terça-feira, 5 de julho de 2011 By: Fred

Lançamento Gênesis do Conhecimento - Contos de Fantasmas - Daniel Defoe


Daniel Defoe

Tradução de Henrique de Araújo Mesquita

Índice

PRIMEIRA PARTE
Histórias verdadeiras de fantasmas
A aparição da senhora Veal / O fantasma em todos os
cômodos / O espectro e o salteador / O eclesiástico e o
testamento perdido / Uma estranha experiência de dois
irmãos / O diabo brinca com um mordomo / O diabo e o
relojoeiro

SEGUNDA PARTE
Fantasmas falsos e aventuras divertidas
Um acusador fantasmagórico / Uma ilusão referente a um
urso e um asno / O fantasma útil / Os presuntos e o Quaker /
O adivinho na Feira de Bristol

PRIMEIRA PARTE
HISTÓRIAS VERDADEIRAS DE FANTASMAS

A APARIÇÃO DA SENHORA VEAL

PREFÁCIO

Este relato é verdadeiro e cercado por muitas circunstâncias
que podem induzir qualquer homem sensato a acreditar
nele. Foi enviado por um cavalheiro, um juiz da paz em
Maidstone, no Kent, e pessoa de muita inteligência, a um
amigo seu em Londres, tal como está aqui redigido. O texto
é certificado por uma dama parente do citado juiz da paz e
que é pessoa de mente sóbria e de grande compreensão, a
qual vive em Canterbury, a umas poucas portas da casa em
que mora a senhora Bargrave, nomeada no relato. O juiz da
paz acredita que sua parente é de espírito tão atilado que
nunca se deixaria enganar por qualquer fraude. Ela própria
garantiu-lhe positivamente que a questão toda tal como aqui
relatada e redigida constitui a verdade, e a mesma coisa que
ela ouviu aproximadamente nas mesmas palavras da boca da
mesma senhora Bargrave, a qual, ela sabe, não tinha razão
para inventar e divulgar tal história, nem desejo de forjar e
contar uma mentira, sendo uma mulher muito honesta e
virtuosa, e toda a sua vida um exemplo de piedade. O pro-
veito que podemos tirar desse documento é ter em mente
que há uma vida por vir depois desta e um Deus justo que
retribuirá à cada um segundo os atos feitos com este corpo
atual; devemos, portanto, refletir no que tem sido a nossa
vida; não esquecer de que o tempo de que dispomos é curto
e incerto e que, se quisermos escapar à punição reservada
aos ímpios e alcançar a recompensa dos que procedem bem,
que é a vida eterna, temos de, no tempo que nos resta,
voltar a Deus por um rápido arrependimento, deixando de
cometer o mal e aprendendo a fazer o bem. partindo em
busca de Deus, se com felicidade Ele possa ser de nós
encontrado, e de levar tais vidas no futuro que Lhe possam
ser agradáveis.
Isto que vou contar é tão raro em todas as suas
circunstâncias, e fundado em tão boa autoridade, que toda a
minha leitura e as minhas conversas nada me forneceram de
semelhante. E coisa apta a satisfazer o investigador mais
destro e exigente.
A senhora Bargrave é a pessoa a quem a senhora Veal
apareceu depois de falecer. Ela é minha amiga íntima, e
posso atestar-lhe a probidade, por estes últimos quinze ou
dezesseis anos, por meu próprio conhecimento. E posso
confirmar a reputação de honestidade de que gozou desde
sua mocidade até o momento em que a conheci, o que é
necessário; porque, em função do relato que fez da aparição
da senhora Veal, ela é objeto de calúnia por parte de algumas
pessoas que são amigas do irmão da mencionada senhora
Veal, às quais o relato da aparição parece uma ofensa, e
fazem o que podern para acabar com a reputação da senhora
Bargrave e para ridicularizar a história que conta. Mas, dadas
as circunstâncias do que se passou e a boa disposição da
senhora Bargrave, não obstante os maus-tratos inéditos a que
foi sujeita por um marido muito cruel, não há em sua
fisionomia o menor sinal de desalento. Nem eu a ouvi
pronunciar uma expressão de desespero ou de queixa, nem
mesmo quando submetida às barbaridades do marido, de que
eu fui testemunha, assim como várias outras pessoas cuja
reputação não se pode pôr em dúvida.
E preciso que vocês saibam que a senhora Veal era uma
moça solteira e nobre de cerca de trinta anos de idade e, por
alguns anos, vinha sofrendo de ataques que nela se
manifestavam porque ela interrompia o que estava dizendo
com alguma extravagância abrupta. Ela era sustentada pelo
único irmão que tinha, e tomava conta da casa deste último
em Dover. Era uma mulher muito religiosa, e o irmão um
homem sóbrio, ao que tudo demonstrava, mas agora ele faz
o que pode para reduzir a pedaços esta história.
A senhora Veal era intimamente ligada à senhora Bargrave
desde a infância. Naquela época, as condições em que vivia a
senhora Veal eram ruins. O pai não tomava cuidado das
crianças como devia, o que as expunha a privações, e
também a senhora Bargrave vivia naqueles tempos com um
pai cruel, embora não lhe faltassem nem comida nem roupa,
coisas que faltavam à senhora Veal. Estava, portanto, dentro
das possibilidades da senhora Bargrave ajudar a senhora Veal
de várias maneiras, o que esta última muito apreciava.
Muitas vezes, ela dizia:
- Senhora Bargrave, a senhora não é apenas a melhor, mas é
a única amiga que tenho no mundo e nenhuma
circunstância na vida dissolverá jamais tal amizade.
Elas lamentavam juntas a fortuna adversa e liam o livro de
Drelincourt sobre a morte e outros livros bons. E assim,
como duas amigas cristãs, elas se confortavam
reciprocamente.
Algum tempo depois, os amigos do senhor Veal arranjaram-
lhe um lugar na Alfândega de Dover, o que fez com que a
senhora Veal, a pouco e pouco, se desprendesse da
intimidade com a senhora Bargrave, embora nunca houvesse
entre as duas, alguma coisa como uma briga. Mas,
gradualmente, surgiu entre elas uma indiferença, até que,
por fim, a senhora Bargrave passara dois anos e meio sem
ver a amiga, embora por cerca de um ano a senhora
Bargrave tivesse estado ausente de Dover e houvesse
passado os últimos seis meses em Canterbury morando em
casa própria.
Em tal casa, em 8 de setembro último, 1705, ela estava
sentada sozinha na manhã, meditando sobre sua vida
desafortunada e buscando argumentos que a inclinassem à
resignação devida à Providência, embora sua situação
parecesse difícil. "E", pensou ela, "eu fui ajudada até agora e
não duvido de que ainda o serei e estou certa de que minhas
aflições terminarão quando for mais apropriado" e, depois de
tais pensamentos, tomou de sua obra de costura, coisa que
ela mal acabara de fazer quando ouviu bater à porta.
Levantou-se para ver quem era e deu com a senhora Veal,
que estava de roupa de montaria. Naquele exato momento, o
relógio bateu doze badaladas.
- Madame - disse a senhora Bargrave -, estou surpreendida
em vê-la. Por tanto tempo estivemos separadas!
Mas disse-lhe que ficava feliz em voltar a vê-la, e fez
menção de dela se aproximar, com o que concordou a
senhora Veal, até que os lábios das duas quase se tocaram.
E então a senhora Veal passou a mão pelos olhos e disse:
- Não me sinto muito bem.
Disse à senhora Bargrave que partiria sozinha numa viagem
e tivera um grande desejo de visitá-la antes de seguir.
- Mas - ponderou a senhora Bargrave - como é que a senhora
parte em viagem sozinha? Isso espanta-me, porque sei que
seu irmão lhe é tão aficionado.
- Ora - disse a senhora Veal -, enganei meu irmão e vim
sozinha, tal era o meu desejo de ver a senhora, antes de
partir em viagem.
Assim a senhora Bargrave seguiu com ela para outro
aposento e a senhora Veal sentou-se numa cadeira de
braços, exatamente onde a senhora Bargrave estivera sentada
quando ouvira a senhora Veal bater à porta.
Então disse a senhora Veal:
- Minha querida amiga, eu vim renovar nossa amizade
antiga, e peço seu perdão por me ter apartado. E, se puder
perdoar-me, a senhora é uma das melhores mulheres.
- Ora - disse a senhora Bargrave -, não mencione uma tal
coisa. Isso nunca me preocupou. Posso facilmente perdoá-la.
- Que pensou a senhora de mim? - perguntou a senhora
Veal.
- Pensei - respondeu a senhora Bargrave - que a senhora era
como o resto do mundo e que a prosperidade a tinha feito
esquecer a nossa ligação.
Então a senhora Veal lembrou à senhora Bargrave os muitos
serviços amistosos que esta lhe tinha prestado no passado e
muito das conversas que, uma com a outra, tinham mantido
no tempo de adversidade; lembrou-lhe os livros que liam e,
em particular, o conforto que recebiam da meditação do
ensaio de Drelincourt sobre a morte, que ela classificou
como o melhor dos livros sobre o assunto. Também
mencionou os livros que o doutor Sherlock e dois autores
holandeses traduzidos escreveram sobre a morte e vários
outros. Mas disse que Drelincourt possuía a visão mais clara
da morte e de nossa futura condição, entre todos os que
tinham tratado do assunto. Então perguntou à senhora
Bargrave se ela dispunha de um exemplar da obra de
Drelincourt.
- Sim - disse a senhora Bargrave.
- Traga-o - pediu a senhora Veal.
E então a senhora Bargrave subiu ao andar de cima e trouxe
o livro.
- Querida senhora Bargrave - afirmou a senhora Veal se os
olhos da fé estivessem abertos como os olhos do corpo,
veríamos numerosos anjos a nosso redor, para guardar-nos.
As idéias que temos do céu não são nada perto do que é,
como diz Drelincourt. Portanto, suporte com paciência seus
sofrimentos e acredite que o Todo-Poderoso a tem em
particular consideração e que as tribulações que a afligem são
marcas do favor de Deus. E quando essas tribulações tiverem
alcançado o objetivo pelo qual foram mandadas elas lhe
serão retiradas. E acredite-me, minha querida amiga,
acredite no que lhe digo: um minuto de futura felicidade a
recompensará infinitamente de todos os seus sofrimentos;
pois nunca poderei acreditar - (nesse ponto, a senhora Veal
bateu com a mão no joelho com grande veemência, a
mesma veemência que marcou tudo o que dizia) - que Deus
suportará que a senhora passe todos os seus dias em aflição;
mas esteja certa de que seus males a deixarão, ou a senhora
os deixará dentro em breve.
Falou de uma maneira tão celestial e patética que a senhora
Bargrave chorou várias vezes, tanto aquilo tudo a
impressionou.
Então a senhora Veal mencionou o livro do doutor
Hoerneck sobre o ascetismo, no fim do qual ele faz um
relato da vida dos cristãos primitivos. Ela recomendou tais
modelos para nossa imitação, e disse que as conversas deles
não eram como as de hoje em dia.
- Pois agora — disse ela — só há conversas vãs e superficiais,
muito diferentes das que mantinham. Eles falavam para
edificação recíproca e para que aumentasse mutuamente a
fé; assim não eram como nós somos, e nós não somos como
eram. Mas – acrescentou - poderíamos fazer como faziam.
Havia entre eles uma amizade cordial, mas onde acharemos
tal maravilha hoje em dia?
- É de fato difícil - respondeu a senhora Bargrave - encontrar
um verdadeiro amigo nos dias que correm.
- O senhor Norris - disse a senhora Veal - escreveu um
bonito livro de versos intitulado amizade na perfeição, livro
que eu admiro enormemente. A senhora conhece o livro?
- Não - disse a senhora Bargrave -, mas publiquei os meus
próprios versos.
- A senhora publicou? - perguntou a senhora Veal. - Então,
vá buscá-los.
A senhora Bargrave buscou os versos no andar de cima e os
ofereceu à senhora Veal, para que os lesse, mas esta os
recusou e disse que olhar para baixo lhe daria dor de cabeça;
pediu então à senhora Bargrave que lesse os versos, coisa
que esta última fez.
Quando admiravam "Amizade", a senhora Veal disse:
- Querida senhora Bargrave, eu a amarei para sempre.
Nos versos usam-se por duas vezes as palavras "pertencentes
aos Campos Elíseos".
Disse a senhora Veal: - Esses poetas têm tais nomes para o
céu!
Passava muitas vezes a mão pelos olhos e dizia:
- Não acha a senhora que estou muito afetada por meus
ataques?
- Não - respondeu a senhora Bargrave -, acho que está com
tão boa aparência quanto jamais a vi.
Depois de toda essa conversação, em que a aparição
pronunciou palavras de uma qualidade muito superior às que
a senhora Bargrave disse que poderia usar, e que consistiu
em muito mais do que aquilo de que se podia lembrar (não
se deve pensar que seria possível reter inteiramente uma
conversa que durou uma hora e três quartos, embora a
senhora Bargrave declare que se lembra da maior parte do
que trataram), ela pediu à senhora Bargrave que escrevesse,
em seu nome, uma carta a seu irmão, dizendo-lhe que desse
anéis a tais e tais pessoas, e que havia uma bolsa com ouro
no escritório dela, e que ela lhe pedia que desse duas peças
de ouro ao primo Watson.
Como falava muito e com pressa, a senhora Bargrave
entendeu que lhe vinha um dos ataques a que era sujeita, e
colocou-se assim numa cadeira bem diante dos joelhos dela,
para impedir que caísse ao chão, se sobreviesse o ataque.
Pois a cadeira de braços, pensou a senhora Bargrave,
impediria que a senhora Veal caísse para qualquer dos lados.
E, tentando divertir a senhora Veal, tomou de uma das
mangas do vestido desta e elogiou o tecido. A senhora Veal
disse-lhe que era de seda lavada, e feita recentemente.
Não obstante isso, a senhora Veal insistiu em seu pedido, e
disse à senhora Bargrave que não devia recusar-lhe o favor; e
queria que contasse ao irmão toda a conversa, quando
tivesse uma oportunidade para tanto.
- Querida senhora Veal - respondeu a senhora Bargrave isso
parece tão fora de propósito que não posso dizer como
cumprir o seu desejo. E que história mortificante será a
nossa conversa para um jovem!
- Bem! - disse a senhora Veal - não quero que recuse.
- Parece-me muito melhor - ponderou a senhora Bargrave -
que a senhora mesma o faça.
- Não - respondeu a senhora Veal embora isso lhe pareça
agora fora de propósito, a senhora compreenderá a razão por
que o peço mais tarde.
A senhora Bargrave, então, para satisfazer a insistência com
que lhe era feito o pedido, dispunha-se a buscar caneta e
tinta, mas a senhora Veal disse-lhe:
- Não faça nada agora. Faça-o quando eu me for. Mas faça-o
com certeza.
Isso foi uma das últimas coisas que lhe requereu ao despedir-
se. E a senhora Bargrave prometeu o que lhe era solicitado.
Então, a senhora Veal pediu notícias da filha da senhora
Bargrave. Esta respondeu que a filha não estava em casa.
- Mas se a senhora quiser vê-la - acrescentou a senhora
Bargrave - eu a mandarei chamar.
- Faça isso - disse a senhora Veal.
Ao que a senhora Bargrave deixou a visitante e foi ter com
um vizinho para que este chamasse a jovem senhorita
Bargrave. Quando a senhora Bargrave regressava, a senhora
Veal estava do lado de fora da porta, na rua, diante do
mercado de animais do sábado (que é dia de tal mercado) e
parecia prestes a partir logo que a senhora Bargrave chegou-
lhe perto.
Esta perguntou-lhe por que estava com tanta pressa.
Respondeu a senhora Veal que devia partir, embora talvez
não seguisse viagem antes de segunda-feira; e disse à
senhora Bargrave que estimaria voltar a vê-la na casa do
primo Watson antes de seguir viagem para onde ia. Então a
senhora Veal disse que se despediria, e andou para longe da
senhora Bargrave à vista desta última, até que uma volta da
rua não a deixou mais ver, o que se deu exatamente à uma
hora e quarenta e cinco minutos da tarde.
A senhora Veal morreu no dia 7 de setembro ao meio-dia,
de seus ataques, e, antes de morrer, não dispôs de mais do
que quatro horas de consciência. Nesse período, ela recebeu
os sacramentos. No dia que se seguiu ao da aparição da
senhora Veal, dia esse que foi um domingo, a senhora
Bargrave sofreu muito de um resfriado e de uma dor de
garganta, e não saiu de casa. Mas, na manhã de segunda-
feira, ela mandou uma pessoa perguntar em casa do
comandante Watson se a senhora Veal estava lá.
As pessoas da casa ficaram intrigadas com a pergunta da
senhora Bargrave e mandaram-lhe dizer que a senhora Veal
não estava lá, nem era esperada. Diante dessa resposta, a
senhora Bargrave disse à empregada que esta certamente se
enganara de nome, ou fizera alguma tolice.
E, embora estivesse doente, colocou o chapéu e foi ela
própria à casa do comandante Watson, embora não
conhecesse ninguém da família, para ver se a senhora Veal
estava ou não lá. Eles disseram que muito os intrigava a
pergunta, pois a senhora Veal não estivera na cidade; tinham
certeza de que, se houvesse estado, tê-los-ia procurado.
- Estou certa - disse a senhora Bargrave - de que passou
comigo no sábado quase duas horas.
Responderam-lhe que era impossível, pois eles teriam visto
a senhora Veal, desde que esta houvesse vindo à cidade.
O comandante Watson chegou quando discutiam e disse
que a senhora Veal estava certamente morta, e que se estava
gravando o seu nome para colocar a inscrição no caixão. Isso
muito surpreendeu a senhora Bargrave, que foi ver
imediatamente o gravador e verificou que a notícia procedia.
Então ela relatou toda a história ao comandante Watson e
família, e o vestido que a senhora Veal usara, e que riscas,
que cores tinha, e que a senhora Veal lhe havia contado que
era lavado.
Então, a senhora Watson exclamou:
- A senhora certamente a viu, pois ninguém sabia, além da
senhora Veal e de mim, que o vestido era lavado.
A senhora Watson acrescentou que a descrição do vestido
era exata.
- Pois - disse ela - eu ajudei a fazê-lo, eu própria.
A senhora Watson fez a notícia correr pela cidade, e
sustentou a demonstração da verdade do que dizia a senhora
Bargrave quanto à aparição da senhora Veal.
E o comandante Watson levou imediatamente dois
cavalheiros à senhora Bargrave para ouvir-lhe o relato do
acontecimento da própria boca.
E então a história espalhou-se com tal rapidez que
cavalheiros e pessoas de qualidade, a parte judiciosa e cética
do mundo, vieram vê-la em grupos, o que se tornou para ela
uma tal carga que foi forçada a recolher-se; pois, em geral,
acreditavam no que ela dizia, e viam claramente que a
senhora Bargrave não era uma hipocondríaca, pois sempre
aparecia com um aspecto tão satisfeito e agradável que
conquistou a estima de todas as pessoas de posição, e pensa-
se que é um grande favor obter o relato da boca da própria
senhora mencionada.
Eu deveria ter contado a vocês, antes, que a senhora Veal
disse à senhora Bargrave que esperava a irmã e o cunhado,
vindos de Londres para visitá-la.
Respondeu a senhora Bargrave: - Como se dá que a senhora
arranjou tal programa tão fora de ordem?
- Não podia ser. de outra forma - afirmou-lhe a senhora Veal.
E a irmã dela e o cunhado chegaram a Dover, justo no
momento em que a senhora Veal expirava.
A senhora Bargrave perguntou-lhe se queria tomar chá.
Respondeu a senhora Veal: - Não me seria desagradável. Mas
garanto que aquele louco (com o que se referia ao senhor
Bargrave) quebrou todos os seus utensílios de chá.
- Não obstante - disse a senhora Bargrave -, tirarei alguma
coisa em que possa tomar chá.
A senhora Veal, no entanto, recusou a bebida e disse:
- Não tem importância. Deixe isso.
Todo o tempo que permaneci com a senhora Bargrave,
tempo que somou algumas horas, ela rememorou outros
ditos da senhora Veal. E esta disse mais uma coisa material à
senhora Bargrave, a saber, que o velho senhor Breton
concedeu à senhora Veal dez libras por ano, o que constituía
um segredo, e desconhecido para a senhora Bargrave até que
a senhora Veal o contou.
A história da senhora Bargrave nunca varia, o que intriga
aqueles que põem em dúvida a verdade do relato, ou não
querem reconhecê-la. Uma empregada num quintal vizinho
à casa da senhora Bargrave ouviu-a falar com alguém no
momento em que a senhora Veal estava com ela. A senhora
Bargrave foi ter com seu vizinho de porta logo depois de
despedir-se da senhora Veal, contou a tal vizinho a conversa
maravilhosa que mantivera com uma velha amiga. O livro de
Drelincourti sobre a morte tem sido, desde que isso
aconteceu, comprado extraordinariamente. E deve ser
observado que, não obstante todo o cansaço e aborre-
cimento que a senhora Bargrave sofreu por causa dessa
aparição, ela nunca recebeu o valor de um centavo por causa
do relato, nem suportou que sua filha recebesse qualquer
coisa de qualquer pessoa, o que demonstra que não tem
interesse algum nessa história.
Mas o senhor Veal faz o que pode para abafar o assunto, e
diz que está pronto a ver a senhora Bargrave, mas, contudo,
é uma questão de fato que esteve com o comandante
Watson desde que lhe morreu a irmã, mas nunca se
aproximou da senhora Bargrave. E alguns dos amigos dele
dizem que ela é uma grande mentirosa, e que ela tinha
conhecimento da pensão de dez libras por ano, concedida
pelo senhor Breton. Mas a pessoa que afirma isso tem a
reputação de um mentiroso notório entre pessoas que sei
serem de caráter ilibado. O senhor Veal é demasiado
cavalheiro para dizer que ela mente, mas se limita a dizer
que ela ficou louca em virtude dos maus-tratos que sofreu de
parte do marido. Mas a senhora Bargrave não necessita de
mais do que se apresentar porque, com sua presença, ela
refuta essa acusação de loucura. O senhor Veal diz que
perguntou à irmã, no leito de morte, se queria fazer alguma
disposição testamentária, ela respondeu que não.
Agora, as coisas que a senhora Veal, em sua aparição, queria
doar eram tão desprovidas de importância, não havendo
nenhum propósito de fazer justiça com a doação, que o
projeto daquela senhora me parece consistir em habilitar a
senhora Bargrave a demonstrar a verdade da aparição,
confirmando ao mundo a realidade do que vira e ouvira, e
garantindo a sua reputação no meio das pessoas razoáveis e
compreensivas da humanidade.
Além disso, o senhor Veal confessa que havia uma bolsa de
ouro, mas que ela não foi achada na escrivaninha da senhora
Veal e sim no estojo dos pentes. Isso não parece provável,
pois a senhora Watson diz que a senhora Veal tomava tal
cuidado com a chave de sua escrivaninha que não a confiava
a ninguém. Se era assim, não há dúvida de que não colocaria
seu ouro fora da escrivaninha. E o fato de que a senhora
Veal passava com freqüência a mão pelos olhos e perguntava
à senhora Bargrave se os ataques que ela sofria não a haviam
afetado, parece-me tudo feito de propósito para relembrar os
ataques à senhora Bargrave, para prepará-la a não julgar
estranho que ela própria não escrevesse ao irmão para que
ele distribuísse os anéis e o ouro, coisa que parecia tanto
com o pedido de uma pessoa prestes a falecer. E esse foi o
efeito produzido na senhora Bargrave, a quem tudo pareceu
resultado dos ataques, e foi um dos muitos exemplos de seu
enorme amor pela senhora Bargrave, e cuidado com ela,
para que não temesse, o que transparece em toda a maneira
de conduzir-se a aparição, particularmente em que veio ter
com a senhora Bargrave durante o dia, quando esta estava
sozinha, e evitou a saudação; e também na maneira de partir,
para impedir uma segunda tentativa de saudação, de proxi-
midade, de beijos.
Não posso descobrir por que motivo o senhor Veal julga que
este relato é uma ofensa (como fica evidente pelo fato de
que tenta abafá-lo), pois, em geral, as pessoas julgam que a
senhora Veal é um bom espírito, dado o teor celestial de sua
conversação. Seus dois grandes objetivos foram reconfortar
a senhora Bargrave em suas aflições e pedir-lhe perdão pela
quebra de amizade, com uma conversa pia feita para
encorajar a amiga. Supor que a senhora Bargrave possa ter
inventado uma tal história do meio-dia de sexta-feira até o
meio-dia de sábado (desde que se acredite que ela soube de
imediato da morte da senhora Veal), sem confundir
circunstâncias e sem ter interesse algum na coisa, implica
julgá-la mais inteligente, com mais sorte e mais velhaca
também do que passará pela cabeça de uma pessoa qualquer.
Perguntei-lhe se ouviu um som quando bateu com a mão no
joelho da senhora Veal. Ela diz que disso não se recorda, e
acrescenta:
- Parecia ser tão substancial quanto eu, que com ela falava; e
é tão possível persuadir-me de que é sua aparição que fala
comigo como persuadir-me que eu não vi a senhora Veal
realmente, pois eu não sofri qualquer medo. Eu a recebi
como uma amiga, e como tal dela me despedi. Eu não daria
um centavo para fazer com que qualquer pessoa acreditasse
em mim. Não tenho qualquer interesse nisso. O que isso me
acarretará, e por um longo tempo, pelo que sei, são
problemas. E se a coisa não fosse divulgada casualmente,
nunca teria se tornado pública.
Mas agora ela diz que fará um proveito íntimo do
acontecido, e recolher-se-á o mais possível; e tem cumprido
esse propósito. Ela conta que um cavalheiro veio de uma
distância de trinta milhas para ouvir o relato, e que ela
narrou a história para uma sala cheia de gente. Vários
cavalheiros escutaram a história da própria boca da senhora
Bargrave.
A coisa muito me impressionou, e nela acredito tanto
quanto na história mais bem fundamentada. E parece-me
estranho que tenhamos a tendência a negar a veracidade de
fatos porque não podemos resolver coisas de que não
possuímos noções certas ou demonstrativas.Em qualquer
outro caso, a autoridade e a sinceridade da senhora Bargrave
teriam bastado para confirmar o que contasse.

O FANTASMA EM TODOS OS CÔMODOS

Uma certa pessoa de importância, que passava com sua
família o verão em sua casa de campo, foi obrigada, por um
motivo especial de saúde, a deixar a mencionada casa e a
seguir para Aix-la-Chapelle, com a finalidade de submeter-se
aos banhos medicinais daquela cidade. Ocorreu isso, parece,
no mês de agosto, dois meses antes do momento em que
usualmente regressava a Londres para o inverno.
Saindo assim mais cedo do que de costume, não retirou a
mobília da casa, como fazia usualmente a família, ou
carregou os objetos de prata e outros bens valiosos, mas
deixou tudo ao cuidado do mordomo e de três empregados.
E pediu ao padre da paróquia que ficasse de olho nos
empregados e que lhes desse uma mão, com gente da aldeia
próxima, se isso se fizesse necessário.
Não teve o mordomo notícia pública de qualquer perigo que
ameaçasse a casa, mas sentiu, durante três dias ou quatro,
sucessivos, impulsos íntimos de terror, de que a residência
estava sitiada e a ponto de ser assaltada por um grupo de
bandidos, que assassinariam todos que nela moravam e,
depois de pilhá-la, a incendiariam. E essa visão de tal forma
o obcecou e tanto o impressionou que em nada mais podia
pensar.
Por esse motivo, no terceiro dia ele foi ter com o padre e
contou-lhe suas apreensões. Em tal ocasião, o padre e o
mordomo mantiveram a seguinte conversa, assim
começando o mordomo:
- Padre - disse ele o senhor sabe a responsabilidade que me
cabe e que o meu patrão me confiou toda a casa e a rica
mobília que a guarnece. Estou em grande perplexidade a
esse respeito e venho pedir-lhe conselho.
Padre - Qual é o problema? Você ouviu falar em algum
perigo iminente?
Mordomo - De nada ouvi falar. Mas tais foram as apreensões
que senti e de tal forma me impressionaram que...
E nesse ponto ele relatou as singularidades da inquietação
que dele se tinha apossado e acrescentou, além do que já
contei, que um dos empregados sentira a mesma coisa e o
fizera ciente disso, embora ele de nada tivesse falado com o
empregado.
Padre - E possível que você tenha sonhado com isso?
Mordomo - Não! Estou certo de que não podia ter sonhado,
porque não me tem sido possível dormir.
Padre - Que posso fazer por você? Que quer você que eu
faça?
Mordomo - Gostaria, antes de mais nada, que o senhor me
dissesse o que pensa dessas coisas e se devo levá-las a sério.
A essa altura, o padre interrogou-o com mais rigor sobre a
questão das apreensões, e mandou vir o empregado,
examinou-o em separado, e, sendo um homem muito
sensato e honesto, assim respondeu ao mordomo:
- Meu caro senhor mordomo, eu não atribuo grande
importância a essas coisas, mas também não acho que devam
ser postas de lado. Por isso, eu o aconselho a manter-se
vigilante e a me dar parte do menor alarma que suceder.
Mordomo - Não é grande conforto dizer-me o senhor para
vigiar, se me atacarem com maior força do que posso
suportar. Creio que, se quaisquer bandidos alimentam o
projeto de assaltar a casa, eles têm conhecimento do poder
de que disponho.
Padre - Quer que eu reforce a sua guarnição?
Mordomo - Gostaria que o fizesse.
Padre - Mandarei alguns homens com armas de fogo para
passarem a noite na casa.
Nessas condições, o padre mandou-lhe cinco camaradas
fortes, com mosquetes e com uma dúzia de granadas de
mão. Enquanto permaneceram na casa, nada sucedeu. O
padre, vendo que nada acontecia, e não querendo continuar
a despender o dinheiro do proprietário, mandou chamar o
mordomo e, repreendendo-o com irritação, disse-lhe o que
pensava.
Padre - Não sei como se explicará com o patrão, mas você o
fez efetuar uma enorme despesa aqui, mantendo uma
guarnição na casa, todo esse tempo.
Mordomo - Lamento isso, padre, mas que posso fazer?
Padre - Controle suas emoções e tenha coragem. Não vá
deixar o patrão desperdiçar duzentas ou trezentas libras com
as apreensões que você tem.
Mordomo - Mas o senhor próprio disse que não se deviam
desprezar tais impressões.
Padre - E verdade, mas também disse que não se lhes devia
atribuir demasiada importância.
Mordomo - Que me resta, então, fazer?
Padre - Mande embora os homens e vigie o mais que puder.
Se lhe chegar alguma notícia sólida de perigo, mande dizer-
me e eu o ajudarei.
Mordomo - Então, que os bons anjos protejam a casa de
meu patrão, porque ninguém mais o fará.
- Amém - disse o padre -, confio em que os bons espíritos
tomarão conta de todos vocês.
Isso dizendo, ele abençoou o mordomo, o qual partiu
reclamando muito, porque ficara sem guarnição e entregue
aos bons espíritos.
Contudo, parece que as impressões do mordomo, por mais
íntimas que fossem e vindas ele não sabia de onde, não eram
de tão pouca importância quanto o padre pensava. Pois,
assim como ele tinha na mente a impressão de que alguém
planejava um crime, assim realmente as coisas se passavam,
como vocês verão.
Um grupo de ladrões, que obtivera a informação de que o
nobre proprietário partira com a família para Aix-la-
Chapelle, mas que deixara a casa com a mobília, com a
prataria e com muitos objetos de valor, havia planejado
pilhar a residência e queimá-la depois, exatamente como o
dissera o mordomo.
Eram vinte e dois ao todo e armados dos pés à cabeça. No
entanto, enquanto esteve em casa a força adicional para
revigorar a guarnição do mordomo, organizou-se um sistema
segundo o qual três homens montavam guarda a noite
inteira, e os ladrões não ousaram assaltar a residência.
Logo, porém, que lhes chegou ao conhecimento que os
homens do padre haviam sido dispensados, renovaram o
projeto e, para abreviar a história, atacaram a casa na altura
da meia-noite. Como dispunham, segundo acredito, de todo
o instrumental necessário, forçaram logo uma janela, e doze
penetraram na casa, enquanto o resto ficava de sentinela em
lugares estratégicos, para impedir que chegasse socorro da
cidade.
O pobre mordomo e os três empregados viram-se numa
situação desesperada. Estavam no andar de cima e haviam
erguido, nas escadarias, a barricada que puderam, logo que
ouviram os ladrões entrarem. Quando tomaram consciência
de que os bandidos já se achavam no interior da casa, nada
mais lhes foi dado fazer do que se manterem no andar
superior, até que se completasse a pilhagem e tudo fosse
incendiado, eles inclusive.
Mas parece que foi resolvido, seja pelos bons espíritos que o
padre mencionou, seja por alguma outra entidade, reservar-
lhes um destino melhor, como se verá.
Quando os primeiros do bando ingressaram na casa e
abriram a porta, deixando passar quantos julgaram
necessários, com os quais, como disse acima, somaram doze,
fecharam novamente a porta, e, portanto, se trancaram
dentro da casa. Dois ficaram do lado de fora da porta, com
uma senha combinada, para que trouxessem mais gente, se
necessário.
Os doze, correndo pelo salão, ali encontraram pouco que
lhes satisfizesse a cupidez. Mas, quando irromperam em
seguida numa saleta muito bem mobiliada, onde a família
costumava reunir-se, viram com surpresa, numa grande
cadeira de braços, um homem idoso e grave, com uma
peruca preta que lhe vinha até os ombros, com uma veste de
rico brocado e uma gola de rendas, típica de advogados. O
senhor os olhava com grande surpresa e parecia-lhes fazer
sinais de que tivessem misericórdia. Não disse palavra, nem
eles disseram muito, com exceção de um dentre eles que,
surpreso, exclamou: - Ué! Quem está aí?
De imediato, os vilões entraram a derrubar as belas cortinas
de damasco das janelas e a apossar-se de outras coisas ricas,
mas um deles disse a outro, com uma praga:
- Faça com que o velho idiota nos conte onde está escondida
a prataria.
Outro acrescentou:
- Se ele não contar, corte-lhe a garganta, incontinenti.
O velho cavalheiro, com gestos de rogo, e como se lhes
estivesse pedindo que lhe conservassem a vida, com grande
medo, indicou-lhes outra saleta, que era a sala de jogos, e
contígua à primeira, e dava, por uma outra porta, no salão de
onde se divisavam os jardins. Levaram algum tempo
forçando o caminho para essa sala de jogos, mas, quando
lograram entrar, ficaram surpreendidos de ver o mesmo
homem idoso, na mesma vestimenta e mesma cadeira,
fazendo os mesmos gestos e rogos silenciosos que fazia na
sala anterior.
Não se preocuparam muito, de início, pois pensaram que ele
penetrara por outra porta, e começaram a injuriá-lo por lhes
dar o trabalho de arrombar uma porta quando havia outra
para o mesmo cômodo. Mas um deles, pior do que os outros,
disse com uma grande praga que o velho malandro tinha, de
propósito, vindo por outra porta para esconder a prataria e o
dinheiro, e mandou que lhe arrebentassem o crânio. Ao
ouvir isso, outro dos bandidos jurou ao velho que, se não
lhes mostrasse, de contínuo, onde estavam as pratas e o
dinheiro, ele o mataria naquele mesmo momento.
Diante dessas palavras furiosas, o velho cavalheiro apontou
para as portas que davam no salão, as quais, sendo um par de
portas de dois batentes, foram logo abertas. Os bandidos se
precipitaram no grande salão, onde, olhando para a
extremidade do aposento que lhes estava mais distante,
deram novamente com o homem idoso, na mesma
vestimenta e atitude que antes.
Quando viram isso, os que estavam na vanguarda entre eles
gritaram alto:
- Ora, esse velho sujeito tem trato com o diabo, certamente.
Aqui está ele, novamente, antes de nós!
Mas agora era diferente o caso, pois quando eles saíram da
primeira saleta, ansiosos pela prataria e dinheiro, e querendo
logo em tudo botar as mãos, todo o grupo se precipitou na
segunda saleta. E dessa vez quando o velho cavalheiro
indicou o terceiro cômodo, eles não correram todos para o
salão, mas quatro ficaram para trás na saleta ou sala de jogos,
não em virtude de ordem ou projeto, mas acidentalmente.
Dessa forma, eles caíram na seguinte confusão: enquanto
alguns deles gritaram do salão que o velho lá estava, outros
responderam da saleta:
- Como é possível isso, com todos os diabos? Ele está aqui na
sua cadeira, fazendo as suas macaquices.
Diante disso, dois deles voltaram à primeira saleta, e ali
viram-no de novo, sentado como antes. Apesar desse fato,
longe de terem idéia do que estava se passando, imaginaram
que alguém os enganava ou deles zombava e que havia três
diferentes velhos, todos vestidos com a mesma vestimenta
para a mesma ocasião, para mostrar-lhes que os homens do
andar de cima não tinham medo deles.
- Bem - disse um dentre eles -, eu matarei um dos velhos
marotos. Eu os ensinarei a zombar de nós.
Ao dizer isso, erguendo o seu mosquete tão alto quanto
possível, golpeou o velho cavalheiro, como pensava que
fosse, com toda a força que possuía. Mas eis que nada havia
na cadeira e o mosquete voou em mil pedaços, ferindo-lhe
gravemente a mão. E um pedaço do cano, batendo-lhe na
cabeça, quebrou-lhe a cara e o fez cair no chão.
Ao mesmo tempo, um daqueles que estavam no salão correu
para o homem que estava ali sentado, jurou que lhe tiraria a
veste de fino brocado, antes que lhe cortasse a garganta.
Quando tentou segurá-lo, no entanto, nada havia na cadeira.
Isso acontecendo em ambos os cômodos, eles ficaram,
todos, horrivelmente confusos e gritaram nas duas saletas,
no mesmo momento, de uma maneira terrível.
Como estavam possuídos do maior espanto diante daquelas
coisas, estacaram, depois do primeiro clamor, e olharam um
para o outro durante algum tempo, sem dizer palavra. Por
fim, um deles falou:
- Tornemos à primeira saleta e vejamos se o velho saiu de lá
também.
Por causa disso, dois ou três que se encontravam mais
próximos daquele cômodo para ali correram e voltaram a ver
a velha figura, como a haviam visto no início. Diante dessa
vista, bradaram pelo grupo e disseram aos outros acreditar
que todos estavam enfeitiçados e que era certo haverem
apenas imaginado distinguir um homem nos outros
cômodos, pois o cidadão velho e real estava ali, onde sempre
estivera, desde o princípio.
Todos então correram para o mesmo cômodo, dizendo que
verificariam se era ou não o diabo. E um deles declarou:
- Deixem-me entrar. Falarei com ele. Não é a primeira vez
que tenho negócios com o diabo.
- E eu também - disse um outro - chegarei até ele.
E acrescentou, com uma praga, que cavalheiros como eles,
no negócio em que estavam, não deviam temer parlamentar
com o diabo.
Um terceiro (pois agora a coragem tornou a ampará-los)
gritou:
- Que seja o diabo, ou a avó do diabo, eu lhe falarei. Estou
resolvido a destrinchar este assunto.
E, com essas palavras, correu antes dos outros e, fazendo o
sinal da cruz, disse ao velho cavalheiro reclinado na cadeira:
- Em nome de São Francisco e de São... (e recitou o nome de
dois ou três santos que considerou suficientes para
atemorizar o diabo), quem és tu?
A figura não fez movimento ou pronunciou palavra. Mas
quando lhe olharam a face, viram que, em lugar de seu ar
digno de piedade e de seus gestos de quem pede pela vida,
transformara-se no mais horrível monstro que jamais se viu
e tal como não posso descrever. E que, no lugar das mãos
erguidas para pedir misericórdia, havia agora duas adagas de
fogo, que não flamejavam, mas eram incandescentes e
terminavam numa ponta que era uma chama azulada. Numa
palavra, viram o diabo ou alguma outra coisa na mais temível
forma que pode ser imaginada. E fui de opinião, quando
primeiro li a história, que os bandidos de tal maneira ficaram
aterrorizados que a imaginação lhes construiu no
pensamento, mais tarde, uma coisa ainda mais terrível do
que o próprio diabo podia simular, ao aparecer.
Seja, no entanto, como for, tal era a figura que, quando lhe
chegaram perto, nenhum deles teve a coragem de encará-lo
e muito menos de falar-lhe. E aquele que foi tão atrevido a
ponto de aproximar-se do velho, armado com todo um
exército de santos, caiu ao solo, tendo desmaiado de pavor.
Em todo esse tempo, o mordomo e seus três homens
permaneciam no andar de cima, extremamente preocupados
com o perigo que corriam e esperando que, a cada
momento, os ladrões tentariam forçar a barricada nas
escadas e cortar-lhes as gargantas. Ouviram o barulho
confuso que se fazia embaixo, mas não podiam ter idéia do
que era e muito menos do que significava. Mas, enquanto
durou o ruído, passou pela cabeça de um dos empregados
que era certo que todos os bandidos se encontravam na
saleta, e que, enquanto ali ficavam, ocupados com o que
quer que fosse, ele poderia subir ao teto da casa e jogar uma
das granadas de mão pela chaminé, talvez logrando ferir os
assaltantes.
O mordomo aprovou o projeto, mas com um acréscimo:
- Se você limitar-se a atirar uma granada numa saleta, eles
fugirão todos para a sala de jogos, e assim não sofrerão
prejuízo. Mas leve três e coloque uma em cada chaminé e
assim eles não saberão para onde correr.
Com essas ordens, dois dos homens muito conhecedores da
casa subiram ao telhado e, pondo fogo no pavio das
granadas, colocaram uma em cada um dos tubos. Elas
desceram chiando pelas chaminés, com um barulho terrível
e (o que foi pior do que tudo) atingiram a saleta onde se
localizavam todos os ladrões, exatamente no momento em
que o sujeito que falara com o espectro, atemorizado até
desmaiar, caía ao chão.
Não se pode exprimir o grau de pavor que se apossou do
grupo todo. Alguns correram de volta à sala de jogos de
onde tinham procedido e outros fugiram para a porta que se
comunicava com o salão, mas todos, no mesmo instante,
ouviram o diabo, como pensavam, descendo pela chaminé.
Tivesse sido possível que os pavios das granadas houvessem
continuado a queimar no interior do tubo das chaminés,
onde o vazio do lugar aumentava mil vezes o som e de onde
a fuligem, entrando em combustão, caía em flocos de fogo,
os bandidos teriam perdido o entendimento, imaginando
que, assim como havia entre eles, na cadeira, um terrível
diabo, outros dez mil demônios desciam pela chaminé para
destruí-los e, talvez, para carregá-los.
Não se podia isso passar. Assim, quando já o barulho os
atemorizara o suficiente, as bombas chegaram aos cômodos,
todas as três juntas. Aconteceu, como se fosse de propósito,
que a bomba destinada à saleta onde todos se encontravam
explodiu logo que chegou à lareira. Não tiveram tempo
sequer para pensar no que seria, e muito menos para ter
conhecimento seguro de que se tratava de uma granada de
mão. Mas, como lhes causou muito mal, eles acreditaram
com tanta certeza que era o demônio como acreditavam que
o espectro sentado na cadeira de braços também o era.
O ruído da explosão da granada foi tão repentino e tão
inesperado que os deixou a todos na maior confusão.
Também foram terríveis os estragos que, entre eles, a bomba
causou. Não só foi morto o homem que desmaiara e que
jazia no chão, mas também o foram dois outros. Cinco
dentre eles sofreram ferimentos graves; um teve as duas
pernas quebradas e de tal forma sucumbiu ao desespero que,
quando a gente dos arredores entrou na sala, matou-se com
a pistola, para impedir que o prendessem.
Se os outros houvessem fugido da saleta para os dois
cômodos restantes, é provável que tivessem sido feridos
pelas outras bombas. Mas, como ouviram o barulho em
ambos os cômodos externos e, além disso, imaginavam que
não se tratava de uma granada de mão, mas do demônio, não
tiveram poder para mexer-se. E se o pudessem não teriam
sabido para onde ir. Por isso permaneceram imóveis até que
ambas as bombas nos outros cômodos explodissem. Ficando
então perplexos, tanto com o barulho quanto com a fumaça,
e esperando que mais demônios descessem pela chaminé até
onde estavam, correram todos para a porta principal,
ajudando como podiam os feridos. Um entre esses últimos
morreu nos campos, depois de deixarem a casa.
Devo observar que, quando assim se alarmaram com o que
não sabiam o que fosse que baixava pela chaminé, gritaram
que o diabo na cadeira mandara chamar mais demônios, para
destruí-los. É de supor que, se as bombas não houvessem
sido jogadas, todos teriam fugido. E certo que o diabo
artificial, juntando-se em momento tão crítico aos diabos
visionários, ou o que quer que fossem, completou a
desordem entre eles e forçou-os a fugir.
Quando chegaram à porta onde estavam os dois homens de
sentinela, chamaram os camaradas que estavam postados nas
avenidas que davam para a casa. Estes vieram e ajudaram a
carregar os feridos. Mas, depois de ouvirem o relato daqueles
que tinham entrado na casa e de se reunirem em conselho,
um pouco adiante (reunião essa que o mordomo e os
empregados puderam divisar, apesar da escuridão), todos
resolveram retirar-se.
Ocorreu outro acidente que, embora não se relacione com o
meu assunto, devo registrar, para completar a história. Duas
das granadas puseram fogo nas chaminés, com os seus pavios
acesos. A terceira, entrando por um tubo onde não havia
fuligem, pois o aposento não havia sido muito usado, não
pôs fogo na chaminé. O fogo, lançando chamas pelo
telhado, como é natural, foi visto por alguém na aldeia, que
correu, de imediato, e alarmou o padre, o qual levantou todo
o povo, acreditando que algum desastre se passara e que a
casa fora incendiada.
Se o resto dos bandidos não houvesse resolvido afastar-se,
como eu disse acima, teriam certamente caído nas mãos dos
moradores da aldeia, que acorreram logo, com as armas que
encontraram, para a casa. Mas os ladrões haviam escapado,
deixando, como ficou dito atrás, três do grupo mortos na
casa e um nos campos.

O ESPECTRO E O SALTEADOR

Uma história nos conta que Hind, o famoso assaltante, o
mais famoso desde Robin Hood, encontrou um espectro na
estrada num sítio chamado Stangate-hole, no condado de
Huntingdon, lugar onde usualmente cometia seus roubos, e
famoso por muito assalto de estrada, desde então.
O espectro apareceu na forma de um simples vendedor rural
de gado. E como o diabo conhecia muito bem os lugares em
que Hind se escondia e que freqüentava, chegou a uma
hospedaria, pôs o cavalo na cocheira e fez com que o
hospedeiro carregasse a mala que trazia, que era muito
pesada, até o quarto que alugara. Quando se viu no quarto,
abriu a mala, retirou o dinheiro, que parecia estar contido
em vários pequenos embrulhos, e o colocou em não mais do
que dois sacos, distribuídos de maneira a pesar igualmente
dos dois lados do cavalo e a chamar tanta atenção quanto
possível.
E raro que as hospedarias que abrigam ladrões não sejam
freqüentadas por espias, para que proporcionem aos
primeiros as necessárias informações. Hind soube do
dinheiro, olhou o homem, olhou o cavalo, para que os
pudesse reconhecer. Apurou a direção para onde se dirigia o
comerciante. Esperou-o e encontrou-o em Stangate-hole,
bem no fundo da garganta entre as duas colinas, e o fez
parar, dizendo-lhe que devia entregar o dinheiro.
Quando Hind mencionou o dinheiro, o vendedor simulou
surpresa, fingiu cair em pânico, tremeu, demonstrou bem o
medo, e num tom digno de compaixão disse:
- Não passo, como o senhor vê, de um homem pobre! Na
verdade, senhor, não disponho de dinheiro.
(Assim o diabo mostrou que podia dizer a verdade, quando
isso lhe servia.)
- Seu velho vagabundo! - disse Hind. - Você não tem
dinheiro? Vamos, abra os seus alforjes e dê-me os dois sacos,
um de um lado da sela e outro, de outro. Como é que você
pode não dispor de dinheiro e, contudo, seus sacos são
muito pesados para ficarem, os dois, de um lado só? Vamos,
entregue o que tem, ou eu o farei em pedaços neste mesmo
momento.
Ao dizer isso, é claro que Hind se excedeu, pois pronunciou
ameaças que não podia cumprir.
O pobre diabo lamentou-se e chorou, e repetiu que o
salteador deveria estar enganado; devia tomá-lo por outra
pessoa, porque ele, de fato, não tinha dinheiro.
- Vamos, vamos - disse Hind venha comigo.
E tomou o cavalo do vendedor pelas rédeas e o conduziu
para dentro da mata, muito densa de ambos os lados da
estrada, porque o negócio tomaria tempo e seria perigoso
concluir na estrada aberta.
Quando se achava no interior da mata, disse:
- Vamos, senhor Vendedor de Gado, desmonte e dê-me os
sacos neste exato minuto.
Em poucas palavras, fez o pobre homem desmontar, cortou
as rédeas e as cilhas do cavalo, abriu os alforjes, onde deu
com os dois sacos.
- Muito bem - disse Hind -, aqui estão eles, e tão pesados
quanto antes.
Atirou-os ao chão e abriu-os com a faca: num ele encontrou
uma corda para enforcar, ou baraço, e noutro deparou com
uma peça de estanho sólido na forma exata de uma forca. E
o camponês que se achava atrás dele disse:
- Eis o seu destino, Hind. Tome cuidado! Se Hind ficou
surpreso com o que achou nos sacos - pois não havia um só
centavo de dinheiro no saco onde deu com a corda -, mais
surpreso ainda ficou ao ouvir o vendedor chamá-lo pelo
nome, e virou-se para matá-lo, pois julgou ter sido
reconhecido. Mas o sangue lhe gelou nas veias quando,
virando-se (como eu disse) para matar o camarada, não
deparou com mais do que o pobre cavalo.
Caiu ao chão e ali permaneceu por um tempo considerável.
Não lhe foi possível dizer quanto tempo, porque estava
sozinho, mas deve ter sido questão de muitos minutos.
Voltando a si, por fim, partiu aterrorizado ao mais alto ponto
e envergonhado, pensando no que tudo aquilo significava.
Indiquei que não havia dinheiro num dos sacos, mas havia
uma moeda no outro, moeda essa que a história diz que era
escocesa: uma moeda na Escócia intitulada de um
"quatorze", o que corresponde em inglês a treze pence e
meio penny para pagar o carrasco. É possível supor que daí
tenha derivado o dito popular, até hoje em uso, de que treze
pence e meio penny é o soldo do carrasco.

O ECLESIÁSTICO DO TESTAMENTO PERDIDO

Conta-se esta história do falecido reverendo doutor Scot, um
homem eminente por sua erudição e piedade e cujo juízo
era conhecido por ser tão sólido que dificilmente se abalava.
O doutor, tal como me foi relatada a história, estava sentado
sozinho ao lado da lareira, seja em seu estúdio ou em sua
saleta em Broad Street, onde vivia, e lendo um livro, com a
porta bem fechada e trancada. Ele tinha certeza de que não
havia ninguém mais no aposento quando, erguendo
casualmente a cabeça, ficou extremamente surpreso de ver
sentado numa cadeira de braços do outro lado da lareira um
cavalheiro idoso e grave, com uma vestimenta negra de
veludo, uma longa cabeleira, e olhando-o com uma
fisionomia agradável, como se estivesse a ponto de falar.
Uma outra pessoa que conta esta história diz que o velho
cavalheiro apareceu de pé e, quando acabava de abrir a porta
do estúdio e de nele penetrar, foi ele que saudou o doutor e
primeiro falou com este último. Mas a diferença entre as
duas versões é pequena.
As duas versões concordam em que o doutor ficou
grandemente surpreso à vista do visitante. E é certo que vê-
lo sentado era o que havia de mais surpreendente, pois o
doutor, vendo o velho cavalheiro numa cadeira e sabendo
que a porta estava trancada, devia imediatamente e à
primeira vista ter concluído que se tratava de um espírito,
ou aparição, ou o diabo, chamem-no vocês como quiserem.
Se o tivesse visto perto da porta, deveria, à primeira vista,
supor que era realmente um cavalheiro que viera falar-lhe, e
podia pensar que deixara de trancar a porta, como pensava
ter feito.
Mas, seja qual for a versão exata, o certo é que o doutor
entrou em grande desordem àquela vista, como o
reconheceu para as pessoas a quem contou a história e da
boca das quais ouvi o relato, tendo, portanto, havido poucos
intermediários entre o doutor e mim.
Foi o espectro, ao que parece, que começou a falar, pois
faltou ânimo ao doutor, como ele disse, de se dirigir à
aparição. Digo que o espectro ou a aparição falou em
primeiro lugar e expressou o desejo de que o doutor não se
amedrontasse ou se surpreendesse, pois não lhe causaria
qualquer dano. Afirmou-lhe que vinha tratar de um assunto
de grande importância para uma família prejudicada e que
corria grande perigo de ser arruinada, e que, embora o
doutor fosse um estranho para aquela família, ainda assim,
sabendo-o um homem íntegro, ele (o espectro) o escolhera
para executar um ato de acentuada caridade e de justiça, e
que sabia que dele (doutor) podia depender em matéria de
execução.
O doutor não se encontrava de início em condição de
espírito que lhe permitisse receber bem esse prefácio com a
atenção necessária, mas parecia antes inclinar-se a deixar o
aposento, se pudesse, e fez uma ou duas vezes tentativas de
chamar alguém da família, o que pareceu desagradar um
tanto à aparição.
Mas parece que esse desagrado da aparição era pena perdida,
pois ele (doutor), como contou mais tarde, estava
desprovido do poder de sair do aposento, mesmo se
estivesse perto da porta, ou de chamar socorro, se algum
estivesse disponível.
Neste ponto a aparição, vendo que o doutor estava ainda
imerso em confusão, solicitou-lhe novamente que
recuperasse o controle de suas emoções, pois nada lhe
aconteceria de mal ou próprio a inquietá-lo; solicitou-lhe
também que lhe permitisse explicar o negócio que a fizera
aparecer, o qual, quando o doutor o houvesse escutado, dar-
lhe-ia talvez menos causa para ficar surpreso ou apreensivo
do que se mostrava agora.
A essa altura, e dado o tom tranqüilo com que foi
pronunciada a explicação que figura acima, o doutor
recuperou-se do susto para dizer, embora ainda sem
segurança:
- Em nome de Deus, que és tu?
- Desejo que não se amedronte - repetiu a aparição. - Sou um
estranho para o senhor, e se lhe revelar o meu nome este
nada lhe dirá, mas o senhor pode executar a tarefa sem
perguntar.
O doutor ainda não se reconfortara e continuava inquieto e
nada disse, por algum tempo.
A aparição voltou a dizer-lhe que não temesse, mas recebeu,
em resposta, a mesma pergunta ignorante:
- Em nome de Deus, que és tu?
Ao ouvir isso, o espectro mostrou-se aborrecido, como se o
doutor não o tivesse tratado com o devido respeito, e
censurou-o um pouco, dizendo-lhe que o poderia ter
aterrorizado até que obedecesse, mas que escolhera aparecer
calma e tranqüilamente. Usou outras palavras tão corteses
que o doutor começou a sentir-se melhor. Por fim,
perguntou o doutor:
- Que quer o senhor de mim?
Diante dessa pergunta, a aparição, como que satisfeita,
passou a contar a sua história assim:
- Eu vivi no condado de... (não me lembro exatamente o
nome do condado, mas era um dos condados ocidentais da
Inglaterra), onde eu deixei um excelente domínio que está
agora nas mãos de meu neto. Mas a posse está sendo
disputada por meus dois sobrinhos, filhos de meu irmão
mais moço.
Nessa altura, ele revelou o próprio nome, o nome do neto,
os nomes dos sobrinhos, mas eu não tenho autorização para
publicar tais nomes, nem tal seria conveniente, por
numerosas razões.
Nesse ponto, o doutor interrompeu a aparição, e perguntou-
lhe por quanto tempo o neto estivera na posse do domínio.
A aparição respondeu que o neto possuíra o domínio por...
anos, deixando implícito que morrera havia o mesmo
número de anos.
Prosseguiu a aparição e disse ao doutor que seus sobrinhos
combateriam com muita força o neto no processo, e o
expulsariam da mansão e do domínio, o que o fazia correr o
perigo de ser inteiramente arruinado e de ver sua família
reduzida à pobreza.
Ainda assim, o doutor não conseguia discernir o âmago do
assunto, ou o que poderia fazer para ajudar ou remediar o
mal que ameaçava a família, e, por isso, fez algumas
perguntas à aparição. Pois agora se encontravam num pé de
maior familiaridade do que no início.
Perguntou o doutor:
- E que posso eu fazer, se a lei estiver contra ele?
- Ora - respondeu o espectro não assiste qualquer direito aos
meus sobrinhos. Mas o grande instrumento de decisão, que
é o testamento, perdeu-se. E, por falta de tal documento, o
meu neto não logrará comprovar o seu título à propriedade
do domínio.
- Bem - disse o doutor -, e, mesmo assim, que poderei fazer
no caso?
- Se o senhor proceder para a casa de meu neto,
acompanhado por pessoas em quem possa confiar, eu lhe
darei instruções que lhe permitirão localizar o documento,
que está escondido num lugar onde o coloquei com minhas
próprias mãos e onde o senhor levará meu neto a encontrá-
lo, em presença do senhor.
Mas por que motivo não pode o senhor orientar o seu
próprio neto a fazer isso? - perguntou o doutor.
- É coisa que não me deve perguntar. Há diversas razões, de
que poderá tomar conhecimento mais tarde. Entrementes,
só posso depender da honestidade do senhor. E de tal forma
eu arranjarei o assunto que suas despesas lhe serão
indenizadas e receberá uma retribuição generosa pelo
trabalho que tiver.
Depois dessa explicação e de diversas repreensões (pois não
foi fácil convencer o doutor a seguir em tal tarefa até que o
espectro pareceu zangar-se, e chegou mesmo a ameaçá-lo
pelo fato de recusar), o doutor finalmente prometeu à
aparição fazer o que esta queria.
Obtida a promessa, a aparição disse que o doutor poderia
comunicar ao neto que conversara com o avô (mas não em
que data e de que maneira) e pedir para visitar a casa, e que,
num andar superior ou sótão, ele encontraria grande
quantidade de madeira velha, de cofres velhos, velhos baús e
coisas semelhantes, agora fora de moda, jogadas a um canto
e empilhadas para permitir que ali se colocasse mobília mais
moderna, cômodas, armários e outros móveis.
Acrescentou que num determinado canto estava um certo
baú velho com um cadeado quebrado e, neste cadeado, uma
chave que não podia ser virada na fechadura ou retirada.
Neste ponto, descreveu-lhe minuciosamente o baú, tanto da
parte de fora, o cadeado e a cobertura, quanto da parte
interior, e deu-lhe indicações de um lugar escondido que
nenhum homem poderia achar ou a que poderia chegar, a
menos que se fizesse em pedaços o velho baú.
- Em tal baú - disse o espectro - e em tal lugar está o grande
documento ou testamento, que regula a herança, e sem o
qual a família será arruinada e posta na rua.
Tendo dito isso, e prometendo o doutor seguir para o campo
e executar tal importante tarefa, a aparição, assumindo um
aspecto muito agradável e sorridente, fez os seus
agradecimentos e desapareceu.
Passados alguns dias e dentro do prazo fixado pelo espectro,
o doutor partiu para o condado que lhe fora indicado.
Chegando com muita facilidade à casa do cavalheiro em
questão, pelas informações que tinha recebido, bateu na
porta e perguntou pelo proprietário. Depois que os
empregados lhe disseram que o dono da casa estava e de
dizerem a este que um eclesiástico o procurava, o cavalheiro
apareceu à porta e, com muita cortesia, convidou o visitante
a entrar.
Depois que o doutor ali estivera por algum tempo, reparou
que o cavalheiro o recebia com uma cortesia inusitada, pois
se tratava de um estranho e sem propósito ostensivo.
Conversaram de forma muito amistosa, e o doutor simulou
muito ter ouvido a respeito da família (como, de fato, havia)
e a respeito do avô.
- De quem, ao que creio, senhor - disse ele -, o domínio lhe
vem por via direta.
- Ai de mim! - respondeu o cavalheiro, e balançou a cabeça.
- Meu pai morreu jovem, e meu avô deixou as coisas em tal
confusão que, por faltar um documento capital, que ainda
não foi encontrado, tenho enfrentado dificuldades que me
erguem dois primos, filhos do irmão de meu avô, que já me
deram muita despesa a respeito da propriedade.
A essas palavras, o doutor, parecendo um tanto curioso,
disse:
- Mas tenho fé em que o senhor já venceu tais dificuldades.
- Não, na verdade - respondeu o cavalheiro -, para ser franco
com o senhor. Nunca as venceremos, a menos que
possamos encontrar o testamento, o qual, no entanto,
pretendo localizar, pois pretendo empreender uma busca
completa do mesmo.
- Desejo de coração que o senhor o localize - exclamou o
doutor.
- Não tenho dúvida de que o encontrarei. Tive um sonho
estranho a respeito do assunto, a noite passada.
- Um sonho a respeito do testamento? - perguntou o doutor.
- Espero que tenha sido um sonho feliz: de que o testamento
seria encontrado.
- Sonhei - respondeu o cavalheiro - que um homem que eu
nunca vira em minha vida vinha visitar-me e ajudava-me a
procurar o documento. E possível que o estranho seja o
senhor.
- Teria grande prazer em ser tal homem - disse o doutor.
- O senhor pode ser o homem que me ajudará a procurar.
- Sim - afirmou o doutor -, eu posso ajudá-lo a procurar, e
isso farei de todo o coração, mas preferiria ser o homem que
o ajudasse a encontrar o documento. Quando pretende o
senhor fazer a busca?
- Amanhã - respondeu o cavalheiro - ou, pelo menos, assim
eu havia planejado.
- Mas de que maneira pretende conduzir a busca?
- Ora - respondeu o cavalheiro -, é nossa opinião que meu
avô estava tão preocupado em preservar esse documento, e
sentia tanta desconfiança de que alguns que o cercavam
tentariam retirá-lo dele, se o pudessem, que o escondeu em
algum lugar secreto. E estou resolvido a pôr a casa abaixo até
achá-lo, se estiver acima da terra.
- É possível - ponderou o doutor - que ele de tal maneira
tenha ocultado o documento que seja necessário destruir a
casa, antes de encontrá-lo, e talvez nem assim o senhor o
consiga. Sei de coisas semelhantes que se perderam
completamente pelo cuidado que se tomou em preservá-las.
- Se fosse feito de material que o fogo não destruísse -
adiantou o cavalheiro -, eu poria fogo na casa para descobri-
lo.
- Suponho que o senhor remexeu, vezes repetidas, todos os
baús, malas e cofres de seu avô?
- Claro - respondeu o cavalheiro -, revirei-os todos de cima
para baixo, e lá jazem, numa pilha, num grande sótão, com
nada dentro deles. Destruímos três ou quatro em busca de
gavetas secretas, e eu os queimei de raiva, embora fossem
excelentes baús de cipreste, que custaram dinheiro quando
estavam na moda.
- Lamento que os tenha queimado - disse o doutor.
- Só os queimei depois de fazê-los em pedaços e verificar que
era impossível que contivessem alguma coisa escondida.
Isso aliviou o ânimo do doutor, porque este começou a
inquietar-se quando lhe foi dito que alguns baús haviam sido
feitos em pedaços e queimados.
- Bem, senhor - disse ele -, se lhe posso prestar qualquer
serviço em sua busca, voltarei e vê-lo-ei novamente
amanhã. Estarei presente ao seu trabalho de busca.
- Não - respondeu o cavalheiro -, não pretendo apartar-me
do senhor, uma vez que teve a bondade de me oferecer os
seus serviços. O senhor passará aqui a noite e participará da
busca, desde o início.
O doutor conseguira o que desejava na medida em que se
fizera conhecido e desejado na casa e chegara à um certo
grau de intimidade com o dono. Assim, embora simulasse
que queria ir-se, não foi necessária muita insistência para
que permanecesse e consentiu em passar a noite na
residência do cavalheiro.
Um pouco antes do cair da noite o cavalheiro convidou-o a
dar um passeio pelo parque, mas ele declinou do convite
com uma brincadeira.
- Eu preferiria, caro senhor - disse ele, sorrindo -, que o
senhor me permitisse visitar esta bela mansão que será
demolida amanhã. Gostaria de ver a casa por uma vez, antes
que o senhor a destrua.
- Com todo o meu coração - respondeu o cavalheiro.
E assim levou-o para o andar superior, mostrou-lhe todos os
melhores cômodos e toda a mobília e pinturas, e retornando
ao topo da grande escada por onde haviam vindo, ofereceu -
lhe descer novamente.
- Mas, senhor - disse o doutor por que não subimos mais
acima?
- Não há nada ali, a não ser sótãos e velhas malas cheias de
coisas velhas, e um lugar que se comunica com o torreão e
com a torre do relógio.
- Ora, deixe-me ver tudo, agora que estamos com as mãos na
massa - disse o doutor. - Adoro visitar velhas torres altas e
torreões, as obras magníficas de nossos ancestrais, embora
estejam passando de moda agora. Rogo deixar-me vê-las.
- O senhor ficará cansado - respondeu o cavalheiro.
- Não, não - disse o doutor. - Se o senhor, que as viu tantas
vezes, não se cansar, não me cansarei, posso assegurar-lhe.
Por favor, subamos.
O cavalheiro subiu e o doutor seguiu-o.
Depois que haviam errado pela parte abandonada de uma
velha casa, parte essa que não necessito descrever, passaram
por um grande aposento cuja porta estava aberta e em cujo
interior havia uma grande quantidade de madeira velha.
- E que lugar é este? - perguntou o doutor, olhando para
dentro, mas não fazendo menção de entrar.
- Este é o quarto! - disse o cavalheiro maciamente, porque
havia um empregado que os acompanhava. - Este é o quarto
de que lhe falei onde estão todas as coisas velhas: os baús, os
cofres e as malas. Veja! Estão todos empilhados quase até o
teto.
Com isso, o doutor entrou e olhou em volta, pois este era o
lugar a que fora mandado e que desejava ver. Passara apenas
dois minutos no aposento quando verificou que tudo estava
exatamente como o descrevera o espectro em Londres,
seguiu diretamente para a pilha de que a aparição lhe falara,
e pôs os olhos no próprio baú com o velho cadeado
enferrujado, com a chave que não virava na fechadura nem
saía.
- Por Deus, senhor - disse o doutor -, o senhor teve bastante
trabalho se remexeu todas essas gavetas e baús, e tudo o que
pode haver neles.
- Na verdade, senhor - respondeu o cavalheiro -, eu esvaziei
cada uma dessas caixas e examinei todos os velhos escritos
que contêm, um por um, com alguma ajuda, é verdade, mas
ainda assim não houve uma só peça que não me passasse
pelas mãos.
- Bem, senhor - ponderou o doutor -, vejo que trabalhou
seriamente, e acho que o assunto é de grande importância
para o seu bem. Neste mesmo momento, uma estranha idéia
passa-me pela cabeça. Será que o senhor poderá satisfazer
minha curiosidade, abrindo e esvaziando um pequeno baú
que me chama a atenção? Pode não haver nada nele, pois o
senhor sabe que nunca estive aqui antes. Mas tenho a
impressão que ele contém lugares secretos que o senhor não
encontrou. É possível que em tais lugares nada se encontre,
se existirem e forem achados.
O cavalheiro olhou para o baú, sorrindo.
- Lembro-me muito bem de tê-lo aberto. - E, virando-se para
o empregado: - Will, não se lembra você deste baú?
- Sim, senhor - respondeu Will -, lembro-me muito bem de
que o senhor estava tão fatigado que se sentou sobre o baú,
quando havia retirado tudo do interior. O senhor bateu com
a tampa e mandou-me trazer uma limonada. O senhor disse
que estava tão cansado que se achava a ponto de desmaiar.
- Bem, senhor, eu só queria remexer o baú por uma
imaginação minha, e é muito provável que não haja nada
nele.
- Não tem importância. O senhor o verá virado de cabeça
para baixo. E assim também verá todo o resto, desde que o
queira.
- Meu caro senhor, se me fizer a vontade quanto a este, não
o perturbarei mais.
De imediato, o cavalheiro fez com que o baú fosse retirado
da pilha e aberto, pois não estava trancado - a chave nem o
abria nem o fechava. O doutor, fingindo olhar para os papéis
e prestando pouca atenção ao baú, reclinou-se e meteu sua
bengala no baú, mas retirou-a logo, como se tivesse
cometido um engano. E, virando-se para o baú, fechou-lhe
novamente a tampa e sentou-se nele, como se estivesse
muito fatigado.
No entanto, aproveitou a oportunidade para falar
suavemente com o cavalheiro, para que mandasse embora o
empregado por um momento.
- Porque quero dizer-lhe uma ou duas palavras, sem que
ninguém nos escute. - E então disse em voz alta: - Senhor,
pode mandar buscar um martelo e um buril?
- Sim, senhor - disse o cavalheiro. - Vai, Will, buscar um
martelo e um buril.
Logo que Will se apartou, disse o doutor:
- Deixe-me dizer-lhe uma coisa. Encontrei o seu
documento. Encontrei o testamento. Apostarei com o
senhor uma centena de guinéus como o tenho neste baú.
O cavalheiro abriu novamente a tampa, pesquisou todo o
interior do baú, mas não deparou com nada. Confuso e
espantado ele disse ao doutor:
- Que quer o senhor dizer? O senhor não é nenhum mago.
Não há mais aqui do que um baú vazio.
- É verdade - disse o doutor -, eu não sou um mago. Mas
digo-lhe novamente que o documento está neste baú.
O cavalheiro voltou a chamar por seu empregado com o
martelo. Mas o doutor sentou-se com toda a calma sobre a
tampa do baú.
Por fim, chegou o empregado com o martelo e o buril, e o
doutor pôs-se a trabalhar com o baú: bateu com o martelo
no fundo.
- Ouça - disse ele -, o senhor não ouve? Não o ouve
claramente?
- Ouvir o quê? - disse o cavalheiro. - Eu não o compreendo.
- Ora, o baú tem um fundo duplo, senhor, um falso fundo. O
senhor não ouve o barulho de vazio?
Numa palavra, eles imediatamente abriram o fundo e
imediatamente encontraram o pergaminho estendido no
baú, como se estivesse numa gaveta.
Não me é possível descrever a surpresa e a alegria do
cavalheiro e, logo depois, de toda a família. Pois o cavalheiro
mandou subir a esposa e duas de suas filhas ao sótão, no
meio de todas as coisas abandonadas, para ver não apenas o
documento, mas onde fora achado e para dizer-lhes como o
fora.
Vocês podem facilmente supor que o doutor foi tratado com
cortesias fora do comum pela família e enviado (depois de ali
passar uma semana) para Londres na própria carruagem do
cavalheiro. Não me lembro se revelou ou não o segredo ao
cavalheiro. Quero referir-me ao segredo da aparição, por
meio da qual o lugar onde jazia o documento lhe foi
revelado, e que o obrigou a vir até aquela casa para descobri-
lo. Digo que não me lembro de tal parte da história, mas não
é substantiva. Tudo o que me foi relatado da história, eu o
reproduzi. E a verdade do relato me foi confirmada de tal
maneira que não o posso pôr em dúvida.

UMA ESTRANHA EXPERIÊNCIA DE DOIS IRMÃOS

T. H., um cavalheiro de fortuna, filho mais velho da família
(sendo o pai um baronete, homem de família honrada, e que
então ainda vivia), porque era um homem jovem e dado a
prazeres, teve um caso com uma certa senhora, caso em que
seu irmão mais jovem (mais do que ele dado a prazeres) era
seu rival. A mulher era bonita e não desprovida de meios,
mas, em matéria de recursos, muito inferior ao irmão mais
velho, cuja fortuna era calculada em duas mil libras por ano,
dinheiro que lhe caberia pela morte do pai, Senhor G. H.
O mais jovem dos dois irmãos estava realmente apaixonado
pela dama, e queria com ela casar-se se pudesse obter para
tanto o consentimento do pai, e, por duas ou três vezes,
tinha falado com o velho baronete a respeito do assunto. O
pai não era muito contrário à idéia, mas julgava que a fortuna
da dama era muito reduzida.
Sir G. disse ao filho que, fosse ele o mais velho, não haveria
dificuldade no projeto, pois, como o domínio estava livre de
qualquer hipoteca, o herdeiro não teria necessidade de fazer
fortuna por meio de uma mulher, mas que o irmão mais
moço teria sempre de procurar uma fortuna para remediar-
se. Costumava brincar com o filho e dizer-lhe que era essa
circunstância que lhe fazia admitir a sua maneira de viver;
que um filho mais moço tinha de ser bonito, culto, de
vestir-se bem e ser alegre; que o primeiro devia ser visto
com bons olhos pela corte; que o segundo o deveria ser
pelas damas. Que o primeiro podia ser um tolo, capaz apenas
de assinar o nome, assobiar para os cachorros e de montar a
cavalo. Mas, como era raro que o mais velho tivesse cabeça,
a natureza sabiamente dava espírito ao segundo e a
propriedade ao mais velho.
- Assim - disse o cavalheiro -, a situação de seu irmão é
muito diferente da sua.
Era com tais argumentos bem-humorados que o velho
cavalheiro procurava persuadir seu filho a não casar-se com
a dama. Mas não o proibiu de continuar em sua corte à
mesma, ameaçando-o de retirar-lhe o apoio, a respeito de
dinheiro. Assim, o jovem cavalheiro andava abertamente
em companhia da dama e, embora não lhe tivesse proposto
casamento, projetava fazê-lo.
Por outro lado, o mais velho procurava a mesma senhora
com um propósito diferente e muito pior, porque queria
fazer dela sua amante e não sua mulher.
Com esses diferentes projetos, os irmãos muitas vezes se
encontravam na casa da mencionada senhora, ou seja, na
casa da tia com quem ela vivia. Pois o pai lhe tinha falecido e
a mãe a abandonara, de forma que ela dependia de seu
próprio critério.
O irmão mais velho contava com a seguinte vantagem em
seu interesse: a senhora o amava e teria ficado muito
contente se ele a desejasse para casamento, mas tal não era o
projeto dele. Numa palavra, o caso assim se resumia: o irmão
caçula amava a dama, mas esta amava o mais velho.
O irmão mais velho procurava vencer-lhe a virtude, e o
caçula procurava conquistar-lhe a afeição.
Mas, como eu disse, correndo as coisas em favor do mais
velho, a dama estava em perigo de sacrificar a honra pela
paixão que a possuía, e os honestos propósitos do irmão
caçula corriam o perigo de ser também sacrificados.
Os dois jovens mantinham, cada um por seu lado, as suas
pretensões, mas nenhum dos dois era tão discreto a ponto
de esconder do outro, em certa medida, que alimentava
propósitos quanto à dama, sem, no entanto, revelar
inteiramente a natureza de tais propósitos. No entanto,
como muitas vezes se encontravam no apartamento da
senhora, era impossível que se passasse muito tempo antes
que entrassem numa conversa sobre o assunto, e isso os
enredou numa confusão, como já o veremos.
O irmão mais velho começou uma noite a tratar do assunto
com o caçula, de maneira um tanto rude.
- Jack - disse ele nós dois muitas vezes damos um com o
outro aqui. Eu não entendo isso. Por favor, diga-me o que
pretende? É um tanto esquisito que dois irmãos tenham a
mesma amante. Não nos comportemos como italianos, meu
caro Jack.
- Não - disse Jack -, que pretende você? Se algum de nós está
errado, creio que é você.
- Não - respondeu T. -, não estou de acordo. Estou certo.
Estou seguro disso. Sempre estou, e estarei certo. Por favor,
tome nota disso.
- Não tomo nota de nada. Todo o mundo sabe que estou
certo e continuarão a sabê-lo e você também o saberá, Tom.
- Por favor, Jack - disse Tom -, procure alterar uma parte de
seu comportamento.
- Que comportamento? Não o compreendo. Mas se o
compreendesse, não sei de qualquer comportamento meu
que esteja errado, e não modificarei nada em minha maneira
de comportar-me.
- Trata-se de que, quando o encontro aqui, o que me parece
excessivamente comum, observo que você sempre se
esforça para permanecer depois que eu saio e para me fazer
sair. Digo-lhe que isso não me agrada.
- Em nada modificarei essa maneira de proceder, posso
garantir-lhe - disse Jack. - Parece-me que tenho mais que
fazer aqui do que você. E, quanto a você encontrar-me aqui
com muita freqüência, o aborrecimento é recíproco. Parece-
me que você vem com freqüência excessiva, a menos que
entretenha um propósito honesto.
- Você é muito impertinente, senhor Jack, com seu irmão
mais velho. Penso que tenho de amansá-lo um pouco - disse
Tom.
- Ora, meu bom irmão mais velho - respondeu Jack -,
quando você for um baronete, você poderá assumir esses
ares de importância. Mas até então, não tem direito a
reverências, como parece pensar.
- Olhe aqui, Jack - disse Tom eu não estou brincando com
você, e não quero que brinque comigo. A melhor resposta
que um cavalheiro dá a uma brincadeira é um tapa na orelha,
ou uma bengalada.
- Ora, caro senhor - respondeu Jack -, devo considerar-me
um cavalheiro igual a você, ou senão não seria seu irmão. E,
como você parece disposto a falar seriamente, peço-lhe
vênia para dizer que serei tratado como um cavalheiro. E, se
você não sabe como fazê-lo, eu o ensinarei.
Ambos estavam agora de cabeça quente. Pois, diante das
últimas palavras do irmão mais moço, o mais velho tomou
da bengala, ao que o mais jovem lançou mão da espada.
- Olhe - disse ele -, se está disposto a tratar seu irmão de tal
maneira, tenha em conta que o filho de meu pai pode ser
morto, mas não se submeterá a bengaladas, e eu não as
suportarei de sua parte. Estou a seu dispor, no momento que
quiser.
Algumas pessoas que ali estavam, amigos de ambos, se
interpuseram e os separaram naquele momento. Mas
voltaram a encontrar-se no mesmo lugar e, embora tivessem
decorrido dois, três ou mais dias, logo ingressaram na mesma
espécie de discussão. O pior é que era o mais velho, logo
aquele dos dois a quem não assistia razão, quem começava a
disputa.
Aconteceu que deram um com o outro na residência da
dama e foram levados à sala de visitas, mas,
desafortunadamente, a senhora não se encontrava em casa.
Ela havia dito à empregada que, se os cavalheiros viessem
não estando ela em casa, nunca os deixasse entrar juntos, ou,
pelo menos, não os colocasse no mesmo aposento, pois
havia percebido que começavam a irritar-se um com o
outro. Ela sabia que ambos eram esquentados e raivosos e
temia alguma desgraça entre eles, embora fossem irmãos.
Mas alguns dos empregados da tia da dama tendo atendido à
porta, quando o irmão mais velho bateu, conduziram-no à
mesma sala onde o mais jovem aguardava o regresso da
senhora.
Isso teve tanta influência no que se seguiu, como se o diabo,
que está sempre pronto a armar das suas, o houvesse
arranjado de propósito, pois logo que os dois irmãos se
encontraram começaram a discutir.
- Bem, Jack - disse o mais velho -, você continua a fazer
daqui um de seus lugares favoritos, apesar do que eu lhe
disse.
- Eu, de fato, não compreendo a sua maneira de falar -
respondeu Jack. - Você parece tomar comigo uma liberdade
a que não tem qualquer direito.
- Que liberdade eu tomo? - perguntou o mais velho. - Quis
saber o que o traz à casa da Senhora...? Foi isso tomar
excessiva liberdade? E volto a perguntar a mesma coisa; é
isso uma ofensa?
- E eu lhe respondi que não lhe prestaria contas do que faço,
não é verdade? Foi isso uma ofensa para você? Se foi, não sei
o que fazer. Dar-lhe-ei agora a mesma resposta. Não tenho
idéia do que você pretende, fazendo tal pergunta.
- Sei o que quero dizer com ela, e espero uma resposta
melhor. É o que lhe digo em poucas palavras - respondeu o
mais velho.
- Se você quer transformar isso numa briga, seja bem-vindo -
disse.
- Direi tudo em tão poucas palavras quanto você quiser.
Diga-me o que deseja, e terá uma resposta direta ou uma
recusa direta.
- Ora, minha pergunta é curta - disse o mais velho. - Por que
motivo você visita a Senhora...? É fácil compreender a
pergunta.
- Eu responderei com a mesma pergunta - disse Jack. - Por
que motivo você a visita?
- Ora, isso é uma resposta tão grosseira quanto é possível dar
a um irmão mais velho - disse o morgado - e cheia de
despeito. Mas é melhor responder em poucas palavras. Eu a
visito por um motivo que não suporta rivais. Espero que
você me compreenda agora.
- Bem, e eu faço o mesmo - disse Jack -, mas há entre nós
uma questão que decidirá quem tem direito, e essa questão
consiste em saber quem a visitou primeiro?
- Ora, isso é verdade - disse o mais velho - em muitos casos,
mas não em amor. Em tal caso, a prioridade de nada vale.
Não é questão que me preocupe.
- Então, também não há força em ser o irmão mais velho.
Também essa questão não me preocupará.
- Não, não - disse o mais velho. - Não o espero. Não há
parentesco quando se procura uma mulher. Não existe para
mim irmão ou pai, tio ou primo, quando falo em minha
amante.
- Muito bem - disse Jack -, agora você me respondeu melhor
do que pretendia. E talvez cheguemos a um entendimento
mais cedo do que eu pensava.
- Que quer você dizer, por um entendimento?
- Que quero dizer? Quero dizer que você corteja a Senhora...
para fazer dela uma prostituta.
- Use melhores palavras, Jack - disse o mais velho. - Quero
dela fazer uma amante.
- Não há melhores palavras. Uma prostituta é uma prostituta.
Diga o que quiser. Para mim é a mesma coisa.
- Bem, supondo que você tem razão, que é que você tem
que ver com o assunto?
- Ora, suponha que eu cortejo a mesma senhora para
transformá-la em minha mulher. Creio que nesse caso estou
em melhor posição.
- Não, em absoluto, Jack. Não permitirei que faça sua mulher
de minha amante.
- Nem posso eu permitir que você transforme em prostituta
a minha mulher.
- Mas não terei escrúpulos nisso, posso assegurar-lhe - disse
o mais velho -, desde que ela consinta. Por mais que você
seja meu irmão, farei o que desejo, se puder.
- E não lhe enganarei: consinta ela ou não, eu lhe cortarei a
garganta por esse motivo, por mais irmão meu que você seja.
- Muito bem, Jack - respondeu o mais velho -, então eu sei o
que posso esperar de você.
- É verdade - disse Jack é a velha regra dos cavalheiros
andantes. Conquiste-a e use-a.
- E o que deve ser feito então? - perguntou o mais velho.
- Não lhe preciso dizer o que deve ser feito. Digo-lhe que ela
é minha mulher. Penso que basta dizer isso para que você
saiba o que fazer.
- E eu lhe digo - respondeu o mais velho - que ela é minha
amante. Basta dizer-lhe isso. Você é um corno, ou o será.
Penso que é justo dizer-lhe isso antecipadamente.
- E penso que isso consiste em dizer-me que devo cortar-lhe
a garganta. Pois nunca serei um corno, ou deixarei que
alguém assim me chame.
Isso falando, o irmão mais jovem levantou-se numa raiva
violenta e saiu, e o irmão mais velho, tão esquentado quanto
ele, disse-lhe que fazia bem em deixar-lhe o lugar.
Tal afirmação ainda mais irritou o mais moço e, voltando-se
para o mais velho, exclamou:
- Espero que você tenha a cortesia de acompanhar-me.
- Não, Jack - respondeu o mais velho, e praguejou. - Você
não lutará por minha amante e por minha propriedade, ao
mesmo tempo. Tomarei primeiro, medidas para que você
nada consiga com essa luta.
- De todo o coração - replicou Jack. - Damos a um bandido
na forca tempo para rezar.
- Eu corrigirei seu atrevimento amanhã de manhã, sem falta
- disse o mais velho.
- É preciso que eu espere tanto tempo? - respondeu Jack e
acrescentou alguma coisa muito amarga, para significar que o
irmão era muito covarde para lutar. Mas foi o contrário que
aconteceu, porque naquela mesma noite ele recebeu um
desafio do mais velho, indicando o lugar e o tempo para que
se encontrassem no dia seguinte, às cinco da manhã.
Os dois inconsiderados e esquentados jovens foram levados
a esse ponto de raiva antes pela violência de seus
temperamentos e paixões do que por ciúme real, porque
qualquer um dos dois mal começara a envolver-se com a
dama. Mas, como eram ambos de cabeça quente e teimosos,
ergueram a tempestade entre os dois e, coincidindo o
fósforo e a madeira, a chama se elevou devido à mera
natureza das coisas.
Meu propósito não é, porém, fazer reflexões morais, mas
relatar o fato. Feito o desafio, não tinham mais que fazer do
que encontrar-se, lutar, servir um de assassino do outro, e
entregar as conseqüências ao curso do tempo.
O pai, o bom velho cavalheiro, ainda vivo na época, nada
podia saber do que se passava entre seus filhos, porque
estava morando, naquele mesmo tempo, em sua casa de
campo no condado de W..., a sessenta milhas pelo menos de
Londres.
Cedo da manhã, segundo o combinado, os irmãos se
prepararam para o duelo, e seguiram, por caminhos
diferentes, para o lugar de encontro, pois moravam em
diferentes partes da cidade.
O irmão mais novo, cujo sangue parece era o mais quente,
foi o primeiro a sair e mal amanhecera quando chegou ao
lugar escolhido. Ali ele viu seu irmão, como supôs, andando
apressadamente de um lado para o outro, como se esperasse
com impaciência a vinda dele.
- Ora - disse ele com seus botões -, estou certo de que
cheguei cedo. No entanto, não fique impaciente, irmão
Tom. Breve estarei com você.
E, com essas reflexões, apressou o passo. Não dera muitos
passos, no entanto, quando viu o irmão, como ainda julgava
que fosse, vindo como que para encontrá-lo, e com a espada
desembainhada.
Voltou a falar com seus botões: - Você é muito lento com
sua espada. Pensou que eu não lhe daria tempo para
desembainhá-la?
Como ficou, porém, surpreendido quando, chegando perto
da figura, verificou que não se tratava do irmão, mas do pai e
que, em vez de ter na mão uma espada, tinha apenas uma
pequena bengala, como a que o velho cavalheiro usava para
caminhar.
Ele ficou ainda mais estupefato porque supunha que seu pai,
como eu disse acima, se encontrava em sua casa de campo, a
uma distância de cerca de sessenta milhas. No entanto, não
lhe restou qualquer dúvida quando não apenas o viu ainda
de mais perto, mas quando o pai lhe falou.
- Então, Jack? - disse o velho cavalheiro. - Você desafia seu
pai e lhe mostra a espada?
De fato, Jack, quando supôs que via o irmão com a espada na
mão, desembainhara a própria espada.
- O senhor pode estar certo - afirmou ele - que não supunha
que se tratava do senhor. Não tenho dúvidas de que sabe
quem eu esperava encontrar aqui. É uma manobra pobre e
covarde a dele: primeiro desafiar-me, e depois mandar o
senhor. O senhor não teria agido da mesma maneira, quando
jovem.
- Já não é momento para falar, Jack - disse o pai. - Tenho
aqui o seu desafio e vim lutar com você, e não conversar.
Portanto, empunhe sua espada. Você sabe que não há
considerações de parentesco quando surgem brigas por
causa de amor.
Com essas palavras, o pai tirou da espada e avançou contra
ele.
- Tirar da espada! - exclamou Jack. - E contra meu pai? Que o
céu não o permita! Deixar-me-ei matar primeiro.
Mas, voltando o pai a avançar e com uma fisionomia furiosa
como se, de fato, fosse matá-lo, Jack retirou a espada e a
bainha e atirou as duas coisas no chão, gritando:
-Tome-as, senhor, mate-me com elas. Por Deus, que quer o
senhor?
Mas como aquele que lhe parecia o pai correu para ele, Jack
apartou-se e, pondo-se de um salto fora de seu alcance,
pareceu resolvido a deitar a correr. Visto isso, o pai inclinou-
se, pegou-lhe a espada e ficou quieto.
O jovem, surpreso e espantado com o encontro, mergulhou
em terror e confusão, e não sabia o que fazer. Mas, voltando
atrás muitos passos e observando que seu pai partira, como
pensava, resolveu que, mesmo não dispondo de espada, iria
até o lugar do encontro e veria se seu irmão havia vindo.
Pois, por mais que estivesse desarmado, o irmão não poderia
dizer que ele não viera.
Nessas condições, foi para o lugar escolhido e sentou-se no
chão, esperando ali por duas horas, mas nada viu de seu
irmão. Mas, quando de lá saiu ao fim de duas horas, ele
encontrou a espada jazendo no chão onde fora atirada, ou
tão perto de tal lugar quanto podia imaginar, embora
estivesse seguro de que ali não estava quando passou pela
segunda vez no mesmo lugar.
Isso o tornou muito curioso, e não sabia que explicação dar
ao ocorrido. Mas pegou da espada e foi para casa, pensando
no sentido que teria aquilo tudo.
Não passara muito tempo em casa quando o empregado do
irmão mais velho veio aos seus aposentos com uma
mensagem muito cortês do patrão, que queria saber como
ele passava. O empregado tinha ordens para perguntar, de
parte do irmão, se alguma coisa de extraordinário lhe
acontecera aquela manhã e de dizer-lhe que o irmão mais
velho estava muito enfermo, motivo por que não viera em
pessoa.
O caráter estranho da mensagem aumentou a surpresa que
sentira antes. Por esse motivo, ele chamou o mensageiro e
com ele manteve a seguinte conversa:
Jack - Que se passa, Will? Como passa meu irmão?
Will - Meu patrão manda saudações a Vossa Senhoria, e quer
saber como passa.
Jack - Na verdade, não estou inteiramente bem, mas como
está seu patrão? Que se passou?
Will - Para dizer a verdade, não sei o que se passa. Penso
que alguma coisa amedrontou seu irmão esta manhã.
Jack - Amedrontou, Will? O que o amedrontou? Não é fácil
amedrontar seu patrão.
Will - Sim, é verdade. Mas alguma coisa extraordinária se
passou. Não sei o que foi, porque não estava a seu lado.
Dizem na casa que ele viu o pai, ou viu uma aparição na
forma de seu pai.
Jack - Ora, eu também vi. Agora, você me amedronta,
porque me pareceu coisa de pouca importância antes. Penso
que era certamente meu pai.
Will - Não era, senhor, infelizmente. Seu pai? Ora, meu
velho patrão estava em... no condado de... e muito doente,
sexta-feira passada. Eu vim de lá. Seu irmão mandou-me a
ele com uma mensagem.
Jack - E você o viu pessoalmente, Will?
Will - Se Vossa Senhoria quiser que eu jure, eu jurarei. Eu o
vi e falei com ele, e ele estava muito doente. Estou certo de
que Vossa Senhoria acredita que conheço meu velho patrão.
Jack - E claro que o conhece. Creio que passou quatro anos
com ele, não passou?
Will - Eu o vesti e despi por cinco anos e meio. E posso
dizer que o conheço com suas roupas ou sem as roupas.
Jack - Bem, William, espero que você concorde que eu
também conheço meu pai, ou aquele a quem tenho
chamado meu pai por estes últimos trinta anos.
Will - Claro.
Jack - Bem, diga então a meu irmão que eu vi meu pai ou o
diabo. Vi e falei com ele. Estou amedrontado.
Seguiu Will de volta, com esta mensagem, para seu patrão, e
este, juntamente com Will, veio ter com seu irmão.
Logo que entrou no aposento do irmão, correu para ele e
beijou-o.
- Querido Jack - disse ele -, que se passou conosco hoje? Nós
dois bancamos os tolos; mas perdoe-me e diga-me o que se
passou.
Jack recebeu-o com todo o amor e ternura imagináveis e os
dois entraram imediatamente a comparar experiências. Will
contara ao irmão mais velho o que lhe mandara dizer o mais
novo: que vira o pai e com ele falara. E agora o mais novo
contou todos os detalhes como os relatei acima: que o pai
avançara para ele com tal fúria que realmente pensou que o
mataria, e que fugira.
O mais velho contou sua história com o mesmo propósito:
que, quando vinha para o lugar escolhido, o pai o encontrara
e perguntara-lhe aonde ia. Que respondera com uma
invenção, e dissera que ia a Kensington para ali reunir-se
com alguns cavalheiros, que seguiriam com ele para
Hampton Court.
Disse que a essa altura o pai se zangara.
- E observei - afirmou ele - que seu rosto tornou-se
vermelho como o fogo. Bateu com o pé, como costumava
fazer quando o provocavam, e disse-me que eu o enganava
com uma mentira; que conhecia meu destino tão bem
quanto eu; que eu ia assassinar meu irmão mais moço, e que
ele viera satisfazer minha fúria com seu sangue, e que eu
devia assassiná-lo, em vez de matar meu irmão.
- Fiquei tão confuso - acrescentou o mais velho - que nada
pude dizer por um bom tempo. Recobrei o controle, no
entanto, e ia desculpar-me, quando se enfureceu ainda mais.
Quando lhe disse que entretinha intenções tão honestas para
com a Senhora... quanto as suas, ele me chamou de
mentiroso. E ele estava certo. Disse-me, em resumo, que eu
a cortejava para corrompê-la, mas que você a cortejava
honradamente para com ela casar-se, e que ele lhe dera seu
consentimento. Não soube o que responder e então pedi-lhe
perdão. Assim, mandou-me voltar para casa e reconciliar-me
com meu irmão, ou ele usaria para comigo outro
procedimento, na próxima vez que me visse. E agora, caro
Jack - disse o mais velho -, vim para pedir-lhe perdão, não
apenas em obediência a meu pai, mas de vontade própria,
porque estou convencido de que o ofendi muito.
Podem ter certeza de que os irmãos tornaram- se
imediatamente tão bons amigos quanto em qualquer época
em que o haviam sido em suas vidas. Mas, contudo, Jack não
sabia ao certo se vira a aparência real de seu pai, e as palavras
do empregado do irmão não lhe deixaram a cabeça em paz a
noite toda. Pois o encontro entre os dois irmãos fora tão
ocupado pelos êxtases da reconciliação que não lhe sobrou
tempo para mais nada.
Na manhã seguinte, o jovem cavalheiro tornou a ver o
irmão, para pagar a visita e voltar a falar nos assuntos que
lhes interessavam.
- Caro irmão - disse Jack -, inquieta-me uma parte de nossa
história. Estou contente de que tenhamos voltado a
entender-nos, mas não consigo saber quem fez a paz entre
nós. Se o que diz o seu empregado Will for verdade, o
pacificador não foi meu pai.
- Sim - disse o irmão -, Will contou-me que na sua opinião
era meu pai ou o diabo.
- Sim, eu disse isso - afirmou Jack - mas isso era para
significar certeza de que não se tratava de meu pai, e não
que eu supunha que fosse o demônio. Mas, diga-me, por
favor, faz quanto tempo meu pai está na cidade?
- Não - disse o mais velho -, eu não sabia que ele estava na
cidade. Mas que eu o vi eu sei muito bem.
- Mas você não mandou Will procurá-lo no campo? E é
possível que ele tenha vindo desde então, em tão pouco
tempo?
- Sim, ele pode ter vindo - respondeu o mais velho. - Muitas
vezes ele faz todo o caminho em pouco mais de um dia;
algumas vezes num dia. Você sabe que seis cavalos andam
depressa.
- Mas, por favor, qual é a sua opinião? Você o viu tão bem
quanto eu. Era realmente meu pai? Seu empregado Will diz
que é impossível. Além disso, ele diz que meu pai estava
enfermo e de cama.
- Will diz que ele não estava bem, mas não disse que estava
de cama. Mas confesso que nunca cogitei nesse problema.
Era certamente meu pai! Quem mais poderia ser? Como
você disse, irmão, deveria ser meu pai ou o demônio.
- Não, também não sei o que dizer quanto a ser demônio.
Creio que não há entre o diabo e meu pai qualquer forma de
correspondência.
- Além disso, irmão - respondeu o mais velho -, por que o
diabo nos quereria tanto bem a ponto de preocupar-se em
reconciliar-nos? Creio que ele teria preferido ver-nos matar
um ao outro, como estávamos prestes a fazer.
- Eu acredito - disse Jack - que ele teve alguma coisa a ver
com a nossa briga.
- O mesmo penso eu - disse o mais velho. - Creio que, de
minha parte, estava louco. E, como diz o povo, o diabo
havia entrado em mim ou eu nunca me teria comportado
tão tolamente.
- Sim, irmão - disse Jack -, mas como chegaremos ao fundo
desse assunto? Ambos pensamos que era meu pai, e ambos
pensamos que dificilmente poderia ser ele, e ambos somos
de opinião de que não se tratava do demônio.
- Então - disse o mais velho -, se nem era meu pai nem o
demônio, que diremos?
- Ora, isso torna-me impaciente de resolver a questão.
Agora, dir-lhe-ei uma coisa que me alarma um pouco.
Mandei um empregado à casa do Senhor..., onde, como
você sabe, meu pai sempre se instala, e outro ao pátio de
Black Swan, onde você sabe que sua carruagem fica
guardada, e de todos os lados chega-me a notícia de que ele
não está na cidade e que não é aqui esperado antes de seis
semanas.
- Bom, isso é extraordinário, confesso - disse o mais velho. -
Nunca pensei nisso, porque nunca entretive dúvidas dessa
natureza. Era coisa que não me passava pela cabeça. Mas,
por minha fé, você me deixa muito inquieto a respeito do
assunto.
- Por minha parte - respondeu o mais jovem -, daria
qualquer coisa para chegar a uma certeza a respeito desse
negócio. Eu chegaria a montar a cavalo e seguir até a casa de
campo.
- Irei com você, de todo o coração - disse o mais velho.
Para concluir o assunto, direi que os dois irmãos
concordaram e partiram ambos para ver o pai. Montaram no
mesmo dia, mas, umas poucas horas depois que tinham
seguido, chegou, de parte do pai, uma carta à casa do irmão
mais velho, carta essa de que narrarei o conteúdo dentro em
pouco.
E antes de mais nada devo observar que, quando chegaram à
casa do pai, encontraram-no muito doente, e souberam que
não se tinha ausentado daquela residência e estava muito
preocupado com a sorte dos filhos por causa do seguinte:
Na noite que se passou antes que escrevesse a carta, foi
surpreendido em seu sono por um sonho, ou melhor, uma
visão de que seus dois filhos tinham brigado por causa de
uma amante; que a briga chegara ao ponto de que se tinham
reciprocamente desafiado, e haviam partido para duelar no
campo, mas que alguém o avisara e que ele se levantara às
quatro da manhã para ir ao encontro deles e impedir o
duelo.
Depois desse sonho, despertou com grande inquietação e
terror. No entanto, verificando que tudo não passava de um
sonho, recuperara a calma e adormecera novamente, mas o
sonho voltara com tal vivacidade que foi forçado a chamar o
empregado para que com ele ficasse o resto da noite. E ficou
aterrorizado, e com o pensamento em desordem, tal o
medo.
Em conseqüência de tal sonho, mandara um mensageiro,
com ordens de cavalgar dia e noite, para saber como
passavam os filhos, e voltar dizendo se houvera ou não tal
briga entre eles. Tinha também ordens o mensageiro, caso
fosse verdadeira a briga, de insistir com eles para que
deixassem o pai ser mediador da questão, para que nada
fizessem até ele chegar, o que lhe permitiria terminar com o
rancor entre eles e restabelecer a paz fraternal. Esse era o
conteúdo da carta mencionada acima, que chegou umas
poucas horas depois que partiram.
Não se pode pôr em dúvida que ficaram confusos os filhos
ao ouvir o pai relatar seu sonho, ou melhor, visão, acerca da
briga. E também era espantoso ver a visão confirmada por
todos os traços particulares e saber que o velho cavalheiro
estivera longe de Londres o tempo todo, e mal passara um
dia inteiro fora da cama.
Entraram em conferência para saber se diriam ao pai a
história da briga, e especialmente o fato de que o haviam
visto cada um por seu lado, e que ele, de fato, os apartara,
impedindo que duelassem.
Depois de muito debater, chegaram à conclusão de não dizer
ao pai que o tinham visto em visão ou em aparência, para
não o inquietar. Quanto ao resto, como estavam
perfeitamente reconciliados, acharam que não havia maneira
ou ocasião de mencioná-lo. Assim, apenas deixaram parecer
que o visitavam para saber como passava e pedir-lhe a
bênção, porque Will lhes dissera que ele estava enfermo.
Quanto à carta, disseram-lhe que não a haviam visto.
Segundo essa resolução, executaram a cerimônia de
visitarem o pai, e apressaram-se em partir para que melhor
pudessem conversar a respeito de tal estranha conjunção de
circunstâncias, que continha tantas coisas surpreendentes
para o pensamento deles, e mesmo para o entendimento,
pois não sabiam como explicar as coisas.

O DIABO BRINCA COM UM MORDOMO

Um cavalheiro na Irlanda, que vivia perto da casa do conde
de Orrery, enviou seu mordomo uma tarde para uma aldeia
próxima, a comprar cartas de baralho. Quando este passou
por um campo, divisou um grupo no meio, sentado em
torno de uma mesa, onde havia várias iguarias. Quando se
aproximou do grupo, todos os seus componentes se
levantaram e o saudaram, expressando o desejo de que se
sentasse e com eles partilhasse da comida. Um deles, no
entanto, sussurrou as seguintes palavras no seu ouvido: -
Nada faça do que eles o convidam a fazer. - Então, como ele
recusou a aceitar-lhes o convite, a mesa e todas as iguarias
que a eles guarneciam desapareceram, mas o grupo entrou a
dançar ao som de vários instrumentos.
Foi outra vez o mordomo solicitado a participar dos
divertimentos, mas nada o convencia a neles ingressar. Por
esse motivo, os membros do grupo abandonaram o seu
divertimento e começaram a trabalhar, solicitando ainda ao
mordomo que a eles se juntasse. Este, no entanto, recusou.
Assim, diante de sua terceira recusa, eles todos
desapareceram e deixaram o mordomo sozinho, o qual,
muito consternado, regressou à casa sem os baralhos,
desmaiou quando passou pela porta, mas recuperou os
sentidos e contou a seu patrão tudo o que se passara.
Na noite seguinte, um dos fantasmas veio para o pé de sua
cama e disse-lhe que, se ousasse dela sair no dia seguinte,
seria carregado. Aceito esse conselho, manteve-se quieto até
a tardinha, mas, tendo necessidade de urinar, aventurou-se a
colocar um pé para fora da porta, coisa que ele tinha acabado
de fazer quando uma corda lhe foi passada pela cintura, à
vista de várias testemunhas, e o pobre homem foi arrastado
para fora da casa com uma rapidez inexplicável, seguido por
muitas pessoas.
Mas não foram bastante ágeis para alcançá-lo, até que um
cavaleiro, muito bem montado, encontrando-o na estrada e
vendo muitos seguidores atrás de um homem puxado por
uma corda, sem que ninguém o forçasse, pegou da corda e o
parou em sua carreira, mas, em pagamento, recebeu uma tal
lambada nas costas, com uma das extremidades da corda,
que quase caiu do cavalo. No entanto, sendo um bom
cristão, ele se mostrou excessivamente forte para o diabo, e
resgatou o mordomo dentre as mãos dos espíritos, trazendo-
o de volta para seus amigos.
O lord Orrery, ouvindo falar de tais lances, para conhecer-
lhes melhor a verdade, mandou chamar o mordomo, com
permissão de seu empregador, e pediu-lhe que passasse
algumas noites em sua casa, ao que o empregado obedeceu.
O empregado, depois de ali pernoitar pela primeira vez,
disse ao conde que o espectro voltara a visitá-lo e lhe dissera
que naquele mesmo dia ele desapareceria nos braços dos
espíritos, por mais que se tomassem medidas para impedir
que isso acontecesse. Diante do que foi levado a um grande
aposento, onde se encontravam em grande número pessoas
santas para defendê-lo dos assaltos de Satã, entre as quais
estava o famoso restaurador de pessoas enfeitiçadas, o
senhor Geatrix, que morava nos arredores, e sabia, como se
pode supor, como tratar o diabo tão bem quanto qualquer
outra pessoa. Além disso, havia dignitários eminentes na
casa, entre os quais dois bispos, todos esperando o
acontecimento maravilhoso de tal inexplicável prodígio.
Até que decorresse parte da tarde, o tempo passou-se em
paz e tranqüilidade, mas, por fim, percebeu-se que o
paciente encantado elevava-se do solo sem qualquer ajuda
visível, o que fez com que o senhor Geatrix e outro homem,
este muito forte, o agarrassem pelos ombros e procurassem
trazê-lo de volta ao solo, mas sem resultado. Pois o diabo
mostrou-se excessivamente poderoso e, depois de uma luta
renhida entre as partes opostas, obrigou os seus inimigos a
largar o homem e, retirando-lhes o mordomo, transportou-o
por sobre a cabeça dos presentes e o atirou no ar, de um lado
para o outro, como se fosse um cachorro num lençol, en-
quanto várias pessoas corriam por debaixo do pobre homem
para evitar que caísse ao chão. Por quais meios, quando
terminou a brincadeira dos espíritos, não se pôde achar
como naquela baderna, houvesse o amedrontado mordomo
recebido o menor dano, saído ileso, aparecendo no mesmo
lugar, na mesma condição, para provar que o demônio é um
mentiroso.
Os duendes tendo, nessa ocasião, abandonado o seu
passatempo e deixado o objeto de seu escárnio repousar um
pouco, para que se pudesse revigorar antes do novo ataque,
o lorde ordenou que, na mesma noite, dois de seus
empregados com ele dormissem, com medo de que o diabo
ou outra entidade viesse e o agarrasse, cochilando. Não
obstante isso, o mordomo disse ao lorde na manhã seguinte
que o espírito voltara a visitá-lo, com a aparência de um
falso médico, e trazia na mão direita um prato de madeira
cheio de um licor verde, como caldo de carne, à vista do
que tentou acordar os seus companheiros de leito.
Mas o espectro disse-lhe que suas tentativas eram baldadas,
pois seus companheiros, encantados, estavam mergulhados
num profundo sono, e avisou-o para não se atemorizar,
porque ele era o mesmo espírito que o precavera no campo,
para que não se juntasse ao grupo que ali se reunia, quando
partira para comprar cartas de jogar; acrescentou o espírito
que se o mordomo não se tivesse recusado a obedecer ao
que lhe pedia o grupo teria passado a sofrer a vida inteira.
Também o espírito se mostrou espantado de que o
mordomo houvesse escapado no dia anterior, porque sabia
que contra ele se formara uma poderosa combinação. Disse
que no futuro não haveria mais tentativas da mesma
natureza. Afirmou o espectro que sabia que o mordomo era
sujeito a duas espécies de acessos e que, como amigo,
trouxera um remédio que o curaria de ambos, aconselhando-
o a que o tomasse.
Mas o pobre paciente, que fora miseravelmente tratado por
tal espécie de charlatães vestidos de médicos, e temendo que
o demônio estivesse no fundo do prato, não queria deixar-se
convencer a engolir a dose, o que enfureceu o espírito. Este
disse-lhe, no entanto, que sentia afeição por ele, mordomo,
e que, se este amassasse as raízes de uma bananeira, sem as
folhas, e bebesse o sumo, ficaria certamente curado de uma
espécie de seus acessos. Mas, como punição por causa da
teimosia que o mordomo havia demonstrado, sofreria da
outra espécie de acessos até morrer.
Então, o doutor espiritual perguntou ao paciente se o
conhecia. O mordomo disse que não.
- Eu sou - disse ele - o fantasma errante, a alma penada de
seu velho conhecido John Hobby, que faleceu e foi
enterrado faz sete anos. E desde então, por causa do mal que
fiz em vida, tenho andado em companhia desses maus
espíritos que você viu no campo, e sou levado de um lado
para o outro nessa condição em que não encontro repouso,
estando fadado a continuar no mesmo estado miserável até o
dia do juízo final. - Acrescentou o espírito fantasiado de
falso médico: - Se você tivesse servido o seu Criador nos dias
da juventude, e rezado na manhã em que saiu para comprar
cartas de baralho, não teria sido tratado pelos espíritos que o
atormentaram com tanto rigor e severidade.
Depois que o mordomo relatou tais passagens maravilhosas
ao lorde e família, consultaram-se os dois bispos, presentes
entre outras pessoas de qualidade, para saber se devia o
mordomo seguir o conselho do espírito e tomar o sumo da
bananeira, e se fizera bem ou mal ao recusar tomar o líquido
que o espectro lhe oferecera. A questão ao princípio pareceu
objeto de discussão, mas, depois de algum tempo, chegaram
os bispos à conclusão de que o mordomo agira como um
bom cristão, em todo o assunto, pois era um grande pecado
seguir o conselho do diabo em qualquer coisa, e que
nenhum homem devia praticar o mal com a esperança de
conseguir o bem.
Em resumo, o pobre mordomo, depois de seus sofrimentos,
não obteve qualquer recompensa pelo que passara, tendo-
lhe sido negado, pelos bispos, o benefício, ou a aparência de
benefício, que o espírito pretendia conferir-lhe.
O DIABO E O RELOJOEIRO

Na paróquia de St. Bennet Fynk, perto do Mercado Real,
vivia uma honesta e pobre viúva, a qual, tendo-lhe falecido
recentemente o marido, admitiu inquilinos em sua casa. Ela
alugou alguns de seus quartos, para diminuir a carga que para
ela representava o aluguel da casa. Entre outros, alugou suas
águas-furtadas para um fabricante de molas de relógios, um
homem ocupado em armar os movimentos dos relógios e
que trabalhava para os lojistas que vendem relógios.
Aconteceu que um homem e uma mulher subiram para falar
com esse fabricante de molas a respeito de algum assunto de
sua profissão. E, quando chegaram perto do topo da escada,
estando a porta da água-furtada em que ele usualmente
trabalhava bem aberta, viram que o pobre homem (o
fabricante de relógios) se enforcara numa trave que
atravessava o cômodo mais baixo do que o teto. Espantada
diante daquele quadro, a mulher parou e gritou para o
homem que a seguia na escada que corresse e cortasse a cor-
da de que pendia a pobre criatura.
Naquele mesmo momento, surgiu rapidamente um homem
de outra parte do cômodo, parte que os dois na escada não
podiam ver, trazendo em suas mãos um escabelo e o
colocou no chão ao lado do homem enforcado. Subindo
com rapidez no escabelo tirou uma faca do bolso, e tomando
da corda com uma das mãos fez sinal com a cabeça para a
mulher e o homem que vinha atrás dela, como se lhes
dissesse que parassem e não subissem - mostrando-lhes a
faca em sua mão, como se estivesse prestes a cortar a corda
que prendia o pobre homem.
A essa vista, a mulher parou um pouco, mas o homem que
se pusera no escabelo continuou com sua mão e faca como
se estivesse atrapalhado com o nó, mas não cortou a corda.
A mulher então voltou a gritar e o homem que estava atrás
dela lhe disse:
- Suba e ajude o homem no escabelo!
Mas o homem no escabelo tornou a fazer sinais para eles
ficarem quietos e não subirem, como se quisesse dizer que
cortaria a corda imediatamente. Então ele desferiu dois
golpes com sua faca e parou novamente. E nesse meio
tempo o pobre homem pendia da corda e, em conseqüência,
estava morrendo. Por isso, a mulher na escada gritou para a
figura no escabelo:
- Que há com você? Por que não liberta o pobre homem?
E o homem que lhe estava atrás, não dispondo mais de
paciência, afastou-a e disse-lhe:
- Deixe-me passar. Garanto que cortarei a corda!
Com isso, correu para dentro do quarto onde estava o
homem no escabelo. Mas quando chegou ali, teve a surpresa
de verificar que o pobre homem pendia da corda, mas não
havia homem com faca ou escabelo, ou qualquer coisa
parecida. Tudo aquilo era espectro e ilusão, feitos sem
dúvida para deixar a pobre criatura que se enforcara, perecer
e expirar.
O homem ficou tão amedrontado e espantado que, não
obstante toda a coragem que demonstrara antes, caiu no
chão como morto. E a mulher se viu forçada, por fim, a
cortar a corda de que pendia o relojoeiro com um par de
tesouras, o que lhe custou muito esforço.
Como não tenho motivo para pôr em dúvida a veracidade
desta história, que me foi contada por pessoas em cuja
honestidade posso confiar, assim também penso que não é
preciso muito trabalho para convencer-nos de quem era o
homem no escabelo. Era o demônio que se colocou ali para
terminar o assassinato do homem que ele, como diabo que
é, tentara antes e conseguira convencer a suicidar-se. Além
disso, essa história corresponde tão bem com a natureza do
diabo e com o seu ofício, a saber, ser um assassino, que nun-
ca a pus em dúvida. Nem penso eu que caluniamos o diabo
se lhe atribuímos o que se passou na história.
Nota: Quanto ao resto da história, não posso dizer
positivamente se o homem foi libertado da corda a tempo de
recuperar-se ou se o diabo conseguiu o que queria e deteve
o homem e a mulher até que fosse demasiado tarde. Seja
como for, está claro que fez o seu trabalho diabólico e se
manteve no quarto até ser forçado a desaparecer.

SEGUNDA PARTE
FANTASMAS FALSOS E AVENTURAS DIVERTIDAS

UM ACUSADOR FANTASMAGÓRICO

Ouvi contar a história que me parece verídica de um
homem trazido à barra da justiça por suspeita de assassinato,
mas de um assassinato que ele não imaginava ser possível ao
conhecimento humano desvendar.
Quando teve de fazer juramento no tribunal declarou-se
inocente, e a corte começou a carecer de provas, só
aparecendo suspeitas e circunstâncias. No entanto, todas as
testemunhas possíveis foram examinadas, colocando-se
estas, como é de costume, num pequeno estrado, para serem
visíveis de todo o tribunal.
Quando a corte pensou que não tinha mais testemunhas para
inquirir e já estava o homem prestes a ser absolvido, ele deu
um salto no lugar onde se achava, como se alguma coisa o
amedrontasse. Recobrando, no entanto, a coragem, apontou
com o braço para um sítio onde se situavam usualmente
testemunhas para depor em julgamento, e fazendo sinais
com a mão disse:
- Meritíssimo. Isso não é justo. Isso não é legal. Ele não é
uma testemunha legal!
A corte ficou surpresa e não podia entender o que queria
dizer o homem. Mas o juiz, um homem de mais penetração,
compreendeu o que se passava e, fazendo calar alguns da
corte, que desejavam falar e que talvez tivessem ajudado o
homem a recuperar a razão, disse:
- Quietos! - disse ele. - O homem vê alguma coisa mais do
que nós vemos. Começo a entendê-lo.
E, virando-se para o prisioneiro:
- Como? - disse ele. - Ele não é uma testemunha legal? Creio
que a corte aceitará o que disser quando vier a falar.
- Não, Meritíssimo. Não é justo. Não pode ser permitido -
declarou o prisioneiro, com uma veemência confusa em sua
fisionomia que demonstrava que ele tinha um coração
audaz, mas uma consciência culpada.
- Por que não, meu amigo? Que razão você apresenta para
isso? - perguntou o juiz.
- Meritíssimo - respondeu este -, nenhum homem pode ser
testemunha em causa própria. Ele é uma parte, meritíssimo.
Ele não pode ser testemunha.
- Mas você se engana - disse o juiz pois você é indiciado em
nome do Rei, e o homem pode ser uma testemunha do Rei,
como no caso de um assalto nas estradas nós sempre
permitimos que a pessoa assaltada apareça como
testemunha, porque, se não fosse assim, o assaltante não
poderia ser condenado. Mas nós ouviremos o que tem a
dizer quando for inquirido.
Isso foi dito pelo juiz com tanta gravidade e de uma forma
tão natural que o criminoso no banco dos réus respondeu:
- Se o senhor permitir que ele seja uma testemunha, eu serei
um homem morto.
Essa última palavra ele a pronunciou em tom mais baixo do
que o resto, mas pediu uma cadeira para sentar-se.
A corte ordenou que lhe fosse dada uma cadeira, a qual, se
não lhe houvesse sido oferecida, teria feito uma falta capaz
de fazê-lo cair ao chão. Observou-se que, quando se sentou,
aparentava grande consternação e que levantou as mãos
várias vezes, repetindo:
- Sou um homem morto! Um homem morto!
Por fim, o juiz disse-lhe:
- Olhe aqui, Senhor... (chamando-o pelo nome). Não lhe
resta mais do que um caminho, e eu o lerei para o senhor,
do texto das Escrituras.
E, pedindo uma Bíblia, ele a abriu no Livro de Josué, e leu o
texto de Josué 7, 19: "Então disse Josué a Acã: Filho, dá
glória ao SENHOR Deus de Israel, e a ele rende louvores; e
declara-me agora o que fizeste, não mo ocultes".
A essas palavras, o assassino que se condenava a si mesmo
rompeu em choro e em lamentação por sua miserável
condição, e fez uma inteira confissão do crime. E, quando a
terminou, explicou da seguinte maneira os motivos de sua
surpresa: que vira a pessoa assassinada no estrado das
testemunhas, pronta a ser inquirida e prestes a mostrar a
garganta que fora cortada pelo prisioneiro, e que, como disse
o réu, permaneceu olhando-o com uma terrível fisionomia.
E isso o deixou atônito, como é natural. E, contudo, não
houve aparição real, não houve espectro ou fantasma. Tudo
lhe pareceu existir por causa de sua culpa e pela agitação de
sua alma, inflamada e surpreendida pela influência da
consciência.

UMA ILUSÃO REFERENTE A UM URSO E UM ASNO

Um cavalheiro sóbrio e grave, cujo nome não darei nesta
história, porque ela é antes produto de uma enfermidade do
espírito do que de uma real deficiência do cérebro, tinha,
por um longo desuso da parte viva de seu sentido, parte que
não lhe faltava em outros tempos, se deixado afundar numa
condição muito baixa de espírito, e permitido que a
hipocondria se espraiasse, em vapor e fumaças, em sua
cabeça.
Era uma enfermidade que tinha suas crises e seus intervalos.
Algumas vezes, ele via clara e justamente as coisas, mas,
outras vezes, enxergava estrelas ao meio-dia e demônios de
noite. Numa palavra, o mundo era uma aparição para a sua
faculdade imaginativa quando a doença prevalecia e o
aborrecimento dele tomava conta. Tudo isso ele não sabia
explicar, nem podia ajudar a operação de seu físico por
qualquer dos poderes de que dispunha para curar-se.
Aconteceu que ficou fora de casa, na residência de um
amigo, mais tarde do que de costume, uma noite, mas, como
havia lua cheia e ele tinha a companhia de um empregado,
sentia-se bem, e mostrou-se animado e mesmo alegre, com
uma forte soma de bom humor - mais do que se observara
nele por muito tempo.
Conhecia perfeitamente o caminho de volta, porque não se
encontrava a mais de três milhas da cidade em que vivia, e
estava muito bem montado. Mas, embora a lua brilhasse no
céu, perturbou-o o acidente de que havia nuvens, e, mais do
que tudo, de que uma nuvem muito escura apareceu
subitamente (quer dizer, sem que ele a notasse, e assim
subitamente para ele) e pairou sobre sua cabeça, o que
tornou tudo muito escuro. E, para mais perturbá-lo, ainda,
começou a chover violentamente.
Nessas condições, estando muito bem montado, como eu já
disse, resolveu galopar, pois não estava a mais de duas milhas
da cidade. Assim, esporeando o cavalo, fê-lo correr. O
empregado, cujo nome era Gervásio, não estando tão bem
provido de montaria, ficou para trás. A escuridão e a chuva
juntas irritaram um tanto o nosso cavalheiro, mas como
eram coisas inesperadas fizeram-no galopar com mais
velocidade, em vez de diminuir o ritmo do cavalo.
No curso do caminho havia um pequeno rio, mas
atravessava-o uma boa ponte, bem provida de muralhas, de
ambos os lados, o que fazia com que naquele ponto não
houvesse perigo, como não havia perigo no resto da estrada.
O cavalheiro manteve a velocidade para cruzar a ponte,
quando, já a tendo percorrido até a metade, seu cavalo parou
de supetão e refugou, pendendo para a direita. O cavalheiro
nada viu, de princípio, e não perdeu muito a calma por causa
do acidente, mas esporeou o cavalo para que prosseguisse. O
cavalo deu dois ou três passos, então voltou a estacar,
relinchou, e fez movimentos para voltar atrás. Então o
cavalheiro, escrutando a noite para ver o que espantara o
cavalo e o que se passava, divisou dois grandes olhos abertos,
os quais, como ele disse, olhavam diretamente para ele.
Nesse momento, ele se sentiu muito amedrontado, mas, a
essa altura, ouviu o seu empregado Gervásio aproximar-se.
Quando Gervásio chegou bem perto, a primeira coisa que
ouviu seu patrão dizer foi:
- Deus me abençoe, é o demônio!
A essas palavras, Gervásio, sujeito de pouca coragem, teve
tanto medo quanto seu patrão. No entanto, o patrão, um
pouco animado porque ouviu seu empregado aproximar-se,
esporeou novamente o cavalo e ordenou a Gervásio que
chegasse mais perto, mas ele, atemorizado, não se apressou.
Por fim, com muito trabalho, o patrão, abusando das
esporas, passou pela ponte e pela criatura com olhos largos,
criatura que, como a luz aumentara um pouco, ele afirmou
positivamente, depois de passar, que era um grande urso
preto e que devia, conseqüentemente, ser o demônio.
Embora Gervásio se encontrasse bastante perto, temendo
mais, contudo, que seu patrão o pusesse na frente, manteve-
se tão apartado quanto podia. Quando o seu patrão o chamou
ele respondeu, mas não avançou, ou, pelo menos, não se
apressou. Mas, vendo que seu patrão passara pelo obstáculo e
que ele próprio estava obrigado a seguir, prosseguiu
lentamente. E quando chegou à ponte ele viu aquilo que
fazia o cavalo do patrão relinchar e refugar, do que vocês
ouvirão mais, adiante.
O cavalo do patrão, tendo ultrapassado a dificuldade, não
necessitou mais de esporas, mas voou como o vento, como
acontece com cavalos amedrontados. E, como a chuva
continuava, seu patrão que, por todos os motivos, queria
chegar em casa, deixou-o ir, o que fez com que chegasse a
sua casa e nela penetrasse antes que o empregado Gervásio o
alcançasse.
O patrão, logo que chegou à luz, desmaiou, e tal fora o efeito
do medo sobre ele que, quando com muita dificuldade
fizeram-no recobrar a consciência, continuou a passar mal.
E quando sua mulher, e uma irmã que morava em casa com
ele, tão sucumbida à hipocondria quanto ele próprio, vieram
saber o que se passara, ele contou-lhes uma história formal
de que na ponte encontrara o diabo. Disse que se colocara
na saída da ponte, na parte esquerda, no canto do muro.
Acrescentou que estacara e contemplara a figura, e que pôde
distintamente perceber que se tratava do diabo na forma de
um urso. Deu outros detalhes tão exatos e singulares que não
havia lugar para dúvidas de que vira uma aparição, e que essa
aparição tomara a forma de um grande urso.
Gervásio chegou em casa pouco depois e, indo diretamente
para o estábulo, como o devia fazer, para cuidar do cavalo do
patrão e do seu próprio, contou ali a história à sua maneira
para os outros empregados, e especialmente para dois ou três
serventes de cavalheiros vizinhos. E lhes disse que o patrão
correra grande perigo de ser jogado por cima da muralha da
ponte, porque o cavalo que montava teve medo de um asno
que se postara no canto da muralha.
- E foi, de fato, culpa minha - acrescentou Gervásio -, pois se
tratava de um cavalo muito jovem, e nunca disse a meu
patrão que seu defeito consiste em que não pode suportar a
vista de um asno, e nunca se aproxima de semelhante animal
se o pode.
- Está você certo de que era um asno? - disseram os outros
empregados, entreolhando-se como se estivessem assustados
- está você certo, Gervásio?
- Sim - disse Gervásio -, pois logo que meu patrão o
ultrapassou, eu alcancei o bicho e bati-lhe com a minha
vara. E começou a zurrar, como vocês podem imaginar. E
então eu me apartei e o deixei.
- Ora, Gervásio - disseram os empregados -, seu patrão pensa
que se tratava do diabo, com tanta certeza como se lhe
tivesse falado.
- Lamento que meu patrão tenha sentido tanto medo - disse
Gervásio -, mas estou certo que era um asno, e nada mais.
Mas a história se divulgara, e a sua primeira parte espalhou-
se pela cidade: que o Senhor... tinha visto o diabo e quase
morrera de medo.
Então, circulou a história do empregado Gervásio e fez
parecer que a aparição estranha e maravilhosa do Senhor...
assumira as proporções normais de um asno, e que o diabo
que vira na forma de um urso não era mais do que aquilo
que os italianos chamam de um burrico. Isso fez com que
muito se rissem os outros do patrão.
No entanto, o pobre Gervásio relutava em retratar-se, e, por
esse motivo, perdeu o emprego. E o sábio Senhor... insiste
até hoje que viu o diabo e que o reconheceu por seus
grandes olhos, embora se saiba que um urso tem os olhos
pequenos. Mas não é possível persuadir qualquer pessoa
sujeita a pavores de que não viu o diabo, se viu alguma coisa,
e se está certa de que não sabe de que se trata.

O FANTASMA ÚTIL

Um cavalheiro residente no campo possuía uma velha casa
que consistia nos restos de um antigo mosteiro já demolido e
resolveu pô-la abaixo, mas achou que o preço da obra era
demasiado alto. Assim, ele imaginou um estratagema que era
divulgar que a casa era mal-assombrada, e fez isso com tanta
astúcia que todos passaram a acreditar na história. Pois ele
arranjou um sujeito que se vestisse de branco e passasse
rapidamente pelo pátio interno da casa, exatamente no
momento em que colocara outras pessoas na janela, de
maneira que pudessem ver o que se passava no pátio.
As pessoas da janela comunicaram ao resto da casa que havia
uma aparição. Então o dono da casa e a dona, assim como
toda a família, foram chamados à janela, de onde, embora
estivesse tão escuro que não pudessem distinguir de que se
tratava, ainda assim viram claramente uma coisa de branco
percorrer o pátio e entrar por uma porta no velho edifício.
Logo depois que a figura entrou, perceberam um lampejo de
fogo no interior da casa, coisa que se combinara que o su-
jeito faria com algum enxofre e outros materiais, de
propósito, para que o fogo deixasse um cheiro de súlfur que
não fosse exatamente o da pólvora.
Como o cavalheiro esperava, o seu ardil surtiu resultado.
Algumas pessoas imaginosas, sabendo do que se passava, e
desejosas de contemplar o espetáculo, foram brindadas com
oportunidade para ver a aparição e a viram, na realidade, em
sua forma costumeira de mostrar-se. Tornaram-se ordinárias
suas andanças freqüentes, numa parte da casa que permitia
ao espírito sair por uma porta num outro pátio e penetrar
assim na casa de moradia. E, quando partia assim, dava uma
grande batida com o pé e imediatamente desaparecia.
Por causa disso, passou-se a dizer que havia dinheiro
escondido e o cavalheiro divulgou que ele cavaria em busca
do tesouro, e as pessoas em geral ficaram ansiosas por que se
começasse a escavar. No entanto, o cavalheiro parecia um
tanto indiferente quanto ao assunto. Contudo, via-se a
aparição aparecer e desaparecer, andar de um lado para o
outro, quase todas as noites, e costumeiramente desvanecia-
se num lampejo de fogo, o que, numa palavra, era coisa
muito extraordinária.
Por fim, alguns dos cidadãos da aldeia, achando que o
cavalheiro não se mexia, disseram que se ele o permitisse
eles cavariam, porque havia com certeza dinheiro escondido
ali. Afirmaram que se ele o consentisse eles buscariam o
dinheiro e o encontrariam, ainda que tivessem de pôr abaixo
toda a casa.
O cavalheiro respondeu que não era justo que eles, além de
pôr a casa abaixo, ficassem com todo o dinheiro que
encontrassem. Isso era excessivo; ele, no entanto,
consentiria no seguinte: desde que transportassem todo o
material e o lixo que derrubassem, e empilhassem os tijolos e
a madeira no pátio junto da casa, e se contentassem com a
metade do que achassem, ele lhes daria permissão para
cavar.
Bem, eles concordaram e puseram mãos à obra. O espírito
ou aparição parecia indicar o lugar, e a primeira coisa que
abateram foi um montão de chaminés reunidas - um duro
trabalho! Mas o cavalheiro, desejoso de encorajá-los,
escondeu secretamente vinte e sete moedas de ouro velho
num buraco, numa chaminé que só tinha uma entrada, que
ele fechou com tijolos.
Quando encontraram esse dinheiro, foram perfeitamente
iludidos e ficaram entusiasmados. Aconteceu que o
cavalheiro se achava perto, mas não exatamente no lugar
onde ficava o dinheiro quando este foi encontrado. Sendo
chamado, ele muito generosamente deu-lhes todas as
moedas, mas com a condição de que não esperassem
procedimento semelhante se dessem com mais ouro.
Numa palavra, esse primeiro bocado que comeram fez com
que os camponeses trabalhassem como cavalos e caíssem
mais no laço que lhes fora armado. Mas o que mais os
encorajou é que realmente encontraram vários objetos de
valor ao abater a casa, coisas essas que talvez estivessem
escondidas desde que se alterara a sua primitiva condição de
mosteiro. E também descobriram algum dinheiro, mas a
esperança de achar mais de tal forma animou os camaradas
que eles puseram toda a casa abaixo. Pode-se dizer que a ar-
rancaram do chão com as raízes, pois cavaram nos próprios
alicerces, que era o que desejava o cavalheiro e trabalho pelo
qual teria pago uma grande soma de dinheiro.
Era tão forte a convicção, suscitada pelos passeios da
aparição, de que encontrariam dinheiro que nada podia
diminuir o afinco com que os aldeões trabalhavam. Como se
as almas das velhas monjas ou frades ou de quem quer que
fosse que ali escondera qualquer tesouro, supondo que havia
algum tesouro escondido, não conseguissem repouso, ou
pudessem preocupar-se com que o dinheiro fosse achado,
tantos anos depois, pois a construção tinha quase duzentos
anos.

Os PRESUNTOS E o QUAKER

Escrevem-me, de Edimburgo, com a data de 17 de agosto,
que poucos dias antes aconteceu a seguinte história com um
Quaker e jardineiro, um certo William Miller, que vive
perto de Holy Rood House, que se acredita ter posses no
valor de duas mil libras esterlinas, e cuja casa está bem
armazenada com presuntos da Westfália. Três ou quatro
gatunos vieram à casa dele e, vendo tais presuntos, foram
possuídos de um forte desejo de apossar-se de alguns deles.
Para tal objetivo, a fim de que pudessem cumprir o seu
projeto, lograram, quando William e sua família já estavam
na cama, subir ao telhado da casa, amarrar uma corda em
torno de um entre eles e baixá-lo pela chaminé.
Este último atou cinco ou seis presuntos à cintura e,
colocando outros nos ombros, deu o sinal para que o
içassem. Mas, quando os outros o puxaram, a corda se
rompeu e ele caiu com ruído, tão preto quanto um negro da
Etiópia, e sentou-se na cadeira de braços ao canto da lareira.
O Quaker, ouvindo barulho, julgou (como era natural) que
havia ladrões na casa e deu ordens à empregada, Sara, que
acendesse uma vela, coisa que ela fez. E ela, ao observar o
camarada com presuntos e negro como o inferno sentado na
cadeira de braços, saiu correndo, gritando:
- O demônio! O demônio! O demônio!
William, o Quaker, levantando-se da cama e vendo a figura
infernal na cadeira e fazendo caretas, deixou cair a vela. Por
fim, reunindo a coragem de que dispunha, disse:
- Amigo, quem é você? Pois, por sua aparência, você provém
das sombras abaixo.
O esperto gatuno respondeu:
- Meu nome é Moloque, e venho das regiões infernais, como
Embaixador Extraordinário de meu patrão, o alto e poderoso
príncipe Belzebu, com um presente destes presuntos para
você, William Miller, sabendo que gosta de carne de porco.

O Quaker, tremendo, respondeu:
- Eu ordeno a você, em nome do Padre, do Filho e do
Espírito Santo, que vá embora! Pois não quero ter nada com
você em minha casa.
Abriu a porta, e o malandro partiu com seu botim. No
entanto, de manhã, William muito estranhou a falta de seus
presuntos. Não há lugar no mundo em que se encontrem
mais gatunos e batedores de carteira do que este, e exercem
a arte nas igrejas e nas ruas tão bem que o regimento de
Guardas de Londres, que nós consideramos mestres no
ofício, não passam, perto deles, de rematados asnos.

O ADIVINHO NA FEIRA DE BRISTOL

Um mágico, distribuindo cartazes e gabando-se de suas
extraordinárias habilidades, partiu seguindo sua profissão,
como o fazem outros comerciantes, para a Feira de Bristol. E
ali fez maravilhas, revelou o futuro, calculou datas de
nascimento, examinou as mãos de moças, olhou-as nos
olhos, disse-lhes coisas grossas para que enrubescessem. E
então, calculando pelo colorido das faces delas como é que
as coisas andavam, para o que usava também de milhares de
perguntas astuciosas, compreendia-lhes o caso, e contava
depois como uma grande descoberta o que elas lhe haviam
revelado, fornecendo-lhe tolamente pistas naquele mesmo
minuto.
Entre as outras mocinhas que lhe vieram submeter seus
problemas, chegou uma com a seguinte louvável pergunta:
se estou apaixonada, casarei ou não com o homem? Era tão
tímida que não podia pronunciar a questão, ela própria, mas
a trouxe por escrito. E, em vez de formular a pergunta como
está acima, ela escrevera: se for cortejada.
O doutor (porque todos tais profissionais são doutores) olhou
o papel, e, vendo que a caligrafia era de mulher, perguntou:
- É sua própria caligrafia, menina. Suponho que não
confiaria em mais ninguém para escrever isso?
Ela fez uma reverência e respondeu afirmativamente.
Então, ele leu:
- Se apaixonado, o homem casará comigo ou não?
A menina ficou vermelha e disse:
- Não é assim, o senhor não leu direito.
- Bem, mocinha - disse ele -, eu lerei direito pouco a pouco.
Chegue perto, meu amor. Tire a luva. Deixe-me ver sua
mão.
Tomou-lhe a mão, olhou-lhe a palma, e exclamou:
- Muito bem, está tudo certo aqui.
Tomou-lhe o pulso.
- Ah! - exclamou, com um estremecimento - é assim? Bem,
venha, criança, sente-se na cadeira. Eu lhe contarei uma
história.
Assim, a menina, depois de umas poucas cerimônias e fracas
tentativas para recusar, sentou-se, e o doutor deu início à sua
história.
- Havia - disse ele - uma jovem, uma moça muito esperta,
como você é, minha querida (e neste ponto ele tomou-lhe
novamente o pulso), que veio a mim faz dias, com a mesma
pergunta. E, depois que eu conversei um pouco com ela, e
tomando-lhe o pulso como o faço com o seu, minha querida
- e tomou-lhe ainda outra vez o pulso e ela estremeceu. -
Ah! - exclamou - então é assim! - E então prosseguiu: - Eu,
com a ajuda de minha arte, que é a melhor vereda para a
descoberta da verdade oculta, e pelo comércio com seres
invisíveis que me informam de tudo a ser conhecido, e para
o serviço dos que vêm buscar assistência de meu sublime
gênio, digo, mediante o meu julgamento infalível, descobri
que a pobre moça escondera de mim uma coisa que não
deveria ter escondido.
Pois, fornecendo-me uma versão falsa de seu caso, como
poderia eu responder retamente? Não é verdade que eu, que
sou auxiliado pelos bons espíritos, os habitantes do mundo
superior, não devo ser enganado?
Assim, eu lhe disse: "Meu amor, você me ocultou a parte
mais importante do caso. Não há, na pergunta, alguma coisa
mais do que você reconheceu?" Ela, de princípio, não me
deu resposta, até que eu, sendo iluminado pelo brilhante
espírito da quinta região, Alahamed Irvichá, e todas as luzes
auxiliares da atmosfera alta e sublime... (neste ponto o
doutor recitou um grande número de palavras gregas que
quase aterrorizaram a pobre moça, que ele, todo esse tempo,
segurava pela mão ou pelo pulso) eu - disse ele - que não
podia ser enganado, disse-lhe em palavras francas: "O que
você me escondeu é que está esperando criança". A essas
palavras - continuou o mágico -, a pobre e culpada moça,
nada tendo a dizer, e não podendo negar o que viu que era
revelado pela minha inteligência que nunca falha,
confessou-me que eu dissera a verdade. E eu, compadecido
de suas circunstâncias (pois fora iludida), prometi-lhe minha
poderosa assistência para obrigar o malandro a casar-se com
ela, coisa que agora está felizmente terminada, o que traz a
ela grande satisfação.
Todo o tempo em que contava essa história, ele a segurava
pelo pulso e lhe olhava com freqüência o rosto.
Com a mão, ele discerniu um movimento pouco comum e
súbita desordem em seu pulso, ocasionado pelo fato de que a
história foi muito bem contada, e bem representado o
comportamento da moça. Olhando-lhe a face, ele viu que,
momento a momento, ela enrubescia ou empalidecia. E,
quando ele disse que era informado de tudo pelos espíritos
superiores do mundo invisível, viu que ela caía na maior das
confusões.
- Agora, minha querida - disse o doutor, levantando-a pela
mão da cadeira onde estava sentada -, permita-me
considerá-la um pouco melhor.
Levou-a até a janela, e carinhosamente ergueu- lhe uma das
pálpebras. Pronunciou duas exclamações e disse:
- Ai, tudo bem.
A moça todo esse tempo enrubescia ou ficava pálida. Um
pouco de feitiçaria revelaria ao doutor tudo o que ele queria
saber.
- Agora, minha querida - disse ele à menina -, seria bom que
você fosse o bastante franca para me deixar conhecer todo o
seu caso, se confiar em mim; eu guardo tão bem um segredo
quanto a morte. Você não precisa preocupar-se, porque
conhecer fatos ocultos é minha profissão. Há príncipes que
me confiam seus segredos, e sou conselheiro dos
conselheiros. E, se eu traísse alguém, seria uma dupla ofensa;
nem os espíritos invisíveis me comunicariam o segredo dos
negócios íntimos das pessoas, se não me julgassem digno de
fé. Portanto, pode confiar em mim, com a maior segurança,
menina. Nunca divulgarei qualquer coisa que me revelar.
A moça manteve-se muda como um peixe e não lhe disse
palavra, mas ficou tão vermelha como os corais de um peru,
quando se zanga.
- Vamos, querida - disse ele -, talvez você não consiga
expressar-se livremente, o que me faz não pressioná-la mais.
Mas sente-se até que eu volte a consultar os espíritos, os
quais, como eu lhe disse, estão sempre prontos a vir em
auxílio da inocência ofendida, e que não deixarão de prestar-
me completas informações a respeito de seu caso e de dar-
me orientações para o seu bem. Assim, não necessito de que
me faça qualquer confissão de seu caso. Eu serei capaz, em
alguns momentos, de contar-lhe o caso diretamente, sem a
sua confissão. Assim, por favor, espere sentada por uns dois
ou três minutos e eu voltarei a você.
Tendo dito isso, ele fez menção de sair, ao ver que a moça
começou a chorar com veemência. E o doutor, muito
esperto para não se aproveitar dessa circunstância, e certo de
que atingira o alvo, parou e voltou até onde ela estava.
- Bem, minha querida - disse -, eu vejo o que se passa, e já
tinha em parte informação disso antes, como você pode
facilmente perceber. Mas vamos, minha criança, vejamos.
Que se pode fazer por você?
Ela continuava a chorar, mas quando ele perguntou "que se
pode fazer?" ela pronunciou alguma coisa, mas não a podia
dizer com clareza:
- Que Tomás quisesse... - e parou.
- Eu compreendo você, menina - exclamou ele -, gostaria
que eu obrigasse Tomás a casar-se com você, não é isso?
- Sim - respondeu a moça, e choramingou lastimosamente.
- Bem - disse o doutor -, mas há quanto tempo você espera
criança? Quero saber disso, e então poderei dizer se
realizarei ou não o seu desejo.
Dizendo isso, passou-lhe a mão levemente sobre o ventre.
- Não creio que esteja esperando faz muito tempo.
- Cerca de quatro meses - respondeu a menina.
- Bem, mocinha - disse ele -, volte aqui amanhã de tarde, e
eu lhe direi o que resolveram a respeito de seu caso os
espíritos que me amparam em minha arte infalível.
Assim, tomando uma coroa das mãos da pobre moça por
deixar que ela própria revelasse a verdade, e fortalecendo sua
reputação de mágico e homem de artes eminente, ele a fez
partir, acrescentando que, se ele lograsse obrigar Tomás a
com ela casar-se, ele, o mágico, esperaria um sinal de
gratidão mais valioso.
Numa palavra, ele anotou o nome de Tomás e onde vivia e
achou jeito de influir de tal forma em Tomás que este veio
vê-lo, dentro de dois ou três dias, para livrar-se de um
fantasma que o perseguia. O caso passou-se da seguinte
maneira: o doutor possuía um ajudante que o acompanhava
em seu comércio. Era um jovem sutil, de língua insinuante,
pau-para-toda-obra. Em determinado lugar, era um
malabarista, em outro um dançarino; um dia representava o
papel de feiticeiro; em outro momento, representava o de
fantasma ou de aparição, e em outro ainda o de demônio ou
de espírito. E assim era capaz de assumir todas as formas e
atitudes que pudessem ser desejadas.
O doutor, tendo sabido pela moça o lugar onde Tomás
morava, e apurando, com satisfação, que vivia numa taverna
não muito distante, sendo empregado de um comerciante
que, não dispondo de lugar para alojá-lo em casa, pagava-lhe
um quarto na cervejaria, tendo, portanto, encontrado esse
ponto para dar partida a suas artimanhas, enviou seu
assistente para instalar-se na mesma casa.
Tal camarada achou jeito de tal forma entrar na intimidade
de Tomás que sempre lhe sabia o destino e com que
comissão ou negócio. E foi muito feliz para ele saber que,
por primeira comissão, Tomás iria a uma aldeia a cerca de
uma milha da cidade, e à tardinha.
Quando Tomás seguia para a aldeia, o malandro, muito sutil,
meteu-se atrás de uma parede no caminho, e com um tom
de voz oco e assustador chamou-o pelo nome três vezes;
depois, entrou por um campo de milho, onde, mesmo que
Tomás suspeitasse ali encontrá-lo, não o poderia descobrir.
E, saindo do campo de milho, correu por outro caminho e
colocou-se num lugar por onde Tomás deveria passar, e,
como estivesse regressando à cidade, deu com Tomás cara a
cara, como se diz, como se um estivesse vindo pela estrada e
o outro indo.
Cumprimentaram-se, como de costume, e começaram a
conversar sobre a questão da voz que Tomás havia ouvido.
- Jorge - disse Tomás -, fico muito contente de vê-lo.
Gostaria que você fosse comigo até aquela aldeia. Ficaria
muito grato a você pela companhia.
- Estou com muita pressa - respondeu Jorge. - Não posso
seguir agora.
- Faça-me esse favor, pois estou terrivelmente amedrontado.
- Amedrontado? - perguntou Jorge. - Por quê?
- Quando eu vinha por aquela parede de pedra ali, ao pé da
colina - disse Tomás -, ouvi uma voz chamar-me três vezes
pelo nome, muito alto.
- Que significará isso? - disse Jorge. - Seguramente, havia
alguém atrás da parede que conhecia você. Por que isso o
amedronta?
- Não, não, não vinha de trás da parede. Era, antes, do outro
lado da estrada - respondeu Tomás. - Mas a voz provinha do
alto. Estou certo de que deve ser algum espírito.
- Bom, se vinha do alto, pode significar alguma coisa. Tais
vozes são coisas tristes. Meu patrão dir-lhe-ia exatamente o
que isso quer dizer.
- Assim o dizem - respondeu Tomás. - Seu patrão diz às
pessoas tudo sobre tais coisas, mas será que você mesmo não
pode dizer alguma coisa a respeito? Por favor, faça-me um
pouco companhia.
- Bem - disse Jorge. - Como você está tão preocupado,
seguirei a seu lado até que você esteja em segurança na
próxima aldeia, mas então terei de correr para casa, pois a
noite está caindo e meu patrão pode necessitar de mim.
Assim, em resumo, Jorge seguiu com Tomás, coisa que o
primeiro sempre desejara.
- Mas, Jorge - disse Tomás -, que pode significar essa voz?
- Quantas vezes ela o chamou? - perguntou Jorge.
- Três vezes - respondeu Tomás.
- E era muito alta e clara? - perguntou Jorge. - Está você
certo de que não se enganou? Pois muitas vezes as pessoas
imaginam ouvir vozes, quando não há voz nenhuma.
- Pode ser - respondeu Tomás -, mas eu não sou tão vítima
assim de minha imaginação. Estou certo de que ouvi a voz
três vezes. Chamou pelo meu nome e sobrenome, primeiro
Tomás, e então Tomás Saunaers e novamente Tomás
Saunders. Era certamente a voz de um demônio. Era dura e
oca como o demônio.
- Devo confessar que não gosto disso - exclamou Jorge. -
Parece significar a morte quando as pessoas são assim
chamadas, e a morte pode vir em três dias, três semanas, três
meses ou três anos.
- Você não pode dizer qual o tempo exato? - perguntou
Tomás.
- Não, realmente - respondeu Jorge -, eu não posso ir tão
longe. Se meu patrão tomasse conhecimento do caso, ele o
poderia dizer com precisão. Mas ouso dizer que se trata de
morte, ou de alguma coisa de muito ruim.
Não haviam prosseguido muito depois disso, quando Jorge,
observando um lugar conveniente, deu um pequeno salto e
parou, dando a impressão de que via alguma coisa.
- Pare um pouco - disse ele a Tomás.
- Que houve? - perguntou Tomás.
- Que houve? - disse Jorge. - Você deve saber muito bem o
que houve. Você cometeu um assassinato, Tomás? Você
matou alguém?
- Se eu matei alguém? Deus tenha piedade de mim! -
respondeu Tomás. - Que quer você dizer?
- Será que você não vê nada? - perguntou Jorge. - Você não
vê nada ali? - Apontou para uma grande árvore na estrada
por que seguiam.
- Não, não vejo nada - respondeu Tomás. - Não me
amedronte. Você sabe, Jorge, já estou muito atemorizado.
- Não - disse Jorge. - Não o quero atemorizar. Mas você
ficaria extremamente atemorizado se visse. Fico contente de
que você não veja nada.
- Mas que é? - perguntou Tomás. - Querido Jorge, diga-me! É
o demônio?
- Não, não é o demônio - respondeu Jorge. - Mas é um
espírito. E seguramente um fantasma. Foi isso que me fez
perguntar se você havia matado alguém.
- Bem, eu vou morrer - respondeu Tomás. - Eu já estou
morto de medo. Por que você vê o fantasma e eu não o
vejo?
- Há motivo para isso - disse Jorge. - Meu patrão dotou-me
com uma visão particular que me permite ver aparições,
quando outros não as conseguem ver. E parte de nossa
profissão. Mas você a verá em poucos momentos, porque ela
chegará mais perto. Já o posso prever.
- Que farei? Será que ela falará comigo?
- Ainda não sei - respondeu Jorge. - Pode ser que não. Já lhe
direi.
Continuaram a progredir todo esse tempo, e começaram a
muito se aproximar da aldeia, quando Jorge disse:
- Não sei o que pensar disso, Tomás. O fantasma ameaça e
faz sinais como se quisesse aproximar- se de você e golpeá-
lo.
- Golpear-me! - disse Tomás. - Então, ele certamente me
matará!
- Não, não, eles nunca matam. Além disso, vejo que você
está com tanto medo que procurarei falar com ele e evitar
que se mostre. Se meu patrão estivesse aqui, ele o mandaria
embora com uma palavra.
Isso dizendo, Jorge avançou três passos, mandou que Tomás
ficasse imóvel, traçou um círculo no chão e colocou Tomás
no interior.
- Fique aí - disse - e estará seguro. E não tenha medo. Eu
verei o que posso fazer por você.
Tomás permaneceu imóvel, como lhe haviam ordenado,
mas tremia, na maior confusão. E Jorge saiu um pouco do
caminho e passou a falar alto, mas de maneira que Tomás só
podia ouvir a voz, não podia compreender as palavras. E
Jorge fez um grande número de movimentos, traçou cruzes
no ar; demorou nisso bastante tempo, antes de voltar até
onde estava Tomás.
- Bem, Tomás - disse ele -, acho que o libertei, por essa vez,
mas há alguma coisa. Essa aparição ameaça você
estranhamente. Creio que ela voltará.
- Mas ela foi embora? - perguntou Tomás.
- Fique quieto um momento - disse Jorge. - Penso que está
indo embora.
Assim, Jorge e Tomás ficaram quietos por momentos.
- Sim, ali - disse Jorge -, está indo por aquele caminho
(apontando para o norte). E está indo pelo ar. Vamos,
prossigamos.
Assim, seguiram até a aldeia, e Jorge disse a Tomás que tinha
de deixá-lo e seguir para casa com toda a possível
velocidade.
- Querido Jorge! - pediu Tomás. - Não me deixe! Eu não teria
coragem de regressar na noite escura, nem que me desse mil
libras.
- Não me é possível permanecer - respondeu Jorge. - Se
você está com tanto medo, o melhor que tem a fazer é
passar aqui a noite e voltar à cidade pela manhã.
- Também não ouso fazer isso - disse Tomás. - Meu patrão
ficará com tanta raiva que perderei o lugar.
- Então, você deve encontrar na aldeia alguém que caminhe
em sua companhia. Pois, na verdade, eu não posso ficar.
Assim, Jorge foi embora, deixou Tomás e passou a correr,
como se fosse forçado a regressar com a maior rapidez
possível.
Quando Jorge se tinha afastado e estava fora da vista, ele
alterou sua aparência como sabia muito bem fazer por causa
de sua perícia em papéis teatrais e danças, coisas que eram
parte de sua profissão. Tendo uma camisola de linho no
bolso de seu casaco, vestiu-se como um fantasma ou uma
aparição. Não se revestiu de uma mortalha, como um
cadáver, mas de branco até os pés e com uma touca de
mulher na cabeça. E, com essa fantasia, colocou-se por onde
ele sabia que Tomás devia passar. Antes disso, no entanto,
recobrindo a sua roupa com um grande casaco, botou-se na
aldeia defronte da porta por que entrara Tomás, para que o
pudesse ver ao sair e ver para onde ia, de forma a não o
perder e também para saber quem e quantos viriam com o
mesmo Tomás.
Logo deu com Tomás, pois este emergiu da casa, com dois
camaradas, passada cerca de uma hora. Jorge seguiu-os à
distância até que os viu numa pequena alameda que levava
até a estrada, e verificou que não podiam tomar outro
caminho. Isso feito, ele correu por outro lado através dos
campos e chegou à estrada antes que eles o fizessem.
A primeira coisa que fez foi entrar num pequeno bosque,
onde, deitando-se no chão e longe das vistas, ele começou a
assobiar como uma serpente, de maneira muito assustadora.
Isso produziu efeito imediato, pois atemorizou-os a todos, e
ele ouviu um dentre eles dizer que era o diabo e que este
estava atrás de Tomás. E o outro camarada disse a mesma
coisa, acrescentando que não prosseguiria. Foi isso bastante
para
Jorge, pois logo compreendeu que Tomás não trouxera
lampiões. Mexendo-se assim e pondo-se num lugar que
ficava um pouco atrás deles para que não pudessem fugir de
volta à aldeia, ele mudou de tática e passou a rosnar como
um cachorro grande, e isso novamente os atemorizou.
Tendo feito esse início, ele interrompeu o barulho, foi para a
estrada e parou-lhe bem no meio, no lugar em que a
alameda dava numa charneca, o que lhe permitia ser visto
todo de branco, antes que saíssem da alameda.
A noite não estava muito escura, mas não havia lua. Viam-se
algumas estrelas, não muitas. Quando chegaram ao fim da
alameda, viram o espectro. E logo que o viram todos os três
deram para correr, gritando, cheios de terror. Jorge
alcançara agora seu objetivo, pois não queria levar a coisa
mais adiante. Assim, manteve-se em seu lugar, até que, pelo
ruído, ele compreendeu que eles tinham atravessado a
estrada mais além e haviam desaparecido de vista. Então,
retirou a camisola e apressou-se até a casa onde residia,
onde, quando Tomás chegou, encontrou Jorge muito calma-
mente sentado à porta, fumando seu cachimbo.
Ele saudou Tomás, mas não disse mais nada, não reparando
em qualquer coisa. No entanto, Tomás subiu logo ao andar
de cima e se atirou na cama. Na manhã seguinte, Tomás
estava muito doente.
Jorge, nesse meio tempo, foi ver o patrão e relatou-lhe tudo
o que se passara. O mágico, vendo que suas artimanhas
haviam andado como esperava, deu mais instruções a Jorge,
as quais se resumiam em perseguir o pobre Tomás dia e
noite e não lhe dar quartel até obrigá-lo a vir pedir socorro a
ele, o mágico, o que não demorou muito.
Eu deveria ter observado que o doutor, ou espertalhão,
verificando que seria bem-sucedido em seus projetos com
Tomás, mandou chamar a pobre moça e lhe disse que havia
recorrido ao sumo de sua arte e perícia para ajudá-la.
- E, por minha palavra - acrescentou -, tomei um cuidado
paternal com você. E coloquei de seu lado tantos dos bons
espíritos das regiões superiores que eles (sempre prontos a
executar atos de beneficência e de bondade para com
mortais aflitos) asseguraram- me de que Tomás casará com
você. Ele virá e lhe fará a corte, como se não houvesse
obtido essa vantagem injusta sobre você, ou não terá mais
repouso nesta vida. Não terá mais repouso até que volte a
cortejá-la.
A pobre moça sorriu e ficou extremamente satisfeita, como
é fácil supor, e, colocando a mão no bolso, deu ao doutor,
meia guinéa pelas boas novas. O doutor pegou o dinheiro,
mas disse-lhe, modestamente, que, se ele lhe prestasse um
serviço tão importante, ela deveria levar em consideração
etc... Ela compreendeu o que ele queria, e disse-lhe que não
possuía uma grande soma de dinheiro, mas tinha uma tia
rica e outros bons amigos. E que Tomás não tinha
necessidade de agir para com ela como fizera e que, se não
fosse por aquilo que nós sabemos, ela teria desprezado casar-
se com ele. Mas...
- Eu compreendo você, criança - disse o doutor. - Agora,
não apenas você tem de aceitá-lo, mas deve ficar contente
se ele a aceitar.
- Sim - respondeu ela.
- Bem - disse o doutor -, e sua tia conhece esta história
infeliz?
- Ela conhece - respondeu a rapariga - e pediu- me que diga
ao senhor que lhe fará um bonito presente, se o senhor
puder arranjar o assunto.
- Bem, menina - disse o doutor -, diga à sua tia que eu
procurarei levar tudo a cabo, se ela cumprir o que promete.
- Ela o fará, senhor. Eu lhe trarei o presente - disse ela e
indicou a soma de vinte libras.
O doutor, com uma modéstia pouco comum, não
ambicionando mais, disse-lhe generosamente que, se
falhasse, não queria receber mais do que o que havia já
recebido.
Essas negociações duraram dois ou três dias, e, entrementes,
Jorge assombrou Tomás em várias ocasiões. Este dificilmente
podia sair de casa de noite, sem que Jorge se mostrasse,
algumas vezes todo de branco, algumas vezes todo de preto.
Até que, por fim, Tomás veio vê-lo num fim de tarde.
- Jorge - disse ele -, querido Jorge, se você não me ajudar, eu
não sei o que fazer, pois a perseguição a que estou
submetido ultrapassa o que posso suportar. Esse demônio, se
é o demônio, de tal forma me incomoda que não me dá
trégua. A noite passada, ele me chamou novamente, por três
vezes, com a mesma voz, e ainda três vezes, exatamente
como o fez na parede que fica na estrada.
O que ocorrera consistia simplesmente em que Jorge, com
esperteza, apoiara uma escada, durante a noite, na janela do
pobre coitado, e clamara por ele, com a mesma voz oca e
fatal que usara antes.
- Bem - disse Jorge -, muito lastimo, Tomás. Em seu lugar, eu
mandaria chamar um padre e me prepararia para o outro
mundo, pois duvido que você permaneça muito tempo
neste mundo.
- Mas você não me disse - perguntou Tomás - que seu patrão
poderia ajudar-me?
- De fato - respondeu Jorge eu o disse, e acredito que ele o
poderia, se você não deixasse as coisas irem muito longe e se
você não houvesse feito algo de mau. Pois os espíritos do
mundo invisível, que o meu patrão conhece e com os quais
conversa, são todos bons espíritos, Tomás, e eles nada farão
por você, desde que você tenha cometido assassinato ou
roubo, ou alguma coisa de semelhante. E se, portanto, for
esse o seu caso, não me deixe levá-lo a meu patrão, pois não
o poderá ele ajudar.
Tomás arregalou os olhos como se estivesse enfeitiçado.
- Deus tenha piedade de mim! Que quer você dizer, irmão
Jorge? Estou tão inocente como um recém-nascido. Nunca
fiz coisa semelhante em toda a minha vida.
- Bem, Tomás - disse Jorge -, se você está falando a verdade,
levarei seu caso ao conhecimento de meu patrão. E se você
vier ao nosso escritório amanhã, pela manhã, receberá uma
resposta.
- Bom Jorge - respondeu Tomás -, não o adie até amanhã.
Que farei eu nesse meio tempo? Jorge: o demônio me
matará esta noite.
- Que quer você que eu faça? - perguntou Jorge. - Irei
imediatamente, se você quiser, mas duvido que esteja em
casa.
No entanto, cedendo às pressões de Tomás, foram os dois
juntos procurar o doutor, que era o que, no fundo, Jorge
queria. Quando chegaram ao mágico, Jorge apresentou o
jovem e contou-lhe toda a história em traços largos,
implorando-lhe a alta e superior assistência para o pobre
aflito rapaz, perseguido e aterrorizado diariamente ao ponto
de estar quase perdendo ojuízo.
- Mas - respondeu o doutor (tal como Jorge, por suas
instruções, fizera antes) - temo que este homem tenha
cometido algum crime flagrante, o que dá direito aos maus
espíritos de persegui-lo. Venha cá, amigo. Deixe-me ver sua
mão. Você não cometeu assassinato ou traição?
- Não, senhor, nunca em minha vida.
- Vamos, tire a luva - ordenou-lhe o doutor.
- Aqui, senhor - disse Tomás -, pode ver que não estou com
a mão queimada.
- Jovem, meu jovem - disse o doutor -, não é isso o que eu
procuro. - Examinou-lhe a palma. - Bem - acrescentou -,
está tudo bem aqui. Mas cometeu você roubo ou crime
capital? Não me venha pedir ajuda se for culpado de
quaisquer dos crimes que conduzem à forca.
Então o doutor tomou-lhe o pulso e encarou-o de frente.
- Há aqui alguma desordem, alguma culpa. Pense bem,
jovem, fique certo, se você roubou alguma coisa ou cometeu
qualquer crime, os bons espíritos, habitantes do mundo
invisível, a cuja sublime influência eu recorrerei em sua
ajuda e para que o livrem do poder dos espíritos maus que o
perseguem, nada farão em socorro de você se houver
cometido um crime. E mais do que isso: eles certamente me
darão notícia do caso, logo que lhes fizer a súplica em favor
de você, e o contarão como motivo para que não o ajudem.
Assim, seria melhor que você me contasse tudo
imediatamente.
- Na verdade, senhor - respondeu Tomás nunca fiz qualquer
coisa semelhante em toda a minha vida.
- Você já causou algum prejuízo a alguma pessoa, coisa pela
qual você está sendo assim perseguido?
- Não, na verdade, senhor - respondeu Tomás -, eu não.
- Bem, amigo - disse o doutor -, só pergunto para ajudá-lo,
pois não me importa o que você tenha feito, nem me
interessa sabê-lo. Mas deixe-me fazer- lhe mais uma
pergunta e então poderei defendê-lo como uma pessoa
muito inocente. Está você disposto a reparar um prejuízo
que tenha feito a qualquer pessoa?
- Sim, senhor, de todo o coração - disse Tomás. E -
acrescentou - nunca causei prejuízo, em toda a minha vida.
Todo esse tempo o doutor o segurava pela mão, de quando
em quando tomando-lhe o pulso.
- Veja bem, amigo, há aqui alguma desordem. Sua
consciência vacila, e está um pouco perturbada. Não me
obrigue a fazer súplicas inúteis, porque, se o fizer, não
somente não resultará nada de bom para você, mas esses
espíritos maus o farão em pedaços quando o souberem,
como o saberão, que eu supliquei em favor de você. Vamos,
farei apenas mais uma pergunta. Não houve algum negócio
amoroso entre você e uma moça, e ela teve o coração
partido e morreu por você e agora se vinga disso e o
persegue? Pois parece que você disse que a aparição usava
uma touca de mulher.
- Não, na verdade, senhor - respondeu Tomás -, nunca tive
negócio de amor a não ser com uma moça, e ela está viva.
Estou certo de que a vi por três vezes, desde que começaram
essas aparições.
Nesse ponto, o doutor o segurou com força.
- Bem, existe alguma coisa entre vocês? Ela ainda é sua
namorada?
- Não, senhor - respondeu Tomás. - Nós acabamos.
- Acabaram! - disse o doutor. - Que fez você? Não se deitou
com ela, deitou? Mas, no entanto, Tomás, tenho de ser justo:
devo confessar que essa é uma questão delicada, o que me
faz não insistir na resposta. Espero que você não tenha
causado prejuízo à moça. Se o tiver feito, diga que o
reparará. Vamos, sente-se aí até que eu vá a meu estúdio, e,
se você houver sido honesto, eu o ajudarei, não há dúvida.
Mas, se você não tiver sido honesto, eu voltarei e lhe direi o
que você escondeu, sem me dar ao trabalho de perguntar a
você.
Neste ponto, Tomás começou a esbugalhar os olhos e a
parecer atemorizado.
- Desculpe - disse ele -, mas devo eu confessar tudo?
- Não, não, Tomás - respondeu o doutor -, não lhe peço que
confesse coisa alguma. Voltarei em poucos momentos e lhe
direi o que oculta, tão bem como se você o tivesse contado.
- Sim, mas então, o senhor diz que, se eu não lhe contar
tudo agora, então não obterei socorro, depois?
- É verdade, Tomás - disse o doutor gravemente -, é o que
digo. E, assim, se você tiver alguma coisa para me contar
antes que eu vá até o estúdio, conte-ma. Mas não o obrigo a
contar. Se tiver alguma coisa a dizer-me, diga-o; se nada
tiver a dizer, declare-o.
- Bem, nada, senhor, mas, a respeito da moça, um pouco.
- Ora, foi justamente o que eu pensei quando tomei o seu
pulso. Não cheguei quase a dizê-lo? Aposto que você deitou-
se com a pobre menina e a deixou grávida. É esse o fato?
- Temo que seja essa a verdade - respondeu Tomás -, mas foi
só duas vezes que estive com ela.
- Bem - disse o doutor -, você a seduziu, parece-me,
prometendo casar-se com ela, não é verdade?
- Penso que o senhor sabe de tudo - disse Tomás. - Na
verdade, assim se passaram as coisas.
- E então - acrescentou o doutor -, quando verificou que a
pobre moça estava grávida, você a desapontou, suponho.
- Sim, senhor - disse Tomás -, não há jeito de esconder
qualquer coisa do senhor.
- Bem, Tomás - disse o doutor -, e que farei eu por você
agora? Pois não há maneira de salvá-lo, a menos que você
preste alguma satisfação à moça. Onde está ela? Você diz que
ela está viva, parece.
- Sim, graças a Deus, está viva - respondeu Tomás.
- Bem, que faremos, Tomás? - perguntou o doutor. - Você
casaria com ela? Você lhe prestaria essa satisfação?
- Sim, claro, casarei com ela; e a mandarei chamar agora
mesmo - respondeu Tomás.
- Casar de noite! - exclamou o doutor. - Isso não serve,
Tomás.
- Ora, senhor - declarou Tomás -, eu me casarei novamente
com ela à luz do dia.
- Não, não, Tomás - disse o doutor -, nós não infringiremos a
lei. Eu lhe direi o que faremos. Mande chamar a menina e
que ela me conte a sua história e o que ela quer. Se ela se
contentar com o casamento, você assinará uma promessa de
que se casará com ela, amanhã, de manhã. E, para proteger
você do demônio que o perseguiu, você dormirá esta noite
aqui com meu outro empregado, e não darei resposta a
qualquer espírito que tenha a ousadia de assombrar você em
minha casa.
- De todo o meu coração - respondeu Tomás -, se o senhor
prometer-me que não serei mais perseguido, depois do
casamento.
- Ora, Tomás - disse o doutor -, para garanti-lo, eu tirarei a
sorte para você esta noite, e saberei se as vozes e os
espectros deviam-se a ela ou não. E, se de fato a ela se
deviam, eu lhe assegurarei que nunca mais ouvirá vozes ou
verá espectros depois de se casar. E, se não se deviam, não
terá a obrigação de casar-se. É uma proposta justa, Tomás.
- Não, senhor, por favor - disse Tomás -, eu acho que devo
casar-me. Essa é a verdade! E eu me casarei, quer eu me
livre ou não de fantasmas, uma vez que o senhor diz que é
justo fazê-lo. E, além disso, senhor - disse Tomás -, ela é
uma moça boa e honesta, e também me ama, e será uma boa
mulher. Eu a aceito, senhor, para o bem e para o mal.
- Agora você fala de forma honesta - respondeu o doutor. -
Agora, eu gosto de você, Tomás. Garanto que o diabo não
mais o perseguirá, se você se casar, mas você se comportou
como um malandro para com ela, antes.
No todo, o doutor animou-o, o jovem sentiu-se mais à
vontade, e mandaram chamar a moça. E, na manhã seguinte,
casaram-se, e deram um grande jantar matrimonial perto da
casa do doutor; assim, tudo se fez como o queria a moça e
como o queria o mágico. Pois o doutor recebeu duas guinéas
de Tomás, por libertá-lo do diabo (quem o teria feito mais
barato?), e vinte dos amigos da esposa, e a dama que deu o
dinheiro achou que o tinha gasto muito bem...


 
 
 
 
Lançamento Gênesis do Conhecimento
Contos de Fantasmas - Daniel Defoe
 
 
links em anexo e ao final da mensagem
 
 
digitalização - Vitório
formatação e revisão - Lucia Garcia
 
 
 
 
Sinopse:
 
Daniel Defoe (1660-1731) celebrizou-se por ter escrito As Aventuras de Robinson Crusoé, mas sua vida se caracterizou pela intensa produção literária e jornalística. Alguns biógrafos calculam que ele tenha publicado em torno de 500 títulos dos mais variados gêneros. Em 1704, fundou em Londres (sua terra natal) o jornal The Review, onde escrevia praticamente sozinho sobre todos os temas. Religioso, politizado, radical, foi no seu Review que Defoe - que acreditava profundamente em reencarnação - publicou inicialmente estes Contos de Fantasmas, baseado em entrevistas ou relatos conhecidos. Segundo ele, os episódios aqui relacionados - com exceção dos que estão agrupados sob o título de "Falsos Fantasmas" - são todos verdadeiros e, em alguns deles, ele estaria disposto a "ir em juízo", levando testemunhas e provas concretas. "A Aparição da Senhora Veal" é um dos exemplos.
 
 
 
 
Links:
 
 
 
 
 

PASTAS LANÇAMENTOS Genesis do Conhecimento:
 
 
 
 
 
 

Este e-book representa uma contribuição do grupo Genesis do
 Conhecimento para aqueles que necessitam de obras digitais como é o caso dos Deficientes Visuais e como forma de acesso e divulgação para todos.
É vedado o uso deste arquivo para auferir, direta ou indiretamente, benefícios financeiros.
Lembre-se de valorizar e reconhecer o trabalho do autor, adquirindo suas obras
 
 
 
 
INFORMAÇÃO:
o Grupo Genesis do Conhecimento está de volta ao Google Groups
 
 
 
Animacoes GRATUITAS para seu e-mail – do IncrediMail! Clique aqui!

0 comentários:

Postar um comentário

Vida de bombeiro Recipes Informatica Humor Jokes Mensagens Curiosity Saude Video Games Car Blog Animals Diario das Mensagens Eletronica Rei Jesus News Noticias da TV Artesanato Esportes Noticias Atuais Games Pets Career Religion Recreation Business Education Autos Academics Style Television Programming Motosport Humor News The Games Home Downs World News Internet Car Design Entertaimment Celebrities 1001 Games Doctor Pets Net Downs World Enter Jesus Variedade Mensagensr Android Rub Letras Dialogue cosmetics Genexus Car net Só Humor Curiosity Gifs Medical Female American Health Madeira Designer PPS Divertidas Estate Travel Estate Writing Computer Matilde Ocultos Matilde futebolcomnoticias girassol lettheworldturn topdigitalnet Bem amado enjohnny produceideas foodasticos cronicasdoimaginario downloadsdegraca compactandoletras newcuriosidades blogdoarmario arrozinhoii