OS INCRÍVEIS EFEITOS DA MEDITAÇÃO NO CÉREBRO E NA PSIQUE
A meditação é objeto de interesse crescente na medicina. Sua indicação está se
tornando cada vez mais comum no tratamento e prevenção de doenças imunológicas,
do sistema cardiorrespiratório, dos distúrbios do sono, do estresse, da dor.
Médicos começam a adotá-la como técnica complementar no controle da hipertensão
e arritmias cardíacas. Desde que foi capa da Time, em 2003, o assunto tem sido
freqüentemente veiculado pela mídia – como o recente Globo Repórter que mostrou
a prática de meditação por médicos e enfermeiros do Hospital de Apoio de
Brasília.
A monja
Coen Sensei, da tradição zen-budista, diz ter perdido a conta de quantas
pessoas ensinou a meditar, no Japão e no Brasil. "Foram centenas, talvez
milhares. O interesse pela meditação é internacional e cresce também entre
empresários", diz ela, que começou a praticar durante o boom da meditação nos
Estados Unidos pós-guerra do Vietnã. Foi assim também com Susan Andrews, monja
do tantra ioga que fundou o Instituto Visão Futuro em Porangaba (SP) e calcula
já ter treinado mais de dez mil pessoas em seus 35 anos como instrutora de
meditação, em vários países.
Mais de
cinco mil pessoas já passaram pelos cursos ministrados por Lia Diskin na
Associação Palas Athena, em São Paulo. A psicopedagoga Vivi Tuppy, formada pela
Palas, levou para Araçatuba e Birigüi (SP) o programa Educadores da Paz, com
práticas de atenção com foco na respiração que já alcançaram cerca de 17 mil
alunos e professores das redes estadual e municipal de ensino. O resultado foi
o aumento nos índices de aprendizagem e redução da violência na escola e
comunidade. Essas são apenas algumas experiências.
Neuroplasticidade
Os estudos publicados em revistas científicas também se multiplicaram nas
últimas décadas. Particularmente nos Estados Unidos, mas também no Brasil – em
instituições respeitadas como a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o
Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP) do Hospital Albert Einstein e a
Universidade de São Paulo (USP).
Neuroplasticidade
é palavra-chave das pesquisas mais atuais. O termo refere-se à capacidade de o
cérebro mudar sua estrutura e função – os circuitos neuronais mais usados se
expandem e fortalecem, ao passo que aqueles não usados, ou usados raramente, se
encurtam e enfraquecem. "Espera-se que, aprendendo a fomentar e controlar a
neuroplasticidade, ela possa trazer benefícios em casos de doenças
degenerativas e imunológicas, e lesões por trauma e vasculares", observa João
Radvany,neurologista, psiquiatra e neurorradiologista do Hospital Albert
Einstein.
Radvany
prepara-se para dar início a uma pesquisa, financiada pelo Instituto de Ensino
e Pesquisa (IEP) do Einstein, que tem como objetivo verificar os efeitos da
meditação na atenção e concentração de um grupo de médicos. O estudo será feito
em colaboração com Edson Amaro Jr., coordenador de pesquisa em neuroimagem no
IEP, e Elisa Kozasa, pesquisadora em técnicas de meditação da Unidade de
Medicina Comportamental da Unifesp, com o uso da técnica de ressonância
magnética funcional, que permite verificar as áreas ativadas no cérebro durante
a prática.
Diálogos
Mind and Life
O impulso para o desenvolvimento dessas pesquisas deve-se principalmente à
associação entre o líder espiritual tibetano Dalai Lama e o biólogo chileno
Francisco Varela (1950-2001), então chefe da Unidade de Neurodinâmica do
Hospital Salpetrière, em Paris. Nasceu daí o Mind and Life Institute, que desde
1987 realiza encontros anuais – um ano no Ocidente, e outro, informal, em
Dharamsala, na Índia, onde Sua Santidade vive exilado – para um diálogo entre
homens e mulheres de ciência e monges budistas sobre a natureza do universo e
da mente.
Os
encontros do Mind and Life reúnem cientistas dos mais respeitados centros de
pesquisa dos Estados Unidos, tais como Harvard, Princeton, Duke, Califórnia.
Com o objetivo de responder a um desafio – Como criar e manter uma mente
saudável? –, a partir de 1990 cientistas filiados à instituição começaram a
investigar os efeitos neurobiológicos da meditação.
Embora
divulgados, eles só foram abertos ao público em 2003. O segundo diálogo aberto
aconteceu em novembro passado em Washington (EUA), com o tema Investigando a
Mente 2005: Aplicações Clínicas e Científicas da Meditação. Em sua passagem por
São Paulo, Sua Santidade falou sobre essas experiências no seminário Compaixão
e Sabedoria– a construção da saúde pessoal e coletiva, realizado dia 28 de
abril no Palácio de Convenções do Anhembi, com a participação da Unifesp/Escola
Paulista de Medicina.
Participação
brasileira
Em 2004, o Mind and Life deu início a um programa de verão anual de uma semana,
o Summer Research Institute, em que a apresentação e debate dos temas
científicos eram alternados com períodos de meditação que somavam cerca de três
horas diárias. Entre os pesquisadores selecionados encontrava-se a bióloga e
pesquisadora brasileira Elisa Kozasa, que participou também do Summer Research
de 2005.
Autora de
uma tese de doutorado sobre os efeitos – positivos – da meditação e da
respiração da ioga na ansiedade, depressão e atenção, Kozasa é co-orientadora
de vários projetos de mestrado em meditação na Unifesp e se prepara para fazer
pós-doutorado avaliando as áreas cerebrais relacionadas à meditação, através da
técnica de neuroimagem funcional. Seu interesse foi despertado aos 12 anos pela
prática de aikidô, e mais tarde pela leitura de livros como Autobiografia de um
Iogue, de Paramahansa Yogananda, e Diálogos Entre Cientistas e Sábios, de René
Weber.
Também o
interesse do neurologista João Radvany pela meditação, estranhamente, foi
despertado por um esporte – a natação. Hoje, além de nadar ele pratica tai chi
chuan e meditação zen. "Todos os estímulos do mundo externo e interno são
levados ao tronco cerebral, onde uma rede de neurônios mantém o estado acordado
e de atenção como se fosse uma luz, de intensidade variável e direção
itinerante, para iluminar a experiência que a gerou", explica Radvany. "As
áreas frontais do cérebro fixam o foco dessa luz, gerando concentração no
estímulo que a consciência escolhe. A meditação orienta o farol para que incida
num determinado aspecto da experiência, excluindo todo o resto."
Estudos
do cérebro
Tanto Radvany como Kozasa ressaltam, entre os estudos realizados por
pesquisadores que participam do Mind and Life, os experimentos de Sara Lazar,
doutora em biologia molecular pela Universidade de Harvard e praticante de ioga
e meditação por aproximadamente dez anos. Em um trabalho publicado em 2000, ela
e sua equipe de pesquisadores mostraram que é possível verificar variações da
atividade cerebral mesmo em pessoas com pouca prática de meditação, com o uso
de ressonância magnética funcional.
Outro
estudo de imagem da mesma pesquisadora, publicado em 2005, mostrou que áreas
específicas do córtex cerebral, a camada externa do cérebro, eram mais espessas
em praticantes pouco experientes de um tipo de meditação conhecida como mindfulness,
comumente praticada nos Estados Unidos. "Ela mostrou que não é preciso meditar
o dia inteiro para produzir alterações estruturais no cérebro. E que é possível
retardar a atrofia de certas áreas cerebrais relacionadas à idade", observa
Radvany.
O neurocientista
Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin, em Madison, colaborador do
Dalai Lama desde 1992, é um dos principais pesquisadores da neuroplasticidade.
"Os neurocientistas acreditavam que nascemos com determinado número de
neurônios, e que as mudanças ocorridas com o desenvolvimento seriam apenas nas
conexões entre essas células e as células moribundas. Nos últimos dois anos,
descobrimos que isso não é verdade. Já foi demonstrado nos humanos que crescem
neurônios novos durante a vida inteira. É uma descoberta fantástica" – disse
ele no diálogo ocorrido em 2000 em Dharamsala, relatado no livro Como Lidar com
Emoções Destrutivas – Para Viver em Paz com Você e os Outros (Editora Campus),
de autoria do Dalai Lama e de Daniel Goleman.
Outro
pesquisador importante é Jon Kabat-Zinn, diretor da Clínica de Redução do
Estresse, professor de medicina da Universidade de Massachusetts e um dos
autores do livro A Mente Alerta (Editora Objetiva). Para Radvany, o mérito de
Kabat-Zinn, criador do método de meditação conhecido como mindfulness behavior
stress reduction (MBSR), "foi chamar a atenção para o fato de que é possível
transformar todas as atividades diárias em meditação, no sentido de baixar o
tônus vegetativo – que é o antídoto do estresse".
Em outras
palavras: "Como você pensa, você se torna. Se diariamente, durante a profunda
concentração da meditação, redirecionamos o nosso estado mental para longe dos
estreitos e negativos padrões de pensamento, em direção a um sentimento de
compaixão e tranqüilidade interior, nossas mentes gradualmente se tornam
repletas de amor e paz" – como diz Susan Andrews e, na qualidade de aprendiz,
posso testemunhar.
Tecnologias
não-invasivas
A investigação da natureza cognitiva e da emoção no cérebro, com o nível de
detalhamento atual, só se tornou possível pelo poder das tecnologias não-
invasivas. "A máquina de ressonância magnética tem um metro e meio de
comprimento, pesa de 20 a 30 toneladas e faz um barulho danado, mas a radiação
que emite é um bilhão de vezes menor que a do Raio X", explica o radiologista
Edson Amaro Jr.
Uma
revisão minuciosa dessas técnicas e das pesquisas sobre meditação foi feita por
Marcello Árias Danucalov e Roberto Simões, pesquisadores do Centro
Universitário Monte Serrat (Unimonte), em Santos (SP), no livro Neurofisiologia
da Meditação – Investigações Científicas no Yoga e nas Experiências
místico-religiosas: uma Aproximação Entre a Ciência e a Religiosidade, que
acaba de ser lançado pela Editora Phorte. Como Kozasa e Radvany, Marcello
descobriu o estado meditativo praticando um esporte – o surfe.
"O estudo
da ativação dos circuitos elétricos cerebrais através desses novos recursos
tecnológicos tem nos fornecido um minucioso quadro das funções individuais de
cada pequena parte que compõe o sistema nervoso central", afirmam eles. "Com
elas, nós podemos determinar a localização anatômica exata de cada um dos
sítios relacionados aos nossos cinco sentidos; quais as áreas ativas durante os
mais simples ou os mais complexos comportamentos motores, de uma pequena área
agregada ao ato de movimentar um único dedo, até as vastas regiões do córtex
motor associadas à performance de um pianista."
Pesquisa
revela: meditação libera da cólera, da raiva e da inveja
Os primeiros resultados de um programa de pesquisas de laboratório atualmente
em curso na Universidade de Wisconsin (EUA), sob a direção de Richard Davidson,
reunindo neuropsicólogos e monges budistas, faz furor nos meios científicos.
Esses resultados revelam que a meditação é muito mais do que uma simples técnica
de relaxamento. Mostram que um treinamento regular da mente e do espírito,
através de técnicas de meditação, modificam nossa massa cinzenta – e assim,
como conseqüência, a maneira através da qual percebemos o mundo dentro e fora
de nós.
Esse
programa de pesquisas não teria sido possível sem a colaboração interessada de
Tenzin Gyatso, o atual Dalai Lama, chefe do budismo de linha tibetana. Ele se
entusiasmara, há cinco anos, ao ter conhecimento de recentes descobertas na
área da neurociência, em particular a respeito da maneira através da qual as
emoções negativas aparecem no cérebro. Alguns pesquisadores o visitaram na
ocasião, interessados no fato de que, para muitos budistas praticantes
regulares da meditação, estados de alma como o ódio, a raiva, a cólera, a
inveja e a cólera constituem sentimentos praticamente desconhecidos. Bem ao
contrário, é certo que a meditação reforçou neles traços positivos de caráter e
de comportamento.
Foi
Richard Davidson quem teve a idéia de utilizar instrumental moderno para
explorar em laboratório o funcionamento cerebral de alguns desses budistas.
Desse instrumental faz parte, entre outras aparelhagens, a tomografia por
ressonância magnética funcional.
Segundo
um dogma neurocientífico fundamental, hoje superado, as conexões neuronais
cerebrais seriam estabelecidas durante a infância, e permaneceriam fixas até a
morte do indivíduo. Sabe-se hoje que os neurônios se modificam até uma idade
bastante avançada, tanto no que diz respeito à sua estrutura quanto a seu
funcionamento. Quando alguém pratica assiduamente um instrumento musical, não
apenas as redes neuronais correspondentes se reforçam, mas novas conexões se
estabelecem, incrementando a destreza do músico. A esse fenômeno dá-se o nome
de "plasticidade cerebral". Mas tal plasticidade, recentemente descoberta, só
tinha sido estudada em relação a sinais provenientes do mundo exterior.
Davidson
decidiu investigar se atividades puramente mentais também modificariam o
cérebro, e qual o efeito que tais modificações produziriam sobre o humor e os
sentimentos. Ora, os budistas consideram sua doutrina como uma "ciência do
espírito", e a eles próprios como "atletas do mental". Daí sua escolha quase
natural, por parte de Davidson e sua equipe, como sujeitos privilegiados para
os experimentos.
Desde o
início os resultados obtidos em laboratório foram surpreendentes. O primeiro
"paciente" investigado, um velho lama de um mosteiro na Índia, podia se gabar
de mais de dez mil horas de meditação praticadas. No laboratório, o seu córtex
frontal esquerdo – a parte do córtex situada à esquerda e atrás da fronte – se
revelou muito mais ativa do que a dos 150 outros "pacientes-testemunhas"
testados, que nunca tinham praticado meditação.
As pesquisas começaram a mostrar uma série de outros dados relevantes.
Descobriu-se, por exemplo, que tais áreas cerebrais são mais ativas em pessoas
que conduzem um "estilo de sentimentos positivos", ou seja, nos que são mais
alegres e cultivam o bom humor. Por outro lado, notou-se que, nas pessoas de
natureza mais pessimista, triste e depressiva, predomina o hemisfério cerebral
direito. Os otimistas, os que preferem sorrir para a vida, possuem sempre um
córtex cerebral esquerdo mais ativo. Um exame do comportamento dos otimistas
revelou também que eles são capazes de superar muito mais rapidamente as
emoções negativas que inevitavelmente nos assaltam de vez em quando. Tudo se
passa como se um córtex esquerdo mais ativo tivesse a capacidade de inibir os
sentimentos negativos.
Desenvolvendo
ainda mais seu programa de pesquisa, Davidson fez uma descoberta ainda mais
surpreendente: a serenidade pode ser aprendida, exatamente como se aprende um
instrumento musical ou uma disciplina esportiva.
As muitas
formas da meditação
Há várias linhas de meditação. O hinduísmo e o budismo têm vários tipos de
prática. E há ainda as meditações judaica, cristã e islâmica, além daquelas
praticadas pelos povos tradicionais. Tendo em mente que meditar é a única
maneira de compreender o que significa meditação, seguem algumas considerações
sobre o tema:
"Todas as
tradições religiosas do Oriente e do Ocidente, dos monoteístas, dos politeístas
e dos animistas tiveram e têm uma expressão meditativa no sentido de cultivar
uma mente mais pacificada e um coração apaziguado." (Vivi Tuppy)
A meditação cria uma instância mental que permite tomar consciência dos
pensamentos e emoções antes de agir. Com isto, posso dar a eles o devido valor,
descartando (na medida do possível) conscientemente aqueles que possam causar
sofrimento ao outro e a mim próprio." (Georg Tuppy, cardiologista)
"Meditação,
para efeitos de um modelo biológico, é exercício de concentração e simultânea
inibição de estímulos irrelevantes." (João Radvany)
"Dentro
de suas orações havia toda a eternidade; e nas horas de meditação o tempo fluía
e refluía, avançava ou recuava mil anos ou então se sumia de todo no espaço
ilimitado de seu espírito, que de repente ficava esvaziado do seu conteúdo de
tempo, bem como uma lagoa cuja água se drenasse por completo." (Érico
Veríssimo, O Tempo e o Vento
A meditação me possibilita estar presente neste instante eterno." (Monja Coen)
"É a arte
de se abrir a cada momento com consciência calma." (Victor N. Davich, em O
Melhor Guia Para a Meditação)
"Se a
água barrenta ficar quieta por muito tempo, o barro se depositará no fundo e a
água se tornará clara. Na meditação, quando o barro de seus pensamentos
inquietos começa a depositar-se, o poder de Deus começa a refletir-se nas águas
claras de sua consciência." (Paramahansa Yogananda,1893-1952).
M. Loureiro
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