaixo de zero." Thomas Sgovio escreveu sobre as conseqüências:
Do lado de fora, em frente a cada alojamento, puseram um mastro, que, congelando, se fixou no solo. Mais uma ordem! Estávamos proibidos de urinar em qualquer outro
lugar do campo que não fossem as casinhas ou aquele mastro, com o trapo branco amarrado no alto. Quem quer que fosse apanhado desrespeitando a ordem passaria dez
noites na cela punitiva [...]. A ordem foi dada porque, à noite, havia presos que, não querendo andar a longa distância até as casinhas, urinavam em cima das trilhas
de neve, já bem batidas. O chão estava coberto de pontos amarelos. No final da primavera, quando a neve derretesse, o fedor seria terrível [...] duas vezes por mês,
cortávamos essas pirâmides de urina congelada e, de carrinho, levávamos os pedaços para fora da zona.
Contudo, a sujeira e o apinhamento não eram apenas problemas estéticos, nem questão de desconforto relativamente menor. Os beliches superlotados e a falta de espaço
também podiam ser mortíferos, em especial nos campos que trabalhavam em esquema de 24 horas por dia. Sobre um desses campos, onde os presos trabalhavam em três turnos,
dia e noite, um memorialista escreveu que
havia gente dormindo no alojamento a qualquer hora do dia. Brigar para conseguir dormir era brigar pela vida. Discutindo por conta do sono, as pessoas se xingavam,
lutavam entre si, até se matavam umas às outras. No alojamento, o rádio estava no volume máximo o tempo todo e, por isso, era detestado.
Justamente porque a questão de onde dormir era tão crucial, o sono sempre constituía importantíssima ferramenta de controle sobre os presos, e a administração dos
campos o usava assim, de caso pensado. No arquivo central em Moscou, o Gulag conservava cuidadosamente fotos de diferentes tipos de alojamentos, para diferentes
tipos de presos. Os barracões dos otlichniki - os "ótimos", ou "trabalhadores de choque" - tinham camas individuais com colchões e cobertores, assoalho de madeira
e quadros nas paredes. Os presos, se não chegavam a sorrir para os fotógrafos, pelo menos liam jornais e pareciam bem nutridos. Já os barracões de rezhim - os alojamentos
punitivos para trabalhadores ineficazes ou refratários - não tinham camas, mas pranchas sobre suportes rústicos de madeira. Mesmo nessas fotos propagandísticas,
os presos na categoria rezhim não possuem colchões e dividem cobertores.
Em alguns campos, a etiqueta referente ao sono se tornava bastante complexa. O espaço era tão escasso que ele, e a privacidade, era considerado grande privilégio,
concedido apenas aos que estavam incluídos na aristocracia dos campos. Com freqüência, permitia-se que presos de posição mais elevada - chefes de turmas de trabalho
e outros - dormissem em barracões menores, com menos pessoas. Solienitsin, tendo de início sido designado "gestor de trabalhos" ao chegar a um campo em Moscou, ganhou
lugar num alojamento onde,
em vez de beliches múltiplos, havia catres comuns e um criado-mudo para cada duas pessoas, e não para toda uma turma de trabalho. Durante o dia, a porta ficava trancada,
e podíamos deixar nossas coisas lá. Por fim, havia uma chapa elétrica, semi-legal, e não era necessário apinhar-se em volta do grande fogão comunal no pátio.
Tudo isso era considerado um grande luxo. Era verdade que trabalhos mais desejáveis (marcenaria, ou reparo de ferramentas) também vinham com o cobiçadíssimo direito
a dormir na oficina. Anna Rozina pernoitava no trabalho quando foi sapateira no campo de Temnikovsky e tinha também o "direito" de ir mais vezes aos banhos, coisas
que constituíam grandes privilégios.
Em quase todo campo, os médicos, mesmo os aprisionados, também podiam dormir à parte, prerrogativa que refletia o status especial desses profissionais. O cirurgião
Isaac Vogelfanger sentia-se privilegiado porque o deixavam dormir num catre numa "salinha anexa à recepção" da enfermaria do campo. "A lua parecia sorrir para mim
quando eu ia dormir." Junto dele, dormia o feldsher (assistente médico) do campo, o qual tinha o mesmo privilégio.
Às vezes, providenciavam-se condições especiais para inválidos. A atriz Tatyana Okunevskaya conseguiu ser mandada para um campo de inválidos na Lituânia, onde "os
alojamentos eram compridos, com muitas janelas, iluminados, limpos, sem beliches sobre nossas cabeças". Os presos enviados para o trabalho nos sharashki de Beria
- os "departamentos especiais" para engenheiros e técnicos de talento -ganhavam as melhores entre todas as acomodações. Em Bolshevo (sharashka nas imediações de
Moscou), os alojamentos eram "grandes, iluminados, limpos e aquecidos com panelões de ferro", e não com fogões de metal. Os leitos tinham travesseiro e roupa de
cama, as luzes se apagavam à noite, e havia chuveiro individual. Os prisioneiros que moravam nessas acomodações especiais sabiam, é claro, que elas poderiam ser-lhes
tiradas facilmente, o que aumentava o interesse deles em dar duro.
Extra-oficialmente, também havia outra hierarquia nos alojamentos. Na maioria destes, as decisões cruciais sobre quem dormiria e onde dormiria eram tomadas pelos
grupos que eram mais fortes e mais unidos nos campos. Até o final da década de 1940 - quando ficariam mais poderosos os grandes grupos nacionais de presos, como
ucranianos, baltas, tchetchenos e poloneses -, os mais organizados, como veremos, costumavam ser os criminosos condenados. Por conseguinte eles em geral dormiam
nos beliches superiores, mais arejados e espaçosos, golpeando e chutando os que se opunham a isso. Quem dormia nos beliches inferiores tinha menos ascendência. E
quem dormia no chão - os presos de status mais baixo no campo - sofria mais que todos, conforme lembraria um preso:
Esse nível era denominado "setor colcoz" , e era para lá que os bandidos baniam os kolkhozniki - ou seja, diversos padres e intelectuais idosos e até alguns deles
mesmos, que haviam desrespeitado o código de honra da bandidagem. Sobre esses não caíam apenas coisas dos beliches superiores e inferiores: os bandidos também despejavam
restos, água, a sopa do dia anterior. E o setor colcoz tinha de agüentar tudo isso, porque, se reclamasse, seria alvo de ainda mais sujeira [...] pessoas adoeciam,
sufocavam, perdiam a consciência, enlouqueciam, morriam de tifo ou disenteria, suicidavam-se.
Não obstante, os presos, mesmo os políticos, podiam melhorar suas condições de vida. Trabalhando como feldsher, o preso político polonês Karol Colonna-Czosnowski,
colocado num alojamento extremamente apinhado, caiu nas boas graças de Grisha, o "chefão" criminoso do campo:
Ele deu um majestoso pontapé num de seus cortesãos, que interpretou aquilo como ordem para arrumar espaço para mim e deixou seu lugar na mesma hora. Fiquei constrangido
e aleguei que preferia não sentar tão perto do fogo, mas isso não estava em conformidade com os desejos de meu anfitrião, como descobri quando um dos asseclas de
Grisha me deu um tremendo empurrão.
Quando Colonna-Czosnowski recuperou o equilíbrio, viu-se sentado aos pés de Grisha. "Aparentemente, era ali que ele queria que eu permanecesse." Colonna-Czosnowski
não discutiu. Ainda que por poicas horas, o lugar onde alguém sentava, ou pousava a cabeça, era coisa importantíssima.
Bahya: os banhos
A sujeira, a superlotação e a falta de higiene causavam uma praga de percevejos e piolhos. Nos anos 1930, um desenho "humorístico" do Perekovka (o jornal do canal
Moscou-Volga) mostrava um zek ao qual entregavam trajes novos. A legenda: "Eles lhe dão roupas 'limpas', mas estão empiolhadas". Outro cartum dizia: "Enquanto a
gente dorme no alojamento, os percevejos picam feito paguros". O problema não diminuiu com o passar dos anos. Um preso polonês recorda que, durante a guerra, seu
companheiro de campo ficou obcecado por esses bichos: "Como biólogo, interessava-se em saber quantos piolhos podiam subsistir em determinado espaço. Contando-os
na camisa, achou sessenta e, uma hora depois, outros sessenta".
Na década de 1940, os chefes do Gulag já tinham reconhecido havia muito tempo o perigo mortal do tifo transmitido por piolhos e, oficialmente, travavam uma batalha
constante contra os parasitas. Os banhos eram supostamente obrigatórios de dez em dez dias. Toda a roupa devia ser fervida em unidades de desinfecção, primeiro quando
se ingressava no campo e depois a intervalos regulares, para destruir todos os organismos nocivos. Como já vimos, os barbeiros dos campos rapavam o corpo inteiro
de homens e mulheres já na chegada; depois, também lhes rapavam regularmente as cabeças. O sabão, mesmo que em quantidades ínfimas, era com freqüência incluído na
lista de produtos a distribuir aos presos; em 1944, por exemplo, seriam duzentos gramas mensais de sabão para cada prisioneiro. Mulheres, presos hospitalizados e
filhos de presos recebiam mais cinqüenta gramas; adolescentes, mais cem; e presos que realizavam "serviços especialmente sujos", mais duzentos. Essas minúsculas
lascas de sabão se destinavam tanto à higiene pessoal quanto à lavagem da indumentária e da roupa de cama e banho. (Dentro ou fora dos campos, o sabão não ficou
menos escasso. Mesmo em 1991, mineiros de carvão entraram em greve porque, entre outras coisas, não tinham sabão.)
Entretanto, nem todo mundo estava convencido da eficácia dos processos de espiolhação adotados nos campos. Na prática, escreveria um preso, "os banhos pareciam aumentar
o vigor sexual dos piolhos".
Varlam Shalamov iria além: "Não apenas a espiolhação era absolutamente inútil como também nenhum piolho morria na câmara de desinfecção. Era apenas uma formalidade,
e o procedimento todo fora criado para atormentar ainda mais o condenado".
Estritamente falando, Shalamov estava errado. Não se criara o procedimento para atormentar os condenados - como eu disse, a direção do Gulag, em Moscou, de fato
estabelecera diretivas muito severas, instruindo os comandantes de campo a guerrearem contra os parasitas, e incontáveis relatórios de inspeção denunciam a negligência
em fazê-lo. Uma descrição de 1933 sobre as condições no Dmitlag se queixa iradamente dos alojamentos femininos, que eram "sujos, sem lençóis e cobertores; as mulheres
reclamam da enorme quantidade de percevejos, os quais a Divisão Sanitária não está combatendo". Um inquérito de 1940 sobre as condições num grupo de campos setentrionais
falava com raiva dos "piolhos e percevejos, que têm impacto negativo sobre as possibilidades de descanso dos presos" num lagpunkt; já o campo de trabalho correcional
de Novossibirsk tinha "100% de incidência de piolhos entre os presos [...] em conseqüência das más condições sanitárias, é alto o índice de doenças dermatológicas
e distúrbios estomacais [...] fica então claro que as condições anti-higiênicas no campo nos causam enormes prejuízos". Entrementes, houvera dois surtos
de tifo em outro lagpunkt; e, em outros mais, os presos estavam "pretos de sujeira", continuava o relatório, com muita inquietação.
Queixas referentes a piolhos, e ordens iradas para eliminá-los, figuram ano após ano nos relatórios de inspeção apresentados pela promotoria do Gulag. Depois de
outra epidemia de tifo no Temlag, em 1937, o diretor do lagpunkt e o vice-diretor do departamento médico do campo foram demitidos, indiciados por "negligência e
inércia criminosas" e levados a julgamento. Usavam-se não só punições, como também recompensas: em 1933, os ocupantes de um alojamento do Dmitlag ganharam dias
de folga do trabalho como prêmio por terem eliminado os percevejos em todos os leitos.
A recusa de banhar-se era igualmente levada muito a sério. Irena Arginskaya, que no começo dos anos 1950 estava num campo especial para presos políticos em Kengir,
se recordaria de uma seita religiosa feminina que, por motivos conhecidos apenas das praticantes, se negava a tomar banho:
Um dia, eu ficara no alojamento porque estava doente e, assim, fora liberada do trabalho. Contudo um guarda entrou e nos disse que todas as presas adoentadas teriam
de ajudar a lavar as "freiras". A cena foi esta: uma carroça foi puxada até a parte dos alojamentos onde elas ficavam, e precisamos carregá-las para fora e colocá-las
na carroça. Elas chiaram, nos chutaram, nos golpearam etc. Mas, quando enfim as pusemos no carroção, ficaram quietas e não tentaram fugir. Aí, puxamos a carroça
até os banhos, onde as levamos para dentro, as despimos - e então entendemos por que a administração do campo não podia permitir que elas deixassem de tomar banho:
quando lhes tiramos as roupas, caíram mancheias de piolhos. Colocamos as mulheres debaixo da água e as lavamos. Enquanto isso, as roupas delas eram fervidas para
matar os piolhos.
Irena também lembra que, "em princípio, era possível ir ao banho quantas vezes se quisesse" lá em Kengir, onde não havia restrições ao uso da água. De modo semelhante,
Leonid Sitko, ex-prisioneiro de guerra na Alemanha, avaliaria que os campos soviéticos tinham menos piolhos que os campos alemães. Sitko esteve preso tanto no Steplag
quanto no Minlag, onde "podíamos tomar quantos banhos desejássemos [...] podíamos até lavar nossas roupas". Certas fábricas e locais de trabalho tinham chuveiros
próprios, como Isaak Filshtinskii descobriu no Kargopollag, onde os presos podiam usá-los durante o dia, muito embora outros detentos sofressem com a falta de água.
Entretanto, Variam Shalamov não estava de todo errado em sua descrição cética do sistema de higiene. Pois, mesmo os administradores locais dos campos sendo instruídos
a levar essas medidas sanitárias a sério, muitas vezes acontecia que eles simplesmente, cumpriam os rituais de espiolhação e banho, sem parecer dar grande importância
aos resultados. Ou não se dispunha de carvão suficiente para manter quente o bastante o dispositivo de desinfecção; ou os encarregados não se preocupavam em executar
direito o procedimento; ou não se distribuíam rações de sabão durante meses; ou essas rações eram surrupiadas. Nos dias de banho no lagpunkt d