terça-feira, 3 de maio de 2011 By: Fred

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OS INCRÍVEIS EFEITOS DA MEDITAÇÃO NO CÉREBRO E NA PSIQUE

 

A meditação é objeto de interesse crescente na medicina. Sua indicação está se

tornando cada vez mais comum no tratamento e prevenção de doenças imunológicas,

do sistema cardiorrespiratório, dos distúrbios do sono, do estresse, da dor.

Médicos começam a adotá-la como técnica complementar no controle da hipertensão

e arritmias cardíacas. Desde que foi capa da Time, em 2003, o assunto tem sido

freqüentemente veiculado pela mídia – como o recente Globo Repórter que mostrou

a prática de meditação por médicos e enfermeiros do Hospital de Apoio de

Brasília.

 

A monja

Coen Sensei, da tradição zen-budista, diz ter perdido a conta de quantas

pessoas ensinou a meditar, no Japão e no Brasil. "Foram centenas, talvez

milhares. O interesse pela meditação é internacional e cresce também entre

empresários", diz ela, que começou a praticar durante o boom da meditação nos

Estados Unidos pós-guerra do Vietnã. Foi assim também com Susan Andrews, monja

do tantra ioga que fundou o Instituto Visão Futuro em Porangaba (SP) e calcula

já ter treinado mais de dez mil pessoas em seus 35 anos como instrutora de

meditação, em vários países.

 

Mais de

cinco mil pessoas já passaram pelos cursos ministrados por Lia Diskin na

Associação Palas Athena, em São Paulo. A psicopedagoga Vivi Tuppy, formada pela

Palas, levou para Araçatuba e Birigüi (SP) o programa Educadores da Paz, com

práticas de atenção com foco na respiração que já alcançaram cerca de 17 mil

alunos e professores das redes estadual e municipal de ensino. O resultado foi

o aumento nos índices de aprendizagem e redução da violência na escola e

comunidade. Essas são apenas algumas experiências.

 

Neuroplasticidade

 

 

Os estudos publicados em revistas científicas também se multiplicaram nas

últimas décadas. Particularmente nos Estados Unidos, mas também no Brasil – em

instituições respeitadas como a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o

Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP) do Hospital Albert Einstein e a

Universidade de São Paulo (USP).

 

Neuroplasticidade

é palavra-chave das pesquisas mais atuais. O termo refere-se à capacidade de o

cérebro mudar sua estrutura e função – os circuitos neuronais mais usados se

expandem e fortalecem, ao passo que aqueles não usados, ou usados raramente, se

encurtam e enfraquecem. "Espera-se que, aprendendo a fomentar e controlar a

neuroplasticidade, ela possa trazer benefícios em casos de doenças

degenerativas e imunológicas, e lesões por trauma e vasculares", observa João

Radvany,neurologista, psiquiatra e neurorradiologista do Hospital Albert

Einstein.

 

Radvany

prepara-se para dar início a uma pesquisa, financiada pelo Instituto de Ensino

e Pesquisa (IEP) do Einstein, que tem como objetivo verificar os efeitos da

meditação na atenção e concentração de um grupo de médicos. O estudo será feito

em colaboração com Edson Amaro Jr., coordenador de pesquisa em neuroimagem no

IEP, e Elisa Kozasa, pesquisadora em técnicas de meditação da Unidade de

Medicina Comportamental da Unifesp, com o uso da técnica de ressonância

magnética funcional, que permite verificar as áreas ativadas no cérebro durante

a prática.

 

Diálogos

Mind and Life

 

O impulso para o desenvolvimento dessas pesquisas deve-se principalmente à

associação entre o líder espiritual tibetano Dalai Lama e o biólogo chileno

Francisco Varela (1950-2001), então chefe da Unidade de Neurodinâmica do

Hospital Salpetrière, em Paris. Nasceu daí o Mind and Life Institute, que desde

1987 realiza encontros anuais – um ano no Ocidente, e outro, informal, em

Dharamsala, na Índia, onde Sua Santidade vive exilado – para um diálogo entre

homens e mulheres de ciência e monges budistas sobre a natureza do universo e

da mente.

 

Os

encontros do Mind and Life reúnem cientistas dos mais respeitados centros de

pesquisa dos Estados Unidos, tais como Harvard, Princeton, Duke, Califórnia.

Com o objetivo de responder a um desafio – Como criar e manter uma mente

saudável? –, a partir de 1990 cientistas filiados à instituição começaram a

investigar os efeitos neurobiológicos da meditação.

 

Embora

divulgados, eles só foram abertos ao público em 2003. O segundo diálogo aberto

aconteceu em novembro passado em Washington (EUA), com o tema Investigando a

Mente 2005: Aplicações Clínicas e Científicas da Meditação. Em sua passagem por

São Paulo, Sua Santidade falou sobre essas experiências no seminário Compaixão

e Sabedoria– a construção da saúde pessoal e coletiva, realizado dia 28 de

abril no Palácio de Convenções do Anhembi, com a participação da Unifesp/Escola

Paulista de Medicina.

 

Participação

brasileira

 

Em 2004, o Mind and Life deu início a um programa de verão anual de uma semana,

o Summer Research Institute, em que a apresentação e debate dos temas

científicos eram alternados com períodos de meditação que somavam cerca de três

horas diárias. Entre os pesquisadores selecionados encontrava-se a bióloga e

pesquisadora brasileira Elisa Kozasa, que participou também do Summer Research

de 2005.

 

Autora de

uma tese de doutorado sobre os efeitos – positivos – da meditação e da

respiração da ioga na ansiedade, depressão e atenção, Kozasa é co-orientadora

de vários projetos de mestrado em meditação na Unifesp e se prepara para fazer

pós-doutorado avaliando as áreas cerebrais relacionadas à meditação, através da

técnica de neuroimagem funcional. Seu interesse foi despertado aos 12 anos pela

prática de aikidô, e mais tarde pela leitura de livros como Autobiografia de um

Iogue, de Paramahansa Yogananda, e Diálogos Entre Cientistas e Sábios, de René

Weber.

 

Também o

interesse do neurologista João Radvany pela meditação, estranhamente, foi

despertado por um esporte – a natação. Hoje, além de nadar ele pratica tai chi

chuan e meditação zen. "Todos os estímulos do mundo externo e interno são

levados ao tronco cerebral, onde uma rede de neurônios mantém o estado acordado

e de atenção como se fosse uma luz, de intensidade variável e direção

itinerante, para iluminar a experiência que a gerou", explica Radvany. "As

áreas frontais do cérebro fixam o foco dessa luz, gerando concentração no

estímulo que a consciência escolhe. A meditação orienta o farol para que incida

num determinado aspecto da experiência, excluindo todo o resto."

 

Estudos

do cérebro

 

Tanto Radvany como Kozasa ressaltam, entre os estudos realizados por

pesquisadores que participam do Mind and Life, os experimentos de Sara Lazar,

doutora em biologia molecular pela Universidade de Harvard e praticante de ioga

e meditação por aproximadamente dez anos. Em um trabalho publicado em 2000, ela

e sua equipe de pesquisadores mostraram que é possível verificar variações da

atividade cerebral mesmo em pessoas com pouca prática de meditação, com o uso

de ressonância magnética funcional.

 

Outro

estudo de imagem da mesma pesquisadora, publicado em 2005, mostrou que áreas

específicas do córtex cerebral, a camada externa do cérebro, eram mais espessas

em praticantes pouco experientes de um tipo de meditação conhecida como mindfulness,

comumente praticada nos Estados Unidos. "Ela mostrou que não é preciso meditar

o dia inteiro para produzir alterações estruturais no cérebro. E que é possível

retardar a atrofia de certas áreas cerebrais relacionadas à idade", observa

Radvany.

 

O neurocientista

Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin, em Madison, colaborador do

Dalai Lama desde 1992, é um dos principais pesquisadores da neuroplasticidade.

"Os neurocientistas acreditavam que nascemos com determinado número de

neurônios, e que as mudanças ocorridas com o desenvolvimento seriam apenas nas

conexões entre essas células e as células moribundas. Nos últimos dois anos,

descobrimos que isso não é verdade. Já foi demonstrado nos humanos que crescem

neurônios novos durante a vida inteira. É uma descoberta fantástica" – disse

ele no diálogo ocorrido em 2000 em Dharamsala, relatado no livro Como Lidar com

Emoções Destrutivas – Para Viver em Paz com Você e os Outros (Editora Campus),

de autoria do Dalai Lama e de Daniel Goleman.

 

Outro

pesquisador importante é Jon Kabat-Zinn, diretor da Clínica de Redução do

Estresse, professor de medicina da Universidade de Massachusetts e um dos

autores do livro A Mente Alerta (Editora Objetiva). Para Radvany, o mérito de

Kabat-Zinn, criador do método de meditação conhecido como mindfulness behavior

stress reduction (MBSR), "foi chamar a atenção para o fato de que é possível

transformar todas as atividades diárias em meditação, no sentido de baixar o

tônus vegetativo – que é o antídoto do estresse".

 

Em outras

palavras: "Como você pensa, você se torna. Se diariamente, durante a profunda

concentração da meditação, redirecionamos o nosso estado mental para longe dos

estreitos e negativos padrões de pensamento, em direção a um sentimento de

compaixão e tranqüilidade interior, nossas mentes gradualmente se tornam

repletas de amor e paz" – como diz Susan Andrews e, na qualidade de aprendiz,

posso testemunhar.

 

 

 

Tecnologias

não-invasivas

 

A investigação da natureza cognitiva e da emoção no cérebro, com o nível de

detalhamento atual, só se tornou possível pelo poder das tecnologias não-

invasivas. "A máquina de ressonância magnética tem um metro e meio de

comprimento, pesa de 20 a 30 toneladas e faz um barulho danado, mas a radiação

que emite é um bilhão de vezes menor que a do Raio X", explica o radiologista

Edson Amaro Jr.

 

Uma

revisão minuciosa dessas técnicas e das pesquisas sobre meditação foi feita por

Marcello Árias Danucalov e Roberto Simões, pesquisadores do Centro

Universitário Monte Serrat (Unimonte), em Santos (SP), no livro Neurofisiologia

da Meditação – Investigações Científicas no Yoga e nas Experiências

místico-religiosas: uma Aproximação Entre a Ciência e a Religiosidade, que

acaba de ser lançado pela Editora Phorte. Como Kozasa e Radvany, Marcello

descobriu o estado meditativo praticando um esporte – o surfe.

 

"O estudo

da ativação dos circuitos elétricos cerebrais através desses novos recursos

tecnológicos tem nos fornecido um minucioso quadro das funções individuais de

cada pequena parte que compõe o sistema nervoso central", afirmam eles. "Com

elas, nós podemos determinar a localização anatômica exata de cada um dos

sítios relacionados aos nossos cinco sentidos; quais as áreas ativas durante os

mais simples ou os mais complexos comportamentos motores, de uma pequena área

agregada ao ato de movimentar um único dedo, até as vastas regiões do córtex

motor associadas à performance de um pianista."

 

Pesquisa

revela: meditação libera da cólera, da raiva e da inveja

 

Os primeiros resultados de um programa de pesquisas de laboratório atualmente

em curso na Universidade de Wisconsin (EUA), sob a direção de Richard Davidson,

reunindo neuropsicólogos e monges budistas, faz furor nos meios científicos.

Esses resultados revelam que a meditação é muito mais do que uma simples técnica

de relaxamento. Mostram que um treinamento regular da mente e do espírito,

através de técnicas de meditação, modificam nossa massa cinzenta – e assim,

como conseqüência, a maneira através da qual percebemos o mundo dentro e fora

de nós.

 

Esse

programa de pesquisas não teria sido possível sem a colaboração interessada de

Tenzin Gyatso, o atual Dalai Lama, chefe do budismo de linha tibetana. Ele se

entusiasmara, há cinco anos, ao ter conhecimento de recentes descobertas na

área da neurociência, em particular a respeito da maneira através da qual as

emoções negativas aparecem no cérebro. Alguns pesquisadores o visitaram na

ocasião, interessados no fato de que, para muitos budistas praticantes

regulares da meditação, estados de alma como o ódio, a raiva, a cólera, a

inveja e a cólera constituem sentimentos praticamente desconhecidos. Bem ao

contrário, é certo que a meditação reforçou neles traços positivos de caráter e

de comportamento.

 

 

Foi

Richard Davidson quem teve a idéia de utilizar instrumental moderno para

explorar em laboratório o funcionamento cerebral de alguns desses budistas.

Desse instrumental faz parte, entre outras aparelhagens, a tomografia por

ressonância magnética funcional.

 

Segundo

um dogma neurocientífico fundamental, hoje superado, as conexões neuronais

cerebrais seriam estabelecidas durante a infância, e permaneceriam fixas até a

morte do indivíduo. Sabe-se hoje que os neurônios se modificam até uma idade

bastante avançada, tanto no que diz respeito à sua estrutura quanto a seu

funcionamento. Quando alguém pratica assiduamente um instrumento musical, não

apenas as redes neuronais correspondentes se reforçam, mas novas conexões se

estabelecem, incrementando a destreza do músico. A esse fenômeno dá-se o nome

de "plasticidade cerebral". Mas tal plasticidade, recentemente descoberta, só

tinha sido estudada em relação a sinais provenientes do mundo exterior.

 

Davidson

decidiu investigar se atividades puramente mentais também modificariam o

cérebro, e qual o efeito que tais modificações produziriam sobre o humor e os

sentimentos. Ora, os budistas consideram sua doutrina como uma "ciência do

espírito", e a eles próprios como "atletas do mental". Daí sua escolha quase

natural, por parte de Davidson e sua equipe, como sujeitos privilegiados para

os experimentos.

 

Desde o

início os resultados obtidos em laboratório foram surpreendentes. O primeiro

"paciente" investigado, um velho lama de um mosteiro na Índia, podia se gabar

de mais de dez mil horas de meditação praticadas. No laboratório, o seu córtex

frontal esquerdo – a parte do córtex situada à esquerda e atrás da fronte – se

revelou muito mais ativa do que a dos 150 outros "pacientes-testemunhas"

testados, que nunca tinham praticado meditação.

 

As  pesquisas começaram a mostrar uma série de outros dados relevantes.

Descobriu-se, por exemplo, que tais áreas cerebrais são mais ativas em pessoas

que conduzem um "estilo de sentimentos positivos", ou seja, nos que são mais

alegres e cultivam o bom humor. Por outro lado, notou-se que, nas pessoas de

natureza mais pessimista, triste e depressiva, predomina o hemisfério cerebral

direito. Os otimistas, os que preferem sorrir para a vida, possuem sempre um

córtex cerebral esquerdo mais ativo. Um exame do comportamento dos otimistas

revelou também que eles são capazes de superar muito mais rapidamente as

emoções negativas que inevitavelmente nos assaltam de vez em quando. Tudo se

passa como se um córtex esquerdo mais ativo tivesse a capacidade de inibir os

sentimentos negativos.

 

Desenvolvendo

ainda mais seu programa de pesquisa, Davidson fez uma descoberta ainda mais

surpreendente: a serenidade pode ser aprendida, exatamente como se aprende um

instrumento musical ou uma disciplina esportiva.

 

As muitas

formas da meditação

 

Há várias linhas de meditação. O hinduísmo e o budismo têm vários tipos de

prática. E há ainda as meditações judaica, cristã e islâmica, além daquelas

praticadas pelos povos tradicionais. Tendo em mente que meditar é a única

maneira de compreender o que significa meditação, seguem algumas considerações

sobre o tema:

 

"Todas as

tradições religiosas do Oriente e do Ocidente, dos monoteístas, dos politeístas

e dos animistas tiveram e têm uma expressão meditativa no sentido de cultivar

uma mente mais pacificada e um coração apaziguado." (Vivi Tuppy)

 

A  meditação cria uma instância mental que permite tomar consciência dos

pensamentos e emoções antes de agir. Com isto, posso dar a eles o devido valor,

descartando (na medida do possível) conscientemente aqueles que possam causar

sofrimento ao outro e a mim próprio." (Georg Tuppy, cardiologista)

 

"Meditação,

para efeitos de um modelo biológico, é exercício de concentração e simultânea

inibição de estímulos irrelevantes." (João Radvany)

 

"Dentro

de suas orações havia toda a eternidade; e nas horas de meditação o tempo fluía

e refluía, avançava ou recuava mil anos ou então se sumia de todo no espaço

ilimitado de seu espírito, que de repente ficava esvaziado do seu conteúdo de

tempo, bem como uma lagoa cuja água se drenasse por completo." (Érico

Veríssimo, O Tempo e o Vento

 

A  meditação me possibilita estar presente neste instante eterno." (Monja Coen)

 

"É a arte

de se abrir a cada momento com consciência calma." (Victor N. Davich, em O

Melhor Guia Para a Meditação)

 

"Se a

água barrenta ficar quieta por muito tempo, o barro se depositará no fundo e a

água se tornará clara. Na meditação, quando o barro de seus pensamentos

inquietos começa a depositar-se, o poder de Deus começa a refletir-se nas águas

claras de sua consciência." (Paramahansa Yogananda,1893-1952).




M. Loureiro
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Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.

(Antoine de Saint-Exupéry)






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