O Animal
Agonizante
Tradução
Paulo Henriques Britto
COMPANHIA DAS LETRAS 2006
Para N. M.
Prelúdio
O corpo contém a história da vida tanto quanto o cérebro.
Edna O'Brien
CAPÍTULO UM
Eu a conheci há oito anos. Era minha aluna. Não sou mais
professor em horário integral, não sou mais professor de
literatura no sentido estrito — há anos que só dou o mesmo
curso, para uma turma grande de alunos do último período,
sobre crítica, chamado Crítica Prática. Muitos dos alunos são
do sexo feminino. Por dois motivos: porque é um tema com
uma combinação atraente de glamour intelectual e glamour
jornalístico, e porque elas me conhecem de me ouvirem
fazendo resenhas de livros na rádio educativa, ou então de
me verem no canal 13 falando sobre cultura. Nos últimos
quinze anos, minha atuação como crítico de cultura
televisivo fez com que eu me tornasse uma figura
razoavelmente conhecida na cidade, e é isso que atrai as
garotas para o meu curso. No início, eu não me dava conta de
que aparecer na televisão por dez minutos uma vez por
semana podia impressionar tanto aquelas alunas. Mas elas
sentem uma atração irresistível pela celebridade, mesmo que
seja uma celebridade pífia como a minha.
Ora, sou muito vulnerável à beleza feminina, como você sabe.
Todo mundo se torna indefeso diante de alguma coisa, e no
meu caso é isso. Diante de uma mulher bonita, não enxergo
mais nada. Logo na primeira aula descubro quase
imediatamente qual daquelas garotas é a minha. Mark Twain
tem uma história em que ele foge de um touro e sobe numa
árvore, e o touro olha para ele e pensa: "O senhor é a minha
refeição". Pois bem, leia-se "a senhorita" em vez de "o
senhor", e é isso que eu penso quando vejo as garotas na sala
de aula. Já se vão oito anos — eu já estava com sessenta e dois
anos, e a garota, que se chama Consuela Castillo, tinha vinte e
quatro. Ela não é como as outras da turma. Nem parece uma
aluna, pelo menos uma aluna comum. Não é uma pós-
adolescente, não é uma dessas garotas desmazeladas, tranchas,
que dizem "tipo assim" cada vez que abrem a boca. Ela fala
bem, é equilibrada, tem uma postura perfeita — parece saber
alguma coisa a respeito da vida adulta, além de saber se
sentar, ficar em pé e andar. Assim que você entra na sala,
percebe que essa garota sabe mais, ou então quer saber mais.
A maneira como ela se veste. Não é exatamente o que se
chama de chique, ela com certeza não se veste de modo
exagerado, mas, para começar, nunca usa jeans, nem passado
nem amassado. Usa umas roupas escolhidas a dedo, com um
bom gosto discreto, saias, vestidos e calças feitas sob medida.
Não para se tornar menos sensual, e sim, ao que parece, para
se profissionalizar — ela se veste como uma secretária bonita
de uma firma de advocacia de prestígio. Como se fosse a
secretária do presidente de um banco. Usa uma blusa de seda
creme por baixo de um blazer azul feito sob medida, com
botões dourados, na bolsinha marrom com aquela pátina de
couro caro, botinhas que chegam até o tornozelo e combinam
com a bolsa, e uma saia de tricô cinza, um tecido ligeiramente
elástico, que revela as linhas de seu corpo com aquela sutileza
de que só mesmo uma saia assim seria capaz. O penteado é
natural, porém bem cuidado. A tez é clara, a boca é curva,
embora os lábios sejam cheios, e a testa é arredondada, uma
testa policia, lisa, com uma elegância de Brancusi. Ela é
cubana. Filha de uma próspera família cubana que mora em
Nova Jersey, do outro lado do rio, no condado de Bergen. O
cabelo é negro, bem negro, lustroso, um pouco grosso. E ela é
grande. Um mulherão grande. A blusa de seda está
desabotoada até o terceiro botão, de modo que dá para ver
que ela tem seios poderosos, lindos. Imediatamente você vê a
fenda entre eles. E você vê que ela sabe. Você percebe que,
apesar do decoro, da meticulosidade, do estilo
cuidadosamente refinado — ou por causa disso tudo —, ela
tem consciência de si própria. Ela vem à primeira aula com
uma jaqueta abotoada por cima da blusa, porém cinco
minutos depois do início da aula não está mais de jaqueta.
Quando volto a olhar para ela, já vestiu a jaqueta outra vez.
De modo que você compreende que a moça tem consciência
de seu poder, mas não sabe direito como usá-lo, o que fazer
com ele, não sabe nem mesmo até que ponto quer ter todo
esse poder. O corpo ainda é novo para ela, a moça ainda o está
experimentando, tentando compreendê-lo, é um pouco como
um menino que anda na rua com uma arma carregada, sem
saber se está armado para se proteger ou se para dar início a
uma carreira no crime.
E essa moça também tem consciência de outra coisa, algo que
eu não poderia ter percebido logo na primeira aula: considera
a cultura importante, tem por ela uma reverência um tanto
antiquada. Não que tenha alguma intenção de dedicar sua
vida à cultura. Isso ela não quer e nem poderia fazer — teve
uma educação tradicional demais para isso —, porém acha a
cultura, a coisa mais importante e maravilhosa que conhece.
É o tipo de pessoa que sente fascínio pelos impressionistas,
porém é obrigada a ficar muito tempo olhando com atenção
— e sempre com uma incômoda sensação de perplexidade —
para um Picasso da fase cubista, esforçando-se ao máximo
para compreendê-lo. Assim, fica olhando, aguardando uma
nova sensação surpreendente, um pensamento novo, uma
emoção nova, e quando nada disso acontece ela se recrimina
por sua incompetência e por lhe faltar... o quê? Ela se
recrimina por nem sequer saber o que é que lhe falta. A arte
mais moderna a deixa não apenas perplexa, como também
decepcionada consigo mesma. Ela gostaria muito que Picasso
fosse mais importante para ela, talvez até a transformasse,
porém há uma espécie de cortina translúcida que a separa do
proscênio da genialidade, toldando sua visão e obrigando-a a
adorar a certa distância. Consuela dá à arte, a toda a arte,
muito mais do que recebe em troca, uma espécie de seriedade
que chega a ser tocante. Um coração bom, um rosto lindo,
um olhar ao mesmo tempo convidativo e distanciado, peitos
sensacionais, uma mulher ainda recém-saída do ovo, tanto
assim que não causaria espanto encontrar fragmentos de casca
colados naquela testa ovóide. Vi de imediato que aquela
garota seria minha.
Bom, tenho uma regra há uns quinze anos que jamais violo.
Nunca me aproximo das alunas em caráter particular
enquanto elas não fazem o exame final e recebem a nota,
quando então para elas já não estou mais oficialmente in loco
parentis. Por maior que seja a tentação — e mesmo que eu
receba um sinal inconfundível para começar a flertar e dar o
primeiro passo —, jamais violei essa regra desde que, em
meados dos anos 80, o número do disque-assédio foi pela
primeira vez afixado à porta da minha sala. Não entro em
contato com elas para não cair nas mãos daquelas pessoas na
universidade que, se pudessem, dariam um jeito de criar
sérios obstáculos ao meu prazer de viver.
Todos os anos dou um curso de catorze semanas, e durante
todo esse tempo não tenho caso com nenhuma aluna. Então
aplico um truque. É um truque honesto, às claras, lícito, mas
é um truque assim mesmo. Terminado o exame final,
lançadas as notas, dou uma festa no meu apartamento para os
alunos. A festa é sempre um sucesso, e é sempre a mesma
coisa. Convido os alunos para beber alguma coisa na minha
casa por volta das seis da tarde. Explico que a festa vai das seis
às oito, e eles sempre acabam ficando até as duas da manhã.
As alunas mais corajosas, a partir das dez da noite, se
transformam em personagens muito interessantes e me falam
sobre o que realmente lhes interessa. No curso de Crítica
Prática, costuma haver cerca de vinte alunos, por vezes até
vinte e cinco, de modo que ao todo são quinze, dezesseis
garotas e cinco ou seis rapazes, dos quais dois ou três são
heterossexuais. As dez da noite, metade desse grupo já foi
embora. Normalmente, ficam um rapaz hetero, talvez um
rapaz gay e cerca de nove garotas. As que ficam são sempre as
mais cultas, mais inteligentes e animadas da turma. Elas falam
sobre o que andam lendo, que músicas têm ouvido, as últimas
exposições que foram ver — entusiasmos a respeito dos quais
não costumam conversar com pessoas mais velhas, e às vezes
nem mesmo com as amigas. Elas se conhecem na minha
turma. E me conhecem também. No decorrer da festa, de
repente se dão conta de que sou um ser humano. Não sou o
professor, não sou a minha reputação, não sou o pai delas.
Moro num apartamento duplex agradável e bem-arrumado;
elas vêem minha extensa biblioteca, estantes com prateleiras
dos dois lados, onde estão guardados os livros que li ao longo
de toda a minha vida, que ocupam quase todo o andar de
baixo; vêem o meu piano, vêem como sou dedicado ao meu
trabalho, e vão ficando.
Houve um ano em que minha aluna mais engraçada era como
aquela cabra que vai se esconder dentro do relógio, no conto
de fadas. Expulsei os últimos alunos às duas da manhã, e
enquanto me despedia deles dei pela falta de uma das garotas.
Perguntei: "Cadê a palhaça da turma, a filha de Próspero?"
"Ah, acho que a Miranda já foi", alguém respondeu. Voltei
para dentro do apartamento e comecei a arrumar a sala
quando ouvi uma porta se fechando no andar de cima. A
porta do banheiro. E Miranda desceu a escada, rindo,
radiante, numa felicidade besta — eu nunca havia reparado,
até aquele momento, que ela era tão bonita —, e disse: "Eu
fui muito esperta, não fui? Me escondi no banheiro do
segundo andar, e agora vou dormir com você".
Uma coisinha de nada, menos de um metro e sessenta, e foi
tirando o suéter, me mostrando os peitos, revelando o torso
adolescente de uma virgem de Balthus transgredindo pela
primeira vez, e é claro que acabamos na cama. Como uma
menina que fugisse do melodrama ameaçador de um quadro
de Balthus para participar da festa da turma, Miranda havia
passado a noite andando de gatinhas no chão, com o traseiro
para cima, ou esparramada no sofá, indefesa, ou então
encarapitada no braço de uma bergère, aparentemente sem
perceber que, com a saia subindo as coxas e as pernas abertas
de modo nada decoroso, estava com aquele exato ar de uma
personagem de Balthus, parecendo estar seminua embora
estivesse vestida. Tudo está escondido e nada está oculto.
Muitas daquelas meninas já tinham vida sexual desde os
catorze anos, e ao chegar aos vinte sempre há uma ou duas
que, movidas pela curiosidade, resolvem transar com um
homem da minha idade, mesmo que seja só uma vez, doidas
para no dia seguinte contar tudo às amigas, que vão franzir a
testa e perguntar: "Mas e a pele dele? Ele não tinha um cheiro
esquisito? E aquele cabelo branco comprido? E aquela
papada? E a barriga dele? Você não ficou com nojo?"
Miranda me disse depois: "Você já deve ter transado com
centenas de mulheres. Eu queria saber como era". "E como
foi?" Então ela disse coisas em que não acreditei de todo, mas
não tinha importância. Ela fora audaz — havia se dado conta
de que era capaz de fazer aquilo, por mais decidida e
apavorada que se sentisse escondida no banheiro. Ela
descobrira o quanto era corajosa ao se ver diante daquela
justaposição insólita, descobrira que era capaz de vencer seus
medos iniciais, bem como qualquer sentimento de repulsa
que tivesse experimentado de início, e eu — com relação à tal
justaposição — simplesmente me esbaldei. Miranda, aquela
menina que se esparramava, que aprontava palhaçadas,
fazendo pose, a roupa de baixo espalhada pelo chão. Só o
prazer de olhar já bastava. Se bem que ela me deu muito mais
do que isso. As décadas que se passaram desde os anos 60
complementaram muito bem a revolução sexual. As meninas
dessa geração são sensacionais em matéria de felação. Nunca
houve nada semelhante a essas garotas, na classe social delas.
Consuela Castillo. Olhei para ela e fiquei muitíssimo bem
impressionado com sua atitude. Ella sabia o quanto seu corpo
valia. Sabia quem era. Sabia também que jamais encontraria
um lugar no mundo cultural em que eu vivia — para
Consuela, a cultura era uma coisa deslumbrante, mas não algo
com que ela pudesse conviver. Assim, veio à festa — eu temia
que talvez não viesse — e, pela primeira vez, se abriu comigo.
Por não saber até que ponto seria cautelosa e séria, fiz
questão de não demonstrar nenhum interesse especial por
Consuela durante as aulas, nem nas duas ocasiões em que a
recebi na minha sala para falar sobre seus trabalhos. Nessas
reuniões a dois, ela foi discreta e respeitosa, anotando tudo
que eu dizia, por menos importante que fosse. Na minha sala,
sempre entrava e saía com a jaqueta sob medida por cima da
blusa. Na primeira vez em que veio falar comigo — sentamo-
nos lado a lado à minha mesa, como manda o figurino, com a
porta escancarada para o corredor público, com nossos oito
membros, nossos dois torsos tão diferentes, perfeitamente
visíveis para todos os Big Brothers que por lá passassem (e
também com a janela aberta, aberta por mim, escancarada
por mim, por temer o perfume de Consuela) —, na primeira
vez, ela estava com uma calça elegante de flanela cinza, com
as bainhas viradas, e na segunda veio com uma saia preta de
jérsei com uma meia-calça preta por baixo, mas, tal como na
sala de aula, aquela blusa de sempre, uma blusa creme
contrastando com a pele alvíssima, desabotoada até o terceiro
botão. Na festa, porém, ela tirou a jaqueta depois de tomar
um único copo de vinho e, destemida, só de blusa, sorriu para
mim, ofereceu-me um sorriso aberto, sedutor. Estávamos a
poucos centímetros um do outro, no meu escritório, onde eu
acabava de lhe mostrar um manuscrito de Kafka que possuo
— três páginas escritas à mão por Kafka, o discurso que ele
fez numa festa em homenagem ao chefe da companhia de
seguros onde trabalhava, o qual estava se aposentando; esse
manuscrito de 1910 me fora dado de presente por uma
mulher casada, rica, de trinta anos de idade, que tinha sido
minha aluna-amante alguns anos antes.
Consuela estava falando de modo entusiástico a respeito de
tudo. Ela se empolgou quando pus na sua mão o manuscrito
de Kafka, e assim tudo começou a vir à tona ao mesmo
tempo, perguntas que ela havia contido durante todo aquele
semestre, ao mesmo tempo em que eu, em segredo, continha
meu desejo. "Que tipo de música você costuma ouvir? Você
toca piano mesmo? Você lê o dia inteiro? Você sabe de cor
todos os poemas que tem nas suas estantes?" Cada uma
daquelas perguntas deixava claro o quanto a maravilhava —
foi essa a palavra que ela usou — a minha vida, minha vida
cultural coerente e tranqüila. Perguntei-lhe o que ela estava
fazendo, como era sua vida, e Consuela me explicou que
depois do colegial não entrara para a faculdade logo em
seguida — tinha decidido trabalhar como secretária. Isso eu
havia percebido desde o início: a secretária particular
decorosa e fiel, um verdadeiro tesouro para um homem
poderoso, banqueiro ou dono de firma de advocacia. Sem
dúvida, Consuela pertencia a uma outra era, uma era mais
bem-comportada; parecia-me que a maneira como se via a si
própria, tal como sua postura, tinha muito a ver com o fato de
que ela era filha de imigrantes cubanos ricos, gente
endinheirada que fugira da revolução.
Disse-me Consuela: "Não gostei de ser secretária. Tentei
durante dois anos, mas é um mundo muito chato, e meus pais
sempre queriam que eu voltasse para a faculdade, era o que
eles esperavam de mim. Até que finalmente resolvi estudar,
mesmo. Acho que eu estava tentando me rebelar, mas era
uma coisa infantil, por isso me matriculei. Fico maravilhada
com as artes". Novamente a palavra "maravilhar", usada de
modo abundante e sincero. "Do que é que você gosta?",
perguntei. "Teatro. Tudo que é tipo de teatro. Eu vou à ópera.
Meu pai adora ópera, e nós vamos juntos ao Met. O favorito
dele é Puccini. Eu sempre gosto de ir com ele." "Você adora
os seus pais." "Adoro, sim", disse ela. "Me fale sobre eles."
"Pois é, eles são cubanos. Muito orgulhosos. E se deram muito
bem aqui. Os cubanos que vieram pra cá por causa da
revolução tinham uma certa maneira de ver o mundo, e —
não sei por quê — todos se deram muito bem. Aquele
primeiro grupo, como a minha família, trabalhou muito, eles
fizeram tudo que era preciso fazer, se deram tão bem que,
como o meu avô dizia, aqueles que chegaram e precisaram de
ajuda do governo logo no início, porque não tinham nada,
alguns deles, poucos anos depois, começaram a mandar cheques
para o governo, devolvendo o que haviam recebido. Eles
não sabiam o que fazer com o dinheiro, meu avô dizia. Foi a
primeira vez na história do Tesouro dos Estados Unidos que
houve devolução de dinheiro." "Você adora o seu avô,
também. Como é que ele é?", indaguei. "Ele é como meu pai
— uma pessoa equilibrada, extremamente tradicional, com
uma visão do mundo bem européia. Dar duro e se instruir
acima de tudo. Acima de tudo, mesmo. E, como o meu pai,
um homem totalmente família. Muito religioso. Se bem que
não é tanto de ir à igreja. Meu pai também não. Mas a minha
mãe vai. Minha avó também. Minha avó reza o terço toda
noite. As pessoas dão terços de presente pra ela. Ela tem uns
terços que são os prediletos dela. Minha avó adora o terço
dela." "Você vai à igreja?" "Quando eu era pequena. Agora,
não. Minha família sabe se adaptar. Os cubanos daquela
geração sabiam se adaptar, até certo ponto. Minha família
gostaria que a gente fosse à igreja, eu e o meu irmão, mas eu
não vou, não." "Que tipo de restrição uma moça cubana
criada nos Estados Unidos enfrenta que não existe numa
família americana típica?" "Ah, eu tinha que chegar em casa
muito mais cedo. Tinha que chegar em casa numa hora em
que as minhas amigas todas estavam saindo de casa, no verão.
Eu tinha que estar em casa às oito da noite, em pleno verão,
quando tinha catorze, quinze anos. Mas o meu pai não era
uma pessoa assustadora. Ele é um pai bem normal, simpático.
Só que nenhum garoto podia entrar no meu quarto. Nunca.
Mas quando fiz dezesseis anos, comecei a ser tratada igual às
minhas amigas, quanto à hora de chegar em casa, esses
lances." "E os seus pais, quando foi que eles vieram pra cá?"
"Em 1960. Naquela época o Fidel ainda deixava as pessoas
saírem. Eles se casaram em Cuba. Primeiro foram pro
México. Depois vieram pra cá. Eu nasci aqui, é claro." "Você
se considera americana?" "Eu nasci aqui, mas não, eu sou
cubana. Cubaníssima." "Isso me surpreende, Consuela. A sua
voz, seu jeito, seu vocabulário, 'esses lances', 'o cara'. A mim,
você parece completamente americana. Por que é que você se
considera cubana?" "Minha família é cubana. É isso. E só isso.
A minha família tem um orgulho extraordinário. Eles adoram
o país deles. É uma coisa que está no coração. Está no sangue.
Eles já eram assim em Cuba." "Por que é que eles gostam
tanto de Cuba?" "Ah, lá era muito divertido. Era uma
sociedade de pessoas que tinham o melhor do que havia em
todo o mundo. Totalmente cosmopolitas, ainda mais quem
morava em Havana. E era lindo. Tinha umas festas
sensacionais. Eles realmente se divertiam muito." "Festas? Me
fala sobre as festas." "Eu tenho umas fotos da minha mãe nos
bailes à fantasia. Do tempo de debutante dela. Fotos do baile
de debutante da minha mãe." "O que é que a família dela
fazia?" "Ah, isso aí é uma longa história." "Me conta." "Bom, o
primeiro espanhol da família da minha avó foi pra lá como
general. Era de uma família espanhola rica, dinheiro velho.
Minha avó tinha aula particular em casa, aos dezoito anos foi
a Paris pra comprar vestidos. Na minha família tem título de
nobreza dos dois lados, de mãe e de pai, nobreza espanhola.
Alguns são antiqüíssimos. Quer dizer, minha avó é duquesa
— lá na Espanha." "E você é duquesa também, Consuela?"
"Não", ela respondeu, sorrindo, "sou só uma garota cubana de
sorte." "Pois bem, você pode muito bem passar por duquesa.
Deve haver uma duquesa parecida com você nas paredes do
Museu do Prado. Você conhece aquela famosa pintura de
Velázquez, As meninas? Se bem que a princesinha desse
quadro é clara, é loura." "Acho que não conheço, não." "Está
lá em Madri. No Prado. Eu vou lhe mostrar."
Descemos a escada de aço em espiral até minha biblioteca,
encontrei um volume grande de reproduções de obras de
Velázquez, e passamos quinze minutos sentados lado a lado,
virando as páginas, um quarto de hora emocionante em que
nós dois aprendemos alguma coisa — ela, pela primeira vez, a
respeito de Velázquez, e eu, mais uma vez, sobre a deliciosa
imbecilidade do desejo. Toda essa conversa! Eu mostrando
Kafka e Velázquez a ela... por que é que a gente faz isso?
Bem, a gente tem de fazer alguma coisa. São os véus da dança.
Não confundir com sedução. Isso não tem nada a ver com
sedução. O que se está disfarçando aqui é o motivo de tudo, o
desejo puro e simples. Os véus ocultam o impulso cego.
Quem fala sobre todos esses assuntos tem a impressão
errônea, tanto quanto ela, de que sabe do que está falando.
Mas não é como uma conversa com o advogado no médico,
em que o que vai ser dito no decorrer da conversa vai alterar
o rumo dos seus atos. Aqui, você sabe o que quer, sabe o que
vai fazer, e nada vai fazê-lo mudar de idéia. Nada do que vai
ser dito aqui vai mudar coisa alguma.
A grande peça que a biologia prega nas pessoas é que a gente
já é íntima antes mesmo de saber coisa alguma a respeito da
outra pessoa. No primeiro momento, já entendemos tudo.
Um é atraído pela superfície do outro no início, mas também
intui a dimensão mais profunda. E a atração não precisa ser
equivalente: ela se sente atraída por uma coisa, você por
outra. É a superfície, é curiosidade, mas então, pum!, a
dimensão profunda. É bom ela ser cubana, é bom a avó dela
ser isso e o avô aquilo, é bom eu saber tocar piano e ter um
manuscrito de Kafka, mas tudo isso não passa de um desvio
no caminho que vamos acabar seguindo. Faz parte do
encantamento, imagino; porém, se essa parte não fosse
necessária, eu gostaria muito mais. Em matéria de
encantamento, o sexo por si só já basta. Será que os homens
acham as mulheres tão encantadoras quando o sexo é
omitido? Será que alguém, qualquer que seja o sexo, acha
alguém encantador se não houver nada de sexual entre eles?
Tem alguém que encanta você sem ser por isso? Não tem.
Ela pensa: estou dizendo a ele quem sou. Ele está interessado
em quem eu sou. Isso é verdade, mas estou curioso a respeito
dela porque quero comê-la. Não preciso que ela se interesse
tanto por Kafka e Velázquez. Enquanto converso com ela,
estou pensando: ainda vou precisar de quanto tempo de
conversa? Três horas? Quatro? Será que vai chegar a oito? O
véu começou há apenas vinte minutos e já estou me
perguntando: afinal, o que é que isso tudo tem a ver com os
peitos dela, a pele dela, o porte dela? A arte francesa do flerte
não me interessa nem um pouco. O que me interessa é o
impulso selvagem. Não, isso não é sedução. É comédia. É a
comédia de criar uma conexão que não é a conexão — que
não chega aos pés da conexão — criada de modo nada
artificial pelo desejo. Isso é a convenção instantânea, que nos
dá algo em comum de imediato, a tentativa de transformar o
desejo em alguma coisa que seja socialmente aceitável. No
entanto, o que faz do desejo, desejo é justamente o que nele
há de radicalmente inaceitável. Não, isso aqui é apenas uma
maneira de traçar a trajetória, não para a frente, mas para
trás, em direção ao impulso elementar. Não confundir o véu
com a transação real. Sem dúvida, pode até surgir uma outra
coisa, mas essa outra coisa não tem nada a ver com sair para
comprar cortinas e edredons, nada a ver com entrar para o
clube da evolução da espécie. A evolução da espécie pode
continuar perfeitamente sem mim. Eu quero comer essa
garota, e vou ter que aturar alguns véus, sim, mas é só um
meio de atingir um fim. Até que ponto isso é uma estratégia?
Agrada-me a idéia de que isso é apenas uma estratégia.
"Vamos ao teatro um dia desses?", perguntei-lhe. "Ah, acho
uma ótima idéia", respondeu Consuela, e eu não sabia na
época se ela estava sozinha ou se tinha namorado, mas não
importava, e dois ou três dias depois — e tudo foi oito anos
atrás, em 1992 — ela me mandou um bilhete dizendo: "Foi
ótimo ser convidada para sua festa, conhecer o seu
apartamento maravilhoso, a sua biblioteca extraordinária, ter
nas mãos um papel com palavras escritas por Franz Kafka. Foi
muita generosidade sua me apresentar a obra de Diego
Velázquez...". Consuela acrescentou seu telefone juntamente
com seu endereço, e assim telefonei para ela e convidei-a
para sair. "Que tal pegar um teatro comigo? Você sabe que
meu trabalho é esse. Tenho que ir ao teatro quase toda
semana, e sempre me dão dois ingressos, e talvez você queira
ir comigo."
Assim, nos encontramos num restaurante, fomos ao teatro,
não foi nem um pouco interessante, eu estava sentado ao lado
dela, olhando para aqueles seios lindos, para aquele corpo
lindo. Ela tem seios tamanho 44, essa duquesa, seios
realmente grandes e bonitos, e uma tez muito branca, o tipo
de pele que, só de olhar, dá vontade de lamber. E no teatro,
no escuro, o poder da imobilidade dela era tremendo. O que
poderia ser mais erótico naquela situação do que a aparente
ausência, na mulher fascinante, de qualquer intenção erótica?
Depois da peça, eu lhe disse que podíamos ir beber em algum
lugar, só que havia um problema. "As pessoas me reconhecem
por causa da televisão, e onde a gente for, seja o Algonquin, o
Carlyle, qualquer lugar, pode ser que alguém venha perturbar
a nossa privacidade." Ela observou: "Já reparei que as pessoas
ficam reparando na gente, no restaurante e no teatro". "Isso
incomodou você?", perguntei. "Não sei se me incomodou. Só
sei que percebi. E fiquei pensando se você se incomodava."
"Não se pode fazer nada", respondi; "faz parte do trabalho."
"Imagino", disse ela, "que ficaram achando que eu era uma
tiete." "Você não tem a menor cara de tiete", garanti. "Mas
aposto que foi isso que eles pensaram. 'Olha lá o David
Kepesh com uma das tietes dele.' Eles devem achar que eu
sou uma garota boba, uma deslumbrada." "E se eles pensassem
isso, mesmo?", perguntei. "Acho que eu não ia gostar muito,
não. Eu queria terminar a faculdade antes de meus pais me
verem na Page Six do Post." "Eu acho que você não vai sair na
Page Six. Isso não vai acontecer." "Eu espero que não
aconteça, sério", disse ela. "Olha, se isso está incomodando
você", propus, "a gente pode resolver o problema indo pro
meu apartamento. A gente pode beber alguma coisa lá." "Está
bem", disse ela, mas só depois de um momento sério,
entregue a pensamentos silenciosos, "acho que é uma idéia
melhor." Não uma boa idéia, apenas uma idéia melhor.
Fomos para o meu apartamento, e ela me pediu que eu
pusesse alguma música. Normalmente eu escolhia música
clássica leve para ela. Trios de Haycln, a Oferenda musical,
movimentos rápidos de sinfonias de Beethoven, adágios de
Brahms. Ela gostava em particular da sétima de Beethoven, e
assim em várias noites sucessivas ela se entregou ao impulso
irresistível de ficar em pé e balançar os braços no ar, de
brincadeira, como se fosse ela e não Bernstein que estivesse
regendo a orquestra. A visão daqueles seios estremecendo sob
a blusa enquanto ela, como uma criança representando, fingia
reger a orquestra com uma batuta invisível era
profundamente excitante, e é bem possível que não houvesse
nada de infantil naquilo, que ela fingisse reger justamente
para me excitar. Porque sem dúvida não demorou para que
ela se desse conta de que não era possível continuar
acreditando, como uma aluna, que era o velho professor
quem estava no comando. Pois no sexo não há um ponto de
equilíbrio absoluto. Não existe igualdade sexual, não pode
haver igualdade sexual, uma igualdade em que as duas partes
sejam iguais, em que o quociente masculino e o quociente
feminino estejam perfeitamente equilibrados. Não há como
negociar de modo medido essa loucura. Não se trata de um
acordo de cinqüenta por cento para um, cinqüenta por cento
para outro, como numa transação comercial. O que está em
jogo aqui é o caos de Eros, a desestabilização radical que é a
excitação erótica. Na hora do sexo, todos nós voltamos para a
selva. Voltamos para o pântano. O que há é um domínio, um
desequilíbrio perpétuo. Você vai excluir o domínio? Você vai
excluir a entrega? O domínio é a pederneira, é ele que produz
a faísca, que dá início a tudo. Depois, o quê? Escute. Você vai
ver. Você vai ver aonde leva o domínio. Você vai ver aonde
leva a entrega.
Às vezes, como naquela noite, eu escolhia para ela um
quinteto de cordas de Dvorálc — uma música eletrizante,
fácil de reconhecer e apreender. Ela gostava que eu tocasse
piano, isso criava uma atmosfera romântica e sedutora que
agradava a ela, e a mim também. Os prelúdios mais fáceis de
Chopin. Schubert, alguns dos Momentos musicais.
Movimentos de algumas das sonatas. Nada de muito difícil,
peças que eu já havia estudado e não tocava muito mal.
Normalmente só toco quando estou sozinho, mesmo agora
que minha técnica melhorou, mas era agradável tocar para
ela. Tudo aquilo fazia parte da embriaguez — para nós dois.
Tocar música é uma coisa engraçada. Algumas coisas agora
estão mais fáceis para mim, porém a maioria das peças tem
um trecho que é sempre difícil, passagens que nunca consegui
resolver durante todos os anos em que estudei piano sozinho,
sem professor. Naquele tempo, quando eu esbarrava num
problema, sempre arranjava uma maneira maluca de resolvê-
lo. Ou de não resolvê-lo — certos saltos, movimentos
complicados de um lado do teclado para o outro, desses que
arrebentam os dedos da gente. Eu ainda não tinha professora
no tempo em que conheci Consuela, então o jeito era apelar
para aquelas improvisações idiotas que eram minhas soluções
para os problemas técnicos. Só tive umas poucas aulas quando
menino e, até arranjar a professora, há cinco anos, eu era
basicamente um autodidata. Uma formação muito precária.
Se tivesse estudado a sério, hoje precisaria gastar menos
tempo estudando. Acordo cedo e fico duas horas, duas horas e
meia quando posso, estudando, ao nascer do dia — mais do
que isso não dá. Se bem que, quando estou trabalhando em
algumas peças em particular, estudo mais um pouco depois.
Estou em forma, mas me canso logo. Tanto mental quanto
fisicamente. Já li uma quantidade enorme de música. Quer
dizer, li no sentido técnico — não é só ler como quem lê um
livro, e sim fazer uma leitura diante do teclado. Comprei uma
quantidade enorme de partituras, tenho tudo em matéria de
literatura para piano, e eu lia muito, e tocava muita coisa,
ainda que mal. Uma em outra passagem, não tão mal assim.
Para ver como é que a peça funcionava. Não chegava a tocar
bem, mas me dava algum prazer. E nosso tema é o prazer.
Como encarar de modo sério, no decorrer de toda uma
existência, os prazeres modestos e íntimos que podemos ter.
As aulas de piano foram um presente que dei a mim mesmo
quando completei sessenta e cinco anos e finalmente
consegui me recuperar da perda de Consuela. E de lá para cá
avancei muito. Hoje toco umas peças bem difíceis. Intermezzi
de Brahms. Schumann. Um prelúdio difícil de Chopin. Eu
encaro um trecho de uma peça bem difícil, ainda não sei
tocar bem, mas continuo trabalhando. Quando digo à minha
professora, irritado: "Não consigo tocar isso direito. Como é
que a gente resolve esse problema?", ela responde: "O jeito é
tocar mil vezes". Como tudo que dá prazer, você entende, a
coisa tem um lado desagradável, mas minha relação com a
música se aprofundou, e agora se tornou essencial para minha
vida. Faz sentido me dedicar a isso agora. Porque as garotas
— por quanto tempo ainda vou poder?
Não posso afirmar que Consuela se excitava tanto ao me ver
tocando piano quanto eu me excitava ao vê-la fingindo reger
Beethoven. Até hoje não posso afirmar com certeza se alguma
coisa que eu fazia excitava Consuela sexualmente. E por esse
motivo, acima de tudo, que desde a primeira vez em que
fomos para a cama, há oito anos, jamais tive um único
momento de paz; é por isso que, tenha ela percebido o fato ou
não, a partir desse momento passei a ser só fraqueza e
preocupação; por isso jamais consegui concluir se a solução
era vê-la com mais freqüência ou com menos freqüência ou
até mesmo parar de procurá-la, abrir mão dela — fazer o
impensável e, aos sessenta e dois anos de idade, abrir mão
voluntariamente de uma garota belíssima, com vinte e quatro
anos de idade, que me dizia centenas de vezes: "Eu te adoro",
mas que nunca, nem mesmo de modo insincero, conseguiu se
obrigar a sussurrar: "Eu te desejo, eu quero você — não posso
viver sem o teu pau".
Consuela não era desse tipo. E no entanto era por isso que o
medo de que ela me trocasse por outro jamais me deixava em
paz, por isso que eu não conseguia parar de pensar nela, por
isso que, estando ela presente ou não, jamais me sentia seguro
em relação a ela. O lado obsessivo desse estado era terrível.
Quando se está sendo iludido, ajuda não pensar demais e
simplesmente gozar o prazer da ilusão. Mas para mim esse
prazer não existia: eu só fazia pensar — pensar, preocupar-
me e sofrer, sim. Concentre-se no prazer, eu dizia a mim
mesmo. Que outro motivo senão o prazer me faz optar por
levar a vida que levo, impondo um mínimo de restrições à
minha independência? Tive o meu casamento, quando estava
na faixa dos vinte fiz aquele primeiro casamento ruim que
tantas pessoas fazem, o primeiro casamento ruim que é tão
ruim quanto o serviço militar, mas depois disso tomei a
decisão de não ter o segundo casamento ruim, nem o terceiro,
nem o quarto. Decidi, depois daquilo, nunca mais voltar para
dentro da gaiola.
Naquela primeira noite, estávamos sentados no sofá ouvindo
Dvorák. A certa altura Consuela encontrou um livro que a
interessou — já não me lembro qual, mas nunca vou me
esquecer daquele momento. Ela virou-se — eu estava sentado
aí onde você está, no canto do sofá, e ela estava ali —, virou o
torso em noventa graus, e com o livro apoiado no braço do
sofá começou a ler, e por estar ela inclinada para a frente, vi
por baixo da roupa suas nádegas, vi a forma nítida, o que era
um convite sensacional. Consuela é uma moça alta, com um
corpo ligeiramente estreito demais. Era como se seu corpo
não lhe servisse exatamente. Não por ser ela gorda demais.
Mas ela está longe de ser o tipo anoréxico. A gente vê carne
feminina, e é carne da boa, abundante — é por isso que você
vê. Pois então lá estava ela, não completamente deitada no
sofá, mas mesmo assim, com as nádegas meio que viradas para
mim. Uma mulher que tem consciência do próprio corpo
como Consuela tem e faz o que ela está fazendo, concluí, está
me convidando a tomar a iniciativa. O instinto sexual
continua intacto — sem nenhuma interferência do senso de
decoro cubano. Naquela bunda semi-virada para mim, vejo
que não há nada me separando da coisa pura. Tudo aquilo de
que falamos, tudo aquilo que tive de ouvir a respeito da
família dela, nada daquilo interferiu. Ela sabe virar a bunda
direitinho, apesar de tudo isso. Da maneira primordial.
Exibindo-se. E a exibição é perfeita. Ela está me dizendo que
não preciso mais conter os impulsos de tocar.
Comecei a acariciar suas nádegas, e ela gostou. Disse: "É uma
situação esquisita. Eu nunca vou poder ser a sua namorada.
Por todos os motivos possíveis. Você vive num mundo
diferente". "Diferente?", perguntei, rindo. "Diferente por
quê?" E nesse momento mesmo, é claro, a gente começa a
mentir, dizendo: "Ah, não é um lugar tão elevado assim, se é
isso que você está imaginando. Não é um mundo tão
glamoroso assim. Nem chega a ser um mundo. Uma vez por
semana eu apareço na televisão. Uma vez por semana eu falo
no rádio. Uma ou duas vezes por mês publico alguma coisa
nas últimas páginas de uma revista lida por vinte pessoas, no
máximo. O meu programa? É um programa cultural que passa
nas manhãs de domingo. Ninguém assiste. Não é um mundo
que dê motivo pra você se preocupar. Eu posso trazer você
para esse mundo com a maior facilidade. Fica comigo, por
favor.
Ela parece estar pensando no que eu disse, mas o que é que
ela pode estar pensando? "Está bem", diz ela, "por ora. Por
hoje. Mas jamais vou poder ser sua esposa." "Concordo", disse
eu, mas pensei: e quem é que estava pedindo a ela que se
casasse comigo? Quem foi que levantou essa possibilidade?
Estou com sessenta e dois anos, ela com vinte e quatro. É só
eu pegar na bunda dela que ela vem me dizer que não pode se
casar comigo? Eu não sabia que ainda existiam garotas assim.
Ela é ainda mais tradicional do que eu imaginava. Ou talvez
mais estranha, mais fora do comum do que eu imaginava.
Como eu viria a descobrir, Consuela é uma garota comum,
mas não é previsível. Não há nada de mecânico em seu
comportamento. Ela é ao mesmo tempo diferente e
misteriosa, e cheia de pequenas surpresas. Mas,
principalmente no começo, era difícil para mim decifrá-la, e
erroneamente — ou talvez não — fiquei achando que isso
tinha a ver com o fato de ela ser cubana. "Eu adoro meu
mundinho cubano", disse Consuela. "Adoro minha família
acolhedora, e já deu para eu perceber que isso é uma coisa
que você não vai gostar, que você não vai querer. De modo
que eu nunca vou poder ser sua, de verdade."
Essa ingenuidade simpática, combinada com aquele corpo
maravilhoso, era tão fascinante para mim que nem mesmo
naquele momento, naquela primeira noite, consegui ter
certeza de que ia conseguir comê-la como se ela fosse mais
uma Miranda sapeca. Não, Consuela não era como a cabra
dentro do relógio. Ela podia dizer qualquer coisa — era tão
estupidamente atraente que eu não apenas não conseguia
resistir a ela como também não era capaz de imaginar que
algum homem conseguisse resistir, e foi naquele momento,
acariciando suas nádegas enquanto ela explicava que não
podia ser minha esposa, que meu terrível ciúme nasceu.
O ciúme. A insegurança. O medo de perdê-la, mesmo quando
eu estava deitado em cima dela. Obsessões que, em toda a
minha experiência tão variada, eu jamais experimentara. Com
Consuela, como jamais ocorrera com ninguém antes dela, no
mesmo instante toda a minha autoconfiança escorreu pelo
ralo abaixo.
Assim, fomos para a cama. Aconteceu depressa, menos por
causa do meu inebriamento do que pela falta de
complexidade dela. Ou melhor: sua clareza. Ou melhor: sua
maturidade recém-adquirida, porém uma maturidade, eu
diria, de caráter simples: ela estava em comunhão com aquele
corpo exatamente como queria estar, tal como não conseguia
estar em comunhão com a arte. Ela se despiu, e não apenas a
blusa era de seda, mas também a roupa de baixo era de seda.
Sua lingerie era quase pornográfica. Uma surpresa. Está claro
que ela a escolheu para agradar. Está claro que ela a escolheu
pensando num homem, mesmo que nenhum homem jamais
viesse a vê- la. Está claro que você não faz a menor idéia do
que ela é, do quanto ela é inteligente ou burra, do quanto é
superficial ou profunda, inocente ou traiçoeira, ou sábia, ou
até mesmo perversa. Com uma mulher controlada como ela,
com tamanho poder sexual, não se pode fazer idéia de nada
disso, jamais. O emaranhado que é o caráter dela fica
obscurecido por sua beleza. Assim mesmo, fiquei muito
comovido ao ver aquela lingerie, ao ver aquele corpo. "Olha
só você", eu disse.
Duas coisas no corpo de Consuela chamam a atenção. Em
primeiro lugar os seios. Os seios mais magníficos que jamais
vi — e olhe que eu nasci em 1930: a esta altura, já vi muitos
seios. Os dela eram redondos, cheios, perfeitos. O tipo de seio
com um mamilo que parece um pires. Não o que parece um
úbere, porém aquele mamilo grande, de um tom claro de rosa
parda- cento, que é tão excitante. A segunda coisa era o fato
de que seus pêlos pubianos eram lisos. Normalmente são
encaracolados. Os dela pareciam cabelo de asiático. Lisos,
estendidos, e parcos. O detalhe dos pêlos pubianos é
importante porque vai reaparecer.
Sim, puxei os lençóis e ela veio para a minha cama, Consuela
Castillo, exemplar superclássico da fêmea fértil de nossa
espécie de mamífero. E já naquela primeira vez, com apenas
vinte e quatro anos, ela estava disposta a sentar-se em cima
de mim. Uma vez lá, ficou um pouco insegura, e até eu lhe
dar um tapinha no braço para chamar sua atenção e fazê-la ir
um pouco mais devagar, ela estava desligada de tudo, com
uma energia excessiva, disparada, com os olhos fechados,
perdida numa brincadeira infantil só dela. Era um pouco
como se estivesse regendo a orquestra de brincadeira. Creio
que estava tentando se entregar por completo, mas era jovem
demais para isso, por mais que se esforçasse, e não foi isso que
acabou fazendo. Porém, sabendo quanto seus seios me
atraíam, e querendo que eu os visse do melhor ângulo,
Consuela montou em mim quando lhe pedi. E fez então uma
coisa um tanto pornográfica para se fazer na primeira vez, e
isso, mais uma vez para minha surpresa, por iniciativa própria
— brincou com os seios em torno do meu pau. Ela debruçou-
se sobre mim e colocou meu pau entre seus peitos, para que
eu o visse aninhado, enquanto ela apertava um seio contra o
outro com a mão. Sabia o quanto aquela visão me excitava, a
pele de um contra a pele do outro. Lembro-me de ter dito:
"Você se dá conta de que tem os seios mais bonitos que eu já
vi em toda a minha vida?". E, como uma secretária eficiente e
perfeita anotando um memorando, ou talvez como uma filha
cubana bem-educada, respondeu: "Eu sei, sim. Percebo como
você se liga nos meus seios".
Mas no começo, de modo geral, quando fazíamos amor o
ritmo era quase sempre excessivo. Ela estava se esforçando
demais para impressionar seu professor. Mais devagar, me
acompanhe, eu dizia. Menos energia, mais compreensão.
Você pode controlar o processo com mais sutileza. Uma
atitude de naturalidade crua tem um lado muito bom, mas
não com esse distanciamento. As primeiras vezes em que me
chupou, Consuela sacudia a cabeça com uma rapidez
implacável, tá-tá-tá — era impossível não gozar muito antes
do que eu pretendia, mas então, no momento em que eu
começava a ejacular, ela parava de repente e recebia o jato
como se fosse um ralo aberto. Era como gozar dentro de uma
cesta de papéis. Ninguém jamais havia dito a ela para não
parar naquela hora. Nenhum dos cinco namorados anteriores
tinha ousado lhe dizer isso. Eram jovens demais. Eram da
idade dela. já estavam mais do que satisfeitos de estar
conseguindo aquilo.
Então aconteceu uma coisa. A mordida. O revide. A mordida
que era o revide da vida. Uma noite Consuela transgrediu os
limites da sua eficiência habitual, tranqüilizadora e bem-
comportada, ultrapassou os limites dos manuais e se
aventurou por território desconhecido, e foi então que a
turbulência daquele caso teve início para mim. A coisa
aconteceu assim. Uma noite, quando ela estava estirada na
cama debaixo de mim, passiva, esperando que eu lhe abrisse
as pernas e a penetrasse, em vez disso coloquei dois
travesseiros atrás de sua cabeça, levantando-a, colocando-a
num determinado ângulo contra a cabeceira, pus um joelho
de cada lado de sua cabeça, ficando minha bunda acima do
centro de seu corpo, inclinei-me sobre o rosto dela e, com um
ritmo implacável, comecei a foder sua boca. E que eu já
estava tão entediado com aquelas felações mecânicas que,
para escandalizá-la, fixei-a naquela posição, fixei-a
segurando-lhe os cabelos, enrascando uma mecha numa das
mãos, em torno do punho, como se fosse uma correia, como
se fossem as rédeas presas a um bridão.
Ora, nenhuma mulher gosta que lhe puxem os cabelos.
Muitas mulheres até ficam excitadas, mas isso não quer dizer
que gostem. E não gostam porque não há como negar que é
um gesto de domínio, um domínio que se impõe e persiste,
que as faz pensar: é exatamente como eu imaginava que o
sexo seria. Uma coisa brutal, sim — esse cara não é um bruto,
mas sabe ser brutal. Depois que gozei, quando me afastei,
Consuela parecia não apenas horrorizada, mas também
enfurecida. Sim, finalmente alguma coisa está acontecendo
com ela. Não é mais tão confortável para ela. Não é mais a
mesma coisa do que fazer escalas no piano. Por dentro, ela
está fervendo, de modo incontrolável. Eu continuava em
cima dela — ajoelhado sobre ela, pingando nela — e
estávamos nos encarando olho no olho, friamente, quando,
depois de engolir com força, ela trincou os dentes. De
repente. Com crueldade. Uma crueldade dirigida a mim. Não
foi um ato. Foi uma reação instintiva. Ela mordeu, usando
toda a força dos músculos mastigatórios para fechar o maxilar
com violência. Era como se estivesse dizendo: eu podia ter
feito isso, era o que eu queria fazer, mas não fiz.
Até que enfim, a reação direta, incisiva, visceral, partindo
daquela beleza clássica e contida! Até então, tudo era
controlado pelo narcisismo, pelo exibicionismo, e apesar da
exibição de energia, apesar da audácia, havia ali algo de
estranhamente inerte. Não sei se Consuela ainda se lembra
daquela mordida, aquela mordida vivificante que a libertou
de sua atitude de auto-vigilância e iniciou-a no sonho
sinistro, mas eu nunca vou me esquecer. A verdade do amor
em sua íntegra. A garota instintiva irrompendo não apenas do
invólucro de sua vaidade, mas também do cativeiro de seu lar
cubano aconchegante. Foi assim que teve início de verdade
seu domínio sobre mim — o domínio em que eu a iniciei
através do meu domínio. Eu sou o responsável pelo domínio
dela sobre mim.
Sabe, acho que em mim Consuela percebeu a existência de
uma versão adquirível do refinamento de sua família, daquele
passado aristocrático irreversivelmente perdido que é mais ou
menos um mito para ela. Um homem do mundo. Uma
autoridade em matéria de cultura. O professor dela. A
maioria das pessoas fica horrorizada com a diferença enorme
de idade, mas é justamente isso que atrai Consuela. A
estranheza erótica é a única coisa que as pessoas em geral
registram, e registram como repugnância, como uma farsa
repugnante. Mas a idade que tenho é da maior importância
para Consuela. Essas garotas que andam com velhos não o
fazem apesar da idade — elas são atraídas pela idade, fazem o
que fazem por causa da idade. Por quê? No caso de Consuela,
porque a enorme diferença de idade lhe dá permissão de
submeter-se, creio eu. Minha idade e meu status lhe dão uma
justificativa racional para entregar-se, e entregar-se na cama
não é uma sensação desagradável. Mas, ao mesmo tempo,
entregar-se de modo íntimo a um homem muito, mas muito
mais velho, dá a esse tipo de garota uma autoridade que ela
não consegue obter numa relação sexual com um homem
mais moço. Ela obtém tanto os prazeres da submissão quanto
os prazeres do domínio. Se um rapaz se submete ao poder
dela, que significado tem isso, sendo ela uma criatura tão
obviamente desejável? Mas fazer com que um homem do
mundo se submeta a ela apenas por causa da força de sua
juventude e sua beleza? Capturar o interesse total, tornar-se a
paixão absorvente de um homem que lhe é inacessível em
todas as outras esferas, penetrar num mundo que ela admira e
que estaria fechado para ela não fosse essa via de acesso —
isso é poder, e é o poder que ela deseja. A troca de domínios
não é feita de modo seqüencial, e sim contínua. E não é bem
uma troca; é mais um entrelaçamento. E aí está a fonte não
apenas da minha obsessão por ela, mas também da contra-
obsessão dela por mim. Pelo menos foi como entendi a coisa
na época, o que pouco me ajudou a compreender o que ela
estava tentando fazer e por que eu estava me envolvendo
cada vez mais.
Por mais que você saiba, por mais que você pense, por mais
que você planeje, projete e conspire, você não é superior ao
sexo. O sexo é um jogo muito arriscado. Um homem não teria
dois terços dos problemas que tem se não se metesse em
aventuras para conseguir foder. É o sexo que perturba nossas
vidas naturalmente ordenadas. Sei disso melhor do que
qualquer um. Todas as vaidades, sem exceção, voltam para
zombar de você. Leia o Don Juan de Byron. Mas o que é que
você faz se você está com sessenta e dois anos e acha que
nunca mais vai conseguir se apossar de uma coisa tão
perfeita? O que é que você faz se você está com sessenta e
dois anos e a vontade de tomar tudo aquilo que ainda pode
ser tomado continua mais forte do que nunca? O que é que
você faz se você está com sessenta e dois anos e se dá conta de
que todos aqueles órgãos até agora invisíveis (rins, pulmões,
veias, artérias, cérebro, intestinos, próstata, coração) estão
começando a se manifestar da maneira mais assustadora, ao
mesmo tempo em que o órgão que protagonizou a maior
parte da sua vida está fadado a murchar, até se tornar
insignificante?
Não me entenda mal. Não estou dizendo que, através de uma
Consuela, você consegue se iludir e ficar achando que tem
uma última oportunidade de ser jovem. Pelo contrário, a
distância que separa você da juventude fica mais evidente do
que nunca. Na energia dela, no seu entusiasmo, sua
ignorância juvenil, sua sapiência juvenil, a diferença é
enfatizada a cada momento. Você nunca tem a menor dúvida
de que quem tem vinte e quatro anos é ela. Só mesmo um
idiota pode achar que voltou a ser jovem. Se você se sentisse
jovem, seria fácil. Mas, longe de se sentir jovem, o que você
sente é o contraste doloroso entre o futuro ilimitado dela e os
limites do seu futuro, você sente mais até do que já costuma
sentir a dor da perda de todos os seus dons que já foram
embora. É como jogar beisebol com um grupo de rapazes de
vinte e poucos anos. Você não se sente jovem por estar
jogando com eles. Você nota a diferença a cada segundo do
jogo. Mas pelo menos você não está sentado, de fora,
assistindo.
O que acontece é o seguinte: você sente da maneira mais
dolorosa o quanto envelheceu, só que de uma maneira nova.
Você pode imaginar o que é a velhice? É claro que não. Eu
não podia. Nunca consegui. Não fazia idéia do que era. Não
tinha nem mesmo uma imagem falsa — não tinha imagem
nenhuma. E ninguém quer outra coisa. Ninguém quer
encarar a velhice antes de ser obrigado a encará-la. Como é
que tudo vai terminar? Em relação a isso, ser obtuso é de
rigueur.
Por motivos óbvios, é impossível imaginar uma etapa de vida
posterior àquela em que estamos. Às vezes já chegamos na
metade da fase seguinte quando nos damos conta de que já
estamos nela. Além disso, as primeiras etapas da velhice têm
lá suas vantagens. Mesmo assim, as intermediárias são
ameaçadoras para muita gente. Mas e a etapa final? Curioso
— é a primeira vez na vida que você consegue ficar
completamente de fora da situação que você está vivendo.
Observar a decadência do próprio corpo de um ponto de vista
externo (para quem tem a sorte que eu tive) permite que a
gente se sinta, graças à vitalidade que continua a ter, a uma
distância razoável dessa decadência — às vezes dá até para
sentir-se orgulhosamente independente dela. Sem dúvida,
vão aumentando cada vez mais os sinais que nos levam a tirar
aquela conclusão desagradável, mas assim mesmo a gente
continua de fora. E a fúria dessa objetividade é brutal.
É importante traçar uma distinção entre o morrer e a morte.
O morrer não é um processo ininterrupto. Se a gente tem
saúde e se sente bem, é um processo invisível. O final que é
uma certeza nem sempre se anuncia de maneira
espalhafatosa. Não, você não consegue entender. A única
coisa que você entende a respeito dos velhos quando você
não é velho é que eles foram marcados pelo tempo. Mas
compreender isso só tem o efeito de fixá-los no tempo deles,
e assim você não compreende nada. Para aqueles que ainda
não são velhos, ser velho significa ter sido. Porém ser velho
significa também que, apesar e além de ter sido, você
continua sendo. Esse ter sido ainda está cheio de vida. Você
continua sendo, e a consciência de continuar sendo é tão
avassaladora quanto a consciência de ter sido. Eis uma
maneira de encarar a velhice: é a época da vida em que a
consciência de que a sua vida está em jogo é apenas um fato
cotidiano. É impossível não saber o fim que o aguarda em
breve. O silêncio em que você vai mergulhar para sempre.
Fora isso, tudo é tal como antes. Fora isso, você continua
sendo imortal enquanto vive.
Até não muito tempo atrás, existia uma maneira pré-
fabricada de ser velho, tal como havia uma maneira pré-
fabricada de ser jovem. Hoje em dia nenhuma das duas
funciona mais. Houve um grande conflito a respeito do que é
permissível — e uma grande revolução. Não obstante, será
que um homem de setenta anos de idade ainda deve
continuar a envolver-se com o aspecto carnal da comédia
humana? Ser desavergonhadamente um velho nada
monástico, ainda suscetível às excitações humanas? Não é
essa condição que outrora era simbolizada pelo cachimbo e a
cadeira de balanço. Talvez ainda seja uma espécie de afronta
para muita gente você não se pautar pelo antigo relógio da
vida. Tenho consciência de que não posso contar com o
respeito virtuoso dos outros adultos. Mas o que é que eu posso
fazer quando constato que, pelo menos no meu caso, nada,
nada se aquieta, por mais que a gente envelheça?
Depois daquela mordida, ela passou a vir à minha casa com a
maior sem-cerimônia. Desde o momento em que percebeu
como era fácil assumir o controle da situação, não se tratava
mais de sair à noite e depois dar uma trepada. Ela me
telefonava e perguntava: "Posso ficar umas horas aí?",
sabendo que eu jamais diria não, sabendo que todas as vezes
ela me faria dizer "olha só você" como se ela própria fosse um
Picasso, era só despir-se e postar-se à minha frente. Eu, seu
professor de Crítica Prática, o esteta dos programas de
domingo na tevê educativa, a maior autoridade da tevê nova-
iorquina em matéria do que há de melhor no momento para
se ver, ouvir e ler — eu a havia elevado à categoria de grande
obra de arte, com toda a influência mágica de uma grande
obra de arte. Não a artista, e sim a própria obra. Não havia
nada que ela pudesse não entender — bastava-lhe estar ali, à
vista, e era só olhar para mim que ela compreendia sua
importância. Não se exigia dela, como não se exige de um
concerto para violino nem da lua, que ela tivesse uma
concepção de si própria. Era aí que eu entrava: eu era a
autoconsciência de Consuela. Eu era o gato olhando para o
peixinho no aquário. Só que quem tinha dentes era o peixe.
O ciúme. Esse veneno. É gratuito. Ciúme até mesmo quando
ela me diz que vai patinar no gelo com o irmão dela de
dezoito anos. Será ele o homem que vai roubá-la de mim?
Nesses amores obsessivos, você deixa de ser a pessoa
autoconfiante de sempre, quando você está no torvelinho da
paixão e quando a garota tem pouco mais de um terço da sua
idade. Eu me sinto ansioso se não telefonar para ela todos os
dias, e assim que ligo para ela fico ansioso. Antigamente,
quando uma mulher exigia de mim que lhe telefonasse o
tempo todo, e não parava de me ligar, eu inevitavelmente me
livrava dela — e agora era eu que exigia que ela ligasse, que
exigia a dose diária via telefone. Por que é que fico
elogiando-a quando falo com ela? Por que não paro de dizer
que ela é perfeita? Por que tenho sempre a sensação de que
estou dizendo a coisa errada para essa garota? Não consigo
imaginar como ela me vê, como ela vê coisa nenhuma, e
minha confusão me faz dizer coisas que me parecem falsas ou
exageradas, por isso ponho o fone no gancho cheio de um
ressentimento mudo voltado para ela. Mas quando, com
muita autodisciplina, consigo passar o dia inteiro, o que é
raro, sem falar com ela, sem ligar para ela, sem elogiá-la, sem
parecer falso, sem ficar ressentido pelo que ela faz comigo
sem saber que o faz, é pior ainda. Não consigo parar de fazer
o que quer que estiver fazendo, e tudo que faço me deixa
contrariado. Com ela, não sinto a autoridade que é necessária
para a minha estabilidade, e, no entanto, o que a atraiu em
mim foi justamente essa autoridade.
Nas noites em que Consuela não está comigo, me deformo de
tanto pensar onde ela pode estar e o que pode estar fazendo.
Mas mesmo depois de passar a noite em sua companhia,
depois que ela vai para casa não consigo dormir. A
experiência de ter estado com ela é forte demais. Fico sentado
na cama, e no meio da noite grito: "Consuela Castillo, me
deixe em paz!". Chega, digo a mim mesmo. Levante-se,
troque as roupas de cama, tome mais um banho, livre-se do
cheiro dela, e depois livre-se dela. É preciso. Sua vida virou
uma campanha incessante por causa dela. Cadê a sensação de
realização, de posse? Se ela é sua, por que é que você não
consegue tê-la? Você não consegue ter o que você quer
mesmo depois de obter o que você quer. Você não consegue
ter paz, é impossível ter paz, por causa da diferença de idade
e o que há de inevitavelmente doloroso nela. Por causa da
diferença de idade, eu tenho o prazer, mas nunca perco o
anseio. Isso nunca aconteceu antes? Não. Nunca tive sessenta
e dois anos. Eu não estava mais naquela fase da minha vida
em que me julgava capaz de fazer tudo. No entanto, ainda me
lembrava bem dessa fase. Você vê uma mulher bonita. Você
vê essa mulher de longe. Você chega-se a ela e pergunta:
"Quem é você?". Você vai jantar com ela. E assim por diante.
Aquela fase, em que você não se preocupa com nada. Você
entra no ônibus. Há uma criatura tão linda que todo mundo
tem medo de se sentar ao lado dela. O lugar ao lado da garota
mais bonita do mundo — está vazio. Então você vai e se senta
ali. Mas agora esse tempo passou, e nunca mais você vai ter
tranqüilidade, vai ter paz. Eu ficava preocupado por ela andar
de um lado para outro com aquela blusa. Ela tira a jaqueta, e
eis a blusa. Tira a blusa, e eis a perfeição. Um rapaz um dia
vai encontrá-la e levá-la embora. Vai levá-la de mim, que
despertei seus sentidos, que lhe dei sua estatura, que fui o
catalisador que tornou possível sua emancipação, que a
preparou para ele.
Como é que sei que um rapaz vai levá-la embora? Porque eu
já fui o rapaz que o teria feito.
Quando eu era mais jovem, não era suscetível. Os outros
ficavam com ciúme mais cedo, mas eu conseguia me proteger
disso. Deixava que a mulher fizesse o que quisesse, confiante
de que eu conseguiria vencer graças ao domínio sexual. Mas o
ciúme, naturalmente, é a armadilha que leva ao contrato. Os
homens reagem ao ciúme dizendo: "Essa não vai ser de
ninguém. Vai ser só minha — vou me casar com ela. Vou
capturá-la dessa maneira. Através das convenções". O
casamento cura o ciúme. É por isso que muitos homens se
casam. Porque não se sentem seguros com aquela outra
pessoa, fazem com que ela assine o contrato: Prometo não
etc.
Como é que posso capturar Consuela? É uma idéia
moralmente humilhante, mas não há como escapar dela. Com
certeza não vou conseguir prendê-la prometendo casamento,
mas de que outra maneira se pode prender uma mulher
jovem com a idade em que estou? O que mais posso oferecer
a ela numa sociedade em que o sexo virou um mercado livre,
que flui como leite e mel? E é assim que começa a
pornografia. A pornografia do ciúme. A pornografia da auto-
destruição. Estou fascinado, estou cativado, no entanto estou
cativado do lado de fora da moldura. Por que é que estou do
lado de fora? Por causa da idade. Da ferida da idade. A
pornografia, em sua forma clássica, funciona por cerca de
cinco ou dez minutos, e depois se transforma em comédia.
Mas nesta pornografia as imagens são extremamente
dolorosas. A pornografia comum é uma estetização do ciúme.
Ela elimina o tormento. Mas "estetização" por quê? Por que
não "anestesia"? Bom, talvez as duas coisas. E uma
representação, a pornografia comum. É uma forma de arte
degradada. Não é apenas faz-de-conta, é uma coisa
abertamente insincera. A gente deseja a garota do filme
pornô, mas não sente ciúme do sujeito que a está comendo
porque ele age como substituto da gente. É extraordinário —
para você ver o poder da arte, mesmo degradada. O tal sujeito
atua como substituto, a nosso serviço; com isso a pontada do
ciúme se transforma numa sensação agradável. Como a gente
é cúmplice invisível do ato, a pornografia comum elimina o
tormento, enquanto a minha não deixa o tormento sair. Na
minha pornografia, você se identifica não com o homem
saciado, o que está transando, e sim com o que não está
transando, o que está perdendo, o que perdeu.
Um rapaz um dia vai encontrá-la e levá-la embora. Eu vejo
esse rapaz. Eu o conheço. Sei do que ele é capaz porque esse
rapaz sou eu com vinte e cinco anos, ainda sem mulher e
filho; eu em estado bruto, antes de fazer o que todo mundo
faz. Eu o vejo olhando para ela, a atravessar a praça ampla —
a dominar a praça — do Lincoln Center. Ele está invisível,
atrás de um pilar, olhando para ela tal como eu a olhei
naquela noite em que a levei para assistir a um concerto de
Beethoven pela primeira vez na vida dela. Consuela está de
botas, botas de couro de cano comprido, e um vestidinho
curto, bem cortado, uma garota arrasadora a céu aberto,
numa noite quente de outono, desavergonhadamente
caminhando pelas ruas do mundo para todo mundo cobiçar e
admirar — e está sorrindo. Está feliz. Essa mulher arrasadora
está vindo encontrar-se comigo. Só que não sou eu no filme
pornográfico. É ele. O ele que antes era eu, mas não é mais.
Vendo esse rapaz vendo essa garota, sei até nos menores
detalhes o que vai acontecer em seguida, e sabendo o que vai
acontecer, imaginando o que vai acontecer, é impossível
pensar em termos daquilo que você encara racionalmente
como o seu interesse próprio. É impossível pensar que nem
todo mundo se sente dessa maneira a respeito dessa garota
porque nem todo mundo está obcecado por essa garota. Na
verdade, você não consegue imaginá-la indo a lugar nenhum.
Não consegue imaginá-la na rua, numa loja, numa festa,
numa praia, sem que aquele sujeito surja das sombras. O
tormento pornográfico: ver alguém transando, e esse alguém
é quem você foi no passado.
Quando você finalmente perde uma garota como Consuela,
isso acontece com você em todos os lugares, todos os lugares
em que você esteve com ela. Quando ela vai embora, é
estranho, você se lembra dela lá, vê aquele espaço vazio sem
você, mas com ela tal como ela estava com você, só que com
o rapaz de vinte e cinco anos que você não é mais. Você a
imagina dominando o ambiente, com aquele vestidinho curto
bem cortado. Vindo em direção a você. Afrodite. Então ela
passa por você e vai embora, e a pornografia escapa do seu
controle.
Indago (mas o que adianta ficar sabendo?) à respeito dos
namorados dela, peço que me diga com quantos ela foi para a
cama antes de me conhecer, e que idade tinha quando
começou, e se já transou com outra garota ou com dois
rapazes ao mesmo tempo (ou com um cavalo, ou um
papagaio, ou um macaco), e foi então que ela me disse que só
havia tido cinco namorados. Por mais atraente, bem vestida e
deliciosa que fosse, ela tinha tido um número relativamente
pequeno de namorados para uma garota de hoje. A influência
repressora de sua família cubana rica e conservadora (isto é,
se ela estiver dizendo a verdade). E o último namorado era
um colega dela, um boboca que nem sabia comê-la direito,
que só se concentrava no seu próprio orgasmo. Aquela velha
história idiota de sempre. Um homem que não era apreciador
de mulheres.
Aliás, a moralidade dela não era coerente. Lembro-me de que
naquela época o poeta George O'Hearn, um homem que foi
casado com a mesma mulher a vida toda, tinha uma
namorada no bairro de Consuela, e ele estava lá, no centro da
cidade, tomando café-da-manhã com a namorada num café, e
Consuela o viu e ficou indignada. Reconheceu-o com base na
foto que aparece na contracapa do livro que ele lançara pouco
antes, que estava na minha mesa-de-cabeceira, e ela sabia que
eu o conhecia. Consuela me visitou naquela noite. "Eu vi o
seu amigo. Ele estava com uma garota às oito da manhã, num
restaurante, e estava beijando ela — ele é casado." Em relação
a tais coisas, ela era capaz de pronunciar todos os lugares-
comuns previsíveis, embora agisse a contrapelo de todas as
convenções ao ter um caso com um homem trinta e oito anos
mais velho do que ela. Isso era inevitável, porque por dentro
se sentia insegura e perdida boa parte do tempo; no entanto,
algo de especial estava acontecendo com ela, uma coisa
grande, imprevista, provisória, que lhe alimentava a vaidade
e a autoconfiança, e que — por mais emocionante que fosse
—, ao que tudo indicava (e ao contrário do que acontecia
comigo), não a estava virando do avesso.
Consuela me disse, durante um dos meus interrogatórios, que
teve um namorado no tempo do colegial que sentia um desejo
fortíssimo de vê-la menstruar. Sempre que ela começava a
menstruar, tinha de telefonar para ele; o namorado vinha
correndo, ela ficava em pé à sua frente e ele ficava vendo o
sangue a lhe escorrer pelas coxas, espalhando-se no chão.
"Você fazia isso pra ele?", perguntei. "Fazia." "E a sua família,
a sua família tradicional? Você tinha quinze anos, não podia
ficar na rua depois das oito mesmo no verão, e ainda assim
você fazia isso? A sua avó era duquesa", insisti, "e não largava
o terço, e, no entanto, você fazia isso?" "Eu não estava mais
com quinze anos. Estava com dezesseis." "Dezesseis. Entendi.
Isso explica tudo. E você fazia isso sempre?" "Sempre que
ficava menstruada. Todo mês", ela respondeu. "Quem era esse
garoto? Você não disse que nenhum garoto podia entrar no
seu quarto? Quem era ele? Quem é ele?"
Um rapaz de boa família. Cubano, também. Carlos Alonso.
Um menino todo certinho, bem-educado, diz ela, que vinha
pegá-la em casa de terno e gravata, nunca buzinava à porta da
casa dela, que entrava e falava com os pais dela, um garoto
discreto, de uma boa família que levava muito à sério sua
situação social. Tal como ocorre na família de Consuela, a
figura do pai é cercada de respeito, todos são muito
instruídos, todos são perfeitamente bilíngües, estudam nas
melhores escolas, freqüentam os melhores clubes, lêem El
Diário e o Bergen Record, adoram Reagan, adoram Bush,
detestam Kennedy, cubanos ricos de Nova Jersey que estão à
direita de Luís xiv, e Carlos telefona para ela e lhe diz: não
menstrue sem mim.
Imagine a cena. Depois da escola, no banheiro de uma casa de
subúrbio no condado de Bergen, os dois absortos no enigma
daquele sangramento como se fossem Adão e Eva. Porque
Carlos também está fascinado. Ele também sabe que ela é
uma obra de arte, aquela mulher entre poucas que é uma obra
de arte, de arte clássica, beleza em sua forma clássica, porém
viva, viva, e qual a reação estética à beleza viva, hein, meus
alunos? Desejo. Sim, Carlos é um espelho para ela. Os
homens sempre foram espelhos para ela. Querem até vê-la
menstruar. Ela é a magia feminina da qual nenhum homem
escapa. Envolta culturalmente em seu passado cubano
decoroso, porém sua vaidade inspira aquelas liberdades. Ela
permite aquelas liberdades porque se olha no espelho e diz:
"Outra pessoa tem que ver isso também".
"Me telefona", disse eu, "quando você for menstruar. Quero
que você venha aqui. Quero ver também."
Também. Para você ver como o ciúme é descarado, como o
desejo é febril — e foi assim que aconteceu uma coisa quase
desastrosa.
Porque ao mesmo tempo, naquele ano, eu estava tendo um
caso com uma mulher muito atraente, muito forte,
responsável, sem nenhuma vulnerabilidade debilitante,
nenhum vício, nenhuma loucura, uma inteligência
penetrante, confiável sob todos os aspectos, despida de
qualquer ironia e incapaz de ser espirituosa, porém uma
amante sensual, eficiente e atenta. Carolyn Lyons. Muitos
anos antes, em meados dos anos 60, ela também fora minha
aluna. Nas décadas seguintes, porém, nós não havíamos nos
procurado, e assim, quando nos encontramos por acaso na
rua, quando Carolyn estava indo para o trabalho, nos
abraçamos, um abraço bem apertado, como se fosse um
evento catastrófico, uma guerra mundial (e não o fato de ela
haver se mudado para a Califórnia para estudar direito), que
nos tivesse separado por vinte e quatro anos. Nós dois ficamos
nos elogiando mutuamente, como estávamos conservados,
relembramos às gargalhadas a loucura de uma noite na minha
sala na faculdade, quando ela tinha dezenove anos, fizemos
inúmeros comentários ternos sobre o passado, e ali mesmo
combinamos jantar juntos no dia seguinte.
Carolyn ainda estava bonita, com traços fortes e radiantes,
embora a pele abaixo dos olhos cinza-claros estivesse fina e
enrugada, menos, creio eu, por culpa da insônia crônica de
que ela sofria do que pelo efeito combinado de todos aqueles
desapontamentos que não são raros nas biografias de
mulheres profissionalmente bem-sucedidas já na faixa dos
quarenta, que na maioria das vezes comem no jantar o que é
entregue à porta de seus apartamentos em Manhasset dentro
de um saco plástico trazido por um imigrante. E seu corpo
agora ocupava mais espaço do que antes. Dois divórcios,
nenhum filho, um emprego exigente, que pagava muito bem
e exigia que ela viajasse ao estrangeiro com freqüência — o
efeito de tudo isso fora o acréscimo de uns quinze quilos ao
seu peso, e assim, quando fomos para a cama, ela sussurrou:
"Eu não sou mais a mesma", levando-me a retrucar: "E você
acha que eu sou?" E nada mais foi dito sobre o assunto.
Quando era aluna de graduação, Carolyn tinha como
companheira de quarto, uma das locomotivas da faculdade,
uma líder carismática dos anos 60, uma espécie de Abbie
Hoffman de saias chamada Janie Wyatt, uma garota de
Manhattan que escreveu para mim uma encantadora
monografia de final de curso intitulada "Cem maneiras de
aprontar na biblioteca". Cito a frase de abertura: "A felação na
biblioteca é a própria essência, a transgressão santificada, a
missa negra no campus". Janie pesava menos de cinqüenta
quilos, tinha um metro e meio de altura, no máximo, uma
lourinha que dava a impressão de que você poderia levantá-la
com facilidade e jogá-la de um lado para o outro, e era a
rainha da sacanagem da universidade.
Naquele tempo, Carolyn tinha uma admiração profunda por
Janie. Carolyn me dizia: "Ela tem tantos casos! Ao mesmo
tempo. Você vai no apartamento de um aluno de pós-
graduação, ou de um instrutor jovem, e encontra as calcinhas
da Janie secando nas torneiras do chuveiro". Se um aluno
tinha vontade de fazer sexo, Carolyn me dizia, se estava
andando pelo campus e de repente tinha vontade de fazer
sexo, ele ligava para Janie. E se ela queria também, lá iam os
dois. Um garoto estava andando e parava de repente, dizendo:
"Acho que vou ligar para a Janie", e aí os dois não apareciam
na aula. Boa parte do corpo docente condenava aquele
comportamento sexual escandaloso, achando que era sinal de
burrice. Até mesmo alguns dos garotos — uma hora diziam
que ela era uma puta, e daí a pouco estavam na cama com ela.
Mas ela não era burra nem era uma puta. Janie era uma
pessoa que sabia o que estava fazendo. Ela se plantava à sua
frente, pequenina daquele jeito, as pernas ligeiramente
afastadas, o rosto bem sardento, cabelo louro curto, de cara
lavada, fora o batom bem vermelho, e um sorriso
escancarado, que confessava: é assim que eu sou, é isso que eu
faço, e se você não gosta, paciência.
Sob que aspecto Janie me deixava mais atônito? Sob muitos
aspectos — bem no início da revolução que ocorreu nas
universidades, havia muitas coisas que a distinguiam como
uma espécie nova e notável de criatura. Ela me deixou
atônito, curiosamente, ao fazer algo que pode não parecer
nada radical hoje em dia, quando as mulheres se tornaram
muito mais livres, algo que talvez não fosse nada em
comparação com sua atitude pública escandalosa e desafiante.
De tudo que ela fez, o que mais me deixou atônito foi
conquistar o homem mais tímido do campus, nosso poeta.
Naquele tempo, as relações amorosas entre professores e
alunos causavam espanto não apenas por constituírem uma
novidade, mas também por ocorrerem abertamente, e elas
causaram muitos divórcios, além do meu. O poeta era um
homem que não possuía os talentos que os outros têm quando
se trata de defender seus interesses no mundo. Todo o seu
egoísmo era canalizado para a linguagem. Ele terminou
morrendo de alcoolismo, relativamente jovem; porém,
sozinho num país permissivo como o nosso, só mesmo a
bebida para acabar com um sujeito como ele. Casado, dois
filhos, extremamente tímido, menos quando estava diante de
sua platéia deslumbrada, falando sobre poesia. Arrancar das
sombras aquele homem era inimaginável. Menos para Janie.
Numa festa. Muitos alunos, de ambos os sexos, queriam se
aproximar dele. As meninas inteligentes eram todas meio
apaixonadas por aquele homem romântico, distanciado da
vida, mas ele parecia não confiar em ninguém. Até que Janie
se aproximou dele na festa, pegou-o pela mão e disse: "Vamos
dançar", e pronto, a partir daí o poeta estava atrelado a ela.
Ao que parecia, ele confiou em Janie logo de saída. A
pequenina Janie Wyatt: somos todos iguais, somos todos
livres, podemos aprontar o que quisermos.
Janie e Carolyn, com mais umas três ou quatro outras
rebeldes de classe alta, formavam um grupo que se intitulava
As Escrachadas. Eu nunca vira nada igual a essas meninas, e
não apenas porque elas se cobriam de andrajos como ciganas
e andavam descalças. Elas detestavam a inocência. Não
suportavam o controle. Não tinham medo de chamar a
atenção, e não tinham medo de ser clandestinas. Rebelar-se
contra sua condição era tudo para elas. Essas garotas e suas
seguidoras talvez tenham formado, em termos históricos, a
primeira onda de moças americanas totalmente
comprometidas com seu próprio desejo. Nada de retórica,
nada de ideologia, apenas o campo de jogo do prazer abrindo-
se para os corajosos. A coragem foi se firmando à medida que
elas se davam conta das possibilidades que tinham a sua
frente, quando entenderam que não estavam mais sendo
controladas, que não estavam mais submissas ao antigo
sistema, nem a qualquer outro — quando perceberam que
podiam fazer o que quisessem.
Foi uma revolução improvisada de início, a revolução dos
anos 60; a vanguarda universitária era minúscula, metade de
um por cento, talvez um e meio por cento, mas isso não
importava, porque a facção vibrante da sociedade logo foi
atrás dela. A cultura é sempre conduzida por sua ponta mais
estreita, e no caso das garotas desse campus a liderança era o
grupo das Escrachadas de Janie, as pioneiras de uma mudança
sexual completamente espontânea. Vinte anos antes, no
tempo em que eu era estudante, os campi eram perfeitamente
administrados. As normas dos dormitórios. A supervisão
inquestionável. A autoridade emanava de uma fonte kafkiana
distante — "a administração" —, e a linguagem da
administração parecia saída de santo Agostinho. A gente
tentava driblar todo esse controle, mas até mais ou menos
1964 praticamente todo mundo que era vigiado respeitava a
lei, eram todos membros honrados daquele grupo que
Hawthorne denominava "os que gostam de limites". Então
ocorreu a explosão contida por tanto tempo, o ataque
irreverente aos padrões de normalidade e ao consenso
cultural do pós-guerra. Tudo que era inadministrável
irrompeu de súbito, e a transformação irreversível da
juventude teve início.
Carolyn jamais obteve a notoriedade de Janie, nem tampouco
a desejou. Participava dos protestos, das provocações, da
insolência divertida, mas com uma autodisciplina bem dela, e
jamais levou sua insubordinação a ponto de pôr em risco seu
futuro. Não me surpreende ver Carolyn tal como é agora, na
meia- idade — totalmente integrada ao mundo empresarial,
conformadamente careta. Escandalizar em nome da causa da
liberdade sexual nunca foi a vocação de Carolyn. Nem isso,
nem a rebeldia absoluta. Mas Janie — permita-me essa
digressão por um momento —, Janie foi à sua maneira uma
espécie de Simón Bolívar para as Consuela Castillo do
mundo. Sim, uma grande líder revolucionária como o sul-
americano Bolívar, cujos exércitos destruíram o poder da
Espanha colonialista — uma rebelde que não tinha medo de
lutar contra forças superiores, a libertadora que enfrentou a
moralidade reinante no campus e terminou por destruir sua
autoridade.
Hoje, a liberdade sexual das moças bem-nascidas que são
minhas alunas é como se fosse, para elas, garantida pela
Declaração de Independência, um direito que não lhes exige
muita coragem para dele se valerem, e que está em perfeita
harmonia com a busca da felicidade tal como foi concebida
pelos fundadores da nação na Filadélfia, em 1776. Na
verdade, a desinibição total de que se aproveitam agora as
Consuela e as Miranda, sem sequer se dar conta do que estão
fazendo, deriva da audácia das desavergonhadas e subversivas
Janie Wyatt dos anos 60, e da vitória extraordinária que elas
conquistaram pela força de um comportamento atroz. A
dimensão grosseira da vida americana que já fora retratada
nos filmes de gângster — foi isso que Janie trouxe para o
campus, porque era essa a intensidade necessária para
derrubar os defensores das normas. Foi assim que elas
enfrentaram o poder — usando a linguagem suja delas, e não
a dos poderosos.
Janie nasceu na cidade, mas foi criada nos subúrbios, em
Long Island, em Manhasset. Sua mãe professora ia trabalhar
todos os dias em Queens, onde a família morava antes de se
mudar para Manhasset, e onde ficava a escola em que ela
ainda lecionava na décima série. O pai ia para o trabalho na
direção oposta, para Great Neck, a três quilômetros de casa,
onde era sócio da firma de advocacia do pai de Carolyn. Foi
assim que as meninas se conheceram. Aquela casa vazia no
subúrbio excita todos os nervos sexuais de Janie. Ela entra na
puberdade no momento em que a música está mudando, e é
por isso que põe o volume no máximo. A esperteza de Janie
foi perceber, quando foi para o subúrbio, a vantagem de
morar lá. Quando menina, na cidade, jamais era livre, jamais
vivia solta como viviam os garotos. Mas lá em Manhasset ela
encontrou sua fronteira. Havia vizinhos, também, mas eles
não ficavam tão próximos quanto na cidade. Janie chegava da
escola e as ruas estavam vazias. Eram como as cidadezinhas
do Velho Oeste. Não havia ninguém por perto. Todos tinham
saído. Assim, enquanto os moradores não voltavam de trem,
ela agitava seu pequeno mundo. Trinta anos depois, uma
Janie Wyatt reaparece em forma degenerada como Amy
Fisher, entregando-se submissa ao mecânico de automóveis
por conta própria; mas Janie era inteligente e era uma
agitadora nata — insubmissa, descarada, uma surfista esperta
deslizando sobre as ondas da transformação social. Os
subúrbios, onde as meninas, longe dos perigos da cidade, não
precisavam ser vigiadas constantemente, onde os pais não
ficavam o tempo todo preocupados, os subúrbios foram a
escola suíça de Janie em território americano. Os subúrbios
criaram o espaço em que floresceu aquela educação a serviço
do proibido. O afrouxamento da vigilância, o espaço cada vez
maior concedido a toda aquela garotada que recebera do dr.
Spock as armas da desobediência — e o florescimento foi
completo. Até que escapou de todo e qualquer controle.
Foi essa transformação o tema da monografia de Janie. Foi
essa a história que ela contou. Os Subúrbios. A Pílula. A
Pílula que pôs a mulher em pé de igualdade com o homem. A
Música. Little Richard agitando tudo. A Batida do Pélvis. O
Carro. A garotada toda junta, rodando no Carro. A
Prosperidade. A Casa Vazia durante o dia. O Divórcio. Os
adultos com a cabeça em outro lugar. A Maconha. As Drogas.
O dr. Spock. Foi tudo isso que resultou na Universidade
Senhor das Moscas, o nome dado pelas Escrachadas à nossa
faculdade. A célula revolucionária de Janie não colocava
bombas em lugar nenhum. Janie não era Bernardine Dohrn
nem Kathy Boudin. Também não se interessava pelas Betty
Friedan do momento. As Escrachadas não tinham nada
contra a discussão social ou política, mas isso era o outro lado
da década. Havia naquela turbulência duas tendências: de um
lado, a ideologia da libertação individual, que garantia ao
indivíduo os direitos orgiásticos em oposição aos interesses
tradicionais da comunidade; por outro lado havia também,
muitas vezes associada à primeira, uma consciência comum a
respeito dos direitos civis e contrária à guerra, a
desobediência cujo prestígio moral vinha de Thoreau. E,
como essas duas correntes se interligavam, era difícil
desacreditar a orgia.
Porém a célula de Janie tinha a ver com prazer, não com
política. E essas células de prazer existiam não apenas no
nosso campus, mas também em todo o país; eram milhares de
rapazes e moças que nem sempre cheiravam muito bem, com
camisetas coloridas tié-dye, entregando-se juntos a atividades
imprudentes. Twist and shout, work it on out — era esse, e
não "A Internacional", o hino desses jovens. Uma música
lasciva, direta, fundo musical para trepadas. Fundo musical
para felações, o bebop do povo. E claro que a música sempre
foi sexualmente útil, dentro das limitações impostas pelo
momento. Até mesmo Glenn Miller, no tempo em que as
canções precisavam passar por um romantismo barato para
chegar ao sexo, lubrificava a situação na medida do possível.
Depois o jovem Sinatra. Depois o saxofone melífluo. Mas que
limitações se impunham às Escrachadas? Elas usavam a
música tal como usavam a maconha, como um combustível,
como o emblema de sua rebelião, uma incitação ao
vandalismo erótico. Na minha adolescência, na época das
bandas de swing, tudo que havia para criar um clima era a
bebida. Já para elas havia todo um arsenal de anti-inibidores
potentíssimos.
Ser professor dessas garotas teve um efeito pedagógico sobre
mim: ver como elas se vestiam, ver como jogavam para o lado
as boas maneiras e punham para fora o que tinham de mais
cru, ouvir a música delas com elas, fumar com elas ouvindo
Janis Joplin, sua Bessie Smith branca, sua Judy Garland
bagunceira e desbocada, ouvir com elas Jimi Hendrix, seu
Charlie Parker da guitarra, ficar desbundado com elas e ouvir
Hendrix tocando guitarra ao contrário, invertendo tudo,
retardando o ritmo, acelerando o ritmo, e Janie cantando seu
mantra lisérgico, "Hendrix e sexo, Hendrix e sexo", e Carolyn
recitando o dela, "Um homem bonito de voz bonita" — ver a
arrogância, o apetite, a excitação daquelas Janie que não
tinham o terror biológico da ereção, que não tinham medo da
transformação fálica do homem.
As Janie Wyatt dos anos 60 sabiam como agir com homens
em estado de ereção. Elas próprias estavam em ereção, e por
isso sabiam como lidar com eles. O impulso aventureiro
masculino, a iniciativa masculina, não era um gesto rebelde a
exigir denúncia e julgamento, e sim um sinal sexual ao qual
se podia reagir positivamente ou não. Controlar o impulso
masculino e acusá-lo? Não era esse o sistema ideológico que
lhes fora instilado. Elas eram lúdicas demais para aceitar a
doutrinação da animosidade e do ressentimento. A educação
delas privilegiara os instintos. Não estavam interessadas em
substituir as velhas inibições, proibições e instruções morais
por novas formas de vigilância, novos sistemas de controle,
um novo conjunto de crenças ortodoxas. Elas sabiam onde
estava o prazer e sabiam se entregar ao desejo sem medo. Sem
medo do impulso agressivo, no meio da tempestade
transformadora — e, pela primeira vez em território
americano, desde que as mulheres peregrinas da colônia de
Plymouth foram enclausuradas por um governo eclesiástico
para protegê-las das corrupções da carne e da pecaminosidade
dos homens, uma geração que tirava conclusões a partir de
suas bocetas a respeito da natureza da experiência e das
delícias do mundo.
O bolívar não é a moeda da Venezuela? Pois bem, quando for
eleita a primeira mulher à presidência dos Estados Unidos, eu
gostaria que o dólar fosse substituído pelo Wyatt. Janie
merece. Ela democratizou o direito ao prazer.
Um parêntese. O posto comercial inglês estabelecido em
Merry Mount que tanto indignava os puritanos de Plymouth
— você já ouviu falar nele? Uma colônia que vivia do
comércio de peles, menor que Plymouth, uns cinqüenta
quilômetros a noroeste de Plymouth. Onde hoje fica Quincy,
Massachusetts. Homens bebendo, vendendo armas aos índios,
fazendo amizade com os índios. Confraternizando com o
inimigo, copulando com as índias, que tradicionalmente
ficavam na posição do cachorrinho para serem possuídas por
detrás. Um antro de paganismo em plena Massachusetts
puritana, onde a Bíblia era a lei. Dançavam em volta de um
mastro usando máscaras de bichos, um culto realizado todos
os meses. Hawthorne escreveu um conto com base nesse
mastro: o governador Endicott manda uma milícia puritana
chefiada por Miles Standish para derrubar o tal mastro, um
pinheiro enfeitado com bandeiras e fitas coloridas, galhadas
de alces e rosas, com mais de vinte metros de altura. "A
alegria e a melancolia disputavam um império" — foi assim
que Hawthorne resumiu a situação.
Durante algum tempo, Merry Mount foi governada por um
especulador, um advogado, um personagem privilegiado e
carismático chamado Thomas Morton. Ele é uma espécie de
criatura silvestre, um personagem saído de Como quiseres,
um demônio selvagem de Sonho de uma noite de verão.
Shakespeare é contemporâneo de Morton; nasceu por volta
de onze anos antes dele. Shakespeare é o rock-'n'-roll de
Morton. Os puritanos de Plymouth o prenderam, depois os
puritanos de Salem o prenderam — puseram-no no
pelourinho, lhe impuseram multas, jogaram-no na prisão. Ele
acabou se exilando no Maine, onde morreu com sessenta e
muitos anos. Mas Morton não resistia à tentação de provocá-
los. Ele exercia um fascínio obsceno sobre os puritanos.
Porque quem não é absolutamente religioso acaba virando
um Morton. Os puritanos tinham pavor de que suas filhas
fossem levadas e corrompidas pelo alegre miscigenador de
Merry Mount. Um branco, um índio branco, atraindo
donzelas? Era mais sinistro ainda do que peles-vermelhas
furtando donzelas. Morton ia transformar as filhas deles em
Escrachadas. Era essa a principal preocupação deles, isso e o
fato de que Morton vendia armas de fogo aos índios. Os
puritanos eram obcecados com a nova geração. Porque, se
eles perdessem a nova geração, aquele experimento inédito
de intolerância ditatorial fracassaria. A velha história
americana: salvar os jovens do sexo. Só que é sempre tarde
demais. Tarde demais, porque eles já nasceram.
Duas vezes Morton foi enviado à Inglaterra para ser julgado
por desobediência, mas a classe dominante inglesa e a Igreja
Anglicana não estavam interessadas nos separatistas da Nova
Inglaterra. Nas duas vezes, o tribunal inglês julgou o processo
improcedente, e Morton voltou para a Nova Inglaterra. Os
ingleses pensavam: Morton tem razão — nós também não
gostaríamos de tê-lo como vizinho, mas ele não está
obrigando ninguém a fazer nada, e esses puritanos de merda
são uns malucos.
No seu livro Of Plymouth Plantation, o governador William
Bradford tem muito a dizer sobre as iniqüidades de Merry'
Mount, aquela "prodigalidade desmedida", aquele "excesso
extravagante". "Eles se entregavam a uma grande
licenciosidade e levavam uma vida dissoluta, chafurdando em
tudo que há de profano." Refere-se aos confederados de
Morton como "bacantes insensatos". Para ele, Morton é "o
Mestre-sala da Anarquia", o mestre de "uma Escola de
Ateísmo". O governador Bradford é um ideólogo poderoso.
No século XVII, a religiosidade sabia escrever direitinho.
Tanto quanto a irreligiosidade. Morton publicou um livro
também, The new English Canaan, baseado nas observações
que fez, fascinado, da sociedade indígena — mas um livro
obsceno, segundo Bradford, porque fala também dos
puritanos: "dão grãs mostras de religião, porém não de
humanidade". Morton é direto. Não suprime nada. Tivemos
que esperar trezentos anos para voltar a ouvir a voz de
Thomas Morton nos Estados Unidos, sem censura, em Henry
Miller. O choque entre Plymouth e Merry Mount, entre
Bradford e Morton, entre ordem e desordem — o prenúncio
colonial da convulsão nacional que viria a explodir trezentos
e trinta e tantos anos depois, quando finalmente nasceu a
América de Morton, com miscigenação e tudo.
Não, os anos 60 não foram uma aberração. Janie Wyatt não
foi uma aberração. Foi uma mortonista natural, no conflito
que vem se desenrolando desde o início. Na imensidão
inculta da América, a ordem há de reinar. Os puritanos eram
os agentes da ordem e da virtude piedosa e da razão certa, e o
outro lado era a desordem. Mas por que ordem e desordem?
Por que Morton não é o grande teólogo da ausência de
regras? Por que Morton não é visto corretamente como o
fundador da liberdade pessoal? Na teocracia puritana, todos
tinham liberdade de fazer o bem; na Merry Mount de
Morton, todos tinham liberdade — e ponto final.
E houve muitos outros Morton. Aventureiros mercantis sem
a ideologia da santidade, gente que pouco se importava se
estava incluída entre os eleitos ou não. Vieram com Bradford
no Mayflower, emigraram depois em outros navios, mas
ninguém os menciona no Dia de Ação de Graças, porque eles
não suportavam aquelas comunidades de santos e crentes em
que nenhum desvio era permitido. Nossos primeiros heróis
americanos foram os opressores de Morton: Endicott,
Bradford, Miles Standish. Merry Mount foi expurgada da
versão oficial por ser a história não de uma utopia de virtude,
e sim de uma utopia de sinceridade. No entanto, era o rosto
de Morton que devia estar esculpido lá no monte Rushmore.
Isso vai acontecer também, no mesmo dia em que o dólar
passar a se chamar Wyatt.
A minha Merry Mount? Eu e os anos 60? Bom, levei a sério a
desordem daquela época relativamente breve, e tomei ao pé
da letra a palavra do momento, libertação. Foi então que me
separei da minha mulher. Para ser exato, ela me pegou em
flagrante com as Escrachadas e me expulsou de casa. Ora,
havia outros professores na minha universidade que usavam
cabelo comprido e roupas psicodélicas, mas para eles aquilo
era só uma espécie de férias. Esse tipo de professor era uma
mistura de voyeur com turista. De vez em quando eles se
aventuravam um pouco mais, mas foram poucos os que
ultrapassaram a trincheira e penetraram no campo de
batalha. Eu, porém, assim que me dei conta do que
significava aquela desordem, decidi extrair do momento uma
justificativa para mim, desfazer os compromissos anteriores e
os atuais e não fazer aquilo como uma atividade secundária,
não me colocar, como faziam muitos da minha idade, acima
ou abaixo dos acontecimentos, ou simplesmente usá-los como
afrodisíaco, mas seguir a lógica da revolução até sua
conclusão, e sem me tornar uma de suas vítimas.
Isso não foi fácil. Só porque não existe nenhum memorial em
homenagem àqueles que pereceram no meio da confusão, não
se deve concluir que não houve fatalidades. Não ocorreu
nenhuma carnificina, mas perdas e danos não faltaram. Não
foi uma revolução toda certinha, transcorrendo de modo
digno no plano da teoria. Foi uma bagunça infantil, absurda,
descontrolada e radical, toda a sociedade envolvida num
tremendo quebra-quebra. Se bem que havia um lado cômico
também. Uma revolução que ao mesmo tempo parecia o dia
que se segue a uma revolução — um grande idílio. As pessoas
tiravam a cueca e andavam por aí rindo. Muitas vezes era
apenas uma farsa, uma farsa pueril, porém uma farsa pueril
com implicações extraordinariamente profundas; em muitos
casos não era nada mais do que uma afirmação de poder
adolescente, a maior e mais poderosa geração do país a entrar
na adolescência, com todos os hormônios a mil, ao mesmo
tempo. O impacto, no entanto, foi revolucionário. As coisas
mudaram para sempre.
O ceticismo, a descrença, o bom senso em questões culturais
e políticas que normalmente nos impede de mergulhar em
movimentos de massa, tudo isso atuava em mim como um escudo
eficiente. Jamais desbundei tanto quanto as outras
pessoas, nem jamais foi essa a minha intenção. Para mim, o
importante era despir a revolução de sua parafernália
imediata, seus aparatos patológicos, suas baboseiras retóricas
e aquela dinamite farmacológica que levava pessoas a se
jogarem das janelas — deixar de lado o que havia de pior e
aproveitar a idéia, dizer a mim mesmo: que grande
oportunidade, que oportunidade de fazer minha própria
revolução! Não há sentido em me conter só porque, por mero
acaso, eu nasci neste ano e não naquele.
Pessoas que tinham quinze, vinte anos menos do que eu, os
beneficiários privilegiados da revolução, podiam se dar ao
luxo de vivê-la de modo inconsciente. Havia uma tremenda
festa rolando, um paraíso imundo de desordem, e sem pensar
nem ter de pensar elas mergulhavam, normalmente
aceitando todas as trivialidades e todo o lixo. Mas eu tinha de
pensar. Eu estava ainda na flor da idade, e o país todo estava
passando por aquele momento extraordinário. Será que posso
fazer parte deste repúdio enlouquecido, bagunçado e
barulhento, desta destruição generalizada do passado
inibidor? Será que consigo dominar a disciplina da liberdade,
e não me entregar à imprudência da liberdade? Como
transformar a liberdade num sistema?
Paguei um preço alto para poder responder a essas perguntas.
Tenho um filho de quarenta e dois anos que me odeia. Não
vamos entrar nesse assunto. A questão é que a turba não veio
abrir a porta da minha prisão. A turba exaltada estava lá, mas
o fato é que eu tive que abrir a porta por conta própria.
Porque também eu era submisso e fundamentalmente
inibido, muito embora, apesar de casado, saísse de casa de
fininho para comer quem eu conseguisse ganhar. Aquela
espécie de libertação dos anos 60 era o que eu tinha em
mente desde o começo, mas no começo, no meu começo, não
havia nenhum apoio comuna! a um projeto como aquele,
nenhuma torrente social que viesse me arrastar no seu
embalo. Só havia obstáculos, entre eles minha própria
natureza domesticada, minhas origens provincianas, todas as
idéias de seriedade que haviam sido incutidas em mim, das
quais eu não podia me livrar sozinho. Toda a trajetória da
minha educação e minha formação tivera o efeito de me fazer
cair na ilusão de que seria possível para mim assumir uma
vida doméstica para a qual eu não tinha nenhuma paciência.
O homem de família, consciencioso, casado, com 1 filho — e
então a revolução tem início. Tudo aquilo explode, e me vejo
cercado de garotas, e o que é que eu devia fazer — continuar
casado, tendo casos adúlteros, pensando: é assim que é, é
dessa maneira tolhida que se deve viver?
Não nasci na floresta, não fui criado por animais selvagens,
não descobri a liberdade de modo natural. Não nasci sabendo
nada disso. Também eu não tinha autoridade suficiente para
fazer às claras o que queria fazer. O homem que está sentado
à sua frente não é mais o homem que se casou em 1956. Para
adquirir uma consciência confiante de minha própria
autonomia, teria sido necessário receber uma orientação que
simplesmente não existia, pelo menos no meu pequeno
mundo; e foi assim que casar e ter um filho me parecia, em
1956, a coisa natural a se fazer, mesmo no meu caso.
No tempo em que eu era menino, nenhum homem tinha
liberdade na esfera sexual. Nela, todo homem era um gatuno.
Um ladrão de sexo. A gente "tirava um sarro". Sexo furtivo. A
gente adulava, implorava, elogiava, insistia — o sexo
implicava uma luta, contra os valores ou até mesmo contra a
vontade da garota. Segundo as regras, o homem tinha que
impor sua vontade a ela. Era assim que ensinavam as garotas a
preservar o espetáculo de sua virtude. A idéia de uma garota
normal se oferecendo, sem exigir um sem-número de
chateações, a quebrar o código e cometer o ato sexual me
teria deixado confuso. Porque ninguém, nem homem nem
mulher, fazia idéia de que existissem direitos sexuais inatos.
Isso era uma idéia inconcebível. Talvez, se ela gostasse de
você, ela topasse lhe bater uma punheta — o que, na prática,
não passava de uma forma de automasturbação com a mão da
garota no meio; mas a idéia de que uma garota toparia fazer
alguma coisa com você sem todo aquele ritual de assédio
psicológico, sem uma exortação que exigisse uma tenacidade
implacável e monomaníaca — bom, isso era simplesmente
impensável. Para conseguir ser chupado, então, sem dúvida
era necessário um esforço sobre-humano. Em quatro anos de
faculdade, só consegui ser chupado uma única vez. Era o
máximo que se podia obter. Numa cidadezinha bem caipira
nos montes Catskill, onde meus pais tinham um pequeno
hotel e onde entrei na adolescência nos anos 40, só se podia
ter uma relação sexual consensual com uma prostituta ou
então com a garota que se namorava desde menino e que
todos imaginavam que fosse acabar se casando com você. E o
preço a pagar era, na maioria das vezes, acabar se casando
com ela, mesmo.
Os meus pais? Eles eram pais. Eu recebi uma educação
sentimental, sim, falando sério. Quando meu pai, instigado
por minha mãe, finalmente resolveu conversar comigo sobre
sexo, eu já estava com dezesseis anos, foi em 1946, e fiquei
enojado ao me dar conta de que ele não sabia o que me dizer,
aquela criatura delicada nascida num cortiço no Lovver East
Side de Manhattan em 1898. Basicamente, o que ele queria
me passar era a típica mensagem de um bom pai judeu
daquela geração: "Você é um pêssego, uma ameixa, você pode
estragar sua vida...". É claro que ele não sabia que eu já estava
com uma doença venérea, que eu pegara da garota vadia da
cidade que dava para todo mundo. Pois eram assim os pais
naquela época remota.
Veja bem, o homem heterossexual que vai se casar é como o
seminarista que vai virar padre: ele faz um voto de castidade,
só que aparentemente só se dá conta disso três, quatro ou
cinco anos depois. A natureza do casamento normal não é
menos sufocante para um heterossexual viril — dadas as
preferências sexuais de um heterossexual viril — do que para
um gay ou uma lésbica. Se bem que agora até mesmo os gays
querem se casar. Casar na igreja. Diante de duzentas,
trezentas testemunhas. Espere só para ver o que vai acontecer
com o desejo que os levou a se tornarem gays. Eu esperava
mais dessa gente, mas pelo visto também eles não têm senso
de realidade. Pensando bem, deve ser por causa da AIDS. A
Queda e a Ascensão da Camisa-de-Vênus: essa é a história
sexual da segunda metade do século XX. A camisinha voltou.
E, junto com ela, tudo aquilo que foi destruído nos anos 60.
Qual é o homem que vai dizer que realmente acha tão bom
transar com camisinha quanto transar sem? Qual é a graça? É
por isso que o aparelho digestivo, na nossa época, passou a
disputar a supremacia como órgão sexual com os outros
orifícios. A necessidade lancinante de uma mucosa. Para se
livrar da camisinha, o jeito é arranjar um parceiro constante,
e por isso eles se casam. Os gays militantes querem se casar e
querem ser aceitos abertamente pelo Exército. As duas
instituições que eu odiava. E pelo mesmo motivo: a
arregimentação.
A última pessoa que levou essas questões a sério foi John
Milton, trezentos e cinqüenta anos atrás. Você já leu os
panfletos dele sobre o divórcio? Na época dele, Milton
ganhou muitos inimigos por causa desses textos. Estão aqui,
no meio dos meus livros, com as margens cheias de anotações
feitas nos anos 60. "Teria nosso Salvador aberto para nós esta
porta perigosa e fortuita do matrimônio para que ela se
fechasse sobre nós como se fora o portão da morte [...]?" Não,
os homens não sabem nada — ou então agem
conscientemente como se não soubessem nada — a respeito
do lado duro e trágico daquilo que estão assumindo. Na
melhor das hipóteses, pensam com estoicismo: é, eu sei que
mais cedo ou mais tarde vou ter que abrir mão do sexo nesse
casamento, mas em troca vou conseguir outras coisas, mais
valiosas. Mas será que eles se dão conta da renúncia que estão
aceitando? Ser casto, viver sem sexo — bom, como é que a
gente vai aceitar as derrotas, as concessões, as frustrações?
Ganhando mais dinheiro, ganhando o máximo de dinheiro
possível? Fazendo tantos filhos quantos for possível? Isso
ajuda, mas não chega aos pés da outra coisa. Porque a outra
coisa se fundamenta na sua existência física, na carne que
nasce e na carne que morre. Porque é só quando você fode
que tudo aquilo de que você não gosta na vida, tudo aquilo
que derrota você na vida, é vingado da maneira mais pura,
ainda que efêmera. É só nesse momento que você está vivo do
modo mais limpo, que você é você mesmo do modo mais
limpo. Não é o sexo que é corrupção — é o resto. Sexo não é
só atrito e diversão superficial. É também a maneira como
nos vingamos da morte. Não se esqueça da morte. Não se
esqueça da morte jamais. É verdade, também o sexo tem um
poder limitado. Eu sei muito bem quais são os limites desse
poder. Mas me diga uma coisa: existe poder maior?
Enfim, voltemos a Carolyn Lyons, quase vinte e cinco anos e
quinze quilos depois. No passado, eu adorava seu tamanho,
mas em pouco tempo aprendi a gostar do tamanho novo, toda
aquela monumentalidade na base sustentando um torso
esguio. Deixei que ela me inspirasse como se eu fosse Gastou
Lachai-se. Seu traseiro largo, suas coxas pesadas me falavam
de tudo que havia de feminino nela, compactado como num
fardo. E quando ela se mexia debaixo de mim, a sutileza de
sua excitação me inspirava outra comparação pastoral: era
como semear um campo que se movesse lentamente.
Carolyn, a flor estudante, eu polinizava; Carolyn, aos
quarenta e cinco anos de idade, era preciso arar. A
disparidade de escala entre a metade superior, sinuosa como
outrora, e a inferior, agora tão substanciosa, repetia uma
tensão fascinante que havia no modo como eu a percebia.
Para mim, ela era um ser híbrido, que combinava a pioneira
inteligente, trêmula, ousada, que levantava a mão a toda hora
em sala de aula, a linda dissidente em traje cigano, a amiga
mais sensata de Janie Wyatt, que sabia todas as respostas em
1965, e a executiva autoconfiante que havia se tornado na
meia-idade, que tinha potencial para dominar qualquer um.
Era de se esperar que, com a passagem do tempo, e à medida
que a paixão tórrida alimentada pelo tabu da relação
professor-aluna cessasse de atiçar os prazeres permitidos do
presente, nossos encontros fossem perdendo seu atrativo
nostálgico. Porém um ano já se passara e isso não havia
acontecido. Graças à facilidade, à tranqüilidade, à confiança
física inerentes à retomada de uma velha parceria, e graças ao
realismo de Carolyn — o senso de proporção que as
indignidades da vida adulta, como era de se esperar, haviam
imposto às expectativas românticas de uma menina de classe
alta muito bem-dotada — eu obtinha recompensas que era
impossível extrair de Consuela, por mais que me refestelasse
em seus seios. Nossas noites harmoniosas e sensatas na cama
— programadas via celular, correndo de um lugar para outro,
para quando Carolyn pousasse no aeroporto Kennedy vindo
de uma de suas viagens de trabalho — eram agora meu único
ponto de contato com a minha autoconfiança pré-Consuela.
Eu nunca precisara tanto da saciedade previsível que Carolyn
me proporcionava, agora que ela fora testada como mulher e
sobrevivera estoicamente. Nós dois obtínhamos exatamente o
que queríamos. Era uma joint venture, nossa parceria sexual,
em que as duas partes lucravam, fortemente marcada pela
eficiência executiva de Carolyn. Prazer e equilíbrio
combinavam-se.
Então veio a noite em que Consuela retirou o tampão e ficou
em pé no meu banheiro, um joelho inclinado em direção ao
outro, sangrando, como o são Sebastião de Mantegna, um fio
de sangue escorrendo pelas coxas enquanto eu olhava. Foi
emocionante? Fiquei deliciado? Mesmerizado? Sem dúvida,
porém senti-me menino outra vez. Eu havia decidido exigir o
máximo dela, e quando ela cedeu, desavergonhadamente,
acabei intimidando a mim mesmo. Tinha a impressão de que
não restava nada a fazer — para não ser totalmente
humilhado por aquela naturalidade exótica dela — senão
ajoelhar-me e lamber suas coxas até deixá-las limpas. O que
ela permitiu que acontecesse sem fazer nenhum comentário.
Infantilizando-me mais ainda. A personalidade absurda de
quem se é. A estupidez de ser você mesmo. A comédia
inevitável de ser alguém. Cada novo excesso me enfraquece
mais ainda — mas o que pode fazer um homem insaciável?
A expressão no rosto dela? Eu estava à seus pés. Eu estava no
chão. Meu rosto estava apertado contra sua carne, como se
fosse um bebê mamando, de modo que não me era possível
ver o rosto dela. Mas é como eu já disse: acho que ela não
estava intimidada. Não havia nenhuma emoção nova e
avassaladora para Consuela enfrentar. Depois que passamos
pelas preliminares e nos tornamos amantes, ela parecia capaz
de assimilar com facilidade tudo aquilo que sua nudez
provocasse em mim. Para ela, não fazia sentido um homem
casado como George O'Heam beijar uma garota inteiramente
vestida num lugar público às oito da manhã — isso era o caos,
para Consuela. Mas aquilo? Aquilo era apenas uma diversão
inédita. Era uma coisa natural, o destino físico que ela
assumia sem nenhum problema. Sem dúvida, a atenção que
lhe dava aquela autoridade cultural que estava de joelhos à
seus pés teria o efeito de fazê-la sentir-se importante.
Consuela passara a vida inteira atraindo rapazes, sendo amada
pela família, adorada pelo pai, de modo que o autocontrole, a
tranqüilidade, uma espécie de equanimidade de estátua, era a
forma que sua teatralidade assumia de modo instintivo. Por
algum motivo, Consuela estava livre daqueles
constrangimentos a que praticamente todo mundo está
sujeito.
Isso foi numa noite de quinta-feira. Na sexta à noite, Carol
veio direto do aeroporto aqui para a minha casa, e na manhã
de sábado eu estava sentado à mesa, já tomando o café-da-
manhã, quando ela entrou na cozinha com passos largos,
vindo do chuveiro, usando o meu roupão, segurando um
tampão ensangüentado semi-envolto em papel higiênico.
Primeiro ela me mostrou o tampão, depois jogou-o em cima
de mim. "Você anda trepando com outras mulheres. Me
conta a verdade", disse Carolyn, "e depois eu vou embora.
Não gosto disso. Já tive dois maridos que trepavam com
outras mulheres. Não gostei, e continuo não gostando. Ainda
mais com você. A gente conseguiu ter essa ligação — e aí
você faz isso. Você tem tudo como você quer — a gente trepa
sem estar num esquema matrimonial e sem envolvimento
romântico — e aí você me faz uma coisa dessas. Não tem
muitas como eu, não, David. Eu me interesso pela mesma
coisa que você. Eu compreendo as coisas. Hedonismo
harmonioso. Eu sou uma só em um milhão, seu idiota —
então como é que é que você me faz uma coisa dessas?" Ela
falava não com aquela raiva de esposa fortalecida por um
direito adquirido, e sim como uma cortesã famosa, amparada
por uma superioridade erótica inquestionável. E estava
coberta de razão: a maioria das pessoas leva para a cama o que
há de pior na sua biografia; ela só levava o melhor. Não,
Carolyn não estava zangada; estava humilhada e arrasada.
Mais uma vez, sua sexualidade abundante havia sido
considerada insuficiente por um homem, esse ser insaciável
em que não se pode confiar. Disse ela: "Eu não vou brigar
com você. Quero que você me diga a verdade e depois você
nunca mais vai me ver".
Tentei permanecer o mais tranqüilo possível, manifestando
apenas uma curiosidade não muito forte, ao perguntar: "Onde
é que você achou isso?". O tampão estava agora na mesa da
cozinha, entre a manteigueira e o bule de chá. "No banheiro.
No lixo." "Pois bem, não sei de quem é nem como foi parar
lá." "Por que você não põe dentro do seu hagel e come?",
sugeriu Carolyn. Limitei-me a dizer: "Eu comeria com o
maior prazer, se isso deixasse você satisfeita. Mas não sei de
quem é. Acho que eu devia primeiro descobrir de quem é
antes de comer'. "Eu não suporto isso, David. Eu fico uma
fera." "Tenho uma idéia.
Uma hipótese. O meu amigo George", expliquei, "tem a chave
do meu apartamento. Ele ganhou o Pulitzer, ele faz leituras
de poesia, dá aula na New School, conhece mulheres, garotas,
ele come todo mundo que aparece na frente dele, e como
naturalmente não pode levar essas garotas para a casa dele,
por causa da mulher e dos filhos, e como encontrar um
quarto de hotel em Nova York às vezes é impossível, e como,
além disso, ele vive duro, e como as mulheres são casadas,
muitas delas, e ele não pode ir pra casa delas" — até agora,
todas as palavras que eu dissera eram verdadeiras —, "ele às
vezes vem com uma mulher pra cá."
Isso não era verdade. Era a mesma mentira durável que me
havia salvado a pele em outras ocasiões, ao longo dos anos,
em que foi descoberto algum objeto incriminativo
pertencente a outra mulher — se bem que nunca antes um
objeto tão primordial —, deixado por negligência ou de
propósito no meu apartamento. A mentira durável do
libertino típico. Nada de que eu possa me orgulhar.
"Quer dizer", disse Carolyn, "que o George trepa com todas
essas mulheres na sua cama." "Não com todas. Com algumas,
sim. Ele usa a cama do quarto de hóspedes. Ele é meu amigo.
O casamento dele não é nenhuma maravilha. Quando vejo a
vida que ele leva, me lembro do tempo em que eu era casado.
O George só se sente puro quando está transgredindo. O lado
obediente dele lhe dá engulhos. Como é que eu posso dizer
não?" "Você é meticuloso demais para entrar numa dessas,
David. Organizado demais. Não acredito em nenhuma
palavra que você está dizendo. Tudo na sua vida é tão
certinho, tudo é tão pensado, bem pesado..." "Mais motivo
ainda pra você acreditar..." "Alguém esteve aqui, David."
"Ninguém", argumentei. "Comigo, não. Eu realmente não sei
de quem é esse tampão." Era uma situação tensa, feroz, mas
mentindo descaradamente consegui sobreviver, e por sorte
ela não me abandonou quando eu mais precisava dela.
Carolyn só foi embora depois, quando eu pedi.
Perdão, tenho que atender o telefone. Preciso atender.
Perdão...
Desculpe a demora. Acabou que não era o telefonema que eu
estava esperando. Desculpe eu deixar você sozinho desse
jeito, mas era o meu filho. Ele me telefonou para dizer que
ainda se sente muito insultado por tudo que eu disse no nosso
último encontro, e para saber se eu tinha recebido a carta
furiosa que ele me mandou.
Sabe, eu já esperava que não ia ser fácil a minha relação com
ele, até imaginava que ele ia começar a me odiar antes mesmo
que eu desse motivo. Eu sabia que cair fora seria difícil, e que
não daria para pular o muro se não estivesse sozinho. Se
tivesse levado meu filho comigo, se isso fosse possível, não
faria sentido, porque ele estava com oito anos e eu não
poderia ter levado a vida que queria levar. Tive que trair meu
filho, e não fui perdoado por isso, e nunca vou ser.
No ano passado ele se tornou adúltero aos quarenta e dois
anos de idade; desde então, deu de aparecer aqui em casa sem
avisar. Onze horas, meia-noite, uma, até duas da madrugada,
ele toca o interfone. "Sou eu. Abre a porta, me deixa entrar!"
Ele briga com a mulher, sai de casa batendo a porta, pega o
carro e, quando dá por si, está aqui. Depois que ele ficou
adulto, a gente passava anos sem se ver; às vezes eram meses
sem nem mesmo trocar um telefonema. Você pode imaginar
a minha surpresa quando ele apareceu aqui à meia-noite pela
primeira vez. O que é que você veio fazer aqui?, eu pergunto.
Ele está numa enrascada. Está em crise. Está sofrendo. Por
quê? Porque arranjou uma namorada. Uma moça de vinte e
seis anos que recentemente começou a trabalhar para ele. Ele
é dono de uma pequena companhia que restaura obras de
arte. Era o que a mãe dele fazia até se aposentar: ela era
restauradora. Ele entrou no campo da mãe depois que
concluiu o doutorado na New York University, começou a
trabalhar com ela, e agora a firma vai muito bem, com
dezoito empregados trabalhando num loft no SoHo. Muito
trabalho para galerias, colecionadores particulares, leiloeiros,
consultores da Sothebys, e por aí vai. Kenny é um homem
grandalhão, bonito, se veste de modo impecável, fala com
muita autoridade, escreve com inteligência, fala francês e
alemão fluentemente — no mundo da arte, sem dúvida
alguma ele causa uma tremenda impressão. Mas em mim,
não. Minhas deficiências estão na raiz do sofrimento dele. É
só ele chegar perto de mim que a ferida que há dentro dele
começa a sangrar. No trabalho, é um sujeito ativo, saudável,
seguro, sem nenhuma deficiência, mas basta eu lhe dirigir a
palavra que tudo que há de forte nele fica paralisado. E basta
eu ficar calado enquanto ele fala para abalar tudo que faz dele
uma pessoa eficiente. Eu sou o pai que ele não consegue
derrotar, o pai na presença de quem seus poderes são
subjugados. Por quê? Talvez por eu ter sido um pai ausente.
Um pai ausente e uma figura apavorante. Ausente e
carregado de significados. Eu traí meu filho. Isso por si só já é
motivo para que não possa haver uma relação tranqüila entre
nós. Não há nada na nossa história pessoal que bloqueie
aquele instinto filial que nos leva a achar que o pai é o
responsável por todas as nossas limitações.
Sou o pai Karamazov de Kenny, a força vil e monstruosa pela
qual ele, um santo de amor, um homem que tem de se
comportar bem o tempo todo, se sente injustiçado, e que lhe
inspira sentimentos parricidas, como se ele fosse todos os
irmãos Karamazov concentrados num só. Os pais
desempenham um papel lendário na cabeça dos filhos, e
descobri que a lenda que me foi atribuída é de caráter
dostoievskiano no final dos anos 70, quando recebi pelo
correio uma cópia de um trabalho que Kenny escreveu
quando estava no segundo ano em Princeton, um trabalho
nota-dez sobre Os irmãos Karamazov. Não foi difícil perceber
que a relevância do livro para ele era uma fantasia exagerada
de sua própria situação. Kenny era um menino
superexcitável, para quem tudo que lia tinha um significado
pessoal que apagava tudo o mais que dizia respeito à
literatura. Nessa época, a única coisa em que ele pensava era
o distanciamento entre nós dois, e o tema de seu trabalho não
poderia ter sido outra coisa que não o pai. Um libertino
depravado. Um velho solitário e libidinoso. Um velho que
andava com meninas. Um grande bufão que transformou sua
casa num harém de mulheres de vida duvidosa. Um pai que,
como você deve se lembrar, abandona o primeiro filho,
ignora todos os filhos, "pois um filho", escreve Dostoievski,
"teria atrapalhado suas orgias". Você não leu Os irmãos
Karamazov? Mas você tem que ler, mesmo que seja só para
ver o retrato divertido daquele pai vergonhoso, perdulário,
mau.
Sempre que Kenny me procurava, em desespero, na
adolescência, era sempre por causa do mesmo problema.
Continua sendo: alguma coisa ameaçou sua auto-imagem de
pessoa absolutamente correta. De uma maneira ou de outra,
eu o estimulava a relativizar essa idéia, temperá-la um pouco,
mas bastava que eu desse a entender tal coisa para ele ter um
acesso de fúria, me dar as costas e correr de volta para a mãe.
Lembro-me de que uma vez lhe perguntei — ele estava com
treze anos, tinha entrado para o secundário e começava a dar
sinal de que já era algo mais que uma criança — se ele queria
passar o verão comigo numa casa que eu havia alugado nos
montes Catskill, não muito longe do hotel de meus pais. Era
uma tarde de maio, e estávamos assistindo a uma partida de
beisebol. Mais um daqueles domingos tensos que passávamos
juntos. Aquele convite desconcertou Kenny de tal modo que
ele foi obrigado a ir correndo até o banheiro do Shea Stadium
para vomitar. Antigamente, no Velho Mundo, os pais
iniciavam os filhos na vida sexual levando-os a um puteiro, e
foi como se eu tivesse proposto isso. Ele vomitou porque, se
passasse o verão comigo, talvez encontrasse uma das minhas
garotas. Talvez duas. Talvez mais. Porque, na cabeça dele, a
minha casa era um puteiro. No entanto, aquele acesso de
vômito significava não apenas que eu lhe dava nojo, mas
também, mais ainda, que aquele nojo lhe dava nojo. Por quê?
Porque ele queria aquilo desesperadamente, porque, até
mesmo tendo um pai que lhe inspira raiva e frustração, os
momentos que ele passa na companhia dele são
importantíssimos, porque ele anseia tremendamente pela
figura do pai. Isso foi no tempo em que ele ainda não havia
cauterizado a ferida se transformando num moralista.
No último ano de faculdade Kenny suspeitou, com razão, que
havia engravidado uma colega. De início, ficou tão alarmado
que não conseguiu contar para a mãe, e por isso me procurou.
Eu lhe garanti que, se de fato a moça estivesse grávida, ele
não teria que se casar com ela. Afinal, não estávamos em
1901. Se a moça estava decidida a ter o filho, como ela já
estava dizendo, então a escolha era dela, não dele. Eu era a
favor do direito de escolha, mas não achava que ela devia
impor a escolha dela a Kenny. Insisti que ele devia dizer à
garota que, aos vinte e um anos de idade, recém-formado, ele
não queria um filho, não podia sustentar um filho, não tinha
nenhuma intenção de se tornar responsável por um filho. Se,
aos vinte e um anos de idade, ela queria assumir aquela
responsabilidade sozinha, era uma decisão que ela teria que
tomar por conta própria. Ofereci a Kenny dinheiro para
pagar o aborto. Disse que eu estava do lado dele, e insisti para
que não cedesse. "Mas e se ela não quiser mudar de idéia?",
ele me perguntou. "E se ela se recusar terminantemente?"
Respondi que, se ela não caísse na realidade, teria de arcar
com as conseqüências. Afirmei que ninguém podia obrigá-lo
a fazer o que ele não queria fazer. Disse-lhe que eu gostaria
que algum homem com autoridade me tivesse dito isso
quando eu estava prestes a cometer aquele exato erro. Insisti:
"Quando a gente vive num país como o nosso, com uma
Constituição e uma Declaração de Independência que dão
tanta ênfase à questão da emancipação, que garantem a
liberdade individual, quando a gente vive num sistema que é
indiferente ao modo como você age desde que você não esteja
infringindo nenhuma lei, quase todo o sofrimento que a
gente acaba tendo é culpa nossa. Seria diferente se você
estivesse vivendo na Europa ocupada pelos nazistas ou na
Europa comunista ou na China de Mao Tsé-tung. Lá eles
fabricam o sofrimento pra você; você não precisa fazer nada
de errado pra não ter vontade de sair da cama de manhã. Mas
aqui, onde não há totalitarismo, um homem como você tem
que se virar pra arranjar um motivo pra sofrer. Você, ainda
por cima, é inteligente, bonito, teve instrução, sabe falar bem
— você foi feito pra dar certo num país como este. O único
tirano que pode pegar você aqui são as convenções, e elas
realmente podem fazer um estrago. Leia Tocqueville, se você
ainda não leu. Ele não está ultrapassado, principalmente
quando fala em 'homens obrigados a passar pela mesma
peneira'. A questão é que você não deve achar que tem de
virar beatnik ou boêmio ou hippie num passe de mágica pra
escapar das garras das convenções. Pra conseguir isso, não é
preciso adotar um comportamento exagerado, nem se vestir
de modo estrambólico, coisas que não combinam com o seu
temperamento e com a educação que você teve. Nada disso. A
única coisa que você precisa fazer, Ken, é encontrar a sua
força. Você tem essa força, eu sei que você tem — ela só está
imobilizada porque você está se vendo numa situação
totalmente nova. Se você quer viver de modo inteligente
imune à chantagem dos slogans e das regras que as pessoas
seguem automaticamente, é só você encontrar a sua
própria..." Et cetera, et cetera. A Declaração de
Independência. A Carta dos Direitos. A Oração de
Gettysburg. A Proclamação de Emancipação. A Décima
Quarta Emenda. Todas as três emendas da Guerra da
Secessão. Eu falei sobre tudo. Peguei o Tocqueville para
mostrar a ele. Pensei: ele está com vinte e um anos,
finalmente podemos conversar. Banquei o Polônio de
Hamlet. O que eu estava dizendo a Kenny, afinal, não era
nada de tão extravagante, pois isso foi em 1979. E também
não teria sido tão extravagante se alguém tivesse tentado
enfiar isso na minha cabeça quando eu precisava ouvir essas
coisas. Uma nação concebida em liberdade — é só uma
questão de senso comum americano. Mas, quando terminei,
sabe o que ele fez? Começou a enumerar para mim as
qualidades da moça. Eu perguntei: "E as suas qualidades?"
Mas ele parecia não me ouvir, ele simplesmente começou a
dizer outra vez como ela era inteligente, como ela era bonita,
e engraçada, e como a família dela era fantástica, e dois meses
depois casou-se com ela.
Conheço todas as objeções que um rapaz puro e moralista é
capaz de levantar contra as afirmações de soberania pessoal.
Conheço todos os rótulos admiráveis que são dados às pessoas
que não afirmam sua soberania. Pois bem, o problema de
Kenny é que ele precisa ser admirável, custe o que custar. Ele
morre de medo de ouvir uma mulher lhe dizer que ele não é
admirável. "Egoísta" é a palavra que mais lhe inspira pavor.
Seu egoísta filho-da-puta. Ele tem pavor de ser acusado disso,
e por isso ele acusa os outros de egoísmo. Pois é, Kenny
sempre age de modo admirável, qualquer que seja a situação,
e foi por esse motivo que quando o filho mais velho dele,
Todd, entrou no colegial e a minha nora disse que eles
precisavam ter mais filhos, ele se tornou pai mais três vezes
nos seis anos seguintes. Justamente quando ele já estava de
saco cheio da mulher. Como Kenny é um sujeito admirável,
ele não pode largar a mulher para ficar com a namorada, não
pode largar a namorada para ficar com a mulher, e,
naturalmente, não pode largar os filhos pequenos. E largar a
mãe dele, Deus nos livre. A única pessoa que Kenny pode
largar sou eu. Mas ele cresceu ouvindo uma lista de queixas a
meu respeito, e assim, depois que me divorciei, nos anos
seguintes, toda vez que eu estava com ele era necessário
defender minha posição — no jardim zoológico, no cinema,
no estádio de beisebol, eu tinha que demonstrar que não sou
o que a mãe dele diz que sou.
Desisti porque sou, sim, o que ela diz. Meu filho é o que sua
mãe fez dele, e quando chegou o momento de Kenny entrar
para a faculdade desisti de ficar disputando alguém em quem
eu causava engulhos. Desisti porque não estava disposto a
afetar aquela carência feminina contra a qual Kenny não tem
defesas. Aquela carência feminina patética da qual meu filho
se tornou totalmente dependente. Durante aqueles anos em
que ele viveu sozinho com a mãe, cultivando esse vício
arcaico — o qual, aliás, no tempo em que a mulher era
dependente, transformava os melhores homens em escravos
—, eu e ele sempre passávamos juntos duas semanas no
verão, no hotelzinho dos meus pais. Para mim, era um alívio,
porque meus pais assumiam o comando. Eles estavam sempre
morrendo de saudade de atividades familiares, e por causa da
nossa história comum eu e Kenny nem tentávamos mais nos
aproximar. Mas depois que os avós morreram, depois que ele
entrou na pós-graduação, já casado, já com um filho... E, no
entanto, ele sempre me telefonava quando nascia mais um
filho. Muito simpático da parte dele, levando-se em conta
seus sentimentos em relação a mim. Sei que perdi, sei disso
há muito tempo, é claro. Mas Kenny perdeu também. As
conseqüências de eu ser quem sou têm efeitos prolongados.
Essas catástrofes familiares são dinásticas.
E, no entanto, de repente, uma vez por mês, uma vez a cada
seis semanas, ele vem me procurar para se esvaziar de tudo
que o está envenenando. Com os olhos cheios de medo, o
coração cheio de raiva, a voz exprimindo cansaço; até mesmo
as roupas elegantes dele já não lhe caem bem. A esposa está
infeliz e zangada por causa da namorada, a namorada se
queixa e se ressente da esposa, e os filhos têm medo e choram
no meio da noite. Quanto ao sexo conjugal, um dever
horrendo que ele cumpre estoicamente, nem mesmo isso
Kenny tem conseguido fazer. Multiplicam-se as discussões, os
problemas intestinais, os panos quentes, as ameaças, as
contra-ameaças. Mas quando pergunto: "Então por que é que
você não vai embora?", ele me diz que, se fosse embora, sua
família seria destruída. Ninguém sobreviveria, todos
entrariam em crise, o sofrimento geral seria demais. Não,
todo mundo tem que continuar grudado em todo mundo.
O que fica implícito é que Kenny é um homem muito mais
honrado do que o pai, que o abandonou aos oito anos de
idade. A vida dele tem um significado que a minha não tem.
Esse é o trunfo dele. E aí que ele domina e é superior a mim.
"Kenny", eu digo, "por que é que você não encara seu pai
finalmente como uma realidade? Você precisa encarar a pica
do seu pai. Essa é a realidade do pai. A gente mente pras
crianças sobre essas coisas. Não se pode ser franco com uma
criança a respeito da pica do pai. Que muitos pais não
conseguem se segurar num casamento — isso é uma coisa que
a gente tem mesmo que esconder dos pequeninos. Mas você
já é homem feito. Você já está sabendo das coisas. Você
conhece todos esses artistas. Conhece todos esses marchands.
Não é possível que não saiba como é que os adultos vivem a
vida deles. Será que isso ainda é o maior escândalo
imaginável?"
A gente só faz trocar acusações, ainda que não da maneira
tradicional. Fora das páginas de Dostoievski, a história
tradicional é justamente o contrário: o pai é a autoridade
repressora, o filho é incorrigível, e o castigo flui de cima para
baixo. No entanto, ele continua vindo aqui, e sempre que ele
toca a campainha eu o deixo entrar. "Quantos anos tem a sua
namorada?", pergunto. "E ela está tendo um caso com um
homem casado que tem quarenta e dois anos, que tem quatro
filhos e que é o patrão dela? Então ela também não é nenhum
modelo de virtude. O único modelo de virtude é você. Você e
a sua mãe." Só você ouvindo Kenny falar sobre essa garota.
Ela é química, mas também é formada em história da arte. E
toca oboé, ainda por cima. Que maravilha, digo a ele. Até
mesmo em matéria de adultério você é melhor do que eu.
Aliás, ele nem usa a palavra "adultério". O adultério dele é
diferente do das outras pessoas. O grau de compromisso é tão
elevado que nem se pode chamar de adultério. E este o meu
problema: eu não me comprometo. Os meus adultérios não
foram sérios o bastante para ele.
Pois bem, nisso ele tem razão. Fiz questão de que eles não
fossem sérios. Mas, para ele, o adultério é uma maneira de
recrutar uma nova esposa. Kenny foi conhecer a família dela.
Era o que ele estava me dizendo agora mesmo, que ele pegou
o avião e foi com a namorada ontem conhecer a família dela.
"Você foi até a Flórida", perguntei a ele, "foi e voltou no
mesmo dia pra conhecer os pais dela? Mas isso é adultério. O
que é que os pais dela têm a ver com isso?" Ele me disse que
no início, no aeroporto, os pais dela foram muito frios, muito
desconfiados, mas quando todo mundo se sentou em volta da
mesa para jantar eles já estavam dizendo que o adoravam.
Como se ele fosse filho deles. Todo mundo adora todo
mundo. Valeu à pena a viagem. "E você conheceu a irmã da
sua namorada e os filhinhos lindos dela?", perguntei.
"Conheceu o irmão dela e os filhinhos lindos dele?" Ah,
Kenny vai trocar esse xilindró de delegacia que é o casamento
atual dele por uma penitenciária federal de segurança
máxima. Mais uma vez, está indo direto para a gaiola. Eu lhe
digo: "Kenny, você quer que eu lhe dê autorização e
aprovação? Pois bem, eu lhe dou de bom grado autorização e
aprovação". Mas isso para ele não basta. Não é o suficiente ele
ter o único pai em todo esse país enorme que aprova o que ele
está fazendo, que é capaz até de ajudá-lo a juntar os trapos
com mais um rabo-de-saia que tem uma família maravilhosa
na Flórida. Além disso, é preciso que eu reconheça a
superioridade dele. "E tem também o oboé", acrescentei. "Não
é incrível? Aposto que nas horas vagas ela escreve poesia.
Aposto que os pais dela escrevem também." Credenciais,
credenciais, credenciais. Tem homem que não consegue
trepar se a mulher não estiver com um chicote na mão, em
cima dele. Tem homem que não consegue trepar se a mulher
não estiver com uniforme de camareira. Uns só conseguem
trepar com anãs, outros só com criminosas, outros só com
cabras. Meu filho só consegue trepar se a mulher tiver as
credenciais morais necessárias. Eu digo a ele: isso é uma tara
como outra qualquer, não é melhor nem pior que as outras.
Você tinha mais era que assumir isso e não ficar se achando
tão especial.
Tome aí. A carta que ele temia que tivesse se extraviado. A
data é a noite da semana passada em que ele me visitou.
Como se nesse último ano que passamos trocando insultos eu
já não tivesse recebido dez outras iguais a essa. "Você é cem
vezes pior do que eu pensava." Isso aí é só o começo. Isso é só
um aperitivo. Depois vem isto. Deixa que eu leio para você.
"Você insiste. É incrível. As coisas que você me disse. Você
tem necessidade de se afirmar o tempo todo, de provar que a
sua opção de vida foi correta e a minha foi um ato de
covardia, um ato grotesco, um erro. Eu venho procurar você
completamente consternado, e você me faz uma agressão
psicológica dessas. Os anos 60 — então tudo que ele é hoje é
porque levou Janis Joplin a sério. Sem Janis Joplin ele não
teria se tornado, aos setenta anos de idade, o velho mais
patético que se pode imaginar. Aquele cabelo branco
comprido, a papada de peru disfarçada pelo foulard —
quando é que o senhor vai começar a passar ruge nas faces,
Herr von Aschenbach? Você faz idéia da cara que tem? Faz
idéia? Toda aquela dedicação às Coisas Elevadas. Defendendo
a causa do belo na TV educativa. Lutando sozinho em defesa
dos padrões culturais numa sociedade de massa. Mas e os
padrões da decência? É claro que você não teve coragem de
permanecer na academia e se tornar um homem sério; você
nunca foi sério, nem por um minuto em toda a sua vida.
Onde estará Janie Wyatt agora? Quantos casamentos
fracassados? Quantas crises nervosas? Em que hospital
psiquiátrico ela estará internada há não sei quantos anos?
Essas garotas que estão na faculdade não deviam se proteger
de você? Você é um argumento vivo em favor da necessidade
de protegê-las. Eu tenho duas filhas, suas netas, e se eu
pensasse que as minhas filhas iam estudar numa faculdade em
que o professor era um homem como meu pai..."
E por aí vai... até que... deixa eu ver... ah, sim, aqui ele é mais
forte. "Meus filhos estão assustados, gritando, porque os pais
deles estão discutindo e o pai deles está tão zangado que vai
embora da casa. Você sabe como eu me sinto ao ver meus
filhos, quando chego em casa à noite? Você sabe o que é
ouvir seus filhos chorando? Mas como você poderia saber? E
eu protegia você. Sim, eu protegia você. Eu tentava não
acreditar que minha mãe tinha razão. Eu defendia você,
brigava por você. Eu tinha que fazer isso, porque você era
meu pai. Na minha cabeça, eu tentava encontrar desculpas
para você, tentava compreendê-lo. Mas os anos 60? Aquela
explosão de infantilidade, aquela regressão coletiva, vulgar e
desmiolada, é isso que explica tudo e desculpa tudo? Será que
você não consegue encontrar um álibi melhor? Será que
seduzir alunas indefesas, colocar os interesses da sua própria
sexualidade à frente de todas as outras pessoas — será que
isso é mesmo necessário? Não, o que é necessário é
permanecer num casamento difícil e criar um filho e
enfrentar as responsabilidades da vida adulta. Todos aqueles
anos, eu pensava que minha mãe estava exagerando. Mas não.
Mal sabia eu, até hoje à noite, o que ela foi obrigada a aturar.
Você a fez sofrer tanto, e para quê? Os fardos que você impôs
a ela — e a mim, ainda menino, a obrigação de ser tudo neste
mundo para minha mãe —, e para quê? Para você poder ser
'livre'? Eu não suporto você. Nunca suportei."
Mês que vem ele volta para dizer que não me suporta. E no
mês seguinte também. E no outro mês também. No final das
contas, não perdi meu filho. O pai dele acabou finalmente se
tornando um recurso valioso. "Sou eu. Abre a porta, me deixa
entrar!" Kenny não consegue ver a situação em que está com
auto-ironia, mas acho que ele compreende mais do que dá a
entender. Então ele não compreende nada? Não é possível.
Burro ele não é. Não é possível que esteja até hoje
traumatizado pela infância sofrida. Ainda está, sim? E, pode
ser. Você provavelmente tem razão. Ele vai ficar fervendo
por causa disso o resto da vida. Mais uma entre tantas ironias:
um homem de quarenta e dois anos de idade, ainda
dependente da existência de um menino de treze, ainda
atormentado por isso. Talvez tudo continue tal como era no
dia daquela partida de beisebol. Ele morre de vontade de
pular fora. Morre de vontade de fugir da mãe, de ficar com o
pai, mas a única coisa que consegue fazer é vomitar as tripas.
Meu caso com Consuela durou pouco mais de um ano e meio.
Só voltamos a sair para jantar fora ou ir ao teatro umas poucas
vezes. Ela tinha medo da imprensa, medo de parar na Page
Six, e por mim tudo bem, porque sempre que eu a via tinha
vontade de comê-la na mesma hora, sem ter que assistir a
uma merda de uma peça antes. "Você sabe como é a
imprensa, sabe o que eles fazem com as pessoas, se eu for lá
com você..." "Tudo bem, não se preocupe", eu concordava,
atencioso, "a gente fica em casa." Ela acabava dormindo aqui,
e tomávamos o café-da-manhã juntos. Nós nos víamos uma
ou duas vezes por semana, mesmo depois do incidente do
tampão, Carolyn jamais ficou sabendo da existência de
Consuela. Ainda assim, eu nunca me sentia tranqüilo com
ela; nunca conseguia parar de pensar nos cinco rapazes com
quem ela havia trepado antes de mim, dois dos quais, depois
fiquei sabendo, eram irmãos — um foi amante dela aos
dezoito anos, o outro quando ela estava com vinte; irmãos
cubanos, filhos de uma família rica do condado de Bergen, os
Villareal, e mais uma causa para sofrimento. Se não fosse a
influência tranqüilizadora de Carolyn e das noites
maravilhosas que passávamos juntos, não sei o que teria sido
de mim.
A agitação de possuir Consuela — que revezava com a
agitação de não possuir Consuela — só terminou quando ela
concluiu o mestrado e deu uma festa em Nova Jersey, na casa
dos pais. É claro que foi bom para nós dois o caso acabar, mas
não estava nos meus planos que acabasse, e depois fiquei
arrasado. Passei quase três anos entrando e saindo da
depressão. Por mais atormentado que eu estivesse com ela,
fiquei cem vezes mais atormentado por tê-la perdido. Foi um
período terrível, que não terminava nunca. George O'Hearn
foi fantástico. Era ele que ficava conversando comigo durante
as muitas noites em que minha depressão estava insuportável.
Além disso, eu tinha o piano, e foi ele que me salvou.
Já comentei que, ao longo dos anos, comprei muitas partituras,
literatura para piano, e assim eu tocava o tempo todo,
quando havia terminado meu trabalho. Toquei todas as trinta
e duas sonatas de Beethoven no decorrer daqueles anos, nota
por nota, para tirar Consuela da minha cabeça. Ninguém
deveria ser obrigado a ouvir uma gravação dessas minhas
interpretações, uma gravação, aliás, que não existe. Algumas
passagens eu tocava no andamento correto, mas a maioria
delas, não, porém eu seguia em frente assim mesmo. Uma
maluquice, mas foi assim. Quem toca música para teclado
tem a sensação de que está reproduzindo o que os
compositores fizeram, de modo que é como entrar na cabeça
deles, até certo ponto. Não na parte mais misteriosa, onde a
música tem origem, mas assim mesmo você não está apenas
absorvendo uma experiência estética de modo passivo. Você,
à sua maneira desajeitada, de algum modo está produzindo
essa experiência, e foi assim que tentei me refugiar da perda
de Consuela. Toquei as sonatas de Mozart. Toquei a música
para piano de Bach. Toquei essas músicas e as conheço bem, o
que não é a mesma coisa que dizer que sei tocá-las bem.
Toquei peças inglesas renascentistas de Byrd e outros
compositores da época. Toquei Purcell. Toquei Scarlatti.
Tenho todas as sonatas de Scarlatti — são quinhentas e
cinqüenta. Não vou dizer que toquei todas, mas toquei uma
boa parte delas. A música para piano de Haydn. Agora eu a
conheço de cor e salteado. Schumann. Schubert. E tudo isso,
veja lá, com um mínimo de formação musical. Mas foi uma
época terrível, uma época estéril, e as opções eram estudar
Beethoven e entrar na cabeça dele ou então ficar dentro da
minha própria cabeça, revivendo todas as cenas de Consuela
de que eu me lembrava — revivendo o pior de tudo, a
temeridade que foi não ir à comemoração do mestrado dela.
Mas, você entende, é que jamais consegui me dar conta de
que ela era uma pessoa comum. Essa garota que tira o tampão
para mim — então ela não quer mais saber de mim só porque
não fui à comemoração do mestrado dela? Uma coisa tão
poderosa terminar assim, sem mais nem menos — isso para
mim é inacreditável. O modo abrupto como tudo termina, eu
fico revivendo isso, pensando que a explicação é que
Consuela não queria que a coisa continuasse. Por quê? Porque
ela não sentia desejo por mim, jamais sentiu, estava só
fazendo uma experiência comigo, só testando o poder de seus
seios. Mas Consuela não estava tendo o que ela queria. E o
que ela queria, quem lhe dava eram os irmãos Villareal.
Claro. Eles estavam todos na festa, reunidos em torno dela,
insistentes, morenos, belos, musculosos, educados, jovens, e
ela se deu conta: o que é que eu estou fazendo com esse
velho? Ou seja, eu tinha razão desde o início — e, portanto,
foi bom tudo ter terminado. Ela foi até onde queria ir. Se eu
tivesse insistido em tocar em frente, só ia conseguir me
torturar ainda mais. A coisa mais inteligente que fiz foi não ir
à festa. Porque eu estava cedendo, cedendo sem me dar conta
do que estava fazendo. O anseio jamais passava, nem mesmo
no tempo em que ela era minha. A emoção básica, como já
disse, era o anseio. Continua sendo anseio. Não há como me
livrar desse anseio, da sensação de que sou sempre um
suplicante. É isso: eu sinto anseio quando estou com ela, e
também quando estou sem ela. Então, quem foi que terminou
o caso? Fui eu, ao não ir à festa, ou ela, aproveitando o fato de
que não fui à festa? Era essa a discussão infinita que não saía
da minha cabeça, e era por isso que, para não ficar o tempo
todo pensando na perda de Consuela — para não ficar
dramatizando de modo falso aquele único acontecimento, a
festa, como a chave de tudo que eu fizera errado —, que
tantas vezes não havia outro jeito senão me levantar no meio
da noite e ficar tocando piano até o dia nascer.
O que aconteceu foi que ela me convidou para ir a Nova
Jersey, para comemorar o mestrado dela, e fui obrigado a
dizer que ia; mas quando estava atravessando a ponte pensei:
os pais dela vão estar lá, os avós, os parentes cubanos, todos os
velhos amigos de infância vão estar lá, aqueles irmãos vão
estar lá, e eu vou ser apresentado a todos como o professor
que aparece naquele programa de televisão. E seria
simplesmente ridículo, depois de um ano e meio, eu ter que
fingir que era apenas um mentor simpático para aquela moça,
principalmente na presença daqueles putos dos Villareal.
Não, eu não tinha mais idade para essas coisas, e por isso
parei na ponte, já chegando a Nova Jersey, e telefonei para
ela, para dizer que meu carro havia pifado e por isso eu não
poderia ir. Uma mentira óbvia — meu carro na época era um
Porsche que ainda não tinha dois anos — e assim, naquela
mesma noite, lá de Nova Jersey, ela me mandou um fax,
usando o aparelho dc fax dos pais dela, uma carta que não foi
a mais explosiva que já recebi na minha vida, mas assim
mesmo eu jamais poderia imaginar Consuela incontrolável
daquele jeito.
O fato, porém, é que jamais consegui imaginar Consuela, de
jeito nenhum. Que outras coisas eu não saberia a respeito
dela por estar cego, cego de tanta obsessão? Ela gritava
comigo na carta: "Você está sempre bancando o velho sábio
que sabe tudo". Gritava: "Vi você hoje mesmo na televisão,
fazendo o papel daquele que sempre sabe tudo, sabe o que é
bom e o que não é bom em matéria de cultura, sabe o que as
pessoas devem ler e o que elas não devem ler, entende tudo
sobre música e arte, e então, para comemorar esse momento
importante da minha vida, eu dou uma festa, quero dar uma
festa maravilhosa, quero que você esteja comigo, você, que é
tudo para mim, e você não vem". E olhe que eu já havia
mandado um presente para ela, e flores também, mas ela
estava furiosa, indignada...
"Doutor Sabe-Tudo, a grande autoridade sobre todos
assuntos, tão arrogante, ensinando a todo mundo o que
pensar e o que fazer! Me dá asco!"
Foi assim que terminou a carta. Nunca antes, nem mesmo de
brincadeira, Consuela havia se dirigido a mim em espanhol.
Uma expressão comum, me dá asco.
Isso tudo foi há seis anos e meio. O mais estranho foi que três
meses depois recebi um cartão-postal dela, vindo de algum
país do Terceiro Mundo com um hotel de cinco estrelas —
Belize, Honduras, um lugar assim —, um cartão-postal
totalmente simpático. Depois, seis meses se passaram e ela me
telefonou. Estava se candidatando a um emprego na área de
publicidade, o tipo de emprego, disse ela, que eu não gostaria
que ela aceitasse, mas será que eu escreveria uma carta de
recomendação para ela assim mesmo? Como ex-professor
dela. Escrevi a carta. Depois recebi um cartão-postal (um nu
de Modigliani, do MOMA), dizendo que ela conseguiu o
emprego e que estava muito feliz. Depois disso, nada. Uma
noite encontrei o nome dela no novo catálogo telefônico de
Manhattan, com o endereço de um apartamento no Upper
East Side, que certamente o pai comprou para ela. Mas voltar
não era uma boa idéia, e resolvi não tentar.
Entre outras coisas, porque George não me deixava. George
O'Hearn, embora fosse quinze anos mais moço do que eu, era
meu confessor e conselheiro para as coisas deste mundo. Foi
meu amigo mais próximo durante o ano e meio em que estive
com Consuela, e foi só depois que tudo terminou que ele me
disse o quanto estava preocupado, o quanto me vigiava à
medida que eu ia abrindo mão de meu realismo, meu
pragmatismo, meu ceticismo, não pensando em outra coisa
que não a possibilidade de perdê-la. Foi ele que não me
deixou responder ao cartão-postal, o que eu estava morrendo
de vontade de fazer, por imaginar que estava sendo
convidado a fazê-lo por aquela cintura fina e cilíndrica,
aquelas cadeiras largas, aquelas coxas delicadamente curvas,
aquele fogo ardente que assinala os pêlos da encruzilhada do
púbis — por aquele nu que é a marca registrada de
Modigliani, aquela garota acessível e longilínea que ele
pintava ritualmente, e que Consuela escolhera para me
enviar, tão impudicamente, pelo correio. Um nu cujos seios,
fartos, caindo um pouco para os lados, poderiam muito bem
ter sido copiados dos dela. Um nu representado de olhos
fechados, protegido, tal como Consuela, apenas por seu
próprio poder erótico, ao mesmo tempo, tal como Consuela,
essencial e elegante. Uma mulher nua de pele dourada,
inexplicavelmente adormecida sobre um abismo negro
veludoso, o qual, no estado de espírito em que me
encontrava, associei ao túmulo. Uma linha longa e ondulada,
lá está ela, deitada, à sua espera, imóvel como a morte.
George não queria nem mesmo que eu escrevesse a carta de
recomendação. "Com essa garota você sempre vai ser
indefeso. Você nunca vai poder dar as cartas. Tem alguma
coisa nela", disse George, "que enlouquece você, que sempre
vai enlouquecer você. Se não cortar essa ligação de uma vez
por todas, essa coisa vai acabar destruindo você. Com ela,
você não está mais satisfazendo uma necessidade natural. Isso
é patologia, na forma mais pura. Olha", disse-me ele, "encare
a coisa como um crítico, do ponto de vista profissional. Você
violou a lei do distanciamento estético. Você sentimentalizou
a experiência estética proporcionada por essa garota — você
personalizou, sentimentalizou a experiência, perdeu o
distanciamento que é essencial pra você poder fruir. Você
sabe quando foi que isso aconteceu? Foi naquela noite em que
ela tirou o tampão. O distanciamento estético necessário
desabou não quando você ficou vendo o sangue escorrer —
até aí tudo bem, tudo ótimo —, mas quando você não
conseguiu se conter e se ajoelhou diante dela. Mas por que
diabo você foi fazer isso? O que é que está por trás dessa
comédia, uma garota cubana pegar um sujeito como você, o
professor do desejo, e fazer você beijar a lona? Beber o sangue
dela? Eu diria que foi aí que você abriu mão de uma posição
crítica independente, Dave. Diz ela: você tem que me adorar,
adorar o mistério da deusa que sangra; e você vai e obedece.
Você topa tudo. Você lambe o sangue. Consome. Digere o
sangue. Ela penetra você. Depois disso, qual vai ser a
próxima, hein, David? Beber a urina dela? Daqui a quanto
tempo você vai estar implorando pelas fezes dela? Não sou
contra isso por não ser higiênico. Nem por ser nojento. Sou
contra porque isso é paixão, é amor. A única obsessão que
todo mundo quer ter: o 'amor'. As pessoas pensam que
quando se apaixonam elas se completam? A união platônica
das almas? Pois eu não concordo. Eu acho que você está
completo antes de se apaixonar. E o efeito do amor é
fracionar você. Antes você está inteiro, depois você racha ao
meio. Ela era um corpo estranho que havia se introduzido na
sua integridade. E que você passou um ano e meio tentando
incorporar. Mas você só vai conseguir ficar inteiro depois que
expelir esse corpo estranho. Ou bem você se livra dele ou
bem você o incorpora, distorcendo a si próprio. E foi isso que
você fez, e foi por isso que você enlouqueceu.
É difícil concordar com essas palavras, e não apenas por causa
das tendências mito-poéticas de George; é simplesmente
difícil atribuir tamanho potencial desastroso a uma pessoa
aparentemente tão pouco intimidadora quanto Consuela, essa
moça de boa família bem criada e protegida. Mas George não
arredava pé. "O compromisso é uma desgraça, é o seu
inimigo. Joseph Conrad: aquele que forma um vínculo está
perdido. E um absurdo você estar aí com a cara que está.
Você já provou. Não basta? A gente só faz mesmo é provar,
de tudo que existe, é ou não é? E só o que a vida nos permite,
é só isso que nós conhecemos da vida. Só uma prova. Mais
nada."
George tinha razão, é claro, e estava apenas repetindo o que
eu já sabia. Aquele que forma um vínculo está mesmo
perdido, o compromisso é mesmo meu inimigo, e assim sendo
recorri ao que Casanova denominava de "o remédio dos
estudantes": a masturbação. Eu me imaginava sentado ao
piano, com ela nua em pé ao meu lado. Uma vez
representamos ao vivo essa exata fantasia, de modo que eu
estava ao mesmo tempo relembrando e imaginando. Eu lhe
pedira que tirasse as roupas e me deixasse ficar olhando para
ela, tocando ao mesmo tempo a sonata em dó menor de
Mozart, e ela fez o que pedi. Não sei se toquei melhor do que
costumava tocar, mas a questão não era essa. Numa outra
fantasia recorrente, eu digo a ela: "Isto aqui é um metrônomo.
A luzinha pisca e ao mesmo tempo faz um barulho periódico.
Só isso. Você ajusta o andamento tal como você quer. Não são
só amadores como eu, mas até mesmo os profissionais, até
mesmo os grandes concertistas, têm o problema de correr
demais". Mais uma vez, imagino Consuela em pé ao lado do
piano, as roupas caídas a seus pés, tal como na noite em que,
inteiramente vestido, toquei a sonata em dó menor, o
movimento lento, uma serenata à nudez dela. (Às vezes ela
me aparecia em sonhos identificada apenas como "K. 457",
como se fosse uma espiã.) "Isto é um metrônomo de quartzo",
explico. "Não é aquela coisa triangular que você talvez já
tenha visto, com um pêndulo, um pêndulo com um peso na
ponta, e uma coluna de números. Os números são os mesmos
que aparecem no pêndulo", e quando ela se aproxima para
examinar o aparelho, os seios dela cobrem minha boca e
abafam por um momento a pedagogia — a pedagogia que é
meu maior poder sobre Consuela. Meu único poder.
"São números padronizados", explico. "Se você ajustar para
sessenta, as batidas vão corresponder aos segundos. Isso
mesmo, como as batidas de um coração. Deixa eu sentir as
batidas do seu coração com a ponta da língua." Ela deixa que
eu faça isso, tal como deixa acontecer tudo que acontece
entre nós — sem comentário, quase sem cumplicidade. Eu
acrescento: "Aliás, antes de inventarem esse aparelho, por
volta de 1812 — quer dizer, aquele antigo —, não havia
números de andamento nas partituras. O que eles diziam nos
tratados gerais sobre andamento era que se devia tomar o
pulso como allegro. Diziam: 'Tome seu pulso e use-o como
andamento'. Deixa eu tomar seu pulso com a cabeça do meu
pau. Senta no meu pau, Consuela, e vamos brincar com o
tempo. Ah, não é um allegro muito rápido, não, não é? Não.
Pois bem, nenhuma peça de Mozart tem números de
andamento, e por quê, por quê? Como você se lembra,
quando Mozart morreu...". Mas neste momento atinjo o
orgasmo, a fantasia pedagógica termina, e pelo menos por um
momento não estou febril de desejo. É Yeats, não é?
"Consome meu coração; febril de desejo / E acorrentado a um
animal agonizante / Já não sabe o que é." Yeats. Isso mesmo.
"Aprisionado pela música sensual", e por aí vai.
Eu tocava Beethoven e me masturbava. Tocava Mozart e me
masturbava. Tocava Haydn, Schumann, Schubert, e me
masturbava com a imagem dela na cabeça. Porque não
conseguia esquecer os peitos, os peitos maduros, os mamilos,
esquecer o jeito dela de cobrir meu pau com os peitos, e me
acariciar assim. Mais um detalhe. Um último detalhe, e
depois eu paro. Esses detalhes estão ficando meio técnicos,
mas este é importante. Era este o detalhe que fazia de
Consuela uma obra-prima de volupté. Ela é uma das poucas
mulheres que já conheci que gozam fazendo a vulva pulsar
para fora, uma coisa involuntária, como se fosse o corpo
macio, íntegro, borbulhante, de um molusco. O que me
pegou de surpresa da primeira vez. Você sente isso, e tem
impressão de que é uma fauna de outro mundo, um ser
marítimo. Aparentada à ostra, ao polvo, à lula, uma criatura
que vive nas profundezas, de milênios atrás. Normalmente
você vê a vagina e pode abri-la com as mãos, mas no caso de
Consuela ela se abria em flor, a boceta emergia de seu
esconderijo ela própria. Os lábios internos são expelidos para
fora, inchados, é muito excitante, aquela forma untuosa,
inchada, é estimulante para o tato e excitante de se ver. O
segredo exposto num êxtase. Schiele daria o braço direito
para poder pintar aquilo. Picasso o transformaria num violão.
Você quase goza só de vê-la gozar. Consuela olhava para o
outro lado quando isso acontecia com ela. Os olhos dela
reviravam, você só via o branco dos olhos, e isso também era
uma visão e tanto. Toda ela era uma visão e tanto. Por mais
que eu sofresse por ciúme, humilhação, insegurança
incessante, eu sempre me orgulhava quando fazia Consuela
gozar. Às vezes você nem se preocupa se a mulher goza ou
não: a coisa simplesmente acontece, a mulher parece fazer o
orgasmo acontecer sozinha, não é responsabilidade do
homem. Com outras mulheres, isso não é tão importante; já
basta a situação em si, a excitação da situação, isso não tem
importância. Mas com Consuela a responsabilidade era
claramente minha, e era sempre, sempre, uma coisa que me
dava orgulho.
Tenho um filho de quarenta e dois anos de idade que é
ridículo — que é ridículo porque é meu filho, preso naquele
casamento porque eu pulei fora do meu, por causa da
importância que isso teve para ele, e porque ele transformou
sua própria vida num protesto contra a minha. O ridículo é o
preço que ele paga por ter se tornado tão Telêmaco quando
ainda era tão pequeno, o heróico defensor da mãe
abandonada. No entanto, durante meus três anos de
depressão intermitente eu fui mil vezes mais ridículo do que
Kenny. O que é que quero dizer com ridículo? O que é
ridículo? É abrir mão da própria liberdade voluntariamente
— essa é a definição do ridículo. Se a sua liberdade é
arrancada à força, nem é preciso dizer que você não é
ridículo, só é ridículo para aquele que arrancou sua liberdade.
Mas todo aquele que dá sua liberdade de graça, que está
morrendo de vontade de dar sua própria liberdade, penetra
no reino do ridículo que traz à mente a peça mais famosa de
Ionesco, e que é uma fonte de comédia em toda a literatura.
A pessoa que é livre pode ser louca, burra, repugnante, infeliz
justamente por ser livre, mas não é ridícula. Ela tem uma
dimensão enquanto ser. Eu já era ridículo quando estava com
Consuela. Mas e nos anos em que fui prisioneiro do
monótono melodrama da perda? Meu filho, cujo desprezo por
mim o transformou num exemplo para mim, decidido a ser
responsável onde eu era relapso, incapaz de se libertar de
qualquer pessoa, principalmente de mim — meu filho pode
até nem querer outra coisa, mas eu ando por aí dizendo para
todos que não caio nessa, e mesmo assim o corpo estranho se
introduz. O ciúme se introduz. O apego se introduz. O eterno
problema do apego. Não, nem mesmo uma foda pode
permanecer totalmente pura e protegida. E é nisso que eu
fracasso. Eu, o grande propagandista da foda, não consigo me
sair melhor do que Kenny. E claro que não existe a espécie de
pureza com que Kenny sonha, mas também não existe a
pureza com que eu sonho. Quando dois cachorros trepam,
parece haver pureza. Eis ali, pensamos, uma foda pura, entre
animais. Mas, se pudéssemos conversar com eles,
provavelmente iríamos acabar constatando que até mesmo
entre os cães existem, em forma canina, essas distorções
malucas do anseio, do enrabichamento, da possessividade, até
mesmo do amor.
Essa necessidade. Essa confusão. Será que não pára nunca?
Depois de algum tempo, eu já nem sei mais qual é o objeto
desse anseio desesperado. Os peitos dela? A alma? A
juventude? A simplicidade mental dela? Talvez seja algo pior
do que isso — talvez agora, que estou chegando perto da
morte, eu esteja secretamente ansiando por não ser livre.
O tempo passa. O tempo passa. Tenho outras namoradas.
Namoradas que são alunas. Antigas namoradas que aparecem,
vinte, trinta anos depois. Algumas já passaram por vários
divórcios, e algumas se dedicaram tanto a suas carreiras que
nem tiveram oportunidade de se casar. As que ainda estão
sozinhas me telefonam para se queixar dos encontros
marcados com desconhecidos. Elas odeiam esses encontros,
acham os relacionamentos impossíveis, o sexo um risco de
vida. Os homens são narcisistas, desprovidos de senso de
humor, malucos, obsessivos, prepotentes, grosseiros, ou então
são lindos, viris e implacavelmente infiéis, ou então são
indefesos, ou são impotentes, ou são apenas burríssimos. As
que estão na faixa dos vinte não têm esses problemas porque
ainda recorrem às amizades do tempo da faculdade, pois a
escola, é claro, é o maior fator de socialização, mas as
mulheres um pouco mais velhas, quando chegam aos trinta e
tantos anos, estão tão ocupadas com o trabalho que muitas
delas, segundo me dizem, apelam para casamenteiros
profissionais na tentativa de encontrar um homem. E a uma
certa idade param de conhecer pessoas novas. Disse-me uma
das desiludidas: "Quem são essas pessoas novas quando a
gente finalmente conhece uma delas? São as mesmas pessoas
antigas com máscaras. Elas não têm nada de novo. São
pessoas".
Os casamenteiros cobram por um ano de filiação, e garantem
um certo número de encontros durante esse período. Alguns
cobram duzentos dólares, outros cobram dois mil dólares, e
falaram-me de um em particular, especializado em "pessoas
de qualidade", que promove encontros — até vinte e cinco
num período de dois anos — por nada menos do que vinte e
um mil dólares. Achei que tinha entendido mal quando me
disseram isso, mas não, o preço é mesmo vinte e um mil
dólares. É muito duro para uma mulher ter que se submeter a
uma transação como essa na tentativa de encontrar um
homem para se casar com ela e lhe dar filhos; não admira que
elas apareçam tarde da noite no apartamento de seu velho ex-
professor e às vezes, de tão solitárias que estão, passem a noite
com ele. Recentemente uma delas esteve aqui tentando se
recuperar do trauma de ter sido abandonada no meio de uma
refeição no primeiro encontro com um homem que, segundo
ela, era "um tipo chegado a férias de alto risco, um
superaventureiro desses que caçam leões e praticam surfe
radical". "A barra está pesada, David", comentou ela. "O
problema não são os encontros, é tentar arrumar um
encontro. Aceitei estoicamente o casamenteiro", acrescentou,
"mas nem isso dá certo."
Elena, a bondosa Elena Hrabovsky, que ficou grisalha
prematuramente, talvez por culpa desses encontros
arranjados. Disse-lhe eu: "Deve ser uma coisa muito tensa, os
homens desconhecidos, os silêncios, até mesmo a conversa", e
ela me perguntou: "Você acha que tem sentido uma pessoa
bem-sucedida como eu passar por uma coisa dessas?". Elena é
oftalmologista, uma mulher que veio de baixo, que emergiu
da classe operária graças a um esforço sobre-humano. "A vida
passa cada rasteira na gente", disse-me ela, "que você acaba
ficando sempre na defensiva, até que um dia você diz: ah,
chega. É uma pena, mas você não tem mais gás. Alguns desses
homens são mais atraentes do que a média. Instruídos. A
maioria ganha bem. E eu nunca sinto atração por esse tipo de
homem", diz ela. "Por que será que eu acho esses caras tão
chatos? Talvez porque eu seja uma chata", disse ela. "Eles vêm
me pegar de BMW. Com música clássica tocando. Me levam
nuns restaurantezinhos muito legais, e eu fico o tempo todo
pensando: Ah, meu Deus, por favor, me leve logo pra casa. Eu
quero filhos, eu quero família, eu quero um lar", disse Elena,
"mas embora eu tenha resistência física e emocional pra
passar seis, sete, oito horas em pé na sala de operação, eu não
agüento mais essa humilhação. Tem uns que ficam bem
impressionados comigo, pelo menos isso." "E têm mais é que
ficar, mesmo. Você é uma especialista em retinas. Você é
cirurgiã oftalmologista. Graças a você, as pessoas não ficam
cegas." "Eu sei. Estou falando de rejeição clara", disse ela.
"Isso eu não tenho estrutura pra agüentar." "Ninguém tem",
disse eu, mas meu argumento não adiantou muito. "Eu já
tentei e tentei", prosseguiu ela, quase chorando, "não é,
David? Dezenove encontros?" "Meu Deus", concordei, "sem
dúvida você tentou."
Naquela noite Elena me deu muito trabalho. Ficou até o dia
nascer, quando saiu afobada para se aprontar lá mesmo no
hospital. Nem eu nem ela conseguimos dormir quase nada,
porque fiquei o tempo todo lhe passando um sermão sobre a
necessidade de desistir da idéia de formar um casal, enquanto
ela ficou o tempo todo escutando, tal como a aluna aplicada e
séria que era quando a conheci, tomando nota de tudo que eu
dizia em sala de aula. Mas se a ajudei ou não, não sei. Elena é
inteligente, competentíssima, mas para ela o desejo de ter um
filho é instintivo. É, isso, a idéia desencadeia o instinto da
propagação, e isso é que é o patético da história. Mas
continua sendo instintivo: sem pensar, você dá o próximo
passo. Uma coisa tão primitiva, numa pessoa tão sofisticada.
Mas foi assim que ela concebeu a vida adulta há muitos,
muitos anos, muito antes de se tornar adulta, muito antes de
se apaixonar a sério pelas doenças da retina.
O que mais eu disse a ela? Por que você pergunta? Você
também está precisando ouvir meu sermão sobre a
infantilidade do desejo de formar um casal? É claro que é uma
infantilidade. A vida em família é infantil, hoje mais do que
nunca, quando o ethos é criado acima de tudo pelas crianças.
É pior ainda quando não há filhos. Porque aí o adulto infantil
substitui a criança. A vida em casal e a vida em família
ressaltam o lado infantil de todas as pessoas envolvidas. Por
que é que eles têm de dormir noite após noite na mesma
cama? Por que é que precisam telefonar um para o outro
cinco vezes por dia? Por que é que têm que estar sempre um
com o outro? Aquela deferência forçada certamente é uma
coisa infantil. Aquela deferência antinatural. Numa dessas
revistas, li outro dia um artigo sobre um casal famoso, ligado
à mídia, eles estão casados há trinta e quatro anos, como era
maravilhoso eles terem aprendido a suportar um ao outro.
Orgulhoso, o marido disse ao repórter: "Eu e minha mulher
costumamos dizer que o sinal de um bom casamento é ter a
língua cheia de marcas de dentes". Quando estou com pessoas
assim, me pergunto: por que é que elas estão se punindo?
Trinta e quatro anos. É admirável o grau de rigor masoquista
dessas pessoas.
Tenho um amigo em Austin, um escritor de muito sucesso.
Casou-se jovem em meados dos anos 50, depois se divorciou
no início dos anos 70. Casou-se com uma mulher decente,
com quem teve três filhos decentes — e resolveu pular fora.
E não saiu num momento de histeria ou de insensatez, não.
Foi uma questão de direitos humanos. Liberdade ou morte.
Pois bem, depois do divórcio foi morar sozinho, e em
liberdade ficou extremamente infeliz. Assim, logo em seguida
se casou de novo, dessa vez com uma mulher com quem não
planejava ter filhos, uma mulher que já tinha um filho na
faculdade. Uma vida matrimonial sem filhos. Pois bem, o
sexo acabou, naturalmente, dois anos depois, e, no entanto,
esse homem tinha sido um adúltero contumaz durante todo o
primeiro casamento, e escrevia muito sobre sexo. Sozinho ele
poderia começar a aproveitar abertamente tudo aquilo que
era obrigado a fazer escondido no tempo em que era casado.
E, no entanto, quando se vê livre das amarras matrimoniais,
ele na mesma hora se sente infeliz e acha que vai ficar infeliz
pelo resto da vida. Está livre, em pleno gozo de sua liberdade,
e não faz idéia de onde está. A única coisa que consegue fazer
é voltar ao estado que antes lhe parecia insuportável, muito
embora agora não esteja mais sob o efeito do imperativo
lógico de querer se casar para ter filhos, formar uma família,
et cetera e tal. A delícia da clandestinidade? Não é de se
desprezar. O melhor que se pode dizer do casamento é que
ele é um estimulante infalível para as emoções dos
subterfúgios sensuais. Mas meu amigo tinha necessidade de
uma coisa mais básica para a sua segurança do que o drama
cotidiano do adúltero, que é ter de atravessar um rio de
mentiras. Não foi para recuperar esse prazer que ele voltou a
se casar, muito embora tenha retomado os prazeres antigos
logo que voltou à condição de marido. O problema, em parte,
é que a condição do homem emancipado nunca teve um
porta-voz social nem um sistema educativo. É uma condição
que não tem status social porque as pessoas não querem que
tenha. No entanto, as circunstâncias desse sujeito tinham
tudo para que ele levasse suas prerrogativas até as últimas
conseqüências, mesmo que fosse só por uma questão de
dignidade. Mas ceder, ceder, ceder? Conciliar, conciliar,
conciliar? Sonhando pular fora todo dia? Não, isso não é uma
maneira digna de ser homem. Nem — disse eu a Elena — de
ser mulher.
Se consegui convencê-la? Não sei. Acho que não. E você, eu
convenci? Mas por quê, por que você está rindo? Qual é a
graça? Meu didatismo? Vá lá: todo mundo tem um lado
ridículo. Mas o que é que eu posso fazer? Eu sou crítico, sou
professor — o didatismo é o meu destino. Argumentos e
contra-argumentos — é assim que se faz a história. Ou bem
você impõe suas idéias ou bem aceita as idéias que lhe são
impostas. Queira ou não queira, o dilema é esse. Sempre
existem forças em oposição, e assim, a menos que você goste
muito de se subordinar, está sempre em guerra.
Veja bem, eu não sou um homem desses nossos tempos. Isso
está na cara. Isso você ouve na minha voz. Atingi minha meta
usando um instrumento grosseiro. Ataquei a golpes de
martelo a vida doméstica e aqueles que a protegem. E
também a vida de Kenny. Ninguém deve se espantar se
continuo martelando, e se a minha insistência me transforma
numa figura cômica, uma espécie de ateu da aldeia, para
você, que é um homem dos nossos tempos, que não precisou
brigar por nada do que estou dizendo.
Bom, vou esperar o riso terminar e vou continuar minha
aula. Porque se o prazer, a experiência e a idade não são mais
assuntos de interesse... ah, ainda são? Então pense de mim o
que você quiser, mas espere até eu terminar.
Foi agora no Natal. O Natal de 1999. Sonhei com Consuela
naquela noite. Eu estava sozinho, e sonhei que estava acontecendo
alguma coisa com Consuela, e resolvi telefonar para
ela. Mas quando consultei a lista telefônica não encontrei
mais seu nome lá, e porque George não me permitia voltar
àquela agitação que podia até acabar comigo, eu não havia
anotado o endereço no Upper East Side que tinha encontrado
no catálogo anos antes, logo depois que ela conseguiu arranjar
seu primeiro emprego. Pois bem, uma semana depois, na
noite de ano-novo, eu estava sozinho na minha sala, sem
nenhuma garota, sozinho por opção, tocando piano, porque
tinha decidido ignorar a comemoração do milênio. Desde que
você não esteja em estado de anseio, a solidão às vezes é um
prazer e tanto, e era esse prazer que eu estava planejando
para aquela noite. Minha secretária eletrônica estava ligada, e
mesmo em dias normais não costumo atender quando o
telefone toca: em vez disso, fico ouvindo para saber quem é.
Naquela noite em particular, eu estava decidido a não ouvir
ninguém que viesse me falar sobre "a virada do milênio", e
assim, quando o telefone toca, eu continuo tocando
tranqüilamente até que me dou conta de que é a voz dela que
estou ouvindo. "Alô? David? Sou eu. Consuela. Faz muito
tempo que a gente não se fala, é estranho estar telefonando
pra você, mas quero te dizer uma coisa. E quero que você
fique sabendo por mim, antes que outra pessoa conte a você.
Ou antes que você fique sabendo e leve um susto. Eu vou
telefonar de novo. Mas vou deixar com você o número do
meu celular."
Fiquei ouvindo a mensagem, petrificado. Não atendi o
telefone, e quando resolvi atender já era tarde, aí pensei: ah,
meu Deus, alguma coisa aconteceu com ela, sim. Foi por
causa da morte de George que fiquei pensando no pior. É,
George morreu. Você não leu o obituário no Times? George
O'Hearn morreu há cinco meses. Perdi meu amigo homem
mais próximo. Agora não tenho mais nenhum amigo homem.
Foi uma grande perda, aquela relação de camaradagem com
George. Tenho colegas, é claro, pessoas que encontro no
trabalho e com quem converso de passagem, mas as vidas
dessas pessoas se baseiam em premissas tão opostas às
premissas da minha vida que trocar idéias é muito difícil para
nós. Não temos uma linguagem em comum para falar sobre a
vida pessoal. George representava para mim toda a
comunidade masculina, talvez porque o grupo de homens de
que fazemos parte seja muito pequeno. E um único
companheiro de armas basta: um homem não precisa que
toda a sociedade esteja do seu lado. Quase todos os outros
homens que conheço — principalmente se eles já me viram
com uma das minhas namoradas jovens — ou me julgam em
silêncio ou me pregam sermões abertamente. Sou "um
homem limitado", dizem eles — eles, que não são limitados.
E os pregadores ficam indignados quando não concordo que
seus argumentos sejam verdadeiros. Dizem que eu sou
"autocomplacente" — eles, que não são autocomplacentes. Os
torturados, é claro, de mim só querem distância. Sem dúvida,
nenhum homem casado jamais se abre comigo. Com eles não
há nenhuma afinidade. Talvez eles troquem confidências uns
com os outros, se bem que tenho lá minhas dúvidas — não sei
até onde vai a solidariedade masculina hoje em dia. O
heroísmo deles não se limita a suportar estoicamente suas
renúncias cotidianas, porém exige também que exibam uma
imagem falsa de suas vidas, do modo mais enfático. Suas vidas
verdadeiras, as vidas ocultas, só aparecem para seus
terapeutas. Não estou dizendo que todos eles estejam contra
mim e queiram ver minha caveira por eu levar a vida que
levo, mas creio que não há dúvida de que não sou
universalmente admirado. Agora que George morreu, só
encontro solidariedade em mulheres como Elena, que já
foram minhas namoradas. Elas não podem me oferecer o que
George me dava, mas ao que parece eu não exijo demais da
tolerância delas.
A idade dele? George estava com cinqüenta e cinco. Derrame.
Teve um derrame. Eu estava presente quando a coisa
aconteceu. Eu e mais oitocentas pessoas. Foi no auditório da
Hebraica da 92a Street em setembro. Uma noite de sábado,
em setembro. Ele ia fazer uma leitura de poemas. Era eu que
o estava apresentando no palco. Ele estava sentado numa
cadeira nos bastidores, gostando da minha apresentação,
concordando com a cabeça. Com aquele seu terno apertado
de agente funerário, ele espichava as pernas compridas e
magras — George, aquele homem flexível, de terno, era
como um cabide de arame, aquele irlandês moreno de nariz
adunco. Pelo visto, teve o derrame naquele exato momento,
sentado com seus seis livros de poesia no colo, esperando a
hora em que seria chamado, com aquele terno preto lúgubre,
e deixaria a platéia siderada. Pois quando as pessoas
começaram a aplaudir e ele fez menção de se levantar, seu
corpo despencou da cadeira, que caiu por cima dele. Sua obra
ficou toda espalhada pelo chão. Os médicos achavam que ele
nem ia conseguir sair do hospital. Mas ele agüentou firme,
inconsciente, por uma semana, quando então a família o
levou para morrer em casa.
Em casa, também ficou inconsciente a maior parte do tempo.
O lado esquerdo paralisado. As cordas vocais paralisadas. Um
bom pedaço de seu cérebro simplesmente fora para o espaço.
O filho dele, Tom, é médico, e foi ele que administrou a
morte do pai, o que levou mais nove dias. O filho tirou os
tubos todos, o cateter, desligou tudo. Sempre que George
abria os olhos eles o recostavam na cama e lhe davam água
para beber, gelo para chupar. Tentavam cercá-lo de todos os
confortos possíveis, enquanto ele agonizava num ritmo
vagaroso, torturante.
Todas as tardes, ao final do meu dia, eu ia até Pelham visitá-
lo. George havia removido a família para Pelham a fim de
que, durante todos aqueles anos em que lecionava na New
School, pudesse ter liberdade em Manhattan. Às vezes havia
até cinco ou seis carros estacionados quando eu chegava lá.
Os filhos se revezavam, de vez em quando levando um ou
outro neto. Havia uma enfermeira e, já perto do final, uma
especialista em pacientes terminais. Kate, a mulher de
George, estava lá o tempo todo, naturalmente. Eu ia até o
quarto, onde haviam instalado uma cama de hospital, e
pegava na mão dele, a mão do lado em que ele ainda sentia
alguma coisa, e ficava quinze, vinte minutos sentado à seu
lado, mas ele estava sempre fora do ar. Respirando fundo.
Gemendo. A perna boa vez por outra estremecia um pouco,
mas era só isso. Eu passava a mão no cabelo dele, pegava-lhe
no rosto, apertava-lhe os dedos, mas nada. Ficava ali na
esperança de que talvez ele voltasse a si e me reconhecesse;
depois eu ia para casa. Então, uma tarde, cheguei lá e fui
informado de que finalmente ele estava acordado. Pode ir,
pode ir, me disseram.
Haviam recostado George nos travesseiros, e a cama estava
um pouco levantada. A filha dele, Betty, dava-lhe gelo.
Quebrava pequenos estilhaços de gelo com os dentes e os
inseria na boca do pai. George tentava mastigá-los no lado da
boca que ainda funcionava. Parecia já quase morto,
magérrimo, porém os olhos estavam abertos, e ele se
concentrava o quanto ainda lhe era possível concentrar-se no
ato de mastigar gelo. Kate estava parada à porta olhando para
ele, uma mulher imponente, de cabelo branco, quase tão alta
quanto George, porém mais volumosa do que da última vez
que eu a vira, e com um ar muito mais cansado. Era
rechonchuda, mas atraente, irônica, rija, e irradiava uma
espécie de cordialidade teimosa — assim era Kate, já beirando
a velhice. Uma mulher que jamais fugia da realidade, que
agora parecia completamente exausta, como se houvesse
combatido em sua última batalha e tivesse sido derrotada.
Tom trouxe um pano úmido do banheiro. "Quer se limpar,
pai?", disse ele. "Será que ele entende?", perguntei a Tom.
"Ele ainda entende alguma coisa?" "Tem horas", respondeu
Tom, "que ele parece entender. Mas depois passa." "Há
quanto tempo ele está acordado?" "Mais ou menos meia hora.
Vai. Fala com ele, David. Ele parece que curte ouvir vozes."
Curtir? Uma palavra estranha. Mas Tom, em qualquer
situação, é sempre o médico jovial. Aproximei-me do lado de
George que não estava paralisado enquanto Tom limpava seu
rosto com o pano úmido. George tirou o pano do filho —
para espanto geral, estendeu a mão boa, agarrou o pano e o
enfiou na boca. "Ele está muito seco", alguém observou.
George enfiou a ponta do pano na boca e começou a chupá-
la. Quando tirou, havia algo grudado nela. Parecia um pedaço
do palato mole. Betty sufocou um grito quando viu aquilo, e a
especialista em pacientes terminais, que também estava no
quarto, pôs a mão nas costas de Betty, dizendo: "Não é nada.
A boca dele está muito seca, é só um pouco de carne
ressecada".
A boca de George estava torta, aberta, aquela boca sofrida dos
moribundos, porém seus olhos estavam fixos, parecia mesmo
haver algo por trás deles, algo de George que ainda resistia.
Como aquela parede quebrada que permanece em pé depois
de uma explosão. Com a mesma força irritada com que
arrancara o pano de Tom, ele afastou o lençol que o cobria e
começou a puxar o fecho de velcro de sua fralda, tentando
arrancá-la, exibindo aqueles palitos melancólicos que outrora
tinham sido suas pernas. O filamento de tungstênio quebrado
dentro de uma lâmpada queimada — era isso que as pernas
dele pareciam. Tudo nele, tudo que era de carne e osso, me
fazia pensar em seres inanimados. "Não, não", disse Tom,
"deixa, pai. Está bem assim." Mas George não parava.
Continuava puxando, irritado, tentando em vão arrancar a
fralda. Não conseguindo, levantou a mão e, meio que
rosnando, apontou para Betty. "O quê?", ela indagou. "Não
entendi. O que é que você quer? O quê, paizinho?" Os ruídos
que George emitia eram indecifráveis, mas seus gestos
deixavam claro que ele queria que a filha se aproximasse
tanto quanto possível. Quando Betty obedeceu, ele estendeu
o braço, colocou-o nas costas dela e puxou-a para a frente
para poder beijá-la na boca. "Ah, sim, papai", disse ela, "você
é o melhor pai do mundo, sim, o melhor de todos." O que
causava espanto era aquela força toda brotar de dentro de
George depois de tantos dias que ele passara deitado, inerte e
descarnado, sobrevivendo sabe-se lá como, aparentemente
nas últimas — a força considerável com que puxara Betty
para junto de si e agora tentava falar. Talvez, pensei, eles não
devessem deixá-lo morrer. E se ainda restar mais dele do que
todo mundo pensa? E se for isso que ele está querendo
demonstrar? E se em vez de estar se despedindo de todos, ele
estiver dizendo: "Não me deixem morrer. Façam tudo que
vocês puderem para me salvar"?
Então George apontou para mim. "Oi, George", disse eu.
"Meu amigo. Sou eu, o David, George." E quando me
aproximei dele, ele me agarrou tal como havia agarrado Betty
e beijou a mim na boca. Não senti cheiro de cadáver, nem
fedor doentio, nenhum odor desagradável: apenas um hálito
quente, sem cheiro, o puro perfume do ser, e dois lábios
ressequidos. Era a primeira vez que George e eu nos
beijávamos. Mais uma vez, ele grunhiu, agora apontando para
Tom. Para Tom e depois para seus próprios pés, que estavam
descobertos sobre a cama. Quando Tom, pensando que
George quisesse que suas pernas fossem cobertas, começou a
ajeitar os lençóis, George começou a gemer mais alto,
apontando de novo para os pés. "Ele quer que você segure",
disse Betty. "Um deles ele nem sente", disse Tom. "Segura o
outro", ela insistiu. "Está bem, pai, entendi — entendi." E
Tom começou a acariciar pacientemente o pé que seu pai
ainda sentia.
Em seguida, George apontou para a porta, onde Kate estava
parada, assistindo a tudo. "Ele quer você, mãe", disse Betty.
Afastei-me e Kate se colocou no lugar onde eu estava, ao lado
da cama, e George estendeu o braço para ela, o braço que
ainda funcionava, puxando-a para si, e beijou-a de modo tão
enfático quanto beijara a Betty e a mim. Kate beijou-o
também. Então beijaram-se outra vez, agora um beijo
prolongado, realmente apaixonado. Kate chegou mesmo a
fechar os olhos. Ela é uma pessoa absolutamente livre de
sentimentalismo, uma pessoa bem pé-na-terra, e eu nunca a
vira agir daquele jeito, como uma menina.
Enquanto isso, a mão boa de George havia passado das costas
de Kate para seu braço direito, e ele começou a mexer no
botão do punho da blusa. Estava tentando desabotoá-lo.
"George", Kate sussurrou baixinho. Parecia achar graça.
"Georgie, Georgie..." "Ajuda ele, mãe. Ele quer desabotoar."
Sorrindo ao ouvir tais instruções da filha emocionada, Kate
cedeu e abriu o botão, mas a essa altura George já estava
mexendo na outra manga, no botão, e assim ela também o
desabotoou. E o tempo todo ele a beijava. Kate acariciou o
rosto destruído, aquele rosto terrivelmente solitário e
cavernoso, beijando-lhe os lábios cada vez que ele os oferecia,
e em seguida a mão de George procurou os botões da frente
da blusa, tentando desabotoá-los.
O plano dele era evidente: estava tentando despi-la. Despir
aquela mulher que, como eu bem sabia, e como seus filhos
certamente sabiam, ele não tocava na cama havia anos. Que
ele raramente tocava em qualquer circunstância. "Deixa,
mãe", disse Betty, e Kate mais uma vez obedeceu à filha. Ela
própria ajudou George a desabotoar a blusa. Dessa vez,
quando se beijaram, a única mão boa de George estava
pegando no tecido do sutiã largo de Kate. Porém, de repente,
tudo terminou. A força esvaiu-se dele sem mais nem menos,
e George jamais chegou a tocar nos seios caídos da mulher.
Ainda levou mais doze horas para morrer, mas quando se
deixou cair sobre os travesseiros, a boca entreaberta, os olhos
fechados, ofegante como um corredor que desaba no final da
corrida, todos nós sabíamos que tínhamos acabado de
presenciar o último ato extraordinário da vida de George.
Depois, quando fui até a porta para sair, Kate veio comigo
para a varanda, e então me acompanhou até o carro.
Segurando minhas mãos, me agradeceu por ter vindo.
Respondi: "Foi bom estar presente e assistir a tudo aquilo". "É,
foi mesmo um espanto, não foi?", disse Kate. Em seguida, com
seu sorriso cansado, acrescentou: "Sei lá quem ele pensou que
eu fosse".
Assim, George havia morrido apenas cinco meses antes, e
quando Consuela telefonou e deixou aquela mensagem —
"quero te dizer uma coisa. E quero que você fique sabendo
por mim, antes que outra pessoa conte a você" — bom, como
eu já disse, ouvi aquela mensagem pensando que agora
alguma coisa havia acontecido com ela. Uma coisa desse tipo,
um sonho premonitório seguido de sua realização, já é
desconcertante quando acontece num sonho, quanto mais na
vida real. Eu não sabia o que fazer. Seria o caso de ligar para
ela? Fiquei quinze minutos pensando. Não liguei porque
estava com medo. Por que será que ela me telefonou? Por que
motivo? Minha vida está tranqüila e sob controle outra vez.
Será que vou conseguir resistir a Consuela e sua passividade
agressiva? Não tenho mais sessenta e dois anos — já estou
com setenta. Será que nessa idade vou conseguir suportar
aquela insegurança doentia? Será que tenho coragem de
voltar àquele transe frenético? Será que isso vai ser bom para
a minha longevidade?
Lembrei os três anos que se seguiram à perda de Consuela,
aquele tempo em que, mesmo quando me levantava à noite
para ir ao banheiro, eu só conseguia pensar nela: até mesmo
às quatro da madrugada, diante da privada, quase dormindo,
aquela fração de David Kepesh que estava acordada começava
a murmurar o nome dela. Normalmente, quando um velho
mija no meio da noite, a cabeça dele está completamente
vazia. Se ele consegue pensar em alguma coisa, é só em voltar
para a cama. Mas comigo, naquela época, não era assim.
"Consuela, Consuela, Consuela", cada vez que me levantava
para ir ao banheiro. E ela havia conseguido fazer isso comigo,
veja bem, sem usar palavras, sem premeditação, sem astúcia,
sem um pingo de malícia, e sem se preocupar com causas e
efeitos. Como um grande atleta, ou uma escultura idealizada,
ou um animal que a gente vê de repente na floresta, como
Michael Jordan, como um Maillol, como uma coruja, um
lince, ela conseguira tudo isso através da simplicidade de seu
esplendor físico. Não havia o menor vestígio de sadismo em
Consuela. Nem mesmo o sadismo da indiferença, que muitas
vezes acompanha a perfeição naquele grau. Ela era careta
demais para ser cruel, bondosa demais. Mas imagine só como
ela não poderia ter feito gato-sapato de mim se não fosse uma
garota tão bem-educada que jamais se permitiria explorar até
os limites a força amazônica de seus dotes físicos; imagine se
ela tivesse também uma consciência amazônica e
compreendesse, de modo maquiavélico, o impacto que tinha.
Por sorte, Consuela, como a maioria das pessoas, não tinha o
hábito de pensar as coisas até as últimas conseqüências, e,
embora ela tivesse conseguido fazer acontecer tudo o que
houvera entre nós, jamais compreendeu tudo o que havia
acontecido. Se tivesse compreendido, e se, além disso, tivesse
a menor tendência a gostar de atormentar um homem
alucinado de paixão, eu teria sido devastado, inteiramente
posto a pique por minha própria Baleia Branca.
E agora ela me telefonava outra vez. Não, de jeito nenhum!
Nunca mais, aquele ataque à minha paz de espírito!
Mas então pensei: ela está me procurando, ela precisa de
mim, e não como amante, não como professor, não para
retomar nossa novela erótica com mais um episódio. Assim,
liguei para seu celular e menti, dizendo que tinha saído para
comprar uma coisa e havia acabado de chegar em casa, e ela
disse: "Eu estou no carro. Eu estava na frente do seu prédio
quando gravei a mensagem". Perguntei: "O que é que você
está fazendo, andando de carro por Nova York na noite de
ano-novo?". "Eu nem sei o que estou fazendo", respondeu ela.
"Você está chorando, Consuela?" "Não, ainda não." Então
perguntei: "Você tocou a campainha?". E ela: "Não, não
toquei, porque não tive coragem". "Você pode tocar a
campainha sempre. Você sabe disso. O que foi que
aconteceu?" "Estou precisando de você agora." "Então vem
pra cá." "Você tem tempo?" "Eu sempre tenho tempo pra
você. Vem." "É uma coisa importante. Estou indo agora
mesmo."
Pus o fone no gancho. Eu não sabia o que fazer. Cerca de
vinte minutos depois, um carro parou, e assim que abri a
porta para ela me dei conta de que alguma coisa séria havia
acontecido. Porque ela estava de chapéu, um chapéu que
parecia um barrete de turco. O que não era o tipo de coisa
que ela usava. Consuela tem cabelo bem negro, lustroso,
sempre muito bem cuidado, sempre lavado, escovado,
penteado; ia ao cabeleireiro uma vez a cada quinze dias.
Porém agora estava com aquele barrete na cabeça. Estava
também com um casaco elegante, um casaco de lã persa
preta, com cinto, que chegava quase até o chão, e quando ela
abriu o cinto vi por baixo do casaco a blusa de seda decotada,
deixando à mostra o espaço entre os seios — lindos. Assim,
abracei-a, e ela me abraçou, deixando que eu a ajudasse a
tirar o casaco, e eu disse: "O seu chapéu? O barrete?", e ela
disse: "Melhor você não fazer isso. A surpresa vai ser muito
grande". Perguntei: "Por quê?" E ela explicou: "Porque estou
muito doente".
Fomos para a sala, e lá abracei-a outra vez, e ela apertou seu
corpo contra o meu, e mais uma vez senti os peitos, aqueles
peitos lindos, e por cima do ombro vi a bunda linda. Eu vejo
aquele corpo lindo. Agora ela está na faixa dos trinta, está
com trinta e dois anos, e não está menos bonita, e sim mais, e
o rosto, que parece de algum modo um pouco mais alongado,
está muito mais feminino — enquanto isso ela me diz: "Eu
não tenho mais cabelo. Em outubro fiquei sabendo que estava
com câncer. Estou com câncer de mama". É eu: "É terrível, é
horrível, como é que você se sente, como é que se pode
enfrentar uma coisa dessas?". A quimioterapia havia
começado no início de novembro, e em pouco tempo ela
perdera o cabelo. Ela disse: "Eu preciso contar toda a
história", e nos sentamos, e eu disse: "Me conta tudo". "Bom, a
minha tia, a irmã da minha mãe, já teve câncer de mama, e
foi tratada, e perdeu um seio. De modo que eu já sabia que
tem esse perigo na minha família. Eu sempre soube disso, e
sempre tive medo", e o tempo todo, enquanto ela falava, eu
pensava: você, com os peitos mais maravilhosos do mundo. E
ela: "Um dia eu estava no chuveiro e senti uma coisa na axila,
entendi que era uma coisa séria. Fui ao médico e ele disse que
provavelmente não era nada, que era pra eu não me
preocupar, e aí fui a um segundo médico e a uma terceira
médica, você sabe como é, e a terceira médica disse que era
pra eu me preocupar, sim". "E você entrou em pânico?",
perguntei. "Você ficou em pânico, minha amiga belíssima?"
Eu estava tão abalado que quem estava entrando em pânico
era eu. "Fiquei, sim", respondeu, "pânico total." "Foi à noite?"
"Foi, eu fiquei andando de um lado pro outro no
apartamento. Fiquei completamente maluca." Comecei a
chorar ao ouvir isso, e nos abraçamos outra vez, e perguntei:
"Por que é que você não me telefonou? Por que é que você
não me ligou nessa noite?". E ela: "Não tive coragem". E eu:
"Você pensou em telefonar pra quem?" E ela: "Pra minha
mãe, é claro. Mas eu sabia que ela também ia ficar em pânico,
porque eu sou filha dela, a única filha dela, porque ela é
muito emotiva, e porque todo mundo morreu. David, todo
mundo morreu". "Quem é que morreu?" "Meu pai morreu."
"Como?" "Desastre de avião. Ele estava naquele avião que ia a
Paris. Numa viagem de negócios." "Não!" "Foi, sim." "E o avô
que você gostava tanto?" "Morreu. Faz seis anos. Foi a
primeira perda. Coração." "E a sua avó, a dos terços? A avó
que era duquesa?" "Morreu também. Depois dele. Ela estava
velha e morreu." "Mas o seu irmão mais moço...?" "Não, não,
meu irmão está bem. Mas eu não podia ligar pra ele, pra falar
sobre isso. Ele não ia conseguir segurar. Foi então que pensei
em você. Mas eu não sabia se você estava sozinho." "Isso não
tem nada a ver. Me promete uma coisa. Se você começar a
entrar em pânico no meio da noite, de dia, qualquer hora,
telefona pra mim. Me chama que eu vou. Toma", disse eu,
"escreve aqui o seu endereço. Todos os seus telefones,
trabalho, casa, tudo." E eu estava pensando: ela está
morrendo diante dos meus olhos, também ela está morrendo
agora. Bastou que a instabilidade entrasse na vida tranqüila
daquela família cubana com a morte previsível de um avô
adorado para que rapidamente tivesse início uma sucessão de
desgraças, culminando com o câncer.
Perguntei: "Você está com medo neste momento?". E ela:
"Muito. Muito medo. Eu fico bem uns dois minutos,
pensando em outra coisa, e de repente me dá aquele frio no
estômago e não consigo acreditar no que está acontecendo. É
uma montanha-russa, e não pára nunca. Só pára se o câncer
parar. Tenho sessenta por cento de chance de sobreviver,
quarenta de morrer". E então começou a dizer que a vida vale
a pena viver, e como ela tinha pena da mãe, mais que de todo
mundo — todas aquelas banalidades inevitáveis. Eu queria
fazer tantas coisas, eu tinha tantos planos, e assim por diante.
Começou a me dizer como pareciam ridículas todas as
pequenas ansiedades que ela sentia poucos meses antes, as
preocupações com o trabalho, os amigos, as roupas, e como
isso agora a fazia dar às coisas a verdadeira importância que
elas têm, e pensei: não, não há nada que faça a gente dar às
coisas a verdadeira importância que elas têm.
Eu olhava para Consuela, escutava o que ela dizia, e quando
não consegui me conter mais perguntei: "Você se incomoda
se eu pegar nos seus seios?". Ela respondeu: "Não, pode
pegar". "Você não se incomoda mesmo?" "Não. Agora, beijar
você eu não quero, não. Porque não quero nada sexual. Mas
eu sei o quanto você gosta dos meus seios, então pode pegar
neles." Assim, toquei nos seios dela — e com mãos trêmulas.
E, naturalmente, de pau duro. Perguntei: "É o esquerdo ou o
direito?", e ela respondeu: "É o direito". Então pus a mão no
seio direito. Existe uma combinação de erotismo com ternura
que derrete a pessoa e ao mesmo tempo excita, e era isso o
que estava acontecendo. Você fica de pau duro e derrete, as
duas coisas ao mesmo tempo. Pois então, estamos nós dois
sentados, eu pegando no seio dela, nós dois conversando, e
então perguntei: "Você não se incomoda?". E ela: "Eu quero
até mais de você. Porque sei que você adora meus seios". E
eu: "O que é que você quer?". "Quero que você apalpe o meu
câncer." E eu: "Está bem. Isso eu faço. Mas depois, isso a
gente faz depois".
Era cedo demais. Eu não estava preparado para isso. Assim,
ficamos conversando, e ela começou a chorar, e tentei
confortá-la, e de repente ela parou de chorar e ficou cheia de
energia, muito decidida. E me disse: "David, na verdade
procurei você pra fazer um único pedido, fazer uma pergunta
só". E eu: "O que é?". E ela: "Depois de você, não tive nenhum
namorado nem amante que amasse meu corpo tanto quanto
você amou". "Você teve namorados?"
Lá ia eu outra vez. Esqueça os namorados. Mas eu não
conseguia. "Você teve, Consuela?" "Tive, sim, mas não
muitos." "Você transou com vários homens, regularmente?"
"Não. Regularmente, não." "E o seu trabalho, como era?
Ninguém lá se apaixonou por você?" "Todos eles se
apaixonaram por mim." "Compreendo perfeitamente. Mas
então", insisti, "eram todos gays? Você não conheceu nenhum
que não fosse gay?" "Conheci, sim, conheço, mas com eles
não é legal." "Por que é que não é legal?" "Eles só sabem se
masturbar em cima do meu corpo." "Isso é lamentável. É uma
burrice. É uma loucura." "Mas você amava o meu corpo. E eu
me orgulhava dele." "Mas você já se orgulhava dele antes."
"Sim e não. Você conheceu o meu corpo quando ele estava no
auge. Por isso quero que você o veja agora, antes de ele ser
estragado pelo que os médicos vão fazer." "Não diz isso, tira
isso da cabeça. Ninguém vai estragar você. O que é que os
médicos dizem que vão fazer?" E ela: "Já fiz quimioterapia.
Por isso que eu não tiro o chapéu". "É claro. Mas com você eu
suporto qualquer coisa. Pode fazer o que você quiser." E ela:
"Não, não quero mostrar a você. Porque acontece uma coisa
estranha com o cabelo da gente. Depois da quimioterapia, ele
começa a sair aos punhados. E começa a nascer um cabelo
que parece cabelo de bebê. É muito estranho". E eu: "Os pêlos
pubianos também desaparecem?". "Não", respondeu ela, "não,
esses ficam. O que também é estranho." E eu: "Você
perguntou à médica?". "Perguntei", disse ela, "mas ela não
soube explicar. A única coisa que ela disse foi: 'Está aí uma
boa pergunta'. Olha os meus braços." Os braços dela são
longos, esguios, a pele branca, branca, e os pêlos finos dos
braços, tão bonitos, continuavam lá. "Olha", disse ela, "nos
meus braços ainda tem pêlo, mas a minha cabeça ficou lisa."
"Ora", disse eu, "já conheci homens carecas, porque é que eu
não posso ver uma mulher careca?" E ela: "Não. Não quero
que você veja".
Então ela disse: "David, posso te pedir um grande favor?"
"Claro. Qualquer coisa." "Você podia se despedir dos meus
seios?" Eu: "Minha querida, minha queridíssima, eles não vão
destruir o seu corpo, não". "Bom, eu tenho sorte de ter tanto
peito, mas eles vão ter que tirar mais ou menos um terço.
Minha médica está tentando tudo pra que a cirurgia seja
mínima.
Ela é humana. Ela é maravilhosa. Não é uma carniceira. Não
é uma máquina desprovida de sentimentos. Primeiro ela está
tentando diminuir o câncer com a químio. Aí, quando eles
operarem, eles vão tirar o mínimo possível." "Mas eles podem
restaurar, refazer o que tirarem, não é?" "É, eles podem botar
silicone. Mas eu não sei se vou querer. Porque isso aqui é o
meu corpo, e o silicone não vai ser. Não vai ser nada." "E
como é que você quer que eu me despeça? O que é que você
quer? O que é que você está me pedindo, Consuela?" E
finalmente ela me disse.
Peguei minha câmara, uma Leica com zoom, e ela ficou em
pé. Fechamos as cortinas, acendemos todas as luzes, encontrei
a música exata de Schubert e pus para tocar, e ela não
exatamente dançou, foi mais uma espécie de movimento
exótico, oriental, quando começou a se despir. Muito
elegante, e muito vulnerável. Fiquei sentado no sofá, e ela em
pé, tirando as roupas. E a maneira como ela tirava cada peça
que jogava no chão era mesmerizante. Mata Hari. A espiã se
despindo para o oficial. E o tempo todo, totalmente
vulnerável. Primeiro tirou a blusa. Depois os sapatos.
Extraordinário, tirar os sapatos nessa hora. Depois tirou o
sutiã. E foi como se um homem ao se despir tivesse esquecido
de tirar as meias, o que lhe dá um aspecto ligeiramente
ridículo. Uma mulher de saia com os seios nus, para mim, não
é erótico. A saia de algum modo atrapalha. Seios nus e calças
formam uma imagem muito erótica, mas se for uma saia não
funciona. Melhor ficar de sutiã se estiver de saia, porque saia
e seios nus é para uma mulher que vai dar de mamar.
Assim, ela se despiu para mim. Foi tirando tudo até ficar só
de calcinha. Disse: "Você podia tocar meus seios?". "É essa a
foto que você quer, eu pegando neles?" "Não, não. Primeiro
pega neles." Obedeci. Então ela disse: "Quero umas fotos de
frente para a câmara, e de perfil, e depois por baixo".
Tirei cerca de trinta fotos dela. Ela escolheu as poses, e queria
tudo. Com as mãos por baixo, levantando-os. Apertando-os.
Vistos da esquerda, da direita, fotografados quando ela se
debruçava. Por fim, tirou a calcinha, e vi que os pêlos
pubianos continuavam tal como sempre foram, como já os
descrevi: lisos, lustrosos. Asiáticos. De repente pareceu ficar
excitada por estar tirando a calcinha e eu a olhá-la,
inteiramente nua. Aconteceu de repente. Dava para ver pelos
mamilos que ela estava excitada. Se bem que, a essa altura, eu
não estava mais. Assim mesmo, perguntei-lhe: "Você quer
passar a noite aqui? Quer transar comigo?" Ela: "Não. Não
quero transar com você. Mas quero que você me abrace". Eu
estava totalmente vestido, tal como estou agora. E ela sentou-
se no sofá e eu a abracei, apertando-a, e ela pegou meu pulso
e colocou minha mão em sua axila para que eu apalpasse o
câncer. Parecia uma pedra. Uma pedra na axila. Duas
pedrinhas, uma maior do que a outra, o que queria dizer que
havia uma metástase originando-se no seio. Mas não dava
para sentir nada se eu pegasse no seio. Perguntei: "Por que é
que eu não consigo apalpar no seio?". E ela: "Meus seios são
muito grandes. Tem tanto tecido que a gente não sente. Está
lá no fundo do seio".
Eu não teria conseguido fazer amor com ela, nem mesmo eu,
que havia lambido seu sangue. Depois de tantos anos
pensando nela, já teria sido difícil mesmo ao vê-la em
circunstâncias normais, e não aquelas, terríveis e grotescas.
Não, eu não conseguiria fazer amor com ela, e, no entanto,
não conseguia parar de pensar nisso. Porque eles são tão
bonitos, os seios dela. Não canso de repetir. Era tão cruel, tão
degradante, aqueles seios, os seios dela — eu ficava só
pensando: eles não podem ser destruídos! Como já disse,
durante todos aqueles anos em que ficamos separados eu me
masturbava pensando nela, sem interrupção. Eu ia para a
cama com outras mulheres e pensava nela, nos seios dela, na
sensação de enterrar meu rosto entre eles. Pensava na sua
textura macia e lisa, pensava em sentir seu peso, aquele peso
suave, e isso enquanto minha boca beijava outra pessoa. Mas
naquele momento entendi que a vida dela não era mais
sexual. O que estava em jogo era outra coisa.
Assim, eu disse: "Quer que eu vá com você pro hospital? Eu
vou, se você quiser. Eu faço questão de ir. Você está
praticamente sozinha". Ela falou que ia pensar. Disse: "Muito
obrigada por se oferecer, mas ainda não sei. Não sei se vou
querer ver você logo depois que eu for operada". Ela foi
embora por volta de uma e meia; havia chegado em torno das
oito. Não perguntou o que eu ia fazer com as fotografias que
me pedira para tirar. Não me pediu que lhe mandasse as
cópias. Ainda não mandei revelar. Estou curioso para vê-las.
Vou ampliá-las. Vou mandar as cópias para ela, é claro. Mas
preciso encontrar uma pessoa em quem eu confie para fazer a
revelação. Há muitos anos, eu, que gosto de fotografia, devia
ter aprendido a revelar, mas nunca aprendi. Seria útil.
Ela deve ir para o hospital a qualquer momento. Estou
aguardando um contato dela a qualquer hora, qualquer dia.
Desde aquele encontro há três semanas, não tive mais notícia
dela. Será que ela vai me procurar? O que você acha? Ela me
pediu para não entrar em contato com ela. Não quer mais
nada de mim — foi o que ela disse antes de ir embora. Estou
praticamente de plantão ao lado do telefone, com medo de
ele tocar e eu não estar aqui.
Desde que ela veio aqui, tenho telefonado para pessoas que
conheço, médicos que conheço, para me informar sobre o
tratamento do câncer de mama. Porque eu sempre soube que
nesse tipo de coisa primeiro se faz a cirurgia e depois a
quimioterapia. Estava preocupado com isso, no dia em que
ela veio aqui — eu pensava o tempo todo: tem alguma coisa
no caso dela que não estou conseguindo entender. Depois
fiquei sabendo que fazer químio antes da operação não é uma
coisa totalmente inaudita, que está até se tornando o
tratamento padrão quando o câncer de mama é localizado e
está avançado, mas a pergunta é: será que esse tratamento é
correto para o caso dela? O que ela quis dizer quando falou
em sessenta por cento de chance de sobrevivência? Por que
só isso? Foi alguém que disse isso a ela ou foi ela que leu em
algum lugar, ou então, num momento de pânico, inventou
esse número? Ou será que estão usando essa história de
sobrevivência para lidar com a vaidade dela? Talvez seja
apenas uma reação ao choque — uma reação bem típica, aliás
—, mas não consigo parar de pensar que tem alguma coisa na
história dela, ou que ela não me contou ou que não contaram
a ela... Enfim, a história é essa, tal como fiquei sabendo
através dela, e depois eu não soube mais nada.
Ela foi embora por volta de uma e meia da manhã, depois que
o ano-novo chegou em Chicago. Nós tomamos um chá.
Tomamos um copo de vinho. Porque ela me pediu, liguei a
televisão e vimos o replay do ano-novo começando na
Austrália e atravessando a Ásia e a Europa. Ela estava
ligeiramente sentimental. Contando histórias. Sobre a
infância dela. O pai levando-a à ópera, desde que ela era
pequena. Contou uma história sobre um florista. "Fui
comprar flores na Madison Avenue com minha mãe no
sábado", disse ela, "e o florista disse: 'Que lindo o seu chapéu',
e eu disse: 'O chapéu tem uma função', e ele compreendeu,
ficou vermelho e pediu desculpas e me deu uma dúzia de
rosas de graça. Pra você ver como as pessoas reagem a um ser
humano que está sofrendo. Elas não sabem o que fazer.
Ninguém sabe o que dizer nem o que fazer. Por isso eu tenho
muita gratidão por você", explicou-me.
Como é que eu me sentia? A maior dor que senti naquela
noite foi ao pensar nela sozinha em casa, entrando em pânico,
na cama. Entrando em pânico por causa da idéia da morte. E
o que vai acontecer agora? O que é que você acha? Eu acho
que ela não vai me pedir que lhe faça companhia no hospital.
Ela gostou de eu me oferecer, mas quando chegar a hora vai
para o hospital com a mãe. É possível que ela tenha entrado
em parafuso no ano-novo simplesmente porque estava se
sentindo infeliz demais, assustada demais, para ir à festa para
a qual a tinham convidado, e também estava infeliz e
assustada demais para ficar sozinha. Acho que, quando entrar
em pânico, Consuela não vai me telefonar. Ela queria que eu
me oferecesse, mas não vai me ligar, não.
A menos que eu esteja enganado. A menos que daqui a dois
ou três meses ela venha me procurar dizendo que quer ir
para a cama comigo. Comigo, e não com um homem mais
moço, porque estou velho e estou longe da perfeição.
Comigo, porque, embora ainda não esteja mumificado, o
cadáver em decomposição em mim não está tão bem
disfarçado como está nos homens que freqüentam a minha
academia, que deram um jeito de nascer depois que Roosevelt
assumiu a presidência.
E será que vou conseguir? Em toda a minha vida, nunca
fiquei com uma mulher que tivesse passado por esse tipo de
mutilação. O único caso foi o de uma que conheci alguns
anos atrás; a caminho do meu apartamento ela disse: "Eu
preciso contar a você — eu fiz uma operação e só tenho um
seio. Então não quero que você fique chocado". Ora, por mais
durão que você se considere, se for realmente sincero você
tem que admitir que ver uma mulher com um seio só não é
uma coisa muito convidativa, é ou não é? Consegui dar a
impressão de que estava um pouco surpreso, mas não por ela
só ter um seio, e acho que não traí o nervosismo que sentia
enquanto tentava acalmá-la. "Ah, o que é isso; nós não vamos
pra cama. Nós somos apenas bons amigos, e acho que
devemos continuar a ser bons amigos." Uma vez transei com
uma mulher que tinha uma mancha escura, cor de vinho,
entre os seios, subindo um pouco pelos seios, uma marca de
nascença enorme. Essa mulher era também alta. Um metro e
noventa e cinco. A única mulher com quem tive que ficar na
ponta dos pés e espichar o pescoço para beijar. Peguei um
torcicolo só de beijá-la. Quando fomos para a cama, ela
começou a se despir tirando a saia e a calcinha, coisa que as
mulheres normalmente não fazem. Elas costumam tirar
primeiro a blusa, primeiro se despem da cintura para cima.
Mas essa ficou de suéter e sutiã. Perguntei: "Você não vai
tirar o sutiã e o suéter?". "Vou, mas não quero que você leve
um susto." Acrescentou: "Eu tenho um defeito". Sorri,
tentando levar a coisa na esportiva. "Então me diz, qual é o
defeito?" E ela: "Bom, é uma coisa nos meus seios que vai
assustar você". "Ah, não se preocupe. Me mostra." E ela me
mostrou. E eu comecei a exagerar. Beijei o sinal. Peguei nele.
Brinquei com ele. Estava sendo educado. Fazendo com que
ela achasse graça na coisa. Dizendo que eu adorava aquilo.
Essas coisas não são fáceis de se encarar com tranqüilidade.
Mas espera-se do homem que assuma o comando, que não
entre em parafuso, que saiba enfrentar a situação com jeito.
Que não recue de nada que possa haver num corpo. Aquela
mancha. Era uma tragédia para ela. Um metro e noventa e
cinco. Os homens eram atraídos, como eu fui, por aquela
altura extraordinária. E, com cada homem, sempre a mesma
história: "Eu tenho um defeito".
As fotos. Nunca vou esquecer de Consuela me pedindo para
tirar aquelas fotos. Se houvesse algum voyeur espiando a
cena, ele ia achar que era uma coisa pornográfica. Porém era
o que pode haver de menos pornográfico no mundo. "Você
está com a sua câmara fotográfica?" "Estou", respondi. "Você
podia tirar umas fotos de mim? Porque eu queria ter fotos do
meu corpo tal como ele era quando você o conheceu. Tal
como você o viu. Não tem nenhuma outra pessoa a quem eu
possa pedir isso. Não posso pedir isso a nenhum outro
homem. Se pudesse, eu não ia incomodar você." "Claro", disse
eu, "a gente faz isso. Qualquer coisa. Me diz o que você quer.
Pode pedir o que você quiser. Você pode me dizer qualquer
coisa." "Dava pra você pôr uma música", disse ela, "e então
pegar a câmera?" "Que música você quer?", perguntei.
"Schubert. Alguma peça de câmara de Schubert." "Está bem,
está bem", respondi, mas não, pensei, A morte e a donzela.
No entanto, ela não me pediu para mandar uma cópia. Não
esqueça que Consuela não é a garota mais brilhante do
mundo. Porque, se fosse, as fotos seriam outros quinhentos.
Nesse caso, haveria táticas em questão. A estratégia dela seria
algo a se pensar. Mas, em se tratando de Consuela, há uma
espontaneidade semi-consciente em tudo que ela faz, uma
integridade, ainda que ela não saiba exatamente o que está
fazendo, ou por quê. Procurar-me para que eu a fotografasse
é uma atitude muito próxima à natureza, a um pensamento
original que brota, à intuição, e não há nenhum raciocínio
deliberado por trás dela. Você poderia elaborar um
raciocínio, mas Consuela não seria capaz disso. Ela sente que
tem de fazer isso, diz ela, para documentar seu corpo para
mim, porque eu o amei tanto, amei sua perfeição. Mas não
era só isso, era muito mais que isso.
Já percebi que as mulheres, em sua maioria, se sentem
inseguras em relação a seus corpos, mesmo quando, como no
caso de Consuela, são de uma beleza absoluta. Nem todas
sabem que são belas. Só um certo tipo de mulher sabe disso.
Normalmente elas se queixam de algo de que não deviam se
queixar. Muitas vezes querem esconder os seios. Sentem
alguma vergonha cuja fonte jamais consigo identificar, e é
necessário que você fique um bom tempo convencendo-as de
que não há problema nenhum para que elas possam exibi-los
com prazer e realmente gostar de ser apreciadas. Até mesmo
as mais bem-dotadas. São poucas as que se exibem sem
problema, e hoje em dia, por causa de todas as polêmicas,
muitas vezes as que se exibem não são aquelas cujos seios são
do tipo que você teria inventado se pudesse.
Mas o poder erótico do corpo de Consuela — bom, isso
acabou. É verdade, naquela noite tive uma ereção, mas eu não
conseguiria mantê-la. Sou um sujeito de sorte por ainda ter
ereções e ter esses impulsos eróticos, mas, se ela tivesse me
pedido para ir para a cama com ela naquela noite, eu teria
ficado numa enrascada. Vai ser uma enrascada para mim
quando ela me ligar depois que se recuperar da cirurgia. O
que vai acontecer. Porque ela vai me ligar, não vai? Vai
querer experimentar primeiro com uma pessoa que ela já
conheça e que seja mais velha. Por uma questão de
autoconfiança, de orgulho, melhor comigo do que com Carlos
Alonso ou com os irmãos Villareal. A idade pode não fazer a
mesma coisa que o câncer, mas faz um bom estrago.
CAPÍTULO DOIS
Daqui a três meses ela me telefona e diz:
"Vamos nos ver", e depois tira as roupas de novo. Será essa a
catástrofe que me aguarda?
Tem um quadro de Stanley Spencer lá na Tate Gallery, um
retrato em que aparecem o próprio pintor e a esposa, os dois
nus, já na faixa dos quarenta. O quadro exprime da maneira
mais direta a quintessência da vida a dois, da convivência dos
sexos ao longo do tempo. Eu tenho esse quadro num dos
meus livros de Spencer lá embaixo. Depois eu pego para lhe
mostrar. Spencer está sentado, meio de cócoras, ao lado da
mulher deitada. Ele olha para baixo, para ela, pensativo, bem
de perto, pelos óculos de aro de metal. Nós, por outro lado,
estamos olhando para eles de perto: dois corpos nus bem na
nossa cara, que é para vermos claramente que eles não são
mais jovens nem belos. Nenhum dos dois está alegre. Há um
passado pesado por trás desse presente. Para a mulher, em
particular, tudo começou a cair, engrossar, e coisas piores do
que estrias estão por vir.
Na beira de uma mesa, no primeiro plano do quadro, há dois
pedaços de carne, uma coxa de carneiro grande e uma
pequena costeleta. A carne crua é representada com uma
precisão fisiológica, o mesmo realismo cruel com que são
retratados os peitos caídos e o pênis pendente, flácido, apenas
uns poucos centímetros atrás da comida crua. É como se você
estivesse olhando pela vitrine de um açougue e visse não
apenas a carne, mas também a anatomia sexual do casal. Toda
vez que penso em Consuela, me lembro daquela coxa de
carneiro crua, que parece um porrete primitivo, ao lado dos
corpos deste marido e desta mulher, exibidos do modo mais
escancarado. A presença da carne ali, tão perto do colchão
onde está o casal, fica cada vez menos incongruente quanto
mais tempo você olha para o quadro. Há uma resignação
melancólica na expressão um tanto aparvalhada da mulher, e
há aquele pedaço de carne cortado no açougue que já não tem
mais nada em comum com um carneiro vivo, e já faz três
semanas, desde a visita de Consuela, que não consigo tirar da
cabeça essas duas imagens.
Ficamos vendo o ano-novo chegar em todo o mundo, aquela
histeria coletiva sem sentido que foi a comemoração da
virada do milênio. Um espetáculo de luzes em cada fuso
horário, e nenhum deles provocado por Bin Laden. Explosões
de luz no céu noturno de Londres, mais espetaculares do que
qualquer coisa que já foi vista por lá desde os esplendores de
fumaça colorida do tempo da Segunda Guerra. E a Torre
Eiffel cuspindo fogo, a imagem exata de um lança-chamas
que Wernher von Braun poderia ter projetado para o arsenal
destruidor de Hitler — o histórico míssil dos mísseis, o
foguete dos foguetes, a bomba das bombas, tendo a
antiqüíssima Paris como plataforma de lançamento e toda a
humanidade como alvo. Ao longo de toda aquela noite, em
todas as estações do mundo, a paródia do fim do mundo que
estamos aguardando, nos nossos abrigos de quintal, desde 6
de agosto de 1945. Como poderia aquilo não acontecer? Até
mesmo naquela noite, especialmente naquela noite, as
pessoas se preparando para o pior como se a noite fosse um
longo exercício de defesa antiaérea. A espera pelo momento
em que uma seqüência de horrendas Hiroximas entrariam em
cadeia sincronizada, destruindo todas as civilizações
sobreviventes do mundo. E agora ou nunca. E acabou não
acontecendo.
Talvez fosse isso que todos estavam comemorando — o fato
de que não aconteceu, acabou não acontecendo, que a
destruição final agora não vai acontecer nunca. Toda a
desordem não passa de desordem controlada, pontuada por
intervalos para vender automóveis. A televisão fazendo o que
ela faz melhor: a vitória da trivialização sobre a tragédia. O
Triunfo da Superfície, com Barbara Walters. Em vez da
destruição de cidades seculares, uma explosão internacional
de superficialidade, uma onda global de sentimentalismo,
algo que nem mesmo os americanos jamais tinham visto. De
Sydney a Belém à Times Square, a recirculação de clichês a
uma velocidade supersônica. Nenhuma bomba explode,
nenhum sangue se derrama — a próxima explosão que você
ouvir vai ser o boom da prosperidade, os mercados em alta. O
mínimo de lucidez a respeito do sofrimento banalizado por
essa nossa época sedada pela estimulação grandiosa da maior
de todas as ilusões. Ao testemunhar essa produção exagerada
de um pandemônio ensaiado, ocorre-me a imagem de um
mundo endinheirado entrando, entusiasmado, numa próspera
era das trevas. Uma noite de felicidade humana para dar
início à barbarie.com. Para dar as boas-vindas à merda e ao
kitsch do novo milênio. Uma noite para ser não lembrada, e
sim esquecida.
Menos no sofá, onde estou abraçado a Consuela, meus braços
envolvendo seu torso nu, aquecendo-lhe os seios com as mãos
enquanto vemos o ano-novo chegar em Cuba. Nem eu nem
ela esperávamos que aquilo aparecesse na tela, mas eis que
nos defrontamos com Havana. Num anfiteatro em que mil
turistas estão arrebanhados e que ostenta o nome de boate,
vemos uma versão embalsamada, estilo estado policial, da
espécie de espetáculo caribenho caliente que atraía clientes
endinheirados outrora, no tempo da máfia. A Boate
Tropicana do Hotel Tropicana. Não há nenhum cubano ali,
fora os artistas que estão tentando, sem sucesso, divertir a
platéia: um bando de jovens — noventa e seis ao todo,
segundo a rede ABC — com trajes brancos ridículos, não
exatamente dançando nem cantando, e sim dando voltas no
palco, urrando para os microfones que levam nas mãos. As
moças parecem travestis latinos do West Village com pernas
compridas, andando de um lado para outro, todas
melindrosas. Levam na cabeça uns abajures avantajados — de
um metro de altura, segundo a ABC. Um abajur na cabeça e
uma cascata de babados brancos nas costas.
"Meu Deus", exclamou Consuela, e começou a chorar. "Isto",
disse ela, feroz, "é isto que ele mostra ao mundo. É isto que
ele mostra a todo mundo na noite de ano-novo." "Realmente,
é uma farsa grotesca. Quem sabe", acrescento, "se o Fidel não
está tentando fazer graça."
Será mesmo, me pergunto? Será que isso é uma auto-sátira
inconsciente — será que Fidel Castro está tão desconectado
da realidade — ou será uma sátira intencional, coerente com
o ódio que lhe inspira o mundo capitalista? Fidel Castro, que
nutria tanto desprezo pela corrupção de Batista, uma
corrupção que, era de se esperar, seria simbolizada para ele
pelas boates para turistas como essa Tropicana — e é isso que
ele mostra na virada do milênio? O papa não faria isso — esse
entende tudo de relações públicas. Só mesmo a falecida União
Soviética teria sido capaz de uma vulgaridade assim, fidel
Castro poderia ter escolhido tantas coisas, tantos quadros
tradicionais de realismo socialista: uma comemoração num
canavial, numa maternidade, numa fábrica de charutos.
Trabalhadores cubanos felizes fumando, mães cubanas felizes
sorrindo, recém-nascidos cubanos felizes mamando... mas
apresentar um espetáculo pega-turista de merda como
aquele? Seria de propósito, seria burrice, seria uma tentativa
de gozar toda essa comemoração histérica de um momento
absolutamente sem sentido na História? Seja qual for o
motivo, ele se recusa a gastar um centavo. Recusa-se a parar
para pensar um minuto. Por que motivo Fidel Castro, o
revolucionário, haveria de parar para pensar — por que
motivo qualquer um haveria de parar para pensar numa coisa
que nos dá a impressão de que estamos compreendendo algo
que não estamos compreendendo? A passagem do tempo.
Estamos nadando, afundando no tempo, até que por fim nos
afogamos e sumimos. Esse não-evento é transformado num
grande evento enquanto Consuela, à meu lado, está sofrendo
o pior evento de toda a sua vida. O Grande Fim, embora
ninguém saiba o que é, se é que é alguma coisa, está chegando
ao fim, e sem dúvida ninguém sabe o que está começando. É
uma comemoração entusiástica de algo que não se sabe o que
é.
Só Consuela sabe, porque agora conhece a ferida da idade.
Envelhecer é inimaginável para todos, menos os que estão
envelhecendo, mas agora para Consuela é diferente. Ela já
não mede o tempo como os jovens, contando para trás a
partir do momento em que tudo começou. O tempo para os
jovens é sempre composto do que passou, mas para Consuela
o tempo agora é o futuro que ainda lhe resta, e ela crê que
não lhe resta mais nada. Agora ela mede o tempo contando
para a frente, contando o tempo pela proximidade da morte.
Quebrou-se a ilusão, a ilusão metronômica, a idéia
tranqüilizadora de que, tique-taque, tudo acontece na hora
certa. Agora ela tem uma consciência do tempo idêntica à
minha, ainda mais acelerada e desesperada que a minha. Na
verdade ela me ultrapassou. Porque eu ainda posso dizer a
mim mesmo: "Não vou morrer daqui a cinco anos, talvez até
nem mesmo daqui a dez anos, estou em forma, estou bem de
saúde, posso até viver mais vinte", enquanto ela...
O mais belo dos contos de fada da infância é que tudo
acontece na ordem certa. Nossos avós morrem muito antes
dos nossos pais, e nossos pais morrem muito antes de nós. Os
que têm sorte acabam tendo mesmo essa experiência, as
pessoas vão envelhecendo e morrendo na ordem certa, de
modo que, no enterro, você aplaca sua dor pensando que
aquela pessoa teve uma longa vida. Nem por isso a morte se
torna uma coisa menos monstruosa, mas é esse o truque que
utilizamos para manter intacta a ilusão metronômica, e para
afastar de nós a tortura do tempo: "Fulano teve uma vida bem
longa". Mas Consuela não teve essa sorte, e assim, a meu lado,
condenada à morte, ela assiste àquela comemoração que se
prolonga por toda a noite na tela da tevê, uma histeria
infantil fabricada em torno do futuro infinito, uma fantasia
que os adultos maduros, com seu conhecimento melancólico
de que o futuro é muito limitado, não podem nutrir. E nesta
noite enlouquecida ninguém tem um conhecimento mais
melancólico do que ela.
"Havana", diz ela, chorando cada vez mais, "eu achava que
um dia ia conhecer Havana." "Você vai conhecer Havana."
"Não vou, não. Ah, David, meu avô..." "Sim, o que tem o seu
avô? Pode falar, fala comigo, vamos." "Meu avô ficava sentado
na sala..." "Sim." Eu ainda a estava abraçando quando ela
começou a falar sobre si própria de uma maneira como nunca
havia falado antes, porque nunca havia precisado, talvez
porque antes não se conhecia como se conhecia agora. "Com
a tevê ligada na NewsHour, ou na MacNeil-Lehrer
NewsHour, e de repente", prosseguiu ela, chorando
copiosamente, "ele suspirava: 'Pobre Mama. Ela tinha
morrido em Havana sem ele. Porque a geração dela, aquela
geração, não foi embora. 'Pobre Mamá.' 'Pobre Papá.' Eles
ficaram lá. Ele tinha essa tristeza, essa saudade deles. Um
anseio terrível, terrível. É o que eu sinto também. Só que é de
mim mesma. Da minha vida. Eu apalpo meu corpo, com
minhas próprias mãos, e penso: Isto aqui é o meu corpo! Ele
não pode desaparecer! Isso não pode ser verdade! Não pode
estar acontecendo! Como é que ele pode desaparecer? Eu não
quero morrer! David, eu tenho medo de morrer!" "Consuela,
querida, você não vai morrer. Você está com trinta e dois
anos. Você não vai morrer tão cedo." "Eu fui criada como
uma exilada. Por isso tenho medo de tudo. Você sabia que eu
sou assim? Eu tenho medo de tudo." "Ah, não. Não acredito.
De tudo? Pode ser que você esteja assim hoje, mas..." "Não é
só hoje, é sempre. Eu não queria ser exilada como a minha
família. Mas a gente passa a infância ouvindo dizer: Cuba,
Cuba, Cuba, o tempo todo... E olha só! Essa gente! Essa gente
vulgar! Veja o que ele fez com Cuba! Eu nunca vou conhecer
Cuba. Nunca vou ver a casa. Nunca vou ver a casa deles."
"Vai, sim. Quando o Fidel morrer..." "Eu vou morrer antes."
"Não vai, não. Você vai estar viva. Não entre em pânico. Não
há motivo para entrar em pânico. Tudo vai dar certo, você
não vai morrer..." "Você quer saber qual a imagem que eu
tenho? De Cuba? Que eu tive a vida toda? A minha imagem
mental de Cuba?" "Quero. Conta pra mim. Tenta ficar mais
calma e me conta tudo. Quer que eu desligue a tevê?" "Não —
não. Eles vão mostrar outra coisa. Eles têm que mostrar outra
coisa." "Me fala sobre a sua imagem mental, Consuela." "Não
é a praia, nada disso. Essa é a imagem dos meus pais. Eles
sempre falavam na praia, era tão divertido, as crianças
correndo pela areia, as pessoas sentadas em espreguiçadeiras,
tomando drinques. Eles alugavam uma casa na praia, e não sei
que mais, mas não era essa a lembrança que eu tinha, não. Era
diferente. Eu tenho ela desde menina. Ah, David — eles
enterraram Cuba muito antes de ser enterrados. Não tiveram
opção. Meu pai, meu avô, minha avó, todos eles sabiam que
nunca iam voltar. E não voltaram, mesmo. E agora eu não
vou, também não." "Você vai", insisti. "Qual é a imagem que
você tem desde menina? Me diz. Vamos", disse eu. "Eu
sempre achei que ia voltar. Só pra ver a casa. Que ela ia estar
lá." "A sua imagem mental é da casa?", perguntei. "Não. É
uma rua. El Malecón. Onde tem fotos de Havana sempre tem
uma de El Ma- lecón, essa rua linda à beira-mar. Tem um
muro, e em todas as fotos as pessoas estão sentadas nesse
muro, conversando. Você viu Buena Vista Social Club?" "Vi.
Por sua causa, é claro que vi. Pensei em você quando vi."
"Pois é aquela rua", disse ela, "onde as ondas quebram. Aquele
muro. Só aparece numa cena rápida. Era lá que eu sempre me
imaginava." "A rua do que podia ter sido", disse eu. "Do que
devia ter sido", Consuela corrigiu, e mais uma vez começou a
chorar de modo descontrolado enquanto na tela da tevê, sob
o peso daqueles abajures (cada um deles, somos informados,
pesa seis quilos), as garotas andam de um lado do palco para o
outro, sem rumo. Sim, não há dúvida: é dessa maneira que
Fidel Castro está mandando o século XX se foder. Porque
chegou ao fim a aventura dele na História, também, a marca
que ele deixou e não deixou no rol dos eventos humanos. "Me
diga uma coisa", disse eu. "Você nunca me contou isso antes.
Você não falava assim oito anos atrás. Naquele tempo, você
escutava. Minha aluna. Eu nunca soube de nada disso.
Continua. Me fala sobre o que devia ter sido." "Aquele muro",
disse ela, "e eu. Só isso. Eu lá, conversando com as pessoas. É
isso. Você está à beira-mar mas está na cidade. É um ponto de
encontro. É um lugar pra se passear." "É, mas no filme parecia
bem maltratado", disse eu. "É verdade. Mas não é assim que
eu vejo aquela rua desde menina."
E então a dor, então o peso da tristeza, por tudo que sua
família havia perdido, pelo pai e os avós que morreram no
exílio, por ela própria, que estava prestes a morrer no exílio
(e um exílio que ela jamais vivenciara de modo tão cruel
quanto agora), por toda a Cuba dos Castillo que Fidel Castro
havia estragado, por tudo que ela tinha medo de ter que
abandonar — tudo aquilo era tão forte que, nos meus braços,
por uns bons cinco minutos, Consuela enlouqueceu. Eu vi,
externalizado, o terror que seu corpo estava sentindo. "O que
foi? Consuela, o que é que posso fazer por você? Me diz que
eu faço. O que é que está torturando tanto você?"
E eis o que ela me disse, quando conseguiu falar. Para minha
surpresa, foi isto que ela me disse, que era o que mais a
torturava. "Eu sempre respondia a meus pais em inglês. Ah,
meu Deus. Como eu me arrependo por não ter falado com ele
em espanhol." "Ele quem?" "Meu pai. Ele adorava quando eu
o chamava de 'pap'. Mas, depois que eu cresci um pouco, eu
não queria mais. Eu o chamava de 'dad'. Para mim, era
importante. Eu queria ser americana. Não queria aquela
tristeza toda deles." "Minha querida, agora não faz mais
diferença como você chamava o seu pai. Ele sabia que você o
amava. Ele sabia o quanto..." Mas era impossível consolá-la.
Eu nunca a ouvira falar daquele jeito, nem fazer algo
semelhante ao que ela fez depois disso. Em toda pessoa
tranqüila e razoável existe uma outra pessoa escondida, que
morre de medo da morte, mas para uma pessoa de trinta e
dois anos o tempo que separa o agora da hora da morte
normalmente é tão imenso, tão infinito, que no máximo umas
duas vezes por ano, e mesmo assim só por um momento ou
dois, tarde da noite, chegamos perto de conhecer aquela
outra pessoa escondida, no estado de loucura que é a vida
cotidiana daquela outra pessoa.
O que ela fez então foi tirar o chapéu. Jogou o chapéu longe.
O tempo todo ela estava com aquela espécie de barrete,
mesmo quando estava nua, quando eu fotografava seus seios.
Mas agora ela tirou o chapéu. Num assomo de loucura de
réveillon, jogou longe aquele chapéu de réveillon. Primeiro, a
farsa de Fidel Castro, aquele show de boate pretensamente
sexy, e agora a mortalidade de Consuela totalmente exposta.
Era terrível vê-la sem o chapéu. Uma mulher tão jovem, tão
bela, com aquele cabelo ralo, pêlos muito curtos, finos, sem
cor, sem sentido — teria sido melhor vê-la careca, depois de
passar a navalha, do que com aquela penugem idiota na
cabeça. A transição que há entre pensar numa pessoa tal
como você sempre pensou nela — viva como você — e
alguma coisa que indique para você, como aquela penugem
indicou para mim, que a pessoa está próxima da morte, está
morrendo — isso para mim foi não apenas um choque, mas
também uma traição. Eu traía Consuela por absorver tão
rapidamente o choque e registrar o ocorrido. O momento
traumático da mudança chega quando você se dá conta de
que as expectativas do outro não podem mais ser como as
suas, e que, por melhor que você se comporte e continue a se
comportar, essa outra pessoa vai embora antes de você — se
você tiver sorte, muito antes.
O horror. Lá estava ele. Todo o horror naquela cabeça. A
cabeça de Consuela. Beijei-a e beijei-a. Que mais eu podia
fazer? O veneno da quimioterapia. Tudo que ele fizera em
seu corpo. Tudo que fizera em sua cabeça. Trinta e dois anos
de idade, e acha que está exilada de tudo, vivendo cada coisa
pela última vez. Mas e se não for verdade? E se...
Pronto! O telefone! Pode ser...! Que horas? São duas da
madrugada. Com licença!
Era, mesmo. Era ela. Ela me telefonando. Finalmente. Tenho
que ir. Ela está em pânico. A cirurgia vai ser daqui a duas
semanas. Ela terminou a quimioterapia. Pediu para eu falar
sobre a beleza do corpo dela. Por isso demorei tanto. Era isso
que ela queria ouvir. Era sobre isso que ela ficou falando
quase uma hora. O corpo dela. Você acha que depois da
operação algum homem vai amar meu corpo? Essa é a
pergunta que ela faz sem parar. E que eles resolveram tirar o
seio inteiro. Antes planejavam cortar embaixo do seio e tirar
só um pedaço. Mas agora eles acham que a coisa é muito
séria. O jeito é tirar tudo. Há dez semanas disseram a ela que
só iam tirar uma parte, e agora disseram que vão ter que tirar
tudo. Veja bem, estou falando de um seio. Não é uma coisa
pequena. Hoje de manhã disseram a ela o que vai acontecer;
agora é noite, ela está sozinha, e só de pensar em tudo isso...
Tenho que ir. Ela me quer lá. Ela quer que eu durma na cama
dela, com ela. Ela passou o dia todo sem comer. Ela precisa
comer. Alguém tem que dar comida a ela. E você? Pode ficar
se quiser. Se quiser ficar, se quiser ir embora... Olha, eu não
tenho tempo, tenho que correr!
"Não."
O quê?
"Não vá."
Mas eu preciso. Alguém tem que ficar com ela.
"Ela vai encontrar alguém."
Ela está apavorada. Eu vou.
"Pensa bem. Pensa. Porque se você for, pra você é o fim."
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