sexta-feira, 27 de maio de 2011 By: Fred

<> livros-loureiro <> Lançamento Gênesis do Conhecimento - O Melhor de Stanislaw Ponte Preta - Stanislaw Ponte Preta

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STANISLAW PONTE PRETA

O MELHOR DE
STANISLAW

Crônicas Escolhidas


Seleção e organização de VALDEMAR CAVALCANTI
Ilustrações de JAGUAR
2.a edição

RIO/1979

LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA


SUMÁRIO

TIA ZULMIRA E EU
Perfil de Tia Zulmira
História do passarinho
À beira-mar
O milagre
Um homem e seu complexo
O homem da pasta preta
Vamos acabar com esta folga
Razões de ordem técnica
A batalha do Leblon
Caso do marido doido
O homem que virou ele
O homem, o bonde e a mulher
Mulher de borracha
Colchão de vaca
Levantadores de copo
PRIMO ALTAMIRANDO E ELAS
Biografia de Mirinho
Bronca de esquina
Do tango ao chá-chá-chá
As orelhas dos distintos
Escovas musicais
A velha contrabandista
A vaca e o câmbio
O cinzeiro azul
Mirinho e a leviana
Paraíba
Continho de Natal
Esforço cerebral
Aventuras de Rosamundo
Rosamundo no banheiro
Mulher reformada
Viva o morto!
"Vai descer?!"
O terceiro sexo
O 1º de abril
ROSAMUNDO E OS OUTROS
Biografia de Rosamundo
O anjo
Conversa de viajantes
O psicanalisado
O grande mistério
Com a ajuda de Deus
Comigo não!
Nesta data querida
O homem que não foi a São Paulo
Pagode no Cosme Velho
Era a Regininha
A mudança
O mistério da casa mal-assombrada
Latricério
El sombrero
Vovocídio
GAROTO LINHA-DURA
Sonho de Natal
Cadelinha puro-sangue
Prova falsa
O hábito faz o amante
Testemunha tranqüila
Quem não tem cão
Escritor realista
O leitão de Santo Antônio
Ladrões estilistas
Celinha convite
A estranha passageira
A barba do falecido
Madame e o freguês
Testemunha ocular
Menino precoce
Para todo o serviço
Choro, vela e cachaça
FEBEAPÁ-1
O paquera
Eram parecidíssimas
Aos tímidos o que é dos tímidos
O filho do camelô
O diário de Muzema
Um cara legal
Barba, cabelo e bigode
Diálogo de réveillon
"Não sou uma qualquer"
O analfabeto e a professora
O cafezinho do canibal
Suplício chinês
O homem das nádegas frias
Dois amigos e um chato
FEBEAPÁ-2
Teresinha e os três
Ândrocles e a patroa
Momento na delegacia
A vontade do falecido
Não me tire a desculpa
O major da cachaça
O apanhador de mulher
Não era fruta
Ninguém tem nada com isto
O homem do telhado
Por causa do elevador
NA TERRA DO CRIOULO DOIDO
O estranho caso do isqueiro de ouro
Luís Pierre e o túnel
A escandalosa
Diálogo de festas
A anciã que entrou numa fria
O inferninho e o Gervásio
Foi num clube aí
A expectativa matrimonial

TIA ZULMIRA E EU
PERFIL DE TIA ZULMIRA

QUEM SE DÁ AO TRABALHO de ler o que escreve Stanislaw
Ponte Preta — e quem me lê é apenas o lado alfabetizado da
humanidade — por certo conhece Tia Zulmira, sábia
senhora que o cronista cita abundantemente em seus
escritos. E a preocupação dos leitores é saber se essa Tia
Zulmira existe mesmo.
Pouco se sabe a respeito dessa ex-condessa prussiana, ex-
vedete do Follies Bergère (coleguinha de Colette),
cozinheira da Coluna Prestes, mulher que deslumbrou a
Europa com sua beleza, encantou os sábios com a sua
ciência e desde menina mostrou-se personalidade de
impressionante independência, tendo fugido de casa aos sete
anos para aprender as primeiras letras, pois na época as
mocinhas — embora menos insipientes do que hoje — só
começavam a estudar aos 10 anos. Tia Zulmira não resistiu
ao nervosismo da espera e, como a genialidade borbulhasse
em seu cérebro, deu no pé.
Quando a revista SR recomendou uma entrevista exclusiva
com titia, conhecida em certas rodas como a "ermitã da Boca
do Mato", cobriu as propostas de Paris Match, de Life e da
Revista do Rádio.
Esta é a entrevista.
SENTADA em sua velha cadeira de balanço — presente do
primeiro marido — Tia Zulmira tricotava casaquinhos para
os órfãos de uma instituição nudista mantida por D. Luz Del
Fuego. E foi assim que a encontramos (isto é, encontramos
titia), na tarde em que a visitamos, no seu velho casarão da
Boca do Mato.
Antiga correspondente do Times na Jamaica, a simpática
macróbia é dessas pessoas fáceis de entrevistar porque,
pertencendo ao métier, facilita o nosso trabalho,
respondendo com clareza e desdobrando por conta própria
as perguntas, para dar mais colorido à entrevista.
— Sou natural do Rio mesmo — explicou — e isto eu digo
sem a intenção malévola de ofender os naturais da
província. Fui eu, aliás, que fiz aquele verso no samba de
Noel Rosa, verso que diz: Modéstia à parte, meus senhores,
eu sou da Vila.
E é. Tia Zulmira mostra o seu registro de nascimento, feito
na paróquia de Vila Isabel. Documento importante e valioso,
pois uma das testemunhas é a própria Princesa Isabel
(antigamente a "Redentora" e hoje nota de 50 cruzeiros). Ela
explica que sua mãe foi muito amiga da Princesa, tendo
mesmo aconselhado à dita que assinasse a Lei Áurea (dizem
que o interesse dos moradores da Vila em libertar os
escravos era puramente musical. Queriam fundar a primeira
escola de samba).
— Por que se mudou de Vila Isabel para a Boca do Mato? —
indagamos.
— Por dois motivos. O primeiro de ordem econômica, uma
vez que esta casa é a única coisa que me sobrou da herança
de papai e que Alcebíades2 não perdeu no jogo. O outro é de
ordem estética. Saí de Vila Isabel por causa daquele busto de
Noel Rosa que colocaram na Praça. É de lascar.
— O que é que tem o busto?
— O que é que tem? É um busto horrível. E se não fosse uma
falta de respeito ao capital colonizador, eu diria que é um
busto mais disforme do que o de Jayne Mansfield.
Tentamos mudar de assunto, procurando novas facetas para
a entrevista, e é ainda a entrevistada quem vai em frente,
mostrando um impressionante ecletismo. Fala de sua
infância, depois conta casos da Europa, quando daqui saiu
em 89, após impressionante espinafração no Marechal
Deodoro que proclamara a República sem ao menos
consultá-la.
Não que Tia Zulmira fosse uma ferrenha monarquista. Pelo
contrário: sempre implicou um pouco com a Imperatriz
(achava o Imperador um bom papo) e teria colaborado para
o movimento de 89, não fosse os militares da época, quase
tão militares como os de hoje.
— Hoje estou afastada da política, meu amigo, embora
devido mais a razões sentimentais, eu pertenço ao PLC.
Fizemos um rápido retrospecto dos apontamentos até ali
fornecidos. A veneranda senhora sorri, diz que assim não
vamos conseguir contar sua vida em ordem cronológica e
vai explicando outra vez, com muita paciência: Nasci no dia
29 de fevereiro de 1872. Aprendi as primeiras letras numa
escola pública de São Cristóvão, na época São Christovam e
com muitas vagas para quem quisesse aprender...
O resto nós fomos anotando:
Mostrou desde logo um acentuado pendor para as artes,
encantando os mestres com as anotações inteligentes que
fazia à margem da cartilha. Completou seus estudos num
convento carmelita, onde aprendeu de graça, numa
interessante troca de ensinamentos com as freiras locais:
enquanto estas lhe ministravam lições de matérias cons-
tantes do curso ginasial, Tia Zulmira lhes ministrava lições
de liturgia. Mocinha, partiu para a Europa, para aproveitar
uma bolsa de estudos, ganha num concurso de pernas; então
foi morar em Paris, dividindo o seu tempo entre o Follies
Bergère e a Sorbonne. Nesta Universidade, concedeu em ser
mestra de Literatura Francesa, proporcionando a glória a um
dos seus mais diletos discípulos, o qual ela chamava
carinhosamente de Andrezinho.
Tia Zulmira suspende por momentos o relato de sua vida
para lembrar a figura de Andrezinho, que vocês conhecem
melhor pelo nome completo: André Gide.
Tia Zulmira prossegue explicando que, aos vinte e poucos
anos, casou-se pela primeira vez, unindo-se pelos laços
matrimoniais a François Aumert — o Cruel. O casamento
terminou tragicamente, tendo Aumert morrido vítima de
uma explosão, quando auxiliava a esposa numa
demonstração de radioatividade aplicada, que a mesma fazia
para Mme. Curie.
A hoje encanecida senhora lamentou profundamente a
inépcia do marido para lidar com tubos de ensaio e,
desgostosa, mudou-se para Londres, aproveitando a deixa
para disputar a primeira travessia a nado do Canal da
Mancha. Houve quem desaprovasse essa decisão, dizendo
que não ficava bem a uma jovem de boa família se meter
com o Canal da Mancha. A resposta de Tia Zulmira é até
hoje lembrada.
— O Canal da Mancha não pode manchar minha reputação.
Na minha terra, sim, tem um canal que mancha muito mais.
E ela acabou atravessando a Mancha mesmo, chegando em
terceiro, devido à forte cãibra que a atacou nos últimos 2 mil
metros. Fez um jacaré na arrebentação da última onda e
chegou a Londres para morar numa pensão em Lambeth,
onde viveu quase pobre, apenas com os sustentos de uma
canção que fez em homenagem ao bairro.
Na pensão, onde morava nossa entrevistada, vivia no quarto
ao lado o então obscuro cientista Darwin, e com ela
manteve um rápido flerte. Proust , cronista mundano
francês que esteve em Londres na época, chegou a anunciar
um casamento provável entre Tia Zulmira e Darwin, mas os
dois acabaram brigando por causa de um macaco.
— Em 1913, onde estava eu? — pergunta Tia Zulmira a si
mesma, olhando os longes com olhar vago.
Lembra-se que houve qualquer coisa importante em 1913 e,
de repente, se recorda. Em 13, atendendo a um convite de
Paderewski, passou uma temporada em Varsóvia, dando
concertos de piano a quatro mãos com o futuroso músico,
que deve a ela os ensinamentos de teoria musical.
Quando o primeiro conflito mundial estourou, ela estava em
Berlim e teria ficado retida na capital alemã, não fosse a
dedicação de um coleguinha , que lhe arranjou um
passaporte falso para atravessar a fronteira suíça. Durante a
1a Grande Guerra, a irrequieta senhora serviu aos aliados no
Serviço de Contra-Espionagem, tornando-se a grande rival
de Mata-Hari, mulher que não suportava Zulmira e — muito
da fofoqueira — tentou indispor a distinta com diversos
governos europeus. Zulmira foi obrigada a casar-se com um
diplomata neozelandês de nome Marah Andolas — para
deixar o Velho Mundo.
É interessante assinalar que este casamento, motivado por
interesse, acabou por se transformar em uma união feliz. O
casal viveu dias esplendorosos em São Petersburgo,
infelizmente interrompidos por questões políticas. A
revolução russa de 17 acabou por envolver o bom Andolas.
O marido de Tia Zulmira foi fuzilado pelos comunistas de
Lenine, somente porque conservava o hábito fidalgo de usar
monóculo, sendo confundido com a burguesia reacionária
que a revolução combatia. Morto Andolas, Tia Zulmira
deixou a Rússia completamente viúva, após uma cena
histórica com Stalin e Trotsky, quando, dirigindo-se aos
dois, exclamou patética:
— Vocês dois são tão calhordas que vão acabar inimigos.
Dito isto, Zulmira virou as costas e partiu, levando consigo
apenas a roupa do corpo e o monóculo do falecido. Chegou
ao Brasil pobre, mas digna, e a primeira coisa que fez foi
empenhar o monóculo na Caixa Econômica, sendo o objeto,
mais tarde, arrematado em leilão pelo pai do hoje
Embaixador Décio de Moura, que o ofertou ao filho, no dia
em que este passou no concurso para o Itamarati.
Zulmira estaria na miséria se uma herança não viesse ter às
suas mãos. O falecimento dc seu bondoso pai — Aristarco
Ponte Preta (o Audaz) —, ocorrido em 1920, proporcionou-
lhe a posse do casarão da Boca do Mato, onde vive até hoje.
Ali estabeleceu ela o seu habitat, disposta a não mais voltar
ao Velho Mundo, plano que fracassaria dez anos depois.
Tendo arrebentado um cano da Capela Sistina, houve
infiltração de água numa das paredes e — em nome da Arte
— Zulmira embarcou novamente para a Europa, a fim de
retocar a pintura da dita. Como é do conhecimento geral, ali
não é permitida a entrada de mulheres, mas a sábia senhora,
disfarçada em monge e com um pincel por debaixo da
batina, conseguiu penetrar no templo e refazer a obra de
Miguel Ângelo, aproveitando o ensejo para aperfeiçoar o
mestre. Este episódio, tão importante para a História das
Artes, não chegou a ser mencionado por Van Loon, no seu
substancioso volume, porque, inclusive, só está sendo
revelado agora, nesta entrevista.
Nessa sua segunda passagem pela Europa, Tia Zulmira ainda
era uma coroa bem razoável e conheceu um sobrinho do
Tzar Nicolau, nobre que a revolução russa obrigou a emigrar
para Paris e que, paia viver, tocava balalaica num botequim
de má fama. Os dois se apaixonaram e foram viver no
Caribe, onde casaram pelo facilitário. O sobrinho do Tzar,
porém, não era dado ao trabalho e Tia Zulmira foi obrigada a
deixá-lo, não sem antes explicar que não nascera para botar
gato no foguete de ninguém.
Voltou para o Rio, fez algumas reformas no casarão da Boca
r do Mato e vive ali tranqüilamente, com seus quase 90 anos,
prenhe de experiência e transbordante de saber. Vive
modestamente, com o lucro dos pastéis que ela mesma faz e
manda por um de seus afilhados vender na estação do Méier.
No seu exílio voluntário, está tranqüila, recebendo suas
visitinhas, ora cientistas nucleares da Rússia, ora Ibrahim
Sued. que ela considera um dos maiores escritores da época.
A velha dama pára um instante de tecer o seu crochê,
oferece-nos um "Fidel Castro" com gelo. É uma excelente
senhora esta, que tem a cabeça branca e o olhar vivo e
penetrante das pessoas geniais.

HISTÓRIA DO PASSARINHO

O QUE VOCÊS passarão a ler é um lindo conto escrito por Tia
Zulmira, nossa veneranda parenta e conselheira. Trata-se de
obra para a literatura infantil, à qual a sábia e experiente
senhora vem se dedicando agora, após o convite para
participar de um concurso de histórias infantis promovido
por um programa de televisão. Cremos que não é necessário
acrescentar que a boa senhora tirou o primeiro lugar. Mas,
passemos ao conto:
"Era uma vez uma mocinha muito bonita, que morava num
lugar chamado Copacabana. Era uma mocinha muito
prendada e com muito jeito para as coisas. Estudiosa e
obediente, freqüentava sempre o programa de César de
Alencar, ia ao Bobs e adorava cuba-libre. Lia muito e
gostava, principalmente, da Revista do Rádio e da Luta
Democrática.
Todos elogiavam a beleza da mocinha. Ela tinha cara bonita,
olhos bonitos, pele bonita, corpo bonito, pernas bonitas,
figura bonita. Era toda bonita. Apesar disso, não era feliz, a
mocinha. Ela sonhava com uma coisa, desde pequena —
queria entrar para o teatro. Sua mãe sempre dizia que não
valia a pena, que ela podia ser feliz de outra maneira, mas
não adiantava. O sonho da mocinha bonita era entrar para o
teatro. Só pensava nisso e colecionava fotografias de Virgínia
Lane, Sofia Loren, Nelia Paula e Marilyn Monroe.
Um dia, a mocinha estava muito triste, porque não
conseguia ver realizado o seu ideal, quando um passarinho
chegou perto dela e perguntou:
— Por que é que você está triste, mocinha? Você é tão bo-
nita. Não devia ser triste.
— Eu estou triste porque quero entrar para o teatro e não
consigo — respondeu a mocinha.
O passarinho riu muito e disse que, se fosse só por isso, não
precisava ficar triste. Ele havia de dar um jeito. E de fato, no
dia seguinte, passou voando pela janela do quarto da
mocinha e deixou cair um bilhetinho que trazia no bico. Era
um bilhetinho que dizia: Fila 4, Poltrona 16.
A mocinha foi e num instante conheceu o empresário do
teatro que, ao vê-la, se entusiasmou com sua beleza. Foi logo
contratada, e já nos primeiros ensaios, todos elogiavam seu
desembaraço. Ela ensaiou muito, mas não contou nada pra
mãe dela. Somente na noite de estréia é que, antes de sair,
chegou perto da mãe e contou tudo. A mãe ficou triste ao
ver a filha partir para o estrelato, mas ela estava tão feliz que
não a quis contrariar.
E foi bom porque a sua filha fez sucesso. Foi muito
ovacionada; todo mundo aplaudiu. Ela voltou para casa
contentíssima e, quando ia metendo a chave no portão,
ouviu uma voz dizer:
— Meus parabéns. Você é um sucesso.
Aí ela olhou pro lado, espantada e viu o passarinho que a
ajudara, pousado numa grade. Ela notou que o passarinho
dissera aquilo em tom amargo e quis saber:
— Passarinho, você agora é que está triste. Por quê?
Foi aí que o passarinho explicou que não era passarinho não.
Era um príncipe encantado, que uma fada má transformara
em passarinho.
— Oh, coitadinho! — exclamou a mocinha que acabara de
estrear com tanto sucesso. — O que é que eu posso fazer por
você?
O passarinho então contou o resto do encantamento. A fada
má fizera aquilo com ele só de maldade. Para ele voltar a ser
príncipe outra vez, era preciso que uma mocinha bonita e
feliz o levasse para sua casa e o colocasse debaixo do
travesseiro. No dia seguinte o encanto findava.
— Mas eu sou uma mocinha feliz. E foi você mesmo,
passarinho, que disse que eu era bonita. Você e todo mundo.
E dizendo isso, apanhou o passarinho e entrou em casa com
ele. Ajeitou-o bem, debaixo do travesseiro e, cansada que
estava das emoções do dia, adormeceu.
No outro dia de manhã aconteceu tal e qual o passarinho
dissera. Quando a mocinha acordou havia um lindo rapaz
deitado a seu lado. Era o príncipe.
Esta, pelo menos, foi a história que a mocinha contou pra
mãe dela, quando a velha a encontrou de manhã, dormindo
com um fuzileiro naval. Que, aliás, só não casou com a
mocinha, porque já tinha um compromisso em Botafogo.


À BEIRA-MAR

POR QUE SERÁ que tem gente que vive se metendo com o
que os outros estão fazendo? Pode haver coisa mais ingênua
do que um menininho brincando com areia, na beira da
praia? Não pode, né? Pois estávamos nós deitados a dourar a
pele para endoidar mulher, sob o sol de Copacabana, em
decúbito ventral (não o sol, mas nós) a ler "Maravilhas da
Biologia", do coleguinha cientista Benedict Knox Ston,
quando um camarada se meteu com uma criança, que
brincava com a areia.
Interrompemos a leitura para ouvir a conversa. O
menininho já estava com um balde desses de matéria
plástica cheio de areia, quando o sujeito intrometido chegou
e perguntou o que é que o menininho ia fazer com aquela
areia.
O menininho fungou, o que é muito natural, pois todo
menininho que vai na praia funga, e explicou pro cara que ia
jogar a areia num casal que estava numa barraca lá adiante. E
apontou para a barraca.
Nós olhamos, assim como olhou o cara que perguntava ao
menininho. Lá, na barraca distante, a gente só conseguia ver
dois pares de pernas ao sol. O resto estava escondido pela
sombra, por trás da barraca. Eram dois pares, dizíamos, um
de pernas femininas, o que se notava pela graça da linha, e
outro masculino, o que se notava pela abundante vegetação
capilar, se nos permitem o termo.
— Eu vou jogar a areia naquele casal por causa de que eles
estão se abraçando e se beijando muito — explicou o
menininho, dando outra fungada.
O intrometido sorriu complacente e veio com lição de
moral.
Não faça isso, meu filho — disse ele (e depois viemos a saber
que o menino era seu vizinho de apartamento). Passou a
mão pela cabeça do garotinho e prosseguiu: — deixe o casal
em paz. Você ainda é pequeno e não entende dessas coisas,
mas é muito feio ir jogar areia em cima dos outros.
O menininho olhou pro cara muito espantado e ainda
insistiu:
— Deixa eu jogar neles.
O camarada fez menção de lhe tirar o balde da mão e foi
mais incisivo:
— Não senhor. Deixe o casal namorar em paz. Não vai jogar
areia não.
O menininho então deixou que ele esvaziasse o balde e
disse: — Tá certo. Eu só ia jogar areia neles por causa do
senhor.
— Por minha causa? — estranhou o chato. — mas que casal
é aquele?
— O homem eu não sei — respondeu o menininho. — Mas
a mulher é a sua.

O MILAGRE

NAQUELA PEQUENA CIDADE as romarias começaram quando
correu o boato do milagre. É sempre assim. Começa com um
simples boato, mas logo o povo — sofredor, coitadinho, e
pronto a acreditar em algo capaz de minorar sua perene
chateação — passa a torcer para que o boato se transforme
numa realidade, para poder fazer do milagre a sua esperança.
Dizia-se que ali vivera um vigário muito piedoso, homem
bom, tranqüilo, amigo da gente simples, que fora em vida
um misto de sacerdote, conselheiro, médico, financiador
dos necessitados e até advogado dos pobres, nas suas eternas
questões com os poderosos. Fora, enfim, um sacerdote na
expressão do termo: fizera de sua vida um apostolado.
Um dia o vigário morreu. Ficou a saudade morando com a
gente do lugar. E era em sinal dc reconhecimento que
conservavam o quarto onde ele vivera, tal e qual o deixara.
Era um quartinho modesto, atrás da venda. Um catre
(porque em histórias assim a cama do personagem chama-se
catre), uma cadeira, um armário tosco, alguns livros. O
quarto do vigário ficou sendo uma espécie de monumento à
sua memória, já que a Prefeitura local não tinha verba para
erguer sua estátua.
E foi quando um dia... ou melhor, uma noite, deu-se o
milagre. No quarto dos fundos da venda, no quarto que fora
do padre, na mesma hora em que o padre costumava
acender uma vela para ler seu breviário, apareceu uma vela
acesa.
— Milagre!!! — quiseram todos.
E milagre ficou sendo, porque uma senhora que tinha o filho
doente, logo se ajoelhou do lado de fora do quarto, junto à
janela, e pediu pela criança. Ao chegar em casa, depois do
pedido — conta-se — a senhora encontrou o filho
brincando, fagueiro.
— Milagre!!! — repetiram todos. E o grito de "Milagre!!!"
reboou por sobre montes e rios, vales e florestas, indo soar
no ouvido de outras gentes, de outros povoados. E logo
começaram as romarias.
Vinha gente de longe pedir! Chegava povo de tudo quanto é
canto e ficava ali plantado, junto à janela, aguardando a luz
da vela. Outros padres, coronéis, até deputados, para
oficializar o milagre. E quando eram mais ou menos seis da
tarde, hora em que o bondoso sacerdote costumava acender
sua vela... a vela se acendia e começavam as orações. Ricos e
pobres, doentes e saudáveis, homens e mulheres, civis e
militares caíam de joelhos, pedindo.
Com o passar do tempo a coisa arrefeceu. Muitos foram os
casos de doenças curadas, de heranças conseguidas, de
triunfos os mais diversos. Mas, como tudo passa, depois de
alguns anos passaram também as romarias. Foi diminuindo a
fama do milagre e ficou, apenas, mais folclore na lembrança
do povo.
O lugarejo não mudou nada. Continua igualzinho como era,
e ainda existe, atrás da venda, o quarto que fora do padre.
Passamos outro dia por lá. Entramos na venda e pedimos ao
português, seu dono, que vive há muitos anos atrás do
balcão, a roubar no peso, que nos servisse uma cerveja. O
português, então, berrou para um pretinho, que arrumava
latas de goiabada numa prateleira:
— Ó Milagre, sirva uma cerveja ao freguês!
Achamos o nome engraçado. Qual o padrinho que pusera o
nome de Milagre naquele afilhado? E o português explicou
que não, que o nome do pretinho era Sebastião. Milagre era
apelido.
— E por quê? — perguntamos.
— Porque era ele quem acendia a vela, no quarto do padre.

UM HOMEM E SEU COMPLEXO

ERA UM HOMEM. Era um desses homens que não resistem À
pergunta: "Você é um homem ou um rato?" Dizemos que
era dos que não resistem porque, sem dúvida, quando
inquirido, não saberia o que responder. E isto é mais
doloroso porque sua dúvida não era a de que não pudesse ser
um homem, e sim a de que talvez não chegasse a ser um
rato.
Sim, companheiros, o homem era um poço de complexos,
figurinha capaz de dar dor de cabeça em aspirina, tipo que se
considerava tão inferior que tinha vergonha de assinar o
próprio nome. E para isto também tinha uma explicação
viável: chamava-se Eugênio e era incapaz — na sua infinita
modéstia — de considerar o próprio "Eu", quanto mais ser
simplesmente um "Gênio".
Vai daí, Eugênio ficou sendo Z. Não era Ze, com "Z" e "E",
mais um acento (ou assento? Botamos os dois, Osvaldo, para
que você escolha o certo). Eugênio assinava só a letra "Z" na
certeza dc que esta é que lhe servia, por ser a última do
alfabeto.

Tantos eram os complexos de "Z" que, lá um dia, alguém lhe
deu dinheiro para consultar um psicanalista. Morem no
detalhe de alguém lhe dar dinheiro. Tudo porque "Z" não
andava com cruzeiros no bolso, convencido de que, se assim
o fizesse, desvalorizaria ainda mais a nossa moeda.
Mas — como ficou dito — pagaram a consulta e "Z" foi ao
psicanalista. O médico mandou que ele deitasse naquele divã
regulamentar e o paciente deu a primeira prova de seu
estado de espírito ao responder que se consultaria de pé,
pois não se sentia com direito de ficar deitado, enquanto o
outro trabalhava.
O psicanalista achou aquilo muito estranho, percebeu que
estava diante de um caso de complexo de inferioridade
incurável e deu umas pílulas. Mas deu sem nenhuma
esperança porque "Z" era tão sincero em seus complexos
que chegou a confessar que só se sentia bem numa lata de
lixo, ocasião em que pagou a consulta e se atirou pela lixeira
do edifício, com um sorriso de superioridade.
Mas mesmo o lixo tem seu valor, embora a Limpeza Pública
não saiba. "Z" foi piorando de tal forma que acabou achando
que nem como lixo prestava. E — um dia — deu-se o
trágico e amargo fim: seu complexo chegou ao máximo. Ia
sair de casa e, para colocar a gravata, foi até o espelho.
Qual não foi a sua surpresa? Chegou diante do espelho...
olhou... e não viu mais ninguém.

O HOMEM DA PASTA PRETA

SOBRAÇANDO uma enorme pasta preta o homem chegou-se
para perto da nossa mesa e esperou que levantássemos a
cabeça. Fingimos não dar pela sua presença, mas a situação
foi ficando meio velhaca e fomos obrigados a perguntar se
desejava alguma coisa. Ora se.
Bastou dar a deixa para ele explicar que era um emissário do
saber, da cultura, da ilustração. Representante dos mais
famosos editores, o homem de indisfarçável sotaque
espanhol pôs-se a oferecer livros e mais livros, tudo a preços
de ocasião, com descontos formidáveis, com facilidades de
pagamento.
— O senhor precisa aproveitar el momento que es oportuno.
Las livrarias fazem um desconto especial ahora.
Para ganhar tempo, perguntamos por que as livrarias estão
fazendo desconto especial agora. Ele, muito naturalmente,
explicou:
— Junho!
Não sabemos porque Balzac é mais barato em junho e jamais
saberemos, pois o homem não é de dar tempo para pensar.
Ali estava, sobre a mesa, toda a Comédia Humana, mais
barata à vista, com um pequeno acréscimo para as tais suaves
prestações mensais.
Ficou absolutamente bestificado quando soube que Balzac
não interessava. E o Anatole France de bolso, também não?
Mas isso era desconcertante! Um cavalheiro com a nossa
cultura, com a nossa posição social... E perguntou:
— O amigo, naturalmente, tiene su posición dentro do café-
society?
— Jogamos na defesa.
Ele achou a resposta de um fino humor. Grande espírito. E
aproveitou para sapecar Eça de Queiroz inteiramente revisto
pelo filho do próprio. Inclusive — garantiu — com notas
muito oportunas. Explicamos que já tínhamos o Eça lá em
casa. O Eça, o Ramalho, o Camilo, o Fialho, o Antero. Em
matéria de literatura portuguesa, lá em casa vamos bem.
Subiu a Península Ibérica e abriu um folheto que
demonstrava e provava que nunca, em nenhum país do
mundo, se fez — numa só edição — um apanhado tão
completo da obra de Cervantes. Já impacientes, declaramos:
— Cervantes dá azia!
Não sabemos se azia em espanhol é diferente. O fato é que
não entendeu. Fechou o folheto e abriu outro. Este
elucidava os interessados numa coleção enciclopédica. Eram
vinte volumes que condensavam curiosidades matemáticas,
as chamadas maravilhas da natureza e outros alicerces do
saber. O homem que lesse com atenção a obra toda poderia
fazer um figurão, respondendo perguntas nos programas de
televisão.
Um a um, fomos recusando poetas e prosadores, biógrafos e
historiadores, gramáticos, metafísicos, astrônomos e
astrólogos. Da fina-flor da literatura, passou a meros
catálogos. O senhor tem disco? É amante da pesca?
— Quem nos dera ter amante!
Nem sequer sorriu. Gosta de fotografias? Quer aprender a
desenhar? Deseja ser mecânico de rádio em 20 lições? A arte
da decoração.

O nosso corpo. O mar que nos cerca. A vida no subsolo. No
mundo das bactérias. A culinária de todo o mundo.
Nesta última oferta apelamos para o ofendido.
Imediatamente pediu desculpas. Realmente, um homem do
nosso trato não iria cozinhar nunca. Por fim, esgotado o
estoque, sentindo que não venderia coisa nenhuma, apelou
pra ignorância. Olhou para os lados certificou-se de que
estávamos a sós e segredou:
— Tengo aqui umas coisas mui lindas. Para leitura íntima. E
mostrou um livro com uma mulher nua na capa. Nem
assim...

VAMOS ACABAR COM ESTA FOLGA

O NEGÓCIO aconteceu num café. Tinha uma porção de
sujeitos, sentados nesse café, tomando umas e outras. Havia
brasileiros, portugueses, franceses, argelinos, alemães, o
diabo.
De repente, um alemão forte pra cachorro levantou e gritou
que não via homem pra ele ali dentro. Houve a surpresa
inicial, motivada pela provocação e logo um turco, tão forte
como o alemão, levantou-se de lá e perguntou:
— Isso é comigo?
— Pode ser com você também — respondeu o alemão.
Aí então o turco avançou para o alemão e levou uma
traulitada tão segura que caiu no chão. Vai daí o alemão
repetiu que não havia homem ali dentro pra ele. Queimou-
se então um português que era maior ainda do que o turco.
Queimou-se e não conversou. Partiu para cima do alemão e
não teve outra sorte. Levou um murro debaixo dos queixos e
caiu sem sentidos.
O alemão limpou as mãos, deu mais um gole no chope e fez
ver aos presentes que o que dizia era certo. Não havia
homem para ele ali naquele café. Levantou-se então um
inglês troncudo pra cachorro e também entrou bem. E
depois do inglês foi a vez de um francês, depois de um
norueguês etc. etc. Até que, lá do canto do café levantou-se
um brasileiro magrinho, cheio de picardia para perguntar,
como os outros:
— Isso é comigo?

O alemão voltou a dizer que podia ser. Então o brasileiro deu
um sorriso cheio de bossa e veio vindo gingando assim pro
lado do alemão. Parou perto, balançou o corpo e... pimba! O
alemão deu-lhe uma porrada na cabeça com tanta força que
quase desmonta o brasileiro.
Como, minha senhora? Qual é o fim da história? Pois a
história termina aí, madame. Termina aí que é pros
brasileiros perderem essa mania de pisar macio e pensar que
são mais malandros do que os outros.

RAZÕES DE ORDEM TÉCNICA

A MOÇA viajou no ônibus em que viajava este que ora
batuca, intimorato e altivo, as teclas macias de sua
Remington semi-portátil, todas recentemente azeitadas para
novas campanhas. Não somos de viajar nesses incômodos
coletivos. Stanislaw é uma vítima contumaz de táxi e não
teria se rebaixado a freguês da Copanorte se não estivesse de
caixa baixa. Estávamos mais por baixo do que calcinha de
nylon.
Mas — dizíamos — a moça entrou e era o que se poderia
desejar em matéria de mulher de qualidade superior. Tanto
era, que houve como que um minuto de silêncio respeitoso,
no coletivo. Aliás, minuto de silêncio respeitoso, não. Seria
mais justo dizer minuto de silêncio para que todos os
coleguinhas de viagem pensassem em besteira.
Depois — pouco a pouco — todos nos acostumaríamos à sua
presença. Naquele momento, ela ainda fazia mais sucesso
que Vicente Celestino em Barra do Piraí. Todos queriam lhe
ceder o lugar. Um velhote, mais ou menos sem dignidade,
levantou-se do banco e quis ser cavalheiro. Ela recusou com
a altivez das que têm noivo.
O velhote desistiu e sentou. Havia um bonitão no ônibus.
Como, minha senhora? Se o bonitão éramos nós? Não,
senhora, era outro. A senhora desculpe. Havia dois bonitões;
nós e o outro. Foi o outro que se levantou e disse, com voz
de locutor da Rádio Nacional (programação matinal):
— Queira sentar, senhorinha.
O senhorinha soou falso como borderô de companhia de
revistas musicais. Mas todos esperamos o êxito do bacano.
Não foi bem sucedido, porém. Ela sorriu agradecida e
respondeu:
— Não se incomode.
Era difícil a gente não se incomodar com aquele
monumento ali na nossa frente, balançando no corredor do
ônibus. Depois, foi saindo gente e os que estavam em pé iam
sentando. Mas, antes, ofereciam a vez à bonitona. Ela sorria,
agradecia e continuava em pé.
Chegou o momento, porém, em que o número de lugares
era maior que o número de passageiros. Mesmo assim, ela
ficou firme, viajando de pé.
Foi aí que, com aquela timidez que é o nosso maior sucesso
com mulher, pigarreamos legal e perguntamos à distinta:
— Você não quer sentar? E ela respondeu:
— Não. E nós:
— Por quê?
E ela:
— Furúnculo.

A BATALHA DO LEBLON

Foi À NOITINHA, aí por volta das 20 horas, que a notícia
correu pelas esquinas do Leblon, ganhou amplitude,
espalhou-se pelo bairro e foi explodir como uma bomba na
Delegacia de Polícia. Os bichos do circo armado perto da
pracinha tinham picado a mula. Foi aí que começou a
ignorância. O delegado não estava, é claro. O comissário
também, é lógico, e a coisa sobrou na mão do prontidão.
— Chamem a Polícia — berrou o infeliz.
— Mas a Polícia somos nós — advertiu um outro guarda.
Refeito da distração, o prontidão começou a procurar seus
superiores para saber como agir. À muito custo conseguiu
telefonar para um primo da noiva do comissário e localizar o
distinto.
— Peçam uma patrulha do Exército — recomendou o
comissário.
Pediu-se. Mas havia outras corporações disponíveis. E
apelou-se para o Corpo de Bombeiros, para a Polícia Militar,
Radiopatrulha e — ninguém até agora sabe explicar por que
— um carro-socorro da Light.
— Talvez seja para evitar curto-circuito no leão — disse um
mulato magrela, com cara de gozador.
O elefante, segundo informações de um soldado
desconhecido, seguira rumo à praia. Elefante, ao que se
presume, não nada. Ou será que nada? O povo dava palpites
e, como sempre, do povo saiu um mais bem informado
pouquinha coisa, para dizer que na África nada sim, mas não
era o caso deste, cujo se chamava Bômbolo, e que nascera
num outro circo e nunca vira água a não ser em balde.
Já então havia uma multidão apreciando as manobras. A
praça era uma das trincheiras, o Jardim de Alá era a
retaguarda das tropas. Pela rua principal não passaria
nenhum bicho que mata gente, salvo lotações, mas estes
têm licença pra matar.
Um homem de porte marcial, com muito mais estrelas do
que os outros, reclamava contra a demora do tanque. Sim,
ele requisitara um tanque-de-guerra e isto começou a
parecer ridículo a uns tantos e emocionante para outros. A
preta gorda, que mal acabara de servir o jantar dos patrões,
palpitou:
— Só onça tem umas quatro.
Mas o garoto que estava perto desmentiu, dizendo que
estava farto de ir àquele circo e nunca vira onça nenhuma.
Foi quando chegou o tanque. Não sabemos se vocês já
repararam que tanque-de-guerra no asfalto fica mais
deslocado do que — digamos — mulher nua dentro de um
elevador do Ministério da Fazenda. O povo começou a
desconfiar, vendo o tanque manobrando, que a coisa ia ser
mais cômica do que trágica.
— O tigre foi pra Praia do Pinto — disse um crioulo.
— Pra Praia do Pinto vai nóis que semo teso — retrucou seu
companheiro, que usava camisa de meia e touca.
Nessa altura apareceu correndo, lá do outro lado da praça,
um soldado. Vinha acelerado e parou na frente do homem
que tinha mais estrelas do que os outros. Fez uma
continência legal e avisou que não havia elefante na praia.
Imediatamente recebeu ordens de ir pelas casas avisando
para que todo o mundo trancasse as portas por causa dos
leões.
— Manda espiar primeiro se o leão já não entrou, senão é
fogo na jacutinga, trancar porta com leão dentro — gozou o
mulato.
O soldado explicou que não era preciso, porque não tinha
leão. Nem leão, nem tigre, nem onça. Apenas um "popótis".
— Hipopótamo — corrigiu o que tinha mais estrelas do que
os outros.
Então — já conhecido o inimigo — começou o cerco ao
"popótis". Dos que estavam nas proximidades, poucos
sabiam o que era um hipopótamo. Uns diziam que era maior
do que elefante, outros diziam que era menor, mas muito
mais feroz. E nessa troca de impressões ficaram até que
surgiu um outro soldado que, vindo correndo em diagonal
pela praça, bateu continência e disse pro de mais estrelas:

— O "popótis" se rendeu-se.
— Hipopótamo — voltou a corrigir o chefe, deixando passar
a abundância de pronomes.
Soube-se que, realmente, o hipopótamo fora localizado
dentro de um jardim, numa residência grã-fina, comendo
girassóis. E logo depois apareceu na esquina o dono do circo,
puxando um bicho que não era muito maior que um
cachorro dinamarquês e que o acompanhava de passo
pachorrento. Decepção geral, inclusive dos soldados,
preparados para mais uma batalha que, como tantas outras,
não houve.
— Ainda por cima o bicho come flor — disse a preta gorda.
— Come flor sim, uai! — explicou o de touca. — Então tu
não sabia que "popótis" é veterinário?

CASO DO MARIDO DOIDO

QUANDO A MULHER entrou em casa, vinda de um
cabeleireiro que não tivera tempo de atendê-la, foi para
surpreender o marido em flagrante... com a empregada. Era
uma empregada nova (no emprego e na idade), admitida dias
antes para o serviço de copeira e nunca — está claro — de
cooperar.
Assim, surpreendida cm afazeres que não eram os seus, a
empregada soltou um grito. Foi ela a primeira pessoa ali
naquela sala a dar com a recém-chegada (e, pior que recém-
chegada... patroa) parada na porta de entrada. O grito era um
misto de espanto e terror e tão alto saiu, que o marido deu
um pulo e caiu em pé, no meio do tapete, com uma perna
só. A outra perna ficou no ar, suspensa, como que a aguardar
os acontecimentos.
A cena durou uns cinco segundos, se tanto. Depois a copeira
correu lá para dentro e os dois — marido e mulher —
continuaram parados: ele ainda numa perna só, de olhos
vidrados, sem mover um músculo. Aparentemente não
respirava, sequer.
A primeira palavra que a mulher disse foi "francamente". A
segunda foi "cretino". O "francamente" era num tom entre
enojado e raivoso. E mais não disse porque o marido mexia-
se, afinal. Trocou a perna que estava no ar pela que estava no
chão e saiu pulando num pé só. Deu uma volta completa na
sala e se dirigiu para a porta do corredor, rumo ao elevador.
A mulher ainda esperou que ele voltasse, mas quando
percebeu a demora precipitou-se pelas escadas abaixo, já
prevendo o que aconteceria. Ao chegar ao portão, ele já
estava lá do outro lado da rua nuzinho, como Deus o fizera,
sempre a pular como um saci.
Enlouqueceu, de certo. Tido e havido, há mais de dez anos,
como um marido exemplar, ao ser surpreendido em
flagrante com a empregada, o choque fora demasiado grande
para ele... e enlouquecera. Claro que enlouquecera. Lá ia ele
a pular, em direção à praça. Agora gritava a plenos pulmões:
— Cauby! Cauby! Cauby!
Só doido mesmo. Ele detestava Cauby.
Em seguida mudou de grito. Passou a berrar:
— Flamengo, Flamengo, Flamengo.
A mulher sabia que ele era Vasco e pensou consigo mesma
que felizmente não havia ninguém na rua, com exceção de
um gari que até há pouco varria os buracos da calçada e
agora encostara a vassoura no muro e pusera as mãos nas
cadeiras para melhor apreciar aquele estranho rubro-negro.
A mulher tentara em vão trazê-lo de volta para casa. Ele se
desprendia de suas mãos e cada vez pulava mais alto.
Somente o estribilho é que mudara. Agora gritava:
— É o maior! É o maior! É o maior!
A mulher não sabia quem era o "maior", se Cauby ou o
Flamengo. Detalhe — de resto — sem importância, diante
da idéia de que dentro em breve chegariam outras pessoas,
atraídas pelos gritos. Tinha que levá-lo de volta
urgentemente. Apelou para o gari, mas este não estava
muito propenso a se meter com doido.
— Que é que o senhor está fazendo aí parado? — perguntou
a mulher para o gari.
Nem o gari sabia o que estava fazendo na rua. Mesmo assim
— por hábito — respondeu que sua função era de lixeiro. E
a mulher, que trazia viva na mente a cena da sala,
comentou:
— Este homem não deixa de ser lixo também.
Graças a esta observação, o gari recolheu-o. Agora vinha
mais calmo. Já caminhava direito e o acesso de loucura
parecia ter passado, quando, no elevador, seguro pela
mulher à direita e pelo gari à esquerda, começou a recitar
Shakespeare em francês. Embora nu, segurava uma túnica
imaginária e se dizia Marco Antônio:

— Cétait le plus noble Romain d'eux tous. Sa vie fut noble, et
les divers éléments étaient si bien mêlés en lui que la nature
pouvait se lever, et dire à 1'univers entier: "Celui-là était un
homme!"
Finalmente a mulher, o gari e Marco Antônio chegaram ao
seu destino. A primeira deu uma gorjeta ao segundo e
carregou o Imperador para o quarto, Imperador que já não
era Marco Antônio, pois, contrariando a História Universal,
fora substituído por César, a murmurar em tom de lamento:
— Et tu Brutus! Et tu Brutus!
E a dizer estas três palavras ficou, até a chegada dos parentes.
Todos, um por um, tentaram conversar com ele sem nada
conseguir. Depois foi chamado um psiquiatra, o único que se
fez ouvir e que, ao sair do quarto, aconselhou um mês de
repouso num sanatório para doentes nervosos.
O marido foi, calado e triste. Um mês e pouco depois estava
de volta, com uma recomendação expressa dos médicos para
que, de modo nenhum, comentassem com ele o caso da
empregada.
E, neste instante, deitado na cama, o marido, aparentemente
distraído, pensa nos acontecimentos dos últimos tempos.
Não há dúvida de que representara bem o seu papel de
louco. Até os médicos foram na conversa. Mas, pouco a
pouco, sua atenção é desviada para os movimentos da nova
copeira que — inocentemente — espana os móveis. Já ia
chamá-la suavemente pelo nome quando se lembrou que a
mulher saíra para ir ao cabeleireiro e bem podia voltar antes
da hora, caso não fosse atendida. Mesmo assim chamou a
copeira e esta, quando já vinha vindo, recebeu ordem para
trazer um café.
Quando ela saiu do quarto, respirou fundo e pensou:
— Será que eu fiquei maluco mesmo?

O HOMEM QUE VIROU ELE

TEMOS UM AMIGO CIGARRA... Até aí tudo normal, como
dizem os anormais. Mas é que esse amigo cigarra, no seu
próprio entender, prevaricou. E prevaricou no violento.
Imaginem vocês que, bastou que a "outra" (vejam vocês que
monstro de cigarra, chama a esposa de "a outra")... bastou
que "a outra" subisse para Petrópolis para ele alugar quarto
num hotel muito bonzinho que tem portaria compreensiva.
Vocês estão seguindo o nosso raciocínio? Pois vamos em
frente: de posse da chave do novo lar sumiu da residência
oficial e foi à vida, se organizando em outras corriolas, muito
sobre o animado, esquecido que mulher esposa é mulher
bem informada, não somente pelo muito que investiga (com
honrosas exceções), como também pelo muito de
informativas que são as pessoas amigas, cujas gostam é de
ver fogo na giranda do doutor.
Ainda estão nos acompanhando? Muito bem. Sigamos: a
mulher soube, talvez antes que ele, do caso com a mariposa
do luxo e do prazer — como diria o poeta... Sabem como é,
marido é como boi solto, que se lambe todo. Com quarto em
hotel condescendente, com a mulher em Petrópolis, choveu
moçoila. . . Uma noite no "Hi-Fi", outra no "Drink", uma ida
à Barra da Tijuca no carro de outro cigarra, para a clássica
intoxicação com camarão, e lá se foi ele a simpatizar mais
com esta do que com aquela até que... pimba — ficou de
cacho.
Como, minha senhora? O que vem a ser "ficar de cacho"? É
ficar sob o signo da amigação. A senhora desculpe, mas a
forma grosseira de expressão foi para esclarecer melhor.
Um homem de cacho com mulher em Petrópolis não vai
em casa nem para trocar de roupa. Dá uma única passada no
lar, apanha um bolo de camisas, outro tanto de meias, pega o
terno claro para quando não chover e o azul-marinho para
quando chover e esquece de mudar a água do canário.
Tudo num táxi, parte feroz para o hotel mais camarada
pouquinha coisa. Vanja vai, vanja vem, esquece até de subir
para Petrópolis no fim-de-semana. Isto é imperdoável
mesmo no pior dos cigarras e, no entanto, aconteceu com
esse nosso amigo. Resultado: passou o carnaval, veio a época
do colégio das crianças e "a outra" se despencou serra abaixo,
sabendo de tudo, inclusive com uma capa da revista Mundo
Ilustrado, onde ele aparece de braços abertos para a objetiva,
fantasiado de baiana rica.
Agora ele se despediu da mariposa do luxo e do prazer
(jurou- nos que era um encanto de moça e não aceitou nem
as duas notas de mil que ofereceu para calçar a saudade),
pagou o hotel de porteirinho cego e retornou ao lar.
— Você não imagina o vexame. Lá ninguém fala comigo. O
canário morreu de sede, ou de fome... sei lá. O cachorro,
aquele desgraçado, que eu curei de bronquite, está me
esnobando. Quando eu passo ele não levanta nem o focinho.
Limita-se a abrir um olho... um olho de reprovação que me
dá calafrios. Minha filha está muda.
— E sua mulher? — indagamos.
— Essa me chama de ele.
— Chama de quê?
— De ele. Se o almoço está na mesa, ela diz pra empregada:
"avise a ele". Se o telefone toca, é a própria empregada que
atende e diz pra minha mulher: "é para ele". Virei "ele" em
minha própria casa.
Coitado do nosso amigo. Badalou muito. Agora agüente.
Nisto de conseqüências, estamos com Tia Zulmira, quando
disse: "Passarinho que come pedra, sabe o que advém".

O HOMEM, O BONDE E A MULHER

CADA UM dá o golpe que quer. Uns ainda se escudam no
manjadíssimo serão no escritório; outros preferem telefonar
dizendo que chegou um amigo do interior; há os que só
arranjam uma desculpa na hora de chegar. Desta ou daquela
maneira, maridos retardatários têm seus respectivos estilos,
de acordo com as respectivas esposas.
As esposas, por sua vez, acreditam ou não; fingem acreditar
ou não, e — por conta própria — têm suas maneiras de
verificar se o que o marido contou ao chegar era verdade.
Nunca é, mas... não custa nada admitir a hipótese, pois
hipótese existe é para ser admitida.
Stanislaw tem um amigo que mora numa praça, cuja tem
muitas árvores onde dormem muitos pardais. Para chegar
em casa tem que passar pela praça e, quando chega depois
que os passarinhos acordaram, a mulher controla a hora em
que ele entrou pelo sujo que os passarinhos fizeram na roupa
dele. Por isso o nosso amigo tem horror a passarinho.
Não sabemos se vocês leram a notícia de um bonde que
perdeu a direção e entrou numa casa, na madrugada de 22
passada. Nessa mesma noite, cavalheiro de nossas relações
— cujo nome é impossível escrever aqui, pois não somos
cronista mundano que nasceu para incrementar o desquite
— saiu pela aí, desgarrado de casa, local para onde telefonou
por volta de 7 da noitinha, avisando que ia à convenção do
PSD (ele na hora esqueceu que votara no Jânio).
Calçado o regresso, pelo menos no seu entender, tomou
umas e outras e telefonou mais uma vez, agora para uma
desajustada em disponibilidade amorosa, que, quando se
encontra em estado de "jogada fora", sai com ele. Meteram
um boteco legal, espalharam muita brasa e, quando os
leiteiros já tinham recolhido as carrocinhas, ele chegou em
casa. Eram 4 e lá vai perdigoto.
Tirou a roupa e deitou, como bom pessedista, fingindo que
vinha da convenção, embora o bafo. A mulher, no dia
seguinte, não lhe dirigiu a palavra e ele, para confraternizar,
puxou conversa de todo jeito, acabando por pegar o jornal e
começar a ler. Ao passar os olhos na coluna de polícia, deu
com o cabeçalho:
"De madrugada — bonde entra em casa."
Virou-se para a mulher, para tentar mais uma vez a
pacificação, e disse:
— Ouve só, querida, que notícia curiosa. — E leu: — "De
madrugada — bonde entra em casa."
A mulher olhou-o com desprezo e comentou apenas:
— Aposto como entrou mais cedo do que você.

MULHER DE BORRACHA

QUEM NOS INFORMA a novidade é a Agência Ansa — nossa
subsidiária no interior — em telegrama vindo de Nova
Iorque. Diz que o Collector's Exchanging Bulletin, revista
que circula muito entre os que têm mania de fazer coleções,
seja coleção de caixa de fósforos, moedas antigas ou retrato
de mulher... de mulher... como diremos?... de mulher à
vontade, vem de publicar um anúncio (a sério) que fez
muito sucesso e está surtindo efeito surpreendente. Sim,
porque, assim como o Collector's Exchanging Bulletin
publicou a coisa a sério, os leitores também leram o anúncio
com muita seriedade e muitos deles tomaram providências
para adquirir o artigo anunciado.
Como, minha senhora? Que é que está no anúncio? Pois
não, era justamente o que íamos contar agora. A senhora
endireite aí esse decote, que isto já não é mais decote, é
deboche, e preste atenção. O anúncio diz assim:
"Para homens solitários, tímidos e incapazes de escolher
uma companheira ou de abordar na rua uma jovem
qualquer, esta é uma grande novidade. Queiram enviar 2,50
dólares pelo reembolso postal que, dentro de poucos dias,
receberão em sua casa uma mulher de borracha, de
dimensões normais, macia e perfeitamente inquebrável."
Como, madame? A senhora não gostou do anúncio? Nós
também não, porque não somos da equipe dos tímidos e —
modéstia à parte — se for preciso meter o ronco pra cima de
"uma jovem qualquer" (conforme está no anúncio), a
senhora pode ficar certa que a distinta será devidamente
roncada. Mas houve quem se interessasse, pois a notícia
explica que houve. Tem muita gente que prefere uma mu-
lher inquebrável a — por exemplo — uma mulher
inquebrantável.
Depois, madame, observe a malícia do anunciante. Diz que
é de borracha macia. Convenhamos que mulher macia é
mais do gosto da maioria do que mulher encaroçada. E —
sendo de borracha — talvez possa ser esquentada em banho-
maria. Ou talvez fique cálida empregando-se o tradicional
método usado para o chamado saco quente. Estas
considerações devem ter sido tomadas em conta pelos que
responderam prontamente ao anúncio, fazendo centenas de
encomendas.
De todas as vantagens propaladas, aliás, nós só não fazemos
fé naquela que diz que a mulher é "de dimensões normais".
A senhora sabe como é? Isto de tamanho varia muito. Que o
digam as casas de modas que fabricam vestidos de meia
confecção. E há o gosto pessoal também.
É madame, a mulher de borracha para os tímidos é um bom
negócio para o comprador e um grande negócio para o
fabricante. E a senhora pode ficar certa de uma coisa: esta
humanidade anda tão torta, que é bem capaz; de um
camarada com mulher de borracha em casa se apaixonar pela
mulher de borracha do vizinho.

COLCHÃO DE VACA

VOCÊ AÍ, sabia que vaca tem um sentimento cheio de
sutilidades? Agora, sente o drama, vá. Vaca também gosta de
boa vida, de ser bem tratada, merecer o seu elogiozinho,
como qualquer pessoa vaidosa ou precisada do chamado
calor humano. Claro que, no caso da vaca, melhor seria
dizer calor bovino. Mas não se aplica a expressão. Nada se
aplica porque vaca gosta de calor bovino (aliás, ela deve
gostar mais de calor taurino do que de calor bovino) mas é
muito exigente também em relação ao calor humano.
Quem disse isso não foi Freud, no seu substancioso manual.
Quem disse foram os discípulos atuais do Segismundo...
Como, minha senhora? Se o primeiro nome de Freud era
Segismundo? E era, não somente o seu primeiro nome como
também o seu primeiro complexo. — Mas — prosseguindo
— psicanalistas modernos descobriram que vaca é um bicho
muito sutil e muito vaidoso, sendo que este segundo
sentimento qualquer um manja: basta reparar no rebolado
pretensioso de todas as vacas, quando caminham.
Quanto à sutileza das vacas, foram estudos mais apurados
que levaram os psicanalistas à certeza de que vaca bem
tratada é mais gentil. A gente tem que puxar saco de vaca,
para ela dar mais leite.

Antigamente pensava-se que, para vaca dar leite, bastava
puxar suas tetas (lá dela), mas agora já se sabe que também é
preciso puxar saco.
Diz o criador holandês Van Diesen, num livro sobre
pecuária: "Aquele que criar suas vacas em desconforto terá
prejuízo. A vaca melhora sempre sua produção de leite,
quando cuidada com mais carinho e deferência."
E foi para aumentar a deferência para com as vacas que os
pecuaristas europeus passaram a usar colchão de espuma de
borracha nos estábulos. As vacas que dormem em colchão
de espuma ficam muito mais pródigas do que as outras, às
quais se dá um mísero catre de palhas secas para repousar.
Os vendedores de colchões de espuma de borracha para
vacas afirmam que os animais gostam e se acostumam de tal
forma à nova comodidade que, depois de certo tempo,
passam a zelar pela limpeza dos seus leitos.
Enfim, o que eles querem dizer é que vaca tratada com boa
educação também fica bem educada e, depois de um certo
tempo, já não faz mais pipi na cama.

LEVANTADORES DE COPO

ERAM QUATRO e estavam ali já ia pra algum tempo,
entornando seu uisquinho. Não cometeríamos a leviandade
de dizer que era um uísque honesto porque por uísque e
mulher quem bota a mão no fogo está arriscado a ser
apelidado de maneta. E sabem como é, bebida batizada sobe
mais que carne, na COFAP. Os quatro, por conseguinte,
estavam meio triscados.
A conversa não era novidade. Aquela conversa mesmo, de
bêbedo, de língua grossa. Um cantarolava um samba, o outro
soltava um palavrão dizendo que o samba era ruim. Vinha
uma discussão inconseqüente, os outros dois separavam, e
voltavam a encher os copos.
Aí a discussão ficava mais acalorada, até que entrasse uma
mulher no bar. Logo as quatro vozes, dos quatro bêbedos,
arrefeciam. Não há nada melhor para diminuir tom de voz,
em conversa de bêbedo, do que entrada de mulher no bar.
Mas, mal a distinta se incorporava aos móveis e utensílios do
ambiente, tornavam à conversa em voz alta.
Foi ficando mais tarde, eles foram ficando mais bêbedos.
Então veio o enfermeiro (desculpem, mas garçom de bar de
bêbedo é muito mais enfermeiro do que garçom). Trouxe a
nota, explicou direitinho por que era quanto era etc. etc., e,
depois de conservar nos lábios aquele sorriso estático de
todos os que ouvem espinafração de bêbedo e levam a coisa
por conta das alcalinas, agradeceu a gorjeta, abriu a porta e
deixou aquele cambaleante quarteto ganhar a rua.
Os quatro, ali no sereno, respiraram fundo, para limpar os
pulmões da fumaça do bar e foram seguindo calçada abaixo,
rumo a suas residências. Eram casados os quatro entornados
que ali iam. Mas a bebida era muita para que qualquer um
deles se preocupasse com a possibilidade de futuras
espinafrações daquela que um dia — em plena clareza de
seus atos — inscreveram como esposa naquele livrão negro
que tem em todo cartório que se preze.
Afinal chegaram. Pararam em frente a uma casa e um deles,
depois de errar várias vezes, conseguiu apertar o botão da
campainha. Uma senhora sonolenta abriu a porta e foi logo
entrando de sola.
— Bonito papel! Quase três da madrugada e os senhores
completamente bêbedos, não é?
Foi aí que um dos bêbedos pediu:
— Sem bronca, minha senhora. Veja logo qual de nós quatro
é o seu marido que os outros três querem ir para casa.

PRIMO ALTAMIRANDO E ELAS
BIOGRAFIA DE MIRINHO

PRIMO ALTAMIRANDO é nosso consangüíneo apenas por
parte de pai, como, aliás, devem ser todos os parentes.
Porque consangüíneos por parte de pai e mãe, só mesmo
irmãos, pois primos que casam com primos, dá sempre em
bronca. Tia Zulmira costuma dizer: Padres, Primos e
Pombos — os dois primeiros não servem para casar, os dois
últimos só servem para sujar a casa. Como sempre, a velha
tem razão.
Assim o nosso abominável parente é primo por parte de pai
(Gumercindo Tenório Ponte Preta), mesmo porque nunca
teve mãe. Um dia Gumercindo entrou em casa com um
embrulho debaixo do braço, um embrulho de jornal — se
não nos falha a História, o jornal era O Dia — e disse para
Tia Zulmira:
— Trouxe isto para você, mamãe.
Como Gumercindo nunca fora de dar nada a ninguém, todos
correram para ver o que era. Desembrulharam o presente —
era Mirinho. Tio Gumercindo tinha trazido a criança para a
velha criar na sua chácara da Boca do Mato, recusando-se
solenemente a dizer quem era a mãe (de Mirinho
naturalmente), talvez encabulado com o que andara fazendo
9 meses antes do episódio ora relatado.
Hoje Tia Zulmira defende a tese de que Mirinho é de
chocadeira, porque um sujeito com um caráter deletério
como é o do primo, não pode ter tido mãe de jeito nenhum.
Mas passemos aos dados biográficos.
Mirinho nasceu no ano da desgraça de 1926. Para que vocês
tenham uma idéia de como foi diferente o ano de 1926,
basta lembrar que, nesse ano, o São Cristóvão foi campeão
carioca. Aos cinco anos de idade Mirinho conseguiu um fato
inédito na vida dos maus caracteres existentes em todo o
mundo: foi expulso do Jardim da Infância. A professora
pegou-o, no recreio, falando mal de São Francisco de Assis.
Graças aos mais rebarbativos processos de tortura chinesa,
Mirinho conseguiu ao menos se alfabetizar, abandonando os
estudos no 4º ano primário para fugir com a professora de
Ciências Físicas e Naturais, matéria que fazia parte do curso
na época e que o primo resolveu estudar a fundo, para tanto
raptando a mestra e inaugurando sua vida amorosa de forma
escandalosa, como — de resto — tem sido até hoje sua vida
nesse setor.
Aos 15 anos era um esplêndido marginal, com curso
intensivo do SAM e ninguém tinha dúvidas de que haveria
de superar o pai nisso de ser inimigo de todos os códigos,
desde o penal ao de trânsito. O pai tinha como uma de suas
glórias a idéia que um dia deu ao Barão de Drummond, para
inaugurar o jogo do bicho; o filho superava longe
Gumercindo, tantas e tais foram as suas delinqüências
juvenis. A Secretaria da Agricultura do Estado da Guanabara
deverá eternamente este serviço ao nefando parente: foi ele
o primeiro sujeito a plantar maconha no Rio de Janeiro.
Querer ressaltar as principais fases da vida desse cretino é
um pouco difícil, pois não houve ano em que não bolasse
uma safadeza qualquer, dessas de encabular filisteu. Tinha 15
anos incompletos quando fez a primeira freira pular muro de
convento e ainda menor impúbere mobilizou toda a polícia
carioca para se descobrir quem é que andava ajudando as
adutoras do Guandu a furarem os canos com mais
freqüência. Era ele.
As pequenas provas de um mau caráter, que as outras
crianças costumam dar com a idade de 10 aos 15 anos,
Mirinho as deu ainda de fraldas, tais como botar canarinho
no liquidificador, amarrar e acender foguetão no rabo do
gato, passar pimenta na dentadura da avó, atear fogo na saia
da babá (a ama-seca de Mirinho era boa que só vendo, e ele
levou uma surra homérica do pai, porque ao botar fogo na
saia dela, quase queima o principal). Até mesmo Tia Zulmira,
de natural tão compreensiva, perdeu a paciência com ele
quando Mirinho ainda nem falava direito. A velha ficou
justamente indignada porque Mirinho, na hora em que ela
foi ao banheiro, para um proverbial banho de assento,
colocou uma perereca no bidê.
Não queremos dar ao leitor uma impressão falsa do nosso
biografado. Pelo contrário, aqueles que estiverem pensando
o pior de Primo Altamirando, ainda estão longe de fazer
idéia de como ele é. No entanto, tem bom coração. Quando
Al Capone morreu — por exemplo — Mirinho usou gravata
preta e fumo no braço durante um mês. Ficou muito sentido
com o falecimento desse seu ídolo.
Nestes 35 anos de sua vida, já cometeu desatinos para uns
dois séculos, no mínimo, e não há setor da sociedade em
que tenha se metido sem deixar para sempre os vestígios de
sua passagem. Ainda rapazote, deu-se às lides esportivas,
principalmente ao futebol. Foi o primeiro desportista a dar
uma gruja ao adversário para amolecer o jogo.
Suas atividades políticas também são interessantes. Foi
Mirinho quem aconselhou Ademar de Barros a largar a
medicina para se dedicar à vida pública (não contente, fez a
mesma coisa, alguns anos depois, com um médico muito
alegrete de Diamantina, um tal Juscelino). Ainda como
político, aconselhou as autoridades a reabrirem as câmaras
de vereadores de todos os municípios brasileiros e correu o
país de norte a sul, ensinando aos edis eleitos a arte do
jabaculê, da mamata e das grandes negociatas.
No dia em que descobriu que este seu primo Stanislaw
estava fazendo sucesso na imprensa, fez um curso de
jornalismo de araque e foi ser repórter policial. Há,
inclusive, neste livro, uma passagem de suas atividades como
repórter policial. Teve grande influência nas redações de
nossas principais folhas informativas, insistiu muito para que
se desse uma oportunidade aos cronistas mundanos e fez ver
aos secretários de redação que isso da imprensa orientar o
povo é besteira. O ideal é dar destaque aos crimes
hediondos, para o incremento dos mesmos e a conseqüente
abundância de notícias para os jornais.
— Plantar para colher! — costumava dizer o debilóide.
Mas hoje o Primo Altamirando, embora nunca tivesse
trabalhado, resolveu se aposentar. Abriu um escritório de
'corretagem, para contrabando, tráfico de entorpecentes e
prostituição em massa. É do que vive, embora não precisasse
disso, pois nunca deixou de ser gigolô de certas velhotas
ricas da sociedade, que lhe dão do bom e do melhor, e lhe
pagam em dólar, conforme ele mesmo exige, para não ficar
desmoralizado no mundo do crime. Tem certeza de que
poupa a humanidade porque poderia explorá-la muito mais.
Enfim: um homem realizado.

BRONCA DE ESQUINA

TIA ZULMIRA, cheia de experiência e transbordante de saber,
não se cansa de repetir: "Bronca é a arma do otário." E é isso
mesmo. Dar a bronca, até hoje não adiantou o lado de
ninguém. Mas a senhora que blasfemava, na esquina, ainda
não morou nesse detalhe e espinafrava o marido, para gáudio
dos circunstantes, que torciam ao derredor.
Era uma senhora assim dos seus 50 carnavais. Um pouco
castigada pelas intempéries da vida, mas ainda bastante
sacudida. Pelo menos, disposta a botar os rapazes da
Radiopatrulha pra trabalhar. Ciumenta aos potes, era o que
se podia deduzir ou o que deduziu aqui o batucador
datilográfico que, incorporado à turba ignara, esperava o fim
da cena pra ver o bicho que ia dar.
Foi — para sermos mais precisos — na esquina da Avenida
Nossa Senhora de Copacabana com a Rua Santa Clara, quer
dizer, duas artérias do tráfego com nomes de santas, mas que
nem assim a dona respeitava. Pelo que ficou exposto, o
senhor grisalho que ouvia a espinafração com visível mal-
estar era o marido e vinha pela calçada, em sentido contrário
à senhora que berrava (sua esposa), de braço dado com uma
mariposa do luxo e do prazer — como tão bem classificou
um certo tipo de moçoilas desajustadas o poeta urbanista
Orestes Barbosa. Apanhado no flagra, soltou a mariposa e
estava ali, ouvindo aquilo tudo, com platéia das mais seletas.
Para ver o porquê do ajuntamento, chegou um Cosme. Ou
talvez fosse um Damião; não temos certeza. Esses guardas
quando policiam sozinhos a gente nunca sabe se é um
Cosme ou um Damião. O importante é que ele chegou,
pigarreou e lascou em dialeto carioca:
— Qual é o "causo"?
O senhor explicou que não era nenhum, que sua mulher
estava nervosa, que iria levá-la dali, etc., etc. Foi pior. Ela
gritou que com ele não ia nem pro inferno. Tinha 25 anos
de casada e já estava cheia das suas perfídias. Vejam vocês,
casada há 25 anos e ainda tinha um ciúme daquele tamanho.
Já era tempo para acostumar-se com o marido que tinha.
Aí o senhor grisalho não agüentou mais. Ia passando um
lotação. Ele abriu caminho entre os curiosos e entrou na
terrível condução, sem ao menos ver se era via Túnel Novo
ou via Túnel Velho, o que nos deixa com a leve
desconfiança de que ele queria era cair fora dali. Foi chato
porque o lotação não foi em frente logo. Ainda ficaram
entrando outros passageiros, do que se aproveitou a
bronqueadora para também abrir caminho entre os
presentes e ficar apontando pra janelinha, a dizer: "Vai...
mas vai mesmo, desalmado. Não é a primeira vez que você
me abandona."
O lotação meteu uma segunda e foi embora, mas ela não
desistiu. Ficou procurando testemunhas para o seu
infortúnio de ter um marido sempre disposto a amarrar a
cabrita do lado de lá do cercado. Foi então que o rapaz ao
seu lado ficou identificado como filho do casal. Até então
era um rapaz consternado, assistindo à cena. Agora, ela o
segurava pelo braço e espumava:
— Está vendo o cretino que você tem como pai?
Todos olharam pro rapaz. O Cosme (ou seria um Damião?)
segurava o braço direito, o rapaz o braço esquerdo da
mulher, mas ela não queria sair. Queria era mostrar a todos o
infortúnio que a perseguia há 25 anos. Dava conselhos às
moças em volta para não casarem, que os homens não
prestam, que isso, que aquilo. Estava na bica para se tornar
ridícula.
O filho, cansado de tentar livrá-la da curiosidade pública,
deu um puxão mais forte no braço que estava sob sua
responsabilidade. Isto foi o bastante para lembrá-la de que
ele estava ali. Voltou-se de novo contra ele:
— Tá vendo que pai você tem? E não adianta querer me
levar. Ele é que tinha de ir comigo e fugiu. Seu pai é um
cretino.
O filho não agüentou mais:
— Que é que eu tenho com isso, mamãe? Quem escolheu
meu pai foi você.
Gargalhada geral. Até o Cosme (ou talvez Damião) riu. A
velha calou a boca e foi andando. O filho, atrás, aliviado.

DO TANGO AO CHÁ-CHÁ-CHÁ

Diz O TELEGRAMA que os franceses vão fazer uma campanha
de volta às danças amenas. Será a revolução do tango.
Acham que estas danças modernas, tais como "rock", "chá-
chá-chá" e "twist" estão acabando com o flerte porque —
asseguram — ninguém pode dançar freneticamente e
namorar ao mesmo tempo. Estamos com eles: pular como
um macaco que sentou num braseiro e roncar besteira ao pé
do ouvido da dama ao mesmo tempo, é tão difícil quanto
assoviar chupando cana.
Mas os franceses sempre foram um pouco precipitados em
coisas do amor. É ou não é, a senhora aí, que já está ficando
coroa, mas quando esteve em Paris... hem? Vou te contar,
dona. Vou te contar... Os franceses são, não só precipitados,
como renovadores. De repente, tal é a falta de jeito da
geração coca-cola para apanhar mulher, resolvem dar o
berro do revertere e querem as coisas à antiga, isto é, o
tango outra vez, que se dançava coladinho e lentamente,
proporcionando ao casal de bailarinos trocar juras de amor
aquecidas pelo hálito soprado à flor da bochecha de cada
um.
Era uma tese nossa, aliás. Sempre fomos contra essa idéia de
se dizer que o "rock", por exemplo, era uma dança
indecente, justamente porque o frenesi dos bailarinos dá
margem, no máximo, para uma distensão muscular e nunca
para ficar com idéia de jericó. Houve mesmo um TV-Padre,
desses que têm programa na televisão, que ficou meia hora
diante das câmaras, espinafrando o "rock" com argumentos
tão pueris que Primo Altamirando, que assistia ao programa,
começou a achar que o reverendo era contra o "rock" por-
que a batina atrapalha.
Mas deixemos o "rock" pra lá, musiquinha chatíssima e —
graças a Deus — já ultrapassada, e fiquemos com o "chá-chá-
chá", ora em evidência, embora ameaçado pelo "twist", cujos
primeiros discos começaram a ser tocados nos botecos
elegantes do Rio e de São Paulo.
Tia Zulmira, muito recentemente, foi convidada para o júri
de um "Festival de Chá-chá-chá", realizado por damas grã-
finas com o intuito de requebrar sob o pretexto de ajudar já
não nos recordamos que associação benemerente. A velha
aceitou o convite e sentou-se no lugar que lhe reservaram
na comissão julgadora, portando-se com a dignidade que lhe
dá o fato de ser medalha de ouro em valsa vienense.
Terminado o requebrado dos pares concorrentes, um
repórter perguntou à veneranda ermitã da Boca do Mato
quais as suas impressões sobre o "chá-chá-chá". Com aquela
simplicidade que é faceta marcante em sua exuberante
personalidade, Zulmira respondeu: "Foi a primeira vez que
eu vi dançar isso em pé."
Nunca se deve desprezar uma opinião da sábia macróbia,
nem o que acham os franceses de qualquer coisa, em relação
ao amor, mas temos para nós que há uma certa má vontade
para com o "chá-chá- chá" e, principalmente, com o "twist",
cuja principal característica é esta: os pares se requebram
nos mais complicados rebolados, mas não podem nunca
encostar, a não ser do joelho para baixo.
Esta inovação deixou Mirinho apavorado. Quando leu as
regras do "twist" ficou indignado com essa história de só
poder encostar do joelho para baixo quando,
verdadeiramente, todo mundo começa, no duro, do joelho
para cima. E, indo mais longe na sua prévia, garantiu aos
órgãos da imprensa sadia que o "twist" seria desprezado pelas
grã-finas aborígines, "porque sem encostar elas não vão".
Insistimos em dizer: é tudo uma questão de formação. O
tango, de fato, é mais propício a certas coisas, mas nem por
isso o "chá-chá- chá" deve ser desprezado. Os franceses que
nos perdoem, mas falamos de experiência própria. Ainda
noutro dia, estávamos dançando um "chá-chá-chá" legal
com uma desajustada. Ela estava uma graça, naquele
rebolado exótico que inspiram os ritmos afro-cubanos, mas
não deixava a gente chegar perto. Estávamos tranqüilos,
porém, pois enquanto durou a música o distinto aqui dizia
para ele mesmo: "Quando acabar o "chá-chá-chá" ela vai ver
uma coisa."

AS ORELHAS DOS DISTINTOS

NOUTRO DIA uma nota policial — e nós lemos noticiário
policial com a mesma freqüência com que castigamos um
Marcel Proust, um Leon Nikolayevich Tolstoi, uma Pomona
Politis — dizia que determinada doméstica arrancara o nariz
do marido, durante uma briga. Não faz muito tempo, uma
outra nota policial dizia que certa dama, ofendida em seus
brios exclusivistas, aproveitou o fato de o distinto estar
dormindo para lhe arrancar uma orelha, depois o nariz,
assim sucessivamente foi arrancando tudo, fazendo do corpo
do cônjuge um autêntico joguinho de mal-me-quer. A
notícia, entretanto, não informa se a última coisa arrancada
deu bem-me-quer. Tomara que sim.
Agora é um telegrama de Teresina, companheiros. E diz
assim: "Um exemplo inédito de ferocidade feminina (isto é
bom... vamos repetir: ferocidade feminina) ocorreu nesta
Capital, quando Maria Divina, rústica e incontida em seus
ciúmes matrimoniais, resolveu castigar de uma vez por todas
o seu marido, um Don Juan perigoso". E prossegue a nota
explicando que Maria Divina, armada de uma faca, depois de
violento entrevero com o esposo, cortou-lhe as orelhas,
informando-o, em seguida, de que podia ir sacudir as penas
noutros pombais, porque ela ia dar no pé, levando as
crianças. Ato contínuo — queiram perdoar, mas a expressão
ainda é do telegrama — Maria Divina abandonou o lar, após
botar as crianças debaixo de um braço e as orelhas debaixo
do outro.
O desorelhado, quando socorrido num posto médico,
explicou tudo isso às autoridades, que saíram atrás de Maria
Divina, não somente para prendê-la, mas também para
explicar a ela que não era tão Divina assim, fazendo essas
coisas. O telegrama termina dizendo que os filhos do casal
foram localizados na casa de uma parenta onde a
desorelhadora os deixara, para ir buscar um dia destes.
Quanto à Maria Divina, fugiu (o telegrama diz escafedeu-se...
mas, sabem como é, o verbo escafeder não é literariamente
dos mais cheirosos e, portanto, não fica bem num livro
cheio de bacanidades, como é este que ora lêem)... fugiu —
dizíamos — "levando consigo as orelhas do infiel numa
bolsa de feira, dizendo a todos que levava as orelhas do
marido para mostrar a qualquer outro que tentasse enganá-
la".
Você aí, sente o drama, vá. O marido, lá no posto médico,
com sua cabeça chata mais arredondada pouquinha coisa por
falta de pavilhões auriculares, enquanto suas orelhas
passeiam pelo interior do Piauí, numa bolsa de feira. Quando
adiantam à "fera de Teresina" (este apelido é uma
homenagem nossa aos coleguinhas da crônica policial) as
orelhas do ex-marido? Primeiro, que não vão durar muito.
Uma cabeça sem orelhas ainda vá, mas orelhas sem cabeça
estragam logo. Vejam — por exemplo — as orelhas de Jeff
Thomas. São bambas, moles, provavelmente estragadas, pois
o dono delas não tem cabeça.
Ponderemos também que a justificativa de Maria Divina não
procede. Que adianta ela exibir o seu troféu do ato
matrimonial anterior, se marido, quando dá pra sem-
vergonha, não respeita nem filho pequeno, quanto mais a
orelha dos outros? Só se ela é puxada para o masoquismo e
carrega consigo as orelhas do marido para lembrar sempre a
traição e sofrer as picadas contumazes que elas costumam
desferir no amor-próprio dos que se sabem traídos. Mas nem
para atestado de esposa enganada elas servem. Maria Divina
não precisa documentação. Em sociedade tudo se sabe.
E, já que falamos em sociedade, Deus permita que a moda
lançada por Maria Divina, em Teresina, não pegue aqui no
Rio, entre as senhoras enganadas e enganadoras do "café
society". Vocês já pensaram se elas resolvessem arrancar as
orelhas dos maridos traidores? Dentro de muito pouco
tempo, raro seria o grã-fino casado aqui desta Buracap que
poderia usar óculos, por falta de apoio pra a armação.

ESCOVAS MUSICAIS

AMERICANO inventa cada coisa legal, né? Tirante foguete,
tudo que americano inventa é legal. Vejam, por exemplo, a
fita durex. Durante toda a história da humanidade o
embrulho malfeito foi o horror dos que conduziam objetos
debaixo do braço. Vovô Clorofino — irmão de Tia Zulmira
— uma vez passou um vexame no bonde de burro, por
causa disso. Entrou, sentou do lado de uma senhora
respeitabilíssima que era sua vizinha, e botou o embrulho no
colo. Foi chato, o embrulho abriu e apareceram as ceroulas
de flanela vermelha, que ele tinha comprado pro inverno.
Se, naquele tempo, já existisse fita durex, Vovô Clorofino
não tinha passado pelo dissabor de ter a peça íntima olhada
pela dama respeitável, que, segundo se dizia, nunca vira as
ceroulas do próprio marido (quando Tia Zulmira conta esta
história, Primo Altamirando costuma dizer: "Vai ver o
marido não usava.")

Mas, voltemos aos inventos americanos. Agora mesmo eles
vêm de inventar escova de dentes musical. Diz que é legal.
Trata-se de uma escova que, quando a gente passa nos
dentes, ela toca uma musiquinha, para tornar mais ameno o
hábito da ablução bucal, se nos permitem o termo. A escova,
inclusive, ensina o freguês a escovar os dentes, isto é, só
toca a musiquinha se o cara escovar a dentadura no sentido
vertical, que é como mandam os odontólogos.
Primo Altamirando, para escovar os dentes é mais duro que
o time do Madureira para fazer gols no inimigo. Detesta
escovar, Mirinho. Nestes últimos 36 anos, esta tem sido a
grande luta de Tia Zulmira: fazer o nefando parente escovar
os dentes de manhã.
Sabendo disso, mandamos vir dos Estados Unidos a tal
escovinha com música e ontem fomos entregá-la à velha, lá
no casarão da Boca do Mato. Explicamos como funcionava e
esclarecemos que aquilo era uma esperança: talvez, com
música, Mirinho escovasse os dentes:
Tia Zuzu suspirou e explicou que os americanos são práticos
demais e, quando inventam as coisas, esquecem que existem
pessoas excepcionais. E, num desabafo:
— Escova de dentes com música não vai fazer Mirinho
mudar de hábito. Aquele cretino, além de porco, é surdo.

A VELHA CONTRABANDISTA

Diz QUE ERA uma velhinha que sabia andar de lambreta.
Todo dia ela passava pela fronteira montada na lambreta,
com um bruto saco atrás da lambreta. O pessoal da
Alfândega — tudo malandro velho — começou a desconfiar
da velhinha.
Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o
fiscal da Alfândega mandou ela parar. A velhinha parou e
então o fiscal perguntou assim pra ela:
— Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todo dia,
com esse saco aí atrás. Que diabo a senhora leva nesse saco?
A velhinha sorriu com os poucos dentes que lhe restavam e
mais os outros, que ela adquirira no odontólogo, e
respondeu:
— É areia!
Aí quem riu foi o fiscal. Achou que não era areia nenhuma e
mandou a velhinha saltar da lambreta para examinar o saco.
A velhinha saltou, o fiscal esvaziou o saco e dentro só tinha
areia. Muito encabulado, ordenou à velhinha que fosse em
frente. Ela montou na lambreta e foi embora, com o saco de
areia atrás.
Mas o fiscal ficou desconfiado ainda. Talvez a velhinha
passasse um dia com areia e no outro com moamba, dentro
daquele maldito saco. No dia seguinte, quando ela passou na
lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou parar outra vez.
Perguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu
que era areia, uai! O fiscal examinou e era mesmo. Durante
um mês seguido o fiscal interceptou a velhinha e, todas às
vezes, o que ela levava no saco era areia.
Diz que foi aí que o fiscal se chateou:
— Olha vovozinha, eu sou fiscal de alfândega com 40 anos
de serviço. Manjo essa coisa de contrabando pra burro.
Ninguém me tira da cabeça que a senhora é contrabandista.
— Mas no saco só tem areia! — insistiu a velhinha. E já ia
tocar a lambreta, quando o fiscal propôs:
— Eu prometo à senhora que deixo a senhora passar. Não
dou parte, não apreendo, não conto nada a ninguém, mas a
senhora vai mc dizer: qual é o contrabando que a senhora
está passando por aqui todos os dias?
— O senhor promete que não "espáia"? — quis saber a
velhinha.
— Juro — respondeu o fiscal.
— É lambreta.

A VACA E O CÂMBIO

UM COMEÇO de tumulto na Praça Mauá. Veio de lá um
camarada correndo, a gritar: "Tem uma vaca na Praça Mauá,
tem uma vaca na Praça Mauá". Primo Altamirando, que
trafegava nas proximidades, olhou espantado para o cara e
comentou: "Mas isto não é novidade. Lá sempre tem". Mas o
cara explicou que não era isso não. Era vaca mesmo, de
verdade. Aí correu todo mundo, é lógico: uma vaca assim
solta, qualquer um quer, ainda mais agora, que o preço do
leite subiu tanto que uma vaca, praticamente, não é mais um
bicho... é um cofre.
Corre daqui, corre dali, cercaram a vaca. Ela parada no meio
do asfalto e a turma cercando, mas ninguém com peito
bastante para agarrar a bicha. A expectativa era grande. A
vaca pulara de um vagão, no cais do porto. Ia ser embarcada
num navio da Costeira, para um Estado do Nordeste. Devem
ter avisado à vaca que navio da Costeira é aquela miséria,
joga mais que o time do Santos. Devem ter avisado porque a
vaca se mandou. Na hora de embarcar, pulou do vagão e saiu
correndo em direção à Praça Mauá.
Agora estava ali, calma, olhando em volta, procurando um
jeito de continuar seu passeio. O povo em volta, cercando.
Apareceu um voluntário de vaca. Foi se aproximando
devagarinho. A vaca olhando. O voluntário de vaca foi se
chegando, foi se chegando e... pimba... pulou pra abraçar a
vaca.
Vaca, porém honesta. Não é qualquer um que me abraça —
deve ter pensado a bichinha, pois desviou legal e saiu
correndo de novo. Já aí, havia mulheres nervosas, dando
gritinhos, homens menos afeitos à intimidade com o gado
vacum, a se esconderem atrás dos postes, apavorados. A
vaca veio vindo, deu a volta na Praça Mauá e entrou na
Avenida Rio Branco, que nem o lotação "Mauá-Abolição".
Foi quando se deu o imprevisto. Ao invés de continuar pela
Avenida abaixo, como faz o referido lotação, a vaca parou
em frente ao número 25, onde funciona uma casa de
câmbio. Parou, olhou a vitrina e entrou na casa de câmbio.
Todos correram para ver o que ela ia fazer. Foi chato. Ela fez
exatamente aquilo que vaca faz no pasto, pois vaca nunca foi
ao "toilette".
Risada geral. A vaca saiu lá de dentro da casa de câmbio mais
furiosa ainda. Foi um custo para apanharem a coitada. Veio
gente com cordas, veio um especialista em vacas, um
cavalheiro que se agarrou com ela e só soltou quando ela já
estava mais amarrada que homem solteiro depois que diz
sim, ao pé do altar.
Os grupos foram se desfazendo. Todos comentando a fúria
da vaca. Por que teria saído da casa de câmbio tão enfezada?
Vai ver, foi o preço do dólar.

O CINZEIRO AZUL

O HOMEM, para justificar a si mesmo, ou para justificar a
mulher, inventou a máxima: a mulher só engana o homem
por causa dele. Que seja ou que não seja. Não estamos aqui
para desbaratinar os casos de amor dos outros.
O fato é que estes dois estavam brigados. Ela tinha
enveredado aí pelo lado alegre da vida, enfiando o braço
noutro braço, em passeios e namoros que um dia vieram a
ser do conhecimento dele. Brigaram. Lágrimas de parte a
parte: as dela de arrependimento, as dele de sentimento.
Mas não quis perdoar. Um recente samba de Jorge Veiga diz
assim: "O que você fez está feito, não me sinto no direito de
lhe conceder perdão". O samba é bom e não sabemos se ele
o conhecia. Sabemos — isto sim — que agiu como está no
samba. E cada um foi para seu lado, depois de alguns anos
lado a lado nas coisas de amor.
Passou a primeira semana, e ele firme. Não telefonava, não
passava nos lugares onde ela pudesse estar, evitava falar no
assunto mesmo com os amigos mais íntimos. Passou um mês
e ele legal. Fazia força para convencer a si mesmo que já
estava passando a fase aguda da dor de cotovelo, cujo único
remédio é o tempo... e o tempo, irmãos, é remédio de
laboratório homeopático.
Uma tarde o telefone tocou. Era ela. Fingimento de parte a
parte e vem a pergunta que ele não queria ouvir: "Você
sente muito a minha falta?" Engoliu em seco e não mentiu:
— Vamos que eu tivesse ganho, quando tinha menos 10
anos, um cinzeirinho azul. Durante todo esse tempo, o
cinzeirinho azul esteve na minha mesa de cabeceira. Agora
o cinzeirinho azul quebrou. Eu vou sentir falta dele. Pois, se
até com um objeto a gente se acostuma, como é que eu não
vou sentir a falta de quem era o meu amor?
Ela gostou de ouvir aquilo e, timidamente, como as
mulheres fazem sempre, propôs a reconciliação. Ele
agüentou firme, explicando que, depois de partido, o
cinzeirinho azul estava acabado. Não adiantava colar, porque
já não seria a mesma coisa. Foi então que ela disse: "Mas
vamos que você sentisse falta do cinzeiro porque ele sumiu,
alguém roubou, ou qualquer coisa assim. Agora por uma
coincidência qualquer, você torna a encontrar o cinzeirinho
azul".
...e o bestalhão voltou.

MIRINHO E A LEVIANA

TEM MULHER que a gente, por mais que a conheça, não
entende suas reações. Tínhamos uma namorada, no tempo
em que o Dr. Getúlio era considerado o salvador da pátria,
que um dia brigou com a gente porque esquecemos de
elogiar seu vestido novo. Anos depois, em circunstâncias
muito mais amenas, confessou o seu desespero, ao notar que
aceitáramos a briga e não déramos mais sinal de vida.
Houve uma outra que, bastava nos ver contente, amável,
dedicado ao seu lado, para começar a entortar a situação. E
parecia satisfeita, quando — num arroubo de incontida
machidão — pedíamos o nosso boné e sumíamos de sua
vista. Aí ficava desesperada, telefonava chorando e muitas e
muitas vezes, na noite da reconciliação, pedia que
tivéssemos paciência com ela, que a compreendêssemos,
etc., etc. A gente compreendia uns tempos, e lá vinha a
desajustada com os mesmos golpes.
Dessa, como de muitas outras, o homem cansa. Na sua
última falseia mandamos um presente desses de derreter
"vedette" e fomos apanhar perereca em outros brejos.
Amigos comuns cansaram de tentar uma reconciliação que,
só de pensar, nos provocava um tédio profundo. Ela ficou a
tentar mil e um pequenos golpes, na esperança de recuperar
toda uma situação que desfrutou sem precisar de golpe
nenhum e hoje não desfrutará mais, nem com um grande
golpe, amparada pelas Forças Armadas e os novos marechais
de pijama.
"Mulher é um caso sério" — costumava dizer Gumercindo
Ponte Preta, pai de Mirinho. E, não raro acrescentava:
"Mulher é bom para quem tem muitas". Já Altamirando é
um predestinado. Faz tanta sujeira com mulher, que elas
acabam, indefectivelmente, passando o primo para trás.
Ultimamente ele arranjou uma namorada que parece adorá-
lo. Ao menor aceno, ela aparece dócil, carinhosa, amante.
Mas resolveu passar o primo pra trás aos sábados. Diz
Mirinho que é batata. Já fez a experiência diversas vezes.
Todo dia ela topa, mas aos sábados inventa que tem que ir ao
aniversário de uma tia. Como não acreditássemos nessa
fatalidade sabatina, no último sábado fez a experiência em
nossa frente. Antes já havíamos constatado o amor da pe-
quena por Mirinho...
No sábado ele telefonou e convidou para um programa dos
mais aceitáveis. Ela murmurou de lá que era uma pena, mas
a tia fazia anos e ela tinha que ir à festinha.
— Essa tua tia já deve estar com uns 180 anos — protestou
Mirinho. Ela desconversou, gaguejou um pouco e — para
provar mais uma vez que mulher é bom para quem tem
muitas — manteve a recusa. Iria ao aniversário da tia.
— Tá certo — exclamou Mirinho; e com aquele seu cinismo
habitual: — Faço votos para que sua tia seja muito feliz e esta
data se reproduza por muitos e muitos sábados.


PARAÍBA

AZEVEDO E PEÇANHA vestiram o paletó e desceram para a
rua, na disposição de fazer uma farrinha. Ainda no elevador,
Azevedo fez ver a Peçanha que o laço de sua gravata estava
um pouco frouxo. Peçanha agradeceu e ajeitou o laço.
Afinal, iam em demanda de uma possível aventura amorosa
e a elegância era detalhe importante.
Caminharam pela Avenida N. S. de Copacabana e foram su-
bindo em direção ao Lido, conversando animadamente e só
interrompendo a conversa quando passava uma moça.
Sozinha ou acompanhada, todas as moças que passavam por
Azevedo e Peçanha ganhavam olhares pidões, tão comuns
aos conquistadores baratos, de beira de calçada.
Era sábado, dia em que se definem os que andam pela aí,
caçando o amor. Azevedo parou na esquina do Lido e
perguntou para Peçanha:
— Que tal se fôssemos até o "Alfredão"?
Peçanha achou que lá havia sempre muita concorrência. As
mulheres supostamente fáceis,- quando há muita gente em
volta, dando em cima, tornam-se superiores e esquivas,
fazendo-se mais preciosas pela disputa de seus carinhos. Mas
como Azevedo ponderasse que muitos dos homens que vão
ao "Alfredão" não chegam a ser propriamente homens,
Peçanha concordou.

Entraram no bar, Azevedo acendeu um charuto, ofereceu
outro a Peçanha, que recusou com um gesto másculo.
Preferia cachimbo, que tirou do bolso e começou a encher
de fumo, enquanto pediam algo para beber. O garçom
acabou partindo para ir buscar uísque puro, só com gelo e
olhe lá.
Uma garota de olheiras profundas passou pela mesa e
Peçanha mexeu com ela. A garota sorriu. Então Azevedo
convidou-a para tomar alguma coisa. E como as demais
pequenas que estavam no bar pareciam todas acompanhadas,
ficou só aquela para ser dividida entre Azevedo e Peçanha.
No fim de algum tempo, tanto Peçanha como Azevedo
estavam caindo de tanta bebida. Pagaram a conta. Azevedo
apagou o resto do charuto no cinzeiro e quis partir só,
rebocando a pequena. Peçanha estranhou a atitude de
Azevedo, acabaram discutindo e começou o clássico festival
de bolacha. Entrou a turma do deixa-disso, veio o guarda e o
resultado da farra ali estava: além da garota disputada a tapa,
também foram parar no xadrez as duas brigonas.
Sim, porque o nome todo de Azevedo é Maria Tereza
Azevedo. Quanto a Peçanha: Walquíria. Walquíria Peçanha.

CONTINHO DE NATAL

DEIXOU O TRABALHO e foi andando pela rua, olhando as
vitrinas. Cada preço de encabular senador. Mas não queria
chegar em casa sem levar qualquer coisa para a família.
Então continuou olhando para os artigos expostos nas portas
das casas comerciais.
Num instante percebeu que levar um presente para cada um
era impossível. O dinheiro que trazia no bolso não daria para
tanto, ainda mais porque, na época de Natal, o comércio
aumenta tudo, cobrando da gente aqueles anjos tocando
trombeta que eles penduram nos postes, que nem lista de
bicho, dizendo que é colaboração dos comerciantes para
alegrar o Natal. Colaboração mais desgraçada, que eles dizem
que é deles, mas quem paga é a gente.
Uni brinquedo que pudesse ser desfrutado por todos os
filhos; talvez. Mas qual? As meninas iam apreciar uma
boneca. Sim, uma boneca faria a alegria de suas filhas, mas
causaria tremenda decepção aos meninos. Em compensação,
se levasse uma metralhadora de matéria plástica (vira
diversas,, que as fábricas de brinquedo fazem para incentivar
o crime), os garotos iriam vibrar de contentamento. As
meninas, porém, talvez chorassem de desalento.

Resolveu então comprar alguma coisa de comer. Aí estava.
Uma coisa de comer poderia ser apreciada por todos. Um
peru, ou mesmo um frango, que peru de pobre pode
perfeitamente ser um frango. Para comprar um peru
daqueles que estava vendo pendurado num gancho do
armazém, só com fiador. O frango também era caríssimo.
Puxou o dinheiro que trazia no bolso, contou, recontou e
entrou ali mesmo para comprar o presente de Natal da
família. Pouco depois voltava pra casa. Abriu a porta e gritou
para os filhos:
— Alarico, Odete, João Pessoa, Gustavo, Firmina, Olivinha,
Jussara, Inez, Júlio, Juscelino, Abraão... Corram todos aqui,
que papai trouxe o presente pro Natal.
Os filhos acorreram ao chamado e a esposa também. Ele
então, com ar triunfante, botou uma castanha em cima da
mesa, esfregou as mãos e disse:
— Vai buscar uma faca pra gente dividir esta castanha.
E antes que alguém avançasse na castanha, berrou:
— Calma, que dá pra todos!

ESFORÇO CEREBRAL

Diz QUE ERA um menininho visivelmente retardado mental.
Tinha aquilo que nossos avós apelidaram de "cabeça-dágua",
falava embaraçando a língua e sorria aquele sorriso alvar que
está sempre pendurado nos lábios dos debilóides. Quem
olhava pro menininho via logo que ele nascera com
cachumba mental.
Só a mãe do menino não percebia, coitada. Mãe — sabem
como é — procura sempre dourar a pílula, para se iludir
sobre os defeitos dos filhos. Mas até mesmo ela acabou por
se convencer que o filho não daria nem pra cronista
mundano, tal o grau de debilidade mental a que ele chegara,
coisa que ela percebeu diante da alegria do menininho
quando via programa de televisão.
Então a mãe resolveu levar a criança a um psicanalista.
Como ela era muito rica, foi logo a um dos maiores ficeleiros
desta praça e tá na cara que o psicanalista, vendo no
menininho um freguês firme, tratou de convencer à senhora
que aquilo tinha cura. Explicou que a criança não era tão
retardada assim, que um tratamento adequado poderia
recuperá-la, etc., etc. E para provar o que dizia, perguntou
pra criança: — "Quanto é um e um?"

O menininho ficou de olhos vidrados, surgiu no seu
semblante um esgar de super-esforço e ouviu-se um ruído
estranho, um som cavo de trovoada que vinha do cérebro
dele. De repente o menininho abriu a boca e saiu: "Um e um
— dois". A mãe ficou encantada, o médico com ares
jubilosos e o menininho verde de cansado.
A pobre senhora não cabia em si de contente e quis logo
saber quanto eram dois e dois. O médico ficou meio
preocupado com o resultado de mais esta prova, mas ouviu-
se novamente o ronco que vinha de dentro da cabeça do
menino, começou a rodopiar os olhos e babando de esforço
sussurrou: "Dois e dois — quatro".
A mãe exultante agradeceu muito ao médico, prometeu
voltar para outra consulta e, agarrando o debilóide pela mão,
foi saindo do consultório feliz como um passarinho. Já lá
embaixo, não agüentou e, para ficar mesmo convencida de
que seu filhinho poderia se recuperar, perguntou: —
"Filhinho, quanto são quatro e quatro?". Mas aí foi demais. O
ronco na cabeça da criança foi aumentando, aumentando, os
olhos pularam das órbitas, começou a sair uma espuma roxa
das narinas do menino e ouviu-se aquele estouro:
BUUUUM! Foi miolo pra todo lado.

AVENTURAS DE ROSAMUNDO

DISTRAÍDO, mas distraído mesmo, era Rosamundo das
Mercês, que durante certa época foi sócio de Mirinho (os
dois tinham um escritório de vender apólices falsas). Aliás, o
primo acabou com a sociedade porque Rosamundo era
distraído demais c prejudicava o negócio.
Um dia Rosamundo combinou com uma vida-torta, com a
qual ele mantinha um caso amoroso legal, que jantariam na
casa dela. Quando chegou a noitinha, Rosamundo fechou o
escritório e telefonou para casa.
Rosamundo telefonou pra casa e quando a mulher atendeu,
foi logo dizendo: — "Hoje não vou jantar. Dê um beijo nas
crianças". Em seguida desligou o telefone e ligou para a
outra. No que ela disse alô, Rosamundo meteu uma voz doce
e disse:
— Querida.
Ela respondeu:
— O que é?
E Rosamundo, todo derretido: — Prepara um jantarzinho
bem gostoso que eu vou levar uma surpresa para você. — E
como ela insistisse em saber o que era, Rosamundo foi
dando logo o serviço: era um colar de pérolas legalzinho,
que lhe custara 50 pacotes (o preço na hora ele não disse,
mas pensou).
Daí Rosamundo desceu, pegou um táxi e se mandou para a
casa da vida-torta, onde chegou meia hora depois,
assoviando "Tico-tico no fubá" em ritmo de valsa. Era
distraído demais, Rosamundo. Foi entrando e abraçando a
dona e colocando logo o colar no seu pescoço e pedindo um
beijinho e dizendo que estava com fome e querendo saber o
que tinha para comer.
Ela, encantada com o presente, agradeceu muito e
perguntou se Rosamundo estava maluco. Já nem o esperava
mais pra jantar. Pois se meia hora antes ele telefonara
dizendo que não viria mais... e ainda mandara dar beijos nas
crianças. E meio desconfiada, perguntou: — "Que crianças?"
Rosamundo nem respondeu. Caiu sentado numa poltrona,
deu um tapa na testa e exclamou:
— Puxa vida... se foi pra cá que eu telefonei dizendo que não
vinha jantar, então foi pra minha mulher que eu prometi
levar o colar.

ROSAMUNDO NO BANHEIRO

As HISTÓRIAS DE ROSAMUNDO — o distraído — são
verdadeiras. E bárbaras. Teve o caso do dia em que ele
comprou o livro Tia Zulmira e Eu, do famoso escritor
brasileiro Stanislaw Ponte Preta, que todo mundo conhece
como um dos luminares da nossa literatura moderna.
Rosamundo comprou o livro no dia do seu lançamento
(quer dizer, lançamento do livro, não de Rosamundo). Pois
comprou e ficou tão interessado que começou a ler na porta
da livraria. Chamou um táxi, entrou no dito, e mandou tocar
para o edifício onde mora, percorrendo todo o itinerário
com a cara enfiada no livro, a ler gulosamente o fabuloso
escritor.
Ora, se Rosamundo é distraído no simples, imaginem a ler
um livro com tanto interesse. Tinha que dar em besteira.
Rosamundo saltou do táxi, pagou a corrida, e entrou no
prédio a ler o livro. Chamou o elevador, saltou no seu andar,
abriu a porta e — após tirar o paletó e colocar o livro sobre
um móvel — foi direto para o banheiro, tomar seu banho
rápido, para poder continuar, a leitura.
No banheiro, abriu o chuveiro e foi entrando debaixo, a
cantar o fado aquele que diz "só porque és riquinlegante,
queres que eu seja seu amante, etc., etc." Ele detesta fados,
mas está sempre distraído. Tão distraído que, acabado o
banho, olhou para fora do boxe e viu que não tinha toalha.
Então abriu a porta do banheiro e berrou:
— Como é, mulher. Nesta porcaria desta casa não tem
toalha?
A mulher trouxe a toalha e enfiou a mão pela porta
entreaberta do banheiro. Rosamundo, molhado e pelado,
quis fazer um agradinho nela e puxou-a pelo braço para
dentro do banheiro. E só então morou no vexame. A
mulher que puxara era a do vizinho. Rosamundo tinha
entrado no apartamento de baixo.

MULHER REFORMADA

HÁ QUEM DIGA que Rosamundo deve pensar que quem
descobriu o Brasil foi o Duque de Caxias, de tanto que ele
confunde o patrono do nosso Exército com Pedro Álvares
Cabral. Não têm conta às vezes que Rosamundo entregou a
um vagabundo qualquer uma cédula de mil cruzeiros, com
linda pose de Cabral, pensando que era uma japonezinha de
duas pratas, com o semblante do Duque, à guisa de esmola.
A mulher de Rosamundo já o proibiu do vício do óbolo, na
certeza de que a distração e filantropia são duas coisas que
não combinam. Aliás, a mulher do Rosamundo era bem
feinha, prova de que, até pra casar, o infeliz se distraiu.
E foi justamente por ser feia que a mulher de Rosamundo
resolveu fazer uma recauchutagem para surpreender o
marido.
Durante a habitual temporada em Petrópolis ela fez que
subiu a serra e foi, mas é pra uma clínica de um desses
médicos bárbaros para reformar mulher bagulho: um
cirurgião-plástico.
Botou nariz novo, afinou cintura, tirou barriga, esticou a
pele, amendoou os olhos. Fez misérias. E, não contente, saiu
direto da clínica para um salão de beleza, onde tingiu os
cabelos e castigou um penteado desses modernos, que a
mulher parece que está com uma moringa na cabeça.
Assim completamente remodelada e até que mais jeitosa,
apareceu em casa. Foi entrando e nem disse palavra, foi
encontrar Rosamundo na sala e tacar-lhe um beijo estilo
desloca-maxilar. Rosamundo ficou verdadeiramente
encantado e surpreendido com a mulher.
Mas puxa!... Rosamundo é um bocado distraído. Passou a
noite toda naquele encantamento e só na manhã seguinte é
que fez a primeira referência à vida do casal. Virou-se para a
mulher e disse:
— Filhinha eu acho bom você deixar o número do telefone
e ir caindo fora, que minha esposa está em Petrópolis e pode
chegar de repente. Se ela encontrar você aqui vai dar uma
bronca desgraçada.

VIVA O MORTO!

ROSAMUNDO estava no quarto, suando em bicas, para abotoar
o colarinho e dar o laço da gravata. No verão ele detesta
essas coisas protocolares e, se pudesse, iria até à posse de
diretor de autarquia, com discurso, filmagem da "Atlântida"
e presença de altas autoridades, em ceroulas. Mas era o
aniversário de seu afilhado e Rosamundo tinha que
comparecer, levar presentes, ajudar — na qualidade de
padrinho — o aniversariante a apagar as velinhas do bolo.
Enfim, aquela chateação.
Já estava prontinho para sair, com o embrulho do presente
debaixo do braço e o pescoço envolto em suor e colarinho
engomado, quando o telefone tocou. A mulher atendeu e
disse um "Não" de espanto. Agradeceu a informação e,
virando-se para Rosamundo que, distraidamente, tinha
jogado a cinza do charuto no aquário dos peixinhos:
— Morreu o chefe da sua repartição!
Mais aquela. Se fosse ao aniversário não teria tempo de
passar no velório, se fosse ao velório não daria tempo para
entregar o presente do afilhado. Ficou naquela indecisão de
todos os distraídos e acabou resolvendo a coisa de maneira
mais prática: iria dar um pulinho no velório, faria um pouco
de presença e depois se mandava para o aniversário. Das
duas chateações, a menor.
Foi o que fez.
Chegou esbaforido no velório do chefe da repartição, com
aquele embrulho de presente debaixo do braço e parece que
sofreu a influência do referido embrulho porque, mal entrou
na sala, dando com o corpo do chefe em cima da mesa,
cercado por quatro velinhas, nem conversou: com sua
distração habitual, encaminhou-se para a viúva, entregou-
lhe o embrulho e disse:
— Muitas felicidades pelo dia de hoje.
Depois, sempre com aquele ar ausente que é faceta marcante
de sua entortada personalidade, dirigiu-se para a mesa onde
estava o falecido, soprou as velinhas e cantou o "Parabéns
pra você nesta data querida".

"VAI DESCER?!"

DEPOIS TEVE O CASO do dia em que Rosamundo ficou doente.
Era — ao que parece — um vírus qualquer que Rosamundo
arranjou. É que estava incomodando mais que disco de
Orlando Dias na vitrola do vizinho. Então Rosamundo foi ao
médico.
O consultório do médico de Rosamundo fica na cidade, num
desses prédios que a desmoralizada e saudosa Prefeitura
deixava construir, com milhares de cubículos à guisa de
cômodos conjugados — segundo expressão de um dos
grandes calhordas imobiliários desta praça. Rosamundo foi,
entrou no consultório e ficou na salinha de espera,
aguardando a sua vez.
Mas, de repente, Rosamundo começou a suar frio. Ainda
tentou agüentar a mão, disfarçar, pensar noutra coisa. Mas
foi impossível. Levantou-se apressadamente, perguntou à
enfermeira onde ficava o banheiro.
— Segunda à esquerda, ali no corredor — foi a resposta.
Rosamundo não esperou mais. Saiu da saleta de espera pelo
corredor, como um doido, contou a primeira porta, abriu a
segunda e entrou. Era um cubículo escuro, como sói
acontecer nos prédios como aquele, mas isto não teria a
mínima importância, se não houvesse uma senhora, com ar
muito digno, parada no meio do "toilette" com cara de quem
espera alguma coisa.
Rosamundo ali naquele aperreio e a dona parada que nem
parecia. E o tempo passando. Cada segundo parecia um
século. E ela nem nada. Parada e tranqüila. Nessas horas é
que Rosamundo perguntou:
— A senhora não vai sair daí?
Ela estranhou a pergunta, mas com toda classe, quis saber:
— Por que, cavalheiro?
— Porque eu preciso usar este banheiro.
A dama pensou que Rosamundo fosse maluco e com o
maior desprezo, informou:
— Por favor, o senhor use depois que chegarmos ao térreo e
eu saltar, cavalheiro. Porque isto aqui não é um banheiro.
Isto aqui é um elevador.


O TERCEIRO SEXO

O NOSSO CARO AMIGO ROSAMUNDO, quando foi tirar
carteirinha de jornalista no Ministério do Trabalho, provou
que a pessoa pode ser distraída, que isso não diminui o seu
senso de observação.
O Rosa, depois de muito insistirmos, resolveu ir tirar a
mencionada carteirinha, um pouco encabulado, diante desse
mundo de calhordas que se esconde atrás de uma carteira de
jornalista para conseguir favores e exorbitar da profissão.
O distraído lá esteve, no Ministério do Trabalho. Depois de
subir várias escadas, porque não percebeu que no prédio
havia elevador, Rosamundo foi atendido por uma
funcionária pára que fizesse a indispensável ficha pessoal. E
foi aí que ficou ratificada a nossa teoria de que a pessoa pode
ser distraída, que isto não importa em que seja menos
observadora. A funcionária perguntou:
— Nome?
— Rosamundo das Mercês — respondeu.
— Idade?
— 39.
— Local do nascimento?
— Buracap.
— Sexo?
— Terceiro.
— Como? — estranhou a funcionária: — O senhor é do
terceiro sexo?
— Sou sim senhora.
— Quer dizer que o senhor não é nem do sexo feminino,
nem do sexo masculino?
— Sou do sexo masculino — respondeu Rosamundo, com
dignidade.
— Então o senhor não é do terceiro sexo — atalhou a dama,
meio sobre a indignada.
E Rosamundo: — Sou sim senhora. É que ultimamente
certas coisas progrediram tanto, que o masculino passou pra
terceiro, dona.

O 1º DE ABRIL

No DOMINGO PASSADO Rosamundo chegou em casa para o
almoço, depois de um substancial mergulho no Atlântico sul
(Ala de Ipanema), e não vendo movimento nenhum na casa,
berrou: — Jurema!!!
O grito ecoou pela casa toda e Jurema não apareceu, o que,
aliás, é justo: Jurema foi a primeira mulher de Rosamundo,
da qual se separou vai pra seis anos. Encabulado da própria
distração, gritou pela mulher certa:
— Clotilde!
E neca. Clotilde não estava. O Rosa achou estranho, mas foi
tomar seu banho. Só quando passou pelo corredor, enrolado
na toalha, é que deu com o bilhete preso no espelho. Dizia
assim: "Rosamundo, já não te suporto mais. Isto já não é de
hoje, mas só hoje resolvo ir embora. Não tente reconciliação
porque já gosto de um outro alguém".
A mulher de Rosamundo sempre foi de pouco refinamento.
Adora filme de Mazzaropi, disco de Anísio Silva e a
expressão "um outro alguém", que leu certa vez num poema
de J. G. de Araújo Jorge, outra de suas paixões. Rosamundo
ficou com o bilhete na mão, sem entender direito. E já ia
cair sobre uma poltrona com o impacto da notícia, quando
se lembrou que era o 1º de abril. Sorriu compreensivo e
deixou pra lá. Sua mulher era um bocado brincalhona.
O diabo é que passou o domingo, ele esperou durante toda a
segunda-feira, toda a terça-feira e hoje — quarta-feira —
começou a achar que era 1º de abril demais. Vestiu-se para ir
à casa da mãe de Clotilde, dar queixa da mulher. Ao abrir a
porta viu um chapéu no cabide. Botou na cabeça e o chapéu
desceu até o nariz:
— Bem que me disseram que o Cabeção dava em cima dela
— pensou Rosamundo.

ROSAMUNDO E OS OUTROS
BIOGRAFIA DE ROSAMUNDO

ROSAMUNDO DAS MERCÊS — e o nome parece escolhido a
dedo, pois sua proverbial distração deixa-o sempre à mercê
de tudo — nasceu no Encantado, em 1922, ano do
Centenário da Independência, ano em que o América F. C.
conseguiu ser campeão, ano portanto não muito comum.
Nasceu, aliás, de 10 meses e aí já vai um fato extraordinário,
pois todo personagem que não é normal, geralmente é de
sete meses. Rosa é de dez e há quem diga que isto já foi
distração de sua parte: esqueceu de nascer.
Se é verdade ou não, não posso dar informe. Só sei que,
realmente, nunca vi ninguém mais distraído: jamais conheci
um camarada com tanta capacidade para entrar em frias por
causa de sua abstração; em tempo algum haverá um sujeito
de presença tão ausente. Filho de Ignacio das Mercês
(bicheiro) e Conceição de Tal (após o casamento ficou sendo
também das Mercês, é óbvio) que era a lavadeira de Tia
Zulmira, Rosamundo é de origem humilde e teria se
transformado num inútil qualquer, não somente por não ter
posses para aprender, como também por ser incapaz de se
fixar em coisa alguma, muito menos no erradíssimo plano de
ensino do nosso querido Brasil. Não fosse a impressionante
capacidade pedagógica de Tia Zulmira e o Rosa hoje era um
marginal pela aí, talvez public relations, talvez um deputado,
sei lá.
Deu-se que era ele quem levava a trouxa de roupa lavada do
Encantado à Boca do Mato, onde reside a sábia parenta. Toda
semana aparecia por lá, de alva trouxa à cabeça, sorriso
simpático e ar jovial. Numa dessas vezes, houve eclipse do
sol e tudo escureceu. Distraído às pampas, quando viu que
estava escurecendo, Rosamundo tratou de tirar a roupa e
deitar-se. Suas ações sempre foram praticamente maquinais.
Deitou-se no sofá da sala e dormiu logo, como sói acontecer
com os inocentes. Distraído às pampas, nunca mais voltou
para o Encantado.
Claro, Tia Zulmira poderia tê-lo alertado, Conceição poderia
ter subido até a Boca do Mato para reclamar o filho, mas, se
Conceição subiu, ninguém sabe, ninguém viu. Sabe-se, isto
sim, que titia, prenhe de boas intenções, praticamente
adotou o rapazote e ensinou-lhe as primeiras letras, as
primeiras noções de aritmética e acabou sendo sua mestra
no trivial. Hoje Rosamundo tem até curso superior e só não
exibe os diplomas porque sempre esqueceu de ir buscá-los
ao final do curso.
Aos 20 anos Rosamundo teve o seu primeiro emprego no
Ministério do Trabalho: oficial-de-gabinete do Ministro,
emprego que durou apenas alguns meses, justamente o
tempo em que o Ministro levou para aparecer pela primeira
vez no gabinete. O Rosa, que nunca tinha visto S. Exa. ali,
perguntou: — O senhor quer falar com o Ministro? — o
Ministro, para gozá-lo, respondeu que sim e o Rosa
estrepou-se, ao fazer esta justa, mas distraída observação:
— Então o senhor trate de procurá-lo em casa, pois o
Ministro é um vagabundo e nunca aparece aqui.
Sua segunda arremetida no setor profissional foi mais
desastrosa ainda. Por ser baixinho e leve, foi ser jóquei e, na
corrida de estréia, mal foi dada a saída, saiu com o cavalo
para o lado contrário, vítima de mais uma crise de distração.
Creio que não é preciso acrescentar que antes mesmo de
desmontar do cavalo já estava despedido.
Daí para a frente fez de tudo: foi garçom e serviu goiabada
com molho ao vinagrete para um freguês; foi investigador de
Polícia e um dia encanou o delegado e soltou um facínora;
foi até aeromoço e neste emprego quase que morre. Um dos
passageiros pediu cigarros e, como não havia a bordo,
Rosamundo abriu a porta para ir comprar lá fora. O avião
estava a 4 mil metros de altura e — felizmente — ele foi
agarrado a tempo.

Tá na cara que um camarada distraído assim não dava certo
em emprego nenhum e, de decadência em decadência, ele
acabou arrumando um reles empreguinho de vendedor de
bilhetes de loteria. Foi a sua salvação: no primeiro dia logo
esqueceu de vender os bilhetes e quatro deles saíram
premiados, sendo que um com o primeiro prêmio e outro
com o segundo. Ficou rico, entregou o dinheiro para Tia
Zulmira usar como bem entendesse e hoje ambos vivem de
rendas.
Claro que Rosamundo não mora na Boca do Mato, caso
contrário Zulmira não seria ermitã. Reside num hotel da
Zona Sul e não melhorou nada. Ainda recentemente levou o
maior baile, pois convidado por uns amigos para ir pescar na
Barra da Tijuca, aceitou o convite e apareceu lá de
espingarda. Mas é um esplêndido rapaz: amável e muito
atencioso, quando não baixa o santo da distração sobre ele.
Tem seu fraco por mulheres, já foi casado duas vezes e em
ambas deu-se mal, pois esqueceu o endereço do lar e foi
dormir com outra; tem mania de comprar discos, embora
não tenha vitrola. Como todo cara meio abilolado, gosta de
adquirir novidades farmacêuticas: entra nas farmácias,
compra quilos de remédio mas nunca toma nenhum.
Escreveu um livro excelente, chamado O Crime Foi Suicídio
(literatura policial), que não foi publicado porque
Rosamundo deixou os originais num lotação.
Enfim, as distrações de Rosamundo distraem a gente.

O ANJO

O MARIDO SOLTO NO VERÃO — por força do veraneio da
família — é um homem que muda por completo seus
hábitos e atitudes ao sentir-se libertado dos compromissos
domésticos. É um homem sem horário para comer, para
dormir e até mesmo para trabalhar.
O marido em disponibilidade nos dias úteis, porque no
domingo sobe para Petrópolis, Teresópolis, Friburgo ou lá
onde tem a família, assume uma segunda personalidade, até
então insuspeitada, e é um homem de estranhas atitudes,
mutáveis segundo a influência de amigos e acontecimentos.
Tenho encontrado maridos a fazerem as coisas mais
extravagantes possíveis, qual boi de curral, que — segundo
dizem os entendidos em gado vacum — quando solto no
pasto lambe-se todo. E, dentre esses maridos, o mais
estranho é o tímido. Tomo para exemplo o Rosamundo, cuja
esposa, senhora de proporções — digamos —
cinemascópicas, cerrado buço e intransigência doentia, sofre
de pertinazes pruridibus cutaneus, doença que o vulgo
houve por bem denominar brotoejas. Tal senhora, mal
começam a subir os termômetros, sobe também, mas para a
serra, a se coçar toda e a lamentar as férias forçadas que dará
ao marido, criatura quase santa, homem que terá entrada
franca no céu se, quando lá chegar, mostrar a fotografia da
esposa a São Pedro.
Ele faz parte do grupo dos maridos que, mesmo com ampla
liberdade de ação, permanecem tímidos e sossegados num
canto, pouco aproveitando a folga matrimonial. Pelo
contrário até, noutro dia foi visto a comprar revistas de
palavras cruzadas, numa banca de jornal. Surpreendido no
ato da compra, explicou:
— É para resolver na cama, enquanto o sono não vem.
Assim é o homem pacato. Mas, dizia eu, um marido solto é
um enigma e este não é melhor que os outros. Acredito
mesmo que o tímido, quando insuflado pelos amigos, é
capaz das mais extravagantes aventuras.
Foi assim com este. Era, segundo lhe diziam, uma festinha
pré- carnavalesca, coisa íntima. Só gente da corriola — se
me permitem o termo. Rosamundo, de princípio — e disso
sou testemunha — não queria ir. Vamos que a mulher
telefonasse de madrugada, vamos que estivesse na festa uma
conhecida dela, vamos uma porção de coisas, que o homem
medroso cria uma série de dificuldades antes de se decidir.
Contornadas todas essas hipóteses dramáticas, amigos e
conhecidos acabaram por convencê-lo a ir... e bebeu-se
fartamente ao evento. Ele também tomou umas e outras
tanto que, quando soube que o negócio era na base da
fantasia, gritou entusiasmado:
— Eu vou de anjo!
Arranjou uma camisola enorme (provavelmente da esposa),
umas asas de papelão, uma auréola de arame e saiu para a
rua, à procura de um táxi. E, como já se sentisse um outro
homem, na ausência do táxi entrou mesmo num lotação,
criando inclusive um caso na hora de saltar, porque cismou
que anjo tem abatimento em qualquer condução.
A festa não era tão íntima assim como disseram os amigos.
Segundo suas próprias palavras, era "um pagode de grande
rebolado", no qual ele se meteu todo, já sem nenhuma
prudência, cumprimentando senhoras conhecidas,
deixando-se fotografar abraçado a uma baiana decotadíssima
que encontrara numa volta do cordão, enfim, esteve
distraído.
Foi no dia seguinte de manhã que o medo voltou a baixar
sobre sua consciência. Mesmo antes de abrir os olhos, pedia
a Deus que ninguém lhe tivesse atirado confete, porque
confete é uma coisa de morte que a gente pensa que limpou,
mas que, meses depois, ainda aparece no fundo do sapato, na
dobra da ceroula, nos mais variados lugares.
Até a véspera de subir para o fim de semana, remoeu-se em
dúvidas e suspeitas: sua mulher já saberia de tudo? Estaria
esperando sua chegada para explodir? Essas e dezenas de
outras perguntas se fez até o momento de rumar para
Petrópolis. Antes comprara todas as revistas semanais, até o
Monitor Mercantil ("nunca se sabe!"), com medo de que
alguma delas tivesse publicado o seu retrato, de anjo
abraçado à baiana decotada, de quem conseguira o telefone,
mas a quem tivera a prudência de não telefonar.
Sossegou somente com a idéia de que, sendo a mulher como
era, se soubesse de alguma coisa, não esperaria sua chegada
para desabafar — teria descido com brotoeja e tudo. Foi mais
aliviado, portanto, que chegou em casa, abriu a porta e deu
com a gordíssima esposa a esperá-lo.
— Como vai, meu anjo? — disse ela.
Desmoronaram-se todas as suas esperanças. Após um
tremido "pode deixar que eu explico", contou tudo que
acontecera, sem perceber que aquele "meu anjo", com que
ela o saudara, era apenas uma carinhosa expressão de esposa
saudosa.

CONVERSA DE VIAJANTES

É MUITO INTERESSANTE a mania que têm certas pessoas de
comentar episódios que viveram em viagens, com
descrições de lugares e coisas, na base de "imagine você
que..." Muito interessante também é o ar superior que
cavalheiros, menos providos de espírito pouquinha coisa,
costumam ostentar depois que estiveram na Europa ou nos
Estados Unidos (antigamente até Buenos Aires dava direito a
empáfia). Aliás, em relação a viajantes, ocorrem episódios
que, contando, ninguém acredita.
O camarada que tinha acabado de chegar de Paris e — por
sinal - com certa humildade, estava sentado numa poltrona,
durante a festinha, quando a dona da casa veio apresentá-lo a
um cavalheiro gordote, de bigodinho empinado, que logo se
sentou a seu lado e começou a "boquejar" (como diz o
Grande Otelo):
— Quer dizer que está vindo de Paris, hem? — arriscou.
O que tinha vindo fez um ar modesto: — Eu!
— Naturalmente o amigo não se furtou ao prazer de ir visitar
o Palácio de Versalhes.
— Não. Não estive em Versalhes. Era muito longe do hotel
onde me hospedei.
— Mas o amigo cometeu a temeridade de não ficar no Plaza
Athénée?
O que não ficara no Plaza Athénée deu uma desculpa,
explicou que o seu hotel fora reservado pela Cia. onde
trabalha e, por isso, não tivera vez na escolha.
— Bem — concordou o gordinho —, o Plaza realmente é
um pouco caro, mas é muito central e há outros hotéis mais
modestos que ficam perto do Plaza. — E depois de acender
um cigarro, lascou:
— Passeou pelo Bois?
— Passei pelo Bois uma vez, de táxi.
— Mas o amigo vai me desculpar a franqueza; o amigo
bobeou. Não há nada mais lindo do que um passeio a pé pelo
Bois de Boulogne, ao cair da tarde. E não há nada mais
parisiense também.
— É... eu já tinha ouvido falar nisso. Mas havia outras coisas
a fazer.
— Claro... claro... Há coisas mais importantes, principalmen-
te no setor das artes — e sem tomar o menor fôlego: —
Visitou o Louvre?...
— Visitei.
— Viu a "Gioconda"?
Não. O recém-chegado não tinha visto a "Gioconda". No dia
em que esteve no Louvre, a "Gioconda" não estava em
exposição.
— Mas o senhor prevaricou — disse o gordinho, quase
zangado. — A "Gioconda" só está em exposição às 5.as e
sábados e ir ao Louvre noutros dias é negar a si mesmo uma
comunhão maior com as artes.
Passou uma senhora, cumprimentou o ex-viajante e, mal ela
foi em frente, nova pergunta do cara:
— E a comida de Paris, hem amigo? Você jantava naqueles
bistrozinhos de Saint-Germain? Ou preferia os restaurantes
típicos de Montmartre? Há um bistrô que fica numa
transversal da Rue de...
Mas não pôde acabar de esclarecer qual era a rua, porque o
interrogado foi logo afirmando que jantara quase sempre no
hotel. E sua paciência se esgotou quando o chato quis saber
que tal achara as mulheres do Lido.
— Eu não fui ao Lido também. O senhor compreende. Eu
estive em Paris a serviço e sou um homem de poucas posses.
Quase não tinha tempo para me distrair. De mais a mais, lá é
tudo muito caro.
— Caríssimo — confirmou o gordinho, sem se mancar.
— O Sr., naturalmente, esteve lá a passeio e pôde fazer essas
coisas todas — aventou, como quem se desculpa.
Foi aí que o gordinho botou a mãozinho rechonchuda sobre
o peito e exclamou: — Eu??? Mas eu nunca estive em Paris!

O PSICANALISADO

ERA UMA VEZ um cara que entrou num bar, sentou no balcão
do dito bar e, depois de chamar o garçom, pediu um chope.
O garçom encheu uma caneca e deu pro cara. Este
agradeceu e bebeu de uma talagada só, até o meio da caneca.
Depois, balançou o chope que ainda restava, balançou,
balançou... o garçom tá olhando pra ele... balançou e pimba!
atirou o resto na cara do garçom.
É claro que o garçom já ia sair no tapa, quando o cara, quase
chorando, pediu muitas desculpas falou que aquilo era um
gesto incontornável que ele tinha e — por isso mesmo —
carregava na consciência um complexo desgraçado.
E tanto falou e se desmanchou em desculpas, que o garçom
aceitou a situação e aconselhou o cara a ir consultar um
psicanalista, conselho que foi logo aceito. O cara se
despediu, tornou a pedir desculpas e prometeu que, no dia
seguinte, ia procurar um psicanalista.
Passaram-se alguns dias, até que o cara apareceu outra vez
no bar e pediu um chope. O garçom trouxe, ele virou
metade de uma talagada só e começou a balançar o chope na
caneca. Foi balançando, balançando... o garçom tá olhando
pra ele... Outra vez! balançou mais uma e pimba!... novo
banho na cara do garçom. E este ainda estava enxugando os
respingos, quando o cara pediu outro chope.
Mas o garçom se queimou e falou: — Escuta aqui, seu chato.
Da outra vez você me deu o banho, mas depois pediu
desculpas. Desta vez você piorou, nem desculpas pediu.
— Piorei nada. Melhorei — disse ó cara: — Fui ao
psicanalista e melhorei. Ele me tirou o complexo. Agora eu
ando tão desinibido que faço a mesma coisa, mas sem o
menor remorso.

O GRANDE MISTÉRIO

HÁ DIAS já que buscavam uma explicação para os odores
esquisitos que vinham da sala de visitas. Primeiro houve um
erro de interpretação: o quase imperceptível cheiro foi
tomado como sendo de camarão. No dia em que as pessoas
da casa notaram que a sala fedia, havia um soufflé de
camarão para o jantar. Daí...
Mas comeu-se o camarão, que inclusive foi elogiado pelas
visitas, jogaram as sobras na lata do lixo e — coisa estranha
— no dia seguinte a sala cheirava pior.
Talvez alguém não gostasse de camarão e, por cerimônia,
embora isso não se use, jogasse a sua porção debaixo da
mesa. Ventilada a hipótese, os empregados espiaram e
encontraram apenas um pedaço de pão e uma boneca de
perna quebrada, que Giselinha esquecera ali. E como ambos
os achados eram inodoros, o mistério persistiu.
Os patrões chamaram a arrumadeira às falas. Que era um
absurdo, que não podia continuar, que isso, que aquilo.
Tachada de desleixada, a arrumadeira caprichou na limpeza.
Varreu tudo, espanou, esfregou e... nada. Vinte e quatro
horas depois, a coisa continuava. Se modificação houvera,
fora para um cheiro mais ativo.
À noite, quando o dono da casa chegou, passou uma
espinafração geral e, vítima da leitura dos jornais, que
folheara no lotação, chegou até a citar a Constituição na
defesa de seus interesses.
— Se eu pago empregadas para lavar, passar, limpar,
cozinhar, arrumar e ama-secar, tenho o direito de exigir
alguma coisa. Não pretendo que a sala de visitas seja um
jasmineiro, mas feder também não.
Ou sai o cheiro ou saem os empregados.
Reunida na cozinha, a criadagem confabulava. Os debates
eram apaixonados, mas num ponto todos concordavam:
ninguém tinha culpa. A sala estava um brinco, dava até
gosto ver. Mas ver, somente, porque o cheiro era de morte.
Então alguém propôs encerar. Quem sabe uma passada de
cera no assoalho não iria melhorar a situação?
— Isso mesmo — aprovou a maioria, satisfeita por ter
encontrado uma fórmula capaz de combater o mal que
ameaçava seu salário.
Pela manhã, ainda ninguém se levantara, e já a copeira e o
chofer enceravam sofregamente a quatro mãos. Quando os
patrões desceram para o café o assoalho brilhava. O cheiro
da cera predominava, mas o misterioso odor, que há dias
intrigava a todos, persistia, a uma respirada mais forte.
Apenas uma questão de tempo. Com o passar das horas, o
cheiro da cera — como era normal — diminuía, enquanto o
outro, o misterioso — estranhamente aumentava. Pouco a
pouco reinaria novamente, para desespero geral de
empregados e empregadores.
A patroa, enfim, contrariando os seus hábitos, tomou uma
atitude: desceu do alto do seu grã-finismo com as armas de
que dispunha e com tal espírito de sacrifício que resolveu
gastar seus perfumes. Quando ela anunciou que derramaria
perfume francês no tapete, a arrumadeira comentou com a
copeira:
— Madame apelou pra ignorância.
E salpicada que foi, a sala recendeu. A sorte estava lançada.
Madame esbanjou suas essências com uma altivez digna de
uma rainha a caminho do cadafalso. Seria o prestígio e a
experiência de Carven, Patou, Fath, Schiaparelli, Balenciaga,
Piguet e outros menores, contra a ignóbil catinga.
Na hora do jantar a alegria era geral. Não restavam dúvidas
de que o cheiro enjoativo daquele coquetel de perfumes era
impróprio para uma sala de visitas, mas ninguém poderia
deixar de concordar que aquele era preferível ao outro,
finalmente, vencido.
Mas eis que o patrão, a horas mortas, acordou com sede.
Levantou-se cauteloso para não acordar ninguém e desceu as
escadas, rumo à geladeira. Ia ainda a meio caminho quando
sentiu que o exército de perfumistas franceses fora
derrotado. O barulho que fez daria para acordar um
quarteirão, quanto mais os de casa, os pobres moradores
daquela casa, despertados violentamente, e que não precisa-
vam perguntar nada para perceberem o que se passava.
Bastou respirar.
Hoje pela manhã, finalmente, após buscas desesperadas, uma
das empregadas localizou o cheiro. Estava dentro de uma
jarra, uma bela jarra, orgulho da família, pois tratava-se de
peça raríssima, da dinastia Ming.
Apertada pelo interrogatório paterno, Giselinha confessou-
se culpada e, na inocência dos seus 3 anos, prometeu não
fazer mais.
Não fazer mais na jarra, é lógico.

COM A AJUDA DE DEUS

TIA ZULMIRA, pesquisadora do nosso folclore, descobre mais
um conto anônimo. Conforme os senhores estão fartos de
saber, quando uma coisa não tem dono, passa a ser do tal de
folclore. Assim é com este conto muito interessante que a
sábia macróbia colheu alhures.
Diz que era um lugar de terra seca e desgraçada, mas um
matuto perseverante, um dia, conseguiu comprar um
terreninho e começou a trabalhar nele e, como não existe
terra bem tratada que deixe quem a tratou bem na mão, o
matuto acabou dono da plantação mais bonita do lugar.
Foi quando chegou o padre. O padre chegou, olhou para
aquele verde repousante e perguntou quem conseguira
aquilo. O matuto explicou que fora ele, com muita luta e
muito suor.
— E a ajuda de Deus — emendou o sacerdote.
O matuto concordou. Disse que no começo era de
desanimar, mas deu um duro desgraçado, capinou, arou,
adubou e limpou todas as pragas locais.
— E com a ajuda de Deus — frisou o padre.
O matuto fez que sim com a cabeça. Plantou milho, plantou
legumes, passou noites inteiras regando tudo com cuidado e
a plantação floresceu que era uma beleza. O padre já ia dizer
que fora com a ajuda de Deus, quando o matuto
acrescentou:
— Mas deu gafanhoto por aqui e comeu tudo.
O matuto ficou esperando que o padre dissesse que deu
gafanhoto com a ajuda de Deus, mas o padre ficou calado.
Então o matuto prosseguiu. Disse que não esmorecera.
Replantara tudo, regara de novo, cuidara da terra como de
um filho querido e o resultado estava ali, naquela verdejante
plantação.
— Com a ajuda de Deus — voltou a afirmar o padre.
Aí o matuto achou chato e acrescentou:
\
— Sim, com a ajuda de Deus. Mas antes, quando Ele fazia
tudo sozinho, o senhor precisava ver, seu padre. Esta terra
não valia nada.

COMIGO NÃO

Diz que quando foi feita a batida policial na tal Boate Étoile
aconteceram muitas coisas curiosas. Um dos componentes
da plebe ignara, cuja ficou no sereno da coisa observando a
manobra policial, conta à flor dos Ponte Pretas episódios do
evento. Diz que, quando a Polícia entrou parecia que lá
dentro tudo estava normal. Pares sentados nas mesas,
bebericando, e pares a rodar pelo salão, a dançar de rosto
encostado.
Só quando acenderam a luz é que as autoridades perceberam
que vários dos rapazes que fumavam cachimbo ou charuto,
nas mesas, eram senhoras masculinizadas. Assim como os
homens que, com gestos másculos apertavam suas damas na
pista de dança, eram todos madamas disfarçadas, berrando
com voz grossa que aquilo era um absurdo. Houve até
madama disfarçada que quis sair no braço com os guardas.
Contornada a primeira dificuldade, que foi serenar os ânimos
das "valentes" senhoras, o delegado mandou que fossem em
cana todos os presentes, para o que havia um tintureiro lá
fora, à guisa de condução. E então deu-se o desfile aos olhos
da plebe ignara: senhoras com botina de soldado, senhoras
de gravata, senhoras até de bigodinho tipo alegria-de-
suburbana. Uma das senhoras, na hora de embarcar na
viatura, protestou, dizendo:
— Quando eu chegar em casa minha mulher vai ficar
danada. — Dito o que, arregaçou um pouco as calças de
brim coringa e subiu pro tintureiro.
Na delegacia ficou-se sabendo que as madamas machonas só
se tratavam pelo sobrenome, para dar um ar mais machão à
coisa, isto é, só se chamavam de Azevedo, Moreira,
Gonçalves, etc., exigindo o maior respeito para com suas
namoradas, todas muito frágeis, mas também em cana.
Vai daí o delegado começou a registrar o nome das madamas
no livro de ocorrências. Primeiro respondeu uma de charuto
na boca, dizendo chamar-se Barroso; depois de uma outra de
bigodinho fino à Clark Gable, que se identificou como sendo
o Magalhães e assim sucessivamente. Até que o delegado
chegou ao final da fila, perguntando à figurinha que estava
encolhida:
— E você aí, como é seu nome?
— Paulo — foi a resposta.
— Paulo??? — estranhou o delegado: — Quer dizer que a
senhora é a única que não se identifica pelo sobrenome?
— Seu delegado — respondeu o coitado —, o senhor tá
enganado. Eu não sou mulher não. Eu sou o garçom da
boate.


NESTA DATA QUERIDA

O CALOR, a vontade de tomar um banho e uma terrível dor
de cabeça levaram-no a abandonar o escritório, num desejo
incontido de descansar o corpo e distrair o mau humor.
Fechado no elevador, teve o seu primeiro sintoma de alegria
ao pensar que estava prestes a chegar, pensamento que se
esvaiu ao ouvir a algazarra que vinha lá de dentro do
apartamento. Correu, meteu a chave na porta, abriu-a e
ficou sem entender. Eram bem umas trinta crianças, entre
brinquedos, bolas de encher, docinhos, apitos, babás e
mamães.
Saiu da surpresa para o encabulamento.
Esquecera completamente o aniversário da filha. Que
vergonha! E todos ali olhando para ele — o dono da casa.
O jeito foi disfarçar, dizer "boas tardes" gerais, cumprimentar
as mães mais próximas e alisar a cabeça das crianças que lhe
atravancavam o caminho.
Passado o primeiro momento, voltou o barulho infernal.
Novamente apitos, choros, gritos, risos, reco-recos, etc. A
mulher, sem que ninguém percebesse, passou-lhe um
embrulho, dizendo:
— Toma, é o seu presente para a SUA filha.
Esse "sua" aí foi assim mesmo, com maiúsculas na voz.
Fingiu não notar, abraçou-se com a filha e entregou-lhe o
pacote, sem disfarçar a própria curiosidade em saber o que
era.
Era um urso de pelúcia, com uma caixinha de música
dentro.
— Quanto custou? — perguntou à mulher, num sussurro.
— Dois contos! — respondeu ela, aumentando o preço e
diminuindo a voz.
Só então lembrou-se de que tudo aquilo estava correndo por
sua conta. Os doces, as bolas de encher (quantas!)
penduradas na parede, os salgadinhos, Coca-Colas, guaranás,
pacotes de balas, cometas e até sessão de cinema,
programada para o seu escritório, onde já havia um camarada
a ligar fios e tomadas.
E dizer-se que tinha vindo para casa mais cedo devido a uma
terrível dor de cabeça! Agora nem uma tonelada de aspirinas
adiantaria tal era o barulho que a criançada fazia.
Assim mesmo tomou um soporífico na cozinha, ocasião em
que a empregada avisou-o que a água acabara e que toda a
louça da festa ficaria para ser lavada no dia seguinte.
Não se sentiu com disposição pra "fazer sala". Chamou a
mulher e explicou o seu estado. Ela limitou-se a dizer:
— Vá para o quarto então. Você não ajudou nada mesmo.
Era evidente a zanga, mas isso ficaria para ser ajeitado
depois. Afinal não tinha culpa de sua falta de memória.
E foi entrar no quarto e levar aquele susto. Um garoto de
cabelo arrepiado, envolto na sua capa de borracha, abrira
todas as gavetas da cômoda, subia por elas e, lá de cima, se
atirava na cama.
— Que é isso menino?
— Sou o Homem-Pássaro — respondeu o garoto, e voltou a
se atirar sobre as pobres molas do colchão.
Expulsou o intruso com capa e tudo. Depois ficou ali no
quarto, esperando que acabasse a farra. O silêncio bom que
reinou em volta, ao fechar a porta, foi recebido com um
suspiro de alívio. Deitou-se na cama imaginando o que veria
no dia seguinte: seus livros atirados no chão, doces
esborrachados no tapete, Coca-Cola no sofá da sala, copos
por toda parte, inclusive dentro da vitrola, e, sobretudo, uma
imensa conta para pagar.
Lá pelas 9 da noite, a mulher entrou no quarto e não
respeitou o seu sono. Foi logo dizendo:
— Bonito, hein? Além de esquecer a data ainda me deixa
sozinha com as visitas. Nem ao menos conversou um pouco
com o Senador.
— Senador? — perguntou ele, tonto de sono.

— É sim. O Senador Castro foi tão gentil trazendo o filho e
você nem foi cumprimentá-lo.
— Como era o filho dele? — quis saber, fingindo interesse.
— Um bonitinho, de cabelo arrepiado, que estava brincando
com a sua capa.
— Ah, sei. O Homem-Pássaro.
E, após estas palavras, adormeceu profundamente, não sem
antes ouvir um último comentário da mulher. Disse ela:
— Ainda por cima você está bêbado.

O HOMEM QUE NÃO FOI A SÃO PAULO

DE REPENTE deu-lhe aquela chateação de ter que ir para São
Paulo. Olhou para a valise já prontinha, que a mulher
preparara e que descansava sobre uma poltrona do
escritório, e puxou um longo suspiro. Depois olhou para a
passagem da Ponte Aérea que estava em cima da mesa e
sentiu um leve, um quase imperceptível mal-estar. Afinal,
tinha pouca coisa a fazer em São Paulo. Se tivesse sorte de
conseguir uma linha, talvez resolvesse tudo com o chefe do
escritório de lá e então ficaria com uma noite livre no Rio,
iria para onde bem entendesse, dormiria num hotel qualquer
e não teria de dar satisfações a Mercedes, que esta estaria
crente que ele seguira mesmo para São Paulo.
Pegou o telefone e discou "Interurbano". A voz neutra e
irritante da telefonista perguntou o que ele queria. Cruzou os
dedos e pediu São Paulo, aliviado de não ouvir em seguida
aquela frase cretina: "Os circuitos estão ocupados, queira
chamar mais tarde." Quando acabou de dar as ordens ao
chefe do escritório, sentia-se bem melhor. Ao pegar de
novo o telefone, parecia muito bem disposto e teve de se
conter para não demonstrar sua alegria:
— Mercedes? Sou eu. .. Já vou sim. Não sei, meu bem. Sigo
agorinha para o aeroporto e pego o primeiro que tiver lugar.
Obrigado. Outro pra você.
Desligou e ficou imaginando que era o golpe. Ir para um bar
e encher a caveira? Telefonar para uma daquelas desajustadas
de sempre? Ia optar pela segunda hipótese, quando se
lembrou que já era um pouco tarde e mulher avulsa que se
preze não continua avulsa depois que a tarde cai. O jeito era
sair por aí... Mas novamente o telefone entrou em cena. A
campainha soou e ele ouviu a voz do Augusto:
— Seu passe está livre para um pagode?
Aquilo caía do céu: — Puxa, Augusto... você encaixou na
horinha. Imagine que eu ia para São Paulo e resolvi não ir...
Mal telefonei para Mercedes... acabei de ligar, dizendo que
ia, mas disposto a ficar por aqui mesmo.
— Ótimo! — exclamou o Augusto. — Pois eu estou de cacho
aí com uma pequena bem razoável. Ela me avisou que tem
uma amiguinha sobrando, coisa fina, e pediu que eu levasse
um amigo.
— Tô nessa boca — berrou o que ia a São Paulo e não foi,
achando que mais uma vez se confirmava a sua sorte com
mulher. E apressou-se: — Diga à sua amiguinha para levar a
outra que eu terei o maior prazer em desencaminhá-la.
Augusto esclareceu que não precisava isso. Já estava tudo
combinado: as duas estariam no bar assim-assim, às tantas
horas, esperando. E, a uma pergunta aflita, tratou de
tranqüilizar o amigo: não conhecia a outra, mas devia ser
boa sim, porque tivera o cuidado de se informar sobre este
detalhe e sua pequena garantira que era papa-fina.
Saíram logo que Augusto chegou no escritório. Estava tão
animado que já ia esquecendo a valise em cima da poltrona.
Voltou, apanhou-a e, antes de apagar a luz, rasgou a
passagem da Ponte Aérea e jogou na cesta. "Mercedes pode
ver esta porcaria no meu bolso e vai ser fogo" — pensou.

E juntou ao pensamento um ditado de sua autoria que
costumava usar sempre que se metia numa baderna: "Marido
prevenido, casamento garantido."
Augusto manobrou o carro e entrou na vaga com facilidade.
Antes de atravessarem a rua, apontou para o barzinho
elegante da esquina, explicando que elas estavam esperando
ali. Quando entraram na sala um tanto quanto penumbrosa,
a penumbra não chegou para esconder a mulher que acenou
em sua direção:
— Aquela é a minha — foi dizendo o Augusto — e a outra é
a sua.
Como se ele não soubesse que era a sua! Lá estava ela, toda
fresca, no vestido vermelho que ele financiara na véspera.
Aliás, foi o ar fresco que lhe deu mais raiva. Partiu por entre
as mesas bufando e iniciou incontinenti o festival de
bolachas.
— Mas o que é isto... mas o que é isto? — perguntava Augus-
to atônito.
Ninguém ali sabia direito por que é que ele estava batendo,
mas Mercedes sabia perfeitamente por que é que estava
apanhando.

PAGODE NO COSME VELHO

Foi AO CAIR DA TARDE. O amigo telefonou, ele estava
sonolento no escritório refrigerado, refestelado numa
poltrona, com os pés estendidos em cima da mesa. Estava
mesmo doido para um programa diferente. Atendeu o
telefone meio aborrecido, pensando que fosse algum chato,
falando de negócios. Mas era o amigo convidando para o
"Grito de Carnaval".
— Mas já??? — perguntou, espantado.
O amigo explicou que era um misto de grito de carnaval
com grito de Natal, enfim, era uma festinha dessas de sair
faísca, só com gente séria, isto é, gente que sai do sério, mas
não espalha. Uísque às pampas, mulher aos potes, dando
sopa. Coisa muito íntima e se ele não fosse não saberia
nunca o que perdeu.
— Mas eu estou com terno de casimira escura. Hoje fui à
missa de sétimo dia do meu sócio. Você não vai querer que
eu vá para um pagode desses vestido de Jorgito Chaves.
— E isto é problema? — incentivava o amigo. Saía do
escritório, ia numa loja por ali por perto e comprava um
short colorido, uma camisa dessas de espantar americano e
um chapeuzinho "Nat King Cole".
— E os sapatos? Eu estou de sapatos pretos, meias idem e
ligas na canela.
Pois que fosse assim mesmo. Dava um toque de galhofa na
coisa: short, camisa colorida, chapeuzinho "Nat King Cole",
mas de sapatos e meias pretas, com liga na canela.
— Não ficarei ridículo? — perguntou, com certo receio.
— Ora, Rosamundo! Ridículo é ir para casa se chatear, tendo
um pagode desses dando sopa — disse o amigo,
convencendo-o em definitivo.
Combinaram tudo e ele já ia desligar, quando se lembrou do
outro problema:
— Mas onde é que eu vou mudar de roupa? Se eu sair daqui
do escritório vestido para a festa, eu fico tão desmoralizado
com meus empregados que eles vão exigir até o 14º salário.
— No carro, Rosamundo. A festa é lá no Cosme Velho,
numa casa discretíssima, pombas! Você muda de roupa no
carro.
É... mudaria a roupa no carro.-Apertou o telespeak, quando
a secretária entrou (era uma velhota muito da castigada pelas
intempéries da vida, que sua mulher escolhera para
secretária), avisou que ia sair.
— Se Margarida (era a esposa) telefonar, diga que eu fui a
uma reunião no ministério e chegarei mais tarde para jantar.
Dali saiu direto para uma loja de artigos mais ou menos
masculinos. O leitor vai perdoar o "mais ou menos", mas é
que certas lojas grã-finas de artigos masculinos andam
vendendo cada camisinha, cada calcinha apertadinha de
confecção tão marota que, eu vou te contar... O nosso
amigo, porém, queria era um short, um chapeuzinho,
aquele, etc. Entrou, escolheu tudo, disse que não precisava
embrulhar, pagou e se sacudiu para a tal casa do Cosme
Velho.
Estacionou bem pertinho, mas não em frente, para poder
trocar de roupa, e meia hora depois estava se esbaldando na
festa, abraçado a uma pioneira sexual, dessas que de tarde são
mocinhas desgarradas e de noite passeiam pela Avenida
Atlântica assoviando fininho para os carros que passam.
O forró só acabou aí pelas onze da noite. Suado e
amarrotado voltou para o carro e então percebeu que
esquecera de trancar a porta.

A suspeita que logo lhe veio à mente transformou-se na
amarga realidade. Alguém se aproveitara e roubara sua
roupa. E agora? Como é que ia pra casa naqueles trajes?
— Bem que eu estava com a impressão de que isto ia dar
galho — bufava ele para o amigo que o convidara. Este,
sentindo-se um pouco culpado (mais por causa do uísque do
que por ter consciência), foi quem encontrou a desculpa
ideal.
— Vai pra casa assim mesmo. Quando sua mulher perguntar
você diz que ia passando debaixo de um tapume, quando o
pintor que pintava o tapume deixou cair a lata de tinta em
cima de você. Diz que sua roupa ficou inutilizada. Diz que
estava comigo que eu confirmo depois. Fala pra ela que o
jeito foi entrar numa loja qualquer e comprar um short e
uma camisa, que era mais barato.
— E o chapeuzinho "Nat King Cole"? Que é que eu faço? —
dizia o infeliz, sem disfarçar o nervosismo.
— O chapeuzinho você joga fora agora, sua besta — propôs o
outro, juntando a ação à palavra e atirando longe o dito cujo.
Rosamundo chegou em casa meio encolhido, com medo de
que a mentira não colasse. A esposa estava de tão bom
humor que acreditou em tudo. Já suspirava aliviado, quando
ela disse:
— A roupa suja de tinta está ali naquela poltrona, seu cretino.
Só então ele viu, só então percebeu: o paletó, a gravata, as
calças, tudo dobradinho, tal como ele deixara no assento
traseiro do carro, estava numa poltrona da sala.
O desquite será decidido breve, embora Rosamundo não
saiba como pôde dar tanto azar assim da esposa passar justo
numa rua sem qualquer movimento, lá no Cosme Velho, ver
seu carro... puxa, era muita falta de sorte!
Aliás, não era. O desquite, para Rosamundo, até que será um
grande negócio, porque ele não sabe, mas Margarida
também ia àquele pagode. Só não foi porque, ao chegar na
porta da casa, viu o carro de Rosamundo estacionado.

ERA A REGININHA

O MARIDO — que era um santo marido, como todos os
enganados — deixou o escritório mais cedo e passou no "Seu
Morais" para comprar sorvete de gabiroba, uma das taras de
sua mulher. A mulher tinha muitas, mas o marido pensava
que a única tara dela fosse sorvete de gabiroba.
Então o marido chegou e foi entrando em casa sem assobiar,
o que é um perigo. Todo marido enganado devia entrar em
casa assobiando, para evitar certas coisas, mas os maridos
enganados que ainda não sabem, não assobiam, é lógico, e
— por isso mesmo — ele entrou sem assobiar.
Estava colocando o sorvete no freezer (a surpresa seria na
hora do jantar) quando ouviu a voz da mulher lá dentro. Ela
dissera qualquer coisa e depois dera uma gargalhada, dessas
gargalhadas assanhadinhas que certas mulheres dão quando
o marido não está perto. Ele estranhou aquilo e foi até o
quarto, onde encontrou Leonor deitada na cama, seminua,
falando ao telefone.
A mulher, quando viu o marido, ficou com um ar assim
meio sobre o de quem achou mosca no pirão. Logo se
recompôs de fisionomia, e se dizemos de fisionomia é
porque o resto ficou à mostra. Foi o marido, pouco depois,
que teve o cuidado de dobrar o lençol por cima dela,
escondendo o principal. Antes, entretanto, ficou ali parado
na porta, sem entender direito, com aquele olhar ausente
que crioulo faz quando vai andando pela rua com rádio
transistor colado ao ouvido.
A mulher — dizia eu — recompôs-se com certa facilidade e
continuou a falar no mesmo tom de voz:
— Mas, Regininha, essa anedota que você acabou de me
contar é ótima!... e riu de novo, mas já sem aquele leve tom
sexy da primeira risadinha que ele ouvira lá da cozinha, de
gabiroba na mão, isto é, com o sorvete aquele.
Tirou um lenço do bolso, limpou os dedos e veio sentar na
beirinha da cama, enquanto a mulher dava-lhe um
adeusinho e continuava a conversar pelo telefone:
— Pois é isso, Regininha... nós precisamos marcar uma biriba
para uma noite destas. Não, Regininha... O que, Regininha?
Tá bem, Regininha.
O marido pôs-se a sorrir de si mesmo. Por um momento
suspeitara da pobre mulher. Não sabia explicar por quê.
Apenas, quando ouvira a sua voz, sentiu um leve calafrio a
percorrer sua espinha, desde a nuca até a ZM (Zona Morta).
Talvez porque não fosse aquele o tom de voz que sua
mulher usava para o trivial havia já muito tempo. Mas, agora,
tudo se dissipava. Era a Regininha.
— Você leu o artigo de Jacinto de Thormes de ontem,
Regininha? — continuava a mulher: — Divino, Regininha,
simplesmente divino.
Foi nesse pedaço que ele a cobriu com o lençol.
— Então tá, Regininha. Ele vai bem. Acaba de chegar aqui.
(TAPANDO O FONE) — Está mandando um abraço para
você. — OK, Regininha. Outro para você, Regininha.
E, ao desligar, antes que o marido abrisse a boca, tentou
explicar o óbvio: — Era a Regininha.
Deram-se um beijo mixuraca e o marido já ia para o
banheiro, quando a campainha da porta tocou.
Era a Regininha.

A MUDANÇA

A EXPERIÊNCIA ensina que, depois de tudo pronto — livros
encaixotados, roupas emaladas, móveis despachados e
demais providências —, é que começa, de fato, a arrumação
para a mudança. Disso sabíamos nós e nos esforçávamos
para fugir à regra, fazendo tudo na mais perfeita ordem, com
um notável espírito de equipe, a fim de garantir maior
rendimento e rapidez nos trabalhos.
Foi tudo em vão, porém. Duvido que consiga alguém
escapar às estranhas artes desse pequeno demônio que
freqüenta as nossas casas na hora de uma mudança.
Já respirávamos profundamente, cansados, mas felizes,
prontos para um merecido repouso, com as consciências
tranqüilas pela missão cumprida, quando alguém olhou para
as paredes e anunciou com espanto:
— Os quadros! Esquecemos os quadros!
Era verdade. Lá estavam eles, pendurados, à espera de nossas
providências. Foi como recomeçar tudo outra vez. Abriram-
se malas, na esperança de encontrar uma vaguinha que afinal
não havia. Pelo contrário até, uma das malas, apesar de nada
mais ter sido colocado dentro dela, não quis fechar. Foi
preciso retirar o pacote de discos, para que a tampa voltasse
a ficar devidamente encaixada.
O melhor era desistir das malas. Lembrei-me de que um dos
caixotes não ficara de todo cheio. Aos caixotes, pois. E foi
uma trabalheira para despregar tudo outra vez. Ainda mais
porque, quis o destino que fosse o último a ser aberto aquele
que tinha lugar para os quadros.
Antes de recomeçarmos as marteladas, decidi: o melhor era
dar uma busca em todos os aposentos, para ver se não faltava
nada.
A busca foi minuciosa e fértil em achados. Tinham sobrado
objetos os mais variados, inclusive um relógio de parede que
constituiria um problema insolúvel, caso o homem do
guarda-móveis já tivesse partido. Felizmente ele ainda estava
ali e, apresentado ao relógio, abraçou-o carinhosamente e
partiu rumo às escadas, prometendo mandar mais um
caixote para guardar o mundo de coisas esquecidas.
E agora? Estaria mesmo terminada a mudança ou ainda
faltaria alguma coisa? Ninguém se animava a verificar.
Sentados cada um numa mala, todos ofegavam o seu cansaço
particular, olhando uns para os outros, o que somente servia
para aumentar o cansaço geral.
Foi quando a voz da copeira partiu lá da cozinha,
anunciando:
— Chi! O canarinho!
Realmente, faltava o canarinho, mas como a minha intenção
era — de há muito — soltá-lo, ordenei:
— Jogue o canário fora.
— No lixo, doutor?
— No lixo não, é claro. Abra a gaiola e deixe que ele saia.
Depois eu mesmo resolvi fazer a operação. Fui até à cozinha,
apanhei a gaiola e voltei com ela para a varanda. O
canarinho debatia-se contra as grades, sem entender que
estava prestes a ganhar a liberdade. E foi abrir a porta e ele
partir como um raio, rumo ao morro...
Jogo a gaiola no chão e fico debruçado no parapeito. Vou
sentir falta desta varanda. Não é larga nem comprida, mas
tem uma brisa honesta e proporciona uma fatia de morro das
mais generosas. A moça do 302 começa a tocar (se é que se
pode chamar isto de tocar) uma valsinha que Chopin não
fez. Graças a Deus vou me livrar para sempre desses
horríveis exercícios de piano. Estou a pensar nestas coisas,
quando o menino do 202 grita pela janela:
— Cala a boca, "Cata Milho"!
Isso é o bastante para a moça do 302 começar a Cumparsita.
Todas as vezes que o garoto do andar de baixo mexe com
ela, para se vingar ela ataca o tango pelo lado errado
castigando doze andares e 24 condôminos.
Finalmente todos saem e preparo-me para trancar a porta,
quando a empregada vem correndo:
— Doutor, o senhor ia esquecendo o busto da sua avó.
Isso, dito assim, soa como desaforo. Mas, o que ela traz na
mão é a pequena estatueta onde estão esculpidos uma cara
magra, uns olhos tristes e longos cabelos caídos sobre os
ombros. Era o derradeiro objeto esquecido e ordeno-lhe que
meta-o no saco da roupa suja, onde ainda há espaço
suficiente.
Confesso que não é o lugar ideal e concordo que parece falta
de respeito. Na verdade, porém, não se trata disso, como
também não se trata de Vovó. O que a empregada está
metendo no saco é apenas um busto de Voltaire.
Em seguida, ela fecha o saco, eu fecho a porta e está
terminada a mudança.

O MISTÉRIO DA CASA MAL-ASSOMBRADA

"À NOITE, o espectro vagava pela solidão" — isto dito assim,
parece Shakespeare, mas não é. Trata-se do trecho de um
dos contos de assombração que Tia Zulmira escreveu
recentemente. Aliás, a sábia macróbia da Boca do Mato tem
um talento que às vezes se confunde um pouco com o do
autor de "Hamlet". Não é o caso, porém, quando se trata dos
referidos contos mal-assombrados que a velha deu para fazer
agora. Para que vocês tenham uma idéia, este seu sobrinho e
difusor transcreve abaixo um deles:
"O casal mudara-se para aquela casa velha havia dois meses e
nunca soubera antes que a casa tivesse fama de mal-
assombrada. Se soubesse, talvez não tivesse alugado o
imóvel, mesmo porque o casal não era inglês, que é tarado
por fantasma. Na Inglaterra, um castelo mal-assombrado é
sempre alugado mais caro, porque lá é "bem" o chamado
contato social com espectros. A casa de que falo, no en-
tanto, era em Brás de Pina, onde fantasma tem menos cartaz
que o time do Canto do Rio.
Mas — dizia — talvez os novos inquilinos não tivessem
alugado o imóvel. Não que o casal acreditasse nessa besteira
de assombração; tanto o distinto como a esposa (que ele, no
mau gosto inerente à plebe ignara, chamava de "minha
patroa") eram pessoas de certa idade. Sabem como é: depois
de várias baianadas da vida, algumas pessoas já não acreditam
em azar e chutam despacho com farofa amarela, galo preto e
charuto barato com a mesma displicência de um jogador de
futebol batendo bola antes do treino.
Mas havia a filha, mocinha de 20 anos, muito nervosa e que,
quando soube que a casa tinha fama de abrigar figurinhas
fantasmais, ficou mais nervosa ainda. Os pais não sabiam que
havia fantasma em Brás de Pina, porque quem já morou em
Brás de Pina nunca mais quer voltar e, muito menos, depois
que já morreu. Vai daí, foram morar na casa.
Já viviam ali há uns dois meses quando, uma tarde, a
mocinha voltava da fila do leite, onde aguardara, durante
quatro deliciosas horas, a sua vez de comprar um litro, e —
no caminho — encontrou a vizinha. A vizinha era mais
fofoqueira que mãe-de-vedete-argentina-do-teatro-rebolado.
Mal começou a conversar com a mocinha nervosa,
perguntou se os fantasmas apareciam muito ultimamente:
— Que fantasmas???!!! — perguntou a mocinha, já
apavorada.
Aí a vizinha explicou a fama da casa, explicou que ali
costumavam aparecer almas penadas pelos corredores,
depois de meia-noite, e havia mesmo uma assombração que
era famosa, pois aparecia com uma regularidade de cobrador
da Light (mesmo em época de racionamento).
Está na cara que a mocinha nervosa entrou em casa
tremendo às pampas. Inclusive, diga-se, a mocinha era
dessas nada desprezíveis. Pelo contrário, era assim o número
que a gente calça; tamanho universal, muito mais pra boa do
que pra intelectual. Por isso que as pernas que tremiam eram
até muito bem torneadas. Quando ela entrou foi aquele
escarcéu. Choradeira, tomada de calmante, os pais dizendo
que aquilo era bobagem, etc.
O fato é que, daquele dia em diante, toda noite os moradores
ouviam estranhos ruídos e até o velho, que era cético de
doer, começou a acreditar mesmo que a casa era visitada por
uma assombração. A mocinha, no entanto, embora
reclamasse muito da onda noturna, estava cada vez mais
viçosa. Deixou de ser nervosa e havia em seus reclamos uma
certa falta de convicção.
Um dia, o velho, pela manhã, encontrou uma ponta de
cigarro no corredor; como ele não fumasse (nem fantasma
fuma), desconfiou de que ali havia lingüiça por debaixo do
feijão. De noite ficou na sala, escondido atrás de uma
cortina, espiando. Pouco depois entrava na casa a
assombração. Era um sargento da aeronáutica.


LATRICÉRIO
(Com o perdão da palavra)

TINHA um linguajar difícil, o Latricério. Já de nome era
ruinzinho, que Latricério não é lá nomenclatura muito
desejada. E era aí que começavam os seus erros.
Foi porteiro lá do prédio durante muito tempo. Era
prestativo e bom sujeito, mas sempre com o grave defeito de
pensar que sabia e entendia de tudo. Aliás, acabou despedido
por isso mesmo. Um dia enguiçou a descarga do vaso
sanitário de um apartamento e ele achou que sabia
endireitar. O síndico do prédio já ia chamar um bombeiro,
quando Latricério apareceu dizendo que deixassem por sua
conta. Dizem que o dono do banheiro protestou, na
lembrança talvez de outros malfadados consertos feitos pelo
serviçal porteiro. Mas o síndico acalmou-o com esta
desculpa excelente:
— Deixe ele consertar, afinal são quase xarás e lá se
entendem.
Dono da permissão, o nosso amigo — até hoje ninguém sabe
explicar por que — fez um rápido exame no aparelho em
pane e desceu aos fundos do edifício, avisando antes que o
defeito era "nos cano de orige".
Lá embaixo, começou a mexer na caixa do gás e, às tantas,
quase provoca uma tremenda explosão. Passado o susto e a
certeza de mais esse desserviço, a paciência do síndico
atingiu o seu limite máximo e o porteiro foi despedido.
Latricério arrumou sua trouxa e partiu para nunca mais,
deixando tristezas para duas pessoas: para a empregada do
801, que era sua namorada, e para mim, que via nele uma
grande personagem.
Lembro-me que, mesmo tendo sido, por diversas vezes,
vítima de suas habilidades, lamentei o ocorrido, dando todo
o meu apoio ao Latricério e afirmando-lhe que fora
precipitação do síndico. Na hora da despedida, passei-lhe às
mãos uma estampa do American Bank Note no valor de 500
cruzeiros, oferecendo ainda, como prêmio de consolação,
uma horrenda gravata, cheia de coqueiros dourados, virgem
de uso, pois nela não tocara desde o meu aniversário, dia em
que o Bill — o americano do 602 — a trouxera como
lembrança da data.
Mas, como ficou dito acima, Latricério tinha um linguajar
difícil, e é preciso explicar por quê. Falava tudo errado,
misturando palavras, trocando-lhes o sentido e empregando
os mais estranhos termos para definir as coisas mais
elementares. Afora as expressões atribuídas a todos os
"malfalantes", como "compromisso de cafiaspirina", "vento
encarnado", "libras estrelinhas", etc., tinha erros só seus.
No dia em que estiveram lá no prédio, por exemplo, uns
avaliadores da firma a quem o proprietário ia hipotecar o
imóvel, o porteiro, depois de acompanhá-los na vistoria,
veio contar a novidade:
— Magine doutor! Eles viero avalsá as impoteca!
É claro que, no princípio, não foi fácil compreender as
coisas que ele dizia, mas, com o tempo, acabei me
acostumando. Por isso não estranhei quando os ladrões
entraram no apartamento de Dona Vera, então sob sua
guarda, e ele veio me dizer, intrigado:
— Não comprando como eles entraro. Pois as portas tava
tudo "aritmeticamente" fechadas.
Tentar emendar-lhe os erros era em pura perda. O melhor
era deixar como estava. Com sua maneira de falar, afinal,
conseguira tornar-se uma das figuras mais populares do
quarteirão e eu, longe de corrigir-lhe as besteiras, às vezes
falava como ele até, para melhor me fazer entender.
Foi assim no dia em que, com a devida licença do
proprietário, mandei derrubar uma parede e inaugurei uma
nova janela, com jardineira por fora, onde pretendia plantar
uns gerânios. Estava eu a admirar a obra, quando surgiu o
Latricério para louvá-la.
— Ainda não está completa — disse eu — falta colocar umas
persianas pelo lado de fora.
Ele deu logo o seu palpite:

— Não adianta, doutor. Aí bate muito sol e vai morrê tudo.
Percebi que jamais soubera o que vinha a ser persiana e
tratei
de explicar à sua moda:
— Não diga tolice, persiana é um negócio parecido com
Venezuela.
— Ah, bem, Venezuela — repetiu.
E acrescentou:
— Pensei que fosse "arguma pranta".

EL SOMBRERO

CENA: região inóspita e de vegetação raquítica, com um
vento leve a suspender a poeira, enfim, uma paisagem de
região subdesenvolvida. Ao fundo uma igreja tosca de onde
vem o murmúrio dos fiéis rezando. Nisso surge um
mexicano daqueles, de bigode escorrido, sombrero
enterrado até as sobrancelhas e olhar preguiçoso, de olhos
semicerrados. Debaixo do braço um violão e no andar a
displicência de todos os mexicanos.
Pára à porta da igreja, olha lá pra dentro e resolve entrar,
sem se dignar a tirar o sombrero. Desrespeitosamente entra
com ele enterrado na cabeça, sempre abraçado ao violão.
Uma senhora de preto e ar compungido que está no último
banco, olha-o e chama a sua atenção:
— Senor, el sombrero!
O mexicano parece não a ter ouvido e continua a caminhar
devagar pelo corredor entre os bancos. Logo uma outra
senhora, alertada pelo protesto da primeira, interrompe suas
orações e sussurra ao seu ouvido:
— El sombrero, senor!
Mas o mexicano não dá importância e continua sua
caminhada:
— El sombrero — reclama um velho exaltado, de dedo no
nariz do mexicano, que passa por ele sem o menor sinal de
atenção.
Pouco a pouco todos os presentes estão a exigir que tire o
chapéu e os gritos de "el sombrero" partem praticamente de
todas as bocas:
— El sombrero, el sombrero, el sombrero.
O mexicano impávido. Até parece que não é com ele. É
quando o sacristão resolve tomar uma atitude e, já no fim do
corredor, agarra-o pelo braço e diz:
— El sombrero, por favor!
Então o mexicano pára, olha em volta com seu olhar
preguiçoso e, empunhando o violão, diz: — Ya que ustedes
insisten... De Perez y Gimenez, cantaré "El Sombrero".

VOVOCÍDIO

VINHAM OS DOIS no Volkswagen, puxando uns 120
quilômetros, na esperança de atropelar alguém, mas não
deram sorte. Pararam em frente ao edifício, um deles deu a
última puxada no cigarro de maconha e disse para o
irmãozinho: — Vamos subir.
Ainda no elevador, tiraram as japonas para facilitar o serviço.
Entraram no apartamento, puseram as japonas em cima de
uma poltrona e gritaram para a avozinha deles: — Vovó...
vem cá, vovó!
A velhinha, coitada, que não sabia qual era a brincadeira que
eles tinham inventado, veio lá de dentro com seu passinho
miúdo, sorrindo para os netinhos e, mal ela chegou perto,
um deles puxou uma faca e enfiou na barriga da velha. Para
que ela não gritasse — o que poderia estragar o brinquedo —
, o outro acertou-lhe uma cacetada na cabeça com tanta
força que o olho esquerdo dela pulou longe e foi cair perto
do gato, que assistia à cena displicentemente, deitado numa
almofada. Antes que o gato tivesse qualquer pretensão em
almoçar o olho da avó, um dos netos apanhou-o do chão e
foi guardar no bolso da japona.
— Pra que guardar esse olho? — perguntou o outro.
— É que amanhã eu vou pescar e o Ricardinho disse que
olho humano é boa isca pra garoupa.
— Você sempre com essa mania de pescar, pombas! Dá outra
facada nas costas dela, que vovó ainda está se mexendo, e
deixa as pescarias pra lá.
O que guardava o olho obedeceu. Retirou a faca do abdome
da velha e enfiou atrás, mas a lâmina enguiçou no meio.
Devia ser algum osso. Tornou a puxar e enfiar um pouco pro
lado e — felizmente — a faca entrou todinha.
— Acho que ela já apagou o pavio — disse o que dera a
cacetada. E — pra experimentar — bateu devagarinho com
o porrete no queixo da velha.
— Ela tá rindo — exclamou o da faca, com um olhar meio
apavorado.
— Rindo nada, idiota. É a dentadura que está escorregando.
Levantaram a boa senhora e ficaram indecisos quanto ao
lugar
onde colocar o corpo. Tinham imaginado a brincadeira só
até aí e agora se apresentava um problema novo: onde
colocar o corpo. Acabaram recolocando em cima do tapete,
para pensar.
— Nós somos mesmo uns palhaços — disse o mais alto, que
parecia ser o autor intelectual da brincadeira: — Onde já se
viu brincar de assassino e esquecer o detalhe do esconderijo
do corpo.
— E se a gente jogasse pela janela? — aventou o mais baixo.
— Pode dar galho.
— Isso é!
Um deles levantou-se e espantou o gato com um pontapé,
pois o gato estava cheirando o dedinho do pé da velhinha,
com ar suspeito. O gato fugiu para a cozinha e, ao segui-lo
com olhar, ele teve a idéia que, logo em seguida, chamaria
de "idéia-mãe". Botar o corpo na geladeira:
— Tive uma idéia-mãe — berrou: — Vamos botar vovó na
geladeira. Assim o corpo fica conservado e amanhã, quando
você for pescar, joga ela na Barra.
— Boa! — disse o irmão. E foi até a geladeira espiar para ver
se tinha espaço. Voltou meio desanimado. A mãe deles tinha
comprado uma leitoa para o almoço de domingo e a
bichinha estava lá dentro, na vinha-dolhos.
— Você gosta mais de vovó ou de leitoa? — perguntou o
outro, chateado: — Tire essa leitoa daí e vamos enfiar vovó
aí dentro de qualquer maneira.
A operação demorou um pouco. A avó era muito velha e
tinha as juntas muito duras. Tiveram que fazer força para
dobrá-la lá dentro. Mas conseguiram. Estavam ambos a
admirar o jeito que tinham para a coisa, quando a mãe
chegou em casa. Fecharam a geladeira depressa e correram
para o quarto, cada um abriu uma revista de amor e ficaram
fingindo que liam.
Mas não demorou muito e a mãe descobriu a travessura.
Ficou danada da vida e proibiu os dois de irem à praia uma
semana, para aprenderem a não sujar mais o tapete da sala
com sangue.

GAROTO LINHA-DURA


SONHO DE NATAL

SONHOU que era um desses Papais-Noéis pendurados entre
os edifícios cariocas, à guisa de decoração natalina. Ficara
dias e dias naquela posição incômoda, meio ao estilo jaca
madura, balançando lá em cima.
Já não se lembra mais quanto tempo ficou balançando entre
dois prédios, mas se lembra nitidamente que, no sonho,
passados os dias das Festas, apareceu um caminhão e —
finalmente — recolheram-no num desses carros da Limpeza
Urbana e levaram para um depósito, onde outros Papais-
Noéis, iguais a ele, já estavam amontoados pelos cantos.
Atiraram-no também a um canto e ele lá ficou, triste no seu
infortúnio. Foi quando um outro Papai-Noel ao seu lado deu
um suspiro e falou:
— Que papelão a gente fez, hem irmão?
— Não diga — respondeu ele: — Que coisa! Dois meses
pendurados, que nem Judas, em Sábado de Aleluia.
— É... mas o Judas fica um dia só. Depois malham o coitado
e o suplício acabou.
Tal tinha sido o vexame, que os outros Papais-Noéis do seu
sonho, que eram muitos, espalhados no depósito,
concordaram unanimemente que sua sorte foi pior. Cada um
lembrava certo detalhe da experiência que acabavam de
sofrer. Foi quando ele falou:
— No lugar onde estava pendurado tinha um garoto chato
que passava o dia me atirando caroços de feijão pela janela.
— Devia ser um filho de rico, para ter feijão para atirar assim.
Os Papais-Noéis todos sorriram. Só um manteve-se sério e
cabisbaixo, vítima de evidentes frustrações. Só falou quando
todos já não tinham mais nada a dizer. Pigarreou e lascou:
— Azar maior dei eu, companheiros. Fiquei pendurado em
frente à janela de uma pequena que vou te contar. Como era
boa! Toda noite ela tirava a roupa com a janela aberta.
— Então não era tão chato o seu lugar — ponderou um dos
Papais-Noéis.
— É o que você pensa — atalhou o que contava sua história.
— Eu dava um azar desgraçado. Toda noite ela se despia
com a janela aberta, mas na hora em que ia ficar pelada, o
vento me virava de costas.

CADELINHA PURO-SANGUE

QUANDO ELA PASSAVA, pisando com garbo o asfalto da
ruazinha sossegada, deixava a masculinidade local indócil.
Mesmo os casados fingiam que vinham à janela para espiar o
tempo, ou para jogar fora uma ponta de cigarro, ou para ver
se as crianças-estavam-brincando- direitinho. Enfim,
quando ela passava marcava ponto.
Também pudera! Mulher certinha estava ali. Aquilo era
mulher para banquete de quatrocentos talheres. Bonita,
sadia, corpo tamanho universal. Era de vê-la, irmãos, era de
vê-la. Trabalhar não trabalhava. Bastava olhar para ver o ócio
a se derramar de seu olhar, pidão. Corria à boca pequena que
era sustentada por um coronel.
Como toda mulher vaidosa e ociosa, tinha um cachorrinho.
À noitinha costumava sair com seu cachorrinho, para
passeá-lo um pouco. Aliás, minto... não era um cachorrinho:
era uma cadelinha. Dessas ridiculamente poodles. Um dia,
Mirinho estava atrás da persiana, olhando-a como sempre,
quando ouviu ela dizer para uma doméstica que chamara a
cadelinha de "um amor":
— É raça pura.
— Já cruzou? — perguntou a doméstica, numa curiosidade
um tanto ou quanto grossa.
— Com esses vira-latas aqui da rua? Deus me livre! — e a boa
fez cara de nojo, mesmo assim continuando uma gracinha. E
acrescentou: — Esta só cruza com cão da mesma raça.
Mirinho ouviu, anotou e, quando conseguiu uma mesada
mais gorda pouquinha coisa da sempre benemerente Tia
Zulmira, comprou um cachorrinho poodle. Na tardinha
seguinte, quando o pirão-da-redondeza deu a sua voltinha
para passear a cadelinha, Mirinho entreabriu a porta e disse
para o cachorrinho:
— Vai, Conquistador (Mirinho botou o nome no cachorri-
nho de "Conquistador" por motivos óbvios).
O cachorrinho saiu e foi direto fazer amizade de cachorro
com a cadelinha. A dona da cadelinha achou Conquistador
um amor. Levantou-o nos braços, deu beijinho no focinho e
estava curiosa sobre sua procedência, quando Mirinho
apareceu na calçada, fingindo-se preocupado, olhando em
torno. Nesse dia voltou com Conquistador debaixo do braço,
mas conversou um pouquinho com a boa. No segundo dia
soltou Conquistador quando a boa já estava retornando ao
lar. No terceiro, depois que ela já tinha entrado em casa.
Enfim, do quinto ou sexto dia em diante, Conquistador já era
íntimo da residência da moça. E Mirinho também.
Como, minha senhora? O coronel dela? Ah... o coronel já
estava queimando óleo 40. Só vinha uma vez por semana.

PROVA FALSA

QUEM TEVE A IDÉIA foi o padrinho da caçula — ele me conta.
Trouxe o cachorro de presente e logo a família inteira se
apaixonou pelo bicho. Ele até que não é contra isso de se ter
um animalzinho em casa, desde que seja obediente e com
um mínimo de educação.
— Mas o cachorro era um chato — desabafou.
Desses cachorrinhos de caça, cheio de nhém-nhém-nhém,
que comem comidinha especial, precisam de muitos
cuidados, enfim, um chato de galocha. E, como se isto não
bastasse, implicava com o dono da casa.
— Vivia de rabo abanando para todo mundo, mas, quando eu
entrava em casa, vinha logo com aquele latido fininho e
antipático de cachorro de francesa.
Ainda por cima era puxa-saco. Lembrava certos políticos da
oposição, que espinafram o ministro, mas quando estão com
o ministro, ficam mais por baixo que tapete de porão.
Quando cruzavam num corredor ou qualquer outra
dependência da casa, o desgraçado rosnava ameaçador, mas
quando a patroa estava perto, abanava o rabinho, fingindo-se
seu amigo.
— Quando eu reclamava, dizendo que o cachorro era um
cínico, minha mulher brigava comigo, dizendo que nunca
houve cachorro fingido e eu é que implicava com o
"pobrezinho".
Num rápido balanço poderia assinalar: o cachorro comeu
oito meias suas, roeu a manga de um paletó de casemira
inglesa, rasgara diversos livros, não podia ver um pé de
sapato que arrastava para locais incríveis. A vida lá em sua
casa estava se tornando insuportável. Estava vendo a hora
em que se desquitava por causa daquele bicho cretino.
Tentou mandá-lo embora umas vinte vezes e era uma cho-
radeira das crianças e uma espinafração da mulher.
— Você é um desalmado — disse ela, uma vez.
Venceu a guerra fria com o cachorro graças à má educação
do adversário. O cãozinho começou a fazer pipi onde não
devia. Várias vezes exemplado, prosseguiu no feio vício. Fez
diversas vezes no tapete da sala. Fez duas na boneca da filha
maior. Quatro ou cinco vezes fez nos brinquedos da caçula.
E tudo culminou com o pipi que fez em cima do vestido
novo de sua mulher.
— Aí mandaram o cachorro embora? — perguntei.
— Mandaram. Mas eu fiz questão de dá-lo de presente a um
amigo que adora cachorros. Ele está levando um vidão em
sua nova residência.
— Ué... mas você não o detestava? Como é que ainda
arranjou essa sopa pra ele?
— Problema de consciência — explicou: — O pipi não era
dele.


E Suspirou cheio de remorso
"Tentou mandá-lo embora umas vinte vezes"

O HÁBITO FAZ O AMANTE

ELE TRABALHAVA num horário meio esquisito. Entrava na
redação do jornal às 6 da tarde e largava aí por volta das 10
da noite. Mas, por causa da outra, dizia à esposa que ficava lá
embaixo, nas oficinas, fazendo revisão da matéria até às 4 da
madrugada. Assim, quando eram mais ou menos 11 horas,
estava chegando à casa da outra, onde fazia uma refeição
ligeira e ficava até umas 4 ou 4 e meia da manhã.
O perigo era dormir demais. Esta possibilidade o trazia
sempre apavorado. Sente o drama, vá! Se dormisse direto
acordaria já de dia e não teria explicação nenhuma para dar à
esposa, cuja já implicava às pampas com seu horário de
trabalho. Depois, sabem como é, caranguejo velho não sai da
toca com maré baixa. Se desse margem para a esposa ficar
mais descontente ainda, acabava tendo que largar a boca
rica.
E era aquele drama de sempre. Chegava na casa da outra,
aquele papinho e coisa e tal, um drinquezinho de vez em
quando e o resto da noite era de sobressaltos, com o medo
de dormir e perder a hora.
Até que, naquela noite, não foi. Deu-se que a outra ia ser
operada. Coisa sem importância. Um quistozinho, mas que
precisava ser extirpado. A outra dormiria de véspera no
hospital, acompanhada de uma irmã. E ele, quando acabou o
serviço na redação, resolveu ir para casa direto. Diria à
esposa que sentira uma tonteira e pedira para sair mais cedo.
Foi o que fez. Chegou, beijou, desculpou-se e foi dormir.
Até houve o detalhe: antes de adormecer pensou que, afinal,
ia poder dormir bastante. Mas o homem põe e Deus dispõe.
Dormiu direto, mas, aí pelas 8 da manhã, o sol começou a
bater no seu rosto. Foi esquentando, esquentando e... de
repente, ele acordou estremunhado, olhou para a janela, viu
aquela bruta luz e levantou-se de um salto. Na sua mente só
passava a idéia de que perdera a hora de voltar para casa.
Estava enfiando as calças, quando a esposa acordou também
e perguntou:
— Mas o que é isso???
Só então, caiu em si. Mas já era tarde. Não havia explicação
cabível. Disse apenas que precisava fazer um negócio
qualquer na cidade e foi se sentar num banco da praça, para
fazer hora.

TESTEMUNHA TRANQÜILA

O CAMARADA chegou assim com ar suspeito, olhou pros
lados e — como não parecia ter ninguém por perto —
forçou a porta do apartamento e entrou. Eu estava parado
olhando, para ver no que ia dar aquilo. Na verdade eu estava
vendo nitidamente toda a cena e senti que o camarada era
um mau-caráter.
E foi batata. Entrou no apartamento e olhou em volta.
Penumbra total. Caminhou até o telefone e desligou com
cuidado, na certa para que o aparelho não tocasse enquanto
ele estivesse ali. Isto — pensei — é porque ele não quer que
ninguém note a sua presença: logo, só pode ser um ladrão,
ou coisa assim.
Mas não era. Se fosse ladrão estaria revistando as gavetas,
mexendo em tudo, procurando coisas para levar. O cara —
ao contrário — parecia morar perfeitamente no ambiente,
pois mesmo na penumbra se orientou muito bem e andou
desembaraçado até uma poltrona, onde sentou e ficou
quieto:
— Pior que ladrão. Esse cara deve ser um assassino e está
esperando alguém chegar para matar — eu tornei a pensar e
me lembro (inclusive) que cheguei a suspirar aliviado por
não conhecer o homem e — portanto — ser difícil que ele
estivesse esperando por mim. Pensamento bobo, de resto,
pois eu não tinha nada a ver com aquilo.


"...tacou-lhe a primeira bolacha."

De repente ele se retesou na cadeira. Passos no corredor. Os
passos, ou melhor, a pessoa que dava os passos, parou em
frente à porta do apartamento. O detalhe era visível pela
réstea de luz que vinha por baixo da porta.
Som de chave na fechadura e a porta se abriu lentamente e
logo a silhueta de uma mulher se desenhou contra a luz.
Bonita ou feia? — pensei eu. Pois era uma graça, meus caros.
Quando ela acendeu a luz da sala é que eu pude ver. Era boa
às pampas. Quando viu o cara na poltrona ainda tentou
recuar, mas ele avançou e fechou a porta com um pontapé...
e eu ali olhando. Fechou a porta, caminhou em direção à
bonitinha e pataco... tacou-lhe a primeira bolacha. Ela
estremeceu nos alicerces e pimpa... tacou outra.
Os caros leitores perguntarão: — E você? Assistindo aquilo
tudo sem tomar uma atitude? — a pergunta é razoável. Eu
tomei uma atitude, realmente. Desliguei a televisão, a
imagem dos dois desapareceu e eu fui dormir.

QUEM NÃO TEM CÃO.

ALEGRIA, O comediante, mora num desses edifícios de
duzentos apartamentos por andar, alguns dos quais
sublocados. Alegria mora no 904 e não leva mais de dez
segundos para descrever sua residência: tem um banheiro
onde eu tomo banho (e faço o resto, naturalmente), mas que
não dá para eu me enxugar, por falta de espaço. A outra peça
é um quarto pequenino com uma bruta janela para o abismo.
Enfim, apartamento ótimo para suicídio.
Noutro dia estava o Alegria deitado na sua cama-sofá, mais
sofá do que cama, pois ele tem pouco tempo para dormir,
çlhando pela janela o céu lá fora, onde um urubu fazia
evoluções, como a zombar da altura dos prédios modernos e
do espaço que seus construtores reservam para quem os
financia, e Alegria estava a invejar o urubu, quando a
campainha tocou. Alegria levantou-se, entrou de perfil no
corredor (porque de frente não dá para trafegar no dito) e foi
abrir a porta. Era um português.
Infelizmente o português não estava sozinho: vinha em
companhia de um caixão de defunto. E explicou que estava
ali a encomenda. Que encomenda? O caixão que
encomendaram aqui neste endereço. E mostrou o
papelzinho, onde se podia ler o endereço do Alegria.
— Eu não encomendei ainda o meu caixão — explicou o
comediante. — Deve ser engano.
— Cavalheiro — começou o português. — Ninguém
encomenda o próprio caixão. O senhor deve tê-lo
encomendado para outra pessoa. A sua mãezinha, talvez —
experimentou, tentando avivar a memória do Alegria.
— Minha mãe vai bem obrigado e eu moro sozinho, logo eu
não encomendei caixão nenhum. O senhor já verificou
noutros apartamentos?
— Cavalheiro — tornou a se explicar o portuga — este pré-
dio tem mais cômodos que o Palácio de Versalhes (o
português era versado em História Universal) e eu não posso
estar de porta em porta, com um caixão de defunto debaixo
do braço. O endereço que está aqui é seu, o caixão já está
pago. Com licença... — e já ia se mandando.
— Um momento. O senhor não vai deixar isso aí na minha
porta.
— Se o senhor quiser eu ajudo a botar aí dentro.
— Mas aqui não cabe mais nem minha saudade — confessou
Alegria. — Que tal no banheiro? — propôs o lusitano,
querendo ajudar.
— Meu amigo, você não conhece o meu banheiro. Eu
escovo os dentes com as axilas apertadas, para não dar com o
cotovelo na parede.
— "Antão" o jeito é deitarmos o caixão aí no seu
corredorzito. E foi o jeito. Agora, além da cama-sofá, Alegria
possui mais um móvel em sua residência: um caixão bar,
onde guarda algumas garrafas de vinho Precioso, que lhe
deram no Natal e ele ainda não teve ocasião de beber, por
falta do que comemorar.

ESCRITOR REALISTA

O ESCRITOR NOVO, moderninho, todo bossa nova, em busca
de uma nova maneira de enviar sua mensagem ao leitor, o
escritor cheio daquela doença atual de querer complicar o
óbvio, sentou às margens de sua máquina de escrever
disposto a iniciar um romance que iria revolucionar a
técnica literária e o estilo do romance no Brasil.
Colocou um papel branquinho na máquina e respirou
profundamente. Sentia-se que o escritor novo estava às
margens da criação genial. Sentia-se que aquele era um
momento decisivo da história da literatura ocidental, como
mais tarde julgaria Otto Maria Carpeaux.
O escritor novo que buscava a suprema originalidade olhou
com ar superior para o papel branco à sua frente e começou
a escrever: "João atravessou o relvado em direção a Maria,
que corria para ele, de braços abertos. Enlaçou-a e disse...".
Aí o escritor novo parou um instante para pensar. Não lhe
vinha de imediato a frase certa, definida, escorreita, que
botaria na boca de seu personagem João. Acendeu um
cigarro e ficou pensando um pouquinho.

"Aí o escritor novo parou um instante para pensar."

Resolveu não forçar a barra. A inspiração teria que vir
espontânea. Levantou-se, foi até à janela, espiou lá embaixo
a plebe ignara que passava inocente, sem perceber que ali
estava a espiá-la um grande escritor. Ficou ainda um
pouquinho a respirar o ar fresco da tarde. Depois voltou à
máquina, releu o que escrevera, mas não sentiu — mais uma
vez — as palavras brotarem em sua mente para chegar ao
papel.
O escritor foi até o banheiro, molhou um pouco a fronte
com água fria e voltou para sua cadeira. Releu o que
escrevera: "João atravessou o relvado em direção a Maria,
que corria para ele, de braços abertos. Enlaçou-a e disse...".
Aí o escritor parara, sem achar a expressão certa, mas na-
quele momento ela lhe aflorava no cérebro, felizmente. E o
escritor novo, moderninho e preocupado em ser diferente
sorriu, para depois escrever:
— Eu te amo.

O LEITÃO DE SANTO ANTÔNIO

O VIGÁRIO ROSADO, gordo e satisfeito, queridíssimo dos
paroquianos daquela cidadezinha, não teria maiores
problemas para pastorar suas ovelhas, não fora o mistério do
cofre de Santo Antônio. Era um povo quieto, sem vícios,
cidade sem fofocas, salvo as pequeninas, entre comadres. E
o bom padre controlava a coisa, ouvindo uma, perdoando
outra, em nome de Deus.
Mas havia o mistério do cofre de Santo Antônio!
Tudo começou no dia em que o padre resolveu colocar, ele
mesmo, uma notinha de vinte cruzeiros, novinha em folha,
dessas que saem logo depois de uma revolução, em emissão
especial para pagar as despesas democráticas. O padre notou
que seus paroquianos não contribuíam muito para o cofre
que ficava ao pé da imagem de Santo Antônio e então tratou
de colocar ali a nota de vinte cruzeiros, na base do chamariz.
Admitia a possibilidade de os fiéis, ao verem a contribuição
"espontânea", contribuírem também.
E qual não foi a sua preocupação no dia seguinte, ao recolher
as contribuições nos diversos cofres da igreja, notar que os
vinte cruzeiros tinham ido pra cucuia? Alguém (e não fora
Santo Antônio, evidentemente) passara no cofre antes do
padre.
Aquilo era grave. Desde que fora designado para aquela
paróquia, nunca soubera de um caso de roubo, em toda a
cidade. Pelo contrário, a população orgulhava-se de dormir
sem trancas. E agora surgia aquele problema. O cofre de
Santo Antônio era o que ficava mais perto da porta e devia
ser esta a causa de estar sempre vazio. O ladrão se viciara em
roubá-lo. Devia estar fazendo isto há muito tempo, o que
explicava a falta de óbolos, que o padre não sabia roubados
até o dia em que resolveu incentivar os fiéis com a sua pró-
pria notinha de vinte.
Naquele domingo, preocupado com as conseqüências de seu
sermão, o padre andava de um lado para outro, na sacristia.
Tinha de arranjar um jeito de avisar ao ladrão que já era
senhor de suas atividades, mas não devia magoar o povo
com a notícia de que, na comunidade, havia um gatuno. Isto
poderia indignar de tal maneira a todos, que a vida pacata da
cidadezinha ficaria comprometida pela indignação dos
"sherlocks", pois é sabido que de médico e louco (e
detetive), todos nós temos um pouco.
O padre fez o sinal-da-cruz e atravessou o átrio para dizer
sua missa. Já tinha tudo planejado. Na hora do sermão,
pigarreou e contou que Santo Antônio lhe aparecera em
sonho, para agradecer a preferência de certo cristão daquela
cidade, que sempre que podia deixava uma esmola gorda
para os pobres e ainda "limpava" o cofre, possivelmente em
sinal de contrição.
O sermão acabou e ninguém notou que o verbo "limpar"
tinha sido usado com segundas intenções, mas o padre tinha
certeza de que o ladrão se mancara. Mais cedo ou mais tarde
viria contrito confessar-se. E — para reforçar sua tese —
naquela tarde o cofre de Santo Antônio estava cheio de
moedinhas.
Passaram-se alguns dias. Certa manhã o padre viu chegar o
velho que tomava conta da estação. Era um negro forte, de
cabelo grisalho, muito tranqüilo até a hora de largar o
serviço, ocasião em que entrava na tendinha e enchia a cara.
O negro chegou amparando uma bruta bandeja. Parou na
frente do padre e explicou:
— Seu padre, eu também andei sonhando com Santo
Antônio.
— Não me diga! — exclamou o padre, fingindo estranheza,
mas já certo que aquele era o ladrão, com remorsos.
— Mas é verdade. Sonhei com Santo Antônio e soube que o
santo anda com vontade de comer um leitãozinho. Eu estava
engordando este aqui para o meu aniversário. Ele já está
gordo e eu já tenho idade bastante para não comemorar mais
nada.
Dito o que, descobriu a bandeja e apareceu o mais apetitoso
dos leitõezinhos, assado em forno de lenha. O padre sentiu o
cheiro gostoso do seu prato preferido. Mas agüentou firme e
disse pro preto:
— Deixa a bandeja aí na sacristia que eu entrego o leitão pro
santo.


"...e contou que Santo Antônio lhe aparecera em sonho. .
."

O bom ladrão obedeceu. Deixou a bandeja e voltou para casa
de alma leve. Mas o padre também era um excelente sujeito.
Minutos depois, o menino que fazia as vezes do sacristão na
igreja chegava à porta com um recado do padre:
— Seu vigário mandou dizer — falou o moleque — que
Santo Antônio está de dieta, e que é pro sinhô ir comer o
leitãozinho com ele, logo mais.
Foi um santo jantar.


"Soube que o Santo anda com vontade de comer um
leitãozinho."

LADRÕES ESTILISTAS

SÃO TANTAS AS QUEIXAS dos gerentes de lojas, contra roubos
em suas vitrinas e balcões, que a polícia já conhece as
diversas modalidades de pilhagem. Além dos
cleptomaníacos, que roubam pela aventura de roubar, pela
sensação de estar passando os outros para trás, o que Freud
explica na página 4 do seu substancioso manual, há o ladrão
mesmo, o profissional do roubo, que se especializa num
estilo de roubo e vai de loja em loja, fazendo a féria. No Rio
de Janeiro, ultimamente, a incidência da pilhagem em lojas
elegantes e grandes magazines cresceu, razão pela qual os
repórteres se apresentaram naquela loja para fazer uma
reportagem sobre o assunto.
Era uma loja que já tinha sido vítima de diversos roubos e o
gerente estava mesmo disposto a contratar um detetive
particular, para apanhar ó ladrão em ação. Era — aliás —
sobre esta disposição que o gerente falava com o repórter,
enquanto o fotógrafo batia uma ou outra chapa da
mercadoria exposta na loja. O gerente — como a Polícia —
sabia direitinho como os ratos de loja funcionam. E se
orgulhava de sua erudição a respeito.
— Você compreende — dizia ele ao repórter — a minha
experiência levou-me a ser mais sabido do que a Polícia
nesta questão — e fez um ar superior.
— Interessante — disse o repórter.
Sentindo-se com platéia, o gerente prosseguiu. Há o assalto
boçal, do oportunista, que fica de olho, quando um
caminhão da firma está descarregando mercadoria. Ao
menor descuido, apanha um objeto qualquer e sai correndo.
Mas este é o ladrão barato, sem estilo, e sem classe. A loja
era vítima mais contumaz dos estilistas.
— Mas cada ladrão tem seu estilo? — estranhou o repórter.
— Claro — exclamou o gerente, tomando ares de professor.
Há o suposto freguês que entra, apanha uma mercadoria
qualquer, como se fosse comprá-la, e leva-a a um dos
caixeiros distraídos. Explica que comprara aquilo na véspera,
mas que não ficara à seu gosto e desejava trocar. O caixeiro,
ingenuamente, recebe a mercadoria e entrega ao ladrão, de
mão-beijada, uma outra.
Há o que se aproveita dos momentos em que a loja está
semi- vazia. Se o caixeiro está só, ele entra, escolhe o que vai
comprar e que — de antemão — já sabe que está lá dentro.
E quando o empregado vai lá dentro buscar o que o
"freguês" deseja, este se aproveita e foge com outra
mercadoria debaixo do braço.
O repórter anotou mais esta e o gerente contou outra. Para o
roubo de objetos pequenos, que se costuma expor sobre os
balcões, os ladrões preferem agir com valise de fundo falso.
— Como é isso? — quis saber o repórter, depois de pedir ao
fotógrafo que batesse uma foto do gerente. Este posou
napoleonicamente e explicou: — A valise de fundo falso é
simples. Não tem fundo. O ladrão entra, coloca a valise
sobre o objeto que deseja roubar. Quando levanta a valise o
fundo falso já correu e deixou o objeto lá dentro, e ele o
carrega consigo sem ser molestado.
Este processo, aliás, lembra um outro, dos que usam paletó
frouxo, ou capa de chuva. Entram na loja e ficam
examinando os mostruários. Quando notam que a
oportunidade é boa, enfiam alguma coisa por dentro do
paletó ou da capa. É um movimento rápido, difícil de ser
pressentido pelos empregados.
— Puxa — admirou-se o repórter — mas existe uma
infinidade de golpes, hein?
— E estes são os golpes dos ladrões que agem sozinhos. Há
os ladrões que agem em grupo ou mesmo em dupla. Vem
um, apanha uma porção de coisas como se fosse comprar e
passa para o companheiro, que desaparece sem ser
incomodado. Quando os empregados reparam que as
mercadorias sumiram, o cínico limita-se a ordenar que o
revistem.
— Impressionante — lascou o repórter, tomando os últimos
apontamentos. E depois pediu: — Posso dar um
telefonemazinho?
— Pois não — concordou o gerente. E mostrou onde era.
— Vem comigo, Raimundo — pediu o repórter ao fotógrafo
e este, carregando as maletas das máquinas fotográficas,
seguiu-o.
Passavam-se vários minutos e nem fotógrafo nem repórter
voltavam lá de dentro. O gerente foi espiar e encontrou um
bilhetinho perto do telefone, que dizia: "Meu Compadre: e o
golpe de um fingir que é repórter enquanto o outro,
fingindo que é fotógrafo, vai enchendo a mala com
mercadorias à mão, o senhor conhecia?"

CELINHA CONVITE

A MOCINHA, muito da gostosinha, estava jogando frescobol
na beira da praia, sob os olhares cobiçosos da plebe ignara
(ala masculina). Ela era dessas de fazer motorista de coletivo
respeitar sinal e muito desinibida nem dava bola para o êxito
que seu corpo moreno e quase pelado, apenas coberto por
precário biquíni (desses que parecem feitos com o pano
aproveitado de duas gravatas borboletas), fazia junto à
moçada.
Foi quando um dos freqüentadores do local explicou para os
outros:
— Essa daí é a Celinha Convite.


"Ela era dessas de fazer motorista de coletivo respeitar sinal."

— Convite??? — estranhou o filho de Dona Dulce, que
também olhava para a anatomia da moça, embora com
aquela discrição que é faceta marcante em minha exuberante
personalidade.
O informante esclareceu: — Sim, Celinha Convite.
— E Convite é nome de família?
Não, não era. Celinha ficou sendo Celinha Convite depois
do último carnaval. Antes era Celinha Pereira. Mas acontece
que na época do carnaval, Celinha destacou uma jogada que
ficou célebre. E contou a história.
— Nos dias que antecederam o baile do Copacabana Palace,
cujo convite custava uma nota alta, Celinha, talvez com esse
mesmo biquíni que a despe agora, foi para a piscina do hotel
e ficou por ali, onde havia mais paulista rico do que cará no
brejo. De vez em quando um paulista se aproximava e
puxava conversa com Celinha. Como era tempo, de
carnaval, a conversa acabava invariavelmente com este
assunto. Era a ocasião em que Celinha dizia que adoraria ir
ao baile do Copacabana, mas que o convite era tão caro!!! E
deixava umas reticências no ar. Ora, paulista, você sabe
como é bonzinho, em época de carnaval. O grã-fino
providenciava logo um convite para Celinha, ali mesmo na
piscina, cheio de esperanças de apanhar Celinha no baile.
Para encurtar conversa: Celinha conseguiu bem uns vinte a
trinta convites que depois, mesmo vendidos por preço
especial aos seus conhecidos, renderam-lhe mais de 200
contos.
— Interessante. E Celinha Convite foi ao baile com qual dos
grã-finos?
- Com nenhum. Foi de máscara, com o namorado dela.
- Paulista?
- Não. Baiano.

A ESTRANHA PASSAGEIRA

— O SENHOR SABE? É a primeira vez que eu viajo de avião.
Estou com zero hora de vôo — e riu nervosinha, coitada.
Depois pediu que eu me sentasse ao seu lado, pois me
achava muito calmo e isto iria fazer-lhe bem. Lá se ia a
oportunidade de ler o romance policial que eu comprara no
aeroporto, para me distrair na viagem. Suspirei e fiz o
bacano respondendo que estava às suas ordens.
Madama entrou no avião sobraçando um monte de
embrulhos, que segurava desajeitadamente. Gorda como era,
custou a se encaixar na poltrona e arrumar todos aqueles
pacotes. Depois não sabia como amarrar o cinto e eu tive
que realizar essa operação em sua farta cintura.
Afinal estava ali pronta para viajar. Os outros passageiros
estavam se divertindo às minhas custas, a zombar do meu
embaraço ante as perguntas que aquela senhora me fazia aos
berros, como se estivesse em sua casa, entre pessoas íntimas.
A coisa foi ficando ridícula:
— Para que esse saquinho aí? — foi a pergunta que fez, num
tom de voz que parecia que ela estava no Rio e eu em São
Paulo.
— É para a senhora usar em caso de necessidade — respondi
baixinho.
Tenho certeza de que ninguém ouviu minha resposta, mas
todos adivinharam qual foi, porque ela arregalou os olhos e
exclamou:
— Uai... as necessidades neste saquinho? No avião não tem
banheiro?
Alguns passageiros riram, outros — por fineza — fingiram
ignorar o lamentável equívoco da incômoda passageira de
primeira viagem. Mas ela era um azougue (embora com
tantas carnes parecesse mais um açougue) e não parava de
badalar. Olhava para trás, olhava para cima, mexia na
poltrona e quase levou um tombo, quando puxou a alavanca
e empurrou o encosto com força, caindo para trás e espar-
ramando embrulhos para todos os lados.
O comandante já esquentara os motores e a aeronave estava
parada, esperando ordens para ganhar a pista de decolagem.
Percebi que minha vizinha de banco apertava os olhos e lia
qualquer coisa. Logo veio a pergunta:
— Quem é essa tal de emergência que tem uma porta só pra
ela?
Expliquei que emergência não era ninguém, a porta é que
era de emergência, isto é em caso de necessidade, saía-se
por ela.
Madama sossegou e os outros passageiros já estavam
conformados com o término do "show". Mesmo os que mais
se divertiam com ele resolveram abrir jornais, revistas ou se
acomodaram para tirar uma pestana durante a viagem.
Foi quando madama deu o último vexame. Olhou pela janela
(ela pedira para ficar do lado da janela para ver a paisagem) e
gritou:
— Puxa vida!!!
Todos olharam para ela, inclusive eu. Madama apontou para
a janela e disse:
— Olha lá embaixo.
Eu olhei. E ela acrescentou: — Como nós estamos voando
alto, moço. Olha só... o pessoal lá embaixo até parece
formiga.
Suspirei e lasquei:
— Minha senhora, aquilo são formigas mesmo. O avião ainda
não levantou vôo.

A BARBA DO FALECIDO

ACONTECEU EM JUNDIAÍ. Orozimbo Nunes estava passando
mal e foi internado pela família no Hospital São Vicente de
Paulo, para tratamento. Orozimbo tem muitos parentes, é
muito querido e tem uma filha que cuida dele. Foi a filha,
aliás, que internou Orozimbo.
Anteontem telefonaram para a filha de Orozimbo Nunes.
Era do hospital e a notícia dada foi lamentável. Orozimbo
tinha abotoado o paletó — como dizem os irreverentes. Isto
é, tinha posto o bloco na rua, como dizem os super-
irreverentes, comparando enterro a bloco carnavalesco.
Enfim, Orozimbo tinha morrido. A filha de Orozimbo que
fizesse o favor de aguardar, porque lá do hospital iam fazer o
carreto, ou seja, iam mandar o defunto a domicílio.
A filha do extinto caiu em prantos e convocou os parentes.
Conforme ficou dito acima, Orozimbo era muito querido.
Veio parente da capital, veio parente de Minas, parente do
Rio, enfim, Jundiaí ficou assim de parente de Orozimbo. As
providências para o velório foram logo tomadas, gastou-se
dinheiro, compraram-se flores. Estava um velório legal se
não faltasse um detalhe: não havia defunto.
O corpo de Orozimbo não tinha chegado. A família ligou
para o hospital e reclamou. Tinha saído no expresso-rabecão
das seis — informaram. E, de fato, pouco depois Orozimbo
(à sua revelia) chegava. Puseram o embrulho lá dentro,
houve aquela choradeira regulamentar e, na hora de
desembrulhar para preparar o cadáver, alguém notou que a
barba de Orozimbo crescera.
— Ele estava tão doente que nem podia fazer a barba —
comentou um dos que ajudavam, com a filha de Orozimbo,
que esperava lá fora.
A filha estranhou a coisa. Entregara Orozimbo doente, é
verdade, mas Orozimbo chegara ao hospital perfeitamente
escanhoado e não dava tempo de a barba ter crescido assim
tão depressa.
— A barba tá muito grande? — perguntou a filha de
Orozimbo?
Estava. Estava que parecia barba de músico da Bossa-Nova.

a moça desconfiou e foi conferir. Simplesmente não era
Orozimbo. Tinham trocado as encomendas, e talvez naquele
momento, outra família, noutro local, estivesse chorando o
Orozimbo errado. Mais que depressa ligaram para o Hospital
São Vicente de Paulo e reclamaram contra a ineficácia do
serviço de entregas rápidas.
Nova verificação para se saber qual era o embaraço, e a
direção do eficiente nosocômio descobriu que Orozimbo
nem sequer morrera. Não houvera uma troca de cadáveres,
mas uma troca de fichas. O que morrera não era Orozimbo,
era um barbadinho anônimo. Orozimbo estava lá, vivinho e,
por sinal, passando muito melhor. Podia até ter alta, assim
que desejasse.
Claro, parou a bronca e a raiva contra o desleixo
transformou- se em pungente alegria. A família foi buscar
Orozimbo (depois de devolver o barbicha, naturalmente) e o
contentamento foi geral, em receber de volta aquele que já
fora pranteado por antecipação e para o qual já tinham feito
aquela vasta despesa para o enterro. Não sei se é verdade,
mas dizem que a família, em sinal de regozijo pela volta de
Orozimbo e também para aproveitar o que sobrara das
despesas, ofereceu aos amigos um velório-dançante.


MADAME E O FREGUÊS

A JOVEM SENHORA estava colocando as suas meias fumê,
vestindo-se para ir a um jantar, quando ouviu um barulho na
sala. Distraída, assim mesmo como se encontrava, nos trajos
mais íntimos, foi até lá ver o que era. Foi aí que deu com o
homem sentado no sofá. Ela arregalou os olhos de espanto,
ficou embatucada, olhando para o homem, mas este nem ao
menos se preocupou com o seu susto. Continuou sentado no
sofá. Ela — logo que teve forças — correu para o quarto,
trancou a porta e telefonou para a amiga:
— Fulana, tem um homem aqui na sala, sentado no sofá.
— Não é seu pai? — perguntou a amiga, que ainda não
sentira o drama.
— Se for papai é pior — ela exclamou nervosíssima.
— Por quê?
— Porque papai já morreu.
Só então a amiga percebeu o drama que ela vivia. Meu Deus,
e se fosse um ladrão: — Tinha cara de ladrão? — perguntou
a amiga.
Não, não tinha. Parecia um senhor numa sala de espera de
escritório. A amiga concordou que certos ladrões sabem
disfarçar-se muito bem. Mas teve um plano.
— Desliga o telefone que eu ligo para aí de novo. Você não
atende, entendeu? Deixa que ele atenda lá na sala. Quando
ele atender eu digo a ele para ir embora.
Era um plano dos mais mixurucas, conforme os leitores
podem concluir, mas foi tentado. O telefone tocou, tocou e
nada de o homem se mancar e atender, lá na sala. Vendo
que a amiga ia ficar tocando em vão, madama atendeu, no
quarto.
— Ele foi embora? — quis saber a amiga.
Madama não sabia, mas bolou outro plano:
— Eu vou destrancar a porta do quarto e ver. Mas, pelo amor
de Deus, ligue de novo e dê quinze chamadas, se eu não
atender até a décima-quinta, você chame a Polícia, porque o
homem deve ter-me atacado.
Desligou o fone a tremer de medo e caminhou resoluta para
a porta. Meteu a mão na chave e virou suavemente. Depois
que a porta abriu, meteu a cara e espiou. Ué... não havia
mais homem nenhum no sofá. Tomou coragem e caminhou
pela sala. Chegou a dar um gritinho de espanto, quando o
telefone recomeçou a tocar. Mas devia ser a amiga. Pôs-se a
percorrer o apartamento todo. Nada do homem. Tinha ido
embora. O telefone continuava tocando:
— Meu Deus! — pensou ela: — Eu não contei as batidas. Se
chegar a quinze, Fulana desliga e chama a Polícia.
Deu um salto e atendeu. A amiga aflita explicou que dera
dezoito chamadas para estar certa de que ela tinha morrido.
— Não morri — disse Madama: — O homem sumiu.
— Ora essa! — exclamou a outra, um tanto decepcionada.
E as duas conversaram um pouquinho, ainda prenhes de
nervosismo, sobre o homem misterioso. Só então Madama
se lembrou de que estava de calcinhas e meias fumê.
— Chi... tenho que acabar de me vestir — e desligou.
Já estava quase pronta, quando se lembrou de que deixara o
batom na sala. Caminhou até lá, e ao transpor a porta olhou
casualmente para o sofá. Deu um berro. Havia um homem
sentado.
— Mas o que é isso, meu bem — estranhou o homem, num
pulo.
Ai... felizmente o homem era seu marido. Madama, já agora
num misto de nervosa e encabulada, contou tudo que
acontecera. O marido ouviu tudo calado e tranqüilo, só não
gostando do pedaço em que sua mulher entrou na sala de
calcinhas e meias fumê, para ser vista pelo homem.



'Parecia um senhor numa sala de espera de escritório.'

— E por que ele estava sentado aí? — perguntou ela,
necessitada de uma explicação para o drama que vivera.
— Simples, meu bem. Você já não ouviu dizer que aí no
andar de baixo há um apartamento suspeito de uma senhora
que mantém um "rendez-vous"? Então... o camarada entrou
aqui pensando que fosse o apartamento de baixo.
— Mas como é que ele não se espantou quando me viu de
calcinhas, com estas meias?
— Ora, minha filha... se há uma coisa que não espanta é ver
uma mulher passar nestes trajos, numa sala de "rendez-
vous".
A mulher ficou a pensar um pouquinho. De fato, o marido
tinha razão. Levantou-se, apanhou o batom e se pintou.
Depois saíram, foram ao tal jantar e só de madrugada, ao
voltar do banheiro sem maquilagem, com o marido já
deitado para dormir, é que fez a derradeira pergunta, que a
vinha intrigando desde o ocorrido:
— Meu bem...
— Hummmm... — gemeu o marido, tonto de sono.
— Mas por que o homem foi embora sem dizer nada?
— Porque, quando você se trancou no quarto só de calcinhas
e meias, ele pensou que você estivesse com algum freguês e
achou que não valia a pena esperar.
Fez-se silêncio e instantes depois Madama começou a
chorar. O marido levantou a cabeça do travesseiro e
perguntou intrigado:
— Uai... você está chorando por quê?
— Porque você achou... — disse ela entre soluços — ... que
o homem foi embora porque achou que não valia a pena
esperar.

TESTEMUNHA OCULAR

ELE ESTAVA NO AEROPORTO. Acabara de chegar e ia tomar o
avião para o Rio. Sim, porque esta história aconteceu em São
Paulo. Ele acabara de chegar no aeroporto, como ficou dito,
quando viu um homem que se dirigia com passos largos,
pisando duro, em direção à moça que estava ao seu lado, na
fila para apanhar a confirmação de viagem. O sujeito chegou
e não falou muito. Disse apenas:
— Sua ingrata. Não pense que vai fugir de mim assim não —
e no que disse isso, tacou a mão na mocinha. Essa não era
tão mocinha assim, pois soltou um xingamento desses que
não se leva para casa nem quando se mora em pensão. E
lascou a bolsa na cara do homem. Os dois se atracaram no
mais belo estilo vale-tudo e ele — que assistia de perto —
tentou separar o belicoso casal. Houve o natural tumulto,
veio gente, veio um guarda e a coisa acabou como acaba
sempre: tudo no distrito.
Tudo no distrito, inclusive ele, que já ia tomar o avião, mas
que teve de ir também, convocado pela autoridade na
qualidade de testemunha ocular.
Em frente à mesa do comissário (um baixinho de bigode,
doido para acabar com aquilo) o casal continuou discutindo
e o homem mentiu, afirmando que fora agredido pela
mulher. Ele — muito cônscio de sua condição de
testemunha ocular — protestou:
— Não é verdade, seu comissário. Eu vi tudo. Foi ele que
avançou para ela e deu um bofetão.
— CALE-SE!!! — berrou o comissário.
— Mas é que. ..
— CALE-SE!!! — tornou a berrar o distinto policial, com
aquele tom educado das autoridades policiais.
Ele calou-se, já lamentando horrivelmente ter sido arrolado
como testemunha ocular. Ficou calado, preferindo que todos
se esquecessem de sua presença e ia-se dando muito bem
com esta jogada até o momento em que a mulher que
apanhara apontou para ele e disse para o comissário:
— Se esse cretino não se tivesse metido, não tinha
acontecido nada disto.
— Eu??? — estranhou ele, apontando para o próprio peito.
— O senhor mesmo, seu intrometido.
— Mas foi ele quem a agrediu, minha senhora.
— Mentira — berrou o homem. — Eu apenas fui lá para
impedir o embarque dela para a casa dos pais. Tivemos uma
briguinha sem importância em casa e ela, coitadinha, que
anda muito nervosa, quis voltar para casa dos pais. (Dito isto,
abraçou a mulher que pouco antes chamara de ingrata e
premiara com uma bolacha. Ela se aconchegou no abraço, a
sem-vergonha.)
E ele ali, um misto de palhaço e testemunha ocular. Quis
apelar para o guarda que o trouxera, mas este já retornara ao
posto. Estava a procurá-lo com um olhar circulante pela sala,
quando ouviu o comissário mandando o casal embora.
Tratem de fazer as pazes e não perturbar em público.
O casal agradeceu e saiu abraçado, tendo a mulher, ao virar-
se, lançado-lhe um olhar de profundo desprezo. E, quando
os dois saíram, virou-se para o comissário e sorriu:
— Doutor, palavra de honra que eu. . .
Mas o comissário cortou-lhe a frase com um novo berro. Em
seguida aconselhou-o a não se meter mais em encrencas por
causa de briguinhas sem importância entre casais em lua-de-
mel.
— Eu só vim aqui para ajudar — admitiu ele, com certa
dignidade.
— CALE-SE!!! — berrou o comissário: — E some daqui antes
que eu o prenda...
Não precisou ouvir segunda ordem. Apanhou a valise e saiu
com ódio de si mesmo. "Bem feito" — ia pensando — "que é
que eu tinha que entrar nessa encrenca?". Entrou em casa
chateado, ainda mais porque perdera o avião e a hora em
que tinha de estar no Rio para assinar as escrituras com o
corretor. Tratou de afrouxar o laço da gravata e pedir uma
ligação interurbana, a fim de dar uma explicação ao patrão.


"— CALE-SE!! — berrou o comissário."

Somente no dia seguinte retornou ao aeroporto para fazer a
viagem. Saiu de casa cedo e foi para a esquina apanhar um
táxi. Foi quando houve o assalto. Ia passando por um café
quando três sujeitos saíram lá de dentro, atirando a esmo,
para abrir caminho. Ele — coitado — ficou entre os três,
com a mão na cabeça sem saber se corria ou se encolhia. Os
assaltantes entraram num carro que já os aguardava de motor
ligado e sumiram no fim da rua. Logo acorreram pessoas de
todos os lados, na base do que foi, do que não foi. Um
guarda tentava saber o que acontecera, quando um senhor
gordo, que parecia ser o dono do bar assaltado, apontou para
ele e disse:
— Seu guarda, esse homem viu tudo. Os assaltantes passaram
por ele.
O guarda se encaminhou para ele e perguntou:
— O senhor viu quando eles deram os tiros?
E ele, com a cara mais cínica do mundo:
— Tiros? Que tiros???

MENINO PRECOCE

Diz QUE ERA um menino de uma precocidade extraordinária
e vai daí a gente percebe logo que o menino era um chato,
pois não existe nada mais chato que menino precoce e velho
assanhado. Todos devemos viver as épocas condizentes com
as nossas idades; do contrário, enchemos o próximo.
Mas deixemos de filosofias sutis e narremos: diz que o
menino era tão precoce que nasceu falando. Quando o pai
soube disso não acreditou. O pai não tinha ido à
maternidade, no dia em que o filho nasceu, não só porque
não precisava, como também porque tinha que apanhar uma
erva com o Zé Luís de Magalhães Lins, para pagar a
"délivrance" que era quase o preço de um duplex, pois a
mulher cismou de ir para a casa de saúde do Guilherme
Romano.
Mas isto também não vem ao caso. O que importa é que o
menino já nasceu falando.
Quando o pai soube da novidade, correu à maternidade para
ouvir o que tinha o menino a dizer. Chegou perto da
incubadeira e o garoto logo se identificou com um "Oba". O
cara ficou assombrado e mais assombrado ficou quando o
nenenzinho disse:



— Papai vai morrer às 2 horas! — dito o que, passou a
chupar o bico da mamadeira e mais não disse nem lhe foi
perguntado.
O cara voltou para casa inteiramente abilolado. Sem conter o
nervosismo, não contou pra ninguém a previsão do
menininho precoce, mas ficou remoendo aquilo. Dez e
meia, onze, meio-dia... e o cara começou a suar frio. Uma da
tarde, o cara já estava suando mais que o marcador de Pelé.
Quando deu duas horas ele estava praticamente arrasado e
quando passou da hora prevista um minuto ele começou a se
sentir mais aliviado. E estava dando o seu primeiro suspiro,
quando ouviu um barulho na casa do vizinho. Uma gritaria,
uma choradeira. Correu para ver o que era: o dono da casa
tinha acabado de falecer.

PARA TODO O SERVIÇO

ESTAVA AQUI a passar os olhos pelos anúncios dos jornais e
dei com este, publicado no Correio da Manhã. Diz assim:
"Ofereço 3 mocinhas chegadas de Mato Grosso para
qualquer serviço". Em seguida vem o telefone, que eu não
publico porque manjo muito vocês e sei que começariam a
telefonar já, propondo os mais estranhos serviços para as três
mocinhas chegadas de Mato Grosso.
Eu estava passando os olhos pelos anúncios, justamente
porque estava sem assunto e a coluna de anúncios tem
sempre assunto escondido. Quando dei com este das três
mocinhas fiquei imaginando o que faria com elas. Talvez
telefonasse e mandasse vir as três, mas o que fazer com três
mocinhas de Mato Grosso, ao mesmo tempo?
Para o chamado trivial ligeiro já há mulher aqui em casa. Há
uma que lava, outra que cozinha, há uma terceira que
arruma. Se eu pudesse aproveitar as três mocinhas de Mato
Grosso noutra coisa qualquer!!! Afinal o anúncio diz que elas
fazem qualquer serviço e eu já estive a pensar na
possibilidade de fazer um trio vocal com elas. Uma espécie
assim de "The Mato Grosso Sisters", para cantar num dos
barezinhos do Beco das Garrafas. Pode ser que o nome ficas-
se melhor em inglês, mas eu não sei como é mato na língua
de Herbert Levy e acabei achando que "The Mato Grosso
Sisters" é bacaninha, porque dá direito ao trio vocal de
cantar músicas nacionais e estrangeiras.
Já tinha decidido tudo isto quando me lembrei de que as três
mocinhas chegadas de Mato Grosso talvez não saibam cantar
e vão-me dar muito trabalho. Não... o melhor é deixar esta
idéia pra lá. As três mocinhas podem perfeitamente fazer
outra coisa. Mas o quê???
Como, minha senhora? Não, para isso não há necessidade de
três, muito menos recém-chegadas de Mato Grosso. É... pelo
jeito, nada posso fazer pelas mocinhas. Em todo caso, vou
ligar para o telefone aqui do anúncio e perguntar se eles
fazem negócio na base da unidade. Se fizerem, talvez eu
mande separar uma pra sábado.

CHORO, VELA E CACHAÇA

ENTERRO DE POBRE tem sempre cachaça. É para ajudar a velar
pelo falecido. Sabem como é; pobre só tem amigo pobre e,
portanto, é preciso haver um incentivo qualquer para a
turma subnutrida poder agüentar a noite inteira com o ar
compungido que o extinto merece.
Enfim, a cachacinha é inevitável, seja numa favela carioca,
seja num bairro pobre da cidade do interior. Agora mesmo,
em Minas, me contaram, morreu um tio de um tal de
Belarmino. Houve velório com a melhor cachaça daquelas
bandas, uma chamada "Suor de Virgem". Quando um
desgraçado que não tinha sido convidado pro velório do tio
de Belarmino soube que fora servida a cachaça. "Suor de
Virgem" saiu em procura do sobrinho do extinto e, ao
encontrá-lo, lascou a ameaça:


"Morreu lá um tal de Sô Nicolino."

— Belarmino, eu soube que tinha "Suor de Virgem" no
velório de seu tio e você não me convidou. Mas num há de
ser nada. Faço fé em Deus que inda morra alguém na minha
família, que é pra eu gastar um desperdício de "Suor de
Virgem" e num convidar safado nenhum da sua.
São fatos como os citados que provam a importância da
cachaça nas exéquias de quem morre teso, embora — às
vezes — a cachaça, ao invés de ajudar, atrapalhe.
Foi o que aconteceu agora em Ubá (MG), terra do grande
Ari Barroso. Morreu lá um tal de Sô Nicolino, numa
indigência que eu vou te contar. Segundo o telegrama vindo
de Ubá, alguns amigos de Sô Nicolino compraram um caixão
e algumas garrafas de cangibrina, levando tudo para o
velório. Passaram a noite velando o morto e entornando a
cachaça. De manhã, na hora do enterro, fecharam o caixão e
foram para o cemitério, num cortejo meio ziguezagueado e
num compasso mais de rancho que de féretro. Mas — bem
ou mal — lá chegaram, lá abriram a cova e lá enterraram o
caixão.
Depois voltaram até a casa do morto, na esperança de ter
sobrado alguma cachacinha no fundo da garrafa. Levaram,
então, a maior espinafração da vizinha do pranteado Sô
Nicolino. É que os bêbados fecharam o caixão, foram lá
enterrar, mas esqueceram o falecido em cima da mesa.

FEBEAPÁ-1

O PAQUERA

CONHECI O BATALHA quando ele ainda era garoto. Aliás,
todos os que foram meninos aqui no bairro conheceram o
Batalha. Naquele tempo o bairro era calmo, os garotos
unidos, havia espaço, era ótimo. O Batalha era um garoto
legal, e só depois que foi crescendo é que foi ficando feio.
Ao atingir a puberdade, o Batalha já era tão feio que —
francamente — eu estava vendo a hora que ele ia acabar
Presidente da República.
Talvez tenha sido a feiúra dele que o levou ao vício de espiar
mulher de longe. Namorava à distância, sem que a moça
soubesse de nada, para não estragar o namoro. Uma de suas
primeiras experiências amorosas ensinou-lhe esse truque.
Laurinha, que era muito bonitinha e muito senhora de sua
beleza, que a secura da rapaziada exaltava às pampas, era, por
isso mesmo, perversa como só ela. O Batalha namorou-a
durante dois anos e, quando ela soube, desfez. Foi até
tragicômico: alguém foi dizer pra ela que o Batalha falava pra
todo mundo que namorava ela. Laurinha não conversou:
telefonou pro Batalha e, no que ele disse "alô", ela lascou:
— Escuta aqui, seu nojento, se eu te pegar de novo me
olhando com esse teu olhar de garoupa congelada, eu cuspo,
tá bem? — e desligou o telefone e as esperanças do rapaz.
Talvez tenha sido desde aí que o Batalha aprendeu a apreciar
mulher de longe. Depois de homem feito e feio —
definitivamente feio — já o bairro estava todo edificado na
base de altos edifícios. Batalha especializou-se em espiar
mulher da janela.
Foi quando se deu a história triste que ele me contou como,
de resto, me contou esta última, pois sabe que eu não vou
sair pela aí esparramando, como fizeram quando ele era
paquera oficial da Laurinha. Deu-se, eu dizia, que o Batalha
ficou tempos de olho numa mocinha que morava no prédio
em frente. Um dia ele pegou e contou pra mim que ela não
só já notara o interesse dele como também aderira. Ficava do
lado de lá, muitas vezes, debruçada na janela, de olhar na sua
direção. Ele achou, inclusive, que a mãe dela não fazia gosto
porque, em dado momento, chegava para a mocinha,
segurava-a pelo braço e levava lá pra dentro, estragando
tudo. A mocinha era muito dócil, e ia.
Eu nem devia ter contado esse episódio, pois é muito triste,
mas serve para ilustrar muito bem o caipirismo do Batalha.
Na verdade, a mocinha não era dócil. Era cega, isto sim. E o
Batalha só descobriu muito tempo depois, quando teve
oportunidade de vê-la de perto, na rua. Ficou sentidíssimo;
afinal, a primeira que olhou fixo para ele só o fazia porque
não o enxergava. É duro.
Mas não é à toa que ele se chama Batalha. Há coisa de uns
meses, mudou-se para o Leme e andava entusiasmado com
uma dona do edifício que dava fundos para a sua rua. É que
ela tomava banho de sol no terraço com um biquíni um
bocado mini-biquíni.
Isso foi no começo. Com o correr do tempo ele foi me
contando mais coisas. Por exemplo: estava certo de que a
moça percebera sua paquera, embora a paquera fosse de uma
distância considerável. Ela olhava em direção à sua janela e
sorria:
— Ontem ela tomou banho de sol só com a parte de baixo do
biquíni — me falou certa vez, com a voz embargada de
emoção. E, num recente encontro, dei com o Batalha
sobraçando enorme pacotão. Disse-me que a dona do Leme
estava se despindo totalmente para ele.
— De manhã, quando eu vou espiar, ela já tá lá, nuinha no
terraço. E fica horas, na mesma posição. Peladinha —
garantiu. E ratificou: — Peladinha.
— E esse pacotão aí? — perguntei.
— É uma luneta. Ela merece. Meu binóculo nunca foi grande
coisa. Ela merece uma luneta. Gastei uma nota para comprar
esta luneta, mas ela merece. Vou estrear amanhã, se fizer
sol.
E lá se foi o Batalha e seu pacotão. Eu não o vi mais, até esta
semana. Vinha cabisbaixo e meditabundo — adjetivos que
sempre se juntam para definir o cara que entra numa fria.

— Como é, Batalha? E a dona do Leme.
— Nem me fale — suspirou.
— Já sei. Mudou-se.
— Pior. Ela tava me gozando... Você não se lembra que eu
falei que ela ficava horas nuinha, na mesma posição?
Fiz que sim com um movimento de cabeça.
— Pois é. . . Comprei a luneta, e só aí eu reparei. Ela sabia
que eu olhava e fez aquilo...
— Mas fez o quê?
— Armou no telhado um manequim velho. Botava a peruca
dela no manequim e deixava lá, para me enganar.
— Puxa vida... tem certeza?
— Absoluta... eu vi pela luneta, na coxa dela tava escrito
"Made in USA".

ERAM PARECIDÍSSIMAS

PEIXOTO entrou no escurinho do bar e ficou meio sobre o
peru de roda, indeciso entre sentar-se na primeira mesa vaga
ou caminhar mais para dentro e escolher um lugar no fundo.
Mas sua indecisão durou pouco. Logo ouviu a voz de Leleco,
a chamá-lo:
— Ei, Peixoto, venha para cá!
Estremeceu ao dar com o outro acenando, mas estufou o
peito e aceitou o convite com ar muito digno,
encaminhando-se para a mesa de Leleco.
— Senta aí, rapaz — disse Leleco, ajeitando a cadeira ao lado:
— Você por aqui é novidade.
— De fato — concordou Peixoto, evasivo.
Leleco era todo gentilezas: — Que é qui vais tomar? Toma
um "Vat", o uísque daqui é ótimo. Você sabe, eu venho a
este bar quase todas as tardes. É um hábito bom, este
uisquinho antes de ir para casa.
— É. Eu sei que você costuma vir aqui de tarde.
Peixoto aceitou o uísque sugerido, o garçom afastou-se e
Leleco não perdeu o impulso. Continuou falando:
— Engraçado você ter aparecido aqui, Peixoto.
— Engraçado por quê? — a pergunta foi feita num tom
ansioso, mas o outro não pareceu notar.
— É que, ultimamente, eu toda hora estou me lembrando de
você.
Peixoto fez-se sério como um ministro de Estado quando vai
à televisão embromar o eleitorado. Apanhou o copo que o
garçom colocara em sua frente, deu um gole minúsculo e
pediu.
— Explique-se, por favor.
Leleco sorriu:
— O motivo é fútil e eu espero que me perdoe. Mas é
engraçado. De uns tempos para cá eu me meti com uma
pequena de São Paulo. Moça rica, com facilidade de aparecer
aqui no Rio de vez em quando. Sabe como é. A gente vai
levando. No princípio eu não notei a semelhança. Mais tarde
ela mesma é que me chamou a atenção. Num dos nossos
encontros ela me perguntou se eu te conhecia.
— A mim?
— Sim, a você. Ela, aliás, não te conhece. Vai escutando só...
Ela perguntou e eu — é lógico — disse que sim. Ela então
quis saber se de fato era parecida com sua mulher.
— Alice?
— Isto, a Alice, sua esposa. Disse que pessoas aqui do Rio,
que conhecem vocês (ela não me contou quem foi), haviam
afirmado que ela parecia muito com sua mulher. Só então eu
notei que, de fato, as duas se parecem bastante, apenas num
ou noutro detalhe são diferentes. Por exemplo: a Laís é
loura.
— O nome dela é Laís?
— É Laís. Ela é loura e sua esposa, se não me engano, tem os
cabelos pretos, não?
— Pretos, não digo. São castanho-escuros.
— Eu não vejo a Alice há algum tempo. Mas que são
parecidas, não há dúvida. Lógico, a Laís... eu posso dizer
porque é uma simples aventura, entende?... a Laís é meio
boboquinha, grã-finóide. Não tem a classe, assim... como
direi, a postura da Alice.
Nesta altura Peixoto deu uma gargalhada, deixando o Leleco
meio sobre o aparvalhado. Ia perguntar o porquê da risada,
mas Peixoto ria e fazia-lhe um sinal com a mão que ia
explicar:
— Leleco, esta é ótima. Você não sabe por que qui eu vim
aqui.
— Tomar um uísque, não foi?
— Bem, o uísque era pretexto. Eu vim aqui justamente
porque recebi um telefonema anônimo, de alguém que jura
que viu minha mulher entrando no seu apartamento.
— O quê??? — Leleco ficou meio embaraçado: — Pelo amor
de Deus, você não contou isto à sua esposa, não cometeu
esta injustiça por minha causa.

— Claro que não — mentiu Peixoto, que ficou sem graça por
um instante, mas o bastante para que qualquer um
percebesse que tivera a maior bronca com a mulher e saíra
da discussão sem estar convencido de sua inocência.
Mas repetiu:
— Claro que não. Eu vim encontrar você aqui para conversar
sobre o assunto. Eu não dei maior importância ao
telefonema, mas queria que você tomasse conhecimento
dele. Alguém que não gosta de você está querendo lhe
meter numa fria.
— Pelo visto não é bem assim.
— Claro — apressou-se Peixoto em dizer: — Quem
telefonou tinha uma certa razão — e virando-se para o
garçom: — Mais dois aqui — ajeitou-se com visível
satisfação: — Vamos tomar mais um que eu tenho que sair.
Meia hora depois Peixoto saía do bar, rumo ao lar. Ia lépido,
fagueiro, como alguém que se livra de um problema chato.
Ia pensando em como é bom o sujeito ser calmo e precavido
antes de tomar uma atitude.
Quanto a Leleco, assim que Peixoto saiu, foi para o telefone
do bar, ligou para Alice e quando ela atendeu, falou:
— Neguinha? Quebrei o galho. A história colou — e, com
certa apreensão na voz: — "Mas, por favor, joga fora essa
peruca loura antes que ele chegue aí.

AOS TÍMIDOS O QUE É DOS TÍMIDOS

TÍMIDO QUE ELE ERA. Um desses sujeitos assim cujo
complexo de inferioridade é tamanho que, ao se olhar no
espelho, sente-se mal ao deparar sua própria imagem, por
considerá-la superior ao original. Tem uns caras que,
francamente: eu — por exemplo — conheci um que o
pessoal chegou a apelidar de Zé Complexo. Um dia ele me
confessou que, muitas vezes, quando saía de casa, tinha
ímpetos de deixar o elevador pra lá e descer pela lixeira.
Acabou morrendo por timidez, numa véspera de Natal.
Foi assim: a família tinha engordado um peru para a ceia
natalina, e ele ficou encarregado de matar o peru. Na
véspera da coisa, e dia do peru, levou-o lá prós fundos e
começou a dar cachaça para o condenado, e foi lhe dando
aquela tristeza e, então, pra ver se levantava o moral,
começou a beber junto com o peru, e foi bebendo e foi
piorando, e piorando, baixou nele uma neura bárbara, até
que considerou as circunstâncias, olhou para o peru mais
uma vez, o peru olhou pra ele com aquele olhar de peru
encachaçado, que é pior que olhar de deputado nordestino.
Enfim, para encurtar o caso: acabou considerando que o
peru merecia mais que ele e se suicidou, deixando o peru
sozinho lá no quintal, no maior pileque.
Mas não era desse cara que eu queria falar não. Esse morreu,
deixa pra lá. O tímido desta história tinha as suas mumunhas,
tanto assim que chegou a arrumar uma namorada. Não era
nenhum estouro de mulher, mas também não era como
aquela que o gato cheirou e cobriu de areia. Na verdade a
namorada deste tímido que eu estava falando, e depois passei
pro outro que morreu, levava um certo jeito. Pernudinha,
nem baixa nem alta, nem magra nem gorda. Engraçadinha,
sabe como é?
Pois não é que apareceu um desses bacanos de cabelão, pele
tostada no moderno estilo "Castelinho", folgado às pampas, e
cismou com a pequena do tímido?
Como, minha senhora? A pequena do tímido é que deu bola
pro bonitão?
Nada disso, madama, nada disso. Embora eu não ponha a
mão no fogo por mulher, porque eu não quero ficar com o
apelido de maneta, posso garantir à senhora que a pequena
do tímido tinha fama de batata. Tanto isto é verdade que foi
ela quem inventou o plano.
Quando o namorado descobriu que havia cabrito na sua
horta, ficou numa fossa tártara. Dava até pena ver: perto da
dele a fossa de qualquer um parecia apartamento de
cobertura. Ainda bem não tinha morado no assunto, ficou
logo achando que perderia a parada, porque o outro era mais
forte, mais freqüentador do "Le Bateau", sabia dançar o
"surf" muito bem, e mais diversas outras papagaiadas que
hoje em dia as mulheres consideram predicados masculinos.
Aí a pequena dele ficou tão chateada que lhe deu uma
bronca:
— Toma uma atitude, Lelé! (O nome dele era Leovigildo,
mas ela chamava de Lelé.) Contrata aí um desses latagões a
serviço da bolacha e manda dar uma surra nesse atrevido!
Tá certo, a pequena era um pouco chave-de-cadeia, más essa
atitude dela provava que, entre o bacanão e o Lelé, ela era
mais o Lelé. Foi, aliás, o que o Lelé deduziu, dedução esta
que o levou a procurar Primo Altamirando. Ora, o Mirinho
vocês conhecem, e se não conhecem, perguntem na Polícia,
que lá eles sabem. Procurou Mirinho e propôs o negócio:
dez "cabrais" ou dois "tiradentes" — a escolher para dar um
corretivo no cara.
Mirinho achou o negócio legal e saiu em campo. Não
demorou muito, encontrou o perseguido badalando num
balcão de sorveteria, fazendo presepada no meio das
menininhas. Chamou-o num canto, como quem vai pro
banheiro, e, agarrando o braço dele, colocou-o a par da
conjuntura. O cara foi ficando branco que nem parecia
freguês de sol do "Castelinho", começou a gaguejar, e o
Primo viu logo que aquela transarão podia render mais.
Soltou o braço do cara e meteu a proposta:
— Faz o seguinte. Manda 20 mil aí que eu transfiro o
negócio pra outra firma.
O bonitão nem quis ouvir mais nada. Filho de pai rico e
coisa e tal, meteu a mão no bolso e pagou à vista. Com 30
mil em caixa, o abominável parente resolveu tirar licença-
prêmio e foi gastar o lucro.
Deu-se que, ontem, estava ele parado numa esquina,
paquerando o ambiente, quando o tímido apareceu de braço
com a pequena. Ao passar por ele, fez um gesto largo, sorriu,
piscou um olho e berrou:
— Olha! Aquele nosso negócio; perfeito, velhinho! A firma
concorrente entrou pelo cano.
Mirinho olhou pra ele, lembrou -se dos 20 mil que o outro
lhe confiara e suspendeu a licença. Caminhou em sua
direção e tacou-lhe um bofetão em si bemol que o coitado
saiu catando cavaco e foi cair sentado no meio-fio.
Tá certo! O fim desta história é meio chato. Mas, é como me
explicou Mirinho: onde já se viu tímido bancar o expansivo
só porque tá com mulher?

O FILHO DO CAMELO

PASSAVA GENTE PRA LÁ e passava gente pra cá como, de
resto, acontece em qualquer calçada. Mas quando o camelô
chegou e armou ali a sua quitanda, muitos que iam pra lá e
muitos que vinham pra cá pararam para ouvir o distinto.
Camelô, no Rio de Janeiro, onde há um monte de gente que
acorda mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada, tem
sempre uma audiência de deixar muito conferencista com
complexo de inferioridade.
Mas — eu dizia — o camelô chegou, olhou prós lados,
observando o movimento e, certo de que não havia guarda
nenhum para atrasar seu lado, foi armando a sua mesinha
tosca, uma tábua de caixote com quatro pés mambembes,
onde colocou a sua muamba. Eram uns potes pequenos,
misteriosos, que foi ajeitando em fila indiana. Aqui o filho
de Dona Dulce, que estava tomando o pior café do mundo
(que é o café que se vende cm balcão de boteco do Rio),
continuou bicando a xicrinha, pra ver o bicho que ia dar..
Era bem em frente ao boteco o "escritório" do camelô.
Armada a traquitanda ele olhou outra vez para a direita, para
a subversiva, para a frente, para trás e, ratificada a ausência
da lei, apanhou um dos potes e abriu.
Até aquele momento, seu único espectador (afora eu, um
admirador à distância) era um menino magrela, meio
esmolambado que, pelo jeito, devia ser o seu auxiliar. Ou
seria seu filho? Sinceramente, naquele momento eu não
podia dizer. Era um menino plantado ao lado do camelô —
eis a verdade.
O camelô abriu o jogo:
— Senhoras, senhores... ao me verem aqui pensarão que sou
um mágico arruinado, que a crise nos circos jogou na rua.
Não é nada disso, meus senhores.
Parou um gordo, com uma pasta preta debaixo do braço, que
vinha de lá. Quase que ao mesmo tempo, parou também
uma mula- tinha feiosa, de carapinha assanhada, que vinha
em companhia de uma branquela sem dentes na frente.
— Eu represento uma firma que não visa lucros —
prosseguiu o camelô —, visa apenas o bem da humanidade.
Estão vendo esta pomada?
O camelô exibiu a pomada, e pararam mais uns três ou
quatro, entre os quais uma mocinha bem jeitosinha, a ponto
de o gordo com a pasta abrir caminho para ela ficar na sua
frente. Mas ela não quis. Olhou pro gordo, notou que ele
estava com idéia de jerico e nem agradeceu a gentileza.
Ficou parada onde estava, olhando a pomada dentro do pote
que o vendedor apregoava.
— Esta pomada, meus amigos, é verdadeiramente miraculosa
e fará com que todos sorriam com confiança.
"Que diabo de pomada era aquela?" — pensei eu. E comigo
pensaram outras pessoas, que se aproximaram também
curiosas. Uma velha abriu caminho e ficou bem do lado da
mesinha, entre o camelô e o menino.
— É isto mesmo, senhores... ela representa um sorriso de
confiança, porque é o maior fixador de dentaduras que a
ciência já produziu. Experimentem e verão. A cremilda
ficará presa o dia inteiro, se a senhora passar um pouco desta
pomada no céu da boca — e apontou para a velhinha ao
lado. Todos riram, inclusive a branquela desdentada.
— Uma pomada que livrará qualquer um de um possível
vexame, numa churrascaria, num banquete de cerimônia.
Mesmo que sua dentadura seja uma incorrigível bailarina, a
pomada dará a fixação desejada, como já ficou provado nas
bocas mais desanimadoras.
Um cara de óculos venceu a inibição e perguntou quanto
era:
— Um pote apenas o senhor levará por 100 cruzeiros. Dois
potes 170 e mais um pente inquebrável, oferta da firma que
represento. Um para o senhor, dois ali para o cavalheiro.
Madame vai querer quantos?
E a venda tinha começado animada, quando parou a viatura
policial sem que ninguém percebesse sua aproximação. Os
guardas pularam na calçada com aquela delicadeza peculiar
ao policial.

O guarda que vinha na frente deu um chute no tabuleiro da
pomada miraculosa que foi pote pra todo lado. Dois outros
agarraram o camelô, e o da direita lascou-lhe um cascudo.
Aí o povo começou a vaiar. Um senhor, cujos cabelos
grisalhos impunham o devido respeito, gritou:
— Apreendam a mercadoria, mas não batam no rapaz, que é
um trabalhador!
— Isto mesmo — berrou uma senhora possante como o
próprio Brucutu.
O vozerio foi aumentando e os guardas começaram a
medrar.
— Além disso, o coitado tem um filho — disse a velha.
E, ao lembrar-se do filho, o camelô abraçou-se ao garoto,
que ficou encolhido entre seus braços. Leva não leva. Um
sujeito folgadão deu um murro na viatura que, em sendo
policial, era velha como a necessidade, e quase desmontou.
Os guardas se entreolharam. Eram quatro só, contra a turba
ignara, sedenta de justiça.
— Deixe o homem, que ele tem um filho! — era a velha de
novo.
Os guardas limitaram-se a botar a muamba toda na viatura e
deram no pé, sob uma bonita salva de vaia. O camelô, de
cabeça baixa, foi andando com o garoto a caminhar ao seu
lado, e o bolo se desfez. Era outra vez uma calçada comum,
onde passava gente pra lá e pra cá.
Eu fui andando pra lá e dobrei na esquina. Não tinha dado
nem três passos e vi o camelô de novo, conversando com o
garoto.
— Que onda é essa de dizer que eu sou seu filho, meu chapa?
Eu nem te conheço! — perguntava o menino, para o
camelô.
— Cala a boca, rapaz. Toma 200 pratas, tá bem?
Eu parei junto a um carro, fingindo que ia abri-lo, só para
ouvir o final da conversa.
— Eu tenho mais potes naquele café lá embaixo — disse o
homem: — Queres ficar de meu filho na Cinelândia, eu vou
pra lá vender. Quer?
— Vou por 300, tá?
O camelô pensou um pouco e topou. E lá foram "pai" e
"filho" para a Cinelândia, vender a pomada "que dá
confiança ao sorriso".

O DIÁRIO DE MUZEMA

MUZEMA é um bairrozinho pequeno e pacato, ali pelas
bandas da Barra da Tijuca. Pertence à jurisdição da 32.a
Delegacia Distrital e nunca dá bronca. Ou melhor, minto...
não dava bronca porque esta que deu agora foi fogo. Diz que
o delegado da 32.a estava em sua mesa de soneca tirando
uma pestana, feliz com o sossego, quando um bando de
perto de 200 pessoas invadiu a delegacia, carregando no ar
um coitado baixote e magrinho, com a cara mais amassada
que pára-choque de ônibus de subúrbio. E a turba fazia um
barulho de acordar prontidão.
O delegado, que era o Levi, deu um pulo da cadeira e
berrou:
— Chamem a Polícia!!! — mas aí percebeu que ele mesmo é
que era a Polícia e perguntou que diabo era aquilo. Logo
todo mundo começou a berrar ao mesmo tempo, o que
obrigou o Dr. Levi a berrar mais alto ainda, ordenando:
— Um de cada vez, pombas!
Aí um dos que carregavam o pequenino, ordenou que os
companheiros pusessem "aquele rato" no chão (a expressão é
lá do cara) e começou a explicar:
— Nós somos moradores do bairro de Muzema, doutor
Delegado.
— Sim. E esse pequenino aí?
— Pois é, doutor. Nós somos todos de lá e esse cretino aí
também é. Imagine o senhor que ele tem um caderno
grosso, que ele chama de "Meu Diário", onde escreve as
maiores sujeiras sobre a gente.
— Como é que é? — estranhou o delegado.
Começou todo mundo a berrar outra vez e, enquanto um
guarda dava um copo de água para o diarista arrebentado, o
delegado viu-se outra vez a berrar mais alto:
— Calem-se! Um só de cada vez!
Foi aí que deram a palavra pro dono do caderno:
— É o seguinte, doutor: eu tenho um diário. Ando muito lá
pela Muzema e ninguém nunca repara em mim. Assim eu
posso ver o que os outros fazem sem ser importunado. Mas
acontece que eu não sou fofoqueiro. Eu vejo cada coisa de
arrepiar. Ainda ontem vi a mulher daquele ali (e apontou
para um sujeito do grupo) num escurinho da praça, abraçada
com aquele lá (e apontou um outro sujeito no canto da
delegacia, que, ao ser apontado, encolheu-se todo).
Esta informação bastou para que o assinalado marido partisse
pra cima do encolhido e o tumulto se generalizasse. Coitado
do delegado, já estava quase rouco, quando conseguiu
reimplantar a ordem na 32.a DD.
— Prossiga! — disse pro pequenino.
O pequenino pigarreou e prosseguiu:
— Como eu dizia, eu tenho o meu diário e anoto nele tudo
que vejo. Não faço fofoca com ninguém. Tudo que está
escrito aqui é verídico.
— Como é o seu- nome? Onde você mora?
— Edson Soares. Moro lá mesmo na Muzema. Lote "A", casa
18.
O Delegado Levi pediu o diário e folheou algumas páginas.
Havia coisas mais ou menos assim, escritas nele: "Dona
Jurema, do lote "B", casa 75, estava saindo de madrugada da
casa 67 do mesmo lote, onde mora o Sebastião, que tem um
cacho com ela há muito tempo". Ou então: "Lilico continua
fingindo que é noivo da filha de Dona Júlia, mas se aquilo é
noivado eu sou girafa. Como eles mandam brasa, atrás do
muro da casa dela".
O Delegado Levi tossiu, embaraçado, e quis saber como é
que os personagens daquele diário tinham descoberto o que
estava escrito ali. O pequenino foi sincero:
— Eu dei azar, doutor. Eu esqueci o diário num banco da
pracinha e fui jantar. Quando eu voltei estava todo mundo
em volta desse garoto aí (e apontou um garoto sorridente,
que se divertia com o bafafá), e o miserável do garoto lendo
em voz alta: "... o seu Osooo... Osorío. Não: Osório. O seu
Osório quando sai pra o trai... tralba... para o trabalho, devia
levar a muuu... a mulher dele. Ela é muito assada... assada
não... muito assanhada".

— Eu achei o diário dele — falou o garoto, mas calou-se logo
to levar um cascudo de um gordão que devia ser, na certa, o
seu Osório.
Já ia saindo onda outra vez. O pessoal do bairro pacato estava
mesmo disposto a beber o sangue de Edson Soares, o
historiador da localidade. Sanada, todavia, mais esta
tentativa, o Delegado Levi perguntou ao dono do diário:
— O senhor também é poeta?
— Mais ou menos, né?
— Eu pergunto — esclareceu o delegado — porque este
versinho aqui está interessante, e leu no diário: "Para o José
Azevedo / O futebol não cola / Pois se for cabecear / Na
certa ele fura a bola".
Pimba... mais uma bolacha premiou a cara do poeta.
Ninguém conseguia segurar José Azevedo, residente na
Muzema, Lote "J", casa 7. O pau roncou solto e só quando
chegou reforço é que o delegado conseguiu botar em cana
uns quatro ou cinco, inclusive o biógrafo luzemense. O resto
mandou embora, aconselhando: — Vocês vejam se não dão
margem ao artista de se expandir tanto em seu futuro diário,
tá?
O pessoal prometeu.
UM CARA LEGAL

O CARLÃO era um cara meio trapalhão, desses que cruzam
cabra com periscópio pra ver se arrumam um bode
expiatório. Vivia confortavelmente instalado num
apartamento pequeno, porém indecente, e tinha dinheiro
para gastar com o chamado supérfluo. De vez em quando
dava umas festinhas em casa e convidava um monte da vida-
torta e umas garotinhas dessas que mastigam chiclete de bola
com a alegria de retirante quando pega um punhado de
farinha. Dessas mocinhas assim no estilo "noiva de drácula",
isto é, que usam batom branco e estão sempre com uma
alegre coloração de defunto.
Aquele dia, era um dia especial, pois o Carlão fazia anos e ia
ter festinha de arromba. As armas do crime já estavam todas
na geladeira: coca-cola, guaraná, mm, vodca, cervejinha —
tudo para tomar com bolinhas fabricadas pelos mais
categorizados laboratórios bromatológicos do Brasil. Tinha
até uns cigarrinhos diferentes, com cheiro de pano
queimado.
Os distintos convidados eram o fino. Pelos apelidos a gente
via que a turma era pinta brava: "Bomba D'água", "Puxa
Firme", "Sutileza", "Julinha Toda Hora", "Dedão",
"Mariazinha Vapor", "Odete Prize", "Creuza Deixa Pra Mais
Tarde", etc., etc. O grupo foi chegando e já estava a
vitrolinha esquentando, a tocar "Gasparzinho", "Olha o
Brucutu", "Help" e outras partituras do mesmo valor musical.
Na salinha apertada os pares escorregavam o maior "surf",
em trejeitos que só ultimamente são usados na vertical.
A festa já ia pelo meio, quando tocaram a campainha. Era a
primeira coisa que se tocava ali que cantor nenhum da
jovem-guarda tinha gravado. Carlão abriu a porta, saiu aquele
bafo de fumaça que mais parecia aviso de índio, e quando a
fumaça se esvaiu, surgiu por trás dela um velhinho que
morava no mesmo andar e que vinha reclamar o barulho. O
Carlão mandou o velhinho entrar e a turma envolveu o
recém-chegado, que foi logo cumprimentando todos e en-
grenou um papo-furado muito interessante. Meia hora
depois o velhinho estava tão à vontade que rebolava frente a
frente com Creuza Deixa Pra Mais Tarde um "surf"
legalérrimo, aos gritos incentivadores de "boa, velhinho",
"dá-lhe, coroa", "sacode, Vovô" e outros que tais.
Nisso a campainha tocou outra vez.
"Diabo de campainha que tá tocando mais que disco de
Roberto Carlos" pensou o Carlão. E foi abrir. Agora não era
um velhinho. Era uma velhinha. Uma velhinha que também
morava no mesmo andar, por sinal que no apartamento do
velhinho, em suma, pra que fazer suspense, não é mesmo?
A velhinha era casada com o velhinho desde o tempo em
que Papai Noel tinha barba preta. Foi o Carlão abrir a porta e
ela espiar lá pra dentro e ver o folgado ancião badalando
firme com a pistoleira acima citada.
Meus irmãos, o pau comeu! A velha até parecia porta-
estandarte do Bloco Unidos do Cassetete, conhecida
agremiação carnavalesca que, todo ano, desfila junto com as
escolas de samba, usando uniforme da polícia e baixando o
cacete em jornalista. Entre uma pernada e outra a velhinha
abusava do baixo calão com vibrante personalidade. A
falecida mãe do velhinho nunca foi tão premiada com
xingação.
Foi quando apareceu o síndico do edifício. A coisa já tinha
entrado na faixa do escândalo. Gente no corredor, vizinhos
nas janelas em frente. Com a sua autoridade no prédio, o
síndico agarrou a velha pela saia e separou a briga. Ela
protestou:
— Ele é meu marido. Vive dizendo que essas dancinhas
modernas deviam ser proibidas e olha só o sem-vergonha.
Me larga que eu ensino a ele.
Um dos presentes tratou de esclarecer tudo:
— Espera aí, Vovó. A senhora está estragando a festa. Afinal
de contas foi aí o velho que nos convidou.
E a velha engoliu em seco, virou-se para o Carlão e quis
saber:
— Verdade, Carlinhos?
Era. Mesmo com olhar súplice do velho, Carlão dedurou o
vizinho. Quem tinha planejado tudo fora o velhinho. Carlão
dava a festa, ele chegava mais tarde, fingindo que ia reclamar
e ficava no pagode. Só não contaram foi com a insônia da
velha que, geralmente, dormia como uma pedra.
O Carlão ainda mora no local do crime. Os velhinhos, eu
ouvi dizer que se mudaram.

BARBA, CABELO E BIGODE

A BARBEARIA era na esquina da pracinha, ali naquele bairro
pacato. Um recanto onde nunca havia bronca e o panorama
era mais monótono que itinerário de elevador. Criancinhas
brincando, babás namorando garbosos soldados do fogo em
dia que o fogo dava folga, um sorveteiro que, de tão
conhecido na zona, vendia pelo credi-picolé, e o português
que viera do seu longínquo Além-Tejo para ser gigolô de
bode: alugava dois carrinhos puxados por bodes magros, para
as criancinhas darem a volta na pracinha.
Quem estava na barbearia esperando a vez para a barba, o
cabelo ou o bigode, só tinha mesmo aquela paisagem para
ver. E ficava vendo, porque Seu Luís, o barbeiro, tinha uma
freguesia grande e gostava muito de conversar com cada
freguês que servia. O cara sentava e Seu Luís, enquanto
botava o babador no distinto e ia lhe ensaboando a cara,
metia o assunto:
— E o nosso Botafogo, hem? Vendeu o Bianquini.
O freguês só gemia, porque freguês de barbeiro não é besta
de mexer a boca enquanto o outro fica com a maior navalha
esfregando seu rosto. Assim, o diálogo de Seu Luís era um
estranho diálogo. Trocava o freguês e lá ia ele:
— Como é? Ainda acompanhando aquela novela?
— Hum-hum!
— É uma boa novela. Movimentada, não é?
— Hum-hum!
— Aliás, a história eu já conheço. Fizeram até um filme
parecido.
— Hum-hum!
Mesmo conversando muito (mais consigo mesmo do que
com os outros), mesmo demorando mais do que o normal
para atender a freguesia, Seu Luís tinha sempre a barbearia
cheia.
Todos esperavam a vez, com paciência e resignação, menos
o Armandinho, um vida-mansa que eu vou te contar! Até
para fazer a barba tinha preguiça e saía de casa à tardinha, na
hora em que a barbearia estava mais cheia, para se barbear.
Mas não gostava de esperar — o Armandinho. Vinha, parava
na porta e perguntava:
— Quantos tem?
Seu Luís dava uma conferida com o olhar e respondia:
— Tem oito!
Armandinho fazia uma cara contrariada e ia em frente. Se
tinha gente esperando, ele não entrava. Voltava mais tarde.
Isto era o que pensava Seu Luís, até o dia em que o folgado
parou na porta e perguntou como sempre:
— Quantos tem?
Chovia um pouco naquela tarde e a barbearia estava com um
movimento fracote. Seu Luís nem precisou conferir, para
responder:
— Só tem um!
O Armandinho fez a mesma cara de contrariedade, aliás, fez
uma cara mais contrariada do que o normal e, ao invés de ir
em frente, como fazia sempre, deu uma marcha à ré que
deixou o barbeiro intrigado. Passou o resto do dia pensando
naquilo e grande parte da noite também. A mulher dele, que
era uma redondinha de olhos verdes, perguntou:
— Que é que tu tens, Lulu? — mas Seu Luís não respondeu.
No dia seguinte, lá estava a pracinha pacata, as criancinhas,
babás, sorveteiro, português cafiola de caprino. Tudo
igualzinho. A barbearia com seu movimento normal quando
passou o Armandinho:
— Quantos tem? — perguntou.
Seu Luís respondeu que tinha doze e o Armandinho foi em
frente. O barbeiro terminou a barba do freguês que estava na
cadeira e explicou para os que esperavam:
— Vocês vão me dar licença um instantinho. Eu vou até em
casa.
Todos sabiam que Seu Luís morava logo ali, dobrando a
esquina a terceira casa e ninguém disse nada. Seu Luís saiu,
entrou em casa devagarinho e puxa vida... que flagra!
Felizmente ele não tinha levado a navalha, senão o
Armandinho, nos trajes em que se encontrava, tinha
perdido até o umbigo.

Ou mais. Saiu pela janela como um raio, tropeçando pelas
galinhas, no quintal. A mulher de Seu Luís berrou e
apanhou que não foi vida. Até hoje não se pode dizer em sã
consciência o que foi que ela fez mais: se foi apanhar ou
gritar.
O que eu sei é que foi um escândalo desgraçado. Acorreram
os vizinhos, veio radiopatrulha e até um padre apareceu no
local, porque ouviu dizer que alguém precisava de extrema-
unção quando, na verdade, o que disseram ao padre foi que
Seu Luís dera um estremeção na mulher. O padre era meio
surdo.
Agora — passado um tempo — o Armandinho mudou-se,
Seu Luís continua barbeiro, mas a mulher dele é manicura
no mesmo salão, que é pra não haver repeteco.

DIÁLOGO DE RÊVEILLON

MADAME também estava com a moringa cheia, mas — em
comparação com o sujeito que a cumprimentou, podia até
ser classificada de dama sóbria em festa de pileque. Quando
ela passou, o cara levantou a cabeça e falou assim:
— Olá.
A dona não devia ser mulher de olá, porque olhou-o com
certo desprezo e não respondeu. Já ia seguindo para atender
ao chamado de um outro pilantra que lhe fez sinal, mas o
que dissera olá continuou falando e ela escutou:
— Feliz 66 para você, tá?
A dona aceitou: — Para você também.
O cara deu um risinho de quem não está acreditando muito
em 66. Depois pegou uma taça, botou champagne dentro e
ofereceu:
— Vira esta aí, em homenagem ao cabrito que morreu.
— Você já não bebeu demais? — ela quis saber.
— Que pergunta besta, minha senhora. Isso é pergunta de
mulher casada.
— Mas eu sou casada.
— Não me diga! Eu também sou. Eu sou casado às pampas —
deu um soluço de bêbado e ficou balançando a cabeça, a
considerar o quanto ele era casado. Em seguida esclareceu:
— Eu sou casado desde 1950, tá bem?
— Eu também — a dona disse.
— Que coincidência desgraçada, né? Ambos somos casados
desde 1950. Você também casou naquele igrejão enorme
que tem lá na cidade e que eles já tão achando pequena e
estão construindo outra?
— A que estão construindo agora é a nova Catedral, a que eu
me casei chama-se Candelária.
— Isso mesmo: Candelária. Foi lá que eu me casei.
— Eu também.
— Também??? Puxa. Casada como eu, em 1950 como eu, na
Candelária como eu. Não vai me dizer que a sua lua-de-mel
foi na Europa também.
— Muita gente passa lua-de-mel na Europa — a dona
ponderou.
— É isso mesmo — o cara concordou: — Lua-de-mel na
Europa. Até parece que isso adianta alguma coisa.
— A lua-de-mel não depende do lugar para ser melhor ou
pior. Depende do casal.
O cara deu uma risadinha e explicou: — Minha mulher
sempre diz isso que você está dizendo — e tratou de encher
novamente a taça. Mas aí a dona mudou o tom da conversa:
— Escuta, Eduardo, você já bebeu demais. Vamos embora. E
agarrando o marido cambaleante, levou-o para casa.


"NÃO SOU UMA QUALQUER"

ELA NOTOU que ele estava meio bronqueado por causa das
respostas monossilábicas que dava às suas perguntas.
Conhecia-o muito bem. Quando ele ficava emburrado para
falar é porque estava com minhoca na cuca.
— Que é que há, meu bem? Você está meio chateado!
Ele não respondeu logo. Meteu um suspensezinho legal,
puxando uma tragada forte do cigarro. Depois caminhou até
o armário da sala, tirou uma garrafa de uísque e deu aquele
gole prolongado no mais belo e ultrapassado estilo
Humphrey Bogart. Depois sentou-se na poltrona, cruzou as
pernas e disse:
— É... andaram me buzinando aí umas coisas.
— A meu respeito? — e ela espalmou a mão sobre o cobiça-
do busto.
Novo silêncio, e a distinta, muito preocupada, levantou-se
de onde estava e foi se aninhar no colo dele. Fez vozinha de
criança:
— Meu queridinho, conta pra ela, vá! Deve ser mais uma
fofoca dessa gente, mas é melhor você contar logo pra ela,
sabe? Assim a gente tira logo as dúvidas. Não gosto de ver o
meu querido zangado não — e começou a enfiar os dedos
esguios e bem tratados pelos cabelos dele.
O cara suspirou, todo despenteado, e foi soltando o que
tinham contado pra ele. Tinha sido na noite de apresentação
do Charles Aznavour, no Copacabana Palace, a mais recente
badalação de grã- fino com renda para excepcionais. Agora a
moda é esta: tudo o que é festa de grã-fino é para dar renda
para excepcionais, pois ninguém é mais excepcional do que
um grã-fino.
Ela tinha ido à tal apresentação do cantor francês e fizera
muito sucesso. A Léa Maria deu até uma nota no Caderno B,
dizendo que ela estava um "show". De fato (enquanto ele
falava ela ia se recordando), o seu vestido "op-art", com
minissaia, foi um sucesso. Era daquela saia que, quando a
mulher senta, a saia some e aparece o que a saia tinha
obrigação de fazer sumir. Um fenômeno da elevação dos
costumes — como diz a veneranda Tia Zulmira.
— Me disseram que você flertou a noite toda — o cara falou.
Ela esticou-se, ainda sentada em suas pernas. Outra vez a
mão
espalmada sobre o cobiçado busto:
— Eu???
Ele ratificou. Ela mesma. — Tinham contado pra ele que ela
dançara de rosto colado com um tal de Collatini.
— Cola aonde? — perguntou ela.
— Collatini.
Ela ficou indignada. De fato, os Collatini, de São Paulo, esta-
vam na mesa dela, mas isto era uma infâmia. Imaginem, logo
quem? O Collatini, aquele velhote. De maneira nenhuma.
De mais a mais, a Bequinha, mulher do Collatini, era sua
amiga de infância. Essa gente é assim mesmo. Quando não
tem nada para comentar sobre uma mulher... inventa. Dela
eles não podiam dizer nada, tá bem? Absolutamente nada.
Nunca deu margem para falatório nenhum. Pelo contrário:
procurava se portar em público — aliás, procurava se portar
em qualquer lugar, ora esta! com a máxima dignidade,
justamente por isso. Porque sabia que essa gente de
sociedade é fogo; não pode ver uma mulher bonita fora da
panelinha desses cretinos, que começa logo a tentar
descobrir coisas, para fazer dos outros gente igual a eles. É
isto mesmo: falam só para justificar a vida que levam, esse
amorais. Mas com ela não.
— Comigo não — repetia indignada: — Eu não sou uma
qualquer!
Ele, impressionado com a reação dela, puxou-a para o seu
regaço. Deu-lhe mais um beijo e falou baixinho que sabia
disso, sabia que ela não era uma qualquer.
Pouco depois ela se levantava do colo dele, ia até o
banheiro; ajeitou-se, pintou-se e de lá mesmo perguntou:
— Meu be-em! Que horas são?
— Quase seis! — respondeu o cara.
Ela veio espavorida lá de dentro, deu-lhe um beijinho
rápido, apanhou uns embrulhinhos de compras que deixara
sobre a mesa, quando chegara, e despediu-se:
— Tchau, querido! Deixa eu correr senão meu marido me
mata!
E foi embora.


O ANALFABETO E A PROFESSORA

Foi QUANDO ABRIRAM a escolinha para alfabetização de
adultos, ali no Catumbi, que a Ioná resolveu colaborar. Essas
coisas funcionam muito na base da boa vontade, porque
alfabetizar adultos, nunca preocupou muito o Governo. No
Brasil, geralmente, quando o camarada chega a um posto
governamental, acha logo que todos os problemas estão
resolvidos, sem perceber que — ao ocupar o posto - os
problemas que ele resolveu foram os dele e não os do País.
Mas isto deixa pra lá.
Eu falava no caso da Ioná. Quando inauguraram o curso de
alfabetização de adultos no Catumbi, os beneméritos
fundadores andaram catando gente para ensinar, e entre os
catados estava um padre, que era muito bonzinho e muito
amigo da família da Ioná. O piedoso sacerdote sabia que ela
tinha um curso de professora tirado na PUC, e só não
professorava porque tinha ficado noiva. Mas depois - isto eu
estou contando pra vocês porque todo mundo sabe, por-
tanto não é fofoca não — a Ioná desmanchou o noivado. Ela
era uma moça moderna e viu que o casamento não ia dar
certo; o noivo era muito quadrado, embora para certas coisas
fosse redondíssimo.
Enfim, a Ioná tinha o curso, mas não usava pra nada, e aí o
Padre perguntou se ela não queria ser também professora no
Curso de Alfabetização de Adultos do Catumbi. Ela topou a
coisa, e as aulas começaram.
No início eram poucos alunos, mas depois houve muito
analfabeto interessado, e o curso se tornou bem mais
animado. Uns dizem que esse aumento de interesse foi por
causa da administração bem feita, outros — mais realistas,
talvez — acharam que o aumento de interesse foi por causa
da Ioná, que também era muito bem feita.
Professora certinha tava ali. Tamanho universal, sempre
risonha, corpinho firme, muito afável, e um palmo de rosto
que a gente olhando de repente lembrava muito a Cláudia
Cardinale. Além disso, ela ensinava mesmo. Seus alunos,
para impressioná-la, caprichavam nos estudos, e sua turma
tornou-se em pouco tempo a mais adiantada de todas.
Só um aluno era o fim da picada. Sujeito burro e duro de
cabeça. Era um rapaz até muito bem apessoado, alto, louro,
que trabalhava numa fábrica de tecidos. Chamava-se
Rogério, era esforçado, educado, mas não conseguia ler a
letra "o" escrita num papel. A turma se adiantando e ele
ficando para trás. Ioná tinha pena dele, mas não sabia mais o
que fazer, até que uma noite (os cursos eram noturnos) ela
fez ver ao Rogério que assim não podia ser, e ele ficou tão
triste que a Ioná sentiu pena e perguntou se ele não queria
que ela lhe desse umas aulas particulares.
— Seria bom sim — ele falou. E, então, sempre que termina-
vam as aulas, aluno e professora seguiam para a casa desta
para repassarem os estudos da noite. Era um caso curioso o
desse aluno, que se mostrava tão esperto, tão comunicativo,
mas que não conseguia vencer as lições da cartilha. O livro
aberto na frente dele e ele sem saber se foi Eva que viu a uva
ou se foi vovô que viu o ovo.
Mas, justiça se faça, com as aulas particulares Rogério
melhorou um pouquinho. Não o suficiente para acompanhar
o adiantamento da turma, mas — pelo menos — já soletrava
mais ou menos.
Nesta altura o CAAC — Curso de Alfabetização de Adultos
do Catumbi — já progredira a ponto de se tornar uma escola
oficializada, e a Ioná estava tão interessada no Rogério que
tinha noite até que ele ficava pra dormir.
Quando chegou o dia das provas e iam lá o inspetor de
ensino e outras autoridades pedagógicas, Ioná foi informada
do evento e ficou nervosíssima. Disse para o seu aluno
favorito que era preciso dar um jeito, que ele ia ser a
vergonha da turma, etc. Ele pegou e falou pra ela que pra
decorar era bonzinho e, se ela fosse lendo para ele, decoraria
tudo.
Claro que a Ioná não levou muita fé no arranjo, mas como
era o único, aceitou. Na noite das provas o Rogério esteve
brilhante e parecia mesmo que decorara aquilo tudo. Ela
ficou orgulhosíssima e, mais tarde, já em casa, enquanto
desabotoava o vestido, perguntou:
— Puxa, como é que você conseguiu decorar aquilo tudo,
querido, tendo trabalhado na fábrica o dia inteiro?
— Eu não trabalhei não. Eu telefonei para o meu pai e disse
que não ia.
— O quê??? Seu pai é o presidente da fábrica?
— E eu sou o vice.
Ela ficou besta: — Quer dizer que você já sabia ler...
escrever...
- Desde os 5 anos, neguinha!

O CAFEZINHO DO CANIBAL

DEIXA EU VER se dá pra resumir. Foi o seguinte: o avião ia
indo fagueiro por sobre a densa selva africana. Dentro dele
vários passageiros, inclusive, e muito principalmente, uma
lourinha dessas carnudinhas, mas nem por isso menos
enxuta, uma dessas assim que puxa vida... Foi aí que o avião
deu um estalo, começou a sair aquela fumaça preta e pronto:
num instante estava o avião todo arrebentado no chão, com
os passageiros todos mortos.
Aliás, minto... todos não; a lourinha era a única sobrevivente
do desastre. Tanto assim que os canibais, quando chegaram
ao local do acidente, só encontraram ela, que foi logo
aprisionada para o menu do chefe da tribo. Canibal é canibal,
mas a loura era tão espetacular que a turma viu logo que ela
era coisa muito fina e digna apenas do paladar do maioral.
Levaram a loura para a maloca deles e entregaram na
cozinha, onde um ajudante de cozinheiro já ia prepará-la
para o jantar, quando chegou o cozinheiro-chefe e
examinou a loura. Ela era muito da bonitinha, tudo certinho,
tudo tamanho universal, aquelas pernas muito bem feitinhas,
aquilo tudo assim do melhor.
Então o experimentado cozinheiro disse para o ajudante: —
Não sirva isto no jantar do chefe não. Deixa pro café-da-
manhã porque o chefe gosta de tomar café na cama.


SUPLÍCIO CHINÊS

ERA UM HOTELZINHO PACATO e que só recebia hóspedes
durante o verão. Clima de montanha, boa comida e muito
sossego. Enfim, essas bossas.
Durante a maior parte do ano os cozinheiros ficavam dando
peitada um no outro. Não tinham mesmo nada pra fazer!!!
Cidade pequena, sabe como é? Igual a Cachoeirinha, onde
nasceu Primo Altamirando. Diz ele que a população da
cidade não aumenta porque sempre que nasce um filho...
foge um pai.
Mas voltando ao hotelzinho: o velho escrivão do cartório
local, um cara solteiro e doido por mulher, morava lá e sua
constante reclamação era justamente a falta de hospedagem
feminina, para que ele pudesse praticar o salutar esporte da
paquera.
Por longo tempo foi assim. O escrivão sendo o morador
mais antigo e fiel, ocupava o melhor quarto (o quarto
nupcial, que hotelzinho micho também tem dessas
besteiras) e era tarado como um Pelé em Santos. Até que —
um dia — um coronel político foi ao hotel e pediu um
quarto para a filha. A mocinha — que era o que havia de
mais redondinho e cor-de-rosa na região — ia casar e pas-
saria a lua-de-mel ali.
Então foi feita a troca. O dono do hotel conseguiu
convencer o escrivão de mudar de quarto e o pilantra topou
logo, desde que ficasse num quarto ao lado. Lua-de-mel era
o que mais incomodava o serventuário da justiça, porque ele
ficava olhando o casalzinho na hora do jantar e, de noite,
não tinha jeito de dormir: ficava acordado, imaginando
coisas.
No dia do casamento o escrivão fechou o cartório mais cedo,
mandou a justiça para o inferno e chegou no hotel antes da
hora. Não quis conversa com ninguém e, quando não viu o
casal na sala-de-jantar achou que os dois tinham comido no
quarto. Alvoroçado que só bode no cercado das cabritas,
subiu para seus aposentos provisórios e só reapareceu no
saguão no dia seguinte, mais pálido que o Conde Drácula.
— Mas o senhor não dormiu bem no outro quarto? O
vizinho fez muito barulho? — perguntou o solícito gerente.
— Pois é... sabe como são essas coisas. Casal em lua-de-mel
no quarto ao lado, sempre incomoda, né? A gente fica
pensando besteira — insinuou o escrivão.
— Mas.. . — o gerente estava boquiaberto: — o casal não
veio. O quarto estava vazio. Apareceu aqui um chinês com
dor-de-dente. Eu botei o chinês lá — e acrescentou: Coitado
do chinês, gemeu a noite toda.

O HOMEM DAS NÁDEGAS FRIAS

A HISTORINHA, que vai contada abaixo, naquele estilo
literário que fez de Stanislaw Ponte Preta um escritor de
importância transcendental, é absolutamente verdadeira e —
a par de ser jocosa — serve para provar que na época
hodierna a mulher está tão desacostumada ao cavalheirismo,
que engrossa a toda hora por falta de treino.
A pessoa que foi testemunha do episódio merece todo
crédito e garante que aconteceu no interior de um desses
ônibus elétricos que a irreverência popular apelidou de
chifrudo. O ônibus vinha lotado e, como acontece com
tanta freqüência, com vários passageiros em pé.
Antigamente, quando havia passageiro em pé, era tudo
homem, porque a delicadeza mandava que os cavalheiros
cedessem seus lugares às damas. Hoje, porém, é na base do
chega-pra-lá.
Vai daí, havia um senhor que estava sentado distraidamente
lendo o seu jornal e nem percebeu que havia em pé, ao seu
lado, uma jovem senhora dessas que não são nem de capelão
largar batina, nem de mandar dizer que não está. Em suma:
uma mulher bastante razoável.
O senhor acabou de ler o seu jornal, dobrou-o e deu aquela
espiada em volta, ocasião em que percebeu a distinta
viajando em pé, ao seu lado.

Devia ser um cavalheiro de conservar hábitos d'antanho
porque, imediatamente, levantou-se e disse pra dona:
— Faça o obséquio de sentar-se, minha senhora.
Seu ato não parecia esconder segundas intenções, tão
espontâneo ele foi. Mas, se o cavalheiro era antigão, a
madama era moderninha. Achou logo que o senhor estava
querendo fazer hora com ela e, desacostumada ao gesto
delicado, torceu o nariz e falou:
— Muito obrigada, mas eu não sento em lugar quente.
Houve risinho esparso pelo ônibus e comentários velados, o
que deixaria o senhor com cara de tacho, não fosse ele —
conforme ficou provado — pessoa de muita presença de
espírito.
Notando que todos o olhavam como se ele fosse um
palhaço, o gentil passageiro voltou a sentar-se e disse, no
mesmo tom de voz da grosseira passageira, isto é, naquele
tom de voz que despertava a atenção geral:
— Sinto muito que o lugar esteja quente, minha senhora.
Mas não existe nenhum processo que nos permita carregar
uma geladeira no rabo.
Aliás, ele não disse rabo. Ele disse mesmo foi bunda.

DOIS AMIGOS E UM CHATO

Os DOIS ESTAVAM tomando um cafezinho no boteco da
esquina, antes de partirem para as suas respectivas
repartições. Um tinha um nome fácil: era o Zé. O outro
tinha um nome desses de dar cãibra em língua de crioulo:
era o Flaudemíglio.
Acabado o café o Zé perguntou: — Vais pra cidade?
— Vou — respondeu Flaudemíglio, acrescentando: — Mas
vou pegar o 434, que vai pela Lapa. Eu tenho que entregar
uma urinazinha de minha mulher no laboratório da
Associação, que é ali na Mem de Sá.
Zé acendeu um cigarro e olhou para a fila do 474, que ia
direto pro centro e, por isso, era a fila mais piruada. Tinha
gente às pampas.
— Vens comigo? — quis saber Flaudemíglio.
— Não — disse o Zé: — Eu estou atrasado e vou pegar um
direto ao centro.
— Então tá — concordou Flaudemíglio, olhando para a outra
esquina e, vendo que já vinha o que passava pela Lapa: —
Chi! Lá vem o meu... — e correu para o ponto de parada,
fazendo sinal para o ônibus parar.
Foi aí que, segurando o guarda-chuva, um embrulho e mais
o vidrinho da urinazinha (como ele carinhosamente
chamava o material recolhido pela mulher na véspera para o
exame de laboratório...), foi aí que o Flaudemíglio se
atrapalhou e deixou cair algo no chão.
O motorista, com aquela delicadeza peculiar à classe, já ia
botando o carro em movimento, não dando tempo ao
passageiro para apanhar o que caíra. Flaudemíglio só teve
tempo de berrar para o amigo: — Zé, caiu minha carteira de
identidade. Apanha e me entrega logo mais.
O 434 seguiu e Zé atravessou a rua, para apanhar a carteira
do outro. Já estava chegando perto quando um cidadão
magrela e antipático e, ainda por cima, com sorriso de Juraci
Magalhães, apanhou a carteira de Flaudemíglio.
— Por favor, cavalheiro, esta carteira c dc um amigo meu —
disse o Zé estendendo a mão.
Mas o que tinha sorriso de Juraci não entregou. Examinou a
carteira e depois perguntou: — Como é o nome do seu
amigo?
— Flaudemíglio — respondeu o Zé.
— Flaudemíglio de quê? — insistiu o chato.
Mas o Zé deu-lhe um safanão e tomou-lhe a carteira
dizendo: — Ora, seu cretino, quem acerta Flaudemíglio não
precisa acertar mais nada!

FEBEAPÁ-2
TERESINHA E OS TRÊS

TERESINHA, quando veio do interior para trabalhar como
copeira e arrumadeira, no solar de Tia Zulmira, quase não
cooperou nada porque — principalmente —, antes de
querer ser arrumadeira, pensou em se arruinar. Era muito
jeitosinha a mulata. Tinha um riso branco como os votos do
atual eleitorado, tinha um andar de quadris febris, tinha uma
saúde dessas pra nego nenhum botar defeito. Enfim, Te-
resinha era o fino!
Tia Zulmira, velha e experiente, achou logo que Teresinha
não ia demorar muito no serviço doméstico, tanto assim que
evitou o que pôde mandar a empregada na rua. Sempre que
tinha uma compra qualquer para fazer, ela mandava a
cozinheira, que já estava queimando óleo 40, sorria com
todas as gengivas e claudicava da canhota. Mas teve um dia
que a cozinheira acordou com defeito no carburador, e titia
foi obrigada a ordenar a Teresinha:
— Vai ali na farmácia e compra este xarope que está aqui
escrito!
Ah, Margarida... pra quê! Ela foi, voltou e, com cinco minu-
tos do tempo regulamentar, já tinha juriti piando no galho.
Tia Zulmira, num dos raros momentos em que chegou à
janela (titia não gosta de mulher na janela, acha que é uma
atitude muito colonial), viu um cara indo e vindo em frente
ao portão, com aquele olhar perdido de quem está pensando
besteira.
Bem, eu vou encurtar. Mesmo com os conselhos da patroa,
Teresinha de Jesus da Silva de uma queda foi ao chão. Só que
não acudiram três cavalheiros. Não! Os três cavalheiros
vieram justamente antes da queda. Mas vamos por partes.
Logo depois daquela ida à farmácia, começaram as paqueras,
os telefonemas na base da voz grossa pedindo "se não fosse
incomodar, poderia por obséquio falar com a Dona Teresa".
O primeiro cavalheiro foi um garboso soldado do fogo. Um
bombeiro cerimonioso, que sempre que vinha buscar
Teresinha para sair, nas tardes de domingo, curvava-se,
respeitoso, para Tia Zulmira.
O segundo não tinha garbo, mas tinha mais juventude. Era
aviador, e isto, dito assim, parece que o rapaz era da
Aeronáutica. Mas não: ele era aviador de receitas.
Trabalhava na farmácia onde Teresinha fora, na sua primeira
ida lá fora, lembram-se? Pois é. O aviador, como a farmácia
fazia plantão aos domingos, costumava rebocar Teresinha
para a rua às noitinhas de segunda-feira.
O terceiro não tinha dia. Vinha de vez em quando e era
vigia de uma obra, num prédio que estavam construindo na
outra esquina, do lado de lá. Pelo que ficou se sabendo
depois, era o menos abonado dos três, mas isto ainda não
está na hora de contar.
Foi assim: não demorou muito, Teresinha começou a ter
enjôo. Enjoava que só vendo, e Tia Zulmira, sempre muito
romântica, mas nem por isso menos realista, viu logo que
teria de pagar carreto à cegonha. Chamou Teresinha e
perguntou quem foi. A mulatinha, cheia de pudores, chorou
muito, mas não quis dizer, obrigando a velha a iniciar suas
diligências.
Conversou com os três suspeitos, e ficou sabendo que o
bombeiro, que vinha aos domingos, era tarado pelo
Flamengo e, nas vezes que levou Teresinha com ele para
passear, foram ao Maracanã. O aviador (de receitas)
costumava levar Teresinha ao cinema.
— Cinema, no duro? — insistiu Zulmira, que nunca foi de
chupar picolé pelo lado do pauzinho.

— Cinema, sim senhora. A senhora compreende. Eu tenho
folga às segundas, quando muda o programa dos cinemas.
Me acostumei a ir aos cinemas nas segundas. Quando
comecei com a Teresa, passei a ir com ela.
Tia Zulmira anotou, e passou para o terceiro. O tal vigia da
obra num prédio que estavam construindo na outra esquina,
do lado de lá. Instado a responder se tinha levado Teresinha
ao Maracanã, respondeu que não, que quem sou eu, nunca
iria levar a menina, que via-se logo ser moça de respeito,
num lugar onde só vai homem. Cinema também não,
porque é muito caro para quem vive de salário mínimo. Na
verdade, ele não levava Teresinha a lugar nenhum. Era um
pobre coitado, compreende? Os dois, quando saíam juntos,
ficavam batendo papo ali mesmo, na obra.
Tia Zulmira deu um jeito, conversou com a mulata
direitinho, e o casamento com o vigia é sábado. Após a
cerimônia, vatapá na Boca do Mato!

ÂNDROCLES E A PATROA

MORAVA bem em frente ao boteco, o Ândrocles! Todos os
freqüentadores do canavial o conheciam. Sim, porque era
um autêntico canavial aquele botequim, onde a cana
escorregava firme e toda noite fornecia à boêmia local um
pelotão de caneados. Alguns iam curtir o porre em casa,
outros continuavam a sofrer a influência da cana e acabavam
encanados.
Ândrocles estava mais no primeiro do que no segundo caso.
De resto, era um porrista ameno. Tomava umas duas ou três
e ficava de pressão, muito falante, contando casos. Em dado
momento, a mulher aparecia na janela, em frente, e
chamava:
— Ândrocles, vem pra casa!
Ele respondia: — Tô indo, nega! — olhava em volta e
invariavelmente informava o que todos já sabiam: — É a
minha patroa!
Uma chata, a patroa do Ândrocles. Dessas velhotas de
bigode, verruga no rosto e gordona, que a gente tem a
impressão de que não é bruxa porque excedeu em peso à
categoria e, se montasse numa vassoura, quebrava o cabo.
Ainda por cima mandona, com mentalidade de sargento de
cavalaria reformado. Diziam, inclusive, que, de vez em
quando, quando o Ândrocles se rebelava pouquinha coisa,
sarrafeava o coitado.
A turma do boteco gostava dele. Era um velhote culto; pelo
menos para aquela turma, era um Rui Barbosa. Contava
história, explicava coisas, tirava dúvidas, tudo com modéstia,
sem botar a menor banca. Uma vez explicou para os amigos
quem fora Ândrocles:
— É uma lenda — esclareceu, logo fez-se silêncio no boteco,
para que prosseguisse. Ele tomou mais um gole da que
matou o guarda e prosseguiu: — Ândrocles era um escravo e
um dia fugiu, isto é, eu não me lembro bem se fugiu. O que
eu sei é que teve que se esconder numa gruta, e lá dentro
tinha um leão. Era um big leão, feroz às pampas, e o xará
ficou besta por não ter sido atacado. Aí, quando seu olhar se
acostumou à escuridão da gruta, reparou que o leão estava
com o maior espinho atravessado numa das patas... —
tomou mais um gole e pediu ao português do balcão que
botasse mais uma.
Servido, bicou, lambeu os beiços e continuou: — Ândrocles,
de tanto sofrer, não podia ver ninguém sofrendo, nem
mesmo um leão.
Por isso se aproximou devagarinho e conseguiu arrancar o
espinho da pata do leão, que desapareceu gruta a fora, todo
contente. Os tempos passaram e, um dia, Ândrocles, por ser
cristão, foi aprisionado e jogado na arena para os leões
comerem — aí parou de novo, para respeitar uma técnica de
suspense muito comum em novela de televisão.
Os olhares dos companheiros de marafa estavam todos
postados nele:
— Eu sou como o Ândrocles da lenda. Agora mesmo, vendo
vocês tão interessados, já estou com pena de ter
interrompido a história. Segundo eu sei, os algozes de
Ândrocles vibraram, quando viram aquele leãozão caminhar
urrando para ele. Mas aí foi aquele pasmo: o leão era o
mesmo da gruta e, reconhecendo seu benfeitor, começou a
lambê-lo e a fazer festinha, que nem cachorrinho de
francesa.
— Quem lhe contou esta história? — perguntou um outro
cachaça.
— Bernard Shaw — respondeu Ândrocles, sabendo que ali
ninguém conhecia o dramaturgo irlandês.
Houve um silêncio comovido entre os bêbados. Um silêncio
muito comum em comunidade de bêbados, que são pessoas
que se comovem com muita facilidade. Um velhote de nariz
vermelho, muito mais vermelho de conhaque do que de
gripe, chegou a puxar um bruto lenço de quadrados para se
assoar.

E o silêncio ainda permanecia, quando se ouviu o grito
medonho à porta: — Ândrocles, seu capadócio... bebendo
sem permissão!?!?
Todos se viraram a um tempo: era a patroa do Ândrocles.
— Querida! — ele disse, mas a velhota estava possessa e
esbravejou: — Aproveitando a minha ausência para vir
beber sem ordem. Já para casa, rato imundo!
Ândrocles colocou o copo em cima do balcão e nem pensou
em pagar a despesa; saiu passado, com a vergonha que a
implacável "sargenta" aumentou ao dar um safanão em sua
nuca, que o fez perder o equilíbrio e ajoelhar na calçada.
Ândrocles levantou-se e correu cambaleante para dentro de
casa, com ela atrás e, na sua nobreza, os bêbados todos se
voltaram para o balcão, para não verem mais nada daquele
vexame. O velho de nariz vermelho murmurou
constrangido:
— E pensar que ele fez tudo na vida por essa vaca!
Começaram a beber devagar, outra vez. Só quem estava de
frente
para os acontecimentos era o português do balcão. Esperou
que a porta se fechasse atrás do casal, do lado de lá da rua, e
falou com desprezo no sotaque:
— Até o leão foi mais humano que esta gaja!

MOMENTO NA DELEGACIA

Foi NA DELEGACIA DA PENHA, onde fui parar acompanhando
um amigo que tivera seu carro roubado e — posteriormente
— encontrado pelos guardas da jurisdição da "padroeira".
Antes de mais nada devo declarar que na Delegacia da
Penha acontecem coisas de que até Deus duvida. De dois em
dois minutos, uma "ocorrência" para o comissário do dia
registrar. O comissário, coitado, tem que quebrar mais galho
do que um lenhador canadense.
Mal tinha resolvido o caso de uma gorda que fora mordida
pelo cachorro da vizinha, ou foi a vizinha que mordeu o
cachorro da gorda? Sei lá... já não me lembro mais. O que eu
sei é que, mal tinha saído a gorda, e o pessoal em volta
comentava a bagunça que a gorda tentou armar no distrito, e
já começava o caso do crioulo de duas mulheres.
Para mim, sinceramente, "O Caso do Crioulo de Duas
Mulheres" foi o mais bacaninha de todos. De repente entrou
aquele bruto crioulo. Tinha quase dois metros de altura, era
forte como um touro, e caminhava no mais autêntico estilo
da malandragem carioca. Ladeado por duas mulheres
imobilizadas por uma chave-de-braço cada uma, caminhou
calmamente até o centro da sala, enquanto as duas faziam o
maior banzé, sem que ele tomasse o menor conhecimento.
A que ele trazia presa na canhota era meio puxada para o
sarará e chamava-o, com notável regularidade, de
"vagabundo", "crioulo ordinário", "homi safado" e outros
adjetivos da mesma qualidade. A que estava presa pelo lado
direito tinha a chave-de-braço mais apertada pouquinha
coisa (devia ser mais presepeira) e, por isso, estava meio
tombada pra frente. Dava as suas impressões sobre o crioulo
com menos freqüência, mas — em compensação — quando
abria a boca, berrava mais alto que a sarará. Sua reivindicação
era sempre a mesma: — "Me larga, seu cachorro!" De tipo,
era mulata e gordinha.
O bom crioulo nem parecia... Com a calma já assinalada,
olhou em volta, bateu os olhos no comissário e adivinhou:
— Tô falando com o comissário?
O comissário respondeu que sim. A voz do crioulo era
surpreendentemente fina para um sujeito de sua estatura.
Isto dava um ar bem-humorado à cena, assistida pelos
presentes: uns 15 ou 20, se tanto. A gorduchinha tentou se
desprender. Ele apertou mais a chave e disse fininho:
— Quieta aí — e, virando-se para o comissário: — Boa tarde,
doutor. Eu sou estivador e moro aqui pertinho, num barraco
de minha propriedade, com estas duas.
— O senhor vive com as duas? — perguntou o comissário.
— Vivo, sim sinhô. Mas isto nunca foi pobrema.
Urtimamente, porém, elas todavia dero pra brigá. Eu saio
pro trabáio e quando vorto as duas tão cheia de cachaça e
começa com ciumera.
— Que ciumera o quê? Eu lá tenho ciúme de você, seu
ordinário? — disse a sarará.
O crioulo interrompeu sua explanação à autoridade e falou
pra ela:
— Quieta aí, senão vai levá uma bolacha na frente do doutô.
A sarará não acreditou, cuspiu pro chão, em sinal de nojo e
levou aquela tapona definitiva, franca, imaculada. Calou a
boca e voltou para a chave-de-braço. O crioulo pigarreou e
prosseguiu:
— Pois é como eu digo, doutô. Faz dois dia que num drumo,
tá bem? Dois dia sem drumi. Vê se pode. Tudo por causa do
bode que essas duas arma quando eu chego... — largou a
sarará, colocou a mão sobre o peito, coberto pela camisa de
seda amarela. Usava camisa de seda, uma calça de brim
ordinário, mas com vinco perfeito e calçava um chinelo de
couro cru, que deve ter custado uma besteira, mas na vitrina
de qualquer butique da Zona Sul estaria com o preço
marcado para 50 contos, no mínimo.

— E elas num tem razão — esclareceu: — Se há um sujeito
que num tem preferença sou eu. Elas veve comigo há três
ano e num pode ter queixa. É tudo onda delas, doutô. Hoje é
minha forga no cais e eu preciso drumi. Eu trouxe elas aqui
pro senho prende elas aí. Tá legal? O senho faz isso pra
mim? Amanhã quando eu acordá eu venho buscá.
O comissário coçou a cabeça, perguntou a um auxiliar se
havia xadrez vago, o auxiliar disse que sim e ele perguntou,
para que o crioulo ratificasse:
— Você amanhã passa aqui para apanhar as duas?
— Passo sim, doutô. É só esta noite pra eu podê drumi.
Amanhã eu prometo ao senhô que, assim que eu acordá,
faço o meu café, tomo um banho e venho aqui buscá elas.
O comissário concordou: dois guardas agarraram as
mulheres, que foram lá pra dentro berrando e se debatendo.
O crioulo agradeceu ao comissário, virou as costas e foi
saindo. Lá dentro, as duas mulheres — longe dele —
aumentaram o festival de palavrões em sua homenagem.
O crioulo parou perto de um guarda e perguntou: — Tu que
é o prontidão? — o guarda fez um movimento de cabeça
afirmativo: — Intão, tu me faz um favô. De vez em quando
joga um balde d'água nelas, pra elas esfriá. Amanhã, quando
eu vier reclamá a mercadoria, tu leva um "tiradente" pelos
serviço prestado, tá?
— Tá! — concordou o prontidão, olhando logo prum canto
para conferir a ferramenta de dar fria, ficando notoriamente
tranqüilo ao ver um balde velho e amassado, debaixo de um
banco.
— Eu lhe agradeço — garantiu o crioulo, com uma pequena
reverência. Depois retirou-se naquele mesmo passinho
macio, chinelo de couro cru, camisa de seda amarela, frisada
pela brisa da tarde. Ia dormir sossegado, no barraco de sua
propriedade.

A VONTADE DO FALECIDO

SEU IRINEU BOAVENTURA não era tão bem-aventurado assim,
pois sua saúde não era lá para que se diga. Pelo contrário,
Seu Irineu ultimamente já tava até curvando a espinha,
tendo merecido, por parte de vizinhos mais irreverentes, o
significativo apelido de "Pé-na-Cova". Se digo significativo é
porque Seu Irineu Boaventura realmente já dava a impressão
de que, muito brevemente, iria comer capim pela raiz, isto
é, iam plantar ele e botar um jardinzinho por cima.
Se havia expectativa em retorno do passamento do Seu
Irineu? Havia sim. O velho tinha os seus guardados. Não
eram bens imóveis, pois Seu Irineu conhecia de sobra
Altamirando, seu sobrinho, e sabia que se comprasse
terreno, o nefando parente se instalaria nele sem a menor
cerimônia. De mais a mais, o velho era antigão: não com-
prava o que não precisava e nem dava dinheiro por papel
pintado. Dessa forma, não possuía bens imóveis, nem ações,
debêntures e outras bossas. A erva dele era viva. Tudo
guardado em pacotinhos, num cofrão verde que ele tinha no
escritório.
Nessa erva é que a parentada botava olho grande, com os
mais afoitos entregando-se ao feio vício do puxa-saquismo,
principalmente depois que o velho começou a ficar com
aquela cor de uma bonita tonalidade cadavérica. O sobrinho,
embora mais mau-caráter do que o resto da família, foi o que
teve a atitude mais leal, porque, numa tarde em que Seu
Irineu tossia muito, perguntou assim de supetão:
— Titio, se o senhor puser o bloco na rua, pra quem é que
fica o seu dinheiro, hem?
O velho, engasgado de ódio, chegou a perder a tonalidade
cadavérica e ficar levemente, ruborizado, respondendo com
voz rouca:
— Na hora em que eu morrer, você vai ver, seu cretino.
Alguns dias depois, deu-se o evento. Seu Irineu pisou no
prego e esvaziou. Apanhou um resfriado, do resfriado passou
à pneumonia, da pneumonia passou ao estado de coma e do
estado de coma não passou mais. Levou pau e foi reprovado.
Um médico do SAMDU, muito a contragosto, compareceu
ao local e deu o atestado de óbito.
— Bota titio na mesa da sala de visitas — aconselhou
Altamirando; e começou o velório. Tudo que era parente
com razoáveis esperanças de herança foi velar o morto.
Mesmo parentes desesperançados compareceram ao ato
fúnebre, porque estas coisas vocês sabem como são: velho
rico, solteirão, rende sempre um dinheirão. Horas antes do
enterro, abriram o cofrão verde onde havia 60 milhões em
cruzeiros, 20 em pacotinhos de "Tiradentes" e 40 em
pacotinhos de "Santos Dumont".
— O velho tinha menos dinheiro do que eu pensava disse
alto o sobrinho.
E logo adiante acrescentava baixinho:
— Vai ver, gastava com mulher.
Se gastava ou não, nunca se soube. Tomou-se — isto sim —-
conhecimento de uma carta que estava cuidadosamente
colocada dentro do cofre, sobre o dinheiro. E na carta o
velho dizia: "Quero ser enterrado junto com a quantia
existente nesse cofre, que é tudo o que eu possuo e que foi
ganho com o suor do meu rosto, sem a ajuda de parente
vagabundo nenhum." E, por baixo, a assinatura com firma
reconhecida para não haver dúvida: Irineu de Carvalho
Pinto Boaventura.
Pra quê! Nunca se chorou tanto num velório sem se ligar
pro morto. A parentada chorava às pampas, mas não
apareceu ninguém com peito para desrespeitar a vontade do
falecido. Estava todo mundo vigiando todo o mundo, e lá
foram aquelas notas novinhas arrumadas ao lado do corpo,
dentro do caixão.

Foi quase na hora do corpo sair. Desde o momento em que
se tomou conhecimento do que a carta dizia, que
Altamirando imaginava um jeito de passar o morto pra trás.
Era muita sopa deixar aquele dinheiro ali pro velho gastar
com minhoca. Pensou, pensou e, na hora que iam fechar o
caixão, ele deu o grito de "pera aí". Tirou os 60 milhões de
dentro do caixão, fez um cheque da mesma importância,
jogou lá dentro e disse "fecha".
— Se ele precisar, mais tarde desconta o cheque no Banco.

NÃO ME TIRE A DESCULPA

VOCÊS SE LEMBRAM daquele cara sobre o qual eu contei uma
historinha; um cara que era tão mal-acabado que só não era
mais feio por falta de espaço? Pois o cara desta historinha é
pior. Se feiúra fosse dinheiro, ele todo ano ia à Europa. Perto
dele Frankenstein era Marta Rocha.
Mas, para vocês verem como são as coisas: embora fosse um
tremendo filhote de Drácula, o cretino tirava sarro de
conquistador. Andava bacaninha, com paletó lascado atrás,
gravata italiana, abotoadura de ouro, calças dessas tão
apertadinhas que pareciam ter sido costuradas com ele
dentro.
E freqüentador, também. Metia um jantar na Hípica, de vez
em quando, e, embora não fosse sócio-atleta, comia salada
de alfafa, para não engordar. E nisto talvez tivesse razão.
Gordo seria pior. O magro horrendo pode ser mais
fantasmagórico, mas o impacto de sua feiúra é menor do que
a do gordo horrendo.
O que não lhe ia bem era a pretensão. Entrava no bar e
ficava encostado ao balcão, fazendo olhares para as
mulheres. Bebia uísque com pose de quem está bebendo
veneno por desprendimento e, quando acendia um cigarro,
tirava aquela baforada farta, só para fazer olhar misterioso
por trás da fumaça.
Um dia um amigo meu surpreendeu-o num restaurante,
comendo "pão-sexy". Eu nem sabia que existia esta bossa.
Mas o amigo me explicou. O "pão sexy" é aquele truque que
o conquistador, que costuma trabalhar na faixa do durão
com mulher, gosta de empregar em lugar público onde tem
a possibilidade de mastigar. O conquistador senta num canto
e fica olhando fixo para uma dona dos seus desejos secretos.
Quando o olhar começa a ficar insistente, segura um pedaço
de pão e aguarda. Na hora em que a dona, disfarçadamente,
vai conferir para ver se o chato ainda conserva o olhar
insistente, ele dá o golpe do "pão-sexy"; isto é; morde o pão
e arranca um pedaço com violência.
Ah, estraçalhadora! Diz que tem mulher que vibra com esta
besteira, sentindo-se mordida "in loco" pelo carrasco. Eu,
por mim, acho que mulher que vibra com o golpe do "pão-
sexy" só deve ser de Bangu pra cima, mas hoje em dia, com
o "lockout" da finura, é bem possível que as grã-finas
tenham aderido e se encontre uma ou outra que aprecie as
manobras do "pão-sexy" até mesmo no bar do late. Ainda
mais porque o cara de que eu estou falando vai muito lá.
Como todo conquistador que se preza, é também um
difamador, o cara esse. Quando se fala em determinada
mulher, perto dele, ele fica fazendo um olhar entre o
displicente e o saudoso, até que a pessoa que fala da mulher
não resiste e pergunta:
— Você conhece ela?
Ele conhece vagamente, mas dá a entender justamente o
contrário, e deixa no ar aquele cheirinho de dúvida, ao
responder:
— Deixa isso pra lá! Vamos falar de outra coisa! Águas
passadas, águas passadas.
No entanto, ali não passa água nenhuma. Tal tipo de cretino
não apanha nem goiaba no pomar. Os sujeitos que agem
assim estão perfeitamente enquadrados no substancioso
manual de Freud (página 4 na edição de bolso). É
exatamente porque não apanha ninguém que o cara toma
essas atitudes.
Talvez a vida trepidante da atualidade incentive esse tipo de
gente. Hoje em dia não se tem tempo para reparar se a pose
do próximo condiz com a realidade e, assim, vai-se
aceitando o cocoroca como ele diz que é. E não como ele é
realmente.
Todo mundo sabia — pois estava na cara — que o sujeito
desta historinha era mais feio que a necessidade, mas
ninguém tinha ainda reparado que ele não apanhava
ninguém. Estava sempre se curando de um amor ou com um
amor a brotar, mas as mulheres, mesmo, ninguém via com
ele.
E este importante detalhe só veio à luz no dia em que um
amigo rico disse a ele que tinha montado um apartamento
legalérrimo. Tinha tudo. Vitrola, gravador, geladeira, uísque,
luzes indiretas, ducha, ar refrigerado, entrada independente.
O fino do esconderijo.
Por ser — como ficou dito — um cavalheiro cheio da erva,
ofereceu o imóvel suspeito ao "conquistador". Falou nas
vantagens do dito e acrescentou:
— Você querendo usar de vez em quando, eu te dou o
endereço e uma duplicata da chave.
Mas aí era duro demais para o cara sustentar sua atitude.
Engoliu em seco e disse pro outro:
— Muito obrigado! Mas, por favor, não me diga onde é, nem
me dê a chave. A única desculpa que eu terei, no dia em que
desconfiarem do meu sucesso com mulher, é esta.
— Esta qual?
— Dizer que não tenho onde levar.

O MAJOR DA CACHAÇA

HAVIA NO BAIRRO um grupo de bebedores da melhor
qualidade. A turma se reunia no fundo de um armazém de
secos & molhados, onde existiam uma mesa, ampla e
algumas cadeiras. No começo eram uns poucos, mas depois
o grupo recebeu algumas adesões, e os aderentes sentavam
em caixotes vazios, que era o que mais tinha no fundo do
armazém.
Está claro, sendo um grupo de bebedores, embora fosse o
local uma firma — como ficou dito — de secos & molhados,
nunca ninguém da turma se interessou pelos secos. Era tudo
gente dos molhados. E de tal forma eram que acabaram
inventando uma espécie de hierarquia de bebedores.
Reparem que estou a chamá-los de bebedores e não de
bêbados; isto é, a turma era consciente e não um vulgar
amontoado de pés-de-cana.
Mas, eu dizia, resolveram inventar uma hierarquia baseada
no maior ou menor rendimento de cada um, na admirável
(pelo menos para eles) arte de curtir um pileque com
dignidade. Assim, aqueles que fossem uns frouxos e não
passassem de uns tantos cálices, seriam cabos ou sargentos;
os que conseguiam agüentar dose maior seriam tenentes, e
acima os capitães, majores... enfim, a graduação subia na
ordem direta da cachaça de cada um ou, como disse um
deles, mais cínico pouquinha coisa, na capacidade de virar
gargalo.
Um detalhe importante que, depois de inventado esse
pequeno exército da pinga, todos passaram a respeitar foi a
obediência ao posto. Um tenente nunca entrava em
qualquer lugar público sem bater continência para um
major, pedir licença para permanecer no recinto, etc.
Foi quando Geraldina conheceu Adamastor, que era major já
fazia mais de um ano. Saiu com ele uma noite, para jantar, e
ficou muito impressionada. Estavam os dois esperando os
pratos encomendados, quando aproximou-se um cavalheiro
e, fazendo continência para Adamastor, falou:
— Dá licença, Major?
— À vontade — respondeu Adamastor, meio cabreiro, por
causa da presença dela.
Aquilo deu a Geraldina um certo orgulho. Afinal, aquele
cavalheiro que a acompanhava não era um qualquer. Tinha a
sua importância, recebia certas deferências. É verdade que
Geraldina era nova no bairro e nunca suspeitaria em que
exército Adamastor servia no posto de major.
E digo mais. Pouca gente sabia daquela brincadeira. Sim,
porque quem não era da turma encarava a combinação do
grupo como simples brincadeira, ainda que a seriedade com
que eles se davam ao ritual da continência provasse que —
pelo menos os do exército da cachaça — não tinham aquilo
em conta de brinquedo.
Mas voltemos a Geraldina e ao Major Adamastor.
Continuaram a sair juntos, tornaram-se namorados e, mais
do que isto, comprometidos. Adamastor já tinha levado
Geraldina para conhecer sua família e vice-versa. À beira de
um noivado, portanto.
Foi então que, um dia, conversando com uma tia fofoqueira
de Adamastor, Geraldina disse: — Uma das coisas que eu
mais admiro no Adamastor é a importância dele, Dona
Babilônia (a tia chamava-se Babilônia, embora jamais
pudesse ser incluída entre as 7 maravilhas do mundo, muito
pelo contrário — velha vesga estava ali). Mal Geraldina fez
aquela cândida confissão, Dona Babilônia meteu lá um
muxoxo e uma cara de nojo, para lascar:
— Que importância que nada, minha querida. O Adamastor
é um beberrão. Sabe que título de major é esse? Pois é por
causa de cachaça. Aqueles moleques que fazem continência
para ele também são bêbados. Quem bebe mais cachaça vai
subindo de posto.
Geraldina ouviu aquilo tudo gelada, mas como já gostasse de
Adamastor, não quis mais pensar no assunto. Sabem como é:
só o amor constrói para a eternidade. Mas também não ia
deixar que ele continuasse a enganá-la nas suas bochechas
com aquela besteira de major. E foi batata.

À noite o casar combinou um cinema, e estavam ambos na
fila, para comprar entrada, quando apareceram dois sujeitos.
Pararam em frente de Adamastor, bateram a devida
continência e perguntaram se podiam entrar na fila também.
Adamastor respondeu que sim, que podiam. E ficou murcho
dentro da roupa, sem olhar para Geraldina, numa atitude que
ela antes pensava que fosse de modéstia e agora estava
achando que era de cinismo.
Pobre Geraldina, não percebia que Adamastor não tinha o
menor orgulho do título. Pelo contrário, sentia-se um
injustiçado, tanto assim, que, ao ouvir a bronca, revoltou-se
pela primeira vez.
— Não seja cretino, Adamastor — disse ela. — Não fique
com esse fingimento, não. Então não sei por que é que esses
vagabundos o chamam de major?
E Adamastor: — Pois fique sabendo que é uma injustiça,
ouviu? Tem nego lá no armazém que bebe muito menos do
que eu e já é coronel.

O APANHADOR DE MULHER

Foi NUM DIA AÍ que eu tive que ir ao Recife! Eu sou danado
para chegar atrasado no Galeão. Eu e o conforto. Eu ainda
chego. Atrasado mas chego. O conforto é que está
demorando um bocado. Em matéria de aeroporto
internacional, deviam mudar o nome daquele cercado para
Galinhão — parece um galinheiro, ficava mais condizente.
Mas isto deixa pra lá.
Dizia eu que tive de ir ao Recife e fui mesmo. Fui o último a
entrar no avião e sentei ao lado de um cara que tinha uma
cor puxada para o esverdeado:
— Esse sujeito deve ter um fígado desses que se deixam
subornar pelas hostes inimigas. Ou então é desses que têm
mais medo de avião do que "beatnik" de sabonete.
Mas não. Mal o avião levantou vôo, o cara pediu um uísque
duplo à aeromoça e puxou conversa. Explicou que estava
saindo do Rio por causa de uma mulher. E que mulher, seu
moço! Dessas que nem presidente de associação de família
bota defeito. Ela soube que ele estava andando com a
Julinha.
— Manja a Julinha? — ele me perguntou,
Não. Eu não manjava, e era um trouxa por causa deste
detalhe. A Julinha era uma das melhores coisas que podem
acontecer a qualquer sujeito apreciador do gênero.
E assim foi o cara, até Vitória. Na hora em que o avião ia
descer, ele estava explicando que ali, na capital capixaba,
tinha tido grandes momentos. Mas grandes momentos
mesmo. Se meteu com uma pequena ótima, sem saber que
ela tinha duas irmãs melhores ainda. E ele foi pulando de
uma para outra.
— Apanhei as três, tá bem? — batia na minha perna e dizia,
balançando a cabeça, com um sorriso vitorioso (talvez em
homenagem à já citada capital capixaba). E repetia para mim:
— Apanhei as três!
Depois da escala em Vitória, tentei sentar longe do folgazão,
mas me dei mal. Ele me viu sozinho na poltrona, isto é, com
a poltrona do lado dando sopa, e não conversou. Pediu mais
um uísque duplo à aeromoça e retomou o assunto mulher.
Descreveu como é que foi com a mulher do quinto andar lá
do prédio onde ele mora. No começo não queria. Sabe como
é — a gente não deve se meter com essas desajustadas que
moram perto, porque fica fácil de controlar. E parecia que
ele estava adivinhando. Todo dia de manhã era uma bronca,
porque todo dia de manhã — é lógico — saía uma mulher
do seu apartamento, e a dona do quinto andar ficava na
paquera.
— Mandei andar, viu?
— Qual?
— A do quinto.
— Ah, sim...
Entre Vitória e Salvador o sujeito já tinha apanhado mais
mulher do que o falecido Juan Tenório. Mas nem por isso
deixou de contar mais umas duas ou três aventuras
amorosas, enquanto aqui o filho de Dona Dulce aproveitou a
boca para comer uns dois ou três acarajés. Era eu com
acarajé e ele com mulher. Desisti até de me livrar do
distinto. No Recife cada um de nós iria para o seu lado e eu
não veria mais o garanhão.
Retornamos ao avião. Ele, firme, do meu lado. Pediu outro
uísque duplo à aeromoça — a qual, inclusive, elogiou,
afirmando que tinha umas ancas notáveis.
— Hem, hem? Notáveis! — e me catucava com o cotovelo.
Foi quando sobrevoávamos Penedo que ele confessou que já
tinha casado três vezes. Felizmente não tivera filhos, mas
mulher não faltou. Depois do terceiro casamento, com
várias senhoras de diversos tamanhos e feitios intercalados
entre cada casamento, resolveu que não era trouxa.
— Comigo não, velhinho. Chega de casar! — nova catucada:
— Comigo agora é só no passatempo. Por falar nisso, você
tem algum compromisso no Recife?
Fingi que tinha. Uma senhora que não poderia ser
suspeitada, caso contrário poderia sair até tiro. Ele
compreendeu. Embora tremendo boquirroto, concordou
que, às vezes, é preciso manter o sigilo. Mas era uma pena
eu não estar disponível no Recife. Ele conhecia umas garotas
bem interessantes. Era bem possível que, já no aeroporto de
Guararapes, algumas estivessem à sua espera.
— Você dá uma espiada — aconselhou-me. Se alguma delas
me conviesse e — naturalmente — se a tal senhora
inconfessável falhasse, eu poderia ficar com duas ou três de
suas amiguinhas, para umas farras em Boa Viagem:
— A gente vai para a praia. De noite... aqueles mosquitinhos
mordendo a gente.
Disse isso com tal entusiasmo na voz que, por um instante,
eu cheguei a pensar que ele gostasse mais do mosquitinho
do que de mulher. Mas foi só por um instante. Enquanto o
avião manobrava e descia no Recife, o cara ainda falou numa
prima lá dele, pela qual tivera uma bruta paixão.
Aí o avião parou, todo mundo desamarrou o cinto e — coisa
estranha — o meu companheiro de viagem voltou a ficar
esverdeado. Saímos, apanhamos as malas e, quando eu ia
pegar um táxi, lá estava o cara sozinho, também atrás de
condução. Ele me viu, sorriu e explicou:
— Olha, meu velho, aquilo tudo era bafo. Eu não apanho
ninguém. Eu tenho é pavor de avião e só falando de mulher
é que eu perco o medo.

NÃO ERA FRUTA

A GUANABARA anda tão confusa que começaram a acontecer
as coisas mais esquisitas dos últimos tempos. Deve ser o
calor, o sofrimento de um cinema sem refrigeração, a falta
de elevadores, a falta de água, a dificuldade de transportes, e
a falta de dinheiro do povo e de vergonha do Governo. Com
tudo isso, o cidadão vai tendo tanta coisa para pensar, mas
tanta coisa, que um dia, quando ele menos espera, dá um
estouro e pronto. Mufa queimada. Carteirinha de doido e
caco de miolo pra tudo que é lado.
E não é que tinha um amontoado outro dia na Avenida
Salvador de Sá? Foram conferir e tava lá. Mais um com a
mufa queimada. O motorista João Claudino da Silva, durante
uma das noites mais quentes da Guanabara, teve um acesso
de loucura (ou de calor) e, inteiramente nu, foi dormir
tranqüilamente entre os galhos de uma das árvores daquela
via pública. E deu o maior galho. O Senhor João Claudino,
depois de tirar a roupa e subir na árvore, deitou nu e de
barriga para cima numa forquilha e ficou roncando até 11
horas da manhã.

Mais ou menos a essa hora um — com licença da palavra —
pedestre olhou e viu lá em cima a parte de baixo do
Claudino. A noite era de lua cheia, mas o dia não. E tome de
juntar gente. Foi aí que um gaiato gritou, depois de olhar
atentamente para o acontecimento:
— É fruta-pão.
Um entendido em botânica logo contestou:
— Que fruta-pão o quê, sô! É jaca.
Teve nego até que disse que era uva. Outro disse que era
melancia. Tava uma discussão dos diabos. E aí chegou o
Corpo de Bombeiros. Um bombeiro meio desconfiado
perguntou ao tenente:
— Oitizeiro dá melancia?
— Eu nunca vi! Mas, na atual conjuntura é bem possível.
Acho melhor você subir na árvore e dar uma olhada.
Quando o bombeiro se preparava para subir, ainda teve um
cara que pediu:
— Ó meu... se for jaca, minha mulher tá com desejo de
comer jaca. Tá com desejo, entende...
O bombeiro subiu na árvore Deu uma olhadinha e gritou:
— Seja lá que fruta for, tá madura e vai cair.
Dito e feito. Primeiro passou o vento e depois a fruta. Era o
Claudino. Devidamente descascado, foi enviado para o
Hospital Psiquiátrico. Agora, leva mais uns três meses para
amadurar novamente.

NINGUÉM TEM NADA COM ISTO

CHEGA NO SÁBADO, Seu Galdino não quer vender sapato.
Quer é encher a cara, grande amigo da cachaça é o distinto.
Pode chegar freguês à vontade que ele não vende bulhufas,
mesmo durante o horário comercial sabatino, isto é, de 8 ao
meio-dia. Até aí — diga-se em favor da verdade — Seu
Galdino fica só na sede, aguardando a hora. Mesmo assim
não vende. Se chega freguês ele até finge que não vê. Aliás,
não chega freguês nenhum, pois todo mundo lá manja a
mania do sapateiro. Mas chega garoto chato, pra gozar o
velho. Chega e pede:
— Seu Galdino, tem sapato preto tamanho 35? O velho olha
e resmunga: — Não tem sapato nenhum, seu besta. Essas
caixas estão todas cheias de... e larga o palavrão que francês
tanto gosta de usar.
Mas é depois de meio-dia que Seu Galdino começa. Fecha a
loja e chama um garoto que trabalha para ele: — Meu filho,
vá na venda do Fulgêncio e me traz uma garrafa de cachaça.
Mas leve esta caixa de sapato vazia e bote a garrafa dentro.
Não convém esse povo falador ver a cachaça, senão vai dizer
que eu sou bêbedo e não é verdade. Eu não sou bêbedo, eu
só bebo um pouquinho, pra distrair.
O menino pega o dinheiro, pega a caixa de sapato vazia e vai
no botequim, trazendo, em seguida, a cachaça pedida e
escondida. Seu Galdino vai lá pra dentro e brinca fácil pelo
gargalo. Quando dá negócio de duas, três horas, ele chama o
menino de novo, dá dinheiro e manda buscar mais uma.

O garoto pergunta se é pra trazer na caixa, mas Seu Galdino
diz que não: — É dar muita importância a essa gente
faladeira. Traz embrulhada num pedaço de jornal e basta.
O menino vai, compra, embrulha e manda, ou melhor, traz.
Seu Galdino some lá pra dentro. Aí quando vai baixando a
tardinha, Seu Galdino vem lá de dentro cambaleando, com
um monte de dinheiro amassado na mão e diz:
— Meu filho, vai na venda do Fulgêncio e me compra duas
garrafas logo de uma vez. E não embrulha não. Vem pela rua
batendo uma na outra e se alguém perguntar, diz que é pra
mim, porque vagabundo nenhum tem nada com isso e eu
não devo um vintém a essa cambada.

O HOMEM DO TELHADO

QUANDO A GENTE passa em conjunto residencial e olha para
o teto dos edifícios, fica pensando que está passando numa
estação espacial e que todas aquelas antenas são
instrumentos de comunicação com Marte, Vênus, Júpiter e
outros planetas. Conjunto residencial é aquele local em que
construíram 1.200 apartamentos, num só edifício, ao lado de
outro edifício com 1.400 apartamentos e na frente de outro
edifício com mais ou menos uns 1.800 apartamentos, que
eles chamam de bloco. Todos com televisão e todos com
antena no telhado. Vai daí que, olhando para baixo, parece a
entrada do prédio das Nações Unidas. Todas as janelas têm
bandeiras. Bandeiras em forma de meia, de calcinha, de
ceroulas e anáguas. E no telhado, parece aquela estação
espacial que a gente falou. Só que em vez de foguete, tem
sempre um gato deitado ou uma pipa.
E quando o dono do apartamento 1.191 chamou o antenista
para colocar sua antena no telhado, o homem se viu mal.
Subiu lá e quando olhou o negócio pensou até em instalar a
antena no teto do vizinho. Vai daí ele conseguiu colocar a
antena bem na beirinha, em boa posição e miseravelmente
dava pra assistir a meia hora de Chacrinha sem que a
televisão virasse de cabeça para baixo. Mas, infelizmente,
não demora muito e quando menos a gente espera, a
voltagem cai, a corrente modifica e a dona boa que a gente
tá vendo no vídeo vira aprendiz de monstro.
E foi por isso que o nossa amizade, morador no apartamento
1.191, mandou chamar o antenista. Era um rapazinho com
pinta de criado na república da Praia do Pinto, magrinho e
com mais ginga que pato sozinho em galinheiro de franga.
Ele foi chegando e explicando o babado todo:
— O morador deve entender as mumunhas. Quando passa
um ônibus elétrico, a corrente cai e adefeculta a mensagem
no vídeo. Às vêis é preciso um reajuste, pra que a seletora da
canalização das image fica clara outra vez.
O dono da televisão não entendeu nada, aliás, nem eu, mas
ele queria era a imagem boa e o problema deveria ser
antena. O rapazinho subiu para o telhado e meia hora depois
voltou:
— O senhor vai desculpar, mas eu não posso fazer o serviço,
não senhor.
— Ué, mas por quê?
— Bem, é por causa de que a antena está muito na beirinha.
— E daí, ó meu??
— Daí, meu distinto, eu tô fora. Se eu chegar muito na beira
eu entro no ar e quem tem que entrar no ar é a estação, não
sou eu.


POR CAUSA DO ELEVADOR

A NOTÍCIA saiu pequenina num desses jornais impressos com
plasma sangüíneo. O cara chegou ao hospital com as
longarinas empenadas e necessitando serviço de
lanternagem na carroçaria. Tinha brigado com a mulher e a
distinta deu-lhe uma bonita surra de abajur. Pelo menos foi
o que o cara contou: tinha sido vítima de um abajurcídio.
Provavelmente o abajur tinha se transformado em objeto
inútil, como de resto acontece com todos os lares cariocas
desde que a Light resolveu acabar com esse luxo de luz
acender de noite. O marido folgou e a ponderada senhora
tocou-lhe o dito abajur nas fuças.
O Sr. Barros — este o nome da vítima — declarou que foi
atacado em metade de cara pela sua cara-metade e, por isto,
as autoridades acharam uma boa idéia bater um papinho com
a agressora.
Conversa vai conversa vem, ela disse ao comissário do dia
que o marido, depois que a luz apagou, ficou um bocado
cínico:
— Imagine doutor — declarou ela ao zeloso protetor da
corretagem zoológica — que o Mário chega todo dia em casa
de madrugada e quando eu pergunto por que, o miserável
diz que ficou preso dentro de um elevador qualquer, por
falta de energia. Um dia eu acreditei, no outro também, mas
no terceiro dia que ele ficou preso por falta de energia, eu
achei que quem estava sem energia era eu e esperei que o
vagabundo viesse com a desculpa de novo, pra dar o
corretivo. Ontem não deu outra coisa. Ele chegou quase
com o dia clareando e falou que ia descendo no elevador do
prédio de um amigo, onde foi deixar um embrulho e aí
faltou energia. Eu aproveitei e disse que energia era o que
não ia faltar e... pimba!... agarrei um abajur que estava ao
meu lado e fiz o serviço.
Vejam — caros leitores — que drama chato. A desculpa de
ficar preso em elevador é excelente, mas a reincidência
estragou tudo. Não há mulher que caia nessa mais de duas
vezes por ano e, assim mesmo, espaçado; bem espaçado.
De qualquer forma, nunca é demais aproveitar a experiência
alheia e fazê-la nossa. Nada de ficar preso em elevador mais
de uma vez. Primo Altamirando, é verdade, já ficou preso —
desde que começaram a desmontar o Rio de Janeiro — umas
18 vezes, mas por motivos diferentes. Quando ele percebe
que a luz vai faltar, ele entra no elevador com a jovem
senhora de seus interesses particulares e fica lá dentro até
voltar a energia (do elevador, naturalmente).
Acredito que outros estejam usando o mesmo processo e
vou logo avisando: não se surpreendam se, dentro de uns
nove meses, mais ou menos, algumas criancinhas forem
levadas à pia batismal com o nome de Otis, Atlas, Schindler,
etc. Será uma bonita homenagem!

NA TERRA DO CRIOULO DOIDO
O ESTRANHO CASO DO ISQUEIRO DE OURO

DE PRINCÍPIO me declarou que na hora em que tudo
aconteceu não estava bêbedo. E insistiu: "Eu estava
absolutamente lúcido, embora tivesse bebido o bastante para
ficar de quatro na grama". Evidentemente, se não tivesse
bebido nada, não teria nem descido do carro, quanto mais
ficado de quatro na grama! Mas o fato é que ficou, e agora —
diante do acontecido — está a se perguntar se estava real-
mente lúcido, o que de resto não importa, uma vez que a
conseqüência intriga-o mais do que a ocorrência.
Estava muito alegre e ria muito, e isto não era nem sequer
por conta da bebida. Era um pouco por causa do uísque que
tomara e mais o momento, a mulher, enfim um estado de
espírito que tomou conta dele e que já fazia por merecer.
Depois de muitos dias seguidos de pequenos
aborrecimentos, muito trabalho, um resfriado. "Estas coisas
— dizia-me — vão deixando a gente sem reservas de
humor. Mas, quando terminou a festa e ela pediu-me que a
levasse em casa, veio-me de súbito aquele estado de espírito.
A prova de que eu estava raciocinando perfeitamente é me
lembrar deste detalhe: tenho certeza de que já vinha alegre
lá de dentro e, quando fui tomar o carro, senti o perfume de
jasmim dos jardins do vizinho. Eu nasci e morei durante
anos numa casa cheia de jasmineiros, você entende?"
Eu entendia. Já vinha alegre da festa, na hora de entrar no
carro, com uma bela mulher que o tinha escolhido para
levá-la em casa, tudo isso e mais um cheiro da infância
deram-lhe aquela alegria interior que conservou até o
momento em que viu, sobre a grama, as pernas do guarda,
firmes, como que plantadas no gramado — aquelas duas
colunas negras, porque era um guarda de perneiras, desses
que passam solenes, de motocicleta, altivos e barulhentos.
"Mas eu não ouvi barulho nenhum —explicava ele —, eu
estava de quatro, rindo, na grama, quando vi as pernas e, em
seguida, o guarda. Aquele bruto guarda, de mãos na cintura,
me olhando."
É estranho que uma pessoa, justamente na hora em que se
sente eufórica, vivendo um momento raro, meio sonho
meio realidade, possa explicar cada minuto desse momento
que já está passado e, no entanto, no presente,
absolutamente sóbrio e sério, não consiga encontrar uma
explicação que satisfaça a si mesmo, que possa acalmar uma
dúvida sem apelar para o sobrenatural.
Recorda-se que entrou no carro e perguntou à mulher onde
morava e ela deu-lhe o endereço. A noite era fresca e o ar
livre, o carro deslizava pelas ruas tranqüilas e desertas. Então
pôs-se a cantar a canção que ela também cantarolou junto
com ele, e iam tão felizes que começou a guinar o carro de
um lado para outro, ao ritmo da música. A mulher morava
num recanto do maior bucolismo, em frente a uma praça
toda gramada. Ele parou o carro e propôs à mulher que
fumassem mais um cigarro, e ficaram ali fumando, num
silêncio convidativo; tão convidativo que ele começou a
fazer-lhe cócegas na nuca, os dois rindo, ele se chegando e
— de repente — deu-lhe uma mordidinha no lóbulo da
orelha. A mulher sentiu um arrepio, riu mais: "Ai, Carlos,
você é um cachorrinho e está me mordendo" — ela disse.
Isto foi o que bastou para que descesse do carro e fosse lá
para o meio do gramado, onde ficou de quatro, a latir para
ela. A mulher ria e, como estivesse escuro, começou a gritar:
"Onde você está, Carlos?" — e como ele calasse os latidos
para fazer-lhe uma surpresa, ela manobrou o carro e
acendeu os faróis na direção do gramado, mas numa direção
em que as luzes não o atingiam. Pôs-se a caminhar de quatro
para se esconder atrás de um arbusto, quando viu que ela
saíra do carro e já caminhava também sobre a grama —
embora sem latir e sem usar os braços à guisa de patas
dianteiras.
Foi aí que viu o guarda. Ou antes: as pernas do guarda.
Levantou a cabeça e notou o quanto ele estava sério, e assim
ficaram um tempo indefinido, que deve ter durado alguns
segundos, mas que lhe pareceu uma eternidade. Notou
também que a mulher voltara para o carro e ria muito da
situação.
Por certo o guarda tinha todo o direito de pensar outra coisa,
e quando lhe perguntou "o que é que o senhor está fazendo
aí?" — já tinha opinião formada. Contar a verdade lhe
pareceu pior, o que prova a sua lucidez na ocasião. E então,
porque precisava dar uma resposta qualquer ao guarda, disse
que estava procurando o isqueiro. Daí passou a mentir, uma
mentira em cima da outra, sobre o isqueiro, que era de ouro
e tinha seu nome gravado de um lado.

"Como é seu nome?" — quis saber o guarda. E foi a única
verdade que disse: "Carlos Silva. E está escrito do lado do
isqueiro. É um isqueiro francês Dupont". Falava e olhava
para os lados, fingindo que procurava. O guarda continuava a
não aceitar nada do que dizia, mas mantinha-se sério,
perturbando-o ainda mais. Quando perguntou como
conseguira perder o isqueiro ali na grama se estava com a
mulher no carro, fingiu que não ouviu e acrescentou: "É um
isqueiro de estimação. Foi minha mãe que me deu. Ela já
morreu". Falava c caminhava devagar, tentando se
aproximar do carro. O guarda caminhava também,
mantendo a distância entre os dois, até o instante em que se
abaixou para apanhar algo que brilhou em sua mão, apesar da
escuridão.
"Aqui está o seu isqueiro, cavalheiro" — disse o guarda,
enquanto ele engolia o próprio espanto, diante do espanto
do guarda, que conservava o isqueiro de ouro na palma da
mão aberta.
Agora repetia — de certa maneira — a atitude do guarda da •
véspera. Estava com o' isqueiro na palma da mão aberta e mc
dizia. "E te juro! Eu nunca tive nenhum isqueiro!"
LUÍS PIERRE E O TÚNEL

TUDO começou por causa do procedimento da mulher do
Luís Pierre! Ela não era sequer bonitona, mas se achava.
Mulher que se acha o fino, quando não é, costuma ser um
perigo. Adora dar bolas prós outros num complexo de auto-
afirmação que deixaria qualquer Freud doido.
Pois a mulher do Luís Pierre era assim e, de bola em bola,
acabou saindo por cima do travessão. Aí vocês sabem como
é: prevaricou a primeira vez, fica freguês. Todo mundo
lamentava o procedimento dela, que nas primeiras
prevaricações ainda tomou um certo cuidado, mas depois se
mandava, pouco ligando à boca do povo, uma boca que, para
essas coisas, não se cala nem para mastigar.
Foi então que o blá-blá-blá chegou aos ouvidos do Pereirão
que era amigo de Luís Pierre e nunca tinha reparado em
nada. Porém, alertado, foi conferir e ficou chateadíssimo:
— Ora, para o que deu essa sirigaita — dizia ele na roda do
clube. — O Luís Pierre casou com ela quase que amarrado.
Fingia-se de apaixonado e agora está aí que nem chuchu no
mercado, subindo pelas paredes.
Mas o Pereirão não podia ir dizer ao amigo. Essas coisas dão
sempre em besteira, quando o amigo tenta desentortar o que
está torto. No entanto, na qualidade de amigo, tratou de
fazer sentir ao Luís Pierre que tinha lingüiça por debaixo do
angu. Uma insinuaçãozinha aqui, outra ali, na esperança de
que o outro se mancasse e tomasse uma atitude.
Estas coisas, todavia, são sempre parecidas. O pobre do
marido, se não desconfia por si mesmo, se não pega num
flagra ocasional, não adianta insinuar, pois é dos inocentes o
direito de não desconfiar. Vendo o seu trabalho ir por água
abaixo, o Pereirão começou a se irritar ao contrário, isto é,
começou a achar que um marido tão boboca merecia. E mais
de uma vez disse na roda do clube.
— O idiota merece.
No fim de certo tempo, dava razão à sirigaita (conforme ele
mesmo classificara a mulher) e começou a implicar com o
Luís Pierre. Uma tarde — na roda do clube —, comentou-se
qualquer coisa sobre a mais recente aventura de Mme. Luís
Pierre, e o Pereirão foi mordaz, afirmando que Luís Pierre
não podia nem passar mais no túnel. Houve uma gargalhada
geral e a piada de mau gosto se espalhou, não demorando
muito para que um safado qualquer mandasse uma carta
anônima ao marido enganado contando tudo.
Luís Pierre ficou estarrecido. Em vez de dar a bronca na
mulher, comentou com ela a safadeza do Pereirão, seu
amigo do peito, à dizer aquelas maldades. A mulher
aproveitou para insuflar, dizendo que — "ou você toma uma
atitude ou tomo eu", enfim, essas bossas.
À tarde, no clube, Luís Pierre chegou mais cedo, para
esperar o Pereirão, mas lá chegando só encontrou o
Gustavinho, velho aposentado, que bebia muito para esperar
a morte. Não valia nada, o Gustavinho.
Caneca vai caneca vem, os dois foram ficando meio
caneados e Luís Pierre contou por que viera mais cedo.
Contou tudinho: que o Pereirão era um safado, que ele ia
tomar satisfações, que aquela história de ele não poder passar
mais no túnel era ofensa que não ia ficar assim. E arrematou:
— Hoje eu arrebento a cara daquele safado.
O Gustavinho era contra violências. Aconselhou a quebrar o
galho de outra maneira. Afinal, aquilo de não poder passar
mais no túnel, francamente. E como Luís Pierre insistisse,
perguntou:
— Vem cá, velhinho, seu escritório não é na Esplanada do
Castelo?
— É — respondeu Luís Pierre.
— E você não mora em Botafogo?
Nova confirmação de Luís Pierre. E aí Gustavinho
aconselhou:
— Então, rapaz, você para ir de casa para o trabalho e do
trabalho para casa, não tem a menor necessidade de passar
no túnel!

A ESCANDALOSA

Foi REALMENTE LAMENTÁVEL O pequeno acidente ocorrido
numa daquelas salas superatapetadas do Itamarati. Não posso
precisar em qual delas, mas posso resumir o caso para os
caros leitores, se tiverem a paciência de me lerem até o final
destas mal traçadas linhas. Vão todos comigo? Então
toquemos em frente, mas desde já aviso às senhoras e
senhoritas que o caso é dos mais cabreiros.
Deu-se que, numa dessas salas do Itamarati, estavam quatro
funcionários dos mais ociosos, talvez não por culpa deles,
mas porque deve ser duríssimo o cara ficar plantado
naqueles salões sombrios o dia inteiro — full time — como
eles gostam de dizer, pois diplomata adora falar na língua dos
outros. Ficar ali sem dormir, é dose pra mamute, que
conforme vocês não ignoram, era um elefante muito pré-
histórico e quatro ou cinco vezes maior do que os elefantes
hodiernos.
Vai daí, o funcionário do Itamarati vive batendo papo, para
deixar o tempo passar sem esbarrar em ninguém. Os quatro
que se encontravam na sala estavam quase a cochilar por
falta de assunto, quando entrou um quinto funcionário,
atualmente secretário de embaixada e com todas as
deficiências técnicas da atual diplomacia nacional. Jeitinho
elegante, paletó lascado atrás, muito equipadinho, lenço
combinando com as meias, gravata de Carven, enfim, essas
bossas.
Deu um olá geral e, mesmo sem ninguém perguntar,
começou a contar por que tinha chegado atrasado:
— Rapazes, não lhes conto nada!
Mas isto era força de expressão, pois notava-se que ele estava
doido para contar. Aliás, em o caso sendo verdadeiro, devo
informar aos caríssimos que jamais darei o nome dos outros
quatro que estavam na sala (entre os quais estava o que me
contou o caso), e muito menos o do quinto personagem, já
nesta altura personagem principal.
Ele acendeu um cigarro americano daqueles enormes,
recentemente contrabandeado, guardou no bolso o isqueiro
Dupont, da mesma origem, e sentou na beira de uma das
mesas de jacarandá. Terminando o suspense, puxou uma
baforada azul e suspirou:
— Rapazes — repetiu, porque diplomata adora tratar os
coleguinhas de rapazes — acabo de ter uma aventura
amorosa genial, mas simplesmente genial. Que mulher
bárbara, rapazes!
— Casada? — perguntou um dos coleguinhas, já de olhar
rútilo, no mais perfeito estilo Nelson Rodrigues.
O aventureiro já ia responder que sim, mas preferiu a
bacanidade:
— Infelizmente, isto eu não posso informar.
( E prosseguiu explicando que a tal mulher devia ser tarada
por ele, que nunca tinha reparado no detalhe mas, noutro
dia, durante um coquetel dos Almeida, tiveram um contato
maior e marcaram o encontro.
— Estou vindo de lá. Rapazes! Que mulher!
No fundo, todo diplomata sonha com aventuras amorosas
mais ao estilo belle époque. Vestindo robe-de-chambre
grená e cachecol de seda branca; uma garrafa de champanha
dentro de um balde de gelo, sobre uma mesa de canto e —
se possível com uma vitrola em surdina tocando trechos de
opereta O Conde de Luxemburgo. Este derradeiro, detalhe é
da maior finesse, mas raro é o diplomata que chega a ela
antes de chegar a embaixador.
— Mas conta aí, vá! — pediu outro dos quatro coleguinhas.
O diplomata garanhão esqueceu-se da carreira e enveredou
para farta bandalheira. Contou detalhes escabrosos,
descreveu cenas de ruborização do próprio Marquês de
Sade, para terminar com esta informação.

— Nem as cortinas do apartamento escaparam. Ela era tão
espetacular que, no auge da coisa, rasgou as cortinas todas.
— Mon Dieu! — falou o que estava mais próximo e que é
diplomata há mais tempo que os outros e prefere
exclamações em francês do que ditos em inglês.
Aí ficou em silêncio imaginativo, sabem como é? Ficaram os
quatro imaginando as cenas relatadas e o outro com cara de
quem recorda. Não demorou nem um minuto, o distinto
resolveu se ausentar da sala, para que os outros curtissem a
inveja necessária. Com andar elegante, caminhou até a porta
e recomendou:
— Vou ao gabinete do ministro Fulano. Se ligarem para mim,
por favor, peçam para deixar recado ou telefonar mais tarde
— suspirou mais uma vez e retirou-se.
Aí é que foi chato! Mal ele saiu, o telefone tocou e uma voz
feminina perguntou por ele. O colega que atendeu explicou
que não estava e emendou em seguida:
— Quer deixar recado?
— Quero sim! Por favor, avisa a ele que é a senhora dele que
está falando e diz para ele não esquecer de mandar alguém
para consertar as cortinas.

DIÁLOGO DE FESTAS

IAM OS DOIS SENTADOS no banco da frente. O ônibus era
desses que levam oitocentos em pé e duzentos sentados.
Mas ia meio vazio, naquela hora da madrugada. Pelo tempo
que eu fiquei parado junto ao poste esperando-o, aquele
devia ser o último ônibus do ano. Mas isto não importa. O
que me interessava — pelo menos naquele momento — era
a conversa dos dois, no banco da frente. Um era magrelinha,
desses curvadinhos para a frente, vergado ao peso da vida. O
outro parecia mais velho, mas era espigadinho. O cabelo
ralo, mais grisalho do que o do companheiro.
No momento, quem falava era o espigadinho: — Eu não
cheguei a ver castanha, a não ser em vitrina, é lógico.
— Eu vi! — disse o vergado: — Eu tenho um vizinho... o
Alcides, você conhece. Aquele que a filha fugiu com um
sargento da Aeronáutica!
— Ainda está com ele?
— As castanhas?
— Não. O sargento da Aeronáutica, inda tá com a filha dele?
— Não. Com ela está é o filho que ele fez. Mas eu dizia: o
Alcides comprou castanhas com o 13º. Ele trabalha numa
firma que paga certo.
— Estrangeira?
— Deve de ser. O Alcides me mandou seis castanhas.
— Você é que é feliz!
— Feliz nada. Tive que dar pra outro. Tenho sete filhos, seis
castanhas ia causar "problema".
O ônibus recebeu mais uns três ou quatro passageiros, que
foram sentar lá na frente. A conversa entre os dois
continuou.. Ainda desta vez, quem falou primeiro foi o
espigadinho:
— A mulher do patrão me deu uma camisa.
— Tava boa?
— Tava larga.
— Eu ganhei um sapato, por causa do serviço que eu fiz pra
Dona Flora.
— Tava bão?
— Tava apertado.
O curvado jogou o toco de cigarro pela janela e deu um
suspiro. O companheiro sorriu: — A gente devia fazer faxina
pra dona que tem marido do nosso tamanho, assim o que a
gente ganhasse delas no Natal pelo menos cabia na gente.
— Ganhar coisa larga é melhor que apertada.
— Ah é! Largo é melhor que apertado!
Ficaram calados, ruminando esta verdade natalina durante
algum tempo. Depois um deles — já não me lembro qual
dos dois — ponderou:
— Diz que este ano o comércio levou uma fubecada.
— Conversa. Tinha mais gente nas lojas que no ano passado.
Ele sempre se queixa.
— Ué! Pra mim tanto faz. Quem não ganha já perdeu. Eu
num tenho pra dar, também não posso ganhar.
Era um raciocínio honesto, cheio de experiência. Tanto que
o outro balançou a cabeça, concordando. Mas advertiu o
companheiro de que não podia se queixar do Natal. Afinal,
ganhara uma cesta de festas.
— Todo ano eu consigo uma. Minha mulher gosta muito
dessas cestas de Natal, pra guardar a roupa limpa e fazer a
entrega pra freguesia. É fácil da gente arrumar essas cestas.
Eles ganham elas, cheias de garrafas e latas de conserva.
Depois de esvaziar até gostam quando a gente leva a cesta
vazia pra nós.
O curvado pelo peso da vida ficou olhando pela janela e
argumentou:
— Natal é bom por causa dessas novidades. Sempre sobra
uma coisinha.
— Eu dei a cesta pra minha mulher. E tu? Que é que deu pra
tua?
— Dei o sapato. Tava apertado ni mim, mas ela corta atrás e
faz chinela.
Um deles fez sinal para o ônibus parar: — Eu salto aqui.
Deu um tapinha nas costas do outro e disse com a maior
sinceridade, sem o mínimo laivo de ironia:
— Um feliz 1968 para você!
— Obrigado. Para você também!

A ANCIÃ QUE ENTROU NUMA FRIA

GOSTO DE LER JORNAL impresso com plasma sangüíneo. Não
sou um leitor-vampiro. O que me diverte não é a notícia,
porque não tenho carteirinha de necrófilo; o que me diverte
é a redação da notícia, a maneira pela qual ela é abordada
nesses jornais que, se a gente apertar, dá hemorragia.
Agora mesmo estava aqui a folhear um deles. Na página 4, lá
em cima, à esquerda de quem lê, há uma coluna de
ocorrências. E logo a primeira notícia vem sob a manchete:
"Quis ver anciã nua e apanhou". Ora, por mais ocupado que
eu esteja, uma nota com este título eu não deixo pra lá de
jeito nenhum.
E li. A coisa passou-se num desses conjuntos residenciais —
autênticas cabeças-de-porco, construídas pelos institutos de
previdência para enganar contribuinte — onde o pau come
de cinco em cinco minutos, entre vizinhos de parede e
meia. Sai tanta briga nesse tipo de residência para coitado
que, não faz muito tempo, eu participava de um show no
qual o conjunto regional brigava tanto que eu o apelidei de
Conjunto Residencial do IAPI. Mas isto deixa pra lá.
Voltemos à anciã nua que abalou Ramos. Sim, porque foi em
Ramos, aprazível subúrbio leopoldinense, onde cabrito pasta
deitado para não pegar rebarba de tiroteio. O bandido da
história chama-se Matias Afonso — solteiro, 28 anos,
morador na Rua A, n.° 5. Quando o cara mora em rua que
não tem nome, é porque o apartamento dele é desses em
que o morador abre a porta e entra com cuidado para não
cair pela janela da frente.
Pois muito bem: Matias Afonso foi parar no Hospital Getúlio
Vargas, vítima de um panelicídio. Palavra de honra! Não
estou inventando nada. Está aqui no jornal: "No hospital,
onde os médicos constataram uma lesão que pode levá-lo à
cegueira, Afonso contou que Joana de Jesus, viúva com 71
anos, residente na Rua A, n.° 4 — vizinha, pois, do dito
Matias —, agredira-o com uma panela, furiosamente".
Mas é aqui que the pig twists if's tail — como diz Lyndon
Johnson, quando tenta explicar a batalha campal do
Vietname. Por que teria uma velha de 71 anos agredido um
rapaz de 28? Alguma coisa ele fez de muito grave, porque,
nessa idade, a pessoa geralmente já não agüenta levantar
uma panela, quanto mais fazer dela um porrete de gladiador.
E o rapaz fez mesmo; cometeu uma temeridade que eu vou
te contar. Outra vez transcrevo do órgão da imprensa
sanguinária: "Porque olhava para o quarto onde a anciã
trocava de roupa, Matias Afonso foi agredido, na madrugada
de ontem, a golpes de panela, sofrendo contusões e
escoriações na cabeça, estando ameaçado de perder a visão".
Convenhamos que perder a visão porque espiava uma velha
de 71 anos inteiramente pelada é duro, é um bocado duro.
Mas — pelo jeito — a vítima do panelicídio gostava. Senão
vejamos: "Matias confessou que via Joana de Jesus despir-se,
diariamente, por uma fresta da janela. Ontem, não se
contendo, pulou a janela e foi repelido com uma panela".
Esta é a história que o jornal — como tudo que é noticiário
policial — termina enfaticamente com o tradicional: "o
comissário do dia tomou conhecimento do fato".
O comissário pode ter tomado conhecimento, mas nós
queremos mais, é ou não é? Em não sendo policial, a gente
tem uma curiosidade maior pelas ocorrências deste tipo.
Basta reler o que foi contado para se ver que um dos dois
personagens está mentindo, ou melhor, pode não estar
mentindo, mas está omitindo. Se um rapaz de 28 anos
apanhou de uma velha de 71, levando tanta panelada na
cabeça, é porque — enquanto ela batia — ele tentava
segurar outra coisa que não era a panela, do contrário teria se
defendido melhor. O que estaria Afonso tentando segurar
enquanto a septuagenária baixava-lhe paneladas na cuca?
Tirem vocês a conclusão.
Para Primo Altamirando a solução do mistério é outra. O
jornal não conta que o cara via a velha pelada todo dia? —
pergunta Mirinho. E ele mesmo responde:
— Diz sim. E se era todo dia, dificilmente a velha ignorava o
fato. Portanto, para mim, esse tal de Afonso apanhou
porque, ao pular dentro do quarto, a velha não quis deixar
ele sair.


O INFERNINHO E O GERVÁSIO

O CARA que me contou esta história não conhece o
Gervásio, nem se lembra quem lhe contou. Eu também não
conheço o Gervásio nem quem teria contado a história ao
cara que me contou, portanto, conto para vocês, mas vou
logo explicando que não estou inventando nada.
Deu-se que o Gervásio tinha uma esposa dessas ditas
"amélias", embora gorda e com bastante saúde. Porém,
Mme. Gervásio não era de sair de casa, nem de muitas
badalações. Um cineminha de vez em quando e ela ficava
satisfeita.
Mas deu-se também que o Gervásio fez 25 anos de casado e
baixou-lhe um remorso meio chato. Afinal, nunca passeava,
a coitada, e, diante do remoer de consciência, resolveu dar
uma de bonzinho e, ao chegar em casa, naquele fim de
tarde, anunciou:
— Mulher, mete um vestido melhorzinho que a gente vai
jantar fora!
A mulher nem acreditou, mas pegou a promessa pelo rabo e
foi se empetecar. Vestiu aquele do casamento da sobrinha e
se mandou com o Gervásio para Copacabana. O jantar —
prometia o Gervásio — seria da maior bacanidade.
Em chegando ao bairro que o Conselheiro Acácio chamaria
de "floresta de cimento armado", começou o problema da
escolha. O táxi rodava pelo asfalto e o Gervásio ia
lembrando: vamos ao Nino's? Ao Bife de Ouro? Ao Chateau?
Ao Antonio's? Chalet Suisse? Le Bistrô?
A mulher — talvez por timidez — ia recusando um por um.
Até que passaram em frente a um inferninho desses onde o
diabo não entra para não ficar com complexo de
inferioridade. A mulher olhou o letreiro e disse:
— Vamos jantar aqui.
— Aqui??? — estranhou Gervásio. — Mas isto é um
inferninho!
— Não importa — disse a mulher. — Eu sempre tive
curiosidade de ver como é um negócio desses por dentro.
O Gervásio ainda escabriou um pouquinho, dizendo que
aquilo não era digno dela, mas a mulher ponderou que ele a
deixara escolher e, por isso, era ali mesmo que queria jantar.
Vocês compreendem, né? Mulher-família tem a maior
curiosidade para saber como é que as outras se viram.
Saíram do táxi e, já na entrada, o porteiro do inferninho
saiu-se com um "Boa noite, Dr. Gervásio" marotíssimo.
Felizmente a mulher não ouviu. O pior foi lá dentro, o
maitre d'hotel abriu-se no maior sorriso e perguntou:
— Dr. Gervásio, a mesa de sempre? — e foi logo se
encaminhando para a mesa de pista.
Gervásio enfiou o macuco no embornal e agüentou as
pontas, ainda crédulo na inocência da mulher. Deu uma
olhada para ela, assim como quem não quer nada, e não
percebeu maiores complicações. Mas a insistência dos
serviçais de inferninho é comovedora. Já estava o garçom ali
ao pé do casal, perguntando:
— A senhorita deseja o quê? — e, para Gervásio: — Para o
senhor o uísque de sempre, não, Dr. Gervásio?
A mulher abriu a boca pela primeira vez, para dizer:
— O Gervásio hoje não vai beber. Só vai jantar.
— Perfeito — concordou o garçom. — Neste caso, o seu
franguinho desossado, não é mesmo?
O Gervásio nem reagiu. Limitou-se a balançar a cabeça, num
aceno afirmativo. E, depois, foi uma dureza engolir aquele
frango que parecia feito de palha e matéria plástica. O
ambiente foi ficando muito mais para urubu do que para
colibri, principalmente depois que o pianista veio à mesa e
perguntou se o Dr. Gervásio não queria dançar com sua
dama "aquele samba" reboladinho".
Daí para o fim, a única atitude daquele marido que fazia 25
anos de casado e comemorava o evento foi pagar a conta e
sair de fininho. Na saída, o porteiro meteu outro "Boa noite,
Dr. Gervásio", e abriu a porta do primeiro táxi estacionado
em frente.

Foi a dupla entrar na viatura e o motorista, numa solicitude
de quem está acostumado a gorjetas gordas, querer saber:
— Para o hotel da Barra, doutor?
Aí ela engrossou de vez: — Seu moleque, seu vagabundo!
Então é por isso que você se "esforça" tanto, fazendo extras,
não é mesmo? Responde, palhaço!
O Gervásio quis tomar uma atitude digna, mas o motorista
encostou o carro, que ainda não tinha andado cem metros, e
lascou:
— Dr. Gervásio, não faça cerimônia: o senhor querendo eu
dou umas bolachas nessa vagabunda, que ela se aquieta logo.

FOI NUM CLUBE Al

ISTO MESMO, foi num clube da Guanabara, desses que
cultivam a chamada segregação racial. De repente o
Conselho Deliberativo foi obrigado a se reunir em sessão
especial por causa de um bode que deu num dos eventos
sociais da agremiação.
Alguns conselheiros já sabiam vagamente do que se tratava,
mas a maioria estava por fora, boiando no assunto. É que a
grave ocorrência se dera em circunstâncias mais ou menos
veladas. Todavia, clube vocês sabem como é: um antro de
fofocas que eu vou te contar. Num instante começaram os
boatos, os blá-blá-blás regulamentares.
Afinal, reunidos os senhores conselheiros, foi explicado que,
durante uma reunião dançante, um sócio tinha bolacheado a
namorada, num cantinho discreto do salão. A coisa, no
entanto, se esparramara pela sede. Ora, em clube de gente
metida a diferente, aquilo era insuportável. Imaginem: um
sócio exemplando a namorada numa dependência social.
Discutiu-se a matéria ad nauseam — como dizem os
latinistas enjoados — mas aí um dos conselheiros garantiu
que a coisa não fora bem assim. Um sócio tinha, realmente,
baixado a manopla numa mulher, mas não era namorada, era
esposa. Ora, isto agravava o caso. Um homem que não sabia
respeitar a própria "patroa" (em clube usa-se muito chamar a
mulher de "patroa", assim como no Lioris eles chamam de
"domadora"), era indigno do quadro social.
Discutiu-se a matéria outra vez e aí outro conselheiro
afirmou que tinham visto e lhe contado que o sócio dera
uma bolacha, de fato, mas fora numa bicharoca, e não numa
mulher. Gravíssimo, pois!
Discutiu-se a matéria e o Conselho Deliberativo já ia
deliberar, quando um dos membros viu-se na obrigação de
contar tudo, garantindo aos seus coleguinhas que era pior
ainda. Não fora um sócio, mas um diretor que batera na
bicharoca.
Espanto geral! Mas que vexame! Sim, era, pior, porém: duas
bicharocas é que tinham se esbofeteado por causa de um
diretor. A discussão — nesta altura — já era velada, tudo
falando baixinho. E aí o presidente do Egrégio Conselho
Deliberativo foi obrigado a suspender a sessão e aconselhar a
todos que não falassem mais nisso, pois acabava de ser
informado ao ouvido, por um conselheiro discreto, que não
foi o caso de duas bicharocas brigando por causa de um
diretor, e sim dois diretores brigando por causa de uma
bicharoca.

A EXPECTATIVA MATRIMONIAL

BERNARDINO, Bolão e Madureira eram três amigos
inseparáveis. Viviam juntos e onde ia um, ia o resto. Pois
bem: de repente o Bernardino sumiu. Passou uma semana
sem aparecer no botequim e os amigos já estavam ficando
preocupados. Ficaram tão preocupados que chegaram a
telefonar para o DOPS. É a atual conjuntura. Nego quando
some, atualmente, ou tá viajando ou tá hospedado no Hotel
Palace DOPS. Mas, felizmente, não era nada disso e dias
depois o Bernardino apareceu. Vinha com cara de cachorro
que quebrou panela, e sentou-se à mesa do bar meio
constrangido. Pediu uma cachaça e, enquanto era crivado de
perguntas pelos outros dois pinguços, dava um riso de
experiente e depois contava:
— Bem... eu fui dar uma de casado e me dei mal.
— Ué, por quê? — perguntaram os caneados de sousa.
— Não dá pedal, meu camaradinha. Eu arrumei uma grinfa e
me maloquei uns dois dias. Depois, bem, depois eu pensei
que dava pra gente fazer um casório pelo facilitário e foi aí
que eu me estrepei. Foi só ela chegar lá em casa e começar a
mandar brasa na minha felicidade.
E foi desfiando o seu rosário de queixas. A grinfa chegou no
modesto apartamento de Bernardino e mandou logo pintar a
sala. Jogou fora todas as garrafas vazias que estavam na área e
que, embora vazias, já tinham dado algum prazer a ele. Era
tudo coleção: Praga de Mãe, Respeita a Mulher do Sargento,
Mocotolina, Sabugo de Velha, E Então? Cachaças de rótulos
originais e que nunca mais apareciam outras iguais. E o
Bernardino continuava se queixando com justa razão.
— Além disso, mandou limpar a cozinha, arrumou meus
sapatos, passou meus ternos, minhas camisas e mandou eu
cortar o cabelo e fazer a barba.
— Bem, olha aqui, Bernardino — falou o Madureira —
quanto à cachaça eu não dou razão a ela, mas quanto à
arrumação, vamos lá...
— Que nada, rapaz! Dois dias depois ela estava igualzinha à
minha primeira mulher. Cheia de intimidades, querendo
beber no meu copo e querendo dormir agarrada comigo. O
que é que há?
— Mas espera aí, Bernardino — disse Bolão — isto é onda de
mulher casada. Elas faz tudo isso. Será que você não sabia?
— Você é gozado... Claro que eu sabia. Por isso é que não
deu nada certo. O apartamento, além de pequeno, tinha o
problema da Margarida, que não gostava dela.
— Ué, eu não sabia que você tinha cachorra!
— Que cachorra, rapaz! Margarida é o nome de minha
esposa.

Não confundir Times — jornal inglês — no plural, com Time — revista americana — das menos
singulares.
2 Oitavo marido de Tia Zulmira.
Hoje bairro que explode.
Partido Lambretista Conservador.
3 Tia Zulmira é bissexta.
Mangue.
"The Lambeth Walk" (existe uma versão de Haroldo Barbosa).
Certa vez um cronista mundano, para valorizar suas próprias besteiras, disse que
Proust, antes de ser Proust, foi cronista mundano. Tia Zulmira gozou a coisa, dizendo
que Lincoln também foi lenhador e, depois dele, nenhum outro lenhador conseguiu se
eleger Presidente da República.
Hinstein.
Aqui não ficamos bem certos se Tia Zulmira estava querendo gozar Ibrahim, ou se estava querendo
gozar a época.



 
 
 
 
 
 
 
 
Lançamento Gênesis do Conhecimento
O Melhor de Stanislaw Ponte Preta - Stanislaw Ponte Preta
 
 
 
links em anexo e ao final da mensagem
 
 
digitalização - Vitório
formatação e revisão - Lucia Garcia
 
 
 
 
Sinopse:

Escrevendo num Momento em que a Crônica Atingia Provavelmente o Ponto Mais Alto de sua Parábola na Imprensa Brasileira, Stanislaw Ponte Preta, Pseudônimo de Sergio Porto, Marcou sua Presenca Pela Capacidade Poucas Vezes Igualada de se Comunicar.

 
 
 
 
 
 

PASTAS LANÇAMENTOS Genesis do Conhecimento:

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Este e-book representa uma contribuição do grupo Genesis do Conhecimento para aqueles que necessitam de obras digitais como é o caso dos Deficientes Visuais e como forma de acesso e divulgação para todos.
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