segunda-feira, 29 de agosto de 2011 By: Fred

<> livros-loureiro <> [livro] Uma Princesa de Marte - Edgar Rice Burroughs


Edgar Rice Burroughs

Uma Princesa de
Marte

Tradução Ricardo Giassetti

ALEPH
2010

Para meu filho Jack

Prefácio

AO LEITOR DESTE TRABALHO

Ao oferecer a você o estranho manuscrito do Capitão
Carter em forma de livro, acredito que algumas
poucas palavras relativas a essa marcante
personalidade sejam de interesse.
Minha primeira lembrança do Capitão Carter vem de
sua estada de alguns meses na casa de meu pai, na
Virgínia, imediatamente antes do começo da Guerra
Civil. Na época, eu era uma criança de uns cinco
anos, mas continuo me lembrando bem do homem
alto, atlético, moreno, de rosto brilhante, a quem eu
chamava de Tio Jack.
Ele parecia estar sempre sorrindo, e entrava nas
brincadeiras das crianças com a mesma camaradagem
sincera que demonstrava àqueles passatempos aos
quais os homens e mulheres de sua idade se
dedicavam. Ou, então, ele se sentava por uma hora
inteira entretendo minha velha avó com histórias de
sua vida estranha e perigosa inundo afora. Todos o
amavam, e nossos escravos praticamente veneravam o
chão no qual ele pisava.


Ele era um esplêndido exemplo de masculinidade,
chegando a quase um metro e noventa de altura, de
ombros largos e quadril estreito, com o porte de um
lutador bem treinado. Suas feições eram regulares e
bem definidas, seu cabelo preto cortado rente,
enquanto seus olhos eram de um cinza-aço, refletindo
uma personalidade forte e leal, cheia de fulgor e
iniciativa. Seus modos eram perfeitos e sua cortesia
era a mesma de um típico cavalheiro do sul da mais
alta estirpe.
Seu estilo ao cavalgar, especialmente na caça à raposa,
maravilhava e impressionava, mesmo naquele recanto
de magníficos cavaleiros. Ouvi com freqüência meu
pai adverti-lo quanto a sua ousadia desenfreada, mas
ele apenas ria e dizia que a queda que o mataria seria
causada por um cavalo que ainda não havia nascido.
Quando a guerra começou, ele partiu e não o vi
novamente pelos próximos quinze ou dezesseis anos.
Quando retornou, foi sem aviso, e fiquei bastante
surpreso ao perceber que ele não havia envelhecido
sequer um segundo, que suas feições não haviam
mudado. Quando estava na companhia de outros, ele
era o mesmo camarada genial e feliz que conhecíamos
há tempos; mas quando ficava a sós com seus
pensamentos, eu o via sentar-se por horas a fio,
olhando o nada, seu rosto assumindo um ar de espera
melancólica e completa desolação. E à noite, ele se
sentava olhando para o céu; procurando o quê, eu não
sabia até ler este manuscrito anos depois.
Ele nos disse que havia prospectado e minerado no
Arizona durante uma parte do tempo desde a guerra,
e que havia sido bem-sucedido era evidente dada a
quantia ilimitada de dinheiro que possuía. Quanto aos
detalhes de sua vida durante esses anos, ele era
reticente. Na verdade, ele não falava sobre isso, em
absoluto.
Ele ficou conosco por cerca de um ano e então foi
para Nova York, onde havia adquirido um recanto às
margens do Hudson. Passei a visitá-lo uma vez por
ano quando viajava para Nova York - onde, na época,
meu pai e eu comprávamos suprimentos para
abastecer nossa rede de lojas de departamentos no
Estado da Virgínia. O Capitão Carter tinha uma
pequena, mas bela casa em uma escarpa debruçada
sobre o rio. E em uma das minhas últimas visitas, no
inverno de 1885, observei que ele estava muito
ocupado escrevendo, presumo agora, este manuscrito.
Ele me pediu na época que, caso algo acontecesse a
ele, eu me encarregasse de seus bens. Deu-me uma
cópia da chave para um compartimento do cofre que
ficava em seu estúdio, dizendo que ali eu encontraria
seu testamento, além de algumas instruções pessoais
às quais me fez prometer obedecer com absoluto
rigor.
Depois que me retirei para dormir, pude vê-lo de
minha janela, em pé sob o luar e na beira do
penhasco sobre o Hudson com os braços para o alto,
como que em um apelo. Pensei que estivesse rezando,
apesar de nunca ter imaginado que ele fosse um
homem religioso, no sentido estrito da palavra.
Vários meses depois de retornar para casa após minha
última visita - creio que por volta do dia 1º de março
de 1886 -, recebi um telegrama dele me pedindo que
voltasse imediatamente. Sempre fui seu favorito entre
a geração mais nova dos Carters, então me apressei
em cumprir seu pedido.
Desembarquei na pequena estação a cerca de um
quilômetro e meio de suas terras na manhã de 4 de
março de 1886. E quando pedi ao cocheiro que me
levasse até o Capitão Carter, ele respondeu que, caso
eu fosse algum amigo do Capitão, teria notícias muito
ruins a dar. O Capitão fora encontrado morto pelo
vigia de uma propriedade vizinha logo após o
amanhecer daquele dia.
Por alguma razão suas palavras não me
surpreenderam, mas apressei-me para o local o mais
rápido possível para poder cuidar do corpo e dos
serviços.
Encontrei o vigia que o havia descoberto junto a um
policial local e a vários cidadãos reunidos em seu
pequeno estúdio. O vigia relatou os poucos detalhes
ligados ao corpo que, segundo ele, ainda estava
quente quando o achou. Estava deitado, disse ele,
estirado na neve, na direção da escarpa, com os
braços abertos sobre sua cabeça. Quando ele me
mostrou o lugar, lembrei-me de que era o mesmo
ponto onde eu o havia visto naquelas outras noites,
com seus braços para o alto, suplicando aos céus.
Não havia marcas de violência em seu corpo, e com a
ajuda de um médico local os investigadores chegaram
à conclusão de que a causa da morte fora um ataque
cardíaco. Sozinho no estúdio, abri o cofre e retirei o
conteúdo da gaveta onde ele havia dito que eu
encontraria as minhas instruções. Eram, em parte,
realmente peculiares, mas as segui com máxima
dedicação até os últimos detalhes.
Ele me orientava a levar seu corpo para a Virgínia
sem embalsamá-lo, e que fosse colocado em um
caixão aberto dentro de uma tumba que ele mesmo
havia construído previamente. A tumba, como eu
saberia posteriormente, era muito bem ventilada. As
instruções me obrigavam a supervisionar
pessoalmente os serviços, tal como fora pedido,
mesmo que em sigilo, se necessário.
Sua propriedade foi mantida de tal forma que eu
recebesse os lucros durante vinte e cinco anos, após
os quais o imóvel se tornaria meu. Suas próximas
instruções eram relacionadas a este manuscrito, que
eu deveria manter lacrado e em segredo, do modo
como o havia encontrado, por onze anos. E não
deveria divulgar seu conteúdo antes que vinte e um
anos se passassem de sua morte.
Um detalhe estranho sobre a tumba na qual seu corpo
ainda repousa: a pesada porta, equipada com uma
única grande fechadura folheada a ouro, só pode ser
aberta de dentro para fora.
Sinceramente,
Edgar Rice Burroughs

Capítulo 01
NAS COLINAS DO ARIZONA

Sou um homem muito velho. O quanto, eu não sei. É
possível que eu tenha cem anos, talvez mais, mas não
posso calcular porque nunca envelheci como os
outros, ou sequer lembro de minha infância. Por mais
que tente me lembrar, sempre fui um homem, um
homem de uns trinta anos. Minha aparência hoje é a
mesma de quarenta anos atrás, talvez mais; mesmo
assim, sinto que não viverei para sempre, que algum
dia morrerei a verdadeira morte da qual não há
ressurreição. Não sei por que eu deveria temer a
morte. Eu, que morri duas vezes e continuo vivo. Mas
continuo tendo o mesmo medo de alguém que, como
você, nunca morreu antes. E é por causa desse terror
pela morte que, acredito, continuo tão convencido de
minha mortalidade.
Por causa dessa convicção, decidi escrever a história
dos períodos interessantes da minha vida e morte.
Não posso explicar tal fenômeno, mas apenas registrar
aqui, com as palavras de um simples soldado, a
crônica dos estranhos eventos que se abateram sobre
mim durante os dez anos em que meu cadáver
descansou em segredo em uma caverna do Arizona.
Nunca contei esta história antes e homem algum deve
ler este manuscrito antes que eu tenha partido para a
eternidade. Sei que, de maneira geral, a mente
humana não acreditará no que não pode captar, e
também não pretendo ser ridicularizado pelo público,
pelos oradores e pela imprensa, ser apregoado como
um grande mentiroso quando não estou dizendo nada
além da pura verdade que algum dia a ciência
comprovará. É provável que as informações que
arrecadei sobre Marte e o conhecimento que
transcrevo nestas crônicas ajudem em um primeiro
entendimento dos mistérios de nosso planeta parente.
Mistérios para você, não mais para mim.
Meu nome é John Carter, mais conhecido como
Capitão Jack Carter, da Virgínia. No final da Guerra
Civil minhas posses somavam muitas centenas de
milhares de dólares (confederados) e o posto de
capitão comissionado da cavalaria de um exército que
não mais existia. Eu era o servo de um Estado que
havia evaporado junto com as esperanças do Sul. Sem
a quem responder, sem dinheiro e com meus meios
de sobrevivência e defesa perdidos, decidi partir para
o sudoeste e tentar recuperar minhas riquezas
buscando por ouro.
Passei quase um ano prospectando na companhia de
outro oficial confederado, o Capitão James K. Powell,
de Richmond. Tivemos muita sorte quando, no final
do inverno de 1865, após muito esforço e privação,
localizamos o mais notável veio de ouro que nem
nossos sonhos mais delirantes haviam ousado. Powell,
engenheiro de minas por formação, afirmou que
havíamos descoberto mais de um milhão de dólares
do mineral a serem extraídos em meros três meses.
Nossos equipamentos eram tão rústicos que decidimos
que um de nós voltaria à civilização, compraria o
maquinário necessário e retornaria com um número
suficiente de homens aptos para trabalhar na mina.
Por Powell conhecer melhor a região e também ser
familiarizado com os requerimentos técnicos para
mineração, decidimos que ele seria a melhor escolha
para fazer a viagem. Concordamos que seria eu a
defender nossa posse na remota possibilidade de um
explorador errante tentar tomá-la.
No dia 3 de março de 1866, Powell e eu amarramos
suas provisões em dois de nossos burros e nos
despedimos quando montou no cavalo e começou a
descer a colina na direção do vale, rumo à primeira
etapa de sua viagem.
A manhã da partida de Powell estava clara e bela,
assim como quase todas as manhãs no Arizona. Eu
podia vê-lo e a seus animais em sua rota montanha
abaixo. Durante toda a manhã, eu os avistava no topo
de alguma encosta ou planalto. Vi Powell pela última
vez por volta das três da tarde, quando ele adentrou
as sombras das montanhas do outro lado do vale.
Cerca de meia hora depois, ao olhar casualmente
sobre o vale, notei, surpreso, três pequenos pontos
perto do mesmo lugar onde havia visto meu amigo e
seus dois animais de carga pela última vez. Não sou
dado a me preocupar à toa, mas quanto mais tentava
acreditar que tudo estava bem com Powell - que
aqueles pontos que vi em sua trilha eram antílopes ou
cavalos selvagens -, menos conseguia me convencer.
Desde que entramos no território, não avistamos
sequer um índio hostil. E, também, nos tornamos
extremamente descuidados. Costumávamos
ridicularizar as histórias que ouvimos sobre os
inúmeros assaltantes que patrulhavam as trilhas,
cobrando seu pedágio na forma de vidas e tortura a
qualquer grupo de brancos que aparecesse em seu
caminho.
Eu sabia que Powell estava bem armado e, além disso,
tinha experiência em enfrentar índios. Mas eu
também havia sobrevivido e lutado anos a fio entre os
sioux no Norte e sabia que suas chances seriam
pequenas contra um grupo de astuciosos apaches em
seu encalço. Finalmente, não pude mais suportar o
suspense e, armado com meus dois revólveres Colt e
uma carabina, ajustei dois cintos de cartuchos sobre
mim, montei em meu cavalo arreado e desci pela
mesma trilha de Powell.
Assim que cheguei à planície, incitei meu cavalo a
meia-marcha, quando era praticável, até que perto do
crepúsculo encontrei o ponto onde outros rastros se
juntavam aos de Powell. Eram rastros de pôneis
desferrados, três deles, e vieram a galope.
Segui as pegadas rapidamente até a escuridão total,
sendo forçado a esperar a lua nascente, tempo em que
tive a oportunidade de especular se minha
perseguição era sábia. É provável que eu tenha
cogitado perigos impossíveis como alguma dona de
casa preocupada e que, quando eu alcançasse Powell,
daríamos gargalhadas de meu sofrimento. Porém, não
sou inclinado a sensibilidade. Seguir o chamado do
dever, onde quer que me leve, sempre foi uma
espécie de fetiche durante toda a minha vida, o que
deve ser o motivo das honras recebidas por mim por
três repúblicas, condecorações e a amizade de um
velho e poderoso imperador e outros tantos reis
menores a serviço dos quais minha espada se
manchou de vermelho muitas vezes.
Por volta das nove horas, a lua estava suficientemente
clara para que eu prosseguisse meu caminho sem
maiores dificuldades em rastrear a trilha a passos
largos e, em alguns pontos, a trote ligeiro. Por volta
da meia-noite alcancei o poço onde Powell deveria
acampar. Cheguei ao local cautelosamente, mas estava
deserto e sem sinais recentes de acampamento.
Fiquei surpreso ao ver que os rastros dos
perseguidores - pois agora sabia que realmente o eram
- continuaram seguindo Powell após uma breve
parada no poço. E mantinham a mesma velocidade
que a dele.
Eu estava convencido de que os perseguidores eram
apaches e que queriam capturar Powell vivo pelo
prazer maquiavélico da tortura. Aticei meu cavalo
adiante, em galope ainda mais perigoso, na esperança
de alcançá-los antes que os covardes o atacassem.
Outras conjeturas foram subitamente suspensas pelo
som ao longe de dois tiros à minha frente. Eu sabia
que Powell precisava de mim naquele derradeiro
momento e, imediatamente, esporei meu cavalo
subindo o mais rápido possível pela trilha estreita e
difícil montanha acima.
Eu havia percorrido cerca de um quilômetro e meio
ou mais sem ouvir outros sons quando a trilha
subitamente desembocou em uma pequena clareira
perto do topo do caminho. Eu havia passado por um
desfiladeiro alto e estreito antes de chegar à clareira,
e a visão com a qual me deparei encheu meus olhos
de confusão e terror.
A pequena extensão de terra plana estava branca de
tantas tendas, e havia provavelmente cinqüenta
guerreiros índios amontoados em volta de um objeto
no centro do acampamento. Sua atenção estava tão
fixada no objeto em questão que sequer me notaram,
e eu poderia ter facilmente recuado para as sombras
do desfiladeiro e escapado em perfeita segurança. O
fato de esse pensamento não ter me ocorrido até o dia
seguinte anula qualquer direito de reclamar heroísmo
de minha parte, coisa que a narração deste episódio
poderia fazer cair sobre mim.
Não acho que eu seja feito do material que são
construídos os heróis porque, em todas as vezes que
meus atos voluntários me colocaram face a face com a
morte, não me lembro de nenhuma em que pensei em
outra alternativa até algumas horas depois. Minha
mente é evidentemente constituída de forma a me
forçar ao chamado do dever sem que seja preciso um
cansativo processo mental. Mas, de qualquer maneira,
nunca me arrependi por não ter a covardia como
opção.
Sendo assim, eu estava certo de que Powell era o
centro da atenção, mas se pensei ou agi primeiro, não
sei. No mesmo instante em que a cena se desdobrou
diante de mim, eu já havia sacado meus revólveres e
estava disparando contra o exército de guerreiros
inimigos, atirando rápido e gritando a plenos
pulmões. Sozinho, eu não poderia ter escolhido
melhor tática, uma vez que os vermelhos,
convencidos pela surpresa de que nada menos que
todo um regimento estava sobre eles, correram em
todas as direções em busca de seus arcos, flechas e
rifles.
A sensação que essa fuga desabalada me apresentou
foi de apreensão e raiva. Sob os raios claros do luar do
Arizona, jazia Powell, seu corpo crispado pelas
flechas hostis dos índios. Eu estava completamente
convencido de que ele já estava morto, mas mesmo
assim salvaria seu corpo da mutilação pelas mãos dos
apaches tão rápido quanto o salvaria de uma morte
certa.
Cavalguei para perto dele e desci da sela. Segurando-o
pelo cinturão de cartuchos, coloquei-o nas costas de
minha debilitada montaria. Um breve olhar para trás
me convenceu de que retornar pelo mesmo caminho
por onde tinha vindo seria mais perigoso do que
continuar através do platô. Então, esporando meu
pobre animal, acelerei na direção da abertura da
passagem que eu conseguia distinguir do outro lado da
planície.
A essa altura os índios já haviam descoberto que eu
estava sozinho e fui perseguido por imprecações,
flechas e tiros de rifles. Como apenas imprecações são
fáceis de se mirar sob a luz da lua, e em razão de
estarem irritados com o modo súbito com que
cheguei e de eu ser um alvo em movimento, consegui
me salvar de vários projéteis mortais inimigos até
alcançar as sombras dos picos ao redor antes que
meus perseguidores pudessem se organizar.
Meu animal cavalgava praticamente sem ser guiado
porque eu sabia que, provavelmente, eu tinha menos
noção da localização da trilha para a passagem do que
ele. Assim, ocorreu que ele adentrou um desfiladeiro
que levava ao topo das montanhas e não à passagem
pela qual eu ansiava me levar ao vale e à segurança. É
provável, porém, que eu deva minha vida a este fato e
às marcantes experiências e aventuras que recaíram
sobre mim pelos próximos dez anos.
O primeiro aviso de que eu estava na trilha errada
veio quando ouvi os gritos dos perseguidores
selvagens rapidamente se tornando mais e mais
distantes do meu lado esquerdo.
Eu sabia que eles haviam passado pela esquerda da
formação de rochas pontudas na beira do platô, à
direita da qual meu cavalo havia nos carregado, a mim
e o corpo de Powell.
Interrompi meu avanço em um pequeno promontório
plano com vista para a trilha abaixo e à esquerda, e vi
o grupo de selvagens perseguidores desaparecendo em
uma área próxima ao pico vizinho.
Eu sabia que os índios logo descobririam que estavam
na trilha errada e que a busca por mim seria retomada
na direção correta assim que localizassem minhas
pegadas.
Eu havia percorrido apenas uma pequena distância
quando o que pareceu ser uma excelente trilha abriu-
se perto da face de um alto penhasco. A trilha era
plana, bastante ampla e seguia para cima na direção
em que eu desejava seguir. O penhasco erguia-se por
centenas de metros à minha direita e, à minha
esquerda, havia uma queda similar e quase
perpendicular para o fundo de uma ravina rochosa.
Segui por essa trilha por talvez uns cem metros
quando uma curva acentuada para a direita levou-me
até a boca de uma grande caverna. A abertura tinha
aproximadamente um metro e vinte de altura e cerca
de outro metro de largura. Ali acabava a trilha.
Já era manhã e, com a costumeira ausência de
alvorada - uma surpreendente característica do
Arizona o dia havia surgido quase sem aviso.
Desmontei, estendi Powell no chão, mas um exame
mais detalhado não revelou a menor centelha de vida.
Verti água de meu cantil por entre seus lábios mortos,
banhei sua face e esfreguei suas mãos, tentei reanimá-
lo incessantemente por quase uma hora, mesmo
sabendo que ele já estava morto.
Eu tinha muito apreço por Powell, que era um
homem completo em todos os aspectos, um refinado
cavalheiro sulista, um amigo leal e verdadeiro, e foi
com um sentimento do mais profundo pesar que
finalmente desisti de minhas grosseiras tentativas de
ressuscitá-lo.
Deixando o corpo de Powell depositado na borda,
rastejei para o interior da caverna para um
reconhecimento do terreno.
Encontrei uma grande câmara com possivelmente
trinta metros de diâmetro e dez ou doze metros de
altura, um piso liso e bastante desgastado, e muitas
outras evidências de que a caverna havia, em algum
período remoto, sido habitada. O fundo da caverna
estava tão perdido na densa escuridão que não pude
distinguir se havia aberturas para outros aposentos ou
não.
Enquanto continuava meu exame, comecei a ser
tomado por uma agradável sonolência, a qual atribuí à
fadiga de minha longa e árdua cavalgada e à excitação
da luta e da perseguição. Senti-me relativamente
seguro em minha posição atual, já que sabia que um
homem só seria capaz de defender a trilha para a
caverna contra todo um exército.
Logo fiquei tão sonolento que quase não pude resistir
ao forte desejo de me jogar no chão da caverna para
descansar por alguns momentos, mas eu sabia que esta
não era uma opção, já que significaria a morte certa
nas mãos de meus amigos de pele vermelha, que
poderiam atacar a qualquer momento. Com esforço,
comecei a me dirigir para a abertura da caverna
apenas para cambalear, como que embriagado, contra
uma parede lateral, e daí deslizar de bruços para o
chão.

Capítulo 02
A FUGA DA MORTE

Uma sensação de deliciosa languidez se abateu sobre
mim, meus músculos relaxaram e estava a ponto de
me entregar ao desejo de dormir quando o som de
cavalos se aproximando chegou aos meus ouvidos.
Tentei me erguer, mas fiquei horrorizado em
descobrir que meus músculos se recusavam a
responder aos meus comandos. Eu continuava
completamente desperto, mas incapaz de mover um
músculo sequer, como se tivesse me transformado em
pedra. Foi então, pela primeira vez, que notei um
leve vapor preenchendo a caverna. Era extremamente
tênue e só podia ser notado contra a abertura que
levava à luz do dia. Também chegou às minhas
narinas um odor ligeiramente acre, e pude apenas
supor que eu havia sido abatido por algum gás
venenoso. Mas, como mantinha a consciência e ainda
assim estava incapacitado de me mover, era algo que
não conseguia compreender.
Eu havia me deitado voltado para a abertura da
caverna, de onde podia ver um pequeno trecho da
trilha que se encontrava entre a caverna e a curva do
penhasco ao redor do qual a trilha passava. O barulho
de cavalos se aproximando havia cessado e julguei que
os índios estivessem rastejando furtivamente em
minha direção ao longo da pequena saliência que
levava à minha tumba em vida. Lembro-me de ter
desejado que acabassem comigo rapidamente, já que
não tinha nenhum apreço especial pela idéia das
incontáveis coisas que poderiam fazer comigo caso
lhes aprouvesse.
Não precisei esperar muito até que um som furtivo
me informasse de sua proximidade e, em seguida, um
rosto encoberto por um chapéu e com listras pintadas
esticou-se cuidadosamente próximo da borda do
penhasco. E olhos selvagens encontraram os meus.
Tinha certeza de que ele podia me ver na mortiça luz
da caverna, uma vez que toda a luz do sol nascente
projetava-se sobre mim pela abertura.
O índio, em vez de se aproximar, simplesmente parou
e encarou-me. Seus olhos saltando das órbitas e seu
queixo caído. E então outro rosto selvagem apareceu,
e um terceiro e um quarto e um quinto, erguendo
seus pescoços sobre os ombros dos companheiros que
não ousavam ultrapassar a estreita fenda. Cada rosto
constituía uma imagem de assombro e medo, mas por
qual razão não pude atinar, nem vim a descobrir antes
que se passassem dez anos. Era aparente que havia
mais guerreiros por trás dos que me observavam, já
que os primeiros transmitiam palavras sussurrantes
para os que se encontravam para trás.
De repente, um lamento baixo, porém distinto, foi
emitido nas profundezas da caverna atrás de mim.
Quando os índios o ouviram, viraram-se e correram
aterrorizados, assolados pelo pânico. Tão furiosos
foram seus esforços em escapar do ser invisível atrás
de mim que um dos guerreiros foi impetuosamente
arremessado do penhasco para as rochas abaixo. Seus
gritos desesperados ecoaram pelo desfiladeiro por um
curto período de tempo, e mais uma vez tudo ficou
em silêncio.
O som que os havia aterrorizado não se repetiu, mas
foi suficiente para que eu começasse a especular a
respeito do possível horror oculto nas sombras às
minhas costas. O medo é um sentimento relativo, de
modo que só posso medir minhas impressões naquele
momento por meio das situações de perigo que vivi
em períodos anteriores àquele, ou por meio das
experiências que passei desde então; mas posso
afirmar sem nenhuma vergonha que, se as sensações
que suportei durante os minutos seguintes foram de
medo, que Deus ajude o covarde, pois a covardia é,
sem sombra de dúvidas, sua própria punição.
Estar paralisado de costas para um perigo tão horrível
e desconhecido, de cujo som os ferozes guerreiros
apaches fogem desenfreadamente como um rebanho
de ovelhas fugiria de uma matilha de lobos, me parece
a última palavra em situações apavorantes para um
homem que sempre esteve acostumado a lutar por sua
vida com todas as forças de sua poderosa constituição.
Diversas vezes pensei ter ouvido sons débeis atrás de
mim, como se alguém estivesse se movendo com
cuidado, mas finalmente até esses sons cessaram e fui
deixado só, para contemplar minha própria situação.
Podia apenas conjeturar vagamente a causa de minha
paralisia e minha única esperança era a de que passas-
se de forma tão repentina quanto se abateu sobre
mim.
No final da tarde, meu cavalo, que ficara parado com
as rédeas soltas diante da caverna, começou a descer
lentamente a trilha - evidentemente em busca de
comida e água -, e fiquei só com o misterioso e
desconhecido companheiro e com o corpo sem vida
de meu amigo, que, dentro de meu campo de visão,
jazia na saliência em que o havia colocado no início
da manhã.
De lá até possivelmente a meia-noite, tudo era
silêncio, o silêncio da morte. Então, repentinamente,
o pavoroso lamento da manhã abateu-se sobre meus
alarmados ouvidos, e novamente das sombras escuras
veio o som de algo se movendo e um fraco murmúrio,
como o de folhas mortas. O choque para o meu já
extenuado sistema nervoso foi terrível ao extremo e,
com um esforço sobre-humano, esforcei-me para
quebrar meus terríveis grilhões. Foi um esforço da
mente, da vontade, dos nervos; não muscular, pois
não era capaz de mover nem meu dedo mínimo, mas
não menos poderoso apesar de tudo. E então algo
cedeu, houve uma momentânea sensação de náusea,
um barulho agudo como o estalar de um fio de aço, e
me pus em pé de costas contra a parede da caverna,
encarando meu inimigo desconhecido.
A luz da lua inundou a caverna e, diante de mim,
estava meu próprio corpo, na mesma posição em que
esteve deitado durante todas aquelas horas, com os
olhos encarando a borda externa e as mãos pousadas
frouxamente sobre o chão. Primeiro observei meu
corpo sem vida sobre o chão da caverna e, em
seguida, olhei para mim mesmo em total
perplexidade, pois ali eu jazia vestido, e, todavia,
estava em pé, nu como no momento de meu
nascimento.
A transição foi tão repentina e tão inesperada que por
um momento me esqueci de tudo, exceto minha
estranha metamorfose. Meu primeiro pensamento foi:
"Então isso é a morte! Realmente passei para sempre
para aquela outra vida!" Mas não podia acreditar nisso,
uma vez que sentia meu coração batendo contra
minhas costelas em virtude do vigor de meu esforço
em me libertar do torpor que me havia acometido.
Minha respiração saía em arfadas rápidas e curtas, um
suor frio saía de cada poro de meu corpo e a antiga
prática do beliscão revelou o fato de que eu não era
nada além de um espectro.
Minha atenção foi nova e repentinamente chamada
de volta para os meus arredores por uma repetição do
estranho lamento vindo das profundezas da caverna.
Minhas armas estavam atadas ao meu corpo sem vida
que, por alguma razão insondável, me era impossível
tocá-lo. Minha carabina estava em seu coldre,
amarrada à minha sela, e como meu cavalo havia
fugido, fui deixado sem meios de defesa. Minha única
alternativa parecia ser a fuga, e minha decisão se
cristalizou com a recorrência do ruído daquilo que
agora parecia, na escuridão da caverna e para minha
imaginação distorcida, estar rastejando furtivamente
em minha direção.
Incapaz de resistir por mais tempo à tentação de fugir
daquele lugar terrível, pulei rapidamente através da
abertura para a luz das estrelas de uma noite clara do
Arizona. O ar fresco e revigorante das montanhas
fora da caverna agiu como um tônico imediato e senti
uma vivacidade e coragem renovadas fluindo através
de meu corpo. Parando na extremidade da abertura,
repreendi-me pelo que, agora, parecia ser uma
apreensão totalmente injustificada. Conjeturei que
havia permanecido deitado e indefeso durante muitas
horas dentro da caverna, que nada me havia
molestado, e meu bom senso, quando capaz de seguir
um raciocínio claro e lógico, convenceu-me de que
os ruídos que ouvi deveriam ser resultado de causas
puramente naturais e inofensivas. Provavelmente, a
configuração da caverna era tal que uma leve brisa
poderia causar os sons que ouvi.
Decidi investigar, mas primeiro ergui a cabeça para
encher meus pulmões com o puro e revigorante ar
noturno das montanhas.
Ao fazer isso, vi estendendo-se muito abaixo de mim
a bela vista do desfiladeiro rochoso e uma planície
pontilhada de cactos, transformada pela luz do luar
em um milagre de doce esplendor e impressionante
encanto.
Poucas maravilhas no oeste são mais inspiradoras que
as belezas de uma paisagem banhada pelo luar no
Arizona. As montanhas prateadas na distância, as
estranhas luzes e sombras sobre as encostas
escarpadas, os riachos e os detalhes inusitados dos
rígidos e belos cactos formam uma imagem ao mesmo
tempo mágica e inspiradora, como se estivéssemos
captando pela primeira vez o vislumbre de algum
mundo morto e esquecido, tão diferente de qualquer
outro recanto sobre a terra.
Assim, parado em meditação, desviei meu olhar da
paisagem para os céus, no qual uma miríade de
estrelas formava uma abóbada para as maravilhas da
cena terrestre. Minha atenção foi rapidamente
desviada por uma grande estrela vermelha próxima do
horizonte distante. Ao mirá-la, senti uma esmagadora
fascinação - era Marte, o deus da guerra que, para
mim, homem lutador, sempre teve o poder de
irresistível sedução. Ao olhar para ele naquela
longínqua noite, o astro parecia me chamar através do
inconcebível vazio, seduzindo-me, atraindo-me como
o ímã atrai uma partícula de ferro.
Meu desejo ultrapassava qualquer obstáculo. Fechei os
olhos, estiquei meus braços em direção ao deus de
minha vocação e senti-me atraído, com a rapidez do
pensamento, através da incomensurável imensidão do
espaço. Houve um instante de frio extremo e absoluta
escuridão.

Capítulo 03
MINHA CHEGADA A MARTE

Abri meus olhos para uma estranha e bizarra
paisagem. Sabia que estava em Marte e nem uma vez
questionei minha sanidade ou se estava acordado. Não
estava dormindo, não havia necessidade de me
beliscar dessa vez. Minha consciência disse
claramente que eu estava em Marte da mesma forma
que sua mente lhe diz que você está na Terra. Você
não questiona o fato, e eu não o questionei.
Eu estava deitado de bruços sobre uma cama
amarelada, forrada com uma vegetação parecida com
musgo que se esticava ao meu redor em todas as
direções por intermináveis quilômetros. Eu parecia
estar deitado num vale profundo e circular, ao longo
da borda externa, cujas irregularidades das colinas
baixas pude distinguir.
Era meio-dia, o sol brilhava com toda força sobre
mim e o calor era intenso sobre meu corpo nu, ainda
que não mais forte do que teria sido em condições
similares em um deserto do Arizona.
Aqui e ali havia leves afloramentos de pedras com
quartzo que cintilavam à luz do sol. Um pouco à
minha esquerda, talvez a uns cem metros, havia uma
construção baixa e murada, com cerca um metro e
meio de altura. Não havia água ou outra vegetação a
vista que não o musgo e, como estava com sede,
resolvi fazer uma pequena exploração.
Ao dar impulso com meus pés tive minha primeira
surpresa marciana. O esforço, que na Terra teria me
colocado em pé, me fez subir cerca de três metros no
ar marciano. No entanto, pousei suavemente no solo,
sem choque ou batida dignos de nota. Nesse
momento teve início uma série de evoluções que
mesmo na época pareceram ridículas ao extremo.
Descobri que deveria aprender a andar novamente,
uma vez que o esforço muscular que me fazia
caminhar de maneira fácil e segura na Terra me pre-
gava uma estranha peça em Marte.
Em vez de avançar de forma digna e equilibrada,
minhas tentativas de caminhar resultaram em uma
variedade de saltos que me arremessavam para longe
do chão cerca de meio metro a cada passo e
terminavam comigo de cara ou de costas no chão a
cada dois ou três saltos. Meus músculos,
perfeitamente ajustados e acostumados à força da
gravidade na Terra, brincavam de forma maldosa em
minha primeira tentativa de me ajustar à gravidade e à
pressão atmosférica menores de Marte.
Contudo, eu estava determinado a explorar a estrutura
baixa que constituía a única evidência de habitação à
vista, de forma que me deparei por acaso com o plano
singular de reverter ao primeiro princípio da
locomoção, engatinhar. Sai-me suficientemente bem
nisso, e em instantes havia atingido o muro baixo e
circular da estrutura.
A construção parecia não ter portas ou janelas na
lateral mais próxima a mim, mas como o muro tinha
pouco mais de um metro de altura, me coloquei
cuidadosamente em pé e olhei sobre a parede para a
visão mais estranha que jamais havia visto.
O teto da estrutura era feito de vidro sólido com
cerca de dez centímetros de espessura e, abaixo dele,
havia várias centenas de grandes ovos perfeitamente
redondos e brancos como neve. Eles eram quase
uniformes em tamanho, com cerca de sessenta
centímetros de altura e um pouco menos de diâmetro.
Cinco ou seis ovos já haviam chocado, e as grotescas
caricaturas que se sentavam piscando sob a luz do sol
foram suficientes para me fazer duvidar de minha
sanidade. Pareciam ser constituídas principalmente de
uma cabeça, corpo pequeno e esquelético, pescoço
comprido e seis pernas, ou, como aprendi mais tarde,
duas pernas e dois braços, com um par de membros
intermediários que podiam ser utilizados como braços
ou pernas, de acordo com a vontade. Os olhos
estavam posicionados em pontos extremos das laterais
da cabeça, um pouco acima do centro, e se
projetavam de tal forma que poderiam olhar para a
frente ou para trás de forma independente um do
outro, permitindo assim que o estranho animal
olhasse em qualquer direção, ou em duas direções ao
mesmo tempo, sem a necessidade de virar a cabeça.
As orelhas, um pouco acima dos olhos e próximas
uma da outra, eram como pequenas antenas côncavas
projetando-se não mais do que uma polegada nesses
jovens espécimes. Seus narizes não passavam de
fendas longitudinais no meio de suas faces, entre suas
bocas e orelhas.
Não havia penas em seus corpos, que apresentavam
um leve tom amarelo-esverdeado. Nos adultos, como
viria a aprender logo, essa cor escurece até chegar a
um verde-oliva e é mais escura nos machos que nas
fêmeas. Além disso, as cabeças dos adultos não são
tão desproporcionais aos corpos como no caso dos
jovens.
As íris eram vermelho-sangue, como nos albinos,
enquanto a pupila era escura. O globo ocular em si era
bastante branco, assim como os dentes. Esses últimos
atribuíam uma aparência feroz a uma fisionomia que
já seria apavorante e terrível, uma vez que os
pontiagudos caninos faziam uma curva para cima,
terminando perto de onde os olhos dos seres
humanos se localizam. O branco dos dentes não se
parecia com o do marfim, mas com a mais branca e
brilhante porcelana. Contra o fundo escuro de suas
peles cor de oliva, seus caninos se sobressaíam de for-
ma impressionante, fazendo com que essas armas
tivessem uma aparência formidável.
Notei a maioria desses detalhes mais tarde, já que tive
pouco tempo para especular sobre as maravilhas de
minha nova descoberta. Eu tinha observado que os
ovos estavam em processo de eclosão e, enquanto
fiquei assistindo aos abomináveis pequenos monstros
quebrarem as cascas, deixei de notar a aproximação de
cerca de vinte marcianos adultos às minhas costas.
Vieram através do musgo macio e abafado que cobre
praticamente toda a superfície de Marte, com exceção
das áreas congeladas nos pólos e das regiões
cultivadas dispersas, e poderiam ter-me capturado
com facilidade, porém suas intenções eram bem mais
sinistras. Foi o barulho dos apetrechos do guerreiro
mais à frente que me chamou a atenção.
Minha vida estava por um fio, e muitas vezes me
admiro ter escapado tão facilmente. Caso o rifle do
líder desse grupo não balançasse de seu coldre ao lado
da sela, de tal modo que batia a coronha contra a sua
grande lança de metal, eu teria sido morto sem
imaginar sequer que a morte estava próxima. Mas o
pequeno som fez com que eu me virasse e ali, sobre
mim, a menos de dez passos de distância do meu
peito, estava a ponta da grande lança de doze metros
de comprimento com a extremidade revestida de
metal reluzente, mantida baixa na lateral de uma
versão montada dos pequenos demônios que eu
observava.
Quão fracos e inofensivos eles pareciam agora, ao
lado dessas enormes e terríveis encarnações do ódio,
da vingança e da morte. O próprio homem, pois assim
posso o chamar, tinha pelo menos quatro metros e
meio de altura e, na Terra, teria pesado em torno de
cento e oitenta quilos. Estava sentado em sua
montaria como nós nos sentamos em um cavalo,
segurando o torso do animal com seus membros
inferiores, enquanto as mãos de seus dois braços
direitos seguravam sua imensa lança ao lado de sua
montaria. Seus dois braços esquerdos estavam
estendidos lateralmente para ajudar a preservar seu
equilíbrio, a coisa por ele montada não apresentava
estribo ou rédeas de qualquer espécie para condução.
E sua montaria! Como podem palavras humanas
descrevê-la! Atingia três metros na altura do ombro,
tinha quatro pernas de cada lado, um rabo achatado e
largo - maior na ponta que na raiz, o qual mantinha
reto e para trás enquanto corria -, e uma boca
escancarada que dividia sua cabeça do focinho até o
pescoço longo e volumoso.
Como seu mestre, era totalmente desprovido de
cabelo, mas possuía uma cor de ardósia escura, sendo
extremamente liso e brilhante. Sua barriga era branca,
e suas pernas mudavam da cor de ardósia de seus
ombros e quadris para um amarelo vivo nos pés. Os
pés em si eram fortemente acolchoados e sem unhas,
fato este que também contribuiu para sua
aproximação silenciosa e que, assim como a
multiplicidade de pernas, constitui um traço
característico da fauna de Marte. Apenas o tipo mais
evoluído de homem e um outro animal, o único
mamífero existente em Marte, possuem unhas bem
formadas, e não existe absolutamente nenhum animal
com casco lá.
Seguindo esse primeiro atacante demoníaco
enfileiravam-se dezenove outros, similares em todos
os aspectos mas, como aprendi mais tarde,
apresentando características que lhes são peculiares,
exatamente como não há dois de nós idênticos,
embora sejamos todos forjados em um molde
semelhante. Essa imagem ou, melhor dizendo,
pesadelo materializado, que descrevi detalhadamente,
causou-me apenas uma impressão terrível e imediata
conforme girei para me deparar com ela.
Desarmado e desnudo como estava, a primeira lei da
natureza manifestou-se na única solução possível para
meu problema imediato, que era sair da área de
alcance da ponta da lança posicionada para o ataque.
Conseqüentemente, dei um salto bastante mundano, e
ao mesmo tempo sobre-humano, para atingir o topo
da incubadora marciana, pois determinei que se
tratava desse tipo de estrutura.
Meu esforço foi coroado com um sucesso que me
chocou não menos do que pareceu surpreender os
guerreiros marcianos. Fui elevado dez metros no ar e
aterrissei a cerca de trinta metros de meus
perseguidores, do lado oposto da estrutura.
Desci no musgo macio de forma fácil e sem
problemas, e, virando-me, vi meus inimigos
alinharem-se ao longo da parede adiante. Alguns me
inspecionavam com expressões que, posteriormente,
descobri serem de extrema surpresa, e os outros
estavam evidentemente satisfeitos por eu não ter
molestado sua prole.
Estavam conversando em tom baixo, gesticulando e
apontando em minha direção. Sua descoberta de que
eu não havia machucado os pequenos marcianos e
que estava desarmado deve ter feito com que me
encarassem com menos ferocidade. Mas, como
descobri depois, o que mais pesou a meu favor foi a
demonstração de minhas habilidades em saltar
obstáculos.
Embora os marcianos sejam imensos, seus ossos são
muito grandes e sua musculatura é desenvolvida
apenas na proporção da gravidade que devem
suportar. O resultado é que eles são infinitamente
menos ágeis e menos poderosos, em proporção à seu
peso, que um homem terrestre, e duvido que
qualquer um deles, caso fosse de repente transportado
para a Terra, conseguisse erguer o próprio peso do
chão - de fato, estou convencido de que seriam
incapazes de fazê-lo.
Meu feito era tão maravilhoso em Marte como o teria
sido na Terra e, assim, abandonando o desejo de me
aniquilar, passaram a me encarar como uma magnífica
descoberta a ser capturada e exibida entre seus
companheiros.
A vantagem que minha inesperada agilidade me
proporcionou permitiu que eu formulasse planos para
o futuro imediato e que notasse com mais atenção a
aparência dos guerreiros, pois em minha mente não
pude desassociar essa gente dos guerreiros que,
apenas um dia antes, haviam me perseguido.
Notei que cada um deles estava armado com várias
outras armas além da enorme lança que descrevi. A
arma que fez com que me decidisse contra uma
tentativa de fuga por vôo foi a que evidentemente
correspondia a algum tipo de rifle e em cujo
manuseio senti, por alguma razão, serem eles bastante
eficientes.
Esses rifles eram de um metal branco com coronha de
madeira que, aprendi mais tarde, ser de uma planta
muito leve e imensamente dura, muito apreciada em
Marte e completamente desconhecida para nós,
habitantes da Terra. O metal do cano era uma liga
composta principalmente por alumínio e aço, que
aprenderam a temperar até atingir uma dureza que
excede em muito a dureza do aço com que estamos
familiarizados. O peso desses rifles é
comparativamente leve e, com os projéteis explosivos
de rádio de baixo calibre que utilizam - e o grande
comprimento do cano - são extremamente mortais a
distâncias que seriam inconcebíveis na Terra. O raio
de alcance efetivo teórico desse rifle é de quase
quinhentos metros, mas o melhor que podem
realmente fazer em serviço quando equipados com
seus localizadores sem fio e miras é de um pouco mais
de trezentos metros.
Isso foi mais que suficiente para me imbuir de grande
respeito pelas armas de fogo marcianas, e alguma
força telepática deve ter me advertido contra uma
tentativa de fuga em plena luz do dia bem debaixo dos
focinhos de vinte destas máquinas da morte.
Os marcianos, depois de conversarem por algum
tempo, viraram-se e partiram na direção de onde
vieram, deixando um de seus homens sozinho ao lado
da construção. Quando já haviam se afastado cerca de
duzentos metros, se detiveram e, virando suas
montarias em nossa direção, sentaram-se e ficaram
observando o guerreiro parado ao lado da construção.
O guerreiro em questão era aquele cuja lança quase
havia me perfurado e era evidentemente o líder do
grupo, já que notei que eles pareceram ter tomado
suas posições atuais segundo suas ordens. Quando sua
brigada estancou, ele desmontou, jogou sua lança ao
chão, baixou seus braços pequenos e deu a volta na
extremidade da incubadora vindo em minha direção,
completamente desarmado e tão desnudo quanto eu,
com exceção dos ornamentos amarrados em sua
cabeça, membros e peito.
Quando estava a cerca de quinze metros de mim, ele
retirou um enorme bracelete de metal e, segurando-a
em minha direção na palma aberta de sua mão,
dirigiu-se a mim com uma voz clara e ressonante, mas
em um idioma que, desnecessário dizer, não pude
entender. Ele permaneceu parado como que
esperando uma resposta, estirando suas orelhas em
forma de antenas e mantendo seus olhos de aparência
estranha fixos na minha direção.
Como o silêncio se tornou incômodo, decidi arriscar
um pouco de conversa de minha parte, já que
acreditei que ele estivesse fazendo uma proposta de
paz. O baixar de suas armas e a retirada de sua tropa
antes de seu avanço em minha direção teriam
significado uma missão pacífica em qualquer lugar na
Terra, então, por que não em Marte?
Colocando minha mão sobre meu coração, fiz uma
reverência ao marciano e expliquei que, embora não
tivesse entendido seu idioma, suas ações
demonstravam a paz e amizade que, no momento
atual, me eram mais caras ao coração. Claro que daria
no mesmo se eu fosse um riacho murmurante, dado o
entendimento que meu discurso causou na criatura,
mas ele compreendeu a ação que imediatamente se
seguiu às minhas palavras.
Esticando minha mão em sua direção, avancei e tomei
o bracelete de sua palma aberta, prendendo-o sobre
meu braço acima do cotovelo. Sorri para ele e fiquei
esperando. Sua boca larga estendeu-se em um sorriso
de resposta e, prendendo um de seus braços
intermediários no meu, ele se virou e dirigiu-se para
sua montaria. Ao mesmo tempo, gesticulou aos seus
seguidores que avançassem. Eles começaram a
caminhar em nossa direção em uma corrida selvagem,
mas foram detidos por um sinal dele. Evidentemente
ele temeu que eu, caso me assustasse novamente,
desta vez saltasse totalmente para fora de seu alcance.
Ele trocou algumas palavras com seus homens,
gesticulou para mim que montasse na garupa de um
deles e, em seguida, montou em seu animal. O
indivíduo escolhido baixou duas ou três mãos e me
colocou atrás de si, na lustrosa traseira de sua
montaria, onde me segurei da melhor forma possível
pelas faixas e correias que prendiam as armas e
ornamentos do marciano.
Assim, toda a procissão se virou e galopou na direção
da cadeia de colinas ao longe.

Capítulo 04
UM PRISIONEIRO

Havíamos percorrido talvez dez milhas quando o
terreno começou a se elevar de forma muito rápida.
Nós estávamos, como vim à saber depois, nos
aproximando da margem de um dos mares de Marte,
todos mortos há muito tempo, no fundo do qual
ocorreu meu encontro com os marcianos.
Em pouco tempo chegamos aos pés das montanhas e,
depois de atravessar uma estreita ravina, saímos em
um vale aberto, na extremidade remota do qual havia
um planalto, sobre o qual contemplei uma enorme
cidade. Galopamos em sua direção, entrando através
do que parecia ser uma estrada abandonada que levava
para fora da cidade, mas chegava apenas até a borda
do planalto, onde acabava abruptamente em um lance
de escada de degraus amplos.
Mediante atenta observação notei, conforme passava
pelos edifícios, que eles estavam desertos e, embora
não estivessem muito deteriorados, tinham a
aparência de não serem ocupados há anos,
possivelmente há eras. Na direção do centro da
cidade havia uma grande praça, onde nela e nos
edifícios imediatamente ao seu redor estavam
acampadas algo em torno de novecentas a mil
criaturas da mesma raça de meus captores, pois assim
passara a considerá-los, apesar da maneira suave com
que fui aprisionado.
Com exceção de seus ornamentos, todos estavam nus.
As mulheres apresentavam uma aparência um pouco
diferente da dos homens, exceto pelo fato de que suas
presas eram muito maiores em relação à sua altura,
em alguns casos curvando-se quase até as orelhas
posicionadas no alto da cabeça. Os corpos eram
menores e mais claros, e os dedos de seus pés
ostentavam unhas rudimentares, totalmente ausentes
entre os machos. A altura das fêmeas adultas variava
entre três e três metros e meio.
As crianças eram de cor mais clara, mais clara até que
as mulheres, e todos pareciam idênticos à meus olhos,
a não ser pelo fato de que alguns eram mais altos do
que outros. Por serem mais velhos, presumi.
Não vi sinais de idade avançada entre eles, nem havia
qualquer diferença notável em sua aparência desde a
maturidade, cerca de quarenta anos, até
aproximadamente os mil anos, quando volun-
tariamente saem em sua última e estranha
peregrinação até o rio Iss, o qual nenhum marciano
vivo sabe aonde vai e de onde nenhum marciano
jamais voltou; caso retornasse depois de embarcar
uma vez em suas frias e escuras águas, não teria
permissão de viver.
Estima-se que apenas um marciano em mil morre de
doença ou enfermidade, e que por volta de vinte
fazem a peregrinação voluntária. Os outros
novecentos e setenta e nove morrem de forma
violenta em duelos, caçadas, na aviação e na guerra.
Mas talvez a maior perda de vidas ocorra, de longe,
durante a infância, quando um vasto número de
pequenos marcianos cai vítima dos grandes macacos
albinos de Marte.
A expectativa média de vida de um marciano após a
idade madura é de cerca de trezentos anos, mas esse
número seria próximo da marca dos mil anos, não
fossem os vários caminhos que levam a uma morte
violenta. Devido aos escassos recursos do planeta,
evidentemente tornou-se necessário contrabalançar a
crescente longevidade decorrente de suas notáveis
habilidades em medicina e cirurgia, de modo que a
vida humana em Marte passou a ser considerada de
forma leviana, como evidenciado por seus perigosos
esportes e guerras quase contínuas entre as diversas
comunidades.
Há outras causas naturais que contribuem para a
tendência de diminuição da população, mas nada
colabora de forma mais intensa para esse fim do que o
fato de nunca um marciano, macho ou fêmea, estar
voluntariamente desprovido de uma arma de
destruição.
Ao nos aproximarmos da praça e minha presença ser
descoberta, fomos imediatamente rodeados por
centenas de criaturas que pareciam ansiosas em me
puxar de meu assento atrás de meu guarda. Uma
palavra do líder do grupo calou seu clamor e trotamos
através da praça até a entrada do edifício mais
magnífico que olhos mortais já puderam vislumbrar.
O edifício era baixo, mas cobria uma enorme área.
Havia sido construído em mármore branco reluzente
incrustado com pedras douradas e brilhantes que
ofuscavam e cintilavam sob a luz do sol. A entrada
principal tinha cerca de trinta metros de largura e
projetava-se do edifício formando uma enorme
abóbada sobre o hall de entrada. Não havia escadarias,
somente uma leve rampa para o primeiro andar do
edifício se abria para uma enorme câmara rodeada por
galerias.
No piso dessa câmara, repleta de mesas e cadeiras
altamente trabalhadas, estavam reunidos cerca de
quarenta ou cinqüenta marcianos machos ao redor
dos degraus de uma tribuna. Na plataforma,
perfeitamente agachado, encontrava-se um enorme
guerreiro pesadamente carregado com paramentos
metálicos, penas de cores alegres e adornos
belamente elaborados em couro engenhosamente
cravejados de pedras preciosas. De seus ombros
pendia uma capa curta de pele branca alinhada
revestida com seda escarlate brilhante.
O que mais me impressionou em relação à assembléia
e ao hall no qual estavam reunidos foi o fato de as
criaturas serem totalmente desproporcionais em
relação às mesas, cadeiras e outros móveis, que
possuíam um tamanho adequado ao dos seres huma-
nos como eu; em contrapartida, a grande quantidade
de marcianos mal permitia que eles se espremessem
nas cadeiras nem deixava espaço para suas longas
pernas sob as mesas. Assim, ficou evidente que havia
mais cidadãos em Marte além das selvagens e grotes-
cas criaturas nas mãos das quais eu havia caído, mas
as provas de extrema antigüidade exibidas em toda a
minha volta indicavam que essas construções
deveriam ter pertencido a alguma raça há muito
extinta e esquecida na vaga antigüidade de Marte.
Nosso grupo havia parado na entrada do edifício e, a
um sinal do líder, fui colocado no chão. Novamente
travando seu braço no meu, seguimos para a câmara
de audiências. Havia algumas formalidades a serem
observadas ao abordar seu superior. Meu captor
caminhou a passos largos na direção da tribuna, os
outros se afastavam para que ele avançasse. O líder
principal se levantou e pronunciou o nome de meu
acompanhante que, por sua vez, parou e repetiu o
nome do governante, seguido por seu título.
Naquele momento, essa cerimônia e as palavras
proferidas nada significavam para mim, mas
posteriormente vim à saber que esta era a saudação
costumeira entre marcianos verdes. Caso fossem
estranhos entre si e, portanto, incapazes de se
saudarem, teriam trocado presentes silenciosamente
se suas missões fossem de paz - do contrário, teriam
trocado tiros ou terminado as apresentações com
alguma outra de suas diversas armas.
Meu captor, cujo nome era Tars Tarkas, era
virtualmente o vice-líder da comunidade e um
homem de grandes habilidades como estadista e
guerreiro. Evidentemente, ele explicou em poucas
palavras os incidentes ligados à sua expedição,
incluindo minha captura e, quando terminou, seu
líder despendeu alguma atenção a mim.
Respondi em nosso bom e velho inglês apenas para
convencê-lo de que nenhum de nós poderia entender
o outro, mas notei que, quando sorri levemente
durante a conclusão, ele fez o mesmo. Esse episódio e
a ocorrência de um feito similar durante minha
primeira conversa com Tars Tarkas convenceu-me de
que ao menos tínhamos alguma coisa em comum: a
capacidade de sorrir. Mas eu aprenderia que o sorriso
marciano é meramente mecânico e que a risada
marciana é algo que faz com que homens fortes
fiquem brancos de horror.
A idéia de humor entre os homens verdes de Marte é
amplamente divergente das nossas concepções de
estímulo da alegria. A agonia da morte de um outro
ser provoca, para essas estranhas criaturas, a mais
louca hilaridade, enquanto a principal forma da mais
simples diversão é matar seus prisioneiros de guerra
de formas diversas e horripilantes.
Os guerreiros reunidos examinaram-me com atenção,
sentindo meus músculos e a textura de minha pele.
Então o principal líder evidentemente expressou o
desejo de ver minha apresentação e, gesticulando para
que eu o seguisse, entrou com Tars Tarkas na praça a
céu aberto.
Até agora, eu não havia feito nenhuma tentativa de
caminhar, desde meu primeiro sinal de fracasso,
exceto ao agarrar firmemente o braço de Tars Tarkas,
de forma que agora ia pulando e esvoaçando entre as
mesas e cadeiras como um gafanhoto monstruoso.
Depois de me machucar seriamente, para grande
diversão dos marcianos, novamente recorri ao
engatinhar, mas isso não estava de acordo com seus
planos, pois fui rudemente colocado em pé por um
sujeito enorme que riu com o mais puro entusiasmo
de minha desgraça.
Ao me colocar em pé violentamente, seu rosto se
inclinou próximo ao meu e fiz a única coisa que um
cavalheiro pode fazer sob circunstâncias de
brutalidade, grosseria e falta de consideração para
com os direitos de um estranho. Enfiei meu punho
diretamente em sua mandíbula e ele caiu como um
boi no abate. Enquanto ele caía ao chão, voltei
minhas costas na direção da mesa mais próxima,
esperando ser subjugado pela vingança de seus
companheiros; estava, porém, determinado a
proporcionar-lhes uma luta tão boa quanto possível,
dadas as chances desiguais, antes de abrir mão da
minha vida.
No entanto, meus medos foram infundados, pois
outros marcianos, em princípio mudos de espanto,
finalmente romperam em um selvagem estrondo de
risadas e aplausos. Não reconheci os aplausos como
tal, mas, posteriormente, quando tomei conhe-
cimento de seus costumes, aprendi que havia
conquistado o que eles raramente concedem, uma
manifestação de aprovação.
O sujeito que atingi permaneceu onde caiu e nenhum
de seus companheiros se aproximou dele. Tars Tarkas
avançou em minha direção, estendendo um de seus
braços, e assim prosseguimos até a praça sem mais
contratempos. É claro que eu não conhecia a razão
para termos saído para o exterior, mas logo vim à
saber. Primeiro, eles repetiram a palavra "sak"
inúmeras vezes, e então Tars Tarkas deu vários pulos,
repetindo a mesma palavra antes de cada salto.
Virando-se para mim, disse "sak"! Entendi o que
queriam e, recompondo-me, "sakei" com tão
impressionante sucesso que me afastei bons quarenta
e cinco metros e, dessa vez, não perdi meu equilíbrio
e pousei em pé sem cair. Então, voltei para o pequeno
grupo de guerreiros com saltos fáceis de sete ou oito
metros.
Minha exibição foi testemunhada por várias centenas
de marcianos comuns e eles imediatamente exigiram
uma repetição, que o líder ordenou que eu fizesse.
Mas eu estava com fome e sede e decidi naquela hora
que minha única forma de salvação seria exigir
consideração dessas criaturas que, evidentemente,
não concederiam de forma voluntária. Portanto,
ignorei os repetidos comandos para "sakar" e cada vez
que eram pronunciados, gesticulava em direção à
minha boca e esfregava meu estômago.
Tars Tarkas e o líder trocaram algumas palavras e o
último, chamando uma jovem fêmea entre a multidão,
lhe passou algumas instruções e gesticulou para que
eu a acompanhasse. Agarrei seu braço estendido e
juntos cruzamos a praça em direção de um grande
prédio no lado mais afastado.
Minha acompanhante tinha cerca de dois metros e
meio de altura, tendo acabado de chegar à
maturidade, mas ainda sem ter atingido o máximo de
sua altura. Ela era de uma cor verde-oliva claro, com
couro liso e lustroso. Seu nome, soube mais tarde, era
Sola, e ela fazia parte da comitiva de Tars Tarkas. Ela
me conduziu até uma espaçosa câmara em um dos
edifícios na frente da praça, o que, pela confusão de
sedas e peles sobre o chão, entendi ser o dormitório
de vários dos nativos.
O quarto era bem iluminado por várias janelas amplas
e estava belamente decorado com pinturas murais e
mosaicos, mas sobre todos eles parecia repousar
aquele indefinível toque de antigüidade que me
convenceu de que os arquitetos e construtores dessas
criações assombrosas nada tinham em comum com os
rudes meio brutos que agora os ocupavam.
Sola indicou que eu sentasse sobre uma pilha de sedas
próxima ao centro da sala e, virando-se, fez um
peculiar som sibilante, como se sinalizasse para
alguém no aposento ao lado. Em resposta ao seu
chamado, tive minha primeira visão de uma nova
maravilha marciana que sacolejou sobre suas dez
pernas curtas e agachou-se diante da garota como um
filhote obediente. A coisa tinha o tamanho de um
pônei shetland, mas sua cabeça ostentava uma ligeira
semelhança com a cabeça de um sapo, exceto que as
mandíbulas eram equipadas com três fileiras de presas
longas e afiadas.

Capítulo 05
ENGANANDO MEU CÃO DE GUARDA

Sola encarou os olhos perversos do bruto, murmurou
uma palavra ou duas de comando, apontou para mim e
saiu do aposento. Tudo que pude fazer foi considerar
o que aquela monstruosidade de aparência feroz
poderia fazer quando deixado a sós com um pedaço
relativamente tenro de carne. Mas meus medos não
tinham fundamento, pois a fera, depois de me
inspecionar de forma intensa por um momento,
cruzou a sala até a única saída que levava à rua e
deitou-se atravessado na soleira.
Essa foi minha primeira experiência com um cão de
guarda marciano, mas não estava destinada a ser a
última. Esse companheiro me protegeria
cuidadosamente durante o tempo em que
permaneceria cativo entre esses homens verdes; duas
vezes salvou minha vida e nunca se afastou de mim
voluntariamente por um momento sequer.
Enquanto Sola estava fora, aproveitei para examinar
mais detalhadamente o quarto no qual estava preso.
As pinturas nos murais retratavam cenas de rara e
estonteante beleza. Montanhas, rios, lagos, oceanos,
pradarias, árvores e flores, estradas serpenteantes,
jardins beijados pelo sol - cenas que poderiam retratar
vistas terrestres, exceto pela coloração da vegetação.
O trabalho tinha evidentemente sido executado pela
mão de um mestre, tão sutil era a atmosfera, tão
perfeita a técnica. Ainda assim, em nenhum lugar
havia a representação de um animal vivo, homem ou
bicho, pela qual eu pudesse conjeturar a aparência
desses outros e talvez extintos cidadãos de Marte.
Enquanto permitia que minha imaginação corresse
amotinada em loucas conjeturas sobre a possível
explicação para as estranhas anomalias que até agora
tinha encontrado em Marte, Sola retornou com
comida e bebida. Ela as depositou no chão ao meu
lado e, sentando-se a uma curta distância, me encarou
atentamente. A comida consistia em quase meio quilo
de alguma substância sólida com consistência de
queijo e sem muito gosto, enquanto o líquido era
aparentemente leite de algum animal. Não era
desagradável ao paladar, embora levemente ácido, e
em pouco tempo aprendi a valorizá-lo enormemente.
Ele provinha, como descobri mais tarde, não de um
animal - uma vez que existia apenas um mamífero em
Marte e esse mamífero era, sem dúvida, bastante raro
-, mas de uma grande planta que cresce praticamente
sem água, mas parece destilar seu abundante estoque
de leite a partir dos produtos do solo, da umidade do
ar e dos raios do sol. Uma única planta dessa espécie
pode fornecer oito ou dez litros de leite por dia.
Depois de comer senti-me bastante revigorado, mas,
sentindo a necessidade de descansar, me estirei sobre
as sedas e logo dormi. Devo ter dormido várias horas,
pois estava escuro quando acordei e sentia muito frio.
Notei que alguém havia jogado uma pele sobre mim,
mas ela estava parcialmente mal colocada e no escuro
não consegui arrumá-la. Subitamente, uma mão se
esticou e puxou a coberta para cima de mim,
adicionando outra logo em seguida.
Presumi que minha zelosa guardiã fosse Sola, e não
estava errado. Apenas essa garota, entre todos os
marcianos verdes com os quais tive contato, revelou
características de simpatia, gentileza e afeição. Sua
atenção às minhas necessidades físicas foi infalível e
seu cuidado solícito me poupou muito sofrimento e
provações.
Como eu aprenderia, as noites marcianas são
extremamente frias, e como praticamente não há
crepúsculo ou aurora, as mudanças de temperatura são
súbitas e muito desconfortáveis, como as transições
entre a luz do dia e a escuridão. As noites são ilumi-
nadas por uma luz brilhante ou são então muito
escuras, pois se nenhuma das duas luas de Marte calha
de estar no céu, a escuridão resultante é quase total,
já que a falta de atmosfera ou, melhor dizendo, a
escassa atmosfera não consegue difundir a luz das
estrelas de forma muito ampla. Por outro lado, se
ambas as luas estão no céu à noite, a superfície do
solo é vivamente iluminada.
As duas luas de Marte se encontram muito mais perto
do planeta do que a nossa lua está da Terra. A lua
mais próxima está a cerca de oito mil quilômetros de
distância, enquanto a mais afastada está a pouco mais
de vinte de dois mil quilômetros de distância, em
comparação aos mais de quatrocentos mil quilômetros
que nos separam da nossa lua. A lua mais próxima de
Marte completa sua evolução ao redor do planeta em
pouco mais de sete horas e meia, de forma que pode
ser vista atravessando o céu como um gigantesco
meteoro duas ou três vezes por noite, revelando todas
as suas fases a cada passagem pelos céus.
A lua mais distante gira em torno de Marte em cerca
de trinta e uma horas e quinze minutos, e, com seu
satélite irmão, torna a paisagem noturna uma cena de
estranha e esplêndida grandeza. E é bom que a
natureza tenha iluminado a noite marciana de forma
tão graciosa e abundante, pois os homens verdes de
Marte, sendo uma raça nômade sem grande
desenvolvimento intelectual, possuem apenas meios
primitivos de iluminação artificial, dependendo
principalmente de tochas, um tipo de vela e uma
lâmpada a óleo que gera gás e queima sem pavio.
Esse último dispositivo produz uma luz branca
brilhante de longo alcance, mas como o óleo natural
exigido para alimentá-la só pode ser obtido através da
mineração em um dos vários locais remotos e
longínquos, é utilizada poucas vezes por essas
criaturas cujo único pensamento é o hoje e cujo ódio
ao trabalho manual os têm mantido em um estado
semibárbaro por incontáveis eras.
Depois que Sola arrumou minhas cobertas, dormi
novamente, acordando apenas quando já era dia. Os
outros ocupantes do quarto, cinco no total, eram
todas mulheres e ainda estavam dormindo,
amontoadas com uma diversificada gama de sedas e
peles. Atravessado na soleira, permanecia esticado o
primitivo guardião insone, na mesma posição em que
o havia visto no dia anterior. Aparentemente, ele não
havia movido um músculo. Seus olhos estavam
diretamente fixados em mim e comecei a me
perguntar exatamente o que me aconteceria caso eu
tentasse fugir.
Sempre estive propenso a buscar aventuras e a
investigar e experimentar em situações em que
homens mais sábios teriam deixado ao acaso. Ocorria-
me agora que a maneira mais certa de descobrir qual
seria exatamente a atitude dessa fera em relação a
mim era tentar sair do aposento. Estava bastante
seguro em minha crença de que poderia escapar caso
fosse perseguido pelo animal se estivesse fora do
prédio, pois começava a ficar bastante orgulhoso de
minhas habilidades como saltador. Além disso, pude
deduzir, pelo comprimento diminuto de suas pernas,
que o animal em questão não era um saltador e,
provavelmente, nem corredor.
Assim, devagar e com cuidado, me coloquei em pé,
apenas para ver se meu observador fazia o mesmo.
Cautelosamente, avancei em sua direção, descobrindo
que me movendo em uma marcha arrastada era capaz
de conservar meu equilíbrio e fazer um progresso
razoavelmente rápido. Conforme me aproximei do
animal, ele cautelosamente se afastou de mim e,
quando cheguei ao exterior, ele se moveu para o lado
para permitir minha passagem. Ele então se postou
atrás de mim e seguiu-me a uma distância de cerca de
dez passos conforme eu avançava pela rua deserta.
Evidentemente sua missão era apenas me proteger,
pensei, mas quando atingi o limite da cidade, ele
subitamente pulou a minha frente, produzindo sons
estranhos e expondo suas horrendas e ferozes presas.
Pensando em me divertir um pouco às suas custas,
corri em sua direção e, quando estava quase em cima
dele, saltei no ar, aterrissando muito além e
afastando-me da cidade. Ele se virou e disparou em
minha direção com a velocidade mais pavorosa que já
havia visto. Havia pensado que suas pernas fossem um
obstáculo para a rapidez, mas se ele estivesse
correndo com galgos ingleses, esses últimos teriam
parecido tão lentos quando um capacho. Como eu
viria à saber, esse era o animal mais veloz de Marte e,
devido à sua inteligência, lealdade e ferocidade, era
usado na caça, na guerra e como protetor dos homens
marcianos.
Rapidamente percebi que teria dificuldade em escapar
das presas da fera em um percurso reto, de modo que
respondi à sua disparada voltando por onde tinha
vindo e saltando sobre ele quando estava quase me
alcançando. Essa manobra me deu uma vantagem
considerável e fui capaz de chegar à cidade bastante a
sua frente. Como ele vinha uivando atrás de mim,
pulei para uma janela a cerca de dez metros do chão
na frente de um dos prédios com vista para o vale.
Agarrando o peitoril, me icei e sentei sem olhar para
o interior do edifício e fitei para o desconsertado
animal abaixo de mim. Porém minha exultação foi
curta. Mal havia me sentado em segurança sobre o
peitoril quando uma mão enorme me agarrou por trás
pelo pescoço e me arrastou violentamente para o
interior da sala. Ali, fui jogado de costas e vi em pé a
minha frente uma colossal criatura-macaco, branca e
sem pelos, exceto por uma enorme rajada de cabelos
espetados sobre sua cabeça.

Capítulo 06
UMA LUTA QUE CONQUISTOU AMIGOS

A coisa, que se parecia mais com o homem terrestre
do que os marcianos que eu havia visto, me prendeu
no chão com um pé gigante, enquanto matraqueava e
gesticulava para alguma criatura que respondia atrás
de mim. Esse outro, que evidentemente era seu
companheiro, logo veio em nossa direção, segurando
uma pesada clava de pedra com a qual evidentemente
tencionava me partir a cabeça.
As criaturas mediam entre três e quatro metros de
altura em posição ereta e tinham, como os marcianos
verdes, um conjunto intermediário de braços ou
pernas a meio caminho entre seus membros
superiores e inferiores. Seus olhos eram bem juntos e
não protuberantes, suas orelhas ficavam no alto da ca-
beça, enquanto seus focinhos e dentes eram
assombrosamente parecidos com os de nossos gorilas
africanos. No geral, eles não eram desagradáveis
quando observados em comparação aos marcianos
verdes.
A clava balançou em um arco que acabou
completando-se sobre meu rosto enquanto eu olhava
para cima. Foi quando um raio de horror cheio de
pernas se jogou através da porta com carga total sobre
o peito de meu executor. Com um guincho de medo,
o macaco que me segurava saltou pela janela aberta,
mas seu companheiro entrou em uma intensa luta
mortal com meu protetor, que não era nada menos
que minha fiel coisa de guarda. Não conseguia me
obrigar a chamar uma criatura tão hedionda de
cachorro.
Fiquei em pé o mais rápido que consegui e, apoiando-
me contra a parede, testemunhei uma batalha que
poucos seres tiveram a oportunidade de presenciar. A
força, agilidade e ferocidade cega dessas duas criaturas
não têm paralelos conhecidos na Terra. Minha fera
teve uma vantagem em sua primeira investida,
enterrando suas poderosas presas profundamente no
peito de seu adversário, mas os grandes braços e patas
do macaco, aliados a músculos que transcendem em
muito os dos homens marcianos que havia visto,
havia agarrado a garganta de meu guardião e len-
tamente o sufocava, dobrando para trás sua cabeça e
pescoço sobre seu corpo. Por um momento, esperei
ver o primeiro cair sem forças com seu pescoço
quebrado.
Ao fazer isso, o macaco estava despedaçando toda a
parte frontal de seu peito, que estava preso no aperto
de alicate das poderosas mandíbulas. Para a frente e
para trás os dois rolavam no chão, nenhum deles
emitindo um som de medo ou dor. Naquele momento
vi os olhos de minha fera saltarem totalmente para
fora de suas órbitas e o sangue fluir de suas narinas.
Era evidente que ele estava perdendo as forças, mas o
mesmo ocorria com o macaco, cujos esforços
momentaneamente diminuíram.
Subitamente voltei a mim e, com o estranho instinto
que sempre parece me chamar ao dever, agarrei a
clava e, brandindo-a com todas as forças de meus
braços humanos, golpeei em cheio a cabeça do
macaco, esmagando seu crânio como se fosse a casca
de um ovo.
Mal eu acabara de desferir o golpe quando fui
confrontado por um novo perigo. O companheiro do
macaco, recuperado de seu primeiro choque de
terror, havia voltado à cena do encontro por dentro
do edifício. Eu o vislumbrei um pouco antes de ele
atingir a porta e devo confessar que sua visão, agora
rugindo ao perceber seu companheiro sem vida
estirado no chão, e espumando pela boca, no auge de
sua fúria, me encheu de terríveis pressentimentos.
Sempre estou disposto a ficar e lutar quando as
chances não estão esmagadoramente contra mim, mas
nesse caso não antecipei nem glória nem lucro em
empregar minha relativamente insignificante força
contra os músculos de aço e a ferocidade brutal desse
enfurecido habitante de um planeta desconhecido. Na
realidade, o único resultado de um encontro como
esse, até onde eu podia prever, parecia ser a morte
súbita.
Eu estava em pé perto da janela e sabia que, uma vez
na rua, poderia ganhar a praça e a segurança antes que
a criatura pudesse me dominar. Ao menos havia uma
chance de segurança na fuga contra a morte quase
certa caso eu ficasse e lutasse, não importando com
que desespero.
É verdade que eu segurava a clava, mas que serventia
ela teria contra quatro enormes braços? Mesmo que
eu conseguisse quebrar um deles com meu primeiro
golpe, pois imaginei que o macaco tentaria repelir o
bastão, ele poderia me alcançar e aniquilar com os
outros antes que eu pudesse me recuperar para
desferir um segundo ataque.
No instante em que esses pensamentos me passaram
pela cabeça eu havia me virado para alcançar a janela,
mas a visão da forma de meu outrora guardião fez
sumir no ar todos os pensamentos de fuga. Ele estava
deitado arfando sobre o piso do aposento com seus
grandes olhos fincados em mim no que parecia ser
um lamentável apelo por proteção. Eu não seria capaz
de suportar aquele olhar nem, pensando bem,
abandonar meu salvador sem ao menos lutar por ele
tanto quanto ele havia lutado por mim.
Sem mais demora, portanto, me virei para enfrentar o
ataque do enfurecido macaco macho. Ele agora estava
muito perto de mim para que a clava tivesse qualquer
utilidade efetiva; portanto, simplesmente joguei-a
com a maior força possível contra seu corpanzil que
avançava. 0 instrumento o atingiu logo abaixo dos
joelhos, produzindo um uivo de dor e fúria e, assim,
desequilibrando-o e fazendo com que se lançasse
sobre mim com toda a força, com os braços
completamente abertos para amortecer sua queda.
Novamente, como no dia anterior, recorri a táticas
terrestres e, golpeando meu punho direito com toda a
força contra seu queixo, enfiei um golpe de esquerda
no fundo de seu estômago. O efeito foi maravilhoso.
Depois de dar um pequeno passo para o lado, após o
segundo golpe, ele se ajoelhou e caiu no chão
nocauteado pela dor e resfolegando. Saltando sobre
seu corpo prostrado, apanhei a clava e dei cabo do
monstro antes que pudesse se levantar.
Quando eu desferia o golpe, uma risada baixa soou
atrás de mim e, virando-me, vi Tars Tarkas, Sola e
outros três ou quatro em pé na porta do aposento.
Quando meus olhos encontraram os deles fui, pela
segunda vez, o destinatário de seus aplausos, reser-
vados com tanto zelo.
Minha ausência havia sido notada por Sola ao acordar
e ela rapidamente informou a Tars Tarkas, que
imediatamente saiu a minha procura com um
punhado de guerreiros. Ao se aproximarem dos
limites da cidade, testemunharam as ações do macaco
macho quando este disparou na direção do edifício,
espumando de raiva.
Eles o seguiram prontamente, pensando ser pouco
provável que suas ações pudessem ser uma pista de
meu paradeiro, e assistiram nossa breve, porém,
decisiva batalha. Esse encontro, juntamente com meu
ajuste de contas com o guerreiro marciano no dia
anterior e meus feitos na arte do salto, colocaram-me
em uma posição privilegiada a seus olhos.
Evidentemente desprovidos de todos os nobres
sentimentos de amizade, amor ou afeto, essas pessoas
veneram com fervor a destreza física e a bravura, e
nada é bom o bastante para o objeto de sua adoração
contanto que este mantenha sua posição por meio de
repetidos exemplos de perícia, força e coragem.
Sola, que havia acompanhado o grupo de buscas por
vontade própria, foi a única entre os marcianos cuja
face não havia se contorcido em risadas enquanto eu
lutava por minha vida. Ela, ao contrário, manteve-se
séria com aparente solicitude e, assim que dei cabo do
monstro, correu para mim e cuidadosamente
examinou meu corpo à procura de possíveis
ferimentos ou machucados. Satisfeita por eu ter saído
ileso, sorriu silenciosamente e, pegando em minha
mão, começou a caminhar na direção da porta do
aposento.
Tars Tarkas e os outros guerreiros haviam entrado e
estavam parados diante da fera - agora rapidamente
recuperada - que havia salvado minha vida e cuja vida
eu, em troca, havia salvado. Eles pareciam perdidos
em uma discussão e, finalmente, um deles dirigiu-se a
mim, mas lembrando meu desconhecimento de sua
língua, voltou-se novamente para Tars Tarkas que,
com uma palavra e gesto, deu alguma ordem ao
companheiro e virou-se para nos seguir para fora.
Havia algo de ameaçador em suas atitudes para com a
minha fera e hesitei em sair até saber do resultado.
Foi uma idéia muito boa, pois o guerreiro sacou uma
pistola de aparência demoníaca de seu coldre e estava
a ponto de dar fim à criatura quando saltei para a
frente e ergui seu braço. A bala atingiu o batente de
madeira da janela e explodiu, atravessando por
completo a madeira e a alvenaria.
Então, me ajoelhei ao lado daquele ser de aspecto
temível e, colocando-o em pé, gesticulei para que me
seguisse. Os olhares de surpresa que minhas ações
provocaram nos marcianos foram absurdos. Eles eram
incapazes de entender, exceto de uma maneira débil e
infantil, atributos como gratidão e compaixão. O
guerreiro cuja arma eu havia empurrado lançou um
olhar inquisitivo para Tars Tarkas, mas este último
gesticulou para que eu fosse deixado a meu próprio
gosto. Assim, voltamos para a praça com minha
grande fera seguindo meus calcanhares e Sola me
segurando firmemente pelo braço.
Agora eu tinha pelo menos dois amigos em Marte;
uma jovem mulher que cuidava de mim com
solicitude maternal e uma fera muda que, como mais
tarde viria à saber, carregava em sua feia e pobre
carcaça mais amor, mais lealdade, mais gratidão do
que se poderia encontrar em toda a população de
cinco milhões de marcianos verdes que vagavam pelas
cidades desertas e pelos leitos dos mares mortos de
Marte.

Capítulo 07
CRIANDO FILHOS EM MARTE

Depois de um café da manhã, que foi uma réplica
exata da refeição do dia anterior e um indício de
praticamente toda refeição que se seguiu enquanto
estive com os homens verdes de Marte, Sola me
acompanhou até a praça, onde encontrei toda a
comunidade engajada em cuidar ou ajudar a arrear as
enormes feras mastodônticas às grandes carruagens de
três rodas. Havia cerca de duzentos e cinqüenta
desses veículos, cada qual puxado por um único
animal, sendo que qualquer um deles, pela aparência,
poderia facilmente puxar todo o comboio, mesmo que
totalmente carregado.
As carruagens eram grandes, confortáveis e ricamente
decoradas. Em cada uma estava sentada uma fêmea
marciana carregada de ornamentos de metal, com
jóias, sedas e peles. Sobre os dorsos de cada uma das
bestas que puxavam as carruagens ficava empoleirado
um jovem condutor marciano. Como os animais sobre
os quais os guerreiros estavam montados, os pesados
animais de carga não utilizavam cabresto ou sela, pois
eram totalmente guiados por meios telepáticos.
Esse poder é maravilhosamente desenvolvido em
todos os marcianos, sendo responsável em grande
parte pela simplicidade de seu idioma e pelas
relativamente poucas palavras trocadas, mesmo em
longas conversas. É a linguagem universal de Marte,
por meio da qual as formas de vida mais e menos
desenvolvidas desse mundo de paradoxos são capazes
de se comunicar em um grau maior ou menor,
dependendo da esfera intelectual das espécies e do
desenvolvimento do indivíduo.
Conforme a procissão assumia a linha de marcha em
uma fila única, Sola me arrastou para uma das
carruagens vazias e acompanhamos a procissão na
direção do ponto através do qual eu havia entrado na
cidade no dia anterior. Na cabeceira da caravana
cavalgavam algo em torno de duzentos guerreiros,
cinco de cada lado, e um número semelhante
acompanhava a traseira, enquanto vinte e cinco ou
trinta batedores nos flanqueavam em ambos os lados.
Todos, homens, mulheres e crianças - menos eu -,
estavam pesadamente armados, e na traseira de cada
carruagem trotava um cão de caça marciano, minha
própria fera seguia de perto a nossa. Na verdade, a fiel
criatura nunca me abandonou voluntariamente
durante os dez anos que estive em Marte. Nosso ca-
minho passava através do pequeno vale antes da
cidade, pelas colinas até o fundo do mar morto, que
cruzei em minha jornada da incubadora até a praça. A
incubadora, como ficou provado, era o ponto final de
nossa jornada nesse dia e, como toda a procissão
disparou em um galope enlouquecido assim que
atingiu o espaço plano do fundo do mar, logo nosso
objetivo estava em nosso campo de visão.
Ao atingir seu destino, as carruagens foram
estacionadas com precisão militar nos quatro lados da
estrutura e metade dos guerreiros, comandados pelo
enorme líder, desmontou e avançou em sua direção.
Pude ver Tars Tarkas explicando algo para o líder
principal cujo nome, aliás, era, até onde pude traduzir
para o inglês, Lorquas Ptomel, jed; sendo jed seu
título.
Logo fui informado sobre o objeto de sua conversa já
que, chamando Sola, Tars Tarkas gesticulou para que
ela me levasse até ele. Nessa ocasião, eu já havia
dominado as dificuldades de andar sob condições
marcianas e, respondendo rapidamente ao seu
comando, avancei para o lado da incubadora no qual
estavam os guerreiros.
Ao chegar ao seu lado, um breve olhar mostrou-me
que todos, exceto alguns poucos, haviam chocado, e a
incubadora estava realmente cheia com os pequenos e
horrendos demônios. Sua altura variava entre noventa
e cento e vinte centímetros, e se moviam sem
descanso pela estrutura como que procurando por
comida.
Quando parei à sua frente, Tars Tarkas apontou para a
incubadora e disse "sak". Vi que ele queria que eu
repetisse minha apresentação do dia anterior para
instrução de Lorquas Ptomel e, já que devo confessar
que minha proeza me proporcionou um bocado de
satisfação, atendi rapidamente, saltando sobre as
carruagens estacionadas no lado mais afastado da
incubadora. Quando retornei, Lorquas Ptomel rosnou
algo em minha direção e, voltando-se para seus
guerreiros, emitiu algumas palavras de comando
relativas à incubadora. Eles não prestaram mais
atenção em mim e me foi concedida permissão para
permanecer perto e assistir às suas operações, que
consistiam em produzir uma abertura na parede da
incubadora grande o suficiente para permitir a saída
dos jovens marcianos.
Em ambos os lados dessa abertura as mulheres e os
marcianos mais jovens, fêmeas e machos, formavam
duas filas, sólidas como paredes, que passavam por
entre as carruagens e cobriam grande parte da
planície. Os pequenos marcianos, selvagens como
gazelas, corriam entre essas filas seguindo por toda a
extensão do corredor, onde eram capturados um por
vez pelas mulheres e crianças mais velhas. O último
da fila apanhava o primeiro pequeno a atingir o final
da passagem; quem estivesse à sua frente capturava o
segundo e assim por diante, até que todas as pequenas
criaturas tivessem saído da incubadora e sido pegas
por algum jovem ou fêmea. Conforme pegavam as
crianças, as fêmeas saíam da fila e voltavam para suas
respectivas carruagens, ao passo que aqueles que
caíram nas mãos dos homens jovens eram posterior-
mente entregues a alguma mulher.
Eu vi que a cerimônia, se é que poderia ser digna
desse nome, estava acabada e, procurando por Sola, a
encontrei em nossa carruagem com uma criaturinha
horrenda apertada em seus braços.
O trabalho de criar jovens marcianos verdes consiste
apenas em ensiná-los a falar e a utilizar as armas de
guerra que lhes são entregues desde o primeiro ano
de sua vida. Saídos dos ovos nos quais repousaram por
cinco anos, seu período de incubação, davam o
primeiro passo no mundo perfeitamente de-
senvolvidos, exceto pelo tamanho. Não conheceriam
suas mães, que, por sua vez, teriam dificuldade em
apontar os pais com qualquer grau de precisão; eles
são as crianças da comunidade e sua educação recai
sobre as fêmeas que por acaso os capturaram
conforme saíam da incubadora.
Suas mães adotivas não podem sequer ter um ovo na
incubadora, como era o caso de Sola - que ainda não
havia começado a botar -, até menos de um ano antes
de se tornar a mãe da prole de outra mulher. Mas isso
pouco conta entre os marcianos verdes, já que amor
entre pais e filhos lhes é tão desconhecido quanto é
comum entre nós. Acredito que esse horrível sistema,
que vem sendo levado adiante há eras, é a causa
direta da perda de todos os sentimentos refinados e
instintos humanitários superiores entre essas pobres
criaturas. Desde o nascimento, não conhecem o amor
paternal ou maternal, não sabem o significado da
palavra lar. São ensinados que deverão suportar o
sofrimento da vida até que possam demonstrar, por
meio de seu físico e ferocidade, que estão aptos a
sobreviver. Ao se mostrarem deformados ou imper-
feitos em qualquer instância, são imediatamente
eliminados. E não devem derramar sequer uma
lágrima pelas cruéis provações às quais serão
submetidos desde a mais tenra infância.
Não estou querendo dizer que os marcianos adultos
sejam desnecessária ou intencionalmente cruéis aos
mais jovens, mas em sua dura e impiedosa luta pela
sobrevivência neste planeta em curso de morte, os
recursos naturais se reduziram a tal ponto que manter
qualquer vida adicional significa um tributo a mais à
comunidade que a sustenta.
Por meio de seleção cuidadosa, dão suporte apenas
aos espécimes mais preparados de cada espécie e, com
previsão quase sobrenatural, regulam a taxa de
nascimentos para apenas contrabalançar as mortes.
Cada fêmea adulta marciana deposita cerca de treze
ovos por ano. Aqueles que atingem o tamanho, peso e
que sejam aprovados em testes específicos de
gravidade, são escondidos nos recônditos de alguma
gruta subterrânea onde a temperatura é baixa demais
para a incubação. Todo ano esses ovos são
cuidadosamente examinados por um conselho de
vinte líderes, e todos, exceto cem dos mais perfeitos,
são destruídos entre a produção de um ano inteiro.
Ao final de cinco anos, foram escolhidos quinhentos
ovos dos mais perfeitos entre milhares de ovos
botados. Estes, então, são colocados em incubadoras
praticamente à vácuo para serem chocados pelos raios
do sol durante outros cinco anos. A eclosão que
testemunhamos hoje foi um bom exemplo desse
evento. Menos de um por cento dos ovos eclode no
espaço de dois dias. Se os ovos atrasados eclodiram,
nada se sabe do destino desses pequenos. Eles não são
queridos porque seus descendentes podem herdar e
transmitir a tendência de incubação prolongada e
assim desorganizar o sistema que tem se mantido por
eras, permitindo que os marcianos adultos calculem o
tempo adequado para retornarem às incubadoras, com
precisão de horas.
As incubadoras são construídas nos mais remotos
rincões, onde há pouca ou nenhuma chance de serem
descobertas por outras tribos. O resultado de tal
catástrofe significaria a ausência de crianças na
comunidade por outros cinco anos. Posteriormente
eu presenciaria os resultados da descoberta de uma
incubadora alheia.
A comunidade dos marcianos verdes da qual meu
grupo fazia parte era composta por trinta mil almas.
Eles cruzaram uma imensa extensão de terras áridas e
semi-áridas entre as latitudes oitenta e quarenta graus
sul, e se dirigiram para leste e oeste por dois outros
terrenos enormes cultivados. Seu quartel-general re-
pousa no canto sudoeste dessa região, próximo ao
cruzamento de dois dos chamados canais marcianos.
Como a incubadora fica localizada no longínquo norte
de seu próprio território, em uma área supostamente
desabitada e erma, tínhamos à nossa frente uma
tremenda jornada da qual eu, obviamente, não fazia a
menor idéia.
Após nosso retorno à cidade fantasma, passei vários
dias relativamente ocioso. No dia seguinte ao nosso
retorno, todos os guerreiros haviam cavalgado para
longe e ainda não haviam voltado até pouco antes do
cair da noite. Como depois aprendi, eles haviam ido
às grutas subterrâneas onde os ovos eram guardados e
os haviam transportado para a incubadora - a qual eles
novamente lacraram com novas paredes por outros
cinco anos e que, com bastante probabilidade, não
seriam visitadas novamente durante esse período.
As grutas nas quais escondiam os ovos até que
estivessem prontos para incubação estavam
localizadas há muitos quilômetros ao sul da
incubadora e seriam visitadas anualmente pelo con-
selho de vinte líderes. O porquê de não construírem
suas grutas e incubadoras perto de suas cidades
sempre foi um mistério para mim e, como muitos
outros mistérios marcianos, continuarão sem resposta
para os costumes e o raciocínio terráqueos.
As tarefas de Sola agora haviam dobrado, uma vez que
estava encarregada de cuidar do jovem marciano e de
mim, mas nenhum de nós requeria muita atenção.
Ambos estávamos praticamente no mesmo nível de
educação quanto aos costumes marcianos e Sola ficou
responsável por treinar os dois juntos.
Seu prêmio consistia em um macho muito forte e
fisicamente perfeito, com cerca de um metro e trinta
de altura. Ele também aprendia rápido e nos
divertimos consideravelmente - pelo menos, eu sim -
com a rivalidade entre irmãos que demonstrávamos.
A linguagem marciana, como já citei, é extremamente
simples e em uma semana eu podia comunicar todas
as minhas necessidades e entender praticamente tudo
o que diziam para mim. Da mesma forma, sob a tutela
de Sola, desenvolvi poderes telepáticos que me
permitiam sentir praticamente tudo o que ocorria ao
meu redor.
O que mais surpreendeu Sola foi que enquanto eu
podia captar facilmente as mensagens de outros -
algumas, até, que nem eram endereçadas a mim -,
ninguém podia ouvir um pio de minha mente sob
quaisquer circunstâncias. A princípio, isso me
atormentou, mas depois fiquei muito feliz, por me dar
uma indubitável vantagem sobre os marcianos.

Capítulo 08
UMA BELA CATIVA VINDA DO CÉU

No terceiro dia após a cerimônia da incubadora, nos
colocamos a caminho de casa, mas mal a ponta do
cortejo havia desembocado no campo aberto diante
da cidade, foram dadas ordens para um retorno
imediato. Mesmo treinados por anos através dessa
evolução singular, os marcianos verdes derreteram
como bruma nas amplas passagens perto dos edifícios
até que, em menos de três minutos, toda a caravana
de carruagens, mastodontes e guerreiros montados
havia sumido de vista.
Sola e eu entramos em um edifício na frente da
cidade. Na verdade, era o mesmo no qual eu havia
tido meu encontro com os macacos e, desejando
entender o que causara tão repentina retirada, subi a
um andar mais alto e espreitei pela janela sobre o vale
e colinas à frente. E então vi a causa de sua pressa em
se esconder. Uma grande embarcação longa, próxima
ao solo e pintada de cinza, balançava sobre o topo da
colina mais próxima. Seguindo-a, vinha outra, e outra,
e outra, até que vinte delas, guinando baixo sobre o
solo, navegavam vagarosa e majestosamente em nossa
direção.
Cada uma trazia uma estranha bandeira tremulando da
roda da proa à popa, acima das estruturas do convés, e
sobre a proa de cada uma delas estava pintado um
bizarro desenho que brilhava sob a luz do sol e podia
ser visto com bastante clareza na distância que nos
separava das embarcações. Eu podia ver figuras infes-
tando os conveses posteriores e nas estruturas das
naves. Eu não saberia dizer se eles haviam nos
descoberto ou se apenas olhavam para a cidade
deserta, mas, de qualquer maneira, receberam uma
recepção hostil. Repentinamente e sem aviso, os
guerreiros verdes marcianos dispararam uma salva de
artilharia das janelas dos edifícios que encaravam o
pequeno vale através do qual os grandes navios
avançavam pacificamente.
Instantaneamente a cena mudou, como que por
mágica. A embarcação mais à frente pendeu de través
em nossa direção e, ativando suas armas, retornou
nosso fogo ao mesmo tempo em que se movia
paralelamente à nossa dianteira por algum tempo, e
então nos deu as costas na evidente intenção de
completar um grande círculo que a traria novamente
a uma posição mais avessa à nossa linha de fogo. As
outras naves seguiram sua trilha, cada uma disparando
sobre nós enquanto se punham em posição. Nosso
próprio fogo não diminuiu, e creio que nem um
quarto de nossos tiros erravam os alvos. Eu nunca
havia visto mira tão precisa e mortal. Parecia que uma
pequena figura nos navios caía a cada explosão de
nossa munição, enquanto as bandeiras e estruturas do
convés se dissolviam em jatos flamejantes sob os
projéteis inexoráveis de nossos guerreiros que as
esfacelavam.
O fogo vindo dos navios era ineficiente devido,
depois vim à saber, à inesperada e repentina rajada
inicial, que pegou a tripulação da embarcação
despreparada e os aparatos de mira das armas
desprotegidos da precisão mortal de nossos
guerreiros.
Parece que cada guerreiro verde tem certos pontos
específicos para mirar seus disparos sob
circunstâncias similares de combate. Por exemplo,
parte deles, sempre os melhores atiradores de elite,
concentram seu fogo inteiramente nos localizadores
sem fio ou nos dispositivos de mira das grandes armas
de uma força naval hostil; outros atiradores dedicam-
se aos oponentes com armas menores; outros
escolhem os canhoneiros; e outros, ainda, os oficiais,
enquanto diversos destacamentos concentram sua
atenção sobre os demais membros da tripulação, sobre
as estruturas do convés e sobre o mecanismo dos
lemes e dos propulsores.
Vinte minutos depois da primeira saraivada, a grande
frota desviou sua rota para a direção de onde havia
vindo anteriormente. Vários dos veículos estavam
claramente avariados, parecendo estar parcamente
sob o controle de suas tripulações depauperadas. Sua
artilharia havia cessado completamente e todas as suas
energias pareciam concentradas na fuga. Nossos
guerreiros, então, se apressaram para as lajes dos
edifícios que ocupavam e seguiram a armada batendo
em retirada com uma fuzilaria de fogo mortal.
Um a um, contudo, os navios conseguiram se
esconder além do topo das colinas a distância até que
somente uma última nave avariada podia ser vista.
Esta havia recebido a força principal de nosso ataque
e parecia estar completamente à deriva, uma vez que
nenhuma figura viva estava visível em seu convés.
Lentamente ela se desviou de seu curso, fazendo a
volta em nossa direção de maneira errática e patética.
Instantaneamente, os guerreiros cessaram fogo, pois
era evidente que a embarcação estava completamente
indefesa e, longe de representar qualquer perigo a
nós, não podia sequer controlar-se o suficiente para
escapar.
À medida que ela se aproximava da cidade, os
guerreiros correram ao seu encontro na planície, mas
era claro que ela ainda estava alta demais para que
pudessem alcançar seus deques. Eu tinha um ponto de
visão privilegiado de minha janela e podia ver os
corpos da tripulação espalhados, embora não pudesse
deduzir que tipo de criaturas eram. Sequer um sinal
de vida se manifestou sobre ela enquanto flutuava
lentamente pela brisa em direção sudeste.
Ela flutuava a aproximadamente quinze metros acima
do chão, seguida por cerca de cem guerreiros que
foram ordenados a voltar às lajes para cobrir um
eventual retorno da frota ou de seus reforços. Logo
ficou evidente que ela se chocaria contra as cons-
truções a mais ou menos um quilômetro e meio ao sul
de nossa posição e, enquanto eu observava o
progresso da aproximação, vi uma porção de
guerreiros a galope mais adiante, desmontando e
entrando na construção que parecia destinada ao
choque.
Enquanto a nave se aproximava do edifício - e logo
antes do golpe -, os guerreiros marcianos
preencheram as janelas e suavizaram o choque da
colisão com suas grandes lanças. Em questão de
momentos, eles já haviam atirado ganchos,
prendendo o grande barco que era rebocado para o
chão por seus companheiros no solo.
Após terem-na firmemente presa, subiram pelas
laterais da nave e vasculharam de proa a popa. Eu
podia vê-los examinando os marinheiros mortos,
procurando por sinais de vida, até que um grupo
surgiu dos porões trazendo uma pequena figura entre
eles. A criatura era consideravelmente mais baixa que
a metade da altura dos guerreiros verdes marcianos, e
da sacada onde estava pude ver que caminhava ereta
sobre duas pernas. Deduzi que seria uma nova e
estranha monstruosidade marciana com a qual eu ain-
da iria me familiarizar.
Eles levaram seu prisioneiro ao chão e começaram a
pilhar sistematicamente a embarcação. Essa operação
demandou várias horas, durante as quais um grande
número de carruagens foi requisitado para transportar
o saque que consistia de armas, munição, sedas, peles,
jóias, barcos estranhamente esculpidos em rocha e
uma quantidade de comidas sólidas e líquidas, in-
cluindo muitos barris de água - os primeiros que vi
desde que cheguei em Marte.
Após o último carregamento ser removido, os
guerreiros fizeram amarrações pela nave e a
rebocaram para longe no vale, na direção sudoeste.
Alguns poucos deles entraram a bordo e se
empenharam com dedicação, ao que parecia de minha
distante posição, a esvaziar garrafões de ácido sobre
os corpos dos marinheiros nos conveses e estruturas
da embarcação.
Com essa operação concluída, escalaram
apressadamente pelos lados, descendo pelos cabos até
o chão. O último guerreiro a deixar o deque voltou-se
e arremessou algo para trás, sobre o convés,
esperando por um instante o resultado de seu ato.
Quando uma tímida labareda brotou do local de onde
seu objeto foi arremessado, ele saltou pela amurada e
rapidamente pousou no chão. Logo após ele ter
iniciado o incêndio, os cabos foram soltos
simultaneamente e a grande belonave, mais leve após
a remoção dos espólios, foi alçada majestosamente
para o ar com seus deques e estruturas do convés
envoltos em uma massa de chamas uivantes.
Vagarosamente ela vagou para sudeste, subindo cada
vez mais e mais alto enquanto as chamas consumiam
suas peças de madeira e diminuíam ainda mais seu
peso. Subindo à laje do edifício, observei por horas a
fio até que finalmente ela se perdeu de vista na
distância. A visão foi impressionante ao extremo
enquanto se contemplava essa imensa pira funerária
flutuando, levada pela corrente sem rumo e sem
controle pelas solitárias vastidões dos céus marcianos,
um navio abandonado de morte e destruição
representando a história de vida dessas estranhas e
ferozes criaturas carregadas pelas inamistosas mãos do
destino.
Bastante deprimido por aquela cena, para mim,
incompreensível, desci vagarosamente até a rua. Os
atos que eu havia testemunhado pareciam marcar
mais a derrota e a aniquilação das forças de um povo
irmão do que o embate de nossos guerreiros verdes
contra uma horda de criaturas similares, ainda que
hostis. Eu não podia compreender a aparente
alucinação nem mesmo me livrar dela, mas, em algum
lugar nas profundezas de minha alma senti um
estranho anseio em relação a esses inimigos
desconhecidos; uma forte esperança surgiu em mim
dizendo que a frota voltaria e exigiria um acerto de
contas com os guerreiros verdes que haviam atacado-
a de forma tão desenfreada e cruel.
Perto de meu calcanhar, agora seu lugar habitual,
vinha Woola, o cão. Quando apareci na rua, Sola
correu em minha direção como se eu fosse o objeto
de sua busca. A cavalaria estava retornando à praça
central e nossa marcha para casa seria protelada para
o dia seguinte. Na verdade, a marcha não recomeçaria
por mais de uma semana devido ao temor de um
contra-ataque da força aérea.
Lorquas Ptomel era um velho guerreiro muito astuto
para ser pego de surpresa nos descampados com sua
caravana de carruagens e crianças, e assim
permanecemos na cidade deserta até que o perigo
aparentemente desaparecesse.
Enquanto Sola e eu entrávamos na praça, meus olhos
se depararam com uma visão que preencheu todo o
meu ser com uma grande e confusa explosão de
esperança, medo, exultação e depressão, ainda que a
maior parte dessa mistura fosse um sutil senso de
alívio e alegria, uma vez que quando nos
aproximamos da multidão de marcianos, vislumbrei o
prisioneiro da batalha aérea que havia sido rudemente
arrastado para dentro de uma construção próxima por
uma dupla de fêmeas marcianas verdes.
E a visão que meus olhos captaram era a de uma
figura esguia, feminina, similar em todos os detalhes
às mulheres terráqueas de minha vida anterior. Ela
não me viu de pronto, mas quando estava
desaparecendo através do portal do edifício que seria
sua prisão, ela se voltou e seus olhos encontraram os
meus. Seu rosto era oval e lindo ao extremo, suas
feições eram desenhadas com delicadeza e perfeição,
seus olhos eram grandes e brilhantes e sua cabeça era
encimada por uma massa de cabelos ondulantes e
negros como carvão, presos frouxamente em um
estranho penteado. Sua pele era de uma tonalidade
vermelho-cobre suave contra a qual o brilho escarlate
de suas bochechas e o tom rubiáceo de seus lábios
belamente moldados ampliavam sua luz, causando um
curioso efeito.
Ela estava despida de roupas enquanto as marcianas
verdes a acompanhavam. Na verdade, exceto por seus
ornamentos ricamente detalhados, ela estava
completamente nua, mas nenhum outro aparato
poderia aumentar ainda mais a beleza de sua figura
perfeita e simétrica.
Enquanto seu olhar repousava em meus olhos
arregalados de surpresa, ela fez um pequeno sinal com
sua mão livre. Um sinal que, obviamente, eu não
podia entender. Nossos olhares se cruzaram por
apenas um momento, e então o semblante de espe-
rança e coragem renovada que havia iluminado sua
face quando me descobriu desapareceu em pura
tristeza aliada a ódio e desprezo. Percebi que não
havia respondido ao seu sinal e, ignorante como era
aos costumes marcianos, senti intuitivamente que ela
havia feito um apelo de ajuda e proteção que minha
desgraçada estupidez me privou de atender. E então,
arrastada para longe de minha vista, ela foi para as
profundezas do edifício deserto.

Capítulo 09
EU APRENDO O IDIOMA

Quando me recuperei, olhei para Sola, que havia
testemunhado o encontro, e fiquei surpreso ao notar
a estranha expressão em seu semblante normalmente
inexpressivo. O que ela estava a pensar, eu não
saberia dizer por ainda ter aprendido muito pouco do
idioma marciano - apenas o suficiente para satisfazer
minhas necessidades diárias.
Ao alcançar o portal do edifício, uma estranha
surpresa me esperava. Um guerreiro se aproximou
carregando armas, ornamentos e equipamentos como
os seus. Ele os ofereceu a mim com algumas palavras
ininteligíveis e uma atitude ao mesmo tempo
respeitosa e ameaçadora.
Mais tarde, Sola, com a ajuda de várias outras
mulheres, remodelou os ornamentos para que
servissem minhas proporções menores e, após
completarem o trabalho, pude sair vestido com todo o
meu arsenal para a guerra.
A partir de então, Sola me instruiu nos mistérios das
diversas armas, e passei várias horas, todos os dias,
praticando na praça com os jovens marcianos. Eu
ainda não era proficiente em todas elas, mas minha
grande familiaridade com as armas da Terra tornou-
me um pupilo mais apto que o comum, progredindo
de uma maneira muito satisfatória.
Meu treinamento e o dos jovens marcianos era
conduzido exclusivamente pelas mulheres, que não
apenas cuidavam da educação nas artes da defesa e do
ataque pessoais, mas também eram responsáveis pelo
artesanato que produz todos os artigos manufaturados
usados pelos marcianos verdes. Elas fazem a pólvora,
os cartuchos, as armas de fogo. Na verdade, tudo o
que carrega algum valor é produzido pelas fêmeas.
Nos tempos de guerra, elas formam parte da reserva e,
quando a necessidade aparece, lutam com inteligência
e ferocidade até superior às dos homens.
Os homens são treinados nos ramos mais altos da arte
da guerra, em estratégia e manobras de grandes
números de tropas. Eles fazem leis quando
necessárias, uma nova a cada emergência. Eles são
livres de precedentes para a aplicação da justiça.
Costumes tornaram-se tradições após eras de
repetições, mas a punição por ignorar um costume é
motivo de tratamento diferenciado pelo júri formado
pelos pares do acusado - e devo dizer que a justiça
raramente erra o alvo, mas parece reger em razão
inversa perante a ascensão da lei. Pelo menos em um
aspecto os marcianos são um povo mais feliz: eles não
têm advogados.
Não vi a prisioneira novamente por vários dias após
nosso primeiro encontro, até avistá-la de relance
enquanto era conduzida para a grande câmara de
audiências na qual eu havia tido minha primeira
entrevista com Lorquas Ptomel. Não pude deixar de
notar a grosseria e a brutalidade desnecessária com
que suas guardas a tratavam, tão diferente da bondade
quase maternal que Sola demonstrou por mim, e a
atitude respeitosa dos poucos marcianos verdes que se
importaram em notar minha existência.
Percebi nas duas ocasiões em que a havia visto que a
prisioneira trocava palavras com suas guardas, e isso
me convenceu de que elas conversavam, ou pelo
menos conseguiam se fazer entender por alguma
linguagem em comum. Com esse incentivo extra,
enlouqueci Sola com meus pedidos para que
apressasse minha educação e, em questão de dias, eu
havia dominado o idioma marciano suficientemente
bem a ponto de manter uma conversa aceitável e de
compreender completamente quase tudo o que ouvia.
Nesse período, nossos dormitórios foram ocupados
por três ou quatro fêmeas e um casal de jovens
recentemente saídos do ovo, além de Sola e seu
jovem protegido, eu e Woola, o cão. Após terem se
recolhido para a noite, era costume dos adultos levar
uma conversa descontraída antes de caírem no sono,
e agora que eu podia entender sua língua, era sempre
um afiado ouvinte, embora nunca proferisse minhas
próprias observações.
Na noite seguinte à visita da prisioneira à câmara de
audiência, a conversação finalmente recaiu sobre esse
assunto. Na hora, fiquei todo ouvidos. Eu temia
perguntar a Sola sobre a bela cativa, pois não podia
me furtar à memória da estranha expressão que notei
em seu rosto quando de meu primeiro encontro com
ela. Eu não saberia dizer se ela denotava ciúmes, mas
julgando as coisas por padrões mundanos, como ainda
fazia, achei mais seguro fingir indiferença sobre o
assunto até que eu pudesse definir com mais certeza a
atitude de Sola em relação ao meu objeto de
solicitude.
Sarkoja, uma das mulheres mais velhas que dividia
nosso domicílio, estivera presente na audiência como
uma das guardas da cativa, e foi para ela que a
pergunta foi dirigida.
- Quando vamos nos deliciar com o derradeiro
sofrimento da vermelha? - perguntou uma das
mulheres. - Ou será que Lorquas Ptomel, jed,
pretende mantê-la como refém?
- Eles decidiram levá-la conosco de volta a Thark e
exibi-la agonizar nos grandes jogos perante Tal Hajus
- respondeu Sarkoja.
- Qual seria um meio de libertá-la? - perguntou Sola. -
Ela é tão pequena, tão linda. Eu esperava que fossem
mantê-la como refém.
Sarkoja e as outras mulheres rosnaram enraivecidas
diante dessa evidência de fraqueza da parte de Sola.
- É triste, Sola, que você não tenha nascido um milhão
de anos atrás - disparou Sarkoja -, quando todos os
espaços ocos da terra eram cheios de água e as pessoas
eram tão leves quanto o material sobre o qual
velejavam. Hoje, nós progredimos a um ponto em que
tais sentimentos indicam fraqueza e atavismo. Não
será bom permitir que Tars Tarkas saiba que você
guarda tais sentimentos degenerados porque temo que
assim ele não confiaria a alguém como você as sérias
responsabilidades da maternidade.
- Não vejo nada de errado com minha expressão de
interesse por essa mulher vermelha - retorquiu Sola. -
Ela nunca nos machucou ou nos machucaria, caso
caíssemos em suas mãos. São somente os homens de
sua espécie que guerreiam conosco, e sempre achei
que essa atitude deles nada mais é do que o reflexo
das nossas para com eles. Eles vivem em paz com
todos os seus, exceto quando recai sobre eles o dever
da guerra, enquanto não estamos em paz com
ninguém. Guerreando infinitamente entre nossa
própria espécie, assim como com os homens
vermelhos. Mesmo em nossas comunidades, os
indivíduos lutam entre si. Oh, vivemos um período
contínuo de terrível carnificina desde o momento em
que quebramos a casca até abraçarmos alegremente o
seio do rio do mistério, o escuro e ancestral Iss, que
nos leva a uma existência desconhecida, mas não mais
esta, assustadora e terrível! Bem-aventurado é aquele
que encontra seu fim na morte precoce. Diga o que
quiser a Tars Tarkas, pois não poderá me dar pior
destino do que a continuação da abominável
existência que somos forçados a ter nesta vida.
A repentina explosão por parte de Sola surpreendeu e
chocou bastante as outras mulheres. Tanto que, após
algumas poucas palavras de censura geral, elas se
silenciaram e logo estavam adormecidas. Se o
episódio havia servido para alguma coisa, no mínimo
me assegurou da simpatia de Sola para com a pobre
garota, além de me convencer de que eu havia sido
extremamente afortunado ao cair em suas mãos, e não
nas das outras fêmeas. Eu sabia que Sola se afeiçoara a
mim, e agora que havia descoberto sua aversão à
crueldade e à barbárie, estava confiante de que podia
contar com sua ajuda para que eu e a cativa
escapássemos, caso tal possibilidade estivesse ao seu
alcance.
Eu sequer sabia que havia um lugar melhor para o
qual escapar, mas estava disposto a arriscar minhas
chances entre pessoas com formas mais parecidas
com as minhas do que continuar mais tempo entre os
repugnantes e sanguinários homens verdes de Marte.
Mas para onde ou como ir era uma incógnita para
mim, assim como a antiga busca pela fonte da vida
eterna o era para os terráqueos desde a aurora do
tempo.
Decidi que na primeira oportunidade eu
confidenciaria meus planos a Sola e pediria
abertamente que me ajudasse. Com essa decisão
fortemente tomada, me virei sobre minhas sedas e
peles e dormi o sono pesado e revigorante de Marte.

Capítulo 10
CAMPEÃO E CHEFE

No dia seguinte, logo cedo, eu já estava totalmente
disposto. Uma liberdade considerável me foi
concedida, uma vez que Sola me informou que,
contanto que eu não tentasse deixar a cidade, estaria
livre para ir e vir à vontade. Ela me advertiu, porém,
sobre me aventurar desarmado, porque esta cidade,
assim como todas as outras metrópoles abandonadas
de civilizações marcianas antigas, era povoada pelos
grandes macacos albinos do meu segundo dia de
aventura.
Ao me informar que eu não deveria deixar os limites
da cidade, Sola havia explicado que Woola me
impediria de qualquer maneira se eu tentasse, e me
aconselhou em tom grave para que eu não despertasse
sua natureza feroz ao ignorar seus avisos caso eu me
aventurasse perto demais dos territórios proibidos.
Sua natureza era tal, disse ela, que ele me traria de
volta à cidade vivo ou morto se eu insistisse em
desobedecer à ordem. "De preferência, morto",
adicionou.
Nessa manhã eu havia escolhido uma nova rua para
explorar quando de repente me encontrei nos limites
da cidade. A minha frente estavam colinas baixas
cravadas por ravinas estreitas e convidativas. Eu
desejei explorar o campo diante de mim e, como
membro da linhagem desbravadora da qual me
originei, vislumbrar a paisagem que se mostraria a
mim de sobre os cumes, além das colinas que agora
impediam minha visão.
Também me ocorreu que esta seria uma excelente
oportunidade para testar as qualidades de Woola. Eu
estava convencido de que o animal me amava. Eu
havia visto mais evidências de afeto nele do que em
qualquer outro animal marciano, homem ou fera, e
estava certo de que a gratidão pelos atos que por duas
vezes salvaram sua vida suplantaria sua lealdade ao
dever imposto sobre ele por seus mestres cruéis e
desalmados.
Ao me aproximar da linha fronteiriça, Woola correu
afobado à minha frente e lançou seu corpo contra
minhas pernas. Sua expressão era mais um pedido do
que uma ameaça. Ele não arreganhou suas presas ou
articulou seus temíveis sons guturais. Privado da
amizade e do companheirismo de minha raça,
desenvolvi uma considerável afeição por Woola e
Sola, porque um ser humano normal precisa de uma
válvula de escape para suas afeições naturais e então
decidi por impulso me afeiçoar a esse grande animal,
certo de que não me desapontaria.
Eu nunca havia acariciado ou demonstrado afeto para
com ele, mas agora estava sentado sobre o solo e,
passando meus braços por seu largo pescoço, afaguei-
o com paciência, falando com minha recentemente
adquirida habilidade na língua marciana, como teria
feito com meu cão em minha casa, como eu teria
falado com qualquer outro amigo entre animais
inferiores. Sua resposta à minha manifestação de
carinho foi extraordinária. Ele abriu sua grande boca
até o limite, desvelando a completa arcada superior de
presas e enrugando seu focinho até que seus grandes
olhos fossem praticamente cobertos pelas dobras de
pele. Se alguma vez você viu um collie sorrindo,
talvez tenha uma idéia da distorção facial de Woola.
Ele se deitou de costas no chão e começou a se
esfregar graciosamente aos meus pés. Levantou-se,
saltou sobre mim, jogando-me ao chão sobre seu
grande peso, se sacudiu e se contorceu à minha volta
como um filhotinho que oferece o dorso pedindo para
ser acariciado. Eu não pude resistir ao absurdo do
espetáculo e me joguei para a frente e para trás na
primeira gargalhada a sair de meus lábios depois de
todos esses dias. A primeira, de fato, desde a manhã
em que Powell partiu do acampamento com seu
cavalo que, desacostumado de ser montado, pinoteou
e o derrubou inesperada e diretamente sobre uma
panela de feijões.
Minha gargalhada assustou Woola, fazendo-o parar
suas travessuras para vir rastejando lastimosamente
em minha direção, empurrando sua cabeça
ameaçadora em meu colo. E então me lembrei o que
uma gargalhada significava em Marte: tortura,
sofrimento, morte. Aquietando-me, cocei a cabeça do
pobre animal para a frente e para trás, falei com ele
por alguns minutos e, então, em um tom de comando
autoritário, ordenei que me seguisse. Levantando-me,
parti na direção das colinas.
Não houve questionamento de autoridade entre nós
após isso. Woola era meu escravo fiel daquele
momento em diante, e eu, seu único e indiscutível
mestre. Minha caminhada às colinas durou poucos
minutos, pois não encontrei nada que recompensasse
meus interesses particulares. Inúmeras flores
silvestres, brilhantemente coloridas e das mais
estranhas formas pontilhavam as ravinas. Do topo da
primeira colina vi ainda várias outras se estendendo
na distância para o norte, cada vez mais altas, um
nível sobre as outras, até se perderem em montanhas
de dimensões bastante respeitáveis - apesar de
posteriormente eu descobrir que somente alguns
poucos picos em Marte ultrapassavam mil e duzentos
metros de altura. A sugestão de magnitude era
meramente relativa.
Minha caminhada matutina havia sido de grande
importância para mim, pois havia resultado em um
perfeito entendimento com Woola, sobre quem Tars
Tarkas havia depositado minha salvaguarda. Agora eu
sabia que, mesmo sendo teoricamente um prisioneiro,
eu era virtualmente livre, e me apressei em voltar aos
domínios da cidade antes que a falha de Woola pu-
desse ser descoberta por seus antigos donos. A
aventura me fez decidir que eu não deixaria os limites
da cidade que me foram impostos até que estivesse
preparado para me aventurar adiante, até o fim, o que
fatalmente acarretaria tanto na redução de minhas
liberdades quanto no provável sacrifício de Woola,
caso fôssemos descobertos.
Ao adentrar novamente à praça, tive meu terceiro
relance da garota cativa. Ela estava parada com suas
guardas em frente à câmara de audiência e, enquanto
eu me aproximava, lançou-me um olhar arrogante e
virou as costas completamente para mim. O ato foi
tão próprio do sexo feminino, são terraqueamente
feminino que, mesmo ferindo meu orgulho, também
aqueceu meu coração com um sentimento de
companheirismo. Era bom saber que alguém mais em
Marte além de mim mesmo tinha instintos humanos
civilizados, mesmo que a manifestação fosse tão
dolorosa e mortificante.
Caso uma mulher marciana verde quisesse demonstrar
desprezo ou desrespeito, é muito provável que o teria
feito com um golpe de espada ou com um movimento
de seu dedo no gatilho. Mas já que seus sentimentos
eram extremamente atrofiados, seria preciso um
ferimento grave para despertar tamanha reação nelas.
Sola, preciso pontuar, era uma exceção. Eu nunca a vi
cometer atos cruéis ou grosseiros, ou mesmo falhar
em sua natureza uniforme de gentileza e bondade. Ela
era, na verdade, como seus camaradas marcianos
diziam, um atavismo: uma cara e preciosa reversão a
uma ancestralidade que sabia amar e receber amor.
Observando que a prisioneira parecia ser o centro das
atenções, parei para ver o que acontecia. Não tive de
esperar muito até que Lorquas Ptomel e sua comitiva
de líderes se aproximassem do edifício e, sinalizando
para que as guardas os seguissem com a prisioneira,
entrassem na câmara de audiência. Ciente de que eu
era uma figura protegida, e convencido de que os
guerreiros não sabiam de minha proficiência em seu
idioma, pois havia pedido a Sola que mantivesse
segredo disso - por não querer ser forçado a falar com
os homens até que houvesse dominado perfeitamente
a língua marciana arrisquei entrar na câmara de
audiências e acompanhar o processo.
O conselho estava alojado sobre os degraus da tribuna
enquanto abaixo deles ficava a prisioneira e suas duas
guardas. Pude ver que uma das mulheres era Sarkoja e
então deduzi como ela havia estado presente na
audiência do dia anterior, o que permitiu que
reportasse os acontecimentos aos ocupantes de nosso
dormitório na noite passada. Sua atitude para com a
cativa era rude e brutal. Quando ela a segurava,
afundava suas unhas rudimentares na pele da pobre
garota, ou torcia seu braço da maneira mais dolorosa.
Quando era necessário mover-se de um ponto para
outro, ela a sacudia grosseiramente ou a empurrava
com força à sua frente. Ela parecia estar
descarregando todo o ódio, crueldade, ferocidade e
maldade de seus novecentos anos de vida sobre essa
pobre criatura indefesa, carregando consigo
incontáveis eras da violência e da brutalidade de seus
ancestrais.
A outra mulher era menos cruel pelo fato de ser
totalmente indiferente. Se a prisioneira fosse confiada
exclusivamente a ela - e felizmente era, durante a
noite não receberia tratamento rude ou, seguindo o
mesmo raciocínio, sequer teria recebido qualquer tipo
de atenção.
Quando Lorquas Ptomel levantou seus olhos para fitar
a prisioneira, eles recaíram sobre mim. Ele voltou-se
para Tars Tarkas proferindo uma palavra e um gesto
de impaciência. Tars Tarkas lhe deu algum tipo de
resposta que não pude assimilar, mas que fez Lorquas
Ptomel sorrir e não prestar mais atenção em mim.
- Qual é o seu nome? - perguntou Lorquas Ptomel à
prisioneira.
- Dejah Thoris, filha de Mors Kajak de Helium.
- Qual é a natureza de sua expedição? - ele continuou.
- Éramos um grupo composto exclusivamente por
pesquisadores científicos enviados pelo pai de meu
pai, o jeddak de Helium, para remapear as correntes
de ar e para fazer testes de densidade atmosférica -
respondeu a prisioneira em um tom de voz
equilibrado e baixo.
- Estávamos despreparados para a batalha - ela
continuou - porque viajávamos em uma missão
pacífica, conforme indicavam as bandeiras e cores de
nossas naves. O trabalho que fazíamos era tanto de
seu interesse quanto do nosso, uma vez que é sabido
que não fossem nossos esforços e os frutos de nossas
operações científicas não haveria ar ou água
suficientes em Marte para comportar uma vida
humana sequer. Por gerações temos mantido o
suprimento de ar e água praticamente constante sem
maiores perdas. E temos feito isso mesmo diante da
interferência brutal e ignóbil de seus homens verdes.
- Por que, diga-me, não podem aprender a viver em
harmonia com seus iguais em vez de continuar no
caminho da extinção, sempre um degrau acima das
feras que os servem? Um povo sem idioma escrito,
sem arte, sem lares, sem amor, vítima de milênios de
um terrível ideal de comunidade? Possuir tudo em
comum, até mesmo mulheres e crianças, resultou em
possuir absolutamente nada em comum. Vocês se
odeiam uns aos outros assim como odeiam tudo o
mais além de vocês próprios. Voltem ao modo de vida
de nossos ancestrais comuns, voltem à luz da gen-
tileza e da camaradagem. O caminho está aberto
diante de vocês, onde encontrarão as mãos dos
homens vermelhos estendidas para ajudá-los. Juntos,
podemos fazer ainda mais para recuperar nosso
planeta moribundo. A neta do maior e mais poderoso
dos jeddaks vermelhos lhes pergunta: vocês virão?
Lorquas Ptomel e seus guerreiros permaneceram
sentados em silêncio, olhando seriamente por vários
segundos para a jovem mulher depois que ela
concluiu sua fala. O que se passava em suas mentes,
nenhum homem poderia dizer, mas acredito piamente
que haviam sido tocados e que se ao menos um
dentre eles fosse forte o bastante para se colocar
acima dos costumes, aquele momento teria marcado
uma nova e importante era para Marte.
Eu vi Tars Tarkas levantar-se para falar e, em sua face,
havia expressões que eu nunca tinha visto no
semblante de outro guerreiro verde marciano. Elas
denunciavam uma grande batalha interior contra si
mesmo, contra sua hereditariedade, contra os antigos
costumes. Quando abriu sua boca para falar, um toque
quase bondoso, quase afável, acendeu
momentaneamente seu rosto feroz e terrível.
As palavras que estavam fadadas a sair por seus lábios
nunca foram proferidas porque, no exato momento,
um jovem guerreiro, evidentemente pressentindo o
rumo dos pensamentos entre os mais velhos, saltou
dos degraus da tribuna e, acertando a frágil cativa
com um golpe na face - que a derrubou ao chão -,
colocou seu pé sobre sua forma prostrada. Voltando-
se para o conselho reunido, disparou uma horrenda e
melancólica gargalhada.
Por um instante pensei que Tars Tarkas o fulminaria.
O aspecto de Lorquas Ptomel também não se
anunciava muito favorável ao bruto, mas a tensão
passou, suas antigas personalidades reafirmaram sua
ascendência e todos sorriram. Foi um augúrio, porém,
o fato de que não gargalharam sonoramente, porque o
ato do bruto constituía uma ação espirituosa e
engraçada de acordo com a ética que regia o humor
verde marciano.
O fato de eu ter levado algum tempo para descrever
uma parte do que ocorreu depois que o golpe foi
desferido não significa que permaneci inativo todo
esse tempo. Acredito que pressenti algo do que estava
por vir, porque percebi que eu estava agachado,
pronto para saltar, enquanto o golpe estava a caminho
de sua face bela e suplicante a olhar para cima. Antes
que a mão recaísse sobre ela, eu já havia percorrido
metade do salão.
Mal a perturbadora risada do guerreiro havia ecoado
pela primeira vez, eu já estava sobre ele. O bruto
tinha três metros e meio de altura e estava armado até
os dentes, mas acredito que eu podia ter dado cabo de
todos naquela sala, dada a terrível intensidade de
minha raiva. Saltando adiante, eu o atingi em cheio
no rosto enquanto se virava na direção de meu grito
de aviso. Enquanto ele sacava sua espada curta, saquei
a minha e me abati novamente sobre seu peito,
enganchei uma perna sobre a coronha de sua pistola e
segurei uma de suas grandes presas com minha mão
esquerda enquanto desferia golpe após golpe sobre
sua enorme caixa torácica.
Ele não podia usar a espada curta em seu favor porque
eu estava próximo demais. Também não podia sacar
sua pistola, coisa que tentou fazer em oposição direta
a um costume marciano que diz que não se pode
duelar com um guerreiro semelhante com outra arma
que não seja a mesma com a qual foi atacado. Na
verdade, ele não podia ir além de uma desesperada e
inútil tentativa de se livrar de mim. Com todo o seu
imenso corpanzil, ele era pouco mais forte do que eu
e não demoraria um segundo ou dois até que ele
sucumbisse, sangrando e sem vida no chão.
Dejah Thoris havia se levantado sobre um cotovelo e
observava a batalha com os olhos arregalados e
surpresos. Quando consegui ficar em pé, peguei-a em
meus braços e a carreguei até um dos bancos na
lateral da sala.
Desta vez, nenhum marciano se interpôs a mim e,
rasgando um pedaço de seda de minha capa, tentei
estancar o fluxo de sangue que saía de seu nariz.
Minha atitude foi bem-sucedida, uma vez que seus
ferimentos não passavam muito de um sangramento
nasal comum e, quando ela pôde falar, pousou sua
mão sobre o meu braço e, olhando-me nos olhos,
disse:
- Por que você fez isso? Você, que se recusou até
mesmo a uma aproximação amigável quando precisei
da primeira vez! E agora arrisca sua vida e assassina
um de seus companheiros por minha causa. Não
consigo entender. Que homem de modos estranhos é
você, que se associa com homens verdes embora sua
forma seja a mesma de minha raça, enquanto sua cor
é pouca coisa mais escura que a dos macacos albinos?
Diga-me se é humano ou se é mais que humano.
- É uma história estranha - respondi. - Longa demais
para contá-la agora e também da qual eu mesmo
tenho tantas dúvidas que temo que outros não
acreditarão nela. Basta dizer, por enquanto, que sou
seu amigo e, enquanto nossos captores permitirem,
também seu protetor e servo.
- Então você também é um prisioneiro? Mas por que,
então, usa essas armas e vestes de um chefe
tharkiano? Qual o seu nome? Qual o seu país?
- Sim, Dejah Thoris, sou um prisioneiro. Meu nome é
John Carter e chamo a Virgínia, um dos Estados
Unidos da América, Terra, de meu lar. Mas o motivo
de me permitirem usar armas eu não sei, nem estava
ciente de que minha regalia era a mesma dos chefes.
Fomos interrompidos nesse momento pela
aproximação de um dos guerreiros que carregava
armas, equipamentos e ornamentos. Em um lampejo,
uma de suas questões foi respondida e me foi
esclarecido um enigma. Vi que o corpo de meu
antagonista morto havia sido despido e percebi, pela
atitude ameaçadora, porém respeitosa, daquele que
me trazia esses espólios a mesma deferência mostrada
pelo guerreiro que me trouxera o equipamento
original. Agora, pela primeira vez, percebia que meu
golpe, na ocasião do primeiro embate na câmara de
audiência, havia resultado na morte posterior do
adversário.
A razão para essa atitude demonstrada para comigo
agora me era aparente. Eu havia ganhado minhas
esporas, por assim dizer, por meio da justiça cruel que
sempre marca as negociações entre os marcianos e
que, entre outras coisas, me fez chamar este lugar de
"planeta dos paradoxos". Concederam-me as honras
de um conquistador, os equipamentos e a posição do
homem que eu havia assassinado. Na verdade, eu era
um líder marciano e, depois aprendi, era a causa de
minha grande liberdade e tolerância na câmara de
audiência.
Ao me voltar para receber os bens do guerreiro
morto, notei que Tars Tarkas e vários outros haviam
se deslocado em nossa direção e que os olhos do
primeiro repousavam sobre mim de maneira
inquiridora. Finalmente, dirigiu-se a mim:
-Você fala a língua de Barsoom com perfeição para
alguém que, há poucos dias, era surdo e mudo para
nós. Onde a aprendeu, John Carter?
-Você mesmo foi o responsável, Tars Tarkas -
respondi ao me fornecer uma instrutora de habilidade
admirável. Devo agradecer a Sola o meu aprendizado.
- Ela trabalhou bem - ele respondeu, mas sua educação
em outras instâncias precisa de considerável
aprimoramento. Você sabe o que sua ousadia inaudita
teria lhe custado caso não tivesse matado algum dos
dois líderes cujo metal você veste agora?
- Presumo que aquele que eu tivesse falhado em matar
teria me matado - respondi sorrindo.
- Não, você está errado. Somente na mais extrema
legítima defesa um guerreiro marciano mataria um
prisioneiro. Gostamos de guardá-los para outros
propósitos - e sua face evidenciou possibilidades que
não eram aprazíveis de se supor.
- Mas há algo que pode salvá-lo agora - ele continuou.
- Em reconhecimento ao seu notável valor,
agressividade e destreza, você poderia ser
considerado por Tal Hajus tão honrado a ponto de ser
integrado à comunidade e tornar-se um tharkiano
completo. Até chegarmos ao quartel-general de Tal
Hajus, é o desejo de Lorquas Ptomel que você seja
tratado com o respeito devido aos seus atos. Você
será tratado por nós como um líder tharkiano, mas
não deve se esquecer de que todo chefe superior a
você tem como responsabilidade entregá-lo em
segurança a nosso poderoso e cruel soberano. Tenho
dito.
- Entendido, Tars Tarkas - respondi. - Como sabe, não
sou de Barsoom, seus costumes não são como os meus
e somente posso agir no futuro como agi no passado,
de acordo com o que dita minha consciência e pelo
que dizem os padrões do meu povo. Se você me
libertar, irei em paz. Caso contrário, que os in-
divíduos barsoomianos com os quais terei de conviver
respeitem meus direitos de estrangeiro entre seu
povo, ou que sofram as conseqüências que se
seguirão. E deixemos claro que quaisquer que sejam
suas intenções para com esta desafortunada jovem,
aquele que tentar machucá-la ou insultá-la no futuro
deve saber que terá de prestar contas a mim. Entendo
que menosprezem todos os sentimentos de
generosidade e gentileza, mas não eu. E poderei
convencer seus mais bravos guerreiros de que essas
características não são incompatíveis com a
habilidade de lutar.
Normalmente não sou dado a longos discursos, e
nunca antes utilizei tal ênfase, mas confiei que essa
oratória encontraria eco nos peitos dos marcianos
verdes. E não me enganei, pois minha prolixidade
evidentemente tocou-os a fundo, tornando, pos-
teriormente, sua atitude para comigo alvo de ainda
mais respeito.
O próprio Tars Tarkas pareceu satisfeito com minha
resposta, mas seu único comentário foi algo mais ou
menos enigmático:
- E eu acho que conheço Tal Hajus, jeddak de Thark.
Eu agora havia desviado minha atenção para Dejah
Thoris e a auxiliava a se manter em pé enquanto a
guiava para a saída, ignorando as harpias guardiãs
planando em volta, assim como os olhares curiosos
dos líderes. Afinal, eu agora também era um líder! E,
bem, agora assumiria as responsabilidades cabíveis.
Eles não nos incomodaram e, assim, Dejah Thoris,
princesa de Helium, ejohn Carter, cavalheiro da
Virgínia, seguidos pelo fiel Woola, passaram pelo
completo silêncio da câmara de audiência de Lorquas
Ptomel, jed entre os tharks de Barsoom.

Capítulo 11
COM DEJAH THORIS

Quando chegamos em campo aberto, as duas guardas
fêmeas que haviam sido instruídas a vigiar Dejah
Thoris se apressaram e tentaram recuperar sua
custódia, novamente. A pobre criança se encolheu
contra mim e senti suas duas pequenas mãos
apertando meu braço com força. Afugentando-as,
informei-as que Sola cuidaria da cativa de agora em
diante e em seguida adverti Sarkoja de que quaisquer
outras atenções cruéis que se abatessem sobre Dejah
Thoris resultariam em repentino e doloroso fim.
Minha ameaça mostrou-se infeliz e resultou em mais
danos que benefícios a Dejah Thoris porque, como
aprendi depois, homens não matam mulheres em
Marte, nem mulheres, homens. Então, Sarkoja
simplesmente nos desferiu um olhar ameaçador e se
foi para arquitetar suas maldades contra nós.
Logo encontrei Sola e expliquei a ela meu desejo de
que cuidasse de Dejah Thoris assim como cuidava de
mim, e que queria que ela encontrasse outros
alojamentos onde Sarkoja não as molestaria e,
finalmente, informei-a de que eu mesmo iria me
alojar entre os homens.
Sola espiou os equipamentos que eu carregava nas
mãos e pendurados em meus ombros.
- Você é um grande líder agora, John Carter - ela
disse. - E devo cumprir o que me pede, apesar de que
o faria da mesma forma sob quaisquer circunstâncias.
O homem cujo metal você carrega era jovem, mas era
um grande guerreiro e havia, por meio de suas
promoções e mortes, conseguido um posto próximo
ao de Tars Tarkas que, como você sabe, está abaixo
somente de Lorquas Ptomel. Você é o décimo
primeiro, havendo apenas outros dez líderes acima de
você em valentia nesta comunidade.
- E se eu matasse Lorquas Ptomel? - perguntei.
-Você seria o primeiro, John Carter. Mas você só
pode obter esta honraria se o conselho inteiro decidir
que Lorquas Ptomel deve enfrentá-lo num duelo; ou,
caso seja atacado por ele, se você matá-lo em legítima
defesa, conquistando assim o primeiro lugar.
Eu gargalhei e mudei de assunto. Eu não tinha
nenhum desejo de matar Lorquas Ptomel e menos
ainda de ser um jed entre os tharks.
Acompanhei Sola e Dejah Thoris na busca de novos
alojamentos, os quais encontramos em uma
construção próxima à câmara de audiência e de
arquitetura muito mais pretensiosa do que nossa
antiga habitação. Também encontramos nesse prédio
verdadeiros apartamentos-dormitório com camas
antigas e altas de metal fundido penduradas no alto,
balançando por enormes correntes de ouro presas nos
tetos de mármore. A decoração das paredes era
extremamente elaborada e, ao contrário dos afrescos
nos outros edifícios que eu havia visto, retratavam
várias figuras humanas em suas composições. Eram
pessoas como eu e de cor muito mais clara do que a
de Dejah Thoris. Eles vestiam túnicas graciosas e
soltas, altamente ornamentadas com metais e jóias, e
seus cabelos luxuriantes eram de um lindo dourado e
de um bronze avermelhado. Os homens estavam
barbeados e apenas alguns carregavam armas. As
pinturas representavam, em grande parte, um povo de
pele e cabelos delicados em atividade.
Dejah Thoris entrelaçou suas mãos em uma
exclamação de êxtase enquanto olhava para as
magníficas obras de arte, criadas por um povo há
muito extinto, enquanto Sola, por outro lado, parecia
sequer notá-los.
Decidimos usar esse quarto, localizado no segundo
andar e voltado para a praça, para abrigar Dejah
Thoris e Sola. Em seus fundos, outro cômodo
adjacente serviria como cozinha e despensa. Depois
disso, despachei Sola para trazer roupas de cama, ali-
mentos e utensílios de que ela poderia precisar,
dizendo que eu guardaria Dejah Thoris até que ela
voltasse.
Enquanto Sola partia, Dejah Thoris voltou-se para
mim com um sorriso tímido.
- E para onde, então, sua prisioneira escaparia se você
a deixasse, além de acompanhá-lo por onde for,
procurar sua proteção e pedir-lhe perdão pelos
pensamentos cruéis que cultivou contra você nesses
últimos dias?
- Você está certa - respondi. - Não há fuga possível
para nenhum de nós dois, exceto juntos.
- Ouvi seu desafio à criatura que você chama de Tars
Tarkas e acho que entendi sua posição entre esse
povo, mas o que não consigo compreender é sua
declaração de que não é de Barsoom.
- Então, em nome de meu primeiro ancestral - ela
continuou -, de onde mais você poderia ser? Você é
parecido com meu povo e, ainda assim, tão diferente.
Você fala minha língua e, mesmo assim, ouço você
dizer a Tars Tarkas que a aprendeu recentemente.
Todos os barsoomianos falam a mesma língua, da
calota glacial sul à calota glacial norte, embora suas
escritas sejam diferentes. Somente no vale Dor, onde
o rio Iss desemboca no mar perdido de Korus, supõe-
se que uma outra língua seja falada e, exceto nas
lendas de nossos ancestrais, não há registro de algum
barsoomiano ter retornado do rio Iss ou das praias do
Korus, no vale Dor. Não me diga que você retornou
de lá! Eles o matariam da forma mais terrível em
qualquer lugar da superfície de Barsoom se isso for
verdade. Por favor, diga que não!
Seus olhos se preencheram com uma luz estranha.
Sua voz era suplicante e suas pequenas mãos se
estenderam até meu peito, onde me pressionaram
como se quisessem arrancar uma negativa de meu
próprio coração.
- Eu não conheço seus costumes, Dejah Thoris, mas
em minha Virgínia um cavalheiro não mente para se
salvar. Eu não sou de Dor. Nunca estive no misterioso
Iss e o mar perdido de Korus continua perdido, até
onde eu sei. Acredita em mim?
E então me impressionei ao perceber que eu ansiava
que ela acreditasse em mim. Não que temesse os
resultados que se seguiriam caso todos acreditassem
que eu havia retornado do céu ou do inferno
barsoomianos, ou coisa que o valha. Por que, então?
Por que eu me importaria com o que ela pensava?
Olhei para ela, sua bela face inclinada para mim e seus
maravilhosos olhos revelavam as profundezas de sua
alma. E, quando meus olhos encontraram os dela, eu
soube o porquê e... estremeci.
Uma onda de sentimento similar pareceu se agitar
dentro dela. Ela se afastou de mim com um suspiro e
com seu rosto lindo e ardente inclinado para mim,
sussurrou:
- Acredito em você, John Carter. Não sei o que é um
"cavalheiro", nem nunca ouvi falar da Virgínia, mas
em Barsoom os homens não mentem. Se ele não
deseja falar a verdade, ele permanece em silêncio.
Onde é essa Virgínia, seu país, John Carter? - ela
perguntou. E me pareceu que o lindo nome de minha
amada terra nunca havia soado tão belo como quando
proferido por seus lábios perfeitos naquele dia agora
tão distante.
- Eu vim de outro mundo - respondi -, do grande
planeta Terra, que gira em torno desse mesmo sol e
ocupa a próxima órbita após Barsoom, que chamamos
de Marte. Como cheguei aqui, não posso dizer,
porque não sei. Mas aqui estou e, uma vez que minha
presença me permite servir a Dejah Thoris, fico feliz
por isso.
Ela me fitou com seus olhos confusos longa e
interrogativamente. Eu sabia muito bem que era
difícil para ela acreditar em minhas palavras e não
podia esperar que acreditasse, embora eu suplicasse
por sua confiança e respeito. Eu deveria não ter dito
nada sobre meus antecedentes, mas nenhum homem
poderia olhar dentro daqueles olhos e se negar aos
seus mais ínfimos pedidos.
Finalmente ela sorriu e, levantando-se, disse:
- Eu devo acreditar mesmo que não consiga entender.
Vejo claramente que você não é um homem da
Barsoom atual. Você é como nós, mas diferente...,
mas por que eu deveria ocupar minha cabeça com tal
problema quando meu coração me diz que acredito
porque quero acreditar?
Era uma boa lógica. Boa, terráquea, feminina e, se a
satisfazia, eu certamente não poderia encontrar
nenhuma falha nela. Na verdade, era praticamente o
único tipo de lógica que poderia admitir o meu
problema. Caímos em uma conversa genérica,
perguntando e respondendo várias questões de ambos
os lados. Ela estava curiosa em aprender os costumes
de meu povo e demonstrava um notável
conhecimento dos eventos na Terra. Quando a
questionei mais profundamente sobre essa aparente
familiaridade com as coisas terráqueas, ela gargalhou e
gritou:
- Ora, todo aluno em Barsoom conhece a geografia e
bastante sobre a fauna e a flora, assim como a história
do seu planeta, quase tão bem quanto do nosso. Por
acaso não podemos ver tudo o que acontece sobre a
Terra, como você a chama? Afinal, ela não está
pairando nos céus bem à nossa vista?
Aquilo me deixou embasbacado, devo admitir, tanto
quanto meus relatos a haviam confundido, confessei.
Ela então me explicou de forma geral os instrumentos
que seu povo usava, aperfeiçoados por eras, e que
lhes permitiam jogar sobre uma tela uma imagem
perfeita do que estava acontecendo sobre qualquer
planeta e em várias estrelas. Essas imagens eram tão
detalhadas que, quando fotografadas e ampliadas,
objetos do tamanho de uma folha de grama podiam
ser reconhecidos com clareza. Depois, já em Helium,
pude ver diversas dessas imagens, assim como os
instrumentos que as produziam.
- Então, se você é tão familiar com as coisas da Terra -
perguntei -, por que não me reconheceu como um
dos habitantes daquele planeta?
Ela sorriu novamente, com a mesma complacência
aborrecida dispensada à pergunta de uma criança:
- Porque, John Carter - ela respondeu -, quase todo
planeta e estrelas que tenham condições atmosféricas
parecidas com as de Barsoom apresentam formas de
vida animal, quase idênticas a você e eu. Além do
mais, os homens da Terra, quase sem exceção,
cobrem seus corpos com estranhos pedaços de tecido
e suas cabeças com aparelhos ridículos que impedem
uma melhor visão e cujos motivos não somos capazes
de entender. Enquanto você, quando encontrado
pelos guerreiros tharkianos, estava sem interferências
e adornos. O fato de você estar sem adornos é uma
forte prova de que sua origem não é barsoomiana, ao
passo que a ausência de vestes grotescas pode gerar a
dúvida de que você seja um terráqueo.
Foi então que narrei os detalhes da minha partida da
Terra, explicando que meu corpo jazia
completamente vestido com todos os mesmos - para
ela - estranhos trajes dos habitantes comuns. Nesse
momento, Sola retornou com nossas escassas posses e
seu jovem protegido marciano que, obviamente, teria
de dividir os dormitórios com elas.
Sola nos perguntou se tivemos algum visitante
durante sua ausência e pareceu muito surpresa quando
respondemos negativamente. Pareceu que quando ela
subia rumo aos andares superiores onde nossos
dormitórios se localizavam, havia encontrado Sarkoja
descendo. Decidimos que ela devia estar
bisbilhotando, mas como não nos lembramos de nada
de importância ter ocorrido, descartamos o assunto,
embora nos prometendo mutuamente que nos
manteríamos em alto grau de alerta no futuro.
Dejah Thoris e eu nos concentramos em examinar a
arquitetura e as decorações das belas salas do edifício
que ocupávamos. Ela me disse que tudo indicava que
esse povo havia florescido mais de cem mil anos
atrás. Eles eram os remotos progenitores de sua raça,
mas haviam se misturado com a outra raça de antigos
marcianos, que eram muito escuros, quase negros, e
também com a raça amarelo-avermelhada que havia
florescido naquele tempo.
Essas três grandes divisões dos marcianos superiores
haviam sido forçadas a uma poderosa aliança
enquanto os mares do planeta secavam, compelindo-
os a buscar as comparativamente poucas - e em
constante redução - áreas férteis e a se defenderem
sob as novas condições de vida e contra as hordas
selvagens de homens verdes.
Eras de relacionamento próximo e casamentos entre
si resultaram na primeira raça de homens vermelhos,
dos quais Dejah Thoris era uma encantadora e bela
descendente. Durante os milênios de trabalho árduo e
incessante combate contra suas várias raças, assim
como contra os homens verdes, e antes que tivessem
se adaptado às mudanças ambientais, muitas das
civilizações superiores e muitas das artes dos
marcianos de cabelos claros se perderam. Mas a raça
vermelha de hoje chegou a um ponto em que acredita
ter compensado, com novas descobertas e em uma
civilização mais pragmática, todo o conhecimento
irrecuperavelmente perdido com os antigos
barsoomianos sob as incontáveis gerações que se
interpõem entre eles.
Esses antigos marcianos formavam uma raça
altamente culta e letrada, mas durante as vicissitudes
daqueles séculos de adaptação às novas condições,
não somente seus avanços industriais cessaram, mas
também todos os seus arquivos, documentos e
literatura se perderam.
Dejah Thoris relatou muitos fatos interessantes e
lendas sobre essa raça perdida de indivíduos nobres e
gentis. Ela disse que a cidade onde estávamos
acampados era onde hipoteticamente se situara o
centro comercial e cultural conhecido como Korad.
Havia sido construída sobre um lindo refúgio natural,
incrustada entre magníficas colinas. O pequeno vale
na frente oeste da cidade, ela explicou, era tudo o que
restava do porto, enquanto a passagem entre as
colinas até o fundo do velho mar era o canal através
do qual passavam as mercadorias até os portões da
cidade.
As praias dos mares antigos eram pontilhadas por
cidades como esta e por outras menores, cada vez
mais escassas e que podiam ser encontradas
convergindo para o centro dos oceanos, uma vez que
as pessoas descobriram ser necessário seguir as águas
que recuavam cada vez mais até que a urgência levou-
as à sua última chance de salvação, os chamados
canais marcianos. Tínhamos nos entretido tanto na
exploração do edifício e em nossa conversa que o
final da tarde já havia chegado sem que percebês-
semos. Fomos trazidos de volta ã realidade de nossa
condição atual por um mensageiro que trazia uma
convocação de Lorquas Ptomel, requerendo minha
presença diante dele imediatamente. Despedindo-me
de Dejah Thoris e Sola, e ordenando Woola a ficar de
guarda, apressei-me à câmara de audiência, onde
encontrei Lorquas Ptomel e Tars Tarkas sentados
sobre a tribuna.

Capítulo 12
UM PRISIONEIRO COM PODER

Quando entrei e saudei, Lorquas Ptomel acenou para
que eu avançasse e, fixando seus grandes e detestáveis
olhos sobre mim, dirigiu-me a palavra assim:
- Você está conosco há alguns dias e durante esse
tempo ganhou, por meio de suas habilidades, uma alta
posição entre nós. Ainda assim, você não é um de
nós. E não nos deve obediência.
- Sua posição é bastante peculiar - ele continuou. -
Você é um prisioneiro e ainda assim dá ordens que
devem ser cumpridas. Você é um alienígena e mesmo
assim é um líder tharkiano. Você é um anão e ainda
assim pode matar um poderoso guerreiro com um
golpe de seu punho. E agora é dito que você esteve
planejando escapar com outra prisioneira de outra
raça, uma prisioneira que, ela mesma sugere, tende a
acreditar que você retornou do vale de Dor. Qualquer
dessas acusações, se provada, daria base suficiente
para sua execução, mas somos pessoas justas e você
deverá ser julgado quando voltarmos a Thark, se Tal
Hajus assim ordenar.
- Mas - ele continuou em seus tons guturais bárbaros -
, se você fugir com a garota vermelha, serei eu a ter
de me relatar a Tal Hajus. Serei eu a encarar Tars
Tarkas e comprovar meu direito ao comando, ou o
metal de minha carcaça morta irá para um homem
mais apto, porque esse é o costume dos tharks.
- Não tenho contendas com Tars Tarkas. Juntos,
regemos de forma soberana a maior das comunidades
inferiores entre os homens verdes. Não desejamos
lutar entre nós, e, portanto, John Carter, se você
estivesse morto, eu estaria mais feliz. Contudo,
apenas sob duas condições você poderia ser morto
por nós sem ordens de Tal Hajus: em combate pessoal
e em legítima defesa, caso ataque um de nós; ou se
fosse preso em uma tentativa de fuga.
- Por questão de justiça, devo adverti-lo de que apenas
esperamos uma dessas duas desculpas para nos livrar
dessa enorme responsabilidade. A entrega da garota
vermelha em segurança a Tal Hajus é da maior
importância. Nem em mil anos os tharks fizeram tal
captura. Ela é a neta do maior dos jeddaks vermelhos,
que também é nosso mais amargo inimigo. Tenho
dito. A garota vermelha nos disse que éramos
desprovidos dos sentimentos mais delicados de
humanidade, mas somos uma raça justa e honesta.
Pode ir.
Voltei-me e deixei a câmara de audiência. Então este
era o começo da perseguição de Sarkoja! Eu sabia que
ninguém mais poderia ser responsável por esse relato
que chegou aos ouvidos de Lorquas Ptomel tão
rapidamente, e agora eu me lembrava as partes de
nossa conversa que haviam mencionado a fuga e
minha origem.
Sarkoja era a fêmea mais idosa e respeitada de Tars
Tarkas. Assim sendo, ela tinha grande poder nos
bastidores do trono, porque nenhum guerreiro gozava
de maior grau de confiança de Lorquas Ptomel que
seu tenente mais hábil, Tars Tarkas.
Contudo, em vez de fazer com que eu abandonasse
meus planos de uma possível fuga, minha audiência
com Lorquas Ptomel apenas ajudou a focalizar toda a
minha atenção nesse objetivo. Agora, mais do que
nunca, a necessidade absoluta de escapar, como Dejah
Thoris já sabia, me pressionava, pois eu estava
convencido de que um destino terrível esperava por
ela no quartel-general de Tal Hajus.
Conforme Sola havia descrito, esse monstro era a
personificação exagerada de todas as eras de
crueldade, ferocidade e brutalidade das quais ele
descendia. Frio, astuto, calculista. Ele também era,
em marcante contraste a todos os seus semelhantes,
um escravo daquela paixão bruta cuja minguante
demanda por procriação em seu planeta moribundo
havia quase estagnado no peito marciano.
A idéia de que a divina Dejah Thoris poderia cair nas
garras de tal atavismo abismai fez com que eu suasse
frio. Seria melhor guardarmos munição amiga para
nós mesmos num último momento, como faziam as
valentes mulheres das fronteiras de minha terra
distante, que preferiam dar cabo de suas próprias
vidas a cair nas mãos dos índios selvagens.
Enquanto eu vagava pela praça, perdido em meus
sombrios pressentimentos, Tars Tarkas se aproximou
de mim em seu caminho para a câmara de audiência.
Seu comportamento para comigo permanecia
inalterado e me saudou como se não tivéssemos nos
separado apenas alguns momentos antes.
- Onde ficam suas acomodações, John Carter? - ele
perguntou.
-Ainda não escolhi nenhuma - respondi. - Pareceu-
me melhor que eu me alojasse sozinho ou com os
outros guerreiros, mas estava esperando uma
oportunidade de lhe pedir um conselho.
Como sabe - sorri não estou familiarizado com todos
os costumes dos tharks.
-Venha comigo - ele indicou. E juntos atravessamos a
praça em direção a uma construção que me alegrou
por ser vizinha àquela ocupada por Sola e seus
protegidos.
- Meus alojamentos ocupam o primeiro andar deste
edifício - ele disse -, e o segundo também está
ocupado pelos guerreiros, mas o terceiro andar e
todos acima estão livres. Pode escolher qualquer um.
- Entendo que você abriu mão de sua mulher para
ficar com a prisioneira - ele continuou. - Bem, como
você disse, seus hábitos não são os mesmos que os
nossos, mas você luta bem o bastante para agir como
quiser e, portanto, se prefere desistir de sua mulher
pela cativa, o problema é seu. Mas como líder você
deve ter seus serviçais, e de acordo com os costumes,
você pode escolher qualquer uma das fêmeas da
comitiva dos líderes cujos metais você agora veste.
Eu agradeci, mas assegurei-o de que poderia cuidar
muito bem de mim mesmo, exceto para preparar
comida. Ele prometeu, então, enviar uma mulher para
cozinhar, para cuidar de minhas armas e forjar minha
munição, o que ele acreditava ser essencial. Sugeri
que talvez pudessem me trazer também algumas das
cobertas de seda e peles que conquistara como
espólios do combate, pois as noites eram frias e eu
não trazia nenhuma comigo.
Ele prometeu fazê-lo e então partiu. Sozinho, subi o
corredor espiralado até os andares superiores em
busca de dormitórios adequados. As belezas daquele
outro edifício se repetiam neste e, como de costume,
logo me perdi em um passeio de investigação e
descobertas.
Finalmente, escolhi um quarto frontal no terceiro
andar, porque me deixava mais próximo de Dejah
Thoris, cujo apartamento se localizava no segundo
andar do edifício vizinho. Pensei que seria possível
criar alguns meios de comunicação pelos quais ela
poderia me chamar caso precisasse de meus serviços
ou proteção.
Ao lado de meu apartamento-dormitório, havia
banheiras, closets e outros quartos e salas de estar. Ao
todo, havia cerca de dez cômodos nesse andar. As
janelas dos quartos dos fundos davam para um pátio
enorme que formava o centro do quadrado feito pelos
edifícios defronte às quatro ruas contíguas, e que ago-
ra serviam de alojamento para os vários animais que
pertenciam aos guerreiros que ocupavam os edifícios
vizinhos.
Embora o pátio estivesse tomado pela vegetação
amarela e musgosa que cobria quase toda a superfície
de Marte, havia também numerosas fontes, estátuas,
bancos e armações em estilo pérgula que deviam ter
testemunhado a beleza que esse pátio devia ter
apresentado em tempos passados, quando embelezado
pelo povo sorridente e de cabelos claros a quem as
inalteráveis e severas leis cósmicas haviam não
somente expulsado de seus lares, mas de tudo o mais
exceto das vagas lendas de seus descendentes.
Era possível facilmente imaginar a belíssima folhagem
da luxuriante vegetação marciana que um dia cobriu
essa cena com vida e cor; as figuras graciosas de
lindas mulheres, os homens elegantes e bonitos, os
alegres grupos de crianças... toda a luz do sol,
felicidade e paz. Era difícil aceitar que todos haviam
desaparecido, sugados por eras de trevas, crueldade e
ignorância, até que seus instintos hereditários
humanitários e sua cultura se elevassem uma vez mais
na composição final daquela que agora é a raça
dominante sobre Marte.
Meus pensamentos foram interrompidos pela chegada
de várias jovens fêmeas carregando montes de armas,
sedas, peles, jóias, utensílios de cozinha e barris de
comida e bebida, incluindo uma considerável
quantidade de pilhagem da nave voadora. Tudo isso,
parecia, era de propriedade dos dois líderes que eu
havia matado e, agora, pelos costumes dos tharks, me
pertenciam. Sob meus comandos elas colocaram os
objetos em um dos quartos dos fundos e partiram,
somente para retornar com um segundo
carregamento, o qual me informaram constituir o res-
tante de meus bens. Na segunda viagem, vieram
acompanhadas por outras dez ou quinze mulheres e
jovens que pareciam ser as comitivas dos dois líderes.
Elas não eram suas famílias, nem suas esposas ou
servas. O relacionamento era peculiar e tão diferente
de tudo que conhecemos que é bastante difícil
descrever. Toda propriedade entre os marcianos
verdes pertence a todos da comunidade, exceto as ar-
mas pessoais, ornamentos e cobertas de seda e peles
de cada um. Somente sobre essas posses alguém pode
reclamar seus direitos, mas não se pode acumular
mais desses objetos do que o necessário para suas
reais necessidades. Os excedentes são guardados
apenas sob custódia e são passados adiante aos
membros mais jovens da comunidade conforme se faz
necessário.
As mulheres e crianças da comitiva de um homem
podem ser comparados à uma unidade militar da qual
ele é responsável de várias maneiras, incluindo
questões como instrução, disciplina, sustento e
exigências para sua contínua marcha e seus eternos
conflitos com outras comunidades e com os
marcianos vermelhos. Suas mulheres não são esposas.
Os marcianos verdes não têm um termo que
corresponda ao significado da palavra terráquea. Seu
acasalamento é uma questão restrita aos interesses da
comunidade e é gerenciado sem que se consulte a
seleção natural. O conselho dos líderes de cada
comunidade controla a questão com tanta atenção
quanto o dono de cavalos de corrida de Kentucky
gerencia a produção científica de seus animais para
aprimorar todo o conjunto.
A teoria pode soar bem, como é comum quando se
trata de teorias, mas os resultados de séculos dessa
prática antinatural, aliados à decisão da comunidade
de que o rebento seja mantido distante de uma figura
materna, se personifica nas frias e cruéis criaturas, e
em sua existência soturna, desalmada e melancólica.
É verdade que os marcianos verdes são absolutamente
virtuosos, tanto homens quando mulheres, com
exceção feita a degenerados como Tal Hajus. Mas
seria preferível um equilíbrio mais delicado de
características humanas, mesmo ao custo de uma oca-
sional e pequena perda de castidade.
Sabendo disso, era meu dever assumir
responsabilidade por essas criaturas, quer eu quisesse
ou não, e fiz o melhor que pude, indicando a elas seus
quartos nos andares superiores, reservando o terceiro
andar para mim. Encarreguei uma das garotas com os
afazeres de uma simples refeição e dei ordens às
demais que retomassem as outras atividades que
constituíam suas vocações primárias. Após isso,
raramente as via, e pouco me importava.

Capítulo 13
DESCOBRINDO O AMOR EM MARTE

Após a batalha com as naves voadoras, a comunidade
permaneceu na cidade por vários dias, abandonando a
marcha para casa até que pudesse se sentir
razoavelmente segura de que os navios não
retornariam. Ser pego em campo aberto com uma
caravana de carruagens e crianças estava longe de ser
desejável, mesmo para um povo tão belicoso como os
marcianos verdes.
Durante nosso período de inatividade, Tars Tarkas
havia me instruído em muitos dos costumes e artes da
guerra inerentes aos tharks, incluindo lições de como
cavalgar e guiar as grandes bestas que levavam os
guerreiros. Essas criaturas, conhecidas como thoats,
são tão perigosas e traiçoeiras quanto seus mestres,
mas quando domadas tornam-se suficientemente
tratáveis para os propósitos dos marcianos verdes.
Dois desses animais haviam caído em minhas mãos,
vindos dos guerreiros cujo metal agora eu vestia e, em
um curto período de tempo, eu lidava com elas quase
tão bem quanto os guerreiros nativos. O método não
era nem um pouco complicado. Se os thoats não
respondiam com rapidez suficiente às instruções
telepáticas de seus cavaleiros, sofriam um terrível
golpe entre as orelhas com a coronha de uma pistola
e, se continuassem arredios, esse tratamento era
continuado até que as feras se submetessem ou
derrubassem seu ginete.
No último caso, era uma disputa de vida e morte
entre o homem e o animal. Se o primeiro fosse rápido
o bastante com sua pistola, ele poderia viver para
cavalgar novamente, mas em outro animal. Se não,
seu corpo despedaçado e mutilado era recolhido por
suas mulheres e queimado de acordo com os costumes
tharkianos.
Minha experiência com Woola me incentivou a
experimentar a gentileza no tratamento de meus
thoats. Primeiro, ensinei-os que não poderiam me
derrubar e até mesmo bati com força entre suas
orelhas para imprimir sobre eles minha autoridade e
poder. Então, em etapas, ganhei sua confiança da
mesma maneira que consegui inúmeras vezes com
minhas muitas outras montarias mais mundanas.
Sempre tive muita habilidade com animais e, por
inclinação, assim como isso me trazia resultados mais
duradouros e satisfatórios, sempre fui afável e
humano no trato com os de ordens inferiores. Eu
poderia, se necessário, tirar uma vida humana com
muito menos remorso do que faria com a de um
pobre animal irracional e irresponsável.
No decorrer de alguns dias, meus thoats eram a
maravilha de toda uma comunidade. Eles me seguiam
feito cães, roçando seus grandes focinhos contra meu
corpo em uma desajeitada demonstração de afeto.
Respondiam a todos os meus comandos com uma
diligência e docilidade que faziam com que os
guerreiros marcianos me atribuíssem um poder
especial terráqueo desconhecido em Marte.
- Como você os enfeitiçou? - perguntou Tars Tarkas
numa tarde, quando me viu colocar meu braço entre
as grandes mandíbulas de um de meus thoats, que
havia prendido um pedaço de pedra entre dois de seus
dentes quando estava pastando a vegetação musgosa
de nosso pátio.
- Sendo gentil - respondi. - Sabe, Tars Tarkas, os
sentimentos mais delicados têm seu valor até mesmo
para um guerreiro. No calor de uma batalha, assim
como durante uma marcha, sei que meus thoats
obedecerão a cada comando meu e, portanto, minha
eficiência em combate será maior. E serei um guerrei-
ro melhor porque sou um senhor gentil. Seus outros
guerreiros tirariam vantagem, assim como a
comunidade toda, se adotassem meus métodos nesse
assunto. Apenas alguns dias atrás, você mesmo me
disse que essas grandes feras, pela instabilidade de seu
temperamento, eram responsáveis por transformar
vitórias em derrotas, uma vez que, em um momento
crucial, podiam decidir derrubar e destroçar seus
cavaleiros.
- Mostre-me como conseguiu esses resultados - foi a
única resposta de Tars Tarkas.
Então expliquei tão cuidadosamente quanto possível
todo o método de treinamento adotado com meus
animais e, depois, ele me fez repetir tudo diante de
Lorquas Ptomel e dos guerreiros reunidos. Aquele
momento marcou o começo de uma nova existência
para os pobres thoats e, antes que eu deixasse a co-
munidade de Lorquas Ptomel, tive a satisfação de
presenciar um regimento de montarias tão tratáveis e
dóceis quanto possível. O efeito da precisão e rapidez
nos movimentos militares era tão eloqüente que
Lorquas Ptomel me presenteou com uma gigantesca
tornozeleira de sua própria indumentária em sinal de
apreço por meu serviço à sua horda.
No sétimo dia após a batalha com as naves voadoras,
retomamos a marcha em direção a Thark. Qualquer
possibilidade de outro ataque foi considerada remota
por Lorquas Ptomel.
Durante os dias imediatamente anteriores à nossa
partida, vi Dejah Thoris poucas vezes, por estar
sempre muito ocupado com Tars Tarkas tomando
lições sobre a arte marciana da guerra, assim como
treinando meus thoats. Nas poucas vezes em que
visitei seus alojamentos, ela não estava, caminhando
pelas ruas com Sola ou investigando as construções
nos arredores da praça. Eu as havia avisado quanto aos
perigos de se aventurar para longe da praça, temendo
os grandes macacos albinos com cuja ferocidade eu
estava por demais familiarizado. Contudo, uma vez
que Woola as acompanhava em todas as suas
excursões, e que Sola estava bem armada, havia
relativamente pouco motivo para preocupação.
Na noite anterior à nossa partida, eu as vi se
aproximando por uma das grandes avenidas que
levavam à praça pelo leste. Adiantei-me para
encontrá-las, comunicando a Sola que agora eu me
responsabilizaria pela guarda de Dejah Thoris e pedi
que retornasse aos seus aposentos para algumas tarefas
triviais. Eu gostava e confiava em Sola, mas, por
alguma razão, eu queria ficar sozinho com Dejah
Thoris, que representava para mim toda a companhia
prazerosa e agradável que eu havia deixado na Terra.
Esses laços pareciam ser recíprocos, tão poderosos
como se tivéssemos nascido sob o mesmo teto em vez
de planetas diferentes, separados por setenta e sete
milhões de quilômetros de distância.
Eu tinha certeza de que ela compartilhava esses
sentimentos comigo porque, quando me aproximei,
seu olhar de desalento abandonou seu semblante para
ser substituído por um sorriso jovial de boas-vindas
enquanto ela colocava sua pequenina mão direita em
meu ombro esquerdo, em uma típica saudação dos
marcianos vermelhos.
- Sarkoja disse a Sola que você se tornou um legítimo
thark - ela disse. - E que agora eu não o veria mais do
que vejo os outros guerreiros.
- Sarkoja é uma mentirosa de primeira grandeza, que
vai contra a alegação dos tharks de que são
absolutamente verdadeiros - respondi.
Dejah Thoris riu.
- Eu sabia que mesmo que se tornasse um membro da
comunidade, você não deixaria de ser meu amigo.
"Um guerreiro pode trocar seu metal, mas não seu
coração", é o que dizem em Barsoom.
- Acho que estão tentando nos manter separados - ela
continuou -, pois sempre que você estava de folga,
uma das mulheres mais velhas da comitiva de Tars
Tarkas arranjava alguma desculpa para mandar Sola e
eu para longe dali. Elas me despachavam para os
fossos subterrâneos dos prédios para ajudá-las a
misturar seu detestável pó de rádio e fazer seus
terríveis projéteis. Sabia que eles têm de ser
fabricados sob iluminação artificial porque a luz do
sol faz com que eles explodam? Já percebeu que suas
balas sempre explodem quando atingem um objeto?
Sua cobertura externa opaca se quebra no impacto
expondo um cilindro de vidro, quase maciço, na
ponta da frente, onde há uma pequena partícula de pó
de rádio. No momento em que a luz, mesmo que
difusa, atinge o pó, elas explodem com uma violência
arrasadora. Se um dia você testemunhar uma batalha
noturna, perceberá a ausência dessas explosões, mas a
manhã seguinte à batalha será preenchida pelo som
das detonações dos projéteis explosivos lançados na
noite anterior. Por via de regra utilizam-se projéteis
sem explosivos à noite.
Mesmo estando muito interessado na explicação de
Dejah Thoris sobre esse acessório do arsenal
marciano, eu estava mais preocupado com o problema
imediato do tratamento que dispensavam a ela. O fato
de estarem-na mantendo longe de mim não era
surpresa, mas o fato de que a estavam sujeitando a um
trabalho perigoso e árduo me enfureceu.
-Você foi sujeitada por elas à crueldade e afronta,
Dejah Thoris? - perguntei sentindo o sangue quente
de meus ancestrais pulsar em minhas veias enquanto
aguardava sua resposta.
- Apenas um pouco, John Carter - ela respondeu. -
Nada pode me ferir além de meu orgulho. Elas sabem
que sou filha de dez mil jeddaks, que minha linha
ancestral retrocede diretamente e sem falhas ao
construtor do primeiro aqueduto e elas, que sequer
conheceram suas próprias mães, me invejam. No
fundo, odeiam suas sinas horríveis e então
descarregam seu pobre despeito sobre mim, que
significo tudo o que elas não possuem, tudo o que
almejam, mas que não podem alcançar. Tenhamos
misericórdia delas, meu líder, porque mesmo se
morrermos em suas mãos, podemos lastimá-las, já que
somos maiores que eles. E eles sabem.
Tivesse eu sabido a importância dessas palavras, "meu
líder", quando conferidas por uma mulher marciana
vermelha a um homem, teria tido a maior surpresa de
minha vida. Mas naquele momento eu não sabia, e
nem saberia por meses a fio. Sim, eu ainda tinha
muito a aprender sobre Barsoom.
- Presumo ser mais sábio nos curvarmos perante nosso
destino com tanta graça quanto possível, Dejah
Thoris. Mas espero, no entanto, que eu esteja
presente na próxima vez que qualquer marciano, seja
verde, vermelho, rosa ou violeta, ouse ao menos
franzir as sobrancelhas para você, minha princesa.
Dejah Thoris perdeu o fôlego com minhas últimas
palavras e me fitou com olhos dilatados e respiração
acelerada. Então, com um sorrisinho estranho que
marcou suas provocantes covinhas nos cantos de sua
boca, ela balançou a cabeça e gritou:
- Que criancinha! Um grande guerreiro, mas, ainda
assim, nem aprendeu a andar.
- O que foi que eu fiz agora? - perguntei bastante
perplexo.
-Algum dia você descobrirá, John Carter, se
sobrevivermos.
Mas não serei eu a contar. E eu, filha de Mors Kajak,
filho de Tardos Mors, ouvi sem raiva - disse para si
mesma ao concluir.
Então ela voltou mais uma vez a um de seus alegres,
felizes e sorridentes humores, brincando comigo
sobre minha destreza como um guerreiro thark em
contraste com meu coração puro e minha
cordialidade natural.
- Presumo que se você ferisse um inimigo
acidentalmente você o levaria para casa e cuidaria
dele até que sarasse - ela riu.
- E exatamente isso que fazemos na Terra - respondi. -
Pelo menos entre os homens civilizados.
Isso a fez sorrir novamente. Ela não podia entender
porque, mesmo com toda sua ternura e doçura
feminina, ainda era uma marciana e, para um
marciano, o único bom inimigo é o inimigo morto,
porque cada adversário morto significa muito mais a
ser repartido entre aqueles que vivem.
Eu estava bastante curioso para saber o que eu havia
dito ou feito para causar tanta perturbação momentos
antes, e continuei a importuná-la para que explicasse.
- Não! - ela exclamou. -Já basta o que você disse e o
que eu ouvi. E quando você aprender, John Carter, e
se eu estiver morta, como é provável que aconteça
antes que a lua mais distante tenha orbitado Barsoom
mais doze vezes, lembre que eu ouvi a isso e que eu...
sorri.
Tudo aquilo era grego para mim, mas quanto mais eu
implorava para que ela explicasse, mais assertivas se
tornavam suas recusas ao meu pedido e, assim, em
grande desesperança, desisti.
O dia agora havia dado lugar à noite, e enquanto
vagávamos pela grande avenida iluminada pelas duas
luas de Barsoom, e com a Terra nos olhando através
de seu brilhante olho verde, parecia que não
estávamos sozinhos no universo, e eu, pelo menos,
estava contente de que assim fosse.
O frio da noite marciana caiu sobre nós e, tirando
minhas sedas, joguei-as sobre os ombros de Dejah
Thoris. Enquanto meu braço repousou por um
instante sobre ela, senti um arrepio passar por cada
fibra de meu ser, algo que nenhum contato com
qualquer outro ser humano jamais havia me causado.
E me pareceu que ela se curvou levemente em minha
direção, mas disso não tenho certeza. A única coisa
que eu sei é que meu braço descansou sobre seus
ombros mais tempo do que o necessário, e ela não se
esquivou nem falou. E assim, em silêncio,
caminhamos pela superfície de um mundo
agonizante, mas ao menos no peito de pelo menos um
de nós havia nascido o mais antigo sentimento, ainda
que sempre novo.
Eu amava Dejah Thoris. O toque de meu braço sobre
seu ombro nu havia me dito em palavras
inconfundíveis, e eu soube que já a amava desde o
primeiro momento em que meus olhos encontraram
os dela, naquela primeira vez na praça da cidade
abandonada de Korad.


Capítulo 14
UM DUELO ATÉ A MORTE

Meu primeiro impulso foi contar a ela sobre meu
amor e, então, pensei em sua posição de cativa
desamparada da qual somente eu poderia aliviar os
fardos e protegê-la com meus parcos meios contra os
milhares de inimigos hereditários que ela teria de
encarar em sua chegada a Thark. Eu não podia
permitir que o acaso lhe desse ainda mais dor e
sofrimento ao declarar meu amor ao qual, com quase
absoluta certeza, ela não corresponderia. Se eu fosse
inconveniente a tal ponto, sua posição seria ainda
mais insuportável que a atual, e pensei que ela
poderia achar que eu estava me aproveitando de seu
desamparo para influenciar sua decisão. E assim esse
argumento final selou meus lábios.
- Por que está tão quieta, Dejah Thoris? - perguntei. -
Talvez queira retornar a Sola e ao seu alojamento?
- Não - ela murmurou. - Estou feliz aqui. Não sei por
que eu deveria estar sempre feliz e contente
enquanto você, John Carter, um estranho, está
comigo. Em momentos como este parece que estou
segura e que, com você, devo retornar logo à corte de
meu pai e sentir seus fortes braços em minha volta, e
as lágrimas e beijos de minha mãe em minha face.
- Então as pessoas se beijam em Barsoom? - perguntei
quando ela explicou a palavra que usou, respondendo
à minha pergunta sobre o significado.
- Sim. Pais, irmãos e irmãs. E... - ela adicionou em um
tom baixo e pensativo - amantes.
- E você, Dejah Thoris, tem pais, irmãos e irmãs?
- Sim.
- E um... amante?
Ela ficou calada e eu não podia me arriscar a repetir a
pergunta.
- Os homens de Barsoom - finalmente ela respondeu -
não fazem perguntas pessoais às mulheres, exceto à
suas mães e à mulher pela qual ele lutou e venceu.
- Mas eu lutei... - comecei e então desejei que minha
língua tivesse sido arrancada de minha boca, porque
ela se virou mesmo quando me contive e, retirando
minhas sedas de seu ombro, as estendeu de volta para
mim. Sem dizer nenhuma palavra e mantendo a
cabeça altiva, foi-se na direção da praça e do portal de
seu dormitório com a postura da rainha que
personificava.
Não tentei segui-la e, em vez de me certificar de que
havia chegado ao edifício em segurança, ordenei que
Woola a acompanhasse. Voltei-me, desconsolado, e
entrei em minha casa. Sentei por horas com as pernas
cruzadas sobre minhas sedas, com os sentimentos
confusos, meditando sobre as estranhas peças que o
destino nos prega, pobres e malditos mortais.
Então, isso era o amor! Eu havia escapado dele através
dos anos em que vaguei pelos cinco continentes e os
mares que os cercam. Apesar das belíssimas mulheres
e de oportunidades insistentes, apesar de desejar
parcialmente pelo amor e procurar constantemente
meu ideal, foi-me reservado me apaixonar furiosa e
irremediavelmente por uma criatura de outro mundo,
de uma espécie similar, porém diferente da minha.
Uma mulher que nascera de um ovo e cuja vida talvez
chegasse a mil anos, cujo povo tinha costumes e
idéias estranhos. Uma mulher cujas esperanças, cujos
prazeres, cujos padrões de virtude - e de certo e
errado - variavam tanto quanto os meus, assim como
os dos marcianos verdes.
Sim, fui um tolo, mas estava apaixonado e, mesmo
passando pelo maior sofrimento que já havia
conhecido, não a trocaria nem por todas as riquezas
de Barsoom. Assim é o amor e assim são os amantes
em qualquer lugar onde o amor é conhecido.
Para mim, Dejah Thoris era toda perfeita: virtuosa,
bela, nobre e bondosa. Acreditava nisso do fundo de
meu coração, das profundezas de minha alma.
Pensava nisso naquela noite em Korad, enquanto me
sentava de pernas cruzadas sobre minhas sedas e a lua
mais próxima de Barsoom se apressava pelo céu, vinda
do oeste em direção ao horizonte, refulgindo o ouro,
o mármore e os mosaicos de minha câmara
imemorial. Acredito nisso ainda hoje, sentado à mesa
em meu pequeno estúdio com vista para o Hudson.
Vinte anos se passaram; dez deles lutando por Dejah
Thoris e por seu povo, e outros dez vivendo das me-
mórias que tenho dela.
A manhã de nossa partida para Thark se abriu clara e
quente, como todas as manhãs marcianas, exceto
pelas seis semanas quando a neve derrete nos pólos.
Procurei por Dejah Thoris na multidão de carruagens
partindo, mas ela me ignorou e pude ver o sangue
vermelho corar suas faces. Com a inconsistência tola
do amor, mantive o controle quando podia ter
alegado ignorância quanto à natureza de minha
ofensa, ou pelo menos de sua gravidade, e então ter
conseguido, pelo menos, alguma conciliação.
Meu dever ordenava que eu cuidasse para que ela
estivesse confortável. Passei em vistoria por sua
carruagem e rearranjei suas sedas e peles. Ao fazer
isso, notei com pavor que ela havia sido acorrentada
fortemente ao lado do veículo por seu tornozelo.
- O que significa isto? - gritei virando-me para Sola.
- Sarkoja achou melhor - ela respondeu, seu rosto
sinalizando sua desaprovação ao procedimento.
Ao examinar os grilhões, vi que estavam presos por
um pesado cadeado.
- Onde está a chave, Sola? Por favor, me entregue.
- Está com Sarkoja, John Carter - ela respondeu.
Voltei-me sem dizer palavra e fui em busca de Tars
Tarkas, a quem me opus com veemência pelas
humilhações e crueldades desnecessárias - pelo
menos aos meus olhos apaixonados - impostas sobre
Dejah Thoris.
- John Carter - ele respondeu -, se você e Dejah
Thoris terão alguma chance de fuga, será nessa
jornada. Sabemos que você não irá sem ela. Você se
mostrou um poderoso lutador e não desejamos
acorrentá-lo, portanto seguramos ambos do modo
mais fácil que nos garantirá segurança. Tenho dito.
Senti a força de sua retórica rapidamente, e sabia ser
inútil apelar de sua decisão. Mas pedi que a chave
fosse retirada de Sarkoja e que ordenassem que
deixasse a prisioneira em paz no futuro.
- Isso, Tars Tarkas, você deve me retribuir pela
amizade que, devo confessar, sinto por você.
- Amizade? - ele replicou. - Isso não existe, John
Carter, mas concederei seu pedido. Ordenarei que
Sarkoja pare de aborrecer a garota e eu mesmo
tomarei a chave sob minha custódia.
- Exceto se quiser que eu assuma a responsabilidade -
eu disse sorrindo.
Ele me olhou longa e seriamente antes de falar:
- Se você me der sua palavra de que nem você, nem
Dejah Thoris tentarão escapar até que tenhamos
chegado em segurança à corte de Tal Hajus, pode
ficar com a chave e jogar as correntes no rio Iss.
- Seria melhor você guardar a chave, Tars Tarkas -
respondi.
Ele sorriu e não falou mais, mas naquela noite,
quando
estávamos montando o acampamento, eu o vi
desacorrentando Dejah Thoris.
Com toda sua cruel ferocidade e frieza, havia alguma
influência oculta em Tars Tarkas que ele parecia estar
sempre tentando subjugar. Seria isso um vestígio de
algum instinto humano recorrente de algum antigo
ancestral que o assombra com o horror dos costumes
de seu povo?
Quando estava me aproximando da carruagem de
Dejah Thoris, passei por Sarkoja e o olhar negro e
perverso que me dispensou foi o bálsamo mais doce
que eu havia sentido nas últimas horas. Senhor, ela
me odiava! O ódio emanava dela de forma tão
palpável que quase era possível cortá-lo com uma
espada.
Alguns momentos depois eu a vi em atenta conversa
com um guerreiro chamado Zad, um grande, maciço e
poderoso bruto, mas que nunca havia matado nenhum
de seus líderes e, portanto, não tinha um segundo
nome. Era esse costume que havia me conferido os
nomes dos chefes que eu havia matado. Na verdade,
alguns guerreiros se dirigiam a mim como Dotar Sojat,
uma combinação dos sobrenomes dos dois líderes
guerreiros cujo metal eu havia tomado ou, em outras
palavras, que eu havia derrotado em luta justa.
Enquanto Sarkoja falava com Zad, ele dirigia olhares
ocasionais em minha direção, e parecia que ela o
incitava com veemência a executar algum ato. Não
prestei muita atenção a isso naquela hora, mas no dia
seguinte eu teria boas razões para me lembrar das
circunstâncias e, ao mesmo tempo, ter um breve
vislumbre do quanto ódio Sarkoja guardava - e o quão
longe ela seria capaz de chegar - para liberar sua
malévola vingança sobre mim.
Dejah Thoris não se importou mais comigo por toda a
tarde e, mesmo quando eu dizia seu nome, ela não
respondia nem demonstrava mais que um tremor de
sua pálpebra quando notava minha existência. De
minha parte, fiz o que a maioria dos apaixonados
faria: saber como ela estava por meio de alguém
próximo. Por essa razão, interceptei Sola em outra
parte.
- Qual é o problema com Dejah Thoris? - desabafei. -
Ela não quer falar comigo?
Sola pareceu ficar confusa também, pois essas
estranhas ações por parte de dois humanos realmente
estavam além de sua compreensão, pobre coitada.
- Ela disse que você a enfureceu, e isso é tudo. Exceto
que ela é filha de um jed e neta de um jeddak e que
foi humilhada por uma criatura que não é digna de
polir os dentes do sorak de sua avó.
Ponderei sobre o relato por algum tempo, finalmente
perguntando:
- E o que seria um sorak, Sola?
- Um pequeno animal vermelho, do tamanho de minha
mão, que as mulheres marcianas têm como estimação -
explicou Sola.
Indigno de polir os dentes do gato da sua avó! "Devo estar
muito mal colocado na lista de considerações de Dejah
Thoris", pensei, mas não pude deixar de gargalhar perante
uma figura de linguagem tão estranha, tão domiciliar e, por
isso mesmo, tão terrena. Isso me deixou com saudades de
casa, porque soou muito como "não é digno de polir seus
sapatos". A partir disso, embarquei em um raciocínio novo
para mim. Comecei a me perguntar o que as pessoas
estariam fazendo em casa. Eu já não as via há anos. Havia a
família dos Carters, na Virgínia, que diziam ter parentesco
próximo comigo, dos quais eu supostamente era um tio-avô
ou alguma besteira do tipo. Eu podia me passar por alguém
de vinte e cinco ou trinta anos e ser um tio-avô sempre me
pareceu muito incongruente, porque meus pensamentos e
sentimentos eram os mesmos de um garoto. Havia duas
pequenas crianças na família Carter que eu amava e que
pensavam não haver ninguém parecido com o Tio Jack na
face da Terra. Eu podia vê-los claramente enquanto parado
sob o céu enluarado de Barsoom, e sentia sua falta como
nunca senti de mortal algum antes. Errante por natureza,
nunca havia conhecido o real significado da palavra "lar",
mas o casarão dos Carters sempre significou tudo o que
aquela palavra me dizia, e agora meu coração estava voltado
para ela, em fuga das pessoas hostis entre as quais eu havia
sido arremessado. Pois agora, até mesmo Dejah Thoris me
desprezava! Eu era uma criatura inferior, tão baixa que não
servia sequer para polir os dentes do gato de sua avó. Então,
meu senso de humor veio para me salvar. Ri, me cobri com
minhas sedas e peles e dormi, sobre o chão assolado pela lua,
o sono pesado e revigorante de um guerreiro.
Desfizemos o acampamento logo nas primeiras horas do dia
seguinte e marchamos até escurecer fazendo apenas uma
parada. Dois incidentes quebraram a tranqüilidade da
marcha. Perto do meio-dia, enxergamos a boa distância o
que era evidentemente uma incubadora e Lorquas Ptomel
ordenou que Tars Tarkas investigasse. Este último reuniu
uma dúzia de guerreiros, eu incluído, e cavalgamos pelo
carpete aveludado de musgo até a pequena área cercada.
Era de fato uma incubadora, mas os ovos eram muito
pequenos em comparação com aqueles que vi eclodindo da
primeira vez, quando de minha chegada a Marte.
Tars Tarkas desmontou e examinou detidamente o cercado
por alguns minutos até anunciar que era de propriedade dos
homens verdes de Warhoon, e que o cimento ainda estava
um pouco fresco onde haviam levantado as paredes.
- Não podem estar a mais de um dia à nossa frente - excla-
mou com as faíscas da batalha saltando de seu rosto.
O trabalho na incubadora foi rápido. Os guerreiros
derrubaram a entrada para que um par deles, rastejando para
dentro, destruísse todos os ovos com suas espadas curtas.
Após montarmos novamente, nos apressamos para alcançar
a caravana. Durante a cavalgada aproveitei a ocasião e
perguntei a Tars Tarkas se esses warhoons cujos ovos
havíamos destruído eram um povo menor que os tharks.
- Notei que os ovos são muito menores dos que vi eclodindo
em sua incubadora - adicionei.
Ele explicou que os ovos haviam acabado de ser postos ali,
mas que, como todos os ovos de marcianos verdes, eles
cresceriam durante seu período de cinco anos de incubação
até que obtivessem o tamanho dos que eu vi quando de
minha chegada a Barsoom. Isso era realmente uma
informação interessante porque sempre me parecera notável
que as mulheres marcianas, mesmo sendo tão grandes,
pudessem produzir ovos enormes dos quais eu vi os infantes
de mais de um metro de altura emergindo. Na verdade, o
ovo recém-botado é pouco maior que um ovo de ganso
comum. Dessa forma, eles não começam a crescer até que
sejam expostos à luz do sol, facilitando o transporte de várias
centenas deles de uma só vez quando os líderes os levam das
cavernas até as incubadoras.
Pouco depois do incidente com os ovos dos warhoons,
paramos para descansar os animais. E foi durante essa parada
que o segundo dos episódios interessantes daquele dia
ocorreu. Eu estava ocupado em trocar de montaria para
poupar um de meus thoats quando Zad se aproximou e, sem
dizer nenhuma palavra, desferiu um terrível golpe com sua
espada longa em meu animal.
Não precisei de um manual de etiqueta dos marcianos ver-
des para saber como responder. Na verdade, estava tão cego
de raiva que tive de me controlar para não sacar minha
pistola e abatê-lo por sua imensa brutalidade. Mas ele ficou
esperando com a espada longa em punho, deixando-me,
como única escolha, desembainhar minha espada e
enfrentá-lo em luta franca com a arma de sua escolha ou
outra inferior.
Essa última alternativa é sempre permitida, portanto eu
podia usar minha espada curta, minha adaga, minha
machadinha ou meus punhos, se quisesse, continuando
assim completamente dentro do meu direito. Mas eu não
poderia usar armas de fogo ou uma lança enquanto ele
brandia apenas sua espada longa.
Escolhi a mesma arma que Zad havia sacado, pois sabia que
ele se orgulhava de sua habilidade em manejá-la. Queria
derrotá-lo com sua própria arma. A luta que se seguiu foi
longa e atrasou a marcha por uma hora. Toda a comunidade
nos cercou, reservando um espaço livre de trinta metros de
diâmetro para nossa batalha.
Primeiro, Zad tentou me derrubar como um boi faz com um
lobo, mas eu era rápido demais para ele e, cada vez que eu
me desviava de suas investidas, ele passava reto por mim
apenas para receber um corte de minha espada em seu braço
ou costas. Logo ele estava escorrendo sangue pela meia
dúzia de seus ferimentos, mas eu não conseguia uma chance
de desferir um golpe efetivo. Então ele mudou sua tática e,
lutando cuidadosamente e com extrema habilidade, tentou
pela ciência o que lhe era impossível pela força bruta. Devo
admitir que ele era um magnífico espadachim e que, não
fosse por minha grande resistência e notável agilidade
devido à menor gravidade que Marte me emprestava, talvez
eu não fosse capaz de enfrentá-lo da forma louvável como
fiz.
Nos cercamos por algum tempo, sem muitos danos para
ambos os lados. As espadas longas, retas e finas como
agulhas brilhavam sob o sol e ressoavam pelo silêncio
quando colidiam a cada defesa correta. Finalmente, Zad,
percebendo que estava se cansando mais que eu, tomou a
decisão evidente de se aproximar e encerrar o combate,
clamando para si os louros da vitória. Exatamente quando ele
se lançou sobre mim, um raio de luz atingiu meus olhos,
fazendo com que eu não enxergasse sua aproximação e não
pudesse fazer nada além de saltar às cegas para um dos lados,
em uma tentativa de escapar da poderosa lâmina que eu já
parecia sentir em meus órgãos. Fui apenas parcialmente feliz
na tentativa, pois senti uma dor aguda em meu ombro
esquerdo e, quando varri à minha volta com os olhos,
tentando localizar meu adversário, minha vista encontrou
uma cena surpreendente que compensou o ferimento que a
cegueira temporária havia me causado. Longe, sobre a
carruagem de Dejah Thoris, havia três figuras em pé, com o
propósito claro de assistir ao embate acima das cabeças dos
tharks que se interpunham no caminho. Ali estavam Dejah
Thoris, Sola e Sarkoja, e quando meu olhar ligeiramente
passou por elas, uma pequena placa se destacou, um objeto
que ficará gravado em minha memória até o dia de minha
morte.
Quando olhei, Dejah Thoris se voltou para Sarkoja com a
fúria de uma jovem tigresa e atingiu algo em sua mão
levantada. Algo que brilhou ao sol enquanto rodopiava em
direção ao chão. Então descobri o que havia me cegado no
momento crucial da luta e como Sarkoja havia encontrado
um meio de me matar sem que ela mesma desferisse a
estocada fatal. Outra coisa que percebi e que quase me fez
perder a vida, porque desviou minha mente por uma fração
de segundo de meu antagonista, foi, logo após Dejah Thoris
derrubar o pequeno espelho de sua mão, Sarkoja, com a face
lívida de ódio e raivosa frustração, brandir sua adaga e mirar
um terrível golpe em Dejah Thoris. A última coisa que vi foi
a grande faca descendo sobre seu protetor peitoral.
Meu inimigo havia se recuperado de sua investida e estava
tornando as coisas complicadas para mim, então
relutantemente desviei minha atenção para a tarefa, mesmo
com minha mente fora da batalha.
Nos atacamos furiosamente vez após outra até que,
repentinamente, sentindo a ponta de sua lâmina afiada em
meu peito com um golpe impossível de desviar ou escapar,
joguei-me sobre ele com a espada estendida e todo o peso do
meu corpo, determinando que eu não morreria sozinho se
pudesse evitar. Senti o aço rasgar meu peito e tudo fez-se
negro à minha frente. Minha cabeça rodopiava, zonza, e
senti meus joelhos dobrarem.

Capítulo 15
SOLA ME CONTA SUA HISTÓRIA

Quando recobrei a consciência, logo descobri que havia
ficado desmaiado apenas por um momento. Levantei-me
rapidamente com um salto procurando por minha espada,
que encontrei enterrada até o cabo no peito verde de Zad,
que jazia duro como pedra sobre o musgo ocre do antigo
fundo do mar. Conforme recobrei meus sentidos, encontrei
sua arma trespassada do lado esquerdo de meu peito, mas
atravessava somente a pele e os músculos que cobrem
minhas costelas, entrando perto do centro do peito e saindo
logo abaixo do ombro. Quando me arremessei, torci-me
tanto que sua espada somente passou por sob os músculos,
infligindo um doloroso, porém inofensivo, ferimento.
Retirando a lâmina de meu corpo, me recompus e dei as
costas para aquela horrível carcaça. Eu estava fatigado,
dolorido e nauseado enquanto ia na direção das carruagens
que carregavam minha comitiva e meus pertences. Um
murmúrio de aplausos marcianos me saudou, mas não me
importei com aquilo.
Sangrando e fraco, alcancei minhas fêmeas que, acostumadas
com tais ocorrências, fizeram meus curativos aplicando
incríveis agentes medicinais e remédios que só não curam os
golpes mais fatais. Dê a chance a uma mulher marciana e a
morte terá de esperar sentada. Logo, elas me enfaixaram e,
assim, excetuando a fraqueza causada pela perda de sangue e
um pouco de dor na região do ferimento, não sofri maior
agonia em virtude desse golpe que, sob tratamento
terráqueo, sem dúvida me deixaria de cama por dias.
Assim que haviam terminado seu serviço em mim, apressei-
me à carruagem de Dejah Thoris, onde encontrei a pobre
Sola com seu peito envolvido em bandagens, mas
aparentemente era um dano mínimo provocado por seu
encontro com Sarkoja, cuja adaga pareceu ter atingido a
borda de um dos ornamentos peitorais de metal e, ao
desviar, causado apenas um leve ferimento.
Ao me aproximar, encontrei Dejah Thoris deitada de bruços
sobre suas sedas e peles, sua forma flexível tremendo pelo
choro. Ela não notou minha presença, ou sequer me ouviu
falando com Sola, que estava parada a uma curta distância do
veículo.
- Ela está ferida? - perguntei a Sola, indicando Dejah Thoris
com uma inclinação de minha cabeça.
- Não - ela respondeu. - Ela acha que você está morto.
- E que agora o gato de sua avó não tem mais ninguém para
polir seus dentes? - indaguei com um sorriso.
- Acho que você está sendo injusto com ela, John Carter -
disse Sola. - Não entendo os modos de nenhum de vocês,
mas tenho certeza de que a neta de dez mil jeddaks não
lamentaria dessa maneira por alguém que não estivesse em
um alto posto entre seus afetos. Eles são uma raça orgulhosa,
mas são justos, assim como todos os barsoomianos, e você
deve tê-la ferido ou injustiçado agudamente para que ela não
admitisse que você continuasse vivo, embora lamente sua
morte.
- Lágrimas são uma visão rara em Barsoom - ela continuou -,
e para mim é difícil interpretá-las. Vi apenas duas pessoas
chorando em minha vida, além de Dejah Thoris. Uma
chorou de tristeza. Outra, por raiva descontrolada. A
primeira foi minha mãe, alguns anos antes que a matassem.
A outra foi Sarkoja, quando tiraram a adaga de suas mãos
hoje.
- Sua mãe! - exclamei. - Mas, Sola, você não podia ter
conhecido sua mãe, garota!
- Mas conheci. E à meu pai também - ela completou. - Caso
queira ouvir uma rara história nada barsoomiana, venha à
minha carruagem hoje à noite, John Carter, e contarei a
você aquilo que nunca contei a ninguém em toda a minha
vida. E agora o sinal foi dado para que retomemos a marcha.
Você deve ir.
- Virei à noite, Sola - prometi. - Não esqueça de dizer a De-
jah Thoris que estou vivo e bem. Não vou importuná-la
agora, mas certifique-se de que não fique sabendo que vi
suas lágrimas. Se ela quiser falar comigo, nada me resta senão
esperar por seu desejo.
Sola subiu na carruagem, que já estava se movimentando
para seu lugar na fila, e eu me apressei para o thoat que me
esperava e galopei até meu posto junto a Tars Tarkas, na
retaguarda da coluna.
Criamos um espetáculo dos mais majestosos e imponentes
ao nos espalharmos pela paisagem amarela. As duzentas e
cinqüenta carruagens ornadas e de colorido brilhante,
precedidas por uma guarda avançada de cerca de duzentos
guerreiros e líderes, cavalgando em linhas de cinco distantes
aproximadamente cem metros entre si, seguidos por outros
tantos na mesma formação em grupos de vinte ou mais
compondo as alas laterais. Os cinqüenta mastodontes
adicionais, bestas de tração pesada conhecidas como zitidars,
e os quinhentos ou seiscentos thoats sobressalentes corriam
livres dentro do quadrado vazio desenhado pelos guerreiros
em formação. O metal resplandecente e as jóias dos
belíssimos ornamentos de homens e mulheres, duplicados
nos paramentos dos zitidars e thoats, entremeados pelos
brilhos das cores das magníficas sedas, peles e penas,
emprestavam tal esplendor à caravana que teria feito um
marajá do leste da índia ficar verde de inveja.
As enormes e largas rodas das carruagens e as patas estofadas
dos animais não produziam som ao tocar o fundo do mar
recoberto de musgo. E assim nos movíamos, em extremo
silêncio, como uma gigantesca assombração, exceto quando
a quietude era quebrada pelo grunhido gutural de um zitidar
incitado ou pelos berros de thoats brigando. Os marcianos
verdes conversam muito pouco e, quase sempre, com a voz
baixa em monossílabos, o que cria algo parecido com um
leve e distante trovoar.
Cruzamos uma vastidão de musgo virgem que, após se
curvar sob a pressão das rodas largas ou das patas estofadas,
se levantava novamente atrás de nós, não deixando sinal
algum de que havíamos passado. Na verdade, éramos como
espectros caminhando sobre o mar morto daquele planeta,
deixando para trás nenhum som ou pegadas de nossa
passagem. Era a primeira marcha de uma grande quantidade
de homens e animais que eu presenciava e que não
levantava pó ou deixava rastros. Não há poeira sobre Marte,
exceto nas regiões cultivadas durante os meses do inverno e,
mesmo assim, a ausência de ventos fortes a torna
praticamente imperceptível.
Naquela noite acampamos no sopé das colinas que havíamos
avistado há dois dias e que marcavam a fronteira ao sul do
mar que citei. Nossos animais estavam há dois dias sem
beber - e sem água já há quase dois meses, logo após terem
deixado Thark. Mas, como Tars Tarkas me explicou, eles
precisam de poucos recursos e podem viver quase
indefinidamente apenas alimentando-se com o musgo que
cobre Barsoom e que guarda em seus finos caules umidade
suficiente para atender às limitadas demandas dos animais.
Após participar de uma refeição noturna feita de uma comi-
da parecida com queijo e leite vegetal, procurei por Sola, a
quem encontrei trabalhando em ornamentos para Tars
Tarkas sob a luz de uma tocha. Ela olhou para cima em
minha direção e sua face se iluminou de prazer, dando-me
boas-vindas.
- Fico feliz que tenha vindo - ela disse. - Dejah Thoris dorme
e eu estou sozinha. Meu próprio povo não se importa
comigo, John Carter, pois sou muito diferente deles. É uma
triste sina, uma vez que devo viver minha vida entre eles; às
vezes queria ser uma genuína mulher marciana verde,
desprovida de amor ou esperança. Mas conheci o amor, e
por isso estou perdida.
- Prometo lhe contar minha história, ou melhor, a história
de meus pais - Sola prosseguiu. - Pelo que aprendi sobre
você e os costumes de seu povo, estou certa de que essa
narrativa não lhe parecerá estranha, mas entre os marcianos
verdes não existe nada similar nem na memória dos mais
idosos indivíduos de Thark, nem nossas lendas têm
narrativas similares...
- Minha mãe era bem pequena. Na verdade, pequena demais
para que lhe permitissem as responsabilidades da
maternidade, uma vez que nossos líderes procriam
principalmente pelo tamanho. Ela também era menos fria e
cruel que a maioria das outras mulheres marcianas e
importava-se pouco com a companhia delas.
Eventualmente, vagava pelas avenidas desertas de Thark
sozinha ou sentava-se entre as flores silvestres que enfeitam
as colinas próximas, pensando pensamentos e desejando
desejos que, acredito, sou a única dentre as mulheres de
Thark que pode entendê-los. Afinal, não sou filha de minha
mãe?
- E ali, entre as colinas, ela encontrou um jovem guerreiro
cuja tarefa era guardar os zitidars e thoats enquanto
pastavam, para que não fossem para além das montanhas.
Eles conversavam, a princípio, somente sobre as coisas que
interessavam à comunidade dos tharks, mas gradualmente,
conforme foram se encontrando mais vezes - depois tornou-
se evidente que tais encontros não eram mais obra do acaso
passaram a falar de si mesmos, seus gostos, suas ambições e
esperanças. Ela confiou nele e confessou a grande
repugnância que sentia pelas crueldades de sua espécie por
causa das vidas abomináveis e sem amor que eram obrigados
a viver. E assim esperou que uma tempestade delatora se
despejasse dos lábios frios e rudes dele. Mas, em vez disso,
ele a tomou nos braços e a beijou.
- Eles mantiveram seu amor em segredo por seis longos
anos. Ela, minha mãe, fazia parte do séquito de Tal Hajus, ao
passo que seu amante era um simples guerreiro, vestido
apenas com seu próprio metal. Caso seu desafio às tradições
dos tharks fosse descoberto, ambos pagariam por sua falha
na grande arena, perante Tal Hajus e suas hordas.
- O ovo do qual nasci foi escondido sob uma vasilha de vidro
sobre a mais alta e inacessível das torres parcialmente em
ruínas da antiga Thark. Uma vez a cada ano, por cinco
longos anos, minha mãe visitava o ovo em processo de
incubação. Ela não ousava ser mais constante porque, com a
culpa pesando em sua consciência, achava que cada
movimento seu estava sendo observado. Durante esse
período, meu pai ganhou grande distinção como guerreiro e
havia tomado os metais de vários líderes. Seu amor por
minha mãe nunca diminuiu, e seu objetivo de vida era poder
conquistar o metal do próprio Tal Hajus para se tornar o
governante dos tharks, livre para tomá-la como sua e, por
meio de seu poder, proteger a criança que, de outro modo,
seria morta se a verdade viesse à tona.
- Conquistar o metal de Tal Hajus era um devaneio insano
em parcos cinco anos, mas seu avanço era rápido e logo ele
tinha uma alta posição nos conselhos de Thark. Mas, um dia,
a chance se perdeu para sempre, antes que ele pudesse salvar
seus entes queridos. Ele foi enviado para longe, em uma
longa expedição para a calota ártica ao sul, para guerrear
contra os nativos e saquear suas peles. Porque este é o modo
como agem os barsoomianos verdes: eles não trabalham para
produzir o que podem tomar de outros em batalha.
- Ele ficou fora por quatro anos e, quando retornou, tudo já
estava acabado há três. Um ano após sua partida e pouco
antes do retorno de uma expedição que havia partido para a
colheita de frutos em uma incubadora da comunidade, o ovo
eclodiu. Daí por diante, minha mãe continuou a me manter
na velha torre, visitando-me a cada noite e me banhando
com o amor de que a vida em comunidade nos privaria. Ela
esperava que, quando a expedição à incubadora voltasse,
seria possível me misturar com os outros jovens destinados
aos alojamentos de Tal Hajus. Assim, escaparia do destino
que certamente se seguiria após a descoberta de seu pecado
contra as antigas tradições dos homens verdes.
- Ela rapidamente me ensinou a língua e os costumes de
minha espécie, e uma noite me contou a história que contei
a você até este ponto, e me pressionou sobre a necessidade
de sigilo absoluto e do grande cuidado que eu teria de ter
depois que ela me colocasse entre as outras jovens tharks.
Eu não poderia permitir que ninguém desconfiasse que
minha educação era mais avançada que a das outras, ou dar
sinais que denunciassem minha afeição a ela na presença de
outros, ou que eu tinha conhecimento de minha filiação. E,
me puxando para perto de si, sussurrou em meu ouvido o
nome de meu pai.
- Então, uma luz se acendeu sobre nós na escuridão da câ-
mara da torre e ali estava Sarkoja, seus olhos brilhantes
cheios de ódio estancados em um frenesi de raiva e desprezo
sobre minha mãe. A torrente de ira e insultos que Sarkoja
despejou sobre minha mãe deixou meu coração gelado de
terror. Aparentemente ela havia ouvido toda a história. E sua
presença, naquela noite fatídica, era o resultado de sua
suspeita das longas ausências noturnas de minha mãe dos
alojamentos.
- Mas uma coisa ela não ouviu ou sabia: o nome sussurrado
de meu pai. Isso era óbvio, devido às repetidas exigências
para que minha mãe revelasse o nome de seu parceiro em
pecado, mas nenhuma quantidade de insultos ou ameaças
poderia obrigá-la a dizer e, para me salvar de torturas
desnecessárias, ela mentiu, dizendo a Sarkoja que ela mesma
não sabia e não poderia ter contado a mim.
- Proferindo suas últimas maledicências, Sarkoja se foi
apressada para reportar a Tal Hajus sua descoberta. Enquanto
ela partia, minha mãe, embrulhando-me com as sedas e
peles de suas cobertas noturnas para que eu ficasse quase
irreconhecível, desceu às ruas e correu desesperadamente
na direção das cercanias da cidade, indo para o sul, à procura
do homem a quem ela não poderia pedir proteção, mas de
quem desejava ver o rosto uma vez mais antes de morrer.
- Quando nos aproximávamos da extremidade sul, um som
chegou até nós vindo da planície musgosa, da direção da
única passagem entre as colinas que levava aos portões. A
passagem pela qual as caravanas vindas tanto do norte
quanto do sul entravam na cidade. Os sons que ouvimos
eram berros de thoats e grunhidos de zitidars com um
ocasional clangor de armas que anunciavam a aproximação
de um grupo de soldados. O pensamento que mais dominava
sua mente era o de que meu pai estava voltando de sua
expedição, mas sua astúcia thark a impediu de precipitar-se
em uma corrida para saudá-lo.
- Recuando para as sombras de um portal, esperou a caravana
adentrar a avenida e ocupar a passagem de parede a parede,
quebrando sua formação e amontoando-se pela via. Quando
a parte posterior da procissão passou por nós, a lua mais
baixa se livrou dos telhados mais altos e iluminou a cena
com todo o brilho de sua luz impressionante. Minha mãe se
encolheu ainda mais contra as sombras protetoras e, de seu
esconderijo, viu que a expedição não era a de meu pai, mas a
caravana que retornava trazendo os jovens tharks.
Instantaneamente seu plano estava arquitetado e, quando
uma grande carruagem chacoalhou perto de nosso refúgio,
ela deslizou sorrateiramente sobre seu estribo posterior,
agachando-se na penumbra formada pelos flancos e
pressionando-me contra seu seio em um delírio de amor.
- Ela sabia, mas eu não, que nunca mais, depois daquela
noite, me seguraria contra seu peito, e que talvez sequer nos
víssemos uma outra vez. Na confusão da praça, ela me
colocou entre as outras crianças e misturei-me a elas, cujos
guardiões que as vigiaram durante a jornada agora estavam
livres para se aliviar de sua responsabilidade. Fomos
encaminhadas juntas até um grande pavilhão e alimentadas
por mulheres que não haviam acompanhado a expedição.
No dia seguinte, fomos divididas entre as comitivas dos
líderes.
- Nunca mais vi minha mãe depois daquela noite. Ela foi
aprisionada por Tal Hajus e todos os esforços, mesmo as
mais horríveis e vergonhosas torturas, foram usados para
forçar seus lábios a dizerem o nome de meu pai. Mas ela
permaneceu inabalada e leal, morrendo, enfim, entre as
gargalhadas de Tal Hajus e seus líderes durante uma terrível
sessão de tortura.
- Depois descobri que ela havia dito a Tal Hajus que havia
me matado para me salvar do mesmo destino em suas mãos,
e que havia jogado meu corpo aos macacos albinos. Apenas
Sarkoja não acreditou nela e, até hoje, creio, ela suspeite de
minha verdadeira origem, mas não ousa me expor agora,
aconteça o que acontecer, porque também suspeita, estou
certa disso, da identidade de meu pai.
- Quando ele retornou da expedição e soube da história que
sucedera a minha mãe, foi Tal Hajus quem o contou. E eu
estava presente. Mas nunca, sequer um tremor em seus
músculos, denunciou a mais leve emoção. Ele apenas não
riu, como fez Tal Hajus em regozijo enquanto descrevia seus
espasmos de morte. A partir daquele momento, ele foi o
mais cruel entre os cruéis e eu espero o dia em que ele atinja
sua ambição e derrube a carcaça de Tal Hajus a seus pés.
Tenho certeza de que ele apenas espera a oportunidade de
executar sua terrível vingança e que seu grande amor
continua tão forte em seu peito quanto era da primeira vez,
quando transformou sua alma quarenta anos atrás. Estou tão
certa disso quanto do fato de estarmos no alto da beira de
um oceano antiqüíssimo enquanto pessoas de bem dormem,
John Carter.
- E seu pai, Sola, está conosco agora? - perguntei.
- Sim - ela respondeu -, mas até onde sei, ele não me co-
nhece nem sabe quem delatou minha mãe a Tal Hajus.
Somente eu sei o nome de meu pai e somente eu, Tal Hajus
e Sarkoja sabemos que foi ela a mensageira da história que
trouxe morte e tortura sobre aquela que ele amava.
Nos sentamos em silêncio por alguns momentos. Ela, en-
volta em pensamentos obscuros, e eu, em compaixão pelas
pobres criaturas a quem os cruéis e insanos costumes de sua
raça haviam condenado a vidas sem amor, de crueldade e
ódio. Na mesma hora, ela disse:
-John Carter, se um dia um homem de verdade andou sobre
a face fria e morta de Barsoom, esse alguém é você. Eu sei
que posso confiar em você, e porque essa informação pode
algum dia ajudá-lo, ajudar a meu pai, a Dejah Thoris ou a
mim mesma, direi a você o nome dele e não vou impor
restrições ou condições sobre guardar ou não segredo.
Quando chegar a hora, fale a verdade se isso parecer o
melhor a ser feito. Acredito em você porque sei que não é
amaldiçoado com o terrível traço da absoluta e rígida
verdade, sei que poderia mentir como outros cavalheiros da
Virgínia se uma mentira pudesse evitar que a desgraça e o
sofrimento se abatessem sobre outros. O nome de meu pai é
Tars Tarkas.

Capítulo 16
PLANEJAMOS A FUGA

O restante da jornada até Thark não reservou outros
acontecimentos. Já estávamos há vinte dias viajando,
cruzando dois fundos de mares e passando através, ou
rodeando, mais cidades em ruínas - a maioria menores que
Korad. Duas vezes atravessamos as famosas hidrovias
marcianas, ou canais, como as chamam nossos astrônomos
na Terra. Quando nos aproximávamos desses locais, um
guerreiro era enviado à frente portando um poderoso
binóculo e, se não houvesse nenhuma grande quantidade de
tropas de marcianos vermelhos à vista, avançávamos o
máximo possível sem nos deixar expostos e acampávamos
até o anoitecer. Então, vagarosamente nos aproximávamos
do campo cultivado e localizávamos uma das numerosas e
largas estradas que cruzam essas áreas em intervalos
regulares. Nos esgueirávamos silenciosa e sorrateiramente,
cruzando até as terras áridas do outro lado. Foram
necessárias cinco horas para fazer uma dessas travessias sem
nenhuma parada. A outra levou a noite toda, de forma que
estávamos saindo do confinamento dos campos cercados
pelas altas paredes quando o sol nasceu sobre nós.
Atravessar na escuridão, como fazíamos, tornava impossível
que eu enxergasse bem, exceto quando a lua mais próxima,
com seus extravagantes e incessantes movimentos pelos
céus barsoomianos, iluminava pequenos retalhos da
paisagem de vez em quando, revelando campos murados e
construções baixas e irregulares que lembravam muito as
fazendas terráqueas. Havia muitas árvores dispostas
metodicamente, algumas delas de altura incrível. Existiam
animais em alguns cercados que anunciavam suas presenças
com berros apavorados e grunhidos quando sentiam o odor
de nossas estranhas e rudes bestas, e ainda mais o cheiro dos
estranhos seres humanos.
Apenas uma vez avistei um ser humano, na intersecção de
nossa passagem com a vasta e alva barreira que corta
longitudinalmente cada uma das regiões cultivadas
exatamente no centro. O indivíduo devia estar dormindo na
beira da estrada porque, quando me aproximei, ele se apoiou
sobre um cotovelo e, após um relance sobre a caravana que
se aproximava, levantou-se com um salto e fugiu gritando
desordenadamente estrada abaixo, escalando um muro
próximo com a agilidade de um gato assustado. Os tharks
não lhe dispensaram a menor atenção, pois não estavam em
busca de combate. O único sinal que tive de que o haviam
visto foi uma aceleração na marcha da caravana enquanto
nos aproximávamos da borda do deserto que marcava a
entrada nos domínios de Tal Hajus.
Eu não havia conversado com Dejah Thoris, uma vez que
ela não enviou nenhuma palavra de que eu era bem-vindo
em sua carruagem. E meu orgulho tolo me impediu de fazer
qualquer tentativa. Acredito piamente que o jeito de um
homem para com as mulheres é inversamente proporcional
à sua destreza entre os homens. A fraqueza e a tolice às
vezes são mostra de grande atrativo ao sexo frágil, ao passo
que um lutador que enfrenta destemidamente uma miríade
de perigos reais se esconde nas sombras como uma criança
medrosa.
Exatamente trinta dias após minha chegada a Barsoom,
adentramos a velha cidade de Thark, da qual seu povo há
muito esquecido teve até mesmo seu nome roubado pela
horda dos homens verdes. As hordas de Thark somam algo
entre trinta mil almas e são divididas em vinte e cinco
comunidades. Cada comunidade tem seu próprio jed e
líderes inferiores, mas todos estão sob o jugo de Tal Hajus,
jeddak de Thark. Cinco comunidades fazem da cidade de
Thark seu quartel-general e o restante fica espalhado por
outras cidades desertas da Marte ancestral, por toda a região
reivindicada por Tal Hajus.
Fizemos nossa entrada pela grande praça central no começo
da tarde. Não houve saudações amigáveis entusiasmadas pelo
retorno da expedição. Aqueles que por acaso estavam por ali
falavam os nomes dos guerreiros e mulheres com quem eles
tinham contato direto, fazendo a saudação formal de sua
espécie. Mas a presença de dois prisioneiros despertou um
grande interesse, transformando Dejah Thoris e eu no
centro das atenções dos grupos de curiosos.
Logo fomos conduzidos à nossos novos alojamentos e o
restante do dia foi dedicado a nos assentarmos às novas
condições. Meu lar ficava sobre a avenida sul que levava à
praça, a artéria principal pela qual marchamos vindos dos
portões da cidade. Eu ficava no final do quarteirão e tinha
todo o edifício à minha disposição. A mesma grandeza
arquitetônica tão evidente em Korad também se evidenciava
aqui, embora, se isso fosse possível, em uma escala maior e
mais rica. Meus dormitórios seriam adequados para abrigar o
maior dos imperadores da Terra, mas para essas estranhas
criaturas apenas o tamanho e o gigantismo dos cômodos lhes
era importante. Quanto maior a construção, melhor, e dessa
maneira Tal Hajus ocupava o que devia ter sido um enorme
prédio público. O segundo em tamanho era reservado a
Lorquas Ptomel e o próximo a um jed de posto inferior, e
assim por diante até o final da lista de cinco jeds. Os
guerreiros ocupavam os prédios com os líderes de suas
comitivas ou, se preferissem, buscavam abrigo entre
qualquer dos milhares de edifícios vagos nos quarteirões da
cidade. Cada comunidade era designada a uma determinada
parte da cidade. A escolha das construções era feita de
acordo com essas divisões, exceto quando se tratava dos
jeds, que ocupavam os edifícios em frente à praça.
Quando finalmente deixei minha casa em ordem - ou me-
lhor, averigüei se a haviam arrumado -, era quase crepúsculo
e me apressei a localizar Sola e seus protegidos, porque
estava decidido a falar com Dejah Thoris e tentar convencê-
la da necessidade de pelo menos acordarmos uma trégua até
que eu pudesse encontrar um meio de ajudá-la a fugir.
Procurei em vão até que o topo do grande sol vermelho
estava desaparecendo no horizonte, e então avistei a feia
cabeça de Woola espreitando de uma janela do segundo
andar, do lado oposto da mesma avenida onde eu estava
alojado, embora mais próximo da praça.
Sem aguardar pelo convite, subi pelos corredores tortuosos
como uma flecha até o segundo andar e, ao chegar à grande
câmara de entrada, fui saudado pelo frenesi de Woola, que
jogou seu corpanzil sobre mim, quase me atirando ao chão.
O animal estava tão feliz em me ver que pensei que iria me
devorar, sua cabeça dividida de orelha a orelha, expondo três
fileiras de presas em um sorriso demoníaco.
Acalmando-o com uma palavra de comando e carinho, olhei
rapidamente pela escuridão em busca de um sinal de Dejah
Thoris e então, não a vendo, chamei seu nome. Houve um
murmúrio em resposta vindo do canto mais distante do
apartamento. Com um par de passos largos, coloquei-me ao
seu lado, onde estava encolhida entre suas sedas e peles
sobre uma antiga poltrona entalhada em madeira. Permaneci
ali enquanto ela se levantou altiva, olhou-me diretamente
nos olhos e disse:
- O que poderia querer Dotar Sojat, um thark, com a
prisioneira Dejah Thoris?
- Dejah Thoris, não sei por que a deixei raivosa. Sempre es-
teve longe de meus desejos machucar ou ofender você, a
quem espero poder proteger e confortar. Não se obrigue à
minha presença, caso não queira, mas você deve me ajudar a
realizar sua fuga, se tal coisa for possível. E isso não é um
pedido, e sim um comando. Quando você estiver
novamente livre na corte de seu pai, poderá fazer de mim o
que desejar, mas de agora em diante e até esse dia, serei seu
senhor e deverá me obedecer e ajudar.
Ela me olhou longa e seriamente e achei que estava
abrandando seus sentimentos para comigo.
- Entendo suas palavras, Dotar Sojat - ela respondeu -, mas
você não entende. Você é uma mistura confusa de criança e
homem, de rudeza e nobreza. Quisera eu poder entender
seu coração.
- Olhe para seus pés, Dejah Thoris. Ele continua no mesmo
lugar que naquela outra noite em Korad, e continuará assim,
batendo sozinho até que a morte o cale para sempre.
Ela deu um pequeno passo em minha direção, suas belas
mãos se estenderam em um gesto de estranho tatear.
- O que quer dizer, John Carter? - ela murmurou. - O que
está me dizendo?
- Estou dizendo aquilo que prometi a mim mesmo que não
diria a você, pelo menos enquanto você continuasse
prisioneira dos homens verdes, aquilo que sua atitude nos
últimos vintes dias despertou em mim. Estou dizendo, Dejah
Thoris, que sou seu, de corpo e alma, para servi-la, protegê-
la e morrer por você. Só lhe peço uma coisa em troca: que
você me dê um sinal, seja de condenação ou aprovação, até
que esteja a salvo entre os seus; e que quaisquer sentimentos
que você guarde por mim não sejam influenciados ou
maculados pela gratidão. O que quer que eu faça para servi-
la, será por motivos puramente egoístas, uma vez que me dá
mais prazer servi-la do que deixá-la.
- Respeitarei seus desejos, John Carter, porque entendo seus
motivos para isso e aceito seu serviço com a mesma aprova-
ção que tenho por sua autoridade. Sua palavra será minha lei.
Por duas vezes o condenei injustamente em pensamento e
mais uma vez lhe peço perdão.
Uma conversa de cunho mais pessoal foi impedida pela
entrada de Sola, que estava muito agitada, destoando de sua
calma e controle costumeiros.
-Aquela horrenda Sarkoja foi ter com Tal Hajus - ela gritou -
, e pelo que ouvi na praça, há pouca esperança para vocês
dois.
- O que disseram? - perguntou Dejah Thoris.
- Que vocês serão jogados para os calots [cães] selvagens na
grande arena logo que as hordas se reúnam para os jogos
anuais.
- Sola - eu disse -, você é uma thark, mas odeia e despreza os
costumes de seu povo assim como nós. Você não nos
acompanharia em um esforço supremo de fuga? Estou certo
de que Dejah Thoris poderia lhe oferecer um lar e proteção
entre seu povo. Seu futuro não pode ser pior do que o que a
espera aqui.
- Sim - clamou Dejah Thoris venha conosco, Sola. Você
estará melhor entre os homens vermelhos de Helium do
que ficando aqui. E eu lhe prometo não apenas um lar para
nós, mas o amor e a afeição que sua natureza anseia e que
lhe será sempre negada pelos costumes de sua própria raça.
Venha conosco, Sola. Nós podemos partir sem você, mas
seu destino será terrível se acharem que foi conivente em
nos ajudar. Sei que mesmo esse perigo não a impediria de
interferir em nossa fuga, mas nós a queremos junto,
queremos que você venha para a terra do sol e da felicidade
entre pessoas que entendem o significado do amor, da
simpatia e da gratidão. Diga que virá, Sola, por favor, diga.
- A grande hidrovia que leva a Helium fica a cerca de oitenta
quilômetros ao sul - murmurou Sola, para si mesma -, um
thoat ligeiro chega lá em três horas. Dali para Helium são
oito mil quilômetros, a maior parte deles passa por regiões
parcamente habitadas. Eles descobririam e nos perseguiriam.
Podemos nos esconder entre as grandes árvores por algum
tempo, mas as chances reais de fuga são realmente
pequenas. Eles nos seguiriam até os portões de Helium e
matariam tudo em seu caminho. Vocês os conhecem.
- Não há outro modo de chegarmos a Helium? - perguntei. -
Conseguiria rascunhar um mapa do território que devemos
atravessar, Dejah Thoris?
- Sim - ela respondeu. E tomando um grande diamante de
seus cabelos, desenhou sobre o mármore do chão o primeiro
mapa de um território barsoomiano que vi na minha vida.
Ele era riscado em todas as direções por linhas retas, algumas
correndo em paralelo e eventualmente convergindo para
um grande círculo. As linhas, ela disse, eram hidrovias. Os
círculos, cidades. E um deles, bem ao noroeste, ela apontou
indicando Helium. Havia outras cidades próximas, mas ela
disse que as temia, pois não eram aliadas de Helium.
Finalmente, após estudar o mapa cuidadosamente sob o luar
que agora preenchia a sala, apontei para uma hidrovia ao
nosso extremo norte que também parecia levar a Helium.
- Esta aqui cruza o território de seu avô? - perguntei.
- Sim - ela respondeu -, mas fica trezentos quilômetros ao
norte de onde estamos. É uma das hidrovias que
atravessamos em nossa viagem a Thark.
- Eles nunca suspeitariam que escolheríamos a hidrovia mais
distante - declarei -, e é por isso que esta é a melhor rota
para nossa fuga.
Sola concordou comigo e ficou decidido que deveríamos
deixar Thark naquela mesma noite. Na verdade, tão rápido
quanto eu pudesse encontrar e preparar meus thoats. Sola
montaria um e Dejah Thoris e eu o outro. Cada um de nós
carregaria comida e bebida suficientes para durar dois dias, já
que não se podia forçar a cavalgada dos animais por uma
distância tão grande.
Mandei que Sola fosse com Dejah Thoris por uma avenida
menos movimentada até a fronteira ao sul da cidade, onde
eu as encontraria com meus thoats o mais rápido possível.
Então, deixando-as para juntarem comida, sedas e peles de
que precisaríamos, me esgueirei silenciosamente para os
fundos do primeiro andar e adentrei o pátio onde nossos
animais se movimentavam incessantemente, como é seu
hábito, antes de se acomodarem para dormir.
O grande rebanho de thoats e zitidars se movia pelas som-
bras dos edifícios e pelo esplendor das luas marcianas. Esses
últimos grunhiam seus graves sons guturais e os primeiros
emitiam ocasionalmente um berro agudo que denotava o
quase habitual estado de raiva no qual essas criaturas passam
sua existência. Eles estavam mais calmos agora, devido à
ausência de pessoas, mas assim que me farejaram, tornaram-
se mais irritadiços e seus repugnantes barulhos aumentaram.
Essa minha entrada em um cercado de thoats, sozinho e à
noite, era um negócio bem arriscado. Primeiro, porque seu
barulho crescente poderia alertar algum guerreiro próximo
de que algo estava errado, e também porque, por qualquer
descuido - ou descuido nenhum, na verdade -, um thoat
macho podia se encarregar de me atropelar em uma
investida.
Não tendo desejo de despertar seus maus humores em uma
noite como aquela, quando tantas coisas dependiam de
discrição e esperteza, lancei-me nas sombras dos prédios
pronto para, a qualquer instante, saltar para a segurança de
uma porta ou janela vizinha. Assim, caminhei
silenciosamente até os grandes portões que davam para a rua
atrás da praça e, ao me aproximar da saída, chamei
suavemente meus dois animais. Agradeci muito a gentil
Providência que havia me iluminado com a idéia de ganhar
o amor e a confiança desses brutos estúpidos, porque agora,
vindas do outro lado do pátio, vi duas enormes formas
forçando sua passagem em minha direção por entre
montanhas de carne ondulante.
Eles vieram até mim, roçando seus focinhos contra meu
corpo e farejando os pedaços de comida que eu usava como
recompensa para treiná-los. Abrindo os portões, ordenei os
dois grandes animais a saírem e me esgueirei
silenciosamente atrás deles, fechando os portões às minhas
costas.
Eu não selei ou montei os animais ali. Em vez disso, cami-
nhei em silêncio até a sombra dos edifícios próximos a uma
avenida pouco freqüentada que levava até o ponto
combinado para meu encontro com Dejah Thoris e Sola.
Tão silenciosos quanto espíritos desencarnados, nos
movemos furtivamente pelas ruas desertas, mas só voltei a
respirar normalmente quando as planícies ao redor da cidade
preencheram minha visão. Eu tinha certeza de que Sola e
Dejah Thoris não teriam dificuldades em chegar ao nosso
ponto de encontro, ilesas. Por outro lado, acompanhado por
meus grandes thoats, eu não podia ter certeza sobre mim
mesmo, pois era extremamente raro que guerreiros saíssem
da cidade após anoitecer. Na verdade, não havia lugar algum
por perto que não exigisse uma longa viagem.
Cheguei ao local combinado em segurança, mas, como De-
jah Thoris e Sola não estavam lá, guiei meus animais até a
frente de um dos grandes prédios. Presumi que alguma outra
mulher tivesse ido até a residência de Sola para conversar, o
que teria atrasado sua partida. Não tive nenhuma
preocupação indevida até que quase uma hora havia se
passado sem sinal delas. E após outra meia hora ter se
arrastado, comecei a ser tomado por uma grave ansiedade.
Então, a tranqüilidade da noite foi quebrada por um grupo se
aproximando, cujo barulho não podia ser o de fugitivos se
esgueirando sorrateiramente por sua liberdade. Logo, o
grupo estava perto de mim e percebi das sombras negras de
onde me escondia cerca de vinte guerreiros montados que,
ao passar, deixaram escapar palavras que fizeram meu cora-
ção pular direto para o topo de minha cabeça.
- Ele provavelmente combinou de encontrá-las fora da
cidade e então... - e não ouvi mais nada enquanto passavam.
Mas já era o bastante. Nosso plano havia sido descoberto e,
de agora em diante e até o amargo fim, as chances de fuga
eram realmente pequenas. Minha única preocupação era
voltar desapercebido até os alojamentos de Dejah Thoris e
descobrir o que havia acontecido a ela. Mas o que eu faria
com esses dois monstruosos thoats que tinha em mãos?
Agora que a cidade estava provavelmente excitada ao saber
de minha fuga, esse problema havia tomado grandes
proporções.
De repente, uma idéia me ocorreu e, usando meu
conhecimento sobre as construções dos prédios dessas
antigas cidades marcianas, lembrei dos pátios vazios no
centro de cada quarteirão. Tateei meu caminho às cegas
através das salas escuras, chamando os grandes thoats a me
seguirem. Eles tiveram dificuldades em lidar com algumas
das portas, mas como os edifícios que formavam a fachada
principal da cidade eram todos desenhados em uma escala
magnífica, conseguiram contorcer-se sem acabarem presos
nelas. E, assim, finalmente chegamos ao pátio interno onde
encontrei, conforme o esperado, o usual carpete de
vegetação musgosa que providenciaria comida e bebida a
eles até que eu pudesse devolvê-los ao seu cercado. Eu
estava confiante de que ficariam tão quietos e contentes ali
quanto em qualquer outro lugar, e não havia sequer a menor
possibilidade de que fossem descobertos, porque os homens
verdes não apreciam muito entrar nesses edifícios remotos
que são habitados pela única coisa, acredito, que lhes causa a
sensação de medo: os grandes macacos albinos de Barsoom.
Removi os ornamentos da sela e os escondi dentro de uma
porta por onde havíamos entrado no pátio e, libertando as
feras, rapidamente cruzei-o novamente para os fundos do
edifício, pelo lado mais distante e, dali, para além da avenida.
Esperei no umbral até me certificar de que ninguém se
aproximava, corri até o lado oposto e passei pelo portal que
levava ao próximo pátio. Assim, pátio após pátio, com pouca
chance de ser detectado por me expor pouco nas avenidas,
criei minha rota em segurança até o quintal nos fundos dos
alojamentos de Dejah Thoris.
Ali, obviamente, encontrei os animais dos guerreiros que
habitavam as construções adjacentes - e os próprios
guerreiros deveriam estar na parte interna, caso eu entrasse.
Mas, para minha sorte, eu tinha ainda um outro método de
alcançar o andar superior onde Dejah Thoris deveria estar.
Depois de deduzir qual dos edifícios ela ocupava, porque
nunca o havia visto deste ângulo, tomei vantagem de meu
poder e agilidade relativamente grandes e saltei para o alto
até me agarrar ao peitoril da janela do segundo andar, que eu
achava ser a mesma dos fundos de seu apartamento.
Colocando-me para dentro do quarto, movi-me
discretamente na direção da frente do prédio, e antes que eu
alcançasse a porta de seu quarto, ouvi as vozes que vinham
de dentro dele.
Não ousei ir mais adiante para me assegurar se era a voz de
Dejah Thoris e assim aventurar-me com mais segurança. De
fato, essa precaução foi bastante sábia, porque a conversa
que ouvi tinha o tom gutural grave dos homens e suas
palavras me deram um aviso oportuno. O orador era um
líder que dava ordens a quatro de seus guerreiros.
- E quando ele retornar à este cômodo - ele dizia porque
certamente retornará quando não as encontrar nas fronteiras
da cidade, vocês quatro saltarão sobre ele e o desarmarão.
Será necessária a força combinada de todos vocês, se os
relatos que trazem de Korad forem verdadeiros. Quando ele
estiver firmemente imobilizado, levem-no às grutas
inferiores do quartel jeddak e o acorrentem para que fique à
disposição de Tal Hajus. Não permitam que ele fale com
ninguém ou que qualquer outra pessoa entre neste
apartamento antes que ele chegue. Não há perigo de a garota
retornar, pois a esta hora já deve estar nos braços de Tal
Hajus, e que todos os seus ancestrais tenham pena dela,
porque Tal Hajus não terá. A grande Sarkoja fez um ótimo
trabalho esta noite. Partirei e, caso falhem em capturá-lo
quando ele chegar, eu entregarei suas carcaças ao seio gélido
do Iss.

Capítulo 17
UMA CUSTOSA RECAPTURA

Quando o orador se voltou para deixar o apartamento pela
porta onde eu estava à espreita, eu já não precisava esperar
mais. Eu havia ouvido o suficiente para encher minha alma
de terror e, saindo furtivamente, retornei ao pátio pelo
caminho por onde havia vindo. Meu plano de ação se
formou em um instante. Cruzei o quarteirão e a avenida que
circundava o lado oposto. Logo eu estava no quintal de Tal
Hajus.
Os apartamentos brilhantemente iluminados do primeiro
andar me indicaram onde olhar primeiro e, avançando até as
janelas, espreitei seu interior. Logo descobri que minha
aproximação não seria tão fácil quanto eu esperava, porque
os quartos dos fundos que ladeavam o pátio estavam repletos
de guerreiros e mulheres. Olhei para os andares acima e
descobri que o terceiro estava aparentemente apagado,
decidindo fazer minha entrada no edifício por ali. Bastou o
espaço de um momento para que eu alcançasse as janelas ao
alto, e logo eu me lançava para dentro das sombras
acolhedoras do andar apagado.
Felizmente o quarto que escolhi estava vazio. Rastejando
silenciosamente pelo corredor adiante, vislumbrei uma luz
nos apartamentos à minha frente. Chegando ao que parecia
ser um portal, descobri que nada mais era do que uma
abertura sobre uma imensa câmara interna que encimava o
primeiro andar - dois andares abaixo de mim - até o telhado
em forma de domo do prédio, bem acima de minha cabeça.
O andar desse grande hall circular estava abarrotado de
líderes, guerreiros e mulheres. Em um dos cantos estava
uma grande plataforma elevada sobre a qual habitava a fera
mais horrenda que meus olhos jamais viram. Ele tinha as
mesmas feições frias, cruéis, duras e terríveis que as dos
guerreiros verdes, mas acentuadas e degradadas pela fúria
animal à qual se entregara por longos anos. Não havia uma
marca de dignidade ou orgulho em seu semblante bestial,
enquanto seu corpanzil se espalhava para além da plataforma
sobre a qual estava agachada como um grande peixe-
demônio. Seus seis membros acentuavam a similaridade de
uma forma horrível e assombrosa.
Mas a visão que me congelou em apreensão foi ver Dejah
Thoris e Sola paradas em frente a ele, sob seu olhar doentio
e aflitivo, seus olhos lascivos e saltados que lambiam as
curvas de sua bela figura. Ela estava falando, mas eu não
podia ouvir o que dizia, ou sequer o lamento rouco de sua
resposta. Ela estava ereta à sua frente, sua cabeça altiva e,
mesmo a distância que me separava deles, eu podia ler o
desprezo e o nojo em sua face enquanto seu olhar soberano
não demonstrava sinais de temor a ele. Ela era realmente a
filha orgulhosa de mil jeddaks, cada centímetro de seu corpo
tão belo e precioso. Tão pequeno, tão frágil comparado aos
dos imponentes guerreiros à sua volta, mas cuja majestade os
reduzia à insignificância. Ela era a figura mais poderosa entre
eles e eu acreditava muito que eles podiam sentir o mesmo.
Imediatamente Tal Hajus fez um sinal para que a câmara fos-
se evacuada e que as prisioneiras fossem deixadas sozinhas
com ele. Vagarosamente os líderes, guerreiros e mulheres se
dispersaram nas sombras das câmaras vizinhas para deixar
Dejah Thoris e Sola sozinhas diante do jeddak dos tharks.
Apenas um líder hesitou antes de partir. Eu o vi parado nas
sombras de uma larga coluna, sua figura nervosamente
revolvendo sobre o punho de sua grande espada e seus olhos
cruéis pousados com um ódio implacável sobre Tal Hajus.
Era Tars Tarkas, e eu podia ler seus pensamentos porque
estavam estampados na fúria despudorada em sua face. Ele
estava pensando naquela outra mulher que, há quarenta
anos, também ficou diante desse animal. Se eu pudesse dizer
uma palavra em seu ouvido naquela hora, o reinado de Tal
Hajus estaria terminado. Mas ele finalmente marchou para
fora da sala, sem saber que havia deixado sua própria filha à
mercê da criatura que ele mais desprezava.
Tal Hajus levantou-se e eu, entre temeroso e preparado para
suas intenções, corri para o corredor circular que levava aos
andares abaixo. Não havia ninguém por perto para me
impedir e cheguei ao andar principal onde estava a câmara
sem ser notado, tomando minha posição na sombra da
mesma coluna que Tars Tarkas havia acabado de deixar.
Quando cheguei, Tal Hajus estava falando:
- Princesa de Helium, eu poderia abocanhar um resgate
absurdo de seu povo se a devolvesse intacta, mas prefiro mil
vezes observar seu lindo rosto contorcido pela agonia da
tortura. Garanto que será bem longa, embora dez dias de
prazer sejam muito pouco para que eu demonstre todo o
amor que sinto por sua raça. Os terrores de sua morte
deverão assombrar o sono dos homens vermelhos pelas
próximas eras. Eles terão arrepios à noite quando seus pais
lhes contarem sobre a implacável vingança dos homens
verdes, do poder, da força, do ódio e da crueldade de Tal
Hajus. Mas, antes da tortura, você deve ser minha por uma
pequena hora. E vou garantir que seu avô, Tardos Mors,
jeddak de Helium, tome conhecimento desse fato para que
rasteje pelo chão em agonia por sua infelicidade. Amanhã
começará sua tortura. Esta noite, serás de Tal Hajus. Venha!
Ele pulou de sua plataforma e a tomou rudemente pelo
braço, mas ele mal a havia tocado e saltei entre eles. Minha
espada curta, afiada e brilhante, estava em minha mão
direita. Eu poderia tê-la mergulhado em seu coração pútrido
antes mesmo que ele percebesse minha presença, mas
quando levantei meu braço para desferir o golpe, pensei em
Tars Tarkas e, mesmo com toda a minha raiva, com todo o
meu ódio, eu não poderia tirar dele o doce momento pelo
qual ele viveu e esperou todos esses extenuantes anos. Em
vez disso, disparei meu bom punho direito em cheio na
ponta de seu queixo. Sem emitir som, ele desabou no chão
como se estivesse morto.
No mesmo silêncio sepulcral, peguei Dejah Thoris pela mão
e, com um gesto para que Sola nos seguisse, corremos em
silêncio da câmara para o andar superior. Sem sermos vistos,
chegamos à janela dos fundos. Usando as faixas e couros de
meus equipamentos, baixei-as - primeiro Sola, depois Dejah
Thoris - até o chão, e depois caí suavemente, conduzindo-as
com urgência ao redor do pátio pelas sombras das
construções, e retornamos pelo mesmo caminho pelo qual
eu havia seguido desde as fronteiras da cidade.
Finalmente, demos com meus thoats no pátio onde os havia
deixado e, colocando os arreios sobre eles, nos apressamos
através do prédio até a avenida do lado de fora. Montados -
Sola sobre um animal e Dejah Thoris atrás de mim sobre o
outro -, cavalgamos para longe da cidade pelas colinas do sul.
Em vez de dar a volta ao redor da cidade para o noroeste, na
direção da hidrovia mais próxima, que estava a uma curta
distância de nós, desviamos para nordeste e nos abatemos
sobre a vastidão musgosa através da qual, após duzentas
perigosas e cansativas milhas, nos esperava outra artéria
principal que levava a Helium.
Não proferimos nenhuma palavra até termos deixado a
cidade na distância, mas eu podia ouvir o choro mudo de
Dejah Thoris que se segurava em mim com sua delicada
cabeça repousando sobre meu ombro.
- Se conseguirmos, meu líder, o débito de Helium será
gigantesco. Maior do que jamais poderiam recompensá-lo. E,
se não conseguirmos - ela continuou -, o débito não será
menor, mas Helium nunca saberá que você salvou a última
de nossa linhagem de algo pior que a morte.
Eu não respondi, apenas movi minha mão para o lado e
pressionei os pequenos dedos de minha amada enquanto
eles me apertavam em sinal de apoio. Assim, mantendo o
silêncio, aceleramos sobre o musgo amarelo enluarado, cada
um de nós ocupado com seus próprios pensamentos. De
minha parte, eu só podia estar feliz por ter tentado. Com o
corpo tépido de Dejah Thoris junto ao meu e com todo o
perigo recém-passado, meu coração cantava alegremente,
como se estivéssemos adentrando os portões de Helium.
Nossos planos anteriores foram desfeitos tão desastrosamen-
te que agora nos encontrávamos sem comida ou água. E
apenas eu estava armado. Portanto, fustigamos nossos
animais a uma velocidade que provavelmente se traduziria
em dor para eles antes que avistássemos o final do primeiro
estágio de nossa jornada.
Cavalgamos a noite toda e o dia seguinte com poucas e bre-
ves paradas. Na segunda noite, tanto nós quanto os animais
estávamos completamente esgotados e nos deitamos sobre o
musgo para um sono de cinco ou seis horas, voltando à
jornada outra vez antes do alvorecer. Cavalgamos o dia
seguinte todo e quando, no final da tarde, ainda não
tínhamos avistado árvores distantes - o sinal das grandes
hidrovias por toda a Barsoom -, a terrível verdade desabou
sobre nós: estávamos perdidos.
Era evidente que havíamos andado em círculos, mas era
difícil dizer para qual lado. Também não parecia possível
usar o sol para nos guiar durante o dia e as luas e estrelas à
noite. Sob qualquer alternativa, não havia hidrovia à vista e
todo o grupo estava prestes a sucumbir de fome, sede e
cansaço. Ao longe, e um pouco à direita, era possível
distinguir os contornos de montanhas baixas, as quais
decidimos tentar escalar na esperança de que pudéssemos
avistar algum indício da hidrovia que procurávamos. A noite
caiu sobre nós antes de atingirmos nosso objetivo, e quase
desmaiando de cansaço e fraqueza, nos deitamos e
dormimos.
Acordei cedo pela manhã com um grande corpo encostado
perto do meu. Abri meus olhos e contemplei meu
abençoado Woola se aninhando junto a mim. A fera fiel
havia nos seguido pela vastidão desolada para compartilhar
nosso destino, qualquer que fosse. Passando meus braços
sobre seu pescoço, pressionei minha bochecha contra a dele
- e não me envergonho de tê-lo feito, nem das lágrimas que
vieram aos meus olhos quando pensei em seu amor por
mim. Logo após isso, Dejah Thoris e Sola acordaram e ficou
decidido que nos empenharíamos imediatamente em um es-
forço para chegar às colinas.
Havíamos andado menos de um quilômetro quando notei
que meu thoat estava começando a cambalear e refugar de
um modo entristecedor, apesar de termos tentado não forçá-
los além da velocidade de marcha desde o meio do dia
anterior. Repentinamente, ele cambaleou para um lado e
desabou violentamente contra o chão. Dejah Thoris e eu
fomos jogados da sela e caímos sobre o musgo macio
sofrendo pouco mais que um tombo, mas o pobre animal
estava em condição deplorável, sendo incapaz até mesmo de
se levantar, apesar de aliviado de nosso peso. Sola me disse
que quando caísse o frescor da noite, junto com o descanso,
ele reviveria. Então decidi não matá-lo, como era minha
primeira intenção, porque achei cruel abandoná-lo ali para
morrer de fome e sede. Retirando seus arreios e colocando-
os ao seu lado, partimos, deixando o pobre parceiro ao sabor
do destino e continuamos da melhor forma possível com
apenas um thoat. Sola e eu caminhamos, fazendo Dejah
Thoris cavalgar mesmo contra sua vontade. Nessas
condições, havíamos progredido cerca de outro quilômetro
na direção das colinas que buscávamos alcançar quando
Dejah Thoris, de seu vantajoso posto de observação sobre o
thoat, gritou que havia visto um grande grupo de homens
montados em formação descendo de uma passagem das
colinas vários quilômetros adiante. Sola e eu olhamos juntos
para a direção indicada e ali, claramente, estavam várias
centenas de guerreiros montados. Eles pareciam se dirigir
para sudoeste, o que os levaria para longe de nós.
Sem dúvida eram guerreiros de Thark enviados para nos
capturar, e respiramos com muito alívio por estarem
viajando na direção oposta à nossa. Retirando Dejah Thoris
rapidamente do thoat, comandei para que o animal se
deitasse e nós três fizemos o mesmo, tentando passar
despercebidos ao máximo com medo de chamar a atenção
dos guerreiros para nossa direção.
Pudemos vê-los se enfileirando pela passagem por apenas
um instante antes que se perdessem de vista por trás da
milagrosa cordilheira. Para nós, era uma cordilheira
providencial, já que não deixou que ficassem à vista por mais
tempo, o que os levaria a nos descobrir. Aquele que parecia
ser o último guerreiro ainda podia ser visto na passagem. Ele
parou e, para nossa desolação, elevou seu pequeno, mas
poderoso, binóculo aos olhos e vasculhou o fundo do mar
em todas as direções. Ele era, evidentemente, um líder, pois,
situava-se na extrema retaguarda da coluna, posição que, em
certas formações de marcha dos homens verdes, cabe a um
líder. Quando seu binóculo desviou em nossa direção,
nossos corações pararam em nossos peitos e pude sentir um
suor frio em todos os poros de meu corpo.
Quando estava observando diretamente sobre nós, ele...
parou. A tensão em nossos nervos estava próxima do ponto
de ruptura e acredito que nenhum de nós respirou durante
os momentos em que ele nos manteve na linha de visão de
seu instrumento. Então, ele baixou seu binóculo e pudemos
vê-lo gritando uma ordem aos guerreiros que já haviam
sumido de nossa vista por trás do topo. Ele não esperou que
o alcançassem e fustigou seu thoat, vindo desabalado em
nossa direção.
Havia uma pequena chance que devíamos aproveitar
rapidamente. Levando meu estranho rifle marciano ao
ombro, mirei e toquei o botão que controlava o gatilho.
Houve uma pequena explosão quando o projétil atingiu seu
alvo, fazendo com que o líder em carga fosse arremessado
no ar para trás de sua montaria.
Levantando-me de supetão, ordenei que meu thoat se
erguesse e instruí que Sola e Dejah Thoris montassem nele e
fizessem seu melhor para alcançar as colinas antes que os
marcianos verdes estivessem sobre nós. Eu sabia que elas
poderiam encontrar refúgio temporário nas ravinas e valas e,
mesmo que morressem de fome ou sede, seria melhor do
que caírem nas mãos dos tharks. Entregando a elas meus
dois revólveres, uma tentativa débil de proteção e, em
último caso, de ajuda para que escapassem da horrenda
morte que uma recaptura significaria, levantei Dejah Thoris
e a coloquei sobre o thoat na garupa de Sola, que já havia
montado ao meu comando.
- Adeus, minha princesa - sussurrei -, ainda podemos nos
encontrar em Helium. Já escapei de apuros piores que este -
forcei um sorriso enquanto mentia.
- O quê? - ela gritou. - Você não virá conosco?
- E como poderia, Dejah Thoris? Alguém precisa retardar
esses indivíduos por algum tempo e posso escapar deles mais
facilmente sozinho do que com nós três juntos.
Ela pulou rapidamente do thoat, passou seus preciosos bra-
ços em volta de meu pescoço, virou-se para Sola e disse em
uma dignidade tranqüila:
- Fuja, Sola! Dejah Thoris ficará para morrer com o homem
que ama.
Essas palavras ainda estão gravadas em meu coração. Oh, eu
abriria mão de minha vida com alegria mil vezes se pudesse
ouvi-la dizendo isso outra vez. Mas eu não podia desperdiçar
sequer um segundo com o arrebatamento de seu doce
abraço. Pressionei meus lábios contra os dela pela primeira
vez, peguei-a no colo e a atirei sobre seu assento atrás de
Sola novamente. Ordenei em tom categórico que Sola a
prendesse à força e, após bater sobre o flanco do thoat,
observei-as começar a jornada. Dejah Thoris esforçava-se ao
máximo para se libertar dos braços de Sola.
Ao me voltar, enxerguei os marcianos verdes sobre o cume
procurando por seu líder. Eles o viram em um momento e,
então, viram a mim. Mal haviam notado minha presença
quando, deitando-me de bruços sobre o musgo, comecei a
disparar contra eles. Eu tinha um cartucho completo de cem
tiros no pente do rifle e outros cem no cinturão às minhas
costas. Disparei uma rajada contínua até que todos os
guerreiros que haviam surgido do outro lado da montanha
estivessem mortos ou tentando se abrigar.
Contudo, meu intervalo foi curto, porque logo um grupo
inteiro, somando cerca de mil homens, reapareceu vindo à
carga, correndo furiosamente em minha direção. Atirei até
meu rifle esvaziar e o inimigo estar quase sobre mim. Com
um relance, vi que Dejah Thoris e Sola já haviam
desaparecido por entre as colinas; saltei, desfazendo-me de
minha arma inútil e continuei na direção oposta àquela
tomada por Sola e sua protegida.
Se os marcianos nunca haviam presenciado uma exibição de
salto, então assistiram a uma, surpresos, naquele agora
longínquo dia. Foi assim que os desviei, ao mesmo tempo
levando- os para longe de Dejah Thoris sem deixar escapar
sua atenção da tentativa de me capturar.
Eles me perseguiram desesperadamente até que meu pé
atingiu um pedaço protuberante de quartzo e sofri uma bela
queda sobre o musgo. Quando olhei para cima, já estavam
sobre mim e, apesar de tentar sacar minha espada longa na
tentativa de vender o mais caro possível minha vida, logo
tudo estava acabado. Eu cambaleei sob seus golpes, que
recaíam sobre mim em perfeita coordenação. Minha cabeça
girou, tudo escureceu e sucumbi sob eles para o
esquecimento.

Capítulo 18
ACORRENTADO EM WARHOON

Devem ter se passado várias horas até que eu recobrasse a
consciência, e bem me lembro do sentimento de surpresa
que me varreu quando percebi que não estava morto.
Eu estava deitado sobre uma pilha de cobertas de seda e pe-
les no canto de um pequeno quarto no qual havia vários
guerreiros verdes e uma fêmea idosa e feia se debruçava
sobre mim.
Ao abrir meus olhos, ela se virou para um dos guerreiros
dizendo:
- Ele viverá, oh jed.
- Muito bem - respondeu aquele a quem ela tinha se dirigido,
levantando-se e se aproximando de meu leito. - Ele daria
uma rara peleja nos grandes jogos.
Agora que meus olhos repousavam sobre ele, vi que não era
thark, porque os ornamentos de metais não eram daquela
horda. Ele era um indivíduo grande, terrivelmente coberto
por cicatrizes no rosto e no peito, um canino quebrado e
uma orelha faltando. Em cada lado de seu peito havia crânios
humanos, dos quais pendiam algumas mãos humanas
ressecadas.
Sua referência aos grandes jogos dos quais eu tanto ouvira
falar enquanto estive entre os tharks me convenceu de que
eu havia pulado do purgatório para o Geena (Geena ou
Vale de Hiron aparece em textos religiosos como o
Vale da Morte ou o próprio inferno. Era um lugar ao
sul de Jerusalém onde o lixo era queimado).
Depois de mais algumas palavras com a fêmea, com as quais
ela o assegurou de que agora eu seria capaz de viajar, o jed
ordenou que montássemos e cavalgássemos na retaguarda da
coluna principal.
Fui amarrado em segurança no thoat mais selvagem e
indomável que jamais vi e, com um guerreiro montado de
cada lado para evitar que a fera disparasse, cavalgamos a
passo furioso para alcançar a coluna. Meus ferimentos não
doíam muito devido à presteza e rapidez com que os
bálsamos e injeções ministrados pela fêmea exerciam seus
poderes terapêuticos, e pela destreza com que ela havia
enfaixado e emplastrado minhas feridas.
Pouco antes do anoitecer alcançamos o corpo principal de
soldados, que já havia montado acampamento para a noite.
Fui levado imediatamente para diante do líder, que provou
ser o jeddak das hordas de Warhoon.
Assim como o jed que havia me trazido, ele era terrivel-
mente marcado por cicatrizes e também decorava seu
protetor peitoral com os crânios humanos e as mãos secas
que pareciam distinguir sua medonha ferocidade, que
transcendia em muito até mesmo a dos tharks.
O jeddak, Bar Comas, que era comparativamente jovem, era
objeto do ódio feroz e invejoso de seu antigo tenente, Dak
Kova, o jed que havia me capturado. E não pude deixar de
notar os esforços quase premeditados que Dak Kova fez para
afrontar seu superior.
Ele omitiu completamente a saudação formal habitual quan-
do surgiu na presença do jeddak, e ao me empurrar
rudemente diante do regente, exclamou em uma voz alta e
ameaçadora:
- Trouxe a estranha criatura que veste o metal de um thark e
a quem terei o prazer de pôr em combate contra um thoat
selvagem nos grandes jogos.
- Ele morrerá conforme Bar Comas, seu jeddak, achar
conveniente. Se é que acharei - respondeu o jovem regente
com ênfase e dignidade.
- Se achar? - rugiu Dak Kova. - Pelas mãos mortas em meu
pescoço, ele deve morrer, Bar Comas. Nenhuma fraqueza
sentimental de sua parte poderá salvá-lo. Oh, quisera eu que
Warhoon fosse regida por um verdadeiro jeddak a um
fracote de coração aguado de quem até mesmo o velho Dak
Kova poderia arrancar seu metal com as mãos nuas!
Bar Comas encarou o líder desafiador e insubordinado por
um instante com uma expressão arrogante, destemidamente
desdenhosa e odiosa, e então, sem sacar uma arma ou
pronunciar palavra, arremeteu contra a garganta de seu
difamador.
Eu nunca havia presenciado dois guerreiros verdes marcia-
nos em combate franco. A exibição de ferocidade animal
que se seguiu foi tão medonha que sequer a imaginação mais
ensandecida poderia criar. Eles buscavam os olhos e orelhas
do adversário com suas mãos e suas presas reluzentes.
Rasgavam e perfuravam até que ambos estavam
praticamente em retalhos da cabeça aos pés.
Bar Comas saiu-se melhor na batalha por ser mais jovem,
rápido e inteligente. Logo pareceu que o embate estava
vencido, exceto na investida final, quando Bar Comas
escorregou ao se libertar de um agarrão. Era a oportunidade
que Dak Kova precisava. Arremessando-se sobre o corpo do
adversário, enterrou sua única e poderosa presa na virilha de
Bar Comas e, com um último e potente esforço, abriu o
corpo do jovem jeddak em dois, com seu grande canino
cravado entre os ossos da mandíbula de Bar Comas.
Vencedor e vencido cambalearam sem forças ou vida sobre
o musgo, uma grande massa de carne retalhada e
ensangüentada sobre o chão.
Bar Comas estava morto e somente os esforços mais hercú-
leos por parte das fêmeas de Dak Kova o salvariam do
destino que merecia. Três dias depois, no entanto, ele
caminhou sem ajuda até o corpo de Bar Comas que,
seguindo o costume, não havia sido removido de onde caíra.
Colocando seu pé sobre o pescoço de seu outrora regente,
assumiu o título de jeddak de Warhoon.
As mãos e a cabeça do jeddak morto foram removidas para
se somarem aos ornamentos de seu conquistador. Depois, as
mulheres queimaram o que restou entre gargalhadas
selvagens e terríveis.
Os ferimentos de Dak Kova haviam atrasado tanto a marcha
que decidiram desistir da expedição, que se tratava de um
ataque a uma pequena comunidade thark em retaliação pela
destruição de uma incubadora. A vingança esperaria até
depois dos grandes jogos e todo o grupo de dez mil
guerreiros volveu novamente na direção de Warhoon.
Minha primeira impressão desse povo cruel e sanguinário
nada mais foi do que uma prévia daquilo que presenciaria
quase diariamente entre eles. Era uma horda menor que a
dos tharks, mas muito mais feroz. Não houve sequer um dia
que passasse sem que alguns dos membros das várias
comunidades de Warhoon se digladiassem mortalmente.
Cheguei a ver um total de oito duelos mortais em um único
dia.
Chegamos à cidade de Warhoon após três dias de marcha e
fui imediatamente jogado em uma masmorra, sendo
fortemente acorrentado ao chão e às paredes. A comida era
trazida em intervalos, mas devido à completa escuridão do
local eu não saberia dizer se fiquei ali por dias, meses ou
anos. Foi a mais terrível experiência de toda a minha vida e
sempre me pareceu um milagre que minha mente não tenha
cedido aos terrores daquela negritude total. O lugar era
repleto de coisas rastejantes. Corpos frios e sinuosos
passavam sobre mim enquanto eu estava deitado. Na
escuridão, eu tinha vislumbres ocasionais de olhos brilhantes
e exaltados fixados em incessante atenção sobre mim.
Nenhum som chegou a mim do mundo acima e nenhuma
palavra era desferida por meu carcereiro quando me trazia
comida, embora no início eu o bombardeasse com
perguntas.
Finalmente, toda a minha repulsa e ódio maníaco por essas
deploráveis criaturas que me haviam confinado naquele
lugar horrendo foram canalizados por minha consciência
cambaleante sobre esse único emissário que representava,
para mim, toda a horda de warhoons.
Eu havia notado que ele avançava com sua tocha
tremeluzente até onde pudesse colocar a comida ao meu
alcance e, quando parava para colocá-la no chão, sua cabeça
ficava praticamente na altura do meu peito. Então, com a
astúcia de um louco, fiquei no canto mais ao fundo de
minha cela na vez seguinte que o ouvi se aproximando.
Reuni o pedaço de corrente que sobrava dos grilhões que
me prendiam e aguardei agachado como uma fera predadora.
Quando ele parou para colocar minha comida sobre o chão,
girei a corrente sobre minha cabeça e atingi seu crânio com
os elos com toda a minha força. Sem emitir som, ele
escorregou para o chão, morto.
Gargalhando e falando como o idiota em que eu estava me
transformando, caí sobre sua forma prostrada. Meus dedos
procuravam sua garganta inerte. Em seguida, eles tatearam
uma pequena corrente em cuja extremidade estavam
penduradas algumas chaves. 0 toque de meus dedos nessas
chaves me trouxe de volta ã razão em um piscar de olhos.
Eu não era mais um idiota saltitante, mas um homem são,
sensato, com os meios para a fuga em suas próprias mãos.
Enquanto eu tateava para remover a corrente do pescoço de
minha vítima, olhei para cima na escuridão para ver seis
pares de olhos brilhantes e estáticos sobre mim. Lentamente
se aproximaram e eu lentamente me encolhi para mais longe
daquela terrível visão. De volta ao meu canto, me agachei,
mantendo minhas mãos espalmadas diante de mim.
Sorrateiramente os olhos medonhos se aproximaram até
chegar ao cadáver à minha frente. Então, vagarosamente
recuaram, mas desta vez acompanhados por um som áspero,
e desapareceram em algum dos negros e distantes recantos
de minha masmorra.

Capítulo 19
COMBATENDO NA ARENA

Vagarosamente, recuperei minha compostura e finalmente
ensaiei uma nova tentativa de remover as chaves do cadáver
de meu antigo carcereiro. Mas quando tentei encontrá-lo
tateando na escuridão, percebi para minha surpresa que ele
havia sumido. Então, a verdade brilhou sobre mim; os donos
dos olhos brilhantes haviam arrastado meu prêmio para ser
devorado em seu lar logo ao lado. Haviam esperado por dias,
semanas ou meses, por toda essa detestável eternidade do
meu aprisionamento para arrastar meu corpo sem vida para
seu banquete.
Por dois dias não me trouxeram nenhuma comida, mas en-
tão um novo mensageiro apareceu e minha prisão retomou
seu curso anterior, mas desta vez não permiti que a razão
submergisse diante do horror de minha situação.
Logo após esse episódio, um outro prisioneiro foi trazido e
acorrentado próximo a mim. Pela luz trêmula da tocha pude
ver que era um marciano vermelho, e mal podia esperar que
seus guardas se fossem para me dirigir a ele. Enquanto os
passos se distanciavam cada vez mais, pronunciei
cuidadosamente a palavra marciana de saudação, "kaor".
- Quem é você que fala da escuridão? - ele respondeu.
-John Carter, amigo dos homens vermelhos de Helium.
- Eu venho de Helium - disse ele -, mas não lembro de seu
nome.
E então lhe contei minha história assim como a escrevo
aqui, omitindo apenas qualquer referência ao meu amor por
Dejah Thoris. Ele estava bastante excitado pelas notícias
sobre a princesa de Helium e parecia muito confiante de que
ela e Sola conseguiriam chegar facilmente a um local seguro
a partir do ponto onde havíamos nos separado. Ele disse que
conhecia bem o lugar porque o desfiladeiro pelo qual os
guerreiros warhoons haviam passado quando nos
descobriram era o único usado por eles quando marchavam
para o sul.
- Do ponto onde Dejah Thoris e Sola entraram nas
montanhas, estavam a menos de oito quilômetros de uma
grande hidrovia, e provavelmente estão a salvo agora - ele
me assegurou.
Meu companheiro de cela era Kantos Kan, um padwar
(tenente) da armada de Helium. Ele tinha participado da
infeliz expedição que havia caído nas mãos dos tharks
quando Dejah Thoris fora capturada. Ele relatou brevemente
os eventos que se seguiram à derrota das belonaves.
Gravemente feridos e com muitos desfalques na tripulação,
os guerreiros avançavam com dificuldade de volta a Helium,
mas quando passaram próximos à cidade de Zodanga, a
capital dos inimigos hereditários de Helium entre os homens
vermelhos de Barsoom, foram atacados por um grande
número de navios de guerra e toda a frota, exceto a nave à
qual Kantos Kan pertencia, foi destruída ou capturada. Seu
navio foi perseguido durante dias por três naves de guerra,
mas finalmente escaparam na escuridão de uma noite sem
lua.
Trinta dias depois da captura de Dejah Thoris, parcialmente
ao mesmo tempo em que chegamos a Thark, seu navio havia
chegado a Helium com cerca de dez sobreviventes da
tripulação original de setecentos oficiais e homens.
Imediatamente, sete grandes frotas, cada uma de cem
poderosos navios de guerra, foram despachadas em busca de
Dejah Thoris e, acompanhando esses navios, outros
duzentos barcos menores se mantinham em busca
incessante e inútil pela princesa desaparecida.
Duas comunidades de marcianos verdes haviam sido varri-
das da face de Barsoom por essas frotas vingadoras, mas
nenhum traço de Dejah Thoris foi encontrado. Eles estavam
procurando entre as hordas do norte, e somente alguns dias
atrás estenderam sua busca para o sul.
Kantos Kan havia sido designado para um desses planadores
menores, de apenas um piloto, e teve a desventura de ser
descoberto pelos warhoons quando explorava sua cidade. A
bravura e ousadia desse homem ganhou meu mais profundo
respeito e admiração. Sozinho, ele havia pousado nos
arrabaldes da cidade e, a pé, penetrado nos edifícios em
volta da praça. Por dois dias e duas noites ele explorou seus
alojamentos e masmorras em busca de sua amada princesa
apenas para cair nas mãos de um grupo de warhoons quando
estava prestes a partir, depois de se certificar de que Dejah
Thoris não estava aprisionada ali.
Durante o período de nosso encarceramento, Kantos Kan e
eu nos tornamos camaradas e criamos uma terna amizade.
Apenas alguns dias se passaram, contudo, até sermos
arrastados para fora de nossa masmorra para os grandes
jogos. Fomos conduzidos logo pela manhã até um enorme
anfiteatro que, em vez de ser construído sobre o solo, havia
sido escavado abaixo da superfície. O lugar estava
parcialmente coberto por entulho, o que dificultava um
cálculo sobre seu real tamanho original. Em sua presente
condição, comportava a totalidade das hordas reunidas de
vinte mil warhoons.
A arena era imensa, mas extremamente acidentada e
desnivelada. Ao seu redor os warhoons haviam empilhado
blocos de construção de alguns dos edifícios em ruínas da
cidade velha para evitar que os animais e prisioneiros
escapassem para a platéia. Em cada uma das extremidades
haviam sido construídas jaulas para os manterem presos até
que fosse sua vez de encontrar a morte hedionda sobre a
arena.
Kantos Kan e eu fomos confinados juntos em uma das jaulas.
Nas outras havia calots selvagens, thoats, zitidars
ensandecidos, guerreiros verdes e mulheres de outras
hordas, além de muitos outros estranhos e ferozes animais
de Barsoom que eu nunca havia visto antes. O barulho de
seus rugidos, grunhidos e berros era suficiente para fazer o
coração mais vigoroso sentir intenso mau agouro.
Kantos Kan explicou-me que no final do dia um desses
prisioneiros ganharia a liberdade enquanto os outros
estariam todos mortos sobre a arena. Os vencedores das
várias disputas do dia seriam colocados um contra o outro
até que somente um sobrevivesse. O vitorioso do último
embate seria libertado, fosse animal ou homem. Na manhã
seguinte as jaulas seriam preenchidas com um novo
contingente de vítimas e assim por diante pelos dez dias dos
jogos.
Logo após termos sido encarcerados, o anfiteatro começou a
lotar e, dentro de uma hora, absolutamente todos os assentos
foram ocupados. Dak Kova, com seus jeds e líderes, estava
sentado no centro de um lado da arena sobre uma grande
plataforma elevada.
A um sinal de Dak Kova as portas de duas gaiolas foram
abertas e uma dezena de fêmeas marcianas foram guiadas ao
centro da arena. Cada uma levava uma adaga consigo. Do
outro lado, um bando de doze calots - ou cães selvagens -
foram soltos sobre elas.
Enquanto as feras, rosnando e espumando, dispararam sobre
as mulheres virtualmente indefesas, virei minha cabeça,
evitando a visão medonha que se seguiria. Os gritos e
gargalhadas da horda verde foram testemunhas da excelente
qualidade do esporte e, quando me voltei para a arena, após
Kantos Kan dizer que tudo havia se acabado, vi três calots
vitoriosos, rugindo e rosnando sobre os corpos de suas
presas. As mulheres tinham dado um bom trabalho a eles.
A seguir, um zitidar ensandecido foi solto entre os cães, e
assim foi durante todo aquele longo, quente e horripilante
dia.
No decorrer do dia, fui colocado primeiro contra homens,
depois feras, mas como estava armado com uma espada
longa e sempre suplantei meus adversários em agilidade - e
geralmente em força -, aquilo foi brincadeira de criança para
mim. Uma vez após outra mereci o aplauso da multidão
sedenta por sangue e, perto do final, havia gritos que diziam
para eu ser retirado da arena e ser feito membro das hordas
de Warhoon.
Finalmente, havia apenas três de nós: um grande guerreiro
verde de alguma horda do norte longínquo, Kantos Kan e
eu.
Os outros dois deviam se enfrentar, e então eu lutaria contra
o ganhador pela liberdade que premiava o último vitorioso.
Kantos Kan havia lutado diversas vezes durante o dia e,
assim como eu, havia sempre saído vencedor, embora
ocasionalmente por uma pequena vantagem, especialmente
quando colocado contra guerreiros verdes. Eu tinha poucas
esperanças de que ele pudesse derrotar esse gigantesco
adversário que havia moído a todos no decorrer do dia. O
indivíduo chegava a quase cinco metros de altura enquanto
Kantos Kan estava alguns centímetros abaixo de um e
oitenta. Ao avançarem para se encontrar, vi pela primeira
vez um truque dos espadachins marcianos que concentrava
toda a esperança de vitória e da vida de Kantos Kan em um
lance de sorte. Ao chegar a cerca de seis metros de distância
do gigante, ele pendeu o braço que empunhava sua espada
para trás, sobre seu ombro, e com um movimento de
pêndulo arremessou sua arma com grande força, mirando o
guerreiro verde adiante. Ela voou reta como uma flecha e,
atingindo o coração do pobre diabo, derrubou-o morto sobre
o chão da arena.
Agora, Kantos Kan e eu deveríamos nos enfrentar, mas
quando nos aproximamos para o encontro, sussurrei a ele
que prolongasse o combate até perto do cair da noite na
esperança de encontrarmos alguma forma de escapar. A
horda evidentemente percebeu que não estávamos no
espírito de lutar contra o outro e nos vaiavam com raiva
porque nenhum de nós disparava golpes fatais. Quando vi a
escuridão repentina chegando, murmurei a Kantos Kan para
simular um golpe entre meu braço esquerdo e meu corpo.
Quando ele o fez, cambaleei para trás prendendo a espada
firmemente com meu braço e então caí ao chão com sua
arma aparentemente se projetando de meu peito. Kantos
Kan percebeu meu truque e rapidamente se colocou ao meu
lado pousando seu pé sobre meu pescoço e recolheu sua
espada de meu corpo para dar o golpe de misericórdia,
cortando minha veia jugular. Mas nessa hora a lâmina fria
atingiu inofensivamente a areia da arena. Na escuridão que
agora nos cobria, ninguém podia dizer que ele não havia
dado cabo de minha vida. Sussurrei a ele que fosse reclamar
sua liberdade e que me procurasse nas colinas ao leste da
cidade. E assim ele se foi.
Quando o anfiteatro foi esvaziado, rastejei furtivamente até
o alto e, como a grande escavação ficava distante da praça,
em um local ermo da grande cidade abandonada, alcancei as
colinas ao longe sem maiores problemas.

Capítulo 20
NA FÁBRICA DE ATMOSFERA

Por dois dias esperei ali por Kantos Kan, mas como ele não
apareceu, comecei a caminhar para o noroeste, em direção
ao ponto onde ele havia dito que se localizava a hidrovia
mais próxima. Minha única alimentação se baseava no leite
vegetal das plantas, que forneciam tão generosamente esse
fluido valioso.
Por duas longas semanas errei, cambaleando pelas noites,
guiado somente pelas estrelas e escondendo-me durante os
dias atrás de alguma saliência de rocha ou entre as colinas
ocasionais que cruzava. Várias vezes fui atacado por feras
selvagens. Monstruosidades estranhas e grotescas pulavam
sobre mim no escuro, forçando-me a carregar minha espada
longa constantemente em punho, sempre preparado a
enfrentá-las. Normalmente, meu estranho e recentemente
adquirido poder telepático me avisava com tempo suficiente,
mas uma vez me vi com presas odiosas em minha jugular e
uma cara peluda contra a minha antes que eu sequer
soubesse que estava em perigo.
Que tipo de coisa estava sobre mim, não sei dizer, mas que
era grande, pesada e com muitas pernas, isso eu pude sentir.
Minhas mãos estavam em sua garganta antes que as presas
tivessem chance de se enterrar em meu pescoço.
Vagarosamente, forcei sua cara peluda para longe de mim e
cerrei meus dedos como um alicate sobre sua traqueia.
Sem emitir som enquanto estávamos no chão, a fera
empregou toda a sua força para me alcançar com suas
terríveis presas enquanto eu me desdobrava para continuar
meu aperto, sufocando-a à medida que tentava mantê-la
longe de minha garganta. Vagarosamente, meus braços
cederam devido ao embate desigual e, polegada após
polegada, os olhos faiscantes e os caninos reluzentes de meu
antagonista chegavam cada vez mais perto de mim. Em
determinado ponto, quando sua cara peluda tocou
novamente a minha, percebi que tudo estava acabado. Nesse
momento, uma massa viva de destruição saltou da escuridão
em volta e caiu sobre a criatura que me mantinha preso ao
chão. Os dois rolaram rosnando sobre o musgo, rasgando e
dilacerando um ao outro de uma maneira amedrontadora,
mas em pouco tempo tudo estava acabado, e meu salvador
se postou com a cabeça abaixada sobre a garganta da coisa
morta que desejava me matar.
A lua mais próxima, surgindo repentinamente sobre o
horizonte e iluminando o cenário barsoomiano, mostrou
que meu guardião era Woola, mas de onde havia vindo ou
como havia me encontrado, eu não sabia dizer.
Desnecessário citar que eu estava alegre por seu
companheirismo, mas meu prazer em vê-lo se misturava à
ansiedade por tê-lo deixado com Dejah Thoris. Eu tinha
certeza de que somente sua morte explicaria o
distanciamento de Woola dela, tão leal que era em obedecer
meus comandos.
Agora, sob a luz das luas fulgurantes, vi que ele era apenas
uma sombra de sua antiga forma. E quando ele se desviou de
meus afagos e começou a devorar avidamente a carcaça aos
meus pés, entendi que o pobre companheiro estava mais
que faminto. Eu mesmo estava apenas um pouco menos
apurado, mas não consegui me forçar a comer a carne crua e
não possuía meios de acender um fogo. Quando Woola
terminou sua refeição, retomei minha cansativa e
aparentemente infinita caminhada em busca da suposta
hidrovia.
Ao alvorecer do décimo quinto dia de minha jornada, fiquei
radiante ao avistar as altas árvores que anunciavam o objeto
de minha busca. Por volta do meio-dia me arrastei
dolorosamente aos portais de uma grande construção que
talvez cobrisse seis quilômetros quadrados e tinha uma altura
de sessenta metros. Não apresentava nenhuma abertura em
suas poderosas paredes, exceto uma pequena porta perto da
qual me esparramei, exausto. Não havia sinal de vida alguma
à vista.
Não pude encontrar uma campainha ou outro meio de fazer
que minha presença fosse percebida pelos habitantes daque-
le lugar, a não ser que uma pequena abertura na parede
próxima à porta servisse a esse propósito. Era quase tão
pequena quanto um lápis comum. Deduzi que aquilo devia
ser algum tipo de bocal e levei minha boca até ele. Quando
estava pronto para falar em seu interior, uma voz veio dali
perguntando quem eu era, de onde e qual a natureza de
minha jornada.
Expliquei que havia escapado dos warhoons e que estava
morrendo de fome e exaustão.
- Você veste o metal de um guerreiro, está sendo seguido
por um calot e ainda assim tem a aparência de um homem
vermelho. Sua cor não é nem verde nem vermelha. Em
nome do nono dia, que tipo de criatura é você?
- Sou um amigo dos homens vermelhos de Barsoom e estou
faminto. Em nome da humanidade, por favor, abra -
respondi.
Na mesma hora a porta começou a se afastar diante de mim
e foi se afundando para dentro da parede por cerca de
quinze metros para então deslizar suavemente para a
esquerda, expondo um corredor curto e estreito feito de
concreto. Do outro lado dele havia uma outra porta,
parecida em todos os aspectos com a primeira que eu havia
acabado de passar. Não havia ninguém à vista, mas
imediatamente após passarmos pela porta, ela deslizou man-
samente de volta ao seu lugar atrás de nós e se afastou
rapidamente até sua posição original, na parede frontal da
construção. Conforme a porta deslizou para o lado, notei sua
grande espessura, que chegava facilmente a cinco metros. E
quando ela voltou ao seu lugar após se fechar atrás de nós,
grandes cilindros de aço haviam se soltado do teto atrás dela
e se encaixado em suas extremidades inferiores, em largas
aberturas no piso.
- Seus testemunhos são bastante extraordinários - disse a voz
após terminar seu interrogatório. - Mas você evidentemente
fala a verdade, assim como é evidente que não é de
Barsoom. Posso ver isso observando a formação de seu
cérebro, a estranha localização de seus órgãos internos e a
forma e o tamanho de seu coração.
- Consegue ver através de mim? - exclamei.
- Sim, consigo ver tudo exceto seus pensamentos. Se você
fosse um barsoomiano, eu poderia lê-los.
Então, a porta se abriu do outro lado da câmara e um ho-
mem estranho e ressecado como uma múmia veio em
minha direção. Ele vestia somente um único artigo de
vestuário ou enfeite, um pequeno colar de ouro do qual
pendia sobre seu peito um grande ornamento, do tamanho
de um prato de jantar incrustado com grandes diamantes em
toda a volta, reservando o centro exato para uma pedra
estranha, de dois centímetros e meio de diâmetro, que
cintilava nove raios diferentes. Eram as sete cores de nosso
prisma terreno e dois outros lindos raios que, para mim,
eram novos e ainda sem nome. Não consigo descrevê-los
muito além de como se descreve o vermelho a um cego.
Somente sei que são belos ao extremo.
O velho sentou-se e falou comigo por horas. A parte mais
esquisita de nosso encontro foi que eu era capaz de ler todos
os seus pensamentos, enquanto ele não podia vislumbrar
sequer uma fração dos meus, exceto se eu falasse.
Eu não podia informá-lo de minha habilidade de sentir suas
operações mentais, e, portanto, aprendi muito com ele - o
que seria de grande valia para mim posteriormente. Eram
coisas que eu nunca saberia se ele suspeitasse de meu poder
alienígena, porque os marcianos têm perfeito controle do
funcionamento de suas mentes, sendo capazes de direcionar
seus pensamentos com absoluta precisão.
A construção na qual eu me encontrava continha o
maquinário que produz a atmosfera artificial que sustenta
Marte. 0 segredo de todo o processo é focado no uso do
nono raio, uma das grandes cintilações que notei emanando
da grande pedra no diadema de meu anfitrião.
Esse raio é separado dos outros raios do sol ao passar por
instrumentos cuidadosamente ajustados e colocados no
telhado da grande construção. Três quartos dela são
reservatórios nos quais o nono raio é armazenado. Esse
produto é tratado eletricamente, ou seja, certas porções das
refinadas vibrações elétricas são incorporadas a ele, e em
seguida o produto é bombeado para os cinco principais
centros de ar do planeta onde, quando liberado, entra em
contato com o éter espacial e se transforma em atmosfera.
Há sempre uma reserva suficiente do nono raio estocada na
grande construção para manter a atual atmosfera marciana
por mil anos. O único temor, como meu velho amigo
contou, era o de que algum acidente se abatesse sobre os
aparelhos de bombeamento.
Ele me levou até uma câmara interna onde pude ver a ba-
teria de vinte bombas de rádio, cada qual destinada à tarefa
de prover Marte inteiro com o composto atmosférico. Por
oitocentos anos, disse o velho, ele havia vigiado essas
bombas, que eram usadas em alternância a cada período -
equivalente a pouco mais de vinte e quatro horas e meia da
contagem terrestre. Ele tinha um assistente com quem
dividia os turnos. Cada um desses homens passava meio ano
marciano, algo perto de trezentos e quarenta e quatro de
nossos dias, sozinho nessa edificação isolada.
Todo marciano vermelho é ensinado, já nos primeiros anos
da infância, a fabricar atmosfera, mas somente dois por vez
detêm o segredo de ingressar no grande edifício que,
construído com suas muralhas de quarenta e cinco metros
de espessura, é absolutamente inexpugnável. Seu teto é
protegido de ataques aéreos por uma cobertura de vidro de
um metro de meio de espessura.
O único temor que guardam é pelo ataque de marcianos
verdes ou de algum homem vermelho ensandecido, porque
todos os barsoomianos sabem que a própria existência de
vida em Marte depende do funcionamento ininterrupto
desta fábrica.
Um fato curioso que descobri enquanto observava seus
pensamentos é que as portas externas são manipuladas por
meio telepático. As trancas são tão perfeitamente ajustadas
que as portas são movidas pela ação de uma certa
combinação de ondas mentais. Para experimentar meu novo
brinquedo, pensei em surpreendê-lo revelando sua
combinação, e assim perguntei como ele havia feito para
abrir portas tão imensas de dentro das câmaras internas da
fortaleza. Rápido como um raio, ele fez saltar de sua mente
nove sons marcianos, mas estes desapareceram rapidamente
quando me respondeu que se tratava de um segredo que não
podia divulgar.
Dali em diante, mudou seu tratamento para comigo como se
temesse ter sido surpreendido divulgando seu grande
segredo. Li desconfiança e medo em seu olhar e
pensamento, apesar de suas palavras continuarem
simpáticas.
Antes de me recolher para dormir, prometeu que me daria
uma carta para um produtor de uma plantação próxima que
me ajudaria a chegar a Zodanga que, segundo disse, era a
cidade marciana mais próxima.
- Mas certifique-se de não deixá-los saber que está indo para
Helium, porque estão em guerra com aquele país. Meu
assistente e eu não somos de país algum, pertencemos a toda
a Barsoom e esse talismã que usamos nos protege em todas
as terras, mesmo entre os homens verdes. Mas, mesmo
assim, não confiamos muito neles e os evitamos - ele
adicionou.
- Portanto, boa noite, meu amigo - ele continuou. - Desejo-
lhe uma noite longa e revigorante de sono. Sim, um longo
sono.
E mesmo sorrindo prazerosamente, vi em seus pensamentos
que ele desejava que nunca tivesse me deixado entrar. Em
seguida, vi uma imagem dele parado sobre mim durante a
noite, e um golpe rápido de uma longa adaga e as palavras
obtusas se formaram: "Desculpe, mas isto é pelo bem de
Barsoom".
Quando fechou a porta de minha câmara atrás de si, seus
pensamentos foram desligados de mim, assim como sua
presença, o que me pareceu estranho por meu parco
conhecimento sobre transferência mental.
O que eu devia fazer? Como poderia escapar por aquelas
poderosas paredes? Eu poderia matá-lo facilmente agora que
estava ciente, mas, uma vez morto, eu não poderia escapar
e, com as máquinas paradas na grande fábrica, eu morreria
junto com todos os outros habitantes do planeta. Todos, até
mesmo Dejah Thoris, se ainda não estivesse morta. Para os
outros, eu não dava a mínima, mas a lembrança de Dejah
Thoris levou para longe de minhas idéias o desejo de matar
meu anfitrião desprevenido.
Cautelosamente, abri a porta do meu apartamento e saí,
seguido por Woola. Um plano ousado me ocorreu de
repente: tentaria forçar as grandes travas com as nove ondas
mentais que havia lido na mente de meu hospedeiro.
Rastejando furtivamente corredor após corredor, e agora por
corredores serpenteantes que guinavam para lá e para cá,
finalmente alcancei o grande hall no qual havia quebrado
meu longo jejum naquela manhã. Não tive sinal de meu
anfitrião nem sabia para onde ele se retirava durante a noite.
Eu estava a ponto de entrar bravamente na sala quando um
leve barulho atrás de mim me fez continuar nas sombras de
uma reentrância no corredor. Arrastando Woola comigo,
fiquei agachado na escuridão.
Na mesma hora, o velho homem passou perto de mim
enquanto entrava na mesma sala fracamente iluminada que
eu estava prestes a atravessar. Vi que ele levava uma longa e
fina adaga em sua mão e que estava afiando sua ponta em
uma pedra. Em sua mente havia a decisão de inspecionar as
bombas de rádio, o que lhe tomaria cerca de trinta minutos
e, em seguida, retornaria à minha câmara e daria cabo de
mim.
Quando ele passou pelo grande hall e desapareceu corredor
abaixo na direção da sala de bombas, deixei sorrateiramente
meu esconderijo e cruzei a grande porta, a mais interna das
três que me separavam da liberdade.
Concentrando minha mente na fechadura maciça, disparei
as nove ondas de pensamento contra ela. Em expectativa
sufocante, esperei até quando a grande porta se moveu
suavemente em minha direção e deslizou em silêncio para
um dos lados. Um após o outro, os grandes portais se
abriram ao meu comando, e Woola e eu saímos para a
escuridão, livres, mas não em melhores condições do que
estávamos antes - exceto por agora estarmos de estômago
cheio.
Apressando-me para longe das sombras dos formidáveis
blocos, cheguei até a primeira encruzilhada, pretendendo
atingir a primeira estrada o mais rápido possível. Cheguei a
ela perto do amanhecer. Adentrando a primeira área
delimitada que encontrei, procurei por evidências de alguma
habitação.
Havia ali prédios de concreto de formato irregular lacrados
por portas intransponíveis e pesadas, às quais nenhuma
quantidade de batidas ou chamados logrou resposta. Cansado
e esgotado pela falta de sono, joguei-me sobre o chão
ordenando que Woola ficasse de guarda.
Algum tempo depois fui acordado por um amedrontador
rosnado e abri meus olhos para ver três marcianos
vermelhos parados a uma curta distância, seus rifles mirados
contra nós.
- Estou desarmado e não sou inimigo - apressei-me em
explicar. - Fui prisioneiro dos homens verdes e estou a
caminho de Zodanga. Tudo o que peço é comida e descanso
para mim e meu calot, e as indicações corretas para atingir
meu destino.
Eles baixaram seus rifles e avançaram com satisfação até
mim, pousando suas mãos direitas sobre meu ombro
esquerdo - sua maneira habitual de saudação - enquanto
faziam muitas perguntas sobre mim e minhas jornadas
errantes. Em seguida, me levaram até a casa de um deles,
que ficava próxima.
As construções às quais visitei boa parte da manhã eram
ocupadas apenas pelo gado e produtos da fazenda. A
aconchegante casa ficava em um bosque de árvores enormes
e, como todos os lares dos marcianos vermelhos, durante a
noite erguia-se do chão entre doze e quinze metros sobre
um pilar de metal que corria para cima e para baixo dentro
de uma luva enterrada no solo, operada por um pequeno
motor de rádio na entrada do hall da construção. Em vez de
se incomodarem com barras e parafusos para suas ha-
bitações, os marcianos vermelhos simplesmente as elevavam
para longe dos perigos da noite. Eles também tinham meios
próprios de descer ou se elevar do chão se quisessem sair
dos domicílios.
Esses irmãos, com suas esposas e filhos, ocupavam três casas
similares na fazenda. Eles próprios não trabalhavam, por
serem oficiais a serviço do governo. O esforço físico era
realizado por condenados, prisioneiros de guerra,
delinqüentes sociais e solteiros inveterados pobres demais
para pagar a alta taxa celibatária que todos os governos de
marcianos vermelhos impunham.
Os irmãos eram a personificação da cordialidade e
hospitalidade. Passei vários dias ali, repousando e me
recuperando de minhas longas e árduas experiências.
Quando já haviam ouvido minha história - da qual omiti
qualquer referência a Dejah Thoris e ao velho da fábrica de
atmosfera - me aconselharam a pintar o corpo com uma cor
que lembrasse mais os de sua raça para então tentar um
emprego em Zodanga, fosse no exército ou na armada.
- As chances de acreditarem em seu relato antes que você
prove ser confiável e faça amigos entre a alta nobreza da
corte são remotas. E isso você pode conseguir facilmente
por meio do serviço militar, porque somos um povo bélico
de Barsoom - explicou um deles - e guardamos nossos
maiores favores para os grandes lutadores.
Quando eu estava pronto para partir, me forneceram um
pequeno macho thoat domesticado, que é usado como
montaria por todos os marcianos vermelhos. O animal tem o
tamanho aproximado de um cavalo, é muito gentil, mas é
uma réplica exata em cores e forma de seus primos enormes
e ferozes na natureza.
Os irmãos haviam me dado também um óleo avermelhado
com o qual untei meu corpo todo. Um deles cortou meus
cabelos, que haviam crescido muito no decorrer do tempo.
Quadrado atrás e com uma franja na frente, para que assim
eu transitasse por toda a Barsoom como um legítimo
marciano vermelho. Meus metais e ornamentos também
tiveram seu estilo renovado para o de um cavalheiro
zodangano membro da casa de Ptor, que era o nome de
família de meus benfeitores.
Eles encheram minha bolsa lateral com dinheiro zodangano.
O sistema monetário em Marte é parecido com o nosso,
exceto pelo fato de as moedas serem ovais. Cédulas de
dinheiro são emitidas pelos próprios indivíduos conforme
suas necessidades e compensadas uma vez ao ano. Se um
homem emite mais do que pode saldar, o governo paga seus
credores completamente e o endividado quita seu débito nas
fazendas ou nas minas, que são todas de propriedade do
governo. É um bom modelo, exceto para os endividados,
por ser difícil encontrar trabalhadores voluntários
suficientes para as grandes fazendas isoladas de Marte, que se
estendem em estreitas faixas de pólo a pólo, passando por
vastidões povoadas por animais selvagens e homens mais
selvagens ainda.
Quando mencionei a impossibilidade de minha recíproca à
sua gentileza, me asseguraram de que eu teria amplas
oportunidades para isso - se eu vivesse bastante tempo em
Barsoom. Acenaram seu adeus até que eu sumisse de vista
sobre a estrada larga e branca.

Capítulo 21
UM PATRULHEIRO AÉREO DE ZODANGA

Em minha jornada rumo a Zodanga muitas visões estranhas
e interessantes chamaram minha atenção, e nas diversas
casas de fazenda onde fiz parada, aprendi diversas coisas
novas e instrutivas relativas aos métodos e costumes de
Barsoom.
A água que irriga as fazendas de Marte é coletada em
imensos reservatórios subterrâneos que recolhem o gelo
derretido das calotas nos dois pólos e o bombeiam por
longas tubulações aos vários centros povoados. Margeando
essas tubulações, por toda a sua extensão, estão as regiões
cultivadas, as quais são divididas em lotes de metragens
similares, cada qual sob supervisão de um ou mais oficiais a
serviço.
Em vez de inundar a superfície dos campos - perdendo
quantidades imensas através da evaporação -, o precioso
líquido é levado pelo subsolo por uma vasta rede de
encanamentos menores diretamente às raízes da vegetação.
As plantações sobre Marte são sempre uniformes por não
haver secas, chuvas, ventanias, insetos nem aves daninhas.
Nessa viagem provei o primeiro pedaço de carne desde que
havia deixado a Terra, em forma de filés suculentos e cortes
dos animais domésticos bem tratados da fazenda. Também
provei as lascivas frutas e vegetais, mas nenhum
componente dessa culinária era exatamente igual a qualquer
coisa da Terra. Toda planta, flor, vegetal e animal vem sendo
refinados por eras de cuidadoso cultivo e criação científicos
que, se comparados, reduzem os da Terra a pálidas, nubladas
e comuns tentativas.
Na segunda parada encontrei algumas pessoas altamente
cultas e de classe nobre e, enquanto conversávamos, o
assunto se voltou para Helium. Um dos homens mais velhos
havia estado lá em diversas missões diplomáticas alguns anos
atrás e falou com arrependimento das condições que
pareciam manter a eterna guerra desses dois países.
- Helium - ele disse - certamente ostenta as mulheres mais
belas de Barsoom, e de todos os seus tesouros, a maravilhosa
filha de Mors Kajak, Dejah Thoris, é sua flor mais perfeita.
- Ora - ele adicionou o povo realmente venera o chão em
que ela pisa e, desde sua perda em uma expedição
desafortunada, toda a Helium se reveste em lamentação.
- O fato de nosso regente ter atacado e desmantelado a frota
enquanto esta retornava a Helium foi nada mais que outra
gafe terrível que, temo, mais cedo ou mais tarde compelirá
Zodanga a elevar um homem mais sábio a seu lugar.
- Mesmo agora, embora nossos exércitos estejam cercando
Helium, o povo de Zodanga está manifestando seu
descontentamento, porque a guerra não tem apoio, uma vez
que não é baseada em direitos ou justiça. Nossas forças
tomam vantagem da ausência da principal frota de Helium,
que busca a princesa, e assim poderão facilmente reduzir a
cidade a um lastimável fim. Dizem que ela cairá nas
próximas passagens da lua mais próxima.
- E o que acha que deve ter acontecido à princesa Dejah
Thoris? - perguntei tão casualmente quanto possível.
- Ela está morta - respondeu. - Isso foi revelado por um
guerreiro verde recentemente capturado por nossas forças
ao sul. Ela escapou das hordas de Thark com uma estranha
criatura de outro mundo, apenas para cair nas mãos dos
warhoons. Seus thoats foram encontrados vagando sobre o
fundo do mar e evidências de um combate sangrento foram
descobertas nos arredores.
Ao mesmo tempo em que essa informação não era anima-
dora, também não era prova conclusiva da morte de Dejah
Thoris. Assim, decidi fazer todo esforço possível para chegar
a Helium o mais rápido possível e levar a Tardos Mors todas
as informações que eu possuía sobre a possível situação de
sua neta.
Dez dias depois de deixar os três irmãos Ptor, cheguei a
Zodanga. A partir do momento em que entrei em contato
com os habitantes vermelhos de Marte, notei que Woola
chamava uma atenção indesejada sobre mim, uma vez que o
bruto pertencia a uma espécie que nunca fora domesticada
pelos homens vermelhos. Se alguém passeasse pela
Broadway com um leão númida ao seu lado, o efeito seria
parecido ao que eu causaria se entrasse em Zodanga com
Woola.
A idéia de me separar de meu fiel companheiro causava
remorso tão grande e tristeza tão genuína que protelei o fato
até momentos antes de chegarmos aos portões da cidade.
Mas ali, finalmente, tornou-se imperativo que nos
separássemos. Não fossem minha segurança e objetivos
estarem em jogo, nenhum motivo seria suficiente para me
fazer deixar a única criatura de Barsoom que nunca havia
falhado em suas demonstrações de afeição e lealdade. Mas
enquanto estava disposto a oferecer minha vida a serviço
daquela que eu procurava, e pela qual estava prestes a
desafiar os perigos ocultos desta ainda misteriosa cidade, eu
não poderia permitir sequer que a vida de Woola ameaçasse
o sucesso de minha tentativa, muito menos sua felicidade
momentânea, porque duvidada que ele me esquecesse logo.
E assim acenei meu afetuoso adeus à pobre fera, prometendo
a ele, contudo, que se eu sobrevivesse à minha aventura,
encontraria os meios de procurar por ele.
Ele pareceu entender tudo, e quando apontei para a direção
de Thark, ele voltou-se angustiadamente e sequer pude
suportar observar sua partida. Resolutamente voltei meu
rosto na direção de Zodanga e, com o coração apertado,
avancei para as muralhas carrancudas.
A carta que eu trazia me garantiu entrada imediata na vasta e
fortificada cidade. Era muito cedo ainda e as ruas estavam
praticamente desertas. As residências se elevavam altas
sobre suas colunas de metal, lembrando grandes casas de
pássaros, enquanto os próprios pilares tinham a aparência de
troncos de árvores feitos de metal. As lojas, por regra, não
eram elevadas do chão e não tinham suas portas trancadas
ou obstruídas, porque o furto era uma atividade
praticamente desconhecida em Barsoom. Assassinato é um
medo constante para todos os barsoomianos, e por essa
razão seus lares são colocados longe do chão à noite ou em
tempos de perigo.
Os irmãos Ptor haviam me dado instruções específicas para
chegar ao ponto da cidade onde encontraria acomodações
próximas aos escritórios dos agentes do governo aos quais eu
tinha cartas endereçadas. Meu caminho me levou ao
quarteirão central da praça, uma característica de todas as
cidades marcianas.
A Praça de Zodanga cobre um quilômetro quadrado e meio
e é delimitada pelos palácios do jeddak, dos jeds e de outros
membros da realeza e nobreza de Zodanga, assim como os
principais prédios públicos, cafés e lojas.
Ao atravessar o grande quarteirão, admirado e surpreso pelas
magníficas arquiteturas e a belíssima vegetação vermelha
que acarpetava os largos gramados, descobri um marciano
vermelho caminhando ligeiro em minha direção, vindo de
uma das avenidas. Ele não prestou a menor atenção em
mim, mas chegou perto o bastante para que eu o
reconhecesse. Virei-me e coloquei minha mão em seu
ombro chamando:
- Kaor, Kantos Kan!
Ele se virou como um relâmpago e, antes que eu pudesse
baixar minha mão, a ponta de sua espada já estava em meu
peito:
- Quem é você? - ele rosnou enquanto eu dava um passo
para trás que me levaria a cinco metros de sua espada. Ele
baixou a arma para o chão e exclamou, rindo:
- Não preciso de resposta melhor, pois há somente um ho-
mem em toda a Barsoom que pode quicar como uma bola de
borracha. Pela mãe da lua próxima, John Carter, como
chegou aqui e, diga, você virou um Darseen para conseguir
mudar de cor quando quiser?
- Por um minuto você me deu um susto, meu amigo - ele
continuou após eu fazer um breve resumo de minhas
aventuras desde que nos separamos na arena de Warhoon. -
Se meu nome e cidade forem revelados aos zodanganos, eu
logo estarei nos bancos do mar perdido de Korus com meus
respeitados e falecidos ancestrais. Estou aqui pelos interesses
de Tardos Mors, jeddak de Helium, para descobrir o
paradeiro de nossa princesa. Sab Than, príncipe de Zodanga,
a mantém escondida na cidade e apaixonou-se perdidamente
por ela. Seu pai, Than Kosis, jeddak de Zodanga, arranjou
um casamento voluntário para seu filho pelo preço da paz
entre nossos países, mas Tardos Mors não cederá às
exigências e enviou a mensagem de que seu povo preferiria
olhar o rosto morto de sua princesa a casá-la contra sua
vontade, e que ele pessoalmente prefere ser envolvido pelas
cinzas de uma Helium derrotada e incendiada do que unir o
metal de sua casa com o de Than Kosis. Sua resposta foi a
mais imperdoável afronta que poderia dar a Than Kosis e aos
zodanganos, mas seu povo o ama por isso e seu poder em
Helium é maior hoje do que nunca.
- Estou aqui há três dias - continuou Kantos Kan -, mas ain-
da não consegui encontrar o lugar onde Dejah Thoris está
aprisionada. Hoje me juntarei à armada como patrulheiro
aéreo. Espero assim conseguir a confiança do príncipe Sab
Than, que comanda essa divisão, e assim encontrá-la. Estou
feliz que esteja aqui, John Carter, porque sei de sua lealdade
à princesa e, se trabalharmos juntos, poderemos ser mais
bem-sucedidos.
A praça agora começava a ser preenchida por pessoas indo e
vindo em suas atividades diárias. As lojas estavam sendo
abertas e os cafés se enchiam com os primeiros clientes da
manhã. Kantos Kan me levou a um desses maravilhosos
restaurantes onde fomos servidos inteiramente por aparatos
mecânicos. Nenhuma mão havia tocado a comida desde que
havia entrado no prédio em seu estado natural até que
emergisse, quente e deliciosa, sobre as mesas diante dos
consumidores em resposta aos pequenos botões que
apertavam indicando seus pedidos.
Após nossa refeição, Kantos Kan levou-me ao quartel-
general do esquadrão de patrulha aérea e, introduzindo-me
ao seu superior, pediu que eu fosse alistado como membro
da unidade. De acordo com os costumes, um exame se fez
necessário, mas Kantos Kan me avisou para nada temer
sobre esse obstáculo porque cuidaria do assunto. Ele
conseguiu isso entregando meu pedido de exame para o
oficial de revista e se apresentando como John Carter.
- Esse ardil será descoberto depois - explicou animadamente
-quando forem checar minha altura, medidas e outras
informações de cunho pessoal, mas levará meses até que isso
aconteça, e até lá nossa missão estará completada, ou
teremos falhado muito tempo antes disso.
Os próximos dias se passaram com Kantos Kan me ensinan-
do os fundamentos de vôo e da reparação dos delicados
pequenos aparelhos que os marcianos usam para esse
propósito. O tamanho dessa nave de um lugar é de cerca de
cinco metros de comprimento, sessenta centímetros de
largura e dez centímetros de espessura, estreitando-se nas
duas pontas. O piloto senta-se sobre esse avião em um
assento construído logo acima de um pequeno e silencioso
motor de rádio que o propulsiona. O meio da força de
ascensão fica contido dentro de finas paredes de metal
presas à fuselagem e consiste de oito raios barsoomianos, ou
raios de propulsão, assim designados em face de suas
propriedades.
Esse raio, como o nono raio, é desconhecido na Terra, mas
os marcianos descobriram que se trata de uma propriedade
inerente a toda luz, não importando de que fonte emane.
Eles aprenderam que é o oitavo raio do sol que propele sua
luz aos vários planetas, e que é o oitavo raio de cada um dos
planetas que "reflete" ou propulsiona a luz obtida de volta
novamente ao espaço. O oitavo raio solar seria absorvido
pela superfície de Barsoom, mas o oitavo raio barsoomiano,
que tende a propagar a luz de Marte no espaço, está
constantemente vertendo para fora do planeta, constituindo
uma força repulsora de gravidade que, quando confinada, é
capaz de levantar enormes volumes de peso do solo.
Foi esse raio que permitiu o aperfeiçoamento da aviação,
fazendo com que navios de guerra, muito mais pesados que
qualquer coisa conhecida sobre a Terra, navegassem com
graça e leveza pelo ar rarefeito de Barsoom como balões de
gás na pesada atmosfera da Terra.
Durante os primeiros anos da descoberta desse raio, muitos
acidentes estranhos aconteceram, ocorridos antes que os
marcianos aprendessem a medir e controlar esse
maravilhoso poder que descobriram. Por exemplo, por volta
de novecentos anos atrás, a primeira belonave a ser
construída com reservatórios para o oitavo raio foi
abastecida com uma quantidade grande demais e navegou
verticalmente sobre Helium levando quinhentos oficiais e
homens para nunca mais retornar.
Seu poder de repulsão do planeta era tão grande que a
belonave foi levada para o espaço exterior, onde ainda pode
ser vista hoje, com a ajuda de poderosos telescópios,
velejando pelos céus a mais de quinze mil quilômetros de
distância de Marte. Um pequenino satélite que orbitará
Barsoom até o final dos tempos.
Fiz meu primeiro vôo no quarto dia após minha chegada a
Zodanga. Como resultado, recebi uma promoção que incluía
acomodações no palácio de Than Kosis.
Quando me elevei sobre a cidade, voei em círculos várias
vezes como havia visto Kantos Kan fazer. Depois,
arremessei meu aparelho à velocidade máxima, acelerando
cada vez mais em direção ao sul, seguindo uma das hidrovias
que chegam a Zodanga por esse lado da cidade.
Eu já havia percorrido, talvez, trezentos quilômetros em
pouco mais de uma hora quando enxerguei ao longe um
bando de três guerreiros verdes marcianos correndo
ensandecidamente na direção de uma pequena figura a pé
que parecia estar tentando alcançar os limites de um dos
campos murados.
Inclinando minha máquina rapidamente em sua direção e
fazendo um círculo pela retaguarda dos guerreiros, logo vi
que o objeto de sua perseguição era um marciano vermelho
vestindo o metal do esquadrão de patrulha ao qual eu estava
servindo. A uma pequena distância além, jazia seu pequeno
aparelho de vôo, cercado pelas ferramentas que
evidentemente estava usando para realizar o reparo de
algum dano quando foi surpreendido pelos guerreiros
verdes.
Nesse ponto, já estavam praticamente sobre ele; suas
montarias levantavam poeira em extrema velocidade de
ataque, buscando a figura relativamente pequena enquanto
os guerreiros se inclinavam, abaixando-se para o lado direito,
com suas grandes lanças revestidas de metal. Cada um
parecia estar competindo para ser o primeiro a empalar o
pobre zodangano e o próximo momento poderia ter sido seu
último, não fosse minha chegada providencial.
Guiando minha ligeira aeronave a toda velocidade por trás
dos guerreiros, logo os ultrapassei e, sem desacelerar, lancei
a proa de meu pequeno aeroplano entre os ombros do
guerreiro mais próximo. O impacto, suficiente para rasgar
vários centímetros de metal sólido, arremessou o corpo
decapitado do indivíduo sobre a cabeça de seu thoat, que
caiu estendido sobre o musgo.
As montarias dos outros dois guerreiros se viraram, berrando
de terror, e dispararam em direções opostas.
Reduzindo minha velocidade, circulei e pousei aos pés do
surpreso zodangano. Ele foi caloroso em seus
agradecimentos por minha ajuda oportuna e prometeu que o
trabalho realizado me traria a recompensa merecida, porque
a vida que eu havia salvado tratava-se de nenhuma outra
além do primo do jeddak de Zodanga.
Não perdemos mais tempo falando, pois sabíamos que os
guerreiros certamente retornariam assim que recuperassem
o controle de suas montarias. Precipitando-nos até sua
máquina avariada, concentramos todos os nossos esforços
para realizar os reparos necessários. Já havíamos quase
terminado quando vimos os dois monstros verdes
retornando a toda velocidade vindos de direções opostas às
nossas. Quando eles estavam a menos de cem metros de
distância, novamente seus thoats começaram a refugar e se
recusavam absolutamente a chegar mais perto da aeronave
que os havia assustado.
Os guerreiros finalmente desmontaram e, amarrando seus
animais, avançaram em nossas direções a pé, brandindo suas
espadas longas.
Avancei para encontrar o maior deles, dizendo ao zodan-
gano que desse o seu melhor contra o outro. Eliminando
meu homem com quase nenhum esforço - porque agora,
após muita prática, isso havia se tornado habitual para mim -,
corri de volta ao meu novo conhecido a quem encontrei
verdadeiramente em uma situação difícil.
Ele estava ferido e caído com o enorme pé de seu
antagonista sobre sua garganta e com a espada erguida para
desferir o golpe fatal. Com um salto, cobri os quinze metros
que nos separavam e com a ponta estendida de minha
espada atravessei completamente o corpo do guerreiro
verde. Sua espada caiu ao chão, inofensiva, e ele desabou
desajeitadamente sobre a forma prostrada do zodangano.
Um exame superficial em meu companheiro não revelou
ferimentos graves e, depois de um breve repouso, ele
afirmou estar se sentindo bem o bastante para tentar a
viagem de volta. Ele teria de pilotar sua própria nave, pois
esses frágeis veículos não foram projetados para levar mais
de uma pessoa.
Rapidamente, após terminarmos os reparos, subimos juntos
aos céus calmos e sem nuvens de Marte e, a grande
velocidade e sem novos incidentes, retornamos a Zodanga.
Ao nos aproximarmos da cidade, descobrimos uma grande
confluência de pessoas e tropas reunidas sobre o campo
diante da cidade. O céu estava negro de veículos navais,
naves particulares e públicas de lazer, ostentando longas
bandeiras de seda com cores alegres e flâmulas de formatos
estranhos e pitorescos.
Meu companheiro sinalizou para que eu reduzisse a marcha.
Aproximando sua máquina da minha, sugeriu que nos
aproximássemos para observar a cerimônia que, segundo ele,
tinha o propósito de conferir honras aos oficiais e homens
por bravura e outros serviços de relevância. Ele então
desenrolou uma bandeira de navegação que denotava que
sua nave levara um membro da família real de Zodanga, e
juntos abrimos caminho pela confusão de veículos planando
próximos ao solo até que paramos diretamente acima do
jeddak de Zodanga e seu estado-maior. Todos estavam
montados nos pequenos thoats machos domesticados pelos
marcianos vermelhos, e seus enfeites e ornamentos
continham uma quantidade de penas coloridas tão
maravilhosas que minha reação não podia ser outra além de
encantamento com a impressionante semelhança que a
multidão apresentava com uma tribo de índios vermelhos da
minha Terra.
Um dos componentes do estado-maior chamou a atenção de
Than Kosis para a presença de meu companheiro sobre eles
e o regente sinalizou para que pousasse. Enquanto
esperavam que tropas se colocassem em posição à frente do
jeddak, os dois se falavam animadamente, com o jeddak e
seus subordinados olhando ocasionalmente em minha
direção. Eu não podia ouvir sua conversa, que logo
terminou, e todos desmontaram enquanto o último batalhão
das tropas se punha em posição perante seu imperador. Um
membro do estado-maior se adiantou na direção das divisões
e, chamando o nome de um soldado, ordenou que
avançasse. O oficial então recitou a natureza heróica do ato
que havia ganhado a aprovação do jeddak e este se adiantou
e colocou um ornamento de metal sobre o braço esquerdo
daquele homem de sorte.
Dez homens foram condecorados dessa forma quando um
assistente gritou:
-John Carter, patrulheiro aéreo!
Nunca fiquei tão surpreso em toda a minha vida, mas o hábi-
to da disciplina militar é forte dentro de mim. Soltei minha
pequena máquina suavemente ao chão para avançar a pé
como havia visto os outros fazerem. Quando parei diante do
oficial, ele se dirigiu a mim com uma voz que podia ser
ouvida por todo o agrupamento das tropas e espectadores.
- Em reconhecimento, John Carter - disse ele -, por sua
notável coragem e habilidade em defender o primo do
jeddak Than Kosis e, sem ajuda, subjugar três guerreiros
verdes. É um prazer para nosso jeddak conferir a você a
marca de nossa gratidão.
Than Kosis então se dirigiu até mim e, colocando um
ornamento sobre meu corpo, disse:
- Meu primo narrou os detalhes de seu maravilhoso feito,
que me parece bem próximo ao que chamaria de milagroso
e, se pôde defender tão bem um primo do jeddak, quão bem
poderia defender a pessoa do próprio jeddak? De agora em
diante você é nomeado um padwar dentre a guarda e ficará
alojado em meu palácio.
Eu o agradeci e, seguindo sua indicação, me juntei ao seu
estado-maior. Após a cerimônia, devolvi minha máquina à
sua garagem na laje dos galpões do esquadrão de patrulha
aérea e, com um servente da corte para me guiar, fui ter
com o oficial encarregado do palácio.

Capítulo 22
MEU ENCONTRO COM DEJAH

O mordomo a quem me reportei havia recebido instruções
para me posicionar perto do jeddak porque, em tempos de
guerra, sempre há o risco de assassinato. A regra de que na
guerra tudo vale parece resumir todo o valor ético dos
conflitos marcianos.
Assim, ele me acompanhou ao apartamento ocupado por
Than Kosis naquele momento. O regente estava tendo uma
conversa com seu filho, Sab Than, e vários cortesãos de sua
casa, e não notou minha presença.
As paredes do apartamento eram completamente cobertas
por esplêndidas tapeçarias que escondiam quaisquer janelas
ou portas que pudessem estar por trás delas. O cômodo era
iluminado por raios de sol aprisionados entre o telhado
propriamente dito e o que aparentava ser um teto falso de
vidro opaco, alguns centímetros abaixo.
Meu guia afastou uma das tapeçarias para o lado, revelando
uma passagem que circundava o cômodo entre os itens
pendurados e as paredes da câmara. Eu deveria ficar dentro
dessa passagem, disse ele, enquanto Than Kosis estivesse no
apartamento. Quando ele saísse, eu deveria segui-lo. Minha
única tarefa era guardar o regente e me manter escondido o
máximo possível. Eu seria rendido após um período de
quatro horas. Após isso, o mordomo se foi.
As tapeçarias eram de uma trama estranha que lhes davam a
aparência de uma pesada solidez de um lado, mas de onde eu
me escondia, podia observar tudo o que acontecia no quarto
como se não houvesse nenhuma barreira se interpondo.
Mal eu havia tomado meu posto e a tapeçaria do lado oposto
da câmara se abriu, dando passagem a quatro soldados da
guarda que cercavam uma figura feminina. Ao se
aproximarem de Than Kosis, os soldados se separaram para
os lados e ali, parada diante do jeddak - e a menos de três
metros de mim -, estava a face sorridente e radiante de
Dejah Thoris.
Sab Than, príncipe de Zodanga, se adiantou para encontrá-la
e, de mãos dadas, vieram para perto do jeddak. Than Kosis
olhou para cima, surpreso e, levantando-se, a saudou.
- A que estranha anomalia devo esta visita da princesa de
Helium que, há dois dias, em uma rara consideração à minha
vaidade, me assegurou que preferiria Tal Hajus, o thark
verde, a meu filho?
Dejah Thoris apenas sorriu e, com suas covinhas ardilosas
ladeando os cantos de sua boca, lhe dirigiu sua resposta:
- Em Barsoom, desde o início dos tempos, tem sido uma
prerrogativa feminina mudar de idéia e fingir sobre os
assuntos do coração. Por isso deve me perdoar, Than Kosis,
como seu filho o fez. Dois dias atrás eu não tinha certeza de
seu amor por mim, mas agora tenho e venho implorar que
esqueça minhas duras palavras. Aceite a promessa da
princesa de Helium de que, quando for chegada a hora, ela
se casará com Sab Than, príncipe de Zodanga.
- Fico feliz que tenha decidido assim - replicou Than Kosis.
- Está longe de meus desejos guerrear contra o povo de
Helium. Sua promessa deve ser registrada e uma
proclamação ao meu povo deve ser anunciada
imediatamente.
- Seria melhor, Than Kosis - interrompeu Dejah Thoris -,
que a proclamação esperasse até o fim dessa guerra. Soaria
muito estranho para o meu povo e o seu se a princesa de
Helium se entregasse ao inimigo de seu país em meio às
hostilidades.
- E não se pode terminar a guerra agora? - disse Sab Than.
- É preciso somente a palavra de Than Kosis para que seja
feita a paz. Diga, meu pai, diga a palavra que me trará alegria
e um fim para esse conflito que descontenta o povo.
-Veremos como o povo de Helium lidará com a paz - repli-
cou Than Kosis. - Garanto que oferecerei isso a eles.
Dejah Thoris, após algumas poucas palavras, voltou-se e
deixou o apartamento, ainda seguida por seus guardas.
Então, como um castelo de areia, meu breve sonho de
felicidade desmoronou, arrebatado pela onda da realidade. A
mulher pela qual eu havia oferecido minha vida, e de cujos
lábios ouvira recentemente uma declaração de amor,
facilmente se esquecera de minha existência e, sorridente,
havia se entregado ao filho do inimigo mais odiado por seu
povo.
Embora eu mesmo tivesse ouvido tudo isso, era impossível
acreditar. Precisava encontrar seus aposentos e, a sós, forçá-
la a repetir a verdade cruel para que eu me convencesse.
Assim, desertei meu posto e corri pela passagem por trás das
tapeçarias em direção à porta pela qual ela havia deixado a
câmara. Deslizando silenciosamente por entre essa abertura,
descobri um labirinto de corredores tortuosos se bifurcando
e se espalhando em todas as direções.
Correndo rapidamente por um deles, e depois por outro,
logo me vi desesperadamente perdido. Ao ouvir vozes perto
de mim, parei ofegante contra uma parede lateral.
Aparentemente, elas estavam vindo do lado oposto da
divisória contra a qual eu me apoiava e, imediatamente,
reconheci a voz de Dejah Thoris. Eu não podia entender as
palavras, mas sabia que não estava enganado quanto à sua
voz.
Alguns passos adiante, encontrei outra passagem no final da
qual havia uma porta. Andando decididamente até ela,
adentrei o recinto e me vi em uma pequena antecâmara na
qual estavam os quatro guardas que a acompanhavam. Um
deles se levantou instantaneamente e me interpelou,
perguntando o propósito de minha presença.
- Venho em nome de Than Kosis - respondi e desejo falar
em particular com Dejah Thoris, princesa de Helium.
- Qual é a sua ordem? - perguntou o indivíduo.
Eu não sabia do que ele estava falando, mas respondi que era
membro da guarda e, sem esperar sua resposta, andei a
passos largos na direção da porta oposta da antecâmara, por
trás da qual podia ouvir Dejah Thoris conversando.
Mas minha entrada não seria realizada facilmente. O guarda
se colocou em meu caminho dizendo:
- Ninguém vem em nome de Than Kosis sem trazer uma
ordem ou uma senha. Você deve informar uma ou outra
antes que possa prosseguir.
- A única ordem que preciso para entrar onde desejo, amigo,
está ao meu lado - respondi apontando minha espada longa.
- Vai me deixar entrar em paz ou não?
Em resposta, ele sacou sua espada decididamente, chamando
seus companheiros para juntarem-se a ele. Os quatro se
posicionaram, com suas armas desembainhadas, barrando
minha passagem.
- Você não está aqui por ordem de Than Kosis - gritou o
primeiro que havia se dirigido a mim. - E não somente você
não entrará nos aposentos da princesa de Helium como
também será escoltado de volta a Than Kosis para explicar
sua ousadia injustificada. Largue sua arma, você não pode
vencer a nós quatro - ele adicionou com um sorriso
sombrio.
Minha resposta foi um golpe que me deixou com apenas três
antagonistas, e posso assegurar que eles estavam à altura de
meu metal. Eles me encurralaram contra a parede
rapidamente, fazendo-me lutar por minha vida. Lentamente,
consegui chegar a um canto da sala onde pude forçá-los a
me enfrentar individualmente e assim combatemos por
cerca de vinte minutos. O clangor do aço contra o aço
produziu uma verdadeira cacofonia na pequena sala.
O barulho trouxe Dejah Thoris à porta de seu apartamento e
ali ela ficou parada durante toda a luta, com Sola logo atrás
espiando sobre seu ombro. Sua face não demonstrava
emoção e eu sabia que ela não me reconhecia, tampouco
Sola.
Finalmente, um golpe de sorte derrubou o segundo guarda e
então, com apenas dois oponentes, mudei minha tática e os
coloquei sob a carga do estilo de luta que sempre me
reservou tantas vitórias. O terceiro caiu em menos de dez
segundos após o segundo, e o último estava morto sobre o
chão sangrento alguns momentos depois. Eram homens
valentes e lutadores nobres, e me angustiei por ter sido
forçado a matá-los, mas eu despovoaria alegremente toda a
Barsoom se não houvesse alternativa para estar ao lado de
minha Dejah Thoris.
Embainhando minha lâmina ensangüentada, avancei na
direção de minha princesa marciana, que continuava parada
e muda olhando para mim sem sinal de reconhecimento:
- Quem é você, zodangano? - ela murmurou. - Outro inimi-
go para me perturbar em minha miséria?
- Sou amigo - respondi. - Um amigo que antes era estimado.
- Nenhum amigo da princesa de Helium veste esse metal -
ela respondeu -, mas essa voz! Já a ouvi antes. Não é... não
pode ser... não, porque ele está morto.
- Mas é, minha princesa, nenhum outro além de John Carter
- eu disse. - Não reconhece, mesmo por trás desta tinta e do
metal estranho, o coração de seu líder?
Ao me aproximar dela, ela se inclinou em minha direção
com os braços estendidos, mas quando fui para alcançá-la e
tomá-la em meus braços, ela recuou com um calafrio e um
pequeno gemido de tristeza:
- Tarde demais, tarde demais - ela lamuriou. - Oh, meu an-
tigo líder que pensei estar morto, se tivesse retornado
apenas uma hora antes..., mas agora é tarde demais, tarde
demais.
- Do que está falando, Dejah Thoris? - gritei. - Que não teria
se comprometido com o príncipe zodangano se soubesse
que estou vivo?
- Acha mesmo, John Carter, que eu teria entregado meu
amor a você ontem e a outro hoje? Achei que meu coração
estava enterrado com suas cinzas nos fossos de Warhoon e,
por isso, hoje prometi o resto de meu corpo a outro para
salvar meu povo da maldição de um exército zodangano
vitorioso.
- Mas eu não estou morto, minha princesa. Vim para recla-
má-la e nem toda a Zodanga poderá me impedir.
- É tarde demais, John Carter, minha promessa foi feita e, em
Barsoom, não há volta. As cerimônias que se seguirão nada
mais são do que formalidades banais, tal como o cortejo
fúnebre não marca a morte do jeddak. Eu já estou casada,
John Carter. Você não pode mais me chamar de sua
princesa. Você não é mais meu líder.
- Conheço pouco dos seus costumes aqui em Barsoom, De-
jah Thoris, mas sei que amo você, e se você realmente
acredita nas últimas palavras que disse para mim naquele dia
em que as hordas de Warhoon estavam avançando sobre
nós, nenhum outro homem jamais poderá tomá-la como
noiva. Você as disse naquele dia, minha princesa, e ainda
acredita nelas! Diga que é verdade.
- Eu quis dizê-las, John Carter - ela murmurou. - Mas não
posso mais repeti-las agora porque me entreguei a outro. Oh,
se você apenas soubesse, meu amigo - ela continuou, meio
que falando sozinha -, minha promessa teria sido sua há
muitos meses, e você poderia ter me desposado antes de
todos os outros. Isso poderia significar a queda de Helium,
mas eu entregaria meu império ao meu líder tharkiano.
Então, ela disse em voz alta:
- Lembra-se da noite em que me ofendeu? Você me chamou
de sua princesa sem haver pedido minha mão, e então se
vangloriou de ter lutado por mim. Você não conhecia
nossos costumes e, agora vejo, eu não devia ter me
ofendido. Mas não havia ninguém para explicar o que eu não
poderia dizer. Em Barsoom, há dois tipos de mulheres nas
cidades dos homens vermelhos: aquelas pelas quais eles
lutam para depois pedir sua mão, e outras por quem também
lutam, mas nunca as pedem em casamento. Quando um
homem conquista uma mulher, ele pode se dirigir a ela
como sua princesa ou usar qualquer outra expressão que
signifique posse. Você havia lutado por mim, mas nunca me
pediu em casamento. Portanto, quando me chamou de sua
princesa, entenda - ela vacilou -, fiquei magoada. Mas
mesmo assim, John Carter, não repeli você como deveria ter
feito, até que você agravou a situação ao zombar de mim,
dizendo que havia me conquistado em combate.
- Não preciso mais pedir seu perdão agora, Dejah Thoris -
gritei. -Você deve saber que minha falha se deve à minha
ignorância de seus costumes barsoomianos. O que falhei em
fazer, apesar de minha crença implícita de que meu pedido
será presunçoso e inoportuno, farei agora, Dejah Thoris.
Peço que seja minha esposa e, por todo o sangue guerreiro
da Virgínia que corre em minhas veias, você será.
- Não, John Carter, é inútil - ela gritou desesperadamente. -
Jamais serei sua enquanto Sab Than viver.
- Você selou a sentença de morte de Sab Than, minha
princesa. Ele morrerá.
- Isso também não pode ser - apressou-se em explicar. - Não
devo me casar com o homem que assassinar meu marido,
mesmo em legítima defesa. É o costume. Somos regidos
pelos costumes de Barsoom. É inútil, meu amigo. Você deve
suportar a angústia comigo. Pelo menos isso teremos em
comum. Isso e a memória dos breves dias entre os tharks.
Você deve partir agora e nunca mais me procurar. Adeus,
meu antigo líder.
Abatido e triste, retirei-me da sala, mas não estava totalmen-
te desencorajado. E também não admitiria perder Dejah
Thoris até que a cerimônia realmente se realizasse.
Vagando pelos corredores, eu estava tão absolutamente
perdido na confusão de passagens tortuosas quanto estava
antes de descobrir os alojamentos de Dejah Thoris.
Eu sabia que minha única chance repousava em fugir da
cidade de Zodanga, porque a morte dos quatro guardas teria
de ser explicada e eu nunca conseguiria voltar ao meu posto
original sem um guia. As suspeitas certamente recairiam
sobre mim tão logo eu fosse descoberto vagando perdido
pelo palácio.
Nessa hora me deparei com uma rampa em espiral levando
aos andares inferiores e desci por ela por vários andares até
chegar ao portal de um grande apartamento onde havia
alguns guardas. As paredes desse aposento eram recobertas
por tapeçarias transparentes por trás das quais me escondi
sem ser percebido.
A conversa entre os guardas era trivial e não despertou meu
interesse até um oficial entrar na sala e ordenar que quatro
homens rendessem o corpo de guarda da princesa de
Helium. Agora, eu sabia, meus problemas começariam
seriamente e, em pouco tempo, estariam à minha caça.
Pareceu-me que bastou um breve momento para que um
dos guardas que acabara de sair da sala voltasse
repentinamente e, sem fôlego, berrasse que haviam en-
contrado seus quatro camaradas exterminados na
antecâmara.
Em um segundo todo o palácio ficou em polvorosa. Guardas,
oficiais, cortesãos, servos e escravos corriam em completa
confusão pelos corredores e apartamentos levando
mensagens e ordens, e procurando pistas do assassino.
Essa era a minha oportunidade e, por mais ínfima que
parecesse, me agarrei a ela. Quando um grupo de soldados
passou apressado pelo meu esconderijo, juntei-me à sua
retaguarda e os segui pelo labirinto do palácio até que
passassem pelo grande hall, onde vi a abençoada luz do dia
entrando através de uma série de janelas maiores.
Ali, abandonei meus guias e, pulando pela janela mais
próxima, procurei uma avenida para escapar. As janelas eram
voltadas para uma grande sacada que ficava acima de uma
das largas avenidas de Zodanga. O chão estava cerca de dez
metros abaixo e, a mesma distância do edifício, havia ainda
outra parede de seis metros de altura construída de vidro
polido de trinta centímetros de espessura. Seria impossível
para um marciano vermelho escapar por essa rota, mas para
mim, com meu poder e agilidade terráqueas, aquilo parecia
muito fácil. Meu único medo era ser visto antes que a
escuridão caísse, porque não poderia dar o salto em plena
luz do dia enquanto o pátio abaixo e a avenida mais adiante
estivessem apinhados de zodanganos.
Por esse motivo, procurei um lugar para me esconder e
finalmente encontrei um, por acidente, dentro de um
enorme ornamento dependurado no teto do hall e a quase
três metros do chão. Saltei com facilidade para dentro do
espaçoso vaso em formato redondo e mal havia me
acomodado dentro dele, ouvi algumas pessoas entrando no
recinto. O grupo parou sob meu esconderijo e eu podia
ouvir claramente cada uma de suas palavras.
- É obra dos heliumitas - disse um dos homens.
- Sim, oh, jeddak, mas como eles tiveram acesso ao palácio?
Eu poderia acreditar que, mesmo com o cuidado diligente de
seus guardas, um inimigo pudesse chegar às câmaras
internas, mas como uma força de seis ou oito combatentes
poderia fazer o mesmo sem ser detectada está além de
minha razão. Logo devemos saber, contudo, porque está
chegando o psicólogo real.
Agora, outro homem se juntava ao grupo e, depois de fazer
sua saudação formal ao regente, disse:
-Oh, poderoso jeddak, leio uma história estranha nas mentes
mortas de seus leais guardas. Eles foram ceifados não por um
grupo de combatentes, mas por apenas um oponente.
Ele fez uma pausa para que todo o peso de seu
pronunciamento impressionasse seus ouvintes, e essa
afirmação difícil de ser aceita foi evidenciada pela
exclamação impaciente de incredulidade que escapou dos
lábios de Than Kosis:
- Que tipo de história estranha me contará, Notan? - ele
gritou.
- É verdade, meu jeddak - retrucou o psicólogo. - Na ver-
dade, as impressões foram fortemente marcadas no cérebro
de cada um dos quatro guardas. Seu antagonista era um
homem muito alto, vestindo o metal de um de seus próprios
guardas, e sua habilidade de luta beirava o incrível porque
lutava francamente contra todos os quatro e os derrotou
usando sua habilidade, poder sobre-humano e resistência.
Embora ele vestisse o metal de Zodanga, meu jeddak, tal
homem nunca fora visto antes neste ou em qualquer outro
país em toda a Barsoom.
- A mente da princesa de Helium, a qual examinei e
investiguei, estava vazia para mim. Ela tem perfeito controle
e não pude ler absolutamente nada. Ela disse que
testemunhou uma parte do encontro e que, quando
vislumbrou a cena, havia apenas um homem que ela nunca
havia visto antes.
- Onde está aquele que me salvou? - disse uma outra voz,
que reconheci como sendo a do primo de Than Kosis, que
eu havia resgatado dos guerreiros verdes. - Pelo metal de
meu primeiro ancestral - continuou -, sua descrição coincide
exatamente com ele, especialmente sobre sua habilidade de
luta.
- Onde está esse homem? - gritou Than Kosis. - Tragam-no
até mim imediatamente. O que sabe dele, primo? Parece
estranho, agora que penso nisso, que houvesse um lutador
como ele em Zodanga e que não soubéssemos seu nome até
hoje. E esse nome, John Carter; quem jamais ouviu um
nome desses em toda a Barsoom?
Logo chegou a notícia de que eu não pude ser encontrado
no palácio ou em meus antigos alojamentos nos galpões do
esquadrão de patrulha aérea. Kantos Kan foi encontrado e
interrogado, mas não sabia nada sobre meu paradeiro ou
sobre meu passado. Ele disse que sabia pouco de mim, já que
havíamos nos conhecido recentemente, quando fomos
aprisionados pelos warhoons.
- Fique de olho neste aqui - comandou Than Kosis. - Ele
também é um estranho e provavelmente ambos são servos
de Helium. Onde estiver um, logo encontraremos o outro.
Quadrupliquem a patrulha aérea e que todo homem que
deixar a cidade por ar ou por terra seja colocado sob intenso
escrutínio.
Outro mensageiro entrou na sala com a notícia de que eu
ainda estava dentro do palácio:
- A aparência de todas as pessoas que entraram ou saíram das
dependências do palácio hoje foi cuidadosamente examinada
- informou o indivíduo e nenhuma se aproxima da descrição
desse novo padwar dos guardas além da registrada quando
ele foi apresentado pela primeira vez.
- Então ele será capturado em breve - comentou Than Kosis
com satisfação. - E, enquanto isso, iremos aos aposentos da
princesa de Helium e a interrogaremos sobre o fato. Ela
deve saber mais do que se importou a confessar a você,
Notan. Venham.
Eles deixaram o hall e, quando a escuridão caiu, me esgueirei
suavemente de meu esconderijo e me apressei para a sacada.
Poucos estavam à vista e, escolhendo o momento no qual
ninguém parecia estar atento, saltei rapidamente para o topo
da parede de vidro e dali para a avenida que levava para
longe das dependências do palácio.

Capítulo 23
PERDIDO NO CÉU

Sem dificuldades para me esconder, apressei-me para as
cercanias de nossos alojamentos, onde eu tinha certeza de
que encontraria Kantos Kan. Ao me aproximar da
construção, tornei-me mais cuidadoso porque julguei -
acertadamente - que o lugar estaria sendo vigiado. Diversos
homens em metais civis vadiavam perto da entrada central e
o mesmo acontecia nos fundos. Meu único meio de alcançar
o último andar onde ficavam nossos alojamentos era através
do edifício adjacente e, depois de uma manobra
considerável, consegui chegar ao telhado de uma loja várias
portas adiante.
Saltando de telhado em telhado, logo alcancei uma janela
aberta no edifício onde esperava encontrar o heliumita. No
momento seguinte eu estava parado à sua frente, dentro do
cômodo. Ele estava sozinho e não demonstrou surpresa com
minha chegada, dizendo que estava me esperando, pois meu
turno já devia ter acabado há algum tempo.
Percebi que ele não sabia dos eventos do dia no palácio e,
quando o coloquei a par, ficou completamente excitado. A
notícia de que Dejah Thoris havia prometido sua mão a Sab
Than o preencheu de pavor.
- Não pode ser - exclamou. - É impossível! Ora, qualquer
homem em toda a Helium preferiria morrer a entregar nossa
amada princesa à dinastia de Zodanga. Ela deve ter
enlouquecido para ter concordado com uma barganha tão
atroz. Você, que agora sabe o quanto nós de Helium
amamos nossa dinastia, não pode imaginar com que horror
contemplo essa aliança maldita.
- O que pode ser feito, John Carter? - ele continuou. - Você
é um homem de recursos. Não consegue pensar em um
meio de salvar Helium da desgraça?
- Se eu puder chegar a uma distância de Sab Than que minha
espada alcance - respondi -, posso resolver a dificuldade que
preocupa Helium. Mas, por razões pessoais, preferiria que
outro desferisse o golpe que libertará Dejah Thoris.
Kantos Kan me observou atentamente antes de falar:
- Você a ama! - ele disse. - Ela sabe disso?
- Ela sabe, Kantos Kan, e me repele simplesmente por causa
de sua promessa a Sab Than.
A esplêndida figura levantou-se num salto e, me puxando
pelo ombro, ergueu sua espada para o alto, exclamando:
- Se a decisão dependesse de mim, não teria escolhido um
companheiro mais adequado para a primeira princesa de
Barsoom. Eis aqui minha mão em seu ombro, John Carter, e
minha palavra de que Sab Than sucumbirá pela ponta de
minha espada, pelo amor que guardo por Helium, por Dejah
Thoris e por você. Nesta mesma noite tentarei chegar até
seus aposentos no palácio.
- Como? - perguntei. - Ele está fortemente guardado e uma
força quádrupla patrulha os céus.
Ele pendeu sua cabeça, pensativo por um momento, e então
a levantou em sinal de confiança:
- Preciso apenas passar pelos guardas para fazê-lo - disse
finalmente. - Conheço uma entrada secreta para o palácio
através do pináculo da torre mais alta. Descobri essa
passagem por acaso, quando estava em turno de patrulha
voando sobre o palácio. Nesse trabalho é preciso que
investiguemos qualquer ocorrência fora do comum, e um
rosto espiando do pináculo mais alto era, para mim, fora do
comum. Assim, me aproximei e descobri que o dono
daquele rosto era ninguém menos que Sab Than. Ele ficou
irritado por ter sido visto e ordenou que eu guardasse o fato
somente para mim, explicando que aquela passagem da torre
levava diretamente aos seus aposentos, e que somente ele
sabia de sua existência. Se eu conseguir chegar ao telhado do
quartel e pegar meu aeroplano, estarei no quarto de Sab
Than em cinco minutos. Mas como posso escapar deste
prédio se está tão vigiado como você diz?
- Quão bem guardados são os hangares das máquinas? -
perguntei.
- Normalmente há apenas um homem em serviço durante a
noite.
-Vá para o telhado deste prédio, Kantos Kan, e me espere lá.
Sem parar para explicar meus planos, refiz meu caminho
para a rua e me apressei para os galpões. Não ousei entrar no
prédio, cheio como estava de membros do esquadrão de
patrulha aérea que, assim como toda a Zodanga, procuravam
por mim.
O prédio era enorme, na retaguarda de um soberbo pico que
se elevava trinta metros para o céu. Poucas construções em
Zodanga eram mais altas que esses hangares, apesar de outras
serem algumas dezenas de metros mais altas. Os
atracadouros das grandes belonaves enfileiradas ficavam a
quarenta e cinco metros do chão, ao passo que as estações
de cargas e passageiros das esquadras mercantes se erguiam
quase tão alto.
Era uma longa escalada pela face lateral do prédio, e repleta
de perigos. Mas não havia outro meio, e assim ensaiei a
tarefa. O fato de a arquitetura barsoomiana ser
extremamente ornamentada fez a missão ser muito mais
simples do que o esperado, com suas reentrâncias e
projeções enfeitadas formando uma escada perfeita por todo
o caminho até o beiral do telhado do prédio. Ali, encontrei
meu primeiro obstáculo real. A beira se projetava quase seis
metros para além da parede na qual eu me segurava, e embo-
ra eu tivesse circulado o grande edifício, não encontrei
nenhuma abertura através dela.
A cobertura estava acesa e forrada de soldados entretidos em
seus passatempos. Portanto, eu não podia chegar ao telhado
pelo edifício.
Havia uma pequena e desesperada chance, a qual decidi
arriscar; e qualquer homem que já viveu arriscaria mil
mortes por alguém como Dejah Thoris.
Agarrando-me à parede com os pés e uma mão, soltei uma
das longas tiras de couro de meus paramentos. Em sua
extremidade pendia um grande gancho usado pelos
marinheiros para se pendurar nas laterais e no casco de suas
naves quando reparos eram necessários e com os quais os
grupos de aterrissagem descem das naves até o chão.
Girei o gancho cuidadosamente e lancei-o até o telhado por
várias vezes até que ele encontrasse um encaixe.
Gentilmente o puxei para que ficasse mais bem fixado, mas
eu não podia saber se agüentaria o peso de meu corpo. O
gancho poderia estar preso em falso e escorregar, lançando-
me para o pavimento trinta metros abaixo.
Hesitei por um instante e depois, soltando-me do orna-
mento na parede, lancei-me no espaço segurando a ponta da
tira. Muito abaixo de mim repousavam as ruas lindamente
iluminadas, os duros pavimentos e a morte. Houve um
pequeno solavanco no topo onde o gancho se prendia e um
traiçoeiro escorregão, com um rangido áspero que me
congelou em apreensão. Então, o gancho se firmou e eu
estava a salvo.
Escalando rapidamente até o topo, agarrei-me no beiral e me
projetei para a superfície do telhado acima. Assim que fiquei
em pé, fui confrontado pelo sentinela em serviço, o qual
encontrei ao encarar o cano de seu revólver.
- Quem é você e de onde veio? - gritou.
- Sou um patrulheiro aéreo, amigo, e por muito pouco não
estou morto também. Escapei por pura obra do acaso de cair
na avenida lá embaixo - respondi.
- Mas como você chegou até o telhado, homem? Ninguém
aterrissou ou decolou do prédio na última hora. Vamos,
explique- -se ou chamarei a guarda.
-Venha olhar aqui, sentinela, e verá como cheguei e o quão
pouco faltou para que eu não chegasse - respondi virando-
me para a beira do telhado onde, seis metros abaixo, na
ponta de minha tira, estavam amarradas todas as minhas
armas.
O camarada, agindo pelo impulso da curiosidade, deu um
passo para o meu lado e outro para sua desgraça. Quando ele
se inclinou para espiar por sobre o beiral, agarrei-o pela
garganta e pelo braço da pistola, arremessando-o
pesadamente sobre o telhado.
A arma soltou-se de sua mão e meus dedos abafaram sua
tentativa de gritar por ajuda. Eu o amordacei e amarrei para
depois pendurá-lo na mesma beirada do telhado onde eu
estava pendurado momentos antes. Eu sabia que o
descobririam somente pela manhã, e todo tempo que eu
pudesse ganhar seria precioso.
Vestindo meus paramentos e armas, apressei-me para os
galpões e logo havia trazido para fora minha máquina e a de
Kantos Kan. Amarrando a dele atrás da minha, liguei meu
motor e planei sobre a borda do telhado para mergulhar
sobre as ruas da cidade bem abaixo da altitude habitual da
patrulha do ar. Em menos de um minuto pousava em
segurança sobre o telhado de nosso apartamento diante de
um Kantos Kan estupefato.
Não perdi tempo com explicações e me pus rapidamente a
discutir nossos planos para o futuro imediato. Ficou decidido
que eu tentaria chegar a Helium enquanto Kantos Kan
entraria no palácio para dar cabo de Sab Than. Se fosse bem-
sucedido, ele deveria seguir meus passos. Ele ajustou a
minha bússola, um engenhoso e pequeno apetrecho que
indica permanentemente um determinado ponto fixo em
toda a superfície de Barsoom. Despedimo-nos e alçamos vôo
juntos, acelerando na direção do palácio que ficava na rota
que eu deveria tomar para chegar a Helium.
Ao nos aproximarmos da alta torre, a patrulha atirou em nós
de cima para baixo, jogando a luz de seu ferino holofote em
cheio sobre minha aeronave. Uma voz rugiu um comando
de parada, seguido por um tiro pelo fato de eu ignorar o
aviso. Kantos Kan mergulhou rapidamente para a escuridão
enquanto eu subia constantemente a uma incrível
velocidade rasgando os céus marcianos, perseguido por uma
dúzia de naves de patrulha aérea unida em minha
perseguição. Logo em seguida, um cruzador ligeiro levando
cem homens e lima bateria de armas de fogo rápido se
juntou a eles. Ziguezagueando minha pequena máquina, ora
para cima, ora para baixo, consegui despistar seus holofotes
na maior parte do tempo, mas também estava perdendo
terreno com essa tática, e assim decidi arriscar tudo em um
curso direto, deixando o resultado nas mãos do destino e da
velocidade de minha máquina.
Kantos Kan havia me ensinado um truque com a
transmissão de marchas, conhecido apenas pela armada de
Helium, que aumentava em muito a velocidade de nossas
naves. Assim, me senti seguro em poder me distanciar de
meus perseguidores se conseguisse desviar dos projéteis por
mais alguns momentos.
Ao acelerar através do ar, o zumbido das balas ao meu redor
me convenceu de que somente um milagre me faria escapar,
mas a sorte já estava lançada. Coloquei a nave a toda
velocidade e risquei uma linha reta em minha rota na
direção a Helium. Gradualmente, deixei meus perseguidores
mais e mais para trás, e já estava comemorando sozinho
minha fuga quando um tiro certeiro do cruzador explodiu na
proa de minha pequena nave. O impacto quase a fez
emborcar, mas com um atordoante mergulho ela começou a
cair pela escuridão da noite.
O quanto eu caí antes de retomar o controle do aeroplano
não saberia dizer, mas devia estar bem próximo ao chão
quando comecei a subir novamente, porque pude ouvir
claramente os ruídos dos animais logo abaixo. Novamente
em rota ascendente, vasculhei os céus em busca de meus
perseguidores e finalmente divisei suas luzes muito atrás de
mim. Vi que estavam pousando, evidentemente à minha
procura.
Não arrisquei acender a pequena lâmpada de minha bússola
antes que suas luzes não pudessem mais ser vistas. Para
minha consternação, um fragmento do projétil havia
danificado completamente meu único guia, assim como meu
velocímetro. Era verdade que eu podia seguir as estrelas na
direção de Helium, mas sem saber a exata localização da
cidade ou a velocidade com que estava viajando, minhas
chances de achá-la eram ínfimas.
Helium fica a mil e seiscentos quilômetros a sudoeste de
Zodanga, e com a bússola intacta eu teria chances de
completar a jornada, exceto por algum acidente, dentro de
quatro ou cinco horas. Da forma como as coisas
aconteceram, a manhã me encontrou voando sobre a
vastidão de um fundo de mar morto depois de seis horas de
vôo contínuo a grande velocidade. Nesse momento, uma
grande cidade apareceu sob mim, mas não era Helium, por-
que somente ela - de todas as metrópoles barsoomianas -
possui duas imensas cidades circulares e muradas, separadas
por cento e vinte quilômetros, o que seria fácil para mim
distinguir da altura na qual voava.
Acreditando que eu havia ido longe demais para o norte e
para o oeste, dei meia-volta na direção sudeste, passando no
decorrer da manhã por várias grandes cidades, mas
nenhuma que lembrasse a descrição que Kantos Kan havia
feito de Helium. Além da formação de cidade-gêmea,
Helium tem outra característica marcante, que são suas duas
imensas torres: uma, de um vermelho vivido, ergue-se quase
um quilômetro e meio para os céus, bem do centro de uma
das cidades; a outra, de um amarelo brilhante e da mesma
altura, simboliza sua irmã.

Capítulo 24
TARS TARKAS ENCONTRA UM ALIADO

Por volta do meio-dia, passei voando baixo sobre uma gran-
de cidade em ruínas da antiga Marte. Enquanto eu deslizava
sobre a planície à minha frente, dei de encontro com alguns
milhares de guerreiros verdes engajados em uma tremenda
batalha. Mal eu os havia avistado e uma rajada de tiros veio
em minha direção. Com sua quase infalível acuidade de
mira, minha pequena nave foi instantaneamente
transformada em ruínas, caindo erraticamente para o chão.
Caí praticamente no centro do combate selvagem, entre
guerreiros que não haviam visto minha aproximação - tão
ocupados estavam em sua luta de vida ou morte. Os homens
lutavam a pé, com espadas longas, enquanto, na periferia do
conflito, o disparo ocasional de um atirador de elite
derrubava guerreiros que tentassem por algum instante se
separar da massa confusa.
Conforme minha máquina desapareceu entre eles, percebi
que era lutar ou morrer, com grandes chances de morrer de
qualquer maneira. E assim atingi o chão desembainhando
minha espada longa pronto para me defender da melhor
maneira.
Caí perto de um grande monstro que estava em combate
com três antagonistas. Quando olhei de soslaio sua face
brutal, iluminada pela luz da batalha, reconheci Tars Tarkas.
Ele não me viu, pois eu estava um pouco atrás dele. Nesse
momento os três guerreiros inimigos - que reconheci como
warhoons - atacaram simultaneamente. O poderoso ser agiu
rápido contra um deles, mas ao dar um passo para trás
preparando outro golpe, caiu sobre um dos mortos e ficou à
mercê de seus opositores por um instante. Rápidos como
raios, eles se abateram sobre o thark, e os pedaços de Tars
Tarkas teriam de ser recolhidos posteriormente se eu não
tivesse saltado à frente de sua forma prostrada para combater
seus adversários. Eu já havia dado cabo de um deles quando
o poderoso thark recobrou seu equilíbrio e rapidamente
exterminou o outro.
Ele me lançou um olhar e um leve sorriso se formou em
seus lábios macabros. Tocando meu ombro, disse:
- Eu mal poderia reconhecê-lo, John Carter, mas nenhum
outro mortal sobre Barsoom faria o que você fez por mim.
Acho que aprendi que existe a tal coisa chamada amizade,
meu amigo.
Ele não disse mais nada - ou sequer teria a oportunidade para
isso -, porque os warhoons estavam se aproximando de nós.
Juntos, lutamos ombro a ombro durante toda aquela longa e
quente tarde até que a maré da batalha mudasse e que os
remanescentes da feroz horda warhoon recuassem
montando seus thoats e fugissem na escuridão que se
formava.
Dez mil homens haviam se envolvido nessa batalha titânica,
e sobre o campo da batalha havia três mil mortos. Nenhum
lado pediu, ofereceu, ou mesmo tentou, fazer prisioneiros.
Em nosso retorno ã cidade após a batalha, seguimos
diretamente para os alojamentos de Tars Tarkas, onde fui
deixado a sós enquanto o líder atendia à costumeira reunião
do conselho que se segue imediatamente após um conflito.
Enquanto esperava sentado o retorno do guerreiro verde,
ouvi algo se movendo no apartamento ao lado e, quando fui
ver o que era, uma grande e odiosa criatura disparou em
minha direção, jogando-me contra uma pilha de sedas e
peles sobre a qual eu estava deitado momentos antes. Era
Woola... fiel e querido Woola. Ele havia encontrado o
caminho de volta a Thark, como Tars Tarkas me contaria
depois, e ido imediatamente aos meus antigos aposentos,
onde iniciou uma patética e aparentemente infrutífera vigília
esperando meu retorno.
- Tal Hajus sabe que está aqui, John Carter - disse Tars Tarkas
quando retornou das dependências do jeddak. - Sarkoja o
viu e o reconheceu quando voltávamos. Tal Hajus ordenou
que eu o levasse até ele esta noite. Eu tenho dez thoats, John
Carter. Você pode ter uma chance com eles, e eu o
acompanharei até a hidrovia mais próxima que leva a
Helium. Tars Tarkas pode ser um guerreiro verde cruel, mas
também pode ser amigo. Venha, não percamos tempo.
- E quando você retornar, Tars Tarkas? - perguntei.
- Os calots selvagens, talvez. Ou pior - ele respondeu. -
Exceto se eu tiver a oportunidade que espero há tanto tempo
de enfrentar Tal Hajus em combate.
- Nós ficaremos, Tars Tarkas, e veremos Tal Hajus esta noite.
Você não precisa se sacrificar e talvez seja esta a noite que
guarda a chance que tanto espera.
Ele discordou energicamente, dizendo que Tal Hajus ainda
era assolado por uma fúria selvagem apenas por lembrar do
murro que eu havia lhe acertado, e que se tivesse a chance
de colocar as mãos em mim, eu seria sujeitado às mais
terríveis torturas.
Enquanto comíamos, repeti a Tars Tarkas a história que Sola
havia me contado naquela noite no fundo do mar, durante a
marcha para Thark.
Ele falou pouco, mas os músculos de sua face se revolveram
em paixão e agonia pela lembrança dos horrores que haviam
se abatido sobre a única coisa que ele jamais amou em sua
fria, cruel e terrível existência.
Assim, não mais avesso à minha sugestão de irmos ter com
Tal Hajus, me disse apenas que antes gostaria de falar com
Sarkoja. Atendendo seu pedido, acompanhei-o até os
aposentos dela e o olhar de ódio perverso que ela lançou
sobre mim foi a recompensa mais gratificante para qualquer
desventura futura que esse retorno acidental a Thark poderia
me trazer.
- Sarkoja - disse Tars Tarkas -, quarenta anos atrás você ser-
viu de instrumento para a tortura e morte de uma mulher
chamada Kozava. Acabei de descobrir que o guerreiro que
amava aquela mulher agora sabe de seu papel na trama.
Talvez ele não mate você, Sarkoja, pois este não é nosso
costume, mas não há nada que o impeça de amarrar a ponta
de uma correia em seu pescoço e a outra em um thoat
selvagem, simplesmente para testar sua capacidade de
sobrevivência e assim ajudar a perpetuar nossa raça. Ao
ouvir isso, ele jurou que realizaria tal feito pela manhã, e
achei correto avisá-la, porque sou um homem justo. O rio
Iss fica a uma pequena peregrinação de distância, Sarkoja.
Venha, John Carter.
Na manhã seguinte, Sarkoja havia partido e nunca mais foi
vista.
Em silêncio, caminhamos rapidamente ao palácio do jeddak,
onde fomos levados imediatamente à sua presença. Na
verdade, ele mal podia esperar para me ver e estava em pé
sobre sua plataforma olhando fixamente para a porta de
entrada quando chegamos.
- Amarre-o naquele pilar - ele guinchou. - Vamos ver quem
ousou agredir o poderoso Tal Hajus. Aqueçam os ferros.
Com minhas próprias mãos queimarei seus olhos ainda em
sua cabeça para que seu olhar não enoje minha pessoa.
- Líderes de Thark - eu bradei, voltando-me para a assem-
bléia do conselho e ignorando Tal Hajus. - Sou um líder
como vocês e hoje lutei lado a lado com seu maior
guerreiro. Vocês me devem, ao menos, uma audiência. Fiz
por merecer por meus atos de hoje. Você clamam ser apenas
pessoas...
- Silêncio - rugiu Tal Hajus. - Amordacem a criatura e
prendam-na como ordenei.
- Justiça, Tal Hajus - exclamou Lorquas Ptomel. - Quem é
você para colocar de lado os costumes ancestrais dos tharks?
- Sim, justiça! - ecoou outra dúzia de vozes e, assim, en-
quanto Tal Hajus fumegava e espumava, continuei:
- Vocês são um povo valente e amam a bravura, mas onde
estava seu poderoso jeddak durante a batalha de hoje? Eu
não o vi no calor do confronto, pois ele não estava lá. Ele
mutila mulheres indefesas e crianças em seu lar, mas qual foi
a última vez que o viram lutando com homens? Ora, até
mesmo eu, um anão perto dele, derrubei-o com um único
golpe de meu punho. Não é assim que os tharks escolhem
seus jeddaks? Aqui ao meu lado está um grande thark, um
poderoso guerreiro e um homem nobre. Líderes, como soa
"Tars Tarkas, jeddak de Thark"?
Um clamor de concordância ressoou saudando essa sugestão.
- Permanece a este conselho o comando, e Tal Hajus deve
provar sua capacidade de reinar. Se fosse um homem
valente, desafiaria Tars Tarkas ao combate, mas ele não o
fará, porque Tal Hajus tem medo. Tal Hajus, seu jeddak, é
um covarde. Eu poderia tê-lo matado com minhas próprias
mãos, e ele sabe disso.
Depois que terminei, houve um silêncio nervoso, enquanto
todos os olhos de voltavam sobre Tal Hajus. Ele não falou ou
se moveu, mas o verde malhado de seu semblante ficou
lívido e a espuma congelou em seus lábios.
- Tal Hajus - disse Lorquas Ptomel com uma voz fria e dura
nunca em toda a minha vida presenciei um jeddak dos
tharks ser tão humilhado. Só pode haver uma resposta para
essa acusação. Esperamos por ela.
Mesmo assim, Tal Hajus continuou estático, petrificado.
- Líderes - continuou Lorquas Ptomel -, deve o jeddak Tal
Hajus provar para Tars Tarkas sua capacidade de governar?
Havia vinte líderes sobre a tribuna, e vinte espadas brilha-
ram no alto em concordância.
Não havia alternativa. A decisão era definitiva e assim Tal
Hajus desembainhou sua espada longa e avançou para
encontrar Tars Tarkas.
O combate logo estava terminado e, com seu pé sobre o
pescoço do monstro morto, Tars Tarkas tornou-se o jeddak
dos tharks.
Seu primeiro ato foi fazer de mim um líder completo, com a
patente que eu havia conquistado por meus combates nas
primeiras semanas de cativeiro entre eles.
Vendo a disposição favorável dos guerreiros em relação a
Tars Tarkas, assim como em relação a mim, aproveitei a
oportunidade para engajá-los à minha causa contra Zodanga.
Contei a Tars Tarkas a história de minhas aventuras e, em
poucas palavras, expliquei a ele o que se passava em minha
mente.
- John Carter sugere que a resgatemos e a devolvamos a
Helium. O saque a Zodanga será magnífico, e
eventualmente tenho pensado que se tivéssemos uma
aliança com o povo de Helium, poderíamos obter segurança
e sustentabilidade suficientes para permitir um aumento do
volume e freqüência de nossas ninhadas e, assim, tornarmo-
nos inquestionavelmente soberanos entre os homens verdes
de toda a Barsoom. O que me dizem?
Era uma chance de lutar, uma oportunidade de saquear, e
eles morderam a isca como um rato corre para a ratoeira.
Para tharks, eles eram extremamente entusiasmados e, antes
que outra meia hora se passasse, vinte mensageiros
montados já estavam cavalgando pelos fundos dos mares
mortos para anunciar a reunião das hordas para a expedição.
Em três dias estávamos em marcha rumo a Zodanga. Éramos
cem mil bravos depois de Tars Tarkas ter recrutado os
serviços de três hordas menores com a promessa da grande
pilhagem a Zodanga.
Eu cavalgava na dianteira da coluna ao lado do grande thark
enquanto, aos pés de minha montaria, meu amado Woola
nos acompanhava.
Viajamos sempre à noite, calculando nossa marcha para que
acampássemos durante o dia nas cidades desertas nas quais,
inclusive as feras, ficávamos o tempo todo na parte interna
das construções. Durante a marcha, Tars Tarkas fez uso de
sua considerável habilidade como governante e recrutou
outros cinqüenta mil guerreiros de várias hordas. Assim, dez
dias após termos partido, paramos à meia-noite do lado de
fora da grande cidade fortificada de Zodanga. Cento e
cinqüenta mil bravos.
A força de combate e a eficiência dessas hordas de ferozes
monstros verdes eram equivalentes a dez vezes o mesmo
número de homens vermelhos. Tars Tarkas me disse que
nunca na história de Barsoom uma força de guerreiros
verdes como essa havia marchado para a guerra juntos. Era
uma tarefa colossal manter qualquer tipo de harmonia entre
eles, e é inacreditável para mim que ele tenha levado todos
até a cidade sem que um grande motim irrompesse entre
eles.
Mas ao nos aproximarmos de Zodanga, suas disputas pessoais
haviam sucumbido perante ao ódio maior que sentiam pelos
homens vermelhos e, em especial, aos zodanganos, que por
anos haviam empreendido uma campanha brutal pela
completa exterminação dos homens verdes, dirigindo
atenção especial à destruição de suas incubadoras.
Agora que Zodanga estava diante de nós, a tarefa de obter
um meio de entrar na cidade foi delegada a mim.
Aconselhando Tars Tarkas a manter suas forças divididas em
duas frentes fora do alcance das sentinelas da cidade - cada
uma alinhada a cada um dos grandes portões -, reuni vinte
guerreiros desmontados e me aproximei de um dos
pequenos portões que pontilhavam as muralhas em
pequenos intervalos. Esses portões não têm guardas fixos,
mas são cobertos por sentinelas que patrulham a avenida que
circunda a cidade beirando os muros assim como nossas
polícias metropolitanas patrulham suas jurisdições.
As muralhas de Zodanga têm vinte e dois metros de altura e
quinze de espessura. São construídas de enormes blocos de
carboneto de silício, e a missão de adentrar a cidade parecia,
aos guerreiros verdes que me acompanhavam, impossível.
Os indivíduos que haviam sido instruídos a me seguir eram
de uma das hordas menores e, portanto, não me conheciam.
Colocando três deles voltados para o muro, seus braços
enganchados uns nos outros, ordenei que dois outros
montassem em seus ombros e, a um sexto, ordenei que
escalasse os ombros dos dois acima. A cabeça do guerreiro
no ápice ficava a doze metros do chão.
Dessa forma, com dez guerreiros, construí uma série de três
degraus do solo até os ombros do guerreiro do topo.
Guardando uma pequena distância atrás deles, tomei impulso
correndo, subindo de uma fileira para a próxima e, com um
salto final dos ombros largos do último deles, me agarrei
firmemente ao topo da grande muralha e silenciosamente
me projetei para o vasto plano que a encimava. Eu arrastava
atrás de mim seis tiras de couro amarradas, emprestadas de
seis guerreiros. Essas tiras haviam sido previamente presas
umas às outras e, passando a ponta de uma para o guerreiro
mais próximo do topo, desci a outra ponta cuidadosamente
sobre o lado oposto do muro, na direção da avenida abaixo.
Não havia ninguém à vista, e assim desci até a ponta da
corda de couro e saltei os dez metros restantes até o
pavimento.
Kantos Kan havia me ensinado o segredo para abrir esses
portões. No momento seguinte, vinte grandes guerreiros
estavam dentro da cidade condenada de Zodanga.
Descobri, para minha alegria, que eu havia entrado na
periferia mais baixa do enorme terreno do palácio. A
construção se apresentava ao longe com uma luz de brilho
glorioso e, na mesma hora, enviei um destacamento de
guerreiros diretamente para o interior do palácio enquanto o
restante da valente horda atacava as barracas dos soldados.
Despachei um de meus homens para pedir a Tars Tarkas
uma unidade de cinqüenta tharks, anunciando minhas
intenções. Ordenei que dez guerreiros tomassem e abrissem
um dos portões maiores enquanto eu e os outros nove
remanescentes abriríamos o outro. Precisávamos fazer nosso
trabalho em silêncio e nenhum tiro deveria ser disparado,
nenhum avanço em grupo deveria ser feito até que eu
tivesse chegado ao palácio com meus cinqüenta tharks.
Nosso plano funcionou perfeitamente. As duas sentinelas
que encontramos foram encomendadas aos seus deuses
sobre os bancos do mar perdido de Korus, e os guardas de
ambos os portões os seguiram em silêncio.

Capítulo 25
O SAQUE A ZODANGA

Quando o grande portão onde eu estava se abriu, meus
cinqüenta tharks, liderados pelo próprio Tars Tarkas,
adentraram montados em seus poderosos thoats. Eu os guiei
para os muros do palácio, os quais não tive problemas em
transpor. Uma vez dentro, contudo, o portão me deu um
trabalho considerável, mas finalmente fui recompensado ao
vê-lo se mover em suas enormes dobradiças e logo minha
escolta cavalgava por sobre os jardins do jeddak de Zodanga.
Ao nos aproximarmos do palácio, era possível ver a câmara
de audiência brilhantemente iluminada de Than Kosis
através das grandes janelas do primeiro andar. O imenso hall
estava repleto de nobres e suas esposas, como se algo muito
importante estivesse acontecendo. Não havia guardas por ali,
devido, presumi, ao fato de as muralhas da cidade e do
palácio serem consideradas inexpugnáveis. Assim, cheguei
mais perto para espionar.
Em um canto da câmara, sobre tronos de ouro cravejados de
diamantes, sentavam Than Kosis e sua consorte, rodeados de
oficiais e dignitários do governo. Diante deles se dispunha
um longo corredor formado por soldados de ambos os lados.
Enquanto eu observava, a ponta de uma procissão avançou,
vinda do outro lado do hall, e adentrou o corredor em
direção aos pés dos tronos.
À frente marchavam quatro oficiais da guarda do jeddak
trazendo uma grande bandeja sobre a qual repousava, em
uma almofada de seda escarlate, uma grande corrente
dourada com um cadeado em cada extremidade. Logo atrás
desses oficiais, outros quatro traziam uma bandeja similar
que carregava os magníficos ornamentos dignos do príncipe
e da princesa da casa real de Zodanga.
Aos pés do trono esses dois grupos se separaram e pararam,
frente a frente, cada um de um lado do corredor. Depois
disso vieram mais dignitários e os oficiais do palácio e do
exército e, finalmente, duas figuras inteiramente cobertas
em seda escarlate - das quais nenhuma feição era
discernível. Esses dois pararam aos pés do trono, à frente de
Than Kosis. Quando o resto da procissão já havia entrado e
assumido seus lugares, Than Kosis se dirigiu ao casal perante
ele. Eu não podia ouvir as palavras, mas naquele momento
dois oficiais avançaram e removeram as vestes escarlates de
uma dessas figuras, e assim vi que Kantos Kan havia falhado
em sua missão, porque era Sab Than, príncipe de Zodanga,
quem apareceu diante de meus olhos.
Than Kosis tomou um conjunto de ornamentos de uma das
bandejas e colocou um dos colares de ouro ao redor do
pescoço de seu filho, fechando a trava do cadeado. Depois
de algumas palavras proferidas a Sab Than, ele se voltou para
a outra figura, da qual os oficiais removeram as sedas que a
envolviam. Assim me foi revelada Dejah Thoris, princesa de
Helium.
O objetivo da cerimônia estava claro para mim. Em alguns
instantes Dejah Thoris seria unida para sempre ao príncipe
de Zodanga. Era uma cerimônia impressionante e bela,
presumo, mas para mim parecia a visão mais aterrorizante
que jamais havia testemunhado. Enquanto os ornamentos
eram ajustados sobre sua linda figura e seu colar de ouro
permanecia aberto nas mãos Than Kosis, elevei minha
espada longa acima de minha cabeça e, com uma pesada
coronhada, estilhacei o vidro da grande janela, saltando no
meio de uma assembléia surpresa. Com um pulo, eu estava
nos degraus da plataforma próxima a Than Kosis, e enquanto
ele estava paralisado de surpresa, desci minha espada longa
sobre a corrente de ouro que teria unido Dejah Thoris a
outro.
No segundo seguinte tudo era confusão. Mil espadas me
ameaçavam de todas as direções e Sab Than saltou sobre
mim com uma adaga adornada que havia sacado de seus
ornamentos nupciais. Eu poderia tê-lo matado facilmente
como a uma mosca, mas o antigo costume de Barsoom
impediu meu movimento e, segurando seu punho enquanto
a adaga voava na direção de meu coração, lancei-a para o
outro lado da sala com minha espada.
- Zodanga caiu - gritei. - Vejam!
Todos os olhares se voltaram para a direção que apontei, e ali
estavam, forçando sua entrada pelas portas de acesso, Tars
Tarkas e seus cinqüenta guerreiros cavalgando seus thoats.
Um grito de alarme e assombro tomou a multidão, mas não
houve nenhuma palavra de medo. Em um segundo os
soldados e nobres de Zodanga estavam se abatendo sobre os
tharks invasores.
Empurrando Sab Than de cima da plataforma, puxei Dejah
Thoris para o meu lado. Atrás do trono havia uma estreita
passagem e Than Kosis a bloqueava, me encarando, com sua
espada longa em riste. Em um momento estávamos nos
enfrentando, mas não encontrei um antagonista à altura.
Enquanto circundávamos a larga plataforma, vi Sab Than
correndo em auxílio de seu pai, mas, ao levantar sua mão
para desferir o golpe, Dejah Thoris saltou à sua frente e
então minha espada encontrou o espaço para fazer de Sab
Than jeddak de Zodanga. Enquanto seu pai rolava morto
sobre o chão, o novo jeddak se livrou dos braços de Dejah
Thoris e novamente ficamos frente a frente. Rapidamente
um grupo de quatro oficiais se uniu a ele e, com minhas
costas voltadas para o trono dourado, lutei mais uma vez por
Dejah Thoris. Eu estava obrigado a me defender e não
atingir Sab Than, caso contrário, perderia minha última
chance de conquistar a mulher que amava. Minha lâmina
riscava o ar com a rapidez de um relâmpago, defendendo-
me dos golpes de meus oponentes. Desarmei dois e derrubei
um, quando vários outros vieram em auxílio de seu novo
regente, buscando vingança pela morte do anterior.
Enquanto avançavam, gritavam: "A mulher! A mulher!
Matem a mulher! Ela planejou tudo! Matem! Matem a
mulher!"
Chamando Dejah Thoris para ficar atrás de mim, abri
caminho na direção de uma pequena passagem por trás do
trono, mas os oficiais entenderam minhas intenções e três
deles saltaram às minhas costas, impedindo minhas chances
de chegar a uma posição na qual eu poderia defender Dejah
Thoris contra qualquer exército de espadachins.
Os tharks estavam completamente ocupados no centro da
sala, e comecei a entender que nada menos que um milagre
poderia salvar Dejah Thoris ou a mim, quando vi Tars Tarkas
surgindo do enxame de pigmeus que pululava sobre ele.
Com uma parábola de sua poderosa espada, ele ceifou uma
dúzia de corpos aos seus pés e assim abriu o caminho à sua
frente até chegar sobre a plataforma, ao meu lado,
distribuindo morte e destruição para todos os lados.
A bravura dos zodanganos era contagiante. Nenhum tentou
escapar, e quando a luta cessou foi porque apenas os tharks
haviam sobrevivido no grande hall além de Dejah Thoris e
eu.
Sab Than jazia morto ao lado de seu pai e os corpos da alta
nobreza e dos cavalheiros zodanganos cobriam o chão
daquele matadouro sangrento.
Meu primeiro pensamento após a batalha foi para Kantos
Kan. Deixando Dejah Thoris sob a responsabilidade de Tars
Tarkas, destaquei uma dúzia de guerreiros e corri para os
calabouços do palácio. Os carcereiros haviam desertado para
se juntar à luta na sala do trono, e vasculhamos a prisão
labiríntica sem oposição.
Chamei alto pelo nome de Kantos Kan em cada corredor,
cada compartimento, e finalmente fui recompensado ao
ouvir uma débil resposta. Guiados pelo som, logo o
encontramos indefeso em uma cela escura.
Ele estava exultante em me ver, e curioso em saber a razão
da luta cujos ecos distantes haviam chegado até sua prisão.
Ele me disse que a patrulha aérea o havia capturado antes
que chegasse à torre alta do palácio, e que, portanto, sequer
havia se aproximado de Sab Than.
Descobrimos que seria inútil tentar cortar as barras e
correntes que o mantinham aprisionado e, assim, seguindo
sua sugestão, subi novamente para procurar nos corpos do
andar acima pelas chaves dos cadeados de sua cela e
grilhões.
Felizmente, um dos primeiros que examinei era seu
carcereiro, e logo Kantos Kan se juntava a nós na sala do
trono.
Os sons de artilharia pesada, misturados a gritos e berros,
chegavam das ruas da cidade, e Tars Tarkas logo se apressou
em comandar seus soldados. Kantos Kan o acompanhou para
servir de guia enquanto os guerreiros verdes começavam
uma busca mais detalhada ao palácio, procurando por outros
zodanganos e por valores a saquear. Dejah Thoris e eu fomos
deixados a sós.
Ela havia desabado em um dos tronos dourados, e quando
me virei para ela, devolveu-me um sorriso exausto:
- Nunca houve um homem assim! - ela exclamou. - Sei que
Barsoom nunca viu um homem como você antes. Será que
todos os homens da Terra são como você? Mesmo solitário,
estrangeiro, caçado, ameaçado, perseguido, você fez em
alguns poucos meses o que nenhum homem fez por eras em
Barsoom: uniu as hordas selvagens dos fundos dos mares e as
trouxe para lutar como aliadas de um povo de marcianos
vermelhos.
- A resposta é simples, Dejah Thoris - repliquei sorrindo. -
Não fui eu quem fez isso, foi o amor. O amor por Dejah
Thoris, um poder que pode realizar milagres ainda maiores
do que este.
Um belo rubor se espalhou por sua face e ela respondeu:
- Agora você pode dizer isso, John Carter, e eu posso ouvi-
lo, porque estou livre.
- E devo dizer mais, embora seja tarde mais uma vez -
retruquei. - Fiz muitas coisas estranhas em minha vida,
coisas que homens mais sábios não teriam ousado, mas
nunca, nem em meus sonhos mais selvagens, imaginei
conquistar alguém como você, Dejah Thoris... porque nunca
sonhei que em todo universo existisse uma mulher como a
princesa de Helium. O fato de você ser uma princesa não
me perturba, mas você me faz duvidar de minha sanidade ao
lhe perguntar, minha princesa, se deseja ser minha.
- Aquele que sabe tão bem a resposta ao pedido que fez não
precisa ficar perturbado - ela respondeu levantando-se e
colocando suas doces mãos sobre meus ombros. Então,
tomei-a em meus braços e a beijei.
E assim, em meio ao grande conflito na cidade preenchida
por sirenes de guerra, com a morte e a destruição ceifando
sua terrível colheita à sua volta, Dejah Thoris, princesa de
Helium, uma verdadeira filha de Marte, o deus da guerra,
prometeu se casar com John Carter, cavalheiro da Virgínia.
Capítulo 26
DA CARNIFICINA À ALEGRIA

Algum tempo depois, Tars Tarkas e Kantos Kan retornaram
para anunciar que Zodanga estava completamente subju-
gada. Suas forças haviam sido totalmente destruídas ou
capturadas, não restando mais nenhuma resistência
posterior. Diversas belonaves escaparam, mas havia milhares
de navios de guerra e mercantes sob a guarda dos guerreiros
thark.
As hordas menores haviam começado a pilhagem e,
conseqüentemente, as disputas entre eles. Ficou decidido
que reuniríamos quantos guerreiros pudéssemos,
tripulássemos quantos navios fosse possível com prisioneiros
zodanganos e partíssemos sem demora para Helium.
Cinco horas depois, navegávamos a partir dos telhados das
docas com uma armada de duzentos e cinqüenta navios de
guerra, levando quase cem mil guerreiros e seguidos por
uma frota de cargueiros para nossos thoats.
Deixamos para trás uma cidade em retalhos, dominada por
cinqüenta mil guerreiros verdes, ferozes e brutais, das
hordas inferiores. Eles estavam pilhando, assassinando e
lutando entre si. Em centenas de lugares eles haviam feito
uso de suas tochas, e colunas de fumaça densa se erguiam
sobre a cidade como que para ocultar dos olhos do céu as
terríveis cenas abaixo.
No meio da tarde avistamos as torres vermelha e amarela de
Helium. E, pouco tempo depois, uma grande armada de
belonaves zodanganas se levantou dos campos em redor da
cidade, avançando de encontro.
As flâmulas de Helium haviam sido estendidas de proa a
popa em cada uma de nossas poderosas naves, mas os
zodanganos não precisavam ver esse sinal para saber que
éramos inimigos, pois nossos guerreiros marcianos haviam
aberto fogo sobre eles praticamente no momento em que
decolaram. Com sua fabulosa mira, varreram a frota inimiga
com rajada após rajada.
As cidades gêmeas de Helium, percebendo que éramos
amigos, enviaram centenas de embarcações em nosso
auxílio, e então teve início a primeira batalha aérea de
verdade que meus olhos já viram.
Os navios que carregavam nossos guerreiros verdes foram
mantidos circulando as frotas em combate de Helium e
Zodanga, uma vez que suas baterias eram inúteis nas mãos
dos tharks que, por não possuírem armada, não tinham
habilidade com o equipamento naval. Suas armas de mão,
contudo, eram bastante efetivas, e o resultado final da
batalha foi extremamente influenciado - se não determinado
- pela sua presença.
Primeiro, as duas forças circulavam à mesma altitude,
disparando sua artilharia de costado a costado uns nos
outros. Nesse momento, um grande buraco se abriu no
casco de uma das imensas naves de guerra do lado
zodangano. Com uma guinada, ela girou completamente,
despejando a sua tripulação, que caiu rodopiando em espirais
na direção do solo trezentos metros abaixo. Então, a uma
velocidade alucinante, a nave mergulhou atrás deles,
enterrando-se quase que completamente na greda do fundo
do mar antigo.
Um clamor selvagem de exultação se elevou do esquadrão
heliumita e, com ferocidade redobrada, se lançaram sobre a
frota zodangana. Por meio de uma bela manobra, dois dos
navios de Helium ganharam uma posição acima de seus
adversários e dali fizeram chover de suas baterias laterais
uma torrente perfeita de bombas.
Então, uma a uma, as belonaves de Helium tiveram êxito em
se posicionar sobre os zodanganos e, em pouco tempo,
várias de suas embarcações militares cercadas eram apenas
ruínas flutuando à deriva na direção da grande torre
escarlate de Helium. Muitas outras tentaram escapar, mas
logo foram rodeadas por milhares de pequenas aeronaves
individuais acima das quais pendia outra monstruosa nave de
Helium pronta para lançar grupos de abordagem sobre seu
convés.
Pouco mais de uma hora depois que o esquadrão zodangano
havia decolado do campo de cerco em nossa direção, a
batalha estava terminada. As embarcações remanescentes
dos vencidos se encaminhavam para as cidades de Helium
sob o comando de suas valorosas tripulações.
Havia um lado extremamente patético na rendição dessas
poderosas aeronaves, resultado de um costume atávico que
demandava que a capitulação do derrotado fosse sinalizada
pelo mergulho voluntário do comandante do navio vencido
em direção à terra. Um após outro, os bravos indivíduos,
segurando suas cores sobre suas cabeças, saltavam dos altos
mastros de suas portentosas naves em direção a uma morte
terrível.
Até que o comandante de toda a frota não saltasse para a
morte, indicando assim a rendição dos navios restantes, a
luta não cessaria e o sacrifício inútil de valentes homens
continuaria.
Nesse momento, sinalizamos para a nau capitania das forças
armadas de Helium se aproximar e, quando se colocaram a
uma distância suficiente, avisei que tínhamos a princesa
Dejah Thoris à bordo, e que gostaríamos de transferi-la para
sua embarcação e assim ser levada imediatamente para a
cidade.
Quando minha proclamação chegou até eles, um grande
brado se elevou dos conveses do navio líder. No momento
seguinte, as cores da princesa de Helium desabrocharam de
uma centena de pontos das construções superiores. Quando
outros navios do esquadrão entenderam o significado da
ação, se uniram ao clamor e desenrolaram as cores da
princesa em plena luz brilhante do sol.
A capitania desceu para perto, flutuou graciosamente até
tocar nosso flanco e uma dúzia de oficiais saltou para os
nossos deques. Quando seus olhares surpresos recaíram
sobre centenas de guerreiros verdes, que agora saíam dos
abrigos de combate, eles estancaram, mas ao verem Kantos
Kan, que se adiantou para encontrá-los, continuaram e o
cercaram para cumprimentá-lo.
Dejah Thoris e eu avançamos, eles não tinham olhos para
outra pessoa que não sua princesa. Ela os recebeu com graça,
chamando-os pelo nome, porque eram homens da mais alta
estima e a serviço de seu avô, os quais ela conhecia há muito
tempo.
- Pousem suas mãos sobre os ombros de John Carter - ela
disse a eles, voltando-se para mim -, o homem a quem
Helium deve sua princesa assim como sua vitória de hoje.
Trataram-me com muita cortesia e me dispensaram muitos
cumprimentos e gentilezas, embora o que parecia
impressioná-los mais fosse o fato de eu ter conseguido a
ajuda dos ferozes tharks em minha campanha pela liberação
de Dejah Thoris e de Helium.
-Vocês devem seus agradecimentos mais a outro homem do
que a mim - eu disse e aqui está ele. Conheçam um dos
maiores soldados e governantes de Barsoom, Tars Tarkas,
jeddak de Thark.
Com a mesma cortesia refinada que haviam dispensado a
mim, estenderam suas saudações ao grande thark que, para
minha surpresa, não ficou muito atrás comparando-se o
altruísmo e a escolha das palavras. Apesar de não serem uma
raça de muitas palavras, os tharks são extremamente formais
e seus modos lhes emprestam maneiras imensamente dignas
e nobres.
Dejah Thoris subiu a bordo da capitania e ficou irritada
quando eu disse que não a seguiria, porque, como expliquei,
a batalha estava apenas parcialmente vencida. Ainda
tínhamos que cuidar das forças terrestres zodanganas que
mantinham o cerco, e eu não poderia deixar Tars Tarkas
antes que isso fosse resolvido.
O comandante das forças navais de Helium prometeu
organizar seus exércitos para um ataque conjunto vindo do
interior da cidade e por terra. Após isso, as embarcações se
separaram e Dejah Thoris voava triunfante de volta à corte
de seu avô, Tardos Mors, jeddak de Helium.
Ao longe - onde permaneceram por toda a batalha -, estava
nossa frota de cargueiros, levando os thoats dos guerreiros
verdes. Sem pontes de desembarque, a tarefa de descarregar
essas feras em campo aberto não seria fácil, mas não havia
alternativa, e assim nos deslocamos para um ponto a cerca
de quinze quilômetros distante da cidade e começamos o
trabalho.
Era preciso baixar os animais até o chão com alças, e essa
missão ocupou todo o restante do dia, assim como metade
da noite. Fomos atacados duas vezes por destacamentos da
cavalaria zodangana, mas tivemos poucas baixas. De
qualquer forma, quando a escuridão caiu, eles recuaram.
Assim que o último thoat foi desembarcado, Tars Tarkas deu
comando de avanço e, em três divisões, esgueiramo-nos
sobre o acampamento zodangano para o norte, o sul e o
leste.
Cerca de uma milha antes do acampamento principal,
encontramos seus postos avançados e, como estava
combinado, esse era o sinal para o ataque. Com gritos
ferozes e selvagens, entremeados pelos berros desagradáveis
de thoats enervados para a batalha, nos abatemos sobre os
zodanganos.
Não os pegamos desprevenidos, mas sim entrincheirados,
prontos para nos enfrentar. Uma vez após a outra fomos
repelidos até que, perto do meio-dia, comecei a temer o
resultado do confronto.
Somados de pólo a pólo, os soldados zodanganos eram cerca
de um milhão, espalhados sobre suas faixas territoriais
próximas às hidrovias, ao passo que contra eles havia menos
de uma centena de milhar de guerreiros verdes. As forças a
serem enviadas por Helium ainda não haviam chegado, e
nenhuma notícia delas foi ouvida.
Exatamente ao meio-dia ouvimos uma pesada artilharia ao
longo da linha entre os zodanganos e as cidades, e sabíamos
que nossos tão necessários reforços haviam chegado.
Novamente Tars Tarkas ordenou o ataque, e outra vez os
poderosos thoats levaram seus terríveis cavaleiros contra as
linhas de defesa inimigas. Ao mesmo tempo, a linha de
frente de Helium surgiu sobre a barricada oposta dos
zodanganos que, no próximo momento, estavam sendo
esmagados contra duas forças inexoráveis. Eles lutaram com
nobreza, mas em vão.
A planície em frente à cidade tornou-se um verdadeiro
matadouro antes que o último zodangano se rendesse, mas
finalmente a carnificina cessou. Os prisioneiros foram
encaminhados de volta a Helium e entramos pelos grandes
portões como uma grande e triunfante procissão de heróis
conquistadores.
As largas avenidas estavam ladeadas por mulheres e crianças
e, entre elas, os poucos homens cujas tarefas necessitavam
que permanecessem dentro da cidade durante a batalha.
Fomos saudados com um coro infinito de aplausos e
banhados com ornamentos de ouro, platina, prata e pedras
preciosas. A cidade estava enlouquecida de alegria.
Meus brutais tharks causaram extremo entusiasmo e
excitação. Nunca uma tropa armada de guerreiros verdes
havia entrado pelos portões de Helium, e o fato de agora
entrarem como amigos e aliados enchia os homens
vermelhos de regozijo.
Que meus parcos serviços prestados à Dejah Thoris já eram
conhecidos pelos heliumitas, era evidente pelos altos brados
chamando meu nome e pelos punhados de ornamentos que
eram colocados sobre mim e meu grande thoat enquanto
passávamos pela avenida em direção ao palácio, porque
mesmo diante da aparência selvagem de Woola, o
populacho se prensava muito próximo a mim.
Ao nos aproximarmos daquela magnífica construção, fomos
recebidos por um grupo de oficiais que nos saudou
calorosamente e pediu que Tars Tarkas, junto com seus jeds,
os jeddaks e jeds de seus aliados bárbaros e eu,
desmontássemos e os acompanhássemos para receber de
Tardos Mors toda a sua gratidão por nossos serviços.
No alto da grade escadaria que se elevava aos portões
principais do palácio, a corte real nos esperava, e quando
começamos a galgar os degraus mais baixos, um deles
começou a descer ao nosso encontro.
Ele era um espécime masculino quase perfeito. Alto, reto
como uma flecha, soberbamente musculoso e com a postura
e atitude de um verdadeiro monarca. Não foi necessário que
ninguém me dissesse que aquele era Tardos Mors, jeddak de
Helium.
O primeiro membro de nosso grupo a quem se dirigiu foi
Tars Tarkas, e suas primeiras palavras selaram para sempre
uma nova amizade entre as duas raças:
- Que Tardos Mors - disse ele sinceramente - conheça o
maior guerreiro vivo de Barsoom é uma honra inestimável,
mas que ele ponha sua mão sobre o ombro de um amigo e
aliado é uma bênção ainda maior.
-Jeddak de Helium - respondeu Tars Tarkas -, foi preciso que
um homem de outro mundo ensinasse aos guerreiros verdes
de Barsoom o significado da palavra amizade. A ele devemos
o fato de que as hordas tharks agora podem ouvi-lo, apreciar
e dar em troca sentimentos tão bondosamente expressados.
Tardos Mors saudou cada um dos jeddaks e jeds verdes e a
cada um proferiu palavras de amizade e apreço.
Ao se aproximar de mim, pousou ambas as mãos sobre meus
ombros:
- Seja bem-vindo, meu filho - ele disse que mereceu, com
muita felicidade e sem nenhuma palavra em contrário, a
mais preciosa jóia de toda Helium, sim, de toda a Barsoom, e
por isso também merece minha estima.
Em seguida fomos apresentados a Mors Kajak, jed da Helium
inferior e pai de Dejah Thoris. Ele havia acompanhado
Tardos Mors e parecia ainda mais afetado pelo encontro do
que seu pai.
Ele tentou diversas vezes expressar sua gratidão a mim, mas,
com a voz embargada pela emoção, não conseguia falar,
embora sua reputação como lutador bravo e destemido fosse
destacada mesmo no ambiente habitualmente militar de
Barsoom. Assim como toda a Helium, ele venerava sua filha
e não podia deixar de se emocionar profundamente ao
imaginar de quais agruras ela havia escapado.
Capítulo 27
DA ALEGRIA À MORTE

Por dez dias as hordas de Thark e seus aliados selvagens se
fartaram e se entretiveram e, então, carregados de caros
presentes e escoltados por dez mil soldados de Helium
comandados por Mors Kajak, iniciaram sua jornada de
retorno a suas terras. O jed da Helium inferior,
acompanhado por uma pequena comitiva de nobres, os
acompanhou por todo o caminho até Thark para selar com
mais propriedade os laços de paz e amizade.
Sola também acompanhou Tars Tarkas, seu pai, que a
reconheceu como filha perante todos os líderes.
Três semanas depois, Mors Kajak e seus oficiais,
acompanhados por Tars Tarkas e Sola, retornaram em uma
belonave que havia sido despachada à Thark para trazê-los a
tempo da cerimônia que fez de Dejah Thoris ejohn Carter
um só.
Por nove anos eu servi nos conselhos e lutei nos exércitos
de Helium como príncipe da casa de Tardos Mors. O povo
parecia nunca se cansar de me cobrir de honrarias, e
nenhum dia se passou sem que uma nova prova de amor
fosse entregue à minha princesa, a incomparável Dejah
Thoris.
Em uma incubadora de ouro sobre o telhado de nosso palá-
cio repousa um ovo branco como a neve. Por quase cinco
anos dez soldados da guarda do jeddak cuidaram de sua
vigília, e nenhum dia se passou enquanto estive na cidade
sem que Dejah Thoris e eu ficássemos de mãos dadas diante
de nosso pequeno santuário planejando o futuro, quando a
delicada casca se rompesse.
Vivida em minha memória permanece essa imagem da úl-
tima noite em que nos sentamos, falando em voz baixa sobre
o estranho romance que entrelaçou nossas vidas e sobre essa
maravilha que estava chegando para ampliar nossa felicidade
e cumprir nossas esperanças.
Ao longe, vimos a luz branca brilhante de uma aeronave se
aproximando, mas não dispensamos atenção especial a uma
visão tão comum. Como um relâmpago, ela voou em direção
a Helium até que sua própria velocidade a denunciou.
Piscando os sinais que a identificavam como portadora de
uma mensagem ao jeddak, ela circundou impacientemente à
espera da morosa nave de patrulha que deveria escoltá-la até
as docas do palácio.
Dez minutos depois que ela pousou no palácio, uma
mensagem me convocava para a câmara do conselho, que já
estava se preenchendo com os membros daquele grupo.
Tardos Mors estava na plataforma elevada do trono, andando
para a frente e para trás com um rosto marcado pela tensão.
Quando todos estavam em seus assentos, ele se voltou para
nós.
- Hoje de manhã - ele disse -, chegou a notícia a vários
governos de Barsoom de que a fábrica de atmosfera não faz
contato via rádio há dois dias, e tampouco as quase
incansáveis chamadas dirigidas a ela por várias capitais
lograram um sinal de resposta.
- Os embaixadores das outras nações pediram que tomás-
semos a responsabilidade sobre o assunto e enviássemos sem
demora o zelador-assistente da fábrica. Durante o dia todo,
mil cruzadores procuraram por ele até que neste momento
um deles retornou trazendo seu cadáver, encontrado nos
fossos sob sua casa, terrivelmente mutilado por algum
assassino.
- Não preciso dizer a vocês o que isso significa para Barsoom.
Levaria meses para penetrar suas poderosas muralhas,
embora, de fato, o trabalho já tenha começado. Haveria
pouco a temer se os motores da estação de bombeamento
estivessem funcionando normalmente, como o fez por
milhares de anos até agora. Mas tememos que o pior tenha
acontecido. Os instrumentos mostram uma queda rápida da
pressão do ar em todas as partes de Barsoom. O motor parou.
- Meus cavalheiros - ele concluiu -, temos no máximo três
dias de vida.
Um absoluto silêncio se fez por vários minutos até que um
jovem nobre se levantou e, com sua espada fora da bainha,
segurou-a alto sobre sua cabeça e se dirigiu a Tardos Mors.
- Os homens de Helium se orgulham de sempre terem
mostrado a Barsoom como uma nação de homens
vermelhos deve viver. Agora é nossa oportunidade de
mostrar como se deve morrer. Vamos continuar nossas
tarefas como se outros mil anos de atividade produtiva nos
esperassem.
A câmara rugiu em aplausos e não havia nada melhor a ser
feito do que amainar os temores do povo dando-lhes o
exemplo. E assim seguimos nossos caminhos com sorrisos
em nossos rostos e a tristeza aguilhoando nossos corações.
Quando retornei ao meu palácio, descobri que o rumor já
havia chegado até Dejah Thoris e contei a ela tudo o que
havia ouvido.
- Nós fomos felizes, John Carter - ela disse -, e agradeço
qualquer destino que se abata sobre nós desde que nos
permita morrer juntos.
Os próximos dois dias não trouxeram nenhuma mudança
significativa no suprimento de ar, mas na manhã do terceiro
dia tornou-se difícil respirar em locais mais altos, como os
telhados dos prédios. Todas as atividades cessaram. A maior
parte das pessoas encarou bravamente sua morte anunciada.
Aqui e ali, contudo, homens e mulheres se renderam a um
pesar silencioso.
Perto da metade do dia, muitos dos mais fracos começaram a
sucumbir e dentro de uma hora o povo de Barsoom caía aos
milhares na inconsciência que precede a morte por asfixia.
Dejah Thoris e eu, junto aos membros da família real,
havíamos nos reunido em um jardim rebaixado em um dos
pátios interiores do palácio. Conversamos em voz baixa -
isso nos poucos momentos em que conversamos - enquanto
o terror da amarga sombra da morte rastejava sobre nós. Até
mesmo Woola pareceu sentir o peso da calamidade
iminente, porque se aconchegou perto de Dejah Thoris e de
mim, chorando copiosamente.
A pequena incubadora foi trazida do telhado de nosso pa-
lácio a pedido de Dejah Thoris, e agora ela fitava
detidamente a pequenina vida desconhecida que ela nunca
conheceria.
Conforme a dificuldade de respirar foi ficando mais
perceptível, Tardos Mors se levantou e disse:
- Vamos nos dar o último adeus. Os dias de grandeza de
Barsoom se acabaram. O sol da próxima manhã irá iluminar
um mundo morto que, por toda a eternidade, revolverá
pelos céus despido até mesmo de nossas lembranças. Este é
o fim.
Ele se inclinou e beijou as mulheres de sua família, e pousou
sua pesada mão sobre os ombros dos homens.
Ao me voltar tristemente, meus olhos encontraram Dejah
Thoris. Sua cabeça pendia sobre seu peito e parecia estar
totalmente sem vida. Com um grito, saltei até ela e a ergui
em meus braços.
Seus olhos se abriram e olharam para mim:
- Beije-me, John Carter - ela murmurou. - Eu te amo! Eu te
amo! É cruel termos de nos separar, agora que começávamos
uma vida de amor e felicidade.
Ao pressionar seus preciosos lábios contra os meus, o velho
sentimento de poder e autoridade invencível ardeu dentro
de mim. O sangue lutador da Virgínia reviveu em minhas
veias.
- Não será assim, minha princesa - eu gritei. - Há, deve
haver, um outro meio e John Carter, que lutou em um
mundo estrangeiro por seu amor, irá encontrá-lo.
E após minhas palavras uma série de nove sons há muito
esquecida rastejou para o limiar de minha consciência.
Como um raio na escuridão, seu significado completo
alvoreceu sobre mim... a chave para as três grandes portas da
fábrica de atmosfera!
Virando repentinamente para Tardos Mors enquanto ainda
segurava meu amor agonizante contra meu peito, gritei:
- Uma nave, jeddak! Rápido! Ordene que sua máquina
voadora mais veloz esteja no topo do palácio. Ainda posso
salvar Barsoom.
Ele não perdeu tempo questionando, e em um instante um
guarda corria para a doca mais próxima. Mesmo com o ar
rarefeito e quase inexistente no terraço, conseguiram lançar
a mais rápida máquina individual de patrulha aérea que a
habilidade de Barsoom já havia construído.
Beijando Dejah Thoris uma dezena de vezes e ordenando
Woola, que caso contrário teria me seguido, a ficar e montar
guarda, parti com minha velha agilidade e força para os altos
muros do palácio. No próximo momento, eu estava a
caminho do objeto das esperanças de toda a Barsoom.
Eu precisava voar baixo a fim de ter ar suficiente para
respirar. Assim, tomei uma rota direta ao longo do fundo de
um velho mar para então me elevar somente alguns metros
acima do solo.
Viajei a uma velocidade alucinante porque minha missão era
uma corrida contra o tempo e contra a morte. O rosto de
Dejah Thoris me acompanhava. Ao me virar para um último
olhar enquanto deixava o jardim do palácio, pude vê-la
enfraquecida e caída ao lado da pequena incubadora. Eu
sabia bem que ela havia mergulhado no último estágio do
coma que a levaria à morte, caso o suprimento de ar não
fosse renovado. Assim, despindo-me de qualquer precaução,
livrei-me de todos os apetrechos exceto o próprio motor e a
bússola, até mesmo de meus ornamentos. Deitei-me de
bruços no convés, uma mão no volante e a outra forçando o
acelerador até o limite máximo, e rasguei o ar rarefeito de
um planeta moribundo com a rapidez de um meteoro.
Uma hora antes do anoitecer, as grandes muralhas da fábrica
de atmosfera agigantaram-se repentinamente à minha
frente, e com um baque nauseante, mergulhei para o chão
diante da pequena porta que guardava a fagulha de vida dos
habitantes de todo um planeta.
Ao lado da porta, uma equipe de homens havia trabalhado
na perfuração da parede, mas eles mal haviam arranhado a
superfície de sílex. Agora, a maioria deles repousava em seu
último sono, do qual nem mesmo o ar poderia despertá-los.
As condições pareciam muito piores ali do que em Helium,
e eu respirava com extrema dificuldade. Haviam alguns
poucos homens conscientes e nenhum disse palavra.
- Seu eu puder abrir essas portas, há algum homem capaz de
ligar os motores? - perguntei.
- Eu posso - um deles respondeu se você agir rápido. Tenho
apenas mais alguns momentos de vida. Mas é inútil, porque
ambos os zeladores estão mortos e ninguém mais sobre
Barsoom conhece o segredo dessas malditas trancas. Por três
dias homens ensandecidos pelo medo se arremessaram
contra esse portal em tentativas vãs de resolver o mistério.
Eu não tinha tempo para conversa. Estava ficando muito fra-
co e já tinha dificuldade em controlar minha mente.
Mas, em um esforço final, dobrei-me fraco sobre meus joe-
lhos e lancei as nove ondas mentais contra aquela coisa
maldita à minha frente. O marciano havia rastejado para o
meu lado e com seus olhos cheios de terror fixados em um
único painel diante de nós, esperava a morte em silêncio.
Vagarosamente a gigantesca porta se afastou perante nós.
Tentei me levantar e continuar, mas estava fraco demais:
- Vá em frente - gritei ao meu companheiro e se você chegar
à sala de bombeamento, abra todas as bombas. É a única
chance que Barsoom tem de sobreviver a este dia!
De onde eu jazia, abri a segunda porta e depois a terceira, e
ao ver a esperança de Barsoom rastejando debilmente sobre
suas mãos e joelhos através do último portal, desabei
inconsciente sobre o solo.

Capítulo 28
A CAVERNA NO ARIZONA

Estava escuro quando abri meus olhos. Vestimentas
estranhas e rígidas estavam sobre meu corpo. Roupas que se
estalavam e soltavam pó enquanto eu me colocava sentado.
Senti meu corpo vestido da cabeça aos pés e dos pés à cabe-
ça, apesar de que quando caí inconsciente na pequena
entrada, eu estava nu. Diante de mim um pequeno pedaço
de céu enluarado se mostrava através de uma abertura
irregular.
Minhas mãos correram meu corpo até encontrarem bolsos,
e dentro de um deles havia um pequeno pacote de fósforos
embrulhados em papel oleado. Risquei um desses fósforos e
sua chama frágil iluminou o que parecia ser uma grande
caverna. No fundo dela, descobri uma figura estranha e
estática contraída sobre um pequeno banco. Ao me
aproximar, vi que se tratava dos restos de uma pequena
mulher mumificada com longos cabelos negros. Ela estava
curvada sobre um pequeno braseiro no qual repousava uma
tigela redonda de cobre contendo uma pequena quantidade
de pó verde.
Atrás dela, pendendo do teto por correias de couro e se
estendendo por toda a caverna, estava uma fileira de
esqueletos humanos. Da correia de cada um deles havia
outra tira atada à mão morta da pequena mulher. Ao tocar a
corda, os esqueletos balançaram com o movimento e fez-se
um som de folhas secas ao vento.
Era uma cena grotesca e terrível, e me apressei para fora em
busca de ar fresco, feliz em escapar de um lugar tão bizarro.
A visão que encontrou meus olhos, quando pus os pés para
fora sobre uma pequena saliência que ficava diante da
entrada da caverna, me encheu de consternação.
Um novo céu e uma nova paisagem encheram meus olhos.
As montanhas prateadas ao longe, a lua quase estacionária
pendurada no céu e o vale pontilhado de cactos abaixo de
mim não eram de Marte. Eu mal podia acreditar em meus
olhos, mas a verdade lentamente forçou espaço dentro de
mim... Eu estava olhando para o Arizona, da mesma beira na
qual, dez anos antes, eu havia olhado com anseio para
Marte.
Afundando minha cabeça em minhas mãos, voltei-me,
cansado e angustiado, descendo a trilha para a caverna.
Sobre mim brilhava o olho vermelho de Marte guardando
seu macabro segredo, oitenta mil quilômetros distante.
Teria o marciano chegado à sala de máquinas? Teria o ar
revitalizador chegado às pessoas daquele distante planeta a
tempo? Estaria minha Dejah Thoris viva ou seu lindo corpo,
frio e morto, jazeria ao lado da pequena incubadora dourada
no jardim subterrâneo do pátio interno do palácio de Tardos
Mors, jeddak de Helium?
Por dez anos tenho esperado e rezado por uma resposta às
minhas perguntas. Por dez anos tenho esperado e rezado
para ser levado de volta ao mundo de meu amor perdido. Eu
preferiria estar morto ao seu lado do que viver na Terra, com
milhões de malditos quilômetros entre nós.
A velha mina, que achei intocada, me deu uma fabulosa
riqueza, mas que me importava o dinheiro?
Ao sentar-me aqui em meu estúdio com vista para o
Hudson, apenas vinte anos se passaram desde que abri meus
olhos em Marte.
Eu posso vê-lo brilhando no céu através da pequena janela
em frente à minha mesa, e hoje ele parece estar me
chamando novamente como nunca chamou desde aquela
noite há muito. E acho que posso ver, do outro lado desse
infame abismo espacial, uma linda mulher de cabelos negros
no jardim de um palácio. Ao seu lado, um pequeno garoto
que põe seu braço à sua volta, enquanto ela aponta para o
céu na direção da Terra. Aos seus pés, uma grande e
medonha criatura com um coração de ouro.
Acredito que estão a esperar por mim. E algo me diz que
logo saberei.

Megaupload:
http://www.megaupload.com/?d=7J7159HI

Mediafire:
http://www.mediafire.com/download.php?brl8edjrwhmez2d

Repassando:




 
 
 
 
Lançamento Gênesis do Conhecimento
Uma Princesa de Marte - Edgar Rice Burroughs
 
 
links em anexo e ao final da mensagem
 
 
 
digitalização, formatação e revisão - Lucia Garcia
Agradecimentos a Sérgio Rodrigues pela doação do livro para o Memorial do Conhecimento
 
 
 
 
Sinopse:
 
Após a tentativa frustrada de resgatar um companheiro de armas capturado por indígenas, o capitão John Carter abriga-se em uma caverna, onde é inexplicavelmente levado a Marte.
Uma vez em Barsoom - como o planeta é chamado por seus habitantes -Carter se vê perdido em um mundo hostil, aprisionado por criaturas monstruosas e inteligentes, os tharks. Mas ele também conhece beleza e civilidade em Marte. Dejah Thoris, princesa de Helium, ganha o coração do herói da Terra, que arrisca a vida para salvá-la do inimigo e devolvê-la em segurança para seu povo.
 
Em seus romances barsoomianos, do qual Uma Princesa de Marte é o primeiro livro, Burroughs criou um herói marcante, uma cultura vasta e rica. Um mundo extraordinário que revolucionou os gêneros de ficção científica, aventura e fantasia, e que está sendo adaptado para o cinema pelos Estúdios Disney.
 
 
 



--

 
*..·´°*°

--



--
M. Loureiro
livros - loureiro
http://www.manuloureiro.blogspot.com/
http://www.livros-loureiro.blogspot.com/
http://www.romancesdeepoca-loureiro.blogspot.com/ 
http://www.romancessobrenaturais-loureiro.blogspot.com/
Mania de Livros

Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos. 

(Antoine de Saint-Exupéry)


--
Você recebeu esta mensagem porque está inscrito no
Grupo "livros-loureiro" nos Grupos do Google.
Para postar neste grupo, envie um e-mail para
livros-loureiro@googlegroups.com
Para cancelar a sua inscrição neste grupo, envie um e-mail para
livros-loureiro+unsubscribe@googlegroups.com
Para ver mais opções, visite este grupo em
http://groups.google.com.br/group/livros-loureiro?hl=pt-BR
 
Os nossos blogs:
http://manuloureiro.blogspot.com/
http://livros-loureiro.blogspot.com/
http://romancesdeepoca-loureiro.blogspot.com/
http://romancessobrenaturais-loureiro.blogspot.com/
http://www.loureiromania.blogspot.com/

0 comentários:

Postar um comentário

Vida de bombeiro Recipes Informatica Humor Jokes Mensagens Curiosity Saude Video Games Car Blog Animals Diario das Mensagens Eletronica Rei Jesus News Noticias da TV Artesanato Esportes Noticias Atuais Games Pets Career Religion Recreation Business Education Autos Academics Style Television Programming Motosport Humor News The Games Home Downs World News Internet Car Design Entertaimment Celebrities 1001 Games Doctor Pets Net Downs World Enter Jesus Variedade Mensagensr Android Rub Letras Dialogue cosmetics Genexus Car net Só Humor Curiosity Gifs Medical Female American Health Madeira Designer PPS Divertidas Estate Travel Estate Writing Computer Matilde Ocultos Matilde futebolcomnoticias girassol lettheworldturn topdigitalnet Bem amado enjohnny produceideas foodasticos cronicasdoimaginario downloadsdegraca compactandoletras newcuriosidades blogdoarmario arrozinhoii