sábado, 25 de junho de 2011 By: Fred

<> livros-loureiro <> Partículas de Deus Scott Adams

Scott Adams
Partículas de Deus
Uma experiência para repensar a vida

SCOTT ADAMS
PARTÍCULAS
DE DEUS
TRADUÇÃO:
Alice Xavier

SUMÁRIO
Introdução........................................................................................9O Pacote.........................................................................................13O velho...........................................................................................17Seu Livre-arbítrio...........................................................................27O Livre-arbítrio de Deus................................................................33Ciência............................................................................................35Onde se localiza o livre-arbítrio?...................................................41Crença Genuína..............................................................................47Mapas da estrada.............................................................................51O Gerador de Ilusões......................................................................55Reencarnação, óvnis e Deus...........................................................61A motivação de Deus......................................................................65Partículas de Deus...........................................................................71A Consciência de Deus...................................................................77A física da poeira divina.................................................................85O livre-arbítrio de um centavo........................................................95Evolução.........................................................................................99A doença dos céticos....................................................................107Paranormalidade e sorte................................................................109Paranormalidade e reconhecimento de padrões...........................115Luz................................................................................................121Abelhas curiosas...........................................................................129Força de vontade...........................................................................131Terras santas.................................................................................137Lutando contra Deus.....................................................................141Relacionamentos...........................................................................147Afirmações....................................................................................159Quinto nível..................................................................................167Voltar ao lar..................................................................................175Depois da guerra...........................................................................179
INTRODUÇÃO
Este não é um livro do Dilbert. Ele não contém humor. Eu o
chamo de uma experiência em reflexão, embrulhada numa história
de ficção, com 184 páginas. Mais adiante, explicarei a parte da
experiência em reflexão.
Partículas de Deus não se enquadra nos rótulos habituais das
publicações. E existe até uma divergência quanto ao material ser,
ou não, ficcional. Eu argumento que se trata de uma ficção, pois os
personagens não existem. Há quem argumente que não é ficção
porque as opiniões e filosofias dos personagens podem ter um
impacto duradouro sobre o leitor.
A história não contém violência, nem elementos de sexo, nem
linguagem ofensiva. Mas as idéias expressas pelos personagens são
inadequadas para mentes jovens. Não deve ser lido por menores de
14 anos.
O público-alvo de Partículas de Deus é todo mundo que
gosta de ver o cérebro dando voltas e voltas dentro do crânio.
Depois de certa idade, a maioria das pessoas se sente
desconfortável perante novas idéias. Tal idade varia de uma pessoa
para outra, mas, se você tem mais de 50 anos (mentais),
provavelmente não irá gostar dessa experiência de reflexão. Se tem
23, sua probabilidade de gostar é muito alta.
O personagem central da história tem uma visão de Deus da
qual você provavelmente nunca ouviu falar. Se você acha que pode
se ofender com a visão pouco tradicional de Deus adotada por um
personagem de ficção, por favor não leia o livro.
As opiniões e filosofias expressas pelos personagens não são
as minhas próprias, exceto por coincidência, em alguns pontos
sequer dignos de menção. Por favor, não me escreva com
explicações apaixonadas das razões pelas quais minhas convicções
estão equivocadas. Não será pela leitura de minha ficção que você

conhecerá minhas opiniões.
O personagem principal de Partículas de Deus sabe tudo.
Literalmente tudo. Isso representa um desafio para mim como
escritor. Se pensarmos em todas as coisas que se pode conhecer, eu
não conheço muitas. Minha solução foi criar respostas que soavam
inteligentes, usando o credo dos céticos:
A explicação mais simples em geral está correta.
Minha experiência me diz que neste complicado mundo a
explicação mais simples em geral está completamente errada. Mas
percebi que a explicação mais simples normalmente parece correta,
além de ser muito mais convincente do que qualquer explicação
complicada poderia ter a pretensão de ser. Isso é o suficiente para
meus objetivos aqui.
A abordagem da explicação mais simples mostrou-se mais
provocativa do que eu esperava. As explicações mais simples para
as grandes questões acabaram por ligar caminhos que não estão
normalmente conectados. A descrição da realidade feita em
partículas de Deus não é, ao que me consta, verdadeira, porém é
estranhamente irresistível. E nisso consiste experiência em
reflexão:
Tente descobrir o que está errado
nas explicações mais simples.
O personagem principal enuncia uma quantidade de "fatos"
científicos. Algumas das afirmativas mais estranhas são
consistentes com aquilo que os cientistas geralmente acreditam.
Uma parte do que ele diz são bobagens engenhosas, preparadas
para dar a impressão de verdadeiras. Veja se você é capaz de
encontrar a diferença.
É possível que você ame essa experiência em reflexão
embrulhada numa história. Ou talvez você a odeie. Mas não
conseguirá facilmente tirá-la da cabeça. Para obter o máximo de
prazer, compartilhe Partículas de Deus com amigos inteligentes e
depois discutam a história enquanto saboreiam uma gostosa
bebida.

O PACOTE
A chuva fazia tudo ter um som diferente – o motor de minha
caminhonete de entrega, o tráfego que passava por mim numa
lâmina de nuvens caídas, uma ou outra buzinada surda. Meu
emprego não era excelente, mas também não era ruim. Eu conhecia
tão bem a cidade que podia ficar perdido em pensamentos e,
mesmo assim, dar conta do serviço, e ainda receber meu
pagamento, e ainda ter muito tempo para mim. Quando se está
dentro da própria cabeça, o intervalo da viagem de um edifício aoutro se evapora. É como se fosse capaz de sumir numa parada e
ressurgir na parada seguinte.
Minha história começa num dia em que fiz uma entrega num
lugar onde eu nunca havia estado. Normalmente, isso é um desafio
interessante. Dá uma certa satisfação encontrar um novo lugar sem
usar o mapa. Novatos é que usam mapas.
Se você fica trabalhando na cidade por bastante tempo, ela
começa a se entender com você no nível pessoal. As ruas revelam seus sentimentos. Às vezes, eles brigam com você. Quando anda
procurando um novo edifício, você espera que a cidade lhe dê
apoio. Você precisa usar algum raciocínio – pode chamar isso
processo de eliminação – e um pouco de instinto, mas não use
muito de cada um. Se pensar demais, ultrapassa o alvo e termina no
píer ou no Tenderloin. Se relaxar e deixar que a cidade ajude, a
destinação faz tudo por você. Estava num dia daqueles.
É incrível como se pode fazer o mesmo trajeto tantas vezes
sem notar determinado sinal. Então, no momento em que estamos
procurando por ele, ei-lo que surge. Avenida Universo. Poderia
jurar que um dia antes ela não estava ali, mas sei que não é bem
assim que as coisas funcionam.
O pacote era malfeito, quase não atendia aos padrões da

empresa. Calculei a distância da caminhonete ao saguão e decidi
que a embalagem conseguiria agüentar a umidade. Pelo bem do
pacote e de mim mesmo, rendi-me à chuva.
A entrega exigia uma assinatura. Essas eram as melhores. Eu
poderia falar com as pessoas sem que houvesse algum hiato
incômodo na conversa. Eu gostava de gente, mas, a menosa que
houvesse uma razão, não me sentia à vontade para conversar. A
entrega de uma encomenda era uma boa desculpa para alguma
interação superficial. As pessoas ficavam felizes por me verem e
não me custava encontrar as palavras. Eu dizia: "assine aqui nesta
linha", e eles diziam "Muito obrigado". Trocávamos algumas
gentilezas sem significado e eu ia embora. Era assim que a coisa
devia funcionar.
Subi os quatro degraus até a porta de madeira cheia de
ornatos e apertei a campainha. Um dingue-dongue abafado encheu
o interior e vazou pelas frestas da esquádria.
Os entregadores não gostam de deixar bilhetinho amarelo,
confissão do fracasso da entrega. Significa voltar, e eu gostava de
fazer meu serviço de uma vez só. Gostava que minhas tarefas
tivessem começo e fim. Como regra geral, praticamente qualquer
cliente é capaz de chegar à porta da frente em cerca de um minuto.
Mas, em geral, eu esperava dois, para o caso de alguém estar
indisposto ou ter problemas de locomoção. Dois minutos são uma
eternidade, quando você está parado na soleira, numa tarde
chuvosa em São Francisco.

Só novatos usam a jaqueta.
Passaram-se dois minutos. As normas da empresa diziam que
eu não podia tentar girar a maçaneta. Elas eram enfáticas a esse
respeito.
Ora bolas, as normas.

O VELHO
A enorme maçaneta não ofereceu resistência quando girou sobre o
tambor bem lubrificado. Já não me surpreendia encontrar portas
destrancadas na cidade. Talvez num nível subconsciente, não
acreditamos na necessidade de proteção contra nossa própria
espécie.
Calculei que iria deixar o pacote do lado de dentro da porta e
assinar o nome do cliente. Eu já havia assinado antes por clientes e
até agora ninguém reclamara. Era um delito que dava justa causa,
mas só se você fosse apanhado.
Do lado de dentro, vi um corredor longo e escuro, de paredes
texturizadas em tons de vermelho, cobertas por grandes telas
iluminadas. No final, havia uma porta semi-aberta que dava para
um quarto de onde saia uma luz bruxuleante. Tinha alguém em
casa e devia ter ouvido a campainha. Não gostei do jeitão da coisa.
De vez em quando você tropeça em algum idoso que morre
sozinho e passa despercebido por semanas. Minha mente dirigiu-se
para lá. Entrei e fechei a porta, desfrutando o calor enquanto
decidia o que fazer em seguida.
— alô! — Falei em minha voz profissional, na esperança de
que não soasse ameaçadora. Andei pelo corredor afora, arrastando
os pés, notando que as pinturas pareciam originais. Alguém tinha
dinheiro. E muito.
A fonte da luz vacilante era uma grande lareira de pedra.
Entrei no cômodo, sem saber ao certo por que eu estava sendo
cauteloso. De certa forma, o aposento era simples e importante ao
mesmo tempo. Estava meio à luz das chamas, meio às escuras, e
caprichosamente decorado com mobiliário antigo de madeira, paredes de padronagens elaboradas e piso de tábua corrida. Minhas
pupilas se dilataram para se desembaraçarem das sombras.
A voz de um velho se ergueu, saída da textura.
- Eu estava esperando por você.
Levei um susto, sentindo-se culpado por invadir o recinto.
Precisei de um minuto para localizar a origem da voz. Era como se
ela viesse do próprio cômodo. Alguma coisa se mexeu e percebi,
no extremo oposto da lareira, numa cadeira de balanço, uma forma
pequenina envolta numa manta de xadrez vermelho, parecendo um
charuto enrolado às pressas. Suas mãos miúdas, cobertas de rugas,
agarravam a coberta como se fossem broches. Metidos num par de
chinelos de pano, pediam do embrulho dois pés minúsculos.
-— Sua porta estava destrancada – declarei, como se aquilo
fosse razão suficiente para minha intrusão. — Eu trouxe uma
encomenda.
Só se ouvia o fogo. Eu aguardava uma resposta. É assim que
a coisa deve funcionar: alguém diz uma coisa, a outra pessoa deve
dizer alguma coisa em resposta. O velho não estava colaborando.
Ele ficou olhando para mim e se balançando, talvez me
avaliando ou, quem sabe estivesse perdido em lembranças. Eu já
tinha dito o que precisava dizer, daí fiquei parado em silêncio por
um tempo que parecia longo demais. Acho que vi um esboço de
sorriso, ou talvez fosse um tremor no músculo. Ele falou com jeito
deliberado de um homem que não usava a voz há dias, e fez uma
estranha pergunta:
- Se você jogar uma moeda para cima mil vezes, quantas
vezes vai dar cara?
Os velhos são esquisitos, quando degeneram em reflexos de
seus eus mais jovens. Dizem coisas que têm lógica em algum nível
gramatical, mas nem sempre estão ligadas à realidade. Lembro-me
de meu avô em seus anos de declínio, e de como ele dizia coisas
desconexas. Era melhor fazer o jogo.
— Cinqüenta por cento das vezes – respondi, antes de mudar
de assunto. — Vou precisar de uma assinatura para este pacote.

— Por quê?
— Bom – respondi, medindo a informação que incluiria na
resposta –, quem mandou o pacote quer uma assinatura. Ele precisa
da confirmação de que foi entregue.
— Eu quis dizer, por que vai dar cara cinqüenta por cento das
vezes?
— Acho que é porque a moeda pesa a mesma coisa nos dois
lados, e assim ela tem cinqüenta por cento de chance de cair para
um lado ou para o outro.
Tentei não parecer condescendente. Não tenho certeza se
consegui.
— Você não respondeu por quê. Simplesmente listou alguns
fatos.
Percebi o que estava acontecendo. O velho faz essa pergunta
capciosa a todo mundo que chega perto. Devia haver alguma frase
ou resposta malandra, por isso eu fiz o jogo.
— Qual a resposta?— Perguntei, com todo o interesse
artificial que consegui reunir.
— A resposta – disse ele – é que a pergunta não tem um
porquê.
- Você pode dizer isso a respeito de quase tudo.
- Não – ele replicou, de um jeito que, de súbito, parecia
coerente. — Quase a metade das perguntas tem uma resposta para
por quê. Só a probabilidade é inexplicável.
Esperei um momento pela frase de efeito, mas ela não veio.
- É só isso? — Perguntei.
- É mais do que aparenta.
- Eu ainda preciso de uma assinatura.
Aproximei-me do velho e estendi a prancheta, mas os olhos
eram surpreendentemente claros. Um punhado de cabelos brancos
se encarapitava por cima de cada orelha, e a postura do homem era
um permanente diálogo com gravidade. Ele não era velho: era
antigo.
Fez um gesto de cabeça em direção à prancheta.

- Você pode assinar.
No ramo de entregas, fazemos muitas exceções para idosos,
por isso não me importei de assinar por ele. Imaginei que suas
mãos ou seus olhos já não funcionassem tão bem quanto desejaria,
e eu podia poupar-lhe a frustração de pelejar com a caneta.
Li o nome antes de forjar a assinatura.
Avatar. A-v-a-t-a-r.
- É para você – declarou.
- O que é para mim?
- O pacote.
- Eu só entrego os pacotes – esclareci. — meu trabalho é
traze-los para você. É seu pacote.
- Não, é seu.
— Ham, ham, está certo – respondi, planejando minha
estratégia de saída. Imaginei que poderia deixar o pacote no
corredor ao sair. A pessoa que cuidava do velho iria achá-lo.
— O que há no pacote? – perguntei, na esperança de superar
o incômodo momento.
— É a resposta a sua pergunta.
— Eu não estava esperando nenhuma resposta.
— Eu entendo – disse o velho.
Eu não sabia o que responder àquilo e, assim sendo, não
respondi. Ele continuou:
— Deixe-me fazer uma pergunta simples: você entregou o
pacote ou o pacote entregou você?
A essa altura eu já estava um pouco irritado com a esperteza
dele, mas também admitidamente envolvido. Eu ignorava a
situação do velho, porém ele não era tão miolo mole quanto julguei
a princípio. Dei uma olhada no relógio. Quase hora do almoço.
Resolvi ver onde aquilo iria dar.
— Eu entreguei o pacote – respondi. Aquilo parecia bastante
óbvio.
— Se o pacote não tivesse endereço, você teria entregue
aqui?

Respondi que não.
— Então você vai concordar que a entrega do pacote exigiu aparticipação dele. O pacote lhe disse aonde ir.
— Imagino que seja verdade, de certo modo. Mas é a parte menos importante da entrega. Eu dirigi, e levantei, e carreguei.
Essa é a parte importante.
— Como é que pode ser mais importante uma parte, se cadaparte é inteiramente necessária? – perguntou.
— Veja – eu disse – , estou segurando o pacote e estoucaminhando com ele. Isto é fazer a entrega. Eu estou entregando opacote. É isso o que eu faço. Entrego pacotes de encomenda.
— Este é um modo ver a questão. Um outro modo é que tantovocê quanto o pacote chegaram aqui ao mesmo tempo. E que
ambos eram necessários. Eu digo que o pacote entregou você.
Havia uma lógica destorcida naquela interpretação, mas eu
não estava querendo me render.
— A diferença é a interação. Se eu deixar este pacote aqui efor embora, acho que isso resolve a questão de quem entregou
quem. Talvez resolva – disse ele, virando-se para o fogo. —
Você se importa de jogar mais uma tora de lenha na lareira?
Escolhi uma das grandes. As brasas tímidas celebraram sua
chegada. Tive a leve impressão de que o pedaço de lenha estava
contente em ajudar, de fazer sua parte em manter aquecido o velho.
Era um pensamento idiota. Esfreguei as mãos e virei-me para ir
embora.
— A cadeira é sua – disse ele, fazendo um gesto na direçãode uma cadeira de balanço de madeira, ao lado da dele. Eu não
tinha notado a segunda cadeira.
O rosto do velho revelava uma vida de empreendimentos
úteis. Tive a sensação de que ele merecia companhia e me alegrei
em oferecer-lhe alguma. Minha alternativa envolvia a sacola do
almoço e a traseira da caminhonete. Talvez não houvesse o que
escolher.

Refestelei-me na cadeira de balanço, deixando que seu ritmo
me embalasse. Era profundamente relaxante. A sala parecia agora
mais vívida e vibrava com a personalidade do dono. Os móveis
eram obviamente projetados para dar conforto. Tudo no ambiente
era feito de pedra, ou de madeira, ou de alguma planta, a maioria
em cores outonais. Era como se o aposento tivesse brotado
diretamente do chão em plena São Francisco.

SEU LIVRE-ARBÍTRIO
— Você acredita em Deus? – perguntou o velho, como se
fôssemos conhecidos de uma vida inteira, mas tivéssemos, de
algum modo, esquecido de discutir aquele tópico específico.
Presumi que ele queria ter certeza de que sua partida desta vida
seria o começo de algo melhor. Dei-lhe uma resposta amável.
— Tem de haver um Deus – garanti. — Do contrário,
nenhum de nós estaria aqui.
Não era uma razão suficiente, porém imaginei que ele não
precisasse de mais do que isso.
— Você acredita que Deus é onipotente e que as pessoas têm
livre-arbítrio? – perguntou.
— Isso para Deus é o trivial. Portanto, sim, acredito.
— Se Deus é onipotente, ele não saberia o futuro?
— Claro que sim.
— Se Deus sabe o que o futuro reserva, então todas as nossas
escolhas já estão feitas, não é? O livre-arbítrio deve ser uma ilusão.
Ele era sagaz, mais eu não ia cair em sua armadilha.
— Deus nos deixa determinar o futuro sozinhos, usando
nosso livre-arbítrio – expliquei.
— Então você acredita que Deus não conhece o futuro?
— Acho que conhece – admiti. — Mas ele deve preferir não
conhecer.
— Então você concorda que seria impossível para Deus conhecer o futuro e garantir o livre-arbítrio aos seres humanos?
— Nunca pensei nisso antes, mais imagino que você tenha razão. Ele deve querer que nós encontremos nosso próprio
caminho, daí ele intencionalmente tenta não ver o futuro.
— Em proveito de quem Deus se abstém do poder dedeterminar o futuro?

— Bem, deve ser em seu próprio proveito, e também do nosso – argumentei. — Ele não precisaria se conformar com
menos.
O velho pressionou:
— Será que Deus não podia dar aos seres humanos a ilusão
do livre-arbítrio? Ficaríamos tão felizes como se de fato tivéssemos
o livre-arbítrio, e Deus conservaria sua capacidade de ver o futuro.
Não será uma solução melhor para Deus do que a sugerida por
você?
— Por que Deus ia querer nos enganar?
— Se Deus existe, seus motivos certamente são
impenetráveis. Ninguém sabe por que ele assegura o livre-arbítrio,
nem por que ele se importa com as almas humanas, nem porque a
dor e o sofrimento são partes necessárias da vida.
— O que sei sobre os motivos de Deus é que ele deve nos amar, correto?
Em vista dos problemas do mundo, eu mesmo não estava
convencido disso, mas tinha curiosidade de saber o que ele
responderia.
— Amar? Quer dizer amor do jeito que você entende como ser humano?
— Bem, não exatamente, mas basicamente a mesma coisa.
Quer dizer, amor é amor.
— Um neurocirurgião me diria que uma parte específica do cérebro controla a capacidade de amar. Se for lesada, as pessoas
ficam incapacitadas de amar, incapacitadas de se preocupara com
os demais.
— E daí?
— E daí, não seria arrogância pensar que o amor gerado por nossos pequenos cérebros é o mesmo que o vivenciado por um ser
onipotente? Se você fosse onipotente, por que iria se limitar a uma
coisa capaz de ser reproduzida por um ínfimo punhado de
neurônios?
Mudei minha opinião para melhor defendê-la.

— Nós devemos sentir uma coisa semelhante ao jeito de
sentir de Deus, mas não do mesmo jeito como Deus o sente.
— O que significa sentir uma coisa semelhante do jeito de sentir de Deus? É como dizer que um seixo é semelhante ao sol
porque os dois são redondos? – reagiu.
— Talvez Deus tenha desenhado nosso cérebro para sentir amor do mesmo jeito como ele sente. Se Ele quisesse, poderia fazer
isso.
— Então você acredita que Deus quer coisas. E ele ama
coisas, de um jeito semelhantes aos dos seres humanos. Você
também acredita que Deus vivencia a raiva e o perdão?
— Isso faz parte do pacote – confirmei, comprometendo-me um pouco mais com o meu lado da discussão.
— Portanto, segundo o que você diz, Deus tem umapersonalidade e ela é semelhante ao que vivenciam os humanos?
— Acho que sim.
— Que espécie de arrogância supõe que Deus não tem uma personalidade exatamente como a das pessoas. Talvez nós apenas
suponhamos que Deus tem uma personalidade porque fica mais
fácil falar sobre ele dessa forma. Mas o importante é que alguma
coisa tinha de criar a realidade. Ela é bem projetada demais para ter
sido acidental.
— Você esta dizendo que acredita em Deus por falta de
outras explicações? – perguntei.
— Esta é uma grande parte do motivo.
— Se um mágico de circo fizer um tigre desaparecer e vocênão souber de que modo se pode fazer esse truque sem recorrer à
mágica verdadeira, isso o transforma em, mágica verdadeira?
— Aí é diferente. O mágico sabe como isto é feito e os outros mágicos também sabem. Até o assistente do mágico sabe. Desde
que alguém saiba como é feito, posso ter certeza de que não é
mágica verdadeira. Não preciso saber pessoalmente como é feito –
declarei.
— Se alguém muito sábio soubesse como o mundo foi
projetado sem a mão de Deus, aquela pessoa poderia convencer
você de que Deus não esteve envolvido?
— Em teoria, sim. Mas não existe ninguém com tanto conhecimento.
— Para ser justo, a única certeza que você pode ter é de não saber se aquela pessoa existe ou não.

O LIVRE-ARBÍTRIO DE DEUS
— Deus tem livre-arbítrio? – perguntou o velho.
— Obviamente sim – respondi. Até então, naquele diálogo,
foi o momento em que me senti mais confiante.
— Admito que existe alguma ambigüidade quanto aos seres
humanos terem ou não livre-arbítrio, mas Deus é onipotente. Ser
onipotente significa que você pode fazer qualquer coisa que queira.
Se Deus não tivesse livre-arbítrio, ele não seria tão onipotente.
— Com certeza. E sendo onipotente, Deus deve ser capaz de
dar uma olhadinha em seu próprio futuro, de vê-lo em todos os
seus detalhes perfeitos.
— É, já sei. Você vai dizer que se ele vê seu próprio futuro,
então as escolhas dele são predeterminadas. Ou, se ele não
consegue ver o futuro, então não é onipotente.
— A onipotência é mais ardilosa do que parece – disse ele.

CIÊNCIA
— Estou vendo para que lado você está levando isso – afirmei.
— você é ateu. Acha que a ciência tem as respostas e acha que aspessoas religiosas são todas delirantes.
— Vamos falar um momentinho de ciência – replicou.
Fiquei aliviado. Eu gostava de ciência. Foi minha matéria
predileta na escola. Religião me deixava pouco à vontade. O
melhor é não ficar pensando muito em religião, mas a ciência foi
feita para se raciocinar. Baseia-se em fatos.
— Você tem muito conhecimento de ciência? – perguntei.
— Quase nada – declarou.
Imaginei que essa conversa seria rápida, e melhor que fosse,
pois minha hora de almoço estava terminando.
Vamos analisar os ímãs – propôs o velho. — Se você colocar
dois ímãs próximos um do outro, eles se atrairão. No entanto, não
existe nada material para liga-los.
— Existe, sim – retifiquei. — Existe um campo magnético.
Você pode vê-lo quando faz aquele teste da limalha de ferro sobre
a folha de papel e a limalha toda se organiza segundo linhas
magnéticas. Aquilo é o campo magnético.
— Então você tem uma palavra para ele. É um "campo", diz
você. Mas não se pode comprar um punhado dessa coisa para a
qual você tem um nome. Nem se pode encher uma vasilha com o
campo magnético e leva-lo embora. Você não pode corta-lo em
pedaços. Nem pode bloquear o poder que ele tem.
— Você não pode bloqueá-lo? Disso eu não sabia.
— não importa que objeto você coloque entre os ímãs, aatração de um pelo outro continua exatamente a mesma. Esse seu
"campo" é uma coisa esquisita. Nós conseguimos ver seus efeitos,
e podemos inventar um nome para ele, mas ele não existe sob

nenhuma forma física. Como é que uma coisa que não existe em
forma física tem influência sobre as coisas que existem?
— Talvez ele tenha forma física, mas é pequena e nãopodemos vê-la. É possível. Talvez existam minúsculos
"magnétrons" ou algo assim – comentei, inventando uma palavra.
— Pense na forma da gravidade – continuou o velho,
ignorando minha resposta criativa. — A gravidade também é uma
força invisível que não pode ser bloqueada por nenhum objeto. Ela
atravessa o universo inteiro e liga instantaneamente todas as coisas,
e no entanto não tem forma física.
— Acho que Einstein Disse que ela era curvatura do espaço –
tempo por objetos maciços – comentei, trazendo de volta à
memória um artigo de revista que tinha lido havia anos.
— Realmente, Einstein disse isso. E o que significa?
— Significa que o espaço é curvo; logo, quando parece queos objetos são atraídos uns pelos outros, eles só estão viajando na
direção mais curta, através do espaço curvo.
— Você consegue imaginar um espaço curvo? – perguntou.
— Não, mas só por que eu não sou capaz de imaginar nãoquer dizer que não seja verdade. Não se pode discutir com
Einstein.
Ele olhou para o lado. Imaginei que se irritara com a minha
resposta, ou que estava só descansando. O que ele estava fazendo
era uma pausa para acumular energia. Puxou o ar para o fundo de
seus pulmõezinhos e começou:
— Muitas vezes os cientistas inventam palavras para tapar os
furos de sua compreensão. Essas palavras são usadas porconveniência, até a verdadeira compreensão poder surgir. Às vezes
a compreensão surge e as palavras temporárias podem ser
substituídas por outras que tenham mais significado. Na maior
parte das vezes, entretanto, a palavra-remendo ganha vida própria e
ninguém se lembra mais que ela foi criada para marcar o lugar.
Por exemplo, alguns físicos descreveram a gravidade em
termos de dez dimensões, sendo todas elas curvas. Mas essas não

são palavras reais – são apenas marcadores de lugar, usados para
referir-se a partes de equações abstratas. Mesmo que as equações
algum dia se revelassem proveitosas, não informariam nada sobre a
existência de outras dimensões. Palavras como dimensão e campo
não passam de conveniências para os matemáticos. Elas não são
descrições da realidade, e no entanto nós as aceitamos como se
fossem, pois cada qual está seguro de que alguma outra pessoa
sabe o que significam as palavras.
Eu escutava. Balançando-me, levemente atordoado.
— Já ouviu falar da teoria das cordas? – perguntou.
— A teoria das cordas sustenta que toda a realidade física,
desde a gravidade, até o magnetismo e a luz, pode ser explicada em
uma só grande teoria que envolve objetos vibratórios minúsculos,
em forma de corda. A teoria das cordas não produziu nenhum
resultado útil. Nunca foi provada experimentalmente, e, no entanto,
milhares de físicos estão dedicando suas carreiras a ela, confiando
que seja sólida.
— Talvez ela esteja certa – pelo jeito, era minha vez de dizer
alguma coisa.
— Cada geração de seres humanos acreditou que tinha todas
as respostas necessárias, com exceção de alguns mistérios que
esperavam ver solucionados a qualquer momento. E todos eles
achavam os antepassados simplistas e delirantes. Que
probabilidade há de vocês serem a primeira geração de seres
humanos que vai entender a realidade?
— não acho que haja poucas. Tudo precisa acontecer uma
primeira vez. Você viveu o bastante para ver a invenção dos
computadores e as viagens espaciais. Talvez, para essa teoria das
cordas, nós sejamos os primeiros.
— Computadores e naves espaciais, são exemplos de
invenção, não de compreensão – assinalou. Tudo de que se precisa
para construir máquinas é o conhecimento de que, quando umacoisa acontece, outra coisa acontece como resultado. É um
acumulo de padrões simples. Um cachorro pode aprender padrões.

Não há porquê nesses exemplos. Não entendemos por que a
eletricidade viaja. Não sabemos por que a luz viaja em velocidade
constante para sempre. Tudo o que podemos fazer é observar e
registrar os padrões.

ONDE SE LOCALIZA O
LIVRE-ARBÍTRIO
— Onde está o seu livre-arbítrio? – perguntou o velho. — Ele é
parte de seu cérebro ou emana de algum lugar fora de seu corpo e,
de certa forma, controla suas ações?
— Há alguns minutos eu teria dito que sábia a resposta dessa
pergunta. Mas agora você está me fazendo duvidar de minhas
suposições.
— Duvidar é bom – tranqüilizou-me. — Mas me diga de
onde você acha que vem o seu livre-arbítrio.
— Vou dizer que vem do meu cérebro. Quer dizer, é uma
função do meu cérebro. Não tenho nenhuma resposta melhor.
— Seu cérebro é de certa forma uma máquina, não é? –
perguntou.
Aquilo soava como uma pergunta capciosa, portanto dei a
mim algum tempo para pensar.
— O cérebro não é exatamente como uma máquina.
— O cérebro se compõe de células, de neurônios, de
compostos químicos e de trilhas e atividade elétrica, e todos estes
se conformam com as leis físicas. Quando uma parte de seu cérebro
é estimulada de uma forma específica, ela pode responder do jeito
que quiser, ou irá responder sempre de uma forma específica?
— Não há como testar isso. Ninguém sabe.
— Então você acredita que nós só podemos conhecer as
coisas que foram testadas? – indagou.
— Não estou dizendo isso.
— Então você não está dizendo nada, está?
Senti como se assim fosse.
— Então, onde está o livre-arbítrio? – insistiu.

— Deve estar relacionado com a alma.
Eu não tinha nenhuma resposta melhor que esta.
— Alma? Onde é que a alma está localizada?
— Em lugar nenhum. Ela simplesmente é.
— Então a alma não é física por natureza, segundo o que você diz – concluiu.
Acho que não. Do contrario, alguém provavelmente teria
encontrado evidência física da lama – disse eu.
— Então você acredita que a alma, que não é física pode
influenciar o cérebro, que é físico?
— Nunca pensei nisso nesses termos, mas acho que acreditonisso.
— Você acredita que a alma possa influenciar outras coisasfísicas, como um carro ou um relógio?
— Não, acho que a alma só afeta o cérebro.
Eu estava me arrastando penosamente, com pesos de chumbo
amarrados no cinto.
— Sua alma pode influenciar o cérebro de outras pessoas, ouela sabe qual é o seu cérebro?
— minha alma deve saber qual é o meu cérebro, senão eu
seria influenciado por outras almas e não teria tido livre-arbítrio.
Ele fez uma pausa.
— Sua alma, segundo você, sabe a diferença entre o seucérebro e tudo o mais que não é o seu cérebro. E ela jamais comete
um engano a esse respeito. Isso quer dizer que sua alma tem uma
estrutura e tem normas, como uma máquina.
— Deve ter – concordei.
— Se a alma é a fonte do livre-arbítrio, então ela deve estarpesando alternativas e tomando decisões.
— É o trabalho dela.
— Mas isso é como o cérebro faz. Por que você ia precisar de uma alma pra fazer o que o cérebro pode fazer? – contestou.
— Talvez a alma tenha livre-arbítrio e o cérebro não tenha –
aleguei. — Ou a alma faz seu cérebro ter livre-arbítrio. A alma é

mais astuta ou mais virtuosa do que o cérebro. Sei lá.
Eu estava tentando tapar a maior quantidade possível de
furos.
— Se as ações da alma não são controladas por normas, isso só pode significar que a alma age de forma aleatória. Por outro
lado, se sua alma é guiada por normas, que por sua vez guiam
você, então você não tem livre-arbítrio. Você é programado ou é
predeterminado. Qual dos dois ela é?
Eu não estava preparado para acreditar que não tinha controle
sobre minha própria vida.
— Talvez Deus esteja guiando minha alma – concluí.
— Se Deus está guiando sua alma e sua alma está guiandoseu cérebro, então você não passa de um fantoche de Deus. Nesse
caso, você realmente não tem livre-arbítrio, tem?
Fiz uma nova tentativa:
— Talvez Deus esteja guiando minha alma de um jeito meio direcional, mas quem decide exatamente que passos deve dar sou
eu.
— Dito assim, é como se Deus estivesse dando a você algumtipo de teste de inteligência. Se você faz as escolhas certas, coisas boas acontecem com sua alma. É isso o que você está dizendo?
— Não se trata de inteligência, trata-se de moral – declarei.
— Moral?
— Isso mesmo, moral.
Senti que o argumento era bom, mesmo eu não sabendo qual
era.
— Seu cérebro está envolvido na tomada de decisões moraisou essas decisões são tomadas em algum lugar fora de seu corpo? –
perguntou.
Dei um gemido.

CRENÇA GENUÍNA
Eu precisava de reforços.
— Veja bem – comecei –, quatro bilhões de pessoas
acreditam em alguma espécie de Deus e de livre-arbítrio. Elas não
podem estar todas erradas.
— Muito poucas pessoas acreditam em Deus – replicou.
Eu não via de que jeito ele podia negar o óbvio.
— E claro que elas acreditam. Bilhões de pessoas acreditamem Deus.
O velho inclinou-se para mim, apoiando no braço de minha
cadeira o cotovelo enrolado no cobertor.
— Quatro bilhões de pessoas dizem que acreditam em Deus,
mas poucas acreditam genuinamente. Se as pessoas acreditassem
em Deus, viveriam cada minuto de suas vidas em apoio àquela
crença. Os ricos dariam sua fortuna aos necessitados. Todos
estariam tentando freneticamente determinar que religião era a
verdadeira. Ninguém se sentiria confortável com o pensamento de
que pudesse ter escolhido a religião errada e caído por acaso na
danação eterna, ou numa má reencarnação, ou qualquer outra
conseqüência impensável. As pessoas dedicariam suas vidas a
converter os outros a suas religiões. Uma crença em Deus exigiria
0cem por cento de devoção obsessiva, influenciando cada minuto de
vigília dessa breve existência sobre a terra. Mas os seus quatro
bilhões de pretensos crentes não vivem suas vidas dessa forma,
com exceção de alguns. A maioria acredita na utilidade de suas
crenças – uma utilidade terrena e prática –, mas não acredita na
realidade subjacente.
Eu não podia acreditar no que estava ouvindo.
— Se você perguntar a eles, afirmarão que acreditam.
— Eles dizem que acreditam porque para receber o benefício

da religião é necessário fingir que acreditam. Eles dizem aos outros
que acreditam e fazem coisas típicas de quem acredita, como rezar
e ler livros sagrados. Mas não fazem as coisas que o verdadeiro
crente faria, as coisas que o verdadeiro crente teria de fazer.
Se você acreditasse que um caminhão estava vindo em sua
direção, iria sair da frente. Isso é crença na realidade do caminhão.
Se você diz aos outros que tem medo do caminhão, mais não sai da
frente, isso é não acreditar no caminhão. Da mesma forma, não é
uma crença acreditar que Deus existe e depois continuar pecando e
acumulando sua fortuna, enquanto tem gente inocente morrendo de
fome. Quando uma crença não controla suas decisões mais
importantes, não é uma crença na realidade subjacente, é uma
crença na utilidade de acreditar.
— Você está dizendo que Deus não existe? – perguntei,
tentando ser objetivo.
— Estou dizendo que as pessoas afirmam acreditar em Deus,
mas a maioria literalmente não acredita. Elas só agem como se
acreditassem porque há benefícios terrenos em fazer isso. Elas
criam para si mesmas uma ilusão porque isso as deixa felizes.
— Então você acha que só os ateus acreditam em sua própria crença? – perguntei.
— Não, ateus também preferem ilusões – disse ele.
— Então, segundo você, ninguém acredita em nada do quealega acreditar.
— O máximo que qualquer ser humano consegue fazer é escolher uma ilusão que o ajude a atravessar o dia. É por isso que
pessoas de diferentes religiões conseguem viver em paz. Em algum
nível, todos nós suspeitamos que as outras pessoas não acreditam
mais em suas próprias religiões do que nós próprios acreditamos
nas nossas.
Eu não conseguia aceitar aquilo.
— Talvez a razão de aceitarmos outras religiões seja quetodas elas têm um conjunto central de crenças em comum. Ela só
diverge no detalhes.

— Os judeus e os mulçumanos acreditam que Cristo não é o
filho de Deus – contestou. — Se eles estão certos, então os cristãos
estão errados sobre o cerne de sua religião. E se os judeus, ou os
cristãos, ou os mulçumanos tem a religião certa, então os hindus e
os budistas, que acreditam na reencarnação, estão errados. Você
chamaria essas coisas de detalhes?
— Acho que não – confessei.
— Em certo nível de consciência, todo mundo sabe asprobabilidades de escolher a religião verdadeira, se é que isso
existe, são nulas.

MAPAS DA ESTRADA
Eu me sentia como um perneta tentando se equilibrar sobre
um muro alto. Eu podia ficar pulando, enquanto buscava um jeito
fácil de descer, ou podia simplesmente saltar de uma vez e me
machucar. Resolvi saltar.
— Qual é a sua crença, sr. Avatar?
O velho balançou-se algumas vezes antes de responder.
— Digamos que você e eu resolvemos viajar separados para um mesmo lugar. Você tem um mapa que é azul e eu tenho um
mapa que é verde. Nenhum dos dois mapas mostra todas as
trajetórias possíveis, mas ambos mostram uma rota aceitável,
embora diferente, para aquele destino. Se nós dois fizermos nossas
viagens e voltarmos em segurança, iremos divulgar para outros
nossos bem-sucedidos mapas. Eu diria, com total convicção, que
meu mapa verde era perfeito, e poderia prevenir os demais para
que evitassem qualquer outro tipo de mapa. Você iria ter a mesma
convicção em relação a seu mapa azul.
As religiões são como mapas distintos, cujas rotas levam
todas ao bem coletivo da sociedade. Alguns mapas levam os
seguidores para terreno acidentado. Outros mapas seguem
caminhos mais suaves. Dos viajantes de cada rota, alguns
receberão a tarefa de serem os protetores e intérpretes do mapa.
Eles ensinarão os jovens a respeita-lo e a desconfiar de outros
mapas.
— Está certo – assenti – mas, antes de mais nada, quemtraçou os mapas?
— Os mapas foram traçados pelas primeiras pessoas que foram lá e não morreram. Os mapas que sobrevivem são aqueles
que funcionam – acrescentou.
Enfim ele tinha apresentado um alvo para eu atacar.
— Você está dizendo que todas as religiões funcionam? E todas aquelas pessoas que foram mortas em guerras religiosas?
— Você não pode julgar o valor de uma coisa só pela análise dos custos. Em muitos países, morre mais gente em conseqüência
de erros hospitalares do que de guerras religiosas, mas ninguém
acusa os hospitais de serem maus. As pessoas religiosas em
comparação com as não religiosas, são felizes, vivem mais tempo,
sofrem menos acidentes e não se metem em encrencas. Do ponto
de vista da sociedade, a religião funciona.

O GERADOR DE ILUSÕES
À medida que minha hora de almoço ia se dissolvendo tarde
afora, era como se tecnicamente eu houvesse abandonado o
emprego. Mas não me importava. O tempo gasto com esse velho
valia a pena. Eu não concordava com tudo que ele estava dizendo,
mais minha mente estava mais viva do que estivera desde os meus
tempos de criança. Eu me sentia como se tivesse acordado num
planeta estranho, onde tudo parecia familiar, mas todas as regras
eram diferentes. Ele era um mistério, porém a essa altura eu estava
me acostumando com as suas perguntas saídas do nada.
- Alguém aconselhou você a "ser você mesmo"?
Respondi que ouvira isso muitas vezes.
- O que significa ser você mesmo? – ele perguntou. — Se
significa fazer o que você acha que deve fazer, então você já está
fazendo. Se significa agir como estivesse isento da influência da
sociedade, é o pior conselho do mundo; você provavelmente iria
parar de tomar banho e de vestir roupas. O conselho para "ser você
mesmo" é obviamente tolice. Mas nossos cérebros aceitam
semelhante bobagem como sabedoria, pois é mais cômodo
acreditar que temos uma estratégia de vida do que acreditar que
temos a menor idéia de como nos portar.
— Dito assim parece que nossos cérebros foram projetados
para nos enganar – comentei.
— Há mais informações num pingo de realidade do que a
quantidade capaz de ser entendida por uma galáxia de cérebros
humanos. Entender o mundo e seu ambiente está além da
capacidade do cérebro humano, daí ele se compensar com a criação
de ilusões simplificadas que agem como um substituto da
compreensão. Quando as ilusões funcionam bem e o ser humano
que as endossa sobrevive, aquelas ilusões são legadas às novas
gerações.
O cérebro humano é um gerador de ilusões. As ilusões são
alimentadas pela arrogância, a arrogância de que os humanos são o
centro do mundo, de que só nós somos dotados das mágicas
propriedades de almas, e de moral, e livre-arbítrio, e amor.
Supomos que um Deus onipotente um interesse exclusivo em
nosso progresso e atividades, enquanto nos oferece todo o resto da
criação como pátio de recreação. Nós acreditamos que Deus, por
pensar da mesma forma que nós, deve estar mais interessado em
nossas vidas do que se interessa pelas pedras, e árvores, e plantas, e
animais.
— Bem, eu não acho que as pedras seriam muitointeressantes para Deus – opinei. — Elas só ficam pousadas no
solo, entregues à erosão.
— Você pensa assim porque é incapaz de ver o turbilhão de atividade no nível molecular da pedra ou no nível abaixo daquele,
e assim por diante. E você está limitado por sua percepção do
tempo. Se observasse uma pedra pela vida toda, ela nunca
pareceria diferente. Mas se você fosse Deus e pudesse observar a
pedra por mais de quinze bilhões de anos, como se apenas um
segundo tivesse se passado, a pedra estaria numa atividade
frenética. Ela estaria se contraindo e se expandindo e trocando
matéria com seu meio ambiente. Suas moléculas viajariam pelo
universo e se tornariam parceiras de coisas surpreendentes, que
jamais seríamos capazes de imaginar. Em compensação, a estranha coleção de moléculas que compõem o ser humano fica
na mesma arrumação por menos tempo do que o universo leva para
dar uma piscada. Nossa arrogância nos leva a imaginar valores
especiais nessa temporária coleção de moléculas. Por que
percebemos mais valores espirituais na soma das partes do nosso
corpo do que em qualquer de suas células individuais? Por que não
organizamos funerais quando morrem as células da pele?
— Isso não seria prático – comentei.
Eu não tinha certeza se era uma pergunta para a qual se
esperava resposta, mas queria mostrar que estava ouvindo.
— Exatamente – concordou. O senso prático governa nossa
percepção. Para sobreviver, nossos insignificantes cérebros
domesticam a enxurrada de informações que ameaça nos esmagar.
Nossas percepções são maravilhosamente flexíveis, transformando
automática e continuamente nossa visão de mundo, até
encontrarmos um porto seguro numa confortável ilusão.
Para um Deus não contido pelos limites do senso prático
humano, cada pequenina parte de nosso corpo estaria tão cheia de
ação e significado quanto as partes de qualquer rocha, ou árvore,
ou inseto. E a soma de suas partes que formam a personalidade e a
vida que nós consideramos tão especiais e surpreendentes não
pareceria nem especial nem surpreendente para um onipotente.
É absurdo definir Deus como onipotente e depois
sobrecarrega-lo com nossa própria visão míope da relevância dos
seres humanos. O que poderia ser interessante ou importante para
um Deus que sabe tudo, que pode criar qualquer coisa, que pode
destruir qualquer coisa? O conceito de "importância" é um
conceito humano nascido de nossas necessidades de fazer escolhas
para a sobrevivência. Um ser onipotente não tem necessidade de
hierarquizar as coisas. Para Deus, não há coisa no universo que
seja mais interessante, mais valiosa, mais útil, mais ameaçadora ou
mais importante que qualquer outra.
— Ainda penso que as pessoas são mais importantes para
Deus do que os animais, plantas e terra. Acho que isso é óbvio –
argumentei.
— O que é mais importante para um carro, o volante ou o
motor? – indagou.
— O Motor é mais importante, pois sem o motor não há razão
para usar o volante – raciocinei.
— Mas ao menos que você tenha o motor e o volante, o carro
é inútil, não é? – perguntou.
- O volante e o motor têm a mesma importância. É um

impulso humano, composto de doses iguais de arrogância e de
instinto, acreditar que podemos hierarquizar tudo em nosso
ambiente. Importância não é uma qualidade intrínseca do universo.
Ela só existe em nossas mentes cheias de ilusão. Posso lhe
assegurar que os humanos não são, de qualquer forma que seja,
mais importantes que as rochas, ou os volantes, ou os motores.

REENCARNAÇÃO, ÓVNIS E
DEUS
Eu não sabia até que ponto aceitar a opinião do velho no
sentido literal. Tudo o que ele dizia tinha uma certeza lógica, mas
muitas coisas que são absurdas também têm. Resolvi que era
melhor escutar. O que estava acontecendo comigo, fosse o que
fosse, pelo menos era diferente. Eu gostava de coisas diferentes.
Ele começou.
— Se você quiser compreender os ÓVNIS, a reencarnação e
Deus, não estude os ÓVNIS, a reencarnação e Deus.
- Você está dizendo que nenhuma dessas coisas é real?
Eu estava ofendido diante da certeza dele, em vista dos
milhões de relatos de testemunhas em apoio a cada uma dessas
coisas.
— Não – respondeu. — Estou dizendo que os OVINIs, a
reencarnação e Deus são todos iguais, em termos de realidades.
— Você quer dizer igualmente reais ou igualmente
imaginários?
— Sua pergunta revela parcialidade em relação a um mundo
binário onde tudo ou é real ou imaginário. Essa distinção esta em
nossas percepções, não no universo. A incapacidade de ver outras
possibilidades e a falta de vocabulário são limites de nossos
cérebros, e não do universo.
— Tem de haver uma diferença entre coisas reais e coisas
imaginárias – apontei. Minha caminhonete é real. O coelhinho da
Páscoa é imaginário. Essas duas coisas são diferentes.
— Quando você está sentado aqui, sua caminhonete só existe
para você na memória, um lugar de sua mente. O coelhinho da
Páscoa vive no mesmo lugar. Eles são iguais.

— Sim, mas eu posso sair daqui e dirigir minha caminhonete.
Eu não posso fazer um carinho no coelhinho da Páscoa.
— A chuva de hoje de manhã era real?
— Claro que sim.
— Mas você não consegue ver nem tocar naquela chuva
agora, consegue?
— Não
— Como o coelhinho da Páscoa, o passado só existe em sua
mente – alertou. — Da mesma forma, o futuro só existe em sua
mente, porque não aconteceu.
— Mas eu posso encontrar provas do passado. Posso conferir
com os meteorologistas e confirmar que choveu hoje de manhã.
— E quando tiver conseguido a confirmação, ela mesma se
transformará instantaneamente em passado. Assim, de fato, você
estaria usando o passado, que não existe, para confirmar alguma
coisa do passado. E se você repetir o processo umas mil vezes, com
mil provas diferentes, todas essas coisas reunidas ainda seriam
apenas impressões do passado confirmando outras impressões do
passado.
— Isso não passa de ginástica mental. Você está brincando
com as palavras – acusei.
— O louco acredita que seu mundo é coerente. Se acredita
que o governo está tentando mata-lo, verá amplas evidências de
sua convicção no chamado mundo real. Ele estará errado, mas a
prova de que dispõe não é melhor nem pior do que a sua prova de
que choveu hoje de manhã. Vocês dois estarão convertendo a
prova do presente em impressões armazenadas em suas mentes e
ambos estarão seguros de que a prova que possuem é sólida e
irrefutável. Sua mente irá moldar os fatos e dar forma aos indícios
até tudo se encaixar.
— Isso talvez se aplique aos loucos, mas não a pessoas
normais.
— A psicologia clínica provou que pessoas comuns irão
alterar as lembranças do passado para fazer com que se ajuste a

suas percepções. É assim que todo cérebro normal funciona em
circunstâncias comuns.
— Eu não sabia disso.
— Pois agora já sabe – replicou.

A MOTIVAÇÃO DE DEUS
— Se você fosse Deus – começou ele – o que você ia
querer?
- Sei lá. Mal sei o que eu quero, que dirá o que Deus quer.
- Imagine que você é onipotente. Você pode fazer qualquer
coisa, criar qualquer coisa, ser qualquer coisa. Quando
decide querer uma coisa, ela se torna realidade.
Esperei, sabendo que vinha mais coisa. Ele continuou:
— Faz sentido pensar em Deus como alguém que quer
alguma coisa? Um Deus não tem emoções, nem medo, nem
desejos, nem curiosidade, nem fome. Essas são deficiências
humanas, não são coisas que se encontrariam num Deus
onipotente. O que então traz motivação a Deus?
- Talvez seja o desafio, o estímulo intelectual de criar
coisas – sugerir.
— A onipotência significa que nada constitui um desafio. E o
que poderia estimular a mente de alguém que sabe tudo?
— Você faz a condição de Deus parecer quase tediosa. Mas
acho que vai dizer que tédio é um sentimento humano.
— Tudo o que motiva as criaturas vivas está baseado em
alguma debilidade ou falha. A fome motiva os animais. O tesão
motiva os animais. O medo e a dor motiva os animais. Um Deus
não teria nenhum desses impulsos. Os seres humanos são
motivados por todas essas paixões animais, além de coisas que
soam mais elevadas, como auto-realização, e criatividade, e
liberdade, e amor. Mas Deus não se importa nem um pouco com
essas coisas, ou caso se importasse, já teria delas quantidades
ilimitadas. Nenhum seria o elemento motivador.
— Então, o que é que motiva Deus? – cobrei. — Você tem a

resposta para essa pergunta, ou está só dando um puxão na minha
corrente?
único desafio.
— Acho que Deus iria preferir existir a não existir.
— Isso é pensar como um ser humano, não como um Deus.
Você tem medo da morte e por isso presume que Deus
compartilharia sua preferência. Mas não haveria o sofrimento da
morte, nem sentimentos humanos, não são sentimentos divinos.
Deus poderia simplesmente optar por descontinuar a existência.
Há um problema de lógica ai, segundo sua forma de pensar –
alertei. — Se Deus conhece o futuro, já sabe que, se escolher dar
um fim à sua existência, ele sabe que iria consegui-lo, então
também não há desafio.
— Seu raciocínio está ficando mais claro – observou. Sim,
ele conhece o futuro de sua própria existência em condições
normais. Mas será que a onipotência dele inclui saber o que
acontece depois que ele perder sua onipotência, ou será que o
conhecimento que ele tem do futuro, terminaria neste ponto?
— Essa pergunta parece completamente irrespondível. Acho que você entrou num beco sem saída – adverti.
— Talvez. Mas pense nisso. Um Deus que conhecesse a resposta a essa pergunta de fato conheceria tudo e teria tudo. Por
essa razão ficaria desmotivado para fazer qualquer coisa ou criar
qualquer coisa. Não haveria qualquer propósito em agir, da forma
que fosse. No entanto, um Deus que tivesse uma pergunta a
atormenta-lo – o que acontece se eu parar de existir? – poderia
sentir-se motivado a encontrar a resposta para completar seu
conhecimento. E por não ter medo, nem razão para continuar a
existir, ele poderia tentar isso.
— De um jeito ou de outro, como é que nós saberíamos?

— Nós temos a resposta. É a nossa existência. O fato de existirmos é a prova de que Deus está de certa forma motivado
para agir. E como só o desafio da autodestruição poderia interessar
a um Deus onipotente é razoável concluir que...
Interrompi o velho no meio da frase e me empertiguei na
cadeira. Senti como se uma pulsação de energia me percorresse a
espinha, comprimindo meus pulmões, eletrificando minha pele,
levando os cabelos da minha nuca a ficarem em pleno alerta.
Cheguei mais perto da lareira, incapaz de absorbver seu calor.
— Você está dizendo o que eu acho que está dizendo?
Meu cérebro estava absorvendo excesso de conhecimento.
Estava transbordando e eu precisei sacudir o excesso.
O velho olhou para o vazio e disse:
— Nós somos partículas de Deus.

PARTÍCULAS DE DEUS
— Você está dizendo que Deus se explodiu em pedacinhos
e que nós somos o que sobrou? – perguntei.
- Não exatamente – respondeu.
— Então, o que?
— As partículas constituem em duas coisas. Primeiro existem
os menores elementos da matéria, muitos níveis abaixo da menor
coisa que os cientistas identificam.
— Menores do que os quarks? não sei o que é um quark, mas
acho que é pequeno.
— Todas as coisas são feitas de algumas outras. E essas
outras, por sua vez, são feitas de ainda outras. Nós próximos cem
anos, os cientistas vão descobrir camada após camada de elementos
constituintes, cada um menor que o anterior. A cada camada serão
menores as diferenças entre tipos de matéria. No nível mais baixo
de todos, tudo é exatamente o mesmo. A matéria é uniforme. Esses
são os pedaços de Deus.
— E qual é a segunda parte das partículas – perguntei.
— A probabilidade.
— Então você esta dizendo que Deus, um ser todo poderoso
com uma consciência que abrange todas as coisas, através de todos
os tempos, consiste em nada além de poeira e probabilidade?
— Não subestime as coisas. A probabilidade é infinitamente
poderosa. Você se lembra da primeira pergunta que lhe fiz, sobre
jogar a moeda?
— Sim. Você perguntou por que uma moeda cai com cara
para cima na metade das vezes em que é jogada.
— A probabilidade é onipotente e onipresente. Ela influencia
instantaneamente cada moeda em qualquer tempo e lugar. Não

pode ser protegida nem alterada. Podemos ver o caráter aleatório
no resultado de uma jogada de moeda individual, mas à medida
que o numero de jogadas aumenta, a probabilidade tem um firme
controle sobre o resultado. E a probabilidade não está limitada a
moedas e a dados e a maquinas caça-níqueis. A probabilidade é a
força-guia de tudo no universo – vivos e não vivos, perto ou longe,
grande ou pequeno, agora ou a qualquer tempo.
— Ela é a partícula de Deus – resmunguei, deixando aquelaidéia ficar rolando na boca e na mente, para ver se ajudava. Era um
conceito fascinante, porém estranho demais para ser abraçado na
primeira impressão.
— Antes você disse que não acreditava em Deus. Agora você acredita em Deus. Qual é, afinal?
— Estou rejeitando sua definição excessivamente complicada de Deus, aquela que imagina que ele tem desejos, e necessidades, e
emoções como um ser humano, ao mesmo tempo em que possui
infinito poder. E estou rejeitando sua complicada noção de uma
realidade fixa que o cérebro humano possa, por um extraordinário
golpe de sorte, abranger.
— Você não está rejeitando a idéia de uma realidade fixa –
argumentei. Você está dizendo que o universo está feito das
partículas de Deus. Isso é uma realidade fixa.
— Nossa linguagem e nossas mentes são limitadas demaispara lidar com qualquer coisa que não uma realidade fixa, quer isto
exista ou não. O máximo que conseguimos fazer é atualizar nossas
ilusões de acordo com a época. Vivemos numa sociedade cada vez
mais racional e de base científica. As metáforas religiosas do
passado já não são reconfortantes. De todos os lados elas estão
sendo corroídas pela ciência. A humanidade precisa de uma
metáfora que permita a coexistência de Deus e da ciência, pelo
menos em nossas mentes, pelos próximos mil anos.
— Se seu Deus é só uma metáfora, por que eu deveria meimportar com ele? Ele seria irrelevante – avaliei.
— Porque tudo que você percebe é uma metáfora de algo que
seu cérebro não está equiparado para entender plenamente. Deus é
tão real quanto as roupas que você está usando e a cadeira em que
está sentando. Todas são metáforas de alguma coisa que você
jamais compreenderá.
— Isso é ridículo. Se tudo o que percebemos é falso é apenas uma metáfora, como conseguimos fazer alguma coisa?
— Imagine que você foi criado para acreditar que cenouras eram batatas, e que batatas eram cenouras. E imagine que vive num
mundo onde todos, menos você, sabem a verdade sobre esses
alimentos. Quando você pensasse que estava comendo uma batata,
estava comendo uma cenoura e vice-versa. Supondo que você
tivesse uma dieta, em geral equilibrada, sua ilusão sobre as
cenouras não teria nenhum impacto real sobre a sua vida, a não ser
pela constante alteração com os demais sobre a verdadeira natureza
das cenouras e das batatas. Agora, imagine que todos estivessem
equivocados, e que tanto cenouras quanto batatas fossem alimentos
totalmente diferentes. Digamos que elas fossem, de fato, maçãs e
beterrabas. Isso teria importância?
— Agora eu fiquei perdido. Então Deus é uma batata? –
perguntei.
— Quer entenda ou não a verdadeira natureza de seualimento, você ainda precisa comer. E, no meu exemplo, pouca
diferença faz se você não consegue distinguir uma cenoura ou uma
batata. Nós só podemos agir com base em nossas percepções, não
importa quão imperfeitas. O máximo que podemos fazer é
periodicamente ajustar nossas percepções – nossas ilusões, se
preferir – para torná-las mais coerentes com nossa lógica e o senso
comum.

A CONSIÊNCIA DE DEUS
— O que é que faz as coisas fazerem o que fazem? – ele
perguntou. — O que faz os cachorros latirem, os gatos ronronarem,
as plantas crescerem?
— Antes do dia de hoje eu teria dito que é a evolução que
leva tudo a fazer o que faz. Agora, não sei o que pensar.
— A evolução não é causa de coisa alguma; é uma
observação, uma forma de colocar as coisas em categorias. A
evolução não diz nada sobre causas.
— Para mim a evolução parece uma causa – argumentei. —
Se não fosse a evolução eu seria uma criatura unicelular no fundo
de algum pântano.
— Mas o que faz a evolução acontecer? – indagou ele. — De
onde vem toda a energia e como é que ela se torna tão organizada?
Era uma boa pergunta.
— Eu sempre me perguntei como alguma coisa como a zebra
é criada por um punhado de moléculas a ricochetear pelo universo.
A mim parece que, com o tempo, o universo se tornaria mais
caótico e aleatório, em vez de organizado o bastante para criar
zebras e o trem-bala aéreo e biscoitos com pedacinhos de
chocolate. Ou seja, se você colocar uma banana numa caixa e a
sacudir por um trilhão de anos, será que os átomos algum dia se
reunirão para formar um televisor ou um esquilo? Até imagino que
seja possível, caso você possa dispor de caixas e bananas em
quantidade suficiente, mas eu acho muito difícil de entender.
— Você acha difícil entender que um embrião humano só
pode evoluir para um adulto humano e nunca para uma macieira ou
um pombo? – indagou.
— Isso eu entendo. Os seres humanos têm DNA diferentes
dos das macieiras ou dos pombos. Mas, em meu exemplo da
banana na caixa, não há nenhum esquema que informe ás
moléculas o jeito de se tornarem outra coisa. Se as partículas da
banana conseguirem se aglutinar e se transformar numa lanterna ou
num gorro de peles, será um espantoso caso de sorte, não será uma
coisa planejada.
— Então você acredita que o DNA é fundamentalmente
diferente da sorte?
— Eles são opostos – declarei. O DNA é como um plano
específico. A probabilidade significa que qualquer coisa pode
acontecer.
O velho olhou para mim daquele jeito que dizia que em breve
eu estaria duvidando do que tinha tido. Ele não me decepcionou.
Como sempre, começou com uma pergunta.
— Se o universo fosse começar de novo do zero, e se
acontecessem de novo todas as condições que criaram a vida, será
que a vida surgiria?
- É claro – respondi, sentindo-me novamente confiante.
— Se todas as coisas ocasionaram a vida na primeira vez
acontecessem novamente, o resultado deveria ser o mesmo. Não sei
onde você está querendo chegar.
— Vamos rebobinar nosso universo imaginário voltando
quinze bilhões de anos, para o ponto anterior ao aparecimento da
vida. Se a origem daquele universo fosse idêntica à do nosso, será
que ele iria evoluir no sentido de se tornar exatamente como o
universo e o mundo onde vivemos agora, inclusive com esse
diálogo?
— Acho que sim. Se ele começa exatamente igual e nada
muda ao longo do caminho, deverá acabar exatamente igual.
Minha confiança estava se evaporando de novo.
— É isso mesmo. Nossa existência foi programada no
universo desde o começo, garantida pelo poder da probabilidade. O
tempo e o lugar de nossa existência eram flexíveis, mas o resultado
estava garantido, porque mais cedo ou mais tarde a vida
aconteceria. Estaríamos sentados nestas cadeiras de balanço, ou em
cadeiras exatamente como estas, tendo esta conversa. Você
acredita que o DNA e a probabilidade são opostos, mas ambos
fazem coisas especificas acontecerem. O DNA funciona sob um
cronograma mais rígido, mas a longo prazo, o longo prazo
extremo, a probabilidade é igualmente fixada e certa quanto a seus
resultados. A probabilidade força as moedas, a certa altura, a darem
cara ou coroa na exata proporção de meio a meio, desde que você
fique jogando para sempre. Da mesma forma, a probabilidade nos
forçou a existir exatamente como somos. Só esteve em jogo o
momento oportuno.
— Preciso pensar nisto. Parece lógico, mas é esquisito –
admiti.
— Pense nisso – continuou. — Enquanto estamos
conversando aqui, os engenheiros estão construindo a Internet para
ligar cada parte do mundo, de um jeito muito parecido com o do
feto que desenvolve um sistema nervoso central. Virtualmente ninguém questiona o quanto a Internet é desejável. É como se os
seres humanos tivessem nascido com o instinto de criá-la e
abraçá-la. O instinto dos castores é construir represas; o instinto
dos seres humanos é construir sistemas de comunicação.
— Não acho que seja o instinto que nos leva a construir a
Internet. Acho que estão tentando ganhar dinheiro com ela. É puro
capitalismo – repliquei.
— O capitalismo é só uma parte disso – contrapôs. — Nos
anos de 1990, os investidores jogaram dinheiro em cima de
qualquer empresa de Internet que pediu e a economia foi para o
espaço. A racionalidade não pode explicar nossa obsessão na
Internet. A necessidade de construir a Internet vem de alguma
coisa dentro de nós, alguma coisa programada, à qual não
conseguimos resistir.
Ele tinha razão quanto ao fato de a Internet ser um tanto
irracional. Eu não ia ganhar a discussão, nem era este o momento
de interromper. Ele tinha muito mais a dizer.
— A humanidade está desenvolvendo uma espécie de visão
global, agora que milhões de câmeras de vídeo em satélites,
terminais de computador e esquinas de rua estão conectadas à
Internet. Em seu tempo de vida, vai ser possível, de qualquer
computador, ver praticamente tudo no planeta. E a inteligência da
sociedade está passando por uma fusão pela Internet, criando, de
fato, um ambiente global que pode fazer infinitamente mais do que
poderia qualquer mente individual. Por fim, tudo o que for
conhecido por uma pessoa estará à disposição das demais. Uma
decisão poderá ser tomada pela mente coletiva da humanidade e
instantaneamente comunicada ao corpo da sociedade.
No futuro distante, os humanos aprenderão a controlar o
tempo, a manipular o DNA e a construir um mundo inteiramente
novo a partir da matéria bruta. Não há um limite lógico para o
quanto crescerá nosso poder coletivo. Daqui a um bilhão de anos,
se o visitante de outra dimensão observar a humanidade, talvez
perceba que ela é uma única e imensa entidade, com uma
consciência e um objetivo, e não uma coleção de indivíduos
relativamente desinteressantes.
— Você está dizendo que estamos evoluindo para condição
de Deus?
— Estou dizendo que somos os elementos constituintes de
Deus, nos estágios iniciais de remontagem.
— Acho que se eu fosse parte de um ser onipotente, eu iria
saber – objetei.
— Iria mesmo? As células da sua pele não estão conscientes
de que fazem parte de um ser humano. As células da pele não estão
equipadas para esse conhecimento. Estão equipadas para fazer o
que fazem, e nada mais. Da mesma forma, se nós seres humanos, e
todas as plantas e animais, e o solo, e as rochas, fôssemos os
componentes de Deus, você teria capacidade de sabê-lo?
— Logo, você está dizendo que Deus explodiu em pedaços,
imagino que seja o Big-Bang, e que agora ele está reunindo os seus
pedaços para se recompor? – perguntei.
— Ele está descobrindo a resposta para a única dúvida que
tem.
— Deus ainda tem consciência? Ele sabe que está
remontando a si próprio?
— Ele sabe. Do contrario, nem você poderia ter feito a
pergunta, nem eu poderia ter respondido.

A FÍSICA DA POEIRA DIVINA
— Se o universo não é nada além de poeira e
probabilidade, como é que acontecem as coisas? – perguntei. —
Como você explica a gravidade e o movimento? Por que razão
tudo fica exatamente do jeito que está?
— Posso dar resposta a essa pergunta respondendo antes a
outras perguntas – sugeriu.
— Tudo bem. O que for melhor.
— A ciência se baseia em pressupostos. O cientista supõe que
amanhã a eletricidade se comportará da mesma forma como se
comportou hoje. Ele supõe que as leis da física aplicáveis na terra
se aplicarão em outros planetas. Normalmente, as suposições estão
corretas, ou suficientemente próximas para serem úteis.
Mas, às vezes, as suposições nos levam na direção errada. Por
exemplo, supomos que o tempo é contínuo – o que quer dizer que
entre dois movimentos quaisquer do tempo, independentemente da
brevidade deles, há mais tempo. Se isso é verdade, então um
minuto iria durar para sempre, por conter um número infinito de
fatias menores do tempo, e a infinidade significa que são
inesgotáveis.
— Este é um velho sofisma de que me falaram na escola-
declarei. — Acho que é chamado de paradoxo de Zeno, por causa
de um antigo grego que foi o primeiro a pensar nisso.
— E qual é a solução? – perguntou.
— A solução é que cada uma das infinitas fatias de tempo é
infinitamente pequena, e assim, em termos de matemática, a coisa
funciona. Você pode ter um tempo contínuo, sem que um minuto
dure uma eternidade.
— Sim, em termos matemáticos realmente funciona. E como
os minutos não parecem durar eternamente, supomos que o
paradoxo não seja, absoluta e realmente, um paradoxo.
Infelizmente, a solução está errada. A infinidade é uma ferramenta
útil para a matemática, mas não passa de um conceito. Não é uma
característica de nossa realidade física.
— Eu achava que o universo fosse infinitamente grande –
respondi.
— A maioria dos cientistas concorda que o universo é
grande, mas é finito.
— Isso não faz sentido. E se eu pegasse uma espaçonave até
os confins do universo e depois continuasse viajando? Eu não
podia continuar para sempre? Onde eu estaria, senão no universo?
— Por definição, você é sempre uma parte do universo.
Logo, quando sua nave ultrapassar o limite atual, este se moverá
juntamente com você. Você se torna a borda externa naquela
direção. Mas ainda assim o universo é de um tamanho específico,
não é infinito.
— Tudo bem, o universo em si pode ser finito, mas tudo o
que há em torno dele, o nada, isso é infinito, não é? – perguntei.
— Dizer que temos um suprimento infinito de nada não é
lógico.
— Está certo, acho que não tem. Mas voltando ao assunto –
acrescentei – como é que você explica o paradoxo de Zeno?
— Imagine que tudo na vida desapareça e depois reapareça.
Quanto tempo transcorre enquanto tudo está desaparecido?
— Como vou saber? É você quem está dando o exemplo.
Quanto tempo?
— Não passa tempo nenhum. Não pode passar, pois o tempo
é um conceito humano de como as coisas mudam em comparação
com outras coisas. Se tudo no universo desaparecer, não fica nada
para mudar em comparação com outras coisas; logo, não há tempo.
— E que tal se tudo desaparecer, menos eu e o meu relógio?
– contrapus.
— Então você iria vivenciar a passagem do tempo em relação
a si mesmo e a seu relógio. E quando o resto do universo
ressurgisse, você poderia conferir quanto tempo havia passado,
segundo seu relógio. Mas as pessoas do resto do universo não
teriam vivenciado tempo algum enquanto estavam desaparecidas.
Para elas, você envelheceu instantaneamente. O tempo delas e o
seu não eram o mesmo, porque você vivenciou a mudança, e elas
não. Um relógio universal não existe; e o tempo é diferente para
cada observador.
— Tudo bem, acho que entendi isso. Mas como é que
qualquer dessas coisas vai responder a minha pergunta original
sobre a gravidade e sobre o que faz as coisas se moverem?
— Você já viu algum dia um gráfico de uma coisa chamada
distribuição probabilística? – indagou.
— Sim, tem um monte de pontos. Os lugares com maior
concentração de pontos são aqueles onde existe a maior
probabilidade – respondi, encantado por me lembrar de alguma
coisa das minhas aulas de estatística.
— O universo lembra muito um gráfico de probabilidades. As
maiores concentrações de pontos são as galáxias e os planetas,
onde a força da gravidade parece mais forte. Mas a gravidade não é
uma força de atração. Ela é o resultado da probabilidade.
— Agora eu fiquei perdido.
— A realidade tem um pulso, um ritmo, na falta de termo
mais adequado. A poeira divina desaparece num pulso e reaparece
no próximo, numa nova posição baseada na probabilidade. Se uma
partícula de poeira de Deus desaparecer nas vizinhanças de uma
grande massa, digamos um planeta, então a probabilidade irá fazer
com que ela retorne à existência mais perto do planeta, no próximo
pulso. A probabilidade fica mais alta quando você se aproxima de
objetos maciços. Ou, para dizer de outra forma, a massa é a
expressão física da probabilidade.
— Acho que isso eu entendo, até certo ponto – menti.
— Se você observasse a poeira de Deus situada nasproximidades da Terra, ela daria a impressão de estar sendo sugada
em direção ao planeta. Mas não há movimento através do espaço,
no sentido que nós o entendemos. A poeira está continuamente
desaparecendo em um lugar e reaparecendo em outro, chegando
mais perto da Terra a cada nova localização.
— Prefiro a teoria atual da gravidade – declarei. — Newton e
Einstein tinham isso muito bem equacionado. Com as teorias deles,
a matemática funciona. Com as suas não tenho certeza.
— As fórmulas normais da gravidade funcionam muito bem
com a minha descrição da realidade – replicou. — Eu só fiz
acrescentar um outro nível de compreensão. Newton e Einstein nos
deram as fórmulas da gravidade, mas nenhum deles respondeu à
pergunta sobre por que os objetos parecem se atrair entre si.
— Einstein explicou isso – afirmei. — Você se lembra de que
falamos disso? Ele afirmou que o espaço era curvado pela matéria,
e daí o que parece gravidade nada mais é que os objetos seguindo a
rota do espaço curvo.
O velho limitou-se a olhar para mim.
— Está certo. Admito que não sei o que nada disso significa.
Parece um disparate.
— A linguagem de Einstein sobre o espaço curvo e minha
descrição da poeira de Deus são apenas modelos mentais. Se nos
ajudam a lidar com nosso ambiente, são úteis. Minha descrição da
gravidade é mais fácil de entender do que o modelo de Einstein.
Nesse sentido, o meu modelo é melhor.
Dei uma risadinha. Nunca tinha ouvido alguém se comparar
com Einstein. Fiquei impressionado com a audácia dele, porém não
me convenceu.
— Você não explicou as órbitas. Segundo sua teoria como é
que uma lua poderia fazer a órbita de um planeta e não ser sugada
para cima dele? Sua poeira divina iria voltar a vida cada vez mais
perto do planeta, a cada vez que surgisse, até se despedaçar contra
a superfície.
— Você está pronto para a segunda lei da gravidade.
— Acho que estou.
— Existe um outro fator que influencia a posição da matéria,
quando ela surge de volta à vida. Tal força é, por faltar termo
melhor, a inércia. Embora a poeira divina seja inimaginavelmente
pequena, ela tem certa probabilidade de recobrar a existência
exatamente no ponto onde existe uma outra partícula de poeira
divina. Quando isso acontece, uma das partículas precisa encontrar
um novo lugar e altera sua probabilidade. Para o observador, se
ocorrências tão ínfimas pudessem ser vistas por alguém, iria
parecer que as partículas colidem e daí mudam de direção e
velocidade. A nova velocidade é determinada pela distância, com
referência ao ponto de origem, em que surge a poeira divina, a cada
pulso do universo. Se cada novo local está distante do local
anterior, percebemos o objeto como em movimento acelerado.
E prosseguiu:
— Daí existe sempre uma dupla probabilidade a influenciar
cada partícula da poeira divina. Uma probabilidade faz com que
todo grão de poeira divina volte à existência mais perto de outro
grão. A outra probabilidade é a de o grão de poeira reaparecer
seguindo uma linha reta traçada a partir de seu passado. Todo o
aparente movimento do universo se baseia nessas probabilidades
concorrentes.
A lua da Terra, por exemplo, tem uma certa probabilidade de
avançar em direção à terra e uma certa probabilidade de se mover
em linha reta. As duas probabilidades estão, por acaso, em
equilíbrio. Se a gravidade fosse uma força de atração, como nós
geralmente pensamos que é, haveria alguma espécie de atrito,
reduzindo a velocidade da lua e por fim arrastando-a para a Terra.
Mas como a gravidade não é uma probabilidade, não há atração
nem repulsão. A lua pode descrever órbitas quase indefinidamente,
já que sua posição está determinada pela probabilidade, e não pela
atração ou repulsão.
— E se toda a poeira que compõe a lua não reaparecer nas
proximidades de sua posição anterior? – insisti. — Você afirmou
que o ponto onde a poeira reaparece é uma questão de
probabilidade; assim, será que a lua, se toda a poeira dela
desaparecesse e voltasse a aparecer do outro lado do sistema solar,
não poderia desaparecer subitamente?
— Sim, poderia. Mas a probabilidade dessa ocorrência é
ridiculamente baixa.
— O problema em sua teoria – comentei – é que a matéria
não aparece e desaparece da existência. A essa altura, os cientistas
já teriam reparado.
— De fato, eles repararam. A matéria aparece e desaparece da existência o tempo todo. É isso que é um salto quântico. Você
provavelmente já ouviu falar o termo, mas não sabia a origem.
— Estou ferrado! – exclamei.

O LIVRE-ARBÍTRIO DE UM
CENTAVO
- Explique o livre-arbítrio – pedi.
— Imagine um centavo de cobre que seja exatamente como
um centavo comum, só que, para efeito dessa discussão, ele tem
consciência. Ele sabe que é uma moeda e sabe que as vezes você o
jogará para cima. E sabe que não há força externa que determine se
numa jogada específica vai dar cara ou coroa.
Se a consciência do centavo fosse como a consciência
humana, ele iria analisar a situação e concluir que tinha
livre-arbítrio. Quando ele quisesse dar cara, e o resultado fosse
cara, o centavo confirmaria sua crença no próprio poder de escolha.
Quando desse coroa, em vez de cara, ele iria culpar sua própria
falta de empenho, ou presumir que Deus tivera aí alguma
influência.
A moeda imaginaria acreditaria que as coisas simplesmente
não "acontecem" sem uma causa. Se nenhum fator externo
controlasse o resultado dos lances, um centavo dotado de bom
senso presumiria que o controle partiria de sua própria vontade,
talvez, supondo-se que fosse um centavo religioso, influenciado
pela vontade divina.
A crença do centavo no próprio papel seria errada, mas sua
crença no papel divino seria certa. A probabilidade, a essência do
poder de Deus, determina que o centavo deva, às vezes dar coroa,
quando o centavo escolher dar cara.
— Mas as pessoas não são centavos – assinalei. — Nós temos
cérebros. E quando nossos cérebros fazem escolhas, mexemos os
braços e as pernas e a boca para fazer as coisas acontecerem. O
centavo não tem um jeito de transformar suas escolhas em
realidades, mas nós temos.
— Nós achamos que temos – respondeu o velho. Mas nós
também acreditamos no princípio científico de qualquer causa
específica, não importa a complexidade, deve ter um efeito
específico. Portanto, acreditamos em duas realidades que não
podem, ambas, ser verdadeiras. Se uma for verdadeira, a outra
deverá ser falsa.
— Não estou conseguindo acompanhar seu raciocínio –
confessei.
— O cérebro é fundamentalmente uma máquina. É uma
máquina orgânica dotada de propriedades químicas e elétricas.
Quando um sinal elétrico é formado, ele só pode fazer com que
aconteça uma coisa específica. Ele não consegue escolher às vezes
fazer você pensar numa vaca, e outras vezes fazer você se
apaixonar. Aquele impulso elétrico específico, num ponto
específico de seu cérebro, só pode ter um, e somente um. Resultado
em suas ações.
— Nós já discutimos isso. Talvez o cérebro esteja isento das
regras normais por causa do livre-arbítrio, ou a alma. Sei que não
consigo definir essas coisas, mas não se pode excluí-las.
— Nada na vida pode ser excluído. Mas a analogia do
centavo é uma explicação simples do livre-arbítrio, com lógica e
sem conceitos indefinidos.
- Ser simples não quer dizer que seja correta – assinalei.
Eu precisava, em meu próprio interesse, dizer alguma coisa
que parecesse criteriosa.
— Exato, a simplicidade não é uma prova da verdade. Mas
como nós jamais conseguimos entender a verdadeira realidade, se
dois modelos explicam os mesmos fatos, é mais racional usar o
mais simples. É uma questão de conveniência.

EVOLUÇÃO
— Vamos voltar à evolução – propus. — Com toda essa
conversa de Deus, você acha que ele causou a evolução? Ou será
que tudo aconteceu em alguns milhares de anos, Omo acreditavam
os criacionistas?
— A teoria da evolução, mais que errada, é incompleta e
inútil.
— Como pode afirmar que é inútil?
— A teoria da evolução não conduz a nenhuma invenção
prática. É um conceito que não tem aplicação.
— Está certo, estou ouvindo o que diz – assentei. — Mas
você tem que convir que as provas fósseis de espécies anteriores
são extremamente convincentes. Existe uma evidente
transformação das criaturas mais antigas, em comparação com as
novas, ao longo do tempo. Como pode ignorar isso?
— Imagine que um asteróide caísse no planeta Terra,
trazendo uma bactéria exótica, que matasse toda a matéria orgânica
da terra e depois, se dissolvesse sem deixar vestígio. Um milhão de
anos depois, alienígenas inteligentes descobrem a Terra e estudam
nossas ossadas e pertences, tentando recompor os fragmentos de
nossa história. Eles poderiam notar que todos os utensílios
culinários usados por nós – panelas, caçarolas, travessas e tigelas –
pareciam relacionados de certa forma. E que os mais antigos eram
bastante diferentes dos mais novos. Os mais antigos dentre eles
eram tigelas toscas, todas um tanto parecidas entre si, geralmente
feitas de argila ou de pedra. Ao longo do tempo, as tigelas
evoluíram para travessas e xícaras de café e frigideiras inoxidáveis.
Os alienígenas criariam gráficos irrecusáveis, mostrando
como pratos evoluíram. A família da xícara de chá seria parecida
com sua própria espécie, e parente próxima do canecão de cerveja

e do copo de água. Um observador que estudasse os gráficos veria
claramente um padrão que podia ser coincidência. A causa dessa
evolução das louças seria debatida, exatamente como nós
discutimos a causa subjacente da evolução humana, mas o fato
observado da evolução das louças não seria questionado pelos
cientistas alienígenas. Os fatos seriam quadros. Alguns cientistas
ficariam perturbados com a falta de espécies intermediarias de
louças – digamos, uma frigideira com alça de caneca de chope –
mas só poderiam supor que ela existisse, À espera de ser
descoberta, em algum lugar.
— Essa deve ser a pior analogia que já se fez – declarei.
— Você está comparando gente com louça.
O velho riu sonoramente pela primeira vez desde que
começamos a conversar. Estava genuinamente deleitado.
— Não se trata de analogia – disse ele, com os olhos
brilhando. É um ponto de vista.a evolução é atraente não por causa
da qualidade das provas, mas sim em razão da quantidade e da
variedade delas. Os alienígenas enfrentariam o mesmo dilema.
Haveria tantas provas para sua teoria da evolução das louças que os
opositores seriam ridicularizados. Os cientistas alienígenas iriam
teorizar que garfos evoluíram das colheres, que evoluíram das
facas. As panelas evoluíram das tigelas. As travessas evoluíram das
tabuas de corte. A mera quantidade e a variedade dos dados seriam
avassaladoras. A certa altura eles parariam de chamá-la de teoria, e
passariam a considerá-la um fato. Só um louco seria capaz de
duvidar publicamente da montanha de provas.
— Há uma grande diferença entre pratos e animais – afirmei.
— No caso dos pratos, não há jeito de eles poderem evoluir. Alógica diria aos alienígenas que não havia modo de um prato
inanimado produzir descendência, e menos ainda uma
descendência mutante.
— Isso não é exatamente verdadeiro – contestou. — Alguém
poderia dizer que os pratos usaram os seres humanos numa relação
simbiótica, convencendo-nos, por meio da utilidade deles, a fazer

novos pratos. Dessa forma os pratos conseguiram reproduzir-se e
evoluir. Cada espécie tira partido de outras coisas vivas para
assegurar a própria sobrevivência. Esta é a maneira normal como
se reproduzem as coisas vivas.
Você acredita, sem estar fundamentado, que os cientistas
alienígenas iriam ver uma distinção entre as criaturas vivas e os
pratos não vivos, e classificar os pratos como meras ferramentas.
Mas esta é uma visão antropocêntrica do mundo. Por serem
orgânicos, os seres humanos acreditam que as coisas orgânicas são
mais importantes que as inorgânicas. Os alienígenas não seriam tão
parciais. Para eles, os pratos pareceriam uma espécie resistente,
que apresar de não ter partes orgânicas encontrou uma maneira de
evoluir, se reproduzir, e prosperar.
— Mas os pratos não têm personalidade, nem pensamento
nem emoções nem desejos – lembrei.
— Uma ostra também não tem.
— Então por que razão alguém diz que está "feliz como uma
ostra"? – gracejei.
Ele me ignorou.
— Você não estranha não haver hoje maior volume de provas
das mutações que impulsionam a evolução? – perguntou.
— Como o quê?
— Não deveríamos estar vendo nas criaturas vivas de hoje a
prévia dos próximos milhões de anos de evolução? Onde estão os
homens de duas cabeças que suplantarão os de uma cabeça, os
peixes com órgãos não identificados que evoluirão para algo de útil
nos próximos milhões de anos, os gatos que estão criando guelras?
Encontramos alguns indícios de mutação hoje em dia, mas são na
maioria mutações triviais, e não daquele tipo radical que deve ter
havido no passado, que se torna precursor de cérebros, olhos, asas e órgãos
internos.
E por que a evolução parece se mover numa direção, da mais
simples para a mais complexa? Por que não existem formas de vida
superiores evoluindo para criaturas mais simples e mais
resistentes? Se as mutações ocorrem aleatoriamente, seria de
esperar que a evolução operasse nos dois sentidos. Mas ela só
funciona em um, do simples para o complexo.
Ele continuou:
— E por que o numero de espécies da terra declinou durante
os últimos milhões de anos? O ritmo da formação de novas
espécies foi outrora muito mais rápido que o ritmo da extinção,
mas isso se inverteu. Por quê? Isso tudo poderá ser explicado por
meteoros e intervenção humana?
E como o primeiro membro de uma espécie encontra alguém
para se acasalar? Se uma espécie significa que você já não pode
mais procriar com os membros da espécie de seus pais. Se as
mutações são o gatilho da evolução, as mutações devem acontecer
regularmente e de forma tão parecida que permita aos mutantes seachar uns aos outros para procriar. É de se esperar que notássemos
mais mutações, se isso acontecesse com tanta facilidade.
—Este é o mesmo problema que eu vejo na religião –
comentei. — É como se há muito tempo acontecessem milagres de
todo tipo, mas atualmente nunca se vê um milagre. No caso da
evolução, parece que a maior parte das mutações está
desaparecendo, exatamente quando estamos ficando
suficientemente aptos a estudá-los. Parece um pouco suspeito,
como se houvesse um sentido para tudo isso e nós estivéssemos
nos aproximando dele.
— Volte para a moeda um momentinho – convidou. — Se
por acaso você jogar para cima uma moeda balanceada, e ela der
cara cem vezes seguidas, que probabilidade há de, no próximo
lance, ela dar cara novamente?
— Essa eu conheço. A probabilidade é de cinqüenta por
cento, mesmo parecendo que a moeda está em dívida com a coroa.
Para mim isso não tem lógica, mas foi o que aprendi na escola.
— Está certo – confirmou. — Ou, para dizer de outra forma,
o passado da moeda não tem impacto sobre o futuro dela. Não há
ligação entre os resultados das jogadas anteriores e as
possibilidades de jogadas futuras.
O restante do universo é como a moeda. Os acontecimentos
do passado parecem a causa do presente, mas cada vez que nós
voltamos à existência estamos sujeitos a um novo conjunto de
probabilidades. Literalmente qualquer coisa pode acontecer.
Ele se mexeu na cadeira e começou de novo:
— Cada criatura tem uma probabilidade mínima de se tornar
uma espécie diferente a cada pulso do universo. Um pato pode ser
integralmente substituído por um pica-pau. A probabilidade de que
isso aconteça é tão baixa que provavelmente nunca aconteceu nemacontecerá, mas não está excluída pela natureza do universo. É
simplesmente improvável.
Um resultado mais provável é de que o DNA de uma criatura
sofra uma mínima variação, porque dois grãos de poeira divina
tentaram reaparecer no mesmo local e tiveram de fazer um ajuste.
Aquele ajuste deu inicio a uma reação em cadeia nas
probabilidades, que afetou o destino da criatura.
Quando você joga uma moeda para cima, quase sempre dá
cara ou coroa, embora ela pudesse, presumivelmente, cair em pé.
Não fosse a experiência que temos em jogar moedas, poderíamos
pensar que as moedas regularmente caem em pé e ficam assim. E a
borda da moeda deve ser uns dez por cento da superfície de
qualquer uma das faces, portanto, seria de esperar que as moedas
rotineiramente dessem "bordas".
Mas a probabilidade evita condições intermediarias. Ela
favorece o cara-ou-coroa. A evolução também evita condições
intermediárias. Alguma coisa na natureza da poeira divina tornou
provável o crescimento de dois olhos, e improvável o crescimento
de duas cabeças. Para ser mais exato, há alguma coisa a respeito de
olhos que apóia a inevitável remontagem de Deus.

A DOENÇA DOS CÉTICOS
— Tenho uns amigos que são céticos – comentei. —
Fazem parte daquela Sociedade dos Céticos. Acho que eles iam
desancar você.
— Os céticos – declarou – sofrem do mal dos céticos, que é o
problema de terem razão com demasiada freqüência.
— Como é que isso pode ser negativo? – indaguei.
— Se por cem vezes seguidas ficar provado que você tem
razão, não haverá prova capaz de convencê-lo de estar equivocado
no centésimo primeiro caso. Você ficará seduzido por sua própria
infalibilidade aparente. Lembre-se de que todas as experiências
científicas são realizadas por seres humanos e os resultados estão
sujeitos à interpretação humana. A mente humana é um gerador de
ilusões, não uma janela para a verdade. Todo mundo vai gerar
ilusões que combinem com seus próprios pontos de vista, inclusive os céticos. É assim que funciona o cérebro normal e saudável. Os
céticos não estão imunes à auto-ilusão.
— Os céticos sabem que as percepções humanas são falhas –
argumentei. — É por isso que têm um processo cientifico e
insistem em repetir experiências, para ver se os resultados são
consistentes. O método cientifico deles elimina virtualmente a
subjetividade.
— A abordagem científica também faz as pessoas pensarem e
agirem em grupos – contrapôs. — Elas formam sociedades de
céticos e criam publicações céticas. Elas respiram os vapores umas
das outras e demonizam aqueles que não compartilham seus
métodos científicos. Como as convicções dos céticos entram em
choque com a maioria do mundo, eles se tornam emocionalmente e
intelectualmente isolados. Esse tipo de ambiente é a receita certa
para o pensamento e o comportamento sectários. Os céticos não
estão isentos das funções cerebrais do ser humano normal.
Transformar-se naquilo que você combate é uma tendência
humana. Os céticos atacam os pensadores irracionais e, no
processo, tornam-se irracionais.

PARANORMALIDADE E
SORTE
— Você acredita em paranormalidade? – perguntei.
— Depende de como você define – respondeu. — Os céticos
tentam fazê-la desaparecer, por meio de uma definição tão estreita
que não pode ser demonstrada em experiências controladas. Os
crentes sustentam uma visão mais expansiva dela, focalizada em
sua utilidade na vida diária.
— Então, você é um crente? – cutuquei.
A expressão dele dizia não.
— Há bilhões de pessoas na terra. Algumas delas levarão, do
dia em que nasceram ao dia em que morrem, uma vida miserável.
Outras terão, em todas as facetas de suas vidas, uma fortuna
incrivelmente generosa. Nascerão de pais amorosos em lares
abastados. Seus cérebros e corpos serão eficientes, saudáveis e
altamente capazes. Elas viverão o amor. Elas nunca serão tímidas
nem sentirão medo sem motivo. Algumas podem ganhar loterias.
Em resumo, terão sorte a vida inteira, se comparadas a outras
pessoas.
A sorte se conforma às curvas normais de probabilidade. A
maioria das pessoas terá uma sorte mediana e algumas pessoas
experimentarão doses reforçadas de sorte ou azar. Um punhado de
gente terá uma sorte tão extraordinária que será impossível
distingui-la da magia. As regras da probabilidade garantem a
existência de gente assim.
Ele continuou:
— E em algumas pessoas a sorte será compartilhada,
confinada a áreas especificas de suas vidas. Alguns serão jogadores
extraordinariamente sortudos e outros terão uma surpreendente
sorte nos negócios ou nos romances.
Agora imagine que você encontra aquela pessoa no planeta
cujo tipo especifico de sorte envolve a extraordinária capacidade de adivinhar coisas aleatórias. É muito provável que exista uma
pessoa assim em algum lugar da Terra. O que você acha que os
céticos concluem sobre a percepção extra-sensorial desse
indivíduo?
— Se eles o testassem com experiências controladas
concluiriam que ele tinha percepção extra-sensorial – respondi.
— Você se engana. Eles concluiriam que os testes deles não
foram adequadamente controlados e que era preciso fazer mais
estudos. Diriam que as alegações extraordinárias exigem provas
extraordinárias. E continuariam a testar, até obter um resultado
negativo ou perder o interesse. Nenhum cético se atreveria a
declarar alguém como dotado de percepção extra-sensorial, caso
houvesse o menor risco de ser provado posteriormente que estava
errado. A seita deles não promove esse tipo de risco.
Para sermos justos, a julgar pelos indícios, os céticos nunca
estiveram errados ao desmascarar alegados poderes
extraordinários. Eles acreditam que seus métodos são confiáveis
porque, com exceção de equívocos em testes individuais, os
métodos deles, até onde se sabe, jamais fornecem um resultado
errado a longo prazo. Mas o fato de não estarem errados não é
prova de que o método de teste seja adequado a todos os casos.
— Então você acha que sorte é o mesmo que percepção
extra-sensorial? – indaguei.
— Estou dizendo que os resultados são impossíveis de
distinguir.
— Mas é diferente, porque a paranormalidade é causada por
pensamentos viajando pelo ar, ou qualquer coisa parecida. Ela
precisa ter alguma causa.
— Se você define a paranormalidade estreitamente, para só
incluir a transferência de informação pelo ar, então os céticos
jamais irão detectá-la – argumentou. — Mas se você aceitar a sorte
como sendo idêntica a paranormalidade, então esta existe e pode
ser útil, embora não tão confiável assim, já que a sorte muda de
um instante para outro.
— Acho que os cientistas provaram que os pensamentos não
viajam através do ar porque não podem detectar nada vindo da
mente das pessoas quando estas se concentram – disse eu, tentando
concordar. Devia ter sabido que era perda de tempo.
— Mas seus pensamentos realmente viajam através do espaço
– contestou. — A questão é saber se outra pessoa é capaz de decodificar a informação.
— Como é que os pensamentos viajam através do espaço?
— Quando alguma coisa física se move, exerce um impacto
gravitacional sobre todos os outros objetos do universo, de forma
instantânea e através de qualquer distância. O impacto é
fantasticamente pequeno, mas é real. Quando você tem um
pensamento, ele está associado a uma mudança física em sua
mente, específica daquele pensamento, e que produz um efeito
gravitacional ondulatório e instantâneo através do universo inteiro.
Será que as pessoas conseguem decodificar esses sinais
fantasticamente fracos, no meio de uma quantidade imensa de
outros ruídos gravitacionais? Não. Mas os sinais estão presentes.

PARANORMALIDADE E
RECONHECIMENTO DE
PADRÕES
— E a visão remota? – perguntei. — Você já ouviu falar. É
quando um paranormal traça o retrato de um lugar distante sem ir
até lá. Como é feito isso? Também é sorte?
— Às vezes é. Mas em grande parte também é
reconhecimento de padrões.
— Como? Se você está sentado numa sala em algum ponto
do mundo e o objeto está em outro lugar, não há nenhum padrão.
— Cada um tem uma capacidade diferente de reconhecer
padrões em seu ambiente – ensinou ele. — Trata-se de uma
habilidade, como a musica, e a matemática, e os esportes. Os raros
gênios que encontramos em cada um desses campos parecemdefinitivamente sobrenaturais. É como se possuíssem poderes
especiais. Em certo sentido, possuem, mas seria exato descrever a
capacidade deles como uma abundância de um talento natural, e
não como sobrenatural.
Vejamos, por exemplo, um típico gênio da matemática.
Freqüentemente tais indivíduos declaram que ficam sabendo as
soluções dos problemas sem que estejam conscientes de terem feito
algum cálculo. Os maiores gênios de cada setor relatam a mesma
experiência. Nos níveis mais altos de desempenho, as pessoas não
estão conscientes dos processos que empregam.
Na atuação dos gênios, só não há nada de misterioso nem de
mágico porque eles não estão conscientes do modo como fazem o
que fazem. Os cálculos subconscientes de suas mentes acontecem tão depressa que eles não os registram como lembranças. É cômo se
as respostas simplesmente fossem chegando.
Alguns médiuns aparentes, os que não são embusteiros
internacionais, são gênios do reconhecimento de padrões, mas sem
estar necessariamente conscientes da fonte de suas habilidades. Tal
qual o gênio da matemática, os chamados paranormais não sabem
como o fazem. Só sabem que funciona.
— Tudo bem – disse eu, aceitando momentaneamente a
explicação dele para poder testá-la. — Como é que o
reconhecimento de padrões explica um paranormal que prevê onde
será encontrado o corpo de uma pessoa assassinada? Onde está o
padrão?
— A maioria das reportagens sobre que localizam corpos é
falsa. Os repórteres normalmente obtêm informação conversando
com pessoas e escrevendo o que eles dizem, mas as historias só são
confiáveis na medida em que os entrevistados são confiáveis. Os
paranormais podem fazer previsões vagas e depois exigir o credito
por tudo o que se aproximou do acerto. Os meios de comunicação
contam a história dos sucessos fascinantes e ignoram os fracassos,
como se não merecessem cobertura. O publico fica com a
impressão de que os paranormais conseguem regularmente
localizar cadáveres. De fato, esses casos têm sido raros e,
provavelmente, resultam de um nível genial de reconhecimento de
padrão, ou são fruto da sorte, ou simples exagero.
Digamos que a policia receba um comunicado de que uma
criança foi seqüestrada. Os detetives da corporação foram treinados
para reconhecer padrões; logo, saberiam que o autor do seqüestro
provavelmente é do sexo masculino e conhecido da criança. E se a
criança ficar desaparecida por mais de quarenta e oito horas, eles
poderiam prever que ela morreu, e seu corpo provavelmente será
abandonado ao ar livre, num raio de oito quilômetros de distancia
do local do crime. Digamos que a policia chame um agente do FBI
especializado em levantamento de perfil e ainda mais eficiente do
que os policiais na localização de padrões criminais. Com base na
experiência e nas estatísticas de crimes semelhantes, o especialista
pode prever que o seqüestrador tem um certo tipo de antecedentes,
formação e personalidade. Os detetives da polícia e o especialista
do FBI podem produzir informação que pareceria vinda de um
paranormal, se não soubéssemos que estava baseada em simples
padrões. Agora digamos que a policia entre em contato com um
paranormal que seja um gênio em reconhecimento de padrões. No
nível do gênio, viriam à tona padrões muito mais sutis.
Ele continuou:
— Por exemplo, o setor de diversões e mídia noticiosa criam
padrões na mente do público. Digamos que no ano passado
diversos filmes e seriados da tevê sobre seqüestros criaram um
padrão referente ao melhor lugar onde livrar-se de cadáveres.
Aquele padrão poderia influenciar um seqüestrador a escolher um
valão em vez de uma velha cabana. O médium inadvertidamente
capta o padrão e "sente" que a criança será encontrada num valão.
Uma busca nos valões provará que o médium tinha razão.
Em tal caso, os assim chamados poderes psíquicos seriam
úteis e até certo ponto autênticos, mas nunca poderiam ser
reproduzidos em experiências controladas. Num ambiente de
laboratório, todos os padrões são removidos.
— E no caso do cara que conversa com nossos parentes
mortos? – perguntei. — Ele sempre tem informações sobre os
sobreviventes e o falecido que não poderia ser coincidência. Como
isso é feito?
— Isso, também, é um reconhecimento de padrão, juntamente
com um sentido teatral e, às vezes, artimanhas. Parte do que parece
uma habilidade mediúnica extraordinária nada mais é que uma
aposta na probabilidade. O paranormal poderia dizer, por exemplo,
que o falecido marido viu a esposa beijar o retrato dele. Isto seria
um palpite seguro, pois a maioria das viúvas beija o retrato dos
maridos falecidos. Ou o paranormal poderia dizer em tarefas
domesticas. Isso se aplica a quase todo homem.
O médium pode captar muitos padrões sugeridos pela voz,
sotaque, vestuário, idade, nome, estado de saúde e etnia. Digamos

que um cliente tenha os dentes manchados de nicotina. Fumantes
provavelmente vivem com outros fumantes. O médium poderia
adivinhar que um bem-amado morreu recentemente de problemas
do coração ou pulmão. Isto seria um bom palpite.
— Muito bem, e esses pastores eletrônicos que curam as
pessoas na tevê? Para mim, aquelas pessoas parecem curadas.
Aquilo é falso?
O velho só deu uma risada. Eu também ri.

LUZ
— Pense na luz – propôs o velho. — Nosso mundo parece
impregnado de energia luminosa. Mas o que é a luz?
— Ela é feita de fótons – respondi, considerando isso um
começo. Àquela altura, eu já não deveria cair numa dessas. Acho
que ele ignorou minha resposta.
— Se você fosse uma nave espacial apostando corrida com
um raio de luz, e estivesse se movendo a noventa e nove por cento
da velocidade da luz, quanto mais rápido seria a luz?
— Um por cento da velocidade da luz, evidentemente. Não
sei quantos quilômetros por hora.
— Não de acordo com Einstein. Ele provou que o raio
luminoso seria mais rápido que sua espaçonave na mesma
proporção da velocidade da luz, não importa a velocidade em que
você estivesse viajando.
— Isso não faz o menor sentido. Mas parece vagamente
familiar. Ele realmente disse isso?
— Sim, e no mundo da física é aceito como um fato.
— Isso é ridículo – contestei. — Se eu estiver viajando a
noventa e nove por cento da velocidade do raio luminoso e na
mesma proporção de sua velocidade, como se eu não estivesse me
deslocando de forma alguma.
— É ridículo mesmo. Mas os cientistas alegam que está
provado.
— E se duas espaçonaves estivessem apostando corrida com
um raio luminoso e uma delas voasse a noventa e nove por cento e
a outra a cinqüenta por cento da velocidade da luz? A luz não
poderia ser mais rápida que ambas exatamente na mesma
proporção da velocidade da luz.
— E no entanto, ela seria.

— Bom, isso já é loucura – repliquei. — Veja bem, o raio
luminoso estaria se afastando mais depressa da espaçonave maislenta do que da espaçonave mais veloz. É uma questão de senso
comum.
— É comum e está errado, segundo os testes científicos –
argumentou. — Acontece que tempo, e movimento, e velocidade
da luz são diferentes para cada observador. Nós não percebemos na
vida cotidiana porque no caso dos objetivos de baixa velocidade a
diferença é muito pouca. Mas à medida que você se aproxima da
velocidade da luz, as diferenças se tornam flagrantes.
É literalmente verdadeiro que duas pessoas não podem
compartilhar a mesma realidade. Einstein provou que a realidade
não é um estado fixo. Em vez disso, é um número infinito de
realidades singulares, dependendo da posição em que você se
encontre e da velocidade com que esteja se movendo.
Se eu fosse um passageiro da nave lenta que você citou no
exemplo, iria ver você se afastando de mim em alta velocidade.
Mas da perspectiva do raio de luz, nenhum de nós estaria
absolutamente se movendo. Ambas as versões da realidade são
demonstravelmente verdadeiras e, no entanto, absurdas se
consideradas em conjunto.
— Então, que diabos é a luz? – Perguntei.
— A Luz é o limite externo daquilo que é possível. Não é
uma coisa física; é uma fronteira. Os cientistas concordam que a
luz não tem massa. Por analogia, pensei no horizonte da Terra.
Horizonte não é uma coisa física, é um conceito. Se você tentasse
apanhar num balde um pouco de horizonte, não conseguiria.
No entanto, o horizonte é observável e compreensível. Parece
físico e parece ter forma e substância. Mas quando você corre na
direção do horizonte, não importa a que velocidade, ele parece
colocado à sua frente numa mesma distância. Você jamais
consegue alcançar o horizonte, por mais depressa que corra.
Ele continuou:
— A luz é análoga ao horizonte. É uma fronteira que dá a
ilusão de ser uma coisa física. Como o horizonte, ela parece
afastar-se de você a uma velocidade constante, não importa a
rapidez com que você esteja se movendo. Nós observamos coisas
que acreditamos serem luz, como os holofotes no céu noturno, o
crepúsculo de nuvens vermelhas. Mas essas coisas não são a luz;
são meramente fronteiras entre distintas probabilidades.
Imagine duas plantas. Uma está na luz direta e a outra, na
sombra perpétua. A planta iluminada experimenta mais
possibilidades, já que vive mais tempo e fica maior e mais forte.
Finalmente, acabará morrendo, mas não sem antes vivenciar muito
mais possibilidades que sua duplicata que vive na sombra.
— Muito bem – disse eu – , estou achando difícil imaginar a
luz como não sendo uma coisa física. Se ela própria não é física,
como consegue influenciar coisas físicas?
— Existem muitas coisas não físicas que afetam o mundo –
esclareceu. — A gravidade não é física, e no entanto, pelo que tudo
indica, ela impede você de sair flutuando para longe do planeta. A
probabilidade não é física, porém influencia em qualquer lugar do
universo a jogada de uma moeda. Uma idéia não é física e pode
mudar a civilização.
— Não acho que uma idéia seja exemplo de uma coisa física
que muda a civilização. Os cérebros das pessoas envolvidas são
coisas físicas, e eles influenciam nossos corpos, que são físicos. Não vejo de que modo as idéias realmente entrem nisso, exceto pela forma
como controlamos as coisas. As idéias não ficam por ai flutuando
no espaço por iniciativa própria. Elas estão sempre associadas com
alguma coisa física em nossos cérebros.
— Suponha que eu escreva uma frase insultante num pedaço
de papel e o entregue a você – replicou. — O bilhete é físico, mas
quando você olha para ele, a informação entre em sua mente
conduzida por uma trilha de luz. Lembre-se de que a luz não tem
massa. Como os campos magnéticos, a luz não existe em forma
física. Quando a ofensa escrita no bilhete viaja do papel para seus

olhos por meio da trilha de luz, ela é totalmente não-física durante
o trajeto da viagem. O insulto codificado na luz não é mais real do que o horizonte. É uma pura transferência de probabilidades de
mim para você. Quando o insulto se registra em sua mente, coisas
físicas, começam a acontecer. Você pode se zangar, e seu pescoço
e testa podem ficar quentes. Você pode até me dar um soco. A luz
é uma mensageira da probabilidade, mas nem a luz nem a
mensagem têm massa.
Quando sentimos o calor do sol, estamos sentindo o efeito do
aumento de probabilidades, e por conseguinte, do aumento da
atividade de nossas células da pele, e não o efeito dos fótons
atingindo nossa pele. Os fótons não têm massa, segundo nos dizem
os cientistas. Essa é outra maneira de dizer que eles não existem
senão como conceito.
Ele prosseguiu:
— Você deve ter ouvido dizer que a luz é ao mesmo tempo
uma partícula e uma onda, e que, dependendo das circunstâncias,
às vezes ela se comporta como partícula, às vezes, como onda. Isso
equivale a dizer que às vezes sua sombra é longa, e às vezes é
curta. Sua sombra não é só uma coisa física; é uma impressão, umapercepção deixada pelas coisas físicas. É uma fronteira, não um
objeto.
Podemos considerar a luz como zonas de probabilidade que
cercam todas as coisas. Em virtude de sua densidade, uma estrela
tem alta probabilidade de que duas de suas partículas de poeira
retornem á existência no mesmo local, forçando uma delas a se
ajustar, criando uma probabilidade nova e turbulenta. Aquela
atividade, o constante ajustar-se de localizações e probabilidades, é
o que nós percebemos como energia.
A razão pela qual você, independentemente da velocidade
com que esteja viajando, não consegue se emparelhar com um raio
luminoso, é que a zona de probabilidades se desloca com você
como sua sombra. Tentar apostar corrida com a luz é como tentar
fugir de seus próprios pensamentos.

A chamada velocidade da luz é simplesmente o limite, em
relação à localização original, da distância na qual uma partícula
pode surgir para a existência. Se a partícula voltar à existência a
pouca distância da posição original, a velocidade daquela partícula,
percebida por nós, será baixa. Se cada nova aparição ocorrer a uma
grande distância do ponto de partida, a velocidade percebida será
muito mais alta. Há um limite prático para o quanto uma partícula
poderá, ao surgir, estar distante do ponto original. Esse limite é o
que dá à luz uma alta velocidade aparente.
— Meu cérebro está doendo – declarei.

ABELHAS CURIOSAS
— Por que razão as pessoas têm religiões diferentes? –
indaguei. — Parece que a melhor acabaria por vencer, finalmente,
e iríamos todos acreditar na mesma coisa.
O velho fez uma pausa e balançou-se. Aconchegou as duas
mãos sob a manda de xadrez vermelho.
— Imagine que um grupo de abelhas curiosas pousasse do
lado de fora da janela de uma igreja. Cada abelha está vendo o
interior através de um pedaço diferente do vitral. Para uma delas, o
interior da igreja é todo vermelho. Para outra, ele é todo amarelo, e
assim por diante. As abelhas não podem vivenciar diretamente o
interior da igreja; elas só podem vê-lo. Não podem jamais tocar o
interior, nem cheira-lo, nem interagir com ele de forma alguma. Se
as abelhas pudessem falar, talvez discutissem sobre a cor do
interior. Cada abelha se agarraria à sua versão, incapaz de entender
que as outras estiveram olhando através de trechos diferentes do
vitral. Nem irão entender a finalidade da igreja, nem como ela
surgiu ali, nem coisa alguma sobre ela. O cérebro de uma abelha
não é capaz de tais coisas.
Mas essas abelhas são curiosas. Quando não entendem uma
coisa, sentem-se inquietas e infelizes. A longo prazo, as abelhas
teriam de escolher entre a permanente curiosidade, um estado
mental incômodo, e a ilusão. As abelhas não gostam dessas opções.
De preferência, elas conheceriam a verdadeira cor do recinto da
igreja e a finalidade desta; contudo, cérebros de abelha não foram
projetados para esse nível de compreensão. Elas têm que escolher
uma das duas coisas possíveis: ou o desconforto ou a auto-ilusão.
As abelhas que optarem pelo desconforto serão uma companhia
desagradável e acabarão no ostracismo. As abelhas que optarem
pela auto-ilusão formarão um grupo no intuito de reforçar sua

visão de um, recinto avermelhado, ou de recinto amarelado e assim
por diante.
— Então você está dizendo que nós somos como umas
abelhas estúpidas? – perguntei, tentando tornar mais leve o clima.
- Pior. Nós somos curiosos.

FORÇA DE VONTADE
— Você está em muito boa forma – observou o velho.
— Faço ginástica quatro vezes por semana.
— Quando vê um obeso, que pensa da força de vontade dele?
- Acho que ele não tem muita – retruquei.
- Por que pensa assim?
— Será tão difícil não comer aquela terceira tigela de
sorvete? Eu estou em boa forma porque faço ginástica e me
alimento direito. Não é fácil, mas eu tenho força de vontade.
Algumas pessoas não têm.
— Se você estivesse passando fome, poderia resistir à
tentação de comer?
— Duvido. Em todo caso, não poderia resistir muito tempo.
— Mas com o estômago cheio, suponho que você poderia
resistir facilmente.
— Claro.
— Parece que é a fome que determina suas ações, e não a
chamada força de vontade.
— Não, você está pegando dois pontos extremos: o passar
fome e o estar repleto – disse eu. — Na maior parte do tempo,
estou no meio. Posso comer um pouquinho ou posso comer muito,
mas a opção é minha.
— Você algum dia já esteve com muita fome, não a ponto de
morrer de fome, porém muito faminto, e se apanhou comendo até o
estômago doer?
— Sim, mas na média eu não como em excesso. Às vezes
estou ocupado e passo metade do dia sem me lembrar de comer.
Acaba uma coisa equilibrando a outra.
— Não vejo como a força de vontade entra em sua vida –
contestou. — Em um caso, você come demais; em outro caso, você
simplesmente se esquece de comer. Não vejo força de vontade em
absoluto.
— Eu não como em excesso cada vez que eu vou comer. Namaior parte do tempo, tenho uma fome média e como porções
médias. Eu gostaria de comer mais, mas não como. Isso é força de
vontade.
— E segundo você, os obesos têm menos dessa coisa que você chama de força de vontade?
— É óbvio que sim, ou eles comeriam menos.
— Não será possível os obesos terem a mesma dose de força de vontade que você tem, mas com uma fome muito maior?
— Eu acho que as pessoas têm que assumir responsabilidades pelos seus próprios corpos – repliquei.
— Assumir responsabilidade? Parece que você está tentando substituir o termo força de vontade por duas novas palavras, na
esperiência de que eu ache que se trata de um novo pensamento.
Eu ri. Ele tinha me pegado.
— Está bem, pode me dizer – falei, sabendo que havia umpensamento mais profundo por trás dessa linha de questionamento.
— Nós gostamos de acreditar que as outras pessoas têm o
mesmo nível de necessidades que nós, apesar de todas as provas
em contrário. Estamos convictos de que os indivíduos só diferem
no grau de moral ou de força de vontade, ou ambas combinadas.
Mas as necessidades são reais, e elas diferem extremamente de um
indivíduo para outro. A moral e a força de vontade mais premente é
a que sempre vence, e a força de vontade nunca entra nisso. Força
de vontade é uma ilusão.
— Sua interpretação é perigosa – comentei. — Você está dizendo que estamos autorizados a atender a nossas necessidades,
independentemente do certo e do errado, porque, de toda forma,
não há o que se possa fazer. Desse jeito, mais vale esvaziar as
prisões, já que as pessoas não conseguem deixar de cometer
crimes. Segundo você, não se pode realmente culpá-las.
— É importante para a sociedade, que nossas necessidades
sejam temperadas pela vergonha, e pela condenação, e pela ameaça de punição – disse ele. — É uma ficção útil condenar uma coisa
chamada força de vontade e fingir que o indivíduo é de alguma
forma capaz de superar suas carências com essa força mágica e
invisível. Sem tal ficção, não poderia haver condenação, nem
indignação, nem consenso universal de que algumas coisas devem
ser punidas. E sem essas forças limitativas muito concretas, nossas
necessidades estariam menos contidas e seriam mais perturbadoras
do que são. A ilusão da força de vontade é uma ficção prática.
— Eu nunca mais vou ver uma torta como eu via antes –
declarei. — Mas, e as pessoas que têm um metabolismo mais
lento? Mesmo comendo pouco elas engordam.
— Você já viu fotos de gente passando fome? – perguntou.
— Sim.
— Quantas daquelas pessoas eram gordas?
— Nenhuma que eu tinha visto. Elas são sempre pele e ossos.
Mas isso é diferente.
— É muito diferente, mas mesmo assim, segundo sua teoria,
alguma dessas pessoas deviam continuar gordas enquanto
passavam fome.
Eu não tinha uma resposta para isso. Fiquei contente de
mudarmos de assunto.

TERRAS SANTAS
— Oque torna santa uma terra santa? – perguntou.
— Bem, normalmente é porque ocorreu ali algum importante acontecimento religioso.
— O que significa dizer que uma coisa ocorreu num local específico, quando sabemos que a Terra está constantemente em
movimento, rodando em trono de seu eixo e seguindo a órbita do
sol? E que nós estamos numa galáxia em movimento, que faz parte
de um universo em expansão. Mesmo que você tivesse uma
espaçonave e pudesse voar para qualquer lugar, nunca pode voltar
ao local de um acontecimento passado. Não haveria qualquer
equivalente do local passado, pois a localização depende de nossa
distância em relação a outros objetos, e todos os objetos do
universo teriam, àquela altura, se movimentado consideravelmente.
— Entendo seu argumento, mas na Terra os sítios sagrados mantêm uma relação com outros lugares do planeta, e essas coisas
não se movem muito – comentei.
— Vamos dizer que você cavou toda a terra, as pedras e avegetação de um lugar santo, transferindo tudo para outro lugar e
não deixando senão um buraco de quase dois quilômetros de
profundidade no local original. Será que agora a terra santa é o
novo local onde você coloca a terra, e as pedras e a vegetação, ou é
o antigo local com o buraco?
— Acho que ambos seriam considerados santos – declarei,
apostando nos dois lados.
— Suponha que você retirou do local sagrado apenas acamada mais superficial do solo e da vegetação, o material mais
recente depositado pelos ventos, ou o que cresceu depois de
ocorrerem os fatos religiosos, há milhares de anos. O lugar onde
você jogou a terra superficial e a vegetação, o material mais

recente depositado pelos ventos, ou o que cresceu depois de
ocorrerem os fatos religiosos, há milhares de anos. O lugar onde
você jogou a terra superficial e a vegetação seria santo?
— Isso é um pouco mais complicado – disse eu. — Eu diria que o novo local não é santo, pois a terra superficial que você
transferiu para lá não é, por si mesma, solo sagrado. Se o solo
sagrado pudesse transformar em solo sagrado tudo o que ele
tocasse, então o planeta inteiro seria sagrado.
O velho sorriu.
— O conceito de localização, quando aplicado à posse de bens imobiliários ou quando usado para orientar alguém a chegar
às lojas, é uma ilusão de ordem prática. Mas quando é visto através
dos olhos de um Deus onipotente, o conceito de localização é
absurdo.
Enquanto estamos aqui conversando, nações estão se
armando para lutar pelo controle de terras que elas consideram
santas. Elas são presas na armadilha da ilusão de que localizações
são coisas reais, e não apenas ficções da mente. E muitos morrerão.

LUTANDO CONTRA DEUS
— Então, para que serve tudo isso? – perguntei. —
Digamos que você me convenceu de que a probabilidade é a
melhor forma de compreender o universo, e de que ela é a essência
de Deus. Em que isso me ajuda? Devo rezar para esse seu Deus?
Preciso satisfazê-lo de alguma forma?
— A probabilidade é a expressão da vontade divina.
Obedecer à probabilidade só faz atender a seus interesses.
— Como é que eu obedeço à probabilidade?
— A remontagem de Deus pede gente, gente viva e saudável
– explicou. — Quando você usa o cinto de segurança, aumenta suas chances de viver. Isso é obediência à probabilidade. Quando
se embriaga e dirige sem o cinto de segurança, você está lutando
contra a probabilidade.
— Não vejo como possa estar ajudando a remontagem de
Deus – contestei. — Eu só entrego pacotes. Não estou projetando a
internet nem nada assim.
— Toda via atividade econômica ajuda. Esteja programando
computadores, ou produzindo alimentos, ou criando filhos, ou
varrendo lixo nas ruas, você está contribuindo para a realização da
consciência de Deus. Nenhuma dessas atividades é mais
importante do que outra.
— E quanto ao bem e ao mal? Eles existem em seu modelo?
– perguntei.
— O mal é qualquer ação que possa prejudicar as pessoas. A
probabilidade geralmente castiga os malfeitores. Já que, em sua
maioria, os criminosos são apanhados e postos na prisão, as
pessoas que prejudicam outras em geral costumam pagar. Então o
mal existe e, de modo geral, recebe punição.
A vida tem um jeito e um fluir que são próprios dela.

Normalmente conhecemos por instinto quando estamos
trabalhando com a probabilidade a nosso favor e quando estamos
lutando contra ela. Quando você, por exemplo, encara seus estudos
com seriedade, está aumentando enormemente sua probabilidade
de contribuir para a remontagem de Deus. Quando você ama e
respeita aos demais e procria com responsabilidade, você está
vivendo dentro do cone de segurança da probabilidade. Você está,
em certo sentido, cumprindo a vontade de Deus.
— Isso parece a definição de carma – aleguei. — Quando
você faz coisas boas, recebe coisas boas.
— Sim, mas as coisas boas não voltam na base do
toma-lá-dá-cá. As ações individuais não são recompensadas diretamente. É só na média que as boas ações melhoram a
qualidade de vida para você e as pessoas a seu redor.
— Deus, digamos assim, perdoa as pessoas?
— Sim, essencialmente, ao exercer o controle sobre a média
das atividades humanas, em vez de sobre os atos individuais. Cada
um tem a oportunidades de melhorar sua contribuição média para a
sociedade, independentemente do que tiver feito no passado.
— E a vida após a morte? Onde está o ganho? Que diferença
faz para mim o fato de dar ou deixar de dar uma contribuição para
a sociedade? De qualquer jeito, alguma hora eu vou morrer. Por
que eu deveria me importar se Deus vai ficar consciente ou não? –
inquiri.
— Quer você, como indivíduo, esteja em harmonia com a
probabilidade ou não, Deus ficará consciente. Deus controla as
médias, e não os indivíduos. O ganho para você, a curto prazo, por
contribuir para a consciência de Deus é ter menos problemas em
sua vida diária, menos estresse e mais felicidade.
O estresse é a causa de toda a infelicidade, e ele surge em
infinitas variedades, todas elas com uma causa comum. O estresse
é um resultado de se lutar contra a probabilidade, é o atrito entre o
que você está fazendo e o que você deveria esta fazendo para viver
dentro da probabilidade.

— Isso parece simplista – retruquei. — Às vezes, o estresse
só atingi alguém porque a pessoa está no lugar errado no momento
errado. Digamos que um membro da família morra de velhice. Isso
é estressante, mas não há nada que se possa fazer.
— Não dá para eliminar de nossa vida o estresse. Mas você
pode reduzi-lo ao estar em harmonia com a probabilidade. Você
pode lidar mais facilmente com a morte de uma pessoa amada se
tiver feito o necessário planejamento do espólio, e estiver
psicologicamente preparado para o inevitável. Se você tem sido um
bom amigo de muitos e tem mantido a proximidade com seus
familiares, a perda será suavizada. Se você permite à sua mente
abrir mão do passado, em vez de tentar querer que o falecido volte
à vida, ou desejar ter agido de outra forma, então seu estresse vai
ser menor.
— E a vida no além? Todos os benefícios estão aqui e agora
ou existe alguma coisa depois?
— Com o tempo, acontece tudo o que é possível acontecer.
Esta é uma qualidade fundamental da probabilidade. Se você joga
uma moeda para cima com a freqüência necessária, em algum
momento vai dar cara mil vezes seguidas. E tudo o que é possível
acontecerá muitas vezes, enquanto existirem as partículas de Deus.
O pedaço de partícula que engloba seu corpo e sua mente algum
dia irá se partir e desintegrar, mas uma versão de você reaparecerá
no futuro, por acaso.
— Você está dizendo que eu vou reencarnar?
— Não exatamente. Estou dizendo que uma réplica de sua
mente e seu corpo existirá no futuro distante, por acaso. E a s
coisas que você fizer agora podem tornar a vida mais agradável ou
mais difícil para sua réplica.
— Por que eu deveria me importar com uma réplica de mim?
É um outro sujeito.
— Essa distinção é uma ilusão. Em sua vida atual, cada célula
de seu corpo já morreu e foi substituída muitas vezes. No seu corpo
atual, não há mais nada do tempo em que você nasceu. Você não

tem mais nada do equipamento original, só tem peças de reposição;
logo, para fins práticos, você lá é uma réplica de sua versão
anterior.
— Sim, mais minhas lembranças continuam comigo. A minha
réplica no futuro distante não terá nenhuma das lembranças e dos
sentimentos que compreendem minha vida – objetei.
— Haverá muitas réplicas de você no futuro, e não uma só.
Algumas viverão vidas parecidas com a sua, com lembranças e
sentimentos semelhantes. As réplicas serão diferentes de você
somente no conceito, não em termos práticos.
— O que me agrada em sua visão de Deus é que fica fácil
seguir regras. Tudo o que eu preciso fazer é seguir a probabilidade.
— Às vezes é fácil – assentiu. — Outras vezes será difícil
discernir as probabilidades corretas. Deu hoje no noticiário que os
adolescentes que declaram de público o compromisso de não ter
atividade sexual, comparados aos que não se comprometem, têm
mais sucesso em se abster. Que conclusão você tiraria dessa
história em relação às probabilidades?
— Obviamente, assumir o compromisso em público ajuda.
Isso melhora as probabilidades que você tem.
— Pode ser. Ou talvez os adolescentes que quisessem se
abster fossem os únicos dispostos a assumir um compromisso
público. Ou talvez os adolescentes que se comprometeram sejam
mais propensos a mentir posteriormente sobre seu desempenho
sexual. A probabilidade é simples, mas nem sempre é óbvia.

RELACIONAMENTOS
O velho balançou-se mais um pouco e sorriu para mim.
— Você fica sozinho a maior parte do tempo.
Ele tinha razão. Eu gostava de ficar sozinho. Eu tinha amigos,
mas sempre ficava feliz em voltar para casa.
— Como é que você sabe disso?
— Suas pupilas ficam dilatadas quando eu falo de idéias.
— É mesmo?
— Há dois tipos de gente no mundo, meu jovem amigo. Um
tipo é orientado para pessoas. Quando esse tipo conversa, é a
respeito de gente – o que as pessoas estão fazendo, o que alguém
disse, como alguém se sentiu. O outro grupo é orientado para
idéias. Quando eles conversam, falam a respeito de idéias, e
conceitos, e objetos.
— Eu devo ser uma pessoa de idéias.
— Você é. Isso causa problemas em sua vida pessoal, mas
você não percebe de que modo.
— Isso é uma presunção de sua parte. O que o leva a pensar
que eu tenho problemas em minha vida pessoal?
Tive de admitir que ele estava certo. Todo mundo tem uma
vida pessoal imperfeita, mas para mim tal imperfeição era quase
um princípio definidor.
Ele continuou:
— Pessoas de idéias, como você, são maçantes até mesmo
para outras pessoas de idéias.
— espera aí, estou ofendido – interrompi, não me sentindo
realmente ofendido. — Eu reconheço que não sou a alegria da
festa. Sempre que tento injetar alguma coisa interessante numa
conversa, todo mundo cala a boca até alguém mudar de assunto. Eu
me acho muito interessante, mas ninguém acha. Quem conversa
sobre gente parece que fica jogando conversa fora, mas eu
normalmente tenho coisas interessantes para dizer. Eu esperava
que as pessoas gostassem disso.
— Na verdade, quem conversa sobre gente dá apenas a
impressão de jogar conversa fora – retrucou. — No fundo, eles
estão falando sobre o assunto com que todos se importam, estão
falando de gente. Quando alguém fala de gente, fala de algo
pessoal para todos os que ouvem. Você automaticamente irá
relacionar a história consigo mesmo, pensando em como você
reagiria na situação daquela pessoa, em como sua vida tem
paralelos. Por outro lado, se você contar uma história sobre o novo
tipo de ferramenta que encontrou na loja de ferragens, ninguém
poderá se relacionar com a ferramenta do nível pessoal. Trata-se
apenas de um objeto, não importa o quanto seja útil ou inovador.
— Tudo bem, então como é que eu faço para me tornar mais
interessante?
— Se eu lhe desse um conselho, você iria segui-lo?
— Talvez. Depende do conselho.
— Não, você não seguiria o conselho. Ninguém jamais
seguiu o conselho de outra pessoa.
— Agora você está sendo indelicado – protestei. — é óbvio
que as pessoas seguem conselhos o tempo todo. Não é ilusão.
— As pessoas acham que seguem conselhos, mas elas não
seguem. Os seres humanos são incapazes de receber informações.
Eles criam seu próprio conselho. Se você procura influenciar
alguém, não perca seu tempo dando conselhos. Você só pode
mudar o que as pessoas sabem, não o que elas fazem.
— Pois muito bem, você pode me dar alguma informação que
ajude a minha vida pessoal?
— Talvez – disse o velho, apertando mais a manta de xadrez
vermelho em torno do corpo miúdo. — Que tópico interessa a você
acima de qualquer outro?
— Acho que eu mesmo – confessei.
— Sim, aí está a essência do ser humano. Qualquer um que
encontramos numa festa está interessado em sua própria vida,
acima de qualquer outro assunto. Os silêncios que constrangem
você podem ser resolvidos simplesmente fazendo perguntas
simples sobre a vida daquela pessoa.
— Isso seria totalmente hipócrita – declarei. — Para começar,
seria como submetê-la a interrogatório. Em segundo lugar, eu não
poderia me fingir interessado nas respostas. Se por acaso o outro
for algum vendedor de calçados que vive com a mãe em Albany,
meus olhos vão ficar vidrados.
— Pareceria hipócrita a você no momento de fazer a
pergunta, mas não pareceria assim para o estranho. Para ele é um
presente inesperado, uma oportunidade de desfrutar um dos
maiores prazeres da vida: falar sobre si mesmo. Ele ficaria animado
e começaria a gostar de você ali mesmo. Você daria a impressão de
ser um interlocutor arguto e talentoso, mesmo que sua única
contribuição fosse fazer perguntas e ouvir. E teria afastado o medo
do estranho do silêncio embaraçoso. Com, isso terá garantida a
gratidão dele.
— Isso resolveria o problema do estranho, mas me obrigaria acantilena dele sobre si mesmo. É pior a emenda que o soneto.
— Suas perguntas ao estranho são só pontos de partida. Dali
você pode dirigi-lo para a coisa que você mais aprecia – você
mesmo.
— Será que ele não ia querer falar de si mesmo, em vez de
falar de mim?
— Quando descobrimos como os outros lidam com as
situações deles, isso se torna relevante para nós – esclareceu. —
Sempre haverá paralelos com nossas vidas. Descubra o que vocês
têm em comum, então pergunte como ele vê a questão, como lida
com ela, se tem alguma solução brilhante. Quem sabe ambos
gastam longo tempo da casa ao trabalho, ou têm uma mãe que fica
telefonando demais, ou praticam esqui. Encontre aquele ponto de
interesse comum e ambos acabarão falando cada um sobre si
mesmo, para alegria um do outro.

— E que me diz de se compartilhar opiniões sobre coisas
importantes? – perguntei. — Estou sempre discutindo com os
outros. Sempre me parece que eu tenho uma visão mais ponderada das coisas, e me sinto com a responsabilidade de corrigi-los. Às
vezes, porém, eu preferia ter calado a boca. Mas quando você ouve
as opiniões malucas que têm algumas pessoas, na verdade, a
maioria delas, como vai conseguir deixar pra lá?
— Você já se apanhou no meio do trânsito, atrás de alguém
que não deu a partida com o sinal verde, e aí você buzina e só
depois descobre que o carro dele está enguiçado e que ele não
podia fazer nada?
— Tudo bem, eu buzinei; é constrangedor – admiti.
— Na maioria, as desavenças são como este meu exemplo.
Duas pessoas têm uma informação distinta, mas acham que a raíz
da divergência é a outra pessoa não ter um bom discernimento, ou
boas maneiras, ou bons valores. De fato, a maioria das pessoas, se
tivesse a mesma informação, iria coincidir nas opiniões. Se você
gasta seu tempo discutindo sobre as falhas das opiniões alheias,
desperdiça seu tempo e o tempo alheio. A única coisa que pode ser
útil é examinarem as diferenças de pressupostos e acrescentaremalgo à informação um do outro. Às vezes, é o bastante para fazer
convergirem os pontos de vista depois de algum tempo.
— Oba, se você pode me ensinar a ter um bom
relacionamento com as mulheres, eu vou gostar.
— Posso lhe contar algumas coisas.
— Aceito qualquer ajuda que venha.
— As mulheres acreditam que os homens são, em certo
sentido, versões defeituosas das mulheres – começou. — os dois
sexos caíram na armadilha da ilusão de que seus pontos de vista
pessoais são universais. A visão de que cada sexo é uma versão
defeituosa do sexo oposto é a raíz de todos os mal-entendidos.
— Em que isso me ajuda? – Indaguei.
— As mulheres se definem por seus relacionamentos e os
homens se definem por que eles estão ajudando. A mulher acredita
que calor se cria com sacrifício. Se você estiver disposto a
abandonar suas atividades favoritas para estar com ela, ela confiará
em você. Se estar com ela é fácil demais para você, ela não
confiará em você. No começo você pode realizar seus sacrifícios
simbolicamente, saindo mais cedo do trabalho para comprar flores,
cancelando seu jogo de bola para encontrar-se com ela, esse tipo de
coisa.
— Por que parece que os caras ricos e famosos conseguem
todas as mulheres? Perguntei.
— Em parte porque os ricos e famosos são capazes de fazer
sacrifícios maiores. O homem comum, para estar com uma mulher,
pode estar sacrificando uma noitada de televisão. O homem rico e
famoso pode estar sacrificando uma semana no Taiti. Por muito
que se fale da atração exercida pelo poder e pela segurança que
transpira um homem rico e poderoso, mais importante é a
capacidade de sacrifício.
— O que os homens valorizam? – Perguntei.
— Os homens acreditam que o valor é criado pelas razões;
eles têm objetivos para as mulheres de suas vidas. Se a mulher
alcançar os objetivos, ele conclui que ela o ama; se ela não
consegue alcançá-los, ele conclui que ela não o ama. O homem
supõe que se o amasse, a mulher teria tentado com mais empenho,
e ele sempre acredita que os objetivos que traçou para ela são
razoáveis.
— Que objetivos?
— Para cada homem os objetivos variam. Os homens
raramente compartilham esses objetivos, já que fazê-lo é
desastroso. Nenhuma mulher aceitaria que lhe dessem uma série de
objetivos.
— Então, o que o sujeito deve fazer, se a mulher de sua vida
não alcança esses objetivos secretos? Como ele pode conseguir que
ela mude?
— Ele não pode – replicou. — Os homens podem ser
modificados em pequenas coisas, vestuário, corte de cabelo,
maneiras, porque essas coisas não são importantes para a maioria
dos homens. As mulheres não podem ser mudadas de jeito
nenhum.
— Não estou ouvindo aqui nada que me ajude.
— O máximo que se pode esperar numa relação é encontrar
alguém cujos defeitos sejam do tipo que não nos incomodam. É
ocioso procurar alguém sem defeitos, ou capaz de mudanças
significativas; esse tipo de pessoa só existe em nossa imaginação.
— Digamos que eu encontre uma pessoa cujos defeitos não
me incomodem – propus. — O difícil é conservá-la; não tenho tido
muita sorte nesse departamento.
— Uma mulher precisa que você se declare disposto a
sacrificar qualquer coisa por ela. Um homem precisa que lhe
declarem que está sendo útil. Quando algum deles se desvia dessa
fórmula, o outro perde a confiança. E quando a confiança é
perdida, a comunicação se deteriora.
— Não acho que você precise confiar em alguém para se
comunicar. A mesma facilidade para conversar com alguém que
confio, encontro para conversar com alguém em quem não confio.
— Sem confiança, você só pode comunicar coisas triviais. Se
você tentar comunicar algo importante sem ter o embasamento da
confiança, vão desconfiar de que você possa ter algum cronograma
secreto. Analisarão suas palavras à cata de significados ocultos e
sua mensagem simples será turvada pelas suspeitas.
— Acho que estou entendendo. Como posso angariar mais
confiança?
— Mentindo.
— Agora você está brincando, não é?
— Você deve mentir sobre os seus talentos e conquistas,
descrevendo as vitórias em termos depreciativos, como se elas
fossem o fruto da sorte. E deve exagerar seus defeitos.
— Por que diabos eu ia querer dizer aos outros que era um
fracasso e um idiota? Não é melhor ser honesto?
— A honestidade é comparável à comida. Ambas são
necessárias, mas em excesso provocam desconforto. Quando
minimiza suas realizações, você faz os demais se sentirem melhor
em relação às realizações deles. É desonesto, porém amável.
— Esse conselho é bom. Que outras dicas você tem?
— Você acha que uma conversa casual é perca de tempo.
— Claro, a menos que tenha alguma coisa a dizer. Não sei
como as pessoas conseguem tagarelar sobre coisa nenhuma.
— O seu problema é que você considera a conversa um modo
de trocar informação – declarou.
— É isso que ela é – concordei, na certeza de estar
assinalando o óbvio.
— A conversa é mais do que a soma das palavras. É uma
forma de assinalar a importância do outro, mostrando nossa
inclinação a conceder àquela pessoa nosso recurso mais escasso:
tempo. É uma forma de comunicar respeito. O ato de conversar nos
lembra que somos parte de um todo maior, ligado de uma forma
que vai além do dever, ou do parentesco, ou das relações pessoais.
As conversas podem ser muitas coisas, mas nunca serão inúteis.
Durante as horas seguintes, o velho revelou mais de seus
ingredientes para uma vida social bem-sucedida. Manifeste sua
gratidão. Dê mais que o esperado. Fale com otimismo. Toque nas
pessoas. Lembre-se dos nomes. Não confunda flexibilidade com
fraqueza. Não julgue as pessoas pelos erros cometidos; em vez
disso, você deve julgá-las por seu modo de reagirem aos erros.
Lembre-se de que sua aparência física é para o benefício dos
outros. Atenta primeiro a suas próprias necessidades básicas; de
outro modo, você não será útil a ninguém.
Eu não sabia se seria capaz de incorporar seus ingredientes à
minha vida, mas parecia possível.

AFIRMAÇÕES
— Ouvi falar de algo chamado afirmações – disse eu,
aproveitando a oportunidade para explorar outro nível no cérebro
do velho. — Você escreve seus objetivos quinze vezes por dia e
então, de certo modo, eles se realizam como num passe de mágica.
Conheço gente que jura que funciona. Isso realmente funciona?
— A resposta é complicada.
— Estou com tempo – respondi.
— As pessoas que usam afirmações sabem o que querem e
estão querendo trabalhar por isso; do contrário, não teriam
entusiasmo para escrever seus objetivos quinze vezes por dia. Não
é de espantar que alcancem mais sucesso que a pessoa comum.
— È porque trabalham com mais afinco?
— É porque sabem o que querem – esclareceu. — A
capacidade de trabalhar com afinco e de fazer sacrifícios vem
naturalmente para aqueles que sabem, exatamente o que querem. A
maioria das pessoas acredita que tem objetivos, quando, de fato, só
tem desejos. Elas talvez lhe digam que seu objetivo é enriquecer
sem trabalhar muito, sem fazer sacrifícios nem assumir riscos. Isso
não é um objetivo, é uma fantasia. É pouco provável que essas
pessoas escrevam afirmações diariamente, porque seria demasiado
esforço. E é pouco provável que sejam bem-sucedidas em qualquer
escala maior.
— Logo, as afirmações são desnecessárias?
— Elas têm um propósito. Escrever diariamente seus
objetivos dá a você um nível mais elevado de foco. Deixa sua
mente sintonizada para melhor reconhecer as oportunidades ao seu
redor.
— O que você quer dizer com deixa sua mente sintonizada?
— Você já passou pela experiência de ouvir pela primeira vez
uma palavra desconhecida, e logo depois ouvir a mesma palavra de
novo?
— Isso acontece o tempo todo – confessei. — É uma loucura.
É como se o fato de ouvir a palavra uma primeira vez fizesse comque ela aparecesse em todo lugar. É como a palavra festuca. Eu
nunca tinha ouvido essa palavra, até vê-la escrita numa embalagem
de semente de grama, semana passada, na loja. Naquela mesma
noite fui a uma festa e um cara usou essa palavra. Tenho certeza de
nunca tê-la ouvido antes em minha vida. E ai, numa questão de
horas, eu a escuto duas vezes. Qual era a probabilidade de
acontecer isso? E ontem à noite eu estava na casa de meu vizinho
de rua, jogando bilhar na mesa nova dele. Perguntei-lhe se já tinhajogado totó. É aquele jogo de mesa em que você usa umas varas
que liga pequenos jogadores de futebol e tenta chutar uma bola de
madeira para dentro do gol do outro cara.
O rosto do velho me dizia que não lhe interessava os
detalhes da mesa de totó.
— Pois bem – prossegui –, conversamos sobre totó uns vinte
minutos, sobre o fato de que jogávamos totó nos tempos de
faculdade, mas há anos não víamos uma mesa de totó. Eu não
conseguia nem lembrar qual foi a ultima vez que disse a palavra
totó. Quinze minutos depois, estou andando para casa e alguma
coisa na janela me chama a atenção. Adivinha só se não era um
bando de garotos jogando totó. Eu tinha passado diante da casa
milhares de vezes sem nunca ter visto aquela mesa na janela antes.
— O cérebro da gente só consegue processar uma parcela
mínima do ambiente em torno de nós – informou. — Ele se arrisca
a ser esmagado pelo volume de informação que nos bombardeia a
cada minuto de vigília. O cérebro compensa filtrando 99,9% do
ambiente que não lhe interessa. Quando você reparou na palavra
festuca pela primeira vez, e ela ficou rodando em sua cabeça, sua
mente sintonizou-se com a palavra. Por isso, você tornou a
escutá-la tão cedo.
— Mesmo assim é uma coincidência. Não creio que fiquem
dizendo essa palavra perto de mim todo dia.
— Sim, ainda é uma questão de probabilidade. Mas festuca e
totó são apenas algumas das palavras e idéias insólitas para as
quais você sintonizou o cérebro esta semana. Como as outras não
voltaram a cruzar seu caminho, você não deu pela falta delas. Se
pensarmos em todas as coincidências possíveis, não é de se
espantar que todo dia você vivencie algumas. A pessoa que faz
afirmações leva a sintonia mental a um nível mais alto. O processo
de concentrar-se no objetivo a cada dia aumenta imensamente a
probabilidade de perceber uma oportunidade no ambiente. A
coincidência criará a ilusão de que escrever os objetivos leva o
ambiente a produzir oportunidades. Na realidade, porém, a única
coisa que muda é a capacidade do indivíduo em perceber as
oportunidades. Não quero minimizar semelhante vantagem, pois é
uma capacidade essencial ao bom êxito.
— Bem, talvez seja parte dele – assenti –, mas ouvi contarem
algumas coincidências muito surpreendentes ocorridas com
pessoas que estavam fazendo afirmações. Um de meus amigos
estava escrevendo afirmações para duplicar a renda quando
recebeu inesperadamente o telefonema de um caçador de talentos.
Duas semanas depois estava com emprego novo e ganhando o
dobro. Como você explica isso?
— Seu amigo tinha um objetivo claro e estava disposto a
fazer mudanças em sua vida para alcançá-lo – respondeu. — A
disposição dele para fazer afirmações foi um bom prognóstico de
seu sucesso, e não necessariamente a causa do mesmo. O caçador
de talentos do exemplo que você deu fez subir o salário de muitas
pessoas naquele mês. Seu amigo foi só uma delas. As pessoas que
fazem afirmações vão ter a sensação de estar levando o meio
ambiente a se conformar à vontade delas. Este é um sentimento
imensamente agradável, já que a ilusão de controle é uma das
melhores ilusões que se pode ter.
Ele prosseguiu:
— Uma outra forma de ver as afirmações é como se fossem
um canal de comunicação entre a mente consciente e a mente
subconsciente de alguém. Muitas vezes seu subconsciente prevê o
futuro melhor que sua mente racional. Se seu subconsciente lhe
permite escrever quinze vezes por dia, durante um ano, a frase: "Eu
serei uma bailarina famosa", ele está lhe dizendo alguma coisa. Seu
subconsciente está dizendo que considera bom o prognóstico que
você tem, que ele permitirá a você fazer sacrifícios, que ele vai lhe
dar a satisfação necessária para enfrentar o árduo trabalho à sua
frente. Por outro lado, se você tentar escrever sua afirmação
durante alguns dias e achá-la trabalhosa demais, seu prognóstico
não é favorável.
— não vejo motivo para meu subconsciente ser melhor do
que minha mente consciente na previsão de meu futuro – protestei.
— Eu achava que o subconsciente fosse irracional.
— O subconsciente é uma calculadora das probabilidades.
Isso é o que ele faz naturalmente, embora nem sempre com bons
resultados. Se seu subconsciente percebe que você perdeu dinheiro
nas três ultimas transações comerciais realizadas com gente que
usa chapéu, você nunca mais confiará de novo em alguém de
chapéu. Seu subconsciente nem sempre tem razão; ele depende da
qualidade da informação que você fornece ao dispositivo de
calcular probabilidade. Por sorte, o assunto que ele mais domina é
você, a quem conhece desde a fase uterina. Se seu subconsciente
permitir a você tirar dez minutos de seus ocupadíssimos dias para
ficar escrevendo: "Eu vou dobrar meu salário", é porque avaliou
como boas suas chances, e está qualificado para fazer tal previsão.
— Será que as afirmações não poderiam ser mais que isso? –
perguntei. —Você teve um trabalho para dizer que as coisas não
são exatamente o que parecem, mas quem garante que a
concentração nos próprios objetivos não altera a probabilidade?
— Prossiga.
— Muito bem: imagine que você é o capitão de um navio,
mas é cego e surdo. Você grita ordens à tripulação, mas não sabe
com certeza se elas foram ouvidas, ou obedecidas. Só sabe é que
quando ordena a partida para um determinado porto de clima
quente, alguns dias depois chega a um lugar de clima quente. Você
nunca pode ter certeza se a tripulação obedeceu as suas ordens, ou
se o levou para algum outro lugar de clima quente, ou se não
saíram do lugar e o tempo melhorou. Se, conforme você sustenta,
nossas mentes são geradoras de ilusões, então somos todos
comandantes surdos e cegos de algum barco, gritando ordens para
o universo na esperança de que isso vá mudar alguma coisa. Não
há maneira de sabermos o que realmente funciona e o que
meramente parece funcionar. Logo, será que não faria sentido,
mesmo sem termos certeza, tentar todas as coisas que parecem
funcionar?
— Você tem potencial – comentou.
Eu não sabia o que aquilo queria dizer.

QUINTO NÍVEL
— Quem é você? – perguntei. Eu não sabia como fazer
delicadamente a pergunta. O velho, com certeza, não era normal.
- Sou um Avatar.
— Isso é uma espécie de título? Pensei que fosse seu nome.
— São as duas coisas.
— Desculpe eu perguntar isso; não sei exatamente como
perguntar, então lá vai...
— Você quer saber se eu sou humano.
— Sim; desculpe se parece maluquice. É só que...
Com um aceno, o velho dispensou o fim da frase:
— Eu entendo. Sim, sou humano. Sou um ser humano de
quinto nível: um Avatar.
— Quinto nível?
— As pessoas existem em diversos níveis de consciência. Um
Avatar é alguém que vive no quinto nível.
— A consciência é como a inteligência?
— Não, a inteligência é uma medida de como você funciona
bem dentro de seu nível de consciência. Sua inteligência vai ser
mais ou menos a mesma coisa a vida toda. A consciência é
completamente diferente da inteligência; a consciência passa pela
capacidade de reconhecer as próprias ilusões como tais. A
consciência da maioria das pessoas avança um ou dois níveis
durante a existência.
— O que significa reconhecer ilusões?
— Quando você era criança, seus pais lhe disseram que Papai
Noel trazia presentes no dia de Natal?
— Sim – admiti –, eu acreditei em Papai Noel até chegar ao
jardim de infância, quando os outros garotos começaram a
comentar. Então percebi que Papai Noel não tinha como chegar a
todas aquelas casas numa mesma noite.
— Sua inteligência não mudou no momento em que você
percebeu que Papai Noel era uma fantasia inofensiva. Seu talento
para matemática e atividades verbais continuou igual, mas sua
consciência aumentou. Você ficou subitamente consciente de que
histórias vindas de fontes confiáveis, neste caso, seus pais, podiam
ser completamente inventadas. E a partir do momento dessa
percepção, nunca mais você conseguiu ver o mundo da mesma
forma, pois sua percepção da realidade mudou.
— Acho que sim.
— E na escola? Você aprendeu que os ameríndios e os
peregrinos se juntaram para celebração do que seria o Dia de Ação
de Graças nos Estados Unidos?
— Aprendi.
— Você achou que era verdade porque estava escrito num
livro e porque seus professores disseram que aconteceu. Você
estava na escola com o objetivo específico de aprender a verdade.
Mas agora os peritos nos esclareceram que nunca se deu um
primeiro Dia de Ação de Graças com peregrinos e ameríndios.
Como no caso de Papai Noel, muito do que consideramos história é
simplesmente uma invenção.
— Nos exemplos citados por você, sempre o assunto é o
aprender. Isso me parece relacionado à inteligência, e não à
consciência.
— A consciência diz respeito ao não aprender . É uma
admissão de que você não sabe tanto quanto achou que sabia.
Ele descreveu o que chamou de cinco níveis de consciência e
revelou que todos os seres humanos vivenciam o primeiro nível de consciência ao nascer. É o primeiro momento em que você está
consciente de existir.
No segundo nível consciência você entende que existem
outras pessoas. Você acredita na maior parte daquilo que dizem as
figuras de autoridade. Você aceita o sistema de crenças segundo o
qual está sendo criado.

No terceiro nível da consciência você reconhece que os seres
humanos muitas vezes se enganam sobre as coisas em que
acreditam. Você sente que talvez esteja equivocado em relação a
algumas de suas convicções, porém não sabe quais. Apesar das
dúvidas, você ainda encontra consolação em suas crenças.
O quarto nível é o ceticismo. Você acredita que o melhor
indicador do verdadeiro é o método cientifico, e acredita que
possui uma compreensão sólida e operacional da verdade, graças à
ciência, à sua lógica e a seus sentidos. Você se torna arrogante no
tratar com as pessoas do segundo e terceiro níveis.
O quinto nível de consciência é o Avatar. O Avatar entende
que a mente é um gerador de ilusões, e não uma janela para a
realidade. O Avatar reconhece que a consciência, mesmo sendo
útil, é um sistema de crenças, um avatar está consciente do poder
de Deus como manifesto na probabilidade, e está consciente da
inevitável recombinação da consciência divina.
— Acho que sou um quarto nível – avaliei –, segundo o seu
critério, pelo menos.
— Sim, você é um quarto – confirmou ele.
— Mas agora que você me contou todos os seus segredos doquinto nível, talvez eu consiga subir um nível. É assim que
funciona?
— Não – objetou –, a consciência não vem da recepção de
informação nova. Ela vem da rejeição de informação velha.
— Estou me sentindo ligeiramente ofendido – gracejei.
— Não devia. Não existe nenhum bem ou mal implícito em
relação ao nível de consciência. As pessoas encontram felicidades
em todos os níveis.
— Isso parece muito caridoso – comentei –, mas notei que o
seu nível é o de número mais alto. Obviamente é o nível bom.
Você deve estar se sentindo um tanto vaidoso.
— Não existe nem bem nem mal em coisa alguma, só existem
diferenças de utilidade. Em todos os níveis, as pessoas encontram,
o mesmo potencial de serem úteis.

— Mas você deve estar contente por não estar num dos
outros níveis.
— Não. A felicidade vem mais fácil em outros níveis. A
consciência tem um preço. Um Avatar só consegue encontrar
alegria em servir.
— Como é que você serve?
— Às vezes as ilusões da sociedade se desequilibram, e
quando elas entram em conflito, as emoções explodem. Aí, morre
gente. Se morrer muita gente, a recombinação de Deus fica
ameaçada. Quando isso acontece, o Avatar entra em ação.
— Como?
— Você não consegue acordar a si mesmo de um sonho.
Você precisa que alguém que já esta acordado lhe dê uma leve
sacudida, fale baixinho no seu ouvido. De certo modo, é isso que
eu faço.
— Como sempre, não tenho certeza do que você quer dizer.
Ele explicou:
— Os grandes líderes deste mundo são sempre as pessoas
menos racionais dentre nós. Eles existem no segundo nível de
consciência. Os líderes carismáticos têm uma capacidade natural
para atrair as pessoas para as ilusões deles. Eles convencem, todos
a agirem contra os próprios interesses e a adotarem as visões da
liderança sobre o bem maior. Os líderes fazem os cidadãos
entrarem em guerra para tomar territórios onde jamais viverão e
matar gente que adora religiões diferentes.
— Nem todos os líderes são irracionais – argumentei.
— Os mais eficientes são. Não é sempre que se vêem gênios
da matemática ou professores de lógica se tornarem grandes
líderes. A lógica é um empecilho à liderança.
— Bem, pelo jeito a liderança irracional funciona. O mundo,
de modo geral, parece que vai sacolejando estrada afora bastante
bem.
— Só funciona porque as ilusões das pessoas estão, na média,
em equilíbrio. O Avatar mantém as coisas assim porque
periodicamente introduz novas idéias, no momento necessário.
— Você acha que uma idéia pode mudar o mundo a tal
ponto? – perguntei.
— As idéias são as únicas coisas que podem mudar o mundo.
O resto é detalhe.

VOLTA AO LAR
Na apresentação do velho, dissolviam-se o tempo e as
necessidades. Conversamos por um período que pode ter durado
vários dias. Recordo um raiar do dia, mas pode ter havido mais de
um. Nunca me senti cansado, na presença dele. Era como se a
energia o envolvesse qual um campo invisível, alimentando tudo o
que estivesse nas proximidades. Ele era surpreendente, era
perturbador, e estava, em última análise, além do império das
palavras.
Continuamos a conversa a respeito de vida, e de energia, e de probabilidade. Às vezes eu perdia a sensação de pertencer a meu
próprio corpo. Era como se minha consciência se expandisse para
incluir objetos do aposento. Eu olhava para minha mão pousada no
braço da cadeira de balanço e observava desaparecerem as
distinções entre a madeira, o ar e a mão. Por vezes me sentia como
um gatinho levantando pela pele da nuca: frágil, protegido,
transportado.
Não me lembro de ter saído da casa nem caminhado para
minha caminhonete, mas recordo o aspecto de tudo. A cidade tinha
contornos límpidos. Os sons eram nítidos. As cores eram vívidas.
Os objetos pareciam mais dimensionais, como se , do ponto onde
me encontrava, eu pudesse ver as laterais e o fundo. Ouvi alguém
telefonando a um quarteirão de distância e eu sabia os dois lados
do dialogo. Eu era capaz de sentir qualquer variação do fluxo de ar.
Voltei para casa dirigindo por uma rota que eu normalmente
não seguia. Deslizava pelos sinais abertos sem sequer tocar nos
freios. Os pedestres ficavam na calçada e um policial me acenou
para que desviasse do local de um acidente. Eu soube que todas as
pessoas envolvidas estavam bem.
Quando enfiei a chave na fechadura, vi todas as outras
fechaduras iguais à minha e todas as outras chaves, que por
coincidência eram uma só. Vi as engrenagens internas enquanto
virava a chave na fechadura, como se eu fosse um minúsculo
observador ali dento, olhando para um equipamento de dimensões
colossais.
Tudo no meu apartamento parecia reduzido a três quartos do
tamanho original. Senti uma leve claustrofobia.
Sentei-me junto à mesa da cozinha com o pacote que o
Avatar se recusara a aceitar e fiquei olhando-o um tempo,
matutando sobre o conteúdo. Desejava abri-lo, mas não queria que
nada estragasse um estado de espírito perfeito. Com o tempo,
porém, a curiosidade venceu.
Um bilhete dobrado, escrito em papel amarelo, caiu da caixa
no meu colo. Abri o bilhete e li sua mensagem quase ilegível. Era
apenas uma frase, mas tinha tanto conteúdo que acabei lendo-o
várias vezes seguidas. Embrulhado numa manta de xadrez
vermelho que também viera no pacote,m passei a noite inteira
acordado lendo a frase.
"Só existe um Avatar de cada vez."

DEPOIS DA GUERRA
— Adorei essa cadeira de balanço – declarou o rapaz. —
Quantos anos tem essa coisa? Parece móvel antigo.
— Consegui um ano antes da Guerra Religiosa – informei.
— Ainda bem que a guerra terminou um ano antes do meu
nascimento – suspirou o jovem. — Nem consigo imaginar como
foi a vida naquela época.
— Você deu sorte em ter perdido isso.
— Você esteve naquela guerra?
— Todo mundo esteve naquela guerra.
— Deixe-me perguntar-lhe uma coisa – começou. — Você
acha que a guerra terminou por quê? Na escola nós aprendemos
que todo mundo simplesmente parou de lutar. Ninguém sabe por
quê. E embora haja muitas teorias diferentes sobre pactos secretos
entre líderes mundiais, ninguém sabe realmente. Você esteve lá.
Em sua opinião, por que todo mundo parou de repente de lutar?
— Ponha mais lenha na lareira eu lhe conto.
O rapaz olhou o relógio e hesitou. Tinha de fazer muitas
outras paradas antes do almoço. Então, virou-se para a lareira e
escolheu um tronco robusto.
— Se você jogar uma moeda para cima – disse eu – quantas
vezes vai dar cara?
FIM
Fatalblue

Em uma conversa atemporal entre dois homens, um senhor e um carteiro,
são apresentadas diversas reflexões sobre situações cotidianas.
Ciência, filosofia e religião em um livro leve, prazeroso e que irá
modificar sua forma de ver a vida. Vale a pena a leitura.

Abraços

--
Você recebeu esta mensagem porque está inscrito no
Grupo "livros-loureiro" nos Grupos do Google.
Para postar neste grupo, envie um e-mail para
livros-loureiro@googlegroups.com
Para cancelar a sua inscrição neste grupo, envie um e-mail para
livros-loureiro+unsubscribe@googlegroups.com
Para ver mais opções, visite este grupo em
http://groups.google.com.br/group/livros-loureiro?hl=pt-BR

Os nossos blogs:
http://manuloureiro.blogspot.com/
http://livros-loureiro.blogspot.com/
http://romancesdeepoca-loureiro.blogspot.com/
http://romancessobrenaturais-loureiro.blogspot.com/
http://www.loureiromania.blogspot.com/

0 comentários:

Postar um comentário

Vida de bombeiro Recipes Informatica Humor Jokes Mensagens Curiosity Saude Video Games Car Blog Animals Diario das Mensagens Eletronica Rei Jesus News Noticias da TV Artesanato Esportes Noticias Atuais Games Pets Career Religion Recreation Business Education Autos Academics Style Television Programming Motosport Humor News The Games Home Downs World News Internet Car Design Entertaimment Celebrities 1001 Games Doctor Pets Net Downs World Enter Jesus Variedade Mensagensr Android Rub Letras Dialogue cosmetics Genexus Car net Só Humor Curiosity Gifs Medical Female American Health Madeira Designer PPS Divertidas Estate Travel Estate Writing Computer Matilde Ocultos Matilde futebolcomnoticias girassol lettheworldturn topdigitalnet Bem amado enjohnny produceideas foodasticos cronicasdoimaginario downloadsdegraca compactandoletras newcuriosidades blogdoarmario arrozinhoii