terça-feira, 28 de junho de 2011 By: Fred

<> livros-loureiro <> Lançamento Gênesis do Conhecimento - O Quarto de Jacob - Virginia Woolf


O Quarto de
Jacob

Virginia Woolf

Tradução de Lya Luft
2a edição

EDITORA NOVA FRONTEIRA

CAPÍTULO UM
CAPÍTULO DOIS
CAPÍTULO TRÊS
CAPÍTULO QUATRO
CAPÍTULO CINCO
CAPÍTULO SEIS
CAPÍTULO SETE
CAPÍTULO OITO
CAPÍTULO NOVE
CAPÍTULO DEZ
CAPÍTULO ONZE
CAPÍTULO DOZE
CAPÍTULO TREZE
CAPÍTULO QUATORZE

CAPÍTULO UM

"Assim, naturalmente", escreveu Betty Flanders enfiando os
saltos dos sapatos mais fundo na areia, "não havia nada a
fazer senão partir".
Brotando lentamente do bico da sua pena de ouro, a pálida
tinta azul dissolveu o ponto final; pois sua caneta parou ali;
seus olhos tornaram-se fixos, lágrimas inundaram-nos
devagar. A baía inteira oscilou; o farol cambaleou; e ela teve
a ilusão de que o mastro do pequeno iate do sr. Connor se
inclinava, como uma vela de cera ao sol. A sra. Flanders
pestanejou depressa. Acidentes eram coisas terríveis. Piscou
de novo. O mastro estava ereto; as ondas, regulares; o farol,
em pé; mas o pingo de tinta se espalhara.
— ...nada a fazer senão partir — leu ela.
— Bem, se Jacob não quer brincar — (a sombra de Archer,
seu filho mais velho, caiu sobre o papel, e parecia azul na
areia, e ela sentiu frio — já era três de setembro) — se Jacob
não quer brincar... — Que borrão horrível! Devia estar
ficando tarde.
— Mas onde está esse menino cansativo? — disse ela. — Não
o vejo daqui. Corra e vá procurá-lo. Diga-lhe que venha já.
— "...mas graças a Deus", rabiscou, ignorando o ponto final,
"tudo parece satisfatoriamente arranjado, estamos
empacotados como arenques numa barrica, e fomos
obrigados a deixar de lado o carrinho de bebê, que
naturalmente o senhorio não quer permitir...".
Eram assim as cartas de Betty Flanders ao capitão Barfoot —
cartas de muitas páginas, manchadas de lágrimas.
Scarborough fica a setecentas milhas da Cornualha: o capitão
Barfoot está em Scarborough: Seabrook está morto. Lágrimas
fizeram balouçar em ondas rubras todas as dálias do jardim e
reverberar em seus olhos a estufa de vidro, e enfeitaram a
cozinha de setas luminosas, e fizeram a sra. Jarvis, esposa do
reitor, pensar, na igreja, enquanto os hinos ressoavam e a
sra. Flanders se debruçava sobre as cabeças dos filhos pe-
quenos, que o casamento é uma fortaleza, e que viúvas
vagueiam solitárias por campos abertos, juntando pedras,
respingando palhas douradas, sozinhas, desprotegidas,
pobres criaturas. A sra. Flanders era viúva há dois anos.
— Ja-cob! Ja-cob! — gritou Archer.
"Scarborough" escreveu a sra. Flanders no envelope,
passando debaixo uma linha audaciosa; era sua cidade natal;
o centro do universo. Mas, e o selo? Esquadrinhou a bolsa;
depois virou-a de boca para baixo; finalmente remexeu em
seu regaço, tudo isso tão vigorosamente que Charles Steele,
de chapéu panamá, suspendeu no ar seu pincel de pintor.
Ele tremia como a antena de um inseto irritadiço. Lá estava
aquela mulher se movendo — ia até mesmo levantar — para
o diabo com ela! Steele deu à tela um rápido toque negro-
violeta. A paisagem pedia-o. Estava pálida demais — cinzas
diluindo-se em lavandas, e uma estrela ou gaivota suspensa
ao acaso —, pálida demais, como de costume. Os críticos
diriam que estava tudo pálido demais, pois ele era um
desconhecido expondo em galerias obscuras, favorito dos
filhos de seus senhorios, usando uma cruz na corrente do
relógio, muito grato quando os senhorios apreciavam seus
quadros — e seguidamente eles os apreciavam.
— Ja-cob! Ja-cob! — gritou Archer.
Exasperado com o barulho, mas amando crianças, Steele
esgravatou nervosamente os pequenos emaranhados escuros
em sua paleta.
— Eu vi seu irmão, eu vi seu irmão — disse, balançando a
cabeça quando Archer passou por ele, devagar, arrastando a
pá e olhando de mau humor para o velho de óculos.
— Ali, junto do rochedo — resmungou Steele com o pincel
entre os dentes, espremendo vermelho-siena forte, olhos
fixos nas costas de Betty Flanders.
— Ja-cob! Ja-cob! — gritou Archer, prosseguindo devagar
depois de um momento.
A voz denotava extraordinária tristeza. Pura, despojada do
corpo, despojada de toda paixão, saindo para o mundo,
solitária, irrespondida, quebrando-se contra os rochedos —
era assim que soava.
Steele franziu a testa; mas ficou contente com o efeito do
negro — era exatamente aquela nota que dava unidade ao
resto, e assim, tendo encontrado a tonalidade certa, olhou
para cima e viu com horror uma nuvem sobre a baía.
A sra. Flanders ergueu-se, bateu seu casaco dos dois lados
para tirar a areia e pegou o guarda-sol.
A rocha era um daqueles recifes castanhos tremendamente
sólidos, quase negros, que emergem da areia como algo
primitivo. Áspera por causa dos mariscos rugosos, aqui e ali
raros tufos de algas secas, um menino precisava abrir bem as
pernas e sentir-se mesmo um herói até galgar o topo.
Mas lá, bem em cima, há uma cavidade cheia de água, com o
fundo arenoso; com uma gelatina-do-mar de um lado, e
alguns mexilhões. Um peixe vara as águas tal uma flecha. A
franja de algas castanho-amareladas esvoaçava, e aparece um
caranguejo de casca opalina...
— Oh, que caranguejo enorme — murmura Jacob... e
começa sua jornada no fundo arenoso, as pernas inseguras.
Agora! Jacob mergulhou a mão. O caranguejo era frio e
muito leve. Mas a areia engrossava a água, e assim,
escorregando para baixo, Jacob estava na iminência de pular
segurando o balde à frente, quando viu, estendidos
absolutamente rígidos, lado a lado, rostos muito vermelhos,
um homem e uma mulher enormes.
Um homem e uma mulher enormes (estava quase
anoitecendo) estendidos ali imóveis, as cabeças sobre lenços,
lado a lado, a poucos passos do mar, enquanto duas ou três
gaivotas tocavam graciosamente as ondas que chegavam,
pousando depois perto das botinas deles.
Os grandes rostos vermelhos deitados nos lenços coloridos
erguiam-se para Jacob. Jacob baixou os olhos sobre eles.
Segurando o balde com muito cuidado, Jacob então saltou
decidido, e saiu correndo, indiferente a princípio, depois
cada vez mais depressa, à medida que as ondas espumavam
tão perto dele, que precisava desviar-se para evitá-las,
enquanto as gaivotas se erguiam à sua frente, esvoaçavam,
pousando outra vez um pouco adiante. Havia uma grande
mulher negra sentada na areia. Jacob correu para ela.
— Nanny! Nanny! — gritou, soluçando as palavras na crista
de cada respiração ofegante.
As ondas a rodearam. Era uma rocha. Coberta daquelas algas
que estouram quando a gente espreme. Jacob estava perdido.
Ficou ali parado. Seu rosto se compunha. Quando ia
começar a berrar, viu, entre paus pretos e palhas, debaixo de
um recife, uma caveira inteirinha — talvez a caveira de uma
ovelha, uma caveira, talvez, com os dentes. Soluçando
ainda, mas já distraído, correu, correu, até segurar a caveira
nos braços.
— Lá está ele! — gritou a sra. Flanders, rodeando o rochedo
e por alguns segundos cobrindo todo o espaço da praia. — O
que está segurando aí? Largue isso, Jacob! Largue agora, já! E
uma coisa medonha, eu sei. Por que não ficou conosco?
Vocês dois, venham — e ela virou-se, segurando Archer
com uma das mãos, tentando com a outra pegar o braço de
Jacob. Ele, porém, se agachou e pegou do chão o maxilar da
ovelha, que estava solto.
Balançando a bolsa, agarrando o guarda-sol, segurando a mão
de Archer e contando a história da explosão de pólvora em
que o pobre sr. Curnow perdera o olho, a sra. Flanders
escalava depressa o caminho íngreme, consciente todo o
tempo, nas profundezas da mente, de algum aborrecimento
enterrado ali.
Na areia, não longe dos amantes, jazia a velha caveira de
ovelha, sem maxilar. Limpa, alva, batida pelos ventos e
esfregada pela areia, não havia em parte alguma da costa da
Cornualha pedaço de osso mais impoluto. Os azevins do mar
cresceriam através de suas órbitas; ela se desfaria em pó, ou
algum jogador de golfe, batendo em sua bola, um belo dia,
dispersaria um montinho de poeira — não, mas não em
hospedarias, pensou a sra. Flanders. E uma grande aventura,
vir para tão longe com crianças pequenas. Sem um homem
para ajudar com o carrinho. E Jacob dando tanto trabalho, já
tão obstinado.
— Jogue fora isso, querido, vamos — disse quando chegaram
à estrada; Jacob, porém, desviava-se dela; e, como o vento
aumentasse, ela tirou o alfinete da touca, olhou o mar,
espetou-o novamente. O vento aumentava. As ondas
tinham aquela inquietação de coisa viva, indócil, à espera do
látego, ondas antes da tempestade. Os barcos de pesca
dirigiam-se para a margem. Uma luz amarelo-pálido varou o
mar púrpura e apagou-se. O farol fora aceso. — Venham —
disse Betty Flanders. O sol ardia em seus rostos e dourava as
grandes amoras que emergiam trêmulas da sebe que Archer
tentava golpear quando passavam.
— Não andem tão devagar, meninos. Vocês não têm roupas
para trocar — disse, empurrando-os, e contemplando
alvoroçada a terra lúgubre, com os súbitos lampejos de luz
das estufas nos jardins, com uma espécie de alternância
amarela e negra, contra esse crepúsculo abrasado, essa
espantosa agitação e vitalidade de cores que excitava Betty
Flanders, fazendo-a pensar em responsabilidade e perigo.
Pegou a mão de Archer. E galgou a colina.
— O que foi que pedi para você lembrar? — perguntou.
— Não sei — respondeu Archer.
— Bem, nem eu — volveu Betty com humor e simplicidade,
e quem pode negar que nessa perplexidade, quando
combinada com efusão, superioridade maternal, superstições
de mulheres antigas, maneiras aleatórias e momentos de
espantosa audácia, humor e sentimentalismo — quem pode
negar que nesses aspectos toda mulher é mais agradável do
que qualquer homem?
Bem, para começar, temos Betty Flanders.
Ela estava com a mão no portãozinho do jardim.
— Era a carne! — exclamou baixando a aldrava.
Esquecera a carne.
Rebeca estava na janela.
A pobreza da sala da frente da sra. Pearce tornava-se
inteiramente óbvia às dez da noite, quando instalavam no
centro da mesa um forte lampião de petróleo. A luz crua
caía no jardim; varava o relvado; iluminava um balde de
crianças e os ásteres purpúreos, e chegava à sebe. A sra.
Flanders deixara sua costura na mesa. Ali estavam os
carretéis de linha branca e os óculos de aro de aço; o
agulheiro; a lã marrom enrolada num velho cartão-postal.
Ali estavam os juncos e as revistas Strand; e o linóleo cheio
de areia das botas dos meninos. Um gafanhoto saltava de um
canto a outro, e bateu no bojo do lampião. O vento soprou
pela janela rajadas de chuva que reluziram em prata ao
passarem na luz. Uma única folha batia apressada e
persistente na vidraça. Havia tempestade sobre o mar.
Archer não conseguia dormir.
A sra. Flanders inclinou-se para ele.
— Pense nas fadas — disse Betty Flanders. — Pense nos
lindos, lindos pássaros aconchegados em seus ninhos. Agora
feche os olhos e veja a velha mãe-pássaro com uma minhoca
no bico. Agora vire- se e feche os olhos — murmurou ela —
, feche os olhos.
A hospedaria parecia cheia de gorgolejos e movimentos
rápidos; a cisterna transbordando; a água borbulhando e
chiando e disparando pelos canos, jorrando janelas abaixo.
— Para onde está correndo toda essa água? — murmurou
Archer.
— E só água do banho escoando — disse a sra. Flanders.
Alguma coisa estalou fora.
— Será que aquele navio não vai afundar? — perguntou
Archer, abrindo os olhos.
— Claro que não — respondeu a sra. Flanders. — O capitão
está na cama faz muito tempo. Feche os olhos e pense nas
fadas dormindo profundamente debaixo das flores.
— Pensei que não ia acabar nunca, um temporal desses —
sussurrou para Rebeca, que estava curvada sobre um lampião
de álcool no quartinho ao lado. O vento disparava, mas a
pequena chama do lampião ardia sossegadamente,
sombreada ao lado do berço por um livro em pé.
— Ele tomou direito a mamadeira? — sussurrou a sra.
Flanders, e Rebeca fez que sim e foi até o berço ajeitar a
colcha, e a sra. Flanders inclinou-se para lá, olhando ansiosa
o bebê adormecido, mas de sobrancelhas franzidas. A janela
estremeceu e como um gato Rebeca esgueirou-se para
prendê-la. As duas mulheres murmuravam por cima do
lampião, tramando a eterna conspiração do silêncio e das
mamadeiras limpas, enquanto o vento se enfurecia, provo-
cando um súbito repelão nas fechaduras baratas.
As duas olharam o berço. Seus lábios estavam franzidos. A
sra. Flanders foi até lá.
— Dormindo? — sussurrou Rebeca, ainda olhando o berço.
A sra. Flanders confirmou com a cabeça.
— Boa-noite, Rebeca — murmurou, e Rebeca chamou-a de
madame, embora as duas fossem conspiradoras tramando a
eterna conspiração do silêncio e das mamadeiras limpas.
A sra. Flanders deixara o lampião aceso no aposento da
frente. Lá estavam seus óculos e sua costura; e uma carta
com carimbo de Scarborough. Ela também não baixara as
cortinas.
A luz atravessou o quadrado de relva; caiu sobre o balde
verde de criança com a listra dourada e sobre os ásteres que
tremiam violentamente ao lado. Pois o vento devastava a
costa, lançando-se contra as colinas e voltando sobre si
mesmo em súbitas rajadas. Como se espraiava pela cidade no
vale! Como as luzes pareciam piscar e tremer nessa fúria,
luzes no cais, luzes em janelas de quartos de dormir, lá em
cima! E empurrando à frente as ondas escuras, a tempestade
disparou pelo Atlântico, sacudindo de um lado para o outro
as estrelas por cima dos navios.
Ouviu-se um estalido na sala da frente. O sr. Pearce
extinguia o lampião. O jardim apagou-se. Não passava agora
de uma mancha escura. Cada polegada inundada, cada talo
de grama curvado sob a chuva. Pálpebras teriam sido
fechadas pela chuva. Deitando-se de costas, não se veria
senão desordem e confusão — nuvens girando e regirando,
e na treva alguma coisa amarela e sulfurosa.
Os meninos no quarto de dormir da frente tinham afastado
os cobertores e jaziam debaixo dos lençóis. Fazia calor;
estava sufocante e úmido. Archer esticara o corpo, com um
braço através do travesseiro. Rosto corado; e quando a
pesada cortina ondulou de leve, virou-se e abriu um pouco
os olhos. O vento realmente empurrava o tecido sobre a
cômoda, deixando entrar um pouco de luz, de modo que a
quina da cômoda ficou visível, erguendo-se vertical, até
onde sobressaía uma protuberância alva; no espelho via-se
uma fita prateada.
Na outra cama junto da porta ressonava Jacob, que
adormecera logo, numa inconsciência profunda. O maxilar
de ovelha com grandes dentes amarelos jazia a seus pés. Ele
o atirara com um pontapé contra a guarda de ferro da cama.
Fora a chuva desabava mais incisiva e mais intensa, depois
que o vento amainara nas primeiras horas da manhã. Os
ásteres jaziam derrubados no chão. O balde das crianças
estava cheio até a metade com água da chuva; o caranguejo
de casca de opalina girava lento no fundo, tentando com
suas pernas débeis escalar a beirada; tentando e caindo;
tentando e caindo.

CAPÍTULO DOIS

— A sra. Flanders. — Pobre Betty Flanders. — Cara Betty. —
Ela ainda é bem atraente. — Pena que não se casou de novo!
-— Mas há o capitão Barfoot. — Visita-a todas as quartas-
feiras, regular como um relógio, e nunca traz a mulher.
— Mas é culpa de Ellen Barfoot — diziam as senhoras de
Scarborough. — Ela não aparece para ninguém.
— Um homem gosta de ter um filho, todo mundo sabe disso.
— Alguns tumores têm de ser extirpados; mas o tipo que
minha mãe teve, a gente carrega anos e anos, e nunca
sequer nos servem uma xícara de chá na cama.
(A sra. Barfoot era inválida.)
Elizabeth Flanders, de quem isso e muito mais foi e seria
dito, era naturalmente uma viúva na flor da idade. Estava a
meio caminho entre os quarenta e cinqüenta. Entre eles, os
anos e as mágoas; a morte de Seabrook, seu marido; três
filhos; pobreza; uma casa nos subúrbios de Scarborough; a
ruína e possível morte do irmão, o pobre Morty — pois
onde andava ele? o que era ele? Protegendo os olhos com a
mão, ela olhou a estrada à procura do capitão Barfoot
— sim, lá estava, pontual como sempre; as atenções do
capitão faziam Betty Flanders desabrochar, expandiam o seu
porte, coloriam de alegria seu rosto, e inundavam seus olhos
três vezes ao dia, sem razão evidente.
Claro, não há mal em chorar pelo marido da gente, e a pedra
anular, embora simples, era uma peça sólida, e em dias de
verão, quando a viúva trazia seus meninos para se postarem
ali, as pessoas simpatizavam com ela. Os chapéus eram
erguidos mais alto que de costume; esposas agarravam firme
os braços dos maridos. Seabrook jazia seis pés abaixo, morto
todos esses muitos anos; encerrado em três conchas; as
frestas lacradas com chumbo, de modo que, se terra e
madeira fossem vidro, indubitavelmente seu rosto seria
visível lá embaixo, o rosto de um homem jovem, de suíças,
bem-apessoado, que saíra para caçar patos e se recusara a
trocar de botas.
"Comerciante desta cidade", dizia a pedra tumular; mas por
que Betty Flanders resolvera designá-lo assim, se, como
muitos ainda recordavam, ele apenas ficara sentado atrás de
um guiché de repartição por três meses, e antes disso
domara cavalos, participara de caçadas, cultivara uns poucos
campos, e fizera algumas loucuras — contudo, ela tinha de
chamá-lo de alguma coisa. Um exemplo para os meninos.
Mas então ele não fora nada? Pergunta irrespondível, pois,
mesmo que o agente funerário não feche rapidamente os
olhos dos mortos, a luz, mais cedo ainda, se apaga neles.
Primeiro, Seabrook fora parte dela; agora, um numa
multidão, imerso na grama, do lado íngreme da colina, mil e
uma pedras brancas, algumas oblíquas, outras verticais, as
coroas de flores deterioradas, as cruzes de estanho verde, os
estreitos caminhos amarelos, os lilases que em abril fenecem
sobre o muro do cemitério, com odor de quarto de inválido.
Seabrook era tudo isso; e quando, saia arrepanhada, alimen-
tando as galinhas, ela escutava o sino para uma cerimônia ou
funeral, era a voz de Seabrook — a voz dos mortos.
O galo costumava voar para o ombro dela e bicar-lhe o
pescoço, de modo que agora ela carregava uma vara ou
levava uma das crianças ao dar comida às aves.
Você não quer levar minha faca, mãe? — disse Archer.
Soando ao mesmo tempo que o sino, a voz do filho
mesclava vida e morte de maneira inextrincável e excitante.
— Mas que faca enorme para um menino tão pequeno! —
disse ela. Pegou-a só para lhe dar prazer. Depois o galo saiu
voando do galinheiro, e gritando que Archer fechasse a
porta da cozinha para o quintal, a sra. Flanders decidiu o
cardápio, chamou as galinhas, lidou atabalhoadamente no
pomar, e foi vista do outro lado da rua pela sra. Cranch, que,
batendo seu capacho contra a parede, suspendeu-o por um
momento, enquanto comentava com a sra. Page, da casa ao
lado, que a sra. Flanders estava com as galinhas no pomar.
A sra. Page, a sra. Cranch e a sra. Garfit podiam ver a sra.
Flanders em seu pomar porque este fazia parte de Dods Hill;
e Dods Hill dominava a aldeia. Não se pode descrever com
palavras a importância de Dods Hill. Era a própria terra; o
mundo contra o céu; o horizonte de tantas visões quantas
podem ser computadas pelos que viveram toda a sua vida na
mesma aldeia, deixando-a apenas uma vez para lutar na
Criméia, como o velho George Garfit, debruçado no portão
de seu jardim, fumando cachimbo. O avanço do sol era
medido por Dods Hill; e a tonalidade do dia tinha que
contrastar com ela para ser avaliada.
— Agora ela está subindo a colina com o pequeno John —
disse a sra. Cranch à sra. Garfit, sacudindo o capacho pela
última vez e correndo atarefada para dentro de casa.
Abrindo o portão do pomar, a sra. Flanders seguiu até o topo
de Dods Hill, levando John pela mão. Archer e Jacob
corriam à frente ou vagueavam atrás; mas já estavam na
Fortaleza Romana quando ela chegou lá, e gritavam quais os
navios que se podiam ver na baía. Pois descortinava-se um
panorama magnífico — atrás os pântanos, à frente o mar, e
Scarborough inteira, de uma ponta a outra, estendendo-se
plana como um quebra-cabeças. A sra. Flanders, que estava
engordando, sentou-se nas ruínas da fortaleza e olhou em
tomo.
Toda a gama das mudanças na paisagem devia ser sua
conhecida; o aspecto hibernal, a primavera, o verão, o
outono; as tempestades subindo do mar; os pântanos
tremendo e iluminando-se quando as nuvens passavam por
cima; devia ter notado a mancha vermelha onde estavam
edificadas as villas, o ziguezague de linhas onde estavam
marcando os loteamentos; e a reverberação de diamante nas
pequenas estufas de vidro ao sol. Ou, se detalhes como estes
lhe escapavam, talvez ela extraísse prazer da coloração
dourada do mar ao anoitecer, vendo esse ouro decompor-se
em moedas que rutilavam nos seixos. Barquinhos de passeio
boiavam dentro dele; o braço negro do quebra-mar o
armazenava. Toda a cidade era rosa e ouro; ogival; brumosa;
ressonante; estridente. Havia violões desafinando; a
multidão de passantes cheirava a piche que grudava nos
saltos dos sapatos; subitamente, cabras com seus carrinhos
enveredavam pelos grupos adentro. Via-se que a Corporação
tinha arrumado bem os canteiros de flores. Por vezes, o
vento soprava pelos ares um chapéu de palha. Tulipas ardiam
ao sol. Vários calções bufantes estendiam-se em fila. Toucas
roxas orlavam rostos macios, rosados e tristes, sobre
almofadas em cadeiras de rodas. Cartazes triangulares eram
empurrados sobre rodinhas por homens de casacos brancos.
O capitão George Boase apanhara um tubarão-monstro. Um
lado do cartaz comunicava isso em letras vermelhas, azuis e
amarelas; e cada linha terminava em pontos de exclamação
de três cores diferentes.
Então havia uma razão para descer ao Aquário, onde os
estores amarelos, o cheiro decomposto de amónia, as
cadeiras de bambu, as mesas com cinzeiros, os peixes
sinuosos, a empregada tricotando atrás de seis ou sete caixas
de chocolate (muitas vezes ela ficava praticamente sozinha
com os peixes horas a fio) permaneciam na memória como
parte do tubarão-monstro, ele próprio não passando de um
receptáculo amarelo e flácido, uma bolsa vazia num tanque.
Ninguém jamais se animara com o Aquário; mas os rostos
dos que emergiam rapidamente perdiam sua expressão vaga
e hirta ao perceberem que somente fazendo fila se entrava
no quebra-mar. Vencendo as passagens de borboleta, todos
andavam uma jarda ou duas com muita animação; uns
instalavam-se nesta barraca; outros naquela. Mas era afinal a
banda de música que os atraía, e também aos pescadores no
molhe de baixo, colocando suas vozes na mesma tonalidade
dela.
A banda tocava no Quiosque Mourisco. O cartaz anunciava
o número nove. Uma valsa. As mocinhas pálidas, a velha
viúva, os três judeus hospedados na mesma casa, o
almofadinha, o major, o comerciante de cavalos e o
cavalheiro que vivia de rendas, todos mostravam a mesma
expressão difusa e entorpecida, e pelas fendas das tábuas a
seus pés podiam ver as verdes ondas do verão balouçando
tranqüilas e doces em torno dos pilares de ferro do quebra-
mar.
Houve um tempo em que nada disso existia (pensava o rapaz
encostado à amurada). Fixem-se os olhos na saia da mulher;
a cinzenta serve — por sobre as meias de seda cor-de-rosa.
Ela vai mudando; cobre os tornozelos — os anos noventa;
depois se alarga — os setenta; agora é de um vermelho
queimado, esticada sobre uma crinolina — os sessenta; um
diminuto pé preto em meias de algodão branco espia. Ainda
sentada ali? Sim — ela ainda está no quebra-mar. Agora a
seda está salpicada de rosas, mas de alguma forma já não a
distinguimos bem. Não há mais quebra-mar debaixo de
nossos pés. A pesada carruagem pode vir sacolejando pela
estrada do pedágio, mas não há quebra-mar onde parar, e
como é pardo e turbulento o mar do século XVII! Vamos ao
museu. Balas de canhão; pontas de flecha; vidro romano e
uma pinça, verde de azinhavre. O reverendo Jaspar Floyd os
descobriu em escavações feitas por conta própria no começo
dos anos quarenta no Campo Romano de Dods Hill — vê-se
no papelzinho com escrita esmaecida.
E agora, o que mais vamos ver em Scarborough?
A sra. Flanders estava sentada na elevação circular do
Campo Romano, remendando os calções de Jacob; apenas
erguia a vista quando molhava de saliva a ponta do fio de
linha, ou quando algum inseto batia nela, zumbia em seu
ouvido e partia.
John corria por ali jogando no colo dela grama e folhas
mortas, que chamava de 'chá', e ela as arranjava
metodicamente, mas distraída, juntando as pontas floridas de
capim, pensando que Archer ficara novamente acordado a
noite passada; o relógio da igreja estava dez ou 13 minutos
adiantado; ela queria poder comprar a propriedade dos
Garfits.
— Isso é uma pétala de orquídea, Johnny. Veja as
manchinhas castanhas. Venha, querido. Temos de ir para
casa. Ar-cher! Ja-cob!
— Ar-cher! Ja-cob! — pipilou Johnny imitando-a, girando
nos saltos dos sapatos, espalhando grama e folhas que tinha
nas mãos, como se estivesse semeando. Archer e Jacob
pularam de trás do montinho em que estavam agachados
com intenção de saltar sobre a mãe e assustá-la, e todos
começaram a voltar lentamente para casa.
— Quem é aquele? — perguntou a sra. Flanders protegendo
os olhos com a mão.
— O velho na estrada? — disse Archer olhando para baixo.
— Não é um velho — respondeu a sra. Flanders. — Ele é...
Não, não é... Pensei que fosse o capitão, mas é o sr. Floyd.
Venham, meninos.
— Ora, o chato do sr. Floyd! — disse Jacob, cortando uma
ponta de cardo com um golpe, pois sabia que o sr. Floyd ia
dar-lhes aulas de latim, coisa que realmente veio a fazer
durante três anos, em suas horas livres, apenas por bondade,
pois não havia na vizinhança outro cavalheiro a quem a sra.
Flanders pudesse pedir tal coisa, e os meninos mais velhos já
a tinham ultrapassado em conhecimentos, e tinham de ser
preparados para o colégio, e isso era mais do que a maioria
dos clérigos teria feito, vir depois do chá ou recebê-los nos
seus próprios aposentos — sempre que conseguia dar um
jeito, pois a paróquia era muito grande e, como seu pai antes
dele, o sr. Floyd visitava cottages a milhas de distância, nos
pântanos, e assim como o velho sr. Floyd, era um grande
erudito, o que tornava tudo absolutamente inverossímil —
ela jamais sonhara com uma coisa dessas. Deveria ter
adivinhado? Mas, além de ser erudito, ele era oito anos mais
novo do que ela. Betty Flanders conhecia sua mãe — a velha
sra. Floyd. Tomava chá com ela. E foi na mesma noite em
que voltava de um chá com a velha sra. Floyd que
encontrou no vestíbulo aquele bilhete e o levou para a
cozinha quando foi entregar o peixe a Rebeca, pensando
tratar-se de um aviso sobre os meninos.
— Foi o sr. Floyd quem trouxe pessoalmente, não foi? Acho
que o queijo deve estar no pacote, no vestíbulo, ah, no
vestíbulo... — pois ela estava lendo. Não, não era a respeito
dos meninos.
— Sim, certamente é o bastante para os bolos de peixe
amanhã. Talvez o capitão Barfoot... — Ela chegara à palavra
'amor'. Foi ao jardim e leu, recostada a uma nogueira para se
firmar. Seu peito subia e descia. Seabrook apareceu nítido
diante dela. Betty Flanders sacudiu a cabeça e olhava através
das lágrimas as folhinhas balouçando contra o céu amarelo
quando três gansos, meio correndo meio voando,
dispararam pelo gramado com Johnny atrás a brandir uma
vara.
A sra. Flanders ficou vermelha de raiva.
— Quantas vezes já lhe disse? — gritou, agarrou-o e jogou
fora a vara.
— Mas eles escaparam! — gritou o menino lutando para
libertar-se.
— Você é um menino impossível. Eu lhe disse uma vez,
disse milhares de vezes. Não quero você perseguindo os
gansos! — e amassando a carta do sr. Floyd, segurou Johnny
firmemente e tangeu os gansos de volta ao pomar.
"Como é que eu poderia pensar em casamento!", disse para si
mesma, amargamente, enquanto prendia o portão com um
pedaço de arame. Jamais gostara de homens de cabelo ruivo,
pensou, lembrando a aparência do sr. Floyd, naquela noite
quando os meninos tinham ido para a cama. E empurrando
para o lado sua caixa de costura, puxou o mata-borrão para
junto de si e releu a carta do sr. Floyd, e seu peito subia e
descia quando chegou à palavra 'amor', mas não tão depressa
dessa vez, pois via Johnny a perseguir gansos, e sabia que era
impossível casar-se com quem quer que fosse — muito
menos o sr. Floyd, que era tão mais novo do que ela, mas
um homem simpático e, além disso, erudito.
"Caro sr. Floyd", escreveu. "Será que esqueci o queijo?",
espantou-se, depondo a caneta. Não, dissera a Rebeca que o
queijo estava no vestíbulo. "Estou muito surpresa..."
escreveu.
Contudo, a carta que o sr. Floyd encontrou na mesa ao
acordar cedo na manhã seguinte não começava com "Estou
muito surpresa", e era uma carta tão maternal, respeitosa,
inconseqüente, apreensiva, que ele a guardou por muitos
anos; muito depois do seu casamento com a srta. Wimbush,
de Andover; muito depois que ele deixara a aldeia. Pois que
solicitou uma paróquia em Sheffield, que lhe foi dada; e
mandando chamar Archer, Jacob e John para despedir-se,
disse que escolhessem o que quisessem de seu gabinete,
como lembrança dele. Archer escolheu um cortador de
papel, porque não gostava de escolher coisas boas demais;
Jacob escolheu as obras completas de Byron em um volume.
John, ainda muito jovem para uma escolha apropriada, optou
pelo gatinho do sr. Floyd, o que seus irmãos consideraram
um absurdo, mas o sr. Floyd o defendeu quando o menino
lhe disse:
— Ele tem pêlo igual ao seu.
Então o sr. Floyd falou sobre a Marinha Real (para onde
Archer iria); e sobre o Rugby (para onde Jacob iria); e no dia
seguinte ganhou uma bandeja de prata e partiu — primeiro
para Sheffield, onde encontrou a srta. Wimbush, que estava
de visita ao tio, depois para Hackney — e então para
Maresfield House, da qual se tornou diretor, e finalmente,
como editor de uma série muito conhecida de Biografias
Eclesiásticas, retirou-se para Hampstead com mulher e filha,
e pode ser visto seguidamente alimentando patos em Leg of
Mutton Pond. Quanto à carta da sra. Flanders — quando ele
a procurou recentemente, não conseguiu encontrá-la, e não
quis perguntar à esposa se a guardara. Encontrando Jacob em
Picadilly há pouco tempo, reconheceu-o em três segundos.
Mas Jacob crescera, tornando-se rapaz tão distinto, que o sr.
Floyd não quis interpelá-lo na rua.
— Meu Deus — exclamou a sra. Flanders quando leu no
Scarborough and Harrogate Courier que o rev. Andrew
Floyd, etc., etc., se tornara diretor de Maresfield House —
esse tem de ser o nosso sr. Floyd.
Uma claridade baça descia sobre a mesa. Jacob servia-se de
geléia; o carteiro falava com Rebeca na cozinha; uma abelha
zumbia em torno da flor amarela que cabeceava na janela
aberta. Todos estavam vivos, enquanto o pobre sr. Floyd se
tornava diretor de Maresfield House.
A sra. Flanders ergueu-se, foi até o guarda-fogo da lareira e
acariciou Topázio na nuca, atrás das orelhas.
— Pobre Topázio — disse (porque o gatinho do sr. Floyd
agora era um gato muito velho, um pouco de sarna entre as
orelhas, e um dia desses teriam de matá-lo).
— Pobre, velho Topázio — disse a sra. Flanders quando o
gato se esticou ao sol; sorriu então, pensando em como o
mandara castrar, e como achava feio cabelo ruivo em
homens. Sorrindo ainda, voltou para a cozinha.
Jacob jogou um lenço bastante sujo sobre o rosto. E subiu as
escadas para seu quarto.
Besouro morre devagar (era John quem colecionava
besouros). Mesmo no segundo dia as pernas deles ainda se
mostravam flexíveis. As borboletas, porém, estavam mortas.
Um bafo de ovos podres liquidara as pálidas amarelas que
vinham como doidas pelo pomar subindo para Dods Hill,
depois dirigindo-se ao pântano, num momento ocultas atrás
de um arbusto de tojo, noutro esvoaçando em desordem ao
sol escaldante. Uma fritilária aquecia-se numa pedra branca
do Campo Romano. Do vale subia o som dos sinos da igreja.
Todos comiam rosbife em Scarborough àquela hora; pois era
domingo quando Jacob apanhou as pálidas amarelas no
campo de trevos, a oito milhas de casa.
Rebeca pegou na cozinha a mariposa cabeça-de-caveira.
Um forte cheiro de cânfora saía das caixas de borboletas.
Misturado ao cheiro de cânfora sentia-se o odor
inconfundível de algas. Fitas fulvas pendiam da porta. O sol
dava nelas em cheio.
As asas anteriores da mariposa que Jacob segurava estavam
nitidamente marcadas por sinais amarelados em forma de
rins. Mas não havia meia-lua na asa posterior. A árvore
tombara na noite em que ele a apanhara. Subitamente
tinham escutado uma série de tiros de pistola nas
profundezas da mata. Sua mãe o tomara por um ladrão
quando ele chegara tarde em casa. O único dos filhos que
nunca obedecia, disse ela.
O Morris designava a mariposa como "um inseto muito local
encontrado em lugares úmidos e pantanosos". Mas às vezes
o Morris se engana. E Jacob, pegando uma caneta muito
fina, de vez em quando fazia uma correção na margem do
livro.
A árvore tombara, embora fosse noite sem vento, e a
lanterna, pousada no chão, iluminara as folhas ainda verdes e
as folhas já mortas da faia. Era um lugar seco. E a asa inferior
vermelha girara em torno da luz, reverberara e sumira. A asa
inferior vermelha não retornara mais, embora Jacob
esperasse. Era depois das doze quando atravessou o relvado e
viu a mãe no quarto iluminado, jogando paciência, ainda
acordada.
— Mas como você me assustou! — exclamara. Já estava
pensando que algo de terrível houvesse acontecido. Ainda
por cima, acordara Rebeca, que tinha de levantar tão cedo.
Jacob ficou ali parado, pálido, emergindo do fundo das
trevas, no quarto aquecido, piscando na luz.
Não, Tião podia ser uma de asa posterior com bordas cor de
palha.
A máquina de ceifar estava sempre mal lubrificada. Barnet a
dirigia debaixo da janela de Jacob, e ela rangeu — rangeu e
matraqueou pelo gramado, e rangeu de novo.
Agora o céu se cobria de nuvens.
O sol voltou, ofuscando.
Caiu como um olho sobre os estribos, depois, rápido, mas
ainda assim muito suave, pousou na cama, no despertador e
na caixa aberta de borboletas. As pálidas amarelas tinham
voado como doidas sobre o pântano, ziguezagueando através
do campo de trevos roxos. As fritilárias exibiam-se ao longo
das fileiras de cerca-viva. As azuis instalavam-se sobre
pequenos ossos que jaziam na turfa, e as damas- pintadas e as
borboletas-pavão se banqueteavam com entranhas san-
grentas que um falcão deixara cair. Milhas longe de casa,
numa cova entre cardos debaixo de uma ruína, ele
encontrara as poligônias. Vira uma almirante-branca girando
mais e mais alto em torno de um carvalho, mas nunca a
apanhara. A velha moradora de um cottage, que vivia
sozinha bem no topo, contara-lhe de uma borboleta púrpura
que vinha ao seu jardim todos os verões. E contou-lhe que
os filhotes de raposa brincam nos tojos de manhãzinha. E se
a gente olhasse para fora ao amanhecer, poderia sempre ver
dois texugos. Às vezes eles se dão socos como dois
menininhos.
— Você não vai longe esta tarde, Jacob — comunicou sua
mãe metendo a cabeça pela porta — porque o capitão vem
dizer adeus. — Era o último dia das férias de Páscoa.
Quarta-feira era o dia do capitão Barfoot. Ele se vestia muito
bem, de saija azul, pegava a bengala com ponta de borracha
— pois era manco, e faltavam dois dedos de sua mão
esquerda, perdidos em combate pela pátria — e saía de casa
com seu bastão exatamente às quatro da tarde.
Às três o sr. Dickens, o homem encarregado da cadeira de
rodas, vinha ver a sra. Barfoot.
— Mova a minha cadeira — diria ela ao sr. Dickens depois
de sentar-se na esplanada por 15 minutos. E em seguida: —
Assim está bem, sr. Dickens. — Ao primeiro comando ele
procuraria o sol; ao segundo deixaria a cadeira na faixa de
claridade.
Sendo ele próprio um velho morador da aldeia, tinha muito
em comum com a sra. Barfoot — filha de James Coppard. O
bebedouro onde a West Street se encontra com a Broad
Street é presente de James Coppard, que foi prefeito ao
tempo do jubileu da rainha Vitória, e Coppard está retratado
nas carretas de água, por cima de vitrines de lojas, e nas
persianas de zinco em janelas de escritórios de advogados.
Contudo, EUen Barfoot jamais visitara o Aquário (embora
tivesse conhecido muito bem o capitão Boase, que apanhou
o tubarão) e quando os homens passavam com cartazes,
olhava-os com desdém, pois sabia que nunca veria os
pierrôs, os irmãos Zeno, ou Daisy Budd e sua trupe de focas
amestradas. Pois Eilen Barfoot em sua cadeira de rodas na
esplanada era uma prisioneira — uma prisioneira da
civilização —, todas as grades de sua jaula caindo oblíquas na
esplanada em dias de sol, quando a prefeitura, as lojas de
tecidos, a piscina e o Memorial Hall riscavam o chão de
sombras.
Sendo ele próprio um velho morador, o sr. Dickens ficaria
em pé um pouco atrás dela, fumando seu cachimbo. Ela lhe
faria perguntas — quem eram as pessoas — quem cuidava
agora da loja do sr. Jones — ou sobre a estação — e se a sra.
Dickens tentara não importa o quê — palavras brotando de
seus lábios como migalhas de biscoito seco.
Ela cerrou os olhos. O sr. Dickens foi dar uma volta. As
emoções de homem não o tinham abandonado
inteiramente, embora, vendo-o aproximar-se, a gente
notasse uma botina preta abotoada cambaleando diante da
outra; uma sombra entre o colete e as calças; e ele avançava
inseguro, como um cavalo velho subitamente desatrelado
dos varais, sem carroça para puxar. Mas, enquanto o sr.
Dickens tragava e soprava outra vez a fumaça, em seus olhos
se notavam as emoções de homem. Pensava em como agora
o capitão Barfoot se dirigia para Mount Pleasant; o capitão
Barfoot, seu patrão. Pois em casa, na saleta por cima das
estrebarias com o canário na janela e as mocinhas na
máquina de costura, e a sra. Dickens entre os reumáticos —
em casa, onde lhe davam pouca importância, a idéia de ser
empregado do capitão Barfoot o sustentava. Gostava de
pensar que, enquanto conversava com a sra. Barfoot na
frente de casa, estava ajudando o capitão a ir ao encontro da
sra. Flanders. Ele, um homem, cuidava da sra. Barfoot, uma
mulher.
Voltando-se, viu que ela conversava com a sra. Rodgers.
Voltando-se outra vez, notou que a sra. Rodgers se afastara.
Então regressou para junto da cadeira de rodas, e a sra.
Barfoot lhe perguntou as horas, e ele tirou seu grande
relógio de prata e disse as horas, muito solícito, como se
soubesse muito mais do que ela a respeito da hora e de todas
as coisas. A sra. Barfoot, porém, sabia que o capitão Barfoot
estava indo ao encontro da sra. Flanders.
Na verdade ele se dirigia para lá, tendo saído do bonde, e
vendo Dods Hill a sudeste, verdejando contra um céu azul
difuso pela cor da poeira no horizonte. Ele escalava a colina.
Apesar de manco, havia algo de militar na sua maneira de
aproximar-se. Saindo do portão da reitoria, a sra. Jarvis o viu
chegar, e seu cão terra-nova, Nero, abanou o rabo de um
lado para outro.
— Oh, capitão Barfoot! — exclamou a sra. Jarvis.
— Bom-dia, sra. Jarvis — disse o capitão.
Andaram juntos, e quando chegaram ao portão da sra.
Flanders, o capitão Barfoot tirou o boné de tweed e
curvando-se muito cortês, disse:
— Tenha um bom dia, sra. Jarvis.
E deixou-a sozinha.
Ela tencionava passear pelo pântano. Estivera mais uma vez
andando pelo seu gramado tarde da noite? Tamborilara outra
vez na janela fechada, exclamando:
— Olhe a lua, olhe a lua, Herbert!
E Herbert olhava a lua.
Quando se sentia infeliz, a sra. Jarvis passeava pelo pântano,
alcançando uma certa ravina em forma de pires, embora
sempre quisesse seguir até um cume mais distante; lá
sentava-se tirando de baixo da capa o livrinho escondido,
lendo algumas linhas de poesia, olhando em torno. Não era
muito infeliz; como já tivesse 45 anos, talvez nunca
chegasse a ser muito infeliz, quer dizer, desesperadamente
infeliz, e abandonar o marido, e arruinar a carreira de um
bom homem, como por vezes pensava fazer.
Não é preciso dizer que riscos uma esposa de clérigo assumia
ao andar sozinha pelo pântano. Baixa, morena, olhos acesos,
uma pena de faisão no chapéu, a sra. Jarvis era exatamente o
tipo de mulher capaz de perder a fé de tanto andar pelo
pântano — confundindo Deus com o universo —, mas ela
não perdia a fé, não abandonava o marido, jamais lia seu
poema até o fim, e continuava a passear pelo pântano,
olhando a lua através dos olmos, e sentindo, quando sentava
na relva bem acima de Scarborough... Sim, sim, quando a
cotovia voa alto; quando, movendo-se um passo ou dois à
frente, as ovelhas comem a turfa e fazem soar os cincerros;
quando a brisa começa a soprar e depois morre, deixando o
rosto beijado; quando os barcos no mar abaixo parecem se
atravessar uns aos outros e passam dirigidos por uma mão
invisível; quando há estrondos ao longe no ar, cavaleiros
fantasmas galopando, depois de repente cessando; quando o
horizonte flutua, azul, verde, comovido — então, com um
suspiro, a sra. Jarvis pensava consigo mesma, "se ao menos
alguém pudesse me dar... se eu pudesse dar a alguém...". Mas
ela não sabe o que deseja dar, nem quem poderia dá-lo a ela.
— A sra. Flanders saiu faz poucos minutos, capitão — disse
Rebeca. O capitão Barfoot sentou-se para esperar.
Descansando os cotovelos nos braços da poltrona,
colocando uma mão sobre a outra, estendendo a perna
manca, e pondo ao lado dela a bengala com ponta de
borracha, ficou sentado absolutamente imóvel. Havia nele
algo de rígido. Estaria refletindo? Provavelmente os mesmos
pensamentos, outra vez e sempre. Mas seriam pensamentos
'bons', pensamentos interessantes? Era um homem de
caráter; tenaz e fiel. Mulheres teriam sentido "Aqui há lei.
Aqui existe ordem. Precisamos valorizar esse homem. Ele
estará na ponte do navio esta noite", e, passando-lhe a xícara
ou o que fosse, entregar-se-iam a visões de naufrágio e
desastre, em que todos os passageiros sairiam cambaleando
das cabines, e lá estaria o capitão, abotoando a jaqueta,
lutando com a tempestade, vencido por ela, mas por
ninguém mais. "Mas eu tenho uma alma", refletiria a sra.
Jarvis quando subitamente o capitão assoasse o nariz no seu
grande lenço colorido, "e é a estupidez desse homem que
causa tudo isso, e a tempestade é tão minha quanto dele"...
era assim que a sra. Jarvis refletiria quando o capitão entrasse
para visitá-los e encontrasse Herbert fora de casa, e passasse
duas ou três horas quase em silêncio na poltrona. Betty
Flanders, porém, não pensava em nada parecido.
— Oh, capitão — disse a sra. Flanders entrando
precipitadamente na sala. — Tive de procurar o homem do
Barker... Espero que Rebeca... Espero que Jacob...
Estava muito ofegante, mas não muito aborrecida; quando
depôs a escova para lareira que comprara do vendedor de
óleo, comentou que estava quente, abriu mais a janela, alisou
uma toalha, pegou um livro, como se se sentisse muito
confiante, muito encantada com o capitão, e muitos anos
mais nova do que ele. Com efeito, no avental azul, não
parecia ter mais de 35. Ele estava bem além dos cinqüenta.
Ela moveu as mãos sobre a mesa; enquanto Betty seguia
tagarelando, o capitão mexia a cabeça de um lado para outro,
emitindo pequenos ruídos, perfeitamente à vontade —
depois de vinte anos.
— Bem — disse ele finalmente —, tive notícias do sr.
Polegate. O sr. Polegate lhe dissera que não podia aconselhar
nada melhor
do que mandar um rapaz a uma das universidades.
— O sr. Floyd esteve em Cambridge... Não, Oxford... Bem,
uma das duas — disse a sra. Flanders.
E olhou pela janela. Janelinhas e lilases e o verde do jardim
refletiram-se em seus olhos.
— Archer está indo muito bem — disse. — Tive
informações muito boas pelo capitão Maxwell.
— Deixarei a carta aqui, para que a mostre a Jacob — disse o
capitão, recolocando-a desajeitadamente no envelope.
— Jacob está caçando borboletas, como sempre — disse a
sra. Flanders irritada, mas surpresa com um súbito
pensamento. — Naturalmente o críquete começa na semana
que vem.
— Edward Jenkinson entregou sua demissão — disse o
capitão Barfoot.
— Então o senhor vai presidir o Conselho? — exclamou a
sra. Flanders olhando-o abertamente no rosto.
— Bem, quanto a isso... — começou o capitão Barfoot,
ajeitando-se mais fundo na poltrona.
Assim Jacob Flanders foi para Cambridge em outubro de
1906.

CAPÍTULO TRÊS

— Esse não é um vagão de fumantes'— protestou a sra.
Norman nervosamente, mas em tom bastante débil, quando
a porta abriu e um rapaz grandalhão saltou para dentro. Ele
pareceu não ouvir. O trem não pararia antes de Cambridge, e
ali se achava ela trancada sozinha num vagão com um rapaz.
Ela tocou o fecho da frasqueira, assegurando-se de que o
vidrinho de perfume e o romance de Mudie se encontravam
à mão (o rapaz estava de costas para ela, em pé, e colocara a
mala no bagageiro). Decidiu que atiraria o vidro de perfume
com a mão direita, e com a esquerda puxaria o fio do alarme.
Tinha cinqüenta anos de idade, e um filho na universidade.
Mesmo assim, é fato que homens são muito perigosos. Leu
meia coluna do seu jornal; depois espiou secretamente por
cima da folha para decidir o problema da segurança pelo
infalível teste da aparência... Gostaria de oferecer-lhe o
jornal. Mas será que rapazes liam o Morning Post? Olhou
para ver o que ele estava lendo — era o Daily Telegraph.
Observando as meias dele (frouxas), a gravata (desbotada),
chegou mais uma vez ao seu rosto. Deteve-se na boca.
Lábios cerrados. Os olhos baixos, pois ele estava lendo. Tudo
firme mais juvenil, indiferente, inconsciente — capaz de
abater alguém? Não, não, não! Ela olhou pela janela, sorrindo
de leve, agora, depois voltou, pois ele não a notara. Grave,
inconsciente... agora ele ergueu o olhar, mas sem fitá-la...
parecia tão deslocado sozinho com uma senhora idosa...
depois fixou os olhos — de um azul aguado — na paisagem.
Ela pensou que o rapaz nem percebera sua presença. Mas
não era culpa dela que aquele não fosse um vagão de
fumantes — se era isso que ele queria demonstrar.
Ninguém vê ninguém tal qual é — exceto uma senhora
idosa sentada diante de um estranho num vagão de trem. As
pessoas vêem um todo — vêem toda sorte de coisas —
vêem a si mesmas... Agora a sra. Norman leu três páginas de
um dos romances do sr. Norris. Deveria dizer ao rapaz
(afinal ele tinha a mesma idade do filho dela): "Se quer
fumar, não se preocupe comigo"? Não: ele parecia absolu-
tamente indiferente à sua presença... Ela não quis
interromper.
Contudo, uma vez que, mesmo na sua idade, magoava-se
com a indiferença dele, seria de se presumir que, de uma
forma ou de outra — ao menos para ela — o rapaz era
simpático, bonito, interessante, distinto, de boa aparência,
como seu próprio filho? Temos de fazer o melhor que
pudermos com o relatório dela. De qualquer modo, aquele
era Jacob Flanders, 19 anos. Não adianta tentar classificar
pessoas. E preciso seguir alusões, não exatamente o que é
dito, nem inteiramente o que é feito — por exemplo,
quando o trem entrou na estação, o sr. Flanders abriu a porta
num arranco, pegou a frasqueira para ela, dizendo, ou antes
resmungando: "Permita", muito timidamente; na verdade,
fazia-o de modo bastante constrangido.
— Quem... — disse a senhora ao encontrar o filho; mas
havia uma multidão na plataforma, e Jacob já se fora quando
ela ainda não concluíra a frase. Como ali fosse Cambridge,
como fosse ficar por três semanas, como não visse senão
rapazes o dia todo, nas ruas e ao redor das mesas, a visão
daquele companheiro de viagem perdeu-se totalmente em
sua memória, como um alfinete de segurança que uma
criança joga na fonte dos desejos, rodopia na água e some
para sempre.
Dizem que o céu é o mesmo por toda parte. Viajantes,
náufragos e exilados buscam conforto nessa idéia, inclusive
consolo, se forem de temperamento místico, e até
explicação, revelação da superfície indevassada. Mas, por
cima de Cambridge — ao menos sobre o telhado da capela
do King's College —, há algo diferente. No mar, uma cidade
grande lançará claridade para o céu. Será por acaso fantasia
imaginar o céu inundando as frestas da capela de King's
College, mais claro, mais tênue, mais cintilante do que o céu
em outro lugar qualquer? Cambridge não arde apenas de
noite, mas também durante o dia?
Como tatalam aéreas as vestes deles quando passam para a
cerimônia, como se dentro delas não houvesse nada denso
nem corpóreo. Que faces esculpidas, que segurança, que
autoridade controlada pela piedade, embora sob esses trajes
haja grandes botas em marcha. Como é ordenada a procissão
em que avançam. Grossas velas de cera, erectas; rapazes
erguem-se em trajes alvos, enquanto a águia servil sustenta
para inspecção o grande livro branco.
Um plano inclinado de luz entra nítido através de cada
janela, púrpura e amarelo mesmo em meio à poeira difusa, e
quando nelas se fragmenta, as pedras são docemente
marcadas em vermelho macio, amarelo e roxo. Nem a neve
nem as folhagens, inverno ou verão, têm poder sobre esse
vidro antigo e colorido. Tal como o bojo de um lampião
protege a chama de modo que ela arda firme até na noite
mais tempestuosa — arda firme e ilumine gravemente os
troncos das árvores —, assim tudo é ordenado dentro da
capela. As vozes soavam graves; o órgão respondia
sabiamente, como se confirmasse a fé humana a sancionar
os elementos. As figuras de branco cruzavam de um lado
para outro; ora subindo degraus, ora descendo, tudo
ordenadamente.
...Se alguém instala um lampião debaixo de uma árvore, cada
inseto da floresta se arrastará até ele — curiosa assembléia,
pois, embora rastejem e esvoacem e batam suas cabeças no
vidro, parecem não ter objetivo algum — uma coisa sem
sentido os inspira. A gente se cansa de observá-los a se
moverem lentos em torno da lanterna, batendo nela
cegamente, como se quisessem entrar, um grande sapo
parecendo o mais atordoado de todos, a abrir caminho com
os ombros entre os demais. Mas, que é isso? Uma
assustadora saraivada de tiros de pistola — agudos estalos;
uma ondulação se espraia — o silêncio baixa suave sobre o
ruído. Uma árvore — uma árvore tombou, uma espécie de
morte na floresta. Depois, o vento sopra melancólico no
arvoredo.
Mas essa cerimônia na capela do King's College — por que
permitir que mulheres tomem parte? Certamente, se o
pensamento começa a vaguear (Jacob parecia
extraordinariamente ausente, cabeça para trás, livro de hinos
aberto na página errada), se o pensamento vagueia, é porque
naquelas cadeiras com assentos de palhinha se espalham
várias lojas de chapéus e armários e mais armários de
vestidos coloridos. Embora cabeças e corpos possam ser
bastante devotos, tem-se uma noção das individualidades —
algumas gostam de azul, outras da marrom; estas de plumas,
aquelas de amores-perfeitos ou miosótis. Pois, embora um
cão fique muito bem num caminho de cascalhos e não falte
com respeito às flores, quando anda por uma nave, olhando,
erguendo uma pata e chegando perto de um pilar com um
objetivo que faz o sangue gelar de horror (se você for
membro da congregação — a timidez, aqui, não vem ao
caso), um cão estragará a cerimônia por completo. Assim
também é com essas mulheres — ainda que devotas se
consideradas separadamente, distintas, com sua posição
assegurada pela teologia, a matemática, o latim e o grego dos
maridos. Deus sabe por que é assim. Primeiro, pensou Jacob,
porque são feias como o pecado.
Agora ouvia-se arrastar de pés e murmúrio. Ele encontrou o
olhar de Timmy Durrant; fitou-o firme; e então,
solenemente, deu uma piscadela.
Waverlcy chamava-se a villa na estrada para Girton, não que
o sr. Plumer admirasse Scott ou tivesse escolhido um nome,
mas nomes são úteis quando é preciso entreter
universitários, e enquanto estavam sentados aguardando o
quarto colega na hora do almoço de domingo, falavam sobre
nomes inscritos por cima de portões.
— Que coisa cansativa — interrompeu a sra. Plumer
impulsivamente. — Alguém aqui conhece o sr. Flanders?
O sr. Durrant conhecia; por isso corou vim pouco, e
embaraçado disse algo sobre ter certeza de que — olhava o
sr. Plumer e repuxava a perna direita da calça ao falar. O sr.
Plumer ergueu-se, ficou parado diante da lareira. A sra.
Plumer emitiu uma risada de amigo franco e amável. Em
suma, não se pode imaginar cena mais horrível, o ambiente,
a paisagem, mesmo com o jardim de maio afligido pela fria
esterilidade, e uma nuvem escolhendo aquele instante para
atravessar-se na frente do sol. Havia um jardim, claro. Todo
mundo olhou para ele no mesmo momento. Devido à
nuvem as folhas encresparam-se, cinzentas, e os pardais...
Havia dois pardais.
— Eu acho — disse a sra. Plumer, tirando vantagem do
súbito intervalo enquanto os rapazes olhavam o jardim, para
fitar o marido, e ele, embora sem aceitar a plena
responsabilidade pelo que fazia, tocou a sineta.
Não pode haver desculpa por esse ultraje a uma hora na vida
humana, exceto a reflexão que ocorreu ao sr. Plumer,
enquanto cortava o carneiro, de que, se nenhum deão jamais
oferecesse um almoço, se domingo após domingo se
passasse, homens se diplomassem, se tornassem advogados,
médicos, membros do parlamento, homens de negócios —
se jamais deão algum oferecesse um almoço...
— Então, é o carneiro que faz o molho de hortelã, ou é o
molho de hortelã que faz o carneiro? — perguntou a um
rapaz perto dele, a fim de romper o silêncio que já durava
cinco minutos e meio.
— Não sei, senhor — respondeu o rapaz, corando
intensamente.
Nesse momento chegou o sr. Flanders. Perdera a hora.
Então, embora tivesse terminado de comer a carne, a sra.
Plumer serviu-se novamente de repolho. Jacob,
naturalmente, decidiu que comeria a sua carne no tempo
que ela levasse para terminar o repolho, olhando só uma vez
ou duas para calcular o ritmo dela — mas estava com uma
fome infernal. Vendo isso, a sra. Plumer disse que estava
certa de que o sr. Flanders não repararia — e trouxeram a
torta. Balançando a cabeça de um jeito peculiar, ordenou à
criada que servisse ao sr. Flanders uma segunda porção de
carneiro. Deu uma olhada na carne. Não sobraria pernil
suficiente para o jantar.
Não era culpa dela — pois como poderia ter controlado o
fato de seu pai a conceber quarenta anos atrás nos subúrbios
de Manchester? E uma vez concebida, como teria podido
fazer outra coisa senão crescer sovina, ambiciosa, com uma
noção instintivamente apurada dos degraus da ascensão
social, e uma assiduidade de formiga em empurrar George
Plumer à sua frente, para o alto dessa escada? O que havia no
alto da escada? Havia uma impressão de que aparentemente
todos os degraus ficavam abaixo da gente; desde a época em
que George Plumer se tornara professor de física, ou do que
quer que fosse, a sra. Plumer só podia agarrar firme essa
dignidade, olhar para baixo, e incitar suas duas modestas
filhas a escalarem os tais degraus.
— Estive ontem nas corridas com minhas duas filhinhas —
disse.
Elas também não tinham culpa. Ambas entraram na saleta
com roupas brancas e faixas azuis na cintura. Ofereceram
cigarros. Rhoda herdara os frios olhos cinzentos do pai.
George Plumer tinha frios olhos cinzentos, mas neles
habitava uma luz abstrata. Era capaz de falar na Pérsia e nos
Ventos Alíseos, no Projeto da Reforma e no Ciclo das
Colheitas. Havia livros de Wells e Shaw em suas estantes;
sobre a mesa, semanários baratos, escritos por homens
pálidos de botinas sujas — rangidos e choramingos
hebdomários de cérebros enxaguados em água fria e torcidos
para secar — jornais muito melancólicos.
— Parece que não sei a verdade sobre coisa alguma, se não
tiver lido esses dois! — disse a sra. Plumer em tom brilhante,
batendo no índice com a mão vermelha e nua, na qual o
anel parecia tão incongruente.
— Oh Deus, oh Deus, oh Deus! — exclamou Jacob quando
os quatro estudantes saíram da casa. — Oh meu Deus!
— Abominável! — disse ele, olhando a rua em busca de
lilases ou de uma bicicleta, qualquer coisa que lhe restaurasse
o sentimento de liberdade.
— Abominável! — disse a Timmy Durrant, resumindo o
desconforto que o mundo lhe provocara na hora do almoço,
um mundo capaz de existir — sem dúvida —, mas
absolutamente desnecessário, tão difícil de se acreditar —
Shaw e Wells e aqueles semanários baratos e sérios! O que é
que pretendiam essas pessoas mais velhas, esfregando e
demolindo? Jamais tinham lido Homero, Shakespeare e os
elisabetanos? Via tudo claramente delineado contra as
sensações que extraía da sua própria juventude e naturais
inclinações. Os pobres diabos tinham inflacionado o preço
daquele objeto tão precário. Ainda assim, sentia algo
parecido com piedade. Aquelas pobres menininhas...
A extensão da sua perturbação prova o quanto já andava
inquieto. Era insolente, inexperiente; sem dúvida, porém, as
cidades que os mais antigos da raça construíram sobre o
horizonte apareciam como subúrbios de tijolo, casernas,
lugares de disciplina contra uma labareda amarela e rubra.
Ele era impressionável; mas esse adjetivo é contrariado pela
postura com que fechava a mão em concha para abrigar um
fósforo. Era um rapaz de substância.
De qualquer modo, fosse universitário ou empregado de loja,
homem ou mulher, devia ser um choque aos vinte anos — o
mundo dos mais velhos —, esboçado num contorno tão
negro sobre aquilo que somos; sobre a realidade; os pântanos
e Byron; o mar e o farol; o maxilar de ovelha com dentes
amarelos; a convicção obstinada e invencível que torna a
juventude tão insuportavelmente desagradável — "Eu sou o
que sou, e pretendo ser exatamente isso" —, para a qual não
haverá forma no mundo exceto se Jacob criar a sua. Os
Plumers tentarão evitar que o faça; Wells e Shaw e os
semanários sérios e baratos estarão no topo. Cada vez que
almoçar fora no domingo — em jantares e chás — haverá
esse mesmo choque — horror — desconforto — depois
prazer, porque a cada passo, enquanto caminha ao longo do
rio, ele haure uma tal segurança, tal tranqüilidade de todos
os lados, as árvores curvando-se, os cones cinzentos e
macios no azul, sopros de vozes parecendo suspensos no ar,
o ar primaveril de maio, o ar elástico com suas partículas —
flores de castanheiro, pólen, o que quer que esteja dando ao
ar de maio essa potência, manchando as árvores, dando seiva
aos botões, reforçando o verde. E também o rio passa, não
numa torrente rápida, mas sugando o remo que nele
submerge e transpira alvas gotas da pá flutuando verde e
profunda sobre os juncos vergados como se os acariciasse
devagar.
As árvores deitavam seus ramos no ponto em que
amarraram o barco, de modo que as folhas das pontas dos
ramos arrastavam-se nas ondas, e a quilha verde na água,
feita de folhas, movia-se com efeitos de folhagem, como
também as folhas reais se movem. Agora, um arrepio de
vento — por um instante, uma orla do céu; e enquanto
comia cerejas, Durrant deixava cair na quilha verde de folhas
as frutas amarelas e raquíticas, caules tremendo quando ser-
peavam para dentro e para fora, e por vezes uma cereja
mordida mergulharia rubra naquele verdor. Quando Jacob se
deitou para trás, a campina ficou ao nível de seus olhos,
iluminada pelos botões-de-ouro. A relva, porém, não corria
como a tênue água verde da grama do cemitério, quase
cobrindo as sepulturas; ela estacionava, densa e seivosa.
Olhando para cima e para trás, ele via pernas de crianças
afundadas na relva, e pernas de vacas. Rac, rac, ouvia; depois
um passo curto na grama; e novamente rac, rac, rac, quando
arrancavam a grama rente às raízes. À frente dele, duas
borboletas brancas circulavam cada vez mais alto em torno
do olmo.
"Jacob está desligado", pensou Durrant erguendo os olhos de
seu romance. Lia mais umas páginas, depois erguia, tirava
algumas cerejas do saco de papel e as comia distraído. Outros
barcos passavam por eles cruzando a água parada para se
desviarem uns dos outros, pois agora havia muitos atracados,
e numa coluna de ar entre duas árvores viam-se vestidos
brancos e uma mancha redonda com uma sinuosa listra azul
— o piquenique de Lady Miller. Mais barcos chegavam e
sem se levantar Durrant dirigiu o seu para mais perto da
margem.
— Ooooh! — resmungou Jacob quando o bote oscilou e as
árvores oscilaram e os vestidos brancos e as calças de flanela
branca oscilaram longas e ondulantes na ribanceira.
— Ooooh! — Ele sentou-se e teve a impressão de que um
pedaço de elástico lhe atingira o rosto.
— São amigos de minha mãe — disse Durrant. — Ao que
vejo, o velho lobo do mar não pára de se preocupar com seu
barco.
O tal barco tinha ido de Falmouth à Baía de St. Ives,
rodeando a costa toda. Durrant disse que no caso deles se
tratava de um outro barco, maior, um iate de dez toneladas,
bem equipado, a sair por volta do dia 15 de junho.
— Mas há o problema do dinheiro — comentou Jacob.
— Minha família vai cuidar disso — retrucou Durrant (filho
de um banqueiro já falecido).
— Pretendo manter minha independência econômica —
declarou Jacob formalizado. (Estava ficando nervoso.) —
Minha mãe disse qualquer coisa sobre ir a Harrogate —
comentou um pouco aborrecido, apalpando o bolso onde
guardava suas cartas.
— O que existe de verdade nessa história do seu tio se tornar
maometano? — perguntou Timmy Durrant.
Jacob contara a história do seu tio Morty, na noite anterior,
no quarto de Durrant.
— Espero que ele esteja alimentando os tubarões, se a
verdade for conhecida — disse Jacob. — Ei, Durrant, não
sobrou nenhuma! — exclamou, remexendo no saco de papel
que continha cerejas e jogando-o no rio. Enquanto o atirava,
avistou o grupo de piquenique de Lady Miller.
Unia espécie de constrangimento, irritação, melancolia,
desven- dou-se em seus olhos.
— Vamos sair daqui... Esse bando abominável...
E seguiram em frente, passando além da ilha.
A penugenta lua branca não deixava o céu escurecer por
inteiro; por toda a noite as flores do castanheiro alvejaram
no verde; a cicutária escurecia os prados.
Os garçons do Trinity deviam estar embaralhando pratos
como cartas de jogo, pelo ruído que se podia ouvir em Great
Court. Mas os aposentos de Jacob eram em Nevilles Court;
bem no topo; de modo que se chegava um pouco ofegante à
sua porta; ele, porém, não estava em casa. Jantando no hall
provavelmente. Tudo está bastante escuro em Nevilles
Court, antes da meia-noite, só os pilares do outro lado se
mostrarão sempre brancos, e as fontes. O portão surte um
efeito estranho, como renda sobre o verde-pálido. Ouvem-
se os pratos até da janela; um murmurejar de conversas
também, de pessoas jantando; o hall iluminado, as portas
giratórias abrindo e fechando com uma batida suave. Alguns
retardatários.
O quarto de Jacob tinha uma mesa redonda e duas cadeiras
baixas. Havia lírios amarelos numa jarra sobre a lareira; uma
fotografia de sua mãe; cartões de diversas sociedades com
pequenas meias-luas, brasões, iniciais; bilhetes e cachimbos;
sobre a mesa, papel pautado com margem vermelha — sem
dúvida, uma dissertação: "A História consistirá em biografias
de grandes homens?" Mas havia muitos livros; poucos
franceses; qualquer pessoa de algum valor lê apenas o que
aprecia, conforme seu estado de alma, com imenso
entusiasmo. Vidas do duque de Wellington, por exemplo;
Spinoza; as obras de Dickens; o Facry Queen; um dicionário
de grego com pétalas de papoulas comprimidas em seda nas
páginas; todos os elisabetanos. Os chinelos dele eram
incrivelmente cambaios, como barcos queimados na beira da
água. Depois, havia fotos dos gregos, uma gravura de Sir
Joshua — tudo muito inglês. As obras de Jane Austen
também, talvez por deferência ao gosto de outra pessoa.
Carlyle fora um prêmio. Havia muitos livros sobre pintores
italianos da Renascença, um Manual de enfermidades de
eqüinos, e todos os livros-texto de costume. O ar num
quarto vazio é lânguido, mal inflando a cortina; as flores
fenecem no vaso. Uma fibra da cadeira de balanço estala,
embora não haja ninguém sentado nela.
Descendo os degraus um pouco de lado (Jacob sentava-se no
banco da janela, conversando com Durrant; fumava, e
Durrant olhava o mapa), o velho, mãos nas costas, roupa
negra tatalando, cambaleava inseguro junto da parede;
depois subiu para seu quarto. Depois outro, que ergueu a
mão e elogiou as colunas, o portão, o céu; outro ainda, em
passinhos curtos e afetados. Cada um subia por uma escada;
três luzes foram acesas nas janelas escuras.
Se há luz ardendo por cima de Cambridge, tem de ser em
três quartos desses; aqui ardem os gregos; ali, ciência;
filosofia no andar térreo. O pobre velho Huxtable não
consegue andar em linha reta; Sopwith também louvou o
céu todas as noites nesses vinte anos; e Cowan ainda dá suas
risadinhas por causa das mesmas histórias. Não é simples
nem pura nem inteiramente esplêndida a lâmpada do
conhecimento, pois, vendo-os ali, debaixo da sua luz (não
importa se há na parede um Rossetti, ou uma reprodução de
Van Gogh, ou se há lilases na jarra, ou velhos cachimbos),
como parecem clericais! Como tudo semelha um desses
subúrbios aonde se vai para ver uma paisagem e comer um
bolo especial! "Somos os únicos a fornecer esse tipo de
bolo." E volta-se a Londres porque a brincadeira acabou.
O velho professor Huxtable, mudando de roupa metódico
como um relógio, sentou-se na cadeira; encheu o cachimbo;
escolheu o papel; cruzou os pés; tirou os óculos. Então toda
a carne do seu rosto desabou em dobras, como se tivessem
removido as estacas de sustentação. Mas, arranquem toda
uma fila de assentos de um vagão do metrô, e eles caberão
ordenados na cabeça de Huxtable. Agora mesmo, enquanto
seus olhos descem pelas letras impressas, uma procissão anda
pelos corredores do seu cérebro, em ordem, a passos
rápidos, até que todo o salão, abóbada, ou não importa o quê,
estejam povoados de idéias. Em nenhum outro cérebro
acontece um tal desfile. Outras vezes, no entanto, ficará
sentado ali horas a fio, agarrado ao braço da cadeira como
um homem segurando-se firme porque naufragou, e então,
apenas porque seu calo dói ou talvez o reumatismo, que
abominação, meu Deus, ouvi-lo falar em dinheiro, pegar a
carteira de couro e resmungar por causa da mais
insignificante moeda de prata, fechado em si e cheio de
suspeitas como uma velha camponesa com todas as suas
mentiras. Estranha paralisia e constrição — maravilhosa
iluminação. Serena por cima disso tudo cavalga a grande
sobrancelha densa, e quando ele dorme, ou nos espaços
quietos da noite, pode-se imaginá-lo jazendo triunfalmente
sobre uma almofada de pedra.
Entrementes, avançando da lareira, num curioso andar
oscilante, Sopwith corta o bolo de chocolate. Até meia-noite
ou mais haveria universitários em seu quarto, às vezes 12,
outras três ou quatro; mas ninguém se levantava quando
saíam ou chegavam; Sopwith continuava falando. Falando,
falando, falando — como se tudo pudesse ser falado —, a
própria alma esgueirando-se de seus lábios em tênues discos
argênteos, que se dissolviam nas mentes dos jovens, como
prata, como luar. Ah, bem mais tarde se recordariam disso e,
num profundo embotamento, voltariam para lá o olhar,
renovando-se.
— Bom, eu nunca. Eis aí o velho Chucky. Meu caro rapaz,
como vai a vida? — E o pobre, pequeno Chucky entrava, o
provinciano fracassado, sendo Stenhouse o seu verdadeiro
nome, mas, naturalmente, usando o outro, Sopwith evocava
tudo aquilo, tudo, "tudo o que eu jamais poderei ser" — sim,
embora no dia seguinte, comprando o jornal e apanhando o
primeiro trem, tudo lhe parecesse absurdo e infantil; o bolo
de chocolate, os rapazes; Sopwith repetindo coisas; não, de
modo algum; ele haveria de mandar seu filho para lá.
Economizaria cada centavo para mandar seu filho para lá.
Sopwith não parava de falar; urdindo as rijas fibras de uma
linguagem desajeitada — coisas que os rapazes diziam sem
refletir —, depois as colocava em pregas em torno da sua
própria guirlanda flexível, mostrando o lado luminoso, os
verdes intensos, os espinhos agudos, a virilidade. Ele amava
isso. Na verdade, um homem podia dizer qualquer coisa a
Sopwith, talvez até quando ele se tornasse velho ou
decadente, descendo fundo, quando os discos argênteos
soassem ocos e a inscrição fosse lida com demasiada sim-
plicidade, e a velha estampa parecesse pura demais, a
ilustração sempre a mesma — a cabeça de um menino
grego. Mas ele, ainda então, seria respeitado. Uma mulher,
porém, adivinhando o sacerdote, involuntariamente o
desprezaria.
Cowan, Erasmus Cowan, bebericava seu vinho-do-porto,
sozinho ou com um homenzinho rosado, cuja memória
abrangia exatamente o mesmo lapso de tempo; bebericava o
seu porto e contava suas histórias e, sem livro à frente,
entoava latim, Virgílio e Catulo, como se a linguagem fosse
vinho em seus lábios. Mas — isso às vezes nos ocorre —, e
se o poeta entrasse? "E esta a minha imagem?", poderia
perguntar, apontando para o homem gorducho cujo cérebro,
afinal de contas, é o representante de Virgílio entre nós,
embora o corpo seja glutão, e quanto a braços, abelhas ou
mesmo arado, Cowan faz suas excursões ao estrangeiro, um
romance francês no bolso, manta sobre os joelhos, e sente-
se grato por estar de novo em casa, em seu lugar, em seus
limites, mostrando em seu espelhinho familiar a imagem de
Virgílio rodeada de boas histórias sobre os deães de Trinity e
rubros reflexos de vinho-do-porto. Contudo, a linguagem é
vinho em seus lábios. Virgílio não ouviria coisas assim em
nenhum outro lugar. E embora, enquanto passeia nos Backs,
a velha srta. Umphelby o cante bastante melodiosamente e
também com correção, quando chega a Clare Bridge, sempre
se preocupa com este problema: "Mas, se o encontrasse,
Virgílio, o que deveria vestir?" — e então, seguindo seu
caminho pela avenida na direção de Newham, deixa a
imaginação brincar com detalhes de encontros entre
homens e mulheres, jamais publicados. Por isso suas aulas
não têm nem a metade da assistência das de Cowan, e aquela
palavra que ela poderia ter dito para elucidar o texto jamais
foi pronunciada. Em resumo, faça um professor defrontar-se
com a imagem do que é ensinado, o espelho se parte.
Passada, porém, a sua exaltação, Cowan bebericava o porto e
já não era um representante de Virgílio. Não, antes o
construtor, o assessor, o supervisor; traçando linhas entre
nomes, pendurando listas nas portas. Essa é a textura através
da qual a luz deve brilhar, se brilhar pode — a luz de todas
essas linguagens, chinês e russo, persa e árabe, de símbolos e
figuras, de história, e coisas que só são conhecidas e coisas
que ainda estão por o serem. De modo que, se à noite, longe
no mar sobre as ondas tumultuadas, se avistasse um nevoeiro
sobre as águas, uma cidade iluminada, um alvor no céu,
como esse agora sobre o hall de Trinity onde ainda estão
jantando, ou lavando pratos, isso seria a luz ardendo ali — a
luz de Cambridge.
— Vamos até o quarto de Simeon — disse Jacob, e
enrolaram o mapa depois de tudo combinado.
Todas as luzes brotavam ao redor do pátio, caindo nas pedras
arredondadas do calçamento, destacando tufos escuros de
grama e solitárias margaridas. Os rapazes tinham voltado a
seus quartos. Deus sabe o que estariam fazendo. O que
poderia estar gotejando assim? E debruçando-se sobre uma
floreira de janela, cheia de flocos brancos, um fazia parar
outro que passava rápido, e subiam as escadas, e desciam as
escadas, até que uma espécie de plenitude baixava sobre o
pátio, a colméia cheia de abelhas, as abelhas em casas densas
de ouro, ébrias, zumbindo, subitamente vocalizadas; a
Sonata ao Luar respondida por uma valsa.
A Sonata ao Luar perdeu-se num tilintar; a valsa
despedaçou- se. Embora ainda houvesse rapazes entrando e
saindo, andavam como se tivessem encontros marcados.
Aqui e ali uma batida surda, como um móvel batendo
inesperadamente por conta própria. Supufhi ergueu os olhos
do livro que estavam lendo quando Hovil tombou. Estavam
lendo? Certamente pairava no ar uma impressão de coisa
concentrada. Atrás das paredes cinzentas sentavam-se tantos
rapazes, alguns indubitavelmente lendo revistas e romances
sensacionalistas, claro; talvez pernas por cima dos braços de
poltronas; fumando; esparramando-se sobre mesas e
escrevendo, enquanto suas cabeças giravam em círculos
conforme se movesse a caneta — rapazes simples aqueles,
que haveriam de..., mas não se precisava pensar neles
envelhecendo; outros comendo doces; aqui trocavam socos;
e o sr. Hawkins deve ter ficado indignado de súbito, pois
abriu num arranco a janela e berrou: "Jo-seph! Jo-seph!" e
depois correu pelo pátio o mais depressa que podia,
enquanto um homem idoso, de avental verde, carregando
uma imensa pilha de talheres de estanho, hesitou, recuperou
o equilíbrio, prosseguiu. Mas era uma festa aquilo. Alguns
rapazes liam deitados em poltronas baixas, segurando seus
livros como se sustivessem nas mãos algo que os ajudava a
passarem aquele tempo difícil; todos angustiados, vindos de
cidades do interior, filhos de clérigos. Outros liam Keats. E
aquelas longas histórias em vários volumes — certamente
alguém começava do começo, para entender o Sagrado
Império Romano corno se deve.
Isso fazia parte da concentração, embora fosse perigoso
numa cálida noite de primavera — perigoso, talvez,
concentrar-se demais em livros isolados, capítulos únicos, se
a qualquer momento a porta haveria de abrir-se e Jacob
apareceria; ou Richard Bonamy, já não mais lendo Keats,
começaria a fazer longos pavios cor-de- rosa com jornais
velhos, inclinado para diante, não parecendo mais aplicado
nem contente, mas quase feroz. For quê? Talvez apenas
porque Keats morreu jovem — a gente também quer
escrever poesia, e amar — ah, que brutos! E terrivelmente
duro. Contudo, afinal de contas, não é tão duro assim, se no
próximo lance de escadas, no quarto grande, há dois, três,
cinco rapazes, todos convencidos disso, quer dizer, da
brutalidade e da nítida fronteira entre o certo e o errado.
Havia um sofá, cadeiras, uma mesa quadrada, e com a janela
aberta podia-se ver como estavam sentados — pernas
aparecendo aqui; ali, uma dobrada no canto do sofá; e,
presumivelmente, pois não podia ser visto, havia alguém
parado no guarda-fogo da lareira, conversando. De qualquer
modo, sentado a cavalo numa cadeira, comendo tâmaras de
uma caixa comprida, Jacob estourou na risada. A resposta
veio do canto do sofá; pois seu cachimbo ficou erguido no
ar, depois foi recolocado. Jacob girou sobre si mesmo. Tinha
algo a retrucar àquilo, embora o robusto rapaz de cabelo
vermelho na mesa parecesse negar balançando lentamente a
cabeça; e então, pegando o canivete, enfiou repetidamente a
ponta num nó da madeira, como que afirmando que a voz
do guarda-fogo falava a verdade — o que Jacob não podia
negar. Possivelmente, quando tivesse terminado de arrumar
as sementes de tâmara, encontrasse algo para dizer — na
verdade, seus lábios se abriram e deles irrompeu uma risada.
A risada morreu no ar. Dificilmente o som poderia ter
chegado até uni dos que estavam junto da capela, do outro
lado do pátio. A risada morreu, e só gestos de braços,
movimentos de corpos, podiam ser vistos configurando
qualquer coisa no aposento. Era uma discussão? Uma aposta
nas corridas de barcos? Não era nada disso?
O que estava sendo conformado por braços e pernas
movendo-se no quarto penumbroso?
Um ou dois passos mais além da janela, não havia nada
exceto as construções ao redor — chaminés erectas,
telhados horizontais; tijolos demais e edificações demais para
uma noite de maio, talvez. E então, diante de nossos olhos
apareceriam as colinas nuas da Turquia — contornos nítidos,
terra seca, flores coloridas, cores nos ombros das mulheres
paradas de pernas nuas na torrente, batendo as roupas nas
pedras. A torrente erguia redemoinhos de água em redor de
seus tornozelos. Mas nada disso podia aparecer claramente
através de faixas e lençóis movendo-se na noite de
Cambridge. Até o bater do relógio era amortecido; como se
fosse reverentemente entoado por alguém de um púlpito;
como se gerações de eruditos escutassem a última hora rolar
entre suas fileiras e a emitissem, já abrandada e desgastada
pelo tempo, com suas bênçãos, para que os vivos fizessem
uso dela.
Foi para receber essa dádiva do passado que o rapaz se
dirigiu à janela e se postou ali, olhando o pátio? Era Jacob.
Parou, fumando o cachimbo, enquanto a última batida do
relógio se derramava macia ao seu redor. Talvez tivessem
estado discutindo. Ele parecia contente; na verdade,
superior; essa expressão mudou ligeiramente enquanto
esteve ali parado, o som do relógio convergindo para ele
(talvez) uma sensação de casas antigas e de tempo; ele
próprio o herdeiro; e depois, o amanhã, e os amigos; ao
pensar neles, em perfeita intimidade e prazer, bocejou e
espreguiçou-se.
Enquanto isso, atrás dele, a figura que haviam criado, com
discussão ou sem ela, a figura espiritual, dura embora
efêmera, como de vidro se comparada à pedra negra da
capela, fora estilhaçada; rapazes ergueram-se de cadeiras e
cantos de sofá, murmurando e fazendo ruído no aposento,
empurrando-se para a porta do quarto de dormir, caindo
quando a porta cedeu. Deixaram então Jacob ali sozinho
com Masham na poltrona rasa? Com Anderson? Simeon?
Ah, era Simeon. Todos os demais tinham partido.
"...Juliano, o Apóstata..." Qual deles disse isso e as outras
palavras murmuradas em derredor? Mas pela noite, por
vezes, sobe um vento pesado, como um vulto com véus,
subitamente acordado; era o que pulsava agora em torno de
Trinity, erguendo folhas invisíveis e tornando tudo difuso.
"Juliano, o Apóstata", e depois o vento. Os ramos de olmo se
alçam, as velas inflam, velhas escunas empinam-se e
adernam, as ondas pardas do cálido Oceano Indico
tumultuam-se mormacentas, depois tudo volta a se alisar.
Dessa forma, se a dama de véus andava pelos pátios de
Trinity, agora está novamente entorpecida, todos os
panejamentos recolhidos ao seu redor, cabeça recostada
num pilar.
— Isso parece ter certa importância.
A voz baixa era de Simeon.
A voz que respondeu era mais baixa ainda. A batida seca de
um cachimbo sobre a lareira cancelou as palavras. E talvez
Jacob apenas dissesse: hum, ou não dissesse coisa alguma. Na
verdade, as palavras eram inaudíveis. Era a intimidade, uma
espécie de maleabilidade espiritual, da mente imprimindo-
se, indelével, sobre outra mente.
— Bem, você parece ter estudado o assunto — disse Jacob,
erguendo-se e postando-se diante da cadeira de Simeon.
Equilibrava-se; balançava um pouco. Parecia
extraordinariamente feliz, como se o seu prazer fosse chegar
até as bordas e escorrer pelos lados, quando Simeon falasse.
Simeon nada disse. Jacob continuou em pé. Mas a
intimidade — o aposento estava pleno dela, quieto e
profundo como uma piscina. Sem necessidade de
movimento ou fila, ela erguia-se branda, recobrindo tudo,
amaciando, iluminando e revestindo a mente com o lustro
de uma pérola, de modo que, se você fala de uma luz, de
Cambridge ardendo, não é apenas a linguagem. É Juliano, o
Apóstata.
Jacob, porém, moveu-se. Murmurou boa noite. Saiu para o
pátio. Abotoou o casaco sobre o peito. Voltou a seus
aposentos, e sendo o único homem a andar de volta a seus
aposentos nessa hora, seus passos ressoavam e sua figura
assomava enorme. O som de seus passos vinha da capela, do
hall, da biblioteca, como se as velhas pedras ecoassem em
tom professoral: "O jovem... o jovem... o jovem... volta a
seus aposentos."

CAPÍTULO QUATRO

De que adianta ler Shakespeare, especialmente numa dessas
pequenas edições finas cujas páginas amassam ou grudam
com a água o mar? Embora as peças de Shakespeare sejam
muito elogiadas, até citadas e colocadas acima dos gregos,
desde que tinham começado a viagem, Jacob ainda não
conseguira leu uma até o fim. Contudo, que oportunidade!
Pois as Ilhas Scilly tinham sido avistadas por Timmy Durrant
no lugar exato, como cimos de montanhas quase à flor da
água. Seus cálculos tinham funcionado à perfeição, e com
efeito vê-lo ali sentado, mão no leme, barba por fazer,
olhando firme as estrelas, depois o compasso, soletrando
bastante bem sua página do eterno livro de textos, poderia
ter emocionado uma mulher. Naturalmente Jacob não era
uma mulher. A visão de Timmy Durrant nada significava
para ele, nada a erguer diante do céu e adorar; longe disso.
Tinham discutido. Ninguém pode dizer por que, com
Shakespeare a bordo, sob todas as condições para tal
esplendor, a maneira correta de abrir uma lata de carne os
transformara em colegiais mal-humorados. Mas carne
enlatada se come fria; água salgada estraga os biscoitos; as
ondas se agitam e espreguiçam por todo o horizonte. Agora
passa uma ramada de algas flutuando — logo depois um toro
de madeira. Navios haviam naufragado ali. Um ou dois
passaram, mantendo seu lado na estrada. Timmy sabia para
onde estavam indo quais suas cargas e, olhando pelo bi-
nóculo, podia dizer o nome da empresa e até adivinhar que
lucros davam a seus acionistas. Isso, porém, não era razão
para Jacob ficar indisposto.
As Ilhas Scilly pareciam cumes de montanhas quase à flor da
água... Infelizmente Jacob quebrou o pino do fogão Primus.
As Ilhas Scilly podiam ser obliteradas por uma vaga
passando.
Mas deve-se dar aos rapazes o crédito de admitir que,
comido nessas circunstâncias, o almoço seja repelente, e
ainda assim é bastante autêntico. Não se precisa de
conversação. Pegaram os cachimbos.
Timmy fez algumas anotações científicas; e — qual a
pergunta que rompeu o silêncio: a hora exata ou o dia do
mês? De qualquer modo, foi dita sem o menor
constrangimento; da maneira mais trivial do mundo; então
Jacob começou a desabotoar a roupa e ficou sentado ali, nu,
exceto a camisa, aparentemente para nadar.
As Ilhas Scilly estavam ficando azuladas; subitamente, azul,
púrpura, verde, inundaram o mar; deixaram-no pardo;
traçaram uma faixa que se desvaneceu; contudo, quando
Jacob tirou a camisa por sobre a cabeça, todo o chão de
ondas estava azul e branco, franzido e crespo, embora vez
por outra aparecesse uma grande mancha roxa, como um
hematoma; ou boiasse uma esmeralda inteira, tingida de
amarelo. Ele pulou. Engoliu água, cuspiu-a, bateu o braço
direito, bateu o esquerdo, puxou-se por uma corda,
arquejou, patinhou, foi içado a bordo.
O assento do barco estava muito quente, o sol aquecia suas
costas enquanto ele estava sentado nu, com a toalha na mão,
fitando as Ilhas Scilly que — com os diabos! a vela deu uma
sacudida. Shakespeare foi lançado por cima da borda. Podia
ser visto flutuando alegremente para longe deles, todas as
páginas agitando-se inumeráveis; depois submergiu.
Estranho, podia-se aspirar o aroma de violetas, ou se violetas
eram impossíveis em julho, devia crescer em terra algo
muito pungente. A terra, não muito longe — podiam-se
adivinhar fendas nos rochedos, cottages brancos, fumaça
subindo —, dava uma impressão extraordinária de calma, de
paz ensolarada, como se sabedoria e piedade tivessem
baixado sobre seus moradores. Foi quando se ouviu um
grito, um homem vendendo sardinhas numa rua principal.
Havia uma sensação extraordinária de piedade e paz, como
de anciãos fumando junto à porta, e meninas, mãos nos
quadris, postadas junto à fonte, e cavalos; como se o fim do
mundo houvesse chegado, e campos de repolho e muros de
pedra e estações da guarda-costeira e por sobre tudo isso as
baías com as ondas que se quebravam sem serem vistas por
ninguém erguendo-se para o céu em êxtase.
Imperceptivelmente a fumaça do cottage definha, parece
um sinal de luto, uma bandeira flutuando sua carícia sobre
uma tumba. As gaivotas, lançando seu amplo vôo e depois
vogando em paz, pareciam marcar o lugar da sepultura.
Sem dúvida, se fosse Itália, Grécia ou mesmo as costas da
Espanha, a tristeza seria afugentada por estranheza e
excitação e pelo aguilhão de uma educação clássica. Mas as
colinas da Cornualha têm fortes chaminés por cima; e de
uma forma ou outra a beleza é infernalmente triste. Sim, as
chaminés e as estações da guarda-costeira e as pequenas
baías com ondas quebrando, sem serem vistas por ninguém,
nos recordam a mágoa que domina o resto. Que mágoa po-
deria ser esta?
E urdida pela própria terra. Emana das casas na costa.
Começamos translúcidos, depois a nuvem se adensa. Toda
história serve de fundo à nossa parede de vidro. Impossível
escapar.
Mas é impossível dizer se essa é a interpretação correta da
melancolia de Jacob, sentado nu ao sol, olhando para o Fim
do Mundo; pois ele não pronunciou palavra alguma. Às
vezes (só por um segundo!) Timmy pensava que sua gente
talvez fosse aborrecê-lo... Não importa. Há coisas que não
podem ser ditas. Vamos esquecê- las. Vamos secar o corpo e
pegar a primeira coisa à mão... O livro de anotações de
Timmy Durrant sobre suas observações científicas.
— Nesse caso... — disse Jacob.
Começou uma discussão terrível.
Há pessoas que conseguem seguir passo a passo um
caminho, inclusive dar elas mesmas um passo pequeno, de
apenas seis polegadas para terminá-lo; outras se contentam
em julgar de imediato, observando tão-somente os indícios
externos.
Os olhos fixam-se no atiçador; a mão direita pega o atiçador
e o levanta; vira-o lentamente, depois recoloca-o no lugar,
com grande cuidado. A mão esquerda, pousada no joelho,
esconde uma música marcial, majestosa, mas intermitente.
Segue-se um fundo respirar; no entanto, a inspiração se
evapora sem ser consumida. Um gato atravessa o capacho da
lareira. Ninguém presta atenção.
— E o máximo que posso fazer — Durrant encerrou a
questão.
O minuto seguinte foi quieto como uma tumba.
— Conseqüentemente... — disse Jacob.
Só meia frase se seguiu; mas essas meias frases são como
bandeiras içadas no topo de edifícios para aquele que está
observando indícios externos lá de baixo. O que era a costa
da Cornualha, com seus aromas de violeta e emblemas de
luto e tranqüila piedade, senão uma tela pendendo por acaso,
vertical, atrás da sua mente, quando esta se punha em
movimento?
— Conseqüentemente... — disse Jacob.
— Sim — respondeu Timmy depois de refletir. — É isso.
Jacob começou a lidar por ali, em parte para esticar o corpo,
em parte por uma espécie de alegria, sem dúvida, pois de
seus lábios brotava o som mais estranho, enquanto enrolava
a vela, esfregava os pratos — um som áspero e sem
entonação, uma espécie de cântico triunfal por ter
enfrentado a discussão, por ter dominado a situação,
queimado de sol, barba por fazer, capaz da aventura de
velejar ao redor do mundo num iate de dez toneladas, o que
provavelmente haveria de fazer um dia desses, em vez de
aboletar-se num escritório de advogado, usando polainas.
— Nosso amigo Masham — disse Timmy Durrant —
preferiria não ser visto em nossa companhia, do jeito que
estamos agora. — Todos os seus botões tinham caído.
— Você conhece a tia de Masham? — perguntou Jacob.
- Nem sabia que ele tinha uma tia — respondeu Timmy.
— Masham tem milhões de tias — disse Jacob.
— Masham é mencionado no Domesday Book — comentou
Timmy.
— As suas tias também — disse Jacob.
— A irmã dele é muito bonita — disse Timmy.
— É isso que vai acontecer com você, Timmy — disse Jacob.
— Com você primeiro — retrucou Timmy.
— Mas essa mulher de quem eu estava falando, a tia de
Masham...
— Ah, continue — pediu Timmy, pois Jacob estava rindo
tanto que não conseguia falar.
— A tia de Masham...
— O que é que tem Masham para a gente rir tanto? —
perguntou Timmy.
— No final das contas, um homem que engole o próprio
alfinete de gravata — disse Jacob.
—Vai ser lorde chanceler antes dos cinqüenta — decretou
Timmy.
— E um cavalheiro — ciisse Jacob.
— O duque de Wellington era um cavalheiro — disse
Timmy.
— Keats não era.
— Lorde Salisbury era.
— E quanto a Deus? — perguntou Jacob.
Agora as Ilhas Scilly apareciam como se um dedo dourado
emergindo de uma nuvem apontasse diretamente para elas;
e todos sabem como essa visão é poderosa, e como esses
largos raios abalam os alicerces do ceticismo, e levam a fazer
piadas sobre Deus, não importa se esses raios caiam sobre as
Ilhas Scilly ou sobre as tumbas dos cruzados nas catedrais.
Senhor, fica comigo: A noite cai depressa; As sombras se
aprofundam; Senhor, fica comigo.
— cantou Timmy Durrant.
— Na minha cidade costumávamos cantar um hino que
começava Grande Deus, o que estou vendo e ouvindo? -
disse Jacob.
Gaivotas giravam docemente, balouçando em pequenos
bandos de duas ou três, junto ao bote; o cormorão, como a
seguir seu próprio longo pescoço numa perseguição eterna,
deslizava uma polegada acima das águas em direção à rocha
mais próxima; e o rugido da maré nas furnas vinha pela água,
baixo, monótono, corno a voz de alguém falando sozinho.
Rocha dos séculos, abre-te para mim, Deixa que me esconda
em ti. - cantava Jacob.
Como o dente rombudo de algum monstro, uma rocha
varava a superfície; marrom; inundada de cachoeiras
perpétuas.
Rocha dos séculos - cantava Jacob, deitado de costas,
erguendo os olhos para o céu do meio-dia, do qual fora
expulsa qualquer partícula de nuvem, de tal modo que
parecia algo permanentemente exposto, nu de todo véu.
Pelas seis da tarde, soprou uma brisa de campo de gelo; pelas
sete, a água era mais púrpura do que azul; pelas sete e meia,
havia um remendo de áspera lâmina de ouro em torno da
Ilhas Scilly, e o rosto de Durrant, sentado pilotando o barco,
era da cor de uma caixa de laca vermelha polida por muitas
gerações. Pelas nove, todo o fogo e confusão tinham sumido
do céu, deixando quilhas de verde-maçã e círculos de
amarelo-pálido; e pelas dez, as lanternas no barco lançavam
cores entrançadas sobre as ondas, alongadas ou largas,
conforme as vagas se estendiam ou encolhiam. O raio de luz
do farol atravessou as águas rapidamente. Infinitos milhões
de milhas adiante, piscava uma poeira de estrelas; mas as
ondas chapinhavam no bote e com regular, espantosa
solenidade rebentavam contra os rochedos.
Embora fosse possível bater na porta do cottage e pedir um
copo de leite, somente a sede provocaria essa intromissão.
Mas talvez a sra. Pascoe achasse isso muito bom. Os dias de
verão podem ser opressivos.
Lavando em sua pequena pia, ela pode ouvir o relógio barato
sobre a lareira tic, tic, tic... tic, tic, tic... Está sozinha na casa.
O marido saiu para ajudar o fazendeiro Hosken; a filha casou
e foi para a América. O filho mais velho também se casou,
mas ela não se dá bem com a mulher dele. O ministro da
igreja de Wesley chegou e levou o menino menor. Ela está
sozinha na casa. Um vapor cruza o horizonte, sem dúvida
dirigindo-se a Cardiff, enquanto ao alcance da mão um
sininho de dedaleira balouça tendo por badalo uma abelha.
Esses cottages brancos da Cornualha são construídos na
beira da rocha; no jardim, tojos crescem mais facilmente que
repolhos; quanto à cerca, algum sujeito primitivo empilhou
seixos de granito. Numa dessas pedras, conjeturou um
historiador, cavou-se uma bacia para receber sangue de
vítimas, mas em nossos dias elas servem insipidamente
como assento para turistas que desejam uma visão plena de
Gunard's Head. Não, porém, que os turistas tenham
qualquer objeção contra um vestido estampado azul e um
avental branco no jardim de um cottage:
— Olhe... ela precisa tirar água de uma fonte no jardim.
— Deve ser muito solitário no inverno, com o vento
varrendo essas colinas e as ondas batendo nas rochas.
Mesmo num dia de verão, a gente escuta o seu rumorejar.
Tendo apanhado sua água, a sra. Pascoe entrou. Os turistas
arrependeram-se de não terem trazido binóculos, para
poderem ler o nome do vapor. Na verdade, era um dia tão
bonito que não havia nada que um par de binóculo não
tivesse trazido para junto dos olhos. Dois barcos de pesca,
com velas, provavelmente vindo da Baía de St. Ives,
singravam agora em direção oposta ao vapor, e o fundo do
mar tornava-se alternadamente claro e opaco. Quanto à
abelha, tendo sugado sua quota de mel, foi visitar o cardo e
dali traçou uma linha reta na direção do quintal da sra.
Pascoe, mais uma vez orientando o olhar dos turistas para o
vestido estampado e o avental branco da velha senhora, pois
ela viera até a porta do cottage, e estava parada ali.
Estava parada ali, protegendo os olhos com a mão e olhando
o mar.
Olhava-o talvez pela milionésima vez. Uma borboleta-pavão
desdobrava-se agora sobre o cardo, descansada, recém-
nascida, conforme provavam o azul e o chocolate de suas
asas. A sra. Pascoe entrou, pegou a caçarola, e postou-se ali,
limpando-a. Sem dúvida, seu rosto não era suave, nem
sensual ou lascivo, mas duro, sábio e saudável, significando,
num lugar cheio de gente sofisticada, a carne e o sangue da
vida. No entanto, ela era capaz de dizer uma mentira tão
prontamente quanto a verdade. Na parede atrás dela pendia
uma grande arraia seca. Encerrados na sala de visitas,
guardava com grande cuidado quadros, bibelôs de porcelana
e fotografias, embora o pequeno aposento embolorado fosse
protegido da brisa salgada apenas pela espessura de um tijolo,
e entre as cortinas de renda se pudesse ver o mergulhão
tombar como uma pedra, e em dias tempestuosos as gaivotas
vinham pelo ar, arrepiadas, e as luzes dos navios apareciam
ora altas ora baixas. Melancolia eram os sons de uma noite
de inverno.
Os jornais ilustrados eram entregues pontualmente aos
domingos e ela contemplava longamente o casamento de
Lady Cynthia na Abadia. Também teria gostado de andar
numa carruagem de molas. As sílabas doces e fluidas da
linguagem culta muitas vezes a deixavam envergonhada das
suas próprias, poucas e rudes. E depois a noite toda ouvir o
tormento do Atlântico sobre os rochedos, em vez de belos
cabriolés e homens assobiando para chamar os carros... Era
com isso que ela podia estar sonhando enquanto esfregava
sua caçarola. Mas todas aquelas pessoas tagarelas e espertas
tinham ido para as cidades. E ela guardava suas emoções no
peito como um avarento. Não gastara nem uma moedinha
em todos esses anos, e a quem a observasse com cobiça,
pareceria que tudo ali dentro devia ser puro ouro.
A sábia anciã, tendo fixado o mar, retirou-se mais uma vez.
Os turistas decidiram que estava na hora de ir a Gunard's
Head.
Três segundos depois a sra. Durrant bateu à porta.
— Sra. Pascoe? — chamou.
E olhava um tanto arrogante os turistas atravessarem a trilha
do campo. Vinha de uma raça das Terras Altas, famosa por
seus capitães.
A sra. Pascoe apareceu.
— Invejo-a por esse arbusto, sra. Pascoe — disse a sra.
Durrant apontando o guarda-sol com que batera na porta
para um belo tufo de arbustos de São João, que crescia ao
lado. A sra. Pascoe olhou o arbusto de modo depreciativo.
— Estou esperando meu filho dentro de um ou dois dias —
disse a sra. Durrant. — Vem num pequeno barco, de
Falmouth, com um amigo... Alguma notícia de Lizzie?
Seus pôneis de cauda longa estavam na estrada a vinte jardas
dali, sacudindo as orelhas. O empregado, Curnow,
ocasionalmente espantava as moscas deles. Viu sua patroa
entrar na cabana; sair de novo; e passar em torno do
canteiro de verduras em frente da casa, falando
energicamente, a julgar pelos movimentos de suas mãos. A
sra. Pascoe era tia dele. As duas mulheres examinavam um
arbusto. A sra. Durrant inclinou-se e apanhou um ramo.
Depois (seus movimentos eram peremptórios. Ela mantinha-
se muito erecta) apontou para as batatas. Estavam com
ferrugem. Todas as batatas aquele ano estavam com
ferrugem. A sra. Durrant mostrou à sra. Pascoe como a
ferrugem estava forte nas suas batatas. A sra. Durrant falava
energicamente; a sra. Pascoe escutava submissa. O
empregado Curnow sabia que a sra. Durrant estava dizendo
que era absolutamente simples; a gente mistura o pó em um
galão de água: "Fiz isso com minhas próprias mãos em meu
próprio jardim", estava dizendo a sra. Durrant.
— Não lhe vai sobrar uma só batata. Não lhe vai sobrar uma
só batata — estava dizendo a sra. Durrant com sua voz
enfática quando chegaram ao portão. O empregado Curnow
ficou imóvel como uma pedra.
A sra. Durrant pegou as rédeas na mão e instalou-se na
boléia.
— Cuide dessa perna ou mandarei o médico vir vê-la —
gritou por cima dos ombros; tocou os pôneis; e a carruagem
arrancou. O empregado Curnow mal teve tempo de
equilibrar-se na ponta das botas. O empregado Curnow,
sentado no meio do assento de trás, olhou sua tia.
A sra. Pascoe estava parada no portão, olhando para eles;
ficou parada no portão até que a carruagem dobrou a
esquina; ficou parada no portão, olhando ora para a direita,
ora para a esquerda; depois entrou novamente em sua casa.
Logo os pôneis chegaram à estrada elevada dos pântanos,
forcejando com as pernas dianteiras. A sra. Durrant afrouxou
as rédeas e recostou-se para trás. Sua vivacidade a
abandonara. O nariz de falcão estava fino como um osso
alvacento ao sol, através do qual se pode ver a luz. As mãos,
jazendo sobre as rédeas em seu colo, eram firmes mesmo
em repouso. O lábio superior curto erguia-se quase num
escárnio sobre os dentes da frente. Seu pensamento voava a
léguas dali, enquanto o pensamento da sra. Pascoe aderia à
sua trilha solitária. Ela arremessava a mente para diante e
para trás, como se os cottages sem telhado, os montículos de
lava, os jardins de casas transbordando de dedaleiras e
amoras pretas lançassem uma sombra sobre essa mente.
Chegando ao topo, parou a carruagem. Colinas pálidas
cercavam-na, cada uma com pedras antigas espalhadas;
abaixo, o mar, mutável como um mar do Sul; e ela própria ali
sentada, olhando da colina para o mar, erecta, aquilina,
equilibradamente postada entre a melancolia e o riso. De
repente, chicoteou os pôneis de tal modo que o empregado
Curnow balançou na ponta das botas.
As gralhas pousavam; as gralhas se alçavam no ar. As árvores
em que tocavam tão caprichosamente pareciam insuficientes
para alojá-las. As copas faziam cantar a brisa em seu interior;
os ramos rangiam audivelmente; de vez em quando, embora
fosse pleno verão, deixavam cair cascas ou galhos finos. As
gralhas subiam e desciam de novo, erguendo-se em número
menor sempre que as andorinhas se preparavam para pousar,
pois a noite já era suficiente para tornar o ar quase escuro
dentro da floresta. O musgo estava macio; os troncos das
árvores, espectrais. Atrás delas abria-se uma campina
prateada. O capim-dos-pampas erguia suas lanças
emplumadas de montículos verdes no fim do prado. Uni
trecho de água cintilava. A mariposa convulvulus girava em
parafuso sobre as flores. Laranja e púrpura, nastúrcio e
cerejeira diluíam-se na meia-luz, mas a planta do fumo e a
flor da paixão, sobre as quais regirava a grande mariposa,
eram alvas como porcelana. As gralhas faziam chiar as asas
juntas nas copas das árvores, e ajeitavam-se para dormir
quando, bem ao longe, um som familiar reboou e tremeu —
intensificou-se — praticamente estrondeou em seus ouvidos
— sagradas, sonolentas asas outra vez nos ares — a sineta do
jantar na casa.
Depois de seis dias de sal e vento e sol, Jacob Flanders
colocara um smoking. O discreto traje negro aparecera vez
por outra no barco entre enlatados, picles, carnes em
conserva, e conforme a viagem progredira, tornara-se cada
vez mais irrelevante, quase inacreditável. E agora, num
mundo estável, iluminado peia luz das velas, só o smoking o
protegia. Ele nem sabia como agradecer. Mesmo assim, seu
pescoço, punhos e rosto estavam expostos sem véu,
formigando e brilhando tanto que a roupa preta se tornava
invólucro imperfeito. Ele recolheu a grande mão vermelha
que jazia sobre a toalha da mesa. Sub-repticiamente ela se
fechou sobre esbeltos cálices e recurvados garfos de prata.
Os ossos das costeletas estavam decorados com babados cor-
de-rosa — ontem ainda ele roera presunto no osso! A frente
havia contornos obscuros, translúcidos, amarelos e azuis.
Atrás deles, o jardim verde-acinzentado, e barcos de pesca
pareciam presos e suspensos entre as folhas da escalônia, em
formato de pêra. O navio a vela passou pelas costas das
mulheres. Dois ou três vultos atravessaram apressadamente
o terraço no lusco-fusco. A porta abriu e fechou. Nada se
acomodava nem permanecia intacto. As frases, brotando ora
daqui ora dali, eram como remos que se alvoroçavam dos
dois lados da mesa.
— Oh, Clara, Clara! — exclamou a sra. Durrant, e Timothy
Durrant acrescentou: — Clara, Clara — então Jacob
identificou no vulto em gaze amarela a irmã de Timothy. A
moça estava sentada, sorrindo, e corou. Com os mesmos
olhos escuros do irmão, era mais vaga e suave do que ele.
Quando as risadas amainaram, ela disse:
— Mas, mamãe, foi verdade. Ele disse isso, não disse? A srta.
Eliot concordou conosco...
Mas a srta. Eliot, alta, grisalha, estava fazendo lugar a seu
lado para o homem idoso que entrava, vindo do terraço. O
jantar não terminaria nunca, pensou Jacob, e não queria que
terminasse, embora o navio tivesse singrado de um canto a
outro da moldura da janela, e uma luz indicasse o fim do
quebra-mar. Viu a sra. Durrant olhar fixamente a luz. Ela
virou-se para ele.
— Era você quem comandava o barco, ou Timothy? —
perguntou. — Perdoe-me chamá-lo de Jacob. Ouvi falar
tanto em você. — Depois seus olhos voltaram ao mar. Seus
olhos ficaram vítreos quando fixaram a paisagem.
— Um dia, uma pequena aldeia — disse — e agora cresceu...
— Ela ergueu-se, levando o guardanapo, e parou junto da
janela.
— Você discutiu com Timothy? — perguntou Clara
timidamente. — Eu teria discutido.
A sra. Durrant voltou da janela.
— Está ficando cada vez mais tarde — disse, sentando-se
erecta e baixando os olhos sobre a mesa. — Vocês deveriam
envergonhar- se... Todos vocês. Sr. Clutterbuck, o senhor
devia estar envergonhado. — Ela erguia a voz porque o sr.
Clutterbuck era surdo.
— Estamos envergonhados — disse uma mocinha. Mas o
velho de barba continuou comendo torta de ameixa. A sra.
Durrant riu e recostou-se para trás na cadeira, como se
condescendesse com ele.
— Confiamos o caso à senhora, sra. Durrant — disse um
jovem com óculos grossos e um bigode selvagem. — Eu
digo que as condições foram preenchidas. Ela me deve um
soberano.
— Mas não antes do peixe; com ele, sra. Durrant — disse
Charlotte Wilding.
— Essa foi a aposta; com o peixe — disse Clara gravemente.
— Begónias, mamãe. Para comer com o peixe dele.
— Meu Deus — disse a sra. Durrant.
— Charlotte não vai pagar — disse Timothy.
— Como é que você se atreve... — disse Charlotte.
— Esse privilégio será meu — disse o cortês sr. Wortley,
apresentando um estojo de prata cheio de soberanos e
fazendo escorregar uma moeda sobre a mesa. Então a sra.
Durrant ergueu-se e atravessou o aposento, mantendo-se
muito erecta, e as mocinhas em gaze amarela e azul e
prateada seguiram-na, e a idosa srta. Eliot em seu veludo; e
uma mulher um pouco rosada, hesitando na porta, limpa,
escrupulosa, provavelmente a governanta. Todas saíram pela
porta aberta.
— Quando você for velha como eu, Charlotte — disse a sra.
Durrant colocando o braço da moça no seu enquanto
passeavam pelo terraço.
— Por que está tão triste? — perguntou Charlotte
impulsivamente.
— Pareço triste? Espero que não — disse a sra. Durrant.
— Bem, apenas nesse momento. E a senhora não é velha.
— Velha o bastante para ser a mãe de Timothy — elas
pararam.
A srta. Eliot olhava pelo telescópio do sr. Clutterbuck no
canto do terraço. O velho surdo estava parado ao lado dela,
acariciando a barba, recitando os nomes das constelações:
— Andrômeda, Boiadeiro, Sidónia, Cassiopéia...
— Andrômeda — murmurou a srta. Eliot, movendo de leve
o telescópio.
A sra. Durrant e Charlotte olharam pelo cilindro do
instrumento apontado para os céus.
— Há milhões de estrelas — disse Charlotte com convicção.
A srta. Eliot afastou-se do telescópio. Os rapazes
subitamente riram na sala de jantar.
— Deixe que eu olhe — disse Charlotte ansiosa.
— As estrelas me aborrecem — disse a sra. Durrant, andando
pelo terraço com Julia Eliot. — Uma vez li um livro sobre
estrelas... O que é que eles estão dizendo? — Ela parou
diante da janela da sala de jantar. —Timothy — ela
comentou.
— O jovem silencioso — disse a srta. Eliot.
— Sim, Jacob Flanders — disse a sra. Durrant.
— Oh, mãe! Não a reconheci! — exclamou Clara Durrant
vindo da direção oposta com Elsbeth. — Que delícia —
aspirou esmagando uma pétala de verbena.
A sra. Durrant virou-se e saiu andando sozinha.
— Clara! — chamou. Clara foi até ela.
— Como são diferentes! — disse a srta. Eliot.
O dr. Wortley passou por elas fumando charuto.
— Cada dia que vivo me surpreendo concordando... — disse
quando passou por elas.
— E tão interessante adivinhar... — murmurou Julia Eliot.
— Logo que viemos para cá podíamos ver as flores naquele
canteiro — disse Elsbeth.
— Vemos muito pouco agora — disse a srta. Eliot.
— Ela deve ter sido tão linda, e naturalmente todo mundo a
amava — disse Charlotte. — Suponho que o sr. Wortley...
— ela interrompeu-se.
— A morte de Edward foi uma tragédia — disse a srta. Eliot
com firmeza.
Nisso o sr. Erskine se juntou a elas.
— Não existe o silêncio — afirmou. — Posso ouvir vinte
sons diferentes numa noite como esta, sem contar as vozes
de vocês.
— Vamos apostar? — disse Charlotte.
— Feito — disse o sr. Erskine. — Um, o mar; dois, o vento;
três, um cachorro; quatro...
Os outros passaram.
— Pobre Timothy — disse Elsbeth.
— Uma noite muito bonita — gritou a srta. Eliot no ouvido
do sr. Clutterbuck.
— Gostaria de olhar as estrelas? — disse o velho virando o
telescópio para Elsbeth.
— O senhor não fica melancólico... olhando estrelas? —
gritou a srta. Eliot.
— Meu Deus, meu Deus, não — o sr. Clutterbuck deu uma
risadinha quando a compreendeu. — Por que ficaria
melancólico? Nem por um momento, meu Deus, não.
— Obrigada,Timothy, vou entrar — disse a srta. Eliot. —
Elsbeth, aqui tem um xale.
— Vou entrar — murmurou Elsbeth com o olho no
telescópio. — Cassiopeia — murmurou. — Onde estão todas
vocês? — perguntou afastando o olho do telescópio. —
Como está escuro!
A sra. Durrant estava sentada na sala junto de uma lâmpada,
enrolando uma bola de lã. O sr. Clutterbuck lia o Times. Ao
longe havia uma segunda lâmpada, e em torno dela
sentavam-se as moças, fazendo cintilar tesouras sobre uma
fazenda com lantejoulas prateadas, para uma representação
de teatro amador. O sr. Wortley lia um livro.
— Sim; ele tem toda razão — disse a sra. Durrant, erguendo-
se e parando de enrolar a lã. E enquanto o sr. Clutterbuck lia
o resto do discurso de lorde Lansdowne, ela ficou sentada
erecta, sem mexer na bola de lã.
— Ah, sr. Flanders — disse, com orgulho como se se
dirigisse ao próprio lorde Lansdowne. Depois suspirou e
recomeçou a enrolar a sua lã.
— Sente-se aqui — disse.
Jacob saiu do lugar escuro, junto da janela, onde estivera
sem fazer nada. A luz derramou-se sobre ele, iluminando
cada fissura de sua pele; mas nenhum músculo da sua face se
moveu quando sentou, olhando o jardim.
— Quero saber da sua viagem — disse a sra. Durrant.
— Sim — disse ele.
— Vinte anos atrás fizemos a mesma coisa.
— Sim — disse ele. Ela fitou-o perquiridoramente.
E extraordinariamente desajeitado, pensou, notando que o
rapaz apalpava as meias. E ainda assim, com ar tão distinto.
— Naqueles dias... — resumiu ela, contando-lhe como
tinham navegado — meu marido, que sabia muita coisa
sobre navegação, porque tinha um iate antes do nosso
casamento... — e narrou como tinham desafiado
temerariamente os pescadores — quase pagamos com nossas
vidas, mas ficamos tão orgulhosos de nós mesmos! — Ela
estendeu de repente a mão que segurava a bola de lã.
— Quer que eu segure a sua lã? — perguntou Jacob,
formalizado.
— Você faz isso para sua mãe — disse a sra. Durrant,
olhando-o de modo penetrante enquanto transferia a meada.
— Sim, assim vai muito melhor.
Ele sorriu; mas não disse nada.
Elsbeth Siddons apareceu atrás deles, indecisa, com alguma
coisa prateada no braço.
— Queremos... — disse. — Eu vim... — ela interrompeu-se.
— Pobre Jacob — disse a sra. Durrant calmamente, como se
o conhecesse desde sempre. — Elas vão fazer você atuar na
peça.
— Adoro a senhora! — disse Elsbeth, ajoelhando-se ao lado
da cadeira da sra. Durrant.
— Dê-me a lã — disse a sra. Durrant.
— Ele vem! Ele vem! — gritou Charlotte Wilding. — Ganhei
minha aposta!
— Há outro cacho mais em cima — murmurou Clara
Durrant, subindo outro degrau; Jacob segurava a escada
enquanto ela se esticava para alcançar as uvas no alto da
parreira.
— Pronto! — exclamou, cortando o caule. Parecia
translúcida, pálida, maravilhosamente bela, no alto, entre
folhas de videira e os cachos amarelos e roxos, luzes boiando
acima dela em ilhas de cor. Gerânios e begônias em potes ao
longo de tábuas; tomates trepando pelas paredes.
— As folhas precisam mesmo ser desbastadas — disse ela, e
uma folha verde, espalmada como uma mão, baixou girando
perto da cabeça de Jacob.
— Já tenho mais do que sou capaz de comer — disse ele,
erguendo os olhos.
— Parece absurdo... — começou Clara — voltar a Londres...
— Ridículo — disse Jacob com firmeza.
— Então — disse Clara — você tem de vir no próximo ano
sem falta — e cortou outra folha de parreira, meio ao acaso.
— Se... Se...
Uma criança passou correndo pela estufa aos gritos. Clara
desceu lentamente a escada com o cesto de uvas.
— Um cacho de uvas brancas, dois das roxas — disse e
colocou duas grandes folhas com os cachos aninhados
mornamente no cesto.
— Eu me diverti muito — disse Jacob, olhando da estufa para
baixo.
— Sim, foi uma delícia — disse ela vagamente.
— Ah, srta. Durrant — disse ele pegando o cesto de uvas;
mas ela passou em direção à porta da estufa.
"Você é bom demais, bom demais", pensava, pensando em
Jacob e em como ele não devia lhe dizer que a amava. Não,
não, não.
As crianças rodopiavam junto à porta, jogando coisas para o
alto.
— Seus diabinhos! — gritou ela. — O que é que eles têm aí?
— perguntou a Jacob.
— Acho que são cebolas — respondeu. Olhava as crianças
sem se mexer.
— Lembre-se, Jacob, no próximo agosto — disse a sra.
Durrant apertando-lhe a mão no terraço onde fúcsias
pendiam como brincos escarlates atrás da cabeça dela. O sr.
Wortley saiu pela porta de vidro, em pantufas amarelas,
carregando o Times e estendendo a mão cordialmente.
— Adeus — disse Jacob. — Adeus — repetiu. — Adeus —
disse mais uma vez. Charlotte Wilding abriu
estabanadamente a janela do quarto e gritou.
— Adeus, Jacob!
— Sr. Flanders! — gritou o sr. Clutterbuck, tentando
levantar-se da poltrona. — Jacob Flanders!
— Tarde demais, Joseph — disse a sra. Durrant.
— Mas não para posar para mim — disse a srta. Eliot
plantando seu tripé no gramado.

CAPÍTULO CINCO

— Eu acho que é Virgílio — disse Jacob, tirando o cachimbo
da boca e, empurrando a cadeira para trás, foi até a janela.
Certamente os motoristas mais velozes do mundo são os dos
furgões dos correios. Disparando por Lambs Conduit Street,
o furgão vermelho dobrou a esquina junto da caixa do
correio, chegando a arranhar o meio-fio, e fez levantar os
olhos, entre assustada e curiosa, uma menininha parada na
ponta dos pés para colocar uma carta na caixa. Ela
interrompeu-se, a mão junto da fenda; depois jogou para
dentro sua carta e saiu correndo. E raro sentirmos piedade
por uma criança na ponta dos pés — geralmente é porque
sofre de algum vago desconforto, um grão de areia no
sapato, que nem vale a pena remover — essa é a nossa
impressão, e assim — Jacob virou-se para a estante de livros.
Há muito tempo atrás, aqui viviam pessoas importantes e,
voltando da Corte depois da meia-noite, paravam debaixo
dos umbrais esculpidos, arrepanhando as saias de cetim,
enquanto o lacaio se erguia de seu colchão no assoalho,
fechava depressa os botões inferiores do colete e as fazia
entrar. A intensa chuva no século XVIII desabava sobre o
canal. Mas Southampton Row hoje em dia é notável,
principalmente porque ali sempre se pode encontrar um
homem tentando vender uma tartaruga a um alfaiate.
— Expondo o seu tweed, senhor? O que os cavalheiros
apreciam é algo singular, que atraia os olhares... E ela tem
hábitos muito higiênicos, senhor! — É assim que oferecem
suas tartarugas.
Na esquina da livraria Mudie, em Oxford Street, a corrente
do tráfego se tinha detido numa fieira de contas vermelhas e
azuis. Os ônibus a motor estavam bloqueados. Indo para a
cidade, o sr. Spalding olhou o sr. Charles Budgeon, que
seguia para Shepherd's Bush. A proximidade dos ônibus dava
aos passageiros da imperial oportunidade de se olharem uns
nos rostos dos outros. Mas poucos tiravam proveito disso.
Cada um tinha seus próprios problemas a remoer. Cada um
trazia o passado trancafiado dentro de si, como páginas de
um livro conhecido de cor; e os amigos só podiam ver o
título, James Spalding, ou Charles Budgeon, e os passageiros
que seguiam em direção oposta não podiam ler coisa alguma
exceto "homem de bigode vennelho", "rapaz de cinza
fumando cachimbo". O sol de outubro pousava sobre todos
esses homens e mulheres sentados imóveis; e o pequeno
Johnnie Sturgeon aproveitou a ocasião para descer a escada
correndo, levando seu grande pacote misterioso, e num tra-
jeto de ziguezague entre as rodas chegou à calçada, começou
a assobiar uma melodia e logo perdeu-se de vista — para
sempre. Os ônibus passavam sacolejando, todas as pessoas
sentiam-se aliviadas por estarem um pouco mais perto do
fim da jornada, embora algumas prometessem a si mesmas
uma recompensa para logo depois do compromisso, uma
indulgência a mais — bife e torta de rins, aperitivo, um jogo
de dominó no canto enfumaçado de um restaurante da
cidade. Ah, sim, a vida humana é bastante suportável num
ônibus em Holborn, quando o policial ergue o braço e o sol
bate em nossas costas, e se existe algo parecido com uma
concha que o homem produz para servir ao próprio homem,
é ali que a temos, nos bancos do Tâmisa, onde as grandes
ruas se encontram e a catedral de St. Paul fecha tudo como a
voluta no fim da concha de um caracol. Saindo do seu
ônibus, Jacob vadiou pelos degraus acima, consultou o
relógio, por fim decidiu entrar... Será preciso esforço? Sim.
Tais mudanças de estado de espírito nos desgastam.
E turvo, assombrado por fantasmas de mármore branco que
o órgão celebra eternamente. O rangido de uma botina é um
horror; e a ordem; a disciplina. O sacristão com sua vareta
tem a vida configurada em ferro a seus pés. Dóceis e
santificados são os angelicais meninos do coro. E para
sempre redondos os ombros de mármore, e os sons frágeis e
agudos de vozes e órgão entram e saem dos dedos cruzados.
Réquiem para sempre — repouso. Cansada de escovar os
degraus do escritório da Prudential Society, o que fazia ano
após ano, a sra. Lidgett sentou-se abaixo da sepultura do
Grande Duque, cruzou as mãos, e semicerrou os olhos. Um
lugar magnífico para uma velha descansar, bem ao lado dos
ossos do Grande Duque, cujas vitórias não significam nada
para ela, cujo nome ignora, mas jamais deixa de
cumprimentar o anjinho do outro lado, quando passa na
saída, desejando ter, um dia, um assim sobre sua própria
tumba, pois a cortina de couro do seu coração já está frouxa,
e agora dele se esgueiram na ponta dos pés pensamentos de
repouso e doces melodias...
O velho Spicer, contudo, negociante de juta, não pensava
em nada disso. Era bastante estranho ele nunca ter estado
em St. Paul nesses cinqüenta anos, embora a janela de seu
escritório desse para o cemitério da igreja.
— Então é só isso? Bom, um lugar velho e escuro. Onde fica
a sepultura de Nelson? Não tenho tempo agora. Voltarei de
novo... Ah, sim, uma moedinha para colocar na caixa...
Vamos ter chuva ou bom tempo? Bom, se ao menos o
tempo se decidisse! — As crianças entram para espiar... O
sacristão as manda embora... E outras e outras... Homem,
mulher, homem, mulher, menino... erguendo os olhos,
franzindo os lábios, a mesma sombra tocando os mesmos
rostos; a cortina de couro do coração que se afrouxa.
Nada poderia parecer mais correto nos degraus de St. Paul
do que cada uma daquelas pessoas estar miraculosamente
provida de casaco, saia e botinas; um ordenado; um objetivo.
Apenas Jacob, levando na mão o Império Bizantino, de
Finley, que comprara em Ludgate Hill, parecia um pouco
diferente; pois carregava na mão um livro que, exatamente
às nove e meia, em seu lugar junto da lareira, haveria de
abrir e estudar, como ninguém nessa multidão faria. Eles não
têm lares. As ruas lhes pertencem; as lojas; as igrejas; são
deles as incontáveis escrivaninhas; as longas luzes dos
escritórios; os furgões são deles, e a linha férrea recurvada
acima da rua. Olhando mais de perto, ver-se-á que três
homens de idade a pouca distância um do outro dirigem suas
carruagens leves sobre o pavimento, como se a rua fosse a
sua sala de estar, e ali, recostada na parede, a mulher olha o
nada, estendendo cadarços de botinas que não pede a
ninguém para comprar. Os cartazes lhes pertencem tam-
bém; e as notícias escritas neles. Uma cidade destruída; uma
corrida ganha. Pessoas sem lar circulando debaixo do céu
cujo azul ou branco é bloqueado por um teto de limalha de
aço e esterco de cavalo desfeito em pó.
Lá, debaixo da pala verde, com a cabeça inclinada sobre
papel branco, o sr. Sibley transferia figuras para fólios, e
sobre cada escrivaninha observa-se, como provisão, um
maço de papéis, alimento do dia, vagarosamente consumido
pela caneta industriosa. Inumeráveis sobretudos, do tipo
prescrito, diariamente pendem vazios nos corredores, mas
quando o relógio bate as seis todos se preenchem
exatamente, e as figurinhas, divididas dentro de suas calças
ou moldadas numa só densidade, saltitam rapidamente em
movimento angular para diante, ao longo do calçamento;
depois mergulham na treva. Por baixo do calçamento,
submersos na terra, tubos ocos alinhados com luzes amarelas
os conduzem eternamente por este ou aquele caminho, e
grandes letras em cartazes esmaltados representam, no
mundo subterrâneo, os parques, praças e largos da
superfície. "Marble Arch — Shepherd's Bush" — para a
maioria Arch e Bush são perpétuas letras brancas sobre
fundo azul. Só em um lugar — pode ser Acton, Holloway,
Kensal Rise, Caledonian Road — o nome significa lojas onde
se compram coisas, e casas numa das quais, descendo à
direita onde as árvores podadas brotam das pedras do
calçamento, existe uma janela quadrada com cortinas, um
quarto de dormir.
Bem depois do pôr-do-sol, uma cega sentava-se numa
cadeira dobrável, com as costas contra a parede de pedra do
Union of London and Smith's Bank, segurando firme nos
braços um cão vira-lata castanho, não para ganhar moedas,
não, mas das profundezas do seu coração selvagem e alegre
— seu coração moreno e pecador — pois a criança que
procura agarrar-se nela é fruto do pecado, e deveria estar na
cama, com as cortinas baixadas, dormindo, em vez de ouvir
à luz do lampião a canção louca de sua mãe, sentada junto do
edifício do banco, cantando, não em troca de moedas, com
o cão apertado ao peito.
Foram para casa. Os cinzentos pináculos de igreja os
acolheram; a cidade velha, venerável, pecadora e majestosa.
Um junto do outro, redondos ou pontudos, perfurando o
céu ou crescendo como barcos a vela, como recifes de
granito, pináculos e escritórios, cais e fábricas rodeiam o
banco; os peregrinos em sua marcha eterna; barcaças com
carga pesada repousam no meio da torrente; tal como acham
alguns, a cidade ama suas prostitutas.
Contudo, parece que poucas são admitidas a esse nível. De
todas as carruagens que saem do arco da Ópera, nenhuma se
dirige para o leste, e quando o pequeno ladrão é apanhado
na praça vazia do mercado, não há ninguém com traje de
noite, branco e negro ou cor-de-rosa, bloqueando o
caminho, parado com a mão sobre a porta da carruagem para
ajudar ou condenar — embora, para se ser justo, se deva
dizer que Lady Charles suspira triste quando sobe sua
escadaria, tira da estante o Tomás de Kempis, e não dorme
enquanto sua mente não se perde no túnel da complexidade
das coisas.
— Por quê? Por quê? Por quê? — suspira. No fundo, é
melhor voltar a pé da ópera. Fadiga é o melhor sonífero.
Era pleno outono. Tristão arrepanhava seu manto debaixo
dos braços duas vezes por semana; Isolda fazia ondular seu
lenço em perfeita harmonia com a varinha do maestro. Em
todos os cantos da casa vêem-se rostos rosados e peitos
resplandecentes. Quando a real mão presa a um corpo
invisível aparecia e pegava o ramo vermelho e branco
pousado na borda escarlate, a rainha da Inglaterra parecia um
nome pelo qual valia a pena morrer. A beleza, na sua
variedade de estufa (que não é a pior), florescia em todos os
camarotes; e embora nada se dissesse de muita importância,
e de modo geral todos concordem que a inteligência
desertou dos belos lábios na época da morte de Walpole —
de qualquer modo, quando Vitória desceu vestindo camisola
para receber seus ministros, os lábios (através de um
binóculo de ópera) ainda eram vermelhos, adoráveis.
Cavalheiros calvos e distintos com bengala de castão de ouro
passeavam pelas avenidas carmesins entre as seções de
poltronas, e só interrompiam suas conversas com os
camarotes quando as luzes escureciam e o maestro,
curvando-se primeiro para a rainha, depois para os
cavalheiros calvos, girava sobre os pés e erguia a batuta.
Então, na semi-escuridão, dois mil corações recordavam,
antecipavam, viajavam por trevosos labirintos; e Clara
Durrant disse adeus a Jacob Flanders, saboreando a doçura
da morte simbolizada; e a sra. Durrant, sentada atrás dela na
escuridão do camarote, suspirou o seu suspiro áspero; e o sr.
Wortley, mudando de posição atrás da esposa do embaixador
italiano, pensou que Branguena estava um tanto rouca; e
suspenso na galeria muitos pés acima dela, Edward Whitaker
sub-repticiamente apontava uma lanterna de bolso sobre sua
partitura de bolso; e... e...
Em suma, o observador sufoca em meio às observações. Só
para não submergirmos no caos, natureza e sociedade
arranjaram entre si um sistema de classificação que é a
própria simplicidade; camarotes, filas de poltronas,
anfiteatro, galeria. As camadas superlotam todas as noites.
Não é preciso distinguir as minúcias. Mas fica um problema
— é preciso optar. Pois embora eu não queira ser a rainha da
Inglaterra — talvez apenas por um momento —, de boa
vontade me sentaria a seu lado; escutaria os mexericos do
primeiro-ministro; os suspiros da condessa, e partilharia de
suas lembranças de saguões e jardins; as fachadas maciças
dos respeitáveis dissimulam o seu código secreto; do
contrário por que seriam tão impenetráveis? E depois,
livrando-nos de nossa máscara, que estranho assumir por
momentos outra personagem — qualquer uma — e ser um
homem de valor que governou no Império; enquanto
Branguena canta, reportar-nos aos fragmentos de Sófocles,
ou ver, num lampejo, enquanto o pastor sopra sua flauta,
pontes e aquedutos. Mas não — temos de optar. Nunca
houve necessidade mais dura! Nem que cause a maior dor,
desgraça mais certa; onde quer que eu me sente, morro no
exílio; Whitaker está em sua hospedaria; Lady Charles no
Manor.
Um homem com nariz de Wellington, que ocupara um
assento barato, descia pelas escadarias de pedra quando a
ópera terminou, como se a influência da música ainda o
apartasse um pouco dos amigos.
Pela meia-noite, Jacob Flanders ouviu uma batida em sua
porta.
— Por Júpiter! — exclamou. — Você é exatamente o
homem que eu queria! — E sem maior alarde descobriram as
linhas que ele procurara o dia todo; só que não vieram de
Virgílio, mas de Lucrécio.
— Sim, isso vai fazer com que ele reaja — disse Bonamy
quando parou de ler. Jacob estava excitado. Era a primeira
vez que lia alto o seu ensaio.
— Maldito porco! — disse, exagerando um pouco; o elogio
lhe subira à cabeça. O professor Bulteel, de Leeds, pusera em
circulação uma edição de Wycherley sem dizer que omitira,
retirara ou marcara só com asteriscos diversas palavras
indecentes e algumas frases indecentes. Jacob disse que
aquilo era um ultraje; uma falta de lealdade; pura afetação;
sinal de mente lasciva e caráter repugnante. Aristófanes e
Shakespeare foram citados; a vida moderna, repudiada.
Fizeram grande alarido a respeito de categoria profissional e
ridicularizaram Leeds como estabelecimento de ensino. E o
extraordinário era que esses rapazes estavam absolutamente
certos — extraordinário porque, mesmo ao tirar cópia de
suas páginas, Jacob sabia que ninguém jamais as imprimiria;
e bastante seguros regressaram do Fort-nightly, do
Contemporary, do Nineteenth Ccntury — quando Jacob os
jogou na caixa de madeira negra onde guardava as cartas de
sua mãe, as velhas calças de flanela e um bilhete ou dois com
carimbo postal da Cornualha. A pálpebra fechou-se sobre a
verdade.
Essa caixa de madeira negra, na qual ainda se podia ler seu
nome em tinta branca, estava colocada entre as compridas
janelas da sala de estar. Abaixo corria a rua. Sem dúvida, o
quarto de dormir ficava atrás. Os móveis — três cadeiras de
balanço e uma mesa desmontável — vinham de Cambridge.
Essas casas (a filha da sra. Garfit, sra. Whitehorn, era a
proprietária desta) tinham sido construídas, digamos, há 150
anos. Os quartos são amplos, os tetos altos; sobre a porta
uma rosácea ou cabeça de antílope esculpida na madeira. O
século XVIII tem a sua distinção. Mesmo os lambris,
pintados em cor de framboesa, têm certa distinção...
"Distinção" — a sra. Durrant dissera que Jacob Flanders
tinha "um ar distinto". "Muito desajeitado", ela dissera, "mas
com ar tão distinto". Vendo-o pela primeira vez, era sem
dúvida essa a sua classificação. Deitado para trás em sua
cadeira, tirando o cachimbo dos lábios, dizendo a Bonamy:
"E agora, sobre essa ópera" (pois tinham concluído o tema da
indecência). "Esse camarada Wagner"... distinção é uma das
palavras a serem usadas naturalmente, embora, olhando para
ele, fosse difícil dizer qual seria o seu lugar na ópera:
balcões, galeria, ou poltronas na platéia. Um escritor?
Faltava-lhe a consciência de si mesmo. Pintor? Havia algo na
forma de suas mãos (pelo lado da mãe descendia de uma
família da maior antiguidade e mais profunda obscuridade)
que indicava bom gosto. E sua boca — certamente, porém,
de todas as ocupações fúteis, a de catalogar os traços das pes-
soas é a pior. Uma palavra basta. Mas, e se não a
encontrarmos?
"Gosto de Jacob Flanders", escreveu Clara Durrant em seu
diário. "Ele é tão pouco mundano. Não faz pose e a gente
pode lhe dizer o que quiser, embora ele seja assustador
porque..." O sr. Letts, porém, deixa pouco espaço em seus
diários baratos. Clara não era moça de saltar para a quarta-
feira. A mais humilde e cândida das mulheres!
— Não, não, não — suspirou parada na porta da estufa —
não quebre isso, não estrague... — O quê? Algo
infinitamente belo.
Contudo, trata-se apenas de palavras de uma moça, além do
mais apaixonada, ou a fugir do amor. Desejava que aquele
momento continuasse para sempre, exatamente como era
naquela manhã de julho. E momentos não fazem isso.
Agora, por exemplo, Jacob estava contando uma história
sobre uma excursão a pé que fizera, e a taverna chamava-se
"The Foaming Pot", o que, levando em conta o nome da
dona... Eles gritaram de tanto de rir. A piada era indecente.
Então Julia Eliot disse "aquele rapaz silencioso" e, como ela
jantasse com primeiros-ministros, sem dúvida queria
significar: "Se ele pretende progredir no mundo, terá de
aprender a falar."
Timothy Durrant jamais fez qualquer observação.
A criada achou que fora muito generosamente
recompensada.
A opinião do sr. Sopwith era tão sentimental quanto a de
Clara, embora expressa de modo bem mais hábil.
Betty Flanders era romântica em relação a Archer e terna
quanto a John; mas ficava irracionalmente irritada com a
falta de jeito de Jacob em casa.
O capitão Barfoot gostava mais dele do que dos outros dois
meninos; quanto a dizermos por quê...
Parece, portanto, que homens e mulheres falham
igualmente. Parece que não conhecemos em absoluto uma
opinião profunda, imparcial e absolutamente justa sobre
nossos próximos. Ou somos homens, ou somos mulheres.
Ou somos frios, ou somos sentimentais. Ou somos jovens,
ou estamos envelhecendo. Em qualquer caso, a vida não é
senão uma procissão de sombras, e sabe Deus por que as
abraçamos tão avidamente e as vemos partir com tal
angústia, já que não passam de sombras. E por que, se isso e
muito mais é verdade, por que ainda assim nos
surpreendemos no canto da janela com a inesperada visão de
que o rapaz na cadeira é, entre todas as coisas do mundo, a
mais sólida, a mais real, a que melhor conhecemos — sim,
por quê? — Pois, no momento seguinte, já nada sabemos
sobre ele.
É assim que vemos as coisas. Tais são as condições do nosso
amor.
("Tenho 22 anos. E quase fim de outubro. A vida é muito
agradável, embora infortunadamente haja grande número de
imbecis por aí. E preciso que nos dediquemos a uma coisa
ou outra — sabe Deus qual. Tudo é realmente muito
divertido — exceto levantar de manhã e vestir um fraque.")
— Escute, Bonamy, e quanto a Beethoven?
("Bonamy é um sujeito assombroso. Conhece praticamente
tudo — não mais do que eu em literatura inglesa, mas leu
todos aqueles franceses.")
— Desconfio que você esteja dizendo bobagem, Bonamy.
Apesar do que disse, pobre do velho Tennyson...
("Na verdade a gente devia ter aprendido francês. Acho que
agora o velho Barfoot está conversando com minha mãe.
Caso bem estranho, na verdade. Mas lá não posso ver
Bonamy. Droga de Londres!" — pois as carroças do mercado
passavam pela rua, matraqueando.)
— Que tal um passeio a pé no sábado?
("O que vai acontecer no sábado?")
E, pegando a sua agenda, assegurou-se de que a noite da festa
dos Durrants era na outra semana.
Embora, porém, tudo isso possa ser verdade — como Jacob
pensou e falou — e cruzou as pernas — e encheu o
cachimbo — e bebericou seu uísque e olhou uma vez a sua
agenda, despenteando o cabelo enquanto o fazia —, algo
permanece que jamais poderá ser expresso por uma segunda
pessoa, exceto pelo próprio Jacob. Mais ainda, parte disso
não é Jacob, mas Richard Bonamy — o quarto; as carroças
do mercado; a hora; o momento exato da história. Depois
pense-se nos efeitos do sexo — o modo como ele pende
ondulante entre homem e mulher, trêmulo, de modo que
aqui há um vale, ali um cume, quando na verdade talvez
tudo seja plano como a minha mão. Mesmo as palavras
corretas adquirem a tonalidade errada. Contudo, algo sempre
nos impele a vibrar como a mariposa-falcão, na boca da
caverna do mistério, dotando Jacob Flanders de toda espécie
de qualidades que ele não tem — pois, embora certamente
estivesse sentado falando com Bonamy, a metade do que
dizia era tolo demais para ser repetido; muita coisa inin-
teligível (sobre gente desconhecida e o parlamento); o que
sobra é, na maior parte, problema de adivinhação. E ainda
assim nos debruçamos sobre isso, a vibrar.
— Sim — disse o capitão Barfoot, batendo seu cachimbo
para esvaziá-lo no aquecedor de Betty Flanders, e abotoando
o casaco. — Isso dobra o trabalho, mas não me importo.
Agora era conselheiro municipal. Olharam a noite, que era a
mesma de Londres, apenas mais translúcida. Sinos da igreja
da cidade lá embaixo batiam as onze horas. O vento soprava
do mar. E todas as janelas dos quartos de dormir estavam
escuras — os Pages dormiam; os Garfits dormiam; os
Cranches dormiam — enquanto em Londres, a essa hora,
queimavam Guy Fawkes em Parliament Hill.

CAPÍTULO SEIS

O fogo pegara bem.
— Lá está St. Paul — alguém gritou.
Quando a madeira começou a arder, a cidade de Londres
ficou iluminada por um instante; dos outros lados da
fogueira havia árvores. O mais nítido dos rostos que
apareciam frescos e vivos como se fossem pintados de
amarelo e vermelho era o de uma moça. Por um efeito da
luz das chamas, parecia não ter corpo. O oval do rosto e o
cabelo pendiam ao lado do fogo com um vácuo escuro por
trás. Seus olhos verde-azulados fitavam as chamas como se
estivessem vitrificados pelo resplendor delas. Cada músculo
da face estava tenso. Não havia nada de trágico nela, assim
olhando fixo — sua idade era 25 anos.
Descendo da escuridão cambiante, uma mão colocou em sua
cabeça o chapéu branco e cónico de um pierrô. Sacudindo a
cabeça, ela ainda olhava. Um rosto de suíças apareceu por
cima dela. Duas pernas de mesa foram lançadas ao fogo, e
uma braçada de ramos finos e de folhas. Tudo isso pegou
fogo e revelou rostos mais atrás, redondos, pálidos, suaves,
barbudos, alguns com chapéu-coco; todos concentrados;
mostrou também St. Paul flutuando na névoa branca e
desigual, e dois ou três pináculos estreitos, alvos como papel,
em forma de apagador de velas.
As labaredas lutavam por abrir caminho entre a lenha e
bramiam quando, sabe Deus de onde, baldes lançavam água
em lindas curvas ocas, como da casca de uma tartaruga
polida; lançavam-na repetidamente; até que o sibilar
parecesse um enxame de abelhas; e todos os rostos se
apagaram.
— Oh, Jacob — disse a moça quando desciam a colina no
escuro —, estou tão terrivelmente infeliz!
Ouviram-se as risadas dos outros — finas, grossas; umas
antes, outras depois.
O salão de jantar do hotel estava bem iluminado. Havia uma
cabeça de cervo em gesso numa das pontas da mesa; na
outra, um busto romano pintado de preto e vermelho, para
representar Guy Fawkes, o dono da noite. Os comensais
eram ligados uns aos outros por guirlandas de rosas de papel,
de modo que na hora de cantar "Adeus, amor", de mãos
dadas, uma faixa rosa e amarela se erguia e baixava em toda a
extensão da mesa. Havia uma enorme quantidade de cálices
verdes de vinho. Um jovem ergueu-se, e Florinda, pegando
um dos globos arroxeados que estavam na mesa, jogou-o
direto em sua cabeça. Ele desfez-se em pó.
— Estou tão terrivelmente infeliz! — disse ela, virando-se
para Jacob, sentado a seu lado.
Como se tivesse pernas invisíveis, a mesa correu para o lado
da sala, e um realejo, decorado com um pano vermelho e
dois vasos de flores de papel, pôs-se a desenrolar uma valsa.
Jacob não sabia dançar. Ficou parado junto à parede,
fumando cachimbo.
— Achamos você o homem mais bonito que vimos na vida
— disseram dois dos dançarinos, afastando-se dos demais e
curvando-se profundamente diante dele.
E enfeitaram-lhe a cabeça com flores de papel. Depois,
alguém trouxe uma cadeira branca e dourada e fizeram-no
sentar. Ao passar, as pessoas penduravam uvas de vidro em
seus ombros, até que ele parecesse a figura de proa de um
navio naufragado. Então Florinda sentou-se nos joelhos dele
e escondeu o rosto em seu casaco. Ele a segurava com uma
das mãos, e com a outra o seu cachimbo.
— Agora vamos conversar — disse Jacob, descendo
Haverstock Hill, entre quatro e cinco da manhã de
novembro, dia seis, de braço dado com Timothy Durrant —,
mas sobre alguma coisa sensata.
Os gregos — sim, era sobre isso que tinham falado, pois,
quando tudo foi dito e feito, quando lavamos nossa boca
com todas as literaturas do mundo, incluindo a chinesa e a
russa (mas esses eslavos não são civilizados), é o sabor dos
gregos que permanece. Durrant citou Esquilo; Jacob,
Sófocles. E verdade que nenhum grego os poderia ter
entendido e nenhum professor teria deixado de criticá-los
— não importa; para que serve grego senão para ser gritado,
na madrugada, em Haverstock Hill? Além disso, Durrant
jamais escutara Sófocles, nem Jacob escutara Esquilo.
Sentiam-se orgulhosos, triunfantes; parecia-lhes que tinham
lido todos os livros do mundo; conhecido todos os pecados,
paixões e alegrias. Séculos champinhavam a seus pés, como
ondas prontas a serem singradas. E observando tudo isso,
assomando do nevoeiro, da luz dos lampiões, das sombras de
Londres, os dois rapazes se decidiram a favor da Grécia.
— Provavelmente somos os únicos no mundo à saber o que
os gregos significaram — comentou Jacob.
Tomaram café numa cantina onde as cafeteiras eram
brunidas e pequenas lâmpadas ardiam ao longo do balcão.
Tomando Jacob por um militar, o dono da cantina contou-
lhe a respeito de seu filho em Gibraltar, e Jacob amaldiçoou
o exército britânico, elogiando o duque de Wellington. E
desceram de novo a colina, falando nos gregos.
Coisa singular — quando se pensa nisso — o amor pelas
coisas gregas a florescer em tal obscuridade, distorcido,
desencorajado e ainda assim a emergir de repente, em
especial ao sairmos de aposentos superlotados, ou depois de
uma indigestão de leitura, ou quando a lua bóia entre as
ondulações das colinas ou nos vazios dias londrinos, tristes e
estéreis, como uma presença adequada; uma lâmina nua;
sempre um milagre. Jacob sabia grego apenas o bastante para
tropeçar através de uma peça de teatro. Não conhecia
história antiga. Mas, quando andava Londres adentro,
parecia-lhe que faziam ressoar as lajes da entrada da
Acrópole, e que, se os visse chegar, Sócrates se apressaria a
chamá-los "meus queridos amigos", pois toda a emoção de
Atenas combinava perfeitamente com o seu estado de
espírito, livre, arrojado, elevado... Pois que Florinda o
chamara de Jacob, sem pedir permissão. Sentara-se em seus
joelhos. E assim faziam todas as belas mulheres no tempo
dos gregos.
Neste instante um lamento ondulante, trêmulo, aflito,
abalou o ar, parecendo não ter forças para expandir-se, e
ainda assim tatalava; a este som, as portas das ruas dos fundos
abriram-se de sopetão; operários saíram com passos pesados.
Florinda sentia-se mal.
Insone como de hábito, a sra. Durrant fez uma marca ao
lado de certas linhas do Inferno.
Clara dormia enterrada nos travesseiros; sobre o seu
toucador, rosas desfeitas e um par de longas luvas brancas.
Florinda sentia-se mal, ainda com o branco chapéu cónico
de pierrô.
Seu quarto de dormir parecia adequado a essas catástrofes —
barato, cor de mostarda, meio sótão meio estúdio,
curiosamente ornamentado com estrelas de papel prateado,
chapéus de mulheres do País de Gales e rosários pendendo
das arandelas do gás. Quanto à história de Florinda, seu
nome lhe fora dado por um pintor que desejara significar
que a flor da sua virgindade ainda não fora colhida. Seja
como for, ela não tinha sobrenome, e dos pais possuía ape-
nas a fotografia de uma pedra tumular, debaixo da qual, dizia,
estava enterrado o pai. Por vezes insistia em falar no
tamanho da sepultura, e havia boatos de que o pai de
Florinda morrera do excessivo crescimento dos ossos, que
nada conseguia deter; e de que sua mãe gozara da confiança
de um senhor da realeza; vez por outra a própria Florinda
era uma princesa, em geral quando bêbada. Assim
desamparada, ainda por cima com olhos trágicos e lábios de
criança, falava mais em virgindade do que as mulheres
comumente falam; perdera-a na noite anterior, ou a
valorizava mais do que ao coração no peito, dependendo do
homem com quem conversava. Mas falava sempre com
homens? Não, tinha a sua confidente: a mãe Stuart. Stuart,
diria essa dama, é nome de uma casa real; mas o que isso sig-
nificava e qual era o seu negócio ninguém sabia; apenas que
a sra. Stuart recebia vales postais todas as segundas-feiras de
manhã, tinha um papagaio, e acreditava na transmigração
das almas, e sabia ler o futuro em folhas de chá. Sujo papel
de parede de uma casa de cômodos, ela sustentava a
virgindade de Florinda.
Agora Florinda chorava. Passou o dia andando pelas ruas;
deteve-se em Chelsea olhando o rio correr; seguiu ao longo
das ruas comerciais; abriu a bolsa e empoou o rosto 110
ônibus; leu cartas de amor, apoiando-se contra a jarra de
leite na confeitaria A.B.C.; achou que havia vidro dentro do
açucareiro; acusou a garçonete de querer envenená-la;
queixou-se de que os rapazes olhavam-na fixo; e ao
anoitecer deu consigo descendo devagar a rua de Jacob,
quando foi fulminada pela consciência de que gostava mais
daquele Jacob do que dos judeus sujos, e sentando-se na
mesa dele (que fazia uma cópia do seu ensaio sobre a ética da
independência), tirou as luvas e contou-lhe que a mãe Stuart
lhe batera na cabeça com o abafador do bule de chá.
Jacob acreditou na sua palavra, quando lhe disse que era
casta. Sentada junto à lareira, tagarelou sobre pintores
famosos. Mencionou a tumba do pai. Parecia selvagem e
frágil e bela, e Jacob pensou que eram assim as mulheres dos
gregos; e que isso era a vida; e que ele próprio era um
homem, e Florinda casta.
Ela saiu com os poemas de Shelley debaixo do braço. Disse
que a sra. Stuart não parava de falar em Shelley.
São admiráveis os inocentes. Acreditar que aquela moça
transcendia qualquer mentira (pois Jacob não era tolo a
ponto de acreditar nela implicitamente), pensar com inveja
numa vida descompassada — quando a sua lhe parecia, em
comparação, mimada e mesmo enclausurada; ter à mão,
como remédio soberano para todos os males da alma,
Adonais e as peças de Shakespeare; imaginar uma
camaradagem toda espiritual da parte dela, e protetora da
parte dele, embora igual para ambos, pois que mulheres,
pensou Jacob, são o mesmo que homens — uma tal
inocência é bastante admirável e talvez no fim de contas não
seja tão ridícula assim.
Quando chegou em casa naquela noite, Florinda primeiro
lavou a cabeça; depois comeu bombons de chocolate; depois
abriu Shelley. Verdade que ficou terrivelmente entediada.
Mas o que aquilo queria dizer? Tinha de apostar consigo
mesma que só comeria outro bombom depois de terminar a
página. De fato, acabou adormecendo. Afinal, tivera um
longo dia. A mãe Stuart lhe atirara o abafador; e nas ruas há
visões fantásticas, e ainda que Florinda fosse ignorante como
uma coruja, e jamais tivesse aprendido a ler corretamente
nem mesmo suas cartas de amor, ainda assim tinha
sentimentos, gostava mais de uns homens que de outros, e
estava inteiramente à disposição da vida. Se era virgem ou
não, parece não ter muita importância. A não ser, é claro,
que seja a única coisa a realmente importar.
Jacob ficou inquieto quando ela o deixou.
A noite toda homens e mulheres se movem, para cima e
para baixo, conforme ritmos que bem conhecemos.
Retardatários voltando para casa podiam ver sombras contra
os estores, até nos subúrbios mais respeitáveis. Nenhuma
praça com neve ou neblina deixava de ter seu par amoroso.
Todos os jogos giravam em torno do mesmo tema. Balas
varavam cabeças em quartos de hotel quase todas as noites
por causa disso. Quando o corpo escapava à mutilação, o
coração raramente ia para o túmulo intacto. Em teatros e
romances populares, era quase só o que se comentava. Ain-
da assim, contudo, dizemos que é assunto sem qualquer
importância.
Seja em Shakespeare e Adonais, Mozart e o bispo Berkeley
— escolha quem quiser —, o fato é dissimulado, e para a
maior parte de nós as noites se passam respeitosamente, ou
apenas com aquela espécie de vibração que a serpente causa
ao deslizar na relva. A dissimulação, no entanto, por si
mesma distrai a mente dos textos e dos sons. Se Florinda
tivesse uma mente, poderia ter lido com olhos mais lúcidos
do que os nossos. Ela e a sua espécie resolvem a questão
transformando-a numa insignificância como lavar as mãos
antes de ir para a cama, com a única dificuldade de escolher
água quente ou fria, e uma vez isso resolvido, a mente pode
seguir seus interesses, incontestada.
Na metade do jantar, porém, ocorreu a Jacob conjeturar se
ela teria ou não um cérebro.
Sentaram-se numa mesinha no restaurante.
Florinda apoiou os cotovelos na mesa e pôs o rosto na
concha das mãos. Seu abrigo escorregara para trás. Ela
emergia, ouro e branco e contas brilhantes, rosto
desabrochando do corpo, inocente, pouco pintada, olhos
olhando francamente em torno, ou pousando lentos sobre
Jacob, e detendo-se ali. Falava:
— Você sabe, aquela grande caixa preta que o australiano
deixou no meu quarto, faz tanto tempo?... Acho que peles
fazem uma mulher parecer velha... Aquele que entrou agora
é Bechstein... Eu estava imaginando como você parecia
quando era bem menino, Jacob. — Florinda roeu um pouco
do seu pãozinho e olhou para ele.
— Jacob, você é como uma dessas estátuas... Acho que há
coisas muito bonitas no Museu Britânico, não acha? Montes
de coisas lindas... — disse em tom sonhador. O local
começava a ficar repleto; o calor aumentava. Conversa de
restaurante é conversa de sonâmbulos entorpecidos, tantas
coisas para ver — tanto barulho —, outras pessoas
conversando. Acaso podemos deixar de ouvi-las? Ah, elas é
que não devem nos escutar.
— Parece Eilen Nagle, aquela moça... — e assim por diante.
— Estou terrivelmente feliz desde que conheci você, Jacob.
Você é um homem tão bom.
A sala cada vez mais cheia; a conversa mais alta; as facas
mais tilintantes.
— Bem, sabe, ela diz coisas dessas porque...
Florinda interrompeu-se. Todo mundo se interrompeu.
— Amanhã... domingo... detestável... diga-me... pois então,
vá! — Crash! E ela saiu tempestuosamente.
Era na mesa ao lado deles que aquela voz se tornava cada
vez mais aguda. De repente, a mulher jogou os pratos no
chão. O homem ficou sozinho. Todo mundo a olhar.
Então...
— Ora, pobre sujeito. Não devemos ficar sentados olhando
para ele. Que fiasco! Você ouviu o que ela disse? Meu Deus,
ele parece tão bobo! Sem dúvida não correspondeu às
expectativas. Toda aquela mostarda na toalha da mesa. E os
garçons rindo.
Jacob observava Florinda. O rosto dela lhe parecia horrenda-
mente desprovido de cérebro — sentada, olhando.
Lá se ia a mulher de negro, pluma dançando no chapéu.
Tinha de ir a algum lugar. A noite não é um negro oceano
tumultuado em que se navega ou naufraga como uma
estrela. Na verdade, era uma noite úmida de novembro. As
lâmpadas de Soho lançavam manchas gordurosas de luz no
pavimento. As ruelas eram suficientemente escuras para
ocultar um homem ou mulher encostados nos umbrais. Uma
delas afastou-se quando Jacob e Florinda chegaram perto.
— Ela deixou cair a luva — disse Florinda.
Apressando o passo, Jacob devolveu-a.
A mulher agradeceu efusivamente; atrasou os passos; deixou
cair a luva outra vez. Para quê? Para quem?
Enquanto isso, aonde fora a outra mulher? E o homem?
Os lampiões da rua não alcançam longe o bastante para
darem a resposta. As vozes, iradas, sensuais, desesperadas,
apaixonadas são pouco mais que vozes de animais enjaulados
na noite. Só que não estão enjaulados nem são animais.
Interpele-se um homem; pergunte-se-lhe o caminho; ele o
dirá; só que temos medo de perguntar o caminho. O que
tememos? — O olho humano. De repente o calçamento se
estreita, o abismo se aprofunda. Ali! Fundiram-se ambos —
homem e mulher. Adiante, anunciando com espalhafato sua
louvável solidez, uma pensão exibe atrás de janelas sem
cortinas seu testemunho da eficiência de Londres. Lá estão,
sentados, sob luz intensa, trajados como damas e
cavalheiros, em poltronas de bambu. Viúvas de homens de
negócios provam laboriosamente que são aparentadas a
juízes. Esposas de comerciantes de carvão replicam no
mesmo instante que seus pais tiveram cocheiros. Uma criada
traz café, e a cesta de croché tem de ser removida. E assim,
retornando para a escuridão, passando aqui por uma moça
que se vende, ali por uma velha que só tem fósforos a
oferecer, atravessando a multidão que sai do metrô,
mulheres com cabelos cobertos, passando afinal apenas por
portas cerradas, batentes esculpidos e um solitário policial,
Jacob chegou ao seu quarto, com Florinda pelo braço, e
acendeu a lâmpada sem dizer uma palavra.
— Não gosto quando você faz essa cara — disse Florinda.
Trata-se de um problema insolúvel. O corpo subordina-se a
um cérebro. A beleza anda de mãos dadas com a
imbecilidade. Ali sentava-se ela, olhando o fogo tal como
olhara o pote quebrado de mostarda. Apesar de defender a
indecência, Jacob não tinha certeza de apreciá-la sem
refinamento. Tinha uma propensão intensa para a sociedade
masculina, quartos fechados e obras clássicas; e sentia-se
disposto a voltar-se com veemência para quem levasse esse
tipo de vida.
Então Florinda pôs a mão no joelho dele.
Afinal de contas, não era culpa dela. Mas a idéia o
entristeceu. Não são catástrofes, assassinatos, mortes,
enfermidades que nos envelhecem e matam; é o modo
como as pessoas olham e riem, e sobem correndo os degraus
dos ônibus.
Contudo, quando ela o fitou, muda, meio adivinhando meio
entendendo, talvez desculpando-se, de qualquer modo
dizendo assim como ele dissera: "Não é culpa minha", o
corpo erecto, magnífico, o rosto como uma concha lisa e
brilhante em sua casca, então Jacob soube que as clausuras e
os clássicos não adiantam nada. Trata-se de um problema
insolúvel.

CAPÍTULO SETE

Por essa época, uma firma comercial ligada ao Extremo
Oriente colocou no mercado pequenas flores de papel que
desabrochavam ao tocar na água. Também era costume usar
baciazinhas para lavar os dedos após o jantar, e a nova
descoberta foi considerada de grande utilidade. Nesses lagos
recônditos boiavam e deslizavam as pequenas flores
coloridas; cavalgavam doces ondas escorregadias e por vezes
afundavam, jazendo como seixos no fundo do vidro. Seus
destinos eram acompanhados por olhos atentos e amáveis.
Sem dúvida trata-se de uma grande descoberta, que une
corações e ajuda a fundar novos lares. Era isso que as flores
de papel faziam.
Não se pense, porém, que roubavam o lugar das flores
naturais. Rosas, lírios, sobretudo cravos, espiavam por sobre
as bordas dos vasos, contemplando as vidas brilhantes e as
rápidas mortes de suas parentas artificiais. O sr. Stuart
Ormond comentou isso, e foi uma idéia encantadora; e Kitty
Craster casou-se com ele seis meses depois. Só que as flores
de verdade jamais poderão ser dispensadas. Se o fossem, a
vida humana mudaria muito. Porque as flores fenecem;
crisântemos são os piores; perfeitos à noite; na manhã
seguinte, amarelos e exaustos — não estão preparados para
serem vistos. No geral, embora muito caros, os cravos
compensam mais; a dúvida é se devemos sustentá-los com
arame. Algumas lojas aconselham. Certamente é a única
maneira de conservá-los durante um baile; mas ainda não
sabemos se isso é necessário em jantares, exceto em
aposentos muito aquecidos. A velha sra. Temple costumava
recomendar uma folha de hera — uma só — mergulhada na
jarra. Dizia que mantinha a água pura dias a fio. Contudo, há
razões para acreditar que a velha sra. Temple estivesse
enganada.
Os cartõezinhos com nomes impressos, porém, são
problema muito mais grave do que as flores. Mais pernas de
cavalos foram consumidas e mais vidas de cocheiros
desgastadas, mais horas de sólido tempo durante a tarde
futilmente gastas do que seria necessário para ganharmos a
Batalha de Waterloo com todas as vantagens. Os diabinhos
são fonte de tantos adiamentos, calamidades, aflições, como
a própria batalha. As vezes, a sra. Bonham acaba de sair; ou-
tras, está em casa. Contudo, mesmo se os cartões fossem
eliminados, o que parece improvável, há forças obstinadas
que transformam vidas em tempestades, perturbam as
manhãs de trabalho, desfazem o equilíbrio da tarde — são os
costureiros e as lojas de confecções. Seis jardas de seda
cobrirão um corpo; mas se temos de inventar seiscentas
formas diferentes de o fazer, e duas vezes o número de
cores? E no meio disso tudo surge a questão urgente do
pudim com enfeites de raminhos verdes e bolinhas de pasta
de amêndoa. E quem ainda não chegou?
Os flamingos das horas esvoaçam macios no céu. Mas
mergulham regularmente suas asas em azeviche; Notting
Hill, por exemplo, ou os subúrbios de Clerkenwel. Não
admira que o idioma italiano permaneça uma arte obscura, e
o piano sempre toque a mesma sonata. A fim de comprar
um par de meias elásticas para a sra. Page, viúva, 63 anos,
pensão de cinco xelins da Previdência Social e o auxílio de
seu único filho, empregado na tinturaria Mackie e sofrendo
do peito no inverno, era preciso escrever cartas e preencher
colunas com a mesma letra redonda e simples com que
escrevia, no seu diário, como o tempo estava bonito, as
crianças uns demônios, e Jacob Flanders tão anti-social.
Clara Durrant conseguiu as meias, tocou a sonata, encheu as
jarras, fez o pudim, entregou os cartões, e quando foi
descoberta a grande invenção das flores de papel boiando
em bacias para lavar os dedos, foi ela uma das que mais se
maravilhou com suas vidas efêmeras.
Nem faltavam poetas para celebrar o tema. Edwin Mallet,
por exemplo, escreveu seus versos concluindo:
E lêem seu destino tios olhos de Cloé o que fez Clara corar à
primeira leitura, e rir na segunda, dizendo que era bem do
feitio dele, chamá-la de Cloé quando seu nome era Clara.
Que rapaz ridículo! Mas quando, entre dez e onze de uma
manhã chuvosa, Edwin Mallet colocou a vida aos pés dela,
Clara saiu correndo da sala e escondeu-se no quarto, e
Timothy, lá embaixo, não pôde prosseguir o trabalho
naquela manhã, por causa dos seus soluços.
— Esse é o resultado de se divertir tanto — disse a sra.
Durrant severamente, olhando o carnê das danças, todo
marcado com as mesmas iniciais, ou melhor: dessa vez eram
diferentes: R.B. em lugar de E.M.; agora era Richard
Bonamy, o rapaz com nariz de Wellington.
— Mas eu jamais poderia me casar com um homem com um
nariz daqueles — disse Clara.
— Bobagem — replicou a sra. Durrant.
"Sou severa demais", pensou consigo mesma. Pois, perdendo
toda a alegria, Clara rasgou o carnê de danças e jogou-o no
guarda-fogo.
Essas foram as graves conseqüências da invenção das flores
de papel flutuando em pequenas bacias.
— Por favor — disse Julia Eliot, tomando sua posição junto
da cortina, quase em frente à porta — não me apresente.
Gosto apenas de dar uma olhada. A coisa mais divertida —
continuou, dirigindo- se ao sr. Salvin, que, por ser manco,
estava acomodado numa cadeira —, a coisa mais divertida
numa festa é observar as pessoas indo e vindo, indo e vindo.
— Da última vez que nos encontramos — disse o sr. Salvin
— foi nos Farquhars. Pobre senhora! Ela tem muito que
enfrentar.
— Não é encantadora? — exclamou a srta. Eliot quando Clara
Durrant passou por eles.
— E qual deles?... — perguntou o sr. Salvin baixando a voz e
falando num tom esquisito.
— Há tantos... — respondeu a srta. Eliot. Três rapazes
parados na porta procuravam sua anfitriã.
— Você não se recorda de Elizabeth como eu — disse o sr.
Salvin —, dançando a dança escocesa em Banchorie. Clara
não tem a vivacidade da mãe. Clara é um pouco pálida.
— Como se vê gente diferente aqui! — observou a srta. Eliot.
— Felizmente não somos governados pelos jornais
vespertinos — disse o sr. Salvin.
— Nunca os leio — retrucou a srta. Eliot. — Não sei nada de
política — acrescentou.
— O piano está afinado — disse Clara passando por eles —,
mas talvez tenhamos de pedir que alguém o empurre para
nós.
— Vão dançar? — perguntou o sr. Salvin.
— Ninguém vai incomodá-lo — disse a sra. Durrant
imperiosamente ao passar.
—Julia Eliot. Mas é Julia Eliot! — exclamou a velha Lady
Hibbert, estendendo as duas mãos. — E o sr. Salvin. O que
vai acontecer conosco, sr. Salvin? Com toda a minha
experiência em política inglesa, Deus do céu, ontem à noite
pensei em seu pai, um dos meus mais velhos amigos, sr.
Salvin. E não me diga que meninas de dez anos são
incapazes de amar! Eu sabia de cor todo o meu Shakespeare
antes de entrar na adolescência, sr. Salvin.
— Não diga — disse o sr. Salvin.
— Digo sim — disse Lady Hibbert.
— Oh, sr. Salvin, sinto tanto...
— Sairei daqui se a senhorita tiver a bondade de me ajudar —
disse o sr. Salvin.
— O senhor vai sentar junto de minha mãe — disse Clara. —
Todo mundo parece vir para cá... Sr. Calthorp, deixe-me
apresentá- lo à srta. Edwards.
— A senhorita vai viajar no Natal? — disse o sr. Calthorp.
— Se meu irmão receber sua licença — disse a srta. Edwards.
— Qual é o regimento dele? — disse o sr. Calthorp.
— O Vigésimo dos Hussardos — disse a srta. Edwards.
— Talvez ele conheça o meu irmão — disse o sr. Calthorp.
— Receio não ter entendido o seu nome — disse a srta.
Edwards.
— Calthorp — disse o sr. Calthorp.
— Mas que prova existe de que a cerimônia do casamento
realmente se efetivou? — disse o sr. Crosby.
— Não há motivo para duvidar de que aquele Charles James
Fox... — começou o sr. Burley; mas então a srta. Stretton lhe
contou que conhecia muito bem a irmã dele; estivera com
ela menos de seis semanas atrás e achara a casa encantadora,
embora desolada no inverno.
— Andando por aí do modo que as moças hoje em dia
andam... — disse a sra. Forster.
O sr. Bowley olhou em torno e, avistando Rose Shaw,
dirigiu- se a ela, estendeu as mãos e exclamou:
— Então!
— Nada! — respondeu ela. — Nada de nada, embora eu os
deixasse sozinhos a tarde toda, de propósito.
— Meu Deus, meu Deus — disse o sr. Bowley. — Vou
convidar Jimmy para o café.
— Quem poderia resistir a ela? — gritou Rose Shaw. —
Clara, querida, sei que não devemos tentar impedi-la...
— A senhora e o sr. Bowley estão fazendo mexericos
horríveis, eu sei — disse Clara.
— A vida é má. A vida é detestável! — exclamou Rose Shaw.
— Não há muito o que dizer sobre essa espécie de coisa, há?
— perguntou Timothy Durrant a Jacob.
— Mulheres gostam.
— Gostam de quê? — disse Charlotte Wilding aproximando-
se.
— De onde você veio? — disse Timothy. — Jantando em
algum lugar, suponho.
— Não vejo por que não — disse Charlotte.
— E para descerem todos ao térreo — disse Clara passando.
— Leve Charlotte, Timothy. Como vai, sr. Flanders?
— Como vai, sr. Flanders — disse Julia Eliot estendendo a
mão.
— O que está acontecendo com o senhor?
Quem é Sílvia? o que é ela? Por que todos os jovens a
louvam?
— cantava Elsbet Siddons.
Todos estavam em pé, ou sentavam-se onde havia uma
cadeira desocupada.
— Ah — suspirou Clara, parada ao lado de Jacob metade do
tempo.
Então cantemos em honra de Sílina, pois Silvia é superior;
ela supera qualquer coisa mortal sobre essa terra insípida.
Levemos-lhe guirlandas de flores
— cantava Elsbet Siddons.
— Ah! — exclamou Clara bem alto, batendo as mãos
enluvadas; e Jacob bateu as suas, despidas; e então ela
moveu-se para diante pedindo às pessoas no umbral que
entrassem.
— Está morando em Londres? — perguntou a srta. Julia
Eliot.
— Sim — respondeu Jacob.
— Quarto alugado?
— Sim.
— Ali está o sr. Clutterbuck. A gente sempre encontra o sr.
Clutterbuck aqui. Receio que ele não se sinta muito feliz em
casa. Dizem que a sra. Clutterbuck... — ela baixou a voz. —
E por isso que ele fica com os Durrants. Esteve presente
quando representaram a peça do sr. Wortley? Ah, não, claro
que não. No último momento, sabe... O senhor teve de ir
ver sua mãe, agora me lembro, em Harrogate. No último
momento, eu estava dizendo, quando tudo estava pronto, as
roupas e tudo... Agora Elsbeth vai cantar de novo. Clara vai
tocar para acompanhá-la, ou virar as páginas para o sr.
Cárter. Não, o sr. Cárter vai tocar sozinho... Isso é Bach —
sussurrou, quando sr. Cárter tocou os primeiros compassos.
— Gosta de música? — perguntou a sra. Durrant.
— Sim, gosto de escutar — respondeu Jacob. — Mas não
entendo nada.
— Muito pouca gente entende — disse a sra. Durrant. —
Suponho que nunca lhe ensinaram. Por que acontece isso,
Sir Jasper?... SíVJasper Gigham... Sr. Flanders... Por que não
ensinam a ninguém o que deveria ser ensinado, Sir Jasper?
— Ela os deixou parados junto à parede.
Nenhum dos dois cavalheiros disse coisa alguma por três
minutos, e Jacob deslizou talvez cinco polegadas para a
esquerda, e a mesma quantidade para a direita. Depois emitiu
um grunhido e subitamente atravessou a sala.
— Quer vir comigo, comer alguma coisa? — disse a Clara
Durrant.
— Sim, um sorvete. Depressa. Agora — disse ela.
Desceram as escadas.
Mas a meio caminho encontraram o sr. e a sra. Gresham,
Herbert Turner, Sylvia Rashleigh, e um amigo da América,
que tinham se atrevido a trazer, "sabendo que a sra. Durrant
desejava apresentá-la ao sr. Pilcher". — O sr. Pilcher, de
New York. — Esta é a srta. Durrant.
— De quem ouvi falar tanto — disse o sr. Pilcher fazendo
uma funda mesura.
Assim Clara deixou Jacob.

CAPÍTULO OITO

Às nove e meia Jacob saiu da casa, batendo a sua porta,
batendo outras portas, comprando seu jornal, entrando no
seu ônibus, ou, se o tempo permitisse, caminhando como
outras pessoas faziam. Cabeça baixa, uma escrivaninha, um
telefone, livros encadernados em couro verde, luz elétrica...
"Mais carvão, senhor?..." "Seu chá, senhor..." Falar em
futebol, os Hotspurs, os Arlequins; seis e meia, o Star trazido
pelo contínuo; as torres de Gray's Inn passando por cima;
ramos no nevoeiro, finos e frágeis; e através da zoeira do trá-
fego, de vez em quando uma voz gritando: "Decisão...
decisão... ganhador... ganhador", enquanto cartas se
acumulavam num cesto. Jacob as assinava, e a noite sempre
o encontra com algum músculo do cérebro mais tenso,
quando ele apanha o casaco.
Às vezes, um jogo de xadrez; ou cinema em Bond Street, ou
uma longa caminhada para casa, a fim de tomar ar, com
Bonamy pelo braço, marchando meditativos, cabeças para
trás, o mundo um espetáculo, a lua por sobre os campanários
aparecendo precoce para ser elogiada, as gaivotas voando
alto, Nelson em sua coluna vigiando o horizonte — e o
mundo, nosso navio.
Enquanto isso, chegando pela segunda entrega do correio, a
carta da pobre Betty Flanders estava na mesa do vestíbulo —
pobre Betty Flanders, escrevendo o nome de seu filho, Jacob
Alan Flanders, Esq., como as mães costumam fazer, e a tinta
pálida, pródiga, sugerindo como as mães de Scarborough
rabiscam junto da lareira, com os pés sobre o guarda-fogo,
quando o chá já foi retirado; sem jamais, jamais chegar a
dizer... o quê? o que poderia ser? provavelmente: "Não ande
com mulheres ruins; seja um bom rapaz, vista as camisas
grossas; e volte, volte, logo para mim."
Mas ela não dizia nada desse teor. "Você se lembra da velha
srta. Wargrave, que costumava ser tão bondosa quando você
teve coqueluche?", escrevia. "Finalmente ela morreu,
coitada. Eles ficariam muito contentes se você lhes
escrevesse. Eilen veio me ver e passamos um belo dia
fazendo compras. O velho Mouse está muito emperrado,
mal consegue andar colina acima. Finalmente, depois de não
sei quanto tempo, Rebeca foi ver o sr. Adamson. Ele diz que
é preciso arrancar três dentes. Faz um tempo tão brando
para essa época do ano, há até pequenos botões nas pereiras.
E a sra. Jarvis me diz..." A sra. Flanders gostava da sra. Jarvis,
sempre dizia que ela era distinta demais para morar num
lugarejo tão retirado como Scarborough; e, embora nunca
escutasse seus dissabores, e sempre acabasse por interrompê-
la (erguendo o olhar, molhando o fio de linha ou tirando os
óculos) para dizer que um pouco de turfa enrolada nas raízes
das íris as protegia da geada, e que a grande liquidação da
Parrot seria na próxima terça-feira ("não se esqueça") — a
sra. Flanders compreendia muito bem como a sra. Jarvis se
sentia; como eram interessantes as suas cartas a respeito da
sra. Jarvis, podia-se lê-las ano após ano — essas inéditas
obras femininas, escritas perto da lareira numa pálida
prodigalidade de tinta que elas põem a secar junto às
chamas, pois que o mata-borrão estava esburacado, e a pena
fendida e cheia de grumos. E quanto ao capitão Barfoot —
ela o chamava "o capitão" —, falava nele com franqueza,
embora sempre com reserva. O capitão estava investigando
para ela a respeito da propriedade dos Garfits; aconselhava a
criação de galinhas; prometia lucros; ou estava com ciática;
ou a sra. Barfoot estivera acamada por semanas a fio; ou o
capitão afirma que as coisas andam ruins, quer dizer, a
política, pois, como Jacob sabia, o capitão, às vezes, ou
quando a noite empalidecia, falava na Irlanda ou na Índia;
e a sra. Flanders começaria a cismar sobre seu irmão Morty,
sumido todos esses anos — será que os nativos o tinham
aprisionado, o navio naufragado —, será que o Almirantado
diria a ela? — Batendo o cachimbo para esvaziá-lo, Jacob
sabia, o capitão se ergueria para partir, esticando-se rígido
para apanhar o novelo de lã da sra. Flanders, que rolara para
baixo da cadeira. A conversa sobre criação de galinhas
voltava sempre, pois esta mulher, aos cinqüenta, coração
impulsivo, esboçava contra o fundo nebuloso do futuro seus
sonhos com inumeráveis bandos de Leghorns,
Conchinchinas, Orpingtons; vigorosa como Jacob; ativa e
robusta como ele; correndo pela casa toda e aborrecendo
Rebeca.
A carta jazia na mesa do vestíbulo; entrando naquela noite,
Florinda trouxe-a consigo, colocou-a na mesa quando beijou
Jacob; reconhecendo a letra, Jacob deixou-a ali sob a
lâmpada, entre o pote de biscoitos e a caixa de fumo.
Fecharam atrás de si a porta do quarto de dormir.
A pequena sala de estar não sabia de nada, nem se
importava. A porta foi fechada; e supor que, ao ranger, a
madeira transmite outra mensagem além de que há ratos
laboriosos e madeira seca, é uma infantilidade. Essas casas
velhas são apenas tijolo e madeira, encharcados de suor
humano, ásperos de sujeira humana. Contudo, se um
envelope azul-pálido perto da caixa de biscoitos contivesse
as emoções de uma mãe, o coração dela se partiria com o
pequeno rangido, o súbito movimento. Atrás da porta
reinava a coisa obscena, a presença alarmante; e o terror a
assolaria como a morte ou como as dores do parto. Melhor,
talvez, correr até lá e enfrentar a realidade, do que sentar-se
na antecâmara ouvindo o pequeno rangido, o súbito
movimento, pois o coração dela estava inchado e
atormentado pela dor. Meu filho, meu filho — seria este o
seu lamento, pronunciado para abafar a visão dele deitado
com Florinda, espetáculo imperdoável, irracional, para uma
mulher com três filhos vivendo em Scarborough. E a culpa
era de Florinda. Na verdade, quando a porta se abriu e o
casal saiu, a sra. Flanders teria se lançado sobre ela — mas foi
Jacob quem apareceu primeiro, vestindo seu robe, amável,
autoritário, magnificamente saudável, como uma criança de-
pois de um passeio, olhos claros como água corrente.
Florinda veio logo após, espreguiçando-se; bocejando um
pouco; arranjando o cabelo em frente ao espelho —
enquanto Jacob lia a carta da mãe.
Pensemos em cartas — em como chegam na hora do café da
manhã e à noite, com seus selos amarelos e os verdes,
imortalizados pelo carimbo postal — pois ver o nosso
próprio envelope na mesa de outra pessoa é entender com
que rapidez nossos textos nos deixam e se tornam alheios. O
poder da mente de abandonar o corpo é fato óbvio, e talvez
tenhamos medo, ou ódio, ou desejemos aniquilar esse
fantasma de nós mesmos jazendo ali na mesa. Ainda assim,
há cartas que simplesmente dizem sobre tal jantar às sete;
outras encomendam carvão; ou marcam encontros. A mão
que as escreveu é quase imperceptível — quanto mais a voz
ou a expressão do olhar. Ah, mas quando o carteiro bate e a
carta chega, o milagre parece sempre repetido — a
linguagem que tenta falar. Veneráveis são as cartas,
infinitamente audaciosas, desamparadas, e perdidas.
Sem elas a vida se esgarçaria. "Venha para o chá, venha
jantar, qual é a verdade sobre aquele caso? Você ouviu as
novidades? A vida na capital é divertida; os dançarinos
russos..." Tais são nossos apoios, nossas escoras. São eles que
entretecem nossos dias uns nos outros e fazem da vida uma
esfera perfeita. E ainda assim, ainda assim... quando vamos
ao jantar, quando apertamos pontas de dedos e esperamos
nos encontrar, logo, de novo, em algum lugar, uma dúvida
se insinua; é essa a maneira de gastarmos nossos dias? Os
raros, os limitados, tão depressa perdidos dias — tomando
chá? jantando fora? E os bilhetes se acumulam. E os
telefones tocam. Onde quer que estejamos, fios e tubos nos
rodeiam para levarem nossas vozes, que tentam penetrar
antes que o último cartão seja mandado e os dias se acabem.
"Tentam penetrar", porque quando erguemos a taça, e
apertamos a mão, e expressamos tal desejo, alguma coisa sus-
surra: isso é tudo? Jamais poderei saber, partilhar, ter
certeza? Estarei condenada todos os meus dias a escrever
cartas, a enviar vozes que caem sobre a mesa do chá,
fenecem nos corredores, marcando encontros para jantar,
enquanto a vida vai se encolhendo? Ainda assim, porém, as
cartas são veneráveis; e o telefone necessário, pois a jornada
é solitária e, se estamos vinculados por bilhetes e telefo-
nemas, andamos acompanhados — quem sabe? —, talvez
possamos conversar no caminho.
Sim, houve aqueles que tentaram. Byron escreveu cartas.
Cowper também. Por séculos a fio as escrivaninhas
abrigaram folhas de papel para comunicações entre amigos.
Mestres da língua, antigos poetas, voltaram-se da folha
eterna para a folha perecível, afastando a bandeja do chá,
chegando perto do fogo (pois cartas escrevem-se quando a
treva se comprime em torno de uma luminosa caverna
vermelha), e entregaram-se à tarefa de alcançar, tocar,
penetrar o coração dos indivíduos. Como se isso fosse
possível! Mas as palavras têm sido demasiadamente usadas;
manipuladas e reviradas, expostas à poeira das ruas. As
palavras que não buscamos pendem junto da árvore.
Chegamos ao amanhecer e as encontramos, dóceis, frescas,
debaixo das folhas.
A sra. Flanders escrevia cartas; a sra.Jarvis as escrevia; a sra.
Durrant também; a mãe Stuart, na verdade, perfumava suas
cartas, acrescentando-lhes com isso uma nuance que a
língua inglesa não consegue propiciar; Jacob escrevera em
outros tempos longas cartas sobre arte, moral e política, a
seus camaradas do colégio. As cartas de Clara Durrant eram
as de uma criança. Florinda — o obstáculo entre Florinda e
uma caneta era algo insuperável. Imagine-se uma borboleta,
mosquito ou outro inseto alado, sujo de lama, que se amarra
a uma vareta para fazer traços na página. Sua ortografia era
abominável. Suas emoções, infantis. E por alguma razão,
quando escrevia, declarava sempre sua fé em Deus. E havia
cruzes riscando palavras, manchas de lágrimas, e a letra
desconexa, redimida apenas pelo fato — que sempre redimiu
Florinda — de que ao fim e ao cabo ela era realmente
sincera. Sim, quer se tratasse de bombons de chocolate, ou
banho quente, ou o formato do seu rosto no espelho,
Florinda não sabia fingir emoção assim como não conseguia
engolir uísque. Sua rejeição era imediata. Grandes homens
são ingênuos, e essas pequenas prostitutas, olhando para o
fogo, tomando de uma esponja de pó, retocando os lábios a
uma polegada de distância, têm (assim pensava Jacob) uma
fidelidade inviolável.
Foi então que ele a viu subindo Greek Street pelo braço de
outro homem.
A luz do lampião do arco inundava-o da cabeça aos pés. Por
um minuto ficou ali parado imóvel, debaixo dela. Sombras
manchavam a rua. Outros vultos, isolados ou juntos,
emergiram, passaram oscilantes, impediram-no de ver
Florinda e o homem.
A luz banhava Jacob da cabeça aos pés. Podia-se ver o
padrão do tecido de suas calças; os velhos nós de sua
bengala; os cadarços dos sapatos; as mãos nuas; e o rosto.
Era como se uma pedra tivesse sido triturada em pó; como
se fagulhas brancas jorrassem de uma pedra lívida, que era a
sua espinha; como se uma montanha-russa, descendo às
profundezas, tombasse, tombasse, tombasse. Era o que
aparecia em seu rosto.
Quanto a saber o que se passava em sua mente, é outro
problema. Dando-lhe dez anos de idade a mais, e a diferença
de sexo, a primeira coisa que sentimos é medo do que ele é
capaz de fazer. Depois, esse medo é submergido pelo desejo
de ajudar — não obstante a razão, o bom senso, e essa hora
da noite; logo depois, viria a raiva — contra Florinda, contra
o destino; e depois ainda, haveria de borbulhar um
irresponsável otimismo. "Claro que nesse momento há
bastante luz na rua para afogar todas as nossas preocupações
em ouro!" Ah, mas de que adianta dizer tais coisas? No mes-
mo instante em que as formulamos, ou o olhamos por cima
do ombro, na direção de Shaftesbury Avenue, o destino está
cravando o dente em Jacob. Ei-lo que se vira para partir.
Quanto a segui-lo de volta aos seus aposentos — não, não
faremos isso.
No entanto, é precisamente isso que faremos. Ele entra e
fecha a porta, embora sejam apenas dez horas, conforme as
batidas de um dos relógios da cidade. Ninguém pode ir para
cama às dez. Ninguém pensa em ir para a casa às dez horas.
É janeiro e o tempo está sinistro, mas a sra. Wagg
permanece parada no degrau da sua porta, como se à espera
de que algo aconteça. Um realejo canta como um rouxinol
obsceno debaixo de folhas molhadas. Crianças correm pela
rua. Aqui e ali entrevêem-se lambris marrons, pela porta de
um vestíbulo... O caminho que o pensamento segue sob
janelas alheias é bastante bizarro: num momento, distraído
por lambris marrons; no outro, por uma samambaia num
vaso; aqui, improvisando novas frases para dançar com o
realejo; ali, extraindo hilaridade do espetáculo incongruente
de um bêbado; ou absorvendo-se inteiramente nas palavras
que os pobres gritam uns para os outros por cima da rua (tão
francos, tão vigorosos) — ainda assim, porém, conservando
sempre por centro e ímã um rapaz solitário em seu quarto.
— A vida é má. A vida é detestável — exclamara Rose
Shaw.
O estranho em relação à vida é que, embora sua natureza
deva ter sido evidente para todo mundo há centenas de
anos, ninguém deixou o registro adequado. As ruas de
Londres estão mapeadas; nossas paixões não. O que vamos
encontrar, ao dobrar essa esquina?
"Holborn fica bem em frente", diz o policial. Ah, mas onde
você irá parar, se, em vez de passar raspando pelo velho de
barba branca, medalha de prata e violino barato, deixar que
ele prossiga com sua história, que termina com um convite
para ir a algum lugar, provavelmente o quarto dele perto de
Queen's Square, onde lhe mostrará uma coleção de ovos de
pássaro e uma carta do secretário do príncipe de Gales, e isso
(saltando as fases intermediárias) fará você recordar um dia
de inverno na costa de Essex, onde o barquinho se dirige ao
navio, e o navio parte, e você contempla a linha do
horizonte nos Açores; e os flamingos se alçam; e você está
sentado na beira de um charco tomando ponche de rum, um
marginal da civilização, porque cometeu um crime,
provavelmente está infectado de febre amarela e —
preencha o espaço como quiser.
Tão freqüentes quanto as esquinas de Holborn são esses
hiatos na continuidade dos nossos caminhos. Ainda assim,
seguimos em frente.
Falando de maneira bastante emocionada com o sr. Bowley,
na recepção da sra. Durrant, algumas noites atrás, Rose Shaw
afirmou que a vida era má, porque um homem chamado
Jimmy se recusava a casar- se com uma mulher chamada (se
a memória é correta) Helen Aitken.
Ambos eram belos. Ambos apáticos. A mesa de chá oval
invariavelmente os separava, o prato de biscoitos era tudo o
que ele oferecia a ela. Ele se inclinava; ela baixava a cabeça.
Dançavam. Ele dançava divinamente. Sentavam-se na
alcova; nunca se diziam uma palavra. O travesseiro dela
estava molhado de pranto. O bondoso sr. Bowley e a querida
Rose Shaw espantavam-se e deploravam uma coisa dessas.
Bowley alugava quartos no Albany. Rose renascia cada
noite, precisamente quando o relógio batia oito horas. Os
quatro eram triunfos da civilização, e se você insistir em
dizer que o domínio da língua inglesa é parte da nossa
herança, alguém poderá apenas retrucar que a beleza é
geralmente muda. Beleza masculina associada a beleza
feminina provoca no espectador uma sensação de medo. Vi-
os muitas vezes — Helen e Jimmy — e comparei-os a
navios desgovernados, e temi pelo meu próprio pequeno
barco. Ou — usando outra comparação — alguma vez você
já observou belos cães collie deitados a vinte jardas de
distância? Quando ela passou a xícara, seus flancos
ondularam. Bowley viu o que acontecia, e convidou Jimmy
para o café da manhã. Helen terá feito confidências a Rose.
De minha parte, acho extraordinariamente difícil interpretar
canções sem palavras. Agora, Jimmy alimenta gralhas nas
Flandres e Helen freqüenta hospitais. Ah, a vida é
detestável, a vida é má, como disse Rose Shaw.
Os lampiões de Londres detêm a escuridão como na ponta
de baionetas ardentes. O dossel amarelo, baixa e infla sobre a
grande cama de quatro colunas. Passageiros nas carruagens
correndo para Londres no século XVIII olhavam através das
ramagens despidas e viam-na chamejar abaixo deles. A luz
arde através de persianas amarelas e persianas rosadas, e por
cima as clarabóias e abaixo as janelas de porões. O mercado
da rua 110 Soho está doidamente iluminado. Carne crua,
canecos de porcelana, meias de seda ardem nessa luz. Vozes
ásperas enrolam-se nos resplandecentes bicos de gás. Mãos
nos quadris, lá estão na calçada, berrando — os srs. Kettle e
Wilkinson; suas esposas estão sentadas na loja, peliças
envolvendo o pescoço, braços cruzados, olhos repletos de
desdém. Os rostos que vemos! O homenzinho enfiando os
dedos na carne deve ter-se agachado diante do fogo em
inumeráveis hospedarias, e escutado e visto e sabido tanta
coisa que tudo parece agora emergir volúvel dos olhos
escuros, dos lábios frouxos, enquanto ele remexe na carne,
silencioso, rosto triste como o de um poeta, jamais cantando
uma canção. Mulheres envoltas em xales carregam bebês de
pálpebras roxas; meninos postam-se nas esquinas; meninas
olham do outro lado da rua — ilustrações grosseiras, retratos
num livro cujas páginas viramos e reviramos como se
tivéssemos de encontrar, afinal, o que procuramos. Cada
rosto, cada loja, janela de quarto de dormir, prédio público,
praça escura, é uma ilustração que viramos febrilmente — à
procura de quê? Com os livros acontece a mesma coisa. O
que buscamos em milhões de páginas? E ainda viramos
páginas, cheios de esperança... Ah, aqui está o quarto de
Jacob.
Ele estava sentado junto da mesa e lia o Globe, a folha rosada
estendida diante dele. Jacob apoiava o rosto na mão, de
modo que a pele da sua face se enrugava em fundas dobras.
Parecia terrível- mente severo, decidido, e desafiador. (Que
pessoas passam numa meia hora! Mas nada podia salvá-lo.
Esses fatos são traços da nossa paisagem. Um estrangeiro,
chegando a Londres, dificilmente deixa de ver St. Paul.)
Jacob julgava a vida. Esses jornais rosados e esverdeados são
tênues folhas de gelatina comprimidas à noite sobre o
cérebro e o coração do mundo. E assumem a impressão de
tudo. Jacob punha os olhos nisso. Uma greve, um
assassinato, futebol, cadáveres encontrados; vociferação de
todas as partes da Inglaterra ao mesmo tempo. Que miséria
esse jornal não ter nada melhor a oferecer a Jacob Flanders!
Quando uma criança começa a ler história, ficamos
melancolicamente espantados ouvindo-a soletrar em sua voz
recém-articulada as palavras antigas.
O discurso do primeiro-ministro estava reproduzido em
mais de cinco colunas. Apalpando o bolso, Jacob tirou o
cachimbo e começou a enchê-lo. Cinco, dez, 15 minutos se
passaram. Jacob levou o jornal para junto do fogo. O
primeiro-ministro propunha que se desse à Irlanda uma
Constituição própria. Jacob bateu o cachimbo para esvaziá-
lo. Certamente estava pensando na Constituição da Irlanda
— questão muito complexa. Noite muito iria.
A neve que caíra a noite toda jazia sobre os campos e a
colina, às três da tarde. Touceiras de capim ressequido
erguiam-se no topo da colina; os arbustos de tojo
negrejavam, e aqui e ali um frêmito escuro atravessava a
neve quando o vento impelia rajadas de partículas
congeladas à sua frente. O som era o de uma vassoura
varrendo — varrendo.
A torrente rastejava ao longo da estrada e ninguém a via.
Paus e folhas presos à grama congelada. O céu de um cinza
sombrio e as árvores de ferro negro. A severidade do campo
era inflexível. As quatro a neve caía novamente. Apagava-se
o dia.
Uma janela pintada de amarelo, com dois pés de diâmetro,
era a única coisa a enfrentar os campos brancos e as árvores
escuras... Às seis, o vulto de um homem carregando uma
lanterna atravessou o campo... Um feixe de ramos secos
encalhou numa pedra, de repente libertou-se e esvoaçou na
direção do bueiro... Um bloco de neve escorregou e caiu de
um ramo de abeto... Mais tarde, um grito lamentoso... Um
automóvel veio pela estrada, impelindo a escuridão à sua
frente... As trevas fecharam-se novamente atrás...
Espaços de absoluta imobilidade separavam cada um desses
movimentos. A terra parecia jazer morta... Então o velho
pastor voltou hirto através do campo. A terra congelada,
pisoteada rígida e doloridamente, ressoava como um tambor.
As vozes desgastadas dos relógios repetiam o acontecimento
das horas, a noite toda.
Jacob também as ouviu e apagou o fogo. Espreguiçou-se. Foi
para a cama.

CAPÍTULO NOVE

A condessa de Rocksbier estava sentada na cabeceira da
mesa, sozinha com Jacob. Alimentada com champanhe e
especiarias, há pelo menos dois séculos (se contarmos sua
linhagem feminina), a condessa Lucy parecia bem nutrida.
Tinha um nariz discriminador de odores, prolongado como
se procurasse por eles; seu lábio inferior avançava numa
estreita saliência rubra; os olhos eram pequenos, com tufos
arenosos em lugar das sobrancelhas, e os maxilares eram
pesados. Atrás dela (a janela abria para Grosvenor Square)
estava Moll Pratt na calçada, oferecendo violetas, e a sra.
Hilda Thomas, erguendo as saias, preparava-se para
atravessar a rua. Uma era de Walworth; outra, de Putney.
Ambas usavam meias pretas, mas a sra. Thomas estava
envolta em peles. A comparação favorecia conside-
ravelmente Lady Rocksbier. Moll tinha mais humor, mas era
violenta, e burra também. Hilda Thomas era hipócrita, todas
as suas molduras prateadas estavam fora de prumo, expunha
taças para ovos quentes na sala de visitas, e janelas sempre
fechadas por cortinas. Apesar das deficiências do seu perfil,
Lady Rocksbier fora excelente amazona nas caçadas. Usava a
faca com autoridade, partia os ossos do frango com as mãos,
pedindo desculpas a Jacob.
— Quem está passando? — perguntou a Boxall, o mordomo.
— A carruagem de Lady Fittlemere, senhora — coisa que a
lembrou de mandar um cartão indagando da saúde do lorde.
Velha bem rude essa, pensou Jacob. O vinho era excelente.
Ela chamava a si própria de "velha" — "Tão amável vir
almoçar com uma velha" — o que deixou Jacob lisonjeado.
Ela falava de Joseph Chamberlain, a quem conhecera. Disse
que Jacob não podia deixar de vir e encontrar... uma das
nossas celebridades. E Lady Alice entrou com três cães
numa trela, e Jackie, que correu para beijar sua avó,
enquanto Boxall trazia um telegrama, e deram um bom
charuto a Jacob.
Alguns momentos antes de saltar, o cavalo reduz o passo,
move- se de lado, concentra-se, ergue-se como uma onda
enorme, e cai do outro lado. Sebes e céus giram num
semicírculo. Então, como se o nosso próprio corpo
disparasse dentro do corpo do cavalo, e fossem nossas patas
dianteiras embutidas nas dele que saltam, varando o ar, lá
vamos nós, o solo elástico, os corpos uma massa de
músculos, e ainda assim temos de comandar, com calma
erecta, os olhos avaliando, acurados. Depois as curvas
cessam, mudam para marteladas vibrantes; e sobe-se, num
solavanco; senta-se um pouco para trás, cintilando, zunindo,
esmaltado de gelo por cima das artérias pulsantes, ofegando:
"Ah! Ho! Hah!", o vapor desprendendo- se dos cavalos
quando estes se chocam nas encruzilhadas onde fica o
marco do caminho, e uma mulher de avental olha, postada
na entrada da porta. Um homem ergue-se dentre os
repolhos, para olhar também.
Assim galopava Jacob pelos campos de Essex, atolava na
lama, perdia a caça, andava sozinho a comer sanduíches,
espiava por cima das sebes, notava as cores que pareciam
recentemente brunidas, e amaldiçoava a sua sorte.
Ele tomou chá na estalagem; ali estavam todos, batendo
palmas, pateando, dizendo "você primeiro", lacônicos,
rudes, jocosos, vermelhos como barbelas de peru, usando
uma linguagem livre até que a sra. Horsefield e sua amiga
srta. Dudding apareceram na porta com as saias
arrepanhadas, o cabelo caindo. Então Tom Dudding bateu na
janela com seu chicote. Um automóvel roncou no pátio.
Cavalheiros saíram, procurando fósforos nos bolsos, e Jacob
dirigiu-se ao bar com Brandy Jones para fumar na
companhia dos camponeses. Lá estava o velho Jevons, que
perdera um olho, roupas cor de lama, sacola nos ombros,
cérebro enterrado muitos pés abaixo da terra entre raízes de
violeta e raízes de urtiga; Mary Sanders com sua caixa de
madeira; e Tom pediu cerveja, o filho retardado do coveiro
— tudo isso a trinta milhas de Londres.
A sra. Papworth, de Endell Street, Covent Garden,
trabalhava para o sr. Bonamy em New Square, Lincoln's Inn;
quando lavava as louças do jantar numa bacia, ouviu os
jovens cavalheiros talando no quarto ao lado. O sr. Sanders
estava lá outra vez — ela se referia a Flanders. Quando uma
senhora de idade entende um nome trocado, que chance há
de que relate com fidelidade uma briga? Enquanto mantinha
os pratos debaixo da torneira, colocando-os depois na pilha
debaixo do gás sibilante, ela escutou: Sanders falava em tom
alto e bastante arrogante: "Bom", ele disse, e "absoluto", e
"justiça", e "castigo", e "desejo da maioria". Depois foi o
patrão dela que começou a falar; e ela mentalmente lhe dava
força na busca de um argumento contra Sanders. Sanders,
porém, era um rapaz distinto (nisso, todos os restos de
comida começaram a girar na pia, perseguidos por suas mãos
roxas, quase sem unhas): "Mulheres" — pensou e imaginou
o que Sanders e seu patrão fariam nesse terreno, uma
pálpebra baixando imperceptivelmente enquanto ela
fantasiava, pois era mãe de nove: três natimortos, um surdo-
mudo de nascença. Colocando os pratos na prateleira, ouviu
Sanders mais uma vez. ("Ele não dá uma chance a Bonamy",
pensou.) "Ter um objetivo", disse Bonamy e "fundamentos
comuns", e mais alguma coisa — tudo palavras muito com-
pridas, notou ela. E o estudo dos livros que faz isso, pensou,
e enquanto enfiava os braços no casaco, escutou qualquer
coisa — podia ser a mesinha perto da lareira — caindo; e
depois batidas, batidas, batidas — como se estivessem
brigando — ao redor do quarto, fazendo dançar os pratos.
— O que vai querer para o café da manhã, senhor? — disse
ela, abrindo a porta; e lá estavam Sanders e Bonamy como
dois touros, empurrando-se e fazendo enorme confusão, e
todas aquelas cadeiras no caminho. Não perceberam a
mulher. Ela sentiu-se maternal. — E para o café, amanhã de
manhã, senhor? — disse quando se aproximaram. E
Bonamy, cabelo desalinhado, gravata frouxa, parou e
empurrou Sanders para a poltrona, dizendo que o sr. Sanders
quebrara o pote de café, e que ia ensinar ao sr. Sanders...
De fato, o pote de café estava quebrado no chão.
"Qualquer dia desta semana menos terça", escreveu a srta.
Perry, e de modo algum era o primeiro convite. Estariam
todas as semanas da srta. Perry livres com exceção de terça,
e era seu único desejo ver o filho da velha amiga? O tempo
brota em longas fitas brancas para senhoritas idosas e ricas.
Elas as vão trançando, trançando e trançando, assistidas por
cinco criadas e um mordomo, um belo papagaio mexicano,
refeições regulares, a assinatura de livros da livraria Mudie, e
amigos chegando. Já se sentia um pouco magoada porque
Jacob ainda não a visitara.
— Sua mãe é uma das minhas amigas mais antigas — disse.
Sentada junto à lareira, segurando o Spectator entre o rosto e
o calor do fogo, a srta. Rosseter recusou de início uma
proteção para as chamas, mas depois aceitou-a. Então
discutiram o tempo, após o que, em deferência a Parkes, que
abria mesinhas, adiaram os assuntos mais sérios. A srta.
Rosseter chamou a atenção de Jacob para a beleza de um
armário.
— Ela é tão maravilhosamente esperta para descobrir coisas
— disse esta. A srta. Perry encontrara-o em Yorkshire.
Depois teceram comentários sobre o norte da Inglaterra. E
quando Jacob falou, ambas escutaram. A srta. Perry
procurava algo adequado para dizer, quando a porta se abriu
e o sr. Benson foi anunciado. Agora, havia quatro pessoas
sentadas no aposento. A srta. Perry, com 66 anos; a srta.
Rosseter, 42; o sr. Benson, 38; e Jacob, 25.
— O meu velho amigo parece bem como sempre — disse o
sr. Benson, dando um tapinha na gaiola do papagaio; ao
mesmo tempo, a srta. Rosseter elogiou o chá; Jacob passou
os pratos errados; e a srta. Perry mostrou desejo de maior
aproximação.
— Seus irmãos... — começou vagamente.
— Archer e John — ajudou Jacob. Então, para sua alegria, ela
recordou-se do nome de Rebeca, e de como um dia "quando
vocês todos eram pequenos e estavam brincando na sala...".
— Mas a srta. Perry está com o pegador da chaleira — disse a
srta. Rosseter, e realmente a srta. Perry o apertava ao peito.
(Será que fora mesmo apaixonada pelo pai de Jacob?)
"Tão inteligente" — "Não tão bom como costuma ser" —
"Achei aquilo muito desleal" — diziam o sr. Benson e a srta.
Rosseter, discutindo o Westminster de sábado. Não
competiam regularmente pelos prêmios? O sr. Benson não
ganhara três vezes um guinéu, e a srta. Rosseter certa vez
dez e seis pence? Naturalmente, Everard Benson unha
coração fraco, mas, ainda assim, ganhar prêmios, dar atenção
a papagaios, bajular a srta. Perry, desprezar a srta. Rosseter,
oferecer chá em seus aposentos (que eram todos em estilo
de Whistler, com belos livros sobre as mesas), tudo isso,
pressentia Jacob sem conhecê-lo, fazia dele um tolo
desprezível. Quanto à srta. Rosseter, tratara de um câncer;
agora pintava aquarelas.
— Fugindo tão cedo? — disse a srta. Perry vagamente. —
Estou em casa todas as tardes se você não tiver o que fazer...
exceto nas terças.
— Nunca vi o senhor abandonar suas velhas amigas — dizia
a srta. Rosseter, e o sr. Benson debruçava-se sobre a gaiola
do papagaio, e a srta. Perry se movia na direção da sineta...
O fogo ardia claro entre dois pilares de mármore esverdeado;
sobre a lareira havia um relógio verde, enfeitado com a Grã-
Bretanha apoiada em sua espada. Quanto aos quadros — uma
donzela com chapéu de abas largas oferecia rosas a um
cavalheiro em roupas do século XVIII, por cima do portão
de um jardim. Um mastim estendia-se contra uma porta
meio arruinada. As vidraças inferiores das janelas eram de
vidro opaco, e as cortinas, cuidadosamente pregueadas, de
pelúcia também verde.
Laurette e Jacob sentavam-se lado a lado, pés voltados para o
guarda-fogo, em duas grandes cadeiras forradas de pelúcia
mais uma vez verde. As saias de Laurette eram curtas, as
pernas longas, finas e com meias transparentes. Acariciava
os tornozelos com os dedos.
— Não é exatamente porque eu não entenda — dizia,
pensativa. — Preciso tentar de novo.
— A que horas você estará lá? — perguntou Jacob.
Ela sacudiu os ombros.
— Amanhã?
— Não, amanhã não.
— Esse tempo me dá saudades do campo — disse ela,
olhando sobre o ombro a paisagem de casas altas além da
janela.
— Eu gostaria que você tivesse estado comigo no domingo
— disse Jacob.
— Eu costumava montar — disse ela. Ergueu-se, graciosa e
serena. Jacob levantou-se. Ela lhe sorriu. Quando Laurette
fechou a porta, ele colocou uma porção de xelins sobre a
lareira.
De modo geral, fora uma conversação bastante sensata; um
quarto bastante respeitável; uma jovem inteligente.
Contudo, a madame que reconduziu Jacob até a saída
ostentava aquele ar furtivo, aquela lascívia, aquele tremor da
superfície (visível, sobretudo, nos olhos) que ameaça
espalhar pelo chão toda a bolsa de sujeira contida a tanto
custo. Em suma, alguma coisa estava errada.
Não fazia muito tempo que os operários tinham dourado o y
final do nome de lorde Macaulay, e os outros nomes
estendiam-se numa fila ininterrupta na abóbada do Museu
Britânico. À uma considerável profundidade abaixo, muitas
centenas de vivos ocupavam seus lugares, entre os raios de
uma roda, transcrevendo a mão textos impressos; vez por
outra erguendo-se para consultar o catálogo; voltando
furtivamente a seus lugares, enquanto, de tempos em tem-
pos, um homem calado reabastecia de livros seus
compartimentos.
Deu-se uma pequena catástrofe. A pilha da srta. Marchmont
desequilibrou-se e desabou dentro do compartimento de
Jacob. Coisas desse tipo aconteciam com a srta. Marchmont.
O que estaria ela buscando através de milhões de páginas,
em seu velho vestido de pelúcia, a peruca vermelha, os
camafeus e as frieiras? Às vezes uma coisa, às vezes outra,
para confirmar sua filosofia de que cor é som — ou talvez
que a cor tenha algo a ver com a música. Ela não conseguia
afirmar com certeza, mas não que não tentasse. Não podia
convidar ninguém a visitá-la em seu quarto, pois "ele não
está muito limpo, receio", de modo que interpelava a gente
de passagem, ou pegava uma cadeira no Hyde Park e
expunha seu sistema filosófico. O ritmo da alma dependia
dele ("mas que meninos malcriados!", dizia). E falava da
política irlandesa do sr. Asquith, e de Shakespeare, e a
rainha Alexandra "que muito gentilmente certa vez acusou o
recebimento de um exemplar do meu panfleto", falava e
fazia um grande gesto para espantar os tais meninos.
Contudo, precisava de fundos para publicar seu livro, pois
"os editores são uns capitalistas, os editores são uns
covardes". Assim, enfiando o cotovelo na sua pilha de livros,
derrubou-os para o lado de lá.
Jacob manteve-se praticamente impassível.
Mas Fraser, o ateu, do outro lado, detestando pelúcia, e mais
de uma vez importunado pelos folhetos dela, mudou de
posição, irritado. Abominava coisas vagas — a religião cristã,
por exemplo, e os pronunciamentos do velho deão Parker.
O deão Parker escrevia livros, e Fraser os destruía por
completo à força de lógica, e deixava seus filhos sem batismo
— a esposa batizava-os secretamente na pia do banheiro —
mas Fraser a ignorava e continuava apoiando os
blasfemadores, distribuindo folhetos, coletando suas provas
no Museu Britânico, sempre no mesmo terno de xadrezinho
e gravata flamejante, pálido, sardento, irritadiço. Na verdade,
que trabalho — destruir a religião!
Jacob transcrevia toda uma passagem de Marlowe.
A srta. Julia Hedge, a feminista, esperava por seus livros.
Eles não vinham. Ela molhou a pena. Olhou em tomo. Seu
olho prendeu-se às letras finais do nome de lorde Macaulay.
E leu todos em tomo da abóbada — os nomes dos grandes
homens que nos recordam...
— Mas que droga — disse Julia Hedge —, por que não
deixaram lugar para uma Eliot ou uma Bronte?
Infeliz Julia! molhando sua pena em amargura e deixando
desatados os laços dos sapatos. Quando seus livros chegaram,
entregou- se ao labor gigantesco, mas, com um dos nervos
da sua sensibilidade exasperada, percebeu que os leitores
masculinos se aplicavam aos seus trabalhos com compostura,
despreocupação e toda ponderação. Aquele rapaz, por
exemplo. O que tinha ele a fazer senão copiar poemas? E ela
tinha de estudar estatísticas. Há mais mulheres do que
homens. Sim; mas se você faz mulheres trabalharem feito
homens, morrerão muito mais depressa. Entrarão em
extinção. Esse era o argumento dela. Morte e bílis e poeira
amarga na ponta de sua pena; e quando a tarde foi passando,
suas faces ficaram coradas e havia uma luz em seus olhos.
No entanto, o que levava Jacob Flanders a ler Marlowe no
Museu Britânico?
Juventude, juventude — coisa agreste, coisa pedante. Por
exemplo, temos o sr. Masefield e temos o sr. Bennet.
Coloquemos seus livros na chama de um Marlowe e
reduzamo-los a cinzas. Não deixemos sobrar um fiapo. Não
lidemos com toda essa mediocridade. Detestemos nossa
própria época. Construamos outra melhor. E para chegarmos
a isso, leiamos ensaios incrivelmente enfadonhos sobre
Marlowe para nossos amigos. Para tanto, é preciso conferir
textos no Museu Britânico. Trata-se de um trabalho a fazer
pessoalmente. Não podemos confiar nos vitorianos, que
põem as entranhas dos outros à mostra, nem nos vivos, que
são meros jornalistas. A carne e o sangue do futuro
dependem inteiramente de seis rapazes. E como Jacob é um
deles, não admira que pareça um pouco pomposo e solene
virando páginas, nem que Julia Hedge o ache bastante anti-
pático.
Nesse momento um homem com cara de lua empurrou um
bilhete para Jacob, e este, recostando-se para trás em sua
cadeira, começou uma conversação agitada e murmurada, e
saíram juntos (Julia Hedge os observava), rindo alto (pensou
ela) assim que chegaram ao vestíbulo.
Ninguém ria na sala de leitura. Havia movimentos,
sussurros, espirros com pedidos de desculpas, e súbitas tosses
despudoradas e devastadoras. A hora de estudo estava quase
no fim. Monitores recolhiam os exercícios. Os preguiçosos
alunos queriam esticar o corpo. Os bons escreviam
aplicadamente — Ah, outro dia passado, e tão pouca coisa
realizada! E aqui e ali ouvia-se, de toda uma coleção de
criaturas humanas, um suspiro profundo, após o qual um
velhote humilhante tossia sem pudor e a srta. Marchmont
relinchava como um cavalo.
Jacob só voltou na hora de devolver seus livros.
Agora os livros estavam recolocados. Algumas letras do
alfabeto salpicadas pela abóbada. Bem juntos num anel em
torno da abóbada, ficavam Platão, Aristóteles, Sófocles e
Shakespeare; as literaturas de Roma, Grécia, China, Índia,
Pérsia. Uma página de poesia comprimia-se apertadamente
contra outra, uma letra brilhante recostava-se macia na
outra, massa carregada de sentido, conglomerado de beleza.
— Uma boa xícara de chá me fará muito bem — disse a srta.
Marchmont, reclamando sua sombrinha desbotada.
A srta. Marchmont queria realmente o seu chá, mas jamais
conseguia resistir à tentação de dar uma última olhada nos
mármores de Elgin. Contemplou-os de lado, acenando com
a mão e murmurando uma ou duas palavras de saudação, que
fizeram Jacob e o outro homem virarem-se. Ela lhes sorriu
amavelmente. Tudo entrava na sua filosofia — a cor é o
som, ou talvez a cor tenha algo a ver com a música. E tendo
prestado sua reverência, saiu saltitando para tomar chá.
Era a hora de fechar. E o público se reunia no saguão para
pegar suas sombrinhas e bengalas.
Quase sempre a maior parte dos estudantes aguarda sua vez
com humildade. Parar e esperar enquanto alguém verifica as
fichas brancas é algo tranqüilizador. Certamente a
sombrinha será achada, ainda que através da leitura de
Macaulay, Hobbes, Gibbon; através de oitavos, quartos e
fólios, o fato de sua desaparição possível se impôs a você
durante o dia todo, mergulhando cada vez mais, entre
páginas de marfim e encadernações de couro marroquino,
para dentro dessa densidade de pensamento, desse
conglomerado de sabedoria.
A bengala de Jacob era como todas as outras; talvez tivessem
trocado os escaninhos.
Há no Museu Britânico uma mente enorme. Pense que
Platão está ali, face a face com Aristóteles; e Shakespeare
com Marlowe. Essa grande mente é muito mais do que
aquilo que qualquer mente individual tem poder de
armazenar. Mesmo assim (enquanto demoram tanto para
encontrar a bengala) não se pode afastar a idéia de vir para cá
com um caderno de notas, sentar numa escrivaninha, ler
tudo isso. Um homem erudito é a coisa mais venerável que
existe — um homem como Huxtable, de Trinity, que
escreve todas as suas cartas em grego, dizem, e poderia ter
competido vitoriosamente com um Bentley. E há ciência,
pintura, arquitetura — uma vasta mente coletiva.
Empurraram a bengala sobre o balcão. Jacob parou embaixo
do pórtico do Museu Britânico. Chovia. A Great Russel
Street surgia vítrea e brilhante — aqui amarela, ali, fora da
farmácia, vermelha e azul-pálido. Pessoas andam depressa
junto às paredes; carruagens matraqueiam em correria pelas
ruas. Bem, um pouco de chuva não machuca ninguém.
Jacob costumava andar muito quando estava no campo;
tarde naquela noite, ficou sentado em sua mesa com o ca-
chimbo e o livro.
A chuva desabava. O Museu Britânico ficava numa colina
imensa e sólida, muito pálido, muito liso na chuva, a menos
de um quarto de milha de distância. A vasta mente, cercada
de pedra; nas suas profundezas, cada compartimento estava
seguro e seco. Os vigias da noite, fazendo relampejar suas
lanternas nas lombadas de Platão e Shakespeare, cuidavam
para que nem fogo nem rato nem ladrão violassem aqueles
tesouros, no dia 22 de fevereiro — pobres homens, muito
respeitáveis, com mulheres e famílias em Kentish Town,
dando o melhor de si durante vinte anos para proteger
Platão e Shakespeare, e depois enterrados em Highgate.
A pedra pousa sólida sobre o Museu Britânico, tal como o
osso jaz frio sobre as visões e os ardores do cérebro. Só que
ali trata-se do cérebro de Platão e de Shakespeare; o cérebro
construiu potes e estátuas, grandes touros e diminutas jóias,
e atravessou o rio da morte de um lado para outro sem parar,
procurando onde atracar, agasalhando bem seu corpo para o
longo sono; ou deitando uma moeda sobre as pálpebras; ou
virando os pés escrupulosamente para leste. Entrementes,
Platão prossegue seu diálogo; apesar da chuva; apesar dos
assobios chamando carros; apesar da mulher nas estrebarias,
atrás de Great Ormond Street, que chegou em casa
embriagada e grita a noite toda: "Me deixe entrar! Me deixe
entrar!"
Vozes altearam-se na rua, sob o quarto de Jacob.
Mas ele continuou lendo. Pois que, afinal, imperturbável
Platão permanece. E Hamlet pronuncia o seu solilóquio. E
os mármores de Elgin jazem a noite toda, a lanterna do
velho Jones evocando por vezes Ulisses, ou uma cabeça de
cavalo; ou de dez em quando um cintilar de ouro, ou o rosto
amarelo e escaveirado de uma múmia. Platão e Shakespeare
prosseguem; e Jacob, lendo o Fedro, ouviu pessoas
vociferando em torno do poste com seu lampião, e a mulher
batendo na porta e chorando, "Me deixe entrar!" como se
tudo isso tosse apenas carvão saltando do fogo, ou uma
mosca que, caindo do teto, tombasse de costas, fraca demais
para se virar.
O Fedro é muito difícil. Assim, quando alguém o lê
continuadamente, assumindo um ritmo, marchando em
frente, tornando- se (assim parece) momentaneamente parte
dessa energia que avança imperturbável, que tem empurrado
as trevas à sua frente desde que Platão andou pela Acrópole,
torna-se impossível cuidar do fogo.
O diálogo aproxima-se do final. A argumentação de Platão
está concluída. A argumentação de Platão está armazenada
na mente de Jacob, e por cinco minutos a mente de Jacob
continua avançando sozinha dentro da escuridão. Depois,
erguendo-se, abriu as cortinas e viu com espantosa nitidez
que os Springetts do outro lado tinham ido para a cama; que
estava chovendo; que os judeus e a estrangeira estavam
junto da caixa do correio, no fim da rua, discutindo.
Sempre que a porta se abria e outras pessoas entravam, as
que já se encontravam no aposento moviam-se de leve; as
que estavam em pé olhavam sobre os ombros; as sentadas
interrompiam pelo meio suas frases. Com a luz, o vinho, o
som de uma guitarra, era excitante aquela porta se abrindo.
Quem entrava?
— E Gibson.
— O pintor?
— Mas prossiga com o que estava dizendo.
Estavam falando algo que era muito, muito íntimo para ser
dito abertamente. Contudo, o vozerio agia como um badalo
na mente da pequena sra. Withers, afugentando pelo ar
bandos de passarinhos, que depois pousaram e então ela teve
medo, passou as mãos no cabelo, juntou-as em torno dos
joelhos, ergueu nervosa os olhos para Oliver Skeltin, e disse:
— Prometa, prometa que não vai contar a ninguém. — Ele
era tão atencioso, tão terno. Ela comentava o caráter do
marido: dizia que era frio.
Sobre eles desceu a esplêndida Magdalen, castanha, cálida,
volumosa, mal tocando a relva com os pés calçados em
sandálias. Seu cabelo cascateava; as sedas esvoaçantes
pareciam mal e mal presas por alfinetes. Uma atriz,
naturalmente, com um traço de luz perpetuamente a
sublinhá-la. Disse apenas "meu caro", mas sua voz soou
entre as gargantas dos Alpes. Deixou-se cair no chão e
cantou, e uma vez que não havia nada a dizer, emitiu ahs e
ohs perfeitamente redondos. Mangin, o poeta, chegando
perto, baixou os olhos sobre ela, cachimbo na boca. A dança
começou.
A grisalha sra. Keymer pediu a Dick Graves que lhe dissesse
quem era Mangin, e afirmou que vira demasiadas coisas
assim em Paris (Magdalen agora sentava-se nos joelhos dele;
o cachimbo de Mangin em seus lábios) para ainda se
escandalizar.
— Quem é aquele? — disse, fixando os óculos em Jacob, que
parecia quieto, não indiferente, mas como alguém postado
numa praia a olhar.
— Oh, minha cara, deixe que me apóie em você — ofegou
Helen Askew, saltando num pé só, pois a fita prateada em
volta de seu tornozelo se desprendera. A sra. Keymer virou-
se e fitou o quadro na parede.
— Olhe para Jacob — disse Helen (estavam vendando os
olhos dele para algum jogo).
E Dick Graves, um pouco embriagado, muito fiel, muito
ingênuo, disse-lhe que julgava Jacob o maior homem que já
conhecera. E sentaram-se de pernas cruzadas sobre
almofadões, conversando a respeito de Jacob, e a voz de
Helen vibrava, pois ambos lhe pareciam heróis, e a amizade
entre eles tão mais bela do que as amizades entre mulheres.
Anthony Pollet pediu-lhe que dançasse com ele, e enquanto
dançava, ela os contemplava, por cima do ombro, parados
junto à mesa, brindando-se mutuamente.
O esplendor do mundo — o mundo vivo, hígido, vigoroso.
...Essas palavras, entre as duas e três da madrugada, no mês
de janeiro, só podem referir-se ao longo trecho do
pavimento de madeira que vai de Hammersmith a Holborn.
Era esse o chão sob os pés de Jacob. Era saudável e
magnífico, pois um aposento, por cima de uma estrebaria,
em algum lugar perto do rio, continha cinqüenta pessoas
excitadas e tagarelas. E então andar pelo calçamento (quase
não se via carro ou policial) é divertido. O longo trecho de
Piccadilly, bordado de diamantes, vê-se melhor quando
vazio. Um rapaz não tem o que recear. Ao contrário,
embora talvez não tenha dito nada de brilhante, sente-se
bastante certo de saber como se portar. Estava satisfeito por
ter encontrado Mangin; admirava a jovem mulher no chão;
gostava de todos eles; gostava dessa espécie de coisa. Em
resumo, todos os tambores e trombetas estavam soando. Os
varredores de rua eram apenas pessoas eventualmente por
ali. Não era preciso dizer como Jacob se sentia bem disposto
em relação a eles; como lhe agradava entrar por sua própria
porta com a chave; como parecia trazer consigo, para dentro
do quarto vazio, dez ou 12 pessoas que não conhecia
quando saíra dali; procurou algo para ler e encontrou e não
leu e pegou no sono.
E verdade, tambores e trombetas não é apenas uma frase. E
verdade, Piccadilly e Holborn, e a sala de estar vazia e a sala
de estar com cinqüenta pessoas conseguem lançar música no
ar a qualquer momento. Talvez mulheres sejam mais
excitáveis do que homens. Raramente se diz qualquer coisa a
esse respeito, e vendo as multidões cruzarem a ponte de
Waterloo a fim de apanharem o direto até Subirton, pode-se
pensar que é a razão que as impele. Não, não. São os
tambores e as trombetas. Mas se você dobrar para o lado,
entrando num desses pequenos vãos sobre a ponte de
Waterloo, para refletir no caso, provavelmente tudo lhe
parecerá confuso — tudo um mistério.
Elas cruzam a ponte sem cessar. Por vezes, 110 meio de
carruagens e ônibus, aparecerá um caminhão com grandes
árvores acorrentadas nele. Depois, talvez, o furgão de um
pedreiro com lápides tumulares com inscrições recentes,
registrando o quanto alguém amou alguém que está
enterrado em Putney. Então, o automóvel da frente avança
sacolejando, as lápides seguem depressa demais para que
você possa ler o resto. Todo o tempo a torrente de pessoas
jamais deixa de passar, do lado de Surrey para Strand; de
Strand para o lado de Surrey. Parece que os padres
invadiram a cidade e agora retornam para seus alojamentos,
como besouros pressurosos à procura de suas tocas, tal
aquela velha manca na direção de Waterloo, segurando uma
bolsa puída como se tivesse estado fora na luz e agora
partisse para o seu abrigo subterrâneo com alguns ossos de
galinha reunidos a custo. Por outro lado, embora o vento
seja áspero e sopre em seus rostos, aquelas moças passeando
de mãos dadas, cantando alto, parecem não sentir frio nem
pudor. Não sentem ódio. São triunfantes.
O vento encrespou as ondas. O rio dispara por baixo de nós
e os homens parados nas barcaças têm de apoiar todo o seu
peso no leme. Um oleado preto está amarrado sobre uma
protuberante carga de ouro. Avalanches de carvão cintilam
em seu negror. Como de hábito, há pintores amarrados a
pranchas diante dos grandes hotéis na margem do rio, e as
janelas dos hotéis abrigam pontinhos de luz. Do outro lado,
a cidade é branca como se fosse uma anciã; St. Paul se
arredonda alva por cima dos edifícios retos, pontudos e
oblongos a seu lado. Só a cruz brilha num tom rosa e ouro.
Mas em que século estamos? Essa procissão do lado de
Surrey para Strand não se interrompeu nunca? Aquele velho
não parou de atravessar a ponte nesses seiscentos anos, com
o bando de meninos nos calcanhares, porque é bêbado, ou
cego pela miséria, e amarrou velhos trapos ao corpo como
talvez tenham feito os peregrinos? Ele se arrasta para diante.
Ninguém pára. E como se marchássemos ao som de música;
talvez o vento e o rio; talvez esses mesmos tambores e
trombetas — êxtase e tumulto da alma. Ora, até os infelizes
riem, e o policial, longe de censurar o bêbado, vigia-o bem-
humorado, os meninos afastam-se correndo, e o amanuense
de Somerset House mostra-se tolerante para com ele, e o
homem que lê meia página do Lothair na barraca de livros
medita piedosamente, olhos longe do texto, e a mocinha
hesita em atravessar, e volta para ele o luminoso olhar vago
dos jovens.
Luminoso, mas vago. Talvez ela tenha 22. Anda mal vestida.
Atravessa a rua e contempla os narcisos silvestres e as tulipas
rubras na vitrine da florista. Hesita e parte na direção de
Temple Bar. Caminha depressa, nada a distrai. Num
momento parece ver, noutro parece não perceber coisa
alguma.

CAPÍTULO DEZ

Fanny Élmer passeava entre as alvas tumbas recostadas ao
muro no esquecido cemitério da paróquia de St. Pancras,
atravessando o relvado para ler algum nome, afastando-se
depressa quando o vigia do cemitério se aproximou,
correndo para a rua, parando aqui junto de uma vitrine com
porcelana azul, ali andando rápido para recuperar o tempo
perdido, entrando subitamente numa padaria, comprando
pãezinhos e torta, prosseguindo outra vez, de modo que
quem desejasse segui-la teria praticamente de correr. Não
estava mal vestida nem suja. Usava meias de seda e sapatos
com fivela de prata, só a pena vermelha do chapéu desabara,
e o fecho de sua bolsa estava gasto, pois quando ela
caminhava, caiu para fora um prospecto de Madame
Tussaud. Tinha os tornozelos de um cervo. O rosto oculto. É
claro que, no lusco-fusco, impulsos rápidos, olhares ligeiros
e esperanças arrojadas sobrevêm naturalmente. Ela passou
bem debaixo da janela de Jacob.
A casa era baixa, escura e silenciosa. Jacob ali estava,
entretido com um problema de xadrez, o tabuleiro sobre um
tamborete entre os joelhos. Uma das mãos remexia no
cabelo por trás da cabeça. Lentamente ele a trouxe para a
frente e ergueu a rainha branca; depois recolocou-a no lugar.
Encheu o cachimbo; refletiu; moveu dois peões; avançou o
cavalo branco; depois ponderou, com um dedo sobre o
bispo. Agora Fanny Élmer passava debaixo da janela.
Ia posar para Nick Bramham, o pintor.
Sentava-se envolta num florido xale espanhol, segurando um
livro amarelo.
— Um pouco mais baixo, um pouco mais frouxo. Melhor,
assim está certo — resmungou Bramham, que a desenhava e
fumava ao mesmo tempo, e obviamente não conversava.
Sua cabeça poderia ter sido obra de um escultor, que tivesse
feito a testa quadrada, rasgado a boca, deixado marcas de
seus polegares e riscos de seus dedos na argila. Os olhos,
porém, jamais tinham sido fechados. Eram um tanto
proeminentes, um tanto injetados, como se olhassem e
reolhassem, e quando ele falava pareciam por um instante
perturbados, embora continuassem a olhar. Uma lâmpada
elétrica nua pendia sobre a cabeça da moça.
Quanto à beleza das mulheres — é como a luz sobre o mar,
jamais presa numa só onda. Todas a possuem; todas a
perdem. Agora, é baça e densa como a gordura de um
toucinho; logo depois, translúcida como um vidro aéreo. Os
rostos hirtos são os baços. E onde entra Lady Venice,
exposta como um monumento para ser admirado, esculpido
em alabastro, para se pôr sobre a lareira e jamais espanar.
Uma morena exuberante, inteiriça da cabeça aos pés, serve
apenas de enfeite para a mesa, da sala de visitas. Mulheres da
rua têm rostos de cartas de baralho; contornos preenchidos
com rosa ou amarelo, e uma linha traçada firmemente em
volta. Depois, numa janela de andar superior, debruçada para
fora, olhando para baixo, vê-se a própria beleza; ou no canto
de um ônibus; ou agachada numa sarjeta — beleza luminosa,
subitamente manifestada, perdida no momento seguinte.
Ninguém pode confiar nela ou agarrá-la ou embrulhá-la em
papel. Nada se pode conseguir nas lojas, e Deus sabe que é
melhor ficar sentado em casa do que freqüentar essas janelas
de vidro na esperança de retirar delas, com vida própria, o
verde lustroso, o ardente rubi. O vidro do mar num pires
perde o brilho tão depressa quanto a seda. Assim, se
falarmos numa bela mulher, referimo-nos apenas a algo que
esvoaça rápido, e que por um segundo usa dos olhos, lábios
ou faces de Fanny Élmer, por exemplo, para manifestar esse
brilho.
Ela não era bonita, sentada ali, rígida; o lábio inferior
proeminente demais; o nariz muito grande; os olhos
excessivamente juntos. Era uma moça magra, de faces
lustrosas e cabelo escuro, no momento mal-humorada e
dolorida de tanto posar. Quando Bramham quebrou seu
carvão, ela ergueu-se. Bramham também estava de mau
humor. Agachou-se diante do fogo, esquentando as mãos.
Enquanto isso ela contemplava o desenho. Bramham gru-
nhiu. Fanny jogou um chambre nos ombros e aqueceu água.
— Meu Deus, como isso está ruim — disse Bramham.
Fanny sentou-se no chão, juntou as mãos em torno dos
joelhos e olhou para ele, seus belos olhos — sim, por um
instante, esvoaçando pelo aposento, a beleza relampejou
neles. Os olhos de Fanny pareciam interrogar, compadecer-
se, por um instante eram o próprio amor. Mas ela exagerava.
Bramham não percebeu nada. E quando a água ferveu, ela se
levantou, antes um potro ou cachorrinho do que uma
mulher enamorada.
Jacob foi até a janela e parou de mãos nos bolsos. O sr.
Springett, do outro lado da rua, saiu, olhou a vitrine de sua
loja e entrou de novo. Crianças passaram, espiando os
bastões de caramelo cor-de-rosa. O furgão de Pickford
disparou ma abaixo. Um menino balançava-se girando na
ponta de uma corda. Jacob voltou-se. Dois minutos depois
abria a porta da frente e saía andando na direção de
Holborn.
Fanny Élmer tirou o manto do gancho. Nick Bramham
desprendeu o desenho e colocou-o enrolado debaixo do
braço. Apagaram as luzes e desceram para a rua, abrindo
caminho entre pessoas, automóveis, ônibus, carruagens, até
chegarem a Leicester Square, cinco minutos antes de Jacob,
pois o trajeto dele era mais longo e ele fora detido pela
multidão em Holborn, que queria ver o rei passar, de modo
que Nick e Fanny já estavam debruçados na balaustrada do
Empire, quando Jacob passou pelas portas giratórias e se
postou ao seu lado.
— Olá, nem tinha notado você — disse Nick, cinco minutos
depois.
— Deixe de bobagem — rosnou Jacob.
— A srta. Élmer — disse Nick.
Jacob tirou o cachimbo da boca, bastante embaraçado.
Ele estava embaraçado, e quando sentaram num sofá de
pelúcia, deixando a fumaça alçar-se entre eles e o palco,
ouvindo longe as vozes agudas e a alegre orquestra
intervindo na hora certa, continuava embaraçado, mas
Fanny pensava: "Que linda voz!" E pensava que ele falara
pouco, mas o que dissera fora dito com firmeza. Pensava em
como os rapazes são dignos e reservados, e seguros de si, e
que era possível ficar sentada tranqüilamente ao lado de
Jacob e olhar para ele. E pensava que ele devia parecer um
menino ao voltar para casa, cansado de uma noitada, e ao
mesmo tempo tão majestoso; e talvez um pouco arrogante.
"Mas eu não cederia", pensou ela. Jacob ergueu-se e
recostou-se na balaustrada. A fumaça pairava em torno dele.
E para sempre a beleza dos homens parece constar de
fumaça, não importa com que prazer joguem futebol ou
empurrem bolas de críquete ou andem pelas ruas.
Possivelmente, em breve perderão tudo isso. Possivelmente,
fitam os olhos de heróis distantes e assumem seu lugar entre
nós com certo desdém, pensava ela (vibrando como uma
corda de violino que deve ser tocada e quebrada). De
qualquer modo, eles gostam do silêncio, falam lindamente,
cada palavra caindo como uma fatia redonda recém-cortada,
e não numa confusão de moedinhas polidas, como as
mocinhas fazem; e movem-se com determinação, como se
soubessem quanto tempo devem ficar e quando devem
partir — o sr. Flanders, contudo, saiu apenas para comprar
um programa.
— Os dançarinos virão no fim — disse ele, voltando.
E acaso não é agradável, continuou pensando Fanny, o
modo como os rapazes tiram do bolso das calças uma porção
de moedas de prata e ficam a olhá-las, em vez de as terem
numa bolsa?
Depois, lá se ia ela mesma, girando no palco, vestida com
babados brancos, e a música era a dança e o vôo de sua
própria alma, e toda a engrenagem, ritmo e maquinismo do
mundo eram suavemente tramados nesses ágeis
redemoinhos e quedas, sentiu ela, encostada hirta na
balaustrada a dois pés de Jacob Flanders.
Sua puída luva preta caiu no chão. Quando Jacob a devolveu,
sobressaltou-se irritada. Pois nunca houvera uma paixão mais
irracional. E Jacob teve medo dela por um instante — tão
intensa, tão perigosa, como acontece quando jovens
mulheres ficam quietas e hirtas; agarram a balaustrada; e se
apaixonam.
Era em meados de fevereiro. Os telhados do subúrbio de
Hampsted Garden jaziam numa névoa trêmula. Fazia calor
demais para caminhar. Um cão latia, latia, latia lá embaixo no
vale. Sombras líquidas passavam sobre a planície.
Depois de uma longa enfermidade o corpo torna-se
lânguido, passivo, sensível à doçura, mas fraco para contê-la.
Lágrimas brotam e caem, enquanto um cão late no vale, e há
crianças correndo atrás de aros de ferro, o campo escurece e
se ilumina outra vez. Parece abrigar-se por trás de um véu.
Ah, mas se o véu for mais espesso, desmaiarei de doçura,
suspirou Fanny Élmer, sentada num banco em Judges Walk,
olhando Hampsted Garden. O cão, porém, ainda latia. Os
automóveis buzinavam na rua. Ela escutava movimentos e
zumbidos ao longe. Seu coração estava inquieto. Fanny
ergueu-se e andou. A relva mostrava um verde recente; o
sol queimava. Em torno do tanque as crianças soltavam
pequenos barcos; ou gritavam quando as amas as puxavam
para trás.
Ao meio-dia, mulheres jovens saem para tomar ar. Todos os
homens estão ocupados na cidade. Elas se postam na beira
do tanque azul. O vento fresco espalha todas as vozes das
crianças. Minhas crianças, pensou Fanny Élmer. As
mulheres postam-se ao redor do tanque, espantando grandes
cães felpudos que saltam. O bebê balouça docemente em seu
carrinho. Os olhos de todas as amas, mães e mulheres que
passeiam por ali estão um pouco vidrados e absortos. E
quando os meninos puxam suas saias implorando que sigam
em frente, elas balançam gentilmente as cabeças em vez de
responder.
Fanny caminhou, escutando um grito — talvez o assobio de
um operário — bem alto no ar. Agora, entre as árvores, era
o tordo trinando no ar cálido um jorro de alegria, embora
fosse medo o que parecia estimulá-lo, pensou Fanny; como
se também ele estivesse ansioso com tanta alegria no
coração — como se estivesse sendo observado enquanto
cantava e o tumulto o obrigasse a cantar. Ali! Ele voou
inquieto para a árvore mais próxima. Ela ouviu seu canto
mais fraco. Havia também o zumbido dos pneus e do vento
em disparada.
Ela gastou dez pence no almoço.
— Ora, ela deixou a sombrinha — resmungou a mulher
sardenta no cubículo de vidro perto da porta da Express
Dairy Company.
— Talvez eu ainda a alcance — respondeu Milly Edwards, a
garçonete de tranças pálidas, e correu porta afora.
— Nada — disse, voltando um instante depois com a
sombrinha barata de Fanny. Pôs a mão nas tranças.
— Oh! Essa porta! — resmungou a caixa.
As mãos dela estavam vestidas com mitenes pretas e as
pontas dos dedos que enfiavam as tiras de papel, eram
inchadas como salsichas.
— Pastelão e salada para um. Café completo e bolos. Ovos
com torrada. Duas tortas de frutas.
As garçonetes falavam com vozes ásperas e apressadas. Os
fregueses ouviam com aprovação seus pedidos repetidos por
elas; viam com antecipação a mesa ao lado servida.
Finalmente, chegavam seus próprios ovos com torrada. E
seus olhos já não vagueavam.
Pedaços fumegantes de pastel caíam em bocas abertas como
bolsas triangulares.
Nelly Jenkinson, a datilografa, esfarelava com bastante
indiferença o seu bolo. Cada vez que a porta se abria, ela
erguia os olhos. O que esperava ver?
O negociante de carvão lia o Telegraph sem interromper-se,
errou o pires e, tateando distraído, colocou a xícara sobre a
toalha.
— Você já viu malcriação igual? — A sra. Parsons ergueu-se,
tirando as migalhas do seu abrigo de peles.
— Leite quente e bolo de aveia para um. Chá. Pãozinho e
manteiga — gritavam as garçonetes.
A porta abria e fechava.
É assim a vida das pessoas idosas.
E estranho observar as ondas, deitado num bote. Aqui vêm
três, regularmente, uma após a outra, todas do mesmo
tamanho. Depois, chega uma quarta correndo atrás, muito
grande, ameaçadora; soergue o barco; prossegue; de alguma
forma some, sem ter realizado nada, e torna-se lisa como o
resto.
O que é mais violento do que a agitação dos ramos de uma
tamargueira, a árvore dobrando-se toda sobre o tronco, até a
última ponta de galho, movendo-se e estremecendo
conforme o vento sopra, e ainda assim jamais desgrenhada
se dilacerando?
O trigo se retorce e abaixa como se fosse desprender-se das
raízes, e ainda assim permanece acorrentado a elas.
Até das janelas, mesmo no lusco-fusco, vê-se uma
intumescência percorrer a rua, uma aspiração, como de
braços estendidos, olhos cheios de desejo, bocas abertas. E
então, pacificamente, nos aquietamos. Pois, se a exaltação
perdurasse, seríamos soprados como espuma no ar. As
estrelas brilhariam através de nossos corpos. Desceríamos
pela tamargueira em gotas de sal — como às vezes acontece.
Pois os espíritos veementes nada querem saber desse embalo
de berço: jamais qualquer balanço ou vaga indolência; jamais
qualquer fingimento ou cômoda mentira, ou jovial suposição
de que tudo é igual, o fogo quente, o vinho agradável, a
extravagância um pecado.
— As pessoas são tão simpáticas quando a gente as conhece.
— Eu não poderia pensar mal dela. E preciso lembrar... —
Mas talvez Nick ou Fanny Élmer, acreditando
implicitamente na verdade do momento, se arremessem,
ferroem suas faces, desapareçam como granizo afiado...
— Oh! — disse Fanny precipitando-se para dentro do estúdio
três quartos de hora atrasada, porque andara vagueando pelas
vizinhanças do Asilo de Órfãos, apenas para ter
oportunidade de ver Jacob descer a rua, pegar sua chave e
abrir a porta. — Receio estar atrasada — e Nick não disse
nada e Fanny pôs-se a desafiá-lo.
— Não venho nunca mais! — gritou por fim.
— Pois não venha — replicou Nick, e ela correu para fora
sem dizer boa-noite.
Que delicado — aquele vestido na loja de Evelina, em
Shaftesbury Avenue! Eram quatro horas de um belo dia de
abril, e Fanny não era moça de ficar dentro de casa às quatro
da tarde num belo dia de abril. Outras moças na mesma rua
sentavam-se diante de livros de contabilidade, ou passavam
fatigadamente longos fios entre seda e gaze; ou, entre festões
de fitas em Swan e Edgars, somavam rapidamente pences
nas costas da nota, e enrolavam o metro-e-três-quartos em
papel de seda, perguntando "O que deseja?" ao freguês
seguinte.
Na loja de Evelina, em Shaftesbury Avenue, expunham-se
separadamente as peças de uma mulher. No lado esquerdo, a
saia. Enrolado numa vareta no meio, um boá de plumas.
Enfileirados como cabeças de malfeitores em Temple Bar,
estavam os chapéus — esmeralda e branco, com algumas
flores, ou abatidos debaixo de plumas tingidas em cores
fortes. E sobre o tapete estavam os pés — pontudos e
dourados, ou de couro envernizado com enfeite escarlate.
Servindo de deleite aos olhos das mulheres, as roupas às
quatro da tarde eram rodeadas de moscas como bolos de
açúcar na vitrine de uma confeitaria. Fanny também olhava
para elas.
Pela Gerrard Street vinha um homem alto e de casaco velho.
Uma sombra caiu na vitrine de Evelina — a sombra de
Jacob, embora não fosse Jacob. E Fanny virou-se e andou ao
longo de Gerrard Street, desejando ter lido livros. Nick
jamais lia livros, jamais falava da Irlanda ou da Câmara dos
Lordes; e as unhas dele! Fanny queria aprender latim e ler
Virgílio. Fora uma leitora ávida. Lera Scott; lera Dumas. No
Slade ninguém lia. Mas ninguém no Slade conhecia Fanny,
nem percebia como tudo lhe parecia vazio; a paixão por
brincos, por danças, por Tonk e Steer — quando os
franceses eram os únicos que sabiam pintar, dissera Jacob.
Pois os modernos eram fúteis; pintando a menos respeitável
das artes; e por que ler qualquer coisa senão Marlowe e
Shakespeare, dissera Jacob, e Fielding, se há que ler
romances?
— Fielding — disse Fanny, quando o homem em Charing
Cross perguntou que livro queria.
E comprou Tom Jones.
Às dez da manhã, num quarto que dividia com uma
professora, Fanny Élmer lia Tom Jones — esse livro místico.
Pois é essa coisa enfadonha (pensava Fanny) sobre gente
com nomes esquisitos, que Jacob aprecia. Gente boa gosta
disso. Mulheres desalinhadas, que não se importam com o
jeito de cruzar as pernas, lêem Tom Jones — um livro
místico; pois há qualquer coisa nos livros, pensou Fanny,
que eu poderia apreciar se tivesse tido educação — apreciar
muito mais do que brincos e flores, suspirou, pensando nos
corredores do Slade e no baile a fantasia na próxima semana.
Ela não tinha vestido para usar.
Os livros são reais, pensou Fanny Élmer, colocando os pés
em cima da lareira. Algumas pessoas o são. Nick talvez — só
que tão obtuso... E mulheres jamais, exceto a srta. Sargent,
mas ela saía na hora do almoço e sempre fazia pose. Essas
mulheres ficavam sentadas à noite, lendo quietas, pensou
Fanny. Não vão a teatros de variedades; não olham vitrines;
não usam as roupas umas das outras, como Robertson, que
usara o cachecol dela e ela usara o casaco dele, coisa que
Jacob só faria com grande constrangimento; pois ele
apreciava Tom Jones.
Ali estava ele, em seu regaço, colunas duplas, custando três
pence; o livro místico, no qual há tantos anos Henry
Fielding censurara Fanny Élmer por gostar de pornografia.
Numa prosa perfeita, dissera Jacob. Pois ele jamais lia
romances modernos. Apreciava Tom Jones.
— Eu gosto de Tom Jones — disse Fanny às cinco e meia do
mesmo dia, no começo de abril, quando Jacob pegou seu
cachimbo, na poltrona à frente dela.
Ah, mulheres são mentirosas! Mas não Clara Durrant. Uma
alma imaculada; uma natureza cândida; uma virgem
acorrentada a um rochedo (em algum lugar em Lowndes
Square), eternamente servindo chá a homens idosos de
coletes brancos e olhos azuis, fitando a gente direto no
rosto, tocando Bach. De todas as mulheres, era a que Jacob
mais estimava. Mas sentar-se numa mesa com pão e man-
teiga, com velhas aristocratas trajando veludo, e nunca dizer
a Clara Durrant nada mais do que Benson dizia ao papagaio
quando a velha srta. Perry servia o chá, era um insulto
intolerável à liberdade e à decência da natureza humana —
ou qualquer outra expressão do mesmo efeito. Pois Jacob
nada dizia. Apenas olhava o fogo. Fanny largou o Tom
Jones.
Estava bordando ou tricotando.
— O que é isso? — perguntou Jacob.
— Para o baile no Slade.
E mostrou o seu enfeite de cabeça; as calças; os sapatos com
borças vermelhas. O que usaria ele?
— Estarei em Paris — disse Jacob.
E o que importam bailes a fantasia?, pensou Fanny. Você
encontra as mesmas pessoas; usa as mesmas roupas; Mangin
se embebeda; Florinda senta no colo dele. Ela flerta de
maneira ultrajante — no momento, é com Nick Bramham.
— Em Paris? — interrogou Fanny.
— A caminho da Grécia — ele respondeu.
Pois, disse, não há nada mais detestável do que Londres em
maio.
Ele a esqueceria.
Um pardal voou diante da janela carregando uma palha —
uma palha de um monte guardado no celeiro de uma granja.
O velho cocker spaniel castanho fareja embaixo procurando
ratos. Os ramos superiores dos olmos já estão cheios de
ninhos. Os castanheiros agitam seus leques. As borboletas
ondulam pelas trilhas em Forest. Talvez, como diz o Morris,
a imperador-púrpura esteja se banqueteando numa massa de
carne decomposta, debaixo de um carvalho.
Fanny pensou que tudo isso vinha do Tom Jones. Ele podia
andar sozinho com um livro no bolso, observando texugos.
Tomaria um trem às oito e meia e andaria a noite toda. Ele
contemplava vaga-lumes e trazia pirilampos para casa em
caixinhas de remédio. Iria caçar com cães veadeiros de New
Forest. Tudo isso vinha do Tom Jones, e ele iria para a
Grécia com um livro no bolso e se esqueceria dela.
Fanny pegou seu lorgnon. Havia o rosto dela. Havia o rosto
dele. Como seria, enrolado num turbante? Ela acendeu a
lâmpada. Mas, como a luz do dia entrasse pela janela, só a
metade do rosto dele ficou iluminada. E embora parecesse
terrível e magnífico, e disposto a desistir da floresta e vir ao
Slade, disfarçado de cavaleiro turco ou imperador romano
(ele deixou-a pintar de escuro seus lábios, e cerrou os
dentes, olhando-a através das lentes do lorgnon dela) —
ainda assim, entre ambos havia o Tom Jones.

CAPÍTULO ONZE

— Archer — disse a sra. Flanders com a ternura que mães
muitas vezes dedicam aos filhos mais velhos — estará em
Gibraltar amanhã.
Pois o correio pelo qual esperava (andando por Dods Hill
enquanto os sinos descuidados da igreja tangiam, através de
sua mente, a melodia de um hino, o relógio batendo quatro
golpes através das notas que regiravam no ar; a relva
arroxeando debaixo da nuvem tempestuosa; as duas dúzias
de casas da aldeia agachando-se infinitamente humildes num
campo debaixo de uma folha de sombra), o correio, com sua
variedade de mensagens, envelopes endereçados com
caligrafias ousadas, caligrafias oblíquas, carimbos ingleses ou
das colônias, por vezes apressadamente providos de uma tira
amarela, o correio espalharia miríades de mensagens pelo
mundo. Não nos cabe dizer se tiramos proveito ou não desse
hábito de profusa comunicação. Mas parece bastante
verdadeiro que hoje em dia se pratica com falsidade a
escritura de cartas, particularmente os rapazes que viajam
pelo exterior.
Veja-se, por exemplo, esta cena.
Eis Jacob Flanders, viajando para o exterior e interrompendo
sua viagem em Paris. (A velha srta. Birbeck, prima de sua
mãe, morrera em junho passado e lhe deixara cem libras.)
— Não precisa repetir toda essa droga mais uma vez,
Cruttendon - disse Mallinson, o pequeno pintor calvo,
sentado na mesa de mármore com respingos de café e
marcas de vinho, falando muito depressa e sem dúvida
bastante embriagado.
— Então, Flanders, terminando de escrever à sua dama? —
disse Cruttendon quando Jacob chegou e sentou-se ao lado
deles, segurando na mão um envelope endereçado à sra.
Flanders, perto de Scarborough, Inglaterra.
— Você gosta de Velasquez? — perguntou Cruttendon.
— Por Deus, claro que ele gosta — disse Mallinson.
— Ele sempre fica desse jeito — disse Cruttendon irritado.
Jacob encarou Mallinson com calma exagerada.
— Vou lhe citar três das maiores obras jamais escritas em
toda a literatura — explodiu Cruttendon. — "Pende a minha
alma como um fruto" — começou.
— Não dê ouvidos a um homem que não gosta de Velasquez
— disse Mallinson.
— Adolphe, não dê mais vinho ao sr. Mallinson.
— Façam jogo limpo, jogo limpo — disse Jacob
judiciosamente. — Deixem que um homem se embriague,
se tiver vontade. Isso é Shakespeare, Cruttendon. Concordo
com você nisso. Shakespeare tinha mais coragem do que
todos esses pobres sapos juntos. "Pende minha alma como
um fruto" — começou a citar numa voz retórica e musical,
brandindo o copo de vinho. — O diabo o carregue, seu
patife! — exclamou, quando o vinho transbordou da beirada.
— "Pende minha alma como um fruto" — começaram
Cruttendon e Jacob ao mesmo tempo e ambos desataram a
rir.
— Malditas moscas — disse Mallinson batendo na cabeça
calva. — O que é que elas pensam que eu sou?
— Algo de cheiro doce — disse Cruttendon.
— Cale a boca, Cruttendon — disse Jacob.
— Esse sujeito não tem modos — explicou Mallinson polida-
mente. — Quer impedir as pessoas de beber. Olhe aqui. Eu
quero ossos grelhados. Qual é a expressão francesa para ossos
grelhados? Ossos grelhados, Adolphe. Então, seus idiotas,
não entendem?
— Flanders, eu lhe direi a segunda coisa mais bela da
literatura inteira — disse Cruttendon, estendendo os pés no
soalho e debruçando-se na mesa de modo a quase tocar o
rosto de Jacob com o seu.
— "Ei, fino fino, o gato e o violino" — interrompeu
Mallinson, tamborilando com os dedos na mesa. — A coisa
mais e-xo-ti-ca-men-te bela de toda a literatura...
Cruttendon é um sujeito muito bom — comentou em tom
confidencial. — Mas é um bocado bobo - e balouçava a
cabeça para a frente.
Nenhuma palavra sobre isso jamais foi relatada à sra.
Flanders, nem o que aconteceu quando pagaram a conta e
deixaram o restaurante e andaram ao longo do Boulevard
Raspail.
Eis aqui outro fragmento de conversa; a hora, cerca de onze
da manhã; cenário, um estúdio; dia, domingo.
— Sabe, Flanders — disse Cruttendon —, aprecio tanto um
dos quadrinhos de Mallinson quanto um Chardin. E quando
digo que... - ele apertou a ponta de um tubo de tinta
definhado — ... Chardin foi um grande sujeito... Agora
Mallinson vende os quadros para pagar o jantar. Mas espere
até que os marchands o descubram. Será um grande sujeito,
sim, muito grande.
— É uma vida terrivelmente divertida — disse Jacob — ficar
por aqui fazendo toda essa confusão. Mas ainda assim, essa é
uma arte estúpida, Cruttendon. — Ele atravessou o
aposento. — Há um sujeito, Pierre Louys — ele apanhou
um livro.
— Sim, meu caro senhor; mas será que o senhor não poderia
se acomodar? — disse Cruttendon.
— Eis uma obra sólida — disse Jacob, colocando uma tela
sobre uma cadeira.
— Ora, fiz isso há séculos — disse Cruttendon, olhando por
cima do ombro.
— Na minha opinião, você é um pintor competente — disse
Jacob depois de algum tempo.
— Mas se quiser ver o que ando tentando no momento —
disse Cruttendon, colocando uma tela diante de Jacob. —
Aqui está. Isso se parece mais... Isso é... — ele girou o
polegar em círculo em torno de um globo de luz pintado de
branco.
— Obra de arte bastante sólida essa — disse Jacob, postando-
se diante da tela com as pernas abertas. — Mas o que eu
queria que você explicasse...
A srta. Jinny Carslake, pálida, sardenta, mórbida, entrou no
quarto.
— Oh, Jinny, aqui está um amigo, Flanders. Inglês. Rico.
Bem relacionado. Prossiga, Flanders...
Jacob não disse nada.
— E isso aí... É isso que não está correto — disse Jinny
Carslake.
— Também acho — disse Cruttendon com autoridade. — Só
que trata-se de algo não factível.
Ele tirou a tela da cadeira e colocou-a no chão de costas para
eles.
— Sentem-se senhoras e senhores. A srta. Carslake vem da
sua parte do mundo, Flanders. Devonshire. Ah, pensei que
fosse Devon- shire. Muito bem. Ela também é filha da igreja.
Ovelha negra da família. A mãe lhe escreve umas cartas!
Você tem aí uma consigo? Chegam em geral nos domingos.
São como o efeito de sinos de igreja, você sabe como é.
— Já encontrou todos os pintores? — perguntou Jinny. —
Mallinson estava bêbado? Se for ao seu estúdio, ele lhe dará
um de seus quadros. Teddy, eu digo que...
— Um minutinho — disse Cruttendon. — Em que estação
do ano estamos? — Ele olhou pela janela.
— Costumamos sair aos domingos, Flanders; para o campo.
— Ele vai... — disse Jinny, olhando Jacob. — Você...
— Sim, ele virá conosco — disse Cruttendon.
Transportemo-nos para Versalhes.
Jinny, apoiada no muro de pedra, debruçava-se sobre o
tanque de água, agarrada pelos braços de Cruttendon, sem o
que teria caído.
— Aí! Aí! — gritava. — Bem até em cima!
Alguns peixes vagarosos e molengas subiam flutuando das
profundezas para roer suas migalhas.
— Olhem só! — gritou ela, saltando. E a água branca e
ofuscante, crespa e carregada de pressão, saltou pelos ares. O
chafariz se espraiava. Através dele chegava o som de música
militar ao longe. Toda a água se franzia em gotas. Um balão
azul batia docemente na superfície. Todas as amas e crianças
e velhos e jovens se reuniram na margem, debruçando-se e
brandindo suas bengalas. Uma menina correu de braços
estendidos para o seu balão, mas ele mergulhou debaixo do
chafariz.
Edward Cruttendon, Jinny Carslake e Jacob Flanders
caminhavam em fila ao longo da trilha de cascalho amarelo;
subiram na relva; passaram debaixo das árvores; e assim
foram dar na casa de verão onde Maria Antonieta costumava
tomar seu chocolate. Edward e Jinny entraram, mas Jacob
esperou do lado de fora, sentado sobre o cabo da sua
bengala. Os outros saíram de novo.
— Então? — disse Cruttendon, sorrindo para Jacob.
Jinny estava esperando; Edward estava esperando; ambos
fitavam Jacob.
— Então? — disse Jacob sorrindo e apertando a bengala nas
mãos.
— Vamos — decidiu, e saiu andando. Os outros foram atrás,
sorrindo.
Entraram então numa pequena confeitaria, numa rua
transversal, onde as pessoas tomavam café sentadas,
observando os soldados, batendo pensativamente cinzas nos
cinzeiros.
— Mas ele é bem diferente — disse Jinny cruzando as mãos
sobre o copo. — Não acredito que você saiba o que Ted quer
dizer quando afirma uma coisa dessas — comentou ela,
encarando Jacob. — Mas eu sei. Às vezes tenho vontade de
me matar. Ás vezes ele fica deitado na cama o dia todo,
simplesmente ali deitado... Não quero vocês em cima da
mesa — ela abanou as mãos e pombos intumescidos e
iridescentes gingaram em torno de seus pés.
— Olhe o chapéu dessa mulher — disse Cruttendon. —
Como é que inventam uma coisa dessas?... Não, Flanders,
não acredito que eu conseguisse viver como você. Quando
você desce por aquela rua em frente ao Museu Britânico,
como é que se chama? E disso que estou falando. E tudo
como aquilo. Aquelas mulheres gordas, e o homem parado
no meio da rua como se fosse ter um ataque...
— Todo mundo dá comida a eles — disse Jinny espantando
os pombos. — São uns velhos imbecis.
— Bem, não sei — disse Jacob Rimando seu cigarro. — Há
St. Paul.
— Falo dessa coisa de trabalhar num escritório — disse
Cruttendon.
— Mude de assunto — censurou Jacob.
— A opinião dele não conta — disse Jinny, olhando
Cruttendon. — Você é louco. Quero dizer, só pensa em
pintar.
— Sim, eu sei. Não posso fazer nada. Quero dizer, será que o
rei George vai ceder a respeito dos lordes?
— Ele simplesmente vai ter de... — disse Jacob.
— Vê — disse Jinny. — Flanders está à par de tudo.
— Olhe, eu estaria também se pudesse — disse Cruttendon.
— Simplesmente, não posso.
— Eu acho que eu poderia — disse Jinny. — Mas as pessoas
que fazem isso são todas aquelas de quem não gostamos. Em
casa, quero dizer. Não falam de outra coisa. Mesmo gente
como minha mãe.
— Mas se eu viesse viver aqui... — disse Jacob. — Qual é a
minha parte na conta, Cruttendon? Muito bem. Como você
quiser. Esses pássaros idiotas, é só a gente querer que
fiquem, eles voam.
Por fim, debaixo dos lampiões do arco na Gare des Invalides,
com um desses movimentos canhestros tão leves e ainda
assim tão definitivos, que podem ferir ou passar
despercebidos, mas em geral causam razoável desconforto,
Jinny e Cruttendon abraçaram-se; Jacob ficou parado a
distância. Tinha de separar-se. Alguma coisa precisava ser
dita. Nada foi dito. Um homem rodou um carrinho tão perto
das pernas de Jacob que quase as esfolou. Quando Jacob
recuperou o equilíbrio, os outros dois estavam se afastando,
embora Jinny olhasse sobre o ombro, e Cruttendon,
acenando com a mão, sumisse como o grande gênio que
efetivamente era.
Não, nada disso foi relatado à sra. Flanders, embora seja
quase certo que para Jacob nada no mundo era mais
importante; e quanto a Cnittendon e Jinny, julgava-os as
pessoas mais notáveis que jamais conhecera — naturalmente
era incapaz de prever que, no correr do tempo, Cruttendon
se poria a pintar pomares; por conseguinte, teria de viver em
Kent; e — era de crer — teria de cair na realidade, pois sua
mulher, por quem teria feito tudo aquilo, fugiria com um
romancista; mas não; Cruttendon continuou pintando
pomares, loucamente, na solidão. Pois Jinny Carslake, depois
do caso com Lefanu, o pintor americano, passou a
freqüentar os filósofos indianos, e agora pode ser vista em
pensões da Itália, carregando, como um tesouro, uma
caixinha de jóias contendo seixos apanhados na estrada. Mas,
se encaramos os seixos com firmeza, diz ela, a multiplicidade
se transforma em unidade, o que é de certa fonna o segredo
da vida, coisa que, de resto, não a impede de ter senso
prático, e às vezes, em noites de primavera, ela faz as mais
estranhas confidências a tímidos jovens ingleses.
Jacob nada tinha a esconder de sua mãe. Apenas não
conseguia entender essa extraordinária excitação, e quanto a
escrever a esse respeito...
— As cartas de Jacob se parecem tanto com ele — disse a sra.
Jarvis, dobrando a folha.
— Na verdade, ele parece... — disse a sra. Flanders e
interrompeu-se porque estava cortando um vestido e tinha
de alisar o molde — estar se divertindo bastante.
A sra. Jarvis pensou em Paris. A janela estava aberta atrás
dela, pois era uma noite suave; uma noite calma; a lua
parecia embuçada, as macieiras absolutamente imóveis.
— Nunca tenho pena dos mortos — disse a sra. Jarvis,
ajeitando a almofada às costas e entrelaçando as mãos atrás
da cabeça. Betty Flanders não escutou, pois sua tesoura fazia
ruídos na mesa.
— Estão descansando -— disse a sra. Jarvis. — E nós
passamos os dias falando coisas bobas e inúteis, e sem saber
por quê.
A sra. Jarvis não era estimada na aldeia.
— Você nunca passeia a essa hora da noite? — perguntou à
sra. Flanders.
— Está mesmo maravilhosamente suave lá fora — disse a sra.
Flanders. Mas fazia muitos anos desde que abrira o portão do
pomar e saíra para Dods Hill após o jantar.
— E está bem seco — disse a sra. Jarvis quando fecharam a
porta do pomar e saíram para a turfa.
— Não irei longe — disse Betty Flanders. — Sim, Jacob
deixará Paris quarta-feira.
— Dos três foi sempre Jacob o meu amigo — disse a sra.
Jarvis.
— Agora, minha cara, não irei adiante — tinham escalado a
colina escura, chegado ao Campo Romano.
O muro alteava-se aos pés delas — o doce círculo rodeando
o campo ou o túmulo. Quantas agulhas Betty Flanders
perdera ali! E o broche de granada.
— Algumas vezes fica muito mais claro do que agora — disse
a sra. Jarvis, detendo-se sobre a amurada. Não se viam
nuvens, e ainda assim pairava uma névoa sobre o mar e
sobre os pântanos. As luzes de Scarborough cintilaram,
como se uma mulher, usando colar de diamante, voltasse a
cabeça de um lado para outro.
— Como está calmo! — disse a sra. Jarvis.
A sra. Flanders esfregava a turfa com o dedo do pé,
pensando no broche de granada.
A sra. Jarvis achava difícil pensar em si própria naquela
noite. Tudo estava tão calmo! Não havia vento; nada corria,
voava, fugia. Sombras negras pairavam sobre os pântanos
prateados. Os arbustos de tojo perfeitamente imóveis. A sra.
Jarvis também não pensava em Deus. Havia uma igreja atrás
delas, claro. O relógio da igreja bateu dez horas. As batidas
chegavam ao arbusto de tojo, ou o espinheiro as ouvia?
A sra. Flanders abaixava-se para pegar um seixo. Às vezes as
pessoas encontram coisas, pensou a sra. Jarvis; contudo,
naquele luar difuso, era impossível ver qualquer coisa,
exceto ossos e pedacinhos de giz.
— Jacob comprou o broche com seu próprio dinheiro;
depois eu trouxe o sr. Parker para ver a paisagem, e o broche
deve ter caído... — murmurava a sra. Flanders.
Eram os ossos mexendo, ou espadas enferrujadas? O broche
barato da sra. Flanders para sempre faria parte desse rico
depósito? E se todos os fantasmas afluíssem compactos,
esfregando seus ombros na sra. Flanders, dentro do círculo,
ela não se acharia no lugar absolutamente certo, uma
matrona inglesa que começava a engordar?
O relógio bateu um quarto.
As frágeis ondas de som quebraram-se entre o tojo hirto e os
raminhos de espinheiro, quando o relógio da igreja dividiu o
tempo em quartos.
Imóveis e vastos, os pântanos recebiam o aviso, "Passam 15
minutos da hora", respondendo apenas com o movimento
de alguma amoreira preta.
Contudo, mesmo nessa penumbra, as inscrições nas tumbas
podiam ser lidas, vozes lacônicas dizendo "Sou Bertha
Ruck", "Sou Tom Gage". E diziam em que dia do ano haviam
partido, e o Novo Testamento dava uma palavra em favor
deles, altivo, enfático, consolador.
Os pântanos aceitam isso também.
O luar tomba como uma página pálida sobre a parede da
igreja, e ilumina a família ajoelhada no nicho, a tabuleta
colocada em 1780 para o juiz de paz da paróquia, que
ajudava os pobres, e acreditava em Deus — de tal maneira
que sua voz comedida prossegue, no rolo de mármore,
como se pudesse impor-se ao tempo e ao ar livre.
Agora uma raposa se esgueira por trás dos arbustos de tojo.
Muitas vezes, mesmo de noite, a igreja parece repleta de
gente. Os bancos estão gastos e sebentos, as batinas nos
lugares, os hinários nas prateleiras. É um navio com toda a
tripulação a bordo. Os costados forcejam por conter mortos
e vivos, homens do arado, carpinteiros, cavalheiros que
caçam raposa e fazendeiros recendendo a sujeira e
conhaque. Suas línguas se juntam, soletrando as palavras
bem marcadas que para sempre dividem em fatias o tempo e
os pântanos vastos. Lamento de fé e elegia, desespero e
triunfo, e, em geral, o bom-senso e a alegre indiferença
saem a passos rápidos pelas janelas, a qualquer hora no
correr desses quinhentos anos.
Ainda assim, como disse a sra. Jarvis saindo para os
pântanos, "Como está calmo!". Calmo ao meio-dia, exceto
quando a caça dispara por ali; calmo ã tarde, a não ser pelas
ovelhas pastando; e à noite o pântano é perfeitamente
silencioso.
Um broche de granada caiu na relva. Uma raposa caminha
sorrateira. Uma folha dobra-se no caule. A sra. Jarvis, que
tem cinqüenta anos, repousa no campo ao luar difuso.
— ...e — disse a sra. Flanders, endireitando as costas — eu
nunca me interessei pelo sr. Parker.
— Nem eu — replicou a sra. Jarvis. Começaram a andar de
volta para casa.
No entanto, por um momento suas vozes pairaram sobre o
campo. O luar não perturbava nada. O pântano assimilava
qualquer coisa. Tom Gage gritará alto enquanto sua sepultura
perdurar. Os esqueletos romanos estão bem guardados. As
agulhas de cerzir de Betty Flanders também estão guardadas,
e o seu broche de granada. E por vezes, ao meio-dia, à luz
do sol, o pântano parece acalentar esses pequenos tesouros
como uma ama. Mas à meia-noite, quando ninguém fala
nem corre, e o espinheiro está absolutamente imóvel, seria
tolice importunar o pântano com indagações — o quê?
porquê?
E o relógio bate 12 golpes.

CAPÍTULO DOZE

A água caía de uma saliência, como um fio de prumo — uma
corrente de grossos elos brancos. O trem disparava por um
prado verde e inclinado, e Jacob via tulipas rajadas
crescendo, e ouvia um pássaro cantar, na Itália.
O automóvel cheio de oficiais italianos corria pela estrada
plana e mantinha o mesmo ritmo do trem, levantando pó.
Havia árvores ligadas umas às outras por parreiras — tal
como dissera Virgílio. Ali, uma estação; e uma tremenda
agitação de partida, mulheres de altas botinas amarelas e
esquisitos meninos pálidos de meias caídas. As abelhas de
Virgílio tinham partido para as planícies da Lombardia. Os
antigos costumavam trançar parreiras entre os olmos.
Depois, em Milão, havia falcões de asas agudas, de um
castanho claro, traçando figuras sobre os telhados.
Esses vagões italianos ficam horríveis de quentes com o sol
da tarde em cima, e provavelmente antes que a locomotiva
tenha chegado ao cimo da garganta, a corrente se terá
partido. Sobe, sobe, sobe, como um trem visto no cinema.
Cada pico se cobre de árvores pontudas e alegres aldeias
brancas agrupadas em rochedos. Há sempre uma torre alva
bem no alto, telhados chatos e vennelhos, e abaixo um
panejamento diáfano. Não é um lugar para se passear depois
do chá. Para começar, nada de relva. Todo um lado da colina
pautado por oliveiras. Já em abril a terra vira poeira seca
entre elas. E não há degraus nem trilhas, ou alamedas
manchadas pela sombra de ramadas, nem estalagens do
século XVIII com janelas de sacadas curvas, onde se poderia
comer presunto e ovos. Ah, não, a Itália é puro ímpeto,
despojamento, desnudamento, e padres negros arrastando os
pés ao longo das estradas. Estranho, também, que sempre
estejamos perto de alguma villa.
Ainda assim, viajar sozinho com cem libras para gastar é boa
coisa. E se o dinheiro acabasse, como provavelmente
aconteceria, ele seguiria a pé. Poderia viver de pão e vinho
— vinho em garrafas envoltas em palha —; depois de ver a
Grécia, visitaria Roma. Sem dúvida a civilização romana era
uma experiência bem inferior. Mas Bonamy falava muita
bobagem mesmo. "Você devia ter estado em Atenas", diria a
Bonamy quando voltasse. "Parado no Partenon", diria, ou
"As ruínas do Coliseu sugerem pensamentos sublimes",
coisas que haveria de escrever detalhadamente nas cartas.
Elas até poderiam acabar formando um ensaio sobre a
civilização. Uma comparação entre antigos e modernos,
com algumas estocadas bem afiadas no sr. Asquith — algo
no estilo de Gibbon.
Um cavalheiro gordo arrastou-se laboriosamente para dentro
do vagão, empoeirado, bojudo, cheio de correntes de ouro;
lamentando não ser de raça latina, Jacob olhou pela janela.
É estranho pensar que, viajando dois dias e noites, se está no
coração da Itália. Villas inesperadas emergem entre as
oliveiras; criados regando cactos. Caleches negras param
entre pilares pomposos com broquéis de gesso. E uma
intimidade a um tempo inesperada e espantosa — expor-se
aos olhos de um estrangeiro. E há um solitário topo de
colina onde jamais aparece ninguém, e ainda assim eu o
vejo, eu, que recentemente desci Piccadilly de ônibus. E o
que queria era sair pelos campos, sentar e ouvir os
gafanhotos, e pegar um punhado de terra — terra italiana,
como é italiana a poeira nos meus sapatos.
Jacob ouviu gritarem nomes estrangeiros em estações de
ferrovia, à noite. O trem parou, e ele escutou sapos
coaxando perto, e afastou cautelosamente a cortina, e viu o
vasto charco branco de luar. O vagão estava denso de
fumaça de charuto, que pairava em torno do globo com o
quebra-luz verde. O cavalheiro italiano roncava deitado,
depois de tirar as botas e desabotoar o casaco... E toda essa
história de ir para a Grécia pareceu-lhe insuportavelmente
aborrecida — sentar sozinho em hotéis e contemplar
monumentos —; teria sido melhor ir à Cornualha com
Timmy Durrant...
— Oh — protestou Jacob quando a escuridão começou a
romper-se diante dele e a luz apareceu; era o homem que se
esticava para pegar alguma coisa — o gordo italiano com
peitilho de camisa postiço, barba por fazer, amarfanhado,
obeso, abriu a porta e saiu para lavar-se.
Então Jacob soergueu-se no assento e viu um esbelto
esportista italiano com uma arma na mão, andando pela
estrada na claridade da manhã que se iniciava, e toda a idéia
do Partenon o atingiu como uma bofetada.
"Por Deus!", pensou. "Temos de estar quase chegando!" E
meteu a cabeça para fora da janela e recebeu o ar em pleno
rosto.
E exasperador que 25 pessoas de suas relações sejam capazes
de dizer algo adequado sobre a Grécia, enquanto em você
uma rolha se aperta sobre todas as emoções. Após lavar-se
no hotel, em Patras, Jacob seguira os trilhos de bonde por
mais ou menos uma milha; e percorrera-os de volta, também
por mais ou menos uma milha; encontrara vários bandos de
perus; perdera-se em ruas afastadas; lera anúncios de
espartilhos e sopas Maggi; crianças tinham pisado em seus
pés; o lugar cheirava a queijo decomposto; sentiu-se feliz
por estar de repente diante do seu hotel. Havia entre as
xícaras de café um velho exemplar do Daily Mail, que ele
leu. O que faria depois do jantar?
Sem dúvida, nossa vida seria muito pior sem o nosso
espantoso talento para a ilusão. Aos vinte anos mais ou
menos, tendo nós renunciado às bonecas e quebrado nossas
máquinas a vapor, a França, mais provavelmente a Itália,
quase com certeza a índia, atraem a nossa fértil imaginação.
Nossa tia esteve em Roma; todo mundo tem um tio cujas
últimas notícias — pobre homem — vieram de Rangoon.
Ele não voltará mais. Mas são as governantas que começam
o mito da Grécia. Olhe aquela cabeça (dizem elas) — o nariz,
está vendo, reto como um dardo, cachos, sobrancelhas —
tudo adequado à beleza viril; seus braços e pernas têm linhas
que indicam um grau perfeito de evolução — os gregos
davam tanta importância ao corpo quanto ao rosto. E os
gregos sabiam pintar frutas tão bem que os pássaros as
bicavam. Primeiro, você lê Xenofonte; depois, Eurípedes.
Um dia — que acontecimento, meu Deus —, o que as
pessoas diziam, parece fazer sentido; o "espírito grego"; o
grego isso e aquilo e mais aquilo; embora seja absurdo, aliás,
afirmar que qualquer grego se aproxime de Shakespeare. O
problema, porém, é que fomos educados numa ilusão.
Jacob, sem dúvida, pensava algo nesse teor, com o Daily
Mail amassado na mão, pernas estendidas — a própria
imagem do tédio.
"Mas essa é a maneira como fomos educados", continuou.
E tudo lhe parecia aborrecido. Era preciso fazer alguma
coisa. E, do meio de sua depressão moderada, passou a
sentir-se um homem em véspera de execução. Clara Durrant
deixara-o, numa festa, para conversar com um americano
chamado Pilchard. E ele percorrera todo o caminho até a
Grécia, para se afastar de Clara. Usavam trajes de noite,
falavam bobagens — que incríveis bobagens —, e ele
estendera a mão para o Globe Trotter, uma revista
internacional fornecida grátis a proprietários de hotel.
Apesar de suas condições precárias, a Grécia moderna está
muito avançada em seu sistema de bondes elétricos, de
modo que, enquanto Jacob se sentava na sala de estar do
hotel, os bondes passavam com estrépito, sineteando,
tinindo, tinindo, retinindo imperiosamente debaixo das
janelas, para afastar os burricos do caminho, e uma velha
que se recusava a sair. Toda a civilização estava condenada.
Aristóteles, o garçom, era indiferente a isso também:
homem sujo e carnivoramente interessado no corpo do
único hóspede que ocupava a única poltrona, entrou
ostensivamente no aposento, colocou um objeto no lugar,
colocou outro em posição certa, e viu que Jacob continuava
ali.
— Quero ser acordado amanhã cedo — disse Jacob por cima
do ombro. — Vou a Olímpia.
Essa melancolia, essa submissão às águas escuras que nos
cercam é uma invenção moderna. Talvez, como diria
Cruttendon, não acreditemos o bastante. Nossos pais de
qualquer forma tinham algo a demolir. E quanto a isso, na
verdade, nós também, pensou Jacob amassando o Daily Mail
na mão. Entraria para o parlamento, faria belos discursos —
mas de que adiantam belos discursos e parlamento, uma vez
que cedemos uma polegada às águas escuras? Na verdade,
jamais houve explicação para a maré alta e baixa em nossas
veias — felicidade e desgraça. Aquela respeitabilidade, e as
festas noturnas em que se tem de vestir boas roupas, cortiços
ordinários nos fundos de Grays Inn — algo sólido,
irremovível, grotesco, está por trás disso, pensava
provavelmente Jacob. E havia o Império Britânico que
começava a deixá-lo intrigado; e não era inteiramente a
favor de se dar uma Constituição própria à Irlanda. O que
dizia o Daily Mail a esse respeito?
Pois foi para se tornar um homem que ele cresceu; e logo se
acharia na iminência de mergulhar nas coisas reais —
percebia a camareira, esvaziando sua bacia no andar de cima,
remexendo em chaves, abotoaduras, lápis, frascos de
comprimidos espalhados na cômoda.
Que ele se tornara um homem, era algo que Florinda sabia,
como sabia todas as coisas, por instinto.
E Betty Flanders, mesmo agora, suspeitava disso, enquanto
lia a carta enviada de Milão.
— Não me conta realmente nada daquilo que eu queria saber
— queixou-se à sra. Jarvis; e a carta a deixava pensativa.
Fanny Élmer sentia-o até o desespero. Pois — pensou — na
volta, ele pegaria sua bengala e seu chapéu e caminharia até
a janela, e pareceria absolutamente distante, e também
muito grave.
— Vou embora — diria ele — filar um almoço com Bonamy.
— Bem, posso me afogar no Tâmisa — chorava Fanny
Élmer, passando depressa pelo Asilo de Órfãos.
"Não se pode confiar no Daily Mail", disse Jacob a si mesmo,
olhando em torno à procura de algo mais para ler. E suspirou
de novo, tão profundamente melancólico que a melancolia
devia estar hospedada nele, pronta para enuviá-lo a qualquer
hora, o que era mau num homem que tanto saboreava todas
as coisas, não muito propenso à análise, terrivelmente
romântico, é claro — pensava Bonamy em seus aposentos,
em Lincoln's Inn.
"Ele vai se apaixonar", pensava Bonamy. "Uma grega
qualquer, de nariz reto."
Foi para Bonamy que Jacob escreveu de Patras — para
Bonamy, que não podia amar uma mulher e jamais lia um
livro tolo.
Afinal, há muito poucos livros bons, pois não podemos
contar histórias profusas, viagens em carroças de burro para
descobrir as fontes do Nilo, ou a volubilidade da ficção.
Aprecio livros cuja virtude está concentrada numa página ou
duas. Aprecio frases que não se movem, ainda que assoladas
por exércitos. Aprecio palavras duras — tais eram os pontos
de vista de Bonamy, que lhe conquistaram a hostilidade
daqueles cujo gosto se volta inteiro para as vegetações
frescas da manhã, que erguem a janela num ímpeto e
encontram as papoulas espalhadas ao sol, e não conseguem
conter um grito de júbilo diante da espantosa fertilidade da
literatura inglesa. Essa não era, em absoluto, a maneira de ser
de Bonamy. O gosto literário, que afetava suas amizades e o
tornava calado, secreto, fastidioso, sentindo-se à vontade
apenas com um ou dois rapazes que pensassem da mesma
maneira — essa era a acusação que lhe faziam.
Jacob Flanders, contudo, não seguia a sua maneira de pensar
— longe disso, suspirou Bonamy, colocando na mesa as finas
folhas de papel e mergulhando em reflexões sobre o caráter
de Jacob, não pela primeira vez.
O problema era aquela veia romântica. "Mas, misturada à
estupidez que o leva a essas situações absurdas", pensou
Bonamy, "há qualquer coisa — qualquer coisa", ele suspirou,
pois amava mais Jacob do que qualquer outra pessoa no
mundo.
Jacob foi até a janela e parou com as mãos nos bolsos. Viu
três gregos de saiote; mastros de navios; gente ociosa ou
ocupada, das classes mais baixas, vagando ou andando
rapidamente, formando grupos e gesticulando. A falta de
interesse dessa gente por ele não era a causa da melancolia
de Jacob; mas uma convicção mais profunda — não de que
ele próprio estivesse solitário, mas de que todo mundo é
solitário.
No dia seguinte, porém, quando o trem rodeava lento uma
colina, a caminho de Olímpia, as camponesas gregas se
encontravam nos vinhedos; os velhos gregos, sentados nas
estações, bebericavam vinho doce. E embora Jacob
continuasse melancólico, jamais suspeitara de como pode ser
terrivelmente divertido estar sozinho; fora da Inglaterra; por
conta própria; separado de tudo. Há colinas nuas muito
agudas no caminho de Olímpia; e no meio delas, o mar azul
a espaços triangulares. Um pouco como a costa da
Cornualha. Bem, andar a pé sozinho o dia todo — subir
aquele caminho e seguir por ele acima entre os arbustos (são
arvorezinhas?) até o topo daquela montanha da qual se pode
ver metade das nações da Antiguidade...
— Isso — disse alto Jacob, pois seu vagão estava vazio —,
vamos dar uma olhada no mapa.
Quer o censuremos ou elogiemos, não há como negar o
cavalo selvagem que trazemos dentro de nós. Ele galopa
desenfreado; cai na areia, exausto; sente a terra girar; tem —
sem dúvida — um impulso de afeto para com pedras e
relvas, como se a humanidade tivesse acabado; e quanto aos
homens e mulheres, vamos esquecê-los — não podemos
ignorar o fato de que tal desejo muitas vezes nos domina.
O ar noturno movia de leve as cortinas sujas do hotel em
Olímpia.
"Estou cheia de amor para com todo mundo", pensou a sra.
Wentworth Williams, "— especialmente pelos pobres, pelos
camponeses voltando à noite com suas cargas. E tudo é
doce, é vago e muito triste. E triste, triste. Mas tudo tem
uma significação", pensou Sandra Wentworth Williams,
erguendo um pouco a cabeça, parecendo muito bela, trágica
e exaltada. "E preciso amar todas as coisas."
Ela segurava um bom livro para viagens — contos de
Tchecov — parada ali, de véu, roupa branca, na janela do
hotel de Olímpia. Como a noite era bela! E a sua beleza era a
da noite. A tragédia da Grécia era a tragédia de todas as almas
nobres. O inevitável envolvimento. Ela parecia ter
descoberto alguma coisa. Queria anotá-la. E movendo-se
para a mesa em que o marido estava sentado, lendo, apoiou
o queixo nas mãos e pensou nos camponeses, no sofrimen-
to, na sua própria beleza, no inevitável envolvimento, e em
como haveria de colocar isso por escrito. Evan Williams não
disse nada de brutal, banal ou tolo, quando fechou o livro e
o pôs de lado para dar lugar aos pratos de sopa que estavam
sendo colocados diante deles. Apenas seus tristes olhos de
sabujo, e as bochechas pálidas e pesadas, expressavam
melancólica tolerância, e a convicção de que, embora
forçado a viver de modo circunspecto e prudente, jamais
conseguiria alcançar nenhum daqueles objetivos que, bem
sabia, eram os únicos que valia a pena perseguir. Sua
compostura era perfeita; seu silêncio, absoluto.
— Tudo parece significar tantas coisas — disse Sandra. Mas
com o som de sua voz, rompeu-se o encantamento. Ela
esqueceu os camponeses. Restou apenas a consciência da
própria beleza; por sorte, havia um espelho à sua frente.
"Sou linda", pensou.
Moveu de leve o chapéu. O marido viu-a contemplar o
espelho; e concordou que beleza é importante; é uma
herança; não pode ser ignorada, mas é uma barreira; na
verdade, praticamente é um aborrecimento. Então, tomou
sua sopa e manteve os olhos fixos na janela.
— Codornas — disse a sra. Wentworth languidamente. — E
depois, suponho, cabrito; e depois...
— Provavelmente pudim de caramelo — disse o marido na
mesma cadência, já com o palito na mão.
Ela depôs a colher no prato, e a sopa foi retirada ainda pela
metade. Sandra jamais fazia nada sem dignidade, pois era do
tipo inglês que é tão grego, que faz os aldeões tocarem nos
chapéus em saudação, e os habitantes da casa paroquial a
reverenciarem; jardineiros-mestres e jardineiros-aprendizes
endireitam respeitosamente as costas quando ela desce o
amplo terraço no domingo de manhã, demorando-se nas
jarras de pedra com o primeiro-ministro para colher uma
rosa — coisa que, talvez, ela estivesse tentando esquecer,
enquanto o seu olhar vagueava pela sala de jantar do hotel
em Olímpia, procurando a janela onde deixara o livro, onde
há poucos minutos descobrira algo — algo profundo sobre
amor e tristeza e camponeses.
Contudo, foi Evan quem suspirou; não em desespero, nem
mesmo em revolta. Sendo o mais ambicioso dos homens e,
de temperamento, o mais preguiçoso, jamais realizara coisa
alguma; sabia na ponta da língua a história política da
Inglaterra, e vivendo muito em companhia de Chatham,
Pitt, Burke e Charles James Fox, não podia deixar de
comparar a si próprio e à sua idade com eles e com as deles.
Nunca os grandes homens foram mais necessários do que
agora, costumava dizer a si próprio, num suspiro.
Ali estava ele palitando os dentes num hotel em Olímpia.
Satisfeito. Os olhos de Sandra, porém, vagueavam.
— Aqueles melões rosados certamente são perigosos — disse
ele tristemente. Enquanto falava a porta abriu-se e entrou
um homem de terno em xadrezinho cinza.
— Belos, mas perigosos — disse Sandra, imediatamente
falando ao marido na presença de uma terceira pessoa. ("Ah,
um rapaz inglês numa excursão", pensou.)
E Evan soube de tudo.
Sim, ele sabia de tudo e admirava-a. Muito agradável,
pensou, ter aventuras. Mas quanto a ele, com a sua altura
(Napoleão tinha um metro e meio, lembrou), seu volume,
sua falta de habilidade em impor-se (ainda assim, grandes
homens nunca foram mais necessários, suspirou), nada tinha
a esperar. Jogou fora o charuto, dirigiu-se a Jacob e
perguntou, com a sinceridade simplória que agradava a
Jacob, se viera diretamente da Inglaterra.
— Tipicamente inglês! — riu Sandra, quando na manhã
seguinte o garçom lhes contou que o jovem senhor saíra às
cinco da manhã para escalar a montanha. — Estou certa de
que ele lhe pediu um banho? — e o garçom sacudiu a cabeça
e disse que perguntaria ao gerente.
— O senhor não entendeu — riu Sandra. — Esqueça.
Estendido no topo da montanha, completamente solitário,
Jacob se divertia bastante. Provavelmente nunca fora tão
feliz em toda a vida.
Mas, no jantar daquela noite, o sr. Williams perguntou-lhe
se não gostaria de ver o jornal; depois, a sra. Williams
perguntou (enquanto vagavam pelo terraço fumando —
como poderia recusar o charuto daquele homem?) se vira o
anfiteatro ao luar; se conhecia Everard Sherbon; se lia grego,
e caso (Evan levantou-se calado e entrou) tivesse de
sacrificar uma das duas, seria a literatura francesa ou a russa?
"E agora", escreveu Jacob em sua carta a Bonamy, "vou ter
de ler o maldito livro dela" — o Tchecov, queria dizer, pois
ela lho emprestara.
Embora seja opinião pouco popular, parece bastante
provável que lugares despojados, campos demasiado
pedregosos para serem cultivados, tumultuadas planuras de
mar a meio caminho entre a Inglaterra e a América, nos
agradam mais do que as cidades.
Há em nós qualquer coisa de absoluto, que não pode ser
qualificada. É o que a sociedade aborrece e distorce. Pessoas
reúnem-se numa sala. "Encantada em conhecê-lo", diz
alguém e está mentindo. E depois: "Hoje em dia gosto mais
do outono que da primavera. Acho que isso acontece
quando se fica mais velha." Pois as mulheres estão sempre,
sempre, sempre falando sobre o que sentem, e ao dizerem
"quando se vai ficando velha", esperam que você tenha
alguma resposta conveniente.
Jacob sentou-se na pedreira de onde os gregos cortavam
mármore para o seu teatro. E duro subir as colinas gregas ao
meio-dia. O agreste ciclâmen vermelho estava em flor; ele
vira as pequenas tartarugas cambaleando de um montículo a
outro; o ar manifestava um odor intenso, subitamente doce,
e o sol, batendo em lascas de mármore recortadas, ofuscava
intensamente. Ali estava ele sentado, fumando seu
cachimbo, digno, arrogante, desdenhoso, um pouco
melancólico e entediado, com uma nobre espécie de tédio.
Bonamy teria dito que era esse tipo de coisa que o inquietava
— quando Jacob entrava em depressão, parecia um pescador
de Margate desempregado, ou um almirante britânico. Não
se conseguia fazer com que entendesse coisa alguma quando
estava naquele estado de alma. O melhor era deixá-lo só.
Ficava imbecilizado. E irritadiço.
Levantara-se muito cedo e visitara estátuas guiado por seu
Bacdeker.
Sandra Wentworth Williams, explorando o mundo antes do
café da manhã, em busca de aventura ou de alguma
paisagem, toda de branco, não muito alta, mas incomumente
erecta — Sandra Williams flagrou a cabeça de Jacob
exatamente no mesmo nível da cabeça do Hermes de
Praxiteles. A comparação foi toda a favor dele. Mas antes
que ela pudesse dizer uma só palavra, Jacob saíra do museu e
a deixara.
Uma dama da moda viaja com mais de um vestido, e se
roupas brancas combinam com as horas matinais, talvez
amarelo-areia com bolas púrpura e chapéu negro, e um
volume de Balzac, combinem com a noite. Era assim que ela
estava vestida no terraço, quando Jacob chegou. Estava
linda. Meditava com as mãos cruzadas, parecia escutar o
marido, parecia observar os camponeses descendo com
lenha às costas, parecia notar que a colina mudava de azul
para negro, parecia discriminar entre verdade e falsidade,
pensou Jacob, que, de repente, cruzou as pernas, notando
como suas calças estavam puídas.
"Ele tem um ar muito distinto", decidiu Sandra.
E Evan Williams, recostando-se para trás em sua cadeira,
com o jornal nos joelhos, sentiu inveja deles. A melhor
coisa a fazer seria publicar pela editora Macmillan sua
monografia sobre a política exterior de Chatham. Mas —
para o diabo com essa sensação túmida, enjoada — essa
inquietação, essa inchação e calor — era ciúme! ciúme!
ciúme! que ele jurara nunca mais sentir.
— Venha conosco a Corinto, Flanders — disse, com mais
energia do que de hábito, parando junto da cadeira de Jacob.
Ficou aliviado com a resposta dele, ou antes, pela maneira
sólida, direta, talvez tímida, com que este disse que gostaria
muito de ir a Corinto.
"Eis um sujeito que poderia fazer sucesso na política",
pensou Evan Williams.
"Pretendo vir à Grécia todos os anos enquanto viver",
escreveu Jacob a Bonamy. "É a única chance que vejo de me
proteger da civilização."
"Sabe Deus o que ele quer dizer com isso", suspirou
Bonamy. Pois, como ele próprio jamais dizia algo distorcido,
essas expressões obscuras de Jacob o deixavam apreensivo, e,
de alguma forma, também impressionado, suas tendências
dirigindo-se inteiras para o definido, o concreto, o racional.
Nada podia ser mais simples do que o que Sandra disse
quando descia para Corinto, mantendo-se na pequena trilha,
enquanto Jacob andava no solo áspero a seu lado. Ficara órfã
de mãe aos quatro anos, e o parque do castelo era imenso.
— Parecia que a gente ia sair dele — riu. Naturalmente havia
a biblioteca e o caro sr. Jones e suas noções sobre as coisas.
— Eu costumava vagar pela cozinha e me sentar nos joelhos
do mordomo — disse ela, rindo, mas triste.
Jacob pensou que, se ele tivesse estado lá, a teria salvo; pois
fora exposta a grandes perigos, sentia, e pensou: "As pessoas
não entenderiam uma mulher falando como esta fala."
Ela não se importava muito com a aspereza da colina; e
Jacob viu que usava calções sob a saia curta.
"Mulheres como Fanny Élmer não fazem isso", pensou ele.
"Aquela não-sei-o-quê Carslake também não; e ainda assim,
elas fingem..."
A sra. Williams dizia as coisas de maneira direta. Ele ficou
surpreendido com seu próprio conhecimento de regras de
conduta; como expressar muito mais do que se pensava;
como ser franco com uma mulher; e como conhecera pouco
de si mesmo até então.
Evan juntou-se a eles na estrada; enquanto subiam colina e
desciam colina (pois a Grécia está em estado de ebulição e
ainda assim tem um recorte espantosamente nítido, um país
sem árvores, em que se avista o solo entre os talos de grama,
cada colina cortada, formada e esboçada a toda hora contra
cintilantes águas de um azul profundo, ilhas alvas como areia
boiando no horizonte, tufos ocasionais de palmeiras em
vales cobertos de cabras negras, manchados de pequenas
oliveiras, e às vezes com fendas brancas, em listras ou
ziguezagues nas encostas), enquanto subiam e desciam
colinas, ele se encolheu num canto da carruagem, maxilar
tão cerrado que a pele se esticava sobre os ossos, e os
pelinhos estavam eriçados. Sandra viajava na frente,
dominadora, como uma Vitória preparada para voar pelos
ares.
"Insensível!", pensou Evan (o que não era verdade).
"Desmiolada!", suspeitou (o que também não era verdade).
Mesmo assim ele a invejava!
Na hora de dormir, Jacob achou difícil escrever a Bonamy.
Mas vira Salamina e Maratona a distância. Pobre velho
Bonamy! Não; havia algo estranho nisso. Não podia escrever
a Bonamy.
"Mesmo assim irei a Atenas", decidiu, parecendo resoluto,
apesar do aguilhão que lhe dilacerava o peito.
Os Williams já tinham estado em Atenas.
Atenas ainda é capaz de impressionar um jovem, como a
mais bizarra das combinações e o mais incongruente dos
agrupamentos.
Num momento, é suburbana; noutro, imortal. Aqui, jóias
baratas importadas, expostas em bandejas de pelúcia. Ali,
uma mulher majestosa exibe-se nua, exceto pelas ondulações
de pano acima do joelho. O jovem não consegue dar forma
às suas sensações, enquanto passeia pelo Bulevar Parisiense
numa tarde quente, esquivando-se do landô real, que, de
aparência incrivelmente decadente, sacoleja pela rua
esburacada, saudado pelos cidadãos de ambos os sexos
trajados em chapéu-coco barato e roupas também
importadas; embora um pastor de saiote, capa e perneiras
quase leve seu rebanho de cabras para debaixo das rodas
reais; e todo o tempo a Acrópole aponta no ar, ergue-se
acima da cidade, como uma grande onda imóvel, com as
colunas amarelas do Partenon firmemente plantadas em
cima.
As colunas amarelas do Partenon podem ser vistas a
qualquer hora do dia, firmemente plantadas em cima da
Acrópole; ao crepúsculo, porém, quando os navios do Pireu
disparam suas armas, uma campainha toca, um homem de
uniforme (colete desabotoado) aparece; e as mulheres
enrolam as meias pretas que estão tricotando à sombra das
colunas, chamam as crianças, e atropelam-se na descida da
colina, de volta a suas casas.
Lá estão eles novamente, os pilares, o frontão, o Templo de
Vitória e o Erecteu, colocados numa rocha fulva fendida por
sombras; abrimos nossas venezianas diretamente para a
manhã e, debruçando-nos para fora, ouvimos a algazarra, o
clamor, o estalo dos chicotes na rua embaixo. Lá estão eles.
A extrema nitidez com que aparecem, agora de um branco
luminoso, depois amarelos e vermelhos, conforme a luz,
impõe a idéia de permanência, de alguma energia espiritual a
emergir através da terra, que em outra parte se dissiparia em
elegantes inutilidades. Embora a beleza seja suficientemente
humana para nos fazer fraquejar, para remexer no espesso
sedimento de lama — memórias, abandonos,
arrependimentos, devoções sentimentais — o Partenon está
apartado de tudo isso; e se considerarmos que tem emergido
ali a noite toda, séculos a fio, podemos ligar o ofuscamento
(ao meio-dia o brilho é ofuscante e o friso quase invisível) à
idéia de que apenas a beleza talvez seja imortal.
Além disso, comparado ao ornamento de estuque
descascado, às novas canções de amor estridentes ao
arranhar das guitarras e gramofones, e às faces móveis, mas
insignificantes na rua, o Partenon é realmente espantoso em
sua silenciosa serenidade, tão vigorosa que, longe de
decadente, o Partenon parece, ao contrário, capaz de
sobreviver ao mundo.
— E os gregos, como homens sensatos, jamais se
importaram em concluir a parte de trás das estátuas — disse
Jacob, protegendo os olhos com a mão e observando que o
lado que não se enxerga era deixado em estado bruto.
Notou a leve irregularidade das linhas dos degraus, que "o
senso artístico dos gregos preferia a uma precisão
matemática", dizia o livro-guia.
Jacob estava parado no lugar exato em que a grande estátua
de Atenas costumava ficar, e identificou os mais famosos
marcos da cena abaixo.
Em suma, Jacob mostrou-se minucioso e diligente, mas
profundamente moroso. Além do mais, os guias o
importunavam. Isso foi segunda-feira.
Na quarta, redigiu um telegrama para Bonamy, dizendo que
viesse logo. Depois amassou-o na mão, jogando-o na sarjeta.
"Por essa coisa ele não virá mesmo", pensou. "E atrevo-me a
dizer que essa coisa vai se desgastar por si." "Essa coisa" era
uma sensação ansiosa e dolorida — algo como egoísmo, que
faz com que se deseje que tudo desapareça, de tal modo que
não se quer ver mais nada, porque se ultrapassou o limite
que se é capaz de suportar. "Se continuar, não conseguirei
dominá-la; se ao menos tivesse alguém perto de mim."
Infelizmente, Bonamy se enfia em seu quarto em Lincoln's
Inn — oh, com efeito, maldição, maldição —, é tão
opressiva a visão de Himeto, Pentélico, Licabeto de um lado,
e a do mar 110 outro, quando se está parado no Partenon ao
pôr-do-sol, o céu coberto de plumagens rosadas, a planície
toda colorida, o mármore moreno aos nossos olhos. Ainda
bem que Jacob tinha pouco senso para associações pessoais;
raramente pensava em Platão ou Sócrates em carne e osso;
por outro lado, sua sensibilidade para arquitetura era muito
forte; preferia estátuas a pinturas; e começava a pensar muito
nos problemas da civilização, resolvidos de modo tão
notável pelos antigos gregos, embora suas soluções já não
nos ajudem. Então o aguilhão deu-lhe uma ferroada intensa
no lado, quando estava na cama, na quarta à noite; e ele
revirou-se numa espécie de tumulto desesperado,
lembrando-se de Sandra Wentworth Williams, por quem
estava apaixonado.
No dia seguinte, ele escalou o Pentélico.
No outro, subiu a Acrópole. Era cedo; o lugar, quase deserto;
e possivelmente havia trovões no ar. Mas o sol desabava
pleno sobre a Acrópole.
A intenção de Jacob era sentar-se e ler; encontrando um
cilindro de mármore em lugar conveniente, de onde se
podia avistar Maratona e ainda assim estar na sombra,
enquanto o Erecteu ofuscava branco à sua frente, sentou-se
ali. E depois de ler uma página, colocou o polegar dentro do
livro. Por que não governar países da maneira como deviam
ser governados? E voltou a ler.
Sem dúvida, aquela posição, vendo toda a Maratona, de
alguma forma o deixou excitado. Ou talvez um cérebro lento
tenha esses instantes de florescimento. Ou, insensivelmente,
enquanto estava no estrangeiro, começara a pensar em
política.
E então, erguendo o olhar e vendo o contorno nítido, suas
meditações assumiram extraordinária perspicácia; a Grécia
acabara; o Partenon se achava em ruínas; e ainda assim,
Jacob estava ali.
(Damas com sombrinhas verdes e brancas passavam pelo
pátio — damas francesas iam reunir-se aos maridos em
Constantinopla.)
Jacob retomou a leitura. E colocando o livro no chão,
começou a escrever uma nota sobre a importância da
história, como se estivesse inspirado pelo que lera — num
desses rabiscos sobre os quais se pode fundar a obra de uma
vida inteira; ou, por outro lado, rabiscos que cairão dentro
de um livro vinte anos depois, e ninguém se lembrará de
uma só palavra. E algo um pouco doloroso; sempre é melhor
queimá-los.
Jacob escreveu; começou a desenhar um nariz reto; foi
quando todas as damas francesas, abrindo e fechando suas
sombrinhas logo abaixo dele, exclamaram, olhando o céu,
que a gente não sabia o que devia esperar — chuva ou bom
tempo?
Jacob ergueu-se e vagou pelo Erecteu. Ainda há diversas
mulheres ali paradas, sustentando o teto sobre suas cabeças.
Jacob endireitou-se um pouco, pois estabilidade e equilíbrio
são a primeira coisa a afetar o corpo. Essas estátuas anulavam
tanto as coisas! Ele as encarou, depois virou-se, e lá estava
madame Lucien Gravé, empoleirada num bloco de mármore
com sua máquina fotográfica apontada para a cabeça dele.
Naturalmente, ela saltou dali, apesar da idade, do corpo e das
botas justas — tendo, agora que a filha se casara, caído com
luxuriante abandono, de certa forma imponente, numa
carnação grotesca; ela saltou, mas não antes que Jacob a
tivesse visto.
"Malditas mulheres; malditas mulheres!", pensou. E foi
apanhar o livro que deixara no chão do Partenon.
— Como elas estragam as coisas — murmurou encostado
num dos pilares, apertando firme o livro sob o braço.
(Quanto ao tempo, sem dúvida a tempestade desabaria logo;
Atenas estava sob as nuvens.)
— São essas malditas mulheres — disse Jacob, sem traço de
amargura, antes com tristeza e desapontamento, pois o que
poderia ter sido não seria jamais.
(Essa intensa desilusão deve ser geralmente esperada em
saudáveis rapazes na flor da idade, que em breve se tornarão
pais de família e diretores de banco.)
Então, certificando-se de que as damas francesas haviam
partido, e espiando cautelosamente em torno, Jacob foi
devagar até o Erecteu e olhou mais ou menos furtivamente
para a deusa do lado esquerdo, que sustentava o teto sobre a
cabeça. Ela lhe lembrou Sandra Wentworth Williams. Ele a
encarou, depois afastou o olhar. Estava extraordinariamente
comovido, e com o carcomido nariz grego na cabeça, com
Sandra na cabeça, com toda a espécie de coisas na cabeça,
começou a andar diretamente para o topo do monte
Himeto, em meio ao calor.
Naquela mesma tarde, Bonamy foi tomar chá com Clara
Durrant, expressamente para falar sobre Jacob, na praça atrás
de Sloane Street, onde, em cálidos dias de primavera, há
estores listrados sobre as janelas da frente, cavalos solitários
pateando no macadame fora das portas, e cavalheiros idosos
em coletes amarelos tocando campainhas e entrando muito
polidos, quando a criada responde em tom grave que a srta.
Durrant está em casa.
Bonamy sentou-se com Clara Durrant na ensolarada sala da
frente, com o realejo pipilando docemente lá fora, a carroça
d'água passando lenta e respingando o pavimento, as
carruagens retinindo, e sobre toda a prata e chintz, tapetes
marrons e azuis, vasos cheios de ramagens verdes, roçavam
trêmulos raios de ouro.
A insipidez do que estavam falando não precisa de ilustração
— Bonamy respondia gentilmente com palavras calmas,
divertindo-se com aquela existência apertada e castrada
dentro de um sapato de cetim branco (enquanto isso, a sra.
Durrant discutia estridentemente política com um ilustre
senhor qualquer na sala dos fundos), até que a virgindade da
alma de Clara lhe apareceu, cândida, e suas profundezas
desconhecidas; e ele teria pronunciado o nome de Jacob, se
não tivesse começado a sentir-se positivamente certo de que
Clara o amava — e ainda assim não podia fazer coisa alguma.
— Coisa alguma! — exclamou quando a porta se fechou e,
para um homem do seu temperamento, teve uma sensação
muito esquisita, enquanto andava através do parque, como
de carruagens irresistivelmente impelidas ou de canteiros de
flores descompromissadamente geométricos, ou de uma
força que dispara em torno de desenhos geométricos da
maneira mais insensata do mundo.
"Seria Clara", pensou ele parando para observar os meninos
banhando-se na Serpentina, "a mulher enfim silenciosa?
Jacob se casaria com ela?".
Contudo, em Atenas, à luz do sol, onde é quase impossível
conseguir o chá da tarde, e cavalheiros idosos que falam em
política falam nela de maneira toda diferente, em Atenas
sentava-se Sandra Wentworth Williams, de véu, de branco,
pernas estendidas à frente, um cotovelo no braço da cadeira
de bambu, nuvens azuis exalando- se ondulantes do cigarro.
As laranjeiras que florescem na Praça da Constituição, a
banda, o arrastar dos pés, o céu, as casas cor de limão e rosa
— tudo isso tornou-se tão significativo para a sra.
Wentworth Williams, depois da segunda xícara de café, que
ela começou a romancear a história da senhora inglesa nobre
e impulsiva que, em Micenas, oferece um lugar em seu carro
a uma velha senhora americana (sra. Duggan) — história não
de todo falsa, embora não se levasse em conta a presença de
Evan, parado ali, primeiro num pé depois noutro, aguar-
dando que as mulheres terminassem de conversar.
— Estou pondo em versos a Vida do padre Damião — dizia
a sra. Duggan, pois perdera tudo, tudo no mundo, marido e
filho e tudo, mas a fé continuava.
Esvoaçando do particular para o universal, Sandra recostou-
se para trás, num transe.
O vôo do tempo que nos empurra tão tragicamente para
diante; o monocórdio e irritante eterno, por vezes
rebentando em ferozes labaredas amarelas como aquelas
efêmeras bolas amarelas entre folhas verdes (ela olhava as
laranjeiras); beijos em lábios que irão morrer; o mundo
girando, girando em confusão de som e calor — embora na
verdade exista a noite sossegada com seu doce palor, "Pois
sou sensível a todos os aspectos do fato", pensou Sandra, "e a
sra. Duggan vai me escrever sempre, e responderei a suas
cartas". Agora, a banda real passava marchando com a
bandeira nacional, provocando em Sandra círculos mais
amplos de emoção — e a vida tornava-se algo que os mais
corajosos dominam e cavalgam, para ir dominar o mar, os
cabelos esvoaçantes. (Era isso que ela imaginava, no
momento em que a brisa passava leve entre as laranjeiras) —
ela própria se via emergindo de um nevoeiro prateado,
quando avistou Jacob. Parado na praça, com um livro
debaixo do braço, olhando vagamente em torno. Verdade
que tinha corpo robusto, e com o tempo poderia engordar.
Mas ela suspeitava que ele fosse apenas um homem rústico.
— Lá está aquele rapaz — disse, irritada, jogando fora o
cigarro —, aquele sr. Flanders.
— Onde? — disse Evan. — Não estou vendo.
— Oh, está indo embora, atrás das árvores agora. Não, não dá
para você ver. Mas com certeza vamos nos encontrar com
ele — e naturalmente foi o que aconteceu.
Até que ponto ele era apenas um homem rústico? Até que
ponto, aos 26 anos, Jacob Flanders era um sujeito tolo? Não
adianta querer classificar pessoas. E preciso seguir alusões,
não exatamente o que é dito, não inteiramente o que é feito.
Alguns, é verdade, mostram logo indeléveis impressões de
personalidade. Outros se arrastam, se desperdiçam, são
soprados para um lado e outro. Velhinhas bondosas nos
asseguram que muitas vezes os gatos são os melhores juízes
do caráter. Um gato sempre se aproxima de um homem
bom, dizem elas; mas a sra. Whitehom, senhoria de Jacob,
odiava gatos.
Há também a respeitável opinião de que hoje em dia avaliar
personalidades é algo superado. Enfim, que importa isso —
que Fanny Élmer fosse toda sentimentos e sensação, e a sra.
Durrant dura como ferro? Que Clara, devendo (diziam os
avaliadores de personalidades) muito à influência da mãe,
jamais tivesse a chance de fazer coisa alguma por si mesma,
e só a olhos muito perspicazes revelasse profundezas de
emoção positivamente alarmantes; certamente se jogaria nos
braços de alguém indigno dela, qualquer dia, a não ser que,
dizem os avaliadores de personalidades, tivesse uma
centelha do espírito da mãe — a qual, de alguma forma, era
heróica. Mas que termo para se aplicar a Clara Durrant!
Outros, ainda, julgavam-na extremamente simples. E dizem
ser essa a verdadeira razão pela qual atraía Dick Bonamy —
o rapaz com nariz de Wellington. Mas ele é um candidato
fora de competição, se assim você quiser. E todos os
mexericos subitamente cessariam — obviamente aludiam
àquela sua inclinação peculiar, sobre a qual há muito tempo
murmuravam.
— Às vezes é exatamente de uma mulher como Clara que
homens desse temperamento necessitam... — sugeriria a
srta. Julia Eliot.
— Bem — responderia o sr. Bowley —, pode ser.
Não importa quanto tempo duram e o quanto estufam a
personalidade de sua vítima, até que fique inchada e tenra
como fígado de ganso exposto à chama ardente, esses
mexericos jamais levam a qualquer decisão.
— Aquele rapaz — diriam — Jacob Flanders, com um ar tão
distinto, mas tão desajeitado. — E se interessariam por Jacob
e vacilariam eternamente entre os dois extremos. — Ele
cavalgava nas caçadas, não com muita freqüência, pois não
tinha dinheiro — diriam.
— Você jamais soube quem era o pai dele? — indagou Julia
Eliot.
— Dizem que a mãe tem alguma ligação com os Rocksbiers
— replicou o sr. Bowley.
— Bem, ele não se mata de trabalhar.
— Os amigos gostam muito dele.
— Você quer dizer Dick Bonamy?
— Não, não era isso que eu queria dizer. Obviamente, com
Jacob a coisa é outra. Ele é exatamente o tipo do rapaz que
se apaixona até as orelhas, e depois se arrepende pelo resto
da vida.
— Ah, o sr. Bowley... — disse a srta. Durrant, lançando-se
sobre eles no seu modo imperioso. — Lembra-se da sra.
Adams? Esta é a sobrinha dela. — E, levantando-se, o sr.
Bowley curvou-se polidamente e pegou morangos.
Assim somos levados a considerar o que querem dizer as
pessoas sérias — os homens que freqüentam clubes e
ministérios — quando afirmam que classificar
personalidades é uma ocupação frívola, exercida junto da
lareira, um assunto de alfinetes e agulhas, contornos bizarros
contendo um vazio, floreios e meros rabiscos.
Os navios de guerra lançam seus holofotes sobre o Mar do
Norte, mantendo suas seções escrupulosamente separadas. A
um sinal dado todas as armas apontam para um alvo que (o
mestre-artilheiro conta os segundos, relógio na mão — no
sexto ergue o olhar) explode em fragmentos. Com igual
indiferença uma dúzia de jovens na flor da idade baixa com
rostos calmos às profundezas do mar; e impassivelmente
(embora com perfeito domínio da maquinaria) sufocam
juntos, sem queixume. Como blocos de soldadinhos de
chumbo, o exército cobre o trigal, sobe a colina, cambaleia
de leve de um lado para outro, achata-se na terra; apenas
através de binóculos pode-se ver uma ou duas peças ainda
movendo-se para cima e para baixo, como lascas de fósforos
quebrados.
Essas formas de atividade, juntamente com o incessante
comércio bancário, de laboratórios, chancelarias e casas de
negócios, são os impulsos que levam o mundo para frente,
dizem. E são manejados por homens de feições tão brandas
como o policial impassível de Ludgate Circus. Mas você
notará que, longe de mostrar tendências à redondez, sua
face é rígida de tanta força de vontade, magra pelo esforço
de manter-se assim. Quando o braço direito se ergue, toda a
força de suas veias corre direta do ombro para a ponta dos
dedos; nem um grama se desvia em impulsos repentinos,
arrependimentos sentimentais, distinções sutis. E os ônibus
param pontualmente.
É assim que vivemos, dizem, impulsionados por uma força
inapreensível. Dizem que os romancistas jamais a captam;
que ela prossegue em disparada através de suas malhas e as
rasga em trapos. E disso que vivemos — dizem —, dessa
força inapreensível.
— Onde estão os homens? — disse o velho general Gibbons,
olhando em torno na sala de visitas, cheia de gente bem
vestida, como era costume nas tardes de domingo. — Onde
estão as armas?
A sra. Durrant também olhou.
Clara, pensando que a mãe precisava dela, entrou; depois
saiu de novo.
Estavam falando sobre a Alemanha na casa dos Durrants, e
(impelido por aquela força inapreensível) Jacob desceu
rapidamente a rua Hermes e chocou-se direto com os
Williams.
— Oh! — gritou Sandra subitamente numa arrebatada
cordialidade. E Evan acrescentou: — Que sorte!
O jantar que ofereceram a Jacob no hotel que dá para a Praça
da Constituição foi excelente. Cestas laminadas com
pãezinhos frescos. Manteiga autêntica. E a carne quase
dispensava o ornamento dos inumeráveis pedacinhos de
legumes verdes e vermelhos boiando num molho vítreo.
Contudo, era estranho. Havia mesinhas colocadas a espaços
sobre o tapete escarlate com o monograma do rei grego em
amarelo. Sandra jantou de chapéu, com véu, como de
hábito. Evan olhava para um lado e outro, por cima do
ombro; imperturbável, mas ainda assim suplicante; e por
vezes suspirava. Estranho. Pois eram ingleses que se
encontravam em Atenas numa noite de maio. Jacob,
servindo-se disto ou daquilo, dava respostas inteligentes,
mas com um timbre diferente na voz.
Os Williams iam para Constantinopla cedo na manhã
seguinte, disseram.
— Antes de você se levantar — disse Sandra.
Deixariam Jacob sozinho. Virando-se só um pouquinho,
Evan encomendou qualquer coisa — uma garrafa de vinho
— da qual serviu a Jacob com uma espécie de solicitude
paternal, se era possível uma coisa dessas. Ser deixado
sozinho — era bom para um rapaz. Jamais houvera tempo
em que a pátria precisasse tanto de seus homens. Ele
suspirou.
— Esteve na Acrópole? — perguntou Sandra.
— Sim — disse Jacob. E foram juntos até a janela, enquanto
Evan falava com o chefe dos garçons sobre acordá-los cedo
na outra manhã.
— E espantoso — disse Jacob com voz áspera.
Sandra abriu debilmente os olhos. Possivelmente, suas
narinas também se expandiram um pouco.
— Então, às seis e meia — disse Evan, aproximando-se, pare-
cendo enfrentar algo ao encontrar sua mulher e Jacob
parados de costas para a janela.
Sandra lhe sorriu.
E enquanto ele se dirigia à janela, sem nada dizer, ela
acrescentou em meias-frases fragmentadas:
— Mas que encantador, não seria? A Acrópole, Evan, ou
você está cansado demais?
Então Evan olhou-os, ou, como Jacob estivesse olhando
fixamente por cima da cabeça dele, encarou a esposa,
carrancudo, indisposto, ainda assim com uma certa mágoa
— embora ela não fosse ter compaixão. Nem o implacável
espírito do amor, por mais que ele se esforçasse, faria cessar
seus tormentos.
Deixaram-no; ele ficou sentado na sala dos fumantes, que dá
para a Praça da Constituição.
— Evan sente-se mais feliz sozinho — disse Sandra. — Não
temos visto jornais. E melhor que cada um tenha o que
deseja... Você viu tantas coisas maravilhosas desde o nosso
último encontro... Que impressão lhe causaram... Acho que
você mudou.
— Quer ir até a Acrópole? — disse Jacob. — Então vamos
subir até lá.
— E algo de que vamos lembrar a vida toda — disse Sandra.
— Sim — disse Jacob. — Queria que você tivesse vindo de
dia.
— Mas assim é mais lindo ainda — disse Sandra, fazendo um
gesto com a mão.
Jacob olhava vagamente.
—- Mas devia ver o Partenon de dia — disse. — Não
poderia vir amanhã; seria cedo demais?
— Você ficou sentado ali horas e horas sozinho?
— Esta manhã havia umas mulheres horrorosas — disse
Jacob.
— Mulheres horrorosas? — ecoou Sandra.
— Francesas.
— Mas algo muito lindo aconteceu com você — disse
Sandra. Dez minutos, 15 minutos, meia hora, era todo o
tempo de que ela dispunha.
— Sim — disse ele.
— Quando se tem a sua idade, quando se é jovem, o que é
que se faz? A gente se apaixona, ah, sim! Mas não se apresse.
Sou muito mais velha do que você.
Homens desfilando empurraram-na do calçamento.
— Devemos continuar? — perguntou Jacob.
— Vamos continuar — insistiu ela.
Pois não podia parar enquanto não lhe tivesse dito, ou
enquanto ele não lhe dissesse — ou será que esperava
alguma ação da parte dele? Era alguma coisa que ela
discernia, longe, no horizonte, e não a deixava descansar.
— Jamais se conseguiria que ingleses se sentassem expostos
como as pessoas daqui — disse ele.
— Não, jamais. Quando voltar à Inglaterra, você não vai
esquecer isso, ou venha conosco a Constantinopla! —
exclamou ela de repente.
— Mas então...
Sandra suspirou.
— Claro, eu sei, você tem de ir a Delfos — disse. "Mas o que
é que estou querendo dele?", indagou a si mesma. "Talvez
alguma coisa que perdi..." — Vai chegar lá às seis da tarde —
comentou. — Vai ver as águias.
Jacob mostrava um ar obstinado e mesmo desesperado à luz
da esquina, e, ainda assim, controlado. Talvez sofresse. Era
ingênuo. Contudo, havia nele algo de cáustico. Trazia em si
as sementes da extrema desilusão que lhe viria das mulheres
na idade madura. Talvez, se tentasse firmemente chegar ao
topo da colina, isso não tivesse de lhe acontecer — a
desilusão causada pelas mulheres na idade madura.
— O hotel é um horror — disse ela. — Os últimos hóspedes
deixaram a banheira cheia de água suja. Isso sempre
acontece — riu.
— As pessoas que se encontram por aí são abomináveis —
disse Jacob.
Sua excitação era óbvia.
— Escreva e me conte a respeito — disse ela. — E conte-me
o que sente e pensa. Conte-me tudo.
A noite estava escura. A Acrópole aparecia como um monte
todo recortado.
— Isso me daria um prazer imenso — disse ele.
— Quando voltarmos a Londres, vamos nos encontrar...
— Sim. Será que deixam os portões abertos? — perguntou
ele.
— Podemos saltar por cima — respondeu ela, ousada.
As nuvens passaram de leste para oeste, obscurecendo a lua
e deixando a Acrópole nas trevas. As nuvens se
solidificavam; os vapores se adensavam; os véus singrantes
pararam e acumularam-se.
Estava escuro sobre Atenas, exceto pelas diáfanas listras
vermelhas onde passavam ruas; e a frente do palácio era
cadavérica sob a iluminação elétrica. Os molhes destacavam-
se do mar, marcados por pontinhos separados; as ondas
estavam invisíveis, e os promontórios e ilhas pareciam
montes escuros com algumas luzes.
— Eu adoraria trazer meu irmão, se pudesse — murmurou
Jacob.
— E então, quando sua mãe vier a Londres... — disse Sandra.
A terra grega estava trevosa; de alguma forma, perto de
Eubéia, uma nuvem devia ter tocado as ondas, fazendo-as
respingar — os delfins girando mais e mais fundo no mar.
Agora o vento era intenso, disparando pelo Mar de
Mármara, entre a Grécia e as planícies de Tróia.
Na Grécia e nas terras altas da Albânia e da Turquia, o vento
esfrega areia e pó, tomando-se denso de partículas secas.
Depois, malha as doces ogivas das mesquitas e faz rangerem
e se arrepiarem os ciprestes hirtos junto às tumbas dos
maometanos com seus turbantes.
Os véus de Sandra enrolaram-se em torno dela.
— Eu lhe darei o meu exemplar — disse Jacob. — Tome. Vai
guardá-lo?
(O livro eram os poemas de Donne.)
A agitação do ar descobriu uma estrela veloz. Uma após
outra, as luzes se apagaram. Grandes cidades, Paris,
Constantinopla, Londres, eram negras como rochas
esparramadas em meio à torrente. Podiam- se ver os cursos
d'água. Na Inglaterra as árvores estavam pesadas de folhas.
Aqui talvez, numa floresta do sul, um velho queimava
samambaias secas, assustando os pássaros. Ovelhas tossiam;
uma flor curvou- se de leve para outra. O céu inglês é mais
macio, mais leitoso do que o do Oriente. Algo doce passou
por ele, vindo das colinas relvadas, algo amortecido. O vento
salgado soprava pela janela do quarto de dormir de Betty
Flanders e, erguendo-se um pouco nos cotovelos, a viúva
suspirou como alguém que percebe — mas a adiaria um pou-
co mais, oh, um pouco mais! — a opressão da eternidade.
Voltemos, porém, a Jacob e Sandra.
Tinham desaparecido. Lá estava a Acrópole; mas teriam
chegado até ela? As colunas e o templo perduram; a emoção
dos vivos se abate sobre eles, renovada, ano após ano; e o
que sobra de tudo isso?
Quanto a chegar até a Acrópole, quem poderá dizer que
alguém jamais o fez, ou que, ao acordar na manhã seguinte,
Jacob encontrou algo consistente e durável para guardar para
sempre? Jacob, porém, foi com eles a Constantinopla.
Sandra Wentworth Williams certamente acordou
encontrando um exemplar dos poemas de Donne no
toucador. O livro ficaria na estante da casa de campo inglesa,
onde a Vida do padre Damião, de Sally Duggan, em verso,
lhe faria companhia um dia desses. Já havia ali dez ou 12
livrinhos. Entrando, ao anoitecer, Sandra os abriria, e seus
olhos se iluminariam (mas não por causa do texto), e
sentando-se na poltrona ela sorveria outra vez a alma do
instante; ou, como por vezes ficasse inquieta, tiraria da
estante um livro atrás do outro, e se embalaria pelo espaço
de toda a sua vida, como um acrobata de trapézio em
trapézio. Tivera seus momentos. Enquanto isso, o grande
relógio do patamar tiquetaqueava, e Sandra ouviria o tempo
acumular-se, e perguntaria a si mesma: para quê? porquê?
— Para quê? Por quê? — diria Sandra colocando outra vez o
livro no lugar, dirigindo-se ao espelho e ajeitando o cabelo.
E a srta. Edwards se espantaria, na hora do jantar, com a
súbita solicitude de Sandra, quando abrisse a boca para
mandar servir o carneiro assado: — Está feliz, srta. Edwards?
— coisa em que Cissy Edwards há anos não pensava.
Para quê? Por quê? Jacob jamais fazia tais perguntas a si
mesmo, a julgar pelo seu modo de amarrar as botinas e fazer
a barba; a julgar pelo profundo sono daquela noite, com o
vento remexendo as persianas, e meia dúzia de mosquitos
cantando em seu ouvido. Ele era jovem — um homem. E
Sandra estava certa quando o considerava ingênuo. Aos
quarenta anos, a coisa pode ser diferente. Ele marcara as
passagens de que gostava em Donne; eram bastante ousadas.
Mas ao lado delas podemos colocar passagens da mais pura
poesia em Shakespeare.
O vento empurrava a escuridão pelas ruas de Atenas; podia-
se mesmo pensar que a empurrava com uma atropelada
energia que proíbe uma análise muito precisa das emoções
de qualquer pessoa ou de suas feições. Todos os rostos —
gregos, levantinos, turcos, ingleses — teriam parecido iguais
naquela escuridão. Em toda a extensão, as colunas e os
templos surgiam brancos, amarelos, rosados; as Pirâmides e
São Pedro se alteavam; e por fim St. Paul, que assoma
preguiçosa.
Os cristãos têm o direito de erguer mais cidades com sua
interpretação musical do sentido a dar ao dia. Então, menos
melodiosamente, dissidentes de diversas seitas produzem
uma réplica mal-humorada. Os navios a vapor, ressoando
como gigantescos diapasões, declaram o fato antigo — existe
um mar balouçando frio e verde lá fora. Contudo, hoje em
dia é a tênue voz do dever, pipilando num fio branco na
extremidade de um funil, que reúne as maiores multidões, e
a noite não é senão um longo suspiro entre batidas de
martelo, um sopro profundo que pode ser ouvido de uma
janela aberta mesmo no coração de Londres.
Mas quem, exceto os de nervos desgastados, os insones, ou
pensadores parados com mãos protegendo os olhos sobre
um penhasco acima da multidão, vê coisas assim, num
esboço de esqueleto, despidas da carne? Em Surbitton o
esqueleto está envolto em carne.
— A chaleira nunca ferve tão bem como numa manhã de
sol — diz a sra. Grandage, dando uma olhada no relógio
sobre a lareira. Então, o gato persa cinzento se espreguiça
sobre o banco debaixo da janela e, com as patas redondas e
macias, tenta apanhar uma mariposa. E antes que a refeição
matinal termine (estavam atrasados naquele dia), colocam
um bebê em seu regaço, e ela precisa vigiar o açucareiro
enquanto Tom Grandage lê o artigo sobre golfe no Times,
beberica seu café, limpa os bigodes, e sai para o escritório,
onde é a maior autoridade em comércio externo, e acaba de
ser indicado para uma promoção.
O esqueleto está bem envolto em carne. Mesmo nessa noite
escura, enquanto o vento empurra a treva por Lombard
Street e Fetter Lane e Bedford Square, há movimento (pois é
verão e estamos no auge da estação), plátanos enfeitados de
luzes elétricas e cortinas ainda preservando o quarto da luz
da madrugada. As pessoas ainda repetem murmurando a
última palavra pronunciada na escadaria, ou, através dos
sonhos, aguardam a voz do despertador. Como quando o
vento erra por uma floresta, inumeráveis ramos finos se
agitam; colmeias são tocadas de leve; insetos balouçam em
talos de grama; a aranha galga rápida as rugas de uma casca
de árvore; o ar inteiro vibra de respiração — elástico de
múltiplos filamentos.
Mas aqui — em Lombard Street e Fetter Lane e Bedford
Square — cada inseto carrega em sua cabeça um globo
terrestre e as teias da floresta são esquemas imaginados para
que os negócios transcorram sem problemas; e o mel é um
tesouro oculto; e o movimento no ar é a indescritível
agitação da vida.
Mas a cor reaparece; corre pelos talos de grama acima;
explode em tulipas e crocos; imprime traços vigorosos nos
troncos das árvores; impregna o tecido impalpável do ar,
reveste as ervas e os tanques de água.
O Banco da Inglaterra emerge; e o monumento com sua
cabeça eriçada de cabelo dourado; e os cavalos de tração
atravessando a ponte de Londres ostentam sua cor de cinza
e de morango e de ferro. Há um tatalar de asas quando os
trens suburbanos disparam pelo terminal adentro. E a luz
escala as fachadas de todas as casas altas e cegas, esgueira-se
por uma fenda e pinta as lustrosas e bojudas cortinas
carmesim; e verdes cálices de vinho; e xícaras de café; e
cadeiras paradas fora de prumo.
A luz do sol desaba nos espelhos e nos deslumbrantes
canecos de latão e sobre todos os alegres enfeites do dia — o
claro, curioso, resplandecente dia de verão em sua armadura,
que há muito subjugou o caos, que secou as melancólicas
neblinas medievais, que drenou o pântano e colocou sobre
ele pedra e cristal; que equipou nossas mentes e corpos com
um tal arsenal que a simples visão do lampejo e ímpeto dos
membros empenhados em conduzir a vida cotidiana é
melhor do que o antigo cortejo de exércitos saindo em
formação de combate pela planície.

CAPÍTULO TREZE

— O auge da estação — disse Bonamy.
O sol já empolara a tinta nos espaldares das cadeiras verdes
de Hyde Park, soltara as cascas dos plátanos, transformara a
terra em poeira e macios seixos amarelos. E o Hyde Park,
incessantemente percorrido pelo giro das rodas.
— O auge da estação — disse Bonamy sarcástico.
Estava sarcástico por causa de Clara Durrant; porque Jacob
regressara da Grécia muito moreno e magro, com bolsos
cheios de anotações sobre a Grécia, que tirou para fora
quando o homem das cadeiras veio pedir um pence; porque
Jacob estava calado.
"Ele não disse uma palavra demonstrando que está contente
por me rever", pensou Bonamy amargurado.
Os automóveis passavam incessantes sobre a ponte da
Serpentina; as classes superiores andavam erectas, ou
debruçavam-se graciosas sobre as amuradas; as classes
inferiores deitavam-se de costas, com joelhos encolhidos;
ovelhas pastavam sobre suas pernas estiradas; criancinhas
corriam pelo relvado oblíquo, estendiam os braços e caíam.
— De uma elegância tudo isso... — disse Jacob.
"Elegante" nos lábios dele tinha misteriosamente toda a
beleza
de uma personalidade que Bonamy julgava cada dia mais
sublime, devastadora, terrífica do que nunca, embora ainda
fosse — talvez para sempre — bárbara e obscura.
Que superlativos! Que adjetivos! Como absolver Bonamy de
alimentar um sentimento da espécie mais vulgar; de ser
jogado como cortiça sobre as ondas, sem qualquer visão
firme da personalidade; de não ser amparado pela razão e de
não haurir nenhum consolo das obras dos clássicos?
— O máximo da civilização — disse Jacob.
Gostava de usar palavras latinas.
Magnanimidade, virtude — essas palavras, quando usadas
por Jacob, em conversa com Bonamy, significavam que ele
assumia o controle da situação, e que Bonamy brincaria em
volta dele como um cocker spaniel afetuoso e que (muito
provavelmente) acabariam rolando pelo assoalho.
— E a Grécia? — disse Bonamy. — O Partenon, e tudo mais?
— Não se vê nada desse misticismo europeu — disse Jacob.
— É a atmosfera, acho eu — disse Bonamy. — E você foi a
Constantinopla?
— Sim — disse Jacob.
Bonamy fez uma pausa, moveu um seixo; depois interveio,
com a rapidez e segurança de uma língua de camaleão.
— Você está apaixonado! — exclamou.
Jacob corou.
A mais afiada das facas jamais cortou tão fundo.
Em vez de responder, ou dar qualquer importância, Jacob
olhou diretamente para cima, com olhar fixo, monolítico —
ah, quão belo! — como um almirante britânico, exclamou
Bonamy furioso, erguendo-se e afastando-se, esperando
algum som. Nada se ouviu; era orgulhoso demais para olhar
para trás; andou mais e mais depressa, até que deu consigo
mesmo olhando fixo para dentro de automóveis e
amaldiçoando as mulheres. Onde estava o rosto da bela
mulher? De Clara — de Fanny — de Florinda? Quem seria a
bela criatura?
Não era Clara Durrant.
O terrier de Aberdeen tinha de fazer exercício, e como
naquele instante o sr. Bowley estava saindo — não havia
nada de que gostasse tanto quanto de um passeio — foram
juntos, Clara e o bondoso pequeno Bowley — Bowley, que
tinha quartos no Albany, Bowley que escrevia ao Times
cartas repletas de chistes sobre hotéis estrangeiros e a
Aurora Boreal, Bowley, que gostava de gente jovem e
andava por Piccadilly com o braço direito repousando nas
costas.
— Seu diabinho! — gritou Clara e prendeu Troy na corrente.
Bowley antecipava — esperava por — uma confidência.
Embora devotada ã mãe, às vezes Clara se ressentia um
pouco; bem, sua mãe era tão segura de si, que não podia
compreender que outras pessoas fossem... fossem "tão
ridículas como eu", disse Clara num arranco (e o cão a
puxava para diante). E Bowley achou-a parecida com uma
caçadora e ficou imaginando qual seria o seu nome — uma
virgem pálida com uma fita de luar nos cabelos, coisa que o
deixou extasiado.
As faces dela estavam rosadas. Ter falado abertamente sobre
a mãe... Mas só com o sr. Bowley, que a amava, como era do
dever dele; para ela, falar não era algo natural, embora fosse
terrível sentir, como sentira o dia todo, que era preciso
contar tudo a alguém.
— Espere até atravessarmos a rua — disse ao cão, inclinando-
se para ele.
Felizmente nessa hora já recuperara o controle.
— Ela pensa tanto na Inglaterra — disse. — Está tão
ansiosa...
Como de costume, Bowley sentiu-se defraudado. Clara
jamais
confiava em ninguém.
"Por que é que vocês, jovens, não dão um jeito, hein?",
queria perguntar. "Qual é o problema com a Inglaterra?" —
questão à qual a pobre Clara não teria podido responder,
pois, enquanto a sra. Durrant discutia com Sir Edgar a
política de Sir Edward Grey, Clara apenas se admirava que o
armário estivesse empoeirado, e que Jacob não tivesse
regressado. Ah, ali estava a sra. Cowley Johnson...
E Clara passaria as belas taças de chá de porcelana, e sorriria
ao elogio de que ninguém em Londres fazia chá tão bem
quanto ela.
— Nós compramos chá no Brocklebank — dizia —, em
Crusitor Street.
Não deveria sentir-se grata? Não deveria ser feliz?
Especialmente quando sua mãe parecia estar tão bem e
gostava tanto de falar com Sir Edgar sobre Marrocos,
Venezuela, ou algum desses lugares.
"Jacob! Jacob!", pensava Clara; e o bondoso sr. Bowley,
sempre tão delicado com as senhoras idosas, que olhava, e
parava, e pensava se Elizabeth não estaria sendo dura demais
com a filha; que pensava em Bonamy, em Jacob — que tipo
de rapaz era ele? — e que se levantou imediatamente
quando Clara disse que tinha de levar Troy para fazer
exercício.
Tinham chegado ao terreno da antiga Exposição. Olharam as
tulipas. Rígidas e encaracoladas, erguiam-se da terra as
pequenas hastes de uma maciez de cera, viçosas, mas
discretas, moldadas em escarlate e coral. Cada uma tinha sua
sombra; cada uma crescia comportada no canteiro em forma
de diamante, segundo o plano do jardineiro.
— Barnes não consegue fazer com que cresçam assim — cis-
mou Clara e suspirou.
— Você está negligenciando seus amigos — disse Bowley,
quando alguém, seguindo em direção oposta, ergueu o
chapéu. Ela sobressaltou-se; percebeu a mesura do sr. Lionel
Parry; desperdiçou com ele o que em si brotara para Jacob.
("Jacob! Jacob!", pensava.)
— Mas você vai ser atropelado se eu soltá-lo — disse ao
cachorro.
— Acho que a Inglaterra vai indo bem — disse o sr. Bowley.
O arco do parapeito debaixo da estátua de Aquiles estava
repleto de guarda-sóis e coletes, correntes e pulseiras, damas
e cavalheiros passeando ociosos e elegantes, observando
tudo vagamente.
— ...essa estátua foi erguida pelas mulheres da Inglaterra... —
leu Clara, soltando um risinho tolo. — Oh, sr. Bowley! Oh!
— Galope, galope, galope, um cavalo passou a galope, sem
cavaleiro. As rédeas voavam, os pedregulhos saltavam.
— Oh, pare-o! Pare-o, sr. Bowley! — gritou ela, pálida,
trêmula, agarrando o braço dele, totalmente fora de si, as
lágrimas brotando.
— Tst-tst — disse o sr. Bowley em seu quarto de vestir, uma
hora mais tarde. — Tst-tst — comentário bastante profundo,
embora expresso de maneira inarticulada, pois seu criado lhe
entregava as abotoaduras.
Também Julia Eliot vira o cavalo disparar e erguera-se da
cadeira para ver o fim do incidente, que lhe parecia um
pouco ridículo, a ela que vinha duma família de esportistas.
Naturalmente o homenzinho corria atrás, com dificuldade,
calções empoeirados; parecia aborrecido; um policial o
ajudava a montar quando, com um sorriso sardónico, Julia
Eliot se dirigia a Marble Arch, no seu passeio benemerente.
Era apenas para visitar uma velha senhora enferma, que
conhecera sua mãe e talvez o duque de Wellington; pois
Julia partilhava do amor que seu sexo nutre pelos aflitos;
gostava de visitar moribundos; jogava chinelos em
casamentos ; escutava dúzias de confidências; conhecia mais
pedigrees do que um erudito conhece datas, e era uma das
mais bondosas, mais generosas e a menos moderada das
mulheres.
Cinco minutos depois de ultrapassar a estátua de Aquiles, ela
ostentava o ar extasiado de alguém abrindo caminho entre
multidões numa tarde de verão, quando as árvores
farfalham, rodas giram amarelas, o tumulto do presente
parece uma elegia sobre a juventude passada e os verões
passados, e uma singular tristeza dominava sua mente, como
se tempo e eternidade espreitassem por entre saias e coletes
e ela visse pessoas tragicamente a caminho da destruição.
Ainda assim — só Deus sabe —, Julia não era nenhuma tola.
Não havia mulher mais arguta em suas barganhas. Era
sempre pontual. O relógio de pulso lhe dava 12 minutos e
meio para chegar a Bruton Street; Lady Congreve esperava-a
às cinco.
O relógio dourado do Verrey estava soando cinco horas.
Florinda olhou-o com expressão embotada, como um
animal. Olhou o relógio; olhou a porta; olhou o longo
espelho em frente; arranjou sua capa; chegou mais perto da
mesa, pois estava grávida - não havia dúvida quanto a isso,
dissera a mãe Stuart, aconselhando remédios, consultando
suas amigas; Florinda esvaída, no alto dos saltos dos sapatos,
deslizando pela superfície das águas.
Seu copo de conteúdo rosado e doce foi colocado na mesa
pelo garçom; ela chupou por um canudo de palha, olhos no
espelho, na porta, apaziguada pelo sabor doce. Quando Nick
Bramham entrou, até o jovem garçom suíço notou que havia
um caso entre eles. Nick ajeitou as roupas canhestramente;
passou os dedos no cabelo; sentou-se, nervoso, para a
provação. Ela o fitou e começou a rir; riu — riu — riu. O
jovem garçom suíço, parado junto ao pilar, de pernas
cruzadas, riu também.
A porta abriu-se; a zoeira de Regent Street entrou, a zoeira
do tráfego impessoal, impiedoso; e a luz do sol com grãos de
sujeira. O garçom suíço teve de atender aos recém-
chegados. Bramham ergueu seu copo.
— Ele parece Jacob — disse Florinda fitando o recém-
chegado.
— O jeito de olhar. — Seu riso morreu.
Debruçando-se para diante, Jacob desenhava uma planta do
Partenon na poeira de Hyde Park; pelo menos era uma rede
de rabiscos que poderia ser o Partenon ou um diagrama de
matemática. E por que os seixos tão enfaticamente
assentados num canto? Não, não fibra para conferir suas
anotações que ele tirara um maço de papéis do bolso e lera
uma longa carta escrita por Sandra dois dias atrás, em Milton
Dower House, com o livro que ele lhe dera na frente, e no
pensamento a lembrança de algo pronunciado ou tentado,
em algum momento na escuridão, na estrada da Acrópole,
que (acreditava ela) importaria para sempre.
"Ele é como aquele personagem de Molière", ela cismou.
Ela queria dizer Alceste. Ela queria dizer que Jacob era
inflexível. E ao mesmo tempo ela queria dizer que poderia
muito bem desprezá-lo.
"Ou não poderia?", pensou, recolocando os poemas de
Donne na estante. "Jacob", prosseguiu, indo até a janela e
olhando, por cima dos canteiros manchados de flores, para a
relva onde vacas malhadas pastavam debaixo de faias, "Jacob
ficaria chocado".
O carrinho de bebê estava passando pelo portãozinho da
grade. Ela enviou um beijo com a mão; orientado pela ama,
Jimmy abanou a sua.
— Ele é um menininho — disse ela, pensando em Jacob.
Mas — e Alceste?
— Mas que chateação! — resmungou Jacob, estendendo
primeiro uma perna depois outra, apalpando os bolsos das
calças à procura do tíquete de sua cadeira.
— Espero que as ovelhas o tenham devorado — disse. — Por
que é que vocês criam ovelhas aqui?
— Sinto muito incomodá-lo, senhor — disse o rapaz que
recolhia os tíquetes, a mão no fundo da enorme sacola de
moedas.
— Bem, acho que você é pago para fazer isso — disse Jacob.
— Aqui. Não, pode ficar com o troco. Tome um pileque.
Ele se desfizera de meia coroa, condescendente,
compassivo, com um considerável desprezo pelo seu
dinheiro e pelo gênero humano.
Nesse mesmo momento, enquanto andava ao longo do
Strand, a pobre, incompetente Fanny Élmer pensava, sem
conseguir entendê-la, nessa maneira descuidada, indiferente,
sublime, que Jacob tinha ao falar com funcionários de
ferrovia ou porteiros, ou com a sra. Whitehorn, quando ela
o consultava sobre o seu filho que fora surrado pelo
professor.
Amparada nos últimos dois meses unicamente pelos cartões-
postais, a idéia que Fanny tinha de Jacob era mais irreal, mais
nobre e mais cega do que nunca. Para reforçar essa visão, ela
se pusera a visitar o Museu Britânico, onde, conservando os
olhos baixos até passar pelo Ulisses carcomido, ela os abria e
recebia novo impacto da presença de Jacob, o suficiente para
sustentá-la por meio dia. Mas isso começava a se diluir. E
agora ela escrevia — poemas, cartas nunca enviadas, via o
rosto dele em anúncios de cartazes, e atravessaria a rua para
fazer o realejo transformar suas próprias cismas em
rapsódias. No café da manhã (ela dividia o quarto com uma
professora), quando a manteiga se espalhava no prato e nos
dentes dos garfos se enrolava gema de ovo envelhecida, ela
revisava intensamente tais conceitos; na verdade, ficava
muito aborrecida; estava perdendo sua bela aparência,
conforme dissera Margery Jackson, rebaixando o caso
(enquanto amarrava suas sólidas botinas) a uma questão de
superioridade maternal, vulgaridade e sentimento banal —
pois também ela um dia amara e fora uma tola.
— Nossas madrinhas deviam ter nos ensinado — disse Fanny
para si mesma, olhando pela vitrine de Bacon, o vendedor
de mapas, no Strand — que não adianta fazer drama; isso é a
vida, deviam ter dito — tal como Fanny se dizia agora,
olhando o grande globo amarelo onde apareciam
demarcadas as rotas dos navios.
— É a vida. É a vida — disse Fanny.
"Que rosto duro", pensou a srta. Barret, do outro lado do
vidro, comprando mapas do deserto da Síria e esperando
impacientemente que a atendessem. Hoje em dia, as
mocinhas parecem velhas muito cedo.
O equador nadava atrás das lágrimas.
— Piccadilly? — perguntou Fanny ao condutor do ônibus e
subiu para o andar de cima. Ao fim e ao cabo, ele iria, ele
tinha de voltar para ela.
Contudo, Jacob talvez estivesse pensando em Roma, em
arquitetura, em jurisprudência, sentado debaixo do plátano
no Hyde Park.
O ônibus parou na altura de Charing Cross: atrás estavam
enfileirados ônibus, furgões, automóveis, pois uma procissão
com estandartes desfilava por Whitehall, e pessoas idosas
desciam rígidas por entre as patas dos leões limosos onde
haviam testemunhado sua fé, cantando fervorosas, erguendo
os olhos da música para fitar o céu, e ainda mantendo os
olhos no céu ao marcharem atrás dos letreiros dourados do
seu credo.
O tráfego interrompeu-se; o sol, não mais suavizado pela
brisa, era quase quente demais. A procissão passava; os
estandartes cintilavam ao longe, descendo Whitehall; o
tráfego foi liberado e seguiu adiante; tramando uma zoeira
branda e contínua, desviou-se em torno da curva de
Cockspur Street, passou por escritórios do governo e
estátuas eqüestres, em Whitehall, e chegou às torres
espinhentas, à cinzenta frota de pedras engatadas umas nas
outras, e ao grande relógio branco de Westminster.
O Big Ben entoou cinco batidas; Nelson recebeu a salva de
hábito. Os fios telefônicos do Almirantado vibravam com
alguma comunicação de longa distância. Uma voz
comentava que primeiros-ministros e vice-reis falavam no
Reichstag ou chegavam a Laore; que o imperador alemão
viajara; que em Milão havia tumulto, e rumores em Viena;
que o embaixador em Constantinopla tivera audiência com o
sultão; e que a esquadra se achava em Gibraltar.
A voz continuou imprimindo nos rostos dos empregados de
escritório em Whitehall (Timothy Durrant era um deles)
algo da sua própria inexorável gravidade, enquanto eles
ouviam, decifravam, anotavam. Papéis acumulavam-se
entulhados com as façanhas do Kaiser, as estatísticas dos
arrozais, as exigências de centenas de operários tramando
sedição em ruelas afastadas ou reunindo-se em bazares de
Calcutá ou revistando tropas nas terras altas da Albânia, onde
as colinas são cor de areia e os ossos jazem desenterrados.
A voz falava nítida no aposento quadrado, com pesadas
mesas, onde um homem idoso tomava notas na margem de
folhas datilografadas, o guarda-chuva com ponteira prateada
encostado na estante de livros.
Sua cabeça — calva, de veias vermelhas, aparência oca —
representava todas as cabeças do edifício. Sua cabeça, com
os amáveis olhos desbotados, carregava pelas ruas o ônus do
saber; apresentava-o aos colegas, que chegavam igualmente
onerados; e então os 16 cavalheiros, erguendo suas canetas
ou virando-se talvez fatigados nas cadeiras, decretavam que
o curso da história deveria delinear- se por este ou aquele
caminho, virilmente determinados, conforme
demonstravam seus rostos, a impor alguma coerência aos
Rajás e ao Kaiser e à murmuração dos bazares, às reuniões
secretas, bastante visíveis em Whitehall, de camponeses de
saiote nas terras altas da Albânia; e a controlar o curso dos
acontecimentos.
Pitt e Chatham, Birke e Gladstone, olhavam de um e outro
lado com seus fixos olhos de mármore e um ar de imortal
aquiescência, que talvez os vivos invejassem. E o ar estava
cheio de assobios e concussões, enquanto a procissão descia
Whitehall com seus estandartes. Mais ainda, alguns estavam
sofrendo de dispepsia; um deles rachara naquele instante o
vidro de seus óculos; outro falaria em Glasgow amanhã;
todos juntos pareciam por demais vermelhos, gordos,
pálidos ou magros, para lidarem com o curso da história, tal
como haviam feito outrora aquelas cabeças de mármore.
Timmy Durrant, em seu quartinho no Almirantado, indo
consultar o livro azul*, parou por um momento na janela e
observou o cartaz amarrado ao poste do lampião.
A srta. Thomas, uma das datilógrafas, disse à sua amiga que,
se o Gabinete se reunisse por muito tempo mais, ela se
desencontraria de seu filho em frente do Gaiety.
Voltando a seu lugar com o livro azul debaixo do braço,
Timmy Durrant notou um pequeno grupo de pessoas na
esquina; conglomeradas, como se uma delas soubesse de
alguma coisa; e as outras, comprimindo-se ao redor,
olhavam para cima, olhavam para baixo, olhavam ao longo
da rua. O que era que essa pessoa sabia?
Colocando o livro azul à sua frente, Timothy estudou um
papel enviado pelo Tesouro para informação. O sr. Crawley,
seu colega no escritório, empalou uma carta num espetinho.
Jacob ergueu-se de sua cadeira no Hyde Park, rasgou em
pedaços o seu bilhete, e afastou-se.
"Que pôr-de-sol", escrevia a sra. Flanders, em sua carta para
Archer em Cingapura. "A gente não conseguia decidir-se a
entrar", escrevia. "Parecia um pecado desperdiçar um só
momento que fosse."
As longas janelas de Kensington Palace incendiaram-se num
rosa chamejante quando Jacob se afastou; um bando de patos
selvagens voou sobre a Serpentina; e as árvores erguiam-se
contra o céu, negrejando magnificentes.
"Jacob", escrevia a sra. Flanders, a luz vermelha sobre a
página, "está trabalhando muito depois de sua deliciosa
viagem...".
— O Kaiser recebeu-me em audiência — comentava a voz
distante em Whitehall.
— Mas eu conheço esse rosto — disse o reverendo Andrew
Floyd, saindo da loja Cárter em Piccadilly — mas quem,
diabo?... — examinou Jacob e virou-se para olhá-lo, mas não
podia ter certeza.
"Ora, Jacob Flanders!", lembrou num lampejo.
Estava tão alto, tão seguro, um rapaz tão distinto.
"Eu lhe dei as obras de Byron", refletiu Andrew Floyd, e
avançou quando Jacob atravessou a rua; hesitou, porém;
deixou o momento passar e perdeu a ocasião.
Outra procissão, sem estandartes, bloqueava Long Acre.
Carruagens com aristocráticas senhoras idosas usando
ametistas, e cavalheiros com cravos, interceptavam cabriolés
e automóveis que seguiam em direção oposta, nos quais se
refestelavam ociosos senhores avelhantados de coletes
brancos, a caminho de seus arbustos e salas de bilhar em
Putney e Wimbledon.
Dois realejos tocavam na beira da calçada, e cavalos saindo
de Aldridge com marcas brancas nos traseiros atravessavam
a rua e eram habilmente puxados para trás.
A sra. Durrant, sentada num automóvel com o sr. Wortley,
estava impaciente, receando perder a abertura.
Mas o sr. Wortley, sempre educado, sempre a tempo para a
abertura, abotoava as luvas e admirava a srta. Clara.
— Um absurdo, passar uma noite dessas num teatro! — disse
a srta. Durrant, vendo abrasarem-se todas as janelas dos
fabricantes de carruagens em Long Acre.
— Pense nos seus pântanos! — disse o sr. Wortley a Clara.
— Ah! Mas Clara gosta mais disso aqui — riu a sra. Durrant.
— Não sei... realmente — disse Clara, olhando as janelas em
brasa. E sobressaltou-se.
Avistara Jacob.
— Quem? — disse a sra. Durrant em tom penetrante,
debruçando-se para diante.
Mas não viu ninguém.
Debaixo do arco da Ópera, os rostos grandes e outros finos,
os empoados e os peludos, todos estavam ruborizados pelo
pôr-do-sol; e excitadas pelos grandes lustres pendentes com
suas contidas luzes amarelo-pálido, pelo ruído, pelo escarlate
e pela pompa, algumas damas se voltaram em imaginação,
por um momento, para dentro de enfumaçados quartos de
dormir nauseabundos, próximos ao teatro, onde mulheres de
cabelos desgrenhados, ou meninas, ou crianças se
debruçavam nas janelas — longos espelhos, na passagem,
faziam parar as damas —, e era preciso prosseguir, não
bloquear a passagem...
Eram belos os pântanos de Clara. Os fenícios dormiam
debaixo de suas rochas cinzentas empilhadas; as chaminés
das velhas minas apontavam severas no ar; mariposas
prematuras punham manchas nas urzes; podiam-se ouvir
rodas de carroças chiando na estrada bem abaixo; e o
chapinhar e suspirar das ondas soava doce, persistente,
eterno.
Protegendo os olhos com a mão, a sra. Pascoe detinha-se no
seu jardim de repolhos, olhando o mar. Dois navios e um
barco a vela cruzaram um pelo outro, passaram um pelo
outro, e na baía as gaivotas pousavam sobre um toro de
madeira, erguendo-se alto, voltando ao toro, enquanto
algumas cavalgavam as ondas e paravam na beira da água, até
que a lua embranqueceu tudo.
Há muito tempo a sra. Pascoe entrara em casa.
Mas o clarão vermelho pairava sobre as colunas do
Partenon, e as mulheres gregas, que tricotavam suas meias e
às vezes gritavam por uma criança para que viesse e deixasse
tirar os insetos de sua cabeça, estavam alegres como
andorinhas no calor, discutindo, ralhando, amamentando
seus bebês, até que os navios no Pireu se puseram a disparar
seus canhões.
O som achatou-se, e depois veio escavando o túnel do seu
caminho com explosões espasmódicas entre as ilhas.
E a escuridão tombou como um punhal sobre a Grécia.
— Os canhões? — disse Betty Flanders meio adormecida,
saindo da cama e dirigindo-se à janela decorada com uma
franja de folhas escuras.
"Não a essa distância", pensou. "E o mar."
Mais uma vez, bem longe, escutou o som abafado, como de
mulheres noturnas batendo enormes tapetes. Havia Morty
desaparecido e Seabrook morto; e seus filhos que combatiam
pela pátria. Mas as galinhas estariam bem guardadas? Alguém
descia as escadas? Rebeca com dor de dente? Não. As
mulheres noturnas batiam seus enormes tapetes. As galinhas
agitavam-se de leve nos ninhos.

CAPÍTULO QUATORZE

"Ele deixou tudo exatamente como estava", admirou-se
Bonamy. "Nada arrumado. As cartas espalhadas por aí, para
qualquer um ler. O que estaria esperando? Pensaria em
voltar?", cismou, parado no meio do quarto de Jacob.
O século XVIII tem sua própria distinção. Essas casas foram
construídas, digamos, há 150 anos. Os quartos são amplos,
os tetos altos; sobre as portas, uma rosácea ou cabeça de
cervo esculpida na madeira. Mesmo os lambris, pintados em
cor de framboesa, têm certa distinção.
Bonamy pegou um recibo relativo a um chicote de
montaria.
— Isso parece estar pago — disse.
Havia as cartas de Sandra. E ele se informou:
A sra. Durrant dava uma festa em Greenwich...
Lady Rocksbier esperava ter o prazer...
E lânguido o ar num quarto vazio, mal inflando a cortina; as
flores fenecem no jarro. Uma fibra da cadeira de balanço
range, embora ninguém esteja sentado nela.
Bonamy foi até a janela. O furgão de Pickford disparava rua
abaixo. Os ônibus estavam atravancados na esquina diante da
livraria Mudie. Máquinas pulsavam, carroças puxavam para
trás os seus cavalos, freando violentamente. Uma voz áspera
e infeliz gritava algo ininteligível. Então, de repente, todas as
folhas pareceram erguer-se.
— Jacob! Jacob! — gritou Bonamy, parado junto da janela. As
folhas baixaram de novo.
— Mas que confusão por toda parte! — exclamou Betty
Flanders, abrindo num ímpeto a porta do quarto de dormir.
Bonamy afastou-se da janela.
— O que faço com eles, sr. Bonamy?
Ela segurava um par de velhos sapatos que haviam
pertencido a Jacob.

Registro de um censo dos proprietários rurais ingleses feito em 1085. (N. da T.)
O termo inglês pot também pode significar urinol. O nome da taverna traduz-se por "O Caneco
Espumante". (N. da T.)
Alusão à festa popular inglesa do Dia de Guy Fawkes, quando se recorda a tentativa de Fawkes
(séc. XVI) de assassinar o rei num motim. (N. da T.)
Em inglês: "Hey diddle diddle, the cat and the fiddle", verso dos Mother Goose's Tales,
tradicional coleção de rimas infantis inglesas. (N. da T.)
Tradição inglesa em festas de casamento. (N. da T.)
Publicação oficial do governo britânico, encadernada em azul. (N. da T.)



 
 
 
 
 
 
 
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O Quarto de Jacob - Virginia Woolf
 
 
 
 
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digitalização - Vitório
formatação e revisão - Lucia Garcia
 
 
 
 
 
Sinopse:
 
Parece, portanto, que homens e mulheres falham  igualmente. Parece que não conhecemos em absoluto uma opinião profunda, imparcial e absolutamente justa sobre nossos próximos. Ou somos homens, ou somos mulheres. Ou somos frios, ou somos sentimentais. Ou somos jovens, ou estamos envelhecendo.
Em qualquer caso, a vida não é senão uma procissão de sombras, e sabe Deus por que as abraçamos tão avidamente e as vemos partir com tal angústia, já que não passam de sombras.
 
 
 
 
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