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JOHN CHRISTOPHER
O ANO DO COMETA
Publicações Europa-América
CAPÍTULO I
Depois de ter lançado os restos da refeição na trituradora e
de ter voltado a enfiar a mesa na parede, Charles Grayner
afundou-se automaticamente na cadeira que ficava junto à
lareira e os seus olhos dirigiram-se, também
automaticamente, para o televisor cintilante. O aparelho
estava silencioso, apenas as figuras se deslocavam de um lado
para o outro, sem qualquer espécie de acompanhamento
sonoro. Em tempos, tivera, como toda a gente, o hábito de
ligar o som e a imagem por uma questão de companhia, mas
há cerca de um ano começara a sentir que se desenvolvia
nele o hábito do silêncio. Envelhecia, pensava. De qualquer
forma, adquirira o hábito de cortar o som logo que entrava
em casa, ao fim do dia.
Costumava deixar o aparelho desligado quando saía de
manhã, mas a mulher-a-dias ligava-o. Acabara por lhe
conhecer os hábitos em programas de televisão;
normalmente via um de três canais — Liga Vermelha,
Doçura e Conforto Brilhante. Constituía para ele uma dis-
tração tentar adivinhar qual o que deixara ligado, sem
levantar o som e sem olhar para os botões de controle.
Naquela noite, era muito fácil. Reconheceu a cantora:
Loulou del Keith, um exclusivo do Cosy Bright.
Carregou no botão do som, instalado no braço da cadeira, e a
voz, elevando-se numa onda sonora ainda mais profunda
que os próprios violinos elétricos, acariciou-o ternamente.
Ela inclinou-se para a frente e a câmara aproximou-se
propositadamente durante um segundo, antes de focar um
grande plano insípido. Tinha o olhar úmido e ao mesmo
tempo lascivo. Quando a câmara se afastou, preparando-se
para lhe fazer outra incursão no busto, ele baixou a mão para
o painel de controlo. Deteve-se por momentos e depois
premiu decididamente o nono botão.
A imagem e o som desapareceram e foram substituídos. A
música agora era de Mozart, um quarteto de cordas que
conhecia. E — qual era? Isso já não sabia. No écran via-se
agora «A Purificação do Templo», de El Greco. Dinkuhl já
usara anteriormente esta justaposição — duas vezes, pelo
menos. Sentiu uma ligeira irritação; ele fora um dos que
tinham protestado contra essa história de associar
deliberadamente obras musicais a pinturas. O quarteto
terminou com um bemol. Surgiu então o rosto de Dinkuhl,
com o seu sorriso característico, meio trocista meio
zangado.
— Este — disse Dinkuhl — é o canal FK. — A sua voz era
macia, mas flexível; podia apresentar entoações de raiva. —
Proponho-me ajudar muita gente a poupar dinheiro. Bom,
quando digo muita gente. — Encolheu os ombros. —
Contratei um rapaz para ver por mim a minha
correspondência e destruir toda aquela que me diga que
tenho de deixar de relacionar Mozart e El Greco, ou Haydn
e Rubens, ou Beethoven e Rembrandt. Poupem alguns
cêntimos.
Dinkuhl sorriu.
— Isto dirige-se a si. A si precisamente ou a duzentos
descontentes, sabotadores, entre essa grande multidão de
um ou dois mil entusiastas que escutam e vêem o canal FK.
De qualquer forma, não merecem uma explicação, mas tê-la-
ão na mesma.
Se tivéssemos dinheiro, meus amigos, contrataríamos para
vosso deleite músicos de incomparável encanto. E se os não
conseguíssemos encontrar, contrataríamos um grupo de
beldades da Liga Vermelha ou Superluxo e ensinar-lhes-
íamos pacientemente a arte de segurar os violinos, a viola e
o violoncelo nas posições corretas. Bom, tudo isto pode ser
muito belo, mas não passa de um sonho. Por isso só lhes
podemos dar pinturas, visto as coisas serem como são.
Fez uma pausa.
— Serão capazes de me contrapor que preferem ver os
músicos, em toda a sua fealdade, em toda a sua miséria?
Nesse caso aconselho-os a que vão vê-los em carne e osso
— em carne e osso, meus amigos, na sua carcaça
decepcionante. Poucos de vós terão de se deslocar mais de
quinhentas milhas para chegar a uma sala de concertos. Mas
isto aqui é a Rádio-televisão e só há um canal FK e eu
tenciono continuar a matar dois coelhos duma cajadada.
Alguns telespectadores, pelo menos, devem ter muita falta
de ouvido para a música.
Dinkuhl afastou-se da câmara, voltou-lhe as costas e pôs-se a
esquadrinhar um dos cantos do estúdio. A confusão parecia
aumentar de dia para dia; devia haver momentos calmos,
mas Charles nunca vira indícios disso. Tinha a certeza de
que os ratos que a câmara mostrava ocasionalmente, em
segundo plano, provocando grande desordem, eram uma
importação deliberada.
Dinkuhl voltou a enfrentar a câmara.
— Agora me lembro — disse. — Já tenho tudo preparado.
Senhoras e senhores, o noticiário FK!
A música era uma paródia ao indicativo musical do
noticiário da Liga Vermelha, em tom menor, numa troça
evidente. O écran mostrou o céu noturno, a Lua e alargou-se
depois numa imagem familiar — a vista do observatório de
Tycho, ao luar.
— Aqui — disse Dinkuhl —, na superfície gelada e
misteriosa da Lua, os homens servem a sua amante — a
Ciência. Aqui, no grande observatório, os segredos do
universo são desvendados, um após outro, ou centena após
centena, ou milhar após milhar, seja qual for a média
atualmente. O homem, esse ser insignificante, lança-se na
vastidão do espaço intergaláctico, buscando, buscando, sem
admitir obstáculos nem derrotas. Somos realmente bons,
não lhes parece? Polegada após polegada, ano-luz após ano-
luz, o cosmo revela os seus mistérios, tal como uma mulher,
como já foi provavelmente dito por algum indivíduo
inspirado.
A cena mudou para o interior da cúpula e para a sala
principal, onde se encontrava instalado um refletor gigante.
Via-se uma figura encurvada sobre um óculo.
— Além — disse Dinkuhl —, ao lado do mistério existe
beleza. Observemos, com estes potentes perscrutadores dos
céus, não um novo planeta, mas — o novo cometa.
O écran cobriu-se de estrelas brilhantes; a mancha brilhante
do cometa aparecia ao centro, logo abaixo de Júpiter.
— Ele aí está, por baixo do gigante Júpiter. Os astrônomos
calcularam que este grande planeta se passeou pela última
vez na sua parábola, à volta do Sol, há dois mil anos. Pensem
nisto, meus amigos. Há mais de dois mil anos. Enquanto
oitenta gerações de homens vieram e se foram, enquanto
reinos cresceram e se dissiparam, enquanto a raça humana
ascendeu tão penosamente à sua eminência atual, aquela
luminária majestosa, aquele balão celestial tem seguido o seu
curso, a trilhões de milhas de distância, na escuridão do
espaço exterior.
A sua voz adquiriu maior velocidade.
— E agora, durante vários meses, vai aumentar em
luminosidade, à medida que se aproxima do Sol, o circunda e
se prepara para nos deixar durante mais dois milênios.
Entretanto, os noticiários da TV dar-vos-ão todas as
informações e mostrar-vos-ão o percurso do cometa por
entre as estrelas cintilantes. Para vós, confortavelmente
instalados ao lado da lareira, o cometa, vindo do espaço. Que
fabuloso encontro!
A câmara voltou a focar o rosto de Dinkuhl. Quando baixou
a cabeça, a luz brilhou na careca que lhe coroava o crânio e
ele sorriu através das suas sobrancelhas espessas.
— Sabem qual é a minha sugestão? — perguntou Dinkuhl.
Inclinou-se em direção à câmara, quase esboçando um beijo
com os lábios. — Pois bem, sugiro que você se levante dessa
cadeira, saia e vá ver por si próprio. Pode descobri-lo com o
auxílio de um binóculo ou, se se verificar o caso raro de
você possuir aquilo a que se costuma chamar visão normal, a
olho nu. Mesmo por baixo de Júpiter. Isto é, se conseguirem
descobrir Júpiter. De qualquer forma, o canal FK propõe-se
ajudar-vos no vosso caminho, da forma mais simples e
eficaz, isto é, fechando durante meia hora. Aqui termina o
noticiário. Vamos nós também até ao telhado para deitar
uma olhadela ao cometa. Até já.
O écran ficou vazio. Charles levantou-se, hesitou por
momentos e depois dirigiu-se para o armário onde tinha os
acessórios de desporto. Os binóculos estavam pendurados do
lado de dentro da porta. Quando atravessava o vestíbulo,
lembrou-se de ligar o amplificador de chamada. Havia muito
tempo que não recebia qualquer chamada enquanto estava
no jardim, nem, aliás, quando estava em casa, fizera-o
apenas por uma questão de rotina. A porta deslizou nas suas
costas e ele sentiu o ar fresco da noite, úmido e um tanto
gelado.
Acendeu as pequenas luzes que ladeavam o caminho do
jardim, mas voltou a apagá-las, pois achou que roubavam
qualquer coisa à escuridão majestosa da noite. A princípio
avançou às cegas, descendo o caminho até ao ponto onde a
sua visão do céu não sofreria qualquer interposição. Havia
uma nuvem a leste, mas a luz das estrelas era brilhante e não
se via a Lua. Júpiter estava em Taurus, na extremidade da Via
Láctea. Assestou o binóculo e descobriu o cometa. Ficou a
olhá-lo até lhe doer o braço e lhe tremer a mão com que
segurava o binóculo. Não tinha nada de especial — uma
mancha branca, sobre a qual se via uma das luas do planeta,
tal como uma pérola. Refletiu: outrora um prodígio, capaz
de destronar reis e justificar profetas. E agora, no mundo
inteiro, não passava de uma notícia para os líricos dos noti-
ciários, que, por sua vez, Dinkuhl parodiava.
Preparava-se para voltar para dentro de casa quando ouviu o
toque sonoro do amplificador de chamada; apressou
automaticamente o passo e depois, deliberadamente, voltou
a abrandar a marcha. Os seus olhos já se tinham habituado
suficientemente à luz das estrelas, para lhe permitir ver bem
o caminho. Abriu a porta empurrando-a e desligou o
amplificador. Apenas se ouvia um zumbido persistente.
Já na sala, carregou no botão do painel de informações do
écran de chamada. As letras tornaram-se vivas, do lado
esquerdo, atravessaram o écran e voltaram a passar numa
série sem fim:
GRAYNER DE LEDBETTER — 1QR D1V QG DETROIT —
URGENTE URGENTE — PESSOAL - GRAYNER DE
LEDBETTER – LADBETTER.
Não perdeu tempo a pôr o écran de chamada no circuito de
resposta. Enquanto a sua confirmação era transmitida, puxou
uma cadeira e sentou-se. Tentou sentir-se descontraído
fazendo lembrar a si próprio que, aos trinta e oito anos, já
não era altura de ficar preocupado com chamadas
inesperadas vindas do QG. Pelo menos era assim que devia
ser.
Claro que não foi Ledbetter quem recebeu a chamada. Um
jovem de olhar brilhante e tendo nas lapelas os pequenos
emblemas semelhantes a rubis, que formavam as palavras
Indústrias Químicas Reunidas, emblemas esses que, segundo
a moda do momento, substituíam as antigas chapas de
alumínio anodizado, sorria de forma que mostrava estar bem
treinado na arte de fazer com que os homens mais velhos se
sentissem à vontade nas suas inferioridades.
— Grayner? — disse. — Suponho que não nos conhecemos,
não é verdade? Sou o Funcionário Paulton.
— Muito prazer — disse Charles num tom inexpressivo.
— O Gestor Ledbetter quer falar consigo; pediu-me que lhe
marcasse uma entrevista. Pode cá vir amanhã de manhã?
Charles olhou-o. Paulton punha-o nervoso; não era apenas a
impressão de estar perante uma máscara afivelada para o
deslumbrar, era também a sensação de que, esticando um
pouco o pescoço, se poderia ver através dela. Respondeu
pausadamente:
— É um pouco em cima da hora. Gosto sempre de deixar
tudo organizado no laboratório quando tenho que me
ausentar!
Paulton olhou para o lado, consultando abertamente um
dossier.
— Deixe-me ver, o seu pessoal consta de...
Charles interrompeu-o.
Um assistente e dois rapazes. De qualquer forma, gosto de
deixar as coisas planificadas.
Paulton sorriu.
— Mesmo que eles passem um dia à boa vida, isso não vai
afetar a economia. Pode ser às dez?
Pensou em dizer que tinha o giroplano avariado, mas pôs a
idéia de lado. Pareciam tão ansiosos por falar com ele em
Detroit que haviam de arranjar maneira de o mandar buscar.
— Está bem.
— Às dez. Procure-me primeiro a mim. O meu gabinete é o
F 73. Conhece as instalações, segundo penso?
— Já lá tenho estado.
— Então até amanhã.
O sorriso de Paulton transformou-se num ar de
concentração profunda e depois desapareceu. O écran de
chamada ficou vazio. Charles permaneceu imóvel durante
alguns minutos. A primeira coisa que disse para consigo
mesmo foi que não valia a pena tentar descobrir as razões
possíveis para que tivesse sido convocado para aquela
entrevista com Ledbetter. No entanto, foi exatamente o que
fez a seguir.
O seu nicho nos laboratórios Saginaw era pequeno, mas
aparentemente seguro. Ressentira-se, por vezes, da sua
pequenez; ultimamente sentia-se mais inclinado para lhe
apreciar a segurança. Desde que Ledbetter assumira as suas
funções, no ano anterior, houvera várias mudanças que
tinham transformado a hierarquia Saginaw. Ele sentira-se
satisfeito com a sua pouca importância e com o fato de
representar indiscutivelmente um beco sem saída, o que
fazia com que não valesse a pena alvejá-lo. Agora via-se
forçado a repensar a sua situação.
Contudo, no caso de haver uma despromoção — talvez um
regresso ao laboratório geral — não compreendia lá muito
bem por que o haviam de chamar urgentemente a Detroit
para lhe comunicar o fato. Era uma questão de rotina, que
seria tratada pelas vias de rotina. Não seria necessária uma
entrevista com Ledbetter para o confirmar.
Infelizmente, o argumento aplicava-se da mesma forma para
a possibilidade, que ele não pôde deixar de considerar por
momentos, de, ao fim de tanto tempo, surgir para ele uma
oportunidade de promoção.
Os processos de promoção desenrolavam-se segundo regras
extremamente rígidas; segundo o protocolo, tudo tinha que
passar através do gestor local e não havia qualquer razão para
chamadas urgentes. Assim, ele tinha de admitir que não
havia nada que apoiasse a hipótese da promoção. Dezesseis
anos de pesquisas sobre as propriedades radioativas dos
diamantes não lhe tinham dado qualquer preparação para o
controle de um projeto mais vasto, sabia-o bem. Um
assistente e dois rapazes. Após dezesseis anos era isso que
podia fazer e nada mais.
Tudo aquilo o deixava nos ares. Nem despromoção nem
promoção — porque seria então que o tinham chamado a
Detroit? Riu para si próprio, com certa ironia. Seria que um
dos seus relatórios tinha dado a alguém a idéia de que ele
estava a caminho de uma síntese? Mas isso também não fazia
sentido. Os relatórios mais recentes não se ocupavam de
nada de novo e Ledbetter não era nenhum parvo que se
pusesse a bordar sobre aquilo que lia.
Que vão para o diabo, pensou, de qualquer forma sabia que
não seria despedido com essa facilidade. Voltou a ligar a
televisão. Ela brilhou suavemente, mas sem imagem. O canal
FK continuava fechado. Impacientemente premiu o botão
da Liga Vermelha.
Estavam a dar Supercharada. Ramon Astell fazia as suas
palhaçadas habituais com os membros da charada. Charles, a
princípio, tomou uma atitude desdenhosa, mas depois,
incapaz de resistir àquela idiotice deliberada, largou a rir.
Paulton mostrou-se surpreendido, por momentos, ao ver-
lhe o rosto. Charles estava de pé no corredor, em frente do
gabinete 73 no piso F e o pequeno écran de chamada
transmitia as suas feições ao painel que se encontrava na
parede em frente da secretária de Paulton. O rosto de
Paulton iluminou-se.
— Grayner, claro! Entre, entre.
A porta do seu lado abriu-se, deslizando, e voltou a fechar-se
depois dele passar. Quando se encontraram frente a frente,
Paulton tinha estampado no rosto um interesse genuíno. O
seu controle era admirável, refletiu Charles; muitos teriam
aparentado um esquecimento exagerado. Apertou-lhe
calorosamente a mão.
— Gostaria de falar em excesso de trabalho — disse Paulton
—, mas... — Sorriu e designou com um só gesto a secretária
vazia e o écran vivo na parede: cortara-lhe ostensivamente o
som quando Charles entrara. — Não creio que a ociosidade
me faça qualquer bem.
Charles sorriu e não acrescentou nada. Se, por qualquer
motivo pessoal e obscuro, Paulton pretendia apresentar a
imagem vulgar da vida administrativa como sendo a
verdadeira, ele, pela sua parte, não via qualquer razão para o
contradizer. Paulton observava-o cheio de astúcia, por
detrás do seu sorriso auto-depreciativo.
— De qualquer forma — prosseguiu Paulton —, isso não
serve de desculpa para o fazer perder o seu tempo. Disse ao
George dez e quinze — para o caso de você não chegar a
tempo —, mas pode ir já. Ele não deve estar a fazer nada.
As instalações de Ledbetter eram em B, claro. Paulton
conduziu-o ao gabinete que estava assinalado «Gestor G. D.
Ledbetter» e assobiou à porta. Esta abriu-se e eles entraram.
Ledbetter falava para um ditafone. Olhou-os severamente
quando entraram, mas continuou com o que estava a fazer.
Depois disse para Paulton:
— Tenciono mandar mudar a chave sonora dessa porta. E
farei questão de não lhe dar a conhecer a próxima. Quem é?
— Grayner — disse Paulton. — Também não tem muita
importância — a questão da porta. Grayner. Disse-me que o
mandasse vir aqui para falar com ele.
Ledbetter disse:
— Sim, claro. Está bem, Harry, pode sair. Para a próxima vez
use o écran de chamada.
Paulton, disse, recuando:
— Tentarei lembrar-me.
Entretanto Charles estivera a estudar Ledbetter. Já o vira em
noticiários e documentários, mas tratava-se de ocasiões
formais. Neste momento, mostrava-se cordial e
descontraído. Empurrou em direção a ele uma caixa de
cigarros e Charles tirou um, Ledbetter pegou noutro. O
pequeno jato de chama ergueu-se do isqueiro de mesa e
ambos se inclinaram para acender os cigarros. Ledbetter
encostou-se novamente para trás, segurando o cigarro numa
das mãos e passando a outra pelo queixo alongado, com ar de
quem reflete.
Tornara-se gestor muito novo e a sua posição atual fora
obtida passando por cima de outros candidatos mais
prováveis. Era talvez um ou dois anos mais novo que o
próprio Charles; tinha os membros longos e, quando em
repouso, dava sempre a impressão de estar a meio caminho
entre duas ações violentas.
Disse para Charles:
— Deve perguntar a si mesmo porque é que o fiz vir até
aqui.
Charles estava decidido a manter uma atitude prudente, mas
não conseguiu deixar de corresponder, dentro de certa
medida ao tom de intimidade amigável assumido por
Ledbetter. Compreendia agora como é que ele subira tão
depressa; alguns daqueles que tinham sido seus superiores
deviam estar ainda a esfregar os olhos.
Charles disse:
— Bom, é natural. Além disso, foi tudo um pouco em cima
da hora.
Ledbetter abanou a cabeça afirmativamente.
— A razão que me levou a querer falar consigo foi o fato de
eu me encontrar a meio da tarefa habitual dos novos
Gestores da Área. Estou a reorganizar os serviços. Acho que
é o que esperam de mim. Depois, posso instalar-me e deixar
as coisas andarem sozinhas até que seja transferido para
outro lado ou morra. — Olhou diretamente para
Charles. — Deve ter notado as outras mudanças ocorridas
anteriormente nas suas próprias instalações?
Charles abanou a cabeça.
— Esperava talvez que o meu canto fosse demasiado
pequeno para que dessem por ele.
Ledbetter voltou a examiná-lo; desta vez com ar
perscrutador.
— Você está há tempo demais nesse canto.
De uma das gavetas da secretária retirou uma cápsula de
microfilme, que introduziu no projetor. O écran instalado na
parede iluminou-se e apresentou o que se podia reconhecer
imediatamente como sendo um dos relatórios do próprio
Charles. «Efeitos da irradiação zeta sobre as propriedades
fotoelétricas de um diamante tipo II (Cabo branco).»
— O seu relatório é muito equilibrado. Mas você não tem
ambições?
— Tem o meu psicoplano.
— Isso também — Ledbetter sorriu. — Temos estado a fazer
a revisão dos métodos de avaliação. De fato, podemos dizer
que a única coisa que o departamento Psico & Med não revê
é o seu esplêndido ar de infalibilidade. Falando francamente,
no seu caso, houve um erro de avaliação. Você não pertence
ao tipo beco sem saída.
— Sempre desconfiei disso, mas parece-me que já é um
bocado tarde para fazer seja o que for.
— S-sim. Em certos aspectos, de qualquer forma. Eu podia
fazer com que lhe fossem apresentadas condolências
oficiais...
— Muito obrigado. É como se já as tivesse recebido. Não me
fez vir aqui para me apresentar condolências — oficiais ou
não?
Ledbetter estendeu a mão para os controles do seu
aromofator.
— Põe alguma objeção a um sopro marinho? — Charles
sacudiu a cabeça e olhou-o enquanto premia um dos botões.
Um aroma de algas marinhas e água salgada espalhou-se no
ar; o relatório desapareceu no écran e foi substituído por
uma paisagem rochosa à beira-mar. Tinha a impressão de
que Ledbetter estava a dar-se ares, mas não lhe levava a mal.
Ledbetter disse:
— Este é um dos poucos aparelhos que me deram e de que
eu gosto realmente. Sempre que posso vou andar de iate.
Não, como é evidente, não o fiz vir até aqui simplesmente
para lhe dizer que o P & M errou o seu psicoplano, há
dezesseis anos. Se não houvesse nada a fazer, eu teria tido o
cuidado de evitar que você viesse à saber. A meada pode
ficar ainda mais emaranhada ao tentar ser leal com as
pessoas.
- Bom, vamos direto ao fim, ponhamos as cartas na mesa.
Alfa — apetece-me fazer uma mudança. Beta — antes de
mais, você nunca devia ter sido atirado para aquele
laboratório. Gama é onde as coisas se complicam. Gama —
você passou dezesseis anos às voltas com diamantes
radioativos. Isso limita de forma assustadora as possibilidades
que temos a seu respeito.
Charles disse:
— Muito interessante. Delta...?
— Coincidência — disse Ledbetter —, a coincidência mostra
a sua cabeça desajeitada, mas atraente. Há um lugar num
sítio chamado San Miguel, a sul de San Diego. Um clima
maravilhoso e o imenso Pacífico. Até eu gostaria de lá estar.
Área QJ em Los Angeles — um tipo chamado Metrill. Você
há de gostar dele.
Charles perguntou:
— Instalações?
Ledbetter inclinou-se para trás. — Estava à espera dessa
pergunta. Categoria L.
Não tirou os olhos do rosto de Charles. Este sentiu-se corar
ligeiramente.
— É uma oportunidade fantástica — observou. — De um
assistente e dois rapazes, para um assistente e dois rapazes. E
que é que eu vou fazer durante os próximos dezesseis anos
— eletrificar diamantes, em vez de os irradiar?
Ledbetter teve um sorriso irônico.
— Pense no clima! Não é tão mau como pode parecer.
Continuam a ser diamantes, é claro — que outra coisa lhe
poderíamos dar? Mas você descobrirá coisas interessantes.
Isto, por exemplo.
Retirou o microfilme do relatório de Charles e substituiu-o
por outro. O rolar monótono das ondas deu lugar às linhas
direitas de um texto e algumas equações. Charles passou os
olhos por elas. Depois olhou para Ledbetter. Este fez com
que o filme subisse no écran, em movimento retardado. O
relatório desdobrou-se perante os seus olhos. No final, na
lista de referências, aparecia uma meia dúzia de jornais.
Charles olhou para Ledbetter.
— Onde é que isto foi publicado?
Antes de responder, Ledbetter esperou que a paisagem
marítima se tornasse novamente visível.
— Não foi publicado.
— Porquê?
— Porque essa é uma das vantagens do seu novo lugar. Não
publicar nada que não queira. Não fazer nada se não lhe
apetecer. Sentar-se e mergulhar os pés no oceano todo o dia
se lhe der na real gana. O laboratório fica independente —
ao pé de um laranjal, segundo depreendo. Um vagabundo da
ciência é o que poderá chamar a si próprio e com
propriedade.
O espírito de Charles estava concentrado no papel que
acabava de ser projetado. As coisas começavam a fazer
sentido.
— Tenho alguma coisa a ver com a Seção de Contato? —
perguntou.
Ledbetter sorriu e deu mais força aos odores marítimos.
— Não.
— Tem a certeza?
— As pessoas — disse Ledbetter — têm idéias muito
estranhas acerca da Seção de Contato. Não sei o que se passa
nas outras áreas, mas na IQR o seu orçamento não inclui os
laboratórios especiais. Que é que a Secção de Contato
poderia ter que ver com diamantes não isolantes? Os écrans
de chamada não isolantes estão mais na sua linha.
Charles disse pacientemente:
— Nesse caso, posso publicar tudo o que me apetecer?
— Eu não disse isso. Bom — deixando-nos de meias-tintas —
, não estava previsto que você fizesse tantas perguntas
incômodas nesta fase inicial. Sim, é mais ou menos isso que
você está a pensar. O seu novo trabalho é restrito. No que
diz respeito à admin está adstrito a San Diego, mas todos os
seus relatórios vão diretamente para Graz.
— Para Tapron?
— Para Nikko-Tsi, endereçados a Preston.
— E que é que eles esperam de mim?
— Não estou dentro do segredo. O relatório de Isaacsshon
que você acaba de ver — não significa nada para mim,
porque não está dentro da minha linha; no entanto,
desconfio de que não deve haver nele nada de muito
importante, senão não me teriam dado para lhe mostrar.
Charles disse:
— De fato são tudo assuntos de rotina. Condutividade de
bombardeamento; trabalhamos um bocado nisso em
Saginaw. Ledbetter acenou com a cabeça, apreciativamente.
— Há um ou dois pontos, no entanto...
— Ao que penso, a idéia era aguçar-lhe o apetite.
Conseguiram?
— Sim. — Hesitou antes de disparar a pergunta seguinte. —
Que é que aconteceu ao meu predecessor. Envenenado
pelas radiações ou afastado pelas variações administrativas?
— Boa pergunta. Isaacsshon era, segundo me foi dado a
entender, um marinheiro amador tal como eu — grande
vantagem num local como o que lhe indiquei. Não conheço
os detalhes, a não ser que o barco dele apareceu virado, mas
ele nunca mais voltou. A costa é perigosa, segundo dizem.
Charles teve por momentos a impressão de que ele o olhava
de uma maneira estranha, mas nada que lhe permitisse
chegar a uma conclusão.
— É uma costa muito perigosa. Eu, por mim, manter-me-ia
afastado, quando a maré começa a mudar.
— Não me parece que me vá fazer ao mar.
Ledbetter abanou a cabeça. — É uma pena! Devo concluir
que aceita?
— Que mais posso fazer?
— Num trabalho como este, têm-se na prática todos os
direitos que normalmente se tem em teoria. Encare a
questão do ponto de vista deles.
Charles acenou.. — Quando querem que comece?
Ledbetter olhou para os apontamentos que tinha em cima da
secretária, debaixo da mão direita.
— Volte no seu giroplano para Saginaw. Vamos buscá-lo de
manhã, com as suas coisas e apanha aqui o avião
transatlântico das dez.
— Amanhã de manhã? Já?
— Acha que consegue?
— Facilmente. Mas há assim tanta pressa?
— Sabe Deus. Talvez seja uma questão de arrumação de
serviços em Graz. Há outras rodas dentro das rodas
administrativas. A propósito, no seu novo posto receberá
mais quinhentos por mês. Tem direito também a um
giroplano Cat C e a uma limusine.
— Magnífico.
Ledbetter olhou para ele com interesse.
— Se tivesse vindo tão de baixo como eu, seria essa
realmente a sua opinião. Mais um pequeno pormenor: tem
alguma coisa contra os ex-israelitas?
Charles fitou-o, um tanto surpreendido.
— Quantos?
— Apenas um. Isaacsshon era-o e escolheu uma para
assistente, o que é bastante natural, segundo me parece. Se
puser alguma objeção, acho que podemos fazer com que ela
seja afastada, mas parece-me que vai precisar dela, quanto
mais não seja a princípio. Tenho a impressão de que uma
boa parte do trabalho de Isaacsshon e uma parte cheia de
interesse só poderá ser conhecida através dela.
— Nunca trabalhei com nenhum. Não vejo qualquer razão
para querer ver-me livre dela.
— Ótimo. — Ledbetter olhou para o cronômetro pendurado
na parede. — Tem de preparar as suas coisas, não lhe tomo
mais tempo.
Charles levantou-se:
— E que é que acontece ao meu laboratório? Nem sequer
tenho tempo de arrumar nada.
— Não me parece que seja necessário. No entanto,
tencionava falar-lhe nisso. Quase me esquecia. Pensamos
entregar tudo ao Casey, visto que já trabalha consigo há
cinco anos. É ainda muito jovem, mas parece-nos capaz.
Que é que lhe parece?
— Sim, pode ser. Que é que pensa o P & M? Apresenta
condições para o lugar, segundo a bitola atual?
Ledbetter teve um sorriso irônico.
— Segundo a bitola atual.
Saiu do edifício do QJ IQR, em primeiro lugar porque queria
ir, pela última vez, ao Stone's, a pequena loja de troca de
discos de gramofone à esquina das Ruas 27 e Principal. Não
tinha muita bagagem a preparar — umas duas horas, à noite,
chegavam — e decidira não voltar para o laboratório. Se era
assim que queriam, assim seria e a verdade era que Casey era
bem capaz de se desenvencilhar. Ele e Casey entendiam-se
bem, mas também era verdade que a separação não causaria
desgosto a nenhum dos dois; Casey sentiria mesmo uma
satisfação bem compreensível ao ficar com as suas
instalações próprias, um bom par de anos antes do que seria
de esperar.
Quando chegou à loja, só o velho Stone em pessoa se
encontrava ali. A loja não era mais do que um passatempo:
na verdade, não era ela que sustentava Stone, mas Stone que
a sustentava com a sua pensão. Fora gestor da Seção Atômica
e agora, finalmente, gozava a vida. Era um homem idoso e
forte, mas estava a ficar gordo.
Charles contou-lhe da sua transferência iminente. Abanou a
cabeça, mas no fundo o seu pesar era apenas superficial.
Disse: «Já nem sei se os meus clientes chegam à dezena.»
Mas essencialmente ficara indiferente.
Charles perguntou:
— Há alguém que se dedique ao negócio em San Diego?
— Há apenas uma loja — Michael Kominski, em Los
Angeles. Eu dou-lhe o endereço.
Foi dar volta aos papéis que se amontoavam
desordenadamente na sua velha secretária de nogueira, ao
fundo da loja, e Charles entretanto rebuscou as prateleiras
que ficavam junto da porta com os seus discos de vários
tipos. Encontrou uma coleção de Munich John Passion, à
qual faltava um disco, e perguntou a si mesmo se valia a
pena levá-la, na esperança de poder vir a completá-la
futuramente. Mas o preço era "baixo de mais, o que
representava a convicção de Stone de que as probabilidades
eram poucas. Quando alguém entrou na loja, voltou a pôr os
discos na prateleira.
Reconheceu Dinkuhl. E o mais estranho é que Dinkuhl
também o reconheceu a ele, alguém os tinha apresentado
alguns anos antes, em circunstâncias que pareciam agora
muito vagas.
O proprietário do canal FK disse:
— Charlie Grayner! Muito gosto em voltar a vê-lo. A dar
uma última olhadela antes de partir para o país do sol?
Deram um aperto de mão. Charles disse:
— Você espanta-me.
Dinkuhl riu, trocista:
— Não é isso que me parece.
— Mas é verdade. Parece-me que seria um tanto indelicado
perguntar-lhe onde obteve essa informação?
— Devem ter passado seis ou sete anos desde que o vi pela
última vez. — Dinkuhl abanou a cabeça, visivelmente
encantado com a sua própria memória. — Em casa dos
Sullivan, antes de serem transferidos para Melbourne. É
você que vai para a Califórnia, não é? Foi o que eu pensei.
Quanto a fontes de informação, Charlie, isso é uma pergunta
que nunca se faz a um homem da televisão.
— Está a dar demasiada importância ao assunto — disse
Charles.
— Tudo é importante — disse Dinkuhl com entusiasmo. —
E ao mesmo tempo tudo é trivial. Aquilo que acontece ao
indivíduo é trivial. Mas no seu lugar consideraria muito
importante poder afastar-me deste pedaço putrefato do
queijo mal cheiroso. Nunca perdoarei ao Gillray não ter
consentido na nossa transferência para São Francisco.
Stone voltou, com o endereço escrito num pedaço de papel.
Charles pegou nele, agradeceu e meteu-o na carteira.
Dinkuhl deixou-o para ir dar uma vista de olhos pelas
prateleiras que Charles acabara de deixar. Ocorreu-lhe que,
durante o encontro precedente, Dinkuhl se mostrara
alternadamente íntimo e indiferente para com as pessoas
que o rodeavam. A personalidade que ostentava no écran
não parecia ser muito diferente da sua personalidade real.
Charles dirigiu-se a Stone:
— E a coleção de John Passion? Que possibilidades é que
haverá de a completar?
Stone começou:
— Bom, Kominski tem muita coisa que nem ele conhece
bem...
Dinkuhl voltou-se. Tinha os discos nas mãos e atirou-os em
direção a Charles.
— Ele é um mentiroso. Não acredite nele. Não conseguirá
encontrar neste continente o disco que falta e, a propósito,
conheço pessoalmente tudo o que Kominski lá tem. Por
outro lado, é uma obra que vale a pena ter, mesmo
incompleta. Leve-a.
Charles sorriu.
— Se a recomenda...
Dinkuhl não voltou para os discos. Esperou, enquanto Stone
fazia as suas complicadas contas e chegava a um dos seus
estranhos resultados habituais. Depois pôs uma mão no
braço de Charles.
— Você tem muito tempo. Venha comigo, vamos beber
qualquer coisa.
O convite era lisonjeiro e, de fato, ele tinha muito tempo.
Charles acenou com a cabeça.
— Obrigado.
Dinkuhl tinha um velho carro só com um assento, no qual
conseguira instalar um motor a gasolina que arranjara não se
sabia onde. Além de conspícua, a sua passagem era também
mal cheirosa. Em vez de seguir em direção ao estúdio,
Dinkuhl seguiu para sua própria casa, a cerca de uma milha
dali, sobre o lago Erie. A arquitetura era escandinava, do
século XX, mas parecia ser de construção mais cuidada do
que era usual. Estava ainda em bom estado e tão feia como
no dia em que tinha sido dada por terminada. Dinkuhl
chamou a atenção de Charles para este fato enquanto punha
o carro na garagem que lhe estava acopulada.
— Uma vez que tenho de viver em Detroit, não quero
arriscar-me a um colapso estético habitando uma casa de
aspecto e proporções decentes. O pior é que com o passar
dos anos comecei a habituar-me a ela.
Conduziu Charles ao andar de cima, a uma vasta sala com
vista para o lago. A casa estava desarrumada e havia já algum
tempo que o pó não era limpo. A sala tinha qualquer coisa
de invulgar e Charles levou alguns minutos a descobrir o que
era. Não havia nenhum écran na parede.
Dinkuhl trouxe uma bebida a Charles num copo largo de
aspecto muito requintado. Tanto o bojo como o pé do copo
estavam finamente gravados, refletiu Charles com um
interesse profissional, gravados em diamante. A bebida
contida no copo tinha um tom de âmbar pálido.
Dinkuhl levantou o copo:
— À sua — disse.
Beberam. Tinha um gosto estranho. Charles ficou com o
copo levantado, numa atitude inquiridora.
— Que é isto, Chefe?
— Trate-me por Hiram — disse Dinkuhl. — Gosta? É uma
coisa que eu próprio fabriquei. Vinho de nabo-e-tomate.
Mas não é mau, pois não? Nada mau.
Enquanto respondia à sua própria pergunta, foi enchendo os
dois copos. Tirou de uma das algibeiras os óculos de modelo
antiquado que usava às vezes no estúdio e pô-los para
observar Charles mais de perto.
— Bom — disse. — Que é que vai fazer quanto a cultura no
Far West? Você é cliente — escreveu-me uma carta há
cerca de um mês.
— Posso passar sem televisão — disse Charles e sorriu. —
Mesmo o FK. Talvez me dedique à leitura.
— É uma verdade amarga que as únicas pessoas que podem
passar sem televisão são justamente as que apóiam o FK —
disse Dinkuhl. — Bem, talvez ele consiga durar enquanto eu
for vivo.
— Nunca percebi como é que a Telecom o deixa continuar.
— Há apenas uma razão, mas de peso. De uma maneira um
pouco estranha, o nosso alvará acabou por se incorporar no
deles. Os méritos vão para o meu antecessor, um tipo
chamado Bert White. A direção do FK é uma posição
duradoura para a qual a qualificação principal é a simples
esperteza, mas White era absolutamente excepcional. Para
não terem de refazer os seus próprios estatutos, medida
desesperada que podia vir a bulir com um exército de
esqueletos em hibernação, viram-se forçados a continuar a
dar-nos direitos de transmissão. Têm de se contentar com o
espetáculo da nossa lenta decadência; mas ela é bastante
lenta.
Charles disse:
— Não sabia que vocês tinham começado antes do sistema
de gestão.
Dinkuhl fitou-o.
— Com certeza que não estava convencido de que a
Telecom nos tinha dado à luz de livre vontade? Julgava que
o nosso pedigree fosse mais conhecido. Representamos um
dos últimos fracassos do capitalismo no mundo moderno.
Ora vejamos, sabe o que queria dizer FK?
Charles abanou a cabeça.
— Koola Frutos — uma combinação de sumos de fruta. O
mandachuva que o dirigia adquiriu cultura na velhice e isso
subiu-lhe à cabeça. Investiu toda a sua fortuna numa rede de
televisão independente e imperecível. O FK tem tido sorte
nos seus diretores — pelo menos quanto aos que me
precederam. Tentamos acomodar-nos ao sistema de gestão,
fazendo disso uma brincadeira. As fundações podem estar a
ceder, mas, entretanto, já se passou muito, muito tempo.
— Mas se a Telecom não pode tocar-lhes?
— Há outra coisa que pode. O dinheiro. Tanto no Império
Romano como no feudalismo, no capitalismo ou no sistema
de gestão — há um problema constante: como equilibrar um
orçamento. Não pode ter deixado de notar que vivemos no
meio da inflação de há umas centenas de anos para cá?
Somos os tipos do rendimento fixo. Cortamos, es-
quartejamos, fizemos tudo, exceto viver de proventos
imorais. E qual foi o resultado? Com uma só estação,
cobrindo um pequeníssimo círculo nestes arredores do
Inferno, o fim está à vista. E Gillray e toda a Telecom vão
estourar de riso quando ele chegar.
Charles disse:
— Lamento ouvir isso. Lamento muito.
— Qual julga que foi a finalidade dos nossos apelos e
pedinchices — comprar-me um iate espacial? — Dinkuhl
olhava-o cinicamente. — Com quanto é que você
contribuiu?
— Dez dólares, uma vez. Teria arranjado mais, se soubesse o
que sei agora.
— Esses dez dólares já o colocam muito acima da média. Se
se tratasse de um iate espacial, eu não teria de receber todos
os vitupérios.
Porque é que as pessoas hão de contribuir para a TV? Trata-
se de um serviço gratuito, não é verdade? De uma coisa
estou eu certo: o FK não consegue sobreviver mais vinte
anos no sistema de gestão.
— E não lhe dão autorização para mudar para outro sítio?
— Isso — disse Dinkuhl — é precisamente o que me
aborrece. E aborrece-me de verdade. Eles têm controlo
sobre diversas extensões que estão sob a sua jurisdição. Em
tempos, tivemos uma estação em São Francisco, mas eles
parecem preferir voltar a abrir como extensão, pelo menos,
assim o dizem. Se me deixassem tomar conta dela, teria
aceitado. Já me estava a preparar para a cerimônia de
encerramento. Mas em Detroit... só se o não conseguir
evitar.
— E consegue? — perguntou Charles com interesse.
— Beba mais vinho. — Charles observou Dinkuhl, enquanto
enchia o copo; o gosto continuava a ser estranho, mas a
sensação de calor que deixava era muito agradável. — Se eu
tivesse o mesmo talento para manobras, politiquices,
enredos, que os meus ilustres predecessores, sentir-me-ia
mais confiante. Da maneira como as coisas estão, duvido,
duvido.
— Os métodos que vai adotar são secretos, suponho? —
perguntou Charles, hesitante.
Dinkuhl sorriu amargamente:
— Tão secretos como a sua transferência para San Miguel. Só
há um caminho que eu posso tentar. Dentro do sistema de
gestão, afundamo-nos. Vou, portanto, tentar a nossa
transferência para um minúsculo oásis, para onde o sistema
de gestão não envia os seus camelos — Israel.
— Então boa sorte. — Charles ficou a pensar alguns
instantes. — Não há muitas esperanças, pois não?
Dinkuhl disse:
— Admiro-o, Charlie. Você põe bem as questões. Posso
sempre voltar para a Liga Vermelha — sabia que foi lá que
eu comecei?
— Não, não sabia.
— O dia em que atirei ao lago o meu cartão de membro da
Telecom foi o mais feliz da minha vida. Já nem sei de que
lago se tratava. Acho que me arranjariam um novo.
Dinkuhl olhou para o relógio; era extraordinariamente
grande e ele usava-o no pulso e não no dedo.
— Mas quer se trate de Israel ou da Liga Vermelha, o
espetáculo tem de continuar. Tenho de ir ensaiar um pele-
vermelha que descobri perto de Seattle, a trabalhar nas
culturas em Água. Um pele-vermelha autêntico — espero
conseguir treiná-lo numa denúncia devastadora da sociedade
contemporânea, mas é um trabalho difícil. Aquele velho
simplório sente-se totalmente feliz. Venha comigo — posso
deixá-lo ao pé da IQR.
A seguir ao vinho, o cheiro da gasolina era um tanto
enjoativo. Charles ficou satisfeito quando Dinkuhl abriu a
porta para ele sair.
— À caminho. E só uma coisa. — Charles olhou para ele. —
Disseram-me que a navegação naquela costa é perigosa.
Charles:
— Já me disseram o mesmo.
— Esta informação — disse Dinkuhl — é oficial. Escutam a
voz das notícias FK.
Teve um sorriso irônico, fechou a porta do carro e partiu no
meio de uma nuvem barulhenta e mal cheirosa.
CAPÍTULO II
Charles conservava o hábito de, no primeiro encontro tentar
avaliar as possibilidades românticas das jovens com quem
travava conhecimento, ainda que há alguns anos esse hábito
se tivesse tornado relativamente acadêmico. Sarah Cohn não
produziu uma boa primeira impressão, nem mesmo sob um
ponto de vista acadêmico. Era bastante atraente — de pele
escura, rosto quadrado, dando uma impressão de
graciosidade nas mais pequenas coisas; no entanto, a sua
personalidade não era agradável. Era uma pessoa nervosa e
esse nervosismo manifestava-se numa certa brusquidão; a
rapariga acabou por comunicar a Charles a sua falta de à-
vontade. Não se podia dizer que fosse um bom ponto de
partida para uma associação profissional que iria certamente
ser estreita. Era consolador pensar que Ledbetter lhe dissera
que não era obrigado a ficar com ela, caso não quisesse.
O laboratório estava situado num ponto alto, voltado para o
mar, a umas cem jardas deste. Tinha uma bela vista sobre
San Miguel, que ficava a cerca de uma milha e, por detrás,
havia um pomar de laranjeiras que parecia nunca mais
acabar. De vez em quando, durante o dia, robots gigantescos
passavam por entre as filas de árvores, espalhando um
aerosol qualquer que abafava o agradável aroma das laranjas
amadurecidas. Pouco a pouco, o efeito desaparecia, mas
nessa altura já o robot se aproximava para recomeçar o
trabalho. Tratava-se da colheita de Inverno que requeria
cuidados diários e mesmo mais que uma vez ao dia. Pelo
meio das árvores, os aquecedores radiantes, apoiados nos
seus longos pés, esperavam o cair da noite que viria ativá-
los. Fora preciso entregá-lo à Secção de Agricultura, por uma
questão de eficiência, pensou Charles, mas era uma pena que
fosse necessário tirar o aroma a um laranjal.
O equipamento do laboratório era muito bom. A primeira
coisa que ele notou foi um eletrobombardeador de 5.000 Kv
que ele tinha pedido e nunca tinha conseguido arranjar,
quando fora posto no mercado, no ano anterior. Havia três
ciclotrões. Tinham gasto ali muito dinheiro e, na sua
opinião, conhecia suficientemente bem as tendências da
IQR, para ter a certeza de que esperavam qualquer coisa em
troca. A dificuldade consistia em saber exatamente o quê.
As notas de Isaacsshon eram fragmentárias, a tal ponto que
se tornavam praticamente inúteis e, mesmo assim,
fascinantes, pois não eram tão fragmentárias que pudessem
ser postas de lado. Os relatórios estavam arquivados, como é
evidente, e ele passou os primeiros dois dias quase
exclusivamente a tentar familiarizar-se com eles. O proble-
ma era que os relatórios não permitiam chegar a nada de
concludente. O trabalho feito dizia respeito a vários tópicos
diferentes, embora houvesse uma predominância de
experiências com diamantes, selênio e germânio, mas
mesmo em relação a estes três era difícil determinar qual a
atitude assumida. Era evidente que se tratava de um tipo de
trabalho que ganharia um outro significado se se pudesse
aplicar a chave — chave essa que se resumia a uma pergunta
banal sobre aquilo que Isaacsshon procurava. Não havia
dúvida de que, perante a resposta a esta pergunta, muitas
coisas passariam a fazer sentido.
Esta necessidade obrigou-o a recorrer a Sarah. Encontrou-a
no gabinete norte, ocupada com a grafitização de um
espécime de carbono. Ele ficou de pé por detrás da rapariga,
um ou dois minutos, sem dizer nada. Podia dar-se o caso de
ela estar tão absorvida pelo trabalho que não notasse a
presença dele, mas ele sabia que não era assim. Finalmente,
Charles disse:
— E a seguir?
Ela voltou-se devagar, segurando uma pinça de amianto.
Olhou-o firmemente e, por detrás dessa firmeza, via-se que
se sentia nervosa e hostil.
— Bombardeamento lento, secagem durante vinte e quatro
horas e verificação das alterações dos veios, por meio de
difração de positrões.
— Para determinar?
Ela hesitou; continuava a olhar para ele, mas o olhar tornara-
se-lhe penetrante.
— Trata-se de continuar uma série de experiências que o Dr.
Isaacsshon começou.
Lá fora o dia estava quente; o ruído distante do tratador de
árvores punha no ar uma nota sonolenta. Charles disse
impulsivamente:
— Gostava de ter uma conversa consigo, Sarah. Pode dispor
de meia hora?
Ela acenou com a cabeça em direção à mesa de trabalho:
— E deixar isto?
— Nesta fase, Luke sabe ocupar-se do trabalho, não acha? Se
não sabe, pelo menos, devia sabê-lo.
Uma vez no corredor, a rapariga deslocou-se em direção ao
pequeno gabinete particular dele, que ficava nas traseiras.
Ele observava-a.
— O tempo está tão bom, acho que podíamos dar um passeio
até à praia. Não estou muito habituado ao mar, venho duma
região de lagos.
Compreendeu que, aos sentimentos de desconfiança e
suspeita que já existiam, se juntava agora a suspeita de que
ele estava a armar em D. Juan. Sentiu-se lisonjeado por ainda
poder ser tomado como tal.
Ela respondeu, com ar distante:
— Se prefere.
Caminharam até à praia, em silêncio. Havia um caminho
que descia a encosta e, em tempos, alguém tinha tentado
fazer ali um jardim. No entanto, o chão não podia ser pior
— rochoso e estéril e sujeito a ficar empapado ou mesmo
inundado quando havia mau tempo — tudo o que ali
proliferava eram alguns cactos de aspecto pouco
prometedor. O caminho terminava num local em que meia
dúzia de rochedos achatados e muito juntos pareciam querer
imitar um dólmen. Era evidente que este local era
freqüentado pelos indivíduos ligados ao laboratório. O cabo
elétrico, que descia a encosta em linha reta, terminava jus-
tamente neste ponto. Ligação para televisor portátil, refletiu
Charles, tristemente.
À sul havia uma espécie de ancoradouro — um pontão um
tanto primitivo com dois pilares de cimento em cima. O
pontão fora provavelmente usado, em tempos, por uma
comunidade de pescadores. Mais recentemente, segundo
pensava, o pilar de cimento servira para amarrar o barco do
seu antecessor.
Acenou em direção aos pilares.
— Que é que aconteceu ao barco?
Ela estava de pé, com ar de quem espera ordens. Ele disse:
— Acho que o melhor é sentarmo-nos — e ela sentou-se
numa pedra a pouca distância da que ele escolhera para si.
Compôs a saia, fitando o mar, sem olhar para ele.
— O barco? Levaram-no.
— Quem?
— Os seus amigos. — Fitou-o. — A Seção de Contato.
Sem sequer se aperceber disso, começara a sentir-se furioso;
tentou controlar-se. Tinha sido um choque para ela;
provavelmente entendia- -se bem com Isaacssohn — talvez
até houvesse qualquer coisa mais. E a Seção de Contato... os
indivíduos que conhecera não o tinham impressionado
favoravelmente quanto à sua capacidade de tacto e de en-
frentar situações melindrosas. De qualquer forma, era
essencial que ela não mantivesse em relação a ele uma
atitude hostil. Se a atitude dela não mudasse, teria que a
afastar, não havia outra alternativa.
Era pena que ele próprio, sabia-o bem, não tivesse grande
talento para as relações pessoais tensas. Disse pausadamente:
— Acho que devíamos esclarecer umas quantas coisas, já de
princípio. Eu não pertenço à Secção de Contacto, nem fui
colocado por eles. Parecia-me que Isaacsshon é que estava
ligado a eles. Eu tenho estado a fazer um trabalho muito
simples, em pesquisas com diamantes, no Setor de Detroit e,
segundo parece, arrastaram-me para aqui porque tinham
urgência em arranjar alguém. Tinha esperanças de que você
me pudesse ajudar... Estou completamente às escuras.
Os olhos da rapariga voltaram-se para ele enquanto falava.
— Hans não tinha nada a ver com a Secção de Contacto. Isso
sei eu.
Esperou que ela dissesse qualquer coisa mais, mas isso não
aconteceu. Suspirou, intimamente. Ia ser difícil. Fosse qual
fosse a situação em que entrara, ela apresentava-se
complicada e, mesmo que a complicação fosse apenas de
ordem emocional e romântica, a meada prometia ser difícil
de desenredar.
Quando falou, tentou fazê-lo com toda a delicadeza:
— Apenas estou interessado nas coisas que você sabe. Tente
pôr-se no meu lugar — sou atirado de repente para uma
situação destas... geralmente, tem-se o programa do outro
indivíduo como orientação. Isaacssohn não teve tempo de
deixar qualquer esboço e, tanto quanto eu sei, IQR nunca
chegou à saber exatamente o que é que ele estava a fazer. Se
soubessem, não vejo qualquer razão para me terem atirado
para aqui às cegas.
Os olhos dela estavam novamente voltados para o mar: para
aquela planície de água verde-azulada, que se estendia até ao
céu.
— Estou a perceber — disse. — O Hans não devia ter-se
afogado antes de lhe deixar instruções detalhadas.
— Desculpe. — Olhou-a, tentando descobrir qual o tipo de
emoção que punha aquele tom de azedume nas suas
respostas. — Acho que não estou a explicar-me bem. Como
sabe, eu não conhecia o Dr. Isaacssohn. Um pessoa não
pode...
Por momentos, pensou que ela ia sorrir. Quando voltou a
falar, havia na voz dela uma gentileza que não mostrara
antes:
— E continua a não se explicar lá muito bem, não acha? Tem
razão quando diz que não se pode esperar que sinta muita
pena de uma pessoa que não conhecia, mas, pelo menos,
quando falar dele, pode dar-lhe esse título, como acabou por
fazer agora.
Olhou para ela, admirado; depois compreendeu o que se
passava.
— Há quanto tempo está aqui? — perguntou. — Se essa
pergunta também não é inoportuna?
Ela percebeu:
— Há três anos.
— Formou-se em Israel?
Ela acenou com a cabeça.
— Jerusalém.
— Penso que esteve sempre com — com o Dr. Isaacssohn? É
uma questão de hábito. Aqui, não tratar um homem pelo
título não representa falta de respeito. De qualquer forma, os
títulos científicos são raramente usados. No que diz respeito
a gestores e diretores é diferente, claro. Mas à parte esses,
não ligamos. Palavra que não tinha qualquer intenção menos
correta. — Sorriu pesaroso. — Não, nem sequer estava a ser
rude inconscientemente, embora esteja convencido de que
isso me acontece muitas vezes.
Ela disse:
— Desculpe. — Estudava agora o rosto dele. O olhar dela era
direto e honesto e, de momento, não mostrava qualquer
nervosismo. — Acho que tenho sido uma palerma com essa
história.
Ele disse:
— Talvez agora tenhamos entrado no bom caminho — os
dois.
Ela sorriu finalmente, mas o seu olhar mostrava-se ainda
cuidadoso. Tinha os olhos quase da cor do mar, formando
um contraste surpreendente com o cabelo castanho-escuro.
Perguntou:
— Que é que quer saber?
Ele olhou-a, atrapalhado.
— Em primeiro lugar, que é que eu devo fazer. Você parece
ter uma linha a seguir. É um tanto embaraçoso que eu não a
tenha.
— Você quer mesmo dizer que eles não lhe deram qualquer
indicação?
— É isso. De verdade.
A desconfiança voltou à surgir, ainda mais forte.
— É difícil de acreditar — que eles o tivessem nomeado para
o lugar de Hans e não lhe dissessem o que é que você tinha
de fazer.
— Pois ê — disse Charles —, mas peço-lhe que tente
acreditar. — Fez uma pausa. — As coisas podem ser
diferentes, uma vez que eu fui empurrado para aqui
diretamente de Detroit. Penso que você quer dizer que em
Graz sabem o que se passa, mas isso não quer dizer que em
Detroit saibam. Penso que Graz pode acabar por se dar conta
da necessidade de me informar. Provavelmente podia fazer
uma tele-chamada a Nikko-Tsi e despertar-lhes a memória,
mas, segundo a minha própria experiência, é sempre melhor
um indivíduo desenvencilhar-se sozinho, se conseguir fazê-
lo. Importunar o QG pode trazer resultados desastrosos.
Ela franziu a testa.
— Será que estou a ser estúpida outra vez? Isto é uma
situação corrente dentro do sistema de gerência?
— Não é invulgar. Porque é que você acha que todo o
trabalho original está agora a ser feito em Haifa e Jerusalém?
Ela ficou satisfeita e surpreendida.
— Você também vê isso?
— Não sou cego. E agora ... quanto a este trabalho?
Ela ainda hesitou um segundo. Ele perguntava a si próprio se
conseguiria seguir-lhe a linha de pensamento: ainda lhe
restavam algumas dúvidas, mas havia também o pensamento
reconfortante de que aquilo que a rapariga ia dizer-lhe não
era mais do que o que já se sabia em Graz.
Ela disse com firmeza:
— Hans procurava uma nova fonte de energia, numa base
fotoelétrica. Não creio que eu lhe possa ser muito útil. Ele
estava já na fase em que começava a ver com maior clareza,
mas ainda havia muito trabalho a fazer.
— Energia ... — disse Charles. — Fotoelétrica...? Finalmente
começo a ter uma idéia. Selênio, evidentemente —
germânio e diamante...?
— A irradiação a longo prazo dos diamantes tipo ni provoca
uma alteração estrutural fundamental — o índice de
refração...
— Eu li esse relatório. Pensei que servisse de capa a qualquer
outra coisa. Diamantes tipo ni — essa é nova para mim. E
quanto à alteração do índice de refração, parece-me difícil
de admitir. Os resultados que ele apresenta são incríveis.
— O tipo ni refere-se às pedras que correspondem dessa
forma à irradiação prolongada. Não há muitas, mas parecem
provir indiscriminadamente dos grupos tipo 1 e tipo n. O
germânio encontra-se envolvido nisto por causa da sua
semelhança estrutural com o diamante. Tanto quanto sei,
nunca produziu quaisquer resultados. Mas para Hans não era
fácil explicar a orientação que estava a seguir. Estava ainda a
trabalhar com o germânio.
— E o titânio?
— Fizemos várias tentativas. Nada de sais. Um índice de
refração superior no estado bruto nada adianta. É uma
questão estrutural.
— Bom — disse Charles, pensativo. Levou a mão à algibeira.
— Quer um cigarro? — Ela abanou a cabeça. Ele tirou um e
acendeu-o. A brisa começava a soprar do oceano; a chama
afastou-se da ponta do cigarro e uma madeixa do cabelo de
Sarah enrolou-se-lhe na face.
— Trata-se então de uma fonte de energia — disse Charles.
— Isso, pelo menos, já explica alguma coisa. Explica porque
tiveram tanta pressa em me mandar para aqui e também. —
Olhou para Sarah, com atenção. — Sabia que tinha havido
um fuga de informações — para fora da IQR?
Ela disse amargamente:
— Isso serve para explicar porque é que um barco se voltou e
veio dar à costa vazio?
Charles olhou melancolicamente para o cigarro.
— Seja como for, estou metido nisto até ao pescoço. — O
impacte das últimas palavras dela atingiu-o em cheio. —
Ouça, pretende dar a entender que Isaacssohn foi
assassinado?
Ela ficou alguns minutos em silêncio.
— Eu falo de mais — disse ela por fim. — Penso que agora já
não faz diferença. Já disse o que tinha a dizer à Secção de
Contacto. Não tem importância — acho que deve saber o
que penso. Hans aprendeu a navegar no Mediterrâneo. Não
é um mar tão calmo como as pessoas aqui pensam. No dia
em que ele se afogou... havia um bocado de ondulação, mas
nada que o preocupasse.
— Não percebo nada de navegação ou dos mares, mas a
verdade é que os acidentes acontecem. E Ledbetter disse-me
que a costa era perigosa.
Ela disse: «Ledbetter», como se bastasse repetir-lhe o nome.
Acrescentou:
— Hans nunca achou que ela fosse particularmente perigosa:
havia anos que navegava nestas paragens.
Seria difícil imaginar uma paisagem marítima mais amena do
que o Pacífico apresentava naquele momento. Mas Charles
tinha uma certeza: a de que a sua nova assistente tinha sido
perigosamente afetada pelos acontecimentos dos últimos
tempos. Tentou achar uma ponta daquela meada confusa.
— Se pensa assim, porquê a sua hostilidade à Seção de
Contato? De certo que não pretende sugerir que eles tenham
alguma coisa a ver com tudo isto? A IQR não ia matar o
ganso quando ele estava no choco. Porque não lhes disse o
que pensava quanto à morte de Isaacssohn?
— E disse.
Ele ficou surpreendido.
— E então?
— Não me tomaram a sério. — Ela franziu as sobrancelhas ao
lembrar-se. — O seu relatório foi «morte acidental».
— Isso não os põe na posição de inimigos. Podem estar
enganados... no caso de você estar certa.
O olhar dela tornou-se novamente frio e hostil.
— Eu tinha a impressão de que o papel da Secção de
Contacto consistia em averiguar tudo aquilo que pudesse
prejudicar a sua gestão.
Ele disse em tom ligeiro:
— Até as Seções de Contato têm os seus momentos de
desleixo. Hoje em dia é raro encontrar-se qualquer coisa
bem feita.
Sentiu um alívio duplo. Pelo fato de haver uma explicação
tão fácil para a antipatia dela pela Secção de Contacto e por o
seu antecessor se ter pura e simplesmente afogado. As
neblinas fantasmagóricas começavam a levantar-se,
deixando atrás de si um mundo familiar e reconhecível, no
qual estava enquadrada uma vulgar rapariga histérica, em vez
de uma situação de pesadelo girando em volta de um crime.
A insistência dela sobre este ponto podia vir a tornar-se
desagradável e ele não gostaria de ter de recorrer à Psico &
Med, sobretudo porque não tinha grande fé na sua técnica,
mas, pelo menos, já tinha uma idéia quanto à maneira de
conduzir as coisas.
Ela disse:
— Onde é que se deu a fuga?
— A fuga?
A voz dela traía impaciência.
— Você acabou de dizer que tinha havido uma fuga de
informações. Suponho que se referia ao nosso trabalho
aqui...
— Ah, sim. Parece que sim. Pelo menos tive a impressão de
que se sabia qualquer coisa — não sei até que ponto.
— Dentro da IQR ou fora?
— Fora. Telecom.
E isso em Detroit. Não lhe pareceu estranho que Ledbetter
não soubesse de nada e essa outra pessoa — fosse quem
fosse — soubesse?
— Na verdade, não me pareceu. Também não pretendo dizer
que esse outro indivíduo soubesse mais do que Ledbetter. E
Ledbetter também não estava numa posição de
desconhecimento total, claro; sabia que se tratava de um
trabalho secreto e tinha um dos relatórios de Isaacsshon na
sua mesa — não que ele lhe dissesse qualquer coisa.
Compreendeu que a entrevista mudara de rumo. Fora sua
intenção interrogar Sarah; mas agora, tendo tomado o freio
nos dentes, era Sarah que o interrogava a ele. O problema
estava em a desviar para outro assunto, sem a magoar.
Gostaria de a conservar bem disposta para com ele, se
possível; certamente que ainda tinha muito que descobrir
acerca do complicado puzzle das pesquisas de Isaacssohn.
Não havia mal nenhum em que ela detestasse a Seção de
Contato; de qualquer forma, isso acontecia à maior parte das
pessoas.
— Elaboram os seus planozinhos insidiosos e andam aos
segredinhos pelos cantos, sem fazerem qualquer idéia
daquilo em que se metem. — Ela olhou-o bem de frente. —
Haverá alguma coisa a dizer a seu favor?
Charles sorriu.
— Apenas que são bem intencionados, palavra, na sua maior
parte e quase sempre. Segundo o seu ponto de vista.
— Não me parece — disse Sarah vagarosamente. — Já pensei
assim em tempos, mas mudei de idéias.
Pareceu-lhe ver uma possibilidade de mudar o rumo da
conversa, se conseguisse afastar o assunto do mundo em
geral, que para ela se resumia num campo de operações da
Seção de Contato, para ela própria.
Perguntou:
— Em primeiro lugar, gostava de saber porque é que as
pessoas — tal como você e Isaacssohn, por exemplo — vêm
de Israel para cá? Será que acreditam no ideal do sistema de
gestão? Se não, em quê? Penso que não procuram apenas o
conforto e a abundância?
— As pessoas vêm pelas duas razões. Há sempre uns quantos
estudantes para quem os sistemas que funcionam do outro
lado da fronteira têm maior atrativo. Além disso, em Israel
os padrões de bem-estar pessoal são mais baixos. Mas há
ainda uma terceira razão. O meu pai veio para aqui como
refugiado político e eu vim com ele.
— Refugiado político? — Era difícil abranger totalmente um
termo que deixara de ser válido, na maior parte do mundo,
um século antes. Percebeu que Sarah sorria perante o seu
espanto. — Como?
— É difícil de explicar. Em Israel, as pessoas conspiram tanto
como aqui, mas de maneiras bastante diferentes. O meu pai
estava envolvido numa conspiração, que foi descoberta, para
deitar abaixo o governo. Se ficasse teria sido preso.
Charles desculpou-se:
— Creio que nem sei qual a forma de governo que têm em
Israel. Não é uma monarquia, pois não?
— No verdadeiro sentido da palavra, podemos dizer que é. O
país é governado por um só homem. O presidente recebe
conselhos do Sanhedrim, mas não é obrigado a segui-los.
Charles pensou em perguntar o que era o Sanhedrim, mas
achou melhor não o fazer. Houve outra coisa que lhe
chamou a atenção.
— O seu pai estava envolvido numa conjura contra o
presidente? E Isaacssohn?
— Estava igualmente envolvido.
— Nesse caso, se houve qualquer coisa de suspeito na sua
morte, não seria possível que...
Ela interrompeu-o em tom decidido.
— Não. Se tivessem ficado, apenas estariam sujeitos a prisão.
Não somos nenhum povo primitivo. E de qualquer forma, o
meu pai é que era um dos cabeças; Hans teve apenas um
papel muito secundário. — Os olhos dela estavam fitos num
hidroavião que aflorava as águas à distância. — Só aqui é que
os inocentes são mortos por estarem a estorvar alguém.
Charles achou que não valia a pena argumentar contra uma
obsessão. Era visível que o gelo se estava a quebrar e a única
preocupação dele era que o processo de descongelamento
continuasse.
— E o seu pai? — perguntou. — Sente-se bem aqui?
Ela encolheu os ombros.
— É melhor do que a prisão. É professor de História em
Berkeley.
— História?
— Sim. — A rapariga sorriu. — Ainda há quem estude
história. De momento tem dois alunos. Ganha um pouco
menos do que... — fez um gesto em direção ao laboratório
— ...do que Luke. Mas ele faz uma vida modesta. E parece
muito satisfeito.
Charles levantou-se.
— Talvez pudéssemos voltar a ver o que fazem o Luke e o
Tony. — Ajudou Sarah a pôr-se de pé. — Não se pode
esperar que você se sinta muito encantada com muitas das
coisas e pessoas que encontrou por cá. Eu próprio não o
estou. Mas acho que seria bom se você conseguisse ver em
mim um — um indivíduo neutro, pelo menos. Pela minha
parte estou dependente da sua ajuda e muito.
Subiam agora o caminho pedregoso. Ela disse:
— Suponho que lhe deram pulso livre a meu respeito?
— Pulso livre?
— Não é obrigado a manter-me aqui, se não quiser?
Ele hesitou.
— Não. Mas não vejo porque é que eu havia de querer
desembaraçar-me de si.
Ela sorriu.
— Tanto mais que Hans não deixou as notas que devia ter
deixado. Então?
Viu-a olhar para ele. Malicioso como se mostrava agora, o
rosto dela era bastante atraente. Sorriu-lhe também.
— Isso é um fato. Eu estava preparado para agüentar uma
série de coisas a fim de conseguir as informações de que
precisava.
— É muito generoso.
— Estava preparado. Mas você já me demonstrou que sabe
ser humana, afetuosa e simpática. É com isso que eu conto.
A partir de agora, mesmo que me abra o caminho para a
descoberta mais importante do século, não me contentarei
com isso.
Largaram a rir. Momentos depois, o pé escorregou-lhe nas
pedras soltas e ele teve que a agarrar para não a deixar cair.
Foi o contacto certo, no momento certo.
Uma das habilidades que Charles se dera ao trabalho de
adquirir fora a de polir os seus próprios diamantes, em vez
de estar dependente de quem lhe fizesse esse trabalho
noutro sítio. Dedicara-se a esse trabalho com um cuidado
que lhe era natural e descobrira que certos cortes que, por
razões incompreensíveis, tinham caído em desuso,
permitiam um brilho muito maior do que os praticados
correntemente. Explicou este fato a Sarah, quando ela lhe
mostrou uma das pedras que constituíra a base do relatório
de Isaacssohn sobre as alterações do índice de refração dos
diamantes do tipo m. Ela segurava a pedra sob um feixe de
luz muito fino e ambos tiveram que afastar os olhos por
causa do brilho que refletia. Charles pegou na pedra e
examinou-a.
— Corte em rosa. O corte em brilhante daria o dobro do
brilho. Por meados do século XX houve um outro
aperfeiçoamento, o brilhante Brown, que dá ainda melhores
resultados.
Ela olhou-o surpreendida e com visível admiração.
— Mandávamos sempre cortar as pedras em Los Angeles.
Pedíamos que nos dessem o maior brilho possível.
— Era o Fransski, não? — Sarah acenou afirmativamente. —
Uma vez tentei explicar-lhe os princípios do corte em
brilhante, mas é raro ele escutar seja o que for. As pedras são
cortadas antes da irradiação, claro? Já alguma vez tentou
irradiá-las primeiro e cortá-las depois?
— Sim. Morre. Seja qual for a modificação ocorrida na
estrutura, não há estabilidade. É mesmo muito provável que
se verifique um colapso natural, embora isso ainda não se
nos tenha deparado. A pedra que lhe mostrei foi a primeira
que utilizamos, há quinze meses. Parece estar bem, mas a
pressão necessária ao facetar quebra-a.
Charles acenou com a cabeça.
— Não admira. E a bateria — calor simples — conversão de
eletricidade? E que tal usar uma proteção?
— Safira.
— Claro. Mas que é que faltava aperfeiçoar, Sarah?
— Muitas coisas. O esquema de proteção é tudo menos
perfeito, o sistema de espelhos é ainda muito primitivo. De
fato, até agora pouco mais havia que a idéia. Falta
desenvolvê-la.
Charles fez rodar o pequeno diamante na mão, ao mesmo
tempo que o examinava.
— Desenvolvê-la ... sim, compreendo. — Olhou para Sarah
— Imagine por momentos que dirige as Indústrias Químicas
Reunidas. Tem uma coisa deste tipo em estudo. Perde o —
investigador, mas de qualquer forma chegou-se a esta fase.
Que é que vai fazer a seguir?
— Entregar o caso aos engenheiros. É bastante óbvio, não?
Charles acenou afirmativamente.
— Extremamente óbvio. Com certeza que não vai chamar
outro investigador para quê fazer o que já está feito.
Portanto, a questão continua de pé — porquê eu?
Certamente que não foi uma questão de beneficio para a
minha saúde. Consegue perceber porque é que não entrega-
ram a coisa à Secção de Desenho?
— Não. Pus essa pergunta a mim mesma quando o Hans
ainda estava vivo. Perguntei-lhe mesmo o que é que ele
pensava disso.
— Que é que ele disse?
— Ele tinha fraca opinião dos indivíduos de Graz. Tanto
quanto me foi dado perceber, ele achava que eles não
sabiam o que estavam a fazer. É difícil de acreditar.
— Mas é bem possível, infelizmente. Hans — viu que o
olhar dela se voltou para ele, com satisfação — conhecia
certamente melhor as suas reações do que você ou mesmo
eu. Penso que você não leu os relatórios confidenciais?
Ela apontou para os arquivos de microfilmes.
— Só os que diziam respeito ao trabalho feito. Não os
memorandos endereçados a Nikko-Tsi.
— E os memorandos? Estão também no arquivo?
— Estavam. A Seção de Contato levou-os.
Ele abanou a cabeça.
— Não é que tenha muita importância. Não me parece que
possa fazer outra coisa a não ser reconstituir o puzzle e
apresentá-lo depois, recomendando que o façam seguir para
Detroit ou Milão.
Sarah disse, lentamente:
— Espero que não se decida muito depressa.
— Porquê?
— Se as coisas chegarem ao ponto de eles serem incapazes
de reconhecer um trabalho fundamental como este, mesmo
que lho ponham diante do nariz, não me parece que adiante
alguma coisa mandá-lo para a Seção de Desenho. Acho que
o Hans preferia a idéia de fazermos o trabalho aqui,
sozinhos.
— Mas não temos equipamento — nem pessoal!
— Mesmo assim, conseguíamos.
Ao dizer isto, não olhou para ele, mas sim através da janela,
para o imenso Pacífico. Ele pensou, com satisfação: «pelo
menos, enquanto eu estiver aqui, as coisas não vão correr
mal de todo.» A hostilidade parecia ter desaparecido
completamente. Mas embora fosse um alivio encontrar as
possibilidades de uma colaboração amigável, continuava a
não perceber como é que podia fazer outra coisa a não ser
passar as coisas às pessoas qualificadas para terminar o
trabalho. Isaacssohn, tal como Sarah, devia estar imbuído do
individualismo israelita e sentia-se provavelmente muito
satisfeito por o deixarem fazer as coisas, sozinho. Charles,
nascido dentro do sistema de gestão, tinha outra forma de
consciência em relação a estas coisas. Pôs uma das mãos no
ombro de Sarah e ela voltou-se para ele, meio sorridente,
preparada para a cumplicidade da colaboração dos dois
contra a estupidez imensa da organização das Indústrias
Químicas Reunidas.
— De qualquer forma, não preciso de muito tempo. Primeiro
tenho de estudar devidamente a questão antes de me
pronunciar.
Ela acrescentou:
— Podia tentar a irradiação numa pedra talhada em brilhante.
Acha que poderia arranjar algumas em Saginaw?
Ele riu intimamente do ingênuo espírito de determinação
com que ela tentava envolvê-lo na continuação das
pesquisas: embora fosse evidente que ela devia ter dado com
qualquer coisa que só ele estaria em posição de fazer. A idéia
de que a Secção de Desenho pudesse vir a talhar as pedras
que eles usavam era divertida.
— Sim — disse. — Acho que Casey nos mandará algumas, se
eu lhe pedir. Ele sempre esteve convencido de que a
importação de uma máquina de polir era mais um sintoma
da minha instabilidade mental. De fato eu podia mandar vir
essa e outras peças de equipamento. Em Saginaw nunca mais
se vão servir delas.
Ela disse:
— Sim, não fazia mal nenhum. Gostava que você visse o
plano para o retificador de selênio. Incorporei no plano, tal
como Hans o deixou, algumas idéias minhas.
Sem esperar resposta, ela apagou as luzes e introduziu um
microfilme no leitor. Na parede, o écran iluminou-se. Ela
fazia as suas demonstrações com um ponteiro sobre um
pequeno écran que estava incrustado na mesa, traçando
círculos em volta dos pontos salientes, círculos esses que,
reproduzidos no écran grande, brilhavam durante cerca de
um minuto, antes de se apagarem.
— Este ê o esquema original. Pensei que, se fizéssemos esta
ligação — duas elipses uniram-se e formaram um círculo —
e se cortássemos esta terceira fase ...
Ela carregou num botão e uma nova imagem apareceu no
écran.
— ...seria mais ou menos assim. Isto deveria dar um novo
impulso.
Charles disse:
— Sim. É um belo trabalho. Muito bem. Vou planear o meu
próprio trabalho de maneira a acompanhá-la.
Quando olhou para ela, de pé, na sombra, fora do estreito
raio de luz, Charles pensou que a vira corar.
Ela disse:
— Obrigada. Hans deixava quase todas estas questões
comigo.
— Parece-me que vou fazer o mesmo — disse Charles.
Os poucos indivíduos do século xxi integrados no sistema de
gestão, que tinham o espírito de curiosidade necessário para
isso, perguntavam a si mesmos por que é que a TV
continuava a ser bidimensional, enquanto o cinema se
apresentava tão convincentemente tridimensional. Ambos
pertenciam à Telecom, o que tornava essa discrepância ainda
mais espantosa. De fato, a questão fora levantada em
primeiro lugar no Conselho de Gestões. Os diretores da
Telecom queriam uma TV a três dimensões, mas não tinham
levado a sua avante. Psico & Medicina tinha insistido em
que a TV, caso lhe fossem dadas as mesmas oportunidades
que ao cinema, destronaria este e havia muito boas razões
para que o hábito de sair e procurar entretenimentos
especializados devesse ser alimentado.
Assim, no domingo a seguir à sua chegada, Charles desceu
com o seu giroplano no cineparque de San Miguel e ajudou
Sarah a sair. O teto deslizou de forma a cobri-los,
protegendo-os da chuva persistente que, de qualquer forma,
era evaporada pelo termo-equipamento muito antes de tocar
no chão. Charles arranjou bilhetes para os melhores lugares
e deitaram-se lado a lado em almofadas de ar, a meio da
ponte que se encurvava de um lado ao outro, a meio do
cinema.
Enquanto esperavam que o filme começasse, Sarah rolou de
um lado para o outro, enterrando-se na almofada e
estendendo os membros para lhe sentir a elasticidade.
Charles observava-a, divertido. Ela notou-o.
— Nunca tinha estado numa almofada destas — disse ela. —
Vinha cá às vezes com o Hans, mas a nossa natural
frugalidade israelita levava-nos a escolher os lugares C.
— Isso quer dizer que não conhece todas as suas vantagens
— sugeriu Charles. Ele carregou num botão e as paredes
isolando-os de todos os olhares, tal como já acontecia com
os lugares inferiores.
Sarah inclinou-se, sem pressa, e, carregando no botão, as
paredes voltaram a subir.
— Já sabia disso — disse.
Charles propusera a ida ao cinema quando soube que Sarah
era, tal como ele, uma apreciadora de reposições. Tratava-se
de filmes de valor histórico que eram refeitos com toda a
fidelidade permitida pela transposição para o sistema realista,
colorido, 3D. O presente programa constava de duas
reposições — La Femme du Boulanger e Uma Noite na
Ópera. O primeiro agradou-lhes, mas o segundo pareceu-
lhes aborrecido. Ambos tinham visto filmes originais dos
irmãos Marx nos pequenos écrans de bilhete-postal e os
atores que tentavam agora escrupulosamente imitá-los
davam uma pálida imagem do original. Uniram- -se nas suas
críticas e saíram da ponte num ambiente quente de camara-
dagem.
Quando o giroplano se ergueu através do telhado aberto,
encontrou um céu limpo, que parecia mais azul depois da
chuva. As nuvens eram ainda visíveis, formando uma barra
branca sobre as colinas. A visibilidade era boa e todos os
detalhes das próprias colinas se destacavam com uma nitidez
surpreendente. Enquanto o giroplano pairava sobre o
cineparque, Charles chamou a atenção de Sarah para as
colinas.
Ela disse:
— Que maravilha. Não podemos ir até lá?
Ele olhou para o indicador da bateria elétrica.
— Pouco menos de um quarto. Faz idéia da distância?
Ela disse vagamente:
— Cinco milhas. Dez!
Charles riu:
— Se forem dez, teremos provavelmente de fazer uma parte
do caminho de regresso a pé. Está bem?
Ela sorriu:
— Não faz mal.
Ele fez descer o giroplano numa saliência coberta de erva,
cerca de quatrocentos pés acima do nível do mar, donde se
avistavam as planícies que se estendiam até San Miguel, o
laboratório e o friso distante do oceano. A erva rasteira fora
provavelmente cortada para os carneiros, mas estava ainda
molhada da chuva; Charles estendeu uma manta de plástico
e sentaram-se. Ia oferecer-lhe um cigarro quando pareceu
lembrar-se.
— É verdade, você não fuma. Que é que toma? Mescal?
Ela abanou a cabeça.
— Nada.
— Nada? Que maravilha! Nem sequer rói as unhas?
— Nem isso. Mas não tem mérito. Não se esqueça da minha
educação israelita puritana. Isso explica tudo.
— Já me tinha esquecido. Mescal e tabaco são proibidos. Mas
há uma coisa que é permitida. Como é que...?
— Você está a pensar em vinho. — Sarah contemplava o
panorama que se estendia em frente deles. — Há pelo
menos uma coisa que é melhor aqui. Um sítio como este só
para nós. Em Israel um lugar destes estaria apinhado; nem
sequer haveria espaço para baixar um giroplano, penso eu.
— Gente a mais — disse Charles —, aí está um dos poucos
problemas que nós não temos. Pelo menos nestas paragens.
— Levantou-se e aproximou-se do giroplano. — Tive uma
idéia...
Pôs-se à procura num armário e tirou dois copos e duas
embalagens plásticas com vinho tinto.
— Deve ser Califórnia, mas é melhor que nada. — Cortou o
canto de uma das embalagens e o vinho brotou para o copo
que ele pôs a jeito. Estendeu-o a Sarah e encheu o outro.
Provou-o e disse, pensativo:
— Não é mau.
— À bateria solar — disse Sarah. Não tirou os olhos dele
enquanto repetia a saúde. — E à nossa saúde.
Ele percebeu onde ela queria chegar.
— Acho que não temos nada a recear.
— O Hans também pensava assim.
Ele voltou-se para a olhar bem de frente. Havia apenas três
dias que se conheciam, mas ele já não se podia contentar em
ter poucos ou nenhuns problemas no trabalho que iriam
fazer juntos. Era importante que ela não se deixasse
atormentar por falsas preocupações.
— Seja razoável, Sarah. Não há qualquer motivo para que
alguém tivesse morto Hans. Isso não traria vantagens para
ninguém. Porque é que a IQR havia de o matar se tinha a
sua colaboração? Quanto às outras organizações, não vou ao
ponto de dizer que não se dê, de vez em quando, um
crimezinho bem planeado — mas, neste caso, para quê? Se
se tratasse simplesmente de eliminar uma vantagem da IQR,
porquê dar-lhe a oportunidade de pôr no mesmo lugar uma
pessoa como eu, dando-me a facilidade de receber de si
todos os fios da meada? Se fosse essa a idéia, você também
não estaria aqui. Dois crimes pouco mais são do que um.
— Não vale a pena, Charles — disse ela. — Sei que há
qualquer coisa que não está certa. É uma convicção.
— Como é que chegou a ela? — perguntou, numa
provocação deliberada. — Por meio de intuição?
Ela ficou picada.
— Não, que diabo! Mas conhecendo os fatos melhor do que
você — e quando digo conhecer, quero dizer conhecer
realmente, não apenas uma aceitação intelectual. Está tudo
certo — você acredita quando eu lhe digo que Hans era um
marinheiro experimentado e que o mar estava calmo, mas
não pergunta a si mesmo até que ponto ele era
experimentado ou até que ponto o mar estava calmo. A idéia
de ele ter sido morto parece-lhe insensata; a mim parece-me
igualmente insensato pensar que tivesse sido um acidente.
— Os seus mistérios são mais obscuros que os meus —
observou. — O mar tem um longo cadastro de violências e
crimes insensatos. A psicologia dos gestores é bastante
previsível, segundo me parece. Sabemos porque é que
Leverson não tentou manter a hegemonia do Departamento
Atômico, alcançada por Van Mark, mas nunca saberemos
porque é que a sua tripulação abandonou o Marie Celeste.
Ela sorriu.
— Aprecio o seu argumento. Mas mesmo assim não
conseguiu convencer-me.
— Também não esperava consegui-lo tão facilmente. O
tempo a convencerá. Espero que compreenda que, a existir
alguma viabilidade na sua teoria, isso aponta para que
entreguemos tudo à Secção de Desenho?
Ela ficou silenciosa por momentos.
— Acho que tem razão. Seja. — Voltou a beber. — À bateria
solar e que as nossas saúdes se desenvencilhem sozinhas.
Riu. Enquanto a observava, Charles verificou que já não
havia nela qualquer vestígio daquele nervosismo e mal-estar
que tinham sido tão característicos da sua personalidade
quando a tinha conhecido. Em sua substituição, a
naturalidade e o encanto sobressaíam fortemente. Espe-
cialmente o encanto — ele sentia uma convicção pessoal,
que aumentava a todo o momento e que lhe dizia que esse
encanto, ao mesmo tempo que refletia o à-vontade que ela
começara a sentir junto dele, refletia também alguma coisa
mais; alguma coisa que incluía a provocação.
Ele estava longe de não querer ser provocado. Havia muito
tempo que não sentia nada que se assemelhasse ao seu
estado de espírito atual; pensara que esse estado de espírito
tinha sido devidamente canalizado no decorrer das suas
visitas às casas P & M. Ao que parecia, isso não sucedera.
Confiante de não ser indesejável, avançou lentamente para a
abraçar.
Ela afastou o corpo evitando-o. Ele caiu para a frente e
conseguiu agarrar-lhe um braço. Com grande espanto seu,
ela deu-lhe uma bofetada com a mão que tinha livre. Ele
sentou-se e ficou a olhar para ela.
Ela largou a rir.
— Se você pudesse ver como está cômico, Charles!
— Imagino. Mas o que é que com os diabos...
— Você já se esqueceu. Outra das nossas inibições israelitas.
É como o tabaco e o mescal. É-nos muito difícil tomar
atitudes promíscuas do pé para a mão.
— Com quanto tempo de antecedência é preciso preveni-la?
— Não é fácil dizer. O tempo suficiente, pelo menos, para
que a idéia não provoque reações imediatas. Deixamos a
questão assim, está bem?
Tinha a cara a arder; esfregou-a. Sentia-se ao mesmo tempo
arreliado e satisfeito. No passado, escolhera deliberadamente
as Casas, de preferência à promiscuidade que o rodeava e
sentira-se, de uma maneira geral, inclinado a aceitar a idéia
corrente de que isto constituía uma perversidade da sua
parte. Agora não tinha a certeza disso.
— Acho que sim, se você o diz. — De qualquer forma, era
aborrecido que a sua primeira avançada, depois de muito
tempo, tivesse sido repudiada. Olhou para o rosto sorridente
e reservado de Sarah. — Sempre pensei que em três anos
tivesse entrado mais no — no ritmo do sistema de gestão.
— Tenho feito uma vida pacata. Não se esqueça de que
tenho andado sempre com israelitas — primeiro o meu pai e
depois Hans. As minhas oportunidades têm sido limitadas.
— Tentarei fazer com que deixem de o ser.
— Acredito. — Apoiou-se num cotovelo e apontou para a
faixa brilhante do mar. — Hidroaviões. Deve ser o regresso
da Corrida de Guadalupe. Tem algum binóculo no armário,
Charles? Apostei cem no Conway.
Ele trouxe-lhe o binóculo.
— Boa maneira de mudar de assunto. Pelo que vejo, entrou
suficientemente no ritmo para resolver arriscar nas corridas
de hidroaviões.
Ela sentou-se muito direita, com os ombros puxados para
trás, enquanto focava o binóculo nas manchas distantes
perdidas no oceano. A posição favorecia-lhe
extraordinariamente a figura e Charles suspeitou de que ela
bem o sabia. Voltou a sentir-se arreliado durante alguns
momentos.
— Em Israel também fazem apostas. E já para agora, fazem
saltar melhor os hidroaviões. Aquele é Ethelgar, à frente.
Conway é o terceiro. Suponho que nenhum deles sabe tirar
partido de um vento lateral.
— Isto aqui não é o Mediterrâneo.
— Já lhe disse que o Mediterrâneo é mais perigoso do que
vocês pensam. — Baixou o binóculo e estendeu-o a Charles.
Quer ver? Os meus cem foram-se. Conway está em boa
posição, mas não consegue agüentar meia milha.
Charles pegou no binóculo.
— Nunca me interessei o suficiente para apostar nisto. —
Olhou ocasionalmente. — Nem consigo distinguir as cores.
— Nem precisa; a superestrutura basta como identificação.
Olhe. Aproximou-se e voltou a pegar no binóculo. Apoiou o
corpo contra o dele, pondo-lhe um cotovelo no ombro. Ele
ficou imóvel, sentindo-lhe o calor e a suavidade. — Ethelgar
— as curvas acentuadas e a carapaça arqueada. Conway —
rente à água, com as asas ligeiramente encurvadas para trás.
Aquele é o Spruce; distingue-se pela forma quadrada.
Afastou-se um pouco dele, baixando o binóculo.
Ele disse:
— Continue. É mais interessante do que eu pensava. Quem é
que está em quarto lugar?
Ela ficou imóvel, sorrindo.
— Chega, para a primeira lição. Podia vir a interessar-se
demasiado. Vamos voltar?
No decorrer da semana seguinte, voltaram a sair juntos, uma
ou duas vezes, e Charles esperava o fim-de-semana com
impaciência. Fez-lhe uma sugestão vaga na quinta-feira à
noite, quando voltavam de um passeio ao Golfo. Sarah
abanou a cabeça; talvez com pena, mas muito firmemente.
— É a minha semana de ir a Berkeley. Uma vez por mês vou
passar dois dias com o meu pai. É pena.
Ele não teve a certeza de conseguir disfarçar a decepção que
sentiu.
— Compreendo, pois claro.
Dissera-lhe que regressaria bastante tarde no domingo à
noite e ele pusera-lhe o giroplano à disposição. Ainda tinha
o carro; uma vez que tinha licença de condução, não fazia
sentido que não praticasse. Ausentou-se deliberadamente ao
laboratório no domingo à tarde e à noite, esperando que
Sarah estivesse de volta quando ele próprio regressasse.
Passava das vinte e três quando meteu o carro na garagem e
viu que não havia luz nas janelas dela. Também podia ser
que tivesse ido para a cama assim que chegasse, mas parecia-
lhe pouco provável. Foi para os seus aposentos, mas não lhe
apetecia dormir. Sintonizou a Liga Vermelha, Conforto
Brilhante e o canal local, Circuito do Sol, mas achou que
aquilo que a TV lhe podia oferecer correspondia ainda
menos às suas necessidades do que o habitual. Pensou em
telefonar a Sarah, mas seria um bocado disparatado se ela
tivesse ido realmente para a cama. Acabou por tocar os
discos de John Passion, com o som baixo e as janelas abertas
para ouvir o giroplano, caso ela chegasse, entretanto.
Foi no meio de tudo isto que ele se lembrou repentinamente
de que tinha uma maneira muito simples de saber se ela já
tinha voltado. Foi ao local onde guardava o giroplano. Estava
vazio.
Tudo lhe parecia agora evidente. Podia haver uma centena
de razões que a levassem a decidir passar a noite junto do pai
e voltar de manhã; ele podia estar doente, qualquer coisa.
Voltou aos seus aposentos, tomou uma ducha, foi para a
cama e dormiu, até que as trombetas de Conforto Brilhante
o acordaram para a contemplação de uma aurora alpina
sobre a parede do quarto.
Logo que acabou de se vestir, telefonou a Sarah. Ela já
algumas vezes o tinha procurado pessoalmente, de modo
ocasional, sem prevenir, mas ele não estava habituado àquela
ausência de formalismo. O écran continuou vazio.
Continuou a chamar durante cinco minutos, caso ela
estivesse a vestir-se ou a tomar banho e depois
compreendeu que ela ainda não tinha voltado. Olhou para o
relógio que tinha no dedo; passava das oito. Mesmo que
tivesse decidido passar a noite, já devia estar de volta ou,
pelo menos, ter telefonado a explicar o que se passava.
Encontrou a indicação da freqüência do pai no seu
microficheiro e chamou o número. A chamada foi atendida
imediatamente. No écran surgiram as feições bronzeadas,
tipicamente israelitas de um homem com cerca de sessenta
anos — alto e um pouco encurvado. Tinha um sorriso
cordial e um tanto malicioso. Falou com um sotaque acen-
tuado. Provavelmente fora ele próprio um dissidente da
tradição espalhada entre as famílias aristocráticas de Israel
quanto ao uso exclusivo da língua alemã, uma vez que
mandara ensinar inglês à Sarah desde a infância desta.
Ele disse:
— Sim? O senhor é Grayner. Ainda não nos tínhamos visto.
Espero que esteja bem.
Charles sentia a garganta apertada. Disse abruptamente:
— Sarah — a sua filha — está aí? Gostava de falar com ela.
O rosto do Professor Cohn contraiu-se. Disse
tranqüilamente:
— Saiu daqui ontem — ao princípio da tarde — para voltar
para o laboratório. Ainda não chegou?
— Não. — Estava assustado e a pergunta saiu-lhe com uma
aspe- reza involuntária. — A que horas é que ela saiu daí?
Falou de alguma paragem que tivesse de fazer pelo caminho?
Reparou na bateria?
— Ela saiu pouco depois das seis — queria estar de volta
cedo, foi o que me disse. Não falou em parar, já lhe disse, ela
queria estar de volta cedo. A bateria estava carregada e nós
não nos servimos do giroplano. — Fez uma pausa. — Que é
que se pode fazer?
— Vou entrar em contacto com a Telecom imediatamente
— disse Charles. — Não se preocupe. Deve ter sido obrigada
a parar em qualquer sítio inóspito. Num giroplano dorme-se
muito bem. Telefono-lhe logo que saiba qualquer coisa.
Desligou sem esperar que a resposta do Professor Cohn fosse
a mais do que «Sim, espero». Entrou em contacto com a
Seção de Recuperação da Telecom. No écran apareceu uma
mulher gorda, a bocejar, visivelmente desinteressada de
tudo o que não fosse a sua hora de largar o trabalho.
Ele disse com brusquidão:
— Laboratório 719 da IQR, San Miguel. Funcionário
Grayner. Não sabemos do paradeiro de um membro do
nosso pessoal. Assistente Sarah Cohn. Desapareceu ontem à
noite quando seguia de giroplano de Berkeley para aqui.
Tem alguma informação acerca dela?
A mulher olhou para ele com os seus olhos descaídos e
entediados.
— Quase podia jurar que não. Há um mês que não temos de
socorrer nenhum giroplano. Mesmo assim, não desligue,
vou confirmar com o Exterior.
Observou-a enquanto ela se voltava para o lado e sintonizava
a equipa de serviço exterior noutro écran, do qual ele via
apenas um canto: parte de um rosto masculino distorcido.
Ouviu igualmente a resposta que lhe deram. Ela desligou e
dirigiu-se novamente a Charles.
— Nada. Vou emitir um pedido de ajuda. Berkeley, disse?
Para San Miguel?
— Sim. Vai mandar-me um relatório logo que consiga apurar
qualquer coisa?
Ela acenou.
— Era melhor mandar-nos a microficha dela. Tem-na aí?
— Não, não tenho. Mas vou buscá-la. Depois volto a entrar
em contacto consigo.
— Está bem.
Ela tinha-se voltado para ligar o écran recreativo, mesmo
antes de interromper o contacto. Charles fitou durante
alguns momentos o brilho fraco do écran, antes de desligar,
por sua vez. Depois dirigiu-se ao escritório para ir buscar a
microficha de Sarah. Trouxe-a para os seus aposentos.
Meteu-a no projetor. Os detalhes relativos à Assistente Sarah
Cohn, que eram considerados relevantes, encheram a parte
superior do écran; na parte inferior, aparecia a própria Sarah
— três Sarahs: cabeça e ombros, frente e perfil e corpo
inteiro. O medo, a dor, voltaram a apoderar-se dele, com
mais força, enquanto contemplava as imagens.
Voltou a chamar a Telecom e respondeu-lhe a mulher
gorda.
— Não demorou. Tem a ficha? Projete-a.
O écran ficou branco durante um minuto ou dois, para dar
lugar ao automático que fotografou a microficha. Depois, a
mulher voltou a aparecer.
— O. K. — Ela sorriu com uma certa malícia. — Já percebi a
pressa. Vamos tentar descobrir-lha. Isto é uma história para
os rapazes do telecine — a bela cientista perdida num
giroplano. Eles não tardam a aparecer.
Telecom dava-se sempre mais importância do que a que na
realidade tinha; Charles sentiu-se irritado com a mulher, mas
guardou para si essa irritação. De qualquer forma, estava
dependente da Telecom para conseguir saber rapidamente o
que se passava.
Limitou-se a dizer:
— Nós somos um serviço autônomo. Quer dizer-lhes isso?
— Não faz mal. Eles chegam a toda a parte. Estão sob as
ordens de Metrill?
Ele respondeu:
— Agradeço-lhe que me informe logo que souber qualquer
coisa.
Quando ela disse: «Com certeza», ele desligou.
A sua próxima chamada foi para Metrill; era necessário
notificá-lo. Só falara com Metrill uma vez; uma chamada
formal quando tinha tomado conta do laboratório. Metrill
pertencia ao tipo avuncular — lento, cordial, aparentando
uma solicitude que escondia, segundo a convicção de
Charles, um espírito preguiçoso dos que arquivam os as-
suntos e não pensam mais neles. No entanto, a notícia fê-lo
endireitar na cadeira, com um ar irritado. Tratava-se de uma
situação que exigia que se tomassem medidas.
Metrill disse:
— Falou com o pai dela?
— Sim. Ela partiu com a bateria carregada, pouco depois das
dezoito horas.
Metrill olhou para ele, pensativo.
— Porque é que ela foi de giroplano?
— Fui eu que lhe emprestei o meu.
— Porquê?
— Eu não ia usá-lo — foi para lhe facilitar a viagem. De outra
forma ela teria tido de usar um táxi até San Diego, chegar a
horas de apanhar o avião e tudo isso. Ela é um piloto
qualificado.
— Era, de qualquer forma. — Foi o ar despreocupado mais
do que o tom definitivo da observação de Metrill que fez
com que Charles sentisse ganas de lhe bater. — Aconselho-
o a cingir-se aos regulamentos, Funcionário Grayner. Ao fim
e ao cabo, poupa incômodos a todos, mesmo que a curto
prazo seja um pouco menos cômodo.
— Sim, senhor.
Metrill remexeu-se na cadeira.
— Qual é o número da ficha dela?
Charles deu-lho, observando Metrill enquanto o anotava.
Disse:
— Estava a pensar ...
Metrill disse sem sequer levantar os olhos:
— Sim?
— ... se me podiam mandar outro giroplano. Penso que
talvez eu pudesse ir procurá-la.
Metrill levantou os olhos. Fitou-os pensativamente em
Charles.
— Vamos tratar de substituir o giroplano. Mas fique onde
está. O Contacto terá de vir fazer-lhe uma visita.
— Eu posso conceder-lhes a entrevista e ainda assim ter
tempo...
— Fique onde está. Você tem trabalho para fazer. Vamos
tratar da substituição do giroplano — e da outra substituição
também.
«A outra substituição» só podia ser Sarah. Sentindo-se cada
vez mais furioso, Charles disse:
— Não é capaz de dizer ao menos: «Esperamos que não seja
necessário?»
Metrill continuava a fitá-lo.
— Dois terços do caminho direto entre a sua casa e Berkeley
são feitos por cima do oceano. Não vejo qualquer razão para
modificar a minha frase com o acréscimo proposto por si.
Não se afaste, Funcionário Grayner. O Contacto procurá-lo-
á.
A mão de Metrill avançou e parou subitamente.
— E não fale nisto a mais ninguém. Nem à Tetecom, por
exemplo.
Charles cerrou mais os lábios.
— A primeira chamada que fiz depois de ter falado com o
Professor Cohn foi para a Telecom, para ver se a tinham ido
buscar a algum sítio.
Metrill inclinou-se para trás e juntou as mãos por detrás da
cabeça, que começava a ficar careca. Ficou silencioso por
momentos e depois disse:
— Quando ainda era rapaz, fiz uma coisa com todo o
cuidado. Aprendi os regulamentos. Foi a coisa mais útil que
eu fiz e parece-me que não é tarde de mais para o senhor
fazer o mesmo. Sob o número 29, encontrará uma
determinação que ninguém — supervisor, funcionário,
gestor ou diretor — comunicará seja o que for relativo ao
pessoal, a qualquer fonte exterior, enquanto o assunto não
tiver sido apresentado à autoridade imediatamente superior.
Tudo bem explícito. E há sempre uma razão para aquilo que
foi estipulado.
— Isto podia ter sido uma questão de vida ou de morte.
Metrill olhou para outro lado.
— Aceito isso como uma desculpa. Com que Secção da
Telecom falou — Recuperação?
— Sim. — Nesse momento, nada lhe interessava a não ser
agredir Metrill. — Apresentei-lhes a microficha da
Assistente Cohn. Acho que iam passá-la à televisão.
Informei-os de que este serviço era autônomo. Iam contatar
consigo.
— Funcionário Grayner — disse Metrill —, o senhor é um
idiota e um incompetente. Vou desligar. Fique onde está.
Charles ligou o alarme do seu écran de chamada, antes de
ele se desligar. Em primeiro lugar foi ao laboratório. Luke e
Tony estavam ocupados com um trabalho de rotina que
Sarah deixara entre mãos. Contou-lhes o que tinha
acontecido. Depois, sentindo-se incapaz de se concentrar no
trabalho que tinha para fazer, saiu. Um robot tratador de
árvores embrenhou-se no laranjal, estava um dia cinzento e
pesado, um vento penetrante e úmido soprava do lado do
mar. Embora estivesse a uma distância que lhe permitia
ouvir o alarme do écran de chamada, estava fora do alcance
do ruído dos geradores. À sua volta reinava o silêncio.
Apenas se ouvia o barulho do mar que embatia sem pressa
de encontro aos rochedos.
Ficou ali mais de uma hora. O alarme não deu qualquer sinal.
O que acabou por o fazer voltar para trás foi o giroplano,
primeiro o ruído que se sobrepôs ao marulhar forte das
ondas e depois o vulto que deslizava lateralmente em
direção às traseiras do laboratório. Caminhou rapidamente,
sentiu mesmo uma ligeira esperança de que se pudesse tratar
de Sarah.
Eram dois homens. Envergavam os casacos habituais de
couro plástico e a etiqueta, Secção de Contacto, por baixo
dos emblemas da IQR. Um deles era muito baixo e curvado,
o outro era de estatura média e os cabelos ruivos formavam-
lhe como que uma aura de fogo em volta da careca bem
visível. Foi este que acenou amigavelmente para Charles.
— Grayner? O meu nome é Caston. Este é o Stenner.
Stenner produziu uma versão minuciosa da saudação da IQR
e Charles correspondeu-lhe de forma desajeitada. Era a
primeira vez que se via perante este tipo de etiqueta. Caston
esboçou um sorriso.
— Onde podemos falar?
Charles conduziu-os aos seus aposentos. Caston olhou em
volta, observando tudo abertamente, com ar natural.
Stenner mostrava uma atenção disfarçada.
— Que é que aconteceu às aquarelas do mar da Galiléia e do
monte Hebron? — perguntou Caston.
Charles respondeu lentamente:
— Estão nos aposentos da minha assistente. — E
acrescentou:
Há notícias?
— Segundo me informaram, você comunicou o fato à Secção
de Recuperação da Telecom? — disse Caston. — Deixamos o
caso com eles. De qualquer forma, eles têm equipamento
mais adequado para esse tipo de coisas.
— Metrill pareceu ficar muito aborrecido por eu ter entrado
em contacto com eles.
— Metrill — comentou Caston — tem uma tal preocupação
em evitar complicações que acaba por as inventar. Além
disso, tem pouca força de vontade. Teve de recorrer a nós
para tapar os olhos aos rapazes do telecine. Acho que não o
vão incomodar, a menos que você estivesse interessado na
publicidade.
— Não — disse Charles —, não estou. — Olhou para Caston.
— Você conhece esta região melhor do que eu. Diga-me,
quais são as probabilidades?
Caston pareceu ficar espantado.
— Probabilidades?
— De a minha assistente estar sã e salva.
Caston encolheu os ombros.
— Há uma possibilidade. Ela pode ter ido cair em qualquer
sítio, onde se encontre viva, mas demasiado magoada para
poder sair de lá. É, no entanto, uma possibilidade muito
fraca. O mais provável é o mar. Era uma bela rapariga.
Charles disse, numa tensão bem perceptível:
— Mas porquê? Porque é que ela havia de cair? O giroplano
estava em ordem, tinha a bateria carregada, não houve
nenhum temporal. Que é que pode ter corrido mal?
— Segundo a minha experiência — disse Caston —, há
sempre qualquer coisa que pode correr mal — geralmente
três ou quatro coisas. O altímetro, por exemplo. Indica dois
mil metros e de repente — catrapás — estatelamo-nos no
oceano. Ou um colapso — as pessoas estão sujeitas a
colapsos. Além disso, ela pode ter tido as suas razões. —
Olhou de lado para Charles. — Parece que ela ficou muito
abalada com o acidente sofrido pelo seu predecessor. Não sei
o que se passou, claro, mas...
— Mas sei eu — interrompeu-o Charles. — Nada. Não se
passou nada. E ela era tudo menos o tipo suicida.
Stenner falou. A sua voz dava a impressão de estar
ressequida.
— O tipo suicida é aquele que comete suicídio. Não há outra
forma de o classificar. — Olhou através da janela com um ar
que poderia parecer de concentração profunda, numa pessoa
de Físico diferente. — Você não conhecia essa mulher há
muito tempo. Há geralmente pouca relação entre a vida
exterior e a vida interior. Ela era do tipo nervoso.
— Sim, com estranhos — disse Charles. — Fora isso, era
capaz de se descontrair.
Caston atalhou:
— Não é que tenha importância, mas podia ter sido o
altímetro — ou qualquer outra coisa.
Houve um breve silêncio. Charles disse:
— Creio que já deve ter reparado que a média dos acidentes
ocorridos com o pessoal deste departamento aumentou
consideravelmente?
— Bom — disse Caston —, se admitirmos a possibilidade do
suicídio, o caso torna-se apenas episódico. Se o pusermos de
lado — o raio não cai duas vezes no mesmo sítio, mas
costuma atingir a árvore do lado. Conhece aqueles
momentos de sorte em que acerta cinco bolas umas atrás das
outras? A Dama Fortuna pode bem trabalhar ao contrário,
por vezes.
— Ponhamos as cartas na mesa — disse Charles. — Eu não
aceito de forma alguma a tese do suicídio. E continua a
parecer-me uma estranha coincidência que tanto o
funcionário de pesquisas como a sua assistente seja vítimas
de acidentes um tanto especiais no prazo de uma semana —
e de ambas às vezes se atribuem as culpas ao mar.
Caston parecia aborrecido.
— Tem uma solução melhor?
— Trabalhamos sob sigilo.
Caston atravessou a sala e examinou os livros que Charles
tinha numa prateleira. Por cima do ombro, perguntou-lhe:
— Você lê livros? O meu pai também costumava lê-los. Eu
tentei um ou dois, uma vez, mas não achei que valessem a
pena. Sigilo. Qualquer porcaria de qualquer laboratório que
exista nesta metade do continente trabalha sob sigilo.
A voz de Stenner fez-se ouvir:
— Está a sugerir que outra organização tenha agido contra
Isaacssohn e Cohn? O trabalho que estão a fazer aqui é assim
tão importante?
Charles hesitou:
— A importância ou lá o que quer que seja que haja no
trabalho parece-me menos importante do que a
coincidência.
— No nosso trabalho não podemos dar-nos ao luxo de nos
deixarmos impressionar pelas coincidências. Se outra
organização tivesse decidido que seria uma boa idéia
desembaraçar-se desses dois — porque não os teria
despachado ao mesmo tempo? Porque é que haviam de es-
perar que você fosse nomeado para acabar o trabalho?
— Isso não sei. — Charles fez uma pausa. — Talvez
achassem este processo mais convincente.
Stenner sorriu com austeridade.
— Podemos assegurar-lhe que não teria sido difícil fazer com
que um duplo assassinato parecesse ser apenas um acidente.
Nada difícil.
Caston abanou a cabeça.
__ Não. Nada difícil.
— Dois acidentes em tão curto espaço de tempo poderia
parecer estranho, mas quando não se consegue encontrar
uma explicação natural ...
— Venha ver aqui, donde nós estamos — convidou Caston.
— Não é nada engraçado um navegador afogar-se; devia ver
as estatísticas de Key Largo o ano passado. Nem percebo
como é que alguns barcos conseguem manter-se direitos.
Quanto a este último caso, é fácil você dizer que não aceita a
idéia de suicídio; é a única explicação possível. Não há que
sair daí.
Charles disse:
— Acho que o mar não tinha mais do que a ondulação
habitual no dia em que Isaacssohn se afogou; além disso, ele
era um navegador experiente.
— Segundo a minha própria experiência — disse Caston —,
são justamente os indivíduos experientes e os amadores
trapalhões que estão mais sujeitos a acidentes — seja em que
campo for. O indivíduo experiente torna-se menos
cauteloso. Tem grande confiança em si próprio e um belo
dia tropeça nessa mesma confiança. Na minha opinião, os is-
raelitas estão mais sujeitos a isso que os demais. Recebemos
o Boletim Meteorológico da Telecom referente a esse dia —
rajadas atingindo a força 8. Suficientemente perigosas,
mesmo para um perito.
— Você disse «Acho...» — observou Stenner. — Poderá
informar-nos de quem é que o fez achar?
— A minha assistente não estava muito satisfeita com as
circunstâncias que rodearam a morte dele. Ela estava
convencida de que se tratava de homicídio.
Stenner sorriu; um vago sorriso de resignação.
Caston disse:
— Ora vejamos, Grayner. Na sua opinião, é normal que uma
pessoa equilibrada comece logo a pensar em homicídio
quando um tipo se afoga no mar? É natural que se fique
perturbado quando se trata de alguém conhecido, mas para
quê pensar em homicídio? Nós somos a polícia e
consideramo-nos satisfeitos. Para sua informação, foi
exatamente essa atitude por parte da rapariga que nos fez
aceitar com menor admiração as notícias relativas aos
últimos acontecimentos. Não sabíamos que ela falara
consigo desses assuntos, mas, nesse caso, esse fato torna
tudo ainda mais evidente. Aposto que ela atacou a questão
logo que lhe pôs a vista em cima.
Charles respondeu, com certa relutância:
— Sim, isso é um fato. Eu próprio também pensei que ela
não estava boa da cabeça.
— Se ela tinha suspeitas — insistiu Caston —, porque é que
havia de as vomitar dessa forma? Se não estava satisfeita com
a forma como tratamos do caso — sabia o que tinha a fazer.
Bastava-lhe apresentar uma reclamação a Metrill e ele teria
mandado alguém verificar o que se estava a passar. Em vez
disso — ela voltou-se para si com as suas queixas. Porquê?
— Era uma estranha — disse Charles —, num país estranho.
Não se esqueça de que ela não nasceu num sistema de
gestão. Compreendo muito bem o que você quer dizer. Eu
próprio pensei o mesmo, a princípio, como lhe disse. Mas
depois, trabalhando com ela, comecei a conhecê-la melhor.
Ela não tinha qualquer perturbação mental. — o seu olhar
foi de um para o outro. — E não era do tipo suicida.
Caston encolheu os ombros.
— Impressões acerca das pessoas — convicções, mesmo —
não significam grande coisa. Um paranóico suicida é um
indivíduo muito convincente. No nosso trabalho
encontramos muitos e por vezes ainda nos deixamos
enganar. Talvez você nunca tenha encontrado um paranóico
bem perto em toda a sua vida. Tem estado sempre a
trabalhar num pequeno laboratório como este — não é
verdade?
— Sempre — disse Charles. O seu espírito estava quase a
ceder: havia alguma coisa de mais forte ainda naquilo que
Stenner não dizia do que naquilo que Caston afirmava. Era
verdade que ele pouco sabia dos seres humanos; até há bem
pouco tempo, nunca pensara que valesse a pena aprender. E
podia ter-se enganado a respeito de Sarah... Mas quando as
coisas lhe eram apresentadas com tanta simplicidade,
recusava-se a aceitar.
Stenner quebrou o silêncio que se instalara por momentos.
— A Assistente Cohn apresentou alguma razão para que a
Secção de Contacto negligenciasse a sua obrigação —
partindo do princípio que as estranhas suspeitas dela fossem
justificadas? A nossa tendência é mais para criar a fama de
nos intrometermos demasiado, não o contrário.
Esse, aliás, tora o ponto de vista dele. Charles hesitou e
depois disse:
— É possível que tenham razão, claro. Isto é o vosso
trabalho e não o meu. Se não... não encontrarem a minha
assistente, então o caso é simplesmente posto de lado? Não
vão investigá-lo?
— A Secção de Contacto — disse Caston — segue uma
rotina bem estabelecida. Pelo menos na IQR. Claro que
vamos investigar. Talvez o pai dela possa dar-nos qualquer
indicação — uma sugestão sobre o seu estado de espírito. Se
não aparecer mais nada, teremos de nos concentrar nesse
aspecto.
— Também gostava de falar com o Professor Cohn — disse
Charles. — Têm alguma objeção a que eu vá a Berkeley
convosco?
Os dois homens cruzaram os olhares. A resposta de Stenner
serviu para confirmar a idéia que ele já tinha quanto ao tipo
de relação que havia entre ambos. Stenner disse:
— Não é habitual, mas não vejo qualquer inconveniente. Do
nosso ponto de vista, claro. No que diz respeito à sua
ausência do laboratório... suponho que Metrill não porá
objeções?
«Quero que o Metrill vá para o diabo», pensou Charles. Disse
laconicamente:
— Não. Desse lado não vai haver objeções.
Stenner pegou nas luvas.
— Nesse caso...
— Pensei que talvez fosse melhor telefonar primeiro ao
Professor Cohn. Além disso, gostaria de saber se já há
alguma coisa por parte da Telecom.
— Está bem — disse Stenner. Encaminhou-se para a janela,
enquanto calçava as luvas. Caston, com ar fascinado,
recomeçara a observar as prateleiras dos livros. Charles
dirigiu-se ao painel de controlo e chamou a Telecom.
A rapariga da Recuperação era ligeiramente mais simpática,
mas igualmente desinteressada.
— Não soubemos nada. Se recebermos alguma informação,
entramos em contacto consigo.
— Eu vou sair. — Deu-lhe o número do Professor Cohn. —
Se tiver alguma notícia, ligue para aqui, está bem? Mas
cuidado, é o pai.
A rapariga bocejou.
— Somos treinadas em relações públicas.
Desligou e ele fez uma chamada para Berkeley.
— Como está? — disse o Professor Cohn. — Ainda não teve
notícias?
— Ainda não. — Charles sacudiu a cabeça para trás,
apontando para as duas figuras que se encontravam na sala.
— Estes dois senhores que estão aqui comigo são da Secção
de Contacto. Pretendem ir a Berkeley falar consigo e eu pedi
que me dessem boleia. Penso que não faça diferença?
O Professor acenou.
— Está muito bem. — Depois hesitou, como que à
procuradas palavras; tinha o tipo de cara que provoca o
cinismo, ainda que injustificado. Falou agora com um tom
de desespero exagerado: — Para mim, como compreende, já
nada importa. Quando se é novo e se sofre um golpe destes,
talvez se possa aprender alguma coisa. Na minha idade, já
não. A minha querida filha e amiga ...
A voz foi-se-lhe abaixo. Charles não sabia o que dizer:
— Lamento muito. Mas pode ser que ainda venham
notícias...
O Professor abanou a cabeça.
— Há sempre esperança, mas uma pessoa também sabe
quando a esperança deixou de ter significado.
— Talvez pudéssemos adiar a nossa visita para amanhã.
Voltou a abanar a cabeça — com excessivo dramatismo. —
Não.
Tanto faz. Tanto faz.
Caston e Stenner não fizeram comentários. Durante a
viagem foram apenas dois funcionários da Secção de
Contacto, em trabalho de rotina, com um passageiro a mais.
Stenner não disse praticamente nada; Caston falou bastante
sobre tudo o que lhe veio à cabeça. Pararam em Los Angeles
para comer e só ao fim da tarde é que começaram a descer
atravessando o céu cinzento em direção a Berkeley. À norte,
o fumo saía dos fossos dos foguetões. O resíduo não
assimilável da explosão. O céu tomou a cor de um
vermelho-alaranjado no momento em que outro foguetão
descolou; depois voltou a ficar cinzento. O giroplano desceu
sobre o telhado do edifício onde estava instalado o Professor
Cohn. Os três homens desembarcaram, sentindo-se um
tanto rígidos e encaminharam-se para o elevador.
Cohn habitava no segundo andar. Caston premiu o botão do
écran de chamada. Não houve resposta. Voltou a carregar e
depois, sem esperar mais, tirou da algibeira um assobio
mestre. Apitou uma complicada série de notas, que
interrompeu quando a porta se abriu.
Os dois homens da Secção de Contacto entraram nos
aposentos com ar resoluto e Charles seguiu-os. Caston
encontrou o bilhete num espaço de poucos minutos.
Encontrara-o no bloco que estava ao lado do écran de
chamada, na sala de estar. Fez um gesto e Charles e Stenner
aproximaram-se.
Tratava-se de autênticas garatujas e dizia:
Desculpem. Talvez devesse ter esperado. Mas as pessoas
tornam-se egoístas com a idade — sobretudo nas pequenas
coisas.
Caston disse:
— Bastante explícito. Mas como? Verificaram a sala de
banho, não verificaram?
Stenner estava a servir-se do painel de controlo. Disse:
— Como? O costume. Que é que se espera num sítio como
Berkeley?
O rosto de Caston iluminou-se quando o écran mostrou o
longo balcão das informações, com o motivo interplanetário
percorrendo a parede do fundo.
— Acho que é isso — disse.
Stenner disse com aspereza:
— Seção de Contato. Indústrias Químicas Reunidas. Liguem-
-me ao Chefe dos Fossos. É urgente.
A ordem foi executada com a habitual eficiência dos
Serviços Interplanetários. O Chefe dos Fossos era um
indivíduo pequeno e rubicundo com um ar ansioso.
— Secção de Contacto, Indústrias Químicas Reunidas —
voltou a apresentar-se Stenner. — Queira verificar
imediatamente os fossos, há um suicida potencial. Professor
Cohn, desta Universidade.
— Herman? Meu Deus!
Estava já a fazer a chamada num outro écran, quando
Stenner perguntou:
— Conhece-o?
Muito bem. E ele esteve por aqui esta tarde.
- Vamos já para aí — disse Stenner. — Vou desligar. O
Chefe dos Fossos tinha descido ao fosso 17. Foi aí que os
levaram ao seu encontro. Quando os viu apontou para o
fosso, em silêncio; a base super-refratária e os lados estavam
ainda incandescentes e o calor que chegava à parte de cima
do fosso, a um metro de altura, era insuportável.
Caston perguntou:
— E então? Tarde de mais?
— O JA 9 disparou há vinte minutos. Ele apareceu aqui
pouco antes. O Supervisor viu-o.
Caston acenou. Charles perguntou:
— Quaisquer vestígios...?
Caston largou a rir.
— Essa pergunta, vinda de um tipo da IQR! Sabe quais são as
temperaturas atingidas lá em baixo no momento da
explosão? Um espectroscópio talvez mostrasse algumas
impurezas surpreendentes no refratário; ou talvez não. —
Voltou-se para o outro. — Como é que ele desceu para ali?
Ele apontou para o lado do fosso; havia ali um guindaste de
serviço que fora deslocado.
O Gestor disse:
— O Supervisor encontrou-o voltado para o fosso. Pensou
que a última equipa de pessoal de serviço o tivesse deixado
assim. Não devem fazê-lo, mas acontece. Limitou-se,
portanto, a voltá-lo novamente para fora e aceitou a
explosão da forma habitual.
Stenner falou:
— Julgava que vocês tinham instalado uai sistema de
proteção adicional, a seguir ao relatório de Mura-Ti. Sabe
que estes lugares fazem as delícias dos suicidas.
Usou um tom mordaz e o homenzinho pareceu picar-se.
Disse-lhe:
— Temos sistemas de segurança. Qualquer pessoa que aqui
venha tem de ser reconhecida ou vir à responsabilidade de
alguém. Não podemos usar sistemas mecânicos. Os
foguetões têm de sair a horas.
— Quem é que se responsabilizou por Cohn? — perguntou
Caston.
— Eu tê-lo-ia feito, se mo pedissem. Costumava jogar xadrez
com ele. Ninguém mo pediu porque o Supervisor também o
conhecia. Era conhecido por toda a parte em Berkeley. Se
tivesse pedido a alguém uma navalha aberta, um frasco de
veneno ou uma pistola Klaberg —- ter-lhos-iam dado. Não
consigo perceber. Não era o tipo de pessoa para fazer uma
coisa destas.
Caston disse:
— Ele contou-lhe que a filha desapareceu quando voltava de
giroplano para San Miguel?
O Gestor não olhou para eles; olhou sim para o fosso
incandescente. Falou devagar:
— Então foi isso. Não, ele não me disse nada. Não pensa que
se ele tivesse...
Stenner disse em tom peremptório:
— Não queremos fazê-lo perder mais tempo. Ainda tem de
fazer o relatório. — O seu sorriso pálido só muito vagamente
mostrava uma certa troça. — Tem de ser preparado com
certo cuidado, creio. Estaremos nos aposentos de Cohn —
olhou para o relógio que tinha no dedo — até às dezessete e
trinta. — Estendeu-lhe um pequeno cartão de plástico. —
Isto pô-lo-á em contato conosco.
Depois de saírem, Caston pôs-se a tagarelar sobre aquilo que
considerava a barafunda real escondida por detrás da fachada
eficiente dos Interplanetários.
— Viu aquilo? Conhecido ou à responsabilidade de alguém.
Com os diabos, nesta cidade quase toda a gente é conhecida,
de uma maneira ou de outra. Também não é a primeira vez
que isto acontece. Lembram-se do caso de contrabando, há
dois anos. Para quê verificar os foguetões, quem é que ia
levar drogas, clandestinamente, para Luna City? Nunca lhes
passou pela cabeça que as naves descem numa cidade
diferente cada vez que fazem a viagem de regresso. E
mesmo assim continuam todos emproados.
Stenner manteve-se silencioso, como de costume, Charles
não lhe prestou qualquer atenção. Pensava no Professor
Cohn, embora admitindo mais uma vez as suas limitações
como juiz de caracteres. Pensara que ele estava a exagerar o
desgosto; ao ser brutalmente confrontado com a sinceridade
do indivíduo, uma outra revelação lhe surgiu ainda mais
violenta. Uma parte do seu espírito agarrara-se à esperança
de que pudessem vir a encontrar Sarah — em estado grave,
talvez, mas viva. Ao ver toda a extensão do desespero do
pai, já não lhe parecia possível alimentar a mais ligeira
centelha de esperança. Tinha de enfrentar também esse fato.
Os dois homens do Contato deslocavam-se pelos aposentos
do Professor com rapidez e eficiência. Charles olhou em
volta, superficialmente; encontrou um microfilme com a
etiqueta «Sarah — Dois para as vinte» e meteu-o na algibeira.
Estava a dar uma vista de olhos pela pequena biblioteca do
Professor — o que pouco lhe adiantava, pois os livros eram
todos em alemão — quando veio uma chamada. Meia hora
antes, podia ter-se aproximado do painel de controlo com o
coração cheio de novas esperanças, mas agora já nada
restava. O painel brilhou:
COHN DA ALIANÇA ELÉTRICA - SERVIÇOS &
REPARAÇÕES BERKELEY... COHN DA ALIANÇA
ELÉCTRICA — SER...
Charles recebeu automaticamente a chamada. Era um
homem novo.
— É para Cohn. — disse.
Charles fitou-o.
— Não pode atender.
— Não é para o Professor, é para a filha, Assistente Cohn.
— Também não pode atender. — Para disfarçar a dor, tanto
de si próprio como da cara que o fitava do écran, disse: —
Alguma coisa especial?
O homem encolheu os ombros.
— Informação de rotina. Entramos sempre em contacto com
as pessoas quarenta e oito horas depois de nos ser
requisitado um serviço. Ela deixou-nos um relógio para
recarregar no sábado. Disse que viria buscá-lo ao distribuidor
automático no domingo de manhã, mas ele ainda aqui "está.
Pode informá-la? A partir de hoje, começamos a cobrar
armazenagem.
Charles disse pausadamente:
— Posso ver o relógio?
— Não percebo para quê, mas também não vejo porque não.
— Segurou o pequeno relógio de pôr no dedo, que lhe era
familiar. — Então?
O alívio, a felicidade, aumentavam e tornavam-se
incontroláveis. Charles largou a rir, com grande espanto do
homem.
— Vou tentar dar-lhe o seu recado — disse. — Agora vou
desligar.
Chamou, e Caston veio do quarto ao lado, seguido de
Stenner. Caston perguntou:
— Encontrou alguma coisa que valha a pena? Um filme
pornográfico?
Charles contou-lhes da chamada que tinha recebido.
Stenner ouviu com atenção. Caston mostrou-se
decepcionado:
— Ai é só isso? Pensei que tivesse, pelo menos, chegado à
fala com a amante do velhote. Com que então a rapariga
mandou recarregar o relógio. Eu conheço um suicida que
encomendou tudo quanto é possível em Nova Iorque antes
de tomar um comprimido. Chegamos a casa dele com um
engarrafamento que ocupava dois quarteirões. Uma das
coisas que ele tinha encomendado eram cem quilos de
biscoitos para cães. Com um tal sentido de humor o tipo
deve ter morrido feliz.
Ignorando Caston, Stenner disse:
— Acha que isto seja de alguma forma significativo?
Charles disse:
— Parto do princípio — por momentos —, parto do
princípio de que ela não está morta.
— Então se não está morta, onde está? — perguntou Caston.
— Imagine que pertence à Seção de Contato de uma outra
organização — Secção Atômica, por exemplo — e recebe
ordens para raptar uma rapariga. Faz com que a coisa pareça
ter sido um desastre de giroplano — um suicídio, talvez — e
arranja uma boa encenação. Disfarça tudo aquilo que
consegue — mas há uma coisa que não pode deixar de lhe
escapar.
— E essa coisa é?
— Todas as pequenas coisas que você ignora. O fato de o
relógio dela ter ido para recarregar e de ela o ter entregue
aos serviços respectivos, sem mencionar isso a ninguém.
Nem mesmo ao pai. Segundo ele, ela saiu normalmente no
domingo à tarde a caminho, segundo ele pensava, do meu
laboratório. Mas se ela saiu no domingo à tarde, porque é
que não foi buscar o relógio no domingo de manhã, aos
serviços de entregas automáticas, como tinha combinado?
— Porque se esqueceu — disse Caston prontamente. — As
pessoas esquecem-se de muitas coisas. Conheci um tipo que
se esquecia de pôr as lentes de contacto quando ia ao
cinema.
— Ela tinha o meu giroplano — disse Charles —, que tinha o
relógio partido desde que eu comecei a andar com ele.
Alguém faz uma viagem de umas centenas de milhas, sem
saber as horas?
— Este tipo de quem falei — disse Caston — descobria o que
lhe faltava logo que o écran se iluminava.
Stenner disse:
— Já estou a entendê-lo, Grayner. Mas você esquece-se de
uma coisa. A nossa opinião é de que se trata de suicídio,
tanto no caso dela como no do pai. Se comparar o bilhete
que o pai deixou com outro escrito seu, não ficarei nada
admirado se o achar grafologicamente inconsistente. Um
espírito onde se instalou a idéia do suicídio è naturalmente
um espírito confuso. A rapariga esqueceu-se de ir buscar o
relógio. Ou talvez se tenha lembrado, para chegar à
conclusão de que o tempo deixara de sei importante para eia.
— Se o tempo tinha deixado de ser importante, para quê pôr
o relógio a recarregar?
Stenner fez notar:
— Não determinamos o momento em que o suicídio foi
decidido. Isso pode muito bem ter ocorrido entre o
momento em que pôs o relógio a carregar e aquele em que
devia ter tomado o caminho do regresso. Era esse tipo de
informação que esperávamos obter do pai dela.
— Ela não o informou de que se ia matar — disse Charles. —
Ela não deixaria de o mencionar.
Stenner disse, pacientemente:
— Não pensamos que o pai soubesse da sua decisão, ou
mesmo do seu estado de espírito. Mas há sempre qualquer
pequena coisa que começa a fazer sentido depois dos
acontecimentos, quando se está treinado neste tipo de
situação. Essa história do relógio, por exemplo — presumo
que esse tipo de esquecimento não faz sentido, segundo a
sua experiência pessoal? E segundo o seu psicoplano também
não.
— O mesmo acontece com o suicídio.
— Os psicoplanos — disse Stenner — não servem de muito
para as previsões de suicídio, exceto quando se trata de
psicopatas. Por outro lado, dão muitas indicações sobre os
padrões de comportamento normal. A Assistente Cohn
mostrava um alto grau de atenção em relação a os pequenos
detalhes; é por isso que o fato de ela se esquecer de ir buscar
o relógio é significativo.
— A Assistente Cohn — disse Charles num tom inexpressivo
não cometeu suicídio. Não há razões para pensar que esteja
morta. Assim como não há razões para pensar que o pai
esteja morto. Ou o meu antecessor, Isaacssohn. Estão a
registrar três mortes e não dispõem de um único cadáver —
nem sequer vestígios disso.
Caston começou a dizer qualquer coisa, mas Stenner fê-lo
calar com um gesto breve. Stenner disse:
— Esta sua idéia do rapto — está realmente a tomá-la a sério?
Charles disse, pondo-se na defensiva:
— Pelo menos, parece-me bastante plausível, de qualquer
forma não menos plausível do que esta multiplicação de
suicídios. Parece-me que valia a pena investigá-la.
Stenner sorriu:
— Não se trata de multiplicação, mas de adição. E uma adição
muito simples — um e um. Qualquer teoria merece ser
investigada. Por outro lado, nenhuma teoria é digna de ser
conservada se se deixar passar a oportunidade. Vejamos essa
sua teoria. Três pessoas são raptadas — a primeira de forma a
fazer crer numa morte acidental, as outras duas sob a capa
do suicídio. Primeiro, os pontos a favor.
— Como você próprio mencionou, não temos um único
cadáver. Poderíamos fazer um teste eletroscópico ao
pavimento do fosso, mas esse mesmo teste não seria
conclusivo se não permitisse encontrar quaisquer indícios e
mesmo que isso fosse possível, qualquer pessoa podia ter
atirado para ali os produtos químicos necessários, antes da
explosão. A falta de cadáveres é um ponto válido. O outro
ponto, segundo julgo, baseia-se na sua convicção pessoal de
que a Assistente Cohn não se teria suicidado. Voltaremos a
essa questão.
- Vejamos agora as objeções. A ausência de cadáveres — um
hidroplano perdeu-se nas Caraíbas há dez dias; seguiam
vinte pessoas a bordo, não houve sobreviventes nem foi
possível recuperar nenhum dos corpos. O mar nem sempre
deixa vestígios e supõe-se que dois dos nossos casos caíram
ao mar. O terceiro foi, segundo a nossa teoria, para o fosso
de descolagem, o que certamente não deixa quaisquer vestí-
gios. Acho que temos de considerar a ausência de cadáveres
como um fator neutro.
- Antes de analisar a sua posição em relação à mulher, há
outra coisa que eu gostava que você considerasse. Se se
tratasse de um rapto, as horas seriam um tanto estranhas.
Independentemente do intervalo que mediou entre
Isaacssohn e a rapariga, há o outro intervalo entre a rapariga
e o pai. E isso leva-nos a um ponto muito curioso. Se a
rapariga foi raptada daqui, então a questão do relógio situa o
rapto entre sábado à tarde e domingo de manhã. Isso torna o
pai conivente, na medida em que lhe disse que ela tinha
saído no domingo à tarde. E então? Terá ele organizado o
rapto da filha?
Stenner tinha os olhos cravados nele; Charles não disse
nada. Tinha consciência da forma consistente como o
homem do Contacto conseguia mostrar que a sua teoria era a
mais fantástica das duas, sem que ele fosse capaz de
encontrar forma de o rebater.
Stenner continuou:
— Há agora a questão da sua opinião pessoal sobre o caso.
Não é a primeira vez que isto se nos depara, não esqueça. A
Assistente Cohn disse-nos, muito diretamente, que
Isaacssohn não podia ter morrido afogado da forma que tudo
parecia indicar e reagiu muito mal quando nós nos
recusamos a prestar-lhe atenção. Tínhamos o seu psicoplano
e a forma como reagiu não nos surpreendeu.
Independentemente dos laços emocionais que a ligavam ao
morto, ela teria tido a mesma reação. O seu espírito era do
tipo não acomodatício — tipicamente israelita, podemos
dizê-lo.
- Você, por exemplo. Você não é israelita, mas os seus
padrões mentais são interessantes. Um erro empurrou-o para
um beco sem saída profissional e não se poderia esperar que
o seu comportamento posterior não mostrasse sinais disso.
Era inevitável que houvesse uma certa dose de reação e, de
fato, a sua reação foi anti-social. — Charles tomou uma
atitude rígida e Stenner olhou para ele. — Ligeiramente
anti-social. Foi eficiente no seu trabalho. Por outro lado, não
criou amizades, nem, o que é significativo, desenvolveu
qualquer relação estreita com mulheres. Freqüentou as
Casas, embora não tivesse qualquer anormalidade sexual e
pudesse ter tido relações com mulheres da maneira normal.
Começou a ler e a colecionar livros — e o que é mais, livros
que nada tinham que ver com a sua especialidade.
Colecionou discos de gramofone anteriores ao Sistema de
Gestão. Via o canal FK e, noutros aspectos, mostrava uma
resistência psicológica inconfundível à TV.
Stenner fez uma pausa. Charles, considerando o peso das
acusações levantadas contra ele, continuou silencioso.
— É interessante — prosseguiu Stenner — que na maior
parte destas coisas você enfileirava num padrão de
intelectualismo tipicamente israelita e, como tal, reacionário.
O acidente ocorrido a Isaacsshon e a necessidade de o
substituir por outro especialista em diamantes trouxeram-no
a um círculo tipicamente israelita, em que tanto o seu
predecessor como a sua assistente eram ex-israelitas. Diga-se
de passagem que me parece um tanto surpreendente
autorizarem dois ex-israelitas a trabalharem juntos; não
temos nada em especial contra eles, mas constituem um
fator que é mais facilmente assimilável quando isolado. De
qualquer forma, eu não tinha nada a ver com isso.
- Você, Grayner, estava predestinado a ter uma orientação
subconsciente tanto em relação ao seu defunto predecessor
como em relação à rapariga. Esta, uma vez que você é
heterossexual, deveria atraí-lo mais fortemente. Julgo poder
dizer, baseando-me no seu psicoplano e no dela própria que,
dentro de um mês, no exterior, você se teria embeiçado por
ela. Assim, a atração foi tão forte que você está
poderosamente influenciado no sentido de se recusar a
aceitar a morte dela. A Seção de Contato de Detroit nunca o
teria posto no lugar de Isaacssohn.
Charles disse:
— Embeiçado? Eu estou apaixonado por ela, se é disso que
estão a falar. Cheguei hoje mesmo a essa conclusão.
Caston, que não tivera um minuto de sossego, puxou um dos
livros do Professor Cohn e uma dúzia deles caíram em
cascata para o chão. Ficou a olhá-los enquanto remexia um
com o pé.
— Livros — disse Caston. — Que gente! Isto é o maior
viveiro de gente esquisita que já encontramos este ano. — A
observação dirigia-se nitidamente a Charles, embora não
olhasse para ele. Stenner estava presumivelmente a olhá-los
a ambos.
Stenner disse:
— É provável que o choque tenha precipitado o seu estado
de espírito atual. Sabe o que é que devia fazer — ir à Psico &
Med. Submetem-no a um tratamento mescal, arranjam-lhe
uma viagem de férias.
Charles disse:
— Obrigado, vou pensar nisso. Segundo me parece, vocês
acham que a minha convicção de que Sarah continua viva é
um sinal de desequilíbrio mental? Na vossa opinião, ela está
morta?
— Dada como desaparecida — disse Stenner. — Presume-se
que esteja morta.
— É capaz de me fazer um favor?
— Tudo o que quiser — disse Stenner —, desde que não vá
contra os regulamentos.
— Gostava de apresentar o meu ponto de vista a uma
entidade superior. Claro que podia procurar o Metrill, mas
não creio que fosse muito bem recebido — já tive uma
diferença com ele. Preferia falar com o meu antigo Gestor
— Ledbetter, em Detroit.
Charles viu de relance o rosto de Caston, que exprimia
surpresa e aborrecimento. Stenner continuava inexpressivo.
— Acho que sim, acho que podemos arranjar-lhe isso —
disse Stenner. — Tenho fortes dúvidas que Ledbetter faça
qualquer inquérito às nossas conclusões, mas o fato de falar
com ele pode ajudá-lo a orientar-se.
— Em breve?
— Amanhã. Convém-lhe?
— Perfeitamente. Nesse caso, só mais uma coisa. É
praticamente inútil eu ir daqui ao laboratório só para passar a
noite. Pode autorizar-me a ficar aqui?
Stenner olhou-o pensativo.
— Aqui — no apartamento do Cohn? — Charles acenou
afirmativamente. — Acho que sim. Compreende que isso
ficará registrado na sua ficha como sendo mais um sintoma
de fixação irracional neste grupo de ex-israelitas?
— Terei de me curar disso — disse Charles —, ou de
aprender a viver com a tal fixação.
Quando os dois homens do Contacto saíram, sentiu que uma
parte da sua confiança o tinha deixado também. Caminhou
pelos aposentos, num desassossego igual ao de Caston,
pegando em algumas coisas e voltando a largá-las da mesma
forma. Havia vinho no velho aparador colonial — vinho de
Israel. Como é que o Professor se podia oferecer um tal luxo
com o salário que recebia na Universidade? Provavelmente
era Sarah que lho comprava, ou então algum amigo. Parecia
ter bastante.
Enquanto enchia um copo de vinho, o seu pensamento
voltou a ocupar-se com o problema dos desaparecimentos.
Parecia não haver maneira de fugir às objeções de Stenner: a
questão do relógio, que a princípio lhe reavivara a
esperança, apontava para um possível rapto — caso ela
tivesse sido raptada — daqueles mesmos aposentos. E isso
significava — a cumplicidade do pai. Era ridículo.
E contado não queria conformar-se com a idéia da morte de
Sarah. Sorriu tristemente para si próprio: mais um ponto a
acrescentar ao seu interesse obsessivo.
Acabou por se lançar numa busca, esperando encontrar
qualquer indício que confirmasse a hipótese do rapto. Era
uma esperança tênue — Stenner e Caston tinham dado
mostras de conhecer bem a rotina do seu trabalho — sem
que tivessem alcançado quaisquer resultados. Acabou por
desistir; começava a estar com fome e carregou num botão
para arranjar pão, queijo e azeitonas. Comeu-os
acompanhados com o vinho do Professor. Se Cohn voltasse,
teria todo o prazer em o reembolsar.
Dormiu no pequeno quarto que deitava para os prados e que
fora o de Sarah durante as suas visitas: viam-se alguns sinais
comoventes dessa presença feminina. Sentada na mesa-de-
cabeceira, havia uma boneca de louça, um tanto estragada
pelos anos, que provavelmente contemplara uma Sarah
muito mais pequena, noutros tempos e num país distante.
Adormeceu com os olhos fitos nela. Interesse obsessivo, foi
o seu último pensamento consciente.
Stenner entrou em contacto com ele logo de manhã e deu-
lhe a autorização para falar com Ledbetter. No écran, o seu
rosto mostrava-se distante e irônico, como sempre.
— Foi necessário prevenir o Metrill, como é evidente disse.
— Não há dúvidas de que não foi ele que o escolheu. Se
Ledbetter se mostrar na disposição de o fazer voltar para
Detroit, aconselho-o a ponderar bem no caso.
Charles respondeu:
— Obrigado. Não me esquecerei.
— Bom, de qualquer forma, não o raptaram durante a noite.
A diferença que faria para o nosso relatório se isso tivesse
acontecido.
— Estou contente por si.
O sorriso de Stenner desapareceu.
— A propósito, devo informá-lo de que a Telecom vai
suspender as suas buscas relativamente à Assistente Cohn,
hoje ao meio-dia. A área terrestre relativamente pequena
onde ela poderia ser encontrada já foi revistada
exaustivamente e do mar não há nada a esperar.
— Obrigado.
— Espero que a minha análise de ontem não o tenha
aborrecido; você é que me levou a isso com a sua insistência
nessa sua teoria.
— Eu é que devo pedir desculpa por me ter intrometido no
vosso trabalho — e por ter trazido mais um indivíduo
esquisito para o viveiro.
Stenner voltou a sorrir.
— Caston é um bom homem, à sua maneira, mas um bocado
parvo. A título de confidência — eu próprio leio
Shakespeare; gosto de sentir o papel. Vou desligar. Divirta-se
em Detroit.
Tomou o transatlântico e pelas onze horas estava em
Detroit. Tomou um girotáxi, diretamente para as instalações
da IQR e apresentou-se nas informações. A rapariga olhou
para o painel de registros.
— Funcionário Grayner? Para o Gestor. Desça
imediatamente. Vou chamar um rapaz.
Seguiu o rapazito, um tanto surpreendido, pois sempre
esperara que o fizessem secar um bocado, como recompensa
do seu desastra- mento em voltar a Detroit. Quando o rapaz
fez o contacto no painel do écran de chamada, viu, por cima
do ombro dele, o interior que lhe era familiar — a secretária
de Ledbetter e Ledbetter por detrás dela. Ouviu a voz de
Ledbetter, fraca e mal timbrada. «Sim. Façam-no entrar
imediatamente.»
Ledbetter veio ao seu encontro mal entrou no gabinete e
indicou-lhe uma cadeira.
— Lembro-me que é fumador. — A caixa de cigarros
deslizou mais uma vez sobre a mesa e os dois homens
voltaram a inclinar-se para acender o cigarro na chama firme
do isqueiro de mesa. Era difícil acreditar que tudo isto
acontecera pela primeira vez havia menos de quinze dias.
Ledbetter sorria. Charles descontraiu-se na cadeira.
Descontraiu- -se fisicamente; mentalmente manteve-se
alerta para a mudança de humor que ele sabia estar
iminente.
Ledbettej: disse:
— Bom, numa estada tão curta, você conseguiu arranjar
bastantes problemas.
— Entre mortes e desaparecimentos.
Ledbetter pareceu sobressaltado.
— O quê? Ah, está bem. Não, não estava a pensar nisso. —
Tinha alguns relatórios na mão. — Referia-me a estes. «Não
cumpriu os Regulamentos 29 (iii) e 42 (vii). Infringiu o
Regulamento 29 (ix). Invocou desnecessariamente o
Regulamento 112 (i).» Quer que traduza? Comunicou o
desaparecimento da sua assistente a uma fonte exterior antes
de contactar o Metrill, depois de já lhe ter permitido servir-
se do seu giroplano, e isto também sem confirmação
superior. Abandonou o laboratório sem contactar Metrill e
insistiu em passar por cima de Metrill para me expor a mim
os seus pontos de vista sobre a situação, o que, segundo os
Regulamentos, só se justifica quando se pode fundamentar
uma suspeita concreta de vitimização.
Ledbetter pousou os relatórios e olhou para Charles por cima
da secretária. O seu rosto estava totalmente inexpressivo.
— Há um outro relatório do Contacto que se refere à sua
atitude mental; parece-me que este já lhe foi explicado, pelo
menos em parte.
Ledbetter fez uma pausa; havia uma implicação evidente de
que Charles se devia lançar em qualquer espécie de
justificação ou de autodefesa. Ele recusou a oportunidade e
manteve-se calado. Ledbetter deu-lhe mais algum tempo,
enquanto atirou novamente os relatórios para o tabuleiro de
arquivo. Depois, a sua expressão distante transformou-se
num sorriso irônico.
— Eu disse-lhe que você havia de gostar do Metrill. Se não
fosse esta pequena crise, não havia qualquer razão para
vocês não se entenderem bem os dois. Metrill não reage
bem em situações de crise; daí o insucesso dos vossos
contados. Você fez bem em me procurar. Eu posso
perfeitamente pôr as coisas no seu lugar.
Ledbetter inclinou-se para trás e olhou para o cigarro. —
Temos de pensar no futuro. Não estou a prometer-lhe nada,
mas talvez eu consiga fazer qualquer coisa de útil lá para
aqueles lados.
— Útil?
— É um tanto fora do comum, mas há uma possibilidade de
eu adquirir direitos extraterritoriais sobre a sua parte da
Costa do Pacífico. Isto torná-lo-ia diretamente responsável
perante mim em questões de admin — os relatórios
continuariam a ir para Nikko-Tsi, como é evidente. —
Ledbetter voltou a sorrir. — Há uma vantagem acidental:
poderei servir-me dessa ligação para ir visitá-lo e andar um
bocado de barco. Então? Que é que lhe parece?
Charles disse:
— Ótimo. Está a ajudar-me muito. Mas não foi exatamente
por causa do meu futuro que eu vim falar consigo — pelo
menos, do meu futuro nesse sentido.
— Não? — disse Ledbetter. — Está bem. Recebi o relatório
de Stenner. Pelo menos, parte dele. Talvez você possa
completá-lo.
Charles detalhou todos os fatos, cuidadosamente e com
vagar, pormenorizando o descontentamento de Sarah
perante os resultados do inquérito feito à possível morte de
Isaacssohn e da sua própria convicção, cada vez mais
arreigada, de que havia alguma coisa errada nas aparências
superficiais do desaparecimento de Sarah e do suicídio do
pai dela. Quando ele terminou, Ledbetter comentou:
— Mais nada?
— Mais nada!
Ledbetter sorriu.
— E a sua fixação israelita?
Charles sorriu também.
— Não me pareceu importante. Além disso, as pessoas têm
de assumir a sua própria objetividade — compete aos outros
examiná-la.
Ledbetter acenou a cabeça divertido.
— Com a ajuda valiosa do Funcionário Stenner, que parece
ter também alguns desejos insatisfeitos — quanto a um
emprego em Psico & Med, talvez. O meu papel não é
defender a Secção de Contacto; nem Caston nem Stenner
em especial. Caston desempenha bem a sua missão, desde
que não seja preciso pensar muito — mesmo melhor se não
for preciso pensar de todo. Stenner é mais esperto, mas tem
pouca flexibilidade mental. É um homem que é capaz de
prognosticar um resultado e depois cortar a sua órbita para
que as coisas dêem certas.
Ledbetter inclinou-se ligeiramente para a frente e fez um
movimento como se estivesse a mostrar um baralho.
— Ponhamos as cartas na mesa. Recebi o relatório deles e já
lhe disse o que penso desses indivíduos. Entretanto, ouvi a
sua interpretação dos fatos. Está disposto a considerar-me
imparcial?
Charles disse, cautelosamente:
— Não tenho razões para não o considerar imparcial.
— Também espero que não — Ledbetter apagou o cigarro
que só fumara até meio e começou a brincar com o
aromofato. Sobre a parede começou a deslizar uma muralha
de pinheiros gigantescos, aproximando-se de um pôr do Sol
brumoso; o seu aroma fazia-se sentir às lufadas, misturado
com diversos outros perfumes bucólicos. Ledbetter
contemplou a parede por momentos. Por fim, dirigiu
novamente o olhar para Charles.
Disse abruptamente:
— Tenho pensado bastante no assunto. Recebi o relatório de
Stenner ontem à noite; como você já calcula, ele só fala na
sua teoria para a condenar. Isso é uma coisa que me põe
sempre furioso. Logo à partida a minha posição era-lhe
favorável. O que acabou de me contar teria confirmado essa
minha posição. Independentemente de possíveis fixações,
você põe as coisas com lógica.
Charles interrompeu-o:
— Teria confirmado...?
Ledbetter acenou com a cabeça.
— A sua teoria é pouco consistente em alguns pontos.
Imagino que Stenner já lhe tenha chamado a atenção para
isso. Os estranhos intervalos ocorridos entre os «raptos»,
especialmente no que diz respeito à rapariga e ao pai. O fato
de não terem levado a rapariga e Isaacssohn ao mesmo
tempo, partindo do princípio de que os «queriam» aos dois.
Contudo, essas objeções são puramente mecânicas e eu não
pretendo recorrer a elas.
»Não, é o quadro geral em si que eu me sinto inclinado a
aceitar ou a rejeitar e tenho muita dificuldade em o aceitar.
Você diz que o seu antecessor, a sua assistente e o pai desta
foram raptados pela Secção de Contacto de outra
organização. A minha reação automática é procurar um
motivo. Se fosse verdade, seria uma medida de grande
envergadura para qualquer organização. E porquê? Que
razão poderia haver que justificasse os riscos que isso
envolvia?
Charles estudou Ledbetter de perto. A sua figura esbelta
estava reclinada na cadeira e ele parecia total e
genuinamente interessado na resposta à sua pergunta.
Charles disse:
— Quando estive aqui da última vez, pareceu-me que o
senhor não tinha a certeza quanto ao tipo de trabalho que eu
teria de fazer no meu novo emprego. Essa incerteza
mantém-se?
— É curioso que você me faça essa pergunta. É natural que o
relatório de Stenner me tenha provocado uma certa
curiosidade a esse respeito. Entrei em contacto com Nikko-
Tsi. Expliquei-lhe resumidamente a situação e fiz-lhe uma
pergunta: seria possível dizerem-me qual o trabalho que
Isaacssohn estava a fazer e que você devia continuar — ou,
no caso de a informação ser estritamente confidencial, se eu
podia mandá-lo para Graz para que tratassem consigo ali,
pois eu não me sentia com competência para o fazer.
Mandei imprimir a resposta. Quer vê-la?
Charles acenou afirmativamente. Ledbetter apresentou uma
folha de papel e passou-lha por cima da mesa. Charles
pegou-lhe e leu:
REFERÊNCIA LABORATÓRIO 719, SAN MIGUEL
TRABALHO EM CURSO INVESTIGAÇÃO DE ROTINA
SOBRE A POSSIBILIDADE DE UMA NOVA FONTE DE
ENERGIA RELACIONADA COM O DIAMANTE
IRRADIADO: SIGILO SUBSEQUENTE AO PRIMEIRO
RELATÓRIO DE ISAACSSOHN; RELATÓRIOS
SEGUINTES NÃO CORRESPONDERAM ÀS PROMESSAS
DO PRIMEIRO: NA PRÓXIMA REUNIÃO DE CONSELHO
SERÁ LEVANTADA ESTA QUESTÃO. GRAYNER DEVE
VOLTAR AO SEU POSTO E AGUARDAR QUE A SUA
POSIÇÃO SEJA DEVIDAMENTE CONSIDERADA: PEÇO-
LHE A MÁXIMA DISCRIÇÃO. NIKKO-TSI, PRESTON.
Charles leu a mensagem de ponta a ponta, duas ou três
vezes, enquanto ordenava os seus próprios pensamentos.
«Os relatórios seguintes não corresponderam às promessas
do primeiro.» Havia qualquer coisa de errado, muito errado.
Havia três possibilidades que por qualquer razão, Isaacssohn
tivesse falseado os relatórios para Graz. Que Graz estivesse
envolvida em qualquer projeto tortuoso que incluía
desembaraçarem-se de um dos seus gestores. Ou que a
mensagem de Nikko-Tsi fosse uma falsificação do próprio
Ledbetter. A segunda possibilidade parecia a mais provável.
Em qualquer dos casos, dado que duas dessas três
possibilidades envolviam manobras escuras no interior das
Indústrias Químicas Reunidas, ele tinha de agir com todas as
precauções. Empurrou novamente a mensagem para junto
de Ledbetter.
Este disse:
— Então?
Havia outra coisa que não estava certa. Ledbetter mostrava-
se demasiado amável, demasiado preocupado em não o
embaraçar. Tentou pôr-se na posição de Ledbetter, num
exercício bastante imaginativo e que era para ele mais difícil
do que seria para muitos outros, pois raramente o praticava.
Ledbetter pusera a hipótese de haver alguma coisa de
verdadeiro nas suas suspeitas e entrara em contacto com
Graz — com o propósito nítido de passar o problema, se ele
apresentasse alguma dificuldade maior. Perante uma resposta
daquele tipo, era bastante natural que tivesse rejeitado a
teoria de Charles, mas com certeza que havia também outras
conclusões possíveis a tirar. Quais? Momentos antes de
Ledbetter lhe mostrar a mensagem de Graz, Charles referira-
se ao trabalho do laboratório de uma forma velada, mas
incisiva. Com base na informação recebida, Ledbetter sabia
que essa teoria era insustentável. A reação mais natural seria
ele ter colocado no seu lugar um subordinado pouco
amigável e senhor da sua pessoa. Em vez disso, era ele
próprio que estava sentado em frente de Charles,
observando-o com uma simpatia cordial.
Charles disse, tentando manter-se neutro:
— A mensagem é bastante explícita. A sua opinião é,
portanto...?
Ledbetter encolheu os ombros.
— Você teve a oportunidade de conhecer um dos três
desaparecidos, já é uma vantagem. Mas, segundo a minha
experiência os seres humanos podem ser muito
decepcionantes. Eu prefiro agarrar-me às generalidades. E
isso faz-nos voltar à pergunta inicial — que justificação
poderia haver para aquilo que você sugere? Eu não pretendo
iludir o fato de que há muitas organizações que não se
prenderiam com o quer que fosse, se pensassem que isso lhe
traria qualquer vantagem. Não me esqueci do tiro que a
Secção Atômica deu, digamos, na centralização, aqui há
alguns anos. Ou a coligação entre a Hidropônica e a
Agricultura durante a Crise da Fome de 36. Mas que é que
qualquer de nós consegue tirar daí? Você chegou a alguma
conclusão?
A solicitude estava errada, completamente errada. Havia
uma possibilidade, refletiu maquiavelicamente, que podia
explicar essa atitude. Stenner mostrara ter algumas dúvidas
quanto ao equilíbrio mental dele. Talvez Ledbetter fosse da
mesma opinião, mas considerando-o um caso ainda mais
agudo. Muitas pessoas tomavam uma atitude naturalmente
amável e delicada para com os anormais.
Disse em tom contemporizado:
— Acho que deve ter razão. — Hesitou à procura de palavras
que pudessem decepcionar o indivíduo alto e cordial que
tinha na frente. — Não pretendo esconder que a minha
assistente — Sarah Cohn — produziu em mim uma forte
impressão. — Sorriu. — De qualquer forma, não conseguiria
escondê-lo, não acha? Está bem claro no relatório de
Stenner. Tive dificuldade em admitir que ela estivesse morta
e ainda mais dificuldade em que a morte tivesse sido escolha
sua. — Olhou para Ledbetter, cujo embaraço dava uma
sensação de honestidade. — Aliás, continuo a pensar da
mesma forma.
— É natural — disse Ledbetter. — Não me parece que seja
necessário recorrer à psicanálise de amador do Stenner.
Quer as afeições sejam condicionadas ou livres, uma pessoa
sente-as — e às vezes são bem dolorosas, com os diabos.
Este caso foi bastante mau, mesmo que tenha sido inocente.
É evidente que você tinha de se sentir inclinado a ver as
coisas dessa forma. Aconteceria isso com qualquer. E não
deve ser agora uma grande consolação para si dizerem-lhe
que tudo há-se passar — embora venha mesmo a passar. Sob
esse aspecto, o trabalho é muito útil. Espero que a
mensagem que lhe mostrei não o desencoraje, só por fazer
menção de possíveis alterações. O mais provável é que tudo
continue, apesar da inércia; aliás você ficaria admirado se
soubesse de algumas das linhas de pesquisa que têm sido
automaticamente mantidas ano após ano.
Charles disse:
— Quer que eu volte para o laboratório?
Ledbetter respondeu:
— Tenho a certeza de que posso pô-lo sob a minha
jurisdição. Metrill não é o gênero de se prender com uma
questão de prestígio, se antevir uma possibilidade de ter
menos trabalho ou menos dificuldades. Você vai ficar bem.
— O que Stenner me aconselhou — disse Charles — foi uma
visita à Psico & Med. Chegou mesmo a sugerir a prescrição
— de mescal — e uma viagem de férias.
— Não faça caso do Stenner. Você está tão saudável como
ele e é notoriamente mais inteligente.
— Devo dizer que a sugestão dele não me desagrada
inteiramente. A primeira parte dispenso-a, mas há qualquer
coisa na viagem que me soa bem.
Ledbetter disse com ênfase:
— Siga o meu conselho — o trabalho é o melhor remédio.
Uma viagem não serve de nada, a menos que o espírito já vá
contente.
É preciso aprender a viver com as coisas. O trabalho é a
melhor maneira de o conseguir.
Charles pensou que estava rodeado de tipos bem
intencionados — Stenner, Ledbetter... especialmente
Ledbetter que se mostrava de uma benevolência espantosa
—, havia uma veemência tal nas suas palavras que era difícil
aceitar que proviesse inteiramente do seu interesse por
Charles. Ledbetter queria que ele voltasse para o laboratório.
Charles disse:
— Acho que as pessoas reagem de maneiras diferentes. Pela
minha parte não tenho a certeza se reagirei dessa forma. Na
minha idéia, uma viagem seria muito agradável. — Olhou
para Ledbetter. — A mudança de cenário é uma das coisas.
O laboratório povoou-se de recordações, embora o tempo
fosse curto.
— Enfrente-as — disse Ledbetter. — É a única forma de as
ultrapassar: o impacte seria muito maior quando você
voltasse.
— Mas nessa altura — disse Charles — já estaria mais
preparado para o embate. Pelo menos, penso que sim.
Presumo que não poria qualquer objeção ao fato de eu
consultar a Psico & Med e pedir umas férias?
Ledbetter respondeu-lhe com evidente relutância:
— Não. Claro que você pode fazer isso. Quanto tempo pensa
pedir?
— Não tinha pensado nisso. Mas dada a minha posição e a
minha ficha e com o relatório de Stenner, julgo que poderia
conseguir seis meses, se os pedisse, não acha? E acontece
que tenho mais um crédito de seis meses de licença. Assim
podia acabar por ter um ano inteiro.
Ledbetter pareceu sobressaltar-se:
— Um ano? E o trabalho?
Charles encolheu os ombros.
— Não parece muito urgente, segundo as suas palavras e as
de Nikko-Tsi. — Ledbetter pareceu prestes a dizer qualquer
coisa, mas depois reconsiderou. Charles deixou que a pausa
se prolongasse, para o encorajar, mas não teve efeito. Depois
cedeu. — De qualquer forma, não me parece que me
interessaria ter esse tempo todo. Nunca me interessaram
muito as férias. E não me parece que agora fosse uma
exceção.
Ledbetter pareceu ter tido uma idéia. Disse com vivacidade:
— Espero que não demore muito, por razões estritamente
pessoais. Aguardo impacientemente a sua hospitalidade para
poder fazer aqueles passeios de barco.
— Tentarei não o fazer esperar muito tempo — disse
Charles.
Anteriormente, o estúdio FK fora uma fábrica de cerveja; as
salas compridas de tetos baixos eram interrompidas aqui e
além por colunas especiais. Charles encontrou Dinkuhl
observando o interior da sala 17 através da divisória de
vidro. Foi colocar-se junto dele. No meio da sala, recitando
com ar melancólico, via-se um homem estranho de muito
pequena estatura — quase um anão. Pelo altifalante colocado
junto ao cotovelo de Dinkuhl, ouvia-se a sua voz:
— Nove sete um três sete...
Charles tocou no braço de Dinkuhl; este voltou-se.
— Charlie! Ouvi dizer que se juntou à procissão dos que
caminham para a morgue.
Charles respondeu:
— Vim procurar os seus excelentes conselhos. E pedir-lhe
autorização para escutar o seu vinho.
Dinkuhl executou o seu sorriso irônico característico.
— Um conselho é uma coisa que temos sempre disponível.
Quanto ao vinho, não tenho a certeza, mas venha lá acima
que eu arranjo-lhe uma bebida. — Abanou a cabeça em
direção à sala 17. — Que é que lhe parece a minha nova
transmissão para o intervalo?
A voz, triste e monótona, continuava:
— ... oito cinco três sete três um ...
— Posso saber que é isto? — perguntou Charles.
— Pi — disse Dinkuhl, satisfeito — para os primeiros mil e
quinhentos lugares. Tenho uma loura que lê os mil e
quinhentos que se seguem. O bastante para pôr furiosos os
clientes pagantes.
— Onde é que arranjou os números?
— Fiz uma vez um favor — disse Dinkuhl — a um cérebro
eletrônico. Suba — suba, são três lanços. Dão cabo de mim
— este raio destas escadas. Já teria mudado o meu escritório
para o rés-do-chão se não fosse elas darem cabo também
daquelas almas penadas da Telecom — aquelas que ainda me
visitam, entenda-se.
Quando acabaram de subir, Charles estava ofegante, mas
Dinkuhl não mostrava quaisquer sinais de cansaço físico.
Charies foi alvo de mais um sorriso irônico quando
atravessaram a pesada porta de carvalho que dava para o
escritório de Dinkuhl. Embora fosse estranho, sentia-se
agora mais tranqüilo. A malícia de Dinkuhl era totalmente
diferente da jovialidade de Ledbetter e, da mesma forma que
fora levado a suspeitar de que Ledbetter tinha outros
motivos escondidos, parecia-lhe que a malícia de Dinkuhl
era apenas superficial.
Havia duas cadeiras confortáveis. Dinkuhl encaminhou-se
para uma. Dirigiu-se depois para um pesado aparador galés
que cobria quase inteiramente uma parede. Abriu uma
portinha.
— Está preparado para tomar do que houver?
— Se for razoável. — Observou Dinkuhl enquanto enchia
dois copos e os trazia num tabuleiro, juntamente com a
garrafa. — Outra vez o nabo com tomate?
Dinkuhl abanou a cabeça.
— Produto genuíno. Aguardente de ameixa. Ora bem. Tem
sentido a falta do FK?
— Para dizer a verdade, nunca mais pensei nisso.
— Você é um homem com sorte. — Dinkuhl encostou o
nariz por momentos à borda do copo. — Sempre foi cair no
meio de uma história mais estranha.
— Que é que sabe acerca disso?
— Nada — disse Dinkuhl suavemente. — Conte-me tudo.
Charles narrou-lhe os acontecimentos. Quando terminou,
Dinkuhl encheu novamente os copos. Charles olhou para
ele.
_ Então?
— E os seus amigos das Indústrias Químicas Reunidas não
conseguiram convencê-lo de que você ê um candidato
brilhante a psicopata? — perguntou Dinkuhl.
— Cheguei a duvidar por vezes, mas agora já não.
— Muito bem. Há um preceito que observo há muito e que
me leva a partir do princípio que o mundo à minha volta
está povoado de tolos e de exploradores; nunca faço
confiança em ninguém, a menos que saiba que essa pessoa
também tem interesses em jogo e lhe conheça os interesses.
Nessa altura já posso fazer concessões.
— E qual é o seu interesse?
— Boa pergunta. Tenho dois interesses principais —
fomentar tudo aquilo que possa sabotar, mesmo
ligeiramente, este mundo de gestão em que vivemos; e
salvar a minha própria pele.
Charles riu com ironia
— Está certo. Aceito a idéia.
— Não, não. Ainda não. Primeiro terei de justificar a minha
atitude de revolta. — Despejou o copo. — Você não tem
estado a beber.
— Não tanto como você. Não me parece que precise de
justificações. Estou mais interessado em receber conselhos.
Dinkuhl encheu o copo.
— Os conselhos podem esperar. Não devem ser de molde a
exigir uma atenção urgente. De qualquer forma, devem
poder esperar meia hora. Porque é que eu pretendo destruir
esta sociedade mundial paternalista no seio da qual vivemos?
Porquê afinal?
Charles teve de se conformar.
— Porque o fim está à vista — o fim do FK?
— Em parte, em parte. Mas há mais. Diga-me qual é o
aniversário que se vai celebrar dentro de dois anos?
— Não sei. Devia saber?
— É o aniversário da Guerra. O que é que você sabe acerca
da Guerra? Acerca da forma como esta sociedade de hoje
passou a existir?! Vou fazer-lhe outra pergunta. O Professor
Cohn ensinava História em| Berkeley, uma das raras
instituições acadêmicas que ensinam aquela disciplina.
Quantos alunos tinha ele?
— Antes de desaparecer? Dois.
— Surpreende-me. Sim, dois. Duvido de que haja, em todo o
continente norte-americano, uma dezena de alunos que
leiam História. Embora não possa esperar que você tenha
consciência disso, esse fato representa — sob o ponto de
vista histórico — um estado de coisas extraordinário. Houve
outros períodos de decadência em que as pessoas
deturparam e interpretaram mal a história das suas próprias
origens; este é o primeiro que consegue ignorá-la
inteiramente.
— Decadência?
Dinkuhl suspirou.
— Espero que não tenhamos que discutir sobre esse ponto.
Deve ter estado a ver os programas da Liga Vermelha. O
homem transpõe a última barreira — o homem do século
XXI procura uma nova herança entre as estrelas. A
conquista das Superfícies Lunares Geladas. Mas diga-me: há
quanto tempo foi estabelecida a base lunar? Você nem se
lembra. Ainda era uma criança. Talvez se lembre das últimas
tentativas para chegar a Marte e a Vênus? Deve lembrar-se.
Charles ficou a pensar.
— A expedição Del Marro...
— Há mais de vinte anos. — Dinkuhl fitou-o com ar
sardônico. — Nessa altura ainda você era um jovem,
acabado de chegar ao seu cantinho de Saginaw. Isso foi
Marte. Vênus foi posta de lado dez anos antes.
— As dificuldades são grandes.
— Não tão grandes como as que acompanharam a primeira
viagem à Lua. Mas de qualquer forma, já desistimos de
tentar. O trabalho foi abandonado. Não merecia o risco.
— Mas a Lua — fez notar Charles — mereceu-o. Excluindo
talvez as possibilidades de pesquisa astronômica.
— E nesse aspecto — disse Dinkuhl — você mostra-se como
um verdadeiro filho da sua época. Se vai avaliar esse tipo de
empreendimentos em termos de lucros e perdas, isso quer
dizer que já falhou antes de começar. Não, isso é a
decadência. Mas claro que esse está longe de ser o único
sintoma. Veja as artes. A verdade é que nos últimos dias do
capitalismo não produziram nada que valesse a pena herdar,
mas pelo menos produziram alguma coisa. E hoje em dia
nem sequer temos a graça salvadora da discriminação que
nos diga que aquilo que produzem não vale a pena ser
herdado. Que é que você ouve em Doçura e Conforto
Brilhante? Rhapsody in Blue... Danúbio Azul... Chatta-nooga
Chu-Chu ... ou, se o seu gosto está com as alturas rarefeitas
da Liga Vermelha — Elgar, Stravisnky, Sibelius e Gilbert e
Sullivan. Tentam tudo por todos os meios e mesmo assim
repetem-se. A sua adaptação do Concerto para Violino de
Sibelius para harmônica bocal — essa espécie de loucura
esteve muito em voga quando eu era rapaz.
- As pessoas continuam a viver no meio do mobiliário neo-
escandinavo dos meados do século xx e os poucos pintores
que existem seguem como escravos as diversas escolas do
século XX — neo-impressionistas, cubistas, fauvistas —
temo-los a todos. O grupo Tempos Livres continua a
apresentar blocos de pedra com buracos aos milhares.
— Talvez seja essa a forma certa de arte.
— Não existem formas certas de arte. E mesmo que as
houvesse certamente não seriam essas manifestações
prosaicas e falhas de imaginação. A decadência implica, em
primeiro lugar, uma perda de energia criadora e em última
análise uma perda de gosto. Chegamos ao fundo dos fundos.
— Está bem — disse Charles. — Já percebo porque é que
você gostaria de pôr uma bomba debaixo disto tudo.
Dinkuhl não lhe prestou qualquer atenção.
— Como é que as coisas chegaram a este ponto? — Estendeu
a mão para a garrafa e, sem fazer qualquer interrupção
encheu o seu próprio copo e o de Charles — ignorando o
gesto de protesto deste. — No século XX as pessoas sabiam
— aqueles que conseguiam ver um palmo à frente do nariz
—, que caminhavam para a derrocada. E tiveram-na, claro.
Tiveram tudo — bombas atômicas, bombas de hidrogênio,
exaustão, fome, doença — os Quatro Cavaleiros e toda a
multidão atrás deles. Era o fim. Alvejaram-se uns aos outros
de detrás dos blocos de pedra que tinham sido as suas
grandes cidades e desenvolveram verdadeiros talentos na
escolha dos pedaços dos seus melhores que seriam os mais
indicados para grelhar. Creio que aqueles que tinham tempo
para pensar nas coisas devem ter tido a firme certeza de que
tudo estava terminado — toda essa história de civilização
tinha chegado ao fim, desde a televisão comercial às
banheiras e aos chás-canasta. A Idade das Trevas começara
de novo.
- E, no entanto, antes mesmo que eles tivessem tempo de se
habituar à nova situação — enquanto ainda andavam a
comer-se uns aos outros para se manterem vivos e não
porque tivessem qualquer prazer no gosto da carne humana
— o período de exaustão terminara. O incrível estava a
acontecer, uma nova sociedade surgia, erguia-se, a perder de
vista, trazendo consigo banheiras, chás-canasta e televisão,
embora não comercial.
- Embora as pessoas, hoje em dia, tenham conseguido tão
bem apagar da memória as suas origens, é lembrado, de uma
maneira geral, que a Seção Atômica foi a primeira
organização a surgir sob o sistema de gestão, o centro em
volta do qual se reuniram as forças de reconstrução. O grito
de chamada partiu de Filadélfia e, após uma breve hesitação,
a resposta chegou, através do mundo.
- Não era uma questão de fazer com que o mundo se
erguesse sozinho. O fato é que as comunicações se tinham
aperfeiçoado tanto que, em vez de fazer desaparecer os mais
ínfimos núcleos populacionais a civilização ia recompor-se.
E nem sequer os grandes centros foram destruídos na sua
totalidade, embora poucos escapassem em condições tão
felizes como Filadélfia. A Secção Atômica forneceu o núcleo
para o agrupar da sociedade e as outras organizações
cresceram à sua volta. Primeiro, as mais evidentes —
Indústrias Químicas Reunidas, Agricultura, Hidropônica,
Indústrias de Lignina, Telecom, Aço, Minas e todas as
outras; depois de genética, Grupo de Tempos Livres, etc...
- A dada altura, a Seção Atômica tentou centralizar — não
falo do apertão recente: logo ao princípio. Se eles tivessem
sido suficientemente magnânimos podiam ter ficado por
uma ditadura mundial, mas a oportunidade passou e o
Conselho das Gestões foi eleito e agora, como sabe, em
teoria, todas as organizações são independentes e iguais e
com plenos direitos soberanos. Um equilíbrio do poder.
— Uma coisa que eu nunca percebi — disse Charles — é
como é que Israel foi deixada de fora.
— Isso — disse Dinkuhl — faz parte de uma questão mais
lata — como é que os homens abandonaram as suas
soberanias nacionais estabelecidas há muito, substituindo-as
pelas novas soberanias de gestão? Em primeiro lugar, porque
sentiam que as suas novas soberanias nacionais os tinham
deixado ficar mal; as antigas lealdades estavam mortas e
podiam abrir caminho para uma nova. Mas Israel era outro
caso. Os israelitas tinham passado perto de mil e novecentos
anos agarrados a um nacionalismo no exílio. O mundo da
gestão não lhes oferecia nada que pudessem preferir à sua
concepção da Terra Santa. Aproveitaram bem o interregno
para se expandirem ao longo do Nilo e do Eufrates e depois
ficaram quietos.
— Não será isso — perguntou Charles — uma espécie de
lacuna nas suas idéias antigestão? Os israelitas não foram a
Marte nem a Vênus — nem sequer chegaram à Lua, a não
ser como passageiros, por amabilidade dos Serviços
Interplanetários.
— Antes da Guerra, quando voltaram pela primeira vez para
Israel, não passavam de uma tribo no deserto e ainda por
cima uma tribo largamente superpopulada. As suas
conquistas durante o interregno limitaram-se, na sua maior
parte, à aquisição de mais deserto e já com uma população
indígena numerosa. As suas convicções religiosas exigiam
que continuassem a multiplicar-se e a ser férteis.
Conseqüentemente, passaram este último século ocupados
com a mais primária de todas as necessidades humanas: a
maneira de poderem continuar a encher a barriga.
- Hoje em dia, o seu país está totalmente cultivado, e nos
tempos mais próximos estão em posição de fazer face ao
aumento populacional. Agora, a menos que eu esteja muito
enganado, vê-lo-emos avançar.
— Com o auxílio do canal FK?
— Esse é o meu problema — disse Dinkuhl. Fez uma pausa
enquanto enchia novamente os copos. — E quase me
esquecia de que você também tem um problema. Diga-me,
qual é exatamente o objetivo que tem em vista?
— Gostaria de chegar à conclusão, para minha satisfação
própria, de que a minha posição em relação aos
acontecimentos recentes está certa. Ou mais exatamente,
gostaria de encontrar Sarah Cohn e pedir-lhe que casasse
comigo.
— Ah — observou Dinkuhl —, o lado humano! Faz bem em
trazer esses pequenos problemas ao tio Hiram. E se se
provar que por uma vez, Stenner e Ledbetter tinham razão
— e se Sarah Cohn tiver morrido, tal como Hermann Cohn
e Hans Isaacssohn? Vai retirar-se para o seu pequeno canto
na IQR e continuar a ser até ao fim dos seus dias um cidadão
respeitado e útil dentro do sistema de gestão?
Depois de três copos de aguardente de ameixa, Charles
estava num estado que ele descreveria como «estado de
descontração».
— Creio que sim. Eu não sou nenhum cruzado, Hiram.
— Mas também não precisa de ser tão complacente. Eu
também não o sou, mas tenho a sorte de sentir vergonha
disso. Bom, parece-me que teremos de fazer o que
pudermos por si. Ainda que, tal como eu, você não esteja
disposto a arriscar o desconforto e o perigo por causa da
humanidade, está disposto a fazê-lo pelas razões que
apontou — não é assim?
Charles acenou com a cabeça.
— Acho que sim.
— Qual é a sua situação em relação à licença?
— Fui ao P & M. Autorizam-me a gozar licença até seis
meses e deram-me várias embalagens de mescal, que
despejei pelo cano abaixo.
— Oficialmente como é que vai passar a licença?
— Viagem às ilhas do Pacífico?
— Comprou bilhete?
Charles bateu com a mão no bolso.
— Mostre cá. — Dinkuhl pegou no sobrescrito de plástico
transparente que continha os pequenos cartões de plástico
colorido. — Conheço uma pessoa que vai gostar muito desta
viagem. Eu próprio iria, se não tivesse outra coisa a fazer. —
Olhou para Charles. — É importante que os bilhetes sejam
utilizados, no caso de haver inquérito.
— E eu — perguntou Charles —, que é que eu faço?
Dinkuhl sacudiu a garrafa.
— Ajude-me primeiro a acabar com isto. — Despejou nos
copos o que restava e levantou o dele. — Ao sistema de
gestão, nobre herdeiro das sociedades do Homem. Ou então
a Sarah e ao seu regresso, sã e salva, ao seio das Indústrias
Químicas Reunidas. Agora já estamos prontos para começar.
Primeiro vamos a minha casa, para um pouco de
maquilhagem plástica e depois vamos a outro sítio.
— Outro sítio?
— Vamos falar com um homem por causa do seu cartão —
riu Dinkuhl.
Duas horas depois, Charles observava-se a si próprio num
espelho alongado. Em vez das suas próprias feições —
pálidas, magras, com o cabelo preto e liso e, segundo sempre
pensara para consigo próprio, um certo ar intelectual —
encontrou-se em frente de um indivíduo com o cabelo
castanho-claro e encaracolado e com as faces mais cheias e
coloridas.
Dinkuhl disse, com ar complacente:
— Gosto que o cliente fique satisfeito; você está muito
melhor assim. O aspecto das faces pode durar seis meses,
mas não se lave com muita força. Pode lavar o cabelo.
Conheço um alfaiate que lhe pode arranjar um enchumaço
como deve ser e vai ficar ótimo. Que tal se sente?
— Não sei. Confortável. Mesmo assim, acho que prefiro o
meu outro eu.
— A voz — disse Dinkuhl. — A voz e o mau gosto são duas
coisas que não podemos mudar. Bom, vamos.
CAPÍTULO III
O mundo da gestão não tinha cidades capitais únicas,
acontecera sim, por acaso ou desígnio, que cada uma das
suas organizações criara uma base, um centro organizador,
instalado numa dada localidade. Assim, havia a Seção
Atômica, em Filadélfia; a: Indústrias Químicas Reunidas, em
Graz, região que correspondia à antiga Áustria; as Indústrias
de Lignina, em Estocolmo; o Aço, em Detroit. Mas
nenhuma destas cidades estava vinculada por qualquer elo
de exclusividade à organização que instalara aí o seu órgão
central. Aqui, em Detroit, predominavam os emblemas do
Aço, mas havia representantes de quase todas as outras
organizações, embora em proporções diferentes; algumas
delas, tal como as Indústrias Químicas Reunidas, dispondo
de um centro principal e outras, tal como a Interplanetária e
a Genética, com uma simples filial.
A filial da Genética era um edifício de quatro andares, à
esquina das Ruas Cadillac e 17ª. Seguindo a tradição da
organização, as instalações da Genética eram muito mais
elegantes do que os edifícios vizinhos e os interiores tinham
sido arranjados com mais luxo. Dinkuhl e Charles dirigiram-
se ao veio central. Dinkuhl passou o porteiro com um aceno
e um sorriso e tomou uma das três aeroesferas que ali se
encontravam.
Mexendo nos controles, Dinkuhl disse:
— Mais um sinal de decadência — a preocupação com
coisas ridículas. Que é que têm os elevadores? Não, para eles
não servem, têm de ir buscar estes aparelhômetros
estúpidos. A realização máxima do século XXI — a válvula
de Sokije!
Sob o seu comando, a válvula de Sokije descomprimiu o
hélio que se encontrava no interior do duplo invólucro de
poliestireno e fez sair o ar que tinha entrado para lhe
aumentar o peso. A bola de plástico transparente ergueu-se,
levando no interior os dois homens Na plataforma de
chegada, no terceiro andar, Dinkuhl deu várias sacudidelas
frenéticas para equilibrar a esfera. Por fim ela parou, apenas
ligeiramente inclinada contra a plataforma, e os dois homens
saíram.
— Tanta complicação — comentou Dinkuhl. — Creio que
vão insistir até que algum indivíduo verdadeiramente
importante escorregue e parta a sua importante coluna.
Descobrira um gabinete particular; na porta lia-se:
«Funcionário Awkright.» O Funcionário Awkright era um
homem baixo de cabelos cor de areia que tinha certas
parecenças com o aspecto temperamental do próprio
Dinkuhl. Carregou num botão e a porta fechou-se atrás de-
les. Só nessa altura é que ele dirigiu um sorriso a Dinkuhl.
— Como é que vai isso, Hiram?
— Pouco bem. Muito pouco. Burt, este é o Charlie. Era
Charlie Grayner; agora é o Charlie Macintosh.
Awkright fez um gesto de assentimento com a cabeça.
Estendeu a mão a Charlie.
— Muito prazer em conhecê-lo, Funcionário Macintosh. Já
tinha ouvido falar de si, Charlie.
Charlie disse:
— Há alguém que não tenha? — Olhou para Dinkuhl. —
Acha que devo continuar a usar o meu primeiro nome?
Dinkuhl respondeu em tom grave:
— Você é ainda inexperiente na arte do disfarce. Sim, deve
continuar a usar o seu primeiro nome. Não é assim tão
pouco vulgar e é útil que você se volte com naturalidade
quando alguém o chamar na rua. — Sentou-se numa cadeira
com almofadas de ar e indicou outra a Charles. Apoiou os
cotovelos na secretária da Awkright e falou para ele.
— Como é que vai isso? Quem é que passou à frente agora —
a Natureza ou a Genética?
— Nas áreas do Ganges e de Oxus a percentagem de
nascimentos baixou bastante em relação ao ano passado. Por
outro lado, Banguecoque e a Sumatra subiram na mesma
proporção. Pode dizer-se que até agora é um jogo de sobe e
desce. Mas, como sabe, esta venerável organização não
desiste sem luta.
— Qual é o último movimento?
— Ordens recebidas de Edimburgo esta manhã. Estamos a
formar uma série de unidades móveis de redução de
nascimentos.
— Há anos que vocês vendem contraceptivos — disse
Dinkuhl. — Que é que os leva a pensar que comecem agora
a comprá-los?
— Desta vez não podem escolher. Os nossos brilhantes
cientistas criaram um fator antifertilidade que pode ser
adicionado à água que é fornecida localmente. A julgar pelos
números que me foi dado ver, haverá algumas mortes, mas
não mais de um ou dois por cento, na sua maioria entre as
mulheres.
Uma medida de maravilhosas proporções humanitárias. —
Dinkuhl deitou uma olhadela a Charles. — Não lhe parece,
Charlie?
Charles ficara perturbado com o relato de Awkright, mas
ainda mais com o fato de ele ser proferido do que
propriamente com o seu conteúdo. Não podia deixar de se
sentir ofendido por Awkright estar a transmitir informações
confidenciais a dois indivíduos de organizações diferentes.
Era impossível não sentir nisto uma afronta: fitou Awkright
com um misto de espanto e desconfiança.
Dinkuhl, que pareceu sentir a direção dos seus pensamentos,
disse para Awkright:
— Charlie é um rebelde pela força das circunstâncias, não
por natureza. A sua deslealdade preocupa-o.
Awkright abanou a cabeça.
— Julgava que você tinha trazido um convertido. Se é assim,
para que é que o trouxe?
— Em primeiro lugar, por causa do cartão. Você pode
arranjar-lhe um!
— Posso. — Awkright fixou Charles, examinando-o
atentamente.
— Pode vir a ser útil saber porque é que ele vai para a
clandestinidade?
— Depois, diretamente para Charles, disse: — Disseram-me
que você teve um mau relatório por parte de Stenner —
penso que quer evitar o castigo? Se não pertence ao tipo
rebelde, creio que seria melhor aceitar o que vier. Criar e
manter uma nova personalidade envolve dificuldades.
Dinkuhl falou por ele:
— Não, não é para evitar o castigo. Charlie é muito bem visto
por cá. De fato, estão mesmo ansiosos por que ele volte o
mais depressa possível ao seu posto. Pelo menos, alguns.
Oficialmente, ele está com seis meses de licença, por razões
clínicas. E oficialmente ele vai para as ilhas do Pacífico.
Aqui estão os bilhetes. — Dinkuhl passou-lhe o pequeno
envelope. — Pode fazer com que alguém os use hoje
mesmo?
Awkright estudou-os.
— São para amanhã.
— Eu sei. Faça com que sejam usados hoje. Não me
admiraria que o Gestor Ledbetter arranjasse maneira de os
cancelar amanhã.
Charles disse:
— Cancelá-los? Porquê?
— Não é a primeira vez que a Psico & Med resolve rever um
caso, mesmo num prazo de vinte e quatro horas. Podiam
mudar de opinião e resolver que você estava em condições
de retomar o trabalho.
— Tenho um crédito de seis meses de licença — disse
Charles. — Posso sempre servir-me disso.
— Não sei dizer-lhe exatamente onde é que isso vem nos
regulamentos das Indústrias Químicas Reunidas, mas aposto
o que quiser que também há uma maneira de contornar a
situação — disse Dinkuhl. — De qualquer forma, parece-me
mais sensato não arriscar.
— Está bem, faço isso hoje — disse Awkright . — Continuo
a não saber porque é que ele quer afastar-se...
— É um assunto pessoal — disse Dinkuhl. — Ele quer
encontrar Sarah Cohn.
Awkright sorriu. Disse para Charles:
— Com que então, não o convenceram?
A teia da conspiração tornava-se cada vez mais irritante.
Charles conseguiu dominar um impulso de rudeza. Afinal,
apenas por uma decisão sua, conseguira rejeitar não só os
conselhos do seu Gestor, mas ainda de certa maneira a sua
dependência da organização. Tomara a decisão,
aparentemente improfícua, mas sem dúvida nenhuma
obstinada, de procurar Sarah pessoalmente. Colocara-se fora
do âmbito da sociedade normal e, nestas condições, tinha de
considerar como um golpe de sorte o fato de se encontrar
tão rapidamente no meio de um grupo que poderia facilitar-
lhe os planos. Até certo ponto, ia identificar-se com eles,
mas ainda podia limitar essa identificação.
— Não — disse. — Não me convenceram. Não sei lá muito
bem como é que vocês me podem ajudar. À parte a nova
identificação e tudo isso. E nem sequer estou convencido de
que a nova identidade seja essencial.
Awkright disse:
— Bom, isso pode esperar umas horas. — Depois dirigiu-se a
Dinkuhl: — Pode trazê-lo cá logo à tarde, Hiram? Nessa
altura já tenho o cartão pronto.
O giroplano deslizou em direção a um posto agrícola típico,
um aglomerado de edifícios baixos como os que se viam do
ar por toda a parte. Detroit ficava a vinte milhas. A terra era
plana e nua. Era uma área que se destinava mais a operações
diurnas que noturnas. Tudo parecia deserto.
Quando o giroplano pousou, Dinkuhl não deixou que
Charles saísse. Fez deslizar o giroplano sobre o solo, em
direção ao edifício maior. Quando chegaram junto dele, as
portas deslizaram para os lados e o giroplano entrou.
Charles olhou em volta. As luzes estavam todas acesas,
parecia que estavam num hangar de girotáxis. Contou uns
vinte aparelhos, antes de desistir. Dinkuhl saiu e ele seguiu-
o.
Dinkuhl disse:
— Uma bela reunião, esta noite.
— Já posso saber o que é?
— Venha comigo — disse Dinkuhl. — Tudo se esclarecerá.
Atravessaram mais um barracão, apinhado de giroplanos e
daí, através de um corredor, chegaram a outro barracão, de
forma mais quadrada. Os ocupantes dos giroplanos
encontravam-se aqui, uns sentados em filas de cadeiras,
outros em pé, atrás dos primeiros. Numa das extremidades
tinham armado um estrado grosseiro. Em cima dele havia
uma mesa, atrás da qual se encontrava um homem, de pé. O
único traço fora do comum no seu aspecto era a barba —
embora isso só por si já fosse bastante fora do comum.
Estava navegando em plena retórica. Charles não lhe prestou
mais atenção e passou a observar a assistência.
À primeira vista, esta era também muito vulgar; era
constituída por grupos etários muito variáveis que iam dos
vinte aos sessenta. A primeira coisa que o surpreendeu foi
ver emblemas das diversas organizações espalhados
indiscriminadamente por toda a parte. Depois observou mais
cuidadosamente os seus rostos. Podiam ler-se as expressões
que usavam no dia-a-dia, mas elas estavam agora veladas por
outra coisa — uma concentração, uma paixão, que não se
lembrava de ter visto nunca, em parte alguma. Voltou a
olhar para o orador: este apresentava a mesma característica,
mas ainda mais forte e mais vivida.
Escutou o que ele dizia:
— ... porque o tempo tem de parar! O tempo que era infinito
tem de parar! Tudo tem de ser cumprido! Que conforto é
que eu vos dou? Apenas o de saberem e estarem preparados.
Pois o céu tornar-se-á mais claro e o dia parecerá ter nascido
a meio da noite, mas eu digo-vos que esse dia será mais
terrível do que qualquer noite. Serão as chamas que hão de
aclarar o céu e essas chamas serão as chamas do Inferno!
Quando ele se calou, Charles sentiu, mais do que ouviu, o
suspiro da respiração do auditório. Quando recomeçou a
falar, fê-lo mais suavemente, escolhendo as palavras com
cuidado e tornando-as particularmente razoáveis.
— Porque é que vindes aqui, meus amigos? Porque deixais as
almofadas de ar dos cinemas, o écran da TV, os passeios no
espaço e os piqueniques lascivos? Porque deixam todos esses
prazeres e vêm aqui ouvir-me, a mim, pobre profeta da
Última Palavra que será Dita. Será porque estais cansados das
vossas loucuras e malefícios, cansados das vossas maldades e
fornicações? Será porque os vossos espíritos se voltaram
finalmente para o que está certo?
Os seus olhos detiveram-se sobre eles, acariciadores, cheios
de desprezo.
— Não! Não é isso que vos traz aqui. No fundo dos vossos
corações não há menos vileza que dantes. Vindes aqui
porque não podeis deixar de o fazer. Não podeis deixar de
vir, da mesma forma que não podeis deixar de chafurdar na
vossa maldade, de vos contorcerdes nas garras da vossa
iniqüidade. Meus amigos! — As suas palavras eram
chicotadas, notou Charles. — Meus amigos, vindes aqui
porque estais no Inferno! Agora — neste mesmo instante —
estais no Inferno! O Abismo rodeia-vos, as Chamas estão
prontas à vossa volta, os Demônios dançam nas vossas
costas! Basta que os vossos olhos se abram para que vejais
onde estais e os sofrimentos que ides ter. E Jeová fará com
que eles se abram! O tempo aproxima-se! Vai soar a hora!
Dinkuhl tocou ao de leve no ombro de Charles. Falou-lhe
devagar ao ouvido:
— Não está a deixar-se levar, espero?
Charles fitou-o, com a sensação de que o seu olhar se
afastava com relutância do homem que estava em cima do
estrado.
— Que diabo é tudo isto? — perguntou.
Dinkuhl fez um movimento com a cabeça.
— Por aqui.
Conduziu-o a uma porta lateral e assobiou para que se
abrisse. Fechou-a depois atrás de si, cortando a corrente de
eloqüência vibrante que enchia o pavilhão donde acabavam
de sair. Encontravam-se agora noutro corredor.
Dinkuhl disse:
— Não sabia da existência da Seita do Cometa? Não aparecem
na TV, claro — nem mesmo no FK — mas julgava que já
toda a gente sabia. Os grandes sabem que eles existem e
consideram-nos importantes. Acham que eliminá-los não
serviria de nada — e provavelmente têm razão. Entretanto,
são um disfarce útil.
Passaram através de uma segunda porta para um
compartimento muito pequeno. Estava ali uma meia dúzia
de pessoas; Charles reconheceu Awkright. Dinkuhl
apresentou-o aos outros; ele ficou atrapalhado e não
conseguiu fixar-lhes os nomes, mas reparou que um era da
Secção Atômica, outro do Aço, outro das Minas e ainda
outros dois de duas organizações menos importantes —
Psico & Med e Interplanetária.
Awkright disse:
— Conseguiu trazê-lo até aqui sem problemas? O homem
procurado?
Charles disse:
— Procurado?
Dinkuhl disse:
— Já?
— O alarme foi lançado ao fim da tarde de hoje. Fizemos
embarcar o nosso homem no transatlântico para Tonga, mas
foi mesmo no último minuto.
Dinkuhl disse serenamente:
— Vai desembarcar em Tonga?
— Fizemos com que a mensagem se atrasasse uma noite. Só
vão recebê-la de manhã. Ele já terá fugido num hidroavião
antes que possam fazer o quer que seja. Depois... —
Awkright encolheu os ombros — ...há muitas ilhas lá para
aqueles lados e muitos cantos onde um homem que não
quer ter companhia se pode encafuar. Com a ajuda de uma
série de indicações falsas vai levar alguns meses até que eles
comecem a suspeitar que não vão conseguir encontrá-lo.
Além disso, não têm forma de saber porquê — o mar, tal
como vem indicado nos seus relatórios oficiais, não larga os
corpos que apanha.
Dinkhul disse:
— Isso é ótimo. Meu caro Charlie, agora nada o impede de
prosseguir com os seus planos.
— Nada — disse Charlie. — Exceto que você ainda não me
disse o que são esses planos.
Dinkuhl riu.
— Que descuido o meu.
Charles observou o pequeno grupo.
— Sentir-me-ia bastante mais à vontade se fizesse alguma
idéia daquilo que vocês andam a tramar.
O homem que tinha o emblema da Secção Atômica —
Blain, ou Baines! — era um indivíduo magro e sardônico.
Falou num inglês pausado:
— Hiram devia ter-nos apresentado coletivamente, assim
como um por um. Esta, Charles, é a Sociedade dos
Individualistas, Ramo do Quartel-General e Assembléia
Geral combinada. Estendemos as nossas mãos para auxiliar
qualquer cãozito coxo que tenha problemas com o seu
aparelho de trepar. Não temos qualquer importância, mas
gostamos de pensar o contrário.
Charles disse:
— Não pretendo guardar segredo sobre o fato de, pela minha
parte, não ter qualquer desentendimento com a sociedade.
Julgo que já encararam a possibilidade de eu poder vir a
nomear o vosso pequeno grupo em sítios que não sejam os
mais indicados para isso. Não se importam de se submeter ao
mescal — é a bondade dos vossos corações que vos faz
correr esse risco?
Dinkuhl disse:
— Bem observado. Mas, repare Charles, eu ainda não o
deixei um momento, desde que você entrou no meu
estúdio. Você só podia constituir um perigo da forma que
sugere, até ao momento em que aceitou das nossas mãos a
sua nova identidade e usou os nossos recursos para enganar
o seu próprio Gestor quanto à viagem de férias. A partir daí,
a sua posição torna-o candidato a um tratamento duas ou
três vezes mais forte que o nosso, se as coisas se viessem à
saber. É que nós — aqueles que estão ligados ao sistema de
gestão e eu, evidentemente, não estou — só podemos ser
punidos por transgressões menores, tais como a passagem de
informações e associação ilegal. Você está lançado em pleno
numa campanha de rebelião contra a sua própria gestão.
Awkwright disse:
— E não pense que o ajudaríamos. Deitaríamos tudo cá para
fora, com a ajuda de Hiram.
Charles abanou a cabeça.
— Mesmo assim, não percebo. Qual é o vosso interesse?
Bom, por agora fiquemo-nos numa base de confiança. Que é
que querem que eu faça?
Dinkuhl disse:
— Estamos a considerar as coisas debaixo do seu ponto de
vista. Você quer a Sarah Cohn. Chegou à conclusão — e nós
consideramos que é muito possível que esteja certo — que
ela não cometeu suicídio nem morreu de acidente, mas que,
tanto ela como provavelmente o pai e Isaacssohn foram
apanhados por alguém, por razões que têm de ver com o
tipo de trabalho que estava a ser feito no seu laboratório.
Bom, quem a raptou e onde é que ela está agora?
Dinkuhl abrangeu a pequena sala com um gesto.
— Como vê, temos aqui uma bela seleção. Estão aqui
representadas meia dúzia de organizações diferentes.
Infelizmente isso não é razão bastante para que essas
organizações sejam postas de lado. Ouvimos muita coisa,
mas não ouvimos tudo e seja quem for que detém esses
indivíduos deve estar com todo o cuidado para que a notícia
não se espalhe. Por isso qualquer um pode ser o raptor.
Mesmo a Telecom. Debaixo dessa aparência suave que todos
vemos à nossa volta, as coisas estão a chegar a um ponto de
grande tensão. A roda vai soltar-se.
Awkright interrompeu-o.
— Hiram — disse —, já ouvimos os seus lugares-comuns
noutras ocasiões.
Dinkuhl disse:
— De momento, não percebo porque é que perco o meu
tempo convosco. Está bem. A questão é que não temos nada
em que nos basear, quanto às nossas suspeitas em relação a
qualquer organização em especial. Todos nós sabemos que a
Seção Atômica fez uma proposta de centralização do
controlo há alguns anos. Mas a Agricultura e a Hidropônica
já o tinham tentado anteriormente e mesmo a pobre e ino-
cente Genética já o fizera — no seu caso, a idéia seria
produzir super-gênios que fizessem o resto do trabalho por
eles. As próprias Indústrias Químicas Reunidas podiam ter
raptado o seu próprio pessoal, embora eu não consiga
perceber para quê — ou porque é que deixariam o Charlie
andar por aí à solta, nem que fosse por umas horas.
- Ora bem, voltando à questão. Na minha opinião, a única
coisa a fazer é tentar retomar a pista no sítio onde se sentiu
o cheiro pela última vez. Isso quer dizer que teremos de
voltar a Berkeley.
Charles disse:
— Passei a noite nos aposentos do Professor Cohn.
Rebusquei-os cuidadosamente; tal como Caston e Stenner.
Duvido que ali se consiga descobrir o quer que seja.
— Berkeley não se limita aos aposentos do Professor Cohn.
Há ainda o quarto dele na Universidade. Há a possibilidade
de alguém o ter visto naquele momento crucial
imediatamente a seguir a ele ter sido visto, pela última vez,
nos fossos dos foguetões.
Um dos do grupo objetou:
— Berkeley não é assim tão grande e toda a gente se
conhece.
A que pretexto ê que o Macintosh vai aparecer lá — todos
vão notar a presença de um estranho, tão certo como a
bomba H.
Charlie teve um ligeiro estremecimento de surpresa ao ouvir
o seu novo nome. Fora pronunciado com toda a
naturalidade; só esperava ser capaz de o usar com a mesma
naturalidade.
Dinkuhl disse:
— Juntamente com o seu cartão, Charlie receberá duas
autorizações. Uma será uma autorização de licença vulgar. A
outra, especialmente destinada à viagem a Berkeley, prevê
uma estada nesse local em visita de estudo, sendo ele um
estudante que está a trabalhar na descalcificação idiopática
de algumas tribos da Mongólia Exterior. Acontece que em
Berkeley têm material sobre o assunto que não se consegue
encontrar em mais parte nenhuma deste continente.
Charles começara:
— Que é a descalcificação idiopática em...?
— Ficam sem dentes muito cedo — disse Dinkuhl
sucintamente. — Só espero que não se encontre com outro
estudante que esteja a trabalhar no mesmo assunto —
parece-me pouco provável. De qualquer forma, o esquema é
esse. Uma vez em Berkeley, o resto é consigo, Charlie.
Tentaremos continuar em contacto consigo, mas essen-
cialmente você estará independente.
Charles acenou com a cabeça. O homem da Secção Atômica
disse:
— Parece bem. Pela minha parte, consigo imaginar meia
centena de coisas que são capazes de correr mal.
— Esperemos que não disse Dinkuhl. — Pois bem, eu vou
levar aqui o Charlie novamente para Detroit e metê-lo no
transatlântico para Berkeley. Até à próxima reunião, rapazes.
Voltaram por onde tinham vindo, seguidos pelos outros. A
sala onde se realizara a grande sessão estava vazia. Dinkuhl
explicou:
— Foram ladrar à Lua. Acabam sempre assim. O melhor é
irmo-nos juntar a eles durante os últimos minutos.
Tinham levado o estrado do orador. Este estava de pé, em
cima dele, dirigindo-se à multidão silenciosa que o rodeava.
Via-se apenas uma lasquinha de Lua, mas o céu estava claro
e a luz das estrelas espalhava sobre eles uma luz vaga;
escurecera completamente depois da chegada de Charles e
de Dinkuhl.
O orador dizia: — ...que o ar se encha com o ranger das
correntes e das lamentações que não têm fim porque a dor é
infindável! Que a grande serpente se contorça sobre a terra
e... — Hesitou por momentos e, quando retomou a palavra,
a sua voz era mais fraca, mas carregada de veneno — ...e a
esmague! Olhem para cima! Olhem para cima!
Na escuridão, as suas faces que se voltaram, como movidas
por uma só vontade, em direção ao céu noturno apareceram
como um lago subitamente iluminado. Contemplavam um
ponto cerca de quinze graus acima do horizonte.
Acompanhando os seus olhares, Charles viu a mancha pálida
do cometa. O orador falou com voz branda, mas
arrebatadora:
— Vejam. Vejam. — Sibilava como uma brisa cortante que
atravessasse a noite. — O Dedo de Jeová! O Dedo de Jeová!
O Dedo que aponta para um mundo condenado! O Dedo
que se detém para castigar um povo que se dedica à
iniqüidade! O Dedo que marca o gado para o abate!
Aproxima-se! Aproxima-se! E quando ele se abater, a voz de
Jeová será o trovão da montanha, o terremoto vindo das
entranhas da terra. Ninguém conseguirá escapar às palavras
do julgamento — ninguém conseguirá escapar!
Charles teve consciência do mesmo suspiro que, quase
como um estremecimento, já se fizera sentir no interior do
edifício. Depois houve um silêncio que durou quase meio
minuto. Os seus olhos estavam ainda fixos no céu. Então o
orador quebrou o sossego, numa voz que se tornou um
grito.
— Para baixo! De joelhos! Seus cães, suas cadelas! Para baixo,
para baixo, para baixo! — Eles caíam de joelhos como o
milho em frente do segador, mas a sua voz continuava a
soar, aguda. — Para baixo sobre a vossa condenação!
Ponham-se de joelhos e gritem, gritem para Jeová, o Eterno:
«Senhor Jeová, estamos condenados! Envia-nos os teus
chicotes, os teus escorpiões, as tuas labaredas para queimar a
nossa carne mais tenra!»
As palavras foram devolvidas num eco horrível:
— Senhor Jeová, estamos condenados! Envia-nos os teus
chicotes, os teus escorpiões, as tuas labaredas para queimar a
nossa carne mais tenra!
— Solta os teus demônios! — exortou o orador.
— Solta os teus demônios! — soou o eco murmurado.
— Uma bênção apenas, Senhor Jeová, uma bênção apenas te
pedimos,
— Uma bênção apenas, Senhor Jeová, uma bênção apenas te
pedimos.
— Após um milhão de anos de tormento, concede-nos o
esquecimento.
— Após um milhão de anos de tormento, concede-nos o
esquecimento.
— Nós, os teus condenados, ajoelhamos perante ti, Senhor
Jeová!
— Nós, os teus condenados, ajoelhamos perante ti, Senhor
Jeová!
Seguiu-se o silêncio. O orador mantinha-se ereto, com os
braços estendidos sobre a multidão que rastejava à sua
frente. Charles, com Dinkuhl e os outros, manteve-se a uma
pequena distância do aglomerado principal. Charles
perguntava a si próprio se não estariam em perigo, mas
compreendeu que todas as atenções estavam centradas nou-
tra direção, na direção do estrado e da pequenina mancha do
cometa.
O homem da barba desceu do estrado e a multidão começou
a tentar pôr-se de pé. Dinkuhl tocou no braço de Charles
com o cotovelo.
— O.K. Podemos ir agora.
Charles não disse nada enquanto não se encontraram no
giroplano, longe dos edifícios. Dinkuhl pôs o motor em
marcha e Charles falou, levantando a voz acima do seu
ronronar suave e ritmado.
— Nem consigo acreditar no que acabo de ver.
— Cultive a sua imaginação — disse Dinkuhl distraidamente.
— Uma coisa impossível todas as manhãs antes do pequeno-
almoço.
— Pareciam-me indivíduos perfeitamente vulgares. É
incrível pensar que seriam capazes de se transformar
naquela turba.
O giroplano ergueu-se no céu noturno fracamente
iluminado, em direção ao brilho difuso da Via Láctea.
Dinkuhl disse:
— As turbas são todas muito semelhantes. Esta noite
mantiveram toda a respeitabilidade. Devia vê-los quando
perdem realmente a cabeça.
— Mas como é que uma pessoa normal...?
— Uma pessoa normal é uma pessoa que está razoavelmente
ajustada ao seu meio ambiente. Pode, portanto, dizer-se que
é exatamente o que se passa com aquela gente: aqueles são
os seres humanos bem ajustados ao século XXI. Ajustados a
uma vida que perdeu o significado, a uma decadência, a uma
estagnação. Ajustados à sociedade da era do sistema de
gestão.
— Tanto quanto sei — disse Charles —, nunca tive qualquer
inclinação para este tipo de comportamento.
As estrelas pareciam sempre muito próximas quando se
voava de noite num giroplano. Esta noite pareciam tão
próximas que se podiam agarrar.
Dinkuhl disse:
— Mas você não se consideraria uma pessoa normal —
normal para a sua época, de qualquer forma. É isso que eu
tenho estado a tentar dizer-lhe. A normalidade não é um
absoluto. Eles são normais. Aposto que são todos ex-clientes
de Conforto Brilhante e da Liga Vermelha. Não do FK, com
certeza.
Charles teve uma idéia.
— Ainda há mais indivíduos destes?
— Com os diabos, claro que há! Isto foi apenas um pequeno
encontro. Há também muitos outros pregadores, mas aquele
tipo de hoje foi um dos melhores que tenho ouvido.
— Onde é que tudo isto começou?
— Há diferentes versões que mencionam diferentes lugares.
Alguns falam de Nova Inglaterra, outros mencionam a
França. Há uma versão que indica a Índia. Tudo começou
antes de o cometa se tornar visível, mas o cometa é agora
um ponto principal — tal como viu.
— Então quando o cometa desaparecer...
— Tudo acabará? Talvez. Mas não me parece. Quando uma
coisa toma as proporções que isto tomou, um pequeno
contratempo tal como uma profecia falhada não lhe corta a
evolução. Não, acho que a festa está apenas a começar.
— E você aprova — disse Charles.
Dinkuhl riu.
— Sou sempre a favor da normalidade.
Começaram finalmente a descer em direção às luzes de
Detroit e à casa de Dinkhul, à beira do lago. Dinkuhl pôs as
pás na vertical e acendeu a luz de aterragem. O giroplano
desceu sem esforço sobre a faixa de aterragem.
Dinkuhl disse:
— Vou pô-lo no canil. Você já sabe o caminho. — Entregou
a Charles a chave de assobio. — Arranje uma bebida. Eu
subo já.
Dinkuhl acendera as luzes do caminho; Charles seguiu uma
estreita fita de luz até à casa escura. Alcançou a porta e
assobiou para a abrir. No interior, as luzes acenderam
automaticamente. Dirigiu-se ao primeiro andar e foi até à
sala. No ar pairava um perfume que lhe pareceu
estranhamente familiar.
Quando os joelhos se lhe começaram a vergar, soube o que
era: astarate, o gás que atacava os nervos. Caiu no chão com
á cabeça do lado da porta — foi assim que ele viu Dinkuhl
aparecer e parar do lado de fora a olhar para a sala. Desejava
poder ler a expressão de Dinkuhl, quando perdeu a
consciência.
CAPÍTULO IV
O quarto no qual Charles acordou — cela seria uma
designação mais apropriada — não tinha janelas e
assemelhava-se a um cubo, cujos lados tinham
aproximadamente 3 m. Em duas paredes opostas havia duas
grades em frente uma da outra — pequenas manchas de re-
de numa extensão nua de plástico amarelo-claro. Condutas
de ventilação. Noutra parede havia uma porta. A sua
colocação era demasiado simétrica: a parte inferior da
moldura da porta estava a 33 cm de distância do chão e a
distância entre a parte de cima e o teto era igual.
Charles tinha uma dor de cabeça terrível, o que sabia ser
uma conseqüência inevitável do astarate. Lembrava-se de
uma experiência que fizera em tempos na universidade. Mas
nessa altura tomara deliberada- mente uma dose menor e os
efeitos posteriores tinham sido menos violentos; neste
momento, a cabeça doía-lhe e de trinta em trinta segundos a
dor atingia um clímax. Sabia que isso ia diminuir
gradualmente, mas sem ter conhecimento da dose que
inalara era-lhe impossível tentar prever daí a quanto tempo
a existência voltaria a deixar de ser uma perfeita agonia.
Levantou a cabeça com todo o cuidado, para observar
melhor tudo o que o rodeava. Encontrava-se deitado no
chão, em cima de um colchão de ar. Havia uma cadeira com
almofadas de ar, de forma estranha, a um canto, bem como
uma coisa que parecia uma cama de rede enrolada
pendurada num gancho. Na parede em frente da porta
estava o indispensável écran de TV, mas procurou em vão o
painel de controlo. Tinha sede, mas não havia nada para
beber. Pensou em se levantar e experimentar a porta, mas as
dores que cresciam em autênticas ondas eram de mais para
ele. Deixou cair a cabeça para trás e fechou os olhos.
O rosto de Dinkuhl. Estava de novo a vê-lo, tal como o vira
na sombra do outro lado da porta, espreitando para a sala
onde ele estava enroscado no chão. A expressão — seria
surpresa, ansiedade — ou satisfação? Pensou furiosamente:
era verdade que não sabia julgar as pessoas, mas se se tinha
enganado a respeito de Dinkuhl, mais valia desistir. E,
contudo, havia a estranheza de todo o conjunto de coisas: a
ligação de Dinkuhl com o grupo dos contestatários,
dispostos a correr riscos para o ajudarem, simplesmente por
ele se ter revoltado contra a sua gestão. Isso já o tinha
preocupado antes. E voltava a preocupá-lo agora.
Há quinze dias, a sua vida era uma rotina conhecida e
praticada há muito, um nicho seguro do qual ele podia
contemplar um mundo sadio e vulgar, sentindo apenas um
ligeiro ressentimento e uma forte dose de superioridade.
Agora estava neste torvelinho e todas as demarcações ti-
nham desaparecido. Era de presumir que este novo mundo
não surgira de repente. Já existia antes. Enquanto ele fazia o
seu trabalho habitual em Saginaw, este torvelinho não
parava — uma dezena de secções de contacto, ou mais,
atacando-se mutuamente — Dinkuhl e o seu circulo de
sabotadores — a Seita do Cometa fustigando-se deleitada
com os chicotes do desespero. Tudo tinha de existir antes;
fora simplesmente o azar que o fizera cair no redemoinho.
E Sarah também. Esse pensamento apossou-se dele
provocando-lhe um sofrimento que dominava a simples dor
física resultante do astarate. Isto despertou novamente a sua
determinação. Por muito confusa e insolúvel que a situação
se apresentasse, ele continuava a ter um objetivo. Por essa
mesma razão, tudo o que contribuía para a complexidade
que o rodeava tornava mais firme a sua certeza de que as
suas suspeitas quanto à explicação de Stenner eram fundadas
e fazia-lhe parecer mais provável que Sarah estivesse viva,
em algum sítio,
A dor era agora um pouco menos aguda e decidiu ignorá-la.
Pôs-se de pé e caminhou vacilante até à porta. A chave de
Dinkuhl desaparecera, mas ele lembrava-se de algumas
combinações de notas. Tentou-as, apesar de ter a garganta
seca. Não houve qualquer resposta; a porta permaneceu
fechada. Tentou empurrá-la com o corpo, mas a porta
manteve-se firme. Foi sentar-se na cadeira de ar para pensar
melhor na situação. A cadeira moldou-se-lhe ao corpo,
persuasiva, e ele verificou que havia uma espécie de cintos
com que poderia amarrar-se. Não conseguia perceber para
que serviam.
Ouviu o zumbido crescente habitual e olhou para ver o
écran na parede ganhar vida. Um homem de meia idade,
sentado a uma secretária (uma secretária em cima da qual
não se via qualquer objeto que permitisse uma identificação.
O homem também não tinha qualquer emblema).
Era gordo, com o rosto avermelhado e tinha um longo nariz
estreito e um olhar distante e astuto. Falou com uma
pronúncia ligeiramente ciciada.
— Como está, Funcionário Grayner? Precisa de alguma coisa?
Charles disse:
— Sim. Água, um sedativo e uma explicação. Pela ordem
indicada, se não lhe causar transtorno.
O homem acenou afirmativamente. Gritou para alguém que
a câmara não focou:
— Água e neuraspirina para o Funcionário Grayner. — E
acrescentou, dirigindo-se a Charles: — Não prefere brande?
— Pode ser água.
— Permita-me que me apresente. O meu nome é Ellecott.
— De...?
Ellecott sorriu; era um sorriso sonhador e desagradável.
— Não pense que pretendo ser difícil. Mas preferia que não
insistisse nessa pergunta — pelo menos por agora.
A porta abriu-se. Charles atravessou o compartimento e
pegou numa garrafa de água e em dois comprimidos de
neuraspirina trazidos por um homem alto e silencioso,
também não identificável com nenhuma organização do
sistema de gestão. Acenou para a figura visível no écran.
— Desculpe. — Enquanto tomava os comprimidos e bebia
água pela garrafa, a porta voltou a fechar-se.
A dor desapareceu quase instantaneamente. Sentindo-se
bastante mais confortável, Charles arrastou a cadeira até ela
ficar mais diretamente voltada para o écran. Depois sentou-
se.
— Dizia...
Ellecott disse:
— Estava simplesmente a exprimir o desejo de que você não
se opusesse a que eu conservasse o anonimato. Num assunto
tão delicado como este... Tenho a certeza de que você há de
compreender.
Agora, que a dor de cabeça abrandara, conseguia pensar com
maior clareza e rapidez. O principal era estabelecer uma
espécie de vantagem, embora ligeira, para ajudar a
contrabalançar a posição totalmente desvantajosa em que se
encontrava. Tinha de ser uma situação que não parecesse
inteiramente disparatada; qualquer coisa que esta gente não
fosse obrigada a recusar — um aspecto em que eles estives-
sem inclinados a descontrair-se.
— Onde está o Dinkuhl? — perguntou Charlie.
Ellecott estendeu os lábios.
— Dinkuhl?
— Não percebo porque é que há de fingir que não sabe quem
ê o Dinkuhl. Fui raptado de casa dele.
— Não estava a tentar enganá-lo. Sei quem é Dinkuhl, claro
está. Mas isso não quer dizer que saiba onde ele se encontra
de momento.
Toda a resposta, pensou Charles, estava deliberadamente
sofismada. Pensou que também sabia porquê. Eles não
estavam certos se ele classificara Dinkuhl como amigo ou
inimigo. Ser-lhes-ia útil conhecer a sua posição a esse
respeito, para saberem como agir para com ele. Pensou
cuidadosamente. Fossem quais fossem as suas razões,
Dinkuhl representava um elo de ligação com o velho mundo
familiar que existira havia tão pouco tempo; Dinkuhl era um
cabo de salvação. Não era indispensável confiar nele.
— Quero falar com Dinkuhl — disse Charles.
Ellecott encolheu os ombros.
— E se não soubermos dele?
— Então vão procurá-lo. Ele estava do lado de fora da porta
quando eu perdi os sentidos. Não creio que o tivessem lá
deixado para ir contar a história no FK.
— Não sei. — Ellecott tentou parecer totalmente ingênuo.
— Não tive nada a ver com o trabalho de o irem buscar. Não
sei nada do Dinkuhl. — Hesitou. — Por vezes ocorrem
acidentes nestes trabalhos.
Charles disse:
— Dadas as circunstâncias, têm-me tratado bastante bem.
Mas acho que a minha boa vontade não é totalmente vã. Se
houve um acidente desse tipo pode deixar de contar com a
boa vontade. Agora e para sempre.
Ellecott abanou a cabeça num gesto que parecia uma
tentativa de velhacaria.
— Temos de ver o que se pode fazer. Não sei o que
aconteceu ao Dinkuhl, mas vou tentar saber. Gostaria de ver
televisão enquanto espera? Deve achar isso aí muito
aborrecido.
Havia uma maneira de verificar se ainda estava no
continente americano, embora não tivesse razões para supor
o contrário. Disse em tom natural:
— Obrigado. Pode ser a Liga Vermelha. A menos que me
possa arranjar o FK?
— Parece-me — disse Ellecott — que o FK está
temporariamente parado. Aí tem a Liga Vermelha.
Ellecott estava a falar verdade acerca do FK — era um
empreendimento de tal forma dependente de um só homem
que a ausência de Dinkuhl durante mais de doze horas era
capaz de o deitar abaixo. Mas de qualquer forma era pouco
provável que lhe dessem o tipo de informações que lhe
permitissem determinar explicitamente se se encontrava ou
não na área de Detroit. Assistiu apático à fase final de um
melodrama da Liga Vermelha. Estava ainda na América do
Norte. Algures por cima da sua cabeça, a estação espacial
fixa, que acompanhava precisamente as rotações da Terra,
irradiava a sua mensagem de plácida segurança de leste a
oeste, desde a Passagem Nordeste aos desertos do México. _
Terminada a peça, começou o noticiário, com Henry
Millheim caloroso e sólido, grave, com um leve toque de
jocosidade — o arquétipo da Liga Vermelha. As notícias
eram também as habituais — uma janela aberta sobre um
mundo tranqüilizador. O Gestor Vautrin fora nomeado
diretor dos Aços — um instantâneo do complacente Vautrin
dando-se ares de modéstia. As Indústrias Químicas Reunidas
anunciavam a abertura de uma nova filial na Lua — as
poderosas montanhas lunares estenderam os seus dedos
agrestes de encontro a um céu negro salpicado de estrelas
diamantinas. A imagem fez agitar qualquer coisa na memória
de Charles, mas ele não conseguiu estabelecer a ligação.
Primeiros resultados da prova de corridas no espaço de
Adirondacks — os balões de plástico dançaram alegremente
no écran enquanto a voz firme de Millheim anunciava os
nomes: «Kapell — Edwards — Burgoicz...»
A atenção de Charles desviou-se do écran quando a
memória de Charles estabeleceu a ligação. A nova filial lunar
da IQR... lembrava-se agora: a filial de Tycho, que fechara
havia talvez dez anos. Não fora dada qualquer publicidade a
esse fato, mas um dos membros do pessoal tinha sido
enviado para Saginaw; fora assim que ele viera à saber.
Agora a reabertura era saudada como um acontecimento,
um alargar das fronteiras. Perguntava a si próprio quantas
outras extensões de fronteiras, alardeadas pelas redes de
televisão, tinham sido do mesmo tipo.
O seu olhar foi de novo atraído para a televisão por uma
marcha familiar — o indicativo da IQR. No écran as fileiras
serradas alinhavam-se num vasto terreiro de parada.
Obedecendo a sinais, os blocos afastavam-se e marchavam
em frente para saudar a bandeira da IQR. Isso indicou-lhe a
data — 21 de Novembro. Dia das Formaturas. Observou
com certa nostalgia e pena ao mesmo tempo, os esquadrões
em marcha. Conhecia-os. Com o auxílio da Psico & Med, os
seus espíritos tinham sido cuidadosamente analisados, os
seus psicoplanos preparados. Avançavam assim esquadrões
A e B, destinados à chefia, os administradores e dirigentes
do futuro — os esquadrões C, D, e E para a pesquisa e
trabalhos de desenvolvimento — os esquadrões F, G, H e I
para os capatazes e outros postos de supervisão — e no fim
todos os outros esquadrões que embarcavam agora numa
vida adulta de rotina e segurança e Conforto Brilhante em
doses certas. Os trabalhadores. Charlie observou aquela faixa
alegremente colorida sob a brisa forte do noroeste. Ele
próprio pertencera ao esquadrão D. Pensou... A opinião de
Dinkuhl de que o mundo da gestão se estava a desmoronar...
seria que a explicação se encontrava de alguma forma nestas
formações militares rigorosas e na bandeira que ondeava ao
vento?
O écran ficou vazio, deixando ver em seguida, uma vez
mais, o rosto de Ellecott. Ellecott continuava a sorrir.
— Boas notícias para si, Funcionário Grayner. Apanhamos
Dinkhul. Podemos arranjar com que fiquem juntos durante
o período do vosso — durante o período em que estamos a
arranjar as coisas. Vamos também instalá-los mais
confortavelmente. Deve sentir-se um bocado apertado aí.
Charles disse cautelosamente:
— É muito amável.
— Dois dos nossos homens vêm a caminho para o ir buscar.
Sei que podemos contar com a sua colaboração.
Charles disse:
— Claro. Não quero causar-lhe gastos necessários — sei o
preço do astarate.
— O sentido de humor — disse Ellecott — pode ajudar a
tornar a situação presente menos desconfortável.
Apreciamos a forma como encara as coisas. Acredite que é
verdade.
Foi no momento em que, a pedido dos dois homens, trepou
por uma porta para uma passagem especial em forma de
túnel, que compreendeu onde se encontrava. Claro que a
cela original já lhe devia ter dado uma idéia — a
simplicidade funcional, a porta eqüidistante entre o chão e o
teto, a cadeira com cintos, a rede. Agora surgia-lhe o corre-
dor serpenteante, a estrutura visível e, acima de tudo, os
corrimãos destinados a serem utilizados quando não
houvesse gravidade, o que tornava tudo inequívoco.
Encontrava-se numa nave espacial. Uma nave espacial em
repouso, era verdade, visto que a gravidade era normal, não
artificial e faltava também a inevitável vibração. Mas mesmo
assim, encontrava-se numa nave espacial. Olhou com uma
certa satisfação para os seus dois guardiões privados, que
também não usavam emblema. Estava, portanto, nas mãos
da Interplanetária. E o que era ainda mais encorajador é que
eles eram suficientemente tolos para tentar esconder a sua
identidade, embora o tivessem preso numa nave espacial.
Esta descoberta deu-lhe ânimo novo.
Reconheceu o compartimento onde foi introduzido como
uma das salas da messe, transformada à pressa para o
acomodar a ele e a Dinkhul. As finas costuras das paredes
indicavam a presença de mesas escamoteáveis e num canto
havia a escotilha pela qual chegava normalmente a comida.
Os écrans das paredes laterais tinham também o estilo
peculiar das messes.
Tinham trazido para lá várias peças de mobiliário, incluindo
uma estante, o que o surpreendeu e encantou. Dinkuhl
estava de pé por detrás dela, com um livro na mão. Quando
Charles entrou, levantou a cabeça e acenou-lhe.
— Prazer em vê-lo, Charlie. Já mo assinalaram como um
recalcitrante que fala de mais, por isso vou começar com
uma ou duas palavras de prevenção. Esses écrans podem
estar vazios, mas não pense que estão inativos. E sei o
suficiente sobre os microfones modernos para poder
garantir-lhe que, se algum de nós sussurrar qualquer coisa de
forma que o outro ouça, isso bastará para que os nossos
amigos ouçam também. Nestas condições, acho que
devemos preveni-los de que tomaremos a precaução
justificável de não discutir o quer que seja que, na nossa
opinião, os possa ajudar.
Charles disse:
— Está certo. A propósito, como é que o apanharam?
— Astarate — mas em dose mais fraca que a sua, creio. Já
estou acordado há algumas horas e, segundo percebi, você
acordou há pouco. Disseram-me que você tinha insistido em
que nos pusessem juntos antes de responder a quaisquer
perguntas.
Charles observou Dinkuhl, tentando descobrir o que é que
se escondia sob a habitual cordialidade sardônica.
— Pareceu-me que seria boa idéia.
Dinkuhl acenou com a cabeça.
— Muito sensata. Não imagino o que é que tencionam fazer
comigo — o mais provável é que me tivessem apanhado por
eu ter presenciado os acontecimentos. Mas não me parece
que seja indispensável. E há mais uma coisa que acho que
devemos discutir, e que me parece tão clara como os olhos
que vêem e os ouvidos que ouvem. Até que ponto ê que
você pode confiar em mim? De qualquer forma, é uma
questão interessante. Eu podia muito bem estar a trabalhar
por conta dos nossos amigos e o fato de você ter querido a
minha presença não significa nada, exceto que lhes facilitou
as coisas — partindo do princípio de que eu esteja do lado
deles.
Charles disse:
— Já pensei nisso.
— É natural. Para ser franco não me parece que possamos
fazer o quer que seja. Eu preferiria que as nossas relações se
desenvolvessem num plano de confiança mútua, mas nesse
campo só vejo uma possibilidade, e, na minha opinião, o fato
de estarmos num aquário contraria essa linha. De qualquer
forma, também não estou certo de que levasse a qualquer
coisa de conclusivo. Não, Charlie, por muito que isso lhe
desagrade, devo aconselhá-lo a manter o seu atual estado de
desconfiança. E, como é evidente, o fato de eu lhe dar este
conselho também não tem qualquer significado.
Naturalmente, eu esperava que você suspeitasse de mim e a
discussão aberta das suas suspeitas seria uma boa maneira de
as acalmar. E depois, discutir o fato de eu as discutir... bom,
não levemos as coisas demasiado longe.
Charles fez um sorriso.
— De qualquer forma, a companhia agrada-me. Você
levanta-me o moral, Hiram.
— E isso também pode ser encarado dos dois lados. Mas
agora parece-me ser uma boa altura de abordarmos uma
questão que julgo que já deve ter começado a preocupá-lo
— a questão da sua própria importância.
— Sim, já pensei nisso. Primeiro Ledbetter e você... e agora
estes — partindo do princípio de que não têm nada que ver
consigo.
— Sim, partindo desse princípio — disse Dinkuhl. Olhou
casualmente para o écran de TV. — Julgo que estamos
autorizados a falar disto; certamente pensaram que era
provável que eu dissesse alguma coisa. Falemos então da sua
importância. Já deve ter percebido que há várias pessoas
interessadas e muito, no trabalho que estava a ser feito no
laboratório da 1QR onde você fez uma estada tão curta e tão
cheia de acontecimentos. Isso leva-nos a uma especulação
interessante — e que eu ponho à sua disposição — sobre a
possibilidade de Isaacssohn e os Cohn não terem sido
capturados pela mesma organização. Nada indica que o
tenham sido, o que faz desaparecer a confusão natural
provocada pelo fato de Sarah Cohn ter sido deixada durante
duas semanas depois da morte aparente de Isaacssohn.
Charles acenou em direção ao écran da TV.
— Isto é o Número Três?
— Possivelmente. Há mais alguma coisa que lhe pareça
estranha?
Charles hesitou. Dinkuhl fez um gesto largo em direção ao
écran vazio. Disse de forma encorajadora:
— Continue. Não me parece que esteja a deixar escapar
qualquer coisa de importante. A questão é perfeitamente
evidente.
— O laboratório não estava lá muito bem protegido. Todos os
relatórios de Isaacssohn estavam lá arquivados. Admito que,
a princípio, fiquei um bocado confuso, mas logo que Sarah
me explicou o trabalho de Isaacssohn, as coisas começaram a
fazer sentido. Bom, então estes indivíduos que mostram
tanto interesse no caso — acho que devem saber em que é
que estão interessados! Nesse caso, porque é que não tiraram
simplesmente os relatórios? O trabalho ê simples. Eles
próprios o podiam fazer. No que me diz respeito, limitei-me
a seguir durante uma semana aquilo que Isaacssohn
começara. Porque é que me quiseram a mm?
— Esse — disse Dinkuhl — é na realidade o ponto crucial.
Que é que o torna importante — suficientemente
importante para ser tratado de forma tão circunspecta pelo
seu próprio gestor, para que o meu pequeno grupo
subversivo lhe ofereça conforto e um auxílio substancial e
para que seja agora tratado com benevolência, ainda que
prisioneiro da Interplanetária?
Charles lançou-lhe um olhar. Dinkuhl disse calmamente:
— Não vale a pena deixá-los convencer de que somos
completamente parvos. Não consigo perceber porque é que
estão tão preocupados em não mostrar quaisquer insígnias,
mas isso não deve passar de uma medida temporária para
aumentar a confusão. Não podiam esperar que nos
mantivéssemos cegos por muito tempo à explicação óbvia
daquilo que nos rodeia. Um cargueiro do tipo 7, segundo me
parece, mas isso é irrelevante.
— E que ainda está no fosso — disse Charles. — E
francamente não percebo para quê. A Interplanetária tem
escritórios e apartamentos próprios. Podíamos facilmente ter
sido levados para um desses lugares, onde não teríamos
conseguido chegar à conclusão que acaba de mencionar.
Para quê enfiar-nos numa nave espacial, em terra, onde era
inevitável que viéssemos c criar suspeitas?
— Sim, porquê? — disse Dinkuhl. — Só vejo uma razão. Só
vejo uma única razão, mas ao mesmo tempo uma boa razão.
A nave não deve ficar em terra. Se for como penso, neste
mesmo momento, estão a preparar a partida. O que é uma
medida bastante óbvia. Você representa uma propriedade
valiosa; o melhor sítio para o guardar é de longe aquele onde
a Interplanetária é a organização mais forte — Luna City.
Dado que o tráfego entre a Terra e a Lua é monopólio seu,
podem estar razoavelmente certos de que você ficará lá
enquanto eles quiserem.
Era uma idéia obviamente razoável, mas ao mesmo tempo
bastante sombria. O homem que tinha estado na estação da
IQR em Tycho traçara um quadro pouco agradável da vida
na Lua e não estivera prisioneiro. Enquanto a Interplanetária
quisesse, não haveria licenças anuais para Charles.
Dinkuhl interrompeu-lhe os pensamentos.
— Estamos a afastar-nos da questão da sua importância. É
evidente que você é importante e também, como você
mesmo disse, que a sua importância não reside em nenhum
fato que você conheça. Que é que nos resta então?
Charles disse:
— O quê, afinal?
— O geral, não o particular. O seu espírito e as suas
capacidades. Na verdade, você é o O'Reilly de quem eles
falam com tanta consideração. — Dinkuhl teve um sorriso
pálido. — Gorblimey, O'Reilly, são nomes que lhe ficam
bem.
— Acho isso tudo um disparate. Dezesseis anos de trabalho
de rotina num laboratório não tornam um tipo
indispensável. Além disso, o problema não é grande. Não
me parece que ofereça dificuldades insuperáveis a quem
quer que seja.
— Primeiro ponto — disse Dinkuhl. — Esses dezesseis anos
foram um erro. Voltaremos a isso dentro de momentos.
Segundo ponto. Eu poderia mostrar-lhe um pequeno
problema, ligado ao uso do microfone e da câmara, que o
deixaria espantado e em branco. Não é um problema
excepcionalmente difícil, mas você não chegaria lá porque
lhe falta a orientação básica. Os problemas parecem fáceis a
quem tiver uma idéia de como os resolver; se não tiver o
espírito e a formação necessários, eles tornam-se
insuperáveis.
Charles disse com ar tolerante:
- E eu sou o rapaz dos olhos azuis — o único que consegue
partir a noz? É uma estranha coincidência que nos
tivéssemos juntado os três — Isaacssohn, Sarah e eu.
— Isaacssohn e Sarah Cohn — disse Dinkuhl — eram
israelitas. Foi de certa maneira uma coincidência que o
tivessem mandado a si para o lugar de Isaacssohn, mas uma
coincidência limitada. Voltamos agora à questão dos
dezesseis anos passados em Saginaw em pesquisas de rotina.
A coincidência verificou-se quando, depois de o P & M ter
cometido o seu erro empurrando-o para o esquadrão D —
quantas coisas nós todos sabemos a seu respeito, Charlie! —
você tivesse sido posto, inteiramente por acaso, a trabalhar
com diamantes, a mesma substância com a qual Isaacssohn
havia de realizar grandes coisas quinze anos mais tarde.
Dinkuhl olhou para ele especulativamente.
— Pergunto a mim mesmo porque é que não fez você
mesmo qualquer coisa de grande?
Charlie disse:
— O meu trabalho estava programado. Tanto quanto me
parece, Isaacssohn tinha pulso livre. Só dessa forma se
consegue fazer alguma coisa de importante.
— E, à parte Isaacssohn, conhece alguém a quem tenha sido
dado pulso livre na investigação?
— Apenas conheço Saginaw. Aí ninguém tinha pulso livre.
— Não há pulsos livres, seja onde for, Charlie. Nem importa
que sejam livres ou não, porque também não fariam nada.
Sim, você podia tê-lo feito, mas você era uma exceção. Você
era o grande erro do P & M. Se o seu psicoplano tivesse sido
devidamente preparado, você começaria por não estar na
investigação. Estaria a cumprir o seu dever como
administrador. Ao lado de Ledbetter e dos outros.
Charles disse:
— Provavelmente. Você quer dizer...
— Há muito tempo que ando a tentar dizer-lho — disse
Dinkuhl. — O sistema de gestão está morto. Feio de se. E,
até certo ponto, morto pelos seus próprios méritos.
Desenvolveu um sistema hábil para escolher os melhores
cérebros e dar-lhes os empregos chorudos, mas aqui
esbarrou com uma pequena anomalia — é que os empregos
chorudos, seja em que forma de sociedade for, vão sempre
para os postos administrativos, os postos que envolvem o
poder do homem sobre o homem. A ciência não entra nesse
belo esquema; nunca entrou. Na melhor das hipóteses,
durante o capitalismo, criou uma hierarquia que engrenava
com a sociedade que a rodeava. Os cientistas faziam bom
trabalho enquanto eram novos, instalando-se em empregos
chorudos lá para o fim da vida. O homem que fora um físico
brilhante por volta dos trinta ou trinta e cinco anos de idade,
aos cinqüenta já tinha abandonado a física e ocupava um
cargo burocrático de primeira plana.
- Tudo isto era muito satisfatório — porque a geração mais
nova podia sempre avançar e ocupar os lugares deixados
livres pelas promoções — para realizar o verdadeiro trabalho
que fazia progredir a ciência. Estes, por sua vez, executavam
o seu trabalho e passavam para uma burocracia bem paga,
acompanhada de um título ou de qualquer outra distinção
sem significado, mas ardentemente desejada. Mas vejamos
agora a organização do sistema de gestão: treino e
condicionamento básicos e fortemente disciplinares até ao
momento da formatura. Segue-se a especialização. Muito
eficiente. Demasiado eficiente. Porque no mundo da gestão
pareceria inútil treinar um homem na ciência a menos que
ele devesse passar o resto da vida nesse campo; e, depois de
treinado numa disciplina científica, tomavam todas as
precauções para que se dedicasse a isso e a nada mais.
Compreende?
Charles disse:
— Podia resultar, se as recompensas fossem calculadas com
justeza.
— E quem é que calcula as recompensas? — perguntou
Dinkuhl. — Os administradores. As pessoas têm sempre
tendência para considerar o seu próprio trabalho como
particularmente importante e valioso, mas quando esse
trabalho implica mandar os outros fazer coisas, a sua auto-
satisfação é incontrolável. Uma das razões por que o
capitalismo foi tão frutífero é que, neste sistema, os
administradores não formavam um corpo governativo
coeso. O dinheiro e o poder do dinheiro saíam dos cantos
mais inesperados. Hoje em dia temos a corrente sob
controlo e, embora as organizações sejam diferentes entre si,
todas seguem o mesmo esquema geral. Os administradores
estão firmemente plantados na sela e, como é natural,
perpetuam a sua própria supremacia.
- Os seus próprios filhos constituem o esquadrão A, mesmo
que os seus psicoplanos indiquem que estão à beira da
imbecilidade. Mas de qualquer forma, a média de
inteligência transmitida está acima dos valores médios e,
tratando-se de uma classe governante garantida, têm famílias
mais pequenas que os outros. A restante parte do esquadrão
A, juntamente com o esquadrão B, é formada pelos Q1
elevados recolhidos entre a população em geral. Mostre uma
inteligência acima da média e será administrador. Exceto,
claro, quando o P & M comete algum erro.
Charles disse:
— Sempre nos disseram que os psicoplanos testavam as
aptidões.
— Sim, também. Mas as aptidões são muito condicionais. O
homem que daria um cientista de primeira daria também um
administrador de primeira, se recebesse o treino necessário.
Não subestimes o gênio administrativo. Não gostaria de lhe
dar a impressão de que a situação atual poderia tornar-se boa,
simplesmente se invertêssemos as camadas superiores —
fazendo dos rapazes mais espertos cientistas e engenheiros e
dos menos espertos funcionários do governo. O mais pro-
vável seria que a situação daí resultante viesse a ser ainda
mais horrível do que a que nos rodeia.
— Hã uma coisa — disse Charles. — Você tem estado a
analisar a situação. Imagino que os dirigentes das diferentes
organizações tenham feito análises semelhantes no passado.
Porque é que não tomaram qualquer iniciativa? Para quê
esperar até cairmos nesta situação e começar depois a
esgravatar o fundo do barril, à procura de alguém que esteja
à altura de a resolver?
Dinkuhl puxou de um maço de cigarros, pegou num e atirou
outro para Charles. Os seus olhos vaguearam rapidamente
pela sala. Depois meteu a mão na algibeira e tirou um
isqueiro automático. Acenderam os cigarros.
— Porque é que eles não fizeram nada? — ecoou Dinkuhl —
Porque é uma reação humana não fazer nada. Todas as crises
que convulsionaram a humanidade no passado se tornaram
evidentes de antemão, A escrita estava lá para ser lida, mas
quando as pessoas queriam lê-la, tratavam-na como uma
coisa sem importância. Neste caso, o estado das coisas era
particularmente cômodo. O sistema de gestão detinha um
mundo seguro e sem problemas. Individualmente, as
diferentes organizações devem ter tido momentos em que
foram distraídas por pensamentos tentadores de supremacia
mundial e, numa ou noutra Conferência de Gestores, pode
mesmo ter sido expresso o pensamento de que uma política
de seleção diferente poderia ser a maneira de dar a uma
organização o impulso que lhe permitiria dominar e engolir
as outras.
»Mas, à parte esse fato, a tentação nunca foi suficientemente
forte para que valesse a pena ocuparem-se dela, nem das
modificações que traria consigo. Há lealdades sociais, bem
como empresariais, que se podem digladiar. Lembro-me de
ter reparado no seu desagrado, Charlie, quando viu
indivíduos de organizações diferentes sentados ao lado uns
dos outros no encontro da Seita do Cometa. Trata-se de um
reflexo condicionado e julgo que você próprio
compreenderá que é assim. Mas o condicionamento não se
aplica aos grandes: entendem-se todos muito bem.
— Encontra-se qualquer coisa de semelhante a esta lealdade
dividida, no período de crise dos fins do capitalismo. Aí, o
nacionalismo era o primeiro dever oficial e grupos diferentes
de governantes nacionais pensavam entrar em guerra uns
com os outros, com serenidade e mesmo com entusiasmo.
Mas quanto mais provável se tornava que as guerras trariam
como conseqüência grandes mudanças de ordem social,
mais o seu entusiasmo diminuía. De fato, estavam a ser
forçados à guerra pelas camadas inferiores, onde o
condicionamento fora mais forte.
Charles disse:
— E agora vão ter de fazer qualquer coisa — pelo menos, no
que diz respeito à ciência.
— Agora — disse Dinkhul — fazem apenas uma coisa —
lutam pelo instrumento de domínio que foi lançado para a
arena. Qual é a resposta? Alguém o agarrará. Se forem os
primeiros, teremos um controle mundial centralizado. Se
forem os últimos, teremos uma hierarquia mais reduzida e
mais apertada ou então uma luta sangrenta da qual um
poderá sair vitorioso. Pode confiar no sistema de gestão no
que diz respeito à astúcia política — acho que ao fim e ao
cabo tudo se arranjará por meios pacíficos.
— E então?
— Então os gestores acalmarão e saborearão novamente as
suas posições. Para que hão de eles fazer alterações num
conjunto de coisas tão satisfatório?
— Satisfatório!
Dinkuhl deitou-lhe um olhar perspicaz.
— Você assim pensava.
Charles sorriu cauteloso:
— Debaixo de condicionamento.
— Estamos todos condicionados — eles também. Nove
décimos de tudo o que fazem situa-se a nível inconsciente.
Quando uma forma de sociedade se tornou moribunda, só
um louco pode esperar fazê-la reviver. O ato mais generoso
que se pode fazer é espetar-lhe uma faca entre as costelas.
Pode ser necessário fazê-lo mais de uma vez para conseguir
traspassar o excesso de gordura, mas cada golpe faz perder
um pouco mais de sangue. No fim, morre — talvez de uma
maneira diferente, mas a sua contribuição terá dado uma
ajuda.
— E depois?
Dinkuhl encolheu os ombros.
— Não sou Deus. Outra forma de sociedade. As pistas têm
estado a tornar-se mais curtas. Economias de escravatura que
duraram sabe Deus quanto tempo. Feudalismo durante cerca
de oitocentos anos. E agora num espaço de tempo não muito
superior a um século assistimos ao fim do sistema de gestão.
Não sei o que virá a seguir. Talvez o dilúvio.
— Mas para quê destruir sem ter nada para oferecer?
— Há coisas que precisam ser destruídas. Devemos pôr fim à
sua miséria. — Dinkuhl sorriu. — É por isso que eu
simpatizo consigo, Charlie. Você é o tipo de bomba do
tempo que eles não podem impedir que aconteça. Você,
Isaacssohn, Sarah Cohn. E eles vão ter de fazer qualquer
coisa a respeito de Israel mais tarde ou mais cedo. Parece-me
que eles começam a entrever que têm ali um pequeno foco
de infecção, agora que os israelitas estão a começar a arranjar
tempo para mais alguma coisa que não seja a produção de
gêneros alimentícios. Mas não faz diferença. Haverá sempre
um como você, diferente, um que fará ranger os rolamentos
bem polidos.
— Areia nos rolamentos. Não consigo imaginar papel mais
confortável.
Dinkuhl olhou em volta por momentos, depois curvou-se e
esmagou a ponta dó cigarro de encontro ao painel de
controlo do écran de televisão.
— Sim, você deve considerar a sua situação pessoal. Bom, os
nossos amigos da Interplanetária que me deixaram mostrar a
minha indignação perante o mundo em geral durante tanto
tempo, devem estar a aparecer com uma boa oferta para si.
Deve compreender que — se pudessem ter a certeza de
conseguirem desembaraçar-se igualmente de Isaacssohn e
de Sarah Cohn — seria mais prático para eles eliminá-lo a si,
pura e simplesmente. Um pouco curto de vista, mas, como
tenho estado a tentar explicar-lhe, são todos
incorrigivelmente míopes. O que é um fato é que não
podem. Pelo menos, por agora.
Dinkuhl olhou pensativamente em direção ao écran de TV
situado na parede mais próxima.
— Seria mais alegre, claro, podermos eliminar a possibilidade
de a hierarquia já estar formada antes de a arma se
materializar. Segundo o seu ponto de vista — Interplanetária
e quem quer que seja que detém as outras duas —, essa
poderia ser uma solução mais simples. Deve ter- -lhes
ocorrido. Nesse caso, tornar-vos-íeis todos dispens...
Dinkuhl interrompeu o que estava a dizer. O écran ganhava
vida. Dinkuhl teve um riso abafado.
— Eu pensei que isso era capaz de os fazer aparecer.
A expressão de Ellecott estava um tanto perturbada. Era
evidente que fazia um esforço para se controlar; o mesmo
sorriso leve nas feições largas.
Disse:
— Devo dizer que as minhas observações, a menos que haja
alguma indicação em contrário, ser-lhe-ão dirigidas a si,
Funcionário Grayner. Quis voltar a ver Dinkuhl e os seus
desejos têm um lugar especial na nossa lista de prioridades.
Dinkuhl em si não tem qualquer importância para nós.
Dinkuhl fez uma ligeira vênia.
— Deve faltar-lhe um cartão de membro de uma empresa.
No entanto...
Ellecott interrompeu-o.
— Dinkuhl tem dito algumas coisas certas e uma data de
disparates. Não vou pedir desculpa por termos estado à
escuta; espero que compreenda que era necessário, dadas as
circunstâncias. É absolutamente verdade que estão agora nas
mãos da Interplanetária. Ellecott sacudiu com um dedo o
pequeno foguetão-emblema que trazia no peito. — Pusemo-
los de lado como precaução de rotina até as possibilidades de
você vir a ser recuperado terem sido inteiramente postas de
lado. Estão num cargueiro tipo 7, como disse Dinkuhl.
— Em que fosso? — perguntou Charles.
Ellecott hesitou.
— Imagino que também não faz mal dizer-lhe isso agora.
Toledo.
— Lar, doce lar — murmurou Dinkuhl. — Continuamos na
cintura de veneno.
— As observações de Dinkuhl acerca da sua importância —
prosseguiu Ellecott — são absolutamente válidas. Há de ver,
Funcionário Grayner, que estamos a ser absolutamente
sinceros consigo. Permitimos que Dinkuhl lhe dissesse tudo
isso, embora, como compreende, não precisássemos de o
fazer, e agora confirmamos tudo. Você é muito importante,
não apenas para a Interplanetária, como para todo o mundo.
— Onde estão Isaacssohn e Sarah Cohn? — perguntou
Charles.
— Não sabemos — ainda. Chegamos à conclusão — em
grande parte devido ao estranho intervalo que medeou entre
as suas desaparições — de que não estão nas mesmas mãos.
Temos uma boa Seção de Contacto e eles estão a trabalhar
no caso. Será uma grande ajuda quando o tivermos a salvo
em Luna City. Podemos então deixar que se espalhe o rumor
de que o temos a si. Isso pode trazer novidades.
— Não estou lá muito encantado com a idéia de Luna City —
disse Charles. — É essencial?
— Infelizmente. Luna City é o nosso posto avançado. Somos
a única organização com uma base fora do planeta e
menciono o fato apenas para lhe provar que a nossa atitude é
fundamentalmente pacífica e responsável e que a
Interplanetária nunca tentou usar o poder que daí lhe
advinha. Poderíamos retirar as nossas bases do planeta, que
são relativamente pequenas, e destruir as cidades mais
importantes num espaço de vinte e quatro horas, usando as
nossas estações espaciais. Nunca encaramos essa
possibilidade.
Dinkuhl murmurou:
— Pergunto a mim mesmo se o fato de as outras
organizações manterem os fornecimentos vitais da
Interplanetária na base das quantidades mínimas necessárias
terá alguma coisa a ver com isso?
Ellecott ignorou-o.
— A interplanetária foi fundada para levar o homem às
estrelas. Há muito que nos sentimos perturbados com o
caminho que as coisas levam e propomo-nos usar a nossa
influência para mudar a situação. Mas o problema imediato e
urgente é a questão da energia solar acumulada no diamante.
Este pode ser usado, como sabe, como uma pequena bateria
portátil, mas muito poderosa. Pode também ser usado como
arma, mediante umas ligeiras modificações.
— Isso não me tinha escapado — disse Charles.
Ellecott inclinou-se para a frente em direção às câmaras,
acentuando a importância do que tinha para dizer.
— Há algumas organizações que teriam feito mau uso de tal
fonte de energia e de tal arma. Uma dessas mesmas
organizações pode ser neste momento a detentora de
Isaacssohn ou de Sarah Cohn ou ambos. Precisamos da sua
ajuda, Funcionário Grayner, para não nos deixarmos
ultrapassar por ela ou por elas. Com a sua ajuda, podemos
manter a paz. Sem ela, surge a perspectiva de uma guerra
civil, bárbara e confusa e talvez mesmo, em última análise,
de uma tirania.
— A oferta — disse Dinkuhl, impaciente. — Vamos à oferta,
homem. Venha o cheiro da massa.
— A continuidade da segurança de Dinkuhl é um dos
aspectos de menor importância — disse Ellecott. — Um
homem que é acusado de atos subversivos para com o
sistema de gestão pode pedir a imunidade apelando para a
sua própria organização; imunidade essa que não é aplicável
a Dinkuhl, pois ele não pertence a nenhuma organização.
Normalmente, há boas razões para não se recorrer a essa
cláusula, mas quando as coisas se podem arranjar
particularmente é diferente.
Os pequenos olhos encovados de Ellecott fixaram-se em
Dinkuhl enquanto este falava; o sorriso pálido revirou-lhe os
lábios para cima.
— Não confie neles — disse Dinkuhl. — Aviso do cigano.
Pela minha parte não se trata de galantaria à moda da antiga
Roma, mas de realismo.
As atenções de Ellecott dirigiram-se novamente para
Charles.
— Um aspecto de menor importância. No que diz respeito
ao seu futuro, propomos confirmá-lo diretor desta
organização e membro do Conselho de Gestão. Ser-lhe-á
dado pulso livre no seu trabalho, primeiro em Luna City,
mas dentro em breve, segundo esperamos, dentro de
condições a fixar por si, aqui na Terra. Depois de controlada
a crise atual, você será encarregado do desenvolvimento
científico e — como compreende, nessa altura, é inevitável
que a Interplanetária tenha ascendido a uma posição de
supremacia entre todas as organizações.
— Meu caro Charlie — disse Dinkuhl —, é uma oferta entre
um milhão. Terá tudo o que quiser e, quando tudo estiver
acabado, junta- -se aos administradores. Vai meter os seus
filhos na ciência? Aí tem um lindo problema para resolver!
Ellecott disse:
— Estamos a ser muito pacientes com Dinkuhl, mas deve
compreender que há limites para essa paciência da nossa
parte. A nossa oferta parece-nos boa e bastante atraente.
Esperamos que concorde em a aceitar.
— E se eu não aceitar?
Ellecott sorriu.
— De um ponto de vista meramente acadêmico, podemos
considerar essa hipótese. Irá à mesma para Luna City, claro,
porque à nossa grande preocupação em conseguir que
trabalhe para nós junta-se a preocupação menor de impedir
que trabalhe para qualquer outra organização. Não está em
causa que possamos vir a exercer qualquer vingança contra
si. Será tratado como os prisioneiros de guerra noutros
tempos. Isso quer dizer que estará confinado e não terá
privilégios. Esperaríamos, no entanto, que acabasse por se
submeter ao bom senso e mudasse de idéias.
— Duvido — disse Charles. — Não quero mostrar-me
dogmático, mas não me parece que tivessem sorte nisso.
Ainda conservo alguns sentimentos de lealdade, incômodos
e estranhos. Não me seria fácil sentir-me à vontade noutra
organização, e parece-me que o desconforto da
culpabilidade seria capaz de pesar mais do que o da prisão.
— Bravo para as classes inferiores — disse Dinkuhl.
— Ellecott inclinou para trás a cabeça avantajada, apoiando-a
bem nos ombros possantes.
— Tem idéia de alguma coisa que pudesse ajudar a anular os
seus sentimentos de culpabilidade? Estamos preparados para
nos darmos a esforços consideráveis no sentido de o ajudar,
se isso nos for possível.
Não sabiam onde estava Sarah. Sem dúvida que prometiam ir
buscá-la se ele colaborasse; mas de qualquer forma
empregariam todos os esforços para a procurar a ela e a
Isaacssohn, para os seus próprios fins. Pensou na observação
de Ellecott, analisando o tom e o sorriso manhoso que a
acompanhara e que ele fazia repetidamente. Se tiver vícios
prepare-se para se dedicar agora a eles. Não podia negar que
a sugestão era poderosamente atraente; o problema era que
ele já estava demasiado velho ou demasiado dominado pela
consciência para aceitar os seus vícios como companheiros
agradáveis em vez de inimigos bajuladores. Além disso,
estava apaixonado.
— Não consigo lembrar-me de nada — disse Charles.
Hesitou. Talvez não fosse um bom princípio meter-se num
beco sem saída. — Há alguma razão que o impeça de me dar
tempo para considerar a questão?
— Todo o tempo que quiser — disse Ellecott. Levantou o
dedo e olhou para ele. — A título meramente informativo,
esta nave parte dentro de três horas. Mas você terá todo o
tempo da viagem até à Lua para pensar no caso.
Era a suavidade de Ellecott, mais do qualquer outra coisa,
que irritava Charles. Nada os iria demover do caminho que
haviam traçado. E estavam seguros de que, no fim, ele
acabaria por se juntar a eles.
Disse secamente:
— Não faz mal. Não preciso de tempo. A resposta é não. Não
gosto de ser forçado a fazer parte de uma organização.
Ellecott sacudiu a cabeça.
— Foi melhor enquanto você não se mostrou dogmático.
Conheço um tipo em Luna City, de nome Morrison. Estava
integrado no Projeto de Desenvolvimento. Fizeram-lhe o
exame médico de rotina antes de ele voltar para a Terra e
descobriram que arranjara um problema de coração pouco
usual num indivíduo da sua idade. P & M não lhe passaram a
autorização de regresso — não podiam. Ele não tinha uma
probabilidade em dez milhões de sobreviver à descolagem.
De resto, estava bem; como sabe, um coração doente
funciona melhor lá em cima.
Ellecott sorriu, com o seu desagradável sorriso pálido.
— Isto foi há quarenta e seis anos — ele tinha apenas vinte e
cinco anos nessa altura. Quarenta e seis anos numa cidade
subterrânea, com uma área de cerca de um quarto de milha
quadrada, rodeada de falta de ar e morte. Quarenta e seis
anos de concentrados de comida e aquele conjunto de
árvores doentes e esparsas que muitas pessoas acham piores
do que não ter vegetação.
A história era bastante horrível; Charles ouvira falar de
Morrison ao homem da IQR que estivera em Tycho. Mas
ainda mais horrível era o prazer que Ellecott sentia em
exercer o seu sadismo, embora em grau limitado. Devia ter-
se sentido muito retraído durante a conversação anterior.
Como Charles não desse qualquer resposta, Ellecott
continuou:
— E continua em forma — em boa forma física. O único
problema é que enlouqueceu há mais de vinte anos.
Descobriram isso quando ele foi direito às árvores com um
machado.
Dinkuhl disse:
— E assim termina a nossa história de hoje. Estava capaz de o
apresentar no FK, Ellecott.
Ellecott concordou em reparar novamente nele.
— Dinkuhl — disse, quase com gentileza —, o FK não
existe. No seu lugar empregaria os próximos dias a exercer as
suas bem conhecidas artes de persuasão sobre este nosso
amigo. Para o bem de ambos.
— Se estivesse no meu lugar — disse Dinkuhl em tom
prazenteiro —, cuspiria na sua própria cara, quando tivesse
oportunidade.
«Ellecott permaneceu imperturbável», pensou Charles,
«provavelmente porque tivera a oportunidade de se
satisfazer a antecipava as ocasiões em que isso voltaria a ser
possível.»
Ellecott disse:
— Proponho deixá-los sozinhos agora. Serão vigiados por
mim ou por um dos meus assistentes. A porta do canto não
está fechada e dá para a casa de banho. Os microfones e as
câmaras ali instalados não serão ligados, a menos que
cometam a insensatez de recolher ali para trocar impressões.
Não tentem também levar convosco qualquer coisa com
vistas a deixar uma mensagem para o outro. Parece-me que é
tudo. Dentro de momentos enviar-lhes-emos de comer e de
beber. Mais alguma coisa?
Charles bateu nas faces mais cheias que agora tinha.
— Parece-me que não vale a pena continuar a parecer outra
pessoa. Pode mandar as coisas necessárias para Hiram me
retirar a maquilagem e lavar-me o cabelo para voltar a ficar
com a cor normal?
Ellecott teve um riso breve e a sua voz ergueu-se de uma
oitava nessa altura.
— Que pena! Acho que o seu novo aspecto lhe fica muito
melhor. Charles Macintosh — o que a Genética arranjou
sem se dar conta. Não se sente culpado?
— Eu tinha um fim em vista — disse Charles. — E tratava-se
de uma situação temporária. Pode mandar-nos as coisas?
— Nós tratamos disso; temos pessoal muito bom para
trabalhar com cosméticos. Vou mandar alguém buscá-lo.
Sorriu. Desta vez é permanente.
Quando Charles voltou, depois de lhe retirarem a
maquilagem, pinkuhl estava a ver televisão. Desligou o som,
mas deixou as imagens continuarem a deslocar-se na parede.
— Em Luna City — afirmou — têm apenas um canal de
televisão. Um derivado enlatado da Liga Vermelha, Doçura,
Conforto Brilhante e todas as banalidades das estações locais.
Era dirigida por um tipo de nome Schmidt. Recorrera uma
vez à FK — acho que alguém o pôs em contato conosco por
piada. Ele queria dar uma vista de olhos pelos programas que
tínhamos preparados. Mandei-lhos. Ele respondeu que havia
um único título que lhe parecia interessante — «O
Cocktail». Mas como não se lembrava de ter visto o nome
do autor em quaisquer programas das principais estações de
televisão, pedia-me se lhe podia dar uma idéia do gênero de
coisa que o Funcionário Eliot tinha escrito. Tratava-se de
uma exibição de pernas, por exemplo?
— Que é que lhe disse?
— Não lhe disse nada. Mandei-lhe a peça enlatada, sem
comentários. Recebi-a de volta no foguetão seguinte. Não
era bem o que ele queria. Se eu tinha algumas exibições de
pernas...
— Alegre-se. Ainda pode vir a dirigir a estação de televisão
de Luna City; se viver até lá.
Dinkuhl gemeu.
— Pioneiros, oh, pioneiros! Mas não me parece que chegue a
fazê-lo. Bom, deixe-me vê-lo bem, Charlie. Bom, continuo a
pensar que estava melhor quando eu o arranjei. No entanto,
acho que não há nada a fazer quanto aos gostos.
— Talvez fosse decorativo, mas não servia nenhum fim
prático, pois não? A propósito seria interessante saber como
é que a Interplanetária me descobriu o rasto tão depressa.
— É interessante, mas não é evidente, como os grandes
detetives costumavam dizer. Terá de perguntar ao Ellecott
em qualquer altura. Vai ter muito tempo para isso.
— Tempo. — Charles olhou para o relógio que tinha no
dedo. — Devemos descolar dentro de hora e meia. Penso
que o Ellecott ainda deve vir dar-nos algumas instruções
antes disso. Nem sequer sei fixar o diabo das redes.
— Descolar — disse Dinkuhl, pensativo. — Pergunto a mim
mesmo como é que vão fazer? Engenhoso.
Charles ecoou:
— Engenhoso? Que é que é engenhoso? É um trabalho a que
estão habituados.
Dinkuhl disse:
— Esqueça. Por vezes, o meu espírito vagueia. Sim, estou
convencido de que Ellecott vai entrar em contacto conosco
nos próximos noventa minutos. Entretanto, aproveitemos o
tempo o melhor que podemos e vejamos o que é que a Liga
Vermelha tem para aos oferecer como mensagem de
despedida do planeta Terra.
Abriu o som. Era uma peça. As ramificações do que se
passara anteriormente tornaram-se evidentes em pouco
tempo: Ela, a filha de um gestor da Secção Atômica, e Ele,
filho de um gestor dos Aços. Tinham-se encontrado num
piquenique na atmosfera e, sendo ambos jovens, tinham-se
julgado apaixonados. Os respectivos pais eram tolerantes,
mas abanaram as cabeças. E quando chegou a altura de lhes
serem apresentados os fatos, a ele que teria de cortar com a
família e os amigos, que desistir do lugar de assistente na
nova fábrica de redução de tungstênio e solicitar um lugar na
Secção Atômica.... a ela que teria de entregar o emblema da
Secção Atômica que o bisavô recebera das mãos do próprio
Van Mark... nessa altura parecia que nada mais restava para
eles senão miséria, por todos os lados.
Por sorte, a sua felicidade iria ser preservada. Ela, viajando
desesperadamente pela atmosfera, para se distrair do seu
desgosto, encontrou-se com a sua esfera avariada, perdida
nas montanhas selvagens do Connecticut. O rádio deixara
igualmente de funcionar... a noite caía. Nesse momento,
numa esfera que saiu como um balão dourado da luz do sol
poente, apareceu o seu salvador. Era mais alto que o homem
dos aços e tinha um cabelo que se coadunava com o estilo
de apanhado louro que era então a moda. E enquanto ele
caminhava em direção à rapariga, as câmaras aproximaram-
se para um grande plano do peito dele, focando, do lado
direito, um emblema da Seção Atômica.
Quanto a Ele, os seus problemas levaram-no não a passear
no espaço, mas a procurar um psiquiatra. E a enfermeira do
psiquiatra era pequena, morena e simpática. (Sendo a Psico
& Med, dentro de certa medida, igual perante todas as
organizações, constituía uma das raras exceções a proibição
dos casamentos mistos.) Não foi preciso muito tempo para
que ele tivesse trocado a almofada de ar do divã do psiquiatra
pelos seios da enfermeira, como lugar de repouso para a sua
cabeça jovem e perturbada.
— De uma almofada de ar para outra almofada de ar —
comentou Dinkuhl cinicamente. — Por acaso conheço a
rapariga.
— Desligo? — sugeriu Charles.
— Não. Deixe estar. Torturar-me com estes programas foi
sempre um dos meus passatempos favoritos. Quando penso
no dinheiro que gastam para apresentar este tipo de coisas,
sinto o estomago dar uma volta, mas ao mesmo tempo fico
fascinado. A propósito da rapariga, a enfermeira. Tive-a a
trabalhar no FK quando ela era atriz apenas nas horas vagas.
Tem piada que, nessa altura, ela estava na P & M, como
escriturária. Tinha qualidades. Dei-lhe um papel no Romeu e
Julieta há uns anos.
— Eu vi a peça — disse Charles. — Era boa. Aquela não era a
rapariga que fazia a Julieta?
— Essa mesma. E agora olhe para ela — a trabalhar com
peito postiço e uma voz melada que eu passei horas a tentar
corrigir. E a fazer papéis destes.
— É isso que o público quer.
— Não! — suplicou Dinkuhl. — Não me faça trocar a minha
habitual tristeza, cheia de apreensões, por um verdadeiro
desespero, lembrando-me esse fato.
O écran desligou e passados poucos segundos surgiu o rosto
de Ellecott. Parecia muito perturbado.
— É necessário fazer algumas alterações. A partida terá lugar
mais cedo do que esperávamos; praticamente de seguida.
Instalem-se nas redes.
Charles abanou a cabeça.
— Não sabemos montá-las.
— Vou mandar aí alguém para...
Charles e Dinkuhl viram o rosto de Ellecott transfigurado, a
boca aberta, os olhos fixos, momentos antes de a cabeça lhe
cair sobre a secretária. O écran mostrou-lhe o alto da cabeça,
com uma careca incongruente ao centro.
— Cá estamos outra vez — disse Dinkuhl.
— Que é...
— Não fale. Respire fundo. Continue. Com o astarate, quanto
mais depressa se perdem os sentidos, mais leves são os
efeitos posteriores. Em que mãos teremos caído agora?
CAPÍTULO V
Depois de ter tido consciência da macieza dos lençóis e de
um fundo de vozes abafadas, Charles acordou mais
completamente para o som de uma voz familiar.
Ledbetter dizia:
— Sim. Parece-me que está a voltar a si. Tem a neuraspirina à
mão, enfermeira? Ajude-me a levantá-lo.
Quando ficou sentado, piscou os olhos perante o brilho forte
da luz do sol através das paredes de plaspex. A enfermeira
deu-lhe os comprimidos de neuraspirina e ele engoliu-os
com água. A dor começou a abrandar. Disse para Ledbetter:
— Dinkuhl?
Ledbetter sorriu.
— Está mesmo ao seu lado. Ainda não voltou a si. Mas
parece-me que começa a mexer-se. Mais neuraspirina,
enfermeira.
Dinkuhl olhou em volta.
— Ainda não sei ... Ledbetter! Raios me partam!
Ledbetter disse:
— Tenho de pedir desculpa aos dois por os ter narcotizado
com astarate, sobretudo que foi a segunda vez em vinte e
quatro horas. Mas não tinha outra alternativa. Era necessário
agir depressa.
— Estavam a preparar-se para sair antes da hora — disse
Charles. — Isso deve querer dizer que sabiam que a brigada
de salvamento ia a caminho.
— Mas o que não sabiam era que já estava tão perto — disse
Ledbetter. — Até a notória eficiência da Interplanetária nem
sempre consegue os seus fins. Nós conseguimos aproximar-
nos e partir algumas cápsulas de astarate nas condutas de
entrada de ar. E foi mesmo a tempo. Se estavam a preparar-
se para descolar, deviam estar prestes a mudar para o
controlo interno do ar.
Dinkuhl estava a olhar para Ledbetter com uma expressão de
espanto. Ledbetter notou-o.
— Que é que o preocupa?
Dinkuhl hesitou. Depois abanou a cabeça com um sorriso.
— Acho que as suas doses de astarate me afetaram o cérebro.
Que é que fizeram com o Ellecott e os outros todos?
— Deixamo-los. Temos boas razões para não querer dar
publicidade ao caso. E também não nos parece que eles o
queiram.
— Pois não — disse Dinkuhl. — Não creio.
— Onde é que estamos neste momento, afinal? — perguntou
Charles.
— Em Vermont. Numa terra chamada Pasquin.
— A uma boa distância de Detroit — comentou Dinkuhl.
— Você dormiu durante toda a viagem.
Charles estivera a olhar através das paredes de plaspex do
quarto em que se encontravam. A vista deitava para um
jardim ornamental, com um lago e, do lado esquerdo, em
cima, o que parecia ser uma queda de água. Passada a sebe
do jardim, o terreno formava um espaçoso vale, que
evidenciava o controlo da Agricultura. Ao fundo havia
colinas suaves.
— Que espécie de estabelecimento é este? — perguntou
Charles. — Não tem o toque da IQR.
— Foi a mansão de um diretor. Imagino que gostará do sítio.
Caçarolas de mármore na cozinha e escarradores de ouro na
sala. Todas as chinesices. Pelo menos, espero que goste,
porque vai ter de passar aqui algum tempo.
O alívio de Charles ao ver Ledbetter e ao encontrar-se
novamente nas mãos da sua própria organização fizera-o
esquecer as circunstâncias que tinham levado à sua captura
pela Interplanetária. De repente, lembrou-se.
Disse suavemente:
— Havia uma licença' de doença de seis meses que me era
devida. Sinto que preciso agora mais dela do que nunca.
— Cancelada — Ledbetter sorriu. — Vai ver que isto é uma
verdadeira Casa de Repouso. A propósito, chama-se «Casa de
Campo».
Charles disse:
— Tinha a impressão de que as licenças de doença não
podiam ser canceladas. Regulamento... esqueci-me do
número.
— Eu sei. Mas há sempre um regulamento que anula outro. É
uma questão acadêmica. Se o P & M lhe fizesse um novo
teste, estou convencido de que o achariam capaz de retomar
o trabalho. Mas não me parece que tenhamos de nos
preocupar com isso. Com esta história dos bilhetes para o Sul
do Pacífico, você mesmo infringiu um ou dois regu-
lamentos, além de ter mudado de cara e de cartão.
— Isso é uma ameaça?
Ledbetter abanou a cabeça, num desespero fingido.
— Pelo amor de Deus, nós não somos a Interplanetária.
Você está novamente em casa, na IQR. Não são necessárias
ameaças ou coisas semelhantes. Está com a sua própria
gente.
Dinkuhl disse:
— Desculpe-me que volte as costas a esta comovente cena
familiar.
Dinkuhl levantou-se da cama e foi direito à parede de
plaspex para ver melhor o local. Estava em camisa de noite e
Charles viu que também lhe tinham vestido uma enquanto
estivera inconsciente.
Charles disse:
— Não encontrei toda essa confiança e honestidade por parte
da minha própria gente nos últimos tempos. Conseguiram
bem convencer- -me de que o trabalho que Isaacssohn e
Sarah estavam a fazer — o trabalho que eu devia continuar
— não tinha qualquer importância. E de repente —
catrapuz! Descubro que sou suficientemente importante
para que me dêem astarate duas vezes no mesmo dia.
— Pois bem, tentamos enganá-lo — disse Ledbetter. — Mas
foi para seu próprio bem. Na nossa opinião, seria preferível
para a sua paz de espírito acreditar que Sarah Cohn estava
morta e que você devia apenas continuar um trabalho de
rotina que os seus superiores eram demasiado estúpidos para
apreciarem. Parecia-nos que você já mostrara ter o espírito
de iniciativa mais do que suficiente ao ir à procura dela e não
víamos como é que podíamos amarrá-lo ao seu trabalho —
um trabalho fundamental — se pensasse que ainda poderia
conseguir alguma coisa continuando a sua busca. Entretanto,
claro, pusemos a Seção de Contacto à procura dela, do pai e
de Isaacssohn.
— Já têm alguma pista?
Ledbetter abanou a cabeça.
— Não se esqueça de que foi apenas há dois ou três dias. Em
primeiro lugar, não tencionávamos dar-lhe licença de
doença. Tinha de o deixar ir ao P & M para o agarrar, mas já
tínhamos tudo preparado para a licença ser cancelada. Essa
dos bilhetes é que foi um trabalho bem feito!
O rosto de Ledbetter abriu-se num sorriso tênue.
Charles disse:
— Estava a pensar há bocado como é que a Interplanetária
tinha descoberto o meu rasto assim tão facilmente. O
mesmo se aplica à IQR. Como é que conseguiu descobrir-
me?
— As secções de contacto — disse Ledbetter — nem sempre
são tão incapazes como geralmente parecem. Quanto aos
seus métodos, parece-me que há um regulamento que eu
próprio tenho de tomar a sério — o Regulamento n.° 73: as
informações pormenorizadas sobre as atividades das seções
de contacto são estritamente secretas e não podem ser
divulgadas, mesmo dentro da organização — nem a um
superior ou a pedido deste. Não esqueça que tudo o que a
Interplanetária faz, nós fazemos ainda melhor.
— Está a surpreender-me — afirmou Dinkuhl do outro
extremo do quarto.
Ledbetter olhou em direção a Dinkuhl. Este estava de costas
voltadas para eles. Ledbetter piscou o olho para Charles. Era
um gesto destinado a transmitir-lhe várias coisas: bom
humor, tolerância e cumplicidade contra um indivíduo que,
apesar de tudo, não pertencia à IQR. Um tipo simpático, mas
não da IQR. Era difícil não lhe corresponder. Fazia parte de
toda a modificação do ambiente, do alívio, não apenas de ter
sido salvo e poupado à ida para Luna City, mas também, de
forma mais subtil, de estar de volta: uma confirmação de que
o mundo não era assim tão mau.
Charles sorriu-lhe.
Dinkuhl aproximou-se e sentou-se na borda da cama, com
os joelhos afastados por debaixo da camisa de noite.
— Bom — comentou. — Já temos tudo cá fora? Charlie
continua a ser o convidado que não se pode ir embora? Não
pensa mandar-lhe instalar um pequeno laboratório nas
traseiras?
Ledbetter e Charles riram-se. Ledbetter disse:
— O que acontece ... é que o material ainda aqui não está,
mas há aqui boas instalações para isso. O diretor costumava
ter aí um modelo do antigo sistema de comboios. A luz é
muito boa. Nós tratamos bem de si, Charles.
Era a primeira vez que Ledbetter o tratava pelo primeiro
nome. Charles não estava disposto a pensar muito nisso, pois
estava ainda demasiado espantado pelo fato de Ledbetter
estar a tomar a sério aquilo que ele considerara como uma
brincadeira de Dinkuhl.
Charles disse:
— Está a falar a sério? Não vou voltar para San Miguel?
Ledbetter fez um gesto negativo.
— Mas a idéia era eu voltar para lá.
— Ora vejamos — disse Ledbetter. — Os acontecimentos
recentes foram para nós uma espécie de choque.
Naturalmente que nos tínhamos dado conta de que uma ou
mais organizações tinham querido apoderar-se dos outros
dois ao ponto de se darem a grandes trabalhos para o
conseguirem. Em conseqüência disso, estávamos preparados
para tomar conta de si com o maior cuidado. Mas agora
compreendemos que temos de ser ainda mais cautelosos do
que tínhamos pensado. San Miguel está fora de questão.
Seria o mesmo que voltar a pôr o mel na árvore, onde os
ursos o tinham encontrado.
— Assim, em vez de San Miguel, temos Pasquin. Desta vez,
parece-nos que apagamos as nossas próprias pegadas. Mas
caso contrário, estaremos bem guardados. E agora receio ter
de ser um pouco desajeitado. O jardim e os terrenos à volta
— tudo estará à sua disposição logo que os nossos planos de
segurança tenham sido totalmente fixados, mas isso só
dentro de dois ou três dias. Até lá, gostaríamos que ficasse
em casa.
Dinkuhl olhou para cima, enrugando a careca; tratava-se de
um maneirismo que ele tinha explorado no FK, geralmente
quando tomava uma atitude satírica em relação a qualquer
coisa.
— Parto do princípio que não estou muito longe da verdade
quando penso que tudo o que o senhor diz para Charlie —
pelo menos, o que é negativo — se aplica também à minha
pessoa.
Ledbetter acenou com a cabeça.
— Assim é.
Dinkuhl disse:
— Portanto, Charlie pode estar de regresso ao lar, mas eu
continuo prisioneiro. O sítio é diferente, mas estou
prisioneiro.
— Podia ser pior — sugeriu Ledbetter. Dinkuhl olhou para
ele. Podia ser Luna City. Má sorte sua, Dinkuhl. Você viu-se
embrulhado numa coisa grande e não pode voltar-lhe as
costas. — Deitou um olhar especulativo a Dinkuhl. — Você
meteu-se nisto pelo seu pé.
Dinkuhl sorriu.
— Touché! Está bem, nada de queixumes. Faz-me um
pequeno favor?
— Dentro dos limites do razoável e do possível.
— Tenho um assistente. Não é nem um bocadinho o que eu
escolheria para meu sucessor, mas acho que ele é capaz de
manter as coisas a andar enquanto... enquanto, como foi que
disse? Se eu lhe der uma mensagem com algumas indicações
elementares — indicações sobre as emissões e coisas assim
— faz com que ela lhe chegue às mãos?
— Não vejo porque não. Se for em inglês.
— Está a sossegar o meu espírito ansioso — disse Dinkuhl.
— Agora, que cumpri o meu dever, acho que posso
descansar. Não tenho tarefas a cumprir, pois não? Direitos
de prisioneiro?
— Nada de tarefas. Não me importava de ter essa vida.
— Só um pormenor. É tão insignificante que me embaraça
fazer-lhe referência. É que eu sofro ligeiramente de satiríase.
Ledbetter sorriu.
— Veremos o que podemos fazer.
Dinkuhl levantou a mão.
— Não estou a pedir-lhe que prostitua as virgens da IQR.
Este é o tipo de animal que trabalha para comer e vive
contente assim. Basta que o pessoal não seja exclusivamente
masculino e eu cá me arranjo.
— Tranqüilize-se — disse Ledbetter. — Fique bem tranqüilo.
Faremos tudo o que pudermos para que a estada seja alegre e
proveitosa, tanto para si como para Charles. A única
diferença é que esperamos que Charles trabalhe um pouco
de vez em quando.
— Laços familiares — disse Dinkuhl. — Um vagabundo sem
lar como eu não pode deixar de pensar neles, de vez em
quando, com uma certa angústia. O Charlie, por exemplo,
contempla agora com alegria a oportunidade de mostrar as
suas habilidades, para glória da IQR e para ter direito a uma
escarradeira de ouro. E ainda há pouco ele recusava um lugar
de diretor.
— Nós gostamos de começar pelo princípio — disse
Ledbetter. — O mais importante é o trabalho que há a fazer.
— Fitou Charles. — Depois haverá um cargo de diretor.
Pode contar com isso. De momento temos de o manter
aqui, sob vigilância, por razões que compreenderá tão bem
como nós. Já foi promovido a gestor, mas não faria qualquer
sentido nomeá-lo diretor enquanto não puder sê-lo de fato
assim como de nome. Compreende?
Charles acenou afirmativamente. Era estranho ser informado
com um ar tão natural de que o lugar de gestão do qual
desistira por o julgar inacessível, havia mais de dez anos, lhe
estava agora reservado. Estranho e sem importância.
Dinkuhl disse:
— Seja qual for o aquário em que o metam, Charlie, faça o
possível para vir à superfície. Mas tenha cuidado para não
saltar fora.
As palavras soavam tão triviais como as de Dinkuhl em
geral, mas Charles perguntava a si mesmo se a sua voz não
era um pouco mais áspera. De qualquer forma, não ia
preocupar-se com isso.
Ledbetter disse:
— Foi tudo muito precipitado e eu ainda tenho umas coisas a
arranjar. Dispõem de quatro divisões e de um terraço que dá
para o quarto ao lado deste. Mas isso é apenas para estarem á
vontade, pois podem andar por toda a parte. A propósito, há
um bar muito agradável do outro lado da casa. Talvez nos
encontremos por lá daqui a bocado.
— Se não for antes — sugeriu Dinkuhl.
— Se precisarem de alguma coisa, toquem. As campainhas
estão assinaladas, mas a que diz «2.a Criada de Quarto» trar-
lhe-á a enfermeira, no caso de virem a sentir alguns efeitos
da vossa dose dupla de astarate. — Deitou um olhar a
Dinkuhl. — Ela também vai ficar aqui durante todo o
tempo, mas como pertence ao P & M somos mais
responsáveis por ela do que pelas outras.
Dinkuhl fez um aceno grave.
— Tratá-la-ei com a deferência devida a um pires Ming,
desde que consiga arranjar uma chávena de plástico para
arrefecer o meu café.
— E é tudo. — Voltando-se para Charles, Ledbetter disse: —
Està- rnos a instalar o laboratório o mais rapidamente
possível, mas vai levar alguns dias. Descanse, entretanto. —
Ele fez uma ligeira pausa. — Espero que consiga descansar.
Sabemos como está preocupado com Sarah Cohn. Mas
certamente compreende que, sozinho, não podia ter
qualquer esperança de conseguir levá-la, não é verdade?
Tudo o que podia fazer era pôr-se em risco de ser capturado
— aliás, como aconteceu.
- Pelo menos sabe que a Secção de Contacto da 1QR está a
tratar do assunto e, na minha opinião, é uma Secção de
Contacto que se pode considerar tão boa como as melhores.
Se alguém conseguir encontrá-la, são eles com certeza. E,
entretanto, tem a satisfação de saber que, seja quem for que
a capturou, estão a tratá-la o melhor possível. Ela é tão
importante para eles como você para a Interplanetária.
Charles disse:
— Acho que sim.
— Mais um incentivo para quando o laboratório ficar pronto!
Quanto mais cedo acabarmos com este assunto, mais
depressa as coisas voltam à normalidade.
— Bom — disse Dinkuhl —, tudo isto se uma Secção de
Contacto que é tão boa como as melhores não apresentar a
mercadoria antes disso.
— Claro — disse Ledbetter, desviando os olhos do relógio
que tinha no dedo para o rosto de Charles, incluindo-o assim
naquele calor empresarial do qual Dinkuhl, apesar das suas
muitas qualidades, se tinha excluído. — Tenho de ir. Passem
bem.
Quando ficaram sós, Charles e Dinkuhl puseram-se a
explorar o resto da suite que lhes tinham distribuído. O
compartimento onde tinham acordado era um dos quartos;
havia um quarto semelhante na outra extremidade. Entre os
dois quartos havia duas vastas divisões que podiam servir de
sala de jantar e de sala de estar, mas que também podiam
funcionar em conjunto. A sala de estar deitava para o terraço
que Ledbetter tinha mencionado; a vista que se tinha dali
era muito semelhante à que tinham visto através das paredes
plásticas do quarto, apenas mais vasta, maior extensão.
Estavam na ala leste da casa, que se encontrava agora
banhada por uma vaga luz solar. De qualquer forma, os
pequenos sóis artificiais estavam suspensos sobre as suas
cabeças — havia três desses sóis aguardando que fosse
premido o botão que os ativaria.
Os móveis eram escandinavos do século XX, nos quartos;
Luís XIV nos restantes aposentos; os primeiros tinham pelo
menos a vantagem de acentuarem a graça e a elegância dos
segundos. Na sala, até o écran de televisão colocado na
parede estava coberto por um Aubusson quando não era
utilizado; a tapeçaria deslizava para o lado enquanto as vál-
vulas entravam em atividade. Dinkuhl experimentou o
sistema, mas fez voltar rapidamente o Aubusson para o seu
lugar assim que viu a boca de Loulou del Keith, distendida
numa canção sensual. Aproximou-se do aparador dourado
embutido na parede e arranjou bebidas para os dois.
— Brande — disse Dinkuhl. Cheirou-o. — E não é nada
mau. Sabe, Charlie, isto aqui é muito agradável. Se eu
soubesse que você estava tão bem na IQR, era capaz de ter
deitado para trás das costas os meus sentimentos antigestão e
pedido que me aceitassem como membro. Agora já deve ser
tarde de mais.
Charles disse:
— Esquece-se da minha ilustre posição. Acho que em cima
se está sempre bem.
— Não neste caso. Dentro do sistema de gestão, isso significa
apenas maior acesso e facilidades para desenvolver o mau
gosto. O tipo que arranjou esta casa deve ter sido uma
exceção. Acho que me vou sentir aqui muito bem enquanto
o bom do Ledbetter se sentir obrigado a reter-me.
Charles disse:
— Há uma coisa no Ledbetter. Não notou nada? Ele parece
que se especializou em pôr as pessoas à vontade. Mas eu
nunca me sinto inteiramente à vontade com ele. Tenho a
sensação de que há qualquer coisa mais por detrás de tudo o
que ele diz com tanta simplicidade e franqueza. Não lhe dá a
impressão de qualquer coisa assim?
Dinkuhl olhou-o, por momentos, com ar inquiridor, e
depois abanou a cabeça.
— Não posso dizer que tenha notado o quer que seja. Talvez
seja por você não ter treino nas artes diplomáticas que o
xarope lhe parece ter um sabor estranho. Além disso —
você tem tendência para assumir uma atitude crítica em
relação a tudo o que Ledbetter diz, porque já uma vez ele o
levou à certa. Mas também explicou porque é que teve de
fazer isso. Desta vez, tudo parece estar certo. Nem sequer
lhe prometeu encontrar Sarah Cohn; podia ter inventado
qualquer coisa para o amarrar. Limitou-se a dizer que a
Secção de Contacto da IQR anda à procura dela e que essa
secção é tão boa como as melhores. E isso não parece muito
fantasista, se considerarmos a forma como nos arrancaram
do sítio onde estávamos.
Charles sorveu o brande. Habituara-se a contar com os
iconoclamos de Dinkuhl e por isso ficou vagamente
admirado por encontrar agora nele um adepto de Ledbetter
e da IQR. Mas viu que não havia fundamento para tal
surpresa. Aparte o tempo que se seguira imediatamente à sua
captura pela Interplanetária, em que o seu espírito mergu-
lhara num estado de confusão em que todos, incluindo
Dinkuhl, lhe pareciam fazer parte das forças monstruosas e
hostis que se empenhavam contra eles, Dinkuhl sempre lhe
parecera um aliado honesto. E fazia parte das funções de um
aliado honesto discernir e aprovar a sua boa sorte, ao mesmo
tempo que ajudava a lutar contra o que era mau.
Mesmo assim, havia qualquer coisa que não batia certo.
Charles disse:
— Julgava-me a bomba que havia de atirar tudo pelos ares.
Você não parece preocupado por ver a bomba novamente a
postos.
— E devia estar? — perguntou Dinkuhl. — Há mais do que
uma bomba. Continue em frente e faça o que lhe dizem,
Charlie. Eu sou o elemento destrutivo, mas desde que as
coisas se destruam agradavelmente, não me importo de me
instalar e saborear os prazeres humanos. E tenho o bom
senso suficiente, à antiga, para ver que se está melhor neste
pequeno caminho do que num que vá até Luna City. Lá em
cima, fazem a sua própria bebida, com um concentrado.
Dizem que não se parece com nenhuma das bebidas que há
na Terra, o que acho razoável.
— Então está tudo bem — disse Charles. — Desde que você
tenha os seus prazeres humanos.
— Descontraia-se — aconselhou Dinkuhl. — Você continua
prisioneiro. Isso faz-me pensar numa coisa. — Aproximou-
se do painel de serviço que se encontrava instalado ao lado
do painel de controlo da TV. — A 2.a criada de quarto saiu.
Podíamos experimentar a l.a.
Carregou no botão e olhou ansiosamente para a porta.
Charles observou-o divertido.
A rapariga que se apresentou era jovem, de um louro
magnífico e de uma altura acima da média, com uma figura a
condizer com a altura; vestia um uniforme de bom corte,
nas cores verde e dourada da IQR e usava o emblema da
IQR.
Dirigiu-se a Charles:
— Às suas ordens, Gestor.
Charles abanou a cabeça em direção de Dinkuhl.
— Ele está mais necessitado do que eu. De qualquer forma,
foi ele que tocou.
Dinkuhl olhava para ela com franca admiração.
— Estou a tentar lembrar-me do que é que eu queria. Minha
querida, você esvaziou-me a cabeça por completo.
Ela sorriu com ar pensativo.
— Parece-me que a amnésia pertence à secção de Lydia — a
Lydia é a enfermeira. É o botão da 2.a criada de quarto. Se
quiser, eu posso chamá-la.
— Não se vá embora — disse Dinkuhl. — Estou a começar a
recompor-me. Como é que disse que se chamava?
— Não disse. Myra.
— Myra, sou um seu admirador. Trate-me por Hiram, Myra.
Pouco a pouco, durante os dias que se seguiram, Charles
começou a sentir-se à vontade, tal como acontecera a
Dinkuhl logo de início. A mansão era espaçosa e estava bem
instalada e o ambiente não denotava aquela consciência da
posição, que Charles aceitara até ali como fazendo parte da
ordem natural da vida dentro do sistema de gestão. Embora,
à exceção de Ledbetter e dele próprio, ninguém parecesse
ter um lugar superior ao de assistente e a maioria nem
sequer pertencesse a esse nível, não mostravam nas suas
atitudes qualquer deferência especial. Ledbetter, tal como
Charles e Dinkuhl, era tratado de uma forma que tornava a
diferença de posição relativamente secundária e que con-
tribuía para criar uma espécie de ambiente de férias.
Charles sabia que Ledbetter funcionava melhor num
ambiente deste tipo — lembrava-se de Paulton e da sua
primeira visita a Ledbetter, que parecia agora tão remota.
Mas Paulton era funcionário e assistente pessoal de
Ledbetter. O mais espantoso não era que Ledbetter tolerasse
ou mesmo encorajasse este tipo de atitude, mas que as
próprias pessoas fossem capazes de a adotar. Talvez Saginaw
não fosse típico e, afinal de contas, a sua experiência
confinara-se quase exclusivamente a Saginaw.
Fossem quais fossem as razões, era tudo muito agradável. O
projeto em si — todos pareciam saber que ia ser instalado ali
um laboratório do qual se esperava que, com a ajuda de
Charles, saíssem grandes coisas — era tratado com humor,
mas de forma alguma de uma maneira descuidada. Charles
passava uma hora todas as manhãs a verificar a instalação do
laboratório, mas tratava-se sobretudo de fazer sugestões
quanto à disposição das coisas e de aprovar o trabalho do dia
anterior. As coisas encaixavam nos lugares com uma
suavidade e uma eficiência notáveis. Uma boa parte do resto
do dia era passada no bar, na ala oeste, que era de fato muito
bom, ou na biblioteca, que lhe ficava ao lado. Para uma
pessoa que se habituara a associar o termo biblioteca a uma
coleção de duas ou três dúzias de volumes esfarrapados,
havia qualquer coisa de assustador numa sala forrada de
prateleiras apinhadas de livros, na sua maior parte em ótimo
estado. Duas das suas primeiras descobertas foram uma
primeira edição de Shakespeare, em pele, e Deixe o Seu
Espírito em Paz, de Thurber, que Marantovich assinalava
como «Provavelmente perdido» na sua bibliografia e
apreciação crítica.
Dinkuhl aceitava e compartilhava do seu entusiasmo, mas
Dinkuhl era igualmente consumido por um outro
entusiasmo. Myra era apenas uma das várias e atraentes
raparigas que havia na casa, embora aparecesse mais vezes
que as outras. Era curioso que todas pertenciam ao mesmo
tipo físico. Com uma única exceção, todas eram louras e
altas e com uma maneira de ser extrovertida e afável. Foi
Dinkuhl que chamou a atenção de Charles para esse fato,
numa noite em que estavam no bar a beber cerveja, antes do
jantar.
— Louras e altas, altas e louras, o meu tipo mais que
preferido — comentou. — Tennyson, suponho.
Charles olhou em volta. Susie estava a limpar um copo por
detrás do bar. Anthea, igualmente ligada aos serviços de
restaurante, estava naquele momento a beber um dry
Martini e a puxar brilho às unhas, pensou nas outras.
— Tem piada — disse. — Parece haver uma certa
coincidência. Exceto...
Dinkuhl olhou para ele. — Exceto Lydia. Que tipo diria você
que é o dela?
Charles já pensara nisso antes. Fisicamente Lydia parecia-se
muito com Sarah — morena, não muito alta, um pouco
forte. Também parecia um pouco tímida; mostrava-se
cordial, mas tinha relutância em encetar uma conversa. Não
era o tipo de timidez nervosa que Sarah mostrara a
princípio, mas era o bastante para a fazer parecer diferente
de todas as outras.
Charles disse:
— Faz-me lembrar... mas você não pode saber. Não
conheceu Sarah.
— Junte mais essa à minha notável intuição. Quando vi uma
parada de louras tão pomposas, pensei duas coisas. A
segunda foi: escolhidas a dedo, porquê? Uma das razões
poderia ser para fazer sobressair uma pessoa totalmente
diferente e Ledbetter tinha-se dado ao trabalho de me afastar
de uma determinada pista. A resposta é portanto Lydia. —
Dinkuhl encolheu os ombros. — Visto que tantas outras
coisas foram postas aqui para seu deleite e você pertence ao
tipo monógamo, a dedução era fácil.
— Diabos me levem. Eles com certeza que não acreditaram
nisso?
— Estou convencido de que foi proposta do P & M. Tudo o
indica. Não se esqueça da pequena explicação behaviorista
de Stenner a respeito do seu comportamento. Estão
convencidos de que as pessoas funcionam assim. E não se
enganam completamente. Lydia é uma rapariga simpática. Se
esta situação se prolongar, você acabará por ter cada vez
mais consciência disso. Especialmente ao ver-me cabriolar
com todas essas louras, que também são boas raparigas, mas
de um tipo acentuadamente diferente.
— Acha que ela sabe disso — a Lydia?
Dinkuhl sacudiu a cabeça.
— Já lhe disse que ela é boa rapariga.
— E isso — isso quer dizer que eles não estão à procura de
Sarah?
— Não se preocupe. Eles querem encontrar Sarah e
Isaacssohn. Entretanto querem que você se sinta feliz.
Ainda não pensou que — supondo que os três estejam
divididos por três organizações diferentes — tudo depende
provavelmente de quem souber aproveitar melhor o seu
gênio. Nesse aspecto, a IQR tem uma vantagem sobre as
outras — a sua devoção natural para com a organização. É
provável que você lance ombros à tarefa. Por outro lado, é
discutível se os detentores de Isaacssohn ou de Sarah
conseguirão os mesmos resultados. A Interplanetária levaria
bastante tempo a instalá-lo naquele laboratório de Luna City.
— Bastante tempo — Charles ficou pensativo por momentos.
— Ledbetter deve ter trabalhado depressa para arranjar tudo
isto.
— Ledbetter — comentou Dinkuhl — merece a nossa
admiração.
Depois da conversa com Dinkuhl, era-lhe impossível deixar
de prestar mais atenção a Lydia. Era um fato que, comparada
com a atitude um tanto fácil das outras mulheres que havia
por lá, a enfermeira parecia-lhe bastante refrescante. Mas o
estreitar das relações não acentuou a semelhança com Sarah;
antes pelo contrário. Havia nela uma certa suavidade que
não era desagradável, mas que em nada se assemelhava à
vivacidade de Sarah. Divertia-o verificar como Ledbetter,
ocasional, mas cuidadosamente, incentivava a amizade entre
ambos.
Uma tarde, Charles estivera sentado com Ledbetter no
terraço ajardinado; era um autêntico tour de force, um
jardim tropical na Nova Inglaterra, em Novembro. Por cima
das suas cabeças, mais de uma dúzia de pequenos sóis
deixavam cair a sua luz e calor sobre as plantas luxuriantes
que rodeavam o lago central, no qual peixes raros do Recife
de Barrier nadavam sobre corais condizentes. Era um local
muito apreciado pelas pessoas que estavam na Casa de
Campo, mas naquele dia apenas se encontravam ali Charles e
Ledbetter. E Ledbetter, depois de tagarelar um bocado,
levantou-se e saiu; era esperado em Detroit para controlar o
despacho do novo eletrobombardeador.
Uma vez sozinho, Charles deitou-se para trás no seu assento
de Verão, com almofadas de ar, e observou as carregadas
nuvens de Outono que deslizavam bem alto, acima dos
pequenos sóis que forneciam este calor exótico sob o qual
ele descansava. Estava em calção, mas não sentia a coragem
suficiente para saltar para dentro do lago. Perguntava a si
próprio se iria chover. Também não fazia diferença; havia
um servo-mecanismo preparado para reagir às primeiras
gotas e ativar as duas metades da concha de plaspex que
saíam de cada um dos lados da parte superior da casa,
juntando-se sobre as suas cabeças. Charles nunca assistira a
essa operação. Nessa tarde parecia-lhe possível que tal viesse
a acontecer. Encarava com entusiasmo essa eventualidade,
com o sentimento de antecipação de um rapazinho de
escola perante uma novidade mecânica, quando ouviu o
bater de sapatos femininos que seguiam pelo caminho em
direcção a ele. Ergueu-se sobre um cotovelo. Era Lydia.
Deu-lhe lugar no seu assento de Verão, ao mesmo tempo
que o empurrava para a frente, para uma posição mais direita
e respeitável. Ela, no entanto, continuou de pé. Trazia ao
ombro a sua malinha do P & M.
— George disse-me que você precisava de mim — disse ela.
Já tinha aprendido a chamar «George» a Ledbetter, embora
isso não lhe fosse fácil. Os outros pareciam fazê-lo
naturalmente.
Charles disse, incrédulo:
— George disse isso?
Lydia respondeu com ar afetado:
— Disse que você estava muito cansado; falou num
reconstituinte vitamínico. Tenho aqui alguns no meu saco.
Charles começava a perceber. Disse gravemente:
— Ele percebeu-me mal. Era preguiça e não fadiga. Mas pode
ajudar-me na mesma, creio. Preciso de alguém que me
encoraje a entregar-me a qualquer espécie de atividade
física. Se não tem nada de melhor a fazer, podia levar-me até
ao lago.
Ela hesitou e depois sorriu.
— Vou buscar o fato de banho.
Charles apontou para o cubo de plástico, cuidadosamente
Camuflado pelas palmeiras.
— Não vale a pena. Tem ali a máquina de vestir.
— Nunca experimentei.
— Então é uma boa ocasião para isso.
Ela deixou-se convencer e ele viu-a desaparecer por detrás
das palmeiras. Tentara o engenho alguns dias antes, mas
chegara à conclusão de que preferia os fatos de banho
vulgares. Tratava-se de um aparelho dispendioso, pelo que
não era de admirar que não o tivesse encontrado ainda,
embora fosse apresentado freqüentemente nos programas de
natação da televisão.
A pessoa que desejava ser vestida punha-se, despida, em
cima de um pequeno tapete, a meio do cubículo. Braços
mecânicos calibrados aproximavam-se do corpo para
verificar as medidas. Depois os braços aplicadores seguiam o
trajeto indicado, fazendo a aplicação de um plástico opaco
que se ajustava ao corpo e secava em contacto com o
mesmo. Era possível fazer um ajustamento para diferentes
comprimentos, assim como para diferentes cores e texturas,
dentro de uma gama limitada. Depois de usado, o fato de
banho plástico era rasgado ao longo de uma costura mais
frágil na parte dianteira e deitado fora.
A sua popularidade não era grande. A maior parte dos
homens, tal como Charles, achava o processo desagradável.
Algumas mulheres fingiam ser da mesma opinião ou, mais
sutilmente, queixavam-se da fraca escolha oferecida. Outra
razão possível era a de que uma tal indumentária apenas
favorecia uma figura naturalmente atraente; o resultado era
impiedoso para as menos atraentes.
Charles ficou satisfeito ao constatar que Lydia pertencia
indubitavelmente à primeira categoria. Escolhera uma
textura sedosa e uma cor vermelho-viva que lhe fazia
sobressair o cabelo escuro e a pele um tanto morena. Era
também evidente que seguira as instruções dirigidas às
mulheres no sentido de cruzarem as mãos atrás da cabeça e
esticarem esta para trás. No caso dela, a precaução era
desnecessária, mas esse mesmo desconhecimento da sua
perfeição física era agradável e pouco vulgar. Caminhou
junto ao lago e veio colocar-se à frente de Charles,
esperando os seus comentários.
— Muito bonito — Fica-lhe bem.
— Acha? — Ela estremeceu. — É uma sensação horrível —
aqueles braços de borracha! Não me parece que volte a fazê-
lo.
Charles acenou com a cabeça.
— Uma vez basta, como experiência. Acho que se tem
sempre um certo receio que a coisa enlouqueça e nos
envolva num imenso casulo de plástico, como uma aranha a
uma mosca.
Ela riu.
— Então? Pronto para ser levado?
Mergulharam no lago, assustando um pequeno cardume de
peixes com as cores do arco-íris, mais ou menos do tamanho
de uma truta e obrigando-os a fugir para o outro lado.
Perseguiram-nos durante algum tempo, mas logo os
perderam. A água era quente e leve. Era muito agradável
andar por ali a nadar preguiçosamente com Lydia; tão
agradável que ele não pôde deixar de imaginar Sarah, numa
postura semelhante à de uma deusa, olhando-os cinicamente
divertida. Também lhe ocorreu que, se a IQR estava a tentar
adulá-lo dessa forma, era igualmente provável que a
organização que detinha Sarah estivesse a rodeá-la de jovens
Adônis — e provavelmente, uma vez que não tinham
qualquer razão para suspeitar de uma afeição que, no caso
dele se tornara tão notória, Adônis de tipo israelita.
Além disso, ele não tinha qualquer razão para pensar que
Sarah compartilhasse de alguma forma os seus sentimentos.
Sendo ela uma pessoa fundamentalmente honesta, ele
pudera ver que não lhe era desagradável — que ela chegara
mesmo ao ponto de gostar dele. Mas daí a estar apaixonada
ia uma grande distância. Havia boas hipóteses de Sarah, cujo
antagonismo ao sistema de gestão era menos pronunciado
que o de Dinkuhl, pela simples razão de estar menos
envolvida, ter aceitado com tolerância e serenidade o seu
novo ambiente, fosse ele qual fosse. Neste caso, um dos
Adônis podia bem ter tomado o lugar dele. Sorriu com a
idéia. Pelo menos, ficara a saber que, na sua qualidade de
israelita, ela não aprovava a promiscuidade!
Lydia içou-se para as pedras achatadas que formavam uma
ilha no meio do lago e ele seguiu-a. Chegava-se junto das
pedras através de um repuxo em forma de cúpula, vindo de
uma fonte que lançava as suas gotas a uma boa distância. Já
em cima das pedras, olhando para cima, via-se o pequeno
arco-íris que se formava entre o repuxo e os pequenos sóis.
Os raios destes, filtrados através desta cortina em
movimento, eram temperados, mas ainda assim quentes.
Charles deitou-se de costas. Lydia estava sentada numa
pedra, perto dele. A água rolava em grandes gotas da
superfície de plástico que a cobria.
Charles disse com voz sonolenta:
— Muito melhor que Luna City. Julgo que a água lá é
racionada.
A fonte sussurrava sonolenta por cima das suas cabeças. Um
grande peixe azul pareceu cheirar as pedras e depois, num
salto, fugiu para os recônditos do lago.
Lydia disse:
— Uma pessoa sente-se isolada, aqui. Não sente isso,
Charles?
A voz dela era agradavelmente modulada; sem o vigor da de
Sarah, mas também sem deixar a impressão, como acontecia
com Sarah, de ter uma aresta cortante por baixo da
superfície.
— Então estamos isolados — disse Charles. — Isolados do
mundo da gestão, aqui no telhado da Casa de Campo. É tudo
muito paradoxal.
— É a fonte — disse ela. — E suponho que é o som, mais do
que qualquer outra coisa. Charles, quando é que você
começa o seu trabalho no laboratório?
— Em breve. O resto das coisas vai chegar dentro de dias.
— O trabalho que você vai fazer é importante?
— Ao que parece, todos pensam que sim. Bom, suponho que
é.
Houve alguns momentos de silêncio. Charles bateu com a
mão nas pedras lisas sobre as quais estava deitado.
— Venha para aqui — disse. — É mais confortável do que
estar sentada aí em cima.
Lídia deixou-se escorregar sobre as pedras. Deitou-se ao lado
dele de barriga para baixo, com a cabeça pousada nos
cotovelos. Os seus corpos quase se tocavam. Ela inclinou a
cabeça na direção dele; numa atitude que ele teria
classificado de provocadora se o rosto dela não estivesse tão
sério.
Ela disse:
— Queria dizer-lhe...
Interrompeu o que estava a dizer e ambos olharam para
cima. A fonte parara abruptamente. O silêncio que veio
substituir o seu murmúrio ligou-os imediatamente ao resto
do lago, ao jardim, à casa. Charles levantou-se.
— Tem piada — disse.
Subiu à parte de cima da fonte, para ver se a saída da água
tinha sido bloqueada por alguma coisa, mas não encontrou
nada. Quando começou a descer, ouviu chamar do outro
lado do lago. Ledbetter vinha a sair do elevador que levava
ao terraço. Tinha o calção de banho pendurado num dos
braços; acenou-lhes alegremente e desapareceu num cubo
plástico.
Charles disse para Lydia:
— Que é que me queria dizer — antes que o George venha?
O sorriso dela era enigmático, desgostoso.
— Nada de importante, palavra. Que eu posso ter de me ir
embora dentro de pouco tempo.
Ele disse, surpreendido:
— Embora? Porquê?
— Diz-se que vão mandar recolher os membros do P & M —
não se esqueça que eu não pertenço à IQR.
Charles olhou para ela; estava sentada, muito decorativa, na
orla da ilha, com os pés mergulhados na água de um verde-
azulado-claro.
— Espero que não. — Viu Ledbetter sair do cubo e atirar-se
de barriga para a água. Pensando no pequeno esquema de
psicologia aplicada concebido por Ledbetter, sorriu para si
próprio. — Não me parece que isso venha a acontecer.
Ledbetter veio em direção á ilha e saltou para lá, num
movimento rápido.
Disse:
— Não se importam que lhes faça companhia? Ao que
parece, Detroit está posto de lado, por hoje. Entraram em
contacto comigo para me dizerem que o embarque foi
suspenso. — Sorriu. — As trapalhadas habituais da Telecom,
julgo eu.
Lydia continuava sentada, olhando para a água. Charles
disse:
— Este aparelhômetro tem lugar para mais de uma dúzia.
Gosta do plastifato de Lydia?
Ledbetter olhou-a especulativamente.
— Não ficaria admirado se me dissessem que ela tinha
rebentado meia dúzia de fusíveis. Lydia, meu amor, você
estava a ser requisitada pelos écrans antes de eu vir para
aqui. Não creio que fosse importante.
Lydia pôs-se de pé rapidamente.
— Vou lá saber.
Charles disse:
— Se fosse alguma coisa de importante, teria a indicação de
«Urgente».
Ela sorriu-lhe.
— Também acho. Mas eu sou uma pateta com as
telechamadas; logo que sei que está uma à espera, fico
preocupada. Até logo aos dois.
Mergulhou e nadou fortemente para a margem. Os dois
homens observaram-na.
Charles disse:
— Tem piada. A fonte parou. Sempre pensei que as suas
engenhocas estivessem mais à prova de acidentes.
— É difícil fazer com que os aparelhos sejam à prova de
acidentes — disse Ledbetter. — Pode ser que eles o tenham
feito parar para mudar o óleo das bombas principais. Nesse
caso, deve recomeçar dentro de pouco.
O fino repuxo voltou a saltar no momento em que Lydia
saiu do lago e começou a andar em direção ao cubo, onde
deixara a roupa.
— Aí o tem — disse Ledbetter em tom ligeiro.
Foi a última vez que Charles viu Lydia. Ledbetter referiu-se
à rapariga quando iam tomar o pequeno-almoço, no dia
seguinte. Barrou o pão com o Novo Pequeno-Almoço
Especial da Hidropônica e disse:
— Perdemos a Lydia, é uma pena.
Dinkuhl, que estava a coçar uma perna, olhou para cima:
— Perdemos como?
— Foi chamada. Não me perguntem porquê — o P & M faz
isso de vez em quando. Não tínhamos maneira de a deter e
além disso ela estava aqui apenas no caso de algum de vós
ter complicações provocadas pelo astarate.
— É muito amável em ter pensado também em mim —
comentou Dinkuhl.
Charles disse:
— Ontem ela falou-me na possibilidade de vir a ser chamada.
— Sim, corria por aí.
— Eu disse-lhe que isso não iria avante. — Ledbetter olhou-
o com ar inquiridor. — Pensei que o meu... o meu conforto
seria posto em primeiro lugar. Parece que me enganei.
Ledbetter riu-se.
— Detectou o nosso pequeno truque? Também me pareceu
que sim, mas que não tinha resultado. Isso também ajudou a
que Lydia se tornasse dispensável, embora todos
lamentássemos ter de vê-la partir. Foi só uma idéia — o P &
M perguntou se estávamos interessados nalgum tipo especial
de enfermeira — parece que há agora uma nova tendência
para escolher enfermeiras que se coadunem com as
necessidades psicológicas do doente. Pensei em si e lembrei-
me que seria divertido acrescentar todas as outras raparigas
para dar o tom. Acredite-me, foi uma brincadeira inocente.
E nunca esperei que resultasse.
Dinkuhl disse:
— Há uma coisa que me parece muito estranha. Com certeza
não permitiu que a rapariga regressasse à sua organização
levando todos os detalhes das instalações? Não que ela me
pareça do tipo linguareiro, mas, depois de todas as
precauções tomadas, parece um tanto disparatado.
— Desmemorização hipnótica. Suprimimos uma semana da
sua vida. Claro que recebeu bom dinheiro por isso.
— E ela concordou.
— Só se pode fazer isso voluntariamente. Ela assinou o
acordo e recebeu a hipnose preliminar antes de vir para
aqui. De outra maneira não a teríamos trazido.
— Retiro a minha suspeita infundada — disse Dinkuhl — de
que a IQR pudesse ter escorregado num ponto tão elementar
como este. A ciência é uma coisa maravilhosa! Como é fácil
e simples apagar-nos a todos desse universo que é o
consciente de Lydia. Snip, snip, e já nem sequer somos
fantasmas. Somos apenas estranhos.
A noticia deixou Charles moderadamente desgostoso;
gostava da rapariga e parecia-lhe que, com a continuação,
esse sentimento se poderia tornar mais profundo e mais
forte. Assim, sentia que fora afastada... uma possível fonte
de tentação. No entanto, era um tanto desconcertante,
como disse Dinkuhl, uma pessoa pensar que tinha sido
apagada da memória de alguém que tinha conhecido.
Disse num tom casual:
— Penso que ela nem sequer saberá que usou a máquina
plástica de vestir — disse que nunca tinha usado nenhuma
antes.
— Nem tão-pouco como lhe ficava bem — disse Ledbetter.
— A propósito, tenho boas notícias para os dois esta manhã.
— Espero que não sejam mais louras? — comentou Dinkuhl.
— As coisas boas também fartam — mais tarde ou mais
cedo.
— Já podem utilizar o jardim e os terrenos. A barreira está
completa. Dispõem agora de vinte ou trinta hectares para
vaguearem. Não ê uma verdadeira liberdade, mas é o melhor
que se pode arranjar.
Dinkuhl disse:
— Não somos obrigados a utilizá-los?
— Claro que não.
Aliviado, Dinkuhl disse:
— Tenho muito com que me ocupar aqui mesmo e, além
disso, não sou exatamente um freqüentador de jardins.
— A mim agrada-me a mudança, de qualquer forma — disse
Charles. — Sou capaz de dar um passeio a seguir ao
pequeno-almoço.
— Acho bem — disse Ledbetter, cordial. — Era capaz de lhe
fazer companhia, mas chegou finalmente a altura de ir a
Detroit.
— O que faz ser passageiro numa excursão destas —
comentou Dinkuhl.
Nessa manhã Charles foi passear sozinho; e na manhã
seguinte — Ledbetter não falou em lhe fazer companhia.
Agradava-lhe a solidão e também poder afastar-se um
bocado da Casa de Campo, com o seu aquecimento central e
o jardim subtropical no telhado. Lá fora, o tempo ficara de
um frio intenso e era estimulante passear pelo jardim
exterior e ir até à floresta esparsa que ficava mais além. As
árvores de folha caduca estavam despidas, claro, mas havia
uma cintura de verdura a norte e a leste, donde a casa não
era visível.
O caminho principal que partia da casa atravessava a
verdura, levando a um pesado portão instalado na vedação
que, fortemente reforçada e afastada de qualquer vegetação
numa área de cinco jardas de cada lado, circundava o
perímetro do terreno. Charles deteve-se alguns momentos
olhando curiosamente para o portão. Era um posto de
controlo; um guarda, usando o uniforme da IQR segurava a
sua espingarda Klaberg no interior de uma pequena guarita
com teto de plástico, em forma de balão. O pequeno bocal
de plástico, logo acima do sítio onde a guarita era mais
estreita, devia ser o espalhador de astarate: bastava um leve
toque do dedo do guarda para que a área ficasse coberta em
poucos segundos.
Era uma proteção muito adequada. Teoricamente, qualquer
pessoa podia disparar contra o guarda através do plástico,
mas isso acionava um sistema de alarme, fazendo eclodir o
astarate, ao mesmo tempo que um giroplano vinha de casa,
quase com a mesma velocidade. A situação seria
desesperante para alguém que estivesse ansioso por fugir e
Charles sentia-se contente por não se encontrar nesse estado
de espírito.
Viu o guarda ser rendido. O giroplano deslizou lateralmente
pelos ares, partindo do telhado da casa e desceu junto do
portão, do lado de dentro. O novo guarda saiu e, depois de
trocarem uma ou duas palavras, o que o precedera tomou o
seu lugar. O giroplano voltou a subir no ar invernoso e
úmido. Simples, mas eficaz. Charles continuou a andar sobre
as agulhas de pinheiro que lhe abafavam os passos.
Na terceira manhã, quando chegou ao extremo de uma
clareira no meio dos pinheiros, ouviu um assobio camuflado.
Voltou-se rapidamente. Dinkuhl estava de pé ao lado de
uma árvore, observando-o. Acenou para Charles.
Charles disse:
— A brincar aos índios?
Dinkuhl, em vez de responder diretamente, olhou para o
pesado relógio que usava no pulso.
Disse:
— Meu caro Charles, temos pouco tempo. Venha cá e sente-
se.
Havia uma árvore caída. Instalaram-se e Dinkuhl puxou dos
cigarros. Acenderam-nos. O fumo subiu, formando plumas
direitas; fazia frio, mas não havia vento.
Dinkuhl disse:
— Sente-se feliz aqui?
— Razoavelmente. — Charles fitou-o. — Você parece que
sim.
— Qual é a diferença entre estar detido aqui e estar detido
pela Interplanetária — deixando de lado Luna City, por
agora?
— Isso é deixar muita coisa de lado. É muito diferente.
A diferença mais importante — a de estar com a sua própria
organização — era um bocado difícil de explicar
abertamente a Dinkuhl.
Dinkuhl olhou para ele, sorrindo.
— Tal como o fato de estar no seio das Indústrias Químicas
Reunidas?
— Também não posso pôr isso de parte. É aquilo a que estou
habituado.
— E que é que o faz sentir tão confiante de que estas
instalações pertencem à IQR? O fato de usarem os
emblemas?
Charles olhou para ele com enorme espanto. Compreendia o
que Dinkuhl queria dizer, mas era uma idéia tão fantástica
que mal cabia nos limites da especulação razoável.
Disse sensatamente:
— Está a esquecer-se de uma coisa, Hiram. Ledbetter foi o
meu gestor em Detroit.
Dinkuhl acenou afirmativamente.
— Para o seu trabalho no laboratório aqui — você disse que
ia pedir a Ledbetter que mandasse vir o seu antigo assistente
de Saginaw. Chegou a pedir-lhe? — Charles fez um gesto de
assentimento. — E...?
— Ele não estava disponível, o que é bastante aceitável.
Ledbetter disse-me que têm dois jovens muito bons que vão
mandar vir da Europa.
— Portanto, excluindo Ledbetter, não há aqui mais ninguém
que você reconheça?
— Também seria pouco provável que houvesse. A maior
parte deles pertence à Secção de Contacto.
Dinkuhl franziu o alto da cabeça.
— Deixemos isso. Onde é que lhe parecia que estávamos
antes de Ledbetter e os seus homens fazerem a sua operação
de salvamento?
Fosse qual fosse a idéia louca que se apossara de Dinkuhl, a
maneira mais sensata de a enfrentar, admitiu Charles, era ir
ao seu encontro com lógica e sensatez. Disse:
— Numa das naves da Interplanetária — cargueiro tipo 7, na
sua opinião —, nos fossos de Toledo.
Dinkuhl sorriu.
— Uma Seção de Contacto famosa, como disse Ledbetter.
Capa/ de forçar a entrada nos fossos de Toledo, no momento
em que a Interplanetária tinha a sua possessão mais valiosa
arrumada naquele local, num cargueiro. Mas ainda não foi
isso que originou as minhas suspeitas. Eu disse-lhe, quando
me juntei a si naquela pretensa messe, que não devíamos
falar de coisas importantes. Um dos pontos mais importantes
era que o cargueiro não estava certo nalguns detalhes. Coisas
pequenas. Tinha mesas embutidas, mas faltavam os cinzeiros
embutidos; tive de apagar o cigarro no painel de controle.
Os corredores não apresentavam as marcas do desgaste que
lhes deixa o uso em queda livre — as marcas apareciam
apenas no pavimento. Ainda há outra coisa, mas já lá vamos.
De qualquer maneira não havia mais nada a fazer senão
aguardar os acontecimentos. E eles produziram-se. As
Indústrias Químicas Reunidas lançam-se na operação de
salvamento. A Virtude triunfante.
Charles disse:
— Isso parece-me uma perfeita loucura. Espero que não leve
a mal que lho diga. Porque é que a IQR — ou seja lá quem
for que você pensa que se está a fazer passar pela IQR — se
havia de meter numa coisa tão complicada? Então e a oferta
que me fez a Interplanetária? Eu podia ter aceitado. E
depois?
— Isso espantou-me um bocado — admitiu Dinkuhl. —
Perguntei a mim mesmo como é que eles iam imitar uma
descolagem, o vôo espacial e as condições lunares. Não é
impossível, mas um bocado complicado. Mas eles também
não precisavam de o fazer. Se você tivesse aceitado a oferta,
não havia nada que os impedisse de mudar de opinião e
deixá-lo ficar aqui na Terra; não é muito difícil arranjar boas
razões para isso. Claro que nunca se pensou que você
aceitasse; a oferta foi feita simplesmente por uma questão de
efeito psicológico, para ter a certeza de que você iria sentir a
gratidão devida por ter sido salvo. Mesmo que tivesse
aceitado, o salvamento podia muito bem ter sido feito da
mesma forma e pelas mesmas razões.
Quanto às dificuldades, as pessoas que organizaram isto não
eram totalmente destituídas de espírito artístico. Têm-no
classificado como leal à sua organização e incapaz de se
sentir verdadeiramente à vontade sob coação por parte de
outra entidade. Ao mesmo tempo, você dera sinais de
iniciativa e de um certo espírito de rebelião, portanto se lhe
vestissem logo as roupas da IQR e o pusessem sob vigilância,
para seu próprio bem, você podia ter reagido mal. A sua
solução foi muito boa: fazê-lo capturar — tal como pensou
— pela Interplanetária e depois libertar — como parecia —
pelas Químicas Reunidas. A lealdade e a gratidão aumentam
e a rebeldia afrouxa.
Julgando encontrar uma falha, Charles disse:
— O fato de a nave não ser autêntica pode mostrar que não
foi a Interplanetária que nos capturou em primeiro lugar,
mas, por outro lado, não implica que não tenha sido a IQR...
Parou. Dinkuhl disse:
— Quando acordei e vi Ledbetter fiquei perplexo. Quando
ele falou em nos ter salvo das mãos da Interplanetária
compreendi que o jogo continuava. Se o negócio fosse
genuíno, ele teria mencionado o nome dos verdadeiros
captores.
— E se todo o esquema que você delineou tivesse sido
planeado pela IQR, pelas razões que você apontou e que
seriam igualmente válidas nesse caso?
— A sua organização — disse Dinkuhl — era bastante
simplória para um sistema de gestão. De qualquer forma,
acontece que eu sei que não estamos nas mãos da IQR. Já
voltamos à questão. Quando começou a acordar, na Casa de
Campo, não se sentia muito tranqüilo, pois não?
Charles disse:
— Nada de grave. Se bem me lembro, foi você quem me fez
sentir novamente tranqüilo.
— Estou bastante satisfeito com a forma como tenho tratado
deste caso. — Dinkuhl sorriu. — Eu também tenho a minha
vaidade, embora seja difícil percebê-lo. Mas também tive
sorte. O fato de eu ter tido tanto cuidado em o prevenir de
que as paredes tinham olhos e ouvidos, atuou a meu favor
quando eu tive o cuidado de não lhe fazer qualquer aviso
depois de Ledbetter e os seus homens nos apanharem. Tudo
quanto eu lhe disse era destinado a produzir um
determinado efeito no público. Mesmo quando eu lhe
confiei a pequena estratégia de Lydia. O homem que não
põe problemas é aquele que se julga capaz de analisar as
pequenas coisas. Tal como a nave espacial que era um
cargueiro 7 e Lydia a jóia especialmente colocada no meio
das outras. Eles gravaram tudo o que eu disse. Dei-lhe uns
dias para vaguear sozinho por aqui. Hoje vim até cá fora.
Dinkuhl sorriu.
— Tinha organizado um programa com Myra. De manhã,
por esta hora, estamos juntos. Calculei que ela havia de
mandar forrar o quarto, por uma questão de modéstia. Há
dois ou três dias, pedi à Lydia alguns comprimidos para as
insônias. Myra está a sonhar neste momento e todos pensam
que eu estou ao pé dela, fazendo o mesmo.
Charles disse:
— Lydia...
Dinkuhl fez um aceno.
— Partiu à pressa, não foi? Segundo a minha idéia, ela não
oferecia condições de segurança — talvez pensasse que você
era um tipo demasiado decente para ser enganado desta
maneira. Ledbetter adivinhou-lhe os pensamentos.
Charles disse:
— Esses aparelhos de escuta, que tal é que eles funcionam?
— Bastante bem.
Charles começava a compreender. Contou a Dinkuhl os
pormenores da sua última conversa com Lydia.
Dinkuhl disse:
— É isso mesmo. Ela pensou que o barulho da fonte não os
deixaria ouvir, segundo penso. E logo que ela começou a
falar eles pararam a fonte, só para lhe dar uma lição. Depois
apareceu Ledbetter para compor as coisas. Ele já devia estar
à espera — já deviam ter percebido que ela não era segura.
— E... dizer-me que se ia embora?
— Ela sabia que ia. Assim, pelo menos, tinha a certeza de
que não ia provavelmente acontecer-lhe nada.
— Isso também podia não ter acontecido.
— Isto é um negócio importante — comentou Dinkuhl. —
Nada de brincadeiras.
Charles falou devagar:
— Custa a acreditar.
— Se fosse fácil de acreditar, eles já teriam escorregado. Mas
eles não escorregam — estão altamente treinados.
Houve um momento de silêncio. Depois Charles disse:
— Está bem. Se eles não são da IQR, quem são afinal?
Dinkuhl atirou a ponta do cigarro para os ramos sombrios
das árvores.
— Quem é que se poderia esperar que tivesse uma imitação
de uma nave espacial? — perguntou. — Isso é que importa
descobrir. Se não era a Interplanetária — então quem?
— Continue. Pela minha parte, não tenho qualquer idéia.
— Eu tive. Havia uma coisa que o confirmava — um certo
tipo de marcas tanto nos corredores como na messe. Eu
sabia donde vinham essas marcas. Eram feitas pelos cabos
das câmaras de televisão. Era um modelo construído pela
Telecom usado nas filmagens de interiores das óperas
espaciais. Tirei a prova final depois de virmos parar aqui.
Lembra-se que eu disse ao Ledbetter que queria enviar uma
mensagem ao meu assistente do FK — conselhos técnicos?
Ledbetter consentiu, sem hesitar. Se pertencesse à IQR,
certamente teria hesitado, porque na IQR não há ninguém
que conheça suficientemente a nossa gíria operacional para
ter a certeza de que eu não estava a passar uma mensagem
para o exterior. Com a Telecom é diferente.
— Telecom — disse Charles. — Raios me partam.
Dinkuhl sorriu.
— E a mim também. Já vai ver. Só a Telecom poderia ter o
tipo de aparelhagem de escuta que se encontra nesta casa.
No espírito de Charles a raiva começava a substituir a
confusão. Disse para Dinkuhl, com voz carregada:
— Que é que vamos fazer?
Dinkuhl olhou para ele.
— Você é a bomba H. E ao que me parece, você pode fazer
uma de três coisas. Pode voltar e continuar o trabalho para
os seus novos empresários. Parece-me que essa hipótese está
posta de lado? — Charles fez um gesto de assentimento. —
Pode também voltar e recusar-se a prosseguir com o
trabalho. No entanto, não lhe aconselho que o faça.
Ledbetter, não se esqueça, joga forte e representa grandes
interesses.
Voltou a estabelecer-se a confusão. Charles disse:
— Ledbetter pertencia à IQR. Como é que ele aparece agora
a trabalhar para a Telecom? Francamente, não percebo.
— Sancta Simplicitas! — comentou Dinkuhl. — Você não
seria capaz de perceber. Eu sei umas coisas acerca do
Ledbetter. Os seus princípios foram duros — uma origem
que teria sido uma condenação, mesmo em séculos passados.
Ambos os pais alcoólicos e brigões. Ele era um rapazinho
esperto. Lutou por um lugar na cimeira. Mas, para essa
espécie de alpinista, a cimeira vai até ao céu. E nesse caso a
lealdade para com uma organização fica apenas à superfície
da pele. Não, George não é o tipo de companheiro que eu
lhe recomende.
— E a terceira coisa. Qual era?
Dinkuhl olhou-o bem de frente.
— A fuga.
Charles olhou em volta. Através das árvores, via-se a
vedação, erguendo-se a uma altura de cerca de 3,5 m.
Ele disse:
— Cuidado. Como é que fazemos? Eu atiro-o primeiro para o
outro lado e depois atira-me você a mim?
Dinkuhl sorriu. Olhou outra vez para o relógio de pulso.
— O momento aproxima-se. Confia no Tio Hiram?
— Preferia ter uma idéia daquilo que você propõe.
Dinkuhl pegou-lhe no braço.
— Vamos arranjar um giroplano. Não tenho tempo para
explicar tudo agora. Vamos até à guarita da sentinela. Temos
um amigo aqui, embora ele ainda não o saiba. — Dinkuhl
começara a descer a encosta arborizada, em direção ao
portão e Charles, correspondendo automaticamente à
pressão que o outro lhe exercia no braço, acompanhava- -o.
— Já uma vez lhe disse: nunca me esqueço de uma cara.
Charles já avistava o portão e a figura ereta do guarda, no
interior do seu balão de plaspex. Dinkuhl continuou a falar,
num tagarelar lento que podia ser um disfarce para um certo
nervosismo.
— Estive bastante tempo a pensar em tudo isto. Acho que
tudo vai correr bem. Pensei que talvez fosse um tanto
precipitado tentarmos esta manhã, mas o meu princípio é
que é sempre mais seguro atuar imediatamente, a menos que
se possa atuar ainda mais cedo. Se não fosse agora, teríamos
de esperar por amanhã à tarde. É nessa altura que o nosso
amigo está outra vez de guarda.
Estavam a aproximar-se da guarita. Charles via a figura alta e
imóvel através do plaspex; parecia um tipo inteiramente
vulgar, usando o uniforme da IQR e os emblemas da IQR. O
seu olhar estava fixo neles, friamente, enquanto se
aproximavam.
— Ainda há outra coisa — disse Dinkhul. — A primeira vez
que o vi, tinha um emblema da Telecom. No entanto, isso
não é conclusivo, pois as atividades a que se entregava nessa
altura podiam facilmente ser classificadas de subversivas.
Dinkuhl bateu no plaspex. O guarda descoseu a guarita e
veio em direção a eles; tinha a sua Klaberg preparada e a
máscara antiastarate — possivelmente a Klaberg tinha uma
saída de astarate.
Disse, numa voz que era uma mistura de deferência e
desafio:
— Desejam alguma coisa?
Dinkuhl fitou-o por momentos. Quando voltou a falar, fê-lo
com aquela voz bem cheia que usava quando queria. Disse:
— Irmão, estais condenado?
O guarda apenas se mostrou surpreendido por momentos.
Quando falou, fê-lo numa voz litúrgica, que condizia com a
de Dinkuhl:
— Condenado ao Inferno. Irmãos, estais vós condenados?
— Condenados ao Inferno. — Dinkuhl abanou a cabeça em
direção a Charles. — O Senhor Jeová colocou poder e uma
espada no espírito deste irmão. Ele deve ser liberto para
servir o Senhor Jeová, cujo Dedo ilumina o céu para a
destruição.
O guarda inclinou a cabeça.
— Para os Condenados todos os portões estão abertos.
Dinkuhl olhou para o portão; com certas cautelas, pensou
Charles.
Era uma tentação sair pura e simplesmente e confiar na
sorte. Dinkuhl falou devagar:
— Precisamos de um giroplano, Irmão. Você vai ser rendido
dentro de cinco minutos. O seu uniforme não me serve, mas
serve a este irmão. Quero que o deixe levá-lo. Vamos
amarrá-lo. É esta a Vontade do Senhor Jeová, irmão.
O guarda acenou com a cabeça. Sem hesitar, despiu-se do
seu equipamento e das roupas. Na guarita havia o exsudador
plástico habitual. Dinkuhl ajustou o bocal a um orifício de
um quarto de polegada e a corda plástica começou a sair.
Com cuidado e destreza amarrou-a em volta do guarda, que
não ofereceu qualquer resistência. Enquanto envergava o
uniforme e os demais acessórios, Charles ia-o observando.
Dinkuhl disse:
— Você é que vai ter o trabalho mais difícil, irmão Charles.
O Senhor Jeová não achou conveniente dar-me a figura
necessária para isso. Bata-lhe com a Klaberg, se ele tiver a
máscara. Aliás, é mais seguro fazer isso em qualquer dos
casos. Não me parece que haja aqui nenhuma máscara a mais
e para si seria ainda mais complicado ter de me carregar se
eu perdesse os sentidos. Mas bata-lhe com força, por amor
de Deus. Eu fico acocorado na guarita e, se houver
problema, vou a correr, mas é sempre melhor tomar todas as
precauções de princípio, quando se pode.
Charles sentia-se tenso; não era uma sensação totalmente
desagradável. A perspectiva de fazer qualquer coisa de
violento apaziguava aquela parte do seu espírito que se
sentira particularmente ultrajada com a explicação de
Dinkhul sobre o duplo ludibrio de que tinha sido alvo.
Dinkuhl acabou de amarrar o guarda e encostou-o a um
canto da guarita. Apontou para a casa distante. Um giroplano
erguia-se do telhado.
— Aí o tem. Eu vou para dentro. Não se esqueça, bata com
força.
— Não se preocupe — disse Charles.
Colocou-se á entrada da guarita, agarrando a Klaberg, à
espera do giroplano. Este desceu do ar invernoso, como uma
seta, com os rotores a baterem ociosamente e foi pousar na
estrada, a umas dez jardas. A porta do lado esquerdo abriu-
se, deslizando para o lado, e um indivíduo usando um fato
igual ao dele saltou para o chão. Foi um alívio constatar que
era de estatura média.
Aproximou-se de Charles e disse com um ar curioso:
— Você não é o Herriot.
Charles fez uma tentativa para disfarçar a voz. Tinha o capuz
muito chegado à cara e não o preocupou muito que lhe
reconhecessem as feições.
Disse:
— O Herriot adoeceu. Não lhe disseram?
— Donde é que você é?
Charles ignorou a pergunta. Inclinou-se para a base da
guarita e empurrou-a um pouco com a Klaberg.
— Você sabia o estado em que isto estava? Alguém já devia
ter informado a este respeito.
Endireitou-se enquanto o homem se curvava para ver o que
era. «Atrás da orelha» pensou consigo próprio. Não visou
bem e a coronha da Klaberg assentou na base do pescoço do
homem. Ele rolou e ficou imóvel.
Dinkuhl saiu da guarita.
— Charlie — afirmou — você é um homem de ação. Eu não
teria feito melhor.
O homem continuava imóvel. Sentindo a náusea crescer
nele, Charles encarou a possibilidade de ter sido demasiado
eficiente.
E disse:
— Espero não ter acabado com ele.
Dinkuhl ajoelhou. Disse:
— Traga-me um bocado de corda. Não, ele ainda há de
contar ao George como foi anjinho. Isso torna as coisas mais
fáceis para o nosso Irmão que está lá dentro. Para os
anjinhos a única salvação é o número.
Depois de o ter amarrado devidamente, empurraram-no para
dentro da guarita, para o pé do colega. Dinkuhl
encaminhou-se para o giroplano. Galgou a porta que ficara
aberta e Charles seguiu-o. Dinkuhl tomou os controles.
— Alguém deve ter o tempo a seu favor, mas não nós —
comentou. — Temos de nos pôr a andar.
O giroplano subiu e encaminhou-se para o norte.
CAPÍTULO VI
A paisagem ondulante de Vermont estendia-se 660 m abaixo
deles. As nuvens eram baixas e, de tempos a tempos,
obscureciam a vista. Tudo tinha um ar de tranqüilidade.
Continuavam rumo ao norte. Charles perguntou:
— Mompilher?
— Mais ou menos.
Mas Mompilher tornou-se visível lá em baixo e mantiveram
a rota. Dinkuhl parecia estar num dos seus momentos de
concentração; era bem evidente que ele tinha os seus planos
e não queria discuti-los. Charles admitiu que ele tivesse
mudado o seu objetivo imediato para Quebeque,
possivelmente, dado que a fuga tinha ocorrido tão bem até
ali. Em Quebeque seria mais fácil fazê-los perder pistas.
Já tinham deixado Mompilher para trás, havia umas três ou
quatro milhas, quando o giroplano começou a descer. Era
uma região seca e desértica e a primeira idéia que ocorreu a
Charles foi a de que o giroplano tivesse tido uma falha. Mas
Dinkuhl controlava a descida. Aterraram num dos imensos
campos de batatas da Seção Agrícola. A um gesto de
Dinkuhl, Charles saltou para o chão e os pés enterraram-se-
lhe na terra úmida e solta.
Dinkuhl não saltou logo. Parecia estar a ajustar os controles.
O giroplano começou novamente a subir e Dinkuhl caiu
com os pés e as mãos no chão. A porta do giroplano ainda
estava aberta quando ele desapareceu, para continuar a sua
rota em direção ao norte.
Dinkuhl limpou as mãos à parte de trás das calças. Olhou
para o giroplano que se afastava e disse alegremente:
— Deram-nos tempo de mais. Não me importo de confessar
que me sinto bastante aliviado.
— De qualquer forma, já estávamos livres, não estávamos?
— Nós fugimos da Telecom. Eles têm recursos que as outras
organizações não têm. Todos os seus giroplanos podem ser
controlados a partir da base. — Riu-se. — Agora já podem
fazê-lo. Talvez o façam descer antes de chegar ao Hudson.
Mas acabarão por fazê-lo. Vão interceptá-lo de Montreal e
Quebeque. — Olhou em volta entusiasticamente. —
Estamos livres, meu caro Charles. De fato, nunca pensei que
o conseguíssemos.
Charles olhou em volta. Era um campo com uns 100 ha ou
mais. Para além das vedações de arame, distantes, parecia
haver mais campos semelhantes. O céu estava baixo e viam-
se filas de nuvens escuras. Era a primeira vez na vida que se
encontrava isolado no meio de campo, sem um giroplano ou
qualquer meio de transporte semelhante e a experiência era
bastante deprimente.
— Livres — repetiu. — Livres de fazer o quê?
— De voltar para Mompilher a pé. — Dinkuhl teve um
sorriso irônico. — Um exercício saudável e revigorante.
— E a seguir?
— Um táxi para Albany, transatlântico para Detroit e depois
veremos. Entretanto, o tal passeio revigorante.
Tomando a direção sul, caminharam penosamente através
do campo lavrado. Estavam a aproximar-se da primeira
vedação, quando Dinkuhl apontou para o céu. Dois
giroplanos voavam em direção ao norte. Pararam e ficaram a
olhá-los até eles terem desaparecido novamente. Depois
saltaram a vedação; outra vedação, talvez a um quarto de
milha da primeira, deitava para uma estrada. Dirigiram-se a
ela com renovada energia; era uma estrada leste-oeste, mas
pelo menos a marcha seria menos árdua.
Seguiram para leste, esperando encontrar uma intersecção
para sul, mas a estrada não só continuava sem interrupção,
como ainda complicava tudo distorcendo a linha original.
Nem Charles nem Dinkuhl tinham qualquer experiência em
relação aos pontos cardiais e em breve se tornou evidente
que tinham perdido o rumo. A estrada era de classe D,
grosseiramente traçada pela Secção Agrícola e usada quase
exclusivamente para os trabalhos agrícolas. Dado que os
campos não estavam a ser trabalhados de momento, parecia
haver poucas hipóteses de encontrarem outros viajantes.
Tiveram de percorrer mais de duas milhas, antes de
encontrarem finalmente uma interseção, que se transformou
em desapontamento. O cruzamento ficava no meio de
campos absolutamente planos, sem qualquer indicação que
os pudesse orientar quanto à posição em que se
encontravam.
Dinkuhl disse amargamente:
— Um dolitá era de mendá... Diabos me levem se eu sei para
que lado é o sul. À parte o sol, só sei que o musgo cresce no
lado sul do tronco das árvores. Descubra uma bolota.
Podemos plantá-la e sentar-nos à espera.
Charles apontou para a bifurcação do lado esquerdo.
— Um dos nativos.
Esperaram enquanto o homem avançava para eles ao longo
da estrada. Tinha um passo saltitante, mas quando se
aproximou viram que tinha, pelo menos, sessenta anos;
tinha o cabelo branco cortado em escova encimando um
rosto de faces rosadas e cheias de rugas. Usava o fato-macaco
vulgar dos trabalhadores, mas sem qualquer emblema.
Dinkuhl chamou-o:
— Vamos para Mompilher. É capaz de nos indicar o
caminho?
O homem parou à frente deles; as suas feições não eram
exatamente sorridentes, mas tinha um olhar ao mesmo
tempo divertido e cordial.
— Acho que deve haver lugares piores para se ir — disse. —
Mas vocês não vão para lá. Vão para outro sítio.
— Qual?
— O Céu. — O seu rosto abriu-se agora num sorriso. — Ou o
Inferno.
Dinkuhl olhou-o de perto. Perguntou:
— Irmão, estais condenado?
O desconhecido riu.
— Espero que não, mas é uma coisa na qual eu não apostaria.
O meu nome é Kirby — Stuart Kirby. Vocês procuram
Mompilher — Eu venho de lá agora mesmo. Umas duas
milhas para trás. Querem comer qualquer coisa? Tenho pão
e queijo na minha mala.
Tinha uma pequena mochila aos ombros. Desapertou as
correias e deixou-a deslizar. Charles e Dinkuhl aceitaram o
pão e o queijo que ele lhes ofereceu. Beberam também de
um frasco com cerveja que levava. Dinkuhl disse:
— O meu nome é Hiram. Você não traz nenhum emblema,
Stuart.
— Deixe-me ver — disse Kirby. — Você também não.
— Eu sou o Grande Auk — disse Dinkuhl. — Estava
convencido de que era o último na minha linha. Quando se
recebe uma pensão não se é obrigado a usar os acessórios?
— Eu desisti da minha pensão. Estava nos Aços.
— De que é que vive?
— O Espírito de Deus viajou por todas as estradas por onde
tenho passado. As pessoas são mais generosas do que julga
uma pessoa como você, Hiram. Dão-me de comer e de
beber e às vezes dão-me cama. — Levantou um pé,
mostrando o tipo de botas pesadas que os trabalhadores das
Minas costumavam usar. — Arranjei estas a noite passada.
Deu-mas um homem que trabalha nas minas. Quase novas e
estão mesmo à medida.
— Você vive de esmolas?
— Todas as criaturas de Deus vivem de esmolas, Hiram.
Gostam que eu lhes fale e eu gosto do som da minha própria
voz.
Dinkuhl sentiu novamente a suspeita primitiva.
— Você não pertence à Seita do Cometa?
Kirby riu.
— O homem que me deu as botas... ele e a mulher é que
eram da Seita do Cometa. Pela graça de Deus, já não são. O
cometa pode ser um sinal, mas então todas as estrelas são
sinais.
Dinkuhl disse:
— Os sinais são para algumas pessoas.
— Isso é verdade, Hiram. Já encontrou o seu sinal?
— Ainda não.
— Há de encontrar. Pode até ser o cometa. — Apertou a
mochila. — Por agora procura Mompilher. Viajem em paz,
amigos. Eu tenho de ir.
— Para onde vai? — perguntou Charles, curioso.
Kirby sorriu.
— Para o Céu, espero. Mas não quero correr riscos.
Pôs-se a caminhar, decidido, ao longo da estrada deserta e
não olhou para trás.
Antes de chegarem a Mompilher, Dinkuhl mudara de idéias
quanto ao transatlântico para Albany. Segundo ele, já tinham
gasto mais tempo do que contavam e a possibilidade de a
Telecom ter apanhado o giroplano vazio não podia ser posta
de lado. Nesse caso, eles podiam ter alertado todas as suas
estações norte-americanas no sentido de procurarem os
fugitivos; seria um empreendimento de grande vulto e difícil
de explicar sem, ao mesmo tempo, informarem as Seções de
Contacto vizinhas, mas eles podiam achar que valia a pena
correr o risco.
Resolveram, portanto, tomar um girotáxi para Detroit.
Pagaram na estação central e depois, de uma cabina,
Dinkuhl entrou em contacto com Awkright da Secção de
Genética. Por cima do ombro de Dinkuhl, Charles viu o
interior do escritório onde Dinkuhl o tinha levado em pri-
meiro lugar quando decidira pôr em prática o seu
empreendimento pessoal. O rosto largo e sardento de
Awkright foi focado e Dinkuhl ajustou os controles.
Awkright disse:
— Hiram! Afinal deixaram-te em liberdade?
— Trate-me por Houdini — disse Dinkuhl. — Pode vir
buscarmos? 4.a e Eisenhower? Preferimos não nos expor aos
olhares do público mais do que o tempo indispensável.
— Vou já para aí. — Awkright sorriu. — Alguém perguntou
por vocês. Ou antes, pelo Charlie.
— Não há dúvida que ele é um tipo muito conhecido. Vem
já antes que apareçam mais amigos à procura dele.
Awkright apresentou-se no calhambeque de Dinkuhl; o
cheiro da gasolina precedia-o e permanecia um bom bocado
depois de ele passar. Dinkuhl e Charles entraram.
Charles disse:
— Não há dúvida que é uma boa maneira de viajar incógnito.
Awkright riu:
— Pedi-o emprestado enquanto você esteve fora, Hiram.
Espero que não leve a mal. Quer dizer que ainda andam atrás
de vocês? Julguei que estavam com a IQR.
— O problema de ter bons contactos — notou Dinkuhl — é
que se acaba por confiar neles. E então alguém começa a
soprar-nos tudo o que quer por essa via. É à Telecom que
nós acabamos de fugir. Para onde é que você vai — para a
minha casa? Não tarda que eles voltem a aparecer por aí com
barbas postiças e frascos de astarate.
— Para minha casa — disse Awkright. — Eu já lhes disse —
há uma visita para Charlie.
Charles disse:
— Ouça, quer dizer que está lá alguém à espera para falar
comigo? Tudo menos isso.
Dinkuhl disse:
— Eu próprio também não acho que seja uma boa idéia. A
situação promete ser difícil. Eles desejam doidamente o que
Charles tem para dar e mostram mais tendência para lhe
deitar a unha do que para pedir com delicadeza. Talvez seja
melhor irmos para casa do Louie.
Awkright deitou a cabeça perigosamente para trás e largou a
rir; o carro desviou-se em direção ao passeio. Dinkuhl disse
com azedume:
— Reparei que o guarda-lamas da frente estava torto.
Realmente não admira. Guarde o seu sentido de humor para
quando não estiver a guiar.
— Sou um tipo naturalmente feliz — disse Awkright. Voltou
a rir. — Não o consigo evitar.
O carro parou em frente de um grande prédio de
apartamentos que deitava para o lago. Parecia ridículo ao
lado dos inúmeros salões de baterias que havia no parque de
estacionamento. Os três entraram e tomaram o elevador
para o último andar. Awkright assobiou com força em frente
da porta. Sorriu para Charles.
— Preveni a visita de que vínhamos para aqui.
A porta abriu-se e eles atravessaram o vestíbulo. O chão era
de plaspex, formado por pequenos tijolos colocados sobre
um tanque com peixes tropicais; tratava-se provavelmente
de um passatempo de Awkright, pois era uma instalação
demasiado cara para fazer parte da decoração de rotina neste
tipo de apartamento.
Awkright disse:
— Vá em frente, Charlie. A sala é mesmo em frente. Ainda
quero mostrar uma coisa ao Hiram.
Não restavam dúvidas de que havia qualquer coisa à espera
dele. Empurrou a porta e entrou na sala — um quarto
espaçoso e arejado com vista para o lago. Havia uma pessoa
de pé junto da janela principal, olhando para as águas.
Voltou-se quando o ouviu entrar. Era Sarah.
Charles avançou direito a ela. A rapariga sorriu, hesitante e
depois afetuosamente. Ele segurou-a pelos cotovelos,
desejoso de sentir que o corpo dela era real e sólido. Podia
tratar-se de um truque de câmaras de projeção.
Mas não era. Ela era bem real, de carne e osso, e susteve a
respiração quando ele lhe tocou. Ele queria aproximá-la
mais, apertá-la nos braços, transformar o seu regresso na
convicção de um abraço. Sentia- -se bastante confiante que
ela não o recusaria desta vez. Mas qualquer coisa o impediu
de o fazer. Em vez disso, pegou-lhe numa das mãos e
acariciou-lha entre as suas.
— Sarah — disse. — Como é que conseguiu fugir? Quem é
que a apanhou?
Aguardou o prazer de lhe voltar a ouvir a voz, o que não lhe
foi negado.
Ela disse:
— Fugir? Não houve qualquer dificuldade. Porque é que
havia de haver?
— Mas você foi capturada — por alguém? Fingiram que tinha
sido suicídio.
— Sim, capturada, mas com toda a delicadeza. — Ela
estremeceu. — Foi isso precisamente o mais desagradável.
Os controles do giroplano tinham sido pré-programados. Ao
fim de cinco minutos percebi que não obedeciam. Tive de
ficar quieta e deixar-me levar pelo giroplano.
— Levar? Para onde?
— Sacramento. Primeiro.
— Sacramento. Seção Atômica!
— Claro. Não lhe tinha dito? Só soube quando o giroplano
começou a descer, junto de uma das suas torres. Não sabia
de todo o que estava a acontecer. Mas as coisas também não
se tornaram muito mais claras depois da aterragem. Fui
levada para o QG da Secção Atômica. Foram muito gentis e
pediram imensa desculpa. Tinham tido que me apanhar,
esclareceram, para me interrogarem sobre um assunto que
consideravam importante para a organização. Teria
alojamento ali por uma noite e partiria para Filadélfia na
manhã seguinte. Pela minha parte, não podia fazer nada.
Estava bastante aliviada por os meus piores receios não
terem sido justificados.
— Não podia enviar mensagens para o exterior, claro?
— Não. Isso aborrecia-me bastante, mas é compreensível
que assim fosse. Deram-me a certeza de que estaria de novo
em liberdade ao fim de três dias e tive de me contentar com
isso. — Uma sombra obscureceu-lhe o rosto. — Entretanto,
o meu pai — já sabe. Mas mesmo isso não foi culpa deles.
Eles perguntaram-me se o meu desaparecimento durante
três dias poderia ter qualquer efeito grave sobre ele; estavam
prontos a capturá-lo como tinham feito comigo, caso eu o
preferisse. O erro foi meu. Não queria que ele sofresse o
choque de ser capturado; mas acho que não dei a devida
importância ao choque que lhe produziu o fato de eu o ter
sido.
Charles disse:
— Pensava que ele também não estivesse morto. Julguei que
tudo tivesse sido preparado para dar essa idéia, tal como
aconteceu com Hans e consigo.
Ela abanou a cabeça.
— Infelizmente, é verdade. Mas acho que não foi só por
causa do meu desaparecimento. Primeiro já tinha sido o
Hans e depois a sensação de que a sua vida agora não tinha
sentido. Ensinar história a dois alunos; não era uma vida
muito interessante para um homem que esperara governar
Israel.
— Lamento muito.
Ela sorriu timidamente.
— Já não há nada a fazer. Primeiro fiquei muito abatida e, ao
mesmo tempo, zangada — mas ninguém teve culpa. Foi
azar. Eles tiveram de agir naquela altura; era uma questão de
se anteciparem a outros — em especial à Telecom. Você
depois saberá tudo.
Ele fez um gesto de assentimento.
— Sim. Eu sei. E depois, o que é que aconteceu — quando
você chegou a Filadélfia?
— Falei com o Raven.
Charles soltou um assobio. Raven era o diretor principal da
Seção Atômica. Membro do Conselho de Gestões.
— E então...?
— Simpatizei com ele. Acho mesmo que é a primeira pessoa
das que encontrei por cá por quem sinto verdadeiro
respeito. — Sorriu com ar matreiro. — Uma espécie de
respeito filial, claro.
Charles disse:
— Parece que é um tipo catita. Incapaz de tentar levá-la a
completar o trabalhar de Hans para beneficio da sua própria
organização, não é verdade?
Sarah desprendeu a mão.
— Vamos sentar-nos. — Encaminhou-se para um assento de
parede que deslizou para baixo quando ela carregou num
botão. Sentou-se e Charles sentou-se ao lado dela.
— A sua reação é natural — prosseguiu. — Foi também a
minha primeira reação. Não se esqueça que eu nunca
acreditei no sistema de gestão. De qualquer forma, não vou
discutir consigo sobre este assunto. Gostava que fosse você
mesmo falar com o Raven.
— De qualquer forma, ele sempre queria alguma coisa. Pode
dizer-me o que era?
Sarah olhou-o fixamente.
— Queria que eu passasse da IQR para a Secção Atômica.
Oficialmente. E posso dizer-lhe que ele desejaria que você
fizesse o mesmo.
Charles olhou para ela — espantado. Disse-lhe:
— Não pretende dizer-me... que consentiu? Que pediu a sua
transferência?
Ela tirou de uma algibeira o emblema da Seção Atômica e
pregou-o na túnica.
— Sim. Não o usei desde o início porque queria explicar-lhe
tudo primeiro. — O seu rosto tomou uma expressão mais
suave. — Charles, gostaria de ter falado consigo primeiro,
mas eles disseram-me que você tinha sido capturado pela
Telecom. Estavam a tentar libertá-lo, mas, entretanto, que é
que eu podia fazer?
— Voltar para a IQR. Porque não?
— A IQR — disse Sarah — é tão ineficiente que se torna
impossível. Os únicos gerentes capazes que eles têm são os
oportunistas como Ledbetter. Quando o Hans desapareceu,
o Contacto da Secção Atômica interessou-se pelo caso.
Tentaram obter a colaboração da IQR — ao mais alto nível,
em Graz —, mas eles nem sequer sabiam o que se estava a
passar nos seus próprios laboratórios e tão-pouco estavam
interessados em saber.
— Não sabiam — disse Charles —, porque Ledbetter
encaminhava tudo o que era importante para a Telecom.
— É isso mesmo que eu digo — acrescentou a rapariga. —
Ineficientes. Não tomaram qualquer atitude quando eu
desapareci, nem mesmo quando Ledbetter o mandou raptar.
E, entretanto, permitiram que o laboratório sofresse uma
incursão durante a qual foram retiradas todas as peças de
valor.
Charles lembrou-se dos relatórios de Isaacssohn que tinham
sido recebidos na Casa de Campo; era natural que a Telecom
os tivesse.
— Sim — disse. — Sei isso.
— Então já vê — disse ela. Mostrou-lhe o pulso e o pequeno
rádio que tinha ligado a ele. — Com isto, posso ser útil em
qualquer altura. Se tivesse voltado para a IQR iria agachar-
me como um pato à espera de ser alvejada pela primeira
organização que se lembrasse de disparar.
Embora com relutância, ele começava a compreender a
posição dela. Ele próprio sofrerá um grande choque ao ver o
mundo que lhe era familiar estalar e abrir-se debaixo dos
seus pés e ele não era um exilado, num país estranho, quase
num mundo estranho.
— No fundo eu não tinha qualquer ligação especial com a
IQR, não acha? Receberam-nos quando viemos de Israel,
mas qualquer organização o teria feito. Éramos técnicos
especializados — Hans e eu. Pelo meu pai não fizeram nada.
— Também acho. E agora está a trabalhar para eles?
Ela disse francamente:
— Não muito bem. Acho que sou do tipo colaborativo —
não faço grande coisa sozinha.
— Mas como é que você está aqui — no apartamento de
Awkright? Ele não trabalha para a Seção Atômica, pois não?
Trouxeram-me para aqui de avião. Há duas ou três horas, a
Telecom deu o alerta a toda a organização para uma
verificação de segurança tripla. A Secção Atômica adivinhou
o que isso queria dizer — isto é, que você e Dinkuhl tinham
conseguido fugir. A linha da Telecom parecia dirigir-se para
o Canadá, mas a Seção Atômica pensou que viriam para aqui.
Sabiam alguma coisa acerca do circule de Dinkuhl — mais
do que Dinkuhl gostaria que soubessem, imagino — e
concluíram que ele devia entrar em contacto com Awkright
logo que pudesse, E fê-lo, não há dúvida. — A mão dela
deslocou-se até tocar na dele. — Não se importou que eu
viesse ao seu encontro?
Ele sorriu, agarrando-lhe os dedos.
— Não.
— Nem mesmo por eu ter vindo como emissária de uma
organização estranha, tentando seduzi-lo?
— É sempre agradável quando alguém tenta seduzir-nos,
mesmo quando não temos qualquer intenção de ceder. —
Ele sorriu. — Não acha?
Ela ficou a olhá-lo por momentos e depois corou.
— Acho que sim.
Depois de ter estado a pensar, ele disse:
— Reconhece que o meu dever é em relação à IQR — a
minha própria organização?
Ela abanou a cabeça com firmeza.
— Não. Estive a tentar encarar a questão sob o ponto de vista
que eu teceava que você tomasse. Mas não vou discutir isso.
Sempre vai falar com o Raven? Posso garantir-lhe que será
livre de fazer o que quiser depois de falar com ele. Não há
perigo de quererem retê-lo contra vontade.
Ele disse:
— Com certeza que vou. Sempre será uma experiência falar
com o Raven.
Aliviada, ela disse:
— Ainda bem.
Ele preveniu-a:
— Isso não quer dizer que vá pedir a transferência.
Ela encolheu os ombros, cheia de graciosidade:
— Desde que vá.
Um pormenor que não lhe saía da cabeça voltou a preocupá-
lo agora.
— O seu relógio... — disse.
Ela levantou o dedo, olhando para ele cheia de curiosidade.
O relógio era o mesmo ou então um duplicado.
— Já o tem outra vez — disse ele.
— Já o tenho outra vez? Ah, estou a perceber. Não calculava
que soubesse disso. Entreguei-o na Aliança Elétrica, para ser
recarregado durante o fim-de-semana. O meu pai disse que o
ia buscar no domingo à tarde, porque tinha de ir perto dali
— mas esqueceu-se. Nos últimos anos já não tinha grande
memória. Ia pedir que mo mandassem, mas... eu acabei por
o mandar ir para Filadélfia.
Charles disse:
— Com os diabos! Uma explicação tão simples. E foi esse
relógio que acabou por me convencer de que você estava
viva.
Ela riu:
— E estou.
— Sim, mas o testemunho era fraco.
— Que importância tem o testemunho?
O ar grave e formal que, dentro de certa medida, era
característico de todos os postos dos Serviços Atômicos,
atingia o máximo no QG de Filadélfia. Desviavam-se
igualmente da norma ao instalarem o gabinete do diretor
principal no telhado; nas outras organizações, o pessoal su-
perior ocupava o primeiro andar. Havia um elevador
particular que ligava diretamente com os aposentos do
diretor principal, mas o caminho mais usual e também
aquele que Sarah escolheu para o conduzir era através do
jardim plantado no telhado. Um caminho coberto de fo-
lhagem, donde pendiam madressilvas, conduzia a um
pequeno pátio no qual três fontes tinham sido rodeadas em
três lados com paredes plastificadas, para produzir o efeito
de frescura e simplicidade das paredes caiadas. O gabinete
particular do diretor principal ficava no fundo do caminho.
Era uma sala alongada, com uma janela que dava para o pátio
e outra abrindo sobre Filadélfia, que se estendia trinta pisos
mais abaixo. A secretária do diretor principal ficava junto da
janela que dava para o pátio. Dois criados fardados fizeram-
nos entrar e Raven pôs-se de pé. Curvou-se ligeiramente e
sorriu.
— Tive o prazer de o ver pela janela enquanto se
aproximava. Miss Cohn, estou muito satisfeito por ter tido
êxito na sua missão. Quanto a si, Sr. Grayner, foi muito
amável da sua parte em ter acedido a pôr algum do seu
tempo à minha disposição.
Na Seção Atômica conservavam-se as formas arcaicas de
tratamento nas conversas formais. Charles não estava certo
se a sua utilização se devia estender, segundo a etiqueta, ao
próprio Raven. De qualquer forma, não via razão para adotar
os hábitos da Seção Atômica.
Disse:
— Naturalmente, Diretor Raven, é uma honra ser convidado
para vir conhecê-lo.
Raven dirigiu-se a Sarah.
— Sente-se, Miss Cohn. E o senhor também, Sr. Grayner.
Sarah continuou de pé. Disse:
— Acho que seria melhor eu sair da sala por agora, Sr.
Raven. — Deitou um olhar de soslaio para Charles. — O Sr.
Grayner sabe da minha transferência e conhece mais ou
menos a minha posição a esse respeito. Não acho que o fato
de eu ficar possa ter qualquer utilidade.
— Faça como preferir — disse Raven. Acenou para os dois
mordomos que estavam junto da porta e eles voltaram a
abri-la para dar passagem a Sarah. — Fica perto daqui?
Ela fez um gesto de assentimento.
— No jardim. — Sorriu para Charles e saiu.
Raven disse:
— Acho que uma conversa totalmente particular seria
preferível. Não acha, Sr. Grayner? Rogers, Barczywski —
esperem lá fora, por favor.
As portas fecharam-se e eles ficaram sós no gabinete
comprido e cuidadosamente arrumado. Fora construído e
mobiliado havia muito tempo; este era um dos primeiros
grandes edifícios do mundo da gestão. Charles notou a
presença de um televisor de projeção à antiga; havia a
pequena fenda no teto que permitiria a saída do écran
suspenso.
— Queira sentar-se, Sr. Grayner — disse Raven. — Charuto?
Cigarro?
Charles sentou-se na cadeira que lhe fora indicada e tirou
um cigarro da caixa.
— Obrigado, Diretor Raven.
Raven dedicou-se a todos os preliminares que antecedem o
acender de um charuto. Teve um riso abafado; a sua
expressão era comedida, mas bastante afável.
— Se decidisse vir trabalhar conosco — eu disse se, Sr.
Grayner —, competir-lhe-ia tratar-me por «Sr. Diretor».
Temos os nossos hábitos que devem ser preservados. Tenho
razão ao pensar que esse pequeno ponto não constituiria
para si um obstáculo insuperável.
A chama aproximou-se dele e ele acendeu o charuto. Sorriu.
— Não, Sr. Diretor. Não teria qualquer objeção.
— Bom — disse Raven com à vontade. — Isso já é qualquer
coisa. Prefiro sempre partir de uma base de entendimento,
por muito pequena que seja.
Fez uma pausa, enquanto chupava no charuto e Charles
aguardou. Entretanto estudava o homem.
A sua estatura era um pouco abaixo da média e era magro. A
roupa que usava era feita em Londres — um fato escuro cor
de ferrugem, com camisa e gravata cor de tília — na
botoeira, como decoração, usava um cravo branco. Tinha as
feições um tanto duras, mas a expressão era totalmente
descontraída; era impossível imaginá-lo excitado com o quer
que fosse. Devia rondar pelos sessenta; o cabelo
embranquecera-lhe, mas o efeito era agradável.
O seu aspecto, de uma maneira geral, causava uma funda
impressão, mas esse sentimento, na opinião de Charles, não
era apenas um somatório de todos os traços individuais.
Aquele homem irradiava confiança e integridade. Charles
pensou em Ledbetter — um Ledbetter afável, franco e
senhor de si, mas guardando muitas outras coisas por detrás
de tudo isso, outras coisas que lutavam para se libertar.
Sentia pena da ambição desmedida de Ledbetter, que tinha
de enfrentar esta realidade, a um nível mais alto.
Raven disse:
— Bom, isso parece caminhar bem. Agora podemos falar de
coisas sérias. Espero que me conceda o privilégio da idade,
Mr. Grayner, ao passar em revista uma série de coisas com as
quais deve estar familiarizado — e em alguns casos mesmo
demasiado familiarizado. Mas eu quero colocar as coisas na
sua perspectiva exata. Tenho a certeza de que o senhor é um
jovem sagaz e eminentemente sensato, mas com as
experiências que teve recentemente seria para admirar que
os seus juízos não estivessem um tanto desviados da
verdade. Além disso, há algum tempo que tem gozado da
vantagem da companhia do Sr. Dinkuhl, um homem de uma
inteligência aguda e perspicaz, mas um pouco dado a idéias
fixas. — Deitou um olhar a Charles. — Será que me pode dar
uma idéia das suas opiniões atuais?
— Sobre que assunto?
— Questões fundamentais. Sobre a sociedade. — Olhou para
o visor que tinha na secretária. — A sua folha é muito boa.
Denota uma verdadeira estabilidade, indispensável para que
os sentimentos de lealdade persistam tão fortemente numa
pessoa que, diga-se em abono da verdade, não tem recebido
igual tratamento por parte da sociedade. De fato, uma parte
integrante da nossa sociedade é o direito que assiste ao
indivíduo hábil de usar a sua habilidade.
Fez uma pausa. Charles disse com cuidado:
— Aí está uma coisa que eu acho um bocado confusa — as
implicações daquilo que acaba de dizer, Sr. Diretor.
Raven olhou para o charuto.
— Estou convencido de que nenhuma outra sociedade antes
da nossa apresenta resultados tão positivos no que diz
respeito ao encorajamento da inteligência, sejam quais
forem as circunstâncias em que ela se revele. O erro
ocasional, como, por exemplo, no seu caso, apenas serve
para realçar esses mesmos resultados.
— Não. Não era bem a isso que eu me referia. Eu só queria
dizer... é um bocado difícil de explicar. — Raven olhou para
ele com benevolência e, ao mesmo tempo, com ar
encorajador. — Antes dos acontecimentos recentes que o
senhor mencionou eu aceitava as coisas tal como se me
apresentavam. Acho que o que me deve ter surpreendido e
chocado, mais do que qualquer outra coisa, foi a descoberta
da hostilidade e desconfiança que existem entre as diversas
organizações. O mundo parece ter-se desintegrado e não é
fácil juntar de novo as peças. O grupo de descontentes do
Dinkuhl — julgo que sabe da sua existência —, a Seita do
Cometa — provavelmente também sabe disso —; depois,
descobrir que a Telecom tinha acesso a todas as minhas
fichas — através de Ledbetter, segundo creio. Agora o
senhor também tem as minhas fichas. Tudo parece estar
entretecido de duplicidade.
Raven fez um gesto de assentimento.
— Não é um quadro lá muito belo, pois não? A sociedade do
mundo da gestão expõe todas as suas maleitas. E mesmo que
nenhuma dessas maleitas existisse, ainda resta uma fraqueza
constitucional da qual um espírito saudável se pode afastar
facilmente, por lhe causar horror. O espetáculo de uma
sociedade que corre atrás da própria cauda, com a mão
direita combatendo a esquerda, lutando pela posse das
capacidades de três indivíduos — dois dos quais nem sequer
são seus filhos — é o bastante para causar medo. Creio que o
Sr. Dinkuhl descreveria uma tal situação como os espasmos
finais da decadência.
Charles teve um ligeiro sorriso.
— É o que ele diz.
— E é sobre mim, creio — disse Raven —, que recai uma
grande parte das culpas. Há quinze anos que sou o diretor-
geral desta organização e membro do Conselho dos Doze. —
Inclinou-se ligeiramente para a frente. — Há dez anos, neste
mesmo mês, fiz lembrar ao Conselho a urgência de
reorganizar os serviços de investigação e o desenvolvimento
técnico no mundo da gestão. A proposta não era nova —
vários dos meus antecessores já tinham chamado a atenção
para esta mesma necessidade. A questão foi ventilada — e
abandonada. Nada foi feito.
Raven sacudiu suavemente as cinzas do charuto.
— Como sabe, o Conselho não toma muitas decisões; a
soberania de cada organização, é demasiado apreciada para
que isso aconteça. Talvez esse fato me possa servir de
desculpa. Mas será que também me posso desculpar por não
ter conseguido aplicar aqui, nos Serviços Atômicos,
reformas do tipo das que eu preconizava? Não tenho a
certeza. Quer que lhe diga o que fiz?
Lancei nesta organização uma campanha de propaganda a
favor da ciência e da tecnologia. Isso custou-nos bastante
dinheiro. Essa propaganda dirigia-se especialmente á classe
que estava na sua fase de formatura. Fiz tudo o que pude
para persuadir esses jovens a optarem pela investigação. Sabe
quais foram os resultados? Apareceram-nos como
voluntários uma simples dezena de candidatos com QI de
120 e todos eles evidenciaram uma personalidade que os
incapacitava para esse fim!
— Na IQR — disse Charles — não haveria possibilidade de
opção.
Raven sorriu.
— Assim como não houve nesta organização em qualquer
outro ano. Pensei impor a revogação da nossa política, fiz
mesmo várias tentativas, mas não foi possível levar a idéia
por diante. Tive contra mim a oposição local. Meu caro Sr.
Grayner, há limites, mesmo para os poderes de um diretor-
geral.
Charles disse:
— Então Dinkuhl tinha razão. Esta sociedade já foi longe de
mais para conseguir salvar-se.
— Por vezes — disse Raven —, já tenho pensado o mesmo.
Mas, como sabe, nunca houve uma situação histórica
definitiva. Roma caiu, mas Bizâncio, que lhe ficava tão
próximo, reuniu as suas defesas e sobreviveu oitocentos
anos. É a lei das médias que destrói os impérios e essa lei não
nos ajuda a determinar o particular.
— Não, em qualquer situação histórica, o melhor que se
pode fazer é determinar as probabilidades — e, uma vez
determinadas as probabilidades, ainda resta decidir qual o
partido a tomar. Como deve compreender, há sempre
ocasiões em que mais vale lutar por uma oportunidade em
cem do que pelas restantes noventa e nove, como, por
exemplo, quando essa oportunidade em cem nos oferece a
vida enquanto as outras noventa e nove nos prometem a
morte.
É neste ponto que o Sr. Dinkuhl e eu divergimos. Trata-se
de uma questão relativamente simples. O Sr. Dinkuhl — e
ninguém melhor que o senhor pode julgar se eu estou a ser
injusto para com ele —, o Sr. Dinkuhl anseia pela destruição.
Ele deseja que o mundo seja esmagado. Não há dúvida de
que tem as suas razões e que essas razões são bastante fortes,
mas não as aprecio, assim como não compartilho dos seus
pontos de vista. Se a sociedade está doente e parece
moribunda, o meu instinto leva-me a fazer tudo o que puder
para a salvar. A morte de qualquer sociedade é uma coisa
terrível, como o Sr. Dinkuhl — estudante de História —
deve saber. Pode ser que as pessoas hoje em dia não sejam
tão felizes como os écrans da televisão as apresentam. Nem
podem ser, se acorrem em tão grande número a esses ritos
especiais de condenação, associados com o cometa, que se
praticam hoje em dia entre nós. Mas eu considero essa
espécie de infelicidade que podem estar a sentir agora
completamente diferente do tipo de miséria total e de
desgraça que acompanharia o colapso da vida civilizada.
Também temos o direito de contar as nossas pequenas bem-
aventuranças, julgo eu. E rejeitar a solução destrutiva para os
nossos problemas não é o mesmo que rejeitar todas as
soluções. Pode ser um grande esforço — pode mesmo ser
um esforço inteiramente vão — o de pôr a sociedade
novamente de pé, mas não me parece que faça mal tentar.
Parando de falar, Raven dirigiu um olhar inquiridor para o
rosto de Charles. Era impossível deixar de ficar
impressionado com o seu realismo e confiança; ou deixar de
o comparar favoravelmente com o realismo e o desespero de
Dinkuhl. Charles argumentou, mas fê-lo automaticamente e
sem convicção:
— Seja de que ângulo for que observe a situação, ela
apresenta-se bastante negra. E não me parece que tenha sido
feita qualquer tentativa de o dar a entender às pessoas.
Raven curvou-se ligeiramente.
— Mea culpa, mais uma vez. Ou, pelo menos, em parte. Mas
é praticamente impossível pregar a mensagem de
clarividência a que você se refere. O público é capaz de
suportar muitas formas de opressão — taxas, invasão da sua
vida privada, perda de liberdades —, mas nunca suportará ou
perdoará a Cassandra. De qualquer forma, um dos
inconvenientes menores do estado atual é o papel
desmedido que cabe à Telecom na formação de opiniões e a
direção da Telecom tem estado há já algum tempo nas mãos
de indivíduos ligeiramente paranóicos.
Quanto à situação ser bastante negra — não há dúvida de
que o é. A crise avizinha-se. Mas não esqueçamos que uma
crise é justamente um momento de decisão. Para uma
sociedade decadente são os períodos de calma que se tornam
perigosos; a crise representa um desafio ao qual é necessário
responder. Em tempo de crise as pessoas têm de dar ouvidos
a Cassandra e, por vezes, com bons resultados.
Charles disse:
— Como é que o fato de eu trabalhar para a Seção Atômica
na energia solar transmitida pelo diamante pode ajudar
Cassandra?
Raven teve uma ligeira hesitação.
— Está a obrigar-me a entrar na situação embaraçosa de lhe
pedir que faça uma estimativa da minha pessoa. A julgar por
aquilo que encontrou recentemente e por aquilo que
apanhou ao Sr. Dinkuhl, considera-me um diretor típico no
mundo da gestão?
Charles respondeu prontamente:
— Não. Claro que não. Pelo contrário.
Raven colocou as mãos pequenas, com as unhas
cuidadosamente arranjadas, em cima da secretária. Charles
pensou que iria olhar para elas, mas não o fez. Os seus olhos
estavam cravados em Charles
— Esta é a imagem que eu lhe deixo, Sr. Grayner. Ou o
senhor ajuda a destruir o sistema de gestão ou ajuda a salvá-
lo. Como já lhe expliquei, estará a salvar qualquer coisa de
muito imperfeito, mas a destruição é uma coisa terrível. Se
escolher o que me parece ser o curso mais humanitário,
então tem de decidir em que direção é que a sua ajuda terá
maior valor. Em pé de igualdade, aconselhá-lo-ia a trabalhar
para a sua própria organização, por diversas razões que não
vou abordar agora. Mas não penso que as coisas estejam em
pé de igualdade e também não creio que o senhor o pense.
Peço-lhe que junte forças conosco, pois estou convencido
de que somos capazes de o ajudar e de usar sensatamente o
seu trabalho. — Fez uma pausa. — Talvez gostasse de ter
algum tempo para pensar?
Charles disse:
— Já têm Sarah. Se eu também pedisse a minha
transferência, não lhe parece que a IQR levantaria objeções
a este suborno em massa dos seus investigadores?
Raven acenou afirmativamente.
— É muito provável. Mas um dos poucos regulamentos
inter-organizações que foi acordado pelo Conselho, foi
precisamente o pleno e livre direito à transferência, com o
consentimento da pessoa que a pede e da nova organização.
Está especificado que o consentimento da organização de
origem não é necessário. — Sorriu. — Embora isso fosse
muito antes do meu tempo, estou praticamente certo de que
as Industrias Químicas Reunidas, juntamente com os Aços, a
União Elétrica e mais umas quantas, formaram o grupo que
insistiu na adoção deste regulamento e que esta organização
começou por se opor a ele — de fato, foi usado numa
campanha contra nós. As coisas dão a volta. De qualquer
forma, pode deixar as objeções da IQR comigo. Compete-me
encarregar-me deles.
— Só uma pergunta, Sr. Diretor: — Têm Isaacssohn?
— Não.
— E não sabe onde ele está?
— Temos algumas pistas. Francamente ainda não sabemos
grande coisa. Pode mesmo ser que esteja realmente morto.
— Sabe que é ele o cérebro que está por detrás da questão da
energia dos diamantes — que o trabalho original ê seu?
— Sim, sabemos. Deixe-me fazer-lhe uma pergunta, Sr.
Grayner. Na sua opinião, em que fase está o trabalho?
— Fase de desenvolvimento. Quando o examinei pela
primeira vez, pensei enviá-lo para um desenvolvimento de
rotina — o trabalho criativo essencial estava terminado.
Sarah persuadiu-me a continuar por mais algum tempo.
Claro que nessa altura eu não sabia que não havia ninguém
que fosse realmente capaz de fazer o trabalho de desenvolvi-
mento.
— E quanto tempo pensa que levará o trabalho de
desenvolvimento?
Charles encolheu os ombros.
— É praticamente impossível responder-lhe. Aparecem
sempre obstáculos, mas não se pode prever o seu tamanho
ou número. De qualquer forma, nunca será menos de três
meses, nem mais de um ano. — Olhou para Raven. — E
mais uma vez, não se pode esquecer que, mesmo contando
com dois dos três, o terceiro é que é o verdadeiro peso.
— Não estou bem certo. Einstein fez as pesquisas iniciais
sobre a conversão da energia das massas, mas o seu trabalho
sobre a desintegração nuclear aplicada limitou-se a uma
recomendação sobre a sua viabilidade. Isaacssohn pode não
ser capaz de trabalhar mais depressa do que você e Sarah,
seja para quem for que trabalhe. Duvido que ele seja capaz
de trabalhar muito mais depressa.
— Talvez não. A fase das dificuldades tende a nivelar o
trabalho.
— E a nossa principal preocupação é impedir que quem está
a usar Isaacssohn tenha o monopólio da invenção. Para esse
fim, basta que o trabalho esteja em fase bastante adiantada.
Charles disse:
— Sim. Compreendo. — Olhou em volta, para a solidez e
dignidade do ambiente. De repente sentiu que não queria
deixá-lo. Raven deixá-lo-ia partir quando quisesse — mas
para onde iria? E como é que podia libertar-se de Ledbetter e
dos outros? E como é que ia deixar novamente Sarah, que
voltara a encontrar havia tão pouco tempo?
Disse:
— Aceito a transferência. Estou pronto a trabalhar para a sua
organização, Sr. Diretor.
— Fico satisfeito — disse Raven. — Fico muito satisfeito, Sr.
Grayner. Mas mesmo assim, se tiver algumas reservas, tem
tempo para pensar no caso.
— Não. Não tenho qualquer reserva. Não se importa que
continue a dar-me com Dinkuhl?
— Dê-se com quem quiser. — Raven sorriu. — Estará muito
em contacto com Miss Cohn, uma vez que vão trabalhar
juntos. Não quis influenciá-lo pondo em evidência esse
aspecto, mas creio que ele lhe interessa.
— Sim, reparei que não pôs isso em evidência.
— Bom, agora talvez queira ir contar a novidade a Miss
Cohn; ela disse que estaria no jardim, não foi? Depois — não
há pressa —, gostaria que falasse com o Sr. Tehchen para
regularizar a questão do pedido de transferência. O Sr.
Tehchen é a pessoa que nos trata desses assuntos. Décimo
andar — gabinete B97. Um dos rapazes mostra-lhe o
caminho.
Charles levantou-se.
— Obrigado, Sr. Diretor.
— Obrigado, Sr. Grayner. Hei de procurá-lo no seu
laboratório, portanto voltamos a ver-nos em breve.
O Sr. Tehchen — o Gerente Tehchen — era um homem
expedito e a transferência foi arquivada pelo Secretariado do
Conselho nessa mesma tarde. Na manhã seguinte Charles foi
informado de que podia começar a trabalhar quando
quisesse e foi com satisfação que decidiu começar logo.
Tinha um sentimento de culpa residual em relação à IQR;
mas já esperava que isso viesse a acontecer, e não se sentia
tão mal como pensara, de qualquer forma, sentia alguma
coisa e o trabalho parecia-lhe ser a melhor forma de eliminar
esse desconforto — o trabalho junto de Sarah.
Teve dificuldade em tomar uma decisão com respeito a
Sarah. Era natural que a evolução do seu conhecimento com
ela — depois de a ter conhecido havia tão pouco tempo, a
separação tão repentina e as circunstâncias anormais em que
pensara nela nos últimos tempos — provocasse um estado
de incerteza quando se voltaram a encontrar; mas a
incerteza parecia maior do que seria natural. A sua primeira
reação foi achá-la diferente. Encontrava nela uma suavidade
que lhe parecia desconcertante por não estar habituado a ela.
A explicação desse fato abateu-se sobre ele de forma
inesperada. Ele só considerara metade da equação; ao pensar
no efeito que o choque produzira na sua própria atitude, não
se lembrara de que o choque de Sarah fora ainda pior. Era
natural que isso produzisse alterações nela, até mesmo
alterações profundas. Solta de todas as suas amarras, ambos
os elos que a ligavam ao mundo da sua infância, quebrados,
era bastante razoável que procurasse alguém que lhe desse
segurança. Podia considerar-se como um homem de sorte
por ser ele essa pessoa.
Tendo chegado a esta conclusão, estava preparado para
aceitar muita coisa. Durante a primeira manhã que tinham
passado juntos no laboratório, ela parecera-lhe insegura e, de
certa maneira, apática. Ao que parecia, já passara dois ou três
dias no laboratório, mas sem que tivesse o que fosse para
mostrar. Ele sugeriu-lhe que desenhasse novamente o seu
esquema para o retificador e ela retirou-se para o seu
pequeno gabinete — cada um tinha o seu — para fazer esse
trabalho. Ele próprio andava a verificar certos pormenores
da instalação, quando o écran de parede brilhou com uma
chamada do último piso.
O mordomo irradiava delicadeza, mas isso era uma
característica geral aqui. Começou a falar:
— Uma visita para si, Sr. Grayner... — Parou surpreendido e
denotando um aborrecimento cheio de delicadeza quando
alguém apareceu por detrás dele no écran; era evidente que
o visitante decidira apresentar-se antes de ser convocado.
Charles sorriu. Era Dinkuhl.
Dinkuhl disse:
— Meu caro Charlie, com que então já te amarraram.
Qualquer hipótese de te libertares para tomar um café?
Charles perguntou-lhe:
— Não me digas que o FK já está a seguir o ritmo habitual em
tão pouco tempo?
O mordomo recomeçou:
— Desculpe...
Dinkuhl deu-lhe uma palmadinha no ombro, com
solenidade.
— Está bem, meu caro. Pode ir-se embora. — Falando para
Charles disse: — O assistente — apesar de não pertencer ao
escalão A — desvencilhou-se melhor do que eu esperava
durante a minha ausência forçada. Pegou na chave das
abóbadas e descobriu as tele-emissões dos últimos setenta
anos. Se alguns dos nossos espectadores tiverem um pouco
mais de setenta anos podem vir a tornar-se adeptos de uma
filosofia cíclica do pensamento. E o tal café?
— Vêm sempre servi-lo aqui. Deve estar a chegar. Porque é
que não vem cá abaixo tomá-lo comigo?
Dinkuhl disse:
— Um laboratório autêntico, onde os cientistas trabalham.
Reparou no tom de ansiedade? Acha que posso? — Voltou a
pôr a mão no ombro do mordomo. — Que tal lhe parece,
meu rapaz?
Ele disse:
— Não sei se...
Charles disse secamente:
— Está certo. Eu respondo pelo Gestor Dinkuhl. Tragam-no
cá abaixo, está bem?
Ao entrar, Dinkuhl olhou em volta, interessado. Depois
abanou a cabeça, com admiração.
— Não é que eu perceba alguma coisa disso, mas que é que
isto lhe parece em comparação com as instalações que o
Ledbetter lhe arranjou? Igual?
— Bastante melhor. Na Secção Atômica trabalha-se com
suavidade — com suavidade e rapidez.
Dinkuhl sorriu.
— Ah, o novo patriota emplumado! Você andou depressa,
não há dúvida! Sempre tive as minhas dúvidas quanto à
possibilidade de fazer de si um pessimista. Havia um
argumento que você guardou no fundo da alma. Onde é que
está esse argumento, a propósito?
— O argumento?
— Sarah. Tenho estado a pintar um dístico para si. — Aqui
está um bom cavalo para alugar. Aqui podem ver Charlie, o
homem casado.
— Ainda não é tão mau como isso. Ou tão bom. Ela aí vem.
Sarah saiu do seu gabinete. Trazia o desenho na mão.
Quando viu Dinkuhl, parou. Charles disse:
— Este é o Hiram; Sarah.
Dinkuhl:
— Já vi o seu retrato, mas você é melhor que o retrato.
Ela sorriu:
— Obrigada. Charles falou-me de si.
— A propósito da nossa fuga, autêntico desafio à morte, de
uma fortaleza inexpugnável, a escorrer leite, mel e
Circassianos? Às vezes penso que estou a ficar maluco.
Passei perto de cinqüenta anos à procura de uma casa como
aquela e, quando a encontro, que é que eu faço? — fujo e
arrasto o Charlie, esperneando e gritando atrás de mim.
Sarah riu.
— Não, acho que não está. Muito prazer em conhecê-lo,
Hiram.
Dinkuhl olhou para ela com ar perscrutador.
— Você é?
Charles disse:
— Tem o desenho? Importa-se de o passar no projetor?
Dinkuhl olhou para o écran com interesse.
— Não me diz nada. Isso é a bomba de super diamante ou
um corte longitudinal do metropolitano de Nova Iorque?
— Nem uma coisa nem outra. — Charles fez brilhar um
círculo em volta de um ponto saliente no écran-piloto e a
contrapartida surgiu em ampliação no écran de parede. —
Trata-se apenas de um retificador. Mas bastante fora do
comum. E muito elegante. É trabalho da Sarah.
Dinkuhl disse:
— Diga lá ao Tio Hiram como c que isso trabalha, minha
querida.
Sarah fez um gesto na direção de Charles.
— As explicações são com o Charles. Eu sou uma simples
ajudante.
— Não vale a pena, Hiram — disse Charles. — Não há
qualquer possibilidade de vencer a sua ignorância.
— Também me parece. — Dinkuhl voltou-se novamente
para Sarah. —- Vocês os dois parecem-me felizes. Que tal é
trabalhar aqui na Secção Atômica? Tem o segredo da
felicidade suprema? Talvez eu devesse vir também para cá?
— Porque não?
— Sim, porque não? — ecoou Dinkuhl. — É um rico buraco.
E quando a coisa estourar os buracos vão fazer jeito. Dão-
nos pelo menos mais cinco minutos antes de chegar alguém
e começar a despejar gás lá para dentro.
Com um sorriso, Charles desligou o écran.
— Você é um anarquista, Hiram, e os anarquistas desprezam
sempre a capacidade reorganizadora da sociedade.
— Cinco minutos — insistiu Dinkuhl. — Cinco minutos e
logo um ligeiro assobio. — Deitou uma olhadela a Sarah. —
Que é que lhe parece, minha querida?
Ela disse:
— Você deve ter razão. Mas porque é que não havemos de
tentar fazer o que pudermos, enquanto temos essa
possibilidade?
— Poliana na sua granja, por detrás do fosso — comentou
Dinkuhl —, acreditando porque não consegue provar.
Sarah sorriu.
— Acho que é isso.
Charles disse:
— A Filosofia — mesmo uma filosofia tão sensata e amarga
como a sua, Hiram — tem de se ocupar das coisas práticas.
Sarah, gostaria de saber que é que pensa da idéia de instalar o
banco de polir na sala pequena. Vem, Hiram? Sabe alguma
coisa acerca de bancos de polir diamantes?
— Tanto como acerca de retificadores. Eu fico aqui para
roubar o segredo e atirá-lo ao Ledbetter. Talvez seja uma
hipótese de eu conseguir fazer reviver o FK.
Quando voltaram ao gabinete principal, passados talvez uns
cinco minutos, Dinkuhl estava sentado num banco olhando
para o écran da televisão. Quando eles entraram, desligou-o.
— Apanhado em flagrante — disse Charles. — Conforto
Brilhante?
O asceta praticante sabe onde deve parar. A Liga Vermelha
basta-me. Sempre que as torrentes de otimismo começam a
avolumar-se no meu peito imprevisível, basta-me olhar para
a Liga Vermelha durante dois ou três minutos. O realismo
volta infalivelmente.
— Não perca a perspectiva — disse Charles. — A Liga
Vermelha não é pior do que teria sido nos fins do Império
Romano, se houvesse TV nessa altura.
Dinkuhl abanou a cabeça.
— Inferior, por omissão. Nós já não temos cristãos e os leões
foram castrados. Não quero afastá-los por mais tempo do
vosso grande trabalho. Gostei de ter visto tudo isto.
Qualquer dia volto cá.
— Então não ia tomar café conosco! Deve estar a chegar.
— Façam uma saúde aos amigos ausentes — disse Dinkuhl.
— Lembrei-me agora que há uma pessoa que eu gostaria de
visitar enquanto aqui estou e tenho de voltar a Detroit esta
tarde. — Fez uma profunda vênia a Sarah. — Tive também
muito prazer em conhecê-la, minha senhora. Espero, de
futuro, vê-la mais vezes.
— Teremos sempre muito prazer em o ver por cá, Hiram.
Tanto eu como Charles.
Dinkuhl fez um aceno.
— Sinto-me comovido.
Pouco depois disto, Raven surgiu no écran. Estava meio
sorridente, meio sério.
— Tivemos uma queixa a seu respeito, Sr. Grayner. Já.
— Sim, Sr. Diretor.
— O rapaz da porta diz-me que teve um visitante?
— Sim, o Sr. Dinkuhl.
Raven teve um sorriso aberto, de aprovação, pensou
Charles, perante o seu emprego da linguagem típica da
Secção Atômica.
— Foi o que eu pensei. A questão é que o empregado
recebeu instruções em como o seu laboratório é
absolutamente secreto. Imagino que tenha ficado perturbado
com a atitude um tanto desenvolta do Sr. Dinkuhl e com a
sua aprovação perante a mesma. Mandou-o trazer cá abaixo?
— Sim. Não há qualquer hipótese de o Sr. Dinkuhl
representar um perigo para a nossa segurança. E isto por três
razões: trata-se de um amigo digno de toda a confiança, é
incapaz de reconhecer um segredo técnico mesmo que lho
ponham diante dos olhos e, de qualquer forma, não há por
aqui nada à vista. Pedi a Miss Cohn que demonstrasse na sua
presença a instalação de um retificador melhorado. Mesmo
que isso significasse alguma coisa para ele, não serviria de
nada a qualquer outra pessoa.
Raven disse:
— Meu caro Sr. Grayner! A questão não era a de ter havido
qualquer perigo ou prejuízo para a segurança. Aquilo que foi
prejudicado foi qualquer coisa de menos palpável ainda,
embora não necessariamente menos importante — o amor-
próprio do rapaz da porta. O que eu gostaria que o senhor
fizesse era arranjar passes para quem quiser entrar no seu
laboratório. Peça ao Sr. McGuire da Seção de Contato que
lhos arranje. Pode presentear o Sr. Dinkuhl com o primeiro;
eu ficaria contente se me desse o segundo. Espero ir visitá-lo
em breve.
Charles disse:
— Está bem, Sr. Diretor. Vou fazer isso mesmo.
Desfez o contacto, tendo no espírito uma confusão que não
era de modo algum desagradável. Mais uma vez ficara
impressionado com o calor e a simpatia de Raven. Dinkuhl
era um tipo como deve ser. Ele devia muito a Dinkuhl. Mas
não se podia negar que tinha um aspecto um bocado
apalhaçado.
Trabalharam até tarde naquela noite e começaram cedo na
manhã seguinte. O primeiro problema surgiu pouco depois
do almoço; o plasmianto que estavam a usar como isolador
térmico apresentou-se com uma série de defeitos. Charles
entrou em contacto com Conway, que de momento tratava
dos fornecimentos para eles. Era um homem de aspecto
melancólico, mas com um encanto surpreendente, e muito
enérgico quando necessário. Escutou cuidadosamente a
explicação de Charles.
Depois disse:
— Material da IQR. Para dizer a verdade, não nos
surpreende. Mas nós pedimos o grau A plus e pagamos o
preço respectivo. Deixe o caso comigo. Vou mandar
imediatamente um homem buscar uma amostra do material
estragado.
— E a substituição? — perguntou Charles. — Quanto tempo
levará?
Conway sorriu.
— Os programas de substituição da IQR são de vinte e quatro
horas. Normalmente levam dois a três dias; nós, por
exemplo, teremos o material dentro de seis horas.
Enquanto o écran perdia o brilho, Sarah disse:
— Seis horas. Podemos fazer uma pausa.
Charles fez um gesto de assentimento. Havia umas quantas
tarefas de menor importância que eles podiam executar,
entretanto, mas não sentia grande estímulo para isso.
— Que é que sugere?
— Há muito tempo que não dou uma volta de esfera. O
vento está bom. Era capaz de ser divertido.
O hangar tinha acesso pelo terraço. Para além do ambiente
de Verão que atravessavam, o céu mostrava-se cinzento e
ameaçador, semeado de nuvens tocadas pelo vento. Os
amantes deste desporto afirmavam, com um fanatismo
dogmático, que ele só era genuíno quando praticado com
ventos de força 5, pelo menos, mas, tal como acontece com
a maioria dos desportos, os amadores e praticantes
esporádicos eram em maior número. O hangar estava cheio.
Ao que parecia, o QG da Secção Atômica não contava com
muitos entusiastas.
— Simples? — perguntou Charles.
Os simples eram pequenas esferas para uma pessoa só; havia
também os duplos e os múltiplos que podiam levar grupos
de seis.
— Preferia um duplo.
O olhar dela estava cheio de incerteza e de confiança; muito
feminino e muito lisonjeiro.
Ele disse:
— Também é o que eu prefiro. Escolhemos um azul?
Os azuis eram as esferas cujo plaspex estava suavemente
tinto de azul e cujas válvulas de Sokije eram de grande
sensibilidade. Isso tornava-os de reação rápida, mas
igualmente perigosos em mãos inexperientes. Charles não se
dedicara muitas vezes a isso, mas sabia que, mesmo assim,
era competente. Só nesse momento reconheceu, com
ironia, que estava a representar o papel resultante da escolha
de Sarah: o macho habilidoso.
Retiraram a esfera do hangar e entraram. Havia dois
assentos, cada um com os seus controles, providos de
dispositivos que os desligavam automaticamente, impedindo
que fossem usados ao mesmo tempo. Os assentos eram
ajustáveis, desde noventa graus a cento e oitenta. Charles
escolheu o assento e os controles do lado direito.
Descomprimiu e ouviu-se o ligeiro assobio do ar a sair e a ser
substituído pelo hélio. A esfera ergueu-se suavemente no ar
tranqüilo aprisionado no terraço. Depois emergiu, para além
da zona condicionada e dos pequenos sóis e o vento atingiu-
a como um bastão gigantesco, erguendo-a e fazendo-a
balançar, afastando-se cada vez mais. De repente viram-se
rodeados pelo céu tempestuoso; o choque da transição, só
por si deleitava-os.
— Isolados t- disse Sarah. — Absolutamente isolados de
tudo.
Tinham ascendido a uns milhares de pés em poucos
segundos e continuavam a subir. O edifício da secção
Atômica ficara bem para trás; através do plaspex, que lhes
permitia verem para todos os lados — por cima, por baixo e
em todos os pontos do horizonte — podiam ver claramente
como se encontravam isolados.
Filadélfia também se afastava. Havia alguns giroplanos
lutando com o vento e um transatlântico aproximava-se do
campo que ficava junto aos limites norte da cidade. Estavam
num mundo particular, mais isolado a cada momento que
passava.
— Vê o Sol? — perguntou Charles. — O verdadeiro Sol?
— Gosto imenso.
Estavam agora numa nuvem, rodeados por um mar de
neblina, nuns pontos, mais escura, noutros mais clara. Tal
como uma bolha de ar que rebentasse dentro de água, a
esfera parecia estar livre. O sol brilhava por todos os lados e
tinha reflexos da superfície branca e ofuscante do mundo do
qual acabavam de emergir. Era um mundo em movimento
contínuo — uma planície onde se formavam brechas que
eram rapidamente engolidas, onde tentáculos finos saídos do
chão se transformavam em torres quadradas que acabavam
por cair nesse mesmo chão donde se tinham erguido. E tudo
branco, imponderável e imaculado como a neve.
Sarah disse, quase num sopro:
— É maravilhoso.
— Talvez devêssemos ficar aqui.
Ela sorriu.
— E viver de quê? — procurou numa gaveta lateral e
encontrou três tablettes. — Disto?
— Da comida dos anjos — disse Charles. — Da luz.
O ar aqui estava menos turbulento; a esfera continuava a
subir, mas devagar. A paisagem encantada fundia-se cada
vez mais numa grande planície brilhante que se estendia em
todas as direções. Charles aumentou ligeiramente a
compressão e a esfera começou a descer. A paisagem abriu-
se novamente, em espirais móveis e em contornos.
Saborearam a superfície lanosa e ele manobrou
delicadamente os controles até que avançaram em frente,
como se estivesse a deslizar sobre a neve viva. Por vezes
eram ofuscados por um rochedo protuberante e a esfera
atravessava o seu interior de um cinzento pérola, voltando a
emergir para o sol brilhante. Depois, a nuvem sobre a qual
flutuavam abria-se numa vasta ravina, através da qual
recebiam, uma ou duas vezes, breves imagens do mundo
que jazia a 660 m mais abaixo — o mundo ao qual estavam
ligados por uma corda elástica, o mundo da gestão.
Sarah disse:
— Mais para cima, Charles, mais para cima agora.
— Até ao Sol?
— Ou mais ainda.
Ele descomprimiu totalmente, a esfera disparou para cima e
os rochedos e as ravinas tornaram-se mais pequenos e
perderam-se na brancura da planície que tudo cobria. Em
breve perdeu todos os traços individuais. Era um tapete de
neve ofuscante que se estendia em todas as direções, até à
curva descendente do horizonte. Era difícil acreditar na
existência real do mundo que ficara por baixo da massa de
nuvens.
Charles ajustou os controles para estabilizar a esfera. A
agulha do altímetro oscilava suavemente um pouco acima do
número 3000. Não sabia qual a orientação que podiam ter; as
esferas dispunham de um equipamento de fixação da
posição, baseado na posição triangular dos faróis
transmissores da Telecom, mas não tinham pressa de saber a
que distância estavam de Filadélfia. Por muito longe que fos-
se, era sempre possível encontrar uma corrente de regresso
a uma altitude qualquer. Por agora bastava que saboreassem
aquele mar quente de luz dourada, sob o azul do céu.
Sarah despiu a túnica. Por baixo, trazia um vestido curto de
um tom azulado que focava bem com a sua pele um pouco
escura. Ela pôs a cadeia na posição horizontal e deitou-se.
Olhou para Charles, pondo a mão sobre os olhos por causa
da luz.
— Não tem calor?
Ele despiu igualmente o casaco e deitou-o para a parte de
trás. Ficou ao lado da túnica de Sarah. Havia um certo
significado nesse fato, no qual ele não tinha a certeza de
querer pensar. Ele tinha agora a camisa sem manga e os
shorts que usava normalmente quando estava em ambientes
aquecidos, quando não estava a trabalhar. Sentia com prazer
o calor do sol nos braços e nas pernas.
Olhou para Sarah. Esta, com os olhos meios fechados, olhava
para ele com ar trocista. Tudo a favorecia naquele momento.
O bronzeado da pele de encontro ao carmesim da almofada
e o branco azulado da própria atmosfera distante.
Charles disse:
— Acho que também vou descansar.
Ela sorriu, mas não respondeu. Ele empurrou igualmente a
sua cadeira para trás e voltou-se, para ficar de frente para ela.
O sorriso continuava.
— Não sei se...
Os lábios dela mal se mexeram:
— Sim?
— É uma questão, científica.
— Se o puder ajudar...
— As famosas inibições israelitas — não sei se funcionarão
com a mesma precisão a grandes altitudes.
O sorriso acentuou-se.
— A questão é bastante interessante. Qual o caminho a
seguir, dentro da linha científica?
— Um caminho experimental.
Aproximou-se dela. O seu consentimento era evidente,
mesmo antes de lhe abrir os braços.
Dinkuhl explicara que fizera aquela paragem em Filadélfia e
que segui para Nova Iorque. Tivera a idéia de fazer aquele
desvio simplesmente para comer uma refeição com Charles.
Era ele que pagava, explicou. Estava em Oak Ridge, o Clube
só-para-homens da seção Atômica, por isso Charles teve de
se desculpar e deixar Sarah.
Quando Charles chegou, Dinkuhl estava à espera dele com
dois copos altos cheios de rum quente e gengibre.
Disse:
— Bebe lá isso, meu caro Charlie. Como é que vão as coisas?
Você tem o ar de um gato que tem estado a viver de tudo o
que há de melhor.
Charles instalou-se numa cadeira e pegou num copo.
— Muito bem. Não posso queixar-me. E você? Não tem
problemas com o Ledbetter?
Charles era de opinião que Dinkuhl deveria ter um guarda-
costas da Seção Atômica, visto ter estado ligado ao seu
desaparecimento e fuga. A Secção Atômica estivera de
acordo, mas Dinkuhl rira-se da idéia. Na sua opinião a
Telecom não estava interessada em alardear a sua derrota. Se
tomasse qualquer atitude contra ele seria por puro espírito
de vingança, pois não tiraria qualquer vantagem material,
podendo resultar daí graves inconvenientes para a sua
organização, se Charles pusesse a Secção Atômica em ação.
— Problemas? — Dinkuhl riu. — Sabe que na manhã em que
voltamos o Gillray me telefonou? Perguntou-me se tinha
estado de férias. Se fosse um tipo menos duro, a cara ter-lhe-
ia escorregado do écran.
Almoçaram juntos. Enquanto conversavam, Charles
compreendeu que alguma coisa preocupava Dinkuhl;
conversava e gracejava, mas a conversa e os gracejos eram
mecânicos. Não fez qualquer tentativa para descobrir o que
é que se passava; Dinkuhl não era o tipo de indivíduo que
encorajasse uma investigação solícita dos seus problemas.
Mas foi o próprio Dinkuhl que pôs tudo à claro ao café.
— Tenho um problema, meu caro Charlie.
Charles acenou afirmativamente.
— Raro. Tão raro que proponho a minha ajuda, se puder dá-
la.
— Gostaria que me desse um conselho. Não é uma questão
pessoal, isto é, o que me preocupa não me diz respeito a
mim, mas ao Burt!
— Awkright?
— Sim. Sabe que a sua nova organização se serviu dele para
entrar em contacto conosco — através de Sarah. Contaram-
lhe uma história acerca das maravilhas da Secção de
Contacto deles e conseguiram ficar à saber que ele fazia
parte do meu pequeno grupo de rebeldes — meu Deus,
esses tipos deviam ter o salário mais alto de todas as Seções
de Contacto, as coisas que eles inventam! Ele contentou-se
em pensar que os tipos da Seção Atômica eram
excepcionalmente inteligentes — e continua a pensar assim.
Na mesa ao lado, alguém fez subir no ar uma nuvem de
aromac que fez dançar no ar as suas bolhas delicadamente
coloridas, enchendo o ar com a sua fragrância. Charles não
apreciava o perfume à hora das refeições, mas tratava-se de
um hábito longamente aceite, pelo que não havia lugar para
protestos. Pensou suster a respiração até que o primeiro
impacte se tivesse evaporado, mas acabou por decidir, como
já fizera antes, que era preferível inalar profundamente e
dessensibilizar as suas percepções olfativas.
Respirando fundo, perguntou:
— E então?
Dinkuhl deitou uma olhadela à mesa do lado. Comentou
numa voz bem audível:
— O mundo está a tornar-se impossível. — Retomou o tom
de voz normal. — Eu não fiquei tão satisfeito como ele.
Comecei a investigar e descobri que a Seção Atômica não
era a única a saber — bem longe disso. Estava ao corrente de
que a Telecom sabia, claro — tinham de saber para o
poderem apanhar através de mim. Mas havia mais — Minas,
Aços... Genética.
— A Genética?
— Sim. A própria organização do Burt. Tomaram algumas
precauções, mas não muitas. Pensamos que não tivéssemos
grande interesse e não tínhamos, mas provavelmente serviu
de exercício para as brigadas dc contacto. Estamos todos
bem localizados e etiquetados.
— Para tomarem medidas.
— À título informativo. Todos eles são trabalhadores válidos
e eles acham que, hoje em dia, os trabalhadores válidos têm,
quase todos, as suas aberrações; por isso toleram-nos desde
que não haja perigo.
Charles disse com ar abstrato:
— Então não vejo que é que o preocupa?
— O Burt é uma pessoa mais complexa do que você pensa —
disse Dinkuhl. — Já o conheço há bastante tempo e sei o
que ele faria, se soubesse que a sua ligação revoltosa comigo
e com os outros era conhecida do pessoal superior da
Genética. Pedia a transferência — para qualquer lado, desde
que fosse fora da Genética e longe de Detroit. Não suporta
que tenham pena ou se riam dele.
— A maior parte das pessoas não gostam.
— Mas lá se arranjam; Burt não o suportaria. Está a perceber''
Devo dizer-lhe a verdade ou não? Não é provável que ele
venha à saber, a menos que eu lhe diga. Se eu lhe disser, ele
vai-se embora e sentir-se-á infeliz. Se eu não lhe disser...
aqui é que eu preciso do seu conselho: um tipo está a viver
uma felicidade ilusória — que é melhor, deixá-lo continuar
ou dar-lhe uma sacudidela?
O pensamento de Charles estava em parte ocupado com
Sarah, em parte com o problema da miniaturização de um
sistema de conversão termoelétrico. Deu uma atenção
morna à pergunta de Dinkuhl, até perceber que este lhe
estava a pedir conselho sobre uma questão de princípio.
Tentou concentrar-se.
— Eu dir-lhe-ia tudo. As pessoas têm o direito de saber a
verdade. Ninguém pode decidir por si se é bom ou mau que
outra pessoa saiba aquilo que lhe diz respeito. Trate-se do
que se tratar e sejam quais forem os resultados.
Dinkuhl cerrou os lábios.
— Acho que você tem razão, talvez estivesse a pensar em
mim próprio; vou ter uma pena danada se o Burt se puser a
mexer para outro sítio.
— Sabe que é que devia fazer? — disse Charles. — Incorpore
o FK na Secção Atômica e venha instalar-se em Filadélfia. O
Raven ia nisso, quanto mais não fosse para aborrecer a
Telecom.
Dinkuhl sorriu.
— Vou pensar nisso. Depois falamos — voltarei a vê-lo em
breve.
Entretanto as coisas corriam suavemente. O próprio Raven
aparecia pelo laboratório de tempos a tempos; mostrava-se
muito amável e denotava um interesse inteligente. Um dia,
Charles descobriu que ele estava à seu lado enquanto
acabava de polir uma pedra. Ouviu a voz de Raven acima do
ranger nervoso da máquina.
— É interessante vê-lo polir as suas próprias pedras, Sr.
Grayner. Embora deva dizer que isso não me surpreende. —
Charles endireitou-se. — Essa está quase pronta?
Charles pegou na pedra, montada numa base de plasmetal.
Carregou no interruptor e a máquina foi perdendo
velocidade, gradualmente.
— Esta está acabada, Sr. Diretor.
— Posso ver?
Charles passou-lhe a pedra. Raven pegou numa lupa e
submeteu o diamante a um exame bastante profissional.
Pondo-o finalmente de lado disse:
— Corte em brilhante. Corte Brown?
Charles acenou afirmativamente. Estava surpreendido, mas
mostrou-se cauteloso.
— Não sabia que tinha trabalhado nesta linha, Sr. Diretor.
— Trabalhado não. — Raven sorriu. — Tenho aquilo que se
chamava noutros tempos um espírito de borboleta — ou
talvez espírito de gralha fosse um termo mais apropriado. Os
pequenos conhecimentos fascinam-me, as artes menores.
Explique-me uma coisa, Sr. Grayner — porque é que cortes
excelentes, como o brilhante, que surgiram- posteriormente,
vieram a desaparecer, enquanto os cortes primitivos, como o
de rosa, conseguiram sobreviver?
— Também eu gostava de saber. Já tenho feito essa pergunta
a mim mesmo.
— É muito simples. Os diamantes sintéticos de Luckert.
Foram um dos últimos desenvolvimentos tecnológicos antes
do interregno. Durante a guerra e no período do após-
guerra, o valor dos diamantes subiu loucamente, como
sempre, por uma questão de guarda de valores. O diamante
sintético de Luckert conseguiu enganar muita gente, a tal
ponto que se passou a dar a primazia a diamantes cortados
segundo os estilos mais antigos, por se presumir que esses,
pelo menos, eram genuínos.
Charles disse:
— Mas não é difícil distinguir uns dos outros — há a
descoloração, o teste piezelétrico.
— Sim, mas a descoloração verifica-se no espaço de um ou
dois anos — portanto isso não serve para orientação do
comprador no momento da compra, não acha? Quanto ao
teste, não se esqueça que os diamantes eram vendidos em
pequenos estabelecimentos e, durante o período mais agudo
as pessoas não dispunham do equipamento especial. Era
mais fácil concentrarem-se nas pedras de corte mais
primitivo.
— Seria de esperar que os especialistas se ocupassem do caso.
— E fizeram-no. Mas o corte em brilhante nunca mais foi
retomado. E é assim, Sr. Grayner, que certos detalhes de um
trabalho e mesmo todo um trabalho se tornam
desconhecidos do mundo. — Raven deu a volta à pequena
sala onde estava instalado o banco de polir diamantes,
pegando em diversas coisas, observando-as e voltando a pô-
las no lugar. — Sr. Grayner, agrada-lhe trabalhar aqui?
— Agrada-me muito, Sr. Director.
Raven olhou em volta com ar depreciativo.
— Não se pode dizer que as instalações sejam magníficas.
Estaria melhor com a Telecom, pelo menos, do ponto de
vista material. Bom, temos de ver o que é que podemos
fazer por si. Tem alguma razão de queixa, por exemplo?
Charles hesitou por breves instantes, mas a hesitação fora
involuntária e ele tomou rapidamente a palavra para a
disfarçar.
— Absolutamente nada, Sr. Diretor. Tenho tudo o que
preciso.
— O senhor e Miss Cohn entendem-se bem?
Desta vez, respondeu sem hesitar:
— Muito bem.
— Ótimo. Espero que não hesite em me procurar se houver
alguma coisa. Não hesite em ocupar o meu tempo. O seu é
mais valioso.
Raven saiu, no seu passo vivo de homem idoso e Charles
teve de dominar um impulso para ir atrás dele ou para o
chamar. Dominou-o, da mesma forma que dominara a
hesitação anterior e pela mesma razão. Não era que
duvidasse da boa vontade de Raven, nem mesmo da sua
capacidade para o ajudar. O fato é que era impossível
concretizar qualquer das suas dúvidas ou preocupações sem
criticar, ainda que por implicação, a própria Sarah.
Fora do laboratório a sua vida em comum prosseguia
harmoniosamente. Fazia a maior parte das coisas e iam à
maior parte dos sítios juntos. Charles não permitia que as
suas dúvidas estragassem esta parte da sua associação. Tudo o
que se relacionava com o amor era uma experiência nova
para ele e estava decidido a não a deixar estragar, fosse de
que forma fosse.
Passavam muito tempo andando de esfera, pelo ar —
geralmente juntos, mas ocasionalmente cada um na sua
esfera. Então tinham o prazer de se perseguir por colinas e
vales invisíveis. Procuravam-se ao longo dos rios de vento,
rios que eram capazes de se tornar, inesperadamente em
cascatas acidentadas que faziam mergulhar as esferas cente-
nas e centenas de pés, para baixo ou para cima e com a
maior rapidez. Seguindo muito perto dela, Charles podia
encontrar-se de repente olhando-a lá em baixo, na distância,
ou procurando-a lá no alto, cego pela luz do sol, nas altitudes
onde a esfera vogava, distante.
Os Alegânios eram para eles uma fonte de prazer. Ali
podiam cavalgar as correntes que subiam junto às vertentes
rochosas das montanhas c escorregar perigosamente ao
longo dos cumes cortantes que poderiam tão facilmente
rasgar a superfície do plaspex, lançando os ocupantes da
esfera sobre os imensos rochedos, indo cair por fim nos
pequenos vales distantes.
Havia também o prazer de levar as esferas até uma
plataforma rochosa banhada de sol, no teto do mundo, de as
fixar à vertente da montanha com as ventosas de impacte;
de comer e beber naquele isolamento quente e silencioso;
de estarem sentados a conversar ou simplesmente a tomar
banhos de sol. De fazer amor.
Quando Dinkuhl fez a sua visita seguinte, Charles mandara
Sarah verificar pessoalmente alguns fornecimentos que
tinham sido requisitados por Conway.
— Dinkuhl disse:
— Olá, Charlie.
Charles respondeu-lhe com uma seriedade jocosa:
— Onde é que você tem o seu passe?
Dinkuhl fez um sorriso contrafeito. Era evidente que não
estava divertido. Charles disse:
— Burt pediu a transferência?
Dinkuhl acenou afirmativamente.
— Foi-se embora ontem à noite. Esse seu conselho. Dizer a
verdade e deixar que os fragmentos saltem para onde lhes
apetecer. Continua a achar que deve ser assim?
— Sem dúvida. Mas lamento que tenha perdido o Burt. Para
onde é que ele foi?
— Para a Lignina. No Norte da Finlândia. Esses têm com que
se regozijar. Têm mais falta de tipos capazes do que a maior
parte das organizações. Aliás, todas têm falta, à exceção da
notável e gloriosa Secção Atômica. E a Sarah?
— Foi verificar uns fornecimentos. Não tarda aí.
Dinhuhl recostou-se num dos bancos; tinha um ar de
desassossego e a sua voz tomara o tom ligeiramente afetado
que apontava para uma certa excitação interior.
— É assim que estão organizados agora? — perguntou. —
Você faz o trabalho e ela verifica os fornecimentos? Julguei
que o seu segundo nome era Einstein.
Charles disse, em tom zangado:
— Que é que você quer dizer com isso, Hiram?
— Oh, oh — disse Dinkuhl suavemente —, você está
preocupado. Tem grandes preocupações. Conte aqui ao Tio
Hiram.
Charles fitou-o.
— Por amor de Deus! Você está louco! Quem é que está
preocupado?
— Que é que se passa, Charlie? — perguntou Dinkuhl. — Ela
já não é tão brilhante? Não consegue perceber coisas que
parecem evidentes? Chega a perguntar a si mesmo se não
lhe terão dado uma pancada na cabeça durante as semanas
que estiveram separados?
Charles conseguiu impedir-se de gritar.
— Não sei o que é que lhe passou pela cabeça. Se calhar foi a
transferência de Burt. De qualquer forma, prefiro que guarde
isso para outro sítio. — Voltou-lhe as costas. — Terei muito
gosto em o voltar a ver noutra disposição.
— Levo esse convite no meu coração. Aqui a temos. Olá,
Sarah. Tem copiado alguns bons sketches ultimamente?
Charles não fazia qualquer idéia do que Dinkuhl queria
dizer, mas o seu tom era indiscutivelmente ofensivo.
Esperava que Sarah apanhasse uma fúria ou então que o
tratasse com um desprezo glacial. Mas não aconteceu nada
disso. Ela disse em tom conciliador:
— Ainda bem que conseguiu vir por cá, Hiram.
Dinkuhl observou-a por momentos. Depois sorriu.
— Do que todos precisamos — comentou — é de uma
bebida. Aceitam uma bebida?
Charles hesitou. Sarah disse:
— Com muito gosto.
Dinkuhl tirou uma garrafa da algibeira. Tinha dois pequenos
copos de plástico amarrados. Encheu-os e olhou em volta
com ar interrogador.
— E um copo para o Tio Hiram? Consegue arranjar-me um
Sarah?
Enquanto Sarah o foi buscar, Dinkuhl pegou nos que já tinha
enchido. Deu um a Charles; o outro segurou-o na mão, com
a palma em concha por cima dele. Quando Sarah voltou,
deu-lho e pegou no copo que ela tinha trazido e deitou um
pouco para si próprio.
— A todos os homens honestos — disse. Fez uma vénia a
Sarah. — E mulheres honestas.
Ela tossiu um pouco enquanto bebia.
— Que é?
— É bom? Licor de uva. Tenho uma fonte.
Ela sorriu.
— E bem boa.
— Todas as minhas fontes o são. — Dinkuhl fitou-a com ar
pensativo. — Sabe uma coisa? Charles esteve a dizer-me que
está decepcionado consigo. Acha que não está a dar o
devido andamento às coisas. Ele...
Charles avançou e colocou-se em frente de Dinkuhl. Disse
secamente:
— Não sei o que è que lhe passou pela cabeça, Hiram. Mas,
pela última vez, ponha-se a mexer. Ponha-se a mexer!
Dinkuhl disse:
— Sabe, eu não conheci Sarah. Mas sei o suficiente sobre ela
para ter a certeza de que ela não precisaria da sua ajuda
numa discussão, Charlie. — Voltando-se para ela: — Então,
minha querida?
Ela disse, sem convicção:
— Sinto-me tonta.
Dinkuhl passou-lhe gentilmente o braço em volta dos
ombros.
— Venha estender-se, minha querida. Precisa descansar.
Pronto. Deite-se aqui.
Levou-a até junto do sofá e instalou-a confortavelmente. Ela
abanou a cabeça, como se estivesse a sacudir teias de aranha.
Dinkuhl disse:
— Agora vai dormir, minha querida.
A voz dele era intencional e ela endireitou-se com um
estremecimento, como que reagindo-lhe:
— Quer dizer...? A bebida!
Charles perguntou:
— Mas que é que anda a fazer?
Dinkuhl disse suavemente:
— Como é que se chama, minha querida? Antes de
adormecer, como é que se chama?
A fala tornava-se-lhe arrastada; incapaz de manter o esforço,
ela voltou a deitar-se:
— Sarah Cohn. Sabe...
Dinkuhl abanou a cabeça.
— Não. Esse não. O seu nome verdadeiro.
Ela tentou falar novamente, mas não conseguiu. Olhou para
eles por momentos, cheia de pânico e aflição, e depois
fechou os olhos ficando inconsciente. Charles precipitou-se
para junto dela e estava agora sentado junto da rapariga,
segurando-lhe a mão inerte. Voltou-se para Dinkuhl.
— Espero que seja coisa boa, Hiram. Espero bem.
Dinkuhl disse:
— Não pense que me sinto feliz. Também não me sentia
feliz quando falei com o Burt. Foi por isso que lhe apresentei
a questão da última vez que cá estive. Percebi que você se
sentia feliz com a rapariga e isso tornava as coisas mais
difíceis. Foi um alívio você ter mostrado tão claramente,
agora desta vez, que estava preocupado. E estava, não
estava?
Charles sentia-se incapaz de se zangar ou de experimentar
qualquer outra emoção positiva. Olhou para o corpo de
Sarah que respirava suavemente. Sarah? Uma Sarah
particularmente incapaz no seu trabalho, uma Sarah que
quase lhe dava a idéia de estar a disfarçar a sua própria
ignorância. As dúvidas que ele reprimira vinham agora à
superfície, como pedacinhos de madeira perdidos na
corrente.
Dinkuhl disse:
— Sabe, eu tinha tido acesso aos relatórios da Secção de
Contacto da IQR — que incluíam o psicoplano de Sarah.
Um espírito de donzela. Mas mesmo que esse aspecto não
estivesse tão fortemente marcado, seria razoável que uma
rapariga que mostrava tão claramente estar interessada em si,
reagisse de maneira diferente à minha pessoa. A primeira
vez que aqui estive, representei o meu papel e fiz-lhe certas
observações que ela aceitou como um cordeirinho. Não
estava certo, Charlie. Não estava certo para uma rapariga
normal e ainda menos certo para uma rapariga com um
psicoplano como o de Sarah.
Charles olhou para ele e depois novamente para a rapariga.
— Quer dizer que lhe fizeram qualquer coisa? O quê? E para
quê, Santo Deus?
— Essa rapariga não é a Sarah, Charlie. Nunca o foi.
Charlie abanou a cabeça.
— Eu conheço-a. É a Sarah. Basta a voz dela...
Dinkuhl inclinou-se sobre a rapariga. Puxou um pouco para
baixo o decote da túnica e apontou para uma linha que se via
na pele, muito tênue, talvez com uma polegada de
comprimento.
— Operação de Gannery. Reformação das cordas vocais.
Podem realizar-se trabalhos de grande precisão e julgo que
este foi um deles.
— Como é que sabia que ia encontrar essa linha?
— Tinha de a encontrar. Sabia que ela era uma falsificação.
Lembra-se de quando ela nos mostrou aquele desenho no
écran de parede? Você saiu com ela para lhe mostrar o
banco de polir diamantes. Dei uma espreitadela ao gabinete
dela enquanto não voltavam. Ela tinha copiado aquele
desenho de uma fotocópia do original feito por Sarah. Para
que precisaria ela de o copiar, a menos que ela própria não
fosse Sarah? Eles tinham-na preparado bem, mas não se
pode preparar uma pessoa com anos de experiência
científica.
Charles não tirava os olhos da rapariga imóvel.
— Não posso acreditar. Aquela pequena cicatriz... podia ter
sido outra coisa.
Dinkuhl estava de pé junto dele.
— Lembra-se de ter sido Charlie Macintosh, Charlie?
Macintosh era um tipo autêntico. Trabalha numa obscura
estação de abastecimento na África do Sul. Ter-nos-íamos
fartado de rir se você tem chegado a encontrar-se com ele.
Burt ainda teve de vencer certas dificuldades para o
descobrir: tinha de ser alguém que se parecesse muito
consigo, mas mais gordo. Você pode fazer com que uma
pessoa pareça mais gorda, não pode fazê-la encolher. Ele
tinha as faces cheias, enquanto as suas são secas.
Fez uma pausa, contemplando o rosto da rapariga que tinha
sido Sarah.
— Um rosto interessante. Bonito, sem ser precisamente belo.
As têmporas um pouco salientes a seguir à linha das
sobrancelhas. Pouco usual.
Dinkuhl retirou um canivete da algibeira, soltou a mola e fez
saltar a lâmina de safira, que brilhou um pouco. Charles
olhou-o fascinado enquanto ele se inclinava sobre o rosto
inconsciente. Ouviu-se a si próprio gritar: «Pare!» Com um
movimento hábil, Dinkuhl abriu a carne da rapariga, na base
do frontal.
Ergueu nos dedos uma tira de carne que tinha cortado. A
incisão não sangrava. O corte tinha exposto não a carne, mas
o plástico. Agora, para além de qualquer dúvida, Charles
sabia que tinha amado uma máscara. Dinkuhl atirou o
pedaço de plástico para um recipiente do lixo; afastou-se da
rapariga e encostou-se a um banco, do outro lado da sala.
Olhou para Charles.
— Então, meu caro? Como é que vai ser?
Charles disse, numa voz inexpressiva:
— Diga-me você. Como é que quer que eu saiba?
— As pessoas têm sempre o direito de saber a verdade.» Não,
não estou a fazer troça de si, Charlie. Não pertenço ao tipo
estritamente monógamo, mas imagino como deve ser. Desta
forma é, pelo menos, mais rápido. Acabaria por descobrir
mais cedo ou mais tarde. Eles ainda atuam na convicção de
que os cientistas são estúpidos. Você já desconfiava, com os
diabos. Assim foi melhor.
Charles sacudiu-se. Compreendia toda a verdade das
afirmações de Dinkuhl, mas não lhe tornava mais fácil o ter
de agir segundo elas. Descobrir que tinha sido enganado
desta forma era um tanto pior do que quando pensara que
ela tinha morrido. Olhou para Dinkuhl, quase
interrogativamente.
— Raven...?
— Um verdadeiro cavalheiro do Sul. Ledbetter não valia
nada. O Raven é bom. Todas estas combinações
complicadas, feitas com a convicção de conseguirem
arrancá-lo à Telecom. Nós limitamo-nos a facilitar-lhes as
coisas, encarregando-nos da fuga. Raven é o ponto máximo.
Você chegou ao cimo do mundo da gestão, Charlie. Não
pode subir mais. É aqui que as pessoas calçam luvas antes de
pegar nas suas facas.
Charles olhou para Dinkuhl, desesperado.
— Que é que se pode fazer de melhor? Gostava de falar com
o Raven. Acha disparatado?
— Não. Disparatado, não. Diria antes inevitável. — Olhou
em volta. — Era capaz de afirmar que existem aqui as
precauções habituais. Mesmo que assim não seja, é-me fácil
imaginar coisas mais simples do que pretender sair de um
lugar destes. Todo este ar descuidado tem, na minha opinião,
um aspecto um tanto estudado.
— Também acho. Os patifes daquela espécie não correm
riscos.
— Não seja azedo, Charlie — com os indivíduos, não. Daí
não se tiram dividendos. — Dinkuhl levantou ligeiramente a
cabeça. Ouviu-se uma porta deslizar no vestíbulo. — Um
visitante. Apanhados em flagrante. Mas a rapariga não está
morta.
Era o próprio Raven. Parou assim que atravessou a porta. Os
seus olhos brilhantes e divertidos abrangeram todo o quadro
— Dinkuhl encostado contra o banco, Charles ainda sentado
no sofá junto do corpo deitado da rapariga.
Raven disse:
— Bom dia, Sr. Grayner. E Sr. Dinkuhl. — Olhou na direção
da rapariga. — Essa senhora parece estar indisposta.
Automaticamente, Charles disse:
— Bom dia, Sr. Diretor.
Dinkuhl reclinou-se um pouco mais. Pôs-se a falar:
— Parece-me que esta senhora bebeu qualquer coisa que não
lhe assentou bem. Haveria algum inconveniente em que no-
la apresentasse, Diretor Raven, para sabermos a quem
devemos pedir desculpa?
Dinkuhl observou a cena com um desinteresse tranqüilo,
enquanto Raven se dirigiu ao sofá e se inclinou para
examinar a rapariga. Raven endireitou-se de novo,
momentos depois, e olhou para ambos.
— Os cavalheiros têm algum inconveniente em que eu faça
transferir Miss Levine para que ela possa recolher à cama?
Não creio que vá recuperar as faculdades antes de decorridas
algumas horas.
Charles não disse nada. Dinkuhl acenou afirmativamente.
— Tenha a bondade. Está em sua casa. Pela nossa parte,
gostaríamos que se ocupassem de Miss Levine.
Raven foi direito ao écran de chamada. Ouviram-no pedir
dois maqueiros. Depois desligou e voltou a dirigir as
atenções para eles. Disse:
— Isto é muito aborrecido. Sempre esperei que pudesse
durar mais algum tempo — mais algumas semanas, pelo
menos. Mas temos de aceitar os acontecimentos tal como
eles se apresentam.
— A vida é assim — disse Dinkuhl gravemente. — Espero
que faça transmitir a Miss Levine, logo que ela acorde, que
lamentamos muito. Ela há-de compreender que não se
tratou de uma questão pessoal.
Raven disse:
— E o senhor? Também quer que diga a Miss Levine que
lamenta muito, Sr. Grayner?
A implicação era óbvia e Charles sentiu-se picado. Mas a
chegada dos maqueiros impediu-o de falar imediatamente.
Colocaram a rapariga cuidadosamente sobre a maca. Raven
disse:
— Levem-na aos seus aposentos, por favor, e chamem uma
enfermeira.
Charles sentiu que Raven o observava enquanto a pequena
procissão saía do quarto. Quando a porta se fechou sobre
eles, disse:
— Sim, que lamento muita coisa, Diretor Raven. Estão todos
preocupados em não fazerem papel de parvos. Só não
lamento ter descoberto a verdade. A Assistente Levine
estava a cumprir o seu dever. Não é culpa de ninguém se as
coisas acabaram assim.
— Se temos de usar esses títulos — disse Raven suavemente
—, devemos usá-los bem, Gestor Levine — uma jovem
excepcionalmente brilhante e dotada, em quem temos o
maior orgulho.
— Com a opinião que agora tenho da Seção Atômica, isso
não me surpreende.
— As suas opiniões são absolutamente compreensíveis.
Seriam compreensíveis, mesmo que não tivesse o benefício
da tutela do Sr. Dinkuhl. Mas espero que não sejam
definitivas. O senhor é um homem inteligente, Sr. Grayner
— isto não é lisonja, é uma afirmação que se impõe. A
inteligência do Sr. Dinkuhl é igualmente notável, mas o seu
intelecto é prejudicado pelas suas emoções; especialmente
por aquele desejo premente de destruição, que é um traço
tão marcado da sua atitude perante a sociedade. Já antes
discuti este ponto consigo.
Dinkuhl disse, preguiçosamente:
— O meu retrato: Sansão com cada um dos braços em volta
de um pilar.
Charles disse:
— O senhor convenceu-me de que Hiram assumira uma
posição in- justificadamente pessimista. Mas parte dessa
convicção nascia da crença de que o senhor e a Secção
Atômica representavam algo de mais elevado que os outros.
— Com grande desgosto meu — disse Raven —, senti-me
obrigado a dar-lhe essa impressão um tanto exagerada da
minha integridade pessoal. Ela tornava-se necessária, em
vista das experiências que já tinha tido anteriormente.
Gostaria que acreditasse que eu teria preferido ser franco
consigo ou, uma vez que não podia ser franco, desonesto à
maneira humana normal.
— Sabe dizer a verdade?
— A partir deste momento, Sr. Grayner, não ouvirá outra
coisa de mim. Não valeria a pena.
Charles disse:
— Onde está Sarah Cohn? Nas mãos de quem?
— Não sei. Procuramos cuidadosamente e não a encon-
tramos — nem a ela nem ao Isaacssohn. Como pode
imaginar, não nos poupamos a esforços para encontrar os
dois. Pode ser que estejam mortos. É a conclusão á qual nos
força a ausência de qualquer informação. Bem vê que estou a
ser franco agora, Sr. Grayner.
— Está? — perguntou Dinkuhl. — Ou estará a tentar
persuadir o Charlie de que será melhor contentar-se com
uma aproximação? Mais um retoque de plástico e Miss
Levine estará como nova.
— Não, Sr. Dinkuhl — disse Raven. — Julgou-me mal.
Estava a ser sincero. Está a pôr as coisas pelo pior, embora eu
admita que tenho esperança que o Sr. Grayner consiga
ultrapassar o seu atual ressentimento contra Miss Levine.
Mas de momento não estava a pensar nisso. — Deitou um
olhar a Charles. — Miss Levine aceitou esta tarefa com
grande relutância e aceitou finalmente apenas porque lho
pedi pessoalmente e porque era a única pessoa que se
poderia vir a assemelhar fisicamente a Miss Cohn, sendo,
além disso, capaz de o enganar durante algum tempo em
questões de personalidade e capacidade técnica. O seu
insucesso — pois receio que o tenha sido — mostra a difi-
culdade do empreendimento. Ninguém teria sido capaz de o
fazer tão bem, mesmo assim.
— Ela cometeu um grande erro — comentou Charles. — E
teria sido fácil evitá-lo. Sarah é essencialmente casta. O
psicoplano dela não mostrava isso?
Raven fez um aceno.
— Tal como Miss Levine — disse.
— Então foram as ordens que ela recebeu que estavam
erradas.
— Ela não recebeu ordens nenhumas. Acho que o estou a
compreender, Sr. Grayner. Seja o que for que tenha
acontecido entre os dois, não fazia parte do nosso plano.
Julgo que me fará a justiça de acreditar que eu não cometeria
um erro tão crasso.
— E então?
— Miss Levine ficou surpreendida — e não satisfeita, Sr.
Grayner — ao descobrir que, nalguns aspectos, o seu
trabalho era mais atraente do que esperava. Em breve
começou a gostar de si.
— Foi ela que lhe disse isso?
Raven passou a mão bem cuidada pelo cabelo branco e bem
tratado.
— Tinha de o fazer, Sr. Grayner. Era necessário explicar o
pedido para poder ser retirada do trabalho.
— E ela pediu isso?
— Três vezes. A última foi ontem à tarde. Tive de recusar os
seus pedidos. Disse-lhe que esperava que dentro de uma ou
duas semanas o senhor já estivesse suficientemente
integrado nesta organização para lhe poder explicar a
verdade. Não contei com o Sr. Dinkuhl que parece ter a
especialidade de revelar os segredos indiscretos.
Incrédulo, Charles perguntou:
— E pensa que, nessas circunstâncias, eu teria ficado?
Raven disse:
— Sr. Dinkuhl, é um frasco que vejo na sua algibeira? Não
seria possível tomarmos todos, uma bebida, desta vez, não
adulterada?
Dinkuhl fez um sorriso cínico. Encheu os dois copos de
plástico e o de vidro. Ficou com o copo que servira à
rapariga e passou os outros dois.
— Eu fico com os resíduos. À sua, Diretor Raven.
Raven pegou na bebida, cheirou-a, bebeu e fez estalar
ligeiramente os lábios.
— Boa bebida, Sr. Dinkuhl.
— Sempre me contento com o melhor.
— Uma boa divisa. Agora, Sr. Grayner — teria ficado? Espero
que sim. E espero que ainda esteja disposto a isso.
Era claramente o princípio de uma longa conversa. Charles
interrompeu-o.
— Antes de prosseguir, Diretor Raven, gostaria de expor as
minhas opiniões sobre uma questão — sobre os laços que
podem existir, que deveriam existir entre o indivíduo e a
organização. Eu vejo dois e apenas dois: lealdade natural e
confiança. Eu continuei a sentir uma certa lealdade para com
a IQR, mesmo depois de ver que era ineficiente e corrupta,
porque essa lealdade vinha muito de trás. Não me é possível
sentir essa espécie de lealdade para com a Seção Atômica. E
aí que surge a necessidade da confiança. E esse é um
sentimento vulnerável. Não agüenta o tratamento que lhe
deu — sejam quais forem as intenções. Garanto-lhe que está
morto. Morto e enterrado.
Houve um breve silêncio, como se Raven estivesse à espera
de ter a certeza de que Charlie terminara o que tinha a dizer.
Depois falou:
— Lealdade para com uma organização — confiança numa
organização — isso são sentimentos para as camadas mais
baixas da sociedade. O senhor já não pertence a essa
categoria, Sr. Grayner, tal como acontece com o Sr.
Dinkuhl. E não pode voltar a ela. Acha que podia voltar para
a IQR agora? Poderia sequer pensar nisso? O senhor já se
juntou aos emancipados e talvez seja essa a sua desgraça.
Mas uma coisa é certa: isso não torna a vida mais fácil, nem
torna óbvio ou garantido o curso das suas ações futuras.
»A sua desilusão não é nova para mim, Sr. Grayner.
Conhecia-a há muitos anos. O diretor-geral de uma
organização é a última pessoa a poder ser um adepto
romântico e idealista do sistema. Ele vê muitas coisas
desagradáveis e é obrigado a tomar parte em muitas delas.
Mas é forçado a continuar a trabalhar para a outra lealdade
mais elevada que lhe incumbe.
— Qual é ela? — perguntou Dinkuhl.
— Lealdade para com a raça humana. É uma lealdade muito
vasta e nem sempre fácil de entender — é mesmo
impossível entendê-la enquanto se não ultrapassam as outras
lealdades. Mas trata-se, como é evidente, da lealdade
fundamental do homem.
— E a lealdade fundamental — sugeriu Dinkuhl — exige que
Charlie continue a trabalhar para a Secção Atômica —
embora não precisemos de lhe dar esse nome. Como é que
havemos de lhe chamar? Preservadores Reunidos da
Humanidade — que tal?
Raven não se mostrou perturbado. Sorriu para Dinkuhl, sem
responder.
— Nenhuma das coisas que lhe disse no nosso primeiro
encontro é invalidada pelo fato de ter descoberto que eu o
enganara quanto a Sarah Cohn. Como eu já disse, era
garantido que a situação não se podia manter por muito mais
tempo. Arrisquei-me a enfrentar a decepção e o
ressentimento que iria certamente sentir dada a minha
fundamental confiança na sua evolução de nível. Assim
como na sua capacidade de se colocar acima das suas
próprias necessidades e desejos.
— É isso que lhe peço que faça agora, Sr. Grayner. Esqueça
os seus problemas pessoais por alguns momentos e estude a
situação sob uma luz mais geral e mais fria. A raça humana
enfrenta agora um dos seus momentos de decisão e o senhor
pessoalmente pode ter grande importância quanto ao
caminho a tomar por essa decisão. Mesmo sem a descoberta
de Isaacssohn, a situação ter-se-ia tornado crítica, mas agora
é urgente. Digo-lhe com toda a seriedade que o mundo pode
estar a caminho da devastação.
Dinkuhl disse:
— Não é a primeira vez. Cnossos foi pilhada há cinco mil
anos. E acha que a Seção Atômica sobreviverá?
Raven aproximou-se de Dinkuhl. Parou em frente dele, com
as mãos cruzadas.
— Já pensou como terá sido o saque de Cnossos, Sr.
Dinkuhl? Não é possível que a letargia, a fraqueza de
espírito, que o senhor, com tanta justiça, reprova ao mundo,
o possa ter cegado às fúrias adormecidas? É que elas estão
apenas adormecidas — a Seita do Cometa mostra-nos isso. E
esta trama social que o senhor despreza que as impede de
acordarem. Destrua-a e vê-las-á esfregar os olhos.
Dinkuhl olhou para ele e sorriu.
— Já estão a esfregar os olhos, Diretor Raven. E ainda mais,
já se lhes ouve o barulho das tripas.
— Pensa então que o homem foi feito para matar — para a
tortura, a violação e a brutalidade?
Dinkuhl ficou silencioso por momentos. Depois disse:
— Não sei para que é que ele foi feito. Talvez para estar
sentado em frente de um écran de televisão. Nesse caso,
aceito a tortura, a violação e a brutalidade; há qualquer coisa
de saudável à volta disso.
Raven rodou sobre si mesmo, num movimento fácil e sem
pressa, para olhar para Charles.
— A questão é esta, Sr. Grayner; compartilha as opiniões do
seu amigo sobre os cataclismos? Está de acordo com ele que
a Liga Vermelha e o Conforto Brilhante pedem um
canibalismo que as contrabalance? Não lhe peço que
deposite qualquer confiança em mim, ou nesta organização,
mas peço-lhe, esquecendo as suas próprias necessidades,
esquecendo Sarah Cohn, que responda com verdade a uma
só pergunta. A pergunta é esta: Tem idéia de alguma situação
em que possa servir o seu semelhante melhor — ou antes,
tão bem como — aqui? Não se preocupe se eles merecem a
destruição ou a condenação. Esse é o tipo de problema que
podemos deixar para a Seita do Cometa. Mas debaixo de um
simples ponto de vista tendente a evitar a dor e o
sofrimento, onde é que pode fazer tanto como aqui?
— Só uma pequena coisa — interrompeu Dinkuhl. — Uma
condição necessária nessa premissa. Charlie produz a fonte
de energia e a arma: depois tem de confiar em si quanto à
sua utilização.
Raven disse, com absoluta confiança:
— Deixo isso com o Sr. Grayner. Ele sabe que eu já o
enganei, mas também sabe que o fiz tendo em vista um
interesse maior. Peço desculpa por o ter enganado, mas não
lamento ter posto em primeiro lugar as necessidades
mundiais. E é justamente por já ter feito isso, que eu posso,
de fato, apelar para ele para que de futuro acredite na minha
integridade.
Dinkuhl disse:
— Charlie, a minha opinião é que já escutamos o Diretor-
Geral Raven o tempo suficiente. Já sabemos como ele ama
nobre e altruisticamente a humanidade. Nesta altura, acho
que nos podemos preparar para partir.
Raven dirigiu-se a Charles:
— Então, Sr. Grayner? Destruição ou salvação? Um mundo
decadente e corrupto — destrói-se ou tenta-se recompô-lo?
Charles permaneceu silencioso; sentia que devia ter a sua
própria ir- resolução estampada por todo o corpo. Raven e
Dinkuhl olhavam-no — Raven com uma confiança calma,
Dinkuhl com um certo ar trocista.
Ele disse:
— Não sei...
Dinkuhl acrescentou:
— Parece-me que um ponto fundamental é se, mesmo neste
momento, você já conhece todos os fatos. Todos os fatos
relevantes. Diretor Raven, acha que já lhe foram
apresentados todos os fatos relevantes?
Raven fez um gesto de assentimento.
— No que me diz respeito — acho que sim.
Charles deitou um olhar rápido a Dinkuhl; já o conhecia o
suficiente para saber que ia acontecer qualquer coisa.
— Não considera relevante o fato de o senhor, pessoalmente,
ter estado a perder terreno tanto no Conselho de Gestão da
Seção Atômica como no Conselho Mundial de Gestões, de
há alguns anos a esta parte — que o seu comovente desejo
de salvar o mundo de si próprio esteja ligado à ansiedade de
restabelecer o seu próprio prestígio?
— Seria relevante, se fosse verdade. Mas não é.
— A vantagem que eu tenho sobre si, Diretor Raven, é que
Charlie ainda não me apanhou a dizer-lhe nenhuma
mentira. Há uma moção dirigida à próxima reunião desta
organização, em que está explícita a falta de confiança na sua
pessoa como diretor-geral e em que se pede a sua demissão.
Está assinada por Ramaseshan, de Nova Delhi, e Burlitz, de
Munique. — Fez uma pausa. — Pode agora anular a minha
vantagem chamando a sua secretária e pedindo-lhe que
ponha no écran o rascunho da agenda para a citada reunião.
Caso a sua memória necessite ser reavivada, a reunião terá
lugar a 23 de Fevereiro, em Nova Delhi.
Fez-se um breve silêncio. No rosto de Raven permanecia
ainda um ligeiro sorriso que ele esboçara quando Dinkuhl
fizera o primeiro ataque ao seu interesse pessoal em que
Charles permanecesse na Secção Atômica. Fez o gesto que
Charles esperara que ele fizesse quando se tinham
encontrado pela primeira vez: levantou as mãos e examinou
as unhas. O seu controlo era admirável.
— Podia defender-me, Sr. Dinkuhl — disse Raven por fim
—, mas pela segunda vez fui apanhado — e desta vez foi
sem dúvida por um juízo errado. Duas vezes é de mais.
Encolheu delicadamente os ombros. Dinkuhl observava-o
atentamente.
— Então agora — comentou Dinkuhl —, para nosso próprio
bem, para o bem da humanidade sofredora e, em último e
menor lugar, para o bem do Diretor-Geral Raven, você é
obrigado — lamentavelmente e lamentando-o — a adotar os
métodos inferiores como o Ledbetter. Você terá de usar a
força.
O encolher de ombros repetiu-se, ainda com maior
delicadeza.
— Lamentando-o profundamente, garanto-lhe, Sr. Dinkuhl.
Não tenho quaisquer ilusões de que o trabalho possa
progredir com a mesma rapidez com tais métodos. Mas não
há qualquer alternativa.
— Se os seus colegas, Ramaseshan e Burlitz, soubessem que
tinha tido nas mãos uma tal presa e a tinha arriscado através
daquilo poderiam chamar desejo, de grandeza pessoal, creio
que a sua posição em vez de se consolidar, se tornaria ainda
menos segura, Diretor Raven.
Raven sorriu.
— Sinto-me inclinado a concordar, Sr. Dinkuhl. Felizmente,
não é natural que venham a sabê-lo. Tenho um melhor
controlo de segurança aqui em Filadélfia do que se calhar
imagina.
— Eu tenho bastante imaginação. Espero que o mesmo se
passe consigo, Diretor Raven. Neste preciso momento,
Ramaseshan está a receber um relatório pela rádio. Esse
relatório explica-lhe como, para bem da Secção Atômica —
omitamos a humanidade, de momento — o senhor fez o
necessário para obter os serviços do Funcionário Grayner,
pertencente anteriormente à IQR e que é — segundo julga
— a única pessoa capaz de levar a cabo um projeto que trará
um poder definitivo à organização que obtiver o seu
exclusivo. Infelizmente já foi apanhado por um grupo
estranho e feito desaparecer ou convencido a fugir. Tem
razões para pensar que o seu destino é a Ásia e
provavelmente a índia. O auxílio de Ramaseshan no sentido
de voltar a encontrar o fugitivo será muito apreciada. O
relatório está assinado Raven.
Raven olhou para Dinkuhl. Disse devagar:
— O seu potencial destruidor é muito grande, Sr. Dinkuhl.
— Não se incomode com despedidas formais. Na minha
idéia, Ramaseshan vai aparecer no écran para falar consigo já
a seguir. Oh. — Dinkuhl procurou qualquer coisa na
algibeira. — Um cópia do seu relatório. Vai precisar dela.
Raven disse:
— Às vezes entendo o seu ponto de vista, Sr. Dinkuhl, e
sinto-me mesmo inclinado a compartilhá-lo. Qualquer dos
dois já deixou de ser uma possessão valiosa para se tornar
uma maçada. Pode indicar-me uma boa razão que me
impeça de eliminar essa maçada?
— A melhor. O nosso espírito persuasivo. Duvido que
disponha de algum executor em quem tenha confiança
absoluta, pois nós não deixaríamos de pedir que nos fosse
facultado o acesso a Ramaseshan. Além disso, o senhor está
realmente muito ocupado, Diretor Raven. No seu lugar, eu
voltaria para a minha mesa de trabalho.
Raven sorriu.
— Os seus pontos não são extraordinários, mas conseguiu
levar-me a melhor. Falta-me o espírito de vingança essencial
a um diretor-geral, o que explica a minha posição atual.
Ramaseshan, por exemplo... Pois bem, parto do princípio de
que não vai reconsiderar, simplesmente para me ajudar a
salvar a pele, não é verdade Sr. Grayner? Bem me parecia.
Que é que pensa fazer agora, a propósito?
— Deixe-nos com os nossos problemas — disse Dinkuhl. —
E fique-se com os seus.
— É verdade. Adeus, Sr. Grayner. Gostaria de poder dizer
que estava certo de o deixar bem entregue. Adeus, Sr.
Dinkuhl.
Raven saiu com passo vivo, mas não apressado.
Desta vez não havia pressa. Foram até Oak Ridge para comer
e tomar algumas bebidas.
— É uma posição invejável, Charlie — disse Dinkuhl. — Até
pode usar o seu transmissor de pulso para chamar os
valentes da Secção Atômica se alguém se tornar incômodo.
Durante alguns dias pode dizer que está na Secção Atômica,
mas não é da Secção Atômica. Mas apenas por alguns dias.
Embora não seja vingativo, o diretor-geral é versátil. Ainda
pode chegar a um acordo com Ramaseshan. Ou mesmo
eliminá-lo. Eu disse-lhe que o jogo era forte.
Charles contemplava o seu gin tônico.
— Hiram — disse. — Nas últimas semanas tenho andado a
correr em círculo. Não lhe atribuo as culpas, embora tenha a
impressão de que você deu uma ajuda, uma ou duas vezes,
quando eu dei mostras de abrandar o passo, mas gostaria que
soubesse que estou numa fase de cansaço rápido.
— A Telecom deitou-lhe a mão. Depois você próprio se
instalou na Secção Atômica. Eu limitei-me a tirá-lo destes
dois refúgios.
— Certo. E para quê?
— Para quê? — Dinkuhl riu. — Eu não sou o Raven. Que é
que você pretende?
— Encontrar Sarah. Se estiver viva.
— Ótimo. Alguma pista?
— Nenhuma. Como sabe.
— Como sei. Bom, tentamos tudo o que se podia tentar sobre
a Terra. Embora eu sempre pensasse que isso não levaria a
nada. Vamos agora tentar debaixo de terra.
— Debaixo de terra?
O rosto de Dinkuhl modificou-se, tornou-se mais duro. A
sua voz baixou uma oitava.
— Irmão — perguntou —, estais condenado? — Retomou a
sua expressão normal. — Depois de andar toda a vida a
pregar a cultura, acho que posso pregar agora a condenação.
— Que é que espera conseguir da Seita do Cometa?
— Não sei. Nada. Qualquer coisa. Pelo menos, é aí que é
menos provável as Seções de Contacto irem procurar-nos.
Com umas barbas naturais, seremos impenetráveis. Não
confiar nos plásticos quando a natureza pode dar uma ajuda.
Eu serei o pregador, Charlie. Você pode ir de roda com o
chapéu.
Charles disse em tom duvidoso:
— Acha que consegue safar-se?
— Já estudei a situação. Farei com que os restantes
pregadores arranquem as barbas.
— Parece-me uma idéia louca.
— Quando o juízo fica calcificado, a loucura é a única
solução. Tem alguma idéia melhor?
Charles sacudiu a cabeça.
CAPÍTULO VII
A noite estava muito fria e cheia de nuvens. Dentro, no
pequeno compartimento semelhante a uma caixa, até o calor
produzido pelas filas maciças de adeptos da Seita do Cometa
não era o suficiente para fazer subir a temperatura de modo
perceptível. Charles enrolava-se cada vez mais no casaco.
Dinkuhl, instalado por cima dele; na tribuna, abrira a capa,
aquecido provavelmente pela sua própria eloqüência.
Enquanto esperavam que as barbas lhes crescessem o
suficiente tinham posto umas artificiais — pontiaguda, no
caso de Charles, quadrada para Dinkuhl. Não eram
confortáveis de usar, mas, combinadas com a longa capa do
orador, produziam um efeito impressionante. Especialmente
no caso de Dinkuhl.
Dinkuhl arrulhava naquele momento como uma rola no
ninho.
— Há alguém que seja capaz de dizer que o Amor anda pelo
mundo? Há alguém que seja capaz de dizer que do Mal sai o
Bem? Há Amor na Carne? Há Bem no Mal? Meus amigos, há
Vida na Morte! Será que a Pureza nasce da Corrupção?
Quem tem olhos para ver que veja. Quem tem ouvidos para
ouvir que ouça.
Ele fez uma pausa.
— Meus amigos. — A sua voz era baixa, mas ouvia-se à
distância, até à última fila. — Estais salvo? — A sua voz
aumentou de volume, com o diapasão do órgão. — Ou estais
condenados?
— Condenados — respondeu o coro, um pouco
desencontrado a princípio, mas soando pouco a pouco em
uníssono. — Condenados ao Inferno e no Inferno.
Condenados! Condenados! Condenados!
— E, se estais condenados, salvar-se-á alguém? — perguntou
Dinkuhl.
— Ninguém se salvará! Ninguém se salvará!
Charles tinha um bastão de carvalho. Encostou-se a ele,
imóvel e silencioso no meio do clamor crescente. Aquilo
fora idéia de Dinkuhl, que ele ficasse de pé a observar. Ele
próprio não fazia qualquer idéia das reações que poderiam
ter; nenhum sentimento por eles, a não ser de repugnância e
espanto. Mas Dinkuhl conduzia-os como uma orquestra.
Deixou os ecos da sua afirmação de desespero morrerem na
distância, antes de continuar, quase em tom de conversa.
— Meus amigos — disse —, falemos de campos verdes. Para
os espíritos atormentados pelo pecado e pelo remorso —
pois os condenados não conhecem o arrependimento —
chamemos uma visão dos prados da infância inocente.
Sonhemos um pouco com a Primavera e com as primeiras
rosas, com o sol tão brilhante que não se suporta e, no
entanto, é mais doce que a própria vida, com o orvalho que
brilhava como pedras preciosas nas sebes. Pensemos, se
conseguirmos, nesse tempo perdido há muito em que o
prazer podia existir sem pecado, em que o riso era suave e os
corações tementes a Deus eram alegres. Quanto mais não
seja em espírito, retracemos os nossos passos vacilantes en-
quanto eles ainda percorriam o caminho estreito, atapetado
de flores, que levava à alta montanha azul. Pensemos
naquilo que fomos, meus amigos.
Deixou baixar o tom. Disfarçadamente, Charles observou o
efeito. Alguns choravam abertamente.
A voz de Dinkuhl voltou a mudar; não muito, mas
tornando-se um pouco mais aguda.
— Os vossos corações estão tristes, meus amigos? Conhecem
a amargura do desgosto? A faca penetra mais fundo quando
o espírito evoca o mundo que perdeu? Sim, esse mundo está
perdido, meus amigos. Nunca mais conhecereis essa
Primavera. Nunca mais vereis esses prados, essas rosas, essas
gotas de orvalho. Os vossos rostos condenados nunca mais
serão aquecidos por esse sol. E o caminho que agora seguis
não leva à alta montanha azul. Leva ao fosso. Ao fosso!
O lamento sacudido, agora familiar, como se as fileiras de
figuras curvadas não fossem várias, mas uma só. Uma só
carne. O lamento leviatã. Charles deixou os olhos vaguear
sobre eles. Conseguia ver os emblemas dos que se
encontravam nas primeiras duas ou três filas. Aços...
Indústrias Químicas Reunidas... Interplanetária... Genética...
Agricultura... Minas... Era uma autêntica lista de chamada,
representativa, ainda que não completa. «Algures», pensou,
«Ledbetter, Raven continuam no seu ritmo habitual —
conspirando, manobrando, lutando só Deus sabe com que
motivos intricados pelo controlo do mundo conhecido,
seguro e imperturbável. Porque é que não estendiam um
pouco dessa energia ao mundo lá de baixo? Certamente
compreendiam que os seus edifícios gigantescos poderiam
abater-se mesmo antes de serem erigidos?»
— Nunca vereis aqueles lugares encantados. Nunca mais
voltareis a conhecer aquele tempo de paz. Mas não os
esquecereis, meus amigos. Porque os condenados
conservam três coisas. A sua carne. Os seus pecados. As suas
memórias. A carne para seu tormento. O pecado para sua
condenação. E as memórias para essa última agonia de
espírito que é a consciência daquilo que se perdeu. Lembrar-
vos-eis de tudo isso por entre as chamas, na poeira
escaldante, sobre o gelo, nos desertos cheios de desolação.
Lembrar-vos-eis de tudo isso e amaldiçoareis a amarga
memória.
Não sabia donde, ao fundo, uma voz de homem gritou,
monótona e profunda:
— Condenados! Condenados! Condenados! Condenados!
Condenados!
Respondeu-lhe o mesmo gemido inarticulado. Horrorizado,
Charles perguntou a si próprio se Ledbetter, se Raven não
teriam outras razões para não fazerem nada que não a
inconsciência ou a indiferença. Talvez fosse o medo que os
amarrasse, medo de desencadearem a tempestade.
— Condenados — disse Dinkuhl, pesadamente, mas sem
ênfase. Deixou cair as palavras como pedras no óleo. —
Condenados.
De diferentes pontos da sala os ecos foram-lhe devolvidos.
«Condenados.» «Condenados.» «Condenados.» Uma mulher
começou a soluçar — soluços secos e monótonos que
pareciam nunca mais parar. Continuavam a fazer-se ouvir,
quando Dinkuhl levantou a mão direita.
— Esta noite, o Senhor Jeová até o seu Dedo da Ira esconde
de vós. No entanto, vamos lá fora e façamos a nossa súplica.
O que quiserem dar para o pão do Pregador e do Amigo do
Pregador podem atirá-lo para o chão, ao pé da porta, quando
saírem. O máximo de um dólar por pessoa. Vamo-nos.
Alguns dos homens pegaram no púlpito e instalaram-no ao
ar livre. Fazia um frio intenso e a noite estava escura.
Charles ajudou Dinkuhl a subir para o púlpito. Ele próprio se
foi pôr por baixo, a tremer de frio. Não servia de nada tentar
a impassividade, apenas via uma mancha branca difusa,
presumivelmente as faces dos condenados. Estes não
conseguiriam vê-lo, mesmo que houvesse alguma
probabilidade de virem a olhar naquela direção.
— O Senhor Jeová esconde dos nossos olhos o seu Dedo da
Ira, mas ele continua lá, aproximando-se no espaço e no
tempo. O Dedo que aponta para um mundo de condenação!
O Dedo que se abaterá sobre as pessoas que se dão à
iniqüidade! O Dedo que marca o gado para o abate! A voz do
Senhor Jeová será o trovão das montanhas, o terremoto das
entranhas da terra! Ninguém escapará às palavras do
julgamento — ninguém escapará!
O vento andava perto, empurrando e mordendo. Dinkuhl,
no entanto, fez a pausa que o ritual exigia. A sua voz saltou
então repentinamente, gritante, selvática:
— Para baixo! De joelhos! Seus cães e cadelas! Para baixo,
para baixo, para baixo! Para baixo na vossa condenação!
Ponham-se de joelhos e gritem, gritem para Jeová o eterno:
«Senhor Jeová, estamos condenados! Envia-nos os teus
chicotes, os teus escorpiões, as tuas labaredas para queimar a
nossa carne mais tenra!»
— Senhor Jeová, estamos condenados! Envia-nos os teus
chicotes, os teus escorpiões, as tuas labaredas, para queimar a
nossa carne mais tenra!
— Solta os teus demônios!
— Solta os teus demônios!
— Uma só graça, Senhor Jeová. Uma só graça!
— Uma só graça, Senhor Jeová! Uma só graça!
— Depois de um milhão de anos de tormento, concede-nos
o esquecimento!
— Depois de um milhão de anos de tormento, concede-nos
o esquecimento!
As suas respostas tinham crescido, tanto em volume como
em uníssono. Agora Dinkuhl lançou mão de outra
habilidade. Dava resultado; até o próprio Charles se arrepiou.
Vinda do silêncio, a voz de Dinkuhl, como um murmúrio,
mas um murmúrio que abafava o próprio vento, parecia a
própria entoação do desespero.
— Nós, os teus condenados, ajoelhamos perante ti, Senhor
Jeová.
E a resposta final, desencontrada e tremente:
— Nós, os teus condenados, ajoelhamos perante ti, Senhor
Jeová.
Terminara. Dinkuhl desceu do estrado. Charles e ele ficaram
de pé junto da porta, enquanto algumas pessoas faziam as
suas despedidas pessoais. O ambiente agora era totalmente
diferente: afetuoso e descontraído. Era agora que colhiam
informações. Com quem deviam contactar no local para
onde iam a seguir — notícias dos outros pregadores do
distrito. As outras perguntas deles não pareciam invulgares
no meio de todas as perguntas e respostas que se faziam.
— Irmão — disse Dinkuhl —, procuramos dois instrumentos
de Jeová.
Têm poder nas suas mãos. Uma jovem mulher cujo nome é
Sarah Cohn e um homem cujo nome é Hans Isaacssohn.
Onde quer que estejam estão guardados em segredo. Podem
estar prisioneiros. Ouviram falar de qualquer deles? A
Vontade de Jeová, Irmão.
Um homem baixo com figura de barril, com um emblema da
Seção Atômica:
— Não conheço ninguém com esses nomes, Pregador.
— São cientistas.
— Não. Não conheço nenhuns cientistas.
A mesma pergunta, mas substituindo apenas Irmã por
Irmão, foi dirigida a uma mulher escura da Hidropônica.
— Não sei nada disso, Pregador. Diga-me, Pregador — o meu
Gestor... de vez em quando tem o ar de um condenado.
Acha que lhe devia explicar — convidá-lo para uma das
sessões?
— Irmã, todos têm o direito de saber que estão condenados.
Convide-o.
Um homem de meia-idade, com ar cínico e emblema dos
Aços disse:
— Conheço porcaria que chegue na minha organização para
os perseguir até junto do Trono, Pregador, mas não tenho
conhecimento de que conservem alguém cativo. Pelo
menos, agora.
O último bando de fiéis partiu para os seus giroplanos,
deixando Charles e Dinkuhl juntos.
Dinkuhl disse:
— Vamos até lá dentro juntar as ofertas, Irmão. E sair deste
vento danado.
Apanharam o dinheiro do chão e Dinkuhl, que levava a
bolsa de Pregador, guardou-o.
— Acho lamentável este costume de pôr o limite de um
dólar. Já tenho pensado em omitir isso, mas estou
convencido de que as pessoas se lembrariam. Isso deve ter
uma utilidade qualquer, mas eu não vejo qual.
— Bela atuação esta noite — disse Charles com ar
apreciativo.
— Sim. Senti-me orgulhoso de mim próprio. A paz, as rosas,
a alta montanha azul. Melhor que o FK. Posso dar largas à
vulgaridade do meu coração.
— O baixo cá ao fundo ajudou.
— Devia contratá-lo. — Olhou especulativamente para
Charles. — Ou pô-lo a si lá atrás para fazer esse papel.
— A minha voz não é suficientemente boa.
— Podia adaptar-lhe um amplificador.
Riram. Charles disse:
— Ainda bem que você se diverte, Hiram. Não me parece
que estejamos a conseguir quaisquer resultados.
— Irmão, estamos apenas a começar. — Dinkuhl rebuscou
um dos bolsos interiores do casaco e tirou de lá uma garrafa
quadrada. — Para nos ajudar no caminho. O espião com
maior sucesso é o que consegue gozar a vida ao mesmo
tempo. Qual é a próxima visita? Kentucky?
— Kentucky não é mau.
Charles bebeu um pouco e voltou a passar a garrafa a
Dinkuhl. Ele tomou um golo e deu um estalo com os lábios.
— Devíamos contar as nossas bênçãos, meu caro Charlie.
Não é proibido aos pregadores andar de giroplano — mesmo
com colchões de ar. Mas, pensando melhor, não vejo como
é que os pregadores conseguem arranjar giroplanos
recebendo um dólar por cabeça. Sabia que tinha de haver
qualquer coisa. E o fato de saber já é meio caminho andado
para a descoberta da verdade.
Charles abanou a cabeça.
— A comunidade local paga o resto. Um dos irmãos contou-
me que arranjaram um giroplano para uma das suas
esperanças mais jovens que só há dois meses sentiu a
vocação de pregador. Eles acham que vale a pena, pois a
palavra circula mais rapidamente.
— E a palavra está a circular rapidamente. Julgo que há
objeções a que um pregador se ocupe dos fundos da
comunidade? Deve haver.
— Julgo que sim.
— Bom, contemos as nossas bênçãos, assim como assim.
Apetecia- -me ir já dormir.
Deslocavam-se, ao acaso, cobrindo distâncias de cem a
cento e cinqüenta milhas. Não havia qualquer controlo
sobre os movimentos dos pregadores. Era seu dever
deslocarem-se conforme o espírito lhes ditasse e eram bem
recebidos em toda a parte. Charles e Dinkuhl cobriam um
vasto círculo: até Ohio, a leste; a sul, Kentucky e a Carolina
do Norte; e novamente para o norte ao longo da costa do
Atlântico. Chegaram a Norfolk no dia a seguir a outro
pregador, mas mesmo assim a congregação mostrou-se
numerosa e entusiástica.
Dinkuhl comentou:
— Que é que acontece se chegamos ao mesmo tempo que
um desses tipos?
— Sem pretender lisonjeá-lo, Hiram — disse Charles —, mas
a fama é sua. O Irmão Lucas disse-me ontem que já ouviu
mais de cinqüenta pregadores e que nenhum lhe chega aos
calcanhares.
— O que me preocupa é saber quem recebe os dólares. Bom,
podemos preocupar-nos com isso quando chegar a altura.
Tenho outra idéia, Charlie. Acho que valia a pena você
andar com uma caveira — segure-a na mão enquanto eu
falo. Hei de procurar uma.
— Bastão numa mão, caveira na outra, mesmo assim fico
com os pés livres; talvez ainda pudesse tocar órgão.
Dinkuhl teve um riso abafado.
— Mais seis meses comigo e você vai ficar com sentido de
humor. Tome as coisas à ligeira: é a única coisa a fazer, se
não quiser que elas o enterrem.
— Isto inclui não se arrepender de nada. Está arrependido de
alguma coisa, Hiram?
— De nada. Absolutamente nada. Ocasionalmente ocorre-
me que o meu lugar talvez fosse antes em Detroit,
presidindo aos ritos funerários do último posto avançado da
cultura. E qual a resposta que isso evoca? A mais simples de
todas: Que vá tudo para o diabo!
— Sempre é melhor do que fazer de parvo?
— Irmão, o mundo está à beira de um Niágara interplanetário
que corre para o caldeirão interestelar. Ninguém tem futuro,
a menos que saiba viver ao contrário. Em tempos como
estes, não há nada melhor do que fazer de parvo.
Foi em Boston que eles finalmente coincidiram com outro
pregador. Tinha-lhes sido dito que entrassem em contacto
com um homem chamado Brogden, do P & M. Era gestor
do crematório.
Verificou -se que era um indivíduo de aspecto maciço
cabeça
grande, ombros e peito largos, todo ele estreitando para
baixo com um ar sombrio, entrecortado por lampejos de
uma alegria nervosa O fato branco, muito comprido, que
usava, parecia uma mortalha, mas uma mortalha com uma
incongruência esquisita; estava enfeitada com uma grande
botoeira escarlate.
Disse:
— Soube que o senhor vinha aí, Pregador. As coisas são
assim. Há três semanas que não tínhamos um pregador e
agora temos dois na mesma noite.
— Talvez fosse melhor nós continuarmos viagem para o
lugar seguinte, Irmão — disse Dinkuhl.
Brogden abanou a cabeça:
— Não vale a pena. Já ouvimos falar de si, Pregador — que o
senhor é um grande pregador da Ira. O Pregador Robinson e
o senhor vão pregar juntos. Temos um salão bastante grande
e em Boston a palavra é forte. Não há sítio em Nova
Inglaterra onde a palavra seja mais forte que em Boston.
— E pode dizer-se que na Nova Inglaterra a palavra é forte
— concordou Dinkuhl.
Brogden olhou para ele.
— Fora da Nova Inglaterra, Pregador, parece-me que as
pessoas não sabem o que é estar condenado.
Largou num riso sonoro, ao qual Charles se associou, sem
saber porquê. Dinkuhl teve um sorriso pálido. Tendo
acabado de rir, Brogden disse solenemente:
— Quer vir comer qualquer coisa comigo, antes de irmos
para baixo, Pregador? E o senhor também, Irmão?
Acenaram com a cabeça em sinal de assentimento e
Brogden levou-os pelos longos corredores do crematório até
aos aposentos que ocupava na parte de trás. Parou uma vez e
inverteu a polarização num dos painéis laterais acionando
um interruptor. Olharam através da transparência para uma
sala povoada de plataformas elevadas, sobre cada uma das
quais repousava um cadáver à espera de ser cremado.
— Uma visão impressionante, Pregador, é o que eu sempre
penso — disse Brogden. — Os corpos para as chamas e as
almas já nas chamas.
Charles esperava que ele desatasse novamente a rir, mas não
o fez. Abanou a cabeça, muito sério, voltou a desligar o
interruptor e continuaram o seu caminho.
À parte uma noite, numa propriedade das Minas, Dinkuhl
sempre pregara, anteriormente fora das cidades, em
barracões que pertenciam à Agricultura. Brogden conduziu-
os de giroplano até ao cais, a uma área que parecia
abandonada, embora estivesse sob o controlo da Telecom.
Naquele sector tudo se apresentava muito decadente,
apinhado de armazéns a cair aos bocados e que pareciam em
vias de escorregar para dentro das águas de aspecto
insalubre. Os giroplanos que já estavam estacionados por ali
mostravam que Brogden tivera razão ao prometer uma boa
participação.
No interior encontraram-se com o Pregador Robinson e
fizeram as suas saudações. O Pregador Robinson era um
homem magro e tinha qualquer coisa de estranho na
maneira de falar.
— Ouvi dizer que é um belo narrador da Ira, Pregador —
disse ele. — Quer conduzir a sessão?
Dinkuhl respondeu:
— É melhor ser o senhor a conduzir, Pregador. Tem mais
prática do que eu.
O Pregador Robinson inclinou a cabeça.
— Como queira.
Pregou bem, com um fervor frio e amargo. Mas Dinkuhl,
seguindo-o, mostrou-se em tremenda forma. O público, que
escutara em silêncio, traindo apenas por um ligeiro arrastar
dos pés que alguma acusação de iniqüidade lhes assentara em
cheio, foi levado a um acesso de soluços e gritos pela forma
como Dinkuhl jogou com as suas emoções. Dinkuhl passou-
os novamente a Robinson para a liturgia que teve lugar ao ar
livre, mas, ainda sob a influência, foi a multidão mais do que
o Pregador quem dominou as respostas.
Quando tudo terminou, Charles e Dinkuhl colocaram-se ao
lado do Pregador Robinson e apresentaram as suas
despedidas informais aos fiéis. Tinham decidido que, em
frente de Robinson, não fariam as perguntas habituais acerca
de Sarah e Isaacssohn. Charles permaneceu em silêncio
enquanto os dois pregadores escutavam a tagarelice e os
pequenos problemas da congregação que partia. O cometa
era perfeitamente visível no cimo do abismo negro que
ficava entre os dois armazéns. Algumas jardas mais adiante a
água vinha embater lentamente nos pilares que apodreciam.
Brogden disse:
— Querem vir passar a noite comigo? Tenho bastante espaço
para os três.
O Pregador Robinson foi o primeiro a responder. Disse:
— O Pregador e eu temos assuntos a discutir em particular.
Pode ser que vamos até sua casa depois, Irmão, mas agora
pedimos-lhe que vá andando.
Brogden disse:
— Eu não tenho pressa, Pregador. — Riu, mas o seu riso
ressoou vazio no ar da noite. — Nada me espera, a não ser o
Inferno.
— Vá andando — disse o Pregador Robinson. — É a vontade
de Jeová.
— A vontade de Jeová.
Havia luz suficiente para que Charles pudesse ver como
Dinkuhl se retesou um pouco. Ele próprio ficara
surpreendido e alertado.
Podia muito bem ser usual os pregadores compararem as
suas impressões quando se encontravam durante as suas
viagens, embora nunca tivessem ouvido falar nisso. Mas,
ainda que fosse esse o caso, a situação que se delineava
queria grande cuidado. E se houvesse alguma coisa mais...
Charles confortou-se com o pensamento de que eram dois
contra um.
Ainda havia alguns indivíduos da congregação quando
Robinson começou a falar. Disse para Dinkuhl:
— Há quanto tempo começou a pregar a Ira, Pregador?
— Não muito, Pregador. Só há algumas semanas me senti
chamado a isso.
— Fá-lo muito bem.
— Um instrumento de Jeová, Pregador.
A voz de Dinkuhl, notou Charles, retomara o tom arrastado
que denotava cuidado. O grupo dos condenados aproximara-
se e rodeavam-nos. Não restavam dúvidas de que eram
seguidores do Pregador Robinson. Afinal não eram dois
contra um; eram dois contra meia dúzia'.
— Diga-me, Pregador — disse Robinson — esses dois acerca
de quem você tem andado a fazer perguntas — uma mulher
chamada Cohn e um homem chamado Isaacssohn — esses
dois também são instrumentos de Deus?
Podia ser apenas uma questão de rotina; o fato de saberem as
perguntas que eles tinham andado a fazer não significava
necessariamente outra coisa a não ser que a Seita do Cometa
era uma organização mais forte do que poderia parecer à
superfície.
Dinkuhl disse:
— Todos os homens e todas as mulheres são instrumentos de
Jeová.
O Pregador Robinson riu-se e o seu riso foi o despir de um
casaco. Era um riso de cinismo. Tinham chegado a um
círculo interior; era bastante evidente. E tratava-se de um
círculo interior dedicado a outra coisa que não o fanatismo
da Seita do Cometa. Mas o quê? A conclusão geral era
bastante clara. Uma organização qualquer. Mas qual? Qual a
organização que era capaz de controlar um movimento
como este — um movimento que tanto Ledbetter como o
próprio Raven temiam indubitavelmente?
— O senhor explica bem as coisas, Gestor Dinkuhl — disse o
Pregador Robinson. — Mas estamos curiosos na mesma.
Que é que quer à Cohn e ao Isaacssohn?
— O senhor acreditar-me-ia — disse Dinkuhl lentamente —
se eu lhe dissesse que não é por outra razão que não sejam as
angústias de um amor sofredor?
— Por ambos?
— Bom, cada um o seu. Charlie pela Cohn, eu pelo
Isaacssohn. Eu sou assim.
Robinson voltou a rir.
— Sabe — disse ele —, eu acho que, se não houvesse
qualquer outra razão, levá-lo-íamos n>esmo assim, por causa
do seu sentido de humor.
— Levar-nos ... para onde? — perguntou Dinkuhl. — E
esperam que vamos de livre vontade?
— Depois saberão onde. De livre vontade, se quiserem.
Senão será de outra forma. Estamos preparados.
Dinkuhl gemeu.
— Astarate outra vez, não!
— Não — disse Robinson —, não é astarate. — Tirou
qualquer coisa debaixo da sua capa de pregador. — Nós
somos do tipo mais primitivo.
Os seus acompanhantes estavam a tomar precauções
semelhantes. Charles reconheceu os objetos que levavam
por ter visto algo semelhante numa ópera histórica da Liga
Vermelha. Tratava-se de mocas antigas de cabo flexível.
Dinkuhl disse:
— Importa-se que dê uma palavrinha ao Charlie, a sós?
— Uma palavra. Não mais de meio minuto.
Dinkuhl tomou Charles de lado.
— Sabe nadar? — Charles acenou afirmativamente. —
Aqueles instrumentos rombos são as únicas armas de que
dispõem; teriam aparecido com outra coisa se a tivessem.
Provavelmente não andam com nada de metal, no caso de
alguém lhes aplicar os detectores. De qualquer forma, vale a
pena tentar a corrida. Há apenas dois, entre nós e a água.
Passamos por cima deles e mergulhamos. Nade para a
esquerda. Há uma artéria principal a umas cem jardas. E eles
não conseguem chegar até nós antes disso, por causa dos
armazéns. Não tentarão nada a não ser às escuras.
Charles disse:
— O. K. Quando é que vamos?
— Vamos voltar para junto deles. Eu pego no maço de
cigarros e no isqueiro. Quando eu atirar o isqueiro à cara do
Pregador, avançamos.
Os observadores pareceram menos tensos quando Charles e
Dinkuhl voltaram juntos para o sítio onde estava Robinson.
Dinkuhl puxou do maço de cigarros, com lentidão. Depois
procurou o isqueiro nas algibeiras.
Robinson disse:
— Estão preparados para serem razoáveis? Assim, isto não
passará de um jogo.
Dinkuhl tirou o isqueiro da algibeira e carregou no botão
para fazer aparecer a chama. A pequena labareda azul
brilhou a uma altura de três polegadas.
— Tudo depende — disse Dinkuhl — do jogo que for. Por
exemplo...
Ele berrou:
— Agora!
E atirou o isqueiro à cara de Robinson, enquanto Charles
dava um salto em direção ao homem que estava entre ele e o
cais. O homem caiu, mas arrastou Charles consigo. Charles
rolou pelo chão, mas quando conseguiu pôr-se de pé já
outro o tinha agarrado por um braço e outro ainda estava
entre ele e a água. Dinkuhl conseguir fugir. Estava de pé á
beira de água e olhava para trás. Nenhum deles fazia
qualquer tentativa para o apanhar. «Sou eu outra vez»,
pensou Charles.
Gritou:
— Fuja, Hiram!
Quando conseguiu libertar o braço e atirar-se sobre o
homem que lhe barrava o caminho, Charles viu Dinkuhl
correr como louco para vir ajudá-lo. Não viu mais nada.
Qualquer coisa o atingiu na parte de trás da cabeça.
Retomou consciência uma vez ao ouvir o zumbido agudo
dos motores do transatlântico. Sentou-se e teve tempo de
ver que estava no porão de um avião de carga, amarrado.
Dinkuhl, também amarrado, estava deitado a uma pequena
distância.
Ouviu uma voz:
— Não há problema. Nós não queremos problemas.
Outro golpe de moca fê-lo perder novamente os sentidos.
CAPÍTULO VIII
Quando voltou novamente a si, Charles já não estava
amarrado. Sentou-se, com todo o cuidado, e depois pôs-se
de pé. Doía-lhe a cabeça, mas mesmo assim menos do que a
seguir ao astarate; provavelmente os efeitos de uma pancada
com uma moca não eram piores que os de uma droga.
Estava num pequeno quarto que parecia uma cela, mas não
havia qualquer hipótese de se tratar de uma cabina, numa
nave espacial, real ou fingida. Havia uma janela de plástico
especial numa das paredes, por onde entrava a luz do
exterior. No entanto, as suas primeiras atenções foram para
Dinkuhl. Dinkuhl estava deitado no chão e tinha uma
grande equimose, azul e negra, na testa, do lado esquerdo.
Charles tentou acordá-lo, mas sem qualquer êxito. Não havia
água no quarto e as bofetadas que lhe deu no rosto não
deram resultado. Pelo menos, estava vivo.
Deixando-o de momento, Charles foi à janela e olhou para
fora. O edifício onde estavam ficava num ponto alto e podia
ver-se uma cidade que lhe fez lembrar qualquer coisa,
embora não conseguisse saber o quê. Uma mistura de estilos,
com predominância dos muito antigos e com um forte sabor
oriental. Uma cidade museu. Isso estreitava bastante as
possibilidades — havia poucas cidades que tivessem
escapado, tanto à destruição da guerra como à
estandardização subseqüente que caracterizara a
reconstrução cívica que marcara o início do sistema de
gestão. Tentou pensar o que poderia ser, mas sem conseguir
convencer- -se a si próprio de uma semelhança após outra.
O céu estava cheio de giroplanos, o que também não o
ajudava.
Só no momento em que a porta se abriu e ele viu o homem
que apareceu no limiar é que adivinhou onde estava. Uma
série de coisas se arrumou nesse momento, a menor das
quais era o sotaque estranho do Pregador Robinson. Ele
nunca o vira em pessoa, mas já tivera uma boa visão dele,
vestido da mesma forma.
Tratava-se de Hans Isaacssohn e o fato era o uniforme
militar israelita.
— O senhor já acordou — disse Isaacssohn. — Dinkuhl
ainda não?
— Ele foi bastante mal tratado. — Charles levou a mão à
cabeça. — Os seus homens têm prazer em usar as suas
armas.
Isaacssohn sorriu. Ele tinha um sorriso lento que aquecia as
suas feições normalmente severas.
— A necessidade de manter o anonimato impediu-nos de
usar métodos de repressão mais modernos. Não direi que
alguns não tenham tido a mão um tanto pesada. O
entusiasmo é um bom defeito num militar. Mas eles sabem
onde bater sem provocar estragos definitivos.
— Muito interessante. Têm alguma idéia do que se poderia
fazer a Dinkuhl para ele se sentir melhor, agora que nos têm
aqui?
Isaacssohn acenou afirmativamente. Carregou num pequeno
botão que havia na parede.
— Mas não há muito tempo. Trouxeram-nos para aqui e a
seguir informaram-me. Vim quase imediatamente. Devia
estar a voltar a si quando o deixaram.
— De qualquer forma, cá estamos. — Charles fez um gesto
em direção à janela. — Em...
— A capital do mundo. — Isaacssohn voltou a sorrir. —
Jerusalém. No Instituto Einstein. Sétimo andar. Sala 93.
Julgo que me reconhece. Deve ter visto registros meus.
Como é que vão as coisas na Califórnia?
— Sim, reconheci-o. A Califórnia — já saí de lá há algumas
semanas.
Duas ordenanças, igualmente em uniforme, trouxeram uma
maca.
Isaacssohn disse:
— Ele devia ter sido transportado para a enfermaria. Levem-
no para ser tratado.
Quando saíram do quarto, Charles disse apressado:
— E Sarah — como é que ela está? Está bem? — Isaacssohn
acenou afirmativamente. — E o pai dela?
A pergunta divertiu Isaacssohn.
— Sim, o Professor Cohn está de boa saúde e bem disposto.
Muito bem disposto! Quer falar consigo.
— E Sarah?
— Isso é com o Professor Cohn. Vamos. Está pronto?
Charles ergueu as mãos. A corda com que lhas tinham atado
estava cheia de óleo.
— Se me pudesse lavar, seria útil.
— Pois claro. As nossas instalações sanitárias não são
inteiramente como as do mundo da gestão, mas eu tenho
uma sala de banho ao lado do meu gabinete. Venha comigo.
O gabinete de Isaacssohn ficava dois pisos mais abaixo.
Desceram e Isaacssohn levou-o à sala de banho.
— Estarei no meu gabinete. Venha ter comigo quando
estiver pronto — disse-lhe. — Sabão, toalhas — tem tudo?
Charles arranjou-se o melhor que pôde e foi ter com
Isaacssohn. Este levantou-se da secretária e voltou a sentar-
se.
— Antes de irmos ao edifício governamental, há uma coisa
que talvez lhe interesse. Quer um cigarro? Sente-se.
O cigarro pareceu-lhe uma boa idéia e Charles não se fez
rogado para se sentar. Olhou em volta. Nada de invulgar, a
não ser que estava um tanto desarrumado. Havia um écran
de televisão na parede. Isaacssohn falou para um espécie de
tubo: isso era novo para ele.
Disse:
— Chamem Gathenya — Neues-Werke. — Olhou para
Charles. — Usamos mais os fios na comunicação do que
vocês. É o resultado de estarmos mais próximos e
centralizados. Assim poupamos energia e uma coisa a que
tivemos de nos dedicar foi a maneira de fazer economias.
O écran iluminou-se e viu-se um homem sentado a uma
secretária. Pareceu reconhecer Isaacssohn e saudou-o.
Isaacssohn falou-lhe em alemão e ele fez um aceno.
— Já, General.
O écran voltou a ficar vazio, mas em seguida mostrou o
interior de uma fábrica. Era uma instalação para produção
em série, mas não automatizada: parecia haver demasiados
empregados para isso. Isaacssohn disse qualquer coisa mais
em alemão e as câmaras mostraram um grande plano do fim
da linha. Os produtos eram cuidadosamente apanhados e
empilhados para serem transportados para outro sítio. Trata-
va-se de pequenos objetos de metal, em forma de ovo.
— Reconhece-os?
Charles sacudiu a cabeça.
— Devia reconhecer?
Isaacssohn deu novamente instruções em alemão. Desta vez
a cena era um pátio fechado, mas aberto para o céu. Estava
povoado por um enxame de abelhas monstruosas. Homens a
voar.
Estes usavam igualmente o uniforme militar israelita. Cada
um deles estava metido numa estrutura de metal semelhante
a um esqueleto. A estrutura tinha um descanso para os pés,
um assento e um cinto com diversos controles. A partir do
cinto, o metal formava um arco por cima da cabeça do
voador. Na parte superior do arco ficavam as pás da hélice:
horizontais para a descolagem e inclináveis em várias
direções para o vôo de rotina e manobras. À medida que
Charles conseguiu visualizar melhor a cena no seu espírito,
compreendeu que se estava a realizar uma parada aérea
bastante complicada. Um dos voadores, pairando imóvel
numa das extremidades do pátio, era o instrutor; o resto
obedecia às suas ordens.
— Uma concepção muito interessante. E a energia?
— Como deve ter adivinhado, trata-se da bateria solar de
diamante. O que você viu há pouco, saindo da linha de
montagem, eram as baterias.
— Parabéns, mas não sei como o conseguiu em tão pouco
tempo. Previ, pelo menos, seis meses de trabalho na fase de
desenvolvimento, independentemente do tempo necessário
para a produção — questão de ferramentas, etc.
Isaacssohn sorriu.
— Claro. Por isso é que eu não posso aceitar as suas
felicitações. Desde o princípio que temos tido aqui pessoas a
trabalhar nisso. O meu trabalho em San Diego foi uma perda
de tempo. Não foi tão fácil como poderá pensar.
Charles olhou para ele, incrédulo.
— Duas perguntas. Como é que podia ter pessoas a trabalhar
nisto, se tanto o senhor como os Cohn eram refugiados? E,
se os tinha, porquê dar informações às Indústrias Químicas
Reunidas? Disse o suficiente para interessar mais de uma
organização.
— Parece que sim. A resposta à primeira pergunta é que
estamos num país capitalista, não no sistema de gestão.
Desorganizado, confuso, ineficiente. Tão ineficiente que não
houve qualquer dificuldade em continuar com as
investigações, sem que o governo tivesse conhecimento.
Antes do nosso revés, o Professor Cohn era diretor deste
Instituto. O Presidente foi mal informado e o homem que
ele nomeou para o substituir pertencia ao nosso grupo. Foi
muito fácil camuflar o trabalho.
«Quanto à segunda pergunta, quando saímos de Israel, a
idéia estava na fase embrionária. Precisava urgentemente de
um laboratório e de fundos. Tive de pôr uma espécie de
cenoura debaixo do nariz desses burros de Graz. E tive de
continuar a dar-lhes o suficiente para os convencer a manter
o projeto — embora, segundo me parece, uma boa parte
daquilo que eu fazia fosse interceptado por Ledbetter para
outra organização?
Charles acenou afirmativamente. Isaacssohn prosseguiu:
— E eu que estava fiado que nenhum deles tinha a
preparação ou a inteligência suficientes para se aproveitar
das informações. A julgar pelo que Sarah me disse a seu
respeito, descobri que tinha cometido um erro. Os nossos
homens tentaram localizá-lo, mas vários outros grupos
conseguiram deitar-lhe a mão primeiro. Gostava de saber
porque é que eles não conseguiram retê-lo? De qualquer
forma veio parar às nossas mãos.
— Às vossas mãos?
— A Seita do Cometa.
— A Seita do Cometa é uma organização israelita?
— Digamos que sim. Nós fornecemos a primeira faúlha para
a explosão. O sucesso obtido espantou-nos bastante. Os
nossos conselheiros psicológicos arquitetaram a coisa, mas
parece-me que até eles ficaram admirados com os resultados.
O número de membros existentes atualmente é espantoso e
a tendência é para continuar a subir.
— Os instrumentos usados por Israel não são de molde a
servir-me de recomendação para o seu país — disse Charles.
Isaacssohn encolheu os ombros.
— É uma pena. Infelizmente a Seita do Cometa é necessária
para os nossos planos. Também não nos agradam a nós
próprios, mas, ao mesmo tempo, eles nunca teriam existido
se a sociedade onde se desenvolveram não fosse corrupta. E
há mais uma coisa. Esperamos que venham a ser a maneira
de salvar algumas centenas de milhares de vidas. A maioria
não são israelitas.
— E como?
— Hão de explicar-lhe, segundo creio. Temos de ir. Há uma
outra coisa que talvez lhe interesse primeiro.
Isaacssohn voltou a falar para o tubo. A imagem na televisão
voltou a mudar. Um pátio maior. Mais voadores.
Observaram-nos enquanto desciam sobre uma série de
caixas negras colocadas no chão a uma distância de cerca de
três jardas umas das outras. As estruturas usadas por estes
voadores tinham um pequeno objeto em forma de cano de
espingarda, de cada lado, terminando numa espécie de
bocal. De repente, presumivelmente em obediência a uma
palavra de comando, porque os efeitos foram quase
simultâneos, surgiu um fogacho treme- luzente em volta de
cada um dos bocais e as latas que estavam no chão — à
exceção de duas delas — começaram a arder.
— O raio de calor — disse Isaacssohn. — Tão querido dos
autores de folhetins para a TV no mundo da gestão. Outra
aplicação dos diamantes. Infelizmente limitada a ser usada
com sol, mas, nesse caso, garantindo toda a eficiência. Foco
variável, mas apenas dentro de certos limites, claro, e os
limites são estreitos. Mas o calor é grande no ponto de
impacte. Não lhe dou números porque acho que não me
acreditaria. Acha que é uma surpresa?
— Apenas quanto ao aspecto — disse Charles, sombrio. —
Algumas pessoas já perceberam a idéia.
— Então vão ficar surpreendidos por verem a sua idéia
marchando nas asas do vento.
Isaacssohn desligou o écran e levantou-se para partir.
Charles disse:
— Só uma coisa. Que é que Sarah sabia disto tudo... quando
esteve consigo em San Miguel?
— As nossas convenções são talvez um tanto peculiares. Há
coisas que não consideramos adequadas para as mulheres —
como sejam contra-revoluções e estratégia militar. Sarah não
sabia nada disto.
Isaacssohn disse:
— Permite-me que o apresente? Charles Grayner —
Professor Cohn, Presidente de Israel.
O giroplano trouxera-os até uma pequena casa modesta nos
arredores de Jerusalém. A sala onde se encontravam agora
era de igual simplicidade. O Professor Cohn ergueu-se de
uma secretária riscada e suja, para os saudar; não havia na
sala nenhum écran de grandes dimensões, apenas um écran
de chamada, portátil, ao lado da secretária. O Professor Cohn
sorriu, ao mesmo tempo que Charles se lembrava e reconhe-
cia o ar de astúcia bem humorada que vira na manhã do
desaparecimento de Sarah.
O Professor Cohn disse:
— As nossas desculpas, Charles. Também foi tratado com
certa rudeza, não? Não foi intencional. Temos estado a
incutir a agressividade nos nossos soldados e é um bocado
difícil impedi-los de exagerarem por vezes.
— Presidente? — perguntou Charles. — Desde quando? Há
muito tempo que eu não ouço noticiários.
— E o seu noticiário talvez não achasse que a notícia valesse
a pena ser divulgada. Parece-me bastante provável. Mas
tratou-se de uma revolução muito secreta no interior do
palácio. Pareceu-nos preferível não deixar que a notícia
transpirasse, pelo menos por agora. O golpe de Estado
coincidiu com o regresso de Hans. Estava tudo bem
planeado e passou-se sem sobressaltos. Chamaram-me
depois de tudo terminado.
— Sarah...
— Achei que seria necessário trazer a Sarah comigo. Tinha
boas razões para isso, a menor das quais não era certamente
o seu valor como refém, caso a deixasse ficar para trás. Ela
não mostrou boa vontade quando lhe falei nisso. — O
Professor Cohn olhou para Charles com interesse. — Ela
queria preveni-lo, mas claro que isso era impossível.
Receava que ela pudesse ter deixado alguma pista, embora eu
tivesse tomado todas as precauções.
Charles lembrou-se do incidente do relógio; posta de lado a
explicação da falsa Sarah, ele voltava a assumir toda a sua
importância primitiva. Ele sorriu ligeiramente.
— E parece-me que assim foi — disse o Professor Cohn. —
Bom, deixemos isso, por agora. A finalidade era conseguir
despistar as Indústrias Químicas Reunidas, bem como
qualquer outra organização que pudesse estar interessada.
Parece que a rivalidade local trabalhou a nosso favor;
embora se suspeitasse da autenticidade das mortes, eles es-
tavam demasiado ansiosos por lançar as culpas uns aos
outros.
Charles acenou afirmativamente. Só agora começava a
compreender toda a extensão do plano que existia por detrás
do trabalho de Isaacssohn, os desaparecimentos, o seu
próprio rapto. Mantendo a voz calma e inexpressiva, disse:
— A idéia, suponho, consiste numa espécie de agressão por
parte de Israel contra o resto do mundo — uma incursão
para arranjar novos territórios. — O Professor Cohn sorria-
lhe, cheio de bonomia. — Há quanto tempo andam a
preparar isso?
— Há muito tempo. À semelhança dos antigos japoneses,
Hans e eu éramos membros do partido da guerra. Havia um
partido da paz; o nosso desaparecimento temporário foi o
resultado de uma derrota temporária numa escaramuça. A
posição já foi retificada.
— Vocês querem a guerra. Porquê?
O Professor Cohn ergueu as mãos.
— Não é uma questão de querer. O mundo está a
desintegrar-se, no exterior. Vai ser o caos, dentro de vinte
ou trinta anos e, sendo o único estado com alguma
vitalidade, devemos estar preparados para sair e reclamar o
caos. Vai ser um trabalho demorado e árduo — desneces-
sariamente árduo. É mais simples e bastante mais eficiente
precipitar as coisas. Hans já lhe falou na Seita do Cometa?
Encontramos aí a confirmação dos nossos pontos de vista e
facilita-nos bastante as coisas.
Charles disse:
— Vejamos se eu consigo perceber o que é que está a dizer.
Na sua idéia — Israel governará todo o planeta?
— Exatamente.
— Com um punhado de soldados aéreos e um raio de calor
que só atua a uma certa proximidade e quando o Sol brilha?
— Eu poria as coisas de forma um pouco mais elevada —
disse o Professor Cohn judiciosamente. — Deixe-me
explicar-lhe uma coisa sobre a arte da guerra, Charles.
Através dos séculos, essa arte tem sofrido uma alternância
contínua quanto à posição individual do guerreiro, através
da alternância do tipo de armas à disposição do homem.
Simplificando, podemos dizer que a artilharia diminui a
estatura do soldado, enquanto as armas pequenas o fazem
parecer maior. Claro que pode apresentar as suas próprias
variações sobre o tema, desde o conflito entre a funda
gigantesca e o dardo no tempo dos Romanos, até ao conflito
entre as armas grandes e o mosquete no século XVIII.
- No decorrer do século XX, o equilíbrio afastou-se do sol-
dado — de uma forma que parecia irreparável. Barragens de
artilharia maciça, bombardeamentos programados e por fim
as bombas atômicas e de hidrogênio pareciam fazer pender a
balança, definitivamente, para as armas maciças. E, como é
evidente, as armas afetam a sociedade. O mosquete era
típico do capitalismo, tal como a bomba H é típica do sis-
tema de gestão, embora tenha sido produzida na fase final do
capitalismo mundial.
— O mundo da gestão — comentou Charles — ainda tem
um stock de bombas H.
— Que são perfeitamente inúteis. Esse tipo de arma tornou-
se demasiado grande para ser usado. Sim, eu sei que foram
usadas na última guerra, mas os resultados confirmam o que
eu digo, não acha? Pensa que os seus amigos vão usar
bombas H? Com que alvos? Teremos a África dentro de uma
semana, a Europa em dez dias. Sabe ao que se assemelha esta
situação? A um pequeno quarto com paredes de ferro, cheio
de homens fortes com espingardas Klaberg. Entra uma
criança com uma pistola de água e encharca-os. Eles não
podem responder-lhe porque não têm pistolas de água, nem
saberiam usá-las se as tivessem. E se dispararem as suas, as
munições farão ricochete nas paredes; têm boas
possibilidades de se matarem a si próprios e eles sabem-no.
— Tanto quanto me é dado ver, um arco conseguiria levar a
melhor à sua nova arma, Professor Cohn.
O Professor Cohn sorriu.
— E qual é a organização que tem um stock de arcos? Mas
estou a entender o que quer dizer. O raio de calor não é o
tipo de arma que restitua a iniciativa ao soldado. O aparelho
voador, sim. Já há bastante tempo que tínhamos o desenho
básico, mas necessita de bastante energia, como deve
calcular. Felizmente o Sol é uma central inesgotável. Isso faz
com que valha a pena ter essa arma. Asas para todos os
soldados. Um exército voador. Mesmo sem as vantagens
adicionais da surpresa e de um inimigo que perdeu, de uma
maneira geral, o interesse por tudo o que não seja a sua
hipotética condenação, este novo fator seria suficiente para
se obter o resultado desejado. Com todas as probabilidades.
Tomamos a precaução elementar de fazer um mapa de todos
os pontos-chave. Não há um que não possa ser tomado por
meia dúzia dos nossos soldados voadores. E nós dispomos de
mais do que isso.
E podiam fazê-lo. Charles via claramente a situação. Os
membros da Seita do Cometa correndo como porcos
selvagens... já aprendera que esses indivíduos não perdiam
um momento a pensar na lealdade para com a sua
organização quando recebiam uma chamada em nome de
Jeová... e depois as tropas israelitas, treinadas, disciplinadas,
eficientes, caindo das alturas... Era um modelo de ferro
fundido. Ao compreender isto, ocorreu-lhe pensar porque é
que lhe teriam explicado tudo aquilo. Agora não precisavam
das suas capacidades. A única vantagem que ele representava
para Israel era de ordem negativa — a certeza de que ele não
faria nada para as organizações do mundo da gestão.
Charles disse:
— Há uma coisa que me interessa. — O Professor Cohn
ergueu ligeiramente a cabeça. — Porque é que me contou
tudo isto?
— Trata-se de uma pergunta razoável. Porque lhe vou pedir
que me dê a sua palavra. — Charles mostrou-se perplexo. —
É uma expressão antiga — o seu compromisso de honra em
como não tentará fugir ou comunicar com alguém fora de
Israel. Depois disso, terá bastante liberdade. E para estar em
situação de poder dar-me a sua palavra, acho que deve saber
o suficiente acerca da sua situação, para que as implicações
sejam claras para si. Este é o novo capital do mundo.
Queremos que compreenda isso.
— Dentro de quanto tempo vão atacar?
— Não muito.
Esta resposta assustou-o.
— Agora? No Inverno? Isso tirará parte do gume à vossa
arma, não acha?
— Infelizmente. Embora não tanto como pensa. Nesta altura
do ano, as nuvens são geralmente baixas e não será difícil
subir acima das nuvens para recarregar.
Charles, com um sentimento misto de culpa e saudade,
pensou nos seus passeios pelo espaço, de esfera, com a falsa
Sarah e naquele mundo de ouro, azul e tranqüilidade.
— Mas, de qualquer forma — prosseguiu o Professor Cohn
—, a questão do tempo torna-se agora urgente. Não é que
tenhamos receio que qualquer das organizações possa fazer
uma bateria ou umas armas iguais nos próximos seis meses
ou mesmo nas próximas seis décadas — mas o que podem é
vir a suspeitar do verdadeiro estado das coisas, se lhes
dermos seis meses que sejam. Não podemos esperar que a
sua desconfiança mútua dure sempre. Além disso, o fator
surpresa vai ser muito importante. Vamos, portanto, avançar
num futuro muito próximo.
— E, nesse caso — disse Charles —, seria certamente muito
mais simples fecharem-me a sete chaves?
O Professor Cohn sorriu benevolamente.
— Há questões pessoais a considerar.
Sarah. Era um sentimento reconfortante. Como se ele
tivesse estado a escavar um túnel em direção a ela durante
meses, através de milhas e milhas de rocha e ouvisse
finalmente um batimento que lhe respondia, mesmo à sua
frente. Ao mesmo tempo...
Ele disse:
— Gostaria de ter a oportunidade de falar com Dinkuhl.
O Professor Cohn acenou.
— Naturalmente. Hans vai levá-lo de volta.
Dinkuhl estava sentado na cama, num quarto pequeno, mas
atraente. Havia uma mesa ao lado da cama, com uma grande
taça com fruta. Dinkuhl teve um sorriso um pouco torcido.
— Vem comer as uvas?
Isaacssohn disse:
— Deixo-o aqui, Charles. Vamos ter de pôr um guarda à
porta, por agora. Quando quiser, ele leva-o junto de mim.
— Adios — disse Dinkuhl. — Volta para o detector? Porque
é que não se mete simplesmente debaixo da cama?
Por momentos, Isaacssohn pareceu espantado.
— Oh, já percebo. Não, aqui estão à vontade: os nossos
regulamentos proíbem a instalação de equipamento
detector.
Ele sorriu e saiu. Dinkuhl ficou a olhar para ele.
— Olhe — disse —, acho que ele está a dizer a verdade.
— Possivelmente. Como é que se sente?
Dinkuhl esfregou a cabeça devagar.
— Desgostoso. Preferia ter morrido. Mas há de passar. O
número de pessoas que me tomam o pulso é que me vai
ajudar a melhorar.
Charles disse:
— Vai ter de passar. Vai precisar de todas as suas faculdades
para arquitetar um esquema que nos faça sair daqui.
O olhar de Dinkuhl tornou-se inquiridor.
— Talvez fosse melhor você contar-me o que sabe.
Escutou em silêncio enquanto Charles lhe contava o que lhe
tinha sido dito por Isaacssohn e pelo Professor Cohn. Por
fim, disse:
— Há uma coisa que provavelmente se atravessará no seu
caminho.
Charles disse ansiosamente:
— Sim?
— Uma explosão do Sol. — Dinkuhl olhou para ele. —
Descontraia-se. Descontraia-se, meu caro Charles. Quer um
conselho? Dê a sua palavra. E depois divirta-se.
A loquacidade era a mesma, mas não parecia o mesmo
Dinkuhl. Dantes, essa mesma loquacidade servia apenas para
disfarçar um espírito extremamente ativo e em constante
atividade. Examinou mais de perto as feições de Dinkuhl;
pareceu-lhe descobrir qualquer coisa que nunca tinha
notado antes: uma indiferença que, de certa maneira, era
mais amarga que o desespero.
Dinkuhl pegou numa laranja e começou a descascá-la.
— Sirva-se, Charlie.
Charles disse:
— Quanto a sair de Israel, não sei como será. As
probabilidades são contra nós. De fato, elas são de tal
maneira contra nós que um objetivo mais limitado poderia
ser bastante mais fácil do que parece à primeira vista.
Dinkuhl deixou cair um pedaço de casca no chão.
— Um objectivo limitado?
— Não creio que haja um detector neste quarto. Com essa
história do guarda do lado de fora da porta, de ser
acompanhado pelo próprio Isaacssohn, em pessoa e sozinho.
Estão de tal forma confiantes que não conseguiríamos sair
do país, que não tomam praticamente quaisquer precauções.
Escute, Hiram. No que diz respeito à TV, este edifício é
servido por uma única sala de transmissão-recepção. Sei
onde fica porque o Isaacssohn me fez passar por lá e a porta
estava aberta. Há só um operador de serviço. Julgo que lhes
chega um porque fazem tanto uso dos fios.
Dinkuhl partiu a laranja.
— Já vou mais adiantado. Estamos na sala de TV. Arrumamos
o operador solitário. Continue a partir daí.
— Na minha idéia há apenas um homem que talvez
conseguisse fazer qualquer coisa que valesse a pena com as
informações que nós poderíamos dar-lhe.
— Raven?
— Pois. Concorda?
Charles disse:
— Está certo. Sugiro que chamemos o guarda cá dentro. Eu
ponho-me atrás da porta e, quando ele entrar, bato-lhe na
cabeça. Pode ser elementar, mas acho que pode dar
resultado.
Dinkuhl abanou a cabeça.
— Meu caro Charlie, você é que devia estar na cama. Espere
até eu melhorar um pouco e então já pode ser. Vou lhe
buscar a enfermeira. Não me agradeça. É com muito prazer.
— Mas que é que você não acha bem?
— Ouça — disse Dinkuhl. — Você queria a rapariga. Está a
dez minutos dela. Basta-lhe ir dizer a Isaacssohn que deixa
esse negócio da capa e do punhal. Você também não foi
feito para isso, de qualquer forma.
— Não me acompanha nisto?
— O prego entra na madeira. Eu não.
— Fica contente quando vir os israelitas governarem o
mundo?
— A enfermeira é que me pode governar quando quiser. E o
mundo que vá para o Inferno.
— Estou a falar a sério.
— Esse é que é o seu azar. Já perdi o meu riso de criança há
tempo de mais, para poder ser sério nesta idade. Olhe cá,
Charlie, você tem aquilo que queria.
Charles fez uma pausa. Depois disse devagar:
— E você, Hiram? Que é que você queria?
Seguiu-se novo silêncio. Dinkuhl disse:
— Pois bem: que é que eu queria? Encontrar a sua rapariga
para si? Gostaria de me poder gabar de todo esse altruísmo.
Já lho disse uma vez, Charlie — você era a bomba H. Você
ia fazer explodir tudo. Você era a Destruição e eu servia a
Destruição. Mas você já não é nada disso. Portanto, vá em
paz, irmão, se é que tem de ir.
— Descobriu uma bomba maior?
— Só isso. Agora estou à espera. Não sei de quê, mas estou à
espera. Não vou mentir a mim próprio convencendo-me
que os israelitas têm muito mais do que as organizações do
sistema de gestão, exceto no campo militar, mas o ano
promete ser interessante. Vá, tente comunicar com o
Raven, se a sua lealdade continua a ser mais forte que o bom
senso. Não digo que isso não mude o curso das coisas, mas
mesmo assim vai ser um ano interessante,
independentemente do que você possa fazer.
Charles olhou para a porta.
— Eu sou neutro — disse Dinkuhl. — Não vou chamar a
enfermeira. O que é um grande sacrifício, da maneira como
eu me sinto neste momento.
Charles chamou o guarda. Até a própria voz lhe pareceu
pouco natural. Colocou-se atrás da porta, agarrando pela
pega saliente a pesada taça de madeira que continha a fruta;
esta estava agora em cima da cama de Dinkuhl. Dinkuhl
observava-o cheio de interesse.
A porta abriu-se e o guarda entrou. Não era muito alto; foi
fácil deixar abater a taça na parte posterior da cabeça do
homem. Ele inclinou-se para a frente, em arco e embateu no
chão com uma pancada surda. Dinkuhl chegou-se para
diante para o ver melhor.
— Belo. Tem pelo menos um quarto de hora, meu caro
Charlie. Se fosse a si, levava a taça.
O corredor estava deserto e não eram mais de dez jardas até
ao elevador de serviço. Ele chamou-o e entrou nele com
certo alívio — deixando a cena do crime. A sala de TV
ficava no rés-do-chão. Os movimentos que fez para fechar a
porta do elevador foram estudados e deliberados. Havia duas
ou três pessoas neste corredor, entre ele e o seu alvo.
Caminhou pelo corredor balançando a taça de madeira com
ar natural. Uma rapariga olhou para ele com uma certa
curiosidade, quando ele passou, mas foi tudo.
A porta da sala de TV estava fechada. Pouca sorte.
Felizmente em Israel parecia que não se usavam fechaduras
de assobio. A porta tinha um puxador; ia dar-lhe a volta
quando percebeu que ele cedia à pressão da mão. Empurrou-
a suavemente.
O operador estava sentado junto do painel de controlo
principal, de costas para a porta. Ainda não se dera conta da
porta aberta, mas isso podia acontecer a todo o momento.
Charles correu para ele, levantando a taça da fruta acima da
cabeça. O operador voltou-se, a tempo de apanhar a pancada
na fronte, em vez de ser na base do crânio. O efeito foi o
mesmo. Teve um gemido cavo e caiu para a frente, em cima
da secretária.
Charles voltou atrás e fechou a porta. Tinha uma fechadura
do lado de dentro — uma fechadura antiga, com chave, e ele
fechou-a. Depois voltou para trás e observou o operador;
não havia dúvidas de que estava sem sentidos. Num painel
em frente da secretária, um foco iluminou o número vinte e
um. Alguém pedia atenção. Quanto tempo teria, antes que
alguém viesse ver porque é que não havia resposta? Talvez o
tempo necessário para o guarda que estava no quarto de
Dinkuhl voltar a si. A dificuldade agora era, com os seus
escassos conhecimentos de comunicações pela TV,
conseguir apanhar os circuitos externos e apanhar Raven.
Teria sido fácil com Dinkuhl, claro.
Levou cinco minutos a adquirir o domínio suficiente sobre
os controlos para conseguir entrar em comunicação com
Atenas, a estação mais próxima do mundo da gestão.
Empurrara o operador para o chão, para não ser visto do
écran.
As secretárias de cromo e plástico da Telecom provocaram-
lhe um sentimento estranho; depois dos acontecimentos
recentes e do tempo que passara anteriormente com a Seita
do Cometa, quase se esquecera do aspecto das coisas. O
operador era uma rapariga; por cima do uniforme cuidado, o
rosto dela tinha o ar distante e sonhador típico dos
consumidores de mescal. Ela não mostrou qualquer surpresa
perante o ar desarranjado e barbudo de Charles; era natural
que o tomasse por um israelita e, além disso, não havia nada
que a surpreendesse.
Ele disse:
— Jerusalém para o QG da Secção Atômica, Filadélfia.
Isso também não a surpreendeu, embora se pudesse
certamente apostar que uma ligação dessas não acontecia
uma vez numa década. Ela disse com ar sonolento:
— Jerusalém para Filadélfia. Aguardar, Jerusalém.
Ele disse:
— É urgente.
Ela sorriu e acenou ligeiramente.
— Sim.
Ele observou-a enquanto fazia a chamada para a estação
espacial que forneceria a ligação com os continentes do
mundo, pensando ao mesmo tempo naquilo que Raven faria
depois de receber as notícias. Anotaria tudo, com certeza,
para ter maior peso na reunião do Conselho que teria de
convocar. As organizações, sob uma tal ameaça, seriam
forçadas a unir-se. Teriam de se unir, para conseguir
defender-se.
E depois? Os israelitas levariam o seu plano por diante — já
tinham ido longe de mais para poderem recuar agora. Uma
guerra amarga e dura. Não era provável que salvassem a
África; a Europa também podia ir-se. Mas as Américas eram
susceptíveis de ser defendidas, especialmente se Raven
tomasse a precaução óbvia de cercar os chefes da Seita do
Cometa.
Para Raven seria uma boa guerra: o chefe natural e
automático. Os seus pensamentos eram pervertidamente
humorísticos. Raven ia saber tudo. Pela sua parte, queria
apenas paz de espírito: a sensação de que, arrastado da
obscuridade para uma grandeza transitória, conservara a sua
fé numa sociedade que o criara — embora perpassados pelo
mal, condenados a morrer apesar de tudo, conservara a sua
fé. Para isso, estava disposto a abandonar o resto — a sua
liberdade pessoal, a sua vida, se a quisessem... e Sarah.
A rapariga falou novamente, embora não fosse com ele.
— Estação Q 5? Atenas tem uma chamada para Filadélfia.
Haveria uma discrepância entre a sua atuação neste
momento e a sua recusa em ficar com Raven e trabalhar para
a Seção Atômica, no passado? Talvez sim, talvez não. Raven
vira que se aproximava uma catástrofe, mas a palavra de
Raven tinha-se tornado suspeita. E mesmo assim fora uma
catástrofe diferente. A guerra civil é uma coisa na qual
nunca se acredita até ela estalar. O mesmo se dá quando um
estado entra em colapso interior. Era o choque exterior que
estimulava o patriotismo meio esquecido.
Era doloroso pensar em perder Sarah, depois de ter estado
tão perto de voltar a encontrá-la. Tão doloroso, que duvidou
que fosse capaz de manter a sua resolução, se começasse a
pensar nisso. A imagem perseguia-o agora; repudiou-a,
repetindo uma espécie de lenga lenga para a afastar. «Raven
raivoso, o roubo de Raven...»
«O roubo de Raven...»
Tornou-se um pensamento real, com a agudeza nítida do
gelo. Que faria Raven? Reunir o Conselho — cercar os
chefes da Seita do Cometa? De repente, viu que ele não faria
uma coisa tão pouco interessante como aquela; subestimara
Raven. O Professor Cohn assumira urna atitude desdenhosa
para com a bomba H porque, quando as organizações
chegassem a acordar para a realidade da invasão, os exércitos
israelitas, trazidos pelo ar, estariam em toda a parte, em
África, na Europa. Nessas condições seria impossível usar a
bomba H. Mas Charles estava a criar condições diferentes —
os israelitas, fechados no seu território, relativamente
pequeno, constituíam um alvo impossível de falhar. Raven
não falharia.
«Bom», pensou — «minha vida, se for preciso». De qualquer
forma, já perdera Sarah.
À rapariga disse:
Filadélfia a responder, Jerusalém. Serão transferidos logo que
forem focados.
A impressão foi tão forte que, por momentos, só viu
escuridão diante dos olhos.
... Sarah apareceu no écran.
A rapariga disse:
— Focado. Aceita, Jerusalém?
Ele fitou o écran, perguntando a si mesmo o que é que
estivera prestes a fazer. Ouviu novamente a voz da rapariga,
com a tolerância do mescal, e cansada.
— Filadélfia em foco, Jerusalém. Está preparado para aceitar a
chamada?
À direita da secretária havia a lista dos números de código do
edifício. Isaacssohn era 71.
— Filadélfia... começou novamente a voz.
Sem levantar os olhos, disse:
— Cancele.
Ela respondeu:
— O. K. Cancelado.
A imagem desapareceu. Ligou com o 71. Quando Isaacssohn
respondeu, disse:
— Aqui Grayner. Estou na sala de TV. Pode vir buscar-me.
Ao olhar para ela, perguntava a si mesmo como é que
alguma vez pudera deixar-se enganar pela falsa Sarah. Não
eram as linhas do rosto ou o corpo, mas aquela centelha, o
brilho inimitável da sua personalidade. E, embora sorrindo,
observava-o prudentemente. Como é que ele podia ter
esquecido aquele toque de prudência que era mais
característico de Sarah do que as pequenas protuberâncias
logo acima das sobrancelhas? Lembrou-se da carne, cortada
pela face de Dinkuhl... isso não teria sido necessário.
Ele disse humildemente:
— Só tenho tido problemas, Sarah, desde que a perdi.
Ela riu-se:
— Se estar à beira de mandar lançar bombas H sobre as
nossas cabeças se pode chamar de ter problemas... enfim,
não chegou a fazê-lo.
— Não foi bem isso... com respeito à América do Norte. Não
pensei em bombas H. Aquela chamada que tentei fazer. —
Olhou-a bem de frente. — Estava preparado para nunca
mais a ver, Sarah. Não queria que aquilo acontecesse — a
ocupação — com o consentimento da minha parte.
Compreende?
— Não totalmente. — Ela bateu com a mão no sofá de
plastifoam. — Venha sentar-se aqui. — Usava a saia muito
rodada que era o trajo típico das mulheres de Israel. Puxou-a
para o lado para ele se poder sentar junto dela. — E o outro
problema? Detalhes.
Ele contou-lhe acerca da falsa Sarah; era um alívio
confessar-lhe tudo. Sarah disse, pensativa:
— Foi passear de esfera com ela?
Ele acenou com a cabeça:
— Sim. — Perguntava a si mesmo se parecia tão embaraçado
como se sentia na realidade. Achava que sim.
— É uma ocupação muito romântica. Um primo meu fez
uma tese sobre os efeitos afrodisíacos dos passeios na
atmosfera. Teve de sair de Israel para conseguir fazer a parte
prática... as nossas jovens só vão passear de esfera com os
namorados. Ele foi para a Grécia.
Charles olhou-a, infeliz.
— Sim?
— A correlação era positiva. — Sarah fez uma pausa. —
Diga-me cá. Como é que eu era?
— O disfarce era muito bom. Fisicamente era como você.
Claro que eles tinham tido acesso às suas fichas. Mas eu não
me devia ter deixado enganar. Não era você, Sarah.
— Nem mesmo na esfera, lá no alto por cima das nuvens?
Ele riu envergonhado.
— Era quando se parecia menos. Fiquei surpreendido.
— E contente, segundo imagino. — A rapariga levantou-se
do sofá e ficou de pé em frente dele, um sorriso vago
tornava-lhe o rosto inexpressivo. Inclinou-se ligeiramente
para a frente e esbofeteou-o, com toda a força, dos dois
lados. Ele ergueu a mão e esfregou a cara, primeiro de um
lado, depois do outro. Ela olhava-o.
— Que é que foi isso?
O sorriso acentuou-se, mas ele continuava a não conseguir
ler-lhe a expressão. Ela disse:
— A primeira foi da parte da outra Sarah. Ela devia tê-lo
feito, por isso, faço-o eu por ela. A segunda foi por minha
conta — por ter continuado a pensar que era eu, mesmo
depois.
Ele abanou a cabeça, tristemente.
— Desculpe.
— Desculpas! E que tal fazer alguma coisa que prove que
merece ser desculpado?
Ele olhou para cima.
— Faço tudo o que quiser, Sarah.
Pensou que ela ia perder a pose por momentos; houve um
ligeiro sinal de embaraço, mas depressa se controlou,
dizendo com brusquidão:
— Pois então, esta tarde... pode levar-me a passear de esfera.
Ele pegou-lhe na mão e ela deixou que a puxasse novamente
para junto dele. Fugiu com o rosto aos beijos dele, mas agora
tinha um sorriso feliz. Ele teve uma hesitação, quando lhe
ocorreu em pensamento:
— Mas disse... que os passeios de esfera só com...
— Com namorados! Idiota! Não percebe que lhe estou a
querer dizer qualquer coisa?
Ele puxou-a para ele e desta vez ela aceitou-lhe os beijos e
correspondeu-lhe. Quando, passados alguns minutos, ele a
soltou, ofereceu- -lhe a cara.
Ela olhou-o, pensativa.
— Então?
— Já que vai casar comigo, gostaria de receber todos os meus
castigos agora. Fui passear de esfera mais do que uma vez.
Sarah ergueu as sobrancelhas:
— Quantas?
— Uma meia dúzia.
Ela olhou para a face que ele lhe oferecia e para as próprias
mãos.
— Não. Ainda não. Uma boa esposa tem sempre qualquer
coisa de reserva.
O jardim do Diretor, no telhado do Instituto Einstein era
constituído, quase exclusivamente, por verdura e rosas; as
rosas floresciam todo o ano, de forma que as estações não o
afetavam. Esta manhã, havia um pequeno grupo que olhava
para fora do jardim, para além do centro de Jerusalém, em
direção a um acampamento militar dos arredores. O grupo
era formado pelo Professor Cohn e Isaacssohn, Sarah e
Charles e Dinkuhl. O céu estava de um azul brilhante e o
próprio sol ofuscava, por comparação, os pequenos sóis
suspensos sobre as suas cabeças.
O Professor Cohn disse:
— Hans tem-me falado da sua idéia, Charles. Nós já
tínhamos considerado a possibilidade de usar as estações
espaciais como acumuladores de energia solar, claro, mas a
distribuição torna-se impossível. Elas podem acumular a
energia, mas a única energia que utilizam é para reforçar a
TV. Não podemos ligar-lhes quaisquer cabos.
- Essa sua idéia — de manter um acumulador em esferas,
poderia resultar. Aí já poderíamos usar cabos, de qualquer
forma para os níveis mais baixos. Mas há outra coisa — não
lhe parece que as esferas ficariam à deriva?
— Não, se estivessem ligadas a cabos. Pelo menos, não se
afastariam grandemente. As esferas tomariam conta da
flutuação, os cabos do afastamento. Além disso, podiam ter
um operador.
O Professor Cohn fez um gesto de assentimento.
— Energia barata todo o ano. Seria muito significativo para os
territórios de céu encoberto — as Ilhas Britânicas, por
exemplo. Que é que lhe parece, Hans?
— Muito interessante. Prevejo alguns problemas, por isso
sugiro que seria um bom primeiro trabalho para o
laboratório Hebron.
Sarah protestou:
— Deixem-nos passar a lua-de-mel primeiro. Ainda não
aceitámos Hebron oficialmente.
Isaacssohn disse:
— Falo com toda a autoridade militar que me assiste. — Riu.
— Se recalcitram, separo-os — Charles vai para o Cairo e
você para Constantinopla e, depois da conquista, posso
mesmo escolher hemisférios opostos.
— Gestor! — disse Sarah. — E nós não íamos.
O Professor Cohn disse:
— É uma pena não podermos fazer nada quanto à utilização
da energia no espaço. É um desperdício. Mas, enquanto não
desenvolvermos um transmissor de energia, não há nada a
fazer.
Charles disse:
— Há uma maneira de a utilizar.
— E essa maneira é...?
— As naves espaciais a energia atômica são pouco práticas e
terrivelmente caras. A energia solar acumulada em
diamantes transformaria totalmente as coisas.
O Professor Cohn acenou lentamente. Isaacssohn disse:
— Ide para Hebron. Malesh a lua-de-mel.
— Malesh as naves espaciais — disse Sarah. — Primeiro as
coisas mais importantes.
Charles disse:
— E você, Hiram? Já resolveu alguma coisa?
A indiferença que Charles notara a princípio por detrás da
verbosidade habitual de Dinkuhl, quando o tentara persuadir
a juntar-se a ele para prevenir Raven, instalara-se agora na
generalidade. Falava pouco e quando o fazia era lacônico.
Disse:
— Não tenho a certeza.
Isaacssohn disse:
— Ofereci-lhe a direção das unidades de Telecom quando
tomarmos conta delas. A oferta continua de pé.
Charles perguntou-lhe:
— Que tal, Hiram?
Dinkuhl pareceu despertar.
— É muito amável da parte de todos. Mas o que acontece é
que eu não me considero um organizador.
Charles disse:
— Quando nos encontramos pela primeira vez nestas
andanças — em Detroit — disse-me que tinha tentado
transferir o FK para Israel. Pois bem. Aqui tem a
oportunidade. Porque não?
— Isso é uma concepção errada — disse Dinkuhl. — O FK
era um legado do capitalismo — Israel era capitalista. Perdi
as nuances. O FK provinha de um capitalismo filantrópico,
um capitalismo decadente. Talvez um capitalismo militar.
Mais perto das raízes, de qualquer forma. E as raízes do
capitalismo estão a dar ao povo aquilo que ele quer — aquilo
que quer — não o que deveria querer. Nunca quiseram o
FK, por exemplo, a não ser os excêntricos e uma sociedade
equilibrada e saudável não trabalha para os excêntricos.
Charles disse:
— Não há nada de que você gostasse?
— Há uma coisa...
Isaacssohn olhou para o relógio que tinha no dedo.
— Parece-me... agora!
Olharam. Um enxame em casacos de couro erguia-se do
acampamento, mais parecendo gafanhotos, em direção ao
céu muito azul. Neste momento, por todo o território
israelita erguiam-se enxames semelhantes. Como gafanhotos
atacavam as terras vizinhas privando-as do que tinham de
mais importante e prosseguindo implacavelmente.
Gafanhotos com inteligência, gafanhotos com uma
finalidade. O caleidoscópio da civilização estava a ser
abalado; só se podia tentar adivinhar quais os novos padrões
que viriam a regê-lo ou se haveria mesmo alguns padrões.
— A humanidade está de novo em movimento — disse o
Professor Cohn.
— Eles lá se arranjam — disse Dinkuhl. — A humanidade é
como o Charlie, è adaptável. Você vai ser feliz em Hebron,
Charlie. Mulher e uma linha de pesquisa — duas linhas de
pesquisa. Que mais pode desejar? Espero que esteja contente
por eu não me ter juntado a si nessa última tentativa. Não
havia ninguém que eu quisesse salvar da bomba H.
— Tinha pensado nisso? Então porque o não fez? Você
queria a destruição.
O enxame já se tornara uma nuvem no horizonte, uma
nuvem que começava a desaparecer. Dinkuhl fez um gesto
nessa direção.
— Prefiro-a mais espalhada.
Isaacssohn disse:
— Há pouco interrompi-o. Ia a dizer que queria qualquer
coisa. Se puder dar-lhe, será sua.
Dinkuhl acenou com a cabeça.
— É muito amável. Não é grande coisa. Gostava de poder
usar um camelo.
Era uma zona do país do qual mesmo a agricultura israelita,
com toda a sua agressividade, se tinha afastado, desesperada
— um solo árido e pedregoso, impróprio para tudo, exceto
para a pastagem de carneiros. Já passaram vários rebanhos,
guardados por rapazitos que, quando crescessem,
envergariam provavelmente os casacos de cabedal que os
esperavam, assim como as asas empoadas pelo sol. Mas esta
região estava deserta. Dinkuhl seguia sozinho, com o seu
camelo e os seus pensamentos. Já se habituara ao deslizar das
pedras à sua passagem, aos grunhidos do camelo, ao bater
dos seus pés largos e àquilo que ele julgava ser o ranger das
articulações do animal.
Era noite. Havia estrelas, mas não se via a Lua. As estrelas
eram grandes e brilhantes num céu sem nuvens. O tempo,
refletiu, estava a favor de Israel. Perguntava a si mesmo, até
onde teriam chegado os gafanhotos. — Cidade do Cabo,
Gibraltar, Londres, Moscovo, Delhi?
O cometa também parecia muito grande, quase por cima da
sua cabeça. Os da Seita deviam estar satisfeitos. Tentou sentir
desprezo ou mesmo ironia, mas a indiferença apossou-se
dele e não conseguia pô-la de lado. A indiferença era uma
bela arma, mas má companheira. Era, no entanto, fiel e
persistente.
A indiferença viera com a morte da esperança e a esperança
morrera com as notícias trazidas por Charles no pequeno
quarto do Instituto Einstein. Nessa altura ainda não sabia,
porque nem sequer sabia que tinha esperança, só o
compreendera mais tarde. «Destruir!» dissera o seu espírito.
«Destruir!» Não ouvira o seu sussurro mais suave: «Para que
o bem possa surgir da destruição do mal.»
E, de repente, vira a Destruição com as suas asas, pronta a
entrar em cena e viu-a tal como era — um simples ator,
representando um primeiro papel, mas não fazendo
qualquer diferença dos outros atores. E a esperança morrera,
sem ser reconhecida.
Os israelitas, os adeptos do sistema de gestão, os da Seita do
Cometa ... Não havia nada cuja perda causasse desespero e,
portanto, também não havia com que alimentar a esperança.
Que é que ele andava a fazer, cavalgando um camelo que se
balançava na noite clara de Inverno? Nada. Avançava no
tempo e no espaço do nada para o nada, com a única
consolação de saber o que estava a fazer — que não estava a
fazer nada.
Atormentava-o um pensamento... mais alguém sem uma
finalidade em vista... outra estrada...
Kirby. O vagabundo de cabelos brancos das estradas de
Vermont. Mas Kirby era feliz, protestava para consigo
próprio — via-se que era um tipo feliz.
Isso tornava as coisas cômicas. Felicidade. Felicidade num
mundo de israelitas, de gestão, de adeptos da Seita do
Cometa, um mundo de Ellecotts e Ledbetters e Ravens, de
Cohns e Isaacssohns, já para agora, de Charles e Sarahs — de
Dinkuhls. Era preciso ser doido para se sentir feliz num tal
mundo.
O caso é que Kirby não lhe dera a impressão de ser doido.
Pela primeira vez desde que se instalara com ele, a
indiferença afastou-se, retirando-se ligeiramente perante o
ressurgir daquilo que estivera morto. Esperança sem
desespero? Esperança pela esperança? O seu espírito gritou
irracionalmente: «Fica comigo! Fica comigo, seja como for!»
A esperança vem com a inocência e vai-se com a sabedoria.
Poderá um homem desaprender o que aprendeu?
«Fica comigo!», gritou novamente o seu espírito. «Deixa-me
ser criança, mas fica comigo. Estava disposto a dar tudo ao
desespero, exceto os meus conhecimentos. Mas podes levar
isso também, se eu puder ter esperança.»
Continuou a cavalgar o seu camelo que se balançava sob as
estrelas brilhantes de gelo. Em frente, viam-se as luzes de
uma aldeia, uma pequena aldeia, mas iluminada como para
uma festa de carnaval. Ouvia vozes que cantavam; era
espantoso porque a aldeia ficava ainda demasiado longe para
que as canções pudessem vir de lá. As vozes estavam cada
vez mais perto e finalmente viu os cantores, avançando em
direção a ele pelo caminho pedregoso. Eram jovens
israelitas, pastores.
Estavam alegres e ele alegrou-se com a sua felicidade.
Tentou apanhar a letra da canção, mas não percebia lá muito
bem o dialeto. Quando se aproximaram, gritou-lhes em
alemão:
— Como se chama esta aldeia?
Foram vários a responder-lhe, mas ele já sabia o nome,
mesmo antes de eles o pronunciarem. Picou o camelo com
o aguilhão fazendo-o andar mais depressa.
Falou alto, gritando para a escuridão do céu, para as estrelas,
para o cometa que mergulhava:
— Estava pronto a dar o conhecimento pela esperança. E
agora o conhecimento e a esperança são a mesma coisa.
No fundo da memória encontrou palavras — palavras das
quais o surpreendeu lembrar-se.
— Nunc dimittis...
| Lançamento Gênesis do Conhecimento O Ano do Cometa - John Christopher links em anexo e ao final da mensagem obs. idioma - português - pt digitalização - Vitório formatação e revisão - Lucia Garcia Sinopse: O Pesadelo Começou Quando o Cometa Surgiu... Não Há Mais Nações na Terra. Mas os Conflitos Continuam Sempre Mortíferos... Os velhos Estados desapareceram. O mundo era dominado por um Conselho Mundial de Gestões. Uma tentativa de equilíbrio do poder com uma humanidade submissa. Tudo estava previsto e controlado. Havia a Divisão de IndústriasDivisão de GenéticaGrupo de Tempos LivresSeção AtômicaServiços Interplanetáriosetc. Mas as intrigas e ambições continuavam. A corrupção aumentava. Depois surgiu a Seita do Cometaqueapoiados na sua féaguardavam O Ano do Cometa.
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