quinta-feira, 28 de julho de 2011 By: Fred

<> livros-loureiro <> Enviando em anexo :querido john - Nicolas Sparks.


Querido John
Nicolas Sparks

Sinopse: Um rebelde raivoso, John deixou a escola e se alistou no exército, não sabendo o que mais
fazer com a sua vida--até que ele encontra a garota dos seus sonhos, Savannah. Sua atração mútua
cresce rapidamente e se transfoma no tipo de amor que deixa Savannah esperando que John termine
suas obrigaçoes, e John querendo se acalmar com a mulher que capturou seu coração. Mas o 11 de
setembro muda tudo. John sente que é seu dever se realistar. E lamentavelmente, durante a longa
separação Savannah se apaixona por outra pessoa. "Querido John," a carta dizia... e com essas duas
palavras um coração foi quebrado e duas vidas foram mudadas para sempre. De volta pra casa, John
deve lidar com o fato de que Savannah, agora casada, ainda é o seu amor verdadeiro-e encarar a
decisão mais difícil da sua vida.
· Créditos a comunidade Traduções de Livros


Prólogo


Lenoir, 2006

O que significa amar verdadeiramente outra pessoa?
Havia um tempo na minha vida em que eu pensava que realmente sabia a resposta: significava que
eu me importava com Savannah mais profundamente do que eu me importava comigo mesmo e que
nós iríamos passar o resto das nossas vidas juntos. Não teria sido preciso muito. Uma vez ela me
contou que a chave para a felicidade era sonhos alcançáveis, e que os dela não eram nada fora do
comum. Casamento, família... o básico. Significava que eu teria um emprego fixo, a casa com a
cerca branca, e uma minivan ou um SUV* grande o bastante para levar nossas crianças à escola, ou
ao dentista, ou ao treino de futebol ou aos recitais de piano. Duas ou três crianças, ela nunca foi
clara quanto à isso, mas o meu palpite é que quando o tempo viesse, ela teria sugerido que nós
deixássemos a natureza seguir seu curso e deixar que Deus tomasse a decisão. Ela era assim-
religiosa, eu quero dizer-e eu acho que isso foi parte da razão que eu me apaixonei por ela. Mas não
importa o que estivesse acontecendo nas nossas vidas, eu podia me imaginar deitado ao lado dela na
cama no fim do dia, abraçando-a enquanto nós conversávamos e ríamos, perdidos nos braços um do
outro.
Não soa tão irreal, certo? Quando duas pessoas se amam? Isso era o que eu pensava também. E
enquanto uma parte de mim ainda quer acreditar que é possível, eu sei que não vai acontecer.
Quando eu for embora de novo, eu nunca vou voltar.
*Tipo de carro grande.
Por enquanto, no entanto, sentarei na encosta da colina espiando a fazenda dela e espararei ela
aparecer. Ela não poderá me ver, é claro. No exército, você aprende a se camuflar nos seus
arredores, e eu aprendi bem, porque eu não tinha nenhum desejo de morrer em algum depósito de
lixo estrangeiro no meio do deserto do Iraque. Mas eu tinha que voltar para essa pequena cidade
montanhosa da Carolina do Norte para descobrir o que aconteceu. Quando uma pessoa coloca
alguma coisa em movimento, há um sentimento de mal-estar, quase arrependimento, até você
descobrir a verdade.
Mas disso eu estou certo: Savannah nunca saberá que eu estou aqui hoje.
Uma parte de mim dói só com o pensamento de ela estar tão perto e ainda assim tão intocável, mas
a história dela e a minha são diferentes agora. Não foi fácil pra mim aceitar essa simples verdade,
porque houve um tempo em que nossas histórias eram as mesmas, mas isso foi há seis anos e duas
vidas atrás. Há lembranças para nós dois, é claro, mas eu aprendi que as memórias podem ter uma
presença física, quase viva, e nisso, Savannah e eu somos diferentes também. Se as dela são as
estrelas no céu da noite, as minhas são os espaços vazios entre elas. E diferente dela, eu tenho sido
sobrecarregado com perguntas que eu tenho feito a mim mesmo mil vezes desde a última vez que
nós estivemos juntos. Por que eu fiz o que fiz? E eu faria de novo? Fui eu, você sabe, quem acabou
tudo.
Nas árvores ao meu redor, as folhas estão só começando a lentamente mudar pra cor de fogo,
reluzindo enquanto o sol espia sobre o horizonte. Os pássaros começaram seus cânticos matinais, e
o ar está perfumado com o aroma de pinho e terra; diferente do aroma de mar e sal da minha cidade
natal. Logo, a porta da frente se abre, e é aí que eu a vejo. Apesar da distância entre nós, eu me pego
prendendo a respiração enquanto ela caminha em direção ao amanhecer. Ela se espreguiça descendo
os degraus da frente e segue para o outro lado. Além dela, o pasto dos cavalos brilha como um
oceano verde, e ela passa pelo portão que leva até ele. Um cavalo solta um cumprimento, assim


como outro, e meu primeiro pensamento é que Savannah parece muito pequena para estar se

movendo tão facilmente entre eles. Mas ela sempre foi confortável com cavalos, e eles eram
confortáveis com ela. Meia dúzia deles mordiscam a grama perto da estaca da cerca, e Midas, o
Arabian whitesocked* dela dispara para um lado. Eu cavalguei com ela uma vez, felizmente sem
danos, e eu estava me segurando como podia, lembro de pensar que ela parecia tão relaxada na sela
que poderia estar assistindo televisão. Savannah leva um tempo pra cumprimentar Midas agora. Ela
esfrega o nariz dele enquanto murmura algo, dá tapinhas nas coxas dele, e quando se vira, ele
empina as orelhas enquanto ela segue em direção ao celeiro.
*Raça de cavalo.
Ela desaparece, então emerge mais uma vez, carregando dois sacos-grãos de aveia, eu acho. Ela
segura os sacos em cima de duas estacas da cerca, e alguns dos cavalos trotam em direção a elas.
Quando ela dá um passo atrás para dar espaço, eu vejo seu cabelo esvoaçar na brisa antes que ela
pegue uma sela e um freio. Enquanto Midas come, ela o prepara para a corrida, e alguns minutos
depois ela o está guiando para fora do pasto, em direçao às trilhas da floresta, com a mesma
aparência que ela tinha seis anos atrás. Eu sei que não é verdade-a vi de perto ano passado e notei as
primeiras linhas finas começando a se formar ao redor dos seus olhos-mas o prisma pelo qual eu a
enxergo permanece pra mim inalterado. Para mim, ela sempre terá 21 anos e eu sempre terei 23.
Minha estação fica na Alemanha; eu ainda tenho que ir à Fallujah ou a Bagdá ou receber a carta
dela, que eu li na estação da estrada de ferro de Samawah nas primeiras semanas da minha
campanha; eu ainda tenho que voltar pra casa depois dos eventos que mudaram o curso da minha
vida.
Agora, com 29 anos, eu às vezes me pergunto sobre as escolhas que fiz. O exército se tornou a
única vida que eu conheço. Não sei se eu deveria estar irritado ou contente com esse fato; na
maioria do tempo, eu me encontro alternando entre os dois sentimentos, dependendo do dia.
Quando as pessoas perguntam, digo a elas que sou um grunhido, e não estou mentindo. Ainda vivo
em uma base na Alemanha, tenho talvez cem mil dólares em economias e não tenho um encontro há
anos.
Eu não surfo mais, mesmo quando estou de licença, mas nos meus dias de folga eu dirijo minha
Harley para o norte ou para o sul, pra onde quer que o meu humor me levar. A Harley foi a única
coisa melhor que eu já comprei pra mim mesmo, embora tenha custado uma fortuna naquele tempo.
Combina comigo, desde que eu me tornei um tipo de solitário. A maioria dos meus amigos
deixaram o serviço, mas eu provavelmente vou ser mandado de volta para o Iraque nos próximos
meses. Pelo menos, estes são os rumores que circulam na base. Na primeira vez que eu encontrei
Savannah Lynn Curtis-para mim, ela sempre será Savannah Lynn Crutis-eu nunca poderia prever
que a minha vida iria terminar do jeito que está ou acreditar que faria do exército a minha carreira.
Mas eu a encontrei; isso é o que faz a minha vida atual ser tão estranha. Eu me apaixonei por ela
quando nós estávamos juntos, então me apaixonei mais profundamente por ela nos anos que nós
ficamos separados. Nossa estória tem três partes: um começo, um meio e um fim. E embora esse
seja o modo que todas as estória se desenrrolam, eu ainda não acredito que a nossa não durou para
sempre.
Eu reflito essas coisas, e como sempre, nosso tempo juntos volta pra mim. Eu me acho lembrando
como começou, por enquanto essas memórias são tudo que me restaram.
PARTE I


Um


Wilmington, 2000

Meu nome é John Tyree. Eu nasci em 1977, e cresci em Wilmington, Carolina do Norte, uma cidade
que orgulhosamente ostenta o maior porto do estado assim como uma longa e vibrante história, mas
agora ela me parece mais uma cidade que aconteceu por acidente.
Claro, o tempo era ótimo e as praias eram perfeitas, mas a cidade não estava pronta para a onda de
de ianques* aposentados do norte que queriam algum lugar barato para passar seus anos de ouro. A
cidade fica localizada em uma ponta de terra relativamente pequena, cercada pelo Rio Cape Fear de
um lado e o oceano do outro. A rodovia 17-que leva a praia Myrtle e a charleston-divide a cidade e
serve como sua estrada principal. Quando eu era criança, meu pai e eu podíamos dirigir da zona
histórica perto do Rio Cape Fear até a praia Wrightsville em dez minutos, mas tantos semáforos e
shopping centers têm sido adicionados que agora pode levar uma hora, especialmente nos finais de
semana, quando os turistas vêm de montes. A praia de Wrightsville, localizada em uma ilha logo
além da costa, está no ponto mais norte de Wilmington e é de longe uma das praias mais populares
do estado. As casas ao longo das dunas são ridiculamente caras, e a maioria delas são alugadas por
todo o verão. Os Outer Banks devem ter um apelo mais romântico por causa do isolamento deles e
os cavalos selvagens e aquele vôo pelo qual Orville e Wilbur** são famosos, mas me deixe lhe
dizer uma coisa, a maioria das pessoas que vão à praia nas férias se sentem mais em casa quando
podem achar um McDonald's ou um Burger King por perto, para o caso dos pequenos não gostarem
muito da comida local, e querem mais do que duas opções quanto a atividades noturnas.
*Americanos do norte dos EUA.
**Os irmãos Wright, oficialmente, reconhecidos pela Fédération Aéronautique Internationale, pelos
Estados Unidos da América e pela maioria dos países do mundo por projetarem e por realizarem o
primeiro vôo controlado num aparelho mais pesado que o ar.
Como todas as cidades, Wilmington é rica em alguns lugares e pobre em outros, e desde que meu
pai conseguiu um dos empregos mais estáveis e sólidos do planeta-ele dirigia uma rota de entrega
de correspondência para o correio-nós ficamos bem. Não ótimos, mas bem. Nós não éramos ricos,
mas vivíamos perto o bastante da área rica da cidade para eu frequentar uma das melhores escolas
de lá. Embora, diferente das casas dos meus amigos, a nossa casa fosse velha e pequena; parte da
varanda tinha começado a vergar, mas o jardim era o que salvava a casa. Havia um grande carvalho
no quintal, e quando eu tinha oito anos de idade construí uma casa na árvore com pedaços de
madeira que eu peguei de uma construção. Meu pai não me ajudou com o projeto (se ele martelasse
uma unha, podia ser chamado honestamente de um acidente); foi no mesmo verão que eu ensinei a
mim mesmo como surfar. Acho que eu deveria ter me dado conta aí do quanto meu pai e eu éramos
diferentes, mas isso só mostra o quão pouco você sabe sobre a vida quando se é uma criança.
Meu pai e eu éramos tão diferentes um do outro quanto duas pessoas podem possivelmente ser. Ele
era passivo e introspectivo, eu estava sempre me movimentando e odiava ficar sozinho; ele dava
grande valor a educação, escola para mim era como um clube social com esportes inseridos. Ele
tinha uma má postura e tendia a arrastar os pés quando andava; eu saltava aqui e ali, pedindo a ele
pra marcar quanto tempo eu levava pra correr até o final do quarteirão e voltar. Eu era mais alto que
ele quando estava na oitava série e podia ganhar dele na queda de braço um ano depois. Nossas
características físicas eram completamente diferentes também. Enquanto ele tinha cabelos cor de
areia, olhos cor de avelã e sardas, eu tinha olhos e cabelos castanhos e minha pele azeitonada
escurecia para um forte bronzeado em maio. Nossas diferenças foram tomadas pelos nossos
vizinhos como estranhas, eu acho, considerando que ele tinha me criado sozinho. Quando fiquei
mais velho, algumas vezes eu ouvia eles cochichando sobre o fato de que minha mãe tinha fugido


quando eu tinha menos de um ano. Embora mais tarde eu tenha suspeitado que minha mãe tivesse

encontrado outra pessoa, meu pai nunca comfirmou isso. Tudo o que ele tinha dito era que ela tinha
se dado conta que tinha cometido um erro casando tão jovem, e que ela não estava pronta para ser
uma mãe. Ele nem tratava ela com desdém, nem a elogiava, mas se certificou que eu a incluísse nas
minhas orações, não importando onde ela estivesse ou o que ela havia feito.
"Você me lembra ela," ele tinha dito algumas vezes.
Até hoje, eu nunca falei uma única palavra com ela, nem tenho nenhum desejo de falar.
Eu acho que meu pai era feliz. Eu coloco assim porque ele raramente mostrava suas emoções.
Abraços e beijos eram uma raridade pra mim quando eu estava crescendo, e quando aconteciam,
eles geralmente pareciam sem vida, algo que ele tinha feito porque sentiu que tinha que fazer, não
porque ele quisesse fazer. Eu sei que ele me amava pelo modo que ele se dedicou a cuidar de mim,
mas ele tinha 43 anos quando me teve, e uma parte de mim acha que meu pai se daria melhor como
um monge do que como um pai. Ele era o homem mais quieto que eu já conheci. Fazia poucas
perguntas sobre o que estava acontecendo na minha vida, e do mesmo jeito que raramente ficava
com raiva, ele raramente brincava. Vivia para a rotina. Fazia ovos mexidos, torradas e bacon para
mim todas as manhãs e ouvia eu falar sobre a escola, no jantar que ele também tinha nos preparado.
Ele marcava visitas ao dentista com dois meses de antecedência, pagava suas contas no sábado de
manhã, lavava a roupa no domingo à tarde e saía de casa todo dia exatamente às 7:35 da manhã. Ele
era socialmente estranho e passava longas horas sozinho todos os dias, deixando pacotes e maços de
cartas nas caixas de correio ao longo da sua rota. Ele não namorava, nem passava noites de fim de
semana jogando poker com seus colegas; o telefone podia ficar em silêncio por semanas. Quando
tocava, ou era engano ou telemarketing. Eu sei o quanto deve ter sido difícil pra ele me criar
sozinho, mas ele nunca reclamava, nem mesmo quando eu o desapontava.
Eu passava a maioria das minhas tardes sozinho. Com as obrigações do dia finalmente finalizadas,
meu pai ia pra sua toca ficar com as suas moedas. Essa era a maior paixão da vida dele. Ele ficava
muito contente quando sentado na sua toca, estudando uma carta de um negociador de moedas
apelidado de Greysheet e tentando descobrir qual era a próxima moeda que ele devia adicionar a sua
coleção. O herói do meu avô era um homem chamado Louis Eliasberg, um financiador de
Baltimore que é a única pessoa a ter reunido uma coleção completa das moedas dos Estados
Unidos, incluindo várias datas e marcas da Casa da Moeda. Sua coleção se igualava, se não
uperasse, a coleçao do Smithsonian
s *, e depois da morte da minha avó em 1951, meu avô ficou

obcecado com a idéia de construir uma coleção com o filho. Durante os verões, meu avô e meu pai
viajavam de trem pra várias Casas da Moeda para coletar moedas de primeira mão ou visitavam
vários eventos de moedas no sudeste. Logo, meu avô e meu pai estabeleceram relações com
negociadores de moedas por todo o país, e meu avô gastou uma fortuna negociando e melhorando a
coleção todos esses anos. Mas diferente de Eliasberg, contudo, meu avô não era rico-ele tinha um
armazém em Burgaw que faliu quando a Piggly Wiggly** abriu suas portas por toda a cidade-e
nunca teve chance de alcançar a coleção do Eliasberg. Mesmo assim, todo dólar extra se
transformava em mais moedas. Meu avô vestiu a mesma jaqueta por trinta anos, dirigiu o mesmo
carro a vida toda, e eu tenho certeza que meu pai foi trabalhar para o correio ao invés de ir para a
faculdade porque não sobrou um centavo para pagar qualquer coisa além do Ensino Médio. Ele era
um cara estranho, com certeza, assim como meu pai. Tal pai, tal filho, como diz o velho ditado.
Quando o velho finalmente passou dessa pra melhor, ele especificou no testamento que a casa seria
vendiada e o dinheiro seria usado para comprar mais moedas, o que provavelmente seria o que meu
pai teria feito de qualquer forma.
stituição educacional e de pesquisa associada a um complexo de museus, administrada e fundada
*In
pelo governo dos Estados Unidos.


**Rede de supermercados.


Quando meu pai herdou a coleção, já era bem valiosa. Quando a inflação subiu para o telhado e o
ouro atingiu $850 a onça*, valia uma pequena fortuna, mais do que o suficiente para o meu pai
econômico se aposentar algumas vezes e mais do que valeria 25 anos depois. Mas nem meu avô
nem meu pai tinham começado a colecionar pelo dinheiro; eles estavam nisso pela emoção da
caçada e pelo laço que se criou entre eles.
Tinha alguma coisa excitante em longas e duras procuras por uma moeda específica, finalmente
localizá-la, depois negociar para conseguí-la pelo preço certo. Algumas vezes eles podiam pagar por
uma moeda, outras vezes não, mas cada peça que eles adicionavam à coleção era um tesouro. Meu
pai esperava partilhar a mesma paixão comigo, incluindo o sacrifício que ela requeria. Crescendo,
eu tive que dormir com cobertores extras no inverno, e eu só comprava um único par de sapatos por
ano; nunca havia dinheiro para minhas roupas, a não ser que elas viessem do Exército da
Salvação**. Meu pai nem tinha uma câmera. A única foto tirada de nós foi em um evento de
moedas em Atlanta. Um negociador tirou nossa foto enquanto nós estávamos de pé em frente a sua
barraca e depois nós enviou a foto. Por anos ela ficou empoleirada na mesa do meu pai. Na foto, o
braço do meu pai estava jogado sobre os meus ombros, e nós dois estávamos sorrindo alegremente.
Na minha mão, eu segurava um níquel búfalo 1926-D em condição de pedra preciosa, uma moeda
que meu pai tinha acabado de comprar. Estava entre os níqueis búfalos mais raros, e nós acabamos
comendo cachorro quente e feijão por um mês, visto que a moeda custou mais do que ele esperava.
*Medida do sistema americano que corresponde a 31g mais ou menos.
ma das maiores instituições de caridade do mundo.
**U
Mas eu não me importava com os sacrifícios-por um tempo de qualquer forma. Quando meu pai
começou a falar comigo sobre moedas-eu devia estar na primeira ou segunda série na época-ele
falou comigo como um igual. Ter um adulto, especialmente seu pai, tratando você como um igual é
uma coisa importante para qualquer criança, e eu aproveitava a atenção absorvendo a informação.
Logo eu podia lhe dizer quantas águias duplas Saint-Gaudens foram cunhadas em 1927 comparadas
com 1924 e porque uma moeda de dez centavos Barber cunhada em Nova Orleans era dez vezes
mais valiosa do que a mesma moeda cunhada no mesmo ano na Filadélfia. Eu ainda posso, à
proposito. Ainda que, diferente do meu pai, eu comecei a parar com a minha paixão por moedas.
Era tudo sobre o que meu pai parecia ter a capacidade de falar, e depois de seis ou sete anos de
finais de semana passados com ele ao invés de com amigos, eu queria sair. Como a maioria dos
garotos, eu comecei a me importar com outras coisas: esportes, garotas, carros e música,
primeiramente, e quando fiz 14 anos, eu passava muito pouco tempo em casa. Meu ressentimento
começou a crescer também. Pouco a pouco, eu comecei a notar diferenças no modo que nós
vivíamos quando me comparava com a maioria dos meus amigos. Enquanto eles tinham dinheiro
para gastar indo ao cinema ou comprando um par de óculos estiloso, eu me achava procurando por
moedas no sofá pra comprar um hamburguer no McDOnald's. Mais do que alguns dos meus amigos
receberam carros nos seus aniversários de 16 anos; meu pai me deu um dólar prateado Morgan de
1883 cunhado em Carson City. Os rasgos do nosso sofá usado eram cobertos por um cobertor, e nós
éramos a única família que eu conheço que não tinha tv a cabo ou um forno microondas.
Quando a nossa geladeira quebrou, ele comprou uma usada que era da cor do tom mais horroroso de
verde do mundo, uma cor que não combinava com mais nada na cozinha. Eu ficava com vergonha
só de pensar em chamar meus amigos para me visitar, e culpei meu pai por isso. Eu sei que era
muito ridículo eu me sentir assim-se a falta de dinheiro me incomodava tanto, eu poderia ter
aparado gramados ou arranjado empregos estranhos, por exemplo, mas as coisas eram assim. Eu era


cego como um caracol e bobo como um camelo, mas mesmo que eu lhe dissesse que eu me

arrependo da minha imaturidade agora, eu não posso desfazer o passado.

Meu pai sentiu que alguma coisa estava mudando, mas ele estava perdido sobre o que fazer com a
gente. Ele tentou, no entanto, do único modo que ele sabia, do único modo que o pai dele sabia. Ele
falava sobre moedas-era o único assunto que ele podia discutir com facilidade-e continuou a fazer
meus cafés-da-manhã e jantares; mas o nosso estranhamento cresceu com o tempo. Ao mesmo
tempo, eu me afastei dos amigos que eu sempre conheci. Eles começaram a fazer panelinhas,
baseadas principalmente em que filmes eles iriam ver ou nas últimas camisas que eles tinham
comprado no shopping, eu percebi que estava olhando pra eles de fora. Que se danem, eu pensei.
No Ensino Médio, existe sempre um espaço pra todo mundo, eu comecei a me juntar com o tipo
errado de pessoas, pessoas que não davam a mínima pra nada, o que me deixava não dando a
mínima também. Eu comecei a cabular aulas e a fumar e fui suspenso três vezes por brigar.
Eu desisti dos esportes também. Eu tinha jogado futebol americano, basquete e praticado corrida até
o segundo ano, e embora meu pai algumas vezes perguntasse como eu tinha ido quando eu chegava
em casa, ele parecia desconfortável se eu entrasse em detalhes, visto que era óbvio que ele não sabia
nada de esportes. Ele nunca participou de um time na vida. Ele apareceu para um único jogo de
basquete durante o meu segundo ano. Sentou nas arquibancadas, um estranho cara careca vestindo
uma jaqueta de esportes usada e meias que não combinavam. Embora ele não fosse obeso, suas
calças apertavam na cintura, fazendo-o parecer como se estivesse grávido de três meses, e eu sabia
que não queria ter nada a ver com ele. Eu fiquei desconcertado com a sua aparência e depois do
jogo eu o evitei. Não sinto orgulho de mim mesmo por isso, mas era assim que eu era.
As coisas pioraram. No meu último ano, minha rebeldia atingiu um ponto alto. Minhas notas
vinham escorregando por dois anos, mais por preguiça e falta de cuidado que por inteligência (eu
gosto de pensar), e mais de uma vez meu pai me pegou entrando às escondidas em casa com bafo de
birita. Eu fui escoltado até em casa pela polícia depois de ser encontrado em uma festa onde drogas
e bebida eram evidentes, e quando meu pai me colocou de castigo, eu fiquei na casa de um amigo
por algumas semanas depois de esbravejar com ele para cuidar da sua própria vida. Ele não disse
nada quando eu voltei; ao invés disso, ovos mexidos, torradas e bacon estavam na mesa de manhã
como sempre. Eu mal passei de ano, e suspeito que a escola deixou eu me formar simplesmente
porque me queriam fora de lá. Eu sei que meu pai estava preocupado, e ele às vezes, do seu modo
tímido, abordava o assunto da universidade, mas nesse tempo, eu já tinha decidido não ir. Eu queria
um emprego, eu queria um carro, eu queria aquelas coisas materiais que eu tinha vivido dezoito
anos sem.
Eu não disse nada pra ele sobre isso de um jeito ou de outro até o verão depois da formatura, mas
quando ele se deu conta que eu não tinha nem me inscrito em alguma universidade, ele se trancou
em sua toca pelo resto da noite e não me disse nada durante o nosso ovos com bacon na manhã
seguinte. Mais tarde naquele dia, ele tentou me envolver em outra discussão sobre moedas, como se
estivesse se agarrando ao companheirismo que tinha de algum modo se perdido entre nós.
"Lembra quando nós fomos para Atlanta e foi você que achou aquele níquel de cabeça de búfalo
que nós procuramos por anos?" ele começou. "Aquele dia que tiraram a nossa foto? Eu nunca vou
esquecer o quanto você estava animado. Me lembrou do meu pai e eu."
Eu sacudi a cabeça, toda a frustração da vida com o meu pai vindo à superfície.
"Eu estou de saco cheio e cansado de ouvir sobre moedas!" Eu gritei pra ele. "Não quero nunca
mais ouvir falar sobre isso! Você devia vender essa maldita coleção e fazer outra coisa. Qualquer
coisa!"


Meu pai não disse nada, mas eu nunca esquecerei a sua expressão de dor quando ele finalmente se

virou e se arrastou de volta até sua toca. Eu tinha machucado ele, e embora tenha dito a mim mesmo
que não queria fazer isso, lá no fundo eu sabia que estava mentindo pra mim mesmo. A partir daí
meu pai raramente puxou o assunto das moedas de novo. Nem eu. Se tornou um enorme abismo
entre nós, e nos deixou sem nada a dizer um ao outro.
Alguns dias depois me dei conta de que a nossa única fotografia tinha desaparecido, como se ele
acreditasse que até mesmo a mínima lembrança de moedas me ofenderia. Naquele tempo
provavelmente me ofenderia, e mesmo eu supondo que ele tinha jogado a foto fora, essa descoberta
não me incomodou nem um pouco.
Crescendo, eu nunca considerei entrar no exército. Apesar do fato de que o leste da Carolina do
Norte é uma da áreas mais militarmente densas do país-você pode ver sete bases em algumas horas
de passeio de carro por Wilmington-eu costumava pensar que a vida militar era para perdedores.
uem queria passar a vida recebendo ordem de um bando de homens de uniforme com rew-cut ?
Q c *
Eu não, e tirando os caras do ROTC**, nem muitas pessoas na minha escola. Ao invés disso, muitos
que tinham sido bons alunos iam para a Universidade da Carolina do Norte ou para a North
Carolina State, enquanto as crianças que não tinham sido bons estudantes ficavam pra trás,
vagabundeando de um péssimo emprego a outro, bebendo cerveja e saindo por aí, e evitando a
qualquer custo alguma coisa que requeresse uma sombra de responsabilidade.
*Um tipo de corte de cabelo que é bem curtinho, tipo militar mesmo, sabem? Procurei uma
tradução, mas a melhorzinha que eu achei foi "corte de cabelo à escovinha", aí não dá né?
**Reserve Officer Training Corps, Subdivisão de Treinamento de Oficiais da Reserva, um tipo de
colégio militar.
Eu caí na última categoria. Nos dois primeiros anos depois da formatura, eu tive uma sucessão de
empregos, trabalhando como garçom no Outback Steakhouse, recolhendo canhotos de ingressos no
cinema local, carregando e descarregando caixas na Staples, fazendo panquecas na Waffle House, e
trabalhando como caixa em alguns lugares turísticos que vendiam porcarias para as pessoas de fora
da cidade. Eu gastava cada centavo que ganhava, não tinha nenhuma ilusão sobre ascender na
escala profissional, e acabei sendo despedido de todo trabalho que eu tive. Por um tempo, eu não
me importava. Estava vivendo minha vida. Eu era profissional em surfar e dormir até tarde, e visto
que eu ainda estava vivendo em casa, nada do que eu ganhava era necessário pra coisas como
aluguel ou comida ou seguro ou preparação para o futuro. Além disso, nenhum dos meus amigos
estava melhor do que eu. Eu não me lembro de ser particularmente infeliz, mas depois de um tempo
fiquei cansado da minha vida. Não a parte do surf-em 1996, os furacões Bertha e Fran atingiram a
costa, e aquelas foram algumas das melhores ondas em anos-mas ir pro bar Leroy's depois do surf.
Eu comecei a perceber que toda noite era a mesma. Eu bebia cerveja e esbarrava com alguém que
conhecia da escola, e eles perguntavam o que eu estava fazendo e eu lhes dizia, e eles me contavam
o que estavam fazendo, e não precisava ser um gênio pra se dar conta de que os dois estavam na
estrada mais rápida pra lugar nenhum. Mesmo se eles tivessem suas próprias casas, o que eu não
tinha, eu nunca acreditei neles quando me contavam que gostavam de seus trabalhos como
avadores de valeta ou limpadores de janela ou transportadores de Porta Potti
c *, porque eu sabia

muito bem que nenhum desses trabalhos era o tipo de ocupação que eles cresceram sonhando em
ter. Eu posso ter sido preguiçoso na sala de aula, mas eu não era burro.
*Vaso sanitário portátil.
Eu fiquei com dúzias de garotas naquele período. No Leroy's sempre havia mulheres. A maioria


eram relações que eu esquecia com facilidade. Eu usei mulheres, me permiti ser usado e sempre

manti meus sentimentos pra mim mesmo. Apenas a minha relação com uma menina chamada Lucy
durou mais que alguns meses, e por um tempo antes de nós inevitavelmente nos separarmos, eu

pensei que estava apaixonado por ela. Ela era estudante na UNC Wilmington, um ano mais velha
*
que eu, e queria trabalhar em Nova York depois de se formar. "Eu me importo com você," ela me
disse na nossa última noite juntos, "mas você e eu queremos coisas diferentes. Você poderia fazer
muito mais com a sua vida, mas por alguma razão, está contente em simplesmente flutuar por ela."
Ela hesitou antes de continuar. "Mas mais do que isso, eu nunca sei o que você realmente sente por
mim." Eu sabia que ela estava certa. Logo depois ela foi embora em um avião sem se importar em
dizer adeus. Um ano mais tarde, depois de conseguir o número com seus pais, liguei pra ela e nos
falamos por vinte minutos.
Estava noiva de um advogado, ela me disse, e estaria casada em Junho próximo.
*Universidade da Carolina do Norte.
A ligação me afetou mais do que eu pensei que me afetaria. Veio em um dia em que eu tinha
acabado de ser demitido-de novo-fui me consolar no Leroy's, como sempre. O mesmo grupo de
perdedores estava lá, e eu de repente me dei conta de que não queria passar outra tarde sem sentido
fingindo que tudo na minha vida estava bem. Ao invés disso eu comprei um pacote de seis cervejas
e fui sentar na praia.
Era a primeira vez em anos que eu realmente pensava no que estava fazendo com a minha vida, e
me perguntei se deveria seguir o conselho do meu pai e conseguir um diploma universitário. Porém,
eu tinha ficado fora da escola por tanto tempo que a idéia me pareceu estranha e ridícula. Chame de
sorte ou má sorte, mas nessa hora dois fuzileiros navais apareceram. Jovens e em forma, eles
irradiavam fácil confiança. Se eles podiam fazer, falei pra mim mesmo, eu também podia.
Refleti sobre isso alguns dias, e no final, meu pai teve alguma coisa a ver com a minha decisão. Não
que eu tenha falado com ele sobre isso, claro-nós não estávamos nos falando à essa altura. Eu estava
indo a cozinha uma noite e o vi sentado à sua mesa, como sempre. Mas desta vez, eu realmente o
analizei. Seus cabelos eram quase inexistentes, e o pouco que restou tinha se tornado
completamente cinza acima das orelhas. Ele estava perto de se aposentar, e eu fui atingido pela
noção de que eu não tinha o direito de continuar decepcionando-o depois de tudo que ele tinha feito
por mim.
Então eu ingressei no exército. Meu primeiro pensamento foi que eu iria me juntar a Marinha, visto
que eles eram os caras com quem eu estava mais familiarizado. A praia de Wrightsville estava
empre lotada com jarheads
s * de Camp Lejeune ou Cherry Point, mas quando a hora chegou, eu

escolhi o exército. Me dei conta que seguraria um rifle de qualquer maneira, mas o que realmente
foi decisivo foi que o recrutador da Marinha estava em horário de almoço quando eu apareci e não
estava disponível imediatamente, enquanto o recrutador do exército-cujo escritório era do outro
lado da rua-estava. No final, a decisão pareceu mais espontânea do que planejada, mas eu assinei na
linha pontilhada pra um alistamento de quatro anos, e quando o recrutador deu palminhas nas
minhas costas enquanto eu saía porta a fora, eu me encontrei me perguntando no que eu tinha me
metido. Isso foi no final de 1997, e eu tinha 20 anos de idade.
embro da marinha americana. Quando usado por civis pode ser considerado depreciativo, mas é
*M
usado com frequência entre os marinheiros.
O Boot Camp* em Fort Benning foi tão horrível como eu pensei que seria. A coisa toda parecia
projetada para humilhar e fazer uma lavagem nos nossos cérebros pra seguirmos ordens sem


perguntas, não importando o quão estúpidas elas fossem, mas eu me adaptei mais rapidamente do

que muitos caras. Uma vez que eu passei por isso, escolhi a infantaria. Nós passamos os próximos
meses fazendo muitas simulações em lugares como Lousisiana e o bom e velho Fort Bragg, onde
nós basicamente aprendemos a melhor maneira de matar pessoas e quebrar coisas; e depois de um
tempo, minha unidade, como parte da Primeira Divisão de Infantaria-mais conhecida como a
Grande Vermelha-foi mandada para a Alemanha. Eu não falava uma palavra em alemão, mas não
importava, visto que todo mundo com quem eu lidava falava inglês. Foi fácil no começo, então a
vida no exército se instalou. Eu passei sete meses preguiçosos nos Balcãs-primeiro na Macedônia
em 1999, depois em Kosovo onde eu fiquei até o final da primavera de 2000. A vida no exérciot não
pagava muito, mas considerando que não havia aluguel, gastos com comida e realmente nada com o
que gastar meus salários até mesmo quando eu os recebia, eu tinha dinheiro no banco pela primeira
vez. Não muito, mas o suficiente.
*Lugar onde os soldados são treinados.
Eu passei a minha primeira licença em casa completamente entediado.
A minha segunda licença eu passei em Las Vegas. Um dos meus colegas tinha crescido lá, e três de
nós ficamos na casa dos pais dele. Eu acabei com praticamente tudo que tinha economizado. Na
minha terceira licença, depois de voltar de Kosovo, eu estava desesperadamente necessitando de
uma pausa e decidi voltar pra casa, esperando que o tédio da visita fosse acalmar a minha mente.
Por causa da distância, meu pai e eu raramente falávamos no telefone, mas ele me escrevia cartas
que eram sempre seladas no primeiro dia de cada mês. Elas não eram como as que meus colegas
recebiam de suas mães, irmãs e esposas. Nada muito pessoal, nada piegas, e nunca uma palavra que
sugerisse que ele sentia a minha falta. E ele tão pouco mencionava moedas. Ao invés disso, ele
escrevia sobre mudanças na vizinhança e muito sobre o tempo; quando eu escrevi para contar a ele
sobre um fogo cruzado bem cabeludo que eu tive nos Balcãs, ele escreveu de volta pra dizer que
estava feliz que eu tinha sobrevivido, mas não disse mais nada sobre isso. Eu sabia pelo modo que
ele tinha expressado sua resposta que ele não queria ouvir sobre as coisas perigosas que eu fazia. O
fato de eu estar em perigo o aterrorizava, então eu comecei a omitir as coisas assustadoras. Ao invés
disso, eu mandava cartas sobre como o dever de guarda era, sem sombra de dúvida, o emprego mais
entediante e a única coisa excitante que acontecia comigo era tentar adivinhar quantos cigarros os
outros guardas fumariam em uma única tarde. Meu pai terminava cada carta com a promessa de que
escreveria de novo logo, e mais uma vez, o homem não me decepcionou. Ele era, eu comecei a
acreditar nisso a muito tempo, um homem muito melhor do que eu jamais serei.
Mas eu tinha crescido nos últimos três anos. Sim, eu sei, sou um clichê ambulante-entrar como um
garoto, sair como um homem e tudo isso. Mas todo mundo no exército é forçado a crescer,
especialmentte se você é da infataria como eu. Você é confiado com equipamento que custa uma
fortuna, outros põem sua confiança em você, e se você estragar alguma coisa, a penalidade é bem
mais séria do que ser mandado pra cama sem o jantar. Claro, há muita papelada e tédio, e todo
mundo fuma e não consegue completar uma frase sem xingar e têm caixas de revistas safadas
embaixo de suas camas, e você tem que responder aos caras da ROTC que acabaram de sair da
universidade que acham que brutos como eu têm o QI de um Neanderthal; mas você é forçado a
aprender a lição mais importante da vida, que é o fato de que você tem que aprender a viver com as
suas responsabilidades, e é melhor você fazer isso direito. Quando recebe uma ordem você não
pode dizer não. Não é exagero dizer que vidas estão por um fio. Uma decisão errada e o seu colega
pode morrer. É esse fato que faz o exército funcionar. É esse o grande erro que as pessoas cometem
quando se perguntam como os soldados podem colocar suas vidas em risco dia após dia ou como
eles podem lutar por algo em que não acreditam. Nem todo mundo desacredita. Eu trabalhei com
soldados de todos os lados do espectro político; encontrei alguns que odiavam o exército e outros
que queriam fazer dele uma carreira. Encontrei gênios e idiotas, mas quando tudo é dito e feito, nós


fazemos o que fazemos uns pelos outros. Por amizade. Não pelo país, não por patriotismo, não por

que somos máquinas programadas para matar, mas por causa do cara ao seu lado. Você luta pelo seu
amigo, para manter ele vivo, e ele luta por você e tudo no exército é construído sobre essa simples
premissa.
Mas como eu disse, eu tinha mudado. Entrei no exército como um fumante e quase coloquei um
pulmão pra fora no Boot Camp, mas diferente de praticamente todos da minha unidade, eu parei e
não encosto nessas coisas há mais de dois anos. Moderei minha bebederia até o ponto que uma ou
duas cervejas por semana eram suficientes, e deve fazer um mês que eu não tomo nenhuma. Meu
recorde era sem sentido. Eu fui promovido de soldado raso à cabo e depois, seis meses mais tarde, à
sargento, e descobri que tinha uma habilidade de liderar. Eu liderava homens em fogo cruzados e
meu esquadrão estava envolvido na captura de um dos criminosos de guerra mais perigosos dos
Balcãs. Meu oficial comandante me recomendou à Escola para Candidatos a Oficial (OCS), e eu
estava debatendo se iria me tornar um oficial ou não, mas isso às vezes significava um emprego de
escritório e ainda mais papelada, e eu não estava certo se queria isso. Tirando o surfe eu não tinha
feito exercício por anos antes de ingressar no serviço; na época que eu tirei minha terceira licença,
ganhei 7 quilos de músculos e acabei com os pneuzinhos da minha barriga. Passava a maior parte
do meu tempo livre correndo, praticando boxe e levantando peso com Tony, um fortão de Nova
York que sempre gritava quando falava, jurava que tequila era um afrodisíaco, e era de longe o meu
melhor amigo na unidade. Ele me convenceu a fazer tatuagens nos dois braços assim como ele, e a
cada dia que passava, a memória de quem eu fora um dia se tornava mais e mais distante.
Eu lia bastante também. No exército você tem um bocado de tempo pra ler, e as pessoas negociam
livros aqui e ali ou alugam da biblioteca até que as capas estejam desgastadas. Eu não quero que
você tenha a impressão de que eu me tornei um erudito, porque eu não me tornei. Eu não estava
interessado em Chaucer, Proust, Dostoievski ou qualquer um desses caras mortos; eu lia
principalmente mistérios, suspenses e os livros do Stephen King, criei uma ligação particular com
Carl Hiaasen porque as palavras dele fluíam facilmente e ele sempre me fazia rir. Eu não podia
evitar de pensar que se a escola tivesse indicado esses livros nas aulas de inglês, nós teríamos muito
mais leitores no mundo.
Diferente dos meus colegas eu evitei qualquer perspectiva de companhia feminina. Parece estranho,
certo? No auge da vida, um trabalho cheio de testosterona-o que poderia ser mais natural do que
procurar por uma pequena libertação com ajuda feminina? Não era para mim. Embora alguns dos
caras que eu conhecia namoravam e até casavam com algumas moradoras locais enquanto estavam
com estação em Wiirzburg, eu tinha ouvido bastante estórias para saber que esses casamentos
raramente davam certo. O exército era duro com relações em geral-eu havia visto bastante divórcios
para saber disso-e embora eu não tivesse achado ruim a companhia de alguém especial, nunca
aconteceu. Tony não entendia.
"Você tem que vir comigo," ele suplicou. "Você nunca vem."
"Não estou a fim."
"Como você pode não estar a fim? Sabine jura que a amiga dela é linda. Alta e loira, e ela adora
tequila."
"Leve o Don. Eu tenho certeza de que ele gostaria de ir."
"Castelow? De jeito nenhum. Sabine não o suporta."
Eu não disse nada.


"Nós só vamos nos divertir um pouco."


Balancei minha cabeça, pensando que eu preferia ficar sozinho a voltar a ser o tipo de pessoa que eu
era, mas me peguei me perguntando se acabaria sendo tão monge quanto meu pai. Sabendo que não
poderia me fazer mudar de idéia, Tony não se importou em esconder sua chateação no seu caminho
até a porta.
"Eu não te entendo às vezes."
Quando meu pai me pegou no aeroporto, ele não me reconheceu a princípio e quase pulou quando
dei umas palmadinhas no ombro dele. Ele parecia ser menor do que eu me lembrava. Ao invés de
me oferecer um abraço, apertou minha mão e me perguntou sobre o vôo, mas nenhum de nós sabia
o que dizer depois disso, então saímos do aeroporto. Era estranho e desorientador estar de volta em
casa, e eu me senti com os nervos à flor da pele, como da última vez que tinha tirado licença. No
estacionamento, enquanto eu jogava minha bagagem na mala, vi na traseira do Ford Escort ancião
dele um adesivo de pára-choque que dizia para as pessoas APOIAREM NOSSAS TROPAS. Eu não
estava certo do que aquilo significava para o meu pai, mas fiquei contente em ver.
Em casa, guardei minha bagagem no meu antigo quarto. Tudo estava onde eu me lembrava, os
troféus empoeirados na minha estante e uma garrafa vazia de Wild Turkey no fundo da minha
gaveta de roupas de baixo. A mesma coisa no resto da casa. O cobertor ainda cobria o sofá, a
geladeira verde parecia gritar que aquele não era o seu lugar, e a televisão pegava apenas quatro
canais embaçados. Meu pai cozinhou spaghetti; sexta era sempre spaghetti. No jantar, nós tentamos
conversar.
"É bom estar de volta," eu disse.
Seu sorriso foi breve. "Bom," ele respondeu.
Tomou um gole de leite. No jantar, nós sempre bebíamos leite. Ele se concentrou na sua refeição.
"Você se lembra do Tony?" Eu me aventurei. "Acho que eu o mencionei nas minhas cartas. De
qualquer forma, veja só-ele acha que está apaixonado. O nome dela é Sabine, e ela tem uma filha de
seis anos. O alertei de que essa pode não ser uma boa idéia, mas ele não me ouve."
Ele cuidadosamente salpicou queijo Parmesão na sua comida, se certificando de que todos os
lugares tivessem a quantidade perfeita. "Oh," ele disse. "Certo." Depois disso, eu comi e nenhum de
nós disse nada. Bebi leite. Comi mais um pouco. O relógio fez tique-taque na parede.
"Aposto que você está animado para se aposentar esse ano," sugeri. "Pense que você poderá
finalmente tirar umas férias, ver o mundo." Eu quase disse que ele poderia vir me visitar na
Alemanha, mas me segurei. Eu sabia que ele não iria e não queria colocá-lo contra a parede.
Enrrolamos nossos macarrões simultaneamente enquanto ele parecia ponderar o melhor jeito de
responder.
"Não sei," disse finalmente.
Desisti de tentar falar com ele, e a partir daí os únicos sons eram aqueles vindos dos nossos garfos
quando atingiam os pratos. Quando terminamos o jantar, tomamos nossos caminhos diferentes.
Exausto por causa do vôo, fui para a cama, acordando a cada hora como eu fazia quando estava na
base. Na hora que eu me levantei pela manhã, meu pai já tinha ido para o trabalho.


Comi e li o jornal, tentei falar com um amigo, sem sucesso, então peguei minha prancha de surfe na

garagem e fui à praia. As ondas não estavam ótimas, mas não importava. Eu não tinha estado numa
pracha havia três anos e estava meio enferrujado a princípio, mas até mesmo os menores dribles me
fizeram desejar que minha estação fosse perto do oceano. Era começo de junho de 2000, a
temperatura já estava quente e a água era refrescante. Do meu ponto de vantagem na minha
prancha, eu podia ver pais levando seus pertences a algumas das casas além das dunas. Como eu
mencionei, a praia de Wrightsville estava sempre lotada com famílias que alugavam por uma
semana ou mais, mas ocasionalmente estudantes universitários de Chapel Hill ou Raleigh faziam o
mesmo. Era o último grupo que me interessava, e eu notei um grupo de estudantes de biquínis
pegando seus lugares no deque de trás de uma das casas perto do píer. Fiquei as observando por um
momento, apreciando a vista, depois peguei outra onda e passei o resto da tarde perdido no meu
próprio mundinho.
Pensei em fazer uma visita ao Leroy's mas me dei conta de que nada nem ninguém tinha mudado
além de mim. Ao invés disso, peguei uma garrafa de cerveja da loja da esquina e fui sentar no píer
para aproveitar o pôr-do-sol. A maioria das pessoas pescando já tinham começado a ir embora e os
poucos que restavam estavam limpando sua captura e jogando os restos na água. Com o tempo, a
cor do oceano começou a mudar de cinza para laranja e depois amarelo. Nas barricadas além do píer
eu podia ver os pelicanos em cima de golfinhos enquanto esles surfavam pelas ondas. Eu sabia que
a tarde iria trazer a primeira noite de lua cheia-meu tempo no campo fez da realização quase
instintiva. Eu não estava pensando em muita coisa, só deixando minha mente vaguear. Acredite em
mim, conhecer uma garota era a última coisa que eu tinha em mente.
Foi quando eu a vi subindo o píer. Ou melhor, duas delas andando. Uma era alta e loira, a outra uma
morena atraente, as duas um pouco mais novas que eu. Estudantes universitárias, pareciam. As duas
vestiam shorts e blusas que deixavam os ombros à mostra, e a morena carregava uma daquelas
bolsas grandes de tricô que as pessoas às vezes trazem a praia quando planejam ficar por horas com
as crianças. Eu podia ouví-las conversando e rindo, soando despreocupadas e prontas para as férias,
quando elas se aproximaram.
"Hey," eu chamei quando elas estavam perto. Não muito suave, e eu não posso dizer que esperava
alguma coisa como resposta.
A loira provou que eu estava certo. Ela olhou pra minha prancha e pra garrafa de cerveja na minha
mão e me ignorou com um rolar de olhos. A morena, no entanto, me surpreendeu.
"Oi, estranho," ela respondeu com um sorriso. Ela gesticulou em direção a minha prancha. "Aposto
que as ondas foram ótimas hoje."
O comentário dela me pegou de baixa guarda, e eu ouvi uma bondade inesperada em suas palavras.
Ela e sua amiga continuaram descendo até o fim do píer, e eu me peguei a observando enquanto ela
se apoiava na grade. Eu debati se deveria ou não ir até ela e me apresentar, então decidi que não.
Elas não eram meu tipo, ou mais precisamente, eu não era o delas. Dei um longo gole na minha
cerveja, tentando ignorá-las.
Tentando como pudesse, no entanto, eu não conseguia impedir meu olhar de flutuar de volta para a
morena. Tentei não escutar o que as duas garotas falavam, mas a loira tinha uma daquelas vozes
impossíveis de ignorar.
Ela falava sem parar sobre algum cara chamado Brad e o quanto ela o amava, e como a fraternidade
dela era a melhor da UNC, e a festa que eles tiveram no fim do ano foi a melhor de todas, e que os
outros deveriam se juntar a eles no próximo ano, e que muitas das amigas dela estavam se


agarrando com o pior tipo de caras de fraternidade, e uma delas até ficou grávida, mas a culpa era

dela mesma visto que ela tinha sido alertada sobre o garoto. A morena não falava muito-eu não
sabia se ela estava entretida ou entediada com a conversa-mas de vez em quando, ela ria. De novo,
eu ouvi algo amigável e compreensivo na sua voz, alguma coisa semelhante a voltar pra casa, o que
eu admito, não fez nenhum sentido. Enquanto eu colocava de lado minha garrafa de cerveja, notei
que ela colocou a bolsa na grade.
Elas tinham ficado lá por dez minutos mais ou menos antes de dois caras começarem a subir o píer-
caras de fraternidade, eu adivinhei-vestindo blusas rosa e laranja da Lacoste sobre seus shorts da
Bermuda. Meu primeiro pensamento foi que um daqueles dois devia ser o Brad sobre o qual a loira
falava. Os dois carregavam cervejas e ficavam mais furtivos enquanto se aproximavam, como se
pretendessem dar um susto nas garotas. Era mais que provável que as duas garotas queriam eles ali,
e depois de um rápido susto, completo com um grito e alguns tapas amigáveis no braço, eles iriam
voltar juntos, rindo e fazendo gozações ou o que quer que seja que casais universitários façam.
Tudo devia ter acontecido desse jeito, porque os garotos fizeram exatamente o que eu pensei que
eles fariam. Assim que eles chegaram perto, pularam nas garotas com um grito; as duas guincharam
e fizeram o negócio das tapinhas amigáveis. Os garotos piaram e o camisa rosa derramou um pouco
da sua cerveja. Ele se apoiou na grade, perto da bolsa e cruzou as pernas, com seus braços atrás
dele.
"Ei, nós vamos começar a fogueira em alguns minutos," o camisa laranja disse, colocando seus
braços em volta da loira. Ele beijou o percoço dela. "Vocês duas estão prontas para voltar?"
"Pronta?" a loira perguntou, olhando para a amiga.
"Claro," a morena respondeu.
O camisa rosa se desencostou da grade, mas de algum modo sua mão deve ter batido na bolsa,

porque ela escorregou, então caiu por cima da borda. O plash oou como se um peixe tivesse
s s
pulado.
"O que foi isso?" ele perguntou, se virando.
"Minha bolsa!" a morena gritou. "Você derrubou."
"Desculpe," ele disse, não parecendo particularmente arrependido.
"Minha carteira estava lá!"
Ele franziu o cenho. "Eu pedi desculpas."
"Você tem que ir pegar antes que afunde!"
Os caras da fraternidade pareciam congelados, e eu sabia que nenhum dos dois tinha a intenção de
pular na água e pegar a bolsa. Pra começar, eles provavelmente nunca iriam achá-la, e depois teriam
que nadar até a areia, algo que não era recomendado se alguém tivesse bebido, o que eles
obviamente tiham feito. Eu acho que a morena também leu a expressão do camisa rosa, porque eu
vi ela colocando as duas mãos e um pé na grade. "Não seja boba. Já era," o camisa rosa declarou,
colocando a sua mão nas dela para pará-la. "É muito perigoso para pular. Dever ter tubarões lá
embaixo. É só uma carteira. Eu compro uma nova pra você."


"Eu preciso daquela carteira! Todo o meu dinheiro está lá!"


Não era da minha conta, eu sei. Mas tudo o que eu podia pensar enquanto me punha de pé e corria
para a beira do píer era, Ah, que se dane ....

DOIS
Eu acho que deveria explicar porque pulei em direção as ondas para recuperar a bolsa dela. Não foi
porque pensei que ela iria me ver como algum tipo de herói, ou porque queria impressioná-la, ou
nem mesmo porque eu me importava com quanto dinheiro ela iria perder. Teve a ver com a
sinceridade do sorriso dela e pela amabilidade da sua risada. Até mesmo quando eu estava me
atirando em direção a água, sabia o quão ridícula minha reação tinha sido, mas aí era muito tarde.
Eu mergulhei, nadei pra baixo e emergi. Quatro rostos olhavam pra mim da grade. O camisa rosa
estava definitivamente irritado.
"Onde está?" Eu gritei pra eles.
"Bem ali!" a morena gritou. "Acho que ainda consigo ver. Está descendo..."
Eu levei um minuto para localizá-la no crepúsculo que escurecia e o ritmo do oceano estava fazendo
o que podia para me jogar contra o píer. Nadei para o lado, então segurei a bolsa fora da água do
melhor jeito que pude, apesar do fato de que ela já estava ensopada. As ondas fizeram com que o
nado de volta a costa fosse menos difícil do que eu temia, e de vez em quando eu olhava pra cima e
via as quatro pessoas me seguindo.
Finalmente senti o raso e me arrastei pra fora das ondas. Sacudi a água do meu cabelo, comecei a
andar na areia e encontrei com eles no meio da praia. Estendi a bolsa.
"Aqui está."
"Obrigada," a morena disse, e quando os seus olhos encontraram os meus eu senti um click, como
uma chave virando em uma fechadura. Acredite em mim, não sou romântico, e enquanto ouvia tudo
sobre amor à primeira vista, nunca acreditei, e ainda não acredito. Mas mesmo assim, havia algo ali,
algo reconhecidamente real, e eu não consegui desviar o olhar.
De perto ela era mais linda do que eu tinha me dado conta, mas tinha menos a ver com o que ela
aparentava do que com o que ela era. Não era só o seu sorriso com uma brecha nos dentes da frente,
era o jeito casual com que ela mechia em uma mexa de cabelo, o modo fácil com que ela abraçava a
si mesma.
"Você não precisava ter feito isso," ela disse com alguma coisa maravilhada em sua voz. "Eu teria
pego."


"Eu sei." eu afirmei. "Eu te vi se preparando para pular."


Ela inclinou a cabeça. "Mas você sentiu uma necessidade incontrolável de ajudar uma dama em
perigo?"
"Algo assim."
Ela avaliou minha resposta por um momento, então voltou sua atenção para a bolsa. Começou a
remover itens-carteira, óculos de sol, viseira, protetor solar-e estendeu tudo para a loira antes de
espremer a bolsa.
"Suas fotos molharam," a loira disse, olhando a carteira.
A morena a ignorou, continuando a espremer de um lado e depois do outro. Quando ela finalmente
estava satisfeita, pegou de volta os objetos e encheu a bolsa novamente.
"Obrigada de novo," ela disse. Seu sotaque era diferente daquele do leste da Carolina do Norte,
mais nasalado, como se ela tivesse crescido nas montanhas ou perto de Boone, ou perto da fronteira
da Carolina do Sul a oeste.
"Não foi grande coisa," eu murmurei, mas não me mexi.
"Ei, talvez ele queira uma recompensa," camisa rosa falou, com a voz alta.
Ela olhou pra ele e depois pra mim. "Você quer uma recompensa?"
"Não." Balancei uma mão. "Fico feliz em ajudar."
"Eu sempre soube que o cavalheirismo não estava morto," ela proclamou. Tentei captar uma nota de
provocação, mas não ouvi nada no seu tom que indicasse que ela estava zombando de mim.
amisa laranja me olhou de cima a baixo, notando o meu rew-cut Você é da marinha?"
C c . "
perguntou. Ele apertou seus braços ao redor da loira de novo.
Balancei a cabeça. "Eu não sou um dos poucos ou o orgulho. Eu queria ser tudo que podia, então
me juntei ao exército."
A morena riu. Diferente do meu pai, ela tinha na verdade visto os comerciais.
"Meu nome é Savannah," disse. "Savannah Lynn Curtis. E estes são Brad, Randy e Susan." Ela
estendeu a mão.
"Sou John Tyree," eu disse, apertando a mão dela. Sua mão era quente, macia como veludo em
alguns lugares, mas calejada em outros. Imediatamente tive consciência de quanto tempo fazia que
eu tinha tocado uma mulher.
"Bem, eu sinto como se devesse fazer algo por você."
"Você não precisa fazer nada."
"Você já comeu?" ela perguntou, ignorando meu comentário. "Estamos nos preparando para um
churrasco, e tem muita comida. Gostaria de se juntar a nós?"
Os garotos trocaram olhares. Randy de camisa rosa parecia desapontado e eu admito que isso me
z sentir melhor. i, talvez ele queira uma recompensa.
fe E Que idiota.

"É, vamos," Brad finalmente apoiou, soando menos que animado. "Vai ser divertido. Nós alugamos
a casa perto do píer." Ele apontou para uma das casas na praia onde meia dúzia de pessoas
preguiçavam no deque.
Mesmo que eu não tivesse nenhum desejo de passar mais tempo com mais irmãos de fraternidade,
Savannah sorriu pra mim com tanta amabilidade que as palavras saíram antes que eu pudesse pará-
las.
"Parece legal. Deixa só eu pegar minha prancha lá no píer e logo estarei lá."


"Encontramos você lá," Randy falou. Deu um passo em direção a Savannah, mas ela o ignorou.


"Eu acompanho você," Savannah disse, se afastando do grupo, "É o mínimo que eu posso fazer."
Ela ajeitou a bolsa no ombro. "Vejo vocês daqui a pouco, ok?"
Começamos a andar em direção a duna, onde as escadas nos levariam ao píer. Seus amigos se
demoraram um pouco, mas quando ela chegou ao meu lado, eles se viraram lentamente e
começaram a andar pela praia. Do canto do olho, vi a loira virar a cabeça e nos olhar por entre os
braços de Brad. Randy também olhou, emburrado. Eu não estava certo que Savannah tinha notado
até nos andarmos alguns passos.
"Susan provavelmente pensa que eu sou louca por fazer isso," ela disse.
"Fazer o que?"
"Andar com você. Ela acha que Randy é perfeito pra mim, e vem tentando fazer com que a gente
fique junto desde que chegamos aqui essa tarde. Ele tem me seguido o dia todo."
Balancei a cabeça, sem saber como responder. À distância, a lua, cheia e brilhante, tinha começado
sua subida vagarosa do mar, e eu vi Savannah olhando pra ela. Quando as ondas arrebentavam e
transbordavam, brilhavam prateadas, como se tivessem sido pegas pelo flash de uma câmera.
Chegamos ao píer. A grade estava cheia de areia e sal e a madeira estava danificada pela maresia e
começava a se despedaçar. Os degraus rangiram enquanto subíamos.
"Onde é a sua estação?" ela perguntou.
"Na Alemanha. Estou em casa de licença por algumas semanas para visitar meu pai. E você é das
montanhas, eu presumo?"
Ela me olhou surpresa. "Lenoir." Ela me analizou. "Deixa eu adivinhar, meu sotaque, certo? Você
acha que eu falo como se fosse do interior, não é?"
"De jeito nenhum."
"Bem, eu sou. Do interior, quero dizer. Cresci numa fazenda e tudo. E sim, eu sei que tenho um
sotaque, mas me disseram que algumas pessoas acham charmoso."
"Randy parecia achar que sim."
Saiu antes que eu pudesse me segurar. No estranho silêncio, ela passou uma mão sobre os cabelos.
"Randy parece ser um jovem legal," ela comentou depois de um tempo, "mas eu não conheço ele
tão bem. Não conheço realmente a maioria das pessoas da casa, tirando Tim e Susan." Ela espantou
um mosquito. "Você vai encontrar o Tim mais tarde. Ele é um cara ótimo. Você vai gostar dele.
Todo mundo gosta."
"E você realmente está aqui de férias por uma semana?"
"Um mês, na verdade-mas não, não são realmente férias. Nós somos voluntários. Você ouviu falar
do Habitat para a Humanidade, certo? Nós estamos aqui para ajudar a construir algumas casas.
Minha família está envolviada nisso há anos."


Por cima de seus ombros a casa parecia se tornar viva no escuro. Mais pessoas tinham se

materializado, o volume da música tinha aumentado, e de vez em quando eu podia ouvir uma
risada. Brad, Susan e Randy já estavam rodeados por um grupo de jovens bebendo cerveja e
parecendo querer mais diversão e a chance de se agarrar com alguém do sexo oposto do que fazer
uma boa ação. Ela deve ter notado a minha expressão e seguido o meu olhar.
"Nós só começamos segunda. Eles vão logo descobrir que não se trata só de diversão e jogos."
"Eu não disse nada..."
"Não precisou. Mas você está certo. Pra maioria deles é a primeira vez que trabalham com a
Habitat, e só estão fazendo pra que tenham alguma coisa diferente para colocar no seu currículo
quando se formarem. Não têm idéia de quanto trabalho está envolvido. Mas, no fim, o que importa
é que as casas sejam construídas, e elas serão. Elas sempre são."
"Você já fez isso antes?"
"Todos os verões desde que eu fiz dezesseis anos. Costumava fazer com a nossa igreja, mas quando
fui para Chapel Hill, começamos um grupo lá. Bem, na verdade, o Tim começou. Ele também é de
Lenoir. Acabou de se formar e vai começar o mestrado esse outono. Conheço ele desde sempre. Ao
invés de passar o verão trabalhando em empregos estranhos em casa ou fazendo estágios, achamos
que porderíamos oferecer aos estudandtes uma chance de fazer a diferença. Todo mundo racha o
dinheiro da casa e paga as próprias despesas pelo mês, e não cobramos nada pelo trabalho que
fazemos nas casas. Era por isso que era tão importante eu pegar minha bolsa de volta. Não poderia
comer durante todo o mês."
"Tenho certeza que eles não deixariam você morrer de fome."
"Eu sei, mas não seria justo. Eles já estão fazendo algo que vale a pena, e isso é mais que o
bastante."
Eu podia sentir meu pés escorregando na areia.
"Por que Wilmington?" Eu perguntei. "Quero dizer, por que vir aqui construir casas ao invés de
algum lugar como Lenoir ou Raleigh?"
"Por causa da praia. Você sabe como as pessoas são. É muito difícil conseguir que elas cedam seu
tempo por um mês, mas é mais fácil se for em um lugar como este. E quanto mais pessoas você
tiver, mais você pode fazer. Trinta pessoas se inscreveram esse ano."
Eu assenti, consciente de quão perto um do outro nós caminhávamos. "E você também de formou?"
"Não, vou fazer o último ano. E vou me especializar em educação especial, se essa era a sua
próxima pergunta."
"Era."
"Eu previ. Quando se está na univesidade, é isso que todo mundo te pergunta."
"Todo mundo me pergunta se eu gosto de estar no exército."
"Você gosta?"
"Não sei."
Ela riu, e o som foi tão musical que eu sabia que queria ouví-lo novamente.
Alcançamos o fim do píer e eu peguei minha prancha. Joguei a garrafa vazia de cerveja na lixeira,
ouvindo-a se chocar com o fundo. As estrelas vinham à tona acima das nossas cabeças, e as luzes
das casas alinhadas ao longo das dunas me lembraram luminosas abóboras de Halloween.
"Você se importa se eu perguntar o que te levou a se juntar ao exército? Levando em conta que você


não sabe se gosta, quero dizer."


Me levou um segundo pra descobrir como responder àquilo, e eu mudei a prancha de surf pra o
outro braço. "Acho que o mais seguro é dizer que, naquele tempo, eu precisei entrar."
Ela esperou eu falar mais, mas quando eu não falei, simplesmente assentiu.
"Aposto que você está contente de estar de volta em casa por um tempo," ela disse.
"Sem dúvida."
"Aposto que seu pai está contente também, não é?"
"Acho que sim."
"Ele está. Tenho certeza de que tem muito orgulho de você."
"Espero que sim."
"Você fala como se não tivesse certeza."
"Você teria que encontrar meu pai para entender. Ele não é muito falante."
Eu podia ver a luz da lua refletida em seus olhos escuros, e sua voz era macia quando ela falou. "Ele
não precisa falar para ter orgulho de você. Ele deve ser o tipo de pai que demonstra isso de outras
maneiras."
Pensei sobre isso, esperando que fosse verdade. Enquanto considerava, ouvimos um grito alto vindo
da casa e eu avistei algumas garotas perto do fogo. Um dos caras tinha os braços ao redor de uma
garota e a empurrava pra frente; ela ria e lutava contra ele. Brad e Susan estavam agarrados ali
perto, mas Randy tinha sumido.
"Você disse que não conhece a maioria das pessoas com as quais vai morar?"
Ela balançou a cabeça, seus cabelos varrendo seus ombros. Ajeitou outra mecha. "Não tão bem. Nós
encontramos a maioria deles pela primeira vez na inscrição, e depois hoje quando chegamos aqui.
Quero dizer, podemos ter nos visto pelo campus uma vez ou outra e eu acho que muitos deles já se
conehcem, mas eu não. A maioria está em fraternidades. Eu ainda vivo em um dormitório. Mas eles
são um bom grupo."
Enquanto ela respondia, tive a sensação de que era o tipo de pessoa que nunca diria uma coisa ruim
sobre ninguém. Sua consideração com os outros me ocorreu como refrescante e madura, e ainda,
estranhamente, eu não estava surpreso. Era parte daquela qualidade indefinida que eu tinha sentido
nela desde o começo, um comportamento que a diferenciava.
"Quantos anos você tem?" eu perguntei enquanto nos aproximávamos da casa.
"Vinte e um. Fiz aniversário no mês passado. E você?"
"Vinte e três. Você tem irmãos ou irmãs?"
"Não. Sou filha única. Só eu e meus pais. Eles ainda vivem em Lenoir, e ainda estão felizes depois


de vinte e cinco anos. Sua vez."


"O mesmo. A não ser por mim, sempre fomos só eu e meu pai." Eu sabia que minha resposta levaria
a uma pergunta seguinte sobre o status da minha mãe, mas para a minha surpresa, ela não veio. Em
vez disso, ela perguntou, "Foi ele que lhe ensinou a surfar?"
"Não, isso eu aprendi sozinho quando era criança."
"Você é bom. Estava te observando mais cedo. Faz parecer tão fácil. Me faz querer saber como
surfar."
"Ficaria feliz em te ensinar se você quiser aprender," me ofereci. "Não é tão difícil. Vou estar aqui
amanhã."
Ela parou e fixou seu olhar em mim. "Agora, não faça ofertas que você não está certo se pretende
manter." Ela estendeu a mão para o meu braço, me deixando sem fala, então indicou a fogueira.
"Está pronto para conhecer algumas pessoas?"
Eu engoli, sentindo um secura repentina na minha garganta, o que foi siplesmente a coisa mais
estranha que já aconteceu comigo.
A casa era um daqueles monstros de três andares com uma garagem no térreo e provavelmente seis
ou sete quartos. Um deque imenso circulava o andar principal; toalhas estavam estendidas nas
grades, e eu podia ouvir o som de múltiplas conversas vindo de todas as direções. Havia uma
churrasqueira no deque eu eu podia sentir o cheiro de cachorro-quente e frango cozinhando; o cara
que estava debruçado em cima da churrasqueira estava sem camisa e vestia uma touca, tentando
parecer um urbano legal. Não estava funcionando, mas isso me fez rir.
Na areia em frente, a fogueira estava em um fosso, com várias garotas vestindo blusões de moletom
maiores que elas sentadas ao redor, todas fingindo não estarem conscientes dos garotos ao redor
delas. Enquanto isso, os garotos estavam em pé além delas, parecendo estar tentando posar de um
modo que acentuasse o tamanho de seus braços ou esculpisse seus abdômens e agindo como se não
notassem as garotas nem um pouco. Eu já tinha visto isso no Leroy's; cultas ou não, crianças ainda
eram crianças. Eles estavam no começo dos vinte, e a luxúria estava no ar. Jogados na praia e na
cerveja, e eu podia adivinhar o que aconteceria depois; mas eu já teria ido embora há muito tempo
até lá.
Quando Savannah e eu chegamos mais perto, ela diminuiu o passo antes de apontar. "Que tal ali, ao
lado da duna?" ela sugeriu.
"Claro."
Pegamos um lugar de frente para o fogo. Algumas outras garotas olharam, checando o cara novo,
antes de se recolherem em suas conversas. Randy finalmente andou em direção ao fogo com uma
cerveja, viu SAvannah e eu e rapidamente nos deu as costas, seguindo o exemplo das garotas.
"Frango ou cachorro-quente?" ela perguntou, parecendo indiferente a tudo isso.
"Frango."
"O que você quer beber?"
A luz do fogo fez do seu olhar quase misterioso. "Qualquer coisa que você for beber está bom.
Obrigado."
"Volto logo."
Ela foi em direção aos degraus, e eu me forcei a não seguí-la. Ao invés disso, caminhei em direção
ao fogo, tirei minha camisa e a coloquei em uma cadeira vazia, depois voltei para o meu lugar.


Olhando pra cima, eu vi o touca paquerando Savannah, senti uma onda de tensão, então me virei

para ter um controle melhor das coisas. Eu sabia pouco sobre ela e sabia menos ainda dobre o que
ela pensou de mim. Além disso, eu não tinha nenhum desejo de começar alguma coisa que não
poderia terminar. Iria embora em algumas semanas e nada disso ia chegar a alguma coisa; falei tudo
isso pra mim mesmo, e acho que parcialmente me convenci de que iria pra casa assim que
terminasse de comer, quando meus pensamentos foram interrompidos pelo som de alguém se
aproximando. Alto e magro, com cabelo escuro que já estava habilmente partido para o lado, ele me
lembrou daqueles caras que você conhece de tempos em tempos que parecem estar na meia-idade
desde que nasceram.
"Você deve ser o John," ele disse com um sorriso, agachando na minha frente. "Meu nome é Tim
Wheddon." Ele estendeu a mão. "Ouvi falar do que você fez por Savannah-sei que ela estava grata
por você estar lá."
Apertei sua mão. "Prazer em conhecê-lo."
Apesar da minha cautela inicial, seu sorriso foi mais veradeiro do que os de Brad e Randy tinham
sido. Ele nem mencionou minhas tatuagens, o que é incomum. Acho que devo mencionar que elas
não eram exatamente pequenas e cobriam a maior parte dos meus braços. As pessoas já me
disseram que vou me arrepender quando for mais velho, mas quando as fiz, eu realmente não me
importava. E ainda não me importo.
"Se importa se eu sentar aqui?" ele perguntou.
"À vontade."
Ele se sentou confortavelmente, nem em cima de mim nem muito longe. "Fico feliz que você possa
ter vindo. Quero dizer, não é muito, mas a comida é boa. Está com fome?"
"Na verdade, estou faminto."
"O surf faz isso com você."
"Você surfa?"
"Não, mas passar algum tempo no mar sempre me dá fome. Lembro disso das minhas férias quando
criança. Nós costumávamos ir a Pine Knoll Shores todo verão. Você já esteve lá?"
"Só uma vez. Tenho tudo de que preciso aqui."
"É, acho que você tem." Ele acenou para a minha prancha. "Você gosta das pranchas longas, né?"
"Gosto das duas, mas as ondas daqui são melhores com as longas. Você precisa surfar no Pacífico
para realmente aproveitar uma prancha pequena."
"Você já esteve lá? Havaí, Bali, Nova Zelândia, lugares assim? Eu li que eles são o ultimato."
"Ainda não," eu disse, surpreso que ele sabia sobre eles. "Uma dia, talvez."
Um pedaço de lenha estalou, mandando pequenas faíscas para o céu. Juntei minhas mãos, sabendo
que era a minha vez. "Ouvi dizer que você está aqui para construir algumas casas para os pobres."


"Foi Savannah que lhe disse? É, esse é o plano, de qualquer forma. Elas são para algumas famílias

realmente merecedoras, e com sorte, elas estarão em suas próprias casas no fim de julho."

"É uma boa coisa o que você está fazendo."
"Não sou só eu. Mas eu queria te perguntar uma coisa."
"Deixe-me adivinhar, você quer que eu seja voluntário?"
Ele riu. "Não, nada disso. Embora seja engraçado-eu já ouvi isso antes. As pessoas me vêem vindo e
geralmente elas correm pro outro lado. Acho que sou muito fácil de entender. De qualquer forma,
sei que é um chute de muito longe, mas eu estava me perguntando se você conhece meu primo. A
estação dele é em Fort Bragg."
"Sinto muito," eu disse. "Meu posto é na Alemanha."
"No Ramstein?"
"Não. Essa é a base da força aérea. Mas eu estou relativamente perto. Por que?"
"Eu estava em Frankfurt dezembro passado. Passei o natal lá com a minha família. É de onde nós
somos originalmente, e meus avós ainda vivem lá."
"Mundo pequeno."
"Você aprendeu alguma coisa em alemão?"
"Nada."
"Nem eu. A pior parte é que meus pais são fluentes e eu tenho ouvido alemão em casa por anos, e
até tive aulas antes de ir. Mas não entendia, sabe? Acho que fui sortudo de passar nas aulas, e tudo o
que eu podia fazer era balançar a cabeça na mesa do jantar e fingir que entendia o que todo mundo
dizia. A única coisa boa era que meu irmão estava no mesmo barco, então podíamos nos sentir
como idiotas juntos."
Eu ri. Ele tinha um rosto aberto, honesto e sem querer, eu gostei dele.
"Ei, posso pegar alguma coisa pra você?" ele perguntou.
"Savannah está tomando conta disso."
"Eu devia ter adivinhado. Anfitriã perfeita e tudo isso. Sempre foi."
"Ela disse que vocês dois cresceram juntos."
Ele assentiu. "A fazenda da família dela é logo ao lado da minha. Nós fomos as mesmas escolas e
frequentamos a mesma igreja por anos, e depois nós estávamos na mesma universidade. Ela é tipo
minha irmã caçula. Ela é especial."
Apesar do comentário sobre a 'irmã', eu tive a impressão pelo modo como ele falou "especial" que
seus sentimentos eram um pouco mais profundos do que ele deixava transparecer. Mas diferente de
Randy, ele não pareceu com ciúmes sobre o fato de que ela tinha me convidado pra vir aqui. Antes


que eu pudesse deixar minha imaginação vagar sobre isso, Savannah apareceu nas escadas e desceu

para a areia.

"Vejo que você conheceu o Tim," ela disse. Em uma mão estavam dois pratos com frango, salada de
batata e batatas fritas; na outra, duas latas de Pepsi Diet.
"É, eu só quis aparecer e agradecer pelo que ele fez," Tim explicou, "então decidi entediá-lo com
estórias de família."
"Bom. Eu estava esperando que vocês dois tivessem uma chance de se encontrar."
Ela ergueu suas mãos; como Tim, ela ignorou o fato de que eu estava sem camisa. "A comida está
pronta. Você quer meu prato, Tim? Eu posso ir lá e pegar outro."
"Não, eu vou pegar," Tim disse, se levantando. "Mas obrigado. Vou deixar vocês dois atacarem."
Ele sacudiu a areia dos shorts. "Ei, foi bom te conhecer, John. Se estiver na área amanhã, ou outro
dia, você é sempre bem-vindo."
"Obrigado. Foi bom te conhecer também."
Um tempo depois, Tim estava subindo as escadas. Ele não olhou pra trás, apenas soltou um
amigável olá para alguém vindo na direção oposta, depois seguiu o resto do caminho. Savannah me
estendeu o prato e alguns utensílios plásticos, trocou de mãos e me ofereceu um refrigerante, então
sentou ao meu lado. Perto, eu notei, mas não tão perto para tocar. Ela apoiou o prato no colo,
estendeu a mão para a lata antes de hesitar. Ela segurou a lata.
"Você estava bebendo cerveja mais cedo, mas disse pra pegar o que eu fosse pegar pra mim
também, então eu te trouxe um desses. Eu não estava certa do que você queria."
"O refrigerante tá bom."
"Tem certeza? Tem muita cerveja nos freezers e eu já ouvi falar de vocês, caras do exército."
Eu bufei. "Tenho certeza," disse, abrindo minha lata. "Presumo que você não beba."
"Não," ela disse. Nada de defensivo ou presunçoso em seu tom, eu notei, só a verdade. Gostei disso.
Ela mordeu um pedaço do frango. Eu fiz o mesmo, e no silêncio me perguntei sobre ela e Tim e se
ela sabia de como ele realmente se sentia em relação a ela. E me perguntei como ela se sentia em
relação a ele. Havia algo ali, mas eu não conseguia descobrir o quê, a menos que Tim estivesse
certo e fosse um negócio do tipo irmão. Eu de alguma forma duvidava que esse fosse o caso.
"O que você faz no exército?" ela perguntou, finalmente pousando o garfo.
"Sou sargento na infantaria. Esquadrão de armas."
"Como é? QUero dizer, o que você faz todo dia? Você atira, explode coisas ou o que?"
"Às vezes. Mas, na verdade, é bem entediante na maioria do tempo, pelo menos quando estamos na
base. Nos reunimos de manhã, geralmente por volta das seis, nos certificamos que todos estão lá,
então nos dividimos em batalhões para nos exercitarmos. Basquete, corrida, levantamento de peso,
o que for. Às vezes tem aula naquele dia, qualquer coisa sobre montar e montar de novo nossas


armas, ou uma aula de terreno noturno, ou nós vamos treinar tiros com fuzis, ou qualquer coisa. Se

nada estiver planejado nós só voltamos pro quartel e jogamos videogames, lemos, malhamos de
novo ou qualquer coisa pelo resto do dia. Depois nos reunimos de novo às quatro horas e
resolvemos o que faremos no outro dia. Então acabamos."
"Videogames?"
"Eu malho e leio. Mas meus colegas são especialistas nos jogos. E quanto mais violento o jogo for,
mais eles gostam."
"O que você lê?"
Eu disse a ela, e ela levou em consideração. "E o que acontece quando você é mandado a uma zona
de guerra?"
"Então," eu disse, acabando meu frango, "é diferente. Há dever de guarda, e as coisas estão sempre
quebrando e precisam ser consertadas, então você fica ocupado, mesmo que não esteja fora em
patrulha. Mas a infataria são as forças que ficam no chão, então nós passamos uma grande parte do
nosso tempo longe do campo."
"Você nunca fica com medo?"
Procurei pela resposta certa. "Sim. Às vezes. Não é como se você andasse por aí aterrorizado o
tempo todo, mesmo quando as coisas estão um inferno ao seu redor. É só que você está... reagindo,
tentando ficar vivo. As coisas acontecem tão rápido que você não tem tempo para pensar em muito
coisa a não ser fazer o seu trabalho e tentar não morrer. Geralmente te afeta mais tarde, quando você
está mais tranquilo. É aí que você se dá conta o quão perto esteve, e às vezes você tem tremedeiras e
vomita ou qualquer coisa."
"Não tenho certeza se conseguiria fazer o que você faz."
Não tenho certeza se ela esperava uma resposta pra isso, então eu mudei de assunto. "Por que
educação especial?" perguntei.
"É uma longa estória. Tem certeza de que quer escutar?" Quando eu assenti, ela deu um longo
suspiro.
"Tem esse garoto em Lenoir chamado Alan, e eu conheço ele por toda a minha vida. Ele é autista e
por um bom tempo ninguém sabia o que fazer com ele ou como chegar a ele. Isso me pegou, sabe?
Eu me sentia tão mal por ele, até mesmo quando era pequena. Quando perguntei aos meus pais
sobre ele, eles disseram que talvez o Senhor tinha planos especiais pra ele. Não fez nenhum sentido
no começo, mas Alan tinha um irmão mais velho que era tão paciente com ele o tempo inteiro.
Quero dizer, sempre. Ele nunca se frustrou com ele, e pouco a pouco, ele ajudou Alan. Alan não é
perfeito de maneira alguma-ele ainda vive com os pais, e nunca vai poder ficar sozinho-mas ele não
é tão perdido como era quando novo, e eu decidi que quero ser capaz de ajudar crianças como
Alan."
"Quantos anos você tinha quando decidiu isso?"
"Doze."
"E você quer trabalhar com eles em uma escola?"


"Não," ela disse. "Eu quero fazer o que o irmão do Alan fez. Ele usou cavalos." Ela pausou,

juntando os pensamentos. "Com crianças autistas... é como se elas estivessem trancadas no seu
próprio mundinho, então geralmente a escola e a terapia são baseadas na rotina. Mas eu quero
mostrá-los esperiências que podem abrir novas portas a eles. Eu já vi acontecer. Quero dizer, Alan
estava aterrorizado com os cavalos de início, mas seu irmão continuou tentando, e depois de um
tempo, Alan chegou ao ponto em que podia dar tapinhas neles, afagar seus fucinhos, e mais tarde
alimentá-los. Depois disso ele começou a montar, e eu lembro de olhar para seu rosto a primeira vez
que ele subiu... foi tão incrível, sabe? Quero dizer, ele estava sorrindo, tão feliz como uma criança
pode ser. E é isso que eu quero que essas crianças experienciem. Simplesmente... felicidade, mesmo
que seja por um pequeno tempo. Foi aí que eu soube exatamente o que queria fazer com a minha
vida. Talvez abrir um campo de montaria para crianças autistas, onde nós podemos realmente
trabalhar com elas. Então talvez elas possam sentir a mesma felicidade que o Alan sentiu."
Ela pousou seu garfo como se estivesse envergonhada, então deixou o prato ao seu lado.
"Isso parece maravilhoso."
"Vamos ver se acontece," ela disse, sentando de novo. "É só um sonho por enquanto."
"Presumo que você goste de cavalos também?"
"Toda garota gosta de cavalos. Você não sabia disso? Mas sim, eu gosto. Tenho um Arabian
chamado Midas, e às vezes me mata que eu esteja aqui quando eu poderia estar montando ele."
"A verdade vem à tona."
"Como deveria. Mas ainda planejo ficar aqui. Vou montar o dia todo, todos os dias quando voltar.
Você monta?"
"Montei uma vez."
"Você gostou?"
"Estava dolorido no dia seguinte. Andar doía."
Ela gargalhou e eu me dei conta que gostava de conversar com ela. Era fácil e natural, diferente de
tantas pessoas. Acima de mim, eu podia ver o cinturão de Órion; logo além do horizonte na água,
Vênus tinha aparecido e brilhava em um branco pesado. Garotos e garotas continuavam a correr
escada acima e abaixo, paquerando com a coragem proporcionada pela bebida. Eu suspirei.
"Eu acho devo ir andando pra ficar com meu pai um pouco. Ele provavelmente está se perguntando
onde eu estou. Isso se ele ainda estiver acordado."
"Você quer ligar pra ele? Pode usar o telefone."
"Não, acho que vou indo. É uma longa caminhada."
"Você não tem carro?"
"Não. Peguei uma carona de manhã."


"Quer que Tim te leve em casa? Tenho certeza que ele não se importaria."


"Não, tudo bem."

"Não seja ridículo. Você disse que era uma longa caminhada, certo? Vou pedir ao Tim para te levar.
Vou chamá-lo."
Ela correu antes que eu pudesse impedí-la, e um minuto depois Tim a seguia para fora da casa.
"Tim fica feliz em te levar," ela disse, parecendo muito contente consigo mesma.
Eu me virei para Tim. "Tem certeza?"
"Nenhuma problema," ele me assegurou. "Minha caminhonete está lá na frente. Você pode colocar
sua prancha atrás." Ele indicou a prancha com a mão. "Precisa de ajuda?"
"Não," eu disse, me levantando, "pode deixar." Eu fui até a cadeira e vesti a camisa, depois peguei a
prancha. "Obrigada, a propósito."
"O prazer é meu," ele disse. Bateu nos bolsos. "Volto em um segundo com as chaves. É a
caminhonete verde estacionada na grama. Te encontro lá na frente."
Quando ele se foi, eu me virei para Savannah. "Foi bom te conhecer."
Ela sustentou meu olhar. "Você também. Nunca tinha conversado com um soldado antes. Me senti
meio que... protegida. Não acho que Randy me dará nenhum problema esta noite. Suas tatuagens
provavelmente assustaram ele."
Achei que ela tinha notado. "Talvez te veja por aí."
"Você sabe onde eu estarei."
Eu não tinha certeza se isso significava que ela queria que eu viesse visitá-la de novo ou não. De
muitas formas, ela permanecia um completo mistério para mim. Então novamente, eu mal a
conhecia.
"Mas estou um pouco desapontada que você esqueceu," ela adicionou, quase como um segundo
pensamento.
"Esqueci o que?"
"Você não disse que ia me ensinar a surfar?"
Se Tim teve alguma suspeita do efeito que Savannah tinha em mim ou que eu estaria visitando de
novo no dia seguinte, ele não deu nenhuma indicação. Em vez disso se concentrou em dirigir, se
certificando de que estava indo na direção certa. Ela era o tipo de motorista que parava o carro
mesmo que a luz estivesse amarela e ele pudesse ter passado.
"Espero que você tenha se divertido," ele disse. "Eu sei que é sempre estranho quando você não
conhece ninguém."
"Eu me diverti."
"Você e Savannah realmente se deram bem. Ela é uma coisa, não é? Acho que gostou de você."
"Tivemos uma boa conversa," eu disse.
"Fico feliz. Estava um pouco preocupado sobre ela vir aqui. Ano passado os pais dela estavam


conosco, então essa é a primeira vez que ela está por conta própria assim. Sei que é uma grande

garota, mas esse não é o tipo de pessoa que ela geralmente convive, e a última coisa que eu queria
era que ela ficasse se defendendo de garotos a noite toda."

"Tenho certeza que ela aguentaria."
"Você provavelmente está certo. Mas eu tenho a sensação que alguns desses garotos são muito
persistentes."
"É claro que eles são. Eles são garotos."
Ele riu. "Acho que você está certo." Ele indicou a janela. "Pra onde agora?"
O direcionei através de uma série de viradas, então finalmente disse para diminuir a velocidade do
carro. Ele parou em frente a casa, onde eu podia ver a luz da toca do meu pai, brilhando amarela.
"Obrigada pela carona," eu disse, abrindo a porta.
"Sem problemas." Ele se debruçou sobre o assento. "E escute, como eu disse, sinta-se livre para
aparecer na casa a qualquer hora. Nós trabalhamos durante a semana, mas finais de semana e noites
geralmente são folgas."
"Vou manter isso em mente," eu prometi.
Uma vez dentro de casa, fui à toca do meu pai e abri a porta. Ele estava fitando o Greysheet e deu
um pulo. Me dei conta de que ele não tinha me ouvido entrar.
"Desculpe," eu disse, me sentando no único degrau que separava a toca do resto da casa. "Não quis
assustá-lo."
"Tudo bem," foi tudo o que ele disse. Debateu se colocaria o Greysheet de lado, então colocou.
"As ondas estavam ótimas hoje," eu comentei. "Tinha quase esquecido o quanto a água é
fantástica."
Ele sorriu mas não disse nada. Mudei ligeiramente de posição no degrau. "Como foi o trabalho?"
perguntei.
"O mesmo," ele disse.
Mergulhou novamente em seus próprios pensamentos e tudo em que eu podia pensar era que a
mesma coisa poderia ser dita de nossas conversas.


Três


Surf é um esporte solitário, no qual longos períodos de tédio são alternados com atividades
frenéticas, e lhe ensina a seguir a natureza em vez de lutar com ela... é sobre entrar na área. Isto é o
que as revistas dizem, de qualquer modo, e eu concordo em grande parte. Não há nada tão excitante
quanto pegar uma onda e ficar entre uma parede de água enquanto ela se enrola em direção a costa.
Mas eu não sou como muitos desses caras bronzeados e com dreads no cabelo que surfam o dia
todo, todos os dias, porque eles acham que é a coisa mais importante da sua existência. E não é. Pra
mim, é mais pelo fato de que o mundo é loucamente barulhento quase todo o tempo e quando você
está surfando, não é. Você é capaz de ouvir a si mesmo pensar.
Era isso que eu estava dizendo a Savannah, de qualquer forma, quando estávamos indo em direção
ao oceano no domingo de manhã. Pelo menos, era o que eu pensei que estava dizendo. Na maior
parte, eu estava meio que só falando coisas desconexas, tentando não parecer tão óbvio sobre o fato
de que eu realmente gostei de como ela ficava de biquíni.
"Como andar a cavalo," ela disse.
"Hã?"
"Se ouvir pensando. É por isso que eu gosto de montar também."
Eu tinha chegado lá alguns minutos antes. As melhores ondas eram geralmente de manhã cedo, e
era um daqueles dias claros e com céu azul, um presságio de calor, o que significava que a praia
ficaria lotada novamente. Savannah estava sentada nos degraus da varanda, enrolada em uma
toalha, com os restos da fogueira diante dela. Apesar de que não havia dúvidas de que a festa tinha
durado horas depois da minha partida, não havia uma única lata vazia ou lixo em lugar nenhum.
Minha impressão do grupo se elevou um pouco.
Apesar da hora, o ar já estava quente. Nós passamos alguns minutos na areia perto da beira da água
repassando o básico do surf, e explicando como subir na prancha. Quando Savannah achou que
estava pronta, eu entrei na água carregando a prancha, andando ao lado dela.
Havia apenas alguns surfistas lá, os mesmos que eu tinha visto no dia anterior. Estava tentando
descobrir o melhor lugar pra levar Savannah pra que ela tivesse espaço suficiente quando me dei
conta de que não podia mais vê-la.
"Espera, espera!" ela gritou atrás de mim. "Para, para..." Eu me virei. Savannah esta na ponta dos
pés enquanto os primeiros respingos de água atingiam sua barriga, e a parte superior de seu corpo
rapidamente se encheu de gooseflesh*. Ela parecia estar tentando se elevar da água.
*Não achei uma equivalente no português, mas são pequenas áreas um pouco inchadas que
aparecem na pele por causa do frio, do medo, ou da excitação.
"Deixa eu me acostumar com isso..." Deu alguns gritos rápidos e audíveis e cruzou os braços.
"Wow. Isso é muito frio. Santa mãe!" Santa mãe? Não era extamente algo que meus amigos diriam.
"Você se acostuma," eu disse, sorrindo com afetação.
"Eu não gosto de sentir frio. Eu odeio sentir frio."
"Você vive nas montanhas, onde neva."


"É, mas nós temos essas coisas chamadas jaquetas, luvas e toucas que vestimos pra ficarmos

aquecidos. E a primeira coisa que fazemos pela manhã não é nos jogarmos em águas polares."

"Engraçado," eu disse.
Ela continuou a pular. "É, muito engraçado. Quero dizer, Jesus!"
Jesus? Eu sorri. Sua respiração começou a se nivelar gradualmente, mas os gooseflesh ainda
estavam lá. Ela deu outro pequeno passo pra frente. "Dá mais certo se você simplesmente pular e
mergulhar em vez de ficar se torturando em estágios," eu sugeri.
"É, mas nós temos essas coisas chamadas jaquetas, luvas e toucas que vestimos pra ficarmos
aquecidos. E a primeira coisa que fazemos pela manhã não é nos jogarmos em águas polares."
"Engraçado," eu disse.
Ela continuou a pular. "É, muito engraçado. Quero dizer, Jesus!"
Jesus? Eu sorri. Sua respiração começou a se nivelar gradualmente, mas os gooseflesh ainda
estavam lá. Ela deu outro pequeno passo pra frente. "Dá mais certo se você simplesmente pular e
mergulhar em vez de ficar se torturando em estágios," eu sugeri.
"Você faz do seu jeito, eu faço do meu," ela disse, sem se impressionar com a minha sabedoria.
"Não acredito que você quis vir agora. Eu tava pensando alguma hora à tarde, quando a temperatura
estivesse acima de congelante."
"Está fazendo quase 26 graus."
"Tá, tá," ela disse, finalmente se aclimatando. Descruzando os braços, ela deu outra série de
inspirações, então mergulhou talvez uma polegada. Tomando coragem, ela jogou um pouco de água
nos braços. "Certo, acho que tô chegando lá."
"Não se apresse por minha causa. Sério. Leve o tempo que precisar."
"Eu vou, obrigada," ela disse, ignorando o tom provocador. "Certo," disse novamente, mais pra si
mesma que pra mim. Deu um pequeno passo pra frente, depois outro. Enquanto se movia, seu rosto
era uma máscara de concentração, e eu gostei do jeito que ele ficava. Tão sério, tão intenso. Tão
ridículo.
"Pare de rir de mim," ela disse, notando minha expressão.
"Eu não estou rindo."
"Eu posso ver no seu rosto. Você está rindo por dentro."
"Tá certo, eu vou parar."
Eventualmente ela caminhou para se juntar a mim, e quando a água estava nos meus ombros ela
subiu na prancha. Segurei a prancha no lugar, tentando novamente não ficar olhando pro corpo dela,
o que não era fácil, considerando que ela estava bem na minha frente. Me forcei a monitorar as
ondas atrás de nós.


"E agora?"


"Você lembra o que fazer? Remar com força, agarrar a prancha dos dois lados perto da frente e
depois ficar em pé em cima dela?"
"Entendi."
"É meio difícil no começo. Não fique surpresa se você cair, mas se acontecer, só siga a onda.
Normalmente você só aprende depois de algumas tentativas."
"Certo," ela disse, e eu vi uma pequena onda se aproximando.
"Prepare-se...," eu disse, contando o tempo da onda. "Certo, comece a remar..."
Quando a onda nos atingiu, eu empurrei a prancha, nos dando algum impulso e Savannah pegou a
onda. Eu não sei o que estava esperando, só que não era ver ela subir na prancha direto, manter o
equilíbrio e pegar a onda todo o caminho de volta a costa, onde ela finalmente se extinguiu. Na água
rasa, ela pulou da prancha enquanto diminuía a velocidade, e se virou num estilo dramático pra
mim.
"Como foi?" ela gritou.
Apesar da distância entre nós, eu não podia olhar pra outro lugar. Ah cara, eu pensei de repente,
estou realmente com problemas.
"Eu fiz ginástica olímpica por anos," ela admitiu. "Sempre tive um bom senso de equilíbrio. Acho
que deveria ter dito algo sobre isso quando você estava me dizendo que eu ia cair."
Passamos mais de uma hora na água. Ela subiu na prancha e pegou as ondas até a costa todas as
vezes com facilidade; embora não conseguisse guiar a prancha, eu não tinha dúvidas de que se ela
quisesse, seria capaz de controlar isso em pouco tempo.
Mais tarde, retornamos para a casa. Esperei do lado de fora enquanto ela subia as escadas. Enquanto
algumas pessoas tinham se levantado-três garotas estavam no deque olhando o oceano-a maioria
ainda estava se recuperando da noite anterior e não estavam em nenhum lugar a vista. Savannah
apareceu alguns minutos depois vestindo shorts e uma camisa, segurando duas xícaras de café. Ela
sentou ao meu lado nos degraus enquanto nós olhávamos a água.
"Eu não disse que você ia cair," eu esclareci. "Eu só disse que se você caísse, deveria seguir a
onda."
"Aham," ela disse, sua expressão travessa. Ela apontou a minha xícara. "Seu café está bom?"
"Está ótimo," eu disse.
"Tenho que começar meu dia com café. É meu único vício."
"Todo mundo tem que ter um."
Ela me olhou. "Qual é o seu?"


"Eu não tenho nenhum," eu respondi, e ela me surpreendeu me dando uma cotovelada brincalhona.


"Sabia que a noite passada foi a primeira noite de lua cheia?"

Eu sabia, mas pensei que seria melhor não admitir. "Sério?" eu disse.
"Eu sempre amei luas cheias. Desde que era criança. Eu gostava de pensar que elas eram uma
profecia de organização. Eu queria acreditar que elas sempre precediam coisas boas. Como se, se eu
etivesse cometendo um erro, teria a chance de começar de novo."
Ela não dise mais nada sobre isso. Em vez disso levou a xícara aos lábios, e eu olhei enquanto o
vapor cobria sua face. "O que tem na sua agenda hoje?" eu perguntei.
"Temos que ter uma reunião alguma hora hoje, mas além disso, nada. Bem, tirando a igreja. Pra
mim, quero dizer. E, bem, quem mais quiser ir. O que me lembra-que horas são?"
Chequei meu relógio. "Um pouco depois das nove."
"Já? Acho que isso não me dá muito tempo. O culto é às dez."
Eu assenti, sabendo que nosso tempo juntos tinha quase acabado. "Você quer ir comigo?" eu ouvi
ela perguntar.
"Pra igreja?"
"Sim. Pra igreja," ela disse. "Você não vai?"
Eu não tinha certeza do que dizer. Obviamente era importante pra ela, e embora eu tivesse a
impressão de que minha resposta a desapontaria, não quis mentir. "Na verdade, não," eu admiti. "Eu
não vou à igreja há anos. Quero dizer, eu costumva ir quando era criança, mas..." desconversei.
"Não sei o porquê," eu finalizei.
Ela esticou as pernas, esperando pra ver se eu acrescentaria mais. Quando eu não o fiz, ela arqueou
uma sombrancelha. "Então?"
"O que?"
"Você quer ir comigo ou não?"
"Eu não tenho nenhuma roupa. Quer dizer, isso é tudo que eu tenho, e eu duvido que daria tempo ir
em casa, tomar banho, e voltar a tempo. Se não, eu iria."
Ela em olhou de cima a baixo. "Bom." Deu palmadinhas no meu joelho, a segunda vez que ela tinha
me tocado. "Vou pegar algumas roupas pra você."
"Você está ótimo," Tim me assegurou. "O colarinho está um pouco apertado, mas eu não acho que
alguém vá notar."
No espelho, eu vi um estranho vestindo calças cáqui, uma camisa apertada e gravata. Não conseguia
lembrar da última vez que tinha vestido uma gravata. Não tinha certeza se estava feliz sobre isso ou
não. Tim, enquanto isso, estava muito animado com a coisa toda.


"Como ela te convenceu a isso?" ele perguntou.


"Não faço idéia."

Ele riu e se inclinando para amarrar seus sapatos, piscou. "Eu disse que ela gosta de você."
Nós temos capelões no exército, e a maioria deles são caras bem legais. Na base, eu conheci alguns
deles muito bem, e um deles-Ted Jenkins-era o tipo de cara que você confiava. Ele não bebia, e eu
não estou dizendo que ele era um de nós, mas era sempre bem vindo quando aparecia. Tinha uma
esposa e dois filhos, e estava no serviço há quinze anos. Ele tinha experiência própria quando se
tratava de brigas com a família e a vida militar em geral, e se você alguma vez sentasse para
conversar com ele, ele realmente ouvia. Você não podia contá-lo tudo-afinal, ele era um oficial-e ele
acabou repreendendo alguns caras do meu pelotão que admitiram suas aventuras um pouco
livremente demais, mas o negócio era que ele tinha um tipo de presença que fazia você querer
contar a ele mesmo assim. Eu não sei o que era, a não ser o fato de que ele era um bom homem e
um ótimo capelão do exército. Ele falava sobre Deus tão naturalmente como você fala sobre o seu
amigo, não daquele modo irritante e pregador que geralmente me tira a vontade. E ele não te
pressionava a comparecer ao culto nos domingos. Ele tipo que deixava com você, e dependendo do
que estava acontecendo ou de quanto as coisas estavam perigosas, ele podia se achar falando com
uma pessoa, duas ou cem. Antes de meu batalhão ser mandado para os Balcãs, ele provavelmente
batizou cinquenta pessoas.
Eu fui batizado quando criança, então eu não fui por aí, mas como disse, fazia muito tempo que eu
tinha ido ao culto. Tinha parado de ir com meu pai muito tempo atrás, e não sabia o que esperar.
Também não podia dizer que eu estava ansioso para ir, mas no fim, não foi tão ruim assim. O pastor
foi discreto, a música foi legal, e o tempo não se arrastou do jeito que sempre fazia quando eu era
pequeno. Não estou dizendo que tirei muito proveito do culto, mas mesmo assim fiquei feliz em ir,
só assim eu poderia falar sobre alguma coisa nova com meu pai. E também porque me deu mais um
pouquinho de tempo com Savannah. Savannah terminou se sentando entre Tim e eu, e eu fiquei
olhando pra ela de canto de olho enquanto ela cantava. Ela tinha uma voz calma, discreta mas
estava sempre afinada e eu gostei do jeito que ela soava. Tim ficou concentrado na Sagrada
Escritura, na saída, ele parou para falar com o pastor enquanto Savannah e eu esperávamos na
sombra de um corniso lá na frente. Tim parecia animado enquanto conversava com o pastor.
"Velhos amigos?" eu perguntei, indicando Tim com a cabeça. Apesar da sombra, eu estava ficando
com calor e podia sentir trilhas de transpiração começando a se formar.
"Não. Acho que foi o pai dele que lhe falou desse pastor. Ele teve que usar o MapQuest* noite
passada pra achar esse lugar." Ela se abanou com a mão; em seu vestido de verão, ela me lembrou
uma típica bela mulher do sul. "Fico feliz que você tenha vindo."
*É um serviço on-line que ajuda a encontrar mapas e endereços de lugares em quase todos os
países.
"Eu também," concordei.
"Está com fome?"
"Chegando lá."
"Temos comida na casa, se você quiser. E você pode devolver ao Tim suas roupas. Posso notar que
está com calor e desconfortável."


"Não é metade do calor que fazem capacetes, botas e roupa à prova de balas, acredite."


Ela inclinou a cabeça dela pra mim. "Eu gosto de ouvir você falar sobre roupas de soldados. Não
tem muitos caras na minha classe que falam como você. Acho interessante."
"Você está caçoando de mim?"
"Só tomando notas." Ela se encostou graciosamente na árvore. "Acho que o Tim está terminando."
Segui o seu olhar, não notando nada de diferente. "Como você sabe?"
"Vê como ele juntou as mãos? Significa que ele está se preparando para se despedir. Em um
segundo, ele vai estender a mão, sorrir e assentir, então estará no caminho pra cá."
Vi Tim fazer exatamente como ela previu e caminhar em nossa direção. Notei a expressão divertida
dela. Ela encolheu os ombros. "Quando você vive numa cidade pequena como a minha, não há
muita coisa a fazer a não ser observar as pessoas. Você começa a ver padrões depois de um tempo."
Provavelmente havia muita observação de Tim na minha humilde opinião, mas eu não ia admitir.
"Oi..." Tim ergueu uma mão. "Prontos para voltar?"
"Estávamos esperando por você," ela ressaltou.
"Desculpe," ele disse. "Começamos a conversar."
"Você começa a conversar com qualquer um e todo mundo."
"Eu sei," ele disse. "Estou tentando em ser mais formal."
Ela riu, e enquanto o papo familiar deles tinha me colocado momentaneamente fora do círculo de
intimidade, tudo foi esquecido quando Savannah enrolou o braço no meu em nosso caminho de
volta ao carro.
Todos estavam acordados na hora que nós voltamos, e a maioria já estava em seus trajes de banho e
trabalhando em seus bronzeados. Alguns preguiçavam no deque superior; a maioria se apinhava na
praia. Música estrondava de um aparelho de som de dentro da casa, freezers de cerveja estavam
reabastecidos e prontos, e alguns estavam bebendo; uma cerveja cairia bem, na verdade, mas
levando em conta que eu tiha acabado de ir a igreja, achei que deveria passar.
Mudei as roupas, dobrando as de Tim do jeito que eu tinha aprendido no exército, depois voltei à
cozinha. Tim tinha feito um prato de sanduíches.
"Sirva-se," ele disse, com um gesto. "Temos toneladas de comida. Eu deveria saber-fui eu quem
passou três horas fazendo compras ontem." Ele enxaguou as mãos e as secou numa toalha. "Certo.
Agora é minha vez de trocar de roupa. Savannah estará aqui em um minuto."
Ele deixou a cozinha. Sozinho, eu olhei ao redor. A casa estava decorada naquele tradicional jeito de
praia: muita mobília colorida de madeira, lâmpadas feitas de conchas, pequenas estátuas de faróis
no consolo da lareira, pinturas pastosas da costa.
Os pais de Lucy tinham um lugar assim. Não aqui, mas em Bald Head Island. Eles nunca alugaram,


preferindo passar os verões lá. É claro que o velho ainda tinha que trabalhar em Winston-Salem, e

ele e a esposa voltavam alguns dias por semana, deixando a pobre Lucy completamente sozinha.
Exceto por mim, claro. Se eles soubessem o que acontecia naqueles dias, eles provavelmente não
nos deixariam sozinhos.
"Olá," Savannah disse. Ela vestia o biquíni de novo, embora estivesse vestindo shorts por cima da
parte de baixo. "Vejo que você voltou ao normal."
"Como você sabe?"
"Seus olhos não estão inchados porque seu colarinho está muito apertado."
Eu sorri. "Tim fez alguns sanduíches."
"Ótimo. Estou morrendo de fome," ela disse, se movimentando pela cozinha. "Você pegou um?"
"Ainda não," eu disse.
"Bem, vá em frente. Eu odeio comer sozinha."
Ficamos na cozinha enquanto comíamos. As garotas deitadas no deque não tinham percebido que
nós estávamos lá e eu podia ouvir uma delas falando do que ela tinha feito com um dos caras na
noite passada e nada do que ela dizia soava como se ela estivesse na cidade numa missão de boa
vontade para com os pobres. Savannah enrugou o nariz como se dissesse, Muita informação, depois
virou para a geladeira. "Preciso de uma bebida. Você quer alguma coisa?"
"Água está bom."
Ela se inclinou para pegar duas garrafas. Eu tentei não olhar, mas olhei de qualquer jeito e,
francamente, eu gostei. Me pergutnei se ela sabia que eu estava olhando e supus que ela sabia,
porque quando ela se levantou e se virou pra mim, tinha aquele olhar divertido novamente. Ela
colocou as garrafas no balcão. "Depois disso, você quer ir surfar de novo?"
Como eu poderia resistir?
Passamos a tarde na água. Tanto quanto eu gostei da vista do close-de-Savannah-deitada-na-prancha
com o qual eu estava sendo presenteado, gostei da vista dela surfando ainda mais. Pra melhorar
ainda mais as coisas, ela pediu para me observar enquanto se esquentava na praia, e eu fui
presenteado com a minha própria vista privada enquanto aproveitava as ondas.
No meio da tarde nós estávamos deitados em toalhas perto um do outro, mas não tão perto, o resto
do grupo estava atrás da casa. Alguns olhares curiosos vinham em nossa direção, mas na maioria,
ninguém parecia notar que eu estava lá, a não ser Randy e Susan. Susan franziu o cenho
intencionalmente pra Savannah; Randy, enquanto isso, estava contente de ficar com Brad e Susan
segurando vela e chupando o dedo. Tim não estava a vista.
Savannah estava deitada de barriga pra baixo, uma vista tentadora. Eu estava de costas ao seu lado,
tentando cochilar no calor preguiçoso mas distraído demais com a presença dela para relaxar
completamente.
"Ei," ela murmurou. "Me fale sobre as suas tatuagens."


Rolei minha cabeça na areia. "O que tem elas?"


"Não sei. Porque você as fez, o que elas significam."

Me apoiei em um cotovelo. Apontei pra o meu braço esquerdo, que tinha uma águia e uma faixa.
"Certo, essa é a insígnia da infantaria, e isso"-apontei pra as palavras e letras-"é como somos
indentificados: companhia, batalhão, regimento. Todo mundo no meu esquadrão tem uma. Nós
fizemos logo depois do treinamento básico no Fort Benning em Georgia quando estávamos
comemorando."
"Por que diz 'Partida' embaixo dela?"
"É meu apelido. Recebi durante o treinamento básico, cortesia do nosso amado sargento de
treinamento. Eu não estava montando a minha arma rápido o bastante e ele basicamente disse que
iria dar partida numa certa parte do meu corpo se eu não conseguisse deixar meu equipamento no
ponto. O apelido pegou."
"Ele parece agradável," ela brincou.
"Ah, é. Chamávamos ele de Lúcifer pelas costas."
Ela sorriu. "Pra que foi o arame farpado em cima dela?"
"Nada," eu disse, sacudindo a cabeça. "Fiz essa antes de me alistar."
"E o outro braço?"
Um caractere chinês. Não queria entrar em detalhes naquela, então balancei a cabeça. "É do meu
tempo de 'estou perdido e não dou a mínima'. Não significa nada."
"Não é um caractere chinês?"
"É."
"Então o que significa? Tem que significar alguma coisa. Como bravura, honra ou algo assim?"
"É uma profanação."
"Ah," ela disse com uma piscadela.
"Como eu disse, não significa nada pra mim agora."
"Tirando que você nunca deve mostrá-la se um dia você for a China."
Eu ri. "É, tirando isso," concordei.
Ela ficou quieta por um momento. "Você era um rebelde, então?"
Assenti. "Há muito tempo atrás. Bem, não tanto tempo assim. Mas parece muito tempo."
"Foi isso que você quis dizer quando disse que o exército era uma coisa que você precisava naquele
tempo?"


"Foi bom pra mim."


Ela pensou sobre isso. "Me diga-você teria pulado pra pegar minha bolsa naquela época?"

"Não. Provavelmente teria rido do que aconteceu."
Ela avaliou minha resposta, como se estivesse se perguntando se acreditava em mim ou não.
Finalmente, ela deu um longo suspiro. "Fico feliz que tenha se alistado então. Eu realmente
precisava daquela bolsa."
"Que bom."
"O que mais?"
"O que mais o que?
"O que mais você pode me contar sobre si mesmo?"
"Não sei. O que você quer saber?"
"Me diga alguma coisa que mais ninguém sabe sobre você."
Considerei aquela pergunta. "Eu posso te dizer quantas notas de dez dólares indianos com bordas
onduladas foram cunhadas em 1907."
"Quantas?"
"Quarenta e duas. Elas não eram para o público. Alguns homens da Casa da Moeda fizeram para
eles próprios e alguns amigos."
"Você gosta de moedas?"
"Não tenho certeza. É uma longa estória."
"Nós temos tempo."
Eu hesitei enquanto Savannah se esticou para pegar sua bolsa. "Espera," ela disse, remexendo na
bolsa. Puxou um tubo de Coppertone. "Você pode me contar depois de colocar protetor nas minhas
costas. Sinto que estou ficando queimada."
"Ah, eu posso, é?"
Ela piscou. "É parte do trato."
Eu apliquei o protetor nas costas e ombros dela e provavelmente me entusiasmei um pouco, mas me
convenci de que ela estava ficando rosa e que uma queimadura do sol iria fazer do trabalho dela no
dia seguinte horrível. Depois disso, passei os próximos minutos contando a ela sobre o meu avô e
meu pai, sobre as exposições de moedas e o bom e velho Eliasberg. O que eu não fiz foi responder
sua pergunta especificamente, pela simples razão de que eu não estava muito certo de qual era a
minha resposta. Quando eu acabei ela se virou para mim.


"E seu pai ainda coleciona moedas?"


"O tempo todo. Pelo menos, eu acho. Nós não falamos mais de moedas."

"Por que não?"
Contei a ela aquela estória também. Não me pergunte o porque. Eu sabia que deveria estar
mostrando o melhor de mim e escondendo as coisas ruins para impressioná-la, mas com Savannah
não era possível. Por alguma razão, ela me fazia querer contar a verdade, mesmo que eu mal a
conhecesse. Quando eu terminei, ela tinha uma expressão curiosa no rosto. "É, eu fui um idiota," eu
disse, sabendo que haviam outras palavras, provavelmente mais precisas para me descrever naquela
época, e todas eram profanas o suficiente pra ofendê-la.
"Parece que sim," ela disse, "mas não era o que eu estava pensando. Eu estava tentando te imaginar
naquela época, porque você não parece nada com aquela pessoa agora."
O que eu poderia dizer que não soaria falso, mesmo que fosse verdade?
Incerto, eu optei pela tática do meu pai e não disse nada.
"Como é o seu pai?"
Lhe dei uma rápida descrição. Enquanto eu falava, ela cavava a areia e deixava ela cair entre seus
dedos, como se estivesse se concentrando na minha escolha de palavras. No fim, me surpreendendo
de novo, eu admiti que nós éramos quase estranhos.
"Vocês são," ela disse, usando aquele tom obejtivo e sem julgamentos. "Você tem estado fora por
alguns anos e até mesmo admite que mudou. Como ele poderia te conhecer?"
Eu sentei. A praia estava lotada; era a hora do dia em que todo mundo que planejou vir já estava
aqui e ninguém estava pronto para ir embora. Brad e Randy estavam jogando Frisbee na borda da
água, correndo e gritando. Alguns outros andavam para se juntar a eles.
"Eu sei," eu disse. "Mas não é só isso. Sempre fomos estranhos em relação ao outro. Quer dizer, é
tão difícil falar com ele."
Assim que falei isso, me dei conta de que ela era a primeira pessoa a quem eu tinha admitido isso.
Estranho. Mas, a maioria das coisas que eu estava dizendo a ela soavam estranhas.
"A maioria das pessoas da nossa idade diz isso sobre os pais."
Talvez, eu pensei. Mas isso era diferente. Não era uma diferença de geração, era o fato de que para
o meu pai, uma conversa informal normal era praticamente impossível, a não ser que tivesse a ver
com moedas. Eu não disse mais nada, contudo, e Savannah alisou a areia a sua frente. Quando
falou, sua voz era suave. "Eu gostaria de conhecê-lo."
Me virei para ela. "É mesmo?"
"Ele parece interessante. Eu sempre amei pessoas que tem essa... paixão pela vida."
"É uma paixão por moedas, não pela vida," eu a corrigi.


"É a mesma coisa. Paixão é paixão. É a excitação entre os espaços tediosos, e não importa para

onde ela é dirigida."

Ela arrastou os pés na areia. "Bem, na maioria do tempo, de qualquer forma. Não estou falando de
vícios."
"Como você e a cafeína."
Ela sorriu, mostrando a pequena abertura entre seus dentes da frente. "Exatamente. Pode ser
moedas, esportes, política, cavalos, música ou fé... as pessoas mais tristes que eu já encontrei na
vida são aquelas que não dão a mínima para nada. Paixão e satisfação andam de mãos dadas, e sem
elas, qualquer felicidade é apenas temporária, porque não há nada que a faça durar. Eu adoraria
ouvir o seu pai falar sobre moedas, porque é quando você vê o melhor de uma pessoa, e eu descobri
que a felicidade alheia é geralmente contagiosa."
Eu estava paralizado com suas palavras. Apesar de Tim ter dito que ela era ingênua, ela parecia
muito mais madura do que a maioria das pessoas da nossa idade. E de novo, considerando o modo
como ela ficava de biquíni ela poderia estar enumerando a lista telefônica que eu teria ficado
impressionado.
Savannah se sentou ao meu lado e o seu olhar seguiu o meu. O jogo de Frisbee estava a todo vapor;
enquanto Brad lançava o disco, outros dois vinham correndo pegar. Os dois mergulharam para
pegá-lo simultaneamente, cainda na água rasa enquanto suas cabeças colidiam. O de short vermelho
saiu sem nada, dizendo palavrões e segurando a cabeça, seu short coberto de areia. Os outros riram,
e eu me peguei sorrindo e me contorcendo simultaneamente.
"Você viu isso?" perguntei.
"Espera," ela disse. "Volto já." Ela foi em direção ao cara de short vermelho. Ele a viu se
aproximando e congelou, assim como o cara ao lado dele. Savannah, como eu me dei conta, tinha o
mesmo efeito em todos os garotos, não só em mim. Eu podia vê-la falando e sorrindo, dando aquela
olhada séria no cara, que assentia enquanto ela falava, parecendo um adolescente submisso. Ela
voltou para o meu lado e se sentou novamente. Não perguntei, sabendo que não era da minha conta,
mas eu sabia que estava telegrafando a minha curiosidade.
"Normalmente eu não teria dito nada, mas pedi pra ele tomar cuidado com a linguagem por causa
de todas as famílias que tem aqui, ela explicou. "Há muitas crianças pequenas por aqui. Ele disse
que faria isso."
Eu devia ter adivinhado. "Você sugeriu que ele falasse 'Santa mãe' e 'Jesus' em vez do que ele
disse?"
Ela me deu um olhar travasso. "Você gosou dessas expressões, não foi?"
"Estou pensando em passá-las para o meu esquadrão. Eles irão adicioná-las ao nosso fator
intimidador quando estivermos derrubando portas e lançando LGFs."
Ela gargalhou. "Definitivamente mais assustador do que palavrões, mesmo que eu não saiba o que é
um LGF."
"Lança-granadas-foguete." Sem querer, eu gostava mais dela a cada minuto que passava. "O que


você vai fazer hoje à noite?"


"Não tenho planos. Bem, a não ser pelo encontro. Por que? Quer me levar pra conhecer seu pai?"

"Não. Bem, não essa noite, de qualquer forma. Depois. Hoje, eu queria lhe mostrar Wilmington."
"Você está me chamando pra sair?"
"Sim," admiti. "Te trago de volta quando você quiser. Sei que você tem que trabalhar amanhã, mas
tem esse lugar ótimo que eu quero te mostrar."
"Que tipo de lugar?"
"Um lugar local. Especializado em frutos do mar. Mas é mais uma experiência." Ela colocou os
braços em volta de seus joelhos.
"Eu geralmente não saio com estranhos," ela disse finalmente, "e nós só nos encontramos ontem.
Acha que posso confiar em você?"
"Eu não confiaria," eu disse.
Ela riu. "Bem, nesse caso, acho que posso fazer uma execão."
"É?"
"É," ela disse. "Tenho uma queda por caras honestos com crew cuts. Que horas?"


Quatro


Eu estava em casa às cinco e embora não me sentisse queimado do sol, aquela pele européia do sul
novamente-o queimado ficou óbvio quando tomei banho. Meu peito e meus ombros arderam
quando a água ricocheteou neles, e meu rosto me fez sentir como se eu estivesse com uma febre
baixa. Depois, me barbeei pela primeira vez desde que cheguei em casa e vesti uma bermuda limpa
e uma das minhas poucas camisas ultrapassadas relativamente boas que eu tinha, azul clara. Lucy
tinha comprado e jurado que a cor era perfeita pra mim. Enrolei as mangas para cima e deixei a
camisa desabotoada, então vasculhei meu armário à procura de um antigo par de sandálias.
Através da rachadura da porta eu podia ver meu pai na sua mesa, e me ocorreu que pela segunda
noite seguida eu tinha feito outros planos para o jantar. E eu nem tinha passado nenhum tempo com
ele esse fim de semana. Ele não reclamaria, eu sabia, mas ainda assim senti uma pontada de culpa.
Depois de pararmos de falar sobre moedas, o café da manhã e o jantar eram a única coisa que nós
compartilhávamos e agora eu o estava privando até mesmo disso. Talvez eu não tivesse mudado
tanto quanto pensava. Eu estava na sua casa e comenda da sua comida e estava para perguntá-lo se
poderia pegar seu carro emprestado. Em outras palavras, levando minha própria vida e usando-o no
processo. Me perguntei o que Savannah diria sobre isso, mas eu achava que já sabia a resposta.
Savannah às vezes parecia muito com a pequena voz que tinha se instalado na minha cabeça mas
nunca se importou em pagar aluguel, e nesse momento, ela sussurrava que se eu me sentisse
culpado, talvez estivesse fazendo algo errado. Resolvi que passaria mais tempo com ele. Era uma
saída fácil e eu admiti isso, mas não sabia o que mais fazer.
Quando abri a porta, meu pai pareceu sobressaltado ao me ver. "Oi pai," eu disse, me sentando no
lugar de sempre.
"Oi, John." Assim que falou, ele olhou sua mesa e passou uma mão sobre o seu cabelo ralo. Quando
eu não disse mais nada, ele se deu conta de que deveria me fazer uma pergunta. "Como foi o seu
dia?" ele finalmente me perguntou.
Mudei de posição no meu lugar. "Foi ótimo, na verdade. Passei a maior parte do dia com Savannah,
a garota de que lhe falei ontem à noite."
"Ah." Seus olhos se viraram para o lado, se recusando a encontrar os meus. "Você não me contou
sobre ela."
"Não?"
"Não, mas está tudo bem. Era tarde." Pela primeira vez ele pareceu se dar conta de que eu estava
arrumado, ou pelo menos mais arrumado do que ele já tinha me visto, mas ele não conseguiu se
obrigar a me perguntar nada.
Eu dei um puxão na minha camisa, tirando ele do aperto. "É, eu sei, tentando impressioná-la, certo?
Vou levar ela pra sair hoje à noite," eu disse. "Tudo bem se eu pegar o carro emprestado?"
"Ah... tudo bem," ele disse.
"Quer dizer, você vai precisar dele hoje? Posso ligar pra um amigo ou algo assim."
"Não," ele disse. Enfiou a mão no bolso para pegar as chaves. Nove entre dez pais as teria jogado; o
meu as estendeu para mim.


"Você está bem?" perguntei.


"Só cansado," ele disse.

Me levantei e peguei as chaves. "Pai?" Ele ergueu o olhar novamente. "Me desculpe por não jantar
com você nessas últimas noites."
"Tudo bem," ele disse. " Eu entendo."
***
O sol estava começando a sua lenta descida e quando eu arranquei com o carro, o céu era um
redemoinho de cores suaves que contrastavam dramaticamente com o céu da noite que eu tinha
conhecido na Alemanha. O trânsito estava horrível, como sempre em noites de domingo e eu levei
quase trinta minutos fumacentos para voltar à praia e estacionar.
Empurrei a porta da casa sem bater. Dois garotos que estavam sentados no sofá assistindo a um jogo
de baseball me ouviram entrar. "Hey," eles disseram, parecendo desinteressados e indiferentes.
"Vocês viram Savannah?"
"Quem?" um deles perguntou, obviamente prestando pouca atenção em mim.
"Deixa pra lá. Eu encontro ela." Cruzei a sala até o deque traseiro, vi o mesmo cara da noite anterior
na churrasqueira novamente e alguns outros, mas nenhum sinal de Savannah. Também não a vi na
praia. Estava para voltar pra dentro quando senti alguém dando tapinhas no meu ombro.
"Quem você está procurando?" ela perguntou.
Eu me virei. "Uma garota," eu disse. "Ela tem tendência a perder coisas em píers, mas é uma
aprendiz rápida quando se trata de surf."
Ela colocou as mãos nos quadris e eu sorri. Estava de shorts e com uma blusa sem mangas com uma
alça que passava pel sua nuca, deixando seu colo e a parte de cima das suas costas descobertos, com
um indício de cor em suas bochechas, eu notei que ela tinha colocado um pouco de rímel e batom.
Mesmo adorando sua beleza natural-sou um garoto da praia-ela estava ainda mais chamativa do que
eu me lembrava. Senti o sopro de alguma fragância de limão enquanto ela se inclinava em minha
direção.
"É tudo o que eu sou? Uma garota?" ela perguntou. Soava ao mesmo tempo brincalhona e séria, e
por um minuto eu fantasiei envolvê-la com meus braços ali mesmo, naquele momento.
"Ah," eu disse, me fingindo de surpreso. "É você."
Os dois caras no sofá olharam rápido para nós e depois retornaram para a tela.
"Pronta pra ir?" perguntei.
"Só tenho que pegar minha bolsa," ela disse. Ela pegou a bolsa do balcão da cozinha e começamos a
caminhar para a porta. "E onde estamos indo, à propósito?"
Quando a respondi, ela ergueu uma sombrancelha.


"Você está me levando para comer em um lugar com a palavra cabana no nome?"


"Eu só sou um cara mal pago do exército. É tudo que eu posso bancar."

Ela me empurrou enquanto caminhávamos. "Tá vendo, é por isso que eu normalmente não saio com
estranhos."
O Shrimp Shack* fica no centro de Wilmington, na área histórica que faz fronteira com o rio Cape
Fear. Em uma ponta da área histórica estão seus típicos destinos turísticos: lojas de souvenirs,
alguns lugares especializados em antiguidades, alguns restaurantes elitizados, cafeterias e vários
escritórios do estado. Na outra ponta, contudo, Wilmington representava seu personagem como
cidade portuária trabalhadora: grandes armazéns, mais de um permaneciam abandonados, e outros
velhos prédios de escritórios apenas ocupados pela metade. Eu duvidava que os turistas que se
amontoavam aqui no verão alguma vez vinheram para esse lado. Essa foi a direção que eu tomei.
Pouco a pouco a multidão se dispersava até que não sobrou ninguém na calçada enquanto a área
ficava mais e mais arruinada.
*Literalmente Cabana do Camarão.
"Onde é este lugar?" Savannah perguntou.
"Só um pouco mais adiante," eu disse. "Lá em cima, no final."
"É um pouco fora do caminho, não é?"
"É meio que uma instituição local," eu disse. "O dono não se importa se os turistas vêm ou não.
Nunca se importou."
Um minuto depois, diminuí a velociade do carro e virei em um pequeno estacionamento ao lado de
um dos armazéns. Algumas dúzias de carros estavam estacionados em frente ao Shrimp Shack,
como sempre, e o lugar não havia mudado. Desde que o conheci parecia desmantelado, com uma
ampla varanda desarrumada, pintura descascada e um teto torto que fazia parecer que o lugar estava
prestes a desabar, apesar do fato de estar enfrentando furacões desde 1940. O exterior estava
decorado com redes, capotas e placas de carros, uma velha âncora, remos e algumas correntes
enferrujadas. Uma canoa quebrada estava perto da porta .
O céu estava começando o seu escurecimento preguiçoso quando caminhamos até a entrada. Me
perguntei se deveria pegar na mão de Savannah, mas no final eu não fiz nada. Apesar de ter tido
algum sucesso induzido por hormônios com as mulheres, eu tinha pouquíssima experiência quando
se tratava de garotas com quem eu me importava. Apesar do fato que apenas um dia tinha passado
desde que nos conhecemos, eu já sabia que estava em território novo. Subimos na varanda
envergada e Savannah apontou para a canoa.
"Talvez seja por isso que ele tenha aberto um restaurante, porque o barco dele afundou."
"Pode ser. Ou talvez alguém deixou isso aí e ele nunca se importou em removê-lo. Pronta?"
"Como sempre estarei," ela disse e eu empurrei a porta.
Não sei o que ela esperava, mas ela tinha uma expressão satisfeita no rosto enquanto entrava. Havia
um longo bar em um lado, janelas que davam para o rio e na área central, bancos de piquenique de


madeira. Algumas garçonetes com cabelos longos-elas não pareciam ter mudado mais que a

decoração-se moviam entre as mesas, carregando bandeijas de comida. O ar tinha o cheiro oleoso
de comida frita e fumaça de cigarro, mas de alguma foma parecia certo. A maioria das mesas
estavam ocupadas, mas eu indiquei uma perto do jukebox*. Estava tocando uma música coutry do
oeste, embora eu não soubesse dizer quem era o cantor. Sou mais um fã de rock clássico.
*É uma máquina que toca músicas quando uma moeda é depositada nela.
Fizemos nosso caminho por entre as mesas. A maioria dos clientes pareciam trabalhar duro pelo seu
sustento: trabalhadores de construção, jardineiros, caminhoneiros e etc. Eu nunca tinha visto tantos
bonés de baseball da NASCAR desde... bem, eu nunca tinha visto tantos. Alguns caras do meu
esquadrão eram fãs, mas eu nunca saquei a graça de assistir a um grupo de marmanjos dirigirem em
círculo o dia todo ou descobri porque eles não publicavam os artigos na seção de automóveis do
jornal em vez de na seção de esportes. Nos sentamos um em frente ao outro e eu observei enquanto
Savannah assimilava o lugar.
"Gosto de lugares assim," ela disse. "Quando você morava aqui era esse seu destino habitual?"
"Não, esse era mais um lugar para ocasiões especiais. Normalmente eu saía para um lugar chamado
Leroy's. É um bar perto da praia de Wrightsville." Ela pegou um menu laminado que estava entre
um porta guardanapos de metal e garrafas de ketchup e molho picante Texas Pete.
"Isso é muito melhor," disse. Ela abriu o menu. "Agora, pelo que esse lugar é famoso?"
"Camarão," eu disse.
"Nossa, sério?" ela perguntou.
"Sério. Todo tipo de camarão que você puder imaginar. Você sabe aquela cena de Forrest Gump
quando Bubba estava contando a Forrest todos as formas de se preparar camarão? Grellhado,
salgado, em churrasco, camarão Cajun, camarão ao limão, camarão Creole, coquetel de camarão...
É esse o lugar."
"De qual você gosta?"
"Eu gosto deles resfriados com molho de coquetel do lado. Ou fritos."
Ela fechou o menu. "Você escolhe," disse, empurrando o menu me minha direção. "Eu confio em
você."
Coloquei o menu de volta nos eu lugar, encostado no porta guardanapos.
"Então?"
"Resfriados. Em um balde. É a experiência consumada."
Ela se inclinou por sobre a mesa." Então quantas mulheres você já trouxe aqui? Para a experiência
consumada, quero dizer."
"Incluindo você? Deixe-me pensar." Bati os dedos na mesa. "Uma."


"Estou honrada."


"Este era mais um lugar pra mim e meus amigos quando queríamos comer em vez de beber. Não
havia comida melhor depois de um dia de surf."
"Como eu descobrirei em breve."
A garçonete apareceu e eu pedi o camarão. Quando ela perguntou o que queríamos para beber, eu
ergui as mãos.
"Chá, por favor," Savannah disse.
"Traga dois," eu completei.
Depois que a garçonete saiu, nos acomodamos em uma conversa fácil, ininterrupta mesmo quando
nossas bebidas chegaram. Falamos sobre a vida no exército novamente; por alguma razão,
Savannah parecia fascinada com ela. Ela também perguntou sobre crescer aqui. Contei a ela mais
do que pensei que iria sobre meus anos no Ensino Médio e provavelmente demais sobre os três anos
antes do meu alistamento.
Ela ouviu atentamente, fazendo perguntas aqui e ali, e eu me dei conta de que já fazia um bom
tempo desde que eu havia tido um encontro como este; alguns anos, talvez mais. Não desde Lucy,
de qualquer forma. Eu não via nenhuma razão para isso, mas quando sentei diante de Savannah, tive
que repensar minha decisão. Eu gostava de ficar sozinho com ela, e queria ver mais dela. Não só
esta noite, mas amanhã e no dia seguinte. Tudo, desde a maneira fácil como ela ria, ao seu humor, à
sua óbvia preocupação com os outros-me atingiam como novos e desejáveis. Então novamente,
passar algum tempo com ela me fez perceber o quanto eu tinha sido solitário. Eu não tinha admitido
isso para mim mesmo, mas depois de apenas dois dias com Savannah, eu sabia que era verdade.
"Vamos colocar alguma música para tocar," ela disse, interrompendo meus pensamentos.
Me levantei da minha cadeira, remexi meus bolsos à procura de alguma moeda de 25 cents, e
depositei na máquina. Savannah colocou as duas mãos no vidro e se inclinou para frente, como se
lêsse os títulos, depois escolheu algumas músicas. Quando voltamos à mesa, a primeira já estava
tocando.
"Sabe, acabei de me dar conta que só eu tenho falado a noite toda," eu disse.
"Você é uma matraca," ela observou.
Tirei meus talheres do guardanapo de papel que os envolvia. "E você? Você sabe tudo sobre mim,
mas eu não sei nada sobre você."
"Claro que sabe," ela disse. "Você sabe quantos anos eu tenho, qual faculdade eu frequento, minha
especialização e o fato de que eu não bebo. Sabe que eu sou de Lenoir, moro em uma fazenda, amo
cavalos, e passo meus verões construindo casas para o Habitat para a Humanidade. Você sabe muita
coisa."
É, de repente me dei conta, eu sabia. Incluindo coisas que ela não tinha mencionado. "Não é o
bastante," eu disse. "Sua vez."
Ela se inclinou para frente. "Pergunte o que quiser."


"Me conte sobre seus pais," eu disse.


"Certo," disse ela, pegando um guardanapo. Ela secou a condensação de seu copo. "Meu pai e
minha mãe são casados há vinte e cinco anos e ainda estão muito felizes e loucamente apaixonados.
Eles se conheceram na faculdade na Appalachian State, e minha mãe trabalhou em um banco alguns
anos até eu nascer. Desde então ela tem sido uma mãe caseira e ela foi o tipo de mãe que estava lá
pra todo mundo também. Ajudante de sala de aula, motorista voluntária, técnica do nosso time de
futebol, cabeça da Associação de Pais e Mestres, todo esse tipo de coisa. Agora que eu vim embora
ela passa o dia todo como voluntária de outras coisas-a biblioteca, escolas, a igreja, o que for. Meu
pai é professor de história na escola e é técnico do time de vôlei feminino desde que eu era pequena.
Ano passado elas chegaram a final estadual, mas perderam. Ele também é diácono na nossa igreja e
coordena o grupo de jovens e o coral. Quer ver uma foto?"
"Claro," eu disse.
Ela abriu sua bolsa e tirou a carteira. Ela a abriu e empurrou por cima da mesa, nossos dedos se
tocando. "Estão um pouco esfarrapadas nas bordas por causa da água do mar," ela disse, "mas dá
pra ter uma idéia."
Virei a foto. Savannah tinha mais características do pai do que da mãe, ou pelo menos tinha herdado
os traços mais escuros dele.
"Belo casal."
"Eu os amo," ela disse, pegando a carteira de volta. "Eles são os melhores."
"Por que você mora em uma fazenda se seu pai é professor?"
"Ah, não é uma fazenda de trabalho. Era quando pertencia a meu avô, mas ele teve que vender
pedaços para pagar os impostos dela. Quando meu pai a herdou estava reduzida a 4 hectares com
uma casa, estábulos e um curral. É mais um grande quintal do que uma fazenda. É como sempre nos
referimos a ele, mas acho que passa a imagem errada, né?"
"Eu sei que você disse que fez ginástica olímpica, mas você jogou vôlei no time do seu pai?"
"Não," ela disse. "Quer dizer, ele é um ótimo técnico, mas sempre me encorajou a fazer o que era
certo pra mim. E não era vôlei. Eu tentei e foi legal, mas não era o que eu amava."
"Você amava cavalos."
"Desde que era uma garotinha. Minha mãe me deu uma estátua de um cavalo quando eu era bem
pequena, e foi isso que começou a coisa toda. Ganhei meu primeiro cavalo no Natal quando tinha
oito anos e ainda é o melhor presente de Natal que eu já recebi. Slocum. Ela era uma velha égua
muito gentil e era perfeita pra mim. O acordo era que eu deveria cuidar dela-alimentá-la, escová-la e
manter sua baia limpa. Entre ela, a escola, a ginástica e tomar conta do resto dos animais, eu só
tinha tempo pra isso."
"O resto dos animais?"
"Quando eu estava crescendo, minha casa era tipo uma fazenda mesmo. Cachorros, gatos, até uma
lhama por um tempo. Eu era louca por animais perdidos. Meus pais chegaram ao ponto de nem


discutir mais comigo sobre eles. Geralmente tinha quatro ou cinco deles de uma vez. Algumas vezes

um dono vinha, esperando achar seu bichinho perdido, e saía com uma de nossas adições recentes
se não achasse. Éramos como a libra*."

* Desculpem, mas não consegui entender essa referência.
"Seus pais eram pacientes."
"Sim," ela disse, "eles eram. Mas eram loucos por animais perdidos também. Mesmo que negasse,
minha mãe era pior que eu."
A observei. "Aposto que você era uma boa aluna."
"Invariáveis A's. Fui a oradora da minha classe."
"Por que isso não me surpreende?"
"Não sei," ela disse. "Por quê?"
Não respondi. "Você já teve um namorado sério?"
"Ah, agora estamos indo direto ao ponto, hein?"
"Só estava pergutando."
"O que você acha?"
"Eu acho," eu disse, arrastando as palavras, "Eu não faço idéia."
Ela riu. "Então... vamos deixar essa pergunta passar por agora. Um pouco de mistério é bom para a
alma. Além disso, estou disposta a apostar que você pode descobrir por conta própria."
A garçonete chegou com o balde de camarões e algumas garrafas de molho de coquetel, os colocou
na mesa e reabasteceu nosso chá com a eficiência de alguém que tem feito isso por muito tempo.
Ela virou nos seus sapatos de salto sem perguntar se queríamos mais alguma coisa.
"Esse lugar é legendário por sua hospitalidade."
"Ela só está ocupada," Savannah disse, pegando um camarão. "E além disso, acho que ela sabe que
você está me interrogando e quis me deixar com o meu inquisidor."
Ela quebrou o camarão e o descascou, depois mergulhou-o no molho antes de morder um pedaço.
Peguei alguns da vasilha e coloquei no meu prato.
"O que mais você quer saber?"
"Não sei. Qualquer coisa. Qual a melhor parte de estar na faculdade?"
Ela pensou sobre isso enquanto reabastecia seu prato. "Bons professores," disse finalmente. "Na
faculadade, às vezes você pode escolher seus professores se você tiver uma agenda flexível. É isso
que eu gosto. Antes de começar, foi esse o conselho que meu pai me deu. Ele disse para escolher
aulas baseadas no professor sempre que possível, e não na matéria. Quer dizer, ele sabia que


existem algumas matérias que você tem que escolher se quiser se graduar, mas a razão dele era que

bons professores não tem preço. Eles te inspiram, tem entretem e você acaba aprendendo muitas
coisas mesmo sem saber."

"Porque eles são apaixonados pelas suas matérias," eu disse.
Ela piscou. "Exatamente. E ele estava certo. Peguei aulas de matérias que eu nunca pensei que fosse
me interessar e o mais distantes da minha especialização que você pode imaginar. Mas sabe de uma
coisa? Eu ainda lembro dessas aulas como se ainda as estivesse tomando."
"Estou impressionado. Pensei que você diria que ir à jogos de basquete fosse a melhor parte de estar
na faculdade. É como uma religião em Chapel Hill."
"Gosto disso também. Assim como gosto dos amigos que estou fazendo e viver longe de mamãe e
papai e tudo isso. Aprendi muito desde que saí de Lenoir. Quer dizer, tive uma vida maravilhosa lá e
meus pais são ótimos, mas eu estava... presa. Tive algumas experiências de abrir os olhos."
"Como o que?"
"Muitas coisas. Como sentir a pressão de beber ou me agarrar com um cara toda vez que eu saía. No
meu primeiro ano, eu odiei a UNC. Não senti que fosse me enturmar, e eu não me enturmei.
Implorei para meus pais me deixarem ir pra casa ou me transferir, mas eles não concordaram. Acho
que eles sabiam que eu iria me arrepender a longo prazo e provavelmente estavam certos. Foi só no
meu segundo ano que encontrei algumas garotas que se sentiam do mesmo modo que eu sobre esse
tipo de coisa e tem sido muito melhor desde então. Me juntei a alguns grupos de estudantes cristãos,
passo as manhãs de sábado em um abrigo em Raleigh servindo os pobres, e não sinto nenhuma
pressão para ir à essa ou àquela festa ou sair com esse ou aquele cara. E se eu for a uma festa, a
pressão não me atinge. Eu só aceito o fato de que eu não tenho que fazer o que todo mundo faz.
Posso fazer o que é certo pra mim."
O que explicava por que ela estava comigo na noite passada, eu pensei. E agora também.
Ela se animou. "É meio como você, eu acho. Nos últimos anos, eu cresci. Então, junto ao fato de
que somos especialistas em surf também temos isso em comum."
Eu ri. "É. Tirando que eu lutei muito mais do que você."
Ela se inclinou para a frente novamente. "Meu pai sempre dizia que quando você está lutando com
alguma coisa, olhe para todas as pessoas ao seu redor e perceba que cada uma delas que você vê
está lutando com alguma coisa, e para elas, é tão difícil quanto o que você está passando."
"Seu pai parece ser um homem esperto."
"Minha mãe e meu pai são. Acho que os dois se formaram entre os cinco melhores na faculade. Foi
como eles se conheceram. Estudando na biblioteca. Educação era muito importante para os dois e
eles meio que fizeram de mim seu projeto. Quer dizer, eu lia antes de ir pra o jardim de infância,
mas eles nunca fizeram parecer com uma tarefa. E eles têm falado comigo como se eu fosse adulta
desde que eu me lembro."
Por um momento, me perguntei o quanto minha vida seria diferente se eles tivessem sido meus pais,
mas sacudi o pensamento para longe. Sabia que meu pai tinha feito o melhor que podia, e eu não
tinha nenhum arrependimento do modo como eu acabei. Arrependimentos sobre a jornada, talvez,


mas não sobre o destino. Porque como quer que tivesse acontecido, de algum modo eu iria acabar

comendo camarão em uma cabana deprimente do centro da cidade com uma garota que eu já sabia
que nunca esqueceria.

Depois do jantar, voltamos para a casa, que estava surpreendentemente calma. A música ainda
tocava, mas a maioria das pessoas estavam relaxando ao redor do fogo, como se antecipassem a
manhã. Tim estava entre eles, absorto em uma conversa séria. Me surpreendendo, Savannah pegou
minha mão, me parando no caminho antes de alcançarmos o grupo.
"Vamos dar uma caminhada," ela disse. "Quero deixar o jantar assentar só um pouco antes de
sentar."
Acima de nós, algumas nuvens finas estavam espalhadas entre as estrelas, e a lua, ainda cheia,
pairava no horizonte. Uma briza leve soprou na minha bochecha, e eu podia ouvir o movimento
incessante das ondas enquanto elas rolavam para a costa. A maré tinha baixado e nós nos movemos
para a areia mais dura e compacta perto da beira da água. Savannah colocou uma mão no meu
ombro para manter o equilíbrio enquanto ela tirava uma sandália, e depois a outra. Quando ela
terminou, eu fiz o mesmo, e demos alguns passos em silêncio.
"É tão lindo aqui fora. Quer dizer, eu amo as montanhas, mas isso é maravilhoso a sua própria
maneira. É cheio de... paz."
Senti que as mesmas palavras poderiam ser usadas para descrevê-la, e eu não tinha certeza do que
dizer.
"Não acredito que só te conheci ontem," ela adicionou. "Parece que eu te conheço há muito mais
tempo."
A mão dela estava quente e macia na minha. "Estava pensando a mesma coisa."
Ela deu um sorriso sonhador, observando as estrelas. "Me pergunto o que Tim pensa sobre isso," ela
murmurou. Ela me olhou. "Ele acha que sou um pouco ingênua."
"Você é?"
"Às vezes," ela admitiu, e eu ri.
Ela continuou. "Quer dizer, se eu ver duas pessoas saindo para uma caminhada como essa, eu
penso, "Ah, que fofo". Não penso, "eles vão transar atrás das dunas". O fato é que às vezes eles
transam. Eu só nunca penso nisso de ante mão e sempre me surpreendo quando ouço sobre isso
depois. Não posso evitar. Como noite passada, depois de você ir embora. Ouvi sobre duas pessoas
aqui que fizeram isso e não pude acreditar."
"Eu teria ficado mais surpreso se não tivesse acontecido."
"É isso que eu não gosto na faculdade, à propósito. Muitas pessoas não acreditam que esses anos de
atrevimento realmente contam, então é permitido você experimentar com... o que for. Há uma visão
informal sobre coisas como sexo, bebidas e até drogas. Eu sei que isso soa muito careta, mas eu não
entendo. Talvez tenha sido por isso que eu não quis ir sentar ao redor da fogueira como todo mundo.
Pra ser honesta, estou um pouco desapontada com aquelas duas pessoas de quem ouvi falar, e eu
não quero sentar lá e fingir que não estou. Sei que não devia julgar, e tenho certeza de que eles são
boas pessoas por estarem aqui para ajudar, mas ainda assim, qual é o motivo? Você não deveria


guardar coisas como essas para alguém que você ama? Para que realmente signifique alguma

coisa?"

Eu sabia que ela não queria respostas, e não ofereci nenhuma. "Quem lhe contou sobre aquele
casal?" eu perguntei, em vez disso.
"Tim. Acho que ele estava desapontado também, mas o que ele iria fazer? Expulsá-los?"
Tínhamos percorrido um bom caminho pela praia, e nos viramos.
À distância, eu podia ver o círculo de figuras em silhueta contra o fogo. A névoa cheirava a sal, e
carangueijos se espalhavam para suas tocas na areia enquanto nos aproximávamos.
"Me desculpe," ela disse. "Eu estava errada."
"Sobre o que?"
"Por ficar tão... chateada sobre isso. Eu não deveria julgar. Não é o meu lugar."
"Todo mundo julga," eu disse. "É a natureza humana."
"Eu sei. Mas... eu também não sou perfeita. No fim, é apenas o julgamento de Deus que importa e
eu aprendi o bastante para saber que ninguém pode saber qual é a vontade de Deus."
Eu sorri.
"O que?" ela perguntou.
"O modo como você fala me lembra o nosso capelão. Ele diz a mesma coisa."
Nós caminhamos pela praia e quando nos aproximamos da casa, nos distanciamos da beira da água,
em direção a areia fofa. Nossos pés deslizavam a cada passo e eu podia sentir Savannah colocar
mais força no aperto de nossas mãos. Me perguntei se ela as soltaria quando chegássemos perto do
fogo e fiquei desapontado quando ela o fez.
"Hey," Tim nos chamou, sua voz amigável. "Vocês estão de volta."
Randy estava lá também e tinha no rosto sua expressão emburrada habitual. Francamente, eu estava
ficando um pouco cansado do ressentimento dele. Brad estava atrás de Susan, que se apoiava em
seu peito. Susan parecia estar indecisa entre fingir estar feliz, para poder descobrir os detalhes com
Savannah e ficar chateada em apoio a Randy. Os outros, obviamente indiferentes, voltaram para
suas conversas. Tim se levantou e veio até nós.
"Como foi o jantar?"
"Foi ótimo," Savannah disse. "Provei um pouco da cultura local. Fomos ao Shrimp Shack."
"Parece divertido," ele comentou.
Me esforcei para detectar algum traço de ciúme mas não achei nenhum. Tim fez um movimento por
sobre o ombro e falou. "Querem se juntar a nós? Estamos só relaxando, nos preparando para
amanhã."


"Na verdade, estou com um pouco de sono. Eu só ia levar o John até o carro dele e depois ia entrar.

À que horas devemos nos acordar?"

"Seis. Tomaremos café e estaremos na construção amanhã às sete e meia. Não esqueça seu protetor
solar. Ficaremos no sol o dia todo."
"Vou me lembrar. Você deveria relembrar todo mundo."
"Tenho que fazer isso," ele disse. "E lembrarei amanhã de novo. Mas espere só-algumas pessoas
não irão ouvir e vão fritar."
"Te vejo pela manhã," ela disse.
"Certo." Ele virou sua atenção pra mim. "Fico feliz que você tenha aparecido hoje."
"Eu também," eu disse.
"E escute, se você ficar entediado pelas próximas semanas, podemos sempre usar uma ajuda extra."
Eu ri. "Sabia que isso estava vindo."
"Sou quem eu sou," ele disse, estendendo sua mão. "Mas de qualquer modo, espero vê-lo
novamente."
Apertamos as mãos. Tim voltou para o seu lugar e Savannah indicou a casa com a cabeça. Andamos
em direção a duna, paramos para colocar nossas sandálias de volta e depois seguimos o caminho de
madeira, pela grama e ao redor da casa. Um minuto depois, estávamos no carro. No escuro, eu não
podia enxergar a expressão dela.
"Me diverti essa noite," ela disse. "E hoje."
Eu engoli. "Quando eu posso te ver de novo?"
Foi uma pergunta simples, até mesmo já esperada, mas fiquei surpreso ao ouvir o desejo no meu
tom. Eu ainda nem a tinha beijado.
"Eu acho," ela disse, "que isso depende de você. Você sabe onde eu estou."
"Que tal amanhã à noite?" Falei sem pensar. "Sei de outro lugar que tem uma banda e é muito
divertido."
Ela colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha. "Que tal na noite depois dessa? Tudo bem? É só
que o primeiro dia na construção é sempre... excitante e cansativo ao mesmo tempo. Temos um
grande jantar em grupo que eu realmente não deveria perder."
"Sim, tudo bem," eu disse, achando que não estava tudo bem de jeito nenhum.
"Ela deve ter ouvido alguma coisa na minha voz. "Como Tim disse, você é bem vindo para aparecer
se quiser."


"Não, tudo bem. A terça á noite está bom."


Continuamos lá parados, num daqueles momentos estranhos que eu provavelmente nunca irei me
acostumar, mas ela se virou antes que eu pudesse tentar um beijo. Normalmente, eu provavelmente
teria mergulhado pra frente só pra ver o que aconteceria; eu posso não ter sido aberto sobre meus
sentimentos, mas eu era impulsivo e rápido nas ações. Com Savannah, me senti estranhamente
paralisado. Ela também não parecia estar com nenhuma pressa.
Um carro passou, quebrando o feitiço. Ela deu um passo em direção à casa, então parou e colocou
sua mão no meu braço. Em um gesto inocente, ela me beijou na bochecha. Foi quase um beijo de
irmãos, mas seus lábios eram macios e seu aroma me engolfou, persistindo mesmo depois que ela se
afastou.
"Eu realmente me diverti," ela murmurou. "Não acho que irei esquecer desse dia por muito, muito
tempo."
Senti sua mão deixar meu braço e então em um sussurro ela desapareceu, subindo as escadas da
casa.
Mais tarde naquela noite em casa, me achei me revirando na cama, revivendo os eventos do dia.
Finalmente me sentei, desejando que tivesse contado a ela o quanto o nosso dia tinha significado
pra mim. Fora da minha janela, vi uma estrela cadente cruzar o céu em um brilhante risco branco.
Eu queria acreditar que era uma profecia, embora de que, eu não estava certo. Em vez disso, tudo o
que eu podia fazer era sentir de novo o beijo gentil de Savannah na minha bochecha pela centésima
vez e me perguntar como eu poderia estar me apaixonando por uma garota que eu só havia
conhecido no dia anterior.


Cinco


"Bom dia, pai," eu disse, cambaleando cozinha a dentro. Semicerrei meus olhos ao sentir a luz da
manhã brilhosa e vi meu pai parado em frente ao fogão. O cheiro de bacon preenchia o ar.
"Ah... oi, John."
Me joguei na cadeira, ainda tentando acordar. "É, eu sei que é cedo pra eu estar acordado, mas eu
queria te alcançar antes de você sair para o trabalho."
"Ah," ele disse. "Tá certo. Deixe só eu preparar mais um pouco de comida." Ele pareceu quase
animado, apesar dessa perturbação na rotina.
Eram momentos como esse que me deixavam saber que eu estava feliz por estar em casa. "Tem
café?" eu perguntei.
"Está na chaleira," ele disse.
Me servi de uma xícara e caminhei até a mesa. O jornal, que já tinha chegado, estava em cima da
mesa. Meu pai sempre o lia durante o café e eu sabia o bastante para não tocar nele. Ele sempre foi
engraçado sobre ser o primeiro a lê-lo e sempre o lia na mesma ordem exata.
Esperei meu pai perguntar como tinha sido a noite com Savannah, mas ele não disse nada,
preferendo se concentrar na cozinha. Olhando o relógio, eu sabia que Savannah estaria indo pra
construção em alguns minutos e me perguntei se ela estava pensando em mim tanto quanto eu
estava pensando nela.
Na correria do que, sem dúvida, era uma manhã caótica pra ela, eu duvidava que ela estivesse. Essa
descoberta me fez doer inesperadamente.
"O que você fez na noite passada?" finalmente perguntei, tentando tirar Savannah da minha mente.
Ele continuou a cozinhar como se não tivesse me ouvido. "Pai?" eu disse.
"Sim?" ele perguntou.
"Como foi na noite passada?"
"Como foi o que?"
"A sua noite. Algo excitante aconteceu?"
"Não," ele disse, "nada." Sorriu pra mim antes de colocar algumas tiras de bacon na frigideira. Eu
podia ouvir o chiado se intensificar.
"Eu me diverti," eu me voluntareei. "Savannah é realmente especial. Fomos juntos à igreja ontem."
De alguma forma eu pensei que ele me perguntaria mais sobre isso e vou admitir que queria que ele
o fizesse. Imaginei que pudéssemos ter uma conversa de verdade, do tipo que outros pais devem ter
com seus filhos, na qual ele sorri e talvez solta uma piada ou duas. Em vez disso, ele se virou pra
outra boca do fogão. Colocou óleo em uma pequena frigideira e adicionou o ovo batido.


"Você se importaria de colocar alguns pães na torradeira?" ele perguntou.


Suspirei. "Não," eu disse, já sabendo que comeríamos em silêncio. "Sem problemas."

Passei o resto do dia surfando, ou em vez disso, tentando surfar. O oceano havia se acalmado
durante a noite e as marolinhas não eram nada com o que se animar. Pra piorar, elas quebravam
mais perto da costa do que estavam quebrando no dia anterior, então mesmo que eu achasse
algumas que valessem a pena pegar, a experência não duraria muito antes da onda se acabar. No
passado, eu teria ido a Oak Island ou até dirigido até Atlantic Beach, onde eu poderia pegar uma
carona até Shackleford Banks na esperança de achar algo melhor. Hoje eu apenas não estava no
humor.
Em vez disso, surfei no mesmo lugar dos últimos dois dias. A casa era um pouco mais pra longe da
praia e parecia quase inabitada.
A porta de trás estava fechada, as toalhas não estavam mais ali e ninguém passava pela janela ou
saia para o deque. Me perguntei quando todos estariam voltando. Provavelmente lá pelas quatro ou
cinco horas e eu já tinha tomado minha decisão de que já não estaria mais ali a essa hora. Não havia
razão para estar aqui, em primeiro lugar e a última coisa que eu queria que Savannah penssasse era
que eu era algum tipo de perseguidor.
Fui embora lá pelas três e fui ao Leroy's. O bar estava mais escuro e deprimente do que eu me
lembrava e eu odiei o lugar assim que passei pela porta. Sempre pensei nele como um bar
profissional, como um bar para alcólatras profissionais e tive a prova disso quando vi homens
solitários erguendo copos das melhores bebidas do Tennesse, procurando por refúgio contra os
problemas da vida. Leroy estava lá e ele me reconheceu quando eu entrei. Quando me sentei no bar,
ele automaticamente trouxe um copo até a torneira de cerveja e começou a enchê-lo.
"Há quanto tempo," ele comentou. "Você está se mantendo fora de problemas?"
"Tentando," grunhi. Olhei o bar enquanto ele escorregava o copo na minha frente. "Gostei do que
você fez com o lugar," eu disse, fazendo um sinal por cima do ombro.
"Que bom. É tudo pra você. Vai comer alguma coisa?"
"Não. Isso está bom, obrigado."
Ele enxugou a bancada à minha frente depois lançou a toalha em trapos por cima do ombro e saiu
para pegar o pedido de outra pessoa. Um momento depois, senti uma mão em meu ombro.
"Johnny! O que você está fazendo aqui?"
Me virei e vi um dos muitos amigos que eu tinha passado a desprezar.
Era o jeito que era aqui. Eu odiava tudo no lugar, inclusive meus amigos e me dei conta de que
sempre foi assim. Não tinha idéia de porque eu tinha ido, ou nem mesmo porque eu tinha feito dessa
uma saída habitual, a não ser pelo fato de que tirando esse lugar eu não tinha mais nenhum aonde ir.
"Oi, Toby," eu disse.
Alto e raquítico, Toby se sentou ao meu lado e quando se virou para me encarar, vi que seus olhos já
estavam injetados. Ele fedia como se não tivesse tomado banho há dias e sua camisa estava
manchada. "Você ainda está fazendo o papel de Rambo?" ele perguntou, pronunciando as palavras


indistintamente. "Parece que você andou malhando."


"É," eu disse, não querendo entrar no assunto. "O que você está fazendo esses dias?"

"Saindo, principalmente. Pelas últimas semanas, de qualquer forma. Eu estava trabalhando no
Quick Stop até algumas semanas atrás, mas o dono era um verdadeiro babaca."
"Ainda morando em casa?"
"Claro," ele disse, parecendo quase orgulhoso do fato. Ele inclinou a garrafa e deu um longo gole,
depois se concentrou nos meus braços. "Você parece bem. Andou malhando?" ele perguntou de
novo.
"Um pouco," eu disse, sabendo que ele não se lembrava de já ter perguntado aquilo.
"Você está grande."
Não pude pensar em nada pra dizer. Toby tomou outro gole.
"Ei, tem uma festa hoje na casa de Mandy," ele disse. "Você lembra da Mandy, né?"
É, eu lembrava. Uma garota do meu passado que durou menos que um final de semana. Toby ainda
estava falando.
"Os pais dela estão em Nova York ou algum lugar assim e vai ser um estouro. Só estamos tendo
uma pré festa pra nos colocar no humor apropriado. Quer se juntar a nós?"
Ele indicou por cima do ombro quatro caras em uma mesa de canto aninhados com três jarras
vazias. Reconheci dois da minha vida passada, mas os outros eram desconhecidos.
"Não posso," eu disse, "tenho que encontrar meu pai para jantar. Obrigado, mesmo assim."
"Ignore ele. Vai ser um estrondo. Kim vai estar lá."
Outra mulher do meu passado, outra lembrança que me fez estremecer por dentro. Eu mal podia
suportar a pessoa que eu costumava ser. "Não posso," eu disse, sacudindo a cabeça. Me levantei,
deixando o copo quase cheio na minha frente. "Eu prometi. E ele está me deixando ficar com ele.
Você sabe como é."
Isso fez sentido pra ele e ele assentiu. "Então vamos sair esse fim de semana. Alguns de nós vão
para Ocracoke surfar."
"Talvez," eu disse, sabendo que não havia chance.
"Seu pai ainda tem o mesmo número?"
"É," eu disse.
Eu fui embora, certo de que ele não ligaria e de que eu nunca mais retornaria ao Leroy's.
No caminho pra casa, comprei carne, um saco de salada, tempero e algumas batatas para o jantar.
Sem um carro não era fácil carregar a sacola e minha prancha todo o caminho de volta pra casa, mas


eu relamente não me importava de caminhar. Tinha feito isso por anos e meus sapatos eram muito

mais confortáveis do que as botas que eu estava acostumado a usar.

Assim que cheguei em casa, arrastei a churrasqueira da garagem junto com um saco de carvão e
àlcool. A churrasqueira estava empoeirada, como se não tivesse sido usada por anos. Eu a coloquei
na varanda de trás da casa e tirei as cinzas antes de limpar as teias de aranha com uma mangueira e
a deixei secando no sol. Dentro de casa, eu coloquei sal, pimenta e pó de alho nas carnes, enrolei as
batatas em papel alumínio e as coloquei no forno, depois coloquei a salada em uma tigela. Quando a
churrasqueira secou, acendi os carvões e servi a mesa do lado de fora.
Meu pai entrou no momento em que eu estava colocando as carnes na churrasqueira. "Oi, pai," eu
disse por cima do ombro. "Pensei em fazer um jantar pra nós hoje à noite."
"Ah," ele disse. Pareceu levar um instante para compreender o fato de que ele não cozinharia pra
mim. "Certo," ele finalmente adicionou.
"Como você quer sua carne?"
"Média," ele disse. Continuou em pé perto da porta de vidro corrediça.
"Parece que você não tem usado a churrasqueira desde que eu fui embora," eu disse. "Mas você
deveria. Não há nada melhor do que um bife grelhado. Minha boca estava se enchendo de àgua
durante todo o caminho pra casa."
"Vou trocar de roupa."
"As carnes estarão prontas em dez minutos."
Quando ele saiu eu voltei á cozinha, peguei as batatas e a tigela de salada-junto com o tempero, a
manteiga e o molho para carnes-e os coloquei na mesa. Ouvi a porta do terraço se abrir e meu pai
apareceu carregando dois copos de leite, parecendo um turista de um cruzeiro. Ele vestia bermuda,
meias pretas, tênis e uma camiseta florida havaiana. Suas pernas eram dolorosamente brancas, como
se ele não vestisse bermuda há anos. Se é que ele já tinha vestido alguma vez. Pensando bem, acho
que eu nunca tinha visto ele de bermuda. Dei o melhor de mim pra fingir que ele parecia normal.
"Na hora certa," eu disse, voltando para a churrasqueira. Enchi os dois pratos com carne e coloquei
um na frente dele.
"Obrigado," ele disse.
"Não há de que."
Ele colocou salada no seu prato e polvilhou o tempero, depois desenrolou sua batata. Colocou
manteiga, depois molho de carne, fazendo uma pequena poça. Normal e esperado, a não ser pelo
fato de que ele fez tudo isso em silêncio.
"Como foi seu dia?" eu disse, como sempre.
"O mesmo," ele respondeu. Como sempre. Sorriu novamente, mas não disse mais nada.
Meu pai, o anti social. Me perguntei de novo porque ele achava tão difícil conversar e tentei
imaginar como ele era na sua juventude. Como ele tinha achado alguém pra casar? Eu sabia que a


última pergunta soava mesquinha, mas não tinha vindo sem querer. Eu estava curioso de verdade.

Comemos por um tempo, o ruído dos garfos era o único som que nos fazia companhia.

"Savannah disse que queria lhe conhecer," eu disse finalmente, tentando novamente.
Ele cortou sua carne. "Sua amiga?"
Só o meu pai falaria desse jeito. "É," eu disse. "Acho que você iria gostar dela."
Ele assentiu.
"Ela estuda na UNC," expliquei.
Ele sabia que era a vez dele e eu pude sentir o seu alívio quando outra pergunta veio à sua mente.
"Como você a conheceu?"
Contei a ele sobre a bolsa, detalhando a história, tentando fazê-la o mais humorada possível, mas o
riso passou longe dele.
"Isso foi típico de você," ele observou.
Outro cortador de conversas. Cortei outro pedaço de carne. "Pai? Você se importa se eu lhe fizer
uma pergunta?"
"Claro que não."
"Como você conheceu a mamãe?"
Era a primeira vez que eu perguntava por ela em anos. Porque ela nunca tinha sido parte da minha
vida, porque eu não tinha memórias dela, eu raramente sentia a necessidade de perguntar. Até
mesmo agora, eu realmente não me importava; eu só queria que ele falasse comigo. Ele levou
tempo colocando mais manteiga em sua batata e eu sabia que ele não queria responder.
"Nos conhecemos em um pequeno restaurante," ele disse finalmente. "Ela era garçonete." Eu
esperei. Me pareceu que nada mais viria.
"Ela era bonita?"
"Sim," ele disse.
"Como ela era?"
Ele machucou a batata e colocou sal com cuidado. "Ela era como você," ele concluiu.
"Como assim?"
"Humm..." ele hesitou. "Ela podia ser... teimosa."
Eu não tinha certeza o que pensar e nem o que ele quis dizer. Antes que eu pudesse insistir nisso, ele
se levantou da mesa e agarrou seu copo.
"Você quer mais leite?" perguntou e eu sabia que ele não diria mais nada sobre ela.


Seis


O tempo é relativo. Sei que não sou o primeiro a me dar conta disso, estou longe de ser um dos mais
famosos e minha descoberta não teve nada a ver com energia, massa, a velocidade da luz ou
qualquer coisa que Eisntein possa ter postulado. Em vez disso, tinha a ver com as longas e chatas
horas que esperei por Savannah.
Depois que meu pai e eu terminamos de jantar eu pensei nela; pensei nela novamente assim que
acordei. Passei o dia surfando e apesar das ondas estarem melhores do que estavam no dia anterior,
eu não conseguia me concentrar e decidi parar ao meio dia. Debati se compraria ou não um
cheseburguer em uma pequena lanchonete na beira mar-os melhores hamburguers da cidade, à
propósito-mas mesmo estando afim, eu simplesmente fui pra casa, esperando que pudesse
convencer Savannah a comer um hamburguer mais tarde. Li um pouco do livro mais novo do
Stephen King, tomei banho e vesti um par de calças e uma camisa pólo, depois li por mais algumas
horas antes de olhar para o relógio e me dar conta de que só tinham se passado vinte minutos. Foi
isso que eu quis dizer com o tempo ser relativo.
Quando meu pai chegou em casa, ele viu como eu estava vestido e me ofereceu suas chaves.
"Está indo ver Savannah?" ele perguntou.
"Sim," eu disse, me levantando do sofá. Peguei as chaves. "Vou voltar tarde."
Ele coçou a cabeça. "Certo," ele disse. "Café amanhã?"
"Certo." Por algum motivo que eu não pude entender, ele parecia quase assustado.
"Certo," eu disse. "Vejo você mais tarde, tá?"
"Eu provavelmente estarei dormindo."
"Não quis dizer literalmente."
"Ah," ele disse. "Certo."
Me encaminhei para a porta. Assim que a abri, ouvi ele suspirar. "Eu gostaria de conhecer Savannah
também," ele disse com uma voz tão suave que eu mal ouvi.
O céu ainda estava brilhante e o sol estava se inclinando por sobre a àgua quando eu cheguei à casa.
Quando desci do carro, percebi que estava nervoso. Não conseguia me lembrar da última vez que
alguma garota tinha me feito ficar nervoso, mas eu não podia dispensar o pensamento de que de
alguma forma, as coisas podiam ter mudado entre nós. Eu não sabia como ou por que eu me sentia
daquele jeito; tudo o que sabia era que ainda não tinha certeza do que faria se meus medos se
confirmassem.
Não me dei ao trabalho de bater e simplesmente entrei na casa. A sala estava vazia, mas eu podia
ouvir vozes no hall e havia o grupo habitual de pessoas no deque traseiro. Saí para o deque,
chamando por Savannah e me disseram que ela estava na praia.
Desci para a areia e congelei quando a vi sentada perto da duna, junto a Randy, Brad e Susan. Ela
não tinha me notado e eu ouvi ela rir de alguma coisa que Randy disse. Ela e Randy pareciam um
casal tanto quanto Susan e Brad. Eu sabia que eles não eram, que eles provavelmente estavam só


conversando sobre a casa que estavam construindo ou compartilhando experiências dos últimos

dias, mas eu não gostei. Nem gostei do fato que Savannah estava sentada tão perto de Randy quanto
ela esteve de mim. Enquanto estava em pé ali, me perguntei se ela sequer lembrava do nosso
encontro, mas ela sorriu quando me viu como se nada estivesse errado.
"Aí está você," ela disse. "Estava me perguntando quando você iria aparecer."
Randy sorriu, apesar do comentário dela, ele tinha uma expressão quase vitoriosa. Quando os gatos
não estão, os ratos fazem a festa, ele parecia estar dizendo.
Savannah se levantou e caminhou na minha direção. Ela estava vestindo uma blusa branca sem
mangas e uma saia clara e solta que balançava quando ela andava. Eu podia ver a cor adicional em
seus ombros que me dizia que ela tinha passado horas ao sol. Quando se aproximou, ela ficou na
ponta dos pés e plantou um beijo na minha buchecha.
"Oi," ela disse, colocando um braço em volta da minha cintura.
"Oi."
Ela se inclinou para trás ligeiramente, como se analizasse minha expressão. "Você parece ter sentido
a minha falta," ela disse, sua voz provocando.
Como sempre, eu não pude pensar em uma resposta e ela piscou com a minha inabilidade de admitir
que eu tinha. "Talvez eu tenha sentido sua falta também," ela acrescentou.
Toquei seu ombro nu. "Pronta pra ir?"
"Como sempre estarei," ela disse.
Começamos a andar em direção ao carro e eu peguei a mão dela, seu toque me fazendo sentir como
se tudo estivesse certo com o mundo. Bem, quase...
Eu me endireitei. "Vi você falando com o Randy," eu disse, tentando manter minha voz neutra.
Ela apertou minha mão. "Você viu, não foi?"
Tentei de novo. "Presumo que vocês puderam se conhecer enquanto estavam trabalhando."
"Com certeza pudemos. Eu estava certa também. Ele é um jovem legal. Quando acabar aqui, ele vai
pra Nova York fazer um estágio em Morgan Stanley."
"Hmm," eu grunhi.
Ela riu. "Não me diga que você está com ciúmes."
"Não estou."
"Que bom," ela concluiu, apertando minha mão novamente. "Porque não há razão para estar."
Me agarrei a essas últimas palavras. Ela não precisava tê-las dito, mas eu não podia estar mais feliz
porque ela tinha dito. Quando chegamos ao carro, abri sua porta.


"Estava pensando em te levar no Oysters," eu disse. "É um clube noturno perto da praia. Eles terão

uma banda mais tarde e nós podemos dançar."

"O que iremos fazer até lá?"
"Está com fome?" perguntei, pensando no cheeseburguer que eu tinha passado mais cedo.
"Um pouco," ela disse. "Fiz um lanche quando voltei, então ainda não estou com muita fome."
"Que tal caminharmos na praia?"
"Hmm... talvez mais tarde."
Era óbvio que ela já tinha algo em mente. "Por que você não me diz o que quer fazer?"
Ela se iluminou. "Que tal irmos dar um oi ao seu pai?"
Eu não tinha certeza se ouvira direito. "Sério?"
"Sim, sério," ela disse. "Só por um tempinho. Depois podemos ir comer em algum lugar e ir
dançar."
Quando hesitei, ela colocou uma mão no meu ombro. "Por favor?"
Eu não estava muito feliz em ir, mas o jeito que ela pediu fez com que fosse impossível pra mim
dizer não. Estava me acostumando a isso, eu imagino, mas eu preferiria ter ela toda só para mim
pelo resto da tarde. Também não entendi porque ela queria ver meu pai esta noite, a não ser que
significasse que ela não estava tão animada quanto eu com a perspectiva de ficarmos sozinhos. Pra
ser honesto, essa idéia me deprimiu. Ainda assim, ela estava de bom humor enquanto falava do
trabalho que eles tinham feito nos últimos dois dias. Amanhã, planejavam começar as janelas.
Randy, ela soltou, estava trabalhando ao seu lado nos dois dias, o que explicava a "amizade recém
descoberta" deles. Foi como ela descreveu. Eu duvidava que Randy teria descrito seus interesses da
mesma maneira.
Estacionamos na garagem alguns minutos depois e eu notei uma luz na toca do meu pai. Quando
desliguei o motor, brinquei com as chaves antes de sair do carro.
"Eu te disse que meu pai é quieto, não disse?"
"Sim," ela disse. "Mas não importa. Eu só quero conhecê-lo."
"Por quê?" eu perguntei. Sei o que pareceu, mas eu não pude evitar.
"Porque," ela disse, "ele é sua única família. E foi ele quem te criou."
Uma vez que meu pai tinha superado o choque do meu retorno com Savannah a reboque e as
apresentações tinham sido feitas, ele passou a mão rapidamente por seu cabelo ralo e encarou o
chão.
"Desculpa nós não termos ligado antes, mas não culpe o John," ela disse. "Foi tudo minha culpa."
"Ah," ele disse. "Tudo bem."


"Pegamos você em uma má hora?"


"Não." Ele olhou pra cima, depois para o chão novamente. "É um prazer conhecê-la," ele disse.

Por um momento, ficamos todos em pé na sala, nenhum de nós dizendo nada. Savannah estava com
um sorriso fácil, mas eu me perguntei se meu pai sequer tinha notado.
"Você quer beber alguma coisa?" ele perguntou, como se de repente lembrasse que era pra fazer o
papel de anfitrião.
"Estou bem, obrigada," ela disse. "John me disse que você é um colecionador de moedas."
Ele se virou para mim, como se se perguntasse se deveria responder. "Eu tento," ele disse
finalmente.
"Foi isso que nós interrompemos tão rudemente?" ela perguntou, usando o mesmo tom provocador
que ela usava comigo. Para minha surpresa, ouvi meu pai dar uma risada nervosa. Não alta, mas
uma risada todavia: surpreendente.
"Não, vocês não interromperam. Só estava examinando uma moeda nova que eu comprei hoje."
Enquanto ele falava, eu podia sentí-lo tentar calcular como eu reagiria. Ou Savannah não notou ou
fingiu não notar. "Sério?" ela perguntou, "De que tipo?"
Meu pai mudou o peso de um pé para o outro. Então, para a minha perplexidade, ele olhou pre cima
e perguntou, "Você quer ver?"
Passamos quarenta minutos na toca. Na maior parte do tempo eu sentei na toca e ouvi meu pai
contar estórias que eu sabia de cor. Como os colecionadores mais sérios, ele mantinha só algumas
moedas em casa e eu não fazia a menor idéia de onde o resto delas estavam guardadas. Ele
alternava parte da coleção a cada duas semanas, novas moedas aparecendo como se por mágica.
Geralmente não havia mais do que uma dúzia por vez em seu escritório e nunca nada de valor, mas
eu tinha a impressão de que ele poderia estar mostrando a Savannah um centavo comum de Lincoln
e ela teria ficado encantada. Ela fez dúzias de perguntas, perguntas que eu ou qualquer livro de
coleção de moedas poderiam ter respondido, mas enquanto os minutos passavam, suas perguntas se
tornaram mais perspicazes. Em vez de perguntar por que uma moeda era particularmente valiosa,
ela perguntava quando e onde ele a tinha encontrado e ela foi convidada a escutar contos de finais
de semana tediosos da minha juventude, passados em lugares como Atlanta, Charleston, Raleigh e
Charlotte.
Meu pai falou muito sobre essas viajens. Bem, para ele, de qualquer forma. Ele ainda tinha a
tendência de se refugiar nele mesmo por longos períodos de tempo, mas provavelmente tinha falado
mais nesses quarenta minutos do que tinha falado comigo desde que voltei pra casa. Da minha
posição estratégica, vi a paixão a que ela tinha se referido, mas era uma paixão que eu já tinha visto
antes milhares de vezes e não alterou minha opinião de que ele usava as moedas como um modo de
evitar a vida ao invés de enfrentá-la. Eu tinha parado de conversar com ele sobre moedas porque
queria conversar sobre outra coisa; meu pai parou de conversar porque ele sabia como eu me sentia
e não podia falar de mais nada.
E ainda assim...


Meu pai estava feliz e eu sabia disso. Eu podia ver o modo como seus olhos brilhavam quando ele

indicava uma moeda, chamando atenção para a marca da Casa da Moeda, ou quão novo o selo tinha
sido, ou como o valor de uma moeda podia variar se ela tivesse flechas ou coroas. Ele mostrou a
Savannah provas de moedas, moedas cunhadas em West Point, um dos seus tipos favoritos pra
colecionar. Ele pegou uma lupa para mostrá-la as imperfeições na moeda e quando Savannah
segurou a lupa, eu podia ver a animação no rosto do meu pai. Apesar dos meus sentimentos sobre
moedas, eu não pude evitar sorrir, simplesmente por ver meu pai tão feliz.
Mas ele ainda era meu pai e não havia milagre. Uma vez que ele tinha mostrado as moedas e
contado a ela tudo sobre elas e como elas tinham sido coletadas, seus comentárias ficaram mais e
mais escassos. Ele começou a se repetir e percebeu isso, se refugiando e ficando ainda mais quieto.
Com o tempo, Savannah deve ter sentido seu desconforto crescente porque ela indicou as moedas
em cima da mesa. "Obrigada, Sr. Tyree. Sinto como se realmente tivesse aprendido algo." Meu pai
sorriu, obviamente esgotado e eu tomei isso como minha deixa para me levantar.
"É, foi ótimo. Mas nós deveríamos ir," eu disse.
"Ah... certo."
"Foi ótimo conhecê-lo."
Quando meu pai assentiu novamente, Savannah se inclinou e lhe deu um abraço.
"Vamos fazer isso de novo alguma hora," ela sussurrou e embora meu pai tivesse abraçado ela, me
lembrou dos abraços sem vida que eu recebera quando criança. Me perguntei se ela se sentia tão
esquisita como ele obviamente se sentia.
No carro, Savannah parecia perdida em pensamentos. Eu teria perguntado sobre suas impressões do
meu pai, mas não estva certo se queria ouvir a resposta. Sei que meu pai e eu não tínhamos a melhor
relação, mas ela estava certa quando disse que ele era a única família que eu tinha e tinha me criado.
Eu podia reclamar dele, mas a última coisa que eu queria ouvir era alguém fazendo isso também.
Ainda assim, eu não acho que ela iria dizer alguma coisa negativa, simplesmente porque não era da
sua natureza e então ela se virou para mim.
"Obrigada por me trazer pra conhecê-lo," ela disse. "Ele tem um coração tão... caloroso."
Eu nunca tinha ouvido ninguém descrevê-lo dessa forma, mas eu gostei. "Fico feliz que você tenha
gostado dele."
"Eu gostei," ela disse, parecendo sincera. "Ele é... gentil." Ela me olhou. "Mas eu acho que entendo
por que você teve tantos problemas quando era mais jovem. Ele não me pareceu o tipo de pai que
estabelece leis."
"Ele não era," eu concordei.
Ela me mostrou uma carranca brincalhona. "E o seu antigo eu maligno tirou proveito disso."
Eu ri. "É, eu suponho que sim."
Ela balançou a cabeça. "Você deveria saber."


"Eu era só uma criança."


"Ah, a velha desculpa da juventude. Você sabe que isso não justifica, não sabe? Eu nunca tirei
proveito dos meus pais."
"Sim, a criança perfeita. Acho que você já mencionou isso."
"Você está zombando de mim?"
"Não, é claro que não."
Ela continuou a me encarar. "Eu acho que está," ela finalmente decidiu.
"Certo, talvez um pouco."
Ela pensou na minha resposta. "Bem, talvez eu tenha merecido isso. Mas só pra você saber; eu não
era perfeita."
"Não?"
"Claro que não. Eu lembro claramente, por exemplo, que na quarta série eu tirei um B num teste."
Eu fingi choque. "Não! Não me diga isso!"
"É verdade."
"Como você conseguiu se recuperar?"
"Como você acha?" Ela encollheu os ombros. "Disse a mim mesma que isso nunca mais aconteceria
novamente."
Eu não duvidava. "Já está com fome?"
"Pensei que você nunca perguntaria."
"O que você quer comer?"
Ela amarrou o cabelo em um rabo de cavalo descuidado, depois respondeu. "Que tal um grande e
suculento cheeseburguer?"
Assim que ela disse isso eu me peguei me perguntando se Savannah era boa demais pra ser verdade.


Sete


"Eu tenho que admitir que você me leva pra comer nos lugares mais interessantes," Savannah disse,
olhando por cima do ombro. À distância, depois da duna, podíamos ver uma longa linha de clientes
saindo do Joe's Burguer Stand no meio de um estacionamento de cascalho.
"É o melhor na cidade," eu disse, mordendo um pedaço do meu enorme hamburguer.
Savannah sentou perto de mim na areia, olhando a àgua. Os hamburguers estavam fantásticos, bem
grossos e embora as batatas fritas estivessem um pouco oleosas demais, elas eram o que
precisávamos. Enquanto comia, Savannah encarava o mar e na luz que diminuia eu me peguei
pensando que ela parecia mais em casa aqui do que eu.
Pensei sobre o modo como ela tinha falado com meu pai. Sobre o modo como ela falava com todo
mundo, qualquer pessoa, inclusive comigo. Ela tinha a rara habilidade de ser exatamente o que as
pessoas precisavam quando estava com elas e ainda assim permanecer ela mesma. Eu não podia
pensar em mais ninguém que a lembrasse remotamente em aparência e personalidade e me
perguntei novamente por que ela tinha simpatizado comigo. Nós éramos tão diferentes quanto duas
pessoas podiam ser. Ela era uma garota da montanha, prendada e doce, criada por pais atentos, com
um desejo de ajudar aqueles que precisam; eu era um cara tatuado do exército, difícil por fora e em
grande parte um estranho na minha própria casa. Lembrando como ela tinha sido com meu pai, me
peguei desejando que eu fosse mais como ela.
"O que você está pensando?"
Sua voz, ainda que gentil, me afastou dos meus pensamentos. "Estava me perguntando por que você
está aqui," confessei.
"Porque eu gosto da praia. Não posso fazer isso com muita frequência. Não é como se tivesse ondas
ou barcos de camarão lá de onde eu sou."
Quando viu minha expressão, ela bateu levemente na minha mão. "Isso foi sem importância," ela
disse, "Me desculpe. Estou aqui porque eu quero estar aqui." Coloquei de lado os restos do meu
hamburguer, me perguntando por que eu me importava tanto. Era um sentimento novo para mim,
um que eu não tinha certeza se iria me acostumar com ele algum dia. Ela acariciou meu braço e
virou para a àgua novamente. "Aqui é lindo. Tudo o que precisamos é de um pôr do sol sobre a àgua
e seria perfeito."
"Teríamos que ir para o outro lado do país," eu disse.
"Sério? Você está querendo me dizer que o sol se põe no oeste?" Notei o brilho travesso nos olhos
dela.
"É o que eu ouço, de qualquer forma."
Ela tinha comido só metade do seu cheeseburguer e o colocou dentro da sacola, depois adicionou os
restos do meu também. Depois de dobrar a sacola para que o vento não a levasse embora, ela
esticou as pernas e se virou para mim, parecendo ao mesmo tempo namoradeira e inocente. "Quer
saber no que eu estava pensando?" ela perguntou.
Esperei, bebendo da visão que eu tinha dela.


"Estava pensando que eu queria que você tivesse estado comigo durante os dois últimos dias. Quer

dizer, gostei de conhecer todo mundo melhor. Almoçamos juntos e o jantar da noite passada foi bem
divertido, mas parecia que algo estava errado, como se eu estivesse sentindo falta de alguma coisa.
Só quando o vi caminhando na praia foi que me dei conta de que era você."
Engoli. Em outra vida, em outros tempos, eu a teria beijado, mas mesmo querendo, eu não beijei.
Em vez disso, tudo o que eu fazia era encará-la. Ela encontrou meu olhar sem nenhum traço de
constrangimento.
"Quando você me perguntou por que eu estava aqui, fiz uma piada porque pensei que fosse óbvio.
Passar meu tempo com você parece... certo de algum modo. Fácil, do jeito que é pra ser. Como é
com os meus pais. Eles ficam confortáveis juntos e eu lembro de crescer pensando que um dia eu
queria ter isso também." Ela fez uma pausa. "Queria que você os conhecesse algum dia."
Minha garganta tinha ficado seca. "Eu também."
Ela escorregou facilmente sua mão na minha, seus dedos se entrelaçando nos meus próprios.
Ficamos sentados em um silêncio tranquilo. Na beira da água, andorinhas do mar vasculhavam a
areia em busca de comida; um grupo de gaivotas voou enquanto uma onda vinha. O céu tinha ficado
mais escuro e as nuvens eram mais agourentas. Na praia mais acima, eu podia ver casais espalhados
caminhando sob um céu arroxeado.
Enquanto estávamos sentados juntos, o ar se encheu com o barulho das ondas quebrando. Me
maravilhei com o quanto tudo parecia novo. Novo e ainda assim confortável, como se nos
conhecéssemos desde sempre. Mas nós não éramos um casal de verdade. Nem, uma voz na minha
cabeça me lembrou, era provável que fôssemos. Em pouco mais de uma semana, eu estaria voltando
para a Alemanha e tudo isso estaria acabado. Eu tinha passado tempo suficiente com meus amigos
pra saber que leva mais do que alguns dias especiais para uma relação que cruza o Oceano Atlântico
sobreviver. Ouvi caras na minha unidade jurarem que estavam apaixonados depois de voltar da
licença-e talvez eles estivessem-mas nunca durava.
Passar algum tempo com Savannah me fez me perguntar se era possível desafiar a norma. Eu queria
mais dela e não importava o que acontecesse entre nós, eu já sabia que nunca esqueceria nada sobre
ela. Apesar de parecer loucura, ela estava se tornando parte de mim e eu já temia o fato de que nós
não poderíamos passar o dia de amanhã juntos. Nem o dia depois, ou o dia depois disso. Talvez,
falei para mim mesmo, nós pudessemos derrubar as apostas.
"Olha ali!" A ouvi gritar. Ela apontou o dedo em direção ao oceano. "Na quebra das ondas!"
Escaneei o oceano cinza mas não vi nada.
Ao meu lado, Savannah de repente se levantou e começou a correr em direção a água.
"Vem!" ela gritou por cima do ombro. "Rápido!"
Me levantei e corri atrás dela, intrigado. Correndo mais rapidamente, eliminei a distância entre nós.
Ela parou na borda da água e eu podia ouvir sua respiração rápida.
"O que foi?" eu disse.
"Bem ali!"


Quando olhei, vi ao que ela estava se referindo. Três deles estavam pegando ondas, um após o

outro, depois desaparecendo no raso, apenas para reaparecer de novo mais longe na praia.

"Jovens botos," eu disse. "Eles passam pela ilha quase toda noite."
"Eu sei," ela disse, "mas parece que eles estão surfando."
"É, acho que sim. Eles estão apenas se divertindo. Agora que todos estão fora d'água, eles se sentem
seguros para brincar."
"Quero entrar lá com eles. Sempre quis nadar com golfinhos."
"Eles vão parar de brincar, ou simplesmente nadar mais pro fundo onde você não possa alcançá-los.
Eles são divertidos desse jeito. Eu já os vi enquanto surfava. Se ficam curiosos, eles se aproximam
alguns metros e te olham de cima a baixo, mas se você tentar seguí-los, eles vão te fazer comer
poeira."
Continuamos assistindo os botos enquanto eles se afastavam, eventualmente desaparecendo da
visão sob um céu que tinha ficado opaco.
"Nós deveríamos ir," eu disse.
Voltamos ao carro, parando para pegar os restos do nosso jantar.
"Não tenho certeza se a banda já está tocando, mas não deve demorar."
"Não importa," ela disse. "Tenho certeza que podemos encontrar alguma coisa para fazer. Além
disso, eu devo alertá-lo, não sou muito de dançar."
"Nâo temos que ir se você não quiser. Poderíamos ir a outro lugar se você quiser."
"Como aonde?"
"Você gosta de barcos?"
"Que tipo de barcos?"
"Dos grandes," eu disse. "Sei de um lugar onde você pode ver o USS North Carolina."
Ela fez uma careta engraçada e eu sabia que a resposta era não. Não foi a primeira vez que eu
desejei ter minha própria casa. Mas novamente, eu não tinha nehuma ilusão de que ela me seguiria
até lá se eu tivesse. Se eu fosse ela, não iria também. Sou apenas humano.
"Espera," ela disse, "eu sei de um lugar que podemos ir. Quero lhe mostrar uma coisa."
Intrigado, eu perguntei, "Onde?"
Considerando que o gupo de Savannah tinha começado seu trabalho apenas ontem, a casa estava
surpreendentemente encaminhada. A maior parte da estrutura já estava terminada e o teto também já
tinha sido construído. Savannah olhou pra fora da janela do carro antes de se virar para mim.


"Você quer caminhar por lá? Ver o que estamos fazendo?"


"Eu adoraria," eu disse.

A segui pra fora do carro, notando o jogo da luz da lua em seus traços. Quando pisei na terra do
lugar da construção, me dei conta de que podia ouvir músicas de um rádio saindo de uma das
janelas da cozinha dos vizinhos. A alguns passos da entrada, Savannah indicou a estrutura com um
óbvio orgulho. Me aproximei o bastante para passar meu braço em volta dela e ela inclinou sua
cabeça nos meus ombros enquanto relaxava.
"Foi aqui que passei os últimos dois dias," ela quase sussurrou na quietude da noite. "O que você
acha?"
"É ótimo," eu disse. "Aposto que a família está emocionada."
"Eles estão. E eles são uma família tão boa. Realmente merecem esse lugar, tem sido um esforço tão
grande para eles. O furacão Fran destruiu sua casa, mas como muitos outros, eles não tinham seguro
de inundação. É uma mãe solteira com três filhos-o marido dela saiu de casa anos atrás-e se você
conhecesse a família, os amaria. As crianças tem boas notas e cantam no coral jovem da igreja. E
eles são tão educados e carinhosos... você percebe que a mãe deles deu duro pra se certificar que
eles se dessem bem, sabe?"
"Você os conheceu, eu presumo?"
Ela acenou em direção a casa. "Eles estiveram aqui nos dois últimos dias." Ela se endireitou. "Você
quer olhar por dentro?"
Relutante, eu a soltei. "Vá na frente."
Não era um lugar grande-mais ou menos do mesmo tamnaho da casa do meu pai-mas o plano do
teto era mais aberto, o que fazia com que a casa parecesse maior. Savannah me levou pela mão e me
mostrou todos os cômodos, ressaltando características, a imaginação dela se enchendo com os
detalhes. Ela refletiu sobre o papel de parede ideal para a cozinha e a cor dos ladrilhos da entrada, o
tecido das cortinas da sala e como decorar a bancada em cima da lareira. Sua voz tinha a mesma
admiração e alegria que ela tinha expressado quando viu os botos. Por um momento, eu tive uma
visão de como ela devia ter sido quando criança.
Ela me levou de volta para a porta da frente. À distância, os primeiros estrondos de trovões podiam
ser ouvidos. Enquanto estávamos em pé no vão da porta, me aproximei dela.
"Vai ter uma varanda também," ela disse, "com espaço suficiente para cadeiras de balanço ou até
um balanço mesmo. Eles vão poder sentar aqui em noites de verão e se reunir depois da igreja." Ela
apontou. "Aquela é a igreja deles. É por isso que esse lugar é tão perfeito pra eles."
"Parece que você realmente os conheceu."
"Não realmente," ela disse. "Falei com eles um pouco, mas estou só chutando tudo isso. Fiz isso
com todas as casas que ajudei a construir-fico andando por elas e tentando imaginar como a vida
dos donos vai ser. Fica muito mais divertido trabalhar assim."
A lua estava escondida por nuvens, escurecendo o céu. No horizonte, um clarão, e um momento
depois uma chuva fina começou a cair, batendo no chão. Os carvalhos alinhando a rua, pesados com


folhas, farfalhavam na brisa enquanto os trovões ecoavam pela casa.


"Se você quiser ir, é melhor irmos antes da tempestade começar."

"Nós não temos nenhum lugar pra ir, lembra? Além disso, eu sempre amei tempestades de trovões."
Puxei ela mais pra perto, inalando seu perfume. Seu cabelo tinha um cheiro doce, como morangos
maduros.
Enquanto observávamos, a chuva se intensificou em um constante toró, caindo do céu em diagonal.
As lâmpadas da rua forneciam a única luz, deixando metade do rosto de Savannah nas sombras.
Os trovões explodiam acima de nossas cabeças e a chuva começou a cair em chapas. Eu podia ver a
chuva caindo no chão coberto de serragem, formando grandes poças na sujeira e eu estava
agradecido porque apesar da chuva, a temperatura estava amena. Ao lado, eu notei alguns caixotes
vazios. Sai do lado dela para pegá-los, depois comecei a empilhá-los em um assento improvisado.
Não seria tão confortável, mas era melhor do que ficar em pé.
Quando Savannah sentou ao meu lado, eu de repente soube que vir aqui tinha sido a melhor coisa a
se fazer. Era a primeira vez que nós estávamos realmente sozinhos, mas sentados lado a lado era
como se estivéssemos juntos desde sempre.


Oito


Os caixotes, duros e impiedosos, me fizeram questionar a minha sabedoria, mas Savannah não
pareceu se importar. Ou fingiu não se importar. Ela se inclinou pra trás, sentiu a beira do caixote
traseiro pressionar sua pele, depois sentou direito novamente.
"Desculpe," eu disse, "Pensei que seria mais confortável."
"Tudo bem. Minhas pernas estão exaustas e meus pés doem. Isso é perfeito."
Sim, eu pensei, era. Pensei nas noites que eu estava no dever de guarda e ficava imaginando sentar
ao lado da garota dos meus sonhos e sentindo que tudo estava certo com o mundo. Agora eu sabia
do que tinha sentido falta todos esses anos. Quando senti Savannah descansar a cabeça em meus
ombros, me peguei desejando que não tivesse me alistado no exército. Queria que a minha base não
fosse depois de um oceano, e queria ter escolhido um caminho diferente na vida, um que teria me
deixado permanecer como uma parte do mundo dela. Ser um estudante em Chapel Hill, passar parte
do verão construindo casas, cavalgar com ela.
"Você está muito quieto," a ouvi falar.
"Desculpe," eu disse. "Só estava pensando sobre hoje à noite."
"Coisas boas, eu espero."
"É, coisas boas," eu disse.
Ela mudou de posição no assento e eu senti sua perna roçar a minha. "Eu também. Mas eu estava
pensando no seu pai," ela disse. "Ele sempre foi como hoje? Meio tímido e desviando o olhar
quando fala com as pessoas?"
"Sim," eu disse. "Por quê?"
"Só curiosidade," ela disse.
Alguns metros mais longe, a tempestade parecia estar alcançando seu clímax enquanto outra chapa
de chuva caía das nuvens. A água caía de todos os lados da casa como cachoeiras. Um clarão de
novo, mais perto dessa vez e o trovão estrondou como um canhão. Se tivesse janelas eu imaginei
que elas teriam chacoalhado nas suas molduras.
Savannah se aproximou e eu coloquei meu braço em volta dela. Ela cruzou as pernas nos tornozelos
e se encostou em mim, e eu senti como se pudesse segurá-la assim para sempre.
"Você é diferente da maioria dos caras que eu conheço," ela observou, sua voz baixa no meu
ouvido. "Mais maduro, menos... irresponsável, eu acho."
Eu sorri, gostando do que ela disse. "E não esqueça do meu crew cut e das tatuagens."
"Crew cut, sim. Tatuagens... bem, elas meio que vem com o pacote, mas ninguém é perfeito."
Dei uma cotovelada nela e fingi estar magoado. "Bem, se eu soubesse como você se sente, não as
teria feito."


"Não acredito em você," ela disse, se ajeitando. "Mas me desculpe-eu não devia ter dito isso. Estava

falando mais em como eu me sentiria fazendo uma. Em você, elas tendem a projetar uma certa...
imagem e eu acho que encaixa."

"Que imagem é essa?"
Ela apontou para as tatuagens, uma por uma, começando com o caracter chinês. "Essa aqui me diz
que você vive a vida pelas suas próprias regras e nem sempre se importa com o que as pessoas
pensam. A da infantaria mostra que você tem orgulho do que faz. E o arame farpado... bem,
combina com quem você foi quando era mais jovem."
"Esse é bem o perfil psicológico. Eu pensei que era só porque eu gostava das figuras."
"Estou pensando em conseguir um diploma secundário em psicologia."
"Acho que você já tem um."
Embora o vento tivesse começado, a chuva começou a diminuir. "Você já se apaixonou?" ela
perguntou, mudando de marcha de repente.
Sua pergunta me surpreendeu. "Isso veio do nada."
"Me disseram que ser imprevisível ajuda a aumentar o mistério feminino."
"Ah, ajuda. Mas para responder a sua pergunta, eu não sei."
"Como você pode não saber?"
Eu hesitei, tentando pensar no que dizer. "Namorei uma garota alguns anos atrás, e na época, eu
sabia que estava apaixonado. Pelo menos, era o que eu dizia a mim mesmo. Mas agora, quando
penso novamente, eu só... não tenho mais certeza. Me preocupava com ela e gostava de passar o
tempo com ela, mas quando não estávamos juntos, eu mal pensava nela. Estávamos juntos, mas não
éramos um casal, se isso faz algum sentido." Ela considerou minha resposta mas não disse nada.
Depois de um tempo, me virei pra ela. "E você? Já se apaixonou alguma vez?"
O rosto dela escureceu. "Não," ela disse.
"Mas pensou que estava apaixonada. Como eu, certo?" Quando ela inspirou com força, eu
prossegui. "No meu esquadrão, tenho que usar um pouco de psicologia também. E meus instintos
me dizem que há um namorado sério no seu passado."
Ela sorriu, mas havia algo triste em seu sorriso. "Eu sabia que você descobriria," ela disse em uma
voz abatida. "Mas pra responder sua pergunta, sim, há. Durante o meu primeiro ano na faculdade. E
sim, eu pensei que o amava."
"Tem certeza de que você não o amava?"
Ela levou um tempo pra responder. "Não," ela murmurou. "Não tenho certeza."
A encarei. "Você não tem que me contar-"
"Tudo bem," ela disse, erguendo a mão para me cortar. "Mas é difícil. Tentei esquecer isso, e é uma


coisa que eu nunca contei nem mesmo aos meus pais. Ou a qualquer outra pessoa. É tão clichê,

sabe? Garota de cidade pequena vai embora pra faculdade e conhece um veterano, que também é
presidente da sua fraternidade. Ele é popular, rico e charmoso, e a pequena caloura está admirada
que ele poderia se interessar por alguém como ela. Ele a trata como se ela fosse especial e ela sabe
que outras calouras estão com inveja, então ela começa a se sentir especial também. Ela concorda
em ir ao baile de inverno em um desses hotéis luxuosos fora da cidade, com ele e alguns outros
casais, mesmo que ela tenha sido alertada que o garoto não é tão amável ou sensível como ele
parece ser, e que na verdade, ele é o tipo de garoto que faz marcas no beira da cama para cada
garota que pegou."
Ela fechou os olhos, como se estivesse reunindo a energia para continuar.
"Ela vai contra o melhor julgamento de seus amigos e mesmo que ela não beba e ele alegremente
lhe traga um refrigerante, ela começa a ficar tonta e ele se oferece para levá-la de volta ao quarto do
hotel para se deitar. E a próxima coisa que ela sabe é que eles estão na cama se beijando e ela gosta
inicialmente, mas o quarto está mesmo girando e não ocorre a ela até mais tarde que talvez alguém-
talvez ele-tenha colocado alguma coisa em sua bebida e que fazer outra marca com o nome dela
tenha sido sua meta todo o tempo."
Suas palavras começaram a vir rápidas, caindo umas sobre as outras.
"E então ele começa a apalpar seus seios e o vestido dela é arrancado e então a calcinha dela é
arrancada também, mas ele está em cima dela e ele é tão pesado e ela não consegue empurrá-lo, e
ela se sente muito indefesa e quer que ele pare, porque ela nunca fez isso antes, mas então ela está
tão tonta que mal consegue falar e não pode pedir ajuda, e ele provavelmente conseguiria o que
queria com ela se outro casal não tivesse aparecido e ela sai cambaleando do quarto, chorando e
segurando o vestido. De alguma forma ela encontra o caminho para o banheiro do lobby e fica lá
chorando, e outras garotas com quem ela tinha viajado para o baile entram e vêem o rímel
manchado e o vestido rasgado e ao invés de ajudarem, elas riem dela, agindo como se ela devesse
saber o que aconteceria e como se ela tivesse tido o que merecia. Finalmente ela termina ligando
para um amigo que pula no seu carro e dirige até lá para pegá-la, e ele foi esperto o suficiente para
não fazer perguntas durante todo o caminho de volta."
Quando ela acabou, eu estava rígido de raiva. Eu não sou santo com mulheres, mas nunca na minha
vida pensei em forçar uma mulher a fazer algo que ela não queria.
"Sinto muito," foi tudo que eu consegui juntar.
"Você não precisa sentir. Não foi você que fez."
"Eu sei. Mas não sei o que mais dizer. A menos..." eu parei e depois de um momento ela se virou
para mim. Eu podia ver lágrimas correndo por suas bochechas e o fato de que ela estivera chorando
tão silenciosamente me fez doer.
"A menos que o que?"
"A menos que você queira que eu... não sei. Acabe com ele?"
Ela me deu uma pequena risada triste. "Você não tem idéia de quantas vezes eu qui simplesmente
fazer isso."
"Eu farei," eu disse. "Só me dê um nome, mas prometo lhe deixar fora disso. Eu farei o resto."


Ela apertou minha mão. "Eu sei que você faria."


"Estou falando sério," eu disse.

Ela me deu um sorriso pálido, parecendo ao mesmo tempo experiente e dolorosamente jovem. "É
por isso que eu não vou te dizer. Mas acredite, estou tocada. É muito doce da sua parte."
Gostei do jeito que ela disse isso e sentamos juntos, com as mãos abraçadas apertado. A chuva havia
finalmente parado e no seu lugar eu podia ouvir os sons do rádio do vizinho de novo. Eu não
conhecia a música, mas reconheci como sendo alguma coisa da antiga era do jazz. Um dos caras no
minha unidade era fanático por jazz.
"Mas de qualquer forma," ela começou, "era isso que eu quis dizer quando disse que meu ano de
caloura não foi sempre fácil. E foi por isso que eu quis desistir. Meus pais pensaram que eu estava
só com saudade de casa, então eles me fizeram ficar. Mas... mesmo tendo sido ruim, aprendi algo
sobre mim mesma. Que eu podia passar por uma coisa assim e sobreviver. Quer dizer, sei que
poderia ter sido pior-muito pior-mas pra mim, era tudo o que eu podia aguentar na época. E aprendi
com isso."
Quando ela terminou, me peguei lembrando uma coisa que ela disse. "Foi Tim que trouxe você de
volta do hotel aquela noite?"
Ela olhou pra cima, assombrada.
"Quem mais você chamaria?" eu disse como forma de explicar.
Ela assentiu. "É, eu acho que você está certo. E ele foi ótimo. Até hoje, ele não perguntou nada de
específico e eu não contei a ele. Mas desde então, ele tem sido um pouco protetor e eu não posso
dizer que me importo."
No silêncio, eu pensei na coragem que ela tinha mostrado, não apenas aquela noite, mas depois
também. Se ela não tivesse me contado, eu nunca teria suspeitado que alguma coisa de ruim tinha
acontecido a ela. Me maravilhei que, apesar do que tinha acontecido, ela tinha conseguido se
segurar à sua visão otimista do mundo.
"Prometo ser um perfeito cavalheiro," eu disse. Ela se virou pra mim.
"Do que você está falando?"
"Hoje à noite. Amanhã à noite. Quando for. Eu não sou como aquele cara."
Ela passou um dedo pela minha mandíbula e eu senti minha pele formigar embaixo do seu toque.
"Eu sei," ela disse, parecendo se divertir. "Por que você acha que eu estou aqui com você agora?"
Sua voz foi tão carinhosa e de novo eu reprimi a vontade de beijá-la. Não era o que ela precisava,
não agora, mesmo que fosse difícil pensar em outra coisa.
"Você sabe o que Susan disse depois daquela primeira noite? Quando você foi embora e eu voltei
para o grupo?"
Eu esperei.


"Ela disse que você parecia assustador. Como se você fosse a última pessoa na Terra com quem ela

iria querer ficar sozinha."

Eu sorri. "Já me disseram coisas piores," a assegurei.
"Não, você não está entendendo. Estou dizendo que eu lembro de ter pensado que ela não sabia do
que estava falando, porque quando você me entregou minha bolsa na praia, eu vi honestidade e
confiança e até algum carinho, mas nada aterrorizante de jeito nenhum. Sei que parece assustador,
mas eu senti como se já te conhecesse." Desviei o olhar sem responder. Abaixo do poste, a névoa
estava subindo do chão, um resquício do calor do dia. Os grilos tinham começado seu barulho,
cantando uns para os outros. Eu engoli, tentando amenizar a súbita secura na minha garganta. Olhei
pra Savannah, depois para o teto, depois para os meus pés e finalmente de volta para Savannah
novamente. Ela apertou minha mão e eu dei um trêmulo suspiro, me maravilhando com o fato de
que enquanto estava em uma licença comum, em um lugar comum, eu tinha de alguma forma me
apaixonado por uma garota extraordinária chamada Savannah Lynn Curtis.
Ela viu minha expressão, mas a interpretou mal. "Me desculpe se te fiz ficar desconfortável," ela
sussurrou. "Eu faço isso às vezes. Vou muito além, quero dizer. Eu só solto o que estou pensando
sem levar em conta como isso vai atingir outras pessoas."
"Você não me deixou desconfortável," eu disse, virando seu rosto pra o meu. "É só que eu nunca
tive ninguém pra me dizer algo assim antes."
Eu quase parei aí, consciente de que se eu deixasse as palavras dentro de mim, o momento passaria
e eu escaparia sem colocar meus sentimentos na linha.
"Você não tem idéia do quanto os últimos dias têm significado pra mim," eu comecei. "Conhecer
você foi a melhor coisa que já me aconteceu." Eu hesitei, sabendo que se parasse agora, nunca seria
capaz de dizer a ninguém. "Eu te amo," sussurrei.
Sempre imaginei que as palavras seriam difíceis de dizer, mas não foram. Em toda a minha vida,
nunca tive tanta certeza de nada e por mais que eu esperasse um dia ouvir Savannah dizendo essas
palavras para mim, o que mais importou foi saber que o amor era meu para dar, sem restrições ou
expectativas.
Lá fora o ar estava começando a esquentar e eu podia ver piscinas de àgua brilhando à luz da lua.
As nuvens tinham começado a desaparecer e, entre elas, uma esporádica estrela piscou, como se
para me lembrar do que eu tinha acabado de admitir.
"Você alguma vez já imaginou algo assim?" ela se perguntou em voz alta. "Você e eu, quero dizer?"
"Não," eu disse.
"Me assusta um pouco."
Meu estômago pulou e imediatamente, eu tinha certeza que ela não se sentia da mesma forma.
"Você não precisa me dizer de volta," eu comecei. "Não foi por isso que eu disse-"
"Eu sei," ela interrompeu. "Você não entende. Eu não estava assustada por que você me contou.
Fiquei assustada porque eu também queria dizer: eu te amo, John."


Mesmo agora, ainda não tenho certeza de como aconteceu. Em um instante estávamos conversando

e no seguinte ela se inclinou em minha direção. Por um segundo, me perguntei se beijá-la iria
quebrar o feitiço sob o qual nós dois estávamos, mas era tarde demais para parar. E quando os seus
lábios encontraram os meus, eu sabia que poderia viver até os cem anos e visitar todos os países do
mundo, mas nada iria se comparar àquele momento que eu beijei pela primeira vez a garota dos
meus sonhos e soube que meu amor duraria para sempre.


Nove


Acabamos ficando fora até tarde. Depois que deixamos a casa, levei Savannah de volta à praia e nós
andamos o grande pedaço de areia até ela começar a bocejar. Levei-a até a porta e nos beijamos
novamente enquanto mariposas zumbiam na luz da varanda. Embora parecesse que eu tinha
pensado muito em Savannah no dia anterior, não se comparava ao quão obcecado eu estava no dia
seguinte, embora o sentimento fosse diferente. Me peguei sorrindo sem razão aparente, algo que até
meu pai notou quando chegou em casa do trabalho. Ele não comentou-eu não esperava que ele
comentasse, é claro-mas ele não se surpreendeu quando eu dei tapinhas nas suas costas quando
descobri que ele planejava fazer lasanha. Falei inssessantemente sobre Savannah e depois de umas
duas horas ele voltou à sua toca. Mesmo que tivesse falado pouco, acho que ele estava feliz por
mim e mais feliz ainda por eu querer compratilhar isso. Tive certeza disso quando voltei pra casa
mais tarde naquela noite e encontrei um prato de recém cozinhados biscoitos de manteiga de
amendoim na bancada, junto com um bilhete que me informava que leite podia ser encontrado na
geladeira.
Levei Savannah pra tomar sorvete, depois a levei para a parte turística de Wilmington. Passeamos
pelas lojas, onde eu descobri que ela tinha um interesse por antiguidades. Mais tarde a levei pra ver
o encouraçado, mas não ficamos muito tempo. Ela estava certa; era chato. Depois a levei pra casa,
onde nos sentamos ao redor da fogueira com seus amigos.
Nas duas noites seguintes, Savannah foi à minha casa. Meu pai cozinhou nas duas noites. Na
primeira Savannah não perguntou nada sobre moedas ao meu pai e a conversa foi um esforço. Meu
pai escutou na maior parte e embora Savannah continou com um tom agradável e tentou incluí-lo, a
força do hábito levou nós dois a falarmos um com o outro enquanto o meu pai se focava no seu
prato. Quando ela foi embora, sua sombrancelha estava levantada e embora eu não quisesse
acreditar que a primeira impressão dela a respeito dele havia mudado, eu sabia que isso tinha
acontecido. Surpreendentemente, ela pediu pra voltar na noite seguinte, onde mais uma vez ela e
meu pai ficaram na toca, discutindo moedas. Enquanto os observava, me perguntei o que Savannah
achava dessa situação a qual eu crescera acostumado. Ao mesmo tempo, eu rezei para que ela fosse
mais compreensiva do que eu tinha sido. Assim que fomos embora, eu sabia que não tinha nada
com o que me preocupar. Enquanto voltávamos de carro para a praia, ela falou sobre o meu pai em
termos brilhantes, particularmente elogiando o trabalho que ele tinha feito me criando. Enquanto eu
não estava certo do que achava disso, suspirei de alívio ao perceber que ela parecia ter aceitado meu
pai pelo que ele era.
Quando chegou o fim de semana, minha aparição na casa da praia estava se tornando um
acontecimento regular. A maioria das pessoas na casa tinham aprendido meu nome, embora eles
ainda demonstrassem pouco interesse em mim, tão exaustos que estavam pelo dia de trabalho duro.
A maioria deles estava apinhada ao redor da televisão lá pelas sete ou oito, ao invés de bebendo e
paquerando na praia. Todos pareciam queimados do sol e tinham Band-Aids nos dedos para cobrir
suas bolhas.
No sábado à noite as pessoas tinham achado reservas adicionais de energia e eu apareci na hora em
que um grupo de garotos estavam descarregando caixas e mais caixas de cerveja da mala de uma
van. Eu os ajudei a carregá-las e me dei conta de que desde a primeira noite que eu tinha visto
Savannah, eu não tinha bebido nem um gole de àlcool. Como no final de semana anterior, a
churrasqueira estava acesa e nós comemos perto da fogueira; depois saímos para uma caminhada na
praia. Eu tinha levado um cobertor e uma cesta de picnic cheia de lanches e enquanto estávamos
deitados, assistimos a um show de estrelas cadentes, maravilhados com os fios brancos que
cruzavam o céu. Foi uma daquelas noites perfeitas com briza suficiente pra não nos deixar com frio
ou com calor e nós conversamos e nos beijamos por horas antes de adormecer nos braços um do


outro.


Quando o sol começou sua ascensão do mar no domingo de manhã, me sentei ao lado de Savannah.
Seu rosto estava iluminado com o brilho do amanhecer e seu cabelo caía no cobertor. Ela tinha um
braço sobre a barriga e o outro acima da cabeça e tudo que eu pude pensar foi que eu gostaria de
passar todas as manhãs pro resto da minha vida acordando ao lado dela.
Fomos à igreja novamente e Tim estava do seu jeito alegre de sempre, apesar do fato de que nós mal
falamos com ele durante toda a semana. Ele me perguntou novamente se eu queria ajudar na casa.
Contei à ele que eu estaria partindo na sexta-feira seguinte e portanto, não sabia de quanta ajuda eu
poderia ser.
"Acho que você está cansando ele," Savannah disse, sorrindo pra Tim.
Ele levantou as mãos. "Pelo menos você não pode dizer que eu não tentei."
Foi, talvez, a semana mais idílica que eu já passei. Meus sentimentos por Savannah tinham apenas
ficado mais fortes, mas a medida que os dias passavam eu comecei a sentir uma ansiedade
atormentadora com o quão cedo tudo isso estaria acabado. Sempre que esses sentimentos surgiam,
eu tentava afastá-los, mas na noite de domingo, eu mal podia dormir. Em vez disso, eu me remexi
na cama, e pensei em Savannah e tentei imaginar como eu poderia ser feliz sabendo que ela estava
do outro lado do oceano rodeada de homens, um dos quais parece se sentir exatamente como eu me
sinto em relação à ela.
***
Quando cheguei na casa na manhã de segunda-feira, não consegui encontrar Savannah. Pedi pra
alguém olhar no quarto dela e enfiei minha cabeça em cada banheiro. Ela não estava no deque
traseiro ou na praia com os outros.
Desci até a praia e perguntei, recebendo, na maior parte das vezes, dar de ombros indiferentes.
Algumas pessoas não tinham nem se dado conta de que ela havia ido embora, mas finalmente uma
das garotas-Sandy ou Cindy, eu não tinha certeza-apontou para a praia e disse que tinha visto a
cabeça dela naquela direção mais ou menos uma hora antes.
Eu levei um bom tempo para achá-la. Caminhei pela praia nas duas direções, finalmente vendo o
píer perto da praia. Em um palpite, subi as escadas, ouvindo as ondas quebrarem abaixo de mim.
Quando vi Savannah, achei que ela tinha vindo ao píer para procurar botos ou observar os surfistas.
Ela estava sentada com seu joelhos pra cima, encostada em um pedaço de madeira e foi só quando
me aproximei que percebi que ela estava chorando.
Eu nunca sabia o que fazer quando vejo uma garota chorando. Honestamente, eu nunca sabia o que
fazer quando via qualquer um chorando. Meu pai nunca chorou, ou se chorou, nunca foi na minha
presença. E a última vez que eu chorara tinha sido na terceira série, quando caí da casa da árvore e
torci meu pulso. Na minha unidade, tinha visto alguns caras chorando e eu geralmente dava
tapinhas nas suas costas e depois saia andando, deixando os 'por ques' e 'o que posso fazer' para
alguém com mais experiência.
Antes que eu pudesse decidir o que fazer, Savannah me viu. Ela rapidamente enxugou seus olhos
vermelhos e inchados e eu a ouvi dar algumas fungadas. Sua bolsa, a que eu resgatei do oceano,
estava espremida entre suas pernas.


"Você está bem?" eu perguntei.


"Não," ela respondeu e meu coração se apertou.

"Você quer ficar sozinha?"
Ela considerou. "Não sei," ela disse finalmente.
Não sabendo o que mais fazer, fiquei onde estava. Savannah suspirou. "Eu vou ficar bem."
Coloquei minhas mãos nos bolsos e assenti. "Você prefere ficar sozinha?" perguntei novamente.
"Eu realmente tenho que lhe dizer?"
Eu hesitei. "Sim."
Ela deu uma risada melancólica. "Você pode ficar," ela disse. "Na verdade, vai ser legal se você
chegar mais perto e sentar ao meu lado."
Me sentei e então, depois de um breve momento de indecisão, coloquei meu braço ao redor dela.
Por um momento, sentamos juntos sem dizer nada. Savannah inspirava lentamente e a sua
respiração se tornou constante. Ela limpou as lágrimas que continuavam a cair por suas bochechas.
"Comprei uma coisa pra você," ela disse depois de um tempo. "Espero que você concorde com
isso."
"Tenho certeza que está tudo bem," eu murmurei.
Ela fungou. "Você sabe no que eu estava pensando quando vim aqui?" Ela não esperou por uma
resposta. "Estava pensando em nós," disse. "O modo como nos conhecemos e como nos falams
naquela primeira noite, como você mostrou suas tatuagens e deu o olhar maligno para o Randy. E a
sua expressão boba quando fomos surfar pela primeira vez, depois que eu peguei a onda até a
costa..."
Quando ela parou de falar eu apertei sua cintura. "Tenho certeza que há um elogio aí em algum
lugar."
Ela tentou se recuperar com um sorriso trêmulo mas não teve muito sucesso. "Eu lembro de tudo
sobre aqueles primeiros dias," ela disse. "E o mesmo acontece com o resto da semana. Passar algum
tempo com o seu pai, sair pra tomar sorvete, até mesmo olhar para aquele barco idiota."
"Nós não vamos voltar," prometi, mas ela ergueu as mãos para me parar.
"Você não está me deixando terminar," ela disse. "E você não está entendendo. Eu estou dizendo
que eu amei cada momento e eu não esperava isso. Eu não vim aqui para isso, assim como não vim
aqui para me apaixonar por você. Ou, de uma maneira diferente, pelo seu pai."
Submisso, eu não disse nada.
Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. "Eu acho seu pai fantástico. Acho que ele fez um
ótimo trabalho criando você e eu sei que você não acha, e..."


Quando ela pareceu ficar sem palavras, eu balancei a cabeça, perplexo. "E é por isso que você

estava chorando? Por causa de como eu me sinto em relação ao meu pai?"

"Não," ela disse. "Você não estava ouvindo?"
Ela pausou, como se estivesse tentando organizar seus pensamentos caóticos. "Eu não queria me
apaixonar por ninguém," ela disse. " Eu não estava pronta para isso. Já passei por isso uma vez e
depois eu estava acabada. Eu sei que é diferente, mas você vai partir dentro de poucos dias e tudo
isso vai terminar... e eu vou estar acabada novamente."
"Não precisa terminar," eu protestei.
"Mas vai," ela disse. "Eu sei que a gente pode escrever e falar ao telefone de vez em quando e
podemos nos ver quando você vier para casa de licença. Mas não será a mesma coisa. Eu não vou
poder ver suas expressões bobas. Nós não poderemos deitar na praia e observar as estrelas. Não
poderemos sentar um em frente ao outro e conversar e dividir segredos. E eu não vou sentir seu
braço ao meu redor, como sinto agora."
Desviei o olhar, sentindo um senso crescente de frustração e pânico. Tudo o que ela estava dizendo
era verdade.
"Me ocorreu hoje," ela continuou, "enquanto eu estava olhando as prateleiras na livraria. Fui lá para
lhe comprar um livro e quando o encontrei, comecei a imaginar como você reagiria quando eu o
entregasse. O negócio era que eu sabia que te veria em poucas horas e então eu saberia e iria ficar
tudo bem. Porque mesmo que você estivesse chateado, eu sabia que nós superaríamos porque
poderíamos resolver cara a cara. Foi disso que eu me dei conta enquanto estava sentada aqui. Que
quando estamos juntos, tudo é possível." Ela hesitou, então continuou. "Muito cedo isso não vai
mais ser possível. Eu soube desde que nos conhecemos que você não ficaria mais de algumas
semanas aqui, mas eu não achava que fosse ser tão difícil assim dizer adeus."
"Eu não quero dizer adeus," eu disse, gentilmente virando seu rosto em direção ao meu.
Abaixo de nós eu podia ouvir as ondas quebrando na madeira.
Um bando de gaivotas passou no céu e eu me inclinei para beijá-la, meus lábios mal roçando os
dela. Seu hálito cheirava a canela e menta e eu pensei de novo em voltar pra casa.
Esperando tirar a mente dela de pensamentos tão deprimentes, lhe dei um aperto enérgico e apontei
para a bolsa. "Então, que livro você comprou pra mim?"
Ela pareceu confusa à princípio, mas depois se lembrou de que tinha mencionado o livro mais cedo.
"Ah, sim, acho que é a hora pra isso, né?"
Pelo modo como ela disse, eu de repente percebi que ela não tinha me comprado o último Hiaasen*.
Esperei, mas quando tentei encontrar seus olhos ela virou.
*Escritor de estórias de mistério.
"Se eu der a você," ela disse, sua voz séria, "você tem que me prometer que vai ler."
Eu não estava muito certo sobre o que achar disso. "Claro," eu disse, esticando a palavra. "Eu
prometo."


Ainda assim, ela hesitou. Depois estendeu a mão para a bolsa e puxou o livro. Quando ela o

estendeu para mim, li o título. Á princípio, eu não sabia o que pensar. Era um livro-mais como um
livro didático, na verdade sobre autismo e Asperger. Eu tinha ouvido sobre os dois distúrbios e
supus que eu sabia o que a maioria das pessoas sabiam, o que não era muito. "É de uma das minhas
professoras," ela explicou. "Ela é a melhor professora que eu tive na faculdade. Suas aulas estão
sempre cheias e estudantes que não estão matriculados algumas vezes entram pra falar com ela. Ela
é uma das mais importantes especialistas em todas as formas de distúrbios de desenvolvimento e é
uma dos poucos que focalizou sua pesquisa em adultos."
"Fascinante," eu disse, não me incomodando em esconder a minha falta de entusiasmo.
"Acho que você pode aprender alguma coisa," ela pressionou.
"Tenho certeza," eu disse. "Parece que tem um bocado de informação aqui."
"Tem mais do que só isso," ela disse. Sua voz era quieta. "Eu quero que você leia por causa do seu
pai. E o modo como vocês dois se dão."
Pela primeira vez, me senti rígido. "O que isso tem a ver?"
"Eu não sou uma especialista," ela disse, "mas esse livro foi indicado nos dois semestres que eu fiz
com ela e eu o devo ter estudado toda noite. Como eu disse, ela entrevistou mais de trezentos
adultos com distúrbios."
Eu retirei meu braço. "E?"
Eu sabia que ela tinha ouvido a tensão na minha voz e ela me estudou com um traço de apreensão.
"Eu sei que sou só uma estudante, mas eu passo muitas das minhas horas no laboratória com
crianças que têm Asperger... eu já vi de perto e eu também tive a oportunidade de encontrar alguns
dos adultos que a minha professora entrevistou." Ela se ajoelhou à minha frente, estendendo a mão
para tocar meu braço. "Seu pai é muito parecido com alguns deles."
Acho que eu já sabia pra onde ela estava indo, mas por alguma razão eu queria que ela dissesse
diretamente. "O que isso quer dizer?" eu exigi, me forçando a não sair.
Sua resposta demorou para vir. "Eu acho que o seu pai pode ter Asperger."
"Meu pai não é retardado..."
"Eu não disse isso," ela disse. "Asperger é um distúrbio de desenvolvimento."
"Não importa o que é," eu disse, minha voz se elevando. "Meu pai não tem. Ele me criou, ele
trabalha, ele paga suas contas. Ele já foi casado."
"Você pode ter Asperger e ainda funcionar..."
Enquanto ela falava, me lembrei de uma coisa que ela tinha dito mais cedo.
"Espera," eu disse, tentando lembrar de como ela tinha se expressado e sentindo minha boca ficar
seca. "Mais cedo, você disse que achava que meu pai tinha feito um trabalho maravilhoso me


criando."


"Sim," ela disse, "e eu estava falando sério..."

Minha mandíbula se apertou quando eu me dei conta do que ela estava realmente dizendo e eu a
encarei como se a estivesse vendo pela primeira vez. "Mas é porque você pensa que ele é como o
Rain Man*. Que considerando o problema dele, ele fez um bom trabalho."
*É um filme que tem um personagem autista.
"Não... você não entende. Há um espectro de Asperger, de ameno a severo-"
Eu mal a ouvi. "E você o respeita pela mesma razão. Mas não é como se você realmente gostasse
dele."
"Não, espera-"
Eu me afastei e levantei. Subitamente precisando de espaço, caminhei para a grade oposta à ela.
Pensei nos seus costantes pedidos para visitá-lo... não porque ela querira passar algum tempo com
ele. Porque ela queria estudá-lo.
Meu estômago deu um nó e eu olhei pra ela. "Foi por isso que você apareceu, não foi?"
"O que-"
"Não porque gostava dele, mas porque você queria saber se estava certa."
"Não-"
"Pare de mentir!" eu gritei.
"Eu nao estou mentindo!"
"Você estava sentada lá com ele, fingindo estar interessada em suas moedas, mas na verdade estava
avaliando ele como um macaco na gaiola."
"Não foi assim!" ela disse, se levantando. "Eu respeito seu pai-"
"Porque você acha que ele tem problemas e os superou," eu rosnei, terminando a frase para ela.
"Sim, eu entendi."
"Não, você está errado. Eu gosto do seu pai..."
"Por isso você administrou seu pequeno experimento, não foi?" Minha expressão era dura. "É, eu
devo ter esquecido de que quando você gosta de alguém, faz coisas assim. É isso que você está
tentando dizer?"
Ela balançou a cabeça. "Não!" Pela primeira vez, ela parecia questionar o que tinha feito e seu lábio
começou a tremer. Quando falou novamente, sua voz tremeu. "Você está certo. Eu não devia ter
feito isso. Mas eu só queria que você o entendesse."
"Por quê?" eu disse, dando um passo na direção dela. Eu podia sentir meus músculos tensos. "Eu o


entendo bem. Cresci com ele, lembra? Eu vivi com ele."


"Eu estava tentando ajudar," ela disse, os olhos abatidos. "Eu só queria que você fosse capaz de se
relacionar com ele."
"Eu não pedi a sua ajuda. Eu não quero a sua ajuda. E desde quando isso é da sua conta, de qualquer
forma?"
Ela se virou e limpou uma lágrima. "Não é," ela disse. Sua voz estava quase inaudível. "Eu achei
que você iria querer saber."
"Saber o que?" eu exigi. "Que você acha que tem alguma coisa de errado com ele? Que eu não
deveria esperar ter uma relação normal com ele? Que eu tenho que falar sobre moedas se quiser
falar com ele??"
Eu não escondi a raiva na minha voz e do canto dos meu olhos, vi alguns pescadores se virarem em
nossa direção. Meu olhar os inpediu de chegarem mais perto, o que provavelmente foi uma boa
coisa. Enquanto nos encarávamos, eu não esperava que Savannah respondesse e francamente, eu
não queria que ela respondesse. Eu ainda estava tentando tirar minha mente do fato de que as horas
que ela tinha passado com meu pai não eram nada mais que uma farsa.
"Talvez," ela sussurrou.
Eu pisquei, incerto de que ela tinha dito o que eu pensei que ela tinha dito. "O que?"
"Você me ouviu." Ela me deu um pequeno encolher de ombros. "Talvez essa seja a única coisa
sobre a qual você irá conversar com seu pai. Pode ser tudo o que ele possa fazer."
Senti minhas mãos se fecharem em punhos. "Então você está dizendo que tudo depende de mim?"
Eu não esperava que ela fosse responder, mas ela respondeu.
"Eu não sei," ela disse, encontrando meus olhos. Eu ainda podia ver sua lágrimas, mas sua voz
estava surpreendentemente firme. "Foi por isso que eu comprei o livro. Pra que você possa ler.
Como você disse, você conhece ele melhor do que eu. E eu nunca disse que ele é incapaz de
fucnionar, porque obviamente ele funciona. Mas pense nisso. Suas rotinas imutáveis, o fato de ele
não olhar para as pessoas quando fala com elas, a inexistência da sua vida social..."
Eu girei, querendo atingir alguma coisa. Qualquer coisa. "Por que você está fazendo isso?"
perguntei, minha voz baixa.
"Porque se fosse comigo, eu iria querer saber. Eu não estou dizendo isso porque eu queria machucar
você ou insultar seu pai. Eu lhe disse porque queria que você o entendesse."
Sua honestidade fez com que ficasse dolorosamente claro que ela acreditava no que estava dizendo.
Mesmo assim, não me importei. Me virei e fui em direção ao píer. Eu só queria ir embora. Daqui,
dela.
"Onde você vai?" eu a ouvi gritar. "John! Espera!"
Eu a ignorei. Acelerei o passo e um minuto depois eu tinha alcançado as escadas. Corri escada
abaixo, cheguei na areia e segui em direção à casa. Não fazia idéia se Savannah estava atrás de mim


e enquanto me aproximava do grupo, rostos viravam em minha direção. Eu parecia zangado, e sabia

disso. Randy estava segurando uma cerveja e deve ter visto Savannah se aproximando porque ele se
moveu para bloquear meu caminho. Alguns dos seus irmãos de fraternidade fizeram o mesmo.

"O que está acontecendo?" ele falou. "O que há de errado com Savannah?" o ignorei e senti ele
agarrando meu pulso. "Ei, eu estou falando com você."
Nenhum movimento. Eu podia sentir seu hálito de cerveja e sabia que o álcool tinha lhe dado
coragem.
"Me solta," eu disse.
"Ela está bem?" ele exigiu.
"Me solta," eu disse novamente, "ou eu quebro seu pulso."
"Ei, o que está acontecendo?" eu ouvi Tim gritar de algum lugar atrás de mim.
"O que você fez com ela?" Randy exigiu. "Por que ela está chorando? Você machucou ela?"
Eu podia sentir a adrenalina surgir na minha corrente sanguínea. "Última chance," eu alertei.
"Não há motivo pra isso!" Tim gritou, mais perto dessa vez. "Se acalmem, pessoal! Deixem pra lá!"
Senti alguém tentando me agarrar pelas costas. O que aconteceu em seguida foi instintivo, dentro de
uma questão de segundos. Bati meu cotovelo com força na sua barriga e ouvi uma súbita expiração
gemida; então agarrei a mão de Randy e rapidamente a torci até seu ponto de estalo. Ele gritou e
caiu de joelhos e naquele instante senti mais alguém correndo em minha direção. Balancei um
cotovelo cegamente e o senti conectar; senti cartilagem se esmigalhar enquanto me virei, pronto
para o próximo que viesse.
"O que você fez?" ouvi Savannah gritar. Ela deve ter vindo correndo assim que viu o que estava
acontecendo.
Na areia, Randy estava se contraindo enquanto apertava o pulso; o cara que tinha me agarrado por
trás estava arfando de quatro. "Você o machucou!" ela choramingou enquanto passava correndo por
mim. "Ele só estava tentando parar a briga!"
Eu me virei. Tim estava esparramado no chão, segurando o rosto, o sangue jorrando por entre seus
dedos. A visão pareceu paralisar todos menos Savannah, que se ajoelhou ao seu lado. Tim gemeu e
apesar das marteladas no meu peito, senti um caroço no meu estômago. Por que tinha que ter sido
ele? Eu queria perguntar se ele estava bem; eu queria dizer a ele que não tinha tido a intenção de
machucá-lo e que não era minha culpa. Eu não tinha começado isso.
Mas não iria importar. Não agora. Eu não podia fingir que eles devessem perdoar e esquecer, não
importava o quanto eu quisesse que não tivesse acontecido.
Eu mal podia ouvir Savannah se preocupar quando eu comecei a me afastar. Olhei para os outros
cautelosamente, me certificando de que eles me deixariam partir, não querendo machucar mais
ninguém.
"Ah, Jesus... ah, não. Você está realmente sangrando... temos que te levar ao médico..."


Continuei a andar para trás, então me virei e subi as escadas.


Me movi rapidamente pela casa, depois de volta para o meu carro. Antes de me dar conta, eu estava
na rua, amaldiçoando a mim e a toda a noite.


Dez


Eu não sabia aonde ir, então dirigi sem rumo por um tempo, os acontecimentos da noite passada se
repetindo na minha cabeça. Ainda estava com raiva de mim mesmo e do que eu tinha feito com
Tim-não tanto com o que eu fiz com os outros, admito-e com raiva de Savannah pelo que tinha
acontecido no píer.
Eu mal podia me lembrar de como tinha começado. Em um minuto eu estava pensando em como eu
a amava mais do que alguma vez já tinha imaginado possível, e no outro estávamos brigando. Eu
estava revoltado com seu subterfúgio, mas ainda assim não conseguia entender porque estava com
tanta raiva. Não era como se meu pai e eu fôssemos próximos; não era como se eu pensasse que o
conhecesse. Então porque eu tinha ficado com tanta raiva? E porque ainda estava com raiva?
Porque, a voz dentro de mim perguntou, há uma chance de ela estar certa?
Não importava. Se ele fosse ou não, e daí? Como isso iria mudar alguma coisa? E por que isso era
da conta dela?
Enquanto dirigia, continuava mudando de raiva para aceitação e de volta pra raiva de novo. Me
peguei revivendo a sensação do meu cotovelo esmagando o nariz do Tim, o que só fez piorar as
coisas. Por que ele tinha vindo até mim? Por que não eles? Não tinha sido eu quem tinha começado.
E Savannah... é, eu posso passar lá amanhã pra me desculpar. Eu sei que ela sinceramente
acreditava no que dizia e que do jeito dela, estava tentando ajudar. E talvez, se ela estivesse certa, eu
quisesse saber. Explicaria algumas coisas...
Mas depois do que eu fiz com Tim? Como ela reagiria a isso? Ele era seu melhor amigo e mesmo
que eu jurasse que tinha sido um acidente, importaria para ela? E o que eu tinha feito com os
outros? Ela sabia que eu era um soldado, mas agora que ela tinha visto uma pequena parte do que
isso significava, ela ainda iria sentir o mesmo sobre mim?
Quando cheguei em casa, era mais de meia-noite. Entrei na casa escurecida, me esgueirei para a
toca do meu pai, depois para o quarto. Ele não estava acordado, é claro; ele ia para a cama na
mesma hora todas as noites. Um homem de rotina, como eu sabia e Savannah tinha destacado.
Engatinhei para a cama, sabendo que não dormiria e desejando que pudesse começar a noite
novamente. Desde a hora que ela tinha me entregado o livro, de qualquer forma. Eu não queria mais
pensar sobre nada disso. Eu não queria pensar sobre meu pai, Savannah, ou sobre o que eu tinha
feito com nariz de Tim. Mas durante toda a noite eu encarei o teto, incapaz de escapar dos meus
pensamentos.
Me levantei quando ouvi meu pai na cozinha. Eu estava vestindo as mesmas roupas da noite
anterior, mas duvidei que ele tivesse se dado conta disso.
"Bom dia, pai," murmurei.
"Oi, John," ele disse. "Quer tomar café-da-manhã?"
"Claro," eu disse. "O café está pronto?"
"No bule."
Me servi de uma xícara. Enquanto meu pai cozinhava, notei as manchetes no jornal, sabendo que
ele iria ler a seção de capa primeiro, depois a metropolitana. Ele ignoraria a seção de esportes e da


vida. Um homem de rotina.


"Como foi sua noite?" eu perguntei.

"Como sempre," ele disse. Não me surpreendi quando ele não me perguntou nada de volta. Ao invés
disso, ele correu a espátula pelos ovos mexidos. O bacon já estava chiando. Depois de um tempo,
ele retornou para mim e eu já sabia o que ele perguntaria.
"Se importa de colocar algum pão na torradeira?"
Meu pai saiu para trabalhar exatamente às 7:35h.
Assim que ele saiu eu escaneei o jornal, desinteressado nas notícias, perdido sobre o que fazer
depois. Eu não tinha vontade de surfar, ou até mesmo deixar a casa, e estava me perguntado se
deveria voltar pra cama pra tentar descansar um pouco quando ouvi um carro estacionar na entrada
da garagem. Imaginei que fosse alguém que viesse deixar um panfleto oferecendo um serviço de
limpar calhas ou de lavar o molde do telhado; me surpreendi quando ouvi uma batida.
Abrindo a porta, eu congelei, pego completamente fora de guarda. Tim mudou seu peso de um pé
para o outro. "Oi, John," ele disse. "Eu sei que é cedo, mas posso entrar?"
Um grande esparadrapo estava no seu nariz e a pele ao redor dos dois olhos estava machucada e
inchada.
"Sim... claro," eu disse, dando um passo para o lado, ainda tentando processar o fato de que ele
estava aqui. Tim passou por mim e entrou na sala. "Eu quase não achei sua casa," ele disse.
"Quando te deixei antes era tarde e eu não estava prestando muita atenção. Passei direto algumas
vezes antes de finalmente registrar."
Ele sorriu de novo e me dei conta de que ele carregava um pequeno saco de papel.
"Quer café?" perguntei, saindo do meu estado de choque. "Acho que o que está no bule ainda dá
para uma xícara."
"Não, tudo bem. Estava acordado a maior parte da noite e prefiro não beber cafeína. Quero me
deitar quando voltar à casa."
Assenti. "Ei, escuta... sobre o que aconteceu ontem à noite," eu comecei. "Me desculpe. Eu não
queria..."
Ele ergueu a mão para me parar. "Tudo bem. Eu sei que você não queria. E eu deveria saber. Eu
deveria ter tentado agarrar um dos outros."
O analizei. "Dói?"
"Tudo bem," ele disse. "Só foi uma daquelas noites na sala da emergência. Levou algum tempo pra
ver um médico, e ele queria chamar alguém pra ajeitar meu nariz. Mas eles juraram que vai ficar
bom como novo. Eu posso ficar com um pequeno inchaço, mas estou esperando que me dê uma
aparência mais marcada."
Eu sorri, depois me senti mal por fazê-lo. "Como eu disse, me desculpe."


"Eu aceito suas desculpas," ele disse. "E agradeço. Mas não foi por isso que eu vim aqui." Ele

gesticulou para o sofá. "Se importa se sentarmos? Me sinto um pouco tonto."

Sentei na ponta da cadeira reclinável, me inclinando pra frente com os cotovelos nos joelhos. Tim
sentou no sofá, se contraindo enquanto tentava ficar confortável. Ele deixou a sacola de papel ao
lado.
"Quero falar com você sobre Savannah," ele disse. "E sobre o que aconteceu noite passada."
O som do nome dela trouxe tudo de volta e eu desviei o olhar. "Você sabe que somos bons amigos,
né?" Ele não esperou por uma resposta. "Noite passada no hospital, conversamos por horas e eu só
queria vir aqui para pedir a você pra não ficar com raiva dela pelo que ela fez. Ele sabe que cometeu
um erro e que não era tarefa dela diagnosticar seu pai. Você estava certo sobre isso."
"Então por que ela não está aqui?"
"Neste momento, ela está na construção. Alguém tem que ficar responsável enquanto eu me
recupero. E ela também não sabe que eu estou aqui."
Sacudi a cabeça. "Não sei por que fiquei tão maluco, pra começar."
"Porque você não queria ouvir," ele disse, sua voz quieta. "Eu costumava me sentir do mesmo jeito
quando ouvia alguém falar do meu irmão, Alan. Ele é autista."
Olhei pra cim. "Alan é seu irmão?"
"Sim, por quê?" ele perguntou. "Savannah te contou sobre ele?"
"Um pouco," eu disse, lembrando que até mais do que sobre Alan, ela falou do irmão que tinha sido
tão paciente com ele, que a tinha inspirado a se especializar em educação especial.
No sofá, Tim se contorceu quando tocou no machucado embaixo do olho. "E só pra você saber," ele
continuou, "eu concordo com você. Não era tarefa dela, eu disse isso a ela. Lembra quando eu disse
que ela era ingênua às vezes? Foi isso que eu quis dizer. Ela quer ajudar as pessoas, mas às vezes
não acaba desse jeito."
"Não foi só ela," eu disse. "Fui eu também. Como eu disse, eu exagerei."
O olhar dele era firme. "Você acha que ela pode estar certa?"
Juntei minhas mãos. "Não sei. Acho que não, mas..."
"Mas você não sabe. E se for verdade, o que importa, certo?" Ele não esperou por resposta. "Eu já
estive lá e fiz isso," ele disse. "Lembro do que eu e meu pai passamos com Alan. Por um tempo não
sabíamos o que, ou se alguma coisa, estava errada com ele. E você sabe o que eu decidi depois de
todo esse tempo? Não importa. Eu ainda o amo, e cuido dele e sempre irei. Mas... aprender sobre a
situação dele ajudou a facilitar as coisas entre nós. Depois que eu soube... acho que só parei de ficar
esperando que ele se comportasse de uma certa maneira. E sem expectativas, achei mais fácil
aceitá-lo."
Digeri isso. "E se ele não tiver Asperger?" perguntei.


"Ele pode não ter."


"E se eu achar que ele tem?"

Ele suspirou. "Não é assim tão simples, especialmente em casos amenos," ele disse. "Não é como se
você pudesse tirar sangue e fazer um teste. Você tem que chegar ao ponto em que acha que é
possível e isso é o mais longe que você chegará. Mas você nunca saberá de certeza. E do que
Savannah disse sobre ele, eu realmente não acho que muita coisa irá mudar. E porque iria? Ele
trabalha, ele criou você... o que mais você poderia esperar de um pai?"
Considerei isso enquanto imagens do meu pai passaram na minha cabeça.
"Savannah te comprou um livro," ele disse.
"Não sei onde está," admiti.
"Está comigo," ele disse. "Trouxe da casa." Ele me estendeu a bolsa de papel. De alguma forma o
livro parecia mais pesado do que estava na noite anterior.
"Obrigado."
Ele se levantou e eu sabia que nossa conversa estava chegando ao fim. Ele se moveu para a porta
mas se virou com a mão na maçaneta.
"Sabe que não tem que ler," ele disse.
"Eu sei."
Ele abriu a porta, então parou. Eu sabia que ele queria acrescentar mais alguma coisa, mas, me
surpreendendo, ele não se virou. "Se importa se eu pedir um favor?"
"Vá em frente."
"Não parta o coração de Savannah, certo? Eu sei que ela te ama e só quero que ela seja feliz."
Aí eu soube que estava certo sobre os sentimentos dele por ela. Enquanto ele caminhava para o
carro, o observei da janela, certo de que ele estava apaixonado por ela também.
Coloquei o livro ao lado e saí para uma caminhada; quando voltei para a casa, o evitei novamente.
Não posso lhe dizer por que fiz isso, além de que ele me assustava de alguma forma.
Depois de algumas horas contudo, forcei a sensação a ir embora e passei o resto da tarde
absorvendo o seu conteúdo e revivendo memórias do meu pai.
Tim estava certo. Não havia nenhum diagnóstico bem definido, nenhuma regra clara e não havia
como eu saber ao certo. Algumas pessoas com Asperger tinham QIs baixos, enquanto outras, até
pessoas com um autismo mais intenso-como o personagem de Dustin Hoffman em Rain Man-eram
considerados gênios em assuntos específicos. Alguns podiam funcionar tão bem em sociedade que
ninguém nem mesmo sabia; outros tinham que ser internados. Li perfis de pessoas com Asperger
que eram prodígios em música ou matemática, mas eu aprendi que eles eram tão raros como
prodígios entre a população geral. Mas, mais importante, eu aprendi que quando meu pai era jovem,
haviam poucos médicos que entendiam as características ou os sintomas e que se algo tivesse dado


errado, seus pais podiam nunca ter sabido. Crianças com Asperger ou autismo era geralmente tidas

como retardadas ou tímidas, e se eles não fossem internados, os pais se confortavam com a
esperança de que algum dia seus filhos iriam sair dessa situação. A diferença entre autismo e
Asperger podia algumas vezes ser resumida pelo seguinte: Uma pessoa com autismo vive em seu
próprio mundo, enquanto uma pessoa com Asperger vive em nosso mundo de uma maneira que ela
própria escolhe.
Por esse padrão, poderia ser dito que a maioria das pessoas tem Asperger. Mas havia algumas
indicações de que Savannah estava certa sobre meu pai. Suas rotinas imutáveis, sua estranheza
social, sua falta de interesse em assuntos que não fossem moedas, seu desejo de estar sozinho-tudo
parecia caprichos que qualquer um poderia ter, mas com meu pai era diferente. Enquanto outros
poderiam livremente fazer estas mesmas escolhas, meu pai-como algumas pessoas com Asperger-
parecia ter sido forçado a viver uma vida com essas escolhas já predeterminadas. No mínimo, eu
aprendi que isso pode explicar o comportamento do meu pai, e sendo assim, não era que ele não
queria mudar, mas que ele não podia. Mesmo com toda a incerteza implicada, achei a descoberta
confortante. E, me dei conta, explicava duas questões que sempre tinha me atormentado a respeito
da minha mãe: O que ela tinha visto nele? E por que ela foi embora?
Eu sabia que nunca saberia e não tinha intenção de ir mais longe.
Mas com uma imaginação saltitante em uma casa silenciosa, eu podia imaginar um homem quieto
que começou uma conversa sobre sua coleção rara de moedas com uma pobre jovem garçonete em
uma lanchonete, uma mulher que passava suas noites deitada na cama e sonhando com uma vida
melhor. Talvez ela tenha flertado, talvez não, mas ele estava atraído por ela e continuou a aparecer
na lanchonete. Com o tempo, ela deve ter sentido a bondade e paciência nele, que ele usaria mais
tarde ao me criar.
Pode ser possível que ela tenha interpretado sua natureza quieta precisamente também e sabia que
ele demorava para se enraivecer e nunca era violento. Mesmo sem amor, deve ter sido o bastante,
então ela concordou em casar com ele, pensando que eles venderiam as moedas e viveriam, se não
felizes para sempre, pelo menos confortáveis para sempre. Ela engravidou e mais tarede, quando
aprendeu que ele não poderia nem mesmo entender a idéia de vender as moedas, ela se deu conta de
que tinha ficado presa a um marido que mostrava pequeno interesse por qualquer coisa que ela
fizesse. Talvez a sua solidão sugou o melhor dela, ou talvez ela fosse só egoísta, mas de qualquer
forma ela queria sair, e depois que o bebê nasceu, ela abraçou a primeira oportunidade de ir embora.
Ou, eu pensei, talvez não.
Eu duvidava de que algum dia fosse saber a verdade, mas eu realmente não me importava. Eu me
importava, no entanto, com o meu pai e se ele estava angustiado com algumas redes defeituosas em
seu cérebro, subitamente entendi que ele de alguma forma tinha formado uma lista de regras para a
vida, regras que o haviam ajudado a se encaixar no mundo. Talvez elas não fossem muito normais,
mas ele tinha, todavia, encontrado um modo de me ajudar a me tornar o homem que eu era. E para
mim, isso era mais do que suficiente.
Ele era meu pai e fez o que pôde. Eu sabia disso agora. E quando finalmente fechei o livro e o
coloquei de lado, me encontrei encarando a janela, pensando em como eu estava orgulhoso dele
enquanto tentava engolir o caroço na minha garganta.
Quando ele voltou do trabalho, trocou de roupa e foi para a cozinha começar o spaghetti. O analizei
enquanto ele se movimentava, sabendo que estava fazendo exatamente o que me fez ficar com raiva
de Savannah quando ela também fez. É estranho como conhecimento muda a percepção.


Notei a precisão de seus movimentos-o modo como ele habilmente abriu a caixa de spaghetti antes

de colocá-la de lado e o modo como ele trabalhava com a espátula em ângulos cuidadosamente
certos enquanto assava a carne. Eu sabia que ele adicionaria sal e pimenta, e um momento depois,
ele o fez. Eu sabia que ele abriria a lata de molho de tomate logo depois, e novamente, eu não
estava errado. Como sempre, ele não perguntou sobre o meu dia, preferindo trabalhar em silêncio.
Ontem eu atribuiria isso ao fato de sermos estranhos um ao outro; hoje eu entendia que havia uma
possibilidade de que nós sempre seríamos. Mas pela primeira vez na minha vida, isso não me
incomodou.
Durante o jantar eu não perguntei sobre seu dia, sabendo que ele não responderia. Em vez disso,
contei a ele sobre Savannah e como tinha sido o nosso tempo juntos. Mais tarde, o ajudei com os
pratos, continuando a nossa conversa de uma só via. Assim que acabamos, ele pegou o pano
novamente. Limpou a bancada uma segunda vez, então girou os trituradores de sal e pimenta até
eles ficarem na mesma posição que estavam quando ele chegou em casa. Eu tinha a sensação de que
ele queria acrescentar alguma coisa a conversa mas não sabia como, mas eu supus que estava
querendo fazer com que eu mesmo me sentisse melhor. Não importava. Eu sabia que ele estava
pronto para se recolher para a toca.
"Ei, pai," eu disse. "Que tal você me mostrar algumas das moedas que comprou recentemente? Eu
quero ouvir tudo sobre elas."
Ele me encarou como se não tivesse certeza de que tinha me ouvido corretamente, então olhou para
o chão. Tocou seu cabelo ralo e eu vi a careca crescente no topo da sua cabeça. Quando ele olhou
para mim novamente, parecia quase assustado.
"Certo," ele disse finalmente.
Caminhamos até a toca juntos, e quando senti ele colocar uma mão gentil na minhas costas, tudo o
que eu podia pensar era que não tinha me sentido próximo dele assim há anos.


Onze


Na noite seguinte, enquanto eu estava de pé no píer admirando a lua prateada no oceano, me
perguntei se Savannah apareceria. Na noite anterior, depois de passar horas examinando moedas
com meu pai e aproveitando a animação na sua voz enquanto ele as descrevia, dirigi até a praia. No
assento ao meu lado estava o bilhete que eu escrevera pra Savannah, pedindo à ela para me
encontrar aqui. Deixei o bilhete em um envelope que coloquei no carro de Tim. Eu sabia que ele
passaria o envelope adiante sem abrir, não importava o quanto ele pudesse não querer. Pelo pequeno
tempo em que eu o conhecia, acreditei que Tim, como meu pai, era uma pessoa muito melhor do
que eu.
Foi a única coisa que eu pude pensar em fazer. Por causa da briga, eu sabia que não era mais bem
vindo na casa da praia; também sabia que não queria ver Randy ou Susan ou qualquer um dos
outros, o que tornou impossível me comunicar com Savannah. Ela não tinha celular, nem eu sabia o
número da casa da praia, o que deixou o bilhete como minha única opção.
Eu estava errado. Tinha exagerado, e sabia disso. Não só com ela, mas com os outros na praia. Eu
tinha simplesmente ido embora. Randy e seus amigos, mesmo que eles levantassem peso e se
considerassem atletas, não tinham nenhuma chance contra alguém treinado para incapacitar pessoas
rapidamente e eficientemente. Se fosse na Alemanha, eu teria sido trancado pelo que eu fiz. O
governo não era muito carinhoso com aqueles que usavam habilidades adiquiridas através dele de
maneiras que o governo não aprovava.
Então eu deixei o bilhete, então olhei o relógio durante todo o dia seguinte, me perguntando se ela
apareceria. Quando a hora que eu sugerira veio e passou, me achei olhando compulsivamente por
cima do ombro, dando um suspiro de alívio quando uma figura apareceu à distância. Pelo modo que
ela se movia, eu sabia que tinha que ser Savannah. Me inclinei contra a cerca enquanto esperava por
ela.
Ela diminuiu o passo quando me viu, então parou. Nenhum abraço, nenhum beijo-a súbita
formalidade me fez doer.
"Recebi seu bilhete," ela disse.
"Fico feliz que tenha vindo."
"Tive que sair de fininho para ninguém saber que você estava aqui," ela disse. "Escutei algumas
pessoas falando sobre o que elas fariam se você aparecesse novamente."
"Desculpe," comecei subitamente. "Sei que você só estava tentando ajudar e eu interpretei de
maneira errada."
"E?"
"E desculpe pelo que eu fiz com Tim. Ele é um cara ótimo e eu deveria ter sido mais cuidadoso."
Ela não piscava. "E?"
Arrastei meus pés, sabendo que não era realmente sincero no que estava prestes a dizer, mas
sabendo que ela queria ouvir de qualquer forma. Suspirei. "E Randy e o outro cara também."
Ainda assim, ela continuou a me encarar. "E?"


Fiquei sem resposta. Vasculhei na minha mente antes de encontrar seus olhos. "E..." parei aos

poucos.

"E o quê?"
"E..." eu tentei mas não consegui pensar em nada. "Não sei," confessei. "Mas seja o que for, me
desculpe por isso também."
Ela estava com uma expressão curiosa no rosto. "É isso?"
Eu pensei. "Não sei mais o que dizer," admiti.
Meio segundo depois eu notei o mínimo traço de um sorriso. Ela se moveu em minha direção. "É
isso?" ela repetiu, sua voz mais suave. Eu não disse nada. Ela chegou mais perto, me
surpreendendo, escorregando seus braços em volta do meu pescoço.
"Você não precisa se desculpar," ela murmurou. "Não há razão para estar arrependido. Eu
provavelmente teria reagido da mesma forma."
"Então por que o interrogatório?"
"Porque," ela disse, "me mostra que eu estava certa a seu respeito em primeiro lugar. Eu sabia que
você tinha um bom coração."
"Do que você está falando?"
"Só o que eu disse," ela respondeu. "Mais tarde-depois daquela noite, quer dizer-Tim me convenceu
que eu não tinha o direito de dizer o que eu disse. Você estava certo. Eu não tenho a capacidade de
fazer nenhum tipo de avaliação profissional, mas eu fui arrogante o suficiente para pensar que eu
tinha. Em realação ao que aconteceu na praia, eu vi tudo. Não foi sua culpa. Até mesmo o que
aconteceu com Tim não foi sua culpa, mas foi bom ouvir suas desculpas de qualquer forma. Mesmo
que só pra saber que você pode fazer isso no futuro."
"Ela se inclinou em minha direção e quando eu fechei os olhos, eu sabia que não queria nada mais a
não ser segurá-la assim para sempre.
Mais tarde, depois de passarmos uma grande parte da noite conversando e nos beijando na praia,
corri meu dedo sobre sua mandíbula e murmurei, "Obrigado."
"Pelo que?"
"Pelo livro. Acho que entendo meu pai um pouco melhor agora. Nós nos divertimos noite passada."
"Fico feliz."
"E obrigado por ser quem você é."
Quando ela franziu o cenho, eu beijei sua testa. "Se não fosse você," eu acrescentei, "eu não seria
capaz de dizer isso ao meu pai. Você não sabe o quanto isso significa pra mim."
***


Embora ela devesse trabalhar na construção no dia seguinte, Tim tinha sido compreensivo quando

ela explicou que seria a última chance de nos vermos antes de eu voltar para a Alemanha. Quando
eu peguei ela, ele desceu os degraus da casa e se abaixou ao lado do carro, seus olhos ficando no
nível da janela. Os machucados tinham ficado pretos. Ele prendeu a mão na janela.
"Foi um prazer conhecer você, John."
"Você também," eu disse, sendo sincero.
"Tome cuidado, certo?"
"Vou tentar," respondi enquanto apertávamos as mãos, atingido pela sensação de que havia uma
ligação entre nós.
Savannah e eu passamos a manhã no Fort Fisher Aquarium, enfeitiçados pelas estranhas criaturas
expostas lá. Vimos peixes-agulha com seus longos narizes e cavalos marinhos em miniatura; no
tanque maior estavam tubarões e dourados. Rimos enquanto segurávamos os carangueijos eremitas
e Savannah me comprou um chaveiro como souvenir da loja de presentes. Por alguma estranha
razão havia um penguim nele, o que a divertiu sem fim.
Mais tarde, eu a levei para um restaurante ensolarado perto da água e nós seguramos as mãos por
cima da mesa enquanto observávamos os barcos à vela se balançando gentilmente nas ondas.
Perdidos um no outro, mal reparamos no garçom, que teve que vir à mesa três vezes antes de nós
termos aberto nossos cardápios.
Me maravilhei com a forma fácil com que Savannah mostrava suas emoções e a ternura de suas
expressões enquanto eu contava a ela sobre meu pai. Quando ela me beijou depois, eu provei da
doçura do seu hálito. Peguei a sua mão.
"Eu vou casar com você, você sabe."
"É uma promessa?"
"Se você quiser que seja."
"Bem, então você tem que prometer que voltará pra mim quando sair do exército. Não posso casar
com você se você não estiver por perto."
"É um acordo."
Mais tarde, passeamos pelos terrenos da Oswald Plantation, uma lindamente restaurada casa
anterior a Guerra Civil que ostentava alguns dos mais belos jardins do estado. Conversamos pelos
caminhos de cascalho, contornando grupos de flores silvestres que floresciam milhares de cores
diferentes no calor preguiçoso do sul.
"Que horas seu vôo sai amanhã?" ela perguntou. O sol começava sua desceida gradual no céu sem
nuvens.
"Cedo," eu disse. "Provavelmente estarei no aeroporto antes de você acordar."
Ela assentiu. "E você vai passar a noite de hoje com seu pai, né?"


"Foi o que eu estava planejando. Eu provavelmente não tenho passado tanto tempo com ele como

eu deveria, mas tenho certeza que ele entenderia-"

Ela balançou a cabeça para me parar. "Não, não mude seus planos. Eu quero que você passe um
tempo com o seu pai. Esperava que você passasse. É por isso que estou com você hoje."
Caminhamos pela extensão de um elaborado caminho alinhado por sebes. "Então o que você quer
fazer?" perguntei. "Sobre nós, eu quero dizer."
"Não vai ser fácil," ela disse.
"Eu sei que não," eu disse. "Mas não quero que tudo isso acabe." Parei, sabendo que palavras não
seriam suficientes. Em vez disso, por trás, escorreguei meus braços em volta dela e apertei seu
corpo contra o meu. Beijei sei pescoço e sua orelha, saboreando sua pele aveludada. "Eu vou ligar
pra você o máximo que puder, escreverei quando não puder ligar e vou pedir outra licença no
próximo ano. Onde quer que você esteja, é pra lá que eu vou."
Ela se inclinou pra trás, tentando pegar um vislumbre do meu rosto. "Você vai?"
Apertei ela. "É claro. Quer dizer, não estou feliz em te deixar e queria mais que tudo que minha
base fosse perto daqui, mas isso é tudo o que eu posso prometer nesse momento. Posso pedir uma
transferência assim que voltar, e eu irei, mas você nunca sabe como essas coisas são."
"Eu sei," ela murmurou. Por alguma razão, sua expressão séria me fez ficar nervoso.
"Você vai me escrever?" perguntei.
"Doh," ela brincou, e meu nervosismo desapareceu. "É claro que sim," ela disse sorrindo. "Como
você pode ao menos se importa em perguntar? Eu vou escrever o tempo todo. E só pra você saber,
eu escrevo as melhores cartas."
"Eu não duvido."
"Tô falando sério," ela disse. "Na minha família, é isso que nós fazemos todas as férias. Escrevemos
cartas para as pessoas que gostamos muito. Contamos a eles o que significam pra nós e o quanto
estamos ansiosos para vê-los novamente."
Beijei seu pescoço novamente. "Então, o que eu significo pra você? E quanto você está ansiosa pra
me ver novamente?"
Ela se inclinou pra trás. "Você vai ter que ler minhas cartas."
Eu ri, mas senti meu coração se partir. "Vou sentir sua falta," eu disse.
"Eu também."
"Você não parece tão triste em relação à isso."
"É por que eu já chorei, lembra? Além do mais, não é como se nós nunca fôssemos nos ver
novamente. Foi isso que eu finalmente me dei conta. É, vai ser difícil, mas a vida passa rápido-nos
veremos de novo. Eu sei disso. Posso sentir. Do mesmo modo que posso sentir o quanto você se


importa comigo e o quanto eu amo você. Meu coração sabe que isto não acabou e que nós vamos

superar isso. Muitos casais superam. Também, muitos casais não superam, mas eles não têm o que
nós temos."

Eu queria acreditar nela. Queria mais que tudo, mas me perguntei se era assim tão simples.
Quando o sol desapareceu abaixo do horizonte, caminhamos de volta ao carro e eu a levei à casa da
praia. Parei um pouco abaixo na rua para que ninguém na casa pudesse nos ver e quando saímos do
carro, pus meus abraços em volta dela. Nos beijamos e eu a segurei perto de mim, sabendo de
certeza que o próximo ano seria o mais longo da minha vida. Desejei fervorosamente que nunca
tivesse me alistado, que eu fosse um homem livre. Mas eu não era.
"Eu provavelmente devo ir agora."
Ela assentiu, começando a chorar. Senti um nó se formar em meu peito. "Vou escrever," prometi.
"Certo," ela disse. Limpou suas lágrimas e pegou sua bolsa. Tirou de lá uma caneta e um pequeno
pedaço de papel. Começou a rabiscar. "Esse é meu telefone e meu endereço de casa, certo? E meu
e-mail também."
Eu assenti.
"Lembre-se que eu vou mudar de dormitório no próximo ano, mas eu lhe digo o endereço assim que
souber. Mas você sempre pode me alcançar pelos meus pais. Eles vão passar adiante qualquer coisa
que você mandar."
"Eu sei," eu disse. "Você ainda tem minhas informações, certo? Mesmo que eu vá pra um missão
em algum lugar, as cartas chegam até mim. E-mail também. O exército é muito bom em arrumar
computadores, mesmo que seja no meio do nada."
Ela abraçou os braços como uma criança triste. "Me assusta," ela disse. "Você ser um soldado, quer
dizer."
"Eu vou ficar bem," assegurei.
Abri a porta do carro, então peguei minha carteira. Coloquei o bilhete que ela rabiscou dentro, então
abri meus braços novamente. Ela veio até mim e eu a segurei por um longo tempo, marcando a
sensação do corpo dela contra o meu.
Dessa vez foi ela que se afastou. Eenfiou a mão na bolsa novamente e puxou um envelope.
"Escrevi isso pra você ontem à noite. Pra você ter algo para ler no avião. Não leia até lá, certo?"
Assenti e a beijei mais uma vez, então escorreguei para atrás do volante do carro. Liguei o carro e
enquanto eu começava a andar ela gritou, "Mande um olá ao seu pai por mim. Diga a ele que eu
posso aparecer algum dia nas próximas semanas, está bem?"
Ela deu um passo para trás quando o carro começou a balançar. Eu ainda podia vê-la pelo espelho
retrovisor. Pensei em parar. Meu pai entenderia. Ele sabia o quanto Savannah significava pra mim e
ele iria querer que nós tivéssemos uma última noite juntos. Mas continuei, vendo sua imagem no
espelho ficar mais e mais pequena, sentindo meu sonho ir embora.


O jantar com meu pai foi mais quieto do que o normal. Não tive energia para tentar uma conversa e

até meu pai se deu conta disso. Sentei na mesa enquanto ele cozinhava, mas ao invés de se focar na
preparação, ele olhava em minha direção aqui e ali com uma preocupação muda em seus olhos. Me
sobressaltei quando ele desligou o fogão e se aproximou de mim.
QUando estava perto, ele colocou uma mão na minhas costas. Não disse nada, mas não precisava.
Eu sabia que ele entendia que eu estava sofrendo e ficou lá em pé sem se mexer, como se tentasse
absorver minha dor na esperança de tirá-la de mim e fazê-la dele próprio.
De manhã, meu pai me levou até o aeroporto e ficou ao meu lado no portão enquanto eu eperacva
meu vôo ser chamado. Quando cheou a hora eu levantei. Meu pai estendeu a mão; o abracei ao
invés disso. Seu corpo estava rígido, mas não me importei. "Te amo, pai."
"Também te amo, John."
"Encontre algumas moedas boas, certo?" acrescentei, me separando dele. "Quero ouvir tudo sobre
elas."
Ele olhou para o chão. "Eu gosto de Savannah," ele disse. "Ela é uma boa garota."
Veio do nada, mas era exatamente o que eu queria ouvir.
No avião, eu sentei com a carta que Savannah tinha escrito para mim, segurando ela no meu colo.
Embora eu quisesse abrir imediatamente, esperei até que tivéssemos decolado. Da janela eu podia
ver a linha da costa e procurei primeiro pelo píer, depois pela casa. Me perguntei se ela ainda estaria
dormindo, mas eu queria pensar que ela estava na praia esperando o avião passar. Quando estava
pronto, abri o envelope. Nele ela tinha colocado uma fotografia dela mesma, e eu subitamente
desejei que eu tivesse deixado uma de mim com ela também. Encarei seu rosto por um longo
tempo, depois a coloquei de lado. Dei um longo suspiro e comecei a ler.
Querido John,
Há tanto que eu quero dizer a você, mas eu não tenho certeza por onde devo começar. Eu deveria
começar lhe dizendo que te amo? Ou que os dias que passei com você foram os melhores da minha
vida? Ou que no pequeno tempo que eu conheço você, comecei a acreditar que nós fomos feitos
para ficar juntos? Eu poderia dizer todas essas coisas, e seriam todas verdade, mas enquanto eu as
releio, tudo o que eu posso pensar é que eu queria estar com você, segurando sua mão e
observando seu sorriso indescritível.
No futuro, eu sei que vou reviver nosso tempo juntos mil vezes. Ouvirei sua risada e verei seu rosto
e sentirei seus braços ao meu redor. Vou sentir falta de tudo isso, mais do que você possa imaginar.
Você é um raro cavalheiro, John, e eu dou grande valor a isso em você. Em todo o tempo que
ficamos juntos, você nunca me pressionou para dormir com você e eu não posso lhe falar o quanto
isso significou para mim. Fez o que nós tivemos parecer ainda mais especial e é assim que eu
sempre quero me lembrar de meu tempo com você. Como uma pura luz branca, um suspiro em que
eu possa me segurar.
Pensarei em você todos os dias. Parte de mim está com medo de que chegue um tempo em que você
não se sinta da mesma forma em relação a mim, que você de alguma forma esqueça o que vivemos,
então é isso que eu quero fazer. Onde quer que você esteja, não importa o que esteja acontecendo
na sua vida, quando for a primeira noite de lua cheia-como era na primeira vez que nos
encontramos-quero que você a encontre no céu noturno. Quero que você pense em mim e na
semana que compartilhamos, porque onde quer que eu esteja, não importa o que esteja
acontecendo na minha vida, é exatamente isso o que eu farei. Se não podemos ficar juntos, pelo


menos podemos compartilhar isso e, talvez entre nós dois, podemos fazer isso durar pra sempre.

Eu te amo, John Tyree e irei me segurar à promessa que você um dia me fez. Se você voltar, eu caso
com você. Se você quebrar sua promessa, quebrará meu coração.
Com amor, Savannah.
Além da janela e através das lágrimas nos meus olhos, eu podia ver uma camada de nuvens se
espalhar abaixo de mim. Não tinha idéia de onde estávamos. Tudo o que eu sabia era que queria
fazer a volta e voltar pra casa, estar no lugar onde eu deveria estar.


Doze


Horas depois, naquela primeira noite sozinho de volta na Alemanha, li a carta novamente, revivendo
o nosso tempo juntos. Foi fácil; aquelas memórias já tinham começado a me assombrar e algumas
vezes pareciam mais reais do que a minha vida como soldado. Eu podia sentir a mão de Savannah
na minha e a via sacudir a água do mar do seu cabelo. Ri alto ao relembrar minha surpresa quando
ela pegou a primeira onda até a praia. Meu tempo com Savannah me mudou e os homens no meu
esquadrão observaram a diferença. Durante as próximas semanas, meu amigo Tony me atormentou
infinitamente, convencido de que ele finalmente tinha se provado certo sobre a importância da
companhia feminina. Foi minha culpa por ter contado à ele sobre Savannah. Tony, no entanto,
queria saber mais do que eu queria dizer. Enquanto eu lia, ele sentou na cadeira à minha frente,
sorrindo como um idiota.
"Me conte de novo sobre o seu romance selvagem das férias," ele disse.
Me forcei a manter os olhos na página, fazendo o meu melhor para ignorá-lo.
"Savannah, certo? Sa-Va-nnah. Droga, eu amo esse nome. Parece tão... delicado, mas eu aposto que
ela era uma tigresa na cama, certo?"
"Cala a boca, Tony."
"Não me venha com essa. Não fui eu que ficou cuidando de você todo esse tempo? Lhe dizendo que
você tinha que sair? Você finalmente escutou e agora é a hora do pagamento. Quero os detalhes."
"Não é da sua conta."
"Mas você bebeu tequila, certo? Eu te disse que funciona toda vez."
Eu não disse nada. Tony jogou suas mãos para o alto. "Ah, vai-isso você pode me falar, não pode?"
"Eu não quero falar sobre isso."
"Porque você está apaixonado? É, foi isso que você disse, mas eu estou começanco a pensar que
você está inventando tudo isso."
"É isso mesmo. Eu inventei. Acabamos com isso?"
Ele balançou a cabeça e se levantou da cadeira. "Você é um cachorrinho doente de amor."
Eu não disse nada, mas enquanto ele ia embora, eu sabia que ele estava certo. Eu estava louco por
Savannah. Teria feito qualquer coisa pra estar com ela e pedi transferência para os Estados Unidos.
Meu oficial comandante linha dura apareceu para dar sérias considerações. Quando ele perguntou o
porquê, eu lhe falei sobre meu pai ao invés de Savannah. Ele ouviu por um tempo, depois se
encostou na cadeira e disse, "As probabilidades não são boas ao menos que a saúde do seu pai seja
um problema." Saindo do seu escritório, eu sabia que não iria a nenhum lugar pelo menos pelos
próximos seis meses. Não me importei em esconder minha decepção e na próxima vez que a lua
estava cheia, deixei o quartel e caminhei até um dos gramados que nós usávamos para jogos de
futebol. Me deitei de costas e encarei a lua, lembrando de tudo e odiando o fato de que eu estava tão
distante.


Desde o começo, as ligações e cartas entre nós eram regulares. Nós também enviávamos e-mails,

mas eu logo descobri que Savannah preferia escrever e ela queria que eu fizesse o mesmo. "Eu sei
que não é tão rápido quanto e-mail, mas é disso que eu gosto," ela me escreveu. "Eu gosto da
surpresa de achar uma carta na caixa do correio e da antecipação ansiosa que eu sinto quanto me
preparo para abri-la. Gosto do fato de que eu posso levá-la comigo para ler no meu tempo livre e
que eu posso me encostar numa árvore e sentir a briza em meu rosto quando vejo suas palavras no
papel. Gosto de imaginar como você estava enquanto escrevia: o que você estava usando, as coisas
ao seu redor, o modo como você segurava a caneta. Eu sei que é clichê e está provavelmente errado,
mas eu continuo pensando em você sentado em uma tenda numa mesa improvisada, com uma
lâmpada à óleo queimando ao seu lado enquanto o vento sopra do lado de fora. É muito mais
romântico do que ler algo na mesma máquina que você usa para baixar músicas ou fazer uma
pesquisa."
Eu sorri com isso. Ela estava, afinal, errada sobre a tenda e a mesa improvisada ou a lâmpada à
óleo, mas eu tinha que admitir que era uma visão mais interessante do que a realidade da lâmpada
fluorescente e a mesa feita pelo governo dentro do meu quartel de madeira.
Enquanto os dias e semanas passavam, o meu amor por Savannah parecia crescer mais e mais.
Algumas vezes eu escapava dos caras para ficar sozinho. Levava a foto de Savannah e a segurava
perto, estudando cada característica. Era estranho, mas tanto quanto eu a amava e lembrava do
nosso tempo juntos, descobri que enquanto o verão se tornava outono e depois mudava para o
inverno, eu estava mais e mais agradecido pela fotografia. Sim, me convenci de que podia lembrar
dela exatamente, mas quando era honesto comigo mesmo, sabia que estava perdendo os detalhes.
Ou talvez, me dei conta, eu nunca os tivesse notado. Na foto, por exemplo, descobri que Savannah
tinha uma pequena pinta abaixo de seu olho esquerdo, algo que eu, de alguma forma, não tinha
notado. Ou que, de perto, seu sorriso era ligeiramente torto. Essas eram imperfeições que de alguma
forma a faziam perfeita aos meus olhos, mas odiei o fato de que eu tinha que usar a foto para os
descobrir.
De algum modo, segui com a minha vida. Tanto quanto eu pensava em Savannah, tanto quanto eu
sentia falta dela, tinha um trabalho a fazer. Começando em setembro-devido a uma série de
circunstâncias que até o exército tinha problemas em explicar-meu batalhão e eu fomos enviados a
Kosovo pela segunda vez para nos juntarmos à Primeira Divisão Blindada em outra missão de paz
enquanto todos os outros da infantaria estavam sendo mandados de volta pra Alemanha. Estava
relativamente calmo e eu não disparei minha arma, mas isso não significa que eu passei meus dias
colhendo flores e sentindo falta de Savannah. Limpei minha arma, fiquei de guarda procurando por
algum louco e quando você é forçado a ficar alerta por horas, fica cansado quando a notie cai. Eu
posso dizer honestamente que poderia passar dois ou três dias sem me perguntar o que Savannah
estava fazendo ou até mesmo pensar nela. Isso fazia do meu amor menos real? Me fiz essa pergunta
dúzias de vezes durante a viagem, mas sempre decidia que não, pela simples razão de que sua
imagem me emboscava quando eu menos esperava, me derrotava com a mesma dor que eu tinha
sentido no dia em que parti. Qualquer coisa podia despertá-la: uma conversa com um amigo, a visão
de duas mãos se segurando, ou até mesmo o modo que alguns moradores da aldeia sorriam quando
passavam.
As cartas de Savannah chegavam a cada dez dias mais ou menos e formavam uma pilha quando eu
voltei pra Alemanha. Nenhuma era como a que eu li no avião; a maioria era casual e informal e ela
guardou a verdade sobre seus sentimentos até o final. Nesse meio tempo, eu conheci os detalhes de
sua vida diária: que eles tinham acabado a casa um pouco depois do previsto, o que tinha feito as
coisas mais difíceis na construção da segunda casa. Pra essa, eles tiveram que trabalhar durante
longas horas, mesmo que todos envolvidos tivessem se aperfeiçoado mais em suas tarefas. Soube


que depois de completar a primeira casa, tinham dado uma grande festa pra toda a vizinhança e que

tinham brindado e brindado noite à dentro. Soube que os trabalhadores tinham celebrado indo ao
Shrimp Shack e que Tim tinha dito que tinha uma atmosfera melhor do que qualquer restaurante
que ele já tivesse ido. Soube que ela tinha pegado a maioria das aulas de outono com os professores
que tinha requerido e que estava animada para ter aulas de psicologia adolescente com um Dr.
Barnes, que tinha um grande artigo publicado em algum exótico jornal psicológico. Eu não
precisava acreditar que Savannah pensava em mim toda vez que ela martelava um dedo ou ajudava
a colocar uma janela no lugar, ou que no meio de uma conversa com Tim, ela iria sempre desejar
que fosse comigo que estivesse conversando. Eu gostava de pensar que o que tínhamos era mais
fundo do que isso, e com o tempo, essa crença fez meu amor por ela ficar ainda mais forte.
Claro, eu queria saber que ela ainda se importava comigo, e nisso, Savannah nunca me
deceocionou. Acho que foi essa a razão pela qual guardei cada carta que ela mandou. No fim de
cada carta sempre havia algumas frases, talvez até um parágrafo, que ela escrevia algo que me fazia
parar, palavras que me faziam lembrar e eu me pegava relendo passagens e tentando imaginar sua
voz enquanto as lia. Como isso, da segunda carta que recebi:
Quando penso em você e eu e no que nós compartilhamos, sei que seria fácil para outros
desconsiderar nosso tempo juntos como um simples produto dos dias e noites passados à beira mar,
uma "aventura amorosa" que, a longo prazo, não iria significar absolutamente nada. É por isso
que eu não conto às pessoas sobre nós. Elas não entenderiam e eu não sinto necessidade de
explicar, simplesmente porque meu coração sabe o quanto foi real. Quando penso em você, não
posso evitar um sorriso, sabendo que você me completou de alguma forma. Eu te amo, não só por
agora, e eu sonho com o dia em que você me pegará nos braços novamente.
Ou isso, da carta que ela enviou depois de eu ter mandado uma foto minha:
E finalmente, quero te agradecer pela foto. Já coloquei na minha carteira. Você parece saudável e
feliz, mas eu tenho que lhe dizer que chorei quando a vi. Não porque eu fiquei triste, embora tenha
ficado, sabendo que não o verei-mas porque me fez feliz. Me lembrou de que você é a melhor coisa
que já aconteceu comigo.
E isso, de uma carta que ela tinha escrito enquanto eu estava em Kosovo:
Tenho que dizer que a sua última carta me preocupou. Quero saber, eu preciso saber, mas prendo a
respiração e fico assustada por você quando você me conta como é realmente a sua vida. Aqui
estou, me preparando para ir pra casa pra Ação de Graças e me preocupando com provas, e você
está em algum lugar perigoso, rodeado de pessoas que querem te machucar. Eu só queria que essas
pessoas pudessem te conhecer como eu te conheço, porque aí você estaria seguro. Exatamente
como eu me sinto segura quando estou em seus braços.
O Natal naquele ano foi um assunto triste, mas é sempre triste quando se está longe de casa. Não foi
o meu primeiro Natal sozinho durante meus anos em serviço. Todo feriado era passado na
Alemanha e alguns rapazes no nosso quartel tinham armado uma árvore improvisada-uma lona
verde enrolada em uma vara e decorada com pisca-piscas. Mais da metade dos meus colegas tinham
ido pra casa-eu era um dos desafortunados que tinham que ficar para o caso dos nossos amigos, os
russos, colocassem na cabeça que nós ainda éramos inimigos e a maioria dos outros foram até a
cidade celebrar a véspera de natal ficando bêbados com cerveja alemã de qualidade. Eu já tinha
aberto o pacote que Savannah me mandou-um suéter que me lembrava alguma coisa que Tim
vestiria e um punhado de cookies feitos em casa-e sabia que ela já tinha recebido o perfume que eu
a enviara. Mas eu estava sozinho e como um presente a mim mesmo, embarquei em uma cara
ligação com Savannah. Ela não esperava a ligação e eu relembrei a excitação em sua voz por


semanas depois disso. Acabamos falando por mais de uma hora. Tinha sentido falta do som da voz

dela. Tinha esquecido seu sotaque instável e a nasalização que se tornava mais pronunciada quando
ela começava a falar rápido. Me encostei em minha cadeira, imaginando que ela estava comigo e
ouvindo enquanto ela descrevia a neve que caía. Ao mesmo tempo, me dei conta de que também
nevava do lado de fora da minha janela, o que, mesmo que só por um instante, fez sentir como se
estivéssemos juntos.
Em janeiro de 2001, eu já tinha comelçado a contar os dias pra quando eu a veria novamente. Minha
licença de verão seria em junho, e eu estaria fora do exército em menos de um ano. Tinha acordado
de manhã e literalmente dito a mim mesmo que faltavam 360 dias, depois 359 e 358 até eu sair fora,
mas eu veria Savannah em 178, depois 177, 176 e assim por diante. Era tangível e real, perto o
bastante para me permitir sonhar em me mudar para a Carolinda do Norte; por outro lado,
infelizmente fez o tempo ir mais devagar. Não é sempre assim quando você realmente quer alguma
coisa? Me lembrou de quando eu era garoto e os longos dias enquanto eu esperava que chegassem
as férias de verão. Se não fossem as cartas de Savannah, eu não tenho dúvida de que a espera teria
sido muito maior.
Meu pai também escreveu. Não com a frequência de Savannah, mas na sua própria agenda mensal.
Para minha surpresa, suas cartas eram duas ou três vezes mais longas do que a única página a que
eu estava acostumado. As páginas adicionais eram eclusivamente sobre moedas. No meu tempo
livre, eu visitava o centro de informática e fazia uma pequena pesquisa por conta própria. Procurava
por certas moedas, coletava a história e mandava a informação de volta em uma carta minha. Juro,
da primeira vez que fiz isso, acho que vi lágrimas na próxima carta que ele me mandou. Não, não
realmente-sei que era só minha imaginação porque ele nunca nem mencionou o que eu tinha feito-
mas eu queria acreditar que ele tinha estudado as informações com a mesma intensidade que
costumava estudar o Greysheet.
Em fevereiro, fui mandado em manobras com outras tropas da NATO*: um daqueles "exercícios de
finja que nós estamos em uma batalha em 1944," onde nós estávamos supostamente enfrentando
uma investida violenta de tanques pelo interior da Alemanha. Meio inútil, se você me perguntar.
Esses tipos de guerra acabaram há muito tempo, acabaram o modo como os galões espahóis
explodiam seus canhões de curto alcance e a cavalaria dos E.U.A. voltando pra o resgate. Nos dias
de hoje, eles nunca dizem quem são os inimigos, mas todos sabem que são os russos, o que faz
ainda menos sentido, visto que eles devem ser os aliados agora. Mas mesmo que eles não fossem, o
simples fato é que eles não têm mais todos aqueles tanques funcionando e mesmo se eles estivessem
secretamente construindo milhares em alguma fábrica na Sibéria com a intenção de dominar a
Europa, qualquer onda antecipada de tanques seria mais provavelmente confrontada com ataques
aéreos e nossas próprias divisões mecanizadas ao invés de com a infantaria. Mas o que eu sei,
certo?
*Sigla para Organização do Tratado do Atlântico Norte.
O tempo estava muito ruim também, com um frio estranhamente raivoso vindo do ártico assim que
as manobras começaram. Foi épico, com a neve, chuva com neve, granizo e ventos atingindo 80km/
h, me fazendo pensar nas tropas de Napoleão na retirada de Moscou. Estava tão frio que formou
gelo nas minhas sombrancelhas, doía respirar e meus dedos se grudariam ao cano da arma se eu a
tocasse acidentalmente. Deu muito trabalho descolá-las e eu perdi um pedaço de pele na ponta dos
dedos no preocesso. Mas eu mantive meu rosto coberto e minha mão de reserva depois disso e
marchei pela lama congelada trazida pela chuva de neve sem fim, dando o meu melhor pra não me
tornar uma estátua de gelo enquanto fingia lutar com o inimigo.
Passamos dez dias fazendo isso. Metade dos meus homens se machucaram por causa do frio, a outra


metade sofreu de hiportemia e quando nós terminamos, meu batalhão estava reduzido a apenas três

ou quatro homens, os quais acabaram na enfermaria quando voltamos à base. Inclusive eu. Toda a
experiência foi a coisa mais ridícula e idiota que o exército já me fez fazer. E isso é alguma coisa,
porque eu já tinha feito muita coisa idiota pelo bom e velho Tio Sam e pelo Grande Vermelho. No
fim, nosso comandante caminhou pelas alas da enfermaria, parabenizando meu batalhão por um
trabalho bem feito. Eu queria dizer a ele que talvez nosso tempo fosse melhor gasto aprendendo
táticas de guerra modernas ou, pelo menos, dando uma olhada no canal do tempo. Mas em vez disso
ofereci uma saudação e um reconhecimento, sendo o bom cara do exército que eu era.
Depois disso, passei os próximos meses monótonos na base.
Claro, fizemos as aulas ocasionais de armas e navegação e de vez em quando eu ia até a cidade
beber uma cerveja com os caras, mas pela maior parte do tempo eu levantei toneladas de peso, corri
centenas de quilômetros e acabei com Tony todas as vezes que nós estrávamos no ringue de boxe. A
primavera na Alemanha não foi tão ruim quanto eu pensei que seria depois do desastre que nós
passamos nas manobras. A neve derreteu, as flores saíram e o ar começou a esquentar. Bem, não
muito esquentar, mas subiu acima de congelante e isso era o bastante para a maioria dos meus
colegas e eu vestirmos shorts e jogar Frisbee ou softball do lado de fora. Quando junho finalmente
chegou, me peguei ficando nervoso pra voltar pra Carolina do Norte. Savannah já tinha se formado
e já estava na escola de verão tendo aulas pra sua especialização, então eu planejei viajar até Chapel
Hill. Teríamos duas semanas gloriosas juntos, até mesmo quando eu fosse ver meu pai em
Wilmington, ela planejava vir comigo-e eu me peguei me sentindo alternadamente nervoso,
animado e assustado com esse pensamento.
Sim, tinhamos nos correspondido pelo correio e conversado pelo telefone. Sim, eu tinha saído pra
olhar a lua na primeira noite da lua cheia e em suas cartas ela me disse que também tinha olhado.
Mas eu não a tinha visto durante quase um ano e não tinha idéia de como ela reagiria quando
estivéssemos cara-a-cara novamente. Ela correria para os meus braços quando eu saísse do avião,
ou sua reação seria mais contida, talvez um beijo gentil na bochecha? Cairíamos em uma conversa
fácil imediatamente ou ficaríamos conversando sobre o tempo e nos sentindo estranhos perto um do
outro? Eu não sabia e ficava deitado acordado à noite imaginando milhares de cenários diferentes.
Tony sabia pelo que eu estava passando, embora fosse esperto o bastante para não chamar muita
atenção para isso. Ao invés disso, enquanto a data se aproximava, ele dava palmadinhas nas minhas
costas.
"Você vai vê-la logo," ele disse. "Está pronto pra isso?"
"Sim."
Ele sorriu com afetação. "Não se esqueça de comprar tequila no caminho pra casa."
Fiz uma careta e Tony riu.
"Vai ficar tudo bem," ele disse. "Ela te ama, cara. Ela tem que amar, considerando o quanto você a
ama."


Treze


Em junho de 2001, me deram licença e eu fui para casa imediatamente, voando de Frankfurt à Nova
York, e depois para Raleigh. Era uma noite de sexta e Savannah havia prometido que me pegaria no
aeroporto antes de me levar para Lenoir para conhecer seus pais. Ela me lançou essa surpresinha um
dia antes do meu vôo. Veja, eu não tinha nada contra cochecer seus pais. Tinha certeza que eles
eram pessoas maravilhosas e tudo, mas se fosse por mim, preferiria ter Savannah toda para mim
pelo menos pelos primeiros dias. É meio que difícil compensar o tempo perdido com pais por perto.
Mesmo que nós não fôssemos além-e conhecendo Savannah, eu tinha certeza que nós não iríamos,
embora eu mantesse meus dedos cruzados-como os pais dela me tratariam se eu ficasse com a filha
deles até altas horas, mesmo que tudo o que fizéssemos fosse nos deitar embaixo das estrelas?
Certamente ela era um adulta, mas pais eram engraçados quando se tratava de seus próprios filhos, e
eu não tinha ilusões de que eles seriam compreensivos sobre a coisa toda. Ela sempre seria a
garotinha deles, se você entende o que quero dizer.
Mas Savannah tinha uma razão quando me explicou. Eu tinha dois finais de semana livres e se eu
planejava ver meu pai no segundo fim de semana, eu tinha que ver os dela no primeiro fim de
semana. Além disso, ela estava tão animada com isso que tudo o que eu pude dizer foi que estava
ansioso para conhecê-los. Ainda assim, me perguntei se eu seria capaz de até mesmo segurar sua
mão, e especulei se poderia convencê-la a fazer um pequeno desvio no caminho até Lenoir.
Assim que o avião pousou, minha expectativa cresceu e pude sentir meu coração estrondando. Mas
eu não sabia como agir. Eu deveria correr para ela assim que a visse ou andar casualmente, calmo e
sob controle? Eu ainda não tinha certeza, mas antes que eu pudesse insistir nisso, estava na esteira,
subindo o corredor. Lancei minha bolsa-sacola sobre os ombros enquanto saía na rampa que dava
acesso ao terminal. Eu não a vi a princípio-muitas pessoas circulando. Quando escaneei a área uma
segunda vez, a vi à esquerda e me dei conta instantaneamente que todas as minhas preocupações
eram sem sentido, ela me viu e veio correndo a toda. Mal tive tempo de soltar minha bolsa sacola
antes que ela pulasse nos meus braços, e o beijo que se seguiu foi como nosso próprio reino mágico,
completo com sua língua e geografia especiais, mitos fabulosos e maravilhas pelos tempos. E
quando ela se afastou e murmurou, "Senti tanto a sua falta," eu senti como se tivesse sido colado
novamente depois de passar um ano cortado em dois.
Não sei quanto tempo ficamos em pé abraçados, mas quando finalmente começamos a nos mover
em direção a esteira de bagagens, deslizei minha mão dentro da dela sabendo que a amava não
apenas mais do que a última vez que a tinha visto, mas mais do que eu algum dia poderia amar
alguém.
No caminho falamos facilmente, mas fizemos um pequeno desvio. Depois de parar no acostamento,
nos agarramos como adolescentes. Foi ótimo-vamos deixar assim-e algumas horas depois,
chegamos à casa dela. Seus pais estavam esperando na varanda de uma elegante casa Vitoriana. Me
surpreendendo, a mãe dela me abraçou assim que eu cheguei perto, depois me ofereceu uma
cerveja. Recusei, principalmente porquê sabia que seria o único bebendo, mas gostei do esforço. A
mãe de Savannah, Jill, era muito parecida com Savannah: amigável, aberta e muito mais esperta do
que parecia. O pai dela era exatamente o mesmo e me diverti os visitando. Não doeu que Savannah
tenha segurado minha mão todo o tempo e parecia completamente à vontade. No fim da noite,
fomos caminhar à luz da lua. Quando voltamos à casa, parecia quase como se nunca tivéssemos nos
separado.
Não preciso nem dizer que dormi no quarto de hóspedes. Não esperava que fosse de outra forma, e
o quarto era muito melhor que a maioria dos lugares que eu havia ficado, com mobília clássica e um
colchão confortável. O ar estava abafado porém, e eu abri a janela, esperando que o ar da montanha


trouxesse um frescor. Tinha sido um longo dia-eu ainda estava com o horário da Alemanha-e peguei

no sono imediatamente, só pra acordar uma hora depois quando ouvi minha porta abrir rangendo.
Savannah, vestindo confortáveis pijamas de cotton e meias, fechou a porta atrás de si e andou em
direção a cama, na ponta dos pés.
Ela colocou um dedo na frente dos lábios pra me manter calado. "Meus pais me matariam se
soubessem que eu estou fazendo isso," ela murmurou. Se arrastou para a cama ao meu lado e ajeitou
as cobertas, as puxando até o pescoço como se estivesse acampando no ártico. Coloquei meus
braços ao redor dela, amando a sensação do seu corpo contra o meu.
Nos beijamos e rimos por quase toda a noite, então ela se esgueirou de volta ao seu quarto.
Adormeci novamente, provavelmente antes que ela alcançasse seu quarto e acordei com a visão da
luz do sol jorrando da janela. O cheiro do café da manhã entrando no quarto e eu vesti rapidamente
uma camisa e uma calça jeans e desci até a cozinha. Savannah estava na mesa, falando com sua mãe
enquanto seu pai lia o jornal e eu senti o peso da presença deles quando entrei.
Me sentei na mesa, e a mãe de Savannah me serviu uma xícara de café antes de colocar um prato de
ovos com bacon na minha frente. Savannah, que estava sentada à minha frente já tomada banho e
vestida, estava muito feliz e impossivelmente bonita na luz macia da manhã.
"Dormiu bem?" ela perguntou, seus olhando brilhando travessos. Eu assenti.
"Na verdade, eu tive o sonho mais maravilhoso," eu disse.
"Oh?" a mãe dela perguntou. "Sobre o que foi?"
Senti Savannah me chutar embaixo da mesa. Ela sacudiu a cabeça quase imperceptivelmente. Tenho
que admitir que adorei a visão de Savannah se envergonhando, mas era o bastante. Fingi me
concentrar. "Não consigo me lembrar agora," eu disse.
"Odeio quando isso acontece," sua mão disse. "O café está bom?"
"Está ótimo," eu disse. "Obrigada." Olhei para Savannah. "Qual é a agenda de hoje?"
Ela se inclinou por cima da mesa. "Pensei que nós podíamos ir cavalgar. Acha que você gostaria?"
Quando eu hesitei, ela riu. "Você vai ficar bem," ela acrescentou. "Prometo."
"É fácil pra você falar."
Ela montou Midas; pra mim ela sugeriu um cavalo chamado Pepper, que seu pai montava
geralmente. Passamos a maior parte do dia subindo por trilhas, galopando por campos abertos e
explorando essa parte do mundo dela. Ela preparou um almoço de picnic e comemos em um lugar
que tinha vista de toda Lenoir. Ela apontou escolas que frequentou e casas de pessoas que ela
conhecia. Me ocorreu que ela não apenas amava o lugar como nunca iria querer viver em outro
lugar.
Passamos seis ou sete horas nas selas e fiz o meu melhor para acompanhar Savannah, embora isso
fosse perto de impossível. Não acabei com minha cara na terra, mas houveram alguns momentos
perigosos aqui e ali quando Pepper se comportou mal e levei tudo o que eu tinha pra me segurar.
Não foi até Savannah e eu nos aprontarmos para o jantar que eu me dei conta no que tinha me
metido, contudo. Pouco a pouco, comecei a me dar conta que a minha caminhada lembrava o andar


de um animal de quatro patas. Os músculos anteriores das minhas pernas estavam como se Tony

tivesse batido neles por horas.

No sábado á noite, Savannah eu eu fomos jantar num aconchegante restaurante italiano. Depois
disso, ela sugeriu que fôssemos dançar, mas aí eu mal podia me mover. Enquanto eu mancava em
direção ao carro, ela adotou uma expressão preocupada e esticou o braço para me parar.
Se inclinando ela agarrou minha perna. "Dói quando eu aperto aqui?"
Eu pulei e gritei. Por alguma razão, ela achou divertido.
"Por que você fez isso? Doeu!"
Ela sorriu. "Estava só checando?"
"Checando o que? Eu já lhe disse-estou inflamado."
"Eu só queria ver se a pequena eu podia fazer um cara do exército grande e duro como você gritar."
Esfreguei minha perna. "É, bem, não vamos mais testar isso, certo?"
"Certo," ela disse. "Eu sinto muito."
"Você não parece sentir."
"Bem, eu sinto," ela disse. "Mas é meio que engraçado, não acha? Quer dizer, eu montei o mesmo
tempo que você e eu estou bem."
"Você monta o tempo todo."
"Eu não montava a mais de um mês."
"É, bem."
"Vamos lá. Admita. Fou engraçado, não foi?"
"Nem um pouco."
No domingo, fomos à igreja com a família dela. Eu estava muito inflamado pra fazer mais alguma
coisa pelo resto do dia, então eu fiquei no sofá e assisti a uma partida de baseball com o pai dela. A
mãe de Savannah trouxe sanduíches e eu passei a tarde estremecendo toda vez que tentava ficar
confortável enquanto o jogo tinha entradas extras. O pai dela era fácil de conversar e a conversa
flutuou da vida no exército para ensinar algumas das crianças que ele treinava e suas esperanças
para o futuro delas. Gostei dele. Do meu lugar, eu podia ouvir Savannah e sua mãe conversando na
cozinha, e de vez em quando Savannah vinha até a sala com uma cesta de roupas para dobrar
enquanto sua mãe colocava outra carga na máquina de lavar. Embora tecnicamente fosse uma
universitária formada e adulta, ela ainda trazia suas roupas sujas para a mãe lavar.
Naquela noite, dirijimos de volta à Chapel Hill e Savannah me mostrou seu apartamento. Era
escasso no departamento de móveis, mas era relativamente novo e tinha uma lareira a gás e uma
varanda que tinha vista para o campus. Apesar do clima ameno, ela acendeu a lareira e lanchamos
queijo e bolachas, o que, tirando cereal, era tudo que ela tinha para oferecer. Pareceu


indescritivelmente romântico para mim. Conversamos até quase meia-noite, mas Savannah estava

mais quieta do que o normal. Algum tempo depois, ela caminhou até o quarto. Quando ela não
voltou, fui encontrá-la. Estava sentada na cama, e eu parei na porta.

Ela apertou as duas mãos e deu um longo suspiro. "Então...," ela começou.
"Então...," eu respondi quando ela permaneceu em silêncio.
Ela deu outro longo suspiro. "Está ficando tarde. E eu tenho aula cedo amanhã."
Assenti. "Você deveria ir dormir."
"É," ela disse. Assentiu como se não tivesse considerado isso e se virou para a janela. Pelas
persianas eu podia ver raios de luz jorrando do estacionamento. Ela ficava fofa quando estava
nervosa.
"Então...," ela disse novamente, como se falasse com a parede.
Levantei minhas mãos. "Por que eu não durmo no sofá?"
"Você não se importa?"
"Nem um pouco," eu disse. Na verdade, não era o que eu preferia, mas eu entendi.
Ainda olhando pela janela, ela não se moveu para levantar.
"Eu só não estou pronta," ela disse, sua voz suave. "Quer dizer, eu pensei que estava e uma parte de
mim realmente quer isso. Tenho pensado sobre isso pelas últimas semanas e me decidi, e parecia
certo, sabe? Eu te amo e você me ama, e é isso que as pessoas fazem quando estão apaixonadas. Era
fácil dizer isso a mim mesma quando você não estava aqui, mas agora..." ela parou de falar.
"Tudo bem," eu disse.
Finalmente ela se virou pra mim. "Você estava com medo? Na sua primeira vez?"
Me perguntei qual a melhor maneira de responder isso. "Acho que é diferente para homens e
mulheres," eu disse.
"É. Acho que sim." Ela fingiu ajeitar os cobertores. "Você está com raiva?"
"Nem um pouco."
"Mas está decepcionado."
"Bem..." eu admiti e ela riu.
"Desculpe," ela disse.
"Não há razão para se desculpar."
Ela pensou nisso. "Então por que eu sinto como se tivesse que me desculpar?"


"Bem, eu sou um soldado solitário," afirmei e ela riu novamente. Eu ainda podia ouvir o

nervosismo nela.

"O sofá não é muito confortável," ela se preocupou. "E é pequeno. Você não vai poder se esticar. E
eu não tenho cobertores extras. Eu devia ter trazido alguns de casa, mas esqueci."
"Isso é um problema."
"É," ela disse. Eu esperei.
"Acho que você poderia dormir comigo," ela arriscou.
Eperei um momento que ela continuasse seu próprio debate interno. Finalmente ela deu de ombros.
"Quer tentar? Só dormir, eu quero dizer?"
"O que você quiser."
Pela primeira vez, seus ombros relaxaram. "Certo, então. Decidimos. Só me dê um minuto para me
trocar."
Ela se levantou da cama, cruzou o quarto e abriu uma gaveta. O pijama que ela escolheu era
parecido com o que ela tinha escolhido na casa dos pais e eu a deixei para voltar à sala, onde eu
vesti um dos meus shorts de malhar e uma camisa. Quando retornei, ela já estava embaixo dos
cobertores. Fui para o outro lado e me arrastei para o seu lado. Ela ajeitou os cobertores antes de
desligar a luz, depois deitou de volta, encarando o teto.
Deitei de lado, a olhando. "Boa noite," ela murmurou.
"Boa noite."
Eu sabia que não dormiria. Não por um tempo de qualquer forma. Eu estava muito... incitado pra
isso. Mas eu não queria ficar me remexendo, caso ela pudesse.
"Ei," ela finalmente sussurrou de novo.
"Sim?"
Ela se virou para me encarar. "Eu só quero que você saiba que essa é a primeira vez que eu dormi
com um homem. A noite toda, eu quero dizer. É um passo adiante, certo?"
"É," eu disse. "É um passo adiante."
Ela acariciou meu braço. "E agora se alguém perguntar, você vai poder dizer que nós dormimos
juntos."
"Verdade," eu disse.
"Mas você não vai dizer a ninguém, vai? Quer dizer, eu não quero ficar com uma reputação, você
sabe."
Eu sufoquei uma risada. "Vai ser nosso segredinho."


Os próximos dias caíram para um padrão relaxado e fácil. Savannah tinha aulas pela manhã e

geralmente acabava um pouco antes do almoço. Teoricamente, acho que me deu a oportunidade de
dormir até tarde-algo que todo soldado sonha quando falam em sair de licença-mas anos de acordar
antes do amanhecer era um hábito impossível de quebrar. Ao invés disso, eu acordava antes dela e
fazia um bule de café antes de ir até à esquina pegar o jornal. Ocasionalmente, comprava alguns
bagels ou croissants; outras vezes, nós simplesmente comíamos cereal em casa, e era fácil visualizar
a nossa pequena rotina como uma prévia dos primeiros anos da nossa futura vida juntos, Um êxtase
sem esforço que era quase bom demais pra ser verdade.
Ou, pelo menos, eu tentei me convencer disso. Quando ficamos com seus pais, Savannah era
exatamente a garota de quem eu lembrava. A mesma coisa na nossa primeira noite sozinhos. Mas
depois disso... comecei a notar diferenças. Acho que eu não tinha me dado conta de que ela estava
vivendo uma vida que parecia completa e realizada, mesmo sem mim. O calendário que ela
mantinha na porta da geladeira listava algo para fazer todo dia: shows, palestras, meia dúzia de
festas de vários amigos. Tim, eu notei, estava marcado para o almoço ocasional também. Ela estava
pagando quatro cadeiras e ensinava outra como monitora e nas tardes de quinta, ela trabalhava com
um professor no estudo de um caso que ela tinha certeza que seria publicado. Sua vida era
exatamente do modo como ela descreveu nas cartas e quando retornava ao apartamento, ela me
contava sobre o seu dia enquanto fazia algo para comer na cozinha. Ela amava o trabalho que estava
fazendo e o orgulho no seu tom era evidente. Falava animadamente enquanto eu escutava e fazia
perguntas suficientes para manter o fluxo da conversa.
Nada anormal nisso, eu admiti. Eu sabia o bastante para me dar conta de que seria um problema
maior se ela não dissesse nada sobre o seu dia. Mas a cada nova estória eu tinha essa sensação
engolfante que me fazia pensar que não importava que nós mantivéssemos contato, não importava
que nos importássemos um com o outro, ela e eu tomamos caminhos contrários. Desde a última vez
que eu a tinha visto, ela havia completado sua graduação, lançado seu chapéu de formanda no ar,
encontrado trabalho como assistente graduada, se mudado e mobiliado seu próprio apartamento.
Sua vida havia entrado em uma nova fase, e enquanto eu achava possível dizer a mesma coisa sobre
mim, um fato simples era que nada tinha mudado muito na minha vida, a menos que você conte o
fato que agora eu sei como montar e desmontar oito tipos de armas ao invés de seis e aumentei meu
levantamento de peso em mais 13 quilos. E, é claro, eu havia feito minha parte dando aos russos
algo para pensar se eles estivessem debatendo se deveriam ou não invadir a Alemanha com dúzias
de divisões mecanizadas.
Não me entenda mal. Eu ainda estava louco por Savannah e havia momentos em que eu ainda sentia
a força dos seus sentimentos por mim. Muitos momentos, de fato. Na maior parte, foi uma semana
maravilhosa. Enquanto ela estava fora, eu caminhava pelo campus ou corria pela pista perto da casa
de campo, aproveitando meu merecido tempo relaxado. Dentro de um dia eu achei uma academia
que me permitia malhar pelo tempo que eu estivesse lá e porque eu estava de licença eles nem me
cobraram nada. Eu geralmente tinha acabado de malhar e tomar banho na hora que Savannah
voltava e nós passávamos o resto da tarde juntos. Na terça à noite nos juntamos a um grupo de
colegas de classe dela para jantar no centro de Chapel Hill. Foi mais divertido do que eu pensei que
seria, especialmente considerando que eu estava saindo com um grupo de caras da aeronáutica de
escola de veraneio e a maior parte da conversa foi centrada em psicologia de adolescentes. Na
quarta à tarde, Savannah me deu um tour das suas aulas e me apresentou aos professores. Mais tarde
naquela tarde, nos encontramos com algumas pessoas as quais eu havia sido apresentado na noite
anterior. Naquela noite, compramos comida chinesa e comemos na mesa do apartamento dela. Ela
estava vestindo uma daquelas blusas de alças, que acentuavam seu bronzeado e tudo o que eu podia
pensar era que ela era a mulher mais sexy que eu já havia visto.
Na quinta, eu queria passar algum tempo sozinho com ela e decidi surpreendê-la com uma noite


fora especial. Enquanto ela estava em aula e trabalhando no estudo do caso, eu fui ao shopping e

gastei uma pequena fortuna em um terno e outra pequena fortuna em um par de sapatos. Eu queria
vê-la vestida formalmente e fiz reservas nesse restaurante que o vendedor de sapatos tinha me dito
que era o melhor da cidade. Cinco estrelas, menu exótico, garços vestidos impecavelmente, a coisa
toda. Certamente eu não contei a Savannah sobre isso de antemão-deveria ser uma surpresa afinal
de contas-mas assim que ela passou pela porta, eu descobri que ela já havia feito planos para passar
outra noite com os mesmo amigos que nós havíamos visto nos últimos dias. Ela parecia tão animada
que eu nunca me incomodei em contá-la o que eu havia planejado.
Ainda assim, eu não estava apenas decepcionado, estava com raiva. Ao meu ver, eu estava mais do
que feliz em passar uma noite com seus amigos, até mesmo uma noite adicional. Mas quase todo
dia? Depois de um ano separados, onde nós tivemos tão pouco tempo juntos? Me incomodava que
ela não parecia compartilhar do mesmo desejo. Pelos últimos meses eu havia imaginado que nós
passaríamos o máximo de tempo juntos que pudéssemos, compensando o ano que passamos
separados. Mas eu estava chegando à conclusão de que estava errado. O que significava... o que?
Que eu não era tão importante para ela como ela era pra mim? Eu não sabia, mas dado o meu
humor, eu provavelmente deveria ter ficado no apartamento e a deixado ir sozinha. Em vez disso,
sentei afastado, me recusei a tomar parte na conversa e praticamente desviei o olhar de todos que
olhavam na minha direção. Tinha ficado bom em intimidação com o passar dos anos e eu estava em
uma forma rara naquela noite. Savannah sabia que eu estava com raiva, mas toda vez que ela
perguntava se alguma coisa estava me incomodando, eu estava no meu melhor modo passivo-
agressivo de negar que alguma coisa estava errada.
"Só estou cansado," eu disse.
Ela tentou melhorar as coisas, admito. Ela segurava minha mão aqui e ali e me dava um rápido
sorriso quando achava que eu o veria, e me encheu de refrigerante e batatas fritas. Depois de um
tempo contudo, ela se cansou da minha atitude e desistiu.
Não que eu a culpe. Eu tinha merecido e de alguma forma o fato de que ela tinha começado a ficar
com raiva de mim me deixou enrubescer com isso, ao invés de sentir satisfação. Nós mal nos
falamos no caminha pra casa e quando fomos pra cama, dormimos em lados opostos do colchão.
Pela manhã eu já tinha deixado pra lá, pronto para seguir em frente. Infelizmente, ela não.
Enquanto eu estava fora pegando o jornal, ela deixou o apartamento sem tocar no café e eu acabei
bebendo meu café sozinho.
Eu sabia que tinha ido longe demais e planejei compensá-la assim que ela voltasse pra casa. Queria
deixar claras as minhas preocupações, contá-la sobre o jantar que eu havia preparado e me
desculpar pelo meu comportamento. Presumi que ela entenderia. Colocaríamos tudo para trás com
um romântico jantar fora. Era o que eu achava que precisávamos, visto que íamos para Wilmington
no dia seguinte para passar o fim de semana com o meu pai.
Acredite ou não, eu queria vê-lo e assumi que ele estava ansioso para a minha visita também, do seu
próprio modo. Diferente de Savannah, meu pai se superava em se tratando de expectativas. Pode
não ter sido justo, mas Savannah tinha um papel diferente na minha vida naquela época. Balancei a
cabeça. Savannah. Sempre Savannah. Tudo nessa viagem, tudo na minha vida, me dei conta, sempre
tinha a ver com ela.
À uma hora, eu tinha acabado de malhar, tomado banho, arrumado a maioria das minhas coisas e
ligado para o restaurante para renovar minha reserva. Eu sabia da agenda de Savannah àquela altura


e presumi que ela estaria chegando a qualquer minuto. Sem mais nada pra fazer, sentei no sofá e

liguei a televisão. Programas de jogos, séries, programas de vendas e entrevistas eram entremeados
com comerciais de advogados oportunistas. O tempo se arrastou enquanto eu esperava. Eu
continuava andando até o pátio para olhar a vaga dela no estacionamento e chequei meu
equipamento três ou quatro vezes. Savannah, eu pensei, estava certamente no caminho de casa, e eu
me ocupei limpando a lava-louças. Alguns minutos depois, escovei meus dentes pela segunda vez,
então olhei pela janela mais uma vez. Ainda sem Savannah. Liguei o rádio, ouvi algumas músicas e
mudei de estação seis ou sete vezes antes de desligá-lo. Caminhei até o pátio novamente. Nada.
Nessa hora, já eram quase duas.
Me perguntei onde ela estaria, senti os resquícios da raiva crescendo novamente, mas os forcei a se
afastar. Disse a mim mesmo que ela provavelmente teria uma explicação válida e repeti de novo
quando esse argumento não se segurou. Abri minha bolsa e tirei de lá o último livro de Stephen
King. Enchi um copo com água gelada, me acomodei no sofá, mas quando me dei conta de que
estava lendo a mesma frase de novo, e de novo, coloquei o livro de lado.
Outros quinze minutos se passaram. Depois trinta. Na hora que eu ouvi o carro de Savannah
estacionando, minha mandíbula estava apertada e eu estava rangendo os dentes. Às três e quinze,
ela empurrou a porta. Estava toda sorrisos, como se nada estivesse errado.
"Oi, John," ela falou. Foi até a mesa e começou a desfazer sua bolsa. "Desculpe o atraso, mas
depois da minha aula, uma estudante apareceu para me contar que ela tinha amado a minha aula e
que por causa de mim ela queria se especializar em educação especial. Dá pra acreditar nisso? Ela
queria dicas sobre o que fazer, que cadeiras pagar, quais professores eram os melhores... e o modo
como ela ouviu minhas respostas..." Savannah sacudiu a cabeça. "Foi tão... recompensador. O modo
como essa garota estava se segurando a tudo que eu dizia... bem, me faz sentir como se eu
realmente estivesse fazendo a diferença para alguém. Você ouve professores falando sobre
experiências como essa, mas eu nunca imaginei que aconteceria comigo."
Forcei um sorriso e ela o tomou como um sinal para continuar.
"De qualquer forma, ela perguntou se eu tinha algum tempo pra discutir isso e mesmo eu dizendo a
ela que só tinha alguns minutos, uma coisa levou à outra e nós acabamos indo almoçar. Ela é
mesmo especial, tem só dezessete anos mas se formou um ano mais cedo no ensino médio. Ela
passou em algumas provas especiais, então ela já está no segundo ano da faculdade e vai pra escola
de verão pra ir ainda mais longe. É impossível não admirá-la."
Ela queria coro pra seu entusiasmo, mas eu não pude reuní-lo. "Ela parece ótima," eu disse.
Com a minha resposta, Savannah parecia realmente olhar pra mim pela primeira vez e eu não fiz
nenhum esforço para esconder meus sentimentos.
"O que há de errado?" ela perguntou.
"Nada," eu menti.
Ela colocou a bolsa de lado com um suspiro desgostoso. "Você não quer falar sobre isso? Ótimo.
Mas você deveria saber que isso está ficando um pouco cansativo."
"O que isso quer dizer?"
Ela virou em minha direção. "Isso! O modo como você está agindo," ela disse. "Você não é tão


difícil de interpretar, John. Você está com raiva mas não quer me dizer o porquê."


Hesitei, ficando na defensiva. Quando finalmente falei, me forcei a manter a voz firme. "Certo," eu
disse, "Eu achei que você estaria em casa horas atrás..."
Ela ergueu os braços. "É por causa disso? Eu já te expliquei. Acredite ou não, eu tenho
responsabilidades agora. E se eu não estou errada, eu me desculpei pelo atraso assim que passei pela
porta."
"Eu sei, mas..."
"Mas o que? Minhas desculpas não foram boas o bastante?"
"Eu não disse isso."
"Então o que é?"
Quando eu não pude achar as palavras, ela colocou as mãos nos quadris. "Você quer saber o que eu
acho? Você ainda está zangado por causa de ontem à noite. Mas me deixe adivinhar-você também
não quer falar sobre isso, certo?"
Fechei meus olhos. "Ontem à noite você-"
"Eu?" ela me interrompei e começou a sacudir a cabeça. "Ah, não, não me culpe por isso! Eu não
fiz nada de errado. Não fui eu quem começou isso! Ontem à noite poderia ter sido divertido-teria
sido divertido-mas você tinha que ficar lá sentado como se quisesse atirar em alguém."
Ela estava exagerando. Ou, novamente, talvez não. De qualquer forma, permaneci calado.
Ela continuou. "Sabia que eu tive que inventar desculpas pra você hoje? E como isso me fez sentir?
Ali estava eu, soltando elogios pra você durante todo o ano, contando aos meus amigos que cara
legal você era, o quão maturo você era, o quanto eu estou orgulhosa do trabalho que você está
fazendo. E eles acabaram vendo um lado seu que nem mesmo eu tinha visto antes. Você foi...
grosseiro."
"Você já pensou que eu podia estar agindo daquela maneira porque não queria estar lá?"
Isso a fez parar, mas só por um instante. Ela cruzou os braços. "Talvez o modo como você agiu
ontem à noite foi a razão para eu me atrasar hoje."
Sua afirmação me pegou de guarda baixa. Eu não tinha considerado isso, mas não era essa a
questão.
"Sinto muito pela noite passada-"
"Você deve sentir!" ela gritoou, me interrompendo novamente. "Eram meus amigos!"
"Eu sei que eram seus amigos!" falei bruscamente, me levantando do sofá. "Estivemos com eles a
semana toda!"
"O que isso quer dizer?"


"O que eu disse. Talvez eu quisesse ficar sozinho com você. Já pensou nisso?"


"Você queria ficar sozinho comigo?" ela exigiu. "Bem, deixa eu te dizer, você não está agindo como
se quisesse. Estávamos sozinhos essa manhã. Estávamos sozinhos quando eu entrei ainda agora.
Estávamos sozinhos quando eu tentei ser legal e deixei tudo isso pra trás, mas tudo o que você quer
fazer é brigar."
"Eu não quero brigar!" eu disse, dando o melhor de mim pra não gritar mas sabendo que tinha
falhado. Me virei, tentando manter minha raiva sob controle, mas quando falei novamente podia
ouvir o agouro implícito em minha voz. "Só quero que as coisas voltem a ser o que eram. Como no
verão passado."
"O que tem o verão passado?"
Odiei isso. Não queria contar a ela que já não me sentia importante. O que eu queria era como pedir
a alguém para amar você e isso nunca funcionava. Ao invés disso, tentei usar o assunto.
"No verão passado, parecia que tínhamos mais tempo juntos."
"Não, não tínhamos," ela replicou. "Eu trabalhava nas casas o dia todo. Lembra?"
Ela estava certa, é claro. Pelo menos parcialmente. Tentei novamente. "Não estou dizendo que faz
sentido, mas parece que tínhamos mais tempo para conversar ano passado."
"E isso está incomodando você? Que eu estou ocupada? Que eu tenho uma vida? O que você quer
que eu faça? Abandonar as aulas a semana toda? Dizer que estou doente quando tenho que dar
aulas? Pular as tarefas de casa?"
"Não..."
"Então o que você quer?"
"Eu não sei."
"Mas você quer me humilhar na frente dos meus amigos?"
"Eu não humilhei você," protestei.
"Não? Então por que Tricia me colocou de lado hoje? Por que ela sentiu a necessidade de me dizer
que nós não tínhamos nada em comum e que eu podia fazer muito melhor?"
Essa doeu, mas não tenho certeza se ela se deu conta de como isso soou.
A raiva às vezes torna isso impossível, como eu bem sabia. "Eu só queria ficar sozinho com você na
noite passada. É tudo o que eu estou tentando dizer."
Minhas palavras não tiveram efeito nela.
"Então por que você não me disse isso?" ela exigiu. "Disse algo como 'Tudo bem se fizermos outra
coisa? Não estou a fim de sair com outras pessoas.' Era tudo o que você tinha que dizer. Eu não leio
mentes, John."


Abri minha boca para responder mas não disse nada. Ao invés disso, me virei e andei até o outro

lado da sala. Olhei para a porta do pátio, não estava com raiva pelo que ela disse, só... triste. Me
veio a mente que eu tinha de alguma forma, perdido ela, e eu não sabia se era porque eu estava
fazendo uma tempestade em um copo d'água ou se porque eu entendia muito bem o que estava
realmente acontecendo entre nós.
Eu não queria mais falar sobre isso. Nunca fui bom em conversas e me dei conta de que o que eu
realmente queria era que ela atravessasse a sala e colocasse seus braços ao meu redor, dissesse que
ela entendia o que estava me incomodando e que eu não tinha nada com o que me preocupar.
Mas nada disso aconteceu. Ao invés disso eu falei com a janela, me sentindo estranhamente
sozinho. "Você está certa," eu disse. "Deveria ter lhe contado. E me desculpe por isso. E me
desculpe pelo modo que eu agi na noite passada e me desculpe por ficar chateado com o seu atraso.
É só que eu realmente queria te ver o máximo que pudesse nessa viagem."
"Você diz isso como se não achasse que eu quero o mesmo."
Me virei. "Pra ser honesto," eu disse, "não tenho certeza se você quer." Com isso, caminhei até a
porta.
Fiquei fora até a noite.
Não sabia pra onde ir nem porque tinha saído, mas eu precisava ficar sozinho. Caminhei para o
campus debaixo de um sol escaldante e me peguei me mudando de uma sombra de árvore para
outra. Não chequei para ver se ela estava me seguindo; sabia que ela não estaria.
Depois de um tempo, parei e comprei uma água gelada no centro dos estudantes, mas embora
estivesse relativamente vazio e o ar fosse refrescante, eu não fiquei. Senti a necessidade de suar,
como se para me purificar da raiva, tristeza e decepção que eu não podia, das quais eu não
conseguia me livrar.
Uma coisa era certa: Savannah tinha entrado pela porta pronta para uma discussão. Suas respostas
tinham vindo muito rápidas e me dei conta de que elas pareciam menos espontâneas do que
ensaiadas, como se sua própria raiva estivesse cozinhando pela maior parte do dia. Ela sabia
exatamente como eu agiria e embora eu merecesse sua raiva baseado na forma como eu agi na noite
anterior, o fato de que ela não parecia se importar com a sua própria culpa ou meus sentimentos me
atormentaram pela maior parte da tarde.
As sombras ficaram maiores quando o sol começou a abaixar, mas eu ainda não estava pronto para
voltar. Ao invés disso, comprei alguns pedaços de pizza e uma cerveja de uma daquelas barracas
que dependiam dos estudantes para sobreviver. Acabei de comer, caminhei mais um pouco e
finalmente comecei o caminho de volta pra o apartamento dela. A essa altura eram quase nove e a
montanha-russa emocional na qual eu estivera me deixou acabado. Me aproximando da rua, notei
que o carro de Savannah estava no mesmo lugar. Podia ver uma lâmpada ardendo dentro do quarto.
O resto do apartamento estava escuro.
Me perguntei se a porta estaria trancada, mas o trinco virou livremente quando eu tentei. A porta do
quarto estava entreaberta, a luz escorria no corredor e eu debati se deveria me aproximar ou ficar na
sala. Eu não queria encarar sua raiva, mas dei um longo suspiro e caminhei até o curto corredor.
Enfiei minha cabeça pela porta. Ela estava sentada na cama vestindo uma camisa muitos números
maior que ela. Ela desviou o olhar da revista que segurava e eu ofereci um sorriso cauteloso.


"Oi," eu disse.


"Oi."

"Desculpe," eu disse. "Por tudo. Você estava certa. Fui um idiota noite passada e não deveria ter
envergonhado você na frente de seus amigos. E não deveria ter ficado tão zangado por que você
estava atrasada. Não acontecerá novamente."
Ela me surpreendeu dando tapinhas no colchão. "Vem aqui," ela sussurrou.
Subi pela cama, me encostei no espelho da cama e deslizei meu braço em volta dela. Ela se inclinou
contra mim e eu podia sentir o firme subir e descer de seu peito.
"Eu não quero mais brigar," ela disse.
"Eu também não."
Quando afaguei seu braço, ela suspirou. "Onde você foi?"
"Lugar nenhum, na verdade," eu disse. "Só andei pelo campus. Comi pizza. Pensei muito."
"Sobre mim?"
"Sobre você. Sobre mim. Sobre nós."
Ela assentiu. "Eu também," ela disse. "Você ainda está com raiva?"
"Não," eu disse. "Eu estava, mas estou muito cansado pra ainda estar com raiva."
"Eu também," ela repetiu. Levantou a cabeça para me encarar. "QUero lhe contar uma coisa sobre o
que eu estava pensando quando você não estava aqui," ela disse. "Posso fazer isso?"
"Claro," eu disse.
"Me dei conta de que sou eu quem deveria estar se desculpando. Sobre passar muito tempo com os
amigos, quer dizer. Acho que foi por isso que fiquei com tanta raiva mais cedo. Eu sabia o que você
estava tentando dizer, mas não queria ouvir porque sabia que você estava certo. Em parte, de
qualquer forma. Mas sua argumentação estava errada."
Olhei para ela incerto. Ela continuou.
"Você acha que eu fiz você passar tanto tempo com meus amigos porque você não era tão
importante pra mim quanto costumava ser, certo?" Ela não esperou por uma resposta. "Mas não é
essa a razão. É exatamente o oposto. Eu estava fazendo isso porque você é muito importante pra
mim. Não tanto porque eu queria que você conhecesse meus amigos, ou pra que eles pudessem lhe
conhecer, mas por causa de mim."
Ela parou insegura.
"Não sei o que você está tentando dizer."
"Você lembra quando eu disse que tirava forças dos momentos em que estou com você?"


Quando assenti, ela passou os dedos pelo meu peito. "Eu não estava brincando a respeito disso. O

verão passado significou tanto pra mim. Mais do que você pode imaginar, e quando você foi
embora, eu fiquei em ruínas. Pergunte ao Tim. Eu mal trabalhava nas casas. Sei que te mandei
cartas que fizeram você pensar que tudo estava bem, mas não estava. Eu chorava toda noite, e todo
dia eu sentava na casa e ficava imaginando, esperando e desejando que você viesse correndo da
praia. Toda vez que eu via alguém com um crew cut, sentia meu coração começar a bater mais
rápido, mesmo que eu soubesse que não era você. Mas era isso. Eu queria que fosse você. Toda vez.
Eu sei que o que você faz é importante e eu entendo que a sua base está a um mar de distância, mas
não acho que entendia o quanto iria ser duro quando você não estivesse por perto. Parecia que
estava quase me matando e levou um longo tempo pra até mesmo começar a me sentir normal
novamente. E nessa viagem, tanto quanto eu queria te ver, tanto quanto eu te amo, há essa parte de
mim que está aterrorizada que eu vá ficar em pedaços novamente quando nosso tempo acabar. Estou
sendo puxada em duas direções e a minha resposta foi fazer tudo que eu pudesse para que não
tivesse que passar por tudo o que passei no último ano. Então tentei nos manter ocupados, sabe?
Para impedir meu coração de ser partido novamente."
Senti minha garganta apertada mas não disse nada. Depois de um tempo; ela continuou. "Hoje eu
me dei conta de que estava te machucando durante esse processo. QUe não era justo com você, mas
ao mesmo tempo, estou tentando ser justa comigo também. Em uma semana você irá embora
novamente e sou eu que vou ter que descobrir como funcionar depois de tudo. Algumas pessoas
podem fazer isso. Você pode fazer isso. Mas pra mim..."
Ela encarou suas mãos, e por um longo tempo tudo estava quieto. "Não sei o que dizer," eu
finalmente admiti.
Sem querer, ela riu. "Eu não quero uma resposta," ela disse, "porque eu não acho que exista uma.
Mas eu sei que não quero te machucar. È tudo o que eu sei. Só espero que eu consiga achar um
modo de ficar mais forte esse verão."
"Podemos sempre malhar juntos," eu brinquei sem entusiasmo e fui gratificado ao ouvir o som da
sua risada.
"É, isso vai funcionar. Dez abdominais e eu estarei boa como nova, certo? Queria que fosse tão
fácil. Mas eu vou conseguir. Pode não ser fácil, mas pelo menos não vai ser um ano todo dessa vez.
Foi isso que eu continuei me lembrando hoje. QUe você vai estar de volta para o Natal. Mais alguns
meses e tudo isso estará acabado."
Abracei ela, sentindo o calor do corpo dela contra o meu. Podia sentir seus dedos por cima do fino
tecido da minha camisa e senti ela a puxar gentilmente, expondo a pele do meu abdome. A sensação
foi elétrica. Saboreei seu toque e me inclinei para beijá-la.
Havia um tipo diferente de paixão em seu beijo, algo vibrante e vivo. Senti sua língua contra a
minha, consciente da forma que o corpo dela estava respondendo e respirei fundo enquanto seus
dedos deslizavam em direção ao fecho do meu jeans. Quando escorreguei minhas mãos mais
devagar, me dei conta de que ela estava nua por debaixo da camisa. Ela abriu o fecho e embora eu
não quisesse nada mais que continuar, me forcei a retroceder, a me parar antes que isso fosse longe
demais, para prevenir alguma coisa que eu ainda não estava certo que ela estava pronta.
Senti minha própria hesitação, mas antes que eu pudesse insistir nela, ela abruptamente se sentou e
tirou sua camisa. Minha respiração ficou mais forte enquanto eu a encarava, e tudo de uma vez, ela
se inclinou pra frente e levantou minha camisa. Beijou meu umbigo e minhas costelas, depois meu
peito e eu pude sentir suas mãos começando a abaixar meus jeans.


Me levantei da cama e tirei minha camisa, depois deixei os jeans caírem no chão. Beijei seu

pescoço e ombros e senti o calor do seu hálito na minha orelha. A sensação de sua pele sobre a
minha foi como fogo, e começamos a fazer amor.

Foi tudo que eu sonhei que seria, e quando acabamos, coloquei meus braços ao redor de Savannah,
tentando gravar a memória de cada sensação. No escuro, murmurei o quanto a amava.
Fizemos amor uma segunda vez e quando Savannah finalmente adormeceu, me peguei encarando-a.
Tudo nela era refinadamente em paz, mas por alguma razão, não pude evitar uma persistente
sensação de temor. Tão carinhoso e excitante como tinha sido, eu não podia evitar me perguntar se
havia tido um traço de desespero em nossas ações, como se estivéssemos nos agarrando a esperança
de que isso sustentaria nossa relação por qualquer coisa que o futuro trouxesse.


Quatorze


Nosso tempo restante na minha licença foi como eu tinha originalmente esperado. Tirando o fim de
semana com meu pai-no qual ele cozinhou pra nós e falou sem descanso sobre moedas-ficávamos
sozinhos o máximo possível. De volta a Chapel Hill, quando Savannah terminava suas aulas do dia,
nossas tardes e noites eram passadas juntos. Caminhamos pelas lojas da rua Franklin, fomos ao
Museu de História da Carolina do Norte em Raleigh e até passamos algumas horas no zoológico da
Carolina do Norte. Na minha antepenúltima noite na cidade, fomos jantar no restaurante chique que
o vendedor de sapatos havia me falado. Ela não me deixou espiar enquanto ela estava se arrumando,
mas quando ela finalmente surgiu do banheiro, estava positivamente glamurosa. Fiquei encarando-
a, pensando no quanto eu era sortudo de estar com ela.
Não fizemos amor de novo. Depois da nossa noite juntos, acordei na manhã seguinte para encontrar
Savannah me estudando, as lágrimas rolando por suas bochechas. Antes que eu pudesse perguntar o
que havia de errado, ela colocou um dedo nos meus lábios e balançou a cabeça, me pedindo pra não
falar. "Noite passada foi maravilhoso," ela disse, "mas não quero falar sobre isso." Ao invés disso,
ela se enroscou ao meu redor e eu a segurei por um longo momento, escutando o som da sua
respiração. Eu sabia então que algo havia mudado entre nós, mas naquela época, eu não tive a
coragem de descobrir o que.
Na manhã em que parti, Savannah me levou até o aeroporto. Sentamos no portão juntos, esperando
pela chamada do vôo, seu polegar descrevendo pequenos círculos nas costas da minha mão. Quando
chegou a hora de eu embarcar, ela caiu em meus braços e começou a chorar. Quando viu minha
expressão, ela forçou uma risada, mas eu podia ouvir o pesar nela.
"Sei que prometi," ela disse, "mas não posso evitar."
"Vai ficar tudo bem," eu disse. "São apenas seis meses. Com tudo que está acontecendo na sua vida,
você vai se espantar com o quão rápido vai passar."
"É fácil falar," ela disse, fungando. "Mas você está certo. Eu vou ser mais forte dessa vez. Vou ficar
bem."
Examinei seu rosto procurando sinais de negação mas não achei nenhum. "Sério," ela disse. "Eu
vou ficar bem."
Assenti e por um longo momento nós simplesmente nos encaramos.
"Você vai lembrar de olhar a lua cheia?" ela perguntou.
"Todas as vezes," prometi.
Compartilhamos um último beijo. A abracei com força e murmurei que a amava, depois me forcei a
soltá-la. Joguei minha mochila sobre os ombros e subi a rampa. Espiando por cima do meu ombro
me dei conta de que Savannah já havia ido embora, escondida em algum lugar na multidão.
No avião, me deitei na poltrona, rezando para que Savannah estivesse dizendo a verdade. Embora
eu soubesse que ela me amava e se importava comigo, subtamente entendi que mesmo amor e
cuidado nem sempre eram suficientes. Eles eram os tijolos concretos da nossa relação, mas instáveis
sem a argamassa do tempo passado juntos, tempo sem a ameaça da separação iminente sobre nossas
cabeças. Embora eu não quisesse admitir, havia mais sobre ela que eu não sabia. Eu não tinha me
dado conta de como a minha licença no ano anterior a havia afetado e apesar de horas ansiosas


pensando nisso, eu não tinha certeza de como isso iria afetá-la agora. Nossa relação, senti com um

peso em meu peito, estava começando a parecer o movimento rotatório de um pião de criança.
Quando estávamos juntos, tínhamos o poder de mantê-lo girando e o resultado era beleza, magia e
um senso de maravilha quase infantil; quando separados, a rotação começava inevitavelmente a
ficar mais lenta. Nos tornamos cambaleantes e instáveis e eu sabia que tinha que encontrar um
modo de impedir que caíssemos.
Tinha aprendido minha lição do ano anterior. Não só escrevi mais cartas da Alemanha durante julho
e agosto, mas também telefonei pra Savannah mais frequentemente. Ouvia cuidadosamente durante
as ligações, tentando reconhecer quaisquer sinais de depressão e ansiando por ouvir palavras de
afeto e desejo. No começo, eu ficava nervoso antes de fazer aquelas ligações; no fim do verão, eu
esperava por elas. Suas aulas iam bem. Ela passou algumas semanas com os pais, depois começou o
semestre de outono. Na primeira semana de setembro, começamos a contagem regressiva dos dias
que faltavam para minha dispensa. Faltavam cem dias. Era mais fácil de falar de dias do que de
semanas ou meses; de alguma forma fazia a distância entre nós diminuir para algo mais íntimo, algo
que nós dois sabíamos que podíamos aguentar. A pior parte já tinha passado, lembrávamos um ao
outro, e descobri que enquanto eu cortava os dias no calendário, as preocupações que eu tive sobre
nosso relacionamento começaram a diminuir. Eu estava certo de que não havia nada no mundo que
pudesse nos impedir de ficar juntos.
Então o 11 de setembro veio.


Quinze


De uma coisa tenho certeza: as imagens do 11 de Setembro ficarão comigo para sempre. Assisti à
fumaça saindo das Torres Gêmeas e do Pentágono e vi o rosto sombrio dos homes à minha volta
observando pessoas saltarem para a morte. Testemunhei o desabamento dos edifícios e a enorme
nuvem de poeira e detritos que se formou em seu lugar. Me enfureci enquanto a Casa Branca era
evacuada.
Poucas horas depois, soube que os Estados Unidos iriam reagir ao ataque e que as forças armadas
liderariam a reação. A base entrou em alerta máximo, e duvido que alguma vez tenha ficado tão
orgulhoso dos meus homens. Nos dias que se seguiram, foi como se todas as diferenças pessoais e
afiliações políticas de qualquer tipo derretessem. Por um curto período de tempo, todos nós fomos
simplesmente americanos.
Escritórios de recrutamento em todo o país começaram a encher com homens querendo se alistar.
Entre nós já alistados, o desejo de servir era mais forte do que nunca. Tony foi o primeiro homem
em meu esquadrão a se alistar por mais dois anos, e um a um, todos seguiram seu exemplo. Mesmo
eu, que esperava a minha dispensa honrosa em dezembro e contava com os dias para voltar para
Savannah, peguei a febre e acabei me alistando.
Seria fácil dizer que fui influenciado pelo que acontecia à minha volta e por isso tomei a decisão.
Mas isso seria apenas uma desculpa. Certo, eu fui de fato pego pela onda de patriotismo, mas, além
disso, sentia-me obrigado pelos laços de amizade e da responsabilidade. Conhecia meus homens,
me preocupava com eles, e o pensamento de abandoná-los em um momento como aquele me
parecia incrivelmente covarde. Tínhamos passado por coisas demais juntos para eu sequer deixar o
exército naqueles últimos dias de 2001.
Liguei para Savannah com a notícia. Inicialmente, ela foi solidária. Como todo mundo, ela estava
horrorizada com o que havia acontecido e entedia o senso de dever que pesava sobre mim, mesmo
antes de eu tentar explicar. Ela disse que estava orgulhosa de mim.
Mas a realidade logo apareceu. Ao escolher servir ao meu país, eu tinha feito um sacrifício. Embora
a investigação sobre os autores do antetado tenha sido concluída rapidamente, 2001 terminou sem
maiores sobressaltos para nós. Nossa divisão da infantaria não desempenhou qualquer papel na
derrubada do governo Talibã no Afeganistão, uma decepção para todos no meu pelotão. Em vez
disso, passamos a maior parte do inverno e da primavera treinando e nos perparando para a futura
invasão ao Iraque. Foi por volta dessa época, acredito, que as cartas de Savannah começaram a
mudar. Se antes elas chegavam todas semanas, passaram a vir de dez em dez dias, e com o passar
dos dias, tornaram-se quinzenais. Tentei consolar-me com o fato de que o tom das cartas não havia
mudado, mas com o tempo isso também aconteceu. Não havia mais as longas passagens em que ela
descrevia como imaginava nossa vida juntos, as passagens que, no passado, sempre me encheram
de expectativa. Escrever sobre um futuro tão distante a fazia lembrar quanto tempo faltava, algo
doloroso de pensar para nós dois.
No final de Maio, consolei-me que pelo menos nos veríamos na minha próxima licença. O destino,
porém, conspirou novamente contra nós poucos dias antes de eu voltar para casa. Meu comandante
convocou uma reunião e, quando me apresentei em seu escritório, ele mandou eu me sentar. Meu
pai, ele disse, tinha acabado de sofrer um ataque cardíaco, e ele já se antecipara e me concedera a
licença adicional de emergência. Em vez de ir para Chapel Hill e passar duas semanas gloriosas
com Savannah, viajei para Wilmington e fiquei ao lado da cama do meu pai, respirando o odor
antiséptico que sempre me fez pensar mais na morte do que na cura. Quando cheguei, meu pai
estava na unidade de terapia intensiva, e lá ele permaneceu durante a maior parte da minha licença.


Sua pele tinha uma palidez acinzentada, e sua respiração era rápida e fraca. Na primeira semana, ele

recuperava e perdia a consciência, mas quando ele estava acordado, vi emoções em meu pai que
afloravam raramente, e nunca combinadas: o medo desesperado, a confusão momentânea, e uma
gratidão de cortar o coração por eu estar ao lado dele. Mais de uma vez, peguei sua mão, outra coisa
inédita em minha vida. Por causa de um tubo introduzido em sua garganta, ele não podia falar, então
eu conversei pelos dois. Embora eu contasse um pouco do que acontecia na base, falei
principalmente sobre as moedas. Li o Greysheet quando saiu, e fui à casa dele pegar cópias antigas
que ele mantinha arquivadas em sua gaveta e também as li. Pesquisei por moedas na internet-em
sites como David Hall Rare Coins e Legend Numismatics-e contava para ele as que estavam em
oferta, bem como quais eram os preços mais recentes. Os preços me espantaram. Com base nas
moedas do meu pai que eu conhecia, comecei a suspeitar que a coleção dele, apesar da queda dos
preços do ouro desde seu apogeu, valia provavelmente dez vezes mais do que a casa que ele tinha
há anos. Meu pai, incapaz de dominar a arte da conversa mais simples, havia se transformado no
homem mais rico que eu conhecia.
Ele não se interessava pelo valor das moedas. Desviava os olhos sempre que eu os mencionava, e
logo me lembrei do que por algum motivo eu havia esquecido: para meu pai, a busca pelas moedas
sempre foi muito mais interessante do que as moedas em si e, para ele, cada moeda representava
uma história com final feliz. Com isso em mente, fiz um grande esforço para lembrar todas as
moedas que tínhamos encontrados juntos. Como meu pai mantinha registros impecáveis, eu os
examinava antes de dormir e, pouco a pouco,, essas lembranças voltaram. No dia seguinte, eu
relembrava ao lado dele as histórias de nossas viagens para Releigh, Charlotte ou Savannah.
Embora nem mesmo os médicos soubessem ao certo se ele iría escapar, meu pai sorriu mais
naquelas semanas do que em toda sua vida comigo. Ele foi para casa um dia antes da data da minha
partida e o hospital tomou medidas para que alguém cuidasse dele enquanto ele continuava a se
recuperar.
Porém, se a estada no hospital reforçou minha relação com meu pai, ela não ajudou em nada meu
relacionamento com Savannah. Não enteda mal, ela foi me encontrar sempre que pôde, e
demonstrou apoio e simpatia. Mas, como passei tanto tempo no hospital, não foi o suficiente para
cicatrizar as fissuras que começavam a aparecer no nosso relacionamento. Para ser honesto, eu nem
sabia ao certo o que queria dela: quando ela estava lá, tinha vontade de ficar a sós com meu pai,
quando ela não estava, sentia falta dela ao meu lado. De algum modo, Savannah atravessou esse
campo minado sem reagir a nenhum estresse que eu descontasse nela. Parecia entender meus
pensamentos melhor do que eu e antecipar minhas necessidades.
Ainda assim, precisávamos de um tempo para nós. Um tempo a sós. Se nosso relacionamento fosse
uma bateria, o tempo que eu passava no exterior significava descarregamento contínuo, e nós
precisávamos de tempo para a recarga. Uma vez, sentado ao lado de meu pai ouvindo o bip
constante do monitor cardíaco , percebi que eu e Savannah passáramos menos de 4 dias das últimas
104 semanas juntos. Menos de 5 por cento. Mesmo com cartas e telefonemas, às vezes eu me
pegava olhando para o nada e pensando em como resistíamos por tanto tempo.
Saímos para caminhar ocasionalmente e jantamos juntos duas vezes. Como Savannah estava dando
e tendo aulas novamente, era impossível para ela para ficar. Tentei não culpá-la por isso, salvo
quando o fiz, e acabamos discutindo. Eu odiava aquilo, e ela também, mas nenhum de nós era capaz
de evitar. Embora ela não dissesse nada, e ainda negasse quando confrontada, eu sabia que o
problema subjacente era o fato de que eu deveria estar de volta de vez, quando não estava. Foi a
primeira e única vez que Savanna mentiu para mim.
Passamos por cima da briga o máximo que podíamos, e nossa despedida foi outro momento triste,
embora menos do que da última vez. Seria reconfortante pensar que tínhamos nos habituado ou


estávamos mais maduros. Porém, quando entrei no avião, sabia que algo irrevogável havia mudado

entre nó

Foi uma constatação dolorosa. Porém, na noite seguinte de lua cheia, vaguei pelo campo de futebol
abandonado. Como eu tinha prometido, lembrei dos momentos que passei com Savannah na minha
primeira folga. Também recordei minha segunda licença, mas curiosamente, não quis pensar na
terceira, pois acho que sentia o que estava por vir.
Conforme o verão avançava, meu pai continuou a se recuperar, embora lentamente. Em suas cartas,
ele contava que saia para passear no quarteirão três vezes por dia, todos os dias, exatamente por
vinte minutos, mas até isso era difícil para ele. Se havia um lado positivo nisso tudo, foi
proporcionar a ele algo em torno do qual organizar seu dia agora que ele estava aposentado, algo
além de moedas. Além de mandar cartas, mesmo com mais frequencia, passei a telefonar para ele às
terças e sextas-feiras, exatamente à uma hora, horário dos Estados Unidos, só para ter certeza que
ele estava bem. Procurava sinais de cansaço em sua voz, e lembrava-lhe constantemente sobre
comer bem, dormir bastante e tomar a medicação. Sempre fui o responsável pela maior parte da
conversa. Papai achava as conversas telefônicas ainda mais dolorosas do que a comunicação cara a
cara, e sempre soou como se quisesse desligar o telefone o mais rápido possível. Com o tempo,
comecei a provocá-lo por causa disso, mas nunca tive certeza se entendia que eu estava brincando.
Isso me divertia, e às vezes eu ria; embora ele nunca risse comgo, o tom de sua voz ficava mais
alegre, ainda que temporariamente, antes de ele cair em total silêncio. Não tinha problema. Sabia
que ele esperava os telefonemas com ansiedade. Ele sempre antendia ao primeiro toque, e foi fácil
para mim imaginá-lo olhando o relógio, à espera da ligação.
Agosto virou setembro e depois outubro. Savannah terminou suas aulas em Chapel Hill e voltou
para casa para procurar um emprego. Nos jornais, eu lia sobre as Nações Unidas e como os
europeus queriam encontrar um modo de nos impedir de entrar em guerra com o Iraque. AS coisas
estavam tensas nas capitais dos nossos aliados na OTAN; no noticiário, sempre havia manifestações
da população e declaração vigorosas dos governos, afirmando que os Estados Unidos estavam
prestes a cometer um erro terrível. Enquanto isso, nossos líderes tentavam fazê-los mudar de idéia.
Eu e todos no meu pelotão continuávamos a levar nossas vidas, treinando para o inevitável com
sinistra determinação. Então, em novembro, eu e meu pelotão retornamos a Kosovo. Não ficamos
muito tempo por lá, mas era mais do que suficiente. Eu já estava cansado dos Balcãs, estive lá
quatro vezes, e já estava cansado das forças de paz. Mais do que isso, eu e todos no exército
sabíamos que a guerra no Oriente Médio se aproximava, quisesse ou não a Europa.
Nesse período, as cartas de Savannah ainda chegavam com alguma regularidade, assim como meus
telefonemas para ela. Normalmente eu ligava antes do amanhecer, como sempre por volta de meia-
noite no horário dela. Porém, se no passado eu sempre consegui falar com ela, agora mais de uma
vez ela não estava em casa. Embora tentasse me convencer de que ela tinha saído com os amigos ou
com seus pais, era difícil evitar que meus pensamentos desembestassem. Depois de desligar o
telefone, às vezes eu imaginava que ela conhecera outro homem e se apaixonara. Às vezes ligava
mais de duas ou três vezes na hora seguinte, ficando com mais raiva a cada toque sem resposta.
Quando ela finalemnte atendia, eu pensava em perguntar onde ela estava, mas nunca o fiz. Nem
sempre ela me contava vonluntariamente. Sei que cometi um erro em manter o silêncio,
simplesmente porque era imposssível para mim esquecer o assunto, mesmo tentando me concentrar
na conversa. Muito frequentemente, eu estava tenso no telefone e as respostas dela eram igualmente
tensas. Cada vez mais, nossas conversas deixaram de ser alegres demostrações de afeto e viraram
uma rudimentar troca de informações. Após desligar, eu sempre me odiava pelo ciúme que sentia e
me castigava nos dias seguintes, prometendo não deixar que acontecesse novamente.


Outras vezes, porém, Savannah parecia exatamente a mesma pessoa de quem eu me lembrava e

demostrava o quanto ainda gostava de mim. Durante tudo isso, continuei a amá-la com sempre e
desejava ardentemente os momentos simples do passado. Eu sabia o que estava acontecendo, claro.
Enquanto nos afastávamos, eu ficava cada vez mais desesperado para salvar o que antes havia entre
nós; no entanto, como em um círculo vicioso, meu desespero fez com que nos distanciássemos
ainda mais.
Começamos a discutir. Como na briga que tivemos no apartamento dela durante minha segunda
licença, eu não conseguia dizer o que estava sentindo. E, não importava o que ela dissesse, não
conseguia deixar de pensar que ela estava me enganando ou nem mesmo tentava diminuir minhas
preocupações. Eu odiava esses telefonemas ainda mais do que meu ciúme, mesmo sabendo que
ambos estavam interligados.
Apesar de nossas dificuldades, nunca duvidei de que conseguiríamos superar tudo. Eu queria uma
vida com Savannah mais do que tudo.
Em dezembro, comecei a ligar com mais frequência e fiz de tudo para controlar o ciúme. Forcei-me
a ser animado ao telefone, na esperança de que ela gostasse de me ouvir. Pensei que as coisas
estivéssem melhorando, e aparentemente estavam mesmo. Porém, quatro dias antes do Natal,
lembrei a ela que voltaria para casa em pouco menos de um ano. Em vez da resposta animada que
eu esperava, ela ficou em silêncio. Ouvia apenas o som de sua respiração.
"Você me ouviu?", perguntei.
"Sim", disse ela, com voz suave. "É só que já ouvi isso antes."
Era verdade, ambos sabíamos disso, mas eu não dormi direito por quase uma semana.
A lua cheia apareceu na noite de Ano Novo, e embora eu tenha saído para admirá-la e recordar da
semana em que nos apaixonamos, essas imagens estavam nebulosas, como se turvas pela tristeza
imensa que sentia dentro de mim. No caminho de volta, vi dezenas de homens reunidos em círculos
ou apoiados nas paredes dos prédios fumando cigarros, como se não tivessem qualquer
preocupação. Gostaria de saber o que pensavam quando me viram passar. Será que perceberam que
eu estava perdendo tudo o que importava para mim? Ou que eu desejava mais uma vez poder mudar
o passado?
Não sei, e eles não perguntaram. O mundo estava mudando rapidamente. As ordens que
esperávamos chegaram na manhã seguinte, e alguns dias depois meu pelotão estava na Turquia
onde começamos a nos preparar para invadir o norte do Iraque. Participamos de reuniões em que
nos informaram nossas atribuições, estudamos a topografia, e repassamos planos de batalha. Havia
pouco tempo livre, mas quando saímos da base, era difícil ignorar os olhares hostis da população.
Ouvimos rumores de que a Turquia planejava negar o acesso às nossas tropas para a invasão e que
estavam em andamento as negociações para garantir tal permissão. Há muito tínhamos aprendido a
ouvir boatos com desconfiança, mas desta vez os rumores eram preciosos, e meu pelotão e outros
foram enviados para o Kuwait para começar tudo de novo. Desembarcamos no meio da tarde, sob
um céu sem nuvens, rodeados de areia por todos os lados. Quase imediatamente fomos para um
ônibus e viajamos por horas, acabando no que, essencialmente, era a maior cidade de tendas que já
vi. O exército fez o máximo para torná-la confortável. A comida era boa e o posto de trocas tinha
tudo o que precisávamos, mas era chato. O correio era ruim, não recebi nenhuma carta e as filas
para usar o telefone tinham um quilômetro. Entre treinamentos, meus homens e eu nos sentávamos
para conversar, tentando adivinhar quando começaria a invasão, ou praticávamos como colocar
nossas roupas químicas o mais rápido possível. O plano era que meu pelotão reforçasse outra


unidades de diferentes divisões em uma grande ofensiva sobre Bagdá. Em fevereiro, depois do que

aprecia um zilhão de anos no deserto, meu esquadrão e eu estávamosa tão prontos com sempre
estivemos.

Naquele ponto, muitos soldados estavam no Kuwait desde a metade de novembro e o círculo de
rumores estava com toda força. Ninguém sabia o que estava por vir. Eu ouvi sobre armas químicas e
biológicas; ouvi que Saddam tinha aprendido sua lição na tempestade do deserto e estava
fortificando Guarda Replubicana em Bagdá, na esperança de um último ato de resistência
sangrento. Em 17 de março, soube que haveria guerra. Na última noite no Kuwait, escrevi cartas
para aqueles que eu amava, para o caso de não sobreviver: uma para meu pai e uma para Savannah.
Naquela noite, embarquei em um comboio que se estendia por uma sentena de quilômetros até o
Iraque.
O combate era esporádico, ao menos inicialmente. Como nossa força aérea dominava os céus,
tínhamos pouco a temer enquanto percorriamos, sobre tudo, estradas desertas. O exército iraquiano,
em sua maior parte, não estava em lugar algum, o que só aumentava a minha tensão enquanto eu
tentava antecipar o que meu pelotão enfrentaria mais tarde durante a campanha. Aqui e ali,
ouvíamos falar sobre fogo inimigo, desparados de morteiros, e nós enfiávamos em nossas roupas
protetoras apenas para descobrir que era alarme falso. Os soltados estavam tensos. Não dormi por
três dias. Adentrando o Iraque, os conflitos começaram a aparecer,e foi então que aprendi a primeira
lei associada a operação Iraque livre: civis e inimigos muitas vezes tinham exatamente a mesma
aparência. Ouviamos tiros lá de fora, atacávamos, e havia momentos em que não tínhamos certeza
nem em que atirávamos. Quando chegamos ao triângulo sunita, a guerra começou a se intensificar.
Ouvimos falar de batalhas em Fallujah, Ramadi e Tikrit, todas travadas por outras unidades de
outras divisões. Meu pelotão se juntou a Airborne Oitenta e dois em um ataque à Samawah, e foi lá
que tivemos a primeira experiência real de combate.
A força aérea tinha aberto caminho. Bombas, mísseis e morteiros explodiam desde o dia anterior.
Quando atravessamos a ponte que levava à cidade, o meu primeiro pensamento foi de
maravilhamento com a quietude. Meu batalhão foi designado para um bairro nos arredores da
cidade onde deveríamos vasculhar casa a casa para eliminar os inimigos.
Enquanto nos movíamos, as imagens vieram rápidas: os restos carbonizados de um caminhão, o
corpo sem vida do motorista jogado ao lado, um prédio parcialmente demolido, ruínas de carros
fumegantes aqui e ali. Tiros esporádicos de fuzil nos mantinham alertas. Enquanto patrulhávamos,
ocasionalmente, os civis saíam correndo das casas com armas nas mãos, e faziamos o máximo para
salvar os feridos.
No início da tarde, quando nos preparávamos para voltar, fomos atacados por um fogo pesado que
tinha vindo de um prédio no final da rua. E stávamos em posição precária. Encostados nas paredes
dois homens eram cobertura enquanto liderei o resto do pelotão através do corredor de balas para o
local mais seguro do outro lado da rua; parecia quase um milagre quase ninguém ter sido morto. De
lá, disparávamos milhares de rajadas contra a posição do inimigo, provocando a destruição total.
Qunado achei que era seguro, iniciamos a abordagem ao prédio, movendo-nos cautelosamente. Usei
uma granada para destruir a porta da frente liderei meus homens até a entrada e coloquei a cabeça
para dentro. A fumaça era espessa e o cheiro de enxofre empestiava o ar. O interior estava destruido,
mas ao menos um soldado iraquiano tinha sobrevivido. Assim que nos aproximamos, ele começou a
atirar do porão sob o piso. Tony foi atingido na mão, e todos nós atiramos centenas de vezes. O
barulho era tão alto que não dava pra ouvir o som da própria voz, mas continuei apertando o gatilho,
mirando em todos os lugares, no chão, nas paredes e no teto. Pedaços de gesso, tijolo e madeira
voaram enquanto o local era dizimado. Quando finalmente paramos de atirar, tive certeza de que
ninguém poderia ter sobrevivido, mas joguei outra granada em outra abertura que levava ao porão


só para garantir e corremos para fora por causa da explosão.


Após vinte minutos da experiência mais intensa da minha vida, a rua estava silenciosa, exceto pelo
zumbido no meu ouvido e pelo som dos meus homens vomitando, praguejando e falando sobre o
que acontecera. Enrolei a mão de Tony, e quando achei que todos estávam prontos, começamos a
recuada do mesmo modo como chegáramos. Em tempo, fizemos o caminho de volta à estação
ferroviária, que estava sob a guarda de nossas tropas, e despencamos. naquela noite, recebemos o
nosso primeiro lote do correio em quase seis semanas.
Na correspondência, havia seis cartas de meu pai. Mas apenas uma de Savannah, e sob a luz fraca
eu comecei a ler.
Querido John,
Estou escrevendo esta carta na mesa da cozinha, e eu estou sofrendo porque não sei como dizer o
que estou prestes a dizer. Parte de mim gostaria que você estivesse aqui para que eu pudesse fazer
isso em pessoa, mas nós dois sabemos que é impossível. Então aqui estou, escolhendo as palavras,
com lágrimas no rosto e com esperanças de que você, de alguma maneira me perdoe pelo que vou
escrever.
Sei que este é um momento terrível para você. Tento não pensar na guerra, mas não consigo evitar
as imagens, e sinto medo o tempo todo. Assito ao noticiário e leio os jornais, sabendo que você está
no meio disso tudo, tentando descobrir onde você está e o que está passando. Rezo todas as noites
para que você volte para casa em segurança e continuarei a rezar. Nós vivemos algo maravilhoso,
e quero que você nunca se esqueça disso. Nem quero que você pense não ter significado tanto para
mim quanto eu signifiquei para você. Você é raro e lindo, John. Eu me apaixonei por você, mas,
acima de tudo, conhecer você me fez perceber o que realmente significa o amor verdadeiro.
Durante os últimos dois anos e meio, olhei para o céu a cada lua cheia e lembrei de tudo que
passamos juntos. Lembrei como me senti confortável conversando com você naquela primeira
noite. Lembrei a noite que fizemos amor. Sempre ficarei feliz por termos nos entregado um ao outro
daquele jeito. Para mim, significa que nossas almas estão ligadas para sempre.
Há tantas outras coisas. Quando fecho os olhos, vejo seu rosto; quando caminho, é quase como se
conseguisse sentir sua mão na minha. Estas coisas ainda são reais para mim, mas onde uma vez
elas me trouxeram conforto, hoje provocam dor. Entendi seus motivos para permanecer no exército,
e respeito sua decisão. Ainda respeito, mas nós dois sabemos que nosso relacionamento mudou
depois disso. Nós mudamos, e no fundo do seu coração, acho que você também percebeu isso.
Talvez tenhamos passado tempo demais separados, talvez fôssemos de mundos diferentes. Eu não
sei. Toda vez que brigávamos, eu me odiava por isso. De algum modo, mesmo amando um ao outro,
perdemos a ligação mágica que nos manteve juntos.
Sei que parece uma desculpa, mas por favor, acredite em mim quando digo que não queria me
apaixonar por outra pessoa. Se eu não entendo exatamente como isso aconteceu, como você
poderia? Não espero que você entenda, mas por tudo que passamos, não posso continuar mentindo
para você. Mentir diminuiria tudo o que vivemos, e não quero fazer isso, embora saiba que você
vai se sentir traído.
Vou entender se você nunca mais quiser falar comigo, assim como vou entender se você disser que
me odeia. Parte de mim também me odeia. Escrever esta carta me obriga a reconhecer isso.
Quando olho no espelho, sei que vejo alguém que não tem certeza de merecer ser amada. Estou
falando sério.
Mesmo que você não queria ouvir, quero que você saiba que sempre será parte de mim. No tempo


que passamos juntos, você conquistou um lugar especial no meu coração, que eu vou levar comigo

para sempre e ninguém pode substituir. Você é um herói e um cavalheiro, você é gentil e honesto,
mas, acima de tudo, você é o primeiro homem que amei verdadeiramente. E não importa o que o
futuro traga, você sempre será, e sei que minha vida é melhor por causa disso.
Sinto muito,
Savannah.


Dezesseis


Ela estava apaixonada por outra pessoa.

Soube antes mesmo de terminar de ler a carta, e de uma hora para outra o mundo pareceu parar.
Meu primeiro instinto foi dar um soco na parede, mas em vez disso amassei a carta e joguei-a fora.
Fiquei com muita raiva na hora; mais do que me sentir traído, foi como se ela tivesse esmagado
tudo que significava alguma coisa no mundo. Eu a odiava e odiava o homem sem nome e sem rosto
que a roubara de mim. Fantasiava o que faria com ele se alguma vez cruzasse meu caminho, e a
imagem não era bonita.
Ao mesmo tempo, desejava falar com ela. Queria tomar um avião para casa imediatamente, ou pelo
menos ligar para ela. Parte de mim não queria acreditar, não podia acreditar. Não agora, não depois
de tudo o que havíamos passado. Faltavam apenas 9 meses. Depois de quase três anos, será que era
assim tão impossível?
Mas não fui para casa, nem telefonei. Não escrevi, nem tive qualquer outro contato com ela. Minha
única ação foi recuperar a carta que eu jogara fora. Alisei-a o melhor que pude, coloquei-a de volta
no envelope, e decidi carregá-la comigo como uma ferida de batalha. Ao longo das semanas
seguintes, fui o perfeito soldado, refugiando-me no único mundo que ainda parecia real para mim.
Eu me ofereci para todas as missões consideradas perigosas, mal falei com as pessoas da minha
unidade, e por um tempo tive que fazer um grande esforço para não ser muito rápido no gatilho
durante as patrulhas. Eu não confiava em ninguém e, embora não tenha sido responsável por
"incidentes" infelizes, como o exercito gosta de chamar a morte de civis, estaria mentindo se
alegasse ter sido paciente e compreensível ao lidar com os iraquianos de qualquer tipo. Apesar de
quase não dormir, meus sentidos se aguçavam à medida que continuávamos a ofensiva sobre Bagdá.
Ironicamente, apenas arriscando a vida eu encontrava alívio para a imagem de Savannah e o fato de
nosso relacionamento ter terminado.
Minha vida acompanhava as oscilações da sorte na guerra. Menos de um mês depois de eu receber a
carta, Bagdá caiu e, apesar de um breve período auspicioso no inicio, as coisas ficaram piores e
mais complicadas com o passar da semana e meses. Afinal, percebi que essa guerra não era
diferente de qualquer outra. Guerras sempre se resumem à disputa de poder entre interesses
conflitantes, mas esse entendimento não tornava mais fácil a vida no campo de batalha. No rescaldo
da queda de Bagdá, cada soldado do meu pelotão foi obrigado a assumir os papéis de policiais e
juízes. Como soldados, não fomos treinados para isso.
Olhando de fora e em retrospecto, era fácil questionar nossas ações, mas no mundo real, em tempo
real, as decisões nem sempre eram fáceis. Mais de uma vez fui abordado por civis iraquianos
dizendo que um determinado individuo havia roubado este ou aquele item, ou cometido este ou
aquele crime, e instado a tomar alguma atitude a respeito. Fomos enviados para manter alguma
aparência de ordem- o basicamente significava matar insurgentes que tentavam nos matar, ou aos
civis-, até os locais serem capazes de assumir o comando e lidar sozinhos com o problema. Esse
processo em especial não foi fácil nem rápido, mesmo em lugares onde a calma era mais freqüente
do que o caos. Nesse meio tempo, outras cidades se desintegram em meio ao caos, e éramos
enviados para restaurar a ordem. Eliminávamos os insurgentes, mas como não havia tropas
suficientes para ocupar e manter a cidade segura, eles voltavam assim que nos retirávamos. Havia
dias em que meus homens percebiam a futilidade desse exercício em particular, mesmo sem
questioná-lo abertamente.
A questão é, não sei como descrever o estresse, o tédio e a confusão daqueles nove meses, exceto
dizer que havia muita areia. Sim, sei que é um deserto, e sim passei muito tempo na praia, portanto


deveria estar acostumado, mas a areia dali era diferente. Entrava nas roupas, nas armas, no nariz e

entre os dentes. Quando cuspia sempre sentia areia na minha boca. As pessoas ao menos conseguem
entender isso, e aprendi que eles não querem ouvir a verdade de fato, ou seja, que na maior parte do
tempo o Iraque não era tão ruim, mas as vezes era pior do que o inferno.Será que as pessoas
realmente querem saber que vi um cara do meu pelotão atirar acidentalmente em uma criança que
só estava no lugar errado na hora errada? Ou que vi soldados explodindo quando atingiam um IED-
dispositivo explosivo improvisado ­ nas estradas próximas a Bagdá? Ou ainda que vi sangue
empoçado nas ruas como água da chuva, com partes de corpos boiando? Não, as pessoas preferem
ouvir sobre areia, porque isso mantém a guerra a uma distância segura.
Cumpri meu dever do melhor modo possível, me alistei novamente e permaneci no Iraque até
fevereiro de 2004, quando finalmente fui mandado de volta para a Alemanha. Logo que cheguei,
comprei uma Harley e tentei fingir que saíra da guerra sem cicatrizes; mas os pesadelos eram
intermináveis, e quase todas as manhãs eu acordava encharcado de suor. Durante o dia eu ficava o
tempo todo no limite, e me enraivecia por qualquer coisa. Quando caminhava pelas ruas da
Alemanha, achava impossível não observar cuidadosamente grupo de pessoas perambulando junto a
edifícios e examinar atentamente as janelas do distrito empresarial procurando por atiradores. O
psicólogo- todo mundo tinha que consultar um- disse que aquilo era normal e iria passar com o
tempo, más às vezes eu me perguntava se isso realmente aconteceria.
Depois que deixei o Iraque, o tempo que fiquei na Alemanha pareceu-me quase sem sentido. Claro,
eu malhava de manha e tinha aulas sobre armas e navegação, mas as coisas haviam mudado. Devido
ao ferimento na mão, Tony foi condecorado e dispensado após a queda de Bagdá, enviado
diretamente de volta ao Brooklyn. Mais quatro de meus homens foram dispensados ao final de
2003, quando seu período de alistamento acabou; na cabeça deles- e na minha também-, haviam
cumprido seu dever e era hora de cuidar de suas vidas. Eu, por outro lado, havia me alistado
novamente. Não sabia se era a decisão certa, mas não sabia mais o que fazer.
Porém, olhando meu pelotão, percebi de repente que estava deslocado. Meu grupo estava cheio de
novatos, e apesar de considerá-los ótimos rapazes, não era a mesma coisa. Eles não eram os amigos
com quem convivi no campo de treinamento e nos Balcãns, eu não tinha ido para a guerra com eles
e, no fundo, sabia que nunca seria tão próximo deles quanto da minha antiga equipe. Eu era um
estranho para a maior parte, e mantive-me assim. Eu malhava sozinho e evitava contato pessoal
tanto quanto possível, e sabia o que pensavam de mim ao me ver passar: eu era o velho sargento
rabugento, aquele que não queria nada além de garantir que eles voltariam a salvo para suas mães.
Dizia isso ao meu pelotão o tempo todo enquanto treinávamos, e falava sério. Faria o que fosse
preciso para mantê-los a salvo. Porém, como eu disse, não era a mesma coisa.
Sem meus amigos, dediquei-me o máximo que pude ao meu pai. Depois do período em combate,
passei uma licença prolongada com ele na primavera de 2004, e mais outra licença durante o verão.
Ficamos mais tempo juntos nessas quatro semanas do que nos dez anos anteriores. Como ele estava
aposentado, estávamos livres para passar o dia como desejássemos. Encaixei-me facilmente na
rotina dele. Tomávamos café da manha, fazíamos três caminhadas e jantávamos juntos. No meio do
tempo, conversávamos sobre moedas e até mesmo comprávamos algumas. A internet tornou tudo
muito mais fácil do que antes. Embora q pesquisa não tenha sido tão emocionante, não sei se fez
alguma diferença para o meu pai. Acabei conversando com vendedores com quem não falava havia
mais de quinze anos, mas eles foram amistosos e prestativos como sempre e se lembraram de mim
com prazer. O mundo da moeda era pequeno, percebi, e quando nossos pedidos chegavam- sempre
eram expedidos via delivery noturno-, meu pai e eu revezávamos no exame das moedas, apontando
eventuais falhas existentes e geralmente concordando com a nota atribuída pelo Professional Coin
Grading Service(Serviço Profissional de Avaliação de Moedas), uma empresa que avalia a
qualidade de qualquer moeda. Embora minha mente às vezes vagasse para outras coisas, meu pai


era capaz de examinar uma única moeda durante horas, como se ela escondesse o segredo da vida.


Não conversávamos sobre muitas outras coisas, porém, na verdade, não precisávamos conversar.
Ele não tinha vontade de falar sobre o Iraque, eu também não. Nenhum de nós tinha uma vida social
sobre a qual discutir- o Iraque não tinha me levado isso- e meu pai... bem, ele era meu pai, e não me
incomodei em perguntar.
No entanto, eu estava preocupado com ele. Nas caminhadas, ele respirava com dificuldade. Quando
sugeri que vinte minutos talvez fosse muito tempo, mesmo em ritmo lento, ele respondeu que,
segundo o médico, vinte minutos eram tudo de que ele precisava, e sabia que não poderia fazer nada
para convencê-lo do contrario. Depois da caminhada, ele ficava muito mais cansado do que deveria
e levava cerca de uma hora para que a cor de suas bochechas voltasse ao normal. Conversei com o
médico, e as notícias não eram o que eu esperava. O coração do meu pai, ele me disse, sofrera um
grande dano, e, na opinião dele, era um grande milagre ele estar de pé. Falta de exercício seria ainda
pior.
Pode ter sido essa conversa com o médico, ou talvez eu só quisesse melhorar meu relacionamento
com meu pai, mas o fato é que, nessas duas visitas, nos demos muito melhor do que antes. Em vez
de pressioná-lo constantemente para conversar, simplesmente me sentava com ele em seu escritório
lendo um livro ou fazendo palavras cruzadas, enquanto ele examinava moedas. Havia algo pacífico
e honesto nessa falta de expectativas, e acho que meu pai lentamente estava aprendendo a lidar com
a nova situação entre nós. Às vezes, eu o pegava a me espreitar como se fôssemos estranhos.
Passávamos horas juntos, a maioria em silêncio, e foi assim, de um jeito quieto e despretensioso,
que finalmente nos tornamos amigos. Muitas vezes desejei que meu pai não tivesse jogado fora
nossa fotografia, e quando chegou a hora de voltar à Alemanha, percebi que sentiria mais saudades
do que nunca.
O outono de 2004 passou lentamente, assim como o inverno e a primavera de 2005. A vida se
arrastou sem grandes acontecimentos. Ocasionalmente, os boatos do meu eventual regresso ao
Iraque interrompiam a monotonia dos dias, a idéia de voltar pouco me afetava. Iraque, tudo bem
também. Mantinha-me informado sobre o que acontecia no Oriente Médio como todo mundo, mas
assim que desligava a televisão ou colocava o jornal de lado, minha mente vagava para outros
assuntos.
Eu tinha vinte e oito anos então, e não conseguia evitar a sensação de que, embora tivesse
experimentado mais coisas do que a maioria das pessoas da minha idade, minha vida ainda estava
em suspenso. Entrei no exercito para amadurecer, embora fosse possível argumentar que sim, às
vezes me perguntava de isso de fato ocorrera. Eu não tinha casa nem carro; além de meu pai, estava
completamente sozinho no mundo. Enquanto meus colegas recheavam suas carteiras com
fotografias de filhos e esposas, na minha havia um único instantâneo desbotado de uma mulher que
eu amara e perdera. Ouvia os soldados falarem de suas esperanças para o futuro, enquanto eu não
tinha qualquer plano. Às vezes me perguntava o que meus homens pensariam sobre a minha vida,
pois, em certos momentos, notava que eles me olhavam com curiosidade. Nunca contei a eles sobre
meu passado ou abri informações pessoais. Eles não sabiam sobre Savannah, meu pai ou minha
amizade com Tony. Essas lembranças eram minhas e só minhas, pois aprendi que PE melhor manter
algumas coisas em segredo.
********************


Em março de 2005, meu pai teve um segundo ataque cardíaco, que levou a uma pneumonia e a

outra temporada na UTI. Depois que Le foi liberado, começou a tomar um medicamento que o
impedia de dirigir, mas a assistente social do hospital ma ajudou a encontrar alguém para comprar
os mantimentos de que ele necessitava. Em abril, ele voltou para o hospital, onde foi informado que
teria que desistir de suas caminhadas diárias. Em maio, ele estava tomando uma dúzia de
comprimidos diferentes por dia e passava a maior parte do tempo na cama. Suas cartas tornaram-se
praticamente ilegíveis, não só porque ele estava fraco, mas também porque suas mãos começaram a
tremer. Depois de insistir e implorar ao telefone, convenci uma vizinha- uma enfermeira que
trabalhava no hospital local- a cuidar dele regularmente, e suspirei aliviado contando os dias até
minha licença em junho.
Mas a doença do meu pai continuou a se agravar nas semanas seguintes, e pelo telefone percebia
um cansaço que parecia aumentara cada vez que falava com ele. Pela segunda vez na vida, pedi
uma transferência para casa. Meu comandante foi mais simpático do que antes. Nós chegamos a
procurar- eu até preenchi os documentos para ser enviado a Fort Bragg para treinamento aéreo-,
mas quando conversei novamente com o médico, fui informado que minha proximidade não
ajudaria muito meu pai e que eu deveria considerar a hipótese de interná-lo em uma clínica. Meu
precisava de mais cuidados do que poderia receber em casa, ele me assegurou. Ele estava tentando
convencê-lo havia algum tempo-, mas ele se recusava até eu voltar de licença. Por alguma razão, o
medico explicou, meu pai estava determinado a me receber em sua casa uma ultima vez.
Essa constatação foi esmagadora e, no taxi do aeroporto, tentei me convencer de que o médico
estava exagerando. Mas não estava. Meu pai não conseguiu levantar do sofá quando abri a porta, e
fiquei perplexo ao perceber que ele parecia ter envelhecido trinta anos durante o ano que ficamos
sem nos ver. Sua pele estava acinzentada, e fiquei chocado com o quanto ele imagrecera. Com um
nó na garganta, coloquei a mala para dentro.
"Oi papai", disse.
De inicio, não tive certeza de que ele me reconhecera, mas por fim ouvi um sussurro áspero. "Oi
John."
Fui até o sofá e sentei-me ao lado dele. "Você esta bem?"
"Bem", foi tudo o que ele disse, e ficamos um longo tempo assim, em silêncio.
Finalmente levantei-me para inspecionar a cozinha, mas me assustei com o que vi. Havia latas de
sopa vazias empilhadas por todos os lados, manchas no fogão e pratos embolorados amontoados na
pia. O lixo estava superlotado. Obviamente a casa não era limpa há dias. Pilhas de correspondência
fechadas inundavam a pequena mesa da cozinha. Meu primeiro impulso foi sair imediatamente para
confrontar a vizinha que prometera cuidar dele. Mas isso teria que esperar.
Primeiro, achei uma lata de sopa de frango e macarrão e esquentei-a no fogão imundo. Enchi uma
tigela e levei para meu pai em uma bandeja. Ele sorriu fracamente, e notei sua gratidão. Ele comeu
tudo, raspando o prato. Enchi outra tigela, cada vez mais irritado, imaginado a quanto tempo ele
estava sem comer. Quando ele terminou o segundo prato, ajudei-o a deitar novamente no sofá, onde
ele adormeceu em poucos minutos.
A vizinha não estava, então passei a maior parte da tarde limpando a casa, começando pela cozinha
e o banheiro. Fui trocar os lençóis da cama e descobri que estavam sujos. Fechei os olhos abafando
a vontade de torcer o pescoço da vizinha.


Quando a casa ficou razoavelmente limpa, sentei-me na sala de estar observando meu pai dormir.

Ele aprecia tão pequeno debaixo do cobertor, e quando comecei acariciar seus cabelos, alguns fios
saíram na minha mão. Comecei a chorar, com a certeza de que meu pai estava morrendo. Foi a
primeira vez que chorei naquele ano, e a única vez na minha vida que chorei por mau pai, mas por
muito tempo as lágrimas não cessariam.
Sabia que ele era um homem bom, um homem amável, e apesar da vida difícil que levara, havia
dado o seu melhor para me criar. Nunca levantou a mão com raiva, e comecei a me atormentar
pensando em todos os anos que havia desperdiçado culpando-o. Lembrei-me de minhas duas
ultimas visitas, e doeu pensar que nunca mais dividiríamos momentos como aqueles.
Mais tarde, carreguei meu pai até a cama. Ele estava leve, muito leve. Ajeitei os cobertores sobre
ele e fiz minha cama no chão ao lado, ouvindo sua dificuldade para respirar e seus chiados. Ele
acordou com tosse no meio da noite e não conseguia parar de tossir. Quando estava pronto para
levá-lo ao hospital, a tosse finalmente cedeu.
Ele ficou aterrorizado quando percebeu aonde eu pretendia levá-lo. "Ficar... aqui", confessou, com a
voz fraca. "Não quero ir".
Eu estava dividido, mas ao final decidi não levá-lo. Para um homem de rotina, percebi, o hospital
não era apenas um lugar estranho, era também uma zona perigosa de demandava mais energia do
que ele dispunha. Foi então que percebi que ele novamente havia sujado os lençóis.
Quando a vizinha apareceu no dia seguinte, suas primeiras palavras foram um pedido de desculpas.
Ela explicou q não limpava a cozinha havia vários dias porque uma de suas filhas ficou doente, mas
trocou os lençóis diariamente e se certificou que havia várias latas de sopa. Frente a frente com ela
na varanda, notei a exaustão em seu rosto, e todas as palavras de reprovação que estavam na minha
garganta desapareceram. Disse que estava muito grato por tudo que ela fez, mais do que podia
expressar.
Eu sorri. Incentivada, ela prosseguiu.
"mas preciso dizer que não pé sempre que ele me deixa entrar. Ele disse que não gosta de onde
coloco as coisas. Ou do jeito que limpo. E de ter mudado uma pilha de papéis de lugar em cima da
mesa dele. Normalmente eu ignoro, mas as vezes, quando ele esta se sentindo bem, é bastante
inflexível sobre não me deixar entrar, e até ameaçou chamar a policia quando tentei passar. Eu
não..."
Ela parou de falar, e eu terminei a frase para ela.
"Você não sabe o que fazer."
A culpa estava escrita claramente no rosto dela.
"Está tudo bem", eu disse. "Sem você, não sei o que ele faria."
Ela acenou com alívio antes de desviar o olhar. "Estou feliz que você esteja em casa", ela começou
hesitante, "queria falar com você sobre essa situação". Ela escovou um fiapo invisível em sua
roupa. "Conheço um lugar ótimo em que poderiam cuidar dele. Os funcionários são excelentes. As
vagas são raras, mas conheço o diretor, e ele sabe quem é o medico do seu pai. Sei como é difícil
ouvir isso, mas acho que é o melhor para ele, espero..."


Quando ela terminou, sem terminar a frase, percebi que se preocupava genuinamente com meu pai,

e abri a boca pare responder. Mas não disse nada. Não era uma decisão tão simples como parecia. A
casa dele era o único lugar que meu pai conhecia, o único lugar em que ele se sentia confortável. O
único lugar em que sua rotina fazia sentido. Se ir para o hospital o apavorava, ser obrigado a viver
em lugar novo provavelmente o mataria. A questão resumia-se não a onde Lee morreria, mas como
morreria. Sozinho em casa, onde dormia em lençóis sujos, e possivelmente pereceria de fome? Ou
entre pessoas que o limpariam e o alimentariam, em um lugar que o aterrorizava?
Com um tremor na voz que eu não conseguia controlar, perguntei: "Onde fica?"
**************
Passei as duas semanas seguintes cuidando do meu pai. Fiz o melhor que pude, lia a Greysheet
quando ele estava acordado e dormia no chão ao lado de sua cama. Ele se sujava todas as noites, e
tive de comprar fraldas geriátricas para sua vergonha. Ele passava a tarde toda dormindo.
Enquanto ele repousava no sofá, visitei várias clínicas. Não apenas a que a vizinha tinha
recomendado, ma todas as outras em um raio de duas horas. No final, a vizinha tinha razão. O lugar
que ela mencionara era limpo, os funcionários pareciam profissionais e, o mais importante, o diretor
parecia ter um interesse pessoal em cuidar do meu pai, não sei se por causa da vizinha ou do médico
que o atendia.
O preço não foi um problema. A clinica era notoriamente cara, mas como meu pai tinha
aposentadoria, Previdência Social, Medicare e seguro saúde privado (era fácil imaginá-lo assinando
na linha pontilhada indicada pelos vendedores de seguros sem saber ao certo o que estava pagando),
tive certeza que o único custo seria emocional. O diretor quarentão de cabelos castanhos, cujos
modos gentis me lembraram TIM, foi compreensivo e não pressionou por uma decisão rápida.
Entregou-me uma pilha de brochuras e formulários, desejando melhoras para meu pai.
**********
Naquela noite, toquei no assunto da mudança com o meu pai. Eu iria embora dali a poucos dias e
não tinha escolha, não importa o quanto eu quisesse evitar.
Ele não disse nada enquanto eu falava, Expliquei minhas razões, minha preocupações, na esperança
de me entender. Ele não fez perguntas, mas arregalou os olhos em coque, como se acabasse de ouvir
uma sentença de morte.
Quando terminei, precisava desesperadamente de um momento sozinho. Acariciei a perna dele e fui
até a cozinha buscar um copo de água. Quando voltei para sala meu pai estava debruçado sobre o
sofá, abatido e trêmulo, com o rosto entre as mãos. Foi a primeira vez que o vi chorar.
**************
Na manha seguinte, comecei a embalar as coisas do meu pai. Esvaziei gavetas e arquivos, armários
e guarda-roupas. Na gaveta de meias, achei meias; na gaveta de camisas, só camisas. No arquivo,
tudo tabulado e ordenado. Não deveria ser surpresa para mim, porém, de certo modo, foi


surpreendente. Ao contrario da maioria da humanidade, meu pai não tinha nenhum segredo. Não

tinha vícios ocultos, diários, interesses ocultos, nenhuma caixa de coisas particulares que ele
mantinha só para si mesmo. Não encontrei nada que jogasse luz sobre sua vida interior, nada que
pudesse me ajudar a compreendê-lo melhor depois que ele partisse. Meu pai, soube então, era
exatamente o que parecia ser, e de repente percebi o quanto o admirava por isso.
*****************
Quando terminei de recolher as coisas dele, encontrei meu pai acordado no sofá. Após comer
regularmente por alguns dias, ele recuperara um pouco de força. Não havia qualquer brilho em seus
olhos, e notei uma pá encostada na mesa. Ele me estendeu um pedaço de papel. Era uma espécie de
mapa rabiscado às pressas por uma mão trêmula, intitulado "Quintal".
"O que é isso?"
"É seu", ele disse e apontou para pá.
Peguei a pá, segui as indicações no mapa até o carvalho no quintal, contei os passos e comecei a
cavar. Minutos depois, a pá bateu no metal e eu encontrei uma caixa. E mais uma, embaixo dela. E
outra do lado. No total dezesseis caixas pesadas. Sentei-me na varanda e enxuguei o suor do rosto
antes de abrir a primeira.
Já sabia o que iria encontrar, e fechei um pouco os olhos por causas das moedas de ouro brilhando
ao sol forte do verão sulista. No fundo da caixa, encontrei o níquel búfalo 1926-D que tínhamos
procurado e encontrado juntos, sabendo que era a única moeda que realmente significava algo para
mim.
*******************
No dia seguinte, o ultimo da minha licença, resolvi as pendências da casa: cancelei os serviços,
transferi a correspondência, consegui alguém para aparar a grama. Guardei as moedas desenterradas
em um cofre no banco. Cuidar desses detalhes tomou a maior parte do dia. Mais tarde, dividimos
uma ultima tigela de sopa de frango com macarrão e legumes cozidos para o jantar, antes que eu o
levasse a clinica. Desfiz as malas dele, decorei o quaro com coisas de que ele gostava, e coloquei
doze anos de edições da Greysheet no chão de baixo da escrivaninha. Mas não foi o suficiente,
depois de explicar a situação para o diretor, voltei a casa para pegar outros badulaques, desejando o
tempo todo conhecer meu pai o bastante para saber o que realmente importava para ele.
Por mais que eu o tranqüilizasse, meu pai permaneceu paralisado de medo e seus olhos me
dilaceravam. Mais de uma vez, fui golpeado pela constatação de que eu estava matando-o. Sentei ao
lado dele na cama, consciente das poucas horas restantes antes de partir para o aeroporto.
"Vai ficar tudo bem", disse. "Eles vão cuidar de você."
As mãos dele continuavam tremer. "Tudo bem", ele disso com a voz praticamente inaudível.
Senti as lagrimas começando a se formar. "Quero dizer uma coisa para você ok?", respirei fundo,
concentrando meus pensamentos. "Só quero que você saiba que acho você o melhor pai do mundo.
Você teve de ser ótimo para aturar alguém como eu."
Meu pai não respondeu. No silêncio, senti tudo o que eu sempre quis dizer a ele aflorar à superfície,


palavras que se formaram durante toda uma vida.


"É verdade, pai. Desculpe por todas as coisas horríveis que fiz você passar, e desculpe por não ter
estado presente o suficiente. Você é a melhor pessoa que já conheci. Você é o único que nunca teve
raiva de mim, você nunca me julgou e, ao seu modo, me ensinou mais sobre a vida do que qualquer
filho poderia querer. Sinto muito não poder estar presente agora, e me odeio por fazer isso com
você. Mas estou com medo, pai. Eu não sei o que fazer."
Minha voz soou rouca e irregular aos meus próprios ouvidos, e não queria outra coisa além de um
abraço..
"Ok", ele disse finalmente.
Sorri para sua resposta. Não pude evitar.
"Eu te amo, papai."
A isso, ele sabia exatamente o que responder, pois sempre fizera parte da rotina.
"Também te amo, Jonh."
Abracei-o e em seguida me levantei para dar a ele a edição mais recente da Greysheet. Quando
cheguei a porta, parei mais uma vez e olhei para ele.
Pela primeira vez desde que ele chegou, o medo tinha quase desaparecido. Ele segurava o papel
bem perto do rosto, e notei a página tremer ligeiramente. Seus lábios se moviam enquanto ele se
concentrava nas palavras e detive-me a observá-lo, na esperança de memorizar aquele rosto para
sempre.
Foi à última vez que o vi vivo.


Dezessete

Meu pai morreu sete semanas depois e eu recebi uma licença de emergência para ir ao funeral. O
vôo de volta para os Estados Unidos foi um borrão. Tudo o que eu pude fazer foi olhar pela janela
pra o cinza sem forma do oceano centenas de metros abaixo de mim, desejando que eu pudesse ter
estado com ele em seus momentos finais. Eu não tinha feito a barba, tomado banho ou até mesmo
mudado minhas roupas desde que ouvi as notícias, como se seguir com minha vida diária
significasse que eu teria aceitado completamente que ele tinha partido.
No terminal e na volta pra casa, me peguei ficando com raiva das cenas cotidianas ao meu redor. Vi
pessoas dirigindo ou caminhando, entrando e saindo de lojas, agindo normalmente, mas para mim
nada parecia normal de forma alguma.
Foi só quando voltei à casa que lembrei de ter desativado os serviços quase dois meses antes. Sem
luzes a casa parecia estranhamente isolada na rua, como se não pertencesse ali. Como meu pai, eu
pensei. Ou eu, me dei conta. De alguma forma aquele pensamento possibilitou que eu me
aproximasse da porta.
Pendurado na moldura da porta havia um cartão de negócios de um advogado chamado William
Benjamin; no verso, ele dizia representar meu pai. Com o serviço telefônico desconectado, eu liguei
da casa da vizinha e fiquei surpreso quando ele apareceu na casa cedo na manhã seguinte, maleta
em mãos.
O levei pra dentro da casa suja e ele se sentou no sofá. Seu terno devia ter custado mais do que eu
ganho em dois meses. Depois de se apresentar e lamentar minha perda, ele se inclinou pra frente.
"Estou aqui porque gostava do seu pai," ele disse. "Ele foi um dos meus primeiros clientes, e nada
paga isso, a propósito. Ele veio até mim logo depois que você nasceu para fazer um testamento, e
todo ano, no mesmo dia, eu recebia uma carta dele certificada que listava todas as moedas que ele
tinha comprado. Expliquei a ele sobre impostos da propriedade, então ele os têm quitado pra você
desde que você era criança."
Eu estava muito chocado para falar.
"De qualquer forma, seis semanas atrás ele me escreveu uma carta me informando que você
finalmente estava de posse das moedas, e ele queria se certificar que tudo o mais estava em ordem,
então eu atualizei seu testamento uma última vez. Quando ele me contou onde estava vivendo,
percebi que ele não estava bem, então liguei pra ele.Ele não disse muito, mas me deu permissão pra
falar com o diretor. O diretor me prometeu que iria me deixar saber quando ou se seu pai viesse a
falecer para eu poder encontrar você. Então aqui estou."
Ele começou a mexer em sua maleta. "Eu sei que você está lidando com os acordos do funeral e que
essa não é uma boa hora. Mas seu pai me disse que você não deve permanecer aqui por muito
tempo e que eu deveria cuidar dos assuntos dele. Foram palavras dele, a propósito, não minhas.
Certo, aqui está." Ele me estendeu um envelope, cheio de papéis. "O testamento dele, uma lista de
cada moeda da coleção, incluindo qualidade e o dia em que foi cunhada, e todos os acordos para o
funeral-que é pré-pago, a propósito. Prometi a ele que veria os impostos durante todo o tempo até
que o testamento fosse aprovado também, mas isso não será um problema, visto que o imposto é
pequeno e você é seu único filho. E se você quiser, posso achar alguém para vender quaquer coisa
que você não quiser mais e preparar a casa pra venda também. Seu pai disse que você não deve ter
tempo pra isso também." Ele fechou a maleta. "Como eu disse, gostava do seu pai. Geralmente você
tem que convencer as pessoas da importância dessas coisas, mas não seu pai. Ele era um homem
metódico."


"É." Assenti. "Ele era."


Como o advogado disse, tudo tinha sido arrumado. Meu pai tinha escolhido o tipo de sepultura que
ele queria, arrumado suas roupas e tinha até comprado o próprio caixão.
Conhecendo ele, acho que deveria ter esperado, mas isso só reforçou minha crença de que eu nunca
tinha realmente entendido ele.
O funeral, em um dia quente e chuvoso de agosto, foi esparsamente presenciado. Dois colegas de
trabalho, o diretor do asilo, o advogado e a vizinha que ajudou a cuidar dele foram os únicos ao meu
lado no enterro. Partiu meu coração-o partiu em um milhão de pedaços-que em todo o mundo,
apenas essas pessoas haviam visto o valor do meu pai. Depois que o pastor terminou as orações, ele
sussurrou pra mim para ver se eu queria adicionar alguma coisa. Nessa hora, minha garganta estava
muito apertada e me custou tudo que eu tinha para simplesmente sacudir a cabeça e negar.
De volta em casa, sentei cauteloso na beira da cama do meu pai. A essa altura a chuva havia parado
e os raios de sol cinza pendiam através da janela. A casa tinha um odor mofado, mas eu ainda podia
sentir o cheiro do meu pai em seu travessseiro. Ao meu lado estava o envelope que o advogado
tinha trazido. Tirei o seu conteúdo de dentro. O testamento estava em cima, como outros
documentos. Entre eles, contudo, estava a fotografia emoldurada que meu pai havia removido de
sua mesa há muito tempo atrás, a única foto existente de nós dois.
Levei-a até meu rosto e a encarei até que as lágrimas encheram meus olhos.
Mais tarde naquela tarde, Lucy, minha antiga ex, chegou. Quando ela estava na minha porta, eu não
sabia o que dizer. A mulher estonteante dos meus anos selvagens tinha sumido; em seu lugar estava
uma mulher vestindo um caro terno preto e uma blusa de seda.
"Sinto muito, John," ela murmurou, vindo em minha direção. Nos abraçamos, apertando um ao
outro e a sensação do seu corpo contra o meu foi como um copo de água gelada em um dia de
verão. Ela estava com o mais suave cheiro de perfume, um que eu não podia adivinhar, mas me
fazia pensar em Paris, mesmo que eu nunca tivesse ido lá.
"Acabei de ler o obituário," ela disse depois de me soltar. "Me desculpe não poder ter ido ao
funeral."
"Tudo bem," eu disse. Indiquei o sofá. "Quer entrar?"
Ela sentou ao meu lado e quando vi que ela não estava usando sua aliança, ela incoscientemente
moveu a mão.
"Não deu certo," ela disse. "Me divorciei no ano passado."
"Sinto muito."
"Eu também," ela disse, pegando minha mão. "Você está bem?"
"Sim," eu menti. "Estou bem."
Conversamos um pouco sobre o tempo que passou; ela não acreditava na minha afirmação de que
sua última ligação tinha me feito entrar no exército. Contei a ela que foi exatamente o que eu
precisei no momento. Ela falou de sua profissão-ela ajudava a criar e montar espaços de varejo em


lojas de departamento-e perguntou como era o Iraque. Contei a ela sobre a areia. Ela riu e não

perguntou mais sobre isso. Algum tempo depois, nossa conversa diminuiu para um gotejar enquanto
nos dávamos conta do quanto nós dois tínhamos mudado. Talvez fosse porque nós já tinhamos sido
íntimos, ou talvez porque ela fosse uma mulher, mas eu podia senti-la me examinando e já sabia
qual seria sua próxima pergunta.
"Você está apaixonado, não está?" ela murmurou.
Cruzei minhas mãos no meu colo e olhei a janela. Lá fora o céu estava novamente escuro e nublado,
prevendo ainda mais chuva. "Sim," admiti.
"Qual o nome dela?"
"Savannah," eu disse.
"Ela está aqui?"
Eu hesitei. "Não."
"Quer falar sobre isso?"
Não, eu queria dizer. Não quero falar sobre isso. Aprendi no exército que estórias como a nosssa
eram entediantes e previsíveis, e embora todos perguntassem, ninguém realmente as queria ouvir.
Mas contei a ela a estória do começo ao fim, com mais detalhes do que deveria, e mais de uma vez
ela pegou minha mão. Eu não tinha me dado conta o quanto era difícil manter isso dentro de mim e
na hora que parei, acho que ela sabia que eu precisava ficar sozinho.
Ela beijou minha bochecha enquanto saía, e quando já tinha ido, andei pela casa por horas. Passei
de cômodo a cômodo, pensando no meu pai e pensando em Savannah, me sentindo como um
estrangeiro e gradualmente me dando conta que havia mais um lugar que pra onde eu tinha que ir.


Dezoito


Naquela noite, dormi na cama do meu pai, a única vez que fiz isso na vida. A tempestade passou, e a
temperatura subiu a níveis absurdos. Abrir as janelas não foi suficiente para refrescar, e rolei na
cama durante horas. Quando me arrastei para fora da cama na manha seguinte, encontrei as chaves
do carro do meu pai penduradas em um gancho na cozinha. Joguei minhas malas na traseira e
peguei algumas coisas da casa que queria guardar. Pouca coisa alem da fotografia. Depois liguei
para o advogado e aceitei a oferta de encontrar alguém que desse um fim no resto das coisas e
também de vender a casa. Joguei a chave na caixa do correio.
Na garagem o motor levou alguns segundos para pegar. Tirei o carro e tranquei a porta da garagem.
Do quintal, olhei a casa, pensando em meu pai e sabendo que nunca mais veria aquele lugar.
***
Dirigi até a clínica, peguei os pertences de meu pai e então saí de Wilmington pela interestadual em
direção ao oeste, no piloto automático. Havia anos que eu não passava naquele trecho da estrada, e
tinha apenas vaga idéia do trânsito, mas a sensação de familiaridade voltou em ondas. Passei pelas
cidades de minha juventude e atravessei Raleigh em direção a Chapel Hill. Onde as memórias
voltaram com dolorosa intensidade. Pisei no acelerador, tentando deixá-las para trás.
Atravessei Burlington, Greensboro e Winston-Salem. Fiz uma única parada para abastecer no inicio
do dia, quando comprei uma garrafa de água. Segui direto, só bebericando água, sem estomago para
pensar em comer. Deixei a nossa fotografia no assento do carona, e vez ou outra tentava evocar o
menino da foto. Por fim, fiz a conversão para o norte, seguindo pela estradinha que corta as
montanhas de picos azuis ao sul e ao norte, suaves ondulações na crosta terrestre.
Já era fim de tarde quando estacionei o carro e me registrei em um velho motel de beira de estrada.
Meu corpo estava rígido e, após alongar alguns minutos, tomei banho e fiz a barba. Coloquei jeans
limpos e uma camiseta. Cogitei pegar algo para comer, porem ainda estava sem fome. Com o sol
baixo, o ar não tinha o mormaço úmido do litoral, e senti o cheiro das coníferas descendo das
montanhas. Foi ali que Savannah nasceu, e de algum modo eu sabia que ela ainda estava lá.
Embora pudesse ter ido à casa dos pais dela perguntar, descartei a idéia, sem saber como eles
reagiram à minha presença. Decidi dirigir pelas ruas de Lenoir, passando pelo distrito comercial
onde havia uma variada coleção de restaurantes fast-food, mas só desacelerei quando cheguei à
parte menos genérica da cidade. Nessa área Lenoir parecia não ter mudado nada-turistas e recém-
chegados eram bem vindos em visita, mas nunca seriam considerados gente do lugar. Estacionei em
um velho salão de bilhar que me fez lembrar os lugares que freqüentava na juventude. Luminosos
de neon faziam publicidade da cerveja nas janelas, e o estacionamento estava cheio. Era em um
local como aquele que encontraria a resposta de que precisava.
Entrei, Hank Willians tocava na jukebox, e rolos de fumaça de cigarro pairavam no ar. Quatro
mesas de sinuca estavam agrupadas: todos os jogadores usavam bonés de baseball, e dois
evidentemente tinham tabaco de mascar acumulado nas bochechas. Peixes gigantes empalhados
decoravam as paredes, ao lado de memorabilia da NASCAR. Havia fotos tiradas em Talladega,
Martinsville, North Wilkesboro e Rockinghan. Embora a minha opinião sobre o esporte não tivesse
mudado, tal visão me deixou estranhamente avontade. No canto do bar, abaixo do rosto sorridente
do falecido Dale Earnhardt *, havia uma jarra cheia de dinheiro, pedindo doações para ajudar uma
vítima local do câncer. Sentindo um inesperado arroubo de simpatia, contribuí com alguns dólares.
Sentei no bar e puxei conversa com o barman. Ele tinha mais ou menos minha idade e seu sotaque


da montanha me lembrou Savannah. Depois de vinte minutos de conversa fiada, tirei a foto da

Savannah da carteira e expliquei que era amigo da família. Citei os nomes dos pais dela e fiz
perguntas demonstrando que eu estivera lá antes.

Ele foi cauteloso, e com razão. Cidades pequenas protegem os seus. Mas acontece que ele passara
alguns anos na marinha, e isso ajudou. Após um tempo, ele concordou em falar.
"Sim, eu conheço ela", disse. "Ela mora em Old Mill Road, perto da casa dos pais."
Já passava das oito horas, e o céu estava escurecendo com a chegada da noite. Dez
minutos depois, deixei uma gorjeta gorda no balcão e tomei o rumo da saída.
***
Curiosamente, não passava nada na minha cabeça enquanto dirigia até a região dos cavalos. Pelo
menos, era assim que eu me lembrava da área na ultima vez que estive ali. Peguei uma estrada de
constante subida, e comecei a reconhecer os pontos de referência da região; sabia que em poucos
minutos passaria pela casa dos pais de Savannah. Quando o fiz, inclinei-me, sobre o volante,
procurando pela próxima abertura na cerca até virar uma longa estrada de cascalho. Assim que fiz a
conversão, notei uma placa pintada a mão indicando um lugar chamado "Hope and Horses" **.
*Piloto de automobilismo que morreu em um acidente nas 500 milhas de Daytona em 2001
**Em tradução literak,Esperança e Cavalos.
O crepitar dos pneus sobre o cascalho era estranhamente reconfortante, e estacionei debaixo de um
salgueiro, ao lado de uma pequena caminhonete velha. Observei a casa. Quadrada, de telhado
pontudo, pintada de branco a e com uma chaminé que subia em direção ao céu, a casa parecia
erguer-se da terra como uma imagem fantasmagórica de centenas de anos. Uma única lâmpada
brilhava em cima da antiga porta de entrada, e um pequeno vaso de planta estava pendurado perto
da bandeira americana, ambos balançando suavemente com a brisa. Do lado da casa havia um velho
celeiro e um pequeno curral; para além uma pastagem verde esmeralda delimitada por uma cerca
branca, que se estendia até uma fileira de maciços carvalhos. Havia outra construção semelhante a
uma cabana perto do celeiro, e nas sombras eu avistava os contornos de equipamentos agrícolas.
Questionei novamente o que estava fazendo aqui.
Não era tarde de mais para ir embora, mas não conseguia me obrigar a manobrar o carro. O céu
ardia em vermelho e amarelo antes de o sol mergulhar para além do horizonte, lançando as
montanhas na escuridão total. Saí do carro e comecei a me aproximar da casa. O orvalho na grama
umedeceu as pontas dos meus sapatos, e senti o cheiro das coníferas mais uma vez. Ouvi o chilreio
dos grilos e o canto constante de um rouxinol. Os sons davam-me força enquanto eu me aproximava
do alpendre. Tentei descobrir o que diria se ela atendesse a porta. Ou o que eu diria se ele atendesse.
Enquanto tentava decidir o que fazer, um retriever abanando a cauda se aproximou de mim.
Estendi a mão, e ele me deu uma lambida amigável antes de fazer a volta e descer as escadas. Sua
calda continuava abanando enquanto ele rodeava a casa. Ouvindo o mesmo chamado que me
trouxera para Lenoir, deixei o alpendre e o segui. Ele mergulhou, arrastando a barriga no chão e
rastejando por debaixo do último obstáculo da cerca, e então entrou no celeiro.
Assim que o cão desapareceu, vi Savannah surgir do celeiro carregando retângulos de feno sob os
braços. Os cavalos do pasto começaram a galopar naquela direção, enquanto ela distribuía o feno
em vários comedouros. Eu continuava a avançar. Ela estava sacudindo o feno da roupa e se
preparando para voltar ao celeiro quando, inadvertidamente, olhou na minha direção. Ela deu um
passo, olhou novamente e congelou no lugar.


Por um longo momento, nenhum de nós se moveu. Com seu olhar fixo no meu, percebi que fora um

erro ter vindo, ter aparecido assim sem avisar. Sabia que deveria dizer algo, qualquer coisa, mas
nada me veio à mente. Só conseguia olhar para ela.

As memórias voltaram como uma avalanche, todas elas, e notei quão pouco ela mudara desde a
última vez que nos vimos. Como eu, ela vestia jeans e uma camiseta manchada de terra, e suas
botas de cowboy estavam desgastadas e arranhadas. De algum modo, aquele visual campestre lhe
dava um charme rústico. Seu cabelo estava mais comprido, mas ela ainda tinha a pequena fenda
entre os dentes da frente que eu sempre adorara.
"Savannah", eu disse finalmente.
Só depois de falar, percebi que ela ficara tão enfeitiçada quanto eu. De repente, ela abriu um sorriso
largo e cheio de um prazer inocente.
"John" ela gritou.
"É bom ver você de novo."
Ela balançou a cabeça, como tentando aclarar a mente, então apertou os olhos novamente. Quando
finalmente se convenceu que eu não era uma miragem, partiu em minha direção e atravessou a
porteira. Momentos depois, senti os braços dela em volta de mim, seu corpo quente e acolhedor. Por
u segundo, era como se nada tivesse mudado entre nós. Quis que aquele abraço não terminasse
nunca. Mas quando ela se afastou, quebrou a ilusão e nos tornamos estranhos outra vez. O rosto
dela fazia a pergunta que eu tinha sido incapaz de responder durante a longa viagem até ali.
"O que você esta fazendo aqui?"
Desviei o olhar. "Não sei", disse. "Só precisava vir."
Embora ela não tenha perguntado mais nada, havia uma mistura de curiosidade e hesitação em sua
expressão, como se ela não tivesse certeza de que queria uma explicação. Dei um pequeno passo
para trás, abrindo espaço para ela. Identifiquei os contornos sombrios dos cavalos na escuridão e
senti que os acontecimentos dos últimos dias aos poucos voltavam para mim.
"Meu pai morreu", sussurrei, as palavras surgiram do nada. "Acabo de vir do funeral."
Ela ficou quieta. Sua expressão adquiriu a compaixão espontânea que tanto me atraiu no passado.
"Oh, John... Sinto muito", murmurou.
Ela se aproximou novamente, e desta vez havia urgência em seu abraço. Quando se afastou, metade
do seu rosto ficou na sombra.
"Como aconteceu?", ela perguntou, ainda segurando a minha mão.
Percebi uma tristeza genuína em sua voz, e fiz uma pausa incapaz de resumir os últimos dois anos
em uma única frase. "É uma longa história", disse. Sob as luzes do celeiro, julguei detectar em seu
olhar traços das memórias que ela queria manter enterradas, de uma vida muito antiga. Quando ela
soltou minha mão, vi a aliança brilhando no dedo esquerdo. Essa visão foi como uma ducha de água
fria, um choque de realidade.


Ela compreendeu minha expressão. "Sim", ela disse, "estou casada."


"Desculpe", disse, balançando a cabeça. "Não deveria ter vindo."

Surpreendendo-me, ela gesticulou ligeiramente. "Tudo bem", disse, inclinando a cabeça. "Como
você me encontrou?"
"É uma cidade pequena." Dei de ombros. "Perguntei pra alguém."
"E simplesmente... te contaram?"
"Fui convincente."
Foi esquisito, e nenhum de nós sabia o que dizer. Parte de mim esperava continuar ali, enquanto
conversávamos como velhos amigos sobre tudo o que havia acontecido conosco desde nosso último
encontro. Outra parte de mim esperava que o marido dela aparecesse do nada a qualquer momento
e, ou me estendesse a mão ou me desafiasse para uma briga. Em meio ao silêncio, um cavalo
relinchou. Atrás dela havia quatro cavalos com as cabeças enfiadas no comedouro, metade nas
sombras, metade iluminados pela luz do celeiro. Três outros cavalos, incluindo Midas, olhavam
para Savannah como que perguntando se ela havia se esquecido deles. Savannah por fim fez um
sinal por cima do ombro.
"Tenho de cuidar deles também", disse ela. "É a hora da comida, e eles estão ficando impacientes."
Quando assenti, Savannah deu um passo para trás e virou-se. Assim que chegou ao portão, ela
acenou. "Você quer me dar uma mão?"
Hesitei, olhando em direção a casa. Ela seguiu meu olhar.
"Não se preocupe" disse. "Ele não está, e sua ajuda seria muito bem vinda." A voz dela estava
surpreendentemente tranqüila.
Embora não soubesse como interpretar aquela resposta, concordei. "Fico feliz em ajudar."
Resmunguei: "vou tentar."
No celeiro, ela separou um pedaço de feno e, em seguida, mais dois e entregou-os a mim.
"Basta jogar nos comedouros perto dos outros. Eu estou indo pegar a aveia."
Fiz o que ela mandou, e os cavalos se aproximaram. Savannah saiu carregando dois baldes.
"É melhor você dar um pouco de espaço para eles, Eles podem derrubar você por acidente."
Eu me afastei, e Savannah pendurou os baldes na cerca. O primeiro grupo de cavalos trotando em
direção a eles. Savannah os observou com evidente orgulho.
"Quantas vezes você tem que alimentá-los?"
"Duas vezes por dia, todos os dias. Mas há mais além da alimentação. Você ficaria surpreso em
como eles são estabanados às vezes. O telefone do veterinário está na discagem rápida."
Eu sorri. "Parece muito trabalho."


"É mesmo. Dizem que ser dono de um cavalo é como viver como uma âncora. A menos que você

tenha alguém para ajudar, é difícil ficar longe, mesmo por um fim de semana."

"Seus pais ajudam?"
"Às vezes. Quando realmente preciso deles. Eles moram atrás do morro, do outro lado da cerca.
Mas o meu pai está ficando velho, e há uma grande diferença entre cuidar de um cavalo e cuidar de
sete.
"Vou acreditar na sua palavra."
No doce abraço da noite, ouvindo o zumbido constante das cigarras, eu respirava a paz daquele
refugio, tentando aquietar meus pensamentos acelerados.
"Este é exatamente o tipo de lugar que imaginei como sua casa", finalmente disse.
"Eu também", ela afirmou. "Mas é muito mais difícil do que eu imaginava. Há sempre algo para
consertar. Você não imagina quantos vazamentos havia no celeiro, e um bom pedaço da cerca
desabou no último inverno. Foi nisso que trabalhamos durante toda a primavera."
Embora tenha ouvido ela usar "nós" e assumindo que se tratava de seu marido, eu ainda não estava
pronto para falar sobre ele. Nem ela, ao que parece.
"Mas é bonito aqui, mesmo com tanto trabalho. Em noites como esta, gosto de sentar no alpendre e
apenas ouvir o mundo. Raramente se ouve barulho de carros e isso é tão... pacífico. Ajuda a clarear
a mente, especialmente depois de um longo dia."
Enquanto ela falava, observei como media as palavras, percebi seu desejo de manter a conversa em
território seguro.
"Aposto que sim."
"Preciso limpar alguns cascos", ela anunciou. "Você quer ajudar?"
"Não sei o que fazer", admiti.
"É fácil, disse. "Vou te mostrar." Desapareceu no celeiro e saiu carregando o que parecia ser um par
de pequenos pregos curvados. Ela me entregou um. Enquanto os cavalos comiam, ela se aproximou
de um deles.
"Você só tem agarrar perto do casco e levantar, enquanto segura a parte de trás da pata dele aqui",
disse, demonstrando. Ocupado com o feno, o cavalo levantou a pata obediente. Ela apoiou o casco
entre as pernas. "Então, basta tirar a terra do casco. É só isso.
Fui até o cavalo ao lado dela e tentei replicar suas ações, mas nada aconteceu. O cavalo era
excessivamente grande e teimoso. Eu puxei a pata e segurei no lugar certo. Depois puxei e segurei
mais um pouco. O cavalo continuou a comer, ignorando meus esforços.
"Ele não vai levantar a pata", reclamei. Ela terminou o casco que estava limpando, então se inclinou
para o lado do meu cavalo. Um puxão e um apertão mais tarde, o casco estava no lugar, entre as
pernas dela. "Claro que vai. Só que ele sabe que você não tem idéia do que esta fazendo e esta


desconfortável perto dele. Você tem que ser confiante." Ela deixou cair o casco e tomei o seu lugar

para tentar novamente. O cavalo ignorou-me mais uma vez.

"Veja como eu faço", disse ela com cuidado.
"Eu estava observando", protestei.
Ela repetiu o procedimento, o cavalo levantou a pata. Um momento depois imitei o passo a passo e
o cavalo me ignorou. Embora eu não possa alegar que consiga ler a mente de um cavalo, tive a
estranha sensação de que ele se divertia com o meu sofrimento. Frustrado, bati e puxei
incansavelmente até que, finalmente, como por magia, o cavalo levantou a pata. Apesar da
precariedade do meu desempenho, senti uma onda de orgulho. Pela primeira vez desde que cheguei,
Savannah riu.
"Bom trabalho. Agora é só raspar fora a lama e partir para o próximo casco."
Savannah tinha limpado os outros seis cavalos quando terminei meu primeiro. Quando terminamos,
ela abriu a porteira e os cavalos trotaram para a pastagem escura. Eu não sabia o que esperar, mas
Savannah foi para o galpão. Ela trazia duas pás nas mãos.
"Agora é hora de limpar", disse ela, entregando-me uma pá.
"Limpar?"
"O chorume", disse. "Caso contrário pode ficar muito espesso aqui."
Peguei a pá. "Você faz isso todo dia?"
"A vida é doce, não é?", ela provocou. Ela saiu novamente e voltou com um carrinho de mão.
Quando começamos a cavar o estrume, um pedaço de uma lua surgiu sobre as copas das arvores.
Trabalhamos em silêncio, o tilintar das pás em ritmo constante enchia o ar. Quando acabamos,
inclinei-me sobre minha pá e a observei. No escuro do celeiro ela parecia linda e fugaz como uma
aparição. Ela não disse nada, mas pude sentir que me analisava.
"Você esta bem?", finamente perguntei.
"Por que você veio, John?"
"Você já me perguntou isso."
"Sei que já perguntei", ela disse. "Mas você ainda não respondeu."
Estudei-a. Não, eu não tinha respondido. Não tinha certeza se podia me explicar, e transferi o peso
de um pé para o outro. "Não sabia para onde mais poderia ir."
Surpreendendo-me, ela concordou. "Uh-huh", admitiu.
Foi a aceitação sem reservas em sua voz que me fez continuar.
"estou falando sério", disse. "De certo modo, você foi a melhor amiga que já tive."


Notei a expressão dela amolecer. "Tudo bem", ela disse. Essa resposta lembrou-me do meu pai e,

depois de falar, talvez ela tenha percebido isso. Obriguei-me a examinar a propriedade.

"Esta é a fazenda que você sonhava construir, não é?" perguntei. "Hope and Horses é para crianças
altistas, não?"
Ela passou a mão pelos cabelos, colocando uma mecha atrás da orelha. Parecia feliz de eu ter
lembrado. "Sim", disse ela. "É."
"É tudo o que você pensou que seria?"
Ela riu e ergueu as mãos. "Às vezes", disse. "Mas é muito mais difícil do que eu imaginava, e não
pense que rende o suficiente para pagar as contas. Nós dois trabalhamos em outros empregos, e
todos os dias percebo que não aprendi tanto na faculdade quanto imaginava."
"Não?"
Ela balançou a cabeça. "Algumas das crianças que aparecem aqui, ou no centro, são muito difíceis
de tratar." Ela hesitou, tentando encontrar as palavras certas. Finalmente, balançou a cabeça. "Acho
que pensei que todas seriam como Alan, sabe?" Ela olhou para cima. "Você se lembra quando falei
dele?"
Assenti com a cabeça e ela prosseguiu. "Acontece que a situação de Alan era especial. Não sei,
talvez por ele ter crescido em um rancho, mas ele se adaptou muito mais facilmente do que a
maioria das crianças."
Ela parou de falar, e olhei-a de modo inquisitivo. "Lembro que não foi assim que você me contou a
história. Pelo que me lembro, Alan ficou apavorado no início."
"Sim, eu sei, mas enfim... ele se acostumou. E esse é o ponto. Não sei quantas crianças temos aqui
que não se adaptaram em nada, não importa quanto tempo trabalhamos com elas. Isto não é só uma
coisa de final semana, algumas crianças freqüentaram regularmente por mais de um ano.
Trabalhamos em um centro de avaliação do desenvolvimento, portanto passamos muito tempo com
a maioria das crianças. Quando criamos o rancho, insisti em abri-lo para todas as crianças,
independentemente da gravidade do transtorno. Sentimos que seria algo importante, mas com
algumas crianças... Eu só queria saber como me comunicar com elas. Às vezes parece que estamos
apenas andando em círculos."
Percebi que Savannah repassava suas lembranças. "Não quero dizer que estamos perdendo nosso
tempo", ela prosseguiu. "Algumas crianças realmente se beneficiaram com o que estamos fazendo.
Elas vêm aqui, passam alguns fins de semana e é como... um botão de flor lentamente
desabrochando em algo belo. Assim como foi com Alan. É como se você pudesse sentir a mente
deles se abrindo para novas idéias e possibilidades. E quando estão cavalgando com um grande
sorriso nos rostos, nada mais importa no mundo. É um sentimento inebriante, e você quer que
aconteça mais e mais, com cada criança que chega. Eu costumava achar que era questão de
persistência, que podíamos ajudar a todos, mas não podemos. Algumas das crianças não querem
nem mesmo chegar perto do cavalo, quanto mais, montar."
"Você sabe que não é sua culpa. Eu também não ficava muito entusiasmado com a idéia de montar,
lembra?"
Ela riu, parecendo extremamente feminina. "Sim, eu lembro. Na primeira vez que você subiu em


um cavalo, estava mais assustado do que boa parte das crianças."


"Não, não estava", protestei. "E, alem disso, Pepper era arisco", insisti.

"Falou como um verdadeiro novato", ela provocou. "Mas mesmo que você esteja errado, fico
tocada por ainda se lembrar."
Sua jovialidade evocou uma onda de lembranças.
"Claro que lembro", disse. "Aquele foram os melhores dias da minha vida. Nunca vou esquecê-los."
Atrás dela, avistei o cão errante no pasto. "Talvez por isso eu ainda não esteja casado."
Ao ouvir essas palavras, o olhar dela vacilou. "Eu também me lembro."
"Você?"
"Claro", ela disse. "Você pode não acreditar, mas é verdade."
O peso das palavras dela encheu o ar.
"Você é feliz Savannah?", finalmente perguntei.
Ela abriu um sorriso irônico. "A maior parte do tempo. Você não?"
"Não sei", disse, e ela riu novamente.
"Essa é a sua resposta padrão, sabia? Quando é convidado a olhar para dentro de si e responder. É
como um reflexo seu. Sempre foi. Por que você não pergunta o que realmente quer perguntar?"
"O que eu realmente quero perguntar?"
"Se amo o meu marido. Não é isso que você quer saber?"
Por um estante fiquei mudo, mas percebi que os instintos dela estavam corretos. Esse era o motivo
real que me levara até ali.
"Sim", ela disse afinal, novamente lendo minha mente. "Eu o amo."
A sinceridade inquestionável em sua voz me feriu, mas antes que eu pudesse refletir, ela se virou
para mim novamente. A ansiedade cintilava em seu rosto, como se ela lembrasse algo doloroso. Mas
logo passou.
"Você já comeu?", ela perguntou.
Eu ainda estava tentando entender o que acabar de acontecer. "Não", eu disse. "Na verdade, não
tomei café da manha, nem almocei."
Ela balançou a cabeça. "Tenho umas sobras de cozido de carne em casa. Você tem tempo para
jantar?"
Apesar de pensar mais uma vez no marido dela, assenti. "Quero sim", disse.


Partimos em direção a casa e paramos no alpendre onde se enfileiravam velhas botas de caubói

cobertas de lama. Savannah segurou em meu braço de modo extraordinariamente fácil e natural,
apoiando-se em mim para tirar as botas Talvez tenha sido esse toque que me deu coragem para olhar
verdadeiramente para ela. Apesar do ar de mistério e maturidade que sempre me atraiu, também
notei uma ponta de tristeza e hesitação. Para meu coração dolorido, essa combinação a tornava
ainda mais bonita.
*********************


Dezenove


· · · ·

Sua pequena cozinha era exatamente o que eu esperava de uma casa antiga provavelmente
reformada meia dúzia de vezes durante o último século: chão de linóleo ligeiramente descascado
perto das paredes; armários brancos funcionais e sem adornos -- com a superfície grossa por causa
das inúmeras camadas de tinta ao longo anos -- e uma pia de aço inoxidável instalada abaixo de
uma janela de madeira que deveria ter sido substituída anos antes. A bancada estava rachando, e
encostado na parede, havia um fogão a lenha tão antigo quanto a própria casa. Em alguns pontos,
notava-se a intromissão do mundo moderno: uma grande geladeira e uma lava-louças perto da pia;
um microondas pendurado em canto, perto de meia garrafa de vinho tinto. Em alguns aspectos,
lembrava a casa do meu pai.
Savannah abriu um armário e pegou uma taça. "Você quer uma taça de vinho?"
Eu balancei minha cabeça. "Nunca fui muito de beber vinho."
Fiquei surpreso por ela não guardar a taça diante da minha negativa. Em vez disso, ela pegou a
garrafa de vinho e serviu; colocou a taça na mesa e se sentou diante dela.
Sentamos à mesa e Savannah tomou um gole.
"Você mudou", observei.
Ela deu de ombros. "Muitas coisas mudaram desde a última vez que vi você."
Ela não disse mais nada e colocou a taça de volta na mesa. Quando falou novamente, tinha a voz
suave. "Nunca pensei que seria o tipo de pessoa que anseia por tomar uma taça de vinho à noite,
mas eu sou."
Ela começou a girar a taça na mesa, e eu me perguntava o que havia acontecido com ela.
"Sabe o engraçado?", ela disse. "Eu realmente me importo com o sabor. Quando bebi minha
primeira taça, não sabia o que era bom ou ruim. Agora sou bastante seletiva na hora de comprar."
Eu não reconhecia plenamente a mulher sentada diante de mim e não sabia como reagir.
"Não me entenda errado", ela prosseguiu. "Ainda me lembro de tudo que meus pais me ensinaram,
e quase nunca tomo mais de uma taça por noite. Mas como o próprio Jesus transformou água em
vinho, acho que não deve ser um grande pecado."
Sorri diante desse raciocínio, reconhecendo como era injusto esperar uma versão dela congelada no
passado. "Eu não perguntei nada."
"Eu sei", ela disse. "Mas você estava pensando."
Por um momento, o único som na cozinha era o zumbido baixo da geladeira. "Sinto muito por seu
pai", ela disse, alisando uma rachadura no tampo da mesa. "Realmente sinto. Não sei dizer quantas
vezes pensei nele nos últimos anos."
"Obrigado", disse eu.


Savannah começou a girar a taça de novo, aparentemente perdida no redemoinho líquido. "Você

quer falar sobre isso?", ela perguntou.

Eu não tinha certeza, mas ao recostar-me na cadeira, as palavras surpreendentemente vieram. Contei
sobre o primeiro ataque cardíaco, e depois o segundo, sobre as visitas que fiz a ele nos dois anos
anteriores. Contei sobre nossa crescente amizade, e o conforto que sentia ao lado dele. Falei das
caminhadas que ele fazia que por fim teve de interromper. Contei sobre meus últimos dias com ele e
a agonia de interná-lo em uma clínica. Quando descrevi o enterro e a fotografia que encontrei no
envelope, ela tomou minha mão.
"Estou feliz que ele tenha guardado para você", ela disse, "mas não fiquei surpresa."
"Eu fiquei", disse, e ela riu. Era um som reconfortante.
Ela apertou minha mão. "Gostaria de ler ficado sabendo. Teria ido ao enterro."
"Não foi nada demais."
"Não tinha que ser. Ele era seu pai, e isso é tudo que importa." Ela hesitou antes de soltar minha
mão e tomou outro gole de vinho.
"Você está pronto para comer?", ela perguntou.
"Não sei", disse, ruborizando ao lembrar o comentário que ela fizera antes.
Ela se inclinou para frente com um sorriso. "Que tal eu esquentar um prato de cozido e vamos ver o
que acontece?"
"Está gostoso?", perguntei. "Quer dizer... quando nos conhecemos, antes, você nunca mencionou
que soubesse cozinhar."
"É a receita especial da família", disse ela, fingindo estar ofendida. "Mas tenho de ser honesta: foi
minha mãe quem fez. Ela trouxe ontem."
"A verdade vem à tona", disse eu.
"Essa é a coisa engraçada sobre a verdade", disse ela. "Ela geralmente aparece." Ela se levantou,
abriu a geladeira e inclinou-se para examinar as prateleiras. Pensava na aliança em seu dedo e em
onde estaria seu marido quando ela ergue-se com o Tupperware nas mãos. Ela colocou algumas
conchas de cozido em uma tigela e colocou-a no forno de microondas.
"Você quer mais alguma coisa? Que tal pão e manteiga?"
"Seria ótimo", eu concordei.
Poucos minutos depois, a refeição foi posta à minha frente e o aroma me fez ter consciência pela
primeira vez, do quanto eu estava com fome. Surpreendendo-me, Savannah sentou em seu lugar
novamente, segurando a taça de vinho.
"Você não vai comer?"


"Não estou com fome", disse. "Na verdade, não tenho comido muito recentemente." Ela tomou um

gole enquanto eu dava minha primeira garfada e deixei o comentário passar.

"Você estava certa", disse. "Está delicioso."
Ela sorriu. "Mamãe é uma ótima cozinheira. Seria de imaginar que eu tivesse aprendido também,
mas não. Estava sempre muito ocupada. Muito estudo quando era jovem e, ultimamente, muita
reforma." Ela apontou para a sala. "É uma casa velha. Sei que não parece, mas trabalhamos muito
aqui nos últimos dois anos."
"Está ótima."
"Você está apenas sendo educado, mas eu agradeço." Ela sorriu. "Você devia ter visto o lugar
quando me mudei. Estava parecido com o celeiro, sabe? Precisava de um telhado novo, mas é
engraçado, ninguém pensa no telhado quando está imaginando reformar. É uma daquelas coisas que
todo mundo espera ter na casa, mas nunca pensa que um dia terá de trocar. Quase tudo que fizemos
entra nessa categoria. As bombas do aquecedor, janelas térmicas, os danos causados por cupins...
foram muitos e longos dias." Ela tinha uma expressão sonhadora no rosto. "Fizemos a maior parte
do trabalho nós mesmos. Como esta coza. Sei que precisamos de armários e piso novos, mas,
quando nos mudamos, havia poças d'água na sala de estar e nos quartos sempre que chovia. O que
podíamos fazer? Tivemos de priorizar, e uma das primeiras coisas foi trocar todas as telhas do
telhado. Devia estar quase 40 graus e eu lá em cima com uma pá, arrancando telhas, criando bolhas
nas mãos. Mas... parecia o certo, sabe? Dois jovens começando a vida, trabalhando juntos para
reformar sua casa? Havia uma sensação de... união. Foi a mesma coisa quando fizemos o piso da
sala de estar. Deve ter levado duas semanas para lixar e nivelar de novo. Pintamos e envernizamos
e, quando finalmente pudemos andar sobre ele, parecia o alicerce para o resto de nossas vidas."
"Você faz parecer quase romântico."
"Foi, de certa forma", ela concordou, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. "Mas
ultimamente não é tão romântico. Agora, só está ficando velho."
Eu ri inesperadamente, em seguida tossi e procurei um copo que não estava lá.
Ela empurrou a cadeira para trás. "Deixa eu pega um pouco de água para você", ela disse. Ela
encheu um copo da torneira e colocou-o diante de mim. Enquanto bebia, sentia que ela me
observava.
"O que foi?", perguntei.
"Não acredito no quanto você está diferente."
"Eu?", achei difícil de acreditar.
"Sim, você", ela insistiu. "Você está... mais velho."
"Sim, eu sou mais velho."
"Eu sei, mas não é isso. São seus olhos. Eles estão... mais sérios do que antes. Como se tivessem
visto o que não deveriam. Exaustos, por algum motivo."
Não disse nada em resposta, mas quando notou minha expressão, ela abanou a cabeça,


envergonhada. "Não deveria ter dito isso. Não imagino o que você passou nos últimos anos."


Dei outra garfada no cozido, pensando em seu comentário. "Deixei o Iraque no início de 2004",
disse. "Estou na Alemanha desde então. Só uma parte do exército fica lá de cada vez, e nos
revezamos. Provavelmente vou acabar voltando, mas não sei quando. Esperamos que as coisas se
acalmem um pouco ate lá."
"Você já não deveria ter saído do exército?"
"Eu me alistei de novo", disse. "Não havia motivo para não fazer isso."
Ambos sabíamos a razão, e ela concordou. "Quanto tempo agora?"
"Até 2007."
"E depois?"
"Não tenho certeza. Posso ficar por mais alguns anos. Ou talvez vá para a faculdade. Quem sabe.
Posso até me graduar em educação especial. Já ouvi maravilhas sobre a área."
Seu sorriso era estranhamente triste e, por instantes, nenhum de nós disse nada. "Há quanto tempo
você está casada?", perguntei.
Ela ajeitou-se na cadeira. "Vai fazer dois anos em novembro."
"Você se casou aqui?"
"Como se eu tivesse escolha." Ela revirou os olhos. "A minha mãe realmente estava a fim dessa
coisa de casamento perfeito. Sei que sou filha única, mas, em retrospecto, teria ficado mais feliz
com algo muito menor. Cem convidados teria sido perfeito."
"Você considera isso menor?"
"Comparado com o que foi? Sim. Não havia assentos suficientes para todos na igreja, e meu pai fala
até hoje que vai passar anos pagando as contas. Ele está só me provocando, é claro. Metade dos
convidados eram amigos dos meus pais, mas acho que é isso que acontece quando você se casa em
sua cidade natal. Todo mundo, do carteiro ao barbeiro, é convidado."
"Mas você está feliz por estar de volta?"
"É confortável aqui. Meus pais estão perto, e preciso disso, especialmente agora."
Ela não entrou em detalhes, debando o comentário no ar. Eu pensava nisso -- e em uma centena de
outras coisas -- quando me levantei da mesa e coloquei meu prato na pia. Depois de passar uma
água no prato, ouvi-a dizer às minhas costas:
"Pode deixar aí. Ainda não tirei a louça da máquina. Vou fazer isso mais tarde. Você quer mais
alguma coisa? Minha mãe deixou duas tortas no balcão."
"Que tal um copo de leite?", disse. Quando ela fez menção de se levantar, acrescentei: "Eu posso
pegar. Só me diga onde estão os copos."


"No armário da pia."


Peguei um copo do armário e fui até a geladeira. O leite estava na prateleira de cima, e nas
prateleiras inferiores havia pelo menos uma dúzia de recipientes Tupperware cheios de comida.
Enchi o copo e voltei para a mesa.
"O que está acontecendo, Savannah?"
Após essas palavras, ela virou-se para mim. "O que você quer dizer?"
"Seu marido", disse.
"O que tem ele?"
"Quando vou conhecê-lo?"
Em vez de responder, Savannah levantou da mesa levando a taça de vinho. Despejou o conteúdo na
pia e em seguida pegou uma xícara e uma caixa de chá.
"Você já conheceu", disse ela, virando-se. Ela endireitou os ombros. "É Tim."
***
Eu ouvia a colher batendo contra a xícara quando Savannah sentou novamente à minha frente.
"O quanto você quer saber?", ela murmurou, olhando a xícara de chá.
"Tudo", disse eu. Eu me recostei na cadeira. "Ou nada. Ainda não tenho certeza."
Ela bufou. "Acho que faz sentido."
Eu uni as mãos. "Quando começou?"
"Não tenho certeza", ela disse. "Sei que parece loucura, mas não aconteceu como você
provavelmente imagina. Não é que um de nós tenha planejado." Ela colocou a colher na mesa.
"Mas, para dar alguma resposta, acho que começou no início de 2002."
Poucos meses depois que eu me realistei, percebi. Seis meses antes do primeiro ataque cardíaco do
meu pai e exatamente na época em que notei que as cartas dela começaram a mudar.
"Você sabe que éramos amigos. Mesmo ele estando na pós-graduação, acabamos fazendo algumas
aulas no mesmo prédio durante meu último ano na faculdade. No fim das aulas, íamos tomar café
ou acabávamos estudando juntos. Não eram encontros, nem ficávamos de mãos dadas. Tim sabia
que eu estava apaixonada por você... mas ele estava presente, sabe? Ele ouvia quando eu falava o
quanto sentia sua falta e como a distância era difícil. E foi difícil. Eu achava que você já estaria em
casa nessa época."
Quando ela ergueu o olhar, seus olhos estavam cheios do quê? Arrependimento? Não dava para
saber.
"De qualquer forma, passamos muito tempo juntos, e ele me consolava sempre que eu estava para
baixo. Sempre me lembrava que você estaria aqui de licença antes do que eu esperava, e você não


imagina o quanto eu queria ver você novamente. Então, seu pai ficou doente. Sei que você tinha de

ficar com ele, eu nunca teria lhe perdoado se você não ficasse ao lado dele, mas não era o que
precisávamos. Sei como isso parece egoísta, e me odeio por ter pensado assim. Mas parecia que o
destino estava conspirando contra nós."
Ela pôs a colher no chá e mexeu de novo, recolhendo seus pensamentos.
"Naquele outono, após terminar todas as minhas aulas e voltar para casa para trabalhar no centro de
aviação de desenvolvimento da cidade, os pais de Tim se envolveram em um acidente horrível. Eles
estavam voltando de carro de Asheville, quando perderam a direção e foram parar do outro lado da
pista, na contramão da rodovia. Uma carreta acabou batendo neles. O motorista do caminhão não
ficou ferido, mas os pais de Tim morreram na batida. Tim teve de abandonar a escola -- ele estava
tentando entrar no doutorado --, para voltar e cuidar de Alan." Ela fez uma pausa. "Foi terrível para
Tim. Não só ele tinha de lidar com a perda - ele adorava os pais --, mas Alan também estava
inconsolável. Ele gritava o tempo todo, arrancava os cabelos. O único que conseguia fazer com que
ele parasse de se ferir foi Tim, mas isso drenou toda sua energia. Acho que foi quando comecei a vir
para cá. Você sabe, para ajudar."
Quando franzi a testa, ela acrescentou: "esta era a casa dos pais de Tim. Onde Tim e Alan
cresceram."
Tão logo ela disse isso, a lembrança voltou. Claro que era a casa de Tim -- uma vez ela me contou
que ele morava no rancho ao lado dos pais dela.
"Acabamos consolando um ao outro. Tentei ajudá-lo, ele tentou me ajudar e nós dois tentamos
ajudar Alan. E, pouco a pouco, eu acho, começamos a nos apaixonar."
Pela primeira vez, ela olhou nos meus olhos.
"Sei que você deve estar irritado com Tim ou comigo. Provavelmente com os dois. E acho que
merecemos. Mas você não sabe como foi aquela época. Tanta coisa acontecendo, tantas emoções o
tempo todo. Eu me senti culpada com o que estava acontecendo, Tim se sentiu culpado. Mas, depois
de um tempo, começamos a nos sentir como se já fôssemos um casal. Tim começou a trabalhar no
mesmo centro de avaliação de desenvolvimento que eu, e decidiu que queria montar um programa
de fim de semana no rancho para crianças autistas. Seus pais sempre quiseram que ele fizesse isso,
então me voluntariei para trabalhar aqui também. Depois disso, passávamos quase todo o tempo
juntos. Montar o rancho nos fez concentrar em algo, e também ajudou Alan. Ele ama cavalos e
havia tanto para fazer que gradativamente ele se acostumou ao fato de seus pais não estarem por
perto. Foi como se nós todos estivéssemos nos apoiando uns nos outros... De qualquer modo, ele me
pediu em casamento no fim daquele ano."
Quando ela parou, eu virei, tentando digerir suas palavras. Ficamos em silêncio por um tempo,
ambos lutando com os próprios pensamentos.
"Então, é essa história", concluiu. "Não sei o quanto mais você quer saber."
Eu também não tinha certeza.
"Alan ainda mora aqui?", perguntei.
"Ele tem um quarto no andar de cima. Na verdade, o mesmo quarto de sempre. No entanto, não é
tão difícil quanto parece. Depois que ele termina de se alimentar e escovar os cavalos, geralmente


passa a maior parte do tempo sozinho. Ele adora videogames. É capaz de jogar por horas.

Ultimamente, não consigo fazê-lo parar. Ele jogaria a noite toda se eu deixasse."

"Ele está aqui agora?"
Ela balançou a cabeça. "Não", disse. "Agora ele está com Tim."
"Onde?"
Antes que ela pudesse responder, o cão começou a arranhar insistentemente a porta, e Savannah
levantou-se para abri-la. O cão entrou com a língua para fora e abanando o rabo. Veio na minha
direção e cheirou minha mão.
"Ele gosta de mim", disse.
Savannah ainda estava perto da porta. "Ela gosta de todos. O nome dela é Molly. Inútil como cão de
guarda, mas doce como uma flor. É só tentar evitar a baba. Ela vai babar em você todo, se você
deixar."
Olhei para o meu jeans. "Deu pra notar."
Savannah fez sinal por cima do ombro. "Olha, lembrei que ainda tenho que guardar algumas coisas.
Deve chover à noite. Não demoro muito."
Notei que ela não tinha respondido a pergunta sobre Tim. Nem pretendia responder.
"Você precisa de uma mão?"
"Na verdade não. Mas você é bem-vindo. A noite está bonita."
Eu a segui, com Molly andando à nossa frente, tendo esquecido completamente que acabara de
pedir para entrar na casa. Quando uma coruja apareceu entre as árvores, Molly correu na escuridão
e desapareceu.
Savannah colocou as botas novamente.
Caminhamos em direção ao celeiro. Pensei em tudo o que ela disse e me questionei de novo porque
tinha vindo. Não sabia se estava feliz por ela ter casado com Tim - já que eles pareciam perfeitos
um para o outro - ou chateado pela mesma razão. Nem estava contente por finalmente saber a
verdade. De algum modo, percebi, era mais fácil não saber. De repente, simplesmente me senti
cansado.
E, no entanto... sabia que ela estava escondendo algo. Ouvi em sua voz, na ponta de tristeza que não
desaparecia. À medida que a escuridão nos envolvia, aguçava-se a percepção de como estávamos
próximos, e me perguntei se ela sentia o mesmo. Mas ela não deu nenhum sinal disso.
Os cavalos eram meras sombras na distância, manchas sem uma forma reconhecível. Savannah
recolheu um par de rédeas, levou-as ao celeiro e pendurou-as em dois pinos. Enquanto isso, peguei
as pás que havíamos usado e arrumei-as junto ao resto das ferramentas. Na volta, ela checou bem se
havia trancado o portão.
Olhando para o relógio, vi que eram quase dez horas. Era tarde, e nós dois estávamos conscientes


do horário.


"Acho que devo ir andando", disse. "É uma cidade pequena. Não quero ser a causa de qualquer
fofoca."
"Você provavelmente está certo." Molly apareceu do nada, perambulando, e sentou-se entre nós.
Ela se enrolou nas pernas de Savannah, indo para o lado. "Onde você está hospedado?", ela
perguntou.
"Em um hotelzinho de beira de estrada. Na saída da cidade."
Ela franziu o nariz, mesmo que por um instante. "Conheço o lugar."
"É uma espelunca", admiti.
Ela sorriu. "Não posso dizer que esteja surpresa. Você sempre teve faro para encontrar os lugares
mais peculiares."
"Como a Cabana do Camarão?"
"Exatamente."
Enfiei as mãos nos bolsos, imaginando se seria a última vez que nos veríamos. Se fosse o caso, teria
sido um absurdo anticlímax; eu não podia deixar tudo acabar em conversa afiada, mas não
conseguia pensar em nada para falar.
Na estrada em frente, os faróis de um carro em movimento iluminaram a propriedade quando
passaram em velocidade pela casa.
"Então acho que é isso", perplexo. "Foi bom ver você de novo."
"Você também, John. Estou contente que tenha vindo."
Concordei novamente. Quando ela desviou o olhar, tomei como um sinal para partir.
"Adeus", disse eu.
"Adeus."
Virei e comecei a andar para o carro, tonto ao pensar que tudo estava realmente acabado. Não sabia
se esperava qualquer coisa diferente, mas o fim trouxe à tona todos os sentimentos represados desde
que eu lera aquela última carta.
Eu estava abrindo a porta do carro quando a ouvi gritar.
"Ei, John?"
"Sim?"
Ela desceu da varanda e veio na minha direção. "Você vai estar por aqui amanhã?"
Enquanto ela se aproximava, seu rosto parcialmente na sombra, tive certeza de que ainda estava


apaixonado. Apesar da carta, apesar do seu marido. Apesar do fato de que nunca mais poderíamos

ficar juntos.

"Por quê?", perguntei.
"Estava imaginando se você gostaria de aparecer. Por volta das dez. Tenho certeza que Tim gostaria
de encontrar você..."
Eu estava balançando a cabeça antes mesmo de ela ter terminar. "Não tenho tanta certeza de que
seja uma boa ideia."
"Você faria isso por mim?"
Sabia que ela queria que eu visse que Tim ainda era o mesmo homem de sempre e, de certo modo,
sabia que ela estava me convidando porque queria meu perdão. Ainda assim...
Ela pegou minha mão. "Por favor. Significaria muito para mim."
Apesar do calor da mão dela, eu não queria voltar. Não queria ver Tim, não queria ver os dois juntos
ou sentar-me à mesa fingindo que tudo parecia bem. Mas havia algo melancólico naquele pedido,
que tornou impossível declinar.
"Ok", eu disse. "Dez horas."
"Obrigada."
Um momento depois, ela se virou para voltar. Permaneci no local, observando-a subir no alpendre
antes de entrar no carro. Virei a chave e esperei. Savannah estava no alpendre, acenando uma última
vez. Acenei de volta e peguei a estrada, a imagem dela cada vez menor no espelho retrovisor. Ao
observá-la, senti uma súbita secura na garganta. Não porque ela estava casada com Tim, e não
porque iria vê-los juntos no dia seguinte. Mas porque, enquanto eu me afastava, vi Savannah em pé
no alpendre, chorando.
***********


Vinte


Na manha seguinte encontrei Savannah em pé no alpendre,e ela acenou quando entrei no rancho.
Ela se aproximou enquanto eu estacionava. Eu meio que esperava ver Tim na porta atrás dela, mas
ele nao apareceu.
"Oi", disse ela, tocando meu braço. "Obrigada por ter vindo."
"Imagina", eu disse, encolhendo os ombros relutante.
Vislumbrei um lampejo de compreensão em seus olhos quando ela perguntou: "Você dormiu bem?"
"Não muito."
Ela deu um sorriso irônico. "Você está pronto?"
"Como sempre."
"Tudo bem", ela disse. "Deixe-me apenas pegar as chaves. A menos que você queira dirigir."
Não entendi de primeira o que isso queria dizer. "Vamos sair?" Indiquei a casa. "Pensei que iríamos
ver Tim."
"Nós vamos", ela disse. "Ele não está aqui."
"Onde ele está?"
Foi como se ela não tivesse ouvido. " Você quer dirigir?"
"Sim, acho que sim", disse, sem esconder a minha confusãomas sabendo que ela de alguma forma
esclareceria as coisasquando estivesse pronta. Abri a porta para ela e contornei o carro até o banco
do motorista para sentar-me ao volante. Savannah passou a mão sobre o painel, como se estivesse
tentando provar para si mesma que era real.
"Eu me lembro deste carro." Tinha uma expressão de nostalgia. "Era do seu pai, certo?Uau, não
acredito que ainda esteja andando."
"Ele não dirigia tanto assim", disse. "Só ia trabalhar e faszer compras."
"Ainda assim."
Ela colocou o cinto de segurança, e me perguntava se ela passara a noite sozinha.
"Para que lado?", perguntei.
"Na estrada, vire à esquerda", disse ela. "Direto para a cidade."
Nenhum de nós falou. Ela passou o tempo todo olhando pela janela do passageiro com os braços
cruzados. Eu podia ter ficado ofendido, mas nada em sua expressão denunciava que aquela
preocupação tinha a ver comigo, e deixei-a sozinha com seus pensamentos.
Nos arredores da cidade, ela balançou a cabeça, como se repentinamente tomasse consciência do
silêncio em que estávamos."Sinto muito," disse. "Acho que minha companhia deixa muito a
desejar."
"Tudo bem", disse, tentando mascarar a minha crescente curiosidade.
Ela apontou em direção ao parabrisa. "Na próxima esquina, vire à direita."
"Aonde estamos indo?"
Ela não respondeu de imediato. Em vez disso, olhou pela janela do passageiro.
"O hispital", disse finalmente
***
Segui-a através de corredores aparentemente intermináveis, até finalmente chegar à recepção dos
visitantes. Atrás do balcão, um voluntário idoso estendeu uma prancheta. Savannah pegou a caneta
e assinou seu nome automaticamente.
"Você está firme, Savannah?"
"Tentando", Savannah murmurou.
"Vai ficar tudo bem. A cidade inteira está rezando por ele"
"Obrigada", disse Savannah. Ela devolveu a prancheta e olhou para mim. " Ele está no terceiro
andar", explicou. " Os elevadores ficam ali no corredor."
Eu a segui com um nervoso no estômago. Chegamos ao elevador no momento em que algumas
pessoas desciam. Quando as portas se fecharam, parecia que estávamos em um túmulo.
As portas do elevador se abriram no terceiro andar, e Savannah seguiu pelo corredor comigo a


reboque. Ela parou diante de um quarto que estava com a porta aberta e virou-se para mim.

"Acho que devo entrar primeiro", disse ela. "Voce pode esperar aqui?"
"Claro."
Ela demonstrou gratidão e virou-se em seguida. Deu um longo suspiro antes de entrar na sala. " Oi
querido", a ouvi dizer com a voz animada. "Você está bem?"
Não ouvi mais do que isso nos dois minutos seguintes. Fiquei no corredor, absorvendo o mesmo
ambiente estéril e impessoal que conhecera enquanto acompanhava meu pai. O ar cheirava a
desinfetante genérico, e ví um auxiliar de enfermagem empurrar um carrinho com comida para
dentro de um quarto. Na metade do corredor, notei um grupo de enfermeiras atrás de um balcão.
Atrás da porta da frente, alguém vomitava.
"Tudo bem", disse Savannah, colocando a cabeça para fora. Por baixo da aparência corajosa, eu
ainda notava sua tristeza. "Pode entrar. Disse para ele esperar uma surpresa."
Eu a segui, me preparando para o pior. Tim estava sentado na cama com um cateter ligado a seu
braço. Parecia exausto, e sua pele estava translúcida de tão pálida. Ele havia emagrecido ainda mais
do que meu pai, e quando o vi, meu único pensamento era que ele estava morrendo. Só a bondade
em seus olhos não fora afetadas. Do outro lado da sala havia um jovem no final da adolescência,
talvez com vinte anos, balançando a cabeça de um lado para o outro, e soube imediatamente que era
Alan. O quarto estava repleto de flores: dezenas de buquês e cartões espalhados por todas as
mesas.Savannah sentou na cama ao lado do marido e pegou sua mão.
"Oi, Tim", eu disse.
Ele parecia cansado demais para sorrir, mas conseguiu mesmo assim. "Oi, John. É bom ver você de
novo."
"Você também", disse. "Como você está?"
Assim que falei, percebi como soava ridículo. Tim devia estar acostumado, pois não hesitou.
"Estou bem", disse. "Estou me sentindo melhor agora."
Concordei. ALan continuou a balançar a cabeça. Fiquei olhando para ele e me sentindo um intruso
em eventos que gostaria de poder ter evitado.
"Este é meu irmão, Alan" ele disse.
"Oi, Alan."
Como Alan não respondeu, Tim susurrou: "Ei, Alan. Tudo bem. Ele não é médico. É um amigo. Vá
dizer olá."
Levou alguns segundos, mas Alan finalmente se levantou da cadeira. Ele caminhou com dificuldade
pelo quarto e, apesar de não me olhar nos olhos, estendeu a mão. "Oi, eu sou o Alan", disse com a
voz surpreendentemente monocórdica.
"Prazer em conhecê-lo", respondi, apertando sua mão. Era flácida. Ele chacoalhou uma vez, depois
soltou e voltou ao seu lugar.
"Há uma cadeira se você quiser sentar", disse Tim.
Atravessei o quarto e me sentei. Antes que pudesse falar, Tim respondeu à pergunta em minha
cabeça.
"Melanoma" , disse ele. " Caso você esteja se perguntando."
"Mas você vai ficar bem, certo?"
Alan balançou a cabeça ainda mais rápido e começou a bater suas coxas. Savannah se virou. Eu já
sabia a resposta e desejei não ter feito a pergunta.
"Isso é o que os médicos acham", Tim repondeu. "estou em boas mãos". Sabia que a resposta era
mais para Alan que para mim, e Alan começou a se acalmar.
Tim fechou os olhos e os abriu novamente, tentando reunir forças. "Estou contente de ver que você
voltou inteiro", disse ele. "Rezei por você o tempo todo que você esteve no Iraque."
"Obrigado", disse eu.
"O que você tem feito?Ainda no exército, suponho."
Ele indicou meu corte de cabelo, e eu passei a mão no cabelo. " Sim. Parece que estou virando um


dos soldados que se alistam pela vida toda."

"Bom", disse ele. " O Exército precisa de pessoas como você."
Não disse nada. A cena me pareceu surreal, era como ver a si mesmo em um sonho. Tim virou para
Savannah. "Querida, você leva o Alan para pegar um refrigerante? Ele não bebeu nada desde cedo.
E, se você puder, talvez consiga convencê-lo a comer."
"Claro", disse ela. Savannah beijou-o na testa e levantou-se da cama. Ela parou na porta. "Vamos,
Alan. Vamos pegar algo para beber, ok?"
Para mim, parecia que Alan processava as palavras lentamente. Finalmente, ele se levantou e seguiu
Savannah, ela colocou a mão nas costas dele a caminho do corredor. Quando os dois saíram, Tim
me encarou novamente.
"Isso tudo é realmente muito difícil para Alan. Ele não está aceitando bem."
"E como poderia?"
"Mas não se engane com o gato de ele balançar a cabeça. Não tem nada a ver com autismo ou
inteligência. É mais como um tique que ele tem quando está nervoso. A mesma coisa quando ele
começou a bater nas coxas. Ele sabe o que está acontecendo, mas é afetado de um jeito que
normalmente deixa os outros desconfortáveis.
Unia as mãos. "Não me deixa desconfortável", disse eu. "Meu pai também tinha as dele. Ele é seu
irmão, e é óbvio que está preocupado. Faz sentido."
Tim sorriu. "É gentileza sua dizer isso. Um monte de gente fica assustada."
"Eu não", disse, balançando a cabeça. "Sei que posso com ele."
Extraordinariamente, ele riu, mas isso exigiu um grande esforço.
"Tenho certeza que pode", disse. "Alan é delicado. Provavelmente muito delicado. Ele nem mesmo
mata moscas."
Concordei, reconhecendo que toda aquela conversa era apenas o jeito dele de me deixar mais
confortável. Não estava funcionando.
"Quando descobriu?"
"Um ano atrás. Senti coceira em uma verruga na parte de trás da perna. Quando cocei, ela sangrou.
Eu não me preocupei, é claro, até voltar a sangrar quando cocei de novo. Seis meses atrás, fui ao
médico. Foi em uma sexta-feira. Fiz a cirurgia e comecei o tratamento com interferon* na segunda
feira. Agora estou aqui."
"Você ficou esse tempo todo no hostital?"
"Não. Entro e saio. Normalmente, o interferon é administrado no ambulatório, mas eu e ele não nos
damos muito bem. Tenho intolerância, então agora eles fazem aqui, para o caso de eu ficar muito
enjoado ou me desidratar. Como aconteceu ontem."
*INTERFERON: Proteína produzida por animais usada no tratamento de câncer e de outras
doenças.
"Sinto muito", disse.
"Eu também."
Olhei ao redor e meus olhos pousaram sobre um porta-retratos barato na cabeceira de Tim no qual
ele e Savannah aparecem em pé abraçando Alan. "Como Savannah está reagindo?", perguntei.
"Como era de se esperar." Tim alisou uma dobra na sua ficha do hospital com a mão livre. "Ela tem
sido ótima. Não só comigo, mas também com o rancho. Ela tem de cuidar de tudo ultimamente, mas
nunca reclama. E sempre que está comigo, tenta ser forte. Ela vive me dizendo que tudo vai dar
certo." Ele esboçou um sorriso amarelo. "Metade do tempo, ainda acredito nela."
Quando não respondi, ele se esforçou para sentar mais reto na cama. Ele estremeceu, mas a dor
passou, e ele voltou a si. " Savannah contou que você jantou no rancho na noite passada."
"Sim", disse.
"Aposto que ela ficou contente de ver você. Sei que ela sempre se sentiu mal por ter acabado do
jeito que acabou, e eu também. Devo um pedido de desculpas a você."


"Não", levantei as mãos. "Está tudo bem."

Ele sorriu irônico. "Você só diz isso porque estou doente, e ambos sabemos disso. Se eu estivesse
saudável, provavelmente você iria quebrar meu nariz de novo."
"Talvez", admiti. Ele riu de novo, e desta vez ouvi o som da doença em sua risada.
"Eu mereci", ele disse, alheio aos meus pensamentos. "Sei que você pode não acreditar, mas me
sinto mal com o que aconteceu. Sei que vocês dois realmente gostavam um do outro."
Debrucei-me, apoiando em meus cotovelos. "O que passou, passou", disse.
Eu não acreditei, e ele não acreditou em mim quando eu disse isso. Mas foi o suficiente para nós
dois deixarmos isso de lado. " O que te trouxe aqui?Depois de todo esse tempo?"
"Meu pai faleceu", eu disse. " Na semana passada."
Apesar da doença seu rosto refletiu uma simpatia genuína. "Sinto muito, John. Sei o quanto ele
significava para você. Foi repentino?"
"No final, sempre é. Mas ele estava doente havia algum tempo."
"Isso não significa que seja mais fácil."
Fiquei me perguntando se ele se referia só a mim ou a Savannah e Alan também.
"Savannah me disse que você perdeu seus pais."
"Acidente de carro", disse ele, forçando as palavrsa. "Foi...inacreditável. Tinhamos acabado de
jantar com eles duas noites antes, e no memento seguinte, eu estava tomando as providências para
os enterros. Antes não parece real. Sempre que estou em casa, acho que vou ver minha mãe na
cozinha meu pai cuidando do jardim." Ele hesitou, e eu sabia que ele estava revivendo tais imagens.
Por fim, ele balançou a cabeça."Isso aconteceu com você? Quando estava em casa?"
"O tempo todo."
Ele inclinou a cabeça para trás. "Parece que foram dois anos bem difíceis para nós dois. O suficiente
para nos fazer duvidar da fé."
"Até mesmo você?"
Ele deu um sorriso indiferente. "Eu disse duvidar. Não disse que minha fé acabou."
"Não, não creio que acabaria."
Ouvi a voz de uma enfermeira se aproximando. Achei que ela fosse entrar, mas ela continuou seu
caminho para outro quarto.
"Estou feliz que você veio para ver Savannah", ele disse. "Sei que soa banal, considerando tudo o
que vocês dois passaram, mas ela precisa de um amigo agora."
Minha gasrganta estava apertada. "Sim", foi tudo que conseguiu pensar e dizer.
Ele ficou quieto, e entendi que não diria mais nada sobre o assunto. Com o tempo, Tim pegou no
sono e fiquei ali sentado olhando para ele, minha cabeça curiosamente vazia
***
"Desculpe não ter contado ontem", Savannah falou uma hora depois. Quando ela e Alan voltaram
ao quarto e encontraram Tim dormindo, ela fez sinal para eu a seguir até a lanchonete. "Fiquei
surpresa de ver você, e sabia que deveria ter contado, mas todas as vezes que eu tentei,
simplismente não consegui."
Havia duas xícaras de chá na mesa, já que nenhum de nós tinha apetite. Savannah ergueu a xícara e
colocou-a de volta.
"É que ontem foi um daqueles dias, sabe? Passei horas no hospital, sob os olhares piedosos das
enfermeiras e... bem, parece que eles me matam aos pouquinhos. Sei que isso é ridículo, já que Tim
vai superar, mas é tão difícil vê-lo doente. Eu odeio. Sei que preciso estar presente para apoiá-lo e
quero estar presente, mas a questão é que é sempre pior do que eu esperava. Ele ficou tão mal
depois do tratamento ontem que pensei que ele estava morrendo. Ele não parava de vomitar, e
quando não saía mais nada, ele vomitava seco. A cada cinco ou dez minutos, ele começava a gemer
e se mexer na cama tentando evitar, mas não podia fazer nada. Eu o abracei e confortei, mas não sei
nem como começar a descrever o quanto isso me deixa desamparada." Ela tirou o sachê de chá de
dentro da água. "É assim toda vez", disse.


Fiquei mexendo na asa da minha xícara. "Gostaria de saber o que dizer."

"Não há nada que você possa dizer, eu sei. Por isso estou contando a você. Porque sei que você
consegue lidar com isso. Realmente não tenho mais ninguém. Nenhum dos meus amigos pode
entender o que estou passando. Minha mãe e meu pai têm sido ótimos, mas...Sei que farão qualquer
coisa que eu pedir, estão sempre se oferecendo para ajudar, e mamãe traz comida para nós. Mas
toda vez que aparece, ela está uma pilha de nervos, estão sempre à beira do choro. É como se ela
morrese de medo de dizer ou fazer algo errado. Por isso, quando tenta ajudar, eu que tenho de
apoiá-la em vez do contrário. Odeio falar isso dela, porque ela está dando o máximo, é minha mãe e
eu a amo, mas queria que ela fosse mais forte, sabe?"
Lembrando a mãe dela, assenti. " E o seu pai?"
"O mesmo, mas de um jeito diferente. Ele evita o assunto. Não quer falar nada a respeito. Quando
estamos juntos, conversa sobre o rancho, o meu trabalho, mas nada de Tim. É como se tivesse
tentando compensar a preocupação incessante da minha mãe, mas nunca pergunta o que está
acontecendo ou como eu estou suportando." Ela balançou a cabeça. " E por fim há Alan. Tim é tão
bom com ele, e gosto de pensar que está ficando melhor, mas ainda... há momentos em que ele
começa a se machucar ou quebrar as coisas, e eu acabo chorando porque não sei o que fazer. Não
me interprete mal, eu tento, mas não sou Tim, e ambos sabemos disso."
Nos olhamos nos olhos por um momento antes de eu desviar os meus. Tomei um gole de chá,
tentando imaginar como era a vida dela agora.
"Tim contou o que está acontecendo? O melanoma?"
"Um pouco", disse. " Não o suficiente para saber a história toda. Ele disse que achou uma verruga
que estava sangrando. Ele não deu importância por um tempo, até que foi procurar um médico."
Ela assentiu. "É uma dessas coisas loucas, não? Quero dizer, se Tim tomasse muito sol, talvez eu
entendesse. Mas foi na parte de trás da perna. Você o conhece, consegue imaginá-lo de bermuda?
Ele quase nunca usa shorts, mesmo na praia, e sempre enchia todo mundo para passar protetor solar.
Ele não bebe, não fuma, é cuidadoso com o que come. Mas, por algum motivo, teve um melanoma.
Eles cortaram a área em volta da verruga e, por causa do tamanho, retiraram dezoito glânglios
linfáticos. Dos dezoito, um deu positivo para melanoma. Ele começou o interferon, que é o
tratamento padrão e dura um ano inteiro, e tentamos ficar otimistas. Mas depois as coisas
começaram a dar errado. Primeiro com o interferon, depois ele teve celulite na incisão junto à
virilha algumas semanas após a cirurgia."
Quando franzi a tesra, ela se deteve.
"Desculpe. Estou tão acostumada a falar com médicos estes dias. Celulite é uma infecção da pele, e
a de Tim foi muito grave. Ele passou dez dias na unidade de terapia internsiva por causa disso.
Pensei que iria perdê-lo, mas ele é um lutador, sabe?Ele sarou e continuou o tratamento.Porém, no
mês passado encontramos lesões cancerígenas perto do local do melanoma original. Isso, claro,
significava outra rodada de cirurgia, e pior ainda, significava que o interferon provavelmente não
estava funcionando tão bem quanto devia. Então ele fez uma tomografia PET e uma ressonância
magnética, e eles encontraram algumas células cancerígenas no pulmão."
Ela olhou para a xícara de chá. Eu estava sem palavras, e me sentia exausto. Ficamos em silêncio
por um longo tempo.
"Sinto muito", finalmente sussurei.
Minhas palavras a despertaram. "Não vou desistir", ela disse, sua voz começando oscilar. "Ele é um
homem tão bom. Ele é doce, paciente, e eu o amo muito. Não é junto. Não faz dois anos que
estamos casados."
Ela olhou para mim e respirou fundo algumas vezes, tentando recuperar a compostura.
"Ele precisa sair daqui. Deste hospital. A única coisa que eles fazem aqui é o interferon, e, como eu
disse, não estáa funcionando como deveria. Ele precisa ir para algum lugar como o MD Anderson
ou Mayo Clinic ou o Johns Hopkins. Há pesquisas de ponta em andamento nesses lugares. Se o
inteferon não está funcionando, pode haver outra droga para adicionar- eles estão sempre fazendo


combinações, mesmo experimentais. Estão fazendo bioquimioterapia e testes clínicos. MD Anderso

deve começar a testar uma vacina novembro- não para prevenção, como a maioria das vacinas, mas
para tratamento-, e os dados preliminares tem mostrado bons resultados. Eu quero que ele faça parte
dessa pesquisa."
"Então vá", eu insisti.
Ela deu uma risada curta. "Não é assim tão fácil."
"Por quê? Parece bastante simples para mim. Assim que ele sair daqui, vocês entram no carro e
vão."
"Nosso seguro não pagará por isso", disse ela. "Pelo menos não agora. Ele está recebendo o
tratamento padrão. E, acredite se quiser, a companhia de seguros tem sido bastante sensível até
agora. Eles pagaram todas as internações, todos os interferon, e todos os extras sem problemas. Eles
até designaram uma assistente social para mim, e ela é simpática à nossa situação. Mas não há nada
que ela possa fazer, pois o médico acha que é melhor darmos o interferon por mais tempo.
Nenhuma companhia de seguros do mundo vai pagar por tratamentos experimentais. E nenhuma
seguradora aceita pagar tratamentos fora do padrão, especialmente em outros Estados e quando não
há certeza de que vão funcionar."
"Processe-os se for preciso."
"John, nossa seguradora não pestanejou para pagar todos os custos de UTI e internações extras, e a
verdade é que Tim está recebendo o tratamento adequado. A questão é, não posso provar que Tim
ficará melhor em outro lugar, recebendo tratamentos alternativos. Acho que poderia ajudá-lo, tenho
esperança de que iria ajudá-lo, mas ninguém tem certeza absoluta." Ela balançou a cabeça, "De
qualquer forma, mesmo se eu levar isso à justiça e a companhia de seguros acabar pagando tudo,
isso leva tempo... exatamente o que não temos."Ela suspirou. "Meu ponto em não se trata apenas de
dinheiro, é um problema de tempo."
"De quanto você está falando?"
"Muito. E se Tim acabar no hospital com infecção e for para a UTI de novo, não consigo nem
imaginar. Mais do que eu jamais vou conseguir pagar, com certeza."
"O que você vai fazer?"
"Arrumar dinheiro," ela disse. "Não tenho escolha. E a comunidade tem ajudado. Tão logo
souberam sobre Tim, fizeram reportagens na televisão local e no jornal, e as pessoas da cidade
inteira prometeram começar a recolher dinheiro. Eles abriram uma conta bancária especial e tudo.
Meus pais ajudaram. O lugar que nós trabalhamos ajudou. Os pais de algumas crianças com quem
trabalhamos ajudaram. Ouvi dizer que ainda tem jarros com doações em muitos estabelecimentos."
Lembrei-me da visão do frasco ao final do balcão no salão de bilhar, no dia em que cheguei a
Lenoir. Eu tinha contribuído com dois dólares, mas de repente aquilo me pareceu completamente
inadequado.
"Falta muito?"
"Não sei." Ela balançou a cabeça, como se não quisesse pensar a respeito. "Isso começou há pouco
tempo, e desde que Tim está em tratamento, eu fico aqui e no rancho. Mas estamos falando de um
monte de dinheiro." Ela afastou a xícara de chá e abriu um sorriso triste. " Nem sei porque estou
contando a você. Quer dizer, não posso garantir que nenhum desses lugares irá ajudá-lo. Só sei dizer
que, se ele ficar, não vai sobreviver. Isso também pode acontecer nos outros lugares, mas pelo
menos há uma chance... e agora, isso é tudo que tenho."
Ela parou, incapaz de continuar, olhar perdido sobre a mesa manchada.
"Você quer saber o que é louco?", ela perguntou afinal. "Você é o único para quem contei tudo
isso.Não sei como, sei que é a única pessoa que pode vir a entender o que estou passando, sem eu
precisar escolher as palavras."Ela ergueu a xícara e abaixou-a novamente, "Sei que não é justo,
considerando seu pai..."
"Tudo bem", tranqüilizei-a.


"Talvez", ela disse. " Mas também é egoísta. Você está tentando lidar com as próprias emoções após

perder seu pai, e aqui estou eu, sobrecarregando você com as minhas, sobre algo que pode ou não
acontecer." Ela se virou para olhar pela janela da lanchonete, mas eu sabia que ela não estava vendo
o gramado inclinado do lado de fora.
"Ei", eu disse, pegando a mão dela. "Estou falando sério. Estou contente por você ter me contado,
mesmo que seja só para desabar. Porque você acha que vim aqui? Porque eu precisava encontrar
alguém que me ouvisse."
Com o tempo, Savannah encolheu os ombros. "Então somos assim, hein?Dois guerreiros feridos à
procura de apoio."
"Isso parece muito certo."
Ela levantou os olhos e encarou os meus. " Sorte nossa," ela sussurou.
Apesar de tudo, senti meu coração saltar.
"Sim", ecoei. "Sorte nossa."
***
Passamos a maior parte da tarde no quarto de Tim. Ele estava dormindo quando chegamos, acordou
por alguns minutos e depois dormiu novamente. Alan mantinha vigília ai pé da sua cama, ignorando
minha presença e concentrado no irmão. Savannah alernou-se entre a cabeceira de Tim e cadeira ao
meu lado. Quando ela se aproximava, falávamos da doença de Tim, de câncer de pele em geral, e
das especificidades dos possíveis tratamentos alternativos. Ela passou semanas pesquisando na
internet e conhecia em detalhes todas as pesquisas em curso. Sua voz nunca subiu acima do
sussurro, ela não queria que Alan ouvisse. Quando ela terminou, eu sabia mais sobre melanoma do
que imaginava ser possível.
Pouco depois da hora do jantar, Savannah finalmente se levantou. Tim tinha dormido a maior parte
da tarde, e pelo beijo de despedida que ela lhe deu, ela acreditava que ele continuaria dormindo à
noite também. Ela beijou-o uma segunda vez, depois pegou sua mão e indicou a porta. Saímos em
silencio.
"Direto para o carro", disse ela quando estávamos no corredor.
"Você vai voltar?"
"Amanhã. Se ele acordar, não quero dar motivo para ele achar que tem que ficar acordado. Ele
precisa descansar."
"E o Alan?"
"Ele vai de bicicleta", disse ela. "Ele vem de bicicleta todas as manhas e volta de bicicleta à noite.
Ele não vai comigo, mesmo se eu pedir. Mas ele vai ficar bem. Vem fazendo a mesma coisa há
meses."
Poucos minutos depois, saímos do estacionamento do hospital e pegamos o trânsito da noite. O céu
estava ficando cinza escuro, e nuvens pesadas se formavam no horizonte, pressagiando o mesmo
tipo de tempestade que se vê no litoral. Savannah perdeu-se pensamentos e falou pouco. Em seu
rosto, vi refletido o mesmo esgotamento que eu sentia. Não conseguia imaginar ter que voltar
amanhã, depois de amanhã e no dia seguinte, sabendo o tempo todo que havia uma possibilidade de
ele melhorar em outro lugar.
Quando chegamos à entrada, olhei para Savannah e notei uma lágrima escorrendo lentamente em
seu rosto. Essa visão partiu meu coração, mas quando ela notou que eu a observava, pareceu
surpresa de estar chorando. Decidi estacionar embaixo do salgueiro, ao lado do caminhão velho. Foi
quando as primeiras gotas de chuva começaram a bater no pára-brisa.
À medida que diminuía a marcha, me perguntei de novo se seria adeus. Antes que eu pudesse
pensar em algo para dizer, Savannah virou-se para mim. "Você está com fome?", perguntou. "Há
uma tonelada de comida na geladeira."
Algo naquele olhar me advertia que eu deveria declinar, mas acabei aceitando. "Adoraria comer
algo", disse.


"Estou contente", ela respondeu, com voz suave. "Realmente não quero ficar sozinha hoje à noite."

Saímos do carro, a chuva aumentou. Corremos até a porta da frente, mas quando chegamos ao
alpendre, minhas roupas estavam molhadas. Molly nos ouviu, e assim que Savannah abriu a porta, o
cachorro me ultrapassou disparado pela cozinha na direção da sala de estar. Observando o cão,
pensei na minha chegada no dia anterior e o quanto as coisas haviam mudado no período em que
ficamos separados. Era demais para processar. E como havia feito nas patrulhas no Iraque, blindei-
me para focar apenas no presente e permanecer alerta ao que poderia vir a seguir. "Tem um pouco
de tudo", ela gritou a caminho da cozinha. "É assim que minha mãe lida com isso. Cozinhando.
Temos cozido, chili, empadão de frango, porco grelhado, lasanha..." Ela tirou a cabeça de dentro da
geladeira quando entrei na cozinha. "Alguma coisa te parece apetitosa?"
"Qualquer coisa", disse. "O que você quiser está ótimo."
Notei um flash de decepção em seu rosto e imediatamente percebi que ela estava cansada de ter de
tomar decisões. Limpei a garganta.
"Lasanha parece bom."
"Tudo bem", ela disse. "Vou esquentar um pouco agora. Você está super faminto ou só com fome?"
Pensei a respeito. "Só com fome, eu acho."
"Salada? Posso colocar azeitonas pretas e tomate. Fica ótimo com molho rancheiro e croutons."
"Parece ótimo."
"Bom", disse ela. "Não vai demorar."
Observei Savannah tirar um pé de alface e tomates da gaveta inferior da geladeira. Ela lavou-os na
torneira,cortou os tomates e a alface e jogou-os na tigela de madeira. Então cobriu a salada com
azeitonas e colocou-a sobre a mesa. Serviu generosas porções de lasanha em dois pratos e pôs o
primeiro no microondas. Havia uma firmeza em seus movimentos, como se as tarefas simples a
tranqüilizassem.
"Eu não sei sobre você, mas vou querer uma taça de vinho." Ela apontou para um rack pequeno na
bancada, perto da pia. "Tenho um bom Pinot Noir."
"Vou experimentar uma taça", disse. "Você quer que eu abra?"
"Não, eu abro. Meu abridor é meio temperamental."
Ela abriu o vinho e serviu dois copos. Logo ela se sentou à minha frente, nossos pratos servidos. A
lasanha estava fumegante, e o aroma me fez lembrar como eu estava com fome. Experimentei e
continuei a comer.
"Uau", comentei. "Está muito bom."
"Está, não é?", ela concordou. Em vez de comer, porém, ela tomou um gole de vinho. "Também é a
favorita de Tim. Depois que casamos, ele sempre pedia para minha mãe fazer uma travessa. Ela
adora cozinhar, e fica feliz quando as pessoas gostam da comida dela."
Observei-a correr o dedo pela borda do copo. O vinho vermelho capturava a luz como a faceta de
um rubi.
"Se você quiser mais, tem bastante", acrescentou ela. "Acredite em mim, você estaria me fazendo
um favor. Na maioria das vezes, a comida vai para o lixo. Sei que deveria dizer para ela fazer
menos, mas ela não aceitaria bem."
"É difícil para ela", disse. "Ela sabe que você está sofrendo."
"Eu sei." Ela tomou outro gole de vinho.
"Você vai comer, não vai?", apontei para o prato intocado.
"Não estou com fome", disse ela. "É sempre assim quando Tim está no hospital... Esquento alguma
coisa, estou com vontade de comer, mas assim que coloco no prato, meu estômago vira." Ela olhou
para o prato, disposta a experimentar, em seguida, balançou a cabeça.
"Faça por mim", pedi. "Dê uma garfada. Você tem que comer."
"Vou ficar bem"
Parei o garfo a caminho da boca. "Faça por mim, então. Não estou acostumado com pessoas me
olhando comer. É esquisito."


"Ok." Ela levantou o garfo, pegou um pedacinho minúsculo de comida e colocou na boca. " Feliz

agora?"
"Sim", bufei. "Foi exatamente o que eu quis dizer. Estou muito mais confortável. Talvez possamos
dividir um par de migalhas para a sobremesa. Até lá continue segurando o garfo e fingindo."
Ela riu. "Estou feliz por você estar aqui". Disse. "Atualmente, você é o único que sequer pensaria
em falar assim comigo."
"Assim como? Honestamente?"
"Sim", disse ela. "Acredite ou não, pó exatamente o que quis dizer." Ela largou o garfo e empurrou
o prato de lado, ignorando meu pedido. "Você sempre foi bom."
"Eu lembro de pensar a mesma coisa sobre você."
Ela jogou o guardanapo sobre a mesa. "Tempo bom aquele, hein?"
O jeito que ela me olhou fez o passado retornar como uma avalanche, e por um momento revivi
cada emoção, cada esperança e cada um de nossos sonhos. Ela era de novo a moça que conheci na
praia com a vida toda pela frente, uma vida da qual eu queria fazer parte.
Então, ela passou a mão pelos cabelos, e a aliança em seu dedo refletiu a luz. Baixei os olhos,
concentrando-me no meu prato.
"Algo assim."
Dei mais uma garfada, tentando sem sucesso apagar as imagens. Assim que engoli, ataquei a
lasanha novamente.
"O que há de errado?", ela perguntou. "Você está irritado?"
"Não", menti.
"Você está agindo como se estivesse."
Ela era a mulher de que eu me lembrava, porém casada. Tomei um gole de vinho ­ um gole,
observei, equivalia a todos os golinhos que ela tomara. Eu me recostei na cadeira. "Por que estou
aqui, Savannah?"
"O que quer dizer?", disse ela.
"Isto", eu disse, indicando a cozinha ao redor. "Me convidar para jantar, mesmo sem vontade de
comer. Relembrar os velhos tempos. O que está acontecendo?"
"Não está acontecendo nada", ela insistiu.
"Então o que é? Por que você me convidou para entrar?"
Em vez de responder a pergunta, ela levantou e encheu a taça de vinho. " Acho que só preciso de
alguém para conversar", ela sussurrou. "Como eu disse, não posso falar com minha mãe ou meu
pai, não posso falar nem com Tim desse jeito." Ela parecia quase derrotada. "Todo mundo precisa
de alguém para conversar."
Ela estava certo, e eu sabia disso. Foi a razão pela qual vim para Lenoir.
"Eu entendo", disse, fechando os olhos. Quando abri os olhos de novo, vi que Savannah estava me
avaliando. "É só que não sei ao certo o que fazer com tudo isso. O passado. Nós. Você casada.
Mesmo o que está acontecendo com Tim. Nada disso faz muito sentido."
Seu sorriso estava cheio de desgosto. "E você acha que faz sentido para mim?"
Eu não disse nada e ela colocou a taça de lado. "Você quer saber a verdade?", ela perguntou, sem
esperar por uma resposta. "Só estou tentando chegar ao fim do dia com energia suficiente para
enfrentar o dia seguinte." Ela fechou os olhos como se fosse doloroso admitir, em seguida abriu-os
novamente. "Sei o que você ainda sente por mim, e gostaria de te dizer que desejo secretamente
saber tudo que aconteceu com você desde que enviei aquela carta horrível. Mas, sendo honesta?",
ela hesitou. "Não tenho certeza se quero realmente saber. Só sei que quando você apareceu ontem,
me senti... melhor. Não ótima, não bem, mas também não me senti mal. É isso. Nos últimos seis
meses, eu só me senti mal. Acordo todo dia nervosa, tensa, irritada, frustrada e aterrorizada com a
idéia de perder o homem com quem casei. É só isso que sinto até o sol se pôr", ela prosseguiu.
"Todos os dias, o dia inteiro, nos últimos seis meses. Essa é a minha vida agora, mas a parte mais


difícil é que daqui em diante só vai piorar. Agora tenho a responsabilidade adicional de tentar

encontrar algum jeito de ajudar meu marido. De tentar encontrar um tratamento que o ajude. De
tentar salvar a vida dele."
Ela fez uma pausa e olhou atentamente para mim, tentando avaliar minha reação.
Sei que havia palavras para confortar Savannah, mas como de costume, não sabia o que dizer. Só
sabia que ela ainda era a mulher por quem me apaixonei, a mulher que eu amava, mas que jamais
poderia ter.
"Sinto muito", disse ela por fim soando cansada. "Não quero colocar você em uma situação difícil."
Ela abriu um sorriso frágil. "Apenas queria que você soubesse que estou feliz por você estar aqui."
Eu me concentrei nos veios da madeira da mesa, tentando manter meus sentimentos sob controle.
"Bom", disse.
Ela perambulou em volta da mesa. Serviu mais um pouco de vinho na minha tala, embora eu só
tivesse tomado um gole. "Abro meu coração e tudo o que você diz é `Bom'?"
"O que você quer que eu diga?"
Savannah virou-se e foi em direção à porta da cozinha. "Que também está feliz por ter vindo", disse
com a voz quase inaudível.
Com isso, ela saiu. Não ouvi a porta da frente se abrir, então deduzi que ela estivesse na sala.
O comentário me incomodara, mas não estava disposto a ir atrás dela. As coisas tinham mudado
entre nos, e não havia modo de voltarem a ser como antes. Comi mais uma garfada de lasanha em
teimosa desobediência, perguntando o que ela queria de mim. Foi ela quem mandou a carta, foi ela
quem terminou tudo. Foi ela quem se casou. Iríamos fingir que nada daquilo havia acontecido?
Terminei de comer, levei os dois pratos para a pia e os enxagüei. Pela janela salpicada de chuva, vi
meu carro e pensei que devia simplesmente sair sem olhar para trás. Seria mais fácil para nós dois
assim. Mas quando vasculhava os bolsos em busca das chaves, congelei. Em meio ao tamborilar da
chuva no telhado, ouvi um som proveniente da sala de estar, um som que desarmou minha raiva e
confusão. Savannah, me dei conta, estava chorando.
Tentei ignorar o som, mas não consegui. Peguei o vinho e entrei na sala.
Savannah estava sentada no sofá, o copo de vinho em suas mãos. Ela levantou o rosto quando
entrei.
Lá fora, o vento aumentara, e a chuva caia ainda mais forte. Para além da janela da sala, um
relâmpago brilhou, seguido pelo estrondo do trovão, longo e grave.
Sentei ao lado dela, coloquei meu copo na mesa da centro e olhei ao redor. Em cima da lareira havia
fotografias de Savannah e Tim no dia do casamento: uma onde eles cortavam o bolo, e outra na
igreja. Ela estava radiante. Desejei que fosse eu a seu lado no retrato.
"Desculpe", disse ela. "Sei que não devia estar chorando, mas não posso evitar."
"É compreensível", murmurei. "Tem muita coisa acontecendo com você."
No silencio, ouvi as rajadas de chuva batendo contra as vidraças.
"Que tempestade", observei, agarrando-me às palavras para preencher o silêncio tenso.
"Sim", ela disse, mal ouvindo.
"Você acha que Alan vai ficar bem?"
Ela bateu os dedos contra o vidro. "Ele não sai ate parar de chover. Ele não gosta de relâmpagos.
Mas não deve durar muito. O vento vai empurrar a tempestade para a costa. Pelo menos, é assim
que tem sido ultimamente." Ela hesitou. "Você se lembra da tempestade que enfrentamos? Quando
levei você para a casa que estávamos construindo?"
"Claro."
"Ainda penso naquela noite. Foi a primeira vez que disse que te amava. Eu estava me lembrando
daquela noite outro dia. Estava sentada aqui como agora. Tim estava no hospital, Alan ficou com ele
e, enquanto olhava a chuva, tudo voltou. A memória era tão viva, parecia que tinha acabado de
acontecer. E então a chuva parou e sabia que era hora de alimentar os cavalos. Voltei à minha vida
normal de novo, e de repente foi como se eu tivesse apenas imaginado tudo. Como se tivesse


acontecido com outra pessoa, alguém que nem conheço mais."

Ela se inclinou para mim. "O que você mais se lembra?", ela perguntou.
"De tudo", disse eu.

Ela olhou para mim sob seus cílios. "Nada se destaca?"
A tempestade lá fora tornou a sala escura e íntima, e senti um arrepio de ansiedade e culpa sobre
aonde aquilo iria parar. Eu a desejava mais do que já desejei qualquer pessoa, mas no fundo
compreendia que Savannah não era mais minha. Senti a presença de Tim por todos os lados e sabia
que ela estava fora de si.
Tomei um gole de vinho, em seguida devolvi o copo à mesa.
"Não." Mantive a voz firme. "Nada se destaca. Mas foi por isso que você quis que eu sempre
olhasse para a lua, certo? Para me lembrar de tudo."
Mas não disse que ainda saía para olhar a lua. Apesar da culpa que sentia por estar ali, me
perguntava se ela também havia saído.
"Quer saber do que eu mais me lembro?", ela perguntou.
"Quando quebrei o nariz do Tim?"
"Não." Ela riu, depois ficou séria. "Da vez que fomos à igreja. Você se deu conta que foi a única
vez que vi você usando gravata? Você devia se arrumar com mais freqüência. Ficou muito bonito."
Ela refletiu um pouco antes de olhar para mim novamente.
"Você está saindo com alguém?", perguntou.
"Não."
Ela assentiu. "Foi o que imaginei. Senão você teria mencionado algo."
Ela virou-se para a janela. À distância, via-se um dos cavalos a calope na chuva.
"Eu vou ter que alimentá-los daqui a pouco. Tenho certeza que eles já estão querendo saber onde
estou."
"Eles vão ficar bem", assegurei.
"Fácil para você dizer. Confie em mim, eles podem ficar tão esquisitos quanto pessoas quando estão
com fome."
"Deve ser difícil cuidar de tudo sozinha."
"É. Mas que escolha eu tenho? Pelo menos o nosso patrão foi compreensivo. Tim está afastado e
quando ele está no hospital, eles me deixar ficar fora o tempo que for preciso."
Então, em tom de provocação, ela acrescentou: "Assim como no Exército, certo?"
"Oh sim. Exatamente igual."
Ela deu uma risadinha, depois ficou séria novamente.
"Como foi no Iraque?"
Eu estava prestes a fazer o meu comentário usual sobre a areia, mas disse: " É difícil descrever."
Savannah esperou, e alcancei meu copo de vinho, detendo-me. Mesmo com ela, não tinha certeza se
queria entrar nesse terreno. Mas estava acontecendo algo entre nós, algo que eu desejava, mas
também não desejava. Obriguei-me a olhar para a aliança de Savannah e imaginar a traição que,
sem dúvida, ela sentiria mais tarde. Fechei os olhos e comecei pela noite da invasão.
Não sei quanto tempo falei, mas foi o suficiente para a chuva passar. Com o sol ainda completando
sua lenta descendente, brilhavam no horizonte as cores do arco-íris. Savannah reabasteceu sua taça.
Quando terminei, estava totalmente exausto e sabia que não falaria daquilo nunca mais.
Savannah permaneceu em silêncio, fazendo apenas perguntas ocasionais para demonstrar que estava
ouvindo a tudo que eu contei.
"É diferente do que eu imaginava", ela observou.
"Sim?", perguntei.
"Quando você passa os olhos pelas manchetes ou lê as histórias na maior parte do tempo, os nomes
de soldados e de cidades iraquianas são apenas palavras. Mas para você, é pessoal... é real. Talvez
real demais."
Eu não tinha mais nada a acrescentar, e senti que ela tomava minha mão. Seu toque fez algo pular


dentro de mim.

"Queria que você não tivesse que ter passado por isso."
Apertei a mão dela e senti a resposta na mesma intensidade. Quando ela finalmente soltou, a
sensação do toque permaneceu e, como um velho hábito redescoberto, a vi colocar uma mecha de
cabelo atrás da orelha. A visão me doeu por dentro.
"É estranho como funciona o destino", disse, sua voz quase em um sussurro. "Você imaginou que
sua vida iria acabar assim?"
"Não", eu disse.
"Nem eu", ela respondeu. "Quando você voltou para a Alemanha, sabia que nós nos casaríamos um
dia. Isso era mais certo do que qualquer coisa na minha vida."
Olhei para meu copo enquanto ela continuava.
"Então na sua segunda licença, tive ainda mais certeza. Especialmente depois que fizemos amor."
"Não...", balancei a cabeça. "Não vá por aí."
"Porquê?", ela perguntou. "Você se arrepende?"
"Não." Não podia suportar olhar para ela. "Claro que não. Mas você está casada agora."
"Mas aconteceu", disse ela. "Você quer que eu esqueça?"
"Não sei", disse. "Talvez."
"Não posso", ela disse, parecendo surpresa e magoada. "Foi minha primeira vez. Nunca vou
esquecer, e a seu próprio modo, será sempre especial para mim. O que aconteceu entre nós foi
lindo."
Não confiava em mim para responder, e depois de um momento, ela se recompôs. Inclinando-se à
frente, ela perguntou: "Quando você descobriu que eu tinha casado com Tim, o que achou?"
Esperei para responder, escolhendo minhas palavras com cuidado. "Meu primeiro pensamento foi
que, de certa forma, fazia sentido. Ele estava apaixonado por você há anos. Percebi assim que o
conheci." Passei a mão sobre o rosto. "Depois, me senti... em conflito. Fiquei feliz por você ter
escolhido alguém como ele, porque ele é um cara legal, e vocês dois têm muito em comum mas
então eu... fiquei triste. Não teríamos de esperar muito. Eu teria saído do exército há quase dois anos
agora."
Ela apertou os lábios. "Lamento", murmurou.
"Eu também." Tentei sorrir. "Se você quer minha opinião honesta, acho que você deveria ter
esperado por mim."
Ela riu honestamente, e fiquei surpreendido com o olhar de saudade em seu rosto. Ela pegou a taça
de vinho.
"Também estive pensando sobre isso. Onde estaríamos, onde seria nossa casa, o que estaríamos
fazendo com nossas vidas. Especialmente, recentemente. Ontem à noite, depois que você saiu, só
conseguia pensar nisso. Sei que parece terrível, mas, nos últimos dois anos, tenho tentando me
convencer que nosso amor, mesmo sendo real, nunca teria durado." Ela tinha a expressão desolada.
"Você realmente teria se casado comigo, não é?"
"Em um piscar de olhos. E ainda casaria, se eu pudesse."
O passado de repente parecia pairar sobre nós, em sua esmagadora intensidade.
"Foi real, não foi?" Sua voz tremia. "Você e eu?"
O cinza do crepúsculo refletia em seus olhos enquanto ela esperava a resposta. Nos momentos que
se seguiram, senti o peso do prognóstico de Tim pairando sobre nós. Meus pensamentos
desembestados eram mórbidos e errados e, no entanto, eles existiam. Eu me odiava só de pensar na
vida depois de Tim, desejando afastar tais pensamentos.
E ainda assim, não conseguia. Só queria tomar Savannah em meus braços, abraçá-la, reconquistar
tudo o que havíamos perdido nos anos que ficamos separados. Instintivamente, comecei a inclinar-
me para ela.
Savannah sabia o que estava por vir, mas não se afastou. Não no inicio. Com meus lábios se
aproximando dela, no entanto, ela rapidamente se virou e derramou vinho em nós dois.


Ela deu um pulo, colocou a taça na mesa e puxou a blusa para longe da pele.

"Sinto muito", disse.
"Tudo bem", ela disse. "Vou me trocar. Tenho que colocar de molho É umas das minhas favoritas."
"Ok", disse.
Observei-a sair da sala e atravessar o corredor. Assim que ela entrou no quarto da direita, eu
praguejei. Balancei a cabeça diante da minha própria estupidez, então notei o vinho na minha
camisa. Levantei-me e entrei no corredor, procurando o banheiro.
Girei a maçaneta ao acaso, e dei de cara comigo mesmo no espelho do banheiro. Na imagem
refletida ao fundo, vi Savannah pela porta entreaberta do quarto do outro lado do corredor. Ela
estava sem blusa, de costas para mim, e embora eu tentasse, não consegui desviar o olhar.
Ela deve ter sentido, pois olhos sobre os ombros na minha direção. Pensei que ela fosse fechar a
porta de repente ou se cobrir, mas ela não o fez. Em vez disso, encarou-me nos olhos, querendo que
eu continuasse olhando para ela. Então, devagar, se virou.
Ficamos ali nos olhando através do reflexo do espelho, só o corredor estreito nos separava. Seus
lábios estavam entreabertos, e ela levantou um pouco o queixo; mesmo se eu vivesse mil anos,
jamais esqueceria como ela estava deslumbrante naquele momento. Não queria nada alem de
atravessar o corredor e ir até lá, sabendo que ela me desejava tanto quanto eu a desejava. Mas fiquei
onde estava, congelado pelo pensamento de que um dia ela me odiaria pelo que ambos obviamente
queríamos.
E Savannah, que me conhecia melhor do que ninguém, baixou os olhos como se de repente tivesse
o mesmo entendimento. Ela me deu as costas no mesmo momento em que a porta da frente abriu, e
ouvimos um gemido alto na escuridão.
Alan...
Eu me virei e corri para a sala de estar, Alan já tinha entrado na cozinha, e ouvi as portas dos
armários sendo batidas, enquanto ele gemia, quase como se estivesse morrendo. Parei, sem saber o
que fazer. Um momento depois, Savannah passou correndo e ajeitando a blusa.
"Alan! Estou chegando!", ela gritou com a voz frenética. "Vai ficar tudo bem!"
Alan continuou a gemer, e as portas a bater.
"Você precisa de ajuda?", perguntei.
"Não." Ela sacudiu a cabeça. "Deixa eu cuidar disso. Isso acontece algumas vezes quando ele chega
no hospital."
Ela correu para a cozinha, e mal pude ouvi-la falando com ele. Sua voz se perdia em meio ao
clamor, mas tinha firmeza. Mudando um pouco de lugar, eu a vi ao lado dele, tentando acalmá-lo.
Não parecia ter qualquer efeito, e senti desejo de ajudar, mas Savannah permaneceu calma. Ela
continuou a falar com voz inalterada e colocou a mão sobre a dele, acompanhando o bater das
portas.
Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, o bate-bate ficou mais lento e rítmico; por fim
lentamente cessou. Os gemidos de Alan seguiram o mesmo padrão. A voz de Savannah estava mais
suave, e eu não podia mais distinguir as palavras.
Sentei no sofá. Minutos depois, levantei e fui até a janela. Estava escuro, as nuvens haviam se
dissipado e havia um redemoinho de estrelas acima das montanhas. Curioso para saber o que estava
acontecendo, fui até um ponto da sala de estar de onde vislumbrava a cozinha.
Savannah e Alan estavam sentados no chão, encostados nos armários. Alan repousava a cabeça no
colo dela, que acariciava seus cabelos com ternura. Ele piscava rapidamente, como se estivesse
ligado e precisasse ficar sempre em movimento. As lágrimas brilhavam nos olhos de Savannah, mas
havia concentração em seu olhar, e percebi que ela estava determinada a não demonstrar o quanto
sofria.
"Eu o amo", ouvi Alan dizer. A voz profunda do hospital desapareceu; aquele era o apelo dolorido
de um garotinho assustado.
"Eu sei, querido. Também o amo tanto. Sei que você está com medo, e também estou com medo."


Ouvia no tom da voz que ela falava a verdade.

"Eu o amo.", disse Alan repetidamente.
"Ele vai sair do hospital em dois dias. Os médicos estão fazendo tudo o que podem."
"Eu o amo."
"Eu sei. Eu também amo. Mais do que você pode imaginar."
Continuei a observá-los, sentindo-me um intruso, percebendo, de repente, que não pertencia àquele
ambiente. Em todo o tempo que estive lá, Savannah não levantou os olhos, e me senti assombrado
por tudo que havíamos perdido.
Apalpei meu bolso, peguei as chaves e voltei-me para a saída, sentindo as lágrimas queimando em
meus olhos. Abri a porta, e apesar do rangido alto, sabia que Savannah não iria ouvir nada.
Desci os degraus cambaleando, pensando se já me sentira tão cansado antes. E mais tarde, dirigindo
de volta ao hotel, ouvindo o motor do carro parado nos semáforos, sabia que as pessoas na rua iriam
ver um homem chorando, um homem cujas lagrimas pareciam não ter fim.
***
Passei o resto da noite sozinho no meu quarto de hotel. Lá fora, ouvia estranhos passando pela porta
carregando suas bagagens. Quando carros entravam no estacionamento, meu quarto era
momentaneamente iluminado pelos faróis que projetavam imagens fantasmagóricas nas paredes.
Pessoas em movimento, pessoas tocando a vida em frente. Deitado na cama, sentia inveja e me
perguntava quando poderia dizer o mesmo de mim.
Nem me incomodei em tentar dormir. Pensei sobre Tim, mas, estranhamente, em vez da figura
esquálida do quarto do hospital via apenas o jovem que conheci na praia, um estudante arrumadinho
de sorriso fácil para qualquer um. Pensei em meu pai e imaginei como teriam sido suas ultimas
semanas de vida. Tentei visualizar os funcionários ouvindo enquanto ele falava sobre moedas e
rezei para que o diretor estivesse certo quando disse que meu pai morreu pacificamente durante o
sono. Pensei sobre Alan e no mundo estranho habitado por sua mente. Mas, principalmente pensei
em Savannah. Repassei tudo o que aconteceu naquele dia, e nutri-me interminavelmente do
passado, tentando escapar do vazio que não desaparecia.
De manha, vi o sol nascer, uma bolinha de ouro emergindo da terra. Tomei banho e coloquei os
poucos pertences que trouxera para o quarto de volta no carro. Pedi o café da manha na lanchonete
do outro lado da rua, mas quando o prato fumegante foi colocado na minha frente, empurrei-o de
lado e peguei a xícara de café, pensando se Savannah já estava em pé, alimentando os cavalos.
Eram nove da manhã quando apareci no hospital. Assinei o registro e peguei o elevador para o
terceiro andar; percorri o mesmo corredor do dia anterior. A porta de Tim estava entreaberta, e ouvi
a televisão.
Ele me viu e sorriu surpreso. "Oi John", disse ele, desligando a televisão. "Entre. Eu estava só
matando o tempo."
Sentei na mesma cadeira do dia anterior, e percebi que sua cor tinha melhorado. Ele se esforçou
para sentar mais reto na cama, antes de se concentrar em mim novamente.
"O que o traz aqui tão cedo?"
"Estou me preparando para ir embora.", disse. "Tenho que pegar o avião para a Alemanha amanha.
Você sabe como é."
"Sim, eu sei." Ele balançou a cabeça. "Espero sair do hospital ainda hoje. Passei muito bem a noite
passada."
"Bom", eu disse. "Estou contente por ouvir isso."
Estudei-o, procurando sinal de desconfiança em seu olhar, qualquer noção do que quase aconteceu
na noite anterior, mas não vi nada.
"Por que você realmente veio aqui, John?", ele perguntou.
"Não tenho certeza", confessei. "Senti que precisava vê-lo. E que talvez você também quisesse me
ver."


Ele assentiu e virou para a janela; de seu quarto, não dava pra ver nada, exceto um grande ar

condicionado. "Quer saber o pior disso tudo?" Ele não esperou a resposta. "Eu me preocupo com
Alan", disse. "Eu sei o que está acontecendo comigo. Sei que as chances não são boas e que há uma
grande probabilidade que eu não sobreviva. Posso aceitar isso. Como disse ontem, ainda tenho a
minha fé. Sei, ou pelo menos eu espero que existe algo melhor esperando por mim. E Savanaah...
sei que ela vai ficar devastada se acontecer algo comigo. Mas sabe o que aprendi quando perdi meus
pais?"
"Que a vida não é justa?"
"Sim, isso também. Mas também aprendi que é possível seguir em frente, não importa quanto
pareça impossível. Com o tempo, a dor... diminui. Pode não desaparecer completamente, mas
depois de um tempo não é massacrante. É o que vai acontecer com Savannah. Ela é jovem, ela é
forte, e vai conseguir superar. Mas Alan... não sei o que vai acontecer com ele. Quem vai cuidar
dele? Onde ele vai viver?"
"Savannah vai cuidar dele."
"Eu sei que ela faria isso. Mas é justo com ela? Esperar que ela carregue essa responsabilidade?"
"Não importa se é justo. Ela não vai deixar que nada aconteça a ele."
"Como? Ela vai ter de trabalhar, quem vai cuidar de Alan então? Além disso, ele ainda é jovem.
Tem apenas dezenove anos. Esperar que ela cuide dele nos próximos cinqüenta anos? Para mim é
fácil. Ele é meu irmão. Mas Savannah...", ele balançou a cabeça. "Ela é jovem e bonita. É justo
esperar que ela não se case de novo?"
"Do que você está falando?"
"Será que seu novo marido estará disposto a cuidar de Alan?"
Fiquei em silêncio, ele ergueu as sobrancelhas. "Você estaria?", acrescentou.
Abri a boca para responder, mas as palavras não saíram. Seu rosto se tranqüilizou.
"É o que penso deitado aqui. Quer dizer, quando não estou passando mal. Na verdade, penso em um
monte de coisas. Inclusive você."
"Eu?"
"Você ainda a ama, não é?"
Mantive a expessão serena, mas mesmo ele leu meu rosto. "Tudo bem", disse. "Já sei. Sempre
soube." Ele pareceu quase melancólico. "Ainda lembro o rosto de Savannah na primeira vez que ela
falou sobre você. Nunca tinha visto ela daquele jeito Fiquei feliz por ela, porque alguma coisa me
fez confiar em você imediatamente. Ela sentiu muito a sua falta no primeiro ano que você ficou
longe. Foi como se o coração dela se despedaçasse um pouquinho todo dia. Ela só pensava em você.
Então descobriu que você não ia voltar, acabamos em Lenoir e meus pais morreram..." Ele não
terminou. "Você sempre soube que eu também esta apaixonado por ela, não é?"
Assenti.
"Acho que sim." Ele limpou a garganta. "Eu a amava desde os doze anos. Mas só queria que ela
fosse feliz. E, gradualmente, ela também se apaixonou por mim."
"Por que você está me contando isso?"
"Porque", disse ele, "Não foi igual. Sei que ela me ama, mas ela nunca me amou do jeito que ama
você. Nunca teve uma paixão ardente por mim, mas estávamos levando uma vida boa junto. Ela
ficou tão feliz quando começamos o rancho... e fiquei muito feliz de poder fazer algo assim para
ela. Estávamos felizes. Então fiquei doente, mas ela está sempre aqui, cuidando de mim como eu
cuidaria dela se fosse o contrário."
Ele parou em seguida, se esforçando para encontrar as palavras certas, e notei o tormento em sua
expressão.
"Ontem, quando você entrou, vi o jeito que ela olhava para você e entendi que ela ainda te ama.
Mais do que isso, entendi que ela sempre vai te amar. Fiquei com coração partido, mas sabe de uma
coisa? Ainda estou apaixonado por ela, e só quero que ela seja feliz na vida. Quero isso mais do que


tudo. É tudo que eu sempre quis para ela."

Minha garanta estava tão seca que eu mal conseguia falar. " O que você está dizendo?"
"Estou dizendo para você não esquecer Savannah, se acontecer alguma coisa comigo. E prometa
que vai adorá-la para sempre, assim como eu."
"Tim..."
"Não diga nada, John". Ele ergueu a mão, tanto para me calar quanto para se despedir. "Basta
lembrar o que eu disse, ok?"
Quando ele se virou, entendi que a conversa tinha acabado.
Então caminhei calmamente para fora do quarto, fechando a porta atrás de mim.
***
Fora do hospital, apertei os olhos diante do sol forte da manhã. Ouvi pássaros cantando nas arvores,
mas embora os procurasse, eles ficaram escondidos de mim.
O estacionamento estava cheio. Aqui e ali, havia pessoas caminhando para a entrada ou voltando
para os carros. Todos pareciam tão cansados quanto eu, como se o otimismo demonstrado aos entes
querido no hospital desaparecesse assim que estivessem sozinhos. Sei que sempre é possível haver
milagres, não importa o quanto a pessoa esteja doente, e as mulheres na maternidade estavam
alegres com seus recém-nascidos nos braços, mas a maioria dos visitantes, assim como eu, saía do
hospital aos cacos.
Sentei em um bando em frente ao hospital, perguntando por que tinha ido até ali, arrependido.
Repasse minha conversa com Tim diversas vezes e a imagem de sua angústia fez-me fechar os
olhos. Pela primeira vez em anos, meu amor por Savannah pareceu... errado. O amor deve trazer
alegria, deve conceder paz, mas aqui e agora só provocava dor. Para Tim, para Savannah, até para
mim. Eu não viera tentar seduzir Savannah ou arruinar um casamento... ou vim? Não tinha certeza
se eu era tão nobre como imaginava, e tal constatação me fez sentir vazio como uma lata de tinta
enferrujada.
Tirei a foto de Savannah de minha carteira. Estaca amassada e gasta. Enquanto olhava aquele rosto,
fiquei imaginando o que o próximo ano traria. Não sabia se Tim iria viver ou morrer, e nem queria
pensar nisso. Sabia que, não importa o que acontecesse, a relação entre mim e Savannah jamais
seria a mesma do passado. Nós nos conhecemos em um momento livre de preocupações e cheio de
promessas; em seu lugar agora havia as duras lições do mundo real.
Esfreguei as têmporas, impressionado com o pensamento de que Tim intuiu o que quase aconteceu
entre mim e Savannah na noite anterior, que talvez ele até esperasse por isso. As palavras dele
deixaram isso bem claro, assim como o pedido para que eu prometesse amá-la com a mesma
devoção que ele. Entendi exatamente o que ele sugeriu que eu fizesse se ele morresse, mas de
algum modo, sua permissão me fez sentir ainda pior.
Finalmente me levantei e comecei a caminhar lentamente para o carro. Não sabia ao certo para onde
ir, a não ser que precisava me afastar o máximo possível do hospital. Precisava sair de Lenoir,
apenas para ter uma chance de pensar. Enfiei as mãos nos bolsos e pincei minhas chaves.
Somente quando cheguei perto do meu carro, notei a caminhonete de Savannah estacionada ali ao
lado. Savanaah estava sentada no banco do motorista e , quando me viu chegar, abriu a porta e saiu
do carro. Ela esperou por mim, alisando a blusa enquanto me aproximava.
Parei a poucos metros de distância.
"John", ela disse, "Você saiu sem se despedir na noite passada."
"Eu sei."
Ela assentiu ligeiramente. Nós dois compreendemos o motivo.
"Como você sabia que eu estava aqui?"
"Eu não sabia", disse ela. "Passei no hotel e me disseram que você fechou a conta. Quando cheguei
aqui, vi seu carro e decidi esperar. Você falou com Tim?"
"Sim. Ele está bem melhor. Acha que vai sair do hospital ainda hoje."
"Essa noticia é boa", ela disse. Apontou para o meu carro. "Você está saindo da cidade?"


"Tenho de voltar. Minha licença está acabando."

Ela cruzou os braços. "Você iria se despedir?"
"Não sei", admiti. "Não tinha pensado tão longe."
Vi um flash de mágoa e decepção em seu rosto. "O que você e Tim conversaram?"
Olhei para o hospital por cima do ombro e depois de novo para ela. "Você deve fazer essa pergunta
para ele."
Ela crispou os lábios, seu corpo endureceu. "Então isso é adeus?"
Ouvi uma buzina na rua em frente e uma fila de carros parar de repente. O motorista de um Toyota
vermelho manobrava para a outra pista, fazendo o máximo para contornar o tráfego. Enquanto
observava, percebi que estava imobilizado e que ela merecia uma resposta.
"Sim", disse, virando lentamente para ela. "Acho que é."
Os nós brancos dos dedos se destacavam contra seus braços. "Posso escrever para você?"
Eu me esforcei para não desviar o olhar, desejando mais uma vez que nosso destino tivesse sido
diferente. "Não tenho certeza se é uma boa idéia."
"Não entendo."
"Sim, você entende", disse. "Você é casada com Tim, não comigo." Deixei as palavras assentarem,
enquanto reunia forças para continuar a falar. "Ele é um bom homem, Savannah. Um homem
melhor do que eu, isso é certo, e estou feliz que você tenha se casado com ele. Por mais que te ame,
não estou disposto a romper um casamento por causa disso. E, no fundo, acho que você também
não. Mesmo que você me ame, você o ama também. Demorei um pouco para perceber isso, mas
agora tenho certeza."
Não mencionei o futuro incerto de Tim, e vi os olhos dela começando a encher de lágrimas.
"Será que vamos nos ver de novo?"
"Não sei." As palavras queimaram na minha garganta. "Mas espero que não."
"Como você pode dizer isso?", ela perguntou com a voz vacilante.
"Porque significa que Tim vai ficar bem. E tenho a sensação de que tudo vai acabar como deveria."
"Você não pode dizer isso! Você não pode prometer isso!"
"Não", disse. "Eu não posso."
"Então porque é que tem que acabar agora? Desse jeito?"
Uma lagrima escorreu em seu rosto, e apesar de saber que deveria simplesmente ir embora, dei um
passo na direção dela. Cheguei perto e enxuguei a lagrima gentilmente. Nos olhos dela, vi medo e
tristeza, raiva e traição. Mas acima de tudo, vi uma suplica para eu mudar de idéia.
Engoli a seco.
"Você é casada com Tim, e seu marido precisa de você. Todos vocês. Não há espaço para mim, e
ambos sabemos que não deveria haver."
Mais lagrimas começaram a correr pelo seu rosto, e senti meus olhos encherem de água. Inclinei-
me, beijei Savannah suavemente nos lábios e a abracei com firmeza.
"Eu te amo, Savannah, e sempre vou te amar", murmurei. "Você é a melhor coisa que já me
aconteceu. Você foi minha melhor amiga e minha amante, e não me arrependo de um só momento.
Você fez eu me sentir vivo de novo, e acima de tudo, você me deu meu pai. Nunca vou me esquecer
disso. Você sempre será a melhor parte de mim. Sinto que tenha de ser assim, mas tenho que partir,
e você tem que ver seu marido."
Enquanto eu falava, ela soluçava convulsivamente, e continuei a abraçá-la por um longo tempo.
Quando finalmente nos separamos, percebi que fora nosso ultimo abraço. Me afastei, olhando nos
olhos de Savannah.
"Eu também te amo, John", ela disse.
"Adeus." Acenei.
E com isso, ela limpou o rosto e começou a caminhar em direção ao hospital.
***


Dizer adeus foi a coisa mais difícil que já fiz. Parte de mim queria dar meia volta, correr para o

hospital e dizer que eu estaria sempre ao lado dela, contar a ela o que Tim havia me dito. Mas não o
fiz.
Na saída da cidade, parei em uma pequena loja de conveniência. Precisava de gasolina e enchi o
tanque; comprei uma garrafa de água. No balcão, eu vi o pote colocado pelo proprietário para
arrecadar dinheiro para Tim, e fiquei olhando. Estava cheio de moedas e notas de dólar; no rótulo,
havia os dados de uma conta em um banco local. Pedi para trocar algumas notas por moedas de
vinte e cinco centavos e o heme atrás do balcão me atendeu.
Estava entorpecido no caminho de volta para o carro. Abri a porta e comecei a vasculhar os
documentos que o advogado me entregara, procurando também por um lápis. Achei o que precisava
e fui até o telefone público. Ficava perto da estrada, em meio ao barulho dos carros. Liguei para o
serviço de informações e tive que apertar o telefone contra a orelha para ouvir a voz
computadorizada me dar o número solicitado. Rabisquei em uma folha dos documentos e desliguei.
Coloquei algumas moedas no aparelho, e fiz uma chamada interurbana. Ouvi outra voz eletrônica
pedindo mais dinheiro. Coloquei mais moedas. Em breve, ouvi o telefone chamar.
Quando foi atendido, disse quem eu era e perguntei se o homem se lembrava de mim.
"Claro que sim, John. Como vai?"
"Bem, obrigado. Meu pai faleceu."
Houve uma pequena pausa. "Sinto muito em ouvir isso", disse ele. "Você está bem?"
"Não sei", disse.
"Posso fazer alguma coisa por você?"
Fechei os olhos, pensando em Savannah e Tim e esperando que, de algum modo, meu pai me
perdoasse pelo que estava prestes a fazer. "Sim", disse ao negociante de moedas. "Na verdade, você
pode sim. Quero vender a coleção de moedas do meu pai, e preciso do dinheiro o mais rápido
possível."


Epílogo

Qual o real significado do verdadeiro amor?
Penso de novo sobre isso sentado na encosta observando Savannah entre os cavalos. Por um
momento, retorno à noite em que apareci no rancho para encontrá-la... mas essa visita, um ano atrás,
parece mais e mais como um sonho.
Vendi as moedas por menos do que valiam, e peça por peça. Sabia que os restos da coleção de meu
pai seriam distribuídos entre pessoas que nunca se preocupariam com elas tanto quanto ele. No fim,
salvei apenas o níquel cabeça de búfalo, porque simplesmente não suportei abrir mao dele. Além da
foto, é tudo que sobrou do meu pai, e sempre carrego comigo. É um talismã da sorte, que traz
consigo todas as lembranças do meu pai; vez ou outra tiro do bolso e olho para ele. Passo os dedos
pela embalagem plástica onde guardo a moeda e em um instante vejo meu pai lendo a Greysheet em
seu escritório ou sinto cheio de bacon fritando na cozinha. Descobri que ela me faz sorrir, e por um
momento, sinto que não estou mais sozinho.
Mas estou, e parte de mim sabe que sempre estarei. Detenho-me nesse pensamento enquanto
procuro as figuras de Savannah e Tim ao longe, voltando para casa de mãos dadas; a forma que se
tocam demonstra o afeto genuíno que sentem um pelo outro. Eles formam um belo casal, devo
admitir. Tim chama Alan, que se junta a eles, e os três vão para dentro. Imagino por um momento
sobre os detalhes de sua vida cotidiana, mas estou plenamente ciente de que não é da minha conta.
Ouvi dizer, no entanto, que Tim não esta mais fazendo tratamento e muitas pessoas na cidade
esperam que ele se recupere.
Soube pelo advogado da cidade que contratei na ultima visita a Lenoir. Entrei no escritório com um
cheque e pedi que ele depositasse na conta aberta para financiar o tratamento de Tim. Eu conhecia
os privilégios da relação advogado-cliente, e sabia que ele não diria nada a ninguém na cidade. Era
importante não deixar Savannah saber o que eu tinha feito. Em qualquer casamento, só há espaço
para duas pessoas.
Entretanto, pedi ao advogado para me manter informado, e falei diversas vezes com ele no ano
passado enquanto eu estava na Alemanha. Ele contou sobre quando contatou Savannah para dizer
que um cliente queria fazer uma doação anônima e ser informado sobre o progresso de Tim. Ela
desabou e caiu no choro quando ele disse a ela a quantia. Contou que, uma semana depois, ela levou
Tim ao MD Anderson e ficou sabendo que ele era o candidato ideal para a vacina experimental que
o instituto começaria a testar em novembro. Contou que, antes de começar o tratamento
experimental, Tim fez bioquimioterapia e terapias auxiliares, e que os médicos estavam
esperançosos de que isso mataria as células cancerígenas concentradas nos pulmões. Dois meses
atrás, o advogado me ligou para contar que o tratamento tinha sido um sucesso, mais que os
médicos esperavam, e agora Tim estava tecnicamente em remissão.
Isso não garantia que ele iria viver até uma idade avançada, mas garantia uma chance de lutar, e isso
é tudo que eu desejava para ambos. Queria que eles fossem felizes. Queria que ela fosse feliz. E,
pelo o que eu tinha testemunhado hoje, eles eram. Vim porque precisava saber se tinha tomado a
decisão certa ao vender as moedas por causa do tratamento de Tim; se tinha feito bem em nunca
mais entrar em contato com ela. E, dali de cima, soube que a resposta era sim.
Vendi a coleção porque finalmente compreendi o que o verdadeiro amor realmente significa. Tim
havia me dito, e me mostrado, que o amor significava pensar mais na felicidade da outra pessoa do
que na própria, não importa quão dolorosa seja sua escolha. Saí do quarto de hospital de Tim
sabendo que ele estava certo. Mas fazer a coisa certa não foi fácil. Hoje em dia, levo a vida sentindo
que falta algo, que preciso de algum modo tornar minha vida completa. Sei que meu sentimento por
Savannah nunca mudará, e sempre terei dúvidas sobre a escolha que fiz.
E ás vezes me pergunto se Savannah sente o mesmo. O que, naturalmente, explica o outro motivo
pelo qual vim a Lenoir.
***


Olho para o rancho quando a noite cai. É a primeira noite de lua cheia e, para mim, as lembranças

sempre virão. Sempre vêm. Prendo a respiração quando a lua começa sua lenta ascensão sobre as
montanhas, o brilho leitoso contornando o horizonte. As árvores se tornam prata líquida, e embora
eu deseje mergulhar nas memórias agridoces, viro-me para observar o rancho novamente.
Durante muito tempo, espero em vão. A lua continua sua lenta trajetória pelo céu. Uma a uma, as
luzes da casa se apagam. Concentro-me ansiosamente na porta da frente, esperando pelo impossível.
Sei que ela não vai aparecer, mas não consigo me forçar a ir embora. Inspiro lentamente, na
esperança de chamá-la para fora. E quando finalmente, a vejo sair de casa, sinto um formigamento
estranho na coluna, algo que nunca tinha experimentado antes. Ela para na escada, e então se vira
parecendo olhar na minha direção. Congelo sem motivo, sei que é impossível ela me ver. De onde
estou, observo Savannah fechar a porta silenciosamente atrás de si. Ela desce lentamente os degraus
e vaga pelo jardim.
Ela para e depois cruza os braços, olhando para trás, para se certificar que ninguém a seguiu.
Finalmente, parece relaxar. Então, sinto como se estivesse presenciando um milagre, como, bem
devagar, ela ergue o rosto para a lua. Eu a vejo sorver a imagem da lua cheia, inundada pelas
memórias libertas, não desejando nada além de fazê-la saber que estou aqui. No entanto, fico onde
estou e também olho para a lua. Por um breve instante, é como se estivéssemos juntos de novo.
FIM!


   Em anexo, o belo livro de Nicholas Sparks,
querido john.
   Uma ótima leitura a todos,

   Abraços, Maria José(Nina).

-

Paz e Luz!
Marceli








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