PAIS E FILHOS
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238 páginas - rodapé.
Ivan Sergeevich Turgueniev nasceu
em Orel, Rússia, a 28 de outubro
de 1818 e morreu em Bougival, perto
de Paris, a 22 de agosto de 1883.
Filho de um coronel reformado e de
uma mulher rica e voluntariosa, sua
formação foi influenciada pela mãe,
criatura despótica, cuja
arbitrariedade contra os empregados
provocou-lhe profundo ódio à
servidão e às condições de vida dos
camponeses. Seu primeiro aprendizado
foi confiado a um servo letrado.
Posteriormente cursou as
universidades de Moscou, Berlim e
São Petersburgo, onde tomou contato
com as idéias políticas e sociais da
época, consolidando seu liberalismo
e suas tendências ocidentalistas.
De volta à Rússia, iniciou um
frustrado romance com a irmã do
anarquista Bakunin. Em 1842, manteve
uma aventura com a costureira de sua
mãe, com quem teve uma filha por
ele reconhecida e enviada mais tarde
para a França. No ano seguinte,
apaixonou-se por Pauline Viardot-
Garcia, cantora de ópera, a quem se
manteria ligado até o final de sua
vida. Desistindo da carreira
universitária, Turgueniev fixou-se
em São Petersburgo, onde trava
relações com os principais
integrantes do mais avançado círculo
de intelectuais de seu tempo —
entre os quais Gógol e o crítico
literário Bielinski. Em 1847 publica
O Contemporâneo (Sovremennik), o
primeiro de uma série de contos,
reunidos mais tarde sob o título de
Memórias de um Caçador (Zapiski
Oknotnika, 1852). Com suas visões
impressionistas da natureza, seu
clima de melancolia e, principalmente,
sua cálida simpatia para com os
servos, o livro constituiu um sucesso
e seu autor imediatamente colocado
na primeira linha dos escritores
russos. Com a morte da mãe, em 1850,
tornou-se um homem rico. Dois anos
depois publicou, apesar da censura,
o obituário de Gógol, o que lhe valeu
a prisão em São Petersburgo,
seguida do banimento para sua
propriedade de Spasskoe. Desgostoso,
decidiu partir para o exílio
voluntário. A partir de 1856, viveu
principalmente na Alemanha e na
França, voltando à Rússia apenas por
curtos períodos. No período de
banimento, trabalhando com afinco,
Turgueniev escreveu contos e seu
primeiro romance: Rudin (1856), um
dos primeiros exemplos, na literatura
russa, do "homem inútil". Seguiram-
se O Ninho de Aristocratas
(Dvorianskoe Gnezdo, 1858),
Nas Vésperas (Nakanune, 1860) e Pais e
Filhos (Ottsy i Deti. 1861),
reputado por muitos sua obra-
prima. Considerado como o mais
ocidentalista dos escritores russos,
Turgueniev deixou ainda Fumaça (Dim,
1867) e Terra Virgem (Nov, 1876).
CIP-Brasil. Catalogação-na-Fonte
Câmara brasileira do Livro, SP
Turgueniev, Ivan Sergeevich, 1818-1883.
T845p Pais e filhos / Ivan Turgueniev / tradução de Ivan
Emilianovitch. — São Paulo : Abril Cultural, 1981.
(Grandes sucessos)
1. Romance russo I. Emilianovitch, Ivan. II. Título.
III. Série.
80-1572 CDD-891.73
índice para catálogo sistemático:
1. Romance : Literatura russa 891.73
Ivan Turgueniev
Pais e Filhos
Tradução de Ivan Emilianovitch
1981
EDITOR: VICTOR CIVITA
Capa:
Foto de José Carlos Moraes
Título original:
Ottsy i Deti
Copyright desta edição, Abril S.A. Cultura) e Industrial,
São Paulo, 1981.
Tradução publicada sob licença da Livraria Martins
Editora. S.A., São Paulo, SP.
I.
— Não veio ainda, Piotr? — indagava, em 20 de
maio de 1859, um senhor que aparentava uns quarenta
anos de idade, saindo sem chapéu à porta da hospedaria
da estrada N. Vestia um capote empoeirado e calça
xadrez. Aquelas palavras eram dirigidas a um criado
seu, moço de rosto largo, com barba loira e rala no
queixo, e olhos estreitos e turvos.
O criado tinha algo de particular: usava brinco barato
numa das orelhas, cabelos tingidos e de cor indefinida,
e seus movimentos respeitosos eram os de um
homem moderno, pertencente a uma geração adiantada.
Escrutando com o olhar a estrada que se estendia a
perder de vista, respondeu com uma calma e distinção
que lhe pareciam peculiares:
— Não vejo ninguém ainda.
— Não vê mesmo nada? — tornou o fidalgo.
— Nada, senhor — respondeu o criado.
O fidalgo suspirou e acomodou-se num banco. Enquanto
está sentado à espera de alguém, de pernas
cruzadas e olhando pensativamente em torno, vamos
travar conhecimento com ele.
Chama-se Nicolau Pietróvitch Kirsánov.
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A 15 quilômetros da hospedaria, possui uma propriedade agrícola
com duzentos servos. Segundo suas próprias palavras,
depois de resolver a questão agrária com os mujiques,
organizou suas fazendas de 2 000 hectares de terra. Seu
pai, general em 1812, era um russo, quase analfabeto,
rude, mas não totalmente mau. Toda a sua vida dedicara-
a ao exército e à sua rotina. Foi primeiramente general
de brigada, depois general de divisão, passando a
seguir à atividade na província, onde. por seu posto
no exército, desempenhava papel de destaque. Nicolau
Pietróvitch nasceu no sul da Rússia, assim como seu
irmão mais velho, Páviel, de quem falaremos mais
adiante. Foi educado em casa até os catorze anos de
idade, cercado de preceptores medíocres, ajudantes de
ordens manhosos e dados à bajulação, e outras personalidades
do regimento e do Estado-Maior. Sua mãe, pertencente
à família Koliássin, Ágata quando solteira e
Agafokléia Kusmínichna Kirsánova quando generala,
pertencia à classe das "mães-comandantes"; usava
toucas de renda e vestidos farfalhantes de seda. Na
igreja, era a primeira a beijar a cruz; falava alto e demasiado;
permitia pela manhã que seus filhos lhe beijassem
as mãos, à noite lhes dava a bênção e, em última
palavra, vivia sossegadamente e a seu bel-prazer. Na
qualidade de filho de general, Nicolau Pietróvitch —
que nunca foi corajoso e até passava por covarde —
foi obrigado, como seu irmão Páviel, a fazer o serviço
militar.
Entretanto, fraturou uma perna no mesmo dia em
que recebeu a comunicação da sua incorporação no
exército. Passou dois meses de cama, e ficou "aleijadinho"
para toda a vida. O pai não se importou com o
caso e concordou com a sua carreira civil. Levou-o a
São Petersburgo, quando completou dezoito anos, matriculando-
o na universidade. Ao mesmo tempo, seu
irmão ingressou num regimento da Guarda Imperial.
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Os rapazes passaram a viver juntos, no mesmo apartamento,
sob os cuidados do tio por parte materna, Iliá Koliássin,
alto funcionário do Estado. O pai voltou ao comando
da divisão e à companhia da esposa. De quando
em quando enviava, aos filhos, pelo correio, grandes
folhas de papel acinzentado cheias de letras amplamente
desenhadas pelo escrivão do regimento. No fim de
todos esses escritos apareciam infalivelmente, em caligrafia
caprichada, as seguintes palavras: "Piotr Kirsánov,
general de brigada". Em 1835, Nicolau Pietróvitch
deixou a universidade, candidato à docência do mesmo
estabelecimento. No mesmo ano, o General Kirsánov,
reformado em conseqüência de uma revista militar infeliz,
chegou a São Petersburgo, em companhia da esposa,
para ali fixar residência. Logo após ter alugado uma
casa próxima ao Jardim de Táurida e haver-se inscrito
como sócio do Clube Inglês, morreu repentinamente de
um colapso. Agafokléia Kusmínichna seguiu-o, pouco
depois, ao túmulo: nunca pudera habituar-se à vida
obscura na capital. A nostalgia causada pela reforma
militar, prematura, a seu ver, consumiu-a.
Nicolau Pietróvitch, ainda em vida dos pais e bem
contra a vontade deles, apaixonou-se pela filha do funcionário
público Prepoloviênski, senhorio da sua casa.
Era uma boa moça e, como se diz vulgarmente, educada.
Nas revistas, lia somente os artigos sérios, subordinados
ao título geral "Parte Científica". Casou-se com
ela, logo que passou o período de luto, e, abandonando
o ministério, onde seu pai lhe conseguira um emprego
por proteção, gozou as delícias da vida em companhia
de sua Macha. Primeiramente numa vila perto do Instituto
Florestal, a seguir na cidade, num pequeno e lindo
apartamento, de escada muito limpa e sala de visitas
um pouco fria, e por fim no campo, onde se instalou
definitivamente e onde nasceu o primeiro filho, de nome
Arcádio. Os esposos viviam otimamente.
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Nunca ou quase nunca se separavam um do outro; liam juntos, tocavam
piano a quatro mãos, cantavam duetos. Ela plantava
flores, tratava das aves e ele praticava a caça e
administrava a propriedade. Arcádio crescia tranqüilamente.
Passaram assim dez anos, como um sonho. Aos
47 anos faleceu a esposa de Kirsánov. Foi bastante rude
este golpe. Em poucas semanas ficou de cabelos brancos.
Quis ir para o estrangeiro, a fim de distrair-se,
mas... veio o ano de 1848. Contra a sua vontade, voltou
ao campo e, após prolongada inatividade, foi absorvido
temporariamente pelas preocupações domésticas.
No ano de 1855, levou o filho para matricular na universidade.
Passou com ele três invernos em São Petersburgo,
não indo quase a parte alguma. Travou relações
com os jovens colegas do filho. Durante o último inverno,
Arcádio não pôde visitar o pai. E vemo-lo, agora,
em maio de 1859, de cabeça inteiramente alva, obeso,
corcunda até. Espera o filho, que, no curso da universidade,
recebeu o grau de candidato ao cargo de catedrático.
O criado, por um sentimento de respeito e talvez evitando
os olhares do amo, foi ao portão para acender o
cachimbo. Nicolau Pietróvitch inclinou a fronte tristemente,
e pôs-se a examinar os velhos degraus da escada.
Um pinto gorduchinho e de penugem irisada percorria
os degraus, raspando o chão com as suas patinhas amarelas.
Uma gata muito suja olhava-o atenta e hostilmente,
encostada ao corrimão. O sol ardia. Do vestíbulo
escuro da hospedaria vinha um cheiro de pão quente
de centeio.
Nicolau Pietróvitch continuava meditativo.
— Meu filho é candidato... meu pequeno Arcádio...
Esta idéia não lhe saía da cabeça, por mais que se
esforçasse por pensar noutra coisa. Voltava imperiosa,
sempre.
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Lembrou-se da sua falecida esposa.
— Não chegou a sentir a alegria deste momento...
— pensou com tristeza.
Um gordo pombo azul desceu à estrada para saciar
a sede numa poça vizinha da cisterna. Nicolau Pietróvitch
fitava-o atentamente, ao passo que seus ouvidos
já percebiam distintamente o ruído das rodas do carro
que se aproximava,
— Parece que estão chegando — disse o criado,
saindo do portal.
Nicolau Pietróvitch estremeceu e lançou um olhar à
estrada. Apareceu um carro tirado por três animais,
onde ele podia distinguir à distância o gorro de estudante
universitário e os traços imprecisos de um ente
querido...
— Arcacha! Arcacha! — exclamou Kirsánov, e correu
agitando os braços.
Momentos depois, seus lábios tocavam enternecidamente
o queixo barbeado, empoeirado e moreno do
jovem candidato à cátedra universitária.
II.
— Deixe-me ao menos respirar, papai — dizia com
voz vibrante o jovem, e, ao mesmo tempo, alegre e expansivo,
correspondia às gentilezas paternas: — Cuidado
com o pó. Não me responsabilizo pela sua toalete...
— Não importa — repetia Nicolau Pietróvitch, sorrindo
comovido. E, batendo na gola do capote do filho
e no seu próprio sobretudo, disse, afastando-se um
pouco: — Como você está mudado, que rapagão!
E encaminhou-se imediatamente para a hospedaria,
dizendo ao filho: — Por aqui — e para o criado: —
Quero cavalos; depressa!
Nicolau Pietróvitch parecia mais agitado que seu filho.
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Aparentava confusão e receio. Arcádio observou-lhe:
— Papai, quero apresentar-lhe meu bom amigo Bazárov,
sobre quem lhe falei tantas vezes em minhas cartas.
É tão gentil, que resolveu ser nosso hóspede por
alguns dias.
Nicolau Pietróvitch voltou-se, e, dirigindo-se a um
rapaz alto que trajava um capote exageradamente comprido,
agaloado, que acabava de sair do carro, apertou-
lhe fortemente a mão nua e vermelha, que lhe foi oferecida
de boa vontade.
— Muito obrigado — disse; — agradeço-lhe a gentileza
e a bondade de nos visitar. Espero, Senhor...?
— Eugênio Vassílievitch — respondeu Bazárov com
voz indolente, porém máscula. Descendo a gola do capote,
mostrou a Nicolau Pietróvitch o seu rosto, estreito
e magro, com a testa larga e projetada para trás, nariz
aquilino, grandes olhos verdes e suíças de um loiro
esbranquiçado, tudo iluminado por um sorriso tranqüilo
que exprimia confiança em si e inteligência.
— Espero, caríssimo Eugênio Vassílievitch, que lhe
agrade a nossa casa — continuou Nicolau Pietróvitch.
Os lábios finos de Bazárov mal se moveram. Nada
respondeu. Limitou-se a levantar ligeiramente o gorro.
Seus cabelos castanho-claros, espessos e compridos, não
ocultavam as saliências bem pronunciadas do seu crânio.
— Que faremos então, Arcádio? — tornou Nicolau
Pietróvitch, falando ao filho. — Convém preparar os
cavalos? Querem descansar um pouco?
— Descansaremos em casa, papai. Mande preparar
a condução.
— Imediatamente — disse o pai. — Olá, Piotr, está
ouvindo? Fica tudo a seu cuidado. Depressa.
Piotr, criado-modelo, que não beijava a mão do jovem
fidalgo, apenas inclinando-se diante dele, e isso
mesmo a distância, desapareceu novamente pelo portão.
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— Tenho meu carro aqui. Para o seu também reservei
três animais — dizia preocupado Nicolau Pietróvitch,
enquanto Arcádio bebia água de uma vasilha de
ferro que lhe trouxe a dona da hospedaria. Nesse ínterim,
Bazárov acendia seu cachimbo e aproximava-se do
cocheiro, que desatrelava os animais.
— O carro só tem dois lugares. Não sei como se
arranjará o seu amigo...
— Ele irá no outro carro — replicou em voz baixa
Arcádio. — Por favor, não tenha cerimônia com ele.
É um bom rapaz. Muito simples, como há de ver.
O cocheiro de Nicolau Pietróvitch levou os animais
para fora.
— Vamos, barbudo! — disse Bazárov. dirigindo-se
ao cocheiro.
— Está ouvindo, Mitiúcha — exclamou outro cocheiro,
com as mãos nos bolsos do seu capote de peles
— como lhe chamou o fidalgo? Você é mesmo
barbudo.
Mitiúcha limitou-se a sacudir o seu gorro e puxou
pelo freio o animal suado.
— Vamos, rapazes; depressa! — exclamou Nicolau
Pietróvitch. — Terão uma boa gorjeta.
Em alguns minutos os animais estavam atrelados. O
pai e o filho acomodaram-se num carro. Piotr subiu à
boléia. Bazárov tomou outro carro e recostou a cabeça
numa almofada de couro. Ambos os carros partiram.
III.
— Finalmente o vejo em casa, candidato à universidade
— disse Nicolau Pietróvitch, batendo ora no
ombro ora no joelho de Arcádio. — Finalmente!
— E o tio, como está passando? — perguntou Arcádio.
Apesar da alegria sincera e quase infantil de que
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lhe transbordava a alma, Arcádio se esforçava o mais
possível por trocar o assunto palpitante por uma palestra
comum.
— Está muito bem. Queria vir comigo. Resolveu
o contrário. Não sei por quê.
— E você me esperou muito tempo?
— Umas cinco horas.
— Boníssimo! Que paciência!
Arcádio, voltando-se vivamente para o pai, beijou-o
rumorosamente na face. Nicolau Pietróvitch riu-se em
silêncio, satisfeito.
— Reservei um excelente cavalo para você! — começou
ele. — Logo o verá. As paredes do seu quarto foram
forradas de papel.
— Temos um quarto para Bazárov?
— Teremos um para ele também.
— Faça-me um favor, papai. Trate-o bem. Nem pode
imaginar como aprecio sua amizade.
— Conhece-o há muito?
— Há pouco.
— Não tive ocasião de vê-lo durante o inverno passado.
Que faz ele?
— Dedica-se de preferência às ciências naturais. E
sabe tudo. O ano que vem. pretende ser médico,
— Ah, sim! — observou Nicolau Pietróvitch. —
Faculdade de Medicina. Piotr — acrescentou, estendendo
a mão —, serão os nossos mujiques que estão chegando?
Piotr olhou na direção indicada pelo amo. Alguns
carros, puxados por animais sem freios, corriam rapidamente
pelo caminho estreito. Em cada carro havia um
ou dois mujiques com os capotes de peles abertos.
— Exatamente — disse Piotr.
— Vão para a cidade? — perguntou Arcádio.
— Parece que vão para a cidade. Para a taberna —
respondeu Nicolau Pietróvitch, com ar de desprezo,
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voltando-se para o cocheiro, como se quisesse ouvir-lhe
a opinião. Este nem se moveu. Era um homem à antiga
e estranho às idéias modernas.
— Este ano tenho tanto trabalho com os meus mujiques
— continuou Nicolau Pietróvitch. dirigindo-se ao
filho. — Não pagam as dízimas, Que hei de fazer?
— Satisfazem-no os trabalhadores assalariados?
— Sim — respondeu por entre os dentes Nicolau
Pietróvitch. — Maltratam-nos, eis a verdade. Ainda
não vi boa vontade para trabalhar. Estragam as peças
de atrelar, mas aravam bem, apesar de tudo. Com paciência
tudo se fará. Interessam-lhe porventura as coisas
da fazenda?
— Não temos sombra suficiente, eis o que me preocupa
— observou Arcádio, sem responder à última
pergunta.
— Do lado norte mandei instalar uma marquise sobre
o terraço — disse Nicolau Pietróvitch. — Podemos
agora tomar as refeições ao ar livre.
— Tudo isto tem certamente a aparência de vila...
Mas não tem importância. Que ar temos aqui! Que aroma!
Nunca senti em parte alguma um aroma igual a
este! E que céu...
Arcádio calou-se de repente, e olhou para trás algum
tempo.
— Realmente — disse Nicolau Pietróvitch —, é natural:
você nasceu aqui. Tudo deve parecer-lhe extraordinário...
— Para o homem é indiferente, papai, o lugar de
nascimento.
— Mas...
— Não. Afirmo-lhe que é indiferente.
Nicolau Pietróvitch olhou para o filho de soslaio.
Andaram meio quilômetro, sem reatarem a conversa.
— Não me lembro se lhe escrevi — principiou Nicolau
Pietróvitch —, mas a antiga ama legórovna faleceu.
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— Será possível? Pobre velhinha! E Prokófitch
ainda é vivo?
— Sim; é o ranzinza de sempre. Em suma, grandes
mudanças você não encontrará em Mariino.
— Seu administrador é sempre o mesmo?
— Não. Tive que o substituir. Resolvi romper com
todos os servos espontaneamente libertos, ou, em última
análise, não lhes confiar quaisquer tarefas de responsabilidade.
(Arcádio indicou Piotr.) — Il est libre, en
effet* — disse baixinho Nicolau Pietróvitch —, e é
o chefe da criadagem. Meu administrador atual descende
de burgueses. Parece-me um homem ativo. Pago-lhe
250 rublos por ano. No mais — acrescentou Nicolau
Pietróvitch, passando a mão pela testa, o que era sinal
de confusão íntima nele —, já lhe disse que não encontrará
mudanças em Mariino... isto é, para falar a
verdade, devo preveni-lo ainda de que...
Após um breve silêncio, continuou em francês:
— Um moralista severo estranhará minha sinceridade.
Entretanto, em primeiro lugar não posso ocultá-lo,
e, depois, já sabe que sempre defendi princípios especiais
nas relações entre pais e filhos. Quanto ao resto,
evidentemente terá direito de censurar-me. Na minha
idade... Afinal, essa... essa jovem de quem já deve
ter ouvido falar...
— Fiênitchka? — indagou com simplicidade Arcádio.
Nicolau Pietróvitch corou.
— Não fale tão alto, por favor... Efetivamente...
ela agora vive comigo. Instalei-a em casa... em dois
pequenos quartos. Poderei fazer que se mude.
— Por quê?
— Seu amigo será nosso hóspede... não está direito...
* Com efeito, ele é livre.
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— Quanto a Bazárov, peço-lhe que não se preocupe.
Ele está acima de tudo isso.
— Já sei quem você é — disse Nicolau Pietróvitch.
— O quarto é muito pequeno, eis o importante.
— Que diz! — exclamou Arcádio. — Parece que
me pede desculpas. Não posso admitir isso.
— Com efeito, sinto-me envergonhado — respondeu
Nicolau Pietróvitch, corando cada vez mais.
— Basta, papai, basta, por favor! — disse Arcádio,
sorrindo maliciosamente. "Que pecado pretende expiar!",
pensou. Um sentimento de compaixão para com
o bom pai e uma sensação de perfeição desconhecida
inundaram-lhe a alma. — Basta, por favor — repetiu
ainda, sentindo-se plenamente satisfeito com a sua própria
madureza e liberdade.
Nicolau Pietróvitch fitou-o por entre os dedos, com
que continuava a esfregar a testa. Algo tocara-lhe dolorosamente
o coração... Assim mesmo, acusou-se a si
próprio.
— Já estamos vendo as nossas terras — disse após
longo silêncio.
— Lá adiante é o nosso bosque? — perguntou Arcádio.
— É ele mesmo. Vendi-o, porém. Este ano será
derrubado.
— Por que o vendeu?
— Precisava de dinheiro. Além disso, essa terra
passa aos mujiques.
— Os que não lhe pagam a dízima?
— Isso é com eles. Hão de pagar um dia.
— Tenho pena do bosque — observou Arcádio.
Os lugares por onde passavam não se podia dizer
que fossem pitorescos. Campos e mais campos estendiam-
se até o horizonte, ora elevando-se suavemente,
ora abaixando-se de novo. Aqui e acolá viam-se pequenos
bosques e depressões com uma vegetação escassa
de arbustos,
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lembrando perfeitamente a sua representação
nas antigas plantas do tempo de Catarina II. Riachos
com as margens escavadas e pequenas represas
gastas pelo tempo, assim como aldeias de cabanas baixas
de telhados escuros e mal conservados; pequenos depósitos
de debulhar o trigo, tortos e com as paredes feitas
de varas trançadas; igrejas, ora de alvenaria, com o reboco
gasto em alguns lugares, ora de madeira, com as
cruzes inclinadas; e cemitérios devastados. O coração
de Arcádio confrangia-se, pouco a pouco. Por uma coincidência,
os mujiques que encontrava eram todos maltrapilhos
e conduziam animais magríssimos. À semelhança
de verdadeiros mendigos esfarrapados, as árvores
que ladeavam a estrada estavam descascadas e com
os galhos partidos. As vacas, magras, peladas e esqueléticas,
devoravam sofregamente a escassa erva das valetas.
Parecia até que acabavam de livrar-se das garras
ferozes e mortíferas de algum monstro. O triste aspecto
dos animais exaustos, num dia avermelhado de primavera,
evocava o fantasma branco de um inverno lúgubre
e interminável, com as suas tempestades, frios e
gelos... "Não", pensou Arcádio, "não é muito rica esta
região. Não impressiona pela opulência e pelo trabalho.
Não pode ficar assim; impõem-se reformas... Mas
como executá-las, como iniciá-las?..."
Assim pensava Arcádio... e, enquanto isso, a primavera
fazia valer os seus direitos. Tudo em redor era
de um verde dourado. Tudo se agitava ampla e suavemente,
ondulando ao sopro de uma brisa quente. Tudo
— árvores, arbustos e relva. Por toda parte vibrava
interminavelmente o canto das aves que pairavam bem
alto sobre os prados e saltitavam de moita em moita.
Como manchas escuras no verde intenso dos campos
semeados, passeavam as gralhas, que desapareciam nos
campos de centeio já esbranquiçados. De quando em
quando, surgiam-lhe as cabecinhas no ondulante oceano do trigal.
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Arcádio contemplava a paisagem. Enfraquecendo
pouco a pouco, suas reflexões desapareceriam
... Deixando o capote, fitou com tanta alegria
o pai, que este não pôde deixar de abraçá-lo de novo.
— Agora estamos perto — disse Nicolau Pietróvitch.
— Basta subir este morro e veremos nossa casa.
Vamos viver bem, Arcacha. Há de ajudar-me nos trabalhos
da fazenda, se isso não o aborrecer. Temos necessidade
agora de nos aproximarmos um do outro, de
nos conhecermos bem, não é verdade?
— Perfeitamente! — respondeu Arcádio, e olhando
em volta: — Que lindo dia faz hoje!
— É uma homenagem à sua chegada, meu filho. A
primavera manifesta-se em todo o seu esplendor. Concordo,
porém, com Púchkiir. lembra-se do que diz ele
no seu poema Eugênio Oniéguin?
Quão triste é, na primavera,
Quadra do amor, o reflorir...
— Arcádio! — chamou do outro carro a voz de Bazárov.
— Mande-me fósforos para acender o cachimbo.
Nicolau Pietróvitch calou-se, enquanto Arcádio, que
estava já ouvindo-o um tanto admirado e até com certo
interesse, se apressava em tirar do bolso uma caixa de
prata com fósforos, enviando-a a Bazárov por intermédio
de Piotr.
— Quer um cigarro? — gritou novamente Bazárov.
— Mande — respondeu Arcádio.
Piotr voltou, entregando-lhe juntamente com a caixa
um grosso cigarro escuro que Arcádio acendeu logo,
espalhando em torno de si o cheiro forte e azedo de um
fumo ordinário. Nicolau Pietróvitch, que nunca fumara
em sua vida, foi obrigado, ainda que imperceptivelmente,
para não desgostar o filho, a voltar o rosto.
Um quarto de hora depois, ambos os carros paravam
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diante de uma casa nova, de madeira, pintada
de cor de cinza, com telhado vermelho. Era Mariino,
Nóvaia Slobodka, ou, segundo os mujiques, Aldeia dos
Solteirões.
IV.
Não apareceu uma chusma de criados para receber
os amos. Veio somente uma pequena de uns doze anos,
e depois dela saiu da casa um moço parecido com Piotr,
vestindo uma libré cinzenta de botões brancos. Era o
criado particular de Páviel Pietróvitch Kirsánov. Abriu
silenciosamente a portinhola do carro e levantou o toldo.
Nicolau Pietróvitch, em companhia do filho e de Bazárov,
dirigiu-se a um salão quase escuro e vazio, à entrada
do qual surgiu um rosto jovem de mulher. Foram
todos à sala de visitas, arranjada modernamente.
— Finalmente estamos em casa — disse Nicolau
Pietróvitch, tirando o gorro e sacudindo a cabeleira. —
O essencial agora é uma boa mesa e repouso.
— Não é mau comer alguma coisa — observou Bazárov,
espreguiçando-se e ocupando um lugar no sofá.
— Preparem a mesa depressa — ordenou Nicolau
Pietróvitch, batendo sem motivo algum os pés no chão.
— A propósito, aqui está Prokófitch.
Acabava de entrar um homem de uns sessenta anos
de idade, de cabelos brancos, magro e moreno, trajando
uma casaca cor de castanha com botões de cobre e um
lenço cor-de-rosa ao pescoço. Sorriu, cumprimentou os
recém-vindos e colocou-se junto à porta, de mãos às
costas.
— Aqui está o nosso Prokófitch — começou Nicolau
Pietróvitch. — Finalmente, meu filho veio... Como
você o acha?
— Acho que está otimamente — respondeu o velho,
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sorrindo de novo e em seguida franzindo a testa. —
Devo servir a mesa? — indagou significativamente.
— Sim, faça-me o favor. Não quer visitar primeiro
o seu quarto, Eugênio Vassílievitch?
— Não. obrigado. Não é necessário. Peço apenas
que levem para lá minha maleta e este casaco — acrescentou
ele, tirando o seu capote.
— Muito bem. Prokófitch, leve o capote deste senhor.
— Prokófitch, desajeitadamente, pegou com ambas
as mãos o capote de Bazárov e, erguendo-o bem
alto sobre a cabeça, afastou-se na ponta dos pés. — E
você, Arcádio, irá ao seu quarto?
— Acho bom; preciso arranjar-me um pouco — respondeu
Arcádio, e dirigiu-se imediatamente para a porta.
Nesse instante entrava na sala de visitas um homem
de estatura mediana, vestindo um escuro suit* inglês,
de colarinho baixo à última moda e sapatos de verniz.
Este homem era Páviel Pietróvitch Kirsánov. Aparentava
uns 45 anos de idade. Seus cabelos grisalhos, bem
cortados, tinham reflexos escuros como prata nova. Seu
rosto bilioso mas sem rugas, admiravelmente regular e
puro, como esculpido por um cinzel fino e leve, revelava
traços de notável beleza. Belos principalmente eram-lhe
os olhos, negros e rasgados. Todo o aspecto do tio
de Arcádio, imponente e nobre, conservou a firmeza
juvenil e aquela tendência para a elevação, para longe
da terra, a qual, na maioria das vezes, desaparece depois
dos vinte anos de idade.
Páviel Pietróvitch tirou do bolso da calça sua linda
mão de unhas longas e rosadas, mão que parecia ainda
mais linda junto da nívea alvura do punho da camisa,
com uma grande opala servindo de abotoadura. Estendeu
aquela mão ao sobrinho. Após o prévio e europeu
shake-hand**, ele por três vezes, à russa, beijou-o,
* Terno.
** Aperto de mão.
19
isto é, três vezes encostou os seus bigodes perfumados às
faces de Arcádio, e disse: — Seja bem-vindo.
Nicolau Pietróvitch apresentou-o a Bazárov. Páviel
Pietróvitch curvou ligeiramente sua flexível espinha e
sorriu, mas não lhe deu a mão e até a enfiou novamente
no bolso.
— Já estava certo de que não viriam hoje — disse
com voz agradável, movendo os ombros e mostrando
seus lindos dentes brancos. — Aconteceu alguma coisa
no caminho?
— Nada nos aconteceu — respondeu Arcádio. —
Demoramos um pouco. Em compensação, temos fome
de lobos. Pai, faça com que Prokófitch se apresse. Voltarei
logo.
— Espere, vou com você — exclamou Bazárov, levantando-
se precipitadamente do sofá. Ambos os moços
saíram.
— Quem é este? — indagou Páviel Pietróvitch.
— É um amigo de Arcacha. Segundo me disse, é
um homem inteligente e culto.
— Será nosso hóspede?
— Sim.
— Esse barbudo e cabeludo?
— Ele mesmo.
Páviel Pietróvitch tamborilou com as unhas na mesa.
— Acho que Arcádio s'est dégourdi* — observou.
- Estou satisfeito com a sua volta.
À mesa, conversaram pouco. Bazárov, principalmente,
nada dizia, e comia muito. Nicolau Pietróvitch contava
diversos casos da sua vida de lavrador, como dizia.
Discutia as futuras medidas do governo, as comissões,
os deputados, a necessidade de usar máquinas e
assim por diante. Páviel Pietróvitch, a passos lentos,
andava pela sala de jantar, de um lado para outro (nunca jantava),
* Se desentorpeceu.
20
bebendo de quando em quando, de uma taça
cheia, o vinho tinto; raramente proferia qualquer
observação, ou antes, exclamação indefinível. Arcádio
comunicou algumas novidades de São Petersburgo, experimentando
um certo embaraço que comumente se apodera
dos jovens, quando deixam de ser adolescentes e
voltam ao lugar onde todos estão habituados a considerá-
los ainda crianças. Sem necessidade alguma, prolongava
a narração, evitando a palavra "papai" e substituindo-
a pelo simples termo "pai", que pronunciava por
entre dentes. Com desenvoltura excessiva, pôs mais vinho
na sua taça, e bebeu-o todo. Prokófitch não tirava
dele os olhos e seus lábios se moviam, parecendo mastigar
alguma coisa. Depois da refeição, todos se separaram.
— É muito engraçado seu tio — dizia a Arcádio
Bazárov, que estava sentado junto à cama, de chambre
e fumando um cachimbo curto. — Que extraordinária
elegância numa aldeia! As suas unhas deviam figurar
numa exposição!
— Você não sabe que ele foi o maior conquistador
do seu tempo — respondeu Arcádio. — Um dia contar-lhe-ei
a sua história. Foi o mais belo homem de sua
época. Transtornava a cabeça das mulheres.
— Ah! é assim? Ainda se lembra do passado. Infelizmente,
aqui não tem ninguém para seduzir. Observei-o:
que admiráveis colarinhos usa! Parecem feitos
de pedra. E tem as faces caprichosamente barbeadas.
Arcádio Nicoláievitch, não é ridículo tudo isso?
— É possível. Mas é um bom homem.
— Uma verdadeira reminiscência arcaica! Seu pai
é uma ótima pessoa. Lamento que leia versos, e pouco
entenda da vida do campo.
— Meu pai é um homem extraordinário.
— Percebeu que tem um certo receio ou acanhamento?
21
Arcádio fez um gesto afirmativo com a cabeça, como
se ele mesmo não receasse coisa alguma.
— São admiráveis — continuou Bazárov — esses
velhos românticos! Relaxam seu sistema nervoso até a
irritação... Perdem assim o equilíbrio. Adeus, por enquanto.
No meu quarto há um lavatório inglês e a fechadura
não funciona. Apesar de tudo, os lavatórios
ingleses merecem apoio: constituem progresso!
Bazárov saiu, e Arcádio sentiu uma extraordinária
alegria.
É tão bom adormecer na casa paterna, no leito bem
conhecido, sob um bom cobertor, leito talvez carinhosamente
preparado e arrumado pelas boas e infatigáveis
mãos de sua ama! Arcádio lembrou-se de legórovna
e suspirou, desejando-lhe de todo o coração o reino
dos céus... Nunca rezava em seu próprio benefício.
Ele e Bazárov adormeceram imediatamente. As outras
pessoas da casa ainda não dormiam. A volta do filho
agitou muito Nicolau Pietróvitch. Deitou-se e, sem apagar
a vela, ficou refletindo durante muito tempo. Seu
irmão ficou muito além da meia-noite no seu gabinete,
sentado diante da lareira, onde ardia fracamente o carvão
de pedra. Páviel Pietróvitch não se despiu. Substituiu
apenas os seus sapatos pelos chinelos vermelhos
sem salto. Em suas mãos se via o último número de
Calignani, que não lia. Olhava fixamente a lareira, onde,
ora morrendo ora ardendo de novo, tremia uma chama
azulada... Deus sabe onde vagavam os seus pensamentos.
Não o preocupava somente o passado. A expressão
do seu rosto era concentrada e triste, o que não
acontece quando o homem está preocupado apenas com
as suas recordações. No pequeno aposento contíguo,
sobre uma grande mala, trajando uma blusa azul e com
um lenço branco na cabeça morena, estava sentada uma
mulher jovem, de nome Fiênitchka. Já escutando, já
cochilando, observava uma porta aberta, onde se via
22
um berço e se ouvia a respiração regular de uma criança
adormecida.
V.
Na manhã seguinte Bazárov acordou antes de todos,
e saiu de casa. "Olá!", pensou ele, olhando em redor,
"o lugar aqui não é muito bonito."
Quando Nicolau Pietróvitch repartiu a terra com os
seus servos, couberam-lhe para a nova fazenda uns 4
hectares de uma área plana e quase deserta.
Construiu a casa, suas dependências e toda a sede
da fazenda, plantou um pomar, fez uma represa e dois
poços. As árvores ainda tenras não frutificavam, a represa
estava quase vazia e a água dos poços tinha gosto
salobro.
O que ficou bem foi apenas um caramanchão de acácias,
onde, às vezes, se tomava chá e se jantava. Bazárov
em poucos minutos percorreu todo o pomar, entrou
no curral, foi à cocheira, travou conhecimento com dois
moleques da fazenda e dirigiu-se com eles ao pequeno
pântano, a 1 quilômetro de distância, em busca de rãs.
— Para que o senhor quer rãs? — perguntou um
dos moleques.
— Já lhe vou dizer para quê — respondeu-lhe Bazárov,
que possuía um especial dom de conquistar a
confiança das pessoas de classe inferior, ainda que nunca
concordasse com elas e as tratasse com pouco caso.
— Eu corto a rã para ver o que há dentro dela. Como
nós também somos uma espécie de rãs, de duas pernas
apenas, poderei saber o que temos dentro de nós.
— E para que o senhor quer saber?
— Para não me enganar se você ficar doente e eu
precisar curá-lo.
— O senhor é médico?
23
— Sou.
— Vaska, está ouvindo? Este senhor está dizendo
que eu e você somos rãs. Não é engraçado?
— Tenho muito medo das rãs — observou Vaska,
menino de sete anos, de cabeça branca como linho, rebuçado
com a gola do capote e descalço.
— Tem medo por quê? Elas mordem?
— Vamos, entrem na água, filósofos — disse Bazárov.
Por esse tempo, Nicolau Pietróvitch acordou também,
e foi ter com Arcádio, a quem encontrou vestido.
Pai e filho saíram para o terraço, sob a marquise. Ali,
sobre a mesa, entre dois ramalhetes de flores, já fervia
o samovar. Apareceu uma pequena, a que viera na véspera
ao encontro dos recém-chegados. Disse com sua
voz fina:
— Fiedóssia Nicoláievna não está boa e não pode
vir. Mandou perguntar se servirão o chá, ou querem
que o faça Duniacha?
— Eu mesmo servirei — respondeu apressadamente
Nicolau Pietróvitch.
— Você, Arcádio, como quer o chá? Com creme
ou limão?
— Com creme — respondeu Arcádio. Depois de
um breve silêncio, interrogou:
— Papai?
Confuso, Nicolau Pietróvitch olhou para o filho.
— Que quer? — disse ele.
Arcádio baixou os olhos.
— Perdoe-me, papai, se minha pergunta lhe parece
inconveniente — começou ele —, mas você mesmo,
com a sua franqueza de ontem, me impele para a franqueza,
.. Você não fica zangado?
— Fale.
— Permita-me a liberdade de perguntar-lhe...
24
Será que Fiênia., . não vem servir o chá porque estou
aqui?
Nicolau Pietróvitch voltou-se ligeiramente para um
lado.
— É possível —- disse afinal. — Ela supõe... tem
vergonha...
Arcádio fitou o pai.
— Não deve ter vergonha. Em primeiro lugar, você
conhece o meu modo de pensar (Arcádio pronunciou
estas palavras com prazer); em segundo, com que propósito
vou intervir na sua vida, nos seus hábitos? Além
disso, estou certo de que não podia ter feito má escolha.
Se permitiu que ela morasse com você, sob o mesmo
teto, é porque ela o merece. Em todo caso, o filho
não pode ser juiz do pai, principalmente eu, em se tratando
de um pai como você, que nunca em coisa alguma
me tolhe a liberdade.
A voz de Arcádio tremia a princípio. Sentia-se generoso
e compreendia ao mesmo tempo que estava dando
uma espécie de conselho a seu pai. As suas próprias palavras
exerciam uma certa influência sobre o homem,
Arcádio pronunciou as últimas palavras com firmeza.
— Obrigado, Arcacha — falou em voz baixa Nicolau
Pietróvitch. Passou de novo os dedos pelas sobrancelhas
e pela testa. — Suas suposições são realmente
justas. De fato, se essa jovem não merecesse... não se
trata de uma inclinação volúvel. Não me é fácil falar
com você sobre esse assunto. Compreende que lhe seria
difícil e penoso vir até nós na sua presença e principalmente
no primeiro dia em que você está aqui.
— Nesse caso, eu mesmo vou visitá-la — disse Arcádio
sentindo um novo afluxo de sentimentos generosos
e levantando-se da cadeira. — Explicar-lhe-ei tudo,
para que não tenha acanhamento em minha presença.
Nicolau Pietróvitch também se levantou.
25
— Arcádio — sugeriu ele —, por favor... é impossível...
ainda não o preveni de tudo...
Mas Arcádio já o não ouvia e fugiu do terraço. Nicolau
Pietróvitch olhou o filho que se afastava e, comovido,
tornou a sentar-se.
Seu coração batia forte... Pensou um momento na
inevitável estranheza das futuras relações entre ele e o
filho. Não seria prova de maior respeito de parte de
Arcádio não tocar naquele assunto?
Acusar-se-ia da própria fraqueza?
Seria difícil responder. Todos esses sentimentos lhe
residiam no íntimo em forma de sensações imprecisas.
E o seu rosto corava e o coração batia fortemente.
Ouviram-se passos apressados e Arcádio apareceu no
terraço.
— Já nos conhecemos, pai! — exclamou com expressão
de alegria carinhosa e boa no rosto. — Fiedóssia
Nikoláievna efetivamente está hoje um pouco indisposta.
Virá mais tarde. Por que não me disse que eu
tinha um irmão? Ontem mesmo lhe daria um beijo, como
acabo de fazê-lo agora.
Nicolau Pietróvitch quis dizer qualquer coisa, erguer-
se e abrir os braços... Arcádio abraçou-o mais uma
vez.
— Que significa isto? Novos abraços? — ouviu-se
a voz de Páviel Pietróvitch.
Pai e filho ficaram satisfeitíssimos com o seu aparecimento.
Existem situações bastante comoventes, de que todos
querem sair o mais depressa possível.
— Que há de mais nisto? — perguntou alegremente
Nicolau Pietróvitch. — Em que idade consegui eu tornar
a ver Arcacha... Desde ontem não pude ainda examiná-
lo de perto.
— Não me admira — disse Páviel Pietróvitch. —
Eu também estou pronto a abraçá-lo.
26
Arcádio aproximou-se do tio. Sentiu novamente em
suas faces o contato daqueles bigodes perfumados. Páviel
Pietróvitch sentou-se à mesa. Trajava um vestuário
matinal elegante, à inglesa. Trazia na cabeça um pequeno
turbante. O turbante e a gravata de laço negligente
indicavam a liberdade da vida de campo. Contudo,
o colarinho apertado da camisa, de cor, de acordo
com a hora matinal, tocava de perto o seu queixo
barbeado.
— Onde está seu amigo? — perguntou, dirigindo-
se a Arcádio.
— Não está em casa. Costuma levantar-se cedo e
andar em qualquer parte. O principal é que ninguém
lhe preste muita atenção. Não gosta de cerimônias.
— Já o percebi. — Páviel Pietróvitch, lentamente,
começou a passar manteiga no pão. — Durante quanto
tempo se hospedará entre nós?
— Conforme. Está aqui de passagem, a caminho da
casa de seu pai.
— Onde mora seu pai?
— Nesta mesma província, a uns 80 quilômetros
daqui. Tem lá uma pequena propriedade. Serviu antigamente
como médico do exército.
— Bem... é por isso que me recordo vagamente
deste nome: Bazárov... Nicolau, não se lembra de que
na divisão comandada por nosso pai havia um médico
de nome Bazárov?
— Parece que sim.
— É isso mesmo. Então esse médico é pai dele. Muito
bem! — Páviel Pietróvitch cofiou os bigodes. —
Este mesmo Senhor Bazárov quem é, em suma? — indagou
pausadamente.
— Quem é Bazárov? — perguntou sorrindo Arcádio.
— Quer, meu tio, que lhe diga quem é de fato?
— Faça-me o favor, meu caro sobrinho.
— Ele é niilista.
27
— Como? — perguntou NicoLau Pietróvitch, enquanto
Páviel Pietróvitch erguia a faca com um pouco
de manteiga na ponta.
— Ele é niilista — repetiu Arcádio.
— Niilista — disse Nicolau Pietróvitch — vem do
latim, nihil, e significa "nada", segundo eu sei. Quer dizer
que essa palavra se refere ao homem que... em
nada crê ou nada reconhece?
— Pode dizer: o homem que nada respeita — explicou
Páviel Pietróvitch, voltando novamente sua atenção
para a manteiga.
— Aquele que tudo examina do ponto de vista crítico
— sugeriu Arcádio.
— Não é a mesma coisa? — perguntou Páviel Pietróvitch.
— Não, não é o mesmo. O niilista é o homem que
não se curva perante nenhuma autoridade e que não
admite como artigo de fé nenhum princípio, por maior
respeito que mereça...
— E isso está bem? — interrompeu Páviel Pietróvitch.
— Depende, tio. Para alguns está bem e para outros
não.
— Vejo que essa doutrina não se refere a nós. Somos
homens do século passado e supomos que, sem os
princípios (Páviel Pietróvitch pronunciava esta palavra
suavemente, à francesa; Arcádio, pelo contrário, proferia-
a à russa, carregando a primeira sílaba), sem os
princípios transformados, como você disse em artigos
de fé, não é possível dar um passo, nem mesmo respirar.
Vous avez changé tout cela*, que Deus lhes dê saúde
e posto de general. Ser-nos-á muito agradável apreciar
a sua obra, senhores... como se chamam mesmo?
— Niilistas — pronunciou claramente Arcádio.
— Bem. Antes havia hegelistas, hoje há niilistas.
* Vocês mudaram tudo isso.
28
Veremos como poderão viver no vácuo, no espaço sem
ar. Por enquanto, mano Nicolau Pietróvitch, toque a
campainha e mande buscar meu chocolate, que já é
tempo.
Nicolau Pietróvitch tocou a campainha, e chamou:
"Duniacha!" Em vez de Duniacha apareceu no terraço
Fiénitchka em pessoa. Era uma jovem de uns 23 anos,
muito branca e de gestos suaves, cabelos negros e olhos
da mesma cor, lábios infantis vermelhos e carnudos, e
mãos delicadas. Trajava um vestido simples e limpo, de
chita. Um xale azul, novo, caía-lhe bem sobre os ombros
roucos. Trazia uma chávena de chocolate, que pôs
diante de Páviel Pietróvitch, corando intensamente. O
sangue quente derramou-se numa onda rubra sob a pele
fina do seu rosto adorável. Baixou os olhos e parou
junto à mesa, apoiando-se levemente às pontas dos dedos.
Parecia-lhe que devia envergonhar-se, e ao mesmo
tempo sabia que tinha o direito de ali estar.
Páviel Pietróvitch franziu o cenho. Nicolau Pietróvitch
sentiu-se atrapalhado.
— Bom dia, Fiénitchka — disse entre dentes.
— Bom dia — respondeu ela em voz baixa, mas
clara. Olhando de soslaio para Arcádio, que lhe sorria
amavelmente, saiu sem fazer ruído. O seu andar era
um tanto pesado, e assim lhe ia bem.
No terraço reinou silêncio por algum tempo. Páviel
Pietróvitch tomava seu chocolate. De súbito ergueu a
cabeça.
— Lá vem o senhor niilista — disse a meia-voz.
Efetivamente vinha Bazárov atravessando o jardim.
passando entre os canteiros. Seu paletó e calça de brim
estavam sujos de lama. A pegajosa vegetação do pântano
esverdeara-lhe o chapéu velho e redondo. Na mão
direita segurava um pequeno saco. No saco algo vivo
se mexia. Aproximou-se a passos rápidos do terraço, e
disse, sacudindo a cabeça:
29
— Bom dia, senhores. Peço perdão por ter chegado
tarde ao chá. Voltarei logo. Quero primeiramente instalar
todas estas prisioneiras.
— Sanguessugas? — perguntou Páviel Pietróvitch.
— Não; rãs.
— O senhor as come ou faz criações delas?
— Servem para experiências — disse com indiferença
Bazárov, afastando-se.
— Vai começar a cortá-las — observou Páviel Pietróvitch.
— Não crê nos princípios, e acredita nas rãs.
Arcádio olhou para o tio com solicitude compassiva.
Nicolau Pietróvitch moveu imperceptivelmente os ombros.
O próprio Páviel Pietróvitch percebeu que sua
observação fora infeliz. Passou a falar dos trabalhos da
fazenda e do novo administrador, que, na véspera, lhe
fizera uma queixa contra o empregado Fomá, que lhe
causava muitos aborrecimentos. Disse-lhe, entre outras
coisas: "É impossível esse Fomá. Em toda parte mostrou
ser um homem imprestável. Fica num lugar por
algum tempo e sai idiota como lá chegou".
VI.
Bazárov voltou, sentou-se à mesa e começou a tomar
o chá rapidamente.
Ambos os irmãos o contemplavam em silêncio. Arcádio
fixava imperceptivelmente ora o pai ora o tio.
— Esteve muito longe? — inquiriu afinal Nicolau
Pietróvitch.
— Ali, perto do bosque, existe um pequeno pântano.
Encontrei alguma caça que você, Arcádio, poderá aproveitar.
— E o senhor não é caçador?
— Não.
30
— Está estudando física? — perguntou por sua vez
Páviel Pietróvitch.
— Física e ciências naturais em geral.
— Dizem que os alemães fizeram grandes progressos
nessas ciências, durante os últimos tempos.
— Realmente, os alemães são os nossos mestres —
respondeu secamente Bazárov.
Páviel Pietróvitch empregara a palavra germanos em
vez de alemães. Disse-o com intenção de ironia que ninguém
percebeu.
— O senhor tem grande consideração pelos alemães?
— indagou com refinada gentileza Páviel Pietróvitch.
Começava a sentir uma irritação íntima. Sua natureza
aristocrática estava em oposição com a simplicidade de
Bazárov no modo de expressar suas idéias. Este filho de
curandeiro de aldeia não só se mostrava indiferente como
também rispidamente de má vontade. Na sua voz
transparecia um acento rude e quase provocante.
— Os sábios de lá são homens de valor.
— De acordo. E que pensa dos sábios russos? Terá
a mesma opinião deles?
— Parece-me que não.
— É um louvável gesto de renúncia — disse Páviel
Pietróvitch, endireitando-se. — Por que então Arcádio
Nikoláievitch nos afirmou há pouco que o senhor não
reconhece nenhuma autoridade? Não deposita confiança
nos nossos homens de ciência?
— De que vale reconhecer sua autoridade? Em que
posso acreditar? Se me disserem algo de positivo, concordarei.
Aí está.
— São todos os alemães homens positivos? — insistiu
Páviel Pietróvitch. E seu semblante assumiu tal expressão
de alheamento e de indiferença, que ele parecia
estar com o pensamento muito longe.
— Nem todos — respondeu num bocejo Bazárov,
que visivelmente não desejava continuar o diálogo.
31
Páviel Pietróvitch olhou para Arcádio, como se lhe
dissesse: "O seu amigo é bem educado, não resta dúvida".
— Quanto a mim — continuou ele com algum esforço
—, eu, pecador, não aprecio os alemães. Não
me refiro aos alemães russos: sabemos bem quem são.
Não suporto os verdadeiros alemães. Ainda os antigos
eram suportáveis. Tinham lá seu Schiller ou seu Goethe...
Meu irmão, por exemplo, aprecia-os bastante...
agora temos somente químicos e materialistas...
— Um bom químico é vinte vezes mais útil que
qualquer poeta — insinuou Bazárov.
— Ótimo — disse Páviel Pietróvitch, parecendo
adormecer e levantando levemente as sobrancelhas. —
O senhor então não reconhece o valor da arte?
— A arte de ganhar dinheiro ou de curar hemorróidas?
— perguntou Bazárov com um sorriso irônico.
— Muito bem; o senhor é espirituoso. Pelo que vejo,
nega tudo? Quer dizer que acredita somente na ciência?
— Já lhe disse que não acredito em coisa alguma.
A ciência? Que é a ciência em geral? Existem ciências
como existem artes e profissões. A ciência de um modo
geral não existe.
— Será também negativa sua atitude em face das
demais instituições aceitas pela humanidade?
— Porventura estou depondo num inquérito? — perguntou
Bazárov.
Páviel Pietróvitch empalideceu ligeiramente... Nicolau
Pietróvitch julgou necessário intervir na conversa.
— Meu caro Eugênio Vassílievitch, teremos um dia
ocasião de falar mais detalhadamente sobre este assunto.
Conheceremos sua opinião, e o senhor a nossa. De
minha parte, estou satisfeito por saber que o senhor se
dedica a ciências naturais. Já ouvi falar que Liebig fez
admiráveis descobertas acerca da adubação dos campos.
32
O senhor poderá auxiliar-me nos meus trabalhos agrícolas.
Poderá dar-me alguns conselhos úteis.
— Estou às suas ordens, Nicolau Pietróvitch. Estamos,
porém, muito longe de Liebig! Primeiro convém
aprender o a-bê-cê e depois tratar de ler o livro. Nós
não vimos ainda um "a" frente a frente.
"É realmente um niilista", pensou Nicolau Pietróvitch.
— Mesmo assim, permita-me que recorra ao senhor
em caso de necessidade— acrescentou em voz alta. —
Agora vamos, mano. Precisamos conversar com o
administrador.
Páviel Pietróvitch levantou-se.
— Realmente — disse, sem olhar para quem quer
que fosse —, é triste passar assin cinco anos no campo,
longe das grandes inteligências! Fica-se idiota. A gente
se esforça por não esquecer o que aprendeu e eis que se
verifica que tudo nada vale, porque lhe dizem que os
homens de responsabilidade já não tratam dessas ninharias.
Só falta então acusar-nos de homens acabados.
Que se pode fazer? Parece que a juventude é mais inteligente
que nós...
Páviel Pietróvitch fez lentamente meia-volta e saiu
devagar, acompanhado de Nicolau Pietróvitch.
— Ele é sempre assim? — indagou tranqüilamente
Bazárov, dirigindo-se a Arcádio, mal os dois irmãos
saíram.
—- Eugênio, você o tratou com extrema aspereza -—
observou Arcádio. — Ofendeu-o.
— Acha-me capaz de distrair esses aristocratas de
província? Tudo isso não passa de amor-próprio, egoísmo,
hábitos de conquistador e dandismo. Seria melhor
que ele continuasse sua carreira em São Petersburgo, se
sua índole é essa... Mas pouco nos importa! Acabo
de encontrar um raríssimo exemplar de besouro aquático;
conhece o Dysticus marginatus? Vou mostrar-lho.
33
— Prometi-lhe contar a sua história — disse
Arcádio.
— A história do besouro?
— Nada de troças» Eugênio. A história do meu tio.
Verá que ele não é o homem que supõe. Merece mais
compaixão do que ironia.
— Não discuto esse ponto. Por que lhe interessa
tanto seu tio?
— Devemos ser justos, Eugênio.
— Que conclusão é essa?
— Ouça...
Arcádio contou a seguir a história do seu tio. O leitor
vai encontrá-la no capítulo seguinte.
VII.
Páviel Pietróvitch Kirsánov foi educado primeiramente
em casa, assim como o seu irmão mais moço
Nicolau. Passou em seguida ao Corpo de Pagens. Desde
a infância atraía a atenção de todos pela sua extraordinária
beleza. Era egoísta, um tanto divertido e extremamente
irônico e mordaz. Não podia deixar de agradar
a muita gente. Começou a aparecer por toda parte,
logo que foi promovido a oficial do exército. Era adulado
por todos e ele mesmo reconhecia o seu prestígio,
fazendo-o valer ostensivamente e com certa petulância.
Até isso lhe ficava bem. As mulheres apaixonavam-se
doidamente por ele, os homens chamavam-no de dândi
e secretamente o imitavam. Ele, como já disse, vivia
em companhia de seu irmão, a quem estimava sinceramente,
embora não se parecesse com ele. Nicolau
Pietróvitch coxeava um pouco, tinha traços fisionômicos
miúdos, agradáveis e um tanto tristes, pequenos
olhos negros e cabelos finos e macios. Entregava-se de
boa vontade ao dolce far niente, lia muito e evitava as
reuniões sociais.
34
Páviel Pietróvitch nunca passou uma
tarde em casa. Era conhecido pela sua coragem e destreza
(fez com que a ginástica fosse praticada pelos
elegantes da sua época.) Leu apenas cinco ou seis livros
franceses. Aos 28 anos de idade já era capitão. Esperava-
o uma carreira brilhante. Repentinamente, tudo
mudou.
Naquele tempo, na alta sociedade de São Petersburgo,
aparecia de quando em quando uma mulher de
quem todos se lembram até hoje: a Princesa R. Era
casada com um homem bem educado, distinto mas um
tanto tolo. Não tinha filhos. Costumava viajar inesperadamente
para o estrangeiro, e também inesperadamente
regressava à Rússia. Levava, em suma, vida esquisita.
Todos a julgavam uma mulher leviana e faceira.
Entregava-se de corpo e alma a toda espécie <de prazeres,
dançava até cair de cansaço, ria e pilheriava com os
moços que recebia antes do jantar na penumbra da sua
sala de visitas. À noite chorava e rezava, dificilmente se
mantinha calma e, não raro, passava horas agitadas na
alcova, torcendo com desespero as mãos, ou permanecendo
pálida e fria a ler os salmos. Ao romper do dia
novamente se transmudava em dama de alta sociedade,
saía de novo, ria, conversava e parecia atirar-se de
braços abertos a tudo o que lhe proporcionasse a menor
distração. Era admiravelmente bem feita. Sua trança
cor de ouro e pesada como o próprio ouro caía-lhe abaixo
dos joelhos. Não se poderia dizer que fosse formosa.
Em seu rosto só eram belos os olhos, e não propriamente
os olhos — pequenos e cinzentos —, mas o seu
olhar rápido e profundo, impassível de coragem e pensativo
de tristeza, um olhar francamente enigmático.
Brilhava nele alguma coisa de extraordinário, mesmo
quando sua boca pronunciava ou murmurava as frases
mais pueris e vazias de sentido. Trajava-se com refinado
gosto e elegância. Páviel Pietróvitch conheceu-a num baile,
35
dançou a mazurca, durante a qual ela não proferiu
uma palavra em que se revelasse. Apaixonou-se por ela
doidamente. Acostumado às vitórias, neste caso conseguiu
mais uma. Mas a facilidade com que a conseguiu
não o arrefeceu. Pelo contrário: mais alucinadamente
ainda ele se ligou a essa mulher que, mesmo quando se
entregava completamente, não deixava de ter ainda
algo promissor e inacessível, que ninguém podia penetrar.
Que coisa vibrava secretamente naquela alma só
Deus- sabe! Parecia até possuir forças ocultas e desconhecidas.
Sua inteligência limitada não resistia à sua
ação... a sua conduta era uma série de extravagâncias.
As únicas cartas que poderiam suscitar suspeitas do
marido escreveu a um homem que lhe era quase estranho.
Seu amor tinha um quê de triste. Não ria nem
pilheriava com o amante. Ouvia-o olhando-o com espanto.
Às vezes, quase sempre de repente, este estado de alma
se transmudava em pavor. O seu rosto ficava morto e
selvagem. Fechava-se então no quarto de dormir e a
criada, pelo orifício da fechadura, via-a chorando surdamente.
Muitas vezes, ao voltar para casa, após a
entrevista amorosa, Kirsânov sentia no coração o insuportável
e amargo arrependimento que acompanha
um insucesso definitivo. "Que pretendo eu?", perguntava
a si mesmo, e desesperava-se. Uma vez ele lhe ofereceu
um anel com a esfinge gravada na pedra preciosa.
— Que é isso? — perguntou ela. — Esfinge?
— Sim — respondeu ele. — Essa esfinge é você.
— Eu? — disse ela, erguendo lentamente para Kirsânov
o seu olhar enigmático. — Sabe porventura que
me lisonjeia bastante? — acrescentou com um sorriso
sem significação, enquanto seus olhos fitavam estranha-
mente, como sempre.
Páviel Pietróvitch sofria muito até quando a Princesa
R. o amava. Quando, porém, o seu amor arrefeceu,
o que aconteceu pouco depois, quase o enlouqueceu de dor.
36
Martirizava-o o ciúme, e seguia-a por toda parte.
Irritada com esta perseguição tenaz, ela partiu para
o estrangeiro- Kirsânov requereu sua reforma no exército,
apesar dos conselhos dos amigos e comandantes.
Acompanhou a princesa na sua viagem pelo estrangeiro.
Passou quatro anos de exílio, ora partilhando a companhia
dela ora perdendo-a intencionalmente de vista.
Tinha vergonha de si mesmo e odiava a própria fraqueza,
mas de nada lhe servia tudo isso. A sua imagem,
incompreensível, mórbida e altamente expressiva, estampou-se-lhe
profundamente na alma. Em Baden conseguiu
juntar-se novamente a ela. Parecia que nunca
a tinha amado tanto... Um mês depois tudo acabou.
A chama ardeu pela última vez e apagou-se para sempre.
Pressentindo a inevitável separação, Kirsânov pretendeu
por fim conquistar-lhe a amizade, como se amizade
fosse possível com semelhante mulher... Ela saiu
às ocultas de Baden e, a partir de então, sempre evitou
Kirsânov. Páviel Pietróvitch regressou à Rússia e, tentando
viver como antes, não o conseguiu. Vagava por
toda parte como um enfermo. Costumava ainda sair.
Conservou os hábitos do homem de sociedade e podia
afirmar que fez mais duas ou três conquistas. Entretanto,
já nada esperava de si e dos outros e não empreendia
coisa alguma. Envelheceu depressa. Passar as tardes no
clube, expandir seu tédio e discutir desinteressadamente
numa sociedade de solteirões, tudo isso se lhe tornou
uma necessidade, mau sinal, como se sabe. É evidente
que já não pensava em casar-se. Dez anos passaram
assim rapidamente, monótonos e sem nenhum proveito.
Em parte alguma o tempo corre tão depressa como na
Rússia. Dizem que na prisão o tempo corre mais ainda.
Um dia, jantando no clube, Páviel Pietróvitch recebeu
a notícia da morte da Princesa R. Tinha falecido em
Paris, quase louca. Ele deixou a mesa e se pôs a vagar
pelas salas do clube, parando sem saber por que, perto
das mesas de jogo.
37
Voltou para casa à hora habitual.
Algum tempo depois recebeu pelo correio um pacote.
Nele encontrou o anel que oferecera à princesa. Ela,
antes de morrer, passara sobre a esfinge dois traços
em cruz, escrevendo-lhe que a cruz era a decifração do
seu enigma.
Isto sucedeu nos princípios de 1848, na época em
que Nicolau Pietróvitch, tendo enviuvado, vinha a São
Petersburgo. Páviel Pietróvitch quase não se avistava
com o irmão desde que este fora residir no campo. O
casamento de Nicolau coincidiu com os primeiros dias
das relações de Páviel Pietróvitch com a princesa. Tendo
regressado do estrangeiro, foi ter com o irmão a fim
de passar no campo uns dois meses, apreciar sua felicidade;
mas permaneceu ali apenas uma semana. A situação
de ambos os irmãos era inteiramente diversa.
Tornou-se, porém, mais ou menos análoga quando, em
1848, Nicolau Pietróvitch perdeu sua esposa e Páviel
Pietróvitch as suas reminiscências. Após a morte da
princesa, esforçava-se por não pensar nela. Nicolau Pietróvitch
personificava uma vida regular. Seu filho crescia
sob os seus cuidados. Páviel Pietróvitch, ao contrário,
solteirão sempre, entrava naquela idade crepuscular
e agitada, de insatisfação e esperanças mortas, idade
em que se sente que a mocidade passou e a velhice não
chegou ainda.
Este período era demasiado difícil para Páviel Pietróvitch:
tendo perdido o passado, perdera tudo.
— Não o convido para Mariino — disse-lhe um dia
Nicolau Pietróvitch (denominou assim a sua propriedade
em homenagem a Maria, sua esposa). — Quando
minha mulher era viva, você passou lá uma semana de
tédio. Agora suponho, que será capaz de morrer.
— Eu era tolo e fútil naquele tempo — respondeu
Páviel Pietróvitch. — A partir de então fiquei mais tranqüilo,
38
se não mais ajuizado. Agora, pelo contrário,
se você permitir, passaremos a viver juntos para sempre,
Um abraço foi a resposta de Nicolau Pietróvitch.
Mas passou um ano e meio, após essa conversa, antes
que Páviel Pietróvitch se resolvesse a pôr em prática a
sua intenção. Em compensação, desde que passou a
viver no campo, já não abandonava a aldeia, nem mesmo
durante os três invernos que Nicolau Pietróvitch
passou com o filho em São Petersburgo. Começou a ler
muito e quase que só livros ingleses. Moldou sua existência
pela vida e gosto da Inglaterra; raramente se
avistava com os vizinhos, e só saía para as eleições, nas
quais permanecia calado a maioria das vezes, irritando e
assombrando os proprietários, fiéis aos costumes antigos,
de opiniões liberais; tampouco se aproximava dos
representantes da geração nova. Tanto estes como aqueles
o consideravam orgulhoso e egoísta. Ambas as partes
o respeitavam pelas suas maneiras distintas e aristocráticas,
pelas histórias das suas conquistas, pelo seu
traje irrepreensível, pelo fato de ocupar sempre o melhor
apartamento no hotel de luxo e pelo seu bom gosto ao
comer, pois um dia jantou até em companhia de Wellington
e Luís Filipe. Respeitavam-no ainda porque trazia
sempre consigo uma bacia de prata e banheiro portátil,
porque usava perfumes esquisitos, finíssimos e "nobres",
porque jogava muito bem whist, perdendo sempre, e finalmente
porque era honestíssimo. As mulheres
achavam-lhe encantadora e romântica a tristeza, mas ele
não se dava bem com o sexo fraco.
— Está vendo, Eugênio? — disse Arcádio, terminando
sua narração. — Você não é justo para com
meu tio! Já não me refiro ao fato de ter ele muitas vezes
auxiliado meu pai nos momentos de dificuldade,
entregando-lhe todo o seu dinheiro. Não sei se sabe que a
propriedade ainda não foi partilhada entre eles. Meu
tio está disposto a prestar serviços a todos e defende
39
sempre os servos, embora, junto deles, sempre faça
caretas e cheire a água-de-colônia...
— Já sei o que são nervos — interrompeu Bazárov.
— É possível, mas ele tem bom coração. É inteligentíssimo.
Que conselhos úteis me deu... principalmente
... mormente quando se tratava das relações com
mulheres.
— Ora! Não teve resultado na prática e quer ser um
homem prático. A cantiga é velha!
— Em suma — continuou Arcádio —, é um homem
profundamente infeliz, É até pecado desprezá-lo.
— Quem o despreza? — exclamou Bazárov. — Digo-lhe,
porém, que o homem que toda a sua existência
arriscou e perdeu no jogo do amor e, quando assim
aconteceu, relaxou-se de tal modo que se tornou incapaz
de coisa alguma, esse homem não é homem e sim um
macho apenas. Afirma que ele é infeliz e deve saber
melhor do que eu por quê. Digo que continua tolo.
Estou convencido de que se considera seriamente um
homem útil, porque lê alguma coisa e uma vez por outra
salva o mujique do castigo.
— Não deve esquecer a sua educação e a época em
que viveu — observou Arcádio.
— Educação... — repetiu Bazárov. — Todo homem
deve educar-se a si mesmo, como eu, por exemplo...
No tocante à época, por que hei de depender
dela? Convém antes que ela dependa de mim. Não
concordo, meu amigo. Trata-se de desleixo e futilidade,
tão-somente. Que relações misteriosas são essas entre
o homem e a mulher? Nós, fisiologistas, conhecemo-las
muito bem. Estude um pouco a anatomia do globo
ocular: encontrará ali algo que signifique um olhar
enigmático? Tudo não passa de romantismo, fantasia,
podridão, artifício. É melhor irmos ver o nosso besouro.
Ambos se dirigiram ao quarto de Bazárov, onde já se
sentia um cheiro de drogas medicinais e de fumo barato.
40
VIII.
Páviel Pietróvitch não ficou muito tempo conversando,
em companhia do irmão, com o administrador, um
homem alto e magro, com voz baixa de tísico e olhos
maliciosos. O administrador, a todas as observações de
Nicolau Pietróvitch, respondia: "Por amor de Deus, sei
muito bem", e acusava os mujiques de bêbedos e ladrões.
A propriedade, reorganizada há pouco, rangia
como uma roda sem graxa ou certos móveis feitos de
madeira úmida. Nicolau Pietróvitch não desanimava.
Limitava-se a suspirar, pensativo. Percebia que sem dinheiro
não podia progredir e o dinheiro era escasso.
Arcádio tinha razão: Páviel Pietróvitch ajudou muitas
vezes seu irmão nas dificuldades financeiras.
Nessas ocasiões, Páviel Pietróvitch, aproximando-se
lentamente da janela com as mãos nos bolsos, costumava
dizer: "Mais je pouis vous donner de l'argent"*. E
dava-lhe em seguida o dinheiro, Mas nesse dia não tinha
dinheiro. Por isso preferiu afastar-se. As dificuldades
da fazenda causavam-lhe aborrecimento. Sempre lhe
parecia que Nicolau Pietróvitch, apesar do seu entusiasmo
e amor ao trabalho, não fazia as coisas como devia.
Era-lhe, porém, impossível apontar os seus erros. "Meu
irmão não é um homem prático e todo mundo o engana",
pensava. Por sua vez, Nicolau Pietróvitch apreciava
muito o espírito prático de Páviel Pietróvitch.
Sempre lhe pedia conselhos. "Sou um moleirão, sem
energia, e passei toda a minha vida no campo", dizia.
"Você viu tanta gente e conhece bem os homens. Tem
olhos de lince." Páviel Pietróvitch, sem responder a
essas palavras, fazia meia volta, sem persuadir do contrário
o irmão.
Tendo deixado Nicolau Pietróvitch no seu gabinete,
ele seguiu pelo corredor que separava a parte anterior da casa da
posterior.
* Mas eu posso dar-lhe dinheiro.
41
Diante de uma porta baixa parou
pensatívo, alisou os bigodes e bateu.
— Quem é? Pode entrar — ouviu-se a voz de Fiênitchka.
— Sou eu — disse Páviel Pietróvitch, abrindo a
porta.
Fiênitchka saltou da cadeira em que estava sentada
com o filho e, entregando-o a uma mocinha, que imediatamente
o levou para fora, compôs o xale nos
ombros.
— Peço perdão, se incomodei — começou Páviel
Pietróvitch, sem olhar para ela, — Queria pedir-lhe
apenas... se hoje mandarem alguém à cidade... que
me comprem um pouco de chá verde.
— Pois não — respondeu Fiênitchka. — Quanto o
senhor quer?
— Creio que meia libra basta. Estou notando uma
certa mudança aqui — acrescentou, lançando um rápido
olhar em torno e fitando Fiênitchka. — Vejo cortinas
— disse, ao perceber que ela não o compreendia.
— Sim, cortinas. Nicolau Pietróvitch ofereceu-mas,
já estão aqui há tempo.
— Há muito que não a vejo. Agora está muito bem
aqui.
— Agradeço a bondade de Nicolau Pietróvitch —
murmurou Fiênitchka.
— A senhora sente-se melhor aqui que no outro
aposento? — perguntou Páviel Pietróvitch delicadamente
e em tom sério.
— Muito melhor.
— Quem está ocupando agora o seu quarto?
— Lá estão agora as lavadeiras.
— Bem...
Páviel Pietróvitch guardou silêncio. "Já vai embora",
pensava Fiênitchka. Mas ele não saía e ela permanecia
de pé, torcendo devagar os dedos das mãos.
42
— Por que mandou levar o pequeno para fora? —
disse afinal Páviel Pietróvitch. — Gosto muito de crianças.
Quer mostrar-me seu filho?
Fiênitchka corou muito de acanhamento e alegria.
Tinha medo de Páviel Pietróvitch; nunca falava com
ela.
— Duniacha — chamou. — Pode trazer Mítia (Fiênitchka
tratava todos em casa por senhor ou senhora).
O senhor espere um pouco; preciso trocar a roupa de
Mítia.
Fiênitchka dirigiu-se para a porta.
— Não se incomode — disse-lhe Páviel Pietróvitch.
— Volto logo — respondeu Fiênitchka, saindo
apressadamente.
Páviel Pietróvitch ficou só. Olhou mais uma vez em
redor. O quarto pequeno e baixinho em que se achava
era limpo e confortável. Sentia-se ali um cheiro de
soalho recém-encerado e plantas aromáticas. Junto às
paredes estavam as cadeiras de espaldares em forma de
lira. Estes móveis tinham sido comprados pelo falecido
general, na Polônia, na época da sua expedição. Num
canto, o berço coberto de um cortinado de filó, ao lado
de um baú de ferro. Diante da imagem escura de São
Nicolau Taumaturgo, ardia uma pequena lâmpada. No
peito do santo, via-se um minúsculo ovo de porcelana
pendente de uma fita vermelha, iluminado pelos reflexos
da lâmpada. Nas janelas estavam as latas de doce em
calda, ainda do ano passado, cuidadosamente amarradas
e refletindo uma luz verde. Nas tampas se liam as
grandes letras escritas por Fiênitchka, indicando o nome
da fruta que serviu para fazer os doces de que gostava
muito Nicolau Pietróvitch.
Do teto pendia a gaiola com um pássaro de cauda
curta. O pássaro saltava e cantava sempre, balançando
a gaiola. Os grãos de alpiste caíam no chão com leve ruído.
43
Numa parede, sobre a pequena estante, achavam-
se péssimas fotografias de Nicolau Pietróvitch em poses
diversas, obra de um artista que por ali passara. Via-se
também a horrível fotografia de Fiênitchka: um rosto
sem olhos sorria forçado dentro de uma moldura negra;
o resto não se percebia. Sobre a fotografia de Fiênitchka,
a do General lermólov, de capote, contemplando
ameaçadoramente as montanhas distantes do Cáucaso,
debaixo de um sapatinho de seda destinado a prender
agulhas e alfinetes que lhe colocaram sobre a testa.
Passaram-se cinco minutos. No compartimento vizinho
ouvia-se um ruído. Páviel Pietróvitch pegou de
um móvel um livro ensebado: era um volume dos Arcabuzeiros
de Massaláki. Folheou algumas páginas... A
porta abriu-se e Fiênitchka entrou com Mítia no colo.
A criança vestia uma camisinha vermelha de gola bordada
e estava bem penteada e limpa. Respirava sofregamente,
agitava todo o corpo e sacudia os bracinhos,
como fazem todas as crianças. A camisa de um vermelho
vivo produziu grande impressão no espírito do pequeno.
O seu rostinho gorducho sorria de prazer.
Fiênitchka compôs os cabelos e ajeitou a écharpe
que trazia. Estava diferente. E, de fato, existe no mundo
alguma coisa mais bela do que uma jovem mãe com
um filho sadio nos braços?
— Que rapagão — disse carinhosamente Páviel Pietróvitch,
passando pelo queixo gordo de Mítia a longa
unha de seu dedo indicador. A criança viu o pássaro
da gaiola e sorriu.
— É seu tio — disse Fiênitchka, inclinando para o
filho a cabeça e agitando-a levemente, enquanto Duniacha
punha no parapeito da janela uma vela acesa e
fumarenta colada a uma moeda.
— Quantos meses tem ele? — indagou Páviel Pietróvitch.
— Seis. No dia onze faz sete.
44
— Não tem oito meses, Fiedóssia Nikoláievna? —
perguntou timidamente Duniacha.
— Sete meses! — O pequeno sorriu novamente, fitou
o baú e com os cinco dedos agarrou a mãe pelo nariz
e pelos lábios. — Travesso — disse Fiênitchka, sem
tirar o rosto dos dedos de seu filho.
— Parece-se muito com o meu irmão — observou
Páviel Pietróvitch.
"Com quem havia de parecer?", pensou Fiênitchka.
— Realmente — continuou Páviel Pietróvitch, como
se falasse consigo mesmo —, a semelhança é completa.
— Olhou para Fiênitchka com atenção e quase com
tristeza.
— É o titio — repetiu ela, agora em voz baixa.
— Olá, Páviel, você por aqui — foi a repentina
exclamação de Nicolau Pietróvitch.
Páviel Pietróvitch voltou-se depressa, mal-humorado.
Seu irmão, porém, olhava-o com tal sentimento de gratidão,
que não pôde deixar de responder-lhe com um
sorriso.
— Que bonito filho você tem — disse, olhando o
relógio. — Vim aqui por causa do chá.
Afetando expressão de indiferença, Páviel Pietróvitch
saiu do quarto.
— Veio sozinho? — perguntou Nicolau Pietróvitch
a
Fiênitchka.
— Sim; bateu e entrou.
— E Arcacha não esteve mais aqui?
— Não. Convém que eu mude para outro aposento,
não acha, Nicolau Pietróvitch?
— Para quê?
— Penso que seria melhor, durante os primeiros dias.
— Não — falou hesitante Nicolau Pietróvitch, passando
a mão pela testa. — Teria sido melhor antes...
Bom dia, gorducho — disse ele com repentina vivacidade,
e, aproximando-se do filho, beijou-o na face.
45
Em seguida, curvando-se um pouco, encostou seus lábios
na mão de Fiênitchka, que aparecia branca como leite
no vermelho intenso da camisinha de Mítia.
— Que faz, Nicolau Pietróvitch? — murmurou ela,
baixando os olhos e depois levantando-os devagarinho.
Deliciosamente tristes eram a sua expressão e o brilho
dos olhos, quando queria parecer severa, ao mesmo
tempo que sorria carinhosamente,
Eis como Nicolau Pietróvitch conhecera Fiênitchka:
Há três anos, precisara passar uma noite na hospedaria
de uma cidade distante da província. Ficou agradavelmente
impressionado com a limpeza do quarto
onde dormia e com a alvura dos lençóis da cama. "Será
alemã a dona desta casa?", pensou. Mas a dona da
hospedaria era uma russa, mulher de uns cinqüenta
anos de idade, bem trajada, de expressão inteligente e
nobre e falar tranqüilo e reservado. O hóspede travou
com ela conversação, enquanto tomava o chá. Ela agradou-
lhe muito. Nicolau Pietróvitch tinha mudado havia
pouco para a sua nova fazenda e, não querendo manter
servos, pagava o serviço dos empregados libertos.
A dona da hospedaria, por sua vez, queixava-se da
escassez dos hóspedes e dos tempos difíceis. Ele propôs-
lhe um emprego de governante em uma casa. Ela concordou.
Seu esposo tinha falecido há tempo, deixando-
lhe uma filha única, Fiênitchka.
Duas semanas depois, Arina Sávichna (nome da governante)
chegou em companhia da filha a Mariino e
instalou-se num pequeno apartamento. A escolha de
Nicolau Pietróvitch foi ótima. Arina pôs a casa em
ordem. Fiênitchka, que então completara dezessete
anos de idade, passava despercebida. Levava uma vida
tranqüila, modesta e só aos domingos Nicolau Pietróvitch
lhe descobria a presença na igreja, sempre à parte,
com o seu perfil pálido. Assim passou mais de um ano.
Uma certa manhã, Arina apareceu no seu gabinete e,
46
fazendo uma reverência segundo o costume da casa,
perguntou-lhe se não podia socorrer sua filha. Um
argueiro lhe entrara nos olhos. Nicolau Pietróvitch,
como todos os homens caseiros, pôs-se logo a tratar-lhe
da vista e até mandou vir remédios de homeopatia, chamando
a pequena à sua presença. Sabendo que o amo
a chamava, Fiênitchka ficou com muito medo e foi ter
com ele, em companhia da mãe. Nicolau Pietróvitch
fê-la chegar junto à janela e tomou-lhe a cabeça com
ambas as mãos. Depois de examinar bem a sua vista
vermelha e inflamada, receitou-lhe o remédio, que ele
mesmo preparou na hora. Rasgando o seu próprio lenço
em pedaços, mostrou como se devia aplicar o medicamento.
Fiênitchka, depois de ouvi-lo, quis sair. "Beije
a mão do senhor, bobinha", disse-lhe Arina. Nicolau
Pietróvitch não lhe deu sua mão e, embaraçado, beijou-
lhe a fronte. A vista de Fiênitchka sarou logo, mas a
impressão que ela produziu em Nicolau Pietróvitch não
passou tão depressa. Ele sonhava com aquele rosto puro,
delicado, e timidamente erguido. Sentia, ao contato dos
dedos, aqueles cabelos macios. Via aqueles lábios inocentes
e semi-abertos, descobrindo as pérolas dos dentes,
que brilhavam discretamente. Começou então a namorá-
la na igreja, esforçando-se por falar com ela. Ao princípio,
Fiênitchka tinha medo dele. Um dia, à tarde,
encontrou-o numa trilha estreita, passagem pouco transitável,
que os pedestres abriram num campo de centeio.
Ela entrou na alta e densa plantação de centeio, cheia
de ervas daninhas e flores, com o único propósito de
evitar o encontro. Nicolau Pietróvitch viu sua cabecinha
através das espigas douradas, de onde ela o espiava
como uma gatinha medrosa. Gritou carinhosamente:
— Bom dia, Fiênitchka! Pode aproximar-se. Não
mordo.
— Bom dia — murmurou, sem sair do esconderijo.
Pouco a pouco ela começou a habituar-se à sua presença.
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Mas ainda receava Nicolau Pietróvitch. Por esse
tempo, sua mãe Arina morreu de cólera. Onde havia
de ir, a pobre Fiênitchka? Herdara da mãe o amor à
ordem, o raciocínio e a calma. Era muito moça e tão
sozinha! Nicolau Pietróvitch tão bom e modesto! E
aconteceu o que devia acontecer.
— Então meu irmão veio visitá-la? — inquiriu Nicolau
Pietróvitch. — Bateu e entrou?
— Sim.
— Está muito bem. Deixe distrair um pouco Mítia.
E Nicolau Pietróvitch lançou ao ar seu filho, quase
até o teto, com grande prazer do pequeno e intranqüilidade
da mãe, que, a cada salto do menino, estendia os
braços em direção às suas perninhas nuas.
Páviel Pietróvitch voltou ao seu elegante gabinete,
de paredes enfeitadas com papel de aspecto impressionante,
a coleção de armas sobre um pitoresco tapete
persa, o mobiliário de nogueira forrado de verde-escuro,
a biblioteca renaissance* de estantes de carvalho negro,
uma mesa cheia de estatuetas de bronze e a lareira...
Deixou-se cair no sofá, apoiou a cabeça nas mãos e
ficou, assim, examinando com desespero o teto. Quem
sabe se queria ocultar das próprias paredes as modificações
da sua fisionomia. Ergueu-se, abriu as pesadas
cortinas das janelas e novamente se instalou no sofá...
IX.
No mesmo dia Bazárov travou conhecimento com
Fiênitchka. Em companhia de Arcádio, ele passeava
pelo jardim, e explicava ao amigo por que certas árvores,
de preferência as mudas de carvalho, não tinham
pegado ainda.
— Convém que se plantem aqui mais choupos e mais abetos,
* Renascença. De estilo renascentista.
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assim como tílias, pondo-lhes um pouco de
terra preta. Veja como o caramanchão ficou florido e
bonito — disse ele. — Isso porque as acácias e outras
plantas do caramanchão não exigem muito tratamento.
Espere, aqui deve estar alguém.
No caramanchão achava-se Fiênitchka com Duniacha
e Mítia. Bazárov estacou, enquanto Arcádio saudava
Fiênitchka, como um velho amigo.
— Quem é? — perguntou Bazárov, quando passaram
o caramanchão. — É bonita de verdade!
— A quem se refere?
— Já sabe a quem: à única mulher bonita deste
lugar.
Arcádio, embaraçado, explicou-lhe em poucas palavras
quem era Fiênitchka.
— Extraordinário! — disse Bazárov. — Seu pai tem
bom gosto. Agrada-me muito o velho, palavra de honra!
É um homem. Estou, porém, na obrigação de ser apresentado
a ela — concluiu, dirigindo-se ao caramanchão.
— Eugênio! — exclamou com espanto Arcádio. —
Muito cuidado, por amor do Altíssimo.
— Não se preocupe — respondeu Bazárov. — Somos
homens experientes, porque já vivemos nas cidades.
Aproximando-se de Fiênitchka, descobriu-se.
— Permita que me apresente — começou, numa distinta
reverência. — Sou amigo de Arcádio Nikoláievitch
e pessoa incapaz de fazer mal ao próximo.
Fiênitchka levantou-se do banco. Fitava-o em silêncio.
— Que linda criança! — foi dizendo Bazárov. —
Não se incomode: nunca fui capaz de mau olhado. Por
que o pequeno tem as faces tão vermelhas? Serão os
dentes que nascem?
— É isso mesmo — respondeu Fiênitchka. — Já
lhe nasceram quatro dentinhos. As gengivas incharam
de novo.
49
Pode mostrar-me, Não tenha medo, porque
sou médico.
Bazárov tomou a criança nos braços. Com grande
pasmo de Fiênitchka e Duniacha, o pequeno não lhe
ofereceu a mínima resistência. Nem chorou, assustado
com o gesto.
— Já estou vendo,.. tudo vai muito bem. Será uma
dentadura excelente. Se alguma coisa acontecer, avise-
me. A senhora passa bem?
— Sim, senhor, grátis a Deus.
— Isto é que serve. E a senhora? — disse, dirigindo-
se a Duniacha.
Duniacha, jovem muito séria em casa e divertida fora,
respondeu com um significativo muxoxo.
— Está muito bem. Confio o gigante aos seus cuidados.
Fiênitchka recebeu dele o filho.
— Ficou tão quietinho nos seus braços — disse ela
baixinho.
— As crianças sempre ficam quietas comigo — respondeu
Bazárov. — Conheço um segredo para acalmá-
las.
— As crianças sentem a presença de quem as ama
— observou Duniacha.
— É verdade — confirmou Fiênitchka. — Quer
uma prova? Mítia não gosta de que pessoa alguma o
tome nos braços.
—- Gostará de mim? — perguntou Arcádio, que, depois
de permanecer por algum tempo a distância, aproximou-
se do caramanchão.
Ele fez um gesto convidativo a Mítia, porém Mítia
voltou-lhe as costas e chorou rumorosamente, o que impressionou
muito Fiênitchka.
— Será para outra vez, quando se acostumar — disse
Arcádio, e ambos os amigos se afastaram.
— Como se chama? — indagou Bazárov.
50
— Fiênitchka... Fiedóssia — respondeu Arcádio.
— É seu prenome por parte do pai? Convém sabê-lo.
— Nikoláievna.
— Bem. O que me agrada nela é o seu excessivo
acanhamento. Outra pessoa talvez julgasse tratar-se de
um defeito. Que tolice! Por que tanto acanhamento? É
mãe, e tem razão de ser assim.
— Tem muita razão — disse Arcádio. — Não sei
se a tem meu pai,..
— Também tem razão — interrompeu Bazárov.
— Acho que não.
— Vejo que um herdeiro a mais não lhe agrada!
— Você não se envergonha de atribuir-me semelhantes
pensamentos! — exclamou com calor Arcádio. —
Não é sob este ponto de vista que censuro meu pai.
Acho que devia casar-se com ela.
— Hein? — murmurou tranqüilamente Bazárov. —
Veja só como somos generosos! Você atribui tanta importância
ao matrimônio, coisa que eu não esperava.
Os amigos deram alguns passos em silêncio.
— Examinei todas as instalações da fazenda de seu
pai — recomeçou Bazárov. — O gado é péssimo e os
animais de trabalho fraquíssimos. As edificações também
não prestam. Os trabalhadores parecem indolentes
e relaxados. Quanto ao administrador, ou é idiota ou
um finório. Ainda não cheguei a uma conclusão definitiva.
— Está de uma severidade única> Eugênio Vassílievitch.
— Os nossos bons mujiques enganarão seu pai estupendamente.
Conhece o provérbio: "O mujique russo é
capaz de enganar o próprio Deus"?
-— Começo a concordar com meu tio — observou
Arcádio. — Você faz um péssimo juízo dos russos.
— Que grande novidade! O russo somente é bom
porque faz um péssimo juízo de si mesmo.
51
Importa-lhe muito que dois mais dois sejam quatro. O resto nada
vale.
—- E a natureza não vale coisa alguma? —disse Arcádio,
estendendo o olhar pelos campos suavemente iluminados
pelo sol do ocaso.
-A própria natureza nada tem de interessante, no
sentido em que a concebe. Não é um templo e sim uma
oficina em que o homem trabalha.
Sons lentos e suaves de violoncelo vinham da casa.
Alguém tocava, mal, porém com sentimento, a Attente
de Schubert. A melodia pairava no ar como um perfume
suavíssimo.
— Que é isso? — disse admirado Bazárov.
— É meu pai que está tocando.
— Seu pai toca violoncelo?
— Toca.
— Quantos anos tem seu pai?
— Quarenta e quatro anos.
Bazárov desatou a rir às bandeiras despregadas.
— Por que se ri?
— Veja só! Aos 44 anos de idade, o homem, pater
famílias, em plena província, toca violoncelo!
Bazárov continuou rindo. Mas Arcádio, por maior
respeito que nutrisse pelo preceptor, desta vez sequer
sorriu.
X.
Passaram-se duas semanas. A vida em Mariino decorria
como sempre: Arcádio não fazia coisa alguma e
Bazárov trabalhava. Todos em casa se habituaram a
Bazárov, às suas maneiras desembaraçadas e aos seus
discursos sintéticos. Fiênitchka, em particular, fez tão
boas relações com ele que uma vez, durante a noite,
mandou acordá-lo porque Mítia teve cãibras.
52
Bazárov atendeu-a, alegre e bocejando. Passou em sua companhia
umas duas horas e curou o menino. Páviel Pietróvitch
já detestava profundamente Bazárov. Considerava-
o orgulhoso, mal-educado, cínico e plebeu. É porque
sentia que Bazárov não tinha o mínimo respeito
pela sua pessoa e que o desprezava, a ele, Páviel Kirsánov!
Nicolau Pietróvitch jamais teve receio do jovem
niilista. Não acreditava na sua influência sobre a educação
de Arcádio, Ouvia-o de boa vontade, e com grande
prazer presenciava suas experiências de física e química.
Bazárov trouxera seu microscópio. Horas inteiras
passava lidando com o instrumento. Os criados gostavam
muitíssimo dele, apesar das suas ironias. É porque
sabiam instintivamente que era um igual e não um senhor.
Duniacha já conversava e ria à vontade e, de soslaio,
significativamente, observava Bazárov, ao passar
em frente do seu quarto. Piotr, homem extremamente
egoísta e tolo, com as eternas rugas na testa, homem
cuja dignidade consistia somente num olhar respeitoso,
em saber ler por sílabas e em limpar com pequena escova
seu casaco, também sorria e se alegrava, quando
Bazárov lhe dirigia a palavra. Os meninos da fazenda
seguiam o "doutor" como cachorrinhos. Só o velho Prokófitch
não o apreciava. Servia-o à mesa, chamando-lhe
"canibal" e "vagabundo", e tentando convencer a todos
de que ele, com as suas suíças, não passava de um porco.
Prokófitch, à sua maneira, era um aristocrata, como
Páviel Pietróvitch.
Chegaram os melhores dias do ano, o mês de junho.
O tempo era esplêndido. Havia no ar uma certa ameaça
de cólera, o que já não impressionava os habitantes da
província que se tinham habituado à visita do mal. Bazárov
levantava-se muito cedo e dirigia-se a um lugar
distante 2 ou 3 quilômetros, não com o intuito de simples
passeio — não suportava passeios inúteis —, mas
sim para colher ervas úteis e interessantes e insetos.
53
Ia às vezes em companhia de Arcádio. Na volta, comumente
discutiam, e Arcádio sempre era o derrotado, embora
falasse muito mais que o amigo.
Um dia demoraram-se mais que de costume. Nicolau
Pietróvitch saiu-lhes ao encontro, pelo jardim, e, aproximando-
se do caramanchão, ouviu passos rápidos e as
vozes de ambos os moços. Vinham do outro lado do caramanchão
e não podiam perceber a sua presença.
— Não conhece meu pai suficientemente — dizia
Arcádio.
Nicolau Pietróvitch escutava.
— Seu pai é boa pessoa — retorquiu Bazárov —,
mas é um homem acabado. Nada mais pode dar.
Nicolau Pietróvitch ouvia atentamente... Arcádio
nada respondeu a seu amigo.
O "homem acabado" permaneceu ali dois minutos,
imóvel, e encaminhou-se lentamente para casa.
— Há três dias percebi que ele está lendo Púchkin
— disse ainda Bazárov. — Você é que pode explicar-
lhe que isso não presta. Já não é criança. É tempo de
deixar essas tolices. Que prazer pode ter ele em ser romântico
no tempo de hoje? Deve dar-lhe um livro útil
para ler.
— Que livro posso recomendar-lhe? — perguntou
Arcádio.
— Que leia, por exemplo, a Força e Matéria, de
Buechner.
— Assim penso também — aprovou Arcádio. —
Força e Matéria é uma obra escrita em linguagem acessível.
— Está vendo que somos homens completamente
acabados — dizia no mesmo dia, depois do jantar, Nicolau
Pietróvitch ao seu irmão, no gabinete deste último.
— Por que não? É possível que Bazárov tenha razão.
O que, porém, me confunde, é o seguinte: eu queria
fazer-me amigo íntimo de Arcádio, e no entanto verifico
54
que sou um homem atrasado. Ele adiantou-se e
nós não nos podemos compreender um ao outro.
— Em que, afinal, consiste o seu adiantamento? Que
o distingue tanto de nós? — exclamou impaciente Páviel
Pietróvitch. — Quem lhe encheu a cabeça foi o senhor
niilista. Detesto aquele esculápio. Para mim, não
passa de um charlatão. Estou convencido de que, com
todas as suas rãs, pouco entende de física.
— Não diga isso. Bazárov é inteligente e culto.
— E detestavelnente presunçoso — acrescentou Páviel
Pietróvitch.
— Efetivamente — observou Nicolau Pietróvitch.
— É egoísta. O que não compreendo é o seguinte: parece
que faço tudo de acordo com a época; instalei os
mujiques, organizei uma fazenda, e, por isso, em toda
a província sou chamado de vermelho. Leio, estudo e
quero estar ao alcance das exigências modernas. E eles
afirmam que sou um homem acabado. Começo a acreditar
que realmente o sou.
— Por quê?
— Vou dizer-lhe por quê. Hoje estava lendo Púchkin...
Parece-me que o seu poema Os Ciganos... De
repente entra Arcádio. Chega-se para junto de mim e,
calmamente, com um ar de certa compaixão, arrebata-
me o livro, como se se tratasse de uma criança, oferecendo-
me a seguir um outro escrito em alemão. Sorriu
e levou as obras de Púchkin.
— Fantástico! E que livro lhe deu?
— Está aqui.
Nicolau Pietróvitch tirou do bolso do paletó a nona
edição de Buechner.
Páviel Pietróvitch examinou-a.
— Bem — resmungou. — Arcádio Nikoláievitch
preocupa-se muito com sua educação. Já experimentou
ler isso?
55
— Já.
— Gostou?
— Ou sou um imbecil ou tudo isso é absurdo. Acredito
que sou um idiota.
— Esqueceu a língua alemã? — perguntou Páviel
Pietróvitch.
— Não. Ainda compreendo bem o alemão.
Páviel Pietróvitch examinou novamente o livro e
olhou para o irmão.
Ambos ficaram calados.
— A propósito — insinuou Nicolau Pietróvitch, para
mudar de conversa —, recebi uma carta de Koliássin.
— De Mateus Ilitch?
— Dele mesmo. Acaba de chegar à nossa cidade, a
fim de inspecionar a província. Subiu muito na sua carreira.
Escreve-me que deseja, na qualidade de parente,
ver-nos, e convida-nos com Arcádio para lhe fazer uma
visita.
— Você vai? — perguntou Páviel Pietróvitch.
— Não. E você?
— Nem eu. Que necessidade tenho de fazer 50 quilômetros
sem nenhum motivo importante? Mathieu quer
aparecer-nos em todo o esplendor da sua glória. Que vá
para o diabo! Bastar-lhe-á a bajulação da capital da
província. Que dispense a nossa presença. Grande coisa
ser um conselheiro privado! Se eu continuasse a servir
no exército, seria hoje um general de divisão ou mais
ainda. Além disso, somos homens acabados.
—- Sim. Parece que é tempo de prepararmos o nosso
caixão e cruzarmos as mãos no peito — observou com
um suspiro Nicolau Pietróvitch.
— Não me renderei tão facilmente — disse seu irmão.
— Hei de lutar ainda com esse esculápio. Pressinto
a luta.
A luta efetivamente teve lugar no mesmo dia, por
ocasião do chá da tarde. Páviel Pietróvitch entrou na
56
sala de visitas pronto para a batalha, mal-humorado e
resoluto. Esperava apenas um pretexto para atacar o
inimigo.
O pretexto demorava muito. Bazárov falava muito
pouco na presença dos "velhos Kirsánov" (assim chamava
a ambos os irmãos). Naquela tarde sentia-se indisposto.
Tomava seu chá aos copos, calado. Páviel Pietróvitch
ardia todo de impaciência. Seus desejos afinal
se realizaram.
A palestra girava em torno de um dos fazendeiros vizinhos.
"Um aristocratóide crápula* — observou impassível
Bazárov, que costumava encontrar a referida
pessoa em São Petersburgo.
— Permita que lhe pergunte uma coisa — começou
Páviel Pietróvitch, e seus lábios tremiam. — Segundo
sua opinião, as palavras "crápula" e "aristocrata" significam
a mesma coisa?
— Eu disse "aristocratóide" — respondeu Bazárov,
tomando devagar mais um gole de chá.
— Assim o compreendo. Suponho que o senhor tem
a mesma opinião dos aristocratas e dos aristocratóides.
Devo declarar-lhe que não compartilho esse modo de
pensar. Ouso dizer ainda que sou conhecido como um
homem liberal e progressista. Por isso mesmo respeito
os verdadeiros aristocratas. Lembre-se, meu caro senhor
(ao ouvir estas palavras Bazárov fixou seu olhar em
Páviel Pietróvitch), lembre-se, meu caro senhor — repetiu
irritado —, dos aristocratas ingleses. Eles não
desistem do mínimo dos seus direitos e respeitam os
alheios. Exigem que se cumpram todas as obrigações
para com eles e por isso mesmo cumprem suas obrigações.
A aristocracia libertou a Inglaterra e defende a
sua liberdade.
— Já ouvimos essa cantiga muitas vezes — obtemperou
Bazárov. — Que quer o senhor provar com isso?
— Com isso, meu caro senhor (Páviel Pietróvitch,
57
quando se zangava, proferia a palavra "isso" contra todas
as regras da gramática. Era um reminiscência dos
tempos do Czar Alexandre. Os nobres de então pronunciavam-
na às vezes assim, variando um pouco a pronúncia,
porque se consideravam russos legítimos, da nobreza
tradicional e superiores às regras gramaticais escolares),
com isso, caríssimo senhor, quero demonstrar
que, sem a noção da sua própria dignidade, sem o respeito
de si mesmo — num aristocrata estes sentimentos
estão particularmente evoluídos —, não existe nenhuma
base sólida do bien public* ou do edifício social. O
mais importante, caro senhor, é a personalidade. A personalidade
humana deve ser resistente como rochedo,
porque sobre ela tudo se constrói. Sei perfeitamente, por
exemplo, que o senhor julga ridículos ou contraproducentes
os meus hábitos, meu vestuário e minha decência,
afinal. Tudo decorre dos sentimentos de respeito
próprio, do sentimento do dever, sim, do dever. Vivo
no campo, no sertão, mas não me abastardo. Respeito
em mim um homem.
— Perdoe-me, Páviel Pietróvitch — disse Bazárov,
— O senhor respeita a sua personalidade e está aqui
sem fazer coisa alguma. Que utilidade advém para o
bien publicl Seria melhor que não se respeitasse e fizesse
alguma coisa de proveitoso.
Páviel Pietróvitch empalideceu.
— Trata-se de um outro assunto. Não lhe devo dar
satisfação neste momento sobre o porquê da minha inatividade,
como o senhor acaba de defini-la. Quero dizer
apenas que a aristocracia é um princípio. Sem princípios,
na nossa época, só podem viver homens amorais
ou nulos. Já o disse a Arcádio no dia seguinte à sua
chegada e repito-lhe agora. Não é assim, Nicolau?
Nicolau Pietróvitch meneou afirmativamente a cabeça.
* Bem público.
58
— O aristocratismo, o liberalismo, o progresso, os
princípios! — disse Bazárov. — Quantas palavras estranhas
e inúteis! O russo não precisa delas.
— De que precisa o russo? Se dermos crédito às
suas palavras, estamos deslocados da humanidade e fora
das suas leis. Perdoe-me, mas a lógica da História
exige...
— De que nos serve essa lógica? Passamos muito
bem sem ela.
— Como?
— Facilmente. Acho que o senhor não precisa de
lógica para pôr um pedaço de pão na boca, quando tem
fome. De que nos servem essas dilações?
Páviel Pietróvitch deu de ombros.
— Não o compreendo. O senhor ofende o povo russo.
Não sei como é possível negar os princípios, as normas.
Em que se baseia o senhor para se expressar assim?
— Já lhe disse, meu tio, que nós não reconhecemos
autoridades — interveio Arcádio.
— Nós agimos baseados na força do que reconhecemos
útil — disse Bazárov.
— Na época atual o mais útil é negar. Por isso negamos.
— Tudo?
— Tudo.
— Como? Não só a arte, a poesia... mas... é pavoroso
dizê-lo...
— Tudo — com estupenda calma, repetiu Bazárov.
Páviel Pietróvitch examinou-o fixamente. Nunca esperara
semelhante conclusão. Por sua vez, Arcádio até
corou de prazer.
— Vamos devagar — disse Nicolau Pietróvitch. —
Vocês negam tudo, ou, por outra, destroem tudo... É
necessário também construir.
— Não nos compete. Primeiramente é preciso desimpedir
o lugar.
59
— A situação atual do povo assim o exige — acrescentou
com importância Arcádio. — Devemos atender
a essas exigências. Não temos o direito de satisfazer apenas
o nosso egoísmo pessoal,
Estas últimas palavras visivelmente não agradaram a
Bazárov. Encerravam um quê de filosofia, isto é, de romantismo,
porque Bazárov considerava a própria filosofia
como uma simples digressão romântica. Não julgou,
entretanto, necessário contradizer seu jovem discípulo.
— Não e não! — exclamou com repentina energia
Páviel Pietróvitch. — Não quero crer que os senhores
conheçam a fundo o povo russo e sejam representantes
das suas necessidades e tendências! Não. O nosso povo
é diverso do que os senhores imaginam. Guarda e respeita
escrupulosamente suas tradições. É patriarcal e
não pode viver sem fé...
—- Não quero discutir esse ponto — interrompeu
Bazárov. — Estou até pronto a afirmar que nisso o senhor
tem toda a razão...
— Se tenho razão...
— Assim mesmo nada prova.
— Efetivamente, nada prova — repetiu Arcádio com
a convicção de um experimentado jogador de xadrez
que prevê um lance arriscado do seu adversário e não
se atrapalha.
— Como nada prova? — exclamou admirado Páviel
Pietróvitch. — Suponho que pretendem lutar contra
o seu próprio povo?
— Se for preciso... — redarguiu Bazárov. — O
povo, quando ouve a trovoada, julga que o profeta Elias
está passeando pelo céu no seu carro de fogo. Devo,
neste caso, concordar com o povo? Além disso, estamos
falando do povo russo, e, porventura, não sou russo?
60
— Não. Deixa de ser russo depois do que acabou de
dizer! Não posso reconhecê-lo como meu compatriota.
— Meu avô cultivava a terra — disse com orgulho
Bazárov. — Pergunte a qualquer de seus mujiques: em
quem, de nós dois, ele reconhece seu compatriota? Ele
tem uma extraordinária capacidade de discernimento.
O senhor nem sabe falar com ele.
— O senhor fala com o mujique e despreza-o ao mesmo
tempo.
— E se merece o desprezo? Acusa o meu modo de
ver e julgar o assunto. Quem lhe disse que este ponto de
vista não é casual em mim e que não é suscitado pelo
próprio espírito do povo, em nome de quem está pontificando?
— Naturalmente! Os niilistas são muito necessários!
— Não nos cabe sabê-lo. O senhor também se julga
um homem útil.
— Meus senhores, evitemos por favor questões pessoais!
— exclamou, erguendo-se, Nicolau Pietróvitch.
Páviel Pietróvitch sorriu e, pondo a mão no ombro
do seu irmão, fê-lo sentar-se novamente.
— Não se impressione — disse. — Não me excederei
em conseqüência exatamente daquele sentimento de
dignidade tão criticado por este senhor... Senhor doutor:
permita-me perguntar-lhe — continuou, dirigindo-
se de novo a Bazárov — se por acaso supõe que a sua
doutrina é nova? Pura imaginação. O materialismo que
prega já é velho e sempre pecou por falta de base...
— Mais uma palavra estranha! — interrompeu Bazárov,
que começava a exasperar-se. Sua face tornara-se
rude e cor de cobre. — Em primeiro lugar, não pregamos
coisa alguma. Não é o nosso hábito...
— Que fazem então?
— Vou dizer-lhe o que fazemos. Antes, ainda há
pouco, dizíamos que os nossos funcionários-públicos
61
recebiam gorjetas, não tínhamos nem estradas, nem comércio,
nem um júri decente...
— Compreendo. Os senhores são caluniadores, e
assim posso expressar-me. Com algumas das suas acusações
concordo, mas...
— E, em seguida, percebemos que não vale a pena
tocar somente nas nossas chagas. Seria uma vulgaridade
e doutrinismo. Vimos que os nossos intelectuais ou
os homens da vanguarda, acusadores ou caluniadores,
não servem para coisa alguma, que nos ocupamos de
parvoíces, discutimos sobre uma certa arte, a criação
inconsciente, o parlamentarismo, a justiça e tanta coisa
inútil, quando o problema consiste no pão de cada
dia, quando uma superstição brutal nos sufoca, quando
todas as nossas sociedades comerciais ou industriais
por ações rebentam, porque faltam homens honestos,
quando a própria liberdade, que tanto preocupa
o governo, dificilmente nos será proveitosa, porque o
nosso mujique é capaz de roubar a si mesmo, só para
se embriagar na taberna.
— Bem — interrompeu Páviel Pietróvitch —, concordo
provisoriamente. Convenceu-se de tudo isso e resolveu
não se ocupar seriamente de coisa alguma.
— Resolvemos realmente não nos preocupar com
coisa alguma — repetiu em tom lúgubre Bazárov. Invadia-
o uma raiva de si mesmo pelo fato de ter-se expandido
tanto com aquele aristocrata.
— E somente ofender tudo e a todos? — continuou
o aristocrata.
— Ofender também.
— É o niilismo?
— É o niilismo — repetiu Bazárov com ar de desafio.
Páviel Pietróvitch fechou de leve seus olhos.
— Agora compreendo! — disse com voz esquisitamente
calma. — O niilismo deve auxiliar-nos em todas as desgraças.
62
Os senhores são nossos salvadores e heróis.
Sim. Porque nesse caso acusam os próprios acusadores.
Não vivem de palavras vãs como os demais.
— Podemos ter outros pecados, menos esse — disse
Bazárov.
— Como? Os senhores agem? Pretendem agir?
Bazárov nada respondeu; Páviel Pietróvitch teve um
estremecimento e logo reconquistou o domínio de si
mesmo.
— Sim... agir, destruir — continuou. — Destroem
sem saber para quê?
— Destruímos, porque somos uma força — explicou
Arcádio.
-— Páviel Pietróvitch olhou para seu sobrinho e sorriu.
— Sim, somos uma força que age livremente — insistiu
Arcádio com veemência.
— Desgraçados! — gritou Páviel Pietróvitch. Perdeu
definitivamente o controle de si mesmo. —- Se ao
menos pensasse no que, na Rússia, você está defendendo
com essa vulgaridade! Não. Tudo isso é de fazer
perder a paciência a um anjo! Força! Num selvagem,
num mongol também existe força. De que nos serve ela?
É-nos cara a civilização. São-nos caros os seus frutos.
Não me diga que os frutos da civilização nada valem.
O último dos indecentes, um barbouilleur*, um escamoteador
de jogo que recebe cinco moedas por noite
são mais úteis do que os senhores, porque representam
a civilização e não a força brutal dos mongóis! Pensam
os senhores que são homens da vanguarda. Estariam
bem numa cabana de selvagens! Força! Lembrem-se,
afinal, senhores da força, de que são apenas quatro pessoas
e meia, e contra os senhores existem milhões que
não lhes permitirão calcar aos pés suas crenças sagradas.
Esmagá-los-ão!
Tagarela, trapalhão.
63
— Se esmagarem, assim é preciso — disse Bazárov.
— Mas não somos tão poucos como o senhor supõe.
— Como? Pretende chegar seriamente a um acordo
com todo o povo?
— Saiba o senhor que a cidade de Moscou já foi
destruída pelo incêndio causado por uma vela de 1 copeque
— respondeu Bazárov.
— Vejo primeiramente um orgulho quase satânico.
Depois, sacrilégio. Aí está o que preocupa a mocidade!
Aí está o que domina os corações inexperientes dos meninos
de hoje! Olhe este aqui que está sentado a seu lado.
Só falta rezar para o senhor (Arcádio fitou-o, sério).
Esse mal já se espalhou demasiado, contaminando muitos.
Disseram-me que em Roma os nossos artistas não
visitam nunca o Vaticano, consideram idiota a Rafael,
só porque ele é autoridade. Eles mesmos não têm talento.
São verdadeiras nulidades. A sua fantasia ou imaginação
não vai além da Jovem da Fonte, quando chega
para tal.O senhor conhece o valor artístico desse quadro,
péssimo em todos os sentidos. Segundo sua opinião,
será (essa atitude) um defeito ou ótima qualidade?
— Segundo minha opinião — respondeu Bazárov
—, nem Rafael vale um ceitil, nem os nossos são melhores
do que Rafael.
— Bravo! Ouça, Arcádio... Assim devem pensar
os moços de hoje! Como, nesse caso, não hão de seguilos!
Antigamente os moços eram obrigados a estudar:
não queriam passar por imbecis e por isso trabalhavam.
Agora basta que afirmem: "Tudo no mundo não tem
valor!" E está bem. A juventude ficou satisfeita. Outrora
os moços eram simples idiotas ou inúteis, hoje se tornaram
de súbito niilistas.
— Traiu-o o seu sentimento, tão proclamado, da
própria dignidade — observou fleumático Bazárov,
enquanto Arcádio assumia um ar importante e seus
olhos brilhavam. — A nossa discussão foi muito longe...
64
É melhor terminá-la. Concordarei somente com
o senhor — acrescentou, Levantando-se — quando me
indicar uma só instituição da nossa época, social ou familiar,
que não seja passível de uma negação completa
e irrefutável.
— Posso apresentar-lhe milhões de semelhantes instituições
e princípios — exclamou Páviel Pietróvitch. —
Milhões! A comunidade, por exemplo.
Um sorriso frio aflorou aos lábios de Bazárov.
— Quanto à comuna camponesa — respondeu —,
é melhor que fale aqui com o seu irmão. Ele, parece-
me, já experimentou na prática o que é comuna. Ônus
comum, temperança e outras coisas mais.
— E, finalmente, a família, sim, a família tal como
existe entre os nossos mujiques! — exclamou Páviel
Pietróvitch.
— Também essa questão deve ser examinada melhor
pelo senhor do que por ninguém. Já ouviu falar
em casamenteiros? Ouça-me, Páviel Pietróvitch. Bastam
dois dias de prazo e terá qualquer coisa. Examinem todas
as nossas classes sociais e pensem bem em cada uma,
enquanto nós, eu e Arcádio...
— Rir-se-ão de tudo e de todos — sugeriu Páviel
Pietróvitch.
— Não. Iremos dissecar as rãs. Vamos, Arcádio. Até
logo, senhores!
Ambos os amigos saíram. Os irmãos ficaram a sós.
A princípio entreolharam-se.
— Aí está — disse afinal Páviel Pietróvitch. —
É a mocidade de hoje! São os nossos herdeiros!
— Herdeiros — repetiu tristemente, com um suspiro,
Nicolau Pietróvitch. Durante toda a discussão se sentia
mal e só de soslaio contemplava Arcádio. — Sabe
de que me lembrei, mano? Uma vez discuti com minha
mãe. Ela, zangada, não me queria ouvir... Finalmente
eu lhe disse que não podia compreender-me porque
65
pertencíamos a gerações diversas. Ela sentiu-se profundamente
ofendida, e eu pensei: "Que hei de fazer? A
pílula é amarga, mas é necessário engoli-la". Chegou
agora a nossa vez. Os nossos herdeiros ou descendentes
podem declarar-nos: "Vocês não são da nossa geração*".
— Você é demasiado generoso e modesto — respondeu
Páviel Pietróvitch. — Eu, pelo contrário, estou convencido
de que ambos temos muito mais razão do que
esses senhores, ainda que nos expressemos, possivelmente,
numa linguagem um tanto antiquada, vieille*, sem
possuir aquela confiança ousada... Como é presunçosa
a mocidade de hoje! A gente pergunta a qualquer
moço: "Que vinho prefere, tinto ou branco?" "Costumo
tomar vinho tinto!", responde em tom grave e com
tanta importância, como se todo o universo o contemplasse
nesse momento...
— O senhor não quer mais chá? — disse Fiênitchka,
cuja cabecinha apareceu de repente à porta. Não se
atrevia a entrar na sala de visitas, enquanto ouvia ali
as vozes dos que discutiam.
— Não. Pode levar o samovar, ou mande que alguém
o leve — respondeu Nicolau Pietróvitch, indo ao
seu encontro. Páviel Pietróvitch disse-lhe um breve bon
soir** e fechou-se no seu gabinete.
XI.
Meia hora depois, Nicolau Pietróvitch foi ao jardim,
ao seu caramanchão predileto. Estava sob a influência
de pensamentos tristes. Pela primeira vez mediu a distância
que o separava do filho. Pressentia que, com o
tempo, essa distância aumentaria cada vez mais.
Pareceu-lhe que, por ocasião do inverno, passara inutilmente
* Velha,
** Boa tarde.
66
dias inteiros em São Petersburgo, lendo as obras mais
recentes. Em vão ouvia atentamente as palestras dos
moços e se alegrava, quando conseguia interpor uma
palavra nos seus acalorados debates. "Meu irmão afirma
que temos razão", pensava, "e. pondo de lado qualquer
amor-próprio, parece-me também que eles estão
mais longe da verdade do que nós. Ao mesmo tempo,
sinto que possuem algo que não temos, uma certa superioridade
sobre nós... Mocidade? Não. Não é só mocidade.
O seu predomínio não consiste possivelmente
no fato de serem eles menos aristocratas do que nós?"
Nicolau Pietróvitch passou a mão pelo rosto.
"Negar a poesia?", pensou. "Não sentir a beleza da
arte, da natureza..."
Olhou em redor, como se quisesse compreender de
que modo pode deixar de existir a natureza. Entardecia.
O sol ocultava-se atrás do pequeno bosque a meio
quilômetro do jardim. A sua sombra estendia-se, alongava-
se pela quietude dos campos. Um mujique vinha
trotando num cavalinho branco pela vereda escura e
estreita que ladeava o bosque. Via-o perfeitamente. Distinguiam-
se até os remendos no ombro, embora cavalgasse
na sombra. Observava os movimentos das patas
do animal. Os raios solares penetravam no bosque, coavam-
se através da espessura, banhavam os troncos das
árvores de uma luz quente. Sua folhagem era quase azul.
Sobre ela se erguia o azul pálido do céu, levemente corado
pelos reflexos do crepúsculo, As andorinhas voavam
alto. Não soprava a mais leve brisa. As abelhas tardias
zumbiam preguiçosas e sonolentas à volta das flores.
Os mosquitos agitavam-se em turbilhão sobre um
ramo solitário, "Como me sinto bem, meu Deus!", pensou
Nicolau Pietróvitch. Os seus versos prediletos vieram-
lhe à memória. Lembrou-se de Arcádio, do livro
Força e Matéria. Permaneceu imóvel, entregue ao jogo
amargo e delicioso dos seus pensamentos.
67
Não deixava de ser um sonhador. A vida do campo favoreceu-lhe essa
inclinação. Ainda há pouco sonhava, esperando a chegada
do filho na hospedaria. A partir daí já se verificava
uma mudança e tinham-se estabelecido relações ainda
imprecisas... E de que modo! Pensou na sua falecida
esposa, não naquela que conhecera durante muitos anos
como boa e ativa dona de casa, e sim na jovem esbelta,
de olhar inocente e curioso, com as tranças a envolver
um colo de criança. Lembrou-se do primeiro dia em que
a viu. Era ainda estudante. Encontrou-a na escada da
casa onde morava. Sem querer, esbarrou com ela, voltou-
se, quis pedir desculpas e só pôde dizer "pardon,
mademoiselle"*. Ela sorriu e fugiu assustada. Numa
volta da escada, relanceou o olhar para ele, fícou séria
e corou. Depois, as primeiras visitas tímidas, meias-
palavras, meios-sorrisos, perplexidade, tristeza, paixão
e finalmente uma felicidade completa. Onde fora parar
tanto bem? Ela tornou-se sua esposa, ele conheceu a
ventura como pouca gente neste mundo... "No entanto",
pensava ainda, "por que aqueles deliciosos momentos
não foram imortais, eternos?"
Não se esforçava por interpretar bem o seu próprio
pensamento, mas sentia que o seu desejo era conservar
na memória o tempo mais feliz da sua vida, por intermédio
de algo mais forte que a simples memória. Queria
de novo a vizinhança de sua Maria, o seu calor e o seu
hálito. Já lhe parecia que sobre todo o seu ser...
— Nicolau Pietróvitch! — ouviu-se perto a voz de
Fiênitchka. — Onde está o senhor?
Estremeceu. Não se sentiu mal, nem com remorsos...
Nunca admitiu um termo de comparação entre
sua esposa e Fiênitchka. Entretanto ficou penalizado
ao saber que esta o procurava. A voz recordou-lhe imediatamente
seus cabelos brancos, a velhice, o presente...
* Perdão, senhorita.
68
O mundo fantástico onde entrava e que já surgia da
nebulosidade do seu passado agitou-se e desapareceu.
— Estou aqui — respondeu. — Irei logo. "Eis os
resultados da 'aristocracia' ", pensou. Fiênitchka, em silêncio,
esquadrinhou com o olhar o interior do caramanchão
e desapareceu. Ele, admirado, percebeu que já
era noite. Anoitecera enquanto sonhava. Tudo escureceu
e ficou silencioso em volta. O rosto de Fiênitchka
surgiu diante dele pálido e miúdo. Ergueu-se e quis voltar
para casa, mas seu coração sensibilizado não podia
encontrar a calma. Começou a passear lentamente pelo
jardim, ora fitando o terreno que pisava, ora erguendo
os olhos para o céu, onde enxameavam estrelas. Andou
assim durante muito tempo, até se cansar. A sua agitação
indefinida e triste não cessara ainda. Como Bazárov
havia de rir-se dele, se soubesse o que naquele momento
se passava no seu íntimo!
Até Arcádio o acusaria e condenaria. Ele, homem de
44 anos de idade, agrônomo e proprietário, estava quase
chorando sem motivo. Era cem vezes pior que o vio
loncelo!
Nicolau Pietróvitch continuava a andar, sem coragem
de voltar para casa, para aquele ninho tranqüilo
e confortável que tão convidativamente lhe abria todas
as suas portas e janelas iluminadas. Faltavam-lhe forças
para separar-se da escuridão, do jardim, da sensação do
ar puro no seu rosto e daquela melancolia, daquela
saudade...
Numa volta da aléia, encontrou-se com Páviel Pietróvitch.
— Que tem? — disse ele, dirigindo-se a Nicolau
Pietróvitch. — Está pálido como um cadáver. Por que
não se deita?
Nicolau Pietróvitch explicou-lhe em breves palavras
o seu estado de alma e afastou-se. Páviel Pietróvitch
chegou ao limite extremo do jardim, ficou igualmente
69
pensativo e também ergueu os olhos para o céu. Contudo,
nos seus belos olhos negros não se refletia coisa
alguma a não ser a luz das estrelas. Não nascera romântico
e sua alma de misantropo, árida, aristocraticamente
apaixonada e francesa, não sabia sonhar.
— Sabe de uma coisa? — dizia naquela mesma noite
Bazárov a Arcádio. — Tenho uma idéia estupenda. Seu
pai disse hoje que recebeu um convite daquele seu parente.
Ele não quer ir. Vamos nós à cidade, já que esse
senhor o chama. Veja que tempo faz. Não será mau
um passeio. Passaremos lá uns cinco ou seis dias.
— E de lá você volta?
— Não. Preciso visitar meu pai. Sabe que ele se
acha a 30 quilômetros da cidade. Há muito tempo que
não o vejo. Verei também minha mãe. É preciso distrair
um pouco os velhos. São ótimas pessoas, principalmente
meu pai, que é engraçadíssimo. Sou o filho único.
— Vai demorar-se em casa?
— Creio que pouco tempo. Talvez me aborreça.
— Na volta passará por aqui?
— Não sei. Verei. Que tal é a minha idéia? Vamos?
— Vamos — disse de má vontade Arcádio.
Intimamente ficara muito satisfeito com a proposta
do amigo, mas julgou necessário ocultar sua satisfação.
Era niilista.
No dia seguinte foram à cidade. Os moços de Mariino
lamentaram a sua partida. Duniacha até derramou umas
lágrimas... Em compensação, os velhos suspiraram de
alívio.
XII.
A cidade que foram visitar os nossos niilistas era
administrada por governador moço, progressista e déspota,
como acontece quase sempre na Rússia.
70
Durante o primeiro ano da sua gestão, indispôs-se não só com o
chefe político da província, um capitão reformado da
guarda, proprietário de haras, muito hospitaleiro, como
também com os próprios subordinados. As divergências
assumiram afinal tais proporções, que o ministério de
São Petersburgo julgou indispensável enviar uma
pessoa de confiança encarregada de estudar o caso in
loco. A escolha do governo recaiu em Mateus Ilitch
Koliássin, filho do mesmo Koliássin sob a proteção do
qual se encontravam outrora os irmãos Kirsánov.
Pertencia também à geração dos "moços", isto é, há
pouco Fizera quarenta anos de idade. Entretanto, procurava
passar por um estadista. Trazia de cada lado
do peito uma condecoração. Uma delas, na verdade,
era condecoração estrangeira e das piores, À semelhança
do governador da província, a quem estava incumbido
de julgar, dizia-se progressista. Sendo já homem de
prestígio, era diferente da maioria dos elementos de
valor. Julgava-se um homem superior. Sua vaidade não
tinha limites, o que não o impedia de se apresentar modestamente,
aprovar muita coisa, ouvir com atenção e
também rir gostosamente. O seu gênio alegre fazia com
que todo mundo o considerasse uma ótima pessoa.
Nos casos importantes sabia mostrar os dentes, como
se diz.
A energia é indispensável — costumava dizer então
- "l'énergie est la première qualité d'un homme
d'État"*. O interessante é que, no resto, era tolo.
Qualquer funcionário experiente poderia conduzi-lo a
seu bel-prazer. Mateus Ilitch referia-se com grande respeito
a Guizot. Esforçava-se por fazer crer a todos que
não pertencia ao número dos representantes da rotina
e dos burocratas atrasados, assim como não deixava de
prestar atenção a todas as inovações da vida social...
Empregava muito bem toda a terminologia correspondente ao caso.
A energia é a primeira qualidade de um homem de Estado.
71
Seguia até, embora com certa superioridade,
o desenvolvimento da literatura contemporânea.
Fazia-o como um homem adulto que, encontrando na
rua um grupo de moleques, às vezes se junta a eles. Em
suma, Mateus Ilitch não se afastou muito daqueles
homens públicos do período de Alexandre, que, preparando-
se para uma recepção na casa da Senhora Svietchina,
residente em São Petersburgo, liam previamente,
pela manhã, uma página de Condiliac. Somente os seus
processos eram diversos: mais modernos. Seria um cortesão
hábil, muito astuto e nada mais. De negócios nada
entendia; não possuía inteligência, mas sabia dirigir os
seus próprios negócios. Ninguém o superava nesse terreno;
tal qualidade é de capital importância.
Mateus Ilitch recebeu Arcádio com a bondade característica
de um alto funcionário. Com grande alegria
mesmo. Ficou, entretanto, surpreso, quando soube que
os parentes não quiseram vir. — Seu pai continua sempre
um esquisitão — observou, sacudindo as mangas do
seu belo roupão de veludo. Voltando-se de improviso
para um jovem funcionário irrepreensivelmente fardado,
exclamou em tom preocupado: — Que deseja? — O
moço, que, em conseqüência de um prolongado silêncio,
ficara com os lábios grudados, levantou-se perplexo
e fixou o olhar no chefe. Depois de impressionar seu
subalterno, Mateus Ilitch já não lhe prestava a mínima
atenção. Os nossos altos funcionários gostam em geral
de confundir seus subordinados. Os processos de que
lançam mão com esse propósito são bastante variados.
O seguinte método, entre os demais, é o preferido, is
quite a favorite*, como dizem os ingleses: o alto funcionário
finge não entender as palavras mais simples. Indaga,
por exemplo: — Que dia é hoje?
Comunicam-lhe respeitosamente: — Hoje é sexta-
feira, excelência.
* Literalmente, "é completamente um favorito".
72
— Como? Que quer dizer? A que se refere? — pergunta
com esforço o alto funcionário.
— Hoje é sexta-feira, excelência.
— Quê? Que está falando? Que vem a ser sexta-
feira? Que espécie de sexta-feira?
— Sexta-feira, excelência, é um dia da semana.
— Atreve-se a ensinar-me?
Mateus Ilitch era também um alto funcionário, mesmo
que passasse por liberal.
— Recomendo-lhe, meu amigo, que vá visitar o governador
— disse ele a Arcádio. — Compreende que
lhe aconselho semelhante visita não porque me apegue
aos costumes antiquados de serem indispensáveis as
visitas às autoridades, e sim porque o governador é um
homem de bem. Além disso, evidentemente, você deseja
conhecer a sociedade local... Acho que não é um
urso. O governador organizou para depois de amanhã
um grande baile.
— O senhor vai a esse baile? — perguntou Arcádio.
— O baile é em minha honra — disse Mateus Ilitch,
parecendo lamentar essa homenagem. — Não dança?
— Danço muito mal.
— É pena. Aqui ainda existem mulheres lindas. Um
moço não deve deixar de dançar muito bem. Novamente,
não faço valer os antigos costumes. Não quero dizer
com isso que a inteligência deve concentrar-se nas
pernas, mas sim que hoje o byronismo é ridículo. Il a fait
son temps *.
— Eu, titio, não sou assim por causa do byronismo...
— Quero apresentá-lo às belas daqui, tomando-o sob
a minha proteção — interrompeu Mateus Ilitch, rindo-
se gostosamente. — A minha proteção ser-lhe-á útil.
Não acha?
Entrou um criado e comunicou a chegada do presidente
da Câmara Municipal,
* lá passou seu tempo.
73
um velho de olhar melífluo,
lábios enrugados e que apreciava muito a natureza,
principalmente nos dias de verão, quando, segundo suas
palavras» "toda abelhinha dá um beijo em cada flor..."
Arcádio retirou-se.
Encontrou Bazárov no hotel onde se tinham hospedado.
Teve grande trabalho em convencê-lo a que fosse
visitar o governador. — Que posso fazer ali? — disse
afinal Bazárov. — Mas, já que me meti nisso... Está
bem. Aceito.
O governador recebeu muito bem os moços, mas não
os mandou sentar. Era um homem sempre apressado.
Trajava pela manhã a sua farda, Um colarinho muito
apertado, nunca terminava de comer ou de beber e
sempre dava ordens. Nesta província, ele foi alcunhado
de "Bourdaloue", não porque se parecesse com o célebre
pregador francês e sim porque esse apelido fazia
lembrar burdá, que, em russo, é um prato intragável.
Convidou Kirsánov e Bazárov para o baile. Dois minutos
depois reiterou o convite, julgando-os irmãos e chamando-
os de Kaissárov.
Saindo do palácio do governo, eles se dirigiram para
casa, quando de repente, dos carros que transitavam
perto, saltou um homem de pequena estatura, trajando
roupas de eslavófilo. — Eugênio Vassílievitch! — gritou
ele para Bazárov.
— Que surpresa! É Sítnikov — disse Bazárov, continuando
a andar pelo passeio. — Que o traz aqui?
— Imagine que se trata de mero acaso — respondeu
o interpelado.
Voltando para o carro que o conduzia, gesticulou
cinco vezes e gritou: — Siga-nos! — e continuou a
correr, saltando uma valeta. — Meu pai tem um negócio
a resolver aqui. Pediu-me tanto... Hoje soube
da chegada de vocês. Já fui visitá-los no hotel...
74
(Na verdade, quando os amigos voltaram ao apartamento,
encontraram ali um cartão de visita com os cantos dobrados,
tendo o nome de Sítnikov, de um lado em
francês e de outro em eslavo antigo.) Suponho que vêm
da casa do governador?
— Justamente.
— Nesse caso, também vou visitá-lo... Eugênio
Vassílievitch, apresente-me ao seu amigo... ao
Senhor...
— Kirsánov, apresento-lhe Sítnikov — resmungou
Bazárov.
— Imenso prazer em conhecê-lo — disse Sítnikov,
apresentando-se desajeitadamente, sorrindo acanhado e
tirando rapidamente as suas luvas elegantíssimas. —
Já ouvi falar muito no senhor... Sou velho camarada
de Eugênio Vassílievitch e quase seu discípulo. Devo-lhe
a minha regeneração.
Arcádio fitou com certa atenção o discípulo de Bazárov.
Os seus traços fisionômicos bem feitos e miúdos
revelavam uma expressão aflitiva e obstinada. Os olhos,
pequenos e fundos, eram esgazeados. Apreensivo até
quando ria, com um riso breve e sem vida.
— Acredite — continuou — que, quando Eugênio
Vassílievitch me disse pela primeira vez que não devemos
reconhecer nenhuma autoridade, senti tamanho
entusiasmo... que me pareceu ter ficado um homem
feito! Pensei então que finalmente tinha encontrado
um homem! A propósito, Eugênio Vassílievitch, o senhor
deve visitar sem falta uma senhora que é capaz de
compreendê-lo. A sua visita será uma verdadeira festa.
Aposto que não a conhece.
— Quem é? — disse de má vontade Bazárov.
— A Senhora Kúkchina, Avdótia, Avdótia Kúkchina.
É um temperamento excepcional, mulher émancipée*
por excelência, inteligente. Sabe de uma coisa?
Emancipada,
75
Vamos todos visitá-la. Ela reside a pouca distância
daqui. Lá almoçaremos. Ainda não almoçaram?
— Não,
— Muito bem. Ela, vocês compreendem, é separada
do marido e não depende de ninguém.
— É bonita? — perguntou Bazárov.
— Não... bonita não é.
— Então por que nos convida para ir à casa dela?
— Que pândego, grande pândego... Ela vai oferecer-
nos champanha.
— Está vendo? Conhece-se logo um homem prático.
A propósito» seu pai ainda é agiota?
— Ainda é — proferiu rapidamente Sítnikov, rindo
desagradavelmente. — Vamos, então?
— Não sei, francamente.
— Você disse que ia estudar os homens. Pois vá —
disse baixinho Arcádio.
— E o Senhor Kirsánov? — exclamou Sítnikov. —
Precisamos de sua companhia.
— Assim todos juntos?
— Não tem nada. A Senhora Kúkchina é uma ótima
pessoa.
— Teremos uma garrafa de champanha? — perguntou
Bazárov.
— Três! — exclamou Sítnikov. — Garanto-lhes.
— Que garantias oferece?
— A própria cabeça.
— A melhor garantia seria a bolsa do seu pai.
Vamos.
XIII.
A pequena casa de estilo moscovita, onde residia
Avdótia Nikítichna Kúkchina, estava situada numa das
ruas da cidade onde recentemente houvera um incêndio.
76
Sabemos que nas cidades provinciais russas há incêndios
de cinco em cinco anos. À porta, sobre um cartão
de visitas, via-se a corda da campainha.
Na sala de espera os recém-chegados foram recebidos
por uma criada ou uma amiga da dona da casa, cujo
aspecto indicava claramente as tendências progressistas
da dona. Sítnikov informou-se:
— Avdótia Nikítichna está?
— É você, Victor? — Ouviu-se uma voz fina do
compartimento vizinho. — Entre. — A mulher, criada
ou amiga da dona da casa desapareceu logo.
— Não venho só — disse Sítnikov, tirando desembaraçadamente
o capote, sob o qual vestia uma espécie
de paletó-saco. Olhou rapidamente para Arcádio e Bazárov.
— Não faz mal —- respondeu a voz. — Entrez!*
Os moços entraram num aposento que mais parecia
um gabinete de trabalho do que uma sala de visitas.
Papéis, cartas, edições volumosas das revistas russas, na
maioria intatas, viam-se sobre as mesas cheias de pó.
Por toda parte, no chão, havia pontas de cigarros. Sobre
um divã forrado de couro, recostada, estava uma mulher
ainda moça, loira, em desalinho; usava um vestido de
seda quase sujo, grandes pulseiras nos braços curtos e
uma écharpe de rendas na cabeça. Ela ergueu-se do
divã, vestiu com indiferença um manto de veludo de
gola de pele amarela e disse indolentemente: — Bom
dia, Victor — apertando a mão de Sítnikov.
— Apresento-lhe Bazárov e Kirsánov — disse
Sítnikov rispidamente, imitando Bazárov...
— Muito prazer em conhecê-los. Entrem — respondeu
a Senhora Kúkchina. Fixando seus olhos redondos
em Bazárov, olhos entre os quais um narizinho arrebitado
parecia um órfão, acrescentou: — Já o conhecia
— e apertou-lhe a mão.
* Entre!
77
Bazárov enrugou a testa. Na figura insignificante da
mulher emancipada nada havia de imoral. Somente a
expressão do rosto exercia desagradável influência em
quem a observava. Todo mundo tinha vontade de per
guntar-lhe: — Está com fome? Sofre de tédio? Tem
medo? Por que oculta seus pensamentos?
Como Sítnikov, ela eternamente sentia um quê de
desagradável na alma. Falava e movia-se com excessivo
desembaraço e, ao mesmo tempo, sem graça. Evidente
mente, julgava-se um ser bom e simples. Apesar disso,
tudo o que fazia era aparentemente de má vontade.
Como as crianças: sem querer, complicado e pouco na
tural.
— Conheço-o, Bazárov — repetiu ela. (Tinha o costume
das mulheres da província e de Moscou: no primeiro
dia chamava os homens pelo sobrenome.) —
Quer um cigarro?
— Não é mau um cigarro — disse Sítnikov, esparramando-
se sobre a cadeira e levantando uma perna.
— Mas o que queremos antes é almoçar. Temos uma
fome de lobos. Não se esqueça de uma garrafinha de
champanha.
— Sibarita — disse Avdótia. (Quando ria seu lábio
superior descobria as gengivas.) — Tenho razão,
Bazárov?
— Adoro uma vida confortável — disse com importância
Sítnikov. — Tal gosto não impede que seja
liberal.
— Como não! — exclamou Avdótia, ordenando à
criada o almoço e o champanha. — Que pensa o senhor?
— disse a Bazárov. — O senhor será certamente da minha
opinião?
— Nunca — respondeu Bazárov. — Um pedaço de
carne é melhor que um de pão, até sob o ponto de vista
químico.
78
— O senhor estuda química? É a minha paixão!
Inventei até uma cola.
— Cola? A senhora?
— Eu. Sabe com que fim? Para fabricar as cabeças
inquebráveis das bonecas. Sou também uma mulher
prática. Não está ainda tudo pronto. É preciso ainda
ler um pouco mais de Liebig. A propósito: já leu o
artigo de Kisliakov sobre o trabalho da mulher, publicado
no jornal Noticias de Moscou? Leia. Interessa-lhe
a questão feminina? As escolas também? Que faz seu
amigo? Como se chama?
A Senhora Kúkchina dirigia uma pergunta após
outra, com simulado desinteresse, não esperando resposta.
As crianças mimadas falam assim com suas amas.
— Chamo-me Arcádio Nikoláievitch Kirsánov —
disse Arcádio. — Nada faço neste mundo.
Avdótia achou graça e soltou uma estridente gargalhada.
— Estupendo! O senhor fuma! Victor, estou zangada
com você.
— Por quê?
— Dizem que elogia novamente George Sand. É
uma mulher atrasada e nada mais! É impossível compará-
la com Emerson! Não tem nenhuma idéia da educação,
da fisiologia e de coisa alguma. Tenho certeza
de que nunca ouviu falar em embriologia. No nosso
século é possível passar sem embriologia? (Avdótia
chegou até a abrir os braços.) Que estupendo artigo
escreveu sobre esse assunto lelissiéievitch! É um homem
genial! (Avdótia não disse "homem", mas "senhor",
como era seu costume.) Amigo Bazárov, sente-
se aqui perto de mim. Talvez não saiba que tenho muito
medo do senhor.
— Por quê? — disse ele. — Tenho curiosidade de
sabê-lo,
— O senhor é um homem perigoso.
79
Tem grande inclinação para a crítica. Meu Deus! Como sou ridícula
falando como qualquer fazendeira atrasada! Mas não
passo na realidade de uma fazendeira. Eu mesma trato
de minha fazenda. Tenho um administrador chamado
lerofiei, um tipo admirável. Parece-se com Pathfinder,
de Cooper. Tem algo de extraordinário e inconfundível!
Instalei-me definitivamente aqui. Esta cidade é insuportável)
Mas que se vai fazer?
— É uma cidade como as outras — observou calmamente
Bazárov.
— Há um mundo de interesses mesquinhos a defender!
É horrível! Outrora, eu passava o inverno em
Moscou... Agora lá reside meu maridinho, o Senhor
Kúkchin. Moscou, também, segundo soube, está muito
diferente. Pretendo visitar o estrangeiro.
— Naturalmente Paris? — disse Bazárov.
— Paris ou Heidelberg.
— Por que lhe interessa Heidelberg?
— Que pergunta! Lá posso conhecer Bunsen! — Bazárov
nada respondeu.
— Pierre Sapóchnikov... Conhece-o?
— Não.
— Não diga! Pierre Sapóchnikov... Sempre está em
casa de Lídia Tchostatova.
— Também não conheço essa senhora.
— Pierre vai acompanhar-me. Graças a Deus sou
livre e não tenho filhos... Que disse agora? Graças a
Deus! Não tem importância.
Avdótia enrolou um cigarro com seus dedos amarelecidos
pelo fumo, passou a ponta da língua no papel
e acendeu-o. Entrou nesse momento uma criada com
a bandeja.
— Aqui está o almoço! Querem um aperitivo?
Victor, abra aquela garrafa. Isso é sua especialidade.
— Minha especialidade — murmurou Sítnikov, e
riu-se de novo, estridentemente.
80
— Temos aqui mulheres belas? — indagou Bazárov,
acabando de beber a terceira taça.
— Temos — respondeu Avdótia. — Mas são tão
vulgares! Minha amiga, a Senhora Odintsova, por exemplo,
não é má. Lamento que a sua reputação seja um
tanto duvidosa... Não seria um defeito, porém ela não
possui aquela largueza de vistas... Nada disso... Devemos
reformar todo o nosso sistema de educação. Já
pensei nisso. As nossas mulheres são pessimamente educadas.
— Não conseguirá coisa alguma — apressou-se a
dizer Sítnikov. — Devemos desprezá-las, e eu desprezo-
as de todo o coração! (A possibilidade de desprezar
e manifestar seu desprezo era uma sensação agradabilíssima
para Sítnikov. Atacava principalmente as mulheres,
sem suspeitar de que, meses depois, seria obrigado
a humilhar-se perante a sua própria esposa, só porque
era uma princesa Durdolióssov.) Nenhuma delas seria
capaz de compreender a nossa palestra. Não merecem
que nós, homens sérios, nos ocupemos das mulheres.
— Elas não têm necessidade alguma de compreender
a nossa palestra — disse Bazárov.
— De quem o senhor está falando? — interveio
Avdótia.
— Refiro-me às mulheres lindas.
— Como? O senhor, ao que parece, aceita a opinião
de Proudhon!
Bazárov respondeu com altivez.
— Não aceito as opiniões de quem quer que seja,
porque tenho as minhas próprias.
— Abaixo as autoridades! — exclamou Sítnikov,
satisfeito por ter uma oportunidade de expressar-se
energicamente na presença do homem que respeitava
servilmente.
— Mas o próprio Macaulay — começou a senhora
Kúkchina...
81
— Abaixo Macaulay! — bradou Sítnikov. — Está
defendendo essas mulherzinhas nulas?
— Não defendo mulherzinhas frívolas e sim os direitos
da mulher, que jurei defender até a última gota
de sangue.
— Abaixo!... — e aqui Sítnikov interrompeu-se. —
Mas eu não nego os direitos da mulher — disse.
— Vejo que é eslavófilo!
— Não. Não sou eslavófilo, ainda que na verdade...
— Não e não! O senhor é eslavófilo. Um admirador
do Domostrói *. O partidário do chicote para a manutenção
da paz conjugal!
— O chicote é um objeto útil — observou Bazárov.
— Chegamos à última gota...
— De quê? — interrompeu Avdótia.
— Do champanha, caríssima Avdótia Nikítichna, do
champanha e não do seu precioso sangue.
— Não posso ouvir tranqüilamente os ataques contra
as mulheres — continuou Avdótia. — É espantoso. Em
lugar de atacá-las, leiam os senhores o livro de Michelet,
De L'Amour **. É uma verdadeira maravilha! Senhores,
vamos dissertar sobre o amor — concluiu Avdótia,
deixando cair lentamente sua mão sobre a almofada do
divã.
Todos se calaram.
— Não. De que serve falar sobre o amor? — disse
Bazárov. — Acabou de citar o nome da Senhora
Odintsova... É assim mesmo que ela se chama? Quem
é essa criatura?
— É um verdadeiro encanto! — gritou em voz estridente
Sítnikov. — Posso apresentá-lo. É inteligente,
rica e viúva. Infelizmente, não é muito culta. Devia
aproximar-se mais da nossa amiguinha Avdótia.
* Domostrói: código de costumes do século XVI, característico pelo seu
caráter drástico e pela autoridade desmesurada que conferia ao chefe da
família.
** Do Amor.
82
Bebo à sua saúde, Avdótia! Vamos a um brinde! Et toc, et
toc, et tin-tin-tin. Et toc, et toc, et tin-tin-tin!!!...
— Victor, você é um moleque.
O almoço durou muito tempo. Após uma garrafa
de champanha, veio outra, uma terceira e até uma
quarta... Avdótia falava sem cessar. Sítnikov também.
Discutia-se muito sobre o casamento. O tema era o
seguinte: é o casamento um preconceito ou um crime?
Referiram-se também à igualdade ou desigualdade inata
dos homens. Surgiu ainda uma questão: que é a individualidade?
A palestra terminou de modo inesperado:
Avdótia, rubra do vinho que tinha bebido, batendo suas
unhas chatas no teclado de um velho piano, pôs-se a
cantar, em voz rouca, primeiramente as canções dos ciganos
e em seguida a romanza de Saymor-Schiff: Dorme
Granada, e Sonha. Sítnikov, depois de envolver a cabeça
com a écharpe, simulando um turbante, representava o
papel de apaixonado que espera alguém, principalmente
quando se ouvia a seguinte passagem da romanza:
E teus lábios num só beijo
Com os meus lábios reunir.
Arcádio acabou perdendo a paciência.
— Senhores, basta de cenas de hospício — disse em
voz alta.
Bazárov, que de quando em quando proferia uma
palavra irônica e prestava mais atenção ao champanha,
bocejou rumorosamente, ergueu-se e, sem se despedir
da dona da casa, saiu em companhia de Arcádio. Sítnikov
acompanhou-os também.
— Que tal? — indagava, correndo da direita para
a esquerda. — Como lhes disse, é uma mulher notável!
Precisávamos de muitas mulheres assim! Ela é, de certo
modo, um fenômeno altamente moral.
— O estabelecimento de seu pai é também um fenômeno moral?
83
— perguntou Bazárov, indicando com
o dedo a taberna em frente da qual passavam.
Sítnikov riu de novo estridentemente. Sentia vergonha
da sua ascendência. Não sabia agora se o gesto inesperado
de Bazárov lhe era lisonjeiro ou ofensivo.
XIV.
Alguns dias depois, realizou-se o baile na casa do
governador. Mateus Ilitch era o herói da festa. O chefe
político da província fez saber a todos e a cada um
em separado que tinha chegado em homenagem à sua
pessoa apenas. O governador, em pleno baile, permanecia
quieto ou dava algumas ordens timidamente. A
delicadeza de trato de Mateus Ilitch casava-se bem com
a sua imponência. Sabia dizer uma palavra amável a
todos, a uns com ligeiro enfado, a outros com leve
respeito. Expandia-se, un vrai chevalier français *, na
presença das senhoras, e ria sem parar com o seu riso
forte, ruidoso e único, como convém a um alto funcionário
do governo. Bateu nas costas de Arcádio, chamando-
o bem alto de "querido sobrinho". Honrou Bazárov
(que trajava um fraque velho) com um olhar distraído,
mas condescendente, com uma espécie de mugido indefinível,
em que se ouviam as seguintes palavras: "Eu...
muito...", ofereceu um dedo a Sítnikov, sorrindo-lhe
e virando-lhe as costas. Até à Senhora Kúkchina, que
compareceu ao baile de luvas sujas e com uma ave-doparaíso
no chapéu, chegou a dizer: "Enchanté" **.
Havia muita gente e não faltavam cavalheiros. Os civis
agrupavam-se junto às paredes, os militares dançavam
à vontade, principalmente um deles, que passara umas
seis semanas em París, onde aprendeu uma série de
* Um verdadeiro cavalheiro francês.
** Encantado.
84
exclamações francesas como: Zut! Ahfichtrrrre! Pst', pst',
mon bibi *, etc. Pronunciava esses termos com perfeição,
com verdadeiro chique parisiense, cometendo ao
mesmo tempo erros de francês, como: si f atirais**
em vez de si f avais absolument *** com o sentido
de "indispensavelmente". Em resumo, falava um
francês à russa, que tanto diverte os franceses quando
não estão dispostos a convencer os nossos patrícios de
que falamos a sua língua como os anjos, comme des
anges.
Arcádio dançava muito mal, como já sabemos. Bazárov
não dançava. Ambos se instalaram num canto
do salão. Sítnikov juntou-se a ambos. Aparentando um
sorriso sarcástico, proferia ditos venenosos, olhava em
redor com ar provocante e parecia sentir um grande
prazer.
Repentinamente mudou de expressão. Dirigindo-se
a Arcádio, disse:
— A Senhora Odintsova acaba de chegar.
Arcádio percorreu o salão com o olhar e viu uma
mulher alta, trajada de preto e parada junto à porta.
Impressionou-o pela distinção do porte. Seus braços nus
repousavam adoravelmente junto ao seu talhe esbelto.
Ramos de fúcsias caíam lindamente da esplêndida cabeleira
sobre os ombros bem feitos. Calmos e inteligentes,
seus olhos claros vagavam pelo ambiente. Os lábios
esboçavam um leve sorriso.
— Conhece-a? — perguntou Arcádio a Sítnikov.
— Pouco. Quer que o apresente?
— Não é mau... Depois desta quadrilha.
*
Zut! — Interjeição; exprime despeito, descontentamento.
Ahfichtre! — Interjeição; expressa estupor, admiração, dor.
Pst', pst' — Psiu, psiu.
Mon bibi — Meu gueridinho._
** "Se eu fosse" em vez de "se eu tivesse".
*** Advérvio; significa: completamente, totalmente, inteiramente, radicalmente.
85
Bazárov também fitou com atenção a Senhora
Odintsova.
— Quem é essa mulher? — foram as suas palavras.
— Não se parece com as outras.
Finda a quadrilha, Sítnikov levou Arcádio para junto
da Senhora Odintsova. Era evidente que a conhecia
muito pouco. Começou a dizer-lhe qualquer coisa. Ela
ouvia-o com certo espanto. Entretanto, logo se animou
quando ouviu o sobrenome de Arcádio. Perguntou-lhe
se era filho de Nicolau Pietróvitch.
— Vi seu pai duas vezes. Ouvi falar muito a seu respeito
— continuou a Senhora Odintsova. — Muito
prazer em conhecer seu filho.
Nesse instante veio convidá-la para uma quadrilha
um elegante militar.
Aceitou o convite.
— A senhora também dança? — indagou respeitosamente
Arcádio.
— Danço. Por que não hei de dançar? Acha que
sou muito velha?
— Perdão, como é possível... Nesse caso, permita-
me que a convide para a mazurca.
A Senhora Odintsova sorriu, aquiescendo.
— Pois não — disse e fitou Arcádio, não de alto
a baixo, mas como as irmãs casadas costumam encarar
seus irmãos ainda muito moços.
A Senhora Odintsova era um pouco mais velha do
que Arcádio. Tinha 29 anos de idade. Em sua presença,
entretanto, ele se sentia tímido, como se a diferença
de idade, entre ambos, fosse muito maior.
Mateus Ilitch aproximou-se com ares majestáticos e palavras
amáveis. Arcádio afastou-se, continuando a observá-
la. Não tirava os olhos dela durante a quadrilha.
A Senhora Odintsova conversava sem afetação com seu par,
86
assim como com o alto dignitário do governo.
Movia lentamente a cabeça e os olhos. Riu-se por duas
vezes. Seu nariz era um tanto volumoso, como o de
quase todos os russos. A cor da sua pele não era totalmente
pura e uniforme. Apesar disso, Arcádio chegou
à conclusão de que nunca tinha visto na sua vida outra
mulher mais bela. A sua voz não lhe saía dos ouvidos.
As próprias dobras do seu vestido pareciam ter
uma disposição diferente: mais harmônica e ampla.
Os movimentos eram particularmente graciosos e naturais.
Arcádio sentia um certo receio, quando, aos primeiros
sons da mazurca, ocupou um lugar ao lado de
sua dama. Preparando-se para travar uma conversação,
só passava as mãos pelos cabelos e não encontrava
uma única palavra para lhe dizer. O seu medo e a
sua confusão não duraram muito. A calma da Senhora
Odintsova comunicou-se-lhe também. Mal tinha
passado um quarto de hora, ele desembaraçadamente
contou-lhe tudo sobre seu pai, seu tio e sobre a vida
em São Petersburgo e no campo.
A Senhora Odintsova ouvia-o com simulada atenção,
abrindo e fechando devagar o leque. A sua palestra
só se interrompia quando vinham tirá-la para dançar.
Sítnikov também a convidou duas vezes. No fim de
cada contradança, ela voltava para seu lugar, sentava-
se e tomava o leque. Seu peito parecia arfar como sempre.
Arcádio reiniciava seu diálogo, feliz de se achar
em sua presença, de falar-lhe e de contemplar de perto
sua bela fronte e todo o seu semblante inteligente
e sério. Ela falava pouco. Pelas suas palavras se percebia
grande conhecimento da vida. A julgar por algumas
conclusões, Arcádio convenceu-se de que aquela
mulher, ainda jovem, já sentira e sofrera muito na
vida...
87
— Com quem estava quando o Senhor Sítnikov me
apresentou? — indagou a Senhora Odintsova.
— Também o viu? — perguntou por sua vez Arcádio.
— Não é verdadeiramente muito simpático? É
Bazárov, meu amigo.
Arcádio começou a contar-lhe a história do "seu
amigo".
Falava a seu respeito com tantos pormenores e com
tal entusiasmo, que a Senhora Odintsova fitou-o com
atenção. A mazurca estava para terminar, e Arcádio
ficou triste por ter de separar-se da dama. Tinha passado
uma hora tão agradável em sua companhia! Na
realidade, durante todo esse tempo, sentiu sempre
uma espécie de condescendência dela para com ele, o
que o obrigava a ser-lhe grato... Os corações jovens
não conservam muito esse sentimento.
A música cessou.
— Merci — agradeceu a Senhora Odintsova, erguendo-
se. — O senhor prometeu fazer-me uma visita.
Leve seu amigo também. Terei muito prazer em conhecer
o homem que tem a coragem de não acreditar em
coisa alguma.
O governador acercou-se da Senhora Odintsova.
Veio comunicar-lhe que a ceia estava pronta. Ofereceu-
lhe o braço com ar preocupado. Seguindo-o, ela
voltou-se para sorrir mais uma vez e despedir-se de
Arcádio. Ele fez-lhe uma reverência profunda, seguindo-
a com o olhar. O seu talhe pareceu-lhe tão esbelto,
inundado do brilho do seu vestido de seda preta! E
pensou: "Neste momento já se esqueceu de que existo",
e sentiu-se, sem saber por que, consolado.
— Que tal? — disse Bazárov, vendo que Arcádio
regressava ao canto do-salão onde se instalaram. — Divertiu-
se muito? Agora, há pouco, um cavalheiro me disse
que essa senhora é pouco séria. Acho que o informante
é um idiota. Qual a sua opinião?
88
— Não compartilho tal opinião — respondeu Arcádio.
— Ora, que inocência!
— Não compreendo no caso a opinião do seu informador.
A Senhora Odintsova é indubitavelmente
simpática, porém de uma conduta austera e irrepreensível,
ao ponto de...
— Honesta só dentro das águas turvas... Como
deve saber! — interrompeu Bazárov. — Diz que é
fria. Aí está o bom gosto, Não aprecia sorvete?
— É possível — resmungou Arcádio. — Nada posso
dizer a respeito. Ela deseja conhecê-lo. Pediu-me
que fôssemos visitá-la.
— Imagino quanta coisa disse a meu respeito! Fez
muito bem. Leve-me à sua casa. Seja quem for, simples
coquette provinciana ou mulher emancipada semelhante
a Avdótia, sei que tem um colo como nunca vi na
minha vida.
Arcádio não gostou do cinismo de Bazárov, mas —
como quase sempre acontecia — censurou seu amigo
por outro motivo e não pelo que não lhe agradou...
— Por que não admite a liberdade do pensamento,
quando se trata de mulheres? — disse a meia voz.
— Porque, meu caro, segundo as minhas observações,
só pensam livremente as mulheres que são viragos.
A sua conversa interrompeu-se nesse ponto. Ambos
saíram logo depois da ceia. A Senhora Kúkchina riulhes
nervosamente. Seu amor-próprio sentia-se profundamente
ofendido, porque nem Arcádio nem Eugênio
lhe prestaram a mínima atenção. Foi a última a deixar
o salão de baile. Às 4 horas da madrugada dançou
ainda uma polca-mazurca, à parisiense, com Sítnikov.
Com essa dança terminou a festa oferecida pelo governador.
89
XV
— Vamos ver a que classe de mamíferos pertence
essa mulher — dizia no dia seguinte Bazárov a Arcádio,
galgando a escada do hotel em que se hospedara
a Senhora Odintsova. — O meu faro diz que aqui nem
tudo está bem.
— Não me admira! — exclamou Arcádio. — Mas
você, Bazárov, é partidário da estreita moral que...
— É engraçado! — interrompeu-o rispidamente
Bazárov. — Sabe que na nossa língua e para gente
como nós nem tudo que está bem significa que está
ótimo? Tudo aqui me cheira a riqueza. Declarou-me
que ela se casou de um modo um tanto estúpido, Na
minha opinião, casar-se com um velho rico nada tem
de absurdo e é até inteligente. Não creio nos diz-quediz-ques
da cidade. Penso, porém, que são justos, como
afirma o nosso culto governador.
Arcádio nada respondeu. Bateu na porta de um
apartamento. Um criado de libré conduziu-os ambos
a uma sala ampla e mobiliada pessimamente, como
todos os apartamentos dos hotéis russos. Estava, contudo,
enfeitada de flores. Não demorou em aparecer a
Senhora Odintsova, que trajava uma toalete simples
e matinal. Era ainda mais moça à luz do sol da primavera.
Arcádio apresentou-lhe Bazárov. Notou, intimamente
admirado, que seu amigo aparentava um certo
acanhamento. Enquanto isso, a Senhora Odintsova
mantinha-se completamente calma, como na véspera.
Bazárov sentia também sua própria confusão. Ficou
aborrecido. "Aí está! Fiquei com medo desta mulher!",
pensou. Esparramando-se todo na cadeira, imitando
nisso Sítnikov, pôs-se a falar com excessivo desembaraço.
A Senhora Odintsova não o fitava demoradamente,
Ana Serguêievna Odintsova era filha de Sérgio Nicoláievitch Lóktiev,
90
um belo homem, negocista e jogador,
que, depois de uma carreira elegante e perdulária
de quinze anos, em São Petersburgo e Moscou,
acabou perdendo no jogo tudo o que possuía, sendo
obrigado a mudar-se para o campo, onde morreu
logo, deixando uma modesta propriedade às duas filhas:
Ana, de vinte anos de idade, e Catarina, de doze.
Sua mãe, descendente dos arruinados príncipes K., faleceu
em São Petersburgo, quando seu marido ainda se
achava em plena prosperidade. A situação de Ana era
difícil, depois da morte de seu pai. A ótima educação
que recebera na capital não a preparara para os misteres
domésticos e uma existência obscura na província.
Não conhecia ninguém. Não tinha a quem pedir
um conselho. Seu pai sempre evitara quaisquer relações
com os vizinhos. Desprezava-os. Eles pagavam-lhe
também com desprezo, cada qual como podia. A jovem,
entretanto, não desanimou. Mandou vir imediatamente
para a sua casa uma tia materna, a Princesa
Avdótia Süepánovna K., velha ranzinza e caprichosa.
Passando a morar na casa da sobrinha, ocupou os melhores
aposentos. Resmungava de manhã à tarde. Não
passeava pelo jardim senão em companhia do seu único
servo, um criado triste de libré usada e chapéu de
três bicos. Ana suportava com paciência todos os caprichos
da tia. Tratava da educação da irmã e parecia
disposta à vida do campo... Mas o destino reservou-
lhe outra existência. Casualmente, viu-a um certo
Odintsov, homem muito rico, de 46 anos de idade, esquisitão,
hipocondríaco, gordo e indolente. Mas não era
tolo. Apaixonou-se por ela e pediu-a em casamento.
Ela aceitou a proposta. Depois de seis anos de casado,
o marido, ao morrer, deixou-lhe todos os bens. Durante
um ano, depois da sua morte, Ana Serguêievna
não saiu da sua propriedade. Findo esse prazo, embarcou
em companhia da irmã para o estrangeiro.
91
Visitou somente a Alemanha. Teve saudades da pátria e regressou
ao seu querido Nikólskoie, a uns 40 quilômetros
da cidade. Nessa grande propriedade possuía uma
casa otimamente arranjada e um lindo jardim com estufas
para flores raras. O falecido Odintsov vivera sempre
à larga. Na capital da província Ana Serguêievna
aparecia pouquíssimas vezes, quase sempre a negócios
e por breve tempo. Não era estimada. Todos comentavam
sarcasticamente seu casamento com Odintsov.
Diziam a seu respeito muitas coisas desagradáveis.
Afirmavam que ela auxiliava seu pai nas suas patifarias
de jogador profissional e que a sua viagem ao
estrangeiro foi motivada por certas ocorrências comprometedoras
do jogo... "Sabem por quê?", acrescentavam
os boateiros. "Atravessou a água e o fogo",
diziam. Um conhecido pândego da província costumava
ainda dizer: "Atravessou também os tubos de cobre
..." Todos esses mexericos chegavam-lhe ao conhecimento.
Ela, porém, não lhes dava importância. Era
um caráter livre e resoluto.
A Senhora Odintsova, reclinada no espaldar da cadeira
e com uma mão sobre a outra, ouvia Bazárov.
Contra os seus hábitos, ele falava muito. Esforçava-se
por interessar a sua interlocutora, o que deixou Arcádio
admirado. Não tinha certeza se Bazárov conseguia
o seu propósito. Pela atitude de Ana Serguêievna era
difícil adivinhar as suas impressões. Conservava a mesma
expressão amável e discreta. Seus belos olhos cintilavam
de atenção, mas uma atenção ponderada. O
exibicionismo de Bazárov, nos primeiros minutos da
visita, produziu nela um efeito desagradável, como um
mau cheiro ou um som demasiado forte e duro. Ela,
porém, compreendeu logo que seu hóspede se sentia
acanhado. Só a frivolidade lhe causava péssima impressão.
Bazárov não podia ser acusado de frívolo. A
admiração de Arcádio naquele dia foi crescente. Esperava
que Bazárov falasse com a Senhora Odintsova,
92
mulher culta e inteligente, sobre as suas convicções e
pontos de vista. Fora ela mesma que manifestara o desejo
de ouvir o homem "que tem a coragem de não
crer em coisa alguma". Em lugar disso, Bazárov dissertava
sobre a medicina, homeopatia e botânica. Verificou-
se que a Senhora Odintsova não perdia seu tempo
no campo: lera vários livros bons. Falava corretamente
a língua russa. Orientou a palestra para a música.
Percebendo que Bazárov negava o valor da arte,
delicadamente mudou de assunto para a botânica, embora
Arcádio lhe começasse a explicar o sentido das
melodias populares. A Senhora Odintsova continuava
a tratá-lo como seu irmão menor. Apreciava em Arcádio
a bondade sincera da juventude e nada mais. Conversaram
mais de três horas, em tom calmo, variado e
interessante.
Os amigos ergueram-se, afinal, para despedir-se. Ana
Serguêievna tratou-os com certa ternura; estendeu a
ambos sua linda mão branca. Depois de refletir um
pouco, disse com um sorriso bondoso:
— Se não têm medo do tédio, venham um dia a
Nikólskoie.
— Tédio, Ana Serguêievna! — exclamou Arcádio.
— Serei imensamente feliz se...
— E o Senhor Bazárov?
Bazárov limitou-se a fazer uma reverência. Arcádio
mais uma vez ficou admirado: notou que seu amigo
corara.
— Então? — dizia-lhe já na rua. — Continua ainda
a afirmar que ela é uma mulher pouco séria?
— Quem sabe! Está vendo a sua frieza? — disse
Bazárov, e, depois de um breve silêncio, acrescentou:
— Uma princesa, dona absoluta de seus súditos. Cabia-
lhe bem uma coroa real.
— As nossas princesas não falam tão bem a língua
russa — observou Arcádio.
— É bem viajada, meu caro,
93
— É deliciosa — disse Arcádio.
— Um corpo valíosíssimo! — sugeriu Bazárov. —
Utilíssimo num anfiteatro de anatomia,
— Cale-se, por amor de Deus, Eugênio! Está dizendo
absurdos.
— Não se zangue, meu amiguinho. Disse que é de
primeira qualidade. É preciso visitá-la na sua fazenda.
— Quando?
— Podemos fazê-lo depois de amanhã. Que nos
prende aqui? Beber champanha com Avdótia Kúkchína?
Ouvir seu parente, aquele dignitário liberal?... Vamos
depois de amanhã. A propósito, o sítio do meu pai
não fica longe de lá. É Nikólskoie mesmo que fica na
estrada N.?
— Exatamente.
— Ótimo. Não percamos tempo. Só perdem tempo
idiotas demasiado inteligentes. Digo-lhe ainda: que valiosíssimo
corpo!
Três dias depois, ambos os amigos vinham em direção
a Nikólskoie. O dia era claro e fresco. Os animais
bem tratados corriam juntos, sacudindo levemente as
caudas amarradas e trançadas. Arcádio contemplava
a estrada e sorria sem saber por quê.
— Dê-me parabéns — exclamou de repente Bazárov.
— Hoje, 22 de junho, é o dia de meus anos. Coitados
de meus pais! Esperam-me hoje em casa — acrescentou,
abaixando a voz... — Bem; que esperem.
Não tem importância.
XVI.
A fazenda onde residia Ana Serguêievna tinha a sua
sede numa proeminência do terreno, perto de uma igreja
amarela de alvenaria, com telhado verde, colunas
brancas e afrescos na estrada principal representando
94
a Ressurreição do Senhor, de gosto "italiano". Interessantes
principalmente eram os contornos arredondados
de um guerreiro moreno que ocupava o primeiro plano
do quadro. Atrás da igreja se estendia a povoação, em
duas longas fileiras de casas. Viam-se algumas chaminés
encimando edifícios cobertos de palha. A sede da
propriedade estava instalada num edifício do mesmo
estilo da igreja, conhecido entre nós pela denominação
de "estilo de Alexandre". A casa, também pintada de
amarelo, tinha um telhado verde, colunas brancas e
uma fachada com o brasão, O arquiteto provinciano
construíra ambos os edifícios com a aprovação do
falecido Odintsov, que não suportava nenhum ornato
inútil ou original De ambos os lados da casa cercavam-na
grandes árvores de um velho jardim. Uma alameda
de plantas ornamentais conduzia à entrada principal
do solar.
Dois criados de libré vieram ter com os nossos amigos
na sala de espera. Um deles imediatamente foi chamar
o mordomo. O mordomo, homem gordo, de fraque
preto, compareceu logo e acompanhou os hóspedes
por uma escada atapetada a um compartimento
reservado, onde já se viam duas camas e todos os objetos
necessários à toalete. Em casa reinava a ordem:
tudo era limpo, sentia-se um certo aroma agradável
por toda parte, aroma semelhante ao das salas de recepção
dos ministérios.
— Ana Serguêievna pede que os senhores venham
dentro de meia hora — disse o mordomo. — Durante
esse tempo terão algumas ordens a dar?
— Ordem nenhuma, meu respeitável senhor — respondeu
Bazárov. — Isto é, um cálice de aguardente
aceitaríamos com prazer.
— Imediatamente — disse o mordomo um tanto perplexo,
e afastou-se, fazendo ranger as botas.
— Que importância! — observou Bazárov.
95
- Parece que em francês se chama grand genre*? É uma
princesa. Basta.
— Uma princesa de sangue azul — replicou Arcádio.
— Depois de uma breve palestra, pela primeira vez,
convidou para sua casa os grandes aristocratas que somos
nós,
— Principalmente eu, futuro curandeiro, filho de
curandeiro e neto de sacristão... Sabia que eu era neto
de sacristão?.,.
— Como Spieránski — continuou Bazárov depois
de algum silêncio. — Que luxo é esse? É muito exigente
essa senhora em matéria de etiqueta! Vamos apresentar-
nos de fraque?
Arcádio apenas ergueu de leve os ombros, porque
também se sentia um pouco atrapalhado.
Meia hora depois, Bazárov e Arcádio penetraram
na sala de visitas. Era um compartimento amplo, alto,
mobiliado com luxo, mas sem gosto particular. Os móveis
caros e pesados estavam bem distribuídos ao longo
das paredes, exibindo forros de cor castanha com desenhos
dourados. O falecido Odintsov mandara vir
aqueles móveis de Moscou, por intermédio de um amigo,
negociante em bebidas. Sobre o sofá do meio pendia
o retrato de um homem loiro e de faces flácidas
que parecia olhar hostilmente os hóspedes. "Deve ser
ele mesmo", cochichou Bazárov para Arcádio. E, franzindo
o nariz, disse ainda: "Não será melhor ir embora?"
Mas nesse momento entrou a dona da casa. Trajava
um leve vestido claro. Seus cabelos bem penteados
davam uma expressão de juventude ao rosto franco e
belo.
— Agradeço-lhes. São homens de palavra. Sejam
bem-vindos. Creio que não passarão muito mal. Quero
apresentá-los à minha irmã. Toca bem piano. O Senhor
Bazárov não se interessa, mas o Senhor Kirsánov parece-me
* Gente bem; pessoa requintada.
96
que gosta muito de música. Além de minha
irmã, aqui reside minha tia. Vem de quando em quando
um vizinho para jogar cartas. Eis a nossa sociedade.
Sentem-se, por favor.
A Senhora Odintsova pronunciou esse pequeno discurso
com notável clareza, como se o lesse. Voltou-se
depois para Arcádio. Soube-se que sua mãe fora amiga
da mãe de Arcádio e até confidente no seu amor com
Nicolau Pietróvitch. Ele começou a falar com calor da
sua falecida mãe. Bazárov, nesse tempo, estava examinando
os álbuns. "Não sei por que fiquei tão recatado",
pensava.
Um lindo galgo russo de coleira azul entrou na sala
de visitas, batendo as unhas no soalho. Logo depois
veio uma jovem de uns dezoito anos de idade, morena,
de rosto amplo e agradável, olhos escuros e pequenos.
Segurava uma cesta cheia de flores.— Eis a minha
Cátia — apresentou a Senhora Odintsova, indicando
a jovem com um movimento de cabeça.
Cátia fez uma ligeira reverência. Ocupou um lugar
perto da irmã e foi escolhendo as flores. O galgo, de
nome Fifi, aproximou-se, sacudindo a cauda, e encostou
à mão da jovem o seu focinho frio.
— Foi você quem colheu essas flores? — perguntou
a Senhora Odintsova.
— Sim — respondeu Cátia.
— A titia vem tomar chá?
— Vem.
Quando Cátia falava, sorria adoravelmente, num
misto de acanhamento e sinceridade. Olhava com severidade
engraçada, de baixo para o alto. Era ainda
muito jovem: a voz, a penugem das faces, as mãos
cor-de-rosa com os círculos esbranquiçados das palmas
e os ombros mal formados... Corava a todo momento
e arfava sempre.
A Senhora Odintsova perguntou a Bazárov:
97
— É por mera delicadeza que se interessa por esses
álbuns? Acho que sim. Venha até aqui. Vamos conversar.
Bazárov aproximou-se.
— Qual é o assunto que escolheu?
— Qualquer assunto. Previno-o de que sou uma
adversária perigosa.
— A senhora?
— Eu. Parece que isso o surpreende. Por quê?
— Porque acho que é de índole calma e fria. Para
as discussões é necessário ter entusiasmo.
— Como o senhor já conseguiu conhecer-me tão
depressa? Em primeiro lugar sou impaciente e obstinada.
Pergunte-o a Cátia. Em segundo, apaixono-me
facilmente pelo tema.
Bazárov fitou Ana Serguêievna.
— É possível. Deve saber melhor. Se lhe agrada
um debate, vamos discutir. Estava examinando no seu
álbum uns aspectos alpestres da Saxônia. Disse que
não me pode interessar. Declarou-o porque não reconhece
em mim um senso crítico da arte. Efetivamente
não o possuo. Mas as fotografias dessa região poderiam
interessar-me sob o ponto de vista geológico, no
que se refere à teoria da formação das montanhas, por
exemplo.
— Perdoe-me. Na qualidade de geólogo, tem mais
necessidade de um livro, de obra especializada, do que
de simples fotografias ou desenhos.
— Um simples desenho pode explicar-me o que no
livro ocupa dez páginas.
Ana Serguêievna guardou silêncio durante algum
tempo.
— Então o senhor não dispõe nem mesmo de um
pouquinho de senso artístico? — disse a seguir, encostando-
se à mesa e aproximando com esse movimento
98
o seu rosto do de Bazárov. — Como consegue viver
assim?
— Desejo que me diga: para que me serviria o senso
artístico?
— Serviria, por exemplo, para conhecer e estudar
os
homens.
Bazárov sorriu,
— Primeiramente, para isso existe a experiência
da vida; em segundo lugar, posso dizer-lhe que estudar
as personalidades separadas não vale a pena. Todos
os homens se parecem uns aos outros, tanto no corpo
como na alma. Cada um de nós possui um cérebro, um
baço, um coração, os pulmões, órgãos igualmente
constituídos. As próprias qualidades morais, assim
chamadas, são também iguais. Pequenas diferenças de
pontos de vista nada significam. Basta um exemplar
humano, para que se conheçam os restantes. Os homens
são como as árvores na floresta; nenhum botânico
perderá tempo em estudar cada bétula separadamente.
Cátia, que tranqüilamente separava as flores uma
por uma, levantou os olhos para Bazárov, com evidente
surpresa. Encontrando o seu olhar rápido e altivo,
corou intensamente. Ana Serguêievna meneou a cabeça,
como que lamentando alguém ou alguma coisa.
— As árvores da floresta — repetiu ela. — Quer
dizer que, a seu ver, não existe diferença alguma entre
um homem inteligente e um idiota, entre um bom
e um mau?
— Existe: é a mesma diferença que há entre um
são e um doente. Os pulmões de um tuberculoso são
diversos dos que temos nós, embora igualmente constituídos.
Conhecemos mais ou menos a causa dos males
corporais. Os males morais têm a sua causa na má alimentação,
em todas as tolices com que, desde a infância,
se enchem as cabeças dos homens, na organização
99
indecorosa da sociedade, em suma. Reformem a sociedade
e não teremos moléstias.
Bazárov dissertava como se pensasse: "Creia-me ou
não, para mim é indiferente!" Passava os longos dedos
pelas suíças, enquanto seu olhar vagava pelos cantos
da sala.
— Acredita — disse Ana Serguêievna — que quando
a sociedade melhorar já não teremos mais idiotas
nem maus?
— Em último caso, numa sociedade bem organizada,
será indiferente que o homem seja idiota ou sábio,
mau ou bom.
— Compreendo agora: todos terão o mesmo baço
ou o mesmo fígado.
— É isso, minha senhora.
A Senhora Odintsova interrogou Arcádio,
— Qual é a sua opinião, Arcádio Nicoláievitch?
— Concordo com Eugênio — respondeu ele.
Cátia fitou-o, séria.
— Os senhores surpreendem-me — disse a Senhora
Odintsova. — Continuaremos depois a nossa palestra.
Agora a titia quer tomar chá. Devemos respeitar os seus
ouvidos.
A tia de Ana Serguêievna, a Princesa K., mulher
miúda e magra, de rosto seco e pequeno e olhos maus,
imóveis sob as sobrancelhas grisalhas, acabava de entrar.
Depois de uma ligeira reverência aos hóspedes,
ocupou uma ampla poltrona forrada de veludo, na qual,
além dela, ninguém tinha o direito de sentar-se. Cátia
colocou-lhe um banquinho embaixo dos pés. A velha
não lhe agradeceu esse gesto, nem sequer olhou para
ela. Mexeu apenas as mãos sob o xale amarelo
que lhe cobria quase todo o corpo magro. A princesa
tinha predileção pelo amarelo. Até o seu gorro
tinha fitas dessa cor.
100
— Como passou, titia? — indagou a Senhora
Odintsova, elevando a voz,
— Este cachorro está aqui de novo — resmungou
em resposta a velha.
Percebendo que Fifi dera dois passos indecisos em
sua direção, gritou: — Sai, sai!
Cátia chamou Fifi e abriu-lhe a porta.
Fifi correu alegre para fora, na esperança de um
passeio. Ficando, porém, sozinho atrás da porta, começou
a arranhá-la com as unhas e ganir. A princesa
zangou-se. Cátia queria sair...
— Acho que o chá está pronto, senhores — disse
a Senhora Odintsova. — Titia, vamos tomar chá.
A princesa levantou-se silenciosa da sua poltrona e
foi a primeira a sair da sala de visitas. Todos a acompanharam
para a sala de jantar. Um criadinho de libré
afastava rumorosamente da mesa uma poltrona cheia
de almofadas, a poltrona privativa da princesa. Cátia,
que servia o chá, ofereceu-lhe antes de todos uma chávena
com brasão colorido. A velha pôs um pouco de
mel na chávena.. Achava que tomar chá com açúcar
ficava muito caro, embora não gastasse um níquel em
coisa alguma. Interpelou de repente, em voz rouca:
— Que escreve o Príncipe Ivan?
Não lhe responderam. Bazárov e Arcádio perceberam
logo que ninguém lhe prestava atenção, ainda que
a tratassem com respeito.
"É só para manter a importância da casa que guardam
aqui este aborto principesco", pensou Bazárov...
Depois do chá, Ana Serguêievna propôs um passeio.
Começou a chover. Todos, com exceção da princesa,
voltaram à sala de visitas. Chegou o vizinho apaixonado
pelo jogo de cartas, que se chamava Porfírio
Platónitch, homenzinho obeso e de cabelos brancos,
pernas curtas, muito amável e risonho. Ana Serguêievna,
que conversava mais com Bazárov,
101
perguntou-lhe se acedia em jogar uma partida de cartas à moda
antiga. Bazárov aceitou, dizendo que era útil para a sua
futura carreira de esculápio de província.
— Cuidado — preveniu Ana Serguêievna. — Com
Porfírio Platónitch, havemos de vencê-lo. E você,
Cátia — disse à irmã —, toque alguma coisa para Arcádio
Nicoláievitch. Ele gosta de música e nós também
apreciaremos.
Com pouca vontade, Cátia sentou-se ao piano. Arcádio,
embora gostasse muito de música, seguiu-a de
mau-humor: parecia-lhe que a Senhora Odintsova queria
livrar-se de sua presença. No seu coração de moço
já se percebia algo de vago e tormentoso, como um
prenúncio do amor. Cátia levantou a tampa do piano
e, sem olhar para Arcádio, perguntou baixinho:
— Que quer que lhe toque?
— Qualquer coisa — respondeu-lhe desinteressadamente
Arcádio.
— Que música aprecia mais? — repetiu Cátia sem
mudar de posição.
— A música clássica — afirmou com indiferença
Arcádio.
— Gosta de Mozart?
— Aprecio Mozart.
Cátia executou a Sonata-Fantasia em Si-Bemol, de
Mozart. Tocava muito bem, embora um pouco secamente.
Sem afastar os olhos das notas musicais e cerrando
fortemente os lábios, ela permanecia firme e
ereta. Somente ao terminar a sonata, o seu semblante
se iluminou extraordinariamente. Uma pequena madeixa
dos seus cabelos em desalinho se lhe espalhara
pela fronte.
A última parte da sonata impressionou Arcádio. É
um trecho em que, na alegria esfusiante e sincera da
canção, surgem repentinamente notas de uma tristeza
profunda e quase trágica... Seus pensamentos,
102
inspirados pelas harmonias de Mozart, não se dirigiam a
Cátia. Fitando-a, pensava apenas: "Toca bem esta senhorita,
e não deixa de ser simpática".
Terminada a sonata, Cátia, sem tirar as mãos do teclado,
perguntou: "Basta?" Arcádio declarou que não;
queria dar-lhe mais trabalho. Começou a falar sobre
Mozart. Perguntou-lhe se ela, espontaneamente, tinha
escolhido aquela sonata, ou se alguém lha recomendara.
Cátia respondeu-lhe por monossílabos: ocultou-
se em si mesma. Sempre que tal lhe acontecia, permanecia
por muito tempo em seu esconderijo íntimo.
Seu rosto tomou então uma expressão obstinada e
imperturbável. Não era propriamente tímida, mas desconfiada
e um tanto dominada pela irmã que a educou.
Esta última de nada sabia. Arcádio terminou acariciando
Fifi. Para disfarçar a situação, passara, sorrindo,
a mão pela cabeça do animal. Cátia voltou às
suas flores.
Bazárov perdia uma partida após outra. Ana Serguêievna
jogava muito bem. Porfírio Platónitch igualmente.
Bazárov perdeu pouco e de boa vontade. À
ceia, Ana Serguêievna recomeçou a palestra sobre a
botânica.
— Vamos dar um passeio amanhã. Quero conhecer
as denominações latinas das plantas silvestres e
suas propriedades.
— Para que as denominações latinas? — interessou-
se Bazárov.
— A ordem é indispensável em tudo — respondeu
a Senhora Odintsova,
— Que mulher admirável é Ana Serguêievna —
exclamou Arcádio, quando ficou a sós com seu amigo,
no aposento que lhes fora reservado.
— Sim — respondeu Bazárov. — Essa mulher
pensa. Tem muita prática da vida.
103
— Em que sentido diz isso, Eugênio VassíLievitch?
— Nada afirmo de mau, Arcádio Nicoláievitcht
Estou convencido de que ela sabe administrar otimamente
sua fazenda. Mas a maravilha não é ela e sim
sua irmã.
— Como? Aquela moreninha?
— Sim, aquela moreninha. Tem algo de delicado,
virgem, tímido, silencioso e tudo o que quiser. Merece
bem toda a atenção. Dela ainda se pode fazer o que
bem se entenda. A outra já tem muita experiência.
Arcádio nada lhe respondeu. Cada um foi deitar-
se com seus pensamentos.
Ana Serguêievna, na mesma tarde, pensava nos seus
hóspedes. Bazárov agradara-lhe pela sua sinceridade e
pela própria violência das suas opiniões. Uma pessoa
como nunca conhecera. E era muito curiosa.
Ana Serguêievna não deixava de ser bastante original.
Livre de quaisquer preconceitos, sem convicções
firmes de espécie alguma, não cedia às opiniões
alheias. Raramente freqüentava a sociedade. Via muita
coisa com clareza, vários assuntos a preocupavam
ou interessavam, e nada a satisfazia. Aparentemente
nem desejava uma satisfação completa. Sua inteligência
era penetrante e fria. Suas dúvidas nunca se dissipavam
completamente e nunca a agitavam de todo. Não
fosse rica e independente, poderia atirar-se à luta, conhecer
as paixões... conquanto se aborrecesse algumas
vezes. Assim se passavam os dias calmos e com
raras novidades.
A vida às vezes lhe parecia bela ante os olhos. Repousava
quando as visões desapareciam, sem sentir
este desaparecimento. A sua imaginação levava-a
além dos limites daquilo que pelas leis da moral comum
se considera permitido. Nesses momentos também o
seu sangue circulava tranqüilamente no seu formoso
corpo. Às vezes, saindo de um banho perfumado,
104
toda quente e mole de prazer, punha-se a pensar nas misérias
da vida, na desgraça, no trabalho e no mal... Sua
alma enchia-se de coragem e de impulsos nobres. Bastava
então que soprasse o vento pela janela aberta, para
que Ana Serguêievna se encolhesse toda, e quase se
zangasse. Só lhe interessava então uma coisa: fazer
cessar aquele vento desagradável e impertinente.
Como todas as mulheres que não amaram de verdade,
ela não sabia o que desejava. Propriamente não
queria coisa alguma, mas parecia-lhe que aspirava a
muito. Suportara com dificuldade o falecido Odintsov.
(Casara-se com ele por interesse, embora fosse incapaz
de consentir em ser sua esposa, se não o julgasse um
homem de bem.) Sentiu, a partir de então, uma secreta
repulsa por todos os homens que lhe pareciam negligentes
ou indolentes. Uma vez, no estrangeiro, conhecera
um bem apessoado jovem sueco, de expressão cavalheiresca
e olhos azuis e honestos iluminando a fronte
alta. Produziu-lhe forte impressão, o que não a impediu
de regressar à Rússia.
"É um homem curioso este esculápio!", pensava, recostada
no seu esplêndido leito, sobre os travesseiros
de rendas finas, debaixo de um cobertor de seda...
Ana Serguêievna herdara do pai um certo gosto pelo
luxo. Estimava muito seu bondoso e perdulário pai.
Ele adorava-a. Tratava-a como igual, depositando nela
absoluta confiança. Até lhe pedia conselhos. De sua
mãe, quase não se lembrava.
"É curioso este esculápio!", repetiu de si para si. Espreguiçou-
se, sorriu, cruzou as mãos à nuca. Passou depois
os olhos pelas páginas de um romance francês,
deixou cair o livro e adormeceu, virtuosa e fria, entre
os lençóis limpos e perfumados da cama.
Na manhã seguinte, logo após o almoço, Ana Serguêievna
saiu em companhia de Bazárov para uma excursão
botânica, voltando pouco antes do jantar.
105
Arcádio ficou em casa e passou uma hora com Cátia. Não se
aborrecia, porque ela mesma propôs que repetissem a
sonata de ontem. E, quando a Senhora Odintsova voltou
afinal do seu passeio, Arcádio sentiu seu coração
confranger-se por instantes ao vê-la... Atravessava o
jardim com o passo um tanto cansado. Suas faces estavam
vermelhas e os olhos brilhavam-Lhe extraordinariamente
sob a aba de um chapéu de palha. Apalpava cuidadosamente
a haste fina de uma flor silvestre. Uma leve
mantilha cobria-lhe os cotovelos. As fitas cinzentas
e largas do chapéu desciam-lhe até o peito. Bazárov se-
guia-a com segurança e desembaraço, como sempre. A
expressão do seu rosto, embora alegre e até carinhosa,
não agradou a Arcádio. Depois de lhe murmurar um
"Bom dia", Bazárov foi ter ao seu aposento. A Senhora
Odintsova apertou distraidamente a mão de Arcádio
e deixou-o.
"Bom dia...", pensou Arcádio. "Porventura já não
nos vimos hoje?"
XVII
Como se sabe, o tempo voa às vezes como a ave e
às vezes se arrasta como o verme. O homem sente-se
bem só, quando não percebe que as horas passam depressa
ou devagar. Arcádio e Bazárov passaram assim
quinze dias em casa da Senhora Odintsova. Em parte
essa demora contribuiu para a ordem que ela estabeleceu
em sua residência e na própria vida. Conservava
fielmente aquele sistema e fazia com que os outros o
seguissem à risca. Tudo, no correr do dia, tinha suas
horas fixas. Pela manhã, às 8 horas em ponto, todos se
reuniam para tomar chá. Após o chá, até a hora do almoço,
cada um fazia o que bem entendesse, enquanto a
dona da casa conversava com o administrador,
106
com o mordomo e com a governanta-chefe. Antes do jantar,
novamente se reuniam para a Leitura ou para palestra.
A tarde era consagrada aos passeios, ao jogo e à música.
Às 10 e meia, Ana Serguêievna retirava-se para o
seu aposento, depois de ordenar o que se devia fazer no
dia seguinte. E deitava-se. Bazárov não apreciava muito
esta solene e bem medida pontualidade da vida cotidiana:
"A gente vai andando como pelos trilhos",
pensava ele. Os criados de libré e um maneiroso e empertigado
mordomo lhe feriam os sentimentos democráticos.
Achava que com aquele sistema deviam sentar-
se à mesa segundo o estilo inglês: de fraque e gravata
branca. Uma vez falou a respeito com Ana Serguêievna.
Ela se conduzia de tal modo, que todos podiam livremente
expressar-lhe a sua opinião. Depois de ouvi-lo,
disse: "No seu ponto de vista o senhor tem razão. É
provável que eu seja aristocrata. Mas no campo é impossível
viver de outra maneira, do contrário a gente
morre de tédio", e continuou a fazer tudo como antes.
Bazárov resmungava. Entretanto, ele e Arcádio passavam
provavelmente tão bem na casa da Senhora
Odintsova só porque ali "tudo corria como pelos trilhos".
Além disso, ambos mudaram muito desde os primeiros
dias da sua permanência em Nikólskoie. Bazárov,
a quem Ana Serguêievna evidentemente já estimava,
ainda que poucas vezes concordasse com ele, começou
a manifestar uma certa preocupação íntima desconhecida.
Irritava-se facilmente, falava de má vontade.
Sério e carrancudo, não podia ficar tranqüilo num
lugar. Uma força estranha punha-o em movimento. Arcádio,
por sua vez, convencido de que se apaixonara
definitivamente pela Senhora Odintsova, andava triste.
Este estado de alma não lhe impediu que se familiarizasse
com Cátia.
Entre ambos até se estabeleceram carinhosas relações
de amizade. "Ela não me aprecia! Que me importa!...
107
Conheço um ser que não me despreza." Seu coração
de novo experimentava a doçura dos sentimentos
generosos. Cátia compreendia vagamente que ele buscava
uma espécie de conforto moral em sua companhia.
Não lhe negava espontaneamente esse prazer inocente
de uma amizade confiante e meio tímida. Na presença
de Ana Serguêievna, não falavam. Cátia sempre
se enchia sob o olhar atento da irmã. Arcádio, como
convém a um homem apaixonado, em presença da pessoa
amada, não prestava atenção a quem quer que fosse.
Sentia-se muito bem só em companhia de Cátia. Intimamente
reconhecia que não tinha forças ou era incapaz
de interessar a Senhora Odintsova. Acanhava-se de
ficar a sós. Ela não sabia o que dizer-lhe: Arcádio era
demasiado jovem. Ao contrário, em presença de Cátia,
Arcádio sentia-se como se estivesse em casa. Tratava-a
com certa superioridade, ouvia as impressões que lhe
causava a música, a leitura de romances, versos e outras
ninharias, mal percebendo, ignorando mesmo que
essas banalidades o interessavam. Por sua vez Cátia não
lhe perturbava a tristeza. Arcádio dava-se bem com Cátia,
e Bazárov com a Senhora Odintsova. Por isso, sucedia
não raro o seguinte: ambos os pares, depois de
algum tempo de palestra, iam cada um para seu lado,
principalmente por ocasião dos passeios. Cátia adorava
a natureza e Arcádio também, embora não tivesse coragem
de confessá-lo. A Senhora Odintsova era indiferente
à natureza e assim também Bazárov. A separação
quase constante dos nossos amigos teve suas conseqüências:
mudaram as suas relações. Bazárov nunca
mais falou com Arcádio sobre a Senhora Odintsova.
Até deixou de criticar as suas atitudes aristocráticas.
Elogiava Cátia, aconselhando-o tão-somente a refrear
as suas tendências sentimentais. Seus elogios eram
apressados, os conselhos áridos e, de um modo geral,
conversava com Arcádio muito menos do que antes...
108
parecendo evitá-lo ou envergonhar-se da sua companhia.
Arcádio notou-o, mas não disse uma palavra.
A causa real de toda essa "mudança" era o sentimento
que a Senhora Odintsova inspirara a Bazárov.
Era o que o atormentava e aborrecia. Renunciaria imediatamente
a esse afeto com uma gargalhada sarcástica
e ofensas cínicas, se alguém, ainda que por alto, lhe
indicasse a possibilidade da realização daquilo que se
passava no seu íntimo. Bazárov era um grande conhecedor
das mulheres e da beleza feminina, mas o amor
ideal ou romântico, como costumava qualificá-lo, considerava
absurdo, imperdoável estupidez. Julgava o sentimento
cavalheiresco uma espécie de aleijão ou moléstia.
Muitas vezes expressou a sua sincera admiração
dizendo: "Por que não me internaram na casa amarela
de Toggenberg com todos os poetas e trovadores?
Se te agrada uma mulher, procura alguma coisa de útil;
se não é possível, deixa-a, que a terra é muito grande".
A Senhora Odintsova agradava-lhe. Os comentários em
torno da sua pessoa, a liberdade e seu modo independente
de pensar, sua boa posição para com ele, tudo
vinha em seu favor. Mas viu logo que nada conseguiria
de "útil". Resolveu deixá-la, porém, com grande espanto
seu, não era possível esquecê-la. O seu sangue tumultuava,
só ao pensar nela. Poderia muito bem dominar
a voz do coração. Entretanto, algo o impedia de
evitar o que sempre censurara nos outros. Semelhante
situação era um insulto ao seu amor-próprio. Nas palestras
com Ana Serguêievna, ele, mais do que nunca,
manifestava o seu desprezo por tudo o que é romantismo.
Ficando a sós com ela, reconhecia com indignação
que não passava de um romântico. Dirigia-se então ao
bosque, explorando seus recessos, quebrando os galhos
que lhe atravessavam o caminho e acusando-a, sem perdoar
a si mesmo. Ou então entrava no depósito de feno,
109
ou num paiol Fechando os olhos, esforçava-se por
dormir, o que nem sempre lhe acontecia. Às vezes,
figurava-se-lhe possível que um dia seus braços fortes
envolvessem o colo da mulher amada, e seus lábios irônicos
respondessem aos seus beijos, os olhos inteligentes
e cheios de ternura fitassem os seus e a cabeça se lhe
pusesse a girar até que esquecesse tudo, e então sua
indignação se manifestava de novo. Bazárov surpreendia-
se em toda espécie de reflexões "vergonhosas". Parecia-
lhe uma tentação do demônio. Julgava perceber
por vezes que se processava qualquer mudança na pessoa
da Senhora Odintsova. Sua expressão revelava alguma
coisa de incomum, que possivelmente... Ainda
nesse caso, batia comumente o pé no chão, rangia os
dentes e ameaçava a si mesmo.
Entretanto, Bazárov não se enganava completamente.
Conseguira impressionar a imaginação da Senhora
Odintsova. Preocupava o seu pensamento. Ela pensava
muito naquele "curioso esculápio". Aborrecia-se da sua
ausência, fingia não o esperar, mas o seu aparecimento
provocava em Ana Serguêievna uma visível emoção.
De boa vontade permanecia a sós com Bazárov e mantinha
a conversação, até mesmo nas ocasiões em que
ele a aborrecia ou ridicularizava seus gostos e seus hábitos
elegantes. Parecia experimentá-lo e conhecer-se a
si mesma.
Um dia, passeando com a Senhora Odintsova pelo
jardim, declarou-lhe de repente e com tristeza que estava
disposto a partir em breve para a casa de seu pai...
Ela ficou pálida, como se alguma coisa tocasse dolorosamente
seu coração, tão dolorosamente que, depois,
nunca deixou de pensar naquilo. Bazárov anunciou-lhe
a sua partida não com a intenção de experimentá-la e
sim para ver o resultado das suas palavras: sempre tivera
horror às "invenções" românticas. É que pela manhã
do mesmo dia encontrou o administrador do seu pai,
110
seu ex-pagem Timofiêievitch, Este Timofiêievitch,
velho esperto e maltratado, de cabelos pardos, cara vermelha
e Lágrimas minúsculas nos cantos dos olhos cercados
de rugas, surgiu inesperadamente diante de Bazárov,
trajando um capote de tecido grosseiro de cor
cinzento-azulada e tendo um pedaço de couro por cinta
e botas engraxadas de piche.
— Olá, bom dia, meu velho! — exclamou Bazárov.
— Bom dia, meu querido senhor Eugênio Vassílievitch
— respondeu o velho com um largo sorriso, enquanto
sua face se enrugava.
— Por que veio? Mandaram buscar-me?
— Não, meu senhor, que idéia! — disse confuso Timofiêievitch,
porque se lembrara de uma ordem severa
do seu velho senhor, à hora da partida. — Vou à cidade
por ordem do meu amo. Ouvi dizer que o senhor estava
aqui e resolvi passar por esta fazenda, para vêlo...
Não me atrevo a incomodar Vossa Mercê.
— Não minta, velho — interrompeu-o Bazárov. —
O caminho para a cidade passa muito-longe daqui. —
Timofiêievitch, atrapalhado, nada respondeu. — Meu
pai está bem?
— Graças a Deus.
— E minha mãe?
— Arina Vassílievna também está bem. Deus a conserve
por muitos anos.
— Esperam-me, naturalmente!
O velhinho baixou um pouco a sua minúscula cabeça.
— Eugênio Vassílievitch, eles o esperam ansiosamente!
Juro por Deus: os seus pais estão morrendo de
saudades.
— Está bem, não se expanda muito. Diga-lhes que
logo irei visitá-los.
— Obedeço — respondeu suspirando Timofiêievitch.
Ao partir, endireitou com ambas as mãos o seu boné,
111
subiu à boléia dum carro humilde que se achava junto
ao portão e saiu a trote numa direção que não era a
da cidade.
À tarde do mesmo dia, a Senhora Odintsova estava
em companhia de Bazárov, enquanto Arcádio se achava
no salão, ouvindo a música de Cátia. A princesa recolheu-
se ao seu aposento no andar superior. Não tolerava
os hóspedes, chamando-lhes "maltrapilhos modernos".
Na sua presença ainda disfarçava o mau humor.
Em compensação, no seu quarto descarregava toda a
raiva na pessoa da criada. Gritava tanto, que a touca
lhe dançava na cabeça. A Senhora Odintsova estava ao
par de todas essas cenas.
— Então os senhores vão partir — disse ela. — Lembram-
se do que prometeram?
Bazárov estremeceu.
— Que promessa lhe fizemos?
— Já se esqueceu? Prometeu-me dar algumas lições
de química.
— Que se vai fazer! Meu pai espera-me. Não posso
demorar-me. Recomendo-lhe, porém, a leitura de Notions
Générales de Chimie*, de Pelouse e Frémy. É um
bom livro, escrito em linguagem clara. Encontrará ali
tudo quanto precisa.
— Lembra-se de que me dizia que o livro por si só
não pode substituir... não me recordo como se expressou,
mas sabe o que quero dizer... Lembra-se?
— Que vou fazer? — repetiu Bazárov,
— Por que partem? — disse a Senhora Odintsova,
baixando a voz.
Bazárov observou-a por alguns instantes. Ela estava
reclinada no espaldar da poltrona, de mãos cruzadas no
peito e nuas até os cotovelos. Parecia-lhe mais pálida à
luz de um único lampião com um quebra-luz de papel
em forma de rede. Seu amplo vestido branco a cobria
* Noções Gerais de Química.
112
toda com suas dobras suaves. Mal se lhe viam as pontinhas
dos pés, também cruzados.
— E por que havemos de ficar? — respondeu Bazárov,
A Senhora Odintsova voltou-lhe de leve a face,
— Como por quê? Acaso não se sentem bem aqui?
Ou pensa porventura que ninguém- aqui terá saudades?
— Estou mais do que certo disso.
A Senhora Odintsova calou-se.
— Não tem razão de pensar assim. Contudo, não
creio.
Não podia afirmá-lo seriamente.
Bazárov continuou imóvel.
— Eugênio Vassílievitch, por que não diz nada?
— Dizer o quê? Não convém ter pena dos homens
em geral, e de mim principalmente.
— Por quê?
— Sou um homem positivo e desinteressante. Nem
sei conversar.
— Parece que pretende ouvir um elogio da minha
parte, Eugênio Vassílievitch.
— Não estou habituado a tal. Não sabe que me é
inacessível
o lado da vida que lhe é tão caro?
A Senhora Odintsova mordeu as pontas do lenço.
— Pense o que quiser, mas ficarei triste quando partirem.
— Arcádio fica — observou Bazárov.
A Senhora Odintsova mexeu levemente um dos
ombros.
— Ficarei triste — repetiu.
— Triste? Acho que por pouco tempo apenas.
— Por que o diz assim?
— Porque me baseio nas suas próprias palavras:
"Só sinto tédio quando se modifica a ordem aqui reinante".
Organizou tão impecavelmente a sua vida, que
não há aqui lugar para a tristeza, o tédio, a saudade...
e outros sentimentos penosos.
113
— Acha que sou infalível... isto é, que organizei
bem a minha vida?
— E como! Por exemplo: daqui a alguns minutos
sei que serão 10 horas e sei também que me expulsará
da sua presença.
— Não, não o expulsarei, Eugênio Vassílievitch. Pode
ficar. Abra essa janela... Sinto falta de ar.
Bazárov ergueu-se e encostou a mão à vidraça, A
janela abriu-se logo com estrondo, .. Não esperava que
fosse tão fácil. Suas mãos tremiam. A treva aveludada
da noite encheu a janela, revelando um céu quase negro,
os vultos farfalhantes das árvores e o cheiro fresco,
livre e puro do ar.
— Desça a cortina e sente-se — disse a Senhora
Odintsova. — Quero conversar com o senhor antes
da sua partida. Diga-me qualquer coisa sobre a sua pessoa.
Nunca fala sobre si mesmo.
— Costumo conversar sobre os assuntos úteis, Ana
Serguêievna.
— É muito modesto... Queria saber alguma coisa
sobre o senhor, sobre a sua família e sobre o seu pai,
por quem nos abandona.
"A que propósito diz tudo isto?", pensou Bazárov,
— Seria pouco interessante — disse ele em voz alta.
— Principalmente para a senhora. Somos gente tão
atrasada...
— Segundo seu modo de ver, sou então uma aristocrata?
Bazárov olhou significativamente para a Senhora
Odiritsova.
— É verdade — pronunciou com excessiva rispidez.
Ela sorriu.
— Vejo que me conhece muito pouco, embora afirme
que todos os seres humanos se parecem uns aos outros
e não merecem estudo. Um dia contar-lhe-ei a minha vida...
114
Antes, porém, queria que me contasse a
sua.
— Conheço-a muito pouco — repetiu Bazárov. —
Pode ser que tenha razão. É possível que todo homem
seja um enigma. A senhora, por exemplo: evita a sociedade,
não a tolera e convidou para a sua casa dois
estudantes. Por que vive no campo com sua inteligência
e sua beleza?
— Como? Que disse? — interrompeu vivamente a
Senhora
Odintsova. — Com a minha... beleza?
Bazárov ficou sério.
— É a mesma coisa — murmurou ele —, queria dizer
que não compreendo bem por que vive no campo.
— Não compreende... c explica o fato de qualquer
modo?
— Sim... suponho que fica sempre aqui porque é
caprichosa, porque gosta muito do conforto, de todas as
comodidades e é indiferente ao resto.
A
Senhora Gdintsova sorriu de novo.
— Decididamente não quer admitir que eu seja capaz
de apaixonar-me?
Bazárov fixou-a, de cenho carregado.
— Apaixonar-se por curiosidade, admito. De outro
modo não.
— Com efeito! Agora compreendo por que nos conhecemos:
tem muita coisa de comum comigo.
— Nós nos conhecemos... — proferiu surdamente
Bazárov.
— Ora!... E me esqueci de que os senhores vão
partir.
Bazárov ergueu-se. O lampião iluminava fracamente
a sala escura, perfumada e confortável. Através da cortina
que se balançava levemente vinha a excitante frescura
da noite, ouvia-se o seu misterioso murmúrio. A
Senhora Odintsova não se movia e uma comoção íntima
se apossava dela pouco a pouco... Esse sentimento
115
comunicou-se também a Bazárov. Percebeu de repente
que estava a sós com uma mulher jovem e bela...
— Onde vai? — interpelou lentamente ela.
Bazárov nada respondeu e acomodou-se na poltrona.
— Então me considera um ser frio, caprichoso e mimado
— continuou no mesmo tom de voz, sem tirar os
olhos da janela. — E no entanto sou muito infeliz.
— Infeliz! Por quê? Dá tanta importância aos mexericos
da cidade?
A Senhora Odintsova franziu a testa. Ficou aborrecida
porque a entendeu assim.
— Esses mexericos nem chegam a divertir-me, Eugênio
Vassílievitch, Sou muito orgulhosa para permitir
que me incomodem. Sou infeliz porque... porque
não tenho vontade de viver. Olha-me como se pensasse:
fala uma aristocrata vestida de rendas e sentada numa
poltrona de veludo. Não nego: gosto daquilo que se
chama de conforto e ao mesmo tempo tenho pouca
vontade de viver. Resolva essa contradição como bem
o
entender. Mas, segundo sua opinião, tudo isso não
passa
de romantismo.
Bazárov moveu a cabeça em tom de dúvida.
— Goza de saúde, é independente e rica. Que n mais
ainda? Que deseja mais?
— Que desejo? — repetiu a Senhora Odintsova suspirando.
— Estou cansada. Envelheci e parece-me que
vivo muitos anos. Envelheci — acrescentou puxando
devagar a mantilha sobre os seus braços nus. Seus olhos
encontraram-se com os olhos de Bazárov. Corou de
leve. — Tenho também minhas reminiscências: a vida
na capital, a riqueza, depois a miséria, a morte de meu
pai, o casamento, em seguida a viagem ao estrangeiro,
tudo de acordo... Tenho tantas recordações e de nada
quero recordar-me. Diante de mim vejo um caminho
longo, muito longo e sem objetivo algum... Não tenho
vontade de trilhá-lo.
116
— Será uma desilusão completa? — perguntou Bazárov.
— Não — replicou pausadamente a Senhora
Odintsova. — Não estou satisfeita. Parece-me que se
pudesse afeiçoar-me fortemente a alguma coisa...
— O que quer é apaixonar-se por alguém — interrompeu-
a Bazárov. — Quer e não pode, eis a sua infelicidade.
A Senhora Odintsova começou a examinar a sua
mantilha.
— Será que não posso amar alguém? — disse.
— É difícil! Chamei por engano de infelicidade semelhante
situação. Ao contrário, só é infeliz aquele que
se apaixona.
— Quem se apaixona?
— Sim, aquele que se apaixona por uma mulher.
— É experiência própria?
— Sei por ouvir dizer — respondeu rispidamente
Bazárov.
"'É muito faceira", pensou, "aborrece-me e provoca-
me, porque nada mais tem que fazer, e eu..." Estava
de fato profundamente impressionado.
— Além disso, pode ser demasiado exigente — disse
ele inclinando-se e tocando o forro da poltrona.
— É possível Ou tudo ou nada. É uma vida por outra
vida. Apossou-se da minha, entregue-me a sua sem
arrependimento e para sempre. De outro modo não serve.
— Bem! — foi a resposta de Bazárov. — É uma
condição justa. Admiro-me de como, até agora... não
encontrou o que deseja.
— Pensa que é muito fácil dedicar-se de corpo e alma
a qualquer coisa?
— Não é fácil, se a gente começa a refletir e esperar,
assim como valorizar-se ou vender-se caro. Sem pensar,
é muito simples entregar-se.
— Deixar de valorizar a sua própria personalidade?
117
E, se não tenho mais valor algum, de que vale a minha
dedicação?
— Não me cabe sabê-lo. Compete a outrem determinar
o meu valor. O essencial é saber sacrificar-se,
A Senhora Odintsova mudou de posição na sua poltrona.
— Fala como se tivesse experimentado tudo pessoalmente.
— Palavra arrasta palavra, Ana Serguêievna. Sabe
perfeitamente que isso não faz parte da minha especialidade.
— Seria capaz de sacrificar-se?
— Não sei. Não costumo vangloriar-me.
A Senhora Odintsova nada mais disse e Bazárov calou-
se. As notas do piano chegaram aos seus ouvidos
da sala de visitas.
— Não sei porque Cátia está tocando tão tarde —
observou a Senhora Odintsova.
Bazárov ergueu-se de novo.
— É muito tarde, de fato. Já é tempo de que se recolha.
— Espere, não há pressa. . , Quero dizer-lhe ainda
uma palavra.
— Que palavra?
— Espere — murmurou a Senhora Odintsova. Seus
olhos se fixaram em Bazárov. Parecia examiná-lo com
atenção.
Bazárov deu alguns passos pelo salão, aproximou-
se de repente dela, disse-lhe um apressado "adeus",
apertou-lhe fortemente a mão, fazendo-a quase gritar
de dor, e saiu. Ela levou seus dedos apertados aos lábios,
soprou-os e, levantando-se da poltrona em que se
achava, dirigiu-se precipitadamente à porta, como que
para gritar a Bazárov que voltasse... A criada entrou
nesse momento no salão com um frasco de cristal sobre
a bandeja de prata. A Senhora Odintsova dominou o seu gesto,
118
mandou que a criada se retirasse e sentou-
se de novo, pensativa. A trança, em desalinho, caiu-
lhe sobre o ombro como uma serpente negra.
A lâmpada ficou ainda acesa por muito tempo no
quarto de dormir de Ana Serguêievna. A Senhora Odintsova
permaneceu horas e horas imóvel, apenas passando
às vezes os dedos pelos braços arrepiados pelo frio
da noite.
Bazárov, duas horas depois, veio ao seu aposento
com as botas úmidas de orvalho, desalinhado e sombrio.
Encontrou Arcádio junto à mesa de trabalho, com
um livro na mão e o paletó completamente abotoado.
— Ainda não se deitou? — disse, aparentando aborrecimento.
— Você hoje conversou muito com Ana Serguêievna
— limitou-se a dizer Arcádio, sem responder-lhe à pergunta.
— Passei o tempo durante o qual você e Cátia estavam
ao piano.
— Não toquei piano... — mal tinha começado, Arcádio
calou-se.
Sentia as lágrimas que lhe vinham aos olhos e não
quis chorar na presença do seu sarcástico amigo.
XVIII
No dia seguinte, quando a Senhora Odintsova apareceu
para tomar chá, Bazárov por muito tempo esteve
inclinado sobre a sua chávena, antes de olhar para
a dona da casa... Ela fitou-o, como se Bazárov assim
o exigisse. Pareceu-lhe que tinha empalidecido muito
durante a noite. Recolheu-se ao seu aposento e apareceu
somente à hora do almoço. Pela manhã, o tempo
era chuvoso e impedia qualquer passeio. Todos se reuniram
na sala de visitas. Arcádio tomou um número
119
atrasado de revista e começou a ler. A princesa mostrou-
se primeiramente admirada, esperando algo de escabroso,
dirigindo-lhe em seguida seu olhar de ódio. Arcádio
continuou lendo, sem lhe prestar a mínima atenção.
— Eugênio Vassílievitch — suplicou Ana Serguêievna
—, quero falar-lhe. ., Perguntar-lhe uma coisa...
Recomendou-me ontem um tratado... — Levantou-
se e foi à porta. A princesa olhou em redor com uma
expressão que parecia dizer: "Vejam só. Estou apavorada!"
Examinou novamente Arcádio, como se solicitasse
o seu apoio. Sentado ao lado de Cátia, Arcádio
levantou a voz e continuou a leitura.
A Senhora Odintsova dirigiu-se rapidamente ao seu
gabinete de trabalho. Bazárov acompanhou-a obediente,
sem levantar seus olhos. Seguia o frufru suave de
um vestido de seda. A Senhora Odintsova ocupou a
mesma poltrona da véspera. Bazárov também.
— Como se chama o compêndio que me indicou? —
disse Ana Serguêievna interrompendo o incômodo silêncio.
— Notions Générales de Chimie, de Pelouse e Frémy
— foi dizendo Bazárov. — Aconselho também o
Traité Élémentaire de Physique Experimentale*, de Ganot.
Neste livro as figuras são muito instrutivas. Pode-
se aprender pelas ilustrações.
A Senhora Odintsova estendeu sua mão alva.
— Eugênio Vassílievitch, perdoe se o chamei. Fi-lo
não para discutir sobre os compêndios escolares. Queria
renovar a palestra de ontem. Conversação de despedida..
. Não ficará triste?
— Às suas ordens, Ana Serguêievna. Interessa-me
saber de que falávamos ontem.
A Senhora Odintsova acompanhou com o olhar Bazárov.
* Tratado Elementar de Física Experimental.
120
— Parece que conversávamos ontem sobre a felicidade.
Disse-lhe qualquer coisa sobre mim mesma. Vem
agora, a propósito, a palavra "felicidade". Por que, até
quando sentimos um prazer, por exemplo com a música,
uma linda tarde, a palestra com uma pessoa simpática,
por que tudo isso nos parece sem pretexto para a
felicidade sem fim e existente em qualquer parte: mais
um pretexto do que a verdadeira ventura que trazemos
em nós? Por quê? Ou possivelmente nada sente?
— Conhece o provérbio russo: "Vive-se bem onde
não estamos"? — respondeu Bazárov. — Disse-me
ontem que não se sente satisfeita. Na verdade, nunca
pensou em semelhantes coisas. Pode ser que lhe pareçam
ridículas?
— Não. Essas idéias não me vêm à mente. Realmente.
Sabe que eu desejaria conhecer os seus pensamentos?
— Como? Não a compreendo.
— Ouça-me. Há muito queria explicar-me com o
senhor. Nada tem a dizer, sabe-o perfeitamente, porque
não é um homem comum. É moço e tem toda a vida
diante de si. Para que se prepara? Que futuro o espera?
Quero saber que objetivo tem em vista, que caminho
trilha na vida, que sente no íntimo da sua alma. Em
poucas palavras: quem é o senhor?
— Surpreende-me, Ana Serguêievna. Já sabe que
estudo as ciências naturais e, quem sou...
— Sim, quem é?
— Já tive ocasião de informá-la de que sou um
futuro médico de província.
Ana Serguêievna fez um gesto de impaciência,
— Por que diz isso? Nem o senhor mesmo acredita
no que diz. Arcádio poderia responder assim e não o
senhor.
— Em que Arcádio é...
— Basta! É possível que se satisfaça com tão modesta atividade,
121
se afirma sempre que a medicina não
existe? Com o seu amor-próprio, um médico de província!
Um esculápio do campo! Responde-me como se
quisesse evitar a minha parlapatice, porque não deposita
nenhuma confiança em mim. Sabe, Eugênio Vassílievitch,
que eu poderia compreendê-lo bem. Já fui pobre
e egoísta como o senhor. Suportei possivelmente as
mesmas tormentosas provas que suportou na sua vida.
— Tudo isso está muito bem, Ana Serguêievna, mas
perdoe-me... não aprecio as confissões e medeia tão
grande distância entre nós...
— Que distância? Vai dizer novamente que sou
aristocrata? Basta, Eugênio Vassílievitch. Parece que
lhe provei já...
— Além disso — interrompeu Bazárov —, que
extravagante vontade é essa de falar e pensar no futuro,
que na maioria das vezes não depende de nós? Se por
acaso tivermos de fazer alguma coisa, está bem; se
não, bastar-nos-á o prazer de não termos falado à toa.
— Chama uma palestra de amigos de conversa à
toa... ou, porventura, considera-me uma mulher indigna
de sua confiança?
— Não a desprezo, Ana Serguêievna, como bem
deve saber.
— Não sei... Suponhamos que compreendo a
pouca disposição de falar sobre a sua futura atividade.
Mas o que nesse momento se passa com o senhor...
— O que se passa comigo! — repetiu Bazárov —
como se eu fosse um Estado ou sociedade! Em todo
caso, o assunto deixa de ser interessante. Além disso,
pode um homem sempre dizer bem alto o que "se passa"
com ele?
— Não vejo por que não podemos dizer o que temos
na alma.
—-A senhora pode? — perguntou Bazárov.
122
— Posso — respondeu Ana Serguêievna depois de
breve
hesitação.
Bazárov baixou a fronte.
— É mais feliz do que eu.
Ana Serguêievna olhou-o interrogativamente.
— Como quiser — continuou; — alguma coisa,
porém, me diz que nos encontramos a propósito, que
seremos futuramente bons amigos. Estou certa de que
essa sua, por assim dizer, impenetrabilidade e avareza
de expressão hão de desaparecer afinal.
— Percebeu em mim a avareza de expressão...
como disse... impenetrabilidade?
— Sim.
Bazárov ergueu-se e aproximou-se da janela.
— Queria saber a causa do que se passa em mim?
— Sim — repetiu a Senhora Odintsova com um espanto
ainda desconhecido.
— Não se zangará?
— Não.
— Não? — repetiu Bazárov, que estava em pé de
costas para ela, e prosseguiu: — Saiba então que a
amo idiotamente, doidamente... Acho que está satisfeita
agora.
A Senhora Odintsova ergueu os braços. Bazárov encostou
a testa no vidro da janela. Sufocava. Todo o seu
corpo, visivelmente, tremia. Não era o tremor da timidez
de moço; era o amargo terror da primeira confissão
que o dominou. Era paixão que se debatia nele, forte e
dolorosa, a paixão semelhante ao ódio e provavelmente
irmã deste último... A Senhora Odintsova teve medo
de Bazárov.
— Eugênio Vassílievitch — e na sua voz vibrava
uma ternura involuntária.
Ele voltou-se rapidamente com um olhar que parecia
devorá-la. Agarrando ambas as suas mãos, apertou-a de
encontro ao peito...
123
Ela se libertou logo do seu abraço. Momentos depois,
colocou-se num canto distante e de lá contemplava Bazárov,
Ele foi rapidamente em sua direção, . .
— O senhor não me compreendeu — murmurou
com crescente susto. Parecia que, se Bazárov desse mais
um passo, gritaria por socorro, ..
Ele mordeu os lábios e saiu.
Meia hora depois, a criada entregou a Ana Serguêievna
um bilhete. Continha somente as seguintes
palavras: "Devo partir hoje ou ficar até amanhã?"
"Para que partir? Não o compreendia nem o senhor
me compreendeu", respondeu-lhe Ana Serguêievna, e
pensou consigo mesma: "Nem eu me compreendia".
Ela não apareceu até a hora do jantar, andando pelo
seu quarto com as mãos às costas e parando às vezes
ora em frente à janela, ora diante do espelho. Passava
um lenço pela nuca, onde lhe parecia haver uma
mancha quente. Indagava a si mesma: o que a teria
obrigado a satisfazer sua curiosidade, como dizia Bazárov,
a exigir sua franqueza? Havia em tudo isso alguma
coisa?... — Eu é que tenho culpa — disse alto.
— Não podia prever as conseqüências. — Refletia e
corava, lembrando-se da catadura quase feroz de Bazárov,
quando se atirou a ela...
— Será possível? — proferiu de repente, parando e
sacudindo os cabelos... Viu-se no espelho. Sua fronte
soberba, com um sorriso misterioso nos olhos semicerrados
e nos lábios, traduzia nesse instante algo que a
impressionou...
— Não! — disse resolutamente afinal. — Deus sabe
o que poderia resultar. Com isso não se brinca. A tranqüilidade
é ainda a melhor coisa deste mundo.
A sua calma continuou imperturbável. Chegou, porém,
a chorar uma vez sem saber por quê. Não foi evidentemente
por motivo de qualquer ofensa. Não se
sentia ofendida e sim culpada. Sob a influência de
124
diversas sensações vagas, da certeza da vida que passa,
do desejo de novidade, aproximou-se mentalmente de
um certo limite para ver o que havia além. E além não
viu o abismo e sim o vácuo... a indecência!
XIX
Por maior domínio que a Senhora Odintsova tivesse
sobre si, acima de quaisquer preconceitos, foi com certo
embaraço que apareceu para o jantar. O jantar decorreu
sem novidade. Porfírio Platónitch estava presente e
contava anedotas. Acabava de chegar da cidade. Disse,
entre outras coisas, que o Governador "Bourdaloue"
ordenara aos seus subalternos especiais o uso das esporas
para qualquer missão apressada a ser feita a cavalo.
Arcádio conversava em voz baixa com Cátia e diplomaticamente
atendia à princesa. Bazárov estava triste e silencioso.
Por duas vezes a Senhora Odintsova olhou-o
sem disfarce. Vendo-lhe o rosto severo, bilioso, os olhos
baixos e a impressão decidida de desprezo em cada
traço, pensou: "Não... não... não..." Depois do
jantar todos se dirigiram ao jardim. Percebendo que
Bazárov desejava conversar com ela, afastou-se alguns
passos e parou. Ele aproximou-se e, sem levantar os
olhos, disse roucamente:
— Devo pedir-lhe desculpas, Ana Serguêievna. Não
pode zangar-se comigo.
— Não estou zangada, Eugênio Vassílievitch —
respondeu a Senhora Odintsova. — Estou aborrecida.
— Pior ainda. Em todo caso, recebi um bom castigo.
Deve concordar em que a minha situação atual é a mais
idiota possível. Escreveu-me: "Para que partir?" Não
posso, nem quero ficar aqui. Amanhã partirei.
— Eugênio Vassílievitch, por que...
— Por que me vou?
125
— Não, não queria dizer isso.
— O passado não volta, Ana Serguêievna... Mais
cedo ou mais tarde devia acontecer. Por isso, é indispensável
que vá embora. Só admito uma condição para
poder ficar, mas é impossível. Perdoe minha ousadia:
não me ama nem amará nunca?
Os olhos de Bazárov brilharam por momentos.
Ana Serguêievna nada lhe respondeu. "Tenho medo
deste homem", passou-lhe pela mente.
— Adeus — disse Bazárov, parecendo adivinhar o
seu pensamento, e dirigiu-se para a casa.
Ana Serguêievna seguiu-o devagar. Chamando Cátia,
tomou-a pelo braço. Não se separou dela até a tarde.
Não foi jogar cartas. Sorria freqüentemente, o que não
lhe ia bem ao semblante pálido e confuso. Arcádio de
nada sabia, embora desconfiasse de alguma coisa.
Observava-a como observam os jovens, isto é, interrogando-
se constantemente: que significa isso? Bazárov
fechou-se no seu aposento, mas veio tomar chá. Ana
Serguêievna quis dizer-lhe uma palavra de conforto,
mas não soube como encetar a conversação.
Um acontecimento inesperado pôs termo a essa situação
difícil: o mordomo anunciou a chegada de Sítnikov.
É difícil expressar em palavras a maneira movimentada
e rumorosa com que entrou na sala o jovem progressista.
Teimoso como era, tendo resolvido visitar
uma senhora que mal conhecia e que nunca o convidara,
mas que recebia em sua casa, conforme lhe disseram,
homens inteligentes e seus conhecidos, tinha muito
medo nesse momento e se sentia atrapalhado. Em vez
de saudações e desculpas previamente decoradas, disse
uma tolice mais ou menos assim: "Avdótia Kúkchina
mandou saber como passa Ana Serguêievna, de quem
Arcádio Nicoláievitch sempre lhe falou muito bem
Aqui se calou e ficou tão atrapalhado, que se sentou no
próprio chapéu. Entretanto, como ninguém tentasse expulsá-lo,
126
e Ana Serguêievna até o apresentou à tia e à
irmã, retomou logo o domínio de si mesmo e foi tagarelando
por mil. O aparecimento da futilidade costuma
ser às vezes útil na vida: afrouxa as cordas demasiado
tensas e arrefece os sentimentos muito fortes e duradouros
ou passageiros, lembrando-lhes o estreito parentesco
existente entre ambos. Com a chegada de Sítnikov tudo
ficou mais banal, vazio e simples. Todos cearam com
mais apetite e foram dormir meia hora antes do costume.
— Posso agora repetir-lhe o que me perguntou uma
vez — dizia, já deitado, Arcádio a Bazárov, que também
se achava despido: — Por que está triste? Cumpriu
bem algum sagrado dever? — Entre ambos os rapazes,
desde algum tempo se estabelecera um trato recíproco
de falso desembaraço e ironia, o que significava sempre
desgosto íntimo ou suspeitas ainda não confirmadas.
— Amanhã vou para a casa de meu pai — disse
Bazárov.
Arcádio ergueu-se um pouco e apoiou-se ao cotovelo.
Ficou admirado e alegre ao mesmo tempo.
— Bem — disse. — Está triste por causa disso? —
Bazárov bocejou,
— Quem muito sabe envelhece depressa.
— E Ana Serguêievna? — continuou Arcádio.
— Que vem a ser no caso Ana Serguêievna?
— Quero saber uma coisa: deixa-lo-á partir?
— Não sou seu empregado.
Arcádio ficou pensativo. Bazárov deitou-se, voltando-
se para a parede.
Passaram alguns minutos de silêncio.
— Eugênio! — exclamou de repente Arcádio.
— Que quer?
— Amanhã vamos juntos.
Bazárov nada lhe respondeu.
— É que vou para casa — explicou Arcádio. —
127
Iremos juntos até Tchochlovsk, Ali arranjaremos condução
com Fiedot. Teria muito, muito prazer em conhecer
seus pais, mas receio importuná-los. Virá de
novo visitar-nos?
— Deixei meus objetos em sua casa — respondeu
Bazárov sem se voltar.
"Por que não quer saber o motivo da minha partida?
Não resolvi partir de um momento para outro como
ele?", pensou Arcádio.
"Por que me vou e por que parte Bazárov?", continuava
nas suas reflexões. Não podia responder satisfatoriamente
à sua própria pergunta. Seu coração, ao
mesmo tempo, se enchia de qualquer coisa de cáustico.
Percebia que lhe era difícil abandonar essa vida a
que tanto se habituara. Mas seria importuno, se ficasse
sozinho. "Alguma coisa houve entre eles", prosseguiu.
"Por que hei de ficar aqui, depois da sua partida? Aborrecê-
la-ei definitivamente. Acabarei perdendo o que
tenho." Pensou em Ana Serguêievna e pouco a pouco
outra imagem substituiu o formoso semblante da bela
viúva.
— Custa-me abandonar Cátia — disse baixinho
Arcádio, como se falasse com o travesseiro, sobre o
qual caiu uma lágrima... Repentinamente sacudindo
os cabelos, disse em voz alta:
— Com que propósito veio esse idiota Sítnikov?
Bazárov mexeu-se primeiramente na cama e depois
disse:
— Vejo, meu caro, que é tolo. A gente como Sítnikov
é-nos indispensável. Compreenda que esses imbecis
são necessários, para mim principalmente.
"Parece que estou percebendo!...", pensou Arcádio,
diante de quem só agora e por um instante se abriu o
imenso báratro do egoísmo de Bazárov, "Seremos
deuses, porventura? Acho que Deus é você e eu? Não
serei imbecil?"
128
— Sim, é tolo ainda — repetiu tristemente Bazárov.
A Senhora Odintsova não se mostrou admirada quando,
no dia seguinte, Arcádio lhe disse que partia com
Bazárov. Estava distraída e fatigada. Cátia olhou-o
seriamente, em silêncio. A princesa fez até o sinal da
cruz debaixo do seu xale, sem que o percebessem. Mas
Sítnikov ficou completamente atarantado. Saiu para o
almoço trajando uma roupa nova, elegante e desta vez
não eslavófila. Na véspera impressionara o servo destacado
para servi-lo pela grande quantidade de roupa que
trouxera consigo. E agora seus amigos o abandonavam!
Depois de andar um pouco, preso de agitação, como
uma lebre perseguida pelos caçadores, com espanto de
si mesmo e quase aos gritos, declarou que também estava
disposto a partir. A Senhora Odintsova não tentou
dissuadi-lo do seu propósito.
— Tenho um carro bastante confortável— acrescentou
o infeliz dirigindo-se a Arcádio. — Pode ocupá-lo,
enquanto Eugênio Vassílievitch tomará o seu. Assim
será mais cômodo para todos.
— Ora, Sítnikov, o seu caminho é diverso do nosso.
Moro longe.
— Não tem importância. Tenho muito tempo à minha
disposição e, além disso, por aquelas bandas, tenho
um negócio.
— Negócio de hipotecas? — perguntou Arcádio com
ironia.
Sítnikov, que se achava desesperado, nem chegou a
sorrir em resposta.
— Garanto-lhe que o meu carro oferece todo o conforto.
Há lugar para todos — disse.
— Aceitem o oferecimento do Senhor Sítnikov —
disse Ana Serguêievna...
Arcádio olhou-a, e baixou significativamente a
cabeça.
129
Os hóspedes partiram depois do almoço. Despedindo-
se de Bazárov, a Senhora Odintsova ofereceu-lhe a mão.
— Espero que ainda nos veremos.
— Como quiser — respondeu Bazárov.
— Nesse caso haveremos de nos ver.
Arcádio saiu primeiro. Ocupou um lugar no carro
de Sítnikov. O mordomo auxiliou-o respeitosamente a
subir. Arcádio tinha vontade de dar-lhe uma bofetada
ou chorar. Bazárov acomodou-se no outro carro.
Chegando a Tchochlovsk, Arcádio teve de esperar até que
Fiedot, dono da hospedaria, lhe preparasse a condução.
Chegando-se para Bazárov, disse-lhe com um sorriso:
— Eugênio, vou também. Quero conhecer os seus.
— Vamos — disse por entre dentes Bazárov.
Sítnikov, que andava assobiando alegremente em
torno do seu carro, abriu a boca de espanto ao ouvir
essas palavras. Arcádio tirou calmamente os objetos do
seu carro e ocupou um lugar ao lado de Bazárov. Após
uma reverência ao seu ex-companheiro de viagem, gritou:
— Vamos! — Em pouco tempo desapareceram...
Sítnikov, completamente aturdido, olhou o seu cocheiro,
que brincava com um dos animais. Em seguida entrou
no carro, berrando para os dois mujiques que passavam:
— Ponham os chapéus, idiotas! — e dirigiu-se para a
cidade, onde chegou muito tarde. No dia seguinte, em
casa da Senhora Kúkchina, manifestou rumorosamente
toda a sua cólera contra os indecentes, soberbos e mal-
educados.
Ocupando lugar no carro de Bazárov, Arcádio apertou-
lhe fortemente a mão. Durante muito tempo não
disse palavra. Parecia que Bazárov apreciara aquele
aperto de mão e aquele silêncio. Não tinha conseguido
dormir na noite anterior. Não fumava e quase não comia
já há vários dias. Via-se nitidamente o seu triste perfil
abatido, sob o boné enterrado na cabeça.
130
— Dê-me um cigarro — disse afinal. — Tenho a
língua suja?
— Amarela — respondeu Arcádio.
— É natural... nem o cigarro me agrada. A máquina
precisa de conserto.
— Mudou muito ultimamente — observou Arcádio.
— Não tem importância, Ficarei bom logo. Tenho
pena de uma coisa: minha mãe é muito impressionável.
Se a gente não tiver barriga grande e não comer dez
vezes por dia, ela sofre muito. Meu pai é diferente. Já
andou também por este mundo de Deus. Decididamente,
não tenho vontade de fumar — acrescentou, atirando
o cigarro à estrada.
— Até a sua casa temos uns 25 quilômetros, não é?
— indagou Arcádio.
— Vinte e cinco. Pergunte a esse sabichão — disse,
indicando o cocheiro empregado de Fiedot.
Mas o "sabichão" respondeu apenas: — Não sei. Os
quilômetros aqui não são marcados — e continuou a
ralhar a meia voz com o animal do meio, porque sacudia
a todo momento a cabeça.
— Eis aí, meu caro, uma boa lição para você e um
exemplo útil — disse Bazárov. — Que absurdo! Todo
homem pende de um fio, o abismo pode abrir-se a cada
instante e ele ainda prepara para si um mundo de coisas
desagradáveis e estraga toda a sua vida.
— A que se refere? — perguntou Arcádio.
— Não me refiro particularmente a coisa alguma.
Digo-lhe sem mais rodeios que ambos nos comportamos
como idiotas. Não vale a pena discutir essa questão!
Tenho experiência da minha clínica: quem tem
ódio da sua dor acaba infalivelmente por vencê-la.
— Não entendo — disse Arcádio. — Não tem de
que se queixar.
— Se não me entende, ouça: na minha opinião,
131
é melhor quebrar as pedras na rua do que permitir que
uma mulher lhe domine a pontinha do dedo. Aí está., ,
Tudo isso é... — (Bazárov quase proferiu o seu termo
predileto: "romantismo"). Conteve-se, e disse apenas:
"asneira". — Não me acreditará, e eu lhe digo: ambos
caímos numa sociedade de mulheres e nos sentimos bem.
Abandonar semelhante sociedade é o mesmo que tomar
um banho de água gelada num dia de calor. O homem
nunca deve ocupar-se de semelhantes ninharias. Deve
ser feroz, como diz um ótimo ditado espanhol. Você,
por exemplo, é casado? — disse, dirigindo-se ao cocheiro.
O mujique voltou para ambos o seu rosto chato e
os olhos míopes,
— Sou casado. Sem mulher a gente não passa.
— Bate em sua mulher?
— Se bato em minha mulher? Às vezes acontece.
Sem motivo, não.
— Muito bem. E sua mulher bate em você?
O mujique puxou as rédeas, repetidamente...
— Veja o que está dizendo, meu senhor. Gosta sempre
de troças... — o camponês, ao parecer, não gostou
da brincadeira.
— Está ouvindo, Arcádio Nicoláievitch! E nós dois
fomos batidos... Eis o que significa ser um homem
educado.
Arcádio riu-se contrafeito. Bazárov não abriu a boca
durante o resto da viagem.
Os 25 quilômetros pareceram 50 a Arcádio. Eis que
afinal, na encosta de uma colina, apareceu uma minúscula
povoação, onde residiam os pais de Bazárov. Ao
lado da povoação, dentro de um pequeno bosque de
bétulas, via-se a casa senhorial coberta de palha. Junto
à primeira casa do povoado discutiam dois mujiques. —
Você é um grande porco — dizia um deles —,
132
mas não vale um leitão. — A sua mulher é uma feiticeira —
respondia o outro.
— Pela liberdade da sua conduta e pelas palavras
de ambos, pode ver que os mujiques de meu pai não
são servos despoticamente tratados — observou Bazárov.
— Agora estou vendo meu pai junto à entrada principal
da casa. Já ouviu a campainha, É ele mesmo, conheço-
lhe bem a figura. Coitado, já tem os cabelos bem
brancos.
XX
Bazárov pôs a cabeça fora do carro e Arcádio espiava
às costas do seu amigo. Viu, à entrada principal da
sede do povoado, um homem alto e magro, de cabelos
em desordem e nariz aquilino delgado, trajando um
velho dólmã militar desabotoado. Permanecia de pernas
abertas, fumando um longo cachimbo e piscando os
olhos devido ao sol.
O carro parou.
— Finalmente resolveu vir — disse o pai de Bazárov,
continuando a fumar, embora o cachimbo lhe saltasse
entre os dedos. — Vamos, apeie e dê cá um beijo,
Abraçou o filho... — leniúcha... leniúcha —
ouviu-se uma voz trêmula de mulher. A porta abriu-se e
apareceu uma velhinha gorda e baixa, de touca branca
e blusa curta e de cor berrante. Soltou um "ah!", tropeçou
e cairia certamente, se Bazárov não a segurasse.
Seus braços curtos e gordos envolveram o pescoço dele.
Ela encostou-lhe a cabeça ao peito e tudo ficou em silêncio.
Só se ouviam os soluços da velhinha.
O velho Bazárov respirava profundamente e piscava
os olhos mais que de costume.
— Basta, Aricha! Basta — repetiu, trocando um
olhar com Arcádio, que se achava junto ao carro.
133
O mujique cocheiro até se voltou para o outro lado. —
Basta, é desnecessário.
— Oh, Vassíli Ivánovitch — balbuciou ela —, há
quantos anos não vejo meu querido leniúcha, . . —
Sempre abraçada ao filho, afastou seu rosto úmido de
pranto, em desalinho e comovido. Olhou-o de um modo
engraçado e beato e novamente apoiou-se-lhe ao peito.
— É muito natural — disse Vassíli Ivánovitch. —
Mas vamos entrar. Em companhia de Eugênio veio um
hóspede. Peço desculpas — acrescentou falando a Arcádio
e fazendo um leve movimento com o pé —, o senhor
compreende, as mulheres são fracas e o coração
de mãe... — Mas ele mesmo estava comovidíssimo: os
seus lábios e sobrancelhas tremiam... Fazia todos os
esforços para dominar a sua comoção e parecer imperturbável.
Arcádio saudou-o.
— Vamos, mãezinha — disse Bazárov, levando a
velhinha para dentro de casa. Depois de fazê-la sentar-se
numa cômoda poltrona, abraçou mais uma vez o pai e
apresentou-lhe Arcádio.
— Imenso prazer em conhecê-lo — disse Vassíli
Ivánovitch. — Peço-lhe que não repare... Tudo aqui é
simples e à moda militar. Arina Vassííievna, calma, por
favor. Que covardia é essa? O nosso hóspede pode censurá-
la.
— O senhor... — disse ela chorando ainda — não
tenho a honra de o conhecer...
— Arcádio Nicoláievitch — disse com importância
Vassíli Ivánovitch.
— Perdoem uma velha tonta. — Arina Vassílievna
assoou-se e, agitando a cabeça, ora para a direita, ora
para a esquerda, enxugou cuidadosamente as lágrimas.
— Perdoem-me. Cheguei a pensar que morria sem ver
o meu querido leniúcha.
— Isso não tornará a acontecer — disse Vassíli Ivánovitch.
— Tániuchka — chamou uma pequena descalça
134
de uns treze anos e vestida de chita vermelha —, traga
um copo de água para a senhora, numa bandeja, está
ouvindo? E os senhores estão convidados para visitar o
gabinete de um veterano reformado — acrescentou com
vivacidade.
— Quero abraçá-lo mais uma vez, leniúcha — gemeu
Arina Vassílievna. Bazárov inclinou-se para ela. —
Você é tão bonito!
— Bonito, não — observou Vassíli Ivánovitch —;e
sim un homme fait*, como se diz. Espero agora, Arina
Vassílievna, que, depois de satisfazer seu coração de
mãe, faça alguma coisa para matar a fome dos nossos
queridos hóspedes, porque deve saber que passarinho
sem alpiste não canta.
A velhinha ergueu-se da poltrona.
— Imediatamente, Vassíli Ivánovitch, vou mandar
servir a mesa. Eu mesma vou à cozinha preparar o samovar.
Tudo ficará pronto logo. Há três anos que não via
meu filho, não lhe dava de comer e beber. Pensam que
é fácil?
— Veja lá, patroa, não faça fiasco. Os senhores podem
acompanhar-me. Aqui está Timofiêievitch, que
apareceu para lhe dar as boas-vindas, Eugênio. Também
ficou satisfeito, esse velho de uma figa. Não está alegre,
velho? Vamos ao meu gabinete.
Vassíli Ivánovitch foi à frente dos moços, arrastando
seus chinelos usados.
Toda a casa consistia em seis pequenos cômodos.
Um deles, para onde o velho conduziu os nossos amigos,
tinha o nome de gabinete de trabalho. Uma mesa de
pernas grossas, cheia de papéis velhos e cobertos de pó,
como defumados, ocupava todo o intervalo entre as duas
janelas.
Pelas paredes se viam espingardas turcas, nagaicas,
espadas, dois mapas, alguns desenhos de anatomia,
* Um homem feito.
135
um retrato de Huffeland, um medalhão com cabelos numa
moldura preta e o diploma de médico num quadro. Um
divã velho, forrado de couro, gasto e rasgado em vários
pontos, achava-se entre dois enormes armários de bétula.
Nas estantes, em desordem, livros, caixas, aves
empalhadas, latas e frascos. Num canto, uma máquina elétrica
quebrada.
— Já o preveni, meu caro hóspede — começou Vassíli
Ivánovitch —, vivemos aqui como num acampamento
militar...
— Basta de desculpas — interrompeu Bazárov. —
Kirsánov sabe muito bem que não somos ricos e que não
moramos num palácio. Onde vamos acomodá-lo?
— Que pergunta, Eugênio! Temos aqui uma nova
construção com um ótimo quarto. Lá ficará muito bem
instalado.
— Já tem uma nova construção?
— Lá onde está o banheiro — interveio Timofiêievitch.
— Ao lado do banheiro — explicou apressadamente
Vassíli Ivánovitch, — O verão já passou... Vou até
lá para ver como está. Timofiêievitch, trate da bagagem.
Quanto a você, Eugênio, ponho à sua disposição meu
gabinete. Suum cuique.
— Esta é boa! Um ótimo velho, e muito engraçado
— disse Bazárov, logo que Vassíli Ivánovitch saiu. —
É como seu pai, mas o seu gênero é diferente. Fala
demais.
— Sua mãe parece ser uma excelente pessoa — notou
Arcádio.
— É ingênua como uma criança. Vai ver que jantar
nos há de preparar.
— Não os esperávamos hoje, meu senhor, e não
compramos carne — disse Timofiêievitch, que acabava
de trazer a mala de Bazárov.
136
— Já que não há, passaremos bem sem carne. Dizem
que a pobreza não é vileza.
— Quantos servos tem seu pai? — perguntou de
repente Arcádio.
— O sítio não é dele, e sim de minha mãe. Tem, se
não me engano, quinze servos.
— Vinte e dois ao todo — observou aborrecido
Timofiêievitch.
Ouviu-se o arrastar dos chinelos e de novo apareceu
Vassíli Ivánovitch, que disse solenemente:
— Dentro de alguns minutos o seu quarto estará
pronto, Arcádio Nicoláievitch, não é esse o seu nome?
Terá também um criado às suas ordens — e indicou um
menino de cabelos cortados rente, vestido de casaco
azul rasgado nos cotovelos e calçado de botas pertencentes
a uma outra pessoa. O menino veio com Vassíli
Ivánovitch. — Chama-se Fiedka. Repito-lhe, ainda que
o filho me proíba: desculpe a nossa modéstia. Este menino
sabe encher muito bem o cachimbo. O senhor
fuma?
— Fumo quase sempre charutos ou cigarros — respondeu
Arcádio.
— Faz muito bem. Também dou preferência aos
cigarros, mas aqui no campo é difícil consegui-los.
— Deixe de representar o papel do pobre Lázaro
da Sagrada Escritura — interrompeu novamente Bazárov.
— Sente-se aqui no divã, pois quero vê-lo melhor.
Vassíli Ivánovitch riu e sentou-se. De rosto parecia-se
muito com o filho; apenas a sua fronte era mais baixa e
a boca mais larga. Constantemente estava em movimento.
Mexia os ombros como se a roupa lhe incomodasse
os sovacos. Pestanejava, tossia e movia os dedos, enquanto
o seu filho se distinguia pela escassez de movimentos.
— O papel do mendigo Lázaro? — repetiu Vassíli
Ivánovitch. —- Você, Eugênío, não suponha que pretendo comover o
hóspede:
137
veja em que selva virgem vivemos.
Ao contrário, sou de opinião que para o homem
que pensa não existe deserto. Em último caso, esforço-
me o mais possível por não me cobrir de bolor, não me
deslocar do século.
Vassíli Ivánovitch tirou do bolso um estojo amarelo,
que apanhara no aposento reservado a Arcádio, e
continuou, agitando-o no ar:
— Não me refiro ao fato, por exemplo, de que, com
prejuízo para mim mesmo, tenha entregue aos mujiques
todas as minhas terras. Acho que é meu dever, O bom
senso também o manda, embora outros proprietários
nem pensem nisso; refiro-me às ciências, à educação.
— Realmente. Estou vendo aqui O Amigo da Saúde,
edição de 1855 — observou Bazárov.
— É um velho amigo meu que me enviou de presente
— disse surpreendido Vassíli Ivánovitch. — Nós estamos
versados também em frenologia — agregou, dirigindo-
se mais a Arcádio e mostrando sobre um armário
uma pequena cabeça de gesso subdividida exteriormente
em quadriláteros numerados —, conhecemos bem
Schoenlein e Rademacher.
Vassíli Ivánovitch tossiu.
— Há quem ainda acredite em Rademacher nesta
província? — perguntou Bazárov.
— Nesta província... os senhores devem saber melhor.
Não podemos com os senhores. Vieram substituir-
nos. No meu tempo um certo humorista Hoffmann, um
certo Brown com seu vitalismo, pareciam ridículos, apesar
da sua fama em outros tempos. Alguém dos novos
substituiu Rademacher. Os senhores prestam-lhe homenagem
e, daqui a vinte anos, todo mundo se rirá também
desse substituto.
— Quero dizer-lhe, a título de consolação — disse
Bazárov —, que nós agora achamos ridícula a própria
medicina e não homenageamos ninguém.
138
— Como assim? E quer ser médico?
— Quero; uma coisa não impede a outra.
Vassíli Ivánovitch meteu um dedo no cachimbo, onde
ainda havia um pouco de cinza quente.
— É possível. Não vou discutir com você. Quem sou
eu? Um médico reformado do exército, voilà touf*.
Agora agrônomo. Fui médico da brigada sob o comando
do seu falecido avô — disse a Arcádio. — Muita coisa
vi na minha vida. Que sociedades freqüentei e que relações!
Hoje o senhor me vê assim. No entanto, apalpei o
pulso do Príncipe Wittigenstein e do grande poeta Chukóvski!
Depois de 1814, conheci todos os figurões do
exército do sul (aqui, Vassíli Ivánovitch cerrou significativamente
os lábios). Nada tenho que ver com isso.
Basta que conheça o meu bisturi! Seu avô era um homem
honrado e respeitado, um verdadeiro militar.
— Diga antes que era um estupendo cacete — disse
indolentemente Bazárov.
— Que expressões são essas, Eugênio! Não continue,
por favor... O General Kirsánov não pertencia à
classe...
— Basta — interrompeu Bazárov. — Quando vim
aqui, fiquei satisfeito com o seu bosque de bétulas. Cresceu
muito.
Vassíli Ivánovitch animou-se.
— Ainda não conhece o meu pomar! Eu mesmo
plantei árvore por árvore. Temos frutas de toda espécie
e plantas medicinais. Afirmem, senhores moços, o que
quiserem, mas o velho Paracelso disse uma sagrada verdade:
in herbis, verbis et lapidibus... * * Sabe que abandonei
a clínica e assim mesmo duas vezes por semana
sou obrigado a lançar mão da antiga profissão. Pedem-
me conselhos e não posso negá-los. Às vezes, a gente
pobre recorre a mim. Por aqui não há médicos. Um vizinho
meu, major reformado do exército, também clinica.
* Eis tudo.
** Nas ervas, nas palavras e nas pedras.
139
Pergunto-lhe: "Estudou medicina?" Responde-me:
"Não; nunca estudei, e faço isso por filantropia ou amor
ao próximo"... Que amor ao próximo! — exclamou
Vassíli Ivánovitch com um riso mordaz.
— Fiedka, encha o meu cachimbo! — disse severamente
Bazárov.
— Outro dia um médico foi chamado para examinar
um doente — continuou Vassíli Ivánovitch. — O doente
já tinha partido ad paires, isto é, estava morto. Não
quiseram receber o médico, dizendo-lhe: "Já não é necessário".
O doutor não esperava isso, ficou atrapalhado
e perguntou: "O doente arrotava antes de morrer?"
"Arrotava." "Muitas vezes?" "Muitas." "Está muito
bem", concluiu, e se foi.
O velho riu agora sozinho. Arcádio apenas esboçou
um sorriso e Bazárov aspirou longamente o fumo do
cachimbo. A palestra continuou assim por uma hora.
Arcádio teve ocasião de visitar seu aposento, que lhe
pareceu confortável e limpo. Finalmente entrou Tániucha
e anunciou que o jantar estava pronto.
Vassíli Ivánovitch ergueu-se primeiro.
— Vamos, senhores! Desculpem se os aborreci com
a minha palestra. Minha mulher saberá atendê-los mais
agradavelmente.
O jantar, embora preparado às pressas, estava ótimo.
Só o vinho não era grande coisa. Um xerez escuro comprado
por Timofiêievitch, na cidade, na casa de um
negociante conhecido, tinha um ligeiro gosto de cobre
ou outra droga qualquer. Também havia moscas em
grande quantidade. Geralmente um moleque costumava
enxotá-las com um galho verde. Esta vez Vassíli ivánovitch
o dispensou desse serviço, temendo censuras por
parte da geração nova. Arina Vassílieyna vestira-se melhor:
pôs a sua touca com fitas de seda e um xale azul.
Chorou novamente quando viu leniúcha. Seu marido nada disse:
140
ela enxugou depressa as lágrimas para que
não caíssem no xale. Só os moços comiam, porque os donos
da casa já haviam jantado. Servia-os Fiedka, visivelmente
incomodado com seus grandes sapatos. Auxiliava-
o uma mulher de expressão viril, vesga, de nome
Anfíssuchka, que desempenhava as funções de governanta,
encarregada do aviário e lavadeira. Vassíli Ivánovitch,
durante o jantar, andava pela sala, com expressão
feliz, falando sobre os receios inspirados pela política
de Napoleão e pela complexidade da questão italiana.
Arina Vassílievna parecia não perceber Arcádio e
nem o servia. Com o queixo apoiado à mão, não tirava
os olhos do filho, suspirando sempre. O seu rosto de
lábios cor de cereja e pequenas manchas nas faces expressava
infinita bondade. Queria saber quanto tempo
seu filho demoraria em casa, mas tinha medo de perguntar.
"E se disser que fica só dois dias?", pensava, e confrangia-
se-lhe o coração. Depois do assado, Vassíli Ivánovitch
desapareceu por alguns momentos, voltando
com meia garrafa, já aberta, de champanha. — Aqui
está — exclamou. — Vivemos no mato, porém nos momentos
solenes temos com que distrair-nos! — Encheu
três taças e um cálice, brindou à saúde dos "queridos visitantes"
e, à moda militar, esvaziou de uma só vez
sua taça, oferecendo a Arina Vassílievna o cálice, que
ela bebeu até a última gota. Quando chegou a sobremesa,
Arcádio, que não suportava doce de nenhuma
espécie, resolveu experimentar as quatro qualidades que
havia. Bazárov recusou-se terminantemente a prová-los,
e acendeu um cigarro.
Veio afinal o chá com creme, manteiga e bolos. Depois
Vassíli Ivánovitch os levou ao pomar, para que
apreciassem a beleza da tarde. Ao passar perto do banco,
disse baixinho a Arcádio: — Neste lugar gosto de filosofar,
contemplando o pôr do sol; faz bem ao eremita
deste deserto.
141
Ali, mais adiante, plantei algumas árvores
muito apreciadas pelo poeta Horácio.
— Que árvores são essas? — disse Bazárov.
— Não conhece... são as acácias.
Bazárov bocejou.
— Acho que já é hora de se entregarem aos braços
de Morfeu — observou Vassíli Ivánovitch.
— Quer dizer que é tempo de dormir — concordou
Bazárov. — É justo. Estamos cansados.
Despedindo-se de sua mãe, beijou-a na testa e ela,
abraçando-o, abençoou-o às escondidas por três vezes.
Vassíli Ivánovitch acompanhou Arcádio ao seu aposento,
desejando-lhe "um repouso tranqüilo, que conheci
também na sua idade feliz". Efetivamente, Arcádio dormiu
muito bem no cômodo contíguo ao banheiro. Sentia-
se ali um cheiro de hortelã-pimenta. Dois grilos cantavam
atrás do fogão. Vassíli Ivánovitch dirigiu-se do
quarto de Arcádio para o seu gabinete e acomodou-se
no divã, aos pés do filho, com o intuito de palestrar um
pouco. Bazárov mandou-o logo embora, dizendo que
tinha muito sono, mas não dormiu a noite inteira. De
olhos arregalados, fitava com ódio a escuridão. As reminiscências
da infância não tinham poder sobre a sua
pessoa. Não conseguia livrar-se das suas últimas e amargas
impressões. Arina Vassílievna rezou, e depois conversou
muito tempo com Anfíssuchka, que, atenciosa,
lhe transmitia em murmúrios todas as suas observações
e idéias sobre Eugênio Vassílievitch. A velhinha estava
tonta de alegria, do vinho que bebera e da fumaça dos
cigarros. O marido tentou falar-lhe, mas desistiu.
Arina Vassílievna era uma legítima representante da
antiga burguesia russa. Devia ter nascido há duzentos
anos, no período moscovita. Muito religiosa e sensível,
acreditava em toda espécie de superstições, encantamentos,
cartomancia e sonhos. Acreditava nos idiotas de
índole profética, nos gênios caseiros, nos gênios da floresta,
142
nos maus encontros, na feitiçaria, nos remédios
domésticos, no sal às quinta-feiras e no próximo fim
do mundo. Acreditava que, se na missa de domingo de
Páscoa, à noite, não se apagarem as velas, a safra será
boa. Se o cogumelo não cresce mais, dizia, é porque
olhos humanos o viram. Acreditava que o diabo gosta
dos lugares onde existe água e que todo judeu tem uma
mancha de sangue no peito.
Tinha medo de ratos, cobras, sapos, melros, sanguessugas,
trovoadas, água fria, vento encanado, cavalos,
bodes, gente ruiva e gatos pretos. Gostava muito de
grilos e considerava os cães animais impuros. Não comia
carne de vitela, pombos, camarões, queijo, aspargos,
peras, lebre; uma melancia cortada lhe recordava a
cabeça de São João Batista. Falava das ostras com grande
repugnância. E em geral gostava de comer bem e jejuava
severamente. Dormia dez horas por dia e não se
deitava se Vassíli Ivánovitch tinha dor de cabeça. Só
lera um livro na sua vida, chamado Alex ou A Cabana
na Floresta. Escrevia uma ou duas cartas por ano. Sabia
secar frutas e preparar doces, embora suas mãos nada
tocassem. De má vontade mudava de lugar. Arina Vassílievna
era muito boa, e inteligente, à sua maneira.
Sabia que no mundo existem senhores que devem mandar
e gente simples para servir; por isso não desprezava
a adulação e as reverências profundas. Tratava seus
servos com carinho e bondade, não negava esmola aos
mendigos e não acusava nunca quem quer que fosse,
embora mexericasse por vezes. Quando moça, era muito
bonita, tocava piano e falava um pouco de francês.
" Durante as inúmeras viagens em companhia do marido,
com quem se casou contra a vontade, esqueceu a música
e o francês. Estimava muito o filho e tinha grande
medo dele. A administração da propriedade confiou a
Vassíli Ivánovitch. Gemia, agitava o lenço, arregalava
os olhos de espanto, quando o marido lhe explicava
143
as reformas e planos futuros. Desconfiada, parecia sempre
esperar qualquer grande desgraça. Chorava logo,
ao lembrar-se de alguma coisa triste... Mulheres assim
são raras hoje. O que não sabemos é se isso é um bem!
XXI
Tendo levantado, Arcádio abriu a janela. A primeira
pessoa que viu foi Vassíli Ivánovitch. Trajava um velho
capote oriental e tinha em vez de cinto um grande lenço;
o velho amanhava a terra na horta. Percebendo o
jovem hóspede, exclamou, apoiando-se à pá:
— Bom dia! Como passou a noite?
— Muitíssimo bem — respondeu Arcádio.
— Aqui estou tal qual Cincinato: preparando um
canteiro para semear nabos. Já é tempo, graças a Deus!
Cada um, com suas próprias mãos, deve obter o sustento.
Nada devemos esperar dos outros. É preciso trabalhar
também. Parece que Jean-Jacques Rousseau tem
razão. Há meia hora, meu caro senhor, poderia ver-me
numa outra situação inteiramente diversa desta. A uma
camponesa, que se queixava de uma forte diarréia,
eu... como se diz... tive de aplicar um clister de ópio.
A uma outra arranquei um dente. Propus-lhe a anestesia
com éter... Não quis. Faço tudo de graça. Não admira:
sou plebeu, homo novus, não da burguesia antiga
de que descende a minha cara-metade... Não quer vir
aqui para respirar, antes do chá, um pouco de ar puro?
Arcádio foi ter com ele.
— Bom dia, mais uma vez! — disse Vassíli Ivánovitch,
fazendo continência militar, encostando dois dedos
no boné ensebado. — Sei que o senhor está habituado
ao luxo, aos prazeres. Mas os grandes deste mundo
não desdenham de passar algumas horas sob o teto de
uma cabana.
144
— Pelo amor de Deus! — exclamou Arcádio. — Sou
por acaso um dos grandes deste mundo? Nem ao menos
estou afeito ao luxo.
— Espere um pouco — disse com gesto amável
Vassíli Ivánovitch. — Se agora faço parte de um arquivo,
muitas coisas vi na minha vida. Conheço o pássaro
pelo vôo. Sou também um psicólogo sui generis e bom
fisionomista. Não tivesse esse dom, por assim dizer,
teria perecido infalivelmente há muito tempo. O mundo
eliminar-me-ia como homem fraco e insignificante. Digo-
lhe francamente: a amizade que noto entre o senhor
e meu filho causa-me imenso prazer. Encontrei-o há pouco.
Deve saber que sempre se levanta muito cedo e percorre
os arredores. Estou curioso por saber: desde quando
conhece meu Eugênio?
— Desde o inverno deste ano.
— Bem. Permita-me ainda perguntar-lhe uma coisa.
Não quer sentar-se? Fale a um pai, com toda a sinceridade:
que pensa de Eugênio?
— Seu filho é um dos homens mais extraordinários
que encontrei na minha vida — respondeu vivamente
Arcádio.
Os olhos de Vassíli Ivánovitch arregalaram-se de repente,
e suas faces enrubesceram de leve. A pá caiu-lhe
das mãos.
— O senhor assim o supõe... — começou ele.
— Estou certo disso — acentuou Arcádio. — Tenho
absoluta certeza de que seu filho tem um grande futuro,
que tornará célebre seu nome. Convenci-me disso desde
o nosso primeiro encontro.
— Como... como foi esse encontro? — mal pronunciou
Vassíli Ivánovitch.
Um sorriso de prazer abrira-lhe os lábios e não os
abandonava.
— Quer saber como nos conhecemos?
— Sim... e o resto...
145
Arcádio começou a contar-lhe o que sabia de Bazárov,
entusiasmando-se cada vez mais, Muito mais que
naquela tarde em que dançava uma mazurca com a
Senhora Odintsova.
Vassíli Ivánovitch ouvia-o sempre, passava o lenço
de mão em mão, tossia, alisava os cabelos e afinal não
se conteve: curvou-se para Arcádio e beijou-o no ombro.
— Graças ao senhor, sou um homem completamente
feliz — disse, continuando a sorrir. — Devo dizer-lhe
que... adoro o meu filho. Quanto à minha mulher, nem
se diga: é mãe! Entretanto, em sua presença, não tenho
coragem de expressar meus sentimentos, porque ele não
gosta disso. É inimigo de todas as confissões. Muitos até
o acusam dessa firmeza de índole, vendo nisso orgulho
ou insensibilidade. Homens assim não se devem medir
com o metro comum, não é verdade? Vou citar-lhe um
exemplo: outro, no seu lugar, havia de tirar muito ou
tudo dos seus pais. Acredite que nunca nos pediu um
ceitil! Palavra de honra!
— É um homem e honesto — observou Arcádio.
— Desprendido e honesto. Eu, Arcádio Nicoláievitch,
não só o adoro como tenho orgulho dele. Toda a
minha ambição consiste no seguinte: que o mundo leia
ainda em sua biografia as seguintes palavras: "Filho
de um modesto médico militar, que a princípio não sabia
entendê-lo e que nada poupava para a sua educação
..." — e a voz do velho tremia.
Arcádio apertou-lhe fortemente a mão.
— Pensa que não ficará célebre no terreno da medicina,
como o senhor profetiza? — perguntou Vassíli
Ivánovitch, após algum silêncio.
— Não digo que seja na medicina, apesar de, nesse
domínio de conhecimentos, ser um dos maiores sábios.
— Em que então, Arcádio Nicoláievitch?
— É difícil dizê-lo por ora, mas será célebre.
— Será célebre! — repetiu o velho pensativo.
146
— Arina Vassílievna mandou chamá-lo para tomar
chá — disse Anfíssuchka, passando perto com um prato
enorme cheio de framboesas maduras.
Vassíli Ivánovitch estremeceu.
— Teremos creme frio com framboesas?
— Teremos creme frio com framboesas!
— Bem frio, veja lá! Não tenha cerimônia, Arcádio
Nicoláievitch, pegue mais. E Eugênio que não vem?
— Estou aqui — ouviu-se a voz de Bazárov no aposento
de Arcádio. Vassíli Ivánovitch voltou-se rapidamente.
— Quis fazer uma visita ao seu amigo. Chegou tarde,
amice. Já mantivemos uma longa palestra. Agora vamos
tomar chá. A mãe mandou chamar. A propósito, quero
falar com você.
— De que se trata?
— Tenho aqui um mujique que sofre de icterícia.
— Moléstia amarela?
— Icterícia crônica, bastante adiantada. Receitei-
lhe várias plantas medicinais, obriguei-o a comer cenoura,
dei-lhe bicarbonato de sódio. Todos esses meios de
tratamento são paliativos. É preciso ministrar-lhe alguma
coisa mais eficaz. Sei que ridiculariza a medicina,
mas estou certo de que pode dar-me um bom conselho.
Conversaremos depois. Vamos tomar chá.
Vassíli Ivánovitch ergueu-se do banco e cantou uma
passagem da ópera Roberto, fra Diavolo:
"Da lei precisamos
Para vivermos com prazer!"
— Vitalidade extraordinária — concluiu Bazárov.
Era meio-dia. O sol queimava muito, jorrando luz
pelos intervalos das nuvens esbranquiçadas e densas.
Reinava silêncio. Só os galos competiam no cantar, provocando
uma estranha sensação de sono e tédio.
147
Algures, no alto das árvores, ouvia-se o piar triste de um
filhote de gavião. Arcádio e Bazárov estavam deitados
à sombra de uma pequena meda de feno, sobre um lençol
de erva verde e odorosa.
— Aquela árvore — disse Bazárov — recorda-me a
infância. Cresce à beira de uma cova, restos de uma
olaria. Naquele tempo eu tinha a certeza de que este
lugar e aquela árvore possuíam o poder do talismã:
nunca me aborreci aqui. Não compreendia então que
era criança e que não podia aborrecer-me. Agora sou
homem. O talismã não exerce influência alguma em
mim.
— Quanto tempo passou aqui?
— Dois anos. Viajando sempre. Éramos nômades.
Percorríamos de preferência as cidades.
— Essa casa é antiga?
— É. Construiu-a meu avô, pai de minha mãe.
— Quem era seu avô?
— Só o diabo o sabe: um major qualquer. Serviu
no tempo do General Suvórov. Contava tudo sobre a
passagem dos Alpes. Provavelmente mentia como ninguém.
— Agora sei por que na sala de visitas está o retrato
do General Suvórov. Gosto muito de casinhas como
estas, antigas e confortáveis. Têm até uma atmosfera
especial.
— Devem cheirar a azeite das lâmpadas de igreja —
bocejou Bazárov. — E quantas moscas nestas santas
casinhas... Uff!
— Diga-me uma coisa: você, na infância, foi severamente
educado?
— Ora, já conhece meus pais. É a gente menos severa
que existe.
— Estima-os, Eugênio?
— Estimo-os, Arcádio.
— Eles o estimam tanto!
148
Bazárov calou-se.
— Sabe em que penso? — disse afinal, cruzando as
mãos sob a cabeça.
— Em quê?
— Penso em como vivem bem os meus pais neste
mundo! Meu pai, aos sessenta anos de idade, ainda discute
sobre os meios paliativos de cura, trata de todos,
é generoso para com os camponeses e afinal se diverte.
Minha mãe passa otimamente: o seu dia de trabalho
está cheio de tantos afazeres diversos, que nem se lembra
do resto. E eu...
— E você?
— Penso, deitado aqui à sombra deste monte de
feno, . . O lugar insignificante que ocupo é tão minúsculo
em comparação com o resto do espaço, onde não
estou e onde ninguém se importa comigo! A parcela do
tempo que hei de viver é tão ridícula em face da eternidade,
onde nunca estive nem estarei... Neste átomo,
neste ponto matemático, o sangue circula, o cérebro
trabalha e quer alguma coisa... Que estupidez! Que
inutilidade!
— Deixe-me dizer-lhe que tudo isso se aplica ao
gênero humano em geral...
— Tem razão — disse com energia Bazárov. —
Queria sugerir apenas que meus pais estão muito ocupados
e não se importam com a sua própria nulidade, que
a sua pequenez não cheira mal... e eu somente sinto
aborrecimento e ódio.
— Por que ódio?
— Por quê? Como por quê? Já se esqueceu?
— Não me esqueci de nada, mas acho que não tem
o direito de odiar. É infeliz, concordo, porém...
— Vejo, Arcádio Nicoláievitch, que interpreta o
amor como todos os moços ultramodernos: chamam a
galinha com as mãos cheias de milho e, quando ela se
aproxima, salve-se quem puder! Não sou assim.
149
mudemos de assunto. O que não tem remédio remediado está,
— Deitou-se de lado. — Veja aqui a formiga que arrasta
uma mosca moribunda. Leve-a! Carregue-a mesmo
que resista, aproveite a circunstância de que você. na
qualidade de irracional, tem o direito de desprezar quaisquer
sentimentos de compaixão e amor ao próximo.
Nós, homens, somos tão diferentes.
— Não devia falar assim, Eugênio! Chegou ao ponto
de eliminar o seu próprio eu!
Bazárov ergueu a cabeça.
— É esse o meu legítimo orgulho. Nunca atentei
contra o meu próprio eu e mulher nenhuma há de fazêlo.
Amém! Acabemos com isto! Não ouvirá mais de
mim uma única palavra a respeito.
Ambos os amigos passaram alguns momentos em
silêncio.
— Realmente — continuou Bazárov —, o homem
é um ser extravagante. Se a gente observar de longe a
vida do campo, a dos "pais", parece que nada pode
haver de melhor. Coma, beba e saiba que o seu modo de
viver é o mais regular, o mais justo e o mais racional
que existe. O tédio, porém, domina a gente. Queremos
ocupar-nos dos homens, ofendê-los até, mas ocuparmo-nos
deles.
— Seria necessário organizar a vida de modo que
cada instante tivesse uma certa significação — proferiu
pensativo Arcádio.
— Concordo! O que significa alguma coisa, ainda
que seja um engano, é agradável. Com o que nada significa
podemos ainda concordar... O mal consiste nessas
mil e uma coisas sem valor algum, indignas de qualquer
atenção e incômodos...
— Coisas incômodas e indignas da atenção de um
homem não existem, se não quiser reconhecê-las.
— Acaba de dizer um lugar-comum contraditório.
— Que quer você dizer?
150
— Vou explicar-lhe. Se afirmar, por exemplo? que
a educação é útil, é um lugar-comum. Se disser que a
educação é nociva, é um lugar-comum contraditório.
Parece mais elegante e, na essência, significa a mesma
coisa.
— Onde está a verdade?
— Onde? Respondo-lhe como um eco: onde?
— Hoje não está muito disposto, Eugênio.
— Parece-lhe? Quem sabe se por causa do sol ou das
framboesas que comi em quantidade.
— Nesse caso não seria mau dormir um pouco.
— Acho bom. Com uma condição: enquanto dormir,
não me olhe. O homem tem sempre cara de imbecil
quando dorme.
— Não lhe é indiferente a opinião alheia?
— Não sei. Um homem normal não deve preocupar-
se com estas coisas. Um homem normal é aquele que
não interessa e que deve ser um obedecido ou odiado.
— Esta é boa! Não odeio ninguém — disse Arcádio,
depois de refletir um pouco.
— E eu odeio a muitos. Você tem uma alma sensível.
É fraco. Como poderá odiar?... Tem medo e não
confia em si...
— Deposita muita confiança em si mesmo? Julga-
se superior?
Bazárov, após um breve silêncio, respondeu:
— Quando encontrar um homem que seja igual ou
superior a mim, mudarei de opinião a meu respeito.
Odiar! Você, por exemplo, ao passar hoje perto da casa
do nosso feitor Filipe, disse: que casinha simples, limpa
e confortável. Disse mais: que a Rússia será o melhor
país do mundo quando o mais pobre mujique tiver
um lar como esse, e que cada um de nós deve auxiliar
essa conquista... Comecei a odiar aquele mujique, Filipe
ou Isidoro, para quem devo fazer o impossível e que
não me dirá sequer obrigado... Que necessidade tenho eu
151
afinal do seu agradecimento? Viverá bem numa casinha
limpa e branca e eu andarei sujo. E depois?
— Basta, Eugênio ... Ouvi-lo hoje é concordar contra
a vontade com aqueles que nos acusam da falta de
princípios.
— Repete as palavras do seu tio. Princípios não existem.
Até agora não percebeu essa verdade? Há apenas
sensações. Tudo na vida depende delas.
— Como assim?
— É muito simples. Sou, por exemplo, negativista
por força da sensação. É-me agradável negar. Todo o
meu eu sente o prazer de negar e basta! Por que gosto
da química? Por que gosto de maçãs? É a sensação que
assim o determina. Tudo é unilateral, Ninguém lhe explicará
o assunto com maior clareza. Ninguém terá coragem
de dizê-lo, nem eu mesmo em outra ocasião.
— O sensualismo é honesto? A honra é também uma
simples sensação?
— Naturalmente!
— Eugênio! — disse tristemente Arcádio...
— Não gostou? — interrompeu Bazárov. — Não!
se meteu a mão em cumbuca ... Entretanto, basta de
filosofia. "A natureza embala-nos o sono", disse o poeta
Púchkin.
— O nosso grande poeta nunca escreveu coisa semelhante
— disse Arcádio.
— Se não escreveu, você, como poeta, pode aproveitar
esse tema. A propósito, Púchkin deve ter sido militar.
— Púchkin nunca foi militar!
— É impossível! Todos os seus versos começam assim:
"Avante, Avante! A nossa terra clama!"
— Está inventando absurdos! É uma calúnia!
— Calúnia? Que importância! Como se a calúnia
impressionasse alguém! Por maior que seja a calúnia
levantada contra alguém, o homem não merece a que
é vinte vezes pior.
152
É melhor dormirmos! — disse aborrecido Arcádio.
— Com imenso prazer — respondeu Bazárov.
Nem um nem outro conseguia adormecer. Um estranho
sentimento semelhante à hostilidade se apossou de
ambos. Cinco minutos, abriram os olhos e fitaram um
ao outro.
— Veja — disse de repente Arcádio —, uma folha
seca de árvore caiu sobre o solo. Seus movimentos são
muito parecidos com o vôo de uma borboleta. Não acha
esquisito? Um objeto morto e triste é tão parecido com
um ser alegre e vivo!
— Amigo Arcádio Nicoláievitch! — exclamou Bazárov.
— Peço-lhe encarecidamente que não me diga
frases bonitas.
— Falo como sei... Isso me está parecendo afinal
despotismo. Pensei uma coisa e por que não hei de expressar
o meu pensamento?
— Muito bem. E por que não poderei expressar também
o meu? Acho, por exemplo, que dizer frases e palavras
bonitas é feio.
— Que é bonito? Dizer termos de calão?
— Já estou vendo que segue ou tem intenção de seguir
as pegadas do titio. Aquele idiota ficaria muito satisfeito,
se ouvisse suas palavras!
— Como qualificou Páviel Pietróvitch?
— Chamei-lhe como merece: um idiota.
— Não posso tolerar mais — exclamou Arcádio.
— Ah, sim? É a voz do sangue... — disse calmamente
Bazárov. — Já notei muitas vezes que o parentesco
costuma ser inabalável nos homens. O homem é
capaz de abandonar tudo, todos os preconceitos. Mas
reconhecer que, por exemplo, o seu irmão é um ladrão
está acima de suas forças! É natural: meu irmão,
meu... é possível?
— Em mim falou o simples sentimento de justiça
153
e não de parentesco — respondeu irritado Arcádio. —
Se não entende esse sentimento, se não experimenta essa
sensação, não deve nem pode criticá-lo.
— Em outras palavras: Arcádio Kirsánov está muito
acima do meu entendimento. Devo curvar-me e calar.
— Basta, por favor, Eugênio. Acabaremos brigando,
— Arcádio, faça-me um favor: vamos brigar pelo
menos uma vez na vida, brigar de verdade até a morte.
— E assim, naturalmente, acabaremos...
— Brigados para toda a vida? — exclamou Bazárov.
— E por que não? Aqui nesta cama feita de relva,
neste lugar próprio para idílios, longe do mundo e dos
olhares dos homens, uma briga faz bem. Mas você não
pode comigo. Posso agarrá-lo agora pela garganta...
Bazárov abriu seus dedos longos e ásperos... Arcádio
fingiu preparar-se para uma resistência... Mas o
semblante do seu amigo lhe pareceu tão feroz, com tão
séria ameaça estampada no sorriso oblíquo dos seus lábios,
dos seus olhos inflamados, que ele sentiu um medo
involuntário...
— Veja só que lugar escolheram para descansar! —
ouviu-se nesse mesmo instante a voz de Vassíli Ivánovitch.
O velho médico militar surgiu diante dos moços
trajando um paletó de tecido modesto, feito em casa, e
chapéu de palha da mesma fabricação. — Procurei-os
por toda parte... Escolheram um ótimo lugar e se entregam
a uma ocupação interessante. Deitados na "terra"
e contemplando o "céu"... Sabem que isso significa
alguma coisa?
— Somente contemplo o céu quando tenho vontade
de espirrar — resmungou Bazárov. Voltando-se para
Arcádio, disse em voz baixa: — É pena que viesse atrapalhar
a nossa conversa.
— Chega — disse Arcádio ao seu amigo. — Amizade
nenhuma poderá suportar semelhante experiência.
— Olho para vocês, meus jovens amigos
154
- dizia Vassíli Ivánovitch, com as mãos apoiadas numa bengala
também feita em casa, com a figura de um turco
na ponta. — Olho e sinto-me bem. Quanta força, mocidade
em pleno viço, capacidade, talento! Perfeitos
Castor e Pollux!
— Agora temos uma lição de mitologia — atalhou
Bazárov. — Vê-se logo que já foi um grande latinista!
Parece-me que, quando estudante, ganhou uma medalha
de prata por uma composição!
— Dioscures! — repetiu Vassíli Ivánovitch.
— Basta, meu pai, não seja pedante.
— Uma vez na vida a gente pode exibir-se — disse
o velho. — Em todo caso, não vim ter com os senhores
para literatura. Quero dizer-lhe que vamos jantar daqui
a pouco. Além disso, quero preveni-lo, Eugênio... É
um homem culto, conhece os homens e as mulheres também.
Perdoará certamente. Sua mãe mandou rezar missa
em intenção de sua chegada. Não pense que será obrigado
a assistir a essa missa. Já está tudo acabado. Mas
o Padre Alieksiei...
— Padre?
— Padre... um sacerdote, em suma. Ele vai jantar
em nossa companhia... A missa foi uma surpresa para
mim, do contrário não a aconselharia.... Está tudo feito.
.. O padre não me quis atender... Arina Vassílievna
também... O padre é um homem bom e circunspecto.
— Não vai deixar-me sem bife? — chacoteou Bazárov.
Vassíli Ivánovitch sorriu.
— Que idéia!
— Nada mais exijo. Sento-me à mesa com qualquer
homem
de bem.
Vassíli Ivánovitch endireitou o chapéu.
— Estou certo de que é superior a todos esses preconceitos.
Tenho 62 anos de idade e pouco me importo com eles.
155
(Vassíli Ivánovitch não quis confessar que ele
mesmo desejou que se celebrasse a missa... Era não
menos religioso que sua esposa.) O Padre Alieksiei manifestou
muita vontade de conhecê-lo. É um homem simpático.
Joga bem as cartas e... gosta às vezes de fumar
um cachimbo em boa companhia.
— Então, depois do jantar, vamos jogar uma partida.
Vou deixá-lo sem vintém.
— Veremos! Os parceiros não são fracos como julga.
— Quer também reabilitar o peso dos anos? — indagou
significativamente Bazárov.
As faces de Vassíli Ivánovitch ruborizaram-se.
— Não tem vergonha, Eugênio... O que passou
não volta mais. Mas estou pronto a provar diante deles
que tive essa paixão na minha mocidade. Custou-me caro!
Não acham que faz calor? Permitam que me acomode
perto de vocês. Não os importuno?
— Absolutamente — disse Arcádio.
Vassíli Ivánovitch abaixou-se com esforço e sentou-
se.
— O lugar onde estão lembra-me a minha vida militar,
as enfermarias de campanha situadas onde Deus
permitisse. Muito vi na minha existência. Posso contarlhes,
se mo deixarem, um interessante episódio da epidemia
de peste na Bessarábia.
— Por esse motivo foi condecorado? — disse ironicamente
Bazárov. — Já conhecemos essa história...
Por que não traz no peito essa condecoração?
— Já lhe disse que sou um homem sem preconceitos
— respondeu atrapalhado Vassíli Ivánovitch. (Só
na véspera é que mandara arrancar a condecoração do
seu dólmã.) E começou então a contar o episódio da
peste.
— Está dormindo — disse a Arcádio, indicando Bazárov.
— Eugênio, chega de dormir; vamos jantar...
O Padre Alieksiei, um homem gordo e de aparência agradável,
156
com basta cabeleira bem tratada, era uma
pessoa muito hábil e inteligente. Foi o primeiro a apertar
a mão de Arcádio e Bazárov, como se compreendesse
que necessitavam não de sua bênção e sim da liberdade
de trato. Não se abaixou perante os outros, nem humilhou
quem quer que fosse. Riu-se a propósito do seu
latim de seminário, defendeu a personalidade do bispo,
bebeu duas taças de vinho e recusou a terceira. Aceitou
um charuto de Arcádio, mas não quis fumá-lo, dizendo
que o levaria para casa. A única coisa desagradável que
havia nele era o seguinte: lentamente, com grande
cuidado, levantava a mão para pegar as moscas que lhe
pousavam no rosto e, quando conseguia apanhá-las,
esmagava-as. Tomou parte no jogo com expressão moderada
de prazer, e acabou ganhando de Bazárov 2 rublos
e meio em cédulas. Em casa de Arina Vassílievna raramente
ou nunca se jogava a dinheiro de prata... Ela
mantinha-se como sempre perto do filho, sem jogar, de
fronte apoiada à mão e levantando-se apenas para
mandar servir qualquer nova gulodice. Tinha receio de
acariciar Bazárov e ele não estimulava qualquer carícia
materna. Além disso, Vassíli Ivánovitch aconselhou-lhe
que não o "incomodasse" demasiado. "Os moços gostam
muito disso", dizia-lhe. Quanto ao jantar, convém resumi-
lo. Timofiêievitch trouxe pela manhã carne fresca
de primeira qualidade. O feitor saiu em busca de peixes
finos e camarões. Pelos cogumelos colhidos, as mulheres
do povoado cobraram bom preço. E os olhos de
Arina Vassílievna, permanentemente voltados para Bazárov,
expressavam intensa ternura e dedicação. Viam-se
neles tristeza, curiosidade e receio, a par de uma censura
humilde.
Bazárov tinha mais que fazer do que estudar a expressão
dos olhos maternos. Raramente falava com ela,
dirigindo-lhe poucas palavras. Uma vez ela pediu-lhe
a mão "para lhe dar sorte". Pôs tranqüilamente sua mão
157
macia e pequena sobre a palma áspera e larga da
do filho.
— Não melhorou?
— Foi pior — respondeu Bazárov com um sorriso de
indiferença.
— Arriscam-se muito — falou por sua vez o Padre
Alieksiei, passando a mão pela sua linda barba,
— É o princípio napoleônico, padre, verdadeiramente
napoleônico — disse Vassíli Ivánovitch, jogando
um ás.
— É por isso que Napoleão foi parar na ilha de
Santa Helena — respondeu o Padre Alieksiei matando
o ás com trunfo.
— Não quer um refresco, leniúcha? — perguntou
timidamente Arina Vassílievna.
Bazárov limitou-se a dar de ombros.
— Não! — dizia no dia seguinte a Arcádio. —
Amanhã vou embora. Estou triste, quero trabalhar, mas
aqui é impossível. Vou novamente para sua casa. Lá
deixei todos os meus preparados e instrumentos. Em
sua casa posso pelo menos ficar fechado no meu quarto.
Aqui meu pai diz-me sempre: "O meu gabinete de trabalho
está às suas ordens e ninguém o incomodará".
Mas não sai de perto de mim. Não fica bem fechar ou
evitar-lhe a presença. Minha mãe faz o mesmo. Ouço
seus eternos suspiros. Se a procuro, nada tem para me
dizer, nem tampouco lhe posso dizer uma palavra de
conforto.
— Ela, coitada, ficará muito triste — disse Arcádio.
— E seu pai também.
— Voltarei cá. Por ocasião da minha partida para
a capital.
— Tenho pena, principalmente de sua mãe.
— Por quê? Será que o mimoseou com muitas frutas
escolhidas?
Arcádio baixou os olhos.
158
— Não conhece sua mãe, Eugênio. Não é simplesmente
uma boníssima pessoa, É uma senhora inteligente,
creia-me. Hoje pela manhã conversou comigo meia
hora, de um modo tão interessante e prático!
— Falaram muito de mim?
— Não foi só de você que conversamos.
— É possível. Você deve saber, É ótimo sinal quando
uma mulher é capaz de sustentar uma palestra de meia
hora. Mas eu vou embora.
— Ser-lhe-á muito difícil comunicar-lhe a sua partida.
Estão o dia todo discutindo sobre o que deveremos
fazer durante duas semanas.
— Sei que é difícil. Foi o diabo que me tentou hoje:
um dia destes ele mandou aplicar um castigo físico num
mujique. Aliás, fazia muito bem. Não me olhe assim.
Repito que fazia muito bem, porque se tratava de um
ladrão e ébrio incorrigível. Meu pai não sabia que sou
contrário a tudo isto. Soube-o e ficou muito aborrecido.
Agora devo aborrecê-lo duplamente... Não tem importância!
Tudo passa com o tempo!
Bazárov disse: "Não tem importância!" Passou,
porém, um dia inteiro antes que se resolvesse a comunicar
a Vassíli Ivánovitch sua partida. Finalmente, já ao
despedir-se dele no gabinete, disse-lhe bocejando:
— Quase esqueço de dizer... Mande preparar amanhã
a nossa condução para levar-nos a Fiedot, que nos
fornecerá outro transporte.
Vassíli Ivánovitch ficou embasbacado.
— O Senhor Kirsánov parte amanhã?
— Parte e vou com ele.
Vassíli Ivánovitch mexeu-se rapidamente no lugar
onde estava.
— Parte também?
— Sim... É preciso. Trate, por favor, da condução.
— Bem... — balbuciou o pobre velho. — Condução
até Fiedot... bem... para quê?
159
Quero fazer-lhe uma breve visita. Depois voltarei
ca.
— Uma breve visita... bem. — Vassíli Ivánovitch
tirou o lenço do bolso e, assoando-se, inclinou-se quase
até o chão. — Não há outro remédio? Mandarei... preparar
tudo. Pensava que havia de... ficar mais tempo
aqui. Três dias... depois de três anos de ausência? É
muito pouco, Eugênio!
— Repito-lhe que voltarei em breve. É absolutamente
necessário.
— Necessário... Que se vai fazer, então? Antes de
tudo convém cumprir um dever... Quer que mande
preparar a condução? Farei como quiser. Eu e Arina
não o esperávamos. Ela foi pedir umas flores à vizinha
para lhe enfeitar o quarto.
Vassíli Ivánovitch não mencionou o seguinte: todas
as manhãs, pela madrugada, calçando seus chinelos
usados, ele conferenciava com Timofiêievitch. Tirando
com mão trêmula as cédulas de banco muito gastas,
ordenava-lhe que fizesse diversas compras, principalmente
de comestíveis e vinho, que, segundo pôde observar,
agradou muito aos moços.
— A liberdade, antes de tudo. É esse o meu princípio
... não constranger... não...
Calou-se de repente e foi à porta.
— Garanto-lhe, meu pai, que em breve nos veremos.
Vassíli Ivánovitch nada disse e saiu. Entrando no
seu quarto de dormir, encontrou a esposa repousando e
começou a rezar em voz baixa, para não acordá-la. Ela,
porém, acordou.
— É você, Vassíli Ivánovitch? — perguntou ela.
— Sou eu!
— Vem da parte de leniúcha? Não sei se dorme
muito bem no divã. Ordenei a Anfíssuchka que lhe pusesse
o seu colchão de campanha e travesseiros novos.
160
Queria pôr lá o nosso colchão, mas ele não gosta de
dormir em camas macias.
— Não se incomode, querida. Está bem instalado.
Deus nos perdoe — continuou ele baixinho a sua oração.
Vassíli Ivánovitch teve pena da velha companheira.
Não quis revelar-lhe à noite o que os esperava no dia
seguinte.
Bazárov e Arcádio partiram de manhã. Tudo ficou
triste em casa. Anfíssuchka deixava cair a louça no
chão. Até Fiedka não sabia bem de que se tratava e
acabou desistindo das botas. Vassíli Ivánovitch corria
mais do que nunca: fingia coragem, falava alto e batia
os pés no chão. O seu rosto, porém, empalidecera e os
seus olhos buscavam constantemente o filho. Arina Vassílievna
chorava. Não se dominaria, se seu marido não a
convencesse pela manhã, durante duas horas inteiras.
Quando Bazárov, depois de prometer várias vezes que
voltaria dentro de um mês, saiu afinal dos braços que
o prendiam e ocupou um lugar no carro, quando os
animais se puseram em movimento, a campainha tocou
e as rodas giraram, nada mais havendo para ver, Timofiêievitch,
todo curvo e vacilante, dirigiu-se a sua
modesta morada. Logo que os velhos ficaram sozinhos
na casa, que lhes parecia completamente deserta, Vassíli
Ivánovitch, que pouco antes agitava o lenço aos que
partiam, sentou-se numa cadeira e deixou cair a sua
cabeça branca. — Abandonou-nos — murmurou —,
abandonou-nos. Não se sentia bem em nossa companhia.
Agora estou só, completamente só! — repetiu
várias vezes. Nesse momento Arina Vassílievna aproximou-
se e, encostando sua cabeça alva à do marido,
disse: — Que podemos fazer, Vássia? O filho é como
um pedaço que se corta. É como o falcão: quis, veio;
quis, foi embora. E nós somos como certas aves que não
saem do seu ninho no tronco de uma árvore seca. Só
eu não te abandonarei nunca, nem tu a mim.
161
Vassíli Ivánovitch afastou suas mãos do rosto e abraçou
a esposa, sua companheira, com tanta força, como
nunca a abraçara quando moço. Ela confortou-o na sua
imensa tristeza.
XXII
Em silêncio, trocando às vezes palavras insignificantes,
os nossos amigos chegaram à estalagem de Fiedot.
Bazárov estava aborrecido. Arcádio sentia-se indignado
com ele. Pesava também no seu coração aquela tristeza
sem motivo que é bem conhecida dos moços. O cocheiro
substituiu os animais e, instalando-se na boléia, perguntou:
— Para a direita ou para a esquerda? — Arcádio
estremeceu. O caminho para a direita era o da cidade
e de lá para casa; o da esquerda conduzia à residência
da Senhora Odintsova.
Ele fitou Bazárov.
— Eugênio, vamos para a esquerda?
Bazárov deu-lhe as costas.
— Que tolice é essa?
— Sei que é uma imbecilidade — respondeu Arcádio.
. . — Que há de mais nisso? Não é a primeira
vez...
Bazárov enterrou mais o boné na cabeça.
— Como quiser — disse afinal.
— Para a esquerda! — gritou Arcádio.
O carro dirigiu-se rapidamente para Nikolskoie.
Tendo resolvido fazer a tolice, os amigos ficaram ainda
mais silenciosos e pareciam até zangados.
Já pela maneira por que os recebeu o mordomo da
Senhora Odintsova, ambos perceberam que de fato
fizeram uma tolice, obedecendo repentinamente ao im
perativo da sua imaginação. Ninguém os esperava. Passaram
muito tempo na sala de visitas, embaraçadíssimos.
162
A Senhora Odintsova veio ter com eles. Saudou-os com
a sua habitual amabilidade, sem deixar de manifestar
admiração pelo seu rápido regresso. A julgar pela lentidão
dos seus gestos e palavras, não ficou muito satisfeita
com a sua chegada. Eles se apressaram em declarar
que estavam ali apenas de passagem e que, quatro horas
depois, seguiriam para a cidade. Ana Serguêievna limitou-
se a uma leve exclamação. Disse a Arcádio que
saudasse o pai em seu nome e mandou chamar sua tia.
A princesa apareceu com cara de sono, o que tornava
mais antipático seu velho rosto enrugado. Cátia não
passava bem e não saía do seu quarto. Arcádio sentiu
repentinamente que desejava ver tanto Cátia como a
própria Ana Serguêievna. Quatro horas assim se passaram
em palestras sobre diversos assuntos. Ana Serguêievna
ouvia e falava sem sorrir. Só à hora de despedir-
se pareceu reviver a sua primitiva afabilidade.
— Sou agora vítima do tédio. Mas não se impressionem
com isso, e venham aqui ambos, dentro de algum
tempo.
Bazárov e Arcádio responderam-lhe com silenciosa
reverência, tomaram o carro e, sem parar em parte alguma,
dirigiram-se para Mariino, onde chegaram no
dia seguinte à tarde. Durante todo o percurso nem um
nem outro se referiu à Senhora Odintsova. Bazárov, especialmente,
quase não abriu a boca. Olhava para os
lados da estrada com uma visível expressão de raiva.
Em Mariino todos ficaram satisfeitíssimos ao recebêlos.
A longa ausência do filho começara a preocupar
Nicolau Pietróvitch. Soltou um grito de alegria, agitou
as pernas e deu um pulo no divã, quando Fiênitchka
correu para ele com os olhos cintilantes e anunciou a
chegada dos "senhores moços". O próprio Páviel Pietróvitch
sentiu uma certa impressão agradável e sorria
condescendentemente, apertando as mãos dos recém-
chegados. Principiaram indagações e perguntas de toda espécie.
163
Arcádio falava mais que todos, mormente à
ceia, que foi muito além da meia-noite, Nicolau Pietróvitch
mandou vir algumas garrafas de cerveja, que acabavam
de chegar de Moscou. Bebeu tanto, que suas
faces se tornaram rubras. Ria a todo momento com um
riso infantil ou nervoso. A alegria geral propagou-se
também à criadagem. Duniacha corria de um lado para
outro como doida e batia freqüentemente as portas.
Piotr, às 3 horas da madrugada, ainda tentava executar
na guitarra uma valsa qualquer. As cordas da guitarra
vibravam sentida e suavemente no ar imóvel. Com exceção
de um insignificante esboço de música, nada mais
conseguia o criado-chefe: é que a natureza lhe negara
a vocação musical como aos demais. A vida não corria
bem em Mariino. O pobre Nicolau Pietróvitch passava
mal. As complicações da sua fazenda aumentavam cada
vez mais. Os trabalhadores assalariados davam-lhe muito
trabalho. Exigiam contas ou aumentos de salários,
alguns se despediam levando o dinheiro adiantado. Os
animais adoeciam. As peças de atrelar estragavam-se
depressa. Os trabalhos se executavam sem cuidado. A
debulhadora, que mandara vir de Moscou, era pesada
e imprestável para o uso. A outra estragaram logo. A
metade do curral ardeu, porque uma velha cega, num
dia de ventania, foi com um tição passar um pouco
de fumaça na sua vaca... Segundo afirmou essa velha,
o incêndio foi causado pela intenção do senhor de organizar
nunca vistas instalações de laticínios. O administrador
ficou logo indolente e começou a engordar, como
todo russo que come "o pão livre". Ao ver Nicolau Pietróvitch,
ele, para demonstrar sua atividade, corria atrás
de um leitão que passava tranqüilamente ou ameaçava
um moleque seminu. Dormia o resto do tempo. Os mujiques
não pagavam a dízima no prazo fixado, e devastavam
o bosque. Quase toda noite os guardas apreendiam,
às vezes depois de luta, os animais dos mujiques que,
164
pastavam nos prados da fazenda. Nicolau Pietróvitch
estabeleceu a princípio uma multa pelos prejuízos, mas
tudo terminava como sempre: os animais apreendidos,
depois de um ou dois dias, voltavam aos seus donos.
Para cúmulo, os mujiques começaram a questionar
entre si. Os irmãos exigiam a partilha dos bens. suas
mulheres não podiam mais viver sob o mesmo teto.
Havia brigas e tudo se punha em alvoroço, como obedecendo
a um comando. Todos acorriam ao escritório,
molestavam o dono, às vezes com as caras machucadas,
embriagados, e exigiam justiça e castigo. Havia então
um estardalhaço, berros, gritos agudos de mulheres e
palavrões de homens. Era necessário examinar as pretensões
das partes em litígio, gritar até ficar rouco, sabendo
de antemão que era impossível chegar a uma solução
justa do conflito. Faltava gente para os serviços
da colheita. Um vizinho, aparentemente honesto, propôs
contratar trabalhadores a 2 rublos por hectare e enganou
a todos crapulosamente. As mulheres da fazenda,
para os serviços de colheita, exigiam preços nunca
vistos. As searas maduras estavam para ser ceifadas e
o grão caía por si. Faltavam ceifadores. E o Banco
Hipotecário ameaçava, exigindo o imediato pagamento
dos juros...
— Não posso mais — exclamou várias vezes, desesperado,
Nicolau Pietróvitch. — Não me convém pessoalmente
discutir ou brigar. Os princípios de educação
não me permitem que mande chamar a polícia e, sem a
ameaça de castigo, nada se pode fazer!
— Du calme, au calme * — dizia por essas ocasiões
Páviel Pietróvitch, resmungando e cofiando os bigodes.
Bazárov estava afastado de todas essas complicações.
Na qualidade de hóspede, não lhe convinha intervir nos
negócios alheios. No dia seguinte à sua chegada a Mariino,
* Calma, calma.
165
ocupou-se imediatamente das suas rãs, infusórios.
composições químicas, e passava todo o tempo estudando.
Arcádio, ao contrário, sentiu-se na obrigação de
prestar se não um auxílio ao pai, pelo menos demonstrar-
lhe que estava disposto a ajudá-lo. Com muita paciência,
ouvia-o e um dia lhe deu um certo conselho, não
para que o seguisse e sim para que compreendesse o seu
interesse no caso. As ocupações da fazenda não lhe
provocavam repulsa: até com grande prazer pensava
na atividade de agrônomo. Mas nesse tempo outras
idéias lhe vinham à cabeça. Arcádio, com grande admiração
sua, sempre pensava em Nikólskoie. Se lhe
dissessem antes que ele aborrecer-se-ia em companhia
de Bazárov e sob o teto paterno, havia de limitar-se a
dar de ombros. Agora se sentia triste e algo o impelia
para longe dali. Resolveu fazer longos passeios e de
nada valeu semelhante iniciativa. Conversando um dia
com seu pai, soube que Nicolau Pietróvitch estava de
posse de diversas cartas, muito interessantes, escritas
outrora pela mãe da Senhora Odintsova à sua falecida
esposa. Insistiu tanto em ver essas cartas, que Nicolau
Pietróvitch foi obrigado a remexer vinte caixas para
entregar-lhas. De posse desses papéis antigos e gastos
pelo tempo, Arcádio pareceu acalmar-se, como se visse
diante de si o caminho que devia seguir. "Digo-lhes a
ambos", repetiu de si para si, "foi ela mesma que o
disse! Vou lá, que diabo!" Mas lembrou-se da última
visita, da fria recepção que lhe fizeram e da inconveniência
do seu ato, e não se sentia com coragem. O "talvez"
da mocidade, secreto desejo de experimentar sua ventura,
suas forças a sós, sem proteção de quem quer que
fosse, venceu finalmente. Mal passaram dez dias após
o seu regresso a Mariino, ele, com pretexto de estudar
a organização das escolas dominicais, partia para a
cidade e de lá com destino a Nikólskoie. Apressando
incessantemente o cocheiro com promessas de gorjetas,
166
corria para lá como um jovem oficial para a sua primeira
batalha. Sentia-se com medo e alegre ao mesmo
tempo. A impaciência atormentava-o. "O essencial é
não pensar", dizia consigo mesmo. O seu cocheiro era
um homem esperto. Parava diante de toda taberna e
dizia: — Vai uma? — Depois de várias já não tinha
pena dos animais. Finalmente apareceu à distância o
alto telhado da casa bem conhecida... "Que estou fazendo?",
passou de repente pela imaginação de Arcádio.
"É tarde para voltar!" A tróica corria bem. O cocheiro
gritava e assobiava insistentemente. Já tinham
passado a ponte, já surgia a alameda principal do
jardim... Um vestido de mulher apareceu no verde
escuro da vegetação e uma face jovem sorriu sob um
leve guarda-sol... Reconheceu Cátia e ela o reconheceu
também. Arcádio ordenou que o cocheiro parasse,
apeou-se do carro e aproximou-se dela. — É o senhor!
— disse Cátia corando. — Vamos encontrar minha
irmã. Ela está aqui no jardim. Terá muito prazer em
tornar a vê-lo.
Cátia acompanhou Arcádio pelo jardim. O encontro
pareceu-lhe um bom sinal. Ficou tão alegre ao vê-la;
tudo se passou tão bem: nem mordomo, nem necessidade
alguma de se anunciar. Numa volta da aléia viu Ana
Serguêievna. Estava de costas para ele. Ouvindo passos,
voltou-se devagar.
Arcádio ficaria atrapalhado de novo, se não fossem
suas primeiras palavras que o tranqüilizaram logo.
— Bom dia, fugitivo! — ditas em voz calma e carinhosa,
e foi-lhe ao encontro, sorrindo e cerrando os
olhos por causa do sol e do vento.
— Onde está Cátia? Onde a encontrou?
— Trouxe-lhe, Ana Serguêievna— disse ele —, algo
que a senhora não espera...
— A sua própria pessoa. É o melhor de tudo.
167
XXIII
Tendo acompanhado Arcádio com ironia compassíva
e dando-lhe a entender que não se enganava quanto ao
verdadeiro motivo da sua viagem, Bazárov isolou-se
definitivamente. Uma febre de trabalho apoderou-se
dele. Já não discutia com" Páviel Pietróvitch, mesmo
porque este último, em sua presença, assumia uma atitude
demasiado aristocrática e expressava suas opiniões
mais por sons do que por palavras. Somente uma vez
Páviel Pietróvitch tentou discutir com o niilista sobre
uma questão em foco naquela época. Os direitos dos
nobres das regiões bálticas. Interrompeu-se de repente
e proferiu com frieza amável: — Além disso, não nos
podemos compreender. Eu, pelo menos, não tenho a
honra de compreendê-lo.
— Naturalmente! — exclamou Bazárov. — O homem
é capaz de compreender tudo: as oscilações do éter
e o que se passa no Sol Não compreende, porém, como
um outro homem pode assoar-se de um modo diverso
do que o faz.
— Tem muito espírito — disse Páviel Pietróvitch
afastando-se.
Apesar de tudo, às vezes pedia permissão para presenciar
as experiências de Bazárov. Uma vez até aproximou
o seu rosto bem tratado e perfumado do microscópio,
para ver como um infusório transparente engolia
uma partícula verde, mastigando-a com os minúsculos
dentes que possuía. Mais freqüentemente Bazárov recebia
visitas de Nicolau Pietróvitch. Viria todos os dias
"estudar um pouco e aprender", como se expressava, se
as ocupações da fazenda não o impedissem. Não incomodava
o jovem naturalista. Sentava-se num canto da
sala e observava atentamente os trabalhos, fazendo às
vezes tímidas perguntas. Durante o jantar e à ceia,
orientava a conversação para os assuntos de física,
168
geologia ou química, porque os demais assuntos, até agrícolas,
sem falar das questões políticas, poderiam provocar
incidentes ou qualquer indisposição recíproca.
Nicolau Pietróvitch percebia que o ódio de seu irmão
por Bazárov não diminuíra em nada. Um acontecimento
sem importância, entre tantos outros, confirmou as suas
suspeitas. A cólera começou a aparecer pelos arredores
e até causou duas mortes em Mariino. À noite, Páviel
Pietróvitch teve um forte ataque. Passou muito mal até
a manhã mas não recorreu a Bazárov. Encontrando-se
com ele no dia seguinte, à sua pergunta: "Por que não
me mandou chamar?" respondeu, ainda muito pálido,
mas bem penteado e barbeado: "Segundo afirmou um
dia, não acredita na medicina".
Assim passavam os dias. Bazárov trabalhava
muito... Entretanto, apesar de sua tristeza, na casa
de Nicolau Pietróvitch existia uma pessoa com quem
palestrava de boa vontade. Era Fiênitchka.
Encontrava-se com ela, na maioria das vezes, de
manhã cedo, no jardim ou no pátio. Não ia ao seu
quarto. Ela só uma vez chegou à porta do seu aposento
para lhe perguntar se devia dar banho em Mítia ou
não. Depositava confiança nele, não o temia, e até se
sentia mais desembaraçada e mais livre que em presença
do próprio Nicolau Pietróvitch. É difícil explicar o
porquê deste comportamento. É possível que, inconscientemente,
percebesse na pessoa de Bazárov a ausência
de atitudes aristocráticas e de tudo aquilo que a atraía
e atemorizava. Para Fiênitchka, Eugênio era um ótimo
médico e um homem simples. Sem acanhamento algum,
em sua presença, lidava com seu filho e, um dia, quando
sentiu tonteiras e dor de cabeça, tomou das suas mãos
uma colher de remédio. Em companhia de Nicolau
Pietróvitch parecia estranha a Bazárov. Fazia-o não com
segunda intenção e sim por um certo sentimento de
decência ou pudor. Tinha medo de Páviel Pietróvitch como nunca.
169
Ele, desde algum tempo, passara a observá-
la. Aparecia inesperadamente, como por encanto,
trajando o seu suit, com o rosto impassível e atento, as
mãos nos bolsos. "Sinto até calafrios", queixava-se Fiênitchka
a Duniacha. Esta última respondia com um
suspiro e pensava num outro homem "cruel". Sem saber
de nada, Bazárov passou a ser o "tirano implacável da
sua alma".
Bazárov agradava a Fiênitchka e esta também lhe
agradava. Seu rosto se transmudava todo, quando ele lhe
dirigia a palavra. O semblante de Eugênio assumia uma
expressão clara, quase boa. O seu indiferentismo habitual
casava-se a uma certa atenção brincalhona. Fiênitchka
cada dia ficava mais bonita. Há uma época na
vida das mulheres jovens em que começam de repente
a desabrochar e florescer como as rosas. Era o período
que atravessava Fiênitchka. Tudo conspirava para isso,
até mesmo o calor de julho. Vestida de branco, parecia
mais delicada e mais leve. O calor não lhe tostava a
pele. Somente coravam suas faces e orelhas, destilando
todo o seu corpo um suave langor que se refletia na
sonolência pensativa dos lindos olhos. Quase não podia
trabalhar. Tombavam-lhe as mãos molemente no regaço.
Andava devagar, suspirava, às vezes queixava-se da
sua insólita falta de força.
— Deve tomar banho mais vezes — dizia-lhe Nicolau
Pietróvitch. Construíra-lhe uma grande piscina
coberta de lona num dos tanques que ainda não se tinha
esgotado.
— Não adianta, Nicolau Pietróvitch! Enquanto a
gente vai e volta ao tanque, morre-se de calor. Não há
nenhuma sombra no jardim.
— É verdade; não há sombra — concordou Nicolau
Pietróvitch, passando a mão pela fronte.
Um dia, às 7 horas da manhã, Bazárov, ao voltar
do passeio matinal, encontrou Fiênitchka no caramanchão já sem flores,
170
mas ainda verde e cerrado. Achava-se
sentada no banco, com um lenço branco na cabeça.
Perto se via um ramo de rosas brancas e vermelhas
ainda úmidas de orvalho.
Saudou-a.
— Bom dia, Eugênio Vassílievitch! — respondeu
ela, levantando um pouco o lenço para o ver melhor.
Nesse gesto o seu braço se descobriu até o cotovelo.
— Quê faz aqui? — perguntou Bazárov, sentando-
se junto dela. — Está compondo um ramalhete de rosas?
— Sim. Vou enfeitar a mesa para o almoço. Nicolau
Pietróvitch gosta muito.
— Até a hora do almoço vai ainda muito tempo.
Quantas flores!
— Colhi-as agora, porque com o calor a gente nem
pode sair. Só agora se respira um pouco. Sinto-me tão
fraca com este calor... Será que estou doente?
— Qual nada! Deixe-me ver o seu pulso. — Bazárov
tomou-lhe a mão, apalpou o pulso, e não quis contar
as pulsações. — Vai viver cem anos — disse, soltando-
lhe a mão.
— Deus me livre!
— Por quê? Não quer viver muito tempo' neste
mundo?
— Cem anos? Minha avó viveu 85 anos. Que martírio!
Toda encarquilhada, surda, corcunda e tossindo
sempre. Sofria muito. Isso é vida?
— O melhor então é a mocidade?
— Não acha também?
— Melhor em quê? Pode dizer-me?
— Em que ou por quê? Eu, por exemplo, sou moça;
e posso fazer tudo, não preciso do auxílio de ninguém
... Haverá coisa melhor?
— Para mim é o mesmo: mocidade ou velhice.
— Como pode ser o mesmo? É incrível o que o
senhor diz.
171
— Imagine, Fiedóssia Nicoláievna, para que me
serve a mocidade? Vivo sozinho, solteiro. . ,
— Tudo depende do senhor.
— O fato é que não depende de mim! Se pelo menos
alguém tivesse pena de mim.
Fiênitchka olhou de solslaio Bazárov, mas não disse
nada.
— Que livro é esse? — perguntou ela, momentos
depois.
— Este? É um livro de ciência, muito difícil.
— O senhor continua a estudar? Não se aborrece?
Eu creio que já sabe tudo.
— Parece que não. Experimente ler um pouco.
— Não compreendo nada. É em russo? — perguntou
Fiênitchka, pegando com ambas as mãos um grosso
in-folio. — Que livro grande!
— É russo,
— Não compreenderei da mesma forma.
— Não é necessário que compreenda. Quero ver
como vai ler. Quando lê, a pontinha do seu nariz mexe-
se com infinita graça.
Fiênitchka, que mal tinha começado a ler a meia voz
o capítulo sobre o creosoto, riu e deixou o livro, que
caiu do banco no chão.
— Gosto também de vê-la quando ri — disse Bazárov.
— Oh, basta!...
— Gosto quando fala. Parece um regato que murmura.
Fiênitchka voltou a cabeça para outro lado.
— Que homem! — disse, escolhendo as flores. —
Que lucrará se me ouvir? Já falou com senhoras inteligentes.
. .
— Fiedóssia Nicoláievna, acredite-me: todas as mulheres
inteligentes do mundo não valem o seu pequenino
cotovelo.
172
— O senhor inventa cada uma! — murmurou Fiênitchka,
juntando as mãos.
Bazárov levantou o livro do chão.
— É um livro de medicina. Por que o joga assim?
— De medicina? — repetiu Fiênitchka, voltando-se
para ele. — Sabe? Desde aquele dia em que receitou
aquelas gotas, lembra-se? Mítia dorme muito bem! Não
sei como agradecer-lhe. É tão bom!
— Sabe que deve pagar o médico? — insinuou sorrindo
Bazárov. — Os médicos são uma gente gananciosa.
Fiênitchka ergueu para Bazárov os seus olhos, que
pareciam mais escuros em virtude do reflexo esbranquiçado
que lhe caía sobre a parte superior do seu
rosto. Não sabia se lhe falava sério ou não.
— Se é assim, nós com muito prazer... Vou dizer
a Nicolau Pietróvitch« ..
— Pensa que quero dinheiro? — interrompeu-a Bazárov.
— Não, não quero o seu dinheiro.
— Que quer então? — disse Fiênitchka.
— O quê? — repetiu Bazárov. — Adivinhe.
— Não tenho o dom de adivinhar...
— Vou então dizer-lhe: quero... uma dessas rosas.
Fiênitchka riu novamente e até fez um gesto com
os braços, tão engraçado lhe pareceu o desejo de Bazárov.
Ria e ao mesmo tempo sentia-se lisonjeada. Bazárov
fitou-a com atenção.
— Pois não — disse ela afinal, e, inclinando-se sobre
o banco, começou a escolher uma rosa. — Qual prefere,
vermelha ou branca?
— Vermelha, e não muito grande.
Ela endireitou-se.
— Tome esta — disse, mas logo recolheu o braço
estendido e mordeu os lábios, olhando para a entrada
do caramanchão e prestando ouvidos.
173
— Que há? — indagou Bazárov. — Nicolau Pietróvitch?
— Não... Ele foi para o campo... Não tenho
medo dele... Mas Páviel Pietróvitch... Pareceu-
me...
— O quê?
— Pareceu-me que ele anda por aí. Não... Não há
ninguém. Tome — Fiêniíchka entregou a rosa a Bazárov.
— Por que tem medo de Páviel Pietróvitch?
— Causa-me sempre medo. Nada me diz, mas olha
de um certo modo. O senhor também não gosta dele.
Lembra-se de quantas vezes discutiu? Não sei sobre que
assunto falavam, mas via que o torceu de todo modo...
Fiênitchka fez um gesto com as mãos, indicando
como Bazárov torcia Páviel Pietróvitch.
Bazárov sorriu.
— E se começasse a vencer-me, Fiênitchka defenderme-
ia?
— Como o poderia defender? Mas é difícil vencê-lo.
— Pensa? Conheço a mão que com um dedo pode
derrubar-me.
— Que mão é essa?
— Não sabe? Veja que delicioso perfume tem a rosa
que me deu.
Fiênitchka estendeu o pescoço, aproximando o rosto
da flor. O lenço caiu-lhe da cabeça para os ombros.
Apareceu sua cabeleira macia, negra, sedosa e um pouco
em desalinho.
— Espere. Quero sentir-lhe também o perfume —
disse Bazárov, que se inclinou e beijou-lhe os lábios
entreabertos.
Ela estremeceu. Defendeu-se com ambas as mãos
encostadas ao peito, mas fracamente, de modo que
ele poderia renovar ou prolongar seu beijo.
Uma tosse seca ouviu-se perto do caramanchão.
174
Fiênitchka imediatamente se afastou para a outra extremidade
do banco. Páviel Pietróvitch apareceu então, fez
uma ligeira reverência, e disse com certa tristeza e ódio:
— Estão aqui? — e afastou-se. Fiênitchka juntou depressa
todas as rosas e saiu do caramanchão. — É
um pecado, Eugênio Vassílievitch — murmurou ela,
afastando-se. Na sua voz havia uma dolorosa censura.
Bazárov lembrou-se de uma outra cena e ficou profundamente
aborrecido. Mas, sacudindo a cabeça, saudou
ironicamente a si mesmo "pelo feliz início da sua carreira
de conquistador", e foi para seu aposento.
Páviel Pietróvitch saiu do jardim, encaminhando-se
lentamente até ao bosque. Ficou ali muito tempo e,
quando voltou para o almoço, Nicolau Pietróvitch perguntou-
lhe preocupado se não estava doente, de tão
abatida que tinha a fisionomia.
— Sabe que às vezes sofro de derrame de bílis —
respondeu-lhe calmamente Páviel Pietróvitch.
XXIV
Duas horas depois, ele batia à porta de Bazárov.
— Devo pedir-lhe desculpas por perturbá-lo nas suas
investigações científicas — começou, sentando-se em
uma cadeira perto da janela e apoiando ambas as mãos
numa elegante bengala de castão de marfim. (Geralmente
andava sem bengala.) — Sou forçado a pedir-lhe
cinco minutos de atenção.
— Todo o meu tempo está às suas ordens — respondeu
Bazárov, e passou-lhe pelo rosto um estremecimento
imperceptível, logo que Páviel Pietróvitch atravessou
a soleira da porta.
— Para mim bastam apenas cinco minutos. Vim
para fazer-lhe uma única pergunta.
— Pergunta? Sobre quê?
175
— Peço que me ouça. No princípio da sua permanência
na casa do meu irmão, quando eu ainda não
me recusava o prazer de palestrar com o senhor, tive
ocasião de conhecer suas opiniões sobre vários assuntos.
Ao que me lembro, entre nós, na minha presença, nunca
abordamos a questão do duelo em geral. Queria saber
qual é a sua opinião sobre o assunto.
Bazárov, que se tinha levantado ao encontro de
Páviel Pietróvitch, sentou-se no canto da mesa e cruzou
os braços.
— A minha opinião é esta: do ponto de vista teórico,
o duelo é um absurdo, mas do ponto de vista prático
o caso muda de figura.
« — Quer o senhor dizer que, se bem o compreendi,
seja qual for o seu juízo teórico sobre o duelo, na
prática não permitiria que o ofendessem, sem exigir
uma satisfação?
— Adivinhou perfeitamente o meu pensamento.
— Muito bem. É-me agradável ouvi-lo falar assim.
As suas palavras me livram de uma dúvida...
— Quer dizer de uma indecisão.
— É o mesmo. Expresso-me assim para que me
entenda. Eu... não sou um rato de seminário. Às suas
palavras libertam-me de uma triste necessidade. Resolvi
brigar com o senhor.
Bazárov arregalou os olhos.
— Comigo?
— Exatamente.
— E por que, se posso saber?
— Poderia explicar-lhe o motivo — disse Páviel
Pietróvitch. — Prefiro, no entanto, não o declarar. O
senhor para mim é demais aqui. Não posso suportá-lo,
desprezo-o e, se isso não lhe é suficiente...
Os olhos de Páviel Pietróvitch brilharam de ódio...
O mesmo aconteceu com Bazárov.
— Muito bem — disse este. — Não necessito de
176
Outras explicações. Teve a fantasia de experimentar na
minha pessoa o seu espírito cavalheiresco. Poderia
negar-lhe este prazer, mas, já que faz questão...
—- Devo-lhe um grande obséquio — respondeu
Páviel Pietróvitch. — Espero que aceite o meu desafio
e não me obrigue a tomar medidas violentas.
— Isto é, falando sem mais alegorias, para que o
senhor não recorra a esta bengala? — observou, com
sangue frio, Bazárov. — É muito justo. Não tem necessidade
de ofender-me fisicamente. Pode ser perigoso
para a sua integridade física. É bom que mantenha
sempre a sua atitude de gentleman... Aceito o seu
desafio também como gentleman.
— Excelente — disse Páviel Pietróvitch, e colocou
a bengala no canto. — Vamos agora falar sobre as condições
do nosso duelo. Primeiramente, eu desejava saber
se não concordaria com a formalidade de uma pequena
disputa que pudesse servir de pretexto para o meu
desafio.
— Não. É melhor sem formalidades.
— Também penso assim. Acho até "que ninguém
deve conhecer os motivos reais do incidente. Não podemos
suportar um ao outro. Para que mais?
— Para que mais? — repetiu com ironia Bazárov.
— Quanto às condições do duelo, como não temos
padrinhos, onde os arranjaremos?
— É verdade, onde os arranjaremos?
— Proponho-lhe o seguinte: o duelo se realizará
amanhã cedo. Suponhamos que seja às 6 horas, atrás
do bosque, a pistola, à distância de dez passos.
— Dez passos? Exatamente a essa distância é que
nós nos odiámos.
— A distância pode ser de oito passos — observou
Páviel Pietróvitch.
— Pode. Por que não?
— Atirar duas vezes. Cada um de nós deve pôr no
177
bolso um bilhete declarando que é o único responsável
pela sua morte.
— Com isso não concordo — disse Bazárov. —
Parece-me um romance francês, cretino e inverossímil.
— Talvez. Entretanto é desagradável passar por
assassino.
— Concordo. Mas há um meio de evitar esta
acusação. Não teremos padrinhos, mas podemos arranjar
uma testemunha.
— Quem é?
— Piotr.
— Quê! Piotr?
— O criado do seu irmão. É um homem muito educado.
Tenho certeza de que representará o seu papel
comme il faut.
— Parece-me que o senhor está pilheriando.
— Em hipótese alguma. Depois de estudar a minha
proposta, convencer-se-á de que é simples e correspondente
ao bom senso. Não se pode guardar uma agulha
num palheiro. Vou falar com Piotr, para prepará-lo
bem no seu papel no campo de batalha...
— Continua a troçar — disse, erguendo-se, Páviel
Pietróvitch. — Mas, depois da gentileza de ter aceito
o meu desafio, nada tenho a opor... Então, estamos
combinados... A propósito, não tem armas?
— De que me serviriam armas de fogo, Páviel Pietróvitch?
Não sou soldado.
— Nesse caso ponho à sua disposição as minhas.
Pode estar certo de que não as uso já há cinco anos.
— É um aviso muito confortante.
Páviel Pietróvitch pegou a bengala..,
— No mais, meu caro senhor, resta-me agradecer-lhe
e ir-me, para não o furtar por mais tempo ao seu trabalho.
Tenho a honra de cumprimentá-lo.
— Até muito breve, meu caro senhor — disse Bazárov,
acompanhando o visitante.
178
Páviel Pietróvitch saiu e Bazárov, depois de permanecer
alguns momentos à porta, exclamou: "É tão bonito
e tão idiota! Que comédia! Os cães amestrados
dançam assim nas patas traseiras. Mas não podia
recusar. Ele seria capaz de me agredir e então... (Bazárov
ficou pálido só ao pensar nisso. Todo o seu amor-
próprio se revoltou.) Seria então obrigado a estrangulálo
como um gatinho". Voltou ao microscópio, mas o
seu coração batia mais forte. Tinha desaparecido a
calma necessária para as observações científicas. "Ele
naturalmente nos viu hoje", pensava. "Será que defende
a honra do irmão? Que importância tem afinal um
beijo? Nisso tudo deve haver outra coisa. Não estará
apaixonado por Fiênitchka? Naturalmente que sim. É
claro como a luz do sol. Que estupendo par!... É um
tolo!", concluiu afinal. "Redondamente tolo. Em primeiro
lugar, é preciso oferecer a cara às balas ou abandonar
este sítio; em segundo lugar, Arcádio... e esse
santo Nicolau Pietróvitch. É uma rematada tolice."
O dia passou calmo e sem novidade. Fiênitchka não
aparecia em parte alguma. Escondeu-se no seu quarto
como um ratinho na sua toca. Nicolau Pietróvitch tinha
um ar preocupado. Comunicaram-lhe que o trigal, em
que depositava grandes esperanças, fora invadido pelo
joio. Páviel Pietróvitch impressionava a todos, até Prokófitch,
com a sua delicadeza fria. Bazárov começou a
escrever uma carta a seu pai, mas rasgou-a sem terminar
e jogou os pedaços no chão. "Se morrer", pensou,
"hão de receber a notícia de minha morte. Mas não
morrerei. Ainda fico muito tempo neste mundo." Mandou
chamar Piotr no dia seguinte de madrugada, para
um negócio importante. Piotr supôs que queria levá-lo
consigo para São Petersburgo. Bazárov deitou-se tarde e
durante toda a noite teve sonhos desordenados... A
Senhora Odintsova aparecia-lhe em sonhos, transformava-se
de repente em sua mãe. Uma gata de bigodes
pretos seguia-o.
179
A gata era Fiênitchka, Páviel Pietróvitch
aparecia-lhe como um grande bosque, com que
era obrigado a brigar. Piotr acordou-o às 4 horas da
madrugada. Vestiu-se às pressas e saiu em sua companhia.
A manhã era esplêndida e fresca. Havia pequenas
nuvens multicores aqui e acolá no azul claro do céu.
O orvalho rebrilhava nas folhas das árvores e a erva
rasteira verdejava cheia de viço e frescor. A terra úmida
e preta parecia conservar ainda os vestígios da noite.
No alto pairavam os cantos das aves. Bazárov chegou
até o bosque, sentou-se à sombra, numa clareira, e só
então revelou a Piotr sua incumbência. O criado de maneiras
educadas ficou pálido de espanto. Bazárov tranqüilizou-
o, dizendo-lhe que nada teria que fazer, a não
ser ficar a distância e observar. Não lhe cabia nenhuma
responsabilidade. "Além disso", acrescentou, "desempenhará
um papel de grande importância aristocrática!"
Piotr abriu as mãos, baixou os olhos e, branco de terror,
encostou-se a uma bétula.
O caminho de Mariino contornava o bosque. Uma
camada de poeira se acumulara na estrada, em que
desde a véspera não percorrera nenhuma carruagem ou
pedestre. Bazárov espiava ao longo do caminho, arrancava
e mordia as hastes de capim e repetia consigo
mesmo: "Que tolice!" A brisa fresca da manhã o fez
estremecer por duas vezes... Piotr fitava-o lugubremente
e Bazárov apenas sorria: não tinha medo.
Ouviu-se um ruído de patas de cavalo na estrada...
Surgiu um mujique das árvores. Conduzia dois animais
e, passando perto de Bazárov, fixou-o com certa surpresa,
sem tirar o chapéu, o que visivelmente impressionou
Piotr como um mau sinal. "Este também se levantou
cedo", pensou Bazárov, "pelo menos para o trabalho,
e nós?. .,"
— Parece que ele vem — disse baixinho Piotr.
180
Bazárov ergueu a cabeça e viu Páviel Pietróvitch.
Trajava um leve paletó xadrez e calça branca como
neve; caminhava rapidamente pela estrada, trazendo sob
o braço um estojo em pano verde.
— Perdoem-me, se os fiz esperar — disse, curvando-
se primeiramente diante de Bazárov e depois de Piotr,
na pessoa de quem, nesse instante, respeitava uma espécie
de padrinho de duelo. — Não quis acordar o meu
criado.
— Não tem importância — respondeu Bazárov. —
Também acabamos de chegar.
— Melhor ainda! — Páviel Pietróvitch olhou em
redor. — Não se vê ninguém, ninguém pode atrapalhar.
.. Podemos começar?
— Podemos.
— Suponho que o senhor não exige novas explicações?
— Não exijo.
— Quer carregar as armas? — perguntou Páviel
Pietróvitch, tirando do estojo as pistolas.
— Não, Pode carregar o senhor, enquanto vou medir
a distância. Tenho as pernas mais compridas... — disse
ironicamente Bazárov. — Um, dois, três...
— Eugênio Vassílievitch — gaguejou com sacrifício
Piotr, que tremia como varas verdes —, eu vou...
— Quatro... cinco... afaste-se, meu amigo. Pode
ficar atrás daquela árvore, tape os ouvidos, mas não os
olhos. Se alguém cair, corra para levantar. Seis...
sete... oito... — Bazárov parou. — Basta? — disse,
dirigindo-se a Páviel Pietróvitch — ou o senhor quer
mais dois passos?
— Como quiser — respondeu aquele, carregando
com uma segunda bala.
— Lá vão mais dois passos — e Bazárov, com a
ponta do sapato, passou um traço no solo. — Aqui está a barreira.
181
A propósito, a quantos passos de distância da
barreira deve cada um de nós ficar? É uma questão importante.
Ontem não falamos disso,
— Suponho que são dez passos — respondeu Páviel
Pietróvitch, entregando a Bazárov ambas as pistolas, —
Queira escolher.
— Vou escolher. Concorde, Páviel Pietróvitch. em
que o nosso duelo é tremendamente ridículo. Veja que
cara tem o nosso padrinho.
— O senhor gosta de pilheriar sempre — respondeu
Páviel Pietróvitch. — Não nego a extravagância do nosso
duelo, mas devo declarar-lhe que estou disposto a
brigar seriamente. A bon entendeur, salut!
— Não tenho dúvida de que nós resolvemos exterminar
um ao outro. Por que então não havemos de divertir-
nos um pouco, unindo utile dulci? Fala-me em francês
e respondo-lhe em latim.
— Vou brigar seriamente — respondeu Páviel Pietróvitch,
ocupando a sua posição. Bazárov por sua vez
contou dez passos a partir da barreira e parou.
— Está pronto? — indagou Páviel Pietróvitch.
— Mais que pronto.
— Podemos aproximar-nos.
Bazárov caminhou lentamente e Páviel Pietróvitch
avançou com a mão esquerda no bolso e levantando devagar
o cano da pistola... "Está apontando a arma
para o meu nariz", pensou Bazárov, "e que pontaria
está fazendo, o bandido! É uma impressão realmente
desagradável. Vou olhar para a corrente do seu relógio
..." De repente, alguma coisa passou-lhe bem perto
do ouvido e então ouviu a detonação. "Estou ouvindo
ainda; é sinal de que nada me aconteceu", passou-lhe
rapidamente pela cabeça. Deu mais um passo e, sem
fazer
alvo, apertou o gatilho.
Páviel Pietróvitch estremeceu, e pôs a mão na perna.
Um fio de sangue coloriu-lhe a calça branca.
182
Bazárov jogou fora a pistola e aproximou-se do
adversário.
— Está ferido? — perguntou ele.
— O senhor só teria o direito de me chamar à barreira
— disse Páviel Pietróvitch. — O ferimento não
tem importância. Conforme combinamos, cada um de
nós tem ainda direito de um tiro.
— Perdoe-me, vamos deixar isso para outra vez —
respondeu Bazárov, agarrando Páviel Pietróvitch, que
começava a empalidecer. — Agora não sou mais duelista,
e sim médico. Preciso examinar seu ferimento.
Piotr, venha cá! Onde está?
— Que tolice... Não preciso do auxílio de ninguém
— disse pausadamente Páviel Pietróvitch. — Vamos...
recomeçar... — Quis torcer o seu bigode, mas a mão
não lhe obedeceu. Seus olhos se fecharam e ele perdeu
os sentidos.
— Que transtorno! Um desmaio! Por que será? —
exclamou Bazárov, depositando Páviel Pietróvitch sobre
a relva. — Vamos ver o que há. — Tirou um lenço,
enxugou o sangue e apalpou o ferimento... — O osso
está intacto — murmurou. — A bala passou de leve,
um músculo apenas, vastus extemus, sofreu um pouco.
Pode dançar daqui a três semanas!... E o desmaio?
Esses homens nervosos! Oh! Que pele fina tem ele!
— Morreu! — ouviu-se atrás a voz trêmula de Piotr.
Bazárov voltou-se.
— Vá buscar um pouco de água, meu amigo. Ele
viverá mais do que nós dois.
Mas o criado perfeito parecia não lhe entender as
palavras: não se movia do lugar. Páviel Pietróvitch
abriu lentamente os olhos.
— Está morrendo! — balbuciou Piotr, fazendo um
sinal da cruz.
— O senhor tem razão... Que fisionomia idiota!
— disse com um sorriso forçado o gentleman ferido.
183
— Vá buscar água, cretino! — gritou Bazárov.
— Não é preciso... Foi uma vertigem passageira.
. . Ajude-me a sentar... Assim... Basta que se
amarre com qualquer coisa este arranhão. Posso ir a pé
até em casa, ou então mande buscar o meu carro, O
duelo, se lhe convém, não se repete. O senhor foi um
cavalheiro... hoje, saiba-o,
— Não convém lembrar o passado — respondeu
Bazárov. — Quanto ao futuro, não devemos quebrar a
cabeça, porque estou disposto a partir imediatamente.
Permita que pense agora a sua perna. O ferimento é
leve. Precisamos apenas estancar o sangue. Mas é necessário
antes fazer este pobre mortal recobrar os sentidos.
Bazárov sacudiu Piotr pela gola e mandou-o buscar
o carro.
— Por favor, não diga nada ao meu irmão — preveniu-
o Páviel Pietróvitch.
Piotr afastou-se apressadamente. Enquanto
providenciava a condução, ambos os adversários estavam
sentados na relva, em silêncio. Páviel Pietróvitch fazia
esforços para não olhar Bazárov. Não queria fazer as
pazes. Tinha vergonha de seu ímpeto, do seu insucesso
e também de toda a questão que provocara, embora se
sentisse satisfeito porque a contenda não terminou
muito mal. "Em último caso, tem que se ir embora", dizia
consigo, "e isso será muito bom." O silêncio durava,
pesado e incômodo. Ambos não se sentiam bem. Cada
um sabia que o outro o compreendia. Para os amigos
essa idéia seria agradável e - para os adversários, ao
contrário, era penosa, principalmente porque ambos não
queriam explicar-se e separar-se em paz.
— Não lhe amarrei com muita força a perna? —
perguntou finalmente Bazárov.
— Não, estou bem — respondeu Páviel Pietróvitch.
Depois de algum tempo acrescentou: — É difícil enganar meu irmão.
184
Vou dizer-lhe que nós discutimos por
causa da política.
— Muito bem — disse Bazárov. — Pode dizer que
eu estava insultando todos os anglômanos.
— Muito bem. Que pensa agora de nós aquele
homem? — continuou Páviel Pietróvitch, indicando o
mesmo mujique que, minutos antes do duelo, passara
perto de Bazárov com os seus animais e, na volta, passou
ao lado deles tirando o chapéu,
— Quem sabe? — respondeu Bazárov. — É possível
até que não pense coisa alguma. O mujique russo é
o mais misterioso de todos os desconhecidos sobre os
quais tanto escreveu a Senhora Rathcliff. Quem o compreenderá?
Não compreende nem a si mesmo.
— É assim... — mal começou a falar Páviel Pietróvitch,
e de repente exclamou: — Olha o que fez o
estúpido Piotr! É meu irmão que vem vindo!
Bazárov virou-se e viu o rosto pálido de Nicolau Pietróvitch
no carro que acabara de chegar. Ele saltou em
terra antes que o veículo parasse e foi ter com o irmão.
— Que significa isso? — disse precipitadamente. —
Eugênio Vassílievitch, que aconteceu, por favor?
— Nada de importante — respondeu Páviel Pietróvitch.
— Incomodaram-no à toa. Discutimos, eu e o
Senhor Bazárov, e tive que expiar a minha culpa.
— Por que questionaram, pelo amor de Deus?
— Explico-lhe. O Senhor Bazárov referiu-se asperamente
a Sir Robert Peel. Convém dizer que em tudo
isto o culpado sou eu. O Senhor Bazárov portou-se como
um cavalheiro. Fui eu que o desafiei!
— Vejo que está ferido! Há sangue!
— Pensava que tenho água nas veias? Para mim
esta sangria é até muito útil, não acha, doutor? Ajude-
me a subir no carro e não fique triste. Amanhã ficarei
bom. Assim está muito bem. Toque, cocheiro.
185
Nicolau Pietróvitch seguiu o carro. Bazárov ia ficando
atrás.
— Devo pedir-lhe que trate do meu irmão — disse-
lhe Nicolau Pietróvitch — enquanto não chegar outro
médico da cidade.
Bazárov curvou silenciosamente a fronte.
Uma hora depois, Páviel Pietróvitch estava de cama,
com a perna cuidadosamente pensada. Toda a casa
ficou em sobressalto. Fiênitchka sentia-se mal Nicolau
Pietróvitch torcia de desespero as mãos, e Páviel Pietróvitch
pilheriava, especialmente com Bazárov. Vestindo
uma finíssima camisa de seda, uma elegante blusa de
noite e fez, não permitiu que descessem as cortinas das
janelas. Troçava da necessidade de fazer dieta.
À noite sua temperatura elevou-se. Doía-lhe a cabeça.
Veio o médico da cidade. (Nicolau Pietróvitch não
quisera ouvir o irmão, e o próprio Bazárov desejava
isso. Passava o dia inteiro no seu aposento, pálido e irritado,
e de quando em quando vinha ver o doente. Umas
duas vezes encontrou-se com Fiênitchka, mas ela se
esquivava, apavorada.) O novo médico receitou ao
doente refrescos e confirmou o diagnóstico de Bazárov;
não havia perigo algum. Nicolau Pietróvitch disse-lhe
que o irmão se ferira, vítima de um acidente. O médico
esboçou um gesto de dúvida, mas, tendo recebido 25
rublos em prata, disse: "Veja só! Isto sucede muitas
vezes".
Ninguém se deitava nem descansava em casa. Nicolau
Pietróvitch entrava e saía a todo instante, na ponta
dos pés, do aposento do irmão. Este delirava, gemia
baixinho, dizia-lhe em francês: "Couchez-vous" e pedia
de beber. Nicolau Pietróvitch mandou uma vez Fiênitchka
levar-lhe um copo de limonada.
Páviel Pietróvitch fitou-a com atenção e esvaziou o
copo. Pela manhã a febre aumentou um pouco, com
ligeiro delírio. A princípio Páviel Pietróvitch pronunciava
186
palavras desconexas. Mas abriu de repente os
olhos e viu perto da cama o irmão, que se inclinava sobre
ele, dizendo-lhe então: "Não é verdade, Nicolau, que
Fiênitchka tem algo em comum com Nelly?"
— Que Nelly, Pacha?
— Que pergunta! Com a Princesa R... Especialmente
na parte superior do rosto. C'est de la même famille*.
Nicolau Pietróvitch nada lhe respondeu, e ficou bastante
admirado com a persistência dos antigos sentimentos.
"Só agora é que isso veio à tona", pensou.
— Como amo essa criatura insignificante! — gemeu
Páviel Pietróvitch, pondo as mãos sob a cabeça. — Não
posso admitir que qualquer atrevido toque... — continuou
após alguns momentos.
Nicolau Pietróvitch suspirou apenas. Não sabia a
quem se referiam aquelas palavras.
Bazárov apareceu no dia seguinte às 8 horas. Já
tivera tempo de arranjar a sua bagagem e soltara todas
as suas rãs, insetos e aves.
— O senhor veio despedir-se? — indagou Nicolau
Pietróvitch, levantando-se.
— Perfeitamente.
— Compreendo-o e aprecio-o. Meu pobre irmão foi
culpado, evidentemente: por isso recebeu o castigo. Ele
mesmo me disse que o colocou numa situação de não
poder agir de outra maneira. Acredito que o senhor não
podia evitar esse duelo que... até certo ponto se explicou
somente pelo constante antagonismo das suas opiniões
de parte a parte. (Nicolau Pietróvitch atrapalhava-se
nas suas palavras.) Meu irmão é um homem de
tempera antiga, irritadiço e teimoso... Graças a Deus
tudo terminou assim. Tomei todas as providências necessárias
para que o caso não se divulgue...
É da mesma família.
187
— Vou deixar-lhe meu endereço. Se houver qualquer
complicação... — disse com indiferença Bazárov.
— Espero que não haja complicação alguma, Eugênio
Vassílievitch... Sinto muito que a sua estada em
minha casa tenha tido... tão triste final Sinto-o mais
porque Arcádio...
— É possível que ainda me encontre com ele — respondeu
Bazárov, a quem toda espécie de explicações e
confissões sempre impacientava. — Em caso contrário,
peço que o senhor o saúde em meu nome, dizendo-lhe
que lamento o que aconteceu.
— E eu lhe peço... — respondeu com uma reverência
Nicolau Pietróvitch. Mas Bazárov não ouviu o
fim da sua frase e foi saindo.
Sabendo da partida de Bazárov, Páviel Pietróvitch
desejou vê-lo e apertou-lhe a mão. Nesse momento Bazárov
também continuou frio como gelo. Sabia que Páviel
Pietróvitch queria manifestar a sua generosidade.
Não conseguiu despedir-se pessoalmente de Fiênitchka,
limitando-se a trocar um olhar com ela. Pareceu-lhe
muito triste. "Perder-se-á, certamente", pensou, "mas é
possível que escape!" Em compensação, Piotr ficou tão
sensibilizado, que começou a soluçar encostado ao seu
ombro, até que Bazárov o arrefeceu com uma pergunta
irreverente: — Porventura os seus olhos fazem parte
do aparelho urinário?
Duniacha fugiu para o bosque, a fim de esconder a
sua comoção. O culpado de todas as desgraças subiu
ao carro, acendeu um charuto e, já no quarto quilômetro
do caminho, numa volta da estrada, contemplando
pela última vez a fazenda dos Kirsánov com sua nova
sede, limitou-se a cuspir e dizer: "Aristocratóides crapulosos".
E abotoou bem o capote.
Páviel Pietróvitch melhorou logo, mas foi obrigado
a ficar de cama quase uma semana. Suportava a sua
"prisão", como dizia, com bastante paciência.
188
o que lhe dava trabalho era a sua toalete. Mandava aspergir
água-de-colônia por toda parte. Nicolau Pietróvitch lia-
lhe as revistas. Fiênitchka servia-o como antes, trazia-
lhe a canja, limonada, ovos quentes e chá. Contudo, um
pavor oculto se apoderava dela, toda vez que entrava
no seu aposento. A insólita conduta de Páviel Pietróvitch
pôs em alvoroço a gente da casa, e a ela mais do
que a ninguém. Só Prokófitch não se surpreendeu e
dizia que, no seu tempo, os senhores costumavam também
brigar, mas "só os senhores distintos o faziam entre
si, e canalhas como Bazárov apanhavam surras na cocheira".
A consciência quase não atormentava Fiênitchka.
Mas a verdadeira causa ou a suspeita do motivo do duelo
não deixava de torturá-la às vezes. Páviel Pietróvitch
também a contemplava de um modo tão esquisito...
que ela, mesmo de costas, sentia-lhe o olhar fixo na sua
pessoa. Emagreceu de tanta agitação íntima e, como
sempre acontece, ficou mais bonita.
Um dia — foi pela manhã — Páviel Pietróvitch sentia-
se muito bem e mudou da cama para o divã. Nicolau
Pietróvitch, depois de perguntar como passava, afastou-
se. Fiênitchka trouxe-lhe uma chávena de chá e, colocando-
a na mesinha, quis sair. Páviel Pietróvitch disse-
lhe:
— Que pressa, Fiedóssia Nicoláievna. Tem muito
que fazer?
— Não... sim... preciso servir o chá.
— Duniacha poderá servi-lo. Fique um momento
com o doente. A propósito, quero falar-lhe.
Fiênitchka sentou-se no canto de uma poltrona.
— Ouça — disse Páviel Pietróvitch cofiando seus
bigodes. — Queria perguntar-lhe há muito tempo: por
que tem medo de mim?
— Eu?...
189
— Sim; nunca me olha frente a frente. Parece que
a sua consciência não está limpa.
Fiênitchka corou. Nem sequer olhou para Páviel Pietróvitch.
Pareceu-lhe tão esquisito, que seu coração
estremeceu todo.
— Deve a sua consciência estar limpa? — perguntou-
lhe Páviel Pietróvitch.
— E por que não? — disse baixinho Fiênitchka.
— Não sei. Porventura é ou pode ser culpada para
comigo? Isso é impossível. Para com as demais pessoas
desta casa? Também é pouco provável. Para com o meu
irmão? A senhora o ama?
— Amo.
— Com toda a alma, com todo o coração?
— Amo Nicolau Pietróvitch com todo o coração.
— É verdade isso? Olhe bem para mim, Fiênitchka
(pela primeira vez ele a chamava pelo nome). Sabe
que é um grande pecado mentir?
— Não minto, Páviel Pietróvitch. Não amar Nicolau
Pietróvitch significa, para mim, não viver.
— Não o troca por ninguém?
— Trocá-lo por quem?
— Há tanta gente no mundo! Por exemplo, por aquele
senhor que foi embora daqui.
Fiênitchka ergueu-se.
— Meu Deus, Páviel Pietróvitch! Por que me atormenta?
Que lhe fiz? Como é possível dizer essas coisas?
— Fiênitchka — disse tristemente Páviel Pietróvitch
—, eu vi...
— Que viu o senhor?
— Lá... no caramanchão...
Fiênitchka corou até a raiz dos cabelos.
— Que culpa tenho? — perguntou num murmúrio.
Páviel Pietróvitch endireitou-se.
— Não tem culpa? Não? É inocente?
— Só amo Nicolau Pietróvitch neste mundo e amá-lo-ei
190
por toda a vida! — respondeu ela com súbita energia,
sufocada pelos soluços. — O que o senhor viu eu
contarei no dia do Juízo Final, e afirmo que nenhuma
culpa me cabe. Preferia morrer agora mesmo a ser suspeita
de trair meu benfeitor, Nicolau Pietróvitch...
Nesse momento a sua voz mudou de timbre e ela
sentiu que Páviel Pietróvitch lhe tomava a mão e apertava-
a ... Olhou e ficou petrificada. Ele parecia ainda
mais pálido do que nunca. Seus olhos brilhavam e, o
que era mais extraordinário, uma lágrima corria-lhe
pela face.
— Fiênitchka — disse com voz meiga —, ame, ame
sempre meu irmão! Ele é um homem tão bom! Não o
traia com quem quer que seja neste mundo! Não preste
atenção a ninguém! Pense como é horrível amar e não
ser amado! Não abandone nunca meu pobre Nicolau!
Os olhos de Fiênitchka ficaram enxutos e o medo passou,
tal era a sua surpresa. Imagine-se o seu espanto,
quando o próprio Páviel Pietróvitch aproximou da mão
dela os lábios e ficou assim, junto daquela mão, sem
beijá-la e suspirando às vezes, presa de profunda comoção.
. .
"Meu Deus", pensou ela, "será um novo ataque?..."
Nesse momento palpitava nele toda uma existência
sacrificada inutilmente.
Os degraus da escada rangeram sob os passos de
alguém... Afastou-a de si e sua cabeça caiu sobre o
travesseiro. A porta abriu-se e apareceu Nicolau Pietróvitch,
alegre, saudável e corado. Mítia, forte e vermelho
como o pai, em camisola, saltava nos braços de Nicolau
Pietróvitch, apoiando os pezinhos nus nos grandes
botões do capote do pai.
Fiênitchka atírou-se a ele. Envolvendo com seus braços
Nicolau Pietróvitch e seu filho, encostou a cabeça
em seu ombro. Nicolau Pietróvitch ficou admirado;
191
Fienitchka, tão acanhada e medrosa, nunca se expandira
assim na presença de uma terceira pessoa.
— Que tem? — disse, fitando o irmão e entregando
Mítia a Fiênitchka.
— Sente-se pior? — perguntou, aproximando-se de
Páviel
Pietróvitch.
Este cobriu o rosto com o lenço de seda.
— Não... nada... pelo contrário, sinto-me muito
melhor.
— Fez mal em mudar-se logo para o divã. Onde
vai? — perguntou Nicolau Pietróvitch a Fiênitchka,
que nesse momento fechava a porta. — Trouxe-lhe o
meu gigante. Queria mostrar-lhe. Ele ficou com saudades
do tio. Por que foi que o levou embora? Que se
passa com você? Houve alguma coisa entre ambos?
— Meu querido irmão! — disse solenemente Páviel
Pietróvitch. Nicolau Pietróvitch estremeceu. Ficou apavorado
sem saber por quê.
— Meu irmão — repetiu Páviel Pietróvitch —, dê-
me a sua palavra de honra de que atenderá a um pedido
meu.
— Que pedido? Pode falar.
— É um pedido importante. Segundo penso, dele
depende toda a sua vida. Durante estes últimos tempos,
muito refleti sobre o que devia dizer-lhe... Meu irmão,
cumpra o seu dever, o seu dever de homem honesto e
generoso. Abandone o vício, não dê um mau exemplo
que atinge uma das melhores pessoas deste mundo!
— Que quer dizer com isso, Páviel?
— Case-se com Fiênitchka... Ela o ama. É mãe
de seu filho.
Nicolau Pietróvitch recuou um passo e agitou os
braços.
— Que diz, Páviel? Sempre o considerei como o
mais irredutível adversário de semelhantes uniões! Que
diz! Não sabe por acaso que só não cumpri este dever
192
ou aquilo que agora chama de dever unicamente por
respeito a você?
— Não devia respeitar a minha opinião neste caso
— respondeu com um triste sorriso Páviel Pietróvitch.
— Começo a pensar que Bazárov tinha razão, quando
me acusava de aristocratismo. Não, meu caro, não nos
convém mais exibir-nos e pensarmos na alta sociedade.
Somos homens antigos e pacíficos. Já é tempo de abandonarmos
todas as vaidades. Resta-nos, como diz, cumprir
o nosso dever. E veja: podemos ainda receber a
felicidade em troca de tudo isto.
Nicolau Pietróvitch atirou-se aos braços do irmão.
— Você me abriu definitivamente os olhos — exclamou.
— Não é em vão que sempre afirmei que é o
homem mais inteligente e mais generoso do mundo.
Vejo-o agora tão sensato como magnânimo.
— Calma — interrompeu-o Páviel Pietróvitch. —
Não machuque a perna do seu sensato irmão, que, aos
cinqüenta anos de idade, brigou em duelo com um sargento.
Então está resolvido: Fiênitchka há de ser minha...
belle-soeur *.
— Meu caro Páviel, que dirá Arcádio?
— Arcádio ficará satisfeitíssimo! O casamento não
faz parte dos seus princípios, mas o sentimento de igualdade
lhe será muito agradável. Realmente, para que
pensar em castas au dix-neuvième siècle**?
— Páviel, permita que o beije mais uma vez. Não
tenha medo. Com cuidado.
Os irmãos abraçaram-se.
— Não será melhor comunicar-lhe a sua intenção
agora mesmo? — perguntou Páviel Pietróvitch.
— Para que tanta pressa? — respondeu Nicolau
Pietróvitch. — Já conversaram sobre o assunto? Quelle
idée***! Está muito bem. Antes de tudo é necessário que fique bom.
* Cunhada.
** No século dezenove.
*** Que idéia!
193
O resto vamos estudar bem e refletir
sobre o assunto...
— Já resolveu?
— Já resolvi e agradeço-lhe do fundo da minha alma.
Quero deixá-lo agora. O repouso é-lhe necessário e qualquer
perturbação será nociva... Teremos ainda ocasião
de conversar. Durma e Deus que lhe dê saúde!
"Por que me agradece tanto?", pensou Páviel Pietróvitch
ao ficar só. "Até parece que isso tudo não dependia
dele! Quando se casar, vou embora para Dresde ou
Florença. Lá ficarei até morrer."
Páviel Pietróvitch passou pela testa um pouco de
água-de-colônia e fechou os olhos. Iluminada pela luz
esplêndida de um dia de sol, sua linda cabeça emagrecida
e debilitada jazia sobre um travesseiro branco, como
a cabeça de um defunto...
XXV
No jardim de Nikólskoie, à sombra de uma frondosa
árvore, achavam-se sentados num banco Arcádio e Cátia.
No solo, perto deles, estava Fifi, numa atitude canina
muito conhecida dos caçadores. Arcádio e Cátia estavam
quietos. Ele segurava um livro aberto e ela escolhia
numa cesta as migalhas de pão que lançava aos melros.
Os pássaros, atrevidos, saltavam e pipilavam quase junto
de seus pés. Uma brisa suave, perpassando pelas folhas
da árvore, farfalhava-a levemente. Pela estreita e escura
alameda e pelas costas amarelas de Fifi passavam manchas
pálidas e douradas de luz. Uma sombra uniforme
envolvia os vultos de Arcádio e Cátia. De quando em
quando, na sua cabeleira se acendia uma mancha cintilante.
Ambos guardavam silêncio. Só porque estavam
quietos um ao lado do outro parecia estarem próximos
um do outro. Cada um não pensava na proximidade do vizinho
194
e tinha prazer na sua vizinhança. Seus traços
fisionômicos mudaram muito desde que os vimos pela
última vez: Arcádio aparentava mais calma e Cátia era
mais esperta e viva.
— Não acha — disse Arcádio — que esta árvore
tem um nome que lhe quadra às maravilhas? É tão leve
e suave como os seus galhos que pendem no ar.
Cátia ergueu os olhos e disse um "sim". Arcádio pensou:
"Censura-me porque me expresso em termos bonitos".
— Não gosto de Heine — disse Cátia, mostrando
o livro que Arcádio tinha na mão —, ele nunca ri, nem
chora. Apenas gosto dele quando se sente triste.
— Gosto dele quando ri — disse Arcádio.
— São vestígios da sua orientação satírica... ("Vestígios!",
pensou Arcádio. "Se Bazárov ouvisse isto!")
Espere que o senhor há de mudar.
— Quem há de fazer-me mudar? A senhora?
— Quem? Minha irmã. Porfírio Platónitch, com
quem o senhor já não discute. A titia, que há três dias
acompanhou à igreja.
— Não podia recusar-me! Quanto a Ana Serguêievna,
lembra-se de que em muita coisa concordava com
Eugênio?
— Minha irmã então se achava sob a sua influência,
assim como o senhor.
— Como eu também! Por acaso já percebeu que me
livrei da sua influência?
Cátia calou-se.
— Bem sei — continuou Arcádio —, ele nunca chegou
a agradar-lhe.
— Não posso julgá-lo.
— Saiba, Cátia, que toda vez que ouço semelhante
resposta, não acredito nela... Não existe no mundo
uma pessoa que cada um de nós não possa julgar! É
uma simples evasiva.
195
— Vou dizer-lhe então: ele... não é que não me
agrade... mas sinto que me é estranho e que lhe sou
estranha... até o senhor lhe é estranho.
— Por quê?
— Não sei como lhe explicar... Ele é uma fera e
nós somos domésticos.
— Também sou doméstico.
Cátia fez um gesto afirmativo.
Arcádio coçou a orelha.
— Ouça, Catarina Serguêievna: isso, afinal de contas,
ofende meu amigo.
— O senhor queria ser uma fera?
— Uma fera, não, mas um homem forte e enérgico.
— Está muito bem... Mas o seu amigo não o quer,
e é um homem forte e enérgico.
— Supõe que ele exerceu grande influência em Ana
Serguêievna?
— Sim. Ela, porém, é uma mulher superior e não
admite prolongado domínio sobre si mesma.
— Qual o motivo?
— É muito orgulhosa... Não é bem assim... Adora
a sua independência.
— E quem não adora a própria independência? —
perguntou Arcádio. Pela sua mente transitou uma idéia:
"Para que serve a independência?" A mesma idéia veio
à mente de Cátia. Os moços pensam sempre assim,
quando se encontram ou se juntam freqüentemente e
de boa vontade. Arcádio sorriu; aproximou-se de Cátia
e disse em voz baixa:
— Confesse que tem um pouco de medo dela.
— De quem?
— Dela — repetiu significativamente Arcádio.
— E o senhor? — perguntou por sua vez Cátia.
— Eu também. Note: eu também.
Cátia fez-lhe uma significativa advertência com o seu
dedo indicador.
196
— O que me admira é que a minha irmã nunca o
considerou tanto como agora. Muito mais que por ocasião
da sua primeira visita.
— Essa é boa!
— Não notou? Não lhe agrada?
Arcádio ficou pensativo.
— Em que poderia eu merecer a complacência de
Ana Serguêievna? Não foi porque lhe trouxe as cartas
de sua mãe?
— Esse é um dos motivos. Outros existem que não
direi.
— Por quê?
— Não digo.
— Já sei que é muito teimosa.
— Sou teimosa.
— E observadora.
Cátia olhou de soslaio para Arcádio.
— É possível. Desagrada-lhe? Em que pensa?
— Penso no seguinte: onde conseguiu esse dom de
observação ou de penetração que realmente possui? É
tão tímida e desconfiada. Esquiva-se de todos...
— Vivi muito tempo sozinha. Por força, a gente há
de pensar muito. Será que me esquivo de todos?
Arcádio olhou-a fixamente.
— Está muito bem — continuou —, mas a gente da
sua posição, sem falar da sua situação financeira, raramente
possui esse dom. A verdade dificilmente atinge
pessoas como a senhora.
— Não sou rica.
Arcádio ficou surpreso e não compreendeu a princípio
o que dizia Cátia. "Realmente, toda essa propriedade
pertence à sua irmã!", veio-lhe à mente. Esse pensamento
lhe era agradável.
— Disse-o muito bem! — proferiu.
— O quê?
— Disse bem, com toda a simplicidade:
197
sem acanhamento nem exibição. Acho que a pessoa que sabe e
diz que é pobre deve sentir uma vaidade toda especial.
— Jamais conheci a pobreza, graças à minha irmã.
Referi-me à minha situação, só porque chegou a oportunidade,
— Bem. Mas confesse que sente uma parcela da
vaidade de que lhe acabei de falar.
— Por exemplo?
— Por exemplo — perdoe-me: não seria capaz de
casar-se com um homem rico?
— Se o amasse muito... Não, parece-me que nem
assim me casaria.
— Está vendo? — exclamou Arcádio, e acrescentou
pouco depois: — Por que não se casaria com ele?
— Conheço aquela canção russa dos casamentos
desiguais.
— A senhora poderia mandar em sua casa ou...
— Não! Para quê? Prefiro obedecer. A desigualdade
é horrível. Respeitar-se e obedecer, isso compreendo. É
a felicidade. Mas uma existência sujeita a... Não.
Basta.
— Basta — repetiu Arcádio. — Sim, bem se vê
que a senhora é do mesmo sangue de Ana Serguêievna.
É independente, porém mais discreta. Estou certo de
que não será a primeira a expressar os seus sentimentos,
por mais fortes e sagrados que sejam...
— Como é possível de outro modo? — perguntou
Cátia.
— Ambas são igualmente inteligentes. Tem o caráter
que sua irmã tem...
— Não me compare à minha irmã, por favor — interrompeu
precipitadamente Cátia. — É muito inconveniente
para mim. Já se esqueceu ou parece ter-se esquecido
de que minha irmã é bela e inteligente... O
senhor, Arcádio Nicoláievitch, não devia falar com tanta
seriedade.
198
— Que valho no caso? Acha que estou dizendo tudo
em
tom de pilhéria?
—- Naturalmente, em tom de pilhéria.
— Pensa assim? E se tenho certeza do que afirmo?
Se acho que ainda não disse toda a verdade?
— Não entendo.
— Efetivamente? Agora vejo que me excedi na apreciação
de sua argúcia.
— Como?
Arcádio nada lhe disse em resposta, e voltou-se. Cátia
tirou da cesta mais algumas migalhas de pão e pôs-se a
jogá-las aos melros. Mas os gestos da sua mão eram
tão rápidos, que os pássaros fugiam sem apanhar o
alimento.
— Catarina Serguêievna — disse, de repente, Arcádio
—, deve ser-lhe indiferente. Saiba, porém, que não
a troco não só pela sua irmã, como também por pessoa
alguma neste mundo.
Ele se levantou e afastou-se depressa, como que assustado
por suas próprias palavras, que lhe saíram assim
tão de improviso da boca.
Cátia deixou cair ambas as mãos e a cesta no regaço,
baixou a cabeça e olhou por muito tempo Arcádio, que
se afastava. Pouco a pouco, um vivo rubor começou a
aparecer-lhe nas faces. Mas seus lábios não sorriam e
seus olhos negros expressavam perplexidade e um outro
sentimento ainda desconhecido.
— Está sozinha? — ouviu-se a voz de Ana Serguêievna.
— Parece que saiu em companhia de Arcádio.
Cátia, calmamente, fitou sua irmã, que se achava elegantemente
vestida e com a ponta do guarda-sol aberto
tocava as orelhas de Fifi. Respondeu-lhe:
— Estou sozinha.
— Bem vejo — retorquiu a irmã, rindo-se. — Ele
foi embora?
— Sim.
199
— Liam juntos?
— Sim.
Ana Serguêievna tomou Cátia pelo queixo e Levantou-lhe
o rosto.
— Espero que não tenham brigado.
— Não — disse Cátia, afastando levemente a mão
da irmã.
— Responde-me com tanta solenidade! Pensava
encontrá-lo aqui para o convidar a um passeio. Ele é
que me convida sempre. Da cidade trouxeram para você
sapatos novos. Vá experimentá-los. Já ontem percebi
que os seus sapatos estão bastante usados. Nem se preocupa
com isso, nem sabe mesmo que tem uns pezinhos
tão lindos! As suas mãos são também lindas... embora
um pouco grandes. Deve, pois, cuidar dos pés. Mas nada
tem de faceira.
Ana Serguêievna continuou a caminhar pela alameda.
Ouvia-se o frufru do seu lindo vestido. Cátia ergueu-se
do banco, pegou o volume de Heine e foi embora, mas
não com o intuito de experimentar sapatos.
"Lindos pezinhos", pensava, pisando devagar e levemente
os degraus do terraço quentes de sol. "Lindos
pezinhos... Estou certa de que o terei junto deles."
Sentiu-se de repente envergonhada e correu para cima.
Arcádio ia andando pelo corredor, para o seu aposento.
O mordomo alcançou-o, e disse-lhe que no seu
quarto estava o Senhor Bazárov.
— Eugênio! — murmurou Arcádio, quase com espanto.
— Há muito tempo que chegou?
— Neste instante. Pediu que nada dissesse a Ana
Serguêievna. Veio diretamente para cá.
"Será que aconteceu alguma coisa em casa?", pensou
Arcádio. Subiu a escada e abriu a porta do quarto. O
aspecto de Bazárov o tranqüilizou logo, ainda que um
olhar mais experimentado pudesse possivelmente perceber
nos traços do rosto enérgico, mas abatido,
200
do hóspede os indícios de uma grande agitação interior. Com o
capote empoeirado nos ombros, o boné na cabeça, estava
Bazárov sentado no parapeito da janela. Nem se
levantou quando Arcádio correu a abraçá-lo com exclamações
ruidosas.
— Que surpresa! Como vai? -— repetiu ele, caminhando
pelo quarto. — Todos estão bem em casa?
— Todos estão bem e não há novidade alguma —
disse Bazárov. — Deixe de tanto entusiasmo. Mande-
me trazer um pouco de kvass, sente-se e ouça o que lhe
vou narrar em poucas palavras.
Arcádio ficou quieto, e Bazárov contou-lhe a história
do seu duelo com Páviel Pietróvitch. Arcádio ficou
admirado e até triste. Não quis, porém, demonstrá-lo.
Limitou-se a perguntar se o ferimento do tio não era
realmente grave. Ouvindo em resposta que se tratava de
um ferimento interessantíssimo, não no sentido médico,
sorriu com sorriso forçado. Seu coração sentiu um certo
horror e vergonha. Bazárov fingiu não o compreender.
— Sim, meu amigo — disse ele —, eis o que significa
morar com os senhores feudais. Fica-se também um
senhor feudal e tem-se de tomar parte nos torneios de
cavalaria. Assim, resolvi voltar para a casa dos meus
pais — concluiu Bazárov. — Passei por aqui... a fim
de contar tudo isto... mentira inútil, que não passa de
estupidez; passei por aqui só o diabo sabe por quê. Está
vendo que o homem às vezes precisa agarrar a si mesmo
pelo topete e arrancá-lo, como se arrancam certos
tubérculos da terra. Foi o que me aconteceu há dias...
Quis ver mais uma vez o que abandonei, isto é, o canteiro
onde estava plantado.
— Espero que essas palavras não se refiram a mim
— disse Arcádio com visível emoção. — Espero que
não
pense em separar-se de mim.
Bazárov olhou-o fixamente.
— Será que essa separação podia aborrecê-lo?
201
Parece-me que você já se separou completamente de mim.
É tão limpinho e tenro... Os seus negócios com Ana
Serguêievna parece que vão muito bem.
— Que negócios são esses com Ana Serguêievna?
— Não foi por causa dela que veio da cidade para
aqui, meu passarinho? A propósito, como vão as escolas
dominicais? Não está apaixonado por ela? Já não
passou o tempo de ser modesto?
— Eugênio! Sabe que sempre fui sincero com você.
Afirmo-lhe, juro-lhe que se engana.
— Muito bem! Temos uma palavra nova — disse a
meia voz Bazárov. — Por que se impressiona tanto?
Não me interessa o assunto. Um romântico diria: sinto
que os nossos caminhos se bifurcam e se afastam. Digo
simplesmente que nos aborrecemos juntos.
— Eugênio. . ,
— Meu querido, não é nada. Tudo aborrece neste
mundo! Agora não será melhor um adeus? Desde que
cheguei aqui sinto-me pessimamente, como se lesse as
cartas de Gógol à mulher do governador de Kalunga.
Foi por isso que não mandei desatrelar os animais do
carro.
— É impossível!
— Por quê?
— Digo-lhe que será uma indelicadeza para com
Ana Serguêievna, que, naturalmente, quer tornar a vê-lo.
— Engana-se.
— Ao contrário, estou certo de que tenho razão. De
que vale fingir? Não foi por sua causa que veio aqui?
— É possível, mas engana-se ainda.
Arcádio tinha razão. Ana Serguêievna manifestou o
desejo de ver Bazárov e mandou convidá-lo pelo mordomo.
Bazárov trocou de traje antes de ir ter com ela.
Verificou-se depois que a roupa nova fora arrumada na
mala de modo a ser usada quando bem entendesse,
A Senhora Odintsova não o recebeu no salão,
202
onde tão inesperadamente lhe confessara o seu amor, e
sim na sala de visitas. Estendeu-lhe amavelmente as pontas
dos dedos, enquanto seu semblante se mantinha sério.
— Ana Serguêievna, antes de tudo devo tranqüilizá-
la. Diante da senhora está um mortal que se arrependeu
há muito tempo, e espera que os outros tenham esquecido
as suas tolices. Vou embora por muito tempo.
Concorde comigo: conquanto não seja uma pessoa delicada,
não seria agradável partir com a idéia de que a
senhora se recorda de mim com repugnância.
Ana Serguêievna suspirou profundamente, como se
acabasse de galgar uma alta montanha. Sua face iluminou-
se de um sorriso. Novamente estendeu a mão a Bazárov
e correspondeu ao seu aperto.
— Não convém pensar no passado — disse —, já
que, a falar verdade, pequei então ou por faceirice ou
por outro motivo qualquer. Em uma palavra: sejamos
bons amigos como antes. Aquilo foi um sonho, não é
verdade? E quem se lembra dos sonhos?
— Quem se lembra dos sonhos? No mais, o amor...
é um mal contagioso.
— Será? É muito agradável ouvi-lo.
Assim se expressava Ana Serguêievna e assim falava
Bazárov. Ambos pensavam que diziam a verdade. Havia
realmente verdade nas suas palavras? Nem eles mesmos
o sabiam. A julgar pela palestra que se travou entre
ambos, parecia que acreditavam piamente no que
diziam.
Ana Serguêievna, entre outras coisas, perguntou a
Bazárov o que fazia na fazenda dos Kirsánov. Bazárov
quase lhe contou a história do seu duelo com Páviel Pietróvitch,
mas conteve-se, para que não pensasse que ele
queria passar por interessante aos seus olhos. Respondeu-
lhe simplesmente que trabalhara durante todo aquele
tempo.
203
— E eu — disse Ana Serguêievna — me aborrecia
a princípio, não sei por quê. Até estava disposta a partir
para o estrangeiro!... Depois tudo passou. Chegou seu
amigo, Arcádio Nicoláievitch, e eu comecei novamente
a viver como sempre, desempenhando o meu verdadeiro
papel.
-— Que papel?
— O papel de tia, conselheira, mãe ou como quiser.
A propósito, sabe que antes não compreendia bem sua
amizade com Arcádio Nicoláievitch: julgava-o bastante
fútil. Agora cheguei a conhecê-lo melhor e convenci-
me de que é inteligente... O essencial é que ele é moço,
muito moço... diferente de nós dois, Eugênio Vassílievitch.
— Ainda se acanha em sua presença? — perguntou
Bazárov.
— Porventura Arcádio... — começou Ana Serguêievna.
Depois de pensar um pouco, disse: — Agora
não se acanha tanto e conversa comigo. Antes me evitava.
Eu propriamente não fazia questão da sua companhia.
Hoje ele e Cátia são grandes amigos.
Bazárov sentiu um certo aborrecimento. "Quanta malícia
numa mulher!", pensou.
— Diz que a evitava — falou com sorriso frio Bazárov.
— Mas deve saber bem que ele estava apaixonado
pela senhora.
— Como? Ele? — exclamou Ana Serguêievna. —
Também?
— Também — repetiu Bazárov, com humilde reverência.
— Será que lhe revelei uma novidade?
Ana Serguêievna baixou os olhos.
— Enganava-se, Eugênio Vassílievitch.
— Não creio. Quem sabe se não convinha que falasse.
— "Outra vez seja menos maliciosa", disse consigo
mesmo.
— Por que não falar? Suponho que ainda nesse caso
204
o senhor atribui grande importância a uma impressão
de momento. Começo a pensar que exagera muito as
coisas.
— Não falemos mais nisso, Ana Serguêievna.
— Por quê? — disse ela, e mudou de assunto.
Não se dava bem com Bazárov, embora lhe afirmasse
e se convencesse de que tudo foi esquecido. Trocando
com ele as palavras mais simples, até em tom de
pilhéria, sentia uma ligeira sensação de medo. Assim a
gente a bordo, em pleno mar, fala e ri descuidada, como
se estivesse em terra firme. Mas se acontece o mínimo
incidente no navio, se há o mais insignificante sinal
de algo extraordinário, imediatamente em todos os
semblantes transparece a expressão de receio que revela
a noção de constante perigo.
A palestra de Ana Serguêievna com Bazárov não durou
muito. Ela começou logo a ficar pensativa e a responder
distraidamente. Propôs-lhe afinal passar ao salão,
onde encontraram a princesa e Cátia. — Onde está
Arcádio Nicoláievitch? — perguntou a dona da casa.
Ao saber que não aparecia há mais de uma hora, mandou
chamá-lo. Não foi fácil encontrá-lo: penetrara no
recanto mais afastado do jardim e permanecia ali mergulhado
nos seus pensamentos, com ambas as mãos no
queixo. Seus pensamentos eram profundos e importantes,
mas não tristes. Sabia que Ana Serguêievna estava a
sós com Bazárov e não sentia ciúme algum, como sempre
lhe acontecia. Ao contrário, tinha uma expressão
quase de iluminado. Parecia estar surpreso, alegre e resolvido
a dar um passo decisivo.
XXVI
O falecido Odintsov não apreciava inovações, mas
permitia "jogos de sabor aristocrático". Assim,
205
mandou construir no jardim, entre a estufa e o tanque, um edifício
parecido com um pórtico grego, feito de tijolo russo.
No muro posterior e quase abandonado desse pórtico
ou galeria, estavam seis nichos para as estátuas que o
Senhor Odintsov queria importar do estrangeiro. Essas
estátuas deveriam simbolizar: Solidão, Silêncio, Reflexão,
Melancolia, Pudor e Sensibilidade. Uma dessas deusas,
a do Silêncio, com um dedo nos lábios, chegou a
ser instalada no seu pedestal. No mesmo dia os moleques
da casa lhe quebraram o nariz. O pedreiro das vizinhanças
propôs arranjar-lhe um nariz "duas vezes melhor
que o outro". Entretanto, o Senhor Odintsov mandou
retirá-la do nicho. A estátua foi parar num depósito,
onde permaneceu muitos anos, alimentando o terror
supersticioso das camponesas da localidade. A parte
anterior do pórtico encheu-se de trepadeiras e outra
espécie de vegetação. Só os capiteis das colunas ainda
se percebiam sob uma densa camada de verdura, No pórtico,
até o meio-dia, reinava uma temperatura agradável.
Ana Serguêievna não gostava de visitar esse lugar
desde o dia em que lá encontrou uma cobra. Mas Cátia
sempre ia ali e sentava-se num grande banco de pedra,
instalado debaixo de um dos nichos. Protegida pela frescura
e pela sombra, lia, trabalhava e sentia aquela quietude
completa que todos naturalmente conhecem e que
consiste na contemplação íntima e espontânea, quase
consciente, da existência, agitando-se incessantemente
em torno de nós e dentro de nós mesmos. No dia seguinte
ao da chegada de Bazárov, Cátia estava sentada no
seu banco predileto. Ao lado dela se via Arcádio. Ele
propusera-lhe, na véspera, visitarem o pórtico.
Para o almoço faltava ainda perto de uma hora. A
manhã orvalhada cedia lugar a um dia quente. O rosto
de Arcádio conservava a expressão do dia anterior e
Cátia tinha um aspecto preocupado. Sua irmã, logo
após o chá, chamou-a ao seu gabinete de trabalho e,
206
depois de proferir algumas frases carinhosas, o que
sempre espantava Cátia, aconselhou-lhe que fosse mais
cautelosa na sua conduta com Arcádio, dizendo-lhe que
evitasse especialmente os colóquios isolados com ele,
que já eram aparentemente conhecidos da tia e de
toda a casa, Além disso, já na tarde anterior, Ana Serguêievna
não estava de bom humor. A própria Cátia
sentia como se tivesse feito algo de realmente censurável.
Atendendo ao pedido de Arcádio, resolveu fazê-lo
pela última vez.
— Catarina Serguêievna — disse ele, com certo acanhamento
—, desde o dia em que tive a ventura de viver
com a senhora sob o mesmo teto, palestramos sobre
tanta coisa. Agora tenho um assunto que me interessa
mais do que tudo nesta vida... questão que ainda não
tive ocasião de abordar. Como observou ontem, mudei
muito aqui — acrescentou, fitando-a e evitando ao mesmo
tempo o olhar interrogativo de Cátia. — Realmente,
mudei muito e sabe-o melhor do que ninguém. Sabe
também a senhora a quem atribuo toda essa mudança.
~- Eu?... A mim?...
— Não sou mais aquele menino impertinente que
um dia veio aqui — continuou Arcádio. — Já tenho
23 anos de idade e desejo, como antes, ser útil. Quero
consagrar todas as minhas energias à verdade. Agora,
porém, não busco a realização dos meus ideais onde
buscava antes. Os meus ideais podem realizar-se...
muito mais perto. Até agora não me entendia. Vivia a
meditar os problemas que não são compatíveis com as
minhas forças... Os meus olhos se abriram há pouco,
graças a um único sentimento... Expresso-me obscuramente,
mas espero que me compreenda...
Cátia nada dizia; olhava fixamente para Arcádio.
E ele continuou em voz mais emocionada, enquanto
um pássaro cantava insistentemente na folhagem copada
de uma bétula mais próxima:
207
— Creio que o dever de todo homem honrado é ser
sincero com as pessoas que lhe são próximas. Por
isso... estou disposto a... — nesse ponto, a eloqüência
de Arcádio traiu-o. Atrapalhou-se, ficou quieto
e permaneceu assim por algum tempo. Cátia não retirava
dele os seus olhos. Parecia que nada entendia e ao
mesmo tempo esperava alguma coisa de importante.
— Estou prevendo que vou deixá-la surpresa — recomeçou
Arcádio, reunindo todas as suas forças. — É
porque este meu sentimento refere-se de um certo modo.
.. de um certo modo, veja bem... à sua pessoa. A
senhora, se me lembro bem, censurou-me ontem pela
minha falta de seriedade — prosseguiu Arcádio com
aspecto de alguém que penetrou num pântano e sente
que se afunda cada vez mais, caminhando sempre na
esperança de sair o mais depressa do tremedal. — Essa
censura costuma dirigir-se... recai... sobre os homens
ainda moços, mesmo quando não a merecem. Se tivesse
mais confiança em mim mesmo... ("Ajude-me, por
amor de Deus!", pensava desesperado Arcádio, porém,
Cátia conservava a mesma atitude.) Se eu pudesse ter
a esperança...
— Se pudesse ter a certeza do que está dizendo —
ouviu-se de repente a voz clara de Ana Serguêievna.
Arcádio calou-se imediatamente e Cátia ficou pálida.
Contornando os arbustos que fechavam o pórtico, existia
uma trilha. Ana Serguêievna caminhava por esse
passeio em companhia de Bazárov. Cátia e Arcádio não
podiam vê-los, mas ouviam todas as palavras, o frufru
do vestido e a própria respiração.
Deram alguns passos e, como de propósito, pararam
em frente do pórtico.
— Está vendo — prosseguiu Ana Serguêievna —,
ambos nos enganamos. Não somos da primeira mocidade,
especialmente eu. Já vivemos e sentimos o cansaço.
Ambos, para que cerimônias. Somos inteligentes.
208
a princípio, interessamo-nos um pelo outro. Era simples
curiosidade... e depois...
— Depois, perdi a inspiração — disse Bazárov.
— Sabe que não foi essa a causa da nossa desarmonia.
Fosse como fosse, não necessitávamos um do outro.
Eis o principal. Havia em nós muita coisa de... por
assim dizer... consangüíneo, Não o percebemos logo.
Ao contrário, Arcádio...
— Precisa dele? — indagou Bazárov.
— Basta. Eugênio Vassílievitch, Diz que ele não me
é indiferente e sempre percebi que lhe agrado. Sei que
estou na idade de ser sua tia. Não quero ocultar-lhe que
comecei a pensar muito nele. Nesse sentimento moço e
virgem existe muita beleza...
— A palavra olfato é de grande utilidade em casos
como esse — interrompeu Bazárov. Na sua voz calma e
surda havia notas irritadas. — Arcádio. falando comigo
ontem, tinha um quê de misterioso. Referia-se ou à senhora
ou à sua irmã... É um sintoma importante.
— Ele e Cátia são como irmãos — disse Ana Serguêievna.
— Isso me agrada muito nele, ainda que não
devesse permitir semelhante aproximação entre ambos.
— Quem fala agora... é sua irmã? — disse estendendo
as palavras Bazárov.
— Compreende-se... por que estamos parados
aqui? Vamos. Que assunto esquisito estamos abordando,
não é verdade? Poderia esperar que chegasse a falar
assim com o senhor? Sabe que lhe tenho medo... e ao
mesmo tempo deposito no senhor toda a confiança,
mesmo porque não deixa de ser muito bom.
— Em primeiro lugar, não sou bom, em segundo,
perdi toda e qualquer significação para a senhora e me
diz que sou bom... É o mesmo que colocar uma coroa
de louros na fronte de um defunto.
— Eugênio Vassílievitch, não somos senhores de
nós mesmos... — começou a dizer Ana Serguêievna.
209
Uma rajada de vento, passando pela folhagem, levou as
suas últimas palavras.
— É livre — disse pouco depois Bazárov.
Já não se podia ouvir coisa alguma. Os passos afastaram-
se ... e tudo ficou em silêncio.
Arcádio voltou-se para Cátia. Ela conservava a mesma
atitude, apenas com a cabeça mais baixa.
— Catarina Serguêievna — disse ele em voz trêmula
e apertando-lhe as mãos. — Amo-a para sempre. Queria
dizer-lho, conhecer sua opinião e pedir sua mão, e, embora
não seja rico, sinto-me capaz de todos os sacrifícios.
. . Não responde? Não me acredita? Pensa que
não falo sério? Lembra-se dos seus últimos dias! Por-
ventura ainda não se convenceu de que o resto, entenda-
me, todo o restante desapareceu há muito sem deixar
vestígios? Olhe-me e diga-me uma só palavra...
amo... amo-a... acredite-me!
Cátia fixou em Arcádio um olhar sério e claro. Depois
de uma longa reflexão, sorrindo de leve, respondeu-lhe:
— Sim.
Arcádio levantou-se precipitadamente do banco.
— Sim! disse "sim", Catarina Serguêievna! Que significa
essa palavra? Significa que a amo, que crê em
mim... ou... ou... não posso concluir...
— Sim — repetiu Cátia, e desta vez ele compreendeu.
Agarrando-lhe as belas mãos. cheio de indescritível
entusiasmo, apertou-as contra o coração. Quase não
podia ficar em pé, repetindo sempre: "Cátia, Cátia..."
Ela chorou inocentemente, rindo das próprias lágrimas.
Quem não viu essas lágrimas nos olhos da pessoa amada
nunca sentiu até que ponto, sob o influxo de gratidão
e pudor, pode uma pessoa ser feliz neste mundo.
No dia seguinte cedo, Ana Serguêievna mandou chamar
Bazárov ao seu gabinete de trabalho e, com um
riso forçado, entregou-lhe uma folha dobrada de papel de carta.
210
Era uma carta de Arcádio. na qual pedia a
mão de sua irmã,
Bazárov, depois de ter lido rapidamente a carta, fez
grande esforço sobre si para não manifestar uma alegria
de vingança que momentaneamente se apoderou do seu
ser.
— Essa é boa — disse ele —, e a senhora parece-me
que ainda ontem afirmou que Arcádio sentia por Cátia
Serguêievna um amor fraternal. Que pretende fazer
agora?
— Que me aconselha o senhor? — indagou Ana Serguêievna,
continuando a rir.
— Creio que — respondeu Bazárov rindo também,
embora não se sentisse alegre nem tivesse vontade alguma
de rir — convém abençoar os noivos. Não é um mau
partido. Kirsánov tem recursos. Arcádio é o filho único
e seu pai é uma ótima pessoa e não oporá obstáculos a
esse casamento.
A Senhora Odintsova começou a andar pela sala. Ora
corava ora empalidecia.
— É essa sua opinião? — disse. — Da minha parte
concordo... Estou satisfeita com a sorte de Cátia...
e Arcádio Nicolátevitch. Esperarei a resposta de seu pai.
Vou mandar Arcádio em pessoa. Parece agora que tive
razão ontem, quando lhe afirmei que ambos já somos
gente de idade... Nada podia prever. É uma surpresa
para mim!
Ana Serguêievna riu de novo e voltou-se para um
lado.
— A mocidade de hoje é muito maliciosa — notou
Bazárov, e riu também. — Adeus — disse ele, depois
de um breve silêncio. — Desejo-lhe pleno êxito neste
caso de família. Mesmo longe daqui terei prazer em
que tudo aconteça pelo melhor.
A Senhora Odintsova voltou-se rapidamente para
ele.
211
— O senhor vai partir? Por que não fica. exatamente
agora? Fique. , . Gosto tanto de conversar com
o senhor... Parece que a gente anda à beira do abismo.
Tem-se medo a princípio e coragem depois. Fique.
— Muito obrigado pelo convite, Ana Serguêievna,
e pela opinião lisonjeira que tem do meu talento de
conversador. Acho, porém, que já passei muito tempo
numa esfera que me é estranha, Os peixes voadores podem
permanecer algum tempo no ar, mas não abandonam
a água. Permita-me que também mergulhe no meu
elemento,
A Senhora Odintsova examinou atentamente Bazárov.
Um sorriso amargo contraía-lhe o rosto pálido.
"Este já teve ocasião de amar-me!", pensou ela. Teve
muita pena e com grande cordialidade estendeu-lhe a
mão. Mas Bazárov não a entendeu.
— Não! — disse, recuando um passo. — Sou um
homem pobre, mas nunca tive necessidade de esmola.
Adeus. Desejo-lhe saúde e felicidade.
— Estou certa de que não nos vemos pela última
vez — disse Ana Serguêievna com um movimento involuntário.
— Muita coisa sucede neste mundo! — respondeu
Bazárov, e, fazendo uma reverência, saiu.
— Então você resolveu construir o seu ninho? —
dizia no mesmo dia a Arcádio, de cócoras, arrumando
a sua mala. — Por que não? É um bom negócio. Não
tinha necessidade de ocultar essa intenção. Esperava de
você outra atitude. Ou por acaso ficou surpreso com
tudo isso?
— Realmente, de nada suspeitava, quando nos separamos
— respondeu Arcádio. — Por que afirma
maliciosamente: "Um bom negócio", como se eu não
conhecesse a sua opinião sobre o casamento?
212
— É interessante o que pergunta, meu amigo —
respondeu Bazárov. — Veja o que estou fazendo agora:
nesta mala há um lugar vazio que encho de palha.
Assim também na mala da nossa existência: basta enchê-
la de qualquer coisa, só para que não haja vazio,
Não se ofenda, por favor: naturalmente se lembra do
meu conceito sobre Catarina Serguêievna. Qualquer
senhorita passa por inteligente porque sabe suspirar a
tempo. A sua noiva é capaz de defender a sua própria
personalidade. É capaz de defender-se de tal modo, que
terminará por dominá-lo completamente, já que assim
deve ser.
Fechou a mala e ergueu-se:
— Quero dizer-lhe por despedida... não convém
enganar-nos: nós nos despedimos para sempre e você
o sabe... fez bem. Não nasceu para a nossa amarga
e áspera vida de solteirões. Não tem nem a necessária
ousadia, nem ódio. Tem uma coragem jovem e atrevimento
passageiro de moço. Para a nossa atividade não
serve. Vocês, nobres ou burgueses, não vão além da
generosa submissão ou generoso entusiasmo. Tudo isso
é ninharia. Vocês, por exemplo, não brigam e se consideram
valentes e dispostos a tudo. Nós queremos brigar.
Para que discutir? O nosso pó é capaz de causticar-lhe
os olhos, a nossa imundície pode sujá-lo e você não
cresceu ainda suficientemente para concordar conosco,
porque aprecia muito a sua própria pessoa e lhe é agradável
censurar ou acusar a si mesmo. Não suportamos
semelhantes atitudes, queremos outros elementos, queremos
torcer outra gente! É um bom rapaz, mas não
passa de um burguesinho sentimentalista e liberalóide,
e voilà tout*, como costuma expressar-se meu velho
progenitor.
— Despede-se de mim para sempre. Eugênio? —
213
disse tristemente Arcádio.
Não tem outra coisa para
me dizer?
Bazárov coçou a nuca.
— Tenho, Arcádio, tenho outras palavras para lhe
dizer, mas não vou proferi-las porque seria romantismo.
Significaria simplesmente expandir-me. Case-se depressa
ou logo, como quiser. Construa bem firme seu
ninho e tenha muitíssimos filhos. Seus filhos serão inteligentes,
porque hão de nascer numa época apropriada
e não como nós dois. Vejo que o meu carro já está
pronto. Já é tempo de partir! Despedi-me de todos...
Vai lá um abraço?
Arcádio abraçou comovidamente seu mestre e amigo,
com lágrimas nos olhos.
— O que é a juventude! — disse calmamente Bazárov.
— Confio muito em Catarina Serguêievna. Ela
há de consolá-lo! Adeus, meu amigo! — e fez um gesto
de despedida a Arcádio, quando já se achava no carro.
Indicando um casal de gralhas pousadas no telhado da
cocheira, acrescentou: — Veja lá um bom exemplo!
Imite a vida daquele casal de aves!
— Que significa isso? — perguntou Arcádio.
— Como? Já se esqueceu das lições de história natural?
A gralha é a maior amiga do lar. É um ótimo
exemplo!... Adeus, meu senhor!
O veículo rodou e desapareceu.
Bazárov tinha dito a verdade. Conversando à tarde
com Cátia, Arcádio esqueceu-se completamente do seu
mestre. Já sentia vontade de submeter-se a ela. Cátia
percebia essa submissão e não se surpreendia. No dia
seguinte devia partir para Mariino, conversar com Nicolau
Pietróvitch. Ana Serguêievna não queria incomodar
os noivos. Só por um princípio de decência não
os deixava muito tempo a sós. Fez todo o possível por
afastar a princesa de sua companhia. A princesa, ao
ter notícia do futuro enlace, chorou de raiva.
214
A princípio, Ana Serguêievna temia que a visão de uma felicidade
futura lhe parecesse muito dolorosa. Aconteceu
exatamente o contrário. A visão dessa felicidade comoveu-
a. Ana Serguêievna ficou satisfeita, embora um tanto
triste. Tinha razão Bazárov", pensava. "Curiosidade,
apenas curiosidade, amor ao conforto e egoísmo..."
— Meus filhos — disse em voz alta —, o amor será
um encantamento?
Nem Cátia nem Arcádio entendiam suas palavras.
Evitavam-lhe a presença. A palestra que ouviram um
dia no jardim entre ela e Bazárov não lhes saía da memória.
Ana Serguêievna, porém, não teve muito trabalho
em tranqüilizá-los, porque também ficara tranqüila.
XXVII
Os velhos Bazárov sentiram-se imensamente satisfeitos
com o inesperado regresso do filho. Arina Vassílievna
ficou tão perturbada e corria tanto pela casa
que Vassíli Ivánovitch acabou apelidando-a de "senhora
perdiz". Porque a cauda curta da sua blusa lhe dava
um aspecto de ave. Ele, por sua vez, só dizia palavras
ininteligíveis e limitava-se a morder a piteira de âmbar
do seu cachimbo. Sacudia a sua cabeça branca, com
as mãos na nuca, parecendo experimentar se a piteira
realmente estava bem parafusada ao cachimbo. Abria de
repente a boca, e ria em silêncio.
— Vim aqui para passar umas seis semanas, meu
velho — disse Bazárov. — Quero trabalhar um pouco
e espero que não me atrapalhe.
— É capaz de nem se lembrar da minha cara, quando
me vir — respondeu Vassíli Ivánovitch.
Cumpriu a sua promessa. Instalando o filho no seu
gabinete de trabalho, como da primeira vez, não só o
215
evitava como também preveniu sua esposa para que
retivesse quaisquer expansões de sua ternura materna!.
"Nós, querida", dizia, "aborrecemos muito leniúcha
quando aqui esteve da outra vez. Convém agora tomar
mais cuidado." Arina Vassílievna concordava com o
marido, perdendo muito com isso, porque só via o filho
à mesa e tomou-se de um receio definitivo de conversar
com ele. — leniúchaí — costumava dizer por vezes.
Mal o filho a olhava, distraindo-se com qualquer
coisa ou fingindo fazê-lo, balbuciava logo: — Nada,
não se importe. — E em seguida ia ter com Vassíli
Ivánovitch, perguntando-lhe, pensativa: — É capaz de
saber, meu amigo, o que deseja hoje leniúcha para o
jantar? Uma sopa russa? Por que não lhe pergunta?
Sou capaz de importuná-lo!
Bazárov logo desistiu espontaneamente do seu isolamento.
A febre de trabalho passou e veio um tédio e
uma secreta intranqüilidade. Em todos os seus movimentos
se percebia um cansaço estranho. Mesmo o seu
andar, até então firme e resoluto, mudara completamente.
Cessaram os seus passeios solitários, e começou a
preferir qualquer companhia. Tomava chá na sala de
visitas, vagava pela horta em companhia de Vassíli Ivánovitch
e fumava lentas cachimbadas em silêncio. Perguntou
um dia pelo Padre Alieksiei. Vassíli Ivánovitch
ficou primeiro satisfeitíssimo com essa mudança, mas
sua alegria não durou muito. — leniúcha preocupa-me
muito — queixava-se à sua esposa. — Não que esteja
pouco satisfeito ou ligeiramente zangado. Não seria nada.
Está aborrecido e triste, eis o que me impressiona.
Sempre quieto. Se ao menos ralhasse um pouco conosco.
Emagrece e tem cores suspeitas. — Deus nos livre! —
dizia a velhinha. — Queria oferecer-lhe um talismã
para tê-lo sempre no peito, mas não permitirá que o
ponha. — Vassíli Ivánovitch tentou muitas vezes,
216
com extremo cuidado, inquirir Bazárov sobre os seus trabalhos
científicos, sobre sua saúde, sobre Arcádio...
Bazárov respondia-lhe de má vontade ou com indiferença.
Um dia chegou a observar-lhe que seu pai parecia
investigar alguma coisa, dizendo-lhe irritado: — Por
que anda na ponta dos pés onde estou? Não gosto disso,
— Não tem importância, meu amigo! — respondeu
precipitadamente o pobre Vassíli Ivánovitch. As suas
indagações políticas ficavam também sem resposta. Referindo-
se um dia à próxima libertação dos servos, ao
progresso, esperava suscitar o entusiasmo do seu filho.
Este respondeu-lhe secamente: — Ontem, ao passar perto
da cerca, ouvi que os moleques, em lugar de qualquer
velha canção popular, estavam berrando: "Vem chegando
o nosso tempo, os corações sentem o amor..."
Aí está o progresso. — Às vezes Bazárov se dirigia ao
povoado e, em conversa com qualquer mujique, ridicularizava-
o como de costume. — Vamos — dizia-lhe
—, exponha as suas teorias sobre a vida, meu amigo. Dizem
que representam todo o futuro e toda a força da
Rússia, que vão iniciar um novo período da história, que
nos darão uma linguagem e leis novas. — O mujique
ou nada respondia ou proferia as palavras que significavam
mais ou menos o seguinte: — Podemos... porque
... teremos por acaso uma nova divisão de terras?
— Diga-me, de que espécie é o mundo que concebem?
— interrompia-o Bazárov. — Não será o mundo
que está apoiado no lombo dos três enormes peixes?
— A terra, meu senhor, está de fato apoiada nos
três peixes — calmamente e com bondade patriarcal
explicava o mujique. — Contra este nosso mundo está
a vontade dos senhores. Eis por que os senhores são
nossos pais. Quanto mais severo é o senhor, mais agrada
ao mujique.
Depois de ouvir semelhantes palavras,
217
Bazárov um dia moveu num gesto de desprezo os ombros e foi embora.
O mujique também seguiu o seu caminho.
— De que estava falando? — perguntou outro mujique
de meia-idade e aspecto melancólico, sentado à porta
da sua cabana e que vira de longe que ele palestrava
com Bazárov. — Não será sobre os impostos?
— Que impostos, patrício! — respondeu o primeiro
mujique. Na sua voz já não se ouvia aquele acento
patriarcal. Percebia-se até uma certa severidade: —
Andava batendo a língua à toa. Por acaso os senhores
entendem alguma coisa da nossa vida?
— Que esperança! — replicou o outro mujique.
Sacudindo a poeira do chapéu e desapertando um pouco
a cinta, começou a discutir sobre os seus negócios
e necessidades. Bazárov, tão inteligente, observador e
conhecedor dos mujiques (como teve ocasião de afirmar
nas discussões com Páviel Pietróvitch), esse mesmo
Bazárov nem suspeitava que aos olhos dos mujiques
ele não passava de uma espécie de palhaço...
Afinal encontrou o que fazer. Um dia, em sua presença,
Vassíli Ivánovitch estava pensando a perna ferida
a um mujique. Suas mãos de velho tremiam muito.
Não conseguia arrumar bem a gaze sobre a ferida. O
filho auxiliou-o e, a partir desse dia, continuou a ajudá-
lo na clínica, sem deixar de ridicularizar-lhe os processos
de tratamento, que ele mesmo aconselhava. Ria-
se do pai, que, imediatamente, aplicava na prática os
meios aconselhados. As pilhérias de Bazárov não perturbavam
o trabalho de Vassíli Ivánovitch. Até o confortavam.
Apertando o seu capote ensebado ao peito,
com dois dedos, fumando seu cachimbo, ouvia com
prazer Bazárov. Quanto mais rancor ou irritação havia
nas suas palavras ou atitudes, mais ria, mostrando
seus dentes escuros. Repetia até as palavras e gestos do
filho, às vezes destituídas de sentido. Por exemplo, durante
alguns dias, sem propósito algum, repetia uma frase qualquer,
218
só porque o filho a empregara numa
determinada ocasião. — Graças a Deus, está menos
triste! — dizia à esposa. — Se visse que descompostura
me passou hoje!
Em compensação, ao pensar que possuía um auxiliar
como seu filho, ficava satisfeitíssimo e sentia orgulho
de si mesmo. — Sim — dizia a qualquer camponesa
que trajava um capote de homem, ao entregar-
lhe um vidro de purgante ou lata de pomada branca
—, deve agradecer a Deus porque o meu filho está
aqui entre nós. Está sendo tratada pelos mais modernos
processos da medicina. Compreende isso? O imperador
dos franceses, Napoleão III, não tem um médico
igual ao meu filho. — A camponesa, que se queixava
de males incompreensíveis, cujos sintomas não
conseguia definir, curvava-se respeitosamente e punha
a mão dentro da camisa, de onde tirava quatro ovos
embrulhados numa toalha.
Bazárov chegou até a extrair um dente de um vendedor
ambulante de armarinho. Embora o dente fosse
como outro qualquer, nada tendo de particular, Vassíli
Ivánovitch guardou-o como uma raridade.
Mostrando-o ao Padre Alieksiei, repetia sempre:
— Veja que raízes! Que força tem meu Eugênio!
O vendedor até deu um pulo! Meu filho é capaz de
arrancar um carvalho com raízes e tudo!
— Extraordinário!— disse afinal o Padre Alieksiei,
sem saber o que responder e como livrar-se do velho,
extático.
Um dia um mujique do povoado vizinho trouxe para
Vassíli Ivánovitch seu irmão atacado de tifo. Deitado
num monte de palha, o infeliz agonizava. Manchas escuras
cobriam-lhe o corpo. Estava há muito sem sentidos.
Vassíli Ivánovitch lamentou que o doente não
recorresse antes ao médico, e declarou que já não tinha salvação.
219
Efetivamente, o mujique não chegou a
trazer o irmão vivo até a casa. Morreu no caminho.
Três dias depois, Bazárov entrou ao gabinete do pai
e pediu-lhe um pouco de pedra-infernal.
— Para que quer pedra-infernal?
— Preciso queimar um ferimento.
— Em quem?
— Em mim mesmo.
— Como? Que foi isso? Que ferida é essa? Onde
está?
— Aqui, no dedo. Hoje estive no povoado de onde
trouxeram o mujique doente de tifo. Lembra-se? Resolveram
lá fazer uma autópsia no cadáver. Há muito
tempo eu não fazia uma autópsia.
— Então?
— Pedi ao médico de lá que me permitisse fazê-la.
E acabei cortando o dedo com o bisturi.
Vassíli Ivánovitch ficou pálido como cera. Sem dizer
uma palavra, foi buscar um pedaço de pedra-infernal.
Bazárov queria pegar a pedra e afastar-se.
— Pelo amor de Deus — disse Vassíli Ivánovitch
—, deixe que examine e trate do ferimento.
Bazárov sorriu.
— Gosta muito de medicina!
— Não brinque, por favor. Mostre seu dedo. O ferimento
é insignificante. Não dói?
— Queime bem, não tenha medo.
Vassíli Ivánovitch parou de repente.
— Eugênio, não será melhor queimar com ferro
em brasa?
— Isso a gente devia fazer antes. Agora, parece-
me, a própria pedra-infernal já de nada vale. Se apanhei
a moléstia, já é muito tarde.
— Como tarde?... — balbuciou Vassíli Ivánovitch.
— Ora essa! Já passaram quatro horas e tanto.
220
Vassíli Ivánovitch encostou mais uma vez a pedra-
infernal ao ferimento.
— E o médico de lá não tinha pedra-infernal?
— Não tinha.
— Como é possível, meu Deus! Um médico, e não
tem o indispensável!
— Se visse os seus bisturis — disse Bazárov, e saiu.
Durante a tarde daquele dia e todo o dia seguinte
Vassíli Ivánovitch lançava mão de todos os pretextos
possíveis para entrar no aposento do filho. Não
lhe falava no ferimento, e esforçava-se por abordar os
mais diversos assuntos. Entretanto, fitava atento o
filho, observando-o com grande atenção. Bazárov chegou
a perder a paciência e ameaçou ir embora. Vassíli
Ivánovitch deu-lhe a palavra de que não o aborreceria.
Arina Vassílievna, que de nada sabia, começou a importunar
o marido, perguntando-lhe por que não dormia
e o que tinha acontecido. Durante dois dias Vassíli
Ivánovitch cumpriu a sua palavra, espiando o filho
sem este perceber. O aspecto de Bazárov não lhe agradava
muito... No terceiro dia, ao jantar, não pôde
mais. Bazárov estava abatido e não tocava em prato
algum.
— Por que não come, Eugênio? — perguntou com
aparente calma. — A comida parece que está gostosa.
— Não tenho apetite.
— Não tem apetite? Dói-lhe a cabeça? — acrescentou
timidamente o pai.
— Dói. Por que não há de doer?
Arina Vassilievna endireitou-se, e ficou de sobreaviso.
— Não fique zangado, por favor, Eugênio — prosseguiu
Vassíli Ivánovitch. — Não quer que lhe examine
o pulso?
Bazárov ergueu-se.
221
— Sem examinar o pulso, afirmo-lhe que estou com
febre.
— Teve calafrios?
— Tive também calafrios. Vou deitar-me. Preparem-
me um pouco de chá de tília. Parece que apanhei
um resfriado.
— Ouvi-o tossir esta noite — disse Arina Vassílievna.
— Resfriei-me — repetiu Bazárov. afastando-se.
Arina Vassílievna foi preparar o chá de flores de
tília. Vassíli Ivánovitch foi ao aposento contíguo e
agarrou os cabelos num gesto de desespero.
Bazárov não se levantou o dia todo e passou a noite
numa sonolência pesada e insuportável. À 1 hora da
madrugada, abriu os olhos com esforço, viu sobre si,
à luz da lâmpada, o semblante pálido do pai e ordenou-
lhe que fosse embora. Este obedeceu, mas voltou logo
nas pontas dos pés, e, postando-se atrás da porta do
armário, olhava fixamente para Eugênio. Arina Vassílievna
também não se deitou e, abrindo às vezes, de
mansinho, a porta do gabinete, vinha escutar "como
respirava leniúcha" e observar Vassíli Ivánovitch. Só
podia ver-lhe as costas imóveis e curvadas, e isso lhe
trazia um certo alívio. Pela manhã Bazárov tentou levantar-
se. Girava-lhe a cabeça, o sangue brotou-lhe pelo
nariz. Deitou-se de novo. Vassíli Ivánovitch atendia-o
em silêncio. Arina Vassílievna veio ter com ele, e perguntou-
lhe como se sentia. Respondeu; "Melhor", e
voltou-se para a parede. Vassíli Ivánovitch fez à esposa
um gesto de desespero com ambas as mãos. Ela mordeu
os lábios e saiu para não chorar. Tudo em casa parecia
ter ficado mais sombrio. Os semblantes tornaram-se
mais sérios e o silêncio invadiu a casa. Do pátio tiveram
que retirar para o povoado um galo barulhento, que
por muito tempo ficou sem compreender por que assim
o tratavam. Bazárov continuou deitado com o rosto para a parede.
222
Vassíli Ivánovitch tentou fazer-lhe algumas
perguntas, mas as perguntas fatigavam Bazárov. O
velho permaneceu imóvel na sua poltrona, estalando
de quando em quando os dedos. Foi ao jardim, ficou ali
por algum tempo, petrificado como estátua, presa de
indizível admiração (a expressão de surpresa não lhe
saía do rosto), e voltava novamente para junto do
filho, evitando as indagações da mulher. Ela, afinal,
agarrou-o pela mão e, trêmula, quase em tom de ameaça,
perguntou-lhe: "Que tem ele?" Só então o marido a
percebeu e fez um esforço para sorrir-lhe em resposta.
Com espanto de si mesmo, verificou que em vez de sorrir
estava rindo. Tinha mandado chamar o médico pela
manhã. Achou conveniente prevenir disso o filho, para
não aborrecê-lo.
Bazárov virou-se repentinamente no divã, examinou
com atenção seu pai e pediu água.
Vassíli Ivánovitch trouxe-lhe água e encostou-lhe a
mão na testa. Ardia de febre.
— Estou muito mal, meu velho — proferiu Bazárov
com a voz rouca e lenta. — Apanhei tifo. Daqui a
alguns dias vai enterrar-me.
Vassíli Ivánovitch estremeceu como se alguém lhe
desse uma pancada nas pernas.
— Eugênio, que diz!... — Mal podia falar. —
Deus é grande! Você apanhou um resfriado...
— Basta! — interrompeu-o devagar Bazárov. —
Como médico, não deve dizer essas tolices. Tenho todos
os sintomas da moléstia. Sabe-o bem.
— Onde estão esses sintomas... dessa moléstia,
Eugênio? Por amor de Deus!
— E que é isto? — disse Bazárov, arregaçando a
manga da camisa e mostrando ao pai manchas vermelhas
de aparência suspeita.
Vassíli Ivánovitch estremeceu e ficou gelado, gelado
de horror.
223
— Suponhamos — disse — que se trate... de uma
espécie... de moléstia contagiosa...
— Piemia — corrigiu o filho.
— Uma espécie de... epidemia...
— Piemia — repetiu com clareza e seriamente Bazárov.
— Já se esqueceu do que estudou?
— Como quiser... mas ficará curado.
— É impossível. Mas falemos em outra coisa. Não
esperava morrer tão cedo. É uma casualidade verdadeiramente
desagradável. Você e minha mãe devem agora
aproveitar a força da religião. É uma ótima oportunidade
para que ponham à prova essa força. — Bebeu
um pouco de água. — Quero pedir-lhe uma coisa...
enquanto a minha cabeça ainda funciona. Amanhã, ou
depois, você sabe, meu cérebro já deixará de funcionar.
Agora mesmo não tenho certeza se me expresso claramente.
Enquanto estava aqui, deitado, parecia ver em
torno de mim cães vermelhos que corriam por toda
parte. Você estava perto de mim como um caçador.
Parece que estou bêbedo. Entende-me?
— Por favor, Eugênio, você está falando com toda
a clareza.
— Assim é melhor. Disse-me que mandou chamar
o médico... está agora consolado... console-me também
a mim; mande um portador a...
— Arcádio Nicoláievitch? — perguntou o velho.
— Quem é Arcádio Nicoláievitch? — disse Bazárov,
como que refletindo... — Ah, é aquele fidalgote!
Não, não o importune: agora é uma gralha. Não se
espante, não é delírio ainda. Mande um portador à
Senhora Odintsova, Ana Serguêievna, uma fazendeira
que vive perto... conhece? (Vassíli Ivánovitch fez um
gesto afirmativo com a cabeça.) Eugênio Bazárov
manda-lhe dizer que está morrendo. Far-me-á esse
favor?
— Farei... mas é impossível, Eugênio, que vá morrer assim...
224
pense um pouco! Onde está então a
justiça divina?
— Isso é que não sei. Não se esqueça de mandar
um portador.
— Imediatamente. Vou eu mesmo escrever-lhe uma
carta.
— Não; para quê? Mande-lhe dizer que a saúdo e
nada mais. Agora vou de novo para junto dos meus
cães. É esquisito! Quero pensar um pouco na morte
e não consigo. Vejo uma mancha... e nada mais.
Novamente voltou-se com dificuldade para a parede.
Vassíli Ivánovitch saiu do aposento do filho agonizante
e, arrastando-se para o seu quarto de dormir, caiu de
joelhos diante das imagens sagradas.
— Reze a Deus, Arina, reze! — gemeu. — O nosso
filho está morrendo.
O médico, o mesmo que não tinha a pedra-infernal,
veio, examinou o doente, recomendou que se seguisse
o método de contemporização e disse algumas palavras
sobre a possibilidade de cura.
— O senhor já viu na sua vida gente nas minhas
condições que escapasse de ir parar no cemitério? —
indagou Bazárov; e, agarrando inesperadamente a perna
da pesada mesa, que se achava perto do divã, mudou-a
de lugar, sacudindo-a.
— Que força, que força tenho ainda! — disse ele.
— Toda essa força ainda está comigo, e devo morrer!
... O velho que morre já teve tempo de desabituar-
se da vida, enquanto eu... Vá lá negar a morte.
Ela é que me nega e basta! Quem é que está chorando?
— disse pouco depois. — Minha mãe? Pobrezinha! A
quem agora vai preparar sua saborosíssima sopa? E você,
Vassíli Ivánovitch, parece que também está chorando.
Se a religião cristã não o ajuda, seja um filósofo, um
estóico! Não me disse sempre que era filósofo?
225
— Qual filósofo! — exclamou Vassíli Ivánovitch.
As lágrimas corriam-lhe abundantes pelas faces.
Bazárov piorava de hora a hora. A moléstia assumiu
um caráter galopante, o que quase sempre acontece
em casos de contaminação cirúrgica. Não tinha perdido
ainda a consciência e compreendia o que se lhe falava:
lutava com a morte. — Não quero delirar — murmurava,
cerrando as mãos —, que tolice! — E dizia logo
depois: — Se de oito tirarmos dez quanto fica? — Vassíli
Ivánovitch andava como doido, recomendando ora
um remédio ora outro. Limitava-se, porém, a cobrir
os pés do filho. — Envolver em lençóis frios... um
vomitório... um emplastro de mostarda no estômago...
sangria — dizia, desesperado. O médico, a quem
convenceu que ficasse, concordava com ele, dava limonada
ao doente e para si mesmo pedia ou um cachimbo
ou "fortifica e aquece", isto é, aguardente. Arina
Vassílievna estava sentada num banquinho perto da
porta. De quando em quando se levantava e ia rezar.
Alguns dias antes, o seu pequeno espelho caiu-lhe das
mãos e quebrou-se. Considerou aquilo um péssimo
sinal. A própria Anfíssuchka nada lhe pôde dizer a respeito.
Timofiêievitch foi enviado à fazenda da Senhora
Odintsova.
A noite foi péssima para Bazárov... Uma febre
violenta atormentava-o. Pela manhã melhorou um
pouco. Pediu que Arina Vassílievna lhe penteasse os
cabelos, beijou-lhe a mão e bebeu dois goles de chá.
Vassíli Ivánovitch até ficou um pouco mais animado.
— Graças a Deus — repetia —, começou a crise...
veio a crise.
— Se pensarmos um pouco — disse Bazárov — o
que significa uma palavra! Gostou da palavra "crise"
e está consolado. Não sei como o homem ainda acredita
em palavras. Se lhe dissermos que é um imbecil e não
lhe batermos, fica triste; se lhe dissermos que é inteligente
226
e não lhe dermos dinheiro, sente grande prazer com
isso,
Este breve discurso de Bazárov, que lhe recordava
as antigas chacotas, enterneceu Vassíli Ivánovitch.
— Bravo! Muito bem! — gritou ele, fingindo que
batia palmas.
Bazárov sorriu tristemente.
— Como é, então — disse —, a crise passou, ou
agora é que está começando?
— Sente-se melhor, eis o que estou vendo e o que
me alegra — respondeu Vassíli Ivánovitch.
— Está bem. A alegria nunca faz mal Mandou
alguém à casa daquela senhora?
— Mandei, como não!
A mudança para melhor não durou muito. A moléstia
retomou o seu curso. Vassíli Ivánovitch não saía
de perto de Bazárov. Uma tortura desconhecida martirizava
o velho. Tentou por várias vezes dizer alguma
coisa e não pôde.
— Eugênio — disse afinal —, meu filho, meu bom
filho!
Este inesperado apelo sacudiu Bazárov... Ergueu
um pouco a cabeça e perguntou, esforçando-se por sair
do seu esquecimento:
— Que quer, pai?
— Eugênio — continuou Vassíli Ivánovitch, ajoelhando-
se diante de Bazárov, embora este não abrisse
os olhos e continuasse sem vê-lo. — Eugênio, está
agora melhor. Deus permita que fique bom. Aproveite
este intervalo de tempo, console-nos, a mim e a sua
mãe: cumpra o dever de cristão! Por mais doloroso que
me seja dizê-lo, a sua morte poderia ser horrível. Porém,
mais horrível ainda... lembre-se, Eugênio... mais
horrível será ainda, se...
A voz do velho truncou-se. Enquanto isso, pela face do filho,
227
embora continuasse com os olhos fechados,
passou algo de estranho.
— Não lhes nego essa consolação — disse afinal. —
Parece-me, porém, que não deviam ter pressa. Você
mesmo diz que estou melhor.
— Está melhor, Eugênio, muito melhor. Mas, quem
sabe, tudo depende da vontade de Deus, e, tendo
cumprido o seu dever...
— Não. Vou esperar um pouco — interrompeu Bazárov.
— Concordo com você: a crise já começou. Se
ambos nos enganamos, a Igreja ministra a extrema-unção
até aos que perdem a consciência, no fim da agonia.
— Faça-me o favor, Eugênio...
— Esperarei. Quero dormir agora. Não me incomode.
Recostou a cabeça no mesmo lugar de antes.
O velho ergueu-se, sentou-se numa poltrona, pegou
com uma das mãos o queixo e pôs-se a morder a ponta
dos dedos... O ruído de uma caleça de molas, aquele
ruído que se percebe particularmente no campo, chegou-
lhe de repente aos ouvidos. Cada vez mais perto
se sentia o roçar das rodas ligeiras. Já se ouvia o resfolegar
dos animais... Vassíli Ivánovitch levantou-se à
pressa e foi à janela. No pátio viu uma caleça tirada
por quatro cavalos. Não sabendo do que se tratava,
presa de uma alegria absurda, correu para fora... Um
criado de libré abria a portinhola do carro. Uma senhora
de véu preto e mantilha da mesma cor saiu da caleça.
. .
— Sou a Senhora Odintsova — disse, apresentando-
se. — Eugênio Vassílievitch ainda está vivo? É seu
pai? Trouxe-lhe um médico.
— Nossa benfeitora! — exclamou Vassíli Ivánovitch,
agarrando sua mão e apertando-a de encontro
aos lábios.
Nesse momento o médico, que veio em companhia
228
de Ana Serguêievna, um homem baixo, de óculos e
fisionomia alemã, apeava-se devagar do carro. — Se
está vivo meu Eugênio? Está vivo ainda. Será salvo
agora! Arina!... Um anjo do céu veio visitar-nos!...
— Que há, por Deus? — disse baixinho a velhinha
correndo precipitadamente à sala de visitas, sem compreender
o que se passava. Caindo aos pés de Ana Serguêievna,
como doida, pôs-se a beijar-lhe o vestido.
— Que está fazendo, minha senhora! — repetiu
surpresa Ana Serguêievna. Mas Arina Vassílievna não
a queria ouvir, e Vassíli Ivánovitch repetia sem cessar:
"Anjo! Anjo!"
— Wo ist der Kranke? Onde está o doente? — disse,
afinal, o médico em tom de visível aborrecimento.
Vassíli Ivánovitch voltou a si.
— Está aqui, faça o favor de entrar, herr kollega*
— disse, lembrando-se com dificuldade dos seus conhecimentos
da língua alemã.
O alemão sorriu por mera gentileza.
Vassíli Ivánovitch conduziu-o ao seu gabinete.
— É o médico que a Senhora Odintsova trouxe —
disse ao ouvido do filho. — Ela também está aqui.
Bazárov abriu de repente os olhos.
— Que diz?
— Disse que Ana Serguêievna está aqui e veio em
companhia deste senhor, que é médico.
Bazárov lançou um olhar em torno.
— Ela está aqui... quero vê-la.
— Vê-la-á, Eugênio. Primeiramente vamos conversar
um pouco com o médico. Vou contar-lhe a história
da sua moléstia, porque Sidor Sidoritch já foi embora
(era o nome do outro médico). Vamos ter uma pequena
conferência.
Bazárov fitou o alemão.
Prezado colega.
229
— Acabem logo com essa conferência. Não falem em
latim, porque sei o que significa: Jam moritur.
— Der Herr scheint des Deutschen maechtig zu
sein* — disse o novo esculápio dirigindo-se a Vassíli
Ivánovitch.
— Ich... habe... ** Vamos falar em russo, que é
melhor — disse o velho.
— Vamos — respondeu o alemão, num russo horrível.
Começou a conferência médica.
Meia hora depois, Ana Serguêievna, em companhia
de Vassíli Ivánovitch, entrou no gabinete onde estava
o doente. O médico já tivera ocasião de dizer-lhe que
era um caso perdido.
Ela, lançando um olhar a Bazárov, estacou junto à
porta, tal era a mudança operada no rosto mortalmente
pálido e ardente de febre, com os olhos turvos e fixos.
Teve medo, pavor frio e doloroso. Passou-lhe pela mente
num momento a idéia de que, se o amasse de verdade,
sentiria outra coisa nesse instante.
— Obrigado — disse ele com esforço —, não esperava
por isso. Fez um ato de bondade. Assim, tornamo-nos
a ver, como prometeu aquele dia.
— Ana Serguêievna teve tanta bondade — começou
Vassíli Ivánovitch...
— Pai, deixe-nos a sós. Permite, Ana Serguêievna?
Parece que, neste momento...
Indicou-lhe com a cabeça o seu corpo estendido e
sem forças.
Vassíli Ivánovitch saiu.
— Muito obrigado — repetiu Bazárov. — É um
presente real. Dizem que os reis costumam também visitar
os agonizantes.
— Eugênio Vassílievitch, espero...
* O senhor parece dominar o alemão.
** Eu... tenho...
230
— Ana Serguêievna, vamos falar só a verdade. Sou
um homem acabado. A roda da vida pegou-me. Vejo
agora que não valia a pena pensar no futuro. A morte
é uma coisa muito conhecida e é nova para cada um de
nós. Até agora não tive medo... Depois vem o desmaio,
e pronto! (Fez um gesto com a mão.) Que posso
dizer-lhe agora... Que a amei? Isso mesmo antes não
tinha sentido algum, quanto mais agora... O amor é
uma forma e a minha própria forma se está desintegrando
neste momento. Digo-lhe melhor que admiro a sua
bondade! Vejo-a
tão linda...
Ana Serguêievna estremeceu involuntariamente.
— Não se agite... sente-se lá... não se aproxime
de mim: a minha moléstia é muito contagiosa.
Que bondade a sua! — disse ele baixinho. Sinto-
a tão perto, tão moça, tão pura e fresca... neste
quarto infecto!... Agora, adeus! Viva muito tempo e
goze a vida enquanto é nova. Já viu na sua existência
uma cena repugnante? O verme, quase esmagado, ainda
quer viver. Também pensei assim: hei de fazer muita
coisa, não morrerei, sou um gigante! Agora toda a questão
do gigante consiste em poder morrer decentemente,
ainda que isso pouco importe ao resto do mundo... É
o mesmo. Não vou fingir importância.
Bazárov calou-se e começou a apalpar o corpo. Ana
Serguêievna deu-lhe um pouco de água sem tirar suas
luvas e respirando com cuidado.
— Vai esquecer-se de mim — disse Bazárov de novo.
— O morto não se dá bem com o vivo. Meu pai naturalmente
lhe dirá que a Rússia perdeu um grande homem
... É tolice, mas não desiluda meu velho. Diga
uma palavra de consolação também à minha mãe. Gente
como meus pais raramente se encontra neste mundo...
Sou necessário à Rússia? Não, provavelmente
não o sou. E quem é necessário? O sapateiro, o alfaiate,
o
açougueiro... que vende carne... o açougueiro...
231
Espere um pouco, as minhas idéias se baralham... Vejo
um bosque...
Bazárov pôs a mão na testa.
Ana Serguêievna curvou-se sobre ele.
— Eugênio Vassílievitch, estou aqui...
Ele afastou a mão e ergueu-se.
— Adeus — disse, com inesperada energia e seus
olhos brilharam pela última vez. — Adeus... Ouça:
nunca a beijei na minha vida... Quer soprar a lâmpada
bruxuleante e apagá-la para sempre?...
Ana Serguêievna pousou seus lábios na testa do
agonizante.
— E basta! — disse ele, acomodando a cabeça no
travesseiro. — Agora... escuridão...
Ana Serguêievna saiu devagarinho.
— Que há? — indagou baixinho Vassíli Ivánovitch.
— Adormeceu — respondeu ela com voz imperceptível.
Bazárov dormira para não acordar nunca. À tarde
perdeu o conhecimento, e morreu no dia seguinte. O
Padre Alieksiei fez o serviço religioso. Por ocasião do
ofício divino, quando o óleo santo caiu sobre o peito
do defunto, um olho do morto abriu-se e parecia que,
à vista do sacerdote paramentado de todas as suas vestes
e insígnias, das nuvens de incenso e das velas acesas,
algo semelhante a um estremecimento de horror passou
momentaneamente pela face de Bazárov. Quando o sacerdote
proferiu as suas últimas palavras e todo mundo
começou a soluçar em casa, Vassíli Ivánovitch ficou
num estado de estupor e de revolta. — Eu disse que hei
de protestar — gritava roucamente o velho, de fisionomia
febril e desfigurada, agitando no ar ameaçadoramente
o punho cerrado —, hei de protestar, hei de
protestar! — Arina Vassílievna, banhada em pranto,
abraçou-o e ambos perderam os sentidos. "Assim",
232
contava depois Anfissuchka, "ambos curvaram as cabecinhas,
como as ovelhinhas ao meio-dia..."
O calor do meio-dia arrefece, vem a tarde e a noite, e
depois o repouso tranqüilo para todos os seres fatigados...
XXVIII
Passaram-se seis meses. Era um inverno branco com
a calma clara dos seus frios violentos, a neve abundante
que rangia sob os pés, a neve a cobrir as árvores nuas,
um céu de azul pálido, a fumaça sobre as chaminés das
casas, as nuvens de vapor saindo das portas abertas, as
faces vermelhas das pessoas e trotes dos cavalos atrelados
e transidos de frio. Um dia de janeiro já se aproximava
do seu fim. O frio da tarde oprimia cada vez mais
o ar parado e o crepúsculo morria rapidamente.
Nas janelas da casa senhorial de Mariino acendiam-
se luzes. Prokófitch, trajando um fraque negro e luvas
brancas, arranjava a mesa solenemente para sete pessoas.
Havia uma semana, numa pequena igreja do povoado,
intimamente e quase sem convidados, tinham-se
realizado dois casamentos: o de Arcádio com Cátia e o
de Nicolau Pietróvitch com Fiênitchka. Nesse mesmo
dia, Nicolau Pietróvitch oferecia um jantar de despedida
ao irmão que partia para Moscou, a negócios. Ana Serguêievna
partiu logo depois, com o mesmo destino, ten
do presenteado generosamente os recém-casados.
Às 3 horas em ponto todos se reuniam à mesa. Mítia
também estava ali, em companhia de uma ama. Páviel
Pietróvitch ocupava um lugar entre Cátia e Fiênitchka.
Os maridos instalaram-se junto das esposas. As nossas
personagens tinham mudado muito durante os últimos
tempos: todos estavam mais bem dispostos e mais felizes.
Só Páviel Pietróvitch emagrecera bastante,
233
o que lhe ia muito bem... Com Fiênitchka se operara verdadeira
transformação. Trajando um vestido de seda, com
uma fita de veludo nos cabelos e fina corrente de ouro
no pescoço, estava sentada numa atitude de imobilidade
respeitosa e sorria como se quisesse dizer: "Perdoem-
me; eu não tenho culpa". E não era só ela: todos
sorriam e pareciam pedir desculpas. Todos se sentiam
um pouco tristes e acanhados, mas satisfeitos. Cada um
prestava serviços ao outro, como se todos houvessem
combinado representar uma pequena comédia. Cátia era
a mais calma de todas. Olhava confiante em torno de si.
Percebia-se que Nicolau Pietróvitch já a estimava muito.
Antes de terminar o jantar, ele se levantou, tomou a
taça e dirigiu-se a Páviel Pietróvitch.
— Deixa-nos... querido irmão. Espero que não
seja por muito tempo. Não sei expressar o que eu... o
que nós... nós todos... é uma tristeza! Não sei fazer
um discurso! Arcádio, diga alguma coisa.
— Não, papai, não me preparei para isso.
— E eu me preparei? Com toda a simplicidade, permita,
meu irmão, que o abrace, desejando-lhe muitas
felicidades e um breve regresso!
Páviel Pietróvitch beijou todos, sem excetuar Mítia.
Beijou ainda a mão de Fiênitchka, que não lha ofereceu
como devia. Esvaziando a segunda taça, disse com um
suspiro: — Sejam felizes, meus amigos. Farewell*.
Essa palavra inglesa ninguém a entendeu, mas todos
estavam comovidos.
— À memória de Bazárov — murmurou Cátia ao
ouvido do esposo, e bebeu da sua taça. Arcádio, em
resposta, apertou-lhe longamente a mão, mas não se resolveu
a fazer um brinde em voz alta.
Parece que chegamos ao fim? Talvez, porém, queira
alguém saber o que estão fazendo as personagens deste
livro. Vamos satisfazer essa curiosidade.
* Adeus.
234
Ana Serguêievna casou-se há pouco, não por amor e sim por convicções
filosóficas, com um dos futuros homens de Estado,
pessoa muito inteligente, de sólida inteligência prática,
vontade firme, dom da palavra — homem ainda moço,
bom e frio como o gelo. Vivem muito bem um com o
outro e talvez cheguem à felicidade ou ao amor... A
Princesa K. morreu, e todo mundo se esqueceu dela no
mesmo dia. Os Kirsánovi, pai e filho, instalaram-se em
Mariino. Seus negócios começaram a melhorar. Arcádio
dedicou-se às ocupações da fazenda, que agora está rendendo
bem. Nicolau Pietróvitch faz um pouco de política
de província. Passa muito tempo viajando pelo seu
distrito. Pronuncia longos discursos, defendendo o seu
tema predileto, que é educar os mujiques, ou seja, fatigá-
los com a repetição constante das mesmas palavras.
Não chega a satisfazer os nobres quanto à emancipação
dos servos. É muito delicado nos seus processos políticos.
Catarina Serguêievna teve um filho chamado Kólia.
Mítia já está grande e fala como gente adulta. Fiênitchka,
depois do marido e de Mítia, não aprecia ninguém
mais que a sua nora. Quando esta se senta ao piano,
não sai o dia inteiro de perto dela. Convém falar ainda
de Piotr. Imbecilizou-se de presunção. Pronuncia as palavras
de um modo especial. Casou-se também, recebendo
um dote da filha de um hortelão, que recusou a mão
a dois bons pretendentes, porque não tinham relógios.
Piotr, além do relógio, tinha ainda sapatos de verniz.
Em Dresde, no terraço do Brühl, entre 2 e 4 horas,
no momento do footing* elegante, pode-se ver um homem
de uns cinqüenta anos de idade, de cabelos inteiramente
brancos, que sofre de gota, mas ainda belo,
irrepreensivelmente trajado e com aparência de figura
da alta sociedade. É Páviel Pietróvitch. Saiu de Moscou
para o estrangeiro, a fim de tratar de sua saúde, e ficou
residindo em Dresde, onde mantém relações de preferência
* Passeio a pé.
235
com os ingleses e russos em trânsito. Com os
ingleses é de trato simples, quase modesto, sem exibição.
Julgam-no um pouco maçador, mas respeitam-lhe a
pessoa, a perfect gentleman*. Com os russos é mais
desembaraçado, derrama a sua bílis, ri-se de si mesmo
e deles todos. Tudo lhe vai muito bem e é sempre distinto.
Partidário das tendências eslavófilas, porque nas
esferas aristocráticas isso é très distingué**. Nada lê
em russo, mas na sua mesa de trabalho está um cinzeiro
de prata em forma do sapato de um mujique russo. Os
turistas gostam muito dele. Mateus Ilitch Koliássin, que
se achava no grupo da oposição provisória, fez-lhe uma
solene visita, de passagem para as águas termais da
Boêmia.
A gente de Dresde, com quem conversa raramente,
aprecia-o muito e o respeita como a poucos. Ninguém
recebe com tanta freqüência convites para teatros e
outros divertimentos como Herr Baron von Kirsanoff.
Pratica o bem quanto pode. Continua suas conquistas,
mas vive aborrecido... mais aborrecido do que supõe
... Basta olhá-lo numa igreja russa para se convencer
disso. Pensativo, fica imóvel, de lábios cerrados
e, depois, põe-se a rezar fervorosamente. . ,
A Senhora Kúkchina foi também para o estrangeiro.
Está agora em Heidelberg. Estuda ciências naturais e
arquitetura, em cujo domínio, segundo as suas palavras,
chegou a descobrir leis novas. Como sempre, gosta da
companhia dos estudantes, principalmente dos jovens
físicos e químicos russos, de que a cidade de Heidelberg
está repleta. Estes jovens, nos primeiros tempos, impressionam
os ingênuos professores alemães pelo seu
modo sóbrio de ver as coisas. Depois impressionam os
mesmos professores pela absoluta indolência. Com
esses dois ou três químicos, que não sabiam distinguir o oxigênio do
azoto,
* Um perfeito cavalheiro.
** Muito refinado.
236
mas propensos ao negativismo e
à vaidade, e com o grande lelissiêievitch, Sítnikov, que
se prepara também para ser grande homem, passa o
seu tempo em São Petersburgo e continua a "obra"
de Bazárov, segundo ele mesmo o proclama. Dizem até
que alguém lhe deu uma surra, mas ele não ficou impressionado
com isso. Num pequeno artigo publicado
numa revistazinha duvidosa, afirmou que o seu agressor
era um covarde. Isso é o que ele chama de ironia. Seu
pai domina-o sempre e sua mulher chama-o de tolo...
e literato.
Existe um pequeno cemitério num dos mais distantes
recantos da Rússia. Como todos os cemitérios, tem um
aspecto muito triste: as valetas que o cercam estão cobertas
de vegetação rasteira. As cruzes de madeira cinzenta
estão arruinadas e apodrecem sob suas coberturas
outrora pintadas. As lousas funerárias estão desmanteladas,
como se alguém as empurrasse de baixo. Duas ou
três arvorezinhas sem folhas dão uma sombra escassa.
As ovelhas pastam tranqüilamente sobre os túmulos...
Entre estes túmulos existe um fora do alcance do homem
e dos animais. Só os pássaros o freqüentam e ali
cantam ao romper do dia. Cerca-o uma grade de ferro.
Dois pequenos abetos ladeiam a tumba. Aqui está sepultado
Eugênio Bazárov. De quando em quando, de um
povoado próximo, vem visitar este túmulo um casal de
velhos, trôpegos e débeis, marido e mulher. Apoiando-se
um ao outro, caminham com passos lentos e arrastados.
Aproximam-se da grade de ferro, caem de joelhos e
choram muito tempo, examinando atentamente a pedra
indiferente da lousa tumular debaixo da qual repousa o
seu filho. Trocam uma breve palavra, espanam o pó da
lousa, endireitam o ramo do abeto e rezam de novo.
Não têm coragem de abandonar esse lugar, onde se
sentem mais perto do filho, da saudade... Será possível
que as suas orações e suas lágrimas sejam inúteis?
237
Será possível que o amor, o amor sagrado, amor dedicação
suprema, não seja onipotente? Não! Seja qual for
o coração apaixonado, pecador e revoltado que se
esconda num túmulo, as flores que crescem sobre ele
nos fitam tranqüilas, com os seus olhos inocentes. Elas
não falam apenas da calma eterna, da grande, da infinita
calma da natureza "indiferente": falam também
da paz e da vida eternas...
1881.
FIM
238
23:36 28/8/2011 domingo
Livro encaminhado por J. Martins
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