Resumo da Capa.
Laura Reed sente-se segura e feliz em Cape Christian. Os livros infantis que escreve estão a trazer-lhe alguma fama; a galeria de arte do marido está a prosperar,
e Cape Christian é a cidade indicada para educar o filho pequeno, Michael. No entanto, e
la não sonha que nesta noite de Ano Novo a sua vida perfeita irá chegar ao fim. Que um homem com uma máscara de esqui lhe entra em casa, a agride e mata o marido.
Que só passada uma hora ela recupera os sentidos e chama o 112. Que esses minutos que se
passaram antes de fazer o telefonema convencem a polícia de que ela cometeu o crime...
PATRÍCIA MacDONALD.
O ADMIRADOR SECRETO.
Copyright (c) 1995 by Patricia Bourgeau.
A Don e Roberta Vaughn, que completam as suas Bodas de Ouro este ano.
AGRADECIMENTOS.
Um obrigada especial-aos meus peritos: Jack Sayre, que levou esta novata para o mar; Ted Housel, primeiro-assistente do promotor do condado de Cape May; sargento
Ray Lewis e os seus colegas do tribunal do condado de Cape May; e, especialmente, à juíza
Carmen Alvarez, que, paciente e compreensivamente, respondeu a todas as minhas perguntas e me permitiu que tivesse possibilidade de olhar as cenas judiciais dos
bastidores.
Quaisquer distorções de factos ou procedimentos, tanto náuticos como legais, são estritamente da minha responsabilidade.
PARTE 1.
DEZEMBRO, NOITE DE PASSAGEM DE ANO.
***
Capítulo 1.
Uma réstia de luar brilhava por entre os troncos nus das árvores e pequenos tufos de relva castanha eram esmagados sob os seus pés, à medida que Laura Reed atravessava
Village Green. Pequenas luzes de Natal viam-se ainda suspensas das árvores. Na sema
na seguinte, o diligente Departamento de Parques de Cape Christian tê-las-ia retirado mas, por enquanto, continuavam a ser uma lembrança brilhante da época festiva
que tinha passado. Laura mergulhou as mãos bem fundo nos bolsos do seu casaco e tremeu.
Estava habituada a passear pela cidade com aquele clima, enfiada na sua parka, com uma camisola grossa e botas. Mas tanto ela como o marido, Jimmy, tinham planos
para um jantar na noite de passagem de ano, por isso, naquele momento levava colãs de ná
ilon e sapatos de salto alto, uma blusa de seda e uma saia por baixo do seu espesso casaco de lã. O frio de Dezembro parecia atravessá-la.
Apesar do frio, gostava de passear pela cidade. Cape Christian, uma pequena jóia vitoriana que se aninhava na zona sul da costa de Nova Jérsia, era pitoresca em
qualquer época do ano. Os ramos de árvores de grande porte curvavam-se sobre as ruas sosse
gadas e emolduravam as filas de velhas casas incansavelmente conservadas e ornamentadas com adornos intricadamente esculpidos. De quase todos os cantos de Main Street
podia ver-se o oceano, perceptível para além do passeio que formava o limite orienta
l da cidade.
No Verão, grandes multidões de turistas chegavam até ali para beberem a calma atmosfera de outro século, enquanto
passavam férias na praia. Jimmy Reed nascera e fora criado nessa cidade, e quando trouxera Laura para ali, havia-lhe prometido que em breve aprenderia a amar aquela
terra. E tinha razão. Ela adorava Cape Christian em qualquer época do ano, mas, tal co
mo os seus nativos, gostava mais dela no pino do Inverno, quando as ruas ficavam desertas e a cidade mergulhava no silêncio que se fazia sentir, lado a lado, com
o pulsar do oceano.
Passou pela igreja católica, construída em estilo gótico. O presépio ainda estava montado em frente da igreja, onde um foco de luz iluminava aquela cena de ternura.
Essa imagem recordou
-lhe a primeira vez que tinham ido visitar aquele lugar - o Natal em que o seu filho, Michael, tinha dois anos. Estava a olhar para uma montra quando o filho saiu
do seu lado e foi direito à manjedoura, levantando a figura de Jesus e regressando para
junto dela, com os olhos brilhantes.
- O meu bebé! - exclamou ele, perante o divertimento indulgente dos transeuntes, ao mesmo tempo que Laura se apressava a repor a pequena figura no presépio.
Laura sorriu enquanto recordava o episódio; continuou a caminhar por entre as filas de lojas alegremente pintadas que constituíam a parte comercial de Main Street.
Todas as mon tras estavam decoradas. A época natalícia em Cape Christian era quase tão
frutuosa como um mês de Verão. Nas semanas que antecediam o dia de Natal, os visitantes vinham até ali admirar as belas casas vitorianas, profusamente decoradas
e iluminadas. Laura interrogava-se, muitas vezes, como era possível que as pessoas, na épo
ca do Natal, tivessem tempo para andar a passear. Por seu lado, ela só conseguia tratar dos cozinhados, das compras e dos embrulhos que precisavam de ser feitos.
Todavia, depois de chegado o dia de Natal e de este ter passado, Cape Christian regressava ao seu sono de Inverno. A Galeria Reed, no terceiro quarteirão de Main
Street, estava
iluminada. Não havia o perigo de surgir algum negócio às seis da tarde de uma véspera de Ano Novo. Jimmy entrara tarde, depois de almoço, para terminar alguns projectos
de molduras, que eram a única razão pela qual a galeria ainda se encontrava aberta
. Laura empurrou a porta da frente da galeria e uma campainha tocou quando entrou.
Apenas algumas das luzes da galeria estavam acesas, embora o brilho dourado da oficina de molduras de Jimmy, na parte superior da loja, iluminasse as escadas. Um
homem de cabelo já grisalho estava sentado numa cadeira de rodas, sob um dos focos de luz
, dando voltas a um livro nas suas mãos grandes mas delicadas. O homem ergueu os olhos quando a porta se abriu. A sua pele não tinha rugas e_ o seu rosto era jovem.
Duas manchas de cor apareceram-lhe nas faces.
- Laura! - exclamou ele. Ela sorriu quando o viu.
- Olá, Gary. Que agradável surpresa.
- O Jim e eu tínhamos alguns assuntos para discutir... a bolsa.
Laura anuiu com a cabeça. Gary Jurik era um artista local e amigo deles. Jimmy havia convencido Gary a candidatar-se a uma prestigiada bolsa que significaria um
ano de ensino e de estudo no Museu de Belas-Artes de Boston.
- Sei que a vais conseguir - disse ela.
- Nunca tirei nenhum curso - protestou Gary.
- Está bem, mas vê o sucesso que tens tido e com o qual outros artistas tanto sonham.
O rosto de Gary ficou todo corado de prazer com as palavras dela.
- Também é verdade - retorquiu.
- Ele está lá em cima? - perguntou Laura. Gary Jurik assentiu e apertou o livro no colo.
Laura avançou para os degraus da escada, reparando enquanto passava que alguns quadros novos haviam sido pendurados, e que outros ostentavam orgulhosamente os sinais
azuis que indicavam terem sido vendidos. O sentido de oportunidade de Jimmy ao abrir
aquela galeria fora bem sucedido. Nos dois últimos anos, dera-se uma explosão de interesse pela arte, tanto entre os turistas como nos habitantes da terra, e a loja
conquistara uma clientela fixa e interessada.
-Olá, querido, sou eu! - gritou ela. -Vou já ter contigo - respondeu ele.
Laura abanou a cabeça e regressou ao local onde Gary estava sentado. Puxou um banco e instalou-se a seu lado. Gary re
ferira uma vez que odiava ter de olhar para cima para as pessoas sempre que falava com elas durante muito tempo. Laura compreendia isso e parecia-lhe uma pequeníssima
concessão ao conforto dele, quando se sentava na sua presença.
- O que tens aí? - perguntou, apontando para o livro que ele segurava nas mãos.
- Não o reconheces? - perguntou Gary, estendendo-lhe o livro.
Laura aceitou-o e olhou para a lombada. Era o novo livro dela, Raul e o Cavalo do Céu, o quarto da aclamada série que escrevera para crianças, sobre Raul e os seus
amigos.
- Não tem sobrecapa? - inquiriu ela.
- Deve estar algures por aí - disse Gary, evitando-lhe o olhar. - É o exemplar do Jimmy. Acho que é o teu melhor no que diz respeito às ilustrações. O cavalo tem
imensa vida - acrescentou ele, entusiasmado.
- Obrigada, Gary - proferiu ela, genuinamente agradada. - Isso é um grande elogio, vindo de ti.
Gary sorriu e corou de novo. Ele era um pouco mais novo do que Jimmy, com cerca de trinta anos, mas, a uma certa distância, com a cadeira de rodas e o cabelo grisalho,
parecia muito mais velho. Jimmy contara a Laura que o cabelo de Gary ficara daquela
cor quando tinha dezassete anos, logo no ano a seguir ao acidente. No entanto, quando sorria daquela maneira, pensou Laura, parecia um perfeito adolescente.
Laura apontou para um novo quadro dele que estava na parede, uma aguarela representando o Dormley, um grande hotel vitoriano situado na praia.
- É lindo - observou ela. - Como consegues lembrar-te da luz desta maneira?
-Na minha cabeça é sempre Verão - respondeu ele. Laura sorriu apreciativamente e Gary afastou-se, movendo a sua cadeira de rodas com um toque de mãos, ao mesmo tempo
que examinava algumas das outras pinturas.
- O Jim tem aqui gente promissora.
Laura assentiu com a cabeça. Gary sabia perfeitamente que nenhum daqueles pintores representava concorrência para ele, mas o ego de um artista é sempre frágil. Gary
constituía a des
coberta de Jimmy para a galeria. Eram amigos desde a juventude. Gary sempre fora um diletante, mas, depois de o acidente de automóvel o ter confinado à cadeira de
rodas, passou a concentrar-se mais no seu trabalho.
Quando Jimmy regressara à cidade e abrira a galeria, reconhecera imediatamente o potencial das aguarelas de Gary representando as inúmeras mansões vitorianas da
cidade. Fora
Jimmy quem tivera a ideia das reproduções, dos calendários e das canecas que eram impressas com as diferentes pinturas de Gary. Essa série de produtos estava a tornar-se
quase sinónimo de uma visita a Cape Christian, da mesma maneira que uma caixa de
chocolates Fralinger era a recordação de rigueur de uma visita a Atlantic City. A colaboração entre ambos tornara-se um sucesso financeiro.
-Achas que ele nos vai substituir? - perguntou ela a Gary, divertida.
Gary olhou para ela, surpreendido. Havia nele qualquer coisa de inocente, que nunca deixara de tocar Laura. -Achas que sim?
- Estou a brincar - disse ela. - Embora talvez fosse altura de ele descobrir um novo protegido. Não consegue evitar. Está na sua natureza.
Gary concordou.
- Ele nasceu para ser um patrono das artes.- Espera aí - disse Laura. - Isso sugere alguém com dinheiro.
- Tens razão. Um mentor, acho que seria melhor.
- Eu sei que nunca teria imaginado escrever estes livros se ele não me tivesse incentivado - observou ela rindo.
E era verdade. Estudara arte na escola, mas sempre com a intenção de se tornar professora. Fora Jimmy quem a estimulara e encorajara até ela ter completado o primeiro
livro; fora
Jimmy quem o enviara a agentes e editores. A cada rejeição que recebera, Laura tornara-se cada vez menos esperançosa e Jimmy mais determinado. E, finalmente, a sua
fé no trabalho dela acabara por se mostrar justificada.
-Ele tem muita certeza do seu gosto - disse Gary. - Se o Jimmy gosta de alguma coisa, acha que é apenas
uma questão de tempo até os outros seguirem a sua opinião - respondeu Laura.
Gary olhou para as paredes.
- Deve ser fantástico ter uma confiança assim.
A campainha da entrada voltou a tocar, e a porta abriu-se. Uma mulher de meia-idade, embrulhada num cachecol e num casaco de tweed, entrou na galeria. Tinha uma
pele cansada e o cabelo grisalho descuidadamente apanhado. O seu olhar triste caiu em Laur
a e Gary.
- Terminei as compras - disse ela sem qualquer preâmbulo.
- Olá, Mistress Jurik - saudou Laura.
De cada vez que via Wanda Jurik, Laura sentia pena dela. Wanda parecia sempre ausente e à beira das lágrimas. Laura sabia, através de Jimmy, que Wanda suportara
o fardo de susten tar toda a família quando Gary era jovem, e de ter tomado conta dele dep
ois do acidente. O pai de Gary, Karl Jurik, tinha sido um alcoólico que ia e vinha a seu bel-prazer, nunca se responsabilizando pela família. Vários anos depois
do acidente desaparecera definitivamente. Muitas pessoas pareciam culpar Wanda, consideran
do-a superprotectora, e nessas pessoas incluía-se Jimmy, Laura, porém, não conseguia imaginar como se teria sentido se tivesse estado no lugar de Wanda - se qualquer
coisa de parecido houvesse acontecido ao seu próprio filho, Michael. Como poderia uma
mãe aceitar alguma vez uma coisa assim?
- Olá - retribuiu Wanda com secura. - Gary, espero-te nas traseiras.
- Está bem - respondeu ele.
Sem mais uma palavra, Wanda voltou-se e saiu. Gary pareceu embaraçado.
-A minha mãe veio trazer-me hoje - explicou ele. - A minha carrinha está na oficina. - Gary possuía uma carrinha equipada com controlos manuais, que ele próprio
guiava. - Tenho de ir andando - prosseguiu, procurando o casaco. Laura viu-o pendurado num
a cadeira ali perto e estendeu-lho.
- Foi bom ver-te - disse ela. - Queres ir jantar lá a casa para a semana? Que tal terça-feira?
-Vou ver - disse ele. - Parece-me bem. Como está o Mike?
- Está óptimo.
- Diz-lhe que passo por lá para o levar a dar uma volta. Michael adorava passear ao colo de Gary na cadeira de rodas, sempre a incitá-lo a andar mais depressa. Laura
mostrara-se espantada quando Michael se empoleirara pela primeira vez e pedira para d
ar uma volta, o que fez rir Gary, que parecia divertir-se com tudo aquilo.
Gary vestiu o casaco e começou a orientar a cadeira de rodas em direcção à porta das traseiras. Jimmy tinha mandado instalar rampas, tanto na galeria como em casa,
para que Gary pudesse entrar com facilidade quando os fosse visitar. Parou a cadeira ju
nto ao fundo das escadas.
- Adeus, Jim - gritou ele. Depois dirigiu-se para a porta das traseiras.
- Porta-te bem! - retorquiu Jim. Depois dirigiu-se a Laura. -Agora... fecha os olhos e não os abras enquanto eu não te disser.
- Porquê? - perguntou Laura, mas mesmo assim fez como Jim lhe mandara.
Ouviu os passos de Jimmy nas escadas, aspirou o seu perfume quando ele passou perto dela e depois ouviu o ruído de qualquer coisa a ser pousada em cima da secretária.
- Muito bem - disse ele. - Agora já os podes abrir. Laura olhou e depois soltou um pequeno gritinho de prazer. Jim retirara a sobrecapa do seu novo livro, tendo-a
alisado e emoldurado.
- Uma prenda de Natal atrasada - suspirou ele. - Não tive tempo de a terminar antes. Estive muito ocupado a tentar satisfazer as encomendas.
Laura sorriu para o marido. Tornara-se um homem de ombros largos, com o à-vontade daqueles que foram sempre amados profundamente. Era um dos filhos preferidos de
Cape Christian, havendo triunfado tanto do ponto de vista académico como no campo futebol
ístico, no liceu e na faculdade, e estava em vias de se tornar uma entidade de peso no negócio das colecções de arte para museus, quando ela o conhecera em São
Francisco. Toda a gente ficara surpreendida quando ele decidira abandonar a sua promissora carreira e regressar à costa este para abrir uma pequena galeria na sua
cidade natal. Mas ele tinha aplicado a sua enorme capacidade de trabalho e os seus conhe
cimentos de arte à galeria. Não fora uma surpresa o facto de obter tamanho sucesso.
- É fantástico! - exclamou Laura. - Obrigada. Levantou-se da cadeira e foi beijá-lo na face barbuda. Gostava da sua nova barba. Pensou que o fazia parecer mais sexy
e, além disso, ele nunca mais se queixara da maçada de ter de fazer a barba. Laura vol
tou-se para a sua prenda e acariciou ligeiramente a moldura.
- Fizeste um trabalho magnífico. Jimmy olhou por cima do ombro. - Uma bela fotografia tua.
A fotografia da autora usada na contracapa fora tirada por Jim na praia, durante o último Verão.
À semelhança de muitas pessoas, Laura era muito crítica em relação à sua imagem. Mas gostava muito daquela fotografia em particular.
- É bonita - admitiu ela.
-Mas não chega para te fazer justiça - comentou ele. - A propósito - disse Laura -, a Marta telefonou-me hoje.
Marta Eberhart era a editora de Laura, a qual, três anos antes, tinha retirado o seu manuscrito e ilustrações da obscuridade, transformando-a numa escritora. Laura
nutria um pro
fundo sentimento de lealdade e de gratidão para com Marta. - A sério? - disse Jim. - Que queria ela? Como vai o livro?
- Parece que vai bastante bem - respondeu Laura. - Pelo menos, a Marta mostrou-se bastante satisfeita. -Ainda bem.
- Conheceu um tipo da Book World o mês passado, que quer escrever uma história sobre mim - disse Laura, muito orgulhosa das suas notícias. - Um homem chamado Bob
Gerster. Quer vir até cá, tirar fotografias, fazer-me uma entrevista...
- Isso é fantástico! - exclamou Jimmy, sem qualquer pudor, dando as boas-vindas a uma oportunidade de publicidade. - Podemos tê-lo lá em casa, na galeria, por todo
o lado!
- É melhor esperarmos para ver - interpôs Laura cautelosamente. - Ele ainda nem telefonou. Talvez até já tenha mudado de ideias.
- Não sei - disse Jim, brincando. - Pensando melhor, não tenho a certeza se quero outro tipo qualquer a tirar-te fotografias. Todos esses leitores fanáticos a babarem-se
por ti. Laura ergueu o sobrolho para Jim.
- Os galanteios podem dar-te... uma noite muito especial - sugeriu ela.
Jimmy sorriu. Gostava de olhar para a mulher. Dizia sempre que se tinha apaixonado por ela à primeira vista. De facto, a primeira coisa que pensara em relação a
ela fora que gostava de ter talento suficiente para a poder pintar. Possuía uma pele semel
hante a opala, olhos cinzentos que pareciam sempre calmos e pensativos, e uma boca generosa. Um rosto marcante, tornado ainda mais irresistível pelo cabelo louro
que caía numa curva brilhante até aos seus ombros.
- Bom - ela corou sob o olhar do marido -, este presente é bem melhor do que a cana de pesca que te dei no Natal...
-Mas era exactamente o que eu queria. Só espero ter oportunidade de a poder usar este Verão... Sair no barco contigo e com o Michael...
Laura compreendeu. Jim comprara um barco de pesca quando se haviam mudado para a cidade, mas o Verão era o seu período mais ocupado. Raramente tinha oportunidade
de poder sair no barco. Nesse momento, Jimmy arrumava apressadamente as coisas na sua sec
retária, dando o dia por terminado. - Estou quase pronto para me ir embora -- disse ele. - Fiz uma reserva no Marie's.
-Óptimo. Estou pronta para comida italiana. - Levaste o Michael a casa da minha mãe? - O Sidney foi buscá-lo - respondeu ela.
Sidney Barone era o padrasto de Jimmy. James Reed Sr. tinha sido polícia em Cape Christian mas morrera de ataque de
coração quando Jimmy tinha apenas três anos de idade. A mãe de Jimmy, Dolores, educara-o sozinha. Apenas aceitara casar com Sidney, um viúvo simpático e dono de
um negócio de fornecimento de roupa para os restaurantes e hotéis de Atlantic City, quando
Jimmy atingira os dezasseis anos. Jimmy nunca vira em Sidney a figura paterna, mas para Michael ele era o único avô que tinha conhecido, o seu adorado avozinho.
-Vi o Gary há bocadinho - disse Laura. - E a mãe dele.
O olhar de Jimmy ficou mais sombrio.
- Não suporto aquela mulher - observou ele. - Trata o Gary como se ele fosse uma criança e não um homem crescido. - Sempre que a vejo, penso naquele velho ditado:
"Tem cuidado com os desejos que formulas" - brincou Laura. - Quero dizer: todas as mães
desejam, numa altura ou noutra, que os seus pequeninos nunca as deixem. Mas não desta maneira. Aquilo que as pessoas querem é que eles cresçam e sejam felizes e
consigam tornar os seus sonhos realidade...
- Isso é o que tu queres - afirmou Jimmy. - Nem todas as pessoas são assim. A verdade é que ele podia deixá-la e viver uma vida praticamente normal, mas ela torna-lhe
todas as coisas muito difíceis. Por vezes penso que ela gosta das coisas da maneira
que estão.
-Isso não é um pouco injusto? - perguntou ela. -Não sei. Talvez. Olha...
- O que foi?
O Robert passou por cá hoje... - E então?
- Então perguntou-me se íamos sair hoje à noite... - Não me digas que... - interrompeu Laura.
- Ele e a Candy querem vir connosco... - Oh, não, Jimmy!
- Que podia eu fazer? Ele apanhou-me desprevenido. - Podias ter-lhe dito que é a noite de passagem de ano e que querias estar sozinho com a tua mulher.
Jimmy assentiu com a cabeça. - Tens razão. Vou telefonar-lhe. Laura suspirou. Sabia que o estava a pôr em cheque. Ri
chard Walsh era o advogado deles e sócio de Jimmy na galeria. Era um rapaz da cidade, outro amigo de infância de Jimmy que tinha manifestado uma notável habilidade
para fazer dinheiro. Na sua vida profissional, ocupava-se com as leis, mas o seu hóbi e
preocupação eram os investimentos, e parecia ter sucesso nessa área de uma forma espectacular. Não falava de outra coisa. Apesar disso, ainda conseguia ter sentido
de humor, e Laura gostava bastante dele, mas era-lhe quase insuportável tolerar a mulh
er, Candy.
Candy era uma antiga rainha de beleza cujo principal passatempo parecia consistir em estar sentada, sozinha, na sua moderna casa de Rock Harbor, a cidade mais próxima,
a com prar jóias através do serviço de televendas ou a fazer exercícios no seu Nord
icTrack. Não havia ninguém com quem Laura sentisse menos vontade de passar a noite do que com Candy Walsh.
- Qual é o número dele? - perguntou Jimmy.
Laura sabia que Jimmy se sentia em dívida para com Richard. Este insistira em investir na galeria, e o dinheiro de Richard viera proporcionar o arranque financeiro
de que Jim my precisava para decorar o local de forma a atrair o olhar de cada pessoa q
ue por ali passasse. Laura odiava estar a colocar Jimmy naquela situação desconfortável.
- Bom, deixa estar - disse ela. - Vamos lá.
- Tens a certeza? - perguntou ele, com algumas dúvidas. - Tenho. Mas despachemo-nos, antes que eu mude de ideias.
Jimmy olhou para ela com gratidão. - Depois, eu compenso-te.
- É melhor para ti! - admoestou Laura.
***
CAPÍTULO 2.
Candy Walsh esticou-se como uma gata e ronronou.
- Por esta altura, na próxima semana, vou estar a trabalhar o meu bronzeado. Só eu e o meu biquíni minúsculo, a absorver os raios de Sol.
Lançou um olhar a Jimmy e a Richard, esperando uma resposta apreciadora da sua imagem seminua e estendida sob a luz do Sol, mas os dois homens estavam de cabeças
juntas, à me dida que Richard digitava algarismos na sua calculadora. Candy voltou a ronr
onar, mas agora aborrecida.
- Para onde vais? - perguntou Laura, como era seu dever de cortesia.
- Nassau. Vamos sempre para lá. Tem os melhores sítios para fazer compras. Nem acreditas nas louças e nos vidros que se encontram por lá - respondeu Candy, que não
cozinhava e nunca recebia visitas. - E as jóias! Comprei este relógio lá. Estendeu um r
elógio muito fino, de contacto muito suave, a que um mostrador cheio de diamantes dava peso.
- Muito bonito - afirmou Laura sem entusiasmo. -Sem esquecer os casinos, claro. Vamos lá tantas vezes que o Richard anda a pensar em comprarmos lá um andar. Não
andas, querido?
Richard fez uma pausa na sua explicação sobre estratégias de investimento e olhou para a mulher. Candy deu-lhe uma meia piscadela de olho, com cuidado para não dar
cabo da sua maquilhagem. Laura suspirou.
Candy interpretou o suspiro de maneira errada.
-Acho que vocês os dois não vão para fora o suficiente, tendo em conta o miúdo e a galeria de arte - opinou ela, tentando ser simpática.
- Para mim, andar a viajar não é assim uma coisa tão tentadora - contrapôs Laura. - Passei toda a minha infância a viajar. O meu pai estava na marinha, e quase todos
os anos tínhamos de nos mudar. Aquilo que eu sempre quis foi estar quieta.
- Pois, andar a viajar com os pais deve ser uma chatice - comentou Candy. - Mas passar férias no lugar mais bonito do mundo é diferente. Onde vivem agora os teus
pais? Nalgum sitio simpático para se visitar?
- Morreram - disse Laura bruscamente. - Um desastre de avião.
Laura sentiu uma pequena satisfação perversa no ar de espanto de Candy. A imaginar-se, sem dúvida, no avião para Nassau.
- Isso é horrível - observou Candy.
Laura encolheu os ombros e acabou o resto do café, olhando sem ver a chávena. Jimmy olhou para a mulher e depois para o relógio.
- É melhor terminarmos isto - disse ele.
- Bom, vou pensar em vocês - proferiu Candy alegremente -, quando estiver deitada na praia.
- Óptimo - afirmou Laura secamente. Jimmy deu a volta e foi arredar-lhe a cadeira.
À porta, Marie Vanese retirou duas rosas vermelhas da jarra que estava sobre a mesa e, como era seu costume em ocasiões especiais, deu uma a cada uma das mulheres
que iam sair.
- Uma rosa para as encantadoras senhoras - disse na sua voz grave.
- Obrigada, Marie - agradeceu Laura, aceitando a flor de longo caule e cheirando as pétalas vermelhas cor de sangue. - Ai! - queixou-se Candy, chupando a ponta do
seu dedo indicador, perfeitamente arranjado na sua manicura. - Um espinho feriu-me. Rich
ard, segura tu na rosa.
Richard pegou na rosa com a sua mão roliça e tentou manipulá-la enquanto ajudava Candy a vestir o seu casaco de peles.
- Estava tudo óptimo, como de costume - afirmou Jimmy a Marie, enfiando o seu sobretudo. - Obrigado por nos ter arranjado uma mesa.
O rosto de Marie abriu-se num sorriso amável. - Ainda bem que gostaram - retribuiu ela.
A trattoria de Marie, iluminada a velas, era muito popular, mas ainda o era mais nas noites frias de Inverno, quando a maior parte dos restaurantes estava fechada
e a comida condi mentada de Marie parecia reconfortar a alma. Marie provinha de uma famí
lia de gente dedicada à restauração. O seu irmão, Dominick, era o dono de um restaurante que se dizia ser frequentado por figuras do crime organizado de Atlantic
City, mas nunca ninguém dissera uma só palavra acerca disso a Marie, cujas maneiras digna
s eram características de um natural de Cape Christian. Vivia sossegadamente com outra mulher, uma bibliotecária reformada, e tinham três gatos. Quando não se encontrava
na trattoria, Marie andava certamente à procura de conchas na praia, para as cola
gens que gostava de fazer e de exibir nas vendas de artesanato de Verão.
- Abafem-se lá fora - recomendou ela enquanto os acompanhava à saída, para a fria noite de Dezembro. - E voltem em breve.
Candy tinha calçado as suas luvas de cabedal e voltou a pegar na rosa que estava na mão de Richard, esfregando-a contra o queixo enquanto sorria para Jimmy.
- Bom - disse Richard alegremente -, que acham se fôssemos até Atlantic City, para comemorar o novo ano? Tomávamos umas bebidas, talvez pudéssemos ir a um espectáculo?
Laura sabia por Jimmy que Richard tinha uma queda pela vida agitada de Atlantic City. Para ela, não havia nada mais aborrecido do que passar uma noite a meter moedas
numa máquina, e ver outras pessoas a esbanjarem o seu dinheiro nas mesas de cartas e
de dados. Lançou um olhar de aviso ao marido. - Não podemos, Rich. Temos de ir buscar o Michael a casa da minha mãe - disse Jimmy.
-Na noite de passagem de ano? Ainda são apenas dez horas. Vamos - insistiu Richard -, a tua mãe fica com ele por esta noite.
Jimmy sacudiu a cabeça.
-Não, temos de o ir buscar. Vida de pai... Candy olhou para eles com ar de pena.
-Muito bem - disse Richard -, teremos de ir sozinhos. Foi bom estar convosco.
Laura fez um esforço para sorrir.
Candy bateu com o seu sapato Ferragamo no chão. - Estou a ficar gelada, Richard. Vamos embora. Houve despedidas e desejos de boas-noites e Laura
aninhou-se em Jimmy enquanto corriam para o carro. Os seus dentes batiam quando ela entrou para o lugar da frente e fechou a porta.
- Vai ficar quente num instante - prometeu Jimmy, ligando o motor e o aquecimento. - Foi um bom jantar, não achas?
- Delicioso - concordou Laura. - Embora por um momento tenha receado que fôssemos acabar a noite no Trump's Castle.
Jimmy riu-se.
-Ainda bem que temos o Michael. Quase me senti culpado por o estar a utilizar como desculpa.
Laura sacudiu a cabeça.
-Viste o olhar que ela nos lançou? Como se tu tivesses dito que íamos tirar um dente sem anestesia...
- Sabes, eu acho que o Richard gostava de ter filhos, mas isso é uma ideia difícil de vender à Candy.
-Talvez seja uma bênção para as crianças - observou Laura.
- Lamento que tenhamos vindo jantar com eles, querida - desculpou-se Jimmy.
- Está tudo bem.
- Será que o Michael está a dormir? Espero que sim - confidenciou Jimmy. E levantando o sobrolho sugestivamente, acrescentou: - Talvez possamos beber champanhe no
quarto...
- Continua a guiar... - respondeu Laura.
Percorreram a distância que os separava do Condomínio Seashell em silêncio. Os apartamentos situavam-se num enor
me edifício que tinha sido outrora um hotel de veraneio. bolores e Sidney possuíam um apartamento confortável, com dois quartos. Um dos quartos estava arranjado
para Michael, com tudo aquilo que um rapaz da sua idade podia querer.
- É melhor do que o meu quarto em casa - afirmara ele uma vez, para irritação de Laura. Ela sabia que ele não queria dizer nada de especial com aquilo, mas a frase
acabou por pro vocar algum efeito. Laura sempre se tinha sentido numa estranha competiç
ão com a sogra. E fora assim desde o momento em que se haviam conhecido.
Jimmy tocou à campainha e Dolores abriu-lhes o trinco. Estava à porta do apartamento, com um fato de jogging e uns ténis brancos. O seu cabelo estava penteado e
o seu rosto cui dadosamente maquilhado. No alto da cabeça exibia um chapeuzinho daqueles q
ue é costume usar nas festas. Soprou numa língua-da-sogra quando lhes abriu a porta.
- Feliz Ano Novo! - exclamou ela, estendendo os braços para Jimmy, que a abraçou, parecendo um enorme urso sobre ela.
- Só depois da meia-noite, mãe - declarou Jimmy. - Sou supersticioso.
Laura passou por eles e entrou no apartamento.
Sidney estava sentado numa cadeira de bambu, a ler o Atlantic City Press. Também ele tinha um chapeuzinho de festa, colocado num ângulo estranho na sua cabeça careca.
Atrás dele, num canto, a árvore de Natal do casal ainda brilhava com as suas luzes c
oloridas. Sidney ergueu os olhos, por cima dos óculos de leitura.
-Olá, Laura - saudou ele. - Que tal foi o jantar? - Foi bom - respondeu ela. - O Richard e a Candy Walsh jantaram connosco.
- Essa Candy é uma bela rapariga, não é? - perguntou Dolores, entrando na sala com o braço possessivamente colocado à volta de Jimmy. As suas braceletes tocavam
como sinos de trenó. - Ela anda sempre tão vistosa, tão bem arranjada. Laura teve imediata
consciência de que não voltara a pôr batom depois do jantar.
Sidney interrompeu.
- Ei, Jim, achas que os Flyers se vão ver livres daquele treinador?
- Se querem voltar a ganhar um jogo, é melhor que o façam - respondeu Jimmy.
Costumava interrogar-se muitas vezes acerca dos motivos pelos quais Sidney gostava tanto de desporto, uma vez que não parecia ser um analista muito astuto de qualquer
jogo. Naquilo
que Jimmy parecia não reparar, pensou Laura, era na forma subtil como Sidney se ligava durante o ano inteiro ao neto. Do basebol ao futebol, do básquete ao hóquei,
equipa a equipa, jogador a jogador, Sidney mantinha entre eles um diálogo pacífico e qu
e era de interesse para ambos. Devia ter sido necessária uma táctica muito especial, quando entrara naquela casa, para se encaixar entre Jimmy e a mãe.
- Como se portou o Michael? - perguntou Laura. Sidney riu-se baixinho, indulgente.
- Tem estado felicíssimo.
Tal como Dolores, também ele se deliciava com o tumulto feliz que rodeava as visitas frequentes de Michael.
- Espero que ele não vos tenha dado muito trabalho. - Não deu trabalho nenhum. Foi um anjo! - declarou Dolores, indignada.
-Está a dormir?
- Estiraçado no quarto - respondeu Dolores. - Morto para o mundo. Porque não o deixam ficar cá esta noite? - Ele amanhã tem catequese - lembrou Laura.
- Então e eu não o posso levar à catequese? Levei o meu filho à catequese todos os domingos, durante doze anos. E à escola todos os dias. E fui sempre trabalhar
à mesma hora, um dia atrás do outro.
Laura reconheceu a crítica implícita nas suas palavras. bolores considerava os seus livros para crianças como pouco mais do que um passatempo frívolo, uma desculpa
para não arranjar um emprego, especialmente agora que o seu único filho andava na escol
a. Era verdade que Laura não fazia uma fortuna com a edição dos seus livros, mas tinha um rendimento. Para além disso, ela gostava de ficar em casa e tomar conta
do lar. Mas de que valia defender-se? Se ela tivesse um emprego certo,
Dolores provavelmente sugeriria que ela estava a negligenciar a família.
- Vocês os dois deviam ir ao restaurante da Marie - sugeriu Jimmy. - É um restaurante óptimo.
- Essa espécie de comida provoca-me azia - declarou Dolores.
Laura engoliu um protesto. Não conseguia perceber por que razão a sogra tinha de contradizer ou de achar defeito em tudo o que se dissesse. Embora isso parecesse
nunca preocupar Jimmy, essa característica da mãe passava-lhe sempre ao lado. Ria-se e di
zia: "Foi sempre assim!"
- O Michael comeu? - perguntou Laura.
- Se o Michael comeu? - Dolores riu-se. - Come sempre! Tivemos a nossa própria festa de passagem de ano. Primeiro comeu cachorros-quentes, depois pipocas, gelado,
bolo... O que comeu ele mais, Sid?
Sidney sacudiu a cabeça. - Um donut de geleia.
- Ah, sim, que tinha sobrado do almoço. Comeu como se não visse comida há vários dias.
- Espero que ele não fique doente com essa mistura toda - comentou Laura com alguma irritação. Mais de uma vez Michael se tinha queixado de dores de barriga, depois
de visitar a avó.
- Não fica doente - insistiu Dolores com um ar impertinente. - É bom para ele, de vez em quando, ter alguma comida de que gosta. Toda essa comida saudável não é
assim tão
boa para as crianças. Além disso, os avós são para lhes fazerem as vontades. Não é, Sid? Somos os únicos avós que ele tem. Sid aquiesceu e deu-lhe umas palmadinhas
na mão, pousada no seu ombro.
Laura sentiu vontade de gritar. Dolores conduzia-se sempre como se houvesse qualquer coisa de suspeito acerca dos pais de Laura, simplesmente porque haviam morrido
antes de ela ter
conhecido Jimmy. Laura sentia vontade de lhe dizer que eles não tinham escolhido que as coisas tivessem acontecido dessa maneira. Dolores mostrara curiosidade em
saber por que razão Laura usava o seu nome de solteira para assinar os livros.
Quando Laura tentou explicar que essa era uma forma de prestar homenagem à memória dos seus pais, Dolores olhara-a com ar céptico. "Mas que utilidade tem isso?",
perguntara Dolores. "Eles estão mortos. Que tal prestar homenagem ao teu marido e ao teu
filho, que podem apreciar isso?"
- Acabei de fazer café - anunciou Dolores. - Porque não se sentam?
- Acho que não, mãe - respondeu Jimmy. - Temos de nos levantar cedo, como sabes.
-Tudo bem, tudo bem - anuiu Dolores. Jimmy tocou ao de leve no braço de Laura. - Eu vou buscá-lo.
- E eu vou buscar as coisas dele - acrescentou Dolores, seguindo o filho. - Nunca as encontrarás no escuro.
Laura sentou-se em frente de Sidney. Ela sabia que Jimmy ainda considerava Sidney como uma espécie de intruso na família, tal como Dolores a via a ela. Isso fazia
com que sentisse uma grande afinidade com Sidney, que parecia ser o mais afável dos home
ns. Por vezes Laura ficava maravilhada com o feito que devia ter sido para ele conseguir conquistar o afecto de Dolores. Laura tinha a certeza de que existiam diversas
camadas de determinação em Sidney que muito poucas pessoas conheciam. Laura não con
seguia imaginar por que razão ele se mostrara tão determinado em ter Dolores, para começar. Bom, isso não era completamente justo. Dolores era uma mulher dotada
de uma enorme força e energia. Amava os homens da sua vida com uma lealdade feroz: sem a n
ora é que ela podia passar muito bem.
-Aquele vosso rapaz - disse Sidney - faz-me sentir vinte anos mais novo quando estou a jogar com ele.
Laura sorriu.
- Eu sei que ele é um poço de energia.
- Exacto! E eu sinto-me vinte anos mais velho depois de ele se ir embora! - admitiu Sidney.
Laura riu-se de novo.
- Sabes uma coisa? Está a começar a ler bastante bem. Ajudou-me a ler a história que eu lhe levei para o adormecer, esta noite. Hoje em dia devem começar a aprender
muito cedo.
- Pois é - respondeu Laura -, aprendem logo o alfabeto na pré-primária.
- É um miúdo fantástico.
- E ele adora o seu avozinho - observou Laura com sinceridade.
- Eu também o amo - retorquiu Sidney.
Laura desejava poder falar com a sogra com a mesma facilidade com que falava com Sidney. Com Dolores era mais desconversar do que conversar.
Levantou-se quando Jimmy entrou na sala, com o filho de cinco anos deitado sobre o ombro. O boné de basebol dos Phillies, que Jimmy lhe comprara num jogo do Verão
anterior,
estava colocado sobre o cabelo castanho de Michael num ângulo estranho. Laura foi ter com ele e passou um dedo pela bochecha redonda de Michael. Hesitou um instante:
sentira-o quente quando lhe tocara, mas decidiu não mencionar o assunto.
Laura pegou na mochila do Pato Donald que Dolores trazia na mão.
- Obrigada por ter tomado conta dele, Dolores - disse
ela.
- Porquê? É meu neto. Tomava conta dele para sempre, se pudesse. Só queria que houvesse mais três como ele. Laura afastou-se quando ouviu o refrão familiar, que
ela reconhecia ser uma acusação.
- Boa noite, Sid - disse ela.
Jimmy inclinou-se e beijou a face da mãe.
- Começa bem o ano. E rapa-me essa barba, ouviste? - disse Dolores. - Faz-te parecer um vadio.
Jimmy riu-se. Laura abriu a porta e escapou-se para a entrada.
***
CAPÍTULO 3.
Enquanto Jimmy tomava um duche, Laura revolvia as gavetas da sua roupa interior à procura de qualquer coisa alegre e com rendas. Geralmente dormia com uma camisa
de noite de flanela, durante o Inverno. A quinta vitoriana que haviam comprado quando tin
ham ido para Cape Christian já fora uma casa de Verão. Embora agora estivesse modernizada, não era uma casa construída para reter o calor. Tinha imensas janelas
e portas de muitos painéis, que faziam barulho com o vento. No entanto, Laura adorava aque
la casa. De certa maneira, parecia-lhe correcto que ela e Jimmy tivessem utilizado a modesta herança de Laura como entrada para a única coisa material que ela desejara
desde a infância: uma casa a que pudesse chamar sua.
Laura chegou ao fundo da gaveta e tirou a camisa de noite preta, de seda, que Jimmy lhe havia comprado depois de Michael ter nascido e quando ela já perdera o peso
da gravidez. Na altura em que ele lha dera, Laura brincara com ele, dizendo-lhe que, se
usasse aquela camisa de noite, voltaria a ficar grávida num instante. Mas tal não tinha acontecido. Os médicos disseram ao casal que não havia qualquer problema
clínico, mas o seu conselho não ajudara muito. "Talvez estejam a tentar de mais," dissera
um deles, com uma grande dose de insensibilidade. Mas não fora capaz de dar resposta ao facto de se tentar de mais quando esse é o desejo do coração. A todas as
pessoas que perguntavam, e eram muitas as que o faziam, eles respondiam simplesmente: "Es
peramos ter outro filho." Mas
Dolores não estava convencida. No último Dia de Acção de Graças, Laura tinha entrado na cozinha e ouvira Dolores dizer à cunhada: "Ela não teve problema em ficar
grávida da primeira vez, quando estava a tentar levar o meu filho a casar com ela."
Laura fechou a gaveta e sentou-se na beira da cama. Não havia forma de contentar aquela mulher, que nunca perdoaria a Laura o facto de lhe ter "roubado" o filho
pelas costas. Laura e Jimmy tinham-se conhecido,em São Francisco, onde foram apresentados
por um amigo comum. Ela trabalhava na altura como professora assistente de História de Arte, e Jimmy tinha um cargo de adjunto num dos maiores museus da cidade.
A princípio, ela mostrara-se relutante em encontrar-se com ele. Tinha imaginado um tipo fo
rmal, de laço, mas ficou surpreendida quando descobriu que ele se parecia mais com o defesa da equipa de futebol do liceu do que com um historiador de arte. O seu
ar descontraído e a sua personalidade expansiva era ideal para convencer os patronos das
artes a separarem-se das suas colecções, e Jimmy era considerado um valor no negócio da arte.
Laura fora atraída pela sua amabilidade e a sua auto-segurança, e a sua relação florescera de forma simples e natural. Mas quando, apesar de todas as precauções,
ela ficara grá
vida, Jimmy não hesitara. Insistiu que nada menos do que o casamento serviria, e quanto mais depressa melhor. Por seu lado, Laura não estava interessada num casamento
de estrondo. Era filha única, e os pais tinham morrido dois anos antes. Não havia ni
nguém para se alegrar com o casamento, ou para ficar excitado com ela, por causa da cerimónia. Na altura, Laura interrogou-se se a mãe de Jimmy não ficaria magoada
por ser excluída. Jimmy prometera-lhe que explicaria tudo à mãe, mais tarde, e algumas
semanas depois casaram no registo civil. Pouco após o facto consumado, o telefonema para Dolores fora explosivo. Jimmy garantira a Laura que tudo aquilo passaria
a Dolores. "Porque foi que eu lhe dei ouvidos?", perguntava-se ela agora.
A ideia de voltar a Cape Christian e abrir uma galeria de arte fora de Jimmy, há muito tempo que começara a perder a
paciência, com as politiquices do mundo da arte e, quando Michael fez três anos, Jimmy estava completamente farto da vida na cidade e de se sentir cada vez mais
isolado da mulher e do filho devido às exigências sempre crescentes do seu trabalho. Disse
nessa altura a Laura que queria ser o seu próprio patrão, criar o filho numa cidade pequena e prosseguir o seu interesse no campo das artes. Jimmy estava preocupado
com a reacção dela, mas Laura ficara deliciada com a ideia. Tinham feito uma visita a
Cape Christian, na época do Natal, para que Michael conhecesse os seus avós, e Laura adorou o local. Dolores mostrara-se gelada com ela, mas essa parecia ser a
forma perfeita de curar as velhas feridas. Mergulhada profundamente na sua própria felicid
ade, Laura pensou, ingenuamente, que a sogra acabaria por ficar contente e que tudo seria esquecido. Mas as coisas não tinham acontecido dessa maneira.
Olhando para trás, Laura era capaz de perceber por que razão Dolores havia reagido daquela maneira. Qualquer mãe ficaria preocupada se o seu filho se tivesse casado,
tivesse tido um filho e decidisse abandonar a sua carreira, de que ela se orgulhava t
anto, sem lhe ter pedido a opinião em relação a qualquer uma dessas coisas. Era mais fácil pôr as culpas na mulher do que admitir que o filho tinha escolhido uma
nova vida sem o seu conhecimento ou aprovação. Por isso, apesar do que Jimmy lhe dissera
repetidas vezes, Dolores continuava a acreditar que Laura havia engravidado para forçar Jimmy a casar com ela, e depois tinha continuado, sabotando a sua carreira.
"É melhor nem pensar nela", disse Laura a si própria. "Vai estragar-me a boa disposição." Tirou a roupa e enfiou a camisa de noite pela cabeça. Apesar de o frio
do quarto lhe provocar pele de galinha, a camisa de noite assentava-lhe deliciosamente sob
re o corpo. Não interessava o que as pessoas pensassem ou dissessem, ela e Jimmy tinham feito a escolha acertada. O seu casamento era sólido e feliz, e tinham um
filho que adoravam. Jimmy gostava muito de possuir o seu próprio negócio e de trabalhar m
esmo na rua onde moravam. Os três costumavam passar algum tempo juntos na galeria, durante o Verão, e no Inverno havia imenso tempo livre para se aninharem em frente
da lareira ou para irem brincar na neve. Laura ansiava por cada
novo dia ao lado do seu marido, e tinha o lar e a família com que sempre havia sonhado.
Laura puxou os cobertores para os pés da cama e apagou a luz, para que o quarto ficasse com uma luminosidade fraca. Enfiou-se debaixo do lençol e deixou cair uma
das alças para
o braço, quando ouviu passos no vestíbulo. "O meu marido", pensou ela. E o coração pareceu acelerar-se-lhe com o amor que sentia por ele.
Jimmy entrou no quarto, massajando a sua face barbeada. Quando ele se chegou mais perto e Laura o viu melhor, sentou-se de supetão na cama e ficou a olhar fixamente
para ele.
- Ena, ena! - murmurou Jimmy, olhando para a camisa de noite de Laura e desapertando o seu roupão. - Que temos nós aqui?
Todos os impulsos amorosos de Laura tinham desaparecido perante a visão da sua face, agora sem barba.
- Rapaste a barba - lamentou ela acusadoramente. -Decidi que já estava farto dela. Com ela não ficava exactamente eu.
Ele subiu para a cama e deitou-se apoiado num cotovelo, acariciando-lhe o ombro com a face escanhoada.
-Não, não faças isso - pediu Laura friamente, afastando-se dele.
Jimmy sentou-se.
- O que se passa? Não vestiste isso para outro homem qualquer, pois não? - perguntou ele, brincando com ela. Laura continuou obstinadamente silenciosa. - Vá lá -
insistiu ele. - O que é que se passa?
- Rapaste a barba porque a tua mãe te disse para o fazeres, não foi?
- Claro que não. Não sejas tonta. - Jimmy tentou tocar na mão dela, mas Laura retirou a sua.
Repentinamente, Laura ficara gelada. Rastejou por cima dos cobertores, pegou no seu robe de veludo que estava aos pés da cama e vestiu-o.
- Não achas que é um pouco estranho que assim que a tua mãe te diz para te livrares da barba, tu a rapes? Jimmy deixou-se cair sobre a almofada.
- Ela anda a dizer isso nos últimos seis meses, se bem te recordas. Não me apetece continuar a ter barba. Fiquei de repente assim tão repelente sem ela?
-Não é essa a questão e tu sabes isso muito bem. - Então qual é a questão?
- Tens trinta e três anos, e continuas a fazer tudo o que a tua mãe te diz.
Jimmy suspirou.
-Vamos recomeçar com essa história?
- Porque não? No que diz respeito à Dolores, eu estou sempre na época de caça.
- Só porque levas a sério todas as coisas que ela diz. E achas que eu faço o mesmo. Mas eu não a levo assim tão a sério, porque sei que ela não quer dizer a maior
parte das coisas que deita cá para fora. Ela tem apenas uma língua muito comprida...
- É uma maneira simpática de pôr as coisas - observou Laura, furiosa.
- Ouve, eu sei que as coisas que ela diz te ferem por vezes. Tudo bem, ela tem falta de tacto. Que posso eu dizer? Cresci com ela. Sempre a vi ser assim toda a vida,
a não pensar antes de falar, tal como tu fazes. Ela deita tudo pela boca fora, mas nã
o pretende com isso fazer mal a ninguém.
- Ela odeia-me, e sempre odiou. - Ela não te odeia, Laura.
- Culpa-me por tu não seres o próximo Thomas Hoving. Ela ainda pensa que te obriguei a casares comigo e que dei cabo da tua vida.
Jimmy voltou-se na cama e apoiou-se num cotovelo.
- Querida, que diferença te faz aquilo que ela pensa? Eu odiava todas aquelas tretas que dizia aos corretores ricos, só para lhes sacar uma pintura. E amei-te. E
ainda amo. Ela pode pensar aquilo que quiser.
- Mas porque é que não a podes fazer entender isso? - pediu Laura.
- Porque ela nunca há-de mudar - proferiu ele calmamente. - Acho que por causa de todas as coisas por que passámos quando eu era pequeno. Com a morte do meu pai
e de
vido à minha pouca idade, tornou-se mais possessiva do que as outras mães. Ela havia de encontrar defeito em qualquer rapariga por quem eu me apaixonasse. A minha
mãe não consegue evitar. Mas eu sempre soube isso. Quando te conheci e percebi que encon
trara a mulher da minha vida, fiz a única coisa que podia. Convenci-te a casares comigo e depois, quando estava pronto, tratei da catástrofe que adivinhava. Não
há outra maneira de tratar com a Dolores. Sempre lidei com ela desta maneira toda a minha
vida. Ouço-a, belisco-a na face, digo-lhe que sim e depois faço aquilo que eu quero fazer. Sempre foi assim. E sempre será.
Laura sentiu a sua fúria diminuir. Ela sabia que era verdade. O marido era tão teimoso como a mãe, e tão de ideias fixas como ela. De certa maneira, era aquela sua
capacidade de ser
um buldózer que a tinha atraído, e essa qualidade era, provavelmente, o resultado de anos a lidar com Dolores. Se ele fosse diferente, Laura não se teria apaixonado
por ele. Olhou para ele, para os seus olhos castanhos brilhantes, para o sorriso diver
tido que se lhe abria na cara.
- Eu disse-lhe que gostava daquela barba. Já devia ter calculado - disse Laura, resmungona.
- Podes deixar a barba em paz? Fazia-me comichão. Estava-me a causar um prurido. Para mais, sempre pensei que estavas a animar-me quando disseste que gostavas da
barba.
- Não - protestou Laura -, gostava mesmo dela. Jimmy desatou a rir-se. Rolou pela cama até chegar a ela e puxou-a para si.
- Bom, posso começar a deixar crescer as patilhas amanhã. Se isso te excita...
- Pois excita - insistiu ela, fingindo resistir. - Mas pensei que, no entretanto...
Puxou as mangas do robe até que ele caiu, feito num monno chão ao lado da cama.
Laura encaixou-se nos braços dele.
- É tão fácil ter uma briga contigo... - disse ela.
- Sou fácil, ponto final - anuiu Jimmy, começando a beijá-la.
O calor familiar dos lábios de Jimmy, a pressão excitante
te
do seu corpo contra o dela começou a afastar as nuvens do dia, a afastar todo o mundo à sua volta. Ela estava cada vez mais mergulhada nele, apreciando a ternura
do seu contacto. Subitamente, um choro interrompeu o seu acto de amor.
- Mamã... não me sinto bem.
Laura afastou-se de Jimmy e ficou a olhar para ele, mas havia um sorriso nos lábios de Laura.
- A dieta da tua mãe à base de comida de plástico acaba de fazer efeito.
Jimmy abanou a cabeça.
- O longo braço da Dolores, estendendo-se através da cidade até ao nosso quarto.
Laura suspirou e levantou-se, atando o cinto do robe e enfiando os seus velhos sapatos de ballet.
- Lamento, querido. Volto assim que puder.
Laura começou a caminhar pelo corredor. O quarto de Michael era do outro lado da casa.
-já aí vou, querido.
Quando Laura chegou ao quarto de Michael e ligou o candeeiro da mesa-de-cabeceira, viu que o filho estava sentado na cama, com um esgar na cara. Sentou-se ao lado
dele e afagou-lhe o cabelo que lhe caía para a testa.
- Que se passa, querido? - Sinto-me doente.
- Da barriga?
- Dói - disse ele.
- Ouvi dizer que tinhas comido uma série de coisas em casa da avó.
Michael aquiesceu, sonolento. Os seus olhos eram como beijos de chocolate, o cabelo suave como a seda.
-Não me sinto bem.
- Pronto. Vou lá abaixo fazer-te um chá especial E depois faço-te massagens.
- Está bem - respondeu ele.
Laura dirigiu-se às escadas. Jimmy estava encostado ao umbral da porta do quarto, vestido apenas com as calças do pijama, com os braços cruzados por cima do seu
peito musculado.
- Dores de barriga - anunciou Laura. - Vou fazer um chá. Isto pode levar algum tempo..
- Eu vou vê-lo daqui a um bocadinho - disse Jimmy. E quando Laura já ia a descer as escadas, ele perguntou-lhe: - Deixamos isto para depois?
Ela olhou para cima e assentiu com a cabeça. -Amo-te - afirmou Jimmy.
-Também eu.
Laura sorriu para Jimmy e começou a descer em direcção à cozinha.
O chá de ervas com mel pareceu ajudar, como acontecia sempre que Michael tinha indisposições de barriga. Mais do que qualquer outra coisa, suspeitava Laura, era
o seu calor açu carado e o facto de a sua mamã se levantar para o fazer que levavam a Mich
ael a sentir-se melhor.
Laura pôs a chávena vazia sobre a mesa-de-cabeceira, arranjou-lhe as almofadas e meteu-se na cama estreita, ao lado dele. Michael aconchegou-se nos cobertores e
descansou a ca beça contra o conforto do velho e familiar robe da mãe. Com suavidade, Laur
a começou a massajar-lhe a barriga com movimentos circulares. Michael descontraiu-se e chegou-se mais à mãe.
- Mamã, canta-me a Thumbelina - pediu ele com voz ensonada.
Ainda a massajar-lhe a barriga, Laura começou a cantar baixinho. Apesar de tudo, ela gostava daqueles momentos - não o facto de Michael se sentir doente, claro -
mas a cir cunstância de ele querer ser mimado e reconfortado. Michael tinha-se tornado tã
o independente nos últimos tempos, que momentos como aqueles eram preciosos. Durante breves instantes, ele voltava a ser de novo o seu bebé.
- Canta outra vez - murmurou ele quando ela acabou. - Como está a barriga?
- Melhor - respondeu ele. - Cantas outra vez? Laura apertou-o e beijou-o no alto da cabeça.
- Claro - disse ela, e bocejou.
Fechou os olhos.e começou a cantar outra vez, a voz a fugir ao tom muitas vezes, à medida que a sonolência tomava conta dela. Michael avançava com um verso, sempre
que ela
falhava. Laura ouviu a sua respiração tornar-se mais profunda e regular. Algures a meio de um verso, a voz fugiu completamente e também ela adormeceu, ainda a aconchegá-lo
nos seus braços.
Laura não soube exactamente o que foi que a acordou. Se tinha sido um grito estrangulado ou um estalido mais alto... Alguma coisa porém a fez sentar-se na cama de
Michael, alerta e cheia de um sentimento de grande medo e ansiedade. Michael voltou-se n
a cama, confortável e profundamente adormecido.
Laura sentou-se às escuras, à espera do próximo som. "Terá Jimmy ouvido?", perguntou-se ela. Ele tinha um sono pesado e, para ela, o seu sono profundo que nada incomodava
era mais uma prova da sua autoconfiança. Trabalhava sem perturbações, divertia-s
e com intensidade e dormia profundamente. Jimmy era assim. "Mas aquele ruído foi bastante alto", pensou Laura. Teria sido suficiente para o acordar, até a ele. De
certeza que ele se ia levantar e ver o que se passava. Ficou à escuta, mas não ouviu mai
s nada. Talvez ela o tivesse imaginado. Ou sonhado com ele. Mas Laura sabia, com uma certeza doentia, que o ruído tinha sido real.
"Não tem necessariamente de ser uma coisa má", disse a si própria. Um esquilo a aterrar no telhado. O vento a fazer com que a porta do chuveiro exterior se tivesse
aberto e voltado a fechar. O escape de um automóvel que fosse a passar. Ou podia ter si
do qualquer coisa... ou alguém. Laura queria esquecer o incidente, voltar a adormecer, mas todo o seu corpo se encontrava agora tenso. Para além disso, era altura
de ela voltar para o seu próprio quarto. Iria acordar Jimmy, o que não era fácil. Mas el
e desceria as escadas e iria ver o que se tinha passado, pois não quereria que fosse ela a fazê-lo. No entanto, mesmo depois de ter decidido levantar-se, Laura hesitou,
o coração acelerado, uma sensação de enjoo no estômago. Retirou as pontas do seu r
obe de baixo do pequeno corpo enrolado de Michael e saiu da cama. O relógio na mesa-de-cabeceira indicava que eram duas e meia da manhã. Laura saiu em bicos de pés
do quarto e fechou a porta atrás de si.
Excluindo a luz de presença nocturna que provinha da casa
de banho, o corredor estava escuro. Começou a andar pelo corredor, em direcção ao quarto do casal. Quando chegou ao cimo das escadas, olhou para baixo. Havia um
pequeno vitral no primeiro andar que deixava passar um pouco de luar. Tirando isso, as esc
adas estavam às escuras e em sossego. Escutou durante alguns instantes, depois recomeçou a marcha em direcção ao seu quarto. Quando Laura passava no topo das escadas,
uma figura escura apareceu, vinda da porta do seu quarto.
Laura deixou escapar um pequeno grito quando viu o homem. O seu coração começou a bater furiosamente e o seu crânio arrepiou-se com medo.
- Jimmy? - murmurou Laura, mas ela sabia que não era Jimmy. - Quem está ai? - insistiu ela, mas a frase soou mais como um murmúrio.
O homem aproximou-se dela. Estava vestido de preto e usava uma máscara de esqui sobre a cara. Quando ele se acercou, Laura viu que ele tinha qualquer coisa na sua
mão enluvada. Laura recuou, os membros paralisados pelo medo.
- Jimmy! - gritou ela, com uma voz fraca. - Socorro! Antes de poder mexer-se ou pensar, o homem tinha chegado junto dela. Laura tentou afastar-se, procurando segurar-se
ao corrimão, mas as escadas estavam mesmo atrás de si. Rapidamente ele levantou o
braço e desferiu o golpe. Laura sentiu uma pancada na cabeça, tentou agarrar o corrimão, não conseguiu alcançá-lo e começou a cair.
***
CAPÍTULO 4.
Laura abriu os olhos, sentiu uma dor muito aguda na cabeça e, quando tentou mexer-se, outra dor fez-se sentir no tornozelo. Estava caída no primeiro patamar, situado
a um terço do caminho da escadaria. A casa continuava às escuras e silenciosa. Laura
sentia qualquer coisa húmida e pegajosa na testa. Mesmo na escuridão conseguia ver manchas escuras na parte da frente do seu velho robe branco.
Durante um momento, a sua mente ficou como que envolvida por um nevoeiro. Depois, subitamente, a imagem do intruso apertou-lhe o coração. Tentou começar a falar,
num esforço para se recordar, mas depois calou-se. E se ele ainda estivesse ali e a ouvis
se? E que estava ele a fazer ali? Onde estava Jimmy? Porque não aparecia ele? E Michael? Oh, Deus...
O pensamento relativo ao filho indefeso fê-la pôr-se de pé, a dor obrigando-a a gritar. Alcançou o corrimão para se apoiar e arrastou-se até ao degrau seguinte.
Jimmy, Michael. Murmurava os seus nomes como uma oração, à medida que se arrastava pelo re
sto das escadas. Em cada um dos degraus olhava para trás, para a escadaria, esperando vê-la ali, aquela figura vestida de negro, olhando para ela com os seus olhos
invisíveis. "Estaria ele ainda por ali?", o seu coração não parava de formular a pergun
ta. Estaria ali? Estaria dentro da casa? Os seus pensamentos dirigiram-se para Jimmy. Porque não tinha ele acorrido? Se pudesse vir ter com ela, não o teria feito?
Laura queria chamá-lo pelo nome, mas não se atrevia, o homem podia estar lá em baixo, o
uvi-la-ia. E voltaria.
Laura alcançou o cimo das escadas e parou, dividida entre duas direcções. O seu quarto ficava mais perto, onde Jimmy devia estar. Tinha de estar. Podia encontrar-se
a dormir. Ou ferido. Ou... Laura não permitiu que o seu pensamento fosse até ao fim. O
seu coração voltou-se primeiro para o filho, o seu bebé, o mais vulnerável. O quarto era ao fundo do corredor, mas havia outro corrimão onde se podia amparar. Nem
chegava a ser uma escolha, tinha de ir ver Michael.
Depois de se arrastar lentamente ao longo do corrimão, chegou ao fim do corredor e atirou-se para a frente, ficando amparada ao umbral da porta do quarto de Michael.
Ali estava ele, na sua cama. Rapidamente, os seus olhos procuraram os cantos do quart
o. Estavam escuros, cheios de formas indistintas que tanto podiam ser brinquedos como a mobília, ou qualquer outra coisa. Laura lembrou-se de como ele, às vezes,
gritava, receoso de que um monstro estivesse escondido num desses cantos. E tanto ela com
o Jimmy acendiam a luz, nessas alturas, para lhe mostrarem que não havia nada a recear. Os seus dedos tremeram junto ao interruptor da luz, mas não se atrevia a
acendê-la. Se o homem ainda estivesse em casa, a luz podia atrair a sua atenção. Arrastou-
se até à cama e atirou-se para cima dela. Michael espreguiçou-se e murmurou: "Não..." Sentiu a respiração dele na sua cara como se se tratasse de uma brisa de Primavera.
Laura enterrou a cabeça no seu pequeno casaco de pijama.
- Graças a Deus - murmurou ela, aliviada. - Obrigada, meu Deus.
Olhou para cima, depois para os lados, mas o quarto estava imerso numa enorme calma. Durante uns instantes, Laura limitou-se a ficar agarrada a ele, a sentir a sua
respiração. Depois sacudiu-o e murmurou:
- Michael, querido, acorda. Tens de vir com a mamã. Michael resmungou como protesto por estar a ser acordado, e depois abriu os olhos. Laura tentou sorrir-lhe. -Anda,
querido - incitou ela. - Tens de te levantar. Ele piscou os olhos e depois esfregou-
os.
- Porque estás a falar tão baixinho? - perguntou ele num tom de voz normal.
- Chiu, querido - disse ela rapidamente. - Por favor, não faças barulho. Vem com a mamã.
Ainda meio a dormir, ele saltou obedientemente da cama. - Onde é que vamos? - perguntou Michael em voz alta. - Está calado, querido - pediu ela. - Preciso da tua
ajuda. Tens de me ajudar a ir até ao quarto do papá e da mamã. Aleijei o meu pé. Michael assentiu com a cabeça.
- Preciso do meu urso - declarou ele com um ar sério. - Tudo bem, vai buscar o teu urso. Vá lá - murmurou ela com um tom de urgência.
Michael pôs um urso de peluche debaixo de um dos braços e pegou na mão da mãe. Juntos, foram caminhando lentamente pelo corredor fora. Laura fazia um esgar de dor
a cada passo que dava. Até que, finalmente, chegaram junto da porta do seu quarto de cas
al. A porta estava aberta, mas dali Laura não conseguia ver o interior da divisão.
- Muito bem - disse ela. - Agora, Michael, tu vais esperar aqui. Fica aqui à espera da mamã, e deixa-te estar num sítio onde eu te possa ver. E não te mexas.
Michael começou a protestar, mas ela agachou-se, apertando-lhe os braços e olhando-o directamente nos olhos. Os protestos do rapaz morreram-lhe na garganta.
- Está bem - anuiu ele.
Com uma mão trémula, empurrou a porta e olhou para o interior do quarto. As gavetas das cómodas estavam abertas, a sua caixa de jóias, igualmente aberta, estava
de pernas para o ar. O luar entrava pelas janelas e chegava à cama. Jimmy encontrava-se de
itado na cama, uma das pernas caída para fora. Os seus braços estavam estendidos e a cara voltada para a janela. Ele nunca dormia daquela maneira.
Ou talvez dormisse, pensou Laura. Talvez quando ela estava adormecida ele se pusesse naquela posição todas as noites. Uma pequena voz assustada dentro dela gritava
"Não, não!", mas ela calou-a sem soltar um som. Talvez durma assim, talvez ele esteja a
dormir. Ou talvez o ladrão lhe tenha batido, também. Talvez lhe tenha batido na cabeça e posto inconsciente para poder roubar. Isso, devia ter sido isso. Laura
tentou igno
rar a garra de gelo que lhe prendera o coração. Tentou ignorar igualmente o arrepio na nuca, ignorar a sensação de enjoo que sentia no estômago. Tentou ignorar
a presença no quarto.
Não a do intruso, podia ver suficientemente bem com a luz da Lua, e esse já lá não estava. Era outra presença, imóvel, vazia, terminada. Laura recusou reconhecer
isso. Arrastou-se até ao lado do marido, rezando, fazendo acordos com Deus. "Permite que
ele esteja bem. Faz com que se encontre apenas inconsciente, apenas a dormir, e eu serei... eu farei... tudo, qualquer coisa... prometo... tudo."
Os olhos de Jimmy estavam abertos, fixos. Um dos lados da sua cabeça e a almofada eram uma massa escura e confusa. Tocou-lhe na face e estava fria.
- Jimmy - murmurou Laura. - Querido, sou eu. É a Laura. Fala comigo.
A cabeça de Jimmy, cheia de sangue, agitava-se como a cabeça de uma boneca. Os seus olhos sem vida fixavam-se através dela para um outro mundo. Subitamente, a visão
de Jim
my encheu-a de terror. Sacudiu a cabeça e começou a recuar. - Nãoooo - desatou a gritar. - Nãoooo... Jimmy, nãoooo...
- Mamã! - A cara lívida de Michael e o tom da sua voz assustada eram como uma bofetada na cara de Laura. - Mamã, o que se passa? Que aconteceu ao papá?
Laura voltou-se e viu Michael a entrar no quarto. Era como se tudo se desenrolasse em câmara lenta, vê-lo a empurrar a porta, a começar a caminhar em direcção a
ela, o urso pen
durado na mão, ao mesmo tempo que chamava pelo pai. Instintivamente, sem sentir sequer a dor no tornozelo, Laura atravessou o quarto e agarrou-o, atirando-o ao chão
para que ele não pudesse ver nada.
- Que aconteceu ao papá? - continuava ele a perguntar. Um pensamento obcecava-a, tinha de tirar Michael dali. Tinha de o tirar do quarto, não o podia deixar ver
o pai. Havia um telefone ali mesmo, ao lado da cama, mas se ela lhe tentasse chegar Michae
l ficaria liberto e veria o pai. Ali deitado, assim, num mar de sangue. Uma visão que o aterrorizaria para o resto da vida. "Pensa", disse ela a si mesma. "Por Michael."
Uma parte dela queria agarrar o telefone. E se o homem estivesse ali, do lado de fora da porta, à espera que eles saíssem? Michael começara a chorar. Tentando chegar
até perto de
Jimmy, tentando escapar aos braços de Laura. Ela segurou-o até ele protestar, dizendo que o estava a magoar. -Ajuda-me - murmurou Laura -, a mamã precisa da tua
ajuda.
Havia outro telefone na sala ao lado, que era o escritório de Laura.
-Ajuda-me a pôr de pé. Depressa! - murmurou ela. - Vamos acordar o papá - chorou ele. - O papá pode ajudar-te.
- Não, apenas tu. Ajuda-me a chegar à porta - insistiu ela. - Não consigo andar sem a tua ajuda.
- Porque não?
- Michael, ajuda-me já! - gritou ela.
As lágrimas corriam pelas faces de Michael, mas o rosto de Laura mantinha-se seco. O seu pai fora militar e descendente de uma família de militares, que sistematicamente
troçara das suas lágrimas, o que lhe tinha roubado aquele alívio natural. Laura s
abia que o pai não fizera isso para ser cruel, era a sua maneira de ser. E ela tinha estado de olhos enxutos no seu funeral, tal como o comandante teria desejado.
Mas Laura jurara nunca fazer isso a um filho seu.
Enquanto Michael choramingava, ele deixou-a apoiar-se no seu ombro, agarrando o robe da mãe com a sua pequena mão. Laura coxeou até ao escritório, verificando não
estar nin guém naquela divisão, e fechou a porta atrás deles. Arrastou-se até à secretár
ia e acendeu a luz suspensa sobre o seu estirador de desenho.
- Mamã, estás cheia de sangue! - gritou Michael. - Chega aqui ao pé de mim - pediu ela.
Michael abanou a cabeça negativamente, agora que tinha visto o sangue, não queria chegar perto do robe da mãe. Laura deixou-se cair na cadeira da sua secretária,
segurando a mão de Michael, e pegou no telefone.
- Não te mexas - ordenou ela. Laura sentia-o a tremer intensamente.
Ligou para o 112.
- Em que posso ajudar? - indagou uma voz de mulher. Por um momento, Laura pensou que ia desmaiar. Michael soluçava e tinha os ombros a tremer. A boca de Laura estava
tão seca que, a princípio, não foi capaz de falar.
-Em que posso ajudar? - repetiu a voz.
-Socorro. O meu marido... - murmurou ela. - Alguém entrou em casa. Ele está cheio de sangue... Acho que... acho que ele... acho que ele está morto.
***
CAPÍTULO 5.
Vincent Moore voltou-se na cama e lançou um braço sobre Ingrid, a sua mulher adormecida. O toque do telefone acordou-o. Abriu os olhos e tentou ordenar os seus pensamentos
antes de atender.
"Deve ser a Katy," pensou ele, com uma sensação de aborrecimento. A filha, que vivia em Albany, estava grávida de quatro meses e a atravessar uma gravidez difícil..
Hemorragias, repouso na cama, tudo junto. Vince pegou no telefone.
- Chefe?
Vince ficou aliviado ao ouvir a voz de Jerilyn Conlon, a telefonista de serviço na época festiva na esquadra de polícia. Lançou uma olhadela ao relógio digital colocado
a seu lado: três e quarenta e cinco da manhã. Tinha de ser coisa séria para lhe es
tarem a ligar àquela hora. Não era fogo: a sirene ter-se-ia ouvido. Mas era noite de passagem de ano e, possivelmente, tinha havido um acidente de automóvel. Alguém
que bebera um pouco a mais, sem dúvida.
-Sim, o que se passa? - Vince sentou-se cama.
Ingrid voltou-se e olhou para o marido, na escuridão. - É a Katy? - perguntou ela, receosa.
Vince abanou a cabeça negativamente e acendeu a luz da mesa-de-cabeceira.
- Graças a Deus - disse Ingrid, que se sentou na na beira da
cama e puxou a roupa para o peito, enquanto via a cara do marido ficar pálida.
- Muito bem - murmurou Vince. - O grupo de emergência médica já lá está? Bom. Liga para o Ron Leonard, o investigador do gabinete do promotor público e diz-lhe para
se encontrar comigo lá o mais rapidamente possível. E o médico legista... Já está? Ópt
imo. Quero todos os agentes disponíveis dispersos pelas redondezas. Quero o suspeito e a arma... Como?... Há uma hora atrás?! Oh, meu Deus! Okay. Jerilyn, isto é
importante, quero que o Bobby McCandless vá buscar os Barone. Vivem no Condomínio Seashel
l, em Beach Road. Diz-lhe que não quero sirenes nem luzes nos carros. Eles já vão morrer de susto assim que ouvirem a campainha da porta. Ingrid procurou recuperar
o fôlego.
- Exactamente - continuou Vince. - Ele é o melhor. Conhece a família há anos. Tudo bem, eu já vou a caminho. Vince desligou o telefone e levantou-se da cama, procurando
as calças numa cadeira.
- Porque é que vais mandar o Bobby buscar a Dolores? - perguntou Ingrid, inquieta. - O que foi que aconteceu, Vince?
- O Jimmy Reed levou um tiro e morreu - informou Vince sem cerimónias.
Ingrid soltou um grito.
- Tenho de ir - disse Vince.
- Mistress Reed - chamou a paramédica num tom de voz alto e firme. Laura estava numa maca. - Vamos levá-la para as urgências dentro de alguns minutos. Está a entender-me?
A casa estava agora cheia de luz e de actividade. O som de passos fazia-se ouvir, tanto a subir como a descer as escadas. Três pessoas trabalhavam à volta dela,
um homem e duas mu lheres. Estavam a medir-lhe os sinais vitais e a imobilizar-lhe o pé. L
aura soergueu-se e agarrou-se à parka da paramédica que lhe limpava a ferida na cabeça. Uma placa com o nome dizia que se chamava Kara.
- O meu marido... - tentou Laura dizer, mas os dentes batiam uns nos outros. - Michael!
- Põe-lhe outro cobertor'- ordenou Kara ao homem
que estava atrás de si. - A pressão arterial está a descer. Não queremos que ela entre em choque.
A mulher olhou calmamente para os olhos de Laura e tranquilizou-a.
- O seu filho está aqui com a sua vizinha, Mistress Garrity. Ela vai cuidar dele.
A cara de Pam Garrity surgiu no campo de visão de Laura. Esta tinha a vaga sensação de que Pam estava a usar a sua par~ ka vermelho-escura por cima da camisa de
noite. Os olhos de Pam estavam cheios de lágrimas quando olhou preocupada para a cara de L
aura.
- Laura - disse ela com calma -, vou levar o Michael para minha casa. Pomo-lo no quarto do Louis.
Louis, o filho de Pam, era o melhor amigo de Michael. - Não te preocupes, que nós tomamos conta dele. Não o deixamos sozinho nem por um minuto.
Um agente da polícia espreitou por cima do ombro de Pam Garrity.
- Vamos colocar um agente à porta de casa dos Garrity. Estarão constantemente vigiados.
Laura sacudiu a cabeça. "Não", queria ela dizer. "Parem. O que se passa?" Mas era tudo muito vago e distante. Tinham-lhe dado uma injecção e o mundo começava a ficar
confuso.
- Eu quero estar com a mamã! - ouviu Michael gritar. Laura tentou voltar-se na maca para o ver.
- A tua mãe tem de ir para o hospital, para nós podermos tratar dela - explicou o paramédico. Depois voltou-se para Laura. - Estivemos a examiná-lo. Está perfeitamente
bem. Não foi ferido.
Laura estendeu a mão para Michael e ele pôs os braços à sua volta e a cabeça encostada à dela. "Concentra-te", pensou ela. "Pelo Michael."
-Vai com a Pam - murmurou. - Brinca com o Louis até eu voltar.
Laura sentia as lágrimas de Michael na sua cara. Pam apertou-lhe a mão.
- Eu tomo bem conta dele - prometeu ela com firmeza. Laura assentiu com a cabeça, sentindo-se como se estivesse a afastar-se deles num mar de gelo.
-Vai, querido - murmurou ao filho e sentiu as suas mãos a separarem-se dela.
- Vamos levá-la daqui para fora - informou a paramédica chamada Kara e, de repente, correias foram colocadas em torno do corpo de Laura, que sentiu a maca a ser
levantada.
- Vamos - disse o homem que se encontrava junto aos pés da maca.
- Nãooo! - gritou Laura. Estava a ser levada para as escadas. Voltou a cabeça e viu diversos polícias nas imediações do seu quarto, e muitos flashes de máquinas
fotográficas a se
rem disparados no interior do quarto. Muitos homens falavam. - Jimmy! - gritou ela. Ele ainda estava ali. Ela sabia. Deitado na cama que era dos dois, sozinho, enquanto
aqueles estranhos vasculhavam o quarto.
Foi então que começou a sentir os solavancos, estava a ser levada pelas escadas abaixo. Daquele ângulo, Laura conseguia ver que um pedaço do papel de parede, num
dos cantos do tecto das escadas, estava a soltar-se.
Jimmy teria de usar o escadote para voltar a pô-lo no lugar, pensou ela. Depois o pensamento voltou a atingi-la, como uma pancada no peito. Nunca mais, nunca mais.
- Cuidado nesse canto - disse o homem que ia à frente. - Aí é mais inclinado.
Desceram as escadas um pouco aos solavancos, e os dentes de Laura não paravam de bater, a cada degrau que desciam. Sentia uma grande dor na cabeça, os remédios tinham-na
ali viado, mas a dor continuava lá. Os seus olhos estavam secos e não conseguia c
horar.
- Abram caminho, por favor - gritou o paramédico para os agentes que se encontravam à porta. E, de repente, formou-se um caminho entre todas aquelas pessoas.
- Um momento.
Os paramédicos pararam imediatamente e Laura viu uma cara familiar inclinar-se sobre ela. Passou a língua pelos lábios gretados.
- Chefe Moore - murmurou. Estendeu a- mão e tentou apanhar a manga, mas os seus dedos estavam demasiado adormecidos para os conseguir fechar.
- Deram-lhe algum sedativo? - perguntou o chefe a Kara.
- Sim, senhor. Demos-lhe um analgésico e um sedativo. Tivemos de a observar bem por causa daquela ferida na cabeça. Outro homem surgira ao lado do chefe. Era mais
novo e usava um fato cinzento e uma gravata escura. Havia uma estranha expressão de susp
eita nos seus olhos quando fixou Laura. O chefe debruçou-se sobre Laura.
- Este é o detective Leonard. Vai ajudar-nos a descobrir o tipo que fez isto - disse ele, sombrio. Pronunciava as palavras lentamente, como se ela fosse surda.
De repente, o homem do fato cinzento puxou Vince para o lado e falou em voz baixa. O chefe Moore fez uma careta, como se estivesse contrariado. Depois, com má cara,
aquies ceu. Voltou-se e falou com Kara, a chefe da equipa de paramédicos.
-Temos de lhe enfiar as mãos em sacos de plástico - afirmou ele. - Precisamos de lhes fazer testes de parafina no hospital.
Kara levantou o sobrolho e olhou para Laura com ar interrogativo. Afastou-se para o lado quando o detective Leonard se acocorou junto à maca e colocou as mãos de
Laura dentro de sacos de plástico, fechando-os com fita nos pulsos.
-Assim está bem? - perguntou ele a Laura.
Ela abanou a cabeça, meio tonta, não sentindo nada. Kara baixou-se e voltou a colocar as mãos de Laura por debaixo dos cobertores.
- Irei ver-te ao hospital - prometeu Vince. Deu uma palmadinha no ombro de Laura e endireitou-se. -Podem levá-la - ordenou.
Laura sentiu que estava novamente em movimento. A porta da rua foi aberta e ela apercebeu-se do ar frio da rua misturando-se com o calor da sala da entrada de sua
casa. Quando começaram a transportá-la, o caminho ficou subitamente bloqueado. Dolores e
Sidney, com as roupas e os cabelos em desalinho, estavam ali, seguidos pelo agente McCandless.
Dolores olhava com ar estupefacto para Laura amarrada à maca, para o seu pé metido num molde de plástico, o seu rosto quase tão branco como as ligaduras na sua cabeça.
Perante
aquela visão de Laura, os olhos de Dolores encheram-se de lá
grimas. Ternamente, puxou para trás uma madeixa do cabelo da nora.
= Minha pobre filha - murmurou ela.
Os olhos de Dolores observaram receosamente a pequena multidão de agentes da polícia que se encontravam na casa; fixou o chefe Vince, que já os tinha visto chegar.
O chefe encarou-os.
- Onde está o meu neto? - inquiriu Dolores.
- Está com a vizinha do lado, Mistress Garrity. Vai ficar bem. A casa será mantida vigiada durante -toda a noite. Sidney soltou um gemido, como se tudo estivesse
a afundar-se.
- Oh, Vincent! - gritou Dolores, estendendo o braço para pegar na mão do velho amigo. - Meu Deus, diz-me que não é verdade.
Todos os seus anos de treino de nada lhe serviram naquele momento.
-Lamento muito, Dee - proferiu ele com os olhos cheios de lágrimas.
***
CAPÍTULO 6.
Era já manhã quando saíram da sala das urgências e a conduziram a um quarto particular. Uma enfermeira ajudou-a a sair da cadeira de rodas e a deitar-se entre os
lençóis engomados. Laura viu que o dia estava cinzento, antes de a enfermeira ter baixado
as persianas. Era visível um polícia à porta, quando a enfermeira saiu.
Laura deixou-se cair num meio sono repleto de aparições violentas. As enfermeiras sacudiam-na de cada vez que ela estava prestes a adormecer, por qualquer razão
que tinha a ver com o ferimento na sua cabeça. Ingeria de boa vontade todos os comprimidos
para as dores que lhe davam, mas recusou a sopa e a gelatina que lhe trouxeram. Os médicos iam e vinham, examinavam-na, faziam-lhe perguntas. Meio atordoada, com
um profundo desinteresse pelo seu próprio estado de saúde, Laura cooperava.
Algures durante o dia que parecera todo ele crepúsculo, o chefe Moore chegou, sentou-se perto da cama e pediu-lhe que lhe contasse o que havia acontecido. Enquanto
ela relatava os acontecimentos, um médico permaneceu em silêncio aos pés da cama dela,
vigiando as suas forças. Com muitas pausas, Laura contou ao chefe o que acontecera com o ruído, o homem na escuridão e a pancada que recebera na cabeça. Quando chegou
à parte em que procurara Jimmy, começou a ter problemas respiratórios. Por insistênc
ia do médico, o chefe deixou-a passar por cima dessa parte. Depois contou-lhe os pormenores relacionados com Michael e o de ter chamado a
polícia. Era como se Laura estivesse a contar coisas que tivessem acontecido a outra pessoa. O chefe Moore não ficou durante muito tempo e, quando terminou, o médico
deu ordens para que lhe dessem outro analgésico.
Laura não podia ter visitas, mas durante a parte da tarde falou com Michael pelo telefone. A sua vozinha parecia-lhe vir de outro planeta. Tentou entoar alguma coisa,
uma canção ou coisa assim. Quando terminou, o auscultador caiu-lhe da mão. O estado
de sonolência continuou até meio da noite, quando finalmente a deixaram dormir, estando ultrapassado o período crítico. O seu sono foi um vazio negro, onde não entrava
qualquer som ou sensação.
-Acorde, querida - disse a enfermeira.
Laura abriu os olhos e olhou em volta pelo quarto. Uma luz cinzenta entrava através das persianas, que se encontravam ligeiramente abertas. Um dia tinha começado.
O novo ano. O seu coração fazia-se pequeno perante as perspectivas desse dia. Desse ano.
Dos anos que estavam para vira Da sua vida. Da sua vida sem Jimmy. Apenas um dia antes, ela era uma mulher normal e feliz. Agora, a sua vida como viúva havia começado.
Laura voltou a face para a almofada, desejando que o esquecimento do sono regressa
sse. Que apagasse tudo.
- Oh não, nada disso - proferiu a enfermeira. - Tem de deixar que a ponhamos bonita. Tem aí uma visita a chegar. - Não quero nenhuma visita - disse Laura tristemente.
No entanto, cedendo aos pedidos da enfermeira, Laura levantou-se e fez alguns esforç
os superficiais para se lavar, arrastando-se com o seu molde de gesso e as muletas. Exausta, deixou-se cair na cama e bebeu água, por uma palhinha, de um copo que
estava na mesa-de-cabeceira. A enfermeira juntou todas as toalhas e panos e, ao sair do
quarto, trocou uma piada com o polícia que estava de guarda à porta.
Laura deitou-se na cama e ficou a olhar na direcção das persianas, perguntando a si própria como iria ela conseguir viver. Como trabalhar? Como criar o filho sem
um pai? As suas vidas tinham girado na órbita de Jimmy. Eles eram os seus planetas, ele e
ra a estrela deles. A sua fonte de calor e luz. Lau
ra fechou os olhos e viu a cara de Jimmy. De repente, a porta do quarto abriu-se e Laura voltou a cabeça para ver quem era. O chefe Moore entrou no quarto, seguido
por uma agente jovem de uniforme e um homem de fato que lhe parecia vagamente familiar.
- Mistress Reed, como se sente? - perguntou o chefe. - Laura - recordou-lhe ela, sentindo-se vagamente confusa com o seu tom de voz formal.
O chefe assentiu com a cabeça.
- Esta é a agente Hale. Vai gravar, esta nossa conversa. A agente fez-lhe um aceno de cabeça e sentou-se numa cadeira a um canto do quarto, tirando algum equipamento
de uma pasta.
- E este é o detective Leonard - continuou o chefe, indicando o homem de cabelo loiro penteado para trás e sérios olhos cinzentos.
-Você esteve na minha casa - disse Laura. O detective Leonard anuiu com a cabeça. -Apanhou-o? - perguntou Laura, sentindo uma leve faísca de qualquer coisa, que
tanto podia ser fúria ou vingança. - Ao homem que fez aquilo?
- Ainda não - informou o chefe, parecendo muito pouco à vontade.
Laura encostou-se à almofada. Ele continuava à solta. Um monstro qualquer que tinha entrado em sua casa como um animal selvagem, reduzindo a sua vida a farrapos
e ainda permanecia em liberdade. Como podia ela voltar a dormir ali? Onde voltaria ela a s
entir-se em segurança? Laura percebeu, quase em estado de choque, que o queria ver morto. Nunca pensara em si própria como uma pessoa vingativa, mas agora sabia
a verdade. Ela queria que ele desaparecesse, quem quer que ele fosse. Eliminado da face da
Terra.
- Laura - repetiu o chefe Moore -, estamos aqui porque precisamos de aclarar algumas coisas.
Laura suspirou e acenou com a cabeça afirmativamente. -Está bem, tudo o que puder ajudar.
- Mistress Reed - disse Ron Leonard -, diga-me por que razão não estava na cama, com o seu marido, quando este Incidente aconteceu?
O seu tom de voz áspero era como um balde de gelo encostado à sua cara. Toda a gente fora simpática desde que tudo acontecera, tratando-a com muitos cuidados, como
se ela fosse feita de vidro. Aquele homem era diferente, parecia-lhe hostil. Como se el
a pudesse ter evitado a morte de Jimmy se estivesse deitada na sua cama. E seria isso verdade?, perguntou-se ela. Teriam as coisas sido diferentes? Ainda estaria
Jimmy vivo? A voz de Laura tremia quando respondeu.
- Já contei ao chefe. O meu filho estava doente. Encontrava-me no seu quarto com ele.
- Doente, como? - perguntou Ron. - Estava, por exemplo, a vomitar?
- Não, tinha uma dor de barriga e eu estava a massajar-lhe o estômago. _
- Então, não estava assim tão doente que fosse preciso chamar o médico, por exemplo.
Laura sorriu fracamente.
-Não. Ninguém chama o médico a meio da noite por causa de uma dor de barriga. A não ser que seja alguma coisa realmente séria.
Ron franziu a cara.
- Então, se não era uma coisa verdadeiramente séria, porque estava a dormir no quarto do seu filho?
-Adormeci enquanto o embalava. Tem filhos, detective Leonard?
O detective ignorou a pergunta dela.
- Portanto, não foi por a senhora e o seu marido... digamos, estarem a ter uma discussão?
Laura sacudiu a cabeça, recebendo a pergunta como um insulto. Sentiu-se de repente à defesa, relembrando a questão acerca da barba, acerca de Dolores. Deus, como
tudo agora pa recia mesquinho e tão triste. Os seus últimos momentos juntos... e esses mo
mentos haviam sido gastos a discutir a barba dele.
- Não. Quero dizer, por acaso tivemos uma pequena discussão, mas nada de especial.
Olhou para Vince em busca de compreensão, mas ele evitou o seu ar pesaroso.
- Uma coisa de nada. Estávamos a fazer as pazes quando o Michael chamou por mim.
Ron Leonard olhou para o seu bloco de apontamentos. - Falámos com uma tal Mistress Candy Walsh. A senhora e o seu marido jantaram com os Walsh na noite em questão.
-Jantámos, de facto.
- Mistress Walsh disse que a senhora podia ter estado a discutir com o seu marido. Que a senhora estava maldisposta, segundo as palavras dela.
A cara de Laura ficou vermelha de indignação, quase de fúria. E, ao mesmo tempo, apetecia-lhe rir-se.
- A Candy Walsh... - exclamou ela, sacudindo a cabeça. - Essa... - Fez um esforço para não chamar a Candy um nome feio. - Era de esperar - prosseguiu ela. Candy
nunca se veria a si mesma como a causa de irritação de outra pessoa.
Antes de poder explicar melhor, o detective Leonard perguntou:
- A senhora e o seu marido davam-se bem?
- Claro - afirmou Laura, irritada. - Porque está a perguntar-me esse tipo de, coisas? Como é que isso o vai ajudar a apanhar o assassino?
- Sabe de alguém que pudesse querer matar o seu marido? - Não - disse Laura secamente. - Ninguém. O meu marido era...
Novamente a dor na cabeça. E não era capaz de recorrer ao alívio das lágrimas.
- Toda a gente gostava dele - terminou ela apressadamente.
- Outras mulheres? - perguntou ele. Laura sentou-se na cama e olhou para ele.
- Claro que não. - Voltou-se e ajeitou a almofada atrás de si.
- Sabe uma coisa? Se não se importa que lhe diga isto, esperava vê-la lavada em lágrimas por uma perda como esta, Mistress Reed - declarou o detective Leonard.
Laura olhou para ele, furiosa.
- Importo-me, sim. Importo-me mesmo muito que me diga isso. Se eu fosse capaz de chorar, pode crer que chorava.
Rapidamente e com muita habilidade, ele mudou de assunto.
- Sabe o que aquele homem estava a fazer em sua casa? - Se eu sei?... - perguntou Laura, confusa, a sua fúria crescente para com aquele homem transformando-se em
sarcasmo. - Acho que ele nos estava a roubar. Digo isto só pelo facto de ele ter uma arma
, por estar a usar uma máscara de esqui, e porque a nossa casa estava de pernas para o ar e o meu marido morto.
-Tecnicamente, a sua casa não estava "de pernas para o ar". Algumas gavetas foram abertas e coisas assim. A senhora e o seu marido têm muitas jóias de valor?
Laura olhou para ele, depois sacudiu
a cabeça.
- Não.
-Tem uma arma, Mistress -Não, não tenho.
- Sabe como disparar uma Laura sentia a ferida a latejar. - Que diferença faz isso?
Reed?
arma?
- Sabe?
Laura olhou para o chefe Moore. Ela não conhecia bem o chefe, embora se encontrassem socialmente. Ele e a mulher eram velhos amigos da família de Jimmy. Laura achou
que ele devia ajudá-la, quanto mais não fosse em nome de Jimmy. Aquele detective parec
ia não entender o facto de ela ter perdido o marido.
- Chefe Moore, não contou a este homem o que aconteceu?
O chefe evitou a familiaridade do seu tom de voz.
- O detective Leonard e eu... estamos confusos acerca dos factos que rodeiam a morte do seu marido. Mistress Reed, antes de irmos mais longe, quero informá-la de
que tem direito
a ter um advogado presente durante os interrogatórios. Se quer um advogado, podemos interromper até que lhe arranjemos um.
- Um advogado?! - exclamou Laura. - Não preciso de um advogado. Não seja ridículo. Porque necessitaria eu de um advogado?
- Então, continuemos - sugeriu. Ron Leonard. - Sabe como disparar uma arma?
- Sei, sim - afirmou Laura desafiadoramente. - O meu pai era comandante da marinha. Ensinou-me a disparar uma arma quando eu tinha dez anos. E se eu tivesse uma
arma, tinha-a disparado na cara daquele filho da mãe.
-Qual filho da mãe? - perguntou Ron Leonard. "Tu", pensou Laura, mas mordeu a língua para não o dizer em voz alta.
- Como se atreve? - disse Laura amargamente.
Ron Leonard sacudiu a cabeça e depois olhou para ela friamente, com os seus olhos cinzentos implacáveis.
- O que dizem os médicos acerca do seu estado?
Laura ficou confundida com a súbita mudança do seu tom de voz.
- Bem. Espero poder ir para casa... - Laura pensou na casa sem Jimmy. E murmurou: - Voltar para junto do meu filho... Talvez hoje.
-Sabemos que tem um tornozelo torcido.
-Foi quando ele me empurrou pelas escadas abaixo. - E um ferimento na cabeça. Superficial.
Laura olhou para ele com os olhos ligeiramente fechados. -Talvez não dissesse isso se a cabeça fosse sua.
Ron Leonard riu-se mas não pareceu divertido. - É esse o diagnóstico médico.
- Havia sangue por todo o lado. Deram-me uma pancada que me deixou inconsciente.
- Os ferimentos na cabeça tendem a sangrar muito, por pequenos que sejam. E diz que a puseram inconsciente porque bateu com a cabeça quando caiu. Que, pelas suas
contas, deve ter ficado sem sentidos durante quase uma hora. Quero eu dizer, temos aqui u
ma hora em que não sabemos o que aconteceu, e que medeia entre a altura em que o seu marido foi morto e a hora a que a senhora chamou a polícia.
- E então? - perguntou Laura.
- Então, o assassino... - Leonard retirou a palavra. - Ele matou o seu marido à queima-roupa, mas apenas lhe deu uma pancada na cabeça, na sequência da qual a senhora
caiu e provocou o resto.
Laura voltou-se para o chefe Moore.
- Que estão para aí a dizer? Tenho culpa da força com que ele me bateu? Pensam que eu quero estar viva?
A sua voz tinha crescido até se tornar um grito. Depois pensou em Michael e sentiu-se culpada. "Sim", pensou ela, "quero estar viva por causa do Michael."
- Ouça - prosseguiu ela, mais calma -, eu não sei porque é que ele não me matou também. Talvez estivesse com pressa, talvez tenha querido... Não sei. Não sei o que
aquele homem estava a fazer...
- Se é que houve um homem - interrompeu-a Ron Leonard.
Laura olhou para ele. O sangue parecia ter-lhe gelado nas veias.
- Se? - disse ela. - Sabe em quanto estava segura a vida do
seu marido, Mistress Reed?
- Se é que houve um homem?...
- Eu digo-lhe em quanto estava segura. O James Reed Júnior fez recentemente um seguro no valor de quinhentos mil dólares. É um seguro muito grande para um homem
tão novo. Com um pequeno negócio.
A cabeça de Laura andava à roda.
- Foi o Richard quem nos aconselhou... eram esses os termos do seguro. O Richard Walsh... Ele disse que era importante estarmos protegidos, enquanto o Michael fosse
pequeno. Perguntem-lhe. Ele diz-vos.
- Já falámos com Mistress Walsh. Ela disse que o seu marido estava relutante quanto a esse seguro, mas que a senhora o convencera a fazê-lo...
- Porque o Richard me convenceu! - gritou Laura. - O Richard afirmou que era a coisa mais responsável a fazer, por causa do Michael...
Ron Leonard parecia fazer contas no seu bloco.
- Um assassínio é considerado uma morte acidental. Com a indemnização dupla, é um milhão de dólares, Mistress Reed. A senhora é uma jovem. mulher muito rica.
Laura olhou para o chefe Moore, mas a sua cara, normal
mente amigável, mostrava-se sombria. Voltou a fixar os olhos frios de Ron Leonard. O seu coração batia com muita força e ela era capaz de sentir o sangue a subir-lha
à cara, como uma maré.
- O que está a dizer? - perguntou ela. Mas ela sabia. O seu espírito mal o podia perceber, mas ela sabia.
A expressão na face de Leonard era impassível, mas havia um tom aguçado na sua voz.
- Estou a dizer, Mistress Reed, que temos alguns problemas com a sua história.
- A minha história? - repetiu Laura. Como se estivesse em qualquer ficção que ela tivesse criado. Laura agarrou-se à beira da cama. O quarto começava a andar à roda.
***
- PARTE 2.
- MAIO.
Capítulo 7.
Vincent Moore, chefe do Departamento de Polícia de Cape Christian, pousou o auscultador do telefone no ombro e olhou para as fotografias de um bebé adormecido.
- Recebi as fotografias esta manhã - disse ele à sua mulher, Ingrid, que estava do outro lado da linha. - Que bonequinha. Como se sente a Katy hoje?
Ingrid encontrava-se em Albany, a ajudar Katy, que depois da sua gravidez de risco tinha acabado de dar à luz, sem quaisquer complicações, o seu segundo filho, uma
rapariga. O filho de Vince e Ingrid, Robbie, que vivia em Filadélfia, tinha um filho, p
ortanto agora o casal tinha três netos.
Ingrid garantiu-lhe que Kate se encontrava bem, mas que naquele momento estava a dormir.
Diz-lhe que lhe telefono depois - pediu Vince. Quem lhe dera poder estar lá para ver a nova neta, mas isso teria de esperar pelas suas férias em Setembro. Maio era
o início da época alta numa zona de lazer como Cape Christian e ele não podia afastar-s
e.
- Quando voltas para casa? - perguntou ele a Ingrid. A mulher prometeu-lhe que seriam apenas mais alguns dias. À medida que ela ia descrevendo os seus planos para
os próximos dias, Vince bebeu um gole de café e os olhos percorreram a sala da esquadra.
De repente, avistou uma figura familiar junto à porta.
Endireitou-se na sua cadeira e limpou a marca da chávena de café na sua secretária com um guardanapo de papel.
- Querida - disse ele, interrompendo Ingrid -, tenho de desligar. A Dolores está aqui.
Ingrid compreendeu e despediram-se, enquanto Vince fazia sinal a Dolores para entrar no seu gabinete.
Vince Moore conhecia Dolores e o seu primeiro marido, Jim Reed, desde que eram crianças. Lembrava-se dos pais deles, tinha estado no casamento dos dois e ainda se
recordava da noite em que Jim Jr. tinha nascido. A morte de Jim Reed Sr. tinha sido equi
valente à perda de um irmão. Tanto ele como Ingrid tentaram manter-se próximos da viúva de Jim e do seu pequeno filho. Ingrid e Dolores costumavam levar os respectivos
filhos juntos à praia, durante o Verão, e sentavam-se debaixo de chapéus-de-sol col
ocados lado a lado, enquanto Jimmy, Robbie e Kate brincavam na areia.
Vince suspirou. Odiava ver Dolores a caminhar na direcção da sua secretária. Odiava encará-la de mãos vazias, mais uma vez. Sabia do que Dolores estava à espera,
mas de mo mento ele não podia fazer nada. Não podia ordenar qualquer prisão.
Vince, Ron Leonard e o promotor público do condado, Clyde Jackson, um negro bonito que se formara em Princeton e que tinha uma queda por fatos feitos em bons alfaiates,
ha viam despendido horas sem conta a analisar as provas de que dispunham. Em graus
diferentes, todos eles tinham a mesma suspeita mas, oficialmente, a versão da história de Laura prevaleceu. Oficialmente, todos procuravam um assaltante mascarado
que entrara na casa dos Reed através de uma janela que não estaria fechada e morto Jame
s Reed Jr. na sua cama, roubado um relógio Rolex e algumas jóias. Não possuíam testemunhas e nunca encontraram a arma do crime, um revólver Smith cr Wesson de calibre
.38. Como era seu dever, a imprensa local referiu-se à história como um assalto que
acabara em crime. E durante as semanas que se seguiram, Vince teve de utilizar agentes extras para acompanhar velhinhas a casa e investigar todos os ruídos que surgiam
junto de cada janela aberta.
Porém, muitas pessoas na pequena cidade de Cape Christian pareciam ter absorvido, quase instantaneamente, as suspeitas secretas dos agentes da lei sobre o caso.
Jimmy Reed era
originário da cidade, e a sua viúva era de fora. Ele tinha sido morto na sua cama e ela ficara praticamente sem uma beliscadura, para gozar o milhão de dólares que
surgira de repente. Era um axioma entre os que velavam pelo cumprimento da lei que, num
a morte como esta, o primeiro suspeito era a mulher. Ninguém na vizinhança tinha visto qualquer pessoa suspeita naquela zona. Não havia provas na casa do misterioso
intruso: nem fibras, nem cabelos. Um assassino que não deixava qualquer traço de si er
a uma coisa estranha. Além disso, decorrera uma hora entre a morte de Jimmy e a chamada telefónica de Laura para a polícia. Uma hora em que, suspeitavam Ron, Vince
e Clyde Jackson, a arma do crime e uma pequena quantidade de jóias tinham sido deitadas
ao mar e levadas pela maré.
Mas não havia provas. Não havia factos para levar a tribunal. O teste de parafina que tinham feito às mãos de Laura dera como resultado que ela não havia disparado
uma arma. Ou, pelo menos, sem ter luvas calçadas. E contra a opinião do seu advogado, L
aura submetera-se a um teste no detector de mentiras e tinha passado. Esperara que todos esses resultados a ilibassem tanto aos olhos da polícia como das pessoas
daquela cidade; porém, tinha-se enganado a esse respeito.
Dolores sentou-se na cadeira que estava ao lado da secretária de Vince e colocou um pedaço de bolo embrulhado em papel encerado em cima do mata-borrão da secretária.
- Toma lá - disse ela. - Para a tua dieta.
- Muito obrigado - agradeceu Vince com alguma rudeza, enquanto dava palmadinhas no embrulho. Dolores trazia-lhe muitas vezes coisas, quando passava pela esquadra.
Já deixara de vir todos os dias, mas ainda continuava vigilante. Nas primeiras semanas d
epois da morte de Jimmy, Dolores era uma presença constante, soluçando encostada ás paredes, pedindo informações, enquanto o segundo marido, Sidney, a apoiava silenciosamente.
Nesses dias, ela aparecia tão penteada e bem vestida como sempre, mas havia
olheiras por debaixo dos seus olhos, que nem uma maquilhagem cuidadosa conseguia ocultar. Parecia ter encolhido, envelhecendo anos em poucos meses. Toda a gente
sabia como ela chorara o filho, como ainda o chorava.
- A' Ingrid ainda está em Albany com a Kate? - perguntou Dolores.
Vince aquiesceu.
- Recebi isto pelo correio, hoje de manhã - disse ele orgulhosamente, passando-lhe as polaróides por cima da secretária. Dolores estudou as fotografias avidamente.
Um sorriso brincou-lhe nos lábios, mas os seus olhos continuavam tristes. - Não é uma b
eleza? - exclamou ela. - É o teu terceiro? Vince assentiu com um movimento de cabeça.
Dolores encostou-se e suspirou. - É uma maravilha. -Como vai o teu neto?
- O Michael? É um anjo. Está óptimo. Mas, claro, sabes como são as crianças. São pequenos actores. Podem esconder as piores coisas, como se nada tivesse acontecido.
Vince concordou. - E eu não sei?
- Estamos a fazer tudo para o ajudar. Todos nós. O meu marido e eu. Os nossos amigos. Tu sabes.
- A tua nora recebe bem as visitas?
A cara de Dolores transformou-se em granito quando Laura foi mencionada.
- O Sidney vai buscar o Michael. Eu não falo com ela. O Sidney tem sido o homem dos transportes. É um santo. Não sei como ele pode suportar falar com ela, mas ele
faz isso para que eu possa ver o Michael.
Vince sabia muito bem como Dolores se sentia. A princípio tinha resistido à sugestão de que Laura pudesse ser culpada. Laura era esposa e mãe: parecia-lhe impensável.
Mas algu ma coisa dentro de Dolores fora profundamente abalada no funeral do filho,
quando a viúva não chorou. As pessoas tentaram explicar-lhe. Choque, disseram. Ela nem está cá. A própria Laura pediu desculpas, dizendo que o pai não gostava de
lágrimas e que a tinha condicionado para as conter. Mas Dolores não podia aceitar isso. E
la própria já fora uma jovem viúva e conhecia o desgosto. Depois, alertada pelas perguntas de Ron Leonard, começou a pensar na história de Laura. Esta conseguira
impingir essa história à polícia, e depois a Sidney, até
que ele tomou conhecimento das desconfianças da própria mulher. No entanto, a cada dia que passava, as suspeitas de Dolores tornavam-se mais firmes. Até que chegara
ao ponto de o seu coração se endurecer contra a nora.
Por seu lado, Vince estava a marcar passo. Ele conhecia os factos melhor do que ninguém, mas uma parte dele queria acreditar na rapariga. Era calma e metida- consigo
mesma, embora fosse difícil dizer aquilo que ela era antes de tal tragédia. Também er
a verdade que ninguém a vira chorar, nem mesmo no funeral, mas ele estava convencido de que ela sofria. Sempre que a via, depois da morte de Jimmy, Vince pensava
naquela frase de La Belle Dame sans Merci, "Só e palidamente vagueando", porque lhe parec
ia que se lhe aplicava. Claro que quando o disse a Ingrid, que fora professora de Inglês no liceu, Ingrid fê-lo recordar-se com o seu tacto habitual de que a frase
se referia ao cavaleiro do poema de Keats, e não a uma mulher. Fora o homem quem tinha
sido abandonado e estava a penar pela cruel rapariga.
- A Laura veio visitar-me há pouco tempo - disse Vince. - Queria saber se tínhamos alguma coisa de novo.
Os olhos de Dolores quase explodiram de fúria. - Aposto que queria.
Vince fingiu não entender o que ela queria dizer. Laura não fora acusada de nenhum crime e ele tinha de manter uma aparência de objectividade.
- Os cartazes fizeram surgir alguns telefonemas. Aquela recompensa é muito tentadora para as pessoas - acrescentou Vince.
Laura oferecera duzentos e cinquenta mil dólares do dinheiro do seguro de Jimmy como recompensa por informações que conduzissem à prisão do assassino de Jimmy. Gary
Jurik
tinha desenhado os cartazes e eram extremamente apelativos. Muitas pessoas haviam telefonado a dar indicações, mas até ao momento todas elas se tinham revelado inúteis.
- Pois, ela fica muito segura ao oferecer aquela recompensa, não fica? Quero dizer, nem deve ser preciso preocupar-se con o facto de aparecer alguém a reclamá-la
- declarou Dolores
amargamente.
- Dolores - disse Vince dando-lhe palmadinhas na mão -, não deves perder a esperança. Se esse tipo anda por aí, vamos encontrá-lo um dia destes.
- E se não houver tipo nenhum?
- Esta investigação ainda está em aberto - afirmou Vince com firmeza.
- Bom, quis passar por cá antes de me ir embora. O Sidney e eu vamos para fora durante umas semanas. Um dos seus grandes clientes, o que é dono do Stella di Mare
em Atlantic City, deixa-nos utilizar o seu condomínio na Florida, e o Sidney diz que se e
u não for e não descansar, se divorcia de mim - informou Dolores com uma série de pequeninas gargalhadas.
- Isso parece uma boa ideia - observou Vince com sinceridade. - Afasta-te um pouco. Aproveita a mudança de cenário.
Dolores passou-lhe um bocado de papel.
- Este é o telefone desse lugar na Florida. Se houver alguma notícia... qualquer coisa...
Vince pôs a sua mão sobre a dela quando pegou no papel. - Telefono-te imediatamente. Prometo-te, Dee.
- Muito bem, Vince - disse ela pondo-se de pé. - Tenho de ir para casa e acabar de fazer as malas.
Vince pôs-se também de pé e pegou-lhe na mão.
- Tenta divertir-te, que eu trato das coisas deste lado. O teu Jimmy está sempre na minha cabeça. E nunca vamos descansar enquanto o assassino não for apanhado,
podes ter a certeza.
- Nem eu - retorquiu Dolores secamente. - Obrigado pelo bolo.
,- Dá saudades minhas a Ingrid e a Kate quando falares com elas.
- Darei com certeza - assegurou Vince.
Ficou a vê-la ir-se embora, os ombros curvados como se estivessem debaixo de um enorme peso, e sentiu uma angústia familiar. Por vezes, no passado, quando o trabalho
o aborrecia, costumava sonhar com a reforma e com o andar que Ingrid e ele iam compra
r. Mas desde aquela terrível noite de passagem
de ano, todos os seus sonhos se concentravam na descoberta daquela prova crucial, e escondida algures, que permitiria levar até à justiça o assassino que roubara
a vida a Jimmy Reed. Se tivesse sido Laura Reed, eles encontrariam uma maneira de o prova
r. Devia isso a Dolores e ao seu neto, bem como à memória do seu amigo, desaparecido há muito, Jim Reed. Aquele crime horrorizava-o, enfurecia cada um dos seus instintos,
como polícia e como ser humano. Um homem inocente não podia ser morto na sua cam
a e ninguém pagar por isso.
O dia de Primavera anunciava-se à janela, agora aberta para o exterior. O sol e o canto das aves entravam por ela e o cheiro dos lilases penetrava por essa moldura.
Vem cá para fora
brincar, parecia ser o desafio que o dia propunha. Dentro de casa, mais persistente do que tudo o resto, encontrava-se Michael, recordando-lhe que lhe tinha prometido
levá-lo à marina para ver os barcos. Finalmente ela concordara. E fizera um plano. A
quele dia seria diferente.
Laura afastou-se da janela quando o sol lhe bateu na cara. O Inverno tinha sido perfeito para ela, uma espécie de capa cinzenta que ela usara a tremer. Apenas ia
à rua para as coisas
mais urgentes, comprar comida ou ir buscar Michael à escola. Geralmente gastava a maior parte do dia a reunir forças e vontade para sair de casa. Depois, no frio
e na escuridão que caia mais cedo, podia encolher-se, escondendo-se dos olhares, dos murm
úrios que se levantavam à sua passagem. Mas depois dos primeiros raios de Sol em Abril, a sua depressão apenas pareceu aumentar. A luz do dia parecia prolongar-se
infinitamente e ela sentia-se vulnerável, andando pela cidade sem a armadura de um casac
o grosso, um chapéu enfiado na cabeça. As pessoas podiam então estudar-lhe a cara, vê-la retrair-se sob os seus olhares frios. Já era desgosto suficiente ser viúva,
ter de encarar cada longo dia sem a companhia de Jimmy, mas ser olhada como suspeita..
.
O toque da campainha da porta fê-la saltar.
- Eu vou lá - gritou Michael, mas Laura saltou e paxou-o para trás.
- Não - disse ela, quase feroz. Depois, mais calmamente, acrescentou: - Eu vou.
***
Capítulo 8.
Chestnut Street estava completamente banhada pelo sol. Era um belo dia, que as pessoas aproveitavam para dar um passeio. Laura perguntou-se se alguma vez voltaria
a sentir-se segura. Naquela casa, decerto que não. Durante os primeiros dois meses, Laur
a tinha contratado um segurança para vigiar a casa durante a noite. Mudara de quarto, para um situado ao fundo do corredor e perto do de Michael. Falara também com
Richard Walsh sobre a possibilidade de pôr a casa à venda, mas ele aconselhara-a a não
pensar nessa hipótese, por enquanto, seria cercada pela curiosidade, pelos voyeurs, mas ninguém quereria verdadeiramente comprar a casa. Toda a gente sabia que era
um local marcado, uma residência onde um homem tinha sido morto na sua própria casa.
Laura abriu ligeiramente a porta e viu um rapaz que segurava uma jarra de vidro com um ramo de flores. A carrinha da Florista Scott estava parada na esquina. Laura
deu uma gorjeta ao rapaz e agradeceu-lhe, pegando nas flores e colocando-as na mesinha
da entrada. Abriu o cartão que as acompanhava, mas Laura já sabia o que estaria escrito: "De um amigo." Costumava receber estes ramos duas vezes por mês, desde a
morte de Jimmy. Quando o primeiro ramo chegara, Laura tinha ficado surpreendida, até mesm
o assustada durante um instante, por causa da mensagem anónima. Depois, quase imediatamente, reconhecera a caligrafia no cartão e ficara descansada. Gary Jurik era
uma das poucas pessoas na cidade que ainda se mostrava simpático para com ela, parecend
o não encarar a hipótese de ela ser uma assassina. Porém, quando ela tentou agradecer-lhe, Gary ficou todo corado e fingiu não saber nada acerca das flores.
"Talvez devêssemos passar pela casa dele, a caminho da marina", pensou ela. Da última vez em que haviam falado, ele pedira-lhe que passasse por lá para ver as novas
pinturas antes que elas fossem para a galeria. Richard Walsh estava agora a tomar cont
a dos assuntos da galeria, o que era óptimo para Laura, que não suportava sequer voltar a entrar no local. No entanto, sabia que Gary apreciaria genuinamente a sua
opi
nião. Sem os encorajamentos de Jimmy, mostravam-se os dois indecisos, sentindo a falta do crítico e do apoiante em quem mais confiavam. Pelo seu lado, Laura não
tinha voltado a pegar numa caneta ou num pincel desde o dia em que Jimmy morrera.
- Talvez possamos parar para ver o tio Gary quando sairmos - disse Laura a Michael.
- Óptimo - respondeu ele. - Podemos ir já?
Laura suspirou. Duas paragens de autocarro não chegariam a ser um projecto de saída para a maioria das pessoas, mas, para Laura, era uma missão complicada. Durante
toda a manhã Michael tinha estado a brincar sossegadamente, não a querendo perturbar, d
eixando-a enfiar-se na sua concha. Haviam combinado ir à marina na noite anterior, e Laura até lavara a cabeça como preparativo para a ocasião. Já várias vezes negligenciara
esses cuidados relativos à sua própria higiene dias a fio, nos últimos meses.
Quando a manhã chegou, tentara escapar ao plano combinado; Michael, porém, com os seus truques de criança, voltara a convencê-la.
Tinha escolhido um longo vestido cinzento estampado com florezinhas, que era o vestido preferido de Jimmy para a chegada da Primavera. O dia estava lindo, não havia
desculpa
para adiar o passeio por mais tempo. Pôs um chapéu de palha com uma fita branca, que estava pendurado há muito tempo. Quando Michael a viu a compor o chapéu em frente
ao espelho da entrada, largou o seu comboio eléctrico, apanhou o boné de basebol e e
nfiou-o na cabeça.
Subitamente, o telefone tocou e ambos ficaram a olhar para ele. Depois olharam um para o outro, Laura com uma expressão preocupada nos olhos, Michael com um ar de
determi nação. Michael saltou, correu para o telefone, levantou o auscultador e disse co
m brusquidão:
- Agora não podemos falar. Vamos sair. - Michael - protestou Laura -, dá-me Com relutância, Michael passou-lhe o auscultador. - Está lá? - perguntou Laura.
- Estou a ver que telefonei na altura errada - disse Marta Eberhart.
Laura sorriu ao ouvir a voz da sua editora. Felizmente que Marta era a espécie de pessoa que se mostrava divertida, e não ofendida, com a manobra de Michael.
- Prometi-lhe que o levava à marina - disse Laura. - O Michael tem a certeza de que eu me vou esquivar.
A relação de negócios entre Laura e Marta há muito que tinha dado lugar a uma amizade, embora.. sempre à distância. - Estás em casa? - perguntou Laura, imaginando
Marta no seu apartamento de uma assoalhada na Rua 65 da zona ocidental, todo ele decorad
o em tons de branco e bege, com as roupas de Marta, os seus sapatos e livros espalhados por cima da mobília cara.
Marta suspirou.
- Estou em casa e a desejar que um calmeirão como Michael me quisesse levar à marina. Em vez disso, vou a uma aula de aeróbica dada por um antigo instrutor dos fuzileiros.
Ouve, não te vou demorar, só queria saber como te sentes.
Laura olhou para Michael, que se tinha voltado a sentar no chão e estava a fazer lutas entre pequenos soldados com um ar furioso estampado na cara.
- Estou bem. Ainda não fiz trabalho nenhum...
- Não telefonei por causa disso. Hoje é sábado, não estou a trabalhar. Ouve, põe-te mas é a andar, sei que esse rapaz que aí tens deve estar a ficar impaciente.
- Lá isso é verdade - afirmou Laura, desejando poder ser magicamente transportada para a ilha de Manhattan, onde se poderia deixar cair no sofá de Marta, beber um
pouco de vinho e falar durante horas, sair para jantar e depois adormecer no sofá de Mar
ta. Por uma ou duas vezes, ainda Jimmy estava vivo, ele tinha-a convencido a fazer exactamente isso, e transformara-se numa fuga de luxo da sua vida de todos os
dias. "Precisava disso agora", pensou Laura. "Como eu gostava de sair daqui, desta cidade.
De tudo."
"De tudo menos do meu filho", pensou ela com tristeza, olhando amorosamente para a cabeça de Michael, debruçada sobre os seus soldados lutadores.
- É melhor eu ir - disse ela.
- Toma cuidado contigo - recomendou Marta antes de desligar.
-Claro que sim - anuiu Laura. E voltando-se para o' seu filhote que estava imerso nos seus brinquedos: - Estou pronta.
Michael olhou para cima e depois um sorriso abriu-se-lhe na cara, de orelha a orelha.
Boa!
Pós-se de pé e deu a mão à mãe, como se lhe quisesse dar coragem. Juntos, começaram a caminhar em direcção à porta.
A casa onde Gary Jurik vivia com a mãe era cinzenta e estava isolada numa língua de terra voltada para Cable Bay. Pertencera a um grande rancho construído nos anos
50, mas tinha sido completamente remodelada em função das necessidades de Gary. Era uma
casa muito mais agradável do que aquela em que Gary tinha crescido. Fora a indemnização que recebera do seguro, por causa do acidente que sofrera, que lhes permitira
mudarem-se para ali. Havia quatro rapazes no carro, na noite cheia de neve em que ac
ontecera o desastre. Jimmy e outro rapaz haviam escapado ilesos. O condutor morrera e Gary ficara permanentemente inválido. O processo de Gary tinha-se arrastado
durante vários anos, mas agora tanto ele como a mãe viviam naquela casa com um relativo c
onforto. Laura sabia que algumas pessoas até lhes invejavam a sorte, murmurando que ele se tinha saído muito bem do desastre. "Como as pessoas desta cidade podem
ser cruéis e mesquinhas", pensou ela. Como se um cheque pudesse compensar alguém pela per
da das pernas ou de um ente querido.
Laura bateu à porta, enquanto Michael brincava nos degraus. Foi Wanda Jurik quem abriu a porta, com um ar tão desalinhado como se tivesse acabado de ser arrancada
a um trabalho de demolição. Laura ouviu a televisão ligada noutra sala, um talk show mat
inal. Wanda olhou com ar vazio para Laura, como se não a reconhecesse, o que não era nada de anormal em Wanda, que parecia estar num contínuo estado de preocupação.
- O Gary está? - perguntou Laura.
-Em que outro sítio é que podia estar? - retorquiu Wanda em tom de acusação.
"Em montes de lugares", pensou Laura, irritada. Gary estava numa cadeira de rodas, não num pulmão de aço. Laura recordava-se do julgamento que Jimmy fazia de Wanda:
"Ela gosta de o fazer sentir-se dependente", dissera ele. Jimmy era geralmente arguto
a analisar as pessoas, mas nesse caso Laura pensava que ele tinha deixado escapar o pormenor mais importante. Wanda nunca parecia muito feliz com a vida que levavam.
Agia sempre como se estivesse a cumprir uma pena perpétua de trabalhos forçados.
- Podemos vê-lo? - perguntou Laura com um suspiro. Wanda afastou o olhar de Laura.
- Está no escritório dele - informou.
Laura só tinha estado naquela casa uma ou duas vezes. Olhou em redor, pouco certa, e Wanda apontou na direcção das traseiras da casa. Laura conduziu Michael à sua
frente, decidida a encontrar o seu caminho fosse como fosse, mas sem ter de recorrer mai
s à pouco simpática Wanda.
Porém, o escritório não foi difícil de encontrar. Ocupava uma área que devia ter sido um terraço, mas que agora estava fechada. As paredes de vidro davam para a
água. Atrás da casa não havia senão uma duna, ali fixada por pedras e vegetação da praia.
No seu extremo existia um pequeno molhe que avançava pelas águas calmas da bafa. Naquele dia as águas estavam azul-escuras, e as gaivotas pairavam por cima, os seus
gritos audíveis através dos painéis das janelas. Gary, que estava a desenhar à sua mes
a quando eles entraram, voltou-se e saudou-os com um sorriso tímido mas deliciado. Michael correu para ele e começou a trepar-lhe para o colo.
- Não, Michael - disse Laura, mas. Gary estava com ar feliz a puxar a pala do boné de Michael até aos olhos e a fazer-lhe cócegas debaixo dos braços. Os gritinhos
de protesto de Michael encheram a tranquilidade daquela sala. Laura sorriu. Gary pegou n
uma caixa de marcadores e em folhas de papel, e Passou tudo a Michael.
- Ora vamos lá ver - disse ele. - Faz-me um desenho daquele farol ali.
Michael olhou para a baía, procurando o local que Gary estava a indicar e depois, deitando-se no chão, começou a trabalhar.
- Estamos a caminho da marina - explicou Laura com ar casual. - Pensei que podíamos passar por aqui e ver as novas pinturas.
Gary assentiu com a cabeça. Ele compreendia a vida que ela estava a levar actualmente, a forma confinada como vivia, Laura expressava-se como se fosse uma coisa
normal para os dois saírem para dar um passeio. Houvera uma altura em que tinha sido, mas
não desde que Jimmy morrera.
- É bom teres saído de casa - afirmou ele. - Sei que é difícil quando sentimos que toda a gente nos olha e nos aponta pelas costas. E a ti nem sequer te apetece
muito sair de casa, para começar.
Laura olhou para ele com gratidão. Compreendeu que eram parecidos de certa maneira, as suas vidas circunscritas por um acidente violento que eles não tinham podido
controlar.
- Porque é que tu não olhas para mim como as outras pessoas fazem?
Gary encolheu os ombros e movimentou a cadeira de rodas em direcção a algumas telas que se encontravam junto à parede mais afastada.
- Eu conheço-te - disse ele. - Sei como tu és. Laura seguiu-o e sentou-se numa cadeira de madeira com costas de couro, junto à parede. Observou cuidadosamente as
novas pinturas. Em vez das habituais aguarelas com motivos arquitectónicos, aquelas eram
belas mas sombrias vistas das terras à beira da água, que abundavam naquela área. A terra transformava-se em água, depois fundia-se com o céu. Eram imagens apenas
habitadas por aves marinhas, uma zona que estava naturalmente protegida dos invasores pe
la traiçoeira mobilidade da sua enganadora superfície plácida.
- O que achas? - perguntou Gary.
- Bom, em popularidade, nunca substituirão casas vitorianas - respondeu ela.
Gary ficou a olhar para o seu trabalho, como se estivesse a arranjar uma forma suficientemente boa para o defender. - Mas acho que estas são as pinturas mais belas
que tu jamais fizeste - concluiu ela.
Gary olhou para ela, o rosto iluminado, as faces tão rosa
das como as de uma criança que tivesse acabado de receber um cachorrinho.
- Não fiques assim tão surpreendido - disse ela. - Tu deves saber que elas são boas.
-Não tinha a certeza - contrapôs ele.
- Pois, mas são - afirmou Laura com ternura. - Embora pareçam um pouco sombrias, quando comparadas com aquilo que geralmente costumas fazer.
- Isso tem a ver com a disposição com que se fica perante a tristeza daquela zona. Eu estaciono a carrinha na reserva das aves. Nunca há gente por ali. E tenho de
ter cuidado com a cadeira, ao passar naquelas pontes de madeira sobre as zonas mais húmi
das. Se ficasse preso naquela lama que aparece agora na Primavera, podia permanecer ali uma semana até que alguém me descobrisse - disse ele com uma gargalhada.
-Talvez não devesses ir para lá sozinho...
-Eu gosto de estar só - afirmou ele com firmeza. Wanda Jurik entrou no escritório e olhou em volta.
- Estou a fazer atum para o almoço - anunciou ela com brusquidão. - Queres da parte branca ou da escura?
A cor fugiu do rosto de Gary.
- Vocês os dois não querem ficar para o almoço? - perguntou ele cheio de esperança.
Laura quase saltou da cadeira. Tinha visto os lábios de Wanda a franzirem-se quando ouvira aquela sugestão desagradável.
- Não, obrigada. Nós temos de ir. Anda, Michael. Michael pegou na folha de papel e agitou-a 'à frente dos dois, triunfantemente.
-Vejam o meu desenho.
Gary pegou nele e olhou-o com atenção. - Está muito bem, Michael.
- Do branco ou do escuro? - perguntou Wanda novamente.
- Escuro - disse Gary calmamente, sem olhar para ela. Wanda voltou-lhe as costas e saiu do escritório.
-- Obrigada por me teres mostrado as pinturas - agradeceu Laura.
- Quando é que tu vais ter algum trabalho para me mostrares? - perguntou Gary com ternura.
Laura sacudiu a cabeça.
- Não sei. A Marta telefonou-me esta manhã, embora tenha sempre o cuidado de não me falar de trabalho. Sou obrigada a escrever mais um livro, segundo o meu contrato,
mas tenho andado muito preguiçosa, Gary.
- Eu percebo. - Gary fez um aceno com a cabeça. - Mas se tentasses fazer algum trabalho, talvez isso te libertasse o espirito de todas as outras coisas. Ficaria
muito contente se pu
desse ver os esboços. Não sou a mesma coisa que o Jimmy, mas...
- Oh, eu agradeceria muito a tua ajuda - garantiu Laura. - Talvez tu sejas mesmo aquilo de que eu preciso. E tenho a certeza de que tens razão. Sabes, estes livros
do Raoul como personagem vêm todos de fantasias que eu tive quando era criança. Quero d
izer, eu era uma criança solitária. O meu pai era muito mais velho do que a minha mãe e ele era... Bom, ele não queria ser duro, mas era uma pessoa muito exigente,
acho que se pode dizer assim. Sei que ele me amava... nunca duvidei disso; mas a vida n
a nossa casa nunca era divertida ou alegre. E como estávamos sempre a mudar de casa, raramente tinha um amigo que fosse muito chegado. Por tudo isso, eu vivia no
meu pequeno mundo a maior parte do tempo. E esse era um local onde me sentia feliz. Mas u
ma coisa é escapar para esse mundo quando somos crianças, e outra muito diferente quando somos adultos.
- Claro. Eu compreendo isso.
- Por agora estou apenas a tentar - Bom, se começares alguma coisa, tem de continuar, sabes?
- É o que dizem - murmurou ela. - Mas a sério, Gary, muito obrigada. Obrigada por teres sido sempre um amigo durante todo este tempo. - Instalou-se um silêncio embaraçoso.
Depois Laura prosseguiu: - É melhor irmos andando. Michael, diz adeus ao tio Ga
ry e vamos.
- Vou pregar isto no meu quadro - disse Gary, ainda segurando o desenho de Michael. - E divirtam-se os dois na marina. Ou posso ir convosco, se quiserem.
- Isto é uma coisa que eu tenho de fazer sozinha - declarou Laura com um ar cabisbaixo.
- Oh, mas eu não estava a sugerir... - atalhou Gary apressadamente. -
- Tenho de o fazer - insistiu Laura. - Para provar que sou capaz.
- Compreendo - anuiu Gary.
"Eu sei que compreendes", pensou ela. Michael deu um beijo a Gary e ambos se encaminharam para a porta. Laura inclinou-se e beijou Gary na face.
-Talvez da próxima vez - disse ela. Nessa altura, Wanda voltou a entrar na sala. - Adeus, Mistress Jurik.
- Adeus.
Depois de Laura e Michael terem saído, Wanda olhou para o filho.
-Queres comer aqui ou na cozinha?
- Eu vou até à cozinha - respondeu Gary.
- Sabes? Estás a perder tempo ao seres simpático com ela e com o miúdo. Portas-te como um cachorrinho quando ela anda perto de ti.
-Mãe, eles são meus amigos. E a mãe não tem nada a ver com isso.
- As pessoas dizem que ela o matou. E eu pergunto, e se matou mesmo? O mundo está muito melhor sem ele. -Não se atreva a dizer isso - ameaçou Gary.
- Porque não havia de o dizer? É a- verdade! O Jimmy Reed era tão bom que te pôs nessa cadeira onde estás sentado. - Foi um acidente de automóvel, mãe. Não quero
ouvir falar disso.
- É verdade e tu sabes - gritou Wanda. - Ele arruinou nossas vidas, e depois prosseguiu o seu caminho alegremente. Nunca se importou com aquilo que te aconteceu.
Se me perguntares, eu digo-te que o Jimmy Reed teve aquilo que merecia.
- Não lhe perguntei. E nunca mais diga uma coisa dessas - ordenou Gary, segurando-se aos braços da cadeira até os nós dos dedos ficarem brancos.
Wanda sacudiu a cabeça.
- Nunca hás-de aprender - disse ela.
***
CAPÍTULO 9
Michael dava saltos sobre o pontão, com exclamações de alegria perante cada um dos barcos, embora os seus gritos de satisfação também tivessem a ver com a beleza
do dia e a presença frágil da mãe, que caminhava lentamente atrás dele. O céu brilhava nu
m tom azul-pastel, com pequenas nuvens dispersas. A água cor de safira agitava-se docemente, e os barcos, ancorados lado a lado nas docas, eram de um branco que
contrastava com a zona dos conveses, escura e brilhante.
Michael parou à espera de Laura. Quando ela chegou junto dele, Michael observou:
- Quem me dera que ainda tivéssemos o barco do papá. -Eu sei - respondeu ela. "O barco do papá, o sorriso do papá, a vida do papá. Gostávamos de ter tudo isso de
volta, por favor." E acrescentou: - Michael, eu não sei tripular um barco e tu ainda és m
uito novo para poderes ser comandante. - Eu sei - concordou ele.
Laura ainda não tentara vender o barco. Andava demasiado preguiçosa e desorientada para fazer fosse o que fosse. Mas Richard Walsh mostrara-se interessado por um
barco como o de
Jimmy para dar ao pai, e oferecia um preço justo, por isso Laura concordara com a venda. Tinha, antes disso, chegado a pensar em não o vender e guardá-lo para Michael,
mas Sidney argurnentara que seria muito mais fácil comprar outro barco quando chega
sse a altura de Michael poder ter um, do que estar a guardar e fazer a manutenção ao barco de Jimmy durante todos esses anos.
-Tenho a certeza de que, quando tu fores grande, nós poderemos comprar outro barco - afirmou Laura, tentando exibir um tom de voz positivo.
Michael assentiu com a cabeça.
- Queres um gelado? - perguntou Laura impulsivamente, levada pelo ar triste dos seus olhos. Michael pareceu surpreendido.
- Antes do almoço?
- Não faz mal - disse ela. A perspectiva do gelado distraiu-o dos pensamentos relativos ao barco perdido. Na verdade, eles mal tinham usado o barco. Raramente surgiam
oportunidades.
- Então vamos lá - propôs Laura, e ele pegou-lhe na mão estendida.
Caminharam pelo molhe até à Boat People, uma espécie de loja de abastecimento que tinha proporcionado uma fortuna aos seus argutos e diligentes proprietários, Wendell
e Fanny Clark. Laura hesitou antes de entrar. Wendell e Fanny tinham estado na Flori
da todo o Inverno, mas tinham regressado em Abril. De certeza estavam a par de tudo e já haviam feito os seus juízos em relação a ela.
"Pára", disse ela a si mesma. "O teu filho quer um gelado e nada mais importa." Abriu a porta para Michael passar e acenou a Wendell Clark, que se encontrava atrás
do balcão.
Wendell pareceu ficar aflito quando os viu. Começou a mostrar-se muito ocupado com as prateleiras que estavam atrás de si, como se esperasse que se fossem embora
sem ele ter de falar com eles. Mas Michael foi direito ao frigorífico dos gelados.
- Olá, Mister Clark - saudou Michael.
Wendell, ele próprio avô, voltou-se e olhou tristemente para o rapaz.
- Olá, Michael -- retribuiu ele.
Depois fez uma espécie de careta para Laura, tentando sorrir. Laura reconheceu a sua expressão atrapalhada. Por vezes, não se tratava de hostilidade, acontecia apenas
que as pessoas tinham alguma dificuldade em saber o que lhe dizer.
- Belo dia, não está? - disse Laura.
- De facto, está - retorquiu Wendell, parecendo aliviado. - Desejam alguma coisa?
Laura pediu um cone de gelado para Michael e deu-lho ela mesma.
- É por conta da casa - afirmou Wendell, e não aceitou qualquer protesto.
Laura agradeceu-lhe e voltou-se para Michael. - Não o deixes pingar-te.
- Não deixo - prometeu Michael gravemente. - Posso ir lá para fora?
Laura hesitou. Foi então que Fanny Clark apareceu, vinda do armazém. Olhou para eles e depois para o marido, as sobrancelhas levantadas como duas bandeiras de aviso.
-Olá, querido - disse ela a Michael
Como estás?
- Olá, Mistress Clark - saudou o rapaz.
- Posso ir lá para fora, mamã?
Nessa altura já o gelado começava a derreter sobre a orla do cone e Laura olhou, preocupada, para as mercadorias expostas na loja. Queria fugir da loja, e o gelado
a derreter parecia ser a desculpa perfeita. "Temos de ir. Desculpem-nos, por favor." Ma
s uma voz teimosa dentro dela estava a insistir: "Não precisas de procurar desculpas. Foste vítima de um crime terrível. Queres que o teu filho te veja a fugires
das pessoas? Como se tu ou ele tivessem alguma culpa?" "Não", pensou ela, "nunca."
- Podes ir lá para fora e sentar-te no banco em frente da loja e comer o gelado sem te pingares - recomendou ela calmamente.
- Está bem, mamã - concordou ele.
-Eu vou já. Fica sentado no banco, estás a ouvir?
- Eu fico - disse ele, batendo a porta de vidro atrás de si. Laura seguiu-o quase até à porta e ficou a vê-lo instalar-se, todo contente, no banco, balançando os
pés calçados com ténis e pondo-se a observar os barcos que estavam na doca. Fanny saiu de
trás do balcão.
- De cada vez que o vejo está maior. Cada dia se parece mais com o pai.
- Pois é - concordou Laura. - Ele é um grande conforto para mim.
Tivemos imensa pena quando soubemos do Jimmy - disse Fanny.
- Obrigada. As flores que mandaram eram muito bonitas, - Era o mínimo que podíamos fazer. Conhecemos o Jimmy a vida toda. - Fanny sacudiu a cabeça. - É difícil acreditar
que uma coisa daquelas possa ter acontecido.
Porque é que aquilo soava como uma acusação?, pensou Laura. Era apenas uma declaração. E era verdade. Ela própria mal podia acreditar em tudo aquilo.
-Eu sei. Tem sido um pesadelo para nós.
-Aqui mesmo, em Cape Christian. É a espécie de coisa que se pensa que só acontece em Filadélfia ou cidades assim. Mas aqui não. - Fanny voltou a abanar a cabeça.
- Dizem que ele entrou em vossa casa e disparou sobre o Jimmy na sua própria cama.
- É verdade - anuiu Laura pouco à vontade.
- Não sei como conseguem continuar a viver naquela casa. Se uma coisa dessas acontecesse ao Wendell, eu saía da nossa casa no dia seguinte. Nada me obrigaria a ficar
lá.
"A não ser que eu o tivesse morto, não é?", teve Laura vontade de perguntar. Voltava a sentir a fúria crescer dentro de si. "E para onde queriam que eu fosse?",
interrogou-se ela.
- Não tem sido fácil - prosseguiu Laura com toda a dignidade que foi capaz de reunir -, mas estamos a fazer o melhor que podemos.
- Estás com bom aspecto - disse Fanny e, desta vez, havia um inconfundível tom de desaprovação na voz da mulher mais velha.
- Obrigada. Tiveram um bom Inverno? - perguntou Laura polidamente, determinada a não dar o flanco. -Ah, como sabes, adoramos a Florida. Os miúdos vão todos até lá
e foi divertido. Mas estamos sempre contentes por regressar. Eu aborreço-me por lá. Sint
o a falta da loja. Laura sorriu e fez um gesto com a cabeça.
- Bom, eu prometi ao Michael que vínhamos ver os barcos - disse ela, voltando-se para a porta. Mal podia esperar
para escapar dali. Chegou-se para um sítio de onde podia ver o banco. Olhou em volta e não viu o filho. Correu para a porta e abriu-a. O banco estava vazio.
__ Michael! - gritou ela.
- O que foi? - perguntou Fanny.
- Desapareceu! - exclamou Laura. - Michael! - gritou de novo.
O coração começou a bater-lhe descompassadamente enquanto abria a porta. A luz do Sol reflectida na água cegava-a, depois de ter estado na semiescuridão da loja.
Laura fez uma pala à frente dos olhos e perscrutou freneticamente para cima e para baixo,
no pontão. Não havia sinal dele.
- Oh, Deus, não! - murmurou ela fracamente. "Não", pensou. "Isto não pode estar a acontecer."
- Calma - disse Fanny, mesmo atrás dela. - Por vezes eles vão dar uma volta.
- Ele não sabe nadar! - gritou Laura. - Porque o deixei sentar-se ali fora? Oh, meu Deus, por favor, não...
- Não ouvi ninguém a cair à água - tranquilizou-a Fanny. - Teríamos ouvido o chapão, ou ele a gritar.
Wendell, reparando na ansiedade das suas vozes, veio para o exterior da loja e juntou-se a elas no molhe.
O céu soalheiro parecia troçar de Laura. "Estarei amaldiçoada?", perguntava-se ela. "Será isso? Será que este lugar me vai levar tudo aquilo que eu amo? Será este
o dia em que perco aquilo que me restava?" Era possível. Podia acontecer. O impensável p
ode acontecer assim, sem mais nem menos. Ela sabia isso perfeitamente.
- Michael! - gritou ela. Voltou-se para Wendell e agarrou-lhe a camisa.
-Ajudem-me! - pediu ela. - Façam alguma coisa. Chamem a polícia!
- Calma - disse Wendell, mas a sua cara estava completamente branca. - Ele aparece. Michael! - gritou ele.
- Estou aqui, mamã - disse uma vozinha.
O alívio inundou Laura, tornando-a subitamente muito fraca, Não era o fim do mundo. A vida ia continuar. Era o primeiro momento, em todos aqueles meses, em que ela
tinha
uma alegria. Virou-se na direcção da voz, ao mesmo tempo que Wendell lhe batia no braço e voltava para a loja. Michael estava de pé num banco da ré de um enorme
barco à vela que estava atracado ao molhe.
Laura correu pelo pontão em direcção a ele.
- Que raio estás a fazer nesse barco? - gritou ela. - Sai imediatamente daí.
- Foi ele que me convidou - disse Michael, apontando para um homem que emergia da cabina. Laura levantou Michael do barco e apertou-o furiosamente durante um momento,
antes de o pousar no pontão. Depois voltou-se e encarou o homem que se encontrava na
cabina. Tinha um corpo musculado e movia-se com um ar de tensão que não era vulgar num marinheiro. Os seus olhos eram azul-claros, e o seu cabelo preto tinha alguns
fios de prata. Usava uma camisa de caqui e calças de ganga, e os seus braços estavam
bronzeados, a sua face marcada pela exposição ao sol e ao vento. Durante um instante, Laura pensou que o conhecia. Algo nele soava como algumas notas de uma melodia
vagamente familiar, mas depois desapareceu.
- Desculpe, passa-se alguma coisa? - perguntou ele. - O rapaz estava a admirar o meu barco, por isso convidei-o a vir a bordo e dar uma olhadela.
Laura apertou Michael bem junto a ela.
- Convidou-o a ir a bordo? Que se passa consigo? - perguntou ela. - Está louco? É um miúdo de cinco anos!
O homem fez um gesto de impotência.
-Ele disse que você estava mesmo ali na loja. Não é que, eu o fosse levar para dar uma volta ou coisa assim...
Laura começou a tremer.
- E não lhe passou pela cabeça, nem por um momento,] que eu podia dar pela falta dele?
- Desculpe - disse o homem. - Na verdade não pensei...
- De certeza que não - declarou Laura. - Podia acontecer qualquer coisa... cair à água e afogar-se.
O homem ouvia-a, espantado.
Laura obrigou-se, tal como tinha sido ensinada, a não cho
rar. Agachou-se em frente de Michael e olhou-o bem fundo nos olhos.
- Eu disse-te para nunca, mas nunca ires com um desconhecido.
-Mas eu não fui - protestou Michael.
- Não te atrevas a fingir que não sabes aquilo de que eu estou a falar. Disse-te isto milhões de vezes, e assim que volto as costas um instante...
- Desculpa - disse Michael baixando a cabeça. - Ele fez-te alguma coisa? - inquiriu ela.
- Ouça lá... - protestou o marinheiro, zangado.
- Não - disse Michael tristemente. - Só estava a mostrar-me o barco.
- Ele está bem - afirmou Fanny com firmeza, fazendo uma festa no cabelo de Michael. - Isso é que é importante. -Anda - ordenou Laura. - Vamos embora.
- Mas os barcos... - choramingou Michael.
- Não discutas comigo. Vamos embora. já viste todos os barcos que tinhas para ver hoje.
- Mamã... - implorou ele.
-Não me chames "mamã". Vamos embora.
Laura voltou-se para Fanny, mas mal conseguiu compor um sorriso.
- Obrigada pela ajuda.
- Tudo bem - murmurou Fanny. - Fico contente por tudo ter acabado em bem.
Laura abanou a cabeça e começou a andar rapidamente, com Michael atrás de si.
O homem saltou do seu barco e veio colocar-se no pontão ao lado de Fanny. Ficou a olhar Laura, que levava Michael de arrasto, e a sua cara tinha um ar preocupado.
- Não leve isto a peito - aconselhou Fanny. - Ela não anda bem.
- Na verdade, eu não queria fazer nada de mal - declarou ele. - Se calhar foi estupidez minha, mas o rapaz disse que a mãe estava, mesmo ali...
Fanny suspirou enquanto Laura e Michael desapareciam de 'vista.
- A culpa não é verdadeiramente sua. Ela não anda bem, passou um mau bocado. O marido foi morto no Inverno passado. Na noite de passagem de ano. Talvez tenha lido
no jornal. James Reed era o nome dele.
-Não, eu tenho estado nas Caraíbas - informou o homem. - Meu Deus, isso é terrível.
Fanny assentiu, saboreando o efeito daquela informação. As pessoas ficavam sempre tão chocadas quando a ouviam...
- Morto a tiro na própria cama. Foi ela quem o descobriu.
- Pobre mulher - disse ele.
- Pois... É claro que algumas pessoas dizem que...
O homem olhou-a com curiosidade.
- Dizem o quê?
- Algumas pessoas dizem que ela fez mais do que apenas o ter encontrado...
- O que é que quer dizer com isso? Fanny encolheu os ombros.
- Ela diz que havia um assaltante com uma arma, mas... nunca ninguém foi preso.
O homem ficou especado a olhar para Fanny e depois voltou a olhar para o local por onde Laura e Michael tinham desaparecido.
- Quer dizer que pensam que ela o matou? Aquela mu lher encantadora?
Fanny sacudiu a cabeça.
-As pessoas falam, sabe? É uma cidade pequena.
- É isso que a senhora também pensa? - perguntou ele, com um tom de desaprovação na voz.
- Acho que a gente nunca chega a conhecer as pessoas - contrapôs Fanny com firmeza. - De qualquer maneira, aquele rapaz é tudo o que lhe resta. Já vê porque é que
ela estava tão preocupada.
- Claro, claro. Nunca imaginei.
- Pois não, como podia saber? Estava apenas a mostrar-se amigável.
- Mesmo assim - disse o homem -, não me sinto bem-, - Ora, não se preocupe com isso. A propósito, o meu no'
me é Fanny Clark. O meu marido e eu somos os donos daquela loja ali. Reparei que foi lá no outro dia. Tem aqui um barco e pelas - comentou Fanny amavelmente. - Um
Tartan três mil e oitocentos, não é? Não -vemos coisas assim tão grandes por aqui.
- Obrigado - agradeceu ele distraidamente, ainda a olhar para o fundo da doca, como se ainda pudesse ver Laura. - De onde veio?
O homem obrigou-se a concentrar em Fanny.
- Vim de Barbados - disse ele. - Estive a navegar pelas ilhas este Inverno. - Estendeu a mão a Fanny. - Ian Turner - apresentou-se ele.
- Prazer em conhecê-lo, Ian - retribuiu ela. Fanny estava acostumada à fácil familiaridade da comunidade marítima. - Vai ficar por cá algum tempo?
Ian voltou a olhar para o fundo da doca.
- Não sei - disse ele. - Estou a viver um dia atrás do outro. Mas, sabe?, havia qualquer coisa naquela mulher. É como se eu a conhecesse.
- Ela não é de cá - disse Fanny. - Nem eu - acrescentou Ian.
- De onde é? - perguntou Fanny com ar agradável.
- Do Connecticut, na realidade. Embora tenha comprado o barco em Bridgetown, em Barbados, e esteja a subir a costa. - Bom, seja o que for que precise, o Wendell
e eu podemos arranjar-lho imediatamente.
- Obrigado - disse Ian.
- Porque não vem conhecer o Wendell, o meu O homem aquiesceu e apertou os lábios.
- Por acaso estou a precisar de pilhas.
- De qualquer tamanho, de qualquer voltagem. Nós temos - disse Fanny. - E deixe de estar assim preocupado. A Laura ficou assim por causa de tudo o que aconteceu.
Qualquer outra pessoa teria percebido que você estava apenas a tentar ser simpático.
marido?
- Suponho que sim - brincou ele. - Mas ela parecia-me... tão familiar. Conheci uma rapariga, quando éramos miúdos... O nome dela também era Laura. Laura Hastings.
- É ela - afirmou Fanny, excitada. - Ela escreve livros para crianças com esse nome.
O homem ficou a olhar para Fanny com um ar de estupefacção. Depois olhou novamente para a doca vazia, por onde Laura tinha desaparecido.
- Não pode ser. Não posso acreditar. A mesma rapariga? - Claro - disse Fanny com entusiasmo. - É ela. - Inclinou-se para ele com um ar perverso. - Acha que ela seria
o tipo de rapariguinha que podia crescer e matar o marido?
- A Laura Hastings... - Ian abanou a cabeça, não acreditando. Depois a sua expressão modificou-se e olhou para Fanny com tal agressividade que esta imediatamente
lamentou a sua observação.
- Dificilmente - declarou ele num tom frio. - A Laura Hastings salvou-me a vida.
***
CAPÍTULO 10
Laura sentou-se na beira da cama de Michael e afastou-lhe o cabelo da testa. À luz fraca do candeeiro, podia ver as suas pestanas escuras contra o branco da pele.
Desde que Jimmy morrera, ele havia insistido em ficar com uma luz de presença. Também qu
eria que a mãe ficasse no seu quarto, até que ele adormecesse, e Laura fazia isso com prazer, embora odiasse o momento em que o deixava e descia para a sala solitária,
vazia e'silenciosa.
- Com sono? - murmurou ela. - Um pouco - admitiu ele
- Lamento que o nosso passeio à marina tenha resultado daquela maneira. Mas fiquei muito assustada quando não consegui encontrar-te.
- Eu sei - disse ele.
- Percebeste porque fizeste mal em entrar no barco daquele homem? Não é só entrar em carros com estranhos que é perigoso.
- Eu sei, mamã - concordou ele com gravidade. - Desculpa teres ficado assustada. Nunca mais volto a fazer.
- Prometes? - Prometo.
Laura levantou-o e abraçou-o, sentindo uma dor no coração por o mundo se ter tornado um local tão perigoso. O seu olhar caiu sobre a pequena fotografia de Jimmy
que ele mantinha na sua mesa-de-cabeceira desde aquela noite.
- Gosto mais de ti do que de tudo o que há no mundo - disse ela. Os pequenos braços de Michael abraçaram-na com
força. Laura não queria que ele visse a angústia estampada no seu rosto. - Em breve voltaremos a passear - continuou ela, - E será muito mais divertido. Está bem?
Michael assentiu com a cabeça, claramente ensonado.
- Muito bem - disse ela quando ele se encostou à sua almofada com o Aladino. - Agora dorme.
Michael virou-se sob as cobertas e mexeu-se até encontrar uma posição confortável. Laura esperou que os seus olhos se fechassem e que a respiração pausada enchesse
o quarto. Pelo menos, Michael era capaz de dormir. As suas noites eram de tortura. Ali
ficava, a olhar o escuro, a pensar nos comprimidos para , dormir, que tentava não tomar. Sentia-se grata pelo sono pacífico de Michael.
Quando ele soltou o suspiro que anunciava, desde a tenra infância, que estava profundamente adormecido, ela levantou-se cuidadosamente da cama, abriu a porta e olhou
para ele uma vez mais.
- Dorme bem, meu anjo - murmurou. Depois saiu do quarto e começou a descer as escadas.
O relógio de pé alto do vestíbulo fazia o seu tiquetaque, tirando isso, a casa estava tão silenciosa como habitualmente. Entrou na sala de estar e olhou com desinteresse
para a pilha de li vros que tencionava ler. Sentia-se desconfortável, como se não
fosse capaz de se sentar na cadeira fosse por que tempo fosse. Olhou para o guia de programas de televisão e deitou-o para o chão com impaciência. Caminhou até
à secretária e folheou as contas que estavam sobre o papel mata-borrão. "Acho que posso pa
gar estas", pensou ela. "Fazer isto." Com um suspiro, ligou a lâmpada e puxou a cadeira de couro da secretária.
Quando estava prestes a sentar-se, o toque da campainha da porta fê-la dar um salto. A campainha amedrontava-a. Por vezes, até o toque do telefone a enchia de receio.
"Calma", pensou ela. "Recompõe-te." Mas interrogava-se se seria sempre assim. Se esp
eraria sempre encontrar um estranho a cada esquina da sua casa, alguém que entrara sem ninguém dar por isso. "Nada de acordar o Michael", pensou ela, quando a campainha
voltou a tocar. Através das luzes da porta da entrada, Laura viu a figura de um ho
mem que não conseguiu reconhecer. O coração saltou
-lhe com a ideia de um estranho à porta e, de repente, ela percebeu quem era.
Laura abriu a porta e ficou a olhar, sem dizer uma palavra, para o homem que se encontrava na entrada. O homem do barco. Tinha vestida uma camisa lavada e o seu
cabelo brilhava sob a luz da entrada. Cheirava a sabonete.
O homem tentou um sorriso.
- Espero não estar a incomodá-la. A Fanny Clark disse-me onde a podia encontrar - informou ele.
Laura não respondeu. Depois de um momento de hesitação, ele continuou.
- Tenho de me apresentar como deve ser. O meu nome é Ian Turner. Parecia mais uma pergunta do que uma declaração, e ele
olhava para ela, à espera. Laura olhou para ele quase sem expressão.
Vendo que ela não reconhecera o seu nome, Ian franziu os olhos.
-Vim até aqui porque queria pedir desculpas mais uma vez pelo que aconteceu esta tarde.
- Já pediu desculpas - retorquiu ela friamente. - Não há necessidade de se desculpar mais ainda.
- Eu acho que há - insistiu ele, teimosamente.
- Tenho a certeza de que apenas estava a tentar ser simpático com o meu filho. - Não acrescentou: "Apesar do seu erro", mas bem podia ter acrescentado. Torceu a
maçaneta da porta impacientemente.
- É verdade, mas senti que tinha feito uma coisa realmente estúpida. E depois a Fanny contou-me a história do seu marido. Laura corou de fúria.
- O quê acerca do meu marido? - inquiriu ela. "Disse-lhe que eu o tinha morto?", apetecia-lhe perguntar. "Queria chegar perto de uma possível assassina?"
- Só pensei que tendo sofrido um choque e uma perda dessas... talvez isso a tivesse tornado mais protectora.
Laura olhou para ele com os olhos semicerrados. - Está a querer dizer que eu exagerei?
Não, nada disso. Só queria dizer...
- Para sua informação, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu sou mãe e o Michael é meu filho, qualquer pai teria reagido da mesma maneira.
Laura sentiu a fúria crescer dentro dela. Ali estava um homem que passava a vida a cruzar os mares num barco, como se poderia explicar a uma pessoa dessas a responsabilidade,
o sentido de perigo que só advém do facto de se ser mãe?
- Não tem importância - rematou ela. - Vamos considerar o assunto esquecido. - Laura sentiu necessidade de o mandar embora polidamente. - Foi simpático da sua parte
ter passado por cá.
- Ouça - acrescentou ele. - Estou a ver que está prestes a fechar a porta, e se é verdade que eu vim para lhe pedir desculpas, também tenho outra razão.
Laura olhou para ele interrogativamente.
- Tenho a sensação que nós já nos encontrámos antes. - Não o conheço de qualquer lado? - perguntou Laura com sarcasmo. Mas esse sarcasmo escondia o facto de que
qualquer coisa na sua insistência a tornava receosa.
- Eu sei, eu sei. Parece uma frase muito gasta, mas estou a falar a sério. Não lhe pareço familiar?
Laura abanou a cabeça negativamente. Mas ao mesmo tempo que negava, recordou-se de que tinha pensado exactamente o'' mesmo de manhã, no pontão.
- Alguma vez viveu em New Brighton, no Connecticut, quando era miúda? - inquiriu ele.
Surpreendida, Laura estudou-lhe a cara e assentiu com a cabeça.
- Mas eu vivi um pouco por todo o lado - acrescentou Laura.
- A Fanny disse-me que era escritora. Que escreve livros sob o pseudónimo de Laura Hastings. Eu conheci uma rapariga chamada Laura Hastings, há muitos anos. Quando
eu era miúdo. E o cabelo e os olhos dela...
Laura olhou para ele, tentando levantar a cortina do tempo, mas não servia de nada. Havia elementos na cara dele, mas estavam misturados, como se ela estivesse a
olhar para ele através de
um caleidoscópio. Uma imagem quebrada, proveniente algures do passado.
- Isto é um pouco vergonhoso de admitir - disse ele. - Uma ocasião estive com um problema... Caí... E essa rapariga,,a tal Laura Hastings... você... encontrou-me.
Subitamente, tudo lhe veio à memória. Não admirava que ela não se lembrasse dos seus olhos - ele usava óculos, na altura. A sua cabeça estava coberta por um cabelo
curto e escuro. Um miúdo muito magro com uma T-shirt suja e .rasgada, e com uma cara sa
lpicada de lágrimas e sujidade.
- O rapaz do poço! - exclamou ela.
Ian anuiu com a cabeça, o rosto abrindo-se num sorriso enorme.
- Você lembra-se! - gritou ele, exultante. - Quando a Fanny me disse o seu nome fiquei espantado, porque eu tinha a certeza, desde o instante em que a vira. Quero
dizer, não é que você não tenha mudado nada, mas esse cabelo e a beleza da sua cara... F
iquei tão entusiasmado por a ver!
Laura pôs-se a olhar para ele, sacudindo a cabeça. Não devia ter mais de seis anos, na altura. Estava sozinha, a brincar num arvoredo perto de sua casa. Durante
a infância, grande parte do tempo entretinha-se sozinha. Não tinha irmãos nem irmãs. Uma s
érie de casas alugadas em locais muito diferentes. Laura vivia na sua imaginação a maior parte do tempo. E esses arvoredos próximos eram o local ideal para brincar
com as suas fantasias. Fora então que ela ouvira aqueles estranhos lamentos que a assus
taram quase até à morte. Foi-lhe necessária toda a sua coragem de criança para se encaminhar na direcção de onde eles provinham, e não fugir.
- Estava a ficar escuro e eu ouvi-o chamar. Ian sorriu e acrescentou, entusiasticamente:
- Nunca pensei que alguém viesse. Estava por ali a fazer explorações, caí e parti a perna. Já estava ali há horas, segundo me parecia, a pedir ajuda. E de repente
surgiu você a olhar para mim, com esse mesmo cabelo. Pensei que podia ser um anjo ou qua
lquer coisa do género.
Laura riu-se, ao recordar.
-- A sua mãe deu-me um dólar por o ter descoberto.
- Isso é mesmo da minha mãe - admitiu ele, abanando a cabeça.
Laura encostou-se à ombreira da porta e ficou a olhar para ele, cheia de surpresa pelo facto daquele homem, aquela pessoa vinda do passado obscuro, ter cruzado o
seu caminho de uma maneira tão estranha.
- Que espantosa coincidência - afirmou ela.
- Exactamente - reforçou ele. - Eu mal podia acreditar. Quais serão as possibilidades de?... Foi por essa razão que eu tive' de passar por cá esta noite.
- Foi há tanto tempo - disse Laura. - Você estava mais adiantado do que eu na escola. Ian... isso mesmo. Era o rapaz inteligente.
- Não seja amável comigo. Eu era o idiota da classe. Importava-se se nos sentássemos e falássemos um pouco? Gostava de recordar mais coisas.
Laura pôs-se imediatamente à defesa. Agora lembrava-se dele, mas ele continuava a ser um estranho.
- Não sei - contrapôs ela. - Já é tarde. Ian olhou para ela ternamente.
- Como achar melhor. Não quero estar a forçar a minha presença por nada deste mundo. Afinal de contas, eu devo-lhe a vida, Laura Hastings - rematou ele num tom gracioso.
Apesar das apreensões de Laura, as palavras dele tocaram-na e encheram-na de gratidão por aquele homem se recordar dela por uma coisa boa. Por ele se lembrar dela
como um anjo, por ela ter ido em seu socorro. Estava tão habituada a ser olhada como a m
á da fita, ultimamente.
- É só porque uma pessoa se sente extremamente só naquele barco - insinuou ele.
"Só", pensou ela. "Não tens a mínima ideia do que é estar só." A casa silenciosa atrás de Laura parecia uma ameaça. Ela decidiu-se.
- Muito bem, porque não? Entre, se faz favor - convidou Laura. - Sente-se.
- Era melhor se vestisse um casaco - sugeriu Ian. - Assim está muito bonita, mas está a ficar frio.
Havia um tom de protecção na sua voz que ela começou por rejeitar, mas depois desistiu.
- Volto já - disse ela. Foi até ao vestíbulo, tirou o seu blu ,
são de ganga que estava pendurado, olhando-se ao espelho em simultâneo. A sua cara estava com as faces afogueadas, os olhos brilhantes e ansiosos. Passou os dedos
pelo cabelo e vestiu o blusão. Estava tão pouco habituada a ter companhia, pensou ela. T
inha-se tornado uma ermita no decorrer dos últimos meses.
Quando voltou ao alpendre, Ian estava sentado no peitoril e observava a rua calma. Parecia ao mesmo tempo tenso e cansado, uma sensação que ela conhecia bem, mas
surpreendente num homem que passava os dias num barco à vela. Ele não era bonito segundo
os moldes clássicos, mas os seus traços tinham uma graça que atraía o olhar. Laura sentou-se na cadeira de baloiço e apercebeu-se de que os olhos de Ian estavam
pousados nela. Laura sentiu um arrepio.
- Está um pouco frio - observou ela, metendo as mãos nos bolsos do blusão. -Quer tomar alguma coisa? - perguntou.
- Não - respondeu ele. - Não vou ficar muito tempo. Laura sentiu-se, ao mesmo tempo, aliviada e desapontada. - Agora sinto-me um bocado esquisito - declarou ele
por saber que, ao olhar para mim, ainda vê o miúdo magricela, de óculos e com uma perna pa
rtida.
Laura sorriu.
- A sua família ainda vive em New Brighton? Você tinha um irmão, não era? Com a minha idade...
Ian assentiu com a cabeça.
- O Jason. Ainda lá vive. É bombeiro, tem dois filhos e a minha mãe vive com eles.
- E o seu pai? Não me lembro...
A expressão de Ian mudou e os seus olhos tornaram-se mais sombrios.
- Morreu - disse ele friamente. - Era o professor de Música do liceu.
- É verdade - acrescentou Laura. - Lamento. Conseguia lembrar-se vagamente de Mr. Turner. Um homem forte com uma pele muito pálida. E o mesmo cabelo escuro de Ian.
- E a sua família? - perguntou ele. - Você mudou-se. seu pai não era da marinha?
Laura anuiu com a cabeça e contou pelos dedos.
- No segundo ano. Mudámo-nos para a Virgínia. Depois para o Texas. E para a Califórnia. E mais, e mais e mais...
- E agora? Onde estão eles?
- Morreram num desastre de avião. Ian fez uma espécie de careta.
- Isso é terrível. Então você está completamente sozinha, não é?
De súbito, Laura sentiu-se absurdamente grata a Ian por ele ter entendido isso. Era como se fosse ela que se encontrasse agora no poço e ele estivesse a olhar para
baixo, para ela, com os olhos cheios de simpatia.
- É verdade - respondeu ela. - Estou realmente só. Fez-se um imenso silêncio, e ela percebeu que ele queria fazer perguntas acerca de Jimmy, acerca do que acontecera.
E Laura não queria entrar nesse assunto.
- Para onde vai agora? - perguntou ela. Ele olhou noutra direcção, fazendo um esgar.
- Vou por aí - respondeu. - Não tenho nenhum destino escolhido.
- É uma bela maneira de viver, se tivermos possibilidades para isso - comentou Laura com um aceno de cabeça e tentando não mostrar desaprovação.
- Pensei que fosse. Pareceu-me a coisa certa para fazer na altura.
Laura fixou-o com curiosidade.
- Não foi sempre uma pessoa ligada ao mar?
Ele olhou para ela e apanhou-lhe a expressão de curiosidade. - Não, eu costumava ser uma pessoa a sério.
Laura corou perante a observação. - Não queria dizer nesse sentido...
- Não tem importância - respondeu ele. - É verdade- Montes de pessoas sonham em meter-se num barco e ir por aí fora a navegar. Acho que é uma fantasia comum, essa
tentativa de escape. Fugir de avião ou de barco, ou qualquer coisa do género. Mas a maio
ria não o faz. Limitam-se a ter fantasias e isso faz com que seja ainda pior. O que fazia quando era... uma pessoa a sério? - perguntou ela com um pequeno sorriso.
Fez-se um silêncio estranho. Depois ele falou.
- Trabalhava na base de New Brighton. Sou cientista. Físico nuclear, para ser mais exacto.
- Que coincidência! - exclamou Laura provocadoramente. - Eu também sou!
Ian sorriu, um pouco embaraçado. - É uma espécie de especialização... - E então decidiu trocar a física por uma vida nos sete mares?
- Não foi bem assim - contrapôs ele. - Eu perdi... Laura reparou que ele estava a lutar com as palavras, e de repente sentiu-se alarmada, como se tivesse mergulhado
fundo de mais.
- A minha mulher e o meu filho morreram. Ele tinha apenas sete anos. Não vi razão para continuar...
Laura sentiu o rosto a escaldar.
- Meu Deus! - exclamou ela. - Lamento imenso. Sentiu-se tão envergonhada das suas brincadeiras, por lhe ter dito que só um pai ou uma mãe podiam compreender...
- Não quis deprimi-la...
- Não, não - retorquiu ela. - Eu é que não devia ter dito nada.
- Só queria que percebesse... quando não encontrou o seu filho hoje... eu sabia o que estava a sentir. E também acerca do seu marido. Não sou um tipo qualquer que
anda por aí a navegar...
- Meu Deus, Ian, sinto-me terrível - gaguejou ela. - Por favor, desculpe-me.
- Não peça desculpa. Só não queria que pensasse... Eu não me importo de falar nisso... consigo - acrescentou.
Uma parte de Laura queria saltar da cadeira e fugir dele. Antes da morte de Jimmy, talvez tivesse fugido. Mas agora já tinha a escola do sofrimento. Já não a assustavam
como antigamente aqueles cujas vidas permaneciam ainda intocáveis. Algumas pessoas
tratavam o desgosto dos outros como se fosse uma doença que se pode apanhar se nos aproximarmos demasiado. Mas ela sabia como era. Laura sabia que aquele era um
clube para que ninguém entrava por escolha. Um clube cujos membros tinham partilhado a ma
is brutal das iniciações.
- Quando aconteceu isso? - perguntou ela com calma. Ian suspirou, depois fez uma careta como se estivesse a calcular mentalmente.
- O Phillip morreu... em Setembro. Tanto ele como a minha mulher faleceram num incêndio que destruiu a nossa casa. Havia um incendiário em série na área de New Brighton.
Final mente apanharam-no, mas... - Ian hesitou, como se fosse entrar em mais porm
enores, mas depois decidiu-se pelo contrário, - Seja como for, a Gabriella morreu nas chamas. O Phillip ainda esteve algum tempo na unidade de queimados. - Abanou
a cabeça, como fazem as pessoas quando tentam limitar os pensamentos a um facto, para ev
itar as lágrimas. - Depois, não conseguia deixar de pensar nas coisas que tínhamos planeado fazer juntos quando tivéssemos tempo...
- Que coisa terrível para si. Lamento tanto!
Houve novamente silêncio, mas já não era estranho. Era como se estivessem os dois a olhar para a mesma gruta escura. - Bom - disse ele abruptamente -, onde é que
eu ia antes de chegar até aqui?
- Estava a falar-me do barco - informou com suavidade: - Exacto. Bom, na realidade toda a gente me tentou convencer a não deixar de trabalhar, mas eu não parava
de pensar que a vida é demasiado curta, que temos de viver agora, aproveitar cada dia, se
quisermos... Por isso, em finais de Novembro fui' para as Caraíbas e comprei um barco. E andei a navegar desde' então.
- E está contente por o ter feito? - perguntou Laura. Ian sorriu tristemente.
- Não podemos navegar para longe dos nossos desgosto - Não - concordou Laura. - Também acho que não Embora eu não me importasse de tentar.
- Tem imensas coisas que, apesar de tudo, eu recomendo. Vi alguns poentes lindíssimos. Li óptimos livros. E acabamos sempre por conhecer pessoas interessantes.
Laura encostou a cabeça à cadeira de baloiço e fechou os olhos, fingindo relaxar. Naquela escuridão calma, sentia-se extremamente alerta, e ainda estava a tremer,
embora não estivesse frio.
- Parece que fez a coisa certa - observou ela.
- Era o que eu costumava pensar - respondeu Ian. - Mas agora começo a ficar cansado. Demasiada liberdade é uma outra espécie de gaiola.
Laura começou a vaguear nos seus próprios pensamentos. A conversa tinha decididamente tomado um rumo sombrio e ela não sabia como modificar aquela situação.
-
- Não somos um par deveras alegre? - perguntou ela, tentando sorrir.
- Bom - interrompeu ele de súbito. - O melhor será eu ir andando. Já estive a aborrecê-la demasiado tempo. Não foi minha intenção fazer com que a conversa viesse
neste sentido. De resto, só vim cá para ter a certeza de que você era a verdadeira Laura
Hastings. A rapariga que me salvou.
Laura sorriu. Que alívio não ser olhada como uma viúva negra, uma pária.
- Ainda bem que veio - afirmou com sinceridade.
- Muito obrigado pela sua hospitalidade - agradeceu ele, levantando-se do seu assento no peitoril do alpendre.
Laura soltou uma pequena risadinha.
- Qual hospitalidade? Nem sequer teve um assento de jeito. - Era óptimo. Pode acreditar em mim.
Ela ficou a vê-lo descer as escadas do alpendre. Quando chegou ao fim, voltou-se e olhou para ela.
- Se amanhã quisesse levar o seu filho para visitar o meu barco, teria muito gosto em lhe mostrar tudo. Levava-os aos dois a dar um passeio. Quero dizer, os rapazes
gostam de barcos e seria divertido para mim. Gostava de ter a companhia dele. E a sua,
Durante um instante, o coração de Laura deu um salto e ela pensou: "Sim, tudo bem." Depois, o seu entusiasmo esfriou. - Não, não vou poder.
Ian olhou para ela calmamente.
- Porque não? Está preocupada com aquilo que as pessoas vão pensar?
Laura reconheceu o absurdo no instante em que ele pronunciou aquelas palavras. As pessoas da cidade não poderiam pensar pior dela do que aquilo que já pensavam.
E havia qualquer coisa
no facto de ela o ter conhecido na infância que tornava a sua r lação intrinsecamente inocente. Michael adoraria. Seriam várias horas fora de casa. Faria bem aos
dois. E não seria propriament um encontro, era uma coisa amigável, uma saída para bem de
Michael.
- Venha às onze, a maré estará boa a essa hora. - Ian olhou para as sapatilhas dela. - Leve uns sapatos com sola de borracha.
"Não sei", pensou ela. "Talvez não deva fazer isto." Ele olhou de novo para ela, observando o conflito estampado na sua cara.
- Tem uns ténis, não tem? Laura riu-se.
- Claro que tenho uns ténis.
-- Óptimo. Então, até amanhã - disse ele. - Tudo bem - concordou ela. - Amanhã.
***
CAPÍTULO 11
No alto de uma colina, observava as flores de madressilva, os trevos e as roseiras-bravas. O Sol brilhava num céu perfeito, e ela estava ligeiramente transpirada
por causa do calor. No sopé da colina havia um lago, um espelho azul do céu que a parecia
chamar, fresco e límpido. Quando olhou para a sua superfície, reparou que alguém estava a nadar no lago. A pessoa olhou para cima e acenou-lhe. Era Jimmy. O seu
coração sentiu-se alegre. Descalça, como uma criança, começou a fazer o caminho em direcç
ão ao sopé da colina. Primeiro iniciou essa descida devagar e depois, ansiosa por o alcançar, no intuito de mergulhar na superfície convidativa da água e juntar-se
a ele, começou a correr. Estava quase à beira do lago, com os braços estendidos para me
rgulhar, quando subitamente ouviu um grito.
O grito não fazia parte do sonho. Existia fora dele, junto ao seu ouvido, um grito alto e desesperado. Laura sentou-se na cama rapidamente, o suor escorrendo-lhe
da pele.
- O que foi? - gritou ela, procurando freneticamente nos cantos mais escuros do quarto, os olhos a tentarem focar na,escuridão.
Não estava ninguém no quarto. Laura encontrava-se sozinha. O coração batia-lhe descompassadamente, com medo. "Michael", pensou.
Saltou da cama, deitou a mão ao robe que estava aos pés da cama, correu para a porta do quarto e abriu-a. A casa estava silenciosa. Desajeitadamente vestiu o robe
sobre a camisa de dormir e precipitou-se em direcção ao quarto do filho.
Abriu a porta e olhou para o interior. Michael continuava adormecido, de costas, a boca aberta, os braços levantados sobre a cabeça, numa atitude de rendição. Precipitou-se
para a cama e ajoelhou-se ao lado do filho, fazendo-lhe festas no cabelo e bei
jando-lhe a face. Michael mexeu-se, mas não acordou.
"Não foi o Michael", pensou ela, sentindo o cavalgar do seu coração subitamente mais calmo pelo calor que se desprendia dele, pela simples circunstância de saber
que ele estava bem. Que tinha sido? Só um sonho. Só um sonho estranho. Talvez alguém que
fosse a passar na rua e que tivesse gritado. "E tu ouviste o grito no teu sonho." Durante o tempo quente havia sempre uma série de ruídos lá fora, os gritinhos dos
jovens que regressavam dos bares e das discotecas, já tarde, com destino a casa. Devia
ter sido isso. Laura obrigou-se a deixar o filho e dirigiu-se à janela, afastando a cortina de algodão.
A rua estava vazia. Havia algumas sombras no cinzento-pálido do asfalto, lançadas pela luz da Lua e pelos candeeiros de iluminação. Para lá do candeeiro da rua,
tudo mergulhava numa
escuridão de tinta. Não se via ninguém. Laura estava prestes a afastar-se da janela, quando percebeu um movimento, pelo canto do olho, nas sebes do outro lado da
rua. O coração voltou a dar um salto e ela agarrou o tecido da cortina, torcendo-o nos se
us dedos. Perscrutou a escuridão, mas não conseguiu ver nada.
"Quem está aí fora?", perguntou ela baixinho, mas não houve mais movimentos, nem sinais de vida. Ninguém, repetiu ela,; tentando acalmar o ritmo desenfreado do seu
coração. Provavelmente,
um carro ou um cão a passar por ali. "Estás assustada pelo teu sonho. O que quer que tenha sido, já passou. Volta para a cama." Mas não se afastou da janela. Ficou
ali durante muito tempo, a olhar para fora, o eco do grito ainda a soar no interior da
sua cabeça.
- Pensei que querias ir dar um passeio de barco - disse Laura em voz baixa, ao mesmo tempo que segurava na mão de Michael e fazia o caminho pelo molhe. Michael demorara
a fa zer os seus preparativos e eles já estavam atrasados. Laura passou pela loja
dos Clark e olhou lá para dentro, mas ficou aliviada por não avistar nenhum deles. Tinha preparado a sua história, o
convite de Ian ocorrera para compensar o susto da véspera com Michael. E era verdade, no fundo. Mas soava a falso e ela não queria ter de o admitir. À luz do dia,
Laura apercebia-se de que aquele encontro poderia parecer pouco normal, e Michael tinha-
o sentido, porque se mantivera macambúzio toda a manhã.
Ian encontrava-se no convés e acenou-lhes quando eles se aproximaram. Laura imaginara que sem a luz do luar talvez ele parecesse diferente, menos atraente. Mas a
primeira visão que teve dele fez desaparecer essa esperança e encheu-a de uma indesejável
sensação de borboletas no estômago. A água azul brilhava por baixo do barco, e o sol repousava nos seus ombros como uma segunda pele. Ele voltou a fazer-lhes sinal,
protegendo os olhos com uma mão bronzeada.
- Venham para bordo, os dois - convidou ele.
Embora Michael tivesse claramente mostrado a intenção de ser desagradável, a visão do enorme veleiro revelou-se uma tentação irresistível. Com a ajuda de Ian, entrou
para o barco e perguntou se podia descer.
- Vai - disse Ian. Depois estendeu a mão a Laura. Ela afastou a mão dele.
- Eu estou bem - afirmou ela.
- Cuidado com o sítio onde põe os pés - recomendou Ian, enquanto ela descia para a cabina onde Michael já tinha desaparecido.
- É aqui que você vive? - perguntou ela com um tom ligeiro.
- Lar, doce lar - respondeu ele.
A cabina principal era surpreendentemente espaçosa e tinha um ar confortável. Havia uma pequena cozinha, dois amplos beliches de cada lado e uma mesa entre eles.
Uma prateleira de livros erguia-se atrás dos sofás e vários armários completavam o aposen
to. Toda a madeira era brilhante e parecia polida com muito cuidado.
- É muito bonito - observou Laura com sinceridade. - que está nos armários?
- Nesses armários, estão mais livros, roupas, coisas... sabe como é. Todas as coisas têm de ter uma porta, ou cairiam das prateleiras quando o mar estivesse bravo.
- Claro - respondeu Laura, experimentando os diversos locais para se sentar. - São confortáveis.
Ian sentou-se num dos beliches. - Não são maus - disse ele.
-- Sempre imaginei estas cabinas tão pequenas e cheias de coisas que teríamos de andar de gatas.
- Seria uma forma difícil de se viver, a não ser que se fosse o Quasimodo.
Laura riu-se.
- Onde é que dorme?
- Na cabina da frente - respondeu ele, apontando a proa do barco. - Acho que o Michael anda por lá a experimentar a cama. Tenho outra cabina aqui atrás - disse indicando
uma zona mais escura.
Ela seguiu-o, espreitando a pequena casa de banho. Michael surgiu da escuridão da zona dos beliches.
- Mãe, isto é tão engraçado. Parece um barco de piratas. - É, não é? - murmurou ela.
-Ainda bem que gosta! Michael, que tal dares-me uma ajuda para largarmos?
Michael abriu muito os olhos. - Vamos a isso.
Seguiu Ian até à cabina. Laura foi para a ré. À medida que passava pelas prateleiras de livros, olhou instintivamente para os respectivos títulos. Havia livros técnicos
e romances de Tom Clancy, bem como algumas obras sobre religiões orientais que par
eciam bastante manuseadas. Ao lado deles Laura reparou numa foto emoldurada de uma bela mulher e de um rapazinho de cabelo castanho-escuro, cortado à tigela e um
enorme sorriso onde faltavam alguns dentes. Gabriella e Phillip, pensou ela, e o coração
encheu-se-lhe de pena perante os seus olhares onde não se notavam quaisquer problemas.
Subiu as escadas e tomou um lugar na ponte, observando a maneira como Ian enfiava a Michael um colete salva-vidas. Depois, à medida que Ian explicava a Michael cada
um dos passos do processo, começou a içar a vela. Retirou as amarras do barco e pôs a
trabalhar o motor que iriam utilizar para atingir o canalMichael soltava exclamações de cada vez que via um local que
reconhecia e acenava para os outros barcos. Laura sentia o sol aquecer-lhe o rosto, e a combinação do ruído do motor com a sua fraca noite de sono começou a torná-la
sonolenta, embora houvesse uma inegável azáfama nos seus nervos.
Quando saíram para o alto mar, Ian chamou Michael.
- Este cabo chama-se uma adriça - explicou ele ao rapaz. Dá-me uma ajuda com ela e vamos içar a-vela principal.
À medida que a puxavam, a enorme vela ia-se desdobrando em direcção ao topo do mastro, e Michael deu uma olhadela à mãe, de olhos esbugalhados de delícia por aquele
seu novo papel de grumete. Laura sorriu para o filho, sentindo-se feliz por terem vind
o. O dia estava lindo e a água tinha um efeito embalador.
Ian desligou o motor.
-Agora vamos com o vento - anunciou ele com satisfação, e o barco começou a cortar silenciosamente as águas, e o único som que se ouvia era o esvoaçar ocasional
das velas. Ian segurou o leme e sorriu para Laura.
O seu sorriso voltou a fazê-la sentir-se desconfortável.
- Tudo parece tão calmo, aqui - observou ela, desviando os olhos dele e fixando-os na costa. - Como é que sabe de que lado sopra o vento?
Os dedos dele tocaram-lhe na face e fizeram-na sobressaltar. Laura voltou-se para ele rapidamente.
- Sentimo-lo na cara e no pescoço - explicou ele inocentemente. - É uma capacidade que se desenvolve.
- Não vá para muito longe - pediu ela. - Só podemos ficar um bocadinho.
- Eu sei. Voltamos daqui a uma hora ou duas.
- De acordo - aquiesceu Laura, ajeitando-se no seu assento. - Desde que entenda...
- Eu entendo - limitou-se ele a dizer.
Estava um dia perfeito para andar de barco. O sol e o mar brilhavam nos seus deslumbrantes tons de azul e o resto do mundo parecia estar muito longe. Laura foi invadida
pela paz, Pelo sentimento de solidão do momento. Ian ia respondendo a todas as per
guntas de Michael, enquanto ela se encostava e deixava que a brisa e o sol a envolvessem.
- É um instrutor muito paciente - comentou ela. - Deve ter herdado isso do seu pai.
O sorriso de Ian desapareceu subitamente. - Não me parece.
- Parti do princípio... - disse Laura, atrapalhada. - Uma vez que ele era professor.
- Talvez a pouca paciência que ele tinha haja sido gasta pelos seus alunos - observou Ian amargamente. - Em casa tínhamos uma outra faceta dele.
Laura percebeu pela fisionomia fechada de Ian que este estava a ser comedido. Decidiu desviar o rumo da conversa.
- De qualquer forma, tenho a certeza de que você foi um pai muito paciente - rematou ela.
- Quis ser um bom pai. Diferente dos meus. Mas abandonei o meu filho, no fim.
A reacção dele não a fez sentir-se desconfortável. Laura percebia agora que as pessoas precisavam de falar das suas tragédias, de não serem tratadas como se as suas
vidas fossem coisas de que não se podia falar, escondidas e mantidas em segredo para s
empre.
- Vi os livros que tem lá em baixo sobre filosofia e religiões orientais - disse ela. - Está a tentar tirar algum sentido de tudo o que lhe aconteceu?
Ian olhou para o céu cheio de sol.
- Estou interessado na ideia do determinismo e da vontade. De que forma e em que medida controlamos nós o nosso destino? Ou temos apenas de aprender a aceitar?
- Eu costumava pensar que tinha algum controlo sobre o meu destino - comentou Laura. - Mas agora interrogo-me..:
- Eu acho que temos de tentar dar uma forma ao nosso destino - afirmou Ian. - Independentemente do que acontecer. Eu sou um cientista, como sabe. Estou habituado
a contro lar as variáveis. Não gosto muito de andar ao sabor das circunstâncias.
- Ou até do vento. Tem de dominar o vento para conseguir viajar.
- É verdade. Sou um marinheiro um pouco descuidado.
- Não fui enganada - disse Laura.
Ian fez um trejeito, como se tivesse sido apanhado numa mentira.
- Sou transparente - rematou ele.
Laura olhou para ele com simpatia. A sua vida tinha-lhe sido arrancada, e ele estava a tentar recuperá-la. Ela compreendia isso perfeitamente.
- Estar a bordo deste barco à vela faz-me sentir como se tivesse decidido tirar o máximo partido deste dia maravilhoso. - Eu também acho isso - disse Ian, visivelmente
mais alegre.
Havia qualquer coisa de intemporal no facto de se ser levado pelo vento, comandando um elemento invisível para se chegar até onde se quisesse ir. E Ian parecia trabalhar
o vento sem esforço. O barco nunca perdeu velocidade e, se as velas deixaram de e
star enfunadas, foi apenas durante um breve momento até ele as reajustar novamente. Era um antigo meio de se viajar, muito pouco prático nos tempos actuais. Mas
era inegavelmente romântico trocar o motor pelas velas.
Navegaram durante mais meia hora, gozando a brisa, conversando preguiçosamente à medida que avançavam. Por várias vezes, Laura apanhou-o a olhar pensativamente para
ela, e ela sorriu como resposta, mas esses olhares deixavam-na, apesar de tudo, pouco
à vontade. Tentou fazer com que a conversa regressasse ao tom impessoal.
- Já percebi porque é que você gosta de andar à vela - disse ela, e os seus olhos voltaram a encontrar-se uma vez mais. - O meu marido tinha um barco de pesca, mas...
- Barcos a motor - proferiu Ian encolhendo os ombros. - Isso não tem ciência nenhuma. É só ligar o motor e andar. Laura levantou-se, sentindo-se irritada.
- Ele apenas queria pescar. Não estava interessado em todas essas coisas ligadas ao mar. O Jimmy tinha muita mestria numa série de outras coisas. - Laura pôs os
braços à volta do peito.
_ O que se passa? - perguntou Ian.
- Estou a sentir frio - respondeu ela. - Acho que é altura de regressarmos.
Ian olhou para ela, surpreendido. - Já?!
- Sim. Já.
- Ouça, não se ofenda - desculpou-se ele. - Todos o~ marinheiros falam assim dos barcos a motor. É uma espécie de tradição. Como a rivalidade entre as escolas. Não
era nada de pessoal em relação ao seu marido.
Laura remexeu no seu saco de lona e pôs uns óculos escuros.
- Desculpe - prosseguiu ele. - Foi uma coisa que me saiu sem pensar. Não a quis ofender. Essa seria a última coisa que me apeteceria fazer.
Laura sacudiu a cabeça.
- Não é isso. Fui eu que comecei a pensar no Jimmy... De repente, senti-me cansada. Por favor, leve-nos de volta. -Tem a certeza? - perguntou ele.
Laura não respondeu e Ian suspirou.
-já vou para aí, Michael - disse ele em voz alta. - Vamos regressar.
- Já? - protestou o rapaz e Laura teve de sorrir.
A viagem de regresso à doca correu sem problemas. Ian' manteve-se silencioso durante todo o percurso. Agora que o passeio estava quase a terminar, Laura sentiu-se
embaraçada;
por se ter ofendido com aquelas observações casuais. Chegaram à marina e Ian manobrou cuidadosamente o barco até ao local que ocupava. Laura tirou os óculos escuros
e voltou a colocá-los na sua mala. Reuniu as camisolas e pô-las igualmente na mala. En
quanto se sentava à ré, Ian saltou para o molhe e, continuando a explicar tudo a Michael, amarrou o barco à doca. Depois voltou a entrar no barco, no local onde
Laura estava sentada. Michael caminhava alegremente pelo convés, que brilhava, enquanto La
ura lhe dizia para ter cuidado.
- É tão bom vê-lo assim feliz - observou ela. Ian assentiu com a cabeça.
- Lamento ter estragado o passeio - desculpou-se ele- Não estragou nada - respondeu Laura. - Pena foi ter-se dado a todo este trabalho e depois termos de voltar
tão rapidamente. Eu... eu acho que não estava preparada.
Portou-se muito bem - contrapôs ele. - Você foi perfeita.
Laura olhou para ele, surpreendida pela intensidade do seu tom de voz. Ian estava a olhá-la com uma indisfarçável admiração. Talvez ele ainda a visse como a rapariga
da escola que o salvara, mas isso não importava. Era bom ter alguém que olhava para e
la e lhe dava algum valor. Laura sentiu-se invadida por uma onda de ternura em relação a Ian e à longínqua familiaridade entre eles.
- Ian, queria que soubesse como lhe estou grata...
- Eu é que lhe agradeço - interrompeu-a ele. - Por terem vindo comigo.
- Aí está, a minha boa acção de há tanto tempo está paga. Tive a oportunidade de ter este dia lindíssimo, sem preocupações, quando realmente precisava de o ter.
- Podemos ter muitos dias como este - respondeu ele. - Mas em breve vai ter de continuar viagem. Tem ainda muitos portos por visitar - disse . ela com ar ligeiro.
- Não, não tenho - respondeu Ian. - Sou eu que faço as minhas regras. Posso ficar o tempo que quiser.
Um nó formou-se no estômago de Laura quando ouviu aquelas palavras e abanou a cabeça.
- Ian, ouça, foi um dia fantástico. Mas não quero que fique com uma ideia errada... a meu respeito. Realmente não há qualquer possibilidade...
Subitamente, Laura ouviu Michael gritar. - O barco do pai! O barco do pai!
Laura deu um salto, na esperança de ver Jimmy, contra tudo o que seria razoável e possível, e olhou em volta. Um barco a motor passava lentamente por eles. O homem
de cabelo grisalho que ia ao leme exibia um ar obviamente confuso, olhando fixamente pa
ra Michael, que lhe acenava. Atrás dele encontrava-se um casal jovem, sentado à ré. A mulher estava vestida dos pés à cabeça com um fato de seda cor de lavanda e
parecia "finitamente aborrecida. O homem falava a um telemóvel. Laura reconheceu Richard
e Càndy Walsh, de passeio no barco que Richard tinha comprado para o pai. Os olhos de Richard encontraram os dela e fixou-a longamente. Laura levantou
uma mão, num cumprimento débil. Candy pôs-se de pé e acenou efusivamente.
- É o barco do pai! - gritou Michael.
- Pois é - anuiu Laura. O pai de Richard voltou a concentrar a sua atenção no canal e Richard fingiu retomar a sua conversa telefónica, mas Candy voltou-se e ficou
a olhar para eles até saírem do porto.
-Amigos seus? - perguntou Ian. Laura fez um gesto com a cabeça.
- É o nosso advogado - respondeu ela. - Era um amigo chegado do meu marido. É ele quem gere as nossas finanças. - Isto é aborrecido para si? - perguntou Ian.
Laura sacudiu a cabeça.
- Não tem importância. Agora temos de ir andando. O iate balançou quando ela saiu para o molhe. Ian estava ainda na cabina.
- Não_ se apresse - pediu ele. - Deixe-me terminar isto aqui e podemos almoçar todos.
-Não - respondeu Laura. - Está na hora de irmos embora. Michael, agradece a Mister Turner.
- Laura, o que se passa? - perguntou Ian.
- Nada - retorquiu ela. - Obrigada pelo passeio. Vamos, Michael.
- Obrigado - disse Michael.
- De nada. Havemos de fazer isto mais vezes - respondeu-lhe Ian.
Michael começou a saltitar pelo pontão na altura em que Ian saiu do barco.
-Acho que vou ficar por cá durante uns tempos - confessou Ian suavemente.
Laura compreendeu e isso alarmou-a.
-Não fique por minha causa - disse ela com frieza, odiando o tom, da sua própria voz.
- Gosto disto aqui - afirmou Ian. - É o sítio mais bonito que já vi.
Laura sentiu que o seu rosto estava em chamas. Correu atrás de Michael como alguém que foge de uma enchente.
Quando chegou ao final do pontão, viu Fanny Clark à porta da Boat People, as mãos apoiadas nas ancas, a boca exibindo a forma de uma linha de reprovação. Laura tentou
forçar um sorriso, mas Fanny voltou-lhe as costas e desapareceu dentro
da loja.
***
CAPÍTULO 12
Laura pôs dois pratos de macarrão com queijo sobre a mesa da cozinha e serviu dois copos de leite. Michael e Louis es tavam sentados em lados opostos da mesa, já
com os garfos e posição.
- Comam isso - disse ela. - A tua mãe já te vem buscar. Pam tinha passado lá por casa com uma dor de dentes e ia ver se tinha vaga no dentista da localidade. Laura
concordou rapidamente em ficar a tomar conta de Louis. Michael e Louis gostavam de brin
car juntos, e as duas mulheres muitas vezes trocavam entre si serviços de babysitter. O marido de Pam Duane, trabalhava na Guarda Costeira e a maior parte das vezes
estava fora de casa. Laura sentia que havia uma hostilidad muito nítida na atitude de
Duane para com ela desde a morte de Jimmy, mas quando pôs essa questão a Pam, esta respondeu-lhe que estava a imaginar coisas.
Era uma pequena mentira e Pam sabia-o, mas não queria ferir os sentimentos de Laura. Apesar de ser tão devotada como era a Duane, Pam orgulhava-se do seu pensamento
independente. Levava Louis à igreja, apesar de Duane não gostar de ir, e votava nos re
publicanos apesar do marido ser democrata. Por isso, quando Duane sugeriu, embora Pam nunca confessasse a Laura, que seria melhor que ela encontrasse outra pessoa
com quem Louis pudesse brincar, Pam tinha-lhe dito friamente para não interferir.
Os dois rapazes sentaram-se a comer o macarrão com gran-
de apetite e Laura olhou desinteressadamente para o interior do frigorífico, procurando alguma coisa que ela própria pudesse comer. Alguém a bater à porta interrompeu
os seus pensamentos. Ao contrário do que desejava, Laura sentiu o coração ligeiramen
te ansioso. Não seria Pam nem Gary, uma vez que estes entravam pela porta das traseiras.
-Vocês acabem de comer. Tenho uma sobremesa para quem ficar com o prato completamente limpo - prometeu ela ao sair da cozinha.
"Deve ser o rapaz dos jornais, para receber", pensou ela. Mas mesmo assim desfez o rabo-de-cavalo e deu um jeito ao cabelo, enquanto se apressava em direcção à porta
e a abriu. - Boa tarde, Mistress Reed.
O coração de Laura teve um sobressalto. Era, o detective Leonard, vestido como habitualmente com o seu fato cinzento, que combinava com os seus olhos, e Laura teve
a certeza de que ele nunca tirava aquele fato e aquela gravata enquanto estava a trabal
har, por mais elevada que fosse a temperatura. O seu cabelo loiro estava muito bem penteado para trás e a sua expressão era impassível.
Laura não o convidou a entrar. Não havia fingimentos de amizade entre os dois, ela tinha sentido a sua desconfiança desde o momento em que se haviam conhecido. As
suspeitas dele exerciam uma grande pressão sobre ela.
- Em que posso ajudar, detective?
- Posso entrar? Gostava de lhe fazer algumas perguntas. Laura voltou-se e caminhou para a sala de estar, não se incomodando sequer em responder. Ele entraria se
quisesse. Tinha sido sempre cumpridora da lei e sempre confiara na polícia. Nunca sentira
grande aproximação em relação aos jovens, os pobres urbanos e os negros que se queixavam de que eram perseguidos sem razão pelos polícias. Mas agora Laura compreendia
o que era ter a polícia a incomodá-la, não por causa daquilo que pudesse ter feito,
mas simplesmente por ser quem era.
Laura indicou-lhe uma cadeira e sentou-se noutra.
- O que deseja? - perguntou ela sem rodeios. Não valia a pena fingir que se tratava de uma visita amigável.
- Recebi um relatório segundo o qual foi vista ontem na
companhia de um homem, um estranho em Cape Christian; Gostaria de saber o que me pode contar acerca dele. Quem lhe contou isso? - inquiriu Laura. ---_Receio que
isso não seja da sua conta.
--~- Não estou autorizada a ter amigos? - perguntou Laura. Quero dizer, é ilegal eu passar uma hora com um amigo? -Nós só sabemos isto: que o nome dele é Ian Turner
e que -tem um ancoradouro para um valioso veleiro na marina - Não posso acreditar nist
o - protestou Laura. - Como é que... Tudo o que fizemos foi dar um passeio de barco. Mais nada.
--Pode contar-me um pouco mais sobre a vossa relação? Há quanto tempo conhece este homem?
Fanny Clark - proferiu Laura. - Tem de ser. Bom, se ela lhe disse o nome dele, de certeza que lhe contou como nos conhecemos.
O detective Leonard nem se preocupou em confirmar ou negar as suspeitas de Laura.
Você diz que se conhecem há muito tempo. A senhora e Mister Turner têm um caso? Já tinha esse caso na altura em que o seu marido estava vivo?
-^ Não! - gritou Laura. - Conhecemo-nos na manna há dois dias. Não via o Ian desde que éramos crianças. E não; não estamos a ter um caso.
O detective Leonard olhou para as suas notas e a expressão da sua cara não se modificou.
Foram amantes no passado, quando se conheceram um ao outro?
-Tínhamos cinco ou seis anos, detective. Fomos da mesma escola durante um ano ou dois.
----Mister Turner é casado ou solteiro? Porque não lhe pergunta?
Está à espera dele?
Não - disse Laura desafiadoramente.
Ron Leonard coçou a cabeça com um ar pensativo.
-- Bom, posso sempre esperar aqui. Para ver se ele aparece.
Laura suspirou, desesperada.
Mister Turner é viúvo, de New Brighton, no Connecticut. Passou aí toda a sua vida. É físico, trabalhava numa base da marinha. A mulher e o filho morreram num incêndio
o ano passado.
O detective levantou as sobrancelhas.
-Há um incendiário em série a cumprir três penas de prisão perpétua em Lansciale, como resultado disso - prosseguiu ela. - Está satisfeito?
- Vou confirmar tudo isso, naturalmente. E a senhora mantém que não tinha um caso com este homem na altura em que a mulher dele, ou o seu marido, ainda estavam vivos?
Laura cerrou os dentes. Ser encarada daquela forma era a mesma coisa que ter gente a derramar baldes de esterco sobre ela. Estava farta de ser uma proscrita, sempre
vista a essa luz.
- Sabe, detective Leonard? Eu sou a vítima, aqui. Fui eu quem perdeu o marido, quem perdeu a paz de espírito para sempre. Sou também eu quem tem estado à espera
que o senhor descubra o assassino. E nem sequer imagina como me deixa furiosa ter de respo
nder às suas insinuações reles e abjectas, quando estou a ver que ambos estamos a perder o nosso tempo...
Ron Leonard fechou o seu bloco de apontamentos e levantou-se.
-Acho que já tenho por onde começar - disse ele. - Porque não tenta descobrir o homem que matou o meu marido? - gritou ela, já rouca.
O detective abriu a porta e saiu para o alpendre.
-As suas flores são muito bonitas - observou ele, fazendo um gesto em direcção ao arranjo que estava em cima da mesa. - Foi Mister Turner quem lhas trouxe?
Laura sentiu desejos de lhe bater com a porta, mas resistiu ao impulso.
-Não - disse ela friamente. "Não tenho de te dizer quem me manda flores, meu filho da mãe", pensou ela. O detective parecia estar pronto para fazer exactamente essa
pergunta mas depois reconsiderou. Laura esperou que ele descesse o caminho e se dirigi
sse ao carro antes de fechar a porta e se encstar a ela, de olhos fechados.
Michael surgiu à porta da sala de estar.
- Comemos tudo, mamã - anunciou ele. - Estamos prontos para a sobremesa.
- E mais leite, se faz favor - pediu Louis, atrás dele. Laura -suspirou e obrigou-se a afastar da porta.
- Muito bem - disse ela. Encaminhou-se para a cozinha e começou a preparar os pratos para os dois rapazes. Michael e Louis viram a expressão no rosto de Laura e
permaneceram in-`
vulgarmente quietos e calados. Quando Laura pousou os pratos de doce,; os dois rapazes caíram sobre eles como se estivessem esfomeados.
Laura ,rasgou uma toalha de papel, humedeceu-a debaixo da torneira e apertou-a contra a testa, que começara a doer-lhe. Serviu-se de um copo de Coca-Cola e bebeu-o
rapidamente. Às vezes, um pouco de cafeína ajudava a afastar as suas dores de cabeça. D
e repente, a porta das traseiras abriu-se e Pam entrou, a face direita toda inchada.
Laura olhou para ela. - Que tal, foi?
Um horror. Nem me perguntes.
Olá, mãe - saudou Louis, os seus dentes completamente enegrecidos pela sobremesa que estava a comer.
`_ - Estão quase prontos - disse Laura.
- Podemos ir lá para fora? - perguntou Michael. Claro. Mas fiquem no pátio das traseiras - ordenou, Láura.
Pam limpou algumas migalhas que estavam nas cadeiras da cozinha e ''sentou-se. Laura acabou de limpar a cozinha. Queres beber alguma coisa? - perguntou ela a Pam
Pam tocou no maxilar.
- Não...
Viu Laura colocar os pratos na máquina de lavar e passar por água o tacho onde cozera a massa.
- Laura, o que se passa? O Louis portou-se bem?
-•- O'h, o Louis foi óptimo - respondeu Laura. - Foram os dois. Estou a ficar com uma grande dor de cabeça.
-- Deixa-me ajudar-te - disse Pam.
Não, não, deixa-te estar sentada. Trata desse maxilar. Ele deu-te alguma coisa para as dores?
Pam assentiu com a cabeça.
- Parei na farmácia quando vinha para cá. - Hesitou, vendo a expressão distraída na cara de Laura. Depois acrescentou: - Pensei ter visto aquele detective Leonard
subir quando eu estava a chegar. Ele esteve aqui, não foi?
- Pois esteve - suspirou Laura.
- Que foi agora? - perguntou Pam.
- O Michael e eu fomos dar uma volta no barco de um homem que conhecemos na marina. E a polícia quer saber porquê - informou Laura.
- Isso tem alguma coisa a ver com o homem com quem estavas a falar no alpendre uma noite destas? - perguntou Pam.
Laura voltou-se, o prato de doce numa das mãos, e olhou para Pam com as sobrancelhas erguidas.
- Também andas a vigiar-me? - perguntou ela. Pam não se sentia envergonhada da sua curiosidade.
- Ouve, se eu ouço nem que seja um pássaro a piar, vou logo espreitar à janela. - Pam sacudiu a cabeça. - Se eu tivesse sido tão curiosa naquela noite...
Laura suspirou, depois fez um gesto com a cabeça.
- Sim, na verdade era o mesmo homem que esteve ali no alpendre. O seu nome é Ian Turner. Conhecemo-lo quando fomos ver os barcos. E acontece que descobrimos que
nos conhecíamos desde crianças. Daí que nos tenha convidado para dar uma volta de barco.
- Um tipo atraente - observou Pam. - Pam!
- O que foi? Tive oportunidade de o ver bem quando ele se foi embora.
- Não me interessa se ele é atraente ou não. Só fui com ele porque pensei que o Michael havia de gostar. E também porque em tempos o conheci... Tu sabes.
-Exacto - murmurou Pam. Fez-se um silêncio entre elas enquanto Laura guardava o prato do doce no armário e fechava a porta.
-Ele é casado? - perguntou Pam.
- Não, mas que tem isso a ver com tudo o resto ? - pergunntou Laura, irritada.
-Bom, que queria então a polícia? - perguntou Paro, Laura encostou-se ao balcão da cozinha e cruzou os braços. - Queria saber se eu estava a ter um caso com ele.
Un, homem que eu encontrei há dois dias...
Pam sacudiu a cabeça, em sinal de assentimento. - Isso é ridículo - comentou ela.
- Na verdade, ele queria saber se nós estávamos caso antes de o Jimmy ter sido morto.
- Oh, Laura!
- Eu sei - respondeu Laura. - É um nojo. --- Gostas desse tipo? - perguntou Pam.
- Gostar dele! - Laura parecia explodir, desesperada. - Mesmo se eu gostasse... Ouve, é um homem simpático, mas eu não estou no mercado para um romance. E a forma
como a polícia perscruta cada um dos meus movimentos... Pronto, não o vou ver mais e aca
bou-se. Não preciso de ser perseguida. - Não te culpo - disse Pam. - Mas acho que até é pecado a forma como a polícia anda em cima de ti. Não vale a pena. Para além
do mais, o Jimmy... morreu há tão pouco tempo! Tu não estás pronta para outra relação.
Isso é uma coisa que leva- tempo...
Exactamente - disse Laura na defensiva.
A campainha da porta da rua tocou, e Pam e Laura trocaram um' olhar.
Estás à espera de alguém? - perguntou Pam.
- Não - respondeu Laura, ao mesmo tempo que se dirigia para a porta.
Ian encontrava-se no alpendre, com um pacote de papel castanho na mão.
- Fui comprar comida chinesa para levar, mas não serviam doses individuais - disse ele. - Está interessada?.. Pam apareceu à vista, surgindo por trás de Laura. -Desculpe
- disse Ian. - Está acompanhada.
.-.- Eu já me ia embora - disse Pam.
- Não lhe apetece um pouco de comida chinesa? - perguntou Ian educadamente.
,Pam levou a mão à face inchada. -Uma súbita infecção nos dentes...
Para mim vai ter de ser uma sopa. Eu fico de olho nos rapazes pela janela das traseiras - disse ela a Laura. Passou por Ian na ombreira e voltou-se para deitar um
olhar a Laura, que sentiu a cara a arder.
Ian fitou Laura.
-- Galinha gung pao - disse ele com ar esperançoso. - Eu disse-lhe que não o podia ver mais. - admoestou. - Trouxe pauzinhos... - rematou ele.
***
CAPÍTULO 13
Laura voltou-lhe as costas e dirigiu-se para o interior da casa. Ele entrou atrás dela e fechou a porta.
- Há algum sítio onde eu possa pousar isto? - perguntou ele.
Laura entrou na sala de estar, deixou-se cair numa cadeira e sentou-se muito direita, as mãos a agarrarem os braços da cadeira, com uma expressão dura e sem sorrir.
- Que tal a mesa de café? - disse ele, afastando cuidadosamente algumas revistas e pousando o pacote com cuidado, como se pudesse ser explosivo.
Abriu o pacote e procurou no seu interior. - Um crepe? - perguntou Ian.
Laura olhou finalmente para ele.
- Você nunca aceita um não como resposta? - perguntou friamente.
Ian voltou a colocar o crepe dentro do pacote e limpou os dedos distraidamente a um guardanapo de papel.
- Se calhar devia ter telefonado primeiro. - Não devia era ter vindo de todo.
- Queria vê-la - disse calmamente.
- E eu já lhe disse que não posso - gritou ela.
Ian estudou-lhe o rosto sem falar. Laura sacudiu a cabeça e afastou o olhar dele.
- Porque está tão zangada? Fiz alguma coisa que a ofendesse? Quero dizer, foi por causa da comida chinesa? É alérgic` ao glutamato de sódio?
Ela sabia o que ele estava a fazer. A tentar gracejar com o intuito de tornar melhor a sua disposição. Mas ele ignorava tudo aquilo que estava ali em questão. Olhou
para ele sem sorrir. --A polícia esteve cá hoje - anunciou ela.
A polícia? A fazer o quê?
--Alguém me viu a andar de barco consigo e informou a polícia. E a minha sombra, o detective Leonard, quer saber tudo a seu respeito. Quer saber se eu tenho um caso
consigo. Se fomos amantes antes de o meu marido ter morrido. Ou a sua mulher, que vem
a dar na mesma coisa.
Ian empalideceu. -Está a brincar. Laura sacudiu a cabeça.
- Muita gente nesta cidade... especialmente este detective em particular... acha que fui eu quem disparou sobre o meu marido.
-Por que diabo pensam eles isso? - Quer a história completa?
- Não - respondeu ele. = Não. Não tem importância. - Bom, eu quereria ouvir, se fosse você - contrapôs ela, agressiva. - Porque agora vão, muito provavelmente, investigá-lo
a si. Ver o que está para trás. Vasculhar tudo. De quantos encontros que teve
pode você dizer o mesmo?
- Só porque fomos dar uma volta de barco? Quem lhes contou, afinal?
Laura suspirou.
- Não sei. Na verdade até podia adivinhar, mas... Que diferença faz? É uma opinião comum.
Ian permaneceu imóvel durante uns instantes. Depois olhou para ela.
-Tem pratos que possamos usar para isto? Está a ficar frio.
Laura olhou-o com espanto.
- Ouviu o que eu tenho estado a dizer?
- Ouvi, e não me importa - disse ele pondo-se de pé. - A cozinha é ali para trás?
Laura deixou-se ficar na cadeira, abanando a cabeça. Ian desapareceu por alguns momentos e regressou com dois pratos
e duas chávenas de chá. Tirou a comida de dentro do saco de papel e dividiu-a pelos pratos. Deitou o chá que vinha num recipiente de papel nas chávenas. Depois colocou
dois pauzinhos do lado dela e começou a comer com os seus.
- Não percebo porque é que as suspeitas deles nos devem afectar - prosseguiu ele. - Não temos nada a esconder. Só nos conhecemos anteontem. Experimente isto, está
bom.
Laura pegou nos pauzinhos e segurou-os na mão. Ficou a estudá-lo, enquanto ele retirava os pedaços de comida, habilidosamente, do prato. Havia uma calma e tranquilidade
nele pouco habituais, como se nada o atingisse. Laura sentiu-se acalmar na sua pre
sença, como se ele tivesse prometido todas as respostas e ela apenas tivesse de confiar nele.
É estranho, pensou ela, conhecer alguém na infância e depois só voltar a encontrar essa pessoa na idade adulta. Todos os mecanismos, todo o autocontrolo que uma
pessoa desenvol via através da vida, assemelhavam-se a uma máscara, uma fachada imposta à
ingenuidade dessa criança há muito tempo perdida. Aquele homem contido que se sentava na sua sala de estar, a comer comida chinesa, encontrava-se a uma enorme distância
do rapaz histérico que ela tinha encontrado, caído num fosso, no crepúsculo que se
abatia sobre a floresta. Para onde tinha ido essa criança?, interrogou-se ela. O que se havia modificado tanto? Permaneceria ainda ali aquela criança aterrorizada?
Estaria realmente tão afastado do mundo como parecia? Ou teria apenas aprendido a pôr
um disfarce convincente?
- Quanto tempo foi casado? - perguntou ela de repente. - Como conheceu a sua mulher?
Ian levantou os olhos, surpreendido pela pergunta.
- Isso é uma grande mudança de tema - disse tranquilamente.
- Importa-se que pergunte? - quis saber. -Não - respondeu ele. - Não.
Sentou-se pensativamente durante um momento, como se ;, estivesse a reflectir na resposta. Depois começou a falar.
- Conhecia-a em Roma, quando estava a estudar lá. Ela era estudante na universidade. Fomos casados durante oito anos.
- Como era ela? Ian suspirou.
- A Gabriella... A Gabriella era como uma bela planta exótica que nunca deveria ter sido transplantada. Jamais se habituou a esta vida aqui. Nunca floresceu. Tinha
ido para Roma vinda de uma pequena localidade, e o seu coração sentiu sempre saudades d
e casa.
Laura bebeu um gole de chá e pousou a chávena com cuidado sobre a mesa.
- Deve ter gostado muito de si, para deixar o seu país e ter vindo para aqui consigo.
- Tinha um coração muito terno. Por vezes eu pensava que ela nos amava de mais, ao Phillip e a mim. Ficava pouco à vontade, de cada vez que nós desaparecíamos da
sua vista. Estava sempre receosa da vida aqui. Do que poderia acontecer... - Talvez ela t
ivesse uma premonição - disse Laura.
- Talvez - concordou ele. Ian bebeu mais um pouco de chá. Depois acrescentou: - Eu costumava troçar desse tipo de coisas... Mas agora já não...
Laura olhou pensativamente para Ian. Os seus caminhos tinham-se cruzado uma vez, há muito tempo, e depois haviam-se separado. Mas os seus sonhos tinham-se desenrolado
de uma forma semelhante. Era como se tivessem percorrido vidas paralelas. Claro que
no caso dela, tudo era um pouco diferente. Era suspeita de ter arquitectado a sua perda.
- Ouça, Ian. Não estou a tentar ser tímida, acredite-me. Eu gosto de si. Estou contente por nos termos voltado a encontrar. Gosto de conversar consigo. Mas creio
que seria melhor para nós dois se você continuasse a sua viagem - disse ela cuidadosament
e.
Ian pousou o prato e pegou-lhe na mão. O seu toque pareceu a Laura como um choque eléctrico.
- Não me parece - contrapôs ele. Ian olhou-a intensamente e ela sentiu um arrepio. Laura retirou a mão e olhou noutra direcção.
- A polícia vai meter-se em toda a sua vida. Não vai ser divertido, posso garantir.
- Vou correr esse risco - respondeu Ian.
Laura evitou o seu olhar penetrante fixando o relógio. - É tarde. Tenho de chamar o Michael para vir para dentro - disse ela, pondo-se de pé abruptamente.
Sem esperar que ele lhe respondesse, Laura voltou-se e foi caminhando ao longo da casa até chegar à porta das traseiras e abriu-a.
- Michael - chamou. - São horas de vires para casa, Está a pôr-se escuro.
- Só mais cinco minutos, mamã - respondeu a sua vozinha.
-já - insistiu ela. - Agora mesmo.
Ouviu os passos de Ian atrás de si e sentiu o seu olhar na nuca, como uma mão suave a massajar-lhe a base do pescoço. "Rápido", pensou ela. "Não posso estar sozinha
com ele." Dei
xou-se ficar no umbral da porta, a olhar para fora, até que, com alívio, viu a carinha de Michael a dirigir-se para ela, brilhando na escuridão do pátio.
- Talvez tenha sido ela que o matou - declarou Candy, agitando a mão à sua frente para secar o verniz das unhas. Estava deitada numa cadeira de- repouso de cabedal.
Richard ins
talado na sua enorme secretária de mogno, trabalhava febrilmente no seu computador portátil, aberto à sua frente. Richard esfregou os olhos e olhou para a mulher.
- De que estás a falar?
- Candy! - exclamou Richard em tom de aviso. - Tenho trabalho para fazer.
- Então faz o teu estúpido trabalho. Quem te impede? Richard fixou o ecrã. Os números à frente dos seus olhos faziam com que ele apertasse os lábios ansiosamente.
As mãos caíram-lhe sobre o teclado. As páginas da revista de Candy' deslizavam pelos seu
s dedos. Richard olhou para a mulher. Ela estava à espera de uma concessão e ele tentou aceder com o mínimo de conversa.
Não pensas mesmo isso, pois não?
Candy encolheu os ombros e não levantou o olhar. Richard continuou a fitá-la, esperando que respondesse, mas ela folheava cuidadosamente as páginas com as pontas
dos dedos. Depois soergueu a revista até junto da cara e aspirou o aroma proveniente de u
m anúncio a um perfume. Ela estava a ficar zangada com ele. O ambiente frio começava a instalar-se e ele precisava de tentar modificar-lhe a disposição, embora não
tivesse grande habilidade para isso. Talvez se mudasse de assunto...
- Acho que o meu pai está a gostar daquele barco. Foi uma grande ideia que tiveste, comprá-lo para ele - proferiu Richard. Era arriscado dizer que a ideia partira
de Candy, mas ele estava num beco sem saída.
-Eu reparei - bocejou Candy. - Parecia que nunca mais saíamos daquele barco maldito.
Richard suspirou. Ela estava decidida a falar no assunto. Candy não ia ser simpática se ele não cedesse. Richard encostou-se à cadeira e cruzou os braços sobre o
peito, tentando assumir o seu ar de advogado esperto e astuto.
- Eu aconselhei-os a fazer aquele seguro. A ideia não foi dela. Tanto quanto eu sou capaz de ver, ela não tinha verdadeiramente nenhum motivo. Para além disso, ela
e o Jimmy pareciam muito felizes juntos...
- Oh, Richard, como é que sabes se eles eram felizes ou não? - observou Candy com desdém. - Os homens nunca percebem estas coisas.
- Não pensas que haja alguma coisa entre aquele tipo e ela, pois não?
- Não, acho que ela está a ter lições de manobras náuticas - declarou Candy olhando para cima.
Richard pôs a mão no maxilar e ficou a olhar à distância. - Não temos nada com isso, se ela tem um novo amigo. -Um novo amigo - galhofou Candy. - És ridículo,
Richard. Pensas que uma mulher quer ser amiga de um tipo como aquele?
- Não sei e não me interessa! - exclamou Richard, irritado, sabendo que ela o estava a comparar, desfavoravelmente,
com o homem que tinham visto no barco. - Que diferença te faz,.podes dizer-me?
- Não me faz diferença nenhuma - disse Candy. - Isso é coisa para a polícia decidir.
- A polícia? Que tem a polícia a ver com isto?
Candy olhou para uma fotografia de moda, a cabeça inclinada pensativamente para um dos lados. Segurou na revista e apontou uma fotografia de uma modelo.
-Como achas que eu ficava assim?
Richard suspirou. Assim que Candy via uma roupa, era como se já estivesse comprada.
- O que é que tem a polícia? - repetiu ele, ansioso. - Telefonei-lhes e contei-lhes - disse ela.
Richard olhou para a mulher.
- Telefonaste à polícia! Que te deu para fazeres uma coisa tão estúpida?
- Não te atrevas a chamares-me estúpida, Richard - gritou Candy com os olhos faiscantes.
- Ora, Candy. Ela é minha cliente, o meu dever é protegê-la.
- Está bem, mas não é minha cliente. E tu devias estar preocupado, ele era o teu melhor amigo, parece-me...
- Tu não sabes o que está aqui em jogo - disse Richard, furioso.
Candy olhou para ele por cima da revista.
Que significa isso, Richard? Estás a suar como um porco. - Estou a dar-lhe dinheiro. Eu sou... sou responsável pelo bem-estar da Laura.
- E então o bem-estar do teu amigo? Do teu amigo morto. Tu metes-me nojo, Richard - prosseguiu Candy. - Se tu não te importas, por que razão me hei-de eu preocupar?
- Se não te preocupas, porque foi que chamaste a polícia? - gritou Richard.
- Porque tu nunca terias coragem, Richard. Meu Deus... - Candy abanou a cabeça, desgostosa.
Richard tentou voltar a concentrar-se no ecrã do computador. Candy manteve-se silenciosa, ignorando-o, e Richard sabia que aquela disposição podia durar horas. Quando
ela não
estava contente com ele, era capaz de ser extremamente inflexível. Mas ele não podia ocupar-se das birras de Candy naquela altura. Tinha outras coisas em que pensar.
A polícia... Por amor de Deus, Candy. Ela não fazia ideia, não compreendia como... el
e estava envolvido nos negócios de Laura. Richard esfregou a testa, tentou afastar a dor que começava a instalar-se entre os seus olhos.
***
CAPÍTULO 14
Ron Leonard transferiu o peso de um pé para o outro e olhou longamente para as modernas instalações da esquadra da polícia de New Brighton, enquanto esperava que
Hal Morgan,
o subchefe, terminasse a conversa com uma bonita agente que lhe entregava pastas de arquivo e lhe descrevia o conteúdo de cada uma delas. Durante um breve instante,
Ron pensou no seu fato, era um dos três fatos cinzentos que ele usava para trabalhar.
O melhor de todos. Comprara-o em Filadélfia, no Boyd's, uma loja de roupas masculinas. O fato tinha umas risquinhas quase invisíveis, uma vestimenta que se podia
usar em qualquer lado ou situação e impor respeito. O promotor público Jackson, o seu che
fe, levara-o ao Boyd's para ele fazer as suas compras, depois de ter aparecido um dia no trabalho usando um fato verde da Kmart. Clyde Jackson tinha grande cuidado
com as aparências e queria que as pessoas do seu departamento fossem levadas a sério. R
on estava contente por ter escolhido aquele fato para ir a New Brighton, que se situava na costa do Connecticut; o chefe Morgan parecia saído da capa do catálogo
da Brooks Brothers.
Tinha sido por decisão de Clyde Jackson que Ron fizera aquela viagem até New Brighton. Ron informara o promotor público sobre tudo o que tinha sabido de Ian Turner
e Laura Reed. De início, Clyde Jackson dissera a Leonard para manter o par debaixo de o
lho, hesitando dar um passo demasiado longo. Por isso Leonard vigiara a casa e, na última semana, tinha visto Turner entrar e sair da casa de Laura todos os dias.
Nunca saíam juntos, mas decerto que se entretinham dentro daquela casa. Quando contou isto ao promotor, a resposta de Jackson foi inequívoca.
Vai até ao Connecticut - dissera ele. - Descobre tudo o que puderes sobre esse tipo.
Estavam os dois a pensar a mesma coisa, que Laura e Ian Turner tinham andado a esconder-se e que, agora que Jimmy Reed estava morto há diversos meses, o par achara
que era seguro mostrar-se.
Morgan agradeceu à agente e voltou-se para Ron.
- Desculpe tê-lo feito esperar, detective. Vamos para o meu gabinete e damos uma vista de olhos por isto.
Hal Morgan indicou-lhe uma cadeira de cabedal e acenou-lhe com as pastas.
-Tudo isto está no computador - disse - mas não confio muito na tecnologia. A agente Weller por vezes ajuda-me a imprimir aquilo de que preciso.
- Perita em computadores e muito bonita também - afirmou Ron com ar agradável.
Hal Morgan suspirou.
- Lá isso é. Se não tomo cuidado, fica-me com o emprego. Já devia ter tirado aquele curso de computadores, mas quem é que tem tempo? Já faço horas extraordinárias,
estando as coisas como estão. Os miúdos têm o futebol aos fins-de-semana, a casa precis
a de ser pintada... E já não vou poder adiar por muito mais tempo, o computador, quero dizer... ou a casa.
Ron fez um sinal de compreensão.
- Também não é o meu ponto forte - declarou ele, embora tivesse tirado o curso, tempo não lhe faltava.
- É casado, detective? Ron abanou a cabeça. -Ainda estou à espera da mulher certa - respondeu. "Hal Morgan piscou-lhe um olho.
- Bom, então aproveite enquanto pode. Muito bem, vamos lá ver isto. Embora não me seja fácil esquecer este caso. Hal Morgan pôs os óculos e olhou para a primeira
pasta. Depois passou-a a Ron.
- Stuart Short. De dia, um tipo que fazia entregas para uma empresa de panificação. Vivia com a avó num dos nossos bairros menos importantes. Pagava as suas contas,
cantava no
coro da igreja e jogava hóquei com alguns dos rapazes que viviam no seu quarteirão. De noite, Mister Short entretinha-se a transformar as casas da região num verdadeiro
inferno. Conseguiu incendiar seis casas num ano e meio, antes de o termos apanhado
. Não foi fácil descobri-lo. Nunca tivera problemas com a lei. Claro que já havia deitado fogo ao, sofá da avó, bern como ao barracão das traseiras, há muitos anos
atrás, mas ela nunca apresentara queixa. Sabe Deus a quantas mais pequenas coisas ele d
eitou fogo pelo caminho, antes de se dedicar a coisas em grande.
- Quantas mortes? - perguntou Ron.
- Quatro, incluindo a mulher e o filho do Ian Turner. Está a cumprir três penas de prisão perpétua por tudo isto. - E ele confessou ter posto todos esses fogos?
- Não, na verdade até negou qualquer envolvimento nisso. Mas apresentámos tudo, identificações de testemunhas oculares, provas encontradas em sua casa, no carro,
tudo. O júri esteve reunido uma hora antes de o ter condenado.
- E tem a certeza de que foi o mesmo homem nos diversos incêndios?
Hal Morgan assentiu com a cabeça.
- O modus operandi era semelhante em todos os casos. Ponto de origem, o meio de ignição, tudo. Incêndios em série são crimes que trazem uma assinatura, como decerto
sabe. Ron franziu o olho para o dossiê.
- Porquê? Qual é o seu interesse neste Turner? - perguntou Hal.
- Tem andado a fazer companhia a uma viúva cujo marido foi morto com um tiro na cabeça, na sua cama, na noite de passagem de ano. Ela diz que havia um homem mascarado,
um ladrão, mas temos razões para duvidar da sua história, o marido tinha um seguro muito grande, ela não ficou praticamente ferida e a casa não foi revolvida. Está
a ver a coisa. Hal Morgan aquiesceu.
- Depois, de repente, aparece com Mister Turner acrescentou Ron. - Um viúvo recente.
Ele foi para aquela zona depois da morte do filho? Mister Turner diz que tem andado a bordo do seu barco desde Novembro.
- E isso é verdade?
Ron encolheu os ombros.
Falei com algumas pessoas de Barbados, mas não consegui localizar ninguém que o tivesse visto por lá na altura do crime. E quem nota um tipo num barco? Há aeroportos
em
cada uma daquelas ilhas, ele-podia ter feito uma viagem rápida para "tratar" do Jimmy Reed e estar de volta no seu iate na manhã seguinte.
Hal Morgan agitou a cabeça, pouco à vontade.
-Não sei muito acerca dele. Sei que é uma espécie de cientista, que trabalhava em submarinos, parece-me. Mas uma coisa posso dizer-lhe, a morte do filho foi um grande
desgosto. O rapaz ficou queimado da cabeça aos pés, oitenta e cinco por cento do cor
po, segundo ouvi dizer.
Ron Leonard fez uma careta.
- Exacto - disse Morgan acenando com a cabeça. - Eu não o vi, mas foi uma coisa brutal. O miúdo ainda se aguentou durante algum tempo. O Turner foi viver para o
hospital, estava com o miúdo de noite e de dia. Havia uma onda de simpatia imensa por ele
aqui na região. Para não falar na fúria contra o incendiário. Toda a gente andava em cima de nós! Tivemos sorte em o ter apanhado pouco tempo depois daquele incêndio.
O que foi bom. Por outro lado, mais um mês e acho que tinha perdido o emprego.
- Pois o Turner pode ser um santo por estes lados, mas ele é a melhor pista que temos, neste momento, em relação ao nosso crime. Tem de haver qualquer coisa sobre
a história da mulher do Reed que vamos ter de descobrir. E eu acho que vai ser por meio
do Turner.
- Não fará mal em dar uma vista de olhos por aqui - sugeriu Hal Morgan.
- Vou ficar alguns dias por cá. Vou falar com- a família dele, os seus colegas de trabalho, ver se aparece alguma coisa... - Agora estamos com pouco que fazer. Tenho
um homem que pode ir consigo e ajudá-lo a dar essas voltas.
- Agradeço a simpatia.
O telefone de Hal Morgan começou a tocar. Apertou a mão a Ron e depois levantou o auscultador.
- Posso ficar com isto? - perguntou Ron, pegando sua cópia do dossiê.
- Claro - disse Hal e depois retomou a conversa telefó nica.
- Doutora Kasprak - chamou Edward Lee, um jovem de feições asiáticas que usava uma bata branca de laboratório, Estes são os agentes da polícia que desejam falar
consigo.
Ron e o agente Witkowski, seu acompanhante e condutor, tinham feito a primeira paragem no centro de estudos termonucleares da base da marinha. Haviam sido recebidos
pelo Dr. Lee e, depois de algumas precauções de segurança, levados através de três por
tas até um grande laboratório. Esperando encontrar um homem, Ron ficou surpreendido quando uma mulher alta, de feições perfeitas e cabelo loiro, se voltou para os
receber ao ouvir as palavras do Dr. Lee. "O meu machismo está a vir ao de cima", pensou
Ron. Mas na placa de identificação que usava sobre a bata podia ler-se Andrea Kasprak, doutora em Física.
O Dr. Lee apresentou-os e todos apertaram as mãos. Ron lançou um olhar em volta pela sala cheia de computadores, consolas acesas e toda a espécie de instrumentos
electrónicos
conhecidos pelo homem. A sala estava cheia de gente a trabalhar, a maior parte dos quais usava óculos, encontrando-se todos completamente absorvidos pelas suas tarefas.
- Doutora, obrigado por me ter dispensado algum tempo para conversarmos. Poderia perguntar-lhe o que é que faz aqui, mas de certeza que não ia perceber a resposta.
A Dra. Kasprak suspirou e depois forçou um sorriso.,, -Então talvez seja melhor passar por cima disso. Ron olhou para as suas notas e aclarou a garganta.
- Conhecia o doutor Ian Turner e a sua mulher, Gabriella? - O doutor Turner era meu colega.
- Ficou surpreendida quando ele deixou o trabalho e foi viver num barco?
- Dado o que aconteceu à sua família, não - respondeu ela. Ron fixou-a, à espera que prosseguisse. Relutantemente, ela continuou. - Depois de o Phillip ter morrido,
achei que ele estava demasiado exausto, demasiado cansado do ponto de vista emocional.
.. até mesmo para pensar. Provavelmente fez a coisa certa, indo-se embora.
- Portanto, encorajou-o a ir-se embora? - perguntou
Ron.
A Dra. Kasprak hesitou e Ron obteve a sua resposta. Mas ela tentou emendar-se rapidamente.
-Acho que o trabalho pode ser bom, quando as pessoas estão perturbadas. Mas não sou perita nesses assuntos... Ron tomou uma nota e fez um gesto com a cabeça. - O
doutor Turner costumava viajar muito em trabalho? - Ocasionalmente.
- Para onde?
- Há conferências científicas a que assistimos de tempos a tempos.
- Pode dar-me uma lista daquelas a que ele foi, digamos, nos últimos dois anos?
A Dra. Kasprak pareceu surpreendida com o pedido. -Não tenho essa lista.
- O doutor Turner tinha uma secretária? - perguntou Ron.
A Dra. Kasprak suspirou.
-Ele tinha uma assistente. Vou ver se consigo que alguém lhe faça essa lista. Precisa dela imediatamente?
- Ainda vou ficar por cá um dia ou dois. Posso voltar cá - disse Ron, fingindo não notar a irritação dela. - Tem alguma razão para suspeitar que o doutor Turner
estivesse a ter uma relação extraconjugal?
A Dra. Kasprak pareceu chocada. -Não - disse ela.
Ron esperou por um desenvolvimento que não chegou. -Tem alguma razão para pensar assim?
- Não tenho razões para pensar o contrário - declarou a Dra Kasprak. O doutor Turner era devotado à sua .. família.
-Era amiga do doutor Turner e da sua mulher? A Dra. Kasprak hesitou.
- Não. Não exactamente. Mistress Turner era italiana e o seu inglês era limitado. É difícil viver fora do nosso próprio país - acrescentou a doutora severamente.
- Portanto não se encontravam socialmente fora do trabalho...
- Por vezes fazíamos coisas divertidas com o Phillip. - Tenho um filho da mesma idade, por isso às vezes levávamo-lo nos nossos passeios. - Olhou para Ron e tremeu-lhe
um
músculo junto ao olho, traindo uma emoção que de outra forma ela não teria revelado. - Tínhamos planos para ir a um jogo de basebol naquela mesma noite...
A voz da Dra. Kasprak esmoreceu. Ron olhou para ela com curiosidade. - O Phillip Turner deveria ter estado convosco naquela noite?
-Sim. Connosco e com o nosso filho, Zak. -Mas ele não foi?
A Dra. Kasprak suspirou.
- A Gabriella telefonou a dizer que ele não se sentia bem. Por vezes penso que ela era cautelosa de mais em relação ao filho... mas isso é uma prerrogativa das mães
- concluiu ela,
- E o doutor Turner também iria convosco ao jogo? Andrea Kasprak sacudiu a cabeça.
- Não. Ele estava a trabalhar num projecto, aqui no laboratório.
Ron sentiu a adrenalina a subir.
- Disse-lhe que o Phillip não iria convosco? Que ia ficar em casa?
A mulher suspirou, já desesperada.
-Não sei. Acho que não. Que diferença faz isso?
- O doutor Turner disse à polícia que tivera de trabalhar até tarde no laboratório, naquela noite - informou Ron. Estava alguém aqui com ele?
- Claro que sim. Temos uma grande equipa de seguranças, caso não tenha reparado.
Pois, pensou Ron. E qualquer tipo que fosse um cientista
era capaz de arranjar uma maneira de se escapar a alguns seguranças meio adormecidos. Ron decidiu mudar de táctica.
O doutor Turner alguma vez lhe mencionou uma mulher chamada Laura Reed ou Laura Hastings?
_-Não, nunca.
- E a senhora não tem razões para crer que ele estivesse envolvido emocionalmente com alguém, fora do casamento... -- Já me perguntou isso - salientou a Dra. Kasprak.
- Agora se já terminou...
Ela estava claramente aborrecida com a natureza das perguntas que ele fazia, como se se entregasse a sugestões obscenas para lhe desagradar.
- Desculpe tê-la ofendido, minha senhora - disse Ron sem sinceridade. - O crime é um assunto aborrecido.
- Crime? - perguntou ela. - Que tem isto a ver com crime?
- É o que eu estou a tentar descobrir - retorquiu Ron.
***
CAPÍTULO 15
Gary, sentado na sua cadeira de rodas no pátio das traseiras da casa de Laura e de olhos fechados, deixava que o seu rosto pálido apanhasse o calor do sol. Estava
sempre com frio e Wanda mantinha o aquecimento da sua casa ligado até junho, e ele usava
sempre um casaco espesso, mesmo num dia bonito como aquele. A porta abriu-se e Laura saiu, transportando uma caneca de café • quente e uma fina pasta de papel.
Ele voltou a cabeça para olhar para ela.
- Fico contente por estares em casa - disse Gary.
- Oh, eu estou sempre em casa - afirmou ela, dando graças a Deus pelo facto de a visita dele não ter coincidido com a de Ian. - oQue há de novo contigo?
- Por acaso, até há alguma coisa de novo - disse ele. - Vou receber um prémio.
- Um prêmio!! - exclamou Laura, deliciada. - De quem?
- Do conselho das artes. Uma coisa de reconhecimento especial. Artista do Ano do condado. Nada de importante. - Não sejas modesto - disse Laura, batendo-lhe no braço.
- Isso é óptimo.
Ele anuiu com a cabeça. -Foi bom.
- Isso faz-me lembrar... - começou ela, fixando-o com os olhos semicerrados. - Fizeste alguma coisa relativamente àquela bolsa de Boston?
Gary suspirou.
Eu... Eu deixei isso passar... Sem o Jimmy a empurrar tu sabes.
. Ele queria tanto isso para ti - disse Laura.
. Deixa-me lá ver o que tu fizeste - interrompeu ele bruscamente.
- Isto são apenas alguns esboços - anunciou ela, colocando a caneca de café_ de Gary em cima da mesa e passando-lhe as folhas. - Mas foi tão bom recomeçar a trabalhar.
Gary aqueceu as mãos, automaticamente, sobre o calor que saía da caneca de café e depois pegou nas folhas que Laura lhe entregava e debruçou-se sobre elas, estudando-as.
Ele tinha aparecido sem aviso e Laura sentia-se contente por ter alguns desenhos
para lhe mostrar. Experimentava uma sensação um pouco estranha em relação a Gary, especialmente agora, suspeitando que ele desaprovaria profundamente a sua nova
amizade, caso viesse a descobri-la. Enquanto ele ia bebendo o seu café e observava os esbo
ços, Laura olhou para o relógio. O autocarro da escola de Michael deixá-lo-ia em breve junto à esquina e ela queria lá estar para o receber. E depois seria a vez
de Ian chegar e ela precisava de ter tempo para mudar de roupa e pentear o cabelo.
Na última semana, tinha visto Ian todos os dias. Não saíam, pois Laura não queria deixar Michael com babysitters ou abusar da boa vontade de Pam. Era o que ela dizia,
pelo menos, mas a verdade é que se sentia mais segura ali, dentro de casa. Continuav
a a dizer a si mesma que aquilo não eram encontros, que era apenas uma amizade. Com Michael lá em cima, não havia possibilidade de acontecer nada entre os dois.
E enquanto nada de físico acontecesse, pensava ela, não tinha de se sentir culpada. Embora
soubesse muito bem que Ian estava atraído por ela, ele não a pressionava de forma alguma. Tratava-a como se ela fosse muito frágil e parecia satisfeito só por estar
perto dela. Laura não tinha de enfrentar os olhares e os comentários que certamente e
ncontrariam na rua. Sabia que não estava a fazer nada de errado, mas a verdade é que também sabia que não tinha morto Jimmy. E esse facto não parecia fazer qualquer
diferença, para as pessoas de Cape Christian.
Assim, ficavam em casa. Comiam, viam televisão, jogavam
às cartas ou jogos de vídeo, e conversavam. Quando ela o pressionava, Ian falava de Gabriella. Mas respondia às suas perguntas com alguma relutância. E quando ela
tentava falar-lhe acerca de Jimmy, era óbvio que ele não gostava de ouvir referências ao
seu falecido marido. Laura lembrava-se de Jiinmy ter dito uma vez que não queria saber das suas antigas paixões. Não a queria imaginar com outra pessoa, mesmo que
fosse por um momento. Se Ian sentia da mesma forma, Laura não queria insistir.
Sempre que via Michael a brincar, Ian parecia lembrar-se de Phillip. Muitas vezes partilhava memórias relativas ao seu filho, e contavam um ao outro histórias de
rapazes que os fa ziam rir e, subitamente, ele ficava calado e mudava de assunto. Parecia
ter um prazer especial em brincar com Michael, o que fazia com que o coração de Laura se enchesse de gratidão. Por vezes, quando os três estavam juntos, ela tinha
de ter cuidado para não lhe chamar Jimmy.
Voltara também a cozinhar. Tanto ela como Michael tinham subsistido com sopas e comida congelada nos últimos meses. Michael não se importava com aquilo que comia,
e ela nunca tinha apetite. Mas agora que havia mais alguém à mesa...
-Gosto deste - declarou Gary, passando-lhe um esboço; de um rapazinho abrigado debaixo da asa de uma ave gigante. - A textura das penas é óptima.
- Também é o meu preferido - disse Laura. - Trabalhei muito nesse.
- Que foi que te levou a recomeçares? - perguntou Gary. Laura sentiu que o seu rosto ficara afogueado. Que tinha sido? O facto de ela ter recomeçado a sentir-se
viva, nos últimos dias? Não podia dizer isso a Gary, falou, por isso, com todo o cuidado.
- Não sei. Talvez... talvez tenha sido o tempo.
- Estava a pensar que podíamos levar o Michael a fazer um piquenique um dia destes. Claro que a comida fica a teu cargo - disse ele.
Laura aquiesceu. Ian ir-se-ia embora dentro de pouco tempo. Em cada dia que se encontravam, ela estava à espera que ele lhe dissesse que era o último. A ideia da
sua partida tornava-a melancólica e não valia a pena negar isso a si mesma:;.
- Acho que é uma boa ideia - respondeu ela a Gary. - Não pareces muito feliz com a sugestão - observou ele rapidamente. - Talvez seja muito cedo.
Durante um momento, Laura fez tenções de lhe confessar, de lhe dizer o que a tornava infeliz, mas reconsiderou imediatanente. Ela sabia que Gary ainda a considerava
casada com
Jimmy, por isso para quê destruir esse seu sonho? Ian ir-se-ia embora em breve e Gary nunca teria de saber. Laura estava satisfeita por Dolores e Sidney se encontrarem
na Florida, pois ela não pediria a Michael que mentisse aos avós em relação às visi
tas de Ian.
- É impressão tua - retomou ela, pondo a sua mão em cima da dele durante um momento. - Acho que é uma ideia perfeita e tenho a certeza de que nos vamos divertir.
Laura voltou a olhar para o relógio.
- Gary, tenho de ir buscar o Michael ao autocarro.
- Desculpa - disse ele, pousando os desenhos. - Não devia ter vindo sem ter avisado primeiro. - Fez a cadeira de rodas dar uma volta e, com um olhar para ela, iniciou
a descida da rampa. - É sempre bom ver-te - disse ele.
Laura olhou para ele com ternura.
- És sempre bem-vindo aqui - afirmou ela. - E fico à espera desse tal piquenique. E o Michael também.
Gary acenou gravemente com a cabeça. -Também eu.
Depois de ele ter dado a volta à esquina, Laura pegou na sua caneca de café e nos desenhos e voltou rapidamente para dentro de casa.
Estava prestes a sair quando o telefone tocou. Laura sentia que o telefone era, naqueles dias, seu inimigo. A polícia a intrometer-se na sua vida. A ameaça sempre
presente de uma chamada anónima, gozando com o seu medo. Nunca ouvia o telefone tocar se
m pensar nisso, mas atendia sempre, uma mãe ;cujo filho não está em casa atende sempre o telefone.
- Estou? - proferiu ela com o seu habitual tom distante. ` - Laura, é a Marta.
Com um sentimento de alívio, Laura sentou-se na cadeira ao lado do telefone. Marta. Por vezes, Laura sentia que a sua
editora se assemelhava a uma irmã mais velha, pronta a acarinhá-la. Imaginava Marta na sua secretária com vista para a Sexta Avenida, o tampo da secretária coberto
de provas e manuscritos e a sua sempre presente Coca-Cola com poucas calorias. Marta, v
estida com qualquer coisa com um toque masculino mas muito chique, com os sapatos atirados para debaixo da secretária e os seus óculos de aros de tartaruga empoleirados
no nariz, falando ao telefone e, ao mesmo tempo, a verificar a sua perfeita maquil
hagem, à procura de alguma falha.
- É bom ouvir a tua voz - disse Laura com sinceridade. - Não te telefonei para te chatear - tranquilizou-a Marta rapidamente. - Era apenas para saber como é que
vais. Há que tempos que estou para te telefonar, mas com a ABA, sabes como é... - Marta re
feria-se a uma enorme convenção de livreiros que absorvia, durante um fim-de-semana, a maior parte do tempo e da energia dos editores.
- Oh, eu sei - disse Laura. - Como vai o Michael? -Está óptimo. Ansioso para que as aulas acabem, claro. - Como qualquer criança normal.
- Deves saber ler a mente das pessoas, Marta. Na realidade, comecei a trabalhar um pouco nestes últimos dias.
- Óptimo. Estamos a falar de rascunhos de desenhos, suponho - adiantou Marta, que sabia que Laura começava sempre por desenhar e só depois escrevia em função dos
desenhos. - Alguns - informou Laura.
- Isso é óptimo. E isso quer dizer que te sentes melhor? Laura hesitou. Sentia necessidade de confiar em alguém, de contar a alguém que estivesse do seu lado.
-Uma coisa... aconteceu. E isso fez-me sentir melhor. - Espera, não me digas. Conseguiste encontrar um homem solteiro, heterossexual e atraente nessa cidadezinha
em que vives...
Laura riu-se, apesar de tudo.
- O que te leva a pensar que é um homem?
- Que mais podia ser? - perguntou Marta, divorciada depois de um breve casamento juvenil e lamentando-se sempre da falta de homens decentes em Nova Iorque. - Vou
mudar
,me para aí... Como é que isso é possível? Estou aqui numa cidade com oito milhões...
- Conheci este tipo quando era miúda. Tropeçámos por acaso um no outro.
- O único' homem em que tropecei ultimamente era um sem-abrigo e estava a dormir no átrio da entrada do meu prédio, com moscas a voarem à sua volta - queixou-se
Marta. - Será que já estou a ouvir os sininhos do casamento?
- Oh, Marta, tem dó! Por favor. É apenas uma amizade. Uma coisa que me tem distraído a cabeça de... tudo...
- Se ele for bom, não o deixes escapar. Ouve bem o que te diz a tua tia Marta.
Laura suspirou.
- É bom falar contigo. Quem me dera poder ver-te.
- Vem a Nova Iorque. Traz esse teu tipo. Como se chama
ele?
-Não é o meu tipo. E o nome dele é Ian. - Trá-lo na mesma.
-Talvez vá aí um destes dias. Tenho de me despachar, Marta, tenho de ir buscar o Michael ao autocarro.
- Tudo bem. E manda-me esses desenhos por faxe, quando estiverem prontos.
- Eu mando.
- O Bob Gerster da Book World chegou a contactar contigo?
Laura olhou para o relógio. -Não, quem é esse?
- Um indivíduo que ia escrever uma história a teu respeito. -Não - disse Laura.
-Tudo bem. Se eu o encontrar na ABA, refresco-lhe a memória. Na realidade, até vou procurá-lo. Ele era amoroso. - Bom, diverte-te na convenção - disse Laura, preparando-se
para desligar o telefone. Não queria chegar atrasada ao autocarro.
- Telefono-te quando voltar.
-Adeus. - Laura desligou. Estava atrasada. Começou a correr.
***
CAPÍTULO 16
Michael olhou para o livro que trouxera da biblioteca, fingindo não reparar nas bolinhas de papel que lhe acertavam na cabeça. Sabia apenas algumas das palavras
que estavam em ca da página do livro, mas estava a concentrar-se nessas palavras o mais qu
e podia. Talvez se se sentasse muito quieto e calado, pensou ele, eles parassem. Olhou pela janela para ver por que esquina a camioneta tinha acabado de passar.
Faltavam só mais algumas paragens até chegar à sua rua, mas a viagem parecia prosseguir co
m uma lentidão agonizante.
- Ó parvo! - Michael sentiu alguém tocar-lhe na parte, de trás da cabeça com um dedo. Não precisava de se voltar para saber quem tinha sido, era o miúdo ruivo com
sardas. Era,
um 'rapaz mais crescido, do segundo ano, e juntamente com dois amigos começara há pouco tempo a meter-se com ele e a incomodá-lo sempre que apanhavam a mesma camioneta.
Michael tentava o mais possível evitá-los. Costumava esperar até eles entrarem e s
e sentarem, e depois ele sentava-se o mais longe possível. Mas eles estavam sempre à coca, e assim que o viam, mudavam-se para junto dele. Por vezes, quando se sentava
com Louis, Michael podia fingir que não os ouvia. Mas hoje Louis fora para casa mai
s cedo e Michael estava sozinho à sua mercê.
- Estás a sentir isto, parvo? - perguntou o miúdo ruivo. Vejam, ele não sente, é melhor tentarmos outra coisa.
Duas raparigas da classe de Michael, que estavam sentadas do outro lado da coxia, viram o que aconteceu e voltaram
A cara, fingindo olhar pela janela. Ninguém queria confusões com aqueles miúdos mais crescidos. O queixo de Michael tremeu, mas ele estava decidido a não chorar.
A mãe sempre lhe dissera que chorar não tinha mal, mas, se aqueles miúdos vissem lágrimas
, sabia-o instintivamente, seria a mesma coisa que tubarões a sentirem o cheiro do sangue. Olhou desesperadamente para a parte da frente da camionetà: A condutora
era uma mulher chamada Audrey, muito simpática para todos os miúdos. Mas estava com a at
enção concentrada na estrada e o tormento de Michael perdia-se no meio da confusão das vozes excitadas dos miúdos. Para além do mais, ele não podia ir pedir ajuda
a uma mulher, chamar-lhe-iam menino da mamã.
Michael tentou ignorá-los e espetou o pescoço para ver quanto tempo mais tinha ainda de suportar aquilo. Mais uma paragem e sairia da camioneta.
Excitado pela óbvia ansiedade do rapaz mais novo, o miúdo ruivo estendeu a mão e tirou o boné de basebol dos Phillies da cabeça de Michael. Os outros rapazes riram-se
com grandes gargalhadas.
Michael levantou-se e tentou recuperar o chapéu, soltando um grito.
- Dá-me cá isso! - disse ele. - Isso é meu.
O rapaz ruivo olhou para o boné e depois atirou-o, como se fosse um disco, para o rapaz que se encontrava mais atrás, mas que não o conseguiu apanhar. O boné caiu
no chão da camioneta. Michael olhou para ele, com as lágrimas a brilharem-lhe nos olhos.
O pai tinha-lhe comprado aquele boné no ano anterior, quando o levara ao seu primeiro jogo de basebol. O jogo parecera-lhe muito comprido, estava calor nas cadeiras,
mas os cachorros eram bons, e o boné tinha sido a recompensa por ter aguentado as no
ve partidas. O símbolo da sua aceitação no mundo dos homens do basebol. E agora estava no chão -da camioneta. Um dos rapazes mais crescidos pôs-lhe o pé em cima
e apertou-o contra o chão sujo. Isso foi de mais.
Michael saltou do seu assento e tentou apanhá-lo. -Voltem para os vossos lugares - gritou Audrey, esticando-se para os ver no espelho retrovisor. ,
- Dá-mo cá - gritou Michael, quando o rapaz que estava lá atrás voltou a atirá-lo para o ruivo.
Michael voltou-se e tentou apanhá-lo, enquanto o rapaz ruivo fazia rodopiar o boné sobre a sua cabeça.
- É meu. Foi o meu pai que mo deu.
O miúdo ruivo inclinou a cara até ficar muito perto da de Michael, enfiou-lhe desajeitadamente o boné na cabeça e fez uma voz de chalaça.
- E quando foi isso? Antes de a tua mãe o matar? Michael caía sempre na armadilha. Era por isso que eles gostavam de se meter com ele. Michael ajoelhou-se no assento,
os olhos cheios de lágrimas.
- Ela não fez nada disso - gritou ele. - Parem de dizer isso.
- Parem de dizer isso - imitaram-no eles, tocando um no outro e rindo.
- O meu pai diz que foi ela - insistiu o rapaz ruivo, chegando a cara tão perto da de Michael que este podia ver cada uma das suas sardas.
- O teu pai é parvo! - exclamou Michael, sem saber de onde lhe tinha vindo a coragem para dizer aquilo. Durante um instante sentiu-se corajoso.
-Cuidado com o que dizes - gritou o rapaz maior. E depois, antes que Michael se pudesse agachar ou até mesmo' pensar nessa possibilidade, um punho fechado acertou-lhe
em cheio no nariz.
O sangue espirrou-lhe das narinas, enquanto era atirado para trás e os miúdos gritavam. A voz de Audrey soou através de toda a camioneta, mandando-os parar, à medida
que o autocarro contornava a curva.
- Chega, chega! - Audrey estava no meio deles, examinando os estragos. Michael sentia o salgado do sangue na sua boca, misturado com as lágrimas. Os outros rapazes
continua
vam a fazer observações. As raparigas soltavam gritinhos e Audrey ordenava que todos se calassem.
Michael levantou-se e pegou nos seus livros, enquanto Audrey dava ordens ao miúdo ruivo para que regressasse ao seu lugar.
- Estás bem? - perguntou ela, aflita, indo buscar um lenço de papel para limpar o sangue.
- Deixe-me ir - gritou Michael. As lágrimas corriam-lhe agora pela cara abaixo e ele afastou-se dela, desejando apenas descer daquele autocarro.
Escapou-se por debaixo do seu braço e dirigiu-se para a porta. Audrey foi andando atrás dele, gritando para que toda a gente se sentasse nos seus lugares e estivesse
calada.
- Abra a porta - pediu ele. Estava a tremer dos pés à cabeça. - Abra a porta. .
Audrey espreitou para a esquina.
- Não vejo a tua mãe - disse ela, e o coração de Michael teve um baque. - Deixa-me limpar-te a cara - pediu-lhe Audrey.
- Não, não me toque - choramingou Michael e depois, pela janela, viu uma cara familiar. - Deixe-me sair. Está ali o Ian. Ele veio buscar-me.
Não sabia se era verdade ou 'não, mas ali estava Ian, a subir para Chestnut Street.
- Ian! - chamou ele através da janela aberta.
Ian olhou em volta, confuso por um momento e depois viu Michael à janela do autocarro da escola. Ian olhou para ele.
- O que te aconteceu?
- Uns miúdos crescidos tiraram-me o boné. Ian olhou para Audrey, que sacudiu a cabeça. - Uns brigões - disse ela tranquilamente.
Ian fez um sinal de compreensão, examinando o boné amarrotado e sujo que estava na cabeça de Michael.
- Mas estou a ver que o recuperaste - disse Ian com admiração.
- Pois foi - admitiu Michael no meio das lágrimas. - Anda - disse Ian com gravidade, estendendo a mão ao raPaz. - Portaste-te muito bem.
Michael levantou a mão e segurou a dele.
Ela estava atrasada. O telefonema de Marta tinha-a retido tempo de mais, pensou ao mesmo tempo que via o autocarro de Michael afastar-se da esquina. Laura ia sempre
esperá-lo, embora o autocarro parasse a dois quarteirões da sua casa. Já
não confiava em ninguém, em nada. Laura não queria que ele fizesse aquele caminho sozinho até casa.
Laura precipitou-se pelos degraus da frente e dirigiu-se para a esquina. Viu-os imediatamente. Ian a segurar a mão de Michael. Havia sangue por todo o lado, na cara
de Michael, na sua camisola. Os seus ombros estavam curvados. Laura começou a correr e
quando chegou ao pé deles pegou no filho ao colo.
- O que aconteceu? - gritou ela. - O que foi que se passou?
Michael foi para os seus braços de boa vontade, abraçando-a pelo pescoço.
- Uns miúdos crescidos meteram-se comigo. Tivemos
uma luta.
Laura olhou desesperadamente por cima do ombro de Michael para Ian, que sacudiu a cabeça.
- Ele está bem. Apenas um pouco abalado. Sangrou um pouco do nariz.
- O que aconteceu, querido?
- Ele tirou-me o boné. E eu disse-lhe que o pai dele era parvo. Por isso ele deu-me um soco.
- Porque lhe disseste isso? - perguntou ela com ternura. Michael endireitou-se e olhou-a com os seus graves olhos castanhos, ainda cheios de lágrimas e o sangue
espalhado pela cara.
- Porque ele me tirou o boné e o pisou. Ele estava a meter-se comigo.
- Mas porque é que se estava a meter contigo?
- Porque me estava a dizer que tu tinhas morto o papá- Oh, Michael! - exclamou Laura, apertando a sua cara contra o ombro dele. - Desculpa.
- Tudo bem - disse Michael, dando-lhe palmadinhas nas costas. - A culpa não é tua. Foi uma sorte o Ian ter aparecido.
- Pois foi. Uma sorte - murmurou ela. - Obrigado. - Agora já terminou tudo - disse Ian. - Vamos para casa.
Soou estranho ouvi-lo dizer aquilo. Era o mesmo que Jimmy teria dito, pensou Laura. Sentiu que talvez devesse protestar, fazê-lo recordar-se de que aquela não era
a sua casa, mas, ao mesmo tempo, aquelas palavras fizeram-na sentir-se segura. - Sim, va
mos - anuiu.
***
CAPÍTULO 17
A casa de Jason Turner era uma residência agradável mas ligeiramente degradada, uma casa prefabricada ao estilo de Cape Cod, provavelmente construída nos anos 50,
numa rua cal ma de grandes árvores e filas de outras habitações semelhantes. Estava pint
ada de azul e tinha uma garagem anexa. Dois rapazes brincavam na relva da frente, mas quando viram o carro da polícia encostar e parar diante da casa, correram para
a entrada, gritando pela mãe e, batendo com a porta atrás deles.
Na altura em que Ron e o agente Witkowski chegaram à porta, uma mulher pequena, com o cabelo de um loiro tão claro que parecia algodão doce, já estava à espera deles.
Os
seus traços eram perfeitos e estava bem maquilhada. Abriu-a decididamente quando eles se aproximaram e ficou à espera que eles falassem primeiro.
- Mistress Cheryl Turner? A mulher aquiesceu.
-Sou o detective Ron Leonard e este é o agente Witkowski. Podemos falar consigo um instante?
- Claro - disse ela, fazendo um gesto que os convidava, a entrar.
Os dois rapazes estavam empoleirados no alto da escada, C o mais pequeno encolheu-se quando Ron olhou para eles: - O seu marido está em casa, minha senhora? - perguntou
Ron.
-Está a dormir. Saiu do turno de trabalho há umas horas.
- Vou estar na cidade pouco tempo. Gostava muito de falar com ele
- Mark, Peter, vão acordar o vosso pai. Digam-lhe que está aqui um polícia para falar com ele - ordenou Cheryl aos seus filhos. Os rapazes murmuraram entre eles
e apontaram um para o outro. - Vão lá - insistiu Cheryl.
Uma mulher de cabelo grisalho curto e olhos azuis brilhantes entrou na sala, brandindo uma esferográfica e uma folha de cupões na altura em que os rapazes subiam
as escadas.
- Mãe, a polícia quer fazer algumas perguntas - explicou Cheryl à mulher mais velha. - Esta é a minha sogra, Edith Turner.
- Como está? - perguntou Ron. - É a mãe do Ian Turner?
- Sou, pois - disse Edith. - Tenho dois filhos, o Ian e o Jason.
- É acerca do Ian? - perguntou Cheryl. Acendeu um cigarro de mentol. - Não lhe aconteceu nada, pois não?
- Não, nada. Só queria fazer algumas perguntas sobre ele e sobre a sua mulher.
Cheryl continuou a fumar e olhou para Ron com os olhos semicerrados.
-Porquê? De que é que se trata?
- É uma investigação de rotina - afirmou Ron com firmeza.
- Já passámos por tudo isto quando foi do incêndio - disse Cheryl.
-Este é um outro assunto, que diz respeito a um incidente em Nova Jérsia, de onde venho.
- Que espécie de incidente? Tem a certeza de que ele está
bem?
- Está óptimo - assegurou Ron. - Tem a ver com uma mulher com quem ele anda neste momento a encontrar-se. Cheryl olhou para ele, surpreendida. \
-Ai, sim? Então, está tudo bem.
- Diga-me, era chegada ao seu cunhado? E o casamento dele era feliz? Edith Turner tinha-se sentado numa cadeira e estava a
preencher os seus cupões, a ponta da língua espetada em sinal de concentração. Cheryl encolheu os ombros.
-Acho que sim. Penso que eram bastante felizes. - Não me parece muito segura.
- Não éramos muito chegados, sabe? Quero dizer, o Jason e o Ian são chegados. Sabe como são os irmãos. O Ian é o cérebro da família. E é também aquele que tem o
dinheiro. E a Gabriella... Bom...
Ron deu conta da hesitação da sua resposta. - Você não gostava dela.
-Eu não diria isso, a sério. Ela era um amor. Tímida. Mas o que eu quero dizer é que ela nunca falou inglês. Acho que ela era capaz, mas nunca quis envolver-se connosco.
- Ela falava inglês consigo, Mistress Turner? - perguntou Ron voltando-se para a mulher mais velha.
- Mãe! - gritou Cheryl impacientemente. Edith olhou para eles.
- Desculpem, não os ouvi. O que é que estavam a dizer? - A Gabriella falava inglês consigo?
Edith franziu a testa.
- Acho que sim, de vez em quando. Também não a víamos muito, sabe? - Olhou para Ron com ar de desculpa. - Não quero parecer malcriada, mas quero acabar isto antes
de o carteiro chegar. São os meus cupões para concorrer - explicou ela. - Sou doida quan
do se trata de entrar em concursos. É o meu passatempo, acho que lhe podíamos chamar assim. Mas farto-me de ganhar, não é, Cheryl?
- Mãe, a polícia não quer saber dos seus concursos.
- Ganhei este candeeiro - indicou ela, dando uma pancadinha no candeeiro de pé. - E este reprodutor de CD Não vale a pena é perguntar-me o que é um CD. E também...
- Apercebeu-se de que Cheryl estava pronta a interrompê-la outra vez. - Sem esquecermos a viagem à Disneylândia... - Não, não nos vamos esquecer disso - disse Cheryyl,
apagando o seu cigarro. Ron olhou para o seu bloco, depois voltou-se para Cheryl qu
e estava pacientemente à espera da próxima pergunta.
- Acha que o seu cunhado era fiel à mulher? Teria alguma maneira de saber isso? Poderia ele ter contado ao seu marido? - Se ele contasse ao Jason, este ter-me-ia
contado a mim, porque nós não temos segredos. Não, acho que ele não andava a distrair-se
por fora. Não lhe vou dizer que eles fossem o casal mais feliz do mundo. Ela nunca queria sair de casa, era como se tivesse medo da sua própria sombra. Mas ele tentava.
Ele tentava fazê-la feliz.
- Portanto, não tem razão para pensar que o Ian estivesse envolvido com outra pessoa?
Cheryl abanou a cabeça, mas deu a aparência de estar a pensar na questão.
- Não...
- Ele deixou o emprego para viver num barco. Isso não lhe parece estranho?
- O senhor não sabe aquilo por que ele passou... com o Phillip. Ouviu falar do Phillip? - Soltou um suspiro. - Todos nós gostávamos dele. Passava aqui imenso tempo.
Ele e os meus filhos eram como os Três Mosqueteiros. Todos nós gostávamos dele como se
fosse nosso.
- E o Ian e a Gabriella...
-Amavam aquela criança - declarou Cheryl com autoridade. - Adoravam-no.
Edith Turner estava a olhar para o seu quebra-cabeças. - Qual a palavra de quatro letras que rima com costa? - perguntou ela em voz alta.
Cheryl inclinou-se na direcção de Ron. - Ela está no seu pequeno mundo.
Um jovem bem-parecido, um pouco roliço, de olhos azuis brilhantes, desceu as escadas esfregando a cara como que para acordar.
- Olá, querido - saudou Cheryl.
Jason Turner fez um gesto na direcção de Ron e do agente Witkowski, que estavam sentados na sala de estar.
- O Mark disse que os polícias estavam aqui. Ron levantou-se estendeu a mão.
- Sou o detective Leonard. Estou aqui vindo do gabinete do promotor público do condado de Cape Christian, em Nova Jérsia.
- Que quer de nós? - perguntou Jason com ar brusco, Mark e Peter meteram a cabeça entre as grades do corrimão das escadas, olhando esbugalhados os polícias que estavam
em sua casa.
- Vocês os dois - chamou Cheryl -, vão imediatamente lá para dentro até nós termos terminado.
- Mas não há nada para fazer lá dentro - queixou-se Mark.
- Vão dar pontapés aos cestos, façam qualquer coisa, desapareçam.
Relutantemente, os rapazes obedeceram.
- Tinha algumas perguntas a fazer acerca do seu irmão - disse Ron. - Estive a fazê-las à sua mulher.
- O que se passa com o meu irmão? - perguntou Jason na defensiva. - Sei que ele anda pelos seus lados, porque me telefonou há uns dias.
- Ele disse-lhe o que é que estava a fazer por lá?
- Que estava a passar apenas uns dias no porto. Porquê? - Estamos a tentar descobrir se ele teve uma relação anterior com a mulher do nosso condado que, neste momento,
está sob investigação policial.
- O meu irmão tem estado a bordo de um barco durante os últimos seis meses.
- Sabemos tudo isso - afirmou Ron apressadamente. - Alguma vez lhe falou numa mulher chamada Laura Reed? Jason pensou durante alguns segundos e abanou a cabeça.
-Não, nunca me falou.
- Tem alguma recordação da sua infância de uma rapariga chamada Laura Hastings?
Jason abanou vagarosamente a cabeça.
- Não - disse ele. Mas havia um traço de dúvida no seu tom de voz.
- Eles dizem ter-se conhecido na escola primária. Uma história qualquer de o seu irmão ter caído num buraco e de ela o ter descoberto.
Os olhos de Jason abriram-se muito e a sua cara ficou pálida* - Ah, isso! - disse ele. - Sim, quando partiu a perna--Olhou para a mãe e Ron viu um lampejo de contentamen
to nos seus olhos. Edith, que parecia estar absorvida no jogo de palavras, parou subitamente, pousando a caneta sobre o papel. Ron podia apostar que ela estava a
ouvir, mas que estava a fingir que não.
Jason suspirou.
- Sim, havia uma rapariga, agora que penso nisso. Mas ela mudou-se daqui há imensos anos.
-Foi essa a rapariga que o encontrou? - perguntou Cheryl a Jason. Ela estava, obviamente, familiarizada com a história.
Jason aquiesceu.
-Sabe se eles se mantiveram em contacto? -Não, o meu irmão era casado.
Ron quase sorriu à presunção feita por aquele homem de que uma circunstância levava à outra. Um homem de família fiel, Jason Turner.
- Mister Turner, o senhor é bombeiro, não é? - É verdade.
- Estava presente na noite do incêndio em casa do seu irmão?
Jason abanou a cabeça. No seu canto, Edith soergueu o olhar.
- Estávamos na Disneylândia - informou ela. - Lembra-se de lhe ter dito que eu ganhei a viagem?
Ron ficou surpreendido por ver que os olhos de Jason estavam brilhantes, com lágrimas de desespero.
- A noite em que ele mais precisou de mim... Quando eu lhe podia retribuir tudo o que ele fez por mim... E eu estava no Reino da Magia. A vida é madrasta.
- Ora, Jason - protestou Edith. - Passámos um tempo fantástico na Disneylândia e os miúdos divertiram-se imenso. - O Stuart Short, o incendiário que foi condenado
por essa série de incêndios, tinha um meio de ignição que era como a sua própria assinat
ura. - Ron consultou o seu bloco. - Ele usava um cigarro aceso, dobrado dentro de uma caixa de fósforos e utilizava sempre um boneco de peluche ensopado em gasolina.
- Ron olhou para Jason. - Uma combinação bizarra.
Jason sacudiu a cabeça.
- Bastante normal para um incendiário psicopata. Usam quase sempre fósforos, faz parte da emoção. Quanto ao brinquedo, bom, Stuart era um doente...
- Esses pormenores nunca apareceram nos jornais.
- Para ajudar a identificar o tipo quando o apanhássemos. -Alguma vez discutiu o modus operandi com o seu irmão? Quero dizer, como os fogos começavam, os meios utilizados,
a sua assinatura, por assim dizer?
-Não - protestou Jason. - Claro que não.
- Seria apenas uma coisa normal - disse Ron: - Tenho a certeza de que havia um grande interesse nesta zona acerca do incendiário.
- Eu nunca lhe disse nada e ele nunca perguntou - proferiu Jason, num tom um pouco irritado. - O que é que está a tentar insinuar?
- Apenas a fazer algumas perguntas.
- Não estou disposto a ouvir mais balelas desse género. Não percebo qual é o seu problema, mas deixe o meu irmão em paz. Está a ouvir-me? Já sofreu desgostos suficientes
para uma vida.
Edith meteu os papéis num envelope, lambeu-o e pôs-lhe selos.
- Alguém me pode levar aos Correios? - perguntou ela. - Receio que, se ficar à espera do carteiro, isto não siga a tempo.
Jason levantou-se abruptamente.
- Eu vou lá - prontificou-se ele. - Onde estão as mi nhas chaves?
Cheryl apontou para um prato em cima do aparelho de televisão. Jason apanhou-as e olhou para a mãe.
- Está pronta ou não?
Edith levantou-se nervosamente da sua cadeira. -Prazer em tê-los conhecido - disse ela a Ron e ao agente Witkowski.
Ron apertou-lhe a mão flácida e depois levantou-se da sua cadeira.
-Nós também temos de ir andando.
Cheryl acompanhou-os à porta. Quando chegaram à entrada, viram o carro de Jason descer a rua com Edith no assento do passageiro, direita como um pau de vassoura.
- Sabe, detective, o meu marido é muito leal para com o irmão. Tem um grande afecto por ele.
- Eu reparei - disse Ron. - A lealdade é sempre uma coisa muito bonita.
Encorajada, Cheryl continuou.
-Aquela altura a que se referiu, a da rapariga e do fosso... O Jason contou-me isso. O pai deles tinha andado à procura do Jason para o castigar por qualquer coisa
estúpida. Ele era verdadeiramente cruel para com aqueles rapazes. O Ian tentava sempre
defendê-lo, proteger o Jason do pai. Nessa altura, em particular, os dois andavam a esconder-se do pai na mata. Quando ouviram o velhote aproximar-se, o Ian subiu
para uma árvore e ajudou o Jason a fazer o mesmo. O pai apanhou o Ian por um pé e puxou-
o da árvore, partindo-lhe uma perna na queda. O filho da mãe deixou-o ficar ali. Limitou-se a pegar no Jason e a arrastá-lo para casa e deixou o Ian com a perna
partida. Este estava a tentar rastejar até casa, quando caiu no fosso.
Ron fez uma careta.
- E a mãe não fez nada? Cheryl abanou a cabeça.
- Já viu como ela é. Está sempre no seu pequeno planeta, a entrar em concursos. Só vê o que quer ver. Desliga-se de tudo o resto.
- Já percebi - disse Ron pensativamente.
- Por isso, se o meu marido parece um pouco o protector do Ian...
- Oh, eu percebo! - exclamou Ron. "Melhor do que você imagina", pensou. Mesmo que Jason soubesse alguma coisa acerca do irmão, nunca a revelaria. Nem a mulher. Nem
ninguém. - Foi uma grande ajuda - disse ele.
***
CAPÍTULO 18
O telefone tocou precisamente quando Laura estava a aconchegar a roupa da cama a Michael. Os três tinham passado juntos uma tarde extremamente calma. Ian acendera
o gre lhador, onde cozinharam hambúrgueres. Laura sentira-se arrasada ao vê-lo ali, no l
ugar de Jimmy, mas Michael tinha ficado muito alegre com o churrasco. Depois do jantar, haviam jogado às cartas. Michael ficara perto de Laura, muito tranquilo,
durante toda a noite e isso tinha sido óptimo para Laura. Era assim que ela queria que tud
o se passasse, e foi nesse momento, quando ela estava prestes a ler-lhe uma história, que ouviu tocar o telefone. Durante uns instantes, Laura pensou em dizer a
Ian para atender, mas depois reconsiderou. Podiam ser os seus sogros, que deviam regressar
a qualquer momento.
- Eu atendo - gritou ela. Laura ouviu Ian subir as escadas enquanto beijava Michael e foi para o seu escritório para atender o telefone. Era Gary.
- Laura - perguntou ele -, estou a incomodar? - Não, claro que não. O que se passa?
- Eu contei-te acerca do prémio, do conselho das artes. - Exacto. Agora és uma pessoa distintíssima.
- Bom... - Ela escutou um tremor nervoso na voz dele, tal como o ouviu inspirar fundo. - O que se passa é que vai haver uma cerimónia na Câmara Municipal. E eu queria
pedir-te... Gostava que... Ficaria muito feliz se tu e o Michaei fossem lá. Que foss
em meus convidados oficiais.
- É tão simpático da tua parte, Gary. Tens a certeza e
que queres estar relacionado connosco num acontecimento público como esse?
-Tenho - gaguejou ele. - Porque não?
- És um bom amigo. Claro que vamos adorar estar lá - declarou Laura. - Quando é que é?
- É só para o mês que vem - respondeu ele. - No dia quinze. _
- Dia quinze - repetiu ela. - Vou escrever na minha agenda.
- Se houver algum problema... - interrompeu ele apressadamente.
Laura suspirou. Não, pensou ela, nessa altura já devia estar sozinha outra vez.
-Não vai haver - garantiu ela.
- O Michael ainda está acordado? - perguntou ele. - Estava mesmo a pô-lo na cama.
- Desculpa. Volta para o lado dele.
O coração de Laura sentiu compaixão pelo amigo, sempre a pedir desculpas, sempre com tanto medo de estar a incomodar. Era irónico que ele se sentisse dessa maneira.
O seu único amigo verdadeiro. Laura garantiu-lhe que tinha ficado contente com a sua c
hamada e desejou-lhe boa noite. Depois, com um suspiro, voltou a fazer o caminho até ao quarto de Michael. Ian estava lá dentro, sentado na beira da cama, fazendo
festas no cabelo do rapaz. Laura podia ouvir o murmúrio da sua voz mas, a princípio, não
conseguiu perceber o que ele estava a dizer. Depois ficou surpreendida quando reconheceu que as suas palavras eram dela.
Ele estava a ler Raul e a Ria Amarela Gigante. Os olhos de Michael estavam a fechar-se e um sorriso espalhava-se pela sua face. Antes de Ian poder terminar a história,
Michael adormecera. Ian inclinou-se e apagou a luz de cabeceira. Depois levantou-se
e caminhou em pontas dos pés até à porta. Vendo Laura no umbral, pôs um dedo sobre os lábios. Laura recuou e Ian fechou a porta enquanto se juntava a ela no corredor.
- Está a dormir - disse ele.
Impulsivamente; Laura abraçou-o, descansando o rosto contra o seu peito. A princípio ele ficou surpreendido, mas de
pois aconchegou-a nos seus braços e mergulhou a cara nos cabelos de Laura, que imediatamente sentiu ondas de desejo a atravessá-la. Durante um instante, deixou-se
ficar agarrada a ele. Depois, desajeitadamente, libertou-o; a expressão nos seus olhos a
zuis era também de desejo quando ela se afastou, Laura estendeu-lhe a mão à procura da dele, e
- Obrigada - disse ela. - Porquê?
- Por tudo. Por tomares conta do Michael.
Por hoje. E de mim.
- É isso que eu quero fazer - afirmou ele. Laura voltou-se e começou a descer as escadas. - Não quero acordá-lo - justificou-se Laura.
Ian seguiu-a até à sala de estar. Laura sentou-se no sofá, e ele sentou-se ao seu lado. Ian pegou-lhe na mão e levou-a carinhosamente até à cara, roçando-a na sua
face pensativamente.
- Estavas a contar-lhe a minha história - disse ela a sorrir. Laura retirou a mão.
- É verdade.
- Como é que tu...
-Fui à livraria aqui da terra e comprei a colecção dos teus livros. Li-os todos, diversas vezes. São muito bons. As histórias têm um ritmo... como a poesia. Fantásticas,
a sério. És uma escritora muito talentosa... e uma artista nos desenhos... - Porq
ue é que nunca disseste nada antes?
-Como é que eu hei-de saber? Sou um cientista. A minha opinião literária não vale muito.
- Para mim vale - afirmou ela.
- Pronto, ela aí está - disse ele a sorrir. - Quem era ao telefone? A polícia outra vez? - Tentou dizê-lo de forma ligeira, mas não conseguiu.
- Um amigo meu - explicou Laura pensativamente. - Um dos poucos que tenho aqui. Chama-se Gary, e era um dos amigos mais antigos do Jimmy. E é também uma das pou
cas pessoas desta cidade que decidiu acreditar em mim. Todas as outras pensam que eu matei o meu marido - declarou Laura. E apercebeu-se, à medida que ia falando,
de que estava a tentar chocá-lo, mas ele não respondeu à provocação.
Porque é que nunca me perguntaste o que aconteceu? Porque é que parece que não tens qualquer dúvida a meu respeito?
Ian olhou-a, muito sério.
- É mesmo isso, não tenho quaisquer dúvidas a teu respeito. Tu é que ainda não percebeste isso. - Mas deu-se conta de que ela não ficara satisfeita com a resposta
e 'prosseguiu: - Talvez seja porque eu ainda veja a criança que há em ti - acrescentou e
le. - Aquela cara de anjo a olhar para mim lá de cima. Aquela vozinha que prometia ir a correr à procura de ajuda. Nunca serias capaz de matar ninguém. Nada me faria
acreditar que o tivesses feito.
- Eu já não sou essa rapariguinha - disse ela em tom de aviso.
- Eu reparei - respondeu a sorrir.
Laura levantou-se do sofá e começou a andar pela sala, impaciente.
- Receei que fossem os meus sogros ao telefone. Devem estar a voltar da Florida a qualquer instante.
-Não gostas deles?
- A minha sogra e eu nunca tivemos um bom relacionamento. Mas depois de o Jimmy ter sido morto... bom, ela precisa de pôr as culpas em alguém. Compreendo isso, a
sério que compreendo. Não imaginas como é frustrante, como nos deixa furiosos quando um d
os nossos entes queridos é morto e não se descobre quem foi... e saber que o assassino anda por aí à solta. Às vezes não penso noutra coisa. Porque é que não o apanharam?
Não pode ter-se desvanecido em fumo, deve andar por aí, algures. Mas sinto que n
em sequer andam à procura dele. Limitam-se a andar atrás de mim. E não o vão encontrar enquanto estiverem a perder o seu tempo... - Laura sentia-se a tremer. - Não
me faças falar - pediu ela, como que a desculpar-se.
- Porque ficaste aqui? - perguntou Ian. Laura abanou a cabeça.
- Não sei. -, Nunca tinha pensado muito nisso. O desgosto dera origem a um sentimento de inércia. - Quando o Jimmy estava aqui, eu adorava esta cidade, mas agora...
Não
me importaria de ir para onde quer que fosse, a verdade é que acho que tudo isto me perseguiria. Sinto que, a qualquer instante, as pessoas estariam de novo a apontar-me
o dedo, murmurando que eu era a mulher que matara o marido.
Ao dizê-lo em voz alta, Laura apercebeu-se de que sempre o tinha sabido. Era algo que fora adicionado ao seu desespero quanto ao futuro.
- Enquanto não descubrirem quem matou o Jimmy terei sempre esse peso sobre mim. Não importa para onde vá. Ian fez um aceno de cabeça, em sinal de compreensão. -
No entanto, talvez estivesses melhor longe daqui, longe do lugar onde tudo isso aconteceu.
- Acho que nunca quis tirar o Michael do único lar que sempre conheceu. Ainda está na escola. Embora, obviamente, e a julgar pelo que aconteceu no autocarro, a escola
possa ser uma tortura para ele.
- Quando acaba a escola? - perguntou Ian com ar sereno.
- Daqui a umas semanas - respondeu Laura.
- Quando a escola terminar, porque é que não saímos daqui?. Metemo-nos no barco e vamos.
- Metemo-nos no barco? - perguntou Laura. Ian ficou a olhar para ela.
-Sim. Tu, eu e o Michael.
Laura afastou o olhar. Aí estava o momento que ela sabia que iria chegar. Ele andava a preparar-se para partir, tinha de acontecer. E queria levá-los a andar de
barco antes de se ir em bora. Uma espécie de férias no mar. Era uma coisa convidativa, de
certa maneira. Mas seria melhor que ele se fosse já embora, se a relação entre eles tinha de terminar. E antes que Dolores regressasse.
"Já?", interrogou-se. Mas Laura fez um esforço para ser racional. Dolores iria saber de Ian. Havia de saber que a nora tinha andado na companhia de um homem. A coscuvilhice
en carregar-se-ia disso. Pelo menos não haveria confrontações desagradáveis. S
eria melhor terminar tudo enquanto as coisas ainda eram inocentes. Laura não seria capaz de se divertir nu
ma viagem de barco, sabendo que não haveria mais do que um adeus e uma vaga promessa de que se manteriam em contacto. - É simpático da tua parte - disse ela. - Mas
acho que te devias ir embora imediatamente. O Michael tem um acampamento durante duas s
emanas, depois de a escola terminar. Não te quero pôr à espera esse tempo todo.
Ian riu-se.
- Tudo bem. Acho que posso esperar até o acampamento terminar.
- Não - insistiu Laura, abanando a cabeça. - Vai andando. Têm sido uns dias muito agradáveis. Mas não te queremos prender.
- Não queres? - perguntou ele. - Mas eu quero prender-te. Para sempre, se me deixares.
Laura fez um trejeito.
- Bem, desculpa... - balbuciou ela.
- Queres dizer que não aceitas casar comigo?
A princípio, Laura ficou demasiado atrapalhada para conseguir falar. Depois sentiu-se um pouco zangada.
- Não sejas sarcástico. Estás a ser mau.
- Achas que estou a brincar? - perguntou Ian.
Laura deixou-se cair na cadeira mais próxima. As palavras dele tinham-lhe tirado o fôlego, como um grande golpe. - Claro que estás a brincar...
- Porque é que dizes isso? - perguntou ele calmamente. Laura deixou cair a cabeça para trás e ficou a olhar para o tecto.
- Porquê? Porque... - sentia-se incapaz de pensar. Porque odiava ter de admitir a si própria que queria acreditar em tudo aquilo. E no mesmo instante sentiu como
se estivesse prestes a ser cruelmente enganada, a revelar o seu próprio desejo, não queri
a cair naquela história. - É uma estupidez, aí está porquê - disse ela. - Por que diabo havias de me propor uma coisa dessas?
- Porque te amo - disse Ian simplesmente. - Não sabias? - Ao ouvir aquelas palavras, o coração deu-lhe uma volta e o estômago ficou reduzido a um nó gigante. "Amo-te!"
Ela não tinha assim tanta experiência, mas sabia que um homem
não dizia aquelas palavras se não as sentisse. E ela não era capaz de lhe dizer que estava completamente surpreendida. Mas estava. Estava mesmo.
- Pensei que eras um solitário - gaguejou ela.
- A sério? - perguntou Ian, e Laura sentiu um leve toque de frieza no seu tom de voz.
Laura abanou a cabeça.
- Não - disse ela sinceramente. - Não. Mas casamento... Quero dizer... nós nem sequer...
- Fizemos amor? - perguntou Ian. - Fiz amor contigo todos os dias, muitas vezes ao dia... na minha imaginação. Ele encontrava-se sentado do outro lado da sala, mas
as suas palavras transmitiram uma emoção sexual mais eléctrica do que qualquer contacto
. Laura fechou os olhos. Não se tinha permitido pensar no assunto, mas agora que sentia os olhos de Ian pousados nela, agora que ele tinha falado no assunto, Laura
sentiu-se de repente invadida por um grande desejo.
- Eu sei - disse ela suavemente, confirmando aquilo que deveria ter sido óbvio aos seus olhos. Permaneceram os dois sentados em silêncio durante uns momentos, e
o espírito de Laura embrenhou-se naquela ideia, abraçou-a, primeiro, e depois acabou por a
rejeitar. Imaginou as pessoas de Cape Christian, como elas reagiriam se soubessem que ela tinha voltado a casar. O mais provável era que enforcassem uma efígie
sua. E Dolores... Meu Deus. Seria como se ela tivesse morto Jimmy mais uma vez. E a políci
a? Esses até dançariam de prazer, essa seria a prova de que precisavam para terem a certeza de que ela sempre desejara ver-se livre do seu primeiro marido. Haviam
de a perseguir para sempre. Seria um desastre completo, em todos os sentidos.
Oh, Ian - protestou ela. - Como podes pensar sequer numa coisa dessas? Nós nem sequer nos conhecemos. - Conhecemo-nos há anos - respondeu Ian.
- Isso não é verdade - retorquiu ela. - Isso é apenas um pormenor técnico. Tu nem sequer sabes como é que eu sou. Tens apenas uma espécie de memória idealizada de
mim. De um anjo que te salvou. E essa não sou eu. Eu... eu sou ra
bugenta quando não durmo o suficiente. Faço um molho para esparguete que é um horror e toda a gente está de acordo nisso. Nunca me viste a limpar a casa e a resmungar
com Michael? Eu sou essa, é assim que eu sou, a sério.
- Eu também tenho os meus defeitos, sabes?
- Não, não sei - gritou ela. - É exactamente aí que bate o ponto.
- Mas vais descobrir - insistiu Ian. - Diz que casas comigo.
-Sabes que para um cientista, esta não é uma forma muito científica de tratar as coisas.
Ian estava sentado, um pouco tenso, .à beira do sofá. - Reparaste nalguma coisa? - perguntou ele.
- Em quê?
-Tu não disseste que não.
Laura sentiu-se incapaz de respirar, era verdade. Porque é que não tinha dito que não? "Não, não posso casar contigo." "Não, essa é a coisa mais absurda que eu já
ouvi." Não proferira nenhuma dessas palavras, porque o pensamento de saber que ele ia pa
rtir sem ela lhe causava quase uma dor física. Porque, apesar de todas as improbabilidades que estavam em jogo, a proposta de Ian era como uma bóia de salvação para
uma pessoa que estava a afogar-se.
Ian deixou-se cair do sofá e sentou-se no chão, à frente dela.
- Devia ter feito isto de joelhos - disse ele. - Casa comigo.
Puxou-a da cadeira em' que estava sentada e arrastou-a para perto dele. Nos braços de Ian, apertada contra ele, Laura sentiu-se tonta ao contacto do seu peito musculado
por baixo da camisa, ao escutar o seu coração, ao sentir o seu cheiro masculino, a
o imaginar o simples facto de estar com ele na cama. Laura afastou-se, decidida a manter-se lúcida.
- O Michael - disse ela. - Tenho de pensar no Michael. Ele acaba de perder o pai. São demasiadas emoções de uma vez só.
- E eu perdi o meu filho. O Michael precisa de um pai. E eu preciso de um filho. Seria uma segunda oportunidade para ambos.
Durante um instante, Laura imaginou-os aos dois a virem juntos da paragem do autocarro, em direcção a ela, Michael a segurar na mão de Ian.
- Vou dizer-te uma coisa, Laura. O que quer que seja que eu esperava descobrir a bordo daquele barco, não o encontrei até ter dado contigo. Quero um lar e uma família
outra vez. Será que isso é mau?
- Ian, não. É um sonho maravilhoso, mas não passa disso. Tens de te ir embora, pensa no que a polícia diria se, subitamente, eu casasse contigo. Passariam a olhar
para ti da mes ma maneira que olham para mim. Já andam a fazer perguntas a teu respeito,
não te podia fazer isso.
- Deixa que me preocupe eu com esse assunto. Não estou interessado em saber o que pensam. Não temos nada a esconder, lembras-te? - Laura não sabia se havia de rir
ou de chorar. Os braços de Ian eram um abrigo. -Às vezes penso que fui mandado para aqui
para te proteger - murmurou ele junto ao cabelo de Laura. - Para te salvar, tal como tu me salvaste há muito tempo atrás.
Ela afastou-se e olhou-o atentamente. O olhar de Ian era tão intenso que a ofuscava, semelhante ao sol. Havia qualquer coisa de excitante na sua forma de estar.
Ele era um cavaleiro andante, combatendo e assaltando um castelo para a poder conquistar.
- Mesmo se eu te conhecesse melhor, mesmo que eu pensasse que podíamos... é muito cedo - protestou ela.
- Isso está errado. A vida é muito curta. Quem sabe isso melhor do que nós? Não há um momento a perder, sei que seria isso que a Gabriella teria dito. E se o Jimmy
pudesse falar contigo, seria também isso que ele te diria. Que temos de aproveitar cada
dia. Que nunca sabemos o que o amanhã pode trazer.
A referência a Jimmy fez regressar o desgosto de Laura. - Eu amava-o tanto - murmurou ela.
Por um instante, Ian ficou hirto. Depois colocou os lábios junto ao ouvido de Laura, que sentiu o seu hálito acariciar-lhe a orelha, como uma brisa tropical faz
a uma flor.
- Certamente que ele gostaria que tu pudesses ser feliz.
Todos os dias. Da forma que eu te posso fazer feliz. Casa comigo. Já. Deixa que toda a cidade fale disso. Deixa os polícias espumarem pela boca, não podem fazer
nada para nos impedir. Já teremos partido há muito.
Laura obrigou-se a afastar-se dele. Pôs-se de pé e atravessou a sala.
- Não. Isto é de mais. Demasiado rápido.
Ian ergueu-se e foi ter com ela. Puxou-a e beijou-a. Por mais bizarro que pudesse parecer, a imagem de Pinóquio, do vídeo preferido de Michael, passou pela cabeça
de Laura. Ela sentia-se como o boneco no momento em que fora tocado pela fada azul. A vi
da escorreu como mel pelos seus membros de madeira.
- Deixa-me ficar - murmurou ele. - Deixa-me ficar contigo esta noite. Deixa-me mostrar-te que isto tinha de acontecer.
- Não - disse ela com rudeza. - Quero que te vás embora.
Ele soltou-a e olhou para ela. Laura tentou fitá-lo sem desviar o olhar, como uma rejeição. Não servia de nada tentar enganá-lo. Apesar das suas palavras, os olhos
de Laura ficaram mais calmos quando o olhou. Ele sorriu e o coração de Laura bateu mais
forte.
Pensou em Jimmy, na noite em que haviam decidido casar-se. Laura tinha-o conhecido tão bem, tinha sabido dos seus hábitos e das suas mudanças de humor, confiava
nele completamente. Fora uma escolha fácil, o passo lógico nas suas vidas em conjunto. Um
bebé a caminho, planos para serem feitos. A aprovação por parte dos amigos, a calma que ela sentia no coração sempre que estava com ele. Mas aquele homem era uma
outra história completamente diferente. Era um estranho. Havia qualquer coisa nele que a
tornava eléctrica, mas seria amor ou apenas a escuridão que os envolvia aos dois, o conhecimento do que era o sofrimento e que viam nos olhos um do outro? O amor
não devia ser alegre? Poderiam ser capazes de se afastar o suficiente do passado para pod
erem encontrar alegria um no outro? "Por que razão encaras a possibilidade de casar?", interrogava-se Laura. "Nem sequer conheces este homem, como podes chegar a
pensar em casamento?"
Abraçando-se com os seus próprios braços sobre o peito, como que para se proteger, Laura dirigiu-lhe a palavra. - Tens de te ir embora - disse ela. Mas, quando levantou
os olhos e lhe viu o olhar abalado, voltou a falar, mas com mais suavidade. - Tenh
o de pensar.
- Só quero que penses em mim - respondeu Ian. Laura sorriu.
- Podes ter a certeza disso. Acompanhou-o à porta. Ian parou
e beijou-a uma vez mais. Laura agarrou-se a ele, como se o tivesse a beber. Depois afastou-o. Ian olhou para a jarra com as flores que estavam sobre a mesa- da entrada.
= De quem são? - perguntou ele. - Tenho um rival? Laura abanou a cabeça.
- Apenas um amigo.
- Quando nos casarmos não te será permitido teres amigos desta espécie.
- Eu não concordei com o que quer que fosse - respondeu ela, soando rígida aos seus próprios ouvidos.
- Mas vais dizer que sim - retorquiu ele, como se fosse uma predição. - Vais dizer que sim.
Laura ficou a vê-lo descer as escadas, até desaparecer na escuridão. Nessa noite ele iria para o seu barco e dormiria calmamente no porto ali perto. No dia seguinte,
Ian voltaria para ela. Laura ficou a imaginar, sonhadoramente, como seria ir com ele,
deitar-se naquele beliche, fazer amor apaixonadamente, com o barco a ondular debaixo das estrelas.
De repente percebeu, com uma certeza terrível, que se respondesse não à sua proposta, ele desapareceria para sempre. Não era a espécie de homem que ficasse à espera
daquilo que pretendia. Disso tinha ela a certeza. Sentia-o. Ian estava a oferecer-lhe
a esperança e um novo amor, mas não ficaria ali a rondar para sempre, à espera que ela tomasse uma decisão. Se ela não tivesse a coragem de ir com ele, de escolher
uma outra vida, ele ir-se-ia embora sem ela. O seu barco afastar-se-ia, para um futuro
diferente, e ela continuaria ali, agarrada à sua solidão, a questionar-se para sempre quanto ao que poderia ter acontecido se tivesse tido a coragem.
- Ian - chamou ela.
Ele voltou-se lentamente e ficou a olhar para Laura.
- Não te vás já embora - pediu ela num tom de voz muito débil.
Ian sorriu. Quando começou a caminhar na direcção dela, Laura viu um lampejo de triunfo nos seus brilhantes olhos azuis.
***
CAPÍTULO 19
Ron Leonard sentou-se muito direito no banco de trás do velho táxi que começou a percorrer aos solavancos as estradas que levavam às colinas de Barbados. Tinha tido
a opção de alugar um carro no aeroporto, mas, assim que percebeu que teria de guiar pe
lo lado esquerdo da estrada, optou por um táxi. O motorista tinha olhado para o seu fato e gravata de Verão, bem como para a sua pequena mala com um ar suspeito.
Ron tentara assumir uma postura do tipo "eu sou a lei", mas reconheceu que a sua aparênci
a era muito estranha e deslocada naquele paraíso tropical.
Clyde Jackson havia escutado com muita atenção o relatório que Ron fizera quando regressara do Connecticut e concluíra, com uma olhadela às suas restrições orçamentais,
que talvez uma deslocação a Barbados fosse, provavelmente, necessária. Ian Turner
dizia que tinha estado num barco, naquele porto, na noite em que Jimmy Reed fora morto. Tinham de descobrir alguém que confirmasse ou refutasse esse facto.
-Quem me dera poder ir - disse o promotor público com um suspiro. - A Debbie e eu estivemos em Barbados na nossa lua-de-mel.
Olhando à sua volta, enquanto o táxi ia percorrendo as ruas de Bridgetown em direcção ao porto, Ron imaginava como Clyde e Debbie se tinham sentido bem em Barbados.
Ron nunca vira pessoas tão bonitas em toda a sua vida - negras ou brancas - como aquel
as que podia ver agora através da janela do táxi. Mas a verdade é que todas as coisas naquele lugar
eram fantásticas para o olhar. Ron sentia-se como se tivesse estado a usar uma espécie de filtro cinzento sobre os olhos até ao momento em que saíra daquele avião.
Já tinha ouvido dizer que as Caraíbas eram lindíssimas, mas vê-las através dos seus pró
prios olhos foi um choque. As cores variegadas pareciam saltar ao seu encontro, tonalidades que ele apenas tinha visto em caixas de lápis de cor. A água do mar azul-ultramarino
e o céu azul-ferrete. As flores das buganvílias e de hibisco em cascatas d
e vermelho e violeta, e as orquídeas a florescerem para onde quer que ele dirigisse o olhar. E era calmante, de certa maneira, ver as pessoas a caminharem no meio
de tudo aquilo, como se fosse normal viver num local que mais parecia o reino de Oz. Ron
abriu a janela e respirou fundo enquanto o ar quente lhe acariciava a cara.
Tinham feito uma primeira paragem na marina e o motorista do táxi concordara, de boa vontade, em esperar. Estava a ouvir um programa religioso no rádio do carro
e parecia perfeitamente à vontade, em profundo contraste com as agitadas diligências de Ro
n naquele local encantador mas estranho. Não tinha levado muito tempo até que Ron descobrisse Cyril Terry, o inglês bronzeado e de cabelos brancos que vendera o
barco a Ian. Terry mostrara-se agradável e cooperante, mas não tinha podido dar conta dos
movimentos de Ian depois de este ter comprado o barco. Mas uma rapariga inglesa, bonita apesar da sua pele curtida, e que parecia trabalhar para Terry, informara
Ron de que um homem dali, chamado Winston St. Mercier, tinha feito parte da tripulação do
barco de Ian durante algum tempo e que talvez ele pudesse ser de alguma utilidade. A rapariga apercebera-se do pânico e da frustração de Ron enquanto lhe tentava
explicar o caminho para casa de St. Mercier, por isso tinha ido com ele até ao táxi e da
do as explicações necessárias ao motorista, para que este encontrasse a casa.
E agora estavam a caminho, através das colinas, em busca de St. Mercier. À medida que progrediam passaram por vivendas pintadas de cores brilhantes, com gelosias
brancas e alpendres encantadores e convidativos. Todas as casas pareciam impecavelmente a
rranjadas, e Ron interrogou-se como é que uma família completa podia viver num espaço tão pequeno. "Nem
devem ter ar condicionado", pensou ele, embora tivesse visto uma ou outra antena de televisão. As galinhas andavam por ali à vontade e muitas crianças, com as suas
caritas castanhas que pareciam de porcelana, olhavam para o táxi quando ele passava, de
olhos muito abertos e, por vezes, acenavam.
Embora Ron não vislumbrasse quaisquer sinais indicadores de nomes de ruas, ou qualquer indicação do local em que se encontravam, a certa altura o motorista do táxi
anunciou que estavam quase a chegar. Deram mais uma curva na estrada e depois o motoris
ta encostou o carro numa clareira e parou. À frente deles erguia-se uma pequena casa, pintada de azul cor de lavanda, onde se via uma rapariga em idade escolar,
usando um vestido simples às flores, sentada nos degraus da entrada, a ler.
- É isto aqui? - perguntou Ron. De dentro da casa vinha o som de música com uma batida de reggae.
- Sim - respondeu-lhe o motorista.
- Espera aqui por mim? - perguntou Ron ansiosamente. O motorista inclinou-se sobre o tabliê do carro e mudou o rádio da estação religiosa para um programa sobre
jogos de crfquéte.
-Sem problema - respondeu ele. Pegou num termo pousado a seu lado e serviu-se de uma chávena de chá. Ron saiu do carro e percorreu o caminho de terra que levava
à casa.
- Desculpa - disse ele à rapariga que o olhava com os seus olhos castanhos imensos. - É aqui que mora Mister Winston St. Mercier?
A rapariga anuiu com a cabeça e encostou-se para um dos lados dos degraus de madeira, para que Ron pudesse passar. Ficou a olhar para ele enquanto Ron atravessava
o alpendre e batia à porta.
-Mister St. Mercier? - chamou ele.
A pequena sala da frente estava apenas mobilada com um sofá, uma cadeira e um aparelho de televisão. Um pequeno tapete cobria parte do chão de madeira. No tecto,
rodava uma enorme ventoinha. O rádio estava ligado, e era dele que provinha o reggae que
se ouvia. Um homem simpático, de tez casta
nha e olhos azuis, emergiu dos quartos envoltos na escuridão e que se situavam para lá da sala de entrada.
- Quem quer falar com ele? - perguntou numa voz cadenciada.
O homem estacou quando viu Ron de fato e gravata e usando óculos escuros, e olhou para ele com ar desconfiado. -Mister St. Mercier, o meu nome é Ron Leonard. Sou
um detective dos Estados Unidos. Gostava de lhe fazer algumas perguntas.
Uma bela mulher com um turbante na cabeça e usando um vestido branco meteu a cabeça pela porta da sala e olhou para Ron com curiosidade. Winston St. Mercier abriu
a porta com uma das mãos.
- Perguntas acerca de quê? - inquiriu ele cautelosamente. - Disseram-me que fez parte, durante algum tempo, da tripulação de um barco no último Inverno, pertencente
a um americano chamado Ian Turner.
O ar de suspeita desvaneceu-se e um sorriso abriu-se na cara do homem.
- Ah, o Ian - disse ele. - O meu bom amigo. Que tal está ele? Está tudo bem com ele, não está?
- Tudo bem. Só tenho algumas perguntas para lhe fazer acerca dessa viagem.
Ron deu-se conta, pela cara do homem, da luta interior que estava a ter lugar, entre a sua simpatia natural e a inclinação para a hospitalidade e as dúvidas acerca
daquele polícia es' trangeiro. Ron tirou os óculos escuros e sorriu.
- Pode dispor de algum tempo para responder a umas perguntas?
- Entre - convidou finalmente Winston. Indicou a Ron uma mesa de madeira e cadeiras pintadas de verde cor de maçã, situadas a um canto da,sala. - Sente-se. Quer
beber um chá?
Winston olhou para a mulher. -Esta é a minha mulher, a Ava. A mulher avançou timidamente.
- Quer pão de coco? - perguntou ela com uma voz musical.
-Não, não, muito obrigado - respondeu Ron. Depois reconsiderou. - Talvez um pãozinho de coco.
Ava deu-lhe uma pequena fatia, num prato de louça. - E o seu motorista? - perguntou ela. - Será que ele quer alguma coisa?
- Pode ser que sim - concordou Ron: Ela cortou outra fatia e dirigiu-se para a porta.
Winston sentou-se na cadeira oposta à de Ron.
- Eu não quero sarilhos - disse ele. - Eu só conheci o homem em casa do Terry, quando ele lhe comprou o barco. A princípio ia precisar de alguma ajuda, sabe como
é, até se
habituar a ele. Mas ele era um belíssimo marinheiro, só fiquei com ele algumas semanas.
- Bom, isto é muito bom! - exclamou Ron quando o sabor do coco explodiu na sua boca. Sacudiu as migalhas da gravata.
Winston coçou a cabeça e sorriu, meio de esguelha. - Esta é a sua primeira visita a estes sítios?
Ron aquiesceu. "Será assim tão óbvio?", interrogou-se ele. Engoliu os restos do pão e tentou reassumir uma expressão oficial.
- Precisamos de conhecer o paradeiro de Mister Turner antes e depois da noite de passagem de ano.
- Noite de passagem de ano - repetiu Winston, abanando a cabeça. - Não. Já tinha saído do barco nessa altura. Eu queria estar de volta pelo Natal, para estar com
a família. Sabe como é.
Ron aquiesceu.
- Porque faz essas perguntas acerca do meu amigo Ian? Está metido nalgum sarilho?
-Ainda não sei - disse Ron.
A porta da rua bateu e a mulher de Winston voltou a entrar em casa. Winston olhou para ela.
-Está a fazer perguntas sobre o Ian Turner. Tu lembras-te dele.
Ela assentiu com a cabeça.
- Portanto, saiu do barco dele antes do Natal e essa foi a última vez que o viu, Faz alguma ideia onde é que ele estava na noite de passagem de ano?
Winston abanou a cabeça.
- Vi-o algumas vezes depois disso. Não sei quando é que ele deixou Barbados.
- Espera, tu viste-o! - exclamou Ava. Ron e Winston olharam para ela.
- Na noite de passagem de ano, lembras-te? - insistiu ela. - Disseste-me que o viste no porto, sentado sozinho no barco. E que nem tinhas sabido se lhe havias de
desejar Bom Ano Novo ou não.
- É verdade - confirmou Winston, excitado, voltando-se para Ron. - Ela tem razão!
Depois, o semblante de Winston tornou-se sombrio. - Sabe que ele perdeu toda a família o ano passado? perguntou, com gravidade.
- Eu sei - disse Ron cautelosamente.
- Uma coisa horrível - acrescentou Winston, abanando a cabeça. - Depois de falar nisso a primeira vez, nunca mais se voltou a referir ao que aconteceu. E é verdade,
eu estava no porto a tentar arranjar algum peixe para o jantar, quando o vi. E pensei
para comigo: "Como é que se deseja Feliz Ano Novo a um homem que perdeu toda a família?" Era .uma coisa muito estranha. Mas falei com ele, mesmo assim. Convidei-o
a vir jantar, mas ele recusou. Pensei que se estava a sentir muito em baixo. Muito em ba
ixo, mesmo. Sim, recordo-me agora.
- Tem a certeza disso? - insistiu Ron, com um toque de desapontamento na voz.
- Sim, tenho a certeza. A Ava recordou-me. Ron suspirou e levantou-se.
- Bom, muito bem. Muito obrigado pelo seu tempo, foi de uma grande ajuda. E o seu pão era delicioso, Mistress St. Mercier - acrescentou, consciente das suas maneiras
e não querendo passar por um americano malcriado naquele local estranho.
Winston St. Mercier seguiu Ron desde a escuridão e frescura da casa até à luz do Sol. Ron parou nas escadas do alpendre e brincou com a rapariga que ainda estava
sentada, a ler, nos degraus.
- O livro é bom? - perguntou Ron simpaticamente.
- Mostra o teu livro, Sophia - disse-lhe o pai.
A rapariga ergueu o livro. Chamava-se Raul e a Rã Amarela Gigante. Escrito por Laura Hastings.
- Isso foi uma prenda de Natal que ela recebeu de Mister Ian Turner, na verdade - disse Winston com orgulho.
O coração de Ron deu um pequeno salto.
- Posso? - perguntou ele, pegando no livro e revirando-o nas mãos.
- Ele conhece a autora - informou a criança timidamente. - Foi ele que me disse.
Ron olhou para ela e apertou o pequeno volume nas suas mãos.
-Ele disse que a conhecia? Tens a certeza disso? Os olhos da criança brilharam.
- Sim, foi ele que me disse. Contou-me que era uma senhora muito bonita.
A criança olhou ansiosamente para o seu livro, apertado nas mãos de um estranho. Ron seguiu-lhe o olhar e devolveu-lhe o livro.
- Estou curioso - disse ele, com mais suavidade. - Eu não conheço autor nenhum.
Sophia voltou a sorrir com timidez.
-Ele disse que ela vivia em Nova Jérsia, nos Estados Unidos, e que a ia ver em breve. Por isso escrevi-lhe uma carta acerca do Raoul, para que ele lha entregasse
quando a visse. Mas ela ainda não me respondeu. Acha que vai responder? -Claro - disse Ro
n com um sorriso satisfeito e um olhar distante nos olhos. - Tenho a certeza de que vai responder.
***
CAPÍTULO 20
A cerimónia estava a ter lugar no final do dia, na sala vagamente envelhecida mas confortável de um juiz de paz do Maryland chamado Gilbert Trent. Uma lareira artificial
irradiava uma luz azul no centro, embora as janelas estivessem abertas e a tarde
agradável e suave. Uma cassete com uma gravação de música de órgão tocava em fundo, enquanto o juiz de paz Trent se dirigia ao nervoso casal. Laura usava um antigo
vestido de renda, bege, que ela tinha descoberto numa loja de roupas antigas, e segurav
a um bouquet de rosas-chá de um pálido tom róseo compradas numa loja da zona. Ian usava uma das rosas na lapela num fato azul que lhe moldava o corpo e que tinha
comprado no Harry's, a única loja para homens existente em Cape Christian. Dissera ao ven
dedor, que havia protestado, que não tinha tempo para fazer alterações. Ian e Laura estavam ladeados por Mrs. Trent, que acabara de sair do seu clube de brídege,
e por Michael, que se empertigava ao lado de Laura, vestido com as suas calças da cateque
se, uma camisa branca e uma gravata. Estavam a meio da cerimónia.
- Laura, aceita este homem, Ian... -Não, não, não!
De repente, gritos de criança atravessaram a sala e Michael começou a bater com os pés no chão.
Laura voltou-se espantada para Michael, ao mesmo tempo que este se atirava para o chão e começava a bater com os punhos. Rapidamente atirou o seu ramo de noiva para
a estupefacta Mrs. Trent e dobrou-se sobre Michael, tentando dominá-lo.
- Querido, querido, pára! O que se passa?
- Não, não faças isso. Não podes - disse ele a soluçar. - Não te cases.
Laura olhou para Ian, que por sua vez fixava Michael. - Querido, falámos disto imensas vezes - murmurou Laura, embora soubesse, no fundo do seu coração culpado,
que fora ela que desencadeara tudo aquilo no filho, há duas noites atrás. Laura dissera a
si própria que não queria que ele tivesse de mentir às pessoas e, dessa maneira, seria melhor se ele não soubesse de nada a não ser no último minuto. Ele parecera
encarar a questão de forma muito calma. Provavelmente, tinha ficado demasiado perturbado
para reagir, admitia ela agora.
-Não te quero! - gritou Michael. Laura olhou, indefesa, para Mrs. Trent.
- Haverá algum sítio para onde eu o possa levar até ele se acalmar um pouco?
-Com certeza - disse Mrs. Trent num tom de voz compreensivo.
- Quero ir para casa - gritou Michael.
Laura levantou o filho nos braços. Olhou por cima do ombro para Ian.
-Eu já volto - disse ela.
- Queres que eu vá? - perguntou Ian. Laura abanou a cabeça.
Michael abraçou-a com os braços e as pernas e deitou a cabeça no ombro de Laura. Seguiram Mrs. Trent até um pequeno quarto com um papel de parede às flores já muito
esbatido. Laura sentou Michael na cama e instalou-se a seu lado.
- Eu meto isto no frigorífico - disse Mrs. Trent, apontando o ramo de flores de Laura. - Esteja à vontade. Laura fez um sinal afirmativo com a cabeça e tentou olhar
firmemente para Michael, ao mesmo tempo que Mrs. Trent fechava a porta.
- Estás bem? - perguntou ela suavemente. - Não - respondeu ele.
- Eu sei que isto é difícil de entender, para um rapazinho. Mas foi tudo tão repentino.
-Não quero que cases com ele. - E porquê? - perguntou ela. - Porque eu o odeio.
Um arrepio percorreu-lhe todo o corpo, ao ouvir o motivo do filho. As reacções dele para com as pessoas eram sempre tão francas e ingénuas. E ele e Ian pareciam
dar-se tão bem!
- Pensei que gostavas do Ian, querido. Sabes, a razão por que nos vamos casar é porque ele quer amar-nos e tomar conta de nós.
- Disseste-me para não falar com estranhos. E agora vais casar com ele. Ele é um estranho.
- Ele já não é um estranho, Michael. Não o conhecemos há muito tempo, mas às vezes as pessoas tornam-se muito próximas num curto espaço de tempo.
- Não precisamos que ele tome conta de nós. Nós tomamos conta de nós mesmos. Vamos para casa mãe - pediu Michael.
Laura afastou o olhar do dele. Devia ter sabido, pensou ela. Como é que pudera pensar que aquilo ia resultar? A cabeça começava a estalar-lhe, a sua resposta habitual
ao stresse. Era capaz de sentir o olhar de Ian para além da porta fechada, desejando
que ela não cedesse. Ao seu colo, Michael agarrava-se a ela, as suas lágrimas a derramarem-se sobre a renda do vestido de Laura.
Ela tentou de novo.
- O Ian não tem sido simpático para ti? - perguntou ela com suavidade.
Michael abanou a cabeça com um ar tristíssimo. - Ele não é o papá.
Laura puxou-o mais para si e abraçou-o. Ah, pensou ela sentindo-se aliviada, é este o problema. Laura beijou-lhe o cabelo.
- Eu sei, querido. Mas o papá foi para o céu. Já não vai voltar.
- Mas eu quero que ele volte - gritou Michael, furioso. - Eu sei que tu querias. Mas ele não pode voltar. Michael afastou-se.
- Tu não queres que ele volte. Nem te preocupas. Tu só te queres casar.
Laura abanou a cabeça.
- Oh, querido! Mesmo que quiséssemos muito, isso não traria o papá de volta. Eu sei que esta ideia de casamento torna todas as coisas muito... definitivas para ti.
Mas o papá não pode voltar. Se pudesse, tinha voltado. Mas não pode. E quer eu case, qu
er não, isso não vai modificar nada.
Laura segurou a cara de Michael nas suas mãos e limpou algumas lágrimas com os polegares.
-Sabes isso, não sabes?
Michael suspirou e assentiu com a cabeça, com um ar triste. - Temos estado tão tristes! Pensei que talvez com o Ian tivéssemos uma oportunidade para voltar a ser
felizes.
- Eu nunca voltarei a ser feliz - insistiu Michael.
- Não digas isso - pediu Laura. - Eu sei que às vezes parece que as coisas vão ser assim. Eu também pensei isso, mas agora, com o Ian...
Ela olhou para a cara de Michael, redonda e inocente, viu o seu desgosto e confusão espelhados no seu próprio coração e sentiu a coragem fugir.
- Acho que não fui justa para contigo. Estava à espera de evitar uma série de problemas, desta maneira, mas estou a ver que... É capaz de ter sido um erro ter apressado
tudo isto... - É um erro. Um grande erro.
O desapontamento revelou-se nos olhos de Laura. Deixara-se levar por uma fantasia quanto à sua nova vida. Era estúpido pensar que uma pessoa podia afastar-se dos
seus desgostos com essa facilidade. Era apenas mais uma versão de ir dar um passeio de ba
rco, tentar evitar a tristeza, em vez de a enfrentar. Laura suspirou.
- Muito bem - disse ela. - É melhor eu ir dizer ao Ian. Michael estudou o rosto da mãe e sentiu-se desconfortável ao ouvir o som do seu suspiro.
-Estás zangada comigo? - perguntou ele. Laura abanou a cabeça.
-Não estou zangada. Só estou... desapontada. - Estás desapontada porquê?
Laura hesitou.
-Acho que as minhas esperanças estavam muito no alto.
Tu sabes como é, quando estás excitado acerca de alguma coisa e depois essa coisa não acontece. Como daquela vez em que éramos para ir à feira de Millville e depois
começou a chover. Bom, é assim que eu me sinto agora, só que é um bocado pior.
Michael percebeu. Ele lembrava-se daquela ocasião em que tinha chovido, quando estavam para ir à feira e havia a previsão de passeios em póneis, a montanha-russa
e maçãs doces. Ficara tão furioso com o pai e a mãe, quando estes lhe disseram que não po
diam ir. Tinha mesmo dado um pontapé na perna do pai, de tão irado que se sentia. Agora era a mãe que estava desapontada e a culpa era toda dele. Tinha sido ele.
Mas Michael não percebia que a sua cena reflectia as próprias dúvidas e medos da mãe. Est
ava subitamente alarmado com a sua própria importância, pela sua capacidade de mudar os acontecimentos tão drasticamente. E se ela ficasse furiosa com ele, mais
tarde? E se ela ficasse triste para sempre?
-Eu não queria... - disse ele. - Acho que podes... Laura abanou a cabeça e fez-lhe uma festa no cabelo. Estás muito confuso, não estás, querido?
-Sim - admitiu ele.
- Talvez seja melhor esperarmos.
Michael sentou-se, como um homenzinho, limpando as lágrimas:
- Não, está tudo bem, acho eu.
Ouviu-se um ligeiro bater na porta, e depois esta abriu-se. Ian estava no umbral.
- Que tal vamos por aqui? - perguntou ele.
Laura sentiu-se aborrecida com a sua intromissão. "Qual é a pressa?", pensou ela. "Não nos podes dar tempo para pensar? Porque é que não podemos ter tempo para reflectir?"
Mas Michael sorriu através das lágrimas.
- Bem - disse ele.
Ian entrou e sentou-se perto da cama.
-Esta coisa de casamento é um bocado como tirar um dente - afirmou. - Quando termina, sentimo-nos aliviados. Sentimo-nos muito melhor.
Michael olhou para ele com um ar muito sério.
- O Louis, uma vez, arrancou um dente que estava solto, e depois apareceu-lhe um dólar debaixo da almofada.
Ian assentiu com a cabeça.
- Talvez também tenhas um dólar debaixo da tua almofada, esta noite.
Os olhos de Michael ficaram de repente muito abertos.
- Será?
- Primeiro, as coisas que são mais urgentes - prosseguiu Ian. - Primeiro, o casamento. O que é que tu achas? Michael sentou-se, olhando para os pés, a pensar.
- Está bem - anuiu ele.
- Pronto - disse Ian. - Estamos todos prontos.
- Como um truque de magia - observou Laura. - Oferece-se-lhe um dólar...
Mas a sua desaprovação transformou-se em alívio quando o sorriso de Michael reapareceu, como um raio de Sol através das nuvens.
- Vamos lá então - disse Ian pegando na mão de Laura. Ela sentiu-se a tremer por dentro, como uma pessoa que tivesse estado doente e se levantasse da cama pela primeira
vez. O aperto de mão de Ian era firme e seguro, como de costume. Michael pegou na
outra mão da, mãe, com os seus dedos pequeninos. Os dois puseram-na em pé.
***
CAPÍTULO 21
-Não o acordes - murmurou Laura.
Ian levantou Michael com muito cuidado do banco de trás do carro e apoiou-o ao seu ombro.
-Vamos - disse ele.
Subiram juntos o caminho até aos degraus do alpendre. Ian tinha querido passar a sua primeira noite de casados num hotel de luxo, mas Laura achou que isso seria
muito difícil para Michael. Para além disso, não havia nenhum sítio onde ela o pudesse dei
xar durante a noite, sem ter de explicar para onde é que iam. Laura e Ian não tinham contado a ninguém os seus planos, nem mesmo a Pam. Laura não queria que ninguém
pudesse argumentar com ela, alguém que pudesse dizer-lhe toda a espécie de coisas lógi
cas acerca da espera e de ser cuidadosa. As pessoas não estavam no seu lugar.
Laura subiu à frente deles e meteu a chave na fechadura da porta da frente. Tinham jantado numa pousada do Maryland, onde Michael comera duas sobremesas. Havia adormecido
no banco de trás do carro antes de percorrerem sequer dez quilómetros.
Laura rodou a chave na fechadura de cima e franziu a testa. Rapidamente tentou a fechadura de baixo e o coração começou a bater-lhe. Voltou-se para Ian, que se encontrava
atrás dela, segurando Michael nos braços.
- A fechadura de cima não está fechada - disse ela, tentando conter o pânico que sentia na sua voz. - Talvez te tenhas esquecido - respondeu Ian. - Com toda a excitação
do dia de hoje.
- Claro que não me esqueci - gritou Laura. - Achas que alguma vez me esqueceria de fechar uma porta desta casa depois do que aconteceu aqui?
- Calma - disse ele tranquilamente. - Não estás sozinha. Agora eu estou aqui contigo. Eu entro primeiro.
- Dá-me o Michael - exigiu ela.
Ian hesitou e depois colocou a criança adormecida nos braços da mãe.
-Tem cuidado - pediu ela.
Ian empurrou a porta e entrou na escuridão. Acendeu a luz do vestíbulo da entrada e, passado um momento, chamou-a. - Entra.
Laura apertou Michael contra si, a sua temperatura agradável a sentir-se no seu peito. Laura entrou em casa. A primeira coisa em que reparou foi o cheiro. Um aroma
a flores enchia o vestíbulo. Laura deu mais um passo e olhou em volta. A sala de estar
e a de jantar estavam cheias de flores, lindíssimos ramos de botões primaveris por todo o lado. As salas eram uma confusão de cores - do rosa ao branco e às tulipas
vermelhas, cor de laranja e cravos de muitas cores.
- Oh, Ian! - gritou ela. - Gostas?
- É tão bonito!
-Vê lá em cima - convidou ele. - Dá-me o Michael outra vez.
Sem dar conta de que estava a ser transferido outra vez, Michael voltou para os braços de Ian enquanto Laura corria pelas escadas acima. Abriu a porta do quarto
de hóspedes e fez uma careta. Ali não havia nada. Durante um momento ficou confundida e de
pois, com uma impressão estranha no estômago, percebeu o que ele queria dizer. Olhou ao longo do corredor.
A porta para o seu antigo quarto de dormir estava aberta, e um brilho vinha do seu interior. Laura nem sequer queria olhar. Não tinha estado naquele quarto, a não
ser para tirar a sua roupa, desde aquela noite. Avançou pelo corredor, meio curiosa, mei
o receosa. Na altura em que chegou à porta, sentia-se quase estonteada com a ansiedade. Abriu a porta completamente.
Mal podia acreditar nos seus olhos. Havia ramos de flores brancas em jarras espalhados por todo o quarto. Dúzias de velas brilhavam por entre as flores. O champanhe
estava à espera num balde de gelo. Os lençóis da cama eram novos, num padrão delicado
de azul e branco. Uma camisa de noite de seda branca encontrava-se pousada sobre a cama.
Com Michael ao colo, Ian subiu as escadas. Laura voltou-se e ele viu a expressão na cara dela.
- O que se passa? - perguntou ele.
Ela sabia que ele tinha preparado tudo aquilo para a surpreender. Mas Laura não foi capaz de esconder o seu espanto. Era impossível.
-Aquele era o nosso quarto. O quarto onde o Jimmy... - Oh, meu Deus - disse Ian. - Eu só lhe disse para decorar o quarto principal. Claro que não irias dormir aí.
Lamento...
Sem uma palavra, Laura tirou Michael dos seus braços, levou-o para o quarto e vestiu-lhe o pijama. Depois meteu-o na cama, beijou-o no rosto e fechou a porta do
quarto.
Ian estava ao fundo do corredor, a olhar para o quarto transformado. Laura aproximou-se por trás dele, mas não olhou para dentro.
-Como é que o conseguiste fazer? - perguntou ela. Ele não se voltou para olhar para ela. A sua voz estava sem expressão.
- Tenho andado a tratar disto. Com uma grande ajuda do Scott, da loja de flores.
Laura franziu o sobrolho. Scott adorava os mexericos e não levaria muito tempo até que toda a gente da cidade soubesse que ela estava a fazer amor na cama onde o
primeiro marido tinha sido assassinado.
- Ian - murmurou, pousando uma mão nas costas dele. Está tão lindo. Está mesmo. Mas, por favor, vê se percebes que eu não... eu não posso...
- Eu sei - respondeu ele. Entrou no quarto e apagou todas as velas, até o quarto ficar de novo mergulhado na escuridão. Depois voltou para junto dela, no corredor
pouco iluminado.
- Desculpa - disse ela.
- Está tudo bem - respondeu Ian, mas sentiu que ele estava desapontado. - Foi um mal-entendido. Só te queria fazer uma surpresa.
- Eu sei. - Laura olhou noutra direcção, não querendo ver a expressão dos seus olhos.
- Podemos mudar tudo para o quarto de hóspedes - sugeriu, mas ele devolveu-lhe um olhar reprovador, e ela percebeu que não valia a pena, a surpresa de Ian tinha
sido destruída e não havia forma de a salvar.
No entanto, e por alguma razão estranha, ali de pé no meio das ruínas dos planos de Ian, Laura sentiu-se segura de si mesma pela primeira vez em todo o dia. Ela
pegou-lhe na mão silenciosamente e levou-o até ao fim do corredor, onde um degrau conduzia
a um quarto pequeno, apenas suficiente para conter uma cama de solteiro e uma velha cómoda que ela encontrara numa loja de bricabraque.
- Nunca ninguém dormiu aqui - disse ela.
Ian observou o quarto, que tinha uma pequena janela que dava para o pátio das traseiras.
- Parece uma cela - disse Ian.
Laura voltou-se para ele e pôs-lhe as mãos à volta do pescoço.
- Não preciso de mais nada - declarou ela. - Só preciso de ti.
- Queria que tudo fosse perfeito - retorquiu ele. - E está a ser perfeito.
Ian fixou-a nos olhos.
- Está quase a ser - proferiu com uma voz rouca. Laura tremeu perante a intensidade do seu olhar. Ela sabia o que ele.queria dizer. Tudo o que ela podia fazer era
assentir com a cabeça e engolir em seco no momento em que ele a empurrou para a cama est
reita.
Horas depois, Laura correu os dedos pelo braço do marido adormecido; depois estendeu o braço esquerdo para admirar a sua aliança de casada à luz difusa da Lua. Olhou
para além da sua mão, para a pequena casa de banho. A sua simplicidade
parecia-lhe perfeita para ela. Paixão, pura e simples. Nada de problemas. Estavam anichados um no outro sobre a cama de solteiro como os amantes deviam estar.
Ian agarrou-se a ela no seu sono, e Laura passou-lhe os dedos pelo rosto. Ele tinha-a amado com sofreguidão, e ela fora capaz de esquecer e de se perder com ele.
Mas, mesmo na altura em que olhava com prazer para o homem que a envolvia, a culpa começo
u a infiltrar-se nos seus pensamentos. "Oh, Jimmy, traí-te!", pensou ela. Depois parou. Obrigou-se a parar. Jimmy estava morto. Quer estivesse morto há cinco meses
ou há cinco anos, isso não importava. Ele estaria sempre com ela. Agora surgia uma vida
nova, uma vida diferente. E tinha começado bem, vistas bem as coisas, apesar de algumas dúvidas e problemas, como o que acontecera com Michael durante a cerimónia.
E também isso se tinha resolvido, pensou ela com um sorriso. Depois lembrou-se do dóla
r. Um dólar debaixo da almofada de Michael. Era o tipo de coisa que um adulto podia prometer sem pensar, _mas de que uma criança se lembraria. "É melhor ir buscar
um e pô-lo lá", pensou Laura. "Ou então vou ter de o ouvir amanhã."
Suavemente, Laura desprendeu-se do abraço adormecido de Ian e saltou da cama. Foi para a casa de banho, procurou o seu robe e vestiu-o. Tentou lembrar-se do local
onde deixara o seu porta-moedas. Lá em baixo, apercebeu-se ela. Tinha-o deixado lá em ba
ixo, quando entrara. De repente, veio-lhe à memória outro sítio onde havia sempre algum dinheiro, a gaveta das meias de Jimmy, que o guardava sempre aí para uma
qualquer emergência. O mais provável é que ainda lá estivesse.
Dirigiu-se ao seu antigo quarto e olhou para o interior. Na verdade, não parecia o mesmo, pensou ela. Scott tinha feito maravilhas. Mesmo assim, Laura estremeceu
quando abriu a gaveta da cómoda e meteu a mão lá dentro. Havia uma velha meia que ele usa
va como esconderijo. Laura tirou um dólar, enfiou-o no bolso do robe e voltou a fechar a gaveta. Enquanto o guardava olhou para cima da cómoda de Jimmy. Havia um
lindo arranjo de rosas brancas e uma vela sobre a superfície do móvel acabado de limpar.
A caixa de cabedal das jóias de Jimmy e uma lata de tabaco de cachimbo também se encon
travam sobre a cómoda. Mas faltava uma coisa que sempre ali estivera, a fotografia do seu casamento. Não era uma fotografia formal, apenas um retrato tirado por
um amigo no dia do seu casamento, mas havia alegria nas suas caras e ela tinha comprado um
a moldura de prata e oferecera ao marido. Estava sempre no seu escritório, ele mantinha-a aí. Talvez Scott a tivesse mudado de lugar quando arranjara as flores,
pensou ela. Olhou em volta pelo quarto, por cima de todas as coisas, mas não estava à vist
a. Talvez alguém a tivesse posto numa gaveta, imaginou ela. Abriu a gaveta de cima da cómoda, uma vez que esse seria o local mais lógico, mas a fotografia não estava
ali. Fechou a gaveta, de sobrolho carregado. A verdade é que não se podia pôr a abrir
todas as gavetas, àquela hora da noite. "Amanhã procuro-a", pensou ela, embora a deixasse aborrecida não saber onde estava a moldura.
"Foi um dia muito longo", recordou a si própria. "Põe o dólar no quarto do Michael e vai dormir. Amanhã de manhã descobres onde ela está."
Saiu do quarto e percorreu o corredor. A porta do quarto de Michael estava aberta, e Laura entrou silenciosamente e agachou-se ao lado da cama. Colocou suavemente
o dólar de
baixo da almofada do filho e deu-lhe mais um beijo. Quando se endireitou olhou a superfície da sua mesinha-de-cabeceira. Ali estavam, como de costume, alguns bonecos,
a sua lâmpada com o ursinho Winnie e uma velha e gasta caneta mágica. Mas a pequena
fotografia do pai, que ele tinha posto naquele lugar desde Janeiro, havia desaparecido.
Laura sentiu alguma coisa gelada apertar-lhe o coração. Aquilo não era uma coincidência. Saiu do quarto de Michael fechando a porta sem ruído e desceu as escadas.
Havia alguns lugares onde podia procurar, mas já suspeitava o que iria encontrar. Entrou
na sala de estar e, do outro lado da sala, podia ver que a moldura vitoriana tinha desaparecido de cima da lareira. Olhou para a sua secretária e reparou que a
moldura em forma de coração que estava anteriormente colocada junto ao candeeiro havia des
aparecido também. Dirigiu-se à cozinha, só havia mais um lugar para procurar. Ficou de pé, a olhar incredulamente, voltada para o frigorífico. A moldura de plástico
com íman, que tinha uma foto dos três, também desaparecera. A lista de almoços para a escola, que Laura colocara por baixo dela, tinha sido mudada de sítio, partilhando
um íman com um dos desenhos de Michael.
"Que atrevimento o teu!", pensou ela. "Que atrevimento! Onde as puseste?"
Começou a revolver as gavetas da cozinha, irritada pela confusão interior, apalpando os fundos das gavetas, depois os armários, à procura das fotografias desaparecidas.
De repente, o seu olhar recaiu sobre os sacos das compras em que guardava os jorna
is para reciclagem, perto da despensa. Ao lado deles estava um caixote do lixo destinado a vidro, alumínio e plásticos. Levantou a tampa do caixote.
Ali estavam elas. Por entre as garrafas de vinho vazias, as garrafas de detergente, os frascos de doce vazios. As fotografias de Jimmy, a sorrir no meio dos desperdícios.
O coração de Laura batia furiosamente. Tirou as molduras com as fotografias e le
vou-as carinhosamente para a mesa da cozinha. Do armário do lava-louça retirou um limpa-vidros e um pano, e começou a limpar as manchas das molduras. À medida que
ia terminando cada uma delas, colocava-as em cima da mesa.
De repente, começou a sentir a pele a arrepiar-se, quando se apercebeu de alguém atrás dela. Rodou sobre si mesma e viu uma figura sombria no umbral escurecido da
porta.
- Que estás a fazer? - perguntou Ian com uma voz gelada. Entrou na cozinha iluminada, descalço, vestido apenas com a parte de baixo do pijama. Laura voltou-lhe as
costas e continuou a sua limpeza.
- Que te parece que esteja a fazer? - perguntou ela friamente.
- Parece que estás a limpar a casa. Não é um pouco tarde para isso?
Laura limpou a moldura com íman, levou-a para o frigorífico e utilizou-a para segurar as ementas da escola, tal com estavam antes. Depois, voltou-se para ele.
- Como foste capaz? - perguntou ela em voz baixa. - Como pudeste fazer tal coisa?
- De que estás a falar? - perguntou ele na defensiva. - O que foi que eu fiz?
- Deitaste fora os retratos do Jimmy. Pegaste nos meus pertences, nas minhas recordações, em coisas que eu prezava, e deitaste-as fora. O que é que te dá o direito
para fazeres isso?
- Não comeces a acusar-me - disse ele. - Não sei do que é que estás a falar.
Laura olhou para ele com olhos faiscantes.
- Descobri todas as fotografias emolduradas do Jimmy no caixote do lixo. No caixote para reciclagem, para ser mais exacta. Estás a dizer-me que não és responsável
por isto?
Ian esfregou os olhos e depois sacudiu a cabeça.
- Não. De que é que me estás a acusar? Deve ter sido o Scott, quando veio tratar das flores.
Laura olhou para ele, desconfiada, ao mesmo tempo que pensava em Scott, um homem agradável, excêntrico, que usava um brinco e que ela mal conhecia.
- O Scott? Não acredito que ele tenha feito isso, quer dizer, que tivesse atirado os meus pertences para o lixo. Porque havia ele de aceitar este trabalho e depois
fazer uma coisa tão mesquinha?
- Não sei porque é que ele atirou outras fotografias fora. Talvez ele não pretendesse ser mau. Talvez tenha pensado que tu não querias ser recordada...
- Outras fotografias? - perguntou Laura lentamente. Ian ficou pouco à vontade.
Bom, talvez eu seja responsável, de certa maneira... Laura olhou fixamente para ele.
- O que queres dizer? - perguntou ela.
- Laura, eu apenas lhe pedi que se houvesse fotografias do Jimmy no quarto, que as arrumasse...
- Como te atreveste? - murmurou ela.
- Ouve, não queria estar a fazer amor contigo pela primeira vez sob o olhar curioso do teu falecido marido. Pensei que isso também te poria à vontade.
- E então disseste-lhe para se livrar das minhas fotografias...
- O que eu pretendia era pô-las numa gaveta, ou coisa do género. Ele deve ter percebido mal.
Laura voltou-lhe as costas e fixou o olhar no íman do frigorífico.
- Não vamos apagar todos os traços do Jimmy da nossa vida, quer queiras ou não. As coisas não funcionam dessa maneira.
- Ninguém está a tentar apagá-lo. Mas agora eu sou o teu marido. - Apontou para a aliança, colocando a mão mesmo à frente dela.
- Eu sei. Não tens de o dizer como se fosse uma ameaça. Ian sentou-se à mesa.
- Escuta, tudo o que eu queria era surpreender-te com uma casa linda, quando regressássemos. Tu insististe em voltar para aqui, por isso pensei: "Tudo bem, se é
assim que ela quer que seja, vou fazer com que as coisas pareçam um conto de fadas, o mais
fantástico regresso que uma noiva jamais teve." Mas tudo aquilo em que toco parece correr mal. E eu só queria que tu fosses feliz.
Havia um ar de desilusão no rosto de Ian, como aquele que aparece na cara das crianças, quando as suas prendas mais cuidadosamente pensadas foram postas de parte.
Nesse mesmo instante, Laura sentiu-se culpada. Ian tinha razão, tudo aquilo que ele tentara fazer falhara. Foi então que a altura em que haviam feito amor lhe voltou
ao pensamento. -Nem tudo falhou... - declarou ela.
Ian olhou para ela ansiosamente.
"Não és tu", pensou ela. "Estou furiosa contigo, mas é por causa das fotografias. Por causa das pessoas daqui, que me mandam esta mensagem bem clara. Que eu tratei
a memória de Jimmy como lixo, aos seus olhos. E talvez também aos meus. Por me ter volt
ado a casar tão cedo." Laura tremeu, apesar da noite estar agradável.
- Mal posso esperar para me ir embora daqui - murmurou ela. - Não creio que possa ser verdadeiramente feliz até irmos embora.
-Nunca será cedo de mais para mim - respondeu Ian.
***
CAPÍTULO 22
A carrinha abrandou e Wanda Jurik espreitou pela janela do lado do passageiro para as lojas de que se estavam a aproximar, enquanto Gary fazia sinal de que ia voltar.
- Porque estamos a parar? - inquiriu ela. - Quero ir à florista - respondeu ele.
- Pensei que estavas com imensa pressa para poderes ir pintar.
- Não vai demorar muito tempo.
Wanda fechou a boca em sinal de desaprovação, enquanto Gary colocava a carrinha num espaço em frente da Florista Scott. Wanda saiu do seu lugar e deu a volta para
o ajudar,
mas Gary já tinha conseguido colocar a sua cadeira em posição e já a estava a baixar até ao passeio.
- Não é preciso que tu venhas - disse ele.
Wanda olhou para ele durante um instante, depois voltou a entrar na carrinha.
-Tudo bem, eu espero aqui.
Gary fez avançar a cadeira até à loja, tendo o cuidado de não atingir nenhuma das plantas que se encontravam nos vasos ao pé da porta. Scott DeWitt tinha vestida
uma sweatshirt de Cape Christian com uma das pinturas de Gary. Levantou os olhos do centr
o floral que estava a fazer quando Gary entrou na loja.
- Olá, Gary - saudou-o ele, com ar agradável.
- Olá, Scott - retribuiu Gary, fingindo olhar em volta pela loja.
-Em que posso ajudar hoje?
Gary olhou para as flores. Depois falou, com ar casual. - Queria... queria mandar um ramo de flores a Laura Reed.
Scott olhou para o centro de flores. - Gary...
- O que foi?
Scott procurou a melhor forma de o dizer. Não tinha a certeza se Gary já sabia ou não.
- Sabes, Gary, eu não gosto de andar a dizer coisas, mas... Gary olhou para ele, espantado com a sua resposta.
- O que é que foi? - Sabes do casamento? - Qual casamento?
A expressão de Gary fez recordar a Scott a de um pequeno esquilo que tivesse caído da árvore. Parecia tão indefeso. "É melhor seres rápido", pensou Scott. "Acaba-lhe
com o desgosto."
- Gary, sabes que a Laura se casou ontem?
Gary olhóu para Scott como se ele lhe tivesse subitamente revelado que era um extraterrestre.
- Quero mandar um ramo de flores à Laura Reed - repetiu ele lentamente.
Scott voltou a olhar para ele.
- A Laura Reed casou-se ontem com um homem chamado Ian Turner.
- Isso é mentira - declarou Gary. Scott abanou a cabeça.
-Não é, não, meu amigo.
- Bom, então enganaste-te - acrescentou Gary.
- Mister Turner contratou-me para fazer dez arranjos florais para a casa. Eles foram para o Maryland. Eu tinha de lá ir às oito e meia e acender duas dúzias de velas,
pôr champanhe no gelo, tratar de tudo.
Nessa altura, uma mulher de meia-idade entrou na loja, pela porta das traseiras.
- Podes perguntar à Charlotte - sugeriu Scott. - Foi ela quem me ajudou a pôr tudo em ordem para eles. Charlotte, a Laura Reed não se casou ontem?
Charlotte Halley suspirou. Trabalhava a meio tempo para Scott e, durante o resto do seu tempo, era voluntária na igreja católica.
- Verdadinha, assim Deus me ajude - disse ela. - Ainda o marido não está completamente frio na sepultura... Gary sacudiu a cabeça, como se tentasse compreender as
suas palavras. Depois voltou-se para Scott.
- Falaste à Laura nisso tudo?
- Claro que não. Ele queria fazer-lhe uma surpresa - afirmou Scott encolhendo os ombros.
- E como é que sabes que esse tipo não é - um maluco qualquer? Como é que entraste dentro de casa?
- Com as chaves, naturalmente. Ele tem as suas próprias chaves. Gary, escuta, não há engano nenhum. A Charlotte já tinha ouvido dizer à Fanny Clark, lá da doca,
que a Laura andava a encontrar-se com esse indivíduo.
Gary segurou os braços da sua cadeira de rodas e apertou os maxilares. Depois deu meia volta à cadeira e começou a sair da loja.
Scott fez uma careta quando viu o seu ar angustiado. - Esqueço o ramo de flores? - perguntou ele. Gary não olhou em volta nem tão-pouco respondeu. Assim que entrou
na carrinha, os olhos de Wanda abriram-se, alarmados.
- O que se passa contigo? - perguntou-lhe ela. - Estás com um ar horrível. A tua pele está cinzenta.
- Tenho de ir para um lado qualquer - disse ele. - Eu deixo-a em casa.
- Querido, o que se passa? - insistiu ela com suavidade. - Estás a assustar-me.
- Ouvi uma coisa, da boca do Scott. - O que foi que ele te disse?
- O Scott disse-me que a Laura voltou a casar-se - respondeu ele, como se estivesse a cuspir as palavras.
- Melhor para ela - disse Wanda. - Agora podes parar de andar atrás dessa mulher.
Duas manchas de cor apareceram nas faces de Gary enquanto fixava a mãe.
- Não acredito que ela tenha feito isso. O Jimmy só morreu há uns meses. Seria demasiado cedo até para começar a andar com um homem, quanto mais casar com ele.
-Acho que perdeste o barco, querido - disse Wanda. Sem pensar, Gary levantou o punho, os músculos dos maxilares a fazerem uma força tremenda.
- Nunca mais me levantes a mão, Gary Jurik - avisou-o Wanda. - Sacrifiquei tudo por ti e agradeço que te recordes disso. Ela nunca te quereria, de qualquer forma.
Não da forma que tu és.
Gary ficou a olhar através do pára-brisa da carrinha. -Vou deixar-te em casa, mãe - anunciou ele.
-Não te vais pôr a implorar e a chorar junto daquela mulher! Onde está o teu orgulho?
Gary enfiou a chave na ignição, sem sequer a escutar.
Quando o tempo estava bom, as portas da cafetaria da Escola Primária de Cape Christian eram deixadas abertas e as crianças podiam levar os seus almoços para o ar
livre e sentar-se perto do campo de basquetebol a comer as suas sanduíches. Estava sempre
um professor por perto, passeando por entre eles, mas era, sem dúvida, uma maneira muito melhor de almoçar, do que estar a comer lá dentro, sentados nas longas
mesas do refeitório.
Michael sentou-se sozinho, debaixo de uma árvore e fitou a olhar para as portas abertas, esperando avistar Louis. E, ao mesmo tempo, esperando não ver aquele miúdo
ruivo. Uma rapariga da sua classe, chamada Sara, parou durante um instante à sua frente
, propondo a troca de uma maçã por um biscoito, mas, como ele queria comer os biscoitos todos, ela prosseguiu o seu caminho.
Começou a comer a sua sanduíche, e os seus olhos percorriam constantemente a zona da porta, tomando conhecimento de todas as pessoas que pudessem aproximar-se dele,
vindas na sua direcção. De repente, reparou em Miss Rogers, a encarregada da cafetaria
, a falar com duas pessoas de idade. Levou-lhe apenas um momento até as reconhecer.
- Avô! Avó! - gritou ele. Esquecendo o almoço, correu
para eles, esbarrando nos outros miúdos que encontrou no seu caminho.
- Chegámos agora mesmo da Florida - explicava Dolores. - Íamos a passar pela escola e vimos que os miúdos estavam cá fora e pensámos vir até aqui e dar-lhe um abraço.
Nessa altura, Dolores ouviu-o chamá-la. Voltou-se e viu-o a correr na sua direcção. A cara de Dolores iluminou-se com a alegria.
- Vão lá - disse Miss Rogers num tom compreensivo. - Acho que ele está muito contente por os ver.
Sidney já se tinha agachado e recebeu a primeira explosão de afecto. Depois, foi a vez de Dolores, que o apertou com muita ternura.
Tivemos tantas saudades tuas - disse ela.
- Eu também tive - proferiu ele com sinceridade. -Andem, vamos sentar-nos ali - sugeriu Sidney, apontando um banco debaixo de uma árvore frondosa. Sentaram-se os
três, com Michael no meio dos dois.
-Acabaste o teu almoço? - perguntou Dolores. -já comi - respondeu Michael.
- Trouxe-te uma coisa. O avô e eu fomos às compras. - Dolores meteu a mão num enorme saco de lona e tirou um tubarão de borracha.
- Que bom! - exclamou Michael.
- E isto - continuou Dolores enquanto Sidney observava o ar encantado do rapaz. Dolores deu-lhe um saco cheio de conchas exóticas e um livro sobre conchas.
- Obrigado - disse Michael.
- E ainda... - Dolores exibiu uma T-shirt verde com o desenho de um pato de óculos escuros a fazer surf e uma frase que dizia: "Eu apanhei a onda em Cocoa Beach."
- Posso vesti-la agora? - perguntou Michael. - Agora não - disse Dolores.
- Porque não? - perguntou Sidney: - Deixa-o usá-la. Vá lá, tira a tua camisola.
Michael mudou de camisolas entusiasticamente, depois voltou a encostar-se ao banco, resplandecente naquela T-shirt verde-berrante, com um pedaço de bolo que Dolores
tirara do saco.
- Então, o que tens feito? Como vai a escola? - perguntou Sidney.
O sorriso de Michael desapareceu. - Bem - respondeu ele.
- Estás quase a acabar as aulas - acrescentou Sidney. - É verdade - anuiu Michael. - Posso ir lá passar o fim-de-semana a casa?
- Claro que sim. É melhor para ti! - respondeu Dolores. - Olha, vou pôr isto tudo no saco e depois dou-te no fim-de-semana.
- Posso ficar com as coisas?
- Só vou tomar conta delas. Não as vais poder levar para a escola - disse Dolores.
- Está bem - concordou Michael. As outras crianças que se encontravam sentadas pela relva tinham começado a levantar-se e a encaminhar-se para o edifício da escola,
depois de o professor que estava a tomar conta deles ter anunciado em voz alta que ter
minara a hora do almoço.
- Como está a tua mãe? - perguntou Sidney. Michael olhou para o avô com um ar sério. - Casou-se.
Sidney olhou para Dolores e esta ficou a olhar para ele. Depois, Sidney fez uma festa no cabelo de Michael.
- Estás a brincar connosco, não estás?
- Não, não estou. Mas se calhar não devia ter dito - admitiu ele.
- Michael - chamou Miss Rogers. - Vamos entrar, rápido.
Dolores segurou a criança pelos ombros e fixou-a nos olhos.
- Estavas a brincar quando disseste que a tua mãe se tinha casado?
- Não, ela casou com o Ian. Fomos para o Maryland e depois fomos jantar fora e eu comi duas sobremesas. Mas não contes à minha mãe que eu te contei. Agora tenho
de ir.
Dolores soltou-o, e ele correu em direcção ao edifício, voltando-se para soltar um grito.
-Obrigado pelo tubarão!
Sidney olhou com ar preocupado para a mulher, que estava sentada no banco com um ar sombrio.
-Ele deve estar a fazer confusão - disse Sidney. - Querida, sentes-te bem?
Dolores voltou-se para o marido, de olhos muito abertos e a cara branca como a cal, por baixo do seu bronzeado da Florida. Apoiou-se no braço de Sidney, procurando
o seu auxílio, derrubando o saco de lona do banco quando o tentava apanhar. O tubarão d
e borracha caiu sobre a relva, os dentes à mostra, mesmo junto aos seus pés.
***
CAPÍTULO 23
- Odeio ter de o admitir - disse Laura a Ian -, mas fiquei contente por ele não estar aqui. O mais provável era ter começado a pregar-me sermões, como a uma miúda
de escola.
Tinham passado pelo escritório de Richard para lhe contar as novidades do casamento e para o informar das suas intenções em abandonar Cape Christian. Precisavam
dele para tratar
dos assuntos financeiros e para transferir o dinheiro para uma conta conjunta. Mas Richard encontrava-se no tribunal e a secretária, Adelaide Murphy, tinha feito
o melhor que lhe fora possível para esconder a sua surpresa perante as notícias, fingindo
-se muito ocupada com os papéis que estavam em cima da secretária. Nem sequer se atreveu a olhar para Laura.
Ian fez um sinal afirmativo.
- Os próximos dias e semanas vão ser duros, mas depois estaremos longe de tudo isto e deixa de ter importância o que cada um deles tenha para dizer.
Quando deram a curva para Chestnut Street, Laura viu a carrinha de Gary parada em frente da casa e fez uma careta. - O que foi? - perguntou Ian.
Laura suspirou. - O Gary.
- Quem é o Gary?
- É um amigo. Ele e o Jimmy trabalharam muito juntos. - Bom, então vamos contar-lhe as boas notícias - disse Ian alegremente.
- Ele não vai achar que sejam boas notícias - garantiu
Laura. - Deve estar nas traseiras - acrescentou ela, reparando que a carrinha estava vazia. - É onde está a rampa. -já tinha reparado nessa rampa nas traseiras.
- Foi feita especialmente para o Gary. Ficou ferido num desastre de automóvel, na altura em que andava no liceu. Esta carrinha está especialmente equipada para ele
poder conduzir.
Quando Laura e Ian estavam a sair do carro, Laura ouviu alguém chamar o seu nome. Voltou-se e viu o detective Leonard sair do carro, que estava estacionado do outro
lado da rua.
- Meu Deus! - murmurou Laura. - É como viver num aquário.
-Quem é este? - perguntou Ian quando o detective atravessou a rua e foi ter com eles ao passeio.
- O detective Leonard - anunciou Laura com exagerada polidez. - Gostava que conhecesse o meu marido, Ian Turner.
O detective ficou branco. -Casou com ele?
- É um prazer conhecê-lo - proferiu Ian.
- Na verdade, era de si que eu andava à procura - disse Ron a Ian.
- Não é boa altura, temos companhia, detective - anunciou Laura indicando a carrinha de Gary.
- Pessoas a desejar felicidades, sem dúvida - observou Ron, transformando a mão estendida num punho fechado. - Vá entrando e vá recebendo as pessoas. Eu quero falar
com o seu... marido.
Laura olhou ansiosamente para Ian, mas ele fez-lhe um sinal confiante.
-Vai entrando. Eu já vou ter contigo.
- Porque não nos deixa em paz? - perguntou Laura. Mas Ron não estava a ouvir, fixava Ian, que lhe devolvia o olhar, desafiadoramente. Laura deixou-os no passeio
e foi à procura de Gary.
-Então - disse Ron Leonard -, você é um recém-casado.
Ian olhou para ele, sem sorrir.
- O que é que quer de mim?
-Podemos entrar e sentarmo-nos? - perguntou Ron. - Não vejo qualquer motivo para isso - retorquiu Ian. - Não consegue intimidar-me. Perseguiu a minha mulher até
ao ponto de ela ter medo de si, mas comigo a história será diferente.
Ron parecia lançar chamas sobre o outro homem.
- Tenho andado muito ocupado, ultimamente. A viajar. A fazer umas investigações a seu respeito. Voltei de Barbados ontem à noite.
Ian não mostrou qualquer reacção. - Falei com um homem chamado Winston St. Mercier. Esse nome diz-lhe alguma coisa?
- Claro que sim - respondeu Ian com impaciência. - É um amigo meu.
- A filha dele mostrou-me um livro que lhe deu. Um livro escrito pela... sua mulher.
A expressão de confiança de Ian desvaneceu-se ligeiramente, mas depois recuperou.
-Sim, dei um livro à Sophia.
- Deu-lhe esse livro pouco tempo antes da morte de Mister James Reed Júnior. Numa altura em que o senhor e Mistress Reed não se tinham visto ou falado desde a infância...
- É verdade - assentiu Ian.
-E, no entanto, disse à Sophia que conhecia a Laura Hastings. Que ela era uma bela mulher e que a ia ver em... como é que ela disse? Em Nova Jérsia, nos Estados
Unidos.
Ian abanou a cabeça como se tudo aquilo fosse um engano lamentável.
- Detective, o meu filho era um grande fã dos livros da Laura. Acho que me senti como se a conhecesse. Quero dizer, alguma vez leu um livro do Stephen King? Nunca
sentiu que conhecia um escritor, embora nunca o tivesse realmente encontrado?
- E como sabia que esta escritora vivia em Nova Jérsia? Ian encolheu os ombros, impaciente.
- O mais natural é que o tenha lido numa das badanas de um livro. Não sei. Inventei uma história para agradar a uma criança. Isso é um crime?
- E no entanto, quando o senhor e Mistress Reed se encontraram na doca, confessou a sua completa surpresa a Mistress Clark ao saber que ela era escritora e uma rapariga
que ti nha conhecido. Estava estupefacto, segundo as palavras de Mistress Clark -
declarou Ron sarcasticamente.
- Não tinha somado dois e dois, detective. É um nome vulgar. Talvez tenha visto a fotografia dela, mas não fixei. Estamos a falar de uma criança que eu não tinha
visto, e em quem nem sequer tinha pensado durante vinte e cinco anos. Só quando a vi na d
oca, naquele dia, em carne e osso, é que me ocorreu a lembrança. Uma lâmpada acendeu-se, por assim dizer. Não me tinha ocorrido, percebe? Eu não sou como o senhor.
Não me precipito em conclusões.
- Eu digo-lhe o que o senhor é! - exclamou Ron Leonard. - É um mentiroso, e vou prová-lo.
- Se falou com o Winston St. Mercier, e se se deu ao trabalho de lhe perguntar, então ele ter-lhe-á provavelmente dito que eu estava em Barbados quando o James Reed
Júnior foi morto. É disso que estamos a tratar, não é? A morte do James Reed?
Ron não respondeu. Limitou-se a estudar o outro homem com olhos sombrios.
- Agora deixe-nos em paz - disse Ian friamente. - Queremos continuar com as nossas vidas. A morte do primeiro marido da minha mulher foi uma tragédia, mas não tem
nada a ver comigo.
Quando Laura deu a volta ao canteiro de lilases situado ao lado da casa, viu Gary no alpendre, à espera. Gary voltou-se quando ouviu os seus passos.
- Laura.
- Olá, Gary. - Ela tentou sorrir. - Que te traz cá? - perguntou ela, mas a voz era hesitante. Laura quase podia dar a resposta ao olhar para a cara dele.
-Acabo de ouvir uma coisa incrível.
Laura subiu os degraus do alpendre e sentou-se frente a
ele.
- Ouviste dizer que eu me tinha casado.
Gary olhou para ela. - Quem te disse? -Estive na florista. O Scott... Laura revirou os olhos.
- Ah, sim, o Scott.
- Estava preocupado porque ele me contou uma história estranha sobre uma pessoa que queria uma série de arranjos florais para a tua casa e que devia cá vir e acender
velas e mais não sei quê...
Laura levantou uma mão, como se o quisesse interromper. - Gary, é verdade - disse ela.
Durante um instante, Gary ficou a olhar para ela. Depois falou lentamente.
- Pensei que havia um engano qualquer. Laura abanou a cabeça
-Não. Não há erro nenhum. O Scott estava certo.
- Mas tu não... Tu nem sequer estavas... nem sequer andavas...
- Aconteceu muito rapidamente - afirmou Laura. - Conheci-o há pouco tempo. Quis dizer-te, mas... honestamente, nem eu mesma sabia que se ia tornar tão sério entre
nós. Ele chama-se Ian - acrescentou ela, atrapalhada.
Gary abanou a cabeça.
- É impossível. Como pudeste fazer uma coisa destas? - murmurou ele. - Tu, entre' todas as pessoas.
- Isso não é justo, Gary. Não é crime uma pessoa casar-se. - Quem é esse tipo? - inquiriu Gary.
Laura apertou as mãos, tentando explicar.
- O Ian e eu conhecemo-nos quando éramos crianças. Cruzámo-nos e...
- O Jimmy está morto há quanto tempo? Cinco meses? - interrompeu Gary. - Pensei que o Scott estava a mentir ou que tinha enlouquecido. Quero dizer, quem teria acreditado
numa coisa destas? Cinco meses! Não és a espécie de mu
` lher para fazer isso. Pensei que eras uma pessoa especial. Acima de todas as mulheres.
Gary abanou a cabeça, a angústia e a descrença espelhadas na sua cara.
-Eu acreditei em ti, Laura. Pensei que eras melhor do que as outras pessoas.
- Eu não quero ser melhor do que outra pessoa qualquer. Só quero viver a minha vida. Estava só. Tem sido horrível desde que o Jimmy morreu - queixou-se Laura. Inclinou-se
para ele, tentando agarrar-lhe as mãos, mas ele afastou-as. - Gary, por favor, n
ão estejas assim. Não há muita gente cuja opinião me importe nesta cidade, mas interessa-me saber aquilo que tu achas.
- Devias ter pensado nisso antes. -Por favor, Gary. Deixa-me explicar-te.
- Não podes. Não há explicação possível para aquilo que acabas de fazer. - Fitava-a acusadoramente e, de súbito, ela compreendeu que tinha perdido a sua amizade.
- Lamento que estejas magoado por causa disto.
- Magoado? - perguntou ele sarcasticamente. - Estou mais surpreendido do que magoado. Nunca me tinha passado pela cabeça que não fosses capaz de ter a decência de
esperar, para saltares para a cama com outro homem, que o teu marido...
- Chega! - exclamou Ian friamente, surgindo de súbito. - Já chega. Pára de pedires desculpa, Laura. Não tens de dar explicações a esse tipo.
Laura levantou-se, mortificada. - Ian, por favor.
Ian subiu os degraus do alpendre, olhou Gary de cima e apontou-lhe um dedo.
- Quem pensa você que é, para falar com a minha mulher dessa maneira?
Gary não olhou para cima.
- Por favor, afaste-se. Eu vou-me embora. - Ian, pára! Gary, fica. Vamos conversar...
Gary ignorou Laura e Ian. Fez andar a cadeira até ao alpendre e depois desceu a rampa. Laura inclinou-se sobre a parede do alpendre.
- Gary, vá lá...
Mas ele já tinha desaparecido. Laura deixou cair a cabeça. - Era ele quem mandava as flores, não era? - perguntou Ian.
- Tenho de me acostumar a isto - proferiu Laura amargamente.
- Porque é ele tão possessivo em relação a ti? - perguntou Ian. - Estiveste envolvida com ele?
Laura olhou-o surpreendida. - Queres dizer "um caso"?
- Não fiques tão chocada. Lá porque está numa cadeira de rodas não quer dizer que não seja perfeitamente capaz... - Ele é meu amigo - gritou Laura. - Era amigo do
Jimmy.
- Estava a portar-se como se fosse teu dono. E tu deixaste...
- Por amor de Deus, Ian. Não me chegam os problemas que existem... Ainda tenho de aturar uma estúpida cena de ciúmes da tua parte?
A porta das traseiras da casa do lado abriu-se e Pam saiu com um regador. "Daqui a um instante vai ver-nos", pensou Laura. "Não aguento mais isto, neste momento.
Não quero dar explicações. Não quero ver aquele olhar de surpresa, aquela luta para que u
m sorriso não lhe surja no rosto. Sabias que isto ia acontecer", lembrou-se ela.
-Vou para casa - disse ela a Ian, em voz baixa.
- Sabes, Laura? Não me surpreende que as pessoas desta cidade te acusem de tudo o que seja possível e até impossível. É que tu ages como se fosses culpada de tudo.
- E sou culpada - afirmou Laura olhando para ele. - Fiz uma coisa terrível. Mereço o desprezo de todos. Não sei no que estava a pensar, mas devia estar louca para
casar contigo desta maneira.
Os olhos de Ian flamejaram, mas a sua voz permanecia gelada.
- Talvez... - disse ele. - Talvez tenhas cometido o maior erro da tua vida.
Olharam um para o outro, como estranhos que eram. Laura teve a sensação de que um bando de corvos batia as asas contra a sua garganta, contra as suas costelas, tentando
escapar.
PARTE 3.
COLUMBUS, OHIO OITO DIAS DEPOIS
***
CAPÍTULO 24
Os pés de Rae Noonan estavam inchados e ela fora acometida por uma horrível dor de cabeça. Sabia o que o inchaço nos pés queria dizer, e não era nada de bom. Ainda
tinha três horas de trabalho antes de sair, e não sabia como iria chegar ao fim daquele
turno. Rae trabalhava num lar da terceira idade nos arredores de Columbus. Gostava de estar perto das pessoas de idade, não lhe era difícil animá-las. Algumas palavras,
sentar-se por uns minutos ao pé delas e ver os seus desenhos. E elas perguntavam
sempre por Vicki. Eram velhas e percebiam a importância das crianças. Não interessava o que tivessem sido ou feito, tanto para os homens como para as mulheres, tudo
vinha a convergir nos filhos e nos netos. O futuro daqueles a quem não restava grande
futuro.
Claro que, quando os mais velhos a apanhavam, era quase impossível libertar-se. Os seus dedos ossudos agarravam uma mão-cheia da carne de Rae, e aí ficavam, como
se estivessem a agarrar-se à própria vida. Rae não se importava. Pensava sempre: "Um dia
também serei velha."
Rae suspirou e continuou a dobrar camisas de dormir. Della Waters, uma mulher negra muito amigável, que era enfermeira, meteu a cabeça pela porta da sala de lavar
e engomar. -Telefone para ti, querida. Acho que é a Vicki.
- Obrigada, Della - agradeceu Rae. Pousou a roupa e dirigiu-se para a sala de entrada onde se encontrava o telefone. - Olá, mãe - ouviu dizer a filha de doze anos.
- Estou em casa.
- O que estás a fazer? - perguntou Rae com ternura. -Trouxe uns livros da biblioteca. Vou ler.
Rae conseguia imaginar a filha, o seu cabelo fino como seda até aos ombros, sentada na cozinha, os livros espalhados sobre a superfície de linóleo da mesa da cozinha.
- Como foi a escola?
- Trouxe a minha caderneta das notas - respondeu Vicki. - E então?
-Seis As e um B mais - exultou Vicki.
- Linda menina - disse Rae, toda contente. "Não serás como eu", pensou ela. "Obrigada a apanhar tudo o que possas. Terás orgulho. Irás para a faculdade e arranjarás
um bom em prego e não serás obrigada a depender de ninguém nem de nada." Era o sonho d
e Rae, dia e noite, em relação à filha. Uma vida melhor.
O pai de Vicki tinha-se ido embora quando ela tinha apenas dois anos de idade e Vicki nem sequer se lembrava dele. Travara uma luta bem árdua, mas Rae tinha conseguido
criá -la, manter um tecto sobre as suas cabeças e não faltar com a comida. E Vicki
'crescera no meio daquela vida dura e tinha saído esperta. Representava o mundo para Rae.
- Acho que vou ser médica, mãe - disse Vicki com ar sério. - As ciências são o meu tema favorito. E depois poderei tomar conta de ti.
- Isso será óptimo, querida - respondeu Rae, tentando não pensar no aspecto quase impossível daquela perspectiva. A faculdade de medicina custava uma fortuna. "Mas
eu hei-de arranjar uma maneira", pensou ela.
- Ouve, o tio Herman já voltou?
- Não, mãe. Nenhum sinal dele - respondeu Vicki. Rae esteve para dizer: "Óptimo", mas não disse. - Tens aí comer, se tiveres fome.
- Como é que te sentes? Pareces-me cansada. Rae olhou para os tornozelos inchados.
- Estou bem. Vai lá ler os teus livros. Chego a casa por volta das seis. Não te preocupes comigo.
Rae desligou o telefone e lentamente pôs-se de pé. Quando se voltou, Della estava à sua frente, a olhar para ela de sobrolho franzido.
- Não me pareces lá muito bem -- observou Della. Rae forçou um sorriso.
-Hoje estou com dor de cabeça.
- Chega aqui. Senta-te - ordenou Della. - Quero ver-te a pressão arterial.
- Oh, Della, não te preocupes - protestou Rae, mas sentou-se ao mesmo tempo que Della puxava o esfigmomanómetro e lhe fixava a manga à volta do braço. - Deve ser
por causa do tempo. A minha sinusite - disse Rae enquanto Della dava à bomba e olhava o r
esultado.
- Sinusite uma ova - respondeu Della. - Rae, tens tomado os teus remédios?
- Posso ter-me esquecido de os tomar hoje - proferiu Rae evasivamente.
- Rae, quero que vás para casa, tomes os comprimidos e mantenhas os pés levantados. Por hoje, chega.
Rae protestou fracamente, mas Delia mandou-a calar, abanando a cabeça.
- Queres que arranje alguém para te levar? - perguntou Della.
- Não, a sério. já fizeste bastante. Tenho de admitir que não me importo de ir embora.
-Vai lá - respondeu Della. - Desaparece!
Rae esperou pacientemente pelo autocarro e sentou-se. Voltou a pensar nas notas de Vicki. As excelentes nota da filha. Aqueles pequenos 'ombros carregavam tantas
preocupações.
A vida tinha-lhes corrido bastante bem até ao ano anterior, até ao dia em que Rae começara a sentir náuseas no emprego e depois, no regresso a casa no autocarro,
o seu fôlego perdera intensidade, o seu peito parecendo ter um cavalo sentado em cima del
e; percebera que estava a ter um ataque de coração. Depois de duas semanas no hospital, o mundo cuidadosamente construído por Rae começara a desabar. Sem seguro,
sem emprego, as contas a amontoarem-se. Quando o senhorio lhes disse que tinham de sair d
o apartamento, Rae não teve por onde escolher, vira-se obrigada a recorrer a Herman, seu irmão e único parente vivo. Ou isso, ou ficar no meio da rua. Portanto,
foi pedir-lhe auxilio, e Herman recolheu as duas.
Tinha uma quinta que alugava, afastada do caminho principal. Isso não era de admirar, ele precisava de privacidade. E Rae sabia porquê. A única coisa boa que daí
advinha era o facto de Herman estar muitas vezes fora, "em negócios". A maior parte do te
mpo tinham o local para as duas. Quando ele se encontrava em casa, ela ficava longe dele e obrigava Vicki a fazer o mesmo. "Deixa-te estar sossegada", dizia ela
a Vicki. "Eu vou conseguir que saiamos daqui o mais depressa possível."
Sentia-se quase pronta para se mudar. Uma das outras ajudantes estava a divorciar-se e procurava alguém com quem partilhar a casa. Rae pensou que poderia resultar.
Herman tinha-as deixado sozinhas, mas Rae não queria a filha naquele ambiente. O autoca
rro parou no final da estrada de terra onde a casa de Herman se situava. Rae pegou no seu saco das compras e saiu do autocarro. Começou a andar pela estrada, sob
um túnel de árvores que tornavam o caminho escuro e frio, mesmo de Verão. Só havia três h
abitações na estrada, uma casa e duas caravanas. Essas duas caravanas encontravam-se instaladas praticamente uma em frente à outra, de cada lado da estrada, em clareiras.
No exterior de uma delas via-se uma antena parabólica e, de dentro, vinha o chor
o de um bebé. A outra caravana estava silenciosa, com excepção de um cão preto preso cá fora, que rosnou à passagem de Rae. Ela não gostava nada que Vicki tivesse
de fazer aquele caminho pela estrada, tinha sempre medo que o cão se soltasse e fosse at
rás dela. A casa de Herman ficava situada mesmo no fim do caminho.
Quando chegou à clareira que se alargava à volta da casa de Herman, viu o seu carro estacionado frente à casa, e o coração começou a bater com mais força. Não que
se tratasse de uma pessoa com quem fosse difícil conviver. De facto, ele falava rarament
e. Herman era dez anos mais velho do que Rae, e ela tinha vagas recordações de ele ser um rapaz muito calmo, antes de ir para o Vietname. Metia-se nos sarilhos habituais,
e o pai dava-lhe a mesma quantidade de castigos que qualquer outro. Mas quando v
oltou, estava mudado.
Encontrando-se a viver na sua casa, Rae tentara meter-se nos seus próprios assuntos, mas era impossível não saber, ao fim de algum tempo, aquilo que se estava a
passar. Ao menos
quando ele estava longe, ela não tinha de pensar no assunto. Não tinha de pensar no estado de vida lamentável que era ter de expor uma criança a uma pessoa com a
natureza de Herman.
Rae apertou os lábios e suspirou. "Eu vou ficar bem", pensou ela. "Vou sair daqui em breve", repetia para si mesma. Isso ajudava-a a continuar.
Quando subiu os degraus do alpendre, ouviu vozes vindas do interior.
-Por favor, tio Herman, não! - pedia Vicki. - Nãããooooo...
Rae abriu a porta exterior. Herman estava a agarrar Vicki, amarrada ao sofá, e começava a desabotoar-lhe a camisa com um ar metódico na cara, enquanto a criança
o tentava afastar com os punhos.
O saco de Herman ainda se encontrava no chão, como se ele não se tivesse dado ao trabalho de o desfazer. Entrara pela porta e decidira atacar a sobrinha.
Durante um instante, Rae ficou gelada, incapaz de pensar. Depois reagiu. Procurou dentro do saco do irmão, sabendo o que iria encontrar ali. Tirou uma arma, engatilhou-a
e apontou-a às costas do irmão.
- Sai de cima dela, meu pulha, ou eu mato-te! Herman olhou para a irmã, surpreendido, ao mesmo tempo que Vicki se tentava libertar dele.
- Pousa essa arma, Rae - ordenou ele. - Sai de cima da minha filha.
Herman arrastou-se de cima da sobrinha e voltou-se na direcção da irmã, o cinto desapertado, a braguilha meio aberta. Ainda usava as suas botas de combate. A visão
dele tornou Rae meio louca de raiva, desgosto e frustração.
- Devia ter sabido que uma coisa deste género ia acontecer - disse ela.
- Pousa a merda da arma. O que eu faço na minha casa é da minha conta.
- Vicki, vai para o nosso quarto - gritou Rae. - E fecha a porta à chave.
- O nosso quarto! Gosto disso. O que é que faz com que
ele seja o vosso quarto? Nem sequer o pagam - troçou Herman. - Estou apenas a tentar receber alguma coisa como paga pela minha generosidade.
- Não te aproximes mais - disse Rae. Vicki ajeitou a sua blusa, tentando abotoá-la com mãos trémulas. - Vicki, sai daqui! - voltou a gritar Rae. Herman estava tão
próximo que ela podia sentir o cheiro a cerveja no seu hálito.
- Não faças mal à minha mãe! - exclamou Vicki, levantando-se por detrás dele.
- Calem-se, calem-se as duas! - gritou Herman. - Não aguento o barulho.
Deu meia volta e agarrou Vicki pelo pescoço e fê-la perder o equilíbrio. Ela balouçou no ar, os pés sem apoio, alguns sons guturais a saírem-lhe da garganta.
Rae nem sequer pensou, limitou-se a disparar. O aperto da mão de Herman aliviou-se e Vicki caiu para o chão, arrastando-se em seguida para longe, aos guinchos. Herman
ficou muito quieto e de repente caiu. Rae deu um passo atrás mas não voltou a dispar
ar. Mas também não pousou a arma, nem o tentou ajudar. Ficou à espera, a olhar, pronta a disparar de novo se fosse necessário. Mas Herman não se movia. Havia sangue
por todo o lado.
- Mãe, mataste-o - murmurou Vicki. A jovem tremia por todos os lados.
- Está tudo bem. Não tenhas medo - tranquilizou-a Rae, embora o seu próprio coração estivesse cheio de terror. Na realidade, foram precisos mais alguns minutos para
ele finalmente morrer. Rae segurou a arma contra ela.
- Chama a polícia - murmurou ela para Vicki, tão suavemente como se estivesse a lembrá-la para usar as botas de chuva. - Vai lá.
Os olhos de Rae nunca abandonaram o homem que sangrava a seus pés, não queria correr quaisquer riscos. Queria ter a certeza de que ele estava morto. Uma pessoa de
tanta maldade deveria ter levado mais tempo a morrer
- Está tudo bem - disse ela, quando Vicki começou a chorar. - Está tudo bem. Agora, morreu. Foi pelo melhor. Vai, vai chamar a polícia. Eu fico a vigiá-lo.
***
CAPÍTULO 25
Wanda Jurik ficou a olhar pela janela quando a noite caiu. Onde estava ele? Onde podia ter ido? Não tinha voltado a ver Gary desde o dia em que ele a deixara em
casa e fora procurar Laura Reed. Tinha com ele os seus materiais de pintura. Quando ele nã
o regressou, partiu do princípio de que tinha ido pintar. No entanto, às oito da noite ele não tinha voltado para casa, e Wanda chamou a polícia. O chefe Moore tinha-lhe
dito, com uma impaciência muito pouco velada, que um homem adulto não era dado co
mo desaparecido se não aparecesse em casa para jantar. Isso acontecera há oito dias, e não tinha havido qualquer notícia dele desde então.
Wanda afastou-se da janela e começou a andar pela casa como um gato enjaulado, olhando por todas as janelas, dando um salto de cada vez que ouvia um som, o coração
a bater com esperança e depois afundando-se outra vez.
Voltou à cozinha, onde o seu jantar, em que mal tocara, estava a esfriar no prato. Sentou-se, olhou para ele e depois empurrou-o. Descansou a cabeça nas costas das
mãos. O que quer que lhe tivesse acontecido teria decerto a ver com aquela mulher e com
o facto de ela se ter casado daquela maneira. Wanda sabia das flores que ele lhe mandava, sabia dos seus sonhos secretos acerca de Laura Reed. Sabia isso tudo,
embora ele nem sequer o imaginasse. Ela era capaz de o ler como se fosse um livro. Sempre
fora capaz disso.
Ouviu-se um som no saibro do caminho e Wanda saltou da sua cadeira, o coração a bater, e correu para a janela. Não
conseguia perceber se era a sua carrinha. "Quem mais poderia estar ali a estas horas?", pensou ela, a esperança a pôr a razão de lado. Abriu a porta das traseiras
e deu um passo para o exterior. A brisa do mar tocou-lhe na cara.
- Gary? - perguntou ela. -Não, sou eu, Wanda.
Wanda estacou subitamente, as suas esperanças destruídas pela centésima vez, quando a figura de Vince Moore surgiu da escuridão e ficou iluminada pela luz fraca
do interior da casa. Finalmente ele decidira começar a fazer perguntas sobre Gary.
- Que queres? - inquiriu ela, e depois o coração ficou subitamente apanhado pelo terror. - O que foi? Está... - Tenho algumas boas notícias acerca do Gary. Posso
entrar um minuto?
Wanda afastou-se para o lado e deixou-o entrar para a cozinha. Ele tirou o chapéu e ficou de pé, a segurar nele, junto à porta.
Wanda fechou os punhos para se impedir de o agarrar pelos colarinhos da camisa.
- O quê? - perguntou ela. Reparou que ele deitava um olhar para as cadeiras da cozinha. - Vá, senta-te.
- Obrigado - agradeceu Vince. - Só queria que soubesses que contactámos as empresas dos cartões de crédito e obtivémos uma lista completa das transacções das suas
contas. No dia em que desapareceu, parece que fez um levantamento de uma grande quantia
sobre o seu cartão de crédito. Nada mais, desde essa altura, mas com a quantia que ele levantou, tem dinheiro para bastante tempo.
Wanda ficou a olhar para o chefe. - É só isso? - perguntou ela.
- Bom, isto parece-me ser bastante encorajador - comentou Vince. - Era exactamente deste tipo de informação que estávamos à espera.
Está morto - afirmou ela, sorumbática. - Sei-o. Quando disseste que tinhas novidades, pensei que o haviam encontrado.
- Morto? Porque dizes isso? Eu acho que ele levantou o dinheiro para poder fazer uma pequena viagem. Um dia destes está de volta a esta casa.
- Que espécie de esperança é essa? Isso não quer dizer nada - insistiu Wanda. - Ele pode ter sido atacado e ter sido morto. O cartão foi decerto roubado.
- Ele levantou o dinheiro num banco daqui, Wanda. O caixa disse que ele estava numa cadeira de rodas - explicou Vince pacientemente.
- Gostava de me sentir confortada com tudo isso - disse Wanda com um suspiro. Voltou a sentar-se à mesa, e as lágrimas chegaram-lhe aos olhos. - Mas não sou capaz
de me continuar a enganar. Se ele estivesse vivo, já me teria dito alguma coisa. Não. Te
nho tentado não o admitir, mas eu conheço o meu rapaz. Ele saiu como um animal ferido e tirou a própria vida.
- Oh, por amor de Deus, Wanda. Porque é que ele havia de fazer uma coisa dessas?
- Já te disse na noite em que te liguei pela primeira vez - exclamou Wanda, indignadamente. - Estava tão perturbado por aquela mulher se ter casado outra vez. Ele
tinha uma espécie de paixão por ela. Mas tu não ligaste ao que eu estava a dizer-te.
- Talvez ele tenha ficado perturbado, mas isso não é razão para se ter suicidado.
- Que mais tinha ele como motivo para viver, enfiado naquela cadeira? - perguntou Wanda, abanando a cabeça. - Tive medo disto durante anos. Fiz todos os possíveis
para que ele se sentisse confortável, mas que espécie de vida era aquela? Vince sentiu a
sua fúria a crescer.
- Bom, para começar, ele era um pintor de grande sucesso. Wanda fez um gesto com a mão, como se isso não tivesse importância.
- Estou a dizer-te, eu conheço o meu filho. Ele não teria ido para lado nenhum. Ele nunca ia a lado nenhum. Era-lhe difícil ir onde quer que fosse, por causa da
cadeira de rodas. Quer dizer, todos os locais, em princípio, devem facilitar a vida aos de
ficientes, mas sabes tão bem como -eu que ninguém cumpre a lei. - Olhou para Vince acusadoramente. - Não, ele estava completamente indefeso.
Vince trilhou os dentes. Odiava a maneira como Wanda
falava do filho no passado, embora soubesse que, por vezes, as pessoas tinham de falar nos seus piores receios à polícia. Era a sua forma de procurarem uma segurança.
Mas Wanda era tão pessimista que lhe era difícil simpatizar com ela. Via sempre as c
oisas pelo lado mais negro. Odiava a forma como ela estava sempre a menosprezar Gary, a diminuir a sua vida. Como se as pernas fossem aquilo que dava significado
à sua existência. Vince tinha tido um tio, o seu preferido, que passara toda a sua idade
adulta numa cadeira de rodas, e fora um dos homens mais fortes e vigorosos que ele alguma vez havia conhecido. Tinha sido pai de quatro filhos, dirigira a sua própria
empresa e gostava de desportos. "Foste tu que o tornaste indefeso", pensou ele. "Que
m és tu para dizer que ele não tinha motivos para viver?" Mas depois conteve-se. Wanda estava a sofrer à sua própria maneira e ele não poderia nunca saber o que
se passava realmente no seu coração. E, de resto, de que valia estar a deitar culpas a alg
uém?
- É irónico, não é? - continuou Wanda num tom de voz inexpressivo. - O James Reed pô-lo naquela cadeira de rodas, e agora a sua viúva levou-o até ao abismo.
- De que estás tu para aí a falar? O Jimmy Reed não teve nada a ver com o que se passou. - Vince franziu o sobrolho. Lembrava-se muito bem do acidente, o seu próprio
filho, Rob by, tinha estado no jogo de basquetebol naquela noite. Lembrava-se do medo
que atingira o seu próprio coração quando chegaram as notícias de um desastre envolvendo adolescentes.
- O Jimmy Reed foi a pessoa que o convenceu a ir àquele jogo. Durante uma tempestade de gelo. Os outros rapazes não o queriam lá, mas o Jimmy Reed convenceu-o de
que ele tinha
de ir. Encheu a cabeça de Gary com ideias estúpidas de "ser um dos rapazes". Era sempre assim. Tudo o que o Jimmy Reed dissesse era a Bíblia para Gary. O meu filho
não tinha nada que estar naquele carro naquela noite. Quando lhe tentei dizer isso mesm
o, o Jimmy voltou-se para mim e disse-me: "Preocupa-se demasiado, Mistress Jurik."
Wanda voltou a sentar-se na cadeira e ficou a olhar fixamente para Vince, a luz de uma antiga animosidade a brilhar-lhe nos olhos.
- Mais ou menos o que tu me disseste, na noite em que telefonei a dizer que o Gary tinha desaparecido - insistiu ela. Vince suspirou, compreendendo a implicação,
mas não estava disposto a pedir desculpas.
- Só te estava a dizer qual era a posição oficial do departamento. Um homem adulto não é considerado desaparecido quando não vem a casa para jantar.
- Mas o Gary não é um homem normal - gritou Wanda. Vince abanou a cabeça com tristeza.
- Que coisa terrível para uma mãe dizer! Espero que nunca digas isso ao teu filho.
- Muito provavelmente nunca mais terei a possibilidade de dizer o que quer que seja ao meu filho - respondeu Wanda com amargura.
- Estás a comportar-te como se nós tivéssemos descoberto o seu corpo! Por amor de Deus, Wanda, não é possível que o Gary precisasse apenas de tempo para dar uma
volta e pensar? Se eu fosse a ti - disse Vince acusadoramente -, não seria tão rápido a pe
rder as esperanças em relação ao meu filho.
Ficaram a olhar-se, implacáveis, durante uns momentos, até que o pager de Vince começou a tocar no seu cinto, quebrando o impasse.
- Posso utilizar o teu telefone, Wanda? Wanda encolheu os ombros e Vince dirigiu-se para o telefone que estava fixo à parede e ligou para a esquadra da polícia.
- Tenho uma chamada interurbana para si, chefe - disse Jerilyn Conlon. - Vou-lha passar.
- Está bem - respondeu Vince e ficou à espera.
- Fala o chefe Moore? - perguntaram do outro lado da linha.
- O próprio.
- Chefe, o meu nome é Evans, capitão Orrin Evans. Sou detective da polícia do Ohio. Estou a ligar-lhe de Columbus. - Muito bem.
- Chefe, temos entre mãos um homicídio que pode ter algum interesse para si.
Vince fez uma careta. De repente viu uma imagem de Ga
ry Jurik, puxado da sua carrinha em qualquer área de serviço numa auto-estrada. Assaltado por rufiões. Incapaz de se escapar deles. E Wanda, mesmo ali sentada ao
seu lado, pronta para dizer: "Eu bem te tinha avisado", e depois desfeita em mil pedaços.
"Por favor, meu Deus", pensou ele, "isso não."
- E então, capitão Evans?
- Um indivíduo chamado Herman Powell foi atingido até à morte pela irmã, ao final da tarde de hoje. Quando ela chegou a casa, encontrou-o a tentar abusar da filha,
de doze anos, e matou-o com a sua própria arma.
Vince fez uma careta de nojo. -Não posso dizer que a culpe...
- Pois não. De qualquer forma - continuou o capitão Evans -, descobrimos uma coisa muito interessante acerca deste Herman Powell. A irmã dele sabia, ou pelo menos
suspeitava. Parece que o Herman Powell era um assassino profissional. Anunciava; de rest
o, os seus serviços numa dessas revistas paramilitares. Uma publicação de direita chamada Merc. Vince franziu a testa, concentrado.
- Um assassino profissional? - perguntou ele.
- Exactamente - respondeu o capitão Evans. - A irmã dele tem sido muito cooperante. Sente-se, de resto, bastante aliviada por ter finalmente contado tudo. Estamos
apenas a começar a ver as coisas do Herman Powell, mas já encontrámos uma série de objec
tos que pensamos estar relacionados com as mortes que terá praticado. Felizmente para nós ele não teve tempo de pôr os seus negócios em dia, está a perceber, chefe?
Eu já estive ao telefone com a polícia do Michigan e do estado de Nova Iorque, a propó
sito de diversas informações que ele tinha escrito. E entre as coisas dele descobrimos elementos e a morada de um tal James Reed Júnior, aí da sua cidade.
- Oh, meu Deus! - exclamou Vince.
- Esse James Reed Júnior foi assassinado, não foi? - Foi, sim - afirmou Vince.
- Era o que eu pensava - retorquiu Evans com um tom de satisfação que raiava o deleite. - Foi morto a tiro?
- Exactamente.
- Posso perguntar-lhe qual foi a arma do crime?
- Uma Smith and Wesson calibre trinta e oito - respondeu Vince. O suor tinha-lhe surgido na testa e as mãos agarravam com força o telefone.
- Bom. Mister Powell tinha na sua posse uma arma dessas, embora tivesse muitas outras. Chefe, acho que vai querer vir até cá e dar uma olhadela à arma, bem como
inspeccionar os objectos do Herman Powell. Temos uma série de jóias e objectos pessoais qu
e Mister Powell, aparentemente, tirou às suas vítimas. É capaz de querer ver tudo isso.
Vince olhou para o relógio.
- Vou apanhar o primeiro avião que puder para Atlantic City ou para Filadélfia, amanhã de manhã. Pode dar-me os pormenores?
Wanda levantou-se, curiosa, e aproximou-se do telefone. Vince fez sinal de querer escrever e Wanda foi-lhe buscar um bloco de papel e um lápis. À medida que Evans
ia falando, Vince tomava notas.
-Vamos ter aqui amanhã um grande número de agentes - disse o capitão Evans, como se estivesse a prometer uma reunião da classe. - Esperamos vê-lo por cá.
- Agradeço muito estas informações - disse Vince. Desligou e procurou o número de telefone de casa de Ron Leonard.
- Preciso de fazer outra chamada - disse ele.
- O que se passa? - perguntou Wanda ansiosamente. - É acerca do Gary?
Vince respondeu enquanto ia marcando o número de Ron. -Não, não é.
Ron Leonard atendeu o telefone.
- Ron, fala o Vince Moore. Acabo de estar ao telefone com a polícia do estado do Ohio. Temos pistas sobre o caso Reed.
Os olhos de Wanda brilharam com interesse. Vince olhou para ela, com ar de aviso, e ela afastou-se do telefone.
***
CAPÍTULO 26
A fachada do tribunal do condado de Cape Christian reflectia uma era em que a graça e o espaço nos edifícios públicos eram normas. As portas duplas de madeira de
carvalho com os seus vidros esfumados eram pesadas, como que para transmitir um sentido d
o peso e da magnitude dos acontecimentos que tinham lugar no seu interior. No átrio da entrada, no entanto, o edifício parecia diferente. Tinha sido renovado mais
recentemente e tornado mais moderno. Nada restava dos ornamentos e dos painéis que, em t
empos, haviam definido o seu interior. Todas as superfícies eram lisas, brancas e severas. A entrada para o edifício era vigiada por um guarda que se encontrava
por trás de um painel de plexiglas. O chão de mármore fora coberto com uma carpete industr
ial, e a temperatura estava controlada pelo ar condicionado. No interior, a sala de audiências, igualmente modernizada, fervilhava de agitação.
Dolores e Sidney entraram no tribunal e identificaram-se junto do segurança, colocado atrás do painel de plástico. Tinham estado a ver televisão quando chegara o
telefonema do
gabinete de Vince Moore, pedindo-lhes para irem ao tribunal. Melhor dizendo, Sidney estivera a ver televisão, Dolores andara pela casa, a arrumar coisas que já estavam
arrumadas, ignorando os pedidos do marido para se juntar a ele no sofá, e para rela
xar durante uns momentos.
- O promotor público Jackson está à vossa espera - anunciou o guarda com ar sério, e carregou no botão para que a outra porta se abrisse.
Sidney segurou o braço da mulher e conduziu-a ao gabinete. Era estranho ser convocado para o tribunal àquela hora da tarde. Dolores tinha tentado obter informações
junto da pessoa que telefonara, mas não obtivera qualquer resultado.
- É alguma coisa importante - observou ela a Sidney, depois de desligar o telefone. - Sinto-o.
"Meu Deus, por favor põe um fim a tudo isto", pensou Sidney. Já não suportava vê-la sofrer mais e Dolores andava constantemente um farrapo. Mal dormia, esquecia-se
de fazer as refeições. Era quase tão mau como nos primeiros tempos que se haviam seguid
o à morte de Jimmy. E desde que soubera do segundo casamento de Laura, parecia que tinha ficado uma mulher possessa. Por vezes, a meio da noite, Sidney acordava
de repente e descobria que o lugar a seu lado na cama estava vazio. Nessas alturas encontr
ava-a geralmente na cozinha, a beber café, e não havia forma de a convencer a voltar para a cama. E ninguém podia suportar esse stresse indefinidamente. "Que seja
desta vez", pensou ele. "De uma maneira ou de outra."
O promotor público Jackson estava sentado por trás da sua enorme secretária, com Ron Leonard a seu lado e Vince Moore sentado à sua direita. Encontrava-se igualmente
presente um funcionário do tribunal, que se preparava para fazer uma gravação. O prom
otor público apontou as cadeiras situadas à sua frente. Dolores olhou com ar preocupado para Sidney e depois sentou-se. Sidney sentou-se ao seu lado, colocando o
seu braço protector sobre as costas da cadeira dela.
- Dolores e Sidney Barone - disse Vince -, este é o promotor público Clyde Jackson.
Sidney levantou-se da sua cadeira e inclinou-se sobre a secretária para apertar a mão de Jackson.
- Já nos conhecemos - disse Sidney. Dolores sorriu fracamente, não confiando nos seus joelhos para suportarem o peso do corpo. Estavam todos ali. "É qualquer coisa
importante", pensou ela.
Vince olhou para o promotor, que lhe fez um sinal para continuar.
- Dolores e Sidney. Surgiu qualquer coisa relacionada
com o assassínio do Jimmy - anunciou o chefe da polícia. - Tentei contactar a Laura, mas ela não estava em casa.
- Deve andar por aí com o seu novo marido - comentou Dolores, amarga.
- Temos os nossos homens à procura deles neste momento - prosseguiu Vince.
Os olhos de Dolores abriram-se muito.
- O que é, Vince? O que é que se passa?
Vince aclarou a voz e pensou como havia de começar. "O melhor é ir direito ao assunto." O promotor público abriu a- gaveta da sua secretária e tirou de lá um saco
de plástico. Empurrou-o na direcção de Dolores, que lhe pegou com uma expressão de surpr
esa na cara.
- Gostava de saber se é capaz de identificar os objectos que estão nesse saco - proferiu Clyde Jackson.
Dolores segurou o saco nas mãos e deu-lhe uma volta. - Por favor, não o abra - pediu o promotor público. - Isso são potenciais provas de um crime. Examine os objectos
através do plástico.
Obedientemente, Dolores segurou o saco sob o candeeiro da secretária e estudou o seu conteúdo. O ouro do relógio brilhava à luz. Puxou-o- para junto do plástico
e leu a inscrição que tinha na parte de trás: "Da mãe e do Sidney", podia ler-se, e o ano
em que Jimmy se formara. Sidney tinha insistido naquele relógio muito caro. Era importante para um homem que iria entrar no mundo dos negócios ter o relógio certo,
dissera Sidney. No saco também estava um anel - um anel de diamante que fora dado a Dol
ores pela sua avó, quando ela era uma jovem. E ela tinha-o dado a Jimmy, para que ele o desse um dia à sua noiva. Nunca supondo... Dolores deu uma volta aos objectos
e viu outro anel, o da classe de Jimmy no liceu. Corri os dedos tocou na pedra cor de
rubi e percorreu o número de anos, gravados nos lados. Na gasta superfície do interior, mesmo através do plástico, mal conseguia ver as iniciais que ela conhecia
tão bem. O coração batia-lhe forte e as lágrimas chegaram-lhe aos olhos. Agarrou o saco
junto ao colo, com ambas as mãos. Enquanto procurava afastar as lágrimas, os seus olhos ganharam uma expressão distante, como se estivesse
a olhar para o passado - um aniversário, um final de curso, tempos felizes, há muito idos. Antes de o seu mundo ter desmoronado.
- Reconheces esses objectos? - repetiu Vince. Ele já sabia a resposta. Tanto Dolores como Laura tinham-lhe descrito as jóias desaparecidas até ao mínimo pormenor.
No momento em que os vira, etiquetados sobre uma mesa da polícia do estado de Qhio, ele
soubera imediatamente.
Dolores aquiesceu.
- Estes objectos eram do Jimmy - disse ela com voz trémula. - Isto pertencia ao meu filho.
Sidney deu-lhe uma palmadinha no ombro.
- Está tudo bem, querida - disse ele. Tirou-lhe o saco de plástico com suavidade e colocou-o sobre a secretária. Depois segurou-lhe as mãos, como se a estivesse
a preparar para uma aterragem difícil.
Dolores olhou para Vince.
- Onde os encontraste? - perguntou ela.
Vince trocou um olhar com o promotor público Jackson, que lhe fez um sinal quase imperceptível. Vince passou a língua pelos lábios e falou com muito cuidado.
- Fui ao Ohio hoje, com o aqui presente detective Leonard. Estes objectos estavam entre os haveres de um homem chamado Herman Powell, que foi morto ontem...
- Morto? Como? - perguntou Dolores, confusa.
- Foi morto durante um incidente de violência doméstica. Depois da sua morte, algumas das suas actividades vieram à luz do dia. E fomos informados pela polícia do
estado do Ohio. Descobrimos essas jóias na sua posse, bem como alguns documentos que ide
ntificavam Jimmy pelo nome. Foi assim que eles souberam que deviam telefonar-nos.
- Estás a querer dizer... - gaguejou ela.
- Também recuperámos a arma que matou... o teu filho. A arma do crime. Embora, ainda estejam a ser feitos mais alguns testes.
- Oh, meu Deus! - exclamou Dolores, chegando-se mais à frente na cadeira, o choque, a esperança e a confusão a misturarem-se no seu rosto. - Foi ele? - perguntou
Dolores,
olhando para as mãos, seguras nas de Sidney. - Então sempre havia um homem. O que ela disse era verdade. - Toda a gente presente na sala sabia que ela estava a referir-se
a Laura. - Meu Deus, perdoa-me, tenho sido tão injusta com ela. Então foi esse o
homem que matou o meu filho.
-Acreditamos que sim - disse Vince.
Dolores voltou-se para Sidney, e o alívio espelhado no seu rosto encheu-o de alegria, mesmo naquele momento de tristeza. - Oh, Sidney!
- Graças a Deus - disse ele.
- Receio que não seja tudo - acrescentou Clyde Jackson.
***
CAPÍTULO 27
As estrelas brilhavam no céu cor de tinta e a água parecia de prata sob a luz do luar. Laura fechou os olhos e tremeu, de agrado, quando o frio da brisa nocturna
lhe acariciou a pele. As únicas luzes, para além da da Lua e das estrelas, eram as luzes
vermelhas e verdes dos mastros e dos lados do barco, que se reflectiam na água. À distância, Cape Christian parecia uma corrente dourada, a aproximar-se.
- Que noite perfeita - murmurou ela. Pam tinha convidado Michael para comer cachorros-quentes e assistir a um vídeo, por isso Laura e Ian tinham aproveitado a oportunidade
e dado um passeio junto à costa até um restaurante num porto não muito longe. H
aviam jantado à luz das velas e regressado ao barco, de braço dado, quando se começou a fazer tarde.
- Dentro em breve - disse Ian -, todas as noites serão assim.
- Mal posso esperar - retorquiu Laura. De alguma maneira, tinham resolvido a discussão acerca de Gary e feito as pazes apaixonadamente. Na semana depois desse incidente,
ela dedicara os dias a arrumar coisas na casa, com Ian a ajudá-la. Queria todos o
s seus pertences arrumados em caixas antes de partirem. Dessa forma, tudo poderia ser enviado quando eles se instalassem, no Outono.
- Ei! - exclamou ela. - É da minha imaginação, ou estamos a parar?
- Eu tive uma ideia - respondeu ele. - Pensei em lançar a âncora durante algum tempo.
- Mas estamos quase no porto.
Ian pôs os braços à volta dela e murmurou junto ao seu cabelo.
-Nunca fizeste amor até o teres feito no mar.
- Não podemos, Ian. Temos de ir buscar o Michael. - Ele pode ficar em casa da Pam mais um pouco. Laura fugiu dos braços dele.
- Não posso abusar assim dela. Para além disso - acrescentou suavemente, percebendo como a sua resposta tinha sido rígida -, temos o Verão todo para fazer amor no
mar.
Ian deixou-a afastar-se com uma careta.
- Tens a certeza de que é essa a razão? - perguntou ele. - O quê?
- O Michael. Ou é apenas uma desculpa?
- Uma desculpa? - espantou-se ela. - Desculpa para quê?
- Para não fazeres amor comigo. Tenho a sensação de que me estás a evitar.
- Oh, Ian, isso é ridículo. Tenho um rapazinho que passou por tanta coisa e que precisa de se sentir seguro, de saber que eu não o vou abandonar. Estás a tentar
obrigar-me a escolher entre ti e o meu filho?
-Claro que não - respondeu ele. Mas, Laura viu uma centelha de raiva no seu olhar.
- Como podes ter dúvidas a meu respeito? - perguntou ela. - Casei contigo, não foi? Claro que quero fazer amor contigo.
Ian voltou-se para içar a âncora e, à medida que ele o fazia, Laura foi invadida por um sentimento de culpa. Se ela fosse perfeitamente honesta consigo mesma, era
capaz de chegar à conclusão de que havia alguma verdade nas queixas que ele lhe fazia. N
ão era ele, nem a sua forma de fazer amor. Mulher alguma poderia pedir um amante mais apaixonado. Mas mesmo nos momentos mais escaldantes dos seus encontros, era
como se um pequeno demónio ansioso se apoderasse dela, obrigando-a a pensar em Jimmy. Sem
pre que ela e Ian faziam amor, era como se Laura sentisse que Jimmy estava ali, a olhar. Não no sentido de um fantasma ou algo semelhante, era apenas
uma combinação de saudade e de pena, enchendo-a de dúvidas acerca de... coisa nenhuma, nada, realmente. "Há-de passar com o tempo", disse ela a si própria. "É natural",
tentava convencer-se. Mas quem poderia dizer o que era natural, naquelas bizarras
circunstâncias? Entretanto, havia Michael, em quem devia pensar. "Cinge-te às coisas práticas", pensou Laura. Não conseguia divertir-se sabendo que o filho podia
estar ansiosamente à espera dela.
- Muito bem - disse Ian. - Estamos a caminho.
- Ian... - Ela queria dizer: "Amo-te." Ele olhou para ela, à espera. - Obrigada - concluiu Laura.
Sentindo as suas reticências, Ian veio para o pé dela e ficou a olhar as luzes no horizonte.
- Sabes como são as crianças. Quando estão à espera, cada momento lhes parece um dia inteiro. Tenho a certeza de que o Phillip também era assim.
Ian voltou-se para ela, os olhos incendiados. Laura sentiu-se imediatamente envergonhada de si própria, por ter invocado a memória do filho dele para o tentar persuadir
do seu ponto de vista. .
- Desculpa - disse ela. - Eu não queria reavivar memórias dolorosas.
- Eu nunca esqueço o Phillip. Nem por um instante que seja.
Laura mordeu o lábio e baixou os olhos, não queria ver a fúria na sua cara.
- Desculpa - repetiu ela.
- É por causa do Phillip que eu estou aqui contigo, agora. Por causa do Phillip... eu soube que tinha de mudar a minha vida. Não tens de me lembrar...
Laura estendeu á mão e pousou-a sobre o braço dele. Os seus músculos estavam tensos, as suas costas rígidas.
- Tens razão, não devia ter dito aquilo. Querido, temos toda a nossa vida para nos amarmos. Não precisamos de nos apressar.
Ian não respondeu e pôs a trabalhar o motor, preparando-se para a entrada no canal. Um vento frio soprou e Laura tremeu quando se aproximavam do porto.
- Estou cheia de frio - disse ela. - Importas-te se eu for para baixo?
Ian encolheu os ombros e Laura suspirou. Desceu as escadas até à cabina, onde uma pequena luz estava acesa. Sentou-se a um canto, embrulhando-se num cobertor. A
imagem de Phillip e Gabriella parecia estar a olhar para ela, desde as profundezas do barc
o. Laura estudou-lhes os rostos e pensou em Ian. Para ele também era difícil recomeçar tudo de novo. Põe-se tanto coração, tanto esforço, num casamento e nos filhos,
como se se estivesse a escalar um pico montanhoso e depois, subitamente, damos connos
co a cair até ao fundo. Ao fim de algum tempo, com sorte, tenta-se reiniciar a subida uma vez mais. Mas é desencorajador começar de novo. Não importa o quanto se
queira.
"Eram muito felizes?", interrogou-se ela, olhando os rostos sorridentes da fotografia. "Alguma vez o libertarão? Alguma vez o Jimmy me libertará?"
- Laura. - A sua voz soou em cima,- fria. - Estamos quase a chegar.
Ela dobrou o cobertor e subiu para o convés. De repente, o seu olhar avistou a luz vermelha de um carro da polícia estacionado junto ao cais.
- Está um carro da polícia no pontão - exclamou ela. - E então?
- Não sei. Tenho um pressentimento. E se tiver acontecido alguma coisa ao Michael? - perguntou Laura.
--Não aconteceu nada ao Michael - garantiu ele, enquanto desligava o motor. - Porque é que havia de ser para nós? Estamos no Verão, há montes de barcos a entrar
e a sair daqui.
-Tens razão - concordou ela.
Todavia, não era capaz de afastar os olhos da luz vermelha, e quando Ian começou a atracar o barco Laura não ficou surpreendida - preocupada sim, mas não surpreendida
- ao ver um polícia de uniforme a encaminhar-se para eles. Geralmente ajudava Ian a
recolher as velas, uma vez que estava a tentar ser uma auxiliar capaz na viagem que se aproximava, mas desta vez saltou directamente para o cais, no momento em que
o polícia se aproximava.
- Laura Reed? - perguntou ele.
O sangue de Laura ficou gelado. "Turner", pensou ela, mas não o corrigiu. Ian parou o que estava a fazer e olhou para eles.
- O meu filho está bem? - perguntou Laura.
- Não sei nada do seu filho - respondeu o agente. - O promotor público Jackson quer falar consigo e com o seu marido no tribunal. Este senhor é o seu marido?
Ian acabou de enrolar a vela grande e saltou para o cais. Ele e Laura trocaram um olhar.
- É, sim - respondeu Laura. O alívio por saber que não tinha acontecido nada a Michael transformou-se numa súbita irritação. Era o costume, mais perguntas e intromissões
na sua frágil privacidade. - O que se passa de tão importante para termos de lá v
oltar a estas horas da noite? - perguntou.
O polícia fez uma careta.
- Parece que descobriram o homem que matou o James Reed - disse ele.
Por um momento pareceu a Laura que o seu coração tinha parado. Que o mundo tinha parado. E um instante depois, quando voltou a bater, fúria, gratidão e alívio misturaram-se
dentro dela.
,- Oh, graças a Deus! Quem foi? O polícia abanou a cabeça. -Vai ter de ir lá saber.
- Ian, ouviste isto? - gritou ela. - Vamos lá. Depressa! - Se fosse a si, não estaria com tanta pressa - disse o polícia.
Mas Laura não o ouviu, já ia a correr para o carro.
***
CAPÍTULO 28
Um grupo de repórteres e de fotógrafos tinha-se juntado do lado de fora do edifício do tribunal onde se situava o gabinete do promotor público. Carrinhas das televisões
estavam es tacionadas na curva e os operadores de câmara procuravam os melhores lo
cais de filmagem. Um agente mantinha-os afastados, não permitindo que entrassem no edifício. Laura e Ian emergiram da parte de trás do carro preto e branco, e foram
confrontados com os flashes e uma quantidade infindável de perguntas.
- Não sei - ia Laura dizendo, à medida que um polícia abria caminho para os dois. - Por favor, eu ainda não sei de nada.
Entraram no edifício e caminharam em direcção à zona resguardada onde estava o segurança. Era um negro, armado, e estava a falar ao telefone.
- Ei, Marty! - disse o polícia. - Abre-nos a porta. Marty deixou perceber que tinham de esperar um instante até que ele terminasse a chamada telefónica. Enquanto
falava, olhava as pessoas que estavam a passar por ele e levantava as sobrancelhas.
De repente, a porta abriu-se e Sidney e Dolores saíram, seguidos por dois polícias.
- Sidney, Dolores! - exclamou Laura, surpreendida. O que se passa?
Laura ficou admirada ao ver o débil estado físico em que Dolores se encontrava. Não tinham voltado a estar frente a
frente desde o funeral. A partir de então, Dolores tornara claros os seus sentimentos e as suas suspeitas ao evitar Laura totalmente. Agora, no entanto, parecia
que tinham encontrado o assassino de Jimmy. Laura estava preparada para perdoar e esquecer
, seria um alívio para todos terem finalmente paz de espírito.
Porém, quando Dolores se voltou e viu Laura, os seus olhos encheram-se não de alívio, mas de ódio.
-Tu! - disse Dolores. - Tu, minha bruxa malvada! - Cuidado com o que diz à minha mulher - protestou Ian.
- Dolores! - gritou Laura, tomada de surpresa. - Este polícia disse que tinham encontrado o homem...
- O teu assassino - exclamou Dolores. - O assassino que tu contrataste.
- O quê?! - Laura sentiu os joelhos cederem e Ian correu para ela, segurando-a.
- Não te faças de inocente. Meu Deus, és alguma espécie de diabo? Não te vais safar disto, toma nota do que te digo. Vais pagar isto tudo!
- Um assassino contratado? - gritou Laura.
Quando ouviu a pergunta de Laura, Dolores saltou para ela e deu-lhe uma bofetada. Sidney e um dos polícias avançaram e seguraram Dolores.
Laura gritou, com o choque e com a bofetada. A porta do tribunal abriu-se e surgiu Ron Leonard.
- Deixa-me dizer-te uma coisa - prosseguiu Dolores. - Podes pensar que te safaste disto, mas Deus está contra ti. Pensaste que este tipo ia desaparecer e, durante
algum tempo, tiveste sorte. Mas ele foi descoberto. E tu vais ser a seguir. Vão descobri
r as provas e, quando o fizerem, não descansarei enquanto tu não fores para a cadeira eléctrica. E ele contigo! - gritou ela, apontando Ian.
- Está louca! - exclamou Laura.
- E mais uma coisa, não vais ficar com o meu neto. Não me interessa quanto tempo vai levar, mas hei-de afastá-lo de ti. Não vais criar o filho do meu filho, depois
de teres preparado a morte do Jimmy.
- Pare! - gritou Laura. - Pare com isso. De que está a falar?
- Diz-lhe, Sid! - gritou Dolores, com a cara vermelhfssima e os olhos a quererem saltar das órbitas. - Diz-lhe que a vamos fazer pagar por isto!
De repente um olhar de medo estampou-se-lhe no rosto, como se estivesse no telhado de um prédio muito alto.
- Que foi, querida? Ajudem-me! Que alguém me ajude! - pediu Sidney.
- Vocês os dois, entrem - ordenou Ron Leonard. - Marty, chama os paramédicos. Rápido!
- Querida - murmurava Sidney. - Querida, fala comigo.
Laura sentiu-se ser levada para o interior do edifício. Não viu Dolores a ser amparada por Sidney e um polícia, os olhos ainda muito abertos, a pele agora de um
branco de morte.
Duane Garrity seguiu a mulher até à cozinha, depois de ela ter desligado o telefone, e ligou o aparelho de televisão para ouvir as notícias. Abanou a cabeça, como
se não acreditasse, enquanto o repórter relatava os últimos desenvolvimentos do caso Ree
d.
- Estás a ver? - disse ele. - Eu disse-te. Disse-te desde o principio.
Pam abriu o frigorífico e começou a tirar os ingredientes para fazer sanduíches para o almoço dos rapazes.
- Põe o som mais baixo - pediu ela. - O Michael pode ouvir.
- Ele vai ter de saber, mais cedo ou mais tarde - disse Duane.
Pam espalhou maionese num pedaço de pão e colocou uma fatia de carne por cima.
- O que é que querias que eu fizesse? - perguntou ela defensivamente. - Que lhe dissesse que não ficava com o miúdo esta noite?
- Para começar, nem sei o que é que ele cá está a fazer - respondeu Duane.
- Pensei que ias passar a noite na base - disse ela. - Não estava à espera que viesses para casa.
- Por outras palavras, estavas a fazer isso nas minhas costas.
- Não, não estava. É só que, quando tu não estás, não faço grandes refeições, faço coisas de que os miúdos gostem. E, para além disso, eu convido quem quiser para
a minha casa - concluiu ela desafiadoramente.
- Pammy, tu não estás a perceber que esta mulher significa sarilhos. E quero dizer mesmo sarilhos dos grandes.
Pam colocou um pedaço de pão por cima e começou a cortar a sanduíche ao meio. Não respondeu ao marido. Os acontecimentos da noite anterior tinham-na abalado um pouco.
Nunca pensara que Laura fosse capaz de uma coisa daquelas, mas tinha de admitir que
aquele casamento repentino a apanhara de surpresa. Claro que tinha encorajado Laura a sair de casa, a encontrar amigos, mas casamento? E agora aquilo, um assassino
contratado. Mesmo assim, não podia ser...
Duane viu o conflito interior da mulher reflectido na sua cara e aproximou-se dela. Pôs um braço à sua volta e abraçou-a até ela esboçar um sorriso débil.
- Tu és tão boa! Queres sempre pensar o melhor de toda a gente - disse ele suavemente. - Mas o mundo está cheio de gente má, querida.
Pam suspirou e começou a fazer uma sanduíche para Michael. Estavam nos últimos dias de aulas e ele precisaria de levar almoço. Sentiu pena dele. Ele era o inocente
em tudo aquilo. Ela sabia distinguir o bem do mal e, não importava o resto, era errado
fazer com que as coisas recaíssem sobre Michael.
- Duane, não me importa o que tu digas, mas eu não vou tratar o Michael de maneira diferente, porque ele não fez nada para merecer isso. - E as lágrimas surgiram
nos olhos de Pam.
Duane suspirou e comeu alguns bagos de uva que tirou da taça que estava sobre o aparador.
-Acho que tens razão acerca disso, querida - disse ele. - Quando tens razão, tens mesmo razão. Mas deves concordar que as coisas parecem estar feias para a tua amiga.
A mão de Pam tremia quando voltou a guardar a maionese no frigorífico.
-Não posso acreditar nisso - respondeu ela teimosamente. - Não posso.
Sidney sentou-se ao pé da mulher, deitada na cama, e afastou-lhe o cabelo da testa com um pano molhado. Dolores estava ligada a uma série de aparelhos e monitores,
máquinas que registavam todas as pequenas variações dos seus sinais vitais.
Os olhos de Dolores mantinham-se fechados, mas não estava a dormir, apesar dos medicamentos que lhe tinham dado a tomar. No entanto, parecia um pouco menos tensa
do que tinha estado e Sidney sentia-se grato por isso. Ele ouviu a porta do quarto abrir-
se e um jovem médico entrou. Sidney olhou para a etiqueta onde estava escrito o seu nome, mal podendo acreditar que aquele jovem fosse médico.
- Mister Barone? Sou o doutor Pitkin. Encontrámo-nos na sala das urgências.
Sidney fez um sinal de aquiescência com a cabeça, embora as suas recordações de tudo o que tinha acontecido desde que Dolores tivera o colapso fossem muito esbatidas.
- Como está ela? - perguntou o médico com um tom de voz agradável.
- Parece estar a descansar - respondeu Sidney.
O Dr. Pitkin sorriu e Sidney perguntou-se como é que eles conseguiam sorrir enquanto olhavam para caras tão preocupadas. Devia ser um truque da profissão, pensou
ele.
- A notícia boa é que ela não teve um ataque de coração. Foi angina.
- Graças a Deus! - exclamou Sidney, soltando um enorme suspiro de alivio.
- Foi violento, claro, e ela precisa de fazer mais exames. Quero fazer-lhe notar que se trata de uma coisa séria... e que pode ser um aviso de outros problemas futuros.
Sidney assentiu com a cabeça. Não se chegava aos sessenta e cinco anos de idade sem ter ouvido falar. dos perigos que tais acidentes representavam.
-Não precisa de mo dizer, doutor.
- Vamos mantê-la aqui durante mais um dia ou dois, fa
zer esses exames e depois, quando a levar para casa, vai ter de a manter sossegada. Vai ter de impedir que ela se exalte. Sidney suspirou.
- Isso é que não vai ser fácil.
- Percebo que não, mas é de extrema importância - prosseguiu o Dr. Pitkin, deitando um olhar a Dolores e vendo que ela estava de olhos abertos. - Como se sente,
Mistress Barone?
- Ouvi-o a falar de mim - disse Dolores.
- Não se vai poder enervar, compreendeu isso? Dolores olhou fixamente para ele.
- Obrigado, doutor - agradeceu Sidney. - Fico muito aliviado por saber que não foi um ataque de coração. -Mas podia muito bem ter, sido. Vamos fazer mais exames
e, entretanto, vou-lhe dar uma dieta especial, Mistress Barone. E alguns remédios para tom
ar. Vamos tratar de tudo isso antes de se ir embora.
- Quando é que me vou embora? - perguntou Dolores. - Tenha calma - respondeu o médico. - Provavelmente, depois de amanhã. E o senhor também precisa de descansar,
Mister Barone.
- Obrigado, doutor. Boa noite - despediu-se Sidney quando o jovem médico sorriu outra vez, fez um gesto com a mão e se encaminhou para a porta.
Sidney voltou a sentar-se ao lado de Dolores.
- Ouviste o que ele disse? - perguntou ele com ar autoritário, mas sabendo que não valia de nada.
Dolores olhou para ele e lágrimas de frustração surgiram-lhe nos olhos. Segurou a mão do marido, sobre o cobertor, e os dedos dela estavam frios.
- Ela matou-o, Sid. Ela matou-o e vai conseguir escapar. Tu ouviste o que eles disseram. A polícia. Não a podem prender, embora saibam que ela é culpada. Mas não
têm provas. Não têm nada que a ligue àquele indivíduo...
- Hão-de descobrir alguma coisa - disse Sidney com uma voz suave. - Se houver alguma coisa para descobrir. - Se? - exclamou Dolores. - Como é que podes dizer "se"?
- O que eu quero dizer é que não deve ser muito difícil, agora que a polícia sabe desse assassino contratado. Dolores mudou a posição da cabeça na almofada. -Eu
sei que foi ela. Sempre soube. Mas se esse Powell não tivesse sido morto numa confusão daq
uelas, ela tinha-se safado. Ela ainda teve o descaramento de casar com o amante. Tinha tanta certeza de estar livre como um pássaro! Sidney deu-lhe uma palmadinha
no ombro, ansiosamente. - Mas descobriram-no e agora vão descobrir o resto. Tens de deix
ar a polícia tratar do assunto. Tens de confiar neles. Dolores tentou sentar-se, apoiada num cotovelo. Todos os monitores deram um salto.
- E se não houver nada? Foi há meses. Há quase um ano. Talvez não haja maneira de relacionar as coisas com ela... - Pára, Dolores - pediu Sidney. - Estás no hospital.
Pensei que te perdia.
Dolores olhou para ele com ar triste.
- Eu vou ficar bem. Porque não vais para casa e não te deitas, Sid? Eu vou dormir.
- Não, não vais. Vais ficar aqui a pensar nisto até teres outro ataque.
- Não podes esperar que eu não pense no assunto. Ele era meu filho. O meu único filho.
Sidney suspirou e beijou-lhe a testa. -Eu sei.
Uma enfermeira entrou no quarto com um comprimido num pequeno copo de papel.
- Ora aqui está, minha senhora - disse ela alegremente. - Uma coisa para a ajudar a dormir.
Dolores pôs o comprimido na boca, bebeu água por uma palhinha e engoliu. A enfermeira mediu-lhe o pulso e a tensão arterial e deu-lhe palmadinhas no braço.
- Muito bem - afirmou ela numa voz alta, capaz de pôr em ordem uma sala cheia de crianças. - Isto vai, pô-la um pouco sonolenta. O seu marido devia ir agora para
casa.
Sidney abanou a cabeça. Como se aquele comprimido fosse suficiente para a acalmar! Ela ia ficar ali durante horas, passando tudo em revista na sua cabeça. Inclinou-se
e beijou a fa
ce pálida de Dolores, enquanto a enfermeira mantinha a porta do quarto aberta.
- Amo-te - disse ele. - Tenta descansar. -Vou tentar - respondeu ela.
Sidney abanou a cabeça e obrigou-se a endireitar. Mas antes que pudesse dirigir-se para a porta, Dolores tinha voltado a cabeça para a parede e ele podia ver-lhe
o cérebro a trabalhar. Ruminando furiosamente tudo aquilo que sabia agora. Apesar de toda
s as drogas que lhe pudessem dar, o seu cérebro, o seu coração de mãe não a deixariam em paz, nem que isso a matasse.
***
CAPÍTULO 29
Richard Walsh estacionou o seu Lexus em frente da casa. - Têm a certeza de que não querem que os leve à marina, para irem buscar o vosso carro? - perguntou ele.
Laura estava sentada atrás, encostada a Ian, que se mantinha muito direito e tenso, agarrado à pega interior do carro. - Vamos buscá-lo amanhã - disse Ian. - A minha
mulher está cansada.
- Eu estou bem - protestou Laura. - Richard, queres entrar para tomar um café ou beber alguma coisa? Richard olhou para o seu Rolex de platina.
- Meu Deus, são quase três da manhã! É melhor eu ir para casa.
Inclinou-se para trás e olhou para os dois.
- Vocês estão com um ar horroroso. Precisam mesmo de dormir. Onde está o Michael?
- Na minha vizinha - informou Laura. - Obrigada por teres ido ao tribunal, Richard. Agradeço-te muito.
- Não foi problema nenhum. É o trabalho de um advogado. E olha, as coisas podiam ser muito piores. Quero dizer, eles sabem que alguém pagou a esse tipo para matar
o Jimmy, mas não têm nada de concreto sobre vocês os dois. Isso é óbvio. Porque a esta h
ora estariam presos, se eles tivessem - concluiu ele alegremente.
- Obrigadinho... - disse Ian.
- O que eu quero dizer é que temos de tentar ser optimistas. Claro que já perceberam que vos vão fazer a vida num
inferno. Vão querer todos os recibos, todos os extractos do banco, tudo o que tenha a ver com aquela altura. E o melhor que têm a fazer é cooperar. Dêem-lhes tudo
o que eles pedirem. Eles vão querer ver se conseguem descobrir provas de um pagamento fe
ito por vocês a esse tipo, o tal Herman Powell. Esses assassinos contratados não trabalham barato e eles vão estar à procura de uma grande soma de dinheiro que vocês
não possam justificar.
-Não a vão descobrir - garantiu Laura.
-Ainda mal consigo acreditar - disse Richard. - Um assassino contratado. Quem poderia fazer uma coisa dessas? Quem quereria contratar uma pessoa assim para matar
o Jimmy?
Subitamente, Laura sentiu-se numa ratoeira, sentada no banco de trás do carro de Richard. Como se não fosse capaz de respirar.
- Richard, acho que quero ir para casa.
-Claro - anuiu ele, abrindo a porta dos passageiros e voltando a sentar-se no seu lugar, para eles poderem sair. - Vejam se descansam - acrescentou com ar simpático.
- Amanhã falamos.
Ian e Laura caminharam de braço dado em direcção à casa, a cabeça dela apoiada no ombro dele. Richard viu-os entrar em casa. Então fechou todas as janelas, ligou
o ar condicionado e escolheu uma cassete para o caminho de regresso a casa. Os Red Hot Ch
ili Peppers, pensou ele. Pôs o volume no máximo e dirigiu-se para Rock Harbor.
Enquanto Ian estava no duche, Laura vestiu uma camisa de noite e um robe de Verão. Olhou pela janela, com saudades, para a casa de Pam. Todas as janelas estavam
às escuras, e Laura ficou preocupada ao ver que o carro de Duane se encontrava estacionado
. Não admirava que Pam parecesse tão nervosa ao telefone, quando ela lhe ligara a pedir que ficasse com Michael durante a noite. Laura sabia muito bem que os últimos
desenvolvimentos só iriam aumentar a hostilidade de Duane em relação a ela. Quanto te
mpo levaria Pam a ver as coisas da mesma forma que o marido?
Agora era muito tarde para ligar. Michael ficaria bem por
aquela noite, disse ela a si própria. Ele gostava de estar com Louis. Mas quando olhou para a janela do quarto de Louis, não conseguiu deixar de se lembrar das palavras
de Dolores. Queria levar Michael, para castigar Laura por uma coisa que ela não ti
nha feito. Mas também, acrescentou ela ao ouvir abrir-se a porta da casa de banho, por uma coisa que tinha feito.
Ian entrou na sala de estar a esfregar a cabeça na toalha, vestido apenas com as calças do pijama. Ele era tão bonito, pensou ela. Tão melancólico e tão bonito.
Ela tinha caído nos seus braços como numa rede de segurança. E agora, que iria ser deles?
Ian serviu-se de um copo de vinho da bancada de carvalho. - Queres um? - perguntou ele. - Era capaz de te fazer bem.
Laura disse que não, automaticamente, mas depois mudou de opinião.
-Talvez não seja má ideia - disse ela.
Ele serviu outro copo e foi levá-lo até ao local onde ela se encontrava, enrolada a um canto do sofá, e sentou-se numa cadeira de cabedal perto da lareira apagada.
A cadeira de Jimmy. Os seus olhos azuis estavam cinzentos, como se uma tempestade se es
tivesse a formar por trás deles. Ian não tirava os olhos do seu copo.
- Ian, não consigo deixar de pensar naquilo que a bolores disse - desabafou Laura. - Aquilo de me querer tirar o Michael.
- Ela não pode fazer isso - respondeu ele.
Laura percebeu pelo seu tom de voz que ele não queria discutir aquele problema. Laura ficou magoada com a forma como ele se afastava das suas preocupações. Mas ela
sabia o que ele queria dizer. Por agora não havia nada que Dolores pudesse fazer.
E como era possível culpá-lo por estar impaciente, interrogou-se ela. Ele não esperara nada daquilo quando lhe pedira que casasse com ele. Em tais circunstâncias,
mostrara-se até
bastante compreensivo. Laura olhou para o copo de vinho, sentindo fraqueza em cada um dos seus músculos, depois de
toda a tensão do interrogatório, o choque daquelas revelações. Durante algum tempo nenhum deles falou.
Finalmente, Ian bebeu um gole do copo e deixou cair uma frase.
- Vou contratar outro advogado.
- Outro advogado? - perguntou ela, surpreendida. - Porquê? O Richard sempre tratou das nossas coisas.
- Por um lado, porque esta é uma investigação criminal e ele não parece ter muita experiência nessa área.
- Isso é capaz de ser verdade - disse Laura com um suspiro.
- E, por outro lado, não gosto dele e não tenho confiança nele.
- Porque é que não gostas dele? - perguntou Laura, surpreendida pela sua reacção.
- Não sei. Chama-lhe instinto - afirmou ele, irritado. - Isso não é bem uma razão - contrapôs Laura. - Mas se é assim que tu te sentes...
- O que eu sinto é que precisamos de um advogado criminal do melhor que houver para nos aconselhar. Há um tipo em Filadélfia chamado Curtis Stanhope de que ouvi
falar.
- Mas para que precisamos desse advogado fantástico se não fizemos nada de mal? Se não temos nada a esconder... -Laura, não é altura de nos pormos com brincadeiras
com uns espertos da província.
Laura continuava na sua linha de pensamento.
- A não ser que tu penses que eu fiz alguma coisa de mal. Pensas?
- Não, não sejas ridícula. - Ian endireitou-se na cadeira. - Laura, pessoas inocentes são presas todos os dias. Só quero ter a certeza de que estamos protegidos
disso.
- Não te culpo se pensares assim - disse ela tranquilamente. - Afinal, tu és humano. Toda a gente pensa que fui eu. Durante quanto tempo se pode esperar que continues
a acreditar em mim?
- Não se trata de nada disso - respondeu ele. - Eu culpo-me disto.
-Tu culpas-te? Como é que te podes culpar?
Ian passou uma mão pelo cabelo húmido e evitou o olhar de Laura.
- Porque... a culpa é minha. Eu apareci e insisti para que casasses comigo. Se não tivesses casado, eles não suspeitariam de ti. Não estariam a olhar para nós desta
maneira.
Laura encolheu os ombros.
- Bom, eles suspeitam sempre da família primeiro.
- Claro, e uma viúva que casou tão rapidamente é coisa para lhes dar que pensar... Devia ter esperado... Ter sido mais paciente... Nem sei no que estava a pensar.
Laura bebeu um gole de vinho. O que ele estava a dizer era verdade, claro.
- Mas nós não sabíamos que isto ia acontecer. Nós casámos porque estamos inocentes. E tu não me obrigaste a casar contigo, fui eu que quis.
- Não vou deixar que te façam o que quer que seja. Juro - prometeu Ian. - Vou proteger-te, aconteça o que acontecer. Não passei por tudo isto para depois te perder.
Já perdi tudo uma vez. Não vou perder tudo segunda vez.
A sua veemência comoveu-a e assustou-a ao mesmo tempo. - Não digas isso. Estás a assustar-me.
Ele dirigiu-se até ela e sentou-se ao seu lado, abraçando-a. - Desculpa - disse ele, beijando-lhe o cabelo. - Não te preocupes. Eu trato de tudo, prometo. Vai ficar
tudo bem. Laura fechou os olhos e tentou acreditar. Mas por detrás dos seus medos rela
tivos à polícia, a Michael, acerca do que Ian pudesse pensar, outra questão a atormentava. Uma questão que não tinha querido verbalizar perante Ian. Quem tinha contratado
Herman Powell? Quem contratara um assassino para matar Jimmy?
Desde a noite em que ele morrera, Laura tinha pensado que se tratara de uma morte ocasional, um assalto que se descontrolara. O que quer que a policia pudesse pensar,
ela sabia
de certeza que ele havia sido morto por um estranho, um assaltante. Mas agora tudo se modificara. Na realidade, a arma tinha sido disparada por um estranho, mas
Jimmy fora morto por alguém que ele conhecia. Por alguém que ela conhecia. Esse pensamento
fê-la tremer por dentro. Ian apercebeu-se do seu estado e apertou-a nos seus braços.
Candy Walslh sentou-se na cama, tirou a máscara de dormir e olhou para o relógio. Depois fixou o marido.
- Porque estás a assobiar a esta hora da manhã? És um verdadeiro chato, Richard.
Deu um jeito na almofada e tentou aconchegar-se.
- Nem sequer me vais perguntar a razão? - Richard encontrava-se no quarto de despir, a dobrar as calças sobre uma cadeira, embora a sala tivesse sido desenhada com
todas as comodidades para pendurar facilmente a roupa.
- Muito bem - respondeu Candy, erguendo-se sobre os cotovelos. - Então, prenderam-na?
Richard pôs um pouco de água-de-colónia. - Não, não prenderam.
- Como é que conseguiste isso?
Richard apareceu à porta vestido apenas com os seus boxers de seda.
- Sou um génio - respondeu ele, começando a dirigir-se para a cama.
Candy ergueu os olhos.
- Esquece, Richard. São três e meia da manhã. Richard meteu-se debaixo dos lençóis.
- Por favor, fofinha.
- Não me faças vomitar. Como é que ela não está na cadeia?
- Oh, mas vai estar - garantiu Richard. - De certeza que não vai partir de barco, para parte incerta, com o seu novo esposo.
-Então porque é que isso te deixa tão contente?
- Quem diz que isso me deixa contente? - perguntou Richard. Ele estava longe de se encontrar a salvo, havia ainda uma grande quantia de dinheiro em falta nas contas
de Laura e ele tinha de arranjar uma maneira de o voltar a pôr lá. Quando a sua secret
ária, Adelaide Murphy, o informara de que Laura tinha voltado a casar e que tencionava deixar a cidade com todo o seu dinheiro, Richard tivera um ataque de ansiedade
tão grande que quase desfalecera. Mas agora, pelo menos, ele tinha algum tempo do seu
lado. E podia fazê-lo. Ele era bom nesse tipo de coisas. Já tinha patinado sobre gelo muito fino, anteriormente, e sempre se tinha aguentado.
-Estás enjoativamente alegre.
-Isso é só porque eu adoro a minha pequenina Candy - disse ele.
- Ora, cala-te - retorquiu ela. E atingiu-o no peito com um cotovelo.
***
CAPÍTULO 30
Depois de muito pouco sono e de um pequeno-almoço a correr, Ron Leonard, Vince Moore e Clyde Jackson tinham-se mais uma vez reunido no gabinete do promotor público.
Ron agradeceu uma chávena de café que a assistente do promotor público lhe oferecia e tentou afastar os pensamentos que percorriam a sua cabeça. Tinha tido problemas
para adormecer quando finalmente chegara à cama na noite anterior. Continuara a ver a
cara pálida de Laura Reed, os seus olhos trágicos a fixarem-no quando se atirara para cima da almofada. Assassina, dissera ele a si próprio. Criminosa. Finalmente
saltara da cama, bebera uma cerveja e vira um filme policial dos anos 40 na televisão p
or cabo. A dada altura adormecera na cadeira. Vince, apesar da sua idade mais avançada, parecia exactamente como em qualquer outra altura: agitado e pronto para
tudo.
- Como é que dá ideia que dormiste oito horas numa cama de pétalas de rosa? - perguntou Ron.
- Uma vida saudável e o amor de uma boa mulher - respondeu Vince com um sorriso.
- Deve haver um segredo qualquer - murmurou Ron. - Muito bem, meus senhores - proferiu o promotor público. - Vamos ver se nos entendemos nesta confusão. Vamos separar
aquilo que sabemos daquilo de que suspeitamos.
Jackson levantou os olhos e os outros dois homens fizeram um sinal de assentimento.
- Sabemos que alguém contratou o Herman Powell para
matar o James Reed. Sabemos que a sua viúva, Laura Reed, herdou muito dinheiro e que voltou a casar-se, cinco meses depois, com esse homem, Ian Turner. Meios, motivo
e oportunidade. Até agora, exceptuando uma amizade de infância reconhecida, não conse
guimos situá-los juntos em qualquer altura antes desta data, quando os dois, ostensivamente, se encontraram aqui em Cape Christian.
Fez uma pausa e continuou.
- Por isso, a nossa principal suspeita é Mistress Reed. Mas se partirmos do princípio de que ela contratou o Powell, o Ian Turner terá sido seu cúmplice, ou o seu
encontro... e o casamento... foi completamente inocente, como eles afirmam ter sido?
- De certa maneira - interrompeu Vince -, este casamento apressado não é incriminador aos meus olhos. Antes pelo contrário. Quero dizer, se tivessem planeado tudo
juntos, se fossem culpados, porque dariam tanto nas vistas? Estão praticamente a pedir q
ue suspeitemos deles.
O promotor público franziu os lábios e olhou para o chefe. - Talvez não aguentassem esperar mais tempo. Talvez imaginassem que já nos tinham iludido, portanto para
quê esperar mais tempo?
- Eu continuo a perguntar a mim próprio, e se não foram eles? - prosseguiu Vince. - Quem mais teria a ganhar? - Essa é uma pergunta importante - afirmou Clyde. -
E o advogado deles? - perguntou Ron. - Não gostei muito da cara dele. Não era sócio do Re
ed?
- O Walsh tem um problema de jogo. Sabemos isso acerca dele. Mas não vejo como é que a morte do Jim Reed faria alguma diferença para ele - retorquiu Vince.
- É ele quem controla o dinheiro dela, não é? - perguntou Ron. - Talvez quisesse aquele milhão extra do seguro de vida do Reed para andar para aí a brincar.
O promotor público encolheu os ombros e tomou uma nota no seu caderno.
- Vamos investigar isso. Entretanto, o que se passa com o indivíduo que desapareceu? O Jurik? - perguntou Jackson. - Eles eram grandes amigos e muito próximos. Como
irmãos,
disseram algumas pessoas. E sabem como pode haver mau sangue entre irmãos. Quero dizer, a princípio pusemo-lo de parte por causa da cadeira de rodas. Mas agora que
sabemos que foi um assassino profissional...
Vince suspirou.
- Como sabemos, o Gary Jurik desapareceu, abandonou a cidade sem uma palavra a quem quer que fosse. A mãe diz que o Gary ficou perturbado com o casamento da Laura
Reed. Está receosa de que ele se possa tentar matar.
Ron riu-se baixinho.
- Provavelmente, aproveitou para se safar da velhota. Ouvi dizer que ela é de força.
- Esta manhã tivemos uma pista sobre o seu paradeiro - anunciou Vince com ar sombrio. - Parece que um vendedor de armas de Boston fez um controlo de rotina, à procura
de um registo criminal. Apareceu no nosso computador. Mandei um homem para lá imedia
tamente, para verificar a morada que ele deu.
- Ah, ah! - exclamou Ron. - Talvez a mamã tivesse razão.
Os três homens encararam aquela possibilidade em silêncio durante um momento.
- Na realidade, a Wanda Jurik disse-me uma coisa estranha - adiantou Vince. - Ela disse-me que considerava o James Reed culpado do acidente que deixou o seu filho
aleijado. Embora ele não pudesse ser na realidade responsabilizado. Mas estaria ela a qu
erer vingar-se?
- Vince - interveio Ron -, esse acidente aconteceu há quanto tempo? Há catorze anos? A maior parte das pessoas não gosta de esperar esse tempo todo para se vingar.
A vingança tende a ser um crime de paixão. Tenho razão?
- É verdade - suspirou Vince.
- E por falar em paixão - acrescentou Ron, descrevendo um arco com a sua chávena de café. - Se o Gary Jurik estava tão apaixonado pela mulher do Jimmy Reed a ponto
de as notícias do seu novo casamento o tornarem suicida, talvez tenha sido ele quem dec
idiu eliminar o Jimmy Reed.
Clyde Jackson encolheu os ombros.
- É possível. Talvez a pensar que ele teria uma oportunidade com ela, se o James Reed estivesse fora do caminho. E depois, contra todas as expectativas, ela casa
com outro tipo. E então, ele arranja uma arma e... bum...
- E leva a resposta com ele para a sepultura - finalizou Ron.
- É um enredo interessante - observou o promotor público. - Mas não temos qualquer razão de peso para acreditar que o Gary Jurik estivesse a planear utilizar a arma
em si próprio, para começar, e depois, na realidade, todos sabemos que estamos debruça
dos sobre os recém-casados.
- É verdade - anuiu Ron sombriamente. - É pena que o Powell não tenha guardado uma lista dos seus clientes. Os três homens deixaram-se ficar sentados durante um
momento, cada um deles a matutar nas diversas possibilidades. Foi Vince quem quebrou o sil
êncio.
- Será possível - disse ele em voz alta - que o Turner tenha feito as coisas sem o conhecimento da Laura? Todos olharam para ele, como se ele estivesse a falar numa
língua estranha.
- Não, escutem-me - insistiu ele. - Quero dizer que eles admitem que se conhecem há muito tempo, não é verdade? E se ele tivesse uma obsessão por ela, e decidisse
que a queria só para si? Ouve-se falar em tipos assim.
- Queres dizer que ele não pensou nela todos estes anos e depois, de repente, ficou obcecado? - perguntou Ron. - Eu sei que parece estranho - admitiu Vince. Clyde
Jackson espalmou as mãos grandes sobre a secretária.
- Porque é que um tipo ficaria subitamente obcecado por uma rapariga que conheceu na escola primária?
Ron bateu nos dentes com o lápis.
- Ele disse que a conhecia. Disse-o àquela miúda de Barbados. Ele contou-me uma história qualquer sobre o conhecermos autores através do seu trabalho, mas a miúda
foi muito precisa a esse respeito.
- Então - perguntou Clyde -, o que estás a dizer é que depois de a mulher ter morrido ele decidiu matar o James Reed?
Vince levantou as sobrancelhas.
- Talvez ele se tenha visto livre da mulher, em primeiro lugar. Quero dizer que um tipo que é capaz de contratar um assassino profissional é capaz de qualquer coisa.
Certo?
- Isso é esticar um bocado as coisas - comentou Clyde. -Não sei - disse Vince. - Só estou a pensar alto. - Sabemos tudo o que há para saber acerca do fogo em
que a primeira mulher morreu? - perguntou Clyde Jackson. -Houve coisas que me deixaram a remoer - admitiu Ron.
- Tais como? - perguntou Vince. Ron encolheu os ombros.
- O irmão dele trabalha nos bombeiros. O que quer dizer que o Turner podia ter facilmente descoberto o modos operandi do incendiário.
- E fazer uma cópia do incêndio - declarou Vince. Ron aquiesceu.
- O irmão nega ter tido uma tal conversa com ele. Mas o irmão está em dívida para com o Turner. Nunca o admitiria a ninguém. O problema é que o Turner adorava o
filho e nunca lhe faria mal. Mas o filho devia estar num jogo de futebol na noite do incên
dio. Não sabíamos que a mulher dele tinha decidido que ele ficaria em casa.
- Ena! - exclamou Vince.
- Não prova nada - disse Clyde Jackson abruptamente. - Ouçam, não me interessa se foi ele, se foi ela, se foram eles... O que eu quero é provas sobre a pessoa que
pagou ao Herman Powell. Ou então, precisamos de uma testemunha. Alguém que os tenha vist
o juntos antes de o James Reed ter morrido. Sem uma dessas coisas, podemos ficar aqui sentados até às suas bodas de ouro.
- É verdade - concordou Vince.
- Ron, quero que consigas os extractos bancários do Turner. Pressiona os bancos para te darem todas as transacções. E o mesmo para ela. E vamos pôr alguém atrás
daquele advogado. Tem de haver uma pista algures...
Clyde Jackson endireitou-se na cadeira.
- Meus senhores, temos muito que fazer. Vince, quantos homens tens a trabalhar nisto?
-Cinco, a tempo inteiro.
-Vamos buscar todos os homens de que precisares ao condado. Investiga os registos telefónicos. Fala com toda a gente de todos os hotéis e motéis em que possam ter
ficado fora da cidade. Há um registo de viagens de negócios ou passeios que qualquer del
es possa ter feito?
Ron assentiu com a cabeça.
- Então, vamos mexer-nos - declarou Clyde. - Este desenvolvimento com o Powell tornou o nosso caso quente de novo. Mas não vai durar. Recebi uma chamada do FBI esta
manhã e eles já estão envolvidos no Michigan e no Ohio. Gostava de manter esta questão
na localidade, caso fosse possível. Mas precisamos de algumas respostas e rapidamente. Por isso, vamos ao trabalho. E agora tenho de ir para o tribunal.
***
CAPÍTULO 31
Aaron Kellerman sentou-se num banco vazio, abriu o pacote castanho do seu almoço e depois ergueu o rosto para a brisa, o céu azul e as nuvens que passavam, com gratidão.
Pensou no que Henry James tinha dito, que "tardes de Verão" eram as palavras mais
belas da língua inglesa. E isso era certamente verdade naquele dia, pensou Aaron. Sabia bem estar fora do hospital durante um bocado e respirar ar fresco. Trabalhava
como enfermeiro na ala psiquiátrica para adolescentes de um hospital particular em B
eacon Hif. Adorava os miúdos, meio loucos como alguns deles eram, mas o emprego exigia muito de uma pessoa e ele precisava de um intervalo de vez em quando. Quando
o tempo estava bom, almoçava sempre naquele lugar. Enquanto Aaron desempacotava o seu a
lmoço sobre o banco, deu uma vista de olhos em volta e viu que o homem na cadeira de rodas ainda ali se encontrava.
Aaron tinha reparado nele há uma semana. Todos os dias, o homem ficava junto da mesma árvore, do outro lado do passeio onde um grupo de vendedores oferecia aos que
passavam brincos e incenso. Tinha o ar de quem criara raízes naquele lugar. Trazia semp
re um bloco de desenho, mas a maior parte das vezes ficava por utilizar, encostado à cadeira. O seu aspecto era o de um artista, com o seu cabelo meio grisalho e
a pele muito clara. A maior parte das vezes ficava à sombra e nunca parecia comer, beber
ou falar com ninguém. Era como se estivesse num nível superior, misterioso e triste, e Aaron deu consigo a pensar nele.
Foi, possivelmente, a sua experiência de enfermeiro que o fez preocupar-se com o homem. Conhecia os sinais de aviso, conseguidos através de uma longa experiência
com os miúdos da enfermaria: o olhar vago, a inércia, o facto de o homem parecer alheio a
o belo dia. Aaron deu uma dentada na sua piza e bebeu um gole da bebida que levara. "Mete-te na tua vida", disse-se ele. "Não tens disto que chegue no trabalho?"
Tentou ignorar o homem, voltar a sua atenção para as pessoas que andavam de barco, mas nã
o valeu de nada. Desde criança que não suportava ver uma criatura em sofrimento. O seu pai, cuja técnica como cirurgião plástico lhe tinha trazido grande fama, tomara
isso como um sinal de que o seu filho único o seguiria na carreira de médico. Conhec
ia muito pouco o filho, no entanto, e ficou mortificado quando Aaron escolhera a enfermagem. A madrasta de Aaron mostrara-se caracteristicamente indiferente quanto
ao caminho que ele escolhesse, desde que isso lhe tirasse o peso dele de cima.
Aaron suspirou. "Pensa noutra coisa", insistiu ele consigo mesmo. E, obedientemente, tentou. Pensou na prova em que ia entrar no fim-de-semana seguinte e perguntou-se
se não de veria ir até ao rio, da parte da tarde, treinar umas milhas. Na noite segu
inte, deveria jantar com amigos, um casal de Cambridge com quem tinha andado na universidade. Agora era uma boa altura para ir comprar uma garrafa de vinho. "Tinto
ou branco?", perguntou-se de novo. Mas não se moveu. Em vez disso, como que movido por
uma força invisível, deu consigo a olhar de novo para o homem na cadeira de rodas. Este tinha pegado no seu bloco de desenho e estava a fazer um esboço, embora o
seu rosto se mantivesse vazio e pálido. Depois de pegar no saco, no garfo de plástico e n
o guardanapo, Aaron dirigiu-se ao caixote de lixo que estava perto do homem na cadeira de rodas e deixou aí os restos que transportava. Então, após um momento de
hesitação, caminhou até ele, colocou-se por detrás da cadeira e olhou para o bloco do hom
em.
Este parou de desenhar e ficou rígido quando sentiu a presença de um estranho. Aaron ficou a olhar, cheio de admiração, para os esboços dos edifícios antigos de
Beacon Hill.
- Você tem um dom espantoso - observou ele com sinceridade, olhando para o artista.
Gary fitou Aaron, como se ele fosse de um outro planeta, à espera que se fosse embora. Aaron fingiu não reparar no seu olhar frio.
- Posso ver o seu bloco? - perguntou. - O meu nome é Aaron Kellerman, a propósito.
Aaron estendeu a mão, desajeitadamente.
Mais para evitar o aperto de mão do que por outro motivo qualquer, Gary murmurou o seu nome e viu-se a entregar àquele estranho o seu bloco de desenho. Aaron abriu-o
e começou a ver os esboços. Ao fim de alguns momentos, falou, sem levantar os olhos.
- Sinto-me curioso acerca do seu trabalho. Tenho-o visto aqui todos os dias da semana. Geralmente almoço aqui no parque.
- Hoje é o último dia - disse Gary friamente.
Aaron continuou a virar as folhas do bloco. Não reagiu às palavras do homem, mas estas produziram-lhe uma desagradável sensação no estômago. Reconheceu o tom de
voz, já o tinha ouvido antes, no hospital. Fingiu não entender.
- O último dia! Quer dizer aqui, nesta zona? Trabalha em diversos locais da cidade?
Gary olhou para o homem. Era um homem magro, com uma barba preta e olhos escuros. Gary estava perplexo com o interesse manifestado pelo homem. As pessoas das grandes
cidades, em princípio, deixavam os outros em paz. Porque estava aquele homem a pergun
tar-lhe tais coisas? Ele não se sentia disposto a contar-lhe os porquês.
- Eu... não. Eu vou deixar... a cidade.
- Tem mesmo de ir? - perguntou Aaron inocentemente. -Sim - respondeu Gary num tom que mais parecia querer dizer "não é da sua conta". Mas o homem fingiu não perceber
a deixa. Começou a fazer-lhe perguntas sobre o seu trabalho, os seus antecedentes. Fe
z-lhe mesmo perguntas sobre o acidente que o colocara naquela cadeira de rodas. Gary respondeu, tanto quanto possível, em monossílabos. Depois, o homem perguntou-lhe
abertamente onde é que ele vivia, mas Gary não estava disposto a revelar onde era a s
ua casa.
- No Motel Golden Pheasant, em Chinatown - respondeu ele. Era verdade, de certa maneira. Era onde ele estava a morar naquela altura, mas era o último lugar onde
tencionava viver.
Sem lhe terem perguntado nada, Aaron contou um pouco da sua vida, o local onde vivia, no Norte da cidade, o seu emprego como enfermeiro. O facto de ser da Florida,
mas de ter frequentado a escola ali em Boston. O silêncio teimoso de Gary não pareceu f
azê-lo esmorecer. Continuou a falar, na sua maneira suave, persistente, como se aquele fosse o mais normal dos encontros do mundo. Finalmente, com mágoa, Aaron anunciou
que se tinha de ir embora, de voltar ao trabalho. - Encontro-o aqui amanhã? - perg
untou ele.
-já lhe disse - respondeu Gary. - Este é o último dia. - Porque é que tem de ser o último dia? - insistiu Aaron preocupado.
- Mesmo o último - declarou Gary com uma expressão sombria.
- Gostava de -ter vindo mais cedo - respondeu Aaron. - Não teria feito qualquer diferença - concluiu Gary. Gary ficou a ver o homem afastar-se, uma figura escura
vestida de branco a caminhar sobre a relva verde. De vez em quando, o homem voltava-se pa
ra lhe acenar, com ar sombrio. Quando ele chegou ao fim do passeio, Gary voltou a cadeira e encaminhou-se para a carrinha. Içou-se para dentro dela e pôs o motor
a trabalhar. Apesar de tudo, olhou mais uma vez para trás. Aaron ainda lá estava, a olhar
para ele. Gary endureceu o seu coração. "O que se passa contigo?", interrogou-se ele. "É a semana de ajuda aos deficientes?" Nunca tinha sido da sua natureza ser
cínico, mas estava a sê-lo. Dirigiu a sua atenção para as ruas. Podia sentir o olhar de
Aaron nas suas costas, mas fez por o ignorar, levando a sua carrinha com cuidado para o tráfego congestionado de Boylston Street. Era assustador guiar numa cidade
desconhecida como aquela. O único local onde tinha conduzido fora no condado de Cape Chr
istian. Ainda não sabia exactamente porque tinha vindo parar àquele local. Bom, na verdade, sabia. Boston era um sítio em que tinha pensado muito, principalmente
o seu museu. Mas isso parecia ter sido há uma eternidade. Antes de tudo.
Gary suspirou e olhou em volta ansiosamente. Esperava ser capaz de encontrar o caminho de regresso àquela loja. Tinha dado com ela por acaso, e não estava nada familiarizado
com todas aquelas ruas. Tentou lembrar-se de curvas que tivesse feito antes,
marcos em que tivesse reparado. Mas era difícil. Não prestara muita atenção àqueles arredores. Na verdade, pensou ele enquanto guiava através das ruas da parte sul
da cidade, não era tão assustador como poderia ter sido. Afinal de contas, não tinha na
da a perder.
Com uma irónica sensação de vitória, Gary reconheceu a ruazinha de que andara à procura. Havia um edifício na esquina com uma fachada de tijolo, com um letreiro
onde se lia: "Descontam-se cheques." Noutra esquina havia um bar e, no lado oposto, um res
taurante de comida rápida. Gary estacionou a carrinha e saiu. Contornou uma garrafa de cerveja vazia e avançou por cima de pedaços de papel ainda com restos de queijo
das pizas. Parou em frente da loja e espreitou através da montra. Parecia mais o sót
ão de que a montra de um estabelecimento. O local vendia utensílios de jardinagem em segunda mão, artigos diversos e até alguns brinquedos de criança.
Gary entrou na loja e percorreu o caminho até ao expositor de vidro que continha o artigo mais valioso de toda a loja, um conjunto de espingardas e pistolas. O proprietário
da loja, um homem de cabelo grisalho, de boné, que estava a ver a novela numa
televisão em segunda mão, olhou para Gary e reconheceu-o assim que ele entrou.
-Acho que o período de espera terminou - disse Gary sem preâmbulos.
- Claro - anuiu o homem com ar agradável. - Não há problemas com a sua identificação. Está tudo bem. É só um instante enquanto vou lá atrás. Vou buscar-lhe a sua
arma.
Gary esperou pacientemente. Não havia necessidade de se apressar, naquele momento.
***
CAPÍTULO 32
Vince voltou para o gabinete e encontrou Ron Leonard sentado na sua cadeira, com os olhos fechados e os pés em cima da secretária.
- Ponha-se à vontade, detective - proferiu Vince. Ron abriu os olhos e deixou cair os pés para o chão com um ar comprometido.
- Desculpa lá - disse ele. - Tive de descansar os olhos. Passei o dia a ver extractos financeiros, as contas da Laura e do James Reed, os faxes dos extractos bancários
do Turner que enviaram do Connecticut.
Vince fez-lhe sinal para ele continuar sentado. Dirigiu-se ao armário para guardar um dossiê que tinha ido buscar anteriormente.
-Descobriste alguma coisa?
-Até agora, não - respondeu- Ron. - Apesar de saber que o que quer que esteja à procura deve estar muito bem escondido. Não esperava encontrar um cheque passado
ao Herman Powell na conta comum dos Reed. E quanto ao Turner, fechou todas as contas antes
de partir para as Caraíbas. A partir desse momento só funcionou com dinheiro vivo.
Vince acenou, distraidamente.
- E que se passa contigo? - perguntou Ron. - Alguma coisa de novo?
Vince franziu a testa.
-Acabo de receber uma chamada do Bobby McCandless, o agente que mandei a Boston para procurar o Gary Jurik. Pa
rece que o Jurik comprou mesmo uma arma, mas a morada que deu ao vendedor era falsa.
- A mãe tinha razão. Ele anda a tramar alguma...
- Eu sei - disse Vince. - Mas o meu agente não sabe por onde é que ele pára em Boston. Não vai conseguir descobrir o Jurik numa cidade estranha. É como se o chão
se tivesse aberto e o tivesse engolido.
- Que vais fazer? - perguntou Ron.
- Que posso fazer? Disse ao Bobby para alertar a polícia local e para voltar para casa.
O telefone tocou na secretária de Vince.
- Importas-te de atender? - pediu a Ron. - Se for a Wanda Jurik, diz-lhe que não estou aqui.
Ron atendeu o telefone e fez algumas perguntas. Depois voltou-se para Vince, com a mão sobre o bocal.
- É o Dominick Vanese. O dono daquele grande restaurante de Atlantic City.
- O irmão da Marie? Aquele sítio não é onde se reúne a máfia? - perguntou Vince. - O que é que ele quer? Ron encolheu os ombros.
- Quer falar contigo. Diz que tem informações importantes sobre o caso Reed.
- Estão a começar a surgir - afirmou Vince, estendendo a mão para o telefone.
Entrar no restaurante de Dominick Vanese, o Stella di Mare, era como penetrar num daqueles recantos mais escuros do coração. As paredes estavam pintadas de vermelho,
e a carpete tinha um tom de sangue. Os estofos de cabedal dos bancos exibiam um tom d
e nogueira, mas banhados pelo brilho das velas também difundiam um brilho escarlate.
O Stella di Mare era um dos restaurantes mais populares do cais de Atlantic City. E um dos poucos que não tinham sido comprados pelos casinos. Dominick Vanese possuía
muitos amigos bem colocados que apreciavam a cozinha do seu restaurante há muitos an
os e, quando essa altura chegara, estavam tão pouco dispostos como Dominick a ver o seu restaurante ser engolido pelos mamutes que ocupavam o cais. E todos eles
fizeram por garantir que o Stella di Mare continuasse no seu local de sempre. Atlantic City era uma cidade onde as amizades e a lealdade eram importantes para as
pessoas. O dinheiro não era tudo.
Vince e Ron pararam à entrada e espreitaram para o interior fracamente iluminado.
-Aquele não é o Gianni di Marco? - perguntou Ron, referindo-se a uma conhecida figura da máfia.
Vince espreitou para o interior do restaurante. - É ele mesmo - respondeu.
Gianni di Marco era um homem de cabelo grisalho, na casa dos sessenta, que usava um fato Armani e se encontrava sentado num reservado no fundo do restaurante, a
comer de um pequeno prato. Um homem mais novo, com um fato em tons de púrpura e preto, est
ava sentado ao seu lado, tirando bocadinhos de pão do cesto que se encontrava à sua frente.
O prelúdio da Cavallería Rusticana tocava em fundo quando Dominick Vanese, vestido com o fato azul-escuro e a camisa branca que usava sempre, se aproximou dos dois
homens que estavam na entrada.
- Têm reserva? - perguntou ele. Vince e Ron deixaram de olhar para os gangsters e voltaram-se para o pequeno homem, careca, que estava à frente deles.
- Sou o chefe Moore - disse Vince. - E este é o detective Leonard, do gabinete do promotor público. do condado de Cape Christian.
A face de Dominick Vanese não mostrou qualquer sinal de surpresa. Uma grande parte do seu sucesso ficava a dever-se à sua discrição. Pessoas muito conhecidas encontravam-se
no seu restaurante para tratar de negócios e ele apenas garantia que eram bem
alimentadas durante esse processo. Fazendo um sinal a Vince e a Ron para o seguirem, Dominick foi mostrando o caminho através do labirinto de mesas, em direcção
às traseiras. Ron ficou com uma sensação de toalhas de mesa cor-de-rosa, mulheres cuidados
amente penteadas sentadas com homens de meia-idade, e o brilho ocasional dos diamantes quando os talheres de prata e os copos de vinho eram levados até aos lábios.
Quando passaram pela sua mesa, Gianni di Marco levantou o olhar para o seu anfitrião.
-Excelente, como sempre. Dominick sorriu.
- Grazie. Por aqui - indicou ele suavemente a Vince e Ron, quando os conduzia para uma porta nas traseiras. Abriu a porta e convidou-os a entrar no seu escritório.
Ron tentou não ficar boquiaberto. O escritório . de Vanese era tão grande como a sala de estar de muitas casas em que ele tinha estado, mas mais ricamente mobilado.
O chão estava coberto por um tapete persa, e as cadeiras e sofás da sala eram de cabed
al negro. Numa das extremidades da sala havia uma lareira de mármore, impecavelmente limpa, como se nunca tivesse sido usada. As paredes estavam cobertas de fotografias
encaixilhadas de Dominick Vanese e algumas das pessoas famosas que ali tinham comi
do, Donald Trump, Don King, Charles Barkley e até mesmo Frank Sinatra.
Vanese fez um sinal para que se sentassem. Vince e Ron instalaram-se num sofá; sobre o tampo de vidro da mesa que estava à sua frente, uma bandeja em prata exibia
diversas garrafas de licor e um conjunto de copos. Vince reparou que o proprietário não
lhes ofereceu uma bebida, era deliberado, pensou ele. Não havia nada de social naquele encontro. Vanese esperou que o chefe falasse.
-Mister Vanese, o detective Leonard e eu estamos a investigar juntos este caso - anunciou Vince. - Como certamente compreende, se as informações que tiver forem
relevantes, terá de fazer um depoimento ao promotor público e podemos precisar que testemu
nhe.
Vanese fez um gesto, como que para dizer que isso não tinha importância.
- Comunicou ao telefone que tinha algumas informações sobre o caso Reed.
Dominick Vanese fez um sinal de aquiescência com a cabeça, olhando na direcção da porta do seu escritório.
- É verdade - anuiu ele. - Sobre o Reed. E o assassino contratado...
A pele enrugou-sé na nuca de Vince, e ele sentou-se mais à beira do sofá.
- E então, o que é? - perguntou ele calmamente.
- Acho que sei quem contratou o tipo - afirmou Vanese. Vince levantou as sobrancelhas.
- Sabe que isto não foi feito aqui.
Pela. primeira vez, Vanese voltou-se para olhar para ele, com um ar de desdém.
- Quer saber ou não?
- Claro - disse Vince. - Por favor, continue.
- Estava a ver as notícias, na outra noite. E reconheci-a. - A quem?
- A mulher.
Vince olhou para Ron, que empalidecera visivelmente ao ouvir as palavras de Vanese.
- Talvez ela tenha sido uma cliente do seu restaurante - sugeriu Vince cuidadosamente.
-Não é isso que eu quero dizer - respondeu Vanese. -Então o que é que quer dizer?
-Há algum tempo... no Verão passado, acho eu... ela veio procurar-me aqui no restaurante.
Vince olhava para ele atentamente.
Vanese enrugou a testa, como se tentasse organizar os seus pensamentos.
- Ela disse-me que queria falar comigo. Precisava de algumas informações e pensou que talvez eu a pudesse ajudar. Disse-me que tinha ouvido certas coisas a respeito
do meu restaurante.
Vanese olhou para Vince e para Ron.
- Sabem do que é que estou a falar. É do conhecimento geral que eu sirvo uma clientela que tem uma certa... notoriedade, digamos assim.
Vince nem se preocupou em responder.
- De qualquer forma, ela sabia de Mister di Marco e de muitos outros que são meus clientes regulares, e estava a partir de um pressuposto.
Ron deixou escapar um suspiro de desespero. Vince deitou-lhe um olhar de aviso.
- Continue - incitou Vince.
Vanese furou-o nos olhos e respondeu sem rodeios.
- Ela disse-me que queria que alguém fosse morto. Estava interessada em saber se eu lhe podia dizer quem poderia realizar esse trabalho.
Vince sentiu o coração a bater. Aí estava, era daquilo que tinham andado à procura.
-E? - perguntou ele.
- É só - respondeu Vanese. - Eu disse-lhe que ela estava mal informada, que eu não sabia nada acerca dessas coisas. E ela foi-se embora.
Nem Vince nem Ron disseram uma só palavra.
- Suponho que ela terá encontrado quem a tenha ajudado - concluiu Vanese, recostando-se na sua cadeira.
- Está a inventar tudo isso, Mister Vanese? - perguntou Ron.
Dominick Vanese olhou para ele como se o detective fosse uma barata que tivesse entrado no seu escritório.
- Porque havia eu de fazer uma coisa dessas?
- Não sei - respondeu Ron com honestidade. - Mas percebe que essa informação que nos acaba de dar incrimina Mistress Reed, não é verdade?
- Só estou a dizer-lhes aquilo que ela me perguntou - insistiu Vanese teimosamente.
- E porque é que demorou tanto tempo até se decidir a contar isso? - perguntou Vince. - O James Reed foi morto há meses. Se sabia disso, porque não nos telefonou
na altura?
- Sou um homem de negócios. Tenho um grande restaurante para gerir. Não me sento a pensar em crimes que acontecem aqui ou acolá. Tudo bem, um tipo foi morto por
um ladrão em Cape Christian... grande coisa! Trato é de ter a certeza de que o meu sistema
de alarme está a funcionar e esqueço logo toda a história.
- O mesmo tipo que era casado com a mulher que andava à procura de um assassino profissional para contratar. - Ela não me disse como é que se chamava - declarou
Vanese a Ron, friamente. - Nunca a tinha visto antes. Como é que eu havia de saber que o t
ipo que foi morto era marido dela? Nem pensei no assunto. Nunca mais pensei no caso. Vince encolheu os ombros, como se estivesse a concordar que a explicação era
razoável. Depois Vanese continuou.
- Foi então que na outra noite, estava eu a ver as notícias, e lá disseram que tinham descoberto que esse tipo fora morto por um assassino contratado, e eis senão
quando lá vejo a mes
ma mulher a sair de um carro e a entrar no tribunal. E lembrei-me dela. É , uma bela mulher, fácil de reconhecer com aquele cabelo e aqueles olhos grandes e tristes.
Filha da mãe, pensei eu, lá o conseguiu fazer.
- Muito bem. Viu-a nas notícias, reconheceu-a e recordou-se dela - prosseguiu Ron impacientemente. - Mas porque é que decidiu vir contar tudo isto agora? Não se
preocu
pou em nos telefonar quando ela veio ter consigo à procura de um assassino para contratar. Mas era seu dever ter participado uma ocorrência dessas.
- Eu nem sequer sabia se a mulher estava a falar a sério. Optei por pensar que nem estava. Por tudo o que eu sabia, ela podia ser completamente louca. Não quis ter
nada a ver com
ela. Lido com público todos os dias e anda por aí muito maluco à solta. Disse-lhe que não a podia ajudar e pedi-lhe para ela se ir embora.
- Então o que o levou a telefonar-nos agora e implicá-la? Certamente que esta não é a primeira pessoa das suas relações que comete um crime e se safa - observou
Ron sarcasticamente.
Dominick Vanese olhou para ele.
- Muitos dos meus clientes são de ascendência italiana, tal como eu, e gostam da minha comida. Mas eu não sei nada da máfia. Não sei nada dos seus negócios. O único
negócio
que conheço é o da restauração. Sei de comida, de vinho e sei como se põe uma mesa bonita. Mantenho os meus ouvidos fechados e meto-me nos meus assuntos. O que as
outras pessoas fazem... é com elas. E o senhor ou me trata com respeito ou será melhor s
air do meu estabelecimento.
Ron evitou o olhar gelado de Vanese.
- Mas tem de admitir que se podia ter mantido calado - proferiu Vince num tom de voz pacificador. - Muitas pessoas não se quereriam ter envolvido.
Vanese voltou-se para Vince com um olhar de desafio no rosto, um olhar que irradiava verdade. Um olhar de um chefe de família para outro.
- Ela matou o marido. Tinham um filho, não é verdade? Vince aquiesceu.
O tom de voz de Dominick Vanese subiu.
- E depois foi casar-se com outro. Chame-me bota-de-elástico, se quiser, mas não está certo. E ofende-me. Percebi o que tinha acontecido e não quis que ela escapasse.
É capaz de perceber isso?
- Sou - afirmou Vince. - Claro que sou.
***
CAPÍTULO 33
O Motel Golden Pheasant situava-se na zona inferior adjacente a um viaduto sobre a Auto-Estrada do Sudeste, de forma que o barulho dos camiões e do tráfego estava
sempre presente para lembrar aos hóspedes a baixeza das suas acomodações. Gary estaciono
u a carrinha no parque ao lado do edifício. Um bando multirracial de adolescentes encontrava-se num muro das traseiras do parque, partilhando cigarros, os chapéus
atirados para trás, os ténis desapertados. Quando Gary saiu da carrinha, olharam para es
ta com avidez, esperando, supôs ele, pô-lo pouco à vontade. "É toda vossa", pensou ele. Interrogou-se se eles iriam esperar pelo cair da noite para a assaltar ou
roubar. Durante um momento, pensou em deixá-la aberta, mas depois decidiu o contrário. "D
eixá-los trabalhar", pensou ele. É a maneira americana.
Fez rodar a cadeira através do edifício, passando pelo vestíbulo da entrada, com a sua selva de plantas de plástico verde. Um homem de cabelo preto, usando uma camisa
branca suja e suspensórios, estava a ler um jornal grego atrás do balcão. Olhou para
Gary, desconfiado e grunhiu na sua direcção quando ele passou. Gary continuou pelo corredor, que estava iluminado por lâmpadas muito fracas, até chegar ao número
sete.
Abriu a porta do quarto e entrou. As persianas estavam corridas, e o quarto escuro e quente. Acendeu o candeeiro da mesa-de-cabeceira, com um abajur em forma de
pagode, e ficou a olhar o quarto fracamente mobilado.
Em cima da mesa-de-cabeceira, para além do candeeiro, via-se um calendário da única fábrica de bebidas da zona e um telefone. Durante algum tempo, Gary fixou o telefone;
a frase lá inscrita "Peça socorro" pareceu ficar a percorrer-lhe a cabeça. "Pedir
a quem?", pensou ele. E porquê? Que lhe poderiam dizer que o pudesse fazer querer continuar?
Um psiquiatra qualquer que lhe diria que ele estava deprimido e precisava de deitar para fora todos os seus traumas de infância? A sua vida antes do acidente não
tinha sido nem melhor nem pior do que a de qualquer outra pessoa. Os pais não se davam be
m, mas não chegavam a discutir. O pai limitava-se a levantar-se um dia e partir. E estar fora por períodos de tempo cada vez maiores. Gary perguntara-se muitas vezes
a si próprio para onde é que ele iria. Mas Karl nunca dissera. Talvez fosse para Bost
on algumas vezes, talvez ficasse ali, naquele mesmo quarto, numa das suas viagens em que se afastava deles. Talvez ele estivesse em Boston naquele mesmo instante,
naquele bar ao fim da rua, a mostrar a outros bêbedos uma fotografia do filho. A dizer:
"Ele é um artista, tal como eu."
"Já pareço a minha mãe", pensou Gary. O sarcasmo era a única maneira que Wanda tinha de lidar com a deserção de Karl. Tentou afastar a lembrança de Wanda da sua
cabeça, ele sabia como ela continuaria quando descobrisse. Mas, finalmente, talvez ficasse
aliviada. Quantas vezes tinha ela dito que o seu acidente lhes havia arruinado a vida? Ao fazer o que decidira levar a cabo libertá-la-ia também do peso dele. E
Laura? Gary sorriu amargamente ao pensar em Laura, mas os cantos da sua boca tremeram. Nã
o, Laura não. Ela estava em lua-de-mel.
Gary abriu a caixa que estava no seu colo e examinou a arma. Era pesada, muito mais pesada do que ele tinha esperado. 0 homem da loja mostrara-lhe como se carregava
e tinha-o avisado para ir para a carreira de tiro e praticar antes de começar a utiliz
á-la. "Acho que não preciso de muita prática para isto", pensou ele. Agora que o momento chegara, sentia-se curiosamente afastado de tudo. Durante toda a semana,
enquanto decorrera o período de espera, tinha vindo a preparar-se, comendo pouco, dormind
o ainda menos, colocando-se
numa espécie de estado exterior às coisas do dia-a-dia. Limitando-se a existir naquele quarto. Indo até ao parque para passar o tempo e as horas. Uma imagem de Aaron,
o homem que encontrara no parque, atravessou-lhe o espírito. Durante um instante pas
sageiro sentiu aquela velha curiosidade sobre a vida, mas afastou o pensamento. Não suportava pensar nisso. Já nem se sentia furioso, nem sequer triste. Os factos
eram simples, Laura e Michael estavam perdidos para ele, apesar de todos os seus planos
e esperanças idiotas. E que mais havia? Nunca se tinha apercebido do total estado de solidão em que se encontrava, até ao momento em que a enfrentara naquele alpendre
das traseiras, o cheiro dos lilases no ar, e ela admitindo que se havia casado de no
vo. Ao afastar-se da casa dela, tinha visto o que era a sua vida. Imaginara-se a voltar para o seu quarto e para a mãe que estaria à sua espera... à espera de quê?
Por isso continuara a guiar. Mas as sensações haviam-no perseguido. Tinham-se instalado
como uma nuvem venenosa. Que estava com ele agora.
Gary apreciava o aspecto daquele quarto, degradado e estranho. O local perfeito para o trabalho. Apesar da calma interior que sentia, os seus dedos tremiam enquanto
carregava a arma. Pôs uma bala em cada uma das câmaras. Não estava interessado numa ro
leta russa, não se tratava de um jogo; era uma conclusão lógica, um fim lógico para a sua vida lamentável. Pensou em Jimmy Reed. Queria que o seu último pensamento
fosse o da cara de Jimmy. Seria apropriado, porque tinha sido a morte de Jimmy Reed que
o conduzira para aquele local, em última instância. Um local onde ele não podia viver consigo mesmo nem mais um minuto.
Gary engatilhou a arma. Perguntou a si próprio se teria a coragem, a força para o fazer. Deixou-se ficar sentado durante um bocado. Não soube quanto tempo. A última
luz desapareceu atrás das persianas e só havia a escuridão lá fora e o barulho do trân
sito. Pessoas a passar, na sua pressa para chegarem a algum lado. Por alguma coisa que pensavam ser importante. Mas ele já lá estava, no local onde todos chegamos,
no final de tudo. Sentia-se incapaz de continuar a suportar toda aquela tensão. Era alt
ura de tomar uma atitude. Levantou a arma len
tamente e pressionou o cano contra a sua têmpora. Fechou os olhos e tentou pensar numa forma de rezar, mas estava demasiadamente vazio por dentro. O seu dedo tocou
ao de leve no gatilho e estremeceu.
Subitamente, bateram à porta.
***
CAPÍTULO 34
- Vamos ver essas unhas - disse Laura com aspereza quando Michael vestia a parte de cima do pijama depois de ter tomado banho.
- Eu lavei-as - protestou ele.
Laura pegou nas suas mãozinhas e esfregou-as distraidamente com os seus polegares, fingindo estar a ver os seus dedos. Não havia nada no mundo que fosse tão suave,
tão de confiança, como aquelas pequenas mãos nas suas. Michael percebeu que havia saril
hos, mas ele estava a ser corajoso, confiando nela para que tudo ficasse bem. E tudo iria ficar bem, lembrou-se ela. Nada lhe podia tocar porque ela não tinha feito
nada de mal.
- Parecem-me bem - disse ela.
- Eu bem te disse. Mamã, podemos jogar Uno? Por favor! -Está bem. Mas calça as pantufas antes de vires para baixo.
Laura deixou-o no quarto, à procura dos chinelos, e desceu para a sala de estar. Ian estava a olhar fixamente para a lareira apagada, um dos braços apoiado no rebordo
da chaminé, os lábios muito fechados.
- Espero que estejas preparado para um torneio de Uno disse Laura.
Ian deu um salto, surpreendido pelo som da sua voz. Laura aproximou-se e pôs os braços à volta dele e ele puxou-a para si.
- Estavas a milhares de quilómetros daqui - disse-lhe
ela.
-Tenho estado a pensar.
Ela pôs a cabeça para trás e olhou-o.
- Ai, sim?
- Acho que nos devemos ir embora, tal como tínhamos planeado. Eu sei que só íamos de barco no Verão e que depois voltávamos para os Estados Unidos, mas tenho estado
a pensar, porque é que não vamos até às ilhas e ficamos lá por uns tempos? Há uma ilha
em que eu parei, chamada Santo Eustátio, que seria um paraíso para vivermos. Fica nas Índias Ocidentais holandesas. O clima é perfeito durante todo o ano e o Michael
ia adorar. Seria como viver na Ilha do Tesouro. Uma grande aventura...
Laura afastou-se dele.
- Ian, não podemos ir. Sabes isso muito bem. Pelo menos por agora, agora que descobriram esse tal Herman Powell. Até saberem quem o contratou não podemos sair daqui.
- Mas porque não? - perguntou Ian. - Nada se modificou. Não nos podem deter sem terem provas. Porque havemos de viver sob esta nuvem de pesadelo? Vamo-nos embora
na semana que vem, tal como tínhamos planeado. O Michael só tem mais uns dias de escola.
- Não posso - insistiu Laura teimosamente.
- Porquê? Estás preocupada com o aspecto que isso pode ter? É um pouco tarde para isso.
- Não - disse ela. - Não me posso ir embora antes de prenderem a pessoa que matou o Jimmy. Não lhes vai levar muito tempo a descobrir, agora que sabem acerca do
Powell. E nessa altura posso pôr um fim a tudo isto na minha cabeça.
- O Jimmy está morto, que diferença faz se ficas aqui ou se te vais embora? Está morto, de qualquer das maneiras. E quero que nós comecemos a nossa vida. Enquanto
aqui estivermos, é como se estivéssemos a viver num limbo - gritou ele.
Laura olhou para ele com ar preocupado. Estava receosa que a sua resposta o pusesse ainda pior, mas não valia a pena negar aquilo que sentia.
- Ouve, eu... eu sinto-me culpada por te fazer passar por tudo isto. A perda não foi tua. A tua vingança, por assim dizer. Mas é minha, veio comigo, como parte do
pacote. Por isso, agora também é tua. Ian, eu tenho de saber, não me posso ir embora até
descobrir quem foi. Não percebes isso? Foi alguém que eu conheço que matou o meu marido. Tenho de saber quem foi. Tenho de saber que foram castigados. De certeza
que compreendes isso. Não te sentiste aliviado quando finalmente prenderam o Stuart Shor
t? Não o querias ver na prisão?
- Quem é que foi para a prisão? - perguntou Michael, entrando na sala de chinelos, o baralho de cartas Uno na mão. Laura foi ter com ele e puxou-o para si, embora
Michael tentasse fugir. Ian afastou-se deles.
- Não interessa, querido - disse Laura. -Vá lá, vamos jogar - pediu Michael. -Eu jogo - disse Laura. - Ian?
Ian aproximou-se e sentou-se no sofá. Estava tão tenso que parecia vibrar. Laura sentou-se ao lado dele e massajou-lhe os ombros.
- Posso dar as cartas? - perguntou Michael.
- Claro, querido - disse Laura distraidamente. Com grande concentração, Michael começou a baralhar as cartas. - Não te preocupes - murmurou ela a Ian. - Não vai
demorar muito tempo. E depois podemos ir... Mas não sei o que será viver nas índias Ociden
tais...
Ian olhou para ela.
- No fundo, tu não queres ir. Estás habituada a esta vida, não te consegues mexer. Porque foi que eu pensei que conseguiria modificar tudo isso? Fui um tolo.
Laura encostou-se para trás.
- Isso é completamente injusto - respondeu ela. - Eu estava preparada para partir. Tenho estado a fazer malas e a preparar-me. Sabes que tem sido assim. Mas as coisas
modificaram-se.
- É verdade - anuiu Ian amargamente. - Agora eles têm a certeza absoluta de que foste tu. Antes apenas suspeitavam.
Durante um instante, Laura ficou chocada pelas suas pala
vras. Depois perguntou-se por que motivo estava surpreendida. Ele estava a começar a estalar. Ela devia ter calculado que isso iria acontecer.
- Não falemos nisso agora - disse ela olhando para Michael.
- Porque estão vocês a discutir? - perguntou Michael. - Desculpa, querido. Vá, dá as cartas. Ian, vais jogar connosco?
Ian olhou para ela com uma tristeza desesperada nos olhos. "Daqui a pouco tempo ele vai deixar-me", pensou ela. Vai pedir desculpas, vai ser muito civilizado, mas
vai meter-se no barco e será adeus outra vez. "Não me interessa", disse para si própria.
"Tenho o Michael, hei-de sobreviver."
- Fugir não resolve nada - declarou Laura calmamente. - Eu tenho de ficar aqui. Mas tu não, se tu quiseres ir, eu compreendo.
Então Ian estendeu a mão e pousou-a sobre o cabelo dela. - Meu anjo-da-guarda - disse ele. - Como se eu alguma vez te fosse deixar...
A lealdade dele comoveu-a.
- Obrigada - murmurou ela sem o olhar. Fixou a carta que Michael lhe tinha dado. Deitou fora um cinco azul. - a tua vez - disse ela.
Ian suspirou e começou a jogar. Michael ficou todo feliz quando jogou uma carta que fez com que Ian perdesse a mão. - a tua vez mãe - gritou ele.
Jogaram três jogos, a atmosfera a tornar-se mais pacífica à medida que iam lutando pelos seus pontos. Laura foi à cozinha buscar uns aperitivos.
- É o último jogo, Michael - avisou ela quando regressou.
Michael jogou com toda a habilidade de que era capaz e ficou encantado por poder gritar "Uno!", enquanto os adultos resmungavam. Foi então que, de súbito, uma batida
na porta deu cabo do momento, como se alguém tivesse partido um ovo com um martelo.
Laura olhou para Ian, que revirou os olhos.
-Eu vou abrir - prontificou-se Michael, e desatou a correr para a porta da frente.
- Não corras com esses chinelos - avisou Laura enquanto Michael escorregava na curva e pelo corredor fora. Laura levantou-se do sofá e começou a segui-lo.
- É melhor ir ver quem é - disse ela, apreensiva. - Diz-lhes que se vão embora - acrescentou Ian. Enquanto seguia Michael até à porta, Laura foi subitamen te invadida
por uma memória da sua antiga vida, de Jimmy, que ficava sempre feliz por ver uma vi
sita, sempre pronto para conversar e para beber uma cerveja com quem quer que batesse à porta. A princípio, isso tinha-a deixado desconcertada, pois não fora educada
dessa maneira. Tinha crescido numa casa silenciosa, onde as visitas não eram bem-vind
as. Mas os anos que passara ao lado de Jimmy haviam conseguido modificá-la e percebia por que razão ele gostava de viver ali, naquela pequena cidade. Para ele, a
vida da cidade, do mundo sofisticado, era completamente estéril e nada satisfatória. Ali,
ele conhecia todas as pessoas e acolhia de braços abertos qualquer visita. E uma dessas pessoas, que ele não conhecia suficientemente bem, tinha estado a premeditar
a sua morte, recordou-se.
Michael abriu a porta, depois deu um salto para trás e abraçou-se à mãe com um pequeno grito. Laura franziu a testa quando viu o chefe Moore e dois polícias de uniforme,
do lado de fora da porta.
- Olá, chefe Moore - saudou Laura com um ar cansado. - Mistress Turner.
Ian chegou ao vestíbulo da entrada.
- Em que posso ajudá-lo? - perguntou Laura. -Vai ter de nos acompanhar.
Laura segurou os ombros de Michael. - Porquê?
Vince Moore olhou para baixo, na direcção de Michael. - Acho que não vai querer discutir isto... está a perceber... aqui...
- Não pode esperar até amanhã de manhã? - insistiu Laura.
- Receio bem que não. Tenho uma ordem para a sua prisão.
-Como? - gritou Laura. - Porquê?
- Por assassínio em primeiro grau de James Reed Júnior - disse Vince.
- Meu Deus, não é possível...
- Isto é uma loucura! - gritou Ian.
- Vai ter de vir agora connosco - insistiu Vince. - Por favor, leve o rapaz daqui. - Ajuda-me - pediu Laura.
-Sai daqui! - gritou Ian ao mesmo 'tempo.
- Mamã - choramingou Michael. - O que é que eles estão a fazer?
Um dos agentes deu um passo em frente, com algemas na mão e pegou nos pulsos de Laura. Esta sentiu que o mundo girava descontrolado à sua volta e apercebeu-se subitamente
de que era verdade, eles iam levá-la. Até então nunca tinha tido medo, porque es
tava inocente. Mas ali estavam eles, como um pesadelo trazido para a vida. Michael gritava, agarrado às pernas dela.
- Querido, por favor, não faças isso - pediu. Tentou dobrar-se até ele, mas o agente segurou-a pelo braço e pô-la novamente direita.
- Que provas têm? - inquiriu Ian. - Não podem invadir a casa de uma pessoa inocente desta maneira. A minha mulher foi uma vítima neste...
- Temos uma testemunha que implicou Mistress Turner no assassínio do primeiro marido.
- Isso é impossível - disse Ian.
- Não tenho de lhe dizer nada - acrescentou Vince. - Só lhe direi que temos uma testemunha que jura que ela procurou um assassino profissional para contratar.
Ian ia atirar-se ao chefe, mas o segundo agente segurou-o. - Isso é uma mentira! - explodiu Ian, com o rosto afogueado.
-Venha, Mistress Turner. - Eu vou com ela.
Laura olhou desesperada para o marido. -Tens de ficar com o Michael.
- Mamã, que estão eles a fazer? Não levem a minha mamã.
- Ian, por favor - pediu Laura no meio dos soluços do rapaz. - Não chores, querido. A mamã volta daqui a pouco. Laura sentiu as mãos debaixo dos seus braços que
a arrastavam do seu filho, da sua casa, do seu marido.
- Isto é um terrível engano - insistiu ela com voz trémula.
- Vamos embora daqui! - gritou Vince. A visão da cara de Michael era mais do que aquilo que ele podia suportar. Conduziram-na pelas escadas do alpendre, em direcção
ao carro-patrulha. Ao final da tarde tinha começado a chover e todos eles estavam a ap
anhar pequenos pingos que caíam na escuridão. Laura olhou para trás. Michael batia com a mão na porta e Ian segurava-lhe os ombros, a face horrorizada. Depois sentiu
uma mão sobre a sua cabeça e foi empurrada para o banco de trás do carro.
***
CAPÍTULO 35
Sidney aproximou-se com cuidado da mulher, sem ter a certeza se ela dormia na cadeira ou não. Estava muito quieta, embrulhada no seu roupão, sem ler nem ver televisão.
Mas isso não queria dizer que estivesse a dormir. Podia estar apenas sentada a olha
r para a chuva.
- Querida - disse ele. - É melhor tomares o teu comprimido.
Dolores voltou a cabeça para ele e fitou-o, os olhos vazios. Sidney mal podia olhar para ela. A sua Dolores' que era tão cheia de vida! Esta assemelhava-se a uma
concha. Desde que a trouxera do hospital que ela não se preocupara em se vestir. Garantia
que se sentia bem, mas não queria ir a lado nenhum. Era como se estivesse a viver num planeta crepuscular a maior parte do tempo.
-Trouxe-te uma bebida para empurrar - disse Sidney. Deu-lhe o copo e ela pegou nele. Os ossos da sua mão pareceram a Sidney frágeis, muito fáceis de partir. Dolores
engoliu o comprimido com indiferença e devolveu-lhe o copo.
- Queres que te traga um livro ou outra coisa qualquer? - perguntou Sidney.
Dolores abanou a cabeça.
- Não me apetece ler - respondeu ela.
"Não te apetece viver", pensou Sidney. Ouviu-se uma batida na porta.
- Eu vou abrir - disse ele. - Descansa.
Dolores afundou-se'de novo na cadeira. Não estava inte
ressada em quem pudesse ser. Não lhe importava permanecer naquela cadeira ou ir para a cama. Ouviu a voz de Sidney subir de tom e voltou ligeiramente a cabeça. Foi
então que ouviu pronunciar o nome de Laura e pôs-se de pé. Encaminhou-se para o marido
e ouviu-o falar.
- Sem comentários - afirmou Sidney.
O jovem que estava à porta usava gravata e tinha uma gabardina vestida. Não o reconheceu imediatamente, embora tivesse a sensação vaga de conhecer aquela cara.
- O que é, Sid? - perguntou ela.
- Este jovem é do jornal - disse Sidney, tentando falar calmamente, mas notava-se uma agitação reprimida na sua voz. - Está a dizer-me que prenderam a Laura pela
morte do Jimmy.
-Gostávamos de ter uma reacção sua, Mistress Barone - disse o repórter.
Sidney bloqueou a porta da entrada.
- Mistress Barone e eu não temos comentários a fazer. - Posso entrar? - perguntou o repórter.
- Não, lamento muito. A minha mulher não está bem - respondeu Sidney, fechando-lhe a porta na cara.
Voltou-se para Dolores, pronto a acalmá-la, mas ela afastou-o. Os olhos estavam incendiados, a cor tinha regressado à sua cara.
- Prenderam-na. Finalmente. Como é que conseguiram? Oh, graças a Deus, eu sabia...
Dolores voltou-se novamente para Sidney, que estava a verificar se a porta da rua estava bem fechada.
-Vão aborrecer-nos a noite toda - observou ele. - Sid, como é que eles conseguiram? Ele disse-te?
- Parece que surgiu uma testemunha. Foi só o que ele me disse.
Dolores apertou as mãos uma na outra.
-Foi ela. Eu sabia, eu sabia. Mas porquê? Porquê? Ele amava-a tanto. O meu Jimmy. Espero que a levem até à cadeira eléctrica. Como é que ela foi capaz de tal coisa.
Dolores estava dividida entre o desgosto e a extrema agitação.
- Calma, Dolores. Senta-te - pediu Sidney. - Tu ainda não estás bem.
- Oh, agora estou muito melhor. Melhor do que tenho estado há meses. Desde a noite de passagem de ano, para ser mais exacta. Finalmente, finalmente justiça para
o meu filho. - Os olhos de Dolores encheram-se de lágrimas. - Compreendes, Sidney?
- Ela será castigada por aquilo que fez - respondeu ele. Dolores abraçou-o, sabendo como a observação dele era veemente, sobretudo vinda de um homem de maneiras
calmas como o marido. Durante uns instantes ficaram abraçados, as lágrimas a correrem pelo
s olhos de Dolores. Depois, de repente, ela afastou-se dele.
- O Michael! - exclamou ela. Sidney franziu a testa.
- O que foi?
- Quero-o - disse ela. - Quero-o agora.
- Quem será que está 'a tomar conta dele? Não aquele Ian, espero - observou Sidney.
Dolores sacudiu os braços.
- Ela matou o pai dele. Não tem mais direito a ele. Vou afastá-lo dela, e nunca mais verá aquele miúdo. Sid, tens de telefonar ao Frank O'Malley - disse, referindo-se
ao advogado do casal. - Eu vou-me vestir.
Sidney olhou sombriamente para a mulher e fez um sinal com a cabeça.
- Eu vou telefonar ao Frank - anunciou ele. - Ele saberá o que fazer.
Laura sentou-se a uma mesa estreita, numa sala de interrogatório sem janelas, na esquadra de Cape Christian, aguardando a chegada do seu advogado. Estava à espera
de Richard, mas foi informada pelo guarda de que o seu advogado era de Filadélfia e que
se chamava Curtis Stanhope.
- Vão trazer a artilharia pesada por sua causa - observou o guarda com um tom de voz que roçava a admiração. Para além disso, não tinha mais nada para dizer e ficou
a olhar muito a direito, com os braços cruzados junto à porta.
Ocasionalmente falava numa espécie de código incompreensível para o seu rádio, mas não voltou a dirigir-lhe a palavra. Finalmente bateram à porta e o guarda voltou-se
para a abrir. Um homem forte, dos seus sessenta anos, com cabelo loiro e sobrancelha
s brancas, entrou na sala. Usava um casaco amarelo e calças amarelas e verdes. Tinha uma gravata com faisões dourados. Fez um aceno ao guarda, que saiu, deixando-os
sós. O alegre fato de Stanhope parecia terrivelmente deslocado, como alguém que usasse
um vestido vermelho num funeral. "Deve haver aqui algum engano", pensou Laura. Estava à espera de outro tipo de pessoa, com um fato listado.
- Mistress Turner - começou ele. - Eu sou o Curtis Stanhope. O seu marido contactou-me esta noite. Foi-me buscar a um dos jantares de beneficência da minha mulher.
- Obrigada por ter vindo - respondeu Laura automaticamente.
- Pode acreditar que fiquei contente por vir. Aquelas coisas são sempre uma maçada. Especialmente hoje em dia, em que já ninguém bebe!
Laura fechou os olhos.
- Pode tirar-me daqui? - murmurou ela.
Stanhope abriu uma pasta de cabedal tão brilhante que Laura conseguia ver a sua expressão reflectida nela. Tirou um par de óculos e colocou-os na ponta do nariz.
Depois estudou uma série de papéis.
- Vamos fazer o que for possível. Já falei com o promotor público e falei também com o seu marido. Mas naturalmente que quero ouvir tudo do seu ponto de vista. Mas
antes de ir mos a isso, no entanto, quero informá-la de tudo o que vai acontecer, passo
a passo. Ora bem, esta noite vamos ser ouvidos duas vezes. Em primeiro lugar, dentro de cerca de uma hora, temos a sua acusação, durante a qual será estabelecida
a fiança.
- De quanto será a minha fiança? - perguntou Laura. - Deixe isso. Não importa, o Ian arranjará o dinheiro de alguma maneira.
Stanhope olhou para ela gravemente, por cima dos aros de tartaruga dos seus óculos.
- Mistress Turner, este é um caso de assassínio. Homicídio em primeiro grau. Devo avisá-la de que é pouco provável que seja estabelecida uma fiança neste caso.
Laura ficou a olhar para o homem, mal podendo assimilar as suas palavras.
-Não haverá fiança?
- Vou argumentar que a senhora não representa um perigo para a comunidade. Não corremos o risco de que fuja. Mas, francamente, a natureza deste crime estará contra
nós. Não tem prisões, ou condenações anteriores?
-Não - protestou Laura.
- Isso é um ponto a nosso favor. Mas digo-lhe que estaria melhor se se tratasse de um crime passional. A natureza fria e calculista do crime vai influenciar o juiz
contra nós.
Laura segurou-se ao bordo da mesa, em vez de fazer aquilo que lhe apetecia. E o que ela tinha vontade era de pegar nas lapelas do casaco daquele homem e sacudi-lo.
- Mister Stanhope, o que se passa é que eu não fiz nada. Quero dizer que alguém fez, obviamente, mas que não fui eu. Eu amava o meu marido. Não faço a mínima ideia
porque me prenderam. É inacreditável.
Curtis Stanhope deixou escapar um pequeno suspiro.
- Estive alguns momentos com Mister Jackson, o promotor público, e ele disse-me que têm uma testemunha... um tal Dominick Vanese... que afirma que a senhora andou
à procura de um assassino, profissional no Verão passado.
Laura ficou a olhá-lo, tentando perceber o que ele tinha dito.
-Isso... isso é uma mentira grosseira. Eu nem sequer conheço ninguém chamado Dominick Vanese.
Stanhope olhou de novo para os seus documentos.
- Segundo parece, Mister Vanese é o proprietário de um restaurante em Atlantic City chamado Stella di Mare.
- Oh... - fez Laura.
- Reconhece o nome? Laura encolheu os ombros.
- Reconheço o nome. Quero dizer, o restaurante é muito famoso. O meu marido e eu jantámos lá uma vez. Mas não
conheço o homem que é proprietário do restaurante. Porque havia ele de dizer uma coisa dessas a meu respeito? Porque é que acreditaram nele?
- Espere - disse Stanhope. - Acalme-se. O promotor público não tem qualquer corroboração daquilo que o homem diz, portanto tudo isso se resume a uma assunção da
parte dele. Na verdade, eles não tinham outra opção senão prendê-la. - Porquê? O que é que
isso quer dizer?
- Eles não queriam correr o risco de que a senhora saísse da sua jurisdição. Estava a planear sair daqui, não estava? - Stanhope não esperou que ela respondesse.
- Eles acharam que podiam compilar mais provas uma vez que a tivessem segura sob custódia
. E depois havia esta história do seguro... - Eu disse à polícia. O nosso advogado aconselhou-nos. - Hum... - murmurou Stanhope. - Ele também a aconselhou contra
este casamento que fez, dada a continuada investigação policial em redor da morte do seu
primeiro marido?
- Na realidade, nem lhe dei possibilidade de me aconselhar - admitiu Laura.
- De qualquer forma, com o segundo casamento a ter lugar de forma tão apressada, e as questões que ainda existiam sobre a cena do crime, provavelmente não foi muito
difícil convencer um juiz a emitir uma ordem de prisão.
- Diz as coisas de uma maneira que até parece que sou culpada - objectou Laura.
- Pelo contrário, estou muito optimista quanto à nossa defesa. Obviamente que eles não têm muito em termos de provas físicas, nem testemunhas oculares, ou há muito
que estaria na prisão. Não, aquilo que eles têm é circunstancial, e têm o relato desta
testemunha. É suficiente para a senhora ser indiciada, mas não vejo como é que podem ter qualquer esperança em a condenar. Temos de ir atrás dessa testemunha. -
Isso quer dizer que eu vou sair?
- Sim, com esperança... e a seu tempo.
-A seu tempo? De que é que estamos aqui a falar? - A indiciação levará duas ou três semanas. Depois serão vários meses antes de ir a julgamento.
- Vários meses? - repetiu Laura. - Não posso ficar aqui vários meses.
Stanhope abafou-lhe os protestos e prosseguiu.
- Foi também marcada uma sessão de emergência esta noite no tribunal de família. Há um pedido para mostrar motivos pelos quais a custódia temporária do seu filho
não seja transferida para a sua sogra.
Laura ficou a olhar para ele, o coração a bater-lhe. - O quê?
Stanhope olhou para ela, sem emoção.
- A sua sogra, Mistress Sidney Barone, quer a custódia temporária do seu filho Michael, ficando a decisão final suspensa até uma sessão especial, depois do seu julgamento.
-Mas ela não o pode ter! - exclamou Laura, saltando da sua cadeira.
O guarda apareceu à porta, mas Stanhope fez-lhe sinal para ele voltar a sair.
- Sente-se, Mistress Turner - aconselhou ele. Laura sentou-se, mas inclinou-se sobre a mesa.
-Não a vou deixar ficar com o meu filho. Vai ter de a parar. Eles não a podem deixar levá-lo.
A voz de Stanhope era friamente contraditória.
- Receio que seja uma certeza virtual que lhe seja dada a custódia temporária. A senhora é acusada de matar o pai dessa criança. No caso de uma criança, o juiz tem
de decidir pelo lado da cautela. As probabilidades de o juiz decidir a favor da sua sog
ra são esmagadoras.
- Mas isso não é justo. Eu não fui condenada. Como me podem castigar sem terem provado que eu sou culpada de alguma coisa? Porque não pode o Ian ficar com ele?
- O seu marido não tem laços de sangue com a criança. Nem sequer é pai adoptivo. Para além disso, o seu segundo casamento é uma matéria neste caso, e pode ser levantado
no tribunal de família. O juiz não vai dar a custódia a Mister Turner.
- O senhor é meu advogado, mas nem sequer está a tentar ajudar-me - exclamou Laura.
Stanhope não ligou à explosão de Laura. Tinha anos de experiência com pessoas confusas e frustradas.
-Estou a dizer-lhe qual é a realidade da situação, Mistress Turner. Não vou gastar o meu tempo, nem o seu, a tentar dar-lhe falsas esperanças.
Laura tremia. Começava a compreender que o fato alegre e colorido do advogado era deliberadamente enganador. O homem que estava dentro desse fato era feito de aço.
- O que eu vou argumentar é que a sua sogra pode voltar o seu filho contra si. Presumo, pela sua reacção, de que há fortes possibilidades de que isso aconteça.
Laura aquiesceu, imaginando Dolores. Assim que pusesse as mãos em Michael...
- Oh, sim! - disse ela. - Ela vai convencê-lo de que eu lhe matei o pai.
- Bom, vamos ter de convencer um júri de que não o fez - respondeu Stanhope suavemente.
Laura olhou para o homem que lhe parecia estar do outro lado de uma brecha. Ele encontrava-se do lado onde Laura tinha passado toda a sua vida. O lado onde as pessoas
estavam seguras, salvas e só chamavam a polícia para pedir ajuda. E ali estava ela a
gora. A outra espécie de pessoa. Alguém que encarava um grave problema. Alguém que as outras pessoas evitavam. De quem, diziam aos filhos, deviam manter distância.
"Atire-me uma corda", queria ela gritar. "Eu pertenço ao seu lado, não me deixe ficar a
qui."
Stanhope continuava calmamente a tomar notas, escudado pela tampa da sua pasta reluzente.
- Agora vamos falar acerca do que aconteceu ao James Reed júnior.
-Não fui eu - disse ela com voz fraca. - Ajude-me. - É para isso que eu estou aqui - retorquiu ele num tom de voz agradável.
E Laura sentiu que a brecha se alargava.
***
CAPÍTULO 36
-Volte-se para a parede.
Laura meteu-se no elevador, os seus passos encurtados pelas grilhetas que tinha nos tornozelos, e obedeceu às instruções humilhantes do agente que a acompanhava.
As suas mãos estavam algemadas à frente, e Laura tremia dentro da camisola castanha cor d
e azeitona que era obrigada a vestir.
O elevador deu um salto e subiu dois andares. Fizeram a viagem em silêncio. As portas abriram-se e, acompanhada pelo agente, Laura saiu. Outro agente uniformizado
estava à espera e cumprimentou o colega. Laura podia perfeitamente ser invisível. Na dia
gonal em relação ao elevador, estavam duas portas de carvalho com uma placa onde se lia "Tribunal de Família". Ao lado de Laura havia outra porta.
-Espere aqui até a chamarem - disse o agente que a trouxera no elevador.
Laura foi levada para uma cela sem janelas que só tinha um banco para ela se sentar, uma retrete num canto e uma câmara de vídeo montada na parede, acima da sua
cabeça, para que ela pudesse ser observada do lado de fora. Deixou-se afundar no banco de
madeira, ainda a reflectir nos resultados da primeira sessão.
Tivera lugar no primeiro andar do mesmo edifício. Todo o procedimento tinha sido de pesadelo, feito na incompreensível linguagem da lei, pontuada pelo martelo do
juiz e a sua voz áspera a selar o seu destino: "Fiança recusada." Curtis batera-lhe no om
bro, murmurando qualquer coisa que seria suposto acalmá-la. Não se lembrava do que ele tinha dito.
Fiança recusada. Agora não se podia ir embora. Não podia voltar a casa, para o marido e para o filho. Não era capaz de aguentar tal coisa. Olhou para as correntes
colocadas nas suas mãos e pés. Absurdamente, pensou na carne que estava no frigorífico e
que precisava de ser congelada, ou então se estragaria. Ainda havia roupa no secador. Laura não se conseguia lembrar se tinha posto as tampas em todas as latas
de tinta. Não a deixariam confirmar nada disso. Iria ser interrogada por pessoas hostis at
é... até o quê? O seu espírito recusou-se a pesar as possibilidades.
Ouviu o bip do cartão de acesso e a porta da cela abriu-se. - Estão prontos - afirmou o jovem agente. Acompanhou-a até à porta do tribunal de família, e o ofi cial
de diligências do tribunal fê-los entrar aos dois. O tribunal era como o auditório de u
ma pequena escola. Tinha uma carpete bege e paredes creme. Em vez de um palco, havia a enorme secretária de um juiz, ladeada por bandeiras, elevadas e sobranceiras,
com uma cadeira de espaldar alto atrás dela.
O agente levou-a até junto da secretária onde Curtis Stanhope se encontrava sentado. A sala do tribunal estava praticamente vazia, tinha sido proibida a entrada
a jornalistas. Laura avistou Ian, sentado atrás de Stanhope. No outro lado da sala, atrás
do outro advogado, O'Malley, sentavam-se Dolores e Sidney, de mãos dadas. Sidney baixou o olhar quando Laura olhou para eles, mas Dolores fitou-a de frente, os olhos
frios de fúria.
Quando chegou ao lugar do réu, Laura voltou-se para Ian, que se levantou, inclinou e tentou abraçá-la, mas, o agente separou-os. O oficial de diligências, uma.mulher
que usava gra vata, casaco e uma camisa branca, anunciou que o tribunal estava em ses
são, sob a presidência da juíza Watkins. A porta de um dos lados da secretária abriu-se e a juíza entrou. Era uma mulher negra bem constituída, de meia-idade, com
olhos graves e inteligentes.
- Onde está o Michael? - perguntou Laura a Stanhope quando todos se levantaram.
-No gabinete da juíza. Com uma mulher-polícia - murmurou Stanhope enquanto a juíza se sentava e explicava por que razão estavam todos ali.
- Doutor O'Malley - clamou a juíza. - Pode começar. Frank O'Malley, um homem de cara redonda com cabelo branco e um fato amarrotado, pôs-se de pé.
- Meritíssima Juíza, os meus clientes são os avós de Michael Reed, uma criança menor cuja custódia temporária vimos pedir. A mãe de Michael Reed foi presa e acusada
do homicídio em primeiro grau do pai de Michael, James Reed Júnior. Dadas as circunstâ
ncias, os meus clientes, os avós paternos de Michael, pedem a custódia temporária imediata de Michael Reed, dependendo do resultado do julgamento de Laura Turner.
O Michael fica bem com os avós, gosta deles, e está habituado a ficar com eles. Por outr
o lado, mal conhece o padrasto, Ian Turner. A prisioneira está detida sem fiança, e não tem opção para quem cuide da criança. Mister e Mistress Barone desejam tomar
conta da criança imediatamente, e dar-lhe abrigo até este assunto estar resolvido.
Laura tentou levantar-se e foi encarada pelo olhar sóbrio da juíza Watkins.
Estou inocente. Isso não conta para nada? - perguntou ela.
Mesmo quando estavam a obrigá-la a sentar-se, ela percebeu como poderia parecer vazia naquele tribunal a sua manifestação de inocência.
A juíza dirigiu-se-lhe.
- Sente-se, Mistress Turner. Nós aqui somos informais, mas não toleramos explosões. Há-de chegar a sua vez de falar. Terminou, Mister O'Malley?
- Meritíssima, achamos que as circunstâncias falam por si. - Doutor Stanhope?
Curtis Stanhope levantou-se para falar. Laura olhou para Dolores, cuja face expressava determinação como Laura nunca tinha visto. Tentou sentir ódio pela sogra,
mas não conseguiu. "Ela faz a pior ideia de mim", pensou Laura. "Claro que ela quer o Mich
ael."
- Meritíssima Juíza - começou Stanhope -, não temos qualquer dúvida de que os avós do Michael amam o rapaz. Mas a minha cliente, que espera ser ilibada, não quer
que o seu filho seja envenenado contra ela até à altura em que será
posta em liberdade. E, infelizmente, isso é precisamente o que esperamos que aconteça sé o Michael Reed for entregue à custódia dos Barone.
Stanhope fez uma pausa e prosseguiu.
- Mistress Barone recusa encarar a possibilidade da inocência da sua nora. Como se pode esperar que ela seja justa? A minha cliente teme que Mistress Barone vá tentar
destruir a relação entre a minha cliente e o filho. E Mistress Turner não estará em
posição de evitar isso. Mistress Turner não quer desistir do filho. Apesar de não estarmos, de forma alguma, a subestimar a seriedade das acusações, a verdade é
que esperamos que Mistress Turner seja ilibada e capaz, portanto, de reassumir o cuidado d
o seu filho. Entretanto, ela pretende que o filho viva na sua própria casa e que lhe seja permitido olhar a mãe com o mesmo amor e afeição com que ele sempre a tratou.
Para tal, pedimos que a custódia do rapaz seja entregue temporariamente ao padrasto
da criança, Ian Turner.
Depois de ter ouvido ambos os lados, a juíza tomou algumas notas e depois olhou as pessoas à sua frente.
-As circunstâncias deste caso deixam poucas dúvidas. A lei deste estado tem precedentes em casos semélhantes a este. A mãe da criança é acusada de ter morto o pai,
e os avós estão dispostos e prontos para tomarem conta dele. Falei com o Michael no meu
gabinete e ele disse-me, sem quaisquer pressões, que quer ficar com os avós até que possa voltar a viver com a mãe. Assim, vou conceder a custódia temporária de
Michael Reed aos seus avós paternos, Dolores e Sidney Barone.
Laura sabia que este era o resultado previsível, mas sentiu a decisão como um golpe no peito. Cobriu o rosto com as mãos, enquanto Dolores gritava, exultante.
- Mistress Barone - retorquiu a juíza. - Os receios da sua nora são justificados, na minha opinião, e lembro-lhe de que ela é acusada e não condenada. Compreendo
que tem sentimentos muito fortes em relação a este assunto, mas ordeno-lhe que se coíba d
e falar neles ou de os tornar conhecidos do seu neto por qualquer outra forma. Com este fim em vista, um funcionário do tribunal fará visitas periódicas ao rapaz
e interrogá-lo-á a esse respeito. Qualquer violação desta instrução
porá em perigo a sua custódia, garanto-lhe. Se Mistress Turner for ilibada, tem o direito de reaver o seu filho sem o ter irremediavelmente voltado contra si. Fui
clara?
Dolores olhou comprometida para a juíza. - Sim, Meritíssima Juíza - murmurou ela.
- Muito bem. O Michael Reed será entregue à custódia dos seus avós imediatamente. O oficial de diligências pode trazer o rapaz do meu gabinete?
Laura sentiu as mãos de Ian nos seus ombros, pressionando-a como se estivessem a abraçar-se. Agora vitoriosa, Dolores recusava-se a olhar para Laura. A mulher de
casaco e gravata saiu da sala e regressou momentos depois, segurando Michael pela mão. O
olhar da criança percorreu a sala e encontrou o rosto que procurava.
- Mamã! - gritou ele, escapando à mão do oficial de diligências e correndo para Laura. Esta levantou-se e tentou ir ao seu encontro.
Um agente uniformizado avançou e segurou na criança, levantando-o do chão e afastando-o da mãe.
- Michael - chamou Laura.
Dolores e Sidney estavam à volta da mesa e aproximaram-se do agente.
- Anda, querido - disse Dolores. - Vem com a avó. - Mamã! - gritou Michael.
- Meritíssima Juíza! - protestou Stanhope. - Isto é uma crueldade.
A juíza Watkins, que se tinha levantado para sair, voltou-se e bateu com o martelo.
-Agente, deixe a criança ficar um momento com a mãe. Parecendo aliviado, o agente voltou a colocar a criança no chão e deu-lhe até um pequeno empurrão em direcção
à mãe. Michael correu para ela, e Laura agarrou-o, apertando o pequeno corpo contra o se
u.
- Meu querido - murmurou ela numa voz trémula. - Como eu te amo.
-Vem para casa comigo - pediu ele.
- Não posso. A avó vai tomar conta de ti durante algum tempo.
Quero que sejas tu a tomar conta de mim - desistiu Michael, com as lágrimas a formarem-se nos seus olhos. - E vou tomar - prometeu Laura. - Assim que eu puder.
- Eu quero agora - exigiu ele, esfregando os olhos com os punhos.
Por uma vez na sua vida, Laura agradeceu a sua incapacidade de chorar. Ela não queria que Michael ficasse mais assustado do que já estava.
-Agora não vai poder ser - respondeu ela. - Porta-te bem com a avó e o avô. Nós vemo-nos assim que eu puder. Custou-lhe a vida dizer aquilo, mas tinha de o fazer
sentir que tudo estava bem.
Laura ouviu vozes à volta deles e resistiu às mãos que lhe seguravam os ombros, separando-os.
- Amo-te mais do que tudo - gritou ela. - Sé um bom rapaz. Vai com a avó, agora.
O oficial de diligências conduziu o rapaz até Dolores, que o abraçou. A criança deixou-se ficar encostada ao ombro familiar. Dolores já não parecia cansada, estava
com um ar forte e cheia de determinação. Sidney olhou benignamente para os dois.
- Vamos, querido - murmurou Dolores para Michael. Laura pôs-se de pé com a ajuda de Ian. Tentou novamente abraçá-la, mas o agente ordenou que eles se afastassem.
Laura procurou os olhos de Ian em busca de força, mas viu neles um desespero tal que a fe
z afastar a vista.
-Adeus, mãezinha - proferiu numa voz trémula. Laura olhou para a cara da criança que se afastava. Segurava a mão de Dolores e acenava-lhe.
Mãezinha... Não lhe chamava assim há tanto tempo. A morte não podia ser pior do que aquilo, pensou ela. Como é que tudo acontecera? Agarrou na mão de Ian e disse
adeus a Michael. Então, ainda a acenar, sentiu que os seus dedos estavam a ser arrancados
dos de Ian, que o seu próprio corpo estava a ser arrastado, ao mesmo tempo que a porta do tribunal se fechava por trás do seu filho.
***
CAPÍTULO 37
O cheiro das salsichas e dos pimentos no grelhador inundava o sótão de Aaron Kellerman. Gary estava sentado à janela, olhando para baixo, para as luzes brancas da
rua. A rua tinha sido fechada ao tráfego durante a noite, uma vez que os paroquianos de
São Sebastião adornavam a sua estátua com flores e celebravam mais um dia do santo com comida, vinho e jogos de sorte.
Embora pudesse entrar e sair do sótão com facilidade, graças ao elevador do edifício, de tamanho industrial, Gary tinha dificuldades em percorrer as ruas estreitas
da parte norte da cidade mesmo em dias normais, quanto mais em dias de feira. Mas a vis
ta da janela era alegre e, normalmente, teria sido invadido pelo bem-estar. Naquela noite, no entanto, Gary estava melancólico, porque sabia que a manhã traria uma
mudança. Enquanto olhava para a rua, viu de repente Aaron a descer o quarteirão, depois
de ter acabado o seu turno da tarde no hospital. Era fácil distingui-lo entre a multidão, tinha um andar característico, a cabeça a mexer-se de um lado para o outro,
como se não conseguisse captar todos os pormenores e todos os cheiros que estavam à
sua volta.
Gary pôs a cabeça para trás. Não queria ser apanhado a ver a chegada do amigo. Era um hábito antigo, o costume de disfarçar o seu interesse pelas pessoas em relação
às quais estava mais curioso. Agora era uma coisa praticamente automática, embora pare
cesse que não tinha conseguido enganar Aaron. Gary ouviu os ruídos do elevador e sabia que o barulho se
guinte seria o da porta a abrir-se no andar de Aaron. Gary afastou-se da porta quando ouviu a chave a ser metida na fechadura. Aaron entrou, segurando um saco na
mão.
- Olha - disse ele à laia de cumprimento. - Comprei umas rocas para nós. Como não podemos combater esse cheiro, o melhor é juntarmo-nos a eles.
Gary sorriu fracamente e abanou a cabeça. - Estas pessoas adoram celebrar.
- Nunca perdem uma oportunidade - respondeu Aaron. - Essa é uma das razões pelas quais gosto de viver neste bairro. É tão cheio de vida!
Pousou os embrulhos sobre o balcão da cozinha e foi buscar uma cerveja ao frigorífico.
-Queres uma? - perguntou ele a Gary.
Gary fez que não com a cabeça e voltou a olhar pela janela. - Como foi a tua tarde? - perguntou Aaron.
Gary apontou para uma pintura em progresso, no cavalete que Aaron montara perto da janela.
- Trabalhei alguma coisa. Não pude sair do prédio assim que começaram a montar as mesas, era muito difícil andar por ali. Por isso obriguei-me a trabalhar.
-Amanhã já terminou tudo - anunciou Aaron em forma de desculpa, deixando-se cair sobre o sofá. - Não quero que te sintas um prisioneiro aqui.
Gary fez um gesto negativo, ele não se sentia como um prisioneiro, pelo contrário. E interrogava-se todos os dias quando é que Aaron lhe iria dizer que ele era uma
carga de trabalhos e que era melhor partir. Mas Aaron mostrava-se contente por o ter al
i. Gary até tinha medo de lhe contar o seu plano, receando poder ser mal compreendido.
Aaron bebeu um gole da sua cerveja e esticou-se no sofá. - Meu Deus, aqueles miúdos hoje estavam de todo! Queriam ir para a piscina coberta, o que é sempre uma grande
aventura, com muita acção. Todos a tentarem afogar-se uns aos outros, ou a eles mesm
os.
Gary fez um sinal de entendimento. -Aposto que sim.
Perguntou-se onde iria Aaron buscar a energia para dar
tanto às outras pessoas. O seu trabalho devia ser esgotante, mas parecia preenchê-lo completamente.
- Estás muito calado - observou Aaron, sentando-se mais inclinado para a frente. - Passa-se alguma coisa?
- Tomei uma decisão.
-Ah, foi? - perguntou Aaron.
-Vou-me embora amanhã. Tenho de me ir embora. Aaron sentou-se muito direito, voltando a garrafa entre as palmas das mãos.
- Mas porquê? - perguntou ele. - Pensei que ias ficar. -Tenho de ir lá resolver umas coisas.
Aaron ficou a pensar na resposta durante uns instantes. - Eu vou contigo - disse ele finalmente. - Posso tirar uns dias.
- Não - retorquiu Gary rapidamente. - Não, eu tenho de ir sozinho.
Aaron fez um sinal de assentimento e voltou a sentar-se no sofá. Ficaram os dois em silêncio durante algum tempo. Uma canção napolitana, cantada em italiano, entrou
pela janela. - Estás bem? - perguntou Aaron.
- É uma coisa que eu tenho de fazer - insistiu Gary. - Fico um pouco preocupado com o facto de voltares àquela atmosfera. Aos problemas que lá existem - disse Aaron
num tom de voz bastante clínico.
- Eu fico bem - garantiu Gary.
- Desculpar-me-ás se eu tiver algumas dúvidas a esse respeito - insistiu Aaron.
Gary não respondeu. Ambos sabiam o que ele queria dizer. Tinha sido Aaron que, ao bater à porta do quarto do Motel Golden Pheasant, lhe salvara a vida. Naquela noite,
Gary não tencionava, em princípio, responder à batida na porta, mas receara que pude
sse ser o gerente ou a criada, alguém que tivesse uma chave e que pudesse entrar. Por isso Gary tinha gritado à pessoa que batia à porta para se ir embora, mas a
voz suave e persistente de Aaron convencera-o finalmente a abrir. Pelo menos, abrir a por
ta, porque ele ainda não tinha sido capaz de se abrir com Aaron em relação aos desgostos e à desilusão que o haviam levado àquele estado de desespero. Mas houvera
momentos em que quase tinha falado.
-Há coisas que eu tenho de resolver antes de poder... voltar.
- Porque não deixas isso para trás? O que quer que tenha sido, levou-te até uma má situação. Porquê voltar atrás e ir remexer em tudo isso?
-Tenho de ir - insistiu Gary.
Aaron levantou-se e aproximou-se da cadeira do amigo. Agachou-se frente a ele e pousou as mãos nos braços de Gary, que observou o seu ar preocupado.
-Só espero que não sejas apanhado em qualquer espécie de pântano emocional outra vez.
-Vou tentar não ser. - Prometes que voltas?
"Porque queres que eu volte?", perguntou-se Gary. Mas foi como se Aaron lhe pudesse ler o pensamento.
- A minha vida tem sido melhor desde que vieste para aqui - declarou Aaron.
Gary corou, com prazer. Estava tão habituado a sentir-se um fardo para toda a gente.
- Claro - retorquiu Gary, embora não fitasse Aaron nos olhos.
- Deixa a arma aqui - pediu Aaron.
- Vou levá-la comigo - disse Gary. - Mas não é para... tu sabes que não. É só que eu sou mais vulnerável do que a maioria das pessoas. Na estrada.
- Preferia que te visses livre disso para sempre - retorquiu Aaron.
Gary olhou para Aaron. Ali estava um homem bom. Um homem genuinamente bom. Um homem que tinha ido atrás dele baseado num palpite e lhe salvara a vida. Uma pessoa
que tentava pensar o melhor das outras pessoas.. Que nunca pensaria em fazer qualquer mal
aos outros. Um homem que nunca usaria uma arma.
- Eu deito-a fora - prometeu Gary. - Logo a seguir a esta viagem.
***
CAPÍTULO 38
Uma fina camada de suor cobria o corpo de Candy Walsh e tornava peganhento o seu fato de treino cor-de-rosa e azul-turquesa. Estava a trabalhar os braços frente
a um espelho de tamanho natural, obsessivamente vigilante, procurando obter a forma perfei
ta. Ela não era como algumas pessoas que viam televisão ou ouviam música enquanto faziam os exercícios. Para ela, aquele exercício matinal representava um momento
de concentração, quase uma experiência religiosa.
Ouviu os passos de Richard nas escadas e franziu a testa, ele já devia ter ido para o escritório. Candy odiava quando ele se deixava ficar pela casa.
- Quem estava a bater à porta? - perguntou ela. Richard entrou na sala de exercícios de Candy e sentou-se num banco, as pernas estendidas à sua frente. Candy afastou
os olhos da sua própria imagem no espelho durante o tempo necessário para lançar uma
olhadela ao marido.
- Porque estás com esse ar preocupado? - Era a polícia - disse ele.
- Por causa da Laura? - perguntou Candy. - A Laura foi presa - respondeu ele.
-Não fiques com esse ar triste. Já não era sem tempo. Para além do mais, este vai ser um grande caso. Muito dinheiro para ti.
- Ela contratou outro advogado - informou ele. Candy abanou a cabeça.
- É preciso ter descaramento. Depois de tudo o que tu fizeste por ela.
- O melhor advogado criminal que há. - Vai precisar dele. A cabra!
Richard não olhou para a mulher. - Temos um problema, Candy.
Candy saltou da máquina, pegou numa toalha e começou a limpar-se.
- Não, não temos - contrapôs ela alegremente. -Temos, sim - insistiu ele com ar sombrio.
Candy franziu a testa. Ela odiava problemas, e os problemas eram do departamento dele.
- O que foi, Richard? - perguntou ela, irritada.
- Este... Stanhope... Ele vai querer ser pago. Eu não pensei nisso, pensei que ela ia continuar comigo.
- E então?
-Então ele é muito caro e vai querer muito dinheiro adiantado.
- Quanto?
- Oh, aí uns cem mil. Talvez mais.
- Esse problema não é nosso - declarou Candy com ar ligeiro. - O problema é dela. Que horas são, Richard? Preciso de começar a fazer os pesos.
-Não sei - disse Richard. -Então, olha para o relógio.
Richard não respondeu. Candy voltou a afastar o olhar do espelho e encarou-o.
- Onde está o teu relógio? - De repente reparou que Richard tinha na mão um pacote de papel. - O que tens no saco?
Ele olhou para ela com uma expressão de culpado e não respondeu.
- Richard - insistiu Candy. - O que é?
- Candy, fiz alguns maus investimentos com o dinheiro de Laura. A polícia já tem conhecimento. Foi por causa disso que estiveram agora cá.
- Porque se preocupa a polícia com o dinheiro daquela assassinazinha?
- É complicado - disse Richard. - Eles sabem que eu perdi dinheiro no casino.
- Que queres dizer com isso? Quanto é que perdeste? Richard exalou um profundo suspiro.
- Algumas... perdas significativas. Queriam fazer-me perguntas acerca disso.
Candy olhou para ele com os olhos semicerrados. Antes que ele o pudesse evitar, ela inclinou-se e tirou-lhe o pacote das mãos. Ele fez um gesto mas desistiu.
Candy abriu o saco de papel e olhou para dentro dele. A princípio pareceu perplexa, depois fitou o marido com os olhos em fúria.
- Está aqui o teu Rolex. E estas são as minhas jóias, que estavam no cofre - disse ela. - Richard, porque tens as minhas ricas jóias nesta porcaria deste saco de
papel?
- Precisamos de realizar dinheiro - respondeu ele. - Com muita rapidez.
- Oh, não! - exclamou ela. - Oh, não! As minhas jóias não, Richard. Não sejas estúpido. Temos montes de dinheiro. Vende algumas acções ou coisa do género.
Richard abanou a cabeça e olhou para ela.
-Idiota! - gritou Candy. - Que foi que tu fizeste?
Dominick Vanese olhava com aprovação paciente o descarregamento de pães da carrinha da padaria e que iam sendo levados para a cozinha do seu restaurante. Não resistiu
e partiu um deles, saboreando-lhe a crosta e o miolo denso.
- Então, Fiona? - perguntou ele quando a bonita jovem de calças de ganga e um avental da padaria acabou a última entrega e fechou a porta da carrinha. - Como está
o teu pai?
- Mezza, mezz - respondeu Fiona num tom agradável. Ela era o belo resultado da união entre um pai italiano e uma mãe escocesa. - Disse-lhe que o trazia para almoçar
para a semana.
Vanese assentiu com a cabeça. Tinha feito negócios com o pai de Fiona desde que abrira o restaurante, há trinta anos. Isso não era fora do vulgar em Vanese. Ele
era um homem que dava valor à lealdade acima de todas as virtudes, tanto nele como nos out
ros. já mais recentemente, o padeiro fora acometido por artrite reumatóide, mas Fiona havia tomado conta do
negócio, satisfazia as encomendas e mantinha a qualidade. O trabalho da vida do pai continuaria através das mãos da filha.
- Nenhum de nós está a ficar tão novo como já foi. Trá-lo cá que nós tratamos dele.
- Vou trazer, Mister Vanese - prometeu ela. Preparava-se para se meter na carrinha quando, subitamente, um homem saiu da rua escura atrás do restaurante, onde eles
estavam a conversar. Piscou os olhos diversas vezes, como que para se acostumar ao bril
ho, e depois viu os dois à porta da cozinha, nas traseiras. Começou a andar na direcção deles.
- Dominick Vanese? - perguntou o homem. Vanese franziu a testa.
- Quem quer saber?
O homem tinha um olhar selvagem, como o de um animal. Avançou até Vanese e agarrou-o pelo braço.
- Seu filho da mãe mentiroso! - grunhiu ele. - A minha mulher está inocente e você sabe isso.
- Quem é você? Largue-me - protestou Vanese, mas, enquanto pronunciava aquelas palavras, descobriu quem o homem era. Reconheceu-o imediatamente pela descrição, o
novo marido.
Ian pegou no homem pelas lapelas e puxou-o para perto da sua própria cara.
- Sou o marido da Laura Turner e quero saber por que razão mentiu acerca da minha mulher. Conseguiu pô-la na cadeia. E ela nunca lhe fez tal pergunta, aquela que
o senhor referiu, a possibilidade de contratar um assassino, e você sabe isso.
- Mister Vanese, o senhor está bem? - perguntou Fiona. - Acalme-se - disse Vanese. - Deixe-me em paz. Eu não tenho de lhe responder.
- Tem sim, seu miserável - gritou Ian. - Acha que pode arruinar a vida da minha mulher com as suas mentiras e que não tem de responder por isso? É melhor pensar
outra vez.
Desta vez pegou no homem mais velho ainda com mais força, levantando-o do chão, de forma que os seus pés ficaram a balouçar a alguns centímetros do solo.
- Já chega - exclamou Fiona, limpando as mãos ao avental e avançando na direcção de Ian. - Largue-o.
Ian não pareceu reparar na mulher que se lhe dirigia, toda a sua atenção estava focada em Vanese. Sacudiu de novo o homem, fazendo com que ele soltasse um gemido
de dor.
- Pare! - gritou Fiona. - Largue-o.
Começou a esmurrar Ian nas costas com os punhos, que eram invulgarmente fortes para uma mulher, devido ao seu trabalho de amassar pão e de levantar mercadorias pesadas.
Mesmo assim, Ian parecia não dar pela sua intervenção, o seu olhar estava cravado
em Vanese, à medida que tentava arrancar-lhe uma confissão.
- Socorro! - gritou Fiona. - Precisamos de ajuda! Dois cozinheiros ouviram o apelo e saíram da cozinha. Um deles era um negro de meia-idade, musculado, e o outro
um jovem tailandés. Viram imediatamente o que se estava a passar. Um dos cozinheiros segu
rou Ian por trás, afastando-o de Vanese, e o outro deu-lhe um murro no estômago. Ian dobrou-se em dois e caiu para o chão. Tentou pôr-se de pé e responder ao ataque,
mas o mais velho dos dois segurou-lhe os braços por trás e o jovem tailandês deu-lhe
dois murros na cara que atiraram Ian de novo para o chão e o deixaram a sangrar. Tudo terminou em breves instantes.
- Está bem, Mister Vanese? - perguntou Fiona, preocupada.
Vanese sacudiu-se um pouco e ajeitou os punhos da camisa. - Estou bem. Obrigado, querida - agradeceu ele com voz trémula.
- Qual era o problema dele? - perguntou a rapariga. Ao mesmo tempo que Ian se punha de pé, um dos cozinheiros fez menção de o ir esmurrar de novo.
- Não - ordenou Vanese. - Já chega.
Ian tentou endireitar-se. O sangue saía-lhe do lábio e uma nódoa negra estava a formar-se sob um dos olhos. -Agora vai o senhor ouvir-me - declarou Vanese, flanqueado
pelos seus ajudantes de cozinha. - Agora está todo excitado. Mas talvez um dia, nunc
a se sabe, possa dizer que eu lhe fiz um favor. Talvez ela tenha decidido ver-se livre de si a seguir. Desta maneira fica mais seguro.
Ian voltou a avançar para Vanese, mas desta vez o dono do restaurante estava bem guardado. Os dois cozinheiros avançaram para ele e detiveram-no. Um deles deu-lhe
uma palmada
forte num dos lados da cara e depois atiraram-no de novo para trás.
- Vá, desapareça - ordenou Vanese. - Não posso evitar que ela seja aquilo que é. Agora, vá-se embora.
***
CAPÍTULO 39
Laura caminhou até ao lavatório, abriu a torneira e colocou as mãos em concha de forma a apanhar alguma da água barrenta que corria em fio. Depois inclinou-se e
molhou a cara, numa tentativa fútil de aliviar a dor de cabeça que sentia. Com excepção de
uma hora, não tinha dormido o resto da noite. Durante as horas nocturnas, o barulho e o praguejar das outras detidas era pontuado por gritos e guinchos e o ocasional
bater de um bastão contra as grades, querendo silenciar as insolentes. Quando a manh
ã finalmente chegou, os gritos continuavam e uma onda de insultos e gargalhadas levantou-se, como vapor de água, através da ala feminina da prisão.
O pequeno-almoço tinha sido intragável, uma pasta que pretendia ser ovos mexidos e um pãozinho tão duro como uma pedra. Depois tinham feito exercício, e ela ouvira
os mur múrios das outras prisioneiras quando voltara a formar fila para regressar à sua
cela e uma mulher alta e musculada lhe tinha dirigido a palavra.
- Olá, querida. Dá cá beijinhos.
Laura voltou a entrar na cela com alívio.
Esfregou a nuca com as mãos molhadas e depois sacudiu a cabeça, como um cão, porque não tinha toalha. Em seguida, sentou-se no seu catre. Podia sentir as barras
de aço por debaixo do colchão muito fino. O ar na cela era quente e quase irrespirável. La
ura sentiu-se sem fôlego e, quando conseguiu respirar, o cheiro a corpos suados e a desinfectantes dominava
tudo. Não havia ar condicionado naquele espaço limitado. Em contraste com o modernizado tribunal, a cadeia de Cape Christian era primitiva, um símbolo da baixa consideração
em que eram tidos os seus ocupantes.
Laura encostou-se no catre e pôs as mãos sobre os olhos, fazendo pressão na zona onde sentia a dor de cabeça. Pensou na sua cama, em casa, e em estar lá deitada
com Ian, as som bras das folhas e alguns raios de Sol a entrarem pelas cortinas de renda.
E do outro lado do patamar, Michael, ainda adormecido. Tentou imaginar-se naquele local calmo e feliz, mas essa memória teimava em desaparecer. O seu espírito encontrava-se
em guerra consigo mesma, metade dela parecia querer dizer: "As pessoas inocent
es não são condenadas, não vão para a cadeia para o resto da vida. Vais ficar livre muito rapidamente." Mas a outra metade, a metade culpada e mais negra, apontava-lhe
um dedo acusador: "Este é o castigo por teres voltado a casar tão depressa, por ter
es querido ser feliz, por teres cedido ao desejo e teres recusado a Jimmy o luto que lhe era devido. Isto é uma espécie de retribuição cósmica, e apenas começaste
a per."
- Turner - chamou o guarda.
Laura deu um salto, destapando os olhos. - Uma visita.
- Meu Deus! - gritou Laura assim que se sentou frente a Ian à mesa das visitas. - O que te aconteceu? Instintivamente, Ian tentou tapar o olho inchado e todo negro.
Uma ponta de sangue apareceu-lhe ao canto da boca, quando fechou os lábios.
- Fui visitar Mister Vanese - replicou ele.
Laura sentiu uma enorme gratidão pela sua atitude galante. - Oh, Ian, não devias!
-Tinha de ir - respondeu ele. - Esse homem está a mentir a teu respeito e eu quero saber porquê.
- Estiveste a lutar com ele? - perguntou ela, preocupada. - Oh, Ian, ainda te prendem a ti a seguir.
- Não te preocupes - disse ele com uma gargalhada. - Já recebi a pior parte e nenhuma resposta.
Parecia muito cansado, os olhos meio fechados pela fadiga. A sua camisa azul estava manchada de sangue. Laura inclinou-se para lhe tocar na cara.
- Mantenha-se sentada - ordenou o guarda, dando um passo em frente.
Laura voltou a deixar-se cair na sua cadeira.
- Devias ir para casa e tentar descansar - recomendou
ela.
- Descansar? Como posso eu descansar contigo aqui dentro? Ontem à noite fiquei no barco, para fugir aos jornalistas, mas não consegui dormir. Tenho tentado apanhar
o Stanhope, mas a secretária dele continua a dizer-me que não sabe onde está. Acho que
vou a Filadélfia hoje e não me venho embora enquanto não me atender. Preciso de saber o que é que ele está a fazer por ti. Tu não tens de estar aqui.
- Desculpa - disse Laura com um ar muito triste. Ian segurou-lhe nas mãos.
- Não, não tens de pedir desculpa. És tu quem está a sofrer. E eu não suporto imaginar-te neste lugar.
Laura queria dizer-lhe que não era assim tão mau, mas não era uma boa mentirosa. Em vez disso, preferiu falar em alguma coisa que trouxesse esperança.
- O Stanhope disse que estava optimista, uma vez que não têm qualquer prova contra mim.
Ian abanou a cabeça.
-Achas que ele não estava a falar a sério? - perguntou Laura, ansiosa.
- Não, acho que sim, acho que estava - assegurou ele. - Mas eu quero saber o que é que ele anda a fazer a esse respeito. Devia ter alguém a investigar esse tal Vanese.
- Ian - começou ela. - Quero que saibas... Quero dizer, o que quer que esse homem tenha dito, eu não fiz nada disso. Nunca fiz! E desde que tu acredites em mim...
- Acreditarei sempre em ti - respondeu ele, os olhos cansados e perdidos.
Laura inclinou-se para trás e olhou para ele, como se estivesse a uma grande distância. "Não", pensou ela, "não vais ser
capaz. Não por muito mais tempo. E como te poderei eu culpar? Que lealdade se pode esperar de uma pessoa que é praticamente uma estranha?" Laura não podia permitir-se
pensar no seu corpo eléctrico, nos seus beijos desesperados. Isso não era real, isso
era um prazer de uma outra vida. Só havia algo por que ela tinha de lutar, era um rapazinho de cara redonda e olhos que confiavam, e de pequenos dedos que tinham
saído dos seus. Por isso ela podia lutar.
- Em que estás a pensar? - perguntou Ian. - Estou a pensar no Michael - respondeu ela.
- Terminou o tempo - anunciou o guarda, avançando e roçando o tampo da mesa com o seu bastão.
- Queres que vá a casa da Dolores e o tente ver? - perguntou Ian.
Laura imaginou a recepção que ele teria de Dolores e de Sidney. Até faria com que Vanese parecesse simpático. Abanou a cabeça.
- Obrigada, no entanto.
- Não ponhas esse ar polido - protestou Ian. - Eu faço o que quer que seja por ti. Eu amo-te.
- Vamos - disse o guarda, pegando em Laura pelo antebraço, os seus dedos a apertarem-lhe o sovaco através do tecido sintético.
Ian deslaçou os seus dedos dos dela e pôs-se de pé. Laura olhou para ele e sentiu a intensidade do seu olhar no seu estômago vazio. Depois deixou cair os ombros
quando outro guar da que a esperava do outro lado da sala a começou a escoltar pelo corred
or fora. Laura esperou, como uma rapariga da escola, quando ele parou para conversar com uma guarda, no corredor. Quando o guarda terminou, voltou-se e empurrou
Laura, como. se esta se tivesse recusado a andar. Laura deu um passo em frente e esperou e
nquanto as portas do bloco de celas se abriam; depois, recomeçou a andar. O guarda acabara de abrir a sua cela e fez sinal para que entrasse, quando surgiu outro
guarda à porta do bloco de celas.
- Ei! - chamou o guarda. - Há outra visita para a Turner.
O guarda que escoltava Laura suspirou e ela voltou-se. - O meu filho?
-Uma mulher - respondeu o guarda.
O guarda que a acompanhava olhou para o relógio. -Muito bem, vamos lá. Tem mais cinco minutos.
***
CAPÍTULO 40
Marta Eberhart sentou-se nervosamente na cadeira dos visitantes, batendo com a ponta dos dedos no tampo da mesa e dando ao guarda um sorriso fraco e pouco sincero,
de cada vez que os seus olhos se encontravam. O guarda olhava para ela sem grande curio
sidade, como se se tratasse de um insecto. Marta vira-se obrigada a inspirar profundamente, tal como fazia nas suas aulas de ioga, para não começar a bater em alguém.
"Vou levar este vestido para a lavandaria", pensou ela, "assim que voltar a Nova Iorque." Cheirava à paragem de metro de Times Square, naquele local, e ela esperava
que a lavandaria pudesse tirar-lhe aquele cheiro, uma vez que era o seu novo modelo Do
nna Karan. Tinha-o vestido porque realçava a sua figura e lhe dava um ar de estar a controlar tudo, e ela queria sentir-se exactamente assim, naquela sua primeira
visita a uma cadeia.
A porta da sala das visitas abriu-se e Laura foi conduzida para o seu interior. Marta deixou escapar um grito de descrença e deu um salto para a beijar.
- Sentada - disse o guarda.
Marta imitou o rosnar de um cão e voltou a sentar-se. O guarda ficou a olhar para ela, mas deixou passar. Laura sentou-se na cadeira frente a Marta, enquanto esta
a observava com uma descrença crescente. Estendeu a mão e segurou a de Laura.
- Oh, querida! - disse ela. - Isto não pode ser verdade.
Laura fez uma tentativa de sorriso, incapaz de esconder a sua raiva. Estava demasiado cansada e a cabeça doía-lhe de mais para isso. Olhou com gratidão para a sua
editora.
- Foi bom teres vindo, Marta. Sei como estás ocupada. - Oh, Laura, eu tinha de vir. - Marta inclinou-se para a frente e falou baixinho. - São horríveis para ti,
aqui dentro? - Não, é mais como se eu nem cá estivesse - respondeu Laura. - Sou invisível
para eles. Limitam-se a arrastar-me de um lado para o outro. O conteúdo da cela número treze D. - Isto é um pesadelo - disse Marta.
- Que tal foi a tua viagem? - perguntou Laura, tentando parecer uma pessoa normal. - Tiveste dificuldade em encontrar o local?
- Aluguei um carro, embora saibas como sou eu e a condução - respondeu Marta revirando os olhos. Estava prestes a lançar-se numa litania de queixas sobre o trânsito
e a sua própria inaptidão ao volante, mas pareceu-lhe absurdo estar a queixar-se, dada
a situação de Laura. - Foi óptima. Lembrava-me do caminho para Cape Christian, de quando cá tinha vindo para o funeral, e depois foi só perguntar onde era a...
cadeia.
Pronunciou a última palavra de uma forma especial, como se se sentisse embaraçada por a dizer em voz alta.
Laura olhou para a sua editora. Ainda se lembrava, no meio do seu próprio desgosto, como tinha ficado tocada pela presença de Marta no funeral de Jimmy. Depois do
serviço fúnebre, Laura tinha-se sentado com a perna pousada numa mesinha, as canadianas
pousadas a seu lado. Marta, entretanto, com o cabelo arranjado por Licari e as unhas por Elizabeth Arden, pusera um avental e ajudara a preparar pratos de comida
na cozinha para servir às pessoas que estavam na casa.
- Estiveste sempre presente quando eu precisei - afirmou Laura.
-Tento - respondeu Marta, com ar ligeiro.
- Podes crer que significa muito para mim teres vindo - acrescentou Laura.
- Eu só queria poder fazer alguma coisa... ajudar-te de alguma maneira. Sinto-me como se estivesses aqui sozinha.
- Mas não estou - declarou Laura com um ar mais corajoso do que aquilo que verdadeiramente sentia. - Tenho o Ian.
Parece ser um tipo fabuloso - observou Marta.
- Pensei que tu pudesses desaprovar, sabes? Casámos tão repentinamente... Todas as pessoas condenam.
- Desaprovar? - Marta riu-se. - Minha querida, estás a olhar para uma mulher que teve um jantar de Acção de Graças com uma lésbica divorciada e uma actriz decadente
suportada pelo Prozac. Se aparecesse o tipo certo, casava-me com ele em dois segundos,
mesmo num barril lançado nas cataratas do Niágara. Diz-me só uma coisa, o Ian tem irmãos?
Laura sorriu.
-Tem um, mas é casado.
- Estás a ver o meu azar? - perguntou Marta.
- Mal posso esperar para conheceres o Ian, quando isto tudo tiver terminado.
Havia um vazio no tom de voz de Laura, que fez com que Marta franzisse a testa. Tentou soar optimista quando lhe respondeu.
- Estou ansiosa por esse momento.
Laura fez um gesto com a cabeça e afastou o olhar.
- Ouve, tenho de te perguntar isto, tens um bom advogado? - Dizem que é o melhor. Chama-se Curtis Stanhope e é de Filadélfia. Foi o Ian quem o contratou.
- Isso já é bom - murmurou Marta.
- O que estás a pensar? - perguntou Laura, reparando no franzir de testa da editora.
- Nada. É só que... Posso ter de falar com o teu advogado. Não imaginas o número de chamadas que tenho recebido. Os abutres da comunicação social...
- O Ian disse que também o andam a perseguir - acrescentou Laura.
Marta abanou a cabeça.
- Estão num frenesim louco. A Sharon Glassman esteve uma hora ao telefone comigo, ontem. Ela é da agência ASM, de Hollywood. Querem os direitos para o cinema.
- Oh, Marta, não! - protestou Laura.
- Querida, não me interpretes mal. Eu acho que é horroroso, mas talvez os possa despejar a todos no colo de Mister Stanhope e ele os possa afastar.
-Ele é bastante duro. Ele trata deles. Faz aquilo que achares melhor - disse Laura. - Eu não quero falar a ninguém da imprensa, disso tenho a certeza.
- Vejo que o Bob Gerster já deu o seu primeiro passo - disse Marta com ar reprovador.
Laura olhou para ela com ar confuso. - Quem?
- O freelancer da Book World. Presumo que tenha sido ele quem te veio visitar. Não pode haver dois autores encarcerados neste sítio encantador, pois não?
- Não sei de que é que estás a falar - disse Laura. - Lembras-te dele. Queria entrevistar-te... oh, quando é que foi? No último Inverno?
Laura fechou um pouco os olhos, sentindo a memória a voltar.
-Vagamente... - disse ela. Era difícil pensar com aquela dor de cabeça. E tudo parecia tão pouco importante naquele momento.
- Ele foi ver-me, perguntou-me tudo sobre ti. Estava a fazer um trabalho sobre autores de livros para crianças. Era um grande fã... conhecia os teus livros todos.
- Ah, sim - respondeu Laura. - Lembro-me de ter dito a Jimmy que ele podia aparecer.
Laura sentiu uma onda de tristeza, recordando o entusiasmo de Jimmy, e como ela própria troçara da paixão dele pela publicidade.
- Dei-lhe as informações todas - continuou Marta. - E depois nunca mais ouvi falar dele. Pensei que ele tivesse perdido o interesse. Mas agora, claro, com todo este
escândalo delicioso, ele reapareceu...
- Se calhar... - disse Laura, desinteressada.
- Então? - perguntou Marta. - O que é que ele queria? Laura olhou. para ela sem a ver.
- Não sei. Eu não falei com ele.
- Vi-o a sair da área de visitantes quando eu vinha a entrar. Que seria que ele andava a fazer? - perguntou Marta. - Bom, isso também não interessa. Ainda bem que
não chegou a falar contigo. Se queres o meu conselho, guarda tudo para ti. Não fales com
nenhum deles.
- Eu não falo - prometeu Laura. - Podes acreditar. - Quase não o reconhecia - prosseguiu Marta. - Ele é um tipo simpático e bem-parecido, mas parecia que tinha sido
atropelado por um camião. Tinha um lábio em sangue e um olho negro... e parecia que nã
o dormia há uma semana.
Laura sentiu o coração afundar-se-lhe no peito. Olhou a sua editora.
- O quê? - perguntou ela em voz débil. -Terminou o tempo - disse o guarda. Marta inclinou-se para Laura.
-Mas eu nunca poderia esquecer aqueles olhos. Azul-mediterrânico. Com aquela camisa azul que trazia vestida. Uau! Sabes do que eu estou a falar? O tipo pode ser
um oportunista, mas é bem bonito. Mas pronto, tu não estás interessada em ouvir falar do B
ob Gerster. Já tens um homem. Mas a falta deixa-me louca...
- Ele tem cabelo preto? - perguntou Laura. Marta coçou as têmporas com as-unhas.
- Com um toquezinho de grisalho. E um bronzeado que nem te digo. Porque é que me preocupo? Não lhe devo ter causado qualquer impressão. Passou por mim hoje como
se eu nem estivesse ali. Bom, acho que tenho de ir.
Laura segurou a mão de Marta.
- Espera - pediu ela numa voz trémula.
O guarda aproximou-se e bateu no ombro do vestido Donna Karan de Marta.
- Já disse que o seu tempo acabou.
- Está bem - disse Marta, zangada e afastando-o. - Laura, é melhor eu ir andando. Ouve; se houver alguma coisa de que precises... seja o que for, quero que me telefones.
Marta segurou na mão gelada de Laura e olhou preocupada para os seus olhos.
-Vais ficar bem? Estás com péssimo aspecto. Tenta não te preocupares. Tudo se vai resolver, tu vais ver.
Laura ficou sentada com o ar de quem fora atingida por um raio, enquanto ouvia o som dos saltos de Marta a desaparecer pelo corredor.
-Acorde, Turner - disse o Laura não se mexeu.
- Já! - gritou o guarda.
Ela olhou em frente como se não o tivesse ouvido. Ele olhou para ela e espicaçou-a com a ponta do bastão. Laura fez um esforço para se pôr em pé.
guarda. - Vamos, de pê
***
CAPÍTULO 41
Wanda Jurik levantou o saco de compras da parte de trás do seu carro e começou a andar pelo caminho arenoso em direcção às traseiras da casa, a chuva a encharcá-la
toda. Pôs a mão por debaixo do saco, pois sabia que assim que ficasse húmido o mais pro
vável era rebentar e deixar cair todas as coisas que estavam dentro dele. E isso ela não podia permitir que acontecesse, pois não havia comida em casa. No dia anterior,
tudo o que havia comido fora um frasco de azeitonas pretas, que encontrara no fund
o de um armário. Não podia continuar assim. Mas, voltou a pensar, ela era incapaz de se decidir se queria continuar.
Naquele dia tinha sido a primeira vez que ela conseguira reunir força de vontade suficiente para ir até à loja em... já nem se lembrava há quanto tempo. E ocupara
todo o dia para fazer isso. Para reunir a energia necessária. Desde que Gary desaparecer
a, ela não tinha força para fazer fosse o que fosse. Deixava-se ficar sentada naquela casa sombria, por mais soalheiro que estivesse o dia, pensando nele em todos
os momentos. Por vezes chorava baixinho, certa de que ele estava morto. Outras vezes pen
sava que ele poderia estar vivo e nessas alturas interrogava-se como é que ele estaria a passar. Então a raiva apoderava-se dela: se estava vivo, porque não lhe
dizia? E depois, porque era impensável que ele pudesse ficar longe daquela maneira, voltav
a a ter a certeza de que ele estava morto. Era um círculo vicioso de torpor e terror. E às vezes pensava como era possível continuar mais tempo.
Quando deu a volta à casa e se encaminhou para a porta das traseiras, um veículo surgiu à sua frente, como uma resposta a uma prece. Durante um momento, Wanda não
conseguiu soltar um som. O coração batia-lhe na garganta e estava corada como se um rio
de sangue lhe tivesse inundado as veias. O saco das compras caiu-lhe das mãos e tudo se espalhou no chão. Começou a subir as escadas como louca e desatou a gritar
assim que abriu a porta.
- Gary, Gary, meu querido, onde estás?
Começou a correr pelas salas, as lágrimas a rebentarem-lhe nos olhos, gritando o seu nome. Podia ouvir a televisão ligada na sala de estar e, muito baixinho, uma
voz a responder-lhe. Correu para lá e viu-o ali sentado, a olhar para o ecrã, como se nun
ca tivesse saído daquele lugar.
- Oh, meu querido! - murmurou ela. Ajoelhou-se e arrastou-se até ele, encostando a testa aos seus joelhos sem vida. Ele estendeu a mão e bateu-lhe no ombro com suavidade,
mas distraído.
- Olá, mãe - disse ele com ar triste.
- Pensei que estavas morto - soluçou ela. - Quase estive, mãe - respondeu Gary.
- Oh, meu querido, estás de volta! Nem me atrevia a ter esperanças... - Wanda sentou-se nos calcanhares, fazendo festas ao tecido das calças de Gary, a cara molhada
pelas lágrimas. - Pus a polícia à tua procura. Porque te foste embora dessa maneira?
- Lamento que te tenhas preocupado tanto - disse ele. - Foi por causa de aquela mulher se ter casado? A Laura Reed. Eu bem te disse para a esqueceres. Quando é que
te vais convencer de que eu sei o que é melhor para ti? Oh, Gary, foi uma agonia! Como
é que pudeste estar este tempo todo sem me telefonares?
Gary olhou para a mãe, como se estivesse a uma grande distância. Havia manchas de cor nas suas faces pálidas. O seu cabelo estava perfeitamente penteado.
- Devia ter-te ligado, mãe. Tens razão. Foi errado da minha parte. É que eu próprio estive muito perto do abismo. Muito perto mesmo...
Wanda cobriu o rosto com as mãos e começou a soluçar abertamente, as lágrimas a escorrerem-lhe pela cara.
- Desculpa - disse ele fracamente. - Por favor, perdoa-me. Eu não sabia o que havia de fazer. Tinha de pensar... - Onde estiveste? O que fizeste? Como é que pudeste
viver todo este tempo sem a minha ajuda? Oh, meu Deus... - Acho que estava desesperado
- declarou ele. Um sorriso tímido abriu-se-lhe nos lábios pálidos. - E tempos desesperados pedem medidas desesperadas.
Wanda abanou a cabeça, tirando alguns lenços de papel do bolso e limpando os olhos e o nariz. De repente começou a rir, no meio das lágrimas.
- Oh, está tudo bem, não tem importância. Pensava que enlouquecia, mas não importa. O que interessa é que tenhas voltado. - Olhou para ele, com os olhos brilhantes.
- Estás em casa. Isso é que importa.
- Não, mãe. Temos de falar - disse ele fracamente. O olhar de Gary era estranho e ela sabia-o. Preferiu evitá-lo. Descansou o queixo no seu joelho ossudo e começou
a cantarolar baixinho. Wanda nem se preocupava com o facto de estar a perder os seus pr
ogramas de televisão. Poderia ficar assim durante horas, apenas os dois, seguros e juntos.
-Agora não, meu querido - prosseguiu ela. - Primeiro, deixa-me tomar conta de ti. Deixa-me arranjar-te uma chávena de chá. Precisas de descansar, passaste por tanto!
Tenho de tomar um chá.
Durante um momento interrogou-se se teria leite para o chá. Lembrou-se do pacote de compras que deixara cair no caminho. Iria lá fora buscar tudo. Aqueles pacotes
eram resistentes. Havia de estar tudo bem. Arranjar-lhe-ia um chá e talvez fizesse com q
ue ele tomasse um daqueles Valium que o Dr. Ingles lhe tinha receitado a ela. Isso serviria para o acalmar e ela arrumaria as suas coisas enquanto ele dormisse.
Onde quer que ele tivesse estado, não lhe tinha feito qualquer bem. Disso tinha ela a cert
eza.
- Deixa-te ficar aí - observou Wanda suavemente. - Eu já trago o chá.
Correu para a cozinha e deitou água na chaleira. Tivera de
acender o bico de gás com fósforos de cozinha que, distraidamente, ia guardando no bolso quando o bico se acendeu. Podia ouvir a televisão ao mesmo tempo que procurava
uma chávena lavada e um pires. Depois colocou um saquinho de chá na chávena e saiu
para o caminho das traseiras, para ir buscar as compras que deixara caídas à chuva. Ficou ali especada, com as mãos na cintura, a olhar para a confusão que estava
ali mesmo ao pé das escadas. Algumas das coisas eram irrecuperáveis, os morangos que com
prara estavam esmagados e misturados com a terra. Um saco com pãezinhos tinha-se aberto e os pães estavam espalhados, como pedras douradas. Mas ela não se importava.
Pegou nos sacos e latas com o coração a cantar. Estava preocupada com ele, ainda a pe
nsar em Laura Reed. Tudo fora tão traumático para ele! Assim que o alimentasse e o pusesse bom, ele esqueceria o resto. Entretanto, ela estava viva outra vez. A
chuva caía-lhe na cabeça e nos ombros como uma bênção. Ele encontrava-se em casa de novo.
O mundo dos dois estava completo. E isso era tudo o que importava.
Wanda regressou à cozinha, apagou o lume da chaleira que apitava e serviu o chá. Arrumou nas prateleiras as compras que conseguira recuperar, depois deitou leite
no chá e pôs açúcar na chávena, tal como ele gostava. "Talvez uns bolinhos", pensou ela.
Examinou o pacote, tinha um pequeno rasgão, mas os de cima ainda estavam bons. Comprara daqueles de que ele gostava, por puro hábito. Pela esperança de uma mãe contra
a própria esperança. E tinha sido recompensada. O seu filho bem-amado estava em casa
.
Equilibrando os bolinhos no pires com a chávena, iniciou cuidadosamente o caminho de regresso à sombria sala de estar.
***
CAPÍTULO 42
-Mais alto, avô! - gritou Michael.
Sidney deu ao balouço um empurrão extra, que o fez subir no ar. Havia outro rapaz mais velho no balouço do lado e Michael estava decidido a ultrapassá-lo.
-Agora dá balanço - ordenou Sidney ao neto. - Estou a fazer o trabalho todo.
Michael riu-se e o som da sua gargalhada era um bálsamo para o coração pesado de Sidney. "Ele é feliz aqui connosco", pensou Sidney. "Isso é que importa. Isso e
a Dolores."
Olhou para o banco do parque situado por baixo da ginjeira. Dolores estava sentada muito hirta, voltada para eles, embora ele não pudesse ver os seus olhos, escondidos
atrás de uns óculos escuros que tinha trazido. Um leve nevoeiro começara a instalar
-se, mas mesmo assim ela continuava com os óculos. -Mais, avô - pediu Michael.
- Estou a ficar cansado - disse Sidney. - Vou-me sentar com a avó. E tu vê se começas a dar balanço. Hás-de apanhá-lo.
Piscou o olho ao rapaz mais velho que se encontrava no balouço do lado. Michael, ao perceber que a sua fonte de energia estava perdida, começou a dobrar os joelhos
e a concentrar-se na sua tarefa.
Sidney caminhou até ao banco e sentou-se ao lado da mulher, tirando o seu lenço para limpar o suor da testa. Dolores deu-lhe uma palmadinha na mão, enquanto olhava
para o neto no balouço.
- Levamo-lo ao molhe para jantar? - perguntou Sidney;-Vai começar a chover - disse Dolores.
- Talvez não chova - retorquiu Sidney. -Não - insistiu ela. - Não me parece.
- Então, podemos comer lá dentro. Podemos comer amêijoas no final do molhe. Têm aquele pátio interior onde podemos ver as ondas.
Dolores fez um gesto de aquiescência com a cabeça. -Parece boa ideïa - observou ela num tom de voz vazio.
- Temos de o manter ocupado - disse Sidney. - Fingir que isto é uma espécie de férias, para ele não ficar muito preocupado.
-Tens razão - anuiu Dolores.
- Isto é o melhor para ele. O lugar dele é connosco. Nestas circunstâncias, o lugar dele é connosco.
- Oh, eu sei - retorquiu Dolores. - Nestas circunstâncias.
Deixaram-se ficar sentados em silêncio durante uns momentos, olhando o neto. Michael tinha perdido o interesse no balouço, agora que o avô já não estava com ele.
O rapaz mais velho trouxera uma bola de basquetebol e começara a tentar encestá-la. Micha
el deu uns passos e pontapeou uns calhaus no final do campo. O rapaz mais velho viu o olhar de Michael e atirou-lhe a bola. Surpreendido, Michael deixou-a escapar,
mas logo correu atrás dela e voltou com ela para o campo. Fez pontaria ao cesto.
- Faz primeiro um drible - aconselhou o rapaz mais velho e passou a mostrar como se fazia.
Sidney suspirou e fez um gesto com a cabeça. - A melhor coisa para ele - disse em voz alta. Dolores não respondeu. Sidney deitou-lhe uma olhadela, sabia que lhe
devia perguntar o que estava mal, mas a expressão no rosto de Dolores enchia-o de terror.
Alguma coisa a preocupava, algo a consumia. Tinha estado assim todo o dia, desde que um repórter havia mencionado o nome da testemunha, Dominick Vanese. "Mas porquê?",
pensou ele. Tudo corria bem por agora. Laura estava na cadeia, onde devia estar, e
eles tinham Michael. Era uma situação terrível, mas fora, pelo menos, uma resolução. Ele tinha pensado que Dolores poderia finalmente ficar satisfeita. Bom, não
satisfeita, exactamente, mas mais em paz com a situação. Pensara que ela poderia recuperar
o seu bom humor. Ele tinha feito tudo o que um homem podia fazer, e, mesmo assim ali estava ela sentada, consumida pela ansiedade mais uma vez.
Sidney pensou no tempo que antecedera a morte de Jimmy, quando a sua vida em conjunto constituíra um sonho de felicidade. Ele tinha imaginado, quando casaram, que
a parte de "para o mal" chegaria quando fossem velhos e doentes, e a tentar cuidar um do
outro. Mas essa parte chegara mais cedo, com a morte do filho de Dolores. Às vezes perguntava-se se "o bem" teria acabado para sempre.
"Nem lhe vou perguntar nada", pensou ele. "Vamos fingir que aproveitamos este dia."
- Sidney - disse ela. - Temos de falar acerca disto. O tom da sua voz fê-lo sentir o coração parar.
- De quê, meu amor?
- Sabes tão bem como eu - respondeu ela. - Da testemunha. Tenho andado a pensar nisso desde que ouvimos o seu nome àquele repórter, esta manhã.
Sidney sentiu o estômago dar uma volta. - O que é que tem? - perguntou ele. - Nós conhecemo-lo, não conhecemos? Vanese? Sidney respirou fundo. E assentiu com a cabeça.
- Conhecemos.
- Nunca o encontrei, por isso levou-me um bocado até conseguir situar o nome, mas de repente veio-me à cabeça. Ele é um dos teus clientes. Foi no condomínio dele
que estivemos na Florida.
Sidney olhou para Michael, que fazia pontaria ao cesto e falhando por um quilómetro.
- É verdade.
- Porque mo disseste? Porque não me disseste isso antes de irmos a tribunal? E porque é que não disseste à polícia? - Eu não sabia - protestou Sidney. - Só ouvi
falar no assunto esta manhã. Tal como tu.
Podia sentir a mulher a remexer-se a seu lado, embora não a olhasse.
- Sidney, estás a tentar dizer-me que este homem, este teu velho amigo, soube todo este tempo que a Laura andava à procura de um assassino para contratar e nunca
apareceu para contar isso? Porquê? Ele podia ter evitado o assassínio do nosso filho. Que
espécie de homem é este?
- Ouve, eu não estou a tentar dizer-te nada. Eu não sei nada. O Vanese disse à polícia que nunca tinha somado dois com dois.
- E tu nunca discutiste isto com ele. O homem empresta-nos o condomínio e vocês nunca discutiram o assunto?
- Não, nunca falámos disso. Não é amizade; esta história do condomínio foi uma coisa de negócios. Eu não vejo esse homem a não ser de ano a ano. Ele utiliza o meu
serviço de atoalhados no restaurante e ponto final.
- Isto é estranho, Sidney. Há alguma coisa muito estranha aqui.
Sidney não respondeu. De repente, levantou-se e bateu as palmas.
- Vamos, Michael. Vamos embora. Dolores, vamos. Não sei mais do que tu. Vamos andando.
Michael ia protestar quando a avó gritou. - Podes continuar a jogar.
Michael ficou contentíssimo com o
tempo extra e voltou para o outro rapaz, pedindo para atirar outra vez. -Tu, volta a sentar-te - ordenou Dolores ao marido. Sidney deixou-se ficar de pé, a olhar
para o campo de basquetebol, o coração a bater-lhe forte no peito.
- Eu não nasci ontem e tu vais-me dizer o que é que se passa aqui. Porque esperou esse homem, esse Vanese, tanto tempo para ir à polícia? Quero uma resposta, Sidney.
Exijo uma resposta.
- Ele não sabia que tinha sido a Laura quem fora ter com ele. Foi o que disse. E eu nunca discuti o assunto com ele. Dolores olhou para o marido.
-Não acredito em ti, Sidney. Por que razão me estás a mentir? Nunca foste um bom mentiroso.
Sidney sentou-se de novo no banco e falou calmamente. - Deixa estar as coisas como estão, Dolores. Deixa estar. Dolores olhou para o marido, surpreendida. A cara
amigável de Sidney assemelhava-se a um rosto de pedra.
- Que mais sabes tu? - inquiriu ela. - Que mais é que não me estás a contar?
Sidney considerou todas as opções. Ele conhecia a mulher, assim que uma ideia se lhe metia na cabeça, não havia maneira de a tirar de lá. Ele deveria ter sabido
que ela começaria a in terrogar-se. Ainda por cima, era curiosa. E agora que tinha essa no
ção na cabeça, Sidney sabia que não poderia aguentar as suas respostas por muito tempo. Tinha-se enganado, imaginara que, no momento em que tivesse aquilo que queria,
se desinteressaria do resto. Ele cometera um erro de cálculo. Conhecia Dolores e sab
ia que ela o iria massacrar, não teria outra escolha que não fosse contar-lhe tudo. Teria acontecido mais cedo ou mais tarde. Sidney tentou reconfortar-se com esse
pensamento.
- Querida, ouve - começou ele. - Pensei muito nisto. Não havia outra maneira. Ambos sabemos que ela o fez... que mandou matar o Jimmy. Mas não havia provas e ela
estava prestes a meter-se num barco e sair daqui com o nosso neto e em liberdade. Tu sabe
s isso e eu sei isso. Não havia outra forma de a deter.
Dolores estava de boca aberta, a cabeça meio tonta e confusa.
- Que estás para aí a dizer? Estás a dizer que o Vanese mentiu acerca disto?
-Ele é um bom homem - interrompeu-a Sidney. - Ele queria ajudar-nos.
- Ela não foi ter com ele para falar de nenhum assassino - proferiu Dolores lentamente.
Sidney voltou-se para ela e fitou-a nos olhos.
- Tu acreditaste que havia sido ela desde o princípio. Eu não tinha tanta certeza. Mesmo quando ela casou com esse Turner, e tu ficaste doida com isso, mesmo assim
eu estava disposto a dar-lhe o benefício da dúvida. Mas quando descobriram acerca do Po
well, que mais poderia eu pensar? E estava a destroçar-te, vê-la escapar. Acabaste no hospital, por amor de
Deus! Senti que isto te ia matar se eu não fizesse alguma coisa...
-Pagaste-lhe para ele dizer aquilo?
-Nunca houve dinheiro envolvido - declarou Sidney. - Ele ofereceu-se. Foi um gesto de amizade.
Dolores deixou-se ficar sentada ao lado dele em silêncio. Sidney olhou para ela, mas não lhe conseguia ver os olhos por causa dos óculos escuros.
- A polícia vai descobrir tudo, sabes? Se eu relacionei o Vanese contigo, a polícia também o vai fazer.
Sidney encolheu os ombros.
- Montes de pessoas conhecem o Dominick Vanese. Toda a gente o conhece. E aqueles que não o conhecem, já ouviram falar dele.
- Podem ir os dois para a cadeia por causa disto! - gritou ela.
Sidney fez-lhe sinal para falar mais baixo.
- Ele não vai dizer nada. Ninguém vai ter de saber. Dolores olhou para Michael, que brincava. Sidney esperou que ela dissesse alguma coisa, mas durante uns momentos
permaneceu silenciosa. Depois estendeu a mão e segurou a dele. - Não estás zangada - d
isse ele cheio de dúvidas.
- Fizeste isso por mim - respondeu ela. - Eu não mereço essa espécie de amor.
Sidney sentiu um nó na garganta. - Mereces, sim.
- Mas não é verdade - insistiu Dolores abanando a cabeça. - Eu pensei que era verdade.
- E pode muito bem ser. Pensa no Jimmy - prosseguiu Sidney, feroz. - Ela fez com que o teu filho fosse assassinado a sangue-frio. Pensa no que ela fez ao Michael.
A sua própria mãe...
Dolores olhou para o neto, cujas perdas estavam momentaneamente esquecidas através da alegria de um jogo.
- Estou a pensar - afirmou Dolores.
***
CAPÍTULO 43
- Entre - gritou Clyde Jackson em resposta à batida na sua porta. Deu uma dentada num donut e sacudiu o açúcar que lhe caiu na lapela do seu fato azul. Ron Leonard
entrou no seu gabinete.
Ron fez uma careta de desaprovação dirigida ao seu chefe. - A Debbie sabe que estás a comer isso? - perguntou ele.
A mulher de Clyde, professora num colégio local, era conhecida por ser uma fanática pela saúde, controlando de perto os teores de gordura que o marido ingeria.
- A Debbie teve uma conferência em Nova Iorque. Por isso deixei o Clyde Júnior com a babysitter e depois esqueci-me de tomar o pequeno-almoço.
-Vou-lhe contar - ameaçou Ron.
Clyde soltou uma gargalhada e encolheu os ombros. -Acho que ela suspeita - disse ele. - O que há de novo?
Ron deixou-se cair numa cadeira frente a Clyde e abanou a cabeça, suspirando.
- Más notícias.
Clyde levantou as sobrancelhas e acabou o donut. - O que foi?
- Ontem andei a meter o nariz por aí. Parece que a nossa principal testemunha é um associado de longa data do Sidney Barone. O padrasto. Quando foram à Florida o
mês passado, ficaram no condomínio do Vanese.
- O Barone tem ligações com a máfia? - perguntou o promotor público, surpreendido.
Ron abanou a cabeça.
-Tem um negócio de toalhas e fornece o restaurante do Vanese há vários anos. O Barone e o Vanese cresceram juntos no mesmo bairro.
- Merda! - exclamou o promotor público. Durante uns momentos pesou as implicações daquela informação. - Achas que os Barone obrigaram o Vanese a fazer aquilo?
Ron abanou a cabeça de novo.
- O perjúrio é uma coisa muito séria. Não consigo imaginar um tipo esperto como o Vanese a deixar-se envolver se não fosse verdade. Ele nunca o faria por dinheiro,
não precisa de dinheiro. Mas, segundo parece, ele e o Sid Barone são amigos há muito te
mpo. E aquelas pessoas estão desesperadas. Quero dizer, um assassino contratado? Que farias tu se estivesses no lugar dos pais do Jimmy Reed?
- Pensaria exactamente aquilo que eles estão a pensar - disse Clyde. - Mas se a testemunha está a mentir, não temos caso contra a Laura Reed. Ou o novo marido.
Ron abanou a cabeça.
- É verdade. E assim que o Stanhope souber disto..'' É mais do que natural que ele venha a saber. Até me surpreende que os seus investigadores não estejam já em
cima do assunto.
Os dois ficaram em silêncio durante uns momentos, a pen
sar.
- O problema é que... - começou Ron. - Eu sei que o Turner é culpado. Sinto-o. Estava a mentir-me, no outro dia, quando o interroguei. Sei isso tal como sei o meu
nome. Acreditava mais nela do que nele, fosse em que altura fosse. Às vezes penso mesmo
que ela está a dizer a verdade. Mas não podemos chegar a ele a não ser que ela o implique.
- A única forma de apanhar o casal, é fazer com que um implique o outro... Acho que a nossa única esperança é trabalhá-la enquanto a temos. O que... - continou Clyde
olhando
o relógio, como se se tratasse de uma questão de minutos - não vai demorar muito tempo, se aquilo que dizes dos Barone e do Vanese é verdade.
- Oh, é verdade! - reiterou Ron.
- Temos de a ter aqui e trabalhá-la - disse Clyde de novo. - O advogado dela nunca irá numa coisa dessas - observou Ron.
Clyde agitou uma mão no ar.
-Acho que podemos arranjar alguma coisa. Dentro dos limites legais, é claro.
- Claro - assentiu Ron. - Mas por que razão havia ela de o denunciar? O Vanese não disse nada acerca dele. E ela diz que está inocente.
Clyde pegou num lápis e bateu com ele rapidamente no tampo da secretária.
- O que disseste há bocadinho deu-me uma ideia. Talvez se ela pensasse que nós acreditávamos nela...
- E porque é que ela havia de pensar isso? - perguntou Ron.
-Tu mesmo disseste que, às vezes, achas que ela está a dizer a verdade - lembrou Clyde.
- E às vezes penso - afirmou Ron. Clyde inclinou-se sobre a secretária.
- E és um bom actor, senhor detective? Consegues ser convincente?
Ron olhou para ele, surpreendido.
As luzes piscavam nas catacumbas do tribunal, indicando que um prisioneiro estava a ser deslocado. Laura mantinha os olhos baixos enquanto caminhava, arrastando
as correntes que lhe prendiam os pulsos e os tornozelos. Não queria encarar os olhares dos
empregados que paravam para a ver passar. Os guardas que a tinham acompanhado desde a cadeia mandaram-na sentar-se num banco instalado à porta do gabinete do promotor
público, e um dos guardas bateu à .porta.
- Entre - proferiu uma voz no interior, e o guarda meteu a cabeça pela porta, como que para anunciar a chegada de Laura. Esta não fazia a mínima ideia da razão por
que estava ali. Não tinha nada a tratar no tribunal, pelo menos que soubesse. Um guarda
limitara-se a chamá-la e a dizer-lhe para estar pronta dentro de cinco minutos.
Os seus braços nus começaram a ficar com pele de galinha, enquanto esperava no banco duro. Se a cadeia era má, o percurso de três quilómetros nas traseiras de uma
carrinha tinha sido ainda pior. Mas agora, nos corredores brancos e climatizados do trib
unal, Laura começava a gelar.
O promotor público apareceu à porta do seu gabinete. - Quer esperar aqui dentro, Mistress Turner? - perguntou ele, indicando o interior do seu gabinete com os seus
dedos longos e bem tratados. - O seu advogado, Mister Stanhope, foi contactado e já vem
a caminho.
- Está bem - anuiu Laura, contente por poder sair do frio corredor. Entrou no gabinete do promotor público e foi conduzida por um guarda até uma.cadeira em frente
à sua secretária. Quando o guarda lhe fez sinal, Laura sentou-se.
Ron Leonard instalara-se ao lado da secretária, o que fez com que Laura lamentasse instantaneamente ter aceite a oferta. O promotor público instruiu o guarda para
que esperasse lá fora. Depois, deu a volta e sentou-se no canto da secretária, esfregand
o o pulso com a outra mão e assumindo uma postura de grande familiaridade.
- Mistress Turner - começou o promotor público num tom de voz afável. - Gostávamos de falar consigo. Campainhas de alarme começaram a tocar na cabeça de Laura.
- Que estou eu a fazer aqui? - perguntou ela asperamente. - Onde está o meu advogado? Eu tenho de ter o meu advogado presente.
O promotor público Jackson levantou as mãos numa atitude de rendição.
- Tem toda a razão - assentiu ele. - E, como eu lhe disse, vem a caminho.
Laura olhou para ele de olhos semicerrados. E ficou à espera sem dizer uma palavra.
- Não - continuou o promotor público -, não a queremos interrogar. Pelo contrário, temos uma agenda bastante estranha para hoje, especialmente no que diz respeito
a um suspeito de assassínio. Mas é que aqui o detective Leonard tem uma teoria a seu res
peito que é muito interessante. Difícil de
lhe dar crédito, admito, mas mesmo assim interessante. Ele pensa que Mister Vanese está a mentir e que a senhora nos tem dito a verdade. Por outras palavras, ele
pensa que a senhora é inocente.
Laura recebeu estas palavras como um choque. Olhou para Ron Leonard, que lhe retribuiu o olhar com a mesma expressão desapaixonada de sempre a pairar-lhe nos olhos.
- Confesso que tento ser um espírito aberto - declarou o promotor público -, mas admito que preciso de alguma ajuda com esta teoria. Por isso pensámos em tentar
a teoria de le consigo, para ver se lhe diz alguma coisa. Acho que não há dúvidas de que a
lguém contratou o Herman Powell para matar o seu marido. Mas admitamos por um instante que não foi a senhora. Detective?
Ron Leonard aclarou a garganta e consultou o seu bloco de apontamentos. Laura tentou concentrar a sua atenção nele. Mas, apesar das dúvidas, a esperança começava
a crescer no seu coração. Poderia aquele homem, que sempre havia parecido tão hostil, ter
finalmente percebido que tudo era um engano? O seu espírito avançou no tempo, para a sua libertação, para a sua reunião com Michael, para... Pela milionésima vez,
Laura pensou na visita de Marta, na sua descrição de Bob Gerster. Tinha de ser Ian. Mas
como podia ser? E se fosse...
O promotor público reparou que Laura começava a divagar interiormente.
-Mistress Turner - interrompeu ele. - Esta hipótese desperta-lhe alguma curiosidade?
Laura inspirou profundamente.
- Sim, claro - respondeu ela, parecendo aos seus próprios ouvidos como uma criança que pede mais sobremesa. O detective Leonard não tinha os bons modos do promotor
público, e começou a expor as suas informações de uma forma desajeitada.
- Sabe que a primeira mulher do Ian Turner, Gabriella, e o seu filho, Phillip, morreram num incêndio provocado por fogo posto, ateado segundo se presume, por um
incendiário em série?
- Detective - interrompeu o promotor público em tom
ríspido. - Nada de perguntas, por favor. Estamos apenas a colocar aqui uma teoria.
- Claro que sei isso - disse Laura.
- Sabe... - Ron Leonard emendou a sua frase. - O irmão de Mister Turner, Jason, é bombeiro. Embora ele o negue, tenho razões para pensar que o Jason Turner possa
ter contado ao irmão tudo o que se sabia sobre o modus operandi do incendiário, a sua ass
inatura, por assim dizer.
- E então? - perguntou Laura friamente.
- Apesar de o Stuart Short, o incendiário que foi condenado, ter negado a autoria de qualquer desses incêndios, eu acho que é possível que, de facto, ele não tenha
sido o autor daquele incêndio em particular.
Laura olhou para ele. Tinha a boca seca, o coração a bater descompassadamente. Eles estavam a inventar tudo aquilo. A tentar passar-lhe uma rasteira.
- Isso não tem nada a ver comigo - conseguiu ela dizer. - A senhora e Mister Turner disseram que se tinham conhecido por acaso, há vários meses atrás, e que ele
não sabia nada de si. Mas eu tenho uma testemunha, um homem de Barbados, a cuja filha o Ia
n Turner ofereceu um livro escrito por si, Mistress Turner. Ele disse à miúda que a conhecia, que a ia ver. Tudo isto antes de os dois se terem encontrado. Agora,
toda a gente desta zona pensa que a senhora estava de conluio com o Turner, muito antes
de o Jimmy ter morrido. Mas, pergunto eu, e se não estivesse?
Foi necessária toda a sua força de vontade para manter um rosto impassível. Imagens várias acorriam-lhe ao pensamento. Ian a fingir que não sabia que ela escrevia
livros; Ian a recitar uma história sua a Michael, afirmando que tinha acabado de comprar
o livro; Marta a contar-lhe aquela história de Bob Gerster, que conseguira todas as informações acerca de Laura Hastings através da própria Marta.
- E então? - perguntou ela num murmúrio. Ron Leonard inclinou-se e olhou para ela.
- Laura - proferiu, e o som do seu nome na boca dele surpreendeu-a, parecia um amigo a falar com ela. - E se o Ian estivesse obcecado por si? E se ele tivesse eliminado
a mu
lher e o seu marido, só para poder chegar até si? E você não sabia nada disso.
Laura abanou a cabeça.
- Porquê? - insistiu o detective. - Alguma vez se perguntou porque é que ele era tão insistente em casar rapidamente? Porque o era, não é verdade?
- Não responda a isso, Mistress Turner - interrompeu o promotor público. - Nada de perguntas, detective.
- Ele tinha de a alcançar. Ele estava disposto a fazer o que fosse necessário, a remover qualquer obstáculo do seu caminho. A mulher, o seu marido...
Laura tentou olhar para ele sem pestanejar.
- Isso é ridículo - observou ela. E depois, com um sentimento de alívio, percebeu porquê. - O filho do Ian, o Phillip, morreu durante aquele incêndio, Mister Leonard.
Eu suponho que não tenha filhos, mas deixe-me dizer-lhe...
Ron Leonard interrompeu-a.
- O Phillip Turner, em princípio, devia estar num jogo de futebol, naquela noite. Mas, com o desconhecimento do pai, a Gabriella Turner achou que ele estava doente
e obrigou-o a permanecer em casa.
Laura ficou a olhar para ele. A dor cresceu e ela sentiu que as pálpebras tremiam.
-Eu vou descobrir o dinheiro - prosseguiu Ron. - Vou descobrir como foi que ele pagou ao Herman Powell, e vou incriminá-lo. Mas por agora, e tal como as coisas estão,
tudo deixa entender que vocês os dois estavam de conluio. Mas se a senhora não teve
nada a ver com o assunto, tem de tentar salvar-se. Pelo seu filho. Porque há-de assumir a culpa se não teve nada a ver com a morte do Jimmy?
O promotor público olhou para o detective com curiosidade. Ele estava a fazer tudo de acordo com o planeado, mas havia qualquer coisa na maneira de falar de Ron
Leonard... como se ele realmente acreditasse que aquela mulher não estava envolvida no cri
me.
- Detective... - disse o promotor público em tom de aviso.
- Mas o Ian teve! - exclamou Ron, ignorando o promotor público e batendo com a palma da mão sobre a secretária. - Caraças, eu sei que ele teve! Não consegue perceber
isto? Se nos ajudar a apanhá-lo, pode salvar-se. A senhora e o seu filho podem ir-se
embora daqui. Podem afastar-se dele enquanto ainda têm possibilidade disso.
Ouviu-se uma agitação no gabinete contíguo e depois bateram à porta. Uma jovem abriu-a e enfiou a cabeça.
- Desculpe interromper - disse ela ao promotor público. Um homem falava alto no gabinete ao lado.
- Onde está a minha cliente? Exijo vê-la imediatamente! - É o doutor Stanhope - anunciou a secretária em tom de desculpa.
- Deixe-o entrar - respondeu o promotor público com um gesto de cabeça.
Laura afastou o olhar de Ron Leonard e encarou Curtis Stanhope na altura em que este entrava pela porta, vestindo um fato verde-lima e uma gravata com cavalos-marinhos.
- Que raio está a minha cliente a fazer aqui, senhor promotor público? - perguntou Stanhope. - É assim que se fazem as coisas nesta terreola? Pois deixe-me dizer-lhe
que...
-Não fizemos nada de ilegal ou de menos próprio - respondeu o promotor público friamente.
Stanhope voltou-se para Laura. - Estiveram a interrogá-la? Laura hesitou e depois abanou a cabeça. - Não exactamente.
- Por que razão não insistiu para que eu estivesse presente? - perguntou o advogado a Laura. - Se têm alguma coisa a dizer a Mistress Turner, dizem-na através de
mim. Eu comuniquei-lhe que estaria aqui ao meio-dia, como se atreve a trazê-la aqui sem q
ue eu esteja presente? Vou tratar de impugnar este caso no tribunal. Mistress Turner, não tem noção dos seus direitos?
-Não tem importância - disse ela.
- Mantenha-se em silêncio - ordenou Stanhope. - Quem fala sou eu.
- Só quisemos manter Mistress Turner informada daquilo que pensamos - disse o promotor público Jackson.
-Bom, podem informar-me a mim - respondeu Stanhope.
- Com certeza, doutor. Descobrimos algumas coisas sobre o marido de Mistress Turner que achámos que ela poderia querer saber.
- Por outras palavras, estão a tentar que ela o incrimine. Eles ofereceram-lhe alguma espécie de acordo? - perguntou Stanhope, voltando-se para Laura. - Não entrou
em qualquer acordo com estes senhores, pois não?
Laura abanou a cabeça.
- Quase desejava que o tivesse feito! - exclamou Stanhope. - Porque se eles tivessem tido a audácia...
- Espere aí um instante - interrompeu Jackson. Enquanto os dois advogados discutiam, Laura afastou o olhar. Ron Leonard olhava para ela, com uma espécie de aviso
nos olhos.
Laura sabia o que ele queria, queria que ela pensasse nas coisas que lhe dissera. Como se fosse capaz de pensar noutra coisa.
***
CAPÍTULO 44
O caminho de regresso constituía um espaço em branco na cabeça de Laura. Antes de ser conduzida do tribunal até à carrinha de transporte, Stanhope tinha-a aconselhado
a esquecer tudo o que eles haviam dito, que era o truque mais velho que existia, ten
tar fazer com que uma pessoa implicasse outra. Uma vez que admitisse que Ian estava envolvido, estariam ambos em maus lençóis, dissera Stanhope. E no momento em
que Stanhope pronunciara essas palavras, Laura compreendeu, o advogado pensava que ela era
culpada. Estava a defendê-la, mas não porque acreditasse na sua inocência. Para Stanhope era uma espécie de jogo intelectual, vencer o promotor público. Estavam
a jogar, os dois. Um jogo pelo qual Stanhope receberia uma larga soma de dinheiro, quer g
anhasse quer perdesse. Não tinha nada a ver com culpa ou inocência. Ele pensava a mesma coisa que o promotor público, que ela e Ian tinham conspirado para que Jimmy
fosse morto.
Stanhope mostrara-se impaciente e furioso por ter sido afastado de outros assuntos e obrigado a ir até ali. "Não lhes diga nada", dissera ele. "E, da próxima vez,
recuse-se a sair da cela até eu chegar. Ou, pelo menos, veja se fala comigo." Que fora u
ma viagem para nada, admoestou-a ele, como um pai zangado. "Eles podem dizer o que quiserem para tentar dar-lhe a volta. Vão inventar coisas só para a confundir.
Deixe-se ficar quieta, não lhes dê munições."
O carro parou no interior da cadeia e Laura foi obrigada a descer. Automaticamente, susteve a respiração para não respirar
o cheiro da prisão, quando abriram a porta. Submeteu-se a uma busca e foi metida na sua cela. Não importava, o seu espírito não se encontrava ali.
Aquela observação inocente de Marta, no dia anterior, tinha desencadeado uma série de medos e dúvidas. E agora, toda a informação que lhe fora despejada por Ron
Leonard... O detective olhara para ela tão sinceramente. De alguma forma, Laura sabia que
ele acreditava nela. Que tudo aquilo não tinha sido teatro da parte dele. Acabara por reconhecer que ela estava inocente. Que era uma vítima, tal como Jimmy também
tinha sido. Uma vítima do homem com quem havia casado.
Laura tentou pensar com clareza. Pensou em Ian, na maneira como se tinham encontrado, naquele dia na doca. Michael fora até ao seu barco e não havia maneira de ele
ter podi do preparar isso, não havia maneira de o ter podido prever... Parecera tão ino
cente, tão... por acaso. Foi por acaso, disse-se Laura. Ela poderia não ter lá ido naquele dia, ele podia ter-se ido embora e os dois nunca se teriam encontrado.
Mas, por acaso ou não, uma coisa não podia ser ultrapassada, quando se haviam encontrado,
ele fingira não a conhecer, embora soubesse quem ela era. Ele sabia onde ela morava, ele conhecia os seus livros de cor. Mesmo nessa altura.
Laura sentiu um arrepio. Ele era Bob Gerster, mentira para saber coisas acerca dela, mentira quando se encontraram. Se tudo isso tinha sido mentira, o que mais poderia
ter sido? A teoria de Ron Leonard não parava de lhe martelar na cabeça. Quanto a te
ria desejado Ian? O suficiente para incinerar a própria mulher? Para matar acidentalmente o seu filho? O bastante para contratar um assassino, para executar... Não,
pensou ela. Não, ninguém poderia desejar alguém assim tanto. Era uma loucura.
Loucura. A palavra fez com que a pele do pescoço de Laura se arrepiasse. Pensou na paixão com que ele fazia amor. Loucamente. Desesperadamente. Não, isso era desejo,
não lou
cura. Se ele era louco, então ela também o'era. Porque ela o tinha desejado de igual maneira, deixando de lado todas as cautelas.
E aquele era Ian. Ian, que acreditava nela, que estava do
seu lado, não importando o que a polícia dissesse. Ian, que se recusava a dar crédito às suas acusações. Apesar das mentiras proferidas por Dominick Vanese, que
tinham levado à sua prisão, Ian continuava a seu lado. Mesmo sem a conhecer muito bem, ele
recusava-se a pensar o pior dela. Não lhe devia ela o mesmo? Mas na altura em que pensava isto, lembrou-se de Michael, a soluçar no casamento. "Porque vais casar
com este estranho?" E Laura percebeu que só havia uma explicação simples para a enorme f
é que Ian tinha nela. A única forma de ele poder ter a certeza de que não fora ela a matar Jimmy... era ter sido ele a fazê-lo.
Laura sacudiu a cabeça, procurando afastar aquele pensamento. Mas voltou a pensar nas palavras de Marta. Bob Gerster. "Um tipo simpático, bem-parecido, mas parece
que foi atropelado por um camião." Os arrepios aumentavam, alastrando por todo o seu cor
po. E o estômago de Laura contorcia-se. Arrastou-se até ao lavatório e esperou, sentindo a náusea a crescer, a ameaçar, a forçar o caminho. E vomitou. Tudo dentro
dela veio para fora, para aquela pequena bacia de aço inoxidável.
O suor apareceu-lhe na testa quando se tentou levantar. Pôs a água a correr para limpar toda aquela porcaria e lavou a boca com a água ferrugenta da torneira. Estava
vazia por den tro. Vazia. Sentia-se tonta e procurou o caminho de volta ao seu catre.
Deitou-se sobre o cobertor rasgado, olhando para a parede, que tinha as iniciais de outras ocupantes anteriores da cela arranhadas na pintura. "RW e KL> rodeadas
por um coração mal desenhado. Laura e Ian, pensou ela amargamente. O coração batia-lhe f
ortemente, e ela fechou os olhos, tentando apagar tudo aquilo. Como ela desejava ter um comprimido para dormir. Uma coisa qualquer, algo que lhe aliviasse o cérebro
febril e lhe permitisse parar de pensar. Parar de pensar que talvez, talvez, sem o sab
er, ela tivesse casado com um assassino.
***
CAPÍTULO 45
-Basta eu pronunciar quatro palavras... - murmurou Daphne, a vendedora pessoal de Candy no Armazém Rulene. - Fato de cabedal branco.
Daphne apertou as mãos e esperou pela resposta de Candy. Mas esta, que se encontrava sentada numa cadeira no salão do estilista, abanou a cabeça.
- É melhor não. - Depois olhou para Daphne. - Ma
cio?
Daphne fechou os olhos, sorriu e fez um sinal de cabeça como um Buda.
- Como manteiga. Como seda. Ninguém, a não ser a senhora, lhe pode fazer justiça.
"Que se lixe o Richard", pensou Candy. Odiava ter de se preocupar com dinheiro numa altura como aquela. Quando havia alguma coisa perfeita para ela na loja, não
devia ter de preocupar-se com o comprar ou não comprar. A culpa era dele, por ter sido apa
nhado nos casinos. Quando toda essa confusão fosse esclarecida, não o iria deixar voltar lá. Mas, entretanto, havia o fato de cabedal e Daphne, que estava à espera.
E havia a sua conta privada, uma conta secreta que ela tinha aumentado sempre que ele
lhe dava dinheiro, para uma eventualidade. Como a actual. Candy respirou fundo.
- Muito bem - decretou ela. - Vou experimentá-lo. Daphne deixou escapar um pequeno gritinho de prazer. Ela gostava de atender Candy, que era um número seis perfeito
e que parecia absolutamente ideal em todas as coisas que
provava. E quando Candy ficava assim com aquele óptimo aspecto, tinha de adquirir o que provara. Claro que as comissões eram importantes para Daphne, mas era a satisfação
de agradar a Candy, o amor pelo seu trabalho, que a emocionavam ao ver Candy ent
rar.
Quando Daphne desapareceu para ir buscar o fato de cabedal branco, Candy sentou-se na cadeira e deu uma olhadela pelos outros clientes que se encontravam na loja.
Havia uma rapariga dos seus dezassete anos que ficaria bonita com alguma ajuda, mas que
nunca poderia pagar nenhum dos artigos expostos. E estava ali também uma mulher, na casa dos quarenta, cabelo platinado e bem conservada. Bem vestida. Provavelmente
uma jogadora de ténis. Mas ela, ao menos, tinha o dinheiro para poder estar ali, embor
a fosse uma pena ser tão velha. O melhor de tudo era ser jovem e ter dinheiro, de outra forma tornava-se um desperdício possuir aqueles vestidos. Quem olharia para
uma pessoa daquela idade?
Candy estava irritada por ter de pensar em dinheiro. E na polícia. Isso era ainda pior. Mas Richard conseguiria safar-se de tudo aquilo, estava apenas ligeiramente
atemorizado... A polícia não prendia pessoas como eles, eram ricos. Apenas uma questão
de contabilidade, e Richard era especialista nesses assuntos. Não havia muitas coisas em que ele fosse bom, admitiu Candy para si mesma com um bocejo. Mas era bom
a lidar com dinheiro. E, entretanto, ela tinha o bastante na sua conta secreta. Não esta
va disposta a dar-lhe dinheiro para o ajudar, isso não. Mas podia cobrir as suas próprias necessidades, por enquanto.
Daphne emergiu por detrás de uma cortina de brocado com o fato de cabedal num cabide. Levantou-o e Candy pôs as mãos sobre a boca.
- Oh, tinhas razão! - disse ela, esticando as suas longas unhas bem arranjadas e agitando-as como uma criança que quer chocolates. - Deixa-me experimentá-lo.
Num abrir e fechar de olhos tinha-se metido no gabinete de provas e enfiado o fato sobre a sua lingerie de seda; voltou ao salão para rodopiar em frente de Daphne
e de quem quer que ali estivesse e desejasse saber como um fato daqueles devia
ser exibido. Daphne quase cambaleou perante a visão, e Candy soltou uma gargalhada pelo efeito que causara.
- Daphne, és uma bruxa. Muito bem. Sabes o número do meu cartão. Liga-lhes - indicou ela, como se um fato de mil dólares fosse um pacote de pastilhas elásticas num
supermercado. Regressou ao gabinete de provas para tornar a vestir a roupa com que vier
a.
Quando Candy voltou a sair e se dirigiu à secretária de estilo francês que servia de balcão no salão do estilista, Daphne olhou para ela com um ar apreensivo.
- Estou pronta para assinar - disse Candy, deixando cair o fato sobre a cadeira que estava ao lado da secretária. Daphne, em silêncio, pegou no fato, voltou a colocá-lo
dentro de um saco de plástico e pendurou-o num cabide que estava perto dela. Candy
sentiu um arrepio na espinha ao ver os movimentos de Daphne. Nesse instante soube que havia um problema qualquer.
- Daphne, o que se passa? - perguntou ela.
- O seu cartão foi cancelado, Candy - respondeu Daphne, observando cuidadosamente o fato através do plástico, à procura de alguns vestígios de maquilhagem ou de
batom. - Verifiquei duas vezes.
- Mas isso é impossível! - protestou Candy. "Ele não seria capaz", pensou ela. "Aquele filho da mãe, sem ao menos me ter avisado... Eu mato-o!" - Deixa-me usar o
telefone - pediu Candy. Não gostou da maneira como Daphne olhou para ela, era como se o s
eu glamour se tivesse, de repente, desvanecido aos seus olhos.
Daphne apontou o telefone.
- Entretanto, vou atender outra cliente - disse ela, com um ar compreensivo.
Candy sentou-se na cadeira e marcou o número do escritório de Richard.
- Escritório do doutor Walsh - atendeu Adelaide Murphy. - Deixa-me falar com esse filho da mãe, Adelaide - ordenou Candy sem quaisquer preâmbulos. - E não me digas
que ele está numa reunião qualquer. Daqui fala Mistress Walsh. Passa-lhe a chamada.
- Lamento muito, Mistress Walsh - retorquiu Adelaide, uma mulher de alguma idade, escolhida pessoalmente por Candy para o marido, a fim de evitar a tentação de um
ro mance de escritório. - O doutor Walsh encontra-se numa viagem de negócios. Ele não lh
e disse?
Candy sentiu o suor na palma das mãos. - Que viagem de negócios?
- Não sei. Ele só me disse que tinha de se encontrar com um cliente no Texas. Foi ele quem tratou de tudo, bilhetes, tudo.
Daphne estava a lançar-lhe um olhar desconfiado, e ela tentou manter um rosto impassível.
- Muito bem. Deve haver aqui um mal-entendido qualquer. Eu trato disso.
Desligou o telefone e deixou-se ficar sentada um momento, ainda de telefone na mão.
Daphne veio ter com ela e observou a expressão de Candy. - Está tudo bem? - perguntou ela.
"Não, minha vaca estúpida", pensou Candy. "Estás mesmo a ver que nada está bem, e estás a adorar, não estás?" Candy sorriu para Daphne.
- Está tudo bem. Houve um pequeno erro de um empregado. Posso fazer outra chamada rápida?
Daphne já vira situações semelhantes imensas vezes, mulheres com o crédito cortado pelos maridos, e estava noventa e nove por cento segura de que os dias de compras
de Candy ti
nham chegado ao fim. Era nestas alturas que Daphne ficava contente por ter um bom emprego e por se sustentar a si própria. Havia sempre a tentação, em alturas como
aquela, de fazer sofrer o cliente. Afinal de contas, Candy não a tinha sempre tratado c
omo uma súbdita da rainha? Mas nunca se podia ter a certeza absoluta, restava sempre aquele um por cento de possibilidades de ter sido mesmo um erro. E ela não queria
perder as comissões de Candy. Nem pensar nisso.
- Claro - respondeu Daphne.
Candy ligou para casa, mas não houve resposta. Premiu o código para ouvir as mensagens. A voz de Richard, encolhida e em tom de arrependimento, surgiu na linha.
"Querida, neste
momento já deves saber que me fui embora. Havia demasiada confusão para ser esclarecida, e eu não fui capaz de ficar e de te contar tudo, cara a cara. A polícia
anda atrás de mim por causa desta história do dinheiro da Laura. A merda acertou na ventoi
nha, por assim dizer. Se eu ficasse por aí, nunca me livraria disso. Deixei-te uma carta em casa, com instruções relativas àquilo que podes vender e aquilo que possuímos.
Receio que vás ficar um pouco mais leve, mas eu sei que vais ficar bem, querida.
És uma mulher bonita e fabulosa... e vais cair de pé. Sei que me vais odiar por causa disto, mas descobri aquela conta que mantinhas secreta e precisei dela para
recomeçar de novo. Vou ficar louco com saudades tuas, querida..."
Segurando o telefone junto ao ouvido, Candy olhou para o fato de cabedal branco, metido no seu saco de plástico. Lágrimas de fúria encheram-lhe os olhos quando viu
a sua superfí cie amanteigada. Era o mesmo que estar enfiado num cofre de aço, dada ser
nula a esperança que ela tinha agora de poder alguma vez levá-lo para casa.
***
CAPÍTULO 46
- Laura Turner - chamou o guarda, passando o bastão nas grades da sua cela. - O director quer falar consigo. Agora mesmo.
Os olhos de Laura abriram-se, mas a sua cabeça estava confusa. Tinha dormido quanto tempo? A boca sabia-lhe mal, e estava maldisposta, como resultado do vómito.
Sentiu-se de masiado fraca para se mover. "Que foi agora?", pensou ela. "Que mais poderá s
er?"
- Despache-se - ordenou o guarda. - Vamos levá-la para baixo.
Obedientemente, Laura pôs-se de pé. Precisava de urinar, mas não estava disposta a fazê-lo em frente do homem de uniforme que se encontrava à porta.
- Vou já - murmurou ela, enquanto se dirigia para o lavatório. - O que é que ele quer? - perguntou, espalhando um pouco de água da torneira pela cara e puxando o
cabelo para trás das orelhas.
- Não sei. O director é ele. E não é o meu melhor amigo, não me faz confidências. Vamos mas é embora.
Laura sentou-se numa cadeira de madeira à frente do director Ferguson, e olhou para ele num estado de completa descrença. Ferguson era um homem magro e careca, com
óculos
de meias lentes. Os seus modos eram agradáveis e nada ameaçadores. Tinha ouvido dizer que ele era severo e que não tolerava infracções. Esta era a primeira vez que
Laura o via e ele
parecia mais um professor da escola primária do que o director de uma prisão.
- Compreende o que estou a dizer-lhe? - perguntou ele. Laura abanou a cabeça, em sinal de ignorância.
- Isto chegou-me do gabinete do promotor público. - Segurou num papel e Laura olhou para ele. - As acusações contra si foram retiradas. Está em liberdade e pode
ir-se embora.
- Não entendo -- insistiu ela. - Ainda esta manhã lá estive.
Os lábios estreitos de Ferguson abriram-se num pequeno sorriso.
- Presumo que não tenha objecções quanto a ir-se embora. A maior parte dos nossos convidados não levanta objecções quando são libertados da nossa hospitalidade.
Laura sabia que ele estava a dizer uma piada, mas a sua cabeça continuava a andar à roda. Sentia-se como se estivesse a ser a bola de uma roleta.
-Mas eu... Como é que pode ser?
O director Ferguson, que obviamente media todas as suas palavras cuidadosamente, ponderou durante um momento e depois deu-lhe uma explicação mínima.
- Segundo parece, a testemunha que a tinha identificado veio hoje apresentar-se e modificar as suas declarações. Diz ter feito confusão e cometido um erro. O promotor
público não ficou nada contente com isso, segundo sei. Mas sem esse testemunho, não
têm provas suficientes contra si. Agora, mais pormenores do que estes, vai ter de os obter junto do seu próprio advogado, o doutor Stanhope.
- Ele admitiu que estava a mentir? Mas porque é que ele disse todas aquelas coisas a meu respeito? - gritou Laura. O director levantou-se.
- Mistress Turner, este pedaço de papel diz que a senhora é livre de se ir embora. Se eu fosse a si, saía daqui já. Pode recolher as suas roupas e os seus objectos
pessoais junto do fun cionário da entrada. O guarda vai acompanhá-la. Boa sorte para si
.
Laura pôs-se de pé, não sabendo muito bem o que sentir.
Não confiava naquela gente. Era como se tudo aquilo não passasse de uma brincadeira e a última fase fosse atingi-la no plexo solar. "Era a brincar", diriam eles.
"Volte para a sua cela."
- Vamos - disse o guarda, mas o seu tom de voz soava menos brusco. Era uma mulher livre. Seguiu-o até junto da funcionária e atrapalhadamente mostrou-lhe o papel
que o director lhe tinha dado.
A funcionária desapareceu durante uns momentos, como se estivesse nos Correios e tivesse ido à procura de uma carta registada. "Os meus objectos pessoais", pensou
Laura. Lembrou-se daquela noite, tinham estado a jogar um jogo. Uno. Ela estava de calça
s de ganga. Não tinha objectos pessoais, nada, tinha deixado tudo para trás. A cara de Michael surgiu nos seus pensamentos, os seus olhos enormes, com o medo. "Que
foi que eu te fiz?", perguntou ela a si própria.
A funcionária regressou e passou um embrulho por cima do balcão.
- Por favor, certifique-se de que estas são as suas coisas, antes de se afastar - pediu ela.
As mãos de Laura tremiam ao abrir o pacote. Ali estavam os seus objectos: as calças de ganga coçadas, a T-shirt, os sapatos. Sentiu o desejo de os apertar contra
o peito. Era como se fossem velhos amigos, chegados para a confortar.
- Pode vestir tudo isso aqui - disse o guarda, indicando uma sala. - E pode deixar esse fato lá pendurado. Nenhumas instruções lhe tinham soado tão doces aos seus
ouvidos. Entrou na sala e, uma vez que podia, fechou a porta atrás de si.
Quando estava vestida, saiu da sala e olhou em volta. O guarda sorriu, vê-la com roupas de Verão. Laura parecia pronta para sair e ir tratar do jardim. O guarda
acompanhou-a até à área de espera.
- Quer telefonar a alguém? - perguntou ele, apontando o aparelho. - Ao seu marido, para a vir buscar?
- Não - disse ela rapidamente. Depois olhou em volta. - Não sei - acrescentou Laura num tom de voz de quem está precisado de ajuda.
- Pode usar o telefone à vontade - insistiu o guarda. -
Se não tiver boleia, nem dinheiro consigo, pode chamar-se um táxi a expensas da prisão. - O guarda estendeu-lhe a mão. - Boa sorte para si.
Atrapalhada, Laura apertou-lhe a mão, intencionalmente não desejando mostrar-se rude, mesmo naquele lugar, mesmo depois de tudo o que acontecera. Olhou em volta,
sentindo-se profundamente só, não sabendo para onde voltar a seguir. E subitamente ouviu
uma voz.
- Mamã!
Laura voltou-se e viu-o a caminhar na sua direcção, tropeçando nas cadeiras, o pânico nos olhos. Laura correu e um instante depois estava a abraçá-lo.. Nunca tinha
sentido nada tão doce em toda a sua vida. Inalou o cheiro dele, o seu cabelo muito limp
o, o cheiro perfeito e tão familiar.
- Oh, meu querido! - exclamou Laura, agarrando-se à roupa dele e sentindo que estava húmida.
- Estás molhado! - espantou-se ela.
- Está a chover - murmurou ele sobre o ombro dela. "É verdade", pensou ela. Começara a chover durante a manhã, quando a haviam trazido de volta. Tinha uma vaga memória
dos limpa-pára-brisas. Na altura não lhe importara o tempo que fazia, não ia a lado
nenhum, ou assim tinha pensado. E agora... agora estava a abraçar o seu filho Michael.
- Que estás a fazer aqui? - perguntou ela. - Como é que vieste até cá?
- A avó e o avô trouxeram-me - indicou ele, ainda a falar por cima do seu ombro.
Laura desviou os olhos e viu Dolores, parada na esquina junto à cabina telefónica.
Laura olhou outra vez, mal acreditando nos seus olhos. Pegou em Michael ao colo e levou-o até junto de Dolores, que a encarou com ar de desafio. Era a primeira vez
que se encontravam cara a cara, com excepção do tribunal, desde a semana em que Jimmy t
inha morrido.
- Olá, Dolores - saudou Laura secamente. - Obrigada por ter trazido o Michael.
- Vamos sair daqui - ordenou Dolores. - Este lugar provoca-me arrepios.
- Com toda a satisfação - retorquiu Laura, com uma espécie de sorriso.
Ainda a carregar Michael e a fazer-lhe festas, Laura seguiu a sogra através da entrada e da porta da prisão. Ficaram parados sob o pórtico. Estava a chuviscar e
começava a ficar um
dia cinzento. O El Dorado de Sidney encontrava-se estacionado junto ao passeio, perto da curva, para lá da maltratada relva em frente à cadeia. Laura viu Sidney
sentado ao volante, usando óculos escuros. Sidney olhou para eles e fez um aceno com a mão
.
Laura levantou uma das mãos, ainda a segurar o filho nos braços.
- Pareces-me bem... - afirmou Dolores. - Viemos para te dar uma boleia até casa.
- Porquê? - perguntou Laura.. "A senhora odeia-me", quis ela acrescentar, mas não o fez por causa de Michael. - Como sabiam que eu ia ser libertada? - perguntou
ela, desorientada pela sua súbita liberdade e a inesperada chegada dos sogros.
- O Vince Moore telefonou-me - explicou Dolores. - Depois de Mister Vanese ter corrigido o seu testemunho. Ele calculou que nós quiséssemos saber.
- Não percebo nada... - proferiu Laura abanando a cabeça. - Não percebo porque é que o Vanese começou por dizer aquelas coisas. Ou porque é que as retirou. O Vince
Moore explicou o que aconteceu?
- Quem sabe? - disse Dolores, irritada. - Talvez ele tenha mudado de opinião.
Laura pôs Michael no chão, ao seu lado. Ele agarrou-se-lhe à perna e ela colocou-lhe a mão sobre o ombro. Percebeu, com algum espanto, que Dolores estava a tentar
não falar do tema Vanese. Um pequeno nó frio começou a formar-se no estômago de Laura.
- Dolores?... Sabe porque foi? O que aconteceu? Dolores não olhou para ela, cortando caminho por cima da relva. Abriu a boca para falar, depois hesitou. Tentou outra
vez. Laura ficou a olhar para Dolores, que estava a lutar interiormente para descobri
r as palavras certas que devia utilizar.
- Fui falar com Mister Vanese - afirmou Dolores cuidadosamente. - Queria falar com ele acerca disto tudo. Mas quanto mais falávamos, mais ele ficava convencido de
que tinha cometido um erro.
- Espere lá - interrompeu Laura, incapaz de manter o sarcasmo afastado do seu tom de voz. - Volte a explicar-me tudo. Está a querer dizer que convenceu o Vanese
a retractar-se do seu testemunho? Desculpe, mas acho que isso é um bocado difícil de engol
ir. A Dolores ficou delirante quando me prenderam e sabe isso tão bem como eu. Estava ansiosa por me tirar o Michael!
Dolores assumiu uma expressão ofendida.
- Pensei em tudo isto durante muito tempo. Pus os meus próprios sentimentos de lado por causa do Michael - explicou ela. - É verdade que estive contra ti, mas tu
és a mãe do meu neto. Se Mister Vanese cometeu um erro... Se tu não fizeste o que Mister
Vanese disse...
- Era a senhora quem pedia sangue! - gritou Laura. - Queria ver-me na cadeira eléctrica, se bem me recordo!
De pé ao lado da mãe, com a cara encostada a uma das suas pernas, Michael deixou soltar um gemido. Instantaneamente, Laura sentiu-se cheia de culpa. "Ele está a
ser destroçado", pensou ela. "Alto! À frente dele, não! Não o ponhas no meio das coisas fe
ias."
Dolores mexeu-se, desconfortável.
- Que diferença pode fazer quem disse o quê? Agora terminou tudo.
- Que diferença faz? - Laura olhou para ela, incrédula. Depois baixou a voz. - Tenciono descobrir exactamente por que razão aquele homem mentiu a meu respeito!
- Foram cometidos erros - acrescentou Dolores. Voltou-se e olhou Laura nos olhos, desafiando-a a contradizê-la. - Mister Vanese pensou que estava a agir por amizade.
Mas cometeu um erro.- E agora esse seu erro foi corrigido.
Laura ficou a olhar para Dolores.
- Por amizade? Por amizade a quem? - perguntou. Dolores olhou para ela, mas os lábios tremiam-lhe. - A si? - perguntou Laura.
Pouco havia de subtil na maneira de ser de Dolores e o olhar na sua cara era uma confissão. Laura resistiu ao seu primeiro impulso, o de a agarrar pelo pescoço.
Os seus olhos se micerraram-se-lhe, perscrutando a culpa desafiadora da sogra. - Ele é seu
amigo?
- Do Sidney. Eu não sabia. E não soube de nada do que se passou - acrescentou Dolores rapidamente. - A princípio, pensei que Mister Vanese estava a dizer a verdade,
mas quando
percebi o que ele estava a fazer, fui ter com ele e disse-lhe que só queríamos a verdade... nada mais do que isso. -Amigo do Sidney? - exclamou Laura, ferida pela
ideia de o sogro, o sempre amável Sidney, poder ter orquestrado uma coisa assim. - O Sid
ney sempre me pareceu ser meu amigo.
- Ele não fez isso contra ti. Ele pensou que era isso o que eu queria - acrescentou Dolores. - Mas eu não quero mentiras. Não é esse o caminho.
Laura mal podia acreditar, eles tinham arranjado aquilo tudo. Sidney convencera aquele tal Vanese a mentir, para que ela fosse para a prisão. Era difícil de entender,
de engolir tudo
aquilo. O que é que tinha feito a tais pessoas, com excepção de amar o filho deles? O desprezo pelos seus direitos, pelo bem-estar dela, era monstruoso.
Laura fitou Dolores nos olhos. E apesar da sua fúria, da sua justíssima fúria, Laura reconheceu o que era importante, Dolores não fora obrigada a contar-lhe. Podia
ter-se mantido calada e Laura teria ficado na prisão, mas não se calara. Quando havia s
ido necessário tomar uma atitude, ela agira com justiça. Tinha feito o que era certo. Mesmo pelo inimigo, a nora que ela odiava. Que mais podia ela esperar dessa
mulher?
Muito séria, Laura estendeu a mão a Dolores e agarrou-a. Levemente, por um breve instante, Laura deixou a sua mão no antebraço de Dolores.
- Obrigada - agradeceu. Dolores olhou para ela.
- Queres uma boleia para casa? - perguntou num tom de voz ríspido. - Claro que podes levar o teu filho contigo para casa, se quiseres.
Uma carrinha de um canal de televisão começava a estacionar em frente da cadeia, e uma repórter vestida com uma gabardina saiu do lugar da frente, seguida por um
operador de câmara.
Laura pensou rapidamente.
- Posso pedir-lhe que fique com o Michael mais um bocadinho?
- Claro - anuiu Dolores.
- Não - protestou Michael. - Quero ir para casa contigo.
Laura agachou-se e segurou-lhe na cara.
- Ouve-me, é apenas por uma hora ou duas. Vai agora com a avó e quando eu te for buscar, muito em breve, nunca mais nos separamos. Prometo-te.
- Por favor...
- Vai agora. Antes de estas pessoas começarem a perseguir-nos. Dolores, preciso de dinheiro para um táxi.
A sogra começou a procurar na carteira, entregando-lhe algumas notas.
- Por favor, leve-o para longe de tudo isto - pediu Laura quando outro carro, com o nome de um jornal, encostou ao passeio. - Eu trato destas pessoas.
- Está bem - assentiu Dolores.
- Mas quando eu o for buscar... - disse Laura com um tom de aviso.
Dolores suspirou. - Ele é teu filho.
- Então, por favor, leve-o daqui. Eu estarei lá em breve - afirmou Laura. Deu um empurrãozinho a Michael para que ele fosse com a avó, na altura em que os repórteres
começaram a avançar para ela.
***
Capítulo 47.
Ron Leonard tentou manter o espírito concentrado nos seus problemas, mas era difícil. Ginger Cook, a chefe do programa juvenil de Verão do condado, estava vestida
com uns calções vermelhos e uma camisola branca, e o seu cabelo loiro arranjado da manei
ra como Ron gostava. O único problema é que ela estava a mastigar pastilha elástica... Razão suficiente para não mostrar qualquer interesse, pensou Ron, tendo em
conta o motivo por que estava ali.
- Estas são as queixas que temos - disse a jovem, entregando uns papéis a Ron.
Ron não deixou de reparar que os seus dedos bronzeados não ostentavam anéis de diamantes nem uma aliança de casamento. Ron estava a investigar acusações de assédio
sexual contra um dos treinadores do programa de Verão. Odiava aquele caso, achava-o um
aborrecimento. Mas como era um programa ao nível do condado, calhou-lhe ter de o investigar. No entanto, tentou não mostrar a sua aversão, aquela Ginger era bem
capaz de saltar para cima de uma caixa e começar a fazer um sermão sobre a insensibilidade
.
Ginger cruzou os braços sobre a secretária e ficou a vê-lo olhar para as queixas.
- Ele disse algumas coisas que não devia às raparigas. Aparentemente utilizou uma linguagem bastante crua e algumas mães queixaram-se.
Ron suspirou. "Aí vem ele", pensou, mantendo o olhar sobre as folhas que tinha na mão. "Aí vem o discurso."
- Não estou a tentar desculpá-lo - disse Ginger. - Mas ele é da velha escola, sabe como é. Por vezes ainda tem aquela mentalidade de vestiário, e não se preocupa
se está a falar com rapazes ou com raparigas. Quero dizer, eu percebo porque é que estas
mães protestam, mas pode olhar-se para o problema tendo em conta que ele trata as raparigas da mesma maneira que trata os rapazes. Parece que isso é o oposto da
discriminação e ele é um treinador muito dedicado.
Ron olhou para ela com interesse. Nos tempos que corriam ele sentia muitas vezes que a guerra entre os sexos se tinha tornado nuclear. Era uma surpresa - refrescante,
na reali dade - ouvir uma mulher defender um homem daquela maneira.
O telefone da secretária de Ginger tocou e ela atendeu, tirando a pastilha elástica. Ron suspirou e continuou a estudar as queixas.
- Um momento só - disse Ginger. - É para si.
Ron inclinou-se e pegou no telefone, acidentalmente tocando-lhe na ponta dos dedos.
- Ron Leonard - anunciou ele.
Ron escutou enquanto o promotor público Jackson o punha a par da nova versão da história de Dominick Vanese e da libertação de Laura Turner da prisão.
Ron praguejou e depois olhou para Ginger com um pedido de desculpas no olhar. Ela sorriu-lhe ao de leve. Ele voltou-se de costas para ela e falou calmamente para
o telefone.
- Bom, eu continuo a pensar que esse filho da mãe do Turner esteve envolvido. É altura de eu tirar as luvas.
Ron e o promotor público concordaram em conferenciar quando ele regressasse. Depois Ron olhou para Ginger.
- Posso fazer um telefonema? - perguntou ele.
- Claro - disse ela, fazendo um sinal de assentimento com a cabeça.
Ron ligou para o escritório de Vince Moore, na esquadra de Cape Christian. Quando o apanhou em linha, Vince começou a desculpar-se em relação ao que acontecera com
Vanese.
- A culpa não é tua - declarou Ron. - Tudo se iria saber mais tarde ou mais cedo. Podes mandar um homem até ao barco do Turner e fazer com que ele fique lá até eu
chegar?
- Eu mesmo faço isso - afirmou Vince antes de desligar. Ron voltou-se para Ginger.
- Ouça, gostava de falar um pouco mais sobre isto, mas por agora tenho de sair. Podemos adiar para amanhã? Ginger fez um aceno de cabeça e Ron levantou-se.
- Tenha cuidado lá fora - disse ela com um sorriso, e Ron sentiu o coração dar uma reviravolta estranha.
O táxi encostou na doca e Laura reparou que tinham parado apenas a dois lugares do seu próprio carro, que estava estacionado ali. Ele encontrava-se no barco. Laura
imaginara-o na
quele local, isolado do mundo. Pagou ao motorista e saiu. Continuava a chuviscar e o molhe estava vazio de pessoas. Viam-se as luzes acesas no Boat People, mas ninguém
parecia entrar ou sair da doca. Não se tratava de um daqueles dias de chuva de Verã
o com o Sol a jogar às escondidas. O dia estava frio e não havia indicações de que o tempo pudesse melhorar.
Caminhou pelo molhe em direcção ao barco, pensando no primeiro dia em que se tinham encontrado. Michael fora até junto dele e do seu veleiro naquele dia - Ian não
poderia ter
sabido que isso ia acontecer. Fora sem dúvida um incidente... E se ele não tinha arranjado tudo aquilo, então talvez...
A sua cabeça latejava de tanto pensar,, tentando arranjar desculpas para Ian. Mas o tempo esgotara-se... Decidida, chegou ao barco e entrou nele. O convés estava
escorregadio e, assim que abriu a porta, ouviu a voz dele a gritar lá em baixo. Desceu os
degraus da escada, viu-o a andar para a frente e para trás, na cabina principal, gesticulando à medida que falava no telefone sem fio.
- Ouça você, Stanhope - gritou ele.- Tenho andado à sua procura por todo o vale do Delaware e estou farto. Por aquilo que lhe estamos a pagar, eu quero-o aqui, a
trabalhar no caso da minha mulher. Como?... Não... Não... Não ouvi dizer nada. - Ian -par
ou e agarrou o telefone com as duas mãos. - O que é que aconteceu na cadeia?
- Ian - chamou ela.
A cabeça de Ian rodou e ele viu-a ali de pé. Ficou sem fala. Laura conseguia ouvir Stanhope aos gritos do outro lado da li
nha, quando Ian deixou cair o telefone sobre o balcão. Olhou para ela, e depois fechou os olhos como se ela fosse uma aparição, a sua presença imaginada numa brincadeira
cruel. Depois abriu os olhos com um enorme espanto.
- Laura! - exclamou ele. - Oh, meu Deus! Não estou a sonhar. - Ian avançou para ela, de braços abertos. - Como é que podes estar aqui?
Ela recuou, afastando-se dele, apanhada por todo o emaranhado de cabos que se encontravam atrás dela, mas ele não avançou mais. Laura estudou o rosto dele, as suas
contusões. Sentiu nessa altura o bater mais acelerado do seu pulso, o que era habitual
sempre que o via. Mesmo maltratado como estava, continuava a exercer um magnetismo sexual sobre ela. Era uma espécie de loucura, pensou ela. Luxúria.
- Retiraram as acusações - explicou ela. - O Vanese recuou com o seu testemunho e disse à polícia que tinha sido um engano.
O tom de voz de Laura era de escárnio.
-Mas, querida... - disse ele. - Oh, graças a Deus! Desta vez ele procurou chegar-se a ela, e ela voltou a recuar.
- Não me toques - ordenou ela. - Afasta-te.
O olhar de Ian era mais de perplexidade do que de fúria. - O que se passa? O que é? Não tínhamos sequer qualquer esperança de que isto pudesse vir a acontecer...
O que se passa, Laura?
-Vai para trás. Estou a falar a sério.
Perante o ar feroz que Laura ostentava no olhar, Ian recuou um passo, dando-lhe um pouco mais de espaço.
- Está bem - disse ele. - Pronto, eu percebo. Passaste, por muito. Estás zangada por eu não ter estado lá para te ir buscar? Desculpa não o ter feito, mas eu não
sabia de nada. Só agora consegui falar com o Stanhope. Se calhar devia ter estado a ouvir
a rádio, mas sentia-me de tal maneira que pus uma cassete para me tentar acalmar. Laura, se eu tivesse sabido...
Laura olhou para ele cepticamente. Estava a tentar vê-lo a uma nova luz, à luz de tudo o que ela sabia agora. Ele ainda parecia o mesmo... e tinha o mesmo aspecto
de sempre. Era
estranho como tal podia acontecer. A sua voz continuava a ser suave.
-Não quis que tu soubesses - declarou ela secamente. A sombra de preocupação dos seus olhos desapareceu e franziu a testa.
- Porque não? Porque é que não havias de querer que eu soubesse? Como é que vieste até aqui?
- Não importa. Apanhei um táxi. A propósito, quero as chaves do meu carro. Agora.
Ele não protestou nem emendou para "o nosso carro". Limitou-se a apontar para um prato que estava colocado sobre o balcão.
- Estão aí - indicou ele. O seu tom de voz era cauteloso. Laura pegou nas chaves e guardou-as no bolso.
- Também quero as chaves da minha casa - acrescentou ela, agarrando o conjunto de chaves que lhe tinha dado. - Não te quero lá mais. Vou sair desta cidade, com o
Michael. Com alguma sorte, vou ainda esta noite. Até essa altura, quero que te mantenhas
à distância.
O rosto de Ian ficou gelado e os seus olhos tornaram-se sombrios. Inclinou-se para ela, tentando vê-la melhor. A exiguidade das instalações pareceu repentinamente
assustadora para Laura, que recuou e procurou as escadas, como que para ter à mão um mei
o de fuga.
Ian abanou a cabeça.
- Meu Deus, odeio ver-te a olhares-me dessa maneira. Podes sair dessa escada, eu fico aqui. - Colocou as mãos sobre o balcão que se encontrava entre eles. - Laura,
estou a ver que estás muito zangada. Já te disse que lamento muito não ter lá estado. M
as não sabia. - Passou uma mão pelo cabelo, ao mesmo tempo que abanava a cabeça. - Toda esta confusão... Foi horrível. Mas agora que terminou... Vamos falar disso.
O que é que o Vanese disse? Porque é que ele mentiu?
- Não estou aqui para falar das mentiras de Dominick Vanese - declarou Laura. - Estou aqui para falar das tuas. Das tuas mentiras.
- As minhas mentiras? - protestou ele. - Espera aí! -Sim, as tuas mentiras.
Fez-se um silêncio entre eles, e Laura viu a pálpebra dele tremer. Um tique de culpa.
- As tuas mentiras - repetiu ela. - É que enquanto eu estive na prisão, a Marta Eberhart foi visitar-me - acrescentou.
Por um breve instante ela viu o brilho nos olhos dele, de reconhecimento, de armadilha, de culpa. E esse brilho, logo a seguir, desapareceu. Ian afastou o olhar
e o coração de Laura pareceu soçobrar. Porque nesse instante ela soube. E percebeu que est
ivera a acalentar esperanças infundadas, que tinha, apesar de tudo, esperado que não fosse verdade, que ele negasse... Que provasse que ela estava enganada. Mas
isso não iria acontecer.
- É isso mesmo - insistiu Laura. - Tu conhece-la. - Ela não é a tua editora? - perguntou Ian com ar casual. - Tenho a certeza de que falaste nela.
- Continuas a mentir! Diabos levem!
Ele olhou para ela com um ar implacável, mas o músculo da pálpebra voltou a tremer. E Ian olhou para as mãos. - Lembra-se agora, Mister Gerster?
O único barulho que se ouvia no barco era a chuva a cair no convés. Ian fechou os olhos.
- Muito bem - disse ele com um suspiro. - Podes deixar-me explicar?
-Tu conhecias-me - proferiu Laura em voz baixa. - Mas fingiste que tinha sido um encontro acidental, um acaso. Fingiste que acabaras de te recordar de mim, mas sabias
o tempo todo. Como é que conseguiste arranjar o nosso encontro? O que é que tu ias f
azer se eu não tivesse aparecido na doca naquele dia?
- Posso explicar?
-Não, não podes explicar - declarou Laura num tom de voz mais alto. - Mentiste-me todos \os minutos de cada dia. Foste ter com a minha editora e fizeste-te passar
por outra pessoa. Ninguém faria uma coisa dessas, a não ser que... Há nessa história qua
lquer coisa de muito doentio...
-Sim - confirmou ele. - Eu estava doente. Estava muito doente, mesmo. Estava doente com o desgosto e doente
com a minha solidão. Não sabes o que essas coisas são e como têm efeito sobre nós?
- Oh, não! - respondeu Laura. - Não me tentes arrastar para a velha história da compaixão pelo desgraçadinho e pela pena que isso dá! Eu não vou embarcar numa história
dessas. "É uma escritora? Oh, que interessante" - imitou-o ela. - "Livros para cria
nças? Não me diga!" E tu conhecias os meus livros de cor.
- Como é que sabes tudo isso? - perguntou-lhe ele. - A polícia também sabe - respondeu ela. - Descobriram o teu esquema. Pensaste que eras mais esperto do que toda
a gente. Bom, talvez não fosses suficientemente esperto para mim...
- Foi o Ron Leonard - murmurou ele. - Aquela história de Barbados.
- O detective Ron Leonard tem uma teoria interessante a teu respeito.
- E tu acreditaste nele, depois da maneira como ele te perseguiu?
- Ele não é mentiroso - protestou Laura. - E tu és. - Eu sabia que te devia ter contado - disse Ian. Sentou-se num dos beliches, passou as mãos pela cara e depois
olhou para ela.
Laura tentou perscrutar o seu íntimo, mas o que viu na cara dele minou todo o seu plano... Agora que estava a observá-lo, era tão difícil encaixar aquele Ian com
quem tinha casado no esquema de Ron Leonard. Deitando fogo à casa, matando a mulher e o f
ilho, contratando um assassino profissional para acabar com Jimmy... "Não queres é admitir a ti própria que casaste com um monstro assim", pensou ela.
- Eu sabia de ti... - confessou ele numa voz trémula. - Quando o Phillip estava muito mal, a Andrea, uma mulher que trabalhava comigo, levou-lhe alguns livros para
o hospital. Um desses livros era teu e era o seu preferido. Queria que o lesse vezes se
m conta. E eu abri o livro e ali estavas tu, a tua cara na contracapa. Reconheci-te imediatamente, mesmo depois de tantos anos. Aquela cara que se debruçara sobre
a beira de um fosso e que prometera que me ia salvar. O meu anjo
-da-guarda estava ali para me ajudar outra vez. Não te posso explicar o que foram aqueles dias, ficava sentado ao lado dele, vendo-o ser torturado pela dor, a afastar-se
cada vez mais de mim. O teu livro, a tua fotografia, tornaram-se um alívio para n
ós. O teu rosto... agarrei-me ao teu rosto. E subitamente ele partiu, o seu corpo desistiu da luta e desapareceu do meu lado.
Laura tentou não visualizar Phillip, uma criança na cama de um hospital, mas era impossível não o imaginar. Olhou para Ian, quis chegar-se a ele. Mas o terror que
Ron Leonard ha via instilado no seu coração fazia-a recuar. "Foste tu quem o pôs naquela
cama de hospital?", perguntava-se ela. "Isso também fazia parte da tua loucura?"
- E houve uma ocasião, nos dias que se seguiram a isso, em que pensei procurar-te. Queria apenas agradecer-te. Eu acho... Eu fiz... isso de me passar por outra pessoa,
só para descobrir coisas a teu respeito. Bob Gerster. E isso sugeriu-me um plano. E
ra uma outra coisa em que pensar que não fosse... - Ian abanou a cabeça, ao vasculhar as memórias do seu passado. - Na altura foi óptimo poder ser outra pessoa,
ainda que apenas por pouco tempo. Agora sei que parece loucura, mas eu tinha aquela ideia
a teu respeito... que se te pudesse encontrar...
Ian parecia sincero e Laura sentiu-se amolecer, a querer acreditar nele. "Está a levar-te à certa", avisou-se a ela própria. "Não caias nessa história outra vez.
E o Jimmy?", lembrou-se ela. "Não te esqueças do Jimmy."
- É engraçado que nunca tenhas contado tudo isto, quando nos encontrámos por acaso.
- E foi por acaso - insistiu Ian. - Bom, talvez não tenha sido. Pronto, está bem, eu sabia que estavas nesta cidade, assim que cheguei cá. E andava por aí. É verdade,
tencionava encontrar-te, embora soubesse que eras casada e que tinhas um filho. Não
é que eu quisesse seduzir-te ou coisa do género. Só te queria ver, contar-te tudo.
- O que é que te levou a crer que eu me importaria contigo ou com os teus problemas? - perguntou Laura, com um tom bastante ríspido.
- Nada. Não sei. Não conseguia tirar-te da minha cabeça.
Talvez fosse uma espécie qualquer de telepatia. Eu sei que isso pode parecer loucura, mas talvez eu sentisse que também tu estavas a sofrer...
- Sim - afirmou Laura secamente. - Isso é, de facto, loucura.
- Eu sei que soa dessa maneira. E foi exactamente por saber isso que não te podia contar... E depois tu descobriste-me... e nessa altura era tarde de mais para te
contar... Eu sabia o que tu irias pensar.
- Não podias fazer ideia daquilo que eu ia pensar ou não. Tu eras um completo desconhecido para mim. Meu Deus, caí direitinha na tua ratoeira.
Ian olhou ;para ela.
- Espera um instante. Não havia ratoeira nenhuma. Chama-lhe destino, ou acaso, se quiseres, mas não foi uma ratoeira. Quando tu entraste no meu barco, senti como
se os meus joelhos fossem ceder. Era como se tivesse mesmo de ter acontecido. Não tentes
fingir que tu não me querias. Senti isso no momento em que nos encontrámos...
Laura recordou-se da maneira como se sentira. E a insistência dele, insistência que a tinha deixado furiosa. Não só ela tinha acreditado nele, como também o desejara.
E, Deus ajudasse, tinha casado com ele.
- E como é que - perguntou ela com os dentes cerrados. - O meu marido já tinha... como era conveniente... já tinha morrido... quando tu me vieste procurar, não é
verdade? Isso também foi o destino? Ou deste uma ajudinha ao destino?
Ian levantou-se e olhou para Laura. A sua cara parecia gelada, numa expressão de raiva indizível. Ela olhou para ele. Alguém tinha morto o seu marido e ali estava
o homem de quem a polícia suspeitava. O homem com quem ela casara. "Meu Deus, fiz tudo e
rrado. Não tenho mais nada a perder." Depois, por um instante, Laura pensou em Michael.
- Não! - gritou Laura. Recuou até às escadas. Os olhos do marido pareciam brasas.
Ian deu a volta ao balcão, caminhando em direcção a ela. Segurou-lhe os braços e apertou-os.
- Como te atreves a dizer isso? Depois de eu te ter defen
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dido e ter estado do teu lado. De ter acreditado em ti. Não importava o que a polícia dissesse, ou qualquer pessoa dissesse, eu acreditei em ti. E agora queres culpar-me?
Vou tentar esquecer-me que disseste isso, Laura. Por nós dois, vou tentar o mais
que puder.
-Não me toques! - gritou ela. - Larga-me! - O que se passa aí em baixo?
Laura olhou para cima. A figura de uniforme de um polícia surgiu na abertura ao topo das escadas. Quando começou a descer os degraus, os sapatos a ranger nas tiras
de borracha, Laura reconheceu o chefe Moore. Como as circunstâncias podiam ser diferent
es, pensou ela, nunca tinha ficado tão feliz por ver alguém. Teve de se conter para não lhe lançar os braços ao pescoço.
- Chefe Moore - gritou ela.
Nesse momento, Ian soltou-a. Desajeitadamente, Vince Moore desceu os degraus até à cabina. A sua figura avantajada parecia encher o espaço restrito. Quando era novo,
Vince ti nha sido chamado para separar muitos casais, fechados nas suas batalhas, mas
aquele caso era diferente dos outros. De uma maneira geral, ele via ressentimento nas faces iradas dos maridos e petulância nos olhos negros das suas mulheres.
Mas o que viu ali enervou-o, Laura estava a olhar para o marido com terror, como se ela ti
vesse visto um fantasma, e Ian exibia nos seus olhos o peso de um homem condenado.
Vince sentiu um certo sentido de protecção culpada em relação a Laura. Percebia o que acontecera com Dominick Vanese. Dolores tinha dado uma série de voltas, fora
evasiva nas suas respostas, mas ele compreendia. Laura havia sido encurralada pela estra
tégia dos sogros, que depois tinham tido um rebate de consciência. Vince começava a pensar que aquela mulher fora acusada o tempo todo sem qualquer fundamento. Afinal,
eles não tinham nada contra ela. E não era disso que tratava a justiça? A polícia n
ão devia proteger os inocentes? E quanto àquele homem, Ian Turner, Ron Leonard parecia ter muitas certezas a seu respeito. Se Ron tinha razão, aquele homem sofria
de uma grave perturbação mental. E pela expressão de Laura, Vince pensou que talvez tive
sse chegado subitamente
à mesma conclusão. Uma necessidade de a tratar como filha surgiu dentro de Vince. Não era muito difícil. Ela era da idade da sua própria filha. Tentou imaginar como
ele gostaria que alguém tratasse de Katy se ela estivesse metida na mesma espécie de p
roblemas.
- O que se passa, Laura? - perguntou Vince de uma maneira simpática.
- Quero ir-me embora daqui, chefe - pediu ela. - Por favor, não deixe que ele me siga.
Vince fez um sinal de assentimento.
- Pode ir para onde quiser, Laura. Quanto a si, Mister Turner, o detective Ron Leonard tem algumas perguntas para lhe fazer. já vem a caminho, neste momento. O senhor
deve ficar aqui, quieto, até ele aparecer. Eu estarei lá em cima, na doca, para ter
a certeza de que o senhor vai cumprir o que ordenei.
O chefe Moore voltou-se cavalheirescamente para Laura. - Eu ajudo-a a subir, minha senhora.
Laura aceitou a mão que lhe era oferecida. Não voltou a olhar para Ian. Tudo o que ansiava era fugir dali.
***
CAPÍTULO 48
Wanda desligou a máquina de secar, meteu a mão lá dentro para ver a humidade da roupa e pôs-se a escutar. Pensou ter ouvido Gary a chamá-la. Mas a casa estava silenciosa,
exceptuando as vozes da televisão.
- Gary - chamou ela.
Não obteve resposta. Reuniu alguma roupa interior seca e algumas meias e saiu da sala de lavagem para o vestíbulo vazio. - Gary? - voltou a chamar, agora com maior
insistência. - O que foi? - perguntou ele, com um tom de voz irritado.
-Estavas a chamar-me para alguma coisa? -Não - garantiu ele.
Wanda apertou a roupa, ainda quente do secador, contra o peito e voltou aos seus queixumes. Era sempre assim, quando ela fazia alguma coisa de barulhento - quando
usava o aspira dor, quando ligava a misturadora. Wanda não parava de pensar que ele a ch
amava, que precisava dela para qualquer coisa, mas ele negava sempre ter chamado por ela. Na realidade, parecia ficar furioso quando isso acontecia. Furioso por
ela lho perguntar, como se não gostasse que se preocupasse com ele. E tudo o que ela fazia
era a mesma coisa que sempre tinha feito, assegurar-se de que ele estava bem. "E por que razão uma coisa destas há-de pô-lo agora tão maldisposto e furioso?", perguntava
ela de si para si. Não estivera sempre ali, para ele, por causa dele, todos os m
inutos, todas as horas, desde que tudo tinha começado?
Wanda dobrou a roupa lavada numa mesa preparada para esse efeito. Aquela casa possuía tudo, tudo o que era necessário. Era-lhe sempre muito triste pensar que nunca
teria vivido numa casa tão confortável se não fosse o acidente do filho e a compensação
paga pelo seguro. E nada disso lhe interessava, nada mesmo. Sacrificaria tudo isso no próprio instante, só para o poder ter salvo da dor e do sofrimento. Lavaria
com satisfação a sua roupa num tanque, se isso pudesse fazer a diferença. E era exactame
nte por isso que a atormentava tanto que ele parecesse impaciente em relação a ela desde que regressara. Gary parecia ter-se modificado durante o tempo em que estivera
afastado dela, subitamente tornara-se irrequieto, agitado, menos disposto a cumprir
as regras habituais da casa. Por vezes, quando lhe oferecia comida, ele respondia que não estava com fome ou que a deixasse ali, que depois a comeria. Wanda tinha
de o recordar, em diversas ocasiões, com um tom de voz firme, que não era dessa maneira
que eles viviam. Geralmente, essa chamada de atenção era bastante para que, de certa forma, voltasse a si. E Gary fora sempre tão bom rapaz! Suportava o seu sofrimento
sem se queixar uma vez que fosse. Tal como ela suportava o seu próprio sofrimento
e a sua dor.
Wanda terminou de dobrar a roupa lavada e seca e começou a distribuir as toalhas de mão pela casa. Em primeiro lugar foi para a cozinha e guardou as toalhas e as
pegas. A seguir pa rou na casa de banho e pendurou as toalhas de banho. Daí passou para o
seu próprio quarto. Pendurou duas saias no guarda-fatos e guardou as camisas na gaveta da cómoda. Uma foto de Gary no liceu sorria, em cima do móvel. O cabelo dele
ainda era escuro nessa fotografia; tinha sido tirada pouco tempo antes do acidente de
automóvel. O cabelo dele fora muito escuro, tal como o dela, quando era nova. Não era loiro, como o do pai. Algumas vezes - mas não com muita frequência - Wanda
perguntava-se por onde andaria Karl Jurik. Tinha sido um homem bonito quando o conhecera,
e cheio de planos. Mas a verdade é que todos esses planos haviam terminado numa garrafa. E Karl tinha-os deixado tantas vezes - e com tanta assiduidade - que, quando
ele finalmente decidiu partir para sempre, o assunto já não teve qualquer importância
. "Fe
lizmente que o Gary não é nada como o pai", pensou Wanda. "Graças a Deus."
Wanda fechou a gaveta da cómoda e voltou a fazer o caminho pelo corredor, em direcção ao quarto de Gary. Ele devia estar provavelmente no seu estúdio, a pintar,
pensou com um suspiro. Também Karl sempre gostara muito de desenhar e fizera um retrato de
la, enquanto ainda a namorava, que era bastante bom. Gary, muito provavelmente, saíra a ele nisso. Mas era tudo, as semelhanças terminavam aí. Entrou no quarto de
Gary e ficou surpreendida quando o encontrou lá.
-Que estás tu aqui a fazer? - perguntou ela.
Gary abanou levemente a cabeça, como se a pergunta dela o tivesse espantado.
-Disse alguma coisa errada? - insistiu Wanda.
- Não, mãe. Não - garantiu com um ar muito calmo e um tom de voz muito baixo.
- Como não costumas estar muito tempo no teu quarto, durante o dia... Foi só por isso que perguntei - justificou-se Wanda.
- Eu sei - respondeu Gary.
- Trouxe a tua roupa - continuou ela. Dirigiu-se ao armário da roupa e estava quase a abrir a gaveta de cima quando, de repente, reparou num saco que estava pousado
em cima da cama. Era um saco de tecido cinzento e Wanda ficou a olhar para ele apreens
ivamente. Nunca vira aquele saco antes, quando ele se fora embora, fora sem levar o que quer que fosse. Por isso, de resto, ela tinha tanta certeza de que...
-De quem é este saco? - perguntou ela.
- É meu - respondeu Gary. - Está cheio de coisas. - Que está cheio de coisas vejo eu - respondeu ela. - O que é que ele está a fazer aqui?
- Mãe, não fique preocupada.
- O que é que isto está aqui a fazer? - Wanda apertou a roupa contra o peito e ficou a olhar para o saco pousado em cima da cama.
- Mãe... - Gary hesitou e passados uns instantes prosseguiu. - Eu vou-me embora e essas são as coisas que eu vou levar comigo.
- Vais-te embora? Vais-te embora para onde? Mas se acabaste de chegar!
- Tenho estado... Estou a pensar em mudar-me para outro lugar.
- De que é que estás a falar? Para outro lugar? Bem podes dizer para outro planeta. Gary, não estás a fazer qualquer sentido.
- Uma cidade, mãe. Não te posso dizer mais do que isso, neste momento.
- Não me podes dizer? - perguntou Wanda com ar incrédulo.
- É... Por enquanto, isto é confidencial. Até as coisas estarem arranjadas.
"Confidencial?", pensou ela. A palavra assustava-a. Parecia uma coisa tirada de uma história de espionagem. Como se ele não estivesse suficientemente em contacto
com a realidade. Wanda deixou-se cair sobre a cama e pousou a roupa cuidadosamente a seu
lado. Depois, começou a acariciá-la distraidamente com uma das mãos e tentou exprimir os seus pensamentos com extremo cuidado.
- Querido - disse ela. - Não podes ir para outro lugar. Quero dizer, tu não vais conseguir aguentar-te sozinho... Tu sabes.
- Consegui perfeitamente enquanto estive fora - respondeu ele.
- E eu agradeço a Deus todos os dias o facto de teres voltado a casa são e salvo. Tiveste uma pequena aventura... e, felizmente, não foste morto no meio disso tudo.
Mas agora estás em casa e apenas nos resta ter de esquecer todas essas coisas. - Mãe,
pare de falar disso dessa maneira. Eu tenho de ir, vou-me mesmo embora daqui.
Wanda olhou para ele, lívida. .
-Tu não te podes ir embora. Tu não consegues aguentar-te sozinho, tens necessidades especiais que precisam de ser atendidas. Esta casa foi feita por medida para
os teus proble
mas. Tu precisas de quem tome conta de ti. Quem iria tomar conta de ti?
Gary evitou o olhar da mãe.
- Há uma pessoa - afirmou ele. Wanda olhou para o filho.
- Quem? - perguntou. - Quem quereria assumir a responsabilidade deste fardo? Tu não sabes o trabalho que dás e ninguém quereria ter essa espécie de trabalho. Estás
a mentir-me, Gary, não há ninguém.
Gary pareceu considerar a resposta cuidadosamente, durante uns instantes, relutante em confessar. Depois pigarreou. - Vou-me embora com a Laura, para longe... Importa-se?
Ela precisa de mim agora. Na realidade, precisamos mesmo um do outro.
- A Laura? A Laura Reed? - Wanda não sabia se havia de rir ou de chorar. - Mas será que enlouqueceste completamente? A Laura Reed? Não me parece que isso possa ser
verdade. Não, não me parece.
Wanda começou a abanar a cabeça.
- Independentemente do facto de ela se ter casado outra vez, houve alguns desenvolvimentos enquanto estiveste fora. Para tua informação, meu jovem, ela está na prisão.
- Não, não está - contrapôs ele. - Já não está. Foi libertada hoje. E vai-se embora. Vai abandonar o marido e quer que eu vá com ela... e com o Michael. E, por isso,
eu vou-me embora também.
Wanda olhou para ele, desencorajada.
- Meu pobre filho, que iludido tu estás. Essa mulher destruiu-te o espírito. Tens de tentar ultrapassar isso. Ela está na cadeia... e nunca vai conseguir sair de
lá.
- Não, não está - insistiu Gary, pegando no comando da televisão que estava frente à sua cama e ligando-a. - Veja por si mesma.
Estava a passar um anúncio de um detergente para roupa. Wanda olhou tristemente para o filho. Estendeu a mão e fez-lhe uma festa na cara.
- Oh, meu querido - disse ela. - Isto não é real. O que tu estás a imaginar não é real. Tu estás aqui em casa, comigo e ela está... onde deve estar. - Wanda olhou
para a cara de Gary com ar preocupado. - Sabes isso, não sabes? - Vou buscar os meus pin
céis - proferiu Gary secamen
te, à laia de resposta. Manobrou a cadeira de forma a contornar a mãe e saiu pela porta do quarto em direcção ao estúdio. Wanda cobriu a cara com as mãos e passeou
o olhar em volta pelo quarto vazio. "Que vou fazer?", perguntou-se ela. Nem sequer quer
ia considerar a hipótese de ele se ter tornado desequilibrado, mas que mais poderia ela pensar? Tinha estado a agir de uma forma estranha desde que regressara, e
nunca lhe chegara a dizer onde estivera ou o que tinha acontecido. Tudo era possível. Tal
vez sofresse de alguma espécie de esgotamento. Acontecia isso por vezes às pessoas quando tinham estado sob uma grande pressão.
E havia outra coisa, qualquer coisa que a enchia de uma enorme sensação de terror, mesmo à boca do estômago, a arma. Descobrira-a um dia em que andava a fazer a
limpeza. Ti nha-lhe pegado e olhado para ela, era uma arma a sério. Que sabia ele de armas
? Oh, muitas vezes ele lia aquelas revistas de soldados e mercenários, mas pensava que isso era apenas uma fantasia. No entanto, ali estava ela na gaveta. Ela desejara
confrontá-lo, mas a arma encontrava-se numa gaveta fechada, por isso tinha de fingi
r que não sabia que ela ali estava. Wanda sempre soubera como tratar dele. Como o acalmar e tornar as coisas mais fáceis. Mas agora... agora era uma coisa completamente
diferente. Agora, ele precisava de ajuda.
Falando consigo mesma, Wanda correu para a cozinha e remexeu a gaveta da mesa, à procura da sua agenda telefónica. Tinha as mãos a tremer e sentia dificuldade em
ir voltando as páginas. Depois de alguns momentos frenéticos de busca, encontrou o número
que procurava. Marcou-o e resmungou para que a recepcionista atendesse o telefone. Finalmente, ouviu a voz de uma mulher.
- Consultório do doutor Ingles.
- Graças a Deus! - exclamou Wanda. - Mary, fala a Wanda Jurik.
- Olá, Mistress Jurik - saudou a enfermeira. Wanda falou baixinho para o telefone.
- Estou a ligar por causa do meu filho, o Gary. Ele... Ele não está bem...
- Parece-me muito perturbada, Mistress Jurik - disse a
enfermeira em tom afável. - Trata-se de uma situação crítica? O Gary está bem?
-Bom, você sabe o estado dele, Mary. - Sim - anuiu a enfermeira com cautela.
- Estou preocupada com o seu estado de saúde mental - declarou Wanda. - Eu acho que o doutor Ingles o devia ver. Acho que ele precisa de algum tranquilizante, de
qualquer coi
sa que o acalme. Está muito agitado e perturbado: Tenho uns Valium que lhe podia dar, mas acho que ele precisava de uma injecção ou qualquer coisa assim.
- Tente acalmar-se - insistiu a enfermeira.
- Acalmar-me? - insurgiu-se Wanda. - Será que você estaria calma se o seu filho estivesse a agir desta maneira? - O doutor Ingles está com um doente neste momento
- informou a enfermeira. - Eu digo-lhe que lhe telefone assim que estiver livre. Entreta
nto, não lhe dê qualquer medicamento que não tenha sido receitado para ele. Isso podia ser muito perigoso.
- Muito bem - concordou Wanda. - Diga-lhe, por favor, que isto é muito importante.
- Eu digo - garantiu a enfermeira.
Wanda desligou o telefone; encaminhou-se para o estúdio e bateu à porta.
- Gary? - chamou ela. - Gary, querido?
Não houve resposta. Wanda abriu a porta e viu que o estúdio estava vazio. Não foi capaz de dizer se faltava alguma coisa, ele tinha tantos conjuntos de lápis, de
caixas para pintar. Para
ela, o estúdio era como uma espécie de quarto dos brinquedos. Não havia necessidade de saber por onde andavam os lápis, podia sempre comprar mais. Mas Wanda tinha
a sensação de que faltavam alguns lápis. Ou talvez fosse apenas o receio de que isso pud
esse ter acontecido. Sentindo o pânico a crescer-lhe no coração, correu de volta para o quarto. Ele não estava lá e o saco tinha desaparecido de cima da cama.
- Gary! - gritou Wanda. - Onde estás tu?
Correu outra vez, agora em direcção à sala de estar. Mas a sala encontrava-se vazia, com a televisão ligada, como sempre. A porta da frente estava aberta. Um repórter
voltado para a câmara falava no ecrã de televisão.
- Como temos estado a informar ao longo desta tarde - dizia ele -, Laura Turner foi libertada da prisão do condado esta manhã, depois de uma testemunha ter modificado
o seu depoimento, segundo o qual ela teria procurado um assassino contratado para ma
tar o marido. Esta gravação de Mistress Turner foi feita quando abandonava a prisão.
A cara de Laura surgiu no ecrã.
- O que é que vai fazer agora que está livre? - perguntava-lhe um repórter.
- Vou deixar esta cidade - respondeu ela. - Não quero continuar aqui um momento mais, para além do que for absolutamente necessário. Não tenho mais nada a dizer.
Wanda ouviu o motor de um automóvel a arrancar. Olhou para o bengaleiro junto à porta. O blusão que ele usava sempre, mesmo no Verão, tinha desaparecido. Voltou-se
para a janela e ainda conseguiu ver a sua carrinha a afastar-se.
- Gary! - gritou ela. - Volta!...
***
CAPÍTULO 49
"Bom, meu querido", pensou Laura, "aqui estamos nós." Agachou-se em frente à pedra tumular de granito e colocou o ramo de flores colhido no jardim de sua casa no
vaso que estava implantado na campa de Jimmy. No caminho que fizera até ao cemitério, par
ara em casa para apanhar as flores. Pam Garrity estava cá fora, a reunir os brinquedos que Louis deixara espalhados no pátio, e falara-lhe com um tom simpático,
quase de pedido de desculpas, ao mesmo tempo que observava Laura partir os raminhos e junt
á-los num grande ramo.
Laura sabia que Pam tinha chegado a duvidar da sua inocência relativamente à morte de Jimmy quando ela fora presa. Não é que alguma coisa tivesse sido dita, mas
havia uma coisi nha qualquer no tom de voz de Pam que criara uma distância entre as duas.
A princípio sentira-se um pouco como César, tão surpreendida como ferida pelo facto de até a sua amiga mais chegada se voltar contra ela. Mas Laura sabia também
que Duane devia ter tido um papel preponderante nessa atitude, e imaginava as coisas que e
le teria dito na altura em que a polícia a detivera. E, afinal, fazia parte da natureza humana acreditar na versão oficial da verdade. O facto de se dever ser considerado
inocente até prova em contrário não importava grande coisa. Assim que uma pessoa
era presa, a maior parte das pessoas começava a pensar nela como culpada.
Para além disso, continuou Laura a pensar, ela já estava a habituar-se a não fazer grande caso dessas ofensas. A traição tinha-se tornado o seu pão de cada dia.
Pensou em Ian e depois
atirou essa recordação para trás das costas. Pam não tinha importância, continuou Laura, muito em breve, tanto ela como Michael estariam longe dali, e Pam e a família
passariam a ser uma recordação. Conheceriam novas pessoas, fariam novos amigos, teri
am uma outra casa. Mas Laura não conseguiu impedir-se de pensar em quem é que voltaria a confiar. Pensou tudo isto enquanto explicava a Pam que ia levar as flores
para a campa de Jimmy, que sempre gostara daquelas flores quando os arbustos começavam a
florir. Eram umas flores tão extravagantes, com a beleza daquela tempestade de manchas azuis e violetas no contraste das folhas verdes. Jimmy costumava dizer que
aquelas flores iam bem com os olhos dela. Laura sempre aceitara esse cumprimento da part
e do marido, embora soubesse perfeitamente que os seus olhos eram cinzentos e não tinham nada do azul daquelas flores. Mas, talvez para ele...
Agora, enquanto se agachava junto à sua.sepultura, a chuva miudinha tornava todo o céu da mesma cor cinzenta da pedra tumular de granito da campa de Jimmy. Com aquela
chuvi nha, o cemitério estava vazio, não havia mais ninguém sobre o tapete de relva
que rodeava as sepulturas. Laura disse uma pequena oração e tocou a pedra. Jimmy estava sepultado ao lado do pai, Jamés Reed Sr. Laura dedicou igualmente uma pequena
oração ao sogro, que nunca conhecera. Afinal, o seu sangue corria também nas veias de
Michael e, muito embora nunca se tivessem encontrado, estavam para sempre ligados, ela e o pai de Jimmy - o primeiro marido de Dolores.
"A tua mãe veio ajudar-me, no final", pensou Laura, como se estivesse a falar com Jimmy, como se ele estivesse a pairar por ali, escutando os pensamentos dela. "Foi
mesmo. Eu che guei a pensar que nunca mais sairia da cadeia e não sei exactamente o qu
e é que aconteceu, e o mais natural é que nunca venha a saber. Mas sei que a Dolores foi quem me tirou de lá. Quando todas as outras pessoas se voltavam contra mim,
ela procedeu com lisura, com justiça. Sempre me disseste que ela era assim, não foi? E
u dizia-te que tu conhecias melhor as pessoas do que eu. De uma coisa podes ter a certeza, porque é uma promessa que te faço, não importa onde é que o Michael e
eu iremos parar, mas farei sempre com que o teu filho saiba quem são os seus avós. É uma p
romessa."
Laura suspirou. "Oh, Jimmy, Jimmy!", pensou ela. "Como é que acabámos separados desta maneira? Separados por uma distância que nunca poderemos ultrapassar. Vai levar
uma vida inteira até que eu volte a encontrar-te." E enquanto pensava nisso, Laura in
terrogou-se: seria que Jimmy a quereria ver de novo, depois daquilo que ela tinha feito? Casada com um homem que...
Laura não quis terminar o pensamento, parecia que o seu espírito não o queria ouvir, que não estava preparado para isso. "Será que vais ter isso contra mim, meu
querido?", perguntou -se ela, olhando para o nome, James Reed Jr., gravado na pedra de gra
nito. Laura não tinha um conceito formado do que poderia haver depois da vida, mas gostava de pensar nisso como um lugar onde as almas se encontravam sem rancores
ou arrependimentos, como se os acontecimentos da vida não tivessem assim tanta importânc
ia. Todas as lamentações, todas as coisas pequeninas desapareciam e tudo o que importava era o amor que se tinha sentido por aquela pessoa, durante a vida terrena.
E se fosse esse o caso, eles voltariam a encontrar-se e a alegrar-se com essa reunião.
"Vou estar fora durante uns tempos", continuou Laura. "Durante esse período não vou poder vir até aqui. Vou levar o nosso filho para longe desta terra, onde possamos
afastar as memórias de tudo o que passámos durante estes últimos meses. Voltarei para
testemunhar, se tiver de ser... se houver um julgamento." Voltou a pensar em Ian, naquele olhar terrível que fora o último, e encolheu os ombros. Ser-lhe-ia possível
deixar para trás a memória de Ian e apenas levar consigo as recordações de Jimmy? O
seu verdadeiro marido. Oh, claro que Ian também tinha sido seu marido, e o rosto de Laura inflamou-se com as saudades que sentia dele. Sentia-se culpada até por
pensar nisso, ali, mesmo ao pé da sepultura de Jimmy. Mas a amargura já estava a manchar q
ualquer espécie de amor que ela pudesse ter sentido por Ian. Em breve não existiria mais nada para além de um pequeno desejo de vingança. Tinha a certeza absoluta
disso.
"Jimmy", continuou ela, obrigando o seu espírito a concentrar-se no único homem de que se queria recordar. "Eu não
acredito, verdadeiramente, que tu estejas aqui, este é apenas um local para as pessoas virem e pensarem em ti. Acredito que tu vais estar connosco para onde quer
que nós vamos. Vou tentar criar o Michael de uma forma que ele possa vir a ser o homem qu
e tu terias querido. Perdeu o pai quando era muito novo, tal como aconteceu contigo, mas tu saíste-te extraordi nariamente bem. Um homem a sério, cheio de qualidades.
Se eu for capaz de conseguir fazer metade daquilo que a Dolores fez contigo...", Lau
ra sorriu ligeiramente a este pensamento
-Nunca permitirei que ele esqueça o pai, meu querido - murmurou Laura num tom de voz perceptível. - Também isso é uma promessa.
Voltou a tocar na pedra do túmulo, os seus dedos a agarrarem com força o granito frio. Depois voltou-se e começou a caminhar em direcção ao carro. Reparou com desinteresse
que
outro veículo se encontrava estacionado na curva, por debaixo dos troncos de um ulmeiro muito antigo. Outra pessoa cujo sofrimento tinha sido travado pela chuva
que caía. Avançou até um caixote de lixo e deixou cair lá dentro as flores que havia subst
ituído no vaso. Depois continuou lentamente a marcha, a cabeça descaída, em direcção ao local onde o seu carro se encontrava estacionado. Na altura em que chegou
ao pé do veículo e se preparava para abrir a porta, ouviu um som atrás de si.
- Laura - chamou uma voz familiar.
Laura soltou um pequenino grito e voltou-se, surpreendida por ouvir o seu nome pronunciado naquele local de espíritos. Mal podia acreditar nos seus olhos.
- Gary! - espantou-se ela.
Gary estava sentado na sua cadeira de rodas, tapando o caminho para a porta do carro dela.
- Olá, Laura - saudou ele.
Ron Leonard desligou os limpa-pára-brisas e debruçou-se sobre o chão do assento da frente à procura do seu chapéu-de-chuva. Odiava o tempo assim. Os fatos ficavam
todos húmi dos e amarrotados, e lá tinham de fazer uma viagem extra até à lavandaria. At
ravés da chuva, descortinou o carro da polícia,
com todas as luzes a piscar, estacionado a uma curta distância do iate de Turner. Presumiu que Vince estivesse à espera dentro do carro, a abrigar-se da chuva.
Ron abriu o guarda-chuva e começou a caminhar ao longo do molhe. Os seus sapatos estavam salpicados e tendiam a escorregar no pavimento molhado. Com cuidado, avançou
até ao carro de Vince, interrogando-se, distraidamente, quanto peso é que aquelas pas
sadeiras aguentariam, um carro da polícia não era propriamente leve e, com quase toda a certeza, não seria muito comum um carro ir até ali. Um pequeno grupo de curiosos
tinha-se reunido sob a entrada protegida do Boat People, perguntando-se o que pode
ria significar a presença pouco habitual de um carro da polícia. Ron ignorou-os, embora estivesse consciente do seu estatuto de semicelebridade, enquanto se encaminhava
para o carro do chefe.
Quando Ron se aproximou do carro pela parte de trás, a porta do condutor abriu-se e Vince Moore saiu para a chuva. - Vi-te pelo espelho retrovisor - explicou Vince.
Os dois homens apertaram as mãos.
- Então onde está o nosso suspeito? - perguntou Ron. Vince fez um gesto na direcção do barco.
- Ele e a mulher estavam a ter uma bela discussão quando eu cheguei.
- A sério? - perguntou Ron com interesse.
- Creio que a Laura Turner acabou por concordar com o teu ponto de vista, detective - afirmou Vince, mas não havia sinais de alívio na sua voz. Tudo aquilo lhe parecia
muito triste. Mas percebeu que Ron estava pronto a atacar. - Ele quis saber se eu o
ia prender - concluiu Vince.
- Que lhe respondeste?
- Que não, claro: Mas disse-lhe para ele ficar ali quieto, que já vinhas a caminho. E tenho estado aqui desde então - acrescentou Vince.
- Óptimo - disse Ron.
- Pensas mesmo que este tipo é completamente maluco, não é?
- Eu estive bastante tempo na sua cidade natal. Acrescenta a isso um crime por contrato, um homem que anda a fingir
não saber nada de uma mulher que conhece bem de mais, ~ sim, eu acho que temos aqui um caso de loucura. Acho que ele estava obcecado pela Laura Reed, e disposto
a fazer tudo o que fosse necessário para a apanhar.
Vince abanou a cabeça. - Pobre Laura.
Ron olhou para Vince com um ar de surpresa. Embora começasse a suspeitar que Laura pudesse estar inocente, mesma assim não sentia qualquer pena dela. Afinal de contas,
ela tinha casado com aquele tipo de livre e espontânea vontade Olhou na direcção do
barco.
- Então, ele está lá em baixo, sentadinho à espera - disse o detective.
Vince encolheu os ombros.
-Acho que sim. Ouve, talvez seja melhor eu ir até lá contigo. Ele teve tempo para pensar nisto e pode ser perigoso. Ron sorriu e deu uma palmadinha na arma que estava
no seu coldre, debaixo do braço.
- Não te preocupes, eu estou pronto para ele. Vou convidá-lo a ir até ao gabinete, não quero ficar muito tempo naquele barco. Os barcos provocam-me claustrofobia.
- Concordo - disse Vince. - Eu também prefiro terra firme.
Um ruído surgiu do rádio de Vince, no seu carro. O chef pediu desculpa por um momento e foi responder à chamada. Regressou do carro com uma expressão de preocupação
na cara. - O que aconteceu? - perguntou Ron.
-Um assalto em Main Street.
-Vai andando - sugeriu Ron. - Eu safo-me sozinho. - Tens a certeza? - perguntou Vince. - Posso mandar alguém para aqui.
Ron considerou a oferta, mas a perspectiva de esperar lá fora, à chuva, era desagradável.
- Não há qualquer espécie de problema - garantiu Ron Leonard.
Vince suspirou.
-Tudo bem, então. É melhor eu ir andando. -Eu depois falo contigo.
Os dois homens fizeram um aceno de cabeça e Vince regressou ao seu carro e começou a recuar lentamente, em marcha atrás, pelo molhe. O grupo de curiosos ficou a
olhar para o carro da polícia quando Vince o endireitou e ligou a sirene. Todos deram um s
alto nesse momento, e Vince dirigiu-se para a cena do crime.
Ron entrou no barco, caminhou cautelosamente com os seus sapatos de sola de couro. Não puxou da arma a não ser no momento em que já estava fora da visão do grupo
de curiosos. Quando tirou a arma do coldre, já se encontrava junto à entrada para o inter
ior do barco e tinha um pé nas tiras de borracha das escadas. Não estava disposto a cair numa espécie de armadilha qualquer. já tinha experiência de mais para lhe
acontecer uma coisa dessas.
- Mister Turner - chamou ele. - Sou o detective Ron Leonard, do gabinete do promotor público. Vou descer. Não veio qualquer resposta de baixo.
Ron inspirou fundo e sentiu o coração bater mais depressa. Aquilo não ia ser fácil, já estava mesmo a ver. Turner não respondia e Ron tentou imaginar o pior. O homem,
sentado, à espera, mesmo junto às escadas, e a começar a disparar assim que o detect
ive lhe surgisse à vista. Ron esfregou o queixo e pegou na arma com mais força. Estaria pronto para ele, acontecesse o que acontecesse. No entanto, por um momento,
lamentou a sua postura de homem forte, ao ter mandado Vince embora, ficando ali sozinho
, sem qualquer apoio.
- Mister Turner - voltou ele a chamar. - Vou descer para falar consigo.
"Bom", pensou Ron, "a verdade é que é um pouco idiota pedir apoio para um interrogatório de rotina a um suspeito." Rir-se-iam dele. Mas era como as coisas andavam,
nos tempos, actuais, coisas que se ouviam contar. Como os pequenos criminosos pareciam
encarar a vida humana. Agora matava-se por uma lata de Coca-Cola.
"Pára de pensar dessa maneira", ordenou Ron a si mesmo. Segurou na arma com força e desceu as escadas até à cabina. Não havia qualquer sinal de Ian Turner.
- Turner - chamou ele de novo. - Onde é que diabo?...
Olhou em volta. Ele já tinha estado em alguns barcos de pesca, mas aquele barco era outra coisa completamente dife rente. Tinha quartos a sério. Com muito cuidado,
de arma levantada, Ron Leonard começou a explorar o barco. Ligou a luz e viu o chuveiro
. Ninguém. Invadido por uma sensação de pânico e de fúria crescente, dirigiu-se a um dos lados do barco e acendeu a luz. Na cabina desse lado havia apenas uma cama
em forma de trapézio, com um colchão de espuma, rodeado por armários. Ron recuou, saiu
da cabina vazia e continuou a avançar pelo interior do barco. A cabina seguinte tinha um be lithe com coisas arrumadas por baixo. Estava limpo e vazio
- Mas que merda! - gritou Ron. - Onde raio está ele? Olhou em volta, desesperado. Vince tinha estado na doca todo aquele tempo. Estava a ficar velho, mas não era
cego. Turner não podia ter passado pelo carro da polícia.
Ron voltou a subir as escadas. Só havia uma outra forma de sair daquele barco. A popa era mais baixa do que a proa, se Turner tivesse subido sorrateiramente aqueles
degraus e passa
do sobre a popa, poderia ter descido para a água sem ter sido visto.
- Filho da mãe! - gritou Ron. Voltou a colocar a arma no coldre e acabou de subir os degraus. Estava furioso, pensan do em Turner a escapar-se daquela maneira.
- Devia ter prendido o filho da mãe quando tive oportuni dade para isso - murmurou enquanto caminhava pelo convés Furioso com o evoluir dos acontecimentos e vagamente
preocupado com Laura e com o filho, foi continuando a sua marcha sem cuidados. Estav
a com pressa. Os seus sapatos de sola de couro escorregaram na superfície do convés, molhad< pela chuva, perdeu o equilíbrio e caiu para trás. Tinha consciência
dascoisas que estavam no convés e gritou de dor quando tombou sobre a portinhola. Tentou m
exer-se, mas a dor nas costas era imensa.
- Caraças! - gritou ele. Até a vibração da sua voz lhe fazia doer as costas.
O grupo de curiosos abrigado junto à porta do Boat People tinha diminuído mas ainda havia algumas pessoas que pa
reciam não ter nada melhor para fazer naquele dia chuvoso do que estar a ver o que se passava no enorme barco à vela. Uma rapariga de doze anos, com o olho de águia
da juventude, viu Ron cair e ficar imóvel sobre a superfície do convés.
- Pai, olha! - gritou ela. - Aquele homem caiu no barco. E está ali estendido...
Levou-lhe um momento a convencer os outros. E esses estiveram alguns minutos a conferenciar, a fim de decidir o que haviam de fazer. Depois, mandando a rapariga
ficar quieta, al guns dos homens e uma mulher começaram a caminhar em direcção ao barco e
ao homem inerte que se encontrava estendido sobre o convés.
***
CAPÍTULO 50
-Surpreendida? - perguntou Gary.
Laura olhou para o amigo e estendeu a mão para lhe tocar num dos lados da cara, como que para se assegurar de que ele era verdadeiro.
- Mais do que isso, siderada - respondeu ela. - Meu Deus, como estou contente por te ver. Onde é que diacho tens andado?
Algumas manchas cor-de-rosa apareceram na sua face pá lida.
- Ambos passámos um mau bocado - disse ele com gra vidade. - Ouvi o que te aconteceu nas notícias. Ainda não posso acreditar.
- Foi... foi um pesadelo - respondeu Laura com uma falsa boa disposição. Agachou-se junto à cadeira de rodas e pu.xou uma das mãos de Gary, fria, até à sua cara.
Sorriram un para o outro.
- Eu nunca acreditei que o tivesses feito - garantiu ele - Nem por um instante.
- Obrigada, Gary. Deves ser o único. Tu... e de todas as pessoas, a minha sogra, Dolores. No fim acabou por lutar por mim. Convenceu o Vanese a dizer a verdade.
Estás a ver, nun ca se sabe - Laura abanou a cabeça. - Sinto-me tão farta de pensar nisto
tudo. Mas, e a ti? O que te aconteceu a ti? E que é que estás aqui a fazer?
- Passei por tua casa. A tua amiga disse-me onde te poderia encontrar.
- A minha amiga?... Ah, estás a referir-te a Pam - disse Laura pensativamente. Acho que tu és o único amigo que me resta. Ainda és meu amigo, não és?
- Claro - respondeu Gary, olhando para ela com curiosidade.
- Onde é que tens estado? A tua mãe tem andado como doida. Sabes que ela disse à polícia que tu te foste embora por minha causa. Por eu ter voltado a casar. Senti-me
tão culpada, mas não foi por causa disso, pois não?
Gary olhou para ela com um ar triste. Depois assentiu com a cabeça.
- De certa maneira. Sim, foi por isso. Laura afastou o olhar.
- Lamento muito. Mais do que possas imaginar. Gary abanou a cabeça.
- Não, tudo bem. Foi o empurrão de que eu precisava. Ouve, estamos aqui a apanhar uma chuvada. Queres entrar para a carrinha?
Laura olhou para o seu relógio e depois para a carrinha de Gary, estacionada uma rua acima. Ficou admirada por não a ter reconhecido assim que a vira. Com certeza
que podia passar uns minutos com ele, abrigada da chuva. Dolores ficaria com Michael um
bocadinho mais.
- Claro - respondeu Laura.
Seguiu-o até à carrinha e resistiu ao impulso de o ajudar a subir. Ele não precisava de ajuda, lembrou-se ela, ele era perfeitamente capaz de tratar de si próprio.
Laura subiu para o lugar do passageiro, ao mesmo tempo que ele se içava para o do condu
tor. Laura ouviu um clique quando ele carregou no botão que fechava todas as portas e olhou para ele interrogativamente.
- Força de hábito - comentou ele em tom de desculpa. - Acho que me sinto mais vulnerável do que as outras pessoas.
Laura fez um aceno de cabeça e olhou pelo pára-brisas, o tempo que fazia transformava o cemitério, o seu tapete de relva e as árvores antigas numa massa indistinta
de cinzentos
e verdes-pardacentos. Sentiu o olhar de Gary pousado nela e Laura suspirou.
- Então o segundo casamento não resultou, é? - pergun tou Gary.
- Gary... Aquele casamento estava baseado numa mentira Talvez mesmo em qualquer coisa muito pior do que uma mentira.
- Que quer isso dizer? - perguntou ele. - Que quere insinuar com isso?
Laura abanou a cabeça.
- Significa que eu tenho de me afastar dele. E também deste lugar.
- Eu sei - respondeu Gary. - Eu ouvi-te a falar no no ticiário.
Laura ficou em silêncio durante uns instantes, a escutar a chuva que caía na capota metálica do carro. Depois voltou a falar.
- A polícia pensa que o Ian pode ter sido aquele que., -Aquele que... o quê?
Laura abanou a cabeça.
- Acho que foi da solidão... Da profunda solidão que eu sentia e que me turvou o pensamento.
- Aquele que matou o Jimmy? - perguntou Gary. Laura deixou cair a cabeça para trás, contra o assento da carrinha, e fechou os olhos.
- Eu ainda não consigo acreditar. De cada vez que pense nisso, o meu espírito afasta-se daí, sabes como é? Não posse crer que tenha casado... que tenha feito amor...
com o homen que...
De novo o silêncio invadiu a carrinha. Laura sentiu uma certa paz na escuridão do veículo, no seu silêncio, ao lado do amigo. Voltou a cabeça de lado e olhou para
ele.
- Nunca me disseste onde é que estiveste metido - pro feriu ela, tentando mudar de assunto.
Gary estava com o olhar perdido para lá do pára-brisas - Estive a fugir - respondeu ele. - O teu casamento fez disparar qualquer coisa dentro de mim.
Laura ficou à espera que ele se explicasse melhor. Mas algo no tom de voz de Gary fez com que ela sentisse um arrepio - Comecei por me dirigir para o Norte e acabei
por ir pa rar a Boston. Eu quase... Eu pensei em suicidar-me.
- Oh, não!
- Estava pronto a fazê-lo.
- Gary, mas porquê? - perguntou Laura. "Não me digas que foi por minha causa", pensou ela. "Por favor, não me digas isso."
Gary mexeu a cabeça e apoiou-a contra a janela lateral. - Desde que o Jimmy morreu, fiquei como que perdido... Fui para Boston, porque era para aí que ele queria
que eu fosse, quando estava a ajudar-me com aquela bolsa. Não parava de me falar no museu
da cidade, e de como eu havia de gostar da cidade...
- Ele tinha tanta fé em ti! - disse Laura. Gary sorriu-lhe timidamente.
-Eu amava-o, sabes. Ele foi o meu primeiro e único amor.
Laura franziu a testa.
- Não tenho a certeza se compreendo. Queres dizer... Amava-lo, como... em... amor?
- Estás chocada, não é? - perguntou ele com um toque de amargura a subir-lhe na voz. - Já tem acontecido. Laura fez um sinal de assentimento com a cabeça, quase
incapaz de respirar. A confissão de Gary era um choque inegável e ela sentiu-se ligeiramen
te embaraçada. Mas Laura percebeu de imediato que era bastante mais difícil para ele ter feito aquela confissão do que era, para ela, ter de a absorver. Ela não
queria que ele lamentasse a sua decisão de o confessar.
- Eu sei isso - respondeu ela. - Não o leves assim, eu não sabia. Admito mesmo que cheguei a pensar que...
- Pensaste que eras tu.
-Atua mãe disse... ela disse à polícia... - Laura encolheu os ombros, embaraçada.
Gary abanou a cabeça.
- A minha mãe. Ela também nunca chegou a saber. Ninguém sabia. Sofrer por ele era uma forma de vida para mim. A minha vida secreta. Quando ele foi para a universidade
e de pois se mudou para a Califórnia, via-o quando vinha de vez em quando a casa, ma
s percebi que se fora embora para sempre. Eu tinha dentro de mim todas estas racionalizações acerca
da maneira como eu ficaria contente só por ter amado alguém Sabes o que se costuma dizer, é melhor ter amado e depois perdido a pessoa, do que nunca ter chegado
a amar... E nem era o caso de se poder dizer que eu tinha uma vida social que pudesse ench
er esse vazio - afirmou ele antes de fazer uma pausa. Depois continuou. - Na altura em que se mudou de novo para cá, vindo de São Francisco, casado, com um filhpequeno,
eu percebi que ele estava muito feliz, que vocês se amavam muito um ao outro. Mas,
para mim, todos os antigos sentimentos voltaram a vir à superfície. Ele nunca soube o que eu sentia, porque se o tivesse sabido teria ficado muito embaraçado. As
relações entre nós passariam a ser estranhas. E Jimmy era tão recto. Recto e bom. O melh
or homem que já conheci...
- É verdade - respondeu Laura com um tom de voz muito fraco. - Ele era bom.
"Devo ter estado cega para nunca ter percebido", pensou ela. "E o Jimmy também." Laura sabia que ele nunca percebera. Nunca.
- Acho que, nessa altura, tomei uma espécie de decisão, a de que a melhor coisa a fazer era passar a fazer parte da vossa família... do vosso mundo - disse Gary.
- E foi assim, não foi?
- Sim - respondeu Laura com um ar solene, recordand a situação. - Foi exactamente assim.
- Ele construiu todas aquelas rampas, em vossa casa. Tu não sabes o que isso significou para mim. Era como se estivese a dizer-me que o meu lugar também era ali.
As lágrimas encheram os olhos de Gary, ao recordar-se de tudo aquilo. Laura estendeu a mão e agarrou-lhe os dedos frios.
- Era uma vida em segunda mão, mas depois disto... - Gary fez um gesto com a mão na direcção das pernas e da cadeira de rodas. - Depois de todos aqueles longos anos
em que não tinha ninguém e em que não tinha nada, não esperava muito mais do que isso.
Pareceu-me bastante...
- Ele alimentava grandes esperanças em relação a ti. Uma grande fé - declarou Laura, decidida. - O Jimmy sempre
acreditou que o mundo inteiro se abriria para ti, se deixasses que isso acontecesse. Era por isso que ele queria tanto que tu entrasses naquele programa em Boston.
- Eu sei - respondeu Gary. - Eu sei. Embora, para te dizer a verdade, eu nem sequer quisesse a bolsa, porque eu não queria ir-me embora e deixá-lo para trás. De
qualquer maneira, depois de ele ter sido... ter sido morto, acho que procurei manter a min
ha sanidade mental pensando em ti e no Michael. Sabes, procurando fazer aquilo que ele gostaria de te fazer, mandando-te as flores, como se elas te chegassem dele
através de mim... Eu sentia-me como se estivesse a fazer qualquer coisa por ele... Tu sa
bes.
As lágrimas corriam pelas faces de Gary, mas ele não fazia qualquer esforço para as suster.
- E depois, quando tu deixaste cair aquela bomba, quando disseste que tinhas voltado a casar, tão rapidamente... - Gary abanou a cabeça. - Não sei. Alguma coisa
se quebrou. Foi como se eu tivesse finalmente tomado consciência de que ele se tinha ido e
mbora para sempre. E que eu já não possuía nada...
Laura engoliu em seco e fez um aceno de cabeça. - Eu sei. Lamento.
- Não tens de lamentar. A culpa não foi tua, foi minha - afirmou Gary em tom seco.
Laura olhou-lhe para a cara cheia de lágrimas, mas não sentiu qualquer pena. Havia uma certa nobreza nele que a comovia profundamente.
- Que foi que te fez regressar? - perguntou ela com suavidade.
- Fui para Boston, comprei uma arma e estava sentado num quarto de motel com aquilo apontado ao meu cérebro, quando alguém bateu à porta. Um homem que eu havia encontrado
no parque e que tinha vindo atrás de mim. Ele parecia saber... - Gary olhou para
Laura com espanto e sorriu. - Acho que foi o Jimmy quem o mandou tomar conta de mim.
- E pode muito bem ter sido... - concordou Laura. Gary assentiu com a cabeça e o silêncio voltou a instalar-se. Depois recomeçou a falar e a sua voz tremia um pouco.
- O nome dele é Aaron. É enfermeiro psiquiátrico, trabalha com adolescentes, e tornámo-nos muito chegados. Sinto que o conheci a vida toda. Agora vou voltar para
lá, para viver com ele. Só vim a casa para dizer à minha mãe e arranjar as minhas coisas.
- É como se fosse o teu próprio milagre - afirmou Laura e, involuntariamente, pensou na maneira como se sentiu quando se encontrara com Ian, como se a providência
o tivesse enviado. Mas isso fora uma mentira. Para ela, isso constituí] uma mentira. -Ac
ho que isso vai ser a coisa certa para ti - observou Laura com sinceridade. E depois acrescentou: - O Jimmy havia de ficar tão contente. Estou a falar a sério. E
sempre quis o melhor para ti.
- Obrigado - murmurou Gary.
- Espero sinceramente que encontres a verdadeira felicidade. Porque a mereces - disse Laura.
- Desejo-te o mesmo a ti e ao Michael - retorquiu el Laura esteve quase a negar essa possibilidade para si própria, mas isso não seria verdade.
- Eu tenho o Michael - disse ela. - E vou ficar bem. Ele fez um gesto de assentimento com a cabeça, e os dois beijaram-se impulsiva e atrapalhadamente, por cima
da alavanca das mudanças da carrinha.
- E por falar no Michael... - disse ela, voltando a sentar-se para trás. - Tenho de o ir buscar, para que também nós possamos partir.
- Faltam muitos quilómetros antes de eu poder dormir. - disse Gary a sorrir.
- Para todos nós - corrigiu ela.
Gary voltou a fazer um gesto com a cabeça e Laura abriu a porta do seu lado e preparou-se para sair.
- A propósito..: - disse Gary. - É possível que recebas um telefonema da minha mãe.
- Da tua mãe? Porquê?
Gary respirou fundo e fez uma expressão de quem tinha si do apanhado em falta.
- Eu não fui capaz de lhe contar... tu sabes... acerca do
Aaron. Tentei mas... Ela não ia compreender. Quero dizer, não havia maneira nenhuma.
-Isso é bem capaz de ser verdade - assentiu Laura. - Por isso disse-lhe que me ia embora contigo.
- Comigo?
- Foi o que me veio à ideia. Estava a ver-te na televisão, a dizeres que te ias embora e eu pensei: "Porque não? Ela vai acreditar nisso, por agora." E vai haver
muito tempo para lhe contar a verdade, depois de tudo estar feito e consumado. Laura aban
ou a cabeça.
-Tu és mauzinho... - disse ela com um sorriso.
- Importas-te de me cobrir, temporariamente? Assim que eu estiver instalado, conto-lhe tudo. Prometo.
Laura riu-se.
- Claro. Para que é que servem os amigos?
- Fica bem, Laura - desejou ele. - Vou sentir atua falta. E do Michael.
Laura fechou a porta da carrinha e mandou-lhe um beijo. Ficou ali parada, a vê-lo afastar-se em direcção à sua nova vida. "Sê feliz", pensou ela. Depois voltou-se
e encaminhou-se para
o seu próprio carro. Eram horas de ir buscar Michael e de se irem embora.
***
CAPÍTULO 51
- Muito bem - disse Laura, abrindo a porta da frente de casa e empurrando o filho para dentro. - Temos de reunir coisas que vamos querer levar e pormo-nos a andar.
Não olhou para a cara de Michael deliberadamente, afastá-lo de Dolores e de Sidney já tinha sido suficientemente duro. Laura dissera que iam fazer uma "pequena viagem",
mas ni guém se deixara enganar. Michael tinha chorado e agarrara aos avós e Laura
sentira-se pessimamente por o estar a afastar mas tinha chegado ao ponto em que não podia voltar atrás.
- Quando é que regressamos? - perguntou Michael. Não quero ir sem saber quando é que voltamos.
- Não sei dizer exactamente quando é que isso será disse Laura à cautela, não lhe querendo dizer mais mentiras. - Mas acho que este já não é o lugar para nós vivermos.
-Queres dizer que não vamos viver na nossa casa? perguntou Michael com um ar incrédulo.
- Vamos arranjar uma outra casa. Uma casa ainda melhor do que esta.
- Eu gosto desta casa - insistiu Michael. Laura olhou para o filho com um ar de aviso.
- Ouve, eu sei que tu passaste um mau bocado. Mas podes acreditar em mim, não era isto que eu queria que nos acontecesse. Mas chegou a altura de deixarmos para trás
nossas perdas.
Ele não sabia o que ela queria dizer e já tinha passado problema seguinte.
- E então o Ian?
Laura abriu o armário do vestíbulo e tirou lá de dentro as malas vazias que ali tinha guardadas.
- O Ian não vem connosco - declarou ela, remexendo nas botas de neve que estavam no chão do armário.
- Pensei que íamos de barco este Verão - observou Michael.
Laura voltou-se para ele e agarrou-lhe os ombros.
- Pára com isso, querido. Eu sei que isto é difícil para ti. Acredita que eu sei isso e que o lamento. Mas é isto que vamos fazer.
Mesmo na altura em que pronunciava as palavras de forma tão firme, Laura não sabia exactamente o que queria dizer. Pensou na Califórnia, talvez acabassem por ir
para lá, ainda ti nha alguns contactos. E a Califórnia era, muito longe dali. - Ouve, nós
vamos andando por aí fora - disse-lhe ela. - Ficaremos em motéis, pelo caminho, e vamos vendo a paisagem. Vai ser muito divertido. Apetece-me andar pela estrada
fora, depois de ter estado metida naquela cadeia horrorosa. Aquilo era verdade, pelo menos
em parte. E também era um isco, para o fazer recordar-se da sua separação, para que ele se lembrasse de tudo aquilo por que tinham passado os dois. Todavia, à maneira
das crianças, ele não estava preocupado com o que tinha acontecido no passado. As s
uas preocupações voltavam-se para aquele momento, para aquele instante.
- Eu não vou - decidiu ele. - Estás sempre a mudar as coisas todas. Quero ir outra vez para casa do avô e da avó. Eu nãa quero ir contigo.
A verdade da acusação dele picou-a e, em vez de a admitir, Laura ficou furiosa com o filho. Atirou-lhe um saco para as mãos e olhou para ele.
- Tu vais lá acima neste instante e metes as tuas coisas neste saco. Não me interessa aquilo que vais levar, põe aquilo que quiseres e não voltes a responder-me
com esse ar impertinente, ouviste?
- Odeio-te! - gritou ele, correndo pelas escadas acima, arrastando o saco atrás de si.
Laura fechou o armário e encostou-se à porta, de olhos fe
chados. "Meu Deus", pensou ela. "Estou outra vez a fazer a coisa errada?" Chegara a um ponto em que duvidava de tod as as decisões que tomava. E porque não? Todas
as decisões que tinha tomado pareciam ter sido as erradas. "Vê se te controlas - pensou
Laura. Uma vez na estrada, tudo seria muito mais fácil. por esta estrada ou por aquela? Este motel ou aquele? Quando tivessem chegado à Califórnia, ela estaria novamente
a contr lar tudo.
Agarrando-se a essa ténue esperança, Laura soltou um suspiro e afastou-se da porta do armário. Ao menos, a sua casa estava em ordem. A maior parte das divisões tinha
sido limpa os respectivos conteúdos já estavam metidos em caixas. Afinal de contas, e
les tinham feito planos para se irem todos embora com Ian, pensou ela, a sua boca torcida num sorriso amargo. Só faltava arrumar algumas coisas. Tinha de limpar
o frigorífico, deitar fora tudo o que se estragasse e embalar alguma coisa que pudessem co
mer durante o caminho. Depois tinha de arrumar a sua roupa. Foi pelo corredor até à cozinha e abriu a porta do frigorífico. Aí, numa das prateleiras, embrulhado
em película aderente, encontrava-se o resto de um frango e algumas fatias de pão de alho,
ainda do churrasco que ele fizera naquela noite. Na noite em que a tinham vindo prender. A noite em que o tribunal havia entregue a custódia de Michael a Dolores.
A última noite deles naquela casa, em que tinham jogado cartas, sem suspeitarem de nada.
Em algum momento dessa noite, Ian embrulhara a comida e guardara como um marido perfeito. Laura sentiu-se adormecida por dentro, como se lhe tivessem batido até
ficar sem sentidos. Com a ponta dos dedos, pegou nos embrulhos que continha os restos do
frango grelhado e do pão e atirou-os para as profundezas de um grande saco de lixo verde-escuro. Despejou as garrafas de sumo e de Coca-Cola meio cheias no lavatório
e levou as garrafas e latas vazias até ao contentor de reciclagem. Agora estava vazio
, mas conseguiu visualizar nele as fotografias de Jimmy, na noite do seu segundo casamento, feito à pressa. "Deve ter sido o Ian a fazê-lo", pensou Laura. "Provavelmente
foi ele e não o florista." Nada mais queria recordar daquela noite. Não queria re
cordar-se da outra parte - a parte que ti
vera lugar no pequeno quarto das traseiras da casa, no escuro. Esse facto levava-a a odiar-se, e não o queria no seu pensamento.
- Michael - chamou ela, de forma automática. - Despacha-te.
Não houve resposta, mas ela não ficou surpreendida. Ele devia estar no quarto, deitado na cama, ainda sem nada guardado no saco.
- Eu vou aí acima - avisou ela.
Atou as pegas do saco do lixo e transportou-o para junto da porta, a fim de o levar depois para o caixote instalado no pátio das traseiras. Estava a ficar escuro,
embora todo o dia ti vesse estado bastante cinzento. "Se calhar devíamos dormir aqui est
a noite e partir de manhã", pensou ela. Mas não queria passar mais uma noite naquela casa. Queria fugir dali antes que Ian se visse livre da polícia. Que os convencesse
mais uma vez que não tinha nada a ver com coisa nenhuma. Não estava disposta a sup
ortar que batessem mais uma vez à porta, que Ian aparecesse, tentando obrigá-la a dar ouvidos a mais mentiras.
Avançou até à porta das traseiras e estendeu a mão para a abrir. Olhou para baixo e viu aparas de madeira a rodear a fechadura, vendo que a porta tinha sido arrombada
e aberta à força.
Durante uns instantes ficou a olhar, tentando apreender o facto de que a casa tinha sido assaltada. Depois, com os olhos muito abertos pelo medo, voltou-se, esperando
encontrar al guém atrás de si. A sala estava vazia, e a casa silenciosa. Com o olhar
a passear por todo o lado, Laura tentou pensar: "Quando, porquê?" Poderia ter acontecido em qualquer altura, durante os últimos dias, disse-se ela, tentando acalmar-se.
- Michael - murmurou Laura e foi então que o nome do filho lhe ficou preso na garganta. A casa estava muito calma. Demasiado calma.
Deixou o saco junto à porta e apressou-se, pela cozinha, até ao vestíbulo. Enquanto ia caminhando, escorregou e evitou a queda, agarrando-se à beira da mesa. Olhou
para baixo, para
o chão de madeira. Agora é que o via, um rasto de água, desde
a porta das traseiras, atravessando a cozinha e avançando pa o vestíbulo, como se alguém todo encharcado tivesse andada passear pela casa. Esse sinal tornou-a fraca
e receosa. Alguém tinha entrado ali. Ainda lá poderia estar?
Evitando as pequenas poças, avançou pelo vestíbulo até à base das escadas e olhou para cima.
- Michael! - chamou ela, mas a sua voz saiu muito baixa e, tal como o seu coração esperava, não houve qualquer resposta.
Olhou em volta, freneticamente. Sobre a mesa do vestíbulo da entrada, ladeando um vaso com flores secas, estavam dois pesados candelabros de bronze que tinha comprado
na feira ladra. Tirou a vela do candelabro que estava mais perto e 1 you nele, de ca
beça para baixo, com a mão suada. O peso candelabro na sua mão fê-la sentir-se ligeiramente mais segura. "Talvez não seja nada", pensou ela. Michael não lhe respondia
muitas vezes quando ela o chamava. As crianças perdiam-se no seu próprio mundo e aqu
ela porta podia ter sido forçada há dias, quando não estava ali ninguém. Mas isso não explicava a água. Talvez Pam tivesse vindo a casa ver como estavam as coisas,
enquanto chovia. Mas não, pensou Laura, Pam não teria ido embora deixando a casa naquel
e estado. Os pensamentos de Laura não lhe davam muita confiança, mas ocupavam-lhe o cérebro, permitindo-lhe que continuasse, que se mexesse, que a sua respiração
se mantivesse enquanto subia as escadas.
Quando chegou ao cimo, olhou em volta. A casa estava quieta e silenciosa. Foi imediatamente em direcção ao quarto de Michael e olhou lá para dentro. A porta estava
aberta e nada fora mexido. Nem mesmo o saco que Michael trouxera para cima ali se encon
trava. Enquanto olhava para o quarto vazio, com o coração a bater-lhe descompassadamente no peito ouviu um ruído. Laura voltou a cabeça.
Vinha do fundo do vestíbulo superior, do seu antigo quarto. Seu e de Jimmy. Laura reparou que a porta do quarto estava ligeiramente aberta, mas não havia luz lá
dentro. No entanto, não teve quaisquer dúvidas, era daí que vinha o ruído. "Talvez ele est
eja lá dentro", pensou ela, "a remexer nas coisas do pai e se sinta culpado e com medo de responder."
- Michael - chamou de novo, com a voz a tremer. - Responde.
Mas não houve resposta. Quando olhou para o chão, viu que pequenas poças de água, muito mais pequenas mas ainda brilhantes; no chão, conduziam ao quarto. Parte dela
queria correr, telefonar para a polícia e dizer que suspeitava de um assaltante. Esper
ar em qualquer lugar seguro que eles chegassem. Mas não era possível, não sem Michael. "Tens de avançar", disse-se ela. "Seja quem for que lá esteja, tens de entrar
ali e ir buscar o teu filho."
Avançou até à porta, com o coração a bater intensamente. Segurou o candelabro numa das mãos, e estendeu a outra. Não queria abrir aquela porta outra vez. Mas Michael
estava a dar -lhe um motivo. Obrigou-se a avançar, abriu a porta e entrou no quarto.
A última luz do crepúsculo chuvoso entrava pela janela, formando padrões de folhas e ramos sobre a cama branca. Os lençóis e cobertores da cama estavam fora do sítio,
e alguns de
les tinham caído para o chão. E, deitado atravessado sobre a cama, meio em cima, meio a cair, como a memória do seu pior pesadelo, encontrava-se o corpo de um homem.
As suas roupas eram escuras e amarrotadas, como se tivessem acabado de sair da máquina de lavar, e a roupa da cama que estava por baixo dele parecia empapada. O
seu cabelo também estava molhado, negro contra o fundo branco da cama. O sangue corria-lhe
do peito. Quando Laura olhou para ele, aterrorizada, o homem voltou a cabeça e olhou para ela como se não a visse. Era Ian.
Laura pôs uma mão sobre a boca para abafar um pequeno grito. Subitamente, atrás dela, ouviu um outro ruído e um grito estrangulado. Voltou-se e ficou a olhar o quadro
que se deparava perante os seus olhos.
Michael estava sentado no chão, com as pernas esticadas à sua frente. Os seus olhos castanhos estavam esbugalhados pelo terror; o saco encontrava-se a seu lado.
Tinha um bocado de tecido metido na boca. Mantinha-se ali, quieto, com uma arma apontada à
cabeça. Wanda Jurik, agachada a seu lado, segurava a arma.
- Mas que raio... - disse Laura. - Largue o meu filho. Começou a avançar em direcção a eles, mas Wanda segurou o rapaz contra o seu corpo e apontou o cano da arma
à cabeça de Michael.
Laura parou, petrificada.
- Mistress Jurik, por favor - murmurou ela. - Porque está a ameaçar o meu filho? Por favor, pouse essa arma. Pode disparar-se.
Laura deitou uma olhadela à cama. Ian continuava a observá-la, embora tivesse um olhar distante. Tinha a mão sobre a ferida do peito, como que para estancar o fluxo
de sangue. seus dedos estavam vermelhos e peganhentos.
Laura voltou a olhar freneticamente para Wanda.
- O que é que está a fazer, Mistress Jurik? O que se passa? O que aconteceu aqui?
- Tenho estado à sua espera - proferiu Wanda. Fez sinal em direcção à cama. - Ele veio espreitar e deu comigo. Laura -voltou-se para Ian, sentindo-se fraca e muito
confusa.
- Eu queria ver-te... falar contigo - murmurou lan. da palavra lhe provocava um esgar de dor. - A porta das seiras estava arrombada. Assustei-me. Vim até cá acima.
Ela
tava à espera... disparou... desculpa... Wanda fez um pequeno sorriso. - Arrumei-o.
A expressão agonizante dos olhos de Ian fizeram com que Laura se sentisse a desmaiar de medo. "Estaria ele muito perto da morte?", interrogou-se. Afastou o olhar
dele e fixou corr
incrédulo o sorriso de satisfação de Wanda. "Reage", disse própria. "Tens de tomar o controlo desta situação."
- Mistress Jurik, o que é que está a fazer? - perguntou Laura. - Largue o meu filho. Vamos! Tenho a certeza de que foi um acidente, mas... o meu... o Ian precisa
de um médico. Agora. Por favor.
Wanda abanou a cabeça.
-Não foi acidente nenhum. E não. me vou embora. bem, onde é que está o Gary?
- O Gary? - perguntou Laura. - Foi-se embora... O que é que...
- Não me tente enganar, menina. Sei tudo sobre os seus planos. E não se vai conseguir safar. Não o vai levar para longe de mim. Não vai, não!
-Não o vou levar... Mas que diabo?
Depois, de repente, no meio da sua confusão, Laura lembrou-se das palavras de Gary: "É possível que recebas um telefonema da minha mãe." "Oh, meu Deus", pensou ela.
- Wanda - começou Laura, tentando parecer suave, tentando controlar a fúria que sentia ao ver Michael a lutar contra o braço que o segurava, ao pensar em Ian ali
deitado atrás de la, a esvair-se em sangue. - Isto é tudo uma confusão. Eu... Eu acabei d
e falar com o Gary. Ele não vai comigo. Isso foi apenas o que ele lhe disse. Eu não vou para lado nenhum com ele.
Laura voltou a olhar para Ian, o sangue que lhe saía do peito começava a empapar a colcha, fazendo uma mancha que alastrava à sua volta.
- Por favor - pediu ela. - O meu marido... Ele precisa de ajuda.
Wanda abanou a cabeça. Não sentia qualquer interesse pelo homem que tinha alvejado.
- Mentiras e mais mentiras - disse ela. - Mas não me engana. É capaz de ter conseguido enganar o meu pobre filho, aquele inocente. Ele confia e acredita em toda
a gente, é verdade. E não sabe nada das coisas do mundo. Sempre esteve metido naquela cade
ira de rodas. Mas eu sei...
Laura olhou desesperadamente para Wanda. Podia ver o medo nos olhos de Michael, e ainda uma outra coisa, a sua confiança nela. Ele confiava nela para o livrar daquela
situação. Laura tinha de fazer alguma coisa, de dizer alguma coisa.
- Ouça, Wanda. O Gary já se foi embora. Foi-se embora sem mim. Ele só lhe disse que se ia embora comigo porque... - Laura hesitou, relutante em trair uma confidência.
Mas depois olhou para Michael, feito prisioneiro e com uma arma apontada, ouviu a re
spiração entrecortada de Ian sobre a cama, e não se importou. - O Gary foi para Boston viver com um amigo que conheceu lá. É um homem, Wanda. Um homem por quem ele
sente um grande afecto. Ele não lhe quis dizer
porque achou que a senhora não ia compreender. Ele ama esse homem, Wanda. Ele só quer voltar para lá e... começar uma vida com ele. Mas não foi capaz de lhe dizer
isto. Ainda não. Eu estive com ele, há menos de uma hora atrás. Estava a preparar-se par
a voltar para lá. Ele prometeu-me que lhe contaria a verdade assim que estivesse instalado.
A expressão nos olhos de Wanda mantinha-se fixa, gelada. - Nunca compreenderei que poder é este que os dois têm sobre ele. Primeiro, foi o Jimmy Reed, e agora você.
Sempre a tentarem levá-lo para longe de mim. Lançaram-lhe algum feitiço? Porque é que
não o deixaram em paz? Ele quase se matou por sua causa. Foi ele quem comprou esta arma - anunciou ela, agitando a arma antes de a voltar a apontar à cabeça de Michael.
- Tudo porque você se casou outra vez. Ele contou-lhe isso? E você fez algum caso
disso? Não. E agora, de repente, decide que quer que ele fuja consigo. É tudo o que tem para lhe dizer e, claro, ele salta logo, perante essa oportunidade. Ele é
como uma marioneta nas suas mãos!
- Isso é ridículo! - gritou Laura, explodindo subitamente em fúria. - Pare de deitar as culpas para cima de mim! Não ouviu o que eu acabei de lhe dizer? Largue o
meu filho e pouse essa arma imediatamente.
Laura deu um passo na direcção de Wanda, brandindo o candelabro.
- Eu não faria uma coisa dessas - ameaçou Wanda com ar de mau presságio. Os músculos dos seus antebraços tornaram-se mais firmes, por baixo das mangas enroladas
da sua blusa. - Você não é mais forte do que eu. Estou habituada a levantar pesos. Habitua
da a transportar o peso do meu filho. O meu peso. O meu Gary - insistiu ela.
- Não me interessa aquilo a que está habituada - gritou Laura, o candelabro pendurado, inútil, na sua mão. - E vou levar o meu filho daqui para fora.
- Devia tê-lo morto depois do desastre... quando eu o quis fazer - disse Wanda. - Nada disto teria acontecido. Porque é que eu esperei?
- O Gary? - perguntou Laura, surpreendida pelas suas palavras.
- O Gary?! - espantou-se Wanda. - Porque é que eu havia de matar o meu próprio filho? Eu vivo por causa daquele rapaz. Não seja estúpida.
E foi então que Laura compreendeu. Com uma onda de terror, a que se seguiu o peso da pavorosa realidade, ela percebeu, Wanda estava a referir-se a Jimmy.
-Você? - gritou ela. - Foi você? Porquê?
- O Gary não me queria deixar - resmungou Wanda. - Só estava a trabalhar naquela coisa da bolsa de estudo em Boston porque o Jimmy Reed queria que ele o fizesse.
A pu xar-lhe os cordelinhos, a manipulá-lo. Mas o Gary teria ido. Eu conheço o meu filho
e ele não resistia ao Jimmy Reed, fazia tudo o que o Jimmy lhe dissesse para fazer. É exactamente por causa disso que ele está naquela cadeira de rodas, porque o
Jimmy Reed o fez entrar naquele carro, naquela noite. Estava tudo em gelo, eu avisei-o, m
as o Jimmy Reed levou a melhor. Ele estava sempre a tentar afastar o Gary de mim e eu tinha de fazer alguma coisa. E pensei que, uma vez que o Jimmy Reed estivesse
afastado, essa maldição seria levantada. Mas não, você tomou o lugar dele. Porque é que
não foi capaz de o deixar só para mim?
-Você matou o Jimmy! - exclamou Laura lentamente, tentando absorver a ideia dentro de si, o coração despedaçado pela memória do marido perdido, que apenas quisera
ajudar o amigo.
Depois pensou em Ian, deitado na cama atrás dela, ferido e a sangrar, e quase desmaiou com a vergonha e os remorsos que sentiu. Ian tinha-a encontrado quando ela
mais precisara dele, acreditara na sua inocência, ficara a seu lado. O seu único crime ti
nha sido procurá-la. E, como agradecimento, ela acusara-o de ser o assassino de Jimmy. A face escaldava-lhe perante esse pensamento. Queria correr para ele, ajoelhar-se
a seu lado e pedir-lhe que compreendesse. Mas ele nunca a perdoaria por aquilo. Qu
em poderia fazê-lo? E agora pouco lhe importava tudo isso. Por causa dela estava agora naquela cama a sangrar até à morte...
- Pois não o vai ter - disse Wanda. - Não o vou permitir... Desta vez, não vou.
Laura olhou para a mulher que tinha o seu filho prisioneiro, para o seu cabelo grisalho todo despenteado, os olhos cheios de uma espécie de loucura triunfante. "Foste
tu", pen
sou Laura. "Foste tu, minha bruxa, que nos arruinaste a todos. E para quê? Compreendeste tudo mal." Esse pensamento encheu Laura de raiva, mas, ao mesmo tempo, de
uma sensação de paz. Paz de espírito. Tinha de pensar. Tinha de pôr fim àquela loucura.
Não havia mais dúvidas.
- Não! - exclamou Laura. - Desta vez, não.
***
CAPÍTULO 52
"Pensa", disse Laura para si mesma. "Pensa." Mas era dificil pensar, vendo os olhos de serpente da mulher que continuava a empunhar a arma. Tinha de afastar o espírito
do medo que
sentia daquela arma, prestes a fazer explodir a cabeça de Michael. E de Ian, jazendo na cama, cuja vida se esvaía a pouco e pouco. As únicas razões que Laura tinha
para viver estavam à sua volta, ameaçadas de morte e ela tinha de encontrar uma maneira
de evitar isso. Uma maneira qualquer.
"Controla-te. Pensa no que ela quer. Pensa nalguma maneira de lho prometeres. É a única maneira de sair daqui", disse Laura a si mesma. "Fá-la pensar que desististe.
Sim. De alguma maneira vais ter de a convencer."
Laura respirou fundo.
- Muito bem, Wanda - proferiu ela tão calmamente quanto lhe foi possível. - Talvez tenha razão. Eu fui egoísta, tenho andado a pensar apenas em mim mesma, e não
no que é melhor para o Gary.
-já era altura de reconhecer isso - retorquiu Wanda com um suspiro.
- Inventei aquela história acerca do homem de Boston - continuou Laura. - Não há homem nenhum. Nunca houve. - Claro que não - disse Wanda com desdém. - Isso foi
uma coisa horrível de dizer. Tentando insinuar que o meu filho estava envolvido em qualque
r coisa de perverso... Bom, isso é ridículo. O Gary não tem dessas coisas, ele é como uma criança. Tudo são paixões para ele. Tal como ele é em relação
a si. Não admira. - Wanda abanou a cabeça. - Você diria o que fosse preciso para conseguir o que quer. Mas eu nunca acreditei nisso, nem por um minuto. Você acha
que uma mãe não saberia uma coisa dessas a respeito do próprio filho? Tem muito a aprende
r, no que diz respeito a ser mãe. Tenho pena por causa deste... - acrescentou ela, com a arma no meio do cabelo de Michael. - Com uma mãe como você...
"Calma", pensou Laura. "Ao menos ela está a falar." -Wanda - retorquiu ela. - Diga-me exactamente o que é que quer. Estou disposta a fazer o que for preciso... Wanda
pôs-se imediatamente à defesa.
-Agora, você diria tudo. Isso sei eu a seu respeito. Mas fazer é outra coisa completamente diferente.
"Não peças nada", lembrou Laura a si mesma. "Ela está a divertir-se. Vai arquitectando um plano."
- Muito bem - anuiu Laura com uma firmeza que não sentia. - Aqui está o acordo. O Gary e eu combinámos encontrar-nos. Ele deve... ele está à minha espera neste momento.
De mim e do Michael.
- À espera onde? - perguntou Wanda com curiosidade. "Onde?", pensou Laura freneticamente. Depois abanou a cabeça.
- Oh, não! - exclamou ela. - Não lhe vou contar tudo. Pelo menos enquanto estiver a ameaçar o meu filho dessa maneira.
Wanda apertou ainda mais o rapaz.
- Conte-me tudo, ou mato o seu filho à frente dos seus olhos.
Laura tentou controlar as tremuras que lhe tinham invadido o corpo todo. "Pensa, pensa", dizia-se ela. "Finge que é verdade."
-Muito bem, Wanda, ouça. Só há uma maneira de o Gary acreditar que eu não quero nada com ele, que não quero mais nada dele. E essa maneira é se for eu a dizer-lhe.
Ele não vai acreditar se for você a fazê-lo. Afinal, você é mãe dele. As mães querem se
mpre proteger os filhos, não é verdade? E ele sabe que é isso que você faria. Ele deve saber que a senhora não me aprova. A única maneira é ser eu a dizer-lhe.
Wanda sorriu como se a conversa de Laura fosse divertida. - Não - retorquiu ela lentamente. - A única maneira segura é se você estiver morta.
Wanda gostou da expressão da cara de Laura.
- Você não pensou que eu a ia deixar viva, pois não? Sobretudo agora, que sabe acerca do Jimmy Reed.
- Eu não conto a ninguém - prometeu Laura. - Juro que não digo.
- E de que vale a sua palavra? - perguntou Wanda. Depois passeou o olhar pelo quarto. - Tenho de fazer parecer que foi você. Ou ele - proferiu ela vagamente, gesticulando
com a arma na direcção de Ian. - Deixo a arma. Vão pensar que houve luta. Ele é
seu marido, afinal de contas. Estas coisas acontecem todos os dias.
Qualquer coisa no coração de Laura se tornou da têmpera do aço.
-Quando eu não aparecer, o Gary há-de vir à minha procura - lembrou Laura.
Wanda suspirou.
- É bem capaz disso... Ele nunca mais aprende.
- Sabe que a polícia suspeita sempre da pessoa que encontra o corpo? Sabia disso? - perguntou Laura. - Agora sei imensas coisas destas... da polícia...
Wanda encolheu os ombros mas olhou para Laura com os olhos semicerrados.
- E então?
- A arma é do Gary - afirmou Laura friamente. Wanda olhou para a arma que tinha na mão.
- Vão culpá-lo - prosseguiu Laura. - Vão dizer que foi o Gary. E vão pô-lo numa prisão. Ou talvez o executem. Nessa altura, com que é que você fica?
- Cale-se - ordenou Wanda. - Cale-se! Nunca o culparão. Ele está numa cadeira de rodas.
- É perfeitamente capaz de disparar uma arma - continuou Laura. - Foi você quem o disse.
- Você é o diabo! - exclamou Wanda. - Não se interessa com aquilo que lhe pode acontecer, pois não?
-Vão tirá-lo de si para sempre - declarou Laura. - Bem pode dizer adeus ao seu filho.
Os olhos de Wanda estavam cheios de ódio e de confusão quando voltou a encarar Laura. Esta olhou para o seu relógio de pulso.
- Pense nisso - prosseguiu. - Já estou atrasada para o nosso encontro. Em breve ele estará aqui.
Wanda olhou em volta, frenética, tentando tomar uma decisão. Foi então que, subitamente, o pânico desapareceu e deu lugar a um sorriso.
-Não me parece - disse.
- Não lhe parece o quê? - perguntou Laura. - Vão culpá-lo, sim. Ele tem um motivo perfeito, foi você quem disse à polícia que ele estava apaixonado por mim. Disse-lhes
vezes sem conta que ele estava disposto a matar-se por minha causa. Pode acreditar
em mim, isso, para eles, é motivo mais do que suficiente.
Wanda abanou a cabeça.
- Lamento, minha querida. A tentativa foi boa, mas eles vão descobrir os corpos no segundo andar. E isso seria uma coisa impossível de o meu filho fazer.
Laura hesitou, mas não deu sinal de fraca. Tinha de convencer aquela mulher.
- Não é bem assim, Wanda - disse Laura. - Não é tão impossível como isso. Temos um elevador nas escadas.
Os olhos de Wanda abriram-se. -Não têm, não.
- Temos, sim - garantiu Laura. - Viu as rampas lá fora? Foi o Jimmy quem as colocou por causa do Gary.
O cérebro de Wanda trabalhava a grande velocidade.
- Qualquer pessoa pode colocar rampas - retorquiu ela. - Eu vim pelas escadas. Não há elevador nenhum.
- Esta casa é antiga e tem umas escadas nas traseiras - insistiu Laura. - São mais largas do que estas, por isso o Jimmy pôs o elevador lá atrás. Para que o Gary
pudesse andar pela casa toda.
- Está a mentir! - exclamou Wanda.
- Ah, estou? - perguntou Laura. - Venha ver. Wanda hesitou e Laura reteve a respiração. Mas Wanda tinha de saber, não se atreveria a pôr o seu plano em prática sem
saber. Sobretudo se aquilo podia significar a incriminação de Gary.
- Ponha essa coisa que tem na mão no chão - ordenou Wanda.
Laura pousou o candelabro a seu lado. - Dê-lhe um pontapé!
Laura fez o que ela lhe dizia. O candelabro descreveu um arco e foi embater na perna de um armário.
-Agora levanta-te - disse Wanda a Michael, que se pôs de pé. Havia lágrimas na sua face. Laura tentou não fitar os seus olhos assustados, com medo de perder a coragem.
Quan do Wanda se levantou, segurando Michael pelo colarinho da camisa, Laura olhou
para a cama.
Ian estava a olhar para ela, e a tentar falar, mas não conseguiu. Agora havia sangue por toda a cama.
"Não morras", pensou Laura. "Não morras. Aguenta. Nós precisamos de outra oportunidade."
-Onde é que são essas escadas? - perguntou Wanda cepticamente.
- Por aqui - indicou Laura.
Caminhou num movimento lento pelo vestíbulo. Só tinha uma esperança, um momento para actuar e não se podia dar ao luxo de falhar. Porque não havia outras escadas,
nem elevador e nenhuma outra saída.
- Despache-se - disse Wanda. - Mexa-se.
Laura proferiu silenciosamente uma oração. Estava prestes a investir contra Wanda quando Michael, cujas mãos agora estavam livres, tirou o trapo que tinha na boca
e começou a gritar.
- Não, mamã! Não há escadas lá atrás! Ela vai ver e mata-te...
- Ei! - gritou Wanda, e Laura ficou gelada. - Não há escadas? - perguntou ela a Michael, espevitando-o com o cano da arma.
Laura voltou-se e olhou desesperada, Michael estava a soluçar muito alto e a abanar a cabeça.
- Por favor, não nos mate. A minha mãe não queria dizer uma mentira.
Wanda olhou para Laura, que a encarava, desafiadora.
- Lindo menino. Diz sempre a verdade. Agora, cala-te Michael estava aos gritos, os seus soluços fazendo com que a cara ficasse muito vermelha.
- Por favor, não faça mal à minha mãe - pediu ele. Os seus gritos enchiam os ouvidos de Laura e ressoavam por toda a casa, e Wanda abanava-o, tentando fazer com
que ele se ca lasse.
- Deixe-me segurar nele - pediu Laura. - Não vê que ele está aterrorizado?
Subitamente, atrás de Wanda, Laura viu alguma coisa que se mexia na porta do quarto. Ficou boquiaberta quando percebeu que era Ian, uma das mãos a segurar o peito
que sangrav e a outra a ser utilizada para se arrastar pelo corredor.
- Ian - murmurou Laura. - Não faças isso. Wanda deu um puxão de orelhas à criança e olhou para Laura.
- Não me faça rir - disse ela, sem olhar em volta. - Acha que eu nasci ontem? Não pode fazer com que este miúd se cale?
Laura abanou a cabeça, continuando a ver Ian a dirigir-se para eles. Que pensaria ele que podia fazer? Mal consegui aguentar-se em pé...
- Oh, deixe-se de teatros. Enganou-me uma vez, devia ter vergonha - disse Wanda. - Se me enganasse segunda, a vergonha seria minha.
As palavras ainda não tinham acabado de sair da sua boca quando Ian, que se tinha aproximado deles, colocou uma mão ensanguentada no antebraço de Wanda. Ela sentiu
o contacto olhou e deu um grito. Ao ver a mão no seu braço, assustou-se e a arma afasto
u-se da cabeça de Michael.
Foi nesse instante que Laura viu a sua oportunidade. Ao mesmo tempo que Ian caía no corredor, Laura avançou e agarrou o braço de Wanda que segurava a arma. Depois
tomou balanço e empurrou-a para a frente, com toda a força, contra a balaustrada.
Wanda ficou uns momentos em desequilíbrio, tentando voltar a pôr os pés no chão. Mas o movimento de Laura tinha sido completamente inesperado e vigoroso. Com um
grito de terror, Wanda passou por cima da balaustrada e caiu.
Laura saltou contra a parede e ficou a ver, a queda de Wanda até ao andar inferior. Quando tombou no chão, houve um barulho imenso e a arma disparou-se.
- Mamã! - gritou Michael. Laura olhou para o filho e depois para a mulher caída ao fundo das escadas. Durante um instante pensou que Wanda se pusesse de pé, mas
depois viu uma mancha vermelha alastrar pelo chão a partir do local onde Wanda jazia.
- Mamã, está tudo bem? - soluçava Michael. - Está tudo bem - disse Laura. - Tudo bem. Agarrou-o nos seus braços, beijando-lhe o cabelo, as orelhas, as suas faces
molhadas.
-Tu estás bem, meu querido?
A criança assentiu corajosamente com a cabeça, porém, continuava sacudido pelos soluços.
- E o Ian? Ela matou-o! - gritou Michael. - Não - disse Laura. - Não.
No entanto, quando disse estas palavras, ela sabia que o velho terror estava novamente a atingir o espírito dele, tal como a si mesma.
- Espera aqui - pediu ela, colocando-o no umbral- da porta que dava para o seu escritório. Procurou o telefone, ligou a pedir uma ambulância, gritou a morada, implorando
ajuda. Depois pôs o telefone no descanso e voltou para o corredor. Havia sangue p
or todo o lado, nas paredes, no tapete persa, nos pilares da balaustrada. Os olhos de Ian estavam fechados, as suas pálpebras com um tom pálido, de cera.
- Ian - murmurou ela. - Tens de aguentar.
Ele olhou-a como se a estivesse a ver na escuridão e o coração de Laura encheu-se de medo.
-Não morras - pediu ela. - Por favor, não morras. Vão chegar daqui a nada. Tu só tens de aguentar mais um bocadinho. Desculpa-me, desculpa-me por tudo. Nunca devia
ter duvidado de ti. Por favor, fica. Fica e teremos outra oportunidade. Preciso de ti c
omigo. A sério que preciso. Por favor, faz um esforço por mim.
Laura agarrou a sua, mão cheia de sangue e acariciou-a. À distância, começou a ouvir as sirenes.
- Estão quase aqui - disse ela. - Daqui a um instante estarão aqui.
- Mamã, posso entrar? - soluçou Michael, ainda à entrada da porta. - Eu não tenho medo.
Laura olhou para todo o sangue que rodeava Ian, Michael já tinha visto uma cena assim. De que valia tentar protegê-lo daquilo que ele já conhecia?
- Por favor, mamã - pediu ele.
- Sim, entra - disse e ele foi ter com ela, metendo-se entre a mãe e Ian. Olhou o homem deitado no chão com seus olhinhos muito abertos.
- Não morras Ian - pediu ele com um ar muito sério. Ian lambeu os lábios lentamente com a ponta da língua, e o seu olhar pousou em Michael. Abriu a boca e deixou
escapar um murmúrio.
-Eu não morro - disse Ian. - Prometo.
- É melhor que não - disse Laura, segurando-lhe na mão e beijando-lhe a testa. E sentiu que ele retribuía a pressão dos seus dedos.
Quando as portas da casa se abriram e ela ouviu a polícia e a equipa de socorro a entrar e a correr pelas escadas acima, Laura olhou ansiosamente para o rosto de
Ian. Os seus lábios estavam contorcidos pela dor, mas no fundo do seu olhar havia qualque
r coisa de paz, quase de alegria. Qualquer coisa que lhe deu esperanças. Era como se estivesse à espera de ser salvo para um lugar seguro. Parecia um homem aninhado
nas asas do seu anjo-da-guarda.
Fim.
1 arquivo anexado:
O Admirador Secreto - PATRÍCIA MacDONALD.txt
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abraços
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