quinta-feira, 26 de maio de 2011 By: Fred

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História do livro no Brasil

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Biblioteca Nacional, localizada no Rio de Janeiro, depositária do patrimônio bibliográfico e documental do Brasil.

A História do livro no Brasil relata o desenvolvimento do acesso aos recursos de edição e de aquisição do livro no país, num período que se estende desde o início da atividade editorial, durante a colonização, até o mercado editorial atual, compreendendo a história das editoras e livrarias que permitiram a acessibilidade moderna ao livro.

Índice

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[editar] Período Colonial

Acredita-se que a tipografia só foi introduzida nas colônias pelos colonizadores, onde havia uma cultura autóctone altamente desenvolvida, que o poder colonial desejava suplantar ou reprimir. Tal ideia é defendida por Nelson Werneck Sodré[1] e outros. A tipografia, nos primeiros dois séculos da colonização portuguesa e espanhola, foi em parte um auxiliar da evangelização cristã, era implantada por iniciativa clerical, tanto que sua produção era destinada às necessidades do clero e das missões[2].

Os aborígines brasileiros, que ainda permaneciam na Idade da Pedra, não tinham uma civilização que precisasse ser superada pelos catequizadores, fato que contribuiu para que não houvesse a necessidade imediata da tipografia. Quanto às especulações de que os jesuítas tivessem trazido uma impressora com eles, na verdade nunca surgiu qualquer indício de material impresso com tal origem.

Colégio Santo Inácio, onde acredita-se terem sido feitos os primeiros impressos no Brasil, em 1724.

A "História da Companhia de Jesus no Brasil", de Serafim Leite[3], informa que a biblioteca do Colégio Santo Inácio, no Morro do Castelo, Rio de Janeiro, possuía alguns trabalhos impressos na própria casa por volta de 1724, o que pode ter sido um engano, pois poderiam estar se referindo a dois livros da época, "Vocabulário de la lengua guarany", de Antônio Luiz Restrepo (1722), e "Arte de la lengua guarany", os quais foram impressos numa região que atualmente é brasileira, mas que na época pertencia ao Paraguai, Pueblo de Santa Maria la Mayor[3].

Na maioria das colônias, as necessidades governamentais tornavam imperativo aceitar a tipografia, e apenas na América portuguesa a administração permaneceu tão elementar que a dispensava. Tal necessidade só se tornaria iminente quando o governo da colônia sofresse as transformações mediante o impacto da invasão napoleônica, alguns anos mais tarde.

A primeira tentativa efetiva de introduzir a tipografia no Brasil foi feita pelos holandeses, durante o período em que ocuparam o nordeste brasileiro, entre 1630 e 1650.

Durante a ocupação holandesa, as negociações entre Pernambuco e Holanda selecionaram um tipógrafo, Pieter Janszonon, como encarregado da tipografia no Recife, mas consta que ele morreu logo que chegou ao Brasil, em 3 de agosto de 1643[4]. Dois anos depois, a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais ainda procurava um tipógrafo, sem conseguir. Na época, Maurício de Nassau já havia partido, e os holandeses pressionados já não se preocupavam mais com o assunto.

[editar] Início da atividade editorial

Cerca de 60 anos depois, Recife teve a 1ª impressora do Brasil segundo os historiadores Ferreira de Carvalho[5] e Pereira da Costa[6], mas o tipógrafo é desconhecido. Serafim Leite, em "Artes e Oficinas dos Jesuítas no Brasil"[7], relata que a impressora funcionou de 1703 a 1706, e defende que o tipógrafo era um jesuíta, Antônio da Costa, mas não há nenhuma prova, entretanto, da existência de tal impressora.

No Rio de Janeiro, em 1747, há provas definitivas de ter havido uma impressora, através de folhetos impressos na época. O tipógrafo era Antônio Isidoro da Fonseca[7], reconhecido tipógrafo de Lisboa, que vendera lá seu negócio e viera para o Brasil. Isidoro tivera problemas em Lisboa, com a inquisição, por ter sido o editor de "O Judeu", Antônio José da Silva, carioca nascido em 1703 de uma família de judeus convertidos, e que acabou sendo queimado, posteriormente, num dos últimos autos de fé da inquisição, em 19 de outubro de 1739[8]. Na época, o governador do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, Gomes Freire de Andrade, estava interessado em estimular a vida intelectual da cidade do Rio de Janeiro. Estimulou a arte criando a Academia dos felizes, em 1736, que se tornou a Academia dos Selectos em 1752, que se reunia no próprio Palácio do Governo[9]. Prova concreta da existência da tipografia foram um folheto, de 1747, cuja autoria é atribuída a Luiz Antonio Rosado, e um volume denominado "Hoc est Conclusiones metaphysicae de ente real, praeside R. G. M. Francisco de Faria", em 1747. Ainda há duas outras obras, referentes ao bispo Antonio do Desterro Malheyro. Tão logo a notícia da tipografia chegou a Lisboa, porém, houve ordem para fechá-la, por não ter sido considerada conveniente, no momento, a impressão na colônia.

Isidoro voltou a Portugal, mas, após 3 anos, solicitou licença real para instalar novamente sua impressora na colônia, no Rio de Janeiro ou em Salvador, prometendo jamais imprimir sem as devidas licenças civis e eclesiásticas, mas sua solicitação foi recusada[10].

A proibição de Portugal para a impressão no Brasil foi o fator que fez com que todos os originais brasileiros passassem a ser publicados na Europa ou a permanecer na forma de manuscritos. Há vários trabalhos escritos por brasileiros e impressos, na época, em Portugal, entre eles as poesias de Cláudio Manoel da Costa, trabalhos de José de Santa Rita Durão, José Basílio da Gama (autor de "Uruguai", de 1769), Tomás Antônio Gonzaga (cuja obra Marília de Dirceu teve 4 edições em Lisboa entre 1792 e 1800).

Em 1792, havia apenas 2 livrarias no Rio de Janeiro[11], e possivelmente uma das duas era de Paul Martim, natural de Tours e o 1º livreiro carioca. Seu filho, Paulo Martim Filho, manteve a livraria funcionando até 1823. Os livros oferecidos eram, geralmente, de medicina ou religião, e a maior parte dos livros que chegavam ao Brasil, na época, era contrabandeada.

[editar] Chegada da família real ao Brasil

António de Araújo e Azevedo, conde da Barca, que mandou instalar o 1º prelo no Brasil, em sua própria casa, no Rio de Janeiro

Em 1808, quando a família real, por pressão da invasão napoleônica, transferiu-se para o Brasil, levou consigo 60 mil volumes da Biblioteca Real[12]. Instalados na nova capital, Rio de Janeiro, Dom João VI e seus ministros criaram, entre os demais empreendimentos, a Biblioteca Real, atual Biblioteca Nacional, criada em 1810. O impacto provocou um aumento do número de livrarias, de 2 existentes em 1808 (as de Paulo Martim e Manuel Jorge da Silva), para 5 em 1809 (além das anteriores, somaram-se a de Francisco Luiz Saturnino da Veiga, Manuel Mandillo — que após 1814 associou-se a José Norges de Pinho — e João Roberto Bourgeois); 7 em 1812 (além das anteriores, Manuel Joaquim da Silva Porto — que em 1815 associou-se a Pedro Antônio de Campos Bellos — e José Antônio da Silva); 12 em 1816 (além das anteriores, Fernando José Pinheiro, Jerônimo Gonçalves Guimarães, Fancisco José Nicolau Mandillo, João Batista dos Santos), e em 1818, mais 3 (Antônio Joaquim da Silva Garcez, João Lopes de Oliveira Guimarães e Manuel Monteiro Trindade Coelho)[13]. O periódico "Correio Braziliense", de Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, era produzido na Inglaterra. Em Paris, houve um desenvolvimento do comércio editorial em língua portuguesa, que iria durar muito tempo, praticamente até 1930.

Há discordância sobre o fato de haver ou não um prelo no Brasil por ocasião da chegada da família real. Consta que a imprensa com tipos móveis foi finalmente trazida ao Brasil pelo próprio governo que antes a proibira com tanta veemência. António de Araújo e Azevedo, então Ministro do Exterior e posteriormente Conde da Barca, trouxe e mandou instalar o prelo no Rio de Janeiro, no andar térreo de sua própria residência, na Rua do Passeio, 44. O Irmão José Mariano da Conceição Veloso, religioso mineiro que fora para Lisboa em 1790, voltou ao Brasil com a família real para trabalhar na impressora do Rio, a Imprensa Régia. A inauguração do novo prelo foi em 13 de maio de 1808, com a publicação de um folheto de 27 páginas, acompanhado da Carta Régia. Nos 14 anos do monopólio da Impressão no Rio foram produzidos mais de mil itens[14].

[editar] Mercado editorial na província

  • Minas Gerais

A 1ª impressão de livro na província foi em Vila Rica, Minas Gerais, posteriormente Ouro Preto, em 1807, antes do surgimento da Imprensa Régia. O governador Athayde de Mello, futuro Conde de Condeixa, ficou tão satisfeito com um poema feito em sua honra por Diogo de Vasconcelos, que desejou vê-lo impresso. Tal impressão foi feita pelo padre José Joaquim Viegas de Menezes, em uma pequena prensa para fins domésticos. Associado ao português Manuel José Barbosa Pimenta e Sal, aos poucos foram criando a "Typographia Patriota de Barbosa & Cia", que ficou pronta em 1821.

Após 1807, os primeiros livros impressos em Ouro Preto foram uma coleção das "Leis do Império do Brasil", em 1835, por um impressor chamado Silva, e o "Diccionario da Língua Brasileira", de Luís Maria da Silva Pinto, em 1832. Surgiram, posteriormente, outras tipografias em São João Del Rei (1827), Diamantina (1828) e Mariana (1830)[15].

  • Bahia
Clóvis Bevilaqua, dono da Livraria J. L. da Fonseca, na Faculdade de Direito do Recife entre os anos de 1891 e 1895. Fotografia de Alberto Henschel.

Na Bahia, logo que a família real chegou ao Brasil, um livreiro de Salvador, Manuel Antônio da Silva Serva, natural de Portugal, pediu permissão para ir à Inglaterra e conseguir uma impressora para a Bahia; tal permissão foi concedida em 1809, e começou a imprimir em 1811; aventa-se que possuía, na época, 2 impressoras. Serva morreu em 1819, e a tipografia continuou com seu sócio e genro José Teixeira e Carvalho, ficando conhecida como "Typographia da Viúva Serva, e Carvalho". Mais tarde, seu filho Manuel começou a trabalhar na firma.. A publicação conhecida da Silva Serva é de 176 títulos, e a editora sobreviveu com várias mudanças de nome até 1846, porém perdeu sua posição de monopólio em 1823. Durante a luta pela independência do Brasil, as tropas da junta pró-Portugal invadiram a "Typographia da Viúva Serva", para interromper a publicação do jornal nacionalista "Constitucional"; os editores fugiram para Cachoeira, onde instalaram sua própria gráfica para imprimir a continuação, o semanário "O Independente Constitucional"[16]. A tipografia de Serva continuou produzindo a Gazeta da Bahia, pró-Portugal, mas quando a causa nacionalista triunfou, em junho de 1823, sua publicação teve que ser interrompida.

Com a morte de Silva Serva, a produção literária baiana entrou em declínio, só se recuperando nos anos 1890. Destacam-se, na época, a "Livraria J. L. da Fonseca Magalhães, editores", do jurista Clovis Bevilacqua, entre 1895 e 1910, e a Livraria Catilina, fundada por Carlos Pongetti em 2 de fevereiro de 1835, e que duraria até 1960, ocasião em que se tornou a mais antiga livraria do Brasil. Em 1864, Serra Teriga assumiu sua direção, passando-a para Xavier Catilina em 1877. A Catilina era uma casa varejista, mas teve um grande período editorial, na administração de Romualdo dos Santos, em que publicou obras de Castro Alves, Coelho Neto, Ruy Barbosa, Xavier Marques, e Ernesto Carneiro Ribeiro. A impressão, porém, geralmente era feita em Portugal ou outros países da Europa, como era costume na época.

  • Maranhão

O Maranhão foi uma das primeiras províncias a ter uma tipografia, pois era uma das mais prósperas do império, devido à produção do algodão, que valorizara desde a invenção do tear de Cartwright, em 1787. Durante tal período de desenvolvimento, houve um período áureo de atividade cultural e intelectual na região, por influência da elite portuguesa. O período áureo da literatura começa com o aparecimento dos 1ºs poemas de Gonçalves Dias, na década de 1840, e vai até a partida de Aluísio Azevedo para o Rio de Janeiro, no início da década de1880. Dois impressores se destacam nessa época: Belarmino de Mattos e José Maria Corrêa de Frias.

A impressão foi introduzida no Maranhão em 1821, pelo governador Bernardo da Silveira Pinto da Fonseca, quando esse instalou uma impressora oficial, para produzir o jornal do governo "Conciliador do Maranhão"[17]. Um prelo "Columbian", o mais moderno da época, foi trazido de Lisboa, e formava-se então a "Typographia Nacional Maranhense", posteriormente denominada "Typographia Nacional Imperial".

As primeiras impressoras de propriedade privada no Maranhão foram a de Ricardo Antônio Rodrigues de Araújo, que existiu de 1822 até a década de 50, e a "Typographia Melandiana", de Daniel G. de Melo, que produziu seu 1º trabalho em 1825. A mais importante, porém, foi a "Typographia Constitucional", de Clementino José Lisboa, que teve início em 1830. Outras foram a de "Ignácio José Ferreira", fundada em 1833 por João Francisco Lisboa e Frederico Magno d'Abranches; a "J. G. Magalhães e Manuel Pereira Ramos"; a "Typographia Temperança"; a de Francisco de Sales Nines Cascais; a "Typographia Monárquica Constitucional", que foi vendida em 1848 a Fábio Alexandrino de Carvalho Reis, A. Theophilo de Carvalho Leal e A. Rego, e que produziria "O Progresso", o 1º jornal diário do Maranhão, iniciado em 1847[18].

Belarmino de Mattos tem sido considerado por muitos historiadores como um dos melhores impressores que o Brasil já teve[19]. Criou um sindicato, a "Associação Typographica Maranhense", inaugurada em 11 de maio de 1857, uma das primeiras organizações de trabalhadores do Brasil fora do Rio de Janeiro (foi precedida, no Rio de Janeiro, pela "Imperial Associação Typographica Fluminense", fundada em 25 de dezembro de 1853).

  • Pernambuco

Em Pernambuco, Recife teve a 1ª tipografia, a "Oficina Tipográfica da República restaurada de Pernambuco", em 1817, que logo foi fechada pelo governo, por motivos políticos. Em 1820, o governador Luís do Rego Barreto ordenou que se construísse uma "prensa de parafuso", de modelo tradicional, no arsenal local, ou no trem, ficando então conhecida como "Officina do Trem de Pernambuco", e o professor francês de desenho, Jean-Paul Adour, foi nomeado para dirigi-la. Quando Rego foi destituído, passou a se chamar "Officina do Trem Nacional", em 1821, e depois "Typographia Nacional". Ainda em Recife havia o concorrente Manuel Clemente do Rego Cavalcante, que se estabeleceu com um equipamento recém-trazido de Portugal, associando-se depois a Felipe Mena Calado da Fonseca e ao inglês James Prinches; o ex-padre e professor de português Antônio José de Miranda Falcão aprendeu com Prinches a arte da tipografia. Além dessas, outras duas tipografias foram a "Typographia Fidedigna" de Manuel Zeferino dos Santos, de 1827 a 1840, e a Typographia do Cruzeiro", iniciada em 1829.

Em Olinda, Manuel Figueiroa de Faria abriu, em meados de 1831, a "Pinheiro Faria e Companhia", que se mudou em seguida para Recife, e que talvez seja responsável pelos primeiros livros de Pernambuco; publicava o "Diário de Pernambuco", tendo comprado seus direitos de Antônio José de Miranda Falcão, em 1835. Na época, havia 14 firmas impressoras e 4 estabelecimentos de litografia em Recife, e uma das mais importantes foi a "União", de Santos e Cia., fundada em 1836, pelo padre Ignácio Francisco dos Santos.

Talvez a publicação mais interessante de Pernambuco, na época[20], foi o trabalho de Nísia Floresta (pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto), "Direitos das Mulheres e Injustiças do Homens", adaptação livre da obra Vindication of the rights of women, de 1792, de autoria da feminista Mary Wollstonecraft Godwin.

Outras tipografias a salientar são a do cônego Marcelino Pacheco do Amaral, que instalou um prelo em sua própria casa, só para publicar seu "Compendio de theologia moral", em 3 volumes produzidos entre 1888-1890, e depois vendeu sua "Imprensa Econômica" a um editor local, e a de Tobias Barreto, em 1847, que fundou em Escada, interior de Pernambuco, a "Typographia Constitucional", que durou até 1888.

  • Paraíba

Na Paraíba, destacou-se a "Typographia Nacional da Paraíba", que imprimiu o 1º jornal da província.

  • Pará

No Pará, o impressor João Francisco Madureira fabricou seu próprio prelo. Já em 1822, a Imprensa Liberal publicou o 1º jornal paraense, e o 5º do Brasil, "O Paraense", pelo mestre impressor Daniel Garção de Melo. A "Typographia de Santos e Menor", de Honório José dos Santos, ofereceu a 1ª publicação local importante, o "Ensaio corográfico sobre a província do Pará", de António Ladislau Monteiro Baena. Depois, a tipografia mudou o nome para "Santos e Filhos" e, posteriormente, "Santos e Irmão".

  • Outras províncias

Depois do Pará, a tipografia chegou nessa ordem nas províncias[21]: Ceará em 1824, São Paulo em fevereiro de 1827, Rio Grande do Sul em junho de 1827, Goiás em 1830, Santa Catarina em 1831, Alagoas em 1831, Sergipe em 1832, Rio Grande do Norte em 1832, Espírito Santo em 1840, Paraná em 1853 (Rizzini defende que foi em 1849[22]), Amazonas em 1854, Piauí em 1832, Mato Grosso em 1840[23]

[editar] Mercado editorial no Rio de Janeiro

  • Início da produção editorial

A nova constituição portuguesa, adotada em 15-16 de fevereiro de 1821, abolira a censura prévia, e logo surgiu no Brasil uma avalanche de publicações sobre política[24]. Foi extinto, igualmente, o monopólio da impressão pela imprensa do governo. Em 1821, foi permitida a instalação da "Nova Officina Typographica", de propriedade particular, seguida pela "Typographia de Moreira e Garcez", no Rio de Janeiro. Nas vésperas da Independência do Brasil, já existiam, na cidade, cerca de 7 estabelecimentos tipográficos. Manuel Joaquim da Silva Porto, poeta e livreiro, que introduzira no Brasil a Phedra, de Racine, e que fora tipógrafo da Imprensa Régia, iniciara sua "Officina de Silva Porto e Cia.", ao lado de Felizardo Joaquim da Silva Moraes, tornando-se o 1º livreiro da cidade a ter tipografia própria[25].

O escritor Victoriano José dos Santos e Silva montou a "Officina dos Anais Fluminenses"; havia também a moderna "Typographia Astréia", que imprimia um jornal com o mesmo nome, e a firma "Torres e Costa: Innocêncio Francisco Torres e Vicente Justiniano da Costa", que logo foi substituída pela "Typographia Innocencio Francisco Torres e Companhia". Mediante a quantidade de tipografias, houve um aumento do número de livrarias no Rio de Janeiro.

Em 1823, Paulo Martim Filho, que se mudara para a Rua dos Pescadores, nº 14, era o livreiro mais conhecido do Rio de Janeiro. Silva Porto, na Rua da Quitanda, era o 2º em importância, mas ao todo havia outras 11 livrarias, e uma delas era a loja de Francisco Luiz Saturnino da Veiga. Ao se casar novamente, Francisco doou o dote de sua falecida esposa aos filhos mais velhos, João Pedro Ferreira da Veiga e Evaristo da Veiga, que ingressaram por conta própria no mercado livreiro, comprando o estabelecimento de Silva Porto.

O predomínio do Rio de Janeiro no mercado literário teve início na década de 1840 e permaneceu até 1880, a despeito da tentativa de outras cidades provinciais, tais como a Casa Garraux, afamada livraria de São Paulo, que apresentava na época 400 obras impressas na província, isto é 11% de todos os títulos existentes no país.

Destacava-se, também, a "Casa do Livro Azul", sebo mais conhecido do Rio de Janeiro, na Rua do Ouvidor, que funcionou de 1828 a 1852[26]; seu proprietário, Albino Jourdan, perdera a visão e a audição e era ajudado por dois auxiliares de 14 e 17 anos.

  • Pierre Plancher

Pierre René Constant Plancher de la Noé, tornara-se um impressor oficial na França em 1798. Após inúmeros problemas políticos com o governo francês, foi para o Rio de Janeiro em 1824, e enquanto aguardava que a alfândega liberasse seus equipamentos, abriu sua loja provisória na Rua dos Ourives, nº 60, em março de 1824. Em junho do mesmo ano, mudou-se para a Rua do Ouvidor, inicialmente no nº 80, depois nº 95, e logo começou a publicar em português. Grande parte de sua publicação era administrativa. Dentre suas várias publicações, destacam-se o "Annuario Histórico Brasiliense", em 1824, no ano seguinte um almanaque, "Folhinhas de Algibeira e de Porta", e em 1827, o "Almanack Plancher".

Notícia do Jornal do Commercio do dia 10 de junho de 1900.

Plancher publicou a 1ª novela brasileira, "Statira a Zoroastes", de Lucas José de Alvarenga, em 1826, com 58 páginas. Anteriormente, Paulo Martim publicara algumas novelas, mas traduzidas do francês. Plancher publicou o periódico "Spectador Brasileiro", jornal que durou até 23 de maio de 1827. Adquiriu depois o "Diário Mercantil", de Francisco Manuel Ferreira e Cia, e mudou seu nome para Jornal do Commercio, o mais antigo da cidade do Rio de Janeiro. É atribuído a Plancher o novo processo de impressão planográfica conhecido como litografia, que fora inventado em 1798 e só começou a se generalizar em 1815, substituindo a gravação em chapas de metal.

O litógrafo de Plancher era Hercule Florence, que desistiu do cargo para seguir uma viagem de exploração e antropologia com o Barão de Langsdorff. O primeiro litógrafo do Brasil, portanto, foi Armand Marie Julien Pallière, que trabalhou um tempo para o Arquivo Militar, em 1819, e foi substituído por Johannn Jacob Steinmann, que chegou ao Rio de Janeiro em 1825 e alguns anos depois voltou para Suíça, onde publicou sua coleção de vistas litografadas, "Souvenirs de Rio de Janeiro".

Graças aos aprendizes de Steinmann, em 1846 existiam no Rio de Janeiro 4 tipografias imprimindo em litografia. A mais antiga era a de Luís Aleixo Boulanger, fundada em 15 de agosto de 1829, e a mais importante foi a firma "Ludwig e Briggs", que existiu entre 1843 e 1877. O principal concorrente de Briggs era "Heaton e Rensburg", fundada em 1840 (pelo inglês George Mathia Heaton e o holandês Eduard Rensburg), cuja principal característica era a publicação de músicas[27].

  • Villeneuve
Tipos móveis justapostos em um linotipo.

Após a abdicação de D. Pedro I, em 1832, o comércio de livros sofreu os efeitos econômicos da incerteza política, e Plancher vendeu sua firma para dois conterrâneos, em 9 de junho de 1832. Os compradores foram Junio Constancio de Villeneuve e Réol-Antoine Mougenot, e em 15 de julho de 1834, Mougenot vendeu sua parte a Villeneuve, que possuiu a 1ª impressora mecânica do hemisfério sul [28], depois a 1ª rotativa e a 1ª linotipo. Seus concorrentes eram a "Typographia Nacional", "Paula Brito", "Laemmert", a "Typographia do Diário", e as impressoras do Correio Mercantil e Correio da Tarde. Na época, foram produzidos dois dos mais antigos títulos registrados como romances brasileiros: "O Aniversário de D. Miguel em 1828", de J. M. Pereira da Silva, em 1838, e "Os Assassinos Misteriosos", de Justiniano José da Rocha, em 1839[29].

  • Louis Mongie

Louis Mongie teve uma das principais livrarias da Rua do Ouvidor, de 1832 até 1853, ano de sua morte, quando então a livraria foi transferida para "Pinto & Waldemar", que se tornou, por volta de 1860, "F. L. Pinto & Cia.", e depois para "J. Barboza e Irmão" — todos a intitulavam, porém, "Livraria Imperial".

  • Paula Brito

Em 1831, Francisco de Paula Brito, que viera de família humilde e aprendera a ler com sua irmã, comprou um pequeno estabelecimento de seu parente Sílvio José de Almeida Brito, na Praça da Constituição, nº 51; era uma papelaria e oficina de encadernação, além de vender chá. Brito instalou ali um pequeno prelo, adquirido de E. C. dos Santos, e no ano de 1833, Brito já possuía 2 estabelecimentos: a "Typographia Fluminense", na Rua da Constituição, nº 51, e a "Typographia Imparcial", no nº 44; em 1837, mudou para o nº 66 e expandiu a loja para nº 64 em 1939. Em 1848, Brito possuía já 6 impressoras manuais e uma mecânica, e expandiu suas instalações para os nº s 68 e 78, esse constituindo sua "Loja do canto", que se tornou sua livraria e papelaria, além de criar filiais em sociedade com Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa e com Cândido Lopes, formando com esse último a "Tipografia e Loja de Lopes e Cia", em Niterói. Cândido Lopes se tornaria, posteriormente, o primeiro impressor do Paraná[30].

Em sua loja, Francisco de Paula Brito criou a "Sociedade Petalógica", que tinha tal nome devido à "liberdade" que Brito dizia que seus membros davam à imaginação (uma peta = uma mentira), e reunia todo o movimento romântico de 1840-1860: Antonio Gonçalves Dias, Laurindo Rabelo, Joaquim Manuel de Macedo, Manuel Antonio de Almeida, entre outros. Toda a elite da época, entre políticos, artistas e líderes, reunia-se na "Livraria de Paula Brito".

Uma prensa usada na litografia

Em 1851, Brito entrou no campo da litografia; uma de suas revistas, "A Marmota na Corte", incluía o encarte de um figurino. Brito trouxe de Paris o litógrafo Louis Therier, que passou a fazer as litografias para a revista. Criou em 2 de dezembro de 1850 a nova "Imperial Typographia Dous de Dezembro", data de aniversário seu e de D. Pedro II, que se tornou seu acionista, patrocínio esse dado mais por caráter pessoal do que político partidário. Paula Brito foi o primeiro editor genuinamente não-especializado do país, pois incluía grande variedade de obras e assuntos, ao contrário de seus antecessores, que se dedicavam mais aos assuntos técnicos.

Paula Brito editou a 1ª revista feminina do país, em 1832, "A Mulher do Simplício", ou "A Fluminense Exaltada", que foi impressa por Plancher, seu amigo. A revista persistiu até 1846, quando foi substituída por "A Marmota", que durou, com algumas mudanças de título, de 1849 a 1864, 3 anos após sua morte.

Há registro de 372 publicações não-periódicas feitas por Paula Brito, de temática bastante variada, e dessas, 83 na área médica, geralmente teses[31], mas a maior parte constituída de dramas. Brito incentivava a literatura nacional, ainda precária. Pode-se considerar que o primeiro romance brasileiro com algum valor literário tenha sido "O Filho do Pescador", de Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa, publicado por Brito em 1843. Empregou o poeta Casimiro de Abreu e o jovem Machado de Assis, que começou como revisor de provas de Paula Brito e deu início à carreira literária como colaborador de "A Marmota Fluminense".

No início de 1857, os acionistas insatisfeitos conseguiram a liquidação da "Typographia Dous de Dezembro". Sua firma foi reduzida a "Typographia de Paula Brito", com apenas um endereço, ainda graças ao auxílio financeiro do imperador. A publicação de livros caiu, reduzindo-se para 12 em 1858 e 15 em 1861, ano de sua morte. Sua viúva continuou o negócio em sociedade com o genro até 1867, caindo a produção, e em 1868 a Sra. Rufina Rodrigues da Costa Brito ficou sozinha, transferindo seu negócio para a Ria do Sacramento, nº 10, onde sobreviveu até 1875.

  • Garnier
Ver artigo principal: Livraria Garnier

Dentre as várias livrarias do Rio de Janeiro, na Rua do Ouvidor, enquanto algumas eram pertencentes a franceses, como Plancher e Villeneuve, outras eram filiais de firmas já existentes na França, como Mongie, Aillaud e Bossange. Destacam-se entre esses os Irmãos Firmin Didot, mas na ordem de importância, a mais destacada foi a Garnier Frères, que funcionou no Brasil de 1844 a 1934.

Os irmãos Auguste (nascido em 1812) e Hippolyte (nascido em 1816) Garnier começaram a trabalhar como balconistas de livraria em Paris, em 1828, e mais tarde abriram seu próprio negócio, aos 21 e 17 anos. O irmão mais novo, Baptiste Louis Garnier (nascido em 4 de março de 1823), trabalhou para seus irmãos até 1844, e depois foi para o Brasil, chegando ao Rio de Janeiro em 24 de junho de 1844. Após dois anos de acomodações temporárias, instalou-se na Rua do Ouvidor, nº 69 (mais tarde renumerada 65), e permaneceu ali até 1878, mudando-se para o nº 71, em frente ao seu principal concorrente, a "Livraria Universal", de E. & H. Laemmert. Até 1852, a firma denominava-se "Garnier Irmãos", depois, "B. L. Garnier", e acredita-se que tenha se separado dos irmãos entre 1864 e 1865[32].

No início da década de 1870, Garnier teve sua própria tipografia, a "Tipografia Franco-americana". No conjunto, Garnier tem o crédito de 655 trabalhos de autores brasileiros publicados, entre 1860 e 1890, além de várias traduções, do francês, de romances mais populares. Deve-se a Garnier o formato francês dos livros que o Brasil adotou: in-oitavo (16,5 x 10,5 cm) e in-doze (17,5 x 11,0 cm), imitações da firma parisiense Calmann-Levy[33].

Em 1891, com saúde precária, Baptiste iniciou negociações para a venda de sua empresa, mas insatisfeito com os preços, desistiu, falecendo 3 anos depois, em 1º de outubro de 1893; a firma passou para seu irmão Hippolyte, que residia em Paris, voltando assim à condição inicial de filial da "Garnier Frères" no Rio de Janeiro.

Hippolyte Garnier tinha 77 anos quando seu irmão Baptiste morreu. A Garnier na França acabou sendo, nas décadas de 1890 e 1920, a principal editora de literatura hispano-americana em todo o mundo. A morte de Baptiste, assim como dos irmãos Laemmert, causou uma estagnação no mercado livreiro brasileiro, além de que a queda do império transformou completamente o clima social. Em 1898, Hyppolite mandou ao Rio de Janeiro um novo gerente, Julien Lansac, e seu assistente chefe passou a ser Jacinto Silva, que teve grande autonomia, pelas dificuldades de Julien falar a língua portuguesa. Hippolyte mandou reformar as instalações da Garnier, que foi inaugurado com gala. Cada um dos convidados foi presenteado com um exemplar da 2ª edição de Dom Casmurro, de Machado de Assis, autografado. Por volta de 1904, Jacinto Silva saiu da firma e foi dirigir o departamento de livros da Casa Garraux, em São Paulo, e em 1920 instalou sua própria "Casa Editora O Livro", que foi o centro do movimento modernista.

Hippolyte Garnier morreu aos 95 anos em 1911, e Lansac voltou à França em 1913; os negócios passaram para um sobrinho, Auguste P. Garnier, que enviou para o Rio de Janeiro outro gerente francês, Émile Izard (nascido em 1874). A partir de então, a Garnier entrou em decadência, com poucas publicações, e o fim chegou perto de 1934, quando a Livraria Garnier foi vendida a Ferdinand Briguiet, que anteriormente comprara a Livraria de Lachaud, na Rua Nova do Ouvidor.

  • Briguiet-Garnier

Quando a Garnier foi vendida, passou a usar o nome Livraria Briguiet-Garnier, e durou até 1951, quando a "Difusão Européia o Livro (DIFEL) assumiu a filial brasileira da Garnier. O edifício da Garnier foi demolido em 1953, para dar lugar a um Banco, e a Briguiet ficou restrita à Rua Nova do Ouvidor. Briguiet então já fora substituído por seu sobrinho Ferdinand, que morreu sem herdeiros em meados de 1970. Alguns dos ativos da firma foram comprados pela "Livraria Itatiaia" de Belo Horizonte, e a Loja Briguiet foi fechada em 1973.

  • Lombaerts

Entre as livrarias de estrangeiros no Rio de Janeiro, destacava-se a do belga Jean Baptiste Lombaerts (1821-1875) e seu filho Henri Gustave Lombaerts (1845-1897), que era a maior de litografias montadas na época[34], na Rua do Ourives, nº 17, de 1848 até 1904, quando a loja foi demolida, para dar lugar à Avenida Central. De 1871 a 1879, a livraria produziu um suplemento em português para acompanhar um de seus principais periódiocos importados, a revista francesa "La Saison". A partir de 1879, começou a editar sua própria edição brasileira da revista, com o nome "A Estação".

  • Leuzinger
Xilogravuras do século XVI ilustrando a produção da xilogravura. No primeiro: ele esboça a gravura. Segundo: ele usa um buril para cavar o bloco de madeira que receberá a tinta

Outra firma de destaque foi a do suíço Leuzinger, fundada por Georg Leuzinger (1813-1892), que chegou ao Rio de Janeiro em 1832, e até 1840 economizara o suficiente para comprar a mais antiga papelaria da cidade, "Ao Livro Vermelho", de Jean Charles Bouvier, na Rua do Ouvidor, nº 31. Em 1852, Leuzinger adquiriu a Typographia Franceza, fundada por Jean Soleil Saint Amand em 1837, e que publicara em 1841 os primeiros poemas de Joaquim Norberto, "Modulações Poéticas", e as duas primeiras edições, de 1844 e 1845, de "A Moreninha", de Joaquim Manuel de Macedo. Sob a direção de Leuzinger, ela se tornou uma das tipografias mais bem equipadas do país. Leuzinger teve grande participação no desenvolvimento da gravação em madeira (xilogravura) no país, e em 1843, trouxe da Alemanha 2 talentosos gravadores em madeira, Eduard Hüslemann e R. Rollenberger. Em 1850, Rollenberger morreu de febre amarela e Hüslemann voltou para a Alemanha, mas deixaram muitos aprendizes no Brasil. Leuzinger foi o responsável, entre outras coisas, pela introdução dos cartões postais ilustrados no país, e aventurou-se na fotografia. As 54 xilogravuras que ilustram o livro de Louis e Elizabeth Agassiz, "Journey in Brazil", de 1868, são de Leuzinger. Como tipografia, a Leuzinger sobreviveu, sob o nome "Gráfica Ouvidor".

  • Laemmert
Ver artigo principal: Tipografia Universal

A mais importante das livrarias estrangeiras foi, porém, a Laemmert; entre 1893 e a passagem do século, foi a principal editora brasileira. Eduard Laemmert (nascido em 10 de agosto de 1806) e Heinrich (nascido em 27 de outubro de 1812) eram filhos de F. W. Laemmert, um clérigo protestante que os educou em casa e aos 14 anos os enviou para o aprendizado do comércio de livros. Partindo para Paris, Eduard foi trabalhar na firma de Martin Bossange e seu filho Hector. Dois anos depois, Bossange decidiu abrir filial no Rio de Janeiro, e Eduard, representante de Bossange, abriu uma sociedade com um português chamado Souza, representante de J. P. Aillaud., estabelecendo-se na Rua dos Latoeiros (hoje Gonçalves Dias), nº 88, sob o nome Souza Laemmert. Quando o contrato expirou, em 1833, Eduard resolveu ficar no Brasil, casou com uma brasileira e começou seu próprio negócio, na Rua da Quitanda nº 77, a "Livraria Universal". Seu irmão Heinrich veio, a seu pedido para o Brasil, e formaram a "E. & H. Laemmert, mercadores de livros e de música", em 1838. Em pouco tempo começaram a editar e em 1839 criaram a sua "Folhinha" anual. Em 1844, começaram o "Almanack Laemmert", que superou todos os concorrentes e, em 1875, chegava a ter 1770 páginas. Instalaram-se, em 1868, na Rua do Ouvidor, nº 68. A oficina tipográfica de Laemmert inaugurou em 2 de janeiro de 1838, e recebeu o nome de Typographia Universal.

Em 1877, Eduard afastou-se da firma, indo para Karlsruhe, a cidade onde aprendera o ofício e lá faleceu repentinamente, em 18 de janeiro de 1880. Henrique faleceu 4 anos depois. Todos os negócios foram para uma sociedade formada por Gustave Massow, o genro de Henrique, Edgon Widmann Laemmert, e Arhur Sauer. Em 1891, a firma foi reorganizada com o nome Laemmert & Companhia, e em 1898, possuía filiais em São Paulo e Recife. Em 1903, houve nova mudança de sócios, e Edgon foi substituído por seu filho Hugo e Gustave por seu irmão Hilário. Laemmert possuía uma biblioteca com um exemplar de cada edição produzida , mas essa foi destruída por um incêndio em 1909, após o que a livraria nunca mais foi reaberta. Os direitos autorais de sua propriedade foram vendidos a Francisco Alves, que adquiriu o mais famoso de seus títulos, "Os Sertões", de Euclides da Cunha, que Laemmert publicara em 1902 e vendera 3 edições.

A tipografia continuou, e a propriedade, que ficara com Arthur Sauer, passou para Manuel José da Silva, em 1910, que já era dono do "Anuário Geral de Portugal", então o Alamanack mudou o nome para "Anuário do Brasil". A nova organização passou por várias mudanças de proprietário, tornando-se "Sérgio & Pinto" em 1919, "Álvaro Pinto & Cia em 1920, Alexandre Henault & Cia em 1921, e em 1925 foi adquirida pelo Jockey Club do Rio de Janeiro, onde foi chamada "Almanack Laemmerte Limitada". Poucos livros foram produzidos nessa época, destacando-se o "Livro de Ouro do Centenário a Independência do Brasil", em 7 de setembro de 1922. Em 1942, outro incêndio destruiu o Almanack, e o último número foi do de 1943. A Gráfica Laemmert voltou a publicar livros por volta de 1970[35].

  • Sellos & Couto

A firma Sellos & Couto foi fundada em 1815, quando José Gonçalves Agra abriu uma livraria na Rua do Sabão, nº 22. Nos anos 1820, a firma passou às mãos de Agostinho de Freitas Gonçalves, sucedido em 1852 pelos seus sobrinhos Antônio e Agostinho Gonçalves Guimarães, que acrescentaram a ela uma oficina impressora, a "Typographia Episcopal". Antônio passou a se dedicar aos negócios bancários e Agostinho se aposentou em 1887, vendendo a firma a seu enteado João Antônio Pinto[36]. Quando esse morreu, falido, o negócio foi arrematado por Antônio Joaquim de Sellos e Gaspar Pereira de Couto, que passaram a operar, primeiro como Sellos, Guimarães & Cia. e, depois, como Sellos & Couto.

  • J. Ribeiro dos Santos
Ver artigo principal: J. Ribeiro dos Santos

A J. Ribeiro dos Santos, outra importante firma, foi fundada pelo português Serafim José Alves, em 1871, no nº 11 da Praça D. Pedro II, hoje Praça 15 de Novembro. No final do século, mudou para a Rua Sete de setembro, nº 83, e pouco depois adotou o nome do parente e herdeiro de Alves, Jacintho Ribeiro dos Santos. Jacintho comprara o ponto de sua livraria de Francisco Rodrigues da Cruz, herdeiro da Livraria Cruz Coutinho, a Livraria Popular, a qual foi criada por Antonio Augusto da Cruz Coutinho. A Livraria Jacintho Ribeiro dos Santos destacava-se pelo bom acabamento dos livros didáticos, uso de imagens, e elevado número de tiragens em alguns de seus livros, que chegavam à marca de mais de 100.000 exemplares em 1924, numa população de 1.157.141 na cidade. Como "Livraria Jacintho", sobreviveu até 1945, quando foi comprada pela "Editora A Noite".

  • Livraria Quaresma
Ver artigo principal: Livraria Quaresma

A Livraria de Serafim José Alves parece ter tido alguma ligação, também, com a Livraria Quaresma[37]. Pedro da Silva Quaresma foi o fundador da "Livraria do Povo", em 1879, na Rua São José. A Livraria Quaresma durou até a década de 1960, com livros baratos e de apelo popular, e foi o local de treinamento do livreiro e alfarrabista Carlos Ribeiro, que fundou depois a "Livraria São José", atuante nas décadas de 1950 e 1960.

  • Antônio Joaquim Castilho

O livreiro e impressor Castilho é também dessa época, mas as edições mais importantes dessa firma são de seu filho, Antônio Joaquim Castilho. Castilho enfrentou dificuldades financeiras e, em 1931, sua firma se transformou na "Livraria América", de A, Bedeschi, que durou até a década de 1940, e Castilho foi trabalhar na Editora Civilização Brasileira.

  • Francisco Alves
Ver artigo principal: Livraria Francisco Alves

Nascido Francisco Alves d'Oliveira em 2 de agosto de1848, foi para o Rio em 1863, e conseguiu emprego em uma loja de artigos náuticos, e com economias, abriu um sebo na Rua São José, depois o vendeu e voltou para o Porto. Ao receber o convite do tio para trabalhar em sua livraria, foi para o Brasil novamente, e se naturalizou em 28 de julho de 1883. A firma de Francisco Alves, originalmente denominada Livraria Clássica, foi fundada em 15 de agosto de 1854, na Rua dos Latoeiros, nº 54 (posteriormente alterado para nº 48), por seu tio Nicolau António Alves. Francisco acabou comprando a parte de todos os sócios e do tio, até 1897. Inicialmente dedicada aos livros didáticos, mediante o aumento do número de escolas no país (nos últimos anos do Império, as escolas passaram de 3.561 para 7.500), a Francisco Alves chegou a ter quase o monopólio dos livros didáticos no Brasil.

A Livraria Francisco Alves abriu uma 1ª filial em São Paulo, em 23 de abril de 1893, onde Manuel Pacheco Leão, filho do secretário de educação e amigo de Francisco, Teófilo das Neves Leão, ficou encarregado, com parte das cotas da sociedade. Em 1906, abriu uma 2ª filial, em Belo Horizonte. Em São Paulo, adquiriu a "N. Falconi" e a "Livraria Melilo"; no Rio de Janeiro, adquiriu a "Lombaerts", a "Livraria Católica de Sauvin", a "Livraria Luso-Brasileira" de Lopes da Cunha, a "Empresa Literária Fluminense", de A. A. da Silva Lobo, a casa de "Domingos de Magalhães". Comprou também a firma portuguesa "A Editora", anteriormente "David Corazzi". Em 1909, adquiriu a "Laemmert", adquirindo os direitos de "Os Sertões", de Euclides da Cunha, e de Inocência, de Taunay. Comprou também a pequena livraria da "Viúva Azevedo", no Rio de Janeiro.

Na linha literária, Francisco Alves publicou Afrânio Peixoto, Emílio de Menezes, Raul Pompéia, entre outros, mas a grande maioria de seus livros era impressa no exterior, por motivos econômicos e técnicos que inviabilizavam a impressão interna, o que foi motivo de muitos nacionalistas o criticarem. No seu tempo livre, Francisco Alves escrevia seus próprios livros, sob o pseudônimo Guilherme do Prado, ou F. d'Oliveira. Foram catalogados, após sua morte, 39 livros de sua autoria[38].

Alves era diabético e adquiriu uma pneumonia que o levou à tuberculose. Quando o sócio Pacheco Leão faleceu, em 23 de dezembro de 1913, Alves adquiriu a parte da viúva, mas faleceu em 29 de junho de 1917, após complicações de uma fratura na perna em um acidente ferroviário. No testamento, deixou um grande legado e uma pensão vitalícia àquela que fora sua amante desde 1891, Maria Dolores Braun. Todo o restante de seus bens ficaria para a Academia Brasileira de Letras, porém com a exigência de que a Academia deveria realizar, a cada 5 anos, dois concursos em sua homenagem, cada um deles com um primeiro prêmio de 10 contos, um segundo de 5 contos e um terceiro de 3 contos. Um dos concursos deveria ser para monografias sobre "a melhor maneira de ampliar a educação primária no Brasil", e o outro para monografias sobre a língua portuguesa[39]. Mediante a Academia estar estatutariamente impedida de gerir qualquer tipo de negócio, vendeu a livrarai a um grupo de antigos empregados, liderados por Paulo Ernesto Azevedo, sucessor de Pacheco Leão na gerência da filial de São Paulo, e Antônio de Oliveira Martins. A nova firma adotou o nome "Paulo de Azevedo & Companhia", mas continuou a usar a marca F. Alves, e a dominar o mercado de livros didáticos até o aparecimento da Companhia Editora Nacional, de Octalles Marcondes Ferreira, na década de 1920.

Paulo de Azevedo morreu em 1946, sendo sucedido pelos filhos Ivo e Ademar, que admitiram como sócios Álvaro Ferreira de Almeida, Raul da Silva Passos e Lélio de Castro Andrade, havendo nova revitalização da Livraria. Em 1972, a empresa foi vendida para o almirante José Celso de la Rocque Maciel Soares Guimarães, que modificou seu nome para "Livraria Francisco Alves Editora"; em 1974, a empresa de navegação Netumar, de Ariosto Amado, adquiriu 80% do seu capital e Carlos Leal assumiu a gerência.

  • Outras editoras

Outras editoras e livrarias importantes do fim do século XIX foram a firma Editora Pimenta de Mello, fundada em 1845, e que sobreviveu até 1937, e a Livraria Moderna, de Domingos de Magalhães e Companhia, a principal editora no campo da literatura nos anos 1890.

[editar] Mercado editorial em São Paulo

  • Século XIX

São Paulo, que no início do século XIX formava uma única província com o Paraná, possuía uma pequena capital com menos de 10 mil habitantes, e tinha pouca importância[40].Em 1827, José da Costa Carvalho, futuro Marquês de Monte Alegre, importou uma impressora e um impressor, e produziu o 1º jornal da província, "O Farol Paulistano".

Em 1827, a cidade de São Paulo foi escolhida para abrigar uma das duas escolas de Direito do país, e a vida estudantil acabou por transformar a cidade, sendo que em 1836, uma gráfica local possuía até um livro impresso, "Questões sobre presas marítimas", de José Maria de Avelar Brotero. Após algumas outras impressões, em 1849 surgiu a primeira obra literária, de um estudante, Rosas e Goivos, de José Bonifácio, o Moço, e em 1852, Cantos da Solidão, de Bernardo Guimarães., na "Typographia Liberal" de Joaquim Roberto de Azevedo Marques.

Em 1855, São Paulo tinha apenas 25 mil habitantes, enquanto o Rio de Janeiro passava dos 250 mil e Salvador e Recife possuíam mais de 80 mil. Havia então 3 livrarias, "Fernandes de Souza", "Gravesnes" e "Torres de Oliveira", e 3 gráficas, a "Typographia Liberal" de Azevedo Marques, a "Typographia Dous de Dezembro"(sem ligação com a de Paula Brito), de Antônio Lousada Antunes, e a "Typographia Litteraria". Havia um encadernador, o alemão U. Knossel, cujo negócio foi adquirido em 1880 pelo alemão Jorge Seckler, tornando-se importante gráfica, com impressoras movidas a vapor. Em fins de 1860, havia a "Typographia de Lei", a "Typographia Americana", e a tipografia "Henrique Schroeder".

  • Casa Garraux

Em 1860, Baptiste Louis Garnier abriu uma filial em São Paulo, e confiou-a a Anatole Louis Garraux (1833-1904), e em 1863 Garraux já se tornara independente e abrira a Livraria Acadêmica, em sociedade com Guelfe de Lailhac e Raphael Suares, mas que ficou sempre conhecida como "Casa Garraux". Foi na Casa Garraux que José Olympio começou a interessar-se pelo mercado livreiro, ao conseguir ali um emprego arrumando e limpando livros.

Antes de 1920, Garraux não publicava, mas tornou-se destacado livreiro, tornando-se a livraria com o estoque mais atualizado do país[41]. A partir de 1872, a cafeicultura foi modificando o cenário da província, e nesse ano a Garraux mudou do Largo da Sé para a Rua da Imperatriz (futura XV de Novembro), passando a desempenhar papel importante no desenvolvimento intelectual e cultural de São Paulo. Garraux passou a direção da loja, nessa época, para seu genro Willy Fischer, que se aposentou em 1888, e seu sucessor, Alexandre Thiollier, antigo caixa, dirigiu os negócios até 1893, passando então a direção às mãos do sócio Charles Hildebrand, de Estrasburgo.

  • Outras livrarias paulistanas

De três livrarias em 1850, São Paulo passou para cinco em 1870, sendo uma delas a "Grande Livraria Paulista", que os irmãos Antônio Maria e José Joaquim Teixeira abriram em 1876.

Em 1893, devido à imigração italiana e também à nordestina na fuga da seca, São Paulo cresceu para 192.409 habitantes [42] e, na passagem do século, igualou o Rio de Janeiro, com 239.820 habitantes. A indústria de papel instalada no estado começou a crescer; uma das fábricas era a "Cia. Melhoramentos de São Paulo", formada em 1890 pelo Coronel Antônio Proost Rodovalho, e que em 1920 entrou para o ramo de papel para livros, associando-se à editora "Weiszflog Irmãos". No fim do século, porém, São Paulo ainda tinha apenas oito livrarias. Entre outras, destacava-se a "Casa Eclectica".

[editar] Século XX

  • Monteiro Lobato
Ver artigo principal: Companhia Editora Nacional

Até a Primeira Guerra Mundial, os livros brasileiros eram impressos, em sua maioria, na Europa. A Editora Garnier, utilizada por Machado de Assis e quase todos os acadêmicos, era francesa e tinha suas oficinas na França. Coelho Neto era impresso no Porto, em Portugal, e editado por Lelo & Irmão. As editoras e livrarias brasileiras dedicavam-se mais aos livros didáticos, e pouco se imprimia no Brasil.

Monteiro Lobato teve a iniciativa que modificou o mercado editorial brasileiro. Imprimiu por conta própria, nas oficinas do jornal "O Estado de São Paulo", seu livro Urupês, e verificou que, na época, o Brasil contava com apenas umas 30 livrarias capazes de receber e vender livros[43]. Escreveu, então, para todos os agentes postais do Brasil (1300 ao todo), solicitando nomes e endereços de bancas de jornais, papelarias, armazéns e farmácias interessadas em vender livros[44]. Quase 100% dos agentes postais responderam, proporcionando uma rede de quase dois mil distribuidores espalhados pelo país. Lobato começou a publicar obras de seus amigos e de escritores iniciantes.

Monteiro Lobato, um dos grandes incentivadores do livro no Brasil, na Ci

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