domingo, 29 de maio de 2011 By: Fred

<> livros-loureiro <> Lançamento Gênesis do Conhecimento - Pirâmide - Tom Martin


PIRÂMIDE

Tom Martin

Tradução Fátima Abbate

Planeta
2007

SUMÁRIO

PRÓLOGO
PRIMEIRA PARTE
SEGUNDA PARTE
TERCEIRA PARTE
QUARTA PARTE


PRÓLOGO

Lá do alto, respirando o ar rarefeito dos Andes, o professor
Kent contemplava pela última vez a beleza das antigas ruínas
de Machu Picchu, que ficavam a 9 mil metros de altura.
Fazia apenas dez minutos que ele dormira profundamente na
cama confortável do Hotel Ruínas, próximo ao
mundialmente famoso patrimônio histórico da Unesco,
quando, de repente, sem qualquer cerimônia, fora arrancado
do sono por dois estranhos.
Antes que conseguisse gritar por socorro, eles o
amordaçaram e o arrastaram para fora da cama. Sem dizer
uma única palavra, conduziram-no à força e descalço pelo
corredor, passando por uma saída de incêndio, que acabou
por levá-los à rua, onde o frio da noite era glacial. "Então eles
finalmente vieram atrás de mim depois de todos esses anos."
Era uma afirmação terrível. Nos últimos meses, começara a
duvidar da própria sanidade, mas aquele rapto noturno lhe
provava que as descobertas que fizera eram tão importantes
quanto pensava...
Durante muito tempo, suspeitara de que, se continuasse a
trabalhar naquelas descobertas, acabaria despertando as
forças do mal. Cada uma que fazia o deixava cada vez mais
tentado a pôr um ponto final na sua permanência neste
planeta.
"Para onde estão me levando?"
O ar congelante da noite arrancava-lhe o calor do corpo
trêmulo, professor Kent tropeçou enquanto era arrastado
pelos braços por um caminho estreito e íngreme, em direção
ao interior da região montanhosa. Ao lado daquele facínora
corpulento que o empurrava ladeira acima em meio à
escuridão, Kent tinha um aspecto deplorável. A barba branca
e o cabelo ralo se emaranhavam com o suor, e o rosto pálido
era quase o de um fantasma. Entretanto, mesmo passando
por aquilo, a visão dos arredores era consoladora. Iluminada
apenas pela lua, a paisagem irradiava uma beleza
intensamente sagrada.
Chegaram a um platô, e o mais baixo dos raptores, que se
arrastara ao longo do caminho, virou-se, tirou uma pequena
caixa do bolso do casaco e a abriu. Em meio à escuridão,
professor Kent não conseguia ver o que havia dentro dela. O
bandido mais corpulento, que prendia Kent por uma algema,
de repente forçou o homem apavorado a ajoelhar-se.
Tomado de pânico, professor Kent começou a relutar, mas o
homem gigantesco o empurrou com tanta força que ele
acabou deitado com o rosto no mato, pregado ao chão.
Pouco tempo depois sentiu a mão violenta de alguém
arrancar-lhe a mordaça.
Quando viu o outro raptor agachado a seu lado, segurando
uma seringa, Kent começou a gritar. Lentamente - muito
lentamente, ao que parecia -, o homem elevou a seringa à
altura do seu rosto. À luz da lua, via-se a gotícula de um
líquido semelhante a mercúrio brilhando na ponta do
instrumento. Em seguida, o homem mais baixo disse com
voz sibilante no ouvido do professor:
- Quer acrescentar mais alguma coisa ao seu rol de mentiras,
velhote?
Tinha sotaque estrangeiro, embora não fosse possível dizer a
procedência. Professor Kent ergueu o pescoço o mais que
pôde, até que, com o canto do olho, conseguiu ver o rosto
de quem o interrogava. Com grande esforço, proferiu, em
tom áspero, uma pergunta.
- Se o que digo são mentiras, então por que vieram atrás de
mim?
O homem sinistro riu com escárnio. Então, inclinou-se para
a frente e roçou a ponta da seringa no pescoço do professor.
Kent mal sentiu o arranhão, mas sabia que era o suficiente;
logo depois, seus pulmões começaram a se comprimir.
Ao perceber que o veneno lhe penetrava as veias,
subitamente sentiu-se livre de um tremendo fardo. Agora,
tudo o que queria era que o deixassem morrer em paz;
entretanto, seu algoz continuava com as zombarias.
- Professor Kent, você é um demônio. E os demônios devem
ser mandados de volta ao inferno, que é o lugar deles.
-Já chega! - guinchou o homenzinho. O cúmplice empurrava
a cabeça do professor em direção ao mato. Kent sentia que
estava às portas da morte.
- Não quero ouvir suas mentiras. Já passou pela sua cabeça
que o passado e o futuro são propriedade particular e não lhe
pertencem, professor Kent? Eles pertencem à gente mais
importante que você - havia ódio na voz do carrasco. - Você
achou que era mais esperto que nós? Passou pela sua cabeça
que algum dia poderia revelar o que descobriu?
Enquanto falava, algo brilhou na mão do carrasco. Era uma
lâmina de barbear.
"O que ele está fazendo?", pensou o professor, voltando-se
para o homem com um olhar cansado. "Ele já me condenou
à morte com o veneno."
O homenzinho continuou a falar, com a voz destilando
sarcasmo.
- Somos generosos. Acreditamos que, tal como Sócrates, o
filósofo grego, a quem deram a oportunidade de decidir seu
próprio destino, você também deveria merecer a mesma
prerrogativa... Não lhe propomos uma morte terrível. Isso
poderia despertar curiosidade, um interesse repentino nas
aplicações desconhecidas das suas assim chamadas "teorias".
Um suicídio é bem menos apelativo que um assassinato, não
acha?
Dito isto, professor Kent sentiu que a mão do gigante o
soltava. Por uma questão de instinto, tentou mover-se, mas
seu corpo não respondeu ao impulso, estava paralisado.
Sem muita cerimônia, o perseguidor o virou, deixando suas
costas voltadas para o chão. Buscou sua mão direita e rasgou-
lhe o pulso usando a lâmina de barbear. O sangue escorreu
pelo chão da floresta, começando a jorrar da ferida. O
facínora levou o membro direito de volta ao chão. Em
seguida, apanhando a mão esquerda, pôs a lâmina sobre a
palma e fechou os dedos em torno dela. Com cuidado,
pousou a mão no chão.
- Deixemos o castigo por suas blasfêmias a cargo de Deus.
Seu tempo na Terra chegou ao fim, velhote.
O professor reuniu todas as forças que tinha para tentar abrir
a mão e deixar a lâmina cair; contudo, nada aconteceu. Ali
estava ele, paralisado. Seu próprio algoz.
- Não há Deus bíblico que possa me punir. Minha prova será
encontrada... - a voz do professor foi sumindo enquanto os
músculos de suas cordas vocais sucumbiam ao veneno.
O homenzinho dirigiu-se com rispidez ao companheiro:
- A teimosia desse homem não acaba nunca? De onde ele tira
essa crença doentia? Parece uma barata, é impossível
exterminá-lo.
Agachou-se e tocou levemente o pescoço do professor com
um pedaço de tecido.
- Quem diria que um simples acadêmico poderia causar tanto
problema?! Precisamos voltar ao hotel e vasculhar o quarto
dele. Temos que destruir tudo que possa servir como prova.
Olharam o corpo imóvel por mais alguns segundos, e então
desapareceram em silêncio noite adentro.
Professor Kent, com o corpo completamente incapacitado,
olhava as estrelas. Durante anos ele estudara o céu como
parte de sua busca da grande verdade, e mesmo agora, apesar
de seu estado de debilidade, sua mente selecionou todas as
configurações das constelações. À medida que suas forças se
esvaíam, ele pensava em sua última descoberta.
"Então, minha intuição estava certa. Desvendei o último
mistério. Mas isto quer dizer que o mundo corre um sério
risco. Os mapas estão seguros? Com a minha partida, alguém
entenderá o que significam?"
Em seguida, tudo escureceu.

PRIMEIRA PARTE

1

Eram 11h55 de uma manhã de março, uma terça-feira
ensolarada e atipicamente quente. Catherine Donovan, aos
29 anos, uma das professoras titulares mais jovens da
Universidade de Oxford, atravessou o vão entre os enormes
portões de madeira da portaria e penetrou a quietude do belo
quadrilátero anterior do All Souls College. A luz do sol se
derramava na grama, aquecendo a parede de pedra,
enquanto os sinos da universidade badalavam
vigorosamente, anunciando a chegada do meio-dia.
O All Souls College, onde Catherine tinha sua cadeira,
embora fosse o mais prestigiado, era também o mais
reservado dentre as trinta e cinco faculdades da
Universidade de Oxford. Esta faculdade não tinha estudantes
de graduação, ao passo que a maioria das outras tinha pelo
menos duzentos, e as maiores chegavam a contar com
quatrocentos. Em linhas gerais, o All Souls era a moradia
exclusiva dos eruditos de categoria internacional, e seus
membros seletos dedicavam-se a difundir conhecimentos
sobre assuntos que podiam variar de física nuclear a arte
islâmica.
A única possibilidade de um forasteiro fazer parte deste
grupo de elite era passar por um rigoroso processo de
recrutamento realizado em um lugar qualquer do mundo
acadêmico. Contudo, para aqueles que conseguissem, valia à
pena. Os membros eram tratados como reis. A adega era
uma das melhores, e aqueles que ocupassem os apartamentos
da faculdade ainda podiam escolher ser despertados por um
mordomo pela manhã. Ele lhes traria chá, torradas e o jornal
do dia, tudo servido em uma bandeja de prata. Entretanto, o
melhor de tudo isso era o fato de nenhum dos membros ser
obrigado a lecionar - cada um podia dedicar-se a fazer
descobertas inovadoras na especialidade de sua escolha.
Para Catherine, uma bela mulher, jovem e de origem
americana, o All Souls era um ambiente particularmente
estranho. Os outros membros, acostumados a toda espécie
de excentricidade, consideravam-na apenas mais uma
desajustada num colegiado de desajustados; sendo assim,
acolheram-na, satisfeitos em saber que já era uma das
maiores autoridades em seu próprio campo de pesquisa:
astronomia.
Catherine Donovan consultou o relógio. "Faltam cinco
minutos para o início da palestra."
Entrou rapidamente no alojamento e, vasculhando seu
escaninho, agarrou a correspondência da manhã: dois
comunicados corriqueiros enviados pelo departamento de
astronomia e um envelope grande, marrom, que se percebia
claramente fora enviado do exterior. Examinou o envelope
às pressas e logo reconheceu a letra do professor Kent. A úl-
tima coisa que queria era se atrasar para a última palestra do
período letivo, por isso, enfiou o envelope na bolsa e, a
passos largos, contornou o quadrilátero em direção ao
auditório.
Como sempre acontecia nas palestras da dra. Donovan, o
belo e antigo salão de pedra, localizado na região central da
faculdade, estava lotado de alunos vindos de toda a
universidade. Suas palestras eram, sem sombra de dúvida, as
mais populares do departamento. Ela as ministrava por livre
e espontânea vontade, porque apreciava ter um pouco de
contato com os alunos. E eles respondiam a isto
comparecendo religiosamente, com o número de estudantes
crescendo à medida que as séries de palestras prosseguiam.
Um dia antes, durante o intervalo para o café na sala dos
professores, alguns dos colegas com quem tinha mais
contato haviam feito comentários maldosos sobre o assunto.
Disseram ter ouvido dois alunos descrevendo-a como a
professora mais atraente da universidade.
Com cabelos castanhos na altura dos ombros, malares
delicados e salientes e a graça de uma atleta, ela chamaria a
atenção em qualquer lugar, e sabia disso.
Nesta manhã, contudo, Catherine estava nervosa. Segundo a
tradição, a última palestra do período letivo era sempre usada
para motivar os alunos para o longo período de férias. Hoje,
ela pretendia surpreendê-los com a explicação de um dos
mistérios mais intrigantes do cosmos - um mistério que
poderia ter implicações verdadeiramente assustadoras para
toda a humanidade. Os alunos formavam uma turma
brilhante, mas ainda eram muito jovens, por isto era
importante que se reforçasse o quanto o conhecimento
humano ainda era frágil em face do desconhecido.
Do alto, no atril próximo ao qual estava, Catherine estudava
aquela porção de rostos olhando para ela. E, limpando a
garganta, começou:
- Boa tarde a todos. Muito obrigada por terem vindo. Hoje
quero começar perguntando se algum de vocês é capaz
resolver um dos maiores enigmas de todos os tempos.
Um burburinho animado tomou conta da sala e os olhos dos
alunos, cheios de expectativa, fixaram-se nela.
- Como todos sabem, a estrela mais brilhante no céu à noite é
Sírius. Há uma ou duas estrelas mais próximas do nosso
sistema solar, mas nenhuma brilha com tanta intensidade.
Talvez seja por isso que Sírius ocupa uma posição de
destaque em quase todas as mitologias do mundo antigo -
Catherine lançou um olhar sobre o mar de alunos. "Ótimo,
parecem entusiasmados." Com um tom conspirador na voz,
prosseguiu: - Mas talvez, eu disse "talvez", haja outras razões.
Uma vez mais interrompeu a palestra, desta vez para tomar
um gole de água do copo que estava sobre a mesa ao lado.
Olhou para baixo, em direção ao laptop, e apertou uma tecla.
Logo após, surgiu a projeção de um slide sobre a enorme tela
branca encostada à parede atrás de si.
O slide continha duas imagens dispostas lado a lado. A
primeira correspondia à fotografia de um desenho feito sobre
a areia ou terra fofa. Na segunda, percebia-se claramente que
fora produzida usando os mais sofisticados programas de
computador aplicados à astronomia. Era a ilustração de um
objeto distante no céu enquanto se deslocava, imponente,
em sua rota milenar. Havia também um segundo objeto,
menor que o primeiro. Sua rota parecia desenvolver-se
numa espiral ao redor do vizinho maior, como se estivesse
preso à uma força de atração com a qual estivesse lutando
para escapar.
Catherine ergueu os olhos para certificar-se de que as
imagens podiam ser vistas com clareza na tela.
- Bem, à medida que as distâncias entre as estrelas diminuem,
Sírius fica cada vez mais perto de nós. Alguém sabe
exatamente qual é essa distância?
Catherine observou a platéia novamente. Um jovem com os
cabelos desgrenhados, que estava na terceira fila, levantou a
mão. Ela exibiu um sorriso encorajador, mas no momento
em que aqueles doces olhos verdes encontraram os dele, o
rapaz parecia ter perdido o rumo. Sorrindo com
cumplicidade, embora com um certo traço de impaciência
na voz, ela tentou, com delicadeza, persuadi-lo a falar.
-Sim?
Com o rosto enrubescido, ele começou a gaguejar a resposta:
- É... É 2,67 parsecs de distância... que correspondem a 8,7
milhões de anos-luz, ou 52 trilhões de milhas.
Catherine ficou impressionada.
- Sim! Muito bem. Obrigada. Então, em 1844, Friedrich
Bessel, o astrônomo alemão, supôs que Sírius deveria ter
uma gêmea invisível. Ele passara muito tempo fazendo
medições muito criteriosas dos movimentos lentos de Sírius
e percebera uma pequena turbulência em seu curso. Pensou
que isso só poderia ser causado pela atração de uma vizinha
invisível, mas não conseguiu provar sua idéia. Naquela
época, ninguém foi capaz de construir um telescópio com o
qual se pudesse enxergar um sistema estelar localizado à
distância de Sírius.
Catherine aproximou-se da projeção na tela.
- Foi apenas em 1862 que o americano Alvan Clark,
fabricante de telescópios, usando uma de suas invenções,
viu, pela primeira vez na história da humanidade, a indistinta
companheira de Sírius - provando, portanto, que a teoria de
Bessel estava correta. Mas foi a primeira vez? - ela perguntou
em tom de mistério. A pergunta provocou um burburinho
animado entre os alunos, e uma vez mais Catherine fez uma
interrupção repentina.
- Atualmente, sem dúvida podemos enxergar os dois objetos
com muita clareza usando nossos telescópios de última
geração. Chamamos a estrela maior, a verdadeira Sírius -
aquela que enxergamos a olho nu - Sírius A, e Sírius B sua
companheira corpulenta e invisível. Bem, a pergunta que
tenho para vocês hoje é muito simples, mas se puderem
respondê-la corretamente, a NASA provavelmente os
nomeará chefes de pesquisa - dando um suspiro profundo e
em seguida falando pausadamente, Catherine fez a pergunta:
- Se Sírius B não é visível a olho nu, por que existe uma tribo
africana que vem mantendo um registro astronômico
completo e preciso desta estrela há 2 mil anos?
A platéia que enchia o auditório explodiu numa manifestação
de surpresa.
- A tribo a que me refiro é conhecida como Dogon. Eles
vivem em uma região que hoje conhecemos por Mali, na
África Ocidental. Em sua antiga tradição oral, a
resplandecente estrela Sírius é acompanhada de um objeto
extraordinariamente pesado e muito escuro denominado Po.
E importante ressaltar que Sírius B é, de fato, uma estrela
branca anã. Ela contém a mesma quantidade de matéria do
nosso Sol, mas é pequenina se comparada a ele; pensem nela
como uma colher de chá sujo peso é de aproximadamente
um quarto de tonelada. Portanto, isto nos leva a crer que os
Dogon não só sabiam que Sírius B existia, o que por si só já é
estranho, mas que também era um tipo de estrela particu-
larmente pesada... E mais, sabiam ainda que Sírius B leva 50
anos para completar uma volta ao redor de sua gêmea maior
- Catherine sorriu ao perceber os olhares de surpresa que
vinham da platéia. - As crenças do povo de Dogon, se assim
podemos nos referir à sua astronomia, foram comunicadas ao
mundo exterior pela primeira vez na década de 1940, por
intermédio de um antropólogo francês; mas sabemos, sem
sombra de dúvida, que suas teorias têm pelo menos 1.800
anos, e é quase certo que sejam muito mais antigas. Os
Dogon usavam diagramas de areia para ilustrar os
movimentos celestes. Em minha palestra, lhes direi como
essas ilustrações foram preservadas. Mas, aqui, vocês podem
ver, nada mais, nada menos, que o diagrama das órbitas
entrelaçadas de Sírius e sua contraparte escura no lado
esquerdo do slide. E aqui, do lado direito, está o registro
astronômico contemporâneo dos movimentos de Sírius A e
B.
A platéia ficou novamente atônita.
- Como vocês podem perceber, há uma correspondência
perfeita. Hoje em dia, sabemos que o ciclo orbital de Sírius
B, ou Po, corresponde a exatamente 49,1 anos. Portanto, a
estimativa de 50 anos, feita por uma tribo neolítica, foi
muito boa. E o conhecimento dos Dogon sobre o cosmos
não parou por aí. Por exemplo, eles afirmavam que Júpiter
tem quatro luas e que Saturno tem anéis. Bem, tal como
Sírius B, os anéis de Saturno e as luas de Júpiter não podem
ser vistas a olho nu, é preciso ter um telescópio, um que seja
apropriado para isto. Então, alguém consegue explicar como
os Dogon sabiam todas essas coisas?
O salão lotado caiu no mais absoluto silêncio. No fundo,
Catherine sabia que um dia encontrariam uma explicação
científica e racional para o conhecimento dos Dogons sobre
Sírius. Afinal de contas, era praticamente inconcebível que,
nas profundezas do passado primitivo, a humanidade já
pudesse ter sido detentora da tecnologia avançada exigida
para a visualização da estrela menor. Não obstante, este ainda
era um de seus mistérios cósmicos preferidos, e causava
sempre o efeito desejado. Boquiabertos, os alunos sentados
nas duas primeiras fileiras da frente, com os olhos
arregalados, esticavam os pescoços tentando ver se alguém
que estava mais atrás tinha alguma idéia da resposta. Silêncio
total.
Naquele instante, como se fosse uma deixa para alguém, a
porta que ficava na extremidade posterior do salão se abriu.
A platéia toda virou-se nos assentos.
Era um dos mensageiros do alojamento. Ele parecia um
pouco ansioso e tossiu nervosamente antes de erguer a mão
em um gesto confuso.
Catherine olhou para trás em direção à sala.
- Por favor, a senhora me dá licença?
Um tanto contrariada, Catherine ajeitou o caimento da saia
com a mão, desceu do atril a passos largos e, sentindo certo
embaraço, atravessou o salão para encontrar o mensageiro.
Ele caminhou em sua direção e os dois se encontraram no
meio do caminho.
- Sinto muito interrompê-la, senhora. O diretor deseja vê-la
com urgência.
- O quê? Não dá para esperar mais meia hora?
- Senhora, ele disse que não. Ele disse ter péssimas notícias.
O coração de Catherine começou a bater descompassado.
Virando-se para a sala, dirigiu-se à platéia uma vez mais:
- Com licença, turma. Parece que aconteceu algo muito
sério, estou sendo chamada com urgência à sala do diretor.
Sinto muito. Eu realmente espero que este mistério... e
acreditem, é realmente um mistério... os mantenha
inspirados nas próximas semanas. Estou certa de que gastarão
cada minuto das férias lendo a bibliografia para o próximo
período letivo, mas, se tiverem um momento de folga,
vejam se conseguem resolver o enigma de como os Dogon
descobriram Sírius B. Se conseguirem, estarão dispensados
do último período letivo!

2

O alojamento do diretor do All Souls era uma suíte
imponente, cujos cômodos tinham as paredes revestidas de
carvalho, que ficava de frente para o belo jardim, com seus
canteiros verdes cheios de flores e seu gramado secular
impecável. Aos 65 anos de idade, o diretor era um veterano
na vida acadêmica. Era um homem ativo, grisalho, com um
nariz grande e sobrancelhas espessas. Sua postura impunha
respeito. Além de estar a cargo da administração diária da
faculdade, também era um eminente filósofo e lógico.
Hoje, contudo, encontrava-se na triste posição de portador
de terríveis notícias. Um oficial de polícia de Thames Valley
acabara de informá-lo que o professor Kent, um ótimo
colega e amigo, fora encontrado morto na região
montanhosa de Machu Picchu, no Peru. Causa da morte:
ataque do coração. Entretanto, era quase certo que este ata-
que fora causado por uma tentativa de suicídio. Apesar disto,
o policial avisara que era melhor não entrar em detalhes no
momento porque as investigações tinham apenas começado,
e que o escritório de ligação em Lima estava acompanhando
o caso junto à polícia peruana.
Sentado à escrivaninha grande e antiga, feita de carvalho,
com os ombros curvados e a cabeça baixa, o diretor apoiava a
testa na mão esquerda e massageava a sobrancelha
suavemente. Dando um suspiro profundo, viu-se, pela
primeira vez, até onde a memória alcançava, completamente
inseguro com relação a qual seria a melhor maneira de lidar
com os acontecimentos.
"O que é que eu vou dizer a Catherine? O professor era
como um segundo pai para ela."
Naquele momento, bateram na porta.
- Entre.
Catherine estava radiante como sempre e, vendo sua postura
jovem, o diretor sentiu novamente uma ponta de remorso.
Por que coubera a ele dar aquela notícia horrível? O rosto da
jovem já tinha um ar apreensivo e preocupado.
- Por favor, diretor, o que aconteceu?
- Querida, sinto informá-la que o professor Kent está morto.
Catherine jogou-se na cadeira mais próxima, com o rosto
lívido.
Mas logo se recompôs:
- Como? Quando?
- Aparentemente, ele morreu no Peru faz duas noites, em
Machu Picchu... Próximo às ruínas Incas. A polícia esteve
aqui, os policiais acabaram de sair. Mandei chamá-la
imediatamente.
Os olhos de Catherine tinham a expressão aparvalhada de
alguém profundamente chocado.
- Não acredito! Quero dizer, o que aconteceu? Deve haver
alguma coisa errada. O professor me disse que ia para o
México, seu retorno estava previsto para ontem à noite!
O diretor tentou usar de toda diplomacia.
- Não temos certeza de nada até o momento. Entretanto, a
polícia peruana chegou à conclusão de que foi suicídio.
Em instantes a expressão de Catherine passou do choque à
incredulidade. Sentando-se ereta na cadeira, ela voltou a
falar:
- Não! Não é possível. Jamais! Isto tudo é um grande erro.
O diretor ficou de pé e contornou a escrivaninha. Sem saber
o que mais podia fazer, encheu um copo com água e o levou
para ela.
- Sinto muito, querida. A polícia está encarregada de tudo... É
melhor você tentar relaxar.
Catherine, balançando a cabeça, levantou a cabeça e olhou
para ele.
- O professor Kent não tinha ninguém. Sua única irmã
morreu faz três anos. Não há ninguém a quem avisar,
ninguém para providenciar o enterro. Isto é muito triste...
Mas eu quero saber mais. Tem coisa errada. Garanto que
tem. E quase impossível que o professor tenha cometido
suicídio... Eu mesma quero falar com a polícia.
O diretor deu-lhe um sorriso amável.
- Catherine, minha querida, entendo bem como se sente.
Mas esperemos para ver o relatório completo que virá do
Peru. Estou certo de que o escritório de contato da polícia
britânica em Lima tem tudo sob controle. Se você quiser,
assim que o relatório chegar, eu a acompanharei à delegacia.
Não há muito que eu possa fazer hoje... Ainda tenho
algumas reuniões esta tarde, não posso cancelá-las, embora
esta seja minha vontade...
O rosto jovem de Catherine tinha um ar determinado.
- Não, eu entendo. Obrigada por não ter esperado para me
contar. Você fez a coisa certa. Tenho que garantir que tudo
corra bem. Ele era meu melhor amigo neste país. Você sabe
disto. Tenho que ir para casa e decidir o que fazer.
Sim, é claro querida. Este é um dia muito triste. Terrível... O
professor Ken era um excelente acadêmico e, mais do que
isto, um homem de uma bondade extraordinária. Sinto
muito, muito mesmo.
Catherine levantou-se da cadeira, apanhou a bolsa e
caminhou até a porta. Quando agarrou a maçaneta, o diretor
se dirigiu a ela novamente:
- Uma última coisa...
Ela se virou para olhar para ele. Parecia que o tom de sua voz
mudara um pouco... Ou talvez fosse só seu estado de
espírito?
- O professor lhe disse alguma coisa quando se viram pela
última vez? Ou quem sabe ele lhe deu alguma coisa?
Alguma coisa dentro de Catherine lhe dizia para ficar alerta.
- Desculpe, o que você quer dizer com isto?
O velho catedrático lançou-lhe um olhar firme:
- Só quero dizer que talvez houvesse alguma coisa em que
ele estivesse trabalhando e sobre a qual lhe contou, ou talvez
tenha lhe dado alguma coisa? Eu poderia entregar isto à
polícia... Talvez ajudasse...
Mantendo a serenidade, ela retribuiu o olhar contemplativo
na mesma moeda:
- Não, nada de que me lembre... A última vez que o vi foi há
mais ou menos dez dias. Tomamos chá em sua fazenda na
região de Cotswolds. Nada de presentes ou qualquer outra
coisa. E posso garantir, ele estava com o mesmo bom humor
de sempre.
Ao abrir a porta e pisar no vestíbulo, ela ouviu a voz seca do
diretor atrás de si:
- Que coisa terrível, terrível...
Catherine fechou a porta com firmeza. Seu coração estava
aos pulos. Olhava para cima e para baixo enquanto
caminhava pelo corredor. Então, certa de que não havia
ninguém por perto, abriu a bolsa: a carta vinda do Peru ainda
estava lá.

3

Catherine dirigiu-se para o alojamento do professor Kent. Ela
possuía uma chave, pois quase sempre usava seu escritório e
biblioteca bem abastecida quando ele estava fora, em suas
viagens. Na verdade, mesmo quando ele estava no país,
costumava trabalhar em casa - uma casa de campo em
Oxfordshire, a base perfeita para suas pesquisas. Era uma
legítima construção com todo o charme de Cotswold, com
um jardim colorido cercado de muros de pedra e campos
ondulantes. Ela tivera tantos momentos felizes lá, e agora
pensava na casa, erguendo-se vazia, sem jamais voltar a
receber o professor.
Ela saiu do prédio e caminhou pelo quadrilátero,
atravessando a passagem medieval que levava à escadaria que
dava para o alojamento do professor. Enquanto caminhava
pelo gramado, uma torrente de memórias lhe veio à cabeça.
Era insuportável pensar naquela notícia...
- Posso ajudá-la, querida?
Era a voz do faxineiro da faculdade. Catherine sentiu sua
mão em seu braço. Quando deu por si, percebeu que estava
parada no meio do gramado com o rosto banhado em
lágrimas.
- Desculpe Fred. Estou um pouco confusa - ela tentou sorrir
e fez o possível para secar as lágrimas.
- Você quer alguma coisa?
- Não... Desculpe, vou ficar bem agora... Irei até o
alojamento do professor Kent e me sentarei um pouco.
Um minuto depois Catherine entrou nos cômodos forrados
de livros. Sem saber o que fazer, sentou-se na poltrona de
que mais gostava, próxima à lareira, e tentou entender o que
estava acontecendo. Ali estava ela, na paz e na tranqüilidade
do aconchegante escritório do professor em Oxford,
enquanto a milhares de quilômetros dali ele tivera um fim
terrível em alguma região montanhosa isolada. A hipótese de
suicídio não fazia sentido... O que é que eles queriam dizer
com isto? Era terrível demais considerar a possibilidade de
aquilo ter acontecido... Não fazia sentido. Sua cabeça
disparou, e ela fez um esforço tentando se lembrar se ele
dissera alguma coisa, ou pelo menos dera alguma dica de que
tivesse aquilo em mente, na última vez que o vira.
Mas não havia nada. Ela o visitara na fazenda há apenas duas
semanas. Ele fora amável e eloqüente como sempre. Falara
da faculdade e lhe mostrara uma orquídea rara enviada por
um amigo, colocando-a perto da janela da cozinha, com a
esperança de florescesse e se desenvolvesse. Dissera-lhe que
gostaria de revê-la depois da viagem, queria apresentá-la a
um velho amigo que tinha interesse na área de estudos com
que ela trabalhava. E, no final, despediram-se.
Ela puxou a bolsa para o colo e, tirando o envelope, analisou-
o de novo com todo o cuidado. Sim, era mesmo a letra do
professor. Por que cargas d'água não contara ao diretor sobre
isto? O que a impedira?
Nervosa, Catherine rasgou o envelope para abri-lo. Dentro
havia uma pasta plástica contendo uma pilha de mapas. No
alto de cada um dos mapas, preso a eles havia um pedaço de
papel do tamanho aproximado de um postal. Percebia-se que
nele havia algo escrito.
Ansiosa, Catherine deslizou a mão para o interior da pasta e
tirou o pedaço de papel, virando o lado certo para cima.
Quando viu o que estava escrito, gelou por dentro.
Caso eu não volte.
Eureka

40 10 4 400 30 9 30 70 100 5 200 3010 40 1 80 5
100 400 40 10 50 10 200 300 100 8 70 9 1 50 300 10
20 800 10 300 10 200 0051172543672

"O que é que está acontecendo? Que diabos significa tudo
isso?"
Catherine levantou-se e dirigiu-se rapidamente à
escrivaninha. Empurrando os papéis do professor para o
lado, dispôs o conjunto de mapas sobre a mesa. Havia sete
no total. "Meu número de sorte", ela pensou, com tristeza.
Espalhando-os, começou a examiná-los mais detidamente.
Havia três mapas gerados por computador - do tipo que se vê
nos atlas. Os outros quatro eram, sem sobra de dúvida, cópias
de documentos antigos. Estava óbvio que os originais eram
mapas muito velhos, provavelmente pré-medievais, e
mostravam diferentes localidades do mundo.
À primeira vista não conseguiu reconhecer os lugares
representados em nenhum deles, mas estava claro que se
tratava de mapas legítimos, e não apenas ilustrações criativas.
Eles mostravam litorais, sistemas fluviais, cadeias de
montanhas e ilhas. A qualidade do papel era inconsistente,
assim como a qualidade das cópias.
Quando Catherine tornou a ler o bilhete e olhou para
aqueles mapas misteriosos sem entender absolutamente
nada, ficou desesperada.
"O que estes mapas representam? E o que significa o bilhete
do professor?"

4

James Rutherford olhou para o relógio no canto da tela de
seu laptop: 12h55. Recolheu os livros da escrivaninha com
muita pressa, jogou-os dentro da bolsa e desligou o
computador. Precisava deixar a biblioteca imediatamente.
Tinha um compromisso com o professor Kent, um dos lí-
deres intelectuais da universidade, e não perderia este
encontro por nada.
Rutherford conhecera o professor Kent apenas duas semanas
atrás, quando estivera em um jantar oferecido por um dos
seus colegas e, por acaso, sentara-se ao lado do professor.
Eles logo entabularam uma conversa animada, pois o
professor tinha grande interesse em mitologias antigas. Na
verdade, era um interesse incomum, dado que não tinha
nada a ver com sua área de especialidade, ou assim pensara
Rutherford. Mas o que o impressionou foi o conhecimento
do assunto que o professor demonstrou ter. Passaram três
horas conversando sobre a mesma coisa.
James Rutherford era um dos maiores especialistas da
universidade em mitologia mundial. Embora todos na
universidade soubessem que o velho professor era um
erudito, ele também era conhecido como ecologista. Mas
esta especialidade parecia muito distante do universo de
Rutherford, dos textos antigos e do estudo dos mitos e lendas
estranhos e fantásticos. E isto o intrigava.
Somente dois dias depois da conversa durante o jantar o
professor o contatara, inesperadamente, para marcar um
encontro. Rutherford acabara de retornar ao espaçoso
apartamento ao norte de Oxford, o bairro mais acadêmico da
cidade, após uma longa corrida pelos parques da
universidade. Ao entrar no apartamento, encontrou Anne,
sua empregada, passando o aspirador no chão.
James jogou-se exausto numa poltrona. Aos 38 anos, era
esbelto, estava em boa forma e tinha a cabeça coberta com
uma cabeleira farta e escura. Cuidava da alimentação, e lhe
diziam que parecia mais jovem do que realmente era, mas,
16 quilômetros de corrida eram 16 quilômetros de corrida.
- Alguém veio visitá-lo.
Rutherford ficou todo animado.
- Infelizmente, não era uma jovem.
Anne achava que James devia se casar, sossegar e ter uma
família, em vez de desperdiçar o tempo "estudando livros
velhos", como ela costumava dizer.
- Bom, não perderei a esperança... Então? Quem era a visita,
se não era a mulher dos meus sonhos?
- Era o professor Kent, do All Souls - Anne apanhou um
envelope que estava sobre a mesa da cozinha e o entregou a
Rutherford: - Ele lhe deixou este bilhete.
Pulando da poltrona, James apanhou o envelope das mãos de
Anne e caminhou até a ampla sacada, que tinha uma vista
para as quadras de esporte da faculdade e colinas ondulantes
por trás. Ali, a sós, começou a ler o bilhete.

Caro dr. Rutherford,
Apreciei muito nossa conversa durante o jantar outro dia.
Sem querer abusar de sua boa vontade, eu gostaria de
continuar nossa conversa sobre mitologias antigas.
Creio que fiz um avanço considerável. Acredito ter
descoberto, escondida em todos os mitos e religiões do
mundo, uma terrível mensagem vinda do passado. Essa
mensagem, que consegui decifrar, é um alerta de um povo
extinto há muito tempo - um alerta para nós de que po-
demos, desta vez, evitar o cataclismo que os destruiu. É vital
para a sobrevivência da humanidade que divulguemos essa
mensagem, ou seremos, nós e nosso planeta, vítimas do
mesmo cataclismo. Os antigos sabiam que a humanidade
ressurgiria das ruínas e que, um dia, conseguiria entender o
conteúdo da mensagem. Entretanto, há forças em ação cujo
desejo é impedir sua divulgação, e acredito que descobri o
motivo.
Eu teria muita satisfação em recebê-lo em meu alojamento
na faculdade para tomarmos um café qualquer dia da semana
que vem. Que tal terça-feira às 13 horas? A menos que não
possa, espero vê-lo em breve.
Com os mais sinceros cumprimentos,
Prof. Kent

Rutherford mal podia acreditar no que via. As afirmações do
professor Kent eram estarrecedoras. Ali estava um
acadêmico de primeira linha - nada mais, nada menos, que
um cientista - e um homem cauteloso, afirmando que
encontrara provas que não só rompiam os velhos precon-
ceitos relacionados à história do desenvolvimento da
humanidade, mas também provava que a humanidade estava
mortalmente ameaçada.
Tudo aquilo parecia muito estranho; contudo, com o passar
dos anos Rutherford se esforçara para manter a mente
aberta. Fazia seu o lema da Royal Society: Nullius in verba -
Não confie na palavra de ninguém.

5

Catherine estava desorientada. Que diabos devia fazer?
Observou o escritório do professor: as estantes, a mobília, e
seus olhos começaram a se encher de lágrimas. Tudo a fazia
se lembrar que jamais tornaria a encontrar seu velho amigo.
Recordou a primeira que visitara o amigo em sua fazenda, há
muitos anos. Ela fizera a graduação em Yale com bolsa da
Rhodes e, como era um amigo íntimo de seus pais, o
professor Kent oferecera-se para cuidar dela enquanto
estivesse na Inglaterra. Já naquela época ele ostentava a
barba branca que se tornara sua marca registrada.
- Ah, minha vida de eremita cientista não se ajustaria a muita
gente - ele disse, rindo. Eles haviam saído para uma
caminhada pelo jardim rico em flores e arbustos baixos, com
um pequeno lago no centro, e em seguida cruzaram os
campos iluminados pelo sol em direção aos dois grandes
bosques contíguos à propriedade. A paisagem era
espetacular, à moda inglesa, e Catherine entendia bem a
razão de o professor Kent achá-la tão inspiradora.
- Sem dúvida, não preciso de 140 mil metros quadrados. Não
pertenço à burguesia latifundiária. Só comprei esta
quantidade de terra por causa do que aconteceu no último
lugar em que morei. Nos últimos dez anos em lá residi, eu o
vi ser destruído como se tivesse sido devastado por Genghis
Khan. O coração daquele lugar foi arrancado quando o
correio e o pub desapareceram, a escola do vilarejo também,
e então o belo campo que havia nos arredores caiu nas mãos
das grandes empresas. Quando cheguei lá, os campos e
prados eram o orgulho da cidade no verão, com papoulas
vermelhas vibrantes e acianos de um azul-vivo crescendo
lado a lado em meio ao dourado do trigal. Em um dia de
verão, sob um céu azul-cobalto, é quase certo que não
houvesse um espetáculo mais impressionante e intenso deste
lado de Júpiter! Mas há muito não mais existem os prados de
flores silvestres, e em lugar deles estão vastas faixas de grama
e parques industriais sem vida.
O professor tinha um jeito elegíaco de falar, pensou
Catherine. Ele falava de laços antigos que uniam as pessoas à
terra e às estações, e da perda brutal desses laços, o que fazia
que alguns dos acadêmicos zombassem dele. Quando atraiu
discípulos do movimento ecológico em
Oxford, que iam visitá-lo de bicicleta, o tutor sênior o
apelidou de guru da faculdade e riu-se dele à mesa. Mas
Catherine sempre o achara um homem muito tranqüilo e
doce.
Eles haviam descido até o rio e se sentado na margem,
ouvindo o doce canto das águas. Ela se lembrou de que ele
tirara os sapatos. Ao ver o eminente acadêmico molhando os
pés na água, aquela atitude pareceu-lhe quase cômica.
- Neste planeta, para onde quer que você olhe a situação é a
mesma. Florestas sendo derrubadas, pantanais drenados. A
poluição é endêmica. Todos os dias há espécies entrando em
extinção, o campo magnético da terra está sofrendo
mudanças, com sabe-se lá que conseqüências. A camada de
ozônio que protege todos os seres vivos da radiação
ultravioleta está sendo destruída rapidamente, e o simples ar
que respiramos tem cada vez menos oxigênio e cada vez
mais gás carbônico, um veneno que está nos intoxicando e
aumentando a temperatura do planeta. Por que estamos
fazendo isso? Porque estamos ligados à idéia de crescimento
econômico, e nossas instituições são absolutamente in-
capazes de reconhecer o problema pelo que é e encará-lo de
frente. Isto exige muita imaginação e sacrifício. Por que você
não experimenta pôr os pés na água, querida? Está uma
delícia.
Sorrindo, Catherine tirara os sapatos e as meias e ficara com
os pés descalços pendurados tocando a água. Ele estava
certo, era muito bom sentir a água na pele. E, sem dúvida,
ela lhe dissera, era a visitante americana, por isto era
importante avaliar os hábitos locais.
- Isso mesmo! Você vai descobrir que esses hábitos fazem
todo o sentido. Um dia lindo e quente como este na Grã-
Bretanha não se desperdiça - o professor respondeu. - Mas,
para responder a isto - prosseguiu ele, mais sério -, temos de
enxergar que nossa sociedade industrial, seu fascínio pelo
crescimento e pela tecnologia, faz que cada vez mais
percamos de vista os verdadeiros objetivos da vida. Devemos
acordar e perceber que é a verdadeira estrutura de nossa
sociedade que permite o surgimento dessas grandes
concentrações de poder. Concentrações que competem com
suas próprias vidas, vidas estas que são mais que a soma de
suas partes. Hoje, no século XXI, nosso objetivo deveria ser
o de garantir que o poder se disperse, que os grandes
vórtices destrutivos do poder jamais possam se desenvolver.
Porque, caso se desenvolvam, seremos sugados para dentro
deles, e isto nos destruirá. Mas não sou otimista; o poder tem
seus princípios e sabe como apelar para os piores aspectos da
natureza humana.
Catherine, sentada com os pés apoiados na água fresca,
contemplando os campos à sua frente, entendeu o que ele
queria dizer.
- Eu a estou aborrecendo - o professor voltou a falar. - E
devo-lhe um chá. Que coisa terrível atrair uma nova aluna
para sua casa e não parar de falar de trabalho, sem oferecer
nem mesmo um refresco!
Eles caminharam descalços pelo longo gramado à margem
do prado e chegaram de volta ao jardim, rindo e relaxados.
- Com toda a certeza, não era isto o que esperava quando me
disseram que eu viria para Oxford. Obrigada, professor.
A terrível realidade do presente trouxe Catherine de volta,
arrancando-a daquelas lembranças felizes. Alguém batia na
porta do escritório com toda força...

6

Em pânico, Catherine enfiou o bilhete dentro da bolsa e
empilhou os mapas sobre a escrivaninha e os escondeu, às
pressas, sob alguns papéis. Então, respirando fundo,
caminhou até a porta e a abriu. Havia um belo homem alto,
com os cabelos escuros, aguardando pacientemente no
vestíbulo. Ele sorriu para ela e estendeu-lhe a mão. Tinha a
voz suave e reconfortante:
- Olá! Sou o dr. James Rutherford, nos vimos uma vez no
coquetel do diretor. Sou classicista no Brasenose College.
Catherine ficou desorientada. Ela realmente se lembrava
daquele rosto; afinal, não havia muitos acadêmicos jovens e
atraentes. Mas o impacto causado pela notícia ainda não
passara, e ela não estava preparada para uma conversa
amistosa. Sem saber o que fazer, abriu a porta, e Rutherford
entrou na sala. Parecia preocupado, e antes que Catherine
tivesse tempo de dizer qualquer coisa, ele falou novamente:
- O faxineiro acaba de me dar a notícia. Sinto muito. É difícil
acreditar que seja verdade.
No mesmo instante, Catherine abriu um pouco a guarda.
Suspirou e balançou a cabeça. E por um momento esqueceu-
se do bilhete e dos mapas.
- Sim. E terrível. Eu...
Ficaram em silêncio por alguns segundos, até que Rutherford
explicou-lhe o propósito da visita.
- Desculpe. Não quero parecer inconveniente. O faxineiro
me disse que você estava aqui, e eu apenas quis lhe
perguntar se sabe de mais alguma coisa a respeito do que
aconteceu. Há algo que eu possa fazer?
Catherine caminhou de volta à escrivaninha, e percebeu que
o canto de um dos mapas aparecia sob a pilha de papéis.
Tentou ficar numa
posição tal que o visitante não pudesse vê-la.
- Não, mas obrigada. E um tremendo choque, e embora
estivesse entre seus amigos mais íntimos, não sei nada mais
que você. Tudo isso é um completo mistério; não faz sentido
algum.
Rutherford ainda estava de pé, meio sem jeito, próximo à
porta:
- Sabe, eu tinha uma reunião marcada com ele, combinada há
pouco tempo. Conhecia pouco o professor, digo, eu o
conheço da TV, é claro, e li seus livros, mas o encontrei
apenas uma vez. Fiquei muito lisonjeado quando ele me
enviou um bilhete propondo esta reunião e dizendo que
queria minha opinião profissional sobre alguma coisa... Olhe,
sinto muito. Vou indo. É muito estranho, ele parecia um ho-
mem tão feliz.
James virou-se para ir embora. Mas Catherine pensava:
"Talvez James Rutherford possa ajudar. Talvez ele saiba
reconhecer os mapas antigos. Afinal, ele é um grande
classicista".
A cabeça de Catherine, sedenta por uma solução para o
mistério, aceitou a idéia de imediato. Não tinha nada a
perder.
- Olhe, na verdade talvez você possa me ajudar.
- Claro, posso tentar. O que posso fazer? Você gostaria que
eu entrasse em contato com os amigos do professor na
faculdade e lhes desse esta notícia horrível?
Ela hesitou por um momento. "Posso confiar nele? E muita
coincidência que ele tivesse uma reunião com o professor
justamente esta manhã, ou há algo mais sinistro
acontecendo?"
Antes que conseguisse lhe mostrar os mapas e o bilhete, era
preciso saber por que a reunião com o professor Kent havia
sido marcada para hoje.
- Você se importaria de me dizer qual era o assunto que o
professor queria discutir com você?
Ao fazer a pergunta, Catherine analisou o rosto do visitante,
tentando perceber algo que lhe fornecesse mais elementos
sobre quem ele era. Rutherford encolheu os ombros.
- Não, de maneira alguma. Permita-me lhe mostrar o bilhete
que ele deixou para mim.
Sondando o interior do bolso da jaqueta, Rutherford puxou a
mensagem que o professor deixara com Anne. Caminhou até
Catherine e entregou-lhe o bilhete. Enquanto passava os
olhos pela mensagem, seu rosto crispou-se.
Ergueu os olhos.
- Essas afirmações do professor são muito ousadas. Você sabe
mais alguma coisa sobre elas? Já havia conversado com ele
sobre essas idéias antes, em outros encontros?
Rutherford tentou lembrar-se.
- Bem, para começar, tivemos apenas uma conversa.
Entretanto, sempre o admirei muito. Acredito que aquilo
que ele diz que estarmos fazendo acabará nos destruindo...
Mas ele não me conhecia. Apenas aconteceu de nos
sentarmos lado a lado à mesma mesa durante o jantar no
Balliol College. Assim que soube de meu interesse em
mitologia clássica, conversamos até o fim da refeição. Ou,
mais precisamente, ele me fez perguntas e eu tentei
respondê-las.
- Que tipo de perguntas?
- Bem, ele estava mais interessado nas histórias dos antigos
cataclismos. Estava certo de que tinham alguma importância
para o trabalho que estava desenvolvendo. Por exemplo, a
história da inundação sofrida por Noé na bíblia. Ele
acreditava que aquela inundação foi um desastre ambiental
ocorrido na antigüidade.
- O que você quer dizer? Há outros mitos no mundo que
falem da inundação que possa confirmar esta teoria?
- Sem dúvida - Rutherford não conseguiu evitar um riso
sarcástico. - Há pelo menos uns setecentos e tantos.
- Tudo isso? Então a história de Noé não é a única?
- Esta é a maior falácia do ano. A qualquer lugar do mundo
que você vá encontrará exatamente a mesma história.
- A qualquer lugar?
Rutherford, grato pela oportunidade de poder ajudar,
encheu-se de entusiasmo e começou a falar:
- Sim. A China, por exemplo. Eles têm um mito sobre a
inundação que é quase idêntico ao nosso. A história conta
como os homens se tornaram arrogantes e ignoraram os
deuses, e como estes se vingaram, virando o universo de
cabeça para baixo e sacudindo-o como a um brinquedo, de
modo que as estrelas, os planetas e a terra rolassem pelo céu.
Veio a chuva e toda a terra foi coberta pela água.
Os olhos de Catherine se arregalaram de surpresa. Mas, mas
antes que pudesse pressionar Ruhterford a lhe dar mais
detalhes, ele desandou a falar novamente.
- Um pouco mais perto de nós, na Europa, os gregos têm um
mito muito interessante sobre a inundação; têm até mesmo
seu próprio Noé, que se chama Deucalião. E também os
celtas e os vikings... E os indianos. Deixe-me lhe contar sua
versão. Manu, o herói da história, vê um pequeno peixe
numa poça d'água perto de sua casa. Na verdade, o peixe é o
deus Vishnu, que pede a Manu para protegê-lo dos perigos
do mundo e promete-lhe que receberá uma grande
recompensa caso atenda ao seu pedido. Manu apanha o peixe
e o coloca em uma grande poça. Mas, no dia seguinte, o
peixe crescera tanto que Manu teve de levá-lo para um lago.
Logo o peixe não coube mais no lago. Finalmente, Manu
tem de colocar o peixe no mar. Em retribuição, Vishnu
alerta Manu de que está para vir uma enchente e lhe diz para
construir um barco bem resistente, ordena- -lhe que reúna
sementes de todas as plantas do mundo, bem como pares de
todos os animais, e em seguida suba a bordo da embarcação.
Quando chega a inundação, Manu é salvo, e Vishnu arrasta o
barco pelos oceanos e o põe sobre uma montanha no norte.
Manu, Deucalião, Noé... Devo dizer que temos a mesma
pessoa ou figura mítica. Você quer mais exemplos?
Catherine deu um sorriso encorajador. Estava impressionada.
Rutherford voltou a falar, desta vez com um tom pensativo
na voz:
- Acho que o professor Kent, além de crer que todos esses
mitos tinham raízes em fatos reais, acreditava que eles eram
usados para transmitir a mesma mensagem, a mesma
mensagem secreta, e que nossos ancestrais, por meio desses
mitos, nos alertam, por meio do abismo do tempo, para uma
catástrofe iminente.
- Então é por isso que ele disse no bilhete acreditar que tinha
decifrado a mensagem secreta dos povos antigos.
- Sim, creio que sim. Eu estava muito ansioso para descobrir.
E muito comum que os novatos numa área de especialidade
façam descobertas e acreditem ser a maior de todos os
tempos. Eu esperava que o professor fosse um segundo
Heinrich Schliemann.
- Quem foi ele?
- Schliemann foi o arqueólogo que em 1871 descobriu o
local da antiga cidade de Tróia. Ele era um amador. Tinha
sido um empresário muito bem-sucedido, e quando
completou 50 anos, já estava rico, e percebeu que não
precisava mais trabalhar. Então, decidiu voltar à universidade
e formou-se em letras clássicas na Sorbonne, em Paris. Lá
estudou a Ilíada, que é a história de Tróia. Chegou ã
conclusão de que parte da história não era apenas um mito,
mas verdade; que o poeta Homero realmente falava de uma
cidade e de uma guerra, e que Aquiles e Helena de Tróia
haviam realmente existido, não eram apenas fruto da
imaginação de um poeta. Não é preciso dizer que ninguém
acreditou nele, e que a comunidade acadêmica zombou dele
por toda a cidade. Mas, após três anos de pesquisa na região
do mar Egeu, Schliemann encontrou as ruínas de Tróia e
provou que todos estavam errados. Pensei que o professor
Kent pudesse se tornar um novo Schliemann... Sabe como é,
um novato na área faz uma descoberta surpreendente
porque ele, ou ela, não se deixa abater pelos preconceitos
herdados, porque é alguém que segue sua intuição.
Catherine estava absorta. Algo lhe dizia que a pesquisa
esotérica do professor tinha alguma relação com os estranhos
mapas, e sua intuição lhe dizia que James Rutherford era
digno de confiança. Mas ainda havia dúvidas. Olhou bem
dentro dos olhos de James, inspirou o ar bem devagar, e
tomou uma decisão. Mostraria os mapas a ele; contudo, por
enquanto guardaria segredo sobre o bilhete.
- Quero lhe mostrar algo importante. Isto vai parecer
estranho, mas está relacionado ao que aconteceu hoje. Você
é um classicista. Conhece alguma coisa sobre mapas antigos?
Rutherford foi pego de surpresa.
- É... Sim, um pouco.
Catherine dirigiu-se à escrivaninha e tirou os mapas que
estavam debaixo da pilha de papéis. Dispondo-os sobre a
mesa novamente, ficou mais convencida do que nunca de
que representavam lugares que realmente existiam.
- Quero que olhe para estes mapas e me diga se os reconhece
ou se têm algum significado para você. Embora tudo isso
pareça muito estranho, é importante. O professor Kent os
enviou para mim pouco antes de morrer.
Rutherford caminhou até a escrivaninha e começou a
examinar com atenção cada um deles. Passado mais ou
menos um minuto, olhou para ela com uma expressão séria:
- Creio que não posso ajudá-la.
Catherine ficou desolada.
Em seguida, ele sorriu:
- Apesar disso, há alguém que pode. O dr. Von Dechend,
professor emérito da área de geografia. Estive em umas duas
de suas palestras, ele é muito capaz.
Os olhos de Catherine brilharam.
- É claro! Von Dechend! Como não me lembrei dele? Ele
está aqui, no All Souls.
Rutherford ficou surpreso.
- Você o conhece?
- Sim, conheço. Isto nem me passou pela cabeça. Nunca
tratamos de trabalho, mas sempre converso com ele na sala
dos professores.
Rutherford ficou sério, não queria que isto representasse o
fim daquele encontro com a bela e intrigante Catherine
Donovan. Fora bom demais, e muito diferente de sua rotina
acadêmica cotidiana.
- Você gostaria que eu a acompanhasse? Talvez ainda possa
ajudá-la, embora não tenha feito muito até agora.
Catherine não sabia o que dizer. Em que estava se
envolvendo? Algum tempo antes estivera dando a última
palestra do ano letivo, e no momento seguinte tentava
entender a trágica morte de seu amigo e o fato de que ele,
sem sombra de dúvida, estivera envolvido em alguma
pesquisa estranha. E, agora, parecia estar prestes a seguir seu
rastro na escuridão...
Olhou para James. Estava grata por sua postura tranqüila,
reconfortante; à medida que pensava no mistério que
envolvia a morte do professor, sentia um certo frio no
estômago... Mas, sentindo-se otimista pela primeira vez
desde que deixara a palestra, Catherine tomou uma decisão.
- Sim, eu gostaria muito.

SEGUNDA PARTE

7

O edifício emblemático que abriga as Nações Unidas em
Nova York ergue-se tal uma sentinela no encontro da Rua
46 com a Primeira Avenida, bem próximo às margens do
East River, de onde se tem a mais bela vista de Manhattan.
Dos andares superiores do edifício vê-se o Central Park a
oeste, e a leste tem-se uma vista dos subúrbios esparsos do
Queens, do Brooklyn e da charmosa rede de pontes que
ligam a ilha de Manhattan à sua costa oriental. O edifício foi
projetado após o fim da Segunda Guerra, e a construção dos
trinta e nove andares foi concluída em 1962. O
mundialmente famoso salão de reuniões da Assembléia
Geral, que tem um assento para cada uma das nações do
mundo, fica no terceiro andar, no coração da estrutura.
Poucos sabem que o prédio das Nações Unidas, além de
quase tocar o céu, também penetra o solo. No total, onze
níveis de porões feitos de aço reforçados com concreto estão
enterrados na lama da Ilha de Manhattan. Três níveis têm
garagens suficientes para guardar os muitos veículos
diplomáticos que vêm e vão em um fluxo constante entre as
diversas embaixadas estrangeiras e o escritório geral da ONU.
Outro nível hospeda os enormes sistemas de encanamento e
ar-condicionado necessários ao funcionamento de um
edifício daquele porte. Mas, abaixo de todas essas camadas,
cuja utilidade é funcional, há ainda mais andares submersos,
criados, com vistas ao futuro, nos dias que antecederam a
crise dos mísseis de Cuba, para acolher toda a Assembléia em
caso de um grave ataque à cidade de Nova York. Com acesso
a partir de um sistema de elevadores separado, situado na ala
nordeste do prédio, todas as instalações primordiais dos
andares superiores estão replicadas no subsolo, como é o
caso de qualquer instalação americana, federal ou militar, de
grande importância; há um amplo refeitório; três andares de
espaços para escritórios e um andar todo dedicado aos
alojamentos. Entretanto, o mais importante é a existência de
uma réplica do famoso Salão da Assembléia Geral à dispo-
sição caso haja uma catástrofe mundial imprevista.
Este salão de reserva, situado no sétimo andar do subsolo,
jamais foi usado para receber a Assembléia Geral. Logo após
os ataques de 9 de setembro de 2001, o secretário-geral das
Nações Unidas realmente cogitou desta idéia, mas concluiu
que a maior parte das pessoas entenderia isto de outro modo,
e, em conseqüência, todas as instalações de emergência
deveriam ser mantidas completamente vazias e trancadas a
sete chaves.
Era terça-feira de manhã do mês de março, mais
precisamente sete horas, pelo horário de Nova York, e os
dois elevadores espaçosos que levavam aos andares
subterrâneos tinham funcionado sem parar nos últimos
sessenta minutos. Desde as seis da manhã via-se uma fila
mais ou menos constante de limusines e BMWs, parados na
área externa em frente ao edifício da ONU, ali despejando
passageiros. Eram todos homens, que chegavam sozinhos
vestindo ternos caros. A maioria deles era caucasiana, no
entanto, parecia haver representantes de todas as raças do
planeta. Sem olhar para nenhum lado, eles caminhavam a
passos largos na direção do cordão de isolamento reforçado
que fica em frente à entrada principal, desde o atentado de
11 de setembro, e, exibindo rapidamente suas credenciais,
eram conduzidos às enormes portas giratórias de vidro e
engolidos pelos raios de sol nelas refletidos.
Além das portas de vidro, a alguns passos dali, atravessando o
átrio de mármore chega-se à ala nordeste do edifício e aos
elevadores que levam aos andares inferiores. Nenhum dos
funcionários do edifício da ONU, fosse da segurança ou de
qualquer outro setor, sequer piscavam ao observar a torrente
de elegantes recém-chegados; até porque, era muito comum
ver homens de meia-idade e bem vestidos vagueando pelos
corredores marmorizados do poder. O edifício da ONU
recebe mais visitantes por ano do que quase todos os outros
prédios públicos do mundo e, em todo caso, cada um desses
visitantes que chegavam pela manhã parecia ter a
autorização adequada para passar pela segurança.
Todos os visitantes sabiam exatamente aonde estavam indo,
e usavam seus cartões de acesso, previamente expedidos,
para que pudessem tomar os elevadores. Por volta de 7h15
da manhã, o sétimo andar inferior lembrava uma colméia. O
salão reserva da Assembléia Geral, jamais usado antes, estava
sediando uma reunião sem qualquer luxo, marcada de última
hora. Por volta de 7h30 da manhã, havia quase 300 pessoas
reunidas no salão subterrâneo, sentadas na ferradura com
fileiras de cadeiras azuis. A reunião da Corporação estava
para começar.
Na frente, atrás da mesa do orador, no assento destinado ao
secretário das Nações Unidas, um homem de rosto
macilento, cabelos escuros, aparentando 60 anos, aguardava
com paciência o início da sessão; tinha as mãos entrelaçadas
sobre a mesa e os olhos fixos no entorno do salão.
Este era Miller, o secretário da Corporação, e, nesta
qualidade, fazia parte de suas atribuições, nas raras ocasiões
em que seus serviços eram requisitados, convocar as
reuniões do Conselho Governamental Global. Hoje era uma
dessas ocasiões.
Precisamente às 7h40 da manhã, ele empurrou a cadeira para
trás e pôs-se de pé. Tinha mais ou menos um metro e setenta
de altura e, tal como todos os outros homens no salão,
parecia um banqueiro bem-sucedido de Wall Street ou um
advogado todo-poderoso. Sua única característica marcante
eram as pálpebras pesadas sobre os olhos escuros, que
esquadrinhavam o salão por trás de um par de óculos de
lentes grossas.
Parecia agitado. Sob circunstâncias normais, ele estaria
trocando gentilezas com os convidados que chegavam e
apertando-lhes as mãos, mas hoje o equilíbrio de sempre
estava comprometido. Saiu furtivamente do salão de debates
e começou a caminhar para cima e para baixo em frente aos
elevadores, exibindo o cenho franzido de quem está
concentrado.
Não era comum que o Conselho ultra-secreto da Corporação
lhe pedisse para convocar uma reunião do Conselho
Governamental Global. Não tinha havido uma reunião como
esta desde a queda da União Soviética. Qual era o significado
de tudo aquilo? O que o Conselho tinha a dizer? Quem eles
enviariam como seus representantes?
Mas, antes que Miller tivesse mais tempo para pensar, o
silêncio do corredor foi quebrado pelo som da campainha do
elevador. O representante do Conselho havia chegado.
Assim que as portas do elevador se abriram, o secretário
Miller sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Ali, sozinho
na estrutura tumular do elevador, estava o senador Kurtz.
Miller mal conseguiu disfarçar o choque. O senador era um
político importante e muito conhecido. Tinha um
relacionamento estreito com muitos daqueles que
compunham o círculo íntimo do presidente, e como tal
sempre aparecia nos talk shows da televisão. Contava com o
apoio da comunidade religiosa de seu círculo eleitoral no sul,
o que lhe oferecia a retaguarda necessária para ascender aos
altos escalões da política. Seus interesses particulares na
segurança e na indústria bélica eram do conhecimento de
todos, além de ser muito provável que ele se tornasse o
próximo Secretário da Defesa.
Embora a Corporação pudesse se orgulhar de contar com
duas dúzias de senadores e congressistas, além de
representantes políticos de todas as correntes ideológicas do
mundo, jamais se vira antes um membro importante da
Administração com um cargo no Conselho.
O próprio secretário Miller era um bom exemplo do tipo de
homem que formava a espinha dorsal da Corporação. Ele era
um financista que, em seus domínios, exercia o tipo de
poder que faria inveja a um imperador romano. Herdou do
pai o controle da Grippen AG, um banco suíço privado,
possuía grandes concentrações de terras aforadas de
empresas de exploração de recursos naturais, e empregava
milhares de pessoas em todo o mundo. Apesar disso, era
uma eminência parda; não era, de modo algum, o tipo de
homem que desejava estar em evidência.
Miller era um servo fiel da Corporação, e sua lealdade fora
recompensada inúmeras vezes, mas não tomava parte nas
decisões finais ou na nomeação dos membros no âmbito do
Conselho, e sequer tinha conhecimento de como se os
elegiam. Na verdade, não sabia dizer quantos membros o
Conselho já tivera. Mas estava certo de que não era comum
que um político da importância do senador Kurtz estivesse
tão publicamente envolvido. Aliás, havia muitas pessoas
ligadas à administração do senador Kurtz, incluindo o
próprio presidente dos Estados Unidos, que ficariam
escandalizadas com o raio de ação da Corporação.
Dando um passo à frente, o secretário Miller engoliu seco.
- Bem-vindo senador. É um prazer tê-lo aqui hoje.
O senador saiu do elevador. Com um metro de oitenta de
altura, parecia estar em boa forma e com ótima saúde, tal
qual a impressão que se tinha dele pela televisão. Fora um
atleta de sucesso na faculdade quando jovem e era óbvio que
ainda se exercitava. Percebia-se o encanecimento dos
cabelos, outrora pretos, nas têmporas. Apesar disso, ainda era
um homem atraente, tinha um ar másculo e nobre. Ele
estendeu a mão ao secretário:
- Você deve ser o secretário Miller.
- Sim senhor, isto mesmo. Bem-vindo. É uma grande
honra...
Os olhos escuros do senador percorreram o corredor. Os
membros do Serviço Secreto responsáveis por sua segurança
o aguardavam no andar térreo. Não havia exceções, nem
mesmo para um membro em serviço ligado ao Senado dos
Estados Unidos.
O secretário Miller falou com certo nervosismo na voz:
- Está tudo pronto. Reuni o Conselho Diretor da Corporação
conforme o pedido do Conselho.
Trocadas as gentilezas, o senador Kurtz falou novamente,
agora com um tom frio na voz:
- Você garante que não podemos ser encontrados aqui? -
olhou ao redor e então prosseguiu asperamente: - Embora
pareça irônico usar o escritório central das Nações Unidas
como rampa de lançamento para nossa ascensão decisiva ao
poder, seria desastroso chamar a atenção sem nenhuma
necessidade a esta altura dos acontecimentos.
O secretário, parecendo um tanto afrontado, indicou o
caminho que levava ao salão principal, como o faria um
pajem a um rei.
- A escolha do local não foi uma brincadeira. O edifício das
Nações Unidas oferece a perfeita cobertura para nossas idas e
vindas. O terreno é de propriedade da Autoridade dos Portos
da Cidade de Nova York, sob nosso controle. Mas como
sempre acontece, será nossa primeira e última reunião neste
local.
O senador relaxou um pouco e deu um sorriso acolhedor:
- Bom trabalho, bom trabalho. Daqui a pouco tempo não
precisaremos mais ter toda essa preocupação... - ele agitou a
mão esquerda num gesto expansivo. - Nosso super-diretor
deve continuar a existir em condições extralegais durante
mais alguns dias; isto é tudo. Na segunda-feira pela manhã,
na aurora do equinócio da primavera, poderemos dispensar
este enigma - fez uma pausa e, em seguida, dirigindo-se ao
secretário com rispidez, como se quase esperasse que ele
mentisse, perguntou-lhe: - E o professor?
Os olhos de Miller se fecharam imperceptivelmente,
sentindo um desconforto considerável sob o escrutínio do
olhar fixo do senador. Cada um dos nervos que tinha no
corpo o informavam de que aquele não era um bom lugar
para estar. Mas, por que, estando a um passo do sucesso, o
senador se mostrava tão obcecado com o professor e com a
erradicação de todas as provas do trabalho desenvolvido pelo
acadêmico? Que ameaças poderiam trazer um conjunto de
mapas antigos? Tudo o que o secretário Miller podia concluir
era que o Conselho tinha suas próprias razões ocultas. Para
ele, no entanto, tudo era obscuro. Ele olhou diretamente nos
olhos do senador e, engolindo seco, balançou a cabeça:
- Está feito.
O senador Kurtz resmungou, demonstrando aprovação, e
franziu o cenho:
- Não foi nada bom, secretário, nada bom. Mas o que foi
mesmo que Shakespeare disse... "As necessidades devem..." -
então, de repente, virou-se e bateu nas costas do secretário. -
Nada de culpa, secretário. Estamos em guerra, e o professor
representava uma ameaça direta aos interesses da
Corporação. As guerras são complicadas e sujas; sempre há
vítimas.
Podia-se perceber o esboço de um sorriso no canto da sua
boca. Mas o sinal de um sorriso, quase tão rapidamente
quanto surgira, desapareceu, substituído pelo cenho franzido
em sinal de desconfiança. Uma vez mais, o olhar frio do
senador se concentrou no secretário. O tom antes brincalhão
e reconfortante passara a frio e desconfiado:
- Permita-me lembrar-lhe algo, secretário, algo de suma
importância. Não há nada mais perigoso neste mundo para a
nossa causa do que iniciativas particulares. Nada. O professor
é um caso específico. Uma das bênçãos de nossa
Constituição é a de permitirmos que as pessoas tenham certa
liberdade de ação, certa liberdade. Alguns considerariam isto
um excesso de liberdade.
O secretário Miller ficou paralisado.
- E isto é, sem dúvida, algo muito bom. - o senador Kurtz
prosseguiu: - Mas o problema é que as pessoas têm idéias na
cabeça. Isto acontece porque elas não estão numa posição da
qual possam enxergar todo o problema. Somos os únicos que
podemos entender isto. E sinto dizer-lhe, mas não podemos
nos dar ao luxo de correr riscos. Se isto significar que as
pessoas têm de ser silenciadas, este será o preço deveremos
pagar. Cite uma guerra na qual não tenha havido mortes e eu
lhe mostrarei uma rápida derrota... Tenha sempre em mente
a visão de todo o problema. É preciso que a Corporação
complete seu trabalho para o bem da humanidade. O que é
bom para a Corporação é bom para a América. Deus pôs os
recursos naturais à nossa disposição, precisamos explorá-los
antes que alguém o faça.
Os dois homens começaram a se afastar do elevador,
caminhando na direção da sala de reuniões. O senador Kurtz
tocou o ombro do secretário, um gesto muito parecido com
aquele que faz um treinador ao conduzir um dos jogadores
ao campo.
- Se as pessoas tivessem a menor idéia do que o futuro lhes
reserva dentro de muito pouco tempo, nosso governo
perderia o controle da noite para o dia. O desastre de Nova
Orleans pareceria um piquenique comparado ao que poderia
acontecer, e todos os nossos esforços se tornariam inúteis de
uma hora para outra. Não estou exagerando. Haveria
tumultos nas ruas, a civilização entraria em colapso.
Estupros, saques e anarquia se seguiriam a esse colapso. Os
assassinatos se tornariam corriqueiros. Cabe a nós escolher o
momento em que esse caos ocorrerá.
O secretário Miller murmurou seu assentimento, enquanto
se aproximavam da porta que levava à sala de reuniões. O
senador Kurtz parou novamente, como se um pensamento
desagradável tivesse lhe passado pela cabeça:
- Mas devemos seguir em frente. O conselho exige que você
mantenha os antigos companheiros do professor sob
vigilância. A prioridade agora é localizar e destruir o resto
dos mapas. Qualquer um que tenha estado no mesmo lugar
que eles terá de ser monitorado. Os agentes adequados foram
inteirados disto e enviados à faculdade? Suponho que você já
queimou o mapa que caiu em nossas mãos no Peru, não?
- Sim, senador, é claro, conforme seu pedido.
O senador Kurtz ajeitou a gravata e inspirou profundamente
antes de falar em particular com o secretário uma última vez:
- Muito bom. Está tudo em ordem. Tudo o que a Corporação
faz visa ao interesse público, mas deve permanecer a portas
fechadas... O mundo funciona assim. Agora, conduza-me à
reunião. Chegou a hora de dar as boas notícias. Temos
apenas seis dias até a aurora do equinócio da primavera, e
então finalmente terá chegado o momento...

8

Catherine e James subiram o último lance de escadas,
chegando, enfim, ao patamar superior da décima segunda
escadaria. Catherine, um pouco sem ar, arfou de satisfação:
- Ufa! Ele está livre... - a única porta de madeira do andar
estava aberta. - Não está curtindo seu carvalho.
Rutherford franziu o cenho:
- Ele não está o quê?
- Ah, é uma expressão antiga. Todos os conjuntos de
cômodos têm duas portas. Uma externa, feita de carvalho, e
uma interna. Se você fechar a porta externa, significa que
não está disposto a receber visitas, está "curtindo seu
carvalho". Vamos.
Rutherford parou no topo da escada. Com a mão segurando
o corrimão, olhou para Catherine:
- Você acha que devemos lhe contar sobre a morte do
professor Kent, se é que ele já não sabe?
Catherine estava decidida a resolver as coisas. As dúvidas de
antes haviam sido substituídas por uma determinação férrea.
- Não, acho que não... Se ele ainda não sabe, não devemos
tocar no assunto. Estamos aqui apenas para pedir
informações sobre os mapas - Catherine bateu na porta com
firmeza.
Passado algum tempo, ouviu-se o ranger das dobradiças da
porta de carvalho maciço, revelando uma antes-sala pequena
e escura e um vulto rechonchudo e de baixa estatura. Dr.
Von Dechend tinha uns sessenta e poucos anos, cabelos que
começavam a ficar grisalhos e um bigode ruivo e
extravagante que começava a desbotar. Vestia um belo terno
de três peças em tweed escama de peixe ligeiramente
surrado. Inclinou-se para a frente e tentou enxergar quem
eram os dois por trás de um par de óculos de armações
grossas. O odor da fumaça recém-saída do cachimbo enchia
o ar. Um ou dois segundos depois, seu rosto iluminou-se:
- Catherine! Que surpresa boa! Entre, entre e tome um pouco
de chá! E quem é o rapaz que a acompanha... Um novo
namorado, suponho?
Catherine sentiu-se ruborizar:
- Não. Este é um colega meu do Brasenose, James
Rutherford, um classicista e um especialista no mundo
antigo.
Dr. Dechend os conduziu ao aconchegante escritório, ciente
de que aquela não era uma visita de cortesia. Catherine
expressava uma tensão incomum. Trocadas as gentilezas de
praxe e preparado o chá, e estando todos acomodados nas
poltronas de couro em volta da lareira vazia, o catedrático foi
direto ao ponto:
- Então, o que a preocupa?
Catherine lançou um olhar cheio de preocupação para
Rutherford e em seguida começou a falar:
- Estivemos pensando se você talvez poderia dar uma olhada
em alguns mapas e ver se consegue reconhecê-los - e, com
todo o cuidado, colocou o envelope com os mapas sobre a
mesa.
Von Dechend acendeu o cachimbo, trocou os óculos de
armação grossa pelos de leitura e começou a retirar os
documentos do envelope, espalhando-os diligentemente
sobre a mesa. Percebeu nos dois jovens visitantes uma
ansiedade que ia além da mera curiosidade acadêmica.
"Espero que eu consiga reconhecer o que essas coisas
representam", pensou ele, "do contrário, deixarei duas
pessoas muito desapontadas".
Direcionando a luminária para baixo de modo que pudesse
ver o primeiro mapa, dr. Von Dechend começou a analisar
os documentos que tinha diante de si.
- Humm. Muito, muito interessante. Muito interessante
mesmo - e olhou para Catherine por cima dos óculos. -
Desculpe a pergunta. Onde foi que você conseguiu estes
mapas?
Por uma fração de segundo, ela hesitou, e olhou diretamente
nos olhos de Rutherford. Ele levantou as sobrancelhas como
se dissesse que a decisão de contar ou não cabia a ela.
- Com o professor Kent.
- Ahhh! Com o Kent! Mas por que cargas d'água ele estaria
interessado nestes mapas?
- Bem, se o senhor nos falasse um pouco deles talvez
conseguíssemos descobrir o porquê.
- Muito bem, mas prepare-se. Estes não são mapas comuns.
São o que poderíamos chamar os mapas mais perturbadores
da história.

9

O secretário Miller levantou-se e testou o microfone sobre a
mesa com uma leve batida. Aos poucos, o burburinho no
enorme salão de debates cessou. Limpando a garganta, Ele
declarou:
- Senhores, com a palavra o senador Kurtz.
Com todo o respeito, posicionou o microfone na frente do
senador Kurtz e sentou-se. Ouviu-se um leve murmúrio de
aprovação vindo da platéia quando o senador levantou-se da
cadeira. Pegando o microfone, ele começou a falar:
- Obrigado, secretário Miller, e obrigado a vocês, senhores,
por virem até aqui hoje. Ainda acredito que, mesmo estando
na era da videoconferência, na verdade nada substitui os
encontros e as conversas cara a cara, e talvez até mesmo a
possibilidade de tomarmos uma cerveja juntos. Espero que o
secretário nos permita fazer isto depois.
Em apoio às palavras do senador, uma onda de risos
atravessou a sala. O senador Kurtz voltou os olhos para o
secretário e lhe deu um sorriso indulgente antes de
prosseguir:
- Ora, alguns de vocês percorreram um longo caminho para
chegar a esta reunião e, por isso, quero começar
assegurando-lhes de que qualquer esforço feito para chegar
até aqui terá valido a pena. Hoje estamos prestes a passar do
ponto do qual não poderemos retroceder.
Ao ouvir as palavras do senador, a platéia ficou extasiada.
- Na segunda-feira de manhã, às 8h05, acontecimentos
resultarão na completa destruição do status quo global e em
nossa ascensão ao poder no mundo todo. Estou falando do
golpe de misericórdia.
Um murmúrio de expectativa encheu a sala. O secretário
Miller passou os olhos pela multidão. Kurtz já os tinha nas
mãos. Sem dúvida, era um exímio orador. Era fácil imaginá-
lo na televisão, aterrorizando e perdoando a platéia em rede
nacional.
O secretário consultou o relógio e, levantando-se
calmamente da cadeira, saiu sorrateiramente pela porta.
Ninguém percebeu. O discurso do senador estava deixando
os presentes trespassados ao ouvir os desdobramentos do
plano. Um segurança corpulento abriu a porta quando o
secretário se aproximou e, saindo para o corredor, caminhou
por ele em silêncio.
Apesar de ter suas próprias dúvidas com relação à
perseguição do professor e seus companheiros, tinha um
trabalho a fazer. Até o momento ninguém havia dado conta
dos mapas que pertenciam ao professor, e era possível que
alguém, em algum lugar, estivesse olhando para eles naquele
momento. Chegara o momento de acionar os agentes na
Inglaterra.

10

Dr. Von Dechend apontou um dos mapas sobre a mesa.
Catherine e Rutherford tinham um olhar vago. Estava
evidente que eles mal podiam distinguir as faixas de terra dos
eventuais rios e ilhas.
- O conhecimento empírico ocidental é semelhante a uma
enorme barragem construída a partir de muitos, muitos
tijolos empilhados um a um - começou o velho homem. -
Vez por outra, os cientistas se defrontam com algum
conhecimento que simplesmente não se encaixa no lugar
reservado a ele na barragem. O mapa de Piri Reis, este diante
de nós, é um ótimo exemplo disto. Ninguém, repito,
ninguém, sabe explicar o tijolo que não se encaixa na pilha
representada pelo mapa de Piri Reis - dr. Von Dechend
ajeitou os óculos e continuou: - Este mapa foi feito em
Constantinopla, em 1513, por Piri Reis, o almirante da
esquadra turca, desenhado sobre pele de gazela. Ele mapeia a
costa oriental da América do Sul, ocidental da África e
nordeste da Antártica, quando ainda era um paraíso tropical,
antes que ficasse coberta de neve. É óbvio que Piri Reis não
fez a pesquisa sozinho. Ele diz que usou diversos mapas
oriundos dos arquivos do império Otomano. Bem, podemos
ter quase certeza de que o único período em que a costa da
Antártica ficou sem gelo foi entre 14.000 e 4.000 a.C.
Depois disso, tivemos a Era do Gelo e a Antártica ficou
completamente enterrada debaixo de bilhões de toneladas de
gelo, tal como é hoje. E é por isto que dá para entender os
problemas que este mapa pode causar. É impossível que a
costa tenha sido mapeada em qualquer época depois de
4.000 a.C., porque a Antártica estava coberta de gelo e
continua assim até hoje. Mas, apesar disto, o período
anterior a 4.000 a.C. é conhecido como Idade da Pedra. Em
suma, este simples mapa parece minar as estruturas da
história do mundo tal como a conhecemos.
- Mas isto é incrível - disse Catherine lançando um olhar
para Rutherford, que também parecia chocado.
- Sem dúvida. É por isto que o considero o mapa mais
perturbador de todos os tempos. Nos corredores desta
universidade; de fato, em todas as universidades do mundo
ocidental - Von Dechend fez um gesto no ar, apontando
para as paredes da sala e além a civilização começa na
Suméria em 4.000 a.C. A última era do gelo terminou
propriamente por volta de 8.000 a.C., e como o gelo se
retraiu, a umidade foi liberada na atmosfera e a vida retornou
à terra. Os povos caçadores do período Neolítico, que
tinham atravessado o longo inverno da era do gelo, de uma
hora para outra descobriram que a vida ficara um pouco mais
fácil. Este fato levou, na Suméria e nas terras do crescente
fértil, que ficam na região atualmente conhecida por Iraque,
ao assentamento das primeiras comunidades agrícolas. Antes
disso, de acordo com a história ortodoxa, a humanidade, até
4.000 d.C., era "atrasada", e, com toda certeza, incapaz de
fazer um mapeamento preciso do mundo. Desde aquela
época, a "civilização", e pronuncio esta palavra com toda
ênfase, evoluiu até os dias de hoje, com seu progresso
marcado por bombas nucleares, espaçonaves e guerras
mundiais.
"Bem se vê que não é um adepto do progresso", pensou
Rutherford. "Mas isto é surpreendente. Como o professor
teve acesso a esses mapas? E o que ele pretendia fazer com
eles?"
- Como vocês podem ver - concluiu Von Dechend -, esta
versão da história e o mapa Piri Reis não se encaixam e, por
isto, ele simplesmente fica de fora.
- Então, por que a versão convencional da história ainda
prevalece? - perguntou Rutherford. - Por que você não
conta a todos sobre este mapa?
Dr. Von Dechend lançou-lhe um olhar lacônico:
- Meu jovem, Max Planck, o físico mundialmente famoso,
uma vez disse o seguinte - o professor limpou a garganta de
um modo teatral: - "Uma nova verdade científica não triunfa
pelo convencimento daqueles que se opõem a ela, fazendo
com que enxerguem a luz, mas, antes, porque seus
oponentes acabam morrendo, e nasce uma nova geração que
se familiariza com ela".
"Se isso fosse verdade", pensou Catherine, "então as verdades
esquecidas fizeram o passado desaparecer, deixando-o para
trás. Assim como certas pessoas podem simplesmente ser
eliminadas para que a visão de mundo dos assassinos
prevaleça".
Aquela idéia a assustou, e seus pensamentos se voltaram para
o professor. "As pessoas não são mortas por suas idéias, são?"
Muito perturbada, fez um esforço para se concentrar em
Von Dechend, que se levantara.
- Permitam-me mostrar-lhes uma carta interessante sobre
este assunto curioso. Está aqui em algum lugar... Deixe-me
ver... É uma carta do tenente-coronel Ohlmeyer, da Força
Aérea dos Estados Unidos, para um certo professor Charles
Hapgood, do Keene College, em New Hampshire, um
catedrático especialista em mapas antigos. Este professor
pedira ao tenente que comparasse o mapa Piri Reis com seu
trabalho de medição de terras na Antártica, uma tarefa jamais
empreendida antes. A resposta de Olmeyer fala por si.
Von Dechend caminhou com dificuldade até a estante,
alcançou e puxou um arquivo contendo um feixe de cartas.
Ele o pôs sobre a mesa para que ambos as lessem.

6 de julho de 1960
FORÇA AÉREA DOS ESTADOS UNIDOS
Base da Força Aérea de Westover
Caro professor Hapgood,
Seu pedido feito a esta organização para que avaliássemos
determinadas características incomuns do mapa Piri Reis,
datado de 1513, foi reavaliado. A alegação de que a porção
inferior do mapa retrata a Costa da Princesa Marta localizada
na região da Terra da Rainha Maud, bem como a Península
de Palmer, é razoável. Acreditamos que esta seja a mais
lógica e a mais correta de todas as possibilidades de
interpretação do mapa. O detalhe geográfico mostrado na
parte inferior do documento está em perfeita consonância
com os resultados do perfil sísmico traçado ao longo da
calota polar pela expedição suíço-britânica à Antártica em
1949. Isto indica que o litoral havia sido mapeado antes que
fosse coberto pela calota polar, que nesta região atualmente
tem em torno de mil e seiscentos metros de espessura. Não
fazemos idéia de como podemos conciliar os dados deste
mapa com o suposto estágio em que se encontravam os
conhecimentos geográficos em 1513.
Harold Z. Ohlmeyer,
Tenente-coronel, Força Aérea dos Estados Unidos

Rutherford não pôde mais se conter:
- Mas isto é extraordinário! Por que nunca ouvimos falar
deste mapa? Por que ele não despertou mais interesse?
James levantou-se, tomado de perplexidade, e atravessou a
sala. Catherine reparou nos ombros largos e fortes de
Rutherford, notou também como os cabelos caíam
desalinhados sobre o colarinho. Von Dechend balançou a
cabeça com veemência e continuou:
- Bem, por mais engraçado que possa parecer, quando
Hapgood fez sua descoberta, por cortesia da Força Aérea dos
Estados Unidos, ele entrou em contato com Albert Einstein.
Deve ter pensado que se precisasse de endosso, por que não
obtê-lo do próprio pai da física moderna.
- Eisntein! Nossa! Hapgood realmente não estava para
brincadeiras! - Rutherford exclamou.
- Exatamente. E ele escolheu o homem certo. Einstein, como
todos os legítimos pensadores, sempre se mostrou receptivo
a novas idéias, mesmo que porventura não estivessem de
acordo com as leis científicas da época. Dê uma olhada nisto.
É um trecho da apresentação que Einstein escreveu para um
dos livros de Hapgood.
Von Dechend retirou mais um livro da estante, abriu-o na
página certa e o passou para os dois.

Eu quase sempre recebo correspondências de pessoas que
desejam me consultar sobre suas idéias não publicadas. Não
preciso dizer que essas idéias raramente têm validade
científica. Entretanto, a primeira correspondência que recebi
do sr. Hapgood deixou-me perplexo. Sua concepção é
original, muito simples e, se o que diz for realmente ver-
dade, de suma importância para tudo que está relacionado à
história da superfície da Terra...
A. Einstein

Catherine e James entreolharam-se. Von Dechend estava
sentado com as pernas abertas, recostado na cadeira, e tinha
os olhos ligeiramente fechados.
- Nosso professor Hapgood - ele prosseguiu - estava
interessado nos mapas Piri Reis porque pensava que o
ajudaria a provar sua teoria de deslocamento da crosta
terrestre. Ele acreditava que, de tempos em tempos, toda a
crosta da terra sofre deslocamentos. Vocês já ouviram falar
do deslocamento das placas tectônicas, não ouviram?
Ambos balançaram a cabeça em sinal de afirmação.
- Na região em que as placas se encontram, em geral há
grande atividade vulcânica - respondeu Catherine.
- Isso mesmo. A falha de San Andreas, que atravessa a
Califórnia, é um exemplo de uma das regiões em que duas
placas se encontram. Devido a ela, a Califórnia sofre
tremores de terra regularmente. Seja como for, Hapgood
acreditava que as placas individuais não só se chocavam e se
atritavam umas contra as outras, mas que às vezes todas as
placas se movimentavam ao mesmo tempo. Imagine a crosta
terrestre, a litosfera, como a casca de um ovo gigante. Em
determinados pontos a litosfera tem apenas 48 quilômetros
de espessura. Abaixo dela, há rocha derretida, metais e todo
tipo de gases e líquidos que saem pelas feridas. Ora,
teoricamente, não há razão para afirmar que Hapgood não
estava certo. O argumento apresentado por ele para afirmar
que a Antártica fora descongelada devia-se ao fato de que
estivera em um lugar completamente diferente, em torno de
30° para o norte. Interessante, não? E tem mais. Einstein
seguiu o mesmo raciocínio, pois acreditava que o mapa Piri
Reis era real. Contudo, nem Hapgood nem Einstein
tentaram explicar quem poderia ter estado lá por volta de
4.000 a.C., e sido capaz de fazer o verdadeiro mapeamento.
Isto permanece um mistério.
Catherine e Rutherford não tiraram os olhos dos mapas
enquanto o dr. Von Dechend examinava o restante deles.
Falando consigo mesmo, de um modo divertido e cheio de
entusiasmo, balançou a cabeça exibindo um ar de seriedade,
e recuou:
- Ele tem todos eles! - exclamou o professor de geografia em
sinal de surpresa.
- O que quer dizer com isto? - perguntou Catherine com
afobação.
- Kent conseguiu reunir cópias de todos os mapas mais
estranhos do mundo. Veja!
Com todo o entusiasmo, Von Dechend agora espalhava os
mapas sobre a mesa olhando-os um por vez.
- Aqui temos um mapa desenhado por Mercator, o maior
cartógrafo de todos os tempos, que também mostra a
Antártica como ela era antes de ficar coberta de gelo; ele
representa suas características geográficas com grande
precisão. E aqui temos o grande mapa Buache. Este é
particularmente inexplicável! Buache o publicou em 1737,
afirmando que usara muitos mapas antigos, que estão
desaparecidos desde aquela época. Na verdade, ele mostra a
Antártica livre de gelo como dois continentes divididos por
um canal de água. Mais uma vez, foi apenas no século XX
que se provou a veracidade deste fato, quando foi realizada
uma grande medição de terras.
Catherine e Rutherford olharam-se com perplexidade.
Estavam ambos intrigados, os mapas tinham sérias
implicações. Tal qual o mistério dos Dogon, que Catherine
descrevera horas antes, os mapas pareciam propor questões
para as quais não havia resposta. A diferença estava em que,
neste caso, não era apenas uma charada acadêmica. Este
conjunto impressionante de mapas era a única pista que
tinham para descobrir por que o professor estava morto.

11

Alguém bateu na porta e Von Dechend deu meia-volta. Uma
empregada, de origem filipina e compleição miúda, entrou
carregando uma bandeja na qual havia um bule grande de
chá, uma jarra de leite e três xícaras com os pires.
- Ah, Molly. Você nos trouxe chá. Ótimo!
Von Dechend interrompeu o que estava fazendo e
empurrou os mapas para um dos lados da escrivaninha. A
empregada deixou ali a bandeja e saiu.
- Lapsang souchong. Estão servidos? Catherine e James
balançaram a cabeça em sinal de afirmação, agradecendo
enquanto eram servidos pelo professor.
Tomando goles do chá e logo sentindo-se revigorado,
Rutherford sentiu que devia ao menos tentar fazer um
esforço em favor da visão convencional do que seja história.
- Mas não seria possível que essas terras tivessem sido
mapeadas por povos migrantes pré-históricos? Talvez,
enquanto viajavam pelo mundo, em 5.000 ou 6.000 a.C.,
tenham registrado o que viram - ele perguntou.
Von Dechend lançou-lhe um olhar malicioso.
- Sim. Consigo imaginá-los agora! Flutuando em seus barcos
feitos de pele de vaca, enquanto as ondas gigantescas do
Atlântico Sul os atingem. Posso vê-los procurando os
compassos, canetas e papéis. Céus, me esqueci!... Ainda não
tinham inventado caneta, papel e compasso. Bom, talvez
eles usassem cascas de árvore, conchas ou placas de pedra e
entalhassem nelas os mapas. Mas, ainda assim, diga-me,
como eles sabiam onde estavam? Digo, de acordo com a
versão contemporânea da história, estamos falando dos
povos primitivos da Idade da Pedra, que não tinham
nenhuma tecnologia, nem mesmo conhecimento. Como,
em meio a toda aquela enorme quantidade de água, eles
podiam saber onde estavam?
- Desculpe, mas não entendi.
- O que vocês dois sabem a respeito de latitude e longitude? -
perguntou Von Dechend.
- Não muito - Rutherford respondeu.
Catherine, cuja especialização em astronomia a tornava uma
entendida nesta área, não conseguia entender por que
estavam discutindo aquilo:
- Sei o que representam, mas não consigo entender que
relação tem isto com o que estamos falando.
- Bem, talvez você possa explicar os conceitos de latitude e
longitude ao nosso amigo aqui. Posso lhe garantir, é muito
importante que ele entenda.
Catherine olhou para cada um dos dois homens, expirou e
começou a falar:
- Vamos lá. Longitude e latitude são a rede de pesca
imaginária que cobre o planeta. Às linhas horizontais que
vão de leste a oeste chamamos latitude, e às verticais, de
norte a sul, longitude. Tudo bem até aqui?
- Sim. Eu as vi desenhadas nos mapas-múndi - disse
Rutherford, confiante.
- Agora, imagine que eu desejasse lhe dizer em que lugar do
mundo eu estava. Poderia lhe dar minhas coordenadas nessa
rede e você então conseguiria localizar minha posição exata.
- Faz sentido.
- Primeiro, seria necessário que tivéssemos um meridiano
principal. Um grau zero do qual pudéssemos fazer todas as
medições. Poderíamos fazer isto a partir de qualquer linha
longitudinal, à nossa escolha, que vá de norte a sul, contanto
que nós dois usemos a mesma linha. Acontece que, graças ã
Grã-Bretanha já ter um dia dominado os mares, a linha de
longitude que vai de norte a sul passando pelo Observatório
Real de Greenwich hoje em dia é considerado o grau zero.
Então, se estiver em Nova York estará a 74° a oeste de
Greenwich, e se estiver em Hong Kong, a 100° a leste de
Greenwich, e assim por diante. Tudo bem?
- Sim. Claro como água até agora - Rutherford sorriu para ela.
- Agora é que as coisas ficam mais complicadas. Não vou
tentar explicar por que, já que é muito complicado e não
temos tempo para isso, mas para definir sua longitude é
preciso saber como marcar o tempo no ponto de partida e
ter condições de marcá-lo durante todo o percurso, e é
necessário fazê-lo com muita precisão. Isto pode parecer
fácil, mas não é. Até o século XVIII, os melhores relógios
perdiam um minuto por hora, o que era desesperador,
porque até mesmo alguns minutos podiam confundir os
cálculos do capitão de um navio em dezenas de quilômetros,
fazendo-o perder o rumo. Imagine o quanto os navegantes
estariam distantes após alguns dias. O que dizer, então, após
alguns meses. Como a maior parte dos relógios era movida a
pêndulos, já se esperava não funcionassem muito bem em
alto-mar, sendo jogados de um lado para o outro, sem contar
as variações em sua velocidade devido às alterações de
temperatura e umidade. Ao longo de toda a história da
humanidade, os marinheiros sonharam com um aparelho
que marcasse o tempo e resolvesse esses problemas. Então,
finalmente, depois que duzentos marinheiros morreram em
um naufrágio cinematográfico, o Conselho da Longitude, um
departamento do governo britânico, ofereceu uma quantia
substancial, no valor de 20 mil libras esterlinas, a qualquer
um que conseguisse manter a precisão de 30 milhas náuticas
durante uma viagem de seis semanas às índias Ocidentais.
Um homem chamado John Harrison adiantou-se. Ele levou
quase 40 anos para, finalmente, e por acaso, chegar ao
projeto final do cronômetro. Entretanto, quando conseguiu
o que queria, ele o tinha quebrado - explicou Catherine.
- Impressionante. E quando foi que isto aconteceu?
- Por volta de 1760.
Catherine olhou para o dr. Von Dechend. Ele balançou a
cabeça em sinal de aprovação.
- Seja como for, creio que sei aonde o D. Von Dechend quer
chegar. Antes desta invenção, ninguém, nem os romanos,
nem os antigos chineses, nem os sumérios, nem qualquer
outra civilização...
- De que se tem notícia - ressaltou Von Dechend.
Catherine ergueu as sobrancelhas e continuou:
- De que se tem notícia, sabia determinar a longitude com
tanta precisão.
Von Dechend tomou um gole do chá e olhou para eles de
um jeito malicioso.
- Então, como é que se explica o fato de que acidentes
geográficos tão fielmente descritos pelos mapas de Kent
foram tão precisamente posicionados nas devidas latitudes e
longitudes?
Catherine uma vez mais teve a mesma sensação de medo.
"Ah, não! Chega de questionar a história que conhecemos."
Von Dechend, entretanto, se divertia com aquilo.
- Sim. Esta é uma ótima pergunta. Todos estes mapas
apontam a localização precisa das terras que descrevem.
Mesmo o mapa Zeno, desenhado por volta de 1380, mapeia
a Groenlândia e os mares da Islândia, e oferece a localização
exata de ilhotas, destacadas na cor castanho-avermelhado,
localizadas nos confins dos Mares do Ártico, nas longitudes e
latitudes exatas. Como se explica isto?
Agora, Von Dechend caminhava empertigado pela sala com
certo ar de inspiração causado pela contemplação dos antigos
cartógrafos.
- Você provavelmente já viu diversos mapas-múndi. Alguns
em que todos os países parecem muito longos e finos, outros
em que estão mais espalhados. Todos os mapas representam
uma esfera - ou parte de uma esfera - sobre um pedaço de
papel para mapas. Isto é muito difícil. Na verdade, é
impossível prescindir de um conhecimento complexo e
avançado de matemática, assim como de sofisticados
aparelhos de marcação de tempo que Catherine descreveu.
Quando estes mapas foram feitos, o que deve ter acontecido
após 14.000 a.C. e 4.000 a.C., a história convencional nos
diz que não havia civilizações cujo desenvolvimento
estivesse tão avançado a ponto de ser capazes de fazer algo
que exigisse tamanho grau de sofisticação. Hapgood desejava
esclarecer as coisas, e procurou o professor Strachan, no
Instituto de Tecnologia de Massachussetts - o professor
virou-se para os dois e os olhou com firmeza. - Strachan
declarou que a precisão e a eficácia dos mapas significavam
que eles só poderiam ter sido feitos por uma civilização
muito avançada, com conhecimento de trigonometria
esférica, e com instrumentos para a medição precisa da
longitude e da latitude. Portanto, de que outra maneira
podemos explicar o grau de perfeição e exatidão destes
mapas que chegaram até nós vindos da escuridão da pré-
história? A evidência é incontestável. Houve, em tempos
remotos, antes do surgimento de qualquer cultura
conhecida, uma civilização realmente avançada. Além disso,
independente do grau de desenvolvimento a que tenha
chegado, houve algum motivo para essa civilização ter
desaparecido.
Catherine ficou assombrada.
- Mas isto é impossível! Para começar, por que não há
vestígios, ruínas dessa civilização?
Von Dechend encolheu os ombros:
- Não sei. Tudo que posso fazer é explicar-lhes a verdade por
trás dos mapas. Sou um humilde geógrafo.
Todos se calaram, mas o professor interrompeu o silêncio:
- Imaginem que essa sociedade era tão avançada que não
precisava prospectar minas para obter metais ou fazer
perfurações para encontrar petróleo... Imaginem que ela
usava a energia eólica e a renovável da madeira. Imaginem se
ela decidisse, de maneira consciente, não prejudicar a Terra
como fazemos. Então, o que sobraria? Provavelmente, muito
pouco.
Catherine não sabia o que dizer.
"Tudo o que eu desejava era descobrir por que o professor
tinha estes mapas, e acabei topando com alguma coisa
completamente estranha e aterrorizante." Ela precisava de
pelo menos uma resposta de caráter prático.
"Mas, para começar, por que o professor Kent tinha estes
mapas? Isto é um grande mistério, um mistério para o qual
não consigo encontrar nenhuma explicação."

12

Segurando com firmeza o envelope contendo os mapas,
Catherine desceu as escadas que levavam ao alojamento do
dr. Von Dechend, saindo no ensolarado quadrilátero
principal. Jamais sentira tamanho pavor. Seu mundo parecia
estar desmoronando. Rutherford a acompanhava, ainda
confuso com tudo o que tinham ouvido. A explicação que o
dr. Von Dechend dera para os mapas o deixara muito
perturbado, e não conseguia parar de pensar no bilhete que o
professor Kent lhe escrevera.
Parecia-lhe que a única conclusão plausível era a de que os
mapas tinham relação direta com o que escrevera.
Se realmente havia um recado sendo enviado de um tempo
remoto, então a conclusão lógica a se chegar era a de que
realmente houvera, num passado muito distante, anterior à
história de que se tem notícia, uma grande civilização. E os
mapas davam a impressão de ser a prova da existência dessa
civilização que desaparecera nas areias do tempo. "Talvez o
professor realmente tivesse descoberto um alerta, viajando
pela história, desse povo hiper-civilizado aos filhos do futuro
de que eles também estavam fadados ao mesmo destino
terrível", pensou Ruhterford. Mas tudo aquilo parecia tão
estranho...
Catherine soltou um suspiro profundo, não sabia o que fazer.
Ainda não decidira se era uma boa idéia contar a Rutherford
que o professor estava certo de que corria perigo. Isto não
significava que não confiasse em James, mas, sim, que não
tinha coragem de enfrentar as conseqüências. Se lhe
mostrasse o bilhete e lhe contasse as suspeitas que tinha; na
verdade, se contasse a qualquer outra pessoa, a partir de
então seria impossível voltar atrás.
Em um tom quase desesperado, ela começou a falar:
- James, tenho mais uma pergunta estranha para lhe fazer.
Você é um classicista, pode me dizer o que sabe sobre a
palavra "eureka"?
Rutherford ficou surpreso. "Catherine está me escondendo
alguma coisa sobre o que está acontecendo."
Mas, mesmo assim, ele queria ajudá-la, e deu-lhe um sorriso
receptivo.
- Eureka? Bom, acho que não adianta perguntar por que você
quer saber isso.
- Não. Mas confie em mim. É importante.
Rutherford riu e balançou a cabeça, enquanto Catherine
prosseguia:
- Tudo que sei é que foi Arquimedes quem a disse pela
primeira vez. Ele sentou-se em sua banheira e, de repente,
se deu conta de como a massa corporal de um homem
desloca a mesma quantidade de líquido.
Ele então gritou "eureka", que significa "consegui", pulou
fora da banheira e correu nu pelas ruas pulando de alegria.
Rutherford voltou-se para ela pensativo:
- Creio que você acaba de me contar a versão plagiada do que
aconteceu.
- O que você quer dizer?
- Bem, não foi Arquimedes quem disse "eureka" pela
primeira vez, foi Pitágoras, ao descobrir a relação entre o
quadrado da hipotenusa de um triângulo retângulo e a soma
dos outros dois lados. A versão de Arquimedes em sua
banheira como protagonista é uma invenção posterior à de
Pitágoras, e muito apreciada pelos catedráticos.
- Como você sabe que foi Pitágoras e não Arquimedes?
- Gritar "eureka" só faz sentido se dito por Pitágoras, porque
ele tinha senso de humor!
Catherine estava confusa. "O que senso de humor tem a ver
com isso?"
- O que você quer dizer com isto?
- Pitágoras tinha interesse na gematria, o desvendamento de
mensagens secretas.
"Gematria?", pensou Catherine, refletindo sobre a palavra.
Ela jamais ouvira falar naquilo.
- Como é possível haver uma mensagem secreta em uma
única palavra? A mensagem deve ser muito curta.
- Sim, neste caso é. Na verdade, mais parece um trocadilho.
Deixe-me explicar. Mas vou precisar de papel e caneta.
- Certo. Mas se não se importar, gostaria muito de sair daqui.
Estou começando a ficar meio claustrofóbica - respondeu
Catherine. - Podemos ir à sua casa?
Rutherford parou de andar e, ao encontrar os olhos
profundos e sinceros de Catherine, alguma coisa lhe disse
que a explicação que lhe daria tinha realmente muita
importância. Ele assentiu com a cabeça, decidido a atender
seu pedido.

13

Um homem alto, esbelto, com seus quarenta e poucos anos,
usando chapéu de feltro preto e um sobretudo de cashmere
azul-escuro sobre um terno cinza, encontrava-se de pé no
alojamento do All Souls, praticamente envolto na escuridão.
Seu nome era Ivan Bezumov. Estava ali, em pé, fazia meia
hora, mal se movendo, quase sem respirar, esperando, com a
paciência de uma ave de rapina, os olhos perscrutando cada
pessoa que atravessava o quadrilátero.
Quando Catherine e Rutherford caminharam em sua
direção, Bezumov esforçou-se para ouvir o que diziam.
"Finalmente! É ela. Não posso falhar. Ela é a única ligação
com a pesquisa do professor."
Quando estavam a mais ou menos cinco metros de distância,
Bezumov inspirou e ingressou no quadrilátero. Tentando
aparentar tranqüilidade e amabilidade, deu um largo sorriso e
tirou o chapéu.
- Olá! Sou Ivan Bezumov. Você deve ser Catherine
Donovan.
Ignorando completamente a presença de Rutherford,
Bezumov cumprimentou Catherine com um caloroso aperto
de mão e prosseguiu:
- O professor falava muito de você.
O sotaque russo de Bezumov era inconfundível. Catherine
parecia confusa. Rutherford deu um passo firme à frente e
estendeu a mão.
- James Rutherford.
- Ah, sim. Pois não - Bezumov virou-se para Catherine: - Eu
era colega do falecido professor. O que aconteceu foi uma
tragédia, e devo dizer-lhe que sinto muito - ele acrescentou.
- Estava esperando por você no alojamento. Imaginei que
acabaria aparecendo. Entendo que o momento não é
oportuno, mas é importante que nos falemos. Posso
convidá-la para um chá?
"Quem é este homem estranho?", pensou Catherine. "É
óbvio que o que tem a fazer não é tão importante que não
possa ser deixado para depois do funeral do professor Kent.
Não parece muito adequado à ocasião que ele apareça aqui
dessa maneira pedindo para falar comigo."
- Creio que tenha razão, senhor Bezumov, esta não é mesmo
uma boa hora. Mas talvez daqui a mais ou menos uma
semana? O senhor ficará em Oxford por pouco tempo?
Bezumov começou a ficar muito ansioso. Vasculhou
abruptamente o bolso do casaco de cashmere. Em resposta
àquela atitude, Catherine e Rutherford se afastaram.
- Aqui está. Esta é uma carta de apresentação do professor.
O estranho aproximou o papel para perto do rosto de
Catherine. Nele, escrito em tinta verde, havia um bilhete
com a caligrafia do professor. Sem tirá-lo da mão de
Bezumov, ela o leu desconfiada.

Querida Catherine,
Meu colega Ivan Bezumov está chegando a Oxford, vindo de
São Petersburgo. Temos trabalhado juntos em um projeto
nos últimos tempos. Por favor, preste-lhe todo o auxílio que
puder enquanto ele estiver em Oxford e forneça-lhe o que
ele precisar.
Obrigado,
Kent

"Isto é estranho", Catherine pensou. "É tão esquisito e
formal, muito diferente do jeito de o professor se expressar."
Antes que ela conseguisse entender tudo aquilo, o russo
recomeçou a falar:
- Dra. Donovan, estive pensando se já esteve no alojamento
do professor após seu falecimento? Sabe, eu e o professor
estávamos desenvolvendo um trabalho muito importante
antes de ele morrer.
Bezumov olhou para baixo na direção do envelope com os
mapas que Catherine carregava na mão esquerda.
- Eu gostaria de saber se poderia reaver umas anotações
importantes.
Movida por um impulso, Catherine aproximou o envelope
do corpo. Bezumov percebeu sua reação e, enquanto
continuava a falar, não pôde evitar olhar na direção do
documento.
- Eu repito. Sinto muito importuná-la em um momento
como este, mas ele deixou alguma coisa? Documentos ou
anotações? Quem sabe, uma pasta?
Os lábios de Bezumov entreabriram-se novamente,
esboçando um sorriso leve e suplicante. Seu olhar agora
fixava-se no pacote que Catherine carregava. Ela começava a
achar o comportamento do homem extremamente
assustador, pensando no bilhete que Bezumov produzira.
"O professor nunca se referiu a ele mesmo como Kent para
mim. Ele estava", ela sentiu um nó na garganta, "sendo
forçado a escrevê-lo? Foi ele mesmo quem o escreveu?".
Após os acontecimentos estranhos da manhã, Catherine não
ficaria surpresa se Bezumov o tivesse falsificado. Sua cabeça
rodava e, de repente, sentiu-se muito cansada e enjoada.
- Olhe, por que não procura o diretor? Estou certa de que ele
terá satisfação em ajudá-lo. Terei prazer em falar com o
senhor dentro de alguns dias.
Quando Catherine olhou ao redor do quadrilátero,
procurando uma saída, ficou espantada ao ver o diretor
observando-os da janela da biblioteca. Mas, antes que
pudesse processar o fato, ele já desaparecera.
Bezumov estava ficando desesperado.
- Dra. Donovan, por favor, permita-me ser honesto com a
senhora. Preciso dos documentos. É mais importante do que
a senhora pode imaginar. Preciso muito de sua ajuda.
Rutherford deu um passo à frente novamente, interpondo
sua estrutura atlética entre Bezumov e Catherine.
- Senhor Bezumov, a dra. Donovan não sabe nada a respeito
dos documentos a que o senhor se refere. Sugiro que faça o
que ela lhe disse e fale com o diretor. E creio que seria
melhor se demonstrasse um pouco mais de compaixão pelas
pessoas que ainda estão sofrendo com a perda de um ente
querido.
Assim falando, Rutherford começou a afastar Catherine do
frenético russo. Numa última tentativa, Bezumov procurou
no bolso do casaco e puxou um cartão.
- Espere! Desculpe-me - ele pegou uma caneta-tinteiro e,
tirando a tampa, escreveu no cartão. - Este é o número de
meu celular. Telefone-me. Poderei ajudar. Dra. Donovan,
por favor, se tiver os documentos, guarde-os bem. Outros
poderão vir atrás deles; é possível que não sejam tão
educados quanto eu, mas virão.
Catherine pegou o cartão enquanto seguia em frente. Ela o
pôs no bolso e, sem olhar para Bezumov, com Rutherford
esgueirou-se pela porta baixa do alojamento, saindo na High
Street. Bezumov observou-os sair com um olhar de pura
angústia, apertando a aba do chapéu. Teria de encontrar
outro modo para se aproximar de Catherine.

14

Quando o senador Kurtz saiu do elevador e cruzou
rapidamente o saguão de mármore em direção à entrada do
edifício das Nações Unidas, olhou, por cima do ombro, para
o secretário Miller.
- Gostou do discurso, secretário?
- Sim, senador, perfeitamente adequado à situação. Mas, se
me permite uma pergunta, foi bom anunciar os detalhes do
plano antes de o colocarmos em prática? Hoje ainda é terça
de manhã. Podemos confiar em todos os delegados
estrangeiros? Ainda faltam seis dias para a manhã da próxima
segunda-feira.
O senador riu em tom de troça.
- Isso não tem a menor importância. Ninguém pode fazer
nada para nos deter, ainda que eu lhes contasse toda a
verdade.
O secretário engoliu seco. O senador sorria com um ar de
mistério, e parou diante das grandes portas de vidro
localizadas na entrada anterior, virando-se para encará-lo
como se quisesse reforçar seu ponto de vista, enquanto o
fluxo constante de pessoas entrando e saindo pelas portas
passavam pelos dois lados deles.
- Sua tarefa agora é inteirar os delegados de suas obrigações
individuais e coordenar suas ações - o senador parou de falar
e, com os olhos apertados, continuou: - Seja muito
cauteloso. O momento está chegando - ele olhou pela porta
de vidro tentando enxergar o tumulto da cidade. -
Voltaremos a nos encontrar no Cairo, no domingo à tarde,
mas nos falaremos antes disso. Por enquanto, certifique-se
de que não há repercussões das descobertas do professor.
Dito isto, virou-se e, acompanhado de seus seguranças,
sumiu pela porta, confundindo-se com as pessoas e os ruídos
do dia. O secretário o acompanhou com hesitação,
acompanhando-o pelas portas, sem saber o que dizer.
Quando a limusine parou, o senador olhou para o céu e
sorriu:
- O fim está próximo, secretário. Aconselho-o a preparar seu
espírito.
O secretário Miller observou a cena num silêncio
atordoante, enquanto o senador entrava na parte de trás da
limusine que o aguardava. O carro partiu no tráfego da Praça
das Nações Unidas e, enquanto o via desaparecer, o
secretário sentiu um mal-estar surgindo no estômago. Os
pensamentos do professor morto o assombravam. Que
ameaças poderiam representar um velho e alguns mapas? E
por que o senador o aconselhara a preparar seu espírito?
Aquelas eram palavras estranhas para a cabeça da mais
poderosa irmandade secular. Estranhas e completamente
impróprias. Quem realmente era o senador? As coisas não se
encaixavam, nada fazia sentido.
A única coisa ainda certa era que, dentro de seis dias, na
segunda-feira à tarde, o mundo sofreria mudanças
irreversíveis e, pelo menos ele, pretendia ficar do lado
vitorioso.

15

Rutherford abriu a porta de seu apartamento e convidou
Catherine:
- Por favor, entre.
- Obrigada. Seu apartamento é uma graça - Catherine elogiou,
com o pensamento longe, tentando recorrer às amenidades
sociais. - Nossa, você tem ainda mais livros que eu!
- Sabe como é... Acredito que quanto mais livros você tem,
mais intimidados ficam os alunos! Posso servir-lhe alguma
coisa?
- Ahn... Um copo de água seria ótimo, obrigada.
Rutherford foi em direção à cozinha, enquanto Catherine
acomodava-se no sofá maior, olhando para as fileiras de
livros ao redor da sala, metade dos quais parecia ter sido
escrita em grego e latim, além de outras línguas antigas.
Pegou uma coletânea dos versos traduzidos de Catulo, e o
folheava, na verdade sem ler as palavras, quando Rutherford
retornou à sala. Ele sentou-se ao seu lado e pôs o copo com
água, a caneta e o papel sobre a mesa à frente dos dois.
- Onde é que eu estava? Gematria. Humm... - Rutherford
coçou a cabeça, parou para pensar durante alguns instantes e
começou a falar com muita franqueza: - Em muitos aspectos,
a gematria é semelhante a um jogo. Mas também é mais do
que isto, é muito séria. Correspondia a um código secreto
usado pelos videntes do mundo antigo, que a consideravam
dotada de propriedades mágicas. Mas, primeiro, antes de
tratarmos do aspecto místico da gematria, deixe-me explicar-
lhe suas bases literárias. Os filósofos do mundo antigo
entendiam o conhecimento partilhado entre as disciplinas
como fazemos, porque pensavam que, no fundo, todas elas
estavam interligadas por uma fórmula secreta na qual está
baseado todo o universo. Eles teriam ficado horrorizados
com o modo de ensinarmos as matérias em conteúdos
estanques, porque pensavam que um dos principais objetivos
da educação era demonstrar a unidade do conhecimento.
Observando a natureza, eles notaram que determinados
números continuavam a subir sem parar; nas notas da escala
musical e no movimento dos planetas, o mesmo punhado de
números e de fórmulas fortalecendo os alicerces de tudo.
Descobrindo quais números e fórmulas eram críticos, as leis
do cosmos podiam ser extraídas e em seguida comunicadas
de maneira clara e simples. Entretanto, era comum esses
números e proporções, que expressam o funcionamento
oculto do universo, estarem escondidos em linguagens
escritas. Cada letra do alfabeto grego antigo, bem como dos
alfabetos hebraico e árabe, tem seu valor numérico.
Histórias, poemas e textos religiosos eram todos compostos
usando letras e palavras de valores específicos. Por isto, o
que parece uma simples história é, de fato, também uma
espécie de receptáculo do conhecimento mais profundo das
fórmulas que explicam a natureza do universo.
Catherine ouviu tudo aquilo fascinada.
- Então, quer dizer que há livros antigos contendo
mensagens secretas disfarçadas nas próprias palavras de suas
histórias? - ela perguntou.
- Sim, exatamente. E isto mesmo o que eu quis dizer.
- Por acaso eu conheço algum desses livros? Você pode me
dar um exemplo?
Rutherford não conseguiu conter o riso.
- Já ouviu falar da Bíblia?
- A Bíblia! Verdade?
- Sem dúvida. A Bíblia foi originalmente escrita em grego.
Muitas pessoas não percebem isso, mas passagens inteiras são
construídas usando a gematria, tornando possível àqueles
que entendem o que se passa a obtenção de um estalo para
desvendar a verdadeira mensagem por trás da história. Por
exemplo, este é definitivamente o caso dos escritores dos
evangelhos, que escolheram os nomes das personagens e
frases-chave de modo que os valores numéricos gemátricos
tivessem um significado específico. Eles estavam
transmitindo conhecimento por meio de código.
- Você então está me dizendo que a história da vida, morte e
ressurreição de Jesus não é apenas isto?
- Bem... Isto seria simplificar muito as coisas. Mas, sim, é isto.
Catherine mal podia acreditar no que ouvira.
- Mas se isto é realmente verdade, então a Bíblia estaria cheia
de palavras que têm significados mais profundos.
- E é verdade. Deixe-me lhe dar alguns exemplos. Contudo,
voltemos antes ao exemplo que deu origem a esta discussão.
A exclamação "eureka", ou "eureka", feita por Pitágoras em
grego. Ela realmente se refere aos lados do triângulo
retângulo cinco, três e quatro, que ele usou para provar seu
teorema.
Rutherford desenhou com destreza o alfabeto grego sobre o
papel, com um número abaixo de cada letra.

? ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? µ
?
1 2 3 4 5 7 8 9 10 20 30 40
50
? o ? ? ? ? ? ? ? ? ? ?
60 70 80 90 100 200 300 400 500 600
700 800

- Se você usar os valores numéricos das letras que acabei de
escrever e somá-los, então encontrará a palavra "??????", ou
seja, 534. Coincidência? Acho que não.
Rutherford sorriu para Catherine quando viu o olhar de
espanto em seu rosto.
- Entendeu? Pitágoras queria apenas demonstrar o
conhecimento que tinha de um modo memorável, além de
também criar um trocadilho! Isto representa muito bem o
modo de pensar daquela época. Toda a história do mundo
seria muito diferente se as pessoas parassem de tentar
entender os mitos e as religiões ao pé da letra e, em vez
disso, encontrar os significados ocultos - Rutherford
rabiscava o papel furiosamente enquanto falava. - Este é um
bom exemplo: Jesus "???o??" 888 mais Mary "M????µ" 192
= o espírito santo "?O ??µ? A??o?" 1.080, que corresponde
também ao raio da lua em quilômetros. Claro, não há
nenhuma coincidência nisto. A lua ressuscita a cada sete dias
e é, portanto, o símbolo perfeito da ressurreição. Do mesmo
modo, Maria também é simbolizada pela lua e pelo
renascimento. Ou, então, pegue agora 1.746: é o número da
assinatura do Novo Testamento. Ninguém sabe por que, mas
os evangelhos estão infestados de frases-chave que somam
este valor. Por exemplo, uma grão da semente de mostarda
"????O? ???????", ou o tesouro de Jesus "o ??????o?". Eu
poderia continuar com os exemplos indefinidamente.
O corpo de Catherine formigava de entusiasmo:
- Então, você quer dizer que a história da Bíblia foi criada
para se ajustar aos números?
- Claro que não! - ele respondeu. - Eu mesmo sou um
freqüentador assíduo da capela da faculdade. Os evangelhos
estão cheios de sabedoria divina, se assim permitirmos que
expressem seus ensinamentos de amor e paz. O que quero
dizer é o seguinte: é bem possível que os evangelistas
tenham escolhido os nomes das personagens centrais, bem
como certas frases, para que se encaixassem no esquema
gemátrico. Assim, eles também estão passando outras
mensagens sobre a natureza do universo e os sistemas
numéricos que o governam.
- Mas por que esconder essas mensagens?
- Bem, partindo do pressuposto de que nossos ancestrais
eram muito inteligentes, e devem mesmo ter sido, então
previram que, com o passar dos anos, determinados
seguidores super zelosos das idéias de Jesus poderiam
realmente perder a verdade de vista. Então, tomaram o
cuidado de enterrá-la no próprio texto de maneira que a
verdadeira mensagem pudesse sobreviver, ainda que oculta.
A cabeça de Catherine rodava. Ela olhava para aquelas listas
estranhas de números e de palavras, todas escritas com a
caligrafia caprichada de James.
Não havia, contudo, tempo para pensar nas implicações dos
comentários de Rutherford naquele momento, algo lhe dizia
que não havia tempo a perder.
Estava certa de uma coisa: a gematria era a chave que
precisava para desvendar a estranha e enigmática mensagem
do professor Kent.

16

Catherine inspirou como se acabasse de tomar uma decisão,
e virou-se para olhar diretamente nos olhos de Rutherford.
- James, quero lhe mostrar uma coisa muito importante. É a
razão de eu ter pedido sua ajuda - ela tirou o bilhete da bolsa
e o pôs sobre a mesa. - Algo terrível está para acontecer.
Conheço o professor Kent desde menina. Meus pais eram
acadêmicos em Yale, e ele era um grande amigo, como se
fosse um membro da família. Nós dois éramos muito
próximos. James, o diretor me disse que a polícia acredita na
hipótese de suicídio. Mas o professor não tinha nada de
suicida. Tal atitude, para ele, era um anátema. Depois,
quando abri o envelope com os mapas, encontrei este outro
bilhete. Veja.


Caso eu não volte.
Eureka
40 10 4 400 30 9 30 70 100 5 200 3010 40 1 80 5
100 400 40 10 50 10 200 300 100 8 70 9 1 50 300 10
20 800 10 300 10 200 0051172543672

- Estou lhe contando tudo isso porque é óbvio que ele
confiava em você, assim como eu.
Ao ler o bilhete, passou pela cabeça de Rutherford que
finalmente entendera o interesse de Catherine na gematria.
Mas não conseguia tirar os olhos da primeira frase. "Caso eu
não volte."
Ele engoliu seco. Não tinha muita certeza se queria se
envolver naquilo. O que alguns momentos atrás parecera
uma aventura intelectual instigante, de repente se
transformara em algo sinistro e assustador.
As descobertas, o convite do professor, os estranhos mapas
e, agora, este bilhete enigmático que sugere, com toda
clareza, que ele acreditava estar em perigo. Catherine precisa
de ajuda, e me procurou. Talvez o professor estivesse
envolvido em alguma coisa, algo muito importante para a
humanidade. Mas isto é ruim, muito ruim."
Quando fixou os olhos no bilhete, voltando os pensamentos
para os acontecimentos ocorridos pela manhã, Rutherford
percebeu o que Catherine também pensava. Sem nem
mesmo lhe dizer uma palavra, pôs o código gemátrico sobre
a mesa ao lado do bilhete e recapitulou os números contidos
na mensagem do professor Kent por meio da seqüência
reversa.
Assim que cotejou os primeiros números com a tabela de
conversão, ambos sabiam que seus instintos estavam certos.
O código produziu um nome: Miguel Flores.
Tomada de entusiasmo, Catherine agarrou um lápis e
traduziu o resto dos números em palavras.
Miguel Flores Lima Peru Ministério do Patrimônio Histórico
0051172543672
Rutherford observava tudo, cada vez mais assombrado.
"Meu Deus, tudo se encaixa. O professor está se
comunicando conosco de além-túmulo."
Catherine endireitou-se e soltou o ar, olhando para a frente,
com o pensamento longe.
- Mas o que é que isto quer dizer? E por que o final do código
não tem tradução? Parece não fazer sentido algum.
Rutherford respondeu, exibindo uma expressão de medo
mortal,
- E um número de telefone... no Peru... Creio que devemos
ligar.

17

Ambos olharam para o telefone sobre a escrivaninha.
Rutherford ligou o viva-voz e discou. Ambos prenderam a
respiração e prestaram atenção nos toques de chamada.
Então, houve um estalo, como de uma conexão sendo feita a
milhares de quilômetros dali.
- Hola. Buenos dias.
- Hola! Habla inglês?
- Sim, eu falo inglês. Quem é?
- Bom dia, Señor Flores. Meu nome é dra. Catherine
Donovan, falo de Oxford, Inglaterra. Estou aqui com meu
colega, James Rutherford. Perdoe-me por lhe telefonar sem
avisar. Gostaria de conversar com o senhor sobre o professor
Kent.
Houve uma longa pausa, e então a voz respondeu num tom
de profunda suspeita:
- Quem lhe deu meu número?
- Ahn... Nós o encontramos. Somos amigos do professor
Kent.
- O que é que está acontecendo? Quem é você? Onde está o
professor Kent?
Rutherford e Catherine se entreolharam, chocados. Sem
saber o que mais podia dizer, Catherine prosseguiu:
- Señor Flores, o professor Kent está morto.
Houve um silêncio terrível.
- Señor Flores, por favor, ajude-nos. Precisamos falar com o
senhor sobre o professor. O senhor estava desenvolvendo
algum trabalho com ele?
Não houve resposta.
- Senñr Flores, o senhor está aí?
- Você disse que seu nome é Catherine? - o homem
respondeu com uma pergunta.
- Sim, é isto mesmo.
- Meu Deus, o professor disse que talvez você telefonasse...
Houve outra pausa e em seguida o peruano falou, mas tanto
Catherine quanto Rutherford ouviam-se com clareza os
sinais de medo em sua voz.
- Não é aconselhável conversarmos por telefone. Isto tem
relação com coisas muito perigosas. Nosso trabalho não está
concluído.
- Podemos encontrá-lo?
- Venha para Lima. Telefone-me quando chegar aqui. Por
favor, não diga meu nome a mais ninguém.
E, então, ouviu-se um estalo, e a ligação caiu.
Rutherford olhou para Catherine:
- Isto foi muito, muito estranho.
- Ele parecia estar com tanto medo... Quanto mais o tempo
passa, mais assustadoras as coisas ficam - Catherine balançou
a cabeça, sua voz soava trêmula, mas parecia determinada. -
Bem, há apenas uma coisa a fazer. Se Flores se recusa a
conversar por telefone, temos de ir até lá e nos encontrar
pessoalmente com ele. Você vem comigo?
Rutherford, com o cenho franzido, olhou para trás. No
espaço de apenas 12 horas, ele tinha a impressão de que
conhecia Catherine há anos. Sentiu uma onda de afeição ao
contemplar-lhe o rosto cheio de preocupação, mas que o
olhava com tranqüilidade.
- Irei de qualquer jeito - ela continuou. - E irei só, caso tenha
de ser assim. Entendo que não queira se envolver. Você
provavelmente tinha outros planos para as férias.
Naquele momento, James somente pensava que no mundo
real ele era um catedrático com muito trabalho a fazer. "Mas
Catherine precisa de ajuda. Não posso deixá-la partir sozinha.
E se ela tiver coragem suficiente, não poderei simplesmente
fugir." Ele rangeu os dentes.
- Quando partimos? - Rutherford perguntou, quase não
acreditando no que dizia. - Fico imaginando como seria
passar umas férias na América do Sul. Tenho trabalhado
tanto ultimamente, já há dois anos não saio do país.
O rosto de Catherine se iluminou com um grande sorriso.
- Deixe-me acessar a internet e lhe darei a resposta em um
minuto. Faça as malas, soldado!

18

Nas profundezas das entranhas do edifício da ONU, o
secretário Miller retornava às pressas ao salão onde acontecia
a reunião da Assembléia Geral. Quando se aproximava das
portas, ouviu um homem bem vestido chamá-lo da outra
extremidade do corredor.
- Senhor, querem lhe falar ao telefone com urgência.
O secretário deu meia-volta e seguiu o jovem até um
escritório amplo com muitas escrivaninhas e terminais de
computador desocupados. Em uma das paredes havia quatro
telas de plasma gigantes, o que levava à óbvia conclusão de
que seriam usadas para teleconferências, e na parede oposta
havia um enorme mapa-múndi. Acima da porção superior
do mapa lia-se, inscritas em um brasão, as seguintes palavras:

QG DE APOIO ÀS COMUNICAÇÕES INTERNACIONAIS
DAS NAÇÕES UNIDAS

Em um dos cantos havia uma sala cujas paredes eram
revestidas de espelhos, onde se via uma grande mesa de
reuniões. O secretário Miller caminhou às pressas em
direção à sala e, fechando a porta atrás de si, foi até a mesa e
apanhou o telefone. O assistente rapidamente transferiu a
ligação. Com impaciência, o secretário atendeu com uma
voz rude:
- Sim?
- Desculpe-me pelo incômodo, secretário. Só o faço porque o
senhor me instruiu a lhe telefonar caso houvesse qualquer
suspeita, por mínima que fosse - do outro lado da linha
falava o diretor de Ali Souls.
Percebia-se que o secretário começava a ficar irritado.
- Prossiga. Vamos logo com isso.
- O professor tinha uma amiga. Uma amiga íntima. Ela
também é um membro do corpo docente da faculdade.
-E?
- Algo me diz que ela suspeita de alguma coisa.
- As pessoas sempre suspeitam de alguma coisa. Ela tem
alguma prova?
- Não posso afirmar ainda. Mas um de seus agentes acaba de
me informar que ela fez reservas para si e para um
acompanhante em um vôo para o Peru. Pode ser que apenas
esteja indo para trasladar o corpo do acadêmico, ou falar com
a polícia. Ela estava muito preocupada. Apenas julguei que
devia lhe comunicar o ocorrido.
Houve uma longa interrupção na conversa. O secretário
olhou fixamente para um mapa-múndi que adornava a
parede. Ele tinha tantas coisas para fazer, tantas coisas para
preparar. Os assuntos triviais e enfadonhos desses
acadêmicos começavam a incomodá-lo. Mas não conseguia
esquecer as palavras do senador Kurtz: "Não há nada mais
perigoso para nossa causa do que iniciativas particulares".
O rosto do secretário crispou-se de aflição. Esfregou a testa
com a mão que estava livre e fixou o olhar na parte do mapa
que retratava a América do Sul. Como é que alguém seria
capaz, sem levar em conta o grau de comprometimento com
uma causa, de destruir os planos do Conselho para instituir a
nova ordem mundial?
Embora a confiança de Miller em Kurtz fosse cada vez
menor, ainda assim curvava-se à sua sabedoria. Suspirando
com impaciência, voltou a atenção para o telefonema.
- Teremos de lidar com essas ovelhas desgarradas no Peru.
Não pode haver erros. Não a percam de vista até que ela
entre no avião. E mantenha um registro de todos com quem
ela conversar. Entre em contato comigo se algo mais chamar
sua atenção.
- Sem dúvida, secretário - o diretor respondeu, mas seu
interlocutor já desligara.
O secretário tinha outras preocupações além do destino dos
acadêmicos. Quanto mais pensava no que o senador lhe
dissera quando deixavam o prédio, mais desconfiado ficava.
O que aconteceria na segunda-feira?
A tomada do poder seria violenta e sangrenta. Infelizmente,
isto seria inevitável. Mas o objetivo não era causar o fim do
mundo. Longe disto. Mas representar o início de novos
tempos. As antigas formas de governo, corruptas e
demagógicas, chegariam ao fim, e o domínio direto da
Corporação prevaleceria. Pelo menos sempre fora este o
plano.
Algo ia muito mal, e ele tinha de tomar uma decisão. Será
que o senador Kurtz estava agindo sozinho? Será que deveria
tentar entrar em contato com o Conselho sem o
conhecimento do senador? Não.
Isto seria burrice, ele não viveria até o final do dia, muito
menos até a próxima segunda-feira.
Não havia, entretanto, nenhum outro caminho. Mas, em sua
conversa com o senador, não fora totalmente verdadeiro...
Pouco a pouco, o secretário Miller tirou os olhos da
escrivaninha e os voltou para o canto da sala onde havia um
belo armário de madeira; atrás daquelas portas trancadas
estava seu atarracado e feio cofre pessoal. "Não, ainda não",
ele pensou. Era muito arriscado. Teria de ser seu último
recurso. Primeiro ele deveria tentar descobrir mais coisas
sobre o senador, tentar descobrir qual era sua verdadeira
motivação.

19

Tão logo o avião cortou as nuvens sobrevoando o Peru,
Catherine acordou. Por alguns instantes, o ronco dos
motores a deixaram um pouco atordoada, fazendo-a virar a
cabeça para um lado e outro, meio sonolenta, tentando
entender onde estava. Logo em seguida reconheceu as vozes
dos alegres mochileiros ingleses sentados na fileira de trás e,
em razão da descarga de adrenalina, voltou à plena
consciência. Houve um estalo na cabine de
intercomunicação e a voz do capitão soou no ar, avisando
que a aeronave sofrerá um ligeiro desvio em sua rota para o
sul a fim de evitar uma turbulência ao norte do Peru, mas
agora viajavam neste rumo novamente, a mais ou menos 48
quilômetros da costa, e aterrissariam em menos de uma hora.
Catherine voltou a fechar os olhos e respirou lentamente.
Ela sonhara com o professor Kent, e tentava desviar sua
atenção do ruído da aeronave e dos passageiros para que
pudesse relembrar o sonho antes que desaparecesse para
sempre da memória.
No sonho, ela estava de volta à fazenda do professor. Eles
estavam sentados juntos na cozinha, conversando e rindo
como sempre faziam.
Ele ainda vestia calças salpicadas de lama e um par de
galochas; era seu uniforme quando estava em sua casa de
campo.
Ela fora até lá para o almoço costumeiro de toda semana. O
cheiro de frango assado vinha do forno, e ele acabara de
abrir uma garrafa de vinho tinto, colocando-a sobre a sólida
mesa de carvalho, preparando tudo para o banquete. Aquela
manhã, ele parecia mais inspirado do que o normal e, como
sempre, Catherine apreciava estar em sua companhia. Para
ela, um dos maiores prazeres daquela amizade era que a cada
encontro sempre aprendia alguma coisa. Ela jamais tinha a
sensação de que ele fazia uma preleção, mas, ao contrário,
demonstrava estar vivo e comprometido com o mundo ao
seu redor.
No sonho, ela retomava uma conversa que haviam tido uma
vez sobre as ferramentas que economizam tempo no
trabalho. O professor, com o talento que tinha, lhe explicara
o verdadeiro significado desses avanços tecnológicos:
- Platão, o pai da tradição ocidental, disse que a mão é um
organon, que em inglês significa instrumento. Designar a
mão de organon é simplesmente denominá-la um
instrumento do proprietário. Platão dizia que a mão é um
organon, o martelo é um organon, e a mão que usa o martelo
é um organon. Entretanto, o espremedor de suco que
encontramos em muitas cozinhas hoje em dia é algo muito
mais sinistro. Ele dá a impressão de ser um organon, mas na
realidade, ele é uma das muitas manifestações do gigante
sistema que está devorando nosso mundo.
Catherine fingiu não acreditar no que ouvia porque às vezes
gostava de fazer o papel de advogado do diabo.
- Ora! Com toda certeza isto é apenas um instrumento
inofensivo para tornar mais rápida uma tarefa enfadonha,
para ganhar tempo nos afazeres diários. E o resultado final é
um suco saudável. Não acha que devemos comprar
espremedores de suco?
Ele lhe sorriu, gostava que ela com ele debatesse qualquer
coisa. O professor tinha um modo gentil de discordar, mas
não se importava de ser forçado a fazer valer seu ponto de
vista. Gostava de convencer as pessoas, ou pelo menos
tentar, com seus argumentos bem fundamentados, sempre
concentrado na visão holística do mundo da qual ele nunca
se afastava.
- Bem, Catherine, quer você goste ou não, a era dos
instrumentos passou e agora estamos na dos sistemas.
Façamos a seguinte colocação: você espreme suas laranjas e
prepara um suco delicioso e saudável. Maravilha! Mas se
você analisar o espremedor mais detidamente, poderá
observar seus aspectos mais perturbadores. A eletricidade
que o faz funcionar chega à sua casa por meio de uma rede
de fios e cabos de força, que são alimentados pelas estações
de força, que dependem da pressão da água, das tubulações
ou caixas d'água, que por sua vez necessitam de represas,
plataformas costeiras, em países distantes. Toda a cadeia só
garante uma entrega imediata e adequada se cada uma de
suas partes puder contar com exércitos de engenheiros,
planejadores, especialistas em finanças, que também podem
recorrer aos governos, às universidades; na verdade, à todas
atividades produtivas, até mesmo aos militares, como já
vimos muitas e muitas vezes. Aquele que pensar que está
apenas usando um espremedor de sucos está muito
enganado. O espremedor é um disfarce; ele não é um
aparelho que espreme o suco com mais facilidade, mas o
produto final de um dos milhões e milhões de tentáculos do
grande sistema que está envolvendo todo este mundo, cujo
cerco se fecha mais e mais a cada dia.
- Meu Deus! - exclamou Catherine, esquecendo-se de que
tentava fazer o papel de advogada do diabo. - Isto parece
muito preocupante.
O professor balançou a cabeça em sinal de afirmação,
mostrando um sorriso triste no rosto.
- Sim. E, deste modo, por meio de tais disfarces de caráter
insidioso, como a batedeira, a lava-roupas, o carro, e assim
por diante, esses tentáculos invadem nossa vida cotidiana e
nos forçam a servir o sistema que, na verdade, em um futuro
não muito distante, acabará nos destruindo. Há muito
perdemos o direito de escolha. Os sistemas, de acordo com
sua natureza, crescem e adquirem vida própria, acabando por
criar seus objetivos, diferentes daqueles aos quais deveriam
servir. Hoje eles correspondem a imensos sistemas globais
com ambições agora muito distantes das belas palavras que
os profetizaram. O objetivo de nosso sistema global atual é
forçar cada vez mais pessoas a dependerem da energia que
ele fornece. Usando o sistema, estamos assinando um
cheque em branco - o professor caminhou até a mesa e
encheu dois copos com vinho. - E lembre-se: a natureza é o
banco do qual se sacam todos os cheques. Mas deixe-me lhe
servir alguma coisa para comer, querida. Um amigo aqui do
vilarejo trouxe-me um frango criado em sua fazenda
orgânica. Ficam sempre deliciosos. Espero que você goste!
Com os olhos embaçados e muito triste por saber que não
haveria mais conversas como aquelas, Catherine levantou a
persiana para deixar a luz da manhã entrar. Abaixo deles, o
Altiplano Peruano estendia-se até onde a vista alcançava. Era
um panorama impressionante. Entretanto, em seguida, como
que para deixá-la confusa, seus olhos começaram a lhe
pregar peças. Olhando para baixo, ela pensou ver algo de
formato estranho estendido no chão, milhares de
quilômetros abaixo dali. Dava a impressão de ser o contorno
de um beija-flor gigante.
Catherine esfregou os olhos cansados e olhou novamente,
esperando que a alucinação tivesse desaparecido. Mas ela
permanecia ali, e ao lado do contorno do pássaro havia uma
espécie de flor enorme. Um pouco mais à frente havia
figuras de grandes proporções: um peixe colossal e um
majestoso condor, que se assemelhavam a diversas figuras
geométricas e, por fim, duas linhas paralelas. Elas eram
absolutamente retas e pareciam se estender em direção ao
infinito.
"Estou vendo coisas? E são incríveis!"
-James, veja isso! Que diabos são aquelas figuras desenhadas
no chão?
Rutherford olhou detidamente para aquele lugar
impressionante.
- Ah, meu Deus! Não faço a menor idéia!
À esquerda de Rutherford, acomodado no assento do
corredor, estava um cavalheiro peruano, bem vestido,
aparentando uns 60 anos. Tinha a tez moreno-clara e um
típico nariz inca. Ele ouvira a conversa dos dois e, com um
sotaque carregado, disse em inglês:
- Aquelas são as famosas linhas de Nazca. Bem-vindos ao
Peru!
Rutherford ficou confuso.
- As linhas de Nazca? Nunca ouvi falar nisso!
Catherine queria saber mais.
- Nem eu. Como é possível enxergá-las daqui de cima?
Devem ser enormes. Só aquelas linhas devem ter uns 800
metros de comprimento! E são tão retas!
O peruano sorriu, seus olhos piscavam devido à intensidade
da luz do sol.
- Senhorita, elas são ainda mais longas do que isso. Têm mais
de oito quilômetros de comprimento e são absolutamente
retas. Sobem e descem as colinas, atravessam as ravinas e
jamais se desviam do rumo certo.
Catherine estava surpresa.
- Mas, para que servem, e quando foram feitas?
- Bem se vê que nunca esteve no Peru, señorita - o velho
cavalheiro abriu um largo sorriso. - Você terá de se
acostumar a ouvir falar nisso enquanto estiver aqui, mas
creio ser algo que ninguém sabe explicar!


20

Alguns minutos depois, Catherine virou-se para Rutherford
após consultar o guia de viagem. Com uma expressão séria e
o cenho franzido, disse:
- As linhas de Nazca são os geoglifos da América Latina. Há
centenas de desenhos gigantes, e ninguém consegue explicar
como foram feitos. Além das centenas de figuras de peixes e
animais conhecidos, há outras geométricas desenhadas com
perfeição. O mais estranho é que elas só podem ser
apreciadas, ou mesmo identificadas, quando vistas do alto,
como estamos fazendo agora. Ao nível do chão, devido ao
seu enorme tamanho, é quase impossível conhecer suas
dimensões, e não há pontos altos nas terras ao redor de
Nazca, porque são planas, e a razão pela qual foram criadas
antes de o homem inventar o avisão parece não ter
explicação.
Catherine parou de falar por alguns segundos. Rutherford
estava mergulhado em pensamentos. Ela nem precisava
perguntar, mas o fez mesmo assim:
- Está pensando a mesma coisa que eu?
Rutherford balançou a cabeça em sinal afirmativo. Seu forte
e belo rosto tinha o cenho franzido.
- Se você quer dizer que isto a faz se lembrar da teoria do
professor, dos antigos enviando mensagens para o futuro,
então a resposta é sim. Estou pensando exatamente o mesmo
que você. É extraordinário.
Catherine tornou a olhar pela janela e para baixo, na direção
dos desenhos que passavam um a um abaixo deles. Surgiu
um enorme pássaro e em seguida um paralelogramo de
proporções colossais. Ela deixou o livro cair sobre o colo,
sentindo um nó na garganta. Tudo aquilo começava a pesar.
"Como é que alguém pode atravessar todos os estágios de sua
educação, ensino médio, curso universitário, doutorado e
finalmente tornar-se um acadêmico, e então, no espaço de
vinte e quatro horas, ver todo o seu mundo desmoronar? Por
que ninguém me contou essas coisas antes? Os mapas, as
linhas de Nazca, o fato de que a Bíblia tem mesmo um
código usado para transmitir a sabedoria dos antigos?"
Ela sentiu o toque consolador da mão de Rutherford em seu
braço.
- Catherine? Catherine? Você está bem?
O calor do contato humano e o som daquela voz a
trouxeram de volta ao presente. Ela virou-se para olhá-lo e
tentou forçar um sorriso, mas a pressão começava a ficar
forte demais.
James tinha uma expressão séria no rosto.
- Catherine, precisamos manter a calma. Não devemos ter
medo. Lembre-se do professor. Ele enveredou por este
caminho, e nós devemos segui-lo. Devemos confiar na
verdade e ignorar tudo que pensávamos saber até agora.
Agora Catherine dava ao amigo um sorriso sincero. Estava
muito feliz por tê-lo a seu lado.
- James, obrigada. Desculpe, é que... Sabe, aconteceu muita
coisa em muito pouco tempo. Muita coisa mudou... Para
mim, pelo menos.
- Eu sei, e concordo com você. Não faço idéia no que tudo
isso vai dar, e se penso nas conseqüências, me dá muito
medo. Temos que evitar ficar imaginando o que vai
acontecer; devemos seguir em frente e esperar para ver o
que descobrimos.
Catherine voltou a olhar para baixo, a fim de apreciar a
paisagem surreal do platô, que ainda estava lá, zombando
dela com seus misteriosos hieróglifos. Com outro objetivo,
ela reabriu o livro e leu em voz alta:
- Muitos tentaram datar as linhas de Nazca, mas é uma tarefa
impossível de ser levada a cabo. Não há nenhum material
orgânico usado nos desenhos; por isso a datação por
rádiocarbono está descartada. Tudo o que há para prosseguir
nas pesquisas são cacos de cerâmica que foram descobertos
em alguns dos sulcos e trincheiras feitos pelo homem. As
figuras em si também levantam questões. Por exemplo, por
que muitas das criaturas retratadas não são encontradas nos
Andes? Há um condor, mas, afora isso, há todo um conjunto
de animais impróprios, incluindo uma baleia, um macaco,
espécies estranhas de pássaros e, o mais estranho de tudo, a
representação perfeita de uma aranha muito pequena e rara
que vive apenas nas profundezas da floresta amazônica. A
aranha é particularmente importante, porque os astrônomos
calcularam que a posição desse artrópode e a posição das
linhas retas adjacentes a ela servem como um modelo da
constelação de Órion e de suas estrelas vizinhas.
Catherine fechou o livro. Como astrônoma, aquilo fechava a
questão.
- James, quem quer tenha feitos esses desenhos, uma coisa é
certa: pertencia a uma civilização muito desenvolvida. Para
entender os céus e mapear a constelação de Órion desta
maneira, é preciso um alto grau de sofisticação.
Rutherford balançou a cabeça, indicando que não entendera.
- Sim, e quanto ao fato de metade dos animais não ser de
origem andina?
De repente, Catherine teve uma idéia. Inclinou-se para a
frente e se dirigiu novamente ao cavalheiro peruano. Ele
estava concentrado na leitura do jornal.
- Com licença, señor, posso lhe fazer uma pergunta? - o
homem abaixou o jornal e olhou-a com um sorriso
animador. - O que os peruanos dizem sobre essas linhas?
Os olhos escuros do cavalheiro analisaram o rosto da jovem
com todo cuidado. Catherine, com um olhar suplicante, teve
a sensação de que a resposta dependeria do juízo que ele
fizesse dela.
- Senõrita, já sabemos quem desenhou essas linhas. Foram os
Viracocha, os semideuses que primeiro governaram o Peru.
Eles vieram do mar há muitos, muitos milhares de anos.
Criaram as leis e ensinaram muitas coisas às pessoas. Os
arqueólogos americanos e os espanhóis que vieram depois
deles pensaram que quando falamos dos Viracocha nos
referimos a mitos, mas esta não é a verdade. Não há registros
escritos sobre essas pessoas, mas sabemos que aqui
estiveram.
Ele balançou a cabeça em um gesto assertivo e em seguida
voltou a ler o jornal.
Rutherford, com os olhos arregalados de espanto,
aproximou-se de Catherine e sussurrou:
- Acho que você acaba de descobrir em que devemos
concentrar nossa atenção. Quem foram esses Viracocha?
Será que eles realmente existiram?
Catherine assentiu com a cabeça e sussurrou em resposta:
- Sim, você está certo. É bem possível que eles sejam a chave
desta parte do mistério. Talvez os Viracocha sejam as pessoas
que deixaram a mensagem de alerta aos mitos do mundo.
Talvez as linhas sejam parte daquela mensagem.
Rutherford, olhando fixamente para Catherine e desviando
olhar para o espaço azul infinito, resmungou quase que
consigo mesmo:
- Sim! Isso mesmo. É incrível... - e tornou a olhar para ela: -
Tenho a sensação de que nosso amigo Miguel Flores tem
muito a nos dizer sobre tudo isso.

21

O aeroporto de Lima estava em ritmo de festa. Assim que
Catherine e Rutherford passaram pelas portas giratórias que
marcavam a saída da Alfândega peruana seus sentidos foram
logo atacados. O que mais impressionava eram as pessoas.
Depois de passar pelo aeroporto de Heathrow com seus
executivos elegantes arrastando sua bagagem impecável e a
sensação de que as pessoas se movem de um lado para o
outro como uma bolinha de fliperama, o caos do aeroporto
de Lima era revigorante. O barulho era ensurdecedor, o
calor escaldante, e os milhares de índios peruanos, muitos
deles vestindo os tradicionais poncho e chapéu de feltro,
tudo contribuía para que eles realmente tivessem a sensação
de que acabavam de pisar em solo tropical.
Driblando os vendedores ambulantes, Catherine e James
chegaram ao ponto de táxi e, após uma breve espera,
conseguiram se abrigar no ambiente tranqüilo de um carro.
Era um veículo à moda dos modelos americanos, amarelo,
espaçoso, conduzido por um homem de aparência amistosa,
que devia ter seus vinte e poucos anos. Ofegantes por todo o
esforço que tinham feito para chegar até ali, Catherine
instruiu o motorista a levá-los à cidade.
O motorista sorriu e deu a partida no carro. O táxi partiu,
fazendo todo tipo de ruídos enquanto se movia, e seguiu em
direção à suja e movimentada rodovia principal que levava à
Lima. Quando saíram do perímetro do aeroporto, as
construções à margem da estrada começaram a mudar, havia
favelas para todos os lados.
A paisagem terrível surpreendia Rutherford. Era a paródia de
uma cidade americana ou européia, tudo feito pelas mãos do
homem, mas, em vez de ser usada com o objetivo para o
qual fora criada, tinha sido adaptada para um propósito mais
simples. O capô de um carro era o telhado de uma casa, um
barril vazio era a banheira. Grupos de crianças encardidas
brincavam com o lixo jogado nas ruas.
"Então, estas são as famosas favelas da América do Sul", ele
pensou.
Catherine estava trespassada. Aquela era uma visão
apocalíptica em contraste com a beleza serena de Oxford.
"Como é que as pessoas podem viver em condições tão
miseráveis?" Ela se virou para Ruhterford:
- Acho que os Viracocha não gostariam nem um pouco disso
se tivessem a chance ver o país hoje.
- Não, de jeito nenhum. É deprimente - ele respondeu
enquanto observava com horror as fileiras de habitações
precárias pelas quais passavam. - Acho que devemos ir direto
para o Ministério do Patrimônio Histórico e encontrar
Flores. Podemos pensar em encontrar um hotel depois, o
que você acha?
- Boa idéia. Mas uma xícara de café cairia bem. Não dormi
quase nada no avião.
Rutherford vasculhou sua mochila e puxou a agenda na qual
tomara nota do endereço do Ministério do Patrimônio
Histórico. Com um sorriso nos lábios, entregou-a a
Catherine e fez um sinal com a cabeça para o motorista:
- É melhor você fazer isto, do contrário, sabe-se lá onde nós
iremos parar!
Catherine riu e falou com o taxista. Em seguida, deitou a
cabeça no apoio do banco e fechou os olhos. "Logo
ficaremos sabendo qual é o segredo partilhado pelo professor
Kent e por Miguel Flores. E teremos dado mais um passo
para entender por que o professor morreu..."

O Ministério do Patrimônio Histórico ficava em um edifício
de arquitetura neoclássica, de proporções gigantescas,
imponente, ao norte da bela e caótica Plaza Mayor, situada
no coração de Lima, nos cruzamentos de quatro das ruas
mais movimentadas da capital. Por conseqüência, a praça
ficava lotada, de manhã à noite, repleta dos mais diversos
veículos, todos ansiosos para chegar ao seu destino; ca-
minhões que vinham do campo, ônibus locais e carros
particulares, todos tentando avançar, aparentemente
negligenciando as placas e os guardas de trânsito.
Depois de pelejar para contornar a praça e ziguezaguear no
tráfego, o táxi finalmente deu um solavanco e parou aos pés
de uma enorme escadaria. Catherine pagou o motorista,
enquanto Ruhterford lutava para tirar a bagagem do porta-
malas. Ansiosos para entrar no edifício e fugir da poluição e
do barulho, os dois subiram as escadas aos trancos e barran-
cos. No alto do lance de escadas havia um par de imensas
portas de ferro, ambas abertas. Um pouco à frente havia um
conjunto de portas de vidro protegendo o interior do
Ministério da barulheira do trânsito e do odor desagradável
da fumaça produzida pelo óleo diesel. Acima das portas de
ferro havia um emblema de bronze retratando um condor
gigante, e, abaixo, as palavras "Ministerio de Antiguedades"
em alto relevo.
O átrio correspondia a um vestíbulo sombrio, cavernoso e
mal iluminado, com uma aura de silêncio sepulcral. O chão
era de mármore, assim como as paredes, e o teto tinha a
altura daqueles vistos em catedrais. Não havia quase
nenhuma mobília além da mesa, atrás da qual estava uma
recepcionista, e um sofá. Afora isso, o Ministério do Patri-
mônio Histórico parecia deserto.
Eles caminharam até a mesa da recepcionista. Catherine
limpou a garganta antes de se dirigir à recepcionista morena
tipo mignon.
- Buenos dias, estamos aqui para falar com Miguel Flores, por
favor. Meu nome é Cahterine Donovan, e este é James
Ruhterford, somos da Universidade de Oxford.
A secretária parecia muito incomodada, e começou a falar
rapidamente em espanhol.
- Você consegue entender o que ela diz? - perguntou
Ruhterford a Catherine.
- Não. Ela está falando muito rápido. Espera... Ela está
chamando alguém.
A secretária falou rapidamente ao telefone e, então, passou o
fone para Catherine.
- Hola! Habla inglês? - Catherine perguntou.
Garantindo que sim, o homem do outro lado da linha
respondeu em inglês, com um tom suave e tranqüilizador:
- Alô, aqui é o substituto do Ministro do Patrimônio
Histórico. Imagino que a senhora tenha vindo falar com o
Señor Flores?
Catherine virou-se para Ruhterford e lhe deu um sorriso
cheio de cumplicidade. Ele a observava enquanto ela ouvia a
voz do outro lado. De repente, Catherine perdeu a cor, e a
mão, ainda segurando o fone, pendeu para o lado. Ela se
virou para James, não mais sorria, e seus olhos começavam a
derramar lágrimas, seu rosto tinha um ar de absoluto medo.
- Flores foi atingido por um carro esta manhã a caminho do
trabalho. Está morto.

22

O som inconfundível dos sapatos tocando o mármore os
alertou de que o ministro substituto se aproximava.
Caminhando a passos largos e vigorosos, na direção dos dois
vinha um homem baixo, de tez escura e bigode, usando um
terno preto e gravata. Parecia estar na casa dos quarenta.
À medida que se aproximava, Catherine teve uma intuição, e
sussurrou rapidamente para Rutherford:
- Não diga a ele por que estamos aqui.
O homem caminhou na direção de Catherine e a
cumprimentou com um aperto de mão. Em seguida, virou-se
para Rutherford e fez o mesmo, o tempo todo exibindo um
sorriso falso e tentando cair nas graças dos dois. Tinha anéis
de ouro nos dedos e um dente de ouro. O sotaque era
carregado e jogava um charme que dava a impressão de ter
sido milimetricamente treinado.
- Bem vindos, bem vindos. Perdoem-me por ser o porta-voz
desta tragédia. Sou Raphael Mantores. Trabalho no
Departamento do Señor Flores. A senhora acaba de falar
comigo ao telefone. Por favor, sentem-se.
Rutherford e Catherine sentiram-se quase aliviados por lhes
dizer o que fazer. Traumatizados, caminharam em direção ao
sofá e se sentaram.
- Por favor, Señor Mantores, pode nos dizer o que aconteceu
com o Señor Flores? - perguntou Catherine.
O homem suspirou. Ela teve a impressão de que ele
representava, mas talvez fosse apenas seu medo e sua
desconfiança.
- Ah, isso é terrível. Todos os dias ele desce do ônibus do
outro lado da praça e a atravessa, em vez de contorná-la.
Hoje foi atingido por um carro.
Rutherford não conseguia acreditar no que ouvia.
- O carro que o atingiu parou para socorrê-lo?
- Quer saber se o carro parou? Ah! Estamos em Lima! Não,
não parou, seguiu em frente.
- Houve testemunhas?
- Em Lima as pessoas não param. Foi um acidente. O que
poderia ter sido feito? A polícia chegou algum tempo depois,
mais ou menos meia hora. É uma área muito movimentada...
Eles não são os homens da polícia de Nova York. Levaram-
no para o hospital, mas era tarde demais.
Catherine, ainda mal sendo capaz de processar as
informações, disse:
- Mas isto é horrível! Ninguém se deu o trabalho de dizer o
que aconteceu ou anotar a placa do carro?
- Em que isso ajudaria, señorita. Provavelmente se trata de
um carro sem licença, como a maior parte dos veículos em
Lima. A polícia não conseguiria encontrá-lo. Diga-me, a
senhorita veio aqui para ver o Señor Flores? Sinto muito que
sua visita tenha sido em vão. Posso ajudá-la? Não recebemos
muita gente de Oxford aqui. É uma honra.
O sorriso "estudado" voltara ao rosto de Mantores. Catherine
olhou para Rutherford, a paranóia começava a tomar conta
deles. Ela respondeu pelos dois:
- Não, obrigada. Por favor, não se preocupe. Queríamos
conversar com o Señor Flores sobre os Incas, mas não é
importante. Quando chegarmos ao hotel encontraremos um
guia.
Mantores voltou a oferecer ajuda.
- Mas, señorita, talvez eu possa convencê-la a visitar algumas
de nossas modernas atrações turísticas? O Peru tem mais a
oferecer do que apenas a herança deixada pelos Incas, como
a señorita deve saber.
Correndo os olhos pelo átrio cavernoso, quase certa de que
algum inimigo desconhecido surgiria por detrás das portas,
ela gaguejou:
- Não, não, muito obrigada. Nós nos sairemos bem sozinhos.
- Bem, se houver alguma coisa que eu possa fazer para ajudar
durante sua permanência aqui, por favor, não hesite em me
telefonar. Aqui está meu cartão. Sinto muito que sua visita
tenha começado assim - ele olhou para as mochilas que
ainda tinham as etiquetas de identificação de bagagem da
companhia aérea e lhes deu um largo sorriso. - Desejo
sinceramente que as coisas melhorem.
- Obrigada, Señor Mantores. Vai dar tudo certo. Vai dar tudo
certo - Catherine, contudo, não acreditava nisso.

23

Rutherford e Catherine estavam em pé no topo da escada do
lado de fora das enormes portas duplas e estudavam o mar de
carros que circulavam lentamente pela praça embaixo.
Ouvia-se o disparo constante das buzinas; a barulheira era
quase intolerável; o cheiro da fumaça liberada pela queima
do diesel insuportável.
Rutherford largou a mochila no chão e parou para observar o
caos da Plaza Mayor. Ali, em pé, ele estava completamente
exposto à vastidão da praça. De repente, sentiu-se
vulnerável, e seus instintos o alertaram para que se
escondesse, voltasse para o interior do prédio, desaparecesse.
Catherine balançava cabeça em sinal de negação, seus
pensamentos indo e vindo. "Flores deve ter sido assassinado.
É uma coincidência muito grande que tenha sido atropelado
vinte e quatro horas depois de nosso telefonema. Mas como
alguém poderia saber que entramos em contato com ele? O
telefone estava grampeado? E se estivesse? Por quem? Por
quê? Quem quer que tenha sido deve ter tudo muito bem
organizado. Na verdade, internacionalmente organizado, e
também muita disposição para pôr um basta no que quer que
o professor e Flores estivessem envolvidos. Flores dissera ao
telefone que eles não estavam prontos. Prontos para quê?"
Então, toda aquela ponderação fria a levou às profundezas
dos domínios do medo. Catherine foi invadida por um
sentimento de horror. "Mas, se eles mataram Flores
simplesmente para falar conosco, então, certamente..."
Tomada de pânico, olhou ao redor. Sentiu vontade de
chorar, queria se esconder... E, de repente, pensou
novamente no professor, um homem afável e compassivo,
assassinado a sangue frio por razões que ela ainda não
entendera. A raiva se opunha ao medo no momento em que
sua determinação se renovou.
"Eles não vão nos tirar do caminho com tanta facilidade. Não
conseguirão nos intimidar."
Catherine tentou, a todo custo, pensar no próximo passo.
- Você acha que adiantaria falar com a polícia, ou a
embaixada britânica?
- Não - Rutherford respondeu com firmeza, olhando para ela.
- Que provas nós temos?
Catherine sentou-se na mochila. Não sabia a quem recorrer.
Sentia que um abismo se formava entre eles. Ela mal
conhecia James Rutherford, e ele mal conhecera o professor.
"Pobre James. Deve estar tentando entender o que está
fazendo aqui. Mas deve haver uma solução em algum lugar,
ou, pelo menos, uma pista de como devemos prosseguir."
Rutherford caminhava pelo revestimento de pedra que
pavimentava o topo da enorme escadaria:
- Catherine, acredito que devemos voltar para o aeroporto. O
que quero dizer é que tentamos... Outra pessoa deve assumir
o caso. A CIA, o MI6, não sei. As pessoas que entendem
dessas coisas - ele parou, e se virou de modo que pudesse se
dirigir a ela diretamente. Catherine estava mergulhada em
pensamentos.
De repente, a jovem deu um salto, pondo-se de pé.
- Você pode me esperar aqui um pouco e tomar conta da
mochila? Os mapas do professor estão dentro dela.
Rutherford deu meia-volta.
- O quê! O que é que você está fazendo? Ei! Por que está
voltando lá pra dentro? Espere...
Tarde demais. Catherine desaparecera pela fresta das
colossais portas de ferro, de volta à escuridão do átrio.
Sozinho no alto da escadaria, Rutherford sentiu-se com a
corda no pescoço.

24

Señor Mantores caminhava com passadas rápidas pelo
corredor rumo a seu amplo escritório no terceiro andar. O
charme suntuoso de alguns minutos atrás não mais existia.
Mergulhando a mão no bolso do paletó, ele tirou um lenço e
enxugou as sobrancelhas, e voltou a guardá-lo, todo
ensopado. Com um semblante de terror, caminhou
lentamente até a porta do escritório, parou, girou a maçaneta
e, dando um suspiro profundo, entrou.
Sentado na confortável poltrona executiva revestida de
couro, que ficava atrás da mesa, estava o homem que matara
o professor Kent. O assassino vestia terno preto e camisa
branca. Seus braços curtos, mas musculosos, estavam
cruzados sobre o peito numa postura bastante agressiva.
Próximo à janela, um segundo ocidental de aparência sinis-
tra, vestido de preto, tentava enxergar a Plaza por entre as
aletas da persiana. Era o comparsa de compleição miúda que
também estivera nas ruínas de Machu Picchu naquela noite
escura. Os dois homens tinham um quê de militar, o cabelo
cortado rente à cabeça, o rosto magro castigado pelo sol. O
homem de compleição menor, ao ver o aterrorizado
Mantores, olhou-o com uma cara de poucos amigos antes de
bombardeá-lo com uma pergunta:
- Então? Missão cumprida? Posso dizer ao secretário Miller
que acabou?
O Ministro Substituto do Patrimônio Histórico ficou
reduzido a nada. Toda a confiança que demonstrara para
Catherine e Rutherford no saguão desaparecera. Sua voz
tremia:
- Sim, señor. Falei com eles. Não lhes disse nada, a não ser
que Flores morrera em um acidente de trânsito. Ficaram
chocados. Creio que não ficarão no Peru por muito tempo.
- Você acha, ou sabe que não ficarão muito tempo?
O rosto de Mantores encheu-se de pânico. A voz tornou-se
suplicante e um tanto mais alta:
- Señor, a pista está morta. Não há nada que eles possam
encontrar. Voltarão para casa, tenho certeza.
De repente, o cúmplice, que até aquele momento estivera
concentrado na vista da janela, deu meia-volta:
- A garota está voltando para o prédio. Sozinha - então,
voltou-se para a janela e afastou as aletas com a ponta dos
dedos.
O companheiro que estava sentado falou asperamente:
- Mantores, por que diabos ela está entrando no prédio de
novo?
Mantores estava à beira de um colapso.
- Señor, não sei. Por favor, falarei com ela. Deixe-me descer
novamente...
O homem que estava sentado o olhou com raiva:
- Não. Isto é muito importante - e empurrou a cadeira para
trás, levantando-se. - Nossas ordens são claras. Nós nos
certificaremos de que nada escape ao nosso controle. Venha
conosco.
Dois minutos depois Catherine reapareceu pelas portas, com
um sorriso no rosto e brandindo na mão direita um pedaço
de papel com algo escrito.
- O que é isso? - a voz de Rutherford soava como uma
ordem, mas ele estava confuso.
- Este é o endereço da família de Flores. Eu disse à
recepcionista que gostaria de enviar flores.
Rutherford mal podia crer no que acabara de ouvir. Ela
estava realmente planejando continuar a jornada. Sua
coragem era inegável.
- Foi assim tão fácil?
- É, na verdade foi - Catherine deu um largo sorriso. - Mas,
para ser sincera, quero entregá-las pessoalmente. Anda,
vamos.
Catherine chegou até onde estava a mochila e a jogou no
ombro. Rutherford observou-a descer a escada para apanhar
um táxi. Chegando à calçada, ela se virou para ver onde ele
estava, e percebeu que seu amigo hesitava, e foi capaz de
entender. "Mas eu preciso que você venha James, por favor."
Ela suspirou e o chamou:
- Escuta, James, por favor, vamos visitar a família de Flores.
Podemos ir para o aeroporto depois, eu prometo. Não posso
voltar para casa sem seguir esta pista. Jamais vou me perdoar
se não fizer isto.
Rutherford olhou para aquele rosto suplicante, e seu bom-
senso desapareceu.
- Certo. Vamos à casa dos Flores agora, e depois direto para o
aeroporto. Combinado? E nada de demorar lá.

25

Era quase meio-dia da quarta-feira, as ruas de Lima estavam
cheias de carros. Como acontece durante dez dias do ano, o
sol se escondia atrás da famigerada neblina costeira, vinda do
Pacífico, que invade a cidade e a envolve numa névoa
branca. Os locais a chamam garoupa, que significa barriga de
burro, e sua força opressiva intensifica o efeito asfixiante da
poluição e do calor.
O caminho que tinham de seguir conduziu Catherine e
Rutherford pelo centro colonial antigo da cidade. Era o
retrato do esplendor de outros dias. Passaram por lindas
mansões de madeira que haviam se transformado
principalmente em construções que abrigavam órgãos
ministeriais e museus.
A velha Lima é pequena, e em alguns minutos o táxi já
atravessava as ruas sujas e movimentadas da parte moderna
da cidade com seus edifícios sombrios feitos de concreto e
ruas dilapidadas. Havia sinais de pobreza por toda parte e, à
medida que o carro passava pelos engarrafamentos,
ambulantes que vendiam de tudo - de cabides de plástico a
isqueiros - se amontoavam em torno do carro que se movia
lentamente.
Vinte minutos mais tarde, depois de parar em uma
floricultura para que Catherine pudesse comprar alguns
lírios, o táxi virou em uma esquina apertada e seguiu em
frente por uma ruela deserta, no coração de um dos bairros
residenciais. O motorista esticava o pescoço para um lado e
para outro, permitindo que o veículo deslizasse suavemente
pela rua suja. - Ah! É aqui - finalmente anunciou o
motorista. - É naquela porta, a verde.
Catherine e Rutherford olharam desconfiados para um
sobrado de concreto espremido numa fileira de outras casas,
todas com o mesmo estilo sombrio. Catherine entregou ao
motorista a quantia combinada e saiu do carro. A rua vazia a
deixou nervosa. Olhou ao redor, e então virou-se para falar
com o motorista.
- Você pode nos esperar aqui até a hora de irmos embora?
- É claro, señorita. Pode levar o tempo que quiser.
O motorista índio desligou o carro, ligou o rádio e deitou a
cabeça no banco, cobrindo os olhos com o boné de baseball.
Tinha um sorriso no rosto. Catherine e Rutherford
caminharam até a porta.
Rutherford deu um passo para trás e olhou a rua de um lado
e de outro enquanto Catherine tocava a campainha. Passados
aproximadamente 30 segundos, ouviu-se o som de uma
chave girando na fechadura. A porta entreabriu-se. Via-se o
rosto de uma mulher olhando pela fresta. Os olhos estavam
vermelhos, provavelmente por ter chorado, pensou
Catherine.
A mulher tinha belas e marcantes feições incas, a
sobrancelha espessa, o nariz firme, as maçãs do rosto altas, e
a pele muito escura. Catherine imaginou que tivesse por
volta de 35 anos.
- Hola, señora, habla inglês?
A mulher continuou inescrutável. Catherine insistiu:
- Nosotros somos amigos de Miguel Flores.
A menção ao nome de Flores fez com que o rosto da mulher
se iluminasse. Logo pareceu mais receptiva e ao mesmo
tempo mais vulnerável.
- Ustedes conocían a Miguel? Vocês conheciam Miguel?
Catherine sentiu-se péssima por desrespeitar o luto da
mulher.
- Si, señora. Sentimos muito por sua perda...
Rutherford observava tudo em silêncio. Na verdade, aquilo
lhe parecia uma situação muito embaraçosa que se
desenrolava lentamente.
Finalmente, após uma espera de quase um minuto, a
corrente desprendeu-se da porta e a mulher, olhando para a
rua com um ar de ansiedade, os convidou a entrar. Fechando
e trancando a porta atrás de si, ela gritou alguma coisa para os
fundos da casa em quíchua, a língua dos incas, ainda falada
na forma de diversos dialetos pelos povos indígenas das
províncias andinas do Peru.
De uma porta que ficava no final do corredor surgiu um belo
índio de baixa estatura, também com seus trinta e poucos
anos, secando as mãos em um pano. Seu rosto expressava
grande ansiedade, e sua voz era premente e intensa, falando
inglês com rapidez e fluência.
- Minha irmã disse que conheciam meu irmão. Quem são
vocês, e o que querem?
Catherine não sabia muito bem o que dizer.
- Ahn... Sentimos muito vir aqui, assim, nesta hora. Estamos
aqui porque precisamos muito falar com vocês.
O índio parecia muito triste, mas depois de analisar
Catherine dos pés à cabeça e em seguida fazer o mesmo com
Rutherford, acabou dizendo:
- Certo. Mas vocês não podem demorar.
Catherine e Rutherford o acompanharam até uma sala
espaçosa, com dois sofás e uma grande biblioteca sobre
história, cultura e arte inca. Nas paredes viam-se fotografias
exuberantes de paisagens peruanas, evidentemente tiradas de
diversas regiões do país: das selvas, da costa e, as mais
impressionantes de todas, da Cordilheira dos Andes.
Catherine ofereceu ao inescrutável homem os lírios que
havia comprado.
- Estas flores são para vocês. Para dizer a verdade, não
conhecíamos seu irmão. Falamos com ele uma única vez.
Meu nome é Catherine Donovan, e este é James Rutherford.
Somos da Universidade de Oxford. Chegamos ao Peru esta
manhã. Esperávamos encontrar seu irmão hoje. Não
tínhamos sequer marcado um horário.
Os olhos escuros do peruano olhavam ora para um ora para
outro dos ocidentais. Sua desconfiança era evidente.
- Obrigada pelas flores. Por favor, sentem-se.
Entregou as flores à irmã e puxou uma cadeira. Não dizia
nada. Na verdade, parecia muito desconfortável com a
situação.
- Se não conheciam meu irmão, então qual é o motivo da
visita?
Catherine engoliu em seco.
"Temos que tirar alguma informação deste homem. Apesar
de ser muito estranho estarmos aqui, do desrespeito ao
momento difícil pelo qual estão passando, é imprescindível
conseguirmos alguma coisa."
- Um amigo que temos na Inglaterra, o professor Kent, vinha
trabalhando em alguma coisa com seu irmão antes de morrer
- Catherine parou de falar para ver como o peruano reagia,
mas ele apenas a olhava fixamente com aqueles olhos
escuros e atentos. Então, continuou: - Olhe, eu sei que isso
não deve fazer nenhum sentido para você, mas o nome de
seu irmão foi encontrado em um código entre a papelada de
nosso amigo após sua morte. Telefonei para o seu irmão, mas
ele não quis falar sobre o assunto ao telefone; orientou-nos a
vir para cá.
Catherine parou de falar novamente, porque agora o índio se
levantara de repente. Ele caminhou lentamente até a lareira
e então se virou para eles.
- Señorita, a última vez que vi o professor Kent, ele estava
sentado exatamente onde você está agora, mas isto é outra
história. Não posso ajudá-la. Creio que devemos encerrar
esta conversa. Não me interessa saber mais nada sobre vocês.
Por favor, gostaríamos muito que fossem embora.
Catherine, entretanto, estava chocada.
- Você conhecia o professor Kent?
- Não, eu o vi apenas duas vezes, aqui na casa de Miguel.
Meu irmão o trouxe para que pudessem conversar em
particular sobre o trabalho que desenvolviam. Agora, por
favor, eu lhes peço...
Rutherford interveio:
- Señor Flores, eu realmente sinto muito pela morte de seu
irmão. Mas há algo muito ruim acontecendo aqui. Você não
pode simplesmente ignorá-lo. Precisamos de sua ajuda.
Achamos que o professor Kent foi assassinado, e precisamos
saber o que ele e seu irmão estavam fazendo. Não podemos
permitir que tenha morrido em vão.
Estava claro que o índio encontrava-se entre a cruz e a
espada. Rutherford sentia que ele desejava falar, mas o medo
o impedia, então decidiu pressioná-lo:
- Estaríamos sendo muito invasivos se lhe fizéssemos
algumas perguntas sobre o trabalho que seu irmão vinha
desenvolvendo com o professor?
O índio olhou para ele e deu um sorriso triste:
- Não seria nenhuma intrusão. O trabalho de Miguel era
muito importante para mim também. Este não é o
problema... - a voz do índio sumiu. Ele claramente não sabia
o que fazer, e então, como se chegasse à conclusão de que
não poderia enterrar a cabeça na terra tal qual um avestruz,
olhou para os dois e balançou a cabeça em sinal de negação,
e fez um gesto com o braço: - Desculpem. Miguel ontem me
disse que se lhe acontecesse alguma coisa, eu não deveria
falar com ninguém. Estamos com muito medo. Foi um dia
muito ruim. Muito ruim.
Catherine sentiu uma súbita empatia pelo pobre homem.
- Señor Flores, perdoe-nos a intrusão. Só queremos entender
o que está acontecendo. O professor era como um pai para
mim, também perdi um ente querido.
O índio suspirou:
- É complicado. O trabalho que desenvolviam era secreto.
Mas, por onde posso começar? - por alguns instantes o
homem pareceu perdido em pensamentos. - Apesar de
nosso nome, somos uma legítima família quíchua de Cuzco,
a antiga capital inca no alto dos Andes. Nosso avô adotou um
nome espanhol. Somos muito diferentes para índios vindos
da zona rural, afortunados pelo fato de ambos termos feito o
ensino médio e Miguel ter estudado na Universidade de
Cuzco. Ele se tornou arqueólogo e historiador, e eu
trabalhei, até pouco tempo atrás, em uma instituição
filantrópica em Cuzco. O trabalho de nossa vida, aliás, toda
nossa vida, foi dedicada ao nosso povo, os quíchua, os
descendentes dos incas.
Catherine deu um suspiro de alívio. "Ele está falando..."
Em um tom sério, profundo, Flores prosseguiu. Falava
devagar, e deliberadamente escolhia cada palavra com todo
cuidado. Seus olhos ora se concentravam em Catherine ora
em Rutherford.
- Conhecemos a história de nosso povo. Conhecemos as
histórias do passado, e desde que éramos pequenos
caminhamos por entre as ruínas de Cuzco, de Ollantaytambo
e de Tiahuanaco, a cidade dos Viracocha, próximo ao lago
Titicaca. Conhecemos a história de nosso povo de um jeito
que nenhum acadêmico espanhol ou americano sentado em
seu escritório rodeado de livros jamais será capaz de
conhecer. Mas também temos os livros, como vocês podem
ver. Não desconhecemos a erudição contemporânea. Apenas
não concordamos com ela.
O rosto do índio agora irradiava determinação. E com uma
firmeza recém-descoberta, ele prosseguiu:
- Durante muitas gerações após a conquista, os espanhóis, e
particularmente a igreja católica, fizeram tudo o que podiam
para apagar todas as provas de que nossa civilização um dia
existiu. Os monumentos e os templos religiosos foram
destruídos, os livros religiosos queimados, os sacerdotes
massacrados e as pessoas convertidas sob a ameaça da espada.
Passadas duas gerações, não havia restado praticamente nada,
e até hoje nossos filhos aprendem a versão ortodoxa de nossa
história, a versão católica. O professor Kent entendia esta
injustiça. Não foi necessário lhe contarmos que antes dos
incas houve uma outra civilização ainda mais importante.
Não sei como, mas ele já sabia disso, e queria encontrar a
prova. E nós a temos. O professor Kent era um homem
muito culto; ele nos disse que a verdade que lhe reveláramos
ajudaria a pôr à tona uma verdade ainda mais importante,
uma verdade que pode salvar a humanidade.
Ao ouvir a revelação de Flores, Catherine já decidira o que
fariam a seguir.
- Señor Flores, também podemos conhecer a verdadeira
história? Queremos dar continuidade ao trabalho do
professor.
- Señorita, por favor, chame-me de Hernan. Perdoe a
hostilidade com que os tratei de início, mas não estamos
seguros aqui. Se quisermos continuar conversando, ou
mesmo pensando nessas coisas, então devemos sair de Lima
imediatamente e partir para Cuzco.
Naquele momento, a irmã de Hernan reapareceu na porta.
Parecia estar a ponto de se desmanchar em lágrimas, e
começou a falar freneticamente na língua dos quíchua e a
apontar para os dois ocidentais. Hernan parecia constrangido
e, ao mesmo tempo, muito preocupado com a tristeza da
irmã. Usando palavras doces e falando com toda calma,
segurou-lhe as mãos, acalmando-a pouco a pouco, enquanto
a tirava da sala.
Rutherford mal percebeu. Estava preocupado com outras
coisas.
"Agora há dois homens mortos. O que Flores acha que pode
ter acontecido?"
Hernan reapareceu, balançando a cabeça em sinal de
desânimo. Antes que tornasse a falar, Rutherford, tentando
ser o mais delicado possível, lhe disse:
- Señor Flores, há uma coisa que gostaria de lhe perguntar.
Você tem alguma idéia de quem pode ser o responsável pelas
mortes do professor Kent e de seu irmão?
Hernan chacoalhou a cabeça vigorosamente, e consultou o
relógio.
- Não, creio que não. Mas não importa saber quem são. O
que importa é que eles existem. São poderosos, e estão
preparados para fazer qualquer coisa. Não estou paranóico.
Agora estamos todos correndo perigo. Acreditem no que eu
digo.
O índio tinha novamente um olhar vago. Catherine analisou
seus malares altos e seus olhos escuros. De certo modo,
apesar da terrível tragédia representada pela morte do irmão,
o homem ainda conseguia manter a dignidade.
- Hernan, muito, muito obrigada por sua ajuda. Você se
importaria de nos deixar a sós por alguns minutos para
conversarmos?
- Não, por favor, fiquem à vontade. Tenho de ir ao hospital
agora, mas se decidirem ir para Cuzco, o vôo sai às 17h30. Se
precisarem de alguma coisa, é só pedir.
Hernan deixou a sala. Catherine explodia de entusiasmo,
parecia que o caminho voltava a se abrir para eles. Virou-se
para Rutherford com um sorriso no rosto, mas
imediatamente seu coração se partiu. Era evidente, pela
expressão de James, que ele chegara a uma conclusão muito
diferente da sua.

26

Catherine tinha um olhar suplicante. Ela estava desesperada
para continuarem:
-James, eu realmente acho que deveríamos acompanhar
Hernan...
Rutherford, com a voz cheia de tensão, a interrompeu antes
que tivesse condições de prosseguir:
- Vou lhe dizer o que está acontecendo de verdade. Esses
maníacos, quem quer que eles sejam, já assassinaram Miguel
Flores e o professor Kent. E não pensarão duas vezes para
nos matar; não representamos nada para eles. São pessoas
que fazem o que bem entendem nos quatro cantos do
mundo, você sabe disso. E nem sequer sabemos o que
procuramos.
Ele se levantou e começou a caminhar para lá e para cá em
frente à lareira.
Catherine não sabia o que dizer. Tentando persuadi-lo,
começou a falar:
- Isto não é verdade. Sabemos muito bem o que procuramos,
um segredo antigo escondido nos mitos do mundo. Se
continuarmos a seguir a trilha deixada pelo professor Kent,
então tenho quase certeza de que descobriremos mais coisas.
Ela estava preocupada. Era o primeiro desentendimento que
tinham. Percebeu uma vez mais o quanto precisava do apoio
daquele amigo. Mas estava desesperada para seguir em
frente, além de furiosa por ele estar sugerindo o contrário.
Entretanto, em pé, ao lado da lareira,com os braços
cruzados, Rutherford parecia mais decidido do que nunca.
- Catherine, referir-se a esta situação como perigosa é o
eufemismo do ano. O professor sabia muito bem o quanto
esses facínoras são poderosos e implacáveis, sejam eles
quem forem ou possam ser. Se não, por que outra razão ele
teria escrito o bilhete? Não estaríamos loucos se
continuássemos neste caminho?
Catherine não suportava ouvir o que James estava dizendo.
- Entendo seu ponto de vista, mas não posso voltar atrás.
Apesar do perigo, pretendo continuar até descobrir o que
significa tudo isto.
Os olhos de Rutherford faiscavam.
- E a nossa segurança? Não tem medo de que a mesma coisa
aconteça conosco?
- Estou preparada para correr este risco.
Rutherford, com um sulco na testa causado pelo cenho
franzido, expirou lentamente. Virou-se para a janela e olhou
o quintal da casa.
De repente, percebeu que não suportava a idéia de não
voltar a vê-la. Ela entrara em sua vida menos de quarenta e
oito horas atrás e a virara de cabeça para baixo. Sabia que
estaria perdido se a deixasse escapar. Decidido a não permitir
que isto acontecesse, virou-se para ela novamente:
- Bem, não estou preparado...
Catherine não queria ouvir mais nada. Seu coração estava
despedaçado. Com a voz entrecortada pela emoção, ela
disse:
- Eu entendo. Foi muita gentileza sua chegar até aqui. Serei
eternamente grata.
Por trás daquelas palavras Catherine estava mortificada.
Embora mal se conhecessem, ela não queria perdê-lo. E não
era só porque teria de enfrentar os perigos, sozinha.
Rutherford sorria para ela, um sorriso de resignação.
- Deixe-me terminar, dra. Donovan. Não estou preparado
para permitir que corra este risco sozinha. Então, ao que
tudo indica, terei de acompanhá-la.


27

Catherine e Rutherford passaram a tarde enfiados na casa
usando a biblioteca da família Flores. As quatro horas
partiram no táxi que os aguardava para pegar o vôo
vespertino com destino a Cuzco.
No momento em que o táxi deixava a casa dos Flores e
pegava a rua poeirenta, um carro emergiu das sombras de
uma estreita rua paralela. Era um Mercedes prata. O
motorista era um índio atarracado que usava óculos escuros.
Ao seu lado estava o ocidental ameaçador vestido de preto.
No banco de trás, seu cúmplice parrudo e o Señor Mantores,
com a testa banhada em suor. Em silêncio, eles observavam
o táxi desaparecer na rua.
O ocidental sentado no banco da frente virou-se para trás de
modo que pudesse enxergar Mantores um pouco melhor e,
com um resmungo de raiva, disse:
- Aonde diabos eles estão indo agora? Tanto trabalho pra nos
livrarmos deles - virando-se para enxergar o veículo que
partia rapidamente, murmurou, quase para si: - Eu sabia que
devia ter dado um jeito em toda a família Flores naquele
momento.
Os olhos de Mantores estavam arregalados de medo. Ele
tentou falar, mas as palavras não saíram. O assassino tirou
um telefone do bolso interno do paletó e ligou para a
América do Norte. Três toques e alguém atendeu.
- Senhor, de acordo com sua ordem, apagamos o Flores.
Mas, infelizmente, os acadêmicos fizeram contato com o
irmão dele...
Houve uma interrupção enquanto a voz do outro lado
falava.
- Positivo. Entendido. Eles não vão escapar desta vez. Sim,
sim, senhor, isto vai acabar aqui, no Peru.

28

O vôo para Cuzco é uma experiência incrível. Quando o
avião decola do aeroporto de Lima e se afasta da costa, os
primeiros contrafortes dos Andes empinam-se de ambos os
lados. O avião sobe cada vez mais e as montanhas ainda se
erguem por toda parte, até que a aeronave avança pelas
nuvens e voa alto no ar. Ao longe, os picos mais altos furam
as nuvens e pontilham o horizonte como ilhas em um mar
de espuma branca.
Catherine não estava em condições de apreciar a vista. À
medida que a gravidade e as implicações das duas mortes
começavam a ficar claras, ela percebia a sensação de pânico
e de medo começando a brotar dentro de si novamente.
Eles estavam igualmente seguros ali em cima, entre as
nuvens?
Deu uma olhada nos companheiros de viagem. Como
Hernan, sentado uma fileira à frente, todos eram índios.
Estaria algum deles à serviço do inimigo sombrio?
Mas estava também muito feliz por ter James a seu lado. A
calma e o senso prático que mostrara até agora ao lidar com
a aventura extraordinária em que se envolveram a fizeram
perceber que ele era um homem muito especial. Uma
pessoa normal teria voltado para o aeroporto imediatamente
ao saber da morte de Flores. Na verdade, para começo de
conversa, uma pessoa normal sequer teria vindo. Apesar de
suas dúvidas, ele parecia ter sido talhado para os desafios que
enfrentavam. A vida entre as bibliotecas e os livros antigos
agora dava a impressão de ser muito restrita, limitada.
Embora não quisesse admitir isto para si, à medida que o
tempo passava ela o achava cada vez mais atraente.
Ao chegar às velhas ruas de Cuzco, pavimentadas de pedra,
Rutherford e Catherine lembraram-se de Oxford. O ar tinha
uma pureza surpreendente comparado ao de Lima, e por
alguns instantes ambos sentiram que haviam se livrado de
uma onda de maus presságios.
Enquanto Hernan os levava à cidade velha em um jipe
alugado, falava sem parar sobre as antigas civilizações dos
Andes. Com uma das mãos ao volante, conduzia o jipe pelas
ruas estreitas, ao mesmo tempo em que gesticulava muito
com a outra para destacar os pontos mais importantes do
que falava, fazendo o veículo seguir em ziguezague.
- Os incas não foram os criadores disso tudo. Esta é a
primeira coisa que vocês devem entender. Embora suas
belíssimas obras de arte estejam espalhadas pelos museus do
mundo, na verdade eles foram apenas os guardiões de uma
cultura muito mais antiga. Os próprios incas admitiram isto.
Alguns navegadores espanhóis mais esclarecidos, que
testemunharam a destruição total da civilização inca, ficaram
emocionados ao tentar registrar as tradições daquele povo
no momento em que desapareciam nas areias do tempo.
O jipe mudou de direção brusca e perigosamente, cruzando
o meio da rua, quase colidindo com um pequeno ônibus
colorido lotado, fazendo com que o carro derrapasse e fosse
jogado na direção oposta.
Rutherford agarrou a parte de trás do banco de Hernan.
"Como se não bastasse todo o perigo que já estamos
correndo!"
Catherine fechou os olhos por uma fração de segundo
quando o ônibus passou zunindo a toda velocidade,
deixando de chocar-se com o carro em que estavam por um
triz. Olhou para Rutherford e levantou as sobrancelhas. Pelo
retrovisor, Hernan percebeu o movimento de Catherine.
- Ai, desculpem. Tomarei mais cuidado. Vocês ainda não
estão acostumados com o jeito andino de dirigir.
Ele diminuiu a velocidade do jipe ao mesmo tempo em que
continuava a lhes apresentar seu povo:
- Acho que na verdade os espanhóis não acreditavam nas
histórias e nas tradições registradas a partir dos relatos orais
dos antigos sacerdotes. É provável que as julgassem muito
estranhas para ser verdadeiras, - mas elas são. Uma das
principais tradições que permearam os povos andinos, e é
esta que interessava ao professor Kent, é a de que existiu
uma grande civilização muitos milhares de anos antes da
nossa. Mas não se preocupem, vocês mesmos poderão
constatar isto...
Enquanto Catherine e Rutherford ouviam o que Hernan
dizia, tinham a sensação de estarem sendo transportados
para um novo mundo o tempo todo, um mundo de
príncipes, conquistadores espanhóis e do infausto colapso da
civilização inca. Pelas janelas do carro, Catherine e
Rutherford voltavam a atenção paras as roupas de cores
vibrantes trajadas pelos camponeses, os descendentes
daquele que já foi um dia um grande povo, maravilhados
com a pureza do ar, a reclusão absoluta e a beleza ímpar da
paisagem andina.
Finalmente, depois de passar pelos subúrbios de Cuzco e
chegar às charmosas ruas pavimentadas de pedra da cidade
velha, Hernan encostou o jipe na entrada de uma rua muito
estreita. Pulou para fora do carro e abriu a porta do
passageiro para que Catherine pudesse descer.
- Que bom, finalmente estamos aqui. Vou entrar e levar suas
malas para a casa de meu primo, e enquanto isso vocês
podem dar uma volta por aí. Vou dizer a ele que são meus
amigos. Seja o que for que decidam fazer, vocês não devem
mencionar o nome do professor Kent nem de Miguel. Não
quero pôr ninguém mais em risco. Assim que cair a noite,
iremos para a casa e vocês poderão dormir lá, mas teremos
de partir ao amanhecer. Não posso deixar que vocês sejam
vistos aqui.
Catherine, ao descer do jipe, perguntou:
- Não quer que o acompanhemos para podermos conhecer a
família de seu primo? Não parecerá mais natural?
Hernan dava a impressão de estar preocupado novamente.
- Não, continuo achando que vocês devem ter o mínimo de
contato possível com eles. Assim vocês também podem dar
umas voltas pelas redondezas. Mas sejam discretos... Se
forem por aquela rua ali - ele apontou a entrada de uma
outra rua estreita - e seguirem em frente, chegarão à praça
principal, Plaza de Los Almabos. Eu os encontrarei lá, na
porta da catedral, dentro de meia hora.
Rutherford esticou bem os braços.
- Ufa! Creio que já estamos viajando sem parar há vinte e
quatro horas. Eu adoraria esticar as pernas.
Hernan sorriu para ele.
- Bem, dêem uma volta por aí. Se vocês se perderem,
perguntem onde fica a catedral e lhes indicarão o caminho.
Hernan se despediu e voltou para o jipe, logo dando a
partida no motor. O veículo partiu fazendo um estrondo e
desapareceu virando a esquina. Tão logo ficaram sozinhos,
Rutherford e Catherine deram-se conta da tranqüilidade que
havia em estar ali em meio às ruas de Cuzco. O primeiro
impulso foi o de encher os pulmões com ar fresco. O céu
estava cristalino, e pela primeira vez, desde que soubera da
morte de Flores, Catherine começara a ficar um pouco mais
otimista, um pouco menos claustrofóbica. Virou-se para
Rutherford, que observava a alvenaria de uma parede
enorme e antiga que se estendia pelo lado esquerdo da rua:
- Você acha que estamos seguros aqui nos Andes?
- Tão seguros quanto possível, mas concordo com Hernan,
não acho que deveríamos ficar muito tempo. Venha até aqui
e dê uma olhada nesta parede extraordinária.
Em vez de tijolos, a parede era feita de enormes blocos de
granito multifacetados, alguns deles com três metros
quadrados de tamanho.
Catherine observava aquilo maravilhada.
- Como é que eles conseguiram fazer isso? É uma obra de
cantaria inca? - Catherine caminhou até a parede e correu a
mão sobre um dos blocos maiores. - Olha, este enorme tem
dez lados e é do tamanho de uma mesa de jantar. Incrível!
Ele se encaixa perfeitamente nos outros ao seu redor.
Rutherford recuou, maravilhado com a obra feita pelas mãos
do homem.
- Não sei dizer. Deve ser de origem inca. Seja como for, com
toda certeza não é espanhola nem européia. Imagine tentar
apenas movimentar uma das gigantes; algumas dessas
maiores devem pesar mais de dez toneladas. Venha, vamos
procurar a catedral.
Correndo a mão pela parede, Catherine acompanhou
Rutherford na leve subida da rua em direção à praça
principal.
"E pensar que apenas um dia antes estive dando minha
última palestra do período letivo e pensando nas férias. É
apenas quarta-feira à noite, mas Oxford parece ter ficado
décadas para trás. Caí em um buraco, fui arrancada da vida
confortável que tinha e mergulhei em outro mundo... um
mundo cheio de perigos."
Ela lançou um olhar sobre Rutherford e o observou
enquanto ele seguia na frente, olhando para um lado e para
o outro, enquanto, sempre curioso, analisava a cantaria de
Cuzco. Sua presença a tranqüilizava.
Conforme Hernan indicara, a ruela acabava na praça
principal, que, diferente da Plaza Mayor, em Lima, lembrava
uma cidade fantasma. Era do tamanho de um grande
povoado inglês cercado de verde. Rodeada de construções
feitas de pedra, era o ponto para o qual convergiam seis ruas
pavimentadas de pedra. Catherine alcançou Rutherford e os
dois passearam ao redor da praça, desfrutando a sensação de
espaço e tranqüilidade, aliviados por estarem longe da
atmosfera desagradável de Lima. No momento em que
chegaram à outra extremidade da praça, avistaram Hernan se
aproximando pela alameda adjacente.
- Olá! - ele gritou. - Belo lugar, não?
Catherine sorriu-lhe.
Rutherford abriu um sorriso largo e gritou de volta:
- É impossível alguma coisa dar errado com um pano de
fundo como este. Seria preciso construir algo muito feio
para estragar esta vista.
Hernan riu enquanto caminhava ao encontro dos dois.
- Sim, sim. Acho que você está certo.
Os três observaram a praça e atrás dela os telhados da cidade
velha desaparecendo no infinito.
Com um ar brincalhão nos olhos, Hernan virou-se para eles
e, com um sorriso, fez uma pergunta:
- Aqui em Cuzco os incas construíram um templo para os
viracocha. Chama-se Coricancha. Consegue vê-lo?
Rutherford e Catherine olharam ao redor tentando
encontrar uma estrutura de acordo com as características
próprias de uma obra inca. Não havia nada que lhes desse
uma pista que lembrasse a majestade de um templo.
Hernan apontou diretamente para a igreja.
- Ali está. Os espanhóis construíram a catedral no topo do
templo em 1533 com o intuito de reprimir nossa religião.
Conta-se que um dos últimos príncipes incas foi
emparedado vivo enquanto eles a construíam. Mas um dia o
deixaremos sair. Vocês sabem quem são os viracochas?
Catherine pensou no senhor idoso com quem falara durante
o vôo.
- Ouvi esta palavra para descrever o povo que desenhou as
linhas de Nazca - ela respondeu.
Hernan olhou-a de soslaio, ligeiramente surpreso.
- É isto mesmo, era o nome dado a um povo. Mas Viracocha
também era o nome de um homem, pode-se dizer, o líder
desse povo. "Viracocha" significa "espuma do mar". As
pessoas que o acompanhavam eram chamadas viracochas.
Fico satisfeito em ver que você não sofreu uma lavagem
cerebral pelos guias de viagem. Esta era sua capital, e acima
de todas as divindades ele era adorado aqui.
Catherine fez o que pensava ser uma dedução inteligente.
- Ele foi um rei inca?
Hernan balançou a cabeça em sinal de negação.
- Não. E este é o ponto importante. Ele surgiu muito tempo
antes dos incas. Não sabemos quando; não há registros
escritos. Não há provas. Por isto os acadêmicos ocidentais
ignoram as lendas dos viracochas e as consideram mitos.
Mas é um erro ignorar a existência de Viracocha. Ele deixou
suas marcas por toda a região dos Andes. Andou por toda
parte e todos os povos da região contam histórias sobre ele e
seus grandes feitos. Ele foi responsável pela cantaria e
também pelas prodigiosas características da engenharia civil.
Vocês encontrarão ruínas de construções aqui nos Andes
que os deixarão boquiabertos.
Rutherford estava confuso:
- Mas não foram os incas que construíram...
Hernan o interrompeu. Tinha o semblante sério, como se
falasse de algo da maior importância:
- Não, os incas construíram algumas delas, mas herdaram as
habilidades de Viracocha e seus discípulos.
- Mas de onde ele veio? E quando chegou aqui?
O índio lançou o olhar ao redor de toda a praça antes de
responder.
- Aí é que está o mistério. Há muitos relatos orais de sua
chegada. Até os espanhóis do século XVI mencionaram
esses relatos. Todos eles dizem que Viracocha veio do mar
com seus seguidores, e viajara seguindo a rota das
montanhas em direção ao norte, operando milagres,
ensinando a agricultura, construindo templos e até mesmo a
grande cidade de pedra chamada Tiahuanaca, e seguiu em
frente. Ele também era um curandeiro, tal como Jesus para o
cristianismo, e aonde quer que fosse concedia o dom da
visão aos cegos e a cura aos mancos, e também tirava
espíritos obsessores dos corpos das pessoas. Um
conquistador espanhol ouviu dizer que Viracocha tinha uma
longa barba branca, o rosto pálido, vestia roupas brancas e
trazia uma mensagem de amor e paz.
Catherine sentia-se envolvida numa onda de feitiço místico.
Era como se delineasse, em linhas gerais, a figura do grande
Viracocha.
Hernan olhou-a com atenção.
- Sim, ele foi um grande homem e civilizador do meu povo.
Os incas diziam que até sua chegada as pessoas viviam da
maneira mais primitiva possível. Eles não tinham animais
domesticados, nem plantações; em resumo, viviam da caça e
da coleta. Viracocha chegou e os ensinou a agricultura e a
alvenaria, a medicina, a música e a astronomia. Ele trouxe a
prosperidade e o fez de modo pacífico. Jamais lançou mão
da violência para abrir caminho, como fizeram os espanhóis.
Rutherford quis saber mais:
- Mas por que os Viracochas vieram? Eles nos dão a
impressão de que também eram colonizadores, a diferença é
que não permaneceram aqui.
- Esta é uma boa pergunta e uma das que mais interessavam
ao professor. Todas as velhas histórias dizem que a chegada
dos viracochas estava ligada ao grande dilúvio.
Ao ouvir aquilo, Catherine entrou na conversa.
- Você quer dizer que há mitos ligados a dilúvios aqui nos
Andes?
- Sim. E logo lhes mostrarei uma prova disto. Há muitas
histórias andinas sobre um grande dilúvio, semelhantes à
história que sua Bíblia conta. Depois que as águas
começaram a baixar, Viracocha apareceu no Lago Titicaca,
que é sagrado para os incas. Ali ele construiu uma cidadela
em Tiahuanaca. As ruínas permanecem lá até hoje para
todos verem. Depois de construir sua base lá, veio para
Cuzco e, sob sua supervisão cuidadosa, os remanescentes
foram resgatados daquela catástrofe e começaram a se
multiplicar.
- Então, o Lago Titicaca é o verdadeiro cerne da história de
Viracocha? - Rutherford estava fascinado.
- Sim. Há muita coisa que precisamos conversar, mas agora
devemos ir e comer alguma coisa. Venham, eu os levarei à
casa de meu primo. Por favor, lembrem-se: não devemos
falar dessas coisas perto de minha família... Para eles, vocês
são amigos em período de férias.
Hernan estava satisfeito. Seus dois convidados começavam a
entender a verdade por trás da história do Peru.

29

Na casa do primo de Hernan preparava-se o jantar. Era uma
antiga habitação construída de pedra típica de Cuzco, com
uma grande sala de estar contendo uma grande lareira em
uma das extremidades e uma cozinha adjacente, com outros
cômodos no andar superior.
O primo de Hernan, Arun, não falava muito espanhol, nem
sabia absolutamente nada de inglês. Tinha a compleição
típica de um índio, em torno de um metro e sessenta e
cinco de altura e músculos bem desenvolvidos. Sorria muito,
e parecia ser menos sério que Hernan. Catherine teve a
impressão de que jamais deixara Cuzco, nem mesmo
conhecia muito bem a cidade de Lima, e muito menos o
mundo fora dali. Hernan os apresentou e, com muitos
sorrisos e apertos de mão, Catherine e Rutherford
conseguiram expressar a gratidão por recebê-los. Hernan,
então, conversou longamente com o primo na língua dos
quíchua antes de desaparecer com ele em direção à cozinha
e voltar com algumas bebidas em uma bandeja que pôs sobre
a mesa no meio da sala.
Catherine sentou-se junto à lareira. Ali, olhando as
labaredas, pensou novamente em tudo que haviam
aprendido desde a chegada a Cuzco. Rutherford, começando
a sentir os efeitos do jet lag, enterrou-se em uma outra
cadeira e, antes mesmo que pudesse tirar o casaco, caiu em
sono profundo. Catherine olhou para o rosto de James,
iluminado pela luz do fogo crepitante, deu um suspiro e
voltou a atenção para o calor aconchegante do fogo.
Mais tarde, naquela mesma noite, após um delicioso jantar,
Hernan ajudou Arun com a louça e então aprontou-se para
voltar a sua casa. Ele fazia o possível para manter o bom
humor e procurava não falar do mal que os perseguia:
- Bem, espero que apreciem nossa hospitalidade e tenham
ficado interessados em tudo que conversamos. Antes que eu
me esqueça, creio que vocês acharão útil esta informação -
ele tirou da mochila um livro cujo título era Mitologia
Andina, de autoria de Cudden. - Este é um guia básico para
todos os mitos dos Andes. Prefiro chamá-los histórias,
porque mitos nos dão a idéia de que não são verdadeiras, o
que, como sabemos, está errado. Boa leitura. Passarei aqui às
cinco da manhã para apanhá-los.
Logo depois Hernan desapareceu no escuro da noite. Arun
voltou à sala e, com um sorriso no rosto, fez um gesto para
que Catherine e Rutherford o seguissem aos fundos da casa.
Rutherford, que já estava em pé, passou pela porta atrás dele
e seguiu pelo corredor até chegar a um quarto. Havia uma
beliche no meio do quarto, e nenhuma outra mobília. A
brasa de um fogo quase apagado, mas ainda quente, brilhava
na lareira. Arun pôs dois pedaços de lenha seca no fogo e
então virou-se para Rutherford, que não precisou entender
nem falar a língua de seu anfitrião para entender que aquele
era o único quarto da casa, e que, junto com Catherine,
deveriam compartilhá-lo. James sorriu para o índio e tentou
dizer, com gestos, que poderia dormir no chão da sala
principal, mas Arun simplesmente riu e balançou a cabeça
em sinal de negação. Estava claro que a hospitalidade não
seria negociada.
Naquele momento, Catherine entrou no quarto. Arun sorriu
para os dois e saiu do quarto.
Enrubescido de vergonha, Rutherford deu um passo para
trás em direção ao corredor:
- Não se preocupe. Dormirei no chão do outro cômodo - e
desapareceu no corredor.
Catherine fechou a porta atrás dele. No momento em que
fez isso, apoiou a palma da mão aberta na porta e inclinou a
cabeça, cheia de preocupação.

30

De acordo com o prometido, Hernan chegou para apanhá-
los às cinco da manhã. Com os olhos turvados, os dois foram
levados à estação e postos no trem com a promessa de que
Hernan os encontraria no dia seguinte em Machu Picchu,
logo após o funeral de Miguel.
O antigo trem de quatro vagões deixou a estação lentamente
e começou a percorrer o que é uma das maiores extensões
ferroviárias do planeta. No decorrer de uma viagem de três
horas, a locomotiva de nariz arrebitado arrasta seus quatro
vagões curtos por uma trilha ziguezagueante de 120
quilômetros, passando por fazendas e vilarejos, esforçando-
se para subir, ladeando os desfiladeiros, que lembram
abismos, com paisagens que se estendem em todas as
direções por milhares de quilômetros, e atravessar as nuvens
para chegar ao Terminal em Machu Picchu. Os telhados de
Cuzco inclinavam-se abaixo deles, e mesmo o templo de
Viracocha, a catedral, logo perdera a imponência em
contraste com os picos andinos e os grandes vales.
Catherine estava nervosa. Desde o momento em que
acordara naquela manhã tinha a forte sensação de que
estavam sendo seguidos, de que havia uma enorme
metralhadora apontada para eles; as engrenagens estavam
em movimento, e todo um aparato concentrava todas as
suas energias em persegui-los. Ela perscrutava os rostos
daqueles que estavam no vagão, mas eram somente
camponeses e turistas. "Não há nada com que se preocupar.
Seja como for, ainda não." Olhou para Rutherford e deu um
suspiro de alívio.
Ele tirara da mochila o exemplar de Mitologia Andina,
escrito por Cudden, e lia as descrições de Viracocha que
destacara na noite anterior. Seus olhos percorriam a página,
e sua cabeça disparava o tempo todo. Havia algo familiar,
mas não conseguia saber o quê.
Viracocha veio de longe, atravessou o mar. Era branco. Alto
e forte, com olhos azuis e uma longa barba branca. Trouxe-
nos todos os benefícios da civilização e o fez de modo
pacífico. Mas, certo dia, alguns homens de má índole
tramaram contra ele. Ao retornar de uma viagem, eles o
forçaram a partir descendo o rio em direção ao mar. Algum
dia ele retornará.
De repente, James fez uma descoberta.
- Catherine! Acho que descobri uma coisa. Acho que
encontrei a resposta para o que o professor procurava.
Neste momento Catherine apreciava a mágica paisagem, e
olhou surpresa para ele.
- O quê? O que você quer dizer?
- Acho que descobri um padrão recorrente. Em seu bilhete,
o professor Kent disse que descobrira o segredo da
verdadeira história do mundo incrustado em mitos e lendas
antigos. Desde então venho queimando os miolos para
descobrir exatamente o que ele poderia ter desejado dizer.
Qual é esse segredo, esta "verdadeira história" a que ele se
refere? Se todos os mitos contêm essa história verdadeira
disfarçada em suas histórias, então deve haver temas que se
repetem em tradições míticas totalmente independentes
umas das outras.
Catherine parecia confusa:
- De que modo?
- Veja. Encontramos a história do dilúvio em toda parte. O
professor realmente acreditava que houve um cataclismo
mundial que destruiu uma civilização mais antiga e
desenvolvida. Mas que outros mitos são contados de
maneira ligeiramente diferente vez após vez, em todo o
mundo? E então, de repente, enquanto lia sobre o mito de
Viracocha percebi...
- O quê?
- Que a história contada era a mesma, em linhas gerais, de
Osíris, a mais importante de todas as divindades egípcias. É
um padrão, um tema recorrente. E isto faz sentido. Todas as
culturas têm muitas, muitas histórias menos importantes,
mas os mitos centrais são os mais fortes. Eles duram séculos,
até mesmo milênios. Esconda a história verdadeira nesses
mitos e ela não se perderá. Estou certo de que encontrei um
paralelo entre Viracocha e Osíris, a divindade egípcia, e
deve haver outros mitos centrais como estes existentes em
todo o mundo.
- Mas isto é impossível - Catherine exclamou. - Não houve
nenhum contato entre as duas culturas; elas estão em lados
opostos do Atlântico.
- Bem, ouça o seguinte... - Rutherford leu a seção sobre os
conspiradores que depuseram Viracocha e sua partida
subseqüente a bordo de um barco em direção à costa. Logo
em seguida, começou a recontar o mito de Osíris a
Catherine. - Osíris era o deus da ressurreição. Ele chegou ao
Egito com seus discípulos muito, muito tempo atrás, e
introduziu todos os benefícios da civilização. Como
Viracocha, e Jesus Cristo, era um homem pacífico e jamais
tentou forçar quem quer que fosse a adotar seus métodos,
mas persuadia as pessoas e liderava pelo exemplo. Passado
algum tempo, Osíris decidiu viajar ao exterior, para que
pudesse levar a civilização a outros povos primitivos,
dizendo aos egípcios que logo estaria de volta, e deixando
Seth, seu irmão, encarregado de tudo. Mas Seth já invejava
Osíris, e logo percebeu que aquela seria uma ótima
oportunidade de tramar contra ele. O traidor convenceu
outros a se juntarem a ele e em pouco tempo já reunira um
grupo de setenta e dois conspiradores. Quando Osíris
retornou de suas viagens, estavam todos prontos para o
ataque. Organizaram uma grande comemoração em sua
honra e, no auge da festa, haveria um jogo. Todos os
convidados tinham de tentar a sorte entrando em uma caixa
de madeira que fora feita especialmente para a ocasião.
Aquele que coubesse na caixa seria o vencedor. Mas Seth
garantira que a caixa fosse construída para que apenas Osíris
coubesse nela. Depois de todos os outros convidados terem
tentado, foi a vez de Osíris, e ele lá entrou e deitou-se. Logo
em seguida, os conspiradores fecharam a tampa da caixa e a
lacraram para sempre. A caixa foi jogada no rio Nilo, onde
foi arrastada pelas águas até chegar ao mar, de onde acabou
indo parar em um lugar chamado Biblos. As ligações entre
uma história e outra estão aí para todo mundo ver -
Rutherford estava convencido. - Mesmo a história de Jesus
Cristo tem ecos. O homem de barba que chega em missão
de paz, andando sobre a água, contra quem tramam uma
conspiração e o sepultam. E todas as três histórias nos dizem
que em algum momento do futuro eles voltarão.
- Você tem razão, é um mistério.
- Um mistério? É mais que isto! É mais do que uma simples
coincidência também. Uma coisa é certa, Viracocha e Osíris
são a mesma personagem. É em mitos como este que o
código deve estar escondido. O fato de a mesma história ter
sobrevivido em duas culturas que não têm relação alguma,
durante sabe-se lá por quantos milhares de anos, demonstra
que são veículos perfeitos para uma antiga mensagem.
- Mas você consegue entender o que dizem as duas
mensagens?
- Não, ainda não. Mas pelo menos agora sabemos por onde
começar - Rutherford afundou-se na cadeira, perdido em
pensamentos sobre as mitologias do mundo.
À medida que o trem subia lentamente a trilha longa e
tortuosa, mais escarpada se tornava a paisagem. As laterais
íngremes dos vales eram cobertas de vegetação, e a idéia de
deslocar qualquer coisa por aquelas encostas quase verticais
para construir um templo no coração das montanhas parecia
insano, o que dizer então de movimentar pedaços de pedra
gigantes.
Por fim, o trem começou a chiar e a ranger na direção do
caminho inclinado que leva a Machu Picchu Puentas
Ruinas, a entrada para as famosas ruínas. Catherine olhou
para baixo e avistou o rio sagrado dos incas, o Urubamba,
que serpenteava abaixo deles, envolvendo a base das
montanhas como uma serpente verde e reluzente.

31

A estação se desenhava à frente; havia índios
movimentando-se para um lado e para outro na plataforma,
e todos no vagão recolhiam suas sacolas e pacotes,
preparando-se para deixar o trem. De repente, Catherine
não acreditou no que viu. Assim que olhou na direção da
plataforma, sentiu o coração parar de bater por um
momento. Fechou os olhos, respirou fundo e olhou
novamente. Lá estava Ivan Bezumov, vestido com um terno
de linho. Inspirou bruscamente e recostou-se enquanto o
trem rangia e gemia seguindo seu caminho, passando pelo
estranho homem.
Catherine encarou Rutherford com os olhos arregalados.
- Você não vai acreditar, mas tenho certeza de que acabo de
ver aquele russo estranho, o tal Bezumov. Ele está na
plataforma. Está vindo em nossa direção. O que é que ele
pode estar fazendo aqui? Meu Deus, James, o que podemos
fazer? Para onde podemos correr?
Rutherford quase pulou de susto.
- Ele está aqui? Não é possível - mas, no exato momento em
que disse essas palavras, avistou o russo caminhando
resoluto na direção do vagão em que estavam, acompanhado
de dois índios troncudos.
No mesmo instante, o trem finalmente deu um solavanco e
parou em meio a uma cacofonia de aço guinchando e vapor
sibilando. Com a adrenalina correndo nas veias, Rutherford
tentou desesperadamente pensar em um jeito de escapar.
Havia apenas uma saída pelo portão, na outra extremidade
da plataforma, mas Bezumov e seus comparsas bloqueavam
o caminho.
Cruzando o vagão, abriu a porta do outro lado do trem e
ficou sem ar, estupefato. A porta escancarou-se acima da
vertiginosa encosta formada de pedras empilhadas que se
precipitavam a centenas de metros abaixo em direção ao rio.
Mais um passo, e ele teria tropeçado e morrido. Recobrando
o equilíbrio, deu meia-volta. Catherine estava paralisada. Era
tarde demais, o homem de branco agora estava logo ali, fora
do vagão.
Enquanto olhavam para a porta, cheios de pânico, os dois
tinham a impressão de que o tempo parara. Ivan Bezumov
pisou no trem e abriu a porta. Com o sotaque russo
carregado, dirigiu-se a eles:
- Dra. Donovan e dr. Rutherford, bem-vindos a Machu
Picchu.
Rutherford perdeu a fala. Pensamentos desconexos
explodiam-lhe na cabeça.
"Ele vai atirar em nós? O que ele tem a ver com tudo isso?
Ele matou o professor?" Ao pensar assim, Rutherford sentiu
o corpo formigar de tanta incredulidade e horror. "Mas, se
ele não vai nos matar, então que diabos está acontecendo?"
Bezumov falou primeiro, abrindo um largo sorriso:
- Por favor, não fiquem tão tristes em me ver. Sinto muito
pelo ocorrido em nosso último encontro, fui insensível e
esqueci-me das regras de boas maneiras. Permitam que eu
me redima.
A raiva superou o medo de Rutherford:
- Bezumov, que raios você está fazendo aqui? Como sabia
que estávamos vindo para Machu Picchu? Como é que você
chegou aqui?
- Desculpe, não pretendo persegui-lo como um maníaco, é
que preciso mesmo falar com vocês. Fui ao escritório do
Reitor e ele me disse que vocês tinham partido.
Catherine sentiu um frio na espinha. "Como é que o Reitor
sabia que eu vinha para o Peru?"
Bezumov continuou:
- Devido à minha familiaridade com o trabalho do professor,
imaginei que mais cedo ou mais tarde vocês acabariam
vindo para cá. Peguei o vôo seguinte ao de vocês e vim
direto de Lima. Eu os estava aguardando na esperança de
que logo chegassem aqui. Quando os vi, fiquei muito
aliviado, mas perdoem-me, não tive nenhuma intenção de
assustá-los.
Agindo como um nobre inca de outros tempos, Bezumov
ordenou aos dois índios que levassem as malas de Catherine
e Rutherford. No mesmo instante, James postou-se na porta
do trem para bloquear a passagem. Catherine juntou-se a ele;
tinha o cenho franzido de raiva, uma raiva de quem não
compreende o que está acontecendo. Bezumov ofereceu-
lhe a mão e, com um sorriso sedutor, disse:
- Por favor, permita-me levá-la ao meu hotel.
Catherine não se impressionou com o cavalheirismo de
Bezumov. A impressão que tivera ao conhecê-lo não tinha
sido nada boa, e agora, estando ali, sua presença, aquele
rosto magro e ansioso, o nervosismo evidente a
perturbavam ainda mais.
- Não, obrigada. Preferimos não ir. Encontraremos um lugar
para ficar.
Bezumov balançou a cabeça, demonstrando
desapontamento.
- Creio que o ônibus já está cheio de mochileiros, e meu
hotel é o único que ainda tem quartos disponíveis. Tenho
um carro aguardando lá fora. Permitam-me oferecer-lhes
uma carona. Podemos deixar suas malas no hotel e em
seguida sair para um passeio pelas ruínas.
Bezumov virou-se e seguiu rapidamente pela plataforma.
Catherine e Rutherford deixaram o vagão e o observaram
enquanto caminhava. Rutherford olhou-o surpreso.
- Quem é ele? Nós nem sequer sabíamos que viríamos para
cá até conhecermos Hernan... Você acha que ele está do
lado dos inimigos do professor, quem quer que eles sejam? E
por que está tão obcecado para falar com você? É incrível,
ele viajou metade do mundo contando com a possibilidade
de encontrá-la.
Catherine estava pensativa.
- Não sei. Estou muito confusa. Mas tenho medo dele -
virando-se para ele, olhou-o nos olhos e perguntou: - Bem,
o que é que vamos fazer? Devemos tentar fugir? Ele nos
encontrará, não acha? Se ele é perigoso, não fará nada até
descobrir o que quer saber. Talvez seja melhor conversar
com ele, tentar apurar qual era a ligação que tinha com o
professor sem lhe dizer nada. Em seguida, temos que sair
daqui o mais rápido possível. O que você acha desta idéia?
Catherine ergueu a mão, tocou o antebraço de James e o
apertou com delicadeza. Ele ficou quieto por um instante, e
então pôs sua mão na de Catherine e assentiu com a cabeça.

32

Enquanto Catherine e Rutherford entravam no carro, o
motorista manteve a porta aberta. Bezumov estava sentado
no banco da frente, e Catherine podia vê-lo observando-a
pelo espelho com toda a atenção. Apesar do medo que tinha
daquele russo esquisito, ainda estava furiosa. Um leve sorriso
se desenhou no rosto macilento de Bezumov:
- Dra. Donovan, peço-lhe desculpas por ter feito tanto
mistério. Quando nos conhecemos, pensei que fosse apenas
mais uma acadêmica, por isso não quis conversar com você
sobre aquilo em que eu e o professor vínhamos trabalhando.
Agora que veio até aqui, sei que tem conhecimento de
alguma coisa. Portanto, podemos ser mais explícitos.
Catherine e Rutherford olhavam para ele. O motorista deu a
partida no carro e seguiu em frente pela rua poeirenta,
afastando-se da estação e seguindo rumo a Machu Picchu.
Bezumov prosseguiu:
- Pertenço à Academia de Ciências de São Petersburgo, na
Rússia. Sou geólogo de formação, mas, como o professor,
meu trabalho afastou-me de minha área de estudos inicial.
Tornei-me um especialista em rochas antárticas e, em 1989,
liderei uma expedição ao local que vocês, ocidentais,
denominam Costa do Príncipe Harold, uma província
costeira da Antártida, e fiz uma descoberta importantíssima:
encontrei provas de que a flora tropical crescera na
Antártida no antigo período Palaeoceno ou Eoceno. Isto, é
claro, significava que o clima um dia fora tropical... Para
encurtar a história, a União Soviética se dissolveu, meu
departamento perdeu os recursos financeiros, e ninguém,
além do professor Kent, estava interessado em minha
pesquisa. Ele entrou em contato comigo pela primeira vez
em 1998, e desde então vínhamos trabalhando com
questões relacionadas aos atuais clima e geologia da terra.
Bezumov desprendeu o cinto de segurança e virou-se para
poder olhar para eles.
- Quando digo recentes, refiro-me ao período em que teve
início a última glaciação. Isto corresponde aos últimos 100
mil anos.
Catherine dava sinais de que não acreditava no que acabara
de ouvir.
- Então, por que não mencionou isto da primeira que nos
vimos? E por que viajou metade do mundo atrás de nós?
O russo deu um sorriso amarelo e olhou para ela com uma
expressão curiosa e indecifrável:
- Minha querida, mais de 15 anos de trabalho chegavam ao
fim, quando de repente descobri que o professor estava
morto, Creio que você entende o quanto eu estava
preocupado com os frutos de nosso trabalho.
Rutherford não estava convencido do que ouvira.
- Se vocês vinham trabalhando juntos, por que você não
tinha cópias da pesquisa também?
Bezumov manteve o sorriso, mas agora tinha um ar meio
arrogante, quase desdenhoso:
-John... Ah, desculpe, é James, não é? Dois dias antes da
morte do professor, ele me telefonou para dizer que
descobrira provas cabais para a premissa de que o clima da
Antártida, no período anterior a 4.000 a.C., era propício, ou
seja, favorável à existência de vida, e não um deserto de
gelo. Desde minha primeira viagem, eu jamais conseguira
voltar à Antártida, e ninguém tem interesse em minhas
teorias. O trabalho ao qual dediquei minha vida, minhas
descobertas, correm o risco de ser desconsiderados pela
ciência e pelo mundo. Preciso saber o que o professor
descobriu.
Catherine tinha um único pensamento: "Os mapas. A prova
a que o professor se referia devia ser o conjunto de mapas.
Ele deve ter pensado que tinha a última peça do quebra-
cabeça, ou deve ter decidido que era o momento de permitir
que Bezumov tivesse acesso a suas descobertas."
- Então por que eu? Por que insiste em seguir meu rastro?
Bezumov deu um sorriso contrito.
- Porque você, Catherine, é, sem dúvida, a pessoa mais
próxima do professor. Quem mais poderá resolver os
negócios dele na Inglaterra se não for você? Você terá
acesso a tudo.
Catherine ficou boquiaberta.
"Talvez Bezumov conhecesse muito bem o professor. De
que outra maneira ele teria conhecimento do quanto éramos
próximos? Mas por que algo ainda me diz para não confiar
nele?"

33

As fantásticas ruínas de Machu Picchu ficam no topo de
uma montanha que se destaca em um enorme vale
envolvido pela selva. Chega-se até lá por um caminho que
serpenteia em direção ao norte, em meio a rochas cobertas
de líquen que se estendem pelo cume de localização
precária. À medida que o caminho serpenteia em sentido
descendente por fragmentos de rocha e abrolhos, os
declives das montanhas ao redor desaparecem aqui e ali por
trás dos redemoinhos roliços e borbulhantes de nuvens.
Alguém que tenha pisado esta paisagem surreal jamais se
esquece do que viu.
Tão logo Catherine, Rutherford e Bezumov desciam pela
trilha escarpada, Machu Picchu revelou-se logo abaixo.
Catherine olhou maravilhada para o mais belo espetáculo
que jamais vira. Quem quer que tivesse construído aquelas
obras de cantaria as posicionara com perfeição em meio à
paisagem rodeada de montanhas e vales e pastagens,
calcadas de tal modo que se tornavam tão importantes
quanto os megalitos esculpidos. Havia equilíbrio em tudo;
tudo estava em harmonia. Rutherford, que estava alguns
passos para trás, a alcançou ficou sem palavras de tão
surpreso.
- Os incas acreditavam viver na quinta era. Em sua
concepção, houvera terríveis cataclismos ambientais
causados pela ira de um deus. Como vocês podem ver... - o
russo interrompeu o que dizia para tomar fôlego; em
seguida, correu a mão no ar num gesto que apontava aquela
vista inspiradora - ...eles não eram necessariamente primiti-
vos. Entretanto, a verdadeira impressão que se tem é a de
que apesar de Viracocha ter ensinado aos povos andinos
como viver em paz, eles realizavam sacrifícios humanos.
Parece que sacrificavam as pessoas, e, muitas delas, em
altares inspirados nas versões incas das Linhas de Ley. Vocês
sabem o que são Linhas de Ley?
Satisfeito por haver algo que realmente soubesse em meio a
tudo aquilo, Rutherford quebrou o silêncio:
- Sim, eu as estudei.
- Talvez você possa explicar o que são à dra. Donovan.
Rutherford olhou para Catherine. Ele não queria colaborar
com o russo, mas ela aguardava a explicação. Meio a
contragosto, então, começou a falar:
- As Linhas de Ley correspondem ao sistema de linhas de
energia naturais responsáveis pela conexão de todos os sítios
arqueológicos da Inglaterra. Na década de 1920, um homem
chamado Alfred Watkins analisou a vista da zona rural e
percebeu uma enorme rede de linhas que ligavam todos os
antigos lugares sagrados da história britânica uns aos outros.
Encantado com o que pensava ter visto, obteve um mapa
produzido pela Ordnance Survey e teve a confirmação. Era
possível desenhar linhas perfeitamente retas cruzando os
mapas da Inglaterra, unindo todos aqueles lugares sagrados.
Em alguns casos, as linhas se estendiam por todo o país,
atravessando o coração de um local após o outro.
Catherine estava muito intrigada:
- Que espécie de locais? Você se refere a lugares como
Stonehenge?
Rutherford inclinou a cabeça em sinal afirmativo, sem
conseguir conter o entusiasmo que lhe era peculiar.
- Sim, isto mesmo. Este é um exemplo bem apropriado.
Stonehenge, o Monte de São Miguel, Land's End e a
Catedral de Salisbury estão precisamente alinhados. Este tipo
de alinhamento exato seria muitíssimo difícil de conseguir,
mesmo contando com as modernas técnicas de
levantamento topográfico, e muitos menos se pensarmos em
milhares de anos atrás.
- Para que servem essas linhas?
Rutherford sorriu.
- Ah... Bem... Na verdade ninguém sabe. Não é apenas uma
coincidência ou o resultado de uma probabilidade estatística.
O próprio Watkins, um homem essencialmente prático,
tinha a teoria de que elas eram, em sua origem, rotas de
comércio.
Bezumov se interpôs, dando a impressão de impaciência.
- Sim, mas há outras teorias. Quase sempre, as Linhas de Ley
são alinhadas com as posições de determinadas estrelas em
certos dias do ano. Seja como for, os incas tinham algo
correspondente às Linhas de Ley: as chamadas ceques. Elas
representavam os reflexos das constelações e estrelas mais
importantes sobre o solo. Essas linhas todas se encontravam
no templo de Coricancha, em Cuzco, e de lá se espargiam
como os raios de uma roda. Uma das linhas mais longas
parte de Cuzco e em seguida percorre 800 quilômetros,
certeira como uma flecha, e atravessa Machu Picchu,
Ollantaytambo e Sacsayhuaman, antes de acabar cruzando o
Lago Titicaca e atingir Tiahuanaca, a cidade envolta nas
nuvens.
Rutherford jamais ouvira falar de outros sistemas de linhas.
- Elas existem em algum outro lugar? - ele perguntou. A
curiosidade superava sua aversão pelo russo.
Bezumov ficara muito animado com a conversa, era como
se estivessem tratando de seu assunto preferido.
- Oh, sim. Os chineses têm as linhas do dragão. Elas são a
base para a arte do feng shui, o posicionamento adequado
dos objetos na paisagem. Eles acreditavam que lung mei era
a versão global das linhas da acupuntura que percorrem o
corpo humano; as construções e os lugares sagrados eram
semelhantes aos pontos de acupuntura, e são um modo de
ter acesso ao fluxo de energia. Os aborígines da Austrália
têm as song lines, os irlandeses, os caminhos das fadas, e
ainda há muitos, muitos outros exemplos. Essas linhas
envolvem todo o mundo. Tenho minhas próprias teorias
com relação à sua utilidade... - de repente, Bezumov mudou
de assunto. - Mas há um outro problema. Onde é que
estávamos mesmo? Ah, sim! Machu Picchu. O que quero
dizer é o seguinte: os altares de sacrifício, assim como outras
construções, mesmo a verdadeira localização do próprio
lugar, são todos posicionados de modo tal que fiquem
alinhados com as diversas estrelas e constelações em
diversos dias cruciais do ano. Por exemplo, o solstício de
primavera, ou dia do meio do verão - ele elevou a palma da
mão acima dos olhos e estudou o local em silêncio por
alguns instantes antes de continuar. - Agora, dra. Donovan,
creio que você conhece o software para astronomia
conhecido por Skyglobe?
Catherine fez um sinal afirmativo com a cabeça.
- Sim, eu o usei muito ao longo dos anos.
- Bem, como você deve saber, o Skyglobe permite que se
tenha a visão exata da configuração do céu em qualquer data
no passado.
Rutherford estava impressionado:
- Como é que ele faz isto?
- Bem, os movimentos e as velocidades das estrelas, dos
planetas e de outros corpos celestes são totalmente
previsíveis. O Skyglobe pode demonstrar qual era a
configuração do céu em qualquer data no passado e a partir
de qualquer posição na superfície da Terra.
- É mesmo? Isto é como voltar ao passado.
- Sim, o programa é muito poderoso. Agora, no caso de
Machu Picchu, isto é muito útil. Se precisássemos voltar a
esta noite, e tentássemos alinhar o altar com alguma estrela
ou constelação em particular, teríamos a impressão de que o
local não tem nenhuma relação com o céu.
- Como é que você sabe? - Rutherford perguntou.
- Eu e o professor Kent já havíamos tentado, em diversas
ocasiões.
Catherine entendia perfeitamente o que o professor e
Bezumov vinham tentando fazer.
- Então, teoricamente, vocês usaram o programa de
computador para descobrir em que data houve o
alinhamento entre o local e as estrelas? - ela perguntou.
Bezumov a fitou com um olhar pensativo.
- Acertou na mosca.
- E o que é que vocês descobriram?
O russo fez uma pausa, olhando para os dois com uma
expressão indecifrável:
- Descobrimos que o traçado original de Machu Picchu deve
acontecido não há 500 anos, de acordo com o que afirma a
arqueologia moderna, mas, sim, em algum momento entre
4.000 e 3.000 a.C.
De tão aturdidos, os dois ficaram em silêncio por alguns
instantes, e em seguida Rutherford murmurou:
- O que significa que este não é um local construído pelos
incas.
Catherine continuou o raciocínio:
- Tudo aponta para a mesma conclusão. Houve uma
civilização anterior...
Bezumov parecia muito satisfeito consigo mesmo.
- Sim. Então, agora você sabe em que eu e o professor
estávamos trabalhando. Venha e olhe mais de perto.
Depois de mais de duas horas, Catherine e Rutherford
finalmente subiram os degraus que os afastavam do local e
voltaram ao hotel. Bezumov retornara uma hora antes,
deixando-os explorar as ruínas, sozinhos e, enquanto
perambulavam de volta ao saguão do hotel, Catherine deci-
dira o que queria fazer a seguir.
- As coisas estão finalmente começando a fazer um pouco
mais de sentido. Creio que devemos mostrar os mapas a
Bezumov. Ele fez a parte dele na barganha e, de qualquer
maneira, isto pode ajudar a esclarecer um pouco mais as
coisas.
- Falar com ele é uma coisa, mas se você lhe mostrar os
mapas, perderemos nossa única moeda de troca. Quem sabe
o que ele será capaz de fazer se não precisar mais de nós?
Catherine caminhou até ele, pegou sua mão direita, pondo-a
entre as suas, e a apertou com delicadeza.
- James, confie em mim. Se você estiver certo, e o russo não
estiver sendo cem por cento honesto conosco, então é
possível que sua reação ao ver os mapas nos diga alguma
coisa. Sabemos que houve uma civilização antiga, mas estou
convicta de que há mais para saber, e Bezumov pode ser
aquele que nos ajudará, mesmo que acabe fazendo isto sem
intenção.
Rutherford baixou os olhos, olhou para ela e, fingindo
indiferença ao contato físico, encolheu os ombros.
- Ainda acho que não é uma boa idéia. Estamos
completamente sós aqui. Se alguma coisa sair errado...
Catherine soltou-lhe a mão e continuou a caminhar.
- Devemos tentar - ela insistiu, determinada.
James a observou ir e então, virando-se uma última vez para
contemplar aquela visão mágica, deu um profundo suspiro,
balançando a cabeça.
"Não me agrada nem um pouco..."
Tão logo entraram no restaurante do hotel, avistaram
Bezumov já sentado à mesa. Um garçom estava lhe servindo
um copo de água. No momento em que os viu, saltou da
cadeira e, fazendo um gesto expansivo com a mão, os
convidou a se sentar. Ao sorrir-lhes, a acolhida foi mais que
amistosa. Em seguida, percebeu que Catherine carregava o
envelope contendo os mapas. Seus olhos se iluminaram no
mesmo instante.
- Ah! Vejo que tem alguma coisa para mim, não?
Catherine caminhou até onde estava Bezumov, com
Rutherford logo atrás, e pôs o dossiê sobre a mesa.
- Sim, o professor Kent enviou-me estes mapas do Peru
pouco antes de morrer.
Os olhos de Bezumov ficaram ainda mais arregalados, e sua
boca abriu-se num sorriso ganancioso. Agarrando o
guardanapo, começou a limpar as mãos com toda a pressa.
De repente, o sotaque russo começou a ficar mais forte à
medida que perdia a compostura.
- Você disse mapas? Mas isto é fantástico...
Catherine começou a abrir o envelope. Bezumov balançava
as mãos com impaciência. Os mapas foram retirados do
envelope e Catherine afastou-se para que o russo pudesse
reinar absoluto sobre os preciosos documentos.
Como se estivesse possuído por alguma força sobrenatural,
seus olhos pareciam estar prestes a saltar das órbitas. Com
toda a reverência, como se lidasse com delicadas cinzas,
dispôs os mapas sobre a mesa. Analisou detidamente cada
um deles, colocando-os de lado para passar para o próximo,
o tempo todo resmungando consigo mesmo em russo.
Rutherford, em pé a uma pequena distância da mesa, notara
a transformação. "Então este é o verdadeiro homem que
existe por trás daquela aparente placidez. De certo modo,
ganancioso, quase voraz. E é evidente que está atrás de
alguma coisa em particular... O será que ele procura?"
Então, de maneira totalmente inesperada, Bezumov
interrompeu o que fazia.
- Eu sabia! As pirâmides de Gizé, é claro!
Rutherford e Catherine aproximaram-se para ver melhor o
que lhe causava tamanho entusiasmo. Parecia um mapa-
múndi comum, mas no canto superior direito havia a
legenda "Suposto Meridiano do Mapa de Piri Reis.
Propriedade da Força Aérea dos Estados Unidos". A linha do
mapa que indica a longitude zero, em vez de passar pelo
Observatório de Greenwich em Londres, atravessava o
deserto, adjacente ao Cairo.
- Gizé! Por que não confiei na minha intuição?
Catherine e Rutherford olharam-se perplexos.
Catherine foi a primeira a falar:
- O que isto quer dizer?
Com um sorriso cruel, o russo virou-se para ela.
- Isto significa, minha querida, que alguma criatura que
trabalha nas forças armadas dos Estados Unidos se deu ao
trabalho de calcular o ponto em que os criadores do mapa de
Piri Reis situaram seu grau zero, o equivalente, para eles, ao
Observatório de Greenwich. E este ponto é a pirâmide de
Gizé...
Rutherford ainda estava confuso.
- Mas o que há de tão extraordinário no fato de Gizé ter sido
o meridiano principal na antigüidade?
Bezumov o encarou com um olhar sinistro. A força e a
estranheza daquele olhar foram tais que Rutherford deu um
passo para trás.
- Isto significa que o Egito, ou a Grande Pirâmide de Gizé,
para ser mais preciso, fica no centro do mundo antigo. Esta
informação é de suma importância.
Os olhos de Bezumov brilhavam intensamente, perdidos no
infinito. Ele parecia preocupado, como se falasse apenas
consigo mesmo.
- Essas obras de arte e arquitetônicas de proporções
monumentais, as linhas de Nazca, Angkor Wat no Camboja,
Kathmandu, a cidade antiga nos Himalaias, e as ilhas
sagradas misteriosas do Oceano Pacífico, Nan Medol, Yap e
Raiatea, estão todas ligadas umas às outras, partes de uma
grande máquina, e o centro, o cérebro dessa máquina foi
localizado em Gizé, nas pirâmides. Este foi o ápice das
civilizações antigas. E dentro de quatro dias, na segunda-
feira, ao nascer do sol, haverá o equinócio de primavera.
Tenho de estar lá! Aquele que controlar Gizé controlará o
mundo...
Bezumov parecia ter se esquecido de que Rutherford e
Catherine estavam ali. Apoiou as mãos na beirada da mesa e
empurrou a cadeira para trás. Olhou para cima por alguns
instantes, como se fizesse uma prece silenciosa ou tomasse
uma decisão, e, de repente, abaixou os olhos em direção a
Catherine e Rutherford.
- Ah! Toda essa emoção me deixou exausto. Por favor, me
dêem licença. Nossa, acho que o jet lag me pegou. Preciso
subir e me deitar.
Depois, despediu-se, inclinando levemente a cabeça e,
dando meia-volta, retirou-se rapidamente do restaurante do
hotel e desapareceu na escuridão do corredor à frente.
Catherine e Rutherford entreolharam-se, pasmos.
- Que diabos você pensa que aconteceu ali? E o que é que ele
quis dizer com "uma grande máquina", parece conversa de
doido - disse Catherine.
Rutherford olhou para o vão da porta pelo qual o russo
acabara de passar.
- Não tenho a menor idéia, mas uma coisa eu sei. Bezumov
tem um objetivo bem específico, e não me refiro apenas ao
amor de um acadêmico pelo conhecimento. Quanto à
sanidade, dado o que acabamos de ver, eu diria que ele está,
sem sombra de dúvida, fora de seu juízo perfeito.
- O que são aqueles lugares a que ele se referiu? Como é que
eles se encaixam?
Rutherford, que estava com o cenho franzido por um
profundo sulco, explicou:
- Eles correspondem a outros lugares antigos. Angkor Way
representa uma das ruínas mais espetaculares de todo o
mundo. Fica no coração da selva cambojana.
- Ruínas de quê? De pirâmides?
- Não, de pirâmides não. É um enorme conjunto de setenta e
dois palácios de pedra, observatórios de astronomia e
templos. O maior deles, a peça central do local, tem seu
acesso feito por cinco rotas, e, de um lado e de outro dessas
rotas, há cinqüenta e quatro deuses que carregam uma
serpente gigante, cujo corpo lembra uma corda, o que dá um
total de 108 deuses em cada rota. Parece um cabo de guerra,
mas, na verdade, a cobra está enrolada em uma "batedeira de
leite", e eles "desnatam" o oceano leitoso da via láctea.
- E os outros locais?
- Bem, Katmandu fica escondida no alto das nuvens do
Himalaia. Ninguém sabe quando foi fundada. Com relação
aos outros, são todos ilhotas perdidas na imensidão das águas
do Pacífico. Elas abrigam ruínas espetaculares de civilizações
extintas há muito tempo, e todas são lugares sagrados.
Catherine fez que sim com a cabeça e olhou para a pilha de
mapas que agora estavam espalhados pela mesa.
- E Bezumov pensa que esses locais estão todos ligados por
Linhas de Ley.
Os olhos de Rutherford encheram-se de um brilho súbito,
revelando que entendera o que tudo aquilo significava.
- Sem dúvida, acabamos de lhe fornecer a última peça do
quebra-cabeça. E o equinócio de primavera, que acontecerá
daqui a quatro dias, é, de algum modo, decisivo...

34

Catherine ficou sem ar de tanto pavor. Alguém tentava abrir
a porta do seu quarto forçando a frágil fechadura com todo
cuidado. Deitada na cama, em meio ao escuro, a audição
aguçada, estava bem claro que havia alguém prestes a entrar
à força. De repente, ela sentiu uma grande carga de
adrenalina invadir-lhe o corpo.
"Meu Deus, é Bezumov! Ele veio para me assassinar!"
Ouviu a maçaneta girar e percebeu que um corpo entrava no
quarto. Haveria alguma coisa que pudesse usar como arma,
havia uma saída?
Quando tentou se concentrar, apesar do pânico e da
escuridão, enxergou uma silhueta musculosa e de baixa
estatura. De modo instintivo, rolou da cama para o chão,
afastando-se da figura que avançava. Mas, ao primeiro
farfalhar das cobertas, uma voz sussurrou na escuridão:
- Catherine, não se preocupe, sou eu, Hernan. A voz do
índio soava aflita, desesperada.
Catherine arfou aliviada, e quase sorriu.
- Hernan! O que é que você está pensando? Quer que eu
morra de susto?
O despertador sobre o criado-mudo marcava 2h37 da
manhã. Antes que ela conseguisse ao menos perguntar o
que se passava, Hernan, ofegante, falou:
- Silêncio! Você tem que sair daqui já.
Conforme a adrenalina diminuía, Catherine tentava
entender o que acontecia.
- O quê? Por quê?
- Havia dois homens em Cuzco fazendo perguntas sobre
você. Não sei se alguém do hotel lhes disse que você estava
aqui, mas temos que sair imediatamente.
- Dois homens? Mas quem são eles?
Hernan chegou até a janela para verificar se as cortinas
estavam completamente fechadas e, em seguida, acendeu o
abajur na pequena escrivaninha.
- É isto que me assusta. Ninguém sabe quem são eles. Nas
últimas duas noites, esses homens têm percorrido os hotéis
e os albergues de Cuzco tentando descobrir quem esteve
hospedado. Eles não são da polícia secreta, sei muito bem
disso, embora pareçam militares. Estão tentando ser
discretos, mas conheço todos em Cuzco. Estão atrás de
vocês dois. Não podemos perder um minuto sequer. Mais
cedo ou mais tarde eles irão à estação de trem e descobrirão
que vocês pegaram o trem ontem pela manhã e saberão que
estão aqui. É possível que já estejam a caminho...
Uma vez mais Catherine sentiu o já conhecido medo
percorrer-lhe a espinha.
- Ai meu Deus! O que podemos fazer?
- Nós os levaremos até a fronteira com a Bolívia e
desceremos até La Paz. De lá, vocês ficarão por conta
própria. O mais importante é tirá-los do Peru, e logo. Dê-me
suas passagens de avião. Eu mudarei as datas de embarque
com um agente de viagens; isto os deixará confusos e talvez
lhes dê um pouco mais de tempo. Certo?
Catherine começava a entender a gravidade da situação,
então, de repente, lembrou-se do russo.
Sentando-se na cama, ela disse:
- Hernan, temos um problema.
- Qual?
- Encontramos um conhecido de Oxford.
Hernan mal podia acreditar.
- O quê? Do que você está falando?
Catherine ficou meio sem jeito.
- Olha, eu sei que parece ridículo, mas um sujeito de Oxford
que também conhecia o professor veio a Machu Picchu para
nos encontrar.
- Você está brincando! Parece que meio mundo está aqui em
Machu Picchu. Quem é ele?
- E um cientista russo. Seu nome é Ivan Bezumov.
Ao ouvir aquele nome Hernan ficou tenso como um animal
amedrontado.
- Bezumov está aqui, no hotel?
Agora era a vez de Catherine ficar horrorizada.
- Humm... Sim. Você o conhece?
Antes que ela conseguisse fazer qualquer outra pergunta,
Hernan agarrou uma cadeira e a usou para calçar a maçaneta.
Virou o pescoço para trás e, com um olhar frio e cintilante,
levou o dedo ao lábio pedindo-lhe que se calasse. Em
seguida, da mochila que carregava Hernan tirou um
revólver. Catherine estava perplexa. Ele se arrastou até a
porta e, encostando o ouvido, preparou-se para ouvir
atentamente. Depois que pareceu a Catherine uma
eternidade, Hernan finalmente virou-se e, arrastando-se
pelo quarto como um gato, agachou-se próximo a ela.
- Faça as malas agora - ele sibilou. - Qual é o quarto de
James?
Em um sussurro, com a mesma urgência na voz, Catherine
respondeu:
- Número vinte e três. Hernan, o que está acontecendo?
- Depois eu digo. Acredite em mim. Ivan Bezumov não é
apenas um cientista. Temos que agir rápido; ele é um
homem muito, muito perigoso. Você sabe em qual quarto
ele está?
- Acho que está no quarto três.
- Certo. Fique aqui. Já volto.
Ainda segurando a arma na mão direita, apontada para o
teto, Hernan removeu a cadeira com a mão esquerda e abriu
a porta bem devagar. Catherine, apavorada, observava a cena
enquanto ele se esgueirava pela porta, saindo para o breu do
corredor.

35

Hernan movia-se pelo corredor como um assassino treinado
em direção ao quarto de número três. Engatilhou o revólver
e apoiou-se na porta, encostando o ouvido no painel de
madeira. Com um empurrão violento, usando toda sua força
da compleição andina compacta e musculosa, Hernan bateu
o ombro contra a porta. A frágil maçaneta não teve a menor
chance. Em uma fração de segundo estava no meio do
quarto com as pernas separadas e os braços esticados diante
de si, apontando a arma para a cama. Mas ela estava vazia. O
russo já estava longe.
Hernan praguejou em alto e bom som e travou o revólver.
Catherine, com os olhos arregalados, apareceu na porta atrás
dele. Com a adrenalina baixando, de uma hora para outra
Hernan sentia-se exausto.
- Catherine, sinto muito...
Ela não podia acreditar no que via, a silhueta do índio com a
arma em punho.
Hernan apertou o interruptor para acender a luz e, fazendo
um gesto para que Catherine entrasse no quarto de
Bezumov, fechou a porta. Catherine mal continha a vontade
de fazer perguntas, mas notou que seria melhor deixar que
ele falasse primeiro. Aos poucos, Hernan se recompôs e,
quando recobrou o fôlego, olhou para a arma meio enver-
gonhado, e deu um sorriso tentando se desculpar.
- Ivan Bezumov não é apenas um cientista. Foi o que Miguel
e o professor descobriram após sua última visita. Ele é um
ex-coronel da inteligência naval russa. Enganou a todos nós.
É um homem perigoso, e também muito inteligente. A
razão de eles terem levado tanto tempo para descobrir sua
verdadeira identidade se deve ao fato de Bezumov ser uma
autoridade mundial em sítios arqueológicos antigos, geologia
ártica, pré-história e muitas outras coisas - Hernan prendeu
a arma no cinto do jeans. - Este russo afastou-se das ruínas
da União Soviética com um sonho, que fora alimentado
pelos cientistas durante toda uma geração: utilizar as
energias naturais da Terra, as estrondosas correntes
eletromagnéticas que fluem do Sol para o nosso planeta.
Wave machines e a energia eólica não são nada comparadas
a algumas das idéias que esses cientistas russos tiveram. Eles
queriam usar o movimento de rotação da própria Terra para
criar enormes quantidades de eletricidade gratuita que
pudesse ser usada para a finalidade que bem entendessem.
Bezumov estava convencido de que a humanidade já usara
essa energia poderosíssima. Seu desejo é redescobrir como
isso foi feito e então tornar-se o mestre dessas quantidades
assombrosas de energia solar.
- Mas isto é simplesmente incrível! - Catherine exclamou.
- Sim, parece loucura. Mas, na verdade, o professor Kent
pensou que tivesse mesmo descoberto alguma coisa. Só que
ele, como você sabe, acreditava que toda tecnologia leva
inevitavelmente à degradação da natureza. Ele pensava que
os planos de Bezumov para usar essas novas formas de
energia seriam muito piores do que nossas tentativas de
utilizar combustíveis fósseis ou energia nuclear. Se a
humanidade começasse a mexer com a rotação do planeta
ou com o enorme fluxo de energia indo e vindo do Sol, os
resultados poderiam ser realmente catastróficos.
Catherine ficou de queixo caído. Ela imaginou o lindo
planeta azul flutuando majestoso na infinita noite do espaço
sideral. Uma delicada bola repleta de vida, talvez sozinha na
infinitude da escuridão, explodindo em bilhões de
fragmentos, estraçalhando-se como um espelho,
desaparecendo para sempre.
- Temos que detê-lo.
- Você tem toda razão. Bezumov é um megalomaníaco, e
fará qualquer coisa para conseguir o que quer. Mas, agora,
estou mais preocupado com sua segurança. Temos que sair
daqui. Bezumov não é a única pessoa no Peru interessada
em saber onde você está.

TERCEIRA PARTE

36

Eram 7h30 da manhã de sexta-feira em um edifício
anônimo no coração financeiro da cidade de Nova York. O
secretário Miller estava sentado à mesa de reuniões,
acompanhado de dez outros homens bem vestidos, oriundos
de diversos países.
- Senhores, muito obrigado pela presteza e lealdade à causa
ao longo dos últimos anos. Esta será nossa derradeira reunião
matinal; na verdade, será esta a última oportunidade de nos
encontrarmos. Agora faltam apenas setenta e duas horas até
a aurora do equinócio da primavera. Façamos uma breve
recapitulação.
O secretário tirou um par de óculos para leitura do bolso do
paletó e, colocando-os, voltou os olhos para a pilha do papel
diante de si sobre a mesa. Os onze homens sentados ao
redor da mesa aguardavam em silêncio. Quem os visse
poderia apostar que eram executivos abastados beirando os
60 anos; tal como o secretário, eram a encarnação da
autoridade e da inteligência. Olhando por sobre os óculos, o
secretário Miller começou a falar:
- Muito bem, o Oriente Médio está sob a responsabilidade do
senador Kurtz e do Conselho. Então, comecemos com o
Japão - e apontou para três orientais sentados na
extremidade da mesa.
O delegado japonês meneou a cabeça com discrição:
- Secretário, como o senhor deve saber, o Banco Central
Japonês está nas mãos da Corporação desde a Segunda
Guerra. Na segunda-feira pela manhã, quando a quebradeira
mundial estourar, o banco, ao contrário do que reza a
política oficial, transformará todas as ações em dinheiro e
venderá todos os ativos estrangeiros e domésticos. O golpe
será fatal. Não haverá nenhuma possibilidade de o mercado
se recuperar. Além disso, o Conselho se comprometeu a
eliminar qualquer vestígio de liquidez que possa haver - o
homem fez um gesto com a cabeça cumprimentando a
todos e sentou-se novamente.
O secretário virou-se para um chinês sentado à sua esquerda.
O oriental meneou a cabeça e começou a falar:
- Secretário, o procedimento adotado pelo Japão, juntamente
com a liquidação a ser engendrada pelo Conselho, causará
uma crise bancária na China, resultando na dissolução dos
mercados financeiros. Mais de duzentos milhões de pessoas
ficarão desempregadas da noite para o dia nas principais
cidades industrializadas. Haverá uma enorme comoção
social e, dez dias depois, nossa moeda perderá seu valor.
Nossos agentes militares chineses desenvolveram os planos
para uma invasão conjunta à península coreana e Taiwan.
Temos plena certeza de que o governo, numa tentativa de
distrair as legiões de desempregados, seguirá em frente com
esses planos. Já sabemos, por intermédio de nossos irmãos
norte-americanos, que a Marinha dos Estados Unidos
também atacará o continente a partir de sua esquadra de
submarinos nucleares antes de organizar as contra-invasões
de Taiwan e da Coréia. Com a China cambaleando, o
caminho ficará livre para a Corporação.
O secretário balançou a cabeça em sinal de aprovação, tendo
a sua frente o delegado da Indonésia encarando-o.
- Ao primeiro sinal de ataque dos Estados Unidos a Marinha
indonésia colocará minas ao longo do Estreito de Málaga, a
rota de comércio mais movimentada do mundo, que
afundará qualquer embarcação que tentar atravessá-lo,
paralisando assim o comércio internacional. Todas as
importações de alimento serão suspensas. Prevemos uma
comoção social revolucionária no prazo de uma semana,
seguida de uma invasão maciça da Malásia e Austrália.
O secretário voltou os olhos para os sete delegados restantes:
um africano, dois asiáticos, e quatro caucasianos:
- Quem falará pela Eurásia e pela África hoje?
Um inglês de rosto magro e pálido, com ar de agente
funerário, fez um sinal com a cabeça dirigindo-se ao
secretário Miller, indicando que seria o próximo a falar:
- A quebradeira mundial terá início com nossos agentes
liderando a liquidação. Nem o Banco Central Europeu nem
o Banco da Inglaterra apoiarão o mercado, garantindo que o
pânico se espalhe. Ademais, haverá explosão de bombas em
todas as capitais da Europa. A infra-estrutura petrolífera
européia, e particularmente a russa, serão destruídas.
Entretanto, isto será feito de modo tal que, quando a
Corporação tomar o poder, elas poderão ser reabilitadas em
pouco tempo - o inglês fez uma pausa, e continuou: - Na
segunda-feira, pouco antes da meia-noite, do lado de fora da
residência do primeiro-ministro indiano, será acionado um
dispositivo com força suficiente para matá-lo e a sua família.
Um grupo islâmico da Caxemira, criado por nós, assumirá a
responsabilidade pelo atentado, envolvendo índia e
Paquistão numa longa guerra. Enquanto isso, também
podemos trazer para o nosso lado um delta nigeriano em
plena guerra civil. Já faz algum tempo que municiamos e
financiamos três milícias rebeldes. Não haverá mais
exportações de petróleo para aquela região. A fome e a
guerra grassarão pelo continente.
- Ótimo - declarou o secretário. - Estarei à frente da
coordenação nos Estados Unidos, ao lado dos membros do
Conselho. O próprio senador Kurtz lhes enviará as ordens
finais, na qualidade de atual representante do Conselho, mas
estou plenamente convencido de que todos os códigos estão
absolutamente claros para vocês, e que não haverá erros. Faz
muito tempo que esperamos por esse dia...
Os homens reunidos concordaram solenemente, acenando
com a cabeça, antes que o secretário moderasse o tom de
voz, de repente ficando mais cauteloso.
- Senhores, creio ser desnecessário ressaltar que não deve
haver dissidências em relação aos nossos planos. A
seqüência de acontecimentos é crucial para seu sucesso
definitivo. Nada, repito, nada deverá acontecer até o
senador dar as ordens. Não ajam até que ele lhes tenha dado
a instrução final. Restou alguma dúvida?
Ouviu-se um murmúrio de assentimento.
O secretário juntou os papéis e em seguida se levantou:
- Obrigado, senhores, e boa sorte. Seus filhos e netos lerão
sobre vocês nos livros de história. Uma nova ordem
mundial surgirá das cinzas do passado. Vida longa à
Corporação.
Quando a reunião terminou e os delegados passaram a
desocupar a sala, o secretário Miller retornou à sua cadeira e
esperou que seu assistente de maior confiança, o agente
Dixon, fechasse a porta. Então, fez um gesto para que Dixon
se sentasse.
O jovem agente sentou-se e pôs uma pilha de papéis sobre a
mesa.
- Senhor, fiz a pesquisa sobre o senador.
- Pode falar, Dixon. Estamos sós.
O agente estava realmente desconfortável. Fazia parte de sua
rotina investigar os segredos das pessoas de acordo com as
instruções do secretário, mas aquela era a primeira vez que
ele tivera de pesquisar um dos membros do Conselho.
- Senhor, parece que o senador Kurtz é membro, desde o
nascimento, de uma igreja evangélica consideravelmente
radical, chamada Igreja da Verdade Revelada, cuja sede fica
em seu distrito eleitoral. Tanto seu pai quanto sua mãe
indicaram diversas gerações de ministros para a igreja.
O agente Dixon fez uma pausa para ver se o que dizia estava
de acordo com as expectativas do secretário Miller, que
apenas fez um sinal com a cabeça indicando que ele
prosseguisse.
- O senador não divulga o fato de ser ligado à Igreja da
Verdade Revelada, embora o admita quando lhe perguntam.
Fora essas ocasiões, refere-se a si mesmo simplesmente
como "um cristão comprometido". Entretanto, a maior parte
dos cristãos evangélicos considera que os dogmas da igreja
são muito radicais.
Os olhos do secretário brilharam:
- O que, por exemplo? - ele perguntou, ansioso.
O agente Dixon respirou fundo.
- Senhor, veja, parece que a Igreja da Verdade Revelada
acredita piamente no Armagedon. Eles aguardam o fim do
mundo. Na verdade, trabalham ativamente para que isto
aconteça. Eles acreditam literalmente no que diz o Livro das
Revelações. Quando o fim dos dias chegar, os fiéis da igreja
subirão ao céu, deixando o resto de nós para trás para que
participemos da carnificina causada pela última batalha entre
o bem o mal.
O secretário endireitou-se na cadeira. Por um momento,
teve dificuldade de respirar. Não era possível que o
Conselho tivesse conhecimento das verdadeiras intenções
de Kurtz. Embora estivessem trabalhando com vistas a
causar uma destruição e um caos globais, uma coisa era
certa: a Corporação não queria causar danos irreparáveis.
Tudo o que desejava era alterar o equilíbrio do poder em
causa própria.
Miller percebeu que Dixon esperava uma resposta e lançava-
lhe um olhar cheio de ansiedade. Tratando de se recompor,
decidiu que era chegada a hora de agir.
- Obrigada, agente Dixon. Como sempre, você fez um
trabalho exemplar. Estou certo de que não preciso lhe dizer
que mantenha absoluto sigilo dessas informações. Por favor,
apronte meu carro. Estarei lá em cima cinco minutos.
Assim que Dixon saiu, o secretário Miller pôs-se de pé e
caminhou até o armário de madeira que ficava no canto da
sala. Tirando uma chave do bolso, destrancou as portas e
girou rapidamente o segredo do cofre. Ouviu-se o estalo das
travas e a porta com dez centímetros de espessura se abriu.
Pôs a mão dentro do cofre e retirou um simples envelope
marrom. Dobrando-o uma vez, colocou-o no bolso interno
do paletó antes de fechar e trancar o cofre.
Seu coração estava aos pulos. Ele ajeitou o cabelo, com o
suor escorrendo-lhe pelas têmporas. Enquanto ajustava o
paletó, balançou a cabeça num gesto de negação, custando a
acreditar na imprudência dos próprios atos. Se alguém
descobrisse, ou mesmo suspeitasse do que estava fazendo,
ele não chegaria vivo ao fim do dia. Na verdade, por mais
triste que fosse, teria de se livrar do agente Dixon. Graças ao
caráter meticuloso de seu trabalho, o jovem agora
representava um risco em potencial.
O secretário Miller caminhou a passos largos até a porta e
tocou a maçaneta. A situação era desanimadora. O que o
consolava era saber que ao menos, a esta altura, os dois
acadêmicos estavam mortos.

37

Hernan já estava dirigindo há quatro horas, desesperado para
conduzir seus passageiros com segurança à fronteira
boliviana antes que fosse tarde demais. Rutherford e
Catherine passaram pela extremidade sul do magnífico lago
Titicaca e ficaram encantados com o tamanho. De onde
quer se estivesse, era possível avistar os picos dos Andes,
alguns envoltos em nuvens, outros claramente visíveis
contra um céu azul de tirar o fôlego. Na beira do lago, a
vegetação era escassa. Eles estavam muito acima da linha das
árvores; o solo pobre e o frio quase constante não
proporcionavam o melhor dos ambientes para nada mais
além da vegetação mais resistente própria das montanhas.
Hernan chamou a atenção dos amigos para as conchas na
margem e a extensa marca esverdeada deixada pela maré que
manchara a beira dos penhascos, evidências de que uma
grande inundação atingira o platô andino, que se localiza a
três mil e duzentos metros acima do nível do mar.
Continuaram viajando a toda velocidade até chegarem à
famosa cidadela de pedra em ruínas, conhecida como
Tiahuanaca, a cidade perdida entre as nuvens.
Hernan conduziu o veículo a um local de parada à margem
da moderna estrada que passa pela cidade antiga e desligou o
motor. À frente, a apenas uma hora de viagem, ficava o local
que representava a segurança: a Bolívia. Na planície ao lado,
as ruínas daquilo que um dia havia sido uma cidade imensa
sumiam na distância. Enormes construções de pedra
desmanteladas se alastravam pela paisagem e montes de terra
de proporções colossais mantinham-se ali como prova de
um sacerdócio que há muito deixara de existir.
- Eu queria ver este local, nem que fosse por um minuto. É
nosso local mais sagrado. No meio desta cidade em ruínas
está enterrado um templo, dentro dele há um pilar de rocha
vermelha com a escultura de um homem com barba. Quem
quer que seja esse homem, uma coisa é certa: ele não era
inca.
Rutherford virou-se e olhou surpreso para Hernan:
- Quantos índios com barba você viu no Peru?
Catherine balançou a cabeça lentamente.
- A escultura representa Viracocha, certo?
- Sim! Há entalhes dele espalhados por toda esta cidade
antiga. Algumas das imagens o retratam com elefantes e
cavalos, mas não temos elefantes na América do Sul há
quase 10 mil anos. A maior estátua apresenta Viracocha
como uma espécie de sereia. Da cintura para cima é
humano, mas da cintura para baixo está coberto de escamas.
Ele veste um tipo de manto feito de escamas de peixe.
Rutherford estava intrigado, sua cabeça dava voltas.
- Espere um pouco! Já vi aquela figura antes!
Hernan parecia confuso. Rutherford voltou-se para ele e
para Catherine com uma expressão de quem descobrira algo
precioso. Emocionado, ele disse:
- Vocês sabem alguma coisa sobre mitologia mesopotâmica?
Os caldeus, a civilização mais antiga de que se tem registro
no mundo?
Hernan e Catherine fizeram que não com a cabeça.
- Há um semideus chamado Oannes. Ele se assemelha a um
homem, mas veste roupas de peixe e é parcialmente anfíbio
e ensina os povos selvagens a ler e escrever, a lavrar a terra e
a criar uma administração racional e civilizada. Por fim, ele
parte e desaparece ao longo da superfície do mar.
Catherine estava boquiaberta.
- Mas isto é incrível! É a história de Osíris mais uma vez.
- E isto não é tudo! Você se lembra dos maias, dos astecas e
das outras civilizações da América Central?
Catherine tinha uma vaga lembrança dos astecas com suas
pirâmides e sua adoração ao sol. Encolheu os ombros e fez
sinal para que Rutherford prosseguisse.
- Os maias acreditavam em uma figura chamada Kukulkan, "a
serpente alada"; os astecas, em Quetzacoatl, a serpente
emplumada, a mesma figura, com o nome ligeiramente
diferente. Uma divindade com barba e pele branca que
aparentemente chagara ao México cruzando o mar num
passado distante. Ele ensinou às pessoas as artes da civiliza-
ção. Deve ser o mesmo homem. Ele desapareceu no mar a
bordo de um bote... A razão de Cortes, o líder da pequena
força invasora espanhola, não ter sido morto de imediato ao
desembarcar foi porque Montezuma, o rei dos astecas,
pensou que devido à pele branca e à barba devia ser
Quetzalcoatl que retornava.
Catherine ficava cada vez mais espantada:
- Isto é extraordinário. Agora temos quatro aparições desses
estranhos homens de barba branca ocorridas em diversas
partes do mundo.
Hernan balançava a cabeça demonstrando estar muito
impressionado.
- E há uma prova ainda mais importante aqui - disse ele. - A
de que Viracocha viveu antes do nascimento da história.
Algum de vocês sabe algo sobre o alinhamento das estrelas
relacionado aos antigos monumentos e sobre como, usando
modernos programas de computador, as datas originais
podem ser calculadas?
Catherine e Rutherford negaram com um balançar da
cabeça.
- Bem, todas as pedras e estátuas de Tiahuanaca se alinham
perfeitamente a uma data do passado. Muitos astrônomos e
arqueo-astrônomos verificaram isto e é incontestável...
Catherine interrompeu o índio, desesperada para saber:
- Que data é esta?
- Quinze mil a.C.
Os três se calaram, como se contemplassem a idéia desses
povos pré-históricos, muito à frente de seu tempo,
trabalhando sem parar, com grande inteligência e uma
energia prodigiosa, para criar aquele local impressionante
que agora tinham diante de si. Catherine voltou-se para os
dois homens:
- Mas isto não nos ajuda a entender por que o professor
pensou que estávamos sendo alertados. E o mais importante
de tudo, não nos ajuda a entender por que há forças tão
determinadas a manter escondido este conhecimento, tanto,
que estão dispostas até a matar pessoas inocentes.
Rutherford e Hernan estavam igualmente confusos. Então,
lançando um olhar ansioso para um lado e para o outro,
Hernan girou a chave na ignição, e o motor voltou a roncar.
- Não podemos perder nem mais um minuto sequer - disse
ele. - Eu os levarei aos índios aymara, que moram na
fronteira. Toda a terra localizada nesta região, em ambos os
lados da fronteira, lhes pertence. Eles lhes fornecerão um
visto falso de turistas bolivianos e os levarão a La Paz. Com a
ajuda deles vocês sairão vivos daqui.

38

O senador Kurtz desceu do helicóptero mergulhando no
resplandecente sol da tarde. Abaixando-se sob as pás do
rotor, atravessou apressadamente o heliporto e chegou ao
enorme gramado junto à sede da Igreja da Verdade
Revelada.
Quando o helicóptero levantou vôo novamente, o senador
não conseguiu se conter e sorriu. Não havia quase nenhuma
nuvem no céu, o ar estava fresco e limpo, e este, de todos os
lugares da terra, era o seu preferido. Que alívio estar longe
da agitação de Washington D.C. e das pressões do trabalho
na Corporação. Mas tudo aquilo valeria a pena. Dentro de
muito pouco tempo as profecias do Livro das Revelações se
cumpririam e ele estaria entre as poucas almas que
ascenderiam para escapar à tormenta que seria infligida ao
resto da humanidade...
Centro e trinta metros à frente, os edifícios da Igreja da
Verdade Revelada, recém-construídos, se erguiam em todo
seu esplendor, com as janelas cintilando à luz do sol.
Enquanto o senador cruzava o gramado, tentava conter um
certo orgulho. Grande parte do aumento na renda da igreja
nos últimos anos, que chegava a centenas de milhares de
dólares ao ano atualmente, se devia a ele.
O estúdio de televisão, localizado no centro do complexo,
era o coração da igreja. Tinha a forma de um anfiteatro
grego com os assentos organizados em forma de ferradura
erguendo-se de todos os lados e um pódio central onde o
pregador podia ficar, aumentando a intensidade e o clima da
ocasião. Transmitiam-se cultos fervorosos para toda a nação,
faziam-se pedidos de doações e contavam-se, em primeira
mão, histórias de como a igreja mudara a vida das pessoas.
Tudo isso assistido por uma platéia de fiéis em êxtase.
O senador Kurtz passou apressado pela recepcionista
sorridente e seguiu pelo labirinto de corredores até chegar a
uma sala de espera palaciana. Carpetes espessos e mobília de
couro proporcionavam a mesma sensação de conforto de
um hotel cinco estrelas. O ar-condicionado zumbia
tranqüilamente. O único traço de religiosidade, na verdade,
o único item de decoração existente nas paredes espartanas,
era uma simples cruz de madeira pendurada ao lado de uma
porta fechada no fundo da sala. Na placa de identificação
acima dela lia-se "Reverendo Jim White". Sem hesitar, o
senador cruzou a sala e bateu com força na porta. Um
segundo depois ouviu-se uma saudação rude grunhida vinda
de lá de dentro:
- Entre!
O sotaque era texano, a voz, enérgica.
O senador Kurtz abriu a porta e pisou na sala. A figura
beligerante do Reverendo saudou-o com um urro de
satisfação.
O Reverendo Jim White era um homem baixo, de
compleição forte, na casa dos cinqüenta e poucos anos, com
o nariz achatado como o de um boxer e a testa impetuosa.
- Senador! Que bela surpresa. Eu não esperava vê-lo até
amanhã - o Reverendo levantou-se da cadeira e avançou,
contornando a escrivaninha, a voz texana ribombante
enchendo a sala.
O senador agarrou-lhe o braço esticado e o dois homens
apertaram-se as mãos calorosamente e em seguida se
abraçaram. O Reverendo se dirigia ao senador Kurtz por seu
título político mais como uma brincadeira carinhosa do que
por qualquer outra razão. Eles se conheciam desde crianças.
Juntos haviam planejado a transformação da igreja, que
passara de uma seita obscura a uma força importante no
movimento evangélico. Juntos, tinham trilhado um
caminho longo e árduo e, por meio da força da fé e do puro
carisma, haviam convencido milhares de norte-americanos
comuns a segui-los.
O senador Kurtz deu um passo para trás e olhou o amigo de
cima a baixo.
- É muito bem vê-lo, Jim. Você parece muito bem. Está
usando a piscina como lhe recomendei?
O Reverendo riu à solta.
- Ah! Quando tenho tempo, quando tenho tempo. Temos
tido tanta coisa para fazer, gravar programas, transmiti-los,
apresentar novos membros... mal sobra tempo para pensar.
Mas, sente-se. Quero ouvir tudo.
Os dois homens caminharam até um par de poltronas que
ficavam uma de frente para a outra e entre elas uma mesa de
centro. A expressão jovial do Reverendo de repente ficou
séria e ele agarrou o queixo com a mão direita.
- Então, o que é que você conta? Estamos quase lá?
O senador Kurtz balançou a cabeça com gravidade,
indicando que sim, enquanto lenta e deliberadamente dava
as notícias.
- Jim, creio que conseguimos.
O rosto do Reverendo voltou a iluminar-se. Não cabia em si
de tanto contentamento.
- Não diga! Você acha mesmo que o momento final está
próximo?
- Sim, Jim, está. Não vejo de que modo poderíamos ser
detidos. As coisas não podiam estar caminhando melhor. As
heresias perigosas do professor inglês foram apagadas da
história. E os planos para a tomada de poder por parte da
Corporação estão avançando. Estive na reunião do
Conselho. Faltam apenas alguns dias para o Armagedon.
Os olhos do Reverendo Jim White saltaram das órbitas.
Finalmente, depois de tanto esforço e luta, tudo indicava
estarem a um passo de realizar o sonho que acalentavam
havia tanto tempo. O senador prosseguiu:
- Voarei diretamente para minha base, no Cairo. Já combinei
tudo com nossos agentes em Israel, eles estão prontos. Já
contrabandeamos um mini-dispositivo termonuclear para o
santuário muçulmano da mesquita de Al-Aqsa em
Jerusalém. Ele deverá ser detonado paralelamente à crise
global deflagrada pela Corporação. Como você sabe, nossos
agentes já plantaram minas no Muro das Lamentações por
meio da rede de esgotos romana desativada. Quando a
parede estiver reduzida a pó, a força aérea receberá ordens
dos israelenses para que bombardeiem
Meca imediatamente. O Oriente Médio ficará cercado de
chamas. Estou certo de que Israel lançará mão de armas
nucleares, e estimo que haverá mais de 100 mil mortes
durante os primeiros dias. Tudo isso acontecerá sob as
minhas ordens na segunda-feira pela manhã, na aurora do
equinócio da primavera.
O pregador levantou-se e, com a mão direita aberta e os
dedos esticados, ergueu as mãos para o teto da luxuosa sala.
Os olhos brilhavam marejados pela emoção. Com sua voz
tonitruante gritou, extravasando a alegria delirante que
sentia:
Glória ao Senhor!

39

Eram 7h35 no Hotel Ruínas, em Machu Picchu, quando um
carro japonês novo em folha brecou cantando os pneus em
frente à entrada. Destoando muito dos camponeses andinos
maltrapilhos e do majestoso pano de fundo das montanhas,
o assassino do professor Kent e seu cúmplice mais jovem
saíram do veículo pisando no adro poeirento do hotel.
Os dois homens, sem desperdiçar sequer um minuto,
dirigiram-se apressadamente ao saguão do hotel. Atrás da
mesa da recepção havia um senhor idoso, e no canto da sala
uma índia limpava o chão. Tanto o recepcionista quanto a
faxineira olharam surpresos para os dois homens. Não era
comum ver pessoas vestindo ternos e dirigindo carros novos
em Machu Picchu e, em todo caso, todos no Peru, da
criança mais nova ao velho mais idoso e definhado, sabiam
que a melhor coisa a fazer era ficar bem longe desse tipo de
gente. A mulher idosa apoiou o esfregão na parede e
escapuliu pelo corredor.
O assassino dirigiu-se ao cúmplice. A voz era gutural e cheia
de traços de frustração e revolta:
- Ouça o que digo. Nós os perdemos...
O cúmplice parecia preocupado. Ele caminhou até a mesa da
recepção e ordenou, com rispidez, ao recepcionista:
- Quero ver os registros de ontem à noite. Ande...
O velho, com o semblante aterrorizado, atrapalhava-se com
o livro de reservas encadernado de couro, os dedos
retorcidos tentando abri-lo na página desejada.
- Dá isso aqui, seu velho tonto.
O jovem arrancou o livro das mãos do recepcionista e
começou a virar as páginas. Segundos depois, corria os dedos
pelos nomes de dois dos hóspedes, Donovan e Rutherford.
Proferindo uma palavra de baixíssimo calão, ergueu os
olhos.
- Ok viejo, para onde eles foram? Donde están los gringos?
Os olhos do velho recepcionista, arregalados, demonstravam
que tinha medo e que não entendia o que estava
acontecendo. Afastou-se da mesa e passou pelo vão de uma
porta. O jovem pulou o balcão da recepção e o seguiu,
entrando no cômodo atrás do saguão. Tomado de pavor, o
velho encolheu-se na parede da pequena sala e começou a
resmungar coisas incompreensíveis num dialeto índio. O
jovem saíra do sério, e começou a gritar:
- Onde estão Donovan e Rutherford? Donde están Donovan
e Rutherford?
O recepcionista estava de joelhos, protegendo o rosto com
as mãos, como se esperasse receber uma pancada. Num
inglês precário, deixou escapar:
- Señor, o casal de estrangeiros partiu no meio da noite.
- Para onde? Para onde eles foram?
- Para a estrada que leva à Bolívia.
O jovem endureceu a voz e agarrou o recepcionista pelo
cangote.
- Eles estavam sozinhos? Com quem estavam?
- Sim, senhor... Sim, senhor. Eles estavam com um amigo,
alguém que já esteve aqui antes. O señor Flores.
O assassino agora juntara as coisas. Ao falar, sua boca se
retorcia, tamanha sua revolta.
- Eles sabem que estão sendo seguidos. Temos que agir logo.
O bandido mais jovem jogou o velho recepcionista no chão
e os dois homens saíram apressados do hotel.

40

Depois de Catherine e Rutherford descerem do carro na
fronteira da Bolívia e esticarem as pernas, Hernan apontou
para além da cabana que fazia o controle da travessia da
fronteira, na direção de um único veículo de quatro rodas
parado logo após a fronteira.
- Lá está sua carona. Não demorará muito e vocês estarão em
La Paz. O nome do motorista é Quitte. Ele não fala uma
palavra de inglês, mas os levará à casa da família em La Paz.
De lá vocês podem planejar uma partida segura.
Hernan pôs as mãos em forma de concha ao redor da boca e
gritou na direção do veículo estacionado:
- Hola, Quitte, estoy aqui com mis amigos. Vámonos!
A porta do lado do motorista se abriu e do carro saiu um
índio baixo e sorridente. Ele acenou e Hernan lhe acenou
de volta.
Em seguida, Hernan dirigiu-se aos amigos pela última vez.
Seus olhos brilhavam, e cada músculo e cada fibra do seu
corpo pareciam instá-los a ir em frente, desejando que
tivessem sucesso em sua busca.
- Meus amigos, boa sorte - ele encarou Catherine com seu
olhar penetrante. - E tenham cuidado.
Catherine sentiu um nó na garganta. Tinha a sensação de
que algo terrível estava para acontecer.
- Você não pode nos acompanhar a La Paz, ficar escondido
por alguns dias?
Hernan sorriu e sacudiu a cabeça em sinal de negação.
- Não, Catherine. Tenho que voltar para a minha família,
ainda estamos de luto, tenho que ficar com eles.
Eles se abraçaram, e Catherine afastou-se com os olhos
marejados. Rutherford apertou a mão de Hernan
calorosamente.
- Obrigada por tudo. Prometo que faremos tudo que
pudermos para desvendar este mistério por Miguel e pelo
professor. Traremos a verdade à tona e deteremos Ivan
Bezumov.
Hernan inclinou-se para a frente e abraçou o inglês.
-James, cuide de você e dessa bela mulher.
James abraçou o índio atarracado e em seguida se separaram,
pela última vez.

41

No interior do edifício da Sotheby's, na York Avenue, no
escritório do negociante de obras de arte em Manhattan
conhecido em todo o mundo, uma mulher atraente, jovem
e bem vestida conduzia o secretário Miller a uma sala escura
e sem janelas. Tateando a moldura da porta com as unhas
impecavelmente feitas, ela encontrou o interruptor de luz e
a sala surgiu da escuridão.
- Esta é a sala de mapas. Como o senhor pode ver, não há
janelas, portanto, não existe possibilidade de que a luz
natural venha a danificar sua peça. Por favor, sente-se. Nas
paredes estão algumas das peças de nossa coleção que
podem interessá-lo. O sr. Silver logo estará aqui.
O secretário correu os olhos pela sala grande e elegante.
Havia uma mesa de conferências no centro, rodeada por
cadeiras de couro. Acima da mesa, presa ao teto, ficava uma
luz para análise técnica que podia ser elevada e abaixada em
qualquer direção. As paredes eram decoradas com mapas
emoldurados.
A jovem mulher prosseguiu:
- Aquele ali é o mapa original feito por Cristóvão Colombo
sobre sua primeira viagem à América. Seu valor é
inestimável, e esta é a razão de ele estar protegido atrás de
um vidro à prova de balas com uma moldura de aço
inoxidável incorporada à estrutura do edifício - ela deu um
sorriso largo. - O senhor aceita alguma coisa? Chá ou café?
O secretário Miller grunhiu uma resposta:
- Não, obrigado. Como disse, não sou um especialista, e
acredito que minha peça é uma cópia, não um original. Tudo
que preciso é da identificação.
Naquele momento, a jovem, que ainda estava de pé à porta,
virou-se:
- Ah! Aqui está ele.
Byron Silver, considerado a autoridade mundial em
cartografia antiga, entrou na sala. Devia ter seus cinqüenta e
tantos anos, mas aparentava mais idade. Vestia um terno de
três peças em risca de giz e era quase careca. O rosto fino e
pálido retratava os muitos anos passados na penumbra em
antigas bibliotecas estudando mapas e manuscritos. Ele
estendeu a mão ao secretário:
- Olá. Você deve ser o senhor Miller.
- Sim. Obrigado por vir me encontrar assim, tão em cima da
hora, senhor Silver.
O antiquário sorriu com adulação, sua voz refinada era suave
como seda.
- Não há nenhum problema nisso. Para alguém que
reconhece o valor de meu conhecimento e tem condições
de pagar tão bem quanto o senhor, fico satisfeito em
trabalhar mediante um chamado feito com tão pouca
antecedência.
A jovem deixou a sala, fechando a porta com discrição atrás
de si. Silver fez um gesto apontando a mesa:
- Podemos começar? É inútil manter a cerimônia.
O secretário Miller caminhou até a mesa, pôs a mão no
bolso do paletó e retirou o envelope marrom. Com todo
cuidado, abriu-o, puxou uma única folha e colocou-a sobre a
mesa. Silver franziu o cenho. Buscou no bolso um par de
óculos dobráveis, pondo-os na ponta do nariz. Em seguida,
alcançou, ligou e posicionou a luz acima do mapa. O
secretário Miller observava-o como uma águia, desesperado
para obter algum sinal de reconhecimento. Passado um
minuto, Silver ergueu os olhos e tirou os óculos.
- Então, você sabe o que é isso?
Silver balançou a cabeça afirmando que sabia muito bem do
que se tratava.
- Sim. É uma cópia do mapa de Piri Reis. O senhor sabe o
que significa isto?
O secretário sacudiu a cabeça com irritação, e Silver
prosseguiu:
- É um mapa feito por um almirante turco, chamado Piri
Reis, da Idade Média. E baseado em mapas antigos, muito
mais antigos, ou assim diz ele, cuja intenção era auxiliar os
turcos em suas navegações, caso viessem a navegar pelos
mares do sul.
O secretário Miller estava perdido. Que raios significava
aquilo? Por que o senador queria o professor morto, e por
que pedira que o mapa fosse destruído?
Byron Silver, entretanto, estava empenhado na tarefa.
- Ele mapeia a porção territorial da Antártida, mostrando-a
livre de gelo. Em conseqüência disso, este mapa é uma peça
de antiquário, um item de colecionador.
- O senhor quer dizer que mapeia a Antártida com precisão?
Como isto é possível? Corrija-me se eu estiver errado. Mas
aquele lugar não está enterrado debaixo de gelo?
Byron Silver sorriu.
- Bem, ninguém sabe. Mas esta é a razão de o mapa ser
valioso. Isto é, além e acima de seu valor histórico. Os
colecionadores adoram peças que tenham uma qualidade
misteriosa. Sempre que temos a sorte de ter em nossas casas
artefatos estranhos como o mapa de Piri Reis, ficamos
sempre muito interessados.
Byron Silver estendeu a mão para apagar a luz e, quase sem
perceber, acrescentou:
- É claro, também recebemos muitas reclamações de nossos
clientes que têm, como posso dizer, uma inclinação religiosa
das mais prosaicas.
O secretário Miller ficou petrificado.
Byron Silver virou-se rapidamente para ele, percebendo
claramente a tensão na voz do cliente.
- Bem, só quero dizer que há pessoas que não aprovam os
artefatos que questionam o relato bíblico do passado.
O sangue do secretário Miller gelou nas veias. Olhou
horrorizado para o mapa. Então, o professor jamais
representara um perigo à Corporação. Estava claro que o
senador usara a rede de agentes da Corporação para seus
próprios objetivos. Isto jamais acontecera antes. Seria
possível que o secretário Miller agora tivesse se tornado
apenas um instrumento nos planos do senador? Estaria toda
a Corporação a caminho de ser seqüestrada para promover
suas finalidades religiosas?
O secretário Miller não podia descartar a possibilidade, mas
tinha de avaliar a situação. A ordem de prosseguir com os
planos na segunda-feira já fora dada, e ele ainda teria de
cumprir sua parte.
Ele desafiaria o senador cara a cara antes disto. Mas
escolheria o momento com sabedoria, ou em muito pouco
tempo também teria o mesmo fim dado ao professor Kent.

42

Quando o carro desceu a estrada vertiginosa e cheia de
curvas do Altiplano que leva à capital boliviana, Catherine e
Rutherford estavam mergulhados em pensamentos. Quitte,
sorridente e cheio de energia, dirigia com habilidade e a
toda velocidade.
Catherine observava as vastas paisagens dos vales e os picos
das montanhas, sempre pensando no professor, imaginando
o que ele teria feito nessa altura dos acontecimentos. Ele
sentia muito sua falta. Falta de sua circunspecção e de sua
delicadeza. Rutherford, que estivera meditando em silêncio
por algum tempo, admirava o cenário andino espetacular.
Com o cenho franzido, corria os olhos, através da janela,
pela paisagem como se esperasse encontrar as respostas ali.
Então, de repente, dirigiu-se a Catherine.
- Você conhece a história de Gilgamesh?
Os dois entreolharam-se. Rutherford ergueu as
sobrancelhas, esperando que sim, mas Catherine sacudiu a
cabeça dizendo que não. Ele mudou de posição para que
pudesse vê-la melhor.
- É a base para a história bíblica de Noé. O primeiro registro
que temos dela está em inscrições cuneiformes que datam
mais ou menos de 2.000 a.C. Mas deve ser anterior à sua
origem. Gilgamesh era o rei de Uruk na Suméria, e relata
como conheceu um rei chamado Utnapishtim, que estivera
vivo antes do dilúvio. Utnapishtim fora alertado por um dos
deuses de que o dilúvio estava próximo. Ele, então,
construiu uma nau, embarcou diferentes tipos de animais e
todos os tipos de sementes. Houve uma grande tempestade
e nada restou além de água. Utnapishtim libertou uma
pomba...
Catherine interpôs:
- Mas isto é ridículo. Quero dizer, os autores do Velho
Testamento simplesmente pegaram toda a história...
- E por que não? É uma boa história. Podemos partir do
princípio de que Utnapishtim era um símbolo, uma única
figura representando todos aqueles que sobreviveram ao
dilúvio. Do contrário, a raça humana jamais teria voltado ao
tamanho que tem atualmente. Esses mitos correspondem
aos relatos feitos em primeira mão relacionados a um
cataclismo que quase destruiu todos os nossos ancestrais. A
humanidade quase desapareceu.
- Nossa! Esta é uma concepção e tanto.
- Sim, mas é a única razão de esta história assustadora poder
estar no centro de tantas culturas. É nossa memória
compartilhada... Há muitas outras descrições de destruição
que envolvem terremotos, fogo e frio, e eles parecem
coincidir com as histórias de dilúvios. As escrituras
zoroastras, por exemplo.
Catherine franziu o cenho.
- Os zoroastras? Quem são eles?
- Eles são os seguidores do profeta Zoroastro, ou Zaratustra,
como também é conhecido. Eles ainda existem, embora haja
apenas alguns milhares ainda vivos, principalmente em
Bombaim, na Índia. Dizem que Deus fez uma revelação a
Zoroastro...
Catherine fez um paralelo:
- Então, ele corresponde a Maomé para os muçulmanos, ou
Moisés para os judeus?
- Sim. Só que Zaratustra é mais antigo. Ele viveu por volta de
2.000 a.C. Os zoroastras, que crêem que seu povo nasceu no
norte da Rússia, acreditam que um dia o demônio decidiu
destruir Airyana Vaejo, o Éden Zoroastra, localizado em
alguma parte da Sibéria. Em vez de inundá-la, ele a
congelou. As escrituras falam de como a terra um dia bela
foi coberta de neve e gelo e mergulhou num inverno
perene.
Catherine ouviu com interesse.
- Este é um fato muito peculiar, não é o tipo de coisa que
simplesmente se inventaria.
- Sim, e mesmo os vikings têm uma concepção parecida -
Rutherford estava entusiasmado em expor seus
conhecimentos. - Eles crêem num tempo em que se tinha a
impressão de que a Terra cairia num abismo de caos para
sempre. As colheitas não vingavam, havia guerra e tudo ao
redor da neve se deteriorou. Depois do frio, a Terra
incendiou-se, transformando-se numa enorme fogueira.
Todo e qualquer vestígio de vida foi incinerado. Então, por
fim, como se a Terra não tivesse sofrido o suficiente, as
marés subiram repentinamente e enterraram tudo sob um
cobertor de água.
Rutherford bateu as mãos uma na outra. Catherine pensava
na terrível versão dos vikings.
- O problema é que em nenhum momento, em nenhum dos
mitos que você acaba de contar, ficamos sabendo o que
realmente causou esse desastre mundial. Se desconhecemos
a causa, como podemos evitar o mesmo destino?
Rutherford começou a pensar alto:
- E apesar disso, o professor estava convencido de que era
exatamente isto que diz a mensagem secreta.
- Talvez devamos tentar analisar o problema de outro
ângulo.
- O que você quer dizer?
- Bem, em vez de confiar apenas em nossa habilidade para
interpretar os mitos com o intuito de descobrir o que
destruiu o mundo do passado, por que não tentamos
encontrar outras provas de um cataclismo ambiental de
grandes proporções? Se usarmos fontes geológicas legítimas,
ou fósseis, é possível que consigamos localizar um período
tão dramático da história da Terra. Combinando os dados
técnicos com os mitos poderíamos até mesmo descobrir
exatamente em que momento o mundo do passado chegou
ao fim - ela explicou.
Rutherford balançou a cabeça demonstrando que achava
uma boa idéia.
- Mas isto nos ajudará a entender por que ele chegou ao fim,
a decifrar o alerta?
- Sem dúvida. Olhe só. Se soubermos como o cataclismo
realmente aconteceu, então ficará mais fácil depreendermos
quais foram as verdadeiras causas - os olhos de Catherine se
iluminaram; em seguida, ela bateu a mão no banco da frente.
- Von Dechend!
Rutherford fez um sinal afirmativo com a cabeça, dizendo
que concordava plenamente.
- Sim, é claro. Perfeito. E estamos certos de que podemos
confiar nele... Temos de voltar para Oxford imediatamente.
Hernan seguiu de carro pelas estradas vazias do altiplano,
voltando em direção a Cuzco. Ele estivera mergulhado num
estado de sobressalto exaustivo desde a morte do irmão;
nada parecia real. Embora temesse estar em perigo, de
qualquer maneira, no momento do golpe não estava
preparado. Com o surgimento daqueles estranhos, ele tivera
a sensação repentina de que ainda havia um fio de
esperança. "Em vista disso, ao menos as mortes do professor
Kent e de Miguel teriam algum sentido."
Hernan pensava na fuga de Catherine e Rutherford,
desejando que seguissem adiante. "Eles precisam fugir." De
repente, notou um carro logo à frente, atravessado na
estrada. Em ambos os lados do caminho havia buracos e
fragmentos de rocha, era impossível passar.
O carro de Hernan parou a cinco metros do veículo
estacionado. Um homem branco troncudo, com óculos
escuros e terno, saiu de trás do carro. Hernan ficou
apavorado quando o homem ergueu um revólver e o
apontou na direção do pára-brisa com o intuito de atingir-
lhe o rosto.
Em uma fração de segundo Hernan percebeu o que estava
acontecendo. Pisou firme no acelerador e seguiu em frente,
na direção do veículo estacionado, colidindo violentamente
contra ele, tirando o homem do caminho e fazendo com
que perdesse a mira por algum tempo. Hernan forçou o
carro em marcha a ré e pisou fundo novamente, mas,
imediatamente viu um segundo homem com a arma
apontada para ele a menos de um metro de distância da
porta do motorista.
De repente, houve uma terrível explosão. Hernan sentiu
uma dor lancinante, e percebeu que estava deitado no banco
do passageiro respirando com dificuldade. Sentia que era
impossível encher os pulmões de ar. Tudo estava úmido.
Agarrando o volante com a mão direita, tentou erguer-se
para poder se sentar, mas o esforço foi inútil, e ele apenas
escorregou para trás.
Ouviu a porta do passageiro se abrir e sentiu que uma mão o
puxava pela roupa ensopada.
Uma certa voz disse:
- E, é mesmo ele, mas os outros não estão aqui.
Em seguida, outra voz:
- Certo. Vamos em frente. Estamos chegando perto deles.
Pegue a identidade e o celular. Acabe com ele.
Hernan, gemendo de dor e de susto, tentou, em vão, se
reerguer. Pensou no irmão, em Rutherford e Catherine, e os
viu juntos e sozinhos durante a noite. Tentou chamar por
eles, mas era tarde demais...

43

No heliporto da Igreja da Verdade Revelada, um modelo
civil do helicóptero de ataque Apache de propriedade da
Força Aérea dos Estados Unidos estava pousado tal qual um
gafanhoto gigante; as pás do rotor zumbiam fazendo um
ruído infernal.
O senador Kurtz e o Reverendo Jim White estavam de pé à
porta da catedral. Trocaram umas últimas palavras e se
abraçaram uma última vez. A jornada estava quase no fim.
Como haviam chegado longe. Naquele momento, a mesma
coisa passava pela cabeça dos dois, haviam construído a
igreja com tão pouco. Aquilo era realmente um milagre.
Resoluto, o senador atravessou o gramado carregando uma
valise. Quando se aproximou da aeronave, intentando se
proteger, abaixou-se, pondo a mão na cabeça e, cruzando o
heliporto com toda a pressa, passou rapidamente pelos leões
de chácara e subiu os degraus retráteis, entrando enfim no
aparelho. A porta foi logo empurrada atrás de Kurtz que,
com certo ar de impaciência, alisou o cabelo despenteado.
No alpendre da igreja o Reverendo Jim White observava o
helicóptero levantar vôo aos solavancos e se afastar. Todas as
esperanças que tinha de trazer a salvação aos escolhidos
partiam com o senador. Voltou às costas para o gramado e
desapareceu nas sombras do santuário da igreja, para
retornar às suas orações.
O interior do helicóptero estava bem longe da austeridade
comum à sua função militar. O esquema de cores preta e
verde foscas havia sido totalmente substituído. Os painéis de
madeira e os monitores de vídeo cobriam as paredes, as
caixas de munição e os assentos forjados em aço de acordo
com as especificações militares haviam sido trocados por
bancos longitudinais à parede revestidos de couro. Em uma
das extremidades da carcaça, de 18 metros de comprimento,
havia uma escrivaninha feita de carvalho e atrás dela uma
cadeira de couro.
Assim que as portas à prova de som foram fechadas, como
que por milagre, o silêncio voltou. O senador sentou-se à
escrivaninha e tirou do bolso interno do paletó um telefone
preto e delgado, apertou a tecla de discagem rápida e o
segurou junto ao ouvido. Enquanto aguardava a conexão
com a linha, observava a sede da Igreja da Verdade
Revelada. À medida que o helicóptero se afastava, ela ficava
cada vez menor, até se transformar em um minúsculo
conjunto de manchas brancas sobre a imensa tela da
paisagem.
Mas seus pensamentos estavam longe. Agora era sexta-feira
à tarde. Mais dois dias e a vitória estaria assegurada.
Fez-se a conexão. Uma voz feminina atendeu prontamente
e com toda a presteza:
- Global Operações, às suas ordens.
O senador recostou-se na cadeira. Concentrado, tinha o
rosto retorcido. Sibilando, ele ordenou:
- Localize o secretário Miller. Aqui é o senador Kurtz.
Pela voz da telefonista, percebia-se que ficara apreensiva:
- Sim, senhor. Imediatamente, senhor.
Houve alguns minutos de silêncio. Em seguida, a voz
feminina retornou à linha. Desta vez o medo era evidente:
- Queira me perdoar, senhor. O secretário Miller não foi
localizado.
O senador Kurtz ficou visivelmente contrariado:
- Escute aqui, mocinha. Quero que você abandone seu posto
e vá dizer ao secretário Miller, agora, que se eu não tiver
notícias dele dentro de dez minutos a culpa será sua.
O secretário Miller começava a sentir a pressão. Sentado em
seu escritório, balançava a cabeça em sinal de preocupação e
observava o telefone. A recepcionista continuava a
importuná-lo. Enfurecido, discou um número e segurou o
telefone junto ao ouvido. No primeiro chamado a ligação foi
atendida. Ele mudou de posição na cadeira, e ficou ainda
mais tenso. Até que confrontasse o senador, estava decidido
a não desobedecer frontalmente suas ordens, a fim de não
levantar suspeitas. Mais dois inocentes mortos, se era
possível considerá-los realmente inocentes, que não tinham
nada a ver com o grande plano. Em todo caso, era bem
provável que os acadêmicos soubessem muito a respeito da
Corporação. Sua própria segurança e a integridade da
Corporação vinham em primeiro lugar.
- Preste atenção - disse o senador Kurtz. - Nosso pessoal no
Peru fez besteira. Estamos procurando duas pessoas. James
Rutherford, cidadão inglês, trinta e poucos anos, e Catherine
Donovan, cidadã norte-americana, vinte e poucos anos.
Entendeu? Entre em contato com o Reino Unido
imediatamente. Obtenha os números dos celulares dessas
duas pessoas, passe-os para os comandos de operações em
Lima e La Paz e descubra o paradeiro deles na mesma hora.
Quero que os matem imediatamente. Esta agora é nossa
maior prioridade. Telefone-me assim que isto tiver sido
feito.

44

A casa da família de Quitte era um apartamento localizado
em um edifício de dez andares típico da região central de La
Paz. Ele estacionou o carro do lado de fora, na rua estreita e
esburacada. Havia outros carros parados nos dois lados da
rua, todos dando a impressão de já terem tido melhores dias.
Quitte conduziu Rutherford e Catherine à entrada do
prédio. Ao empurrar a frágil porta de duas folhas, foram
recebidos com o odor acentuado de pimenta caiena
refogada. À esquerda do pequeno saguão havia um elevador.
À direita, um lance de escadas caindo aos pedaços, que
serpenteava na direção dos andares superiores. O índio não
parava de falar e gesticulava indicando, com os dedos, que
subissem. Acompanhando o corrimão à medida que este
ziguezagueava ao longe, Rutherford esticava o pescoço
tentando enxergar uma clarabóia muito suja dez andares
acima. Dirigindo-se a Catherine, ele sorriu: - Acho que isto
quer dizer que o elevador quebrou. Ambos ergueram as
mochilas, ajeitando-as nos ombros, e seguiram o índio pela
escadaria sinuosa.
O interior do apartamento revelou-se uma bela surpresa para
quem vira a sujeira das ruas e o aspecto deprimente do
saguão. O vão que ficava no patamar da escada ia dar em um
corredor curto que levava a uma sala ampla. Havia uma
pequena sacada, onde mal cabiam duas cadeiras, mas a sala
era clara e arejada, porque as duas paredes de ambos os lados
das portas da sacada eram envidraçadas, cuja vista dava para
a rua em frente ao prédio. Da sala partia um corredorzinho
que conduzia aos três quartos e a um banheiro.
Toda a mobília era revestida com tecidos coloridos de
padronagens indígenas, a maior parte feita de madeira
entalhada. Havia brinquedos infantis espalhados para todos
os lados, e sobre a grande mesa de madeira, que parecia ser a
mesa de jantar da família, havia vasilhas e talheres do café da
manhã. Era evidente que a família não era abastada, mas
tinha feito o possível com os parcos recursos, e, por isso, o
apartamento tinha uma atmosfera aconchegante. Catherine
sorriu para Quitte.
Ele retribuiu o sorriso calorosamente e, em seguida, os
conduziu pelo corredor a um dos quartos, onde deixaram a
bagagem. Quitte lhes mostrou a pequena cozinha onde
havia café fresquinho e, em seguida, gesticulando muito,
deu a entender que se ausentaria por uma hora, antes de sair
correndo de novo. Assim que Catherine fechou a porta,
suspirou aliviada.
-James, pela primeira vez, desde que partimos, sinto-me
quase segura! - ela abriu o telefone e começou a discar o
número do celular de Hernan.
- Vou falar um minutinho com Hernan e lhe dizer que
estamos bem.
Ruhterford pegou um gole de café e apoiou os cotovelos na
mesa.
Estava exausto, acabado mesmo.
O telefone chamou uma, duas, três vezes. Contra sua
vontade, Catherine sentiu um embrulho no estômago.
De repente, o telefone parou de tocar. Alguém pegara o
telefone. Aliviada, Catherine saudou o amigo.
- Hola! Hernan, sou eu.
Do outro lado, ninguém dizia nada.
- Hernan? Você está aí? Alô?
Ouvia-se o barulho de alguém atrapalhado com o telefone
que, em seguida, ficou mudo, como se tivesse sido desligado
repentinamente. Catherine e Rutherford entreolharam-se,
os dois estavam pensando a mesma coisa, mas nenhum deles
querendo admitir.
No alto do mais novo arranha-céu de La Paz, em um
escritório localizado no sexagésimo sexto andar, havia um
homem gordo e baixo sentado a uma escrivaninha, com um
par de fones de ouvido. O escritório era muito bem
iluminado, graças às janelas que iam do chão ao teto. Além
do homem, havia ali uma enorme quantidade de
equipamentos eletrônicos, monitores de TV e
computadores.
Da janela, a vista era panorâmica. Abaixo, uma neblina
amarronzada e quente embaçava La Paz. As ruas sujas
fervilhavam de gente. Pequenos carros entupiam as ruas e
pessoas ainda menores circulavam com dificuldade pelas
calçadas.
O homem baixo e gordo usava camisa de colarinho e gravata
de um azul-escuro reluzente. Nas suas axilas formavam-se
enormes manchas de suor. Não era o calor que o fazia
transpirar, porque os escritórios tinham ar-condicionado.
Atrás dele, próximo aos ombros, estava o assassino do
professor, todo vestido de preto, com o rosto exibindo um
profundo desprezo. Com impaciência, o homem gordo tirou
os fones do ouvido, enroscando-os na parte de trás do
pescoço, e anotou às pressas alguma coisa no bloco de papel
que ficava sobre a escrivaninha ao lado do teclado do
computador. Pulou da cadeira, tirou a folha do bloco e,
sacudindo-a, começou a gritar:
- Chefe! Chefe! Eu os encontrei...
O ocidental agarrou o pedaço de papel e leu o endereço.
Com a mão esquerda, tirou um celular do bolso e o abriu.
Sem tirar os olhos do pedaço de papel, segurou o telefone
no ouvido. Um segundo depois, começou a falar. Tinha um
tom confiante, e sua voz soou áspera:
- Já sabemos onde estão. Vamos.

45

Na tentativa de se distrair, Catherine andou pela sala.
Quando Rutherford jogou-se no sofá, ela puxou um Atlas da
estante. Sentou-se à mesa e, abrindo-o, começou a folhear
lentamente as páginas lustrosas. Fixou os olhos em um
mapa-múndi que tomava duas páginas. À medida que corria
os olhos pelas páginas, murmurava, para si, a longitude de
diversos lugares antigos.
Agitada, mexeu-se na cadeira, e franziu o cenho quando se
debruçou sobre o mapa e o analisou com toda atenção. Ao
perceber que a mesma sensação voltava a invadi-la, seu
coração disparou. Aquela era a sensação de que contemplava
o imenso buraco negro do passado, e que de suas
profundezas emanavam sinais estranhos e incompreensí-
veis, sinais tão antigos quanto o próprio tempo.
- James, James, acorde!
Catherine chacoalhou o ombro de Rutherford com toda
força. Ele gemeu, ainda meio sonolento:
- O quê? O que foi? Estou exausto.
- É incrível. As conseqüências são estranhas demais... Aqui...
Olha só.
Catherine pegou a caneta e começou a fazer desenhos no
mapa.
Rutherford aproximou-se, sentou-se à mesa e olhou
surpreso para o Atlas.
- O que é que você está aprontando?
- Você vai ver. Apenas observe. Agora, imagine que o
meridiano principal não fique em Londres, mas em Gizé, no
Egito. Sim, na grande pirâmide, como Bezumov disse.
Catherine continuou a desenhar as posições longitudinais de
todos os locais que usavam Gizé como grau zero.
- Veja, Katmandu fica exatamente a 54° a leste de Gizé. A
54° de Katmandu está localizada a ilha sagrada de Yap.
Angkor Wat fica a exatamente 72° a leste de Gizé, e Nan
Madol fica a exatamente 54° a leste de Angkor. Quase não
dá pra acreditar. Yap e Nan Madol são pontos minúsculos no
oceano. Olhe! Mesmo Raiatea fica a precisamente 188° a
leste de Gizé.
Catherine levantou a cabeça para se certificar de que seu
amigo tinha entendido.
- Você não entende? São todos números inteiros, o que é
surpreendente. Mas o que é ainda mais estranho é que são
divisíveis por seis ou doze. É muito improvável que isto seja
uma coincidência.
Rutherford analisou o mapa e começou a entender as
implicações desta nova descoberta alarmante.
- Você acredita que todos esses lugares antigos foram
posicionados propositalmente segundo um plano geral de
caráter global?
Os olhos de Catherine brilharam.
- Sim! E os espaços entre os lugares são particularmente
interessantes; 54, 72, são números precessionais.
- Precessão? -Rutherford perguntou.
- O que você sabe sobre astronomia e o movimento de nosso
planeta?
- Não muito. Sei que a Terra gira em torno do próprio eixo a
cada 24 horas. Sei que completa uma volta completa ao
redor do Sol a cada 365 dias, e também que ela fica inclinada
com relação ao plano da eclíptica, e que esta inclinação
varia, oscilando para a frente e para trás entre 21° e 24°.
Uma oscilação completa leva 41 mil anos.
- Isso mesmo. Bem, há mais um movimento realizado pelo
nosso planeta. O próprio eixo gira para trás, na direção
oposta à do movimento de rotação do planeta.
- O que isto significa?
- Imagine que a Terra seja um pião que gira em torno do Sol.
Ele dá voltas ao redor do próprio eixo, inclina-se,
graciosamente, de um lado para o outro e, por fim, o eixo
passa a girar na direção oposta à do movimento de rotação
do planeta. A este movimento retrógrado chamamos
precessão. O que importa nisso tudo é que tais movimentos
são normais. Este é um dos prazeres de ser um astrônomo.
Uma rotação completa do eixo leva 25.776 anos.
Rutherford balançou a cabeça, concordando com o que
acabara de ouvir:
- É tudo muito gracioso. Mas os antigos tinham alguma idéia
do que era precessão? Se ele demora tanto para acontecer,
seriam necessárias muitas gerações para observar qualquer
movimento significativo.
- Eu jamais teria considerado a possibilidade de os antigos
conhecerem a precessão até embarcarmos nessa jornada,
mas agora começo a considerar a possibilidade. A visão
ortodoxa é a de que Hiparco, um astrônomo grego, coligiu
dados vindos de Alexandria e da Babilônia. Quando os
comparou, percebeu que havia uma diferença na posição das
estrelas, e então propôs o conceito da precessão. Talvez ele
não tenha sido o primeiro; talvez a precessão tivesse apenas
sido esquecida.
Rutherford franziu o cenho.
- Certo, mas isto ainda não explica por quê. Por que os
antigos estariam se referindo à precessão afinal? Que
importância tem isto?
Catherine ficou quieta por alguns instantes:
- Veja bem. Quando percebi que os números precessionais
pareciam desempenhar um papel considerável na
localização desses monumentos, de repente me ocorreu que
um dos principais números precessionais também sempre
aparece nos mitos que vimos investigando.
- É verdade? Qual?
- Bem, você disse que Osíris foi assassinado por 72
conspiradores, e que havia 72 templos em Angkor Wat.
Setenta e dois é, sem sombra de dúvida, o principal número
precessional. Leva 72 para a Terra precessar um grau em seu
eixo. Talvez haja outras ocorrências.
Os olhos de Rutherford se arregalaram de entusiasmo.
- Meu Deus, você tem toda razão. Setenta e dois. Tem que
ser isto. Falta pouco para decifrarmos o código.

46

Rutherford jamais se sentira tão acordado. Sua cabeça dava
voltas pensando nos mitos antigos sobre os quais jamais lera.
- Há outros números precessionais? Ou o 72 e o outro de
base 12 são os únicos?
Catherine pensou por um instante, e então respondeu:
- Não, de jeito nenhum. Há outros: 1.080, 2.160, 4.320...
- Espera um pouco. Qual era o último?
- O número de anos que leva para avançar duas casas do
zodíaco: 4.320.
Rutherford dava a impressão de que acabara de ter uma
visão.
- Isto é incrível, verdadeiramente incrível...
Catherine agarrou-lhe o braço.
- O quê?
Os olhos de James brilharam.
- O texto místico mais antigo dos hindus, o Rigveda, é
composto de 10.800 estrofes, e todo o trabalho tem
precisamente 432 mil sílabas. Em gematria, a chave é
sempre a ordem dos números; não tem importância se
houver zeros depois deles. Sabemos que o código tem de ser
global. O texto mais importante da religião hindu está bem
aqui, e ele abriga dois números precessionais em sua
estrutura.
Rutherford virou-se e encarou Catherine, que lhe deu um
sorriso largo.
- É isso aí. Encontramos ouro. Estamos na pista do código.
Onde mais surgem esses números?
- Em toda parte. É como se o objetivo desses mitos fosse o
de nos fazer lembrar dos mesmos números, independente
de haver histórias diferentes em diversos lugares. O antigo
livro místico dos judeus chama-se Cabala. Para alcançar o
ain soph, ou Deus, tem-se de passar pelos 72 caminhos. E
Berossius, o historiador babilônio que descreveu Oannes, diz
que antes do dilúvio houve uma linhagem de reis que
governou a Babilônia, e que seu reinado durou 432 mil anos.
E tem mais. Berossius nos diz que desde a criação até a
época do dilúvio decorreram 2.160 mil anos: 2.160
corresponde à duração de tempo que leva para passar de um
signo a outro no zodíaco, não é?
- Sim, é isto mesmo.
- E na gematria! Você se lembra de que calculamos o valor
dos vocábulos gregos para Jesus e Maria, 888 e 192. Se você
somá-los, chegará a 1.080, um número precessional.
- E este número também corresponde ao raio da Lua em
milhas! - Catherine observou, mal conseguindo acreditar no
que ouvia. - Misericórdia! Isto está ficando assustador.
Rutherford ergueu a cabeça e olhou para Catherine; a jovem
tinha a cabeça baixa em virtude do peso que representava tal
descoberta.
- Sim. Isto começa a fazer sentido - ela disse. - Deve haver
uma ligação entre a precessão e a destruição do mundo
antigo.
Rutherford concordou:
- Sim. É como se esses fabricantes primitivos de mitos, esses
portadores da luz dissessem que, a cada oscilação de 26 mil
anos realizada pela Terra, um enorme cataclismo recairia
sobre o mundo.
Catherine fechou os olhos e tentou organizar os
pensamentos.
-James, há mais uma coisa nisso tudo: Bezumov. Você se
lembra do que Hernan disse? As correntes eletromagnéticas
que ele quer aproveitar estão todas ligadas ao movimento
orbital da Terra. Aposto que os antigos eram capazes de
influenciar os fluxos dessas energias. Não sei por que faziam
isso. Talvez fosse para gerar energia, talvez para alterar o
movimento do planeta. Acho que Bezumov agora acredita
que pode reiniciar a máquina. Mas, com certeza, as
conseqüências do mau uso da tecnologia antiga podem ser
fatais.
Rutherford ouviu aquilo horrorizado. E maldisse entre
dentes:
- Aquele russo lunático! Mas, diga, por onde ele começaria?
Uma coisa é descobrir as ruínas de uma tecnologia antiga,
outra é descobrir como usá-la.
- James, escute, temos que encontrar Von Dechend para
chegar a uma data verdadeira e precisa para o cataclismo,
além de uma descrição acurada do que realmente pode ter
acontecido. Então, talvez possamos entender por que o
professor tinha tanta certeza de que estávamos sendo
alertados, porque as coisas ainda não se encaixam. Qual é a
relação entre a precessão e o cataclismo? Por que estamos
sendo avisados? O que quer que tenha acontecido com os
antigos está prestes a acontecer conosco também? Parece
que o professor Kent achava que sim, mas por quê?
Rutherford suspirou e olhou fundo nos olhos de Catherine.
Ela sorriu e pôs-lhe a mão no joelho.
- James, nós vamos conseguir. Só precisamos continuar
tentando. Temos de terminar o que começamos, e
precisamos agir rápido.
Rutherford pegou a mão de Catherine e a apertou. Ela queria
tomá-lo nos braços, mas sentia que o tempo se esgotava.
Todo aquele estresse a deixara confusa. O toque da mão de
James a fizera desejar se esquecer de tudo, daquela
perseguição desesperada e de todo o perigo que corriam.
Entretanto, no momento em que ia abrir a boca para dizer
alguma coisa, a segurança tranqüila do edifício de Quitte foi
estilhaçada pelo som inconfundível do disparo de uma arma
vindo da rua.

47

Catherine puxou o ferrolho e, virando-se para ficar de frente
para a sala, encostou-se na porta. Uma sombra de puro medo
desceu-lhe sobre o rosto. Sua voz estava entrecortada e
desesperada:
- Eles estão aqui... Estão subindo as escadas - e Ela olhara
pelo vão da escada e vira três, ou talvez quatro homens num
tropel, chutando as portas dos apartamentos dos andares
inferiores. O prédio enchera-se com os gritos histéricos das
famílias apavoradas.
Rutherford estava na sacada que dava para a frente do
prédio. Olhou para baixo e apenas teve tempo de entender o
que se passava. Ficou paralisado de pavor quando viu o
corpo de Quitte estendido sobre a calçada do lado de fora da
entrada. Em volta dele havia três vultos vestidos de preto e,
no meio da rua estreita, dois grandes veículos quatro por
quatro bloqueavam qualquer entrada ou saída do edifício.
Enquanto Rutherford lutava para entender o que via, um
dos vultos apontou para ele e gritou em inglês:
- Lá está ele! Sétimo andar. Vamos!
Rutherford correu para dentro da sala. Cega de pânico,
Catherine tentava dar duas passadas na chave. Lutando
contra o medo, Rutherford chegou à conclusão do que
deviam fazer.
- Pegue o passaporte e o dinheiro! Rápido! Anda! Vem
comigo... E não esqueça os mapas.
James rasgou a parte superior da própria mala e tirou a
carteira. Enfiando-a no bolso da calça, caminhou em direção
à porta e a destrancou. Catherine estava bem atrás dele,
agarrada ao próprio passaporte e ao precioso envelope com
os mapas.
- Não podemos sair por aqui!
Rutherford pelejou para abrir a porta e virou-se para ela,
seus olhos faiscavam com toda aquela adrenalina.
- Não temos escolha.
Catherine agarrou-se ao braço de James e o seguiu em
direção ao patamar, enquanto a porta batia atrás deles.
Rutherford apoiou-se no corrimão para olhar o vão da
escada. Os homens armados forçavam a passagem pelas
nuvens dos explosivos que detonavam e pelas aglomerações
lamentosas de moradores aterrorizados em cada um dos
andares. Voltou-se para Catherine e fez um sinal com a mão
para que subissem. Ela disparou escada acima sem sequer
olhar para trás. Rutherford a seguiu, olhando para trás sobre
o próprio ombro.
Após subir três lances de escada, eles alcançaram o patamar
do décimo andar. Uma índia os observava pela fresta da
porta. No patamar, ao fundo, havia uma porta que levava ao
telhado. Os dois correram até ela. Rutherford agarrou a
maçaneta e quase arrancou a porta, destrancada, das
dobradiças. Passaram pela porta aos trancos e barrancos,
subiram o curto lance de escadas e seguiram em direção ao
telhado. Tão logo passaram, a porta bateu.
O telhado tinha mais ou menos 90 metros quadrados. Era
circundado por uma pequena parede cuja altura chegava ao
joelho. O local estava repleto de antenas de TV. Catherine
virou-se para Rutherford com um olhar desesperado:
- E agora? O que vamos fazer?
James correu para a parte de trás do telhado. Olhando dali,
viu que o telhado do prédio ao lado ficava à curta distância
de mais ou menos um metro, e em torno de pouco mais de
um metro abaixo de onde estavam.
"Não fica muito distante, dá pra pular..."
- Vamos, Catherine. Teremos que pular.
Catherine correu até a beirada e olhou o vão. Em seguida,
segurando no braço de Rutherford, debruçou-se sobre a
mureta e mirou o vazio abismai que separava os dois
edifícios. Seu semblante exprimia desespero e aversão.
- Tenho horror a altura.
Rutherford pisou na borda da parede e lhe ofereceu sua
mão.
- Suba aqui. Agora olhe para o horizonte.
Inspirando profundamente, Catherine fez o que James lhe
pedira. Estavam lado a lado em pé na mureta; a mão direita
de Catherine agarrada à esquerda de Rutherford.
- Tudo bem. Quando eu disser pule, quero que você pule o
mais longe que puder, e ao atingir o chão, você terá que
rolar.
Catherine olhou para trás e viu a porta que levava à
escadaria. Estava prestes a gritar de medo. Rutherford achou
graça. O céu azul, belo e infinito, dominava o cenário. Ela
mordeu o lábio e assentiu com a cabeça, fechando os olhos.
Rutherford dobrou os joelhos, verificou se sua mão e a de
Catherine estavam firmemente agarradas uma à outra e
então, fazendo uma prece silenciosa, concentrou a mente e
o corpo.
- Um... dois... três... PULE!
Com um grande baque, ambos aterrissaram um em cima do
outro no telhado de concreto do prédio vizinho. Numa
tentativa de amortecer a queda de Catherine, Rutherford
aterrissou mal sobre o próprio ombro. Quando os dois se
levantaram, Rutherford tinha o rosto contorcido de dor. No
meio do telhado havia uma pequena casinha de tijolos com
uma porta que conduzia à escada; descendo-a, eis ficariam
longe das vistas dos facínoras.
A porta estava aberta, e enquanto escapuliam, Catherine
tentava enxergar o teto do edifício onde Quitte morava.
Nem sinal dos homens que os perseguiam. Rutherford
descia dois degraus por vez, mas o fazia apoiando-se
firmemente à parede, apertando o ombro esquerdo. Des-
ceram a espiral da escada, passando pelos halls dos
apartamentos enquanto seguiam em frente, enfim saindo no
hall de entrada, no térreo. Catherine abriu a porta da frente
com todo cuidado e observou a rua atentamente. Estava
vazia. Dirigiu-se a Rutherford e tocou-lhe o ombro com
delicadeza.
- Tudo bem. Acho que o caminho está livre. Temos que sair
correndo. E possível que a gente se perca nos becos. Você
está bem, James?
Rutherford fez uma careta de dor e fez um sinal afirmativo
com a cabeça.
- Vamos sair daqui.
Cinco minutos depois, traumatizados e apavorados,
Catherine e Rutherford emergiram de uma das muitas das
ruelas laterais, saindo para a tumultuada feira de San
Salvador. Suas roupas estavam desalinhadas, não tinham
mais as mochilas, e tudo o que restara foram os passaportes e
o dinheiro.
A velha feira se estendia por quase 800 metros pela Calle
San Salvador. Em ambos os lados da rua, uma barraca após a
outra vendia frutas e verduras, temperos, cobertores,
utensílios de cozinha e aparelhos domésticos, com seus
espaços tomados por consumidores e turistas. Catherine
tentava recuperar o fôlego, com o tronco curvado e as mãos
apoiadas nos joelhos. Respirou bruscamente, enchendo o
pulmão de uma só vez, e endireitou o corpo.
- Como é que eles ficaram sabendo que estávamos aqui? - ela
lançou um olhar para Rutherford na esperança de que ele
tivesse a resposta. - E quem diabos são eles?
Rutherford balançou a cabeça, observando atentamente a
multidão do mercado:
- Não tenho a menor idéia. Mas uma coisa eu sei, não tenho
nenhuma intenção de ficar por aqui para descobrir. Temos
que chegar ao aeroporto. É nossa única esperança.
A desordem reinava no edifício onde ficava o apartamento
de Quitte. Todos os cômodos de todos os apartamentos
haviam sido revirados, e hordas de pessoas aterrorizadas e
histéricas se aglomeravam nas escadas enquanto o que havia
em suas casas era reduzido a um monte de cacos e farrapos
jogado ao chão. As camas eram levantadas, as portas dos
armários chutadas. Não sobrou pedra sobre pedra. Qualquer
um que impedisse aquela explosão de violência era
espancado até ceder. O apartamento de Quitte recebeu um
tratamento especial. Era como se um maníaco tivesse sido
deixado solto lá dentro. Nem sequer um item do mobiliário
ou louça foi preservado.
Finalmente, três ocidentais com a cabeça raspada, vestindo
camisetas pretas, calças cargo pretas e botas militares,
carregando diversos tipos de armamento, irromperam no
telhado. Logo atrás deles estava o assassino com rosto fino.
Ele subira último lance de escadas e passara pela porta, que
agora balançava nas dobradiças depois do tratamento brutal
que recebera dos facínoras. A luz do sol e o ar fresco
pareciam irritá-lo. Sua caça desaparecia no vazio do céu azul
enquanto inspecionava o telhado, cheio de antenas de TV
Seus comparsas tocaiavam as laterais do prédio com as armas
apontadas para um lado e para outro. As mãos tinham os
pulsos bem fechados. A frustração fervilhava nas veias.
Um de seus homens, que agora estava em pé sobre a
pequena mureta próxima do local onde Catherine e
Rutherford haviam pulado, fez um gesto para ele.
Respirando com dificuldade, mais pela raiva reprimida do
que pela exaustão por subir a escada correndo, aproximou-se
do capanga. O homem apontou o telhado vizinho.
O ocidental deu uma olhada e, tirando o celular do bolso,
deu meia-volta.
- Eles estão a pé pelo barrio. Mobilize todos os agentes.
Mande gente para a rodoviária e para o aeroporto. E chame
o helicóptero imediatamente.
Logo depois, o assassino de rosto fino sumiu em disparada
pelas escadas.

48

O táxi diminuiu a marcha enquanto passava em frente à área
de desembarque do aeroporto. Outros táxis e veículos
particulares encontravam lugar para estacionar junto ao
meio-fio, encostando e despejando os passageiros. Malas e
valises eram tiradas dos porta-malas.
Rutherford inclinou-se para falar com o motorista.
- Aqui está bom - e dirigiu-se a Catherine: - Nem acredito
que finalmente estamos indo embora daqui. Não consigo
deixar de pensar no que pode ter acontecido com o maluco
do Bezumov. Você acha que ele se encontrou com aqueles
homens de preto? Ele está com eles ou age sozinho?
Catherine não estava prestando atenção, concentrada na
multidão do aeroporto, analisando os rostos das pessoas nas
calçadas, a maior parte índios e turistas. Havia algo errado.
- James, só um minuto, por favor.
Rutherford já procurava o dinheiro na carteira, enquanto o
motorista embicava o carro numa vaga atrás de um micro-
ônibus. Por alguns instantes, um táxi, ao estacionar,
atrapalhou a vista que Catherine tinha da calçada. Talvez ela
estivesse vendo coisas.
Rutherford tirou algumas notas de dólar da carteira e lhe
perguntou:
- O que foi?
De repente, Catherine ficou pálida. Ali, a mais ou menos
cem metros do carro, havia dois ocidentais vestindo ternos
escuros. Os dois conversavam baixo, ao pé do ouvido. Havia
algo estranho com eles; estavam ambos muito tensos e
alertas, a linguagem corporal era muito diferente da usada
pelas pessoas do lado de fora do aeroporto. Catherine se
aproximou do motorista e agarrou-lhe o ombro.
- Vamos! Vá embora! Agora! James, abaixe-se!
Rutherford não perguntou o que estava errado, apenas
cumpriu a ordem. Quase deitado no banco do táxi, sussurrou
com voz rouca:
- Eles estão aqui?
Catherine balançou a cabeça vigorosamente, dirigindo-se ao
motorista confuso:
- Rápido! Leve-nos ao setor de desembarque.
Sem saber o que fazer, os dois grudaram os corpos no
assento do carro, rezando para que nenhum dos dois
homens sinistros olhassem para dentro do veículo. O táxi
afastou-se do meio-fio e entrou no fluxo do trânsito.
Duzentos e cinqüenta metros à frente, encostou uma
segunda vez. Com o intuito de verificar a situação,
Catherine levantou a cabeça. A calçada estava cheia de
pessoas que acabavam de chegar. As portas do desembarque
derramavam um fluxo constante de passageiros com o
semblante cansado. Ela olhava para um lado e para outro da
calçada procurando alguma silhueta estranha. O caminho
parecia estar livre.
- Tudo certo. Vamos sair daqui.
Ela abriu a porta e saiu na calçada, seguida por Rutherford,
que dera um punhado de dólares ao motorista antes de sair
do táxi. De mãos dadas, abriram caminho na multidão, indo
no contra-fluxo em direção ao setor de desembarque.
Rutherford puxou o braço de Catherine com força e,
arquejante, disse:
- Logo ali. Está vendo? Na ala de embarque. E o balcão da
American Airlines. Tenho certeza de que operam a maior
parte dos vôos.
James apontou o desembarque e, mais à frente, o ponto em
que se encontrava, por meio de uma passagem enorme, com
o embarque. Catherine verificou a informação. O balcão da
American Airlines parecia muito isolado. Não havia fila, mas
ficava muito exposto. Caso se dirigissem para lá e ali
ficassem, certamente seriam vistos.
- Você acha que eles têm gente aqui dentro também?
- Não sei. Mas temos que considerar a possibilidade.
Catherine estava com o estômago embrulhado. Olhou uma
vez mais para o balcão de passagens. No extremo oposto
ficava o controle de passaportes e a entrada para a
famigerada segurança do setor de embarque. Tudo que
precisavam fazer era conseguir as passagens.
De repente, ela teve uma idéia. Largou a mão de Rutherford
e seguiu na direção de uma barraca de produtos para turistas.
Rutherford a acompanhou, tentando entender o que ela
pretendia. A barraca vendia todo tipo de produtos:
camisetas, bugigangas e peças de roupa típicas. Catherine
pegou um chapéu-coco preto e um poncho de lã de lhama
multicolorido, ambos itens essenciais do traje de um aimará,
e pagou prontamente o sorridente vendedor índio. Em
seguida, escorregou o poncho pela cabeça e escondeu o
cabelo embaixo do chapéu.
"Uma coisa é certa, sou muito alta, e minha pele, muito
branca, mas, à primeira vista, eu poderia me misturar à
multidão do aeroporto, porque ocidentais nunca vestem os
trajes locais."
Ajeitando o chapéu de modo que lhe cobrisse os olhos,
Catherine olhou para o balcão de passagens.
- Dê-me seu passaporte - ela pediu a Rutherford com toda
calma. Às pressas, James abriu o zíper da carteira e lhe
entregou o documento.
- Você tem certeza?
Catherine fez um gesto afirmativo com a cabeça.
- Irei até o balcão, comprarei as passagens e, assim que eu
virar as costas, você corre para o balcão do check-in. Eu o
encontro lá.
Ela se afastou. Rutherford a aguardou na entrada do setor de
embarque, apartado, observando-a de longe, mas
procurando fazer o máximo para se misturar à multidão,
tentando disfarçar sua figura corpulenta.
Catherine atravessou o espaço que separava o setor de
embarque do balcão da American Airlines com a maior
calma possível, ainda que tivesse avistado os dois homens
vestidos de preto do lado de fora andando para lá e para cá,
examinando os táxis ao chegarem para deixar as pessoas no
aeroporto. E voltou a sentir um calafrio de medo.
"Sim, não há dúvida: são eles."
A vendedora no balcão da American Airlines achou graça
do traje de Catherine e consultou a base de dados para
verificar os vôos disponíveis.
- Senhora, o melhor que posso fazer é colocá-los em um vôo
que sai dentro de uma hora. Entretanto, não é direto. Vocês
terão de trocar de avião em Miami e há uma espera de três
horas no meio da noite. Não há nenhuma outra opção até
amanhã de manhã.
- Está ótimo. Muchas gracias.
Alguns minutos depois, ela guardou as passagens e os
passaportes embaixo do poncho e deu meia-volta.
Rutherford, então, começou a atravessar o saguão a passos
largos.
Catherine apressou o passo na direção do balcão de check-in
e entregou as passagens e o passaporte a James. Os dois
serpentearam pela fila que fica restrita aos cordões de
isolamento até chegar em frente ao balcão de passaportes.
Atrás do balcão estavam sentados dois oficiais da polícia
federal. Um deles, visivelmente mais velho, pegou os
passaportes e as passagens. Tinha um olhar frio e
inexpressivo. Analisou os documentos; seu olhar reptiliano
alternava entre as fotos e os rostos de James e Catherine.
Então, depois do que pareceu uma eternidade, o oficial lhes
devolveu os documentos. Tentando conter uma sensação de
esperança que se formava dentro de si, Catherine sorriu para
o policial. Ele retribuiu o sorriso sem demonstrar o menor
traço de emoção.
- Gracias - ela agradeceu enquanto se virava para prosseguir.
Ele não respondeu. Rutherford já passara do balcão em
direção à multidão que enchia a área de embarque logo à
frente.
Catherine mal dera três passos quando ouviu o que mais
temia: um urro em alto e bom som:
- Senhora!
Ela parou de repente. O que é que ele tinha descoberto?
Teriam dito a eles para detê-los? Talvez fosse melhor escapar
e misturar-se à multidão.
Avistou Rutherford logo à frente, procurando por ela com
um aspecto ansioso no rosto. Com um profundo sentimento
de derrota, ela se virou para o policial. Seu olhar
demonstrava tristeza quando ela olhou para ele com uma
resignação desencantada. Mas, de repente, percebeu que o
oficial sorria.
- Senhora, gostamos do seu traje!
Ambos os policiais sorriram para ela e apontaram o traje
típico. Catherine quase desmaiou, tamanho o alívio que
sentiu. Ela retribuiu o sorriso e, em seguida, dando meia-
volta, desapareceu na multidão.

49

Chegara o momento de o secretário deixar Nova York. O
helicóptero aterrissou em meio a um ruído ensurdecedor no
heliporto do aeroporto JFK. Conforme o planejado, uma
elegante Mercedes Benz nova em folha atravessou a pista a
toda velocidade e estacionou, aos solavancos, no local
combinado. Uma silhueta corpulenta desceu do veículo e
correu os olhos pelos arredores. A porta do helicóptero
abriu-se automaticamente, os degraus foram acionados e o
secretário desceu da aeronave, desaparecendo logo depois
no interior do carro com os assentos revestidos de couro.
Contemplando a imensidão árida da pista, o leão de chácara
seguiu o exemplo e se enfiou no carro. Passados alguns
instantes, o Mercedes cruzava o sombrio pátio de manobras
a caminho do complexo que abrigada os jatos particulares do
outro lado do campo de aviação.
O secretário Miller fez de tudo para relaxar, ao menos por
alguns instantes. A reunião no Cairo seria sua última
oportunidade de desafiar o senador. Com o cenho franzido,
inclinou-se para a frente e dirigiu-se ao homem sentado no
banco da frente:
- Diga ao piloto que nosso destino é o Cairo, mas que
faremos uma parada em nossa base na Suíça.
- Sim, senhor.
Ele fechou os olhos e pendeu a cabeça para trás enquanto o
carro percorria a pista. Chegara a hora de iniciar a viagem ao
Egito. O trabalho na América do Norte estava concluído,
pelo menos por enquanto. Agora, o secretário voltava seus
pensamentos para a garota e seu companheiro.
"Agora que ela está de volta à Inglaterra, teremos de ser mais
discretos."
Estendeu a mão para pegar o telefone e discou um número
em Oxford. Após tocar muitas vezes, alguém atendeu. Era a
voz inconfundível do Reitor de All Souls.
- Estou telefonando por causa da garota, a tal Donovan. Ela
pode aparecer em Oxford a qualquer momento.
O Reitor parecia ansioso e muito tenso.
- O que é que você quer que eu faça agora? Fiz tudo o que
podia. Eu lhe contei tudo que sei. Não farei mais nada.
O secretário Miller, com um tom de escárnio, o
interrompeu.
- Não seja ridículo. Não confio em velhos para fazer meu
trabalho. Tudo o que quero de você é que fique no encalço
dela e garanta que não faça mais nenhum passeio ao exterior
nos próximos dias. Não quero vê-la criando mais problemas.
- Não vai acontecer nada com ela, vai?
- Isto não é problema seu. Tudo o que peço é que a
mantenha em Oxford até terça-feira.
- Como você sabe, ela tem apenas 29 anos. Creio que ela
não...
- Reitor, o senhor está começando a encher a minha
paciência. Preciso lembrá-lo de quais são suas obrigações?
Falta apenas um semestre para o senhor se aposentar. Vai
deixar toda sua carreira ser manchada por uma revelação de
última hora?
Houve uma longa interrupção.
- Fui claro?
- Sim, secretário. Foi muito claro.
E nada mais foi dito, a linha emudeceu.

50

Já era sábado de manhã. Após um vôo extenuante, incluindo
uma conexão em Miami, Catherine e Rutherford finalmente
haviam chegado ao aeroporto de Heathrow. Ao menos para
uma coisa o vôo servira, para dar-lhes a oportunidade de
sucumbir à exaustão. Durante dezesseis preciosas horas eles
haviam ficado suspensos no ar, longe das garras do inimigo
que os perseguira pelos Andes, a salvo por um curto período
de tempo, embora sem condições de fazer qualquer coisa.
No aeroporto de Heathrow, optaram por uma alternativa
extravagante, e tomaram um táxi para voltar a Oxford.
Vivendo dos salários da universidade, nenhum dos dois
tinha muito dinheiro, mas agora não era o momento de se
preocupar com tais coisas.
Eles pararam do lado de fora do All Souls. Rutherford saiu
do táxi e pagou o motorista. Abrindo a porta para Catherine
e pegando as mochilas, James ergueu os olhos para
contemplar a fachada do edifício.
- Bem, aqui estamos. Nada mudou.
Catherine lançou um olhar suspeito para o portão da
faculdade.
- Não tenho tanta certeza disto. Seja como for, vamos torcer
para que Von Dechend esteja aqui. Não podemos perder
sequer um minuto.
Quando passaram pela portinhola que levava à guarita do
porteiro, Catherine olhou ao redor com certa preocupação.
"O que será que está me deixando com os nervos à flor da
pele? É tudo tão familiar e, contudo, parece que as coisas
não são mais como antes..."
Como de costume, Catherine verificou o escaninho para ver
se havia correspondência, e pegou-se pensando no envelope
que continha os mapas que fizeram com que embarcassem
naquela perigosa aventura. Para seu alívio, havia apenas dois
bilhetes. Ela caminhou até a mesa do porteiro:
- Fred, você está aí?
Um instante depois, o porteiro apareceu no vão da porta.
- Olá, dra. Donovan. Que bom vê-la. Está um lindo dia, não?
"Gostaria de dizer o mesmo", ela pensou com tristeza. Mas,
mantendo um ar positivo, retribuiu a saudação:
- Olá, Fred. Vim visitar o dr. Von Dechend. Ele está?
- Sim, está. Deixe-me ajudar a senhora com as malas. Ah,
antes que me esqueça, o Reitor está louco para vê-la. Ele não
para de me telefonar e de descer aqui para perguntar se a
senhora entrou na faculdade.
Catherine olhou para Rutherford. Mas, antes que
conseguisse dizer alguma coisa, a voz aguda e seca do Reitor
atingiu a guarita. Estava em pé na porta atrás deles. A
compleição alta e macilenta tomava conta da entrada.
- Sim. E aqui estou eu de novo - aquele semblante sério
recebeu Catherine e Rutherford. - Então, acabam de voltar.
Como foi a viagem?
- Viagem para onde, Reitor?
O rosto do Reitor ruborizou-se.
- Ah, pensei que estivessem fora. Tentei encontrá-los em
casa também. Só quero que saibam da reunião do colegiado
na terça-feira de manhã. É imprescindível que todos os
acadêmicos compareçam. Pensei que seria importante deixá-
los cientes para evitar mal-entendidos.
Catherine o encarou.
- Ótimo. Muito obrigada. Nós nos encontraremos lá.
Ele ainda permaneceu na porta por algum tempo e, em
seguida, parecendo não estar muito certo do que fazer, deu
meia-volta e passou pelo portão da guarita, saindo para a rua.
- James, vamos. Precisamos falar com o dr. Von Dechend.
Ao sair da guarita em direção ao quadrilátero, Rutherford lhe
perguntou:
- O que ele quis dizer com tudo aquilo?
Catherine dava a impressão de estar totalmente confusa.
- Não sei. Tenho tido uma sensação esquisita em relação ao
Reitor desde que me chamou para conversar e me falou da
morte do professor.

51

Dr. Von Dechend ficou felicíssimo ao vê-los.
- Catherine! Que prazer! James Rutherford, que bom vê-lo!
Isto é muito bom. A jeunesse d'orée de Oxford. A juventude
brilhante! Uma vez mais aqui, nos meus aposentos! Que
honra!
Catherine olhou para Rutherford com um sorriso, enquanto
o velho acadêmico os convidava a entrar em seu
aconchegante recanto repleto de livros.
- É muito bom revê-lo também, dr. Von Dechend. Espero
que o senhor esteja bem.
- Oh, sim, querida - ele respondeu enquanto fazia um sinal
convidando-os a se sentar.
Catherine pigarreou.
- Devo dizer que, uma vez mais, estamos aqui em busca de
orientações.
- Fale tudo, minha jovem, tudo. Estou à sua disposição.
Catherine esperou que Von Dechend se ajeitasse na cadeira
e então, respirando fundo, começou:
- Isto pode parecer enigmático, mas queremos lhe fazer uma
pergunta. Não tenho tempo para explicar o motivo, mas
realmente precisamos de sua ajuda...
Catherine parou de falar para ver se Von Dechend estava
satisfeito com o estranho preâmbulo que fizera. Ele
balançou a cabeça bem devagar em sinal afirmativo,
encorajando-a a prosseguir.
- Estamos tentando localizar um acontecimento catastrófico
que pode estar enterrado nas profundezas do passado, e
pode ter feito com que grande parte da humanidade tenha
sido dizimada. Buscamos alguma prova nos registros fósseis,
na geologia, na paleontologia, onde quer que haja qualquer
coisa que indique um cataclismo de proporções tão
monumentais que consiga explicar os mitos do fim do
mundo encontrados em todas as culturas ao redor do
mundo.
Houve uma longa pausa. Von Dechend olhou para o teto
como se estivesse preparando um discurso. Catherine voltou
os olhos para Rutherford. Ambos aguardavam em silêncio,
nem sequer respirando para não perturbar a linha de
raciocínio do velho acadêmico. Após um ou dois minutos
de silêncio, Von Dechend se pronunciou. Sua voz parecia
muito séria, sua cordialidade desaparecera e sua alegria
habitual fora substituída por um tom de absoluta cautela
acadêmica. Era quase como se não estivesse nem um pouco
confortável discutindo tais coisas.
- Antes de começarmos a falar sobre isso, quero deixar clara
uma coisa. Não tenho intenção nenhuma de endossar
qualquer teoria sugerindo que os mitos e lendas antigos
relacionados ao cataclismo sejam algo mais que mitos e
lendas. Há um bando de maníacos que lhes dirão isto,
maníacos e fanáticos religiosos. Não me enquadro em
nenhum dos grupos a que acabo de me referir, e não tenho
nenhum interesse em tais fantasias jactanciosas.
Rutherford captou o olhar de Catherine. Ela hesitou por um
instante; ele então decidiu intervir pela primeira vez.
- Não, claro que não, dr. Von Dechend. Não é isto que espe-
ramos que faça. Apenas queremos ter uma conversa racional
em particular, confidencial, por assim dizer, que fique entre
nós. Não é nada mais que um capricho nosso; tudo que
gostaríamos de saber é qual teria sido, mais ou menos, a
época em que tal cataclismo pode ter acontecido. Sem
dúvida, todos sabemos que isto é apenas uma especulação
intelectual.
Rutherford e Catherine, sem nem sequer dar um suspiro,
aguardaram que o acadêmico se pronunciasse.
Após outro silêncio interminável, Von Dechend falou
novamente:
- Humm... Entendi. Bem, agora que deixamos as coisas
claras, posso lhes dar minhas impressões sobre o assunto.
Ao ouvir isso, Catherine e Rutherford automaticamente
respiraram aliviados. Von Dechend deu uma baforada no
cachimbo e começou a falar:
- Minha primeira impressão sempre foi a de que algo terrível
realmente aconteceu no passado, e que isto se passou no
final da última era do gelo.
Catherine e Rutherford estavam ansiosos. Com uma atuação
teatral, Von Dechend interrompeu novamente o que dizia
antes de voltar a falar, bem devagar:
- A vida humana, antes de registrarmos a história tal como a
conhecemos hoje, escapou muitas vezes da aniquilação. Na
verdade, não é nenhum exagero dizer que a vida dos
ancestrais diretos de cada um de nós deve ter ficado por um
fio em algum momento. Entretanto, apesar da fraqueza e da
preguiça de alguns dos atuais representantes de nossa
espécie, pode-se garantir que descendem de homens e
mulheres de extraordinária determinação, iniciativa e
bravura. Podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que
conseguiram superar todas as adversidades que a natureza
lhes impôs. Nossa experiência como espécie no decorrer dos
últimos milhares de anos fez que nos tornássemos muito
complacentes. Acreditamos que a estabilidade do planeta é
normal e, para a maioria, um lugar acolhedor. É um grave
erro pensarmos assim. Seria mais apropriado dizer que, nos
últimos milhares de anos, estivemos no olho de um furacão;
ainda estamos experimentando a calmaria do centro
inanimado de um imenso ciclone marcado pela violência e
pela destruição.
Catherine e Rutherford ouviram tudo aquilo fascinados. Von
Dechend, teatral como sempre, parecia estar preparando seu
côup de grace.
- Mas, voltando à era do gelo... Agora, como quase tudo que
aconteceu mais de 500 anos atrás, não sabemos exatamente
o que ocorreu nessa era. Contudo, sabemos que foi um
desastre de proporções terríveis e avassaladoras, e é
plausível imaginar que a humanidade teve muita, muita
sorte de sobreviver a ele. Podemos afirmar com razoável
grau de certeza que a última era do gelo teve início por volta
de 110.000 a.C., com o acúmulo constante de gelo que se
espalhou pelo planeta. No período compreendido entre
55.000 e 12.000 a.C., ela atingiu seu ápice. O mundo todo
foi afetado. Vista do espaço, a Terra deve ter ficado parecida
com uma bola de neve. As camadas de gelo cresciam e em
seguida derretiam, um pouco antes de tornar a crescer, desta
feita avançando um pouco mais que antes. Isto teria causado
uma enorme instabilidade ambiental, com inundações,
terremotos, e assim por diante. Mas é o último derretimento
que me interessa. No ápice da última era do gelo, 12.000
a.C., as camadas de gelo se estendiam por quase todo o
planeta. Mas, no decorrer dos próximos 5.000 anos, o gelo
que levara 100 mil anos para se desenvolver de repente se
desfez em um degelo espantoso. Alguns cientistas chegam a
acreditar que esse enorme derretimento pode ter ocorrido
durante um período de tempo mais curto, algumas centenas
de anos, ou mesmo no curtíssimo espaço de uma década.
Registros fósseis provam que os habitantes da Terra ficaram
expostos às forças incrivelmente poderosas da natureza
enquanto as enormes camadas de gelo desapareciam. É
provável que vocês acreditem que as condições de vida
melhoraram para a maior parte dos animais, e a longo prazo
isto realmente aconteceu. Mas o degelo desencadeou
desastres naturais que, a curto prazo, tiveram conseqüências
desastrosas para muitas espécies. Os registros fósseis
coletados no mundo todo contam a mesma história de
extinção em grande escala. Costumava haver cavalos e
outros animais pertencentes à mega-fauna da América do
Sul. Esses animais só voltaram a ser vistos por lá quando os
espanhóis os introduziram naquele ambiente, e a mega-
fauna local desapareceu para sempre. E na América do
Norte, 33 dos 35 gêneros de grandes mamíferos foram
extintos. Foi um verdadeiro holocausto.
Von Dechend lançou-lhes um olhar penetrante.
- Vocês conseguem imaginar como era a vida naquela
época? Era apavorante. Caso você e sua tribo, ou família, não
escolhessem o lugar certo para se estabelecer, estariam
perdidos. O gelo em processo de derretimento teria causado
perturbações geológicas de proporções gigantescas,
terremotos, erupções vulcânicas, tsunamis. E um milagre
que a humanidade tenha sobrevivido a tudo isso. O mais
estranho, contudo, é que as regiões polares parecem ter sido
as áreas mais afetadas. Inúmeras carcaças de animais foram
encontradas enterradas sob o gelo.
Na realidade, até hoje, as escavações ainda encontram
mamutes preservados, suas presas são usadas para entalhe
em marfim.
Catherine estava confusa.
- Mas se eles ainda estão preservados com a carne intacta,
isto não significa que devem ter sido congelados em
pouquíssimo tempo, e logo após a morte? Do contrário,
teriam se decomposto, não é mesmo?
- Sim, muito bem. É estranho. Enquanto as espécies extintas
da América do Sul e da Austrália são enterradas com a carne
muito tempo depois de decomposta, os animais encontrados
no Círculo Polar Ártico, nas regiões do Alasca e da Sibéria,
parecem ter sido congelados em muito pouco tempo em
escala industrial. Alguns desses animais ainda têm comida
não digerida no estômago, o que tem uma única razão: eles
foram congelados três horas depois da última refeição. E o
mais estranho é que não eram apenas mamutes, tigres-
dentes-de-sabre e outros animais que habitavam a região
ártica, mas também leopardos, elefantes, cavalos, gado, leões
e muitas outras espécies de clima temperado.
Rutherford estava boquiaberto.
- Leopardos e elefantes, no Ártico?
- Parece que sim. Mesmo em locais distantes como as ilhas
de Svalbard, ao norte do Ártico, os cientistas ainda
encontram animais de clima temperado e vestígios da flora e
da fauna que só podem sobreviver em clima tropical.
Rutherford ainda tinha dificuldade para entender.
- Mas isto é incrível.
- Sim. Este é um dos grandes mistérios do fim da última era
do gelo. Como é que todas essas espécies de clima
temperado acabaram enterradas sob o gelo na região agora
conhecida por Círculo Polar Ártico? Fica claro que a era do
gelo se aproximava do fim em todo o mundo. Mas essas
terras faziam o caminho inverso. De repente, tornaram-se
mais frias e menos acolhedoras. Manadas inteiras de animais
eram congeladas num piscar de olhos.
- Mas isto não faz sentido, James voltou a falar. - O fim da
era do gelo deveria ter proporcionado um clima quente, e,
afinal de contas, o que é que essas espécies de clima
temperado faziam nessas latitudes congeladas?
- Concordo com você. Não faz sentido. Tudo isso continua a
ser um mistério. Mas o que realmente sabemos é que por
volta de 7.500 a.C. o grande degelo chegou ao fim. As
camadas de gelo haviam recuado. Os seis ou sete mil anos
anteriores teriam representado a época mais terrível para
sobreviver. Vulcões, terremotos, tempestades violentas,
tsunamis e coisas parecidas, e, é claro, as inundações.
Milhões de toneladas de gelo derretido exercendo pressão
sobre a crosta terrestre fizeram com que ela aumentasse. O
que causou mais terremotos. As marés subiram. Grandes
faixas de terra foram engolidas. As inundações e os tsunamis
tinham proporções tais que o Himalaia pode ter ficado
temporariamente coberto de água.
- O quê? Isto não é possível! - Ruhterford exclamou.
- Sim, é. Foram encontrados esqueletos de baleia nas
montanhas da América do Norte, e até mesmo no meio do
Saara, em Wadi Hitan. Por toda a Europa encontram-se
picos de montanhas que devem ter servido como último
refúgio para milhares de animais aterrorizados que batiam
em retirada. Em todo o mundo é possível encontrar diversas
covas que abrigam muitos esqueletos no topo dessas
montanhas, provas das migrações assustadoras de animais e
seres humanos fugindo do aumento no nível da água. Toda a
Europa ocidental ficou submersa em diversas ocasiões. Não
se sabe por quanto tempo, mas é certo que isto aconteceu
pelo menos duas ou três vezes... No final das contas, o
período entre 15.000 e 7.000 a.C., e principalmente entre
11.000 e 8.000 a.C., foi caracterizado pela terrível e
contínua inundação, pelo congelamento repentino e pela
quase total destruição.
Catherine, com a cabeça de tão atônita que estava, ouvira
tudo aquilo trespassada.
- Deve ter sido aterrador.
- Sim. E ainda mais porque esses povos primitivos não
tinham a menor idéia da razão de tudo aquilo estar
acontecendo. Seria muito natural pensar que os deuses
estavam zangados, e que eles estavam sendo punidos - dr.
Von Dechend suspirou. - Era essa a informação que
buscavam?
Rutherford e Catherine trocaram olhares.
- Sim. Muito obrigada por dispor de seu tempo para nos falar
sobre isso. Eu não imaginava que a humanidade passara por
uma provação dessas, especialmente num passado
relativamente tão recente - Rutherford disse.
Catherine acrescentou:
- Sim, muito obrigada dr. Von Dechend. Não existe muita
gente com a gama de conhecimentos que o senhor tem, e
seu conhecimento do período foi muito útil. Mas agora
temos que ir. Já tomamos muito seu tempo.
- De maneira alguma Catherine, é sempre um prazer. Fico
satisfeito por tê-los ajudado. É importante relembrar as
pessoas de que vivemos numa época atipicamente calma e
tranqüila, que, infelizmente, não vai durar muito!
Catherine e Rutherford levantaram-se para ir embora. O
velho acadêmico olhou para ela com uma expressão marota.
- Talvez um dia vocês me contem o porquê de todas essas
perguntas.
Catherine sorriu com pesar.
- Eu contarei, dr. Dechend. Um dia prometo que contarei.


52

Uma vez mais, Catherine e Rutherford deixaram a
companhia do dr. Von Dechend cheios de esperança.
Enquanto desciam as escadas, conversavam com
entusiasmo.
-James! Era tudo o que esperávamos e muito mais! Isso
explica tudo, inclusive o fato de que o dilúvio realmente
aconteceu. E a precessão deve estar relacionada ao fim da
era do gelo, ao derretimento! Faz todo sentido. À medida
que a órbita muda na passagem do ciclo dos 26 mil anos, os
pólos norte e sul são expostos a diferentes intensidades de
luz solar. Em determinado ponto desse ciclo, quando estão
mais próximos do Sol, os pólos começam a derreter... O fim
da era do gelo é a resposta!
A cabeça de Catherine estava cheia de pensamentos que iam
e vinham. Tudo parecia estar se encaixando. Rutherford
estava igualmente inspirado.
- Eu sei. Tudo começa a fazer sentido... Os mitos ligados ao
dilúvio são relatos verdadeiros dos desastres que quase nos
dizimaram.
Catherine falou quase ao mesmo tempo:
- É verdade, e o fim da era do gelo também trouxe o
congelamento repentino e paradoxal em determinadas áreas
das quais os vikings e os zoroastras falam... - de repente, ela
bateu a mão direita na testa. - James, entendi! Não acredito
que tenha sido tão burra. Nós já sabíamos a resposta...
Catherine abriu a porta do escritório do professor Kent e
caminhou até a escrivaninha. Sobre ela havia um grande
globo terrestre, que se iluminou assim que ela apertou um
botão. Dirigindo-se a James, ela começou a falar:
- A teoria de Hapgood sobre o deslocamento da crosta
terrestre!
Rutherford empalideceu momentaneamente.
- Você se lembra. Dr. Von Dechend nos falou sobre ela
enquanto conversávamos sobre os mapas. Ele disse que
Hapgood usara o mapa de Piri Reis para ajudar a provar sua
teoria do deslocamento da crosta terrestre. Segundo ele, a
Antártida ficava mais ao norte, mas a crosta terrestre
deslizou e a Antártida atingiu o fundo da Terra - Catherine
girou o globo lentamente para ilustrar o que dizia. - Lembre-
se, toda a crosta se moveu, não apenas uma ou duas placas
tectônicas, mas toda a litosfera. Antes, as terras com clima
temperado devem ter passado para a parte de cima, ficando
além do Círculo Ártico. Não é de estranhar que todos
aqueles leões e camelos e outros animais da zona temperada
sejam encontrados congelados sob o gelo da Sibéria.
Rutherford de repente entendeu tudo. Seu rosto iluminou-
se.
- E isto também significa que antes de esse deslocamento da
crosta acontecer, as pessoas poderiam ter vivido na região
que hoje é conhecida como Antártida. De uma hora para
outra, quando ela se deslocou para o sul, elas foram
congeladas, sem contar que também foram destruídas por
tsunamis.
- Exatamente! E isto significa que há a possibilidade de a
Antártida ter ficado no lugar em que nasceram os portadores
da luz. Isto explica o mapa de Piri Reis. Explica tudo, os
zoroastras abandonando a terra natal nas planícies da Rússia,
quando foi repentinamente deslocada em direção ao norte e
congelada, e os portadores da luz subitamente tendo sua
civilização destruída quando se deslocou em direção ao sul.
Rutherford crispou a testa tentando se concentrar.
- E ela explica até mesmo um dos maiores problemas que
venho tendo com tudo o que descobrimos até agora. Por
que não há registros da civilização da qual se originaram os
portadores da luz.
- Isso mesmo. Todas as provas foram enterradas sob três mil
e seiscentos metros de gelo, e esta é a razão de ninguém
jamais tê-las encontrado. Os sobreviventes se espalharam
pelos quatro cantos planeta. Eles chegaram ao litoral da
América do Sul e do Oriente Médio e tentaram reconstruir
seu legado. Viracocha, Osíris e Oannes eram todos refu-
giados de uma civilização antártica que foi destruída quando
a crosta terrestre se deslocou.
- Eu realmente acredito que isto esteja certo.
- E isto também explica a velocidade do grande degelo.
Quanto mais o gelo se derrete, mais o peso da superfície da
Terra se redistribui.
Isto fez que a crosta deslizasse; de repente, os pólos se
deslocaram para baixo em direção a latitudes mais quentes,
causando ainda mais derretimento. Não é de estranhar que
os níveis do mar tenham subido em tão pouco tempo.
Rutherford estava novamente mergulhado em pensamentos.
- Certo. Mas há uma peça faltando no quebra-cabeça. Por
que o professor Kent estava convencido de que estamos
prestes a passar pela mesma coisa? Não estamos próximos do
mesmo ponto no ciclo precessional... Não estamos sequer
próximos do fim da era do gelo, como estavam os antigos.
Então, por que ele pensava que corremos perigo de sofrer
um outro cataclismo parecido?
- Creio que deveríamos ir para Gizé. Sabemos que lá era o
centro do mundo antigo. Bezumov irá para lá, tenho certeza
disso. E quando ele chegar, tentará descobrir tudo sozinho.
Podemos chegar antes dele, deter seus planos malucos e
então, finalmente, conseguir entender por que o professor
pensava que estávamos em perigo.
Rutherford sorriu e balançou a cabeça, dando a entender
que concordava com aquilo.
- Está certo, Catherine. Nossa última tacada. Acho que se
isto não funcionar, de um jeito ou de outro estaremos todos
perdidos mesmo. Então, por que não embarcar numa última
aventura, antes do fim da civilização?

QUARTA PARTE

53

A recepcionista do cinco estrelas Nile Hilton, no Cairo,
lançou um olhar confuso para o homem branco alto e bem
vestido que estava de pé do outro lado do balcão, cuja
bagagem se resumia a uma valise. Estava vestido com o que
parecia um terno branco impecável, sapatos com cadarços,
camisa branca e gravata azul com um padrão elegante, e, ao
que tudo indicava, não tinha bagagem. Ele acabara de entrar
no hotel e exigira o melhor quarto disponível.
- Desculpe-me, senhor, mas como se soletra seu nome?
- C-H-E-K-H-O-V, Andrey Checkhov.
Bezumov deslizou um passaporte russo novo em folha pelo
tampo de mármore do balcão da recepção, entregando-o na
mão da recepcionista.
- Ande logo. Estou com pressa.
O sol penetrava pelas janelas enormes que ficavam de frente
para o majestoso rio logo abaixo. Em contraste brutal com o
barulho e o insuportável calor do lado de fora, garçons
solícitos movimentavam-se com toda a elegância pelo átrio
de mármore imenso e arejado, servindo bebidas aos turistas
abastados sentados nas cadeiras confortáveis espalhadas pelo
espaço colossal.
A recepcionista pigarreou com certo nervosismo:
- Sim, senhor. Queira me desculpar. Quantas noites pretende
ficar, sr. Chekhov?
- Bem, digamos três, por enquanto. Acho que será
suficiente.
- O senhor gostaria de um quarto de frente para o Nilo?
- Sim. Você pode andar mais rápido com isso, por favor?
- Certamente, senhor. Aqui está sua chave.
- Também quero um carro com motorista, um com tração
nas quatro rodas, e o motorista deve falar russo
fluentemente, e ficar à minha disposição 24 horas por dia. E
também, antes que você pergunte, dinheiro não é problema.
Aqui está meu cartão de crédito. Vou subir e ficar um pouco
no quarto. Por favor, providencie para que quando eu
descer o motorista esteja esperando por mim no saguão.
Bezumov deu meia-volta e caminhou a passos largos em
direção aos elevadores.
Sobrevoando o mediterrâneo, Catherine e Rutherford
encontravam-se, novamente, mergulhando de cabeça no
desconhecido. Sentindo-se meio claustrofóbica, uma vez
mais presa em um avião lotado tão pouco tempo depois do
último vôo, Catherine fechou os olhos. Tentando
compensar as conseqüências da desidratação provocada pelo
longo tempo passado no avião, começou a tomar
avidamente uma garrafa de água mineral. Depois de bons
seis goles vorazes, olhou para Rutherford. Seu rosto
demonstrava profunda concentração; ele fazia a leitura rápi-
da de um livro sobre hieróglifos. Catherine inclinou a
cabeça para trás e, dando um longo suspiro, esfregou os
olhos cansados.
- Ah... Estou arrebentada. Mas não tem jeito, temos que ir
em frente. Estou mais determinada do que nunca a acabar
com tudo isso.
Rutherford, com os olhos vermelhos, respondeu em tom
sinistro:
- Eu também. Estou exausto. Mas alguma coisa me diz que se
nada mais acontecer, o Egito é o fim da linha.
Catherine concordou. "Só queria saber mais sobre o Egito
antigo. Na verdade, queria saber mais sobre tudo. Isso tudo
tem sido uma montanha russa intelectual."
Muita coisa parecia depender da combinação do
conhecimento e da inteligência de ambos para ajudá-los a
entender por que o professor acreditava que o mundo corria
o risco de sofrer um outro cataclismo.
"E mesmo quando tivermos entendido por que corremos o
risco de ter o mesmo destino dos povos antigos, ainda temos
que descobrir um modo de evitar o desastre, além de deter
Bezumov... Eu só queria que o professor ainda estivesse
conosco; se ao menos ele estivesse aqui para eu poder
conversar com ele..."
Catherine voltou a abrir os olhos e, com cuidado, virou-se
para Rutherford:
-James?
Rutherford, profundamente concentrado, murmurou sem
tirar os olhos do livro: - Hã?
- Estou contando com o fato de você saber muito mais sobre
o lugar para onde estamos indo do que eu.
Rutherford fechou o livro lentamente e o colocou no
compartimento atrás do assento à frente do seu. Olhou para
Catherine e forçou um sorriso cansado.
- Bem, não posso dizer que sou uma grande autoridade no
assunto. Mas já estive aqui diversas vezes. De uma coisa
tenho certeza, estarei pisando em terreno mais firme do que
na América do Sul, porque ao menos conheço a ortodoxia
sobre o antigo Egito. O negócio é o seguinte: depois do que
ficamos sabendo, começo a pensar se a ortodoxia vale o
papel em que está escrita.
Catherine suspirou:
- Concordo. E posso apostar que descobriremos algumas
anormalidades aqui também. Aliás, tenho quase certeza de
que os números precessionais estarão novamente por trás de
tudo. Mas sou uma principiante. Tudo que sei é o que você
me contou sobre Osíris e o pouco que me lembro de
aprender na escola. Passei muitos anos estudando as estrelas.
- Não se pode saber tudo. E sem o seu conhecimento das
estrelas, não teríamos chegado onde estamos agora. Seja
como for, você poderia ter passado anos estudando coisas
que, em pouco tempo, poderíamos acabar descobrindo que
estavam erradas.
- Bem, temos que partir de alguma coisa. Talvez, se estiver
em condições, você possa me dar algumas informações
básicas.
Rutherford ajeitou-se na cadeira e chacoalhou os ombros,
procurando ficar mais desperto.
- Antes dos detalhes históricos, temos que tratar de dois
aspectos interessantes relacionados à geografia. O primeiro é
que Gizé, onde ficam as pirâmides e o grande rio Nilo, se
divide em direção ao Mediterrâneo, a 30° de latitude. Isto
significa que as pirâmides estão localizadas a exatamente um
terço do caminho entre o Equador e o Pólo Norte. Eu nunca
havia dado importância a isto antes, mas devido à teoria de
Bezumov, e principalmente por causa do que você
descobriu sobre a relação entre a posição de todos esses
monumentos mundiais, de repente parece fazer sentido.
- Isto é interessante! Quero dizer, estou quase certa de que
isto não é uma coincidência. Qual é a outra coisa?
- Ah... Ora... Mais uma vez, nunca tinha pensado nisso
antes, mas o local em que ficam as pirâmides também fica
no centro da terra firme do mundo.
Catherine franziu a testa.
- O que você quer dizer? Significa que, sem dúvida, em
algum lugar no meio da Rússia ou da América do Norte fica
o centro da terra firme do planeta?
Rutherford mexeu a cabeça, mostrando que não.
- Não, não no sentido a que me refiro. Quero dizer que, se
você desenhasse uma linha de um pólo ao outro, descendo
pela linha de longitude que passa diretamente pela base da
Grande Pirâmide, a extensão de terra firme a ser atravessada
por ela seria maior do que a atravessada por qualquer outra
linha de longitude do planeta. Além disso, se você
desenhasse uma linha de leste a oeste, ao longo da linha de
latitude que passa diretamente pelas pirâmides, ela
atravessaria mais terra firme do que qualquer outra linha de
latitude. Olhe aqui.
James encontrara um mapa na revista da companhia aérea.
Pegou uma caneta e desenhou uma linha de cima a baixo no
mapa, cruzando o local onde fica Gizé. Depois, desenhou
uma segunda linha que cruzava a primeira de leste a oeste.
Catherine olhou fixamente para o desenho. De repente,
mudou de expressão. Seus olhos faiscaram de inspiração.
- Isto não o faz se lembrar do dilúvio?
Rutherford inclinou a cabeça, surpreso.
- Agora que você está dizendo, sim. Creio que os oceanos
teriam de cruzar mais terra firme para atingir as pirâmides
do que qualquer outro lugar na Terra.
- Sim, e, além disso, aquela poderia ter sido uma das
primeiras partes do mundo a secar quando as águas
começassem a recuar.
Rutherford começou a rir.
- Claro! Eu não tinha pensado nisso - ele parou de falar,
analisando as possibilidades, e, então, então, prosseguiu: -
Dizem que o antigo Egito, tal como o conhecemos, teve
origem com um faraó chamado Menes, em 3.000 a.C.
Acredita-se que as pirâmides e também muitos dos outros
locais importantes foram criados durante os primeiros qui-
nhentos anos, até 2.500 a.C. Essa também é a época em que
afirmam que os textos religiosos aos quais tivemos acesso
foram entalhados e pintados nas diversas construções.
Catherine analisava o que Rutherford lhe dizia.
- E antes disso, antes de Menes?
- Bem, supostamente, havia muitos pequenos reinos e
principados. Esses pequenos Estados nunca atingiram
nenhuma importância; a maior parte deles era composta de
sociedades primitivas, fazendeiros neolíticos que
escolheram as margens do rio Nilo para morar. Tudo o que
hoje consideramos grandes avanços dos antigos egípcios
surgiu durante eras faraônicas que começaram com Menes.
- Tudo isto me parece muito familiar. Lembra-me muito de
como os Viracochas foram apagados da história.
Rutherford tirou outro livro da valise.
- Concordo com você. Leia isto. Vou tentar dormir um
pouco.
Ele cobriu os olhos com a máscara de dormir e inclinou a
cabeça para o lado, exausto, encostando-a no apoio da
cadeira.
Catherine estava ansiosa, mas também aliviada, porque
sentia que a jornada chegava ao fim, que talvez eles
chegassem a uma conclusão em algum lugar das antigas
areias do deserto.
Recordou-se das expressões dos homens que os haviam
perseguido, seu ar intimidador, a ameaça real de uma
violência horrenda que os rondava. Aquelas recordações a
amedrontavam, faziam-na desejar fugir, encontrar um lugar
seguro, se é que ainda haveria algum lugar seguro. Mas
Catherine sabia que tinha de terminar aquilo, descobrir a
verdade. Olhou para Rutherford e agradeceu pela imensa
alegria que sentia por tê-lo consigo e pelo fato de não ter de
enfrentar tudo sozinha.
54

Duas horas depois de aterrissar, Rutherford e Catherine
finalmente tinham passado pela alfândega e viajavam, a
passos de tartaruga, em um carro alugado pelo trânsito
engarrafado da cidade do Cairo. De repente, Rutherford
avistou o que procurava. Ali, nos arredores da capital do
Egito, erguiam-se as formas inconfundíveis das três maiores
pirâmides de Gizé: a Grande Pirâmide, também chamada
pelos egiptologistas de Pirâmide de Khufu; a segunda, a
Pirâmide de Khafre; e, por fim, a terceira, muito menor, a
Pirâmide de Menkaure. Embora elas estejam localizadas no
deserto além dos limites da cidade, seu tamanho é tal que,
quando vistas do subúrbio do Cairo, parecem surgir do
interior da própria cidade, ofuscando todo o resto.
Rutherford parou no acostamento. O mar de carros
continuava a ribombar ao passar por eles.
- Olhe!
Catherine inclinou-se olhando para fora, imediatamente
sentindo as ondas de calor. O que viu foi de tirar o fôlego.
Rutherford ficou extasiado quando apontou para a maior das
três.
- A Grande Pirâmide. A maior estrutura que as mãos do
homem já construiu.
- É claro que não! E os arranha-céus do século vinte?
Rutherford achou graça:
- O que o menino ouviu no lar repete no portal! A Grande
Pirâmide pertence a uma categoria única. Você verá quando
nos aproximarmos, e terá a dimensão de sua magnitude
quando entrarmos.
- Ninguém jamais chamou minha atenção para o quanto elas
são impressionantes.
Rutherford prosseguiu:
- Sim, e torna-se ainda mais surpreendente se você se
lembrar de que a Grande Pirâmide também foi uma das
primeiras construções criadas pelo homem. Ela surge do
nada, bem no início da história de que se tem registro. Os
arqueólogos acreditam que ela tenha sido construída por
volta de 2.600 a.C., e creditam-lhe um alto grau de precisão
técnica. Dado que os construtores não dispunham nem de
guindastes nem de escavadeiras e toda a parafernália a
serviço da engenharia moderna, sua construção é
praticamente um milagre.
Catherine olhou para ele. Rutherford estava com os olhos
pregados na estrutura gigantesca.
"Ele parece estar enfeitiçado por elas... Enfeitiçado pelas
pirâmides."
- Elas não lhe provocam uma sensação estranha?
Rutherford ainda olhava para cima contemplando as
pirâmides, e respondeu sem voltar os olhos para ela:
- O que é que você disse?
- Bem... E parecido com a decisão de projetar o primeiro
carro que já existiu e fabricar uma Ferrari, e daí em diante
contentar-se em produzir karts durante milhares de anos
antes mesmo de chegar perto de construir uma Ferrari
novamente - Rutherford ouvia atentamente o que Catherine
dizia. - Quero dizer que dificilmente alguém descreveria isto
como o modelo normal de desenvolvimento. Não tenho
muito conhecimento sobre história da arquitetura, mas antes
de construírem o castelo de Warwick na Inglaterra, ou os
grandes castelos dos cruzados, construíram-se tipos de
castelo muito mais primitivos. Houve uma curva de
aprendizagem, uma progressão gradual, não foi de uma hora
para outra, nos primórdios da história, que se decidiu
construir o castelo mais perfeito de todos os tempos. A
pirâmide desafia este padrão, está aí desde o início dos
tempos, olhando com desprezo para tudo o que veio depois
dela.
Rutherford tinha o semblante sério:
- Você está certa. Acho que estamos começando a entender
com exatidão o quanto a história oficial é inconsistente - e,
com o cenho franzido, dirigiu-se a Catherine: - Venha.
Quero mostrar-lhe uma coisa.
James pôs o carro em movimento e ingressou na rua
movimentada. Eles seguiram pela estrada por mais um
quilômetro e meio antes de sair e pegar diversas marginais
que os levaram à beira do deserto. As feias construções de
concreto localizadas no centro da cidade do Cairo haviam
sido deixadas para trás, e mesmo os prédios de escritório em
péssimo estado de conservação que circundavam a estrada
tinham desaparecido. Os edifícios ali tinham um aspecto
quase rural; era como se os subúrbios tivessem se extinguido
para se tornar um vilarejo, ou desaparecido à beira do
deserto. As ruas não eram asfaltadas e a poeira levantada
pelos pneus ficava suspensa no ar. Rutherford parou o carro.
As pirâmides pareciam elevar-se acima deles, mesmo que
ainda estivessem longe, para além das dunas de areia.
- Aqui estamos. Deste ponto em diante seguiremos a pé.
Era uma da tarde; o sol estava a pino. Eles franziam o rosto
enquanto avançavam sob a luz solar. O calor parecia bater
na areia escaldante e refletir-se neles. O fedor de esterco de
cavalo pairava no ar, moscas voavam ao redor de suas
orelhas. O planalto de Gizé estava quase vazio. Um ou dois
sentinelas, que davam a impressão de estar sitiados, andavam
ao redor da base da Grande Pirâmide, mas os turistas
estavam de volta aos hotéis, a salvo do sol. Após uma
caminhada extenuante pela areia, Rutherford e Catherine
finalmente chegaram às imensas laterais da Grande
Pirâmide.
Rutherford se aproximou do primeiro degrau de alvenaria,
mas não parecia muito seguro de si. Bateu de leve em um
dos colossais blocos de pedra. Seu tamanho atingia a altura
do peito e tinha no mínimo dez toneladas de peso. Ele
esticou o pescoço e olhou para cima, na direção do topo da
enorme pilha de pedra. Catherine protegeu os olhos com a
mão e contemplou o entorno da vasta planície de Gizé.
- Você acha que estamos seguros aqui? Será que eles ainda
estão nos seguindo?
Rutherford correu os olhos pelo horizonte com certa
ansiedade. Toda a paisagem da planície estava mergulhada
num calor opressivo.
- Não sei. Temos de supor que sim. A esta altura eles já
devem estar sabendo que vôo nós pegamos. Temos que agir
rápido.
A boca de Catherine estava seca. Ela olhou para cima
avistando a altura inatingível da antiga pirâmide.
- E temos de encontrar Bezumov. Ele deve estar em algum
lugar do Cairo.
Rutherford balançou a cabeça em sinal de concordância e
virou-se para ela:
- Bem, ele estará aqui no horário do equinócio da primavera,
quanto a isto não há dúvida. Com relação ao que podemos
fazer, não tenho certeza - Rutherford deu uma olhadela
rápida para trás na direção da Grande Pirâmide. - Mas, por
enquanto, devemos nos concentrar na resolução do mistério
- então, virou-se e apoiou a mão direita na lateral da fileira
de pedras mais baixa. - E uma estrutura milagrosa, não acha?
E feita de mais de dois milhões e meio de blocos de pedra,
cada um pesando entre duas e cinco toneladas, o que é uma
quantidade absurda. Se cada bloco não fosse posto
exatamente no lugar certo, então, em pouco haveria uma
pressão descomunal e toda a estrutura desmoronaria - James
bateu nas pedras milenares. - No início, toda a pirâmide foi
encapsulada em um arcabouço de filetes de pedra
semelhante ao mármore branco. Depois, toda a estrutura e
as duas pirâmides vizinhas brilhavam como espelhos à luz
do sol. O efeito deve ter sido absolutamente incrível.
Catherine caminhou até a base. Correu os dedos pelas
pedras.
- Como é que podemos saber que foram cobertas daquele
jeito? O que aconteceu com o arcabouço?
Rutherford respondeu à pergunta com toda segurança.
- Primeiro, temos descrições que datam da época dos gregos
antigos e, além disso, ainda restam fragmentos dele. Cada
um desses pedaços do arcabouço pesava mais de dez
toneladas, mas a união de uma placa à outra é tão perfeita
que não é possível passar nem mesmo uma folha de papel
entre elas. Muito parecida com a cantaria que vimos no Peru
- ele acrescentou.
Catherine inclinou a cabeça para trás procurando avistar
toda a construção, da base ao topo. Tal como acontece com
uma grande montanha, era impossível enxergar o topo, a
interminável escada de pedra era tudo o que se via.
Rutherford deu alguns passos para trás com o intuito de ter
uma vista melhor da estrutura.
- Mas isso não é tudo. Como você pode perceber, a base da
pirâmide forma um quadrado - Catherine deu um passo para
trás de modo a juntar-se a ele. - Os quatro lados deste
quadrado são alinhados, com toda precisão, aos quatro
pontos cardeais da bússola. Isto significa que a face norte,
para a qual estamos olhando agora, está perfeitamente
alinhada ao norte verdadeiro. E a face leste ao leste
verdadeiro, e assim por diante.
Catherine correu os olhos, de um canto a outro, da face
norte.
- Não há possibilidade de este alinhamento não ser perfeito.
- Bem, digamos que é o mais próximo da perfeição que a
mão humana pode alcançar ao construir uma estrutura deste
tamanho. Elas foram todas medidas por especialistas, que
usaram instrumentos de última geração, e calcula-se que a
margem de erro é de menos de 0,1%.
- Isto é incrível!
Rutherford mostrou-se satisfeito ao ver a reação de
Catherine.
- Sem dúvida. Mas também não faz sentido.
- Mas não é de se estranhar. É uma loucura total.
- Não, não é isso. Quero dizer que tal grau de precisão não
tem nenhuma necessidade. No que diz respeito ao olho
humano, não perceberíamos uma margem de erro de 1%.
Um construtor contemporâneo, por exemplo, não se
preocuparia nem mesmo com 1,5%. O que torna tudo isso
ainda mais incompreensível é que reduzir a margem de erro
a menos de 0,1% é muito, muito difícil.
Catherine tornou a ficar pasma com tudo aquilo.
- Então, por que se preocuparam com isso? Com que o
objetivo?
Rutherford tocou o queixo com os dedos da mão direita.
- É exatamente este o ponto a que quero chegar. Na verdade,
ninguém sabe o porquê. Seja como for, a mania de precisão
não para por aí. Os comprimentos dos lados também têm
uma uniformidade quase perfeita. E todos os cantos formam,
levando-se em consideração as limitações humanas, ângulos
precisos de 90°. É inexplicável.
Catherine ficou encantada com a habilidade empregada
naquela construção antiga.
- Mas como eles alcançaram tamanha genialidade técnica?
Rutherford tirou a mão do queixo e ergueu o dedo
indicador, como se desejasse enfatizar o que queria dizer.
- Ah! Há outro problema. Este grau de habilidade volta a ser
alcançado apenas no século XX. Ninguém consegue
entender de que maneira é possível alcançar tamanha
precisão sem os modernos instrumentos de levantamento
topográfico. Mesmo com estes instrumentos isto beira o
impossível. Mais um mistério para desvendarmos.
Do outro lado da cidade, no Nile Hilton, o porteiro núbio,
elegantemente trajado com turbante, uniforme vermelho e
luvas brancas, abriu uma das portas de vidro que ficavam na
entrada do hotel quando Ivan Bezumov, com um andar
resoluto, passou por ela.
Tão logo Bezumov saiu, deparando-se com o calor
escaldante da tarde do Cairo, um motorista, com aspecto
nervoso, que o estivera esperando à sombra de uma das
palmeiras que decoravam os jardins do hotel, ficou alerta,
apagou o cigarro e saltou para dentro do veículo. Era um
Toyota Land Cruiser, com tração nas quatro rodas, de
acordo com a solicitação de Bezumov.
O motor roncou no momento em que o motorista girou a
chave na ignição. Bezumov aguardou com impaciência que
o Land Cruiser estacionasse do lado de fora da entrada
anterior do hotel. Antes que o motorista tivesse tempo de
sair e contornar o carro para abrir a porta do passageiro,
conforme o treinamento que recebera, Bezumov entrou no
veículo.
- Para as pirâmides. E rápido!

55

Catherine seguiu Rutherford até o canto da Grande
Pirâmide. Ao chegar, posicionou-se a fim de poder enxergar
com clareza as faces norte e oeste, ainda que com certa
obliqüidade na angulação. Concentrou sua atenção no topo,
e observou que as últimas fileiras de alvenaria pareciam estar
faltando.
- O que aconteceu com o topo?
Rutherford recuou e admirou a vista voltada para o oeste,
que se confundia, na distância, com as ondulantes dunas de
areia.
- Ninguém sabe dizer ao certo. Em determinado momento
dos últimos milhares de anos, o topo foi suprimido. Há pelo
menos 2.500 anos os viajantes já relatavam que as últimas
fileiras abaixo do topo não estavam ali.
- O que pode ter estado no topo?
- Acredita-se que a verdadeira ponta teria sido formada pela
pedra Benben.
- Como é?
- Benben é o nome da construção final, por assim dizer, que
é colocada no topo do corpo da pirâmide. Diz o mito que no
início dos tempos, Atum, o deus egípcio da criação, moveu-
se no vazio e fez que os deuses nascessem. O recuo das
águas de todo aquele caos revelou alguns montes de terra
firme. Sobre um desses montes de terra firme caiu a pedra
Benben.
- Nossa! Mais um mito ligado a um dilúvio.
- Sim, é isto mesmo.
- Mas se é um mito, então, não é mais provável que a pedra
Benben seja apenas um símbolo, ou uma metáfora?
- Eu não apostaria nisto. Talvez seja parte de um meteorito.
Há outros casos de povos antigos que idolatravam tais
objetos. Ou talvez seja simplesmente uma pedra sagrada, ou
um objeto produzido pelo homem, mas não há razão para
acreditar que ela não tenha existido. Aparentemente, a
pedra Benben ficava no topo do arcabouço de mármore
reluzente, brilhando intensamente, lançando uma luz divina
que poderia ser vista a quilômetros e quilômetros dos
arredores. Mesmo à noite, a luz das estrelas a iluminava.
- Mas de que ela era feita?
- Diamante, granito polido, ouro... Quem sabe? Dizem que
nela tinha o olho de Hórus incrustado. Você sabe a que me
refiro? Aquele olho perturbador que se vê na pirâmide
retratada na nota de dólar? A tradição acredita que a Benben
foi trazida à Terra pelos sumos sacerdotes quando
perceberam que os dias da antiga religião chegavam ao fim.
O cristianismo estava em ascensão, eles sabiam que seriam
obrigados a remover a Benben, ou mais cedo ou mais tarde
alguém a furtaria. Portanto, eles a removeram e esconderam.
Este, sem dúvida, corresponde a apenas mais um dos
mistérios das pirâmides.
Catherine virou-se para contemplar o deserto.
"Areia, areia e mais areia, estendendo-se por toda a costa
atlântica. Não há muitas rochas por aqui..."
- James, pense bem. Afinal de contas, por que diabos eles
construíram as pirâmides? Como é que transportaram todos
esses blocos de pedra gigantes pelo deserto e os empilharam
com tamanha perfeição?
Rutherford estivera aguardando a pergunta e se pegou rindo.
- Você não vai gostar da resposta, mas, novamente, ninguém
sabe.
Catherine olhou para ele. Tinha um ar de surpresa.
- Há dois milhões e meio de blocos envolvidos, e nenhum
deles pesa menos que um carro. Como você planejaria
mover todos eles sem nem sequer contar com um
guindaste? - Catherine lançou-lhe um olhar sério.
- Não sou egiptologista nem engenheira. Não tenho a menor
idéia. Quais são as teorias?
- Creio que a teoria mais popular, a que parece ser a mais
ensinada na escola, é a de que os blocos foram empurrados,
arrastados e erguidos para serem postos em seu lugar usando
a força bruta. Foram necessários cem mil homens e vinte
anos para concluí-la.
Catherine refletiu por alguns instantes.
- Isto é uma "pá" de gente. Muitas bocas para sustentar. Eles
eram prisioneiros de guerra?
- Não. Supõe-se que eram agricultores. Eles só trabalhavam
nas pirâmides durante o período de três meses, quando o
Nilo transbordava, época em que tiravam um descanso
forçado do trabalho nas plantações.
Catherine começou a pensar alto.
- Um período de férias! Certo. Então, três meses por ano,
durante vinte anos, perfaz sessenta meses. Imaginemos que
eles trabalhassem doze horas por dia. Com trinta dias por
mês a um ritmo de doze horas por dia chega-se a um total
aproximado de vinte mil horas. Portanto, se havia dois
milhões e meio de blocos, todos pesando pelo menos duas
toneladas cada um, suponho que eles teriam de deslocar em
torno de cento e vinte blocos por hora. Ou, no mínimo,
dois blocos por minuto.
Rutherford não conseguiu disfarçar a incredulidade.
- Devo dizer que deslocar dois blocos por minuto parece
absolutamente inacreditável. Mas o que torna isto ainda mais
incrível era que eles não só movimentavam os blocos e os
largavam em algum lugar, mas os erguiam a centenas de
metros e em seguida os punham no lugar com a precisão de
um neurocirurgião.
Rutherford riu, encolhendo os ombros.
Catherine tinha outra pergunta em mente:
- Para começo de conversa, você ainda não me disse com
que intuito as pirâmides foram construídas.
Rutherford ficou repentinamente desapontado.
- Eu realmente não sei mais o que pensar. Começo a
acreditar que Bezumov está muito mais perto da verdade
que a sabedoria convencional.
A testa de Catherine estava enrugada de tanta perplexidade.
- O que você está querendo dizer?
- Os egiptologistas dizem que as pirâmides são túmulos. Elas
representam a última morada dos faraós... Eu concordava
com eles. Mas, hoje, não mais - Rutherford ergueu o
pescoço para enxergar o todo da Grande Pirâmide. - Parece
uma explicação muito simplista. Por que ter tanto trabalho?
Deve haver muito mais à saber sobre as pirâmides do que
simplesmente enxergá-las como câmaras mortuárias de reis
mortos. Desculpe, acho que não estou dizendo coisa com
coisa. Algo me diz que...
- Afinal, que provas são apresentadas pelos arqueólogos para
que as considerem túmulos?
Rutherford fez uma pausa para organizar os pensamentos e
voltou a falar:
- Foi Heródoto, o historiador grego do século V a.C., quem
relatou pela primeira vez a teoria de que a Grande Pirâmide
foi construída por Khufu, que seu irmão Khafre construiu a
segunda pirâmide, e o filho de Khafre a terceira. Desde
então, os egiptologistas tendem a concordar com a idéia, e
sempre que encontram provas circunstanciais consideram-
na uma prova cabal. Por exemplo, eles encontraram diversas
inscrições ao redor do local em que Gizé está localizada que
atribuem a construção da Grande Pirâmide a Khufu. Mas isto
não é prova. Nada mais natural que um faraó apropriar-se
dos locais que pertenceram a seus antepassados. Quando as
pirâmides foram abertas, estavam completamente vazias,
não havia tesouros e, apenas na terceira, a menor delas,
havia ossos. Mas estudos mostraram que a data aproximada é
a época de Cristo, muito tempo depois que as pirâmides
foram construídas. Eles afirmam que no caso da Grande
Pirâmide, ela deve ter sido esvaziada por profanadores de
túmulos. Mas não se sabe ao certo.
Catherine refletiu sobre o que James dizia.
- Certo. Isso tudo quer dizer que realmente não sabemos
nada?
Rutherford sorriu encabulado.
- Sim - ele olhou para cima novamente, contemplando a
enorme lateral nua da pirâmide. É outro mistério numa terra
de mistérios.
Desconhecemos sua utilidade, não entendemos como
alguém poderia tê-las construído, não sabemos quem as
construiu, e, francamente, nem mesmo sabemos quando
foram construídas. Estão bem aqui desde o início dos
tempos, e é bem possível que muito antes disso - dando um
passo atrás, sorriu para ela. - Venha, vamos dar uma olhada.

56

Do outro lado do Cairo, dr. Ahmed Aziz retornava ao
escritório após um longo almoço. Além de seu papel como
diretor de antigüidades egípcias, ele era também o
responsável pela Grande Pirâmide e vice-diretor do Museu
Egípcio. Era um homem de aparência jovem, parecia ter uns
trinta ou quarenta e poucos anos, com um bigode preto e
farto, e hoje vestia um elegante terno azul-escuro. Pode-se
dizer que estava no grupo dos parrudos, provavelmente em
conseqüência dos muitos almoços e jantares a que era
obrigado a comparecer, tanto antes quanto depois de
ciceronear as delegações estrangeiras pelos fantásticos locais
do Egito, mas gozava de perfeita saúde.
A razão de ter ascendido tão rapidamente àquela posição
proeminente em um dos mais importantes departamentos
do patrimônio histórico do mundo ainda era um mistério,
mesmo para muitos dos membros do próprio governo
egípcio. Não que lhe faltasse preparo para isto; suas
qualificações em determinadas áreas da cerâmica egípcia
antiga eram incontestáveis, além de ser pós-doutorado nos
Estados Unidos. Mas ser promovido às altas esferas da
diretoria com tão pouca idade para isto não tinha
precedentes. A vida fora generosa com ele.
Olhou para o relógio na parede de seu confortável escritório.
Eram 15h30. O almoço se estendera mais do que pretendia,
mas era quase sempre assim quando estava encarregado de
entreter dignitários estrangeiros importantes.
Mal teve tempo de se sentar e a linha direta começou a
tocar. Apanhando o fone com a mão rechonchuda enfeitada
com dois grossos anéis de ouro, ele atendeu:
- Salaam aleikum.
- Aziz, sou eu - a voz inconfundível do senador Kurtz ecoou
pelo telefone.
A expressão de seu interlocutor mudou de imediato. O
semblante de leve enfado e frustração que tinha em seu
rosto desaparecera. Agora estava visivelmente alerta.
Olhou para a porta do escritório. Estava aberta. Podia-se ver,
na sala externa onde ficava a secretária junto com o assessor,
o sr. Poimandres, um egípcio cristão cóptico de estatura
baixa, compleição frágil, com uns sessenta anos. Ambos
pareciam estar ocupados, a secretária digitava um
documento e o sr. Poimandres estava ao telefone.
Ele não correria nenhum risco, principalmente com o sr.
Poimandres. Aziz jamais ficara à vontade perto do assessor.
Talvez isso acontecesse por Poimandres ser membro de uma
das igrejas cristãs mais antigas do mundo, o que fazia com
que Aziz, um muçulmano devoto, sentisse um mal-estar
considerável. Os coptas haviam exercido grande poder na
sociedade egípcia durante dois mil anos; um poder
desmedido, segundo o que alguns disseram. Não fosse pelo
fato de Poimandres ser muito confiável e tão bom no que
fazia, e Aziz, usando de toda discrição, o teria mandado
passear anos atrás.
Aziz conseguia ouvir a respiração impaciente do senador.
- Senhor, um momento, por favor.
Pousou o fone sobre o bloco de anotações com capa de
couro sobre a escrivaninha, andou até a porta e, depois de
espiar para certificar-se de que não havia mais ninguém no
outro escritório, fechou-a e trancou.
- Senhor, às ordens. Estou de volta.
- Aziz, ouça com muita atenção. Se alguém visitá-lo hoje,
fazendo perguntas ou oferecendo teorias sobre as pirâmides,
quero que responda às questões da seguinte maneira... Está
me ouvindo?
- Sim. Sim, senhor.
Houve uma interrupção.
- Diga que suas teorias contêm muitos erros. Diga que essas
idéias não são novas e que, apesar de parecer muito
interessantes, não estão calcadas na realidade. Eles tentarão
ser racionais, mas não entre em contenda com eles.
Entendeu? Não discuta. Apenas diga-lhes que estão errados.
- Sim, senhor. Talvez o senhor prefira que eu peça licença,
ou não aceite recebê-los?
- Não, não faça isso, pode levantar suspeitas. Eles não são
curiosos, estamos falando de acadêmicos da Universidade de
Oxford, profissionais cuja reputação é impecável. Encontre-
os, não entre em conflito e refute tudo o que disserem.
Entendeu?
- Sim, senhor. Sem dúvida, senhor.
- Aziz! Se você preza seu precioso cargo, não faça nenhuma
besteira. Dentro em breve estarei no Egito e cuidarei deles
pessoalmente.
Aziz engoliu seco, tamanho seu nervosismo, e enxugou a
testa suada com o lenço.
- O senhor está vindo para o Egito?
A linha ficou muda. O pulso de Aziz estava acelerado como
se tivesse acabado de praticar uma corrida de curta distância.

57

Catherine e Rutherford percorreram metade do caminho
que levava à face oeste da pirâmide, em cujo local o
moderno andaime suportava o peso de uma escada
conduzindo à entrada. À medida que se aproximavam,
Catherine olhou para a areia, para os turistas e para os
visitantes ocasionais, e ficou pensando se havia alguém atrás
deles. Viu um homem desacompanhado, apartado de
qualquer grupo, com um traje árabe, mas não parecia estar
olhando para ela. Observou uma família que se movia
lentamente pela areia. Tinha a impressão de que estava tudo
bem, mas tudo podia mudar tão rápido, e a idéia de se tornar
prisioneira não a agradava. Mais cedo ou mais tarde
Bezumov apareceria, e estava certa de que não ficaria nem
um pouco satisfeito em encontrá-los.
Rutherford olhou para ela:
- Então venha. Vamos acabar logo com isto.
Ele também estava preocupado, e os dois trataram de entrar
rapidamente, subindo as escadas com dificuldade, com a
cabeça abaixada. Ao chegar lá em cima, entraram pela
abertura semelhante a uma caverna. Catherine virou o
pescoço para trás e correu os olhos pelas areias do deserto
em direção ao estacionamento. Os carros iam e vinham. Não
havia sequer pisado no enorme túnel, mas já se sentia
sufocada pela claustrofobia.
Rutherford deu um passo à frente e esticou a mão, passando-
a na lateral da parede cujo relevo era irregular.
- Não preste atenção a este túnel, ele é uma aberração. Foi
construído por operários árabes, não pelos extraordinários
construtores das pirâmides. Esta é a razão de ser meio
malfeito. Chama-se buraco de Mamum, nome do califa
egípcio que ordenou o arrombamento da pirâmide.
Em silêncio os dois percorreram a passagem mal iluminada
até saírem no túnel principal.
O corredor descendente precipitava-se no escuro. Apesar de
as luzes terem sido instaladas a intervalos regulares no teto,
era impossível enxergar o chão. Aquele corredor lembrava o
interior de uma enorme peça de um maquinário de aço. As
paredes de pedra eram lisas como vidro. Catherine ficou
sem palavras ao ver tudo aquilo..
"Isto é simplesmente extraordinário. Não pode ser um
túmulo. Tem-se a sensação de que foi construído para servir
a um determinado propósito."
Rutherford deu-lhe um sorriso.
- Imaginei que você ficaria impressionada. Ele se estende por
105 metros a um ângulo de exatamente 26°, metade dos 52°
de inclinação dos lados da pirâmide. Contudo, o mais
incrível é que o desvio é inferior a uma polegada de uma
ponta à outra. Até mesmo hoje tal precisão seria quase
impossível de alcançar.
Rutherford conduziu Catherine pela passagem.
À medida que avançavam, ela olhava ao redor, conferindo a
penumbra, quanto suas sombras mudavam de forma nas
paredes. Ela ouvia cada passo, cujo som era intensificado
pelo silêncio ao redor. De repente, teve a impressão de
ouvir passos ecoando atrás de si. Não havia nada mais a
fazer, ela pensou, além de ir em frente. Deu-se conta de que
tinha a respiração curta, nervosa, e tentou se acalmar.
Transpôs alguns degraus que levavam a uma passagem
ascendente, a imagem espelhada do túnel descendente. A
mesma perfeição maquinal e inclinação angular inatingível,
mas, desta vez, apontando para cima. Sua sensação de
claustrofobia aumentou. O teto tinha menos de 1,20 metros
de altura, e o ambiente era abafado e sufocante. Curvados, os
dois continuaram a subir.
Concluído o esforço despendido ao longo do caminho, a
passagem estreita de repente se abriu numa câmara bem
maior, com 45 metros de comprimento por 9 de altura, com
um teto inclinado e abobadado. Rutherford endireitou a
postura e espreguiçou-se aliviado.
- Ufa! Estava começando a entrar em pânico ali.
Catherine enxugou a testa, mas não disse nada. Não queria
confessar o tamanho de seu medo. Tinha a sensação, cada
vez mais clara, de que alguém os seguira à pirâmide para lhes
exigir alguma espécie de vingança terrível. Tentando
espantar o pressentimento esmagador, olhou para a
passagem de inclinação ascendente que se abria à frente
deles.
- O que é aquilo? - ela apontou para uma vala que percorria
toda a superfície do chão da câmara. - Parece uma espécie
de sulco para encaixe de uma peça de maquinário ou coisa
parecida. Por favor, não venha me dizer que não sabe o que
é.
Rutherford olhou para ela, como que pedindo desculpas por
não ter a resposta. Catherine balançou a cabeça em sinal de
inconformismo, enquanto começavam a subida em direção
à grande galeria.
Depois de atravessar outra passagem, ingressaram num
último grande salão. Rutherford endireitou as costas
esfregando a região lombar e ajeitou novamente a mochila
nas costas.
- Então, aqui estamos nós. A câmara do rei.
Catherine chegou ao lado de James e sentiu o impacto da
atmosfera opressiva do lugar. Sabia das toneladas de
alvenaria sob as quais estavam, e era como se as grandes lajes
de pedra escuras que formavam as paredes estivessem
descendo sobre eles.
"SE alguém chegasse agora para nos matar, ninguém ouviria
nada. Ninguém jamais ficaria sabendo..."
O rosto de Rutherford reluzia de tanto suor.
- O que é aquilo? - Catherine apontou para a caixa de pedra
do tamanho de um homem que estava sobre o chão numa
das extremidades do salão.
- Aquilo é um cofre. Está vazio. Venha, vamos dar uma
olhada.
Caminharam até a caixa e a examinaram por dentro.
Rutherford, consultando o guia que trazia consigo,
murmurou as dimensões do objeto. De repente, exclamou:
- Meu Deus! As medidas imperiais que ainda hoje usamos na
Inglaterra e na América do Norte, as polegadas e os pés,
estão relacionadas ao sistema métrico empregado na
construção da pirâmide e do cofre.
- O quê? Você quer dizer que isto foi usado como base para
o nosso sistema métrico?
- Parece que sim. Eu jamais relacionara esses parâmetros à
pirâmide, mas agora tenho a impressão de que é a fonte de
tudo. A caixa deve estar aqui desde o início, porque é
grande demais para sair passando pelo túnel que acabamos
de atravessar. O que também é interessante é que os cantos
internos têm ângulos retos de uma perfeição absoluta. É
inexplicável como isso pode ter sido alcançado com alguma
outra coisa que não a moderna tecnologia. São necessárias
toneladas de pressão e brocas de diamante para furar o
granito desta maneira.
De repente, Catherine teve um insight. Com certo tom de
medo na voz, disse:
- Só um minuto. Que medidas eram essas que você acabou
de ler?
Confuso com o pedido, Rutherford analisou o rosto de
Catherine antes de voltar a olhar o guia.
- O interior dele mede 6 pés por 6.6 polegadas de
comprimento...
- Sim - ela o interrompeu. - Foi isto que entendi. Não pode
ser uma coincidência, dado tudo que sabemos sobre a mania
de precisão que tinham. O comprimento interno deste cofre
antigo, localizado no coração da construção mais antiga e
estranha do mundo, é 6 X 6 X 6, o número do demônio.
Logo depois, as luzes piscaram e por um breve momento a
câmara ficou mergulhada em total escuridão. O pulso de
Catherine disparou. Rutherford teve a nítida sensação de
que uma onda de puro terror se formava no estômago e aos
poucos lhe invadia o peito.
Em seguida, as luzes voltaram a piscar, devolvendo a luz ao
ambiente, e o salão emergiu da escuridão. Rutherford
parecia dez anos mais velho:
- Certo. Vamos ficar aqui apenas o tempo necessário.
Catherine voltou a respirar:
- Concordo plenamente.
A luz se manteve. Rutherford enxugou o suor com a manga
da camisa e recomeçou a falar, mas sua voz soava muito
nervosa:
- Na verdade, 666 não é o número da besta.
Catherine, olhando ao redor do salão que lembrava uma
tumba e cuja atmosfera era opressiva, não entendeu.
- Em que sentido?
- Bem, ele é muito mais antigo do que o cristianismo. É o
número pagão que representa o sol, ou a força terrena. Os
alquimistas associaram-no ao enxofre. Em gematria, a frase
bíblica theos eini epi gaia, "Sou Deus na Terra", tem o valor
666. Os últimos cristãos, que haviam perdido contato com
os antigos ensinamentos, temiam os números e seu poder
simbólico - Rutherford passou o antebraço pela sobrancelha
ardente e, nervoso, correu os olhos pelo local. - Mas há algo
mais importante. Venha cá, rápido.
Ele caminhou até a parede sul da câmara do rei. Catherine o
acompanhou, todo o tempo temendo que as luzes se
apagassem novamente, desejando ter trazido uma tocha.
Rutherford apontou para um pequeno buraco.
- Aqui! Este fosso leva diretamente ao exterior por meio dos
blocos da pirâmide. Como tudo aqui, ele também é
perfeitamente reto. Dirige-se para cima, pela parte central da
alvenaria, a um ângulo de exatos 45°. Milhares e milhares de
blocos teriam de ser esculpidos um a um de modo que o
fosso pudesse percorrê-los. Mas isto é só a metade da histó-
ria. Se você estender o fosso ao espaço sideral, por vezes ele
cruza com precisão a trilha do meridiano do cinturão de
Órion, uma área sagrada do céu na religião egípcia. Do
mesmo modo, na câmara da rainha, o fosso sulino está
alinhado com perfeição à passagem da estrela Sírius, que
também era muito importante. O hieróglifo que representa
Sírius é formado por uma estrela, uma pirâmide e uma pedra
Benben.
Ao ouvir a menção a Sírius, Catherine sentiu uma pontada
no peito, como se, de repente, tivesse sido levada de volta
ao ensolarado auditório do All Souls e sua palestra sobre o
mistério das tribos dos Dogon. "Como é que podemos ter
chegado tão longe a ponto de essas questões não mais serem
jogos divertidos acadêmicos, mas questões de vida ou
morte?"
Rutherford prosseguiu:
- E cada câmara também tem um outro fosso que se alinha
com uma estrela específica. Em geral, quando uma está
alinhada, as outras estão apenas apontando na direção de lixo
cósmico. Mas, aparentemente, todos os quatro fossos se
alinham corretamente quando se volta o relógio estelar ao
ano de 2.450 a.C.
- Gostaria de saber que importância teve isso para os
construtores. Talvez corresponda à data em que finalmente
conseguiram se restabelecer após o caos gerado pelo dilúvio?
Mas existe alguma coisa sobre a relação com Sírius...
Rutherford não entendeu bem aonde Catherine queria
chegar.
- Qual?
- Oh, nada... E estranho... Seja como for, não pode ser uma
coincidência que os fossos se alinhem nas estrelas.
Rutherford olhou para as luzes com ansiedade, como se
esperasse que se apagassem novamente.
- Vamos conversar sobre isto lá fora, não suporto mais esta
pressão. Este espaço fechado está me fazendo mal -
Catherine falou enquanto se preparava para sair.
- Concordo plenamente. Vamos sair daqui.

58

A porta do avião do secretário Miller se abriu e o calor
norte-africano o atingiu como se fosse uma muralha. O
aeroporto internacional do Cairo fervia sob o sol. Os
motores da aeronave ainda estavam ligados, e o ruído
impedia que se conversasse. O ar estava impregnado com o
cheiro do combustível.
Com ar contrariado no rosto, o secretário desceu os
enormes degraus e pôs o pé na pista, acompanhado de dois
de seus guarda-costas mais confiáveis. Enquanto isso, um
caminhão com capacidade para quatro toneladas coberto
com lona parou, derrapando, a alguns metros do avião. Um
homem branco, em boa forma, vestindo um uniforme de
combate camuflado, saltou da cabine do motorista e
caminhou a passos rápidos até a aeronave. Os motores ainda
gemiam lentamente tentando parar, por isso o homem teve
de gritar para se fazer ouvir.
- Senhor, tenho seis homens aqui comigo. Todos armados e
prontos para partir, e temos agentes de prontidão espalhados
por todo Cairo. Informo que os alvos passaram pela
alfândega três horas atrás e que agora estão em Gizé.
- E o homem de branco? Vocês o encontraram?
Não, senhor, mais uma vez não conseguimos seguir seus
passos. Nossas operações globais dizem que ele é um ex-
oficial do exército russo, um cientista e espião renegado, o
que provavelmente explica por que o perdemos de vista. Ele
trabalhou com o professor Kent dois anos atrás, tem um
histórico de interesse nas calotas polares.
O secretário voltou os olhos para o estafeta e, falando com
determinação, apresentou-lhe o plano.
- Precisamos encontrar um momento em que os alvos
estejam sozinhos, então os pegaremos. Não quero uma
repetição do que aconteceu em La Paz. Isso tem que ser
feito com toda discrição, mas quero homens armados de
prontidão em Gizé. Quanto ao russo, está na hora de o
calarmos também. Nessa altura dos acontecimentos, não
podemos arriscar. Dê uma foto dele à todos os agentes
imediatamente e atirem nele assim que o virem.
O secretário calou-se e correu os olhos pela pisa em direção
aos prédios do aeroporto, onde figuras humanas distantes se
movimentavam no calor ondulante. Agora faltavam apenas
algumas horas para o equinócio da primavera. Ele aparentava
cansaço, até mesmo mais idade. Pela primeira vez seus olhos
revelavam certa vulnerabilidade, parecia quase ferido em seu
orgulho próprio.
Olhou para os dois guarda-costas, a quem dera instruções no
avião. Eles eram muito experientes, e estava certo de que
podia contar com a lealdade de ambos para lidar com o
senador, que entraria nos planos nos próximos dias. A
última coisa que esperava era ser submetido a um
interrogatório por parte de um de seus aliados.

59

Emergindo das entranhas da Grande Pirâmide, Catherine e
Rutherford ficaram quase cegos com a faiscante luz do sol.
O céu azul sem nuvens estendia-se em todas as direções, e
mesmo a vista desoladora do deserto vazio lhes deu uma
sensação de alívio após o intenso medo e claustrofobia
gerados no interior das passagens subterrâneas da Grande
Pirâmide.
Catherine protegeu os olhos com a mão esquerda enquanto
com a outra tentava se livrar da poeira nas roupas.
- Ah! Ar! Ar fresco e luz do sol. Graças a Deus estamos aqui
fora. Não gostaria de ter que passar a noite lá dentro.
Rutherford tirou os óculos escuros da mochila e respirou
fundo:
- Concordo!
Catherine se virou e olhou para trás, avistando a estrutura
monumental da Grande Pirâmide:
- Bem, uma coisa é certa. Isto não foi construído por um
povo primitivo. E não era uma simples câmara mortuária.
Quem dera o professor Kent estivesse aqui para
conversarmos. Ele saberia o que fazer.
Rutherford discordou, gesticulando a cabeça, e com uma
determinação obstinada na voz disse:
- Temos que prosseguir. Acabaremos descobrindo tudo.
Catherine caminhou até ele, envolveu-lhe os ombros com
os braços e o abraçou sem dizer nada. Por pouco tempo
ficaram abraçados, e, em seguida, Catherine se afastou e pôs
a mochila nas costas.
Juntos contornaram o canto nordeste da Grande Pirâmide e
avistaram a Necrópole de Gizé.
- Ali está.
Rutherford apontou em direção ao sudeste, para além do
platô rochoso, cujo declive gradual conduzia ao local onde
estava a esfinge, aninhada na vala feita pelo homem. Com
corpo de leão e cabeça de homem, ela está deitada com as
patas dianteiras esticadas e tem o volume do corpo fundido à
rocha maciça por detrás. Estava ali, aguardando, desde
tempos imemoriais. A areia invasiva a enterrara por
completo em diversas ocasiões, mas havia sempre um
imperador, rei ou governante que acabava por desenterrá-la.
- Ela está voltada para o leste, creio eu - observou Catherine.
- Sim, o leste verdadeiro, na direção do nascer do sol. Desta
vez os construtores estão marcando a era astrológica de
Leão, que começa em 10.970 e termina em 8.810.
- Isto é impressionante. Encaixa-se perfeitamente às datas
relacionadas ao final da última era glacial. Você acha que
eles estavam fazendo a marcação quando sua civilização foi
destruída?
Rutherford não respondeu, e os dois se aproximaram da
lateral da esfinge gigante. Tinha em torno de 18 metros de
altura por 73 de comprimento, a maior escultura já feita.
James esticou o pescoço:
- Está vendo como ela foi erodida? - Catherine analisou os
grandes buracos e fendas que marcavam a pedra milenar da
qual a fera fora criada. Em determinadas partes tinha-se a
impressão de que se tratava de um modelo feito de cera que
aos poucos se derretia. Havia enormes furos, de cima a
baixo. - Leva literalmente milhares e milhares de anos para
causar uma erosão como esta.
- E de que maneira essa erosão acontece?
- Chuva, chuva, e mais chuva. O Saara é um deserto jovem.
Aqui nem sempre foi assim. Um dia já foi verde, fértil e
agradável. E bem se vê que choveu muito, e por um longo
tempo.
- Então, quando é que se acredita que ela sofreu esse
desgaste?
- Bom... Veja. Isto depende da pessoa a quem você
perguntar.
Os dois caminharam até a frente da esfinge e contemplaram-
lhe a face secular.
- Os especialistas em desgaste de pedra calcária concluíram
que ela deve ter sido deteriorada há pelo menos 9.000 anos.
E esta é uma visão conservadora. É enorme, quase
incompreensivelmente antiga. E é claro, como já sabemos, a
história ortodoxa diz que naquela época todos nós
andávamos por aí vestindo tangas, usando instrumentos da
idade da pedra.
Olhando para o rosto inescrutável da esfinge, Catherine
pensou nas pessoas admiráveis que deviam tê-la criado
tantos milhares de anos atrás.
- Certo - Catherine respondeu. - Então, temos uma pirâmide
construída de acordo com especificações que a NASA teria
dificuldades de cumprir. Ela, por si só, parece sugerir um
conhecimento de astronomia e de matemática avançadas se
a analisarmos mais detidamente, além de ter também feixes
estelares que se alinham em 2.450 a.C. Temos aqui uma
esfinge que tem pelo menos 9.000 anos de idade. Mas é
provável que seja muito mais velha. E tudo isso indica uma
relação evidente com a era de Leão. Mas, apesar disso, toda a
comunidade histórica refuta essas provas incontestáveis.
Catherine contornou lentamente as patas dianteiras da
estranha criatura:
- E tem mais. Os criadores dos verdadeiros mapas, que
serviram como ponto de partida para iniciarmos esta busca,
acreditavam que o centro do mundo ficava aqui. E, ainda,
temos os mitos de todo o mundo que descrevem um bando
de iluminados surgindo após o grande dilúvio para
reconstruir suas civilizações destruídas. Esses mitos também
contêm, conforme sugeriu o professor Kent, muitas das
informações técnicas que podem estar relacionadas a um
cataclismo causado pelo deslocamento da crosta terrestre. E,
por fim, graças a Von Dechend, podemos dizer que esse
cataclismo ocorreu em algum momento da última era do
gelo, algo em torno de 11.000 a.C. Isto dá aos refugiados
tempo para fugir da Antártida para o Egito, com o intuito de
se restabelecer e esculpir a esfinge.
Rutherford voltou-se para Catherine com um sorriso
encabulado no rosto:
- E tem mais uma coisa.
Catherine franziu o cenho demonstrando ansiedade:
- O quê?
Rutherford olhou para os próprios pés.
- Esqueci de lhe contar sobre os barcos.

60

Catherine sentiu que começava a ficar tonta.
- Que barcos? - ela perguntou com cautela.
Rutherford olhou para cima. Estava quase sem jeito por ter
de revelar mais um mistério.
- Arqueólogos desenterraram diversos barcos da areia
próxima às pirâmides. Eles são enormes; embarcações feitas
para navegar no oceano, que os arqueólogos marinhos
afirmam só poderem ser o resultado de uma longa tradição
de experiência projetando barcos.
Catherine jogou a cabeça para trás e riu. Havia ainda uma
última informação que precisava obter.
- Temos conhecimento do que os antigos egípcios tinham a
dizer sobre suas próprias origens?
- Sim. E, de certo modo, a própria versão do passado
fornecida pelos egípcios melhor condiz com as provas do
que a história convencional. Isto é, se estivermos inclinados
a ler os mitos com olhos solidários.
- O que você quer dizer?
- Ora... Por exemplo, Osíris é um dos deuses egípcios, os
Neteru, como eram chamados. Eles chegaram de sua própria
terra natal, assim como Quetzalcoatl e seus seguidores, ou os
Viracochas. Mas se os Neteru fossem uma civilização mais
avançada, com infinita quantidade de conhecimentos
técnicos e religiosos, não é de se estranhar que os habitantes
originais do Egito atribuíam a eles características divinas.
Catherine era o retrato da concentração.
- Então, os Neteru, que os egiptólogos descartam como
deidades mitológicas, devem ter sido os portadores da luz. E
parece ser isto mesmo. Há inscrições hieroglíficas no
interior da Pirâmide de Unas, em Saqqara, cuja data
aproximada é 2.400 a.C. Elas são interessantes porque, como
as pirâmides aqui em Gizé, também surgiram de repente.
- Em que sentido?
- Bem... Antes do surgimento repentino dessas inscrições,
não há registro de escrita primitiva. Não há hieróglifos
primários anteriores a esses usados para contar suprimentos
ou marcar a passagem dos dias, como é o caso da escrita
cuneiforme da Babilônia; em vez disso, passamos dire-
tamente para os hieróglifos mais sofisticados que o Egito
jamais voltaria a ver. E tem mais. Os temas em discussão
correspondem a concepções metafísicas e teológicas de alta
abstração, completados com um grupo de deuses e deusas de
conteúdo bastante simbólico. Wallis Budge, que foi o grande
acadêmico inglês da egiptologia, uma vez disse que era
simplesmente inexplicável que uma civilização tão
sofisticada tivesse surgido do dia para a noite. Seria como ter
os Bosquímanos do Kalahari dando à luz toda cultura e
religião dos judeus no espaço de cem anos, enquanto tam-
bém construíam o maior edifício do mundo no deserto da
África.
Catherine tentava pensar em qual seria o próximo passo.
- Quem é o responsável por todos esses lugares antigos?
Quero dizer, a quem cabe a palavra final para se estudar
essas construções e testar novas teorias? Quem tem o poder
de anular essa opinião ortodoxa equivocada?
Rutherford analisou o rosto de Catherine.
- Dr. Ahmed Aziz, o diretor de antigüidades egípcias. Ele
pode acabar com a carreira de qualquer egiptólogo com uma
simples assinatura, recusando-lhe permissão para visitar os
locais ou mesmo impedindo sua entrada no Egito. Ele tem
poder absoluto.
Catherine fez que sim com a cabeça:
- Bom, então pelo menos sabemos quem dá a palavra final.
Se ele tivesse que fazer um esforço para redatar tudo, então
talvez isso realmente acontecesse. Se ele acreditasse que a
versão da história egípcia que as pessoas têm hoje está fora
de questão, ele poderia tentar mudar as coisas.
Rutherford olhou para trás contemplando a extraordinária
pirâmide.
- Temos que nos perguntar por que ele ainda não fez isso.
Temos que acreditar que ao menos tem conhecimento
dessas evidências. Talvez ele não reveja as evidências devido
à pressão religiosa por parte do governo.
Catherine não entendeu a lógica daquela explicação.
- Por que isso seria uma razão?
Rutherford tirou os óculos e passou a mão pelo cabelo.
- Bem, os muçulmanos fundamentalistas, que têm grande
influência política no governo egípcio, não são muito
diferentes dos fundamentalistas cristãos dos Estados Unidos,
ou dos judeus, nesse assunto. Eles também têm sua própria
versão da história da humanidade, um tipo de versão
muçulmana da criacionista cristã. Duvido que eles aceitem
ter que explicar, de uma hora para outra, um mundo
totalmente novo que tenha precedido este... Mas, não sei, é
só especulação.
Catherine sentiu que havia alguma verdade naquilo.
- Acho que devíamos ir até lá e procurar saber. Talvez
possamos até mesmo encontrar esse tal Aziz. O que você
sabe sobre ele?
- Muito pouco. Encontrei-o uma única vez, anos atrás,
embora não tenha muita certeza. Ele ministrou uma palestra
em Oxford. Isso aconteceu muito antes de ele ser indicado a
diretor. Acho que seu antecessor morreu em um acidente
de carro. Lembro-me de que a indicação de Aziz causou
uma certa polêmica. Ele é muito jovem, e estudou nos
Estados Unidos - Rutherford parecia querer mudar de
assunto. - Creio que vale a pena tentar. Até agora não
tivemos sinal de Bezumov, mas ainda faltam doze horas para
o equinócio. Não sei bem o que ele tem em mente. O que é
que se pode fazer com milhões de toneladas de pedra? - ele
deu de ombros. - Tudo bem, vamos tentar falar com Aziz e
ver o que ele tem a dizer sobre todas essas inconsistências -
James lançou um último olhar demorado para a face imóvel
da esfinge e então jogou a mochila nas costas. - Vamos
voltar para o carro.
Catherine contemplou a face imortal da escultura secular e
murmurou, quase para si mesma:
- Ainda desvendaremos seu enigma, grande esfinge.
Dando meia-volta, ela acompanhou Rutherford ao longo da
leve inclinação do platô de Gizé em direção ao carro.
- Pare!
Ao ouvir o grito esganiçado de Bezumov, o motorista parou
o carro abruptamente na beirada do estacionamento de
Gizé. O ar encheu-se de poeira na traseira do carro.
Bezumov não acreditou no que via. Franziu os olhos,
tentando enxergar os dois ocidentais que via caminhando
sobre a areia na direção do estacionamento, afastando-se da
esfinge. Seu rosto exibia um misto de raiva e surpresa. À
medida que as duas figuras se aproximavam, suas suspeitas se
comprovaram. Ele os seguiu com olhos enquanto chegavam
até o carro. A primeira a entrar no veículo foi Donovan,
seguida do inglês irritante. Bezumov atingiu o painel do
carro com a palma da mão.
De modo instintivo, buscou o coldre sob o paletó. A arma
estava lá.
"Mas este não é o lugar adequado."
O carro afastou-se do estacionamento.
- Motorista, siga aquele carro. Não o perca de vista, nem por
um segundo!

61

Cairo não é uma cidade em que seja fácil dirigir. Muitas das
ruas parecem exatamente iguais, há poucas placas e,
esporadicamente, o tráfego é estarrecedor, e os motoristas
do Cairo tratam o Código Nacional de Trânsito, quando
muito, como um conjunto de orientações vagas e, na pior
das hipóteses, como algo sem a menor importância.
Depois de contornar muitas ruas erradas e de buzinar muito,
Rutherford e Catherine finalmente entraram em um
estacionamento atrás do Departamento do Patrimônio
Histórico. Rutherford parecia muitíssimo estressado:
- Isso foi um pesadelo. Pensei que jamais encontraria este
lugar, e tive a impressão de que éramos seguidos, até
perceber que nem mesmo o criminoso mais determinado do
mundo poderia lidar com esse trânsito.
James pulou para fora do carro e olhou na direção do
edifício, com a nítida sensação de que havia algo proibido
nele.
- Você acha mesmo que vale a pena tentar conseguir uma
reunião com Aziz? Refiro-me ao que ele nos dirá mesmo
que concorde em nos receber?
Catherine bateu a porta do passageiro.
- James, nossa abordagem funcionou até agora. Se não der
em nada, podemos sair daqui, procurar um hotel e tentar
pensar em outro plano. Tudo o que quero é ver qual será a
reação dele.
Um guarda vestido com um uniforme marrom mal ajustado
ao corpo e um boné com viseira andava para lá e para cá do
lado de fora de uma guarita, e acenou para que eles se
dirigissem à entrada nos fundos do prédio. Catherine e
Rutherford caminharam até ele.
- Salaam aleikum. Os passaportes, por favor.
Eles apresentaram o passaporte e, após um gesto simbólico
de escrutínio, o guarda indicou-lhes que atravessassem a
porta.
Lá dentro, um corredor escuro com o piso revestido de
linóleo se estendia à frente deles, conduzindo, de acordo
com a placa que havia no alto, à recepção. Em ambos os
lados do corredor havia portas fechadas e, vez por outra,
outros corredores que levavam a quem sabe aonde.
Tentando enxergar o final do corredor principal, Catherine
olhou para Rutherford.
- O que você acha?
Ele hesitou por um instante e então respondeu:
- Não sei, suponho que devemos nos dirigir à recepção.
Alguns passos depois, Rutherford notou uma placa em inglês
e árabe apontando para um corredor que conduzia à direita,
na qual se lia: "A Sala do Diretor e ao Salão de
Conferências".
- Pensando bem, por que não deixamos a recepcionista para
lá e pulamos uma etapa na burocracia. Ela vai nos deixar
esperando por horas. Se nosso amigo diretor quiser nos
receber, ele assim fará de imediato, e se não, então poderá
nos dizer isto pessoalmente, contanto, é claro, que não
esteja em horário de almoço.
- Ou fora do país - Catherine acrescentou.
Na metade do corredor ficava a porta que levava ao
escritório do diretor. Rutherford ergueu a mão para bater na
porta, mas parou por um momento e olhou para Catherine:
- Ok. Lá vai! - e terminou por dar sonoras batidas na porta.
Aguardaram algum sinal com uma expectativa impaciente.
Decorridos mais ou menos trinta segundos, a porta foi aberta
por uma jovem usando o habitual xale de cabeça
muçulmano, que pareceu surpresa ao ver Catherine e
Rutherford em pé no corredor.
- Olá, posso ajudá-los? - ela tinha um bom domínio do inglês
com um forte sotaque egípcio.
Rutherford olhou para Catherine, e começou a falar:
- Humm... Sim. Viemos falar com o dr. Aziz. Ele está?
A secretária olhou para os dois como se suspeitasse de
alguma coisa.
- Vocês têm hora marcada?
Rutherford não sabia muito bem o que responder, mas,
antes que pudesse pensar no que dizer, Catherine tomou a
iniciativa. Em um tom de justa indignação, dirigiu-se à
mulher.
- Com licença... - ela deu um passo à frente de Rutherford. -
Sim, temos hora marcada. Por favor, você pode dizer ao dr.
Aziz que Catherine Donovan e James Rutherford, da
Universidade de Oxford, estão aqui para vê-lo? E faça a
gentileza de nos deixar entrar, não me agrada nem um
pouco ter que esperar no corredor, especialmente após um
longo vôo.
A atitude funcionou. A secretária abriu a porta
imediatamente, revelando a espaçosa ante-sala do escritório
de Ahmed Aziz, fazendo sinal para que eles entrassem. O
escritório tinha grandes janelas que davam para um jardim
egípcio bem cuidado, e uma segunda porta que Catherine
supôs devia levar ao escritório particular de Ahmed Aziz.
Havia dois sofás grandes de couro verde, acompanhados de
charutos turcos ornamentais, e enquanto Catherine
analisava a sala, percebeu que havia outra pessoa sentada no
escritório. Um egípcio baixo, franzino, que ocupava a
segunda escrivaninha. Ele sorriu para ela, e seus os olhos
escuros piscaram. A secretária, parecendo muito ansiosa, os
conduziu a um dos sofás.
- Por favor, sentem-se. Sr. Rutherford e Senhorita Donovan,
certo?
Catherine respondeu com soberba:
- Na verdade, dr. Rutherford e dra. Donovan. Obrigada.
Lançando mais um olhar ansioso para eles, a secretária
caminhou de volta à escrivaninha e sentou-se. Apanhou o
telefone e discou um número. Rutherford acompanhou cada
movimento dela.
Depois de murmurar em um árabe gutural por alguns
instantes, desligou o telefone.
- Dr. Aziz já vai recebê-los.
Catherine olhou para Rutherford com um sorriso
conspirador, e ambos sentaram-se em um dos amplos sofás
de couro. Um minuto depois a porta do escritório do dr.
Aziz se abriu e o próprio homem a atravessou.
- Olá. Bem-vindos ao Cairo. Por favor, entrem, entrem.
Tanto Catherine quanto Rutherford ficaram surpresos com a
cordialidade da recepção enquanto o acompanhavam ao
escritório. Não era para ser assim tão fácil; em qualquer lugar
do mundo esperava-se que fosse muito difícil ver pessoas
tão importantes com tão pouca antecedência. "Isso é muito
estranho", pensou Rutherford. Ele chegara até ali esperando
despender um grande esforço. Na melhor das hipóteses,
esperava que lhe dissessem para voltar no dia seguinte, ou
dentro de dois dias. Mas, agora, aquela autoridade lhes pedia
que entrassem imediatamente, sem perguntar nada.
O escritório de Aziz era suntuosamente decorado com
tapetes turcos e cadeiras revestidas de couro. As paredes
eram enfeitadas com pôsteres do Ministério do Turismo
egípcio que retratavam os lugares mais importantes do país,
e sobre a escrivaninha havia um peso de papel, uma
miniatura, com cinco centímetros de altura, a reprodução da
pedra de Benben.
Aziz fez um gesto para que se sentassem, acomodou-se atrás
da escrivaninha e começou a falar. Tinha um sotaque
egípcio marcante, mas seu inglês era fluente. Catherine
julgou que a voz acusava um tom indulgente e ligeiramente
vil.
- Então... Aceitem minhas desculpas. Minha secretária deve
ter cometido um erro ao marcar sua visita - ele se acomodou
na cadeira com um dos braços dobrado sobre o apoio e lhes
sorriu, dando a nítida impressão de não estar com pressa. -
Café? Chá de hortelã?
Rutherford não entendia a razão de tanta gentileza.
Catherine inclinou-se para a frente:
- A razão de estarmos aqui se deve ao fato de desejarmos lhe
fazer algumas perguntas... Algumas perguntas sobre a idade
das pirâmides e da esfinge.
Aziz balançou o corpo para a frente e apoiou os cotovelos e
os antebraços sobre a escrivaninha, com as mãos
entrelaçadas:
- É claro. Tenho um pouco de conhecimento sobre este
assunto! - ele riu da própria piada. E Rutherford decidiu ir
direto ao assunto:
- Queríamos saber o que você achou das evidências
fornecidas pelos geólogos provando, conclusivamente, em
minha opinião, que a esfinge é milhares de anos mais antiga
do que se pensava antes.
O semblante de Aziz mudou subitamente. De repente ficou
sério. O charme sumiu-lhe do rosto. A voz dava sinais de
uma agressão iminente.
- Sem dúvida. Ouvi falar desta teoria absurda. Nossos
geólogos analisaram a esfinge e descartaram essas alegações.
Custo a acreditar que dois acadêmicos de uma instituição
com a reputação da Universidade de Oxford estariam
propensos a cogitar de uma idéia ridícula como esta. Foram
necessários centenas de anos de erudição para descobrir a
cronologia correta de nosso passado egípcio. Centenas de
anos. Muitos especialistas notáveis de todo o mundo
contribuíram para a execução deste grande trabalho,
inclusive muitos homens de seus países - Aziz os encarou
com os olhos em brasa. - Suas insinuações são disparatadas e
insultantes, não só para mim, mas para toda a ortodoxia
egiptológica. Estou abismado.
Catherine teve dificuldade de entender a súbita ferocidade
da resposta. Aziz recostou-se na cadeira e dirigiu-se a eles
com frieza:
- Sugiro a vocês que visitem uma biblioteca, talvez no
retorno a Oxford, e façam uma pesquisa adequada e
abrangente, antes de voltar a incomodar alguém em um
cargo como o meu - subitamente ele abaixou o tom de voz.
- E sugiro que, para resguardar sua reputação como
profissionais, não alardeiem muito esse tipo de bobagem por
aí. Leva muito anos para construir uma reputação
acadêmica, e um segundo para destruí-la.
Catherine olhou para Rutherford, que levantou as
sobrancelhas em um gesto de incompreensão e surpresa,
meneando a cabeça como se lhe dissesse "não chegaremos a
nada". Catherine se levantou:
- Muito obrigada, dr. Aziz, foi um prazer conversar com o
senhor. Somos apenas amadores nessa área. Por favor,
perdoe-nos se o ofendemos.
Aziz pôs-se de pé, caminhou até a porta e a escancarou.
Permaneceu ali em um silêncio ameaçador, impedindo
qualquer pergunta ou conversa. Catherine e Rutherford
deixaram o escritório particular e retornaram à ante-sala.
Aziz chamou seu assessor de confiança.
- Poimandres, por favor, mostre a saída aos nossos visitantes.
Dirigindo-se aos dois ocidentais uma última vez, Aziz
despediu-se
de um modo superficial, com o rosto desprovido de
simpatia:
- Tenham um bom dia, dra. Donovan e dr. Rutherford. Foi
um prazer conhecê-los.
O sombrio copta saiu de trás da escrivaninha e sorriu para os
dois.

62

Catherine lançou um olhar incrédulo para a porta do
escritório de Aziz. A branquidão do pórtico resumiu a
finalidade daquela despedida.
- Boa tarde, meu nome é sr. Poimandres, sou assessor do dr.
Aziz. O pequeno copta estendeu a mão para Catherine.
Ligeiramente espantada, ela apertou-lhe a mão.
- Prazer em conhecê-lo, sr. Poimandres. Sou Catherine
Donovan, e este é James Rutherford.
Rutherford estendeu a mão e cumprimentou-o:
- Olá, prazer em conhecê-lo. Então, o senhor vai garantir
que deixemos as dependências.
Poimandres sorriu para Rutherford. Tinha o rosto ossudo,
honesto, de um monge asceta:
- Sim, pode-se dizer que sim. Façam a gentileza de me
acompanhar. Rutherford sorriu. Havia algo estranho, quase
etéreo, a respeito do pequeno homem sombrio. Depois da
hostilidade e da condescendência de Aziz, Poimandres
parecia transpirar simpatia e calma. Passou pela secretária,
que estava sentada à escrivaninha em silêncio, e saiu para o
saguão. Quando pisaram no corredor escuro e silencioso,
Poimandres fechou a porta atrás deles. Em seguida, olhou
para um lado e para outro do corredor, como se estivesse se
certificando de que não havia ninguém.
- Vocês vieram buscar informações sobre as origens da
civilização egípcia com o dr. Aziz?
Catherine voltou-se de imediato para Rutherford, que
parecia tão perplexo quanto ela.
- Temos diversas teorias que desejávamos discutir com ele.
Entretanto, ele não teve tempo para nos ouvir.
Poimandres continuou a sondá-los.
- Dr. Aziz está em uma situação difícil. Não tem liberdade
para especular.
Rutherford ficou intrigado. Por que aquele estranho
homúnculo lhes dizia aquilo? Percebendo uma
oportunidade, perguntou:
- Sr. Poimandres, o senhor acredita que nossa linha de
pensamento é razoável?
Com bastante vagar, os olhos escuros do copta se desviaram
para se concentrar no rosto de Rutherford.
- Dr. Rutherford, isso depende muito de por que vocês estão
fazendo essas perguntas.
Catherine perguntou:
- O que o senhor quer dizer com por que estamos fazendo
essas perguntas?
- Quero dizer: qual é o motivo? Vocês esperam obter glórias
acadêmicas ou... - Poimandres interrompeu o que dizia por
alguns segundos. Seus olhos escuros tremeluziam, enquanto
encarava Catherine como se varresse sua mente buscando
uma outra reação. - Ou estão atrás de outra coisa?
Pelo olhar penetrante do copta, Catherine sentia que aquele
era um momento crítico em sua busca. Não entendia o que
estava acontecendo, mas alguma coisa lhe dizia que a
resposta que desse àquela pergunta poderia fazer toda a
diferença. "Ele entende. Está do nosso lado."
Estava claro que Poimandres aguardava a resposta. Em um
lampejo repentino, ela visualizou mentalmente uma das
imagens reproduzidas com freqüência a partir dos textos
escritos em hieróglifos na pirâmide. Era a sala de julgamento
de Osíris. Osíris, sentado resplandecente em seu trono, é
presenteado com as almas dos recém-falecidos. Ele segura
um conjunto de balanças nas mãos diante de si. Compara o
peso do coração humano com uma pena; a essência da
leveza e da verdade. O coração é puro? Catherine olhou no
fundo dos olhos de Poimandres e tomou a decisão:
- Acreditamos que o mundo corre perigo. Achamos que
houve tentativas deliberadas de subverter os registros
históricos e encobrir a verdade sobre o passado. O
conhecimento das civilizações de povos antigos está sendo
deliberadamente escondido de nós, e apenas este
conhecimento poderá nos salvar. Se não descobrirmos o que
os antigos sabiam, seremos vítimas de um terrível
cataclismo, tal como se passou com eles. As pirâmides não
foram construídas pelos faraós em 2.500 a.C., elas são
monumentos dos povos que sobreviveram ao grande
dilúvio.
Poimandres baixou os olhos. E, sussurrando, respondeu:
- Por favor, vocês precisam me acompanhar a Gizé. Mas
primeiro...
Ele os conduziu por uma porta que os afastou do corredor.
A passagem levava a um quarto de despejo. Entre as
ferramentas, latas de tinta e outros tipos de material, havia
alguns uniformes de trabalho egípcios.
- Tomem. Vistam estes jellabas - Poimandres entregou a
cada um deles uma vestimenta egípcia cujo comprimento ia
até o tornozelo. Catherine e Rutherford entreolharam-se e,
então, vestiram os uniformes semelhantes a uma capa. Com
os capuzes cobrindo-lhes a cabeça, ficaram irreconhecíveis.
Poimandres abriu a porta que dava para o corredor e lhes
deu o sinal de que não havia ninguém ali.
Sigam-me.
63

Do outro lado do Departamento do Patrimônio Histórico
havia um Toyota Land Cruiser branco estacionado. Caíra a
noite sobre o Cairo, mas Bezumov permanecia alerta como
sempre, observando com paciência qualquer sinal de
atividade. De repente, depois do que parecera uma
eternidade, houve movimento.
- Ora, o que é que está acontecendo?
A espera começava a irritá-lo. Sua paciência estava se
esgotando, ele era essencialmente um homem de ação.
Observou quando um sujeito de compleição miúda e
definhada, vestindo um jellaba branco, saiu do edifício com
toda cautela. Era evidente que tinha certa autoridade, a
julgar pela prontidão com que o guarda o atendeu. O
homem seguiu em frente, acompanhado de duas outras
pessoas, ambas usando capas com capuz bastante sujas.
Bezumov desviou o olhar para o motorista, que estava meio
sonolento, e lhe uma pancada no braço.
Em seguida, sob a luz da porta aberta, Bezumov divisou os
belos sapatos ocidentais que Catherine usava, visíveis apenas
quando andava.
- São eles!
64

Em meio à escuridão, depois de Poimandres falar com os
vigilantes noturnos e receber autorização para prosseguir,
seu jipe agora encostava ao pé da Grande Pirâmide.
Rutherford e Catherine entreolharam-se em silêncio e
saíram do carro, sob as estrelas resplandecentes no céu
límpido da África do Norte. Catherine fechou a porta, olhou
para cima na direção do grande volume que era a pirâmide e
depois para o copta, que os aguardava com toda paciência no
início da rampa.
Em tom baixo, ela murmurou:
- Certo, vamos ver o que ele tem a dizer. Fique de olho para
ver se o russo aparece.
Poimandres olhou para os dois com certa gravidade. O
motorista aguardava próximo ao Land Rover, em um lugar
do qual não podia ouvir o que diziam. Poimandres fez uma
reverência com a cabeça e começou a falar:
- A construção da Grande Pirâmide foi a última tentativa de
uma civilização que se extinguia para preservar sua sabedoria
milenar - ele estudou o semblante dos dois jovens. - Se não
me engano, vocês já sabem disso. É por isso que estão aqui.
Por isso vieram falar com Aziz.
Catherine e Rutherford fizeram um sinal afirmativo com a
cabeça, e ele continuou:
- E vocês também estão certos de pensar que o mundo está
em perigo. Não sei como vocês sabem essas coisas, e não
preciso saber. Vocês foram trazidos até mim porque têm o
coração puro. Não há coincidências no universo. É minha
obrigação ajudar qualquer um que busque a verdade.
Revelarei os segredos da Grande Pirâmide para ajudá-los em
sua investigação. Nós os aguardávamos havia muito, muito
tempo.
Poimandres virou-se para contemplar a pirâmide. Ela reluzia
um amarelo-escuro graças ao holofote posicionado em
algum ponto próximo à guarita. A maioria dos turistas tinha
partido há algum tempo, e uma calma arrepiante envolvia o
lugar. As dunas de areia subiam e desciam indefinidamente,
por milhares e milhares de quilômetros, até atingirem a
costa do Atlântico. Era uma paisagem apocalíptica, maravi-
lhosamente bela e, ao mesmo tempo, estranhamente
deprimente, uma paisagem desprovida de vida e de amor. O
rosto de Poimandres era magro, as bochechas fundas, e
mesmo seus olhos pareciam estranhamente encovados. Sua
voz era suave, mas deixava transparecer certa urgência.
- A Grande Pirâmide foi construída para preservar os antigos
conhecimentos para todo o sempre. Mesmo que a
civilização que a construiu um dia viesse a perecer, as
futuras gerações ainda poderiam saber a verdade. As
proporções de suas dimensões contêm todas as fórmulas
matemáticas que governam o universo. Ela é um "glifo"
científico que, ao receber a meditação de um iniciado,
revelará os segredos da vida. O traçado do céu é indicado
pela posição dos blocos. É uma mensagem criada para ser
lida por nós no futuro e, ao mesmo tempo, um acumulador
de energia em pleno funcionamento, capaz de atrair e
utilizar uma força prodigiosa. Mas, primeiro, antes que eu
explique esses segredos, quero ter absoluta certeza de que
vocês entendem o fato de ter havido mundos e civilizações
anteriores à nossa. Creio que entendem, não?
Catherine balançou a cabeça, afirmando.
- Sim. Tivemos tantas provas disso que fica difícil pensar o
contrário.
- Não temos dúvidas sobre isso - Rutherford confirmou.
Poimandres pensou por um momento, e começou a explicar
com muita cautela:
- A Terra foi mapeada no decorrer da existência do último
mundo pela última grande civilização. Suas dimensões foram
calculadas com precisão...
Catherine assentiu com a cabeça novamente:
- Sim, vimos os mapas que ligam suas construções espalhadas
pelo mundo.
O copta ergueu os olhos, certificando-se de que eles ainda
acompanhavam o que dizia.
- A rede mundial do sistema de linhas de energia, que vocês
chamam linhas de Ley na Inglaterra, é uma das
manifestações do trabalho dessa civilização. O desastre que
dizimou a civilização anterior foi tão feroz, que acabou
fazendo com que o alinhamento dos continentes se
alterasse, a ponto de ficarem irreconhecíveis, mudando para
sempre os padrões energéticos do sol e da Terra e, por
conseqüência, a organização das linhas de Ley. Os homens e
mulheres que sobreviveram ao desastre viram-se
desabrigados e impotentes. Toda sua civilização se apoiara
no conhecimento e na compreensão dessas energias. E,
numa tentativa desesperada de salvar o próprio mundo,
encontraram a posição do novo centro de energia, aqui no
platô de Gizé, e começaram a reconstruir sua civilização,
partindo de sua tecnologia sagrada: a Grande Pirâmide -
Poimandres virou-se para olhar a pirâmide. O topo reluzia
sob a luz artificial. - Imagine uma bola, coberta de pelos, ou
os cabelos em uma cabeça humana. Em algum lugar da
superfície da bola ou da cabeça, uma única fibra ficará
levantada e todas as outras se alinharão a ela. É o mesmo que
acontece com o campo magnético do planeta.
Rutherford pensou em Ivan Bezumov: "O russo estava
certo, como o professor Kent suspeitava".
Poimandres afastou-se e dirigiu-se ao motorista, falando em
árabe. Em seguida, voltou-se novamente para eles.
- Mas não estamos seguros aqui. Temos que descer e entrar
no bir, o fosso. Só lá posso lhes revelar os segredos da
pirâmide e explicar por que o mundo corre perigo. Por
favor, sigam-me.
Em meio à escuridão Poimandres os conduziu à rampa que
seguia em direção ao leste a partir da segunda pirâmide, a
Pirâmide de Khafre, descendo até a esfinge. Enquanto os
últimos turistas saíam, os guardas se preparavam para
começar as rondas noturnas, a fim de garantir que ninguém
tentasse escalar as pirâmides.
Eles seguiram pela rampa em direção aos flancos da esfinge.
Mais ou menos na metade do caminho, Poimandres parou.
Trocou algumas palavras com o motorista e depois fez sinal
para que Catherine e Rutherford o seguissem quando ele
pulasse da rampa sobre a areia.
O motorista permaneceu onde estava. "Provavelmente este
será o vigia", pensou Rutherford.
Os dois seguiram Poimandres pela areia e, para surpresa de
ambos, avistaram a entrada de um túnel embaixo dos
grandes blocos de pedra calcária que formavam a base da
rampa. Entrando no túnel, a uma distância de mais ou
menos um 1,80 metros, ficava um portão composto de
grossas barras de ferro. Poimandres remexeu os bolsos do
seu jellaba e tirou um conjunto de chaves grandes, fazendo
um sinal para que eles se aproximassem da entrada do túnel,
afastando-se do campo de visão dos turistas e de qualquer
guarda que porventura passasse.
Ele destrancou o portão e fez sinal para que Catherine e
Rutherford entrassem pelo que, na verdade, era uma
pequena caverna. Ajoelhou-se e ligou uma luz fraca. No
canto da caverna havia um fosso, com uma escada de aço
que descia ao poço. Poimandres fechou o portão e disse:
- Serei o primeiro. Venham atrás de mim. E tenham
cuidado, é muito escorregadio.
Catherine e Rutherford olharam-se surpresos. O copta
queria que o seguissem ao interior das entranhas da terra.
Quando Poimandres desapareceu na escuridão, Rutherford
respirou fundo:
- Faltam apenas cinco horas para o amanhecer, não há mais
como voltar atrás. Quer ir primeiro?
Catherine encheu-se de coragem e agarrou a parte superior
da escada.
- Tudo bem. Encontro você lá embaixo.
"Se houver 'lá embaixo'", pensou Rutherford.

65

O secretário Miller, batendo as mãos na roupa para se livrar
da poeira, e seus dois guarda-costas desceram do caminhão
no hangar do heliporto. Os três homens brancos
musculosos, usando óculos escuros, camisetas pretas e
carregando rifles de assalto, protegiam a entrada. O
secretário sentia-se desconfortável e vulnerável naquele
terno empoeirado.
De repente, ocorreu-lhe uma solução. Era agora ou nunca.
Levantou o braço direito para tocar a pistola que carregava
no coldre preso ao ombro e, em seguida, fazendo um breve
sinal com a cabeça para os dois guarda-costas, atravessou a
passagem estreita entre as portas deslizantes do hangar do
heliporto.
Mas, enquanto seus olhos se acostumavam ao negrume do
lugar, percebeu que estava em apuros. Antes que pudesse
dar dois passos à frente, sentiu o aço frio do cano de uma
arma pressionada contra a têmpora. Então, no momento
seguinte, as luzes do hangar piscaram, revelando a tremenda
extensão do erro que o secretário cometera. Diante dele
havia uma dúzia de homens com as armas em punho.
O secretário Miller e seus dois guarda-costas não tiveram
tempo sequer de pensar, e já ouviam uma voz dizer entre-
dentes:
- Muito bem, vocês dois, para trás. Deitem já com a cara no
chão.
Os dois guarda-costas do secretário entreolharam-se e em
seguida cumpriram a ordem, deitando-se no frio chão de
concreto.
O homem que apontava a arma para a têmpora do secretário
escorregou a mão pelo coldre no seu ombro e, com calma,
pegou sua arma. A seguir, pressionando-lhe as costelas com
a arma, fez um sinal para que caminhasse pelo hangar na
direção da porta isolada na outra extremidade.
Com um pavor e uma ansiedade terríveis, o secretário Miller
começou a longa caminhada. Uma dúzia de helicópteros
desligados estava espalhada pelo local, semelhante a uma
caverna, lançando sombras estranhas, como dinossauros em
um museu.
O secretário seguiu em frente, inseguro, o estalido do salto
dos sapatos ecoavam pelo enorme hangar. Não havia
qualquer outro movimento, nenhum outro som. A cada
passo que dava, mais o coração se acelerava e mais aguçados
ficavam seus sentidos. O que deveria fazer agora? O que
dizer?
Em meio à escuridão, do outro lado do hangar, na parede
surgiu uma nesga de luz que passou a ficar do tamanho de
um retângulo branco, com o formato perfeito de uma porta.
O secretário apressou o passo, mas em seguida diminuiu o
ritmo ao aproximar-se do vão da porta. A luz que vinha de
fora era tão resplandecente, que não conseguia enxergar
nada, era como olhar para dentro de um universo paralelo.
Sabia que tinha de atravessá-lo. Por cima do ombro,
contemplou o local, vasto e arejado, e sentiu-se invadido por
uma estranha onda de tristeza. Logo em seguida, deu um
passo um à frente penetrando na luz.
Enxergou a pista e as pálidas dunas a distância, e ali, à sua
frente, um estranho tipo de aeronave. Era preta, do tamanho
aproximado de um avião bombardeiro que não pode ser
detectado por radar. Mas era mais arredondado, mais
achatado, tal qual um peixe volumoso de águas profundas,
que evoluíra com o objetivo específico de suportar os
milhões de toneladas de pressão no fundo do oceano. A cor
preta de aspecto aveludado parecia atrair toda a luz para sua
superfície. Era um belo espetáculo, realmente belo, mas,
contudo, irradiava uma força terrível. Da base da aeronave
uma escada retrátil desceu ao chão. No degrau mais alto
estava o senador Kurtz, acompanhado de dois outros
homens. O secretário sentiu o sangue gelar em suas veias. O
senador, com o rosto impassível como uma pedra, ergueu
uma pistola na mão direita e a apontou para a testa do
secretário.
Tomado pelo pânico, o secretário Miller gaguejou:
- Não! Por favor, vamos conversar.
O senador Kurtz nem mesmo piscou, puxou o gatilho. A
cabeça do secretário explodiu em pedaços e o corpo foi ao
chão, tal qual uma boneca de pano. Com toda calma, o
senador aproximou-se para examinar os danos. Olhou para
baixo na direção do corpo desfigurado e balançou a cabeça:
- Descanse em paz, pecador. Que Deus o poupe no dia do
juízo final, que não tarda a chegar.
Deu meia-volta, guardou a arma no coldre preso ao ombro e
caminhou lentamente de volta à estranha aeronave.

66

Nove metros abaixo, a escada terminava em uma plataforma.
Poimandres tirou três pequenas lanternas do seu jellaba.
- Aqui. Peguem. Deste ponto em diante não há luz.
Catherine e Rutherford pegaram as suas e as guardaram nos
bolsos. Do outro lado da plataforma havia uma segunda
escada. Ainda existia luz suficiente para perceber que os
poços do fosso haviam sido feitos pelas mãos do homem,
não eram apenas fissuras na rocha.
Rutherford passou o dedo pela parede. Estava úmida.
"Quanto tempo tem este poço?", ele se perguntou em
pensamento.
Poimandres desaparecera para além da plataforma em
direção ao breu. Catherine agarrou-se ao topo da escada, e
enviou aos céus um pedido desesperado: "Não permita que
fiquemos presos aqui, por favor!".
Mais 9 metros abaixo e a escada terminava no canto de uma
caverna subterrânea úmida construída pelo homem.
Poimandres logo acendeu a lanterna. O brilho fraco era
suficiente para revelar as dimensões do local. Tinha em
torno de 12 metros de comprimento por 6 de largura e 3 de
altura.
Quando os olhos de Catherine se acostumaram à escuridão,
ela de repente notou que havia dois cofres de granito, cada
um deles de um lado da caverna escura.
- O que é que eles fazem aqui? - Rutherford desceu, pondo-
se ao seu lado. - Meu Deus! Sarcófagos!
Poimandres apontou para o canto do cômodo
claustrofóbico. Havia um buraco ainda mais escuro, um
outro bir que descia ainda mais fundo.
- Ainda não terminamos. Sigam-me.
Em silêncio, os três seguiram até a boca negra do poço.
Poimandres desligou a lanterna, guardando-a no bolso do
jellaba e, em seguida, agarrou a escada e lançou-se na negra
escuridão. Balançando a cabeça, contrariada, Catherine foi
logo atrás. Rutherford, mal acreditando no que faziam, deu
uma última olhada ao redor da caverna antes de acompanhá-
los rumo ao desconhecido.
Mais 12 metros abaixo, Rutherford chegou a um lugar
espaçoso. Ainda surpresa, Catherine olhava em volta,
apontando a lanterna em uma e outra direção. A sala,
embora fosse difícil ter uma impressão real devido à
escuridão, parecia ter em torno de 18 metros quadrados. O
teto era baixo, e pelas suas paredes escorria água. Rutherford
apontou a fraca lanterna em direção ao centro. Ali, tinha-se
a impressão de que havia uma ilhota rodeada por um fosso
como aqueles que rodeavam os castelos, cuja largura tinha
em torno de 3 metros. Na "ilha" era possível divisar montes
de pedra espalhados, como se tivessem um dia feito parte de
uma estrutura que há muito fora desmantelada ou destruída.
Poimandres esperou por eles e então disse:
- Chegamos ao fundo. Ou a "um fundo", para ser mais
preciso. O platô de Gizé é crivado de túneis e salas.
Catherine não conseguia acreditar no que acabara de ouvir.
- Catherine, esta sala não é nada. Há imensas criptas aqui
embaixo. Câmaras gigantes que contêm bibliotecas inteiras
sobre a sabedoria antiga. A câmara principal, a mais
importante de todas, é a sala dos registros, o repositório de
todo o conhecimento acumulado desde antes do grande
dilúvio.
Rutherford estava pasmo. Passara a vida inteira estudando
mitos e religiões antigas, tentando reconstruir o passado. E,
agora, estavam eles nas profundezas abaixo da superfície do
mundo, recebendo a informação de que os segredos da
história estavam bem ali.
- Mas, Poimandres... As pessoas abriram a sala de registros?
Você a viu? Aziz a viu?
Poimandres fez um sinal com a cabeça:
- Não. Eu poderia contar nos dedos o número de pessoas a
quem foi dada permissão de ver essa câmara.
Catherine não entendeu.
- Mas por que você, por que Aziz não revela isso ao mundo?
O semblante de Poimandres ficou sério.
- Aziz tem conhecimento apenas desta sala. Não sabe da sala
de registros, o que é ótimo, porque, de outro modo, tenho
certeza de que tentaria entrar lá e travá-la ou destruí-la...
Aziz não quer encontrar mais nada. Ou, para ser mais exato,
seus patrões não querem encontrar mais nada. Eles temem a
pirâmide e os seus segredos. Na verdade, eles têm pavor.
Não querem que ninguém saiba o que há aqui embaixo, e
sem dúvida não querem ninguém fazendo pesquisas aqui.
Rutherford estava boquiaberto.
- Mas por quê? E quem são os patrões de Aziz?
- Há uma organização chamada Corporação. Aqueles que
pensam estar no controle da Corporação são escravos do
poder. Eles acreditam que, controlando as pessoas e o
mundo que os cerca, conseguirão fazer o bem. Para atingir
esse objetivo, farão com que o mundo fique sujeito ao seu
domínio. Eles têm grande interesse em manter nossa crença
na versão ortodoxa da história - Poimandres fez uma pausa e
lançou-lhes um olhar sério. - Se a verdade viesse à tona,
toda a visão que a humanidade contemporânea tem do
mundo teria de mudar. Mais do que isso. As crenças que
sustentam a obsessão por crescimento que há no mundo
moderno se mostrariam como realmente são, perigosas, o
que levaria, a curto prazo, à pilhagem dos recursos naturais,
atitude que resultaria em mais um cataclismo inevitável. Se a
verdade viesse à tona, a população em geral não mais
suportaria a mentalidade do "crescimento a todo custo" e a
tremenda avareza e ganância que há por trás dela.
Estaríamos todos condenados.
Catherine estava pasma, e, assustada, dirigiu-se a Rutherford:
- Esta Corporação deve ter sido a responsável pelos
assassinatos do professor Kent e de Miguel Flores - sua voz
soava inconformismo. Era muita coisa para dar conta
naquele momento. Rutherford tocou-lhe o ombro com a
mão e virou-se para Poimandres:
- Ainda custo a acreditar que a existência das salas
subterrâneas e da sala de registros jamais tenha vindo à tona.
O olhar fixo do copta fazia um contraste considerável com
as expressões escandalizadas dos dois acadêmicos.
- Tudo o que sei é que Aziz e essas pessoas terríveis para
quem ele trabalha não querem que ninguém descubra a
verdade sobre os povos antigos.
Rutherford estava completamente perplexo:
- Por que você não quer que as pessoas saibam?
- O conhecimento nas mãos dos insensatos é letal, conforme
podemos perceber no mundo todo. As pessoas hoje em dia
não estão preparadas para ter tal conhecimento; não têm
sabedoria suficiente, e terminariam por fazer somente o mal.
Temos que esperar até o momento em que seja possível
confiar nas pessoas para que não abusem do poder que vem
com o conhecimento. Os homens por trás da Corporação,
loucos como são, ainda assim são normais para esta época
negra em que vivemos. Imagine o que eles tentariam fazer
se tomassem posse dos conhecimentos dos povos antigos.
Então... Como vocês podem ver, é do interesse de todos
nós, tanto nosso quanto de Aziz, manter tudo isso em
segredo.
Rutherford mal podia acreditar no que ouvia. Uma mina de
ouro de conhecimento, os verdadeiros registros dos
portadores da luz, estava ali ao alcance, entretanto, as únicas
pessoas que sabiam disso eram obrigadas a garantir que
jamais fosse encontrada.
- Mas, e se houver um outro cataclismo? E se o mundo for
destruído antes que as pessoas estejam prontas?
- Este é um risco que temos que correr. No fim das contas,
um outro mundo nascerá, tal como o que temos hoje,
surgido depois do grande dilúvio. Tudo o que podemos
esperar é que o próximo mundo se desenvolva com mais
harmonia, e que esses povos do futuro sejam os herdeiros
preparados para a sabedoria dos antigos.
Poimandres começou a andar na direção da beirada da água.
- Venham. Aproximem-se da ilha.
Em meio ao breu, era impossível imaginar a profundidade da
água oleosa e de cor negra, mas Poimandres não hesitou.
Pisou na superfície da água e, em vez de afundar, continuou
a atravessá-la. Cinco passos depois ele alcançava a terra
firme.
- Pisem onde pisei. Há uma rampa a mais ou menos um
centímetro e meio abaixo da superfície da água, exatamente
por onde cruzei.
Catherine olhou para Rutherford, e caminhou até a beirada
da água no ponto em que Poimandres pisara. Segurando a
respiração, buscou a rampa com o pé direito.
Tão logo o sapato que usava rompeu a tensão superficial da
água, Catherine sentiu a reconfortante presença da pedra
rígida, exatamente como Poimandres dissera. Com certo
nervosismo ela chegou à ilha. Rutherford cerrou os dentes e
foi logo atrás.
Poimandres começara a acender velas na ilha. Entre os
blocos de pedra espalhados havia um tablado. Ele dispôs seis
velas sobre a plataforma, e passou a se movimentar entre os
outros blocos, equilibrando as velas onde podia, até que os
megalitos estivessem marcados com os minúsculos pontos
brilhantes representados pela luz das velas. As bochechas do
copta estavam altas e firmes. A testa era protuberante e
forte. Mas seu rosto parecia cansado, quase dissecado sob a
luz fraca, mumificado.
- Sou membro da Igreja Católica mais antiga, a Igreja Cóptica
Egípcia. O evangelista São Marcos chegou a Alexandria, na
costa do Egito, em 45 d.C. e começou a pregar a palavra de
Jesus. Nossa cristandade remonta diretamente dele e dessa
época. Mas, além de ser um cristão cóptico, também sou
gnóstico, um seguidor da gnose,palavra do grego antigo que
significa "conhecimento" - Poimandres interrompeu o que
dizia por alguns instantes. - Nós gnósticos somos os
herdeiros dos últimos remanescentes de uma tradição
espiritual que já existia antes do dilúvio, os antepassados dos
projetistas das pirâmides, que chegaram a Gizé há muito
tempo. Eles sabiam que as almas eram imortais e que somos
todos fragmentos da consciência universal. Somos todos um.
Todas as pessoas, todas as plantas, toda matéria, tudo que
está contido na perpetuação da relação tempo-espaço.
Herdamos este conhecimento dos ancestrais que viveram
antes do dilúvio e o escondemos nos evangelhos de Jesus
Cristo. O verdadeiro cristianismo não é nada mais que a
continuação da sabedoria antiga. São Marcos era, sem
dúvida, um gnóstico, assim como eram todos os primeiros
cristãos. Hoje em dia, entretanto, as pessoas não percebem
esta verdade. Em vez disso, entendem a história literalmente
e lêem outros livros supostamente cristãos, como os escritos
de São Paulo. Mas São Paulo e os outros escritores que
surgiram após os evangelhos não eram gnósticos e, portanto,
seus livros não contêm a sabedoria antiga escondida neles. O
Cristianismo foi seqüestrado pela Igreja. Criou-se um
sacerdócio, a verdade ficou obscurecida e o conhecimento
da mensagem original se perdeu. Em vez de ser um veículo
da verdade, a Igreja tornou-se um veículo de poder e
repressão. E, por fim, na era moderna, a sociedade ocidental
descartou a Igreja. Tudo o que resta é o desejo de ter poder e
de controlar, a vontade de escravizar cada uma das pessoas e
a natureza.
Poimandres balançou a cabeça, inconformado, e continuou:
- Nos últimos anos surgiu outro perigo no mundo. Nasceu
uma Igreja radical que prega a verdade literal pregada pela
Bíblia. Essa igreja tenta destruir qualquer prova que infrinja
o relato bíblico da criação, incluindo a prova do último
mundo. Mas, pior do que isto, está decidida a transformar as
terríveis visões do Livro das Revelações em realidade. Neste
exato momento, seus líderes estão trabalhando para causar o
Armagedon final. Nosso medo é de que, se eles se
infiltrarem na Corporação, estaremos todos condenados,
porque terão acesso à riqueza e ao poder terreno ilimitados
desta Corporação. Essa nova Igreja é a incorporação da
rejeição da sabedoria antiga. Em vez de abraçar o cosmos e
considerar toda a natureza uma, ela busca destruir o
universo material de modo que reúna seus seguidores com
Deus. Ela não percebe que todos somos Deus - Poimandres,
aparentando um homem velho demais, suspirou. - Nós,
gnósticos, somos pacíficos. Não podemos empunhar armas
contra nossos inimigos porque isto iria contra os preceitos
da sabedoria antiga e contra o que Cristo pregou. A violência
apenas leva a mais violência, e o poder corrompe qualquer
um que tente se aliar a ele ou usá-lo. Portanto, nós
simplesmente jamais revelaremos os segredos da sabedoria
antiga a essas pessoas, nem lhes contaremos mentiras sob as
pirâmides.
Rutherford não conseguia acreditar no que ouvia. Ele tinha
informações sobre os gnósticos e sua tradição antiga, mas,
supostamente, eles estavam mortos há muito tempo.
Poimandres tocou no ponto-chave:
- Passado o último dilúvio, os humanos que sobreviveram
ficaram espalhados em bandos isolados em todo o mundo. A
humanidade foi maciçamente reduzida, mas não totalmente
dizimada. Os antigos vieram a Gizé, e para alguns outros
lugares ao redor do planeta, para tentar reconstruir seu
mundo entre os remanescentes da população humana.
Quando chegaram aqui, a terra era verde e fértil, e as pessoas
receptivas. Os antigos trouxeram a agricultura e o
conhecimento prático, e, o mais importante de tudo,
trouxeram o antigo conhecimento sobre a natureza
universal de Deus. Esse conhecimento sobreviveu por
milhares de anos, até que Pitágoras, o pai da ciência
ocidental, chegou ao Egito. Ao retornar à Grécia, ele levou
esses conhecimentos consigo e tornou-se a base da filosofia
e da ciência gregas. Logo após, nossos antepassados, os
primeiros cristãos gnósticos, procuraram trazer esse
conhecimento sobre a verdade aos judeus. E foi então que
os evangelhos foram escritos. O filho de um carpinteiro de
Nazaré, nascido de uma virgem, foi apresentado como o
símbolo de Osíris e de Dionísio aos judeus.
Rutherford não conseguia mais se conter:
- O quê? Você quer dizer que Jesus é apenas um símbolo de
Osíris e Dionísio? Está dizendo que Ele não existiu?
- Sim, e não. Ele foi uma pessoa real, mas também era uma
representação. Eles são todos, representações da mesma
idéia. Osíris morreu e ressuscitou, o mesmo aconteceu com
Dionísio e Jesus. Todos nasceram de mães virgens. Todos
tiveram doze seguidores. Todos nasceram sob a luz de uma
estrela. Todos são homens-deuses que se deixaram perseguir
por livre e espontânea vontade... Todos morrem por nossos
pecados e renascem, para que possamos renascer como
eles... Todos pregam o mesmo credo: se alguém lhe fizer o
mal, dê a outra face... Há apenas um deus. Os gnósticos
queriam trazer a sabedoria antiga aos judeus, que
trabalhavam, por engano, sob os mandamentos de um deus
tribal. A história de Cristo foi a tentativa de fazer isto.
Queríamos passar a sabedoria antiga adiante antes que
fôssemos destruídos...
De repente, Poimandres parou de falar.
- Eu já disse o suficiente. Temos pouco tempo. Preciso lhes
mostrar os segredos da pirâmide. Só é possível compreender
a harmonia do universo por meio do entendimento da
harmonia dos números. Onde a ciência ocidental moderna
enxerga números, que nada mais são do que ferramentas
para expressar a quantidade, a civilização anterior à nossa os
enxergava como componentes envolvidos em um quebra-
cabeça cósmico - o copta mantinha as mãos unidas como se
rezasse. - Um entendimento adequado dos números e das
proporções pode revelar as leis essenciais do próprio
universo. Os números divinos são aqueles que sempre vêm à
tona nas mais diversas áreas da vida, nas escalas musicais, no
espectro eletromagnético, no movimento das estrelas. Todos
os esforços das antigas civilizações se baseavam e diziam
respeito a esses números e fórmulas que foram enterrados
nos textos sagrados do mundo usando-se códigos
gemátricos.
Catherine sentiu aquela sensação já conhecida de
formigamento provocada pela excitação enquanto ouvia,
encantada, a explicação de Poimandres.
- Do mesmo modo, cada uma das últimas construções
sagradas da antigüidade também foi traçada de maneira tal
que suas dimensões deveriam ser relevantes em termos de
gematria. A arte da gematria não foi uma invenção grega. Os
egípcios a conheciam, porque por eles havia sido preservada
após o colapso da antiga ordem universal - Poimandres
ergueu os olhos, e agora parecia irradiar paciência e
sabedoria. - Há muitas portas que conduzem ao passado. Elas
permanecem escondidas, fora de nosso alcance, a menos
que se saiba o que procurar. A Grande Pirâmide é uma
dessas portas. E é um dos monumentos físicos que nos ligam
diretamente com a civilização que existiu antes do dilúvio.
Para entender os segredos, comecemos com o objeto físico
em si. Vocês conhecem as dimensões da Grande Pirâmide
de Gizé?
Catherine respondeu prontamente:
- Sim. Acho que conhecemos - e dirigiu-se a Rutherford: -
James?
- Sim. O comprimento de cada um dos lados da base é
230,124 metros, o que significa que o perímetro do toda a
pirâmide é de 920,496 metros. A altura é 148,65 metros, ou
275 cúbitos egípcios.
- Sim, está certo. E vocês sabem alguma coisa sobre
gematria?
Uma vez mais, Catherine olhou para Rutherford.
- Sim, sabemos, um pouco.
Poimandres parou de falar por alguns instantes, como se
estivesse decidindo de que modo trataria do assunto.
- Bem, 755, o comprimento dos lados na base, é igual em
valor a o petros, a rocha.
Ele caminhou ao redor do tablado de pedra em direção aos
dois e continuou, com toda cautela, como se temesse que
sua explicação pudesse confundi-los se fosse muito rápido.
- Bem, Jesus disse que seu discípulo Pedro era a pedra sobre
a qual ele construiria sua igreja. Petros, além de significar
rocha, é também o nome grego para Pedro. Lembrem-se.
Como eu disse, nós, os gnósticos, não entendemos o novo
testamento tão ao pé da letra quanto a maioria dos cristãos,
porque nunca nos esquecemos de que foi escrito em código
gemátrico. Ele é um modo de transferir a antiga sabedoria
por meio de uma história. A história corresponde à vida,
morte e ressurreição de Cristo. Pedro, a rocha, representa a
antiga sabedoria dos antepassados, como os que estão
contido na Grande Pirâmide de Gizé. Jesus construía sua
nova Igreja com base na antiga sabedoria, e ela está aqui,
para todos aqueles que souberem enxergar.
Rutherford ouvia tudo com deslumbramento. Ele era uma
autoridade mundial em mitos e religiões, mas podia sentir
que Poimandres os conduzia a águas desconhecidas, e que
isso em nada se parecia com um jogo acadêmico.
Poimandres estava prestes a revelar os segredos que haviam
ficado guardados com muito cuidado durante milênios.

67

Poimandres organizou os pensamentos.
- Como vocês devem ter visto, a Grande Pirâmide está sem o
ápice. Os cinco maiores cúbitos egípcios da estrutura foram
removidos há muito tempo, antes que o poder da antiga
sabedoria minguasse. Com o ápice removido, a pirâmide se
reduziu à altura atual de 275 cúbitos egípcios. Isto é o
mesmo que cinco cúbitos, porque um grande cúbito é igual
a 55 cúbitos egípcios. Não há nada de casual nisso, é claro.
Cinco é o número da criação e da regeneração. A simetria
pentagonal é a chave da vida. É a quintessência, as cinco
partes que compõem o todo: terra, ar, fogo, água, e mais o
quinto elemento, a centelha divina que produz a vida a
partir dos outros quatro. Cinqüenta e cinco também
corresponde, ele mesmo, a um número piramidal. A entrada
da Grande Pirâmide está, como não poderia deixar de ser,
localizada na 55a fileira de alvenaria.
Catherine e James aguardaram, ambos trespassados com o
que Poimandres dizia.
- O ápice que foi removido, na verdade, é outra pirâmide.
Sua altura, com a qual vocês não ficarão surpresos, é de 5
cúbitos egípcios. O principal dogma dos antigos, ou dos
portadores da luz, como vocês os chamam, era "assim como
é em cima, é embaixo". As mesmas regras que governam o
crescimento de uma única célula humana, também go-
vernam os movimentos das galáxias - ele começou a se
mover para trás, em direção ao tablado de granito. - Esta
segunda e pequena pirâmide, que foi removida da Grande
Pirâmide, também tinha um ápice, a pedra Benben. Tinha
um volume que correspondia a exatamente 5 polegadas
cúbicas, e caberia confortavelmente na palma da sua mão...
Durante muitos milhares de anos especulou-se sobre o que
fora feito da pedra Benben. Quem a removeu; onde estava
escondida; o que era...
Poimandres estava de costas para eles, debruçado sobre o
tablado.
- E esta, esta é a pedra Benben.
Ele deu meia-volta. Na palma de sua mão aberta estava uma
bela e resplandecente pirâmide, com alguns centímetros de
altura. No ápice havia um cristal, cintilando à luz da vela e
enchendo as paredes e o teto com um milhão de luzes
oscilantes.
Catherine e Rutherford ficaram sem ar, tamanha sua
admiração. Catherine não conseguia enxergar muito bem do
que era feita.
- De que é feito o ápice?
- É um diamante. É "o grão da semente da mostarda", kikkos
sinapeos, em grego. Tem um valor correspondente a 1.746
em gematria. Um círculo com a circunferência de 1.746
tem um diâmetro de 555. Uma vez mais voltamos ao 5.
Rutherford estava boquiaberto, sem palavras. Toda a
estrutura começava a fazer um sentido perfeito e divino, os
números pareciam fluir para baixo e para cima em torrentes
de perfeição cósmica.
Poimandres prosseguiu:
- Ele também corresponde à soma do sol, 666, e da lua,
1080. Como vocês devem saber, os alquimistas acreditavam
que a vida foi criada a partir da fusão do enxofre e do
mercúrio; aquele correspondendo ao sol e este à lua. Tudo
sobre a Terra é alimentado pelo sol; toda espécie de vida,
mesmo o movimento de rotação do planeta, deriva da
influência do campo gravitacional do sol. Mercúrio, a
centelha divina, combina-se com o enxofre para criar a vida
- ele olhou para Catherine e Rutherford com extrema
seriedade. - A força das pirâmides pode ser usada para o
bem, mas, nas mãos erradas, esta força pode causar um mal
terrível. Ninguém que não tenha recebido treinamento
adequado e não tenha a alma completamente pura pode ter
permissão de usar este poder. Por este motivo é que o ápice
da pirâmide foi removido quando a antiga sabedoria
declinou. Os antigos sabiam que a era das trevas se
aproximava, e decidiram remover a pedra Benben e os cinco
cúbitos de alvenaria do ápice, para que ninguém pudesse
religar a máquina.
Rutherford imediatamente pensou em Bezumov.
- Então... Ela é uma máquina?
O copta ergueu os olhos para Rutherford, seu rosto tinha um
aspecto sério:
- Oh, sim. A pirâmide é a maior máquina que já foi
construída. Sua estrutura foi projetada com o objetivo
precípuo de acumular a energia do universo. Ela foi posta
nesta posição para que a energia terrestre pudesse ser
afunilada e armazenada, e então transmitida para os muitos
lugares ao redor do mundo. Tão logo a pedra Benben
retorne ao topo da pirâmide, a máquina entrará em
funcionamento novamente. A energia que a move hoje em
dia é chamada campo magnético, e ainda é uma força pouco
conhecida.
Poimandres virou-se e, com todo cuidado, pôs a pedra
Benben sobre o tablado. Ela parecia gerar sua própria luz
interna, embora isto, é claro, fosse impossível. Sua grande
simplicidade e poder atraíram a atenção de Catherine.
- No interior da Terra, bem no centro, há uma massa de
ferro sólida e esférica quase do tamanho da lua. Ela está
suspensa em um fluido incandescente feito de ferro fundido,
que por sua vez está envolvido por uma camada de lava,
com milhares de quilômetros de espessura e toda envolta na
litosfera. Essa enorme bola de ferro que fica no centro de
nosso planeta gira mais rapidamente do que a porção
exterior do globo. Se isto ajuda a criar essas forças
magnéticas ninguém sabe dizer ao certo, o conhecimento
agora se perdeu. Os antigos sabiam como armazená-las e
manipulá-las. Como vocês viram, eles eram capazes de criar
estruturas imensas, extrair pedras e entalhar materiais mais
duros que o ferro, e sabiam controlar e ajustar o movimento
orbital do planeta.
Catherine pensava na mensagem secreta.
- Poimandres, preciso lhe fazer uma pergunta.
- Claro.
- Nossa busca consiste em descobrir o que causou o último
cataclismo e como podemos evitar que volte a acontecer.
Agora sabemos que o cataclismo foi causado pelo
deslizamento total e imediato da litosfera, e que isso estava
relacionado à precessão e ao movimento orbital da Terra.
Mas não entendemos bem por que isso voltará a acontecer.
Poimandres balançava a cabeça lentamente, demonstrando
que acompanhava o raciocínio de Catherine. Seu rosto
sábio, sorrindo para ela, transbordava entendimento:
- Vocês percorreram um longo caminho. Posso ajudá-los nos
últimos passos. Você está certa. O mundo moderno está
sendo alertado.
Caminhamos para outro apocalipse. A cada ano que passa, a
sabedoria antiga diminui, o número de pessoas que a
entendem é cada vez menor, ao passo que a força inimiga é
cada vez maior. Os mestres da Corporação estão cada vez
mais poderosos. Sua obsessão pelo mundo material, pelo
domínio da natureza e pela escravização de seus
semelhantes está nos precipitando para o abismo. Suas
máquinas e sistemas devoram o mundo, e a cada dia mais
recursos naturais são atirados à grande fogueira. Eles estão
literalmente pondo fogo no mundo - seu semblante
demonstrava uma incrível tristeza, quase como se
acreditasse não haver nenhuma esperança. - À medida que
homens sem escrúpulos atiçam suas fogueiras, as calotas
polares derretem. Quanto mais alimentam a fornalha de sua
cobiça, mais cresce a temperatura do planeta, mais rápido as
camadas de gelo se liquefazem.
Catherine balançou a cabeça, concordando com o que
Poimandres dizia, e tinha a sensação de que estava prestes a
tomar conhecimento do destino da humanidade pelas
palavras do frágil copta.
- A posição da litosfera de nosso lindo planeta é determinada
pela distribuição do seu peso pela superfície do planeta.
Embora a Terra seja uma esfera, seu peso não é distribuído
igualmente pela superfície da crosta. Em algumas regiões há
terra firme montanhosa, e ali a litosfera é espessa e pesada.
Na região superior da Antártida há uma camada de gelo cuja
espessura mede 1.600 metros, e pesa bilhões de toneladas.
Isso cria um peso enorme na parte inferior do planeta, que
ajuda a manter a litosfera em repouso. As forças centrífugas
se equilibram nesse mecanismo, e também pelo peso de
milhões de toneladas de gelo no Pólo Norte. Foram
necessários milhares de anos para que esse gelo se formasse.
Se permitissem que a natureza seguisse seu curso, isso
permaneceria assim até que a precessão do globo terrestre
aproximasse a Antártida do sol, e então, finalmente, muito
milênios mais tarde, ela começaria a derreter. E como se
fosse um relógio. Esta é a mensagem secreta. E isto o que os
antigos gênios estavam tentando nos dizer, e é uma das
razões pelas quais eles criaram o global grid, para influenciar
a precessão e nos poupar deste destino inevitável. Mas eles
eram muito poucos. Muitos deles não sobreviveram ao
próprio cataclismo. Passadas algumas gerações, estavam
todos mortos, deixando-nos apenas as ruínas de sua
tecnologia e seus alertas secretos contidos nos mitos.
Catherine estava horrorizada.
- Mas ainda não consigo entender por que corremos perigo.
Com toda certeza, ainda levará milênios para a precessão
causar outro dilúvio, não? Pode ser algo que ocorre
regularmente, entretanto, é um processo muito lento.
O velho copta lançou-lhe um olhar sério:
- Hoje a Terra está equilibrada, a crosta está numa posição
considerada correta para a atual distribuição de peso e há
pouco movimento. Contudo, se o gelo derreter e escorrer,
como aconteceu na última era do gelo, todo esse peso
colossal será redistribuído nos oceanos. Como
conseqüência, novamente a litosfera será obrigada a
reorganizar-se de maneira que possa continuar a girar. Nesse
ponto, ela voltará a escorregar e porá um fim à vida como a
conhecemos hoje. Atualmente testemunhamos o próprio
homem dando início a este processo. Não precisamos
aguardar o lento processo da precessão; nós mesmos
estamos derretendo o gelo. Os antigos jamais previram isso.
Eles jamais teriam imaginado que, mesmo cientes,
causaríamos nossa própria destruição.
Os olhos de Catherine se arregalaram de pavor. O que
Poimandres dizia tinha todo sentido.
- Poimandres, você acredita que seja muito tarde? Acha que
ainda podemos deter esses acontecimentos?
Mas, antes que ele conseguisse responder, ouviu-se um
ruído repentino, que emanava do fosso do poço. Eram
passos procurando fazer o mínimo de barulho possível
enquanto desciam os degraus da escada.

68

Da escuridão do poço surgiu Ivan Bezumov. Com um tom
bastante sarcástico, ele disse:
- Desculpem-me, incomodo?
O terno branco dava-lhe um aspecto fantasmagórico em
meio às sombras da câmara subterrânea. Ele colocou a mão
na parte interna do paletó, e quando a tirou Catherine
percebeu que segurava alguma coisa. Seu coração bateu
descompassado.
- O que é isso, Bezumov?
- Isto, Catherine, é uma arma. Uma Heckler e Koch, para ser
mais exato.
O russo engatilhou o cano da arma com a facilidade de um
profissional. Catherine, Rutherford e o copta nem se
mexeram.
- O que é que você está fazendo? Ficou maluco? Afaste isso.
- Não, Catherine, não estou maluco. E acho que a arma vai
ficar bem aqui. Quero que todos vocês se afastem da rocha.
Fiquem ali. Por favor, não façam nenhuma gracinha, como
dizem nos filmes. Vocês não serão os primeiros em quem
atiro, e duvido que serão os últimos.
Rutherford, muito alarmado, juntou-se aos outros:
- Por que você está fazendo isso, Bezumov?
Segurando o revólver na mão direita, de um modo quase
descontraído, Bezumov jogou a cabeça para trás e riu com
escárnio.
- Finalmente uma pergunta inteligente, dr. Rutherford. Eu
estava cansado da lerdeza lamentável com que se apreende
os conceitos da astronomia. Permita-me dizer-lhe por que
estou apontando esta arma para vocês. Chegou a hora de os
grandes educadores de Oxford aprenderem uma lição -
brandindo o cano da arma, ele os conduziu ao fundo da ilha.
- Estou fazendo isso porque um instrumento científico
fabuloso aguarda para ser religado.
Mantendo a arma apontada, Bezumov ajoelhou-se e
apanhou alguns pedregulhos, aproximando-se da beirada da
água. Em seguida, espalhou as pedras pela superfície.
Aquelas que caíram sobre a rampa permaneceram
parcialmente visíveis, e com esta espécie de guia ele co-
meçou a avançar pela passagem.
- Esta máquina representa a tecnologia mais importante que
o homem já desenvolveu. Seu projeto é tão engenhoso e
sofisticado, que ela utiliza o próprio movimento da Terra ao
redor do sol e o emprega para proteger o planeta.
Comparadas a ela, nossas idéias modernas para a produção
de energia são incrivelmente primitivas. Você está certa,
Catherine, esta máquina é um monumento à precessão, mas
também foi desenvolvida para controlar o movimento do
moinho. As energias de rotação da Terra podem ser
controladas e utilizadas.
Agora, Bezumov estava a apenas alguns metros deles.
Catherine conseguia enxergar seus olhos com toda clareza.
Pareciam quase distantes, como se ele estivesse programado
para agir automaticamente. Estava absorto em seus
pensamentos, profundamente concentrado neles, mas,
contudo, tinha um largo sorriso no rosto.
- Agora, finalmente, tenho a pedra Benben. Eu a colocarei
de volta em seu lugar no topo da Grande Pirâmide e as
correntes invisíveis que correm soltas pelo planeta uma vez
mais estarão sob o controle da humanidade.
Catherine não podia mais se conter, e sequer pensou na
arma.
- Não! Bezumov, você está cometendo um erro terrível. Os
antigos tiveram um motivo para remover a pedra Benben.
Bezumov a ignorou e deu um passo à frente na direção do
copta.
- Sr. Poimandres, muito obrigado pela palestra; achei muito
interessante, mas ela apenas confirmou todo meu trabalho.
Agora, se você não se importa, por favor, passe-me a pedra -
com um sorriso repugnante no rosto o russo avançou um
pouco mais. - E pensar que eu começava a me preocupar se
conseguiria encontrá-la a tempo.
Poimandres apertou a pedra contra o peito.
- Nunca! Só sobre o meu cadáver...
Levantando a mão direita e apontando com todo o cuidado a
arma para o peito do copta, o russo respondeu secamente:
- Imaginei que diria isso. Já que insiste...
Quando a arma disparou no espaço confinado da câmara, o
barulho foi tão alto que Catherine teve a impressão de que
seus tímpanos haviam estourado. Por instinto, agachou-se e
cobriu a cabeça. Quando voltou a si e abriu os olhos um
segundo depois, percebeu que Rutherford também ficara na
mesma posição, meio agachado e pronto para sair correndo.
No canto, o corpo de Poimandres caíra de um modo estra-
nho, e ela não conseguia ver se ele ainda respirava. O tiro
fora dado a uma pequena distância, por isso ela acreditava
que estivesse morto. Sentiu uma onda de raiva invadir-lhe o
corpo. Assim como acontecera com o professor, toda a
sabedoria de Poimandres fora aniquilada com um único ato
de violência insana.
O cheiro de pólvora irritou-lhe o nariz. Seu rosto estava
molhado de lágrimas, e na tentativa de se conter para não
avançar sobre o perverso russo, cerrou os dentes.
Quando Bezumov voltou a falar, tinha a voz firme:
- Vocês dois fiquem bem aí onde estão. Não tenho a
intenção de machucar ninguém, a menos, é claro, que seja
necessário.
Os ouvidos de Catherine zumbiam. Ela olhou para o corpo
de Poimandres amontoado no canto da câmara,
esparramando sangue sobre o chão de pedra. Pelo bem de
Poimandres, do professor, e de todos os detentores da
sabedoria antiga, os últimos baluartes contra a loucura
representada por Bezumov e a ainda mais sinistra
Corporação, ela sentia que tinha de fazer alguma coisa.
- Bezumov, o que você está fazendo é loucura - ela disse,
com a voz entrecortada de tanta emoção.
- Bobagem! Sou a única pessoa preparada para pôr a mão no
leme do globo e manejá-lo com segurança. Apenas eu
entendo a grande máquina. Se não me permitirem que dê
vazão à minha ambição, então a Terra será destruída.
Bezumov ergueu a pedra em sua mão. Seus olhos brilhavam
e o rosto irradiava a energia de um maníaco. Tinha a voz
grave e falava quase num sussurro:
- Durante cinco mil anos o planeta viveu um período
pacífico do ponto de vista ambiental. Mas isso é uma
aberração. Muito em breve o mundo voltará a ser o lugar
violento que na verdade é, e seremos todos banidos. Você
consegue imaginar como será quando um vulcão entrar em
erupção, já que a qualquer hora pode acontecer? Isso tem
sido bastante comum no decorrer da vida em nosso planeta,
e apenas uma coisa é certa. Voltará a acontecer. E quando
acontecer, as luzes se apagarão. A cinza e os resíduos, como
já aconteceu um dia, encherão o céu de poeira que impedirá
o sol de iluminar o planeta. As plantações não vingarão, a
civilização industrial entrará em colapso de imediato, o caos
reinará. Vocês duvidam desse futuro cenário? Vocês
realmente questionam o que digo? A história do passado é
também a história do futuro. Até o sr. Poimandres
concordaria comigo nesse ponto. Tanto os acontecimentos
passados quanto os futuros existem. Nenhum deles pode ser
alterado ou evitado, a menos que eu religue a máquina e
conduza a todos a uma situação de segurança.
Catherine olhou horrorizada para Bezumov. Suas terríveis
previsões podiam ter fundamento, mas ele ainda estava
completamente louco. Tinha que ser detido.
- Isto não está certo. Você destruirá tudo.
Os dentes de Bezumov lampejaram quando sorriu para ela,
sua autoconfiança era quase tangível no escuro.
- Não vou ficar aqui discutindo como uma acadêmica
qualquer. Tenho muito o que fazer.
Dando a conversa por encerrada, ele se virou e cruzou a
passagem de volta. Como um fantasma, caminhou
silenciosamente até o fosso do poço antes de se dirigir a eles
uma última vez:
- Não tentem me seguir. Se tentarem, não hesitarei em
atirar. Trancarei o portão lá de cima. Não se preocupem,
vocês não morrerão sufocados, e talvez, quem sabe mais
tarde, sejam até mesmo libertados, antes que morram de
sede ou de fome! Até logo.
Sacudindo a lanterna, Bezumov despareceu.

69

Catherine correu para perto de Poimandres, deitado de
costas ao lado do tablado. Sua mão direita agarrava a frente
ensopada de sangue do jellaba branco, enquanto o braço
esquerdo repousava inutilmente a seu lado. Catherine
agachou-se e tocou-lhe o pescoço, tentando encontrar o
pulso.
- James, ele ainda está vivo.
Rutherford estava em pé acima dos dois.
- Temos de levá-lo a um médico imediatamente. Vou tentar
sair.
Catherine virou a cabeça para olhá-lo.
- Não adianta. Você ouviu o que Bezumov disse.
Rutherford parecia desesperado.
- O que então podemos fazer? Não podemos simplesmente
ficar sentados enquanto Poimandres morre e Bezumov
religa a máquina.
Catherine consultou seu relógio.
- Falta apenas uma hora para amanhecer.
Ela se levantou. Tinhas as mãos penduradas ao lado do
corpo, como se não estivesse certa do que fazer. Balançando
a cabeça de um lado para outro, de repente falou:
- Certo. Vá e veja o que pode fazer. Mas, James, por favor,
tenha cuidado. Não acredito que chegamos tão longe para
acabar entregando a pedra Benben a Bezumov.
Rutherford virou-se, atravessou a água correndo e pegou o
caminho para o fosso do poço em direção à escada.
Enquanto isso, Catherine voltou-se para Poimandres.
Ajoelhou-se a seu lado e deitou sua cabeça sobre seus
joelhos. Bem baixinho, dirigiu-se ao copta inconsciente:
- Por favor, não desista de ter esperança, Poimandres.
Agüente firme...
Ivan Bezumov saiu do topo da escada e ingressou na gruta
abaixo da rampa. Após a escuridão intensa das cavernas
subterrâneas, a luz das estrelas que penetrava na gruta foi
um alívio abençoado. Mesmo sem a lanterna, ele conseguia
divisar o contorno do corpo do motorista deitado de bruços
sobre o chão. Deu umas batidas leves na roupa para tirar um
pouco da poeira, e então fechou o alçapão que ficava acima
do fosso do poço. Em seguida, encaixou o maciço cadeado e
o travou. Pulou sobre o cadáver do motorista, passou pelo
portão e o trancou. Ventava forte, uma tempestade se
formava. Nuvens de areia atravessavam o platô de Gizé e, a
distância, o céu negro estava em ebulição, com trovões
ressoando pelas antigas planícies do deserto.
Segundos depois, Bezumov subia, a passos largos, a rampa
que levava à Grande Pirâmide, tendo como única
companhia o vento frio e lamentoso do deserto.

70

Rutherford ressurgiu no pé da escada e atravessou
novamente a água; o suor escorria-lhe pela sobrancelha.
Sem ar, ele disse, ofegante: - Está trancado. Não sei o que
podemos fazer.
Catherine passava na testa de Poimandres o lenço embebido
na fresca água subterrânea. Os olhos do copta pareciam estar
quase se abrindo. Imediatamente, ela disse:
- Poimandres! Seja forte! Nós o tiraremos daqui.
Olhou para Rutherford sem saber o que fazer. Ele, por sua
vez, olhava desesperado para o copta. Continuando a
refrescar-lhe a testa, Catherine dirigiu-se ao paciente com
uma voz muito tranqüila, tentando, com todas as forças,
esconder a onda de emoção que ameaçava invadi-la:
- Poimandres, há algum outro modo de sairmos daqui? Há
uma saída secreta?
Sua boca se abriu e se fechou, e em seguida, com um esforço
sobre- -humano, ele disse:
- Na água...
Rutherford se abaixou, apoiando-se no joelho direito:
- Onde?
Poimandres soltou um gemido quase imperceptível, e
voltou a falar com a voz quase inaudível. Catherine
inclinou-se para a frente a fim de ouvi-lo melhor.
- Há um túnel secreto na água, atrás do tablado. Pegue-o,
nade, e você emergirá nas câmaras sagradas. Pegue a
bifurcação da direita, ela leva ao exterior por outro caminho.
O que quer que faça... Não... entre na sala dos registros. E se
você sobreviver, jamais conte a ninguém o que viu. Por
favor, você tem que prometer, você tem... - os olhos de
Poimandres se fecharam.
Rutherford estava em pé, olhou para a lanterna, cuja luz se
enfraquecia rapidamente. Contornou o tablado a passos
largos e parou na beira do negro fosso. Tinha três metros de
largura, e ao fundo estava a rocha da parede da caverna, que
se erguia de modo irregular até o teto. Era bem possível que
a água subterrânea fosse petróleo, pois era impossível
enxergar o fundo ou ver o que havia em suas profundezas.
Com todo cuidado, Catherine deitou a cabeça do ferido
sobre um dos jellabas enrolados e saiu de baixo dele e,
sussurrando, fez-lhe um juramento:
- Poimandres, eu prometo... Agüente firme...
Rutherford andava de um lado para outro com a lanterna
acesa, tentando desesperadamente encontrar um ângulo na
superfície da água que revelasse o que havia no fundo.
Catherine aproximou-se dele.
- Você consegue enxergar alguma coisa?
- Nada. Não tem jeito.
Catherine virou-se para ver Poimandres e em seguida olhou
para a água.
- Não temos alternativa. Precisamos tentar, ou ficaremos
presos aqui. Bezumov conseguirá o que quer, e Poimandres
morrerá.
Segurando o braço de James, ela tirou os sapatos e pisou na
água, mas o declive era acentuado. Catherine sentou-se na
beirada do fosso e entrou na água aos poucos. Era gelada e
totalmente escura. Cada átomo do seu corpo dava-lhe a
sensação de que uma corrente elétrica o atravessava
enquanto a água congelante a envolvia. Respirando com
dificuldade, remava com as mãos para manter a cabeça
acima da água. Agarrou-se à lateral, ergueu os olhos para
James e recuperou a respiração.
- Você vem?
Em silêncio, ele tirou os sapatos e entrou na água gelada,
com os olhos arregalados com o choque.
- Certo. Agora vejamos o que há lá embaixo...
Rutherford respirou fundo e desapareceu abaixo da
superfície. Tudo era escuro, silencioso e frio. Ele bateu o pé
no fundo e um momento depois tocou a parede de pedra
que ficava no extremo da sala. Apalpou seu entorno. A
parede era rugosa e tinha ondulações. Ele já começava a
perder o fôlego, e se tornava cada vez mais difícil ficar
submerso. Como um cego, tateou em volta e então, de
repente, lá estava. Abaixo dele, à direita, a parede
desapareceu e surgiu o túnel. Era largo, provavelmente um
metro de um ponto a outro. Havia espaço suficiente.
Exalando enquanto subia, ele eclodiu na superfície da
caverna:
- Encontrei. Ele está certo. Está lá.
Rutherford nadou para perto de Catherine, que tremia.
- Eu vou primeiro. Siga-me logo atrás. Se você ficar sem ar,
volte.
Ambos inspiraram profundamente e em seguida
mergulharam as cabeças na água gelada e em direção ao
silencioso reino subaquático.
Rutherford dirigiu-se rapidamente para o túnel. Verificando
sua localização novamente, hesitou por um instante antes de
lançar-se no desconhecido. Depois de três fortes braçadas,
ele ainda nadava. Os pulmões começavam a sentir a pressão.
Catherine, uma excelente nadadora, estava logo atrás. Ela
conseguia sentir os rodopiantes redemoinhos provocados
pelas batidas de seus pés. Tentou ficar calma, uma outra
braçada, e mais outra. Mas ela sentia o pânico começando a
se instalar. De repente, Rutherford percebeu que conseguia
enxergar as próprias mãos na água à sua frente. Havia luz.
Aliviado, Rutherford subiu rapidamente à superfície,
acompanhado de Catherine logo atrás. Um tanto confusos,
os dois se debateram, esforçando-se para respirar, sem
entender onde estavam.
- Que lugar é este? - Rutherford perguntou sem pensar.
Eles estavam em uma estreita piscina natural, com dois
metros quadrados de área. Os lados da piscina eram feitos de
granito ricamente torneado. Ao redor havia uma pequena
sala, quase duas vezes o tamanho da piscina, com um 1,50
metros de altura. Dois degraus perfeitamente esculpidos
serviam para sair da piscina em direção a um vão que se
abria para um túnel. A sala tinha paredes lisas,
impecavelmente lisas, como o interior da câmara real. Eram
decoradas com hieróglifos, pintados com uma espécie de
substância dourada que lhes dava um brilho delicado no
escuro. O teto da pequena sala também brilhava. Era coberto
de milhares de pontinhos de luz. Catherine ficou
boquiaberta com toda aquela beleza.
- Isso é incrível! São estrelas! Olhe, é a constelação de Orion
acima de nós.
Rutherford arrastou-se pelos degraus e a ajudou a sair.
Ficaram ali em pé por um momento, trespassados pelos
surpreendentes efeitos luminosos.
Atordoado, Rutherford disse:
- Estes hieróglifos. Eu nunca tinha visto nenhum deles, nem
mesmo um... São todos símbolos desconhecidos. Imagine o
que o mundo pensaria, imagine o que isso tudo significa...
Catherine olhava pelo vão da porta em direção à passagem
escura.
- O que você acha que há lá na frente?
Caminharam até o vão e tentaram enxergar o escuro da
passagem.
- Não tenho idéia. Isso é inacreditável... - Rutherford não
conseguia tirar os olhos das lindas paredes.
Catherine ingressou na passagem. Não era tão escura quanto
parecia, e também tinha um brilho de estrelas no teto
iluminando o caminho. Com o coração aos pulos, ela
começou a explorar o caminho. Rutherford, dando uma
última olhada na extraordinária disposição dos símbolos,
virou-se e a seguiu.
Quando Bezumov chegou à fileira inferior de alvenaria no
lado sul da Grande Pirâmide, o primeiro tiro ecoou pelo
platô de Gizé. O vento trazia gritos, mas não em árabe, em
inglês. Alguém o vira. Ele agarrou a pedra Benben junto ao
peito e, com a mão que estava livre, apoiou-se para subir o
primeiro degrau. Sentia-se como um liliputiano em uma
terra de gigantes. Virou-se para contemplar o deserto, as
costas exerciam pressão contra o peso morto da cantaria da
segunda fileira. Não havia ninguém por perto. Em quem
atiravam? Onde estavam?
De repente, no alto do céu noturno, próximo ao topo da
pirâmide, um foguete de sinalização explodiu como um fogo
de artifício, produzindo uma luz branca e fosforescente.
"Então, eles ainda não me viram..."
Com todo cuidado, Bezumov pisou no próximo degrau, usou
a mão como apoio novamente e arrastou-se, atingindo o
próximo nível. O foguete de sinalização, que por um
momento iluminara a face sul como se estivesse suspenso
nos céus, foi apanhado pelo vento e arrastado a uma
tremenda velocidade para o meio do deserto. Bezumov
voltava a ficar mergulhado no escuro.
Impaciente, ele escalou a pirâmide com dificuldade, com
cada nível representando um novo esforço. O tempo
passava. Outro foguete sinalizador subiu ao céu. Bezumov
encolheu-se contra a pedra, tentando se esconder o máximo
possível. Agora, já estava na metade do caminho. A vista
dali de cima causava vertigem. Ele enxergava os vultos
correndo em direção à base da pirâmide, enquanto o vento
varria também o segundo foguete par o meio do deserto. A
ventania levantava a areia das dunas e a levantava em
enormes nuvens rodopiantes. Aqueles homens sabiam que
ele estava ali em cima?
O russo virou-se para a rocha fria e continuou a subir. Não
havia onde se esconder, tinha que prosseguir. Os blocos de
granito ficavam menores, agora que ele se aproximava do
topo, o que era um grande alívio. Acelerou o passo. De
repente, para seu espanto, a luz de uma lanterna atingiu seu
braço direito, que estava estendido. A luz continuou a
percorrer a extensa parede da pirâmide, e como um
fantasma amarelado faiscava aqui e ali, como um círculo de
luz dançante. Bezumov voltou a ficar imóvel. Não faltava
muito para chegar ao topo. Olhando para baixo, conseguia
divisar quatro homens em pé junto à base da face sul; um
deles segurava a lanterna.
Tomado pelo pânico, Bezumov olhava para a direita e para a
esquerda da fileira de blocos em que estava. Não faltava
muito para atingir o topo, e o canto das faces sul e oeste
estava a aproximadamente 9 metros à sua esquerda.
Encostando-se ainda mais contra a pedra, começou a andar
de lado, arrastando os pés ao longo das saliências da pedra. A
luz da lanterna ziguezagueava pela cantaria em seu redor.
Faltavam apenas 2 metros. Foi então que o feixe de luz
parou exatamente sobre ele, apanhando-o em meio à
escuridão, iluminando-lhe o peito e a cabeça como um anjo
no meio da noite.
Logo em seguida, Bezumov ouviu um tiro, e balas voaram
penetrando a pedra em ambos os lados de onde estava.
Quando os projéteis atingiram o granito, produziram um
estampido violento. Desesperado, dirigiu-se rapidamente ao
canto da pirâmide, quase não conseguindo se segurar. Em
seguida, numa última investida aflita, arrastou-se pela parede
contornando o canto da pirâmide em direção à face oeste.
Seus perseguidores começaram a correr em volta do lado da
pirâmide. Ele dispunha apenas de alguns segundos para agir.
Olhou para cima. Não faltava muito para subir. Com muita
cautela, pousou a pedra Benben sobre o degrau acima dele.
Ato contínuo, puxou o revólver e, usando a experiência de
muitos anos de treinamento como militar soviético,
começou a atirar sistematicamente.

71

De mãos dadas, Catherine e Rutherford seguiram em frente,
pé ante pé, pela passagem que levava ao corredor escuro.
Era impossível saber ou dizer quanto tempo ela estivera ali,
oculta. Sequer havia qualquer indicação de quando fora
construída, a não ser pelo fato de que, do ponto de vista
técnico, a maestria extraordinária com que fora criado
aquele lugar era comparável às câmaras internas da Grande
Pirâmide. Com os olhos maravilhados, Rutherford mal podia
conter a surpresa, e sussurrou:
- Catherine, é isso! Este é o segredo de nossas origens. A raça
humana já foi notável antes. O mundo anterior ao nosso
realmente existiu. Este é seu último monumento.
Catherine, com o queixo caído de tanta admiração e temor,
tentava enxergar o que havia em meio à escuridão.
Como era de se esperar, 15 metros à frente a passagem
chegou a uma bifurcação. A segunda passagem era
construída com as mesmas lajes de granito perfeitamente
unidas. Os intervalos entre os grandes blocos eram finos
como fios de cabelo e as superfícies das paredes, da mesma
forma como os tetos enfeitados de estrelas, haviam sido
polidas até ficarem lisas como gelo.
À direita, o túnel sofria um declínio e parecia estreitar-se,
para então desaparecer na escuridão. À esquerda, elevava-se
de modo imperceptível, e 30 ou 40 metros à frente
mergulhava em um brilho dourado cuja luz era
aconchegante e reconfortante. Rutherford largou a mão de
Catherine, abismado com a beleza da estranha luz que
parecia atraí-lo para si.
- Meu Deus, nunca vi nada como isso...
Catherine, com seu rosto iluminado por aquele brilho suave,
ficou lado a lado com Rutherford.
- O que é isto? O que pode haver para além dali?
Os dois entreolharam-se. Catherine agarrou a mão de
Rutherford e a apertou:
- Lembre-se do que Poimandres disse, para pegarmos o
caminho à direita.
Rutherford a fitou. Seus olhos, que sequer piscavam, mal
registravam as palavras que ouvia.
- Temos que ver. Temos que ir até lá e ver. Não podemos
perder esta oportunidade.
Catherine estava dividida. A luz dourada a atraía em sua
direção, mas sua consciência relutava, lembrando-lhe das
palavras de Poimandres e da promessa de fazer o que ele
pedira. Os dois começaram a descer pela passagem, sem
forças para tirar os olhos da luz nem para recuar.
Tão logo se aproximaram da fonte de luz, o corredor se abriu
abruptamente em um panorama inimaginavelmente
estranho. Antes, abaixo e acima deles estava uma vasta
câmara do tamanho de uma catedral, com centenas de
metros de comprimento. Jamais, nem mesmo em seus
sonhos mais loucos, esperavam ver tal coisa, tantos metros
abaixo do solo.
O corredor os despejara em uma saliência de granito a meio
caminho de um dos lados da câmara, que tinha 80 metros de
altura, e ficaram em pé sobre aquele precipício, chocados
com o que viam. Abaixo deles, mais de 30 pirâmides se
erguiam do chão, os topos atingindo a metade da altura da
parede, cada uma revestida com uma bela pedra branca, com
os ápices feitos de uma espécie de metal branco. Uma linda
luz elétrica diáfana azul lançava-se alternadamente entre
elas, lambendo uma e outra como uma língua de fogo de
outro mundo. Toda a estrutura emitia um ruído semelhante
a um zumbido fraco, e à medida que a língua de luz azul,
com 20 metros de comprimento, se espalhava pela sala,
passando de um ápice a outro, produzia um estampido,
como o som de madeira seca no forno. Catherine olhava
tudo aquilo com um misto de horror e fascinação.
- Que raios de lugar é este?
Rutherford, igualmente espantado e enlevado pela sinistra
visão que tinham diante de si, respondeu:
- Não faço a menor idéia. Mas acho que estamos na presença
de alguma forma de tecnologia natural, mas muito além de
nosso entendimento.
Era verdade. Enquanto Catherine se encantava com a vista
extraordinária diante deles, não pôde deixar de pensar que
este era o verdadeiro coração da máquina. A saliência sobre
a qual estavam apoiados rodeava toda a enorme sala. A
intervalos regulares, havia escadas que desciam ao andar
inferior, e à cada mais ou menos 15 metros ao redor das
saliência outros corredores, como aquele pelo qual
acabavam de entrar na câmara, desapareciam no interior da
rocha. Os olhos de Rutherford estavam vidrados. Ele deu
meia-volta, dirigindo-se a Catherine.
- Temos que prosseguir. Veja!
Com o braço esticado, ele apontou para o outro extremo da
grande sala. Havia um enorme vão banhado de luz. A luz
irradiava da abertura, e acima da passagem hieróglifos belos
e colossais, ainda desconhecidos, brilhavam, representando
uma mensagem antiga e enigmática.
- A sala dos registros! - James mal podia conter a alegria. -
Tem que ser. Eu sei que é. Por ali... Podemos contornar a
saliência. Venha!
- Não James, vamos voltar. Prometi a Poimandres, e ele está
morrendo, enquanto falamos. Temos que deter Bezumov.
Era disso que ele falava, esta é a máquina que ele quer
religar. Mas ele não tem a menor noção do que está fazendo,
não sabe muito bem com o que está mexendo. Temos que
detê-lo. Agora!
Rutherford olhou para ela com uma expressão de desespero.
Fez um gesto abrindo a mão, como se dissesse: "Veja, não
podemos perder esta oportunidade".
- Mas... Não podemos simplesmente deixar...
Catherine pegou as duas mãos de James e olhou-o firme,
como se tentasse reverter o feitiço da máquina. E, com
calma, lhe disse:
- Podemos voltar. Ela ainda estará aqui. Temos um trabalho a
fazer no mundo atual. Voltaremos a lidar com o mundo
anterior quando pudermos. Venha. Temos que ir... Antes
que seja muito tarde...
Rutherford olhou para trás, contemplando a imensa sala de
um canto a outro, com os olhos pregados na grande
passagem. Balançou a cabeça em sinal de inconformismo, e
então voltou seus olhos para os próprios pés.
- Mas nós a vimos, não vimos? Não estamos sonhando,
estamos?
Catherine fitou o rapaz, e em seguida o magnífico lugar que
se estendia à sua frente, muito abaixo do platô de Gizé.
- Não, não estamos sonhando. Agora sabemos, uma outra
civilização existiu com sua extraordinária tecnologia, e
pereceu, assim como pode acontecer com a nossa - ela
tornou a olhar para ele. - James, não temos tempo a perder.
Não precisamos da sala dos registros. Temos todo o
conhecimento de que precisamos. Não percebeu ainda? Não
há mais segredos. Temos que deter Bezumov e a
Corporação, e temos que mudar o estilo de vida das pessoas.
É tudo o que o professor Kent sempre disse. Mas não quero
que Poimandres tenha um fim solitário como teve o
professor. Quero que ele seja resgatado, e farei tudo o que
for necessário para que isto aconteça. Restam muito poucas
pessoas como ele no mundo, e precisamos delas.
Rutherford ouviu tudo em silêncio, e então, voltando-se
para ela, balançou a cabeça em sinal de concordância:
- Você está certa, Catherine.
Catherine ficou na ponta dos pés e lhe deu um beijo no
rosto. Dando meia-volta, puxou-o pela mão enquanto
mergulhava novamente no túnel que haviam atravessado.
Com rapidez, voltaram pelo mesmo caminho, passando de
novo pela curva que levava à sala com a piscina e seguindo
em frente pela passagem à direita, que Poimandres lhes
dissera para pegar. A cada passo que davam a passagem
ficava mais escura, começando a dobrar-se para a direita,
logo formando uma curva tão fechada que, ao olhar para
trás, ambos não conseguiam mais enxergar a abertura para a
enorme câmara. Finalmente, percorridos 50 ou 60 metros, a
cantaria mudou de aspecto. O granito bem cortado e polido
deu lugar a uma rocha áspera e não trabalhada, e o teto era
caído, forçando-os a se agachar. Mais 100 metros à frente, e
o corredor terminou abruptamente em uma pilha de
entulho e areia que caíam de uma fissura de dois metros de
largura na rocha. Rutherford olhou para aquilo consternado:
- Ela despencou. Como vamos sair daqui agora?
Catherine remexeu o entulho no alto da fissura.
- Podemos engatinhar.
Ela se apoiou no entulho e escorregou para dentro da fissura
na rocha. Era como se estivesse com a cabeça entre as
mandíbulas de um leão, poderia despencar a qualquer
momento. Tentando não pensar nisso, começou a arrastar
seu corpo para a frente, de barriga para baixo, avançando
com as mãos. Catherine conseguia ouvir Rutherford cavan-
do atrás de si.
Após percorrer 10 metros fazendo esse trabalho penoso,
com o rosto pingando suor, a passagem estava bloqueada
pela areia. Desesperada, escarafunchou o areão, furiosa com
o fato de estarem impedidos de sair.
"Não pode acabar assim. Não aqui, não agora, por favor..."
Catherine lutou, e abriu caminho cavando a saída e, de
repente, sentiu o ar fresco noturno do platô. Um borrifo de
areia fina empoeirou-lhe o rosto, mas ela podia sentir o
sopro de ar fresco na pele. Cavou com a obstinação de uma
toupeira, usando as mãos como se fossem pás. Finalmente,
empurrou o rosto para fora, e o lamento da tempestade de
areia ao seu redor representava o som da felicidade.
- Conseguimos!
Movendo-se com dificuldade, como uma criatura que
emergisse de um ovo, arrastou-se pelo entulho composto de
areia e pedaços de rocha, finalmente chegado ao mundo
exterior. Exausta, Catherine jogou-se no chão, deitando de
lado. Um momento depois, a cabeça de Rutherford emergiu
no vento e em seguida chegou ao lado de fora, juntando-se a
ela sobre uma duna, com as pernas e os braços abertos sobre
a areia, sob as nuvens carregadas e as estrelas. O céu já
clareava, anunciando o amanhecer.
Eles ficaram deitados por alguns instantes, procurando
recuperar o fôlego, até que Rutherford virou-se de bruços e
olhou ao redor. Ali, a cerca de 200 metros de distância,
estava a face oeste da Grande Pirâmide e na base, ao redor
da lateral, ele enxergou claramente diversos vultos se
movimentando. Antes que conseguisse distingui-los, ou
mesmo entender tudo o que acabara de acontecer, um
tiroteio começou. De modo instintivo, ambos colaram-se ao
chão.
- Quem é? Estão atirando em nós?
Eles perceberam a alternância nos disparos feitos por armas
automáticas.
Então, de repente, um foguete sinalizador explodiu no alto,
com a luz fosforescente iluminado a areia abaixo. Rutherford
engatinhou até a base da duna sobre a qual estavam deitados.
Mal podia acreditar no que via.
- Meu Deus, olhe! E Bezumov, ele está quase no topo.
Catherine aproximou-se e tirou o cabelo do rosto. Ali, no
alto da lateral da pirâmide, a apenas alguns níveis do cume,
estava Bezumov. Primeiro o foguete sinalizador, e depois a
luz da lanterna focalizaram seu estranho vulto contra a
colossal construção de pedra. Parecia um homem prestes a
cometer suicídio, vacilando no topo de um edifício, mas não
ele, porque sua determinação o fazia subir, sem remorso,
como um caranguejo, em direção ao topo. Projéteis voavam
pelo ar, atingindo o granito em torno dele, mas com
paciência, como um montanhista experiente, ele escalava os
blocos de granito, um após o outro, subindo cada vez mais
alto.
Quase sem pensar, Catherine e Rutherford se levantaram.
Diante de seus próprios olhos, Bezumov ia ficando fora de
alcance. Estava quase amanhecendo. Parecia não haver nada
que pudessem fazer agora para detê-lo. Tudo aquilo pelo que
haviam passado fora em vão?

72

Com um último esforço hercúleo, Bezumov arrastou-se até
o topo da Grande Pirâmide, que tinha em torno de 7 metros
de altura por 7 de largura. O vento batia na roupa e
ameaçava empurrá-lo lá de cima. Enquanto engatinhava e
procurava ficar longe do campo de visão dos atiradores de
elite logo abaixo, protegido pelos milhões de toneladas de
pedra, ele deu uma gargalhada sinistra.
— Consegui! Estou aqui! Agora veremos! Agora o mundo
saberá que estou certo!
Pôs-se de pé e segurou a pedra Benben nas mãos diante de si
como se fosse uma jóia preciosa. Seus olhos selvagens
buscaram o orbe ardente do sol no horizonte, mas o céu
tempestuoso estava tão nublado que lhe impedia esta visão.
Ao contemplar o infinito, Bezumov ouviu um barulho
terrível abafando até mesmo o som do vento uivante. Era
como se os motores de milhares de aviões estivessem sendo
ligados em uníssono. Em meio à confusão, olhou ao redor,
agarrando a pedra contra o peito. O pânico tomou-lhe a
face. Deu meia-volta; o vento cortante e a escuridão
impenetrável deixando-o ainda mais desorientado. Então,
ele a viu. A menos de 10 metros de distância, uma aeronave
preta monstruosa surgiu na paisagem. Pairou diante dele,
como uma espécie de inseto escuro e estranho. Seu
arcabouço enorme, arredondado, achatado, tinha um
diâmetro de mais de 18 metros de um extremo a outro. Na
parte da frente, duas antenas semelhantes a uma lança
apontavam agressivamente em sua direção. Entre as duas
antenas havia um pára-brisa preto, na mesma altura que ele.
Deu uma olhadela e, em seguida virou-se para o leste. Lá,
em meio à escuridão, estava o inconfundível primeiro brilho
do sol do amanhecer. Girando o corpo, Bezumov soltou um
grito no meio da noite que terminava:
— Jamais! Vocês jamais me deterão! Chegaram tarde demais!
Plantou os pés com firmeza no centro do topo. Abaixo dele
repousava toda a massa colossal da pirâmide. Ergueu as mãos
acima da cabeça e apontou a pedra Benben na direção das
estrelas que sumiam. Naquele exato momento, a tempestade
elétrica parecia nascer. Lampejos azuis de luz incandesciam
as nuvens ao redor, correndo de um lado para outro, vindos
de todas as direções, como se fosse um incêndio numa
floresta celestial.
Catherine e Rutherford, embora estivessem a centenas de
metros no meio do deserto, não puderam deixar de recuar
enquanto todo o brilho no céu parecia correr pelo
firmamento, antes de despencar na forma de um enorme
lampejo ofuscante sobre o topo da Grande Pirâmide. Houve
um trovão monumental e uma gigantesca explosão, centenas
de vezes mais brilhante do que os foguetes sinalizadores que
haviam sido lançados no céu momentos antes. Eles tentaram
se afastar, mas foram jogados ao chão pela força da explosão.
Então, houve uma segunda explosão, ainda mais ruidosa do
que a primeira. Era a estranha aeronave. Parecia ter sido
atingida por um grande raio, e explodira no mesmo instante.
Uma chuva de escombros metálicos espalhou-se em todas as
direções. Catherine se encolheu, e Rutherford a envolveu
para protegê-la, pedindo a Deus que nenhum dos estilhaços
incandescentes que caíam do céu os atingisse.
Os últimos pedaços dos destroços chocaram-se com a terra,
e então tudo ficou em silêncio. Mesmo o vento parecia ter
abrandado, carregado pela enorme explosão. Catherine
espiou o entorno por entre as mãos. A pirâmide continuava
firme. A noite sumia atrás de sua imensa estrutura, enquanto
o sol nascia. Era a manhã do equinócio da primavera, e a
cena voltava a ser a mesma de dez mil anos antes. A gran-
diosidade das pirâmides dando um testemunho mudo da
insensatez da humanidade. Catherine engatinhou até a duna.
Havia pedaços queimados da fuselagem espalhados por toda
parte. Mais perto da pirâmide, divisou, à luz do amanhecer,
os corpos de diversas pessoas jogados ao chão. Rutherford
engatinhou, juntando-se a ela. Ambos contemplavam a cena
estranhamente silenciosa, absolutamente chocados, sem
saber o que dizer. Viam carros da polícia egípcia chegando e
policiais alarmados saindo dos carros com todo cuidado,
remexendo os escombros que ardiam sem chamas na base
da pirâmide. Rutherford localizou algo brilhando na areia, a
mais ou menos 20 metros à frente deles.
— Ei, olhe. O que é aquilo?
Catherine começou a se levantar:
— Misericórdia! Não pode ser...
Catherine, ora engatinhando, ora correndo, foi em direção
ao objeto. Virou-se e gritou para James:
— É! É a pedra Benben!
Rutherford juntou-se a ela e, ambos se rastejando,
aproximaram-se do objeto com muita cautela. Ali estava ela,
aparentemente intacta, sua perfeita superfície dourada
brilhando delicadamente na noite, assim como seu
diamante, que brilhava como uma estrela. Catherine
inclinou-se para a frente para apanhá-la.
— Isso é incrível. Como é que ela ficou inteira? Nossa! -
Catherine a soltou tão logo a tocara. - Está fervendo!
Rutherford rasgou a manga da camisa ainda molhada e a
jogou sobre o tremeluzente prêmio. Com muito cuidado,
enrolando o pedaço de pano em volta do metal para cobri-lo
por completo, pegou a pedra preciosa.
— Consegui! - James olhou para o platô em direção à rampa
e à entrada do bir. Os policiais corriam e gritavam
— Olhe ali — disse ele. — Eles devem ter encontrado o
corpo do motorista. Isso é bom. Eles descerão ao poço e
agora encontrarão Poimandres - correndo os olhos pelo
platô, ele procurou uma rota de fuga.
As sirenes da polícia enchiam o ar com seu barulho terrível,
e diversos holofotes, geralmente usados para produções
oferecidas aos turistas, uniram-se ao sol nascente para
iluminar as quatro faces da pirâmide. Ruthedrford agarrou a
mão de Catherine:
— Certo. Esta é a nossa deixa.
Ambos se viraram e, aprumando-se, seguiram em direção às
dunas e à tranqüilidade do deserto.

73

Mais tarde, naquele mesmo dia, Rutherford acordou deitado
sobre frescos lençóis de algodão em um quarto de hotel
limpo e parcimoniosamente decorado. A luz do sol
penetrava pelas janelas e uma brisa leve agitava as cortinas
brancas e diáfanas. Lá fora havia um céu azul e sem nuvens.
No mesmo instante, as aventuras vividas na noite anterior
voltaram-lhe à mente. Virou a cabeça cheia de
preocupações para ver Catherine deitada a seu lado,
dormindo profundamente. Então, é isto, não fora tudo fruto
de sua imaginação.
Seus olhos percorreram o quarto do hotel e pousaram sobre
a camisa rasgada, que estava sobre uma cadeira do outro
lado. Olhando-a de relance e tentando fazer o mínimo de
barulho possível, saiu da cama e pegou a camisa e o que
havia dentro. Com muito cuidado, pôs a trouxa sobre a cama
e a desmanchou delicadamente. Ali, diante dele, em toda
sua glória misteriosa, estava a pedra Benben. Naquele
momento, Catherine virou-se e abriu os olhos.
— James! Onde estamos?
Ele sorriu ternamente, inclinou-se e beijou-lhe os lábios
delicadamente.
— Estamos no hotel que encontramos ontem à noite, em
algum lugar no subúrbio do Cairo. E não sei que horas são.
Catherine olhou para a pedra Benben.
— Então, quer dizer que nós realmente a recuperamos; não
foi apenas um sonho maluco. E Bezumov...
Rutherford concluiu o que ela dizia:
— Bezumov já era. Assim como os chefes da Corporação. Eu
acho. A estranha aeronave que explodiu em um milhão de
pedaços devia pertencer a eles. Está tudo acabado. Estamos
seguros por enquanto. Olhe! - James virou-se para a janela
com um sorriso. — Está um dia lindo!
Catherine sentou-se apoiada nos cotovelos e olhou na
direção do tranqüilo céu azul.
— No entanto, o que terá acontecido com Poimandres?
Precisamos ver se ele está bem.
Rutherford pôs-se de pé.
— Vou até a recepção agora mesmo e pedirei que entrem em
contato com o hospital de Gizé para ver se ele está lá. Acho
que devemos ir visitá-lo.
Catherine observou os belos traços da pedra, dando-lhe
pancadinhas leves.
— Sim, e temos de encontrar um modo de devolver este
objeto extraordinário.
Rutherford abotoou a camisa, calçou as botas e as amarrou.
— Por que não toma um banho e se levanta? Estarei de volta
em dez minutos. Então, poderemos sair.
Catherine sorriu-lhe. A brisa soprava pela janela, deslocando
a cortina e fazendo com que a luz do sol brilhasse em seu
rosto.
— James!
Rutherford virou-se, já com a mão na porta:
— Sim?
Catherine deu-lhe um sorriso radiante:
— Obrigada por tudo.
Poimandres estava deitado na cama do hospital. O lençol
fresco puxado até a altura do queixo. A luz do sol, quente e
vital, entrava pelas aletas da persiana. Seu rosto, mais do que
nunca, tinha o aspecto austero da máscara mortuária de um
faraó morto muito tempo atrás. A enfermeira contornou a
lateral da cama e tocou-lhe o ombro com delicadeza. Então,
inclinou-se e sussurrou alguma coisa em seu ouvido. No
mesmo instante, Poimandres abriu os olhos. Por um
momento, deu a impressão de estar perdido e as pupilas
percorreram o cômodo, mas tão logo enxergou as duas
visitas, sorriu.
De algum modo, o fato de sorrir parecia trazer cor e vida a
seu rosto. Catherine contornou a cama e sentou-se na
cadeira ao lado do criado mudo. Rutherford permanecia em
pé, na extremidade da cama. A enfermeira cumprimentou
Catherine, acenando com a cabeça, e saiu. Catherine
inclinou-se na direção do enfermo. Não sabia muito bem
por onde começar. Ela mesma não estava muito certa do
que acontecera.
— Sr. Poimandres, está tudo bem. A pedra Benben está
conosco. Nós a resgatamos após a explosão, ontem à noite -
ela apanhou a bolsa e a pôs no colo. — Como podemos
devolvê-la? - ela olhou ao redor da enfermaria. Uma cortina
separava a cama de Poimandres dos outros pacientes. Não
parecia o local mais adequado para um artefato tão
importante.
Poimandres abriu e fechou a boca. Um sorriso débil, porém
determinado, separou-lhe os lábios. Então, reunindo as
últimas reservas de energia, falou:
— Não tem problema. A pedra Benben não é importante.
O copta notou o olhar chocado e surpreso no rosto dos dois.
Tossindo brandamente, recomeçou. Era primordial que eles
entendessem.
— Não representa nada. E apenas um símbolo.
Catherine mal podia acreditar no que ouvia.
— Você quer dizer que ela não funciona? Mas nós vimos...
Ontem à noite... Ela...
Poimandres tornou a tossir.
— Ela funciona. Só não tem de ser esta pedra em particular.
A Benben é um componente da máquina, mas somente
servirá para aqueles que souberem como construir outra.
Felizmente, este conhecimento não é muito difundido.
Rutherford riu sozinho. "Bem valeu a pena quase morrer por
isso."
Poimandres desviou o olhar para ele.
— Por favor, apenas livrem-se dela. Esta seria a atitude mais
segura a tomar.
Rutherford balançou a cabeça, concordando com o pedido.
Poimandres passou a língua pelos lábios secos e retomou o
que dizia:
— Houve milagres. Chegamos perto da morte. O homem de
branco foi detido. A corporação foi impedida de entender o
poder das pirâmides. Alguns deles, pelo menos, foram
mortos, e por enquanto seus planos diabólicos foram
adiados.
Catherine franziu o cenho:
— Mas eles ainda estão destruindo o mundo. Nós só os
detemos por um dia. Agora entendemos que o derretimento
do gelo fará com que a litosfera escorregue. O que podemos
fazer?
Rutherford deu uma olhada para verificar se a enfermeira
estava em algum lugar de onde pudesse ser vista:
— Quem sabe nós mesmos não descobrimos como funciona
a máquina? Poderíamos aproveitar sua energia e tirar a
humanidade da beira do abismo. Talvez Bezumov tenha tido
a idéia certa, mas apenas a técnica errada.
— Não, James. Ninguém está pronto para controlar essa
força. Deve-se resistir à tentação de usar a máquina ou de
abrir a sala de registros. Você já tem conhecimento
suficiente para isso. Se tentar combater a Corporação com
essa força, será destruído por ela, ou a própria força o
corromperá, assim como fez com os chefes da Corporação.
Há apenas um modo de derrotar a Corporação.
— Como? — Catherine perguntou.
— É simples. Vocês têm de explicar a verdade às pessoas.
Mas não podem coagi-las a mudar de idéia. Vocês mesmos
acabariam se transformando em uma nova Corporação.
Lembrem-se, a verdade é mais poderosa do que qualquer
força física do universo - Poimandres sorriu. — Estamos
ingressando em uma nova era. A Corporação parece ainda
mais poderosa, mas isso é um erro. Estamos mais perto de
derrotá-los do que jamais estivemos. Se for possível fazer
com que as pessoas enxerguem a verdade, elas perceberão
que as curas modernas geradas pelo
"desenvolvimento" e pelo crescimento econômico são, na
verdade, doenças; entenderão que isso leva à escravização. E
preciso apenas que a próxima geração acredite e transmita
esta crença aos filhos. Então, estaremos livres. Finalmente
livres dos grilhões da Corporação, e evitaremos a chegada do
cataclismo. Acredito que somos capazes de fazer isso.
Devemos fazê-lo. E se não fizermos, então nossa espécie
não merece ser salva. No fim das contas, como vocês podem
ver, é muito simples - Poimandres parou de falar para tomar
fôlego. — Agora vocês entendem por que a sala dos
registros não é importante, nem qualquer outro
conhecimento secreto. Devemos abdicar voluntariamente
de todo desejo de poder e riqueza, porque é por meio desses
desejos que a Corporação pode nos controlar. Se
conseguirmos virar as costas para tal materialismo, então a
Corporação, e suas filiais corruptas, serão desmascaradas pelo
que realmente são, um atalho para o fim. Mas isso exigirá
um grande esforço. Agora vão. Voltem às suas pátrias e
espalhem a verdade. O presente ainda pertence a eles, mas o
futuro... O futuro pertence a nós.
Poimandres teve um acesso de tosse seca. A enfermeira
retornou, e olhou seriamente para Catherine e Rutherford.
O copta fez uma última tentativa:
— Agora vocês estão seguros.
Rutherford estava preocupado.
— Mas... E a explosão? Ela não vai atrair a atenção da polícia
egípcia e da mídia? E quanto aos destroços da estranha
aeronave?
Reunindo suas últimas reservas de energia, Poimandres
respondeu:
— O governo egípcio encobrirá tudo. Acontecem muitas
coisas estranhas em Gizé. Vocês não têm nada a temer.
Concentrem-se no futuro.
A enfermeira deu um passo à frente em direção ao leito de
Poimandres e se dirigiu aos dois acadêmicos:
— Vocês têm que ir agora. O senhor Poimandres ainda não
está em condições de falar muito.
Catherine levantou-se.
— Sim, claro, desculpe-nos - e inclinou-se para que
Poimandres pudesse ouvi-la sem dificuldade. — Faremos
tudo conforme suas orientações. Alertaremos as pessoas e as
convenceremos a mudar. Espalharemos a verdade. Nós
prometemos.

74

Ao sair do hospital, mergulhando na intensa luz do sol,
Catherine de repente percebeu que aquela era a primeira
vez, após um longo tempo, que pisava em um lugar público
sem ter de olhar para trás. Era a primeira vez que se sentia à
vontade desde o dia em que soubera da morte do professor,
e soltou um profundo suspiro de satisfação:
— Então, quer dizer que temos uma tarefa a cumprir agora.
Mas, primeiro, creio que merecemos um descanso. Vamos
ao aeroporto ver se conseguimos um vôo de volta para
Londres?
Rutherford sorriu-lhe:
— Sim, acho que vimos e aprendemos o suficiente para uma
viagem. É hora de voltar para casa.
Catherine fechou os olhos e desfrutou a sensação da luz do
sol aquecendo-lhe a pele. Quando tornou a abri-los, James
se fora. Olhou ao redor, cheia de ansiedade, e então o viu de
pé, na entrada de uma loja de suvenires a alguns passos dali.
— Só vai levar um minuto. Tem uma coisa que prometi a
mim mesmo fazer antes de deixarmos o Egito - ele tinha um
sorriso no rosto. Catherine olhou para ele sem entender:
— James, o que você está fazendo?
— Espere. Vou levar apenas um minuto.
Rutherford abriu caminho entre os transeuntes na calçada
em direção à espelunca que vendia lembrancinhas. O
interior representava uma caverna de Alladin, cheia de
bugigangas e quinquilharias para turistas, bolsas de couro,
camelos de couro, tapetes persas, narguilés e grandes
bandejas de bijuterias, com anéis, colares e brincos, todos
feitos dos mais diversos materiais, alguns gravados com
símbolos egípcios. Ele vasculhou as caixas e as bandejas de
bijuterias. Sobre uma pequena mesa, havia uma camada de
espuma na qual estavam presos uma dúzia de anéis, simples
aros prateados, com garras que prendiam pedras coloridas,
mas não preciosas. Analisando a bandeja, Rutherford
escolheu um anel. Um senhor idoso, sem dúvida o dono da
loja, aproximou-se dele saindo dos fundos da loja,
ligeiramente surpreso em ver um cliente. Rutherford
dirigiu-se a ele e sorriu:
— Eu gostaria de comprar este anel.
O dono da loja grunhiu:
— Cem libras egípcias.
Rutherford não se importou de pagar além do que seria
justo.
— Feito. Mas quero que tire a pedra.
O idoso olhou para ele sem entender. Rutherford gesticulou
para mostrar o que queria, mas o homem continuava
confuso.
— Tirar a pedra? Mas ainda cem libras. Não mais barato sem
pedra.
Rutherford fez sinal com a cabeça, concordando:
— Sim, eu entendo. Pagarei o mesmo valor, não se
preocupe. Aqui está o dinheiro.
O velho homem balançou a cabeça, como se dissesse que
não entendia e sorriu:
— Turistas malucos!
Ele arrastou os pés até os fundos da loja e vasculhou diversas
caixas. Rutherford olhou pela porta de vidro da loja.
Catherine estava sob o sol, na calçada, observando os
transeuntes. Seu coração se encheu de ternura ao vê-la. O
velho tocou-lhe o cotovelo.
— Dê.
Rutherford entregou-lhe o anel.
O velho tinha um par de alicates na mão. Com habilidade,
desdobrou a garra de metal que segurava a pedra no lugar
em cima do anel. Depois, virou o anel de cabeça para baixo
e a pedra caiu na palma da sua mão. Ofereceu-a a
Rutherford, que sorriu e balançou a cabeça, dizendo que não
a queria.
— Guarde-a. Agora, esta é a próxima coisa que quero que
faça...
Do bolso, Rutherford tirou a pedra Benben. Os olhos do
velho se arregalaram de prazer quando viu o diamante preso
ao topo da pequena pirâmide. Rutherford fez um gesto com
a mão para indicar que queria a remoção do diamante e a
inserção dele na garra do anel.
— Ah!
Agora o velho entendera. Sorriu alegremente para
Rutherford e, tirando a pedra Benben de sua mão, dirigiu-se
rapidamente aos fundos da loja e uma vez mais vasculhou as
caixas de ferramentas. Depois de resmungar um pouco e de
diversas tentativas de extrair a pedra com diferentes
instrumentos, soltou um grito de satisfação.
O velho segurou o diamante para que Rutherford pudesse
inspecioná-lo, e então começou a fixá-lo diligentemente na
garra do anel. Um minuto depois, após um ajuste delicado,
devolveu o trabalho concluído a Rutherford.
— Presente! — disse o velho egípcio com orgulho.
Rutherford abriu um largo sorriso:
— Exatamente!
Rutherford pagou-lhe, deu meia-volta e atravessou a porta
de vidro em direção à rua. O velho, fascinado, caminhou até
a porta para observar seu estranho cliente ir embora.
Rutherford respirou fundo e então, cruzando a calçada,
caminhou em direção à confusa Catherine.
— O que você fez com a pedra Benben?
Com um brilho no olhar, Rutherford respondeu:
— Bem... Pensei transformá-la em um anel de noivado.
O lindo rosto de Catherine ruborizou-se, transformando
suas bochechas em lindas rosas. Sorriu como nunca sorrira
antes, e, aceitando o anel sem hesitar, colocou-o no dedo e
mergulhou num abraço apaixonado, envolvida nos braços
fortes de seu tão conturbado amor.
Chá preto produzido na China.
Caio Valério Catulo (84 a. C.-54 a. C.), sofisticado e controverso poeta veronense que viveu em
Roma, durante o final do período republicano. (N. T.)
Organização oficial responsável pela produção de mapas na Inglaterra. (N. T.)
Dispositivos para a exploração da energia das ondas e das marés. (N. T.)
Golpe de misericórdia. (N.T.)
Alguns estudiosos acreditam que a cônica pedra Benben representava o primeiro monte de terra
e marcava o ponto onde os primeiros raios de sol caíam de Rá. A forma cônica marcava o
caminho do faraó para o paraíso, ascendendo os raios do sol. Outros acreditam que a pedra era
na verdade um meteorito de ferro e representava a semente do deus mais antigo, Aton, que criou
o planeta através da masturbação: a palavra "benben" significa "copular". A tampa em forma de
pirâmide em um obelisco poderia representar o divino órgão sexual de Aton e sua semente.
(Disponível em: http://discoverybrasil.com/egito/monumento/pedra_benben/index.shtml.) (N.
R.)
Túnica larga com mangas compridas e capuz. (N. T.)



 
 
 
 
 
 
Lançamento Gênesis do Conhecimento
Pirâmide - Tom Martin
 
 
links ao final da mensagem
 
 
digitalização, formatação e revisão - Lucia Garcia
Agradecimentos a Sérgio Rodrigues pela doação do livro para o Memorial do Conhecimento
 
 
 
 
 
Sinopse:
 
Kentum importante professor de Oxford é encontrado morto nas montanhas peruanas próximas à cidade de Machu Picchu.
A jovem professora Catherine Donovan recebe a notícia ao chegar a Oxford, mas não consegue entender como um homem tão gentil, alguém que ela conhecia tão bem, poderia estar morto. Sem contar que, pouco antes de ouvir a notícia da morte, ela havia recebido cópias de importantes mapas antigos e uma misteriosa sequência numérica. Para desvendar o enigma, Catherine procura a ajuda de um especialista em mitologia, James Rutheford, e, juntos, partem para o Peru a fim de seguir as pistas deixadas pelo professor Kent.
Porém, os dois não esperavam ter de enfrentar uma misteriosa - e poderosa - organização que fará de tudo para impedi-los. O que os levará não somente a correr contra o tempo para desvendar os mistérios mas também para evitar que se transformem nas próximas vítimas.
Será que as pistas deixadas pelo professor são realmente informações sobre um eminente cataclisma ou não passam de uma armadilha que colocará a vida de Catherine e James em perigo?
 
 
 

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