segunda-feira, 27 de junho de 2011 By: Fred

<> livros-loureiro <> Lançamento Gênesis do Conhecimento - O Evangelho Gnóstico de Tomé - Herminio C. Miranda


HERMINIO C. MIRANDA

O EVANGELHO
GNÓSTICO DE
TOMÉ
O Verdadeiro Cristianismo como foi
Ensinado por Jesus

Editora LACHÂTRE
1995

Sumário

Introdução
Parte I – O gnosticismo e a realidade espiritual
I – Descobertas sincrônicas
II – O problema da abordagem
III – Gnose e Gnosticismo
IV – Interação gnosticismo/cristianismo
V – O diálogo com os 'mortos'
VI – Conhecimento e amor
VII – Dicotomias conflitantes
VIII – Polaridade sexual
IX – Os três patamares da evolução
X – Quem inventou o mal?
XI – Docetismo, antigo e inútil debate
Parte II – O Evangelho de Tomé
I – Quem é Tomé?
II – O difícil acesso ao texto
III - Uma releitura dos logia
IV – O documento


Introdução

Ao contrário do que se poderia pensar, o movimento cristão
primitivo não constituiu um bloco monolítico de crenças e
ritos administrados por uma única e incontestada instituição.
Durant estima em uma centena as seitas dissidentes
suscitadas no decorrer dos três primeiros séculos da era
cristã.
Nenhuma das heresias desse período representou maior
risco para a estabilidade da Igreja primitiva do que a dos
gnósticos. Surgido no início do segundo século, o
gnosticismo alcançou o mais alto ponto de sua trajetória
durante as duas décadas finais desse mesmo século para
extinguir-se na segunda metade do século seguinte, o
terceiro, cedendo seu espaço a novas heresias, como a dos
maniqueus que, aliás, adotou conceitos gnósticos na
formulação de sua doutrina.
Foi considerável o atrito ideológico entre as diversas
correntes que disputavam a hegemonia do movimento
cristão, como ainda hoje se pode observar dos veementes
textos sobreviventes, de autoria dos heresiólogos de então,
na defesa do que entendiam como princípios inegociáveis
da única e verdadeira fé. O resultado de tais contendas
ideológicas é que definiu para a posteridade o perfil do
cristianismo.
A temática deste livro desenvolve-se, portanto, em zona de
turbulência, em território contestado, sobre o qual
tendências divergentes lutam por expandir-se e consolidar-
se com o reconhecido vigor que costuma ser posto em
discussões políticas ou religiosas e que parece redobrar
quando o debate combina as duas situações como é o caso
que temos para exame.
Em assuntos de tal natureza, a abordagem deve ser cautelosa
e balanceada, mas não tímida a ponto de inibir, no
expositor, uma tomada de posição. O dever de informar não
exclui o direito de opinar, desde que as atitudes e intenções
do autor fiquem claramente identificadas para o leitor.
Nada tenho a objetar aos autores que, no tratamento deste
ou de outros assuntos potencialmente controvertidos,
prefiram resguardar-se na discrição, tão imparcial quanto
possível. Com uma importante ressalva: os antigos critérios
de aferição de objetividade e subjetividade estão sendo
rudemente questionados pela física moderna, para a qual até
o simples ato de observar um fenômeno produz nele uma
interferência que o modifica. Do que se depreende que a
observação e a conseqüente informação não se livram de
um colorido de participação, segundo nos diz Heinseberg,
citado por Capra: "o que observamos não é a natureza
propriamente dita, mas a natureza exposta ao nosso método
de questionamento".
Os autores que optam por um mínimo de envolvimento
pessoal merecem respeito; sejam suas razões acadêmicas,
sociais, religiosas ou de mera preservação de status. Neste
livro, porém, assumimos uma postura opinativa,
amadurecida na meticulosa análise crítica do material
estudado. Claro que prevalece intacto para o leitor o direito
às suas próprias conclusões, destiladas do exame das
informações que lhe são passadas nesta e em outras obras.
Entendo, porém, ser meu dever expor-lhe com lealdade o
meu posicionamento na questão, ao mesmo tempo em que
acrescento uma declaração de princípio: sou cristão naquilo
que a doutrina de Jesus preservou de sua essência
intemporal, - o amor ao próximo como instrumento para
realização do reino de Deus em cada um de nós.
Devo admitir, contudo, que sou um cristão que não se
acomoda ao perfil, ou melhor, aos perfis traçados pelas
diversas correntes ortodoxas. Mas, que é, realmente, um
cristão? Não é tão fácil, como parece, caracterizá-lo, ou
Hans Kung não teria escrito um volumoso tratado apenas
para expor suas cogitações a respeito do problema. É que
rejeito aspectos que o cristianismo oficial considera
inalienáveis, como trindade, divindade de Jesus, pecado
original, céu, inferno, juízo final, demônio, ao passo que
outros aspectos, embora contidos na mensagem de Jesus,
não conseguiram espaço nas estruturas teológicas, como a
preexistência do espírito, a doutrina das vidas sucessivas e
viabilidade de um intercâmbio entre vivos e mortos.
Conseqüentemente, sobram-me no cristianismo oficial, nas
suas várias denominações, conceitos com os quais nada
tenho a fazer e faltam-me outros - que encontro nos ensina-
mentos de Jesus, mas não na doutrina ortodoxa - sem os
quais o quadro geral da vida não faz, para mim, nenhum
sentido.
Lê-se no Evangelho de Tomé que precisamente a pedra
rejeitada pelos construtores é a mais importante, por ser a
que irá fechar o arco da abóbada. O Cristo parece falar nesse
logion em tom profético numa antecipação do futuro. A
observação aplica-se sem retoques à situação criada pelos
formuladores da doutrina eclesiástica que rejeitaram prati-
camente em bloco a realocação espiritual, que teria
garantido um acabamento elegante e seguro às construções
teóricas, em favor de cristalizações dogmáticas que não
resistiram à passagem do tempo.
Aí está o resultado desse irreparável equívoco: estamos
diante de uma estrutura doutrinária danificada por inúmeras
infiltrações e irrecuperáveis fraturas e que nada tem a dizer a
uma humanidade aturdida que, à falta de conhecimento
confiável, vaga sem rumo, em busca de mecanismos de fuga,
em esforço inútil para escapar a uma realidade
incompreensível e perversa.
Precisamente nessa hora de perplexidades, um obscuro
trabalhador rural árabe resgata, no Alto Egito, um conjunto
de documentos, sobre os quais pousavam mil e seiscentos
anos de silêncio e reclusão. Para surpresa de muitos,
encontram-se nesses textos algumas das mais importantes
pedras angulares rejeitadas no período formador das
arquiteturas teológicas. Não é de se esperar que esse
impactante achado promova mudanças de vulto no contexto
doutrinário ortodoxo, mas é certo que os documentos coptas
nos proporcionam meios para uma realista reavaliação do
modelo de cristianismo que chegou até nós.
O quadro teológico ortodoxo resulta de opções feitas nos
séculos iniciais - por pessoas certamente bem intencionadas,
mas falíveis -, à vista de um amplo conjunto de alternativas.
Dentre as alternativas rejeitadas estavam conceitos
perfeitamente válidos e inteligentes que, antes de serem
gnósticos e, conseqüentemente, suspeitos de contaminação
herética, teriam proporcionado ao cristianismo uma
estrutura doutrinária racional e aberta para o futuro, pronta
para receber e acomodar, sem abalos ou temores,
irrecusáveis revelações e conquistas científicas. Em vez
disso, ficamos com uma teologia fechada em si mesma,
como uma pesada construção medieval, tão obsoleta hoje
quanto os conceitos adotados no projeto.
Por isso, vai ficando cada vez mais difícil e mais desastroso
recuar e recompor. A reabilitação de Galileu foi o primeiro
recuo envergonhado, após séculos de obstinada resistência.
E quando conceitos mais dramáticos como o da
preexistência do ser espiritual adquirirem status de verdade
cientificamente demonstrada (o que para muitos já
aconteceu)?
Preexistência pressupõe sobrevivência e renascimento.
Sendo isso verdadeiro, então o que fazer de céu, inferno,
juízo final, salvação coletiva, pecado original e coisas desse
gênero?
Não há dúvida, pois, de que a redescoberta do gnosticismo
vem proporcionar uma oportunidade singular de se
promover uma releitura no cristianismo em si. É uma
situação curiosa, dado que, dessa vez, não é a ortodoxia que
contesta a heresia, mas esta é que se põe a questionar aquela.
Poderíamos simular um jogo especulativo, segundo o qual
seriam testadas as diversas hipóteses imaginadas para a
fisionomia atual do cristianismo se tivessem seus
formuladores ideológicos adotado certos conceitos tido por
gnósticos. Mas, como dizem os ingleses, de nada adianta
chorar sobre o leite derramado. Perdeu-se a oportunidade de
uma construção, na qual cada arco ou abóbada teria no lugar
certo a sua pedra angular. É preciso lembrar também que
não se faz uma arcada somente com pedras angulares. É até
provável que a hegemonia do grupo gnóstico sobre a massa
maior, que Pagels4 considera um cristianismo quantitativo,
tivesse sido igualmente indesejável, mas não há dúvida de
que a rejeição do material gnóstico foi fatal à estabilidade das
construções teológicas do cristianismo ortodoxo.
A tese que este livro propõe pode ser expressa em poucas
palavras: foi um equívoco a opção pelo formato de
cristianismo que hoje conhecemos, que excluiu a
contribuição do gnosticismo.
Tanto quanto as indefinições de autores exageradamente
preocupados com a imparcialidade, impacientam-me as
longas introduções, quando estou do outro lado do livro, ou
seja, como leitor. É hora, pois, de colocar aqui um ponto
final e passarmos logo ao livro em si.

PARTE I
O Gnosticismo e a Realidade Espiritual

I- Descobertas Sincrônicas

Por inexplicável sincronismo, duas das mais importantes
descobertas arqueológicas de textos bíblicos ocorreram ao
encerrar-se a primeira metade do século XX. Ambas devidas
ao mero acaso, ou melhor, não resultantes de pesquisa
sistemática e dirigida, ambas por beduínos árabes incapazes
de avaliar a importância dos textos e o impacto que
produziriam como disparadores de intenso e extenso
trabalho de reexame do cristianismo tal como hoje o
conhecemos.
A primeira descoberta ocorreu em 1945, nas imediações de
Nag- Hammadi, no Alto Egito, por um camponês em busca
de fertilizantes naturais para as suas plantações. Chamava-se
ele Mohammed Ali-al-Samman e estava a escavar a terra
quando deu com aquela urna de barro que continha
enigmáticos rolos de papiros, protegidos por tiras de couro,
e recobertos de uma escrita misteriosa.
Na segunda, em 1947, outro Mohammed (ad Dhib, o
Chacal) encontrou rolos semelhantes numa caverna nas
imediações do Mar Morto, na Judéia. Conhecidos estes
como os Manuscritos do Mar Morto, pertenceram, segundo
se apurou mais tarde, a uma comunidade essênia estalecida
na região, ou mais especificamente, no local denominado
Qumram. Por meio desses documentos foi possível
reconstituir, com relativa segurança, crenças, rituais, hábitos
e costumes da comunidade essênia ali existente cerca de um
século antes do nascimento de Jesus.
A despeito das complexidades criadas em torno de um
achado desse vulto histórico, desde a aquisição dos
manuscritos até sua devida classificação, tradução e
interpretação, já em 1955, oito anos, portanto, após a
descoberta, Millar Burrows publicava seu importante livro,
logo traduzido em português e editado, infelizmente sem
data, pela Porto Editora, Porto, Portugal. Desde 1948,
contudo, vinha Burrows escrevendo sobre o assunto em
revistas especializadas. Artigos de Dupont-Sommer, erudito
francês de status internacional, começaram a surgir em
1950. Encontramos em Charles Francis Potter a informação
de que foi uma entrevista de Edmund Wilson para a
publicação americana The New Yorker com o Prof.
Dupont-Sommer que "despertou os americanos" para a
surpreendente descoberta.
Por essa época, artigos acerca dos documentos do Mar
Morto começaram a surgir às dezenas pelo mundo afora,
bem como livros de vários autores interessados em
comunicar-se com o grande público, fora dos círculos mais
ou menos iniciáticos da erudição internacional.
A mensagem de Nag-Hammadi levou muito mais tempo
para alcançar o público leigo e mesmo os círculos eruditos
mais afastados do núcleo central, que se empenhava na
classificação e exame dos papiros, uma vez concluída
vitoriosamente o que Charles F. Pfeiffer denomina "the
battle ofthe scrolls" - a batalha dos rolos (manuscritos).
Só em 1955, dez anos após o achado de Nag-Hammadi, o
Prof. Gilles Quispel, eminente especialista em história da
religião, de Utrecht, Países Baixos, leu, num hotel do Cairo,
a primeira linha de um dos manuscritos. Dizia assim: "Estas
são as palavras secretas que o Jesus Vivo pronunciou e que o
gêmeo, Judas Tomé, escreveu". Se aquilo era mesmo
verdade, então o documento seria o famoso e perdido
Evangelho de Tomé, do qual se conheciam alguns
fragmentos em grego, descobertos em 1890.
Mas havia outros manuscritos na histórica urna de barro de
Nag-Hammadi, talvez não tão importantes quanto o livro de
Tomé, mas de considerável valor no reexame crítico do
cristianismo primitivo.
O Prof. Quispel, o Prof. Henri-Charles Puech e outros
constituíram o grupo central primitivo, ao qual foi confiada
a tarefa de decifrar o conteúdo dos papiros egípcios. Em 14
de maio de 1957, Puech leu perante o Institut de France,
em Paris, seu primeiro papel sobre os textos de Nag-
Hammadi, mais especificamente, acerca do Evangelho de
Tomé. Estudos assim, menos herméticos e mais amplos,
destinados ao leitor comum, somente começaram a surgir aí
pela década de 70. O de Puech, por exemplo, é de 1978;
ainda que reproduzindo antigas conferências que recuam a
1956; o de MacGregor, de 1979, com também o da Dra.
Elaine Pagels.
O Rev. Potter7 queixa-se desse retardo em dar
conhecimento ao mundo de assuntos dessa importância,
atribuindo-o ao "arrogante profissionalismo" de certos
eruditos tipo torre-de-marfim, segundo os quais o
"populacho ignorante" poderia usar indevidamente a
informação que lhe fosse transmitida. Este aspecto é
particularmente agudo, no entender de Potter, quando as
descobertas provocam desarrumações mais ou menos sérias
nas estruturas ideológicas das igrejas, que os entendidos
evitam perturbar.
Convém lembrar que Potter se refere, nesses comentários,
aos Manuscritos do Mar Morto, cujo impacto sobre a
ortodoxia cristã pode ter tomado muita gente de surpresa,
mas não atingiu níveis perturbadores. Já os documentos de
Nag-Hammadi são potencialmente mais devastadores,
naquilo em que contestam, e questionam aspectos vitais ao
pensamento cristão ortodoxo. As igrejas tradicionais,
inclusive as reformadas, poderão ignorar por algum tempo,
ou até permanentemente, as dificuldades criadas por esses
documentos, mas não sei se, com isso, estariam agindo de
maneira inteligente. É que os Manuscritos do Mar Morto
têm muito a ver com idéias e conceitos incorporados à
doutrina cristã, por via dos ensinamentos atribuídos a Jesus,
mas são anteriores ao seu nascimento e, portanto, ao
cristianismo. Já os textos de Nag-Hammadi, não: eles são
contemporâneos à fase formadora das doutrinas cristãs, ao
tempo em que estas se cristalizaram em sacramentos, ritos,
dogmas e estruturas administrativas.
A urna de barro encontrada em Nag-Hammadi continha
toda uma 'biblioteca' em língua copta composta de
cinqüenta e dois textos, pertencentes a uma desaparecida
comunidade gnóstica. Supõem os estudiosos (Puech, Pagels
e outros) que esses textos resultem de traduções de
documentos ainda mais antigos, em grego, mas Gillabert
imagina para eles um "substrato hebreu, aramaico do copta
correspondente".
Os papiros situam-se entre os anos 350 e 400, segundo os
testes usuais de laboratório. Para os documentos originais,
contudo, dos quais teriam sido feitas as traduções, as datas
são especulativas. Supõe-se que originais devam reportar-se,
na opinião de Pagels, ao período de 120 a 150, à vista de
referências encontradas a respeito de Irineu, escritas em
180. Puech acha que a redação primitiva do Evangelho de
Tomé "poderia situar-se no meado, ou, o mais tardar, na
segunda metade do segundo século". Quispel sugere as
imediações do ano 140 para elaboração do original, que,
tanto ele como Puech, supõem ter sido em grego, como
vimos há pouco. Acham outros que, por terem sido
considerados heréticos, os documentos gnósticos seriam,
necessariamente, posteriores à redação dos canónicos,
produzidos na versão primitiva, entre os anos 60 e 110.
A Dra. Pagels informa, contudo, que, na opinião mais
recente do Prof. Helmut Koester, da Harvard, embora
coligidos por volta do ano 140, os ditos que compõem o
Evangelho de Tomé podem conter material mais antigo que
os evangelhos canónicos, o que recuaria a data original desse
material até à segunda metade do primeiro século, ou seja,
entre os anos 50 e 100. Opinião semelhante vamos
encontrar em Gillabert, que chama a atenção para o fato de
que a técnica da comunicação naqueles tempos era
predominantemente oral e precedia em muito a elaboração
dos textos, que apenas documentavam os temas da pregação
com o objetivo de preservar as tradições orais. Sem me
atrever a entrar na disputa com os luminares da erudição
internacional, parece-me aceitável essa observação, mesmo
porque há um forte colorido iniciático e secreto na
coletânea de ditos recolhidos que seriam, portanto, meros
lembretes a serem desenvolvidos em maior amplitude em
palestras, sermões e debates com grupos que indicassem
melhor receptividade e preparo perante ensinamentos mais
profundos, que os logia apenas sugeriam. A redação sumária,
enigmática de tais lembretes exige desdobramentos e
aprofundamentos orais, mesmo assim a partir de chaves
apropriadas, às quais apenas alguns expositores teriam acesso
e competência para usar corretamente.
Gillabert vai mais longe ainda, ao criticar com característica
veemência a postura-padrão das principais autoridades
acadêmicas que consideram praticamente indiscutível a
conclusão de que o texto copta encontrado em Nag-
Hammadi seja tradução de original grego. Discutiremos esse
aspecto alhures, neste livro.
Em verdade, lamenta Gillabert que após longa fase de
preservação, os textos coptas já se apresentem, ao cabo de
uns poucos decênios, tão pesadamente sobrecarregados de
comentários, classificações e catalogações, como se
houvesse por trás de tudo isso um propósito de os "esvaziar
de sua substância viva".
Para resumir o conteúdo deste capítulo e concluí-lo,
podemos escrever o seguinte: os documentos em língua
copta encontrados em Nag-Hammadi, em 1945,
compunham uma biblioteca gnóstica e datam,
materialmente, do século quarto, mas reportam-se a
manuscritos originais que recuam, no mínimo, a meados do
segundo século e, em alguns aspectos tradicionais, à segunda
metade do primeiro século, o que nos leva de volta à época
em que ainda viviam os apóstolos diretos do Cristo.
Para exata avaliação da importância desses textos, é preciso
ainda considerar que, embora não se possa atestar a pureza
virginal dos escritos, é certo que pelo menos durante quase
dezesseis séculos eles não sofreram manipulações
mutiladoras, o que está longe de poder ser assegurado
quanto aos documentos canónicos. Daí ofrisson que a
descoberta causou nos círculos da erudição internacional.
O Prof. Hans Jonas, citado pela Dra. Pagels, desenha com
poucas e vigorosas palavras, o agitado cenário que a
descoberta criou, ao suscitar "uma persistente maldição de
bloqueios políticos, litígios e, acima de tudo, ciumeira
erudita e 'primeirismo'".
O desejo de autoprojeção foi de tal intensidade que se criou
o que Jonas classifica como "verdadeira chronique
scandaleuse" no contexto acadêmico internacional. É a esse
contexto, não obstante, que temos de recorrer para tentar
entender o porquê de toda esta celeuma em torno do
gnosticismo.

II - O Problema da Abordagem

Mas o que vem a ser, precisamente, uma biblioteca gnóstica
copta? Para os nossos condicionamentos modernos,
biblioteca é uma ordenada coletânea de livros e documentos
colocados à disposição de eventuais leitores. Com as
necessárias adaptações, o conceito moderno serve para
caracterizar uma biblioteca do século IV de nossa era. Com a
diferença de que os livros não eram impressos e
encadernados como ora os conhecemos, mas escritos à mão,
em rolos de papiro ou couro, normalmente de ovelha ou de
cabra. Não sabemos se o achado de Mohamed, em Nag-
Hammadi, teria constituído toda a biblioteca da seita
localizada nas imediações, ou apenas parte dela. Mesmo
assim, com seus modestos cinqüenta e dois 'livros', foi uma
das mais importantes descobertas arqueológicas dos últimos
tempos.
Em verdade, a impressão que nos fica da leitura dos estudos
gnósticos é a de que a opinião pública, tomada como um
todo, ainda não se deu conta do que isso representa na
reavaliação do cristianismo como doutrina e como
movimento. Consciente desse aspecto, Will Durant não
hesita em afirmar ao referir-se ao processo de reavaliação
crítica desencadeado pelas discussões em torno da
historicidade de Jesus que "os resultados podem, no devido
tempo, tornar-se tão revolucionários quanto o próprio
cristianismo".
A biblioteca de Nag-Hammadi tem destacada contribuição a
oferecer a essa tarefa, colocando diante de nós uma espécie
de face oculta do cristianismo, como que uma alternativa,
uma opção que, por não ter conseguido "vingar", nem por
isso deixa de representar fator de relevância no processo de
revisão posto em curso, desde que os documentos
começaram a ser traduzidos e interpretados. Dentro dessa
mesma linha de raciocínio, MacGregor colocou como
subtítulo de seu livro a expressão "A Renaissance in
Christian Thought" (Um renascimento do pensamento
cristão).
Por outro lado, o livro da Dra Pagels chama-se The Gnostic
Gospels (Os Evangelhos Gnósticos). E isso também precisa
de um comentário.
Quando hoje pensamos em Evangelhos, temos em mente os
documentos canónicos tradicionais, considerados de boa
linhagem doutrinária pela Igreja, no Concílio de Cartago, em
397: os três sinóticos, o Evangelho de João, os Atos dos
Apóstolos, as diversas epístolas e o Apocalipse de João. A
questão é que circulava nos primeiros tempos uma
quantidade incalculável de textos relacionados com a vida e
os ensinamentos de Jesus. Se muitos deles eram claramente
fantasiosos e fictícios, em parte ou no todo, é igualmente
certo que continham informações e idéias dignas de
consideração e que até merecessem a inclusão em textos
oficiais. A linha demarcatória foi traçada com nitidez e
inflexibilidade: do lado de cá, os únicos textos admissíveis;
do outro lado, a multidão ignara dos apócrifos, ou seja, dos
desautorizados, inaceitáveis.
Daniel-Rops forma que prevaleceu, na escolha, o duplo
critério de "catolicidade e apostolicidade", mas, pouco antes
(pag. 312) aludira o mesmo autor ao texto que circulava
entre os egípcios, como "muito ascético e já fortemente
eivado de gnosticismo". Do que se depreende que, na
pintura do painel geral das letras canónicas, adotou-se o
cuidado de excluir a coloração gnóstica, em particular, e a
herética, em geral.
No entender da Igreja, portanto, evangelhos autênticos são
os canónicos. Só esses. Nenhum deles, porém, foi
encontrado entre os volumes da biblioteca de Nag-
Hammadi e sim textos que, pouco depois, já no final do
século quarto, como vimos, a Igreja rejeitaria definitiva-
mente.
Mas, quem eram os coptas que pautavam suas atividades
religiosas por esses textos considerados apócrifos? O termo
em si representa um curioso exemplo migratório no espaço
da lingüística, a partir da europeização da palavra árabe Kibt
(ou Kubt), aí pelo século XIV, segundo a Britânica (6,424) e
que, por sua vez, provinha da palavra grega Aegyptioi
(egípcios), dado que os coptas chamavam a si mesmo "o
povo do Egito". Com todo o direito, aliás, pois eram
descendentes diretos dos primitivos habitantes do Egito dos
faraós.
São obscuras as origens do cristianismo no Egito, mas é
certo que práticas cristãs encontravam-se ali bem
implantadas na metade do terceiro século, quando Antônio
marca sua presença como importante santo local.
Os textos evangélicos teriam sido traduzidos em língua
copta aí pelo século quarto. A orientação doutrinária e
decisões administrativas vinham da igreja de Alexandria,
importante centro cultural e que até o século V exerceu
relevante papel no movimento, por intermédio de figuras
eminentes do pensamento cristão como Orígenes, Atanásio
e Cirilo.
Foram inúmeras as comunidades cristãs espalhadas pelo
Egito naqueles tempos, tanto igrejas, como mosteiros.
Muitas dessas comunidades guiavam-se por preceitos e
procedimentos gnósticos, como a de Nag-Hammadi. Sabe-
se, por exemplo, que mais tarde, em 616, os invasores persas
destruíram cerca de 600 mosteiros somente nas proximida-
des de Alexandria. É bem plausível que a biblioteca de Nag-
Hammadi tenha sido enterrada às pressas, na calada da noite,
a fim de preservar os preciosos manuscritos de ataques
arrasadores como esse.
Tanto quanto o cristianismo primitivo, o gnosticismo
desenvolveu- se em ambiente social, geográfico e histórico
de difícil entendimento para a mentalidade contemporânea.
Vivemos numa época na qual uma nova encíclica papal
torna-se conhecida em poucas horas, no mundo inteiro, em
inúmeras línguas, através de um sistema de divulgação
jamais sonhado. Câmeras de televisão e de cinema,
gravadores e máquinas fotográficas registram cada passo ou
palavra do papa ou dos governantes do mundo. O que eles
falaram ontem ou fizeram hoje pela manhã, é notícia por
toda a parte à noite, onde quer que circule um jornal ou haja
um aparelho de rádio ou de TV. Nos primeiros séculos de
nossa era, o mundo era formado por pequenas ilhas de gente
disseminadas pela vastidão dos territórios vazios. Ainda há
pouco, no início do século XIX, Napoleão dispunha apenas
do cavalo como meio de comunicação e transporte.
Fechadas em si mesmas e isoladas das demais, na
dependência de ocasionais visitas, as comunidades cristãs e
gnósticas primitivas desenvolviam doutrinas paralelas, rituais
distintos, práticas que se chocavam entre si, quando a
instituição era tomada como um todo. Daí a proliferação de
heresias.
É o que testemunhamos a cada momento nas veementes
advertências e queixas de Paulo nas suas epístolas,
acompanhando, com indisfarçável apreensão e angústia, os
desvios doutrinários e de procedimento nas diversas
comunidades por ele iniciadas.
Em Corinto - soube por gente da casa de Cloé -, há
problemas de luxúria, abusos alimentares, desvios
doutrinários, tumulto no exercício dos carismas e, mais
grave que tudo, questionamentos quanto à ressurreição.
... "cada um de vós diz: "- Eu sou de Paulo!", ou "- Eu sou de
Apolo!", ou "- Eu sou de Cristo!", ou "- Eu sou de Cefas!".
Cristo estaria dividido? (I Cor. 1,11-13)
Com energia e autoridade, não hesita em chamar de
insensatos aquele que ignora que só morrendo e sepultada, a
semente pode revelar a vida.
Da mesma forma se põe diante dos gálatas, aos quais chama
insensatos por terem retomado antigas práticas obsoletas
depois de haverem experimentado as alegrias e maravilhas
do trabalho mediúnico, em intercâmbio com os "mortos".
A Timóteo recomenda "não ensinar outra doutrina, nem se
ocupar com fábulas e genealogias sem fim, as quais
favorecem mais as discussões do que o desígnio de Deus". (I
Tim. 1,3) Nessa mesma epístola, dedica o capítulo 4 aos
cuidados que se deve ter com os falsos doutores, tema ao
qual retorna na segunda epístola (2,14), tanto quanto na
carta a Tito (1,10).
A imagem que colhemos, pois, é a de comunidades
doutrinariamente inseguras, sob constante assédio de falsos
profetas, falsos doutores e falsos líderes, além de expostas às
inúmeras fraquezas íntimas próprias ao ser humano, ainda
mal acostumado a esforços regeneradores. O terreno era
fértil, portanto, para a erva daninha das dissensões e
rivalidades doutrinárias, ao passo que despreparado para o
cultivo da boa semente da disciplina, do comportamento
ético, da fraternidade.
Isso acontecia em comunidades relativamente pequenas e
sobre as quais ele, Paulo, exercia atento controle, seja
informando-se através de mensageiros de sua confiança,
como os parente de Cloé, seja ele próprio viajando para
revisitar as suas comunidades, plantadas em solo difícil.
Mesmo assim, quanto desencanto em seu coração com
revezes inesperados e recuos desastrosos entre as ovelhas do
rebanho que lhe coubera apascentar.
Não nos esqueçamos ainda de que isso se passa duas ou três
décadas após morte de Jesus e não há dois ou três séculos, e
numa época em que eram mínimas as edificações
doutrinárias, com uma teologia ainda embrionária que não
exigia, para seu entendimento, esforços desproporcionados
dos fiéis.
A luta pela preservação da boa doutrina mal se iniciava e
seria uma constante, pelos séculos afora, a tônica das
preocupações administrativas dos líderes da igreja em todos
os tempos e latitudes. O desapaixonado observador moderno
tem de admitir, como Pagels, que o êxito em termos
humanos foi indiscutível, mas pelo menos dois aspectos
ficam expostos a severos questionamentos: 1. os critérios de
seleção e fixação de conceitos ortodoxos; 2. a metodologia
formulada para neutralizar as divergências e contestações.
Em outras palavras: as estruturas teológicas consideradas
ortodoxas foram sendo montadas por um longo processo
seletivo que optava por um caminho entre muitos outros.
Seriam corretas essas opções? Eram as melhores? Só o tempo
diria. E quando o tempo começou a falar sobre o assunto,
verificou-se que muita das opções foram infelizes, para dizer
o mínimo.
Ao nos prepararmos para uma análise crítica do fenômeno
do gnosticismo, há que se levar em conta aspectos
semelhantes. O movimento gnóstico durou cerca de século
e meio, entre o princípio do segundo século e a segunda
metade do terceiro. Nesse período, disseminou suas
comunidades por toda parte, envolveu-se em dissidências e
desenvolveu, em torno de uma doutrina básica variações de
maior ou menor relevância. O gnosticismo do Alto Egito,
por exemplo, pode se distanciar consideravelmente, como
doutrina e prática, do que era adotado em comunidades
gregas ou asiáticas, tanto quanto a teologia dos primeiros
anos pode diferir da mais elaborada e complexa dos anos
últimos, no final do terceiro século. Na verdade, torna-se
extremamente difícil ao observador moderno caracterizar
com razoável teor de precisão e confiabilidade como era o
gnosticismo puro, se é que houve tal coisa, dado que o
próprio cristianismo emergente era mais um conjunto de
seitas em conflito do que um corpo doutrinário coerente e
uniforme.
É preciso lembrar que não dispomos de nenhuma outra
biblioteca gnóstica senão a encontrada em Nag-Hammadi
que, por importante que seja, pode até não ser das mais
representativas. Não há como proceder, pelo menos por
enquanto, a estudos comparativos, que ficam na depen-
dência de novas e improváveis descobertas arqueológicas.
Os coptas esforçaram-se ao longo de vários séculos por
manter sua identidade racial, mas a influência árabe a partir
do século VII acabou por tornar-se irresistível.
Ensina Gillabert que "a língua copta descende em linha reta
da língua dos hieróglifos", mas, em verdade, ela sofreu forte
influenciação do grego, como se pode ver nas reproduções
fotográficas dos documentos encontrados em Nag-
Hammadi. A Britânica informa (8, 109) que o texto, em
demótico, constante da Pedra da Roseta fica entre a antiga
língua egípcia e o copta. A partir do século XI, o copta
começou a ceder espaço ao árabe. Um viajante por nome
Vansleb, que visitou o Egito em 1672/1673, surpreendeu-se
ao encontrar gente que ainda falava aquela língua. Séculos
depois, em 1937, nas vizinhanças de Tebas, alguns
camponeses não apenas sabiam ler, mas eram capazes de
falar algumas frases na antiga língua de seus antepassados, na
qual foram escritos os papiros da comunidade gnóstica de
Nag-Hammadi
Mas, o estudo dos textos resgatados em Nag-Hammadi
apresenta consideráveis dificuldades lingüísticas não apenas
porque estão escritos em copta, cujo conhecimento é hoje
restrito a uns poucos especialistas, mas porque as línguas
envelhecem. Por mais corretas que sejam as traduções, há
palavras e expressões de difícil acesso ao entendimento do
leitor moderno.
Não é preciso ir ao copta de dezesseis séculos atrás para
termos idéia do problema. Basta esta pequena amostra, em
português, que fomos buscar nos Diálogos, do excelente Frei
Amador Arrais7, ao discorrer sobre as navegações
portuguesas. Diz a certa altura, o bravo sacerdote:

Acharam novas estrelas, navegaram mares e climas
incógnitos, descobriram a ignorância dos geógrafos antigos,
que o mundo tinha por mestres de verdades ocultas.
Tomaram o direito às costas, diminuíram e acrescentaram
graus, emendaram as alturas; e sem mais letras especulativas,
que as que se praticam em o convés de um navio, gastaram
o louvor a muitos, que em célebres universidades haviam
gastado seu tempo. Reprovaram as távoas de Ptolomeu,
porque caso que fosse varão doctíssimo, não fondou aqueles
mares, nem andou por aquelas regiões.
E muito a propósito:

Descobriram o sepulcro e martírio do Apóstolo Santo
Tomé...

Em outras palavras - palavras de hoje e que não serão as de
daqui a cinco séculos - Frei Arrais relata a saga de patrícios
destemidos que navegaram por mares desconhecidos até dos
geógrafos que fizeram levantamentos do traçado das costas
marítimas, retificando os mapas de então, corrigindo
distâncias e alturas. Tudo isso sem grandes estudos, pois não
vinham os bravos marujos de bancos acadêmicos, mas da
prática rude no convés de seus barcos, visto que
contestaram a fama (gastaram louvor) de muito sábio de
gabinete. Até o grande Ptolomeu questionaram, ainda que
dos mais ilustres de seu tempo, pela simples razão de que o
sábio não promovera sondagens naqueles mares ("Não
fondou") e nem por aquelas terras perambulou.
Problemas lingüísticos explicariam, assim, pelo menos em
parte, a demora na divulgação dos textos em línguas
modernas, em vista do reduzido número de especialistas em
condições culturais de enfrentar a complexa tarefa de fazer
os coptas do século IV 'falarem', por exemplo, o inglês do
século XX.
Mas não foi somente isso. Embora de maneira mais sutil do
que Gillabert ou Hans Jonas, o Prof. James M. Robinson,
responsável pelo projeto da tradução, invoca as mesmas
razões ao informar, no prefácio de The Nag Hammadi
Library, que a publicação dos tratados encontrou uma
quantidade de obstáculos de natureza política e cultural. Daí
porque somente trinta e dois anos após a descoberta dos
manuscritos foi possível lançar a versão inglesa completa,
ansiosamente desejada, embora textos esparsos já fossem
conhecidos principalmente em inglês, francês e alemão.
Lembro-me de um exemplar em francês do Evangelho de
Tomé que me surpreendeu aí pelo início da década de
sessenta, numa livraria do Rio de Janeiro. Evangelho de
Tomé? - perguntei a mim mesmo. Que seria aquilo? Percorri
o pequeno volume com olhos apressados ainda que curiosos,
mas fiquei na ambigüidade, insuficiente para sustentar o im-
pulso de adquiri-lo. Além do mais, eram intensas, à época, as
atividades profissionais e escasso o tempo para mergulhar
em assuntos rarefeitos como um enigmático evangelho que
se apresentava por si mesmo, sem textos explicativos ou
comentários esclarecedores.
Somente em 1988 iria encontrar a explicação para a
hesitação experimentada há mais de um quarto de século. E
que no prefácio ao livro de Gillabert, Paule Salvan lembra o
envolvimento do experimentador com o objeto de seus
estudos, segundo a física contemporânea, ao preconisar que
ele não consegue "manter-se à margem da experiência",o
que o transforma de observador em participante. E conclui
Salvan:

Se nas ciências exatas começa a impor-se essa ótica, ela é há
muito tempo evidente no que concerne às ciências
humanas.

É verdade isso. É também por isso, que ela vê 'desafio e
fascinação' "no estado psíquico" do exegeta contemporâneo
confrontado com a experiência gnóstica, que deve, afinal,
levá-lo a um 'abandono à intuição liberadora'.
"Não é impunemente que o estudioso se interessa pela
gnose", ensina Salvan, que a considera como espécie de
'sutil e delicioso veneno'. Dessa 'irresistível impregnação'
não escapou Jacques Lacarrière (citado por Salvan), segundo
o qual a gnose o foi envolvendo 'insidiosamente', à medida
que seus estudos se ampliavam.
Esse é também o pensamento de Gillabert, que o reproduz
na Conclusão do seu livro, quase que com as mesmas
palavras, ao declarar que "não se brinca impunemente com a
gnose". E continua:

Ou a tratamos como um evento histórico entre outros e,
nesse caso, ela se recusa a liberar o sentido oculto de seus
ensinamentos, ou nos deixamos envolver pelas questões que
ela coloca... (idem)

As posturas não são meramente nuançadas, mas opostas e
mutuamente excludentes. Numa, no dizer de Gillabert, a
gente se põe como que à margem de um rio e o contempla;
a outra é uma aventura, atiramo-nos à água.
Assim, quando tive nas mãos o texto francês do Evangelho
de Tomé, nos idos de 60, estava apenas à margem do rio a
contemplar a corrente que passava. Estava... Não era ainda
nem mesmo o observador a que se refere Salvan, quanto
mais o participante. Já não posso mais dizer que apenas vejo
o rio passar, dado que me atirei à água, fascinado pelos
enigmas e desafios do gnosticismo, ante os quais se torna
impraticável a imparcialidade, tão cara aos eruditos que
militam nos meios acadêmicos e que tanto se esforçam por
apresentar estudos mais informativos do que opinativos.
Isso não se pode dizer de Gillabert. Sua prefaciadora chama a
atenção para o fato de que o leitor tem diante de si "um
critério referencial incomparável, sob a condição, bem
entendido, de que esteja disposto a acolher sem
preconceitos o tratamento muito pessoal e bem pouco
acadêmico de seu comentador". Não apenas concordo com
essa avaliação do material, mas me sinto perfeitamente à
vontade com esse tipo de abordagem. Gosto do autor que
toma posição, opina, debate, rejeita ou acolhe conceitos, à
medida em que informa.
Impacientam-me as exposições acolchoadas em cautelas,
escorregadias, como que assépticas, nas quais o autor fica
mais atento à preservação de seu status acadêmico do que ao
trabalho de transmitir ao leitor uma visão nítida do objeto de
seus escritos, ainda que sujeita, eventualmente, a correções
e até a recuos mais ou menos graves. Ao decidir-se por uma
temática, o estudioso faz uma opção de envolvimento
pessoal da qual não precisa envergonhar-se e diante da qual
não deve intimidar- se. O leitor gosta (e tem o direito) de
saber quem é o autor do texto oferecido, o que tem ele a
dizer e o que pensa do assunto.
Em Émile Gillabert encontramos esse clima intelectual. Ele
tem a coragem da afirmação, abandona-se aos impulsos da
intuição, e se recusa até a amaciar a contundência de suas
críticas aos 'monstros sagrados' da erudição que produziram
os primeiros e mais importantes estudos sobre os
documentos coptas. Para isso, começa o livro com a
exposição do que considera les errements de la critique,
desde os heresiólogos da primeira hora que passaram para os
séculos futuros a noção de que a gnose foi uma heresia cristã
engendrada por Simão, o Mago. Para os menos radicais, o
gnosticismo seria, no mínimo, posterior ao cristianismo,
dado que foi tratado pelos pais da Igreja como heresia.
Lembra Harnack que, em meado do século XIX, entendeu a
gnose como um processo de "helenização do cristianismo",
ao passo que Bousset, em tempos mais recentes, considera
esse movimento de idéias anterior ao cristianismo, com o
qual seus pontos de contacto seriam meramente acidentais.
Gillabert é também dessa opinião, mas não hesita em dar
passo mais audacioso ao entender não a gnose como heresia
cristã, mas o cristianismo como um "desvio da gnose".
Por essa e outras é que Paule Salvan previne, logo no
prefácio, que Gillabert pode parecer um tanto polêmico para
o gosto de certos leitores. Sempre resta, contudo, o recurso
de uma leitura mais ampla, da qual possa resultar visão
balanceada, obtida a partir de uma colagem criteriosa das
opiniões em debate. E o que pretendemos fazer com este
livro.
Gillabert queixa-se de que os ocidentais herdaram a miopia
intelectual grega que, a seu ver, jamais compreendeu em
maior profundidade qualquer religião oriental, por causa da
"inaptidão para o conhecimento metafísico". Ele diz isso
porque entende a gnose como uma doutrina esotérica e,
portanto, iniciática, no que estamos, em princípio, de
acordo. Dessa 'miopia' não teria escapado nem mesmo o
eminente Prof. Puech que se revela preso ao 'preconceito
clássico'; que pressupõe para todos os textos gnósticos um
original grego. Este, como outros especialistas, segundo
Gillabert, não apenas desconsideram a fase oral dos
ensinamentos, como o fato de que, mesmo em grego, os
documentos teriam de apoiar-se em substratos hebraicos,
aramaicos ou coptas correspondentes.
Esse mesmo tipo de 'inconseqüência', no qual teria
incorrido Puech, poderia ser atribuído a outra eminente
personalidade, o Prof. Quispel. Lembramos, por nossa conta,
que também a Dra. Pagels considera pacífico o
entendimento de que os textos coptas são versões de
originais gregos.
Por mais importante que seja - e é, de fato -, o problema
linguístico não deve, a meu ver, ser supervalorizado, a fim
de não tirar de foco a temática nuclear da mensagem em si
mesma, ou se transformaria tudo numa discussão acadêmica
sobre semântica. Penso, contudo, que Gillabert está com a
razão em insistir na tese da tradição oral, anterior mesmo
aos textos gregos, dado que estes pressupõem,
necessariamente, material em aramaico ou copta. Parece-me
inconsistente imaginar que ensinamentos, nos quais se
admite a participação de primitivos seguidores de Jesus,
possam ter surgido diretamente em grego, sem algum
suporte anterior.
O importante, a seu ver, é que os documentos de Nag
Hammadi nos trazem convincente conteúdo esotérico,
iniciático, oculto ou, no mais claro dizer do Prof. Geddes
MacGregor, "parapsicológico". Puech percebe essa realidade
e nem poderia deixar e identificá-la em razão da sua vigorosa
dedicação ao estudo dos papiros coptas. Mas não abandona
suas reservadas posturas acadêmicas perante o aspecto
"ocultista" neles contido.
De qualquer modo, o ilustre especialista francês declara sua
decisão no sentido de tentar ler os documentos' com os
olhos de um gnóstico'. Não que Gillabert ache que ele o
tenha conseguido, mas não há dúvida de que é a postura
correta a adotar o estudioso ante qualquer temática, ou seja,
a de buscar a sua integração no pensamento contido naquilo
que examina, no honesto esforço de comunicar-se com ele.
Comunicar é tornar comum, provocar um fluxo e refluxo de
idéias, como se o objeto examinado também tivesse algo
importante a dizer, como, de fato, tem. Se não conseguir
vencer o vazio que o separa do objeto de seu estudo, o
pesquisador permanece na posição de mero observador, sem
alcançar a do participante. Se você apenas observa o objeto,
ele não se entrega ao seu entendimento; é preciso que você
vá até ele, penetre nos seus arcanos, aceite, ainda que em
princípio e com reservas, o que ele tem a dizer de si mesmo.
É correta, pois, a atitude de Puech ao dispor-se a estudar os
textos de Nag Hammadi com os olhos de um gnóstico.
Acho, porém, que não bastam os olhos, é preciso mais. Os
documentos coptas pressupõem a aceitação tácita de uma
realidade espiritual ampla para a qual Gillabert considera
acertadamente que a mentalidade ocidental é pouco
receptiva, para dizer o mínimo, quando não refratária.
Nessa mesma linha de raciocínio, lembra MacGregor o
pressuposto de uma "sensibilidade para realidades
inacessíveis aos físicos, químicos e botânicos", como
condição que tem faltado aos "teólogos acadêmicos,
medievais e modernos" que, desatentos a essa "outra dimen-
são do Ser", não percebem a natureza fundamental daquilo
que constitui o objeto de suas especulações.
É reconfortante ler, nesse mesmo autor, a observação de
que "a postura gnóstica não pertence a nenhuma época em
particular. Ela é perene, ainda que pela única razão de que é
o elemento criativo em todas as religiões. Ela começa com o
aprofundamento da percepção das realidades espirituais à
nossa volta", ensina ele.
Ainda há pouco, no livro, empregava o termo "paranormal"
para adequar à mentalidade contemporânea os fenômenos
implícita ou explicitamente contidos, não apenas na gnose,
mas no cristianismo primitivo.
O que Gillabert e MacGregor estão passando para o leitor,
portanto, é o conceito de que a correta interpretação e
avaliação da gnose parte de certa familiaridade, quando não
genuína aceitação, da realidade espiritual, apoiada, por sua
vez, em sólida estrutura fenomenológica, que embora ainda
rejeitada pela ciência como um todo, vai se tornando
irrecusável. MacGregor não hesita em explicitar aspectos
específicos, ao mencionar conceitos como reencarnação,
sobrevivência do ser ou comunicabilidade entre 'vivos' e
'mortos', bem como causa e efeito, ao lembrar que o
cristianismo surgiu precisamente nesse contexto de
consciência da realidade psíquica.
Pouco adiante afirma que...

Toda a literatura do Novo Testamento, para não dizer a vasta
literatura não canônica do cristianismo primitivo, foi escrita
por e para pessoas que haviam desenvolvido considerável
sensibilidade aos fenômenos psíquicos.

MacGregor tem, pois, uma visão como que espírita da
gnose. Gillabert não vai a esses extremos, ainda que
propondo com veemência a necessidade de uma leitura
receptiva. Sua proposta, contudo, fica nos limites mais
acanhados de um esoterismo, algo metafísico, sem
envolvimento com os aspectos que MacGregor considera
essenciais à avaliação da gnose. Nota-se isso em Gillabert
mais especificamente para o fim do seu livro (pag. 180) onde
atribui "caráter alucinatório" às aparições póstumas de Jesus.
A página 184, reitera essa postura, ao apoiar os teólogos
contemporâneos que consideram as aparições como "uma
ruptura com o real" em vista do "evidente caráter
alucinatório" nelas implícito. É ainda a essa altura (pag. 183)
que ele observa ser inaceitável para os gnósticos "uma
ressurreição no sentido pauliniano da reanimação de um
cadáver". Fico com o direito de supor que o ilustrado autor
não leu com atenção devida o capítulo 15 da I Epístola aos
Coríntios, no qual, exatamente ao contrário do que supõe
Gillabert, Paulo ensina que o Cristo ressurge não no corpo
material que se desintegra, mas no seu corpo espiritual.
Aliás, são manifestas as restrições de Gillabert à doutrina
pauliniana em geral, de vez que encontramos entre outras
obras suas o estudo Saint Paul ou le Colosse aux pieds
d'argile.
Não é só em Puech, portanto, que se identifica a dificuldade
em 1er os textos gnósticos com 'olhos gnósticos'. Também
ele parece não ter tido muito êxito em 1er Paulo com olhos
paulinianos. Seja como for, Gillabert admite que, mesmo
com "pés de barro", o Apóstolo dos Gentios é uma figura
colossal e não apenas o primeiro herético, como está dito
alhures em seu livro. Nosso propósito aqui, no entanto, não
é fazer a apologia de Paulo, que ele não precisa disso, mas
paradoxalmente, dar razão a Gillabert, quando invoca a
dificuldade em descondicionar-se o pesquisador de sua
formação cultural para examinar sem preconceitos o objeto
de sua atenção.
Lembra ele, ainda na sua crítica aos estudiosos dos
documentos coptas, a postura de sacerdotes católicos que,
mesmo dotados de erudição e sob circunstâncias favoráveis,
não poderiam "aprofundar a gnose com o necessário
descondicionamento". Cita, para ilustrar essa afirmativa, a
posição do Abade Jacques E. Ménard, professor da
Universidade de Ciências Humanas de Strasburgo, que não
se livra de seus "antecedentes religiosos, teológicos e
bíblicos", no exame dos textos. Para o eminente sacerdote,
segundo Gillabert, o Evangelho de Tomé não passa de um
sucedâneo (apócrifo, naturalmente) dos canônicos, cuja
anterioridade seria para ele inquestionável, ou se poria em
xeque "as origens mesmas do cristianismo".
Ademais, não se exime Ménard de ver em outro texto
gnóstico - o Evangelho da Verdade - "essa paixão platônica
da alma como prisioneira do corpo". No seu entender, ainda
segundo Gillabert, nada há de cristão nisso, tanto quanto na
doutrina de que o ser humano é o artífice de sua própria
redenção, na medida em que assume consciência de seu
estado de prisioneiro da matéria. Isso não teria nada a ver
com 'o cristianismo autêntico'.
Temos de nos acostumar ao trato de tais divergências e
discordâncias nos volumosos debates acerca da gnose em
geral e dos documentos coptas em particular, se é que
desejamos formular juízo pessoal acerca de tudo isso.
Raramente, nesse contexto, os eruditos oferecem
convergências de conceitos e pontos de vista. Não resta a
menor dúvida, porém, de que a discussão suscitada pelos
papiros de Nag Hammadi nos interessa mais do que estamos
preparados para supor.
Dessa singular relevância nos falam, com inesperada
veemência, outros estudiosos do assunto. MacGregor
entende a matéria como apoio para um verdadeiro
"renascimento do pensamento cristão". Tão convencido está
ele da seriedade de sua avaliação, que colocou essas palavras
no rosto de seu livro, como subtítulo explicativo.
Gillabert não deixa por menos ao declarar nas páginas
iniciais de seu estudo, "sem pretender passar por profeta, (...)
que o mundo de amanhã será gnóstico ou não será".
De minha parte, nem precisaria de tais estímulos, de vez
que a temática da gnose é das que me interessam
naturalmente pelo que ela tem a ver com as estruturas do
meu próprio pensamento. Foi movido por esse interesse
pessoal que comecei a estudar o que me foi possível
encontrar sobre o assunto. O leitor está sabendo que a
viagem através da erudição internacional é acidentada e
difícil, não apenas porque as opiniões se chocam e se
contradizem, mas porque, trabalhando com tema já de
natureza complexa, nem sempre os autores conseguem
livrar-se do jargão profissional e da metodologia esperada
dos papéis direcionados prioritariamente para o meio
acadêmico especializado, como se ficassem a escrever uns
para os outros.
Acresce que, como também assinalamos, tanto o assunto
influencia seus relatores, como estes, ao interpretá-los,
exercem sua influência sobre os textos analisados, o que é
perfeitamente compreensível. O problema, contudo, está
em que raramente nas rodas acadêmicas os estudiosos têm
preparo suficiente - ou disposição - para trabalhar com
material comprometido com a incômoda realidade
espiritual, como é o caso da gnose.
Por outro lado, não há como encontrar no corpo doutrinário
da gnose ou de qualquer outro território intelectual a ser
explorado aquilo que não estamos procurando, precisamente
porque já decidimos aprioristicamente que este ou aquele
aspecto é irrelevante, fantasista ou anticientífico. Tomemos
um exemplo concreto para caracterizar com nitidez o que
estamos tentando dizer. Se o crítico ou pesquisador rejeita
sumariamente o conceito das vidas sucessivas
(reencarnação), que integra, entre outros, o edifício
doutrinário do gnosticismo, como poderá, na armação de
suas hipóteses de trabalho, entender aspectos vitais à com-
preensão da doutrina que constitui o próprio objeto de seu
estudo?
Esse dado falta a Gillabert, que está incorrendo em um dos
errements que condena nos demais críticos. Puech é outro
que não parece suficientemente convencido dessa leitura.
MacGregor revela-se mais bem preparado nesse aspecto, por
admitir, como se faz necessário, o importante aspecto
"parapsicológico" contido na gnose. O gnosticismo é um
sistema doutrinário desenvolvido a partir de realidades
psíquicas experimentais. Se as observações foram bem feitas
ou não, se as inferências são corretas ou incorretas, se os
fenômenos ditos parapsicológicos justificam ou não tais ou
quais conseqüências doutrinárias, são aspectos a ponderar;
uma coisa, porém, é certa: o gnosticismo partiu de premissas
que a Igreja ignorou, rejeitou ou condenou, porque
entendeu que ameaçavam fraturar aspectos doutrinários e
práticos já cristalizados, ou em adiantado processo de
consolidação.
O observador moderno, contudo, honestamente
empenhado num esforço de análise crítica do gnosticismo,
estará criando bloqueios insuperáveis se não adotar atitudes
menos dogmáticas do que as da Igreja primitiva. Ele não
deve dar-se ao luxo de ignorar, rejeitar ou condenar
aprioristicamente a base mesma sobre a qual foi montado o
edifício doutrinário do gnosticismo. Seria essa, ainda mais,
uma atitude obtusa, dado que o estudioso que desprezar os
apoios parapsicológicos não conseguirá dominar o objeto de
suas pesquisas.
Não basta, por isso, os olhos de um gnóstico para abordar os
problemas suscitados pelo gnosticismo, é preciso admitir,
ainda que como meras hipóteses, as premissas em que seus
pensadores se firmaram para montar as estruturas
doutrinárias que estamos hoje contemplando mais de perto.
Não estou preconizando um adesismo ou sonhando com
'conversões' importantes à causa da realidade espiritual,
ainda que isso fosse desejável, mas é preciso ressaltar que,
sem tal instrumentação, até o simples acesso aos textos
gnósticos torna-se no mínimo problemático.
Gillabert ou Gedes MacGregor, tanto quanto posso avaliar,
constituem honrosas exceções às posturas mais ou menos
assépticas do erudito-padrão, sempre cautelosos na
abordagem de conceitos como o transe, reencarnação,
sobrevivência do ser, e outros. Mesmo demonstrando
melhor preparo quanto aos aspectos da gnose, que considera
esotérica, o fenômeno paranormal ou mediúnico da visão de
Paulo, nas imediações de Damasco, se reduz para Gillabert a
uma crise alucinatória.
Seja como for, ele se queixa de que a pressão provinda do
contexto acadêmico induz os estudiosos a levarem em conta
apenas os interesses culturais da Universidade ou da Igreja, e
obriga o esoterista a anular-se.
Nessa mesma ordem de idéias, lembra ainda que Puech
"cerca-se de toda a prudência que sua função requer". E
continua:

É preciso precaver-se com uma saída, para o caso em que a
descoberta futura de novos documentos venha contradizer
hipótese de trabalho.

Ainda assim, Gillabert acha que o ilustre professor "não
sufoca completamente (nele próprio) o admirador da gnose".
Como não necessito de tais cautelas, sobra-me espaço para o
exercício da liberdade de pensar e alinhar reflexões obtidas a
partir da abordagem descondicionada que Gillabert
preconiza. Não tenho compromissos com universidades ou
igrejas e nem preciso deixar saídas camufladas para eventual
retirada estratégica. Como dizia há pouco, examinei
detidamente a literatura existente, ao meu alcance
lingüístico e cultural, mas não hesitei ante a tarefa maior de
mergulhar nos próprios textos de Nag Hammadi na sua
versão em língua inglesa, a fim de buscar na fonte a alegria
de certos achados e "insights" que talvez não encontrasse
nos comentários da erudição.
Não porque não sejam competentes e esclarecedores, mas
porque refletem leitura personalizada do assunto e,
necessariamente, em segunda mão. Estou convencido,
porém, de que já se pode identificar aspectos consensuais,
senão interpretativos, pelo menos naquilo que constitui a
linha mestra do pensamento gnóstico.
É o que veremos a seguir.

III - Gnose e Gnosticismo

O inusitado vigor com o qual a Igreja primitiva deu combate
ao gnosticismo constitui seguro indício da importância desse
movimento, e conseqüentemente, dos riscos a que expunha
as estruturas do pensamento cristão da época. Da centena de
seitas e variações que Will Durant atribui ao cristianismo dos
primeiros três séculos, pouquíssimas teriam suscitado as
preocupações que o gnosticismo criou para a hierarquia
cristã dominante. A Dra. Pagels1 chega a admitir nos
bastidores uma luta pelo poder, já que os gnósticos
desafiavam a autoridade dos bispos e contestavam aspectos
doutrinários sobre os quais a Igreja não estava disposta a
ceder. Investidos de uma autoridade que entendiam vir de
linha direta dos apóstolos e, por meio deles, do próprio
Cristo, os bispos consideravam-se dispensadores da salvação,
sobre a qual os gnósticos mantinham posturas
diametralmente opostas.
Na verdade, os gnósticos nem se consideravam heréticos,
dado que, tecnicamente, para que se caracterize a heresia é
necessário o pressuposto de uma participação e, mais do que
isso, filiação ou subordinação ao movimento e aceitação de
sua estrutura doutrinária. Esta situação ficou bem
caracterizada no período inquisitorial. A Igreja não podia
(pelo menos, não devia) perseguir, julgar e punir os judeus
por heresia, enquanto permanecessem como judeus. Usava,
então, o instrumento indireto da pressão, forçando a
conversão deles, mesmo sem convicção alguma, ao
cristianismo. Uma vez batizados e admitidos à comunidade
católica, contudo, estava sacramentada a vinculação e, aí
sim, desvios e dissidências tornavam-se classificáveis como
heresias e, portanto, suscetíveis de julgamento e punição.
Foi o que aconteceu com os chamados cristãos novos que,
secretamente, mantinham-se fiéis aos seus preceitos de
origem e aos rituais e práticas correspondentes.
Ora, o sentido primário do termo heresia identifica um ato
de escolha (boa ou má). Daí porque Eusébio considera a
Igreja como "sacratíssima heresia", certamente por entender
que o cristianismo surgiu de uma escolha entre a tradição
cristalizada no Antigo Testamento e a doutrina renovadora
de Jesus. Aos poucos, porém o termo foi sendo empregado
no sentido de dissidência, criando a dicotomia ortodoxia/he-
resia, na qual a corrente dominante reserva para si mesma a
confortável posição de correta, justa, verdadeira e empurra a
dissidência para o campo do erro.
As disputas iniciais entre cristãos e gnósticos assumem à luz
dos textos de Nag Hammadi considerável relevo, dado que
até agora dispúnhamos apenas dos combativos documentos
produzidos pelos heresiólogos, como do prestigioso bispo
Irineu, de Lyon, que entendeu logo o sentido contestatório
da gnose e suas inevitáveis ameaças à hegemonia da
hierarquia eclesiástica.
A recusa de parte dos gnósticos em aceitar a rotulação de
heréticos é bastante significativa. Ela confirma a opinião
praticamente consensual hoje dominante de que a gnose foi
não apenas "exterior, mas anterior ao cristianismo", como a
considera o Prof. Puech.
De fato, encontramos em Puech referências a gnoses pré-
cristãs, judias, siríacas, muçulmanas, pagãs e egípcias. Em
verdade, há que se reiterar sempre, gnose é sinônimo de
conhecimento e, conseqüentemente, um processo
permanente de busca, de auto-iluminação, que não pertence
nem se subordina especificamente a esta ou àquela corrente
filosófica ou religiosa, porque as transcende. Por isso,
assinala MacGregor ser "o gnosticismo um fenômeno muito
mais amplo do que os heresiólogos do cristianismo primitivo
poderiam fazer crer".
Prossegue esse mesmo autor, pouco adiante, opinando no
sentido de que o gnosticismo é 'uma reflexão sobre o
próprio conteúdo da religião. Nada está excluído de suas
especulações, não se identifica com nenhum período
histórico em especial e, por isso, acaba constituindo 'o
elemento criativo em todas as religiões'. Isso nos leva a
considerar que o entendimento correto do gnosticismo no
contexto do cristianismo primitivo pressupõe clara distinção
entre a gnose no seu sentido universal, atemporal e a que,
de certa forma, acoplou-se ao cristianismo nascente,
decidido, porém, a preservar sua própria autonomia
intelectual e sua identidade. Gillabert colocou a questão nos
seus exatos contornos ao postular que,

.. nos tempos que correspondem ao início da era cristã e no
contexto geográfico chamado Palestina, a gnose eterna
encontrou uma inserção temporal.

Não foi a gnose, portanto, que se tornou cristã e, por isso,
não aceitou ser considerada como heresia; ela apenas
encontrou nos ensinamentos de Jesus conceitos universais
consistentes com os postulados básicos indispensáveis ao
processo de auto-iluminação, espinha dorsal de suas
aspirações. Os gnósticos identificaram em Jesus o ser que já
chegara aos patamares superiores dessa auto-iluminação.
Antes de prosseguir, portanto, com este estudo, convém ter
em mente a distinção entre a gnose como trabalho da busca
interior e auto-iluminação, que nada tem a ver formalmente
com instituições religiosas, e o gnosticismo, denominação
atribuída ao movimento gnóstico que ocupa na história do
cristianismo, espaço de tempo que vai de 120 a 240 d.C.
Mesmo em autores que escreveram seus livros antes da
divulgação dos papiros coptas, como Daniel-Rops,
encontramos essa distinção. Por isso, Gillabert fala de uma
gnose eterna inserida no contexto de uma temporal,
enquanto MacGregor alerta para o fato de que há dois
sentidos para o termo gnose; primeiro, em seu sentido mais
amplo, o que seria uma 'reflexão' sobre a temática genérica
da religião, ao passo que, em sentido mais restrito caracteriza
o envolvimento com o cristianismo nascente.
De minha parte, ainda reluto em adotar expressões como
gnósticos cristãos, pagãos, siríacos, judeus, como vemos em
Puech. Para mim, a corrente gnóstica tem uma longa
tradição de autonomia e, vez por outra, encontra em certas
estruturas doutrinárias, religiosas ou não, aspectos
particulares que lhe interessam, independentemente das
instituições que formulam e propagam tais princípios. Eles
próprios não se consideravam cristãos, como vimos e, por
conseguinte, não poderiam ser tratados como hereges, como
quis a Igreja.
É bom lembrar, ainda, que vários estudiosos identificam
tonalidades gnósticas em movimentos posteriores, como o
dos maniqueus, ainda nos primeiros séculos, e o dos cátaros,
na Europa medieval, ambos tratados como heréticos, sendo
que os cátaros acabaram exterminados numa sangrenta
cruzada.
É certo que por trás desse conflito entre ortodoxia e heresia,
seja qual for o conteúdo atribuído a essas palavras, há uma
disputa pelo poder, como assinala a Dra. Pagels. Não creio,
porém, que os gnósticos participassem ativamente de tal
disputa, doutrinariamente contrária aos postulados básicos
de sua visão filosófica, voltada para o processo mesmo da
busca de conhecimento libertador, desinteressados,
portanto, da montagem de sistemas hierárquicos
institucionais, como os que já se cristalizavam na Igreja
primitiva. A Igreja optara por uma estrutura ampla,
politicamente forte, e por isso cortejava ou estimulava
adesões quantitativas, ao passo que os gnósticos mostravam-
se predominantemente qualitativos, quase elitistas.
Preconizando a salvação coletiva e exclusiva como
resultante de uma adesão aos postulados e comandos da
Igreja, a hierarquia eclesiástica não podia encarar, sem
graves apreensões, grupos paralelos que minavam, com a
contestação, a autoridade dos bispos.
Por outro lado, é sintomático que o gnosticismo tenha
assumido sua mais forte expressão a partir do momento
histórico em que o cristianismo primitivo começa a
abandonar e até mesmo a eliminar de seu contexto as
práticas pneumáticas (leia-se mediúnicas) dos primeiros
tempos, sobre as quais tão clara e abundante evidência
encontramos, não apenas nos Atos dos Apóstolos como nas
epístolas de Paulo. Tão difundidas eram essas práticas que
Paulo entendeu indispensável regulamentar o procedimento
por meio de minuciosas e competentes instruções, na
Epístola aos Coríntios, capítulos 12,13 e 14.
Havia e há por trás de tais práticas toda uma realidade
espiritual que, longe de ser estranha aos gnósticos, foi da
essência de suas especulações. Como assinalam
comentaristas modernos, os textos coptas retomam o
discurso cristão no ponto em que os canónicos o deixam, ou
em outras palavras, revertem o processo expositivo destes,
construindo as narrativas, não a partir do nascimento de
Jesus, mas de sua morte. E um Jesus póstumo que fala
prioritariamente nos documentos gnósticos, um Jesus
sobrevivente, não propriamente ressuscitado. Não é um
Jesus morto, mas vivo.
Essa conotação mágica do gnosticismo, seu envolvimento
com práticas mediúnicas, seres espirituais, vidências e
intercâmbio com os chamados mortos assustava a hierarquia
sacerdotal, que estava precisamente saindo de um período
em que não os sacerdotes, mas os médiuns, então
conhecidos como profetas, haviam sido prestigiados pela
presença de espíritos, que por meio deles transmitiam sua
palavra de esclarecimento e orientação. Os gnósticos
surgiram, assim, numa fase de transição, em que a Igreja
abandonara o mediunismo dos primeiros tempos em favor
de uma estrutura política concreta, manipuladora de poder
terreno, supostamente paralelo, mas, em verdade, em
oposição ao poder espiritual que se filtrava através dos
sensitivos dotados de faculdades hoje conhecidas como
paranormais.
Os gnósticos moviam-se precisamente no contexto que
MacGregor qualifica de parapsicológico e que os
heresiólogos esforçam-se por lazer recuar a Simão, o Mago,
pelo envolvimento deste com a fenomelogia paranormal
que, por muito tempo, identificou-se com as práticas de
magia. Irineu é um dos que denunciam como grave
equívoco o caráter mágico do gnosticismo.
Escreve a Dra. Pagels:

... os escritores gnósticos não descartam as visões como
fantasias ou alucinações. Eles respeitam - e até reverenciam
- tais experiências, por meio das quais a intuição espiritual
penetra a natureza da realidade.

Os documentos coptas não fazem segredo nem recorrem a
eufemismos acauteladores para expor essa realidade. Por que
o fariam, se ela é da essência de sua metodologia da busca?
Nessa mesma ordem de idéias, Gillabert sugere um
parentesco entre a gnose e o hermetismo, à vista da
presença de textos herméticos na biblioteca de Nag
Hammadi.
Ao identificar o Dr. Carl Jung como um neognóstico, por
causa do seu interesse pelos fenômenos psíquicos, a
doutrina do inconsciente coletivo e a dos arquétipos,
MacGregor lembra o entusiasmo dos gnósticos por essa
temática, ao "descobrirem o valor do elemento espiritual ou
psíquico no ser humano e no universo". Ao contrário da
Igreja, os gnósticos assumiram essa realidade com todas as
suas implicações e conseqüências. Sem poder excluir
sumariamente de seu contexto os fenômenos psíquicos, a
Igreja, no dizer de MacGregor "criou para eles diferentes
nomes".
"Contudo" - prossegue esse autor - "as realidades psíquicas
constituem seguramente tudo aquilo que constitui a Igreja."
Com isso, o pensamento religioso predominante, no que
chegou até nós como cristianismo, foi se alienando cada vez
mais de tais aspectos e, de certa forma, contaminou as
estruturas leigas de pensamento. À ponto em que eruditos
de elevado nível de competência, como o Prof. Puech,
demonstram certas dificuldades no entendimento adequado
de aspectos e de termos descritivos dessa realidade.
É o que depreendemos das demoradas reflexões e
especulações de Puech em torno do sentido da palavra anjo,
em conexão com o termo profeta, o que lhe parece
incongruente, dado que o texto nada tem a ver com o
conceito habitual de profecia, no sentido de uma previsão
ou premonição. E evidente que Puech sabe que a palavra
grega correspondente a anjo (aggélos) designa um ser ou
mensageiro celeste. Claro também que ele sabe que profeta
tem seu encaixe nas práticas que o cristianismo primitivo
denominava 'dons do espírito'. Mesmo assim, ele considera
ambígua a expressão produzida pela junção das duas
palavras, chegando mesmo a imaginar que o termo profeta,
nesse contexto, seria uma espécie de 'fóssil' lingüístico
remanescente de mais remotas versões.
Como teremos oportunidade de discutir esse aspecto ao
comentar o Logion 88, ficamos aqui apenas com estas
observações sumárias. Basta dizer, por enquanto, que os
profetas eram sensitivos ou médiuns, através dos quais
manifestavam-se os mensageiros espirituais.
Essa dificuldade de interpretação da dicotomia anjos/profetas
não ocorreria, por exemplo, a MacGregor ou a Gillabert, que
se revelam mais receptivos à conceituação psíquica ou
mágica do gnosticismo.
Nesse mesmo alinhamento podemos colocar Ernest Renan,
que em Os Apóstolos expõe sua avaliação de modo explícito
e objetivo, ao ressaltar, no processo de universalização do
cristianismo, a importância da Igreja de Antioquia onde,
eram "freqüentes as grandes manifestações 'espiritistas'(Atos
13,2)".
Ora, é precisamente nesse capítulo, versículo primeiro, que
consta a referência específica aos profetas de Antioquia,
atuando juntamente com os 'doutores' no intercâmbio com
os espíritos. Foram estes, aliás, que recomendaram que
Barnabé e Paulo (ainda Saulo) saíssem a difundir aquela
variedade de cristianismo que ali se praticava, menos
fechado sobre o contexto judaico e mais universalista. Não
estamos ignorando o fato de que os textos canónicos
protegidos pelos 'Imprimatur' e 'Nihil obstat tranqüilizadores
falam em Espírito Santo, mas aí nos lembramos da
observação pertinente de MacGregor, para o qual os
fenômenos são os mesmos, tanto no âmbito da Igreja quanto
no contexto da parapsicologia, embora a Igreja prefira
abrigar-se em sua própria terminologia ao mencioná-los.
É o que encontramos, por exemplo, na versão brasileira d'A
Bíblia de Jerusalém que, em redação hábil e cautelosa, não
deixa de admitir o evidente substrato paranormal ou
mediúnico do intercâmbio com os 'mortos', ao mesmo
tempo em que procura colocar tal realidade, tanto quanto
possível, acomodada às estruturas dogmáticas.
Em comentário a Atos 11,27, lê-se o seguinte:

Como os profetas do AT (Antigo Testamento), os do NT
(Novo Testamento) são carismáticos, que falam em nome de
Deus, sob inspiração de seu Espírito. Na nova aliança há
uma efusão mais copiosa desse carisma e todos os fiéis, em
certos casos, dele se beneficiam. Não obstante, certas
pessoas são dotadas, de um modo especial, desse carisma, a
ponto de merecerem o título habitual de 'profetas'. Na
hierarquia dos carismas elas vêm normalmente em segundo
lugar, depois dos 'apóstolos', porque são as testemunhas
autênticas do Espírito, e transmitem suas 'revelações' do
mesmo modo que os 'apóstolos' são testemunhas de Cristo
ressuscitado e proclamam o 'querigma'. Seu papel não se
limita a predizer o futuro, ou ler nos corações. E se eles
'edificam, exortam, consolam', fazem-no por revelações
pneumáticas que os aproximam dos glossolálicos,
colocando-os, no entanto, acima destes, porque sua palavra
é inteligível. A função principal deles devia ser explicar, à
luz do Espírito, os oráculos das Escrituras, em particular dos
antigos profetas, e descobrir assim o mistério do Plano
Divino...

Recorrendo a uma terminologia menos comprometida com
a preservação da visão ortodoxa, o texto quer dizer
simplesmente que os chamados profetas, tanto no Antigo
como no Novo Testamento, eram médiuns dotados de
diferentes faculdades (carismas), através dos quais
manifestavam-se, em língua estranha (glossolalia) ou não,
emissários (anjos) do mundo invisível, ou, mais
simplesmente, espíritos.
A expressão Espírito Santo resultou de um infeliz
entendimento, provavelmente de origem lingüística, como
assinala o Prof. Carlos T. Pastorino. Em vez de 'um espírito
santo ou santificado' a manifestar-se por meio do profeta
(médium), passou a ser o Espírito Santo - manifestação do
próprio Deus.
São constantes nos documentos de Nag Hammadi as
referências às faculdades mediúnicas de Pedro, o que, aliás,
não constitui novidade, de vez que alusões semelhantes
constam também dos canónicos. Ora, na Carta de Pedro a
Filipe, Pedro conversa com alguns discípulos, quando é
tomado por 'um espírito santo' e passa a transmitir-lhes a
mensagem mediúnica correspondente. Pouco depois o texto
informa que Jesus manifestou-se à visão de Pedro e dos
demais presentes e todos "ficaram cheios de um espírito
santo" e promoveram curas.
Ao condenar o gnosticismo como "a mais perigosa... a
grande heresia do século II (...), uma aberração da
inteligência, o abuso da pesquisa e da especulação aplicada
aos mistérios de Deus", Daniel-Rops também distingue
didaticamente gnose de gnosticismo, como temos visto em
outros autores. A gnose, como "um método de pensamento"
e "também uma atitude espiritual", ao passo que o
gnosticismo foi "um sistema infinitamente complexo, de
explicação do mundo, da vida e de Deus", o que é, ainda, um
método de pensamento.
Como bom católico, ele até admitiria a gnose no contexto
do cristianismo como "esforço do homem para apreender o
divino", mas desde que acomodado aos rígidos esquemas da
ortodoxia dominante. Lembra que Paulo aludira a uma
"gnose segundo Cristo", na sua Carta aos Coríntios (I Cor. 2,
8) e que tanto em Clemente, como na Epístola de Barnabé
há referências ao "dom da gnose que Deus implanta na
alma". Fala também de uma gnose egípcia, e da judaica,
florescida esta, na Samaria. Lamenta, contudo, que os
gnósticos tenham lançado a "heresia do conhecimento", ao
recorrerem a "elementos vindos um pouco de toda parte",
tentando "malaxar e refazer dogmas".
A atitude do eminente historiador sacro francês é
respeitável, e também previsível; seria de estranhar-se que
ele pensasse de outra maneira. O problema é que,
acomodada aos rígidos limites territoriais demarcados pela
ortodoxia cristã, o gnosticismo não teria sido o que foi e
estaria ignorando e frustrando suas mais importantes
premissas. Não é sem razão que gnosiologia é sinônimo para
expressões como teoria do conhecimento e epistemologia.
Toda busca intelectual é gnóstica, até mesmo a que não se
interessa especificamente pelo conhecimento divino. Nada
está formalmente excluído e tudo, em princípio, interessa
para exame crítico, seja para incorporar à doutrina que vai
sendo montada, seja para rejeitar por não servir aos
propósitos da busca empenhada.
O gnosticismo partia de diferentes premissas, adotava
procedimentos epistemológicos diferentes e, naturalmente,
chegava a conclusões diversas das que propunha a Igreja,
mesmo porque não encontrava no âmbito da teologia
nascente elementos que considerava vitais ao seu esquema
de trabalho, ou os encontrava deformados e inaceitáveis,
quando não drasticamente rejeitados.
Sua melhor alternativa teria sido a de não se deixar envolver
no contexto cristão da época, a fim de preservar sua
identidade e prosseguir na busca, mas é de presumir-se a
inviabilidade dessa opção para os tempos. Eles trabalhavam
com conceitos que, em grande parte, se superpunham aos
discutidos no âmbito da teologia ortodoxa: alma, Deus,
salvação, ensinamentos de Jesus de modo geral e tantos
outros. Era difícil convencer a Igreja de que nada tinham
com ela, se estavam palmilhando território tido por
exclusivo e inviolável.
Certamente, as coisas se passariam de maneira diversa hoje.
Uma torrente gnóstica ressurgida agora, com as
características básicas da que lloresceu entre os anos 120 e
240, poderia facilmente ser identificada com o espiritismo,
por exemplo, com muitos pontos superpostos, algumas
divergências e umas poucas discordâncias, mas não seria
jamais caracterizada como heresia espírita ou cristã. Seria
uma corrente de especulação filosófico-religiosa, como
qualquer outra. Poderia até suscitar debates e controvérsias,
mas não assumir as proporções de uma perigosa "heresia do
conhecimento", como diria Rops.
No estrito sentido semântico da palavra, gnósticos são todos
aqueles que buscam o conhecimento, que estudam, lêem,
escrevem, ensinam, pregam, fazem música, produzem obras
de arte. Em qualquer atividade intelectual há espaço e
estímulo para o aprendizado, para ampliação do
conhecimento, o que vale dizer, tudo é gnose.
Para recorrer à expressão de Gillabert, quando a gnose
universal encontrou sua inserção no contexto do
cristianismo primitivo, estava apenas recolhendo nos
ensinamentos de Jesus aquilo que entendia necessário e até
indispensável à formulação de uma estrutura de
pensamento, ou melhor, de conhecimento. Isso não
caracteriza uma heresia, senão para a mentalidade
exclusivista e ciumenta dos pensadores cristãos da época que
não podiam encarar com bons olhos aquilo que entendiam
como pilhagem seletiva de idéias e conceitos de que se
consideravam proprietários exclusivos.
Foi lamentável que assim acontecesse. Um inútil, mas
sedutor exercício de futurologia regressiva, nos levaria a
especular sobre como seria a época em que estamos vivendo
neste final de século e milênio se, em lugar da opção cristã
ortodoxa que nos ficou devendo tanto em distorção ao
pensamento do Cristo, tivéssemos dezesseis ou dezessete
séculos de gnosticismo como doutrina e movimento. Qual
teria sido o resultado de sua influência sobre as correntes do
pensamento mundial tão exageradamente comprometido
hoje com bloqueios e ambigüidades impostas pela brutal
predominância de matrizes ideológicas materialistas.
Mas, como se diz em inglês, não adianta chorar sobre o leite
derramado... Ou, quem sabe, o gnosticismo também teria
enveredado por uma opção de poder político, a partir de
uma entropia de seus textos doutrinários ou teria provocado
essa entropia, premido por dirigentes mais interessados em
estruturas de mando do que nas arquiteturas do pensamento
libertador...

IV - Interação Gnosticismo / Cristianismo

Após as reflexões preliminares alinhadas até este ponto,
podemos nos considerar em condições de penetrar o
território doutrinário do gnosticismo, com o objetivo de
entender melhor o que realmente significou esse
movimento que tão fundamente marcou sua presença nos
primeiros tempos do cristianismo, como se percebe pela
vigorosa reação dos heresiólogos de então.
A palavra-chave para essa incursão intelectual é mesmo
gnose, ou seja, conhecimento. O gnosticismo assentou-se
no conceito básico de que a libertação do ser das amarras
limitadoras da matéria e do erro tinha de ser alcançada por
intermédio do conhecimento, ou, mais especificamente
ainda, do autoconhecimento. Com isso percebemos logo
que ele se põe em confronto com princípios dominantes do
cristianismo ou, pelo menos, da versão do cristianismo que
prevaleceu e que, bem ou mal, chegou até ao nosso tempo,
depois de passar pela cristalização teológica dogmática. Em
lugar de uma salvação coletiva de características messiânicas,
alcançada pela adesão e pela fé, o gnosticismo propunha
uma libertação individual resultante de longo trabalho de
aprendizado e acomodação a leis não escritas, que podiam
ser flexíveis no tempo, mas inflexíveis nas suas finalidades
últimas.
Creio que muito se terá ainda a dizer e debater sobre a
interação cristianismo/gnosticismo, ou seja, qual deles teria
influenciado o outro. A questão, me parece algo acadêmica.
Vejo no processo uma fertilização cruzada ou mútua. Pode-
se até dizer isso de outra maneira, lembrando que há entre
eles princípios e conceitos semelhantes e, por isso, comuns
a ambos. Essa evidência ressalta em inúmeras passagens
evangélicas, mas principalmente, no Quarto Evangelho e em
várias das epístolas de Paulo. Teremos oportunidade de
examinar tais superposições ao longo deste estudo, mas aqui
mesmo, ainda em conexão com a dicotomia
salvação/libertação, podemos citar a advertência
"conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" como
claro ensinamento acerca da libertação através do
conhecimento, e não uma salvação coletiva de caráter
escatológico ou messiânico.
Esta citação é de particular relevância no entendimento
daquilo que estamos aqui a discutir. Como percebe o leitor,
há uma aparente contradição no que ficou dito há pouco. E
que para exemplificar convergências entre cristianismo e
gnosticismo trouxemos a exame um ponto em que se
caracteriza uma divergência de fundamental importância. O
aparente paradoxo, contudo, tem sua justificação no fato de
que, do mesmo texto, cada uma das duas correntes extrai
conclusões discordantes. Para a Igreja, a verdade libertadora
seria a adesão incondicional, não apenas à teologia que
começava a ser montada, mas também à instituição que se
proclamava fundada pelo próprio Cristo e por ele entregue a
Pedro e seus sucessores. A libertação, contudo, continuava
sendo entendida como salvação das penas do inferno por
um messias que redimira a todos os fiéis, com o alto preço
de seu sangue na cruz. O que caracterizava a salvação não
apenas como coletiva, mas também vicária, ou seja, conse-
guida, por nós e para nós, pelo Cristo sacrificado. Mais ainda,
tratava-se de uma salvação com implicações digamos
geográficas, com o traslado de todos os escolhidos para uma
região vagamente descrita como o Reino de Deus, onde a
felicidade não mais teria fim.
Já o conceito gnóstico era formulado de modo inteiramente
diverso, ao postular que se tratava de uma libertação
espiritual, pura e simples, dos condicionamentos da matéria
e do erro, resultante de longo e persistente trabalho pessoal
de cada um, sem nenhuma indicação territorial na terra ou
alhures, no céu. Era um retorno a Deus, de onde teríamos
todos vindo desde tempos imemoriais.
A expressão 'Reino de Deus' também acabou contaminada
por essa ambigüidade produzida por interpretações
divergentes de um mesmo conceito que, em si próprio, era
comum a ambas as correntes. Por isso, encontramos nos
Evangelhos canónicos textos em que o Reino de Deus é
messiânico, bem como politico-geográfico, em contraste
com outros nos quais ele é claramente a resultante de uma
realização pessoal íntima, a ser alcançada pelo
conhecimento (gnose).
Na primeira categoria podemos colocar as seguintes
passagens em Mateus: a) 4,17 ("... o Reino doS Céus está
próximo"), b) 5,19 ("será menor no Reino dos Céus", aquele
que quebrar um só dos mandamentos, tanto quanto "grande"
aquele que os obedecer), c) 7,21 (..."entrará no Reino dos
Céus" aquele que fizer a vontade do Pai); d) 8,11 (sentar-se-
ão à mesa no Reino, com Abraão, Isaac e Jacó não
propriamente seus herdeiros naturais, os judeus, e sim, os
que vierem do oriente e do ocidente sem estas credenciais,
mas que se mantiverem fiéis aos preceitos e expectativas do
novo convênio); e) Mat. 11,12 (o Reino dos Céus tem sido
até João Batista, conquistado pelos violentos); f) 12,28 (Com
o Cristo, chega aos que o ouvem o Reino dos Céus); g) 18,3
(embora a idéia seja a de um local onde se entra, há como
que um colorido gnóstico na ressalva de que não terá acesso
ao Reino aquele que não se modificar e se fizer como as
crianças); h) 19,4 (o Reino é precisamente daqueles que se
fizerem como as crianças, numa alusão reiterada ao estado
de pureza que se presume no infante); i) 25,34 (anuncia-se a
convocação dos "benditos de meu Pai" para receberem a
herança do Reino que se preparou para eles); j) 26,29 (fica
marcado um encontro no Reino, para uma espécie de
comemoração, quando, então, se beberá de novo o vinho
generoso da convivência fraterna).
Várias são as referências encontradas em Lucas nesse
mesmo sentido, como 6,20, onde se declara que o Reino é
dos pobres; em 11,20 e 13,29 que reproduzem passagens
refletidas de Mateus, já apreciadas, e em 18,24, onde se
menciona a dificuldade dos ricos em entrar no Reino, ou em
21,31, no qual é anunciada a proximidade do Reino.
Passagens paralelas em Marcos e Lucas guardam o mesmo
substrato messiânico ou são, no mínimo, ambíguas, dado
que o reino é concebido como um local onde se entra ou do
qual se está próximo ou distanciado. Duas vezes em Lucas,
porém, a visão do reino assemelha-se mais à dos gnósticos.
Em 8,10, não apenas são mencionados os dois níveis de
ensinamento de Jesus - o explícito, exotérico e o reservado,
esotérico. "A vós", - adverte o Cristo, dirigindo-se aos
apóstolos -, "é dado conhecer os mistérios do Reino dos
Céus; aos demais, só em parábolas, para que vendo, não
vejam e ouvindo, não entendam". Também em 9,62, o
versículo admite interpretação gnóstica, ao ensinar que
"ninguém que ponha a mão do arado e olha para trás, está
apto para o Reino dos Céus".
Já a concepção pauliniana do Reino parece acomodar-se
melhor à visão gnóstica, embora algo messiânica, mas como
realização pessoal cm pureza e conhecimento, "... o Reino
de Deus não é comida nem bebida, senão justiça e paz e
gozo do Espírito Santo", adverte ele em Rom 14,17, tese,
aliás, na qual insiste em I Cor. 6,9 e 15,20, tanto quanto em
Gálatas 5,21 e Efésios 5,8.
Nas demais passagens evangélicas, nas quais figura a
expressão 'Reino de Deus' ou 'Reino dos Céus', a postura é
claramente não-messiânica e resultante de um trabalho
pessoal de aprendizado e comportamento adequado.
"Buscai primeiro seu Reino e sua justiça..." lê-se em Mat.
6,33. Em 13,11-13, reitera-se a observação contida em
Lucas 8,10, segundo a qual o ensinamento de Jesus é dado
em dois níveis e que a um grupo especial, que revela mais
amplas possibilidades, "é dado conhecer os mistérios do
Reino dos Céus", ao passo que à massa maior, a informação é
passada simbolicamente, em parábolas, mas sem as chaves
que possibilitem a correta interpretação do sentido oculto.
Mas é em Lucas 19,20 que vamos encontrar a visão gnóstica
da questão, em toda a sua clareza meridiana:

Havendo-lhe perguntado os fariseus quando chegaria o
Reino de Deus, lhes respondeu: '- O Reino de Deus vem
sem se deixar sentir. E não dirão: - Vede-o aqui ou ali,
porque o Reino de Deus já está dentro de vós'.

Sintomaticamente, A Bíblia de Jerusalém opta por traduzir
"já está entre vós outros", fiel, por certo, ao conceito
messiânico da salvação, segundo o qual o Reino é "uma
realidade já atuante". E acrescenta: "Costuma-se traduzir
também: 'dentro de vós', o que não parece diretamente
indicado pelo contexto".
De minha parte, entendo exatamente o contrário do que se
propõe nesta observação. Se o Reino estivesse entre os que
consultavam Jesus a respeito, seria percebido 'aqui ou ali', ao
passo que como realização pessoal íntima, ele é
imponderável, não tem época prevista para chegar e, em
verdade, nem chega até nós, nós é que 'vamos' a ele, pela
conquista do conhecimento apoiado na ética. Por isso
mesmo é que o Cristo adverte que não é coisa que se veja,
ou que esteja aqui ou ali. Logo, a tradução 'entre vós' é que
não está autorizada pelo contexto, e não 'dentro de vós',
como sugerem os comentaristas d'A Bíblia de Jerusalém.
Teria sido essa preferência textual um esforço a mais para
apagar vestígios gnósticos remanescentes nos canônicos?
Seja como for, os canónicos oferecem sobre a doutrina do
Reino de Deus, fundamental, aliás, ao pensamento de Jesus,
duas posturas conflitantes: uma que faz do Reino um
condição ou dimensão inserida em estruturas de tempo e
espaço, para onde se vai ou na qual se entra coletivamente
por força de um resgate messiânico; outra, segundo a qual o
Reino é conquista pessoal resultante de longo e persistente
aprendizado, ou seja, condição adimensional e intemporal,
na qual as leis divinas exercem, em toda plenitude, o seu
reinado.
Que explicação poderíamos imaginar para esse conflito
ideológico entre uma visão digamos eclesiástica e outra
gnóstica? De minha parte, ofereço a sugestão de que os
textos primitivos ainda irretocados refletiam a concepção
gnóstica do reino como estado de pureza e sabedoria, como
se pode inferir do que se lê no Evangelho de Tomé,
realização individual, portanto, que não obriga filiação a
nenhuma instituição específica ou a práticas ritualísticas e
sacramentais de qualquer espécie. Não era essa, contudo, a
concepção que interessava às estruturas de poder e de exclu-
sivismo que a Igreja esforçava-se por consolidar. Era com
apoio nesse esquema que a hierarquia sacerdotal se punha
como dispensadora da salvação, ligando e desligando, a seu
critério, na Terra, convicta de que estaria tudo
correspondentemente ligado ou desligado nos céus. Assim,
enquanto os teólogos da época falam em salvação, os
gnósticos preferem o conceito de libertação. Salvação exige
salvador, libertação acomoda-se melhor ao conceito de
trabalho pessoal. Não que os gnósticos deixassem de
considerar o Cristo como Salvador, porque entendiam como
eminentemente salvadora sua mensagem de libertação pelo
conhecimento ("Conhecereis a verdade e a verdade vos
libertará"), mas não aceitavam a idéia de que o sofrimento de
Jesus na cruz produzisse salvação, por resgate, de todos
quantos aderissem à Igreja, deixando-se batizar, praticando
os sacramentos e sujeitando-se à sua ritualística e à sua
dogmática.
Isso leva a admitir-se que, paradoxalmente, foi a Igreja que
se tornou herética, ao promover desvio tão radical na
essência do ensinamento de Jesus acerca do reino como
realização íntima, e não os gnósticos, que preferiram a
opção digamos ortodoxa recomendada por Jesus.
Na avaliação do drama histórico vivido pelo cristianismo
nessa encruzilhada, H. G. Wells considera com transparente
lucidez a doutrina do Reino dos Céus como "ensinamento
principal de Jesus", "uma das mais revolucionárias doutrinas"
de todos os tempo, ao mesmo tempo em que anota o
irrelevante papel que ela desempenha nos diversos credos
cristãos. Não é de admirar-se, pois, segundo o brilhante
historiador inglês, que, sem entender todas as implicações
dessa doutrina, e até assustados ante "seus tremendos
desafios", os primeiros cristãos retomaram "as velhas e
tradicionais idéias de templo e altar, de divindades ferozes
(fierce) e observâncias propiciatórias, de sacerdotes
consagrados e bênçãos mágicas". Foi realmente o que se
passou. Will Durant expõe com idêntica competência e
clareza, ainda que com menos sutileza, o seu pensamento,
ao declarar que o cristianismo primitivo em vez de
combater o paganismo, adotou-o, ao retroceder a antigas e
esgotadas práticas meramente ritualísticas.
Na versão gnóstica, o cristianismo certamente não teria
alcançado tão grande sucesso, como assinala a Dra. Pagels,
na montagem de um esquema de poder temporal tão eficaz
e duradouro, mas seria, sem dúvida, qualitativamente bem
superior à "heresia sagrada" que acabou prevalecendo e nos
foi passada por herança histórica, ao passo que o gnosticismo
é que entrou para os compêndios como uma das mais
'perigosas' heresias dos albores do cristianismo.
Mas desses aspectos só estamos sabendo com maior nitidez
agora, depois que, através da biblioteca copta de Nag
Hammadi, os supostos heréticos falam pela primeira vez em
séculos e começam a ser ouvidos e estudados.
Para resumir e encerrar este módulo, vale dizer, portanto,
que o gnosticismo propõe um esquema evolutivo individual
assentado no conhecimento. Em outras palavras: o ser
humano é o artífice de sua própria libertação espiritual.

V - O Diálogo com os 'Mortos'

Podemos, portanto, estar convictos de que o objetivo dos
gnósticos era o de ampliar continuamente o conhecimento,
caminho da libertação, em oposição ao conceito dominante
na Igreja de salvação coletiva, messiânica, com vistas a um
reino alhures no céu.
A busca, no entanto, exige metodologia previamente
assentada, com suas prioridades e áreas de interesse bem
definidas. O próprio Cristo perguntou certa vez aos que o
ouviam o que buscavam, para advertir, por certo, de que a
busca deve ter objeto específico e pressupõe escolhas
adequadas.
No entender dos gnósticos, o objetivo final era a reunião
com Deus, uma volta às origens, um retorno à remota
condição primária de paz e harmonia, em dimensão onde,
no poético dizer do Evangelho de Tomé, "a luz nasce de si
mesma", ou seja, é incriada. Dali partira o ser humano,
portador da fagulha divina, mas, de certa forma, separando-
se de Deus, ao passo que antes era um com ele. Uma vez
dividido e aprisionado na matéria, todo o seu esforço deveria
concentrar-se em recuperar o estado primitivo de felicidade.
Para isso, muito mais importante do que conhecer o mundo
era conhecer a si mesmo, dado que é por aí que se aprende a
conhecer Deus.
A realidade espiritual constituía, assim, aspecto relevante no
modelo mesmo da busca. É o que ressalta da leitura dos
textos de Nag Hammadi. Os diálogos ali documentados
desenvolvem-se basicamente com o Cristo póstumo, não
ressurreto na posse de seu cadáver reanimado pelo milagre,
mas o Cristo sobrevivente, na condição espiritual,
movimentando-se num corpo sutil estruturado em luz
própria, na viva demonstração do que sempre ensinara
enquanto acoplado ao corpo físico. A realidade póstuma é,
portanto, mediúnica, um intercâmbio entre 'vivos' e
'mortos', uma continuidade.
Como vimos, há pouco, Pedro parece ter sido dos primeiros
e mais ativos médiuns (profetas) daqueles tempos iniciais, de
vez que mesmo os canônicos se referem aos seus raptos de
espírito, ou transes. Havia outros, porém. No Apócrifo de
Tiago, ele interpela Jesus, já em sua condição espiritual,
sobre como proceder ante as inúmeras solicitações que
recebiam para que 'profetizassem', ou seja, recebessem os
espíritos a fim de que pudessem os consulentes conversar
com eles. "São muitos" - diz Tiago - "os que nos pedem e
nos procuram com a intenção de ouvir um oráculo".
Jesus responde de maneira enigmática, ao perguntar-lhes se
eles não sabem que "a cabeça da profecia (mediunidade) foi
cortada com João". Tiago não entende o significado da
resposta e, mais uma vez, Jesus lembra que antes falava em
parábolas e eles não o entendiam e que agora, mesmo
falando abertamente, eles ainda não o entendem.
Imagino que a alusão seja a João Batista que, por causa das
suas faculdades mediúnicas (proféticas), teve a cabeça
decepada, mas a correta interpretação é irrelevante neste
ponto; o que importa é a evidência textual de que se
disseminara a prática mediúnica no cristianismo primitivo,
como, aliás, está abundantemente documentado também
nos textos canônicos, especialmente em Atos dos Apóstolos
e nas epístolas de Paulo. Tão difundida, que os médiuns
atuantes eram assediados, como ainda hoje, por aqueles que
desejavam conversar com os seus mortos.
No Tratado Tripartite, encontramos referência ao espírito
manifestado que movimenta seu instrumento humano,
usando-o "como mão e boca, como se a face lhe
pertencesse".
Mais adiante, no mesmo documento, nova referência,
lembrando que "os profetas (....) não disseram nada por sua
própria conta", mas do que viam e ouviam. Sugere-se até,
nesta passagem, que algumas vezes Jesus, ainda na condição
espiritual, antes de nascer, tenha falado "pela boca deles,
dizendo que o Salvador viria".
No Apocalipse de Pedro é também explícita a conotação
mediúnica, de vez que, concluída a dissertação, o
documento encerra-se com esta frase: "Assim que ele (Jesus)
disse estas coisas, ele (Pedro) voltou a si".
Na Carta de Pedro a Felipe, como vimos há pouco, a fala de
Pedro aos seus ouvintes converte-se, de repente, em
manifestação mediúnica de "um espírito santo" que fala de
Jesus com respeito, tratando-o como "aquele que nos
ilumina".
No livro A Interpretação do Conhecimento, recomenda-se
àquele que disponha de faculdades mediúnicas que a partilhe
sem hesitação com seus companheiros, ou seja, exerça-a em
proveito da coletividade. Pouco adiante recomenda o texto
que não se perturbe o medianeiro a perguntar-se "por que
ele (o espírito) fala e não eu?"
O comentário textual, revela, neste passo, sutil
conhecimento do mecanismo da mediunidade, a explicar
por que razão o 'profeta' não deve melindrar-se com o fato
de alguém falar por seu intermédio, pois "o que ele diz é
(também) seu, e aquele que discerne o Verbo e aquele que
fala são o mesmo poder". Se pesquisarmos Paulo, nas suas
instruções aos coríntios, ficaremos sabendo que "o poder do
espírito é o mesmo" (I Cor. 12,4-6). Se recorrermos aos
ensinamentos de O Livro dos Médiuns5, de Allan Kardec,
colhemos a informação de que a entidade utiliza-se, na
manifestação falada ou escrita, dos recursos que encontra no
próprio médium; logo, o que diz é também do médium,
como assegura o texto gnóstico.
No Evangelho de Maria (Madalena, naturalmente), talvez
estejam as mais claras, como também as mais controvertidas
manifestações mediúnicas. É uma lástima que esse
documento esteja tão seriamente mutilado por lhe faltarem
as preciosas e últimas quatro páginas, como também algumas
iniciais.
Convém lembrar que, tanto quanto a de Pedro, a
mediunidade de Madalena encontra-se bem documentada
nos textos canónicos. Em primeiro lugar, porque sua carreira
apostolar (e ela foi, de fato e de direito, apóstolo) começa
com a chamada "expulsão dos demônios" (leia-se espíritos
desarmonizados) que a perseguiam tenazmente, acoplados
ao seu psiquismo, na condição de possessores, o que, por si
só, seria suficiente para comprovar nela a existência de
faculdades mediúnicas. É de supor-se que ela tenha
conservado tais faculdades e as tenha exercido regularmente
durante todo o tempo em que permaneceu no grupo. Pouco
se sabe a respeito, dado que, como mulher - e ainda
falaremos disso - eram escassas suas chances de participar
ativamente dos trabalhos.
A Dra. Pagels entende que Madalena foi "favorecida com
visões e introvisões que, de muito, ultrapassam as de Pedro".
Mesmo assim, no Evangelho de Tomé Pedro, propõe aos
companheiros a exclusão de Madalena do grupo, de vez que
"as mulheres não são dignas da vida".
Não há como ignorar, porém, o fato de que foi a ela que
primeiro o Cristo sobrevivente manifestou-se na madrugada
de domingo, no jardim de Nicodemos. Há indicações de que
esse episódio teria até provocado certas ciumeiras entre os
homens. O diálogo com o Cristo 'ressuscitado' nos
canônicos ficou reduzido a uma breve troca de palavras
circunstanciais, mas não escapa ao observador atento, como
se lê em João (20,18), que "Maria Madalena foi anunciar aos
discípulos: '- Vi o Senhor', e as coisas que ele lhe disse".
Ao que tudo indica, o relato de tais 'coisas' de que Jesus
falou a Madalena e que foram provavelmente amputadas no
texto de João, sobreviveram no Evangelho de Maria.
Realmente, segundo este livro, Maria faz longa exposição
oral aos apóstolos sobre o que teria ouvido do Mestre, mas a
acolhida é fria, para dizer o mínimo, no silêncio que se fez
quando ela se calou.
André teria tomado a palavra para dizer que cada um
pensasse o que quisesse sobre o que acabavam de ouvir.
Quanto a ele, contudo, não acreditava que o Salvador tivesse
dito aquelas coisas, de vez que eram estranhas as idéias
expostas. Pedro, segundo o texto, manifestou-se no mesmo
sentido e acrescentou:

Será que ele falou, de fato, em particular a uma mulher e não
abertamente conosco? Será que temos de nos virar todos
para ouvi-la? Será que ele a preferiu a nós?
Maria de Magdala respondeu mais com suas lágrimas do que
com argumentos. Os argumentos podiam ser contestados,
mas as lágrimas eram testemunho vivo de convincente
autenticidade. É evidente que estava magoada, mas
manteve-se digna, ao dirigir-se a Pedro, para dizer-lhe:

Meu irmão Pedro, o que você acha? Você pensa que
inventei isso em meu coração, ou que estou mentindo
acerca do Salvador?

Toda a cena e as palavras nos transmitem pungente
impressão de realismo. Criou-se um clima de
constrangimento que Levi (Mateus) resolveu com notável
habilidade na sua fala dirigida a Pedro.

Pedro, você sempre foi um cabeça quente. Vejo-o agora
atacando a mulher como os adversários. Se, porém, o
Salvador a achou digna, quem é, na verdade, você para
rejeitá-la? Seguramente, o Salvador a conhece muito bem.
Por isso é que ele a amava mais do que a nós.

Prosseguiu, expondo sua opinião de que deveriam todos
envergonhar-se e saírem a pregar o evangelho, "sem
estabelecer qualquer outra regra ou lei" além das que Jesus
recomendara e que, falando mediunicamente a Madalena,
reiterara.
A cena preservada no documento copta dá conta de um
momento de rara importância no movimento nascente. Ao
que se depreende, já se cuidava de implantar normas de
procedimento que, se não contrariavam recomendações que
Jesus deixara com os seu discípulos, acarretavam desvios que
parece não terem agradado ao Mestre já na sua condição
póstuma.
O texto é também revelador ao mostrar o relacionamento
franco entre os membros da diminuta comunidade cristã e
até a rudeza de expressas opiniões, mas também a
predisposição ao entendimento harmonioso em torno do
bem coletivo e da propagação da mensagem do Cristo. Nisso
estavam todos de acordo, até mesmo na superação de muito
humanas demonstrações de ciúmes na disputa pela
preferência do Mestre.
Aliás, o Evangelho de Felipe, ao mencionar as pessoas que
"sempre caminhavam com o Senhor", cita Maria, mãe dele,
a irmã dela e Madalena "que era chamada sua companheira".
Mais adiante, reitera-se a informação de que Madalena era a
companheira de Jesus e que ele "a amava mais do que a
todos os discípulos e costumava beijá-la na boca com
freqüência". Por isso, os discípulos chegaram a sentir-se
'ofendidos' e a manifestar-lhe sua desaprovação,
interpelando-o. A resposta, apesar de um tanto enigmática,
parece indicar que os discípulos testemunham o óbvio, mas
não percebem implicações mais profundas. "Quando um
cego e um vidente estão juntos na escuridão" - diz o Cristo -
"não são diferentes um do outro. Quando a luz se faz,
porém, o que enxerga verá a luz e o cego continuará na
escuridão." Prossegue o Mestre ensinando que a
superioridade do ser humano não é obvia aos olhos, mas
oculta.
A cena pode até ter um núcleo genuíno, mas o documento
como um todo apresenta incongruências e anacronismos
que, no meu entender, denunciam elaboração ou
manipulação posteriores. Não há como justificar o termo
'cristão' ou a expressão 'Espírito Santo' na fala de Jesus, a
propósito da suposta interpelação dos discípulos. Apalavra
cristão teria sido cunhada por Lucas, em Antioquia mais
tarde, somente depois da partida de Jesus, e a expressão
Espírito Santo é ainda posterior.
O que fica do episódio, no meu entender, é o fato de que a
presença de Madalena junto ao Cristo suscitava
demonstrações de ciúme, não só por causa das restrições
que a época e os costumes impunham à mulher, mas porque
os discípulos mais próximos a haviam precedido junto ao
Mestre.
Por outro lado, os textos sempre mostram Jesus disposto a
justificar ou explicar sua preferência por ela, e até mesmo
contribui com medidas que colocassem Madalena no nível
que ele entendia adequado a ela. À observação inamistosa de
Pedro que há pouco citamos, ele se declara decidido a
prepará-la pessoalmente, "a fim de fazê-la homem, para que
ela também se torne um espírito vivo, como vocês".
(Examinaremos, mais de perto, em outro ponto deste livro, a
dicotomia homem/mulher, aspecto relevante na doutrina
gnóstica.)
O que importa, contudo, no relato que acabamos de
reproduzir, é a evidência bem mais convincente, mesmo
porque convergente com outras passagens canónicas e
apócrifas, de que a prática mediúnica generalizara-se no
cristianismo primitivo em intenso intercâmbio com os
'mortos'. Vinham dos seres espirituais, por via mediúnica,
instruções, recomendações, correções e estímulo aos que
ficavam por mais algum tempo aprisionados em corpos
físicos.
Não apenas isso, porém. Esse intercâmbio assume as
proporções de significativo marco naquele momento
histórico. Acho que a Dra. Pagels tem toda razão em
suspeitar de uma disputa pelo poder no contexto em que
atuaram os gnósticos, no seu relacionamento com os demais
cristãos. A Igreja nascente encontrava-se numa
encruzilhada, ante opções que a Dra. Pagels situa como
quantitativas ou qualitativas. Mais que isso, a hierarquia
sacerdotal somente poderia abrir espaço próprio para as
manipulações quantitativas que tinha em mente (leia-se
poder temporal) à custa da eliminação dos chamados
profetas (médiuns).
Como percebe o leitor atento dos canónicos, os médiuns
gozavam de indiscutível precedência sobre todos os demais
membros da comunidade, à única exceção dos apóstolos,
como estabelece a Primeira Carta aos Coríntios (12,28).
Onde quer que chegassem, os médiuns eram recebidos com
vivas demonstrações de respeito. Afinal de contas, era pela
boca deles que falavam os espíritos, quando não o próprio
Cristo. Na presença deles, cessava o exercício de qualquer
outra autoridade, exceto a dos apóstolos, se houvesse algum
naquele momento na comunidade. As normas vigentes
determinavam reservar-lhes as primícias das colheitas. Ora,
a nascente casta sacerdotal não podia ver com bons olhos
esse tratamento de exceção aos médiuns residentes ou
itinerantes.
Não é de admirar-se, pois, que, caracterizada a evidente
preferência dos gnósticos pelas práticas mediúnicas, que os
punham em diálogo constante com os espíritos, entrassem
eles em colisão direta com a tendência oposta da hierarquia
sacerdotal que lutava por acabar com essa prática, a fim de
extinguir os privilégios considerados exorbitantes atribuídos
aos médiuns. Voluntaria ou involuntariamente, estes
impunham aos primeiros sacerdotes e aos bispos, a
humilhação de um posto subalterno, numa época em que,
sem mais apósiulos vivos, eles podiam perfeitamente
consolidar-se no primeiro.
Na breve introdução escrita para A Interpretação do
Conhecimento, a Dra. Pagels informa que o autor, mestre
gnóstico, "dirige-se a uma comunidade dividida por ciúme e
ódio sobre o problema das faculdades espirituais"
(mediunidade).
Seja como for, entre silenciar seus médiuns para não
contrariar a casta sacerdotal e prosseguir com a busca do
conhecimento, no intercâmbio com os espíritos, os
gnósticos não hesitarão na opção. Caracterizava-se, com
isto, o conflito e, por via de conseqüência, o
posicionamento deles como heréticos, à medida em que
mais e mais divergiam os dois grupos, tanto nas práticas,
quanto ideologicamente.
Prescrutando, assim à distância, no tempo, depois de
examinados os papiros de Nag Hammadi, creio legítimo
concluir que o espaço das divergências ampliou-se mais
porque a Igreja, e não os gnósticos, afastou-se, rumo às
inovações teológicas e estruturais que desejava, para criar e
consolidar um núcleo de poder político. Os gnósticos
ficaram praticamente onde, como e com o que estavam: a
busca do conhecimento libertador, as práticas mediúnicas,
as prioridades espirituais qualitativas, em oposição ao poder
terreno, que precisa da quantidade e prometia a salvação
pela adesão ao sistema, sem o esforço do auto-
aperfeiçoamento.

VI - Conhecimento e Amor

Um estudo como este sobre o gnosticismo dificilmente
poderia escapar às constantes referências à linha mestra do
pensamento gnóstico que é a busca do conhecimento. É o
que temos feito. Mas isso é ainda insuficiente porque
estamos tentando expor o que entendemos por co-
nhecimento no contexto gnóstico e não propriamente o que
eles entendiam e o que buscavam. Em outras palavras,
precisamos aceitar o conselho do eminente Prof. Puech e
procurar ler os textos coptas com olhos gnósticos. Esse é o
nosso próximo objetivo.
De início, talvez seja necessário entender que a busca do
conhecimento é mais uma recuperação ou recordação do
que aprendizado puro e simples. É o que se depreende de
observações contidas em O Evangelho da Verdade, que, no
dizer de George W. MacRae, autor da Introdução, "discute,
sob forma de meditação, a pessoa e o trabalho do Cristo".
Enquanto junto ao Pai, um com ele, de tudo sabíamos e,
portanto, o esquecimento (oblívio) não se instalara ainda em
nós. "Uma vez que o esquecimento surgiu porque o Pai não
era conhecido, então, se o Pai tornar-se conhecido, o
esquecimento deixará de existir a partir daquele momento."
O conhecimento é sempre entendido como algo imanente,
não se perdeu, apenas cobriu-se com o véu do
esquecimento quando o ser humano deixou de ser um com
Deus para mergulhar na matéria. Por isso, ensina o autor
gnóstico que, se alguém adquire conhecimento, recebe o
que já é seu e apenas o atrai a si mesmo, ou seja, torna-se
consciente do que inconscientemente conhecia. O
ignorante, a seu turno, é considerado necessitado, pois, "o
que lhe falta é muito, uma vez que lhe falta aquilo que o fará
perfeito."
Encontramos aqui, portanto, o conceito de que não basta o
conhecimento por si só, latente ou consciente, mas que o
saber seja instrumento da perfeição, como exemplificou o
Cristo em quem "a luz falou pela sua boca, e sua voz fez
nascer a vida". "Ele se tornou o caminho para os que
estavam perdidos, o conhecimento para os ignorantes, a
descoberta para os que buscavam, o apoio para os que
vacilavam, a pureza imaculada para os que estavam
corrompidos."
É, pois, um conhecimento ativo, dinâmico, caridoso,
amoroso, consciente de sua responsabilidade ética e
fraterna. Por isso, o autor recomenda ao que alcançou o
nível adequado de conhecimento que "fale da verdade
àqueles que a procuram, e do conhecimento aos que, em
erro, cometeram pecado", tanto quanto ajuda "o que
tropeçou a firmar o pé, estenda a mão ao enfermo, alimente
o faminto, proporcione repouso ao que está cansado, levante
aqueles que queiram levantar-se e desperte aqueles que
dormem."
O mergulho na matéria é considerado uma degradação,
equivalente ao mito da queda, um período de esquecimento
e ignorância, em que o ser fica a dormitar como que
embriagado, esquecido de suas origens e desinteressado de
sua destinação, envolvido pelas mordomias que o mundo
proporciona como ridícula compensação pelo que se
perdeu. O mundo da matéria é algo como um mal
(infelizmente) necessário para aquele que se separou de
Deus. Tantos inconvenientes são atribuídos à matéria em
geral e, em particular, à do corpo físico das pessoas, que
estas só poderiam ter sido criadas por seres malignos ou, no
mínimo, imperfeitos, jamais por Deus. Esse mesmo conceito
de uma divindade suprema em todas as suas perfeições e
outra ou outras menores que teriam criado o mundo físico
ressurgiria entre os cátaros na Europa medieval.
Os textos gnósticos, contudo, exigem leitura concentrada e
atenta aos detalhes e às sutilezas. No trecho há pouco citado,
observamos o autor a recomendar toda espécie de ajuda ao
próximo, mas, quanto a estender a mão aos que caíram,
somente àqueles que "queiram levantar-se". O ensinamento
é de irretocável coerência, de vez que não apenas o trabalho
do aprendizado é tarefa individual e intransferível, como
pressupõe propósito consciente, vontade bem definida, pois
mesmo a ajuda só se torna possível àquele que deseja ser
ajudado e não apenas ao que precisa ser levantado.
O tema do conhecimento é retomado em O Evangelho de
Felipe, que, no dizer de seu introdutor, Wesley W.
Isenberg, constitui "importante contribuição ao nosso
escasso conhecimento da teologia e da prática sacramental
gnóstica".
Deparamos neste documento com ensinamentos profundos,
em linguagem elegante e até poética, às vezes. O patamar da
perfeição produz uma vestimenta de luz perfeita e qualifica a
pessoa para admissão ao reinado de Deus. O ideal, no
entender do autor, está em que o indivíduo se torne perfeito
"antes de deixar o mundo", ou seja, enquanto ainda
envolvido pelo denso manto da matéria bruta, ou não terá
como partilhar do convívio com os perfeitos que o
antecederam, mas ficará retido, como imperfeito, em
dimensão intermediária. Também nesta terminologia
encontramos antecipações cátaras, de vez que os pregadores
cátaros eram chamados parfaits, os perfeitos.
O documento atribuído a Felipe prossegue, explicando, mais
adiante ser "um homem livre aquele que adquiriu o
conhecimento" (Conhecereis a verdade e a verdade vos
libertará, lemos em João). O homem livre não peca, pois "o
que peca é escravo do pecado". E acrescenta: "A verdade é a
mãe; o conhecimento é o pai", como que a induzir a noção
de que o conhecimento é que fecunda a verdade. Atenção,
porém. "O conhecimento da verdade" - ensina o autor -
"apenas faz tais pessoas arrogantes..." e "até lhes proporciona
alguma superioridade sobre todo o mundo", mas só "o amor
constrói".
O trecho que se segue é poesia pura e se poderia botar-lhe o
título de o elogio do amor:

Na verdade, aquele que se torna realmente livre através do
conhecimento é escravo por causa do amor por aqueles que
ainda não tiveram condições de alcançar a liberdade do
conhecimento. O conhecimento os torna capazes de se
tornarem livres. O amor nunca diz que algo lhe pertence;
ainda que realmente possua aquela própria coisa. Ele nunca
diz "isto é meu", ou "aquilo é meu", mas "tudo isto é vosso".
O amor espiritual é vinho e fragrância.

Mas o conhecimento desdobra-se em outras tarefas, ainda
que todas convergentes no sentido da perfeição e, por
conseguinte, da libertação. "... que cada um de nós" -
aconselha o autor, "faça uma escavação em busca da raiz do
mal dentro de si e a extirpe do coração pela raiz". E adverte:

Ela será extirpada se a reconhecermos. Mas se a ignorarmos,
ela se enraíza em nós e produz seus frutos em nosso
coração. Ela nos domina. Somos seus escravos. Ela nos toma
como cativos para obrigar-nos a fazer o que não queremos e
não desejamos fazer'.

E prossegue:

Ela é poderosa porque não a reconhecemos. Enquanto
existir, será ativa. A ignorância é a mãe de todos os erros.

Para ressaltar, ainda uma vez, a importância do
conhecimento, o autor do Evangelho de Felipe explica que
assim como quatro elementos são necessários à agricultura -
água, terra, vento e luz - quatro são também necessários à
agricultura divina: fé, esperança, amor e conhecimento.
Nas palavras finais, mais uma observação no sentido de
que...

Aquele que recebeu a luz, não poderá ser visto, nem detido.
E ninguém terá condições de atormentar a uma pessoa
como essa, mesmo enquanto ainda habita o mundo.

O texto evidencia, portanto, conhecimento profundo da
realidade espiritual não apenas na identificação do mal em
nós e da necessidade de sua extirpação, mas do poder que
ele exerce sobre nós quando o ignoramos. Além de tudo, o
exato entendimento de que o conhecimento acoplado ao
amor produz a magia da liberdade pela perfeição. O ser
assim redimido promove-se ao patamar dos espirituais,
libera-se também da matéria que não mais pode detê-lo nas
imperfeições do mundo, coloca-se a salvo das perseguições
até mesmo enquanto ainda encarnado, pois a lei ampara e
protege aquele que resgatou seus compromissos cármicos.
Quem poderá submeter a obsessões e possessões uma pessoa
que alcançou os primeiros patamares da perfeição?
Em O Livro de Tomé, o Contendor, encontramos novas
referências à importância do conhecimento no diálogo entre
o Cristo ressuscitado e seu irmão Judas Tomé e que teria sido
anotado por alguém que se identifica como Matias. John D.
Turner, autor das notas introdutórias, pergunta-se se esse
Matias poderia ser o apóstolo e evangelista Mateus, mas é
evidente que não dispõe de elementos para decidir.
"Aquele que não conhece a si mesmo - ensina Jesus
póstumo a Judas - nada conhece, mas aquele que se conhece
já adquiriu, ao mesmo tempo, conhecimento sobre a
profundidade do Todo."
O que reitera o ensinamento gnóstico de que o caminho
para conhecer a realidade divina começa pelo
autoconhecimento, dado que em cada um de nós está posta
a centelha que nos mantém imantados ao Pai, ainda que
temporariamente divididos ou separados dele pela igno-
rância e pelo esquecimento.
Em O Ensinamento Autorizado, trata o autor não
identificado, do tema recorrente de que a alma tem origem
divina e está em conflito com os percalços da matéria, da
qual somente se livra pelo conhecimento.
No entender do autor, a alma se deixou seduzir e aprisionar
pelos prazeres que a matéria proporciona. "O corpo (físico)"
- ensina o autor - "surgiu do gozo e o gozo veio da
substância material. Por isso, a alma tornou-se irmã deles",
ou seja, desceu ao nível do gozo e da matéria, abastardando-
se.
Reitera-se aqui, portanto, a doutrina gnóstica da rejeição à
matéria, sempre encarada como prisão grosseira da centelha
divina contida na alma. Tendo deixado o conhecimento
atrás de si - lamenta o autor gnóstico -, ela (a alma) recaiu na
bestialidade."
E mais adiante:
"Nossa alma está de fato enferma porque habita uma casa de
pobreza, enquanto a matéria aplica-lhe golpes nos olhos,
desejando cegá-la."
São inúmeras as que sucumbem a essas pressões e passam a
dormitar na matéria, prisioneiras, ignorantes, cegas,
esquecidas de si mesmas, acomodadas aos gozos da carne e
empenhadas na disputa do poder, como se diz alhures, no
Tratado Tripartite, em mais de uma passagem.
Em contraste com o conhecimento, a ignorância é
comparada, ainda no Tratado Tripartite10, às "trevas
exteriores", ao "caos", ao "hades" e ao "abismo", estado
semelhante ao da morte, de vez que "aquilo que está morto
é ignorância". Esse texto, segundo Harold W. Attridge e
Elaine Pagels, autores da introdução, constitui "notável fonte
nova para compreensão de como um mestre gnóstico
interpreta os mais relevantes temas da teologia cristã".
O mestre não identificado ensina que "a completa
ignorância da Totalidade" equivale à morte.
"A liberdade" - lê-se no mesmo Tratado - "é o
conhecimento da verdade que existia antes que a ignorância
surgisse (....) tanto quanto a 'redenção' é a libertação do
cativeiro e a aceitação da liberdade".
Aceitação da liberdade! Estranha e fascinante expressão, que
leva à descoberta sutilíssima de que a liberdade já existia e se
oferecia, só faltava ser aceita, dado que tem de ser alcançada
por um trabalho consciente, responsável, persistente, que
precisa ser aceito e empreendido como pré-condição à
própria libertação.
Em Hipostase dos Arcontes, onde se apresenta, segundo
Roger A. Bullard, "uma interpretação esotérica de Gênesis",
lê-se que os criadores de Adão combinaram submetê-lo a
um profundo sono (esquecimento), o que foi feito. Em
seguida, o texto explica que o sono profundo ao qual Adão
foi induzido chama-se ignorância.
Em Os Ensinamentos de Silvanus, considerado pelos
eruditos o único documento não-gnóstico da biblioteca de
Nag Hammadi, o autor escreve um apelo à alma, exortando-
a à persistência e à sobriedade a fim de "sacudir-se da sua
embriaguez, obra da ignorância".
Como vemos, a ignorância é esquecimento, embriaguez,
morte, prisão, sonolência, acomodação aos artifícios da
matéria, ao passo que o conhecimento é libertação e vida, é
pureza e perfeição, é retorno a Deus, é redenção, não no
sentido messiânico, mas trabalho pessoal de cada um na sua
intimidade, escavando as raízes do mal e extirpando-as para
que brilhe a luz imanente no ser, que vem da luz e a ela
retorna.

VII - Dicotomias Conflitantes

Na longa série de palestras no College de France, entre 1960
e 1972, sobre o Evangelho de Tomé, o Prof. Henri Charles
Puech lembra, de início, o tema recorrente e dicotômico
nos escritos gnósticos de unidade/dualismo, corpo/alma,
matéria/espírito, como aspectos fundamentais da doutrina
gnóstica, que se concentra em induzir a criatura a
empreender "um retorno, pela redução, de toda dualidade à
unidade" - primitiva tanto quanto essencial - "de nosso ser
pessoal".
O gnóstico mantém viva essa consciência de seu estado
transitório de separação, uma espécie de saudade da unidade,
de nostalgia de suas origens, quando éramos todos um com
Deus. A separação marca o drama - talvez a tragédia - da
queda nas armadilhas da matéria, na qual o princípio
inteligente ficará aprisionado por um tempo que não tem
como determinar, mas que ele deve esforçar-se por abreviar,
em busca de uma espécie de paraíso perdido onde ele vivia,
no dizer de Puech, "a paz, a plenitude, a unidade".
Daí toda a atenção consciente e responsável para aspectos da
realidade que se opõem por insanável incompatibilidade,
como corpo físico e espírito, ou, mais amplamente, matéria
e espírito, que ia ao paradoxal extremo de 'contaminar'
aspectos vitais aos próprios mecanismos da vida terrena.
Como que responsabilizados pela prisão da centelha divina
nas malhas da matéria, repudiava-se a carne e, por via de
conseqüência, a sexualidade, os vínculos de parentesco e até
mesmo a maternidade e a feminilidade em geral. Conceitos
esses, aliás, que reemergiram cerca de um milênio depois
entre os cátaros, ainda que algo atenuados. Até mesmo as
enigmáticas expressões Filho do Homem e Filho de Mulher
têm aí as suas raízes, como ainda veremos.
Preso a essas contingências limitadoras, no mundo
considerado cruamente como 'cadáver', o espírito recai em
estado de torpor para o qual várias metáforas expressivas
foram cunhadas, como cegueira, vazio, embriaguez, morte,
esquecimento, alienação, ignorância, mas que no fundo
caracterizam a mesma e incômoda realidade da separação do
todo, o estado crepuscular de inconsciência que a criatura
precisa trabalhar para superar, a fim de ir ao reencontro da
unidade, o que somente se consegue através da recuperação
do conhecimento (gnose) perdido.
Ao comentar a postura gnóstica em relação à matéria,
Gillabert2 lembra a observação de Jesus, segundo a qual era
necessário "estar no mundo sem ser do mundo". A
transitoriedade do estar em oposição à permanência do ser
pode ser expressa com os recursos da língua portuguesa,
uma das poucas línguas que faz essa distinção sem
contorsionismos semânticos. O mundo se punha como
contexto 'morto', do qual se tornava imperioso libertar-se
tão cedo quanto possível pelo conhecimento.
Não obstante a severa rejeição da matéria em geral e da
carne em particular, encontramos no Evangelho de Felipe
uma sábia advertência nos seguintes termos: "Não tema a
carne nem a ame. Se você a temer, ela o dominará. Se você
a amar, ela o engolirá e o paralisará."
A carne seria, portanto, uma espécie de mal necessário com
o qual terá a criatura de aprender a conviver, nem se
permitindo dominar pelo temor, nem se deixando tragar
pela paixão cega, o que a reduz a um instrumento de
trabalho, dado que para as suas experimentações com a
verdade, na busca do conhecimento, o ser não dispõe de
outro caminho senão o que passa pela matéria.
O Livro de Tomé, o Contendor lamenta aquele que "põe
suas esperanças na carne na prisão perecível". "Até quando"
- insiste - "você permanecerá no oblívio?" E mais adiante:
"Suas esperanças estão no mundo e o seu deus é esta vida!
Vocês estão corrompendo suas almas!"
Linhas abaixo, acrescenta a advertência de que a luz (da
centelha divina que cada um traz em si) ocultou-se na
nuvem de treva ao passo que o corpo físico, identificado
como "a vestimenta que foi posta sobre nós", envolve-nos
em "esperanças inexistentes."
E continua, condenando aquele "que ama a intimidade com
a mulher" e "o poluído relacionamento com ela", lembrando
que "os poderes do corpo" resultarão em aflições.
Em O Diálogo com o Salvador Mateus declara a Jesus
póstumo manifestado que gostaria de ver 'o lugar da vida',
onde o mal não existe e sim a luz pura. O Cristo responde:
"Irmão Mateus, você não poderá vê-lo enquanto estiver
usando a carne."
Ainda nesse diálogo, o Cristo ensina que "se alguém não
entender como foi criado o corpo que usa, morrerá com
ele". Mais uma vez, portanto, o mundo físico e o corpo que
nele se integra representam ignorância e morte, ao passo
que aquele que sabe de suas origens está vivo, ainda que
mergulhado na matéria. O mesmo ensinamento é reiterado
didaticamente algumas linhas depois, quando Jesus declara
que não morre aquele que pertence à verdade, mas' o que
vem da mulher, morre'.
Quanto ao repouso - uma das imagens da salvação pelo
conhecimento - somente se alcança, no dizer do Cristo a
Mateus, quando nos desfizermos de nossas 'cargas': "Quando
você deixar para trás as coisas que não poderão segui-lo,
então você se colocará em repouso".
E novamente esse texto severo com a matéria, recomenda
ser necessário destruir "as obras da feminilidade" não porque
não haja outra maneira de nascer, mas porque "elas cessarão
de dar à luz".
Examinaremos alhures, neste estudo, a questão específica da
mulher no contexto do gnosticismo, mas torna-se imperioso
dizer aqui que, mais do que a mulher em si mesma, o que se
lamenta é que através dela o ser mergulha na prisão da
matéria bruta, que acarreta um estado de obnubilação e
ignorância, como se a mulher fosse a culpada ou a
responsável pelas conseqüências do nascimento.
Lembramos novamente que, embora atenuado, esse
conceito sobreviveu no catarismo medieval.
O desapego à matéria e aos bens materiais é explicitado em
Atos de Pedro e dos Doze Apóstolos, documento que, no
entender dos eruditos, "é consistente com a nascente
ortodoxia da Igreja do segundo século", sem "proclamar
idéias distintamente gnósticas" É certo, porém, que leitores
gnósticos encontram no texto material de seu interesse, ou
não o teriam preservado em sua biblioteca. Esta é a opinião
de Douglas M. Marrott e R. Mc L. Wilson, autores da
introdução e da tradução do documento.
Esse 'livro' não apresenta significativa variação ao que
podemos encontrar nos canónicos, ao recomendar o
desapego às coisas materiais a fim de que se possa percorrer
"a estrada que leva à cidade", que ninguém terá condições de
percorrer se não houver abandonado tudo, porque muitos
são os ladrões e animais que a infestam. Mesmo que o viajor
leve apenas pão, "os cães negros o matarão por causa do
pão". Se levar roupas custosas, os ladrões o assaltarão, se
levar água, os lobos atacarão porque têm sede. Se escapar
dos leões que disputam a carne que ele levar, os louros o
devorarão por causa dos legumes. O único jeito, portanto, é
deixar tudo para trás.
Já em Ensinamento Autorizado temos um documento
claramente gnóstico, que trata a "alma como de origem
celestial em conflito com a maldade do mundo material", no
dizer de Douglas M. Parrot8. Uma vez acoplado ao corpo
físico, o princípio espiritual "torna-se irmão da luxúria, do
ódio, da inveja" e, por isso, a alma como que se entorpece
na matéria. E acrescenta, mais adiante, que ao deixar "o
conhecimento para trás (nas suas origens) ela (a alma) recai
na bestialidade".
O quadro das armadilhas da matéria é pintado nesse papiro
em cores e formas de grande realismo, ao mencionar a
verdadeira 'espionagem' dos adversários que colocam diante
de nós e por toda parte, alimentos e "coisas que pertencem a
este mundo", a fim de tentar nossos desejos e apanhar-nos
"com os seus venenos ocultos", de modo a nos "retirar do
estado de liberdade e levar-nos à escravidão". Basta mesmo
provar um só desses alimentos tentadores para se desejar
todos os demais, até que "finalmente (...) tais coisas tornam-
se o alimento da morte", de vez que nos aprisionam na
matéria que, por sua conta, nos envolve no temido manto
do oblívio.
A técnica diabólica consiste, segundo o autor do
documento, em "injetar a dor no seu coração" de modo que
você acaba sentindo essa dor "por causa das coisas miúdas
desta vida". Em seguida, o 'demônio' induz o desejo por uma
bela túnica a fim de que você se orgulhe dela. Seguem outras
atrações, como amor ao dinheiro, orgulho, vaidade, inveja,
beleza física e outras, através das quais vai o ser
aprofundando-se na ignorância, no alheamento quanto à sua
real condição de espírito dotado de centelha divina.
Chega o tempo, contudo, em que a alma que experimentou
toda essa faixa de ilusões proporcionadas pela matéria
"compreende que as doces paixões são transitórias" e, então,
adota nova conduta e passa a sua preferência "para aqueles
alimentos que a conduzirão à vida", despindo-se das
roupagens do mundo, "vestindo-se internamente com as
verdadeiras roupagens". Então, sim, estará pondo em si
mesma 'o traje nupcial' - símbolo de sua reunião com Deus,
na imagem mística da câmara nupcial, onde dois se tornam
um só corpo - a tão deseja unidade. Essa roupagem, então, é
"posta na beleza da mente, não no orgulho da carne". O
Prof. Parrott colocou a palavra mente (mind na sua tradução
inglesa), mas convém lembrar que provavelmente um
tradutor brasileiro ou português preferisse empregar o termo
espírito.
Seja como for, o texto fala da alma que, percorrido o longo
caminho das ilusões da matéria e tendo provado de suas
delícias - as 'doces paixões' - despertou para a realidade
maior da busca que a levará de volta às suas luminosas
origens. Nesse ponto, ela "devolve o corpo àqueles que lho
deram" e estes se mostram 'envergonhados' e se lamentam
porque de nada lhes serve o corpo e eles "não encontram
outra mercadoria com a qual negociar". Realmente, para que
serve o corpo físico àquele que não está mais fascinado pelas
suas mordomias, senão como apoio para o aprendizado
enquanto a'inda na carne?
No documento intitulado O Conceito de Nosso Grande
Poder? segundo se lê na introdução de Francis E. Williams,
"o Deus do Antigo Testamento é retratado como 'o pai da
carne'". O apelo do texto é no sentido de que desperte
aquele que adormeceu na carne e se deixou embalar pelos
seus sonhos. "Acordem e retornem" - diz o autor. "Expe-
rimentem e comam o verdadeiro alimento. (....) Parem com
maus desejos e luxúrias..."
Em A Paráfrase de Shem, que, como vimos, é um
documento gnóstico não-cristão, reencontramos a insistente
observação de que "aquele que está no corpo" não terá
condições de "completar estas coisas", ou seja, reencontrar-
se com a luz:

Mas, por meio da recordação (conhecimento readquirido)
ele terá condições de apossar-se delas (as coisas
completadas) de forma que, quando sua mente separar-se do
corpo, então tais coisas poderão ser reveladas a ele."

Isso porque, como está escrito pouco adiante, "a servidão do
corpo é severa". Em Os Ensinamentos de Silvanus, o único
documento não- gnóstico de Nag Hammadi, como vimos, o
ensinamento é claro quanto à dicotomia espírito/matéria.

Por que você busca a treva se a luz está à sua disposição? Por
que você bebe a água suja se a limpa está ao seu alcance? A
sabedoria o convoca e, no entanto, você deseja a insensatez.
Não é por seu próprio desejo que você faz coisas assim, é a
natureza animal dentro de você que as faz.

Mais adiante, o documento adverte para a importância de
entender nossas origens. O corpo foi criado a partir da terra,
com substância terrena; afalma é formada sob o comando de
um pensamento divino, já a mente (e novamente me sinto
tentado a escrever espírito) resulta de um ato de criação que
surgiu "em conformidade com a imagem de Deus".
Daí o conselho: "Viva de acordo com a mente. Não pense
nas coisas pertencentes à carne. Adquira força, pois a mente
é forte."
A mente é algo que partilha, portanto, da Divindade, e, ao
mesmo tempo, da carne. A fagulha divina aloja-se na
matéria, mas continua divina, na sua origem e, portanto, na
sua essência.
Em O Testemunho da Verdade, o autor inicia seu texto
dirigindo-se "àqueles que sabem ouvir não com os ouvidos
do corpo, mas com os da mente". O autoconhecimento se
desenvolve, segundo esse documento, quando a criatura
começa a falar "com sua mente", a qual é "pai da verdade"...
Novamente o termo espírito ficaria melhor em português,
especialmente em razão do ensinamento de que é 'o pai' da
verdade. Claro, porém, que a palavra pai afigura aí no
sentido de que o espírito, no conceito gnóstico, provém do
pai.
Entre os ensinamentos que Jesus teria transmitido a
Madalena, segundo O Evangelho de Maria, encontra-se isso:

A matéria gerou uma paixão sem igual que procede de algo
contrário à natureza.

A matéria constitui, portanto, morada provisória do espírito
no seu incômodo estado de separação, quando, após ter sido
um (com Deus), fez-se dois. Toda a sua aspiração deve ser
canalizada para a recuperação do conhecimento libertador
que um dia o levará de volta à unidade em Deus. O mundo
material não passa de prisão, na qual o espírito se esquece de
suas próprias origens, transforma-se em morto-vivo, em
estado semelhante ao de embriaguez, enquanto se deixa
envolver pelos atrativos que a carne se esmera em oferecer-
lhe.

VIII - Polaridade Sexual

Já que nos encontramos na temática das dicotomias, parece
oportuno examinar mais uma delas, a da polaridade sexual
macho/fêmea, homem/mulher, sobre a qual a abundância de
referências nos textos gnósticos revela o interesse que o
problema suscitava entre eles.
A Dra. Pagels1, por exemplo, consagra ao assunto todo o
capítulo terceiro de seu livro, lembrando que, "em lugar de
descrever um Deus monístico e masculino, muitos desses
textos falam de Deus como uma díade que inclui tanto
'elementos masculinos como femininos'".
Torna-se às vezes difícil penetrar com a estrutura cultural da
mente moderna e, ainda por cima, ocidental, certos aspectos
esotéricos da mística daqueles tempos, ou de qualquer
tempo mais remoto em relação ao nosso. É certo, contudo,
que encontramos em várias fontes gnósticas, como assinala a
Dra. Pagels, a sugestão de que o Espírito constituiria o
elemento feminino da Trindade. Daí porque ao
desenvolver-se a doutrina do nascimento virginal, nos
primórdios da teologia cristã, Jesus, considerado o Filho, foi
tido como gerado em Maria pelo Espírito Santo, o que leva o
autor de O Evangelho de Felipe a ridicularizar aqueles que
estavam interpretando o texto ao pé da letra, dado que uma
mulher (o Espírito) não poderia fecundar outra (Maria).
As sutilezas e enigmas da dicotomia homem/mulher
denunciam insuspeitadas profundidades e conotações ainda
por explorar no gnosticismo, de vez que passagens em que
surgem esses aspectos oferecem inusitadas dificuldades
interpretativas. Os gnósticos certamente dispunham de
chaves adequadas para abrir essas portas secretas e de luzes
suficientes para iluminar o que hoje nos parece obscuro.
No logion 114 do Evangelho de Tomé, encontramos uma
dessas dificuldades. Evidencia-se ali decidida rejeição de
Pedro em relação a Madalena, o que, aliás, se reitera no
Evangelho de Maria, como vimos alhures. Segundo o texto,
Pedro teria proposto a exclusão de Madalena do grupo
apostólico, dado que "as mulheres não são dignas da Vida".
Aparentemente Jesus é levado a concordar com essa
posição, dado que ele se declara disposto a guiar Maria "para
fazer dela homem, a fim de que ela também se torne um
espírito vivo, semelhante a vocês, homens". Não é isso,
porém.
Mais do que a mera expressão de vulgar 'machismo', há que
supor no texto um sentido oculto transcendente, mesmo
descontando-se o critério vigente à época que mantinha a
mulher em posição subalterna, como se lê com certa
insistência em Paulo, por exemplo. Lembra, contudo, a Dra.
Pagels2' citando o Prof. Wayne Meeks, que, na Epístola aos
Gálatas (3,28), o apóstolo escreve que "em Cristo... não há
homem nem mulher". Pagels acrescenta que Paulo aprova aí
o trabalho das mulheres e "até saúda uma delas, destacada no
seu apostolado, hierarquicamente superior a ele próprio no
movimento".
Para discussão mais ampla do assunto, deve o leitor recorrer
ao livro da Dra. Pagels, que pode ser lido em português por
aqueles que não tiverem acesso ao original inglês.
Seja como for, textos como o do logion 114 não devem ser
tomados à letra ou seriam incongruentes no âmbito do
próprio gnosticismo, que pressupõe para todos, sem
exclusão da mulher, um largo ciclo que vai da queda ou
separação ao retorno à unidade. No meu entender, é preciso
separar, no debate do assunto, a condição da mulher na
sociedade antiga, que era inegavelmente secundária, do
conceito filosófico-religioso do princípio feminino no ser
humano, de vez que o problema da sexualidade em geral,
tanto quanto o da sua polarização, constituem aspectos
relevantes no pensamento gnóstico, como assinala o Prof.
Puech3, que considera a questão 'ponto capital', dado que 'a
teoria - ética e, mais ainda, metafísica - da salvação é
comandada pela atitude a tomar e a observar em face da
sexualidade'.
A observação do eminente especialista é profunda e merece
algum desdobramento preliminar antes de prosseguirmos no
exame de suas idéias a respeito. Ao distinguir ou conjugar o
aspecto ético com o metafísico da sexualidade, ele abre
algum espaço para nossas próprias meditações.
Aproveitemos a oportunidade oferecida.
A postura filosófica do gnosticismo perante a sexualidade é
de discreta reserva, para dizer o mínimo, como se o
mecanismo reprodutor da espécie fosse, de certa forma,
responsável pela detenção do espírito na prisão celular da
matéria. Aí é que a centelha divina mais se isola e se
esquece de suas origens, em estado comparável ao da
embriaguez ou da cegueira, em vez de devotar-se ao
reaprendizado da vida para alcançar o quanto antes sua
reunificação com a divindade. Nesse contexto, a mulher
parecia figurar inevitavelmente como cúmplice do esquema
limitador, ou pelo menos um dos seus principais
instrumentos.
Aliás, é precisamente o que está dito em O Diálogo com o
Salvador, no qual se atribui a Mateus uma advertência que
lhe teria sido transmitida pelo próprio Cristo, que
recomendava "orar onde não houvesse mulher". O texto
prossegue, ainda reproduzindo o pensamento do Cristo,
nestes termos:

Destrua as obras da feminilidade, não porque não haja outra
maneira de nascer, mas porque elas cessarão de parir.

Nada disso ocorria enquanto a dualidade funcionava em
equilíbrio, num único ser, segundo a doutrina gnóstica. É o
que se lê, por exemplo, no Evangelho de Felipe, ao ensinar
que:

Quando Eva estava ainda em Adão, a morte não existia.
Quando ela se separou dele, surgiu a morte. Se novamente
ele tornar-se completo e recompuser seu antigo ser, a morte
terá sido extinta.

Estejamos atentos ao fato de que é necessário atribuir ao
conceito morte sua conotação gnóstica, como mergulho na
ignorância, no esquecimento, no estado algo sonambúlico
imposto pela matéria densa; é importante, contudo, observar
que o gnosticismo entendia a dicotomia macho/fêmea ou
homem/mulher como espécie de desajuste proveniente da
queda da centelha divina na matéria. Quanto menos isso
acontecesse, melhor para o processo evolutivo da criatura.
Daí as explícitas restrições acerca das práticas sexuais,
especialmente as abusivas. Não há como deixar de perceber
certa contradição nessa maneira de colocar as coisas, dado
que a criatura precisa da vivência na carne para recuperar o
conhecimento perdido que a levaria de volta às suas origens.
Seja como for, o ideal de castidade ou mesmo de abstinência
consolidou-se no gnosticismo e parece ter coincidido com o
pensamento de Paulo, que admite o casamento como
alternativa menos indesejável para aquele que não consegue
dominar o impulso animal. É o que ele ensina, ao conceder
que é melhor "casar do que abrasar".
Fica claro, portanto, que a prática sexual é concessão ao
componente animal da criatura, um dos mais poderosos
engodos ou armadilhas da matéria à centelha divina
aprisionada, cabendo ao ser humano que aspira à perfeição,
de onde provém, desvencilhar-se de tais liames tão rápido
quanto possível. De certa forma, esse modo de ver
propagou-se às estruturas do pensamento teológico e
sobreviveu na milenar exigência do celibato sacerdotal.
Como lembra Puech, contudo, a 'dualidade sexual' projeta-
se, ainda, como relevante questão metafísica, aspecto que
ele aprecia com brilho e competência, ao analisar o logion
22 do Evangelho de Tomé, no qual Jesus recomenda que
somente estariam aptos para o Reino dos Céus aqueles que
fizessem "do masculino e do feminino uma só coisa, de sorte
que o masculino não seja masculino e que o feminino não
seja feminino".
O comentário de Puech faz até lembrar a romântica
alquimia das almas gêmeas, na plasticidade do seu didático
francês que, lamento precisar traduzir:

...eles (homem/mulher) cessarão, tanto um como o outro,
de ser o que eram um perante o outro, nas suas relações ou
nas suas oposições mútuas. Não constituirão mais do que
um, serão considerados e se considerarão como sendo
indistintamente um e outro, como formando e
representando, um com o outro ou cada um por si, uma só e
mesma coisa, uma realidade única e indiferenciada, de
natureza e tipo idênticos.

O que leva a imaginar que certa polaridade persiste na
unidade, mas em estado de equilíbrio na sua interação,
como se um fosse também o outro e vice-versa. Mais que
isso, porém, esse novo 'modo de ser', como ensina Puech,
não seria "nem feminino, nem masculino, mas uma
realidade neutra, indiferente a toda qualificação ou distinção
sexual".
Isso nos remete ao conceito de androgenia, também
referido com certa insistência nos escritos gnóstico, não
envolvido em conotação bissexual ou assexuada, mas
naquilo que Puech considera como "sublimação da
sexualidade".
A sublimação da sexualidade constitui, dessa forma, sinal
relevante da redenção espiritual e, por conseguinte, um
retorno às origens, ao ponto de partida, ao princípio. Ao
discorrer sobre a Divindade como 'o Poder bissexual', a Dra.
Pagels lembra o estado de androgenia em Adão, cujo
princípio feminino nele imanente teria sido separado para
personificação em Eva. Criado, segundo a alegoria bíblica, à
imagem e semelhança de Deus, Adão seria também
bissexual, ou melhor, em posição íntima de perfeito
equilíbrio masculino/feminino.
Encontramos, em várias oportunidades nos textos gnósticos,
a imagem mística da câmara nupcial, onde se daria a reunião
integradora, segundo a qual os dois se tornam um só. Isso
significa que alcançado o patamar evolutivo em que o ser
restabelece em si mesmo a condição que poderíamos
denominar pré-sexual, estaria reintegrado em Deus, de onde
partiu ao dividir-se, desdobrando suas polaridades.
Imagino defensável a conexão desse enfoque gnóstico com
uma enigmática passagem em Mateus (19,3-12), na qual,
questionado a propósito do divórcio (separação, portanto,
entre homem e mulher), o Cristo responde que Moisés teria
concordado com o repúdio "por causa da dureza de vossos
corações", mas que "noprincípio não era assim", ou seja, nas
suas origens, o princípio masculino teria sido inseparável do
feminino, como Deus os fez. Sintomaticamente o texto
informa que "o Criador os fez homem mulher" e não
homem e mulher. Prossegue o texto dizendo que dessa
maneira "já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não
separe o homem o que Deus uniu".
Como em outras passagens evangélicas, também esta serviu
de apoio a interesses específicos da Igreja, empenhada na
consolidação de seu poder civil, em vista da opção
quantitativa a que se refere a Dra. Pagels. Nesse caso
particular, ficou o texto como apoio à doutrina da
indissolubilidade do casamento, mas as implicações revelam-
se aqui mais profundas e amplas do que se supõe, dado que,
na continuação, os discípulos contestam a postura,
declarando que, a ser assim, então "não vale a pena casar-
se". Percebendo que não tinham os circunstantes alcançado
o sentido transcendente da sua observação, Jesus declara
precisamente isso, ou seja, que" nem todos são capazes de
compreender essa palavra, mas só aqueles a quem é
concedido". E acrescenta, ainda enigmático:

Com efeito há eunucos que nasceram assim, desde o ventre
materno. E há eunucos que foram feitos eunucos pelos
homens. E há eunucos que se fizeram eunucos por causa do
Reino dos Céus.

Mais uma vez, contudo, ele percebe que sua palavra está
acima do entendimento dos ouvintes, porque arremata:

Quem tiver capacidade para compreender, compreenda!

Parece, pois, legítimo depreender, com apoio nos postulados
gnósticos, que o termo eunuco representa, nos canônicos, a
concepção gnóstica do andrógino, ou melhor, aquele ser
que, no dizer de Puech, sublimou a sexualidade,
transcendeu-a, voltando a ser um com o Pai, como o
próprio Cristo. Se, por contingência de tarefa missionária, ou
mandato divino, um ser desse nível hierárquico precisa
retomar pela reencarnação a condição humana, ele vai
diferir dos demais desde o nascimento, ao passo que os
outros eunucos/andróginos resultam da mutilação física
provocada pelos homens ou se comportam como eunucos
impondo-se a renúncia, dominando os impulsos da
sexualidade, a fim de se prepararem para a conquista da
felicidade última.
O problema da sexualidade, contudo, não se esgota com o
mero alinhamento dessas reflexões. Interrogados sobre se os
espíritos têm sexo, os instrutores da doutrina espírita
responderam a Allan Kardec da seguinte maneira:

Não como o entendeis, porque os sexos dependem da
constituição orgânica. Há entre eles, amor e simpatia, mas
baseados na afinidade de sentimentos.

Como se observa, a sexualidade nos espíritos não é negada,
pelo contrário, é confirmada, não, porém, da maneira pela
qual a entendemos como um relacionamento meramente
carnal. A constituição orgânica, portanto, é a
instrumentação por meio da qual o espírito encarnado
expressa as energias psíquicas correspondentes, segundo a
polaridade programada para aquela existência específica. Isso
porque o espírito pode renascer, optativamente, em corpo
feminino ou em corpo masculino, segundo a programação
que pretenda desenvolver em cada uma de suas vidas e o
jogo sutil de relacionamentos que deseje ou precise
estabelecer com outras entidades que se preparam para
renascer junto dele.
A informação de que os espíritos dispõem dessa faculdade
de escolher o sexo em que vão renascer poderia ter sido
impactante e até controvertida ao ser formulada em meados
do século XIX, na França, ao Prof. Rivail (Kardec).
Decorrido um século, porém, ela conta com indiscutíveis
apoios cientificamente pesquisados e consolidados.
Nas suas inúmeras experiências regressivas, a Dra. Helen
Wambach declara em livro de 1979 não ter encontrado uma
só pessoa que se sentisse inteiramente masculina ou
feminina. A realidade observada é a do dualismo com a
eventual predominância de um ou de outro aspecto da
permanente dicotomia masculino/feminino.
Isso nos leva de volta às especulações do Prof. Puech
examinadas há pouco neste mesmo capítulo. Ao comentá-
las, mencionei o romântico arquétipo das almas gêmeas,
ponto, aliás, que tem suscitado apaixonantes debates
doutrinários no meio espírita e alhures. Propõem alguns a
distinção entre almas gêmeas e metades eternas. As
primeiras teriam apenas roteiro paralelos a percorrer, mas
preservariam sua identidade e individualidade específicas, ao
passo que as outras só se completariam de fato depois de
refundidas ou reunificadas, ao cabo de longuíssimo período
de dolorosas separações retificadoras. Na realidade, porém, a
imagem arquetípica pode representar apenas o repouso no
equilíbrio após multi-milenares experimentações com as
oscilações entre os pólos da dicotomia homem/mulher.
Alcançado esse estágio, a energia psíquica, que durante todo
esse tempo fora canalizada para a sua expressão sexual,
passaria a ser utilizada no puro âmbito do espírito, sem
qualquer conotação biológica ou envolvimento com a
matéria. Nesse caso, não deixaria de ter suas razões o
eminente Prof. Freud ao propor o termo libido para
caracterizar essa manifestação energética que, em si e por si
mesma, não tem de ser necessariamente sexual, embora
possa também sê-lo.
Seja como for, a postura dos gnósticos perante a sexualidade
em geral e a mulher em particular afigura-se um tanto
deformada na sua inusitada severidade, de vez que, durante
o longo período em que a centelha divina vive número
indeterminado de existências, em sua indispensável
experiência na carne, ela necessita da instrumentação do
corpo físico e, por conseguinte, precisa dispor de condições
biológicas para reproduzir-se, a fim de perpetuar as
oportunidades de renascimento para si mesma e para os
outros.
Isso se torna particularmente relevante quando se leva em
conta o fato de que o envolvimento com a matéria e o
estado de relativo torpor que os gnósticos denominavam
embriaguês, cegueira ou esquecimento, acaba arrastando o
indivíduo ao enredamento em erros de comportamento
que, por sua vez, irá exigir dele prolongado e difícil trabalho
de reparação e correção, somente viável no âmbito da
matéria, no qual os equívocos foram cometidos.
Os textos gnósticos mostram-se perfeitamente alertados para
esses aspectos, ao se referirem aos riscos que envolve o
mergulho na matéria, com todo o seu séquito de mordomias
que apelam para os sentidos e, por conseguinte, para o
prazer, sem contar a ânsia pelo poder, cuja satisfação não
está vinculada especificamente aos sentidos físicos, mas é
manjar saboroso para aquele que se deixa seduzir por ela.
Reconhecem, ainda, como se pode ver em inúmeras
referências, que o ser somente alcança a reintegração na
unidade divina depois de conseguir deixar para trás todo o
séquito de suas paixões. Este ponto, aliás, é lugar comum a
todas as estruturas ético-religiosas respeitáveis que têm sido
elaboradas. A plenitude da felicidade constitui prêmio e
meta àquele que se purifica, que se desfaz das sombras que o
envolvem, retoma o estado de inocência que se presume na
criança e, entre os gnósticos, aquele que recupera o
conhecimento perdido que possuía em suas remotas
origens.
A esse propósito, lembra o Prof. MacGregor que o longo
processo da purificação pelo conhecimento, como propõe a
gnose, desdobra-se em tempo "longo demais para ser
alcançado numa única existência".
Como esse também é o nosso entendimento, o mecanismo
das vidas sucessivas ou reencarnação foi trazido para o
contexto desta discussão. Voltaremos a esse aspecto, no
local próprio deste livro.

IX - Os Três Patamares da Evolução

Ainda em conexão com o problema homem/mulher, temos
de abrir algum espaço aqui para especulações paralelas,
relacionadas com as enigmáticas expressões Filho do
Homem, Filho de Mulher. Para encaminhar tais
especulações creio necessário deixar por algum tempo o
contexto específico dos gnósticos, a fim de nos valermos das
minuciosas e competentes observações de Guignebert, que,
aliás, não minimiza a complexidade da questão, ao
caracterizar a expressão Filho do Homem como "o mais
comprometido e complicado de todos os problemas
oferecidos pelo Novo Testamento". E prossegue: "A origem,
a história e o significado da expressão constituem todas,
questões da maior dificuldade".
Daí a sua advertência para o cuidado necessário no trato das
inúmeras teorias e hipóteses propostas sobre o tema por
causa da imprecisão dos documentos existentes, o que,
paradoxalmente, abre os portões à imaginação e aos palpites.
No seu entender, não se justifica nenhum outro sentido para
a expressão Filho do Homem senão a de homem,
simplesmente, a partir do hebraico ben-adam ou do
aramaico bar-nasha que, em grego, se torna anthropos. Ao
chegar a esta língua o termo converteu-se, ainda segundo
Guignebert, em "espécie de senha para um círculo de
iniciados", de vez que entre os gregos ele "era
completamente ininteligível".
Rastreando a palavra pelos textos antigos, Guignebert é de
opinião que o seu emprego no Novo Testamento, no sentido
de Messias, não está autorizado por Daniel, como
pretendem os redatores finais dos Evangelhos. Em 7,13,
Daniel declara simplesmente que teve a missão de alguém
com a aparência de homem, ou seja, uma figura humana,
que descia dos céus envolto em nuvens, não 'o Filho do
Homem'. Dessa breve passagem, extrapolou-se o emprego
da expressão como sinônimo de Messias, no Novo
Testamento.
Guignebert encontrou a expressão setenta e nove vezes nos
Evangelhos canônicos. Mesmo excluídas as duplicidades,
restam cerca de quarenta, para as quais prevaleceu a
interpretação ortodoxa segundo a qual "Filho do Homem
significaria definitivamente Messias".
Observa ainda o ilustre Prof. Guignebert que nem nas
epístolas de Paulo, nem nas demais figura a expressão, o que
equivale dizer que foram introduzidas no Novo Testamento
em algum tempo que vai de Paulo à publicação, em grego,
dos sinóticos. Isso leva a concluir-se que a expressão não
passa de "um erro piedoso dos cristãos gentios e nada tem
ver com os tempos apostólicos".
Da análise atenta dos sinóticos, já que, na sua opinião, o
Quarto Evangelho nada acrescenta de novo nesse aspecto,
Guignebert verifica que a expressão figura
predominantemente na boca de Jesus, referindo-se a si
mesmo como Filho do Homem, ou seja, Messias, o que
corresponderia a uma consciência de seu messianato, o que
está longe de ser defensável. Em algumas passagens
paralelas, o autor francês aponta exemplos em que até o
pronome pessoal eu passou de Marcos para Mateus,
reconstituído como Filho do Homem. Lê-se, por exemplo,
em Mateus 16,13: "Quem dizem os homens ser o Filho do
Homem?", ao passo que, em Marcos, a pergunta é formulada
simplesmente, em 8,27, assim: "Quem dizem os homens
que eu sou?"
Torna-se, pois, difícil de contestar a conclusão de
Guignebert no sentido de que não há apoio no Antigo
Testamento para atribuir à expressão Filho do Homem
conotação messiânica. Mais radical ainda, como vimos em
Cristianismo, A Mensagem Esquecida, é a opinião de
Raymond Brown, em The Birth of the Messiah.
Segundo Brown, a erudição contemporânea reconhece que
muito do que está narrado no Novo Testamento não foi
previsto no Antigo. E conclui, com sua habitual franqueza e
objetividade:

Os profetas do Antigo Testamento mostravam-se
prioritariamente interessados em canalizar os desafios de
Deus à sua própria época. Se falaram acerca do futuro, foi
em linhas gerais, sobre o que poderia acontecer se o desafio
fosse ou não aceito. Mesmo que tenham, às vezes, pregado
uma libertação 'messiânica' (isto é, libertação promovida por
um (ser) ungido, como representante de Deus, ou seja, rei
ou até mesmo sacerdote), não há evidência de que tenham
previsto com precisão um só detalhe da vida de Jesus de
Nazaré. (O destaque é meu)

Apenas para concluir esta breve incursão pelo estudo de
Guignebert, é oportuno mencionar uma de suas importantes
"conclusões e que assim está redigida:

Portanto, não existe uma única passagem sinótica que prove
que Jesus haja atribuído a si mesmo o título de Messias ou
permitido que as pessoas assim o designassem.

Mesmo admitindo-se que Jesus tenha ocasionalmente
empregado a expressão Filho do Homem, como Guignebert
chega até a admitir, ela não oferece qualquer conotação
messiânica. Ficamos, assim, com o antigo emprego do termo
no contexto hebraico, no qual era uma figura de sintaxe,
utilizada principalmente em sentido poético, para designar o
homem em geral ou um determinado homem em especial,
sem qualquer implicação messiânica.
No âmbito do gnosticismo, contudo, não há espaço para o
aquecido debate da questão messiânica, dado que a
libertação da centelha divina aprisionada na matéria -
correspondente à salvação proposta pela Igreja - não resulta
do resgate vicário promovido por um messias e sim do
persistente trabalho da busca, da realização pessoal,
intransferível, indelegável, segundo a qual cada um é o
artífice de sua própria redenção. Nesse contexto, portanto, o
termo Filho do Homem não possui qualquer conteúdo
messiânico. São constantes, porém, as referências, não
apenas à expressão Filho do Homem, como Filho de Mulher
ou, mais raramente, Filho de Deus. A adição do termo filho
a outras palavras não se restringe, porém, a essas expressões,
como se pode ver do índice remissivo, em Puech, no qual
encontramos, ainda, Filho do Pai, do Deus Vivo, do
Pleroma, da Vida Eterna, da Luz, do Reino e outros.
Limitaremos, contudo, nossas explorações às duas
expressões básicas, Filho do Homem, Filho da Mulher, que
são de interesse específico ao nosso estudo.
Tanto quanto nos canônicos, os documentos gnósticos não
apenas mencionam Jesus como o Filho do Homem, mas o
próprio Cristo figura nos diálogos atribuindo-se esse título. É
o que observamos, por exemplo, no Segundo Tratado do
Grande Seth.

Sou o Cristo, o Filho do Homem, um de vocês que se acha
entre vocês. Sou desprezado por causa de vocês, a fim de
que vocês próprios possam esquecer a diferença. E não se
tornem femininos para que não aconteça darem a luz ao mal
e a seus irmãos: ciúme e separação, raiva e cólera, e um
coração dividido, bem como desejo vão e inexistente. Sou,
porém, um inefável mistério para vocês.

Esse livro é considerado por Joseph A. Gibbons, na
introdução, como documento cristão e gnóstico,
simultaneamente, e adota postura "claramente polêmica" ao
proclamar-se doceta. Veremos isso alhures.
Não há dúvida, porém, de que mesmo 'contaminado' por
alguma conotação vagamente messiânica que teria provindo
da influenciação de textos canônicos, os papiros de Nag
Hammadi não empregam a expressão Filho do Homem no
sentido cristão ortodoxo para designar o Messias que, pelo
seu tormento na cruz, teria resgatado os pecados de todos os
que nele cressem.
Jesus pode até figurar com características de Salvador, mas
no sentido de que trouxe uma mensagem redentora, um
ensinamento libertador. É evidente, contudo, que o trabalho
mesmo da salvação continua individual e resultará de longo
aprendizado, uma espécie de redescoberta do sentido real da
vida e de Deus.
É evidente, portanto, que no contexto gnóstico, a expressão
Filho de Deus, nada tem de messiânica como preservado
nos textos canónicos. Isso nos leva a considerar aceitável o
comentário de Guignebert no sentido de que ela se teria
tornado apenas uma espécie de senha entre os primeiros
cristãos gregos. Desligados das tradições hebraicas, eles a
empregavam para identificar a figura do Cristo, sem cuidar
das implicações messiânicas que, para eles, não fazia sentido,
de vez que não estavam à espera de nenhum messias com
características político-religiosas, como os judeus.
Seja como for, os gnósticos consideravam necessário tornar-
se Filho do Homem para alcançar o estado de pureza e
sabedoria que caracteriza a reunificação com Deus.
O logion 106 do Evangelho de Tomé é taxativo nesse ponto,
ao ensinar: "Quando fizerem de dois, um, vocês se tornarão
filhos do Homem..." Ora, para tornar-se Filho do Homem,
há que cumprir-se uma preliminar, que, por caracterizar-se
como um truísmo evidente por si mesmo, não deixa de ser
necessário lembrá-la, isto é, a de que criatura precisa como
que 'tornar-se homem', ou seja, assumir características que
eram tidas como próprias do homem, em contraposição às
da mulher. É o que se comprova com a fala atribuída a Jesus,
no logion 114 do mesmo Evangelho de Tomé, segundo o
qual o Cristo se propõe a conduzir pessoalmente Madalena,
para fazer dela homem, a fim de que "ela também possa
tornar-se um espírito vivo como vocês homens". E reitera o
ensinamento de que "toda mulher que se fizer homem
entrará no Reino do Céu."
É evidente, portanto, que os termos homem e mulher não
estão sendo usados nesse contexto no seu sentido habitual,
mas em conexão com importante conceito inteligível para
os ouvintes contemporâneos e, posteriormente, para os
leitores, mas não muito claro para nós, hoje.
O Prof. Henri Charles Puech resolveu a contento o enigma
de tais expressões na sua competente e meticulosa
abordagem. É o que podemos concluir de seu livro. A
primeira dessas referências aparece logo no início da série
de conferências que ele pronunciou no College de France,
entre 1960 e 1972. Premido por exigiiidade de tempo, na
ocasião, lembrou apenas, en passant, algumas características
básicas da doutrina gnóstica, como o dualismo, a oposição
entre realidades incompatíveis, como o corpo ou o mundo,
de um lado, contra a alma ou espírito, de outro, bem como...

...o repúdio à carne, à sexualidade, aos laços criados pelo
nascimento e à parentela carnal; a depreciação da
maternidade e, mais genericamente, da feminilidade; a
distinção estabelecida em conseqüência dos dois estados de
ser resultantes, um da geração segundo a carne, outro a
regeneração espiritual, e que traduz o contraste de termos
como 'filho da Mulher/filho do Homem', 'mortos' e 'vivos'.

Pouco adiante ele invoca passagens paralelas, tanto nos
canónicos como no Evangelho de Tomé, segundo as quais
João Batista, o maior dos filhos de mulher, mesmo assim não
seria considerado grande entre os de patamar evolutivo mais
elevado.
Somente nos seus estudos de 1970-1971, vamos encontrar
explicitação maior de seus achados a respeito, e nos quais é
necessário nos determos por algum tempo à vista de sua
importância na decifração dos enigmas que propõem.
A rigor, teríamos de fazer aqui um circunlóquio ou
digressão, a fim de nos inteirarmos preliminarmente da
questão das 'três ordens' como a chama Gillabert, que
consiste na distribuição didática dos seres humanos em três
categorias distintas e hierarquizadas do ponto de vista
evolutivo: os hilicos ou materiais, os psíquicos, e os
pneumáticos ou espirituais. Essa questão, contudo, é por
demais relevante e não apenas no contexto do gnosticismo,
para ser deixada sem um aprofundamento maior que
procuraremos fazer mais adiante neste estudo.
Basta-nos dizer, por enquanto, que são consideradas
materiais ou carnais as pessoas que ainda não conseguem
emergir do mergulho e das severas limitações da matéria
densa; ao contrário, nisto se comprazem. Os psíquicos
estariam um passo ou dois adiante, ainda presos a certos
contingenciamentos da matéria, mas já com aspirações e
intuições espirituais. Os pneumáticos, no topo da escala, são
os seres espiritualizados, conscientes de suas origens e,
portanto, de sua destinação. Aos seres ditos carnais aplica-se
o rótulo de 'filho da Mulher', ao passo que o título 'filho do
Homem'é reservado aos espirituais. Os carnais são
considerados 'mortos', como que sepultados na matéria,
adormecidos no torpor que ela impõe, isolando-os da
realidade espiritual. Já os espirituais são tidos como vivos,
despertos, conscientes.
Caracteristicamente o Evangelho de Tomé abre com uma
brevíssima introdução, na qual se anuncia os "ditos secretos
de Jesus vivo", o que o identifica como ser espiritual, ou
pneumático.
Os carnais estão ainda aprisionados nas malhas da
sexualidade e, portanto, em "estado feminino de fraqueza e
de passividade, de servidão à carne", ao passo que os
espirituais já conseguiram "superar a dualidade sexual e,
praticamente toda a espécie de dualidade, atingindo a
unidade, a condição genérica de homem", representante-
padrão da espécie, no seu sentido espiritual, que Puech
chega a considerar 'mítico'.
Retomando a temática na sua conferência seguinte, período
1971-1972, Puech lembra a necessidade de distinguir com
clareza entre a expressão "tornar-se filho do Homem" e a
expressão "ser filho do Homem" e que até as expressões em
si mesmas devem ser explicitadas em "relação a outra: filho
de Mulher".
Assim, ao referir-se a si mesmo como Filho do Homem,
Jesus estaria se revelando implicitamente consciente não da
sua condição de Messias, mas de um ser que alcançara
elevado estágio evolutivo, superando sua própria dualidade e
atingindo a unidade em si mesmo e com Deus, como, aliás,
proclama, inclusive nos canônicos. Por isso, Puech entende
que, ao assim dizer, o Cristo punha-se, em relação aos
demais seres pneumáticos, como 'irmão', mas 'irmão mais
velho'. O que, aliás, é coerente com o pensamento de Paulo,
que prega a preexistência de Jesus, que teria recebido do Pai
a incumbência transcendental de conduzir a comunidade
humana abrigada na Terra às culminâncias da felicidade
última. Ao que tudo indica, vem dessa noção básica a idéia
posterior, segundo a qual, de irmão mais velho e, portanto,
filho mais velho, Jesus seria o filho de Deus por excelência,
integrando a Trindade e, portanto, Deus também.
Por outro lado, como advertem os estudiosos da
documentação de Nag Hammadi, os gnósticos consideravam
o espírito e, por extensão ou 'contaminação', o Espírito
Santo, como entidade feminina, tanto que o termo é do
gênero feminino em semítico. Não é difícil, portanto,
rastrear os caminhos percorridos pelas idéias formuladoras
da doutrina da Trindade. De filho do Homem - espírito vivo
e livre - Jesus teria passado à condição de filho unigênito ou
primogênito de Deus (segundo as preferências de cada um),
gerado em Maria "por obra e graça do Espírito Santo". Já
vimos que os gnósticos não aceitam essa doutrina, entre
outras coisas, porque o Espírito Santo, na sua condição de
entidade feminina, não poderia fecundar outra mulher
(Maria).
Com posturas assim, tornam-se evidentes algumas das razões
pelas quais os gnósticos foram tão severamente combatidos
por suas 'heresias': elas afetavam pontos sensíveis e
relevantes da doutrina que a Igreja começava a montar.
Devo reiterar, contudo, que não vejo nesse tratamento à
mulher e à maternidade uma postura machista, muito
embora se deva reconhecer a posição secundária e
subalterna da mulher naqueles tempos, na sociedade como
um todo e não apenas nos círculos religiosos ou nas especu-
lações filosóficas.
A doutrina espírita viria, no século XIX, colocar as coisas
nos seus devidos lugares, ao esclarecer que não há
superioridade ou inferioridade moral ou intelectual
determinadas pela polaridade sexual. Os espíritos renascem
numa e noutra condição alternadamente, ficando a
expressão das energias da sexualidade no âmbito meramente
biológico, ou seja, do corpo físico, dado que o espírito em si
não tem sexo, como o entendemos.
A aparente rejeição da condição feminina, portanto, exige
necessariamente, outra explicação ou conteúdo que não a da
grosseira postura machista. Para os gnósticos, viver na carne
é, praticamente, estar morto ou pelo menos embriagado,
entorpecido, cego às realidades espirituais, separado de
Deus, ignorante, desajustado. O mundo é comparado a um
cadáver, do qual é preciso livrar-se o mais breve possível,
ainda que a tarefa possa durar milênios. Ora, é a mulher, no
entender dos gnósticos, que proporciona o detestado corpo
físico que sufoca a centelha divina. É esse corpo material
que perece e desintegra-se pela morte, ao passo que o
espírito que nele habita livra-se, pelo menos
temporariamente, da detestada vinculação e prossegue
vivendo em outra dimensão. O corpo físico é estorvo, é
peso morto. Há aspectos da verdade, segundo se lê nos
textos gnósticos, que somente podem ser entendidos ou
percebidos quando o ser não estiver mais 'usando a
vestimenta' carnal.
As sucessivas experiências na came, ao longo das muitas
existências, são consideradas mais como aprisionamento,
quase castigo, do que oportunidade de aprendizado. Só
interessam esses constantes e repetidos mergulhos na
matéria densa aos seres ditos carnais ou hilicos que nela se
comprazem, sem nenhum lampejo transcendente ou
aspiração mais elevada. Daí em diante, na escala evolutiva, o
estágio da carne torna-se penoso até mesmo para os
psíquicos, situados em faixa intermediária entre os materiais
e os pneumáticos. A estes, finalmente, o acoplamento ao
corpo físico equipara-se a um exílio com toda a sua seqüela
de carências e angústias. A imantação ao corpo físico é,
portanto, indesejável, não apenas para os homens, mas
também para as mulheres, dado que no Evangelho de Tomé
Jesus promete libertar Madalena da sua servidão para fazê-la
homem, não no sentido de masculinidade biológica, mas o
ser padrão, aquele que se põe nos patamares elevados da
evolução, exatamente por ter conseguido superar a sua
própria dualidade sexual. O homem, no sentido gnóstico,
não é o macho da espécie, em contraposição à mulher, na
sua condição feminina, é, antes, o ser que transcendeu à
sexualidade, dessexualizou-se, restabeleceu o equilíbrio
primitivo quando era um, eliminando a indesejável
dualidade. Para dizer a mesma coisa de outra maneira, é um
ser, nem masculino nem feminino, no qual não mais
prevalece a polarização que o fazia ora homem, em uma
vida, ora mulher em outra ou outras.
Enquanto nesse estágio, mesmo o ser prematuro projeta na
sua biologia os mecanismos reprodutores, por mais que os
lamente, por que a natureza assim determinou a fim de
prover a todos, indistintamente, de oportunidade de
aprendizado. Esse ser, afinal redimido que conseguiu
recuperar ou reconstituir a sua unidade, desfazendo-se da
dualidade, não é considerado masculino nem feminino. Ao
assumir a responsabilidade pessoal de levar Madalena a essa
condição, Jesus quer dizer, portanto, não ao pé da letra, que
a transformará em homem, mas que a ajudará a superar sua
polaridade.
Mesmo assim, resta à mulher, ser encarnado na condição
feminina, o estigma da responsabilidade pela geração de
corpos físicos, a fim de que outros seres também venham
mergulhar no esquecimento ou na embriaguez da matéria
densa. A idéia é não apenas de remotas origens, mas
também persistente, dado que ressurgiu com os cátaros na
Europa medieval e até sobreviveu no século XVIII, nos
escritos de Emanuel Swedenborg, que ensinava que o
espírito do nascituro provinha do pai, ao passo que à mãe
cabia o papel de gerar-lhe o corpo físico. Seria temerário
considerar essa ressonância como resíduo gnóstico, mas,
nesse ponto, a doutrina formulada por Swedenborg acaba
contribuindo para melhor entendimento do que os
gnósticos pretendiam dizer quando falavam e escreviam
sobre a mulher, considerando-a culpada pela produção dos
indesejáveis corpos físicos, nos quais a centelha divina
ficava aprisionada e embriagada.
Os espirituais ou pneumáticos são os que conhecem, ou seja,
os verdadeiros gnósticos, de vez que sabem de suas origens
e, conseqüentemente, de sua destinação. Esse ponto mágico,
onde se fecha o longo ciclo que desenha o roteiro queda-
reaprendizado-retorno, é identificado no logion 50 do
Evangelho de Tomé, como o lugar "onde a luz nasce de si
mesma". Por isso, os espirituais são também chamados filhos
da Luz, estando conscientes da parcela divina em si
mesmos, ainda durante o período em que permanecem
acoplados ao corpo físico terreno. A luz está ali, embora um
tanto obscurecida pelo inevitável sufocamento produzido
pela carne. O conceito de um princípio luminoso na
intimidade de cada ser consta do logion 24, no qual Jesus
ensina: "Há luz dentro de um ser de luz e ele ilumina o
mundo todo. Se ele não iluminar, as trevas se fazem".
Ao comentar esta passagem, Puech a relaciona com duas
outras nos canónicos, em Mateus 6, 23 e em Lucas 11, 35,
onde figura o mesmo ensinamento de que a centelha divina
está dentro de cada um e que poderá, por incúria, envolver-
se em trevas. "Por isso" - é advertência em Lucas -, "vê bem
se a luz que há em ti não é treva".
A luz interior é, portanto, a identificação da criatura com o
seu criador, o ponto magnético pelo qual se ligam, mesmo à
distância. Em mais de uma passagem nos documentos
gnósticos, é mencionada a conveniência de estarmos
conscientes dessa conexão enquanto ainda estivermos na
carne. Esse patamar evolutivo, contudo, parece reservado
prioritariamente ao homem espiritual ou pneumático, dado
que no psíquico ainda são muito fortes os bloqueios
impostos pela matéria, e nos materiais, o bloqueio é total.
Isso, porém, não exclui a condição básica de que todos
trazem em si a centelha divina e diante de todos estão
abertos os caminhos do conhecimento e, por conseguinte,
da evolução e, finalmente, da reunificação com Deus. Daí,
talvez atribuir-se ao termo religião, de obscuras origens, o
sentido de que se trata de uma religação com a divindade.
Estas reflexões abrem outras janelas sobre o entendimento
do gnosticismo e de quão profundamente foi o pensamento
daqueles 'heréticos' em aspectos importantes da psicologia
humana. Observamos, por exemplo, na escala tríplice, um
encadeamento articulado que pressupõe um processo de
sucessivas conquistas, resultantes de acesso a patamares cada
vez mais elevados. Evidentemente, a escalada impõe
gradações matizadas, não se dá por saltos e exige esforço
pessoal concentrado e persistente de auto-aperfeiçoamento
e, conseqüentemente, larga extensão de tempo, aspecto que
não escapou à percepção do Prof. MacGregor. É o que lemos
no seu capítulo intitulado "Perigos da desgnostização de
Jesus', no qual ele observa que a variedade de conhecimento
que brota da pureza de um coração sensível é algo que não
temos como adquirir de ensinamentos puramente
teológicos, 'rabínicos ou de qualquer outra natureza'. E
conclui:

Nem há sobre essa gnose coisa alguma estática ou
presumida, dado que a purificação do coração humano
prossegue até que toda a escória se transforme em ouro e
este é, em verdade, processo muito longo, longo demais
para ser conseguido em uma só existência (O destaque vai
por minha conta).

A doutrina das vidas sucessivas, ou seja, a da reencarnação,
não figura com insistência nos escritos gnósticos, e,
obviamente, não sob terminologia moderna. Além de
explicitada em algumas passagens reveladoras, porém,
constitui exigência do próprio contexto doutrinário gnós-
tico, segundo o qual as pessoas distribuem-se em categorias
distintas, não-estanques, o que, obviamente, pressupõe um
processo evolutivo subjacente, segundo o qual todos vão se
promovendo gradativamente a patamares mais elevados de
conhecimento e moral até a purificação total. E isso, como
assinala MacGregor, não cabe no mero espaço temporal de
uma só existência.
O mecanismo das vidas sucessivas projeta sempre adiante
dos seres materiais espaço que eventualmente ocuparão
entre os psíquicos, da mesma forma que estes, semi-
despertos, começam a entrever o caminho que têm à frente,
rumo ao estágio evolutivo dos pneumáticos ou espirituais.
Lê-se no Evangelho de Filipe:
A verdade não chegou nua ao mundo, mas em tipos e
imagens. Ninguém receberá a verdade de nenhuma outra
maneira. Há um renascimento e uma imagem do
renascimento. É certamente necessário nascer de novo
através da imagem.

Tanto quanto se pode depreender, o que chega ao nosso
entendimento não é a verdade em si, nua e crua, mas a sua
'imagem', um discurso sobre a verdade. Willis Harman
(apud Larry Dosey, in Space, Time and Medicine), diz algo
semelhante ao declarar que "a ciência não é uma descrição
da 'realidade' mas uma ordenação metafórica da experiên-
cia..."
Em A Exegese da Alma, o texto é explícito: "Assim, é
nascendo de novo que alma é salva."
E adverte a seguir, que a salvação não resulta de "frases
rotineiras, habilidades profissionais ou aprendizado
livresco". Infelizmente, o documento apresenta mutilações
que não puderam ser recuperadas, razão pela qual ficamos
sem saber ao certo como prosseguiria o ensinamento, mas
parece seguro concluir-se que o conhecimento redentor é
algo que transcende o aprendizado meramente cultural, para
alcançar o "território fecundo da sabedoria."
Em Zostrianos, discorre o autor sobre as muitas incursões da
alma na carne: "Em vez de se tornar um, ele tem de suportar
muitas formas uma vez mais."
O texto se refere, evidentemente, ao ser que ainda não
conseguiu alcançar o platô final da reunificação e:

...a não ser que receba a luz, ele se torna um produto da
natureza e, assim, desce para nascer por causa disso. E fica
sem fala por causa das dores e das limitações da matéria, a
despeito de possuir um poder imortal e eterno dentro do (...)
corpo. Ele é feito vivente e fica sempre amarrado por cruéis
e cortantes grilhões por meio de cada hálito maldoso até que
volte a agir e comece novamente a voltar a si mesmo".

Ainda nesse documento - que, como vimos, não contém
referências cristãs - a entidade que fala declara sua condição
de puro espírito e que já existia (preexistência) antes de vir
para a carne.
Referindo-se, pouco adiante, às suas sucessivas purificações
pela água (nascimento), a entidade, à qual o texto atribui o
nome de Yoel, declara: "Você recebeu todas as abluções
(banhos) nas quais ela pôde dar como batismo e se tornou
perfeito."
Veremos alhures a distinção entre os três tipos de batismo.
Nesta passagem, contudo, o batismo significa o mergulho na
água do nascimento, ou melhor ainda, do renascimento, de
vez que, após número indeterminado de 'mergulhos' na
matéria, o "ser alcançou, afinal, a perfeição."
É este, aliás, o livro que adverte que a criatura não "veio para
sofrer, mas para livrar-se da escravidão", conceito que
também o espiritismo estaria à vontade para subscrever.
Em Interpretação do Conhecimento, se é que penetramos
corretamente o sentido do texto, aliás, também mutilado,
aprendemos a diferença entre o redimido e aquele que se
encontra em desgraça. O primeiro pode "entrar naquele que
se desgraçou, a fim de que possamos escapar da desgraça da
carcaça e sermos regenerados na carne e no sangue de (....)"
(Texto mutilado)
Creio legítimo entender que alguns seres superiores e já
redimidos dispõem-se a aceitar o sacrifício de novo
mergulho na matéria, a fim de ajudar o semelhante a livrar-
se da 'desgraça da carcaça'.
No Apócrifo de João, encontramos o seguinte diálogo entre
o Cristo póstumo e o apóstolo, ainda na carne. Pergunta
João:

Senhor como pode a alma tornar-se menor e retornar para a
natureza de sua mãe ou como homem?
- Verdadeiramente, você é abençoado, porque você
entendeu! Aquela alma é encaminhada para seguir outra,
uma vez que o espírito da vida está nela. Ela foi salva por
ele. Ela não será lançada novamente em outra carne.
(Destaque meu).

João demonstra, portanto, para alegria de seu Mestre, que já
entendeu aspectos importantes dos mecanismos da vida, o
que se demonstra na formulação de sua pergunta.
Vejamos o contexto. Jesus acaba de responder-lhe à
pergunta anterior, que tinha a ver com o que acontece com
a alma daquele que, ao pé da letra, "deixou a carne", ou seja,
desencarnou sem saber "a quem pertence", isto é, ignorante
de sua própria destinação. Jesus explica que o espírito que se
deixou dominar pelo mal e errou, "sobrecarrega a alma e a
atrai para as obras do mal" e, com isso, a alma é "atirada para
baixo, ao esquecimento", ou seja, mergulha em novo corpo
material. Isso se confirma no ensinamento seguinte,
segundo o qual, "depois que ela (a alma) se retira do corpo
(desencarna), é entregue às autoridades", que a prendem em
correntes e a atiram à prisão "até que ela seja libertada do
esquecimento e adquira conhecimento. Assim ela se torna
perfeita e é salva".
Esta salvação, como consta da resposta seguinte, se dá
através do Espírito da Vida, ou seja, do conhecimento
redentor. Só então a alma estará livre e não será forçada a
mergulhar de novo na matéria, por meio de novas
reencarnações.
A pergunta de João parece indicar que ele sabe também que
ao tornar-se 'menor', ou seja, cometer erros que a degradam
e reduzem sua estatura ética, a alma tanto pode renascer em
corpo feminino "como o de sua mãe", como em corpo
masculino. É a tese gnóstica da redenção pelo
conhecimento, como trabalho individual, sem o qual a alma
continua sujeita a repetidas passagens pela matéria, em
outras tantas existências, como homem ou como mulher.
No Evangelho de Filipe encontramos o ensinamento de que
"há homens (pessoas ou seres) que fazem muitas jornadas,
mas nenhum progresso rumo à destinação", o que constitui
idéia precisa do estéril repetir-se de vidas, nas quais a pessoa
estaciona na sua rota evolutiva, envolvida pelas mordomias
da matéria densa. São estes os que se caracterizam
basicamente como seres materiais.
Mais adiante, nesse mesmo documento, lemos que, no
mundo, são os escravos que servem os homens livres, mas,
no plano espiritual, as coisas se passam de maneira oposta,
cabendo aos livres ou redimidos servirem os escravos,
dedicarem-se ao trabalho de esclarecer para libertar os que
ainda se acham prisioneiros da matéria. Os livres ou
libertados "...não precisam tomar outra forma, porque já
alcançaram a contemplação, a compreensão pela introvisão".
Esta última expressão - compreensão pela introvisão
(insight) encontra-se entre colchetes, o que significa,
segundo os editores, que a lacuna existente no texto original
foi preenchida. O ensinamento prossegue afirmando que são
numerosos os que agem como servidores dos que ainda
estão escravizados "porque eles não põem seus tesouros nas
coisas de baixo, que são desprezadas, mas nas glórias que se
acham acima, mesmo que ainda não as conheçam".
A proposta de classificação das pessoas em três patamares
distintos e hierarquizados - materiais, psíquicos e espirituais
- constitui inteligente achado da didática gnóstica. Não
apenas permitiu aos seus formuladores e aos estudiosos da
época uma visão ordenada e racional da comunidade
humana em relação ao nível evolutivo de cada um, como
ainda hoje facilita ao pesquisador moderno penetrar na
intimidade de aspectos doutrinários que, de outra forma,
seriam um tanto obscuros ou complexos demais à
mentalidade contemporânea. Mais do que isso, como
assinala Gillabert, o modelo continua válido hoje.
Realmente, tão pouco muda a natureza humana como um
todo, ainda que mudem as pessoas individual e intimamente,
que ainda podemos identificar por toda parte, em nosso
convívio, os materiais, os psíquicos e os espirituais.
Do próprio modelo podemos depreender que, de fato, o
gnosticismo como filosofia de vida é doutrina qualitativa e,
conseqüentemente, minoritária, como observam os
comentaristas modernos (Pagels e Gillabert, por exemplo).
Se há algum elitismo, ele constitui decorrência natural de
uma aristocracia moral, desprovida de qualquer conotação
de arrogância, vaidade ou esnobismo, ou então, a criatura
não teria atingido esse patamar evolutivo. O modelo não
inventa um mecanismo de seleção natural, ele apenas reflete
uma realidade observada, dentro da qual se realiza um
processo evolutivo lento e difícil, mas também inexorável,
dado que todos estão programados para o retorno à luz, de
onde vieram. Tem razão Gillabert ao observar que "a
metafísica gnóstica (...) tem poucos atrativos, efetivamente,
a oferecer à massa".
A doutrina das três ordens ou patamares, contudo, é rica em
sugestões para entendimento de outros aspectos não menos
relevantes do pensamento gnóstico. Como, por exemplo, as
enigmáticas referências aos três tipos de batismo que
figuram também nos canónicos.
Como tudo é aferido em razão do nível de conhecimento de
cada pessoa, os seres materiais ainda se acham demasiado
ocupados com o envolvimento entorpecedor da matéria
para reservarem espaço a qualquer outra especulação que
transcenda interesses e impulsos imediatistas. Os psíquicos,
embora alertados para essa realidade metafísica, ainda têm os
pés como que enredados na matéria, vivendo em estado
intermediário, ainda numerosos, não tanto quanto os
materiais e bem mais do que os pneumáticos ou espirituais.
O Escrito sem Título, citado por Gillabert, atribui a cada uma
dessas categorias um tipo diferente de batismo: o primeiro é
batismo do espírito, o segundo, do fogo e o terceiro, da
água.
O verdadeiro sentido de tais categorias perdeu-se na
deformação dos conceitos primitivos que deveriam ser de
fácil acesso através de imagens simbólicas. Em conseqüência
da entropia dos textos, tanto quanto das práticas ritualísticas,
o batismo ficou sendo não mais o vestibular na admissão à
comunidade cristã, mas a marca de uma salvação messiânica
sem a qual o 'pagão' condenava-se irremissivelmente às
penas eternas, ou, no mínimo, ao limbo. A Igreja nascente
precisava dessa entropia a fim de abrir espaço para montar
sua estrutura de poder temporal.
Ao comentar a referência ao batismo com água, fogo e
espírito, A Bíblia de Jerusalém, limita-se a informar que o
fogo é "instrumento de purificação menos material e mais
eficaz do que a água, simboliza já no AT a intervenção
soberana de Deus e do seu Espírito, que purifica as
consciências". Os apoios citados no Antigo Testamento nada
têm a ver com o batismo, senão na imagem da purificação
eventual pelo fogo.
Na realidade, batismo é mergulho e não cerimônia iniciática
e, muito menos, ritual redentor da alma que supostamente
se lava do chamado pecado original. Isso sugere, portanto,
que o batismo do espírito, é o mergulho do ser na sua
própria intimidade mais profunda, uma redescoberta de seu
próprio ser, mecanismo de auto-gnose, ou seja,
autoconhecimento, este sim, redentor, porque leva a
criatura, já na sua condição espiritual, à desejada
reunificação com Deus. Já o batismo da água corresponderia
ao acoplamento do ser ao corpo físico, gerado no organismo
feminino por meio de um literal mergulho na água (líquido
amniótico). É, portanto, o batismo (mergulho) reservado aos
seres materiais, situados na base da pirâmide evolutiva.
Restaria o batismo de fogo, obviamente, destinado aos seres
psíquicos que, já tocados pela 'nostalgia de Deus',
empenham-se num processo de purificação não isento de
dor, pelo contrário, semelhante ao que se emprega, no
âmbito da matéria, para purificar o ouro e outros metais. Não
é em vão, portanto, que se utiliza o simbolismo do cadinho
como instrumento de aperfeiçoamento espiritual através do
sofrimento cármico redentor.
O tema aparentemente inesgotável da escala evolutiva
gnóstica oferece espaço ainda para novas especulações e
reflexões reveladoras.
Gillabert lembra, por exemplo, que "... os psíquicos não
possuem a gnose perfeita (conhecimento), mas têm a fé", ao
passo que os espirituais já alcançaram o estágio do
conhecimento, e por isso, são considerados vivos, ou
despertos. Mesmo estes, contudo, passariam, segundo
algumas fontes gnósticas, por um estágio pré-iniciático, no
qual ainda são considerados 'filhos da Mulher', espécie de
noviços ou candidatos à condição pneumática,
independentemente de serem homens ou mulheres, como
também lembra Gillabert. Só então seriam como que
admitidos ou chamados à condição de 'filhos do Homem1,
como ensina o logion 106, do Evangelho de Tomé.
A fé se coloca, portanto, como estágio preliminar, pausa
antes do conhecimento para aqueles que ainda não estão em
condições de penetrar as amplitudes e profundezas maiores
da gnose.
Reportando-se à Epístola aos Hebreus, MacGregor opina
que... "a fé é uma espécie de conhecimento". Aliás, logo nas
primeiras páginas de seu livro, citara Guilherme de St.
Thierry (1085-1148), que viu a trajetória da alma como
deslocamento "da fé em direção ao conhecimento".
Acrescenta, mais adiante, pag. 20, que "fé e conhecimento,
pistis e gnosis, tradicionalmente contrastantes como se
fossem virtualmente duas abordagens incompatíveis ao
problema de Deus, são, ao contrário, dois aspectos do
mesmo processo cognitivo."
Não é outra, aliás, a postura do espiritismo, que não apenas
coloca ciência, filosofia e ética no mesmo patamar cultural,
como somente entende como legítima a fé racional, com
suportes lógicos, que resiste aos critérios da análise, a fé que
sabe e não apenas crê. Em outras palavras, um modelo que
não seria corpo estranho a ser rejeitado em contexto
doutrinário gnóstico, no qual se aplicaria aos pneumáticos
liberados pelo conhecimento, um passo adiante dos
psíquicos, que ainda sem a posse da gnose perfeita, vivem a
antecipação dela, pela fé.
A conceituação da fé como antecipação do conhecimento
constitui, porém, um dos muitos aspectos autônomos da
verdade como patrimônio de todos, porque a ninguém
pertence. Não deve, portanto, ser caracterizado como ponto
doutrinário específico do gnosticismo ou de qualquer outro
corpo filosófico. Já estava em Paulo, por exemplo, que
deixou documentada na Epístola aos Hebreus, a idéia de que
a fé é considerada "uma posse antecipada do que se espera,
um meio de demonstrar as realidades que não se vêem". Ou
seja, a fé, no entender do apóstolo, é uma expectativa de
concretização de conhecimento que já se desenha na mente
pela intuição que começa a despertar, e que são, ao mesmo
tempo, aspectos invisíveis, ou seja, encontram-se fora do
âmbito estritamente material.
Encontro, aliás, em Albert Schweitzer, a inesperada
observação de que "todos os elementos do gnosticismo já se
acham presentes, em Paulo." Acha mesmo o eminente
pensador alsaciano, médico, teólogo e musicista, que Paulo
teria preparado o caminho para o gnosticismo. Que existam
elementos comuns entre Paulo e os gnósticos não há a
menor dúvida. Reitero, contudo, que tais elementos, antes
de paulinianos ou gnósticos, são aspectos comuns à verdade
universal que se vai revelando por sucessivas aproximações
àqueles que a buscam. É que as fontes dessas verdades, ou
melhor, de tais facetas da verdade, onde se abeberam os que
a buscam, são as mesmas. Quanto mais autênticas e puras,
mais parecidas se tornam, sejam quais forem os seus
descobridores e propagadores. E da essência da verdade ser
idêntica a si mesma. Qualquer variação entrópica, desgaste
ou deformação denota contaminação adquirida no veículo
que a está transmitindo, não nas suas fontes, onde continua
a fluir em toda a pureza primitiva. Por conseguinte, a
verdade de Paulo - sendo legítima, como é - terá de ser
necessariamente a mesma dos gnósticos, como é, hoje, a da
doutrina elaborada com os ensinamentos recolhidos por
Allan Kardec de seus instrutores espirituais.
Com essas observações, que não chegam a constituir
ressalva à respeitável opinião do Dr. Schweitzer, Paulo pode
realmente ser considerado precursor do gnosticismo, em
vários e relevantes aspectos doutrinários.
Muito a propósito, já que ainda estamos na temática da
escala hierárquica dos seres em função do conhecimento, é
oportuno lembrar interessante referência de Paulo que, sem
o entendimento adequado das formulações gnósticas, ficaria,
como tem estado, algo enigmático ou obscuro.
Lemos o seguinte, na Primeira Epístola aos Coríntios (2,10-
15):

Quanto a nós, não recebemos o espírito do mundo, mas o
Espírito que vem de Deus a fim de que conheçamos os dons
que vêm da graça de Deus. Desses dons não falamos
segundo a linguagem ensinada pela sabedoria humana, mas
segundo aquela que o Espírito ensina, exprimindo realidades
espirituais em termos espirituais. O homem psíquico não
aceita o que vem do Espírito de Deus. É loucura para ele;
não pode compreender, pois isso deve ser julgado
espiritualmente. O homem espiritual, ao contrário, julga a
respeito de tudo e por ninguém é julgado.

Como se vê, portanto, um texto que somente se abre ao
entendimento com chaves que os gnósticos também
adotaram para abrir outras tantas portas de acesso a verdades
transcendentais, mas não inacessíveis. É tão importante a
conceituação gnóstica das três ordens para entendimento
desta passagem que, em nota de rodapé, a Bíblia de
Jerusalém, documento moderno, apoiado em amplíssima
pesquisa e meticulosa exegese, confessa honestamente sua
perplexidade, ao declarar 'difícil' o versículo 13 sobre
'realidades espirituais em termos espirituais'. Embora
proponha alternativas, é evidente que a equipe de tradutores
e comentaristas da Escola Bíblica de Jerusalém não se
satisfaz com nenhuma delas. O texto, não obstante, é de
indiscutível transparência para um gnóstico, especialmente a
um 'pneumático' ou 'espiritual', que sabe estar Paulo falando
de realidades espirituais somente acessíveis aos que
alcançaram o estágio adequado de conhecimento e a buscam
e a entendem com a visão de seres espiritualizados.
O mesmo tipo de dificuldade interpretativa encontra A
Bíblia de Jerusalém na expressão "homem psíquico", no
versículo 14, mas pelo menos sugere uma fórmula aceitável,
ao dizer que se trata de "homem deixado apenas aos recursos
da sua natureza" e acrescenta: "Cf. o corpo psíquico"
(15,44).
O texto demonstra, portanto, que Paulo estava familiarizado
com a terminologia de que também se serviriam os
gnósticos tanto quanto com a escala hierárquica dos seres
humanos distribuídos pelas três categorias ou patamares.
Mas não é somente aí que o Apóstolo dos Gentios revela
essa intimidade com a doutrina das três ordens. Logo a
seguir, na mesma epístola, (3,1), ele explica por que razão
tem de graduar seus ensinamentos segundo o nível de
conhecimento (gnose) dos seus leitores:

Quanto a mim, irmãos, não vos pude falar como a homens
espirituais, mas tão somente como a homens carnais, como
a crianças em Cristo. Dei-vos a beber leite, não alimento
sólido, pois não o podíeis suportar. Mas nem mesmo agora
podeis, visto que ainda sois carnais.

Novamente o comentário d'A Bíblia de Jerusalém é
insuficiente, para dizer o mínimo, dado que se limita a
declarar que a referência a seres carnais é formulada no
contexto do "binômio espírito-carne". Não é. Mais uma vez,
coerentemente, aliás, com a anterior, a expressão 'homens
carnais' está sendo usada em contexto, senão gnóstico, pelo
menos comum ao dos gnósticos. Trata-se, por conseguinte,
não da dicotomia matéria-espírito ou espírito-carne, mas de
quem, pelo seu envolvimento na matéria, ainda não
conseguiu atingir a etapa psíquica, patamar intermediário
que dará, eventualmente, acesso à etapa seguinte, a dos
homens pneumáticos ou espirituais. Também na mensagem
aos Gálatas, Paulo trata os destinatários como "vós, os
espirituais", aos quais recomenda corrigir quem estiver em
falta "com espírito de mansidão".
É evidente, portanto, que os conceitos que iríamos mais
tarde encontrar nos documentos gnósticos sobre os três
patamares evolutivos não apenas são conhecidos de Paulo,
como familiares aos seus leitores da época.
Não é somente isso, por certo, que Schweitzer vê nos
escritos de Paulo para identificá-lo como precursor do
gnosticismo, mas também a visão abrangente do apóstolo
em relação à realidade espiritual, como por exemplo, ao
considerar o problema da ressurreição como manifestação
do "corpo espiritual" do Cristo, como pensariam os gnósticos
mais tarde, e não como reanimação de seu cadáver.
Devemos acrescentar a isso a fé como conhecimento
antecipado, a sobrevivência do ser, a comunicabilidade com
os 'mortos', a familiaridade com o mundo póstumo e tantos
outros aspectos relevantes que os gnósticos tomariam para
montagem de suas próprias estruturas doutrinárias, não
porque eram paulinianos ou sequer cristãos, mas porque, na
avaliação feita, tais postulados foram considerados
verdadeiros.
Podemos observar, por conseguinte, que à trilogia imaginada
para classificar os diferentes estágios evolutivos da criatura
correspondem outras trilogias, como a do batismo, ou seja, o
tipo de mergulho que cada uma dessas categorias pratica. O
ser hilico, material ou carnal, mergulha na água e fica por
longo tempo preso ao ciclo dos sucessivos renascimentos.
Pode até, como vimos, realizar inúmeras dessas viagens à
matéria, sem conseguir avançar pelo caminho que se
desdobra à frente, no rumo da perfeição e da plenitude
(opleroma, dos gnósticos). Aos seres psíquicos, o batismo é
de fogo, porque eles mergulham no fogo purificador das suas
próprias lutas redentoras, à medida em que redescobrem o
conhecimento. Os pneumáticos ou espirituais, finalmente,
mergulham em si mesmos, na tarefa nobre do
autoconhecimento e, adquirido este, tornam-se verdadeiros
gnósticos, ou seja, aqueles que sabem.
Há, contudo, uma terceira trilogia paralela ou superposta,
dado que os gnósticos entendiam o ser humano encarnado,
centelha divina acoplada à matéria densa, no seu aspecto
tríplice de soma, psique e pneuma, isto é, corpo físico, alma
e espírito. E mais uma vez, encontramos aqui conexões
explícitas com o pensamento de Paulo, tanto quanto com
postulados da doutrina dos espíritos.
A distinção entre corpo físico, corpo psíquico e corpo
espiritual é apresentada com a nitidez e a veemência
habitual do apóstolo, em sua I Epístola aos Coríntios, ao
explicar didaticamente o mecanismo da ressurreição, que no
seu correto entender, é ponto fundamental inegociável de
toda a sua estrutura teológica. Sem ressurreição (leia-se
sobrevivência do ser à morte corporal), não há o que
discutir em termos de cristianismo ou de nenhuma outra
religião. Se a sobrevivência é uma falácia, então a fé também
seria vã e a vida um mero jornadear de berço a túmulo, em
comes e bebes inconseqüentes.
Mas não é assim que se passam as coisas. Não se acaba tudo
na sepultura, que apenas desintegra e consome o corpo
material, do qual se retirou a centelha divina revestida de
seu corpo psíquico. O ser encarnado dispõe, por
conseguinte, de três corpos: o físico (ou material), o
psíquico e o espiritual (ou mental, como querem alguns).
Mais uma vez encontramos em Paulo um texto que não se
abre senão àqueles que dispõem das chaves proporcionadas
pelo conhecimento da realidade espiritual, adotada entre
outras correntes de pensamento pelo gnosticismo e pelo
espiritismo.
Segundo ensina o apóstolo, o que se enterra é o corpo físico,
corruptível, devolvido à natureza que o desdobra pela
decomposição em seus elementos constitutivos, de acordo
com as conveniências dos processos de reciclagem. Junto
com ele, como se lê no versículo 43, vai também o "corpo
psíquico", mas o que ressuscita (levanta-se) é o "corpo
espiritual". Logo a seguir, ele confirma que há dois corpos,
além do físico: o psíquico e o espiritual. Ensina, ainda, que o
primeiro a ser feito (criado) é o psíquico, "o espiritual vem
depois". O terceiro corpo é matéria bruta e foi "tirado da
terra". Este se destina a possibilitar a vida na Terra, mas os
"homens celestes" dispõem de "corpos celestes".
Suponho que isso signifique que, nos primórdios do
processo evolutivo, nos mais primitivos níveis da
animalidade, prevalecem os dois corpos: o físico e o
psíquico, sendo que, pela densidade e teor vibratório, mal se
distingue um do outro. O terceiro "corpo", veículo
privilegiado da centelha divina, encontra-se de tal maneira
bloqueado pela matéria que é como se não estivesse
presente. Ou talvez nem esteja mesmo, dado que não foi
ainda ultrapassada a barreira da irracionalidade, como
ensinam alguns autores respeitáveis.
Em pontos como este fica mais elegante uma singela e
despojada confissão de ignorância, o que, de forma alguma,
deve inibir a busca, ainda que meramente especulativa.
Ao despedir-se dos Tessalonicenses (5,23), Paulo refere-se
novamente ao aspecto tríplice do ser humano:
O Deus da paz vos conceda a santidade perfeita, e que vosso
espírito, vossa alma e vosso corpo sejam guardados de modo
irrepreensível para o dia da vinda de Nosso Senhor Jesus
Cristo.
Mais uma vez os comentaristas d'A Bíblia de Jerusalém
parecem pouco familiarizados com esses aspectos da
realidade espiritual tal como a entendia Paulo. Em nota de
rodapé, lê-se esta observação:
Esta divisão tripartida do homem (espírito, alma, corpo) só
aparece aqui, nas cartas de Paulo. Aliás, Paulo não tem uma
'antropologia' sistemática e perfeitamente coerente. Além
do corpo e da alma, vemos aparecer aqui o espírito que pode
ser o princípio divino, a vida nova em Cristo ou a parte mais
elevada do ser humano aberta à influência do Espírito.
Dessa observação se depreende que, no entendimento dos
autores da nota, uma vez mencionados corpo e alma, a
referência ao espírito é supérflua, dado que ele já estaria
contido no termo alma. A distinção feita por Paulo,
contudo, é legítima e compatível com o pensamento
gnóstico, tanto quanto com o que os instrutores espirituais
transmitiram a Allan Kardec por ocasião da elaboração da
doutrina espírita. Em outras palavras, trata-se de uma
realidade que terá de figurar necessariamente como apoio
aos postulados básicos de qualquer estrutura religiosa que se
preze, não porque deva ser considerada como dogma
indiscutível, mas porque é da essência mesma dos
fenômenos observados na interação espírito/matéria.
Perguntados a respeito, os espíritos informam a Kardec que
a alma é espírito encarnado. O que nos facilita o
entendimento de que, ao mergulhar na matéria para mais
uma existência terrena, o espírito, centelha divina, está
revestido de um corpo específico para essa condição de
encarnado, além do corpo mais sutil de que ele dispõe como
espírito mesmo, e que seria o corpo mental dos ocultistas e
ao qual também alude o autor espiritual André Luiz, em
Evolução em Dois Mundos.
Ao corpo da alma, ou psíquico, o espiritismo reservou o
termo perispírito, em vista de constituir não apenas um
campo magnético que envolve o espírito, mas uma duplicata
do corpo físico. Sua função de corpo intermediário é de
considerável importância na economia do ser encarnado,
dado que é através dos seus dispositivos que o espírito
comanda o corpo físico, instrumento de que necessita para a
sua atividade enquanto encarnado. Esse segundo corpo não
apenas contribui para formação do corpo físico, por ocasião
de sua gestação, como administra todas as funções orgânicas
durante a vida na carne. Experiências de laboratório
confirmam sua existência por diferentes métodos
científicos.
Quanto ao corpo mental, envoltório da essência espiritual, é
de supor-se que conte com estrutura energética ainda mais
sutil, que a ciência estaria longe de detectar com a sua
instrumentação ainda insuficiente. Sua existência, contudo,
é inferida a partir da informação de que as estruturas do
corpo psíquico, ou da alma, tendem para a extinção final ao
cabo de um larguíssimo processo de contínua sutilização.
Isso faz sentido porque, à medida em que o ser galga mais
elevados patamares evolutivos ao alcançar a plenitude da
perfeição e, segundo os gnósticos, reunificar-se com Deus,
ele não precisará de novas experiências na carne.
Disso podemos depreender, de volta ao esquema básico do
gnosticismo, que nas suas primeiras etapas evolutivas,
mesmo como 'homem hilico, material ou carnal', o ser
humano é dotado da centelha divina que se encontra, não
obstante, mergulhada profundamente nas teias da matéria e
seu séquito de impurezas. Aluzestá ali, mas sua aparência
exterior é baça e dormitante. Nessa faixa do processo
evolutivo, o corpo espiritual é realidade desconhecida e
pouco pode fazer o espírito para mover a massa que
bloqueia suas manifestações. O corpo psíquico, vestimenta
da alma, praticamente se confunde com o corpo material, na
densidade de seus componentes e no baixo teor vibratório
necessário à sintonia energética entre os dois corpos.
Ultrapassado a duras penas esse período em que o espírito
entorpecido (embriagado, na terminologia gnóstica) não tem
como comandar o próprio corpo ao qual está acoplado, o
corpo psíquico vai se depurando e adquirindo maior
flexibilidade operacional a ponto de possibilitar o início de
um intercâmbio mais ativo entre espírito e corpo físico.
Chega- se, portanto, a uma fase em que o ser ainda está
semi-adormecido, mas, obviamente, semidesperto, um
estado crepuscular que prenuncia novas conquistas. As
criaturas nesse estágio ainda presas à matéria por sólidas
amarras, mas experimentando os primeiros lampejos de
aspirações superiores, os gnósticos catalogaram como
'homens psíquicos'. Não é mais a matéria senhora absoluta,
como nos hilicos, mas ainda não está o espírito consciente,
na carne, de suas potencialidades, como nos pneumáticos.
Nestes, finalmente, o espírito passa a exercer sua supremacia
e assume os comandos, criando ativa interação
psicossomática, operando como espécie de painel de
controle os dispositivos do corpo psíquico.
Ao mencionar, portanto, a trilogia corpo, alma e espírito e
discorrer sobre suas características e funções, Paulo revela-
se realmente, como ensina Schweitzer, um precursor do
gnosticismo. Não porque fosse um gnóstico antes de sua
época, no meu entender, mas porque estava alertado para as
realidades espirituais que seriam também identificadas e
adotadas pelos gnósticos na elaboração de sua inteligente
doutrina. Pode-se dizer, contudo, que Paulo é um gnóstico
porque buscou tenazmente o conhecimento (gnose) rumo à
sua realização como homem pneumático. É evidente que
trazia já consigo importante bagagem espiritual quando para
aqui veio programado para a tarefa gigantesca da
implementação dos ensinamentos básicos do Cristo.
Fica difícil, assim à distância, decidir se Paulo foi um
gnóstico antecipado, mas não há dúvida de que podemos
concordar com Schweitzer no sentido de que não apenas
preparou o caminho para os gnósticos como "todos os
elementos do gnosticismo já estavam presentes nele".
Todos, diz Schweitzer. É que tanto Paulo como os gnósticos
trabalharam com a mesma e única realidade espiritual que,
infelizmente para o futuro, não interessou aos formuladores
do pensamento eclesiástico que acabou predominando pela
força mesma da quantidade sobre a imponderável sutileza da
qualidade. Em termos materiais, como assinala a Dra. Pagels,
o êxito gerado pelo fator quantitativo foi esmagador. Tinha
de ser. Mas em termos espirituais as conseqüências foram
desastrosas e ainda não reparadas, não apenas porque aquelas
realidades continuam, em grande parte, ignoradas ou
rejeitadas, mas porque a pesada massa posta em movimento
por ocasião da opção quantitativa mantém seu momentum e
continuará a rolar até que se esgote sua energia cinética ou
que se choque com algum intransponível paredão cósmico.
Émile Gillabert revela-se perfeitamente alertado para o
paralelismo entre as duas trilogias que acabamos de discutir,
a que distribui os seres em materiais, psíquicos e
pneumáticos e a que identifica nesses mesmos seres os três
aspectos instrumentais, por assim dizer, corpo, alma,
espírito. Numa das suas arrojadas e brilhantes formulações,
observa até que a psicanálise teria sido criada "para tentar
desfazer os nós de situações conflitantes entre a alma e o
corpo; contudo, a dimensão pneumática é constantemente
ignorada ou passada em silêncio".
Ele tem razão. A psicanálise concentrou-se na interação
psicossomática, mas ainda não se deu conta da realidade
maior do espírito com todas as suas implicações e
abrangências. O que nos leva à observação de MacGregor,
de que o ideário que integra o pensamento gnóstico traz no
seu bojo, "uma das maiores esperanças para o
aprofundamento da espiritualidade em nosso tempo".
Talvez nem seja por acaso que, após dezesseis séculos de
silêncio, mergulhado nos ermos de Nag Hammadi, o
gnosticismo tenha reemer- gido precisamente no momento
em que seja tão caótico o estado das estruturas filosóficas e
religiosas do mundo em que vivemos. Não que o remédio
para tais mazelas gigantescas consista apenas em adotar
como livros de cabeceira os papiros coptas, mas porque
esses documentos insistem em identificar uma realidade,
obsessivamente ignorada nas inúmeras tentativas de
reformulação do modelo obsoleto, inadequado,
irrecuperável de conhecimento contaminado severamente
pelo 'vírus' da visão materialista da vida. Estamos ainda no
estágio hilico, material, carnal do processo evolutivo global,
como sonâmbulos no mais baixo dos três patamares
imaginados pelos gnósticos. Ainda não somos, como
comunidade ou sequer consensualmente, uma sociedade
psíquica, ainda presa a limitações materiais, mas com
aspirações espirituais definidas, tocada pela nostalgia de
Deus, de que falam os estudiosos do gnosticismo. Longe
estamos, portanto, da fase pneumática, na qual os valores do
espírito se impõem, não porque cridos, mas porque
conhecidos. E é precisamente o conhecimento - da verdade,
em especial - que liberta. Tanto em Jesus como nos textos
gnósticos encontramos essa mesma proposição que figura
nos canónicos de maneira transparente, concentrada e
objetiva: "Conhecereis a verdade e ela vos libertará".
É importante, contudo, assinalar, como lembra Gillabert,
que os gnósticos não propõem adiar esse encontro com a
verdade maior libertadora para quando alcançarmos os
planos superiores do Pleroma, no chamado Reino de Deus,
mas alertam para a conveniência e até necessidade de
conhecê-la, pelo menos em parte, enquanto ainda estamos
por aqui, no mundo, mergulhados na matéria. É o que
ensina o Evangelho de Felipe, ao declarar:
Convém que nos tornemos homens pneumáticos antes de
sairmos deste mundo. Aquele que recebeu o Todo, sem
dominar tais lugares, não poderá dominar aquele lugar além.
Como, porém, tornar-se pneumático, plenamente
consciente de suas dimensões espirituais e da realidade que
o cerca, se todo o alimento intelectual que nos é servido
tem de passar necessariamente pela censura do materialismo
onipotente e onipresente que assumiu os controles do
pensamento moderno? De que maneira vencer tais
bloqueios a fim de que o homem se deixe, como diz
Gillabert, "guiar pelo princípio divino que está nele"?
Por tudo isso, seríamos, ainda na avaliação de um gnóstico,
vasta comunidade humana estacionada na fase inicial dos
'homens hilicos' e, portanto, dominada pelos conceitos
materiais/carnais. Os seres do segundo patamar, os
psíquicos, emprestam ao conjunto uma tonalidade ligei-
ramente mais lúcida, mas a luminosidade pura dos
pneumáticos ainda não consegue atravessar as densas
brumas que aguardam o conhecimento para dissiparem-se.

X - Quem Inventou o Mal?

É curioso que, após montar com extraordinária competência
uma doutrina inteligente e bem apoiada na realidade
espiritual, tenham os pensadores gnósticos encontrado
dificuldades na correta avaliação do problema do mal.
Ressalve-se, de início, que se trata de questão
reconhecidamente espinhosa e que não se contenta com
propostas superficiais de solução, mas os gnósticos
dispunham de todos os elementos para uma visão adequada
e bem articulada desse aspecto.
O problema colocava-se para eles de maneira não muito
diferente da que ainda hoje pode ser formulada, ou seja,
como é que, sendo Deus dotado de todos os atributos da
perfeição, de conhecimento, inteligência e amor, teria
permitido a existência do mal? Ou até, como pensam alguns,
teria sido ele próprio o responsável por isso, dado que é o
criador por excelência?
A questão era particularmente relevante entre os gnósticos,
para os quais o mundo da matéria densa constituía o próprio
locus da infelicidade, do sofrimento, da imperfeição, da dor
enfim, verdadeira e tenebrosa penitenciária, na qual o
espírito permanecia aprisionado nas malhas da matéria por
um tempo que nem tem como avaliar. O mundo físico era o
'cadáver', a 'morte', o esquecimento, o estado de
embriaguez, marcado, pelo menos para os pneumáticos, pela
aflitiva sensação de exílio. Como é que Deus teria criado ou
consentido que se criasse um lugar desse, obviamente
destinado à inglória função de cárcere da centelha divina
enredada nas malhas da matéria?
A solução encontrada pelos formuladores da doutrina
gnóstica foi a de supor a existência de uma espécie de deus
menor, imperfeito e até mesmo algo diabólico que teria sido
responsável pela criação do mundo material com todo o seu
cortejo de imperfeições e desajustes. Com essa teoria,
ressalva-se a perfeição divina, atribuindo a outra entidade a
responsabilidade pelo desacerto da invenção do mal. Para
identificar esse deus menor e até maldoso, tomou-se de
Platão o termo demiurgos (criador), e desenvolveu-se em
torno desse núcleo central toda uma complexa teoria da
criação do mundo, como se pode ver, entre outros, nos
livros intitulados Sobre a Origem do Mundo, O Evangelho
de Filipe, Hipostase dos Arcontes e Ensinamento
Autorizado.
Em O Conceito de Nosso Grande Poder, o Deus do Antigo
Testamento é considerado 'o pai da carne', certamente por
não haver como admitir provenientes de um ser de absoluta
perfeição e pureza atitudes de cólera, ciúme, vingança,
punição. Por isso, como assinala Joseph A. Gibbons, na sua
introdução ao Segundo Tratado do Grande Seth "O Deus
deste mundo é mau e ignorante e pode ser identificado
como o Deus do Antigo Testamento".
Coerentemente com a postura de que o mundo é lugar de
imperfeições e desajustes e a matéria uma vil prisão para a
centelha divina individualizada, o livro adota e propaga a
doutrina docetista, segundo a qual o Cristo não fora dotado
de um corpo material como o dos demais seres humanos,
mas aparente. Veremos isso mais adiante.
Desembaraçado das conotações negativas suscitadas pelo
complexo problema da existência do mal, Deus se torna para
os gnósticos um ser de fato transcendente, acima da
compreensão humana e até insuscetível de ser convertido
em mero tema de debates. Ele é o Todo, o ser Supremo e, na
plenitude, o seu habitat, é tudo perfeição. Alcançada a
reintegração nele, o ser redimido entra "no que é silencioso,
onde não tem necessidade de voz, nem do conhecimento,
nem de formular um conceito, nem de iluminação, mas
onde é tudo luz que não precisa ser iluminada", no poético
dizer do Tratado Tripartite.
Magnífico achado esse, o de perceber que, depois de tanto
trabalhar para conquista do conhecimento redentor, a
criatura não mais precise dele, porque ela própria tornou-se
conhecimento, tudo está ao seu alcance; ela está em Deus e
nele vive e se move, como dizia Paulo; mais que isso,
porém, tem consciência da presença de Deus nela e de sua
presença em Deus. Daí o silêncio. Para que e por que falar?
No Evangelho dos Egípcios o autor ensina que o Pai, a Mãe
(Espírito) e o Filho provêm de Deus absoluto, "do silêncio
vivo", "do silêncio do Pai desconhecido".
No Discurso sobre o Oitavo e o Nono, lê-se isso: "Ele é
perfeito, o Deus invisível, a quem se fala em silêncio..."
Falar em silêncio, outra bela imagem para figurar a
linguagem inarticulada da contemplação, a prece sem
palavras. Pouco adiante, dirigindo-se ao discípulo
desconhecido, a entidade recomenda: "Retorna ao louvor,
meu filho, e canta enquanto você está em silêncio. Peça em
silêncio aquilo que você deseja."
No Testemunho da Verdade5, diz-se que aquele que
encontrou, "tornou-se silencioso".
Em Protennoia Trímorfica, parece falar o próprio Logos (o
Verbo), num texto de alta complexidade mística. Diz a
entidade que "habita no silêncio inefável".
Ao despedir-se de Madalena, segundo o Evangelho de
Maria, Jesus declara permanecer, dali em diante, no silêncio.
Assim, a presença de Deus é paz e silêncio, luz e repouso,
não, porém, inatividade e muda contemplação, mas
participação, integração, reunificação. O que era dois
reassumiu sua condição una e pode voltar à unidade maior,
da qual proveio em tempos imemoriais.
Não há como atribuir a esse Deus perfeito em todos os seus
atributos a criação do mal, que somente poderia ter
resultado das maquinações de um deus menor e até mau,
como diriam, mais tarde, os cátaros, herdeiros e
continuadores do gnosticismo.
Curiosamente, porém, o livro Os Ensinamentos de Silvanus,
também integrante da biblioteca de Nag Hammadi, não
adota a dicotomia inventada para explicar o problema do
mal. É preciso ressalvar que não se trata de documento
gnóstico, no sentido sectarista do termo, mas gnóstico sim,
em razão de que apresenta idéias e conceitos que encami-
nham o raciocínio para a busca do conhecimento. O que
nos leva a crer, ainda, que a comunidade gnóstica - pelo
menos aquela cujos papéis foram parar em Nag Hammadi -
não adotava posição rigidamente dogmática, parecendo estar
preparada para examinar as idéias de qualquer pensador sério
e respeitável. "O gnosticismo" - escreve Geddes MacGregor
"pela sua própria natureza, nada exclui (de suas especula-
ções) e é capaz, portanto, de abranger idéias novas e
interessantes que possam conduzir à verdade religiosa..."
Não sei o que pensaria Silvanus com relação às origens do
mal, mas ele não precisa de uma divindade secundária para
atribuir-lhe a responsabilidade pela criação do mundo da
matéria e seus inconvenientes. Talvez não entendesse os
desconfortos da matéria, como mal. Sua concepção de Deus
é, ao mesmo tempo, lúcida e consciente das limitações que
impunha ao ser humano na sua exata compreensão.
Ensina ele:

...não é difícil conhecer o Criador de todas as criaturas, mas
é impossível compreender a que Ele se assemelha. Pois é
difícil não somente para os homens compreenderem Deus,
mas também difícil para cada ser divino, tanto anjos como
arcanjos. É necessário conhecer Deus como ele é. Você não
pode conhecer Deus por meio de ninguém mais senão pelo
Cristo, que tem a imagem do Pai, dado que a imagem revela
a verdadeira semelhança em correspondência com aquilo
que é revelado. Um rei não é, usualmente, conhecido senão
pela imagem.

Numa atualização que respeitasse, tanto quanto possível, o
exato conteúdo do texto (não nos esqueçamos de que ele
tem, pelo menos, cerca de milênio e meio de idade), poder-
se-ia dizer que só por um processo de sintonia intuitiva
podemos 'conhecer' Deus, mas temos de nos conformar
com a impossibilidade de compreendê-lo tal como ele é ou
como se apresentaria ao nosso entendimento, sob que
imagem ou aparência. Essa dificuldade, aliás, não seria
apenas das criaturas humanas, mas até de seres superiores,
como anjos e arcanjos, que ele considera divinos, segundo o
entendimento da época. Esse critério, aliás, não parece
destoar no contexto gnóstico, cuja tese fundamental é a do
retorno a Deus, reunificação com ele e, portanto, uma
participação do indivíduo redimido em alguns privilégios da
divindade. Confira-se com a informação de Jesus: "Eu e o
Pai somos um!" Assim o conhecimento de Deus, segundo o
autor de Os Ensinamentos de Silvanus, só é possível através
do Cristo que, já realizado em sua integração no Pai, revela-
o com sua própria imagem. O retoque final é sugestivo, dado
que nos velhos tempos, a não ser na corte, os reis eram
conhecidos somente através das imagens deles estampadas
nas moedas...
Merece destaque, no entanto, a postura de que há um Deus
criador de todas as coisas e não um segundo Deus que teria
criado o mundo da matéria com as suas desarmonias e
imperfeições.
O autor mostra-se, aliás, tão convicto da integração do Cristo
em Deus que o põe também como Deus, o que parece
sugerir longo processo reencarnatório ou, pelo menos,
atestar a longuíssima carreira espiritual, a maturidade e
sabedoria do Cristo. O texto está assim redigido:

Ó alma persistente, em que ignorância se encontra você?
Pois quem é o seu guia na escuridão? Quantas imagens
assumiu o Cristo por causa de você? Apesar de ser Deus, ele
encontrou-se como homem, entre os homens. (Destaque
meu).

Reiteramos a informação de que este documento é escrito
de postura anti-docetista, segundo a qual, a despeito de sua
elevada condição espiritual - divina, segundo o autor-, Jesus
tinha a sua luminosa centelha mergulhada na carne.
É impraticável, contudo, fazer justiça a Os Ensinamentos de
Silvanus, em breve referência como esta. Seria necessário
aprofundamento maior, a fim de extrair dele toda a riqueza
de informação que contém, como esta: "se o homem
perverso que esteja no corpo (encarnado) tem morte
calamitosa, quanto mais aquele que tem a mente cega".
Mesmo os conceitos mais transcendentes o autor sabe
colocar em linguagem acessível e elegante, como este, ainda
sobre Deus:
Pois Deus não precisa submeter as criaturas a testes. Ele sabe
de tudo, antes que as coisas aconteçam e sabe das coisas
ocultas do coração. Elas são reveladas e julgadas insuficientes
perante ele. Que ninguém diga que Deus é ignorante. Pois
não é correto colocar o Criador de todas as criaturas na
ignorância. Pois mesmo as coisas que se acham nas trevas
são, perante ele, como as que se encontram na luz
(Destaque meu).

Uma beleza!
O problema do mal, contudo, encontra sua perfeita solução
no precioso e infelizmente incompleto Evangelho de Maria.
Após as seis páginas iniciais perdidas, o texto começa com
este ensinamento de Jesus póstumo a Maria:

Todas as naturezas, todas as formações, todas as criaturas
existem em cada uma e com cada uma de suas semelhantes e
elas se resolverão somente segundo as raízes de sua própria
natureza.

Ou seja, há uma solidariedade na criação, segundo a qual
cada um parece partilhar sua individualidade com a natureza
dos demais e, por isso, os processos se resolvem conforme a
natureza de cada indivíduo, mas dentro do todo. Vale dizer
que os males do mundo ficam no mundo, dado que as
mazelas e enfermidades do corpo desaparecem com a
desintegração do corpo.
Pedro deseja saber mais e faz a pergunta que tantos
gostariam de ter tido oportunidade de formular. Nestes
termos:
-Uma vez que você nos explicou tudo, diga-nos também
isto: - que é o pecado no mundo?
- Não há pecado senão aquele que vocês mesmo cometem
quando fazem coisas que são como da natureza do adultério,
que é considerado 'pecado'. Eis por que o Bem foi posto
entre vocês, na essência de toda a natureza, a fim de
restaurá-lo às suas raízes. Eis por que vocês adoecem e
morrem dado que...

O texto se encontra mutilado aqui, mas o Cristo prossegue,
dizendo:

A matéria gera uma paixão que não tem igual, que procede
de algo contrário à natureza. Por isso, cria-se um distúrbio
em todo o corpo. Eis por que lhes disse: Tenham um bom
ânimo, e se se sentirem desencorajados, recuperem-se
perante as diferentes formas da natureza.

Em suma: o mal não é criação divina, mas desvio das
criaturas em relação à harmonia da leis divinas. O adultério,
por exemplo, não é pecado a ser confessado e punido ou
condenado em si, como pecado, no sentido teológico, mas
porque gera um atrito com as leis que estão,
necessariamente, programadas para produzir o bem. O bem,
não o mal, é da essência das coisas. Em outras palavras:
resume-se tudo numa questão de comportamento, e não de
teologia, a não ser nas suas implicações transcendentais no
relacionamento criatura/criador. Por outro lado, como ficou
explicado no parágrafo anterior, as coisas se resolvem
segundo suas próprias raízes - as da matéria têm solução
diferente das espirituais, as doenças do corpo 'morrem' com
o corpo, as distorções espirituais terão de ser resolvidas no
âmbito das realidades espirituais, sob o comando de outro
conjunto de normas, mesmo porque a matéria é transitória,
por mais que durem as conexões do princípio inteligente
com ela, ao passo que o espírito partilha da imortalidade
divina, ainda que não da co-eternidade com Deus.
Até o conceito dos distúrbios psicossomáticos estão aí
antecipados. A extraordinária lucidez e transparência desse
ensinamento atribuído ao Jesus póstumo (sobrevivente) a
Madalena confere a esse documento certa autenticidade,
pelo menos em observações como esta, ainda que o texto
tenha sofrido alguma entropia, por interpolação, omissão ou
outra qualquer interferência deliberada. Dificilmente alguém
senão o Cristo poderia ter feito, àquela altura,
pronunciamento tão claro e objetivo sobre as razões do mal,
mesmo porque, como temos visto, predominava o
pensamento de que a existência do mal no mundo somente
poderia ser explicada, ainda que não justificada, pela teoria
de que ele havia sido introduzido no contexto humano por
um Deus secundário e até maldoso.
Lamentavelmente, o problema do mal não encontrou
solução ou, sequer, encaminhamento adequado, no
contexto do cristianismo vitorioso que conhecemos hoje,
em nenhum de seus matizes doutrinários. Também não seria
satisfatória a solução proposta pelo gnosticismo, caso fosse
essa a opção preferida, de vez que se transferia a
responsabilidade pela criação do mal a uma entidade
artificialmente criada para assumi-la. Mesmo porque, o
gnosticismo como doutrina necessariamente minoritária e
qualitativa não tinha condições nem intenção de empenhar-
se na montagem de um sistema de poder temporal. Se o
fizesse, ter-se-ia, provavelmente, extraviado pelos
caminhos, trocando o esforço pessoal na busca do
conhecimento redentor por alguma doutrina mais palatável,
ainda que inútil, às massas desacostumadas a pensar com a
própria cabeça e buscar com suas próprias pernas.
Seja como for, somente no contexto da doutrina dos
espíritos, formulada na metade do século XIX, surgiria uma
proposição competente sobre o problema do mal. Não deve
constituir surpresa para ninguém que essa fórmula tenha
sido congruente com a que o Cristo póstumo teria
transmitido a Madalena e a Pedro, entre outros amigos e
trabalhadores de sua confiança. Realmente, dos
ensinamentos dos espíritos, entendemos que o mal não é
criação divina, mas resultado dos desvios de comportamento
das criaturas em face das leis que governam e disciplinam os
mecanismos da vida maior que é a do espírito imortal.
Em O Ato de Pedro singular documento copta, não
especificamente gnóstico, como advertem os tradutores e
introdutores James Brashler e Douglas M. Parrott,
encontramos uma encantadora narrativa que, além do sabor
de espontânea autenticidade, contém ensinamentos que
desapareceram do contexto cristão, mas que os gnósticos
souberam valorizar e preservar nos seus papiros.
Era domingo, primeiro dia da semana entre os judeus e
muitos doentes haviam sido trazidos a Pedro para suas
sessões de cura espiritual, às quais ele se dedicava com todo
o generoso impulso de seu coração. Um homem destacou-se
da multidão para um impertinente desafio. Pedro restituía a
visão aos cegos, a audição aos surdos, o movimento aos
paralíticos e a força aos fracos; como e por que não curava
sua própria filha, uma bela moça, crente em Deus, que ali
estava a um canto, imobilizada?
Pedro sorriu e comentou:

Meu filho, só Deus sabe por que o corpo dela não é sadio.
Saiba você que Deus não foi fraco ou incapaz de conceder
essa graça à minha filha. Mas para que sua alma se persuada e
aqueles que aqui se encontram possam ter mais fé.

Em seguida, voltou-se para a jovem e a ordenou que se
levantasse de onde estava, "sem nenhuma outra ajuda, senão
a de Jesus", e caminhasse até ele. Foi o que aconteceu. A
moça ergueu-se e andou sozinha até o pai. A multidão
explodiu de alegria e admiração.
Inesperadamente, contudo, Pedro voltou a falar com a
moça, ordenando-a a retomar o seu lugar e tornar-se
novamente uma inválida, o que também ocorreu conforme
ele determinou. E explicou: Isto é bom para você e para
mim.
Mas como poderia um sofrimento daqueles ser benéfico a
alguém e ainda mais, uma dor que poderia ser removida,
como ficou demonstrado? Novamente Pedro explicou a
razão da sua estranha atitude ao condenar a própria filha à
invalidez, após ter demonstrado ter poderes para curá-la:

No dia em que ela nasceu, tive uma visão e o Senhor me
disse: "— Pedro, nasceu para você hoje uma grande
provação. Esta filha faria muitas almas sofrerem se o seu
corpo permanecesse saudável."

O pescador achou que a visão zombava dele. Como é que
uma pessoa saudável poderia causar a infelicidade de tantos e
uma aleijada não?
Havia, porém, outra história atrás da história. A narrativa
prossegue. A medida que a menina crescia, crescia também
sua beleza e muitos foram os que se interessavam em casar-
se com ela, como um sujeito rico por nome Ptolomeu, que a
entrevira quando tomava banho, aos dez anos de idade e
pediu insistentemente que a menina lhe fosse dada em
casamento, na época própria.
Faltam, neste ponto, as páginas 133 e 134 do papiro, mas
quando a narrativa é retomada após o corte, a jovem está
sendo trazida de volta à casa de seus pais. (Parece que, afinal,
Ptolomeu conseguir obter a permissão para casar com ela).
Informado a respeito, Pedro e a esposa vêm ver a filha e a
encontram paralisada 'dos dedos à cabeça' e ressequida.
Não se sabe o que aconteceu, sabe-se apenas que Ptolomeu
ficou arrasado e cego de tanto chorar. Dispunha-se a matar-
se no seu quarto, quando viu intensa luz que iluminava toda
a casa e uma voz que lhe dizia que Deus não cria as pessoas
"para a corrupção e a poluição". Fora necessário que ele,
Ptolomeu, não tivesse nenhum relacionamento com a
jovem, na qual deveria "reconhecer uma irmã". Que ele
fosse a Pedro, que lhe explicaria melhor as coisas.
Assim ele fez e lá, em casa do pescador, teve nova visão do
Cristo que ele percebia "com os olhos da carne e os olhos da
alma".
Não há como atestar a legitimidade da história, mas o que
importa aqui é destacar a validade dos ensinamentos que ela
veicula, fictícia ou não.
Para não alongar demais o comentário, retiremos do texto
uma súmula da sua mensagem básica:

1 - A serena compreensão e aceitação de Pedro de uma
situação penosa em seu próprio lar e sua convicção de que o
sofrimento dela não era nem sem razão, nem inútil, pois
havia um plano a desenrolar-se nos bastidores de toda aquela
história.
2 - A consciência de que ele próprio (Pedro) tinha algum
envolvimento cármico com o drama que o espírito da moça
vivia, ou não a teria recebido como filha ("Isto é bom para
você e para mim"). De que outra maneira explicar sua
convicção (intuitiva ou revelada) de que era benéfico,
também para ele, aceitar o sofrimento da filha bonita e
paralítica?
3 - Sua dedicação ao próximo, curando à quantos podia,
mais interessado, contudo, em fortalecer e curar almas do
que corpos, dado que não dispensava as prédicas sobre os
temas que iam sendo sugeridos pelos eventos do dia.
4 - Seu respeito à dor alheia e sua compaixão pelo
semelhante, ao mesmo tempo em que recusava privilégios
no atendimento a problemas pessoais, como a eventual cura
da filha.
5 - Sua familiaridade com os fenômenos de natureza
mediúnica, que com ele ocorriam com freqüência, tanto
quanto sua capacidade de curar os doentes, faculdades essas
que ficaram documentadas nos canónicos ("Não tenho prata
nem ouro...").
6 - Sua confiança em Deus, que tinha suas razões para
determinar, através das leis naturais que regem o universo
como um todo (matéria e espírito), que uma criança
aparentemente inocente, pois nada fizera naquela vida que o
justificasse, trouxesse para a existência na carne um
compromisso a resgatar com a dor. Uma provação, como
explicara o Cristo manifestado. Para agravar a provação e
ampliar os seus méritos, caso ela a cumprisse
satisfatoriamente, a menina nascera com a prova adicional
da beleza física que iria, certamente, como aconteceu, atrair
para ela o interesse de muitos candidatos ao casamento.
7 - Se, num gesto de rebeldia e inconformação com o seu
esquema cármico, o casamento se consumasse,
provavelmente, ela teria de enfrentar sérias complicações
com várias pessoas, talvez marido e filhos, ou parentes e
amigos. Em suma, não estava 'programada' para casar-se
naquela existência, que teria de ser caracterizada pela
renúncia.
8 - A visão do Cristo a Ptolomeu não apenas o adverte da
gravidade do suicídio - "Deus não criou os corpos para a
corrupção..." -, há uma inexplicada referência à moça como
irmã dele. Isso pode ser apenas simbólico, mas não seria
impossível que houvesse entre ela e Ptolomeu
relacionamento anterior, em existência pregressa, na qual
ambos tenham exorbitado de suas respectivas condições e
limitações para saltar as barreiras das conveniências
praticando o incesto. Teriam vindo, portanto, desta vez,
para aprender a se conterem e se amarem como irmãos, em
vez de se entregarem a novo surto de paixão incontrolada.
9 - Digna de nota, igualmente, é a observação de que
Ptolomeu teria percebido a presença do Cristo na casa de
Pedro com "os olhos da carne e os olhos da alma". É
realmente diferenciada a visão comum da visão mediúnica,
dado que esta não percorre os circuitos habituais (olho,
nervo ótico, etc.), mas é produzida por uma interferência
direta no diencéfalo. Propus para esse fenômeno a expressão
'visão diencefálica', em livro intitulado Diversidade dos
Carismas - Teoria e Prática da Mediunidade.

Devo reiterar, ainda uma vez, que não há como atestar a
autenticidade da comovente história, mas não se pode deixar
de observar que ela revela profundo conhecimento dos
mecanismos da vida. Esse entendimento somente seria
recuperado cerca de dezoito séculos mais tarde, com os
ensinamentos que instrutores espirituais respeitáveis
transmitiriam ordenadamente a Allan Kardec. O Ato de
Pedro pode não ser um documento "explicitamente
gnóstico", como observam seus tradutores, mas é do mais
puro teor gnóstico no conhecimento e na adoção de
aspectos da realidade que, antes de serem gnósticos, cristãos,
budistas ou espíritas, integram uma verdade cósmica. A
verdade não pode ser diferente em suas manifestações,
embora possa parecer diferente aos olhos dos que a
observam. Se, por exemplo, a sobrevivência do ser à morte
corporal e a comunicabilidade com os 'mortos' são verdades
demonstráveis, como o são, serão necessariamente
verdadeiras para todos, inclusive para os que não acreditam
nelas ou ainda não as conhecem.
Restaria, contudo, um aspecto a considerar, e que pode ser
assim formulado, como o tem sido: sendo Deus perfeito em
todos os atributos de sua grandeza, por que teria permitido a
existência do mal, já que não o criou diretamente?
A resposta à essa indagação já se acha parcialmente exposta
no que ficou dito há pouco, ou seja, o mal não é criação
divina. Os próprios dispositivos da lei cósmica, que
garantem a vitória final do bem sejam quais forem as suas
vicissitudes nesse percurso, estabelecem um mecanismo de
rejeição a tudo quanto não estiver sintonizado com esse
propósito. O choque ou o atrito que causam a dor, o
sofrimento, a angústia não constituem punição ou embate
com uma realidade chamada mal, também embutida na
criação, por toda parte, e sim, um choque insensato com o
bem que tem sua trajetória a seguir, e uma definida meta a
atingir. Paradoxalmente, portanto, a dor resultante do atrito
com as leis cósmicas é parte do plano geral de induzir a
criatura a rever suas posições e corrigir seu próprio rumo.
Alguma coisa está errada, no corpo físico, quando um órgão
dói, da mesma forma que algo está desajustado no
procedimento do espírito quando ele sofre.
Referindo-se a Jesus, diz Pedro em A Carta de Pedro a
Filipe: "Ele sofreu por nossa causa e é necessário a nós
sofrermos por causa da nossa pequenês".
O ser humano não foi criado para o sofrimento, mas para a
felicidade, a plenitude, o Pleroma dos gnósticos.
"Você não veio para sofrer" - ensina Zostrianos - "mas para
livrar-se da servidão".
Aquele que se opõe à determinação da lei, em desafio
pessoal à ordem cósmica, choca-se com um sistema
poderoso que dispõe de mecanismos de correção,
necessariamente dolorosos, para ajustar o rumo dos que
ignoraram o apelo do amor ao optarem pelo erro.
Mas não é a 'obrigação' de chegar à felicidade a única
restrição imposta ao nosso livre-arbítrio; é também a de que,
uma vez atropelada a lei, abrimos o ciclo do reajuste,
usualmente através da dor. Esta funciona como advertência
de que alguma coisa está errada no procedimento da criatura
em algum ponto do passado. Há, pois, um paralelograma de
forças que se equilibram na interação livre-
arbítrio/determinismo. As ações de hoje são as reações de
amanhã; o determinismo do reajuste, agora, resulta do
exercício do livre-arbítrio de ontem. Mas não é só em
sentido negativo que opera a lei e nem poderia ser assim,
dado que seu objetivo não é punir o faltoso, mas levá-lo à
felicidade, chamando-lhe a atenção para os desacertos a
corrigir. Ou não teria a criatura como ir do estado de
verdadeiro sonambulismo ou embriaguez em que fica,
quando na condição de ser material, ao próximo patamar,
como psíquico, a fim de, eventualmente, alcançar o plano
superior dos seres pneumáticos ou espirituais.
O gnosticismo dispunha, portanto, de todos os elementos
necessários à elaboração de um modelo, no qual não se
tornasse imperioso inventar um deus secundário para
explicar as origens do mal. Esta observação não assume as
proporções de crítica e sim a mera admissão de um fato. É
preciso levar em conta que, na escala dos milênios, foi breve
a existência do gnosticismo, que não chegou à dois séculos.
E de supor-se que, no correr do tempo, fossem seus
pensadores aperfeiçoando e aprofundando a doutrina que,
mesmo nas suas compreensíveis imperfeições, montou um
modelo competente para encaminhar o ser humano rumo às
supremas conquistas evolutivas. O envolvimento com o
cristianismo nascente era inevitável, de vez que foi nos
ensinamentos do Cristo que os pensadores da época
encontraram as matrizes luminosas de uma inteligente
interpretação da vida. A superposição da doutrina gnóstica
com a que Jesus deixara com os seus seguidores da primeira
geração atesta o acerto dos postulados básicos do
gnosticismo, mas isso acabou produzindo o conflito do qual
o gnosticismo, minoritário por natureza e vocação, saiu
neutralizado pela corrente interessada mais no poder
terreno do que nas metas de perfeição espiritual que Jesus
veio propor como novo padrão de comportamento humano.
Tal como o Cristo, os gnósticos propunham um código de
procedimento, uma renovadora teoria do conhecimento
espiritual, ao passo que os que assumiram o nome de cristãos
desejavam apenas, a partir do terceiro século, uma
instituição nos modelos antigos de comprovada aceitação
pública. Assim, em lugar de se debruçarem sobre o livro da
vida para ver o que tinha ele a ensinar, o cristianismo
mergulhou na matéria, instituindo rituais, sacramentos,
símbolos, todo o aparato visual a que estavam acostumadas
as massas com as quais se faz o bolo do poder terreno. É por
isso que Will Durant opina que o cristianismo não eliminou
o paganismo, adotou-o. Era um modelo já testado pelos
séculos e infalível na realização dos propósitos das novas
gerações que herdavam o título de cristãos, mas não a
mensagem de Jesus, tal como ele a transmitira.
Nesse sentido, foi lamentável que o gnosticismo tenha como
que aceitado sua inserção naquele contexto cristão somente
porque encontrou, nos ensinamentos de Jesus os apoios e as
sugestões sobre as quais dar prosseguimento à tarefa de
decifração dos enigmas vida/morte, matéria/espírito,
felicidade/desassossego, luz/treva.
Envolvidos com o cristianismo que então se praticava,
passaram a ser considerados cristãos dissidentes e, por isso,
marcados para a extinção, quando, em verdade, dissidentes
eram os que passaram a persegui-los. Os gnósticos
apontavam para cima e sonhavam com o ser pneumático, ao
passo que a hierarquia eclesiástica queria ficar onde estava,
aprisionada nas teias e sombras em que viviam os seres
carnais. Conservando-os assim, era possível e era fácil
pensar por eles e dizer-lhes o que e como fazer para
continuarem a ser o que sempre foram. Em troca, era
prometida uma salvação miraculosa, coletiva, por obra e
graça da obediência e da crença, que é apenas estágio
primitivo do conhecimento.
Naquele tipo de disputa, não estavam interessados os
gnósticos, dado que a briga era pelo poder temporal e não
pela conquista da visão cósmica que o pneumatismo poderia
e pode proporcionar. Poderiam, contudo, ter prosseguido,
como grupo minoritário, mas os cristãos majoritários
puseram-se como donos absolutos não apenas das idéias de
Jesus, mas de toda a sua herança espiritual, interpretada pela
pauta dos interesses imediatos. Acontece, contudo, que as
verdades contidas nos ensinamentos do Cristo não
constituem propriedade privada de ninguém, porque são de
todos, e isso, como tudo o mais, ele deixou bem claro, não
apenas na pregação como na exemplificação.
Um universo no qual prevalece a ordem e só nela pode
subsistir tem de ser habitado por seres responsáveis e
conscientes. A busca do conhecimento preconizada pelos
gnósticos produz, em paralelo, progressiva conscientização
do ser, tanto quanto a si mesmo como em relação aos
enigmas do mundo em que vive. É a tese do eminente
cientista e pensador espírita Prof. Gustave Geley, que a
expôs no seu livro Do Inconsciente ao Consciente. Quanto
às técnicas de desenvolvimento do senso de
responsabilidade, somente poderão funcionar quando
praticadas em regime de liberdade de escolha e de ação.
Realmente, a lei cósmica assegura a cada um e a todos,
ampla faixa de livre-arbítrio, ou não teríamos como
promover nossas experiências com a verdade e obter o
conhecimento que nos faculta a capacidade de avaliar os
resultados e decidir sobre o próximo passo a ser dado.
Podemos sempre decidir livremente entre o erro e o acerto.
A lei não irá materializar-se para agarrar a mão que segura a
arma e impedir o disparo assassino. Se, no entanto, a decisão
de matar prevalece, e o adversário é executado, tem-se a
escolha, fez-se a sementeira, armou-se um dispositivo de
inexorável retorno que, no tempo devido, irá fatalmente
disparar o mecanismo da correção e do ajuste, bem como
suscitar o senso de responsabilidade, que apura a capacidade
de escolha.
Na verdade, o direito à livre escolha é de amplitude quase
ilimitada. Quase. A única limitação que lhe é atribuída, no
entanto, assume as proporções de um bloqueio
intransponível, uma imposição incontornável, a de que
estamos como que obrigados a uma destinação de felicidade
e paz, na reunificação com a divindade. Podemos escolher
os caminhos e atalhos, os atoleiros ou precipícios que
desejarmos para essa jornada, tanto quanto o tempo a ser
consumido no trajeto, mas a destinação é obrigatória. Não
poderia ser outra senão aquela que é também o ponto
cósmico em que a jornada começou, no dizer dos gnósticos,
ao nos tornarmos dois, quando éramos um. Talvez o "ponto
ômega" de Teilhard de Chardin.
A trajetória será mais longa ou mais curta, mais feliz ou
desgraçada, na medida em que utilizarmos corretamente o
privilégio do livre-arbítrio. Sem ele, não seríamos gente, e
sim instrumentos cibernéticos programados.
Assim, a dicotomia matéria/espírito, ou talvez fosse melhor
dizer o conflito gnóstico matéria/espírito, não parece ter
encontrado, tanto quanto podemos depreender dos
documentos de Nag Hammadi, uma solução satisfatória, que
estaria aí pelo meio termo, como ficou tão bem expresso no
Evangelho de Filipe e que trazemos de volta a exame: "Não
tema a carne nem a ame. Se você a teme, ela o dominará. Se
você a ama ela o engolirá ou paralizará você".
Esse ensinamento dá à questão tratamento adequado, ao
reservar espaço para uma abordagem sem temores e sem
paixões, ou seja, espontânea como a quer a natureza. Afinal
de contas, com todas as inconveniências que os gnósticos
identificavam na matéria, o corpo físico é e continua sendo
instrumento insubstituível ao progresso da centelha divina
dividida de voltar à integração na divindade. A matéria
densa é a muleta, talvez incômoda e grosseira, mas, ainda
assim, instrumento precioso de trabalho do espírito ainda
imperfeito que sonha com a sua volta à luz de onde veio.
Ainda que obsessivamente fixados na rejeição à matéria,
contudo, os gnósticos montaram um modelo competente de
aprendizado quanto aos mecanismos de que a vida se serve
para alcançar a plenitude na unidade. A doutrina que
poderíamos considerar como a das três trindades é exemplo
veemente dessa competência, segundo as quais os seres
hilicos ou materiais sintonizam-se com a matéria, passam
por um batismo de água, e são ambientados num corpo
igualmente material; os psíquicos têm um batismo de fogo,
símbolo de lutas redentoras e sintonizam-se mais com o
corpo psíquico; ao passo que os pneumáticos mergulham no
próprio espírito (batismo do espírito), concentram-se no
corpo mental e tendem a desembaraçar-se para sempre da
matéria densa. "Não precisam de outra forma" - lê-se no
Evangelho de Filipe - "porque têm a contemplação e
compreendem por introvisão".
Na costura de todo esse longuíssimo processo de retorno à
luz originária, percebe-se o fio dourado das sucessivas
reencarnações depuradoras. A luz se junta à luz maior
quando consegue livrar-se das sombras que a envolvem, não
por um passe de mágica ou por uma redenção vicária, mas
pelo conhecimento e o amor, tenazmente perseguidos e
muito trabalhados.

XI - Docetismo, Antigo e Inútil Debate

A rejeição pela matéria, sempre considerada como
penitenciária do espírito, é aspecto que não deve ser
esquecido na avaliação da doutrina gnóstica, em vista da
obsessiva influência nela exercida. É preciso admitir que eles
tinham alguma razão no santo horror à matéria, tão criativa
na invenção de artimanhas e mordomias, a fim de que o
espírito gostasse da prisão e se deixasse esquecer nela por
um tempo dilatado, que somente em milênios de milênios
poderia ser medido.
Os seres hilicos, materiais ou carnais eram não apenas
esmagadora maioria, mas também os que por mais tempo se
demoravam acoplados à matéria densa, hipnotizados à seus
atrativos e artifícios. Acostumados e bem adaptados a ela,
assim que eram forçados a abandonar o corpo desgastado ou
destruído por algum acidente, ansiavam por voltar logo à
carne, em outro corpo, outra vida, outra temporada, a
repetir as experiências de seu agrado. Não é difícil, portanto,
entender por que eram maioria e, conseqüentemente, os
que mais se reproduziam biologicamente, a fim de manter
acelerado o ritmo da reciclagem. Uma visão retrospectiva,
por outro lado, nos levaria à informação de que estavam
esses espíritos à um tempo longo demais na matéria, desde
imemoriais experimentações da natureza com o que Henri
Bergson chama de "pensar a matéria". Só isso conheciam, só
disso gostavam, só isso sabiam fazer, sempre contidos nas
exíguas limitações do espaço mental concedido e que
ninguém se esforçava por expandir. O processo evolutivo é
lento, sem recuos, mas pontilhado de pausas e com tímidos
avanços.
Pouco a pouco, contudo, iam os carnais atravessando as
fronteiras para o universo menos sombrio dos psíquicos,
onde começava a luta para fazer brilhar a luz que traziam
sob espessa camada de materialidade. Consolidada a
programação do instinto, começava o psiquismo a emitir
seus primeiros sinais ainda incertos, e "a buscar-se através da
forma", como escreveu Teilhard de Chardin. A partir de
certo momento, já mais avançados no território reservado
aos psíquicos, começavam os recém- chegados a
experimentar uma vaga "saudade de Deus", mas ainda sem
saberem ao certo o que seria aquela sensação. Somente
muitos milênios e inúmeras vidas depois passariam a trilhar
as primeiras picadas no território dos pneumáticos, onde
intensificavam os esforços para desvencilhar-se dos laços
que ainda os prendiam à matéria e às sensações que ela podia
proporcionar. Pelo menos começavam a perceber os
engodos e artifícios criados para embaraçar-lhes os passos. A
essa altura, a matéria bruta não era mais amiga incondicional
ou sequer aliada confiável, mas adversária sutil ante a qual
era preciso estar sempre em estado de alerta e descofiança a
fim de não se deixar enredar novamente nas suas malhas e
retardar ainda mais o ansiado momento da reunificação com
o Todo.
Daí, as inúmeras advertências. Era preciso, por exemplo,
desconfiar da mulher, sempre pronta a gerar novos corpos
materiais e, por extensão, acautelar-se quanto à prática
sexual que resultava no aprisionamento de outros espíritos
na carne. Melhor era manter-se no celibato o homem e
virgem a mulher. Casar era melhor do que abrasar, mas não
a opção ideal. O casamento era como que teoricamente
permitido, más não estimulado; a prática do sexo
extraconjugal impensável, suscetível de punição rigorosa,
especialmente para a mulher, numa sociedade organizada
pelos homens e para os homens.
Veio, certa vez, ao nosso grupo mediúnico, um espírito que,
em tempos outros, fora juiz e condenara uma mulher por
adultério, mas, de alguma forma, que não pude
compreender de início, o episódio ainda incomodava sua
consciência, cerca de dois milênios e muitas vidas depois.
Acabamos descobrindo que ele não fora apenas o juiz, mas o
próprio adúltero, ao induzir a pobre mulher a ceder aos seus
avanços. Questionado a respeito dessa duplicidade, ele
respondeu que se limitara a aplicar a lei. - Bem, disse-lhe eu,
mas o adultério somente pode ser cometido a dois. Sem se
perturbar, ele retrucou que a lei condenava a adúltera,
destacando bem essas palavras.
Seja como for, a prática do sexo, no entender dos gnósticos,
retardava a marcha do espírito no seu retorno a Deus, de
vez que contribuía para manter a polarização, a dualidade e,
portanto, a separação, quando o ideal era que a criatura
conseguisse restabelecer seu equilíbrio de origem.
Daí, talvez, tantas referências à androgenia no complexo
documento Sobre a Origem do Mundo, que não deixa de
alertar para as inconveniências da matéria densa, ao ensinar
que "... o corpo moldado tornou-se uma barreira para a luz"
Dentro desse contexto de rejeição à matéria e à medida em
que prosseguiam e se ampliavam as especulações filosóficas
e teológicas no seio do gnosticismo, como também no
cristianismo ortodoxo, não é de admirar-se que começassem
a surgir reflexões sobre a interação do Cristo com o plano
material. Em outras palavras, estaria o Cristo, o Logos,
também submetido às mesmas leis aplicáveis aos demais
seres humanos na 'construção' de seu corpo? Ainda de outra
maneira: teria o Cristo um corpo físico material, carnal ou
teria ele próprio elaborado seu veículo de manifestação
terrena de maneira transcendental para livrar-se de um
envolvimento que poria o paredão da matéria entre seu
espírito e o mundo? Como ser divinizado, dado que
participava do pensamento e da vontade de Deus, como
poderia Cristo, como escreve MacGregor, "permitir-se
contaminar pela matéria, se a matéria era intrinsecamente
maligna?"
MacGreggor lembra que a doutrina docetista "alarmou a
muitos", na Igreja primitiva, bem antes da exacerbação do
choque entre cristãos e gnósticos. Um dos primeiros e dos
mais 'alarmados' foi Inácio de Antioquia (35-107), que
combateu com veemência os docetistas (não propriamente
gnósticos), aos quais chamou de ateus e descrentes, ao
ensinarem que o Cristo sofrera apenas em aparência, dado
que seu corpo era também aparente. Estava criada a
controvérsia que, a espaços mais ou menos amplos, agitou os
meios cristãos não apenas no seio da própria Igreja, suscitada
por seitas ou grupos paralelos como os cátaros, e até no meio
espírita brasileiro.
Os papiros de Nag Hammadi oferecem uma amostragem
dessa inútil controvérsia. O Apocalipse de Pedro, por
exemplo, é documento francamente docetista. Mais uma
vez manifestado a Pedro, o Cristo teria explicado que "o
Jesus vivo" sentia-se "alegre e sorridente" na cruz, ao passo
que os cravos eram pregados "na parte carnal", espécie de
"substituto" entregue à vergonha, "alguém que tinha a sua
aparência". Mais adiante, reiteraria a observação de que "... o
corpo era o substituto. Mas o que eles libertaram foi meu
corpo incorpóreo. Eu sou, porém, o espírito intelectual
cheio de luz radiante".
A Carta de Pedro a Filipe não é explícita com relação ao
assunto, limitando-se a referências ao tempo em que o
Cristo "esteve no corpo" ou do próprio Cristo ao declarar:
"Fui mandado descer ao corpo..."
Em outro documento, infelizmente bastante mutilado, sob o
título Melquisedec, o tom é claramente anti-docético, como
observa Birger A. Pearson, na sua introdução, que
prossegue: "... o corpo, a carne e os sofrimentos de Jesus
Cristo são, na verdade, reais".
Curiosamente, Melquisedec é aparentemente identificado
como sendo o próprio Cristo, obviamente em outra
existência, envolvida esta em mistérios, mas com
satisfatórios apoios históricos. Em frases inequívocas, a
entidade alerta seus ouvintes quanto aos que viriam mais
tarde dizer que...

...ele é não-gerado (agênere) apesar de ter sido gerado, que
ele não come apesar de comer, que não bebe, apesar de
beber, que é incircunciso apesar de ter sido circuncidado,
que ele é não-carnal apesar de ter vindo para a carne, que
não veio para o sofrimento, apesar de ter vindo para o
sofrimento, que não se levantou de entre os mortos, apesar
de que se levantou de entre os mortos.

É também não-docetista a postura do Tratado Tripartite
segundo o qual o Cristo não apenas veio para a carne, mas
anunciou sua própria vinda à Terra através dos profetas,
ainda que nenhum deles fosse capaz de dizer "quando ele
viria e quem o geraria", mas que seria gerado e sofreria,
tendo "recebido sua carne" do Logos eterno.
Pouco adiante, no estilo dos velhos textos, o autor volta à
idéia nuclear da sua exposição nesse módulo, para dizer:

Não apenas ele tomou para si a morte daqueles que
pretendia salvar, como aceitou a pequenez deles para os
quais ele havia descido, quando eles jejuavam em corpo e
alma. Ele assim fez porque deixou-se conceber e nascer
como um infante, em corpo e alma.

O autor informa, portanto, que o Cristo não desejou
privilégios nem se valeu de recursos excepcionais para
realizar sua missão redentora, assumindo em todas as suas
implicações a condição humana, desde o processo biológico
da geração de um corpo físico, embora preservando sua
elevada condição espiritual. "O Salvador - prossegue a
exposição, mais adiante - era a imagem corporal do unitário.
Ele é a Totalidade em forma humana". Sua tarefa começou,
portanto, entre "os homens que estavam na carne", com a
doação da redenção, mas também de seu amor, ele "o filho
que se encarnou".
Também o Testemunho da Verdade é não-docetista, sendo
o Cristo reconhecido como aquele que "tomou a carne",
nascendo de uma virgem para o mundo.
Em Protennoia Trimófica texto de difícil acesso, a entidade
manifestada identifica-se com o Logos (o Verbo) que "habita
o Silêncio inefável" e parece indicar que por mais de uma
vez teria estado entre as criaturas humanas, ainda que não
necessariamente pelo processo do nascimento. Pelo que
posso depreender, da primeira vez, revelou-se em silêncio,
ou seja, pelo pensamento. É que, oculta no pensamento,
vive a luz e foi esta luz que se revelou pela primeira vez. Em
seguida, o Logos teria se revelado pelo som de sua voz.
Entendia o misticismo antigo - e isso está preservado no
gnosticismo - que Deus, como vimos, é silêncio e
imutabilidade, e que falando, cria. Não é difícil buscar alguns
fundamentos dessa idéia, que se oculta atrás de símbolos e
chaves que se perderam, mas que podem ser entrevistas,
intuídas ou adivinhadas. É o Verbo (Logos, Palavra) que
expressa a ação de qualquer sentença. Não há pensamento
completo formulado que não contenha verbo, o indicativo
por excelência da ação. A sentença pode abrir mão de tudo
o mais e até deixar de explicitar o sujeito e o objeto da ação,
mas não o verbo, se é que deseja expressar alguma forma de
ação. Basta dizer, por exemplo, "escrevo". O sujeito está
oculto e o objeto não declarado, mas o ato de escrever está
caracterizado.
Ensina a entidade em Protennoia Trimórfica: "A segunda
vez eu vim pelo Som de minha Voz. Dei forma àqueles que
tomaram forma até a consumação deles."
Ou seja, a ação de criar as formas resultou de um ato de
vontade concretizado no Verbo.
Na terceira vez, o Cristo se revelou como o Verbo, "na
semelhança de suas formas", ou seja, tomou forma humana.
"Usei a roupagem de todos e escondi-me entre eles e eles
não souberam de quem vinha o meu poder".
Como se pode verificar, portanto, docetismo e anti-
docetismo vêm mantendo longa e inglória batalha de
palavras que nada tem a ver com a mensagem de Jesus e
nada acrescenta a ela, senão as turvas tonalidades da
polêmica, da qual cada um dos debatedores se serve para
exibir suas erudições e vaidades.

PARTE II
O Evangelho de Tomé

I - Quem é Tomé?

Conforme temos observado, o Evangelho de Tomé constitui
um dos mais importantes documentos do histórico achado
de Nag Hammadi. Antes de examiná-lo mais de perto,
contudo, torna-se necessário estudar com maior atenção os
informes de que dispomos a respeito do próprio Tomé,
admitindo-se, preliminarmente, como autêntica a sua
autoria para aquele texto.
Mas não é tão fácil como pode parecer desenhar-se com a
desejável nitidez o perfil das personalidades envolvidas no
grande drama do cristianismo nascente. No caso dos
parentes de Jesus, houve deliberada intenção de criar uma
atmosfera de mistério, como se não fosse do melhor
interesse dos que assim decidiram caracterizar certos
protagonistas e deixar à mostra vinculações pessoais entre
eles.
Uma consulta aos evangelhos canónicos e ao Atas dos
Apóstolos revela que, ressalvadas duas discrepâncias, dez
nomes aparecem regularmente em todas as listas dos
apóstolos. Tomé é um deles. Mesmo João, que não reproduz
a lista, esclarece (20,28) que Tomé faz parte dos doze.
Ainda que aparentemente irrelevantes, as discrepâncias
merecem atenção. Um dos apóstolos figura como Simão (ou
Simeão), o Cananeu, em Mateus (10,2-4) e em Marcos
(3,16-19), e como Simão, o Zelote, em Lucas (6,14) e em
Atos 1,13. Embora Hennecke não pareça disposto a definir a
questão, trata-se, ao que tudo indica, da mesma pessoa, uma
vez que recolhemos na Britânica (verbete Apostles) a
informação de que o termo Cananeu equivale ao aramaico
Zelote. O que ocorre, portanto, é que Lucas transplanta a
palavra para o grego, no qual escreveu, ao passo que os dois
primeiros evangelistas utilizaram-se do termo aramaico.
Previne ainda o autor do verbete da Britânica que o
explicativo não deve ser tomado em seu sentido político. O
termo quer dizer apenas que Simão era um zeloso
cumpridor da lei judaica, não um ativista empenhado em
desestabilizar o domínio romano. Acrescenta o informe que
esse Simão não deve, igualmente, ser tomado como um dos
irmãos de Jesus mencionados em Mateus (13,55), aquele que
sucedeu a Tiago como bispo de Jerusalém. Seja como for, a
história pessoal desse Simão é bastante obscura e "envolta
em lendas". E prossegue:

Se ele for identificado como Simão (ou Simeão), o irmão do
Senhor, então foi ele que liderou a Igreja de volta a
Jerusalém, após a permanência em Pela e a dirigiu, como
bispo, até o seu martírio no ano 107. (Há dúvidas quanto a
essa data. Para viver até essa época, Simão teria 120 anos de
idade, o que é pouco provável).

Convém acrescentar em proveito dos que não estejam
familiarizados com esse período que a ala mais
conservadora, que entendia o cristianismo como seita
judaica (os Ebionitas) refugiara-se na Peréia para escapar às
pressões que sofriam em Jerusalém.
Eusébio nos diz que esse Simeão não era irmão de Jesus e
sim seu primo, "filho do Clopas mencionado na narrativa
evangélica". A referência lembrada está em João 19,25, que
identifica como "Maria, mulher de Clopas", uma das pessoa
que permaneceram perto da cruz em que Jesus era
martirizado.
Buscando ainda mais longe, lemos em Hennecke2 que,
segundo Hegesipo, esse Clopas era irmão de José, o
carpinteiro e, em conseqüência, tio de Jesus. Simeão era,
portanto, primo de Jesus e de Tiago, sobre o qual temos algo
a dizer daqui a pouco.
Já a outra discrepância oferece margem para mais amplas
especulações. O apóstolo que figura comoLebeu no texto
"ocidental" de Mateus (10,3) e Tadeu, em Marcos, é Judas,
filho de Tiago, em Lucas, embora não se encontre a palavra
filho na Bíblia de Jerusalém. Declara esta, em nota, que a
expressão "Judas de Tiago" pode ser tomada como filho ou
como irmão, mas acrescenta prudentemente que esse Tiago
não deve ser confundido com o irmão de Jesus do mesmo
nome. Parece com isso, admitir que Jesus tenha tido irmãos,
mas a idéia é rejeitada alhures, em mais de uma
oportunidade, com a óbvia intenção de preservar o dogma
do nascimento virginal.
Eusébio coloca-o entre os setenta e conta uma história a seu
respeito, segundo a qual, após a ressurreição e ascensão de
Jesus, "Tomé, um dos doze apóstolos, impulsionado pela
inspiração, enviou Tadeu, integrante da lista dos setenta
discípulos, a Edessa, como pregador evangelista". Em nota
ao pé de página 66 do livro de Eusébio, os editores lembram
que "o único Tadeu na Bíblia era um dos doze, chamado por
Lucas de Judas filho de Tiago e por Mateus e Marcos como
Tadeu, segundo os melhores manuscritos, e Lebeu, segundo
outros".
Encontramos, por conseguinte, uma variação sobre Simeão,
o Cananeu ou Zelote, e uma considerável turbulência à volta
de Tadeu. Para uma só pessoa, atribui-se a ele um número
surpreendente de nomes: Lebeu, Tadeu, Judas e Dídimo, ao
mesmo tempo em que é vinculado por algum laço de
parentesco (filho ou irmão) a Tiago que, por sua vez, é tido
como filho de Alfeu.
A introdução de Tiago, no esquema, traz complexidades
adicionais. Quem seria esse Tiago?
Mesmo ao risco de certa redundância, vejamos de perto a
estrutura do grupo dos doze.
Mateus relaciona os apóstolos em seis pares de dois,
destacando duas duplas de irmãos: Pedro e seu irmão André,
Tiago de Zebedeu e seu irmão João. O outro Tiago é
identificado como "o de Alfeu". Em Marcos, João é chamado
irmão de Tiago e este, filho de Zebedeu. Não há referência
específica à irmandade de André e Pedro, creio que por esta
relação ser por demais conhecida do público leitor visado
por Marcos, dado que seu Evangelho é o de Pedro, a quem
servia de intérprete. O outro Tiago é também "o de Alfeu",
como em Mateus.
Lucas menciona André como irmão de Pedro, repete a
expressão "Tiago de Alfeu", mas em lugar de Tadeu, como
em Mateus e Marcos, apresenta Judas de Tiago, sem definir
o vínculo de parentesco. Há um consenso entre os
estudiosos no sentido de que se trata de irmão de Tiago e
não de filho. Embora a corrente ortodoxa prefira continuar
protegendo o dogma do nascimento virginal de Jesus, o
próprio Judas se declara irmão de Tiago, na epístola que lhe
é atribuída.
Quadro idêntico ao do terceiro Evangelho consta do Atos
dos Apóstolos, mesmo porque o autor originário deles é o
mesmo: Lucas.
João (14,22), observa que esse Judas, tão envolvido com
Tiago, é o Dídimo (Gêmeo) e não o Iscariotes. Com o que
introduz nova complicação, revelando uma vinculação de
parentesco com alguém, de quem seria irmão gêmeo.
(Voltaremos ao problema mais adiante).
Há, portanto, dois Tiagos, um tido por filho de Zebedeu e
outro como filho de Alfeu, mas isso nos leva a outra
pergunta: quem é Alfeu? O Evangelho de Pedro, um dos
inúmeros apócrifos, menciona um Alfeu que seria pai de
Levi, aquele que, no seu dizer, Jesus convidou quando ainda
trabalhava na alfândega. Trata-se, obviamente, de Mateus,
que, como se sabe, era um publicano, isto é, funcionário a
serviço do governo romano, como coletor de impostos. Se
esse Alfeu é o mesmo citado nos livros canónicos como pai
de Tiago, então Mateus seria irmão desse último, o que não
parece correto.
Ainda no encalço de explicação para esse mistério, vamos
encontrar em Hennecke importante chave. Conta ele que,
contestando a postura oficial da Igreja, Helvidio "revigorou a
antiga opinião" de que os discípulos identificados como
irmãos de Jesus eram exatamente o que diziam os textos:
irmãos de verdade e não primos, como se queria fazer crer.
Jerônimo "introduziu a teoria" - escreve Hennecke - de que
os apóstolos Tiago, e Judas de Tiago eram filhos de Alfeu,
casado com Maria de Clopas, irmã da mãe de Jesus. O que
leva a uma identificação improvável de Clopas com Alfeu,
cujo nome, aliás, nem figura em Eusébio.
Sem meias palavras, Hennecke considera isso uma
"construção dúbia", mas que mereceu entusiástica aprovação
e se tornou a postura dominante na Igreja. Não deixa de
acrescentar que "antes de Jerônimo, uma nítida distinção
costumava ser feita entre Tiago, irmão de Jesus, e os
apóstolos".
Em suma, para apagar os traços documentais de uma
indesejável vinculação de parentesco, ou melhor, de
irmandade entre Jesus, Tiago e Tadeu, Jerônimo criou ou
adaptou uma personagem de nome Alfeu, como sendo o pai
desses discípulos, resultantes de seu casamento com Maria,
irmã da mãe de Jesus. Ora, não encontramos em Eusébio,
como já vimos, qualquer identidade entre Clopas e Alfeu
que, a crer-se na teoria de Jerônimo, seriam a mesma
pessoa. Loisy acha pouco provável que duas irmãs - a mãe
de Jesus e a mulher de Clopas - tivessem o mesmo nome e,
podemos acrescentar, um conjunto de quatro filhos com
nomes também idênticos: Tiago, Simeão, José e Judas. Nesse
mesmo trecho, Loisy rejeita como "não menos gratuita" a
alegada identificação entre Clopas, irmão de José (como está
em Hegesipo, através de Eusébio), e Alfeu, pai do apóstolo
Tiago Menor, um dos "primos" de Jesus.
Ora, se Tiago é irmão de Judas e também de Jesus, como está
bem documentado nos textos canónicos, então o pai deles é
José e não Alfeu. Nesse caso, não restaria como alternativa
senão a hipótese de que o nome de José tenha sido
substituído pelo de Alfeu. O que seria coerente com a clara
intenção de apagar os traços que pudessem evidenciar as
vinculações de Jesus com sua família, que ficou reduzida,
para fins mais teológicos do que históricos, a Maria e José.
Em verdade, porém, há outros Tiagos no contexto apostolar.
Vamos colocá-los todos em ordem, numa só lista:

1 - Tiago, filho de Zebedeu;
2 - Tiago, filho de Alfeu;
3 - Tiago, o Menor, personalidade praticamente
desconhecida;
4 - Tiago, irmão de Judas;
5 - Tiago, irmão de Jesus.

Apesar de ser este nome bastante popular - corresponde a
Iacobos, em grego (Jacó) - a lista parece conter pelo menos
uma superposição, talvez duas. Na tentativa de descobrir a
qual dos Tiagos Judas estaria ligado pelos laços de
parentesco, Hennecke informa, com apoio em Clemente de
Alexandria, que Tiago figura entre os apóstolos contempla-
dos com os ensinamentos da tradição secreta, sendo difícil
decidir, à vista das sumárias informações, no entanto, se esse
Tiago é o filho de Zebedeu, ou o "irmão do Senhor".
Mas, levando-se em conta o Apócrifo de Tiago, também da
biblioteca de Nag-Hammadi, trata-se mesmo do irmão de
Jesus, tendo em vista, o "papel desempenhado pelo irmão do
Senhor na tradição judeo-cristã".
Que esse papel tenha sido dos mais relevantes, não há
dúvida, mas para correta avaliação das questões sob exame
seria necessário conhecer-se com razoável margem de
confiabilidade quando ele resolveu aderir às idéias de seu
irmão, a ponto de assumir não apenas uma postura
doutrinária, mas integrar-se no movimento em si. Ao que
tudo indica, os documentos primitivos continham
informações suficientes ao esclarecimento do assunto, mas
um clima de mistério e segredo criou-se posteriormente em
torno da família de Jesus, de vez que os dogmas do
nascimento virginal e da unigenitura tornaram-se vitais, no
entender dos teóricos de então, à formulação da teologia
cristã. Isso fazia parte do projeto global da divinização de
Jesus e sua incorporação à Trindade.
A despeito dessa atmosfera de secretismo que tudo fez para
empurrar para os bastidores os parentes de Jesus e, se
possível, apagar os vestígios de tais vinculações, não se
conseguiu evitar que um dos Tiagos ficasse claramente
identificado como irmão de Jesus, mesmo porque ele
emerge com força que não pode ser ignorada dentro do
movimento, após a morte do Mestre.
A formal adesão de Tiago teria sido recente ou vinha ele já
fazendo parte do corpo apostolar desde algum tempo,
quando Jesus ainda vivia entre eles?
Conta Eusébio que, após a morte do Senhor, os apóstolos
escolheram Matias para substituir Judas Iscariotes,
recompondo, assim o grupo dos doze. A questão seguinte
consistia em decidir quem assumiria a liderança do grupo.
Eusébio socorre-se de Clemente para informar que, após a
ascensão, Pedro, Tiago (o outro, o de Zebedeu) e João não
cogitaram de pleitear posições de destaque simplesmente
porque Jesus os havia distinguido de maneira especial na sua
preferência. Optaram por Tiago, o Justo, para o cargo de
bispo de Jerusalém. Àquela altura ninguém cogitava de
estabelecer um bispado em Roma, muito menos com
autoridade sobre os demais, pelo mundo afora. A cabeça da
Igreja nascente, ou mais precisamente, do movimento
emergente, ficava plantada em Jerusalem, confiada à
responsabilidade de Tiago, o Justo, irmão de Jesus. (Alguns
autores mencionam até uma tendência dinástica nesse
processo). Daí em diante é quem decide sobre os rumos do
movimento, como se pode observar do autorizado
depoimento de Paulo, nas suas epístolas. Quando se coloca a
grave questão de pregar-se ou não o evangelho aos gentios,
Paulo e Barnabé vão a Jerusalém, em busca de uma decisão,
que cabe claramente a Tiago, secundado por Pedro e João. E
novamente estamos falando de Tiago, o Justo, irmão de
Jesus e não do filho de Zebedeu. O apelido ganhara ele pela
estrita observância à lei judaica; para ele, o movimento
suscitado em torno das idéias de seu irmão só poderia ser
entendido e sustentado como seita judaica. Tanto foi assim
que impôs como pré-condição ao entendimento com Paulo
e Barnabé a circuncisão de Tito, formalidade indispensável à
admissão deste ao judaísmo. Paulo reagiu como pôde, mas
teve de ceder, se é que pretendia mesmo a desejada
autorização para pregar aos gentios e disso ele não abria
mão. Ao cabo dessas penosas e difíceis negociações,
concluiu ele vitorioso:

... e conhecendo a graça a mim concedida, Tiago, Cefas e
João, tido como colunas estenderam-nos a mão, a mim e a
Barnabé, em sinal de comunhão: nós pregaríamos aos
gentios e eles para a Circuncisão" (aos judeus). (Gal2,9).

Clemente acrescenta que Tiago, o Justo, João e Pedro
receberam de Jesus, depois da ressurreição, "conhecimento
superior", que teriam transmitido aos outros apóstolos e
estes aos setenta, "um dos quais era Barnabé". Para que não
fique dúvida, insiste Clemente nos seguintes termos: "Havia
dois Tiagos, um o Justo, que foi atirado do parapeito e batido
com um pau até morrer; e outro Tiago, que foi decapitado."
Mais adiante, em seu livro, Eusébio recorre a uma longa
citação colhida em Hegesipo para documentar a posição de
Tiago. Encontramos suas observações e a transcrição no
capítulo intitulado "O martírio de Tiago, o irmão do
Senhor". Segundo Hegesipo, "o controle da Igreja passou aos
apóstolos, juntamente com o irmão do Senhor, Tiago, cha-
mado o Justo", do que parece lícito depreender-se que Tiago
não era um dos doze. Acrescenta Hegesipo que "havia
muitos Tiagos", sendo que este estava santificado desde o
nascimento: não ingeria bebidas alcoólicas, não comia
alimento de origem animal, nunca uma navalha tocou sua
cabeça, não usava óleo para untar-se e não tomava banho.
Somente ele era autorizado a penetrar no lugar sagrado do
templo (não no Santo dos Santos, exclusivo do Sumo-
Sacerdote), ainda porque só se vestia de tecidos de linho,
sem um fio sequer de lã. Orava tanto, de joelhos, que sua
pele nesses locais tornou-se dura e áspera como a de um
camelo. Era, pois, figura venerável, devotado à mais severa
ortodoxia judaica. Foi sacrificado porque, ao ser
publicamente questionado acerca de Jesus, respondeu com
bravura:

Por que me questionais a respeito do Filho do Homem?
Digo- vos, ele está sentado nos céus à direita do Grande
Poder e voltará sobre as nuvens do céu.

Foi o bastante para ser trucidado.
A esse Tiago, o Justo, primeiro bispo de Jerusalém é que
sucedeu Simeão, filho de Clopas, tio de Jesus, com já
vimos,também martirizado. A propósito, Eusébio menciona
treze bispos em Jerusalém, a começar por Tiago, o Justo, em
106 até Judas, em 135, quando Adriano baniu os judeus de
Jerusalém, pondo fim ao ciclo dos "Bispos da Circuncisão".
Somente depois da opção política por Roma como centro
das decisões da Igreja é que a figura de Tiago começa a
passar por um processo de esmaecimento, enquanto a de
Pedro é exaltada. Implantada a hegemonia do bispado de
Roma, os textos foram reescritos com o objetivo de
"documentar" para os pósteros a nova realidade política
cristalizada no conceito do papado. Mais uma vez, somos
levados a crer que não teria sido ele um dos doze, se
considerarmos a observação de Mateus (13,55-56).

Não é ele o filho do carpinteiro? Não se chama a sua mãe
Maria e os seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E as suas
irmãs, não vivem todas entre nós?

Ao tempo da ida de Jesus a Nazaré, quando já acompanhado
pelos apóstolos, o texto sugere que seus irmãos e suas irmãs
ainda estavam por ali e eram de todos conhecidos, o que
parece indicar que Tiago e Judas ainda não o seguiam, pelo
menos regularmente. Nem sempre, contudo, em delicadas
questões como essa, o texto pode ser tomado como verdade
incontestável.
Em primeiro lugar, temos na lista oficial de apóstolos um
Judas, que não é o Iscariotes, e é tido como Dídimo (irmão
gêmeo) e também irmão de Tiago. Este, por sua vez, seria,
supostamente, filho de um Alfeu, incertamente identificado
com Clopas e, neste caso, o texto deveria dizer que Tiago
seria filho de Clopas e não de Alfeu. Parece admissível
concluir-se à base de tais especulações, que
Judas/Tadeu/Dídimo é irmão de Tiago, que seria mais tarde
conhecido como o Justo, que, por sua vez, é irmão de Jesus.
Será o Tiago chamado o Menor? Pouco provável.
Referindo-se ao fato de que os irmãos de Jesus eram casados,
como se observa em I Cor. 9,5, Hennecke acrescenta que,
segundo uma tradição mais tardia (na verdade ele emprega a
palavra lenda), os "dois mais velhos", casaram-se ao tempo
em que ainda vivia José, o pai. A ser isso verdadeiro, Judas
Tadeu seria gêmeo de Tiago e não de Jesus.
Ou, segunda hipótese: a lista final dos apóstolos somente
teria sido elaborada para figurar nos registros evangélicos
depois que Tiago, o Justo, e Tadeu passaram a participar
ativamente do movimento cristão nascente. Com a ressalva,
neste caso, de que, segundo a tradição, Judas/Tadeu já
integrava anteriormente o grupo dos Setenta.
Acho pouco provável, contudo, que Tiago, o Justo, tenha
aderido às idéias de Jesus logo de início e integrado o corpo
apostólico dos doze ou mesmo dos setenta. O rigor de sua
fidelidade às práticas tradicionais judaicas contra-indicam a
acolhida dessa hipótese, a não ser que somente mais tarde
houvesse ele adotado tais práticas, o que também parece
improvável, dado que ele é tido como intransigente e
inflexível judeu ortodoxo desde o princípio de sua
existência. Não iria abrir mão de seu modo de ser e ver as
coisas para seguir seu irmão, que, embora respeitoso perante
a lei e certas práticas, condenava explicitamente outras
consideradas intocáveis como o sabá ou a convivência com
pecadores e publi- canos, bem como condenava com
veemência o pensar e agir dos fariseus e escribas de seu
tempo. Não. Esse não era ambiente que Tiago, o Justo,
pudesse adotar como seu.
Seja como for, é convincente o testemunho de que "os
irmãos de Jesus não acreditavam nele", como se lê em João
7,3-5. Houve até uma tentativa de levá-lo de volta para a
tranqüilidade e segurança do lar, em Nazaré (ou Cafarnaum),
por acreditarem, a mãe e os irmãos, que ele não estaria bem
das faculdades mentais. É também evidente que essa atitude,
senão de hostilidade, pelo menos de incompreensão acerca
do irmão mais velho, tenha sofrido radical reversão logo
após a morte de Jesus, dado que são convincentes as
referências à participação da mãe, dos irmãos e demais
parentes dele nas tarefas do cristianismo nascente.
Bem, após esta longa e complexa digressão, temos de voltar
a Tomé, para enfrentar outras dificuldades. Isso porque o
autor do Evangelho de Tomé anuncia que o que se vai ler
são "as palavras secretas de Jesus, o Vivo, escritas por
Dídimo Judas Tomé".
Puech informa que Didymos, em grego, corresponde a
tauma (Tomé), em siríaco e tom, em hebraico, ou seja,
gêmeo. Do que resulta ser esse texto atribuído a uma pessoa
conhecida como Gêmeo Judas Gêmeo, ou, ainda, Gêmeo
Judas, o Gêmeo. Essa incongruência gramatical serve a
Puech para afirmar que Dídimo e Tomé são apelidos de uma
só pessoa por nome Judas que, aliás, consta como
carpinteiro de profissão nos Atos de Tomé. Do que se
depreende que o evangelho que adquiriu esse merecido
status histórico e que vem suscitando tantas especulações
não é de Tomé, mas de Judas, ou, mais especificamente, é
um texto de autoria de Judas, o Gêmeo, ao qual se refere
João.
Encontro apoio para essa afirmativa no competente e seguro
Hennecke, que reproduzo, por tradução, do inglês:

O apóstolo que nos evangelhos canônicos e na tradição
ocidental é usualmente chamado simplesmente de Tomé ou
Tomé Dídimo, figura, na tradição oriental e especialmente
em autores ou obras de língua e origem siríacas, ter sido
chamado Judas Tomé.

Mas não é assim tão fácil livrar-se das complicações que
envolvem a figura de Tomé.
Em João 20, 24, ele figura como discípulo da dúvida, o que
desejava testar pessoalmente as chagas de Jesus para
convencer-se da ressurreição. A cena é montada - segundo
Loisy - para "demonstrar a realidade material" - e, ao mesmo
tempo, imaterial! - "da ressurreição a um apóstolo cético,
tido por ausente quando da aparição anterior".
Não há como fugir a essa característica de montagem
deliberada, no sentido de que era preciso deixar à
posteridade registro convincente de que a ressurreição
passara pelo teste do ceticismo de um dos próprios
apóstolos.
É preciso observar, contudo, que fenômenos semelhantes
de seres desmaterializados que penetram em recintos
fechados e se rematerializam no seu interior têm sido
testemunhados por cientistas confiáveis e competentes,
como Aksakof e William Crookes, para citar apenas dois
deles. O problema não está, pois, em verificar a
materialidade e desmaterialidade de Jesus; o âmago do
problema está na comprovação de uma realidade pouco
conhecida ou admitida ainda hoje - a sobrevivência do ser
humano em um corpo energético, após abandonado à
decomposição o corpo físico, do qual se separou pela morte.
O objetivo da enxertia textual, portanto, não é (ou não é
somente) o de testemunhar a sobrevivência de Jesus à morte
na cruz, mas criar condições para que ele fosse reconhecido
por um dos apóstolos como Deus. Isto é que é inaceitável,
não a realidade da sobrevivência e a conseqüente
manifestação dele em sua forma imaterial rematerializada.
Este seria o papel de Tomé, o Dídimo. Já sabemos, contudo,
que o nome dele escrito dessa maneira é uma redundância,
porque tanto Tomé como Dídimo querem dizer a mesma
coisa: gêmeo.
Novamente em 11,16, ainda em João, encontramos a
notícia de que "Tomé, chamado Dídimo, disse então aos
outros discípulos: - Vamos também nós para morrer com
ele!".
Em 14, 5 a referência é apenas a Tomé, pura e
simplesmente, sem explicativos: "Tomé lhe diz: - Senhor,
não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o
caminho?"
Finalmente no mesmo capítulo 14, versículo 22, esta
referência: "Judas - não o Iscariotes - lhe diz: - Senhor, por
que te manifestarás a nós e não ao mundo?"
Três vezes é interrompida com perguntas a prédica de Jesus
no capítulo 14 - uma vez por Tomé (simplesmente), como
vimos no versículo 5, outra vez por Filipe, que pede a Jesus
que lhes mostre o Pai e, pela terceira vez, por Judas - não o
Iscariotes. Ora, este Judas é precisamente Dídimo ou Tomé,
como temos visto insistentemente neste estudo. Portanto, a
despeito de toda essa deliberada turbulência armada em
torno de Tomé Judas Dídimo, o Tomé da dúvida seria Judas-
Tadeu?
Portanto, o autor do evangelho copta de Tomé é Judas-
Tadeu, irmão de Tiago, o Justo, e de Jesus. O que nos leva de
volta a uma pergunta já formulada anteriormente. Quem é o
outro Tomé que figura nas listas apostolares que passou à
tradição como o dubitativo, aquele que precisou testar o
corpo de Jesus para se convencer de que ele havia, de fato,
ressuscitado? Judas-Tadeu, a crer-se nos documentos de
Nag- Hammadi, instruído pessoalmente por Jesus quanto
aos aspectos secretos dos ensinamentos, não poderia rejeitar
de maneira tão veemente o fenômeno da sobrevivência de
Jesus à morte na cruz. Isso não quer dizer que aceito pelo
seu valor nominal, como válida e autêntica, a cena toda em
que Tomé é satisfeito em sua curiosidade quando o Cristo
ressurreto se deixa tocar por ele.
Pode ser até que exista nisso um núcleo de verdade, mas
que Tomé se tenha ajoelhado e proclamado ali mesmo a
divindade do Cristo é inaceitável. Isso, porém, são aspectos
outros que são apenas lembrados aqui. O que nos importa
para o momento é marcar esta posição: a de que Judas-
Tadeu, chamado o Dídimo, era irmão de Tiago e de Jesus e é
quem figura como autor do Evangelho de Tomé, cujo texto
em copta foi encontrado em Nag-Hammadi. O apóstolo
conhecido, nos canônicos, como Tomé, ao que tudo indica,
é outra pessoa.
É preciso referir, ainda, que Gillabert propõe a hipótese de
serem Judas-Tadeu, o Dídimo e Judas Iscariotes a mesma
pessoa, com base, a seu ver, no intróito do Evangelho de
Tomé. Sua tese, porém, é insustentável, à vista da afirmativa
de João (14,22), segundo a qual não se trata de Judas
Iscariotes, e sim o Dídimo, quando o Judas ali mencionado
pergunta a Jesus por que Ele se manifesta "a nós e não ao
mundo".
Quanto à vinculação de parentesco com Tiago e Jesus, algo
ainda persiste por esclarecer-se. Que são irmãos não parece
contestável, mas de quem Judas-Tadeu seria gêmeo? De
Jesus ou de Tiago?
Em Atos de Tomé, capítulo 39, o apóstolo estaria pregando,
quando foi interpelado da seguinte maneira: "Irmão gêmeo
do Cristo, apóstolo do Altíssimo e co-iniciador da palavra
oculta do Cristo, tu que recebeste seus ensinamentos
secretos."
Em O Livro de Tomé, o Atleta, também da biblioteca de
Nag-Hammadi, duas novas referências indicam Tomé, ou
seja, Judas- Tadeu, como irmão de Jesus.
Não fica excluída a possibilidade de ser a expressão irmão
gêmeo, como querem alguns, apenas forma enfática de
marcar um relacionamento fraterno, no qual Judas teria
figurado como autêntico alter ego de Jesus, não, porém,
como seu gêmeo. Isso, embora compreensível nos textos
gnósticos, não se justificaria em João, que o chama de
Dídimo sem lhe atribuir qualquer vinculação especial com
Jesus ou destaque em relação aos demais apóstolos.
É compreensível a cautela com que os eruditos
especializados no estudo dos manuscritos gnósticos estejam
tratando esse delicado aspecto da questão. Ninguém ignora o
impacto que a confirmação de vínculos tão estreitos de
parentesco entre Jesus e dois de seus discípulos ou
continuadores acarretaria às estruturas doutrinárias do
cristianismo contemporâneo nas suas várias denominações e
tendências. Há inevitáveis implicações sobre dogmas vitais à
teologia tradicional, da qual as diversas igrejas não podem
abrir mão, sem dramáticas conseqüências.
Seja como for, as manipulações com o nome de Judas-Tadeu
nos textos canónicos assumem aspectos inexplicáveis, para
não dizer estranhos, quando se pensa que Dídimo e Tomé
não são, a rigor, nomes próprios, mas sinônimos destinados
a qualificar um grau de parentesco, realidade da qual os
formuladores de dogmas vêm fugindo há cerca de milênio e
meio, mas que os achados de Nag-Hammadi como que
atiram dramaticamente às manchetes.
Escrevi alhures (Cristianismo, a Mensagem Esquecida) que
um dos aspectos mais bem documentados da sumária
biografia de Jesus é a evidência de que ele teve irmãos. Em
verdade, são quatro homens e duas mulheres, pelo menos.
Seria temerário, a esta altura, afirmar que Jesus e Judas Tadeu
(conhecido como Tomé, no oriente) tenham sido irmãos
gêmeos, mas está parecendo cada vez mais difícil refutar
que tenham sido irmãos consangüíneos, pois assim informa
claramente o material disponível, tanto os canônicos, a
despeito das manipulações de Jerônimo, como os gnósticos
e outros apócrifos.
Como diz Hennecke, "o Novo Testamento fala sem
hesitação ou comentário dos irmãos de Jesus, de modo que
devemos pensar em irmãos mesmo. Lucas 2, 7 qualifica
Jesus como primogênito, admitindo outros a seguir."

II - O Difícil Acesso ao Texto

Quanto ao Evangelho de Tomé, especificamente, algumas
observações introdutórias são desejáveis, ainda que difícil
uma colagem do amplo material que sobre ele vem se
acumulando nos últimos tempos. O segundo volume do
livro do Prof. Puech, por exemplo, com mais de 280
páginas, fora os índices, cuida exclusivamente do
documento atribuído a Tomé. O erudito pesquisador francês
ainda colocou um subtítulo modesto que denuncia a
vastidão do projeto: "Esquisse d'une interprétation
systématique", isto é, apenas um esboço de interpretação
sistemática. Esboço...
Mas não é só pela amplitude que se caracteriza o trabalho de
avaliação dos preciosos textos gnósticos em geral e do
Evangelho de Tomé em particular. É também pelo alarido
provocado pela multidão de especialistas que se concentrou
no exame desses documentos. O choque de opiniões
tornou-se inevitável e contribuiu mais para dificultar a
desejada avaliação do que para facilitá-la. Como vimos
alhures, Gillabert queixa-se do problema, ao comparar
algumas posturas pessoais dos eruditos, em capítulo que
intitulou caracteristicamente como Erros da crítica. Após
permanecer durante dezesseis séculos soterrado e ignorado,
mas livre de manipulações, eis que o escrito de Tomé em
"poucos decênios já se encontra sobrecarregado de
comentários, sacudido em todos os sentidos, classificado,
catalogado, indexado" como se desejassem "esvaziá-lo de
toda substância viva". Um bando de 'aves de rapina' teria
baixado sobre "texto que até recentemente mantinha-se
virgem de nossas pretensiosas elucubrações", queixa-se
Gillabert.
Em diferentes abordagens, Hennecke alerta para a extrema
complexidade dos problemas suscitados pela documentação
de Nag-Hammadi, que ele considera "de imensa
importância", o que chega a ser inesperado na
habitualmente despojada linguagem dos eruditos. No seu
entender, tais problemas estão por resolver, mesmo porque
o próprio texto não se encontra ainda estabilizado numa
tradução definitiva, além de mutilações irrecuperáveis como
falta de palavras, frase e até de páginas inteiras.
Quanto ao trabalho mais delicado da interpretação, é de
prever-se muito debate e desencontro até que as opiniões
consensuais comecem a cristalizar-se.
É claro que cada um desses comentaristas levará para o seu
trabalho os modelos intelectuais a que está habituado e nos
quais confia. Nem poderia ser de outra maneira. Sem a
mínima pretensão de entrar nessa disputa entre os pesos-
pesados da cultura internacional, aproximo-me dos textos
gnósticos como escritor interessado na divulgação desses
preciosos achados apoiado em convicções pessoais minhas
acerca da realidade espiritual. Penso mesmo que a avaliação
do conteúdo dos papiros de Nag-Hammadi é trabalho
impróprio para mentes programadas pelo materialismo
filosófico.
Hennecke adverte, por exemplo, que, já no preâmbulo, o
Evangelho de Tomé auto-define-se como um documento
"esotérico ou para assim ser considerado". Está certo, mas
não é apenas isso; as falas atribuídas a Jesus pressupõem
realidades que pouco espaço têm ocupado na especulação da
erudição internacional, como sobrevivência do ser,
intercâmbio entre 'vivos' e 'mortos', vidas sucessivas, causa
e efeito, imortalidade, e, logicamente, existência da alma,
além de outras.
Vimos alhures neste livro dificuldades de Puech com
palavras como anjo e profeta, ou de Gillabert com a visão
pauliniana da ressurreição. Não que Puech ignore o sentido
desses termos, claro, como experimentado lingüista que é,
com acesso até ao copta, mas porque o uso da palavra
profeta como médium ainda constitui campo minado no
meio acadêmico, tanto quanto anjo (aggelos) no sentido de
espírito ou entidade manifestante. A simples admissão da
terminologia nesse sentido suscita implicações que a
erudição internacional ainda não está preparada para
assumir. Ou não quer.
Escassamente mencionada pelos comentaristas é a doutrina
da reencarnação, que, a uma leitura mesmo superficial dos
textos coptas, mostra-se relevante para entendimento do
gnosticismo e figura, explícita ou implicitamente, nos seus
escritos. O termo aparece timidamente no índice remissivo
de Puech, e está ausente no da Dra. Pagels ou de Gillabert.
Mesmo em MacGregor, convicto da realidade das vidas
sucessivas, figura apenas em uma chamada no seu livro.
Como em toda a tradição esotérica, os ensinamentos
contidos nos papiros de Nag-Hammadi em geral e no
Evangelho de Tomé em particular são guardados atrás de
símbolos e imagens secretas ou iniciáticas que somente se
revelam na plenitude de seu sentido àqueles que dispõem
das chaves específicas para penetrar-lhes o entendimento.
Se tais chaves são importantes para os demais documentos,
para o Evangelho de Tomé tornam-se indispensáveis, em
vista da construção mesma do texto que, além de esotérico,
é sumário, quase telegráfico, espécie de lembrete para ser
desenvolvido por pessoa bem informada dos enigmas e
mistérios abrigados nos 114 logia. É de supor-se que tais
explorações fossem praticadas oralmente diante de grupos
ou de indivíduos isolados com um mínimo de preparo para
recebê-las e entendê-las, como sempre ocorreu na técnica
da transmissão de conhecimento entre mestre e discípulo.
Podemos ilustrar essa informação com a breve introdução
do Evangelho de Tomé e o seu primeiro logion que estão
assim redigidos:

São estes os ensinamentos secretos que Jesus, o Vivo, disse e
que Dídimo Judas Tomé escreveu:

1) E ele disse:

Aquele que descobrir a interpretação destas palavras não
experimentará a morte.
Como se observa, o próprio texto se põe como secreto, ou
seja, fora ou à margem dos ensinamentos normais do Cristo
a um grupo menor de pessoas com preparo suficiente para
entendê-lo. Mas por que Jesus Vivo? É entendido como viva
não a pessoa que está necessariamente acoplada a um corpo
físico, ou seja, vivendo uma existência carnal, mas aquela
que alcançou elevado estágio evolutivo de conhecimento e
conscientização de sua origem e destinação em Deus. Ou,
ainda, em terminologia gnóstica, um ser pneumático,
espiritual, libertado do ciclo tantas vezes repetido das
reencarnações.
A existência do Evangelho de Tomé não era ignorada antes
do achado de Nag-Hammadi, em 1945, Hennecke
menciona citações encontradas nos escritos de Hipólito, aí
por volta do ano 230 da era cristã, tanto quanto em
referências e pequenas transcrições contidas em outros
documentos dos primeiros séculos, além de fragmentos
esparsos e mutilados que tornaram impraticável uma
reconstituição confiável dos textos. Acha esse autor que há
diferentes redações para o material, que não se livrou das
inevitáveis modificações, interpolações e amputações
introduzidas por copistas ou editores em diversas épocas. Na
sua opinião pessoal, a redação primitiva do texto deve ser
colocada aí pela altura do ano 140; "ou talvez, um pouco
mais tarde".
É claro, porém, que mesmo esse texto primitivo resultou de
material preexistente escrito e, no dizer insistente de
Gillabert, principalmente oral. O prof. Quispel, outro dos
especialistas da primeira hora, entende, segundo lemos em
Hennecke, que o Evangelho de Tomé teria sido elaborado
em cima de "uma tradição independente dos sinóticos, que
talvez se reporte ao Evangelho dos Hebreus".
Há quem admita a possibilidade de sua identificação com o
famoso e perdido Documento Q, escrito básico que teria
sido a fonte (do alemão Quelle, fonte) dos sinóticos,
principalmente. De fato, as tradições cristãs primitivas
mencionam as "anotações de Mateus" que seriam, tanto
quanto podemos supor, de estrutura semelhante à do
Evangelho de Tomé, que somente agora, no século XX,
chega completo ao nosso conhecimento. Ou seja, eram
também uma coletânea de ditos, postos sem qualquer
intenção seqüencial e sem informações biográficas ou
comentários. Não mais que lembretes, provavelmente para
fixar o pensamento do Cristo neles captado, e facilitar o
desenvolvimento oral por parte dos pregadores da época.
Hennecke observa que o problema da idade do texto é
irrelevante, ou melhor, "secundário", pelo menos por
enquanto, dado que há muita pesquisa ainda a fazer; pensa,
no entanto, que, embora alguns dos ditos possam ser de
formação mais tardia, o Evangelho de Tomé, "contém
outros, cuja origem pode recuar consideravelmente", na
estimativa de alguns, até o ano 50, quando ainda vivia gente
que conhecera pessoalmente o Cristo e ouvira dele próprio
os ensinamentos.
Outro aspecto ainda por decidir-se é o da língua em que
foram escritas as diversas versões. Há quem defenda com
veemência a posição de que o texto copta encontrado em
Nag-Hammadi seja tradução do grego; Puech e Pagels, por
exemplo. Mas há quem, com igual convicção, opte por um
texto escrito diretamente em copta, com base na tradição
oral, como Gillabert.
A opinião dominante nos círculos da erudição
internacional, segundo podemos ler em Hennecke, é a de
que o texto copta foi elaborado a partir de uma versão grega.
Garitte, também citado por Hennecke, contudo, opina, mais
recentemente (1960) o contrário, ou seja, que a versão grega
Oxyrinchus teria sido calcada no texto copta.
Não pretendo, como tenho repetido, entrar nessa disputa
entre os monstros sagrados da erudição internacional e nem
poderia fazê-lo. A intenção aqui é a de divulgar algumas
informações sobre as pesquisas em torno do valioso achado
de Nag-Hammadi e suas implicações e projeções no
pensamento moderno, como lembra MacGregor.
Helmut Koester, na introdução escrita para a coletânea da
Harper & Row (The Nag Hammadi Library), também adota
a postura de que o texto copta atribuído a Tomé é uma
tradução do grego, dado que algumas dessas versões recuam
às imediações do ano 200, mas lembra possíveis versões
siríacas ou aramaicas que teriam sido compostas bem antes
do ano 200, "possivelmente (...) na segunda metade do
primeiro século", o que nos leva de volta ao que vimos há
pouco em Hennecke, que admite um recuo ao ano 50, pelo
menos para alguns dos logia.
Também esse introdutor lembra, no Evangelho de Tomé,
características semelhantes à Fonte O, o elo perdido, que
teria servido tanto a Mateus como a Lucas. Seja como for, o
documento atribuído a Tomé guarda evidências de fortes
conexões com as fontes das quais emergiram os relatos do
Novo Testamento.
Antes de serem confiados às tiras de pergaminho ou papiro,
os ensinamentos de Jesus foram difundidos exclusivamente
pela palavra falada, primeiro pelo Cristo e, em seguida, pelos
seus apóstolos que costumavam ter em seu poder algumas
notas ou lembretes, possivelmente em aramaico. Ao que
parece, Pedro, por exemplo, jamais conseguiu falar outra
língua que não o aramaico, motivo pelo qual levava consigo
o jovem Marcos, futuro evangelista, que lhe servia de
intérprete, convertendo sua palavra em grego popular, o
koiné. Foi provavelmente à base de tais anotações sumárias
que Marcos escreveu seu primeiro texto com as
características de um evangelho tal como hoje o
conhecemos. A tradição informa ainda que Mateus parece
ter feito coisa semelhante, anotando os ditos mais
importantes de Jesus que também serviriam à elaboração do
Evangelho segundo Mateus, ou seja, um texto escrito com
base nas anotações de Mateus. Numa fase posterior, os
diversos textos teriam sido combinados e reescritos por
Lucas, que confessa na introdução que, ao iniciar seu
trabalho, tinha diante de si inúmeros documentos que
circulavam à época sobre os ditos e os feitos de Jesus. Numa
etapa final, todos esses textos foram recombinados, num
processo de recíproca fertilização, do que resultou o grupo
mais ou menos homogêneo de textos que conhecemos pelo
nome de sinóticos, isto é, que podem ser colocados lado a
lado, em três colunas distintas para exame simultâneo.
Nesse ínterim, contudo, das toscas anotações até o
polimento final, os textos passaram por muitas vicissitudes e
"torturas", como diz Guignebert, Obrigados a dizerem o que
convinha ser dito mais do que aquilo que deveria sê-lo. Com
isso, foram muitas e sérias as acomodações, interpolações e
alterações introduzidas, bem como cortes e amputações
mais graves. Do momento em que se tornou necessário, por
exemplo, implantar nos textos pelo menos a primeira estaca
do dogma da divindade de Jesus, colocam os novos escribas
a inaceitável exclamação na boca de Tomé ante o Cristo
ressuscitado: "Meu Senhor e meu Deus!" Ora, os apóstolos
eram judeus praticantes e assim continuaram sendo, mesmo
depois da partida de Jesus, como sabemos. Jamais um judeu
teria proclamado a divindade de alguém. Jesus foi
sacrificado, basicamente, por se lhe atribuir a condição de
Filho de Deus, equivalente à de Messias.
Situação semelhante ocorre quando se faz conveniente
justificar o primado de Pedro como bispo de Roma, em
contraposição ao bispado de Jerusalém. A fórmula imaginada
para contornar o problema foi a de introduzir nos textos
canónicos uma passagem na qual o próprio Cristo
credenciasse Pedro como líder da comunidade cristã. A
enxertia foi feita no Evangelho de Mateus (16,13-20) e de
maneira um tanto desastrada e incompetente, a meu ver.
Sem nenhuma conexão com qualquer outra passagem
evangélica, Jesus menciona uma igreja ("minha Igreja") que,
obviamente, não instituiu. Sempre achou ele que, igreja por
igreja, preferia deixar o culto com as sinagogas da época, nas
quais pregou regularmente, como se lê nos evangelhos. O
primeiro bispo de Jerusalém, contudo, foi escolhido, como
se sabe, pelos apóstolos, por indicação de Pedro, Tiago (de
Zebedeu) e João. Jamais os apóstolos teriam procurado fora
de seus quadros um chefe para a comunidade cristã se Jesus
houvesse investido Pedro de tais funções, como deseja fazer
crer a interpolação há pouco mencionada.
E mais: a referência somente figura em Mateus, nada
constando, a respeito, nos outros sinóticos, nem em João.
Estranho isso, quando pensamos que Marcos é que foi o
intérprete e secretário de Pedro e não perderia a
oportunidade de documentar a investidura de seu
respeitável amigo e mestre.
Acresce ainda outro aspecto da maior relevância: depois de
ensinar durante todo o tempo que o Reino de Deus é a
resultante de um trabalho íntimo pessoal, de um
aperfeiçoamento espiritual, Jesus reverte tudo isso e coloca
nas mãos de Pedro e de seus sucessores - como assim ficou
entendido - o supremo poder de decidir quem se salva ou
não se salva. Tão incongruente é isto que ficaria Deus na
mera condição de quem não tem autoridade senão para
aprovar as decisões tomadas pelos bispos de Roma. De fato,
lê-se na Bíblia de Jerusalém, nota de rodapé a Mateus
(16,19), que "sentenças e decisões serão ratificadas por Deus
do alto dos Céus", o que inclui tanto condenações,
absolvições como decisões doutrinárias e jurídicas.
Numa abordagem em maior profundidade aos documentos
gnósticos, podemos contar com problemas semelhantes. A
documentação encontrada em Nag-Hammadi, como vimos,
reporta-se ao século IV aproximadamente, embora
composta à base de textos mais antigos. É preciso estarmos
atentos, ainda, para o fato de que os autores daqueles
remotos tempos não se punham diante do trabalho que
pretendiam realizar com o preparo técnico, a experiência e a
ética de um escritor e pesquisador responsável de nosso
tempo. Não se cogitava da figura, relativamente recente, do
direito autoral, da propriedade literária e da preservação da
verdade histórica. Fantasia e realidade misturavam-se
livremente; a ausência de fatos ou evidências era suprida
pela desinibida utilização de episódios ou ditos fictícios
sempre que se tratasse de expor um ponto de vista, defender
uma tese, apresentar uma doutrina ou relatar os feitos de
uma pessoa. São abundantes os exemplos de que ainda
dispomos a esse respeito, como a fantasiosa "biografia" de
Apolônio de Tiana, de autoria de Damis, ou as narrativas em
que Alexandre, o Grande, figura expressamente como filho
de um deus que, sub-repticiamente, dormira com Olímpia,
sua mãe. Ao que parece, o próprio Alexandre acreditava
nessa história, tão convincente lhe parecera e tão oportuna
em afagos à sua vaidade.
Referindo-se aos apócrifos em geral, embora a observação se
aplique também aos canônicos, como vimos, Hennecke
destaca esse aspecto nos seguintes termos:

A composição de coletâneas desse tipo, que podem ser
facilmente ampliadas, reduzidas ou alteradas à vontade do
compilador, é sujeita ou, pelo menos, era provavelmente
sujeita, a mudanças constantes.
Com isto, torna-se difícil assegurar que o texto de que
dispomos, no momento, como os de Nag-Hammadi, "sejam
da primeira ou da versão final".
Especificamente sobre o Evangelho de Tomé, informa
Hennecke, nesse trecho, com "as mesmas reservas", não
estar convencido de que o documento encontrado na
biblioteca copta seja "exclusiva ou originalmente o trabalho
de um gnóstico". Ele próprio, Hennecke, para fortalecer
suas desconfianças pessoais, tem conhecimento de pelo
menos duas versões diferentes. Em uma delas, afirma-se a
ressurreição de Jesus em seu corpo físico (logion 5),
enquanto no logion 12 encontramos uma referência algo
incongruente a Tiago, o Justo. Comentaremos isso no local
próprio deste livro. (Devo dizer logo, que não vejo no
logion 5 alusão, mesmo simbólica, à ressurreição física). O
meticuloso pesquisador alemão está convencido de que o
redator do texto disponível hoje para estudo "deve ter
inserido frases, revisado passagens de maneira mais ou
menos completa, ou introduzido na coleção alguns logia
forjados por ele mesmo ou por seus companheiros de
crença".
Isso tudo deve ser levado em conta à medida em que os
ditos são estudados e analisados, mesmo porque as traduções
estão sujeitas a modificações tanto quanto as interpretações,
em aspectos de maior ou menor relevo.
Como Hennecke e outros, Koester entende o livro de Tomé
como "uma coletânea que pretende ser esotérica" e constitui
uma chave para entendimento dos ditos secretos. Eu diria
que, antes de usar essa chave, precisaríamos ter outra, a que
abre os portões de acesso ao conteúdo e significado do texto
que fica como que num segundo círculo interno. Em outras
palavras, é preciso entender as palavras cujo sentido perdeu-
se na esteira dos séculos e sob sucessivas camadas
interpretativas, para então, sim, descobrir que caminhos os
ditos apontam para aqueles que não desejam "provar a
morte", tornarem-se pneumáticos e voltarem para casa de
onde saíram da presença de Deus e de sua integração n'Ele,
para a longa e complexa aventura da vida. Mais morte do
que vida, aliás, porque mergulha a centelha divina na
ignorância e no exílio da matéria.
Penso que após estas reflexões preliminares estaremos mais
bem aparelhados para passar à difícil tarefa de abrir portões e
portas internas, a fim de tentar surpreender na sua
intimidade, os segredos que Jesus teria revelado a Tomé e
que levam o iniciado à libertação definitiva sem
necessidade, nunca mais, de "provar a morte".

III - Uma Releitura dos Logia

1. E ele disse: - Aquele que descobrir a interpretação destas
palavras não experimentará a morte.

O primeiro conceito a destacar-se neste logion é o de que
em lugar da salvação coletiva resultante do sacrifício do
Cristo, da fé, da filiação a determinada instituição ou da
prática de certos rituais e sacramentos, o Evangelho de
Tomé propõe a libertação como decorrência de um apren-
dizado individual. Ao caracterizá-la como uma descoberta, o
texto marca postura nítida, recomenda a metodologia da
busca e indica que o sentido não está explícito, mas
implícito, oculto, e precisa ser interpretado obviamente em
concentradas consultas e demoradas meditações. Não é
oferta gratuita; ela tem preço em trabalho individual, esforço
de aprendizado, exercício intelectual. É conhecimento que
precisa ser alcançado e assimilado.
Que é, porém, "experimentar a morte" ou deixar de
experimentá-la? O esclarecimento de mais esse enigma
também tem de ser procurado, meditado e interpretado. O
entendimento imediato e superficial seria o conceito
habitual de morte como cessação da atividade orgânica,
seguida da desintegração do corpo físico, e os gnósticos
tinham perfeita noção de que o corpo era apenas veículo ou
instrumento de trabalho para o espírito imortal. Mas sabiam
também que a morte física é inevitável ao cabo de alguns
instantes ou umas tantas décadas, a partir do momento em
que se renasce na carne. Como é então que o conhecimento
resultante da interpretação de um conjunto de
ensinamentos, por mais transcendentais que fossem, poderia
impedir ou evitar a morte? Não é, pois, no seu sentido
comum que ela figura no texto.
Explicações por indução o leitor atento encontrará em
inúmeras passagens nos papiros coptas. No Tratado
Tripartite, porém, a informação é clara e objetiva: a morte é
"... o grande mal (...) a completa ignorância da Totalidade".
Está morto, portanto, o ser afastado de Deus, que se dividiu
dele e nem tem consciência da separação. É a criatura hílica,
material, ainda na dependência do batismo de água, ou seja,
o mergulho repetido em outras tantas reencarnações.
Esse conceito de morte, contudo, não é estranho aos
evangelhos canônicos, ainda que, por contraste, em
menções à vida, como se pode ler em Lucas 10, 28. Quando
um doutor da lei interpela Jesus, perguntando-lhe
matreiramente o que fazer para herdar a vida eterna, Jesus
devolve-lhe a pergunta com outra: - O que está escrito na
lei? O homem recita o primeiro mandamento e o Cristo
limita-se a comentar:"- Bem respondido. Faze isso e
viverás".
É no Evangelho de João, porém, o mais 'gnóstico' dos
evangelhos, que vamos identificar outras referências à vida
no sentido de desperta- mento para a realidade espiritual.
Em 5,25 lê-se que chegaria a hora - e acrescenta que já
estamos nela - "em que os mortos ouvirão a voz do Filho de
Deus e os que a ouvirem, viverão".
Até que desta vez concordo plenamente com o comentário
da Bíblia de Jerusalém, que informa serem estes "os mortos
espirituais".
A passagem pode figurar indiferentemente nos documentos
gnósticos como nos canônicos. Estaria bem em ambos,
como de fato, está.
Ainda em João (6,51), em palavra (logion) atribuída a Jesus,
ele se declara "o pão vivo baixado do céu", e acrescenta,
"quem comer deste pão viverá para sempre". A Igreja
aproveitou o ensinamento, retirando-o de seu contexto
transcendental e esotérico, a fim de usá-lo como ponto de
apoio para o sacramento da eucaristia, mas a visão
retrospectiva, que ora nos proporcionam os documentos
coptas restaura o dito à sua ambientação de origem e ao
conteúdo gnóstico.
Mas, a fala do Cristo prossegue para ensinar que tanto o Pai
vive, como ele, o Cristo, vive no Pai; assim também viverá
aquele que comer daquele pão, ou seja, do nutrimento
espiritual em que se converteu sua palavra. E acrescenta,
para exemplificar e concluir que os antepassados, sem esse
conhecimento (gnose), "não comeram desse pão e por isso
morreram", ao passo que aqueles que o comerem "viverão
para sempre".
Observei há pouco que o Evangelho de João é o mais
gnóstico dos evangelhos; em verdade, porém, parece mais
correto dizer que o texto atribuído a João não é apenas o
mais gnóstico, e sim, um texto gnóstico que acabou por
acomodar-se ao lado dos sinóticos, preservando sua
identidade e suas características de origem. O quarto
evangelho foi elaborado dentro de plano de trabalho diverso
daquele que serviu aos sinóticos, com outras diretrizes e
concepções, ainda que preservando os ensinamentos básicos
de Jesus.
Ele tem a estrutura, as imagens, o tom, o estilo e o conteúdo
de um documento gnóstico. O Cristo parece falar nele de
uma posição póstuma, por via mediúnica, a um grupo atento
de ouvintes que nem sempre alcançam toda a profundidade
do seu pensamento, como, aliás, acontecia também
enquanto ele viveu na carne.
A passagem que vínhamos estudando e que Igreja tomou
como estrutura básica do sacramento da eucaristia
caracteriza de maneira dramática o despreparo dos que o
ouviam, pelo menos àquela altura, para compreensão e
assimilação das imagens acerca de pão celestial, vida e
morte. O texto joanino preserva a reação de perplexidade
dos apóstolos, que comentaram entre si que não estavam
entendendo nada daquilo que lhes dizia o Cristo. "É dura
essa linguagem", observaram. Ao perceber que eles se
mostravam confusos, o Mestre continua, ainda em contexto
puramente gnóstico:

Isto os escandaliza? E quando vocês virem o Filho do
Homem subir para onde estava antes? O espírito é que dá a
vida, a carne para nada serve. As palavras que lhes disse são
espírito e são vida.

Em 11, 25, a temática da vida através do conhecimento
libertador é retomada. Comenta-se a ressurreição de Lázaro,
manifestando-se Marta, já conformada ante a possibilidade
de seu irmão somente ressurgir (ressuscitar) "no último dia",
ao que o Cristo responde: "- Eu sou a ressurreição e a vida.
O que crê em mim, ainda que morto, viverá."
Mais uma passagem que o pensamento gnóstico ilumina de
maneira singular. Não apenas o Cristo insiste no
ensinamento de que o conhecimento é vida e a ignorância é
morte, como sugere sutilmente àqueles que ainda não têm
como saber de tais coisas aceitem o primeiro estágio do
conhecimento que se situa no âmbito da fé. Ele dá a sua
palavra de que a vida maior, livre afinal dos vínculos com a
matéria densa, é prêmio reservado àquele que trabalhou para
enriquecer-se de conhecimento acerca de sua própria
realidade e condição espiritual. Reconhece, contudo, que
fala a pessoas que ainda não têm como entender esse
mecanismo. Certamente por isso, pergunta a Marta:"- Você
crê nisto?" A resposta de Marta está posta em contexto
messiânico e denuncia manipulações posteriores, mas o que
se pode depreender é que ela teria respondido que sim, cria,
porque quem lhe falava dessas coisas ainda
incompreensíveis para ela tinha autoridade para tanto. Não
havia como duvidar.
Seja como for, estamos aqui diante de mais uma passagem
joanina vazada em terminologia gnóstica e apoiada em
conceitos gnósticos. A Bíblia de Jerusalém, contudo,
comenta compreensivelmente que a fala de Jesus deve ser
assim entendida: "O crente triunfou para sempre da morte,
vitória cujo sinal é a ressurreição de Lázaro".
Ainda uma vez, em 14,19, Jesus refere-se, segundo João, ao
tema recorrente da vida. A cena é de despedida e, como em
outras passagens joaninas, guarda características de
manifestação mediúnica, durante a qual o Cristo póstumo
fala com seus amigos mais chegados num círculo íntimo,
desvelando panorama bem mais amplo do que pregara
enquanto vivo na carne. Diz ele:

Não os deixarei órfãos, voltarei a vocês. Dentro em pouco o
mundo já não me verá, mas vocês sim me verão porque eu
vivo e vocês viverão. Nesse dia, vocês compreenderão que
estou em meu Pai e vocês em mim e eu em vocês.

A despedida, portanto, não é para sempre ou nunca mais. O
Cristo tem plena consciência de sua condição de ser liberto,
ou seja, vivo, na terminologia gnóstica. ("Eu vivo" - diz ele).
Diz, logo a seguir, que também eles, seus ouvintes daquele
momento, um dia alcançarão estágio evolutivo semelhante.
Nesse dia, ou seja, desse patamar evolutivo, terão afinal
condição para verificar a verdade proclamada de que ele,
Jesus, já está no Pai. E mais, que os que ali estão reunidos
estarão nele, Cristo, tanto quanto o Cristo estará em cada um
e todos em Deus. É a glória tão sonhada e buscada da
plenitude, opleroma gnóstico, na reintegração em Deus. O
que estava separado voltou a se unir ao todo, o que era dois
se fez um. São todos vivos, agora, e não mais recairão nas
armadilhas da morte, que é apenas um nome a mais para a
ignorância.
Também em Paulo, que Schweitzer considera, como vimos,
um precursor do gnosticismo, vamos encontrar evidências
do conceito gnóstico de vida, no sentido de despertamento
espiritual, como este:

Assim que, irmãos meus, não somos devedores da carne
para viver segundo a carne, pois, se viverdes segundo a
carne, morrereis. Mas se com o espírito fizerdes morrer as
obras do corpo, vivereis (Rom.8,13).

Acho até que a mesma conotação gnóstica pode ser
atribuída à famosa observação que iria disparar em Lutero o
mecanismo intelectual que produziria a Reforma
Protestante.

Porque nele (em todo aquele que crê) se revela a justiça de
Deus, de fé em fé, como diz a Escritura: O justo viverá pela
fé (Rom. 1,17).

A remissão escriturística leva ao texto mediúnico de
Habacuc (2,4), no qual o profeta explica que "sucumbe
aquele que não tenha alma reta", ao passo que "justo, pela
sua fidelidade, viverá".
A Bíblia de Jerusalém esclarece que foi na tradução dos
Setenta (a Septuaginta) que o termo fidelidade transplantou-
se como fé, onde Paulo faria a sua leitura de salvação pela fé
e Lutero, a da justificação pela fé. Sobre isso muito se tem
escrito e falado. Seria redundante e inoportuno repassar aqui
os argumentos em disputa. Podemos, contudo, acrescentar
mais uma interpretação ao que Paulo teria desejado dizer
com a sua muito citada doutrina, a de que viverá, no
conceito gnóstico, aquele que, pela fé, acabou alcançando o
estágio do despertamento, livrando-se da hipnose da carne,
dado que "se viverdes segundo a carne, morrereis".
Para encerrar, a fim de prosseguir, é bom lembrar que um
eco do logion 1 encontra-se no de número 108 - Quem
beber de minha boca se tornará como eu e eu próprio me
tornarei ele e as coisas ocultas lhe serão reveladas.

2. Jesus disse: - Aquele que procura não cesse de procurar
até quando encontrar; e quando encontrar, ficará perturba-
do; e ao perturbar-se, ficará maravilhado e reinará sobre o
Todo.

O roteiro para a condição de conhecimento anunciada no
logion precedente é a da busca constante, até achar. O texto
prevê dificuldades nessa busca e recomenda obstinada
insistência. Adverte ainda que o encontro com a verdade,
causa, de início, o impacto de uma perturbação emocional
que se converte, posteriormente, em euforia e proporciona
um estado de consciência cósmica, uma integração no todo,
uma participação das potencialidades incomensuráveis do
todo.
Em seus comentários ao I Ching, Richard Wilhelm escreve
algo que tem muito a ver com a temática do Evangelho de
Tomé em geral, e deste logion em particular. Discorre o
autor sobre determinadas cerimônias religiosas às quais os
antepassados (falecidos) compareciam "como convidados do
Senhor do Céu e como representantes da humanidade
nessas esferas mais elevadas". Ao promover essas
festividades, o governante "convertia-se em Filho do Céu"(=
Filho de Deus?).
A propósito de tais aspectos da tradição de seu povo,
escrevera Confúcio, segundo Wilhelm:

Aquele que compreendesse plenamente este sacrifício (o
sentido da cerimônia de intercâmbio com os antepassados)
poderia reger o mundo como se o girasse em suas mãos. (O
destaque é meu, bem como a explicação entre parênteses).

3. Jesus disse: — Se aqueles que os guiam lhes disserem: Eis
que o Reino está nos céus, então as aves do céu lhes
precederam. Se lhes disserem que ele está no mar, então os
peixes já lhes precederam. Mas o Reino está dentro de vocês
e também fora de vocês. Quando vocês conhecerem a si
mesmos, então serão conhecidos e saberão que são filhos do
Pai Vivo. Mas, se vocês não conhecerem a si mesmos, então
vocês estão na pobreza e são a pobreza.

Este é um postulado básico do gnosticismo e que se
encontra em perfeita consonância com a concepção de
Jesus a respeito do Reino de Deus, como vimos alhures,
neste livro. O Reino, símbolo de perfeição espiritual, é uma
conquista pessoal. É entendimento e autoconhecimento. É a
resultante de um esforço individual, não uma salvação
coletiva promovida pela imolação de um deus feito homem,
segundo a concepção teológica. O Reino de Deus não é,
pois, condição geográfica, nem histórica, ou social - é
conquista íntima. Curiosamente, ele é também exteriorizado
na projeção das harmonias interiores no ambiente onde vive
a criatura evoluída confirmada na consciência de sua
participação no todo. Enquanto não for atingido esse
estágio, seremos espíritos ainda primários, não enriquecidos
pela experiência e pelo conhecimento.
Contém ainda este logion uma palavra de advertência
quanto aos falsos guias espirituais que poderão induzir-nos
ao erro de supor que o Reino é condição externa à criatura,
nos céus, no ar, no mar.

4. Jesus disse: - O homem envelhecido em seus dias não
hesitará em questionar a uma criança de sete dias acerca do
Lugar da Vida, e ele viverá, porque muitos dos primeiros
serão os últimos, e se tornarão um só.

Este logion pressupõe a realidade da preexistência do
espírito em uma condição ou dimensão que o texto
caracteriza como o "Lugar da Vida". O espírito do recém-
nascido está chegando dessa realidade invisível e traz, por
vezes, experiências e conhecimentos superiores aos de uma
pessoa mais idosa, na carne. O espírito de um recém-nato
ainda não se encontra totalmente subordinado às severas
limitações impostas pela ligação com o corpo físico, tendo
assim condições de recorrer à sua memória de espírito e não
à de criança que ainda não se formou.
Quanto à unificação, é entendida aqui no sentido gnóstico,
como retorno a Deus. Isso não exclui a clássica
interpretação de que a pessoa deve trabalhar para alcançar o
estado de pureza desarmada que caracteriza a criança, a fim
de tornar-se digno da convivência com aqueles que já se
purificaram por meio de longo trabalho de aperfeiçoamento
espiritual através de inúmeras existências corporais.
Por outro lado, os que nascem agora (os últimos) repetem
experiências que tiveram no passado (os primeiros) em
diferentes existências. É esse o mecanismo do progresso
espiritual que leva à unificação ou re-união com Deus,
sentido tradicional do termo religião na sua conotação de
religação. Note-se a insistência na idéia da unificação, da
integração na grande unidade.
A propósito da observação sobre últimos e primeiros, vamos
encontrar nos sinóticos (Mateus 19,27-30, Marcos 10,28-31
e Lucas 13,22-30) convincente exemplo de que certos ditos
autênticos ou atribuídos a Jesus foram utilizados para ilustrar
situações ou teorias inteiramente diversas.
Em Mateus, Pedro interpela Jesus sobre que recompensa
teriam os discípulos por haverem deixado tudo para segui-
lo. A resposta, como se vê em Marcos, na passagem paralela,
é a de que teriam generosa recompensa "agora, neste
tempo", e, "no mundo futuro, a vida eterna". Coisa
semelhante está dita em Mateus, segundo o qual o discípulo
"receberá muito mais e herdará a vida eterna". Isso,
contudo, somente figura no texto de Mateus, após uma
resposta dada no contexto messiânico, evidentemente
interpolada, para dizer que os apóstolos sentar-se-iam em
doze tronos investidos do poder de julgar as doze tribos de
Israel.
Já em Lucas, o dito acerca dos primeiros e últimos é usado
para combater a resistência dos judeus ortodoxos à pregação
cristã, advertindo de que é estreita a porta da salvação e
muitos os que desejariam, no devido tempo, entrar por ela.
Como a imagem da porta estreita figura também em Mateus,
é provável que seja autêntica. Novamente, contudo,
encontramos aplicações diversas para a mesma idéia.
Enquanto em Lucas o enfoque é sobre a salvação, conceito
que a Igreja começou a desenvolver logo cedo a fim de
sobre ele erigir a doutrina da exclusividade, em Mateus a
conotação é outra: Jesus adverte que largo é o caminho que
conduz à perdição e muitos são os que entram por ele, ao
passo que é apertado o que "conduz à vida. E poucos são os
que o encontram".
Além disso, o redator final de Lucas aproveita um Salmo
(6,9) para criar uma atitude impensável em Jesus, que teria
dito aos que tentaram entrar no Reino e não o conseguiram,
porque não quiseram segui-lo: "Não sei quem sois; afastai-
vos de mim, vós todos, que sois malfeitores!"
Não encontramos nenhum desses aspectos no logion
recolhido por Tomé que apenas menciona o fato de que o
ser recém-nascido é um espírito dotado de conhecimentos e
experiências que podem até ajudar a uma pessoa mais velha,
na carne, a encontrar seu próprio caminho para que
também se torne um com Deus. Nesse intercâmbio com
pessoas em diferentes faixas evolutivas, seres supostamente
mais antigos (envelhecidos, os primeiros) podem estar, em
realidade, menos preparados do que outros espiritualmente
mais jovens (os últimos) que tenham aproveitado melhor as
lições da vida.

5. Jesus disse: - Conhece o que está diante de tua face, e o
que estiver oculto lhe será revelado; pois nada há oculto que
não seja descoberto.

Aprendendo a observar a realidade visível, estamos
treinando nossos recursos para o trabalho de apreensão da
realidade oculta que nos será revelada à medida em que
progredimos espiritualmente. Esta palavra nos assegura
ainda que todo conhecimento oculto está permanentemente
à nossa disposição na exclusiva dependência de uma
abordagem atenta, amadurecida e inteligente.

6. Seus discípulos interrogaram-no, dizendo: — Queres que
jejuemos? Como devemos orar? Devemos dar esmolas? E
que normas observaremos ao comer? Jesus disse: - Não
mintam e não façam aquilo que é odioso, porque tudo será
desvelado perante o Céu. Nada há, com efeito, oculto que
não venha a tornar-se manifesto, e nada encoberto que
permaneça sem ser descoberto.

Às perguntas sobre alimentos e sobre a maneira de orar ou
distribuir esmolas, Jesus prefere responder com normas
básicas de procedimento: a prática da verdade e do amor,
dado que tudo se documenta nas leis cósmicas aqui
simbolizadas pelo céu. Por isso, de nada adiantaria tentar
mascarar com atos externos de jejum, caridade material e
preces, a realidade oculta da mentira e do desamor.
Há uma articulação entre esse logion e o precedente.
Aquele cuida da busca e do aprendizado, tornando
conhecido o que está oculto (mas não inacessível),
enquanto este ensina que nossas ações, por mais secretas,
não passam despercebidas aos registros cósmicos, que nos
exigirão o reparo e a rearmonização sempre que houver uma
desafinação. Prevalece em ambos o princípio de que nada
permanece oculto que não seja revelado ou conhecido. Em
outras palavras, no primeiro caso, trata-se de uma revelação
de conhecimento (gnose) de coisas que ignoramos; no
segundo, de ações pessoais de nossa inalienável
responsabilidade, que suscitam inevitáveis conseqüências e
exigem reparação.

7. Jesus disse: - Bem-aventurado o leão que o homem
comerá, e o leão se tornará homem; maldito seja o homem
que o leão comer e o leão se tornará homem.

Embora o texto original mencione, na parte final, que "o
leão se tornará homem", Puech adverte, em nota de rodapé,
que, evidentemente, deve-se ler "o homem se tornará leão".
Purifica-se e evolui a pessoa que domina seus sentimentos e
sua animalidade, simbolizados na imagem do leão, mas
quando a pessoa se deixa dominar por esses impulsos, põe-se
ao nível da fera e se torna maldito, ou seja, alia-se ao mal,
sujeita-se a ele.
Não há nos canônicos, referência que se identifique com
este logion.

8. E ele disse: - O homem é como um sábio pescador, que
lançou sua rede ao mar e a puxou para fora cheia de
pequenos peixes. Entre eles encontrou um peixe grande e
bom. Atirou todos os peixes pequenos ao mar e, sem dificul-
dade, escolheu o peixe grande. Aquele que tiver ouvidos de
ouvir, que ouça.

No intercâmbio no dia-a-dia com o mundo, recolhemos
enorme quantidade de coisas sem importância. É preciso
exercer o bom senso de relegá-las ao esquecimento, retendo
apenas o que realmente importa. Isso evita o envolvimento
com miríades de problemas irrelevantes em prejuízo de
aspectos significativos.
Mais uma vez encontramos em Mateus (13,47-50) a
utilização deste logion (ou de outro muito parecido) com a
finalidade de apoiar as nascentes formulações dogmáticas,
em lugar de ser interpretado como singelo ensinamento
acerca da necessidade de hierarquizar os problemas, a fim de
não perder tempo e energia com detalhes irrelevantes.
Realmente, diz a parábola em Mateus que, puxada a rede
para a praia, os pescadores "juntam o que é bom em vasilhas,
mas o que não presta, deitam fora". Vem, a seguir, a
inferência escatológica, na qual a parábola é aproveitada para
pregar a doutrina da punição infernal:
Assim será no fim do mundo: virão os anjos e separarão os
maus dentre os justos e os lançarão na fornalha ardente. Ali
haverá choro e ranger de dentes.

9. Jesus disse: - Eis que o semeador saiu, encheu suas mãos e
atirou (as sementes). Algumas caíram no caminho; vieram
os pássaros e as recolheram. Outras caíram sobre a rocha, e
elas não soltaram raízes pela terra à dentro, nem fizeram os
brotos crescerem para o céu. E outras caíram entre os
espinhos, que sufocaram as sementes, e os vermes as come-
ram. E outras caíram em terra boa e produziram bons frutos
lá em cima: ela produziu sessenta por medida e cento e
vinte por medida.

A redação é semelhante à da mesma parábola nos
evangelhos
canónicos. O conhecimento é distribuído generosamente
pelos missionários divinos (os semeadores), mas o
aproveitamento depende do preparo de cada um para
recebê-lo, seu grau de maturidade e bom senso na utilização
do que aprende. Alguns se deixam convencer por
predadores intelectuais; outros apresentam precárias
condições íntimas de cultivo; outros rejeitam a mensagem e
até a combatem. Finalmente, há os que estão amadurecidos
e preparados; nestes, o conhecimento encontra solo fértil e
se desenvolve satisfatoriamente. E eles próprios produzem
novas sementes, com as quais prosseguem a semeadura da
verdade.

10. Jesus disse: - Lancei o fogo sobre o mundo, e eis que o
observo até que ele esteja em chamas.
Versículo semelhante figura em Lucas 12,49. É difícil atinar
com adequada interpretação de uma frase assim enigmática,
fora do contexto em que teria sido proferida. Fala-se no fogo
do amor que purificaria os seres, como também no conflito
gerado pelas divergências em torno da própria doutrina de
Jesus em choque com as demais. A julgar-se pelos versículos
51-53, a interpretação mais adequada é esta última, de vez
que Jesus se refere às disputas entre membros da mesma
família em torno das idéias que ele pregou. Examinando em
conjunto os logia 10,16,58 e 69, Puech propõe uma
engenhosa interpretação, segundo a qual a opção por Jesus
acarreta "tão inelutáveis quanto pesadas conseqüências", no
sentido de que significa submeter-se "a uma prova de fogo,
suportar sofrimentos, tribulações e perseguição" para
alcançar o Reino, ao passo que afastar-se dele é renunciar ao
Reino para recolher-se à morte, ou seja, à alienação na
matéria, que Jesus caracteriza como estado de embriaguez
(cegueira, ignorância, inconsciência).

11. Jesus disse: - Este céu passará e também aquele que está
por cima deste. Os mortos não estão vivos e os vivos não
morrerão. Ao tempo em que vocês comiam o que estava
morto, tornavam-no vivo. Quando se encontrarem na luz,
que farão? Quando eram um, vocês se tornaram dois, mas
quando se tornarem dois que farão?

A imagem segundo a qual céu e terra passarão é utilizada
nos
canónicos (Mateus 24,35, Marcos 13,31 e Lucas 21,33)
novamente em contexto messiânico, quando se anuncia
que, ainda naquela geração, o Reino de Deus seria
implantado na Terra. Dificilmente teria Jesus formulado essa
projeção que não se realizou. Como tantas outras que lhe
foram indevidamente atribuídas, a idéia da iminência do
Reino de Deus é incongruente com o conteúdo e sentido de
sua pregação. Seja como for, o dito sobre a eventual
passagem dos céus foi utilizado com esse propósito.
Em Tomé, como vemos, confronta-se uma realidade
cósmica que se afigura eterna, mas é também transitória,
com a imutabilidade das leis divinas orientadas para
conduzir os seres à perfeição espiritual simbolizada na luz.
A matéria densa é transitória. Resultante de uma
condensação de energia ("luz coagulada"), poderá reverter, a
qualquer tempo, à condição de energia pura, em liberdade.
Por isso, os mundos que povoam o cosmos (o céu) estão
fadados a desaparecer, ao reverterem à situação anterior. Os
mortos não vivem (em seus corpos físicos), porque o
espírito já abandonou tais corpos, mas, a vida é eterna e os
seres, uma vez criados, são imortais. O espírito vivifica a
matéria inerte ("A função da mente" - diz Bergson, in
l'Evolution Créatrice - "é pensar a matéria"). Vindos da luz
estamos unidos a ela, éramos um com ela; tornamo-nos
dois, separando-nos dela. O que temos a fazer é trabalhar
para retornar ao "local" de onde viemos e voltarmos a ser
um com ela. O conceito fundamental da gnose é a busca de
Deus através do autoconhecimento.

12. Os discípulos disseram a Jesus: - Sabemos que tu nos
deixarás. Quem será grande entre nós? Jesus lhes disse: - Do
lugar para onde vocês vão, procurarão Tiago, o Justo, por
quem o céu e a terra foram criados.

13. Jesus disse aos seus discípulos: - Comparem-me e digam-
me com quem pareço? Disse-lhe Simão Pedro: - Tu pareces
com um anjo justo. Disse-lhe Mateus: - Tu pareces com um
sábio filósofo. Tomé lhe disse: - Mestre, minha boca não
aceitará absolutamente que eu diga a quem te assemelhas.
Jesus disse: - Não sou seu mestre, pois que você bebeu e se
embebedou da fonte borbulhante que lhe proporcionei.
E ele o tomou à parte e lhe disse três palavras. Ora, quando
Tomé voltou à presença de seus companheiros, estes lhe
perguntaram: - Que te disse Jesus? Tomé lhes disse: - Se lhes
dissesse uma só das palavras que ele me disse, vocês
tomariam pedras nas mãos e as lançariam contra mim e um
fogo sairia das pedras e queimaria vocês.

Esta passagem, excepcionalmente longa em confronto com
a maioria dos logia coligidos neste documento, é uma das
que nos leva a dar razão a Hennecke, quando nos previne
acerca de interpolações, acréscimos e alterações no texto
original. Eu diria que tanto este como o logion anterior, de
número 12, constituem enxertias textuais com finalidades
"políticas". O de número 12 pretende exaltar a figura de
Tiago, o Justo, irmão de Jesus e bispo de Jerusalém. O
escriba, contudo, sobrecarregou nas tintas. Ainda que
legítima a indicação de Tiago como líder da comunidade e
digno de todo o respeito, não caberia a hiperbólica decla-
ração de que céu e terra foram criados por causa dele.
No de número 13, a figura exaltada é Tomé. O autor
pretende passar a idéia de que Tomé teria sido distinguido
pelo Cristo com ensinamentos tão secretos que nem mesmo
aos demais apóstolos e discípulos foram revelados. E seriam
tão explosivos tais ensinamentos que o próprio Tomé não se
teria arriscado a transmiti-los. Topamos novamente aqui
com imagens hiperbólicas de pedras em fogo.
Estão estes dois ditos entre os raros em que nomes de
discípulos são mencionados.
Não há neles, a meu ver, nenhum sentido secreto, esotérico
ou misterioso, apenas a promoção de Tiago, o Justo, e de
Tomé, por alguém que os admirava e os desejava
fortalecidos em suas respectivas autoridades e poderes.
Creio, ainda, que essa turbulência invadiu o logion seguinte,
de número 14, no qual se lê o seguinte:

14. Disse-lhes Jesus: - Se vocês jejuarem, cometerão pecado;
se orarem, serão condenados; se derem esmolas, causarão
danos aos seus próprios espíritos. E se entrarem em
qualquer região, em viagem pelos campos, e forem recebi-
dos, comam do que for posto diante de vocês e cuidem dos
que estiverem doentes entre eles. Na verdade, o que entrar
pela boca não os tornará impuros, mas o que sair da boca,
isso os tornará impuros.

Como se vê, as três primeiras recomendações à entrada do
logion nada têm em comum com o que se segue. O logion
cuida basicamente de instruir os discípulos nas suas
andanças pelo mundo. Onde fossem recebidos, aceitassem o
alimento oferecido e cuidassem dos doentes. Não se
preocupassem com o tipo de alimento servido, mas com o
que diriam àquela gente. A recomendação quanto à
alimentação é compreensível, de vez que os discípulos
primitivos eram judeus, formados na rígida tradição da lei de
Moisés, que proibia expressamente a ingestão de
determinados alimentos. Jesus os libera dessas restrições,
não só porque não encontrariam por toda parte onde fossem
alimentação prescrita em lei, mas também para deixar bem
marcado que estavam levando uma mensagem nova, que era
preciso transmitir com clareza e responsavelmente. Era
importante, pois, o que diriam não o que comeriam.
Nesse contexto, não fazem o menor sentido as primeiras
observações acerca do jejum, da oração e da esmola. Esta
parte do logion parece prender-se ainda ao anterior, sendo-
lhe como que uma conclusão. Podemos supor que alguém,
intrigado com o impenetrável mistério das três palavras
(logia) secretas de Jesus a Tomé, resolveu, por sua conta e
risco, "esclarecer" o enigma. O raciocínio pode ser
imaginado da seguinte maneira: o que poderia ter dito Jesus
que causaria tanta revolta nos demais discípulos a ponto de
apedrejarem Tomé e entrarem as pedras em combustão?
Teria de ser algo em total contradição com tudo quanto
Jesus tenha pregado até então. Daí essas expressões absurdas
contra o jejum, a prece e a esmola, incompatíveis com toda
a filosofia do Cristo e com sua exemplificação. Esse corpo
estranho dentro do Evangelho de Tomé está em choque
com o dito número 27, no qual Jesus recomenda preci-
samente o jejum "em face do mundo", como condição para
chegar-se ao Reino de Deus. Pode-se dizer que este jejum é
no sentido espiritual de não envolvimento nas coisas do
mundo, não jejum de alimentos, mas a idéia de privação é a
mesma. Aliás, o logion 107 é ainda mais explícito, quando
Jesus é convidado a orar e jejuar e responde no
entendimento de que, não tendo erros a resgatar, não está
obrigado a penitências como a do jejum.
Trechos assim incongruentes, que introduzem turbulências
no documento e se chocam com outras passagens mais
nítidas, contêm, usualmente, elevada carga de suspeição.
Não é tarefa dos textos evangélicos exaltar esta ou aquela
figura humana associada a Jesus. Sempre que isso ocorre, a
passagem fica sob suspeita como concebida para dar suporte
a interesses mundanos ou a doutrinas estranhas. É o caso do
famoso Tu es Petrus, por meio do qual Jesus teria atribuído a
Pedro poderes incompatíveis com a sua própria pregação e
com a verdade dos fatos históricos, como vimos alhures. Na
mesma ordem de idéias, a exaltação à respeitável mãe de
Jesus é anseio até compreensível, mas inadequado, que a
leva a semidivinização e a faz "subir aos céus" em corpo
material, como conclusão à fantasiosa narrativa da
concepção e do nascimento de Jesus.
Em suma: no meu entender, não há a mínima condição de
aceitar como autênticos os logia número 12,13 e mais a
parte inicial do 14, que surgem como evidentes e
incompetentes enxertias.

15. Jesus disse: - Se vocês virem alguém que não seja filho
de mulher, prostem o rosto em terra e adorem-no - ele é Pai
de vocês.
Também muito estranho é este logion, sem as chaves
apropriadas para abri-lo ao entendimento. Raras vezes, nos
canônicos, Jesus se refere a Deus como "vosso Pai". Prefere
chamá-lo de "meu Pai", ou "nosso Pai", como na prece
dominical. Aqui, porém, não parece referir-se a Deus e sim
a um ser de extraordinária condição evolutiva, espírito
redimido, senhor de perfeições inconcebíveis, conquistadas
ao longo de muitos milênios de trabalho pessoal. Este ser
estaria em condições de orientar e transmitir
conhecimentos superiores como um bom pai o faria.
Mas, que é, precisamente, ser filho de Mulher ou filho de
Homem'? No logion 46 vamos encontrar novamente a
expressão aplicada a João Batista, em passagem semelhante à
dos canónicos, ao dizer que, "entre os nascidos de mulher",
ninguém era maior do que o Batista.
Para mais amplos esclarecimentos, o leitor é encaminhado
ao capítulo IX, Parte 1 deste livro.
Para o âmbito deste logion, é suficiente observar que:
a) Filho de Homem é um ser que superou em si mesmo a
polaridade sexual, reuniu-se à divindade e assumiu o lugar
devido na escala evolutiva própria ao ser redimido, ao Eleito
e ao Vivo, a que se refere o texto de Tomé. Sobre essa
criatura, somente Jesus teria precedência, como "irmão mais
velho", primogênito, ou seja, aquele que primeiro entre nós
atingiu tão elevada condição, tornando-se um com a
divindade.
b) Filho de Mulher é o espírito sujeito à condição carnal,
prisioneiro intermitente da matéria, como que adormecido
nela, inconsciente de sua realidade espiritual (morto), sujeito
a ciclos de vida e morte, na dependência de que uma
mulher gere para ele um corpo perecível e, por tudo isso,
dividido, separado, "dois" consigo mesmo e com a
divindade.

16. Jesus disse: - Talvez os homens pensem que vim para
trazer a paz ao mundo, e não saibam que vim para trazer as
separações sobre a terra, o fogo, a espada, a guerra. Haverá
cinco numa casa; três estarão contra dois e dois contra três,
o pai contra o filho e o filho contra o pai. E eles continuarão
solitários.

Novamente, como no logion 10, refere-se o Cristo aos
conflitos e atritos que sua palavra suscitaria até mesmo na
intimidade das famílias. O sentido, contudo, não é o mesmo
nos dois logia. No de número 10, Jesus se declara feliz com
o fogo que sua presença e seus ensinamentos suscitam, o
que significa que esse fogo constitui algo positivo no esque-
ma evolutivo da humanidade. É uma energia renovadora e
criativa, pois ele deseja que se propague o quanto antes. Não
é fogo que consome e causa transtornos e malefícios, mas a
chama que aquece e ilumina.
No logion 16 a situação é outra. Ele parece lamentar que sua
palavra pacífica e ordeira suscite discórdia, destruição,
conflitos pessoais e coletivos, como guerras. E mais: que tais
conflitos ocorram até na intimidade dos lares, entre grupos
que concordam com seus postulados e procuram adotá-los
como norma de vida, e aqueles que discordam e preferem
seguir seus próprios caminhos, sem intentar esforço algum
de aprendizado e auto-reforma. Paira sobre o texto uma
sensação de desconforto ante a expectativa de divergências
em torno de uma mensagem de paz quando bastaria
pequena dose de tolerância para convivência pacífica,
mesmo entre os que se põem em territórios ideológicos
diferentes. O filho não é obrigado a pensar como o pai, ou a
mãe, igual à filha ou ao marido. É perfeitamente possível
discordar e conviver em atmosfera de respeito mútuo.
Ademais, estava o Cristo bem consciente de que a apreensão
correta da verdade e sua utilização adequada exigem certo
grau de maturidade, como ficou nitidamente conceituado na
parábola do semeador. Não é de se esperar que todos,
mesmo dentro do reduzido círculo familiar, compreendam,
aceitem e pratiquem o mesmo código de ética religiosa. Os
espíritos que integram uma comunidade, seja ela família,
nação ou planeta, são seres em diferentes níveis evolutivos.
A convivência pacífica precisa ser trabalhada, tem de
resultar de um esforço de compreensão, de um exercício de
tolerância.
Infelizmente não é essa a realidade e Jesus sabia bem da
dolorosa condição que aqui vinha encontrar. Está
consciente, portanto, de que a sua mensagem provocará
conflitos.
E conflitos houve mesmo. Abundantes, sangrentos,
interpessoais e coletivos, brigas de família, perseguições
inquisitoriais, turbulências internas, cruzadas, e até guerras
de maior porte, em torno de seus ensinamentos ou que lhe
tenham sido atribuídos.
Mais uma de suas importantes contribuições oferece Puech
a propósito do logion 16, ao retomar para exame o termo
solitário (monakhos, em grego) que também figura nos logia
4 e 23.
Escreve Puech:

Monakhos é, definitivamente e por certo, segundo nos
parece, a palavra-chave do vocabulário técnico específico ao
nosso documento (Evangelho de Tomé). Nela se condensa e
culmina todo um sistema de especulações, que se definiria
muito bem como uma espécie de "gnose encrática".

Em outras palavras: a gnose seria um sistema de idéias
dominado pela "mística da Unidade".
Cautelosamente, adverte o erudito autor que essa é uma
conclusão algo prematura ou, pelo menos, provisória. De
minha parte, entendo-a perfeitamente admissível como
proposta interpretativa. Para o gnóstico, o grande problema
do ser é estar separado da divindade e a meta, intensamente
desejada, a re-unificação com ela.

17. Jesus disse: - Eu lhes darei o que nenhum olho viu, o
que nenhum ouvido tenha ouvido, o que a mão jamais
tocou e o que não alcançou o coração do homem.

Não resta dúvida de que, mesmo dentro do quatro ético-
religioso que encontrou no seio do povo que escolheu para
recebê-lo, Jesus tinha consciência do poder renovador de
sua mensagem. Respeitou a estrutura básica da religião
praticada em Israel, pregou nas sinagogas por onde andava,
cumpriu até alguns dos ritos e preceitos que a lei mosaica
impunha. Ao mesmo tempo, contudo, trabalhou ativamente
para mudar a idéia que se fazia da divindade. Em lugar de
um Deus severo, rígido, belicoso, implacável e ciumento,
propunha a figura de um Pai austero, sim, mas amoroso,
pronto a compreender e perdoar nossas fraquezas. Sem
faltar ao respeito com os procedimentos básicos do culto
judaico, combateu com veemência o excesso de legalismo, a
submissão cega ao ritualismo e a maneira hipócrita adotada
por muitos que mantinham as aparências, mas eram como
"sepulcros caiados", cheios de podridão íntima.
Por isso, propunha uma filosofia de vida profundamente
renovadora, como nunca tinha sido vista ou praticada. Dizia
coisas que ninguém ouvira até então. Ofereceu às multidões
carentes situações concretas que ninguém testemunhara,
como poder tocar com as mãos o corpo sadio de um ex-
leproso. O impacto de sua mensagem foi tão significativo
que colocou no coração de muitos, emoções e propósitos
que nunca ali haviam estado.
O logion é de grande beleza e transparência.

18. Os discípulos disseram a Jesus: - Dize-nos como será o
nosso fim. Jesus disse: - Já descobriram vocês o princípio
para procurarem saber como é o fim? Pois onde está o
princípio, aí estará o fim. Feliz aquele que se coloca no
princípio, ele conhecerá o fim e não provará a morte.

O problema aqui suscitado é amplo e complexo. Os
discípulos desejam saber da destinação final do ser, ao cabo
do longo processo da busca. Jesus está ciente, contudo, de
que não encontrará neles condições suficientes de
conhecimento para explicar-lhes em que consiste essa
destinação última que corresponde a uma integração do ser
evoluído em Deus. Para que pudessem entender esse
mistério seria preciso conhecer, na sua insondável
profundidade, o mistério maior das origens. A vida é cíclica:
sai de Deus e a Ele retorna. Sem ter conhecimento de como
se passaram as coisas naquele momento inicial em que o
primeiro passo é dado para imensa jornada cósmica, como
entender a condição da chegada?
O conhecimento dessas verdades supremas constitui
objetivo maior do processo evolutivo. Alcançado esse
patamar de sabedoria, o ser não mais "provará a morte", ou
seja, liberta-se da necessidade de retornar à condição carnal,
na qual está sujeito à morte, tanto no seu aspecto biológico
como na sua conotação tipicamente gnóstica de bloqueio
intelectual acarretado pelo envolvimento com a matéria.
No logion de número 49, o mesmo conceito cíclico da vida
é destacado. "Felizes os solitários e os eleitos, porque
encontrarão o Reino. Vocês, de fato, saíram dele e a ele
retornarão."
Puech confessa a dificuldade em traduzir corretamente o
termo copta correspondente e admite que a palavra francesa
-solitaire - não é a melhor, mas a que mais se aproxima. A
versão em língua inglesa, publicada por Hennecke também
decidiu por essa palavra - solitary -, embora não lhe faça
ressalvas, como Puech. Este é que propõe outros termos e
expressões igualmente cabíveis, como "sozinho, isolado,
celibatário, continente, único ou unificado, revertido a si
mesmo e à unidade".
No contexto do gnosticismo, creio mais adequado o sentido
último, ou seja, o de que solitários são os que conseguiram,
segundo a terminologia gnóstica, fazer de dois um, voltar à
unificação como o todo, depois de estar separado dele.
O que, aliás, está sugerido na frase com a qual o logion se
encerra. É, porém, no logion número 50 que a poesia
alcança o seu mais alto nível de transcendência, ao
apresentar em linguagem de insuperável beleza o conceito
cíclico da partida e do retorno. Assim:

50. Jesus disse: - Se lhes disserem: - De onde vêm vocês?
Respondam: - Nascemos da luz, lá onde a luz nasce de si
mesma; ela se ergue e se revela na sua imagem. Se lhes
disserem: - Quem são vocês? Digam: - Somos seus filhos e
eleitos do Pai Vivo. Se lhes perguntam: - Qual o sinal do Pai
que está em vocês? Digam-lhes: - é um movimento e um
repouso.

Esse texto de singular plasticidade é também de insondável
profundidade. Sem tentar explicar a quem não o poderia
entender, a origem e destinação final dos seres, o dito
informa que todos viemos da luz e a ela voltaremos. Não a
luz criada, mas a incriada, gênese e causa primeira da vida,
energia pura, inteligente e criadora que está ali, majestosa,
mas invisível. Ela é intocável e inatingível na sua essência,
dado que somente se revela naquilo em que se manifesta, na
projeção de sua imagem. Podemos, pois, entender essa
energia criadora como um Pai vivo que coloca um pouco de
si mesmo (sua imagem) em tudo quanto nele tem sua
origem. E como se demonstra que viemos todos desse Pai,
que está em nós, como diz o texto? Pela evidência de que
pulsamos nele, como coisa viva. Só a luz central nasce de si
mesma: as outras manifestações de vida existem no Todo,
sustentadas pela fagulha que vive em cada um. Movimento
não há sem uma força que o produza. Cessada a aplicação da
energia, cessam a força e o movimento. O movimento do
ser humano é, contudo, incessante, sendo, portanto,
sustentado por um impulso permanente. Mas há nele fases
de repouso, como o coração, que descansa uma fração de
segundo entre uma batida e a seguinte.
O termo repouso merece algumas reflexões. Ao que se
depreende do exame das diversas situações em que ele é
empregado, o repouso está na integração na Divindade,
transitoriamente em breves momentos de meditação ou
definitivamente quando, percorrida toda a caminhada
evolutiva, o ser volta para Deus. Do que parece legítimo
inferir-se por contraste que movimento é o processo
mesmo da busca, durante o largo espaço de tempo em que o
ser trabalha seu espírito a fim de redimir-se.
Depreende-se, aliás, do logion seguinte, o de número 51,
que os estágios de repouso parcial convertem-se, um dia, em
repouso final, no seio da luz, quando nos tornamos um com
ela. Não um repouso beatífico, ocioso, apático, mas o
repouso na paz, afinal conquistada para sempre. Vejamos.

51. Seus discípulos lhe disseram: - Quando chegará o
repouso dos que estão mortos e quando virá o novo mundo?
Ele lhes disse: - Aquilo que vocês esperam já veio, mas
vocês não o conhecem.
Confirma-se, portanto, que a conquista final, a paz definitiva
está ao alcance de todos aqui e agora, ainda que transitória,
sem necessidade de esperar por um dia especial ou ir a um
local específico. Toda a questão se resume em saber buscar
esse repouso através da ampliação incessante do
conhecimento. A resposta, como se observa, é dada no
contexto da pergunta, que coloca em discussão também a
realização externa do Reino, ou seja, "quando virá o mundo
novo?" Que seria esse mundo novo senão a projeção externa
do Reino de Deus, afinal construído na intimidade de cada
um? Renovado o ser, renova-se também o mundo em que
ele vive. A repetida experiência histórica confirma essa
verdade elementar: a de que será sempre infrutífera a
tentativa de renovar os mecanismos de interação social,
política, econômica e religiosa de fora para dentro,
implantando reformas ditadas por leis humanas sem que o
ser atinja na sua intimidade, a maturidade e o "repouso" na
paz de Deus. A harmonia externa será decorrência da que se
construir na intimidade do ser, não a promotora desta.
O termo repouso tinha relevante significação no sistema de
idéias do cristianismo primitivo e, logicamente, do
gnosticismo.

Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, a fim de que vossos
pecados sejam perdoados e deste modo venham da parte do
Senhor os tempos do repouso... (At 3,19).

Traduções mais recentes, como a da Bíblia de Jerusalém,
preferem o termo refrigério, bem menos expressivo. Minha
preferência fica com repouso, com a ressalva de que não se
trata do repouso celeste da teologia tradicional. Este se reduz
a uma bocejante e interminável ociosidade. Os teólogos
esqueceram-se de inventar uma atividade para o habitante
do céu.
Observamos, assim, que, abstraídas incongruências,
enxertias e deformações, deliberadas ou involuntárias,
sempre tão difíceis, mas não impossíveis de identificar, há
notável coerência e unidade de concepção na filosofia
exposta no texto copta atribuído a Tomé.
O ser traz, em germe, toda a sua potencialidade evolutiva,
tanto quanto a intuição da meta a atingir, que se resume em
seu retorno à luz, de onde saiu. Esse modelo ou projeto
preexiste à manifestação do ser na carne e seria, na
terminologia gnóstica, a imagem que nos cabe traduzir em
realidade.
A certeza da preexistência independente de espaço, tempo e
matéria assegura ao ser esclarecido e alertado (o Vivo) uma
visão ampla e tranqüila do processo mesmo da vida, que
falta àquele que se mantém envolvido na matéria (o Morto).
A existência na carne é meramente episódica, de vez que
mesmo nela todos estão mergulhados no contexto da
eternidade, ainda que não na co-eternidade divina. Somos
imortais e eternos depois de criados, não antes de sê-lo;
depois de saídos da luz, individualizados e dotados de um
plano evolutivo que prevê o retorno como que compulsório
às nossas origens.
Os caminhos a percorrer, o ritmo a imprimir ao processo, as
opções a fazer e as responsabilidades a assumir constituem
decisão pessoal de cada um, deixada ao sabor de seu livre-
arbítrio. A compulsoriedade da destinação é o elemento de
controle, a presença do determinismo finalista, sem o qual o
livre-arbítrio seria absoluto, a ponto de subverter a
ordenação cósmica que prevalece tanto nas leis da física
como nas da ética.
Esse mecanismo evolutivo seria impraticável sem o
dispositivo das vidas sucessivas, tantas quantas necessárias ao
aprendizado e às correções de rumo. Isso porque, embora
possível em princípio a evolução em linha reta, (sem erros
ou vacilações), as responsabilidades assumidas em
decorrência dos desvios cometidos ao longo da jornada
reduzem, com as reparações, o ritmo de amadurecimento
espiritual, retardando, por via de conseqüência, a
reintegração na luz.
Sintomaticamente, nada encontramos nos canónicos que
corresponda, em importância e profundidade, ao conteúdo
dos logia 18, 49, 50 e 51. Vagas referências aos filhos da luz
figuram em Lucas (16,8) e em João (12,36). Neste, mais
aproximada da concepção gnóstica: "Enquanto tendes a luz,
crede na luz, para vos tornardes filhos da luz".
Na verdade, conceitos como o da preexistência de todos os
seres - e não apenas de Jesus -, da redenção resultante de
um trabalho pessoal - em vez de coletiva, suscitada
messianicamente das vidas sucessivas - em lugar da criação
de um espírito para cada nascimento na carne - são
inaceitáveis à teologia ortodoxa. A admissão de qualquer
desses preceitos acarretaria danos irreparáveis às estruturas
doutrinárias da Igreja, em conseqüência da invalidação de
dogmas vitais à estabilidade do edifício teológico.
As teologias não mudam nem evoluem depois do longo e
sofrido processo de consolidação - elas simplesmente se
tornam obsoletas e morrem após não menos longo e sofrido
processo agônico, apegadas às suas bases administrativas,
políticas, sociais e econômicas, que costumam sobreviver às
idéias para cuja sustentação foram criadas e implantadas.

19. Jesus disse: — Feliz aquele que era antes de ter sido.
Se vocês se tornarem meus discípulos e ouvirem minhas
palavras, aquelas pedras lhes servirão. Há, em verdade, cinco
árvores no Paraíso que não se movem no verão nem no
inverno e suas folhas não caem. Aquele que as conhecer
não provará a morte.

Este logion também ensina a doutrina da preexistência do
ser, em outras dimensões, antes de se ligar a um corpo de
carne. Está nele implícito o conceito das vidas sucessivas ou,
no mínimo, o da preexistência do ser. Entre uma existência
e outra há uma pausa, durante a qual o espírito realiza
profundo trabalho de auto-exame e reflexão a fim de avaliar
o que fez até então e o que precisa e pretende fazer dali em
diante para dar prosseguimento ao seu processo evolutivo.
Poucos, no entanto, têm consciência dessa vida
intermediária, ou seja, do que ocorre durante essa pausa no
mundo póstumo, na condição que antecede à existência
seguinte. Em verdade, a vida é um só fluxo, contínuo e
ininterrupto, com uma fase em que o espírito imortal está
acoplado ao corpo material, na terra ou em outros sistemas,
alternada com outra, fora do contexto material.
Como era de se esperar, não encontramos nos canônicos
um dito correspondente a este logion, como os há em
relação a tantos outros. Coincidência ou não, este também
cuida da preexistência do ser, idéia que os fundadores da
teologia ortodoxa rejeitaram inapelavelmente. É que, no
entender desses teóricos, havia necessidade de reservar o
conceito para construir a doutrina da divindade de Jesus.
A idéia de movimento sugere a de transitoriedade. Quem se
move está a caminho, em busca de algo que ali não se
encontra; do contrário, se deteria. Já a idéia de repouso após
a busca indica que foi encontrado, afinal, aquilo que se
procurava, tanto quanto a pausa mais curta sugere o achado
de uma verdade parcial, de um conceito digno de exame,
mas que ainda não é a verdade final. Dentro desse esquema,
as pausas vão se alongando gradativamente, enquanto se
espaçam as existências na carne, sempre restritivas e
educativas. Atingida a meta do processo evolutivo, o ser
encontra o repouso final em Deus, "lá onde a luz nasce de si
mesma", como diz de maneira irretocável o logion 50.
O conceito da transitoriedade da vida na carne está contido
na maravilhosa síntese do logion 42, quando Jesus diz a seus
discípulos apenas duas palavras da maior relevância e
profundidade: "Sejam transeuntes".
Estamos aqui de passagem, trabalhando, aprendendo,
construindo um futuro de paz. Não estamos aqui para ficar,
para deitar raízes, agarrarmo-nos à matéria, sermos por ela
dominados e manipulados, mas para nos libertarmos dela
para sempre. Este, aliás, é conceito essencialmente gnóstico
e que foi levado ao exagero, pois a matéria passou a ser
considerada uma espécie de maldição ou castigo, quando é
instrumento de trabalho que serve ao processo evolutivo. A
consciência dessa transitoriedade proporciona visão mais
nítida da realidade espiritual e conseqüente desapego aos
apelos da matéria: riqueza, poder, dominação, busca
obsessiva de prazeres.
A partir de um patamar mais elevado de evolução, o ser
começa a ter consciência desse estado de coisas e sabe que
já existiu alhures, na carne ou fora dela, antes de outra vez
mergulhar em novo corpo físico para mais uma experiência
na Terra.
É a esse aprendizado em busca de conhecimento mais
amplo e profundo dos enigmas abertos da vida que Jeisus
convida aqueles que não apenas desejarem ser seus
discípulos, mas os que quiserem ouvir o que ele tem a
ensinar e aplicar o aprendido às diversas situações da
existência. Ele se dirige, pois, como afirma em várias outras
oportunidades, não apenas aos que escutam, mas aos que
têm ouvidos de ouvir.
Alcançado o nível libertador da evolução, a criatura aprende
a utilizar-se corretamente das forças e leis da natureza,
tratando-as com o respeito que merecem sem usá-las para
promover interesses pessoais egoísticos. O simbolismo dessa
conquista figura na imagem de que até as pedras servirão
àqueles que sabem delas se utilizar adequadamente.
Não me arrisco, porém, a uma tradução para o símbolo das
cinco árvores do Paraíso. Podem ter algo a ver com os cinco
sentidos da percepção como querem alguns. Puech fala dos
cinco "sentidos espirituais", ou "cinco membros da alma",
ou, conforme consta de um texto maniqueu preservado em
chinês, "a natureza luminosa e primitiva" imanente no ser.
Este último entendimento é o que me parece mais aceitável.
Pelo que entendo, a expressão "cinco árvores do Paraíso"
significaria, portanto, a correspondência, no espírito, dos
sentidos básicos do ser enquanto na carne e que serviriam
para avaliar os progressos feitos contra um modelo
arquetípico ideal, que cada um de nós teria em si mesmo à
espera da realização.
Confesso, porém, que me faltam as chaves apropriadas para
abrir o sentido desta passagem.

20. Disseram os discípulos a Jesus: - Diga-nos a que se
assemelha o reino dos céus: - Ele lhes disse: - Assemelha-se
a um grão de mostarda, a menor de todas as sementes; mas
que, ao tombar sobre a terra cultivada, produz um grande
galho e se torna abrigo para as aves do céu.

O enunciado da parábola não difere muito do que consta dos
sinóticos e o sentido é, sem dúvida, o mesmo: o de que a
verdade é qualitativa e não quantitativa e que mesmo
parcial, fragmentária, poderá produzir surpreendentes
resultados. A enganosa insignificância da semente de
mostarda serve para chamar a atenção para aspectos
aparentemente irrelevantes que podem ser de grande valor.
É situação diversa daquela figurada no logion 8, que
aconselha jogar fora o peixe miúdo, a fim de aproveitar
corretamente o peixe grande. Em confronto um com o
outro, podemos entender que não se deve decidir pela
simples aparência. Coisas minúsculas podem ser muito
importantes ou sem nenhum valor, conforme a situação em
que se apresentam. Tanto na parábola dos peixes miúdos,
porém, quanto na da semente de mostarda, os diminutos
fragmentos de sabedoria e conhecimento somente se
tornam úteis quando desenvolvidos, trabalhados,
amadurecidos - o peixe grande e o galho - de vez que há
sempre uma finalidade útil em vista. O peixe, para alimentar,
o galho de mostarda, para abrigar os pássaros, mas desde que
tenham crescido.

21. Disse Maria a Jesus: - A que se assemelham teus
discípulos? Ele disse: - Assemelham-se a crianças que
residem num campo que não lhes pertence. Quando chegar
o dono do campo, ele dirá: Saiam do meu campo. Eles se
desnudam na presença do dono e lhe entregam o campo.
Por isso eu digo: Se o dono da casa sabe que o ladrão virá,
ele velará enquanto este não vem e não deixará que ele
penetre na casa de seu reino ("mansão real", segundo
Puech), a fim de carregar seus bens. Vocês, contudo,
velem à face do mundo, cinjam a cintura com grande força
para que os ladrões não encontrem meio de chegar até
vocês. Porque, a vantagem com a qual vocês contam, eles a
encontrarão. Que haja entre vocês um homem prevenido.
Quando o fruto amadureceu, ele veio rápido, com a foice na
mão e o colheu. Quem tenha ouvidos de ouvir que ouça.

O logion é extenso e hermético, dando a impressão de que
dois ditos diferentes foram postos juntos, sem conexão
aparente de sentido entre eles. Por entender assim, Rohden
desdobrou-o em dois - 21 e 21 - A.
O sentido do primeiro afigura-se de mais fácil compreensão.
Os aprendizes da verdade devem agir com a pureza e a
inocência das crianças, conscientes, no entanto, de que
trabalham em campo que não lhes pertence e que nem
precisa pertencer-lhes, pois já vimos no logion 42 que
somos transeuntes, passageiros na face da Terra. Nada nos
pertence aqui; recebemos por empréstimo, como posseiros,
aquilo de que necessitamos para desempenhar a tarefa que
nos cabe enquanto mergulhados na matéria. No momento
em que o dono da seara precisar do campo para outra
qualquer finalidade ou para doá-lo a alguém mais, cabe-nos
entregar prontamente o terreno emprestado, mas não
apenas isso: até as vestes que nos cobrem. Ao partir desta
vida, o espírito despe o corpo de carne. A dramática
observação acerca do desnudamento oferece curiosas
implicações. Foi o que fez Francisco de Assis, por exemplo,
ao deixar cair as roupas ricas, que ficavam naquela fase da
vida que ele abandonava para sempre, a fim de prosseguir
seu trabalho alhures, sem rancores, sem temores, sem falsos
pudores, na luminosa pureza da inocência. Esta, aliás, é
freqüentemente associada à espontaneidade da infância, fase
em que o espírito retornado à carne ainda não se revelou na
plena força de suas virtudes ou imperfeições.
Esse estado de renúncia e de total desapego às coisas
materiais é condição que Jesus fixa para o aprendizado
daqueles que desejam honestamente tornar-se seus
discípulos.
Ainda uma palavra: neste logion, em vez de Jesus dizer
espontaneamente uma frase, narrar uma parábola ou, ainda,
responder a uma pergunta dos discípulos, quem pergunta é
Maria. Outra referência a Maria aparece no último logion, o
de número 114. Rohden lembra -se, em primeira opção, de
Maria, a mãe de Jesus e admite que possa ter sido outra das
várias Marias mencionadas nos evangelhos. Não há dúvida,
porém de que se trata de Madalena, que desempenha
importante papel, segundo testemunho de vários textos
gnósticos. O tema tem amplitude que ficaria fora de
proporção no contexto de simples comentário aos logia, que
desejamos manter em limites aceitáveis.
Quanto à segunda parte do logion 21 - a parábola dos ladrões
- vamos encontrar no logion 103, uma observação que
parece ajudar na decifração daquele. Diz o de número 103:

103. Jesus disse: Feliz o homem que sabe a que horas da
noite virão os ladrões, pois assim ele se levantará, reunirá
suas (forças?) e cingirá sua cintura antes que eles entrem.

O texto, mesmo um tanto mutilado, deixa entender a
importância de que se reveste estar o ser alertado e na
expectativa do que possa acontecer de mau, para se
defender com propriedade. Encontramos em Mateus
(24,42-43) dito semelhante, mas não aplicado da maneira
que se depreende dos logia 21 e 103 e sim como um estado
de alerta para a hora em que o Messias bíblico, representado
pelo Cristo ressurreto, voltaria para estabelecer o Reino de
Deus na Terra. Está em Mateus:

Vigiai, portanto, porque não sabeis em que dia vem o vosso
Senhor. Compreendei isto: se o dono da casa soubesse em
que vigília viria o ladrão, vigiaria e não permitiria que a sua
casa fosse arrombada. Por isso, também vós ficais
preparados, porque o Filho do Homem virá numa hora que
não pensais.

Este é um excelente exemplo para demonstrar-se que
situações e ditos autênticos podem ter sido utilizados nos
canónicos para dizer coisa bem diferente do que
significaram originariamente. A advertência sobre a
vigilância também no "orai e vigiai" é ensinamento de
caráter geral para que não nos deixemos envolver pelo mal e
não regra transitória passada àqueles que, no primeiro
século, ficaram na expectativa do retorno do Messias
glorificado, segundo profecias adaptadas à situação. O mal
parece sempre à espreita porque ainda trazemos no acervo
de nossas imperfeições os encaixes aos quais ele se acomoda
com facilidade se não estivermos atentos e vigilantes. Por
isso, a hora em que podemos nos deixar envolver é incerta e
perigosa como o ladrão; este porque nos rouba os haveres, a
invigilância porque nos priva da paz de espírito.
Vemos, ainda, no logion 21, infine, que mesmo a pessoa
razoavelmente evoluída (fruto maduro) corre o risco de pôr
a perder importantes conquistas espirituais, porque, em
momento de invigilância, alguém chegou rápido e a
envolveu nas teias do mal.

22. Jesus viu umas crianças que mamavam. Ele disse aos
seus discípulos: - Estas crianças assemelham-se aos que
entram no Reino. Eles lhe disseram: - Então, tornando-nos
crianças, entraremos no Reino? Jesus lhes disse: - Quando
vocês fizerem de dois um e fizer em o interior como o
exterior, o exterior como o interior, e o que está em cima
como o que está embaixo, e quando fizerem do masculino e
do feminino uma só coisa, de sorte que o masculino não seja
masculino e que feminino não seja feminino, quando
fizerem dois olhos em lugar de um olho, e uma mão em
lugar de uma mão e um pé em lugar de um pé, uma imagem
em lugar de uma imagem, então entrarão (no Reino).

O logion 22 proporciona todo um programa de trabalho e
não apenas de aprendizado, dado que pressupõe a correta
aplicação do conhecimento (gnosis) adquirido. Ele tem de
suscitar na intimidade do ser as modificações sem as quais
não se conquista o estado de espírito caracterizado como
Reino dos Céus, ou seja, o império das leis cósmicas ou
divinas, não apenas em nossa intimidade, mas no ambiente
em que vivemos.
Como se observa, as modificações são profundas e radicais.
Não basta o estado de inocência desarmada da criança;
primeiro porque esta ainda não demonstrou o que
realmente traz em si de um distante passado: pode ser um
santo ou um celerado. Segundo porque, mesmo tomada nas
limitações de uma existência, a criança ainda nada fez que a
credenciasse ao que os gnósticos chamam de o repouso (em
Deus). E isso ficou bem claro quando os apóstolos formulam
a segunda pergunta, no pressuposto de que bastaria
tornarem-se crianças para alcançar o Reino. Jesus responde
com uma extensa e complexa programação de auto-
aperfeiçoamento.
Vamos tentar colocá-las em interpretação ordenada. Antes,
porém, a observação de que Rohden opta pela
condicionante se no início de cada frase. "Se reduzirdes dois
a um ... se fizerdes o de cima como o de baixo..." etc.,
prefiro manter o quando da versão francesa de Puech
(lorsque), bem como o da versão inglesa publicada por
Hennecke (when). O se é uma possibilidade, o quando uma
certeza. O que significa que todos podem conseguir a
realização final do Reino de Deus.
Vejamos, então:

1. "Fazer de dois um." O ser humano é considerado, como
em outras oportunidades, desligado da luz que o gerou ou,
pelo menos, afastado dela. Embora nada exista senão em
Deus, o mergulho na matéria cria bloqueios que arrastam o
ser desprevenido e não-evoluído a uma espécie de alienação
(de Deus). Há passagens, que ainda veremos, nas quais Jesus
fala do estado de embriaguez em que encontrou
praticamente toda a humanidade. Essa embriaguez ou
alienação precisa ser extinta, num esforço de reunificação
com a divindade. Em outras palavras, temos de, pelo menos,
manter viva a consciência de que somos parte integrante
daquele que nos criou e nos sustenta. E isto fazer de dois -
Deus e a criatura - uma só coisa. Como se poderia, de fato,
chegar ao estado de maturidade caracterizado como Reino
dos Céus sem esta noção básica?

2. "Fazer o interior semelhante ao exterior e vice-versa."
Entendo que isso signifique trazer para dentro de si a
ordem, a paz e o equilíbrio implícitos nas leis naturais e, em
seguida, projetar esse estado de coisas nas estruturas sociais e
políticas que regulam, enfim, o sistema de intercâmbio na
comunidade em que vive a pessoa. Em suma, projetar, no
exterior, o Reino dos Céus construído na intimidade do ser.

3. "Fazer o que está em cima igual ao que está em baixo." E
uma complementação do dito anterior, dado que a
unificação implica uma integração cósmica, na qual não
existe em cima nem embaixo, como aprendemos em
Einstein.

4. "Fazer do masculino e do feminino uma só coisa." Este
constitui outro ponto importante do programa evolutivo e
consta também no logion, número 114, que para aqui
trazemos, a fim de comentá-lo em conjunto com o de
número 22 que estamos analisando. Diz o 114, o último,
aliás:

114. Simão Pedro lhes disse: - Que Maria saia do nosso
meio, pois as mulheres não são dignas da Vida. Jesus disse: -
Eis que eu a guiarei para fazer dela homem, a fim de que
ela também se torne um espírito vivo, semelhante a vocês,
homens. Pois toda mulher que se fizer homem entrará no
Reino dos Céus.

É um tanto chocante a entrada deste logion pela expressa
hostilidade de Pedro em relação a Maria, evidentemente, a
Madalena. De fato, a mentalidade da época considerava a
mulher ser inferior. Eram muitos os que chegavam a pensar
que a mulher não era dotada de alma, de vez que a narrativa
da Gênese a caracteriza tão irrelevante que Deus se esquece
de a criar e só percebe que era uma espécie de mal
necessário quando notou que Adão precisava de uma
companheira. Numa improvisação de última hora, resolveu
retirar um pouco do material de que fora feito Adão - no
caso, uns pedaços de costela - para elaborar o corpo de Eva.
Paulo também é acusado de confinar a mulher na sua
posição de sujeição, uma presença, mas não uma voz, pelo
menos em público. Era para ser vista, não ouvida e, mesmo
vista, discretamente, motivo pelo qual não deveria enfeitar-
se demais nem vestir-se com espalhafato. Eram severas as
normas de comportamento ditadas à mulher naquela época.
Paulo recomenda que, se não entendessem alguma coisa na
Igreja, deixassem para perguntar aos maridos, em casa. Nas
sinagogas ficavam segregadas e sem acesso à área reservada
aos homens.
Mesmo dentro desse contexto rígido, a atitude atribuída a
Pedro é hostil. Aliás, parece mesmo ter havido problemas
de relacionamento entre Pedro e Madalena, segundo outros
escritos gnósticos, como o Evangelho de Maria.
A Dra. Elaine Pagels observa que, à vista deste logion, "os
homens formavam o legítimo corpo da comunidade, ao
passo que a participação das mulheres somente era
permitida depois de assimiladas aos homens". É realmente o
que diz o texto, mas em confronto com o logion 22,
notamos que o 114 não está redigido de maneira correta.
Não é que a mulher tenha de transformar-se em homem
para tornar-se digna da Vida, o que é preciso é que o
masculino não seja masculino e o feminino não seja
feminino. Em outras palavras: há que superar a fase de
polarização sexual. Melhor ainda: que as energias
habitualmente canalizadas para a atividade sexual tenham
outra destinação.
No mito da criação de Adão e Eva, Deus desdobrou o ser em
dois, macho e fêmea, porque assim exigia o processo de
reprodução da espécie. Os gnósticos entendiam que a
reunificação constitui importante etapa do processo
evolutivo. Não para fazer da mulher um homem e deste
uma mulher, mas promovendo em ambos um equilíbrio de
forças. Esta doutrina é coerente com o que se sabe do
mecanismo das vidas sucessivas, segundo a qual o ser
renasce num sexo ou noutro para que adquira as
experiências correspondentes. Mesmo porque, nos estágios
mais elevados da carreira evolutiva, não estará o ser sujeito
aos repetidos renascimentos na carne e, portanto, não terá
mais necessidade do dispositivo reprodutor.
Não é sem razão que se caracteriza aqui um debate estéril
como a discussão em torno do sexo dos anjos. Se
considerarmos o anjo como ser altamente evoluído, de fato,
não será homem nem mulher e sim uma criatura espiritual,
na qual o problema do sexo não mais ocorre da forma e com
as funções com as quais o conhecemos.
Nesta mesma ordem de idéias, lembra a Dra. Pagels que,
mesmo em linguagem "especificamente cristã", certos textos
gnósticos "em lugar de descrever um Deus monístico e
masculino... falam de Deus como uma díade, que integra
tanto o componente masculino como o feminino".
Logicamente que para tornar-se um com este Ser Supremo,
a criatura também precisa sintonizar-se com essa condição,
nem bissexua- da, nem assexuada, na qual não há ocorrência
caracteristicamente sexual, menos ainda qualquer espécie de
polarização. Deus cria porque tem em si mesmo as energias
apropriadas para isso, ao passo que na criatura o processo de
co-criação precisou ser desdobrado para que, da união dos
complementares, surgissem condições para o
prosseguimento das oportunidades de vida na matéria.
Cessada essa necessidade, o ser reverte à sua primitiva
condição de não-polarizado.
Fazer olhos em lugar de um olho é ter a visão ampliada, apta
a contemplar adequadamente as duas faces da vida - a
espiritual e a material.
Quanto a transformar mão, pé e imagem em mão, pé e
imagem, não me atrevo a uma interpretação. Faltam-me as
chaves certas para abrir o segredo.

23. Jesus disse: — Eu os escolherei um em cada mil e dois
em dez mil e eles serão um só.

Este logion parece evidenciar que a grande massa humana
ainda atravessa estágios evolutivos primitivos. Somente um
em mil teria condição mínima para "eleição" ou escolha
como discípulo a fim de receber conhecimentos mais
profundos. Os números indicam ainda que a escolha vai
ficando mais difícil na massa remanescente, dado que o
segundo eleito, deve sair de um grupo de dez mil e não
apenas de mil, como o primeiro. Desses dois, Jesus promete
fazer um, ou seja, guiar seus passos para que se reintegre na
luz, tornando-se um com ela. Puech adverte que a expressão
um só está empregada no mesmo sentido em que foi usada
no logion 16, onde vimos que o termo copta monakhos,
não quer dizer apenas sozinho, solitário, isolado, mas
também "revertido a si mesmo e à unidade". Há, portanto,
dois tipos de reunificação: uma consigo mesmo, outra com
Deus.

24. Seus discípulos disseram: - Faz-nos conhecer o lugar
onde tu estás, pois necessitamos procurá-lo. Ele lhes disse: -
Aquele que tem ouvidos, que ouça! Há luz dentro de um ser
de luz e ele ilumina o mundo todo. Se ele não iluminar, as
trevas se fazem.

Inicia-se o dito com uma observação curiosa, quando os
discípulos se referem ao lugar onde Jesus está, ao que
parece, no momento em que conversam. Ora, são vários os
textos gnósticos que resultam de diálogos (autênticos ou
imaginados) entre Jesus, após a sua morte, e os discípulos
que permaneceram no mundo. Essa realidade, fartamente
documentada em escritos canônicos, como Atos dos
Apóstolos, epístolas de Paulo, Pedro e João, bem como no
quarto Evangelho, é confirmada nos textos gnósticos,
especialmente no Evangelho de Maria. Pagels admite a
possibilidade de uma comunicação direta de Jesus, através
de Madalena em transe.
Em lugar de responder de maneira direta à pergunta acerca
do local onde ele se encontrava, Jesus prefere dizer que a
luz divina está dentro de cada um de nós, mas aquele que
ignora isso continua vivendo em trevas. Em outras palavras:
o "caminho" para se chegar onde ele, Jesus, está, consiste
em fazer brilhar a luz que trazemos na intimidade do nosso
próprio ser, carregada de um potencial quase ilimitado de
expansão, dado que é capaz de iluminar o mundo todo. E
isso é estritamente verdadeiro, nada hiperbólico, pois unidos
ao núcleo central, onde a luz nasce de si mesma,
partilhamos desta e é também nossa a luz que ilumina o
mundo.
Retornamos, portanto, ao tema da imagem que cada um traz
em si como um projeto a ser realizado através do
conhecimento e da vivência.
Esse modelo ou projeto Puech considera, acertadamente, a
meu ver, como "próprio a cada discípulo, a cada 'Eleito' e
expressamente dada como 'preexistente', 'imperecível',
'não-manifestada'".
Além disso, acha o eminente pesquisador, ainda que com
reservas ditadas pela falta de uma demonstração, que essa
imagem seria o próprio anjo ou duplo segundo a gnose
valentiniana e que constitui espécie de veículo do espírito.
Essa concepção, um tanto difícil de ser apreendida pelos que
lhe são pouco familiarizados, está explicitada com clareza
linear nos textos de Allan Kardec, nos quais o anjo ou duplo
denomina-se perispírito e tem precisamente a função de
atuar como elemento de ligação entre o espírito e o corpo
físico e, por conseguinte, interagir com o mundo em que
vive. Mais do que isso, estaria coerente o conceito do
perispírito com o de imagem, no sentido de uma
programação cármica ou projeto a ser implementado na
existência terrena, naquilo em que afeta a elaboração do
corpo físico em interferências com os dispositivos
genéticos.

25. Jesus disse: - Ame seu irmão como à sua própria alma;
vele por ele como pela menina de seus olhos.

O amor fraterno apresenta-se aqui numa profunda
identificação com o próximo que, mais do que irmão, deve
ser considerado como nossa própria alma e cuidado como a
luz de nossos olhos.
Na sua singela beleza e concisão, este logion tem direito a
merecido destaque. Ao mesmo tempo que constitui um dos
fundamentos da doutrina de Jesus, ele atesta com a sua
presença no Evangelho de Tomé que o gnosticismo
corretamente interpretado e praticado jamais seria mero
conjunto de especulações filosóficas para deleite intelectual,
como afirmam alguns. Em todas as instituições de natureza
religiosa, no passado e ainda hoje, encontramos sempre
tendências teóricas, especulativas, algo divorciadas da
prática que constitui, afinal de contas, a motivação e o
objetivo de qualquer sistema evolutivo.
O gnosticismo certamente não escapou a esse tipo de desvio
ideológico, mas os textos de Tomé nos dão testemunho de
uma doutrina de transparentes disposições éticas e
humanistas, na qual a solidariedade constitui componente
vital ao programa de libertação do espírito de seus vínculos
limitadores com a matéria.

26. Jesus disse: - O cisco no olho do seu irmão você vê, mas
a trave no seu olho você não vê. Quando retirar a trave dos
seus olhos, então você verá como retirar o cisco do olho de
seu irmão.
O dito aparece também em Mateus (7,3-5) com redação
semelhante. O sentido é claro: antes de tentar corrigir os
outros, tratemos de nos consertar a nós mesmos. Atenção,
porém: só porque temos defeitos, isso não quer dizer que
deixemos de ajudar ao próximo. Defeitos e imperfeições não
nos impedem de servir; pelo contrário, indicam que é
preciso servir mais e melhor para corrigi-los em nós. É
muito saudável, contudo, termos consciência deles. Como
corrigi-los sem admiti-los?

27. Jesus disse: - Se vocês não jejuarem em face do mundo,
não encontrarão o Reino; se não guardarem o sábado como
sábado, não verão o Pai.

O dito, como os demais, é uma simples anotação para ser
desenvolvida oralmente. Lembrete, ou roteiro para uma
palestra e, por isso, fica às vezes um tanto enigmático,
quando não hermético. Jejuar perante o mundo podemos
imaginar o que seja: algo como estar no mundo, mas não
pertencer a ele, renunciando aos seus atrativos, que poderão
fortalecer em vez de afrouxar os laços que prendem o
espírito à matéria, da qual quanto mais cedo libertar-se
melhor. Essa é uma das constantes da pregação gnóstica: a
idéia do espírito aprisionado na matéria.
Mas que será guardar o sábado como sábado? Sabemos que o
sábado era dia de repouso, de oração e de recolhimento para
meditação, durante o qual não se fazia o trabalho habitual da
semana. Imagino que a recomendação seja no sentido de
que não fossem ultrapassados os limites do razoável na
observação de tais preceitos, que muitos exageravam. Disse
certa vez o Cristo que o sábado foi feito para o homem, não
o homem para o sábado. Invertida a ordem natural das
coisas, o sábado deixava de ser um benefício para ser mais
um elemento escravizador da criatura às contingências
artificiais criadas pelo severo código de procedimento
vigente. Nesse sentido, o sábado não deveria ser mais do
que isso mesmo: um dia da semana separado para a
meditação e o repouso.

28. Jesus disse: - Estive no meio do mundo e me manifestei
a eles na carne. Encontrei-os a todos bêbados e nenhum
deles com sede; e minha alma sofreu pelos filhos dos ho-
mens, pois eles são cegos em seus corações e não enxergam
que vieram ao mundo vazios e vazios procuram sair do
mundo. Agora estão bêbados e só se arrependerão quando
abandonarem o vinho.

Aí temos outro dito em que Jesus parece falar já na condição
de espírito, ou seja, após a morte na cruz, dado que se refere
a si mesmo em situação passada: "estive" no mundo e
acrescenta que encontrou os seres humanos como que
adormecidos na matéria, alienados nela, esquecidos de sua
condição espiritual e, mais que isso, desinteressados de
qualquer aprendizado ou conhecimento (sem sede).
Confessa singelamente o sofrimento que lhe causou a
observação de que não só estavam cegas as criaturas acerca
da realidade espiritual como ignorantes de que vieram para
um trabalho de realizações e conquistas pessoais. E, como
nada faziam para cumprimento de tais programações,
voltariam à vida espiritual, no mundo invisível, de mãos
vazias, tal como vieram, sem nada terem realizado de
concreto. Continuavam, pois, alienadas e só poderiam dar
início a um trabalho regenerador em si mesmas depois de
despertas, e que não voltassem a se enlear nas ilusões do
mundo.
Profunda lição em emocionada palavra de compaixão.

29. Jesus disse: - Se a carne foi feita para o espírito, é
maravilhoso, mas se o espírito (foi feito) por causa do corpo,
isso é a maravilha das maravilhas. Quanto a mim, contudo,
maravilho-me disto: de que tão grande riqueza tenha sido
colocada nesta pobreza.

Aqui vemos Jesus contemplando a obra de Deus. É evidente
para ele que o corpo material foi organizado para servir de
habitação temporária ("Sejam transeuntes!" - disse ele) ao
espírito. Observa, porém, que, reversamente, o espírito foi
criado para que o corpo pudesse desenvolver suas
potencialidades. Aristóteles distinguia a potência do ato, ou
seja, de um lado, o plano, o projeto e a possibilidade da
realização e de outro, a concretização. Jesus vê com clareza
a interação espírito/matéria e matéria/espírito, mas se deixa
maravilhar ainda mais de que uma potência tão grande
quanto o espírito, fagulha divina, de possibilidades
praticamente ilimitadas de evolução e conhecimento tenha
podido ser acoplado a mero bloco de matéria viva,
perecível, transitória, efêmera. O ser imortal, dotado de
energia incorruptível, habitando um corpo corruptível e
descartável.
É também um momento de humildade este. Sendo tão
grande e emancipado por completo das limitações humanas,
Jesus ainda se detém aqui e ali, por um momento, para
contemplar extasiado a obra insuperável de Deus...

30. Jesus disse: — Onde há três deuses, eles são deuses; onde
há dois ou um, eu estou com ele.

O dito está na categoria dos herméticos e esotéricos. Ficaria
mais claro, entendo eu, se sofresse pequena "cirurgia"
redacional, com a exclusão da expressão dois ou, isto é, se a
segunda frase se referisse a apenas um Deus. Teria havido
aqui uma enxertia? Acho defensável a hipótese, dado que a
palavra final do dito está no singular. Explico-me. A
primeira parte condena o politeísmo, ao declarar que se trata
apenas de um panteão de inexpressivos deuses pagãos,
sempre que há mais de um. Na segunda frase explica-se que
Deus é único e a este Deus único ele, Jesus, está unido. Da
maneira que está, a frase é gramaticalmente incorreta. Se
realmente fossem dois ou um (os deuses), ele estaria com
eles, não com ele, no singular.
Puech também considera enigmático esse logion; entende,
porém, que Jesus pretendeu dizer que está sempre junto de
seus fiéis, sejam dois ou três, onde quer que estejam
reunidos. Se a idéia é realmente essa, teríamos em Mateus
(18,20) uma redação de sentido mais claro ("... onde dois ou
três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio
deles"). Com devido respeito pelo eminente Prof. Puech,
não vejo a conexão entre o texto de Tomé e o de Mateus,
que lê naquele a tese da "ubiqüidade e onipresença de Jesus"
considerando-a mesmo básica à cristologia do Evangelho de
Tomé. É que Puech estabelece estreita vinculação de
sentido entre o logion 30 e o 77 que não vejo eu. Para mim,
portanto, o logion 30 continua fechado ao entendimento e
eu não disponho das chaves apropriadas.

31. Jesus disse: — Nenhum profeta é aceito em sua cidade.
Um médico não cura aqueles que o conhecem.

O dito inicial - ninguém é profeta em sua terra - é bastante
conhecido e se encontra nos sinóticos. Seu complemento
acerca do médico constitui novidade, se é que se pode dizer
isso de um texto que ficou preservado mil e seiscentos anos.
Também essa é uma grande verdade. O médico
desconhecido, de outra cidade, de um grande centro ou de
outro país goza de prestígio, do qual entre os locais e
familiares não desfruta.
Os sinóticos colocam o dito ao narrar a visita de Jesus a
Nazaré, que os modernos pesquisadores e estudiosos
acreditam ser mesmo sua cidade natal. Pelo menos, ali viveu
ele alguns anos, na infância e juventude. Quem o conhecera
nesse tempo poderia conceder-lhe as credenciais de um
profeta, e mais, do Messias prometido? Pois não era ele
aquele menino, filho do carpinteiro e não eram seus irmãos
e irmãs dali mesmo? Então! Curiosamente, Mateus
acrescenta que ele não conseguiu realizar muitos milagres
em Nazaré, "por causa da incredulidade deles", o que se
ajusta à segunda parte do dito, segundo a qual o médico com
quem nos familiarizamos não parece suficientemente bom
para cuidar de nossas mazelas. O milagre, contudo, não
acontece somente àquele que crê.

32. Jesus disse: - Uma cidade construída sobre uma elevada
montanha (e) fortificada não cairá, nem poderá permanecer
oculta.

O sentido parece ser o de que um ser evoluído e sábio
coloca-se, mesmo que não o deseje, em posição de relevo e
destaque e todos o vêem, mas é preciso também que se
mantenha vigilante para ficar a salvo dos ataques e, se
atacado, não venha a ceder. ("Não nos deixeis cair em
tentação..." - ensinou ele no Pai Nosso).

33. Jesus disse: - Aquilo que você ouve com um ouvido e
com o outro, proclame-o de cima dos telhados. Com efeito,
ninguém acende uma lâmpada para botá-la debaixo de um
alqueire, nem pô-la em local escondido; mas no lampadário,
para que quem quer que entre e saia, veja a sua luz.

O logion parece uma continuação do anterior ou uma
explicitação dele. Realmente, aquele que atingiu nível
adequado de conhecimento e sabedoria põe-se
inevitavelmente em destaque e se expõe a um assédio, que
pode ser incômodo e um tanto perturbador, mas não deve
guardar egoisticamente para si mesmo todo o seu
conhecimento. A sabedoria deve servir para iluminar
também caminhos alheios. A imagem literária, segundo a
qual os que "entram e saem vejam a sua luz", é muito feliz e
adequada para figurar que uma pessoa desse nível é
procurada por muitos que desejam aconselhar-se com ela e
pedir orientação para seus problemas pessoais. Esse tipo de
assistência espiritual não deve ser negado, porque é parte da
tarefa daquele que já conseguiu para si um pouco de
iluminação. Não se trata, pois, de exibição e sim da singela
aceitação de uma realidade que a própria pessoa construiu
em si mesma e que está sendo utilizada para servir ao
próximo.
Tão seguro é o status espiritual dessa pessoa que o dito
declara que mesmo estando à vista de todos, sem poder
ocultar-se, é uma cidadela (fortificada) impossível de ser
derrubada, mesmo porque conta com cobertura espiritual
protetora.

34. Jesus disse: - Se um cego conduz outro cego, caem
ambos no poço.

Parece que ainda estamos dentro do tema dos logia 32 e 33.
Quem vai orientar o próximo com seus conselhos e
sugestões, suas preces e ensinamentos, senão aquele que
tem a luz e que vê melhor e mais longe, porque está no alto
da montanha? Se o que não está conseguindo ver com
clareza que caminhos percorrer procurar outro que também
não tenha sabedoria suficiente para vê-los, ambos se dão mal
- tanto o que resolve seguir o conselho impróprio do guia
despreparado, como este último, que assume a
responsabilidade pela desorientação proporcionada ao que o
procurou para aconselhar-se.
35. Jesus disse: - Não é possível que qualquer um entre na
casa de um homem forte e a tome à força, a menos que lhe
amarre as mãos: dessa maneira ele poderá saquear-lhe a casa.

Continuamos, ao que parece, no contexto criado pelos ditos
anteriores. Declara-se neste, novamente, como no logion
32, a impossibilidade de se derrubar a pessoa vigilante e
fortalecida na sua sabedoria, a não ser que se a imobilize,
atando-lhe as mãos. Como cada palavra nesta coleção de
ditos tem o seu lugar e valor específicos, imagino que isso
queira dizer que constitui grande risco de queda (espiritual)
recusar-se a pessoa que já alcançou certo grau de
iluminação, com a qual possa servir ao próximo, a essa
prestação de serviço. Realmente, de mãos atadas pelo
malfeitor (Preguiça? Indiferença? Comodismo? Egoísmo
residual? Orgulho?), a pessoa deixa de cumprir a tarefa para
qual se acha preparada e programada. Daí a queda e o
"saque". O texto enfatiza, contudo, que isso só é possível se
as mãos forem atadas, certamente pela ociosidade provocada
por um ou mais dos fatores sobre os quais especulamos há
pouco.

36. Jesus disse: - Não se preocupem de manhã à noite e da
noite até o amanhecer sobre o que irão vestir.

Esta observação foi incluída também nos canônicos. O
sentido é transparente, na insistência em pregar o desapego
às coisas do mundo, no qual estamos apenas de passagem,
em fase de aprendizado ou em resgate da faltas, como se
pode ver do logion 104. Com efeito, neste último,
convidado a orar e jejuar, Jesus responde com uma pergunta
significativa, desejoso de saber em que teria errado, que falta
teria cometido a ponto de estar necessitado da penitência do
jejum.
Por outro lado, são muitos os que vivem inteiramente
concentrados na aparência física, em como vestir-se e
ornamentar-se para exibições sociais, sem nenhum interesse
pelas coisas do espírito. A advertência é bem formulada e
correta, conselho e não censura ou crítica. Um
chamamento à realidade, ao bom senso.

37. Seus discípulos disseram: — Em que dia te revelarás a
nós e em que dia te veremos? Jesus disse: — Quando vocês
se despirem e não se sentirem envergonhados, tirarem suas
roupas e as colocarem sob os pés como as crianças, e
pisarem nelas; então (vocês verão) o Filho do Deus Vivo e
nada temerão.

Novamente recorre Jesus à imagem das crianças, em estado
de inocência, para lembrar que só estariam os discípulos em
condição de desfrutar a presença dele quando atingissem
aquele grau de pureza sem maldade ou segundas intenções.
O eminente pesquisador Cel. Albert de Rochas conta em
seu livro Les Vies Successives que podia determinar com
precisão a idade em que o senso de pudor desperta na
criança, após ultrapassado o período da espontânea pureza
da primeira infância. Bastava, para isso, expor ligeiramente
partes do corpo da pessoa posta em estado de regressão de
memória, recuada às fases infantis. Até certa idade, a pessoa
- especialmente a mulher - não se importava com ligeiro
desarranjo das roupas, mas a partir daí recompunha-se
rapidamente sempre que o experimentador tentava o
expediente.
É preciso lembrar, contudo, que, conforme vimos há pouco,
no logion 22, não basta tornar-se criança para estar
preparado para a realização do Reino, há um grande
programa a cumprir, além disso. O estado de pureza é
decorrência, não causa. É um estado de libertação da
condição material, representada, neste caso, pela
vestimenta, que pode também significar o corpo físico e
tudo quanto lhe diz respeito: roupas, alimentos, posições
terrenas, exercício do poder e outras. Somente quando tais
coisas não forem mais prioritárias, estaremos prontos para as
revelações de que fala o logion.
Puech informa que num fragmento do Evangelho dos
Egípcios, citado por Clemente de Alexandria, lê-se algo
semelhante: "Quando vocês pisotearem as vestes da
vergonha e quando os dois se tornarem um, o homem com
a mulher, nem masculino, nem feminino".
Aqui também encontramos, portanto, a doutrina da
unificação consigo mesmo, o retorno à unidade primitiva,
por um processo de síntese da díade, por eliminação da
polarização sexual. Trata-se de uma transcendência da
sexualidade como a conhecemos, ou seja, como mecanismo
reservado à reprodução da espécie. Atingido esse ponto, o
ser não é homem nem mulher e o corpo é apenas uma
vestimenta que a qualquer momento pode ser despida e
abandonada, em operação de rotina que superou o pudor,
mas nada tem de ausência de vergonha. Ou a vestimenta já
foi definitivamente descartada.
Jesus tem plena consciência, por outro lado, da sua condição
espiritual e nem poderia deixar de tê-la. Menciona isto
como fato óbvio, sem bravatas ou falsa modéstia. É o Filho
do Homem, desobrigado dos ciclos do renascimento, é o
Vivo, o Filho do (Deus) Vivo e, na terminologia gnóstica, o
ser pneumático (espiritual), situado nos mais elevados
patamares do processo evolutivo, irmão, sim, das demais
criaturas, mas o irmão mais velho, como também assinala
Puech19. Nesse sentido, é um filho primogênito de Deus,
não, porém, unigénito, como fez constar a teologia
ortodoxa.
Na imperfeita linguagem humana, menos sofisticada ainda
naquele tempo do que hoje, alcançar seu patamar, pôr-se ao
seu nível, entendê-lo melhor figurava-se como ter a
respeito dele uma revelação, vê-lo. A vista é o recurso final
daquele que duvida. Ver para crer, diz o logion popular. Há
passagens nos sinóticos em que os discípulos desejam que
Jesus lhes mostre Deus. Querem vê-lo também.
Nem este, nem o logion subseqüente, o de número 39,
figuram nos canónicos. Não teriam chegado ao
conhecimento dos redatores - o que é pouco provável - ou
teriam sido excluídos por alguma razão? Bem mais provável
esta última alternativa, dado que este é um dos ditos que
pode por em xeque a doutrina da divindade de Jesus, bem
como sua integração na Trindade.
Seja como for, para vê-lo e entendê-lo melhor é preciso
chegar lá, onde ele se encontra, na escala evolutiva, o que é
perfeitamente possível como ficou implícito neste e noutros
trechos. Em suma: é necessário que os discípulos que
perguntam se tornem também pneumáticos, Filhos do
Homem.

38. Jesus disse: - Muitas vezes vocês desejaram ouvir estas
palavras que ora lhes digo e não tinham vocês de quem
ouvi-las. Dias virão em que me procurarão e não me encon-
trarão.

São muitos os questionamentos e as dúvidas que trazemos e
sobre estas coisas estamos constantemente a especular na
intimidade de nosso ser. De onde viemos? Qual a nossa
destinação? Que estamos fazendo aqui? Qual a razão do
sofrimento? Que acontece com a gente depois da morte do
corpo físico? Há vida em outros corpos celestes?
Perguntas como essas, das mais importantes ao nosso
melhor entendimento dos mecanismos da vida,
permanecem sem respostas e velados os mistérios e enigmas
que nos cercam por toda parte. Pela primeira vez, tanto
quanto registra a memória do ser humano, têm os apóstolos
e discípulos diante de si uma pessoa como Jesus, com
perfeita condição, conhecimento e sabedoria para explicar
enigmas que nos atormentam. E muitos - senão todos - nem
se dão conta da singularidade irreproduzível dessa
oportunidade. Vemos apenas raros lampejos de situações em
que parece ter brilhado com a instantaneidade do raio, um
flash de compreensão. Vemos um caso destes quando, após
a pesca milagrosa, Pedro percebe por um instante a
grandeza daquele homem e diz: "- Afasta-te de mim,
Senhor, pois sou um pecador".
A breve permanência de Jesus na Terra é condição
transitória que o põe ao alcance de seus contemporâneos.
Uma vez retornado ao seu habitat natural da dimensão
espiritual que lhe é própria, não o teriam mais à disposição
como ali.

39. Jesus disse: - Os fariseus e os escribas receberam as
chaves do conhecimento (gnosis) e as ocultaram. Nem en-
traram nem deixaram (entrar) aqueles que queriam fazê-lo.
Vocês, porém, sejam prudentes como as serpentes e
inocentes como as pombas.

Esta queixa a propósito da atitude dos fariseus é repetida no
logion 102 que assim diz:

102. Jesus disse: — Ai dos fariseus! pois assemelham-se a
um cão dormindo na manjedoura do gado, porque nem
come nem deixa o gado comer.

O sentido é transparente. Pelo devotado estudo das leis e
preceitos religiosos, os fariseus dispunham de grande
conhecimento. O dito lhes atribui mesmo a posse de certas
chaves com as quais podiam penetrar o sentido de enigmas
e mistérios. E, no entanto, colocavam-se como bloqueios
vivos ao acesso de outras pessoas a essa fonte de
conhecimento. Eles poderiam ter sido os intermediários, os
instrutores do povo ou, no mínimo, permitir àqueles mais
desejosos de aprofundar o sentido da vida, buscarem por
suas próprias forças o conhecimento correspondente. Não
faziam nem uma coisa, nem outra, guardando
egoisticamente para si os segredos mantidos sob chave.
Jesus aconselha aos que o ouvem a prudência da serpente e
a pureza desarmada dos pombos. Essa imagem figura
também nos sinóticos. Sempre me impressionou a
referência à serpente. E um animal que causa grande temor
e parece sub-reptício e pronto a atacar mortalmente. A
verdade, porém, é que a não ser pelo veneno a serpente é
um animal desarmado. Não dispõe de membros para se
defender e sua mobilidade é limitada. Tem, assim, inibições
sérias que lhe dificultam tanto a fuga quanto a defesa, as
duas opções dos animais em geral. Precisa, portanto, ser
extremamente cautelosa e prudente, não se arriscando em
situações que lhe possam ser fatais. Impõe-se pelo temor
que inspira os seus terríveis venenos, mas não costuma
tomar a iniciativa da agressão, atacando apenas quando se vê
em perigo. Interessante como, até mesmo numa serpente,
Jesus consegue identificar virtudes dignas de serem imitadas
pelos seres humanos, como a prudência.

40. Jesus disse: - Uma muda de videira foi plantada fora do
Pai e, como não se fortalece, será arrancada pelas raízes e
perecerá.

Ora, nada existe senão em Deus, que ele não haja criado e
sustentado, ainda que os gnósticos tenham demonstrado
dificuldade em entender o problema do mal, atribuindo-o ao
trabalho criativo do demiurgo, que os cátaros, no século XII,
considerariam um Deus mau, em contraste com um Deus
bom. Mesmo assim contudo, a presença do mal ou dos
obstáculos suscitados pelo mergulho do homem na matéria
seriam criações indiretas de Deus, segundo essa teoria, uma
vez que os espíritos intermediários, como o demiurgo,
teriam de ser criados inevitavelmente por Deus. Não se
compreende Deus a criar seres incumbidos da criação do
mal ou suscetíveis de assim proceder
A despeito das dificuldades dos gnósticos com o problema
do mal, o ensinamento contido neste logion assegura a
indiscutível transitoriedade do mal que, não sendo criação
divina, será fatalmente erradicado e eliminado.
O mal resulta de desvio de comportamento humano. O que
a lei divina prevê é um conjunto de medidas corretivas toda
vez que ocorrer qualquer desvio. O plano geral do universo
(físico e ético) não poderia ser tomado de surpresa por
interferências desastrosas, que acabariam por levar todo o
sistema ao caos.
Não que as leis tenham sido criadas para dar combate ao mal
e punir os faltosos, como pensam muitos; ao contrário, a
abordagem da lei é altamente positiva, criativa, redentora,
no sentido de que toda a sua programação está voltada para
o processo de aperfeiçoamento do ser. Sempre que este se
desvia ou se rebela contra esse princípio básico, ele se atrita
com a ordem universal e assume a correspondente
responsabilidade, pela qual será chamado à reparação, à
recomposição do equilíbrio perturbado.
Seja como for, a idéia é a de que "tudo está em Deus e nele
vive", como afirmou de modo irretocável o Apóstolo dos
Gentios.
41. Jesus disse: - Aquele que tem algo na mão, mais lhe será
dado; aquele que nada tem, mesmo o pouco que tem lhe
será tomado.

Não se trata, obviamente, de bens materiais que na doutrina
do Cristo são considerados secundários e até desprezíveis.
Mais uma vez, o tema oculto é o conhecimento. Aquele que
dispõe de algum estará sempre em condições de adquirir
mais, ao passo que o ignorante ou o escassamente
esclarecido poderá 'perder' até o pouco de que disponha,
por não saber que uso fazer do que sabe e se deixar
confundir pelos falsos sábios.
Este logion deve ser examinado em conjunto com o de
número 70, no qual a temática é a mesma, embora
apresentada de maneira diversa e com diferente enfoque.
Puech20 acha até que o 70 seria "uma versão 'gnóstica' ou
mais deliberadamente elaborada em sentido 'gnóstico'".
Vejamo-lo:

70. Jesus disse: - Quando vocês revelarem o que está em
cada um, o que possuírem os salvará. Se não o tiverem em si
mesmos, o que não possuem os matará.

O objeto do logion é uma das constantes da visão gnóstica
da vida: a da realidade interior preexistente, funcionando
como modelo, projeto ou embrião a desenvolver-se por
incansável esforço de autoconhecimento, a partir das
potencialidades de que dispomos por herança divina. Vimos
no logion 1 a promessa de vida àquele que atinar com a
"interpretação destas palavras" e no seguinte, número 2, o
mandamento da procura incessante "até achar".
O logion 70 insiste no conceito da salvação como resultante
de um trabalho pessoal na intimidade de cada um e não
evento cósmico de caráter messiânico e coletivo, como
propõem os canônicos. Creio mesmo que isto autoriza a
supor - sem contestar a hipótese de Puech, apenas
contemplando-a de outra ótica - que, em verdade, o logion
41 é que teria sido reescrito em contexto ortodoxo cristão,
deixando deliberadamente à margem o delicado problema
da salvação, ao mesmo tempo em que evita acolher a
conceituação do Reino de Deus como realidade íntima,
como assegurou Jesus insistentemente.
Seja como for, isso explicaria por que encontramos nos
canónicos as passagens que contêm, em substância, o logion
41 e nada que se aproxime da redação dada ao 70. Segundo
este, o ser que conseguir revelar em si mesmo a sua
realidade imanente estará 'salvo', no sentido de que se
reintegra em Deus, e não porque um enviado divino, teria
implantado na Terra o Reino de Deus e resgatado os pecados
dos que nele creram. Os que não conseguirem tal realização,
continuarão 'mortos', isto é, sujeitos ao envolvimento com a
matéria e às conseqüências que a ignorância acarreta.
Este é também o entendimento de Puech para quem a
ignorância - ele prefere dizer não - conhecimento
(inconnaissance) - é a morte, ao passo que a gnose
(conhecimento) é vida. Do que resulta, ainda na observação
de Puech, que "o conhecimento tem a função essencial de
salvar e, por efeito necessário, a salvação".
Convém determo-nos, por um momento, no exame da
dicotomia vida/morte, outra constante da doutrina que se
deduz do texto de Tomé.
O gnosticismo somente considera vida o período a partir do
qual o ser começa a ter consciência mais clara da realidade
espiritual, suas conseqüências e implicações. O Vivo por
excelência é Jesus; o Vivo máximo, infinito em todos os
seus atributos, o próprio Deus. Vida e morte, portanto, não
representam, em sentido gnóstico, períodos em que o
espírito vive alternadamente na carne ou na dimensão
póstuma. Suas implicações espirituais são mais amplas.
Como vemos neste logion, por exemplo, é evidente que a
ausência de realização interior não acarretará a morte como
a entendemos usualmente - como cessação da vida corporal
e rompimento do vínculo do espírito com o corpo físico
mas a continuidade da vida (aqui ou no além) num contexto
em que o espírito está como que anestesiado, inconsciente
de suas potencialidades evolutivas, porque as ignora. O
Evangelho de Tomé aplica a essa situação a idéia da
embriaguez, ou seja, um estado de alienação em relação às
fontes, às razões, motivações e destinação da vida. O logion
entende a vida como permanente estado de alertamento
para a realidade espiritual e a morte como a ignorância ou
desinteresse por essa realidade.
Vale a pena observar, por outro lado, que o dito não coloca
a realização de tais potencialidades como mera possibilidade,
mas como certeza. Isso está bem caracterizado no emprego
do advérbio quando, em vez da condicional se. O que vale
dizer que, no devido tempo - não importa a sua extensão -,
todos alcançarão os estágios finais do processo evolutivo,
mesmo aqueles que por algum tempo estiveram 'mortos'
para essa realidade subjacente que, aliás, sempre esteve ali
na sua intimidade, quer a pessoa tenha conhecimento dela
ou não.
São transparentes, portanto, as razões pelas quais o logion 70
não teria sido aproveitado na redação final dos canónicos e,
neste caso, o de número 41 poderia mesmo ter sido versão
mais comportada e conveniente aos objetivos messiânicos
que ditaram as diretrizes redacionais dos textos que
chegaram até nós com o selo da aprovação oficial. É, de fato,
irreconciliável a doutrina da salvação dos gnósticos com a
dos cristãos ortodoxos.

42. Jesus disse: — Sejam transeuntes.

Temos neste logion, em duas palavras, o conceito
fundamental da transitoriedade da vida junto à matéria,
sempre mero patamar onde o espírito se apóia por algum
tempo limitado, a fim de tentar galgar o próximo nível, na
sua escalada evolutiva. Esse dito é coerente com outros
ensinamentos em Tomé e nos canônicos que insistem em
pregar o desapego às estruturas de poder e riqueza do
mundo. Tais fascinações poderão de tal forma envolver os
espíritos desatentos e invigilantes, que acabarão por
retardar-lhes a marcha. De definitivo em nós, somente o
espírito imortal. O corpo e o contexto em que ele vive são
apenas instrumentos transitórios de trabalho. Terminada a
tarefa programada, o trabalhador larga seus instrumentos e
vai para casa descansar e planejar o trabalho do dia seguinte,
que também será simples etapa transitória. A cada dia
bastam suas preocupações - disse também ele, alhures.
O que tem de diminuto, tem de importante este expressivo
logion.

43. Seus discípulos lhe disseram: - Quem és tu, que nos dizes
tais coisas? (Jesus lhes disse): - Pelo que lhes digo não sabem
vocês quem sou? Mas vocês se tornaram como os judeus,
que gostam da árvore, mas detestam seu fruto, e gostam do
fruto e detestam a árvore.

No logion 91 também vemos os discípulos insistindo em
conhecer melhor a identidade real de Jesus:

91. Eles lhe disseram: - Dize-nos quem és, para que possa-
mos crer em ti. Ele lhes disse: - Vocês examinam a face do
céu e da terra e aquele que têm diante de seus olhos, vocês
não o conhecem, e neste momento não sabem avaliá-lo.

Tanto quanto o povo vivia a solicitar a Jesus um sinal pelo
qual pudesse decidir se ele era ou não um grande profeta, os
discípulos mais chegados também se questionavam e o
questionavam a respeito da identidade do Mestre. Seriam
estas oportunidades apropriadadas para que Jesus declarasse
explicitamente sua condição, se é que desejasse mesmo
identificar-se como o messias prometido nas profecias, mas
não é o que faz. Os sinóticos apresentam situações
semelhantes nas quais ele igualmente deixou de afirmar sua
condição messiânica no estrito sentido das profecias, ou
seja, messias político, belicoso, destinado a reger os destinos
de Israel e não apenas a libertar a nação do jugo romano,
mas ainda impor sua liderança a todos os demais povos. Não
é a isso que Jesus aspira, não é isso que veio fazer entre nós.
Veio trazer sua mensagem renovadora, respeitando, tanto
quanto possível, as estruturas político-religiosas vigentes.
Veio, como disse, para cumprir a lei, não para derrogá-la.
Mesmo dentro desse quadro, porém, ele propunha reformas
cujo alcance, profundidade e conseqüências ninguém senão
ele poderia avaliar àquela época.
Sobre sua identidade, prefere ser julgado pelo que faz e diz,
não pelo que estaria escrito nas profecias, que, na sua
generalidade, não se aplicavam a ele, emissário pacífico da
mensagem suprema do amor. Ele não desceu à Terra para
disputar poderes de que nenhuma necessidade tinha, nem
gosto para disputá-los.
A estatura de seu espírito e o valor de seus ensinamentos
poderiam ser inferidos do que ele dizia e fazia. Lamentava
que os discípulos pudessem avaliar com tanta perícia
condições atmosféricas e terrenas, como plantio, colheita,
pesca, mas não tivessem a mínima capacidade para estimar o
nível evolutivo de uma pessoa pelo teor de seus ensina-
mentos e de seu comportamento.
Não sei se podemos considerar autêntica a observação
atribuída à Jesus acerca dos judeus, que pode muito bem ter
sido acrescida na fase em que o cristianismo se helenizava,
como se vê no quarto Evangelho. Jesus não parece ter tido o
hábito de criticar os judeus de modo geral, mas dentro da
comunidade judaica, certas pessoas ou classes nas quais
identificava defeitos de formação e procedimento, como é o
caso dos escribas e fariseus.
Mais uma vez observa que os discípulos não parecem nada
conscientes da importância do momento histórico que estão
vivendo junto dele, com oportunidades singulares de
aprendizado e progresso espiritual. Vimos há pouco que ele
diz que está ali ao alcance de todos para responder a
questões que sempre foram formuladas e nunca
respondidas.
Em João (14,9-10) também se queixa Jesus de que há tanto
tempo estava ele junto aos discípulos e estes ainda não o
conheciam. O que se segue tem sido utilizado para
sustentação não apenas da doutrina da divindade de Jesus,
mas de sua posição na Trindade. Ocorre, contudo, que este
mesmo texto pode perfeitamente prestar-se a uma leitura
gnóstica. 'Quem me viu, viu o Pai. Como podes dizer: -
Mostra-nos o Pai? Não crês que estou no Pai e o Pai está em
mim? As palavras que vos digo, não as digo por mim
mesmo, mas o Pai, que permanece em mim, realiza suas
obras.'
Pois não está aí, a doutrina gnóstica da perfeita integração
em Deus? Não é Jesus aquele que se fez um com o Pai? Não
é ele o que está mergulhado na "luz, lá onde a luz nasce de
si mesma?"

44. Disse Jesus: - Aquele que blasfemar contra o Pai será
perdoado e, aquele que blasfemar contra o Filho será
perdoado; mas, aquele que blasfemar contra o Espírito
Santo, não será perdoado, nem na Terra nem no Céu.

O logion se apresenta com características altamente
suspeitas de introdução posterior, em fase na qual se definira
já a doutrina da Trindade. Embora somente no Concílio de
Nicéia, em 325 tenha sido oficializada, já há algum tempo
vinha essa teoria em formação. A Britânica entende que a
formulação básica tenha ocorrido aí pela metade do terceiro
século. O Credo de Justino, o Mártir, que serviu à Igreja em
Roma, em meados do segundo século, menciona Jesus como
primogênito de Deus e Espírito Santo da profecia.
Caracteristicamente o termo profecia está no singular, pois
se refere à faculdade por meio da qual os espíritos se
manifestavam nas reuniões pneumáticas, tão difundidas na
igreja primitiva. O credo de Esmirna, cerca do ano 200,
igualmente não menciona o Espírito Santo como terceira
pessoa da tríade divina.
Isso leva a depreender-se com relativa segurança que o
logion 44 sofreu influência do dogma trinitário ou talvez
tenha sido mesmo todo ele introduzido clandestinamente
na coleção de ditos atribuídos a Tomé. Já vimos que
Hennecke admite essa possibilidade. Estranho, por outro
lado, que blasfêmia contra Deus e contra Jesus pudessem ser
perdoadas, mas não as pronunciadas contra o Espírito Santo.
Pois não seriam todos integrantes de um só Deus? Por que
um aspecto da divindade considera-se ofendido a ponto de
julgar-se imperdoável a falta, ao passo que os outros não?
Como os textos gnósticos de Nag-Hammadi foram elabora-
dos ou traduzidos aí pelo quarto século, é quase certo que
este logion tenha sido introduzido indevidamente, pois
Jesus jamais formulou a doutrina trinitária.
45. Jesus disse: - Não se colhem uvas nos espinheiros e não
se colhem figos entre os cardos: eles não dão frutos. Um
homem bom retira coisas boas de seu tesouro; um homem
mau retira coisas más do tesouro de seu coração e diz coisas
maldosas, pois da abundância de seu coração ele produz
coisas más.

Dito semelhante encontra-se nos evangelhos canónicos e
com o sentido de que a bondade flui espontaneamente da
pessoa boa, ao passo que o mau é fonte de maldades. Nesse
mesmo sentido, observamos, ainda há pouco, o Cristo a
perguntar aos discípulos: "Pelo que eu digo não me
conhecem vocês?". A primeira parte do dito adverte,
contudo, acerca do cuidado que deve ter o semeador para
que a semente recaia em terreno apropriado, de vez que
somente neste produzirá adequadamente. Mais do que isso,
contudo, cabe àquele que recebe a semente do
conhecimento ter sempre seu terreno bem preparado para
que ela germine e produza bons frutos. Se o coração é um
espinheiro de maldades, não se pode esperar que ele
produza boas uvas ou figos saborosos.

46. Disse Jesus: - De Adão até João Batista, ninguém nascido
de mulher é maior que João Batista, de modo que seus olhos
não serão destruídos. Mas tenho dito: aquele dentre vocês
que se tornar pequeno conhecerá o Reino e será maior que
João.

Já tivemos oportunidade de examinar as expressões filho do
homem e filho de mulher. No caso particular deste dito,
precisamos nos lembrar de que João Batista foi profeta
altamente respeitado pelo povo que a ele acorria para ouvi-
lo e receber o seu batismo purificador. Cronologicamente
antecedeu a Jesus, que se submeteu, ele próprio, ao batismo
de João. Os evangelhos canônicos apresentam Jesus, no
início de sua carreira, como continuador de João, com
mensagem ainda mais portentosa, contudo. Alguns exegetas
chegam a pensar que Jesus tenha permanecido junto de João
por algum tempo, até como seu discípulo, o que não me
parece correto.
Depreendemos, contudo, do logion 46, que João ainda era
considerado filho de mulher, ou seja, ainda estava sujeito ao
ciclo das vidas na carne. Como em outra passagem, não
menos conhecida, Jesus declara enfaticamente que ele é
Elias renascido, não é difícil imaginar as razões de não estar
esse espírito ainda redimido. É que, ao tempo em que viveu
sua existência como Elias, segundo testemunho do Antigo
Testamento, João promovera pessoalmente a matança dos
sacerdotes de Baal. Por isso continuava como Filho de
Mulher. E por isso, qualquer um no Reino dos Céus seria
maior do que ele, que ainda estava preso à necessidade de
renascimentos reparadores.
Para alcançar essa condição espiritual de liberação, contudo,
os caminhos a percorrer não são os da grandeza em termos
humanos; grande não é aquele que conquista, que domina,
que oprime e mata, mas o que se faz pequeno, que se põe a
serviço do próximo. Este aspecto o Cristo demonstrou de
maneira dramática e magistral ao confirmar-se como mestre,
ao mesmo tempo em que vestia o avental para lavar os pés
dos discípulos. A cena tem o singelo encanto e a veemência
da autenticidade. Se foi imaginada, o foi muito bem, pois
exprime de modo convincente que o serviço humilde nada
retira da legítima grandeza, e mais, que a tarefa do grande é
servir e não ser servido.
Não sei a que atribuir a expressão de que "seus olhos não
serão destruídos". As línguas envelhecem e esta tem pelo
menos um milênio e meio e nem é mais usada. Se alguém,
daqui a um ou dois milênios, ler a expressão inglesa it's
raining cats and dogs, (está chovendo gatos e cães) será que
vai entender que se trata de um aguaceiro?

47. Jesus disse: - Não é possível a um homem montar dois
cavalos, ou atirar com dois arcos ao mesmo tempo, como
não é possível a um servidor servir a dois senhores: ou
honrará a um e ofenderá o outro. Quem bebe vinho velho
não desejará beber imediatamente vinho novo. E não se
derrama vinho novo em velhos odres, temendo que estes
arrebentem e não se coloca vinho velho em odres novos
com receio de que se estrague. Não se cose pano velho em
roupa nova, pois se rasgará.

Ditos semelhantes figuram nos canónicos, pois o Cristo
utilizava-se de imagens comuns ao entendimento de toda
gente. Neste logion parece terem sido juntados vários ditos
com sentido algo diferente. Realmente, a dedicação a um
trabalho de auto-aperfeiçoamento tem de ser integral, sem
reservas ou restrições. Não há crimes pela metade em sua
gravidade somente porque, de outro lado, a pessoa pratica
determinadas devoções e recita umas tantas preces pré-
fabricadas. Ou se empenha na prática do bem de todo seu
coração, ou estará enganando-se a si próprio. Mesmo assim,
estará sujeito a deslises ocasionais ou até freqüentes, mas
não deliberados. É desastrosa a secreta intenção de
contornar as leis; elas não se deixam envolver. É
procedimento esse que não admite remendos, nem
aproveitamentos espertos, como o do vinhateiro que deseja
economizar os velhos odres, ou seja, seus velhos hábitos,
porque ainda não tem suficiente força de vontade para
renovar-se, adotando novas formas de comportamento. Ou
insiste em usar roupas que não mais lhe ficam bem,
pregando-lhes remendos. Se tentar essas espertezas com a
Lei, verificará, mais cedo ou mais tarde, que os odres se
rompem e se perde o vinho, tanto quanto as roupas se
rasgam e o expõe em toda a nudez de seus equívocos.

48. Jesus disse: - Se dois fazem a paz entre si na mesma casa,
eles dirão à montanha: "- Mova-se", e ela se moverá.

Um reflexo deste dito aparece no de número 106:

106. Disse Jesus: - Quando de dois fizerem um, vocês se
tornarão filhos do Homem e quando disserem: "- Monta-
nha, mova-se", ela se moverá.

Depreende-se, portanto, que, eliminados os conflitos entre
matéria e espírito (paz entre os dois) reunificado consigo
mesmo e reunido a Deus, a fonte da luz, então o ser se
desobrigará da penosa rotina das repetidas existências na
carne, deixando de ser filho de mulher, para tornar-se filho
do homem. Em outras palavras: não precisará mais de
corpos físicos, gerados a partir da matéria orgânica, doada
pelas mães que o receba. Terá, então, adquirido
conhecimento necessário até para mover montanhas,
mesmo enquanto encarnado.
No texto canônico a expressão "mover montanhas" é
mencionada em conexão com o exercício da fé, mas na
realidade, como entendiam Orígenes, Gregório de Nissa e
mais tarde Guillaume de St. Thierry, "a alma caminha da fé
para o conhecimento", como se lê em Geddes MacGregor.
Tese com a qual estou de pleno acordo. Não é difícil
identificar as coisas em que apenas acreditamos, separando-
as daquelas que conhecemos. Sei, por exemplo, que a
sobrevivência do espírito é um fato, tanto quanto a
reencarnação ou a comunicabilidade. Quanto a Deus, fico
com a fé, pois não tenho como submetê-lo a testes e
verificações experimentais. A lógica me diz, contudo, que
uma inteligência infinitamente complexa em todas as suas
faculdades cria e sustenta o universo em que vivemos, tanto
quanto a nós mesmos. Por isso tudo, dizia Paulo que a fé é a
substância das realidades invisíveis ou desconhecidas.
Muito se teria a lamentar pelos séculos afora o fato de ter
sido dramaticamente rejeitada a contribuição do gnosticismo
no sentido de dotar o cristianismo de uma estrutura
ideológica robusta que, certamente, teria resultado da
introdução de uma metodologia comprometida com a tarefa
de racionalizar a fé. Não se teria, com isso, herdado tão
pesada carga de dogmas e conceitos fantasistas, que podem
ter servido aos propósitos políticos da igreja nascente e da
medieval, mas que acabaram por tornar-se inaceitáveis, no
confronto com a severa crítica moderna. Inesperadamente,
aliás, este reexame, gerado em grande parte por uma
releitura mais inteligente dos textos evangélicos, em
particular, e bíblicos, em geral, vai assumindo, cada vez
mais, as caraterísticas de um auto-exame, na medida em que
é promovido por eminentes teólogos católicos.

49. Jesus disse: - Felizes os solitários e os eleitos, porque
encontrarão o Reino. Vocês, de fato, saíram dele e a ele
retornarão.

Mais uma vez encontramos o termo solitário que, no dizer
de Puech, pode ser tomado como aquele que foi "revertido a
si mesmo e à unidade". Infere-se, por conseguinte, que o
processo de eleição ou escolha divina - conceito aproximado
ao de salvação na doutrina ortodoxa - consiste, em realidade,
na reunificação com a divindade, após longo trabalho
individual, em oposição à salvação coletiva pelo trabalho e
sofrimento do Filho de Deus. É o tema do auto-
aperfeiçoamento, visto nos textos gnósticos de vários
ângulos diferentes. Outro conceito que neste se repete
didaticamente é o de que de Deus partimos para a aventura
da vida e a ele voltamos, ao cabo de um longuíssimo
processo evolutivo.

50. Este logionfoi comentado em conexão com o de número
18.

51. Comentamos também o logion 51 em conexão com o de
número 18.
52. Disseram-lhe os discípulos: - Vinte e quatro profetas
falaram em Israel e todos eles falaram de ti. Ele lhes disse: —
Vocês desprezam aquele que está vivo junto de vocês e
falam dos mortos.

Novamente refere-se o texto neste logion ao fato de que os
discípulos não tinham noção exata de quem era Jesus e o
que pretendia. Supõem-no o Messias anunciado
previamente pelos profetas e, em duas outras passagens,
esforçam-se em arrancar dele explícita declaração acerca de
sua identidade, como se vê nos logia 43 e 91, já
comentados. Em nenhuma dessas oportunidades, Jesus
confirmou sua condição messiânica. Não se identificava, por
conseguinte, com o messias político-religioso previsto nas
profecias. Infelizmente foi esta a crença que se espalhou por
toda parte logo que ele morreu na cruz, ou seja, a de que ele
fora o messias bíblico e voltaria dentro em breve, investido
do poder de julgar vivos e mortos. Não era esta a sua
condição e sim a de um enviado divino para reformulação
geral na maneira de proceder da comunidade humana. Este
tipo de enviado está mais compatível com as profecias de
Malaquias do que com as que anunciavam belicosos messias
políticos libertadores.
Realmente, indignado com a corrupção que grassava no
meio sacerdotal e com as distorções doutrinárias e
ritualísticas que se introduziam nas práticas do povo judeu,
Javé mostra-se de extrema severidade através de Malaquias.
(Não há como contestar que este documento resulta de
comunicação claramente mediúnica. As palavras iniciais são
inequívocas: "Oráculo: Palavra de Javé a Israel por
intermédio de Malaquias").
A desordem tanto desagrada ao espírito que se manifesta em
nome de Javé, que ele anuncia um mensageiro que viria
'preparar o caminho' e, a seguir, "o Senhor que buscais o
Anjo da Aliança, que desejais". O precursor é identificado
como João Batista e o Senhor e Anjo, com Jesus. Embora a
profecia diga que este enviado seria "como o fogo do
fundidor e como a lixivia dos lavadeiros", ou seja, um ser
incumbido de promover radical processo de purificação, não
se trata, obviamente, de um guerreiro com ambições
políticas e propósitos dominadores. Talvez por isso en-
contremos nos ditos de Jesus, tanto nos canónicos como no
Evangelho de Tomé, a expressão de que ele veio trazer fogo
à terra e o que mais deseja é que toda ela arda.
É certo, portanto, que Jesus percebe estar sendo
erroneamente identificado com esse enviado. Ele veio
credenciado para promover reformas e não guerras de
conquista e dominação. E com isso, são muitos - inclusive
discípulos - os que perdem a oportunidade de aprender com
ele a decifrar mistérios e enigmas da vida, enquanto ele ali
está diante de todos, pronto a responder perguntas e
esclarecer dúvidas. Em lugar disso, desperdiçam tempo a
rebuscar remotas profecias que não se referem a ele.

53. Seus discípulos lhe disseram: - A circuncisão é útil ou
não? Ele lhes disse: — Se ela fosse útil, o pai deles (dos
meninos recém-nascidos) os teriam gerado circuncidados
em suas mães. Mas a verdadeira circuncisão em espírito é
inteiramente útil.

A circuncisão é ritual correspondente ao batismo na religião
cristã, embora a verdadeira admissão do jovem à
comunidade judaica somente venha a promover-se quando
ele atinge doze anos de idade. Neste logion Jesus não atribui
mérito especial ao ritual, que considera apenas pelo seu
valor simbólico, sem nenhum correspondente sentido
espiritual. Se fosse tão importante assim, argumenta ele, o
menino já nasceria circuncidado. O que importa é a
iniciação espiritual, o aprendizado do espírito, não um mero
sinal em seu corpo físico.

54. Jesus disse: — Felizes os pobres, pois deles é o Reino dos
Céus.

Dito semelhante ocorre nos canónicos, especialmente em
Lucas (6,20) onde a expressão "pobres de espírito" não
figura como em Mateus. O logion 54 leva a crer que se refira
aos pobres em haveres e não em condições espirituais, se
atentarmos para o contexto gnóstico em que figura. Isso
porque uma doutrina que insiste na metodologia do
conhecimento para se chegar ao melhor entendimento dos
mecanismos da vida e, afinal, a uma reaproximação com
Deus não pode propor que a pobreza de espírito seja
condição desejável para a conquista do estado de perfeição.
Trata-se, portanto, de pobreza material mesmo, no sentido
de que a pessoa aprendeu a não se deixar dominar pela ânsia
da posse, pelo enriquecimento material, pelo apego às coisas
do mundo. Por isso, diria o Cristo, em outra passagem
célebre, que mais fácil seria passar um camelo pelo furo de
uma agulha do que ao rico entrar no reino dos céus. A
mesma compatibilidade doutrinária encontramos com os
logia nos quais ele insiste com os discípulos em que
somente alcançarão aquele estágio último de merecimento
do reino quando se despojarem até de suas roupas e de seus
falsos pudores, como vimos ainda há pouco.

55. Jesus disse: - Aquele que conheceu o mundo achou um
cadáver, e aquele que encontrou um cadáver, o mundo não
é digno dele.

Este logion encontra-se repetido no de número 80.

80. Jesus disse: - Aquele que conhece o mundo encontrou o
corpo, e aquele que encontrou o corpo, o mundo não é
digno dele.

Dentro do mesmo espírito parece ser o de número 87:

87. Jesus disse: - Miserável é o corpo que depende de um
corpo, e miserável é a alma que depende de ambos.

Encontramos o mesmo tema ainda no logion 112:

112. Disse Jesus: - Miserável é a carne que depende da alma,
miserável a alma que depende da carne.
Em todos eles, a mesma dicotomia matéria/espírito, o
mesmo alertamento para a condição transitória da matéria
em relação ao espírito permanente. O mundo é apenas
matéria, como um corpo, e aquele que sabe disso e põe esse
conhecimento em prática transcende a condição de
prisioneiro da matéria (o mundo não é digno dele). É
preciso ainda que a alma não fique na dependência da
matéria (da carne); basta a sujeição do corpo físico a ela.
Duplamente prisioneira é a alma que se condiciona e aceita
passivamente a sujeição à matéria em geral e à matéria que
compõe o corpo em que se instala ao renascer. A
explicitação de dois tipos de matéria parece dever-se ao fato
de que, além de subordinar-se servilmente às exigências do
corpo físico e suas ânsias, muitos são os que se deixam ainda
escravizar pelos outros aspectos da matéria: bens, riquezas,
poder e posições de dominação.
Diante disso, feliz mesmo é o pobre, ou seja, aquele que já
não se importa com aconchegos que o mundo material lhe
proporciona, pois seu cuidado maior é com o processo
evolutivo em que está empenhado seu espírito, a fim de
alcançar o quanto antes o Reino de Deus na sua intimidade.

57. Jesus disse: - O Reino do Pai é semelhante a um homem
que plantou uma boa semente. Seu inimigo veio durante a
noite e semeou entre elas o joio. O homem não deixou (seus
servidores) arrancarem o joio. Ele lhes disse: - Temo que
vocês tenham vindo para arrancar o joio e arranquem o
trigo com ele; com efeito, no dia da colheita, o joio apare-
cerá e será arrancado e queimado.
Esta mesma parábola, mais explicitada em Mateus (13,24-
30), figura aqui de maneira resumida, mas o sentido é o
mesmo. Deus - o dono da terra - semeou a boa semente por
toda parte, mas o 'adversário', que representa as más
tendências pessoais de cada um - espalhou sorrateiramente o
mal no mesmo terreno onde o bem havia sido implantado.
Perguntado sobre a conveniência de erradicar-se o joio, o
dono do campo preferiu deixá-lo crescer juntamente com o
trigo. Na época certa, na colheita, seriam separados e o joio
atirado ao fogo.
A idéia por trás da imagem é a de que convivem bons e
maus pelo mundo afora. Em muitos casos, os bons até
conseguem influenciar positivamente os maus, mas, se até a
colheita persistirem estes nos seus propósitos, serão
afastados para que os bons possam prosseguir seu caminho
sem maiores perturbações.
O problema é que a parábola serviu na justa medida para a
formulação escatológica, segundo a qual no Juízo Final
(colheita), os maus (o joio) que caíram sob o poder do
demônio (o adversário) seriam recolhidos e atirados ao
inferno (fogo), onde arderiam por toda a eternidade!
Eis como um ensinamento inteligente formulado em termos
simbólicos se transforma em doutrina dogmática, segundo a
qual aquele que errou, arrastado pelo mal que não conseguiu
vencer, não tem mais remissão, quando insistentemente
está ensinado que todos viemos de Deus e a ele voltamos e
nada existe senão em Deus. O que quer dizer: todos serão
salvos.

58. Jesus disse: - Feliz o homem que sofreu: ele encontrou a
Vida.

O enigma da dor vem atormentando muitos dos que
especulam sobre temas religiosos. Agostinho chegou a
questionar-se: ou Deus não sabia que a sua criatura iria
sofrer, e neste caso não era onisciente, ou não podia evitar o
sofrimento, e neste caso era cruel sempre que criava uma
pessoa com um programa de dores a cumprir.
Não parece, contudo, que o problema tenha preocupado os
gnósticos, como igualmente não perturbou aqueles que
entenderam bem a doutrina de Jesus: a dor é a resposta da
lei divina aos que se atritam com seus postulados
reguladores do universo ético. O Cristo foi bem claro ao
associar inevitavelmente o erro (pecado) com a dor
(sofrimento); "vai e não peques mais, para que não te suceda
coisa pior..." - disse. O sofrimento jamais é gratuito, ou seja,
não resulta de jogo cego de forças incompreensíveis; ao
contrário, é uma relação estreita de causa e efeito. O perdão
está implícito na Lei, mas esta não dispensa a reparação.
Mais do que isso: põe à nossa disposição todos os recursos
para recomposição do equilíbrio que os atos ilícitos
perturbaram.
Por outro lado, a Lei jamais exige a reparação daquele que
não errou, nada cobrando ao inocente ou ao redimido. Disso
resulta o que está expresso de maneira clara e objetiva no
logion, ou seja, que o sofrimento é a moeda com a qual
resgatamos nossas faltas. Não que fosse necessário sofrer.
Para isso, contudo, fora preciso que também não
cometêssemos nenhum desacerto.
Para que a correção e a reparação ocorram, dispõe o ser
humano de repetidas oportunidades em novas existências na
carne, enquanto isso for necessário ao seu programa
evolutivo, até que haja encontrado, através da dor que
redime, a vida verdadeira, como diz o logion. O
aprisionamento na carne é restrição à liberdade do espírito,
ao qual proporciona inevitável aturdimento e obnubilação.
Paradoxalmente, portanto, é através do sofrimento que
aquele que errou conquista a sua felicidade e compreende o
verdadeiro sentido da vida que é aperfeiçoar-se, a fim de se
re-unir a Deus. Puech, sempre atento, adverte que Vida e
Reino de Deus ou dos Céus são expressões sinônimas nos
textos de Tomé.

59. Jesus disse: - Olhem para aquele que Vive, enquanto
vocês viverem, para que não morram e procurem vê-lo sem
o conseguir.

O logion insiste na excelente oportunidade que têm os
discípulos em suas mãos, de estarem na presença de Jesus,
vivo com eles, na carne, sendo, ele próprio, um Vivo já re-
unificado com Deus. A ele podem perguntar o que
desejarem para esclarecer suas dúvidas e dirimir conflitos
íntimos. No entanto, parecem um tanto desatentos a essa
oportunidade única. Jesus prevê que mais tarde, quando
compreenderem isso, não o terão mais junto de si para o
amplo debate dos inúmeros problemas humanos.

60. Viram um samaritano que, levando uma ovelha, entrava
na Judéia. Ele disse a seus discípulos: - O que deseja aquele
ali fazer com a ovelha? Disseram-lhe: - Matá-la e comê-la.
Ele lhes disse: - Enquanto ela estiver viva, ele não a comerá,
mas (somente) quando ele a mata, ela se torna um cadáver.
Eles disseram: - Ele não poderá fazer de outra maneira. Ele
disse: - Vocês também; procurem um lugar no repouso a
fim de que não se tornem cadáveres e que não sejam comi-
dos.

Encontramos novamente a misteriosa palavra repouso, cujo
sentido parece ser mesmo o de paz em Deus. Puech informa
que o termo grego anapausis foi conservado no texto copta.
Isso, aliás, poderia confirmar sua postura de que o texto
copta é tradução do grego, ao passo que outros, como
Gillabert, acham que o texto copta é anterior e que o grego é
que é uma versão do copta. A ovelha somente é comida
quando se deixa matar, ou seja, quando passa à condição de
matéria inerte. O logion parece, por conseguinte, advertir os
discípulos para que não se deixem envolver pelo domínio da
matéria e das coisas que a ela se associam, pois estarão,
assim, convertendo-se em cadáveres, em mortos- vivos,
sonâmbulos ou, como se diz alhures, no Evangelho de
Tomé, em ébrios, no sentido de alienados.

61. Jesus disse: - Dois repousarão sobre uma cama: um
morrerá, o outro viverá. Salomé disse: - Quem és tu, ho-
mem? E filho de quem? Subiste ao meu leito e comeste em
minha mesa. Jesus lhe disse: - Venho daquele que é igual. A
mim me foram dadas as coisas de meu Pai. (Salomé disse): -
Sou tua discípula. (Jesus disse:) – Eis porque digo: Quando
ele for igual, estará pleno de luz, mas quando estiver
dividido, estará cheio de trevas.

Os tradutores confessam suas dificuldades com este logion,
um tanto mutilado e de sentido mais hermético do que o
usual. A frase inicial figura em Lucas (17,34) ao ser
anunciada a volta do Messias em todo o seu poder glória.
Em Tomé o contexto é outro, de vez que não tem a
conotação messiânica, explícita ou implícita. Parece mesmo
solto do restante do logion. Seja como for, evidencia o fato
de que Jesus tinha também discípulas e não apenas homens.
Salomé, aqui citada, seria provavelmente a mãe de João e
Tiago. Nota-se ainda que, com ditos inesperados e
impactantes, Jesus parece surpreender seus ouvintes, mes-
mo aqueles habituados a ele pelo convívio. Salomé declara-
se sua discípula e comenta que apesar de ter-lhe
proporcionado freqüentes oportunidades de acolhê-lo em
sua casa, onde dormia e se alimentava, ainda não o conhece
suficientemente. É como se pensasse alto: Quem é, afinal
este jovem que diz coisas tão extraordinárias?
Jesus diz, desta vez, que procede de Deus (aquele que é
igual) e que desta integração com o Pai - que repete alhures,
de várias maneiras - vem lhe o poder de que dispõe. E volta
a ensinar que o segredo e a finalidade última da vida
resumem-se no retorno a Deus. Unidos ao Pai somos luz,
separados dele somos trevas.
Puech discorre, em nota de rodapé, sobre o termo igual, que
pode ser tomado como unido, segundo determinada
acentuação, ou como vazio, deserto, segundo outra.
Hennecke informa que, neste logion, "as respostas de Jesus
são obscuras, e várias traduções têm sido propostas", sem
muito êxito, ao que se depreende.
Evidentemente que a interpretação que aqui oferecemos
está sujeita a esse condicionamento a um texto obscuro e
com lacunas. É inegável, porém, que alguns textos
continuam fechados, à espera de chaves que não sabemos se
e quando virão, ou de onde.

62. Jesus disse: - Falo de meus mistérios àqueles (que são
dignos de meus) mistérios. Não deixe tua mão direita saber o
que faz a esquerda.

O dito evidencia claramente, como se pode depreender
também dos textos canônicos, que Jesus pregava sua
doutrina em dois níveis distintos: um mais popular e de fácil
entendimento, outro mais profundo, reservado àqueles em
quem ele identificava condições suficientes à compreensão
de verdades transcendentais. Essa foi sempre a metodologia
dos grandes mestres do passado. Os processos de iniciação
eram apenas testes para sondar nos candidatos suas
possibilidades de aprendizado. Muitos - senão a maioria -
eram rejeitados logo de início. Os que passavam pelas provas
eram separados para estudo mais demorado de suas
possibilidades. Alguns poucos eram selecionados e
pouquíssimos chegavam aos degraus superiores do
aprendizado.
Jesus adotou critérios semelhantes, ainda que dispensando as
provas preliminares. Suas observações pessoais, nascidas da
convivência diária, proporcionavam-lhe elementos
suficientes para distinguir, dentre muitos, aqueles poucos
aos quais ele podia, como declara, confiar seus mistérios.
A expressão "não saiba a tua mão direita o que faz a
esquerda" é utilizada em Mateus (6,3) em conexão com a
maneira correta de esmolar, mas em Tomé a conotação é
outra, parecendo indicar que o conhecimento passado a uns
poucos escolhidos não deveria ser transmitido aos demais,
considerados despreparados para isso. Esse mesmo conceito
está implícito na parábola do semeador, de vez que a
semente caída em terreno inadequado é praticamente
perdida, pois não tem condições de germinar e, mesmo que
o faça, não produz bons frutos.
Não há dúvida, pois, de que Jesus ministrava seus
ensinamentos em dois níveis bem distintos. Os ditos
preservados no texto atribuído a Tomé filiam-se
predominantemente à corrente mais reservada dos ensinos,
como se lê, aliás, da introdução aos logia. A tradução da
mensagem de Jesus em dogmas e ritos, apoiada numa
teologia esdrúxula, foi lamentável.

63. Jesus disse: - Um homem rico tinha muito dinheiro. Ele
disse: - Empregarei meu dinheiro para semear, colher e
plantar, encher meus celeiros de frutos, para que nada me
falte. Eis o que pensava em seu coração, e naquela mesma
noite ele morreu. Quem tenha ouvidos, que ouça!

Novamente o tema é o da transitoriedade da vida ("Sejam
transeuntes") acoplado a outro tema recorrente: o da
necessidade do desapego aos bens materiais e às riquezas.
Lucas (12,16-21) utiliza-se do mesmo dito e o expande em
comentários, o que nos leva a crer que desenvolveu seu
texto a partir de um logion sucinto como está em Tomé.

64. Jesus disse: - Um homem preparou um banquete para
seus hóspedes mandou um servo a convidá-los. Este foi ao
primeiro deles e lhe disse: - Meu senhor te convida. (O
outro) disse: - Tenho dinheiro a receber de alguns merca-
dores. Eles vêm me procurar à noite e eu tenho de
transmitir-lhes minhas ordens. Não posso aceitar o convite
para o banquete. Ele (o servo) foi a outro (conviva) e lhe
disse: - Meu senhor te convida. Este lhe respondeu: -
Comprei uma casa e me pediram um dia para isso. Não terei
tempo. Ele foi a outro e disse: - Meu senhor te convida. Ele
lhe disse: - Meu amigo vai se casar e eu lhe ofereço um
jantar. Não poderei comparecer. Peço para ser desobrigado
do banquete. Ele foi a outro e lhe disse: - Meu senhor te
convida. Ele lhe disse: — Comprei uma fazenda. Vou
receber o dinheiro do arrendamento. Não terei como ir.
Rogo ser dispensado. O servo foi-se e disse ao seu senhor: -
Aqueles que o senhor convidou para jantar, desculparam-se.
O senhor disse ao seu servo: - Saia para as estradas. Traga
aqueles que você encontrar, para que jantem. Os
compradores e negociantes não entrarão nos lugares de meu
Pai.

Parábola semelhante figura em Mateus (22,2-10) acrescida,
porém, de aspectos um tanto estranhos, segundo os quais os
convidados não apenas recusam o convite, mas ainda
espancam e matam os servos que os foram convidar.
Enfurecido com esse procedimento, o dono da festa, que
figura como rei, no texto de Mateus, mandou matar os
convivas relutantes e ainda lhes destruiu as cidades em que
moravam. Em seguida, o rei mandou convidar quem quer
que fosse encontrado pelas estradas, e eles vieram, bons e
maus, mas ao entrar na sala do banquete, o rei observa que
um dos convivas não estava adequadamente vestido com a
roupa nupcial e manda prendê-lo e lançá-lo fora, nas "trevas
exteriores", onde haveria choro e ranger de dentes.
Como se observa, a violência está excluída do texto de
Tomé, onde a parábola é linear, no seu singelo simbolismo,
não apenas de que muitos são chamados e poucos
escolhidos, como se conclui em Mateus, mas que, em vez
de participarem do fabuloso banquete da vida para ao qual
estão sendo convidados pelo Pai, são muitos os que se
deixam envolver pelos interesses materiais, presos à
transitoriedade da existência terrena, esquecidos de
compromissos espirituais e da verdadeira vida que é a do
espírito. Mais uma vez, portanto, vemos o tema recorrente
do apego à matéria em prejuízo do aperfeiçoamento do
espírito.
O texto singelo e enxugado de Tomé, em confronto com os
adornos acrescidos a Mateus, parece mais um pensamento
original de Jesus, o que leva a crer que, ao contrário do que
alguns pensam, Tomé antecede aos canónicos, que se
apresentam mais elaborados e menos confiáveis. Isso porque
as diversas camadas redacionais tendem a acrescentar
adornos que não se encontram nos documentos primitivos.
Estes são sempre rústicos e sucintos, deixando espaço às
especulações e conclusões dos leitores. No caso específico
dos logia, como vimos, os textos são meros lembretes,
roteiros sumarizados sobre os quais se desenvolvia a
pregação oral. Não deve ter faltado quem quisesse e tentasse
explicitá-los, em adições e mutilações desastradas.

65. Ele disse: — Um homem de bem possuía uma vinha e a
deu a seus trabalhadores para que a trabalhassem e para que
pudesse receber deles o rendimento. E enviou seu servo
para que os trabalhadores lhe entregassem o rendimento da
vinha. Estes se apoderaram de seu servo e o espancaram,
pouco faltando para que o matassem. O servo se foi e
contou o que aconteceu ao seu senhor. Seu senhor lhe
disse: - Talvez eles não o tenham reconhecido. Enviou
outro servo: os trabalhadores bateram neste também. Então
o senhor enviou seu filho. E disse: - Talvez eles tenham
respeito pelo meu filho. Os trabalhadores, ao saberem que
ele era o herdeiro da vinha, apoderaram-se dele e o
mataram. Quem tenha ouvidos que ouça!

Este logion apresenta a correta imagem de que a Terra e seus
acessórios constituem empréstimos feitos aos seres que a
vêm habitar por algum tempo, durante a existência na
carne. A utilização dos bens não somente é permitida, mas
estimulada, já que o senhor da vinha arrendou-a aos seus
próprios trabalhadores para que a façam produzir. Quando,
porém, envia um emissário para arrecadar a parte que lhe
cabe das realizações feitas, este é agredido severamente.
Novo emissário, portador de mensagem semelhante, é
igualmente agredido. Finalmente vem o próprio filho do
proprietário, na esperança de conseguir o que os outros não
conseguiram. Este, contudo, com mais razão, é espancado e
acaba por ser assassinado, de vez que, mais do que os outros,
é o herdeiro. É evidente que os trabalhadores desavisados,
movidos por desmedida ambição, desejam a posse integral
da vinha para fazerem dela e de suas próprias vidas o que
bem entenderem, sem normas ou leis restritivas e sem
prestação de contas a ninguém.
E transparente a alusão à tarefa missionária de Jesus que se
apresenta como Filho de Deus, condição hierarquicamente
superior à de filho de homem. Este apenas se libertou do
ciclo das vidas sucessivas na matéria, ao passo que o Filho de
Deus já se integrou ao Pai, com o qual se fez um.
Observa-se, portanto, que sucessivos emissários divinos com
mensagens e tarefas a empreender junto aos habitantes da
Terra têm sido rejeitados e até torturados ou assassinados.
Enquanto isso, os arrendatários da vinha, esquecidos da sua
condição espiritual, continuam cegamente comprometidos
com atividades puramente materiais e transitórias.
Devo confessar, contudo, que me parece um tanto
carregado o colorido messiânico, o que denuncia uma forte
influência por parte das conotações dogmáticas contidas nos
canónicos.
Estes dois últimos logia (64 e 65) são os mais longos do
Evangelho de Tomé.

66. Jesus disse: - Mostrem-me a pedra que os construtores
rejeitaram: ela é a pedra angular.

As antigas construções de pedra exigiam extremo cuidado e
especial competência no fechamento dos arcos e abóbadas.
As pedras iam sendo assentadas umas sobre as outras, depois
de devidamente reduzidas à forma desejada, até que o
último espaço no ângulo superior era ocupado pela pedra-
chave. Era esta a mais importante e crítica, porque
suportava as demais, distribuindo com elas o peso e as
resistências mútuas que sustentavam o arco ou o teto. A
língua francesa chama-a de pierre d'angle - pedra angular,
sendo idêntica a expressão inglesa cornerstone. É, portanto,
peça indispensável ao equilíbrio e acabamento de toda a
estrutura pacientemente montada. Sem ela o arco não se
sustenta.
Fica, assim, transparente o sentido do logion: precisamente
a pedra mais importante, o conhecimento mais necessário e
superior, o toque final, a chave última de importantes
aspectos da vida é rejeitado sistematicamente pelos que
estão empenhados na construção das estruturas do
conhecimento.
Esse interessantíssimo logion continua tão atualizado hoje
quanto naqueles tempos. Antes eram os que especulavam
em torno de temas filosóficos e teológicos, hoje são os que
se dedicam à ciência. Continuamos a ver pensadores
eminentes a rejeitar a pedra angular. Como pode alguém
armar um conjunto de especulações inteligentes e racionais
acerca dos problemas humanos em geral sem admitir
conceitos fundamentais como o da realidade espiritual
subjacente, sobre a qual tudo o mais se apóia? Como
equacionar e entender o problema do mal, da dor, da
aparente injustiça das leis cósmicas que, às vezes, parecem
punir o inocente e premiar o celerado, se for ignorada a
doutrina básica das vidas sucessivas? Como entender
complexidades da psicologia humana sem admitir a
preexistência do ser? De que maneira atribuir-se a cada um
sua inalienável quota de responsabilidade pessoal pelos atos
que pratica, sem uma seqüência encadeada de existências
reparadoras? De que maneira entender o fenômeno
conhecido como ressurreição do Cristo sem aceitar a
sobrevivência do ser e suas faculdades de manifestação e
intercâmbio com os que ficaram na carne? Como explicar a
visão corpórea de Jesus, dito ressuscitado, sem admitir,
como Paulo, que somos dotados de um corpo material que
se decompõe após a morte, e outro energético, que ele
chamou de espiritual e que segue vivendo em outra
dimensão?
Não há sombra de dúvida: está faltando a todos esses
pensadores, filósofos e teólogos a pedra angular, o elegante
fecho final da abóbada que, por isso, continua instável. A
cada passo, vemos complicadas estruturas de pensamento
ruírem fragorosamente, por lhes faltar a peça que iria
sustentar toda a formação que, sem ela, é apenas um monte
disforme de pedras que não se agüentam nas posições para
as quais foram desenhadas.
O cristianismo ortodoxo foi particularmente infeliz neste
aspecto, ao rejeitar em favor da formulação dogmática,
conceitos indispensáveis às suas arquiteturas ideológicas.
Este logion, e outros do mesmo teor, nos levam a convicção
de que Jesus não apenas percebia que noções básicas acerca
do que costumo chamar a realidade espiritual estavam sendo
mal compreendidas ou não entendidas de todo, mas que, de
futuro, poderiam ser sumariamente rejeitadas em favor de
conceitos absolutamente inaceitáveis aos fins a que ele se
propunha. Ele trazia um projeto inteligente de vida, modelo
de comportamento que servisse de roteiro a todos os seres
humanos empenhados na reunificação com Deus.
Em lugar disso, a teologia montou esquemas fantasiosos que
serviram por muito tempo para assegurar o poder temporal
sobre multidões, mas que conduziram a Igreja, como
instituição de caráter essencialmente religioso, a becos sem
saída perante a mentalidade moderna, que não mais admite
a divindade do Cristo, a existência do inferno, a presença do
demônio, o pecado original e coisas desse tipo.
O leitor interessado encontrará em meu livro Cristianismo -
A Mensagem Esquecida discussão mais ampla em torno
dessas questões vitais ao entendimento, não apenas da
doutrina de Jesus, mas do próprio mecanismo da vida, que
para isto veio ele para o nosso convívio: trazer pessoalmente
a sua mensagem renovadora e, afinal de contas, tão singela!
Não há dúvida: na elaboração de toda a complexa estrutura
teológica montada supostamente sobre os ensinamentos de
Jesus, foi rejeitada a pedra angular - a da realidade espiritual
e suas inevitáveis implicações.

67. Jesus disse: - Quem conhece o Todo, mas está privado de
si mesmo, priva-se do Todo.

Neste, como em vários outros ditos sucintos, foi colocado
um pensamento profundo e amplo nas suas implicações.
Puech contribui com esclarecimento adicional ao texto,
dizendo que a expressão deve ser entendida como "privado
(do conhecimento) de si mesmo".
O conteúdo do logion é dos mais significativos. Ainda que o
objetivo dos gnósticos tenha sido o retorno a Deus através
do conhecimento, há uma clara advertência neste dito,
segundo a qual, mesmo aquele que tenha alcançado estágio
de elevado conhecimento do Todo, estará fadado ao fracasso
se não tiver conhecimento de si mesmo ou não souber usá-
lo devidamente. É tão grave esta falha que a pessoa se verá
impedida de participar da divindade.

68. Jesus disse: - Felizes vocês quando forem odiados,
quando forem perseguidos e não se encontrar o lugar onde
vocês foram perseguidos.

A terminologia gnóstica utilizada nos logia, ou,
reversamente, deles derivada, é um tanto enigmática, às
vezes quando não decididamente hermética . Examinando
algumas dessas expressões e termos em busca de seu
verdadeiro sentido, Puech28 oferece sugestões a respeito de
repouso, e também lugar (local ou ambiente)
correspondente à palavra grega topos, ao francês lieu, ao
inglês place ou ao latim locus. O termo parece ter
significações diversas, segundo o contexto em que está em-
pregado. Com base nos logia 24 e 60, Puech entende que a
palavra lugar "constitui o obj eto, o fim da busca espiritual e
se identifica provavelmente com o próprio local onde Jesus
está, onde ele pode ser encontrado" (o destaque é do
original francês).
Aplicando tais informações ao texto do logion 68,
depreendemos que o ódio e a perseguição que suscita
constituem sinais evidentes de que a pessoa está entre as
minorias que começam a acertar com o caminho que leva à
sua reintegração na divindade. Por isso encontra
considerável oposição da parte daqueles que ainda não
despertaram para essa realidade. Paradoxalmente, portanto,
o ódio e a perseguição àqueles que buscam é um bom sinal,
de vez que indicam que a pessoa está no caminho certo.
Já quanto à frase final, a despeito das eruditas e competentes
observações do Prof. Puech comentadas há pouco, continuo
sem saber que interpretação propor.

69. Jesus disse: — Felizes em seus corações aqueles que
forem perseguidos. Eles conheceram o Pai em verdade.
Felizes os famintos, porque eles serão satisfeitos naquilo que
desejarem.

Ainda o tema da incompreensão criada em torno daqueles
que buscam honesta e obstinadamente a perfeição espiritual,
mas com a consoladora ressalva de que estes, sim,
conhecerão mais cedo a integração em Deus. A fome
(espiritual) acabará por ser inteiramente satisfeita.

70. Analisado em conexão com o de número 41.

71. Disse Jesus: - Destruirei esta casa e ninguém será capaz
de reconstruí-la.


Outro logion sucinto e expressivo.
Com ajuda dos canônicos, podemos perceber que Jesus fala
de seu próprio corpo físico, que Paulo caracterizou como
templo do espírito. É certo que ninguém teria como Jesus
consciência tão nítida da transitoriedade da matéria em que
se hospeda temporariamente o espírito, na sua jornada pela
Terra. Os canónicos dizem que este dito teria sido interpre-
tado pelos que o ouviram como ameaça que Jesus teria feito
ao templo de Jerusalém e muito se admiraram de que ele
pudesse falar daquela maneira. Nem os discípulos teriam
entendido a alusão, que somente iria ser compreendida após
a ressurreição, quando se lembraram da expressão e
concluíram que Jesus falara de seu corpo físico ressuscitado.
Parece, no entanto, que se observa aqui mais uma passagem
em que o dito teria sido utilizado para expressar coisa
diferente da pretendida por Jesus. Tomé diz apenas que a
casa (certamente o corpo físico) seria destruída sem que
ninguém pudesse reconstruí-la. Os canónicos utilizam-se do
dito para consolidar a crença na ressurreição física de Jesus,
e acrescentam que "em três dias" ele faria essa
reconstituição. Há de chegar a época, não obstante, em que
a ressurreição deva ser entendida no seu contexto espiritual,
não fisiológico. Em outras palavras: é uma demonstração da
realidade do 'segundo corpo', o espiritual, não a
ressuscitação do corpo material, que se decompõe ao ser
confiado à terra.
Há, contudo, um aspecto singular acerca deste logion. As
pesquisas realizadas com toda a sofisticação da tecnologia
contemporânea sobre o Sudário de Turim demonstram a
inesperada e impactante realidade de que o corpo de Jesus
teria sido literalmente desmaterializado, o que somente
pode ser resultado de ato deliberado de sua vontade pessoal.
Em outros termos: ele quis mesmo desintegrar seu corpo
físico, liberando os átomos que o compunham,
provavelmente, a fim de que não ficasse resíduo que
servisse a disputas e controvérsias inúteis, em prejuízo do
conteúdo espiritual de sua mensagem.
O leitor interessado é convidado a ampliar suas pesquisas na
abundante literatura surgida nos últimos anos a respeito
deste fascinante assunto. Segundo dizem os cientistas, o
corpo físico foi desmaterializado por um processo que a
ciência moderna é capaz de explicar, mas não consegue
(ainda) reproduzir. Se tudo isso é mesmo verdade, então
Jesus teria manifestado no logion 71 o seu propósito
antecipado de proceder conscientemente a essa operação
desmaterializadora em relação ao seu corpo físico. Sendo
assim, esse logion se reveste de autenticidade indiscutível,
dado que ninguém teria condições de interpretá-lo
corretamente até que a tecnologia moderna se pronunciasse
sobre o Sudário. E para terminar: se a ciência não sabe como
produzir o fenômeno da desintegração muito menos seria
capaz de refazer o corpo assim desmaterializado.
Exatamente como está no logion!

Ao escrevermos estas linhas, em 1991, o problema do
Sudário está longe de ter sido satisfatoriamente resolvido. A
despeito do pronunciamento aparentemente definitivo da
ciência, com base na datação do material pela técnica do
carbono 14, o debate prossegue. Entendem alguns
cientistas, munidos de respeitáveis argumentos, que o
incêndio a que foi exposta a peça de linho em 1532, teria
provocado substanciais alterações na leitura dos índices, e,
por conseguinte, deslocado drasticamente a data a ela
atribuída.
Por outro lado, como assinalam esses contestadores, o
eventual posicionamento do Sudário como obra de arte, na
Idade Média, segundo propõem os responsáveis pelos testes
de laboratório, somente contribui para acrescentar mais
enigmas do que aqueles que se pretende resolver. Não
haveria como explicar o fenômeno da gravação, no tecido,
de uma imagem anatomicamente perfeita, sem uso de
pigmentos coloridos, em negativo e ainda coerente com os
relatos evangélicos sobre a sinistra rotina da crucificação de
Jesus. Realmente, há evidência bem nítida da coroa de
espinhos nos ferimentos da cabeça, bem como da ferida no
tórax, provocada pela lança, tanto quanto a integridade dos
ossos das pernas, que não foram quebrados, como de praxe
nos demais condenados.
Cabe acrescentar que permanecem dignos de consideração
outros aspectos relevantes da questão, como a meticulosa e
competente pesquisa do Dr. Frei, cientista suíço, que
encontrou no Sudário vestígios de fungos compatíveis com
as regiões onde, segundo a tradição, a peça teria estado, no
correr dos séculos.
Não faltam, ainda, comentários sobre o estranho e
inexplicável açodamento com o qual a Igreja acolheu o
parecer da ciência, concordando com o esvaziamento da
questão da autenticidade do Sudário, que foi degradado da
condição de a mais importante relíquia do cristianismo à de
mero ícone com alguma tonalidade histórica, mas sem o
relevo que lhe fora atribuído.
Chegou-se, mesmo, a questionar como algo suspeitos certos
procedimentos não muito bem explicados, quando do
processamento laboratorial dos fragmentos de linho
submetidos a estudo.
Não tenho como entrar no mérito de tais aspectos, desejo
apenas evidenciar que, a admitir-se como válidas ou pelo
menos dignas de exame as contestações colocadas, o
problema da autencidade do Sudário de Turim permanece
em aberto.

72. (Um homem lhe disse): - Fala com meus irmãos para que
eles dividam comigo os bens de meu pai. Ele lhe disse: —
Homem, quem fez de mim um partilhador? Ele voltou-se
para seus discípulos e lhes disse: - Não sou um partilhador,
sou?

Mais uma oportunidade em que as pessoas que o cercam
demonstram não ter noção muito precisa de quem é ele e o
que pretende. Obviamente Jesus não veio à Terra para
cuidar de questões desse tipo.
Lucas (12,13-14) utiliza-se do dito - que não figura nos
demais canônicos - para pregar contra a cupidez, o que não
parece ter sido a intenção de Jesus, que demonstra não
desejar envolver-se nos mesquinhos negócios do mundo.

73. Jesus disse: — A colheita é abundante, mas os
trabalhadores são poucos. Orem ao Senhor para que envie
mais trabalhadores para a colheita.

Dito semelhante figura nos canônicos com o mesmo
sentido. Uma enorme quantidade de trabalho aí está a ser
realizado entre os que sofrem e ignoram e, no entanto,
poucos são os trabalhadores dispostos a realizá-lo. Mesmo os
que vêm para isso programados, aqui chegando, esquecem-
se dos compromissos assumidos no mundo espiritual e,
mesmo conscientes deles ou advertidos a respeito do que
lhes cabe fazer, optam pelo comodismo egoísta.

74. Ele disse: - Senhor, muitos estão ao redor do poço, mas
ninguém está no poço.

Não se trata propriamente de um dito; pelo menos, não
daqueles que se dirigem aos discípulos ou a outros ouvintes,
mas uma espécie de observação que Jesus dirige ao Pai,
lamentando que tanta gente viva em torno das fontes da
verdade e nem sequer perceba que pode beber da água que
ali está.

75. Jesus disse: - Muitos estão diante da porta, mas são os
solitários que entrarão na câmara nupcial.

Mais uma vez Puech lembra que o termo copta corresponde
ao grego monakhos e quer dizer não apenas isolado,
solitário, unificado, mas "aquele que se reintegra em si
mesmo e com a unidade". São poucos os que alcançam esse
elevado patamar evolutivo e ficam em condição, no dizer da
mística oriental, de entrar na câmara nupcial. O unificado,
portanto, é aquele que contrasta conceptualmente com o
dividido ou separado de si mesmo e da divindade.

76. Jesus disse: — O Reino do Pai é semelhante a um
mercador que possuía muita mercadoria e encontrou uma
pérola. Esse mercador era sábio: vendeu toda a sua
mercadoria e comprou para ele a pérola única. Vocês
também: procurem o tesouro que não perece, mas dura, que
se encontra onde a traça não entra para devorá-lo nem os
vermes podem destruí-lo.

O mercador trocou toda a mercadoria de que dispunha para
revenda com lucro, a fim de adquirir uma única pérola para
si mesmo, para seu uso e não para revender. Novamente se
insiste no tema da renúncia a umas tantas coisas, a fim de
termos acesso a outras ou, mais especificamente, rejeição
aos envolvimentos com a matéria que embrutece e retém o
ser nos estágios inferiores da evolução, em contraste com a
valorização dos interesses superiores do espírito - no caso
uma pérola tão valiosa que ele não hesitou em trocar tudo o
que tinha por ela, mesmo sabendo que não mais disporia de
bens para revenda. A esse mercador o texto qualifica de
sábio. Ao explicitar a moral da parábola, o dito esclarece que
a prioridade da busca deverá ser sempre orientada para os
tesouros que a traça e os vermes não consomem.
77. Jesus disse: - Sou a luz que está sobre todos. Eu sou o
Todo: o Todo saiu de mim e o Todo retornou a mim.
Rachem um pedaço de madeira: lá estou eu; levantem a
pedra e me encontrarão ali.

Este logion tem características singulares e se distingue
nitidamente dos demais, no sentido de que o ensinamento
nele contido não parece provir de Jesus e sim da divindade
acima de todos. Realmente, Jesus parece aqui falar em nome
de Deus ou, em outras palavras, Deus fala por intermédio
dele, declarando-se origem e destinação de tudo quanto
existe, num fluxo e refluxo permanente e eterno. Tudo se
contém nele e, por isso, ele está em toda a parte, mesmo
dentro da madeira ou sob a simples pedra que se retira de
onde estava.
Integrado em Deus, Jesus fala por ele ou Deus fala em Jesus.
Belíssima síntese para expressar a onipotência e a
onipresença de Deus, fora do qual ninguém vive e nada
existe, uma divindade imanente e transcendente, tão difícil
de conceber e ao mesmo tempo tão fácil de encontrar, pois
está em toda parte.
Quanto à hipótese de Jesus falar aqui em nome de Deus,
temos inúmeros precedentes na linguagem bíblica do
Antigo Testamento, quando os profetas falam em nome de
Javé. Esta hipótese parece coerente com o que está expresso
no logion 79, que assim diz:

78. Uma mulher na multidão disse a ele: - Feliz o ventre que
te gerou e os seios que te nutriram. Ele lhe disse: - Felizes
aqueles que ouviram a palavra do Pai e praticaram a verdade.
Dias virão, com efeito, em que se dirá: - Feliz o ventre que
não concebeu e os seios que não amamentaram.

A palavra de Deus chega, pois à sua destinação final, na
Terra, ou seja, aos ouvidos humanos, mas são poucos
aqueles que prestam atenção e a põem em prática. Jesus é o
mais qualificado porta-voz dos ensinamentos divinos. Tão
unido está ao Pai que este transmite seu pensamento
diretamente e por intermédio dele, como se vê no logion
77.
O logion 79 é gnosticismo puro no sentido de que feliz é
aquele que não mais precisa deixar-se aprisionar na matéria
densa, porque já se libertou do ciclo das reencarnações,
deixou de ser filho de Mulher. Não há mais necessidade de
ventres para gerar e seios para amamentar novos corpos
físicos, porque todas as criaturas espiritualizaram-se,
reintegraram-se em Deus.
O 77 é o logion sobre o qual mais longamente se demorou
Puech em seus comentários, sendo que um bloco maciço de
quinze páginas figura entre as de número 249 e 264 do
segundo volume de sua obra.
Certamente seria proveitoso acompanhar toda a exposição
do eminente especialista, sempre apoiado em extensas e
profundas pesquisas pessoais e na sua respeitável erudição,
mas não dispomos de espaço para tanto, se é que
pretendemos manter este livro dentro de proporções
aceitáveis. É preciso, não obstante, dizer aquele mínimo
indispensável para melhor entendimento das complexidades
envolvidas neste dito.
Como observa o leitor, adoto a posição de que Jesus fala por
Deus, ao passo que Puech parte do pressuposto de que ele
fala como Deus. Não é minha intenção confrontar a minha
opinião com a do ilustre professor francês, mas observar que
a adoção da segunda opção cria mais dificuldades do que as
que pretende resolver e mais questionamentos do que se
propõe responder. Puech mesmo está bem consciente de
tais dificuldades ao declarar, como o faz à página 241, que,
interrogados a respeito de Jesus, os logia contidos no
Evangelho de Tomé dariam respostas diferentes "mostrando
uns, sem contestação, que Jesus distingue nitidamente entre
si mesmo e seu Pai; outros (como o logion 61), parecendo
estabelecer entre eles completa igualdade; outros, enfim,
assimilando Jesus ao Todo ou à Luz, ao Princípio e ao Fim
de todas as coisas (logion 77) e, nisto, confundindo-o ou
parecendo confundi-lo com o próprio Deus".
Essas observações são fundamentais para melhor
entendimento da questão. Não vejo no logion 61, por
exemplo, a idéia de que Jesus seja igual ao Pai, e sim a de
que ele provém "daquele que é igual". Ora, Puech mesmo
admite que não se trata de 'igualdade e consubstancialidade'
com o Pai, como propõe Ernst Haenchen. Isso porque a
expressão copta correspondente a "aquele que é igual", pode
ser também "compreendida e traduzida", como "daquele que
é igual (a si mesmo)", ou que "é o mesmo (um ou a
Unidade)" tanto quanto "aquele que é igual a mim". Ante
tais dificuldades para melhor definição da tradução, Puech
afirma modestamente que Jesus limita-se a "certificar que
provém de Deus, ou do mundo transcendente, do Um
(sempre idêntico a si mesmo) ou da Esfera da Unidade, do
Indivisível" (pág. 249). Igual, nesse contexto, seria equiva-
lente a imutável.
É escassa, portanto, a evidência textual para assegurar que
ele se considera igual a Deus. Por outro lado, são explícitas
as palavras, como no logion 100, ao estabelecerem perfeita
distinção entre ele e Deus, o que também se encontra nos
canónicos, quando declara sua condição de alguém que o
Pai enviou à Terra para trabalho específico junto à
humanidade.
Num texto como o de Tomé, no qual identificamos o
traçado de uma coerência que, em diferentes oportunidades,
temos ressaltado aqui, seria incongruente considerar Jesus
ora distinguível do Pai, ora semelhante, ora apresentando-se
ele próprio como Deus. Estou convencido de que tais
discrepâncias localizam-se na maneira incorreta de
interpretar os textos, em defeitos de tradução ainda não bem
identificados e corrigidos. Há, ainda, casos de evidente
enxertia e manipulação, como no logion 44, com a óbvia
construção posterior para dar cobertura à teoria da Trindade.
Em suma: no meu entender, Jesus se posiciona como o
Filho do Homem, ser redimido, o eleito, o Vivo,
perfeitamente consciente de sua estatura espiritual e da sua
integração em Deus, "lá, onde a luz nasce de si mesma", de
onde saiu um dia e para onde já retornara, fechando o ciclo
da sua peregrinação evolutiva. Definitivamente, ele não se
põe como Deus, como lamentavelmente desejam fazer crer
os redatores finais dos textos canônicos, ou melhor, dos
criadores de dogmas. Estar unido ao Pai, ser um com ele,
tendo condições de auscultar-lhe o pensamento e a vontade,
está longe de significar também que ele é igual a Deus ou o
próprio Deus. Estaríamos assim recaindo na funesta doutrina
da coeternidade, criada para justificar a divindade de Jesus e
sua participação na Trindade. Erigida à condição de dogma
e, mais do que isso, de mistério impenetrável à análise
crítica, a Trindade é um dos vários problemas insolúveis que
se tornaram incômodos para a Igreja, porque só admitem o
recuo.

79. Jesus disse: - Por que vocês saíram para o campo? Para
verem um caniço agitado pelo vento e para verem um
homem vestido de delicadas roupas? Eis que os reis e os
grandes homens são os que se vestem de (roupas) delicadas
e não poderão conhecer a verdade.

O ensinamento aqui é claro e reverte com insistência a um
dos pontos básicos da temática preferida em Tomé: a de que
as pessoas excessivamente preocupadas com os aspectos
materiais da vida - com o que vestem e comem, por
exemplo - ficam sem condições e espaço interior para
cultivar o conhecimento da Verdade que, esta sim, leva aos
patamares superiores da evolução espiritual.

80. Analisado em conexão com o de número 56.

81. Jesus disse: — Aquele que enriqueceu possa tornar-se
rei, e aquele que está investido de poder, que renuncie a ele.

Neste logion a riqueza é tomada em seu sentido figurado,
como bem espiritual, não material. Jesus recomenda que,
alcançado esse estágio evolutivo, a pessoa possa tornar-se
rei, ou seja, ser investida de autoridade e poder para ensinar,
provavelmente, ou dirigir, mas conclui, em aparente
paradoxo, que, atingida essa etapa, a pessoa renuncie ao
poder.
Para entendimento desta passagem é útil a leitura da cena
descrita nos canônicos, quando, após confirmar seu status
de Mestre e Senhor, Jesus assume humildemente a condição
de servo, preparando-se para lavar os pés de seus discípulos.
Sua atitude causa impacto e marca a inesquecível postura,
deixando muito clara a lição de que os líderes políticos,
sociais ou religiosos são suscitados para servir e não para
dominar e oprimir. Daí o roteiro evolutivo que ele
recomenda: enriquecer-se de conhecimento, tornar-se um
dirigente (rei), mas renunciar ao exercício do poder tal
como é entendido entre os seres humanos, onde poderosa é
pessoa para ser temida, reverenciada, servida e obedecida
sem hesitações ou contestações. Não é assim que Jesus
entende o exercício do poder, mas renunciando às suas
mordomias e aconchegos, para colocar-se como servidor
maior, que dispõe de mais amplas condições e
oportunidades precisamente para servir àqueles que dele
dependem, que lhe estão subordinados ou que lhe forem
confiados para alguma tarefa.
Não é sem razão que H. G. Wells declara que esse Nazareno
foi grande demais para nós. Ainda não se inventaram as
medidas com as quais teremos, um dia, noção mais precisa
do que ele vale como ser humano, situado nos cumes mais
elevados da evolução espiritual.
O mesmo pensamento de renúncia após o enriquecimento
do espírito figura no logion 110 assim expresso:
110. Jesus disse: - Aquele que encontrou o mundo e ficou
rico, que renuncie ao mundo.

Em proveito da clareza, somos tentados a tomar certas
liberdades com os textos, traduzindo este, por exemplo, da
seguinte maneira: "Aquele que encontrou o mundo e
enriqueceu-se de conhecimento, que renuncie ao mundo".
Entendo, porém, que tais escritos devam ser tratados com o
maior respeito, a fim de que não sejam vitimados por
irrecuperáveis deformações no sentido, como aconteceu
com os canónicos, onde tais liberdades foram desastrosas
para a singela doutrina de Jesus.
São muitas as palavras e expressões que não têm para nós,
hoje, o mesmo sentido que tinham para leitores e ouvintes
de dezesseis séculos atrás. Nem o vocabulário da época era
tão rico que pudesse expressar matizes mais sutis de idéias,
especialmente em documentos destinados a preservar
ensinamentos destinados às classes populares e não aos
eruditos. É da maior importância, por isso, conservar
intactos os textos originais, para que sejam constantemente
reestudados em busca de traduções que se aproximem, cada
vez mais, do real sentido que se desejou preservar para a
posteridade.
Reportando-se, a propósito, aos logia 3, 29, 67, 81 e 110,
combinados com os de número 2 e 80 que, de uma forma
ou de outra, apresentam a temática da dicotomia
riqueza/pobreza, Puech lembra, com insistência, em vários
pontos de seu livro, que a palavra riqueza "está ligada à
aquisição e posse do Conhecimento, (da gnose) epobreza,
sinônimo de agnoia ou agnosia, de 'perda', ou de
"obnubilação da consciência de si mesmo", de ignorância ou
de "desconhecimento de si" ou, para dizê-lo de outra
maneira: de 'alienação', anoia, (anoia = inconsciência,
despossessão de si mesmo.)
Acrescenta ainda o ilustre autor que não se trata aqui de
"linguagem peculiar ao nosso evangelho, mas de
terminologia convencional, e mais ou menos tradicional",
no que tem toda razão.

82. Jesus disse: - Aquele que está perto de mim está perto do
fogo, e aquele que está longe de mim está longe do Reino.

Neste logion vemos empregada mais uma vez a imagem do
fogo purificador, que impõe sofrimentos àquele que o
experimenta, mas também constrói na intimidade de cada
um o Reino de Deus, ou seja, o império das leis divinas em
seus pensamentos, palavras e atos.

83. Jesus disse: — As imagens são reveladas ao homem e a
luz que elas contêm oculta-se na imagem da luz do Pai. Ele
será revelado e sua imagem estará oculta pela luz.

Eis um logion de difícil interpretação. Puech refere-se em
diferentes pontos de seu livro à dificuldade dos eruditos em
atinarem com o verdadeiro sentido do termo imagem.
Arrisco-me à minha interpretação pessoal, puramente
intuitiva. Entendo que todo o universo - os seres vivos
inclusive - constitui um pensamento de Deus e se revela
não em sua realidade íntima, mas em símbolos, arquétipos
ou imagens da realidade que, em si mesma, é inatingível
àqueles que ainda não alcançaram o estágio evolutivo
próprio. Tal realidade refletida permanece oculta na luz que
também é de difícil apreensão, porque ela também é
imagem da verdadeira luz. De fato, os estágios finais da
evolução do ser são sempre representados como
manifestações visuais de intensa luz, como profusamente
iluminados se apresentam às vidências mediúnicas os
espíritos de mais elevada condição evolutiva. Essa luz
refletida é, no seu conjunto, no seu Todo (expressão
tipicamente gnóstica), manifestação do próprio Deus que
também não se revela em sua essência mesma, mas naquilo
que faz, ou seja, em imagens. Chegará um momento,
contudo, como se lê no final do logion, que o próprio Deus
se revelará na plenitude de sua realidade ao espírito que nele
se reintegrou, como Jesus, a ponto de se tornar um com ele.
Não obstante, a realidade que Deus projeta de si mesmo
apresenta-se como luz também, sem forma, cor ou
movimento, e como luz está oculta ou diluída na própria
luz. Como iria destacar-se a luz no meio de uma luz de igual
intensidade? Nesse sentido, portanto, é que o ser criado
integra-se em Deus, consciente como individualidade,
conhecedor profundo dos mistérios do universo e suas leis,
mas, simultaneamente, partícula luminosa na luz divina. O
que significa que ele não se perde em Deus e nem o vê, ele
apenas o sente e o entende como a vibração da inteligência
suprema, da vontade irresistível, mas branda, suave,
bondade pura, amor integral.
De fato, somente se destacaria dentro desse foco luminoso o
corpo ou objeto menos luminoso, denso ou mesmo escuro.
Mas o ser em tais condições jamais teria como aproximar-se
do foco. É preciso que, antes disso, a luz que traz em si, em
estado potencial, se revele nele.

84. Jesus disse: - Quando vocês virem a própria semelhança,
alegrem-se. Mas quando virem suas próprias imagens
manifestadas diante de vocês, que não morrem nem se
manifestam, muito grande será o que suportarão.

Este enigmático logion oferece não poucas dificuldades. A
primeira delas está em que as traduções em línguas
modernas se chocam. A edição (inglesa) de Brill, incluída no
livro de Hennecke, apresenta o dito de forma interrogativa:
"será que aqueles a quem Jesus se dirige suportarão o
impacto das imagens?" Na sua versão em português, Rohden
prefere esta fórmula, ao passo que Puech, na versão
francesa, embora admitindo que o texto possa ser também
interrogativo, optou pela forma afirmativo-exclamativa que,
no meu entender, parece mais indicada. O leitor sabe que
não afirmo isso porque disponha de autoridade, mas por
mera opção pessoal apoiada na intuição. Não me parece
racional que, atingido o estágio em que o indivíduo tem
verdadeira revelação acerca de si mesmo e de enigmas de
sua personalidade não esteja em condições de suportá-la.
Mais uma vez, contudo, Puech enfrenta a dificuldade que
certos termos oferecem como semelhança (ressemblance) e
imagem (image) que, neste logion, aparece no singular e no
plural.
Ao examinar o logion precedente, de número 83,
entendemos o termo imagem como representação ou
manifestação de uma realidade inexprimível de outra
maneira, por se tratar da própria substância das coisas. Não
vemos razão para modificar essa interpretação em face do
logion 84. Ao que se depreende de atenta leitura deste
logion, parece haver uma espécie de hierarquização de
imagens: algumas são rotineiramente manifestadas e mais ou
menos transitórias, ao passo que outras são permanentes
(não morrem) e precisam ser entendidas de outra maneira,
porque não se manifestam. Entendo que isso queira dizer
que há realidades que não se traduzem em imagens e o
sentido delas tem de ser buscado pelos mecanismos muito
mais sutis da intuição, em lugar de percebidos por sentidos
específicos como o da visão. Quem for capaz de perceber
tais realidades sem recorrer a esses dispositivos mais
elementares, então sim, estará em condições de 'suportar'
fabulosa carga de conhecimentos superiores.
Admitida essa interpretação, resta-nos penetrar o sentido do
termo semelhança (ressemblance, em francês, likeness, em
inglês, e, segundo Puech, eine, em copta). A julgar-se pelo
texto, a visão da semelhança é conquista digna de nota, não
transcendental, mas mero motivo de alegria. Parece ser este
o momento em que a pessoa se torna consciente da
existência de um corpo energético além do físico, que lhe
constitui realidade palpável. E o corpo espiritual de que
Paulo fala em suas epístolas, especialmente Coríntios,
capítulo 15, onde explica que o corpo físico de Jesus é
restituído à terra, mas o segundo corpo, espiritual, se levanta
(ressuscita).
Escreve Puech:

A 'semelhança', o eine, como já concluímos por nossa parte,
deve corresponder aqui à figura, à forma exterior do
homem.

Esta observação ficou um tanto ambígua, por não nos deixar
perceber se o autor fala do corpo físico ou de um corpo
energético ou espiritual. Ao retomar o assunto à pagina 201
de seu livro, Puech acrescenta outras reflexões nos seguintes
termos:

... "o homem de luz" não seria outra coisa senão o que o
logion 84 caracteriza, também ele, por contraste, com "a
semelhança", a imagem expressamente definida, no caso,
como "preexistente", "imperecível", "não manifestada" e que
o logion 88 prefere chamar de "o anjo".

Com esta informação adicional podemos estar certos de que
semelhança, no contexto gnóstico é, de fato, referência ao
que Paulo considerava corpo espiritual. Realmente, este
segundo corpo é preexistente à vida na carne, tanto quanto
sobrevivente à morte corporal; é não-manifestado, porque
invisível, a não ser às pessoas dotadas das sensibilidades
apropriadas, e equivale, segundo o logion 88, à expressão
"anjo". Este último termo oferece a chave final para a
decifração do enigma. Encontramo-lo também no texto
canónico dos Atos dos Apóstolos (capítulo 12). Assim que
libertado da prisão, Pedro dirige-se à casa de Maria, mãe de
João Marcos, e bate à porta. Atende-o uma jovem, por
nome Rode, que o reconhece, com grande alegria. Voltando
ao interior da casa para anunciar a presença do apóstolo,
ninguém acredita na realidade da notícia. "Estás louca! É o
seu anjo!" - lhe disseram.
Não era o anjo e sim Pedro, em carne e osso, mas a
expressão é elucidativa, no sentido de que todos pensaram
que Rode tinha tido uma visão do corpo espiritual de Pedro,
que bem poderia, àquela altura, estar morto e, portanto,
liberado da prisão corporal, além da policial. A Bíblia de
Jerusalém, ao comentar este aspecto em nota de rodapé,
deseja fazer crer que se trata de um anjo da guarda de Pedro,
que, segundo o autor da nota, "eram considerados uma
espécie de 'cópia' espiritual de seu protegido". A explicação
é inaceitável, embora possa ter sido realmente uma 'crença
popular' como se alega. Na realidade, o anjo ou a seme-
lhança, segundo os gnósticos, ou duplo dos ocultistas, é o
corpo espiritual dos seres vivos, na matéria, ou vivos fora
dela, e, portanto, preexistente e sobrevivente. Numa
abordagem alternativa, seria de considerar-se, no texto, a
alusão ao curioso fenômeno da recapitulação da vida, a que
me refiro em A Memória e o Tempo, ou ao da insistente
reprodução das cenas de assassinatos ou suicídios cometidos,
como se vê em. Memórias de um Suicida, de Camilo
Cândido Botelho/Yvonne A. Pereira.
No primeiro exemplo citado, todo o panorama das
vivências, como suas imagens e emoções, é exibido
simultaneamente, não apenas ao espírito que abandonou o
corpo físico pela morte, como àquele que apenas esteve em
situação de morte iminente, não consumada. O dramático
espetáculo ótico-sonoro-emocional é o que mais se parece
como uma exposição ao vivo da consciência em
autojulgamento. Quando tais imagens repassam uma
existência útil e equilibrada, a sensação que produzem é a da
serenidade, da plenitude, do dever cumprido, mas quando
há crimes e desvios graves de comportamento, não há
dúvida de que a carga emocional do remorso é difícil de ser
suportada. Estaria, assim, compreendido por que as "próprias
imagens manifestadas" "nem morrem" - porque sobrevivem
na memória culpada - "nem se manifestam" como novas
realidades, mas como reflexos de uma realidade já
experimentada e vivida.

85. Jesus disse: - Adão foi criado por um grande poder e uma
grande riqueza e não foi digno de vocês; porque se ele
houvesse sido digno (não teria) provado a morte.

Mesmo sendo criatura muito especial, por considerá-lo a
Bíblia o iniciador da raça humana na Terra - evidente
alegoria - e apesar de ter vindo também da majestade divina,
dotado de poder e sabedoria, Adão não conheceu os
mistérios da vida e acabou provando a morte, ou seja,
envolveu-se na alienação causada pelo mergulho na matéria
densa. Relembramos aqui o logion inicial do Evangelho de
Tomé, ao ensinar que quem atinasse com a interpretação
deste logia não conheceria a morte, isto é, teria alcançado o
sentido pleno da vida.
86. Jesus disse: - (As raposas têm suas tocas) e os pássaros
têm (seus) ninhos, mas o Filho do Homem não tem um
lugar onde repousar sua cabeça.

Não vemos nisto uma lamentação de Jesus por não dispor de
lugar onde repousar a cabeça cansada, ao passo que até os
bichos têm onde ficar nos momentos de repouso. Ratifica
apenas a condição daquele que, tornando-se Filho do
Homem, libertado do ciclo das existências na carne, não
mais precisa nem mesmo de uma pedra para descansar a
cabeça. E nem a deseja.

87. Já analisamos este logion em conexão com os de número
56.

88. Jesus disse: - Os anjos virão até vocês, como também os
profetas, e lhes darão o que a vocês pertence. E vocês
também, o que estiver em suas mãos dêem a eles e digam a
si mesmos: quando eles virão e onde receberão o que lhes é
devido?

Ora, o logion 88 somente pode ser entendido
adequadamente no contexto dentro do qual havia um
intercâmbio ativo entre vivos e mortos. O termo anjo, que
vimos ainda há pouco usado para descrever o corpo
espiritual do ser humano, também significa mensageiro. E é
assim que Rohden traduz a palavra, corretamente, a meu
ver. Realmente, os seres que se encontram no mundo
invisível entre uma existência que terminou na carne e a
seguinte, na qual voltarão a ligar-se a um corpo material,
manifestam-se entre os chamados 'vivos', utilizando-se da
instrumentação de seus corpos espirituais. Esse corpo (duplo
ou corpo astral, como dizem alguns) preexiste ao
nascimento e sobrevive à morte corporal física. É, portanto,
autônomo, podendo agir com o corpo físico, ou seja,
acoplado desatrelado deste, seja temporariamente enquanto
o corpo repousa, seja definitivamente depois que o corpo
morre.
A manifestação dos 'mortos', contudo, exige determinadas
condições operacionais, a primeira das quais é a de que haja
à disposição dos emissários invisíveis ou arautos, como
traduz Rohden, uma pessoa viva, ou melhor, um espírito
ligado a um corpo físico. Esta pessoa, que não passa de um
intermediário dotado de faculdades especiais de sensibili-
dade, era conhecida no contexto bíblico e neotestamentário
pelo nome de profeta. Ao traduzir os originais hebraicos do
Antigo Testamento para o grego, foi infeliz a escolha do
termo prophetes. Profetas eram os que faziam profecias, ou
seja, previsões e predições em estado semelhante ao transe,
hoje caracterizado como estado alterado de consciência. Na
verdade, porém, o termo original não trazia consigo essa
conotação futurológica; servia apenas para indicar a pessoa
que, sob determinadas circunstâncias, entrava num estado
de excitação, hoje conhecido como transe. Ao verter-se o
termo para o grego prophetes, perdeu-se de vista o
significado anterior, bem mais amplo e significativo. Disso
resultou que muitos ficaram até hoje sem saber
precisamente o que quer dizer profeta num contexto em
que nenhum aspecto da profecia enquanto previsão, está
sendo cogitado ou discutido.
Em suma: o profeta é, na realidade, um intermediário, entre
o mundo ou dimensão invisível, onde vivem os seres
desligados temporariamente da matéria, e aqueles que ainda
estão aqui, na Terra, como todos nós, prisioneiros temporais
do corpo físico. É neste sentido que o termo está empregado
no logion 88, no qual se anuncia um tempo em que os anjos
(mensageiros) virão confabular com os seres humanos
através dos intermediários (profetas). O logion recomenda
que sejam bem recebidos e que os seres da Terra recebam a
mensagem que lhes for trazida e retribuam com o que for
devido aos mensageiros, em termos de consideração,
respeito e amor fraterno. O que não exclui, absolutamente,
os cuidados e o senso crítico que devem nortear qualquer
tipo de relacionamento entre grupamentos humanos, sejam
quais forem.

89. Disse Jesus: - Por que vocês lavam o lado de fora da taça?
Não compreendem que aquele que fez o interior também
fez o exterior?

Está certo, pois, que se cuide da aparência externa das coisas
e de si mesmo, mas é preciso lembrar-se que há também um
interior em todos nós, uma parte oculta, ainda por revelar-se
e que compete a cada um desenvolver pelo seu trabalho
pessoal. A pessoa pacificada e sábia projeta no exterior os
aspectos positivos de suas conquistas espirituais, de vez que,
como nos assegura o logion, tanto as realidades visíveis e
aparentes, como as invisíveis e não manifestas provêm de
uma só fonte criadora.
90. Jesus disse: - Venham a mim, pois meu jugo é suave e
meu domínio é doce e vocês encontrarão o repouso para si
mesmos.

Novamente a expressão repouso, que entendemos como
paz. O dito é conhecido e figura também nos canónicos.
Jesus expressa seu desejo de ensinar, liderar e servir, mas
não de dominar e oprimir.

91. Este logion foi comentado em conexão com o de
número 43.

92. Jesus disse: - Busquem e encontrarão, mas as coisas que
vocês me perguntaram naquele tempo e que ainda não lhes
disse, agora que me apraz dizê-lo, vocês não me perguntam.

Este curioso dito nos leva a supor que Jesus esteja falando de
uma condição póstuma, numa das suas inúmeras
manifestações pessoais aos discípulos mais chegados após a
chamada ressurreição. Temos a respeito o repetido
testemunho de Paulo em suas epístolas, documentos que
chegaram ao nosso tempo relativamente preservados de
interferências e manipulações.
No logion 92, Jesus reitera o ensinamento básico da busca
incessante, que já constara do logion número 2. Mas
acrescenta a observação de que houve um tempo em que
algumas perguntas colocadas pelos discípulos ele não
respondeu. No momento novo em que lhes fala, está em
condições de atender àquelas dúvidas, mas os discípulos
parecem um tanto inibidos, ao que se supõe. Seria a emoção
de um sagrado momento de intercâmbio póstumo? É o que
parece.

93. Jesus disse: - Não dêem as coisas santas aos cães, para que
eles não as arrastem para o monturo; não atirem pérolas aos
porcos, para que não façam delas...

O dito se apresenta mutilado, mas assemelha-se ao que
também consta nos canônicos. Há quem interprete a alusão
como endereçada aos gentios, considerados indignos da
mensagem, que estaria reservada aos judeus. Quanto a mim,
não vejo essa conotação. Vejo no dito apenas a idéia básica
de que é inútil e até inconveniente tentar transmitir
conhecimento superior àqueles que não se encontram
preparados para recebê-lo e pô-lo em prática. Foi essa, aliás,
a metodologia adotada pelo próprio Jesus, que reservou a
parte secreta de seu pensamento a uns poucos nos quais
identificou recursos intelectuais e morais suficientes para
receberem tais ensinamentos.
Lamentavelmente essa linha de raciocínio não prevaleceu
na estruturação do cristianismo como doutrina e como
movimento. A corrente que se dedicava aos ensinamentos
mais avançados ou secretos foi extinta com a rejeição aos
gnósticos e, mais tarde, aos maniqueus, ao passo que a outra
corrente, majoritária e quantitativa, predominou, utilizando-
se apenas da parte exotérica, sobrecarregada de inúmeras e
irreparáveis deformações.

94. Jesus disse: - Quem procura, achará, (e quem bate), a
porta lhe será aberta.

Nova reiteração acerca da necessidade da busca, da
insistência na procura, porque os caminhos do
conhecimento acabarão por revelar-se ao que assim faz.

95. Jesus disse: - Se vocês têm dinheiro não o emprestem a
juros, dêem-no a quem não lhes possa restituí-lo.

Encontramos mais um dito no qual se insiste na idéia da
renúncia aos bens materiais. Não há dúvida, porém, de que
se trata de tarefa difícil convencer alguém que disponha de
dinheiro a emprestá-lo sem juros a quem nem possa restituí-
lo. Como dizia Paulo, o Cristo sacrificado era escândalo para
os judeus e loucura para os gentios. Da mesma forma, pode
parecer loucura e escândalo emprestar dinheiro àquele que
não tem condições de restituí-lo, mas o que assim fizer
estará demonstrando que atingiu um patamar evolutivo em
que compreende que os bens da Terra são recursos
transitórios que a ele próprio foram emprestados enquanto
aqui estiver. E melhor usar o dinheiro para ajudar a quem
tanto precisa dele que não pode pagá-lo de volta do que
empregá-lo em oprimir e destruir vidas preciosas. É também
evidente que o ensinamento prescreve que o bem deve ser
praticado independentemente de qualquer expectativa de
retribuição. O bem que se faz ao próximo deve ter as puras
características de uma doação. Ele tem a recompensa na sua
própria prática, dado que revela o estado evolutivo mais
avançado daquele que o faz por amor ao próprio bem.

96. Jesus (disse): - O Reino do Pai assemelha-se a uma
mulher que tomou um pouco de fermento e o escondeu na
massa e fez grandes pães. Aquele que tenha ouvidos, que
ouça.

Outra maneira de dizer que o Reino de Deus, ou seja, a
realização da paz interior, resulta de um processo que se
desenvolve sem estardalhaços na intimidade do ser, mas
acaba produzindo resultados espantosos, a partir de tão
modestas origens e singelos métodos. A mesma idéia básica
ficou contida na imagem da semente de mostarda,
despretensiosa e minúscula, que produz surpreendentes
resultados. A conquista do Reino, portanto, não é
acontecimento externo, coletivo, resultante de um impulso
da vontade messiânica, mas trabalho silencioso e pessoal.

97. Jesus disse: - O Reino do (Pai) é semelhante a uma
mulher que leva um vaso cheio de farinha. À medida que
ela segue por um longo caminho, a alça do vaso se quebra e
a farinha se espalha atrás dela pelo caminho. Ela não o
percebe e não toma conhecimento da perda. Ao chegar em
casa, ela pousa o vaso no chão e o encontra vazio.

O logion é de difícil interpretação. Pode-se ler nele a idéia
de que a mulher foi desatenta e deixou perder toda a farinha
pelos caminhos e ao chegar em casa não tem com que fazer
o pão. Mas também que ao longo do caminho desapegou-se
sem o perceber do interesse pela matéria, pois não parece
nada preocupada ao verificar, ao chegar, que não tem
farinha para fazer pão. E será que o esvaziamento do vaso
não significa precisamente que é preciso abrir espaço íntimo
para que a presença de Deus o ocupe?
A edição de Brill lembra que algumas expressões são ou
podem ser traduzidas de maneira diferente, o que também
informa Puech.
Puech propõe para este logion uma brilhante interpretação.
Após examinar a dicotomia cheio/vazio que figura em mais
de uma passagem em Tomé, lembra que, ao partir para a
vida terrena, deixando o Reino, aquele que não for "alertado
e instruído pela gnose, afasta-se cada dia mais de suas
origens". E conclui:

Ele ignora, ao partir, que, em conseqüência de seu
nascimento carnal, produz-se uma ruptura que ameaça a
integridade do que ele era e possuía na origem, em perfeição
e plenitude (...). Ele se deixa escapar, ele próprio, e escapa
de si mesmo, como se espalha ao longo do caminho o
conteúdo do vaso partido.

Dentro desse esquema, portanto, entende-se que, desatenta
de sua própria realidade espiritual, a mulher do logion 88
nem se dá conta de que, tendo iniciado sua longa jornada
com um vaso repleto de expectativas e de conhecimento
imanente ainda que inconsciente, chega ao final vazia, sem
realizações ou conquistas pessoais. Daí a importância do
esforço em adquirir conhecimento enquanto ainda se está
na carne ou vir para ela bem alertado para a possibilidade de
ruptura de que nos fala Puech.

98. O Reino do Pai é semelhante a um homem que desejou
matar importante personagem. Sacou a espada em casa e a
enterrou na parede para verificar se sua mão era bastante
forte. Só então ele matou a importante personagem.

É estranho ouvir um logion deste como originário do
pensamento de Jesus, mas, se autêntico, sua linguagem é
evidentemente simbólica. Provavelmente se refere aos
cuidados e à força de que temos de dispor se é que
desejamos eliminar aspectos indesejáveis de nosso caráter (a
importante personagem). É preciso muita força, coragem e
determinação para fazê-lo, porque trazemos todos, antigas
paixões consolidadas no íntimo a manobrarem matrizes de
comportamento inaceitáveis para aquele que se propõe
alcançar o Reino de Deus: egoísmo, orgulho, vaidade,
prepotência e outros.

99. Os discípulos lhe disseram: - Teus irmãos e tua mãe estão
aí fora. Ele lhes disse: - Estes aqui, que fazem a vontade de
meu Pai, são meus irmãos e minha mãe; são eles que
entrarão no Reino de meu Pai.

A passagem é referida também nos canónicos, segundo os
quais os parentes de Jesus vieram para uma tentativa de
levá-lo de volta ao lar, pelos riscos que corria e pela
estranheza das idéias que pregava. João observa mesmo que
o tinham por um tanto alienado. Não sei se podemos
endossar tais informes. É certo, porém, que Jesus fixa
importante posição neste dito, ao deixar entendido que não
se conquista o Reino dos Céus nem mesmo por estreitas
ligações com os que já estejam em elevada posição
espiritual, mas sim por intenso e extenso trabalho realizado
na intimidade de cada um.
Após o logion número 100, que cuida do tributo a César,
volta o logion 101 aos problemas do relacionamento
familiar. Vejamo-lo:

100. Jesus disse: - Quem não odeia seu pai e sua mãe,
como eu, não pode ser meu discípulo, e quem não quer
amar seu pai e sua mãe, como eu, não pode ser meu
discípulo. Porque minha mãe me (gerou?) mas minha (mãe)
verdadeira me deu a Vida.

O texto deste logion está bastante mutilado. Os claros são
preenchidos com as devidas ressalvas (entre parênteses),
mas os tradutores não se arriscam a propor o verbo da
penúltima sentença. Da maneira como se apresenta, há nele
a implicação de que o amor que se dedica aos pais não deve
conflitar com aquele que se deve a Deus. Ao contrário de
eliminarem-se mutuamente, eles são complementares,
colocando-se os sentimentos que compõem o
relacionamento pais/filhos num contexto realista. E
evidente que o verbo odiar deveria ter outro significado
naquele tempo, o de mero contraste com o sentimento do
amor sem conotações de rancor. Mensageiro de uma
suprema doutrina de amor, o Cristo não poderia estar
pregando o ódio aos pais, mas destacando a prioridade que
se devia a Deus. Se por amor aos pais cometemos equívocos
ou crimes mais sérios, não estaremos amando a Deus.
Quanto ao jogo de palavras em torno da mãe, a que gerou (?)
e a que deu a Vida, há quem explique da seguinte maneira: a
mãe que gerou, é a que produziu o corpo físico, necessário
ao estágio do ser espiritual na Terra, ao passo que o espírito
provém de Deus, que remotas tradições esotéricas
conservaram como contendo também um princípio
feminino.
Quanto à mãe - esclarece Puech - ela corresponde ao
Espírito Santo, ao Espírito, ruah, termo feminino em
semítico, de assimilação freqüente nos meios judaico-
cristãos.
Seja como for, Jesus distingue a família universal da família
consangüínea. Em tarefas transcendentes como foi a sua
entre nós, a prioridade vai nitidamente para a família
universal. Se ele se deixasse prender demais pelos vínculos
de parentesco, não teria conseguido levar a bom termo a sua
tarefa.

100. Eles mostraram a Jesus uma moeda de ouro e lhe
disseram: - Os homens de César exigem de nós os tributos.
Ele lhes disse: - Dêem a César o que é de César, dêem a
Deus o que é de Deus, e a mim o que me pertence.

Dito semelhante figura nos sinóticos, onde não aparece,
contudo, a enunciação final, segundo a qual Jesus exige
também a sua parte.
Importante aspecto desta observação final é o de que, como
assinala Puech, Jesus se posiciona "muito expressamente"
como personalidade distinta de Deus: uma parte é de Deus,
a outra é dele, Jesus.
A resposta é um modelo de sabedoria, concisão e presença
de espírito, como várias outras registradas nos evangelhos.
Em diferentes oportunidades, escribas e fariseus tentaram
envolvê-lo, com perguntas ardilosas, em situações
embaraçosas. Esta é uma delas. Se Jesus respondesse
simplesmente que o tributo deveria ser pago, sem reservas,
suscitaria a cólera cívica de todos, de vez que o imposto era
o testemunho vivo e doloroso da submissão a um poder
estranho, ao gentio opressor que desrespeitava as tradições
do povo judeu. Se Jesus desaconselhasse o pagamento,
estaria pregando abertamente a desobediência civil, que as
autoridades romanas não tolerariam de forma alguma.
Ele preferiu, na sua resposta, aproveitar o ensejo para uma
clara definição de responsabilidades: havia uma obrigação
material e civil a César, conseqüência da dominação,
penosa, mas irrecusável, que não poderia ser impunemente
ignorada, e uma obrigação perante Deus, de caráter
espiritual, permanente e não menos importante do que a
outra e que implicava graves responsabilidades.
Havia, finalmente, uma parte devida a ele, Jesus, certamente
em atenção à sua mensagem, de tão amplas e profundas
implicações.
Ressalte-se, ainda, que ele não considera conflitantes as
obrigações e sim conciliáveis na sua autonomia e inevitável
convivência.

102. Este logion foi estudado em conexão com o de
número 39.
103. Jesus disse: - Feliz o homem que sabe a que horas
da noite virão os ladrões, pois assim ele se levantará, reunirá
suas (forças?) e cingirá sua cintura antes que eles entrem.

O logion reitera a postura de permanente vigilância em
relação às surpresas do caminho evolutivo. A imagem do
ladrão é usada em mais de uma passagem, mesmo nos
canónicos, pela imprevisibilidade do momento em que
podem cair sobre a vítima.
O texto aparece com algumas mutilações que puderam ser
inferidas e outras não identificadas. Cingir os rins é colocar
um cinturão, ao qual provavelmente ficava preso um
punhal. O sentido é o mesmo do conhecido "orai e vigiai",
que não apenas nos deixa em estado de alerta, mas também
cria em torno da pessoa um sistema de proteção e ajuda.

104. Disseram-lhe: - Vem, vamos orar hoje e jejuar.
Jesus disse: — Que pecado teria eu cometido ou em que
teria eu sido vencido? Mas quando o esposo sair da câmara
nupcial, então que jejuem e orem!

Temos nos escritos canónicos várias passagens em que Jesus
se põe a orar. Em outras, faz ele referência ao jejum; nesta,
porém, ele recusa o convite para orar e jejuar, alegando não
se encontrar em estado de pecado, falta ou derrota moral.
Embora não figure no texto, é provável que a proposta
tenha sido formulada nesse contexto, ou seja, orar e jejuar
com a intenção de purificar-se de faltas cometidas. Não é o
caso de Jesus. Em mais de uma oportunidade ele vincula o
erro à expiação através da dor, tanto quanto cura, exaltando
a fé da pessoa curada. Há, portanto, estreita vinculação
nesses aspectos, mas ele tem plena consciência de que não
traz faltas de comportamento a resgatar.
Mesmo depois que o esposo deixar a câmara nupcial, ele não
se dispõe a juntar-se ao grupo de jejuadores, dizendo apenas
que os outros "jejuem e orem". A expressão "câmara
nupcial" ocorre com freqüência nos textos gnósticos. É a
imagem da união com Deus, ou melhor, da reintegração da
divindade, pois a câmara nupcial é o local onde os dois se
tornam um.

105. Jesus disse: - Aquele que conhece pai e mãe será
chamado filho da prostituta?

O ponto de interrogação não consta em Puech, nem na
edição de Brill, mas Hennecke cita Quecke em abono dessa
versão.
Realmente, a frase não faria sentido de outra maneira, ou
seja, na sua expressão afirmativa. Entendo que signifique
precisamente isso: que aquele que se mantém ligado às suas
origens - pai e mãe - não está abandonado à sua sorte, nem é
um réprobo.
A alusão à paternidade divina é transparente, a referência à
mãe reporta-se ao espírito (feminino).

106. Examinado em conexão com o logion número 48.

107. Disse Jesus: - O Reino é semelhante a um pastor
que tinha cem ovelhas. Uma delas, a maior, extraviou-se.
Ele deixou as noventa e nove e a procurou até encontrá-la.
Depois de todo esse trabalho, ele disse à ovelha: - Amo-te
mais do que às noventa e nove.

Este logion parece vinculado ao 105, onde é dito que não é
um bastardo aquele que conhece pai e mãe. O pastor não
admite que nenhuma de suas ovelhas se extravie e é capaz
de abandonar todo o grupo restante, para sair em busca de
uma única que se perdeu.
A parábola difere um pouco da maneira como está exposta
nos canónicos. Em Tomé, o rebanho constitui um todo,
unidade que se quebra se apenas uma ovelha se perde. O
pastor sai em campo e, com grandes sacrifícios - Puech usa
o termo peine (pena, castigo, desgosto, aflição, trabalho,
dificuldade) -, traz de volta a ovelha perdida e ainda lhe
declara o quanto a ama. Realmente, precisa de mais amor
aquele que se perdeu para que se sinta à vontade para a
reintegração ao seu grupo, na unidade do rebanho.
Sintomaticamente, a declaração de amor não é à vista do
rebanho todo, mas, em particular, à ovelha perdida, talvez
para que não haja ressentimentos e ciúmes da parte das
outras noventa e nove. Não está abandonada a ovelha que
tem seu pastor. Ela pode contar com ele e com o seu amor.

108. Jesus disse: - Quem beber de minha boca se tornará
como eu e eu próprio me tornarei ele e as coisas ocultas lhe
serão reveladas.

Jesus se apresenta aqui como o pioneiro que desbravou o
caminho da perfeição e se mostra disposto a transmitir a
todos as informações que o levaram a essa importante
conquista. Mais ainda, ele assegura que todos se tornarão
como ele, ou seja, atingirão o mesmo nível evolutivo, desde
que sigam a orientação que lhes proporciona. Idéia
semelhante consta dos canónicos, onde ele declara que
qualquer um poderia fazer o que ele fazia e ainda mais. Ao
cabo de longo processo evolutivo, todos se equivalerão,
portanto, em conhecimento e grandeza moral, todos estarão
reunidos em Deus, reintegrados na luz criadora de onde
todos viemos.
Neste ponto, quase ilimitado será o conhecimento
adquirido, que inclui a penetração dos segredos de tudo
quanto permanecera oculto.
Este logion oferece motivação para um aprofundamento em
suas implicações. Como se pode observar, ele contém um
esquema de salvação que difere substancialmente daquele
que se consolidou na teologia ortodoxa. De certa forma,
Jesus é ainda o salvador, no sentido de que ele coloca à
disposição de todas as criaturas o roteiro que leva às
culminâncias dos estágios evolutivos, na integração com
Deus, mas não é ele quem promove pessoalmente a
salvação, como um Messias, assumindo por nós as nossas
faltas. Não propõe nem sugere ou promete salvação coletiva
àqueles que acreditarem nele por um impulso de fé. Ele se
propõe a ensinar a cada um o caminho que leva às
conquistas finais do processo evolutivo, mas fica bem claro
que ele pessoalmente não levará ninguém lá. O trabalho, as
lutas, as dificuldades e as conquistas são tarefas de cada um.
Ele é o Mestre que ensina o caminho, não o Messias que
salva a todos por um passe de mágica cósmica. É também
essa, a postura da Dra. Pagels, neste passo.

109. Jesus disse: - O Reino é semelhante a um homem
que tinha no seu campo um tesouro (escondido) e que ele
próprio ignorava e, após a sua morte, ele o deixou ao seu
filho. O filho de nada sabia; tomou o campo e o vendeu. E
aquele que o comprou, veio e, trabalhando, encontrou o
tesouro. E começou a emprestar dinheiro a juros a quem ele
queria.

Reitera-se neste logion o conceito de que a conquista do
reino resulta de esforço pessoal, de trabalho duro e longo
como se pressupõe naquele que somente encontrou o
tesouro escondido ao lavrar o campo. Vemos, ainda, que
tanto o proprietário originário, o pai, como o filho,
ignorando a presença do tesouro oculto, na intimidade de
cada um, não se esforçaram no trabalho e perderam a
oportunidade de encontrá-lo. As potencialidades de
realização existem para todos, mas são poucos os que se
decidem a trabalhar para concretizá-las. É a tese constante
da realização pessoal, em contraste com a da salvação
coletiva com que se premiaria a todos aqueles que
simplesmente cressem ou aceitassem o Cristo.
Este ponto é fundamental para entendimento da mensagem
contida no Evangelho de Tomé e nos demais documentos
gnósticos.
Uma nota curiosa: o empréstimo de dinheiro a juros não é
condenado aqui, nem no logion número 95. Apenas se
estabelece, neste último, que se atinge importante marco
evolutivo quando o dinheiro passa a ter tão irrelevante
significado que o seu dono é capaz de emprestá-lo, de
preferência, àquele que não pode restituí-lo.

110. Examinado em conexão com o logion 81.

111. Jesus disse: - Céu e Terra se enrolarão diante de
vocês e o Vivo saído do Vivo não conhecerá morte nem
temor; porque Jesus disse: - Aquele que se encontrar a si
mesmo no mundo, o mundo não lhe será digno.

Sugestivo é este logion que retrata a confiança daquele que
já se reintegrou na divindade, consciente de ser o Vivo
criado pelo Vivo, mesmo que céus e Terra sofram uma
convulsão cósmica de grandes proporções. Nesse estágio de
evolução o ser não temerá a morte, por estar perfeitamente
consciente de que a vida é um fluxo eterno e constante, no
plano da matéria densa ou alhures, em outras dimensões,
onde quer que esteja a individualidade.
O anotador dos logia acrescenta uma espécie de comentário,
lembrando que Jesus já dissera que, atingido o elevado
patamar evolutivo em que o ser tem consciência de si
mesmo, pouco lhe importa o mundo da matéria. Poderá este
mundo servir a inúmeros seres que ainda precisam de
instrumento de trabalho para as suas conquistas espirituais,
mas aquele que se tornou Vivo (despertado para as
realidades últimas) transcendeu o mundo, que se tornou
supérfluo para ele ou, na linguagem do logion, indigno dele.

112. Já estudamos este logion ao analisar o de número 56.

113. Examinamos o tema deste logion ao comentar o de
número 3.

114. Este foi comentado juntamente com o de número
22.

IV - O Documento

Eis as palavras secretas que Jesus, o Vivo, disse e que
Dídimo Judas Tomé escreveu.

1. E ele disse: - Aquele que descobrir a interpretação destas
palavras não experimentará a morte.
2. Jesus disse: - Aquele que procura não cesse de procurar
até quando encontrar; e quando encontrar, ficará
perturbado; e ao perturbar-se, ficará maravilhado e reinará
sobre o Todo.
3. Jesus disse: - Se aqueles que os guiam lhes disserem: - Eis
que o Reino está nos céus, então as aves do céu lhes
precederam. Se lhes disserem que ele está no mar, então os
peixes já lhes precederam. Mas o Reino está dentro de vocês
e também fora de vocês. Quando vocês conhecerem a si
mesmos, então serão conhecidos e saberão que são filhos do
Pai Vivo. Mas, se vocês não conhecerem a si mesmos, então
vocês estão na pobreza e são a pobreza.
4. Jesus disse: - O homem envelhecido em seus dias não
hesitará em questionar a uma criança de sete dias acerca do
Lugar da Vida, e ele viverá, porque muitos dos primeiros
serão os últimos, e se tornarão um só.
5. Jesus disse: - Conhece o que está diante de tua face, e o
que estiver oculto lhe será revelado; pois nada há oculto que
não seja descoberto.
6. Seus discípulos interrogaram-no, dizendo: - Queres que
jejuemos? Como deveremos orar? Devemos dar esmolas? E
que normas observaremos ao comer? Jesus disse: - Não
mintam e não façam aquilo que é odioso, porque tudo será
desvelado perante o Céu. Nada há, com efeito, oculto que
não venha a tornar-se manifesto, e nada encoberto que
permaneça sem ser descoberto
7. Jesus disse: - Bem-aventurado o leão que o homem
comerá, e o leão se tornará homem; maldito seja o homem
que o leão comera e o leão se tornará homem.
8. E ele disse: - O homem é como um sábio pescador, que
lançou sua rede ao mar e a puxou para fora cheia de
pequenos peixes. Entre eles encontrou um peixe grande e
bom. Atirou todos os peixes pequenos ao mar e, sem
dificuldade, escolheu o peixe grande. Aquele que tiver
ouvidos de ouvir, que ouça.
9. Jesus disse: - Eis que o semeador saiu, encheu suas mãos e
atirou (as sementes). Algumas caíram no caminho; vieram
os pássaros e as recolheram. Outras caíram sobre a rocha, e
elas não soltaram raízes pela terra a dentro, nem fizeram
brotos crescerem para o céu. E outras caíram entre os
espinhos, que sufocaram as sementes, e os vermes as
comeram. E outras caíram em terra boa e produziram bons
frutos lá em cima: ela produziu sessenta por medida e cento
e vinte por medida.
10. Jesus disse: - Lancei o fogo sobre o mundo, e eis que o
observo até que ele esteja em chamas.
11. Jesus disse: - Este céu passará e também aquele que está
por cima deste. E os mortos não estão vivos e os vivos não
morrerão. Ao tempo em que vocês comiam o que estava
morto, tornavam-no vivo. Quando se encontrarem na luz,
que farão? Quando eram um, vocês se tornaram dois, mas
quando se tornarem dois que farão?
12. Os discípulos disseram a Jesus: - Sabemos que tu nos
deixarás. Quem será grande entre nós ? Jesus lhes disse: -Do
lugar para onde vocês vão, procurarão Tiago, o Justo, por
quem o céu e a terra foram criados.
13. Jesus disse aos seus discípulos: - Comparem-me e digam-
me com quem pareço? Disse-lhe Simão Pedro: - Tu pareces
com um anjo justo. Disse-lhe Mateus: - Tu pareces com um
sábio filósofo. Tomé lhe disse: - Mestre, minha boca não
aceitará absolutamente que eu diga a quem te assemelhas.
Jesus disse: - Não sou seu mestre, pois que você bebeu e se
embebedou na fonte borbulhante que lhe proporcionei. E
ele o tomou à parte e lhe disse três palavras. Ora, quando
Tomé voltou à presença de seus companheiros, estes lhe
perguntaram: - Que te disse Jesus? Tomé lhes disse: - Se lhes
dissesse uma só das palavras que ele me disse, vocês
tomariam pedras nas mãos e as lançariam contra mim e um
fogo sairia das pedras e queimaria vocês.
14. Disse-lhes Jesus: - Se vocês jejuarem, cometerão pecado;
se orarem, serão condenados; se derem esmolas, causarão
danos aos seus próprios espíritos. E se entrarem em
qualquer região, em viagem pelos campos, e forem
recebidos, comam do que for posto diante de vocês e
cuidem dos que estiverem doentes entre eles. Na verdade, o
que entrar pela boca não os tornará impuros, mas o que sair
da boca, isso os tornará impuros.
15. Jesus disse: - Se vocês virem alguém que não seja filho
de mulher, prostem o rosto em terra e adorem-no - ele é Pai
de vocês.
16. Jesus disse: - Talvez os homens pensem que vim para
trazer a paz ao mundo, e não saibam que vim para trazer as
separações sobre a terra, o fogo, a espada, a guerra. Haverá
cinco numa casa; três estarão contra dois e dois contra três,
o pai contra o filho e o filho contra o pai. E eles continuarão
solitários.
17. Jesus disse: - Eu lhes darei o que nenhum olho viu, o que
nenhum ouvido tenha ouvido, o que a mão jamais tocou e o
que não alcançou o coração do homem.
18. Os discípulos disseram a Jesus:-Dize-nos como será o
nosso fim. Jesus disse: - Já descobriram vocês o princípio
para procurarem saber como é o fim? Pois onde está o
princípio, aí estará o fim. Feliz aquele que se coloca no
princípio; ele conhecerá o fim e não provará a morte.
19. Jesus disse: - Feliz aquele que era antes de ter sido. Se
vocês se tornarem meus discípulos e ouvirem minhas
palavras, aquelas pedras lhes servirão. Há, em verdade,
cinco árvores no Paraíso que não se movem no verão nem
no inverno, e suas folhas não caem. Aquele que as conhecer
não provará a morte.
20. Disseram os discípulos a Jesus: - Diga-nos a que se
assemelha o reino dos céus. Ele lhes disse: - Assemelha-se a
um grão de mostarda, a menor de todas as sementes; mas
que, ao tombar sobre a terra cultivada, produz um grande
galho e se torna abrigo para as aves do céu.
21. Disse Maria a Jesus: - A que se assemelham teus
discípulos ? Ele disse: - Assemelham-se a crianças que
residem num campo que não lhes pertence. Quando chegar
o dono do campo, ele dirá: - Saiam do meu campo. Eles se
desnudam na presença do dono, e lhe entregam o campo.
Por isso eu digo: Se o dono da casa sabe que o ladrão virá,
ele velará enquanto este não vem e não deixará que ele
penetre na casa de seu reino, a fim de carregar seus bens.
Vocês, contudo, velem à face do mundo, cinjam a cintura
com grande força para que os ladrões não encontrem meio
de chegar até vocês. Porque, a vantagem com a qual vocês
contam, eles a encontrarão. Que haja entre vocês um
homem prevenido. Quando o fruto amadureceu, ele veio
rápido, com a foice na mão e o colheu. Quem tenha ouvidos
de ouvir que ouça.
22. Jesus viu umas crianças que mamavam. Ele disse aos seus
discípulos: - Estas crianças assemelham-se aos que entram
no Reino. Eles lhe disseram: - Então, tornando-nos crianças,
entraremos no Reino? Jesus lhes disse: - Quando vocês
fizerem de dois um e fizerem o interior como o exterior, o
exterior como o interior, e o que está em cima como o que
está embaixo, e quando fizerem do masculino e do feminino
uma só coisa, de sorte que o masculino não seja masculino e
o feminino não seja feminino, quando fizerem dois olhos
em lugar de um olho, e uma mão em lugar de uma mão e
um pé em lugar de um pé, uma imagem em lugar de uma
imagem, então entrarão (no Reino).
23. Jesus disse: - Eu os escolherei um em cada mil e dois em
dez mil e eles serão um só.
24. Seus discípulos disseram: - Faz-nos conhecer o lugar
onde tu estás, pois necessitamos procurá-lo. Ele lhes disse: -
Aquele que tem ouvidos, que ouça! Há luz dentro de um ser
de luz e ele ilumina o mundo todo. Se ele não iluminar, as
trevas se fazem.
25. Jesus disse: - Ame seu irmão como à sua própria alma;
vele por ele como pela menina dos seus olhos.
26. Jesus disse: — O cisco no olho do seu irmão você vê,
mas a trave no seu olho você não vê. Quando retirar a trave
dos seus olhos, então você verá como retirar o cisco do olho
de seu irmão.
27. Jesus disse: - Se vocês não jejuarem em face do mundo,
não encontrarão o Reino; se não guardarem o sábado como
sábado, não verão o Pai.
28. Jesus disse: — Estive no meio do mundo e me manifestei
a eles na carne. Encontrei-os a todos bêbados e nenhum
deles com sede; e minha alma sofreu pelos filhos dos
homens, pois eles são cegos em seus corações e não
enxergam que vieram ao mundo vazios e vazios procuram
sair do mundo. Agora estão bêbados e só se arrependerão
quando abandonarem o vinho.
29. Jesus disse: - Se a carne foi feita para o espírito, é
maravilhoso, mas, se o espírito (foi feito) por causa do
corpo, isso é a maravilha das maravilhas. Quanto a mim,
contudo, maravilho-me disto: de que tão grande riqueza
tenha sido colocada nesta pobreza.
30. Jesus disse: - Onde há três deuses, eles são deuses; onde
há dois ou um, eu estou com ele.
31. Jesus disse: - Nenhum profeta é aceito em sua cidade.
Um médico não cura aqueles que o conhecem.
32. Jesus disse: - Uma cidade construída sobre uma elevada
montanha (e) fortificada não cairá, nem poderá permanecer
oculta.
33. Jesus disse: - Aquilo que você ouve com um ouvido e
com o outro, proclame-o de cima dos telhados. Com efeito,
ninguém acende uma lâmpada para botá-la debaixo de um
alqueire, nem pô-la em local escondido; mas no lampadário,
para que quem quer que entre e saia, veja a sua luz.
34. Jesus disse: - Se um cego conduz outro cego, caem
ambos no poço.
35. Jesus disse: - Não épossível que qualquer um entre na
casa de um homem forte e a tome à força, a menos que lhe
amarre as mãos: dessa maneira ele poderá saquear-lhe a casa.
36. Jesus disse: —Não se preocupem de manhã à noite e da
noite até o amanhecer sobre o que irão vestir.
37. Seus discípulos disseram: - Em que dia te revelarás a nós
e em que dia te veremos? Jesus disse: - Quando vocês se
despirem e não se sentirem envergonhados, tirarem suas
roupas e as colocarem sob os pés, como as crianças, e
pisarem nelas; então (vocês verão) o Filho do Deus Vivo e
nada temerão.
38. Jesus disse: - Muitas vezes vocês desejaram ouvir estas
palavras que ora lhes digo e não tinham vocês de quem
ouvi-las. Dias virão em que me procurarão e não me
encontrarão.
39. Jesus disse: - Os fariseus e os escribas receberam as
chaves do conhecimento e as ocultaram. Nem entraram
nem deixaram (entrar) aqueles que queriam fazê-lo. Vocês,
porém, sejam prudentes como as serpentes e inocentes
como as pombas.
40. Jesus disse: - Uma muda de videira foi plantada fora do
Pai e, como não se fortalece, será arrancada pelas raízes e
perecerá.
41. Jesus disse: — Aquele que tem algo na mão, mais lhe
será dado; aquele que nada tem, mesmo o pouco que tem
lhe será tomado.
42. Jesus disse: - Sejam transeuntes.
43. Seus discípulos lhe disseram: - Quem és tu, que nos dizes
tais coisas? (Jesus lhes disse:) - Pelo que lhes digo não sabem
vocês quem sou? Mas vocês se tornaram como os judeus,
que gostam da árvore, mas detestam seu fruto e gostam do
fruto e detestam a árvore.
44. Disse Jesus: - Aquele que blasfemar contra o Pai será
perdoado e, aquele que blasfemar contra o Filho será
perdoado; mas, aquele que blasfemar contra o Espírito Santo
não será perdoado, nem na terra nem no céu.
45. Jesus disse: - Não se colhem uvas nos espinheiros e não
se colhem figos entre os cardos: eles não dão frutos. Um
homem bom retira coisas boas de seu tesouro; um homem
mau retira coisas más do tesouro de seu coração e diz coisas
maldosas, pois da abundância de seu coração ele produz
coisas más.
46. Jesus disse: - De Adão até João Batista, ninguém nascido
de mulher é maior do que João Batista, de modo que seus
olhos não serão destruídos. Mas tenho dito: aquele dentre
vocês que se tornar pequeno conhecerá o Reino e será
maior que João.
47. Jesus disse: - Não é possível a um homem montar dois
cavalos, ou atirar com dois arcos ao mesmo tempo, como
não é possível a um servidor servir a dois senhores: ou
honrará a um e ofenderá o outro. Quem bebe vinho velho
não desejará beber imediatamente vinho novo. E não se
derrama vinho novo em velhos odres, temendo que estes
arrebentem e não se coloca vinho velho em odres novos
com receio de que se estrague. Não se cose pano velho em
roupa nova, pois se rasgará.
48. Jesus disse: - Se dois fazem a paz entre si na mesma casa,
eles dirão à montanha: - "Mova-se", e ela se moverá.
49. Jesus disse: - Felizes os solitários e os eleitos, porque
encontrarão o Reino. Vocês, de fato, saíram dele e a ele
retornarão.
50. Jesus disse: - Se lhes disserem: - De onde vêm vocês?
Respondam: - Nascemos da luz, lá onde a luz nasce de si
mesma; ela se ergue e se revela na sua imagem. Se lhes
disserem: - Quem são vocês? Digam: - Somos seus filhos e
eleitos do Pai Vivo. Se lhes perguntam: - Qual o sinal do Pai
que está em vocês? Digam-lhes: — É um movimento e um
repouso.
51. Seus discípulos lhe disseram: - Quando chegará o
repouso dos que estão mortos e quando virá o novo mundo?
Ele lhes disse: - Aquilo que vocês esperam já veio, mas
vocês não o conhecem.
52. Disseram-lhe os discípulos: - Vinte e quatro profetas
falaram em Israel e todos eles falaram de ti. Ele lhes disse: -
Vocês desprezam aquele que está vivo junto de vocês e
falam dos mortos.
53. Seus discípulos lhe disseram: — A circuncisão é útil ou
não? Ele lhes disse: - Se ela fosse útil, o pai deles (dos
meninos recém-nascidos) os teriam gerado circuncidados
em suas mães. Mas a verdadeira circuncisão em espírito é
inteiramente útil.
54. Jesus disse: - Felizes os pobres, pois deles é o Reino dos
Céus.
55. Jesus disse: - Aquele que não odiar seu pai e sua mãe não
pode ser meu discípulo, e (aquele que não) odiar seus irmãos
e suas irmãs e tomar sua cruz como eu, não será digno de
mim.
56. Jesus disse: - Aquele que conheceu o mundo achou um
cadáver, e aquele que encontrou um cadáver, o mundo não
é digno dele.
57. Jesus disse: - O Reino do Pai é semelhante a um homem
que plantou uma boa semente. Seu inimigo veio durante a
noite e semeou entre elas o joio. O homem não deixou (seus
servidores) arrancarem o joio. Ele lhes disse: - Temo que
vocês tenham vindo para arrancar o joio e arranquem o
trigo com ele; com efeito, no dia da colheita, o joio
aparecerá e será arrancado e queimado.
58. Jesus disse: - Feliz o homem que sofreu: ele encontrou a
Vida.
59. Jesus disse: — Olhem para aquele que Vive, enquanto
vocês viverem, para que não morram e procurem vê-lo sem
o conseguir.
60. Viram um samaritano que, levando uma ovelha, entrava
na Judéia. Ele disse a seus discípulos: - O que deseja aquele
ali fazer com a ovelha? Disseram-lhe: - Matá-la e comê-la.
Ele lhes disse: - Enquanto ela estiver viva, ele não a comerá,
mas (somente) quando ele a mata, ela se torna um cadáver.
Eles disseram: — Ele não poderá fazer de outra maneira. Ele
disse: - Vocês também; procurem um lugar no repouso a
fim de que não se tornem cadáveres e que não sejam
comidos.
61. Jesus disse: - Dois repousarão sobre uma cama: um
morrerá, o outro viverá. Salomé disse: — Quem és tu,
homem? E filho de quem? Subiste ao meu leito e comeste
em minha mesa. Jesus lhe disse: - Venho daquele que é
igual. A mim me foram dadas as coisas de meu Pai. (Salomé
disse): - Sou tua discípula. (Jesus disse): - Eis porque digo:
Quando ele for igual, estará pleno de luz, mas quando
estiver dividido, estará cheio de trevas.
62. Jesus disse: -Falo de meus mistérios àqueles (que são
dignos de meus) mistérios. Não deixe tua mão direita saber o
que faz a esquerda.
63. Jesus disse: - Um homem rico tinha muito dinheiro. Ele
disse: -Empregarei meu dinheiro para semear, colher
eplantar, encher meus celeiros de frutos, para que nada me
falte. Eis o que pensava em seu coração, e naquela mesma
noite ele morreu. Quem tenha ouvidos, que ouça!
64. Jesus disse: - Um homem preparou um banquete para
seus hóspedes mandou um servo a convidá-los. Este foi ao
primeiro deles e lhe disse: - Meu senhor te convida. (O
outro) disse: - Tenho dinheiro a receber de alguns
mercadores. Ele vêm me procurar à noite e eu tenho de
transmitir-lhes minhas ordens. Não posso aceitar o convite
para o banquete. Ele (o servo) foi a outro (conviva) e lhe
disse: -Meu senhor te convida. Este lhe respondeu: -
Comprei uma casa e me pediram um dia para isso. Não terei
tempo. Ele foi a outro e disse: - Meu senhor te convida. Ele
lhe disse: - Meu amigo vai se casar e eu lhe ofereço um
jantar. Não poderei comparecer. Peço para ser desobrigado
do banquete. Ele foi a outro e lhe disse: - Meu senhor te
convida. Ele lhe disse: Comprei uma fazenda. Vou receber o
dinheiro do arrendamento. Não terei como ir. Rogo ser
dispensado. O servo foi-se e disse ao seu senhor: - Aqueles
que o senhor convidou para jantar, desculparam-se. O
senhor disse ao seu servo: - Saia para as estradas. Traga
aqueles que você encontrar, para que jantem. Os
compradores e negociantes não entrarão nos lugares de meu
Pai.
65. Ele disse: - Um homem de bem possuía um vinha e a
deu a seus trabalhadores para que a trabalhassem e para que
pudesse receber deles o rendimento. E enviou seu servo
para que os trabalhadores lhe entregassem o rendimento da
vinha. Estes se apoderaram de seu servo e o espancaram,
pouco faltando para que o matassem. O servo se foi e
contou o que aconteceu ao seu senhor. Seu senhor lhe
disse: - Talvez eles não o tenham reconhecido. Enviou
outro servo: os trabalhadores bateram neste também. Então
o senhor enviou seu filho. E disse: - Talvez eles tenham
respeito pelo meu filho. Os trabalhadores, ao saberem que
ele era o herdeiro da vinha, apoderaram-se dele e o
mataram. Quem tenha ouvidos que ouça!
66. Jesus disse: - Mostrem-me a pedra que os construtores
rejeitaram: ela é a pedra angular.
67. Jesus disse: - Quem conhece o Todo, mas está privado de
si mesmo, priva-se do Todo.
68. Jesus disse: - Felizes vocês quando forem odiados,
quando forem perseguidos e não se encontrar o lugar onde
vocês foram perseguidos.
69. Jesus disse: — Felizes em seus corações aqueles que
forem perseguidos. Eles conheceram o Pai em verdade.
Felizes os famintos, porque eles serão satisfeitos naquilo que
desejarem.
70. Jesus disse: - Quando vocês revelarem o que está em
cada um, o que possuírem os salvará. Se não o tiverem em si
mesmos, o que não possuem os matará.
71. Disse Jesus: - Destruirei esta casa e ninguém será capaz
de reconstruí-la.
72. (Um homem lhe disse): - Fala com meus irmãos para que
eles dividam comigo os bens de meu pai. Ele lhe disse: -
Homem, quem fez de mim um partilhador? Ele voltou-se
para seus discípulos e lhes disse: -Não sou um partilhador,
sou?
73. Jesus disse: - A colheita é abundante, mas os
trabalhadores são poucos: Orem ao Senhor para que envie
mais trabalhadores para a colheita.
74. Ele disse: - Senhor, muitos estão ao redor do poço, mas
ninguém está no poço.
75. Jesus disse: - Muitos estão diante da porta, mas são os
solitários que entrarão na câmara nupcial.
76. Jesus disse: - O Reino do Pai é semelhante a um
mercador que possuía muita mercadoria e encontrou uma
pérola. Esse mercador era sábio: vendeu toda a sua
mercadoria e comprou para ele a pérola única. Vocês
também: procurem o tesouro que não perece, mas dura, que
se encontra onde a traça não entra para devorá-lo nem os
vermes podem destruí-lo.
77. Jesus disse: - Sou a luz que está sobre todos. Eu sou o
Todo: o Todo saiu de mim e o Todo retornou a mim.
Rachem um pedaço de madeira: lá estou eu; levantem a
pedra e me encontrarão ali.
78. Jesus disse: - Por que vocês saíram para o campo? Para
verem um caniço agitado pelo vento e para verem um
homem vestido de delicadas roupas? Eis que os reis e os
grandes homens são os que se vestem de (roupas) delicadas
e não poderão conhecer a verdade.
79. Uma mulher na multidão disse a ele: - Feliz o ventre que
te gerou e os seios que te nutriram. Ele lhe disse: — Felizes
aqueles que ouviram a palavra do Pai e praticaram a verdade.
Dias virão, com efeito, em que se dirá: Feliz o ventre que
não concebeu e os seios que não amamentaram.
80. Jesus disse: - Aquele que conhece o mundo encontrou o
corpo, e aquele que encontrou o corpo, o mundo não é
digno dele.
81. Jesus disse: - Aquele que enriqueceu possa tornar-se rei,
e aquele que está investido de poder, que renuncie a ele.
82. Jesus disse: - Aquele que está perto de mim está perto do
fogo, e aquele que está longe de mim está longe do Reino.
83. Jesus disse: - As imagens são reveladas ao homem e a luz
que elas contêm oculta-se na imagem da luz do Pai. Ele será
revelado e sua imagem estará oculta pela luz.
84. Jesus disse: - Quando vocês virem a própria semelhança,
alegrem-se. Mas quando virem suas próprias imagens
manifestadas diante de vocês, que não morrem nem se
manifestam, muito grande será o que suportarão.
85. Jesus disse: - Adão foi criado por um grande poder e uma
grande riqueza e não foi digno de vocês; porque se houvesse
sido digno (não teria) provado a morte.
86. Jesus disse: - (As raposas têm suas tocas) e os pássaros
têm (seus) ninhos, mas o Filho do Homem não tem um
lugar onde repousar sua cabeça.
87. Jesus disse: - Miserável é o corpo que depende de um
corpo, e miserável é a alma que depende de ambos.
88. Jesus disse: - os anjos virão até vocês, como também os
profetas, e lhes darão o que a vocês pertence. E vocês
também, o que estiver em suas mãos dêem a eles e digam a
si mesmos: quando eles virão e onde receberão o que lhes é
devido?
89. Disse Jesus: - Por que vocês lavam o lado de fora da taça?
Não compreendem que aquele que fez o interior também
fez o exterior?
90. Jesus disse: - Venham a mim, porque meu jugo é suave e
meu domínio é doce e vocês encontrarão o repouso para si
mesmos.
91. Eles lhe disseram: - Dize-nos quem és, para que
possamos crer em ti. Ele lhes disse: - Vocês examinam a
face do céu e a da terra e aquele que têm diante de seus
olhos, vocês não o conhecem e neste momento não sabem
avaliá-lo.
92. Jesus disse: - Busquem e encontrarão, mas as coisas que
vocês me perguntaram naquele tempo e que ainda não lhes
disse, agora que me apraz dizê-lo, vocês não me perguntam.
93. Jesus disse: - Não dêem as coisas santas aos cães, para que
eles não as arrastem para o monturo; não atirem pérolas aos
porcos, para que não façam delas...
94. Jesus disse: - Quem procura, achará, (e quem bate), a
porta lhe será aberta.
95. Jesus disse: - Se vocês têm dinheiro não o emprestem a
juros, dêem-no a quem não lhes possa restituí-lo.
96. Jesus (disse): - O Reino do Pai assemelha-se a uma
mulher que tomou um pouco de fermento e o escondeu na
massa e fez grandes pães. Aquele que tenha ouvidos, que
ouça.
97. Jesus disse: - O reino do (Pai) é semelhante a uma
mulher que leva um vaso cheio de farinha. À medida que
ela segue por um longo caminho, a alça do vaso se quebra e
a farinha espalha atrás dela pelo caminho. Ela não o percebe
e não toma conhecimento da perda. Ao chegar em casa, ela
pousa o vaso no chão e o encontra vazio.
98. O Reino do Pai é semelhante a um homem que desejou
matar importante personagem. Sacou a espada em casa e a
enterrou na parede para verificar se sua mão era bastante
forte. Só então ele matou a importante personagem.
99. Os discípulos lhe disseram: - Teus irmãos e tua mãe estão
aí fora. Ele lhes disse: - Estes aqui, que fazem a vontade de
meu Pai, são meus irmãos e minha mãe; são eles que
entrarão no Reino de meu Pai.
100. Eles mostraram a Jesus uma moeda de ouro e lhe
disseram: - Os homens de César exigem de nós os tributos.
Ele lhes disse: - Dêem a César o que é de César, dêem a
Deus o que é de Deus, e a mim o que me pertence.
101. Jesus disse: - Quem não odeia seu pai e sua mãe,
como eu, não pode ser meu discípulo, e quem não quer
amar seu pai e sua mãe, como eu, não pode ser meu
discípulo. Porque minha mãe me (gerou?), mas minha (mãe)
verdadeira me deu a Vida.
102. Jesus disse: - Ai dos fariseus! pois assemelham-se a
um cão dormindo na manjedoura do gado, pois nem come
nem deixa o gado comer.
103. Jesus disse: - Feliz o homem que sabe a que horas
da noite virão os ladrões, pois assim ele se levantará, reunirá
suas (forças ?) e cingirá sua cintura antes que eles entrem.
104. Disseram-lhe: - Vem, vamor orar hoje e jejuar.
Jesus disse: - Que pecado teria eu cometido ou em que teria
eu sido vencido? Mas quando o esposo sair da câmara
nupcial, então que jejuem e orem!
105. Jesus disse: -Aquele que conhece pai e mãe será
chamado filho da prostituta ?
106. Disse Jesus: - Quando de dois fizerem um, vocês se
tornarão filhos do Homem e quando disserem: "Montanha,
mova-se", ela se moverá.
107. Disse Jesus: - O Reino é semelhante a um pastor
que tinha cem ovelhas. Uma delas, a maior, extraviou-se.
Ele deixou as noventa e nove e a procurou até encontrá-la.
Depois de todo esse trabalho, ele disse à ovelha: - Amo-te
mais do que às noventa e nove.
108. Jesus disse: - Quem beber de minha boca se
tornará como eu e eu próprio me tornarei ele e as coisas
ocultas lhe serão reveladas.
109. Jesus disse: - O Reino é semelhante a um homem
que tinha no seu campo um tesouro (escondido) e que ele
próprio ignorava e, após a sua morte, ele o deixou ao seu
filho. O filho de nada sabia; tomou o campo e o vendeu. E
aquele que o comprou, veio e, trabalhando, encontrou o
tesouro. E começou a emprestar dinheiro a juros a quem ele
queria.
110. Jesus disse: - Aquele que encontrou o mundo e
ficou rico, que renuncie ao mundo.
111. Jesus disse: - Céu e Terra se enrolarão diante de
vocês e o Vivo saído do Vivo não conhecerá morte nem
temor, porque Jesus disse: — Aquele que se encontrar a si
mesmo no mundo, o mundo lhe não será digno.
112. Disse Jesus: - Miserável é a carne que depende da
alma,
miserável a alma que depende da carne.
113. Seus discípulos lhe disseram: - Em que dia virá o
Reino? Jesus disse: - Não será percebido quando vier. Não se
dirá: Ei-lo aqui, ou ei-lo ali; mas o Reino do Pai está
espalhado por toda a Terra e os homens não o vêem.
114. Simão Pedro lhes disse: - Que Maria saia do nosso
meio, pois as mulheres não são dignas da Vida. Jesus disse: -
Eis que eu a guiarei para fazer dela homem, a fim de que ela
também se torne um espírito vivo, semelhante a vocês,
homens. Pois toda mulher que se fizer homem entrará no
Reino dos Céus.

 
 
 
 
 
 
 
 
Lançamento Gênesis do Conhecimento
O Evangelho Gnóstico de Tomé - Herminio C. Miranda
 
 
 
 
links ao final da mensagem
 
 
digitalização, formatação e revisão - Lucia Garcia
agradecimentos pela doação do ebook para o Memorial do Conhecimento
 
 
 
 
 
Sinopse:
 
O Evangelho de Tomé contém as anotações feitas por Tomé dos discursos proferidos por Jesus ao público em geral ou reservadamente aos seus apóstolos. Como esses textos ficaram escondidos por cerca de mil e seiscentos anos, sobreviveram a séculos de perseguição promovida pela Igreja a toda idéia que discordasse da ortodoxia por ela imposta. Podemos afirmar, hoje, que esses textos são a transcrição mais próxima da mensagem que o Cristo realmente trouxe à humanidade.
 
 
 
 
 
 
 


PASTAS LANÇAMENTOS Genesis do Conhecimento:
 
 
 
 
 
 

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