JOSÉ EUSTASIO RIVERA
A VORAGEM
Digitalizado e corrigido por J. Martins em setembro de 2011.
237 páginas - rodapé.
(1889 - 1928)
Escritor colombiano nascido em Neiva, Huila, Colômbia, conhecido por
uma obra voltada para a defesa e divulgação da Amazônia. Doutorou-se em
direito (1917) e dedicou-se à política e à literatura. Elegeu-se
parlamentar (1921) e serviu como delegado de seu país no México.
Integrando uma comissão oficial encarregada de estabelecer as fronteiras
entre a Colômbia e a Venezuela (1922) e percorreu as regiões dos rios
Orenoco e Amazonas e se familiarizou com a vida dos índios, a selva e as
miseráveis condições de vida dos seringueiros. Durante esta viagem
adoeceu de beribéri e, enquanto convalescia, escreveu La vorágine
(1924), que se tornaria um dos principais romances da literatura de
língua hispânica, consagrado internacionalmente e traduzido em várias
línguas. Um romance de aventura e de crítica social que mostrou a
exploração desumana a que eram submetidos os seringueiros e a impotência
do homem diante das forças da selva. Depois desta publicação retomou a
carreira diplomática e não voltou a publicar e morreu relativamente
jovem, em Nova York. Outro livro interessante seu foi o anterior Tierra
de promisión (1921), uma coletânea de sonetos realistas em que, de forma
impecável, descreve a fauna, a flora e os índios da Amazônia colombiana.
© tradução, Livraria Francisco Alves, 1982
Título original: La Vorágine
Revisão de original: Humberto Figueiredo Pinto
Revisão tipográfica: Sebastião Souza Gomes, Uranga
Impresso no Brasil
Printed in Brazil
Todos os direitos desta edição reservados à:
LIVRARIA FRANCISCO ALVES EDITORA S/A
Rua Sete de Setembro, 177 - Centro
20050 - Rio de Janeiro - RJ
PRÓLOGO
Senhor Ministro:
De acordo com os desejos de V.Exa., arrumei
para apublicação os manuscritos de Arturo Cova, remetidos
a esse Ministério pelo Cônsul da Colômbia em
Manaus.
Nestas páginas respeitei o estilo e até as incorreções
do infortunado escritor, sublinhando unicamente
os provincianismos de mais caráter.
Acho, salvo melhor opinião de V.Exa., que não
se deva publicar este livro antes de se ter mais notícias
dos seringueiros colombianos do Rio Negro ou
Guainía; mas se V.Exa. resolver o contrário, rogo que
se sirva comunicar-me oportunamente os dados que
obtenha para adicioná-los à guisa de epílogo.
Sou de V.Exa. muito atencioso servidor.
JOSÉ EUSTASIO RIVERA
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"... Os que um dia acharam que minha inteligência
irradiaria extraordinariamente, qual uma auréola de
minha juventude; os que se esqueceram de mim assim
que meus pés desceram ao infortúnio; os que ao recordar-
me um dia pensem em meu fracasso e se perguntem
por que não fui o que podia ter sido; saibam
que o destino implacável me desarraigou da prosperidade
incipiente e me lançou aos pampas, para que
deambulasse vagabundo, como os ventos, e me extinguisse
como eles sem deixar mais nada que barulho
e desolação."
(Fragmento da carta de Arturo Cova.)
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PRIMEIRA PARTE
ANTES QUE tivesse me apaixonado por alguma mulher, joguei meu coração
ao acaso e ele foi ganho pela Violência. Nada soube dos delíquios
embriagadores, nem da confidência sentimental, nem da inquietude dos
olhares covardes. Mais que o namorado, fui sempre o dominador cujos lábios
não conheceram a súplica. No entanto, ambicionava o dom divino
do amor ideal, que me acendesse espiritualmente, para que minha alma
cintilasse em meu corpo como a chama sobre a lenha que a alimenta.
Quando os lábios de Alícia me trouxeram a desventura, já havia
renunciado à esperança de sentir um afeto puro. Em vão, meus braços
— entediados de liberdade — estenderam-se diante de muitas mulheres
implorando uma corrente para eles. Ninguém adivinhava meu sonho.
Continuava o silêncio em meu coração.
Alícia foi um namoro fácil: entregou-se a mim sem vacilações, animada
pelo amor que buscava em mim. Nem ao menos pensou em casar-
se comigo naqueles dias em que seus parentes forjaram a conspiração de
seu matrimônio, patrocinados pelo padre e dispostos a submeter-me pela
força. Ela denunciou-me os planos astuciosos. Eu morrerei sozinha,
dizia: minha desgraça se opõe a seu futuro.
Depois, quando a expulsaram do seio de sua família e o juiz declarou
para meu advogado que me meteria na cadeia, disse-lhe resolutamente
uma noite, em seu esconderijo:
— Como poderia abandoná-la? Fujamos! Tome minha sorte, mas
dê-me o amor.
E fugimos!
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Naquela noite, a primeira de Casanare, meu confidente foi a insônia.
Através da gaze do mosquiteiro, nos céus sem limites, via as estrelas
pestanejarem. As folhagens das palmeiras que nos davam abrigo emudeciam
sobre nós. Um silêncio infinito flutuava no âmbito, tingindo de azul
a transparência do ar. Ao lado do meu chinchorro* em sua estreita
caminha de viagem, Alícia dormia com a respiração agitada.
Minha alma atribulada teve então reflexões opressoras: que fizeste
de teu próprio destino? Que fizeste desta jovenzinha que imolas às tuas
paixões? E teus sonhos de glória, e tua ânsia de triunfo e tuas primícias
de celebridade? Insensato! O laço que te une às mulheres é atado pelo tédio.
Por orgulho pueril, te enganaste em sã consciência, atribuindo a esta
criatura o que nunca descobriste em nenhuma outra, e já sabias que o
ideal não se procura, as pessoas o levam consigo. Saciado o desejo, que
mérito tem o corpo que adquiriste por tão caro preço? Porque a alma de
Alícia não te pertenceu nunca e mesmo que agora recebas o calor de seu
sangue e sintas sua respiração perto de teu ombro, te encontras espiritualmente
tão longe dela como da constelação taciturna que já se inclina sobre
o horizonte.
Naquele momento me senti pusilânime. Não que minha energia se
desvanecesse diante da responsabilidade de meus atos, senão que a aversão
à manceba começava a invadir-me. Possuí-la havia sido pouco empenho,
ainda que em troca das maiores loucuras; mas depois das loucuras
e da posse...?
Casanare não me espantava com suas lendas de arrepiar os cabelos.
O instinto de aventura impelia-me a desafiá-las, certo de que sairia ileso
dos pampas libérrimos e de que, alguma vez, em cidades desconhecidas,
sentiria saudades dos perigos passados. Mas Alícia me incomodava como
um grilhão. Se pelo menos fosse mais arriscada, menos acanhada, mais
ágil! A pobre saiu de Bogotá em circunstâncias aflitivas: não sabia andar
a cavalo, os raios de sol congestionavam-na e, quando em trechos preferia
andar a pé, eu devia imitá-la pacientemente, arrastando os cavalos pelo
cabresto.
Nunca dei provas de semelhante mansidão. Indo fugitivos, avançávamos
lentamente, incapazes de desviar do caminho para esquivar do encontro
com os transeuntes, camponeses em sua maioria, que se detinham
*
Todos os provincianismos utilizados pelo Autor encontram-se no Vocabulário,
ao final do livro. (N. do E.)
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à nossa passagem, interrogando-me comovidos: "Patrão, por que a menina
está chorando?"
Era preciso passar a noite em Cáqueza, prevendo que as autoridades
nos detivessem. Tentei cortar várias vezes o fio do telégrafo, enlaçando-o
com a soga de meu cavalo; mas desisti de tal empresa pelo desejo íntimo
de que alguém me capturasse e, livrando-me de Alícia, me devolvesse essa
liberdade de espírito que nunca se perde no cárcere. Passamos a primeira
noite pelos arredores do povoado e, desviando depois para a várzea do
rio, entre canaviais ruidosos que nossos sendeiros degolavam ao passar,
nos refugiamos em uma enramada onde funcionava um pequeno engenho
de açúcar. Desde longe o escutamos gemer e, pelo resplendor da fornalha
onde se cozia o mel, cruzavam intermitentes as sombras dos bois que moviam
o mangual e do garoto que os espicaçava. Umas mulheres colocaram
o jantar e deram a Alícia uma infusão de ervas para acalmar-lhe a febre.
Ali ficamos uma semana.
O peão que enviei a Bogotá em busca de notícias trouxe-me inquietantes.
O escândalo ardia, animado pelas maledicências daqueles que me
queriam mal, comentava-se nossa fuga e os jornais se aproveitaram da intriga.
A carta do amigo a quem me dirigi pedindo-lhe sua intervenção, tinha
esta conclusão: "Prenderão vocês! Não lhes resta nenhum outro refúgio
a não ser Casanare. Quem poderia imaginar que um homem como
você procura o deserto?"
Nessa mesma tarde, Alícia me advertiu que passávamos por hóspedes suspeitos. A dona da casa lhe havia perguntado se éramos irmãos,
esposos legítimos ou simples amigos e, com reverências submissas, instou-a
que mostrasse algumas das moedas que fazíamos, caso as fabricássemos,
"no que não havia nada de mau, devido à tensão do momento". No dia
seguinte, partimos antes do amanhecer.
- Alícia, você não acha que estamos fugindo de um fantasma cujo
poder fomos nós mesmos quem atribuímos? Não seria melhor voltar?
— Você me fala tanto disso que estou convencida que lhe canso!
Para que me trouxe? Porque a idéia partiu de você! Vá embora, deixe-
me! Nem você nem Casanare merecem o sacrifício!
E de novo se pôs a chorar.
O pensamento de que a infeliz se achasse desamparada me impeliu
à tristeza, porque ela já me havia revelado a origem de seu fracasso. Queriam
casá-la com um velho latifundiário nos dias em que me conheceu.
Quando impúbere, se havia apaixonado por um primo seu, pálido e
adoentado,
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com quem se comprometeu às escondidas; depois eu apareci
e o velhote, assustado com a possibilidade de que eu lhe roubasse a prenda,
multiplicou as numerosas dádivas e estreitou o assédio, ajudado pela
parentalha entusiástica. Então, Alícia, procurando a liberação, lançou-se
em meus braços.
Mas o perigo não havia passado: apesar de tudo, o velho queria casar-
se com ela.
— Deixe-me — repetiu arrojando-se do cavalo — não quero nada de
você! Vou a pé procurar por esses caminhos uma alma caridosa! Infame,
não quero nada de você.
Eu, que já vivi o suficiente para saber que não é prudente replicar
uma mulher irada, continuei mudo, agressivamente mudo, enquanto ela,
sentada na relva, arrancava punhados de erva com a mão trêmula.
— Alícia, isso me prova que você nunca gostou de mim.
— Nunca!
E virou os olhos para outro lugar.
Depois queixou-se do descaramento com que eu a enganava:
— Você acha que não percebi suas perseguições à moça lá de baixo?
E tanto disfarce para seduzi-la! E alegar para mim que a demora obedecia
à debilidade de minha saúde. Se agora é isso, como não será depois?
Deixe-me! Para Casanare, jamais, e com você, nem para o céu!
Essa reprimenda contra minha infidelidade, ruborizou-me. Não sabia
o que dizer. Gostaria de ter abraçado Alícia, agradecendo seus ciúmes
com um abraço de despedida. Eu tinha culpa se ela queria que a
abandonasse?
E quando apeava para improvisar uma explicação, vimos um homem
descer pela ladeira, galopando em nossa direção. Perturbada, Alícia
agarrou-se a meu braço.
O sujeito, apeando a curta distância, avançou com o chapéu na
mão.
— Cavalheiro, permita-me uma palavra.
— Eu? — repliquei com a voz enérgica.
— Sim, vossemercê — e, cruzando a ruana, estendeu-me um papel
enrolado — é que meu padrinho manda notificar-lhe.
— Quem é seu padrinho?
— Meu padrinho, o prefeito.
— Isso não é para mim — disse devolvendo o papel sem o ter lido.
— Não são vossemercês que estiveram no armazém?
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— Absolutamente. Estou indo como intendente para Villavicencio e
esta é minha esposa.
Ao escutar tais afirmações, ficou indeciso.
— Pensei — balbuciou — que vossemercés eram os cunhadores de
moedas. Do galpão estiveram mandando recado para o povoado para que
a autoridade os agarrasse, mas meu padrinho estava em sua fazenda, pois
só abre a prefeitura nos dias de mercado. Recebeu também vários telegramas,
e como agora sou comissário único...
Sem dar tempo para mais explicações, ordenei-lhe que acercasse o
cavalo da senhora. Alícia, para ocultar a palidez, cobriu o rosto com a gaze
do chapéu. O importuno nos via partir, sem pronunciar palavra. Mas,
de repente, montou em sua égua e, acomodando-se no enxalmo que lhe
servia de sela, nos flanqueou sorrindo:
— Vossemercê, assine a notificação para que meu padrinho veja que
cumpri. Assine como intendente.
— O senhor tem uma caneta?
— Não, mas adiante a conseguimos. É que do contrário o prefeito
me arquiva.
— Como assim? — respondi-lhe sem deter-me.
— Oxalá vossemercê me ajude, se é certo que está viajando como
funcionário. Tenho o inconveniente de que imputam o roubo de uma novilha
e me trouxeram preso, mas meu padrinho me deu o povoado como
prisão; e depois, como faltava um comissário, me distinguiu com a honra.
Eu me chamo Pepe Morillo Nieto e, como apelido, me chamam de "Pipa".
O ladrão de cavalos, loquaz, caminhava à minha direita relatando
seus padecimentos. Pediu-me a maleta de roupa e atravessou-a no enxalmo,
tomando cuidado para que não caísse. Não tenho, disse, com que
comprar uma ruana decente e a situação me reduziu a viver descalço.
Aqui, onde vossemercés me vêem, esse sombreiro tem mais de dois anos
e o tirei de Casanare.
Ao ouvir isso, Alícia virou os olhos assustados para o homem.
— O senhor viveu em Casanare? — perguntou-lhe.
— Sim, vossemercê, e conheço o Lhano e os seringais do Amazonas.
Matei muito tigre e muita cobra com a ajuda de Deus.
Então encontramos arrieiros que conduziam suas recuas. O Pipa
suplicou:
— Façam-me o bem e emprestem-me um lápis para uma assinaturinha.
— Não carregamos isso.
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— Cuidado com falar-me de Casanare na presença da senhora — disse-
lhe em voz baixa — siga comigo e, na primeira oportunidade, passe-me
a sós os informes que possam ser úteis ao intendente.
O feliz Pepe falou tanto quanto pôde, esbanjando hipérboles. Pernoitou
conosco nos arredores de Villavicencio, convertido em pajem de
Alícia, a quem distraiu com sua lábia. E se mandou nessa noite, roubando
meu cavalo selado.
Enquanto minha memória se embaçava com essas lembranças, uma
claridade avermelhada acendeu-se subitamente. Era a fogueira do reflexo
insone, colocada a poucos metros da rede de dormir para conjurar a
espreita do tigre e outros riscos noturnos. Ajoelhado diante dela como
diante de uma divindade, don Rafo soprava-a com seu ofego.
Entretanto, continuava o silêncio nas melancólicas solidões e em
meu espírito penetrava uma sensação de infinito que fluía das constelações
próximas.
E outra vez voltei a recordar. Com a hora desvanecida, metade do
meu ser se havia submergido irremediavelmente e já devia iniciar uma nova
vida, diferente da anterior, comprometendo o resto de minha juventude
e até a razão de minhas ilusões, porque quando refloresceram, talvez
já não houvesse a quem oferecê-las, ou deuses desconhecidos ocupariam o
altar a que se destinaram. Alícia pensaria o mesmo e, dessa maneira, ao
mesmo tempo que me servia de remordimento, era o lenitivo de minha
angústia, a companheira de meu pesar, porque ela também ia, como a semente
no vento, sem saber para onde e temerosa da terra que a esperava.
Indubitavelmente era de caráter apaixonado: de sua timidez, triunfava
por momentos a decisão que as coisas irreparáveis impõem. Outras
vezes sofria por não haver tomado um veneno. Ainda que não te ame
como queres, dizia, por acaso deixarás de ser o homem que me tirou da
inexperiência para entregar-me à desgraça? Como poderei esquecer o papel
que desempenhaste em minha vida? Como poderás pagar-me o que me
deves? Não será namorando as camponesas das pousadas, nem fazendo-
me ansiar por teu apoio para depois abandonar-me. Mas se é isso que pensas,
não te afastes de Bogotá, porque já me conheces. Serás o responsável!
— Você não sabe que sou ridiculamente pobre?
— Repetiram-me bastante quando você me visitava. O amparo que
lhe peço agora não é o do seu dinheiro, e sim o do seu coração.
— Por que você me implora o que apressei-me em oferecer-lhe de
maneira espontânea? Deixei tudo por sua causa e me lancei à aventura,
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quaisquer que fossem os resultados. Mas por acaso você sabe sofrer e confiar?
— Não fiz todos os sacrifícios por você?
- Mas está com medo de Casanare.
— Temo por você.
— A adversidade é uma só e nós seremos dois.
Tal foi o diálogo que sustentamos na casinha de Villavicencio na
noite em que esperávamos o chefe da Gerdarmeria. Este era um quidam
semi-encanecido e rechonchudo, vestido de caqui, de bigodes ariscos e
aguardentosa catadura.
— Saúde, senhor — disse-lhe em tom depreciativo quando apoiou
seu sabre no umbral.
— Oh, poeta!, essa menina é irmã digna das nove musas. Não seja
egoísta com os amigos!
E me jogou na cara seu vapor de anetol.
Esfregando-se contra o corpo de Alícia ao acomodar-se no banco,
bufou, pegando-a pelos pulsos: "Que pimpolho! Já não se lembra mais de
mim? Sou Gámez y Roca, o general Gámez y Roca! Quando você era
pequena, costumava sentá-la em meus joelhos".
E tentou sentá-la de novo.
Alícia, alterada, estalou: "Atrevido, atrevido!" E o empurrou longe!
— Que quer o senhor? — grunhi fechando as portas. E o degradei
com uma cusparada.
— Poeta, que é isso? Corresponde assim à fidalguia de quem não
quer metê-lo na prisão? Deixe-me a moça porque sou amigo de seus pais e
em Casanare vai morrer! Eu lhe guardarei a reserva. O corpo de delito
para mim, para mim! Deixe-a para mim!
Antes que terminasse, com ademão colérico tirei de Alícia um de
seus sapatos e, lançando o homem contra o tabique, o ataquei a golpes de
salto no rosto e na cabeça. O bêbedo, gaguejando, desabou sobre os sacos
de arroz que ocupavam o ângulo da sala.
Ali roncava meia hora depois, quando Alícia, don Rafo e eu fugimos
em busca das planícies intérminas.
— Aqui está o café — disse don Rafo, parando diante do mosquiteiro.
— Espevitem-se, crianças, que estamos em Casanare.
Alícia nos cumprimentou com tom cordial e ânimo limpo: "O sol
já quer sair?"
— Demora ainda: o carrinho de estrelas só chegou à lombada.
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- E don Rafo nos assinalou a cordilheira dizendo: — despidamo-nos dela, por
que não a voltaremos a ver. Só restam lhanos, lhanos e lhanos.
Enquanto apressávamos o café, nos chegava a exalação da madrugada,
um cheiro a pajonal fresco, a sulco removido, a Lenhas recém-cortadas,
e se insinuavam leves sussurros nos leques dos moríches. Às vezes, sob a
transparência estelar, cabeceava alguma palmeira humilhando-se em
direção
ao oriente. Um regozijo inesperado nos enchia as veias, enquanto que
nossos espíritos, dilatados como o pampa, elevavam-se agradecidos da
vida
e da criação.
— Casanare é encantador — repetia Alícia. — Não sei por que milagre,
ao pisar a planície, diminuiu a inquietação que me inspirava.
— É que - disse don Rafo — esta terra dá alento às pessoas para
que a gozem e a sofram. Aqui, até o moribundo tem vontade de beijar o
solo no qual vai apodrecer. É o deserto, mas ninguém se sente só: são nossos
irmãos o sol, o vento e a tempestade. Nem se os teme, nem se os
amaldiçoa.
Ao dizer isso, don Rafo me perguntou se era tão bom ginete como
meu pai, e tão valoroso nos perigos.
— O que se herda não se furta — respondi jactancioso, enquanto
Alícia, com o rosto iluminado pelo fulgor da fogueira, sorria confiada.
Don Rafo era maior de sessenta anos e havia sido companheiro de
meu pai em alguma campanha. Todavia conservava esse aspecto de dignidade
que denuncia certas pessoas que decaem. A barba encanecida, os
olhos tranqüilos, a calvície luzente, convinham à sua estatura mediana,
contagiosa de simpatia e de benevolência. Quando ouviu meu nome em
Villavicencio e soube que seria detido, foi procurar-me com a boa-nova
de que Gámez y Roca lhe havia jurado interessar-se por mim. Desde nossa
chegada, fez compras para nós, atendendo às incumbências de Alícia.
Ofereceu-nos ser nosso guia de ida e volta, e que quando voltasse de
Arauca chegaria para levar-nos à malhada de um cliente seu, onde
permaneceríamos alojados uns meses.
Encontrava-se casualmente em Villavicencio de saída para Casanare.
Depois de sua ruína, viúvo e pobre, foi tomado de apego pelos
Lhanos, e com dinheiro de seu genro, percorria-os anualmente, como
vaqueiro e como vendedor ambulante de varejo. Nunca havia comprado
mais de cinqüenta reses, e então arreava uns cavalinhos em direção às
fundações do baixo Meta e duas mulas carregadas de bugingangas.
— O senhor tem plena certeza de que já estamos livres das investigações
do General?
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- Sem dúvida alguma.
— Que susto me deu esse canalha! — comentou Alícia. — Fiquem sabendo
que eu tremia como azougue. E aparecer à meia-noite! E dizer
que me conhecia! Mas levou o que merecia.
Don Rafo tributou à minha ousadia um feliz aplauso: era eu o homem
para Casanare!
Enquanto falava, ia desatrelando as bestas e colocando-lhes os cabrestos.
Eu ajudava-lhe na labuta e logo estávamos prontos para seguir a
marcha. Alícia, que nos iluminava com uma lanterna, suplicou que esperássemos
a saída do sol.
- Com que então o famoso Pipa é um raposo lhaneiro? - perguntei
a don Rafo.
-O mais astuto dos salteadores: várias vezes fugitivo, depois de
curar suas febres nos presídios, volta a exercer a pirataria com maiores arrojos.
Foi capitão de índios selvagens, sabe idiomas de várias tribos e é remador
e vaqueiro.
-E tão dissimulado, e tão hipócrita e tão servil - indicava Alícia.
— Vocês tiveram a sorte de que lhes roubara só uma besta. Andará
por aqui...
Alícia me fitava nervosa, mas acalmou suas preocupações com as
anedotas de don Rafo.
E a aurora surgiu entre nós; sem que percebêssemos o momento
preciso, começou a flutuar sobre os restolhais um vapor cor-de-rosa que
ondulava na atmosfera como leve musselina. As estrelas adormeceram, e
nas distâncias de opala, ao nível da terra, apareceu um presságio de incêndio,
uma pincelada violenta, um coágulo de rubi. Sob a glória do alvorecer
racharam o ar os patos chiadores, as garças morosas como estrigas
flutuantes, os louros esmeraldinos de vôo trêmulo, os papagaios multicores.
E de todos, do restolhal e do espaço, do estero e do palmeira!,
nascia um hálito jubiloso que era vida, era acento, claridade e palpitação.
Enquanto isso, no arrebol que abria seu palio incomensurável, dardeou
o primeiro clarão solar e, lentamente, o astro, imenso como uma
cúpula ante o assombro do touro e da fera, rodou pela planície, avermelhando-
se antes de subir ao azul.
Alícia, abraçando-me chorosa e enlouquecida, repetia essa súplica:
"Meu Deus, meu Deus! O sol, o sol!"
Logo, prosseguindo a marcha, nos afundamos na imensidão.
Pouco a pouco o regozijo de nossas línguas foi cedendo ao cansaço.
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Havíamos feito numerosas perguntas que don Rafo atendia com
autoridade de conhecedor. Já sabíamos o que era uma mata, um caño,
um zural, e por fim Alícia conheceu os veados. Pastavam em um esteiro
até meia dúzia, e ao farejar-nos, endireçaram em nossa direção as orelhas
esquivas.
— Você não deve gastar os tiros do revólver — ordenou don Rafo. Ainda
que veja os bichos perto, estão a mais de quinhentos metros. Fenômenos
da região.
O bate-papo dificultava-se, porque don Rafo ia como punlero, levando
à sua direita uma besta, atrás da qual trotavam as outras nos restolhais
torrados. O ar quente fulgia como lâmina de metal, e sob o espelho
da atmosfera, no âmbito desolado, insinuava-se ao longe a massa negrusca
de um monte. Por momentos se ouvia a vibração da luz.
Com freqüência me desmontava para refrescar a fronte de Alícia,
esfregando-a com um limão verde. À guisa de guarda-sol levava sobre o
sombreiro um xale branco, cujos extremos empapava no pranto cada
vez que a afligia a recordação do lar. Ainda que eu fingisse não reparar
em suas lágrimas, inquietava-me o matiz de suas faces arredondadas, com
medo da congestão. Mas impossível tirar a sesta debaixo da intempérie
ensolarada: nem uma árvore, nem uma gruta, nem uma palmeira.
— Quer descansar? - propunha-lhe preocupado, e sorrindo me
respondia:
— Quando chegarmos à sombra! Mas cubra o rosto que a soalheira
o tosta!
Perto da tarde, pareciam surgir no horizonte cidades-fantasmas. As
ponentes matas de monte provocavam a miragem, perfilando no céu penachos
de palmeiras, sobre cúpulas de ceibas e copayes, cujas florações
de vermelhão evocavam manchas de telhados.
Os cavalos que iam soltos, orientando-se na planície, começaram
a galopar a considerável distância de nós. Já farejaram o bebedouro,
observou don Rafo. Não chegaremos à mata antes de meia hora; mas ali
aqueceremos o abastecimento.
Rodeavam o monte pântanos imundos, de lama flutuante, cuja superfície
percorriam avezinhas aquáticas que guinchavam balançando o rabo.
Depois de um grande rodeio, e quase pelo lado oposto, penetramos
na espessura, costeando o lodaçal, onde bebiam as cavalgaduras que eu ia
manietando na sombra. Don Rafo limpou com o machete as malezas
próximas de uma árvore enorme, vergada por festões amarelados, de onde
choviam, para espanto de Alícia, vermes inofensivos e esverdeados.
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Posta a rede, a cobrimos com o amplo mosquiteiro para defendê-la das
abelhas que se enroscavam nos riços, ávidas por chupar-lhe o suor. Fumegou
logo a fogueira consoladora e nos devolveu a tranqüilidade.
Eu metia a lenha ao fogo que don Rafo abanava, enquanto Alícia
me oferecia sua ajuda.
— Essas tarefas não lhe correspondem.
— Não me impaciente, já ordenei que descanse, e você deve obedecer!
Ressentida por minha atitude, começou a embalar-se ao impulso
que seu pé imprimia à rede. Mas quando fomos buscar água, implorou-me
que não a deixasse só.
— Vem, se quiser — disse-lhe. E seguiu atrás de nós por uma vereda
coalhada de ervas.
A lagoinha de águas amareladas estava coberta de folhagens. Por entre
elas nadavam umas tartaruguinhas chamadas "galápagos", assomando
a cabeça avermelhada; e aqui e ali os jacarés chamados "cachirres" exibiam
sobre a nata do poço os olhos sem pálpebras. Garças meditabundas,
sustentadas em um pé com bicadas repentinas enrugavam o açude tristíssimo,
cujas evaporações maléficas flutuavam sob as árvores como véu
mortuário. Partindo um galho, inclinei-me para varrer com ele as vegetações
aquáticas, mas don Rafo me deteve rápido como o grito de Alícia.
Uma güio, corpulenta como uma viga, havia emergido bocejando para
agarrar-me, que com os tiros de meu revólver afundou, removendo o
pântano e transbordando-o nas margens.
E regressamos com as panelas vazias.
Presa de pânico, Alícia se inclinou sob o mosquiteiro. Teve vertigens,
mas a cerveja aplacou-lhe as náuseas. Com espanto não menor,
compreendi o que estava se passando e, sem saber como, abraçando a futura
mãe, chorei todas as minhas desventuras.
Ao vê-la dormida, afastei-me com don Rafael e, sentando-nos sobre
uma raiz de árvore, escutei seus conselhos inesquecíveis:
Não convinha, durante a viagem, preveni-la do estado em que se
encontrava, mas devia rodeá-la de todos os cuidados possíveis. Faríamos
jornadas curtas e regressaríamos a Bogotá antes de três meses. Ali, as coisas
mudariam de aspecto.
Além do que, os filhos, legítimos ou naturais, tinham igual procedência
e eram queridos da mesma forma. Questão de meio. Assim acontecia
em Casanare.
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Ele ambicionou em um tempo fazer um matrimônio brilhante, mas
o destino marcou uma rota imprevista para ele: a jovem com quem vivia
naquela época chegou a superar a esposa sonhada, pois, julgando-se inferior,
armava-se com a modéstia e sempre se achou devedora de um excesso
de bem. Dessa maneira, ele foi mais feliz no lar que seu irmão, cuja
companheira, escrava dos pergaminhos e mentiras sociais, inspirou-lhe o
horror às altas famílias, até que regressou à simplicidade favorecido pelo
divórcio.
Na vida, não havia que retroceder diante de nenhum conflito, pois
só se defrontando com eles de perto é que se vê se tem remédio. Era verdade
que previa o escândalo de meus parentes, se me jogava Alícia nas
costas ou levava-a para o altar. Mas não se tinha que olhar tão longe, porque
os temores vão mais além das possibilidades. Ninguém me assegurava
que havia nascido para casado, e ainda que assim fosse, quem poderia
dar-me uma esposa diferente da assinalada por meu destino? E Alícia,
em que desmerecia? Não era inteligente, bem-educada, simples e de
origem honesta? Em que código, em que escritura, em que ciência eu havia
aprendido que os preconceitos têm primazia sobre as realidades? Por
que era melhor que outros, senão por minhas obras? O homem de talento
deve ser como a morte, que não reconhece categorias. Por que certas
donzelas me pareciam mais elevadas? Por acaso, por irrefletido consentimento
do público que me contagiava com sua estultice; por acaso pelo
brilho de riqueza? Mas esta, que sói nascer de fontes obscuras, não era
também relativa? Não acabavam sendo misérrimos nossos potentados
em comparação com os de fora? Eu não chegaria à dourada mediania
de ser relativamente rico? Neste caso, que me importariam as demais
pessoas, quando viessem buscar-me com o incenso? O senhor só tem um
problema de suma importância, ao lado do qual folgam todos os outros:
conseguir dinheiro para sustentar a modéstia decorosamente. O resto vem
por acréscimo.
Calado, matutava mentalmente as razões que ouvia, separando a
verdade da exageração. Don Rafo, disse-lhe, eu olho as coisas por outro
aspecto, pois as conclusões do senhor, ainda que fundamentadas, não me
preocupam agora: estão em meu horizonte, mas estão longe. Com relação
a Alícia, o problema mais grave quem leva sou eu, que sem estar apaixonado
vivo como se estivesse, suprindo minha fidalguia o que minha ternura
não pode dar, com a convicção íntima de que minha idiossincrasia
cavalheiresca me empurrará até o sacrifício, por uma dama que não é a
minha, por um amor que não conheço.
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Ganhei no espírito de muitas mulheres a fama de galã obsequioso,
graças ao costume de fingir, para que minha alma se sinta menos só. Por
todas as partes fui procurando com que distrair minha inconformidade e,
de boa fé, ansioso por renovar minha vida e por resgatar-me da perversão;
mas em qualquer parte onde pus minha esperança, achei lamentável vazio,
embelecido pela fantasia e repudiado pelo desencanto. E assim, enganando-
me com minha própria verdade, logrei conhecer todas as paixões
e sofro seu fastio, e prossigo desorientado, caricaturando o ideal para sugestionar-
me com o pensamento de que estou próximo da redenção. A
quimera que persigo é humana, e bem sei que dela partem os caminhos
para o triunfo, para o bem-estar e para o amor. Mas os dias se passaram e
minha juventude vai murchando sem que minha ilusão reconheça seu
derroteiro; e vivendo entre mulheres simples, não encontrei a simplicidade,
nem entre as namoradas o amor, nem a fé entre as crentes. Meu coração é
como uma rocha coberta de musgo, onde nunca falta uma lágrima. Hoje,
o senhor me viu chorar, não por fraqueza de espírito, que bastante rancor
tenho para com a vida; chorei por minhas aspirações enganadas, por meus
sonhos desvanecidos, pelo que não fui, pelo que já não serei jamais.
Ia levantando a voz paulatinamente e compreendi que Alícia estava
desperta. Aproximei-me cauteloso e a surpreendi em atitude de escutar.
— O que você quer — disse-lhe. E seu silêncio desconcertou-me.
Foi preciso continuar a marcha até o morichal vizinho, segundo decisão
de don Rafo, porque a mata era perigosa ao extremo; a muitas léguas
em volta, só nela encontravam água os animais e, de noite, chegavam
as feras. Saímos dali, passo a passo, quando a tarde começou a suspirar e,
sob os últimos arrebóis, nos preparamos para o recolher. Enquanto don
Rafo acendia o fogo, retirei-me para os restolhais para amarrar os cavalos.
A brisa do anoitecer refrescava o deserto e, de repente, em intervalos desiguais,
chegou aos meus ouvidos algo como um lamento de mulher. Instintivamente
pensei em Alícia, que aproximando-se me perguntava:
— Que é que você tem? Que é que você tem?
Reunidos depois, sentíamos o queixume choroso, virados em direção
ao lado de onde vinha, sem que conseguíssemos decifrar o mistério;
uma palmeira de macana, fina como um pincel, obedecendo à brisa, fazia
suas franjas chorarem no crepúsculo.
Oito dias depois, divisamos a "fundação" de La Maporita. A lagoa
próxima aos curral? dourava-se ao sol. Uns mastins enormes vieram a nosso
encontro, com latidos desaforados, e nos dispersaram as bestas.
21
Diante do tranquero da entrada, onde um bayetón vermelho tomava sol, don Rafo
exclamou, empinando-se nos estribos.
— Louvado seja Deus.
— E Sua mãe santíssima - responde uma voz de mulher.
- Não há quem venha espantar esses cachorros?
— Já vai.
— A menina Griselda?
— No caño.
Comprazidos, observávamos o asseio do pátio, cheio de balsâminas,
sempre-vivas, havanos, amapolas e outras plantas do trópico. Em redor
da horta, os bananais tomavam o fresco, de folhas sussurrantes e esfarrapadas,
dentro da cerca de guadua que protegia a vivenda, em cujo cavalete
um pavão reluzia seus resplendores.
Por fim, uma mulata decrépita assomou à porta da cozinha, enxugando
as mãos na roda da anágua.
- Chite, uise! — gritou jogando uma casca para as galinhas que esgaravatavam
a eira. - Prossigam, que a menina Griselda se tá banhando. Os
cachorros não mordem, já morderam.
E voltou a seus quefazeres.
Sem testemunhas, ocupamos o quarto que servia de sala, onde não
havia outro móvel que duas redes, uma barbacoa, duas banquetas, três
baús e uma máquina Singer. Alícia, sufocada, balançava-se ponderando o
cansaço, quando entrou a menina Griselda, descalça, com o chingue* no
braço, o pente na risca do cabelo e os sabões em uma totuma**.
— Perdoe, senhora — lhe dissemos.
- Tem às suas ordens o rancho e a pessoa. Ah! Don Rafael também
veio? Que está fazendo na ramáa?
E saindo ao pátio, disse-lhe familiarmente:
- Esquecido? Voltou a esquecer-se o caderno? Estou entigrecida
com o senhor. Não me venha com essas porque brigamos.
Era uma fêmea morena e robusta, nem alta nem pequena, de cara
rechonchuda e olhos simpáticos. Ria-se mostrando os dentes largos e alvíssimos,
enquanto com a mão laboriosa espremia os cabelos gotejantes
sobre o corpinho desabrochado. Virando-se para nós, interrogou:
* Chingue: zorrilho.
** Totuma: espécie de abóbora americana que, depois de seca, serve para conter
líquidos.
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— Já lhes trouxeram café?
— Não se dê o trabalho...
— Tiana, Bastiana. que houve?
E sentando-se na rede ao lado de Alícia, perguntava-lhe se os diamantes
de seu brinco eram legais e se trazia outros para vender.
— Senhora, se lhe agradam...
— Troco-os por essa máquina.
— Sempre esperta para o negócio — galanteou don Rafo.
— Que nada! É que estamos nos recolhendo para deixar a terra.
E com acento cálido aludiu que Barrera havia vindo para levar
gente para os seringais do Vichada.
- É a ocasião de melhora: dão alimentação e cinco pesos por dia.
Foi assim que eu o disse a Franco.
— E qual Barrera é o recrutador? — perguntou don Rafo.
— Narciso Barrera, que tem trazido mercadorias e morrocotas pra
dá e convida.
— Vocês acreditam nessa ficha?
- Cale-se, don Rafo. Cuidadinho com desanima a Fidel! Se lhe tá
oferecendo grana antecipada e não se resolve a deixar essa terrinha!
Gosta mais das vacas que da mulhé! E isso que nos cristianamos em Pore,
porque só éramos casados militarmente.
Alícia, olhando-me de soslaio, sorriu.
— Menina Griselda, essa viagem pode acabar em percalço.
— Don Rafo, quem não arrisca não petisca. Ora, diga-me o senhor
se valerá a pena um engate que os entusiasmou a todos. Porque assim, no
ato, não vai sobrar ninguém. O velho teve que brigar com eles para que o
ajudassem a terminar os trabalhos de gado. Ninguém quer fazer nada! E
de noite tem uns joropos... Mas suponha-se: tando aí a Clarita... Eu
proibi que Fidel fique por lá, e não me dá bola. Foi-se desde a segunda-
feira. Amanhã o espero.
-A senhora disse que Fidel trouxe muita mercadoria? E da
barata?
— Sim, don Rafo. Não vale a pena que o senhor abra suas petaquitas.
Todo muito já comprou. Por que não me trouxe os cadernos de
modas quando mais os necessito? Tenho que leva roupa de primeira.
— Por aí lhe trouxe um.
— Que Deus lhe pague!
A velha Sebastiana, enrugada como um figo seco, de cabeça cinzenta
e braços trêmulos, estendeu-nos, uma a uma, canecas de café amargo,
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que nem Alícia nem eu pudemos tomar e que don Rafo saboreava vertendo-o
no pires. A menina Griselda apressou-se em trazer um mel escuro,
que tirava de um garrafão para que adoçássemos a bebida.
— Muito obrigado, senhora.
— E essa boa moça é sua mulher? O senhor é o genro de don Rafo?
— É como se o fosse.
— E os senhores também são tolimas**.
— Eu sou desse departamento; Alícia, bogotana.
— Parece que o senhor está indo para algumjoropo, do jeito que tá
cachaça! Que terno bonito e que botinas mais boas! Foi a senhora quem
cortou esse vestido?
— Não, senhora, mas entendo algo de modista. Estive três anos no
colégio assistindo aula.
— Ensina-me? Não é verdade que a senhora me ensina? Foi pra isso
que comprei a máquina. E olhem só o luxo de tecidos que tenho aqui.
Barrera me presenteou no dia em que veio ver-nos. Deu também para
Tiana. Onde tá a sua?
— Pendurada na percha. Agorinha a trago.
E saiu.
A menina Griselda, entusiasmada porque Alícia se oferecia para ser
sua professora de corte, tirou as chaves da cintura e, abrindo o baú, mostrou-
nos uns tecidos de cores vivas.
— Essas são étamines comuns.
- Puros cortes de seda, don Rafo. Barrera é rasgadíssimo. E olhem
as vistas dos fabricos no Vichada, para onde quer levar-nos. Digam imparcialmente
se esses edifícios não são uma preciosidade e se essas
fotografias não são primorosas. Barrera espalhou-as por todas as partes.
Olhem quantas tenho coladas no baú.
Eram uns postais em cores. Neles viam-se, às margens montanhosas
de um rio, casas de dois andares, em cujas varandas as pessoas se agrupavam. Lanchas a vapor fumegavam no pertinho.
— Aqui vivem mais de mil homens e todos ganham uma libra,
diária. Lá vou montar uma pensão para a peãozada. Imagine quanta grana
vou colher só com o amasilho! E o que Fidel ganha?... Olhem, esses
montes são os seringais. Bem diz Barrera que outra oportunidade como
essa não se apresentará.
— O que sinto é tá tão descascada; senão, ia também atrás do meu
zambo — disse a velha, acocorando-se de novo no gonzo.
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- Aqui tá o tecido - acrescentou desdobrando uma azaraza
vermelha.
— Com esse traje você vai parecer um tição aceso.
— Branco — replicou-me: — pior é não parecer nada.
- Anda — ordenou a menina Griselda — vai buscar para don Rafo
uns topochos maduros para os cavalos. Mas primeiro diga ao Miguel que
pare de estar jogado no chinchorro, porque isso não lhe tira as febres: que
tire a água da curiara e tenha cuidado com o anzol, que veja se os caribes
engoliram a camada. Pois que algum bagrecito tenha afilado. E dá-nos
algo de comê, que esses brancos chegam de longe. Venha para cá, menina
Alícia, e afroxe-se a roupa. Neste quarto ficaremos as duas.
E parando-se diante de mim, acrescentou com picaresco descaramento:
— Levo-a para mim! Os senhores já separaram cama?
Verdadeira lástima senti por don Rafael diante do fracasso de seu
negócio. Tinha razão a menina Griselda: todos já se haviam provido de
mercadorias.
No entanto, dois dias depois de nossa chegada, uns homens secos
e pálidos vieram do fato, cujas montadas úmidas dissimulavam seu mal
aspecto com o bayetón que os ginetes deixavam pendurado sobre os joelhos.
Do outro lado do monte, pediram aos gritos a curiara e, achando
que não haviam sido ouvidos, fizeram disparos de Winchester. Visto a demora,
sem desmontar, lançaram suas cavalgaduras ao caño e o cruzaram
trazendo as roupas amarradas na cabeça.
Chegaram. Vestiam calções de tecido, camisa solta chamada lique e
largos sombreiros de felpa castanha. Seus pés desnudos oprimiam com o
dedo gordo o aro dos estribos.
— Bom dia... — irromperam com voz melancólica entre os latidos
dos cachorros.
— Oxalá que nos tivessem matado por tá de engraçadinhos — exclamou
a menina Griselda.
— Era pra curiara...
— Que curiara! Este não é passo de rio.
— Viemos ver a mercadoria...
— Venham, mas deixem seus rangos do lado de fora.
Os homens apearam e, com as correias de cerda torcida que serviam
de rédeas, amarraram os trotões sob o semán da entrada e avançaram com
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os bayetones no ombro. Acocoraram-se indolentes em volta do couro em
que don Rafo havia estendido a chucheria.
— Olhem as diagonais extras; aqui estão uns facões garantidos;
prestem atenção nessa faixa de couro, com coldre para o revólver, tudo
de primeira classe.
— Trouxe quinino?
— Do bom, e pílulas para as febres.
— Quanto está o fio?
— Dez centavos a madeixa.
— Não deixa por cinco?
— Leve-a por nove.
Foram mexendo em tudo, examinando, comparando, quase sem falar.
Para saber se um tecido perdia a cor, molhavam os dedos de saliva e o
esfregavam. Don Rafael, com a vara de medir, mostrava-lhes tudo, esgotando
os elogios para cada coisa. Não gostaram de nada.
— Me deixa essa navalha por vinte reais?
— Leve-a.
— Dou-lhe pelos botões o que lhe disse?
— Tome-os.
— Mas sobreponha a agulha para prendê-los.
— Pegue-a.
Assim compraram bagatelas por dois ou três pesos. O homem da carabina,
desfazendo o nó da ponta do lenço, estendeu uma morrocota:
— Pague de tudo, é de vinte dólares.
E a fez ressoar contra o aço da arma.
— Vamos ver as trocas.
— Por que não compram o restinho?
— Com esses preços não se alcança nem com a carabina. Vá o
senhor até o fato para ver que coisas mais baratas.
— Então, adeus!
E montaram.
— Olá, sócio — gritou regressando o de pior figura — Barrera nos
mandou para tirar-lhe a mercadoria, e é melhor que você se arranque com
ela. Fica notificado: longe com ela! Se não a tiramos agora é pelo pouquinho
e cara!
— E tomá-la por quê? — indagou don Rafo.
— Pela competição!
— Você acha, infeliz, que esse ancião está só? — irrompi empunhando
um punhal, entre os espantos das mulheres.
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- Olha — replicou o homem. — Em cima de mim, meu sombreiro.
Por grande que seja a terra, fica sob meus pés. Não tou me metendo com
você. Mas se quiser, também tem para você.
Metendo a espora no potro, jogou-me na cara os objetos comprados
e galopou com seus companheiros ao longo da planície.
Essa noite, perto das dez, chegou Fidel Franco à casa. Ainda que a
embarcação deslizasse sem ruído sobre a água profunda, osgozques*
sentiram-na e. no mesmo instante, propagou-se o alarme.
— É Fidel, é Fidel — dizia a menina Griselda, tropeçando em
nossos chinchorros. E saiu ao pátio em camisola, envolta desde a cabeça
em um mantão escuro, seguida por don Rafael.
Alícia, assustada na penumbra, começou a chamar-me do seu
quarto:
— Arturo, você percebeu? Chegou alguém!
— Sim, não se canse, não venha! É o dono da casa.
Quando saí ao ar livre de casaco e sombreiro, um grupo ia sob os
bananais com um archote aceso. A corrente da curiara soou ao atracar e
dois homens armados desembarcaram.
— Que houve por aqui — disse um, abraçando secamente a menina
Griselda.
— Nada, nada! por que aparecer a tal hora?
— Que hóspedes chegaram?
— Don Rafael e dois companheiros, homem e mulhé.
Franco e don Rafo, depois de um apertão amistoso, regressaram
com os do grupo em direção à cozinha.
— Vim alarmadíssimo porque esta noite, ao chegar ao fato com a
manada, soube que Barrera havia mandado uma comissão. Não queriam
emprestar-me cavalo, mas logo que começou juerga, trouxe a curiara de
lá. Por que vieram esses foragidos?
— Para tirar-me o chucho — replicou humildemente don Rafo.
— E que aconteceu, Griselda?
— Nada! Se mais, houve rixa porque o guatecito encarou-os de
cachiblanco na mão. Um horror! Nos fez chiar.
— Venha para dentro — agregou de repente a patroa, lívida, trémula
* Gozque: cachorro pequeno muito ladrador.
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— e, enquanto lhes dão tragos de café, iça teu chinchorro no corredor,
porque tou no quarto com a dona.
— De modo nenhum: Alícia e eu nos alojaremos na enramada —
disse avançando até a pequena roda de pessoas.
-O senhor não manda aqui — replicou a menina Griselda esforçando-
se por sorrir. — Venha, conheça esse lhaneiro que é o meu.
— Servidor do senhor — repliquei devolvendo o abraço.
— Conte comigo! Basta que o senhor seja companheiro de don
Rafael.
- E se você visse com que pedaço de mulhé ele se emparelhou!
Vermelhinha como um maranhão! E as mãos que tem para cortá a seda!
E os bons modos pra ensiná.
— Pois mandem em seus novos criados — repetia Franco.
Era delgado e pálido, de estatura mediana e talvez maior que eu. O
sobrenome enquadrava-se ao caráter e sua fisionomia e suas palavras eram
menos eloqüentes que seu coração. As facções proporcionadas, o acento
e o modo de dar a mão advertiam que era um homem de boa origem, não
saído dos pampas, senão que vindo para eles.
— O senhor é oriundo de Antioquía?
— Sim, senhor. Fiz alguns estudos em Bogotá, depois ingressei no
exército, destinaram-me a guarnição de Arauca e dali desertei por desgosto
com meu capitão. Desde então, vim com Griselda para esquentar esse rancho
que não deixarei por nada na vida. —E sublinhou: — por nada na
vida!
A menina Griselda, com um trejeito amargo, permanecia muda.
Como percebeu que estava com traje de alcova, se foi com o pretexto de
vestir-se, levando a luz de uma vela dentro da mão formando um oco.
E não voltou mais.
Enquanto isso, a velha Tiana fazia chama no fogão de três pernas,
sobre as quais pendia um arame para pendurar a caldeira ou a marma.
Sentamo-nos em círculo, ao tíbio pestanejar do lume, sobre raízes de
guadua ou sobre esqueletos de jacarés, que serviam de banquetas. O mocetão
que chegou com Franco, me olhava com simpatia, sustentando
entre os joelhos desnudos uma escopeta de dois canos. Como suas roupas
estavam úmidas, desarregaçou o calção e o arejava sobre as batatas da
perna de músculos nodosos. Chamava-se Antônio Corrêa e era filho de
Sebastiana, tão quadrado de costas e tão troncudo de peito, que parecia
um ídolo indígena.
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- Mamãe — disse coçando a cabeça: — qual foi o intrometido que
levou até o fato o mexerico da mercadoria?
- Isso não tem nada de mal:avisando, se vende.
- Sim, mas que foi fazê lá na tarde que chegaram esses brancos?
- E eu lá sei! Talvez o mandou a menina Griselda.
Dessa vez foi Franco quem fez uma careta. Depois de curto silêncio,
indagou:
- Mulata, quantas vezes veio Barrera?
- Não prestei atenção. Eu vivo ocupada aqui em minha cozinha.
Saboreado o café e contado por don Rafo algum incidente da nossa
viagem, Franco voltou a perguntar, obedecendo à sua obstinada
preocupação:
— E o Miguel e o Jesus, que foi que estiveram fazendo? Procuraram
os marranos na savana? Consertaram o tranqueiro dos currais? Quantas
vacas ordenharam?
— Só duas de bezerro grande. As outras a menina Griselda mandou
que soltassem porque já começava a haver praga e os pernilongos matam
as crias.
— E onde estão esses preguiçosos?
— Miguel, com febre. Não quis fazê o remédio: são cinco folhinhas
de borraja* , mas arranque-as para cima, porque para baixo produzem
vômitos. Tenho o cozimento aí, mas ele não o traga. E isso que tá viajado
para os seringais. Passa o tempo jogando cartas com o Jesus, e esse sim é
que tá perdido por ir-se.
— Pois que se mandem desde já, na curiara do fato, e que não voltem
mais. Não tolero em minha pousada nem fofoquekos nem espiões.
Mulata, chegue-se ao caney e diga-lhes que as desocupem: que nem me
devem, nem lhes devo!
Quando Sebastiana saiu, perguntei a don Rafael pela situação do
fato** era verdade que tudo estava no maior abandono?
— Nem sombra do que você conheceu. Barrera transtornou tudo.
Não se pode viver lá. Melhor que lhe acendessem candeia.
Depois afirmou que os trabalhos haviam sido suspensos porque os
vaqueiros se embebedavam e se dividiam em grupos para bater-se em determinados
lugares da planície, onde, às escondidas, os áulicos de Barrera
lhes vendiam licor. Umas vezes deixavam que matassem os cavalos,
* Borraja: planta de flores azuis, usada na medicina como sudorífero.
* * fato: sítio, pequena fazenda.
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entregando-os estupidamente aos touros; noutras, deixavam-se apanhar pela
soga, ou ao colear, sofriam golpes mortais; muitos voltavam para
juerguear com Clarita; esses degradavam as classes apostando corridas, e
ninguém corrigia a desordem nem normalizava a situação, porque perante
o chamariz da próxima viagem aos seringais ninguém pensava em trabalhar
quando estava em vésperas de ser rico. Dessa maneira, já não havia
cavalos mansos senão os potros, nem havia vaqueiros senão festeiros; e o
velho Zubieta, o dono do fato, bébedo e doente de gota, ignorante do
que acontecia, esparrachava-se no chinchorro e deixava que Barrera lhe
ganhasse dinheiro nos dados, que Clarita lhe desse aguardente com a
boca, que a peãozada do recrutador sacrificasse até cinco reses por dia,
desprezando ao desossá-las as que não parecessem gordas,
E para cúmulo, os índios guahibos das costas do Guanapalo, que
flechavam reses por centenas, assaltaram a fundação do Hatico, levando
as mulheres e matando os homens. Graças ao rio o incêndio se deteve,
mas até não sei que noite, se via o longínquo resplendor da fogueira.
— E que o senhor pensa fazer com sua fundação! — perguntei
— Defendê-la! Com dez ginetes de vergonha na cara, bem encarabinados,
não deixaremos índio com vida.
Nesse instante Sebastiana voltou:
— Já se foram.
— Mamãe, cuidado para que não levem meu tiple.
— Pois se não há nenhuma razão que mande.
— Se: o velho Zubieta que não me espere. Que lhe continuo dirigindo
a vacaria quando me dê melhores lhaneiros.
Saímos ao pátio atrás da mulata. A noite estava escura e começava
a chuviscar. Franco nos seguiu à sala e se estendeu na barbacoa. Afora
os que se marchavam, cantaram em duo:
"Coração, não seja cavalo:
aprenda a ter vergonha;
de quem gostar de você, goste,
de quem não, não lhe faças força".
E a pá do remo na onda e o repentino ricochetear da chuva apagaram
o eco da toada.
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Passei má noite. Quando amiudava o canto dos galos, consegui ficar
dormido. Sonhei que Alícia ia só, por uma sabana lúgubre, em direção
a um lugar sinistro, onde a esperava um homem que podia ser Barrera.
Eu ia espiando-a, oculto nos restolhais, com a escopeta do mulato preparada;
mas cada vez que tentava estendê-la contra o sedutor, convertia-se
em minhas mãos em uma serpente gelada e rígida. Da cerca dos currais,
don Rafo agitava o sombreiro exclamando: Venha! Isso aí já não tem
remédio!
Depois via a menina Griselda, vestida de ouro, em um país estranho,
empoleirada em um penhasco em cuja base fluía um filamento brancucho
de borracha. Ao longo dele, inumeráveis pessoas bebiam, jogadas
de bruço. Franco, erguido sobre um promontório de carabinas, admoestava
os sedentos com este estribilho: "Infelizes, por trás destas selvas
está o 'mais além'!" E ao pé de cada árvore ia morrendo um homem,
enquanto eu ia recolhendo os esqueletos para exportá-los em lanchas
através de um rio silencioso e escuro.
Voltava a ver Alícia, desgrenhada e desnuda, fugindo de mim por
entre as malezas de um bosque noturno, iluminado por pirilampos
colossais. Eu levava na mão um archote curto e, pendurado no cinto, um
recipiente de metal. Detive-me diante de uma araucária de corimbos
roxos, parecida com a árvore da borracha, e comecei a picar-lhe o
córtex para que escorresse a goma. "Por que me dessangras?", suspirou
uma voz desfalecendo. "Eu sou a tua Alícia e me converti em uma
parasita."
Suado e agitado, acordei mais ou menos às nove da manhã. O céu,
depois da chuva anterior, resplandecia lavado e azul. Uma brisa discreta
suavizava os grandes calores.
— Branco, aqui tá o café da manhã — murmurou a mulata. —
Don Rafo e os homens montaram, tão tomando banho.
Enquanto eu tomava o café da manhã, sentou-se no chão e começou a
ajustar com os dentes a correntinha de uma medalha que levava ao pescoço.
"Resolvi colocar-me essa prenda porque tá bendita e é milagrosa.
Pra ver se Antônio se anima a levar-me. Por se me deixa desamparada,
lhe dei no café o coração de um passarinho chamado 'piapoco'. Pode
ir-se muito longe e corre terras; mas onde escutar canta outro pássaro
semelhante, ficará triste e terá que voltar, porque a quina tá em que vem
o pesadume pra botar de presente a pátria e o rancho e o querer esquecido,
e atrás dos suspiros, o suspirador tem que encaminhar-se ou morre
de desgosto. A medalha também ajuda se se pendura em quem vai."
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— E Antônio pretende ir-se ao Vichada?
— Quem sabe. Franco não quer desarraigar-se, mas a mulhé tá
viajada. Antônio faz o que o homem diga.
— E ontem à noite, por que os rapazes se foram?
— O homem não os agüentou mais. Tá malicioso. O Jesus foi ao fato
na tardinha que vocês chegaram, não para chamar Barrera mas sim para
dizer-lhe que não se aproximasse porque não se podia. Isso foi tudo.
Mas o homem é esperto e os despachou.
— Barrera vem freqüentemente?
— Eu não sei. Se por acaso fala com Griselda é no caño, porque
ela, com achaque do anzolzinho, anda meio devagar com a cariara.
Barrera é melhor que o homem; Barrera é uma oportunidade. Mas o
homem é "atravessado" e a mulhé tem medo dele desde o acontecido
em Arauca. Cochicharam para ele que o capitão estava atrás dela e o
madrugou: teve com duas punhaladas!
Nesse momento, interrompeu-nos o bate-papo, avançavam em animado
trio, Alícia, a menina Griselda e um homem elegante, de botas altas,
vestido de branco e chapéu de feltro cinzento.
— Aí tá don Barrera. Não o queria conhecer?
— Cavalheiro — exclamou inclinando-se: — dupla sorte é a minha
que, impensadamente, me põe aos pés de um marido tão digno de sua
linda esposa.
E sem esperar outra razão, beijou em minha presença a mão de
Alícia. Depois apertando a minha, acrescentou bajulador: "Louvado seja
a mão direita que esculpiu tão belas estrofes. Prazer para meu espírito
foram no Brasil, e me produziam nostalgia suspirante, porque é privilégio
dos poetas acorrentar os filhos dispersos ao coração da pátria e
criar-lhe súditos em terras estranhas. Fui exigente com a sorte, mas nunca
aspirei a honra de declarar-lhe ao senhor, pessoalmente, minha sincera
admiração".
Ainda que estivesse prevenido contra esse homem, confesso que
fui sensível à adulação, e que suas palavras moderaram o desgosto que me
produziu sua corte à minha garbosa concubina.
Pediu-nos perdão por entrar na sala com botas de campo, e depois
de averiguar sobre a saúde do dono da casa, suplicou-me que aceitasse
um copo de whisky. Eu já havia percebido que a menina Griselda trazia
a garrafa na mão.
Quando Sebastiana colocou sobre a barbacoa as canecas e o homem
32
inclinou-se para transbordá-las, observei que este levava revólver no cinto
niquelado e que a garrafa não estava cheia.
Alícia, olhando-me, resistia em tomar.
— Outro copinho, senhora. Já se convenceu de que é licor suave.
— O quê? — disse carrancudo. — Você também bebeu?
— O senhor Barrera insistiu tanto... E me deu de presente esse
frasco de perfume — cochichou, tirando-o da cestinha onde o tinha
oculto.
- Um obséquio insignificante. O senhor perdoe, trazia-o especialmente...
— Mas não para minha mulher. Talvez para a menina Griselda.
Por acaso os três já se conheciam?
— Absolutamente, senhor Cova: a sorte me tem sido adversa.
Alícia e a menina Griselda ruborizaram-se.
— Soube — explicou o homem — que os senhores estavam aqui
por notícias de uns rapazes que chegaram ao fato pela noite. Imenso
pesar me causou a novidade de que seis ginetes, ladrões sem dúvida,
tinham pretendido expropriar em meu nome uma mercadoria, e nem bem
amanheceu, me encaminhei para apresentar meus respeitosos protestos
contra o atentado inqualificável. E esse whisky e esse perfume, oferendas
humildes de quem não tem mais que oferecer, fora seu coração, estavam
destinados a corroborar a fervente adesão que professo aos donos da casa.
— Escutou, Alícia? Dê esse frasco à menina Griselda.
— E desde já os senhores também não são donos deste rancho? —
acrescentou a patroa com voz ressentida.
— Considero-os como tais, porque onde quer que cheguem, são,
por direito de simpatia, amos de quantos os rodeiem.
Apesar de meu semblante agressivo, o homem não se desconcertou;
mas deu ao discurso uma girada diversa: aconteciam tantas coisas em
Casanare, que dava desgosto pensar no que essa privilegiada terra chegaria
a converter-se, berço forte da hospitalidade, da honradez e do trabalho.
Mas com os asilados da Venezuela, que a infestavam como lagosta daninha,
não podia viver. O quanto ele havia sofrido com os voluntários que
lhe pediam enganchamento! Eram tantos os que se apresentavam a ele,
explorando a condição de desterrados políticos, e eram delinqüentes
vulgares, fugitivos das penitenciárias! Mas era perigoso rechaçá-los de uma
vez, prevendo-se algum desmando. Indubitavelmente, a essa classe pertenciam
os que pretenderam esvaziar as valises de don Rafael. A empresa
do Vichada jamais poderia indenizá-lo por tantos desgostos! Era verdade,
33
e seria ingratidão não reconhecê-lo e proclamá-lo que lhe havia feito
honrosas distinções. Primeiro o enviou ao Brasil, residência dos principais
acionistas, com um grande carregamento de borracha e eles lhe suplicaram
que aceitasse a gerência da exploração; mas recusou-se por carecer
de aptidões. Ah! Se então tivesse adivinhado que eu ficaria habitando
o deserto! Se eu pudesse indicar-lhe um candidato, com que orgulho
proporia seu nome; e se esse candidato quisesse ir-se com ele, com a segurança
de que seria nomeado...
— Senhor Barrera — interrompi. —Jamaistive conhecimento que no
Vichada houvesse empresas com a magnitude da sua.
— Minha, não; minha, não! Sou um modesto funcionário a quem
só pagam duas mil libras anuais, fora os gastos.
Com audácia, fixou em mim os olhos subornadores, passou no rosto
um lenço de seda, acariciou o nó da gravata e se despediu, encarecendo-
nos uma e outra vez que saudássemos aos cavalheiros ausentes e lhes
transmitíssemos seu protesto contra o abuso dos salteadores. No entanto,
ele pensava voltar outro dia para apresentá-lo pessoalmente.
A menina Griselda o acompanhou até o caño e ali se deteve mais
tempo do que requer uma despedida.
— De onde saiu esse sujeito? — disse em tom brusco, encarando
Alícia, assim que ficamos sós.
— Chegou de cavalo por aquela costa e a menina Griselda o passou
na curiara.
— Você o conhecia?
- Não.
— Acha interessante?
- Não.
— Resolveu aceitar o perfume?
- Não.
— Muito bem! Muito bem!
E roubando-lhe o frasco do bolso do avental atirei-o com fúria no
pátio, quase aos pés da menina Griselda que regressava.
Alícia, entre humilhada e surpreendida, abriu a máquina e começou
a coser. Houve momentos em que só se ouvia o ruído dos pedais e
a falação do louro no poleiro.
A menina Griselda, compreendendo que não devia abandonar-nos,
disse, sorridente e astuta:
— Esses caprichos desse Barrera sim que me fazem graça.
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Agora se encaixou a idéia de conseguir umas esmeraldas e botou o olho nas
das minhas candangos. Me as roubaria das orelhas.
— Que não seja que as leve com sua cabeça — repliquei, realçando
a sátira com uma gargalhada eficaz.
E fui aos currais sem escutar as desculpas alarmadas.
— Bem faz em não discutir comigo, porque a levo ganha.
Trepado na talanquera, dava desafogo à minha acrimônia, aos raios
do sol, quando vi flutuar ao longe, por cima dos moriches, uma nuvem
de pó, ondulante e espessa. Aos poucos, pelo lado oposto, divisei a silhueta
de um ginete que, desasado, cruzava a saltos as ondas cobertas de palha
da planície, girando as rédeas e remexendo-se veloz. Um grande tropel
fazia o pampa vibrar, e outros vaqueiros atravessaram o banco antes que
a aguada aparecesse à minha vista, de cujo grupo desbancava-se às vezes
alguma potranca indômita, louca de juventude, quebrando-se em corcovos
brincalhões. Ouvia já claramente os gritos dos ginetes que ordenavam
abrir o tranquero, e só tive tempo de obedecer-lhes, quando o atajo,
nervoso, bravio, bufante, precipitou-se no curral.
Franco, don Rafael e o mulato Corrêa apearam de seus trotões
arquejantes que, suando espuma, esfregavam contra a cerca as cabeças
estremecidas.
— Egoístas, por que não me convidaram?
— Quem primeiro madruga, comunga duas vezes. Já o veremos
casar em outra ocasião.
Enquanto firmavam as portas dos redutos, amarrando-lhes grossos
travessões, as mulheres acudiam para contemplar por entre os claros
do pau a pique a eguada pujante que se remexia em círculo, desejosa por
atropelar o encerramento. Alícia que trazia na mão seu tecido de trabalho,
chiava de entusiasmo ao ver a confusão de ancas reluzentes, crinas
tufanadas, cascos sonoros. Aquele para mim! Este é o mais lindo!
Olhem o outro como escoiceia! E das ilhargas convulsas do potro pisoteado
e dos relinchos rebeldes ascendia um hálito de alegria, de força e
brutalidade!
Corrêa estava feliz.
— Agarramos o ressabiado! É aquele garanhão negro, crinudo,
de patas brancas! Chegou seu dia e mais vale que não tivesse nascido!
Não vi zambro que não lhe tivesse medo, mas já dirão os senhores, derruba-
se o filho de minha mamãe!
— Mulato condenado, o que você vai fazer? — grunhiu a velha. —
Pensa que esse cavalo o pariu?
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Estimulado por nossa presença, disse a Alícia:
— Vou dedicar-lhe a faina. Assim que almocem, monto.
E como sentisse o cheiro da essência derramada no pátio, dilatou
as abas do nariz, repetindo.
— Ah...! Cheira a mulé, cheira a mulé!
Não quis almoçar. Meteu na boca um punhado de banana frita,
desfiapou um pedaço de carne e molhou a língua com café de monte.
Enquanto isso, em meio aos resmungos de Sebastiana, arreios ao ombro,
saiu para esperar-nos no curral.
Também fomos parcos em comer, pela exaltação de ânimo, agravada
com a novidade do espetáculo próximo. Alícia, em breve oração
mental, encomendava o mulato a Deus.
— Homens! — gemia Sebastiana — não vão deixar que essa besta
me mate o motoso.
Tiramos as rédeas, de couro peludo, e umas rédeas chamadas
"soltas", de meio metro de longitude, em cujos extremos se abotoavam
grossos anéis de fios trançados de piteira.
Como o potro esquivava os laços, agachando-se em meio ao tumulto,
Franco ordenou que se dividisse a eguada, para o qual se abriu o tranquem
da curraleira contígua. Quando o cavalo ficou só, arriscou a mão
contra a cerca, a tempo de o mulato o "agasalhar" com a soga. Grandes
saltos deu o animal, agachando a nuca maculada em volta da forquilha do
botalón, onde fumegava a corda vibrante; e no extremo dela se pendurou
colérico, enforcando-se em soluço angustiante, até cair na terra,
desfalecido, esperneador.
Franco sentou-se na ilharga e, agarrando-o pelas orelhas, dobrou-lhe
sobre o dorso o galhardo pescoço, enquanto o mulato colocava-lhe a cabeçada
depois de ajustar-lhe as rédeas soltas e de amarrar-lhe um ferrão
no rabo. Submetiam-no dessa maneira, e em vez de colocar-lhe o cabresto
pela cabeça, puxavam-no pelo rabo, até que o infeliz, debatendo-se
contra o solo, ficou fora dos currais. Ali o vendamos com a testeira e,
pela primeira vez, os arreios oprimiram-lhe os lombos indômitos.
Em meio à vociferante lide, soltaram as éguas, que se apossaram
da planície; e o semental, colocado de frente à planície, tremia receoso,
enfurecido.
No tempo de guarnecer-lhe as rédeas, o ginete exclamou:
— Mamãe, vai ver o escapulário!
Franco e don Rafael requisitaram as cavalgaduras, mas o domador
impediu que lhe sujeitassem o potro:
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— Fiquem atrás, e se quiser virar-se, metam-lhe o aguilhão para evitar
que me pegue debaixo.
Depois, em meio aos gritos de Sebastiana, suspendeu no pescoço
a relíquia, benzeu-se, e com gesto rápido destapou o animal.
Nem a mula selvagem que gesticula espantada se o tigre monta-lhe
na nuca; nem o touro selvagem que ruge percorrendo o circo assim que
lhe cravam as bandarilhas; nem o manati que sente o arpão, gastam violência
igual a daquele potro quando recebeu a primeira chicotada. Sacudiu-
se, com um berreiro colérico, coiceando a terra e o ar em desaforada carreira,
diante de nossos olhos espavoridos, enquanto que os emparelhadores
o perseguiam sacudindo as ruanas. Descreveu grandes pistas com saltos
tremendos, e tal como poderia corcovear um centauro, subia no vento,
presa à sela, a figura do homem, como turbilhão do restolhal, até que
só se olhou ao longe a nota branca da camisa.
Regressaram ao cair a tarde. As palmeiras os saudavam com tremulantes
cabeceios.
O potro chegou alquebrado, suado, moído, surdo a chicote e a
espora. Tiraram-lhe a sela já sem tapar-lhe, apearam-no a golpes e ficou
imóvel e só à borda do lhano.
Jubilosos, abraçamos Corrêa.
— Que acham do meu patojo? — repetia Sebastiana orgulhosa.
— A ele se deve tudo — assinalou Franco. — Teve a idéia de oferecer-
lhes a melhor festa de Casanare. Por casualidade, fechamos as éguas
do fato e pegamos esse potro, que é meu é de vocês. Já viram o que
aconteceu.
Quando a noite veio, aquele rei do pampa, humilhado e maltratado,
despediu-se de seus domínios, sob a lua cheia, com um relincho desolado.
Confesso, arrependido, que naquela semana cometi um desatino.
Dei em namorar a menina Griselda com um êxito escandaloso.
Nos dias em que Alícia teve febres, dispensei-lhe as mais delicadas
atenções; mas agora, consultando minha consciência, compreendo que
o regozijo de embaralhar-me com a patroa nos cuidados da enfermaria
me importava tanto quanto a doente.
A menina Griselda passou uma vez perto de meu chinchorro e
com a mão insinuante a peguei no quadril. Fechando o punho, fez menção
de esbofetear-me, olhou em direção ao lugar onde Alícia dormia e
me sacudiu com umas cócegas:
37
— Pouca pena, já sabia que você era alebrestado.
Ao inclinar-se sobre meu peito, seus brincos, bamboleantes para a
frente, golperam-lhe os pômulos.
— São estas as esmeraldas que Barrera ambiciona?
— Sim, mas deixo-as para você.
— Como poderia tirá-las?
— Assim — disse, mordendo-me bruscamente a orelha. E, afogada
em risadas, deixou-me só. Depois, com o dedo na boca, voltou para suplicar-
me: — Que meu homem não vá saber. Nem sua mulé!
Contudo, a lealdade me dominou o sangue, e com fidalgo desdém
pus em fuga a tentação. Eu, que vinha de regresso de todas as voluptuosidades,
ia injuriar a honra de um amigo, seduzindo sua esposa, que para
mim não era mais que uma fêmea, e uma fêmea vulgar? Mas no fundo de
minha determinação corria uma idéia mentora: Alícia já me tratava, não
só com indiferença, senão que com um desdém mal dissimulado. Desde
então, comecei a apaixonar-me por ela e a idealizá-la.
Achei ter sido míope diante da distinção de minha companheira.
Na verdade não era linda, mas por onde passa, os homens sorriem. Sentia
prazer sobretudo por outro encanto, o de seu olhar tristonho, quase
depreciativo, porque a desgraça havia contagiado seu espírito de uma
reserva dolorosa. Em seus lábios discretos aquietava-se a voz com uma
pitada de arrulho, com uma acentuação eloqüente, enquanto suas grandes
pestanas tendiam-se sobre os olhos de amêndoas escuras, com um pestanejar
confirmador. O sol tinha dado à sua pele um matiz levemente moreno
e, ainda que fosse carnuda, me parecia mais alta e os círculos de
suas bochechas mais pálidos.
Quando a conheci me deu a impressão de menina apaixonada e
ligeira. Depois levava a auréola de seu pesadume digna e sombriamente,
pela certeza da futura maternidade. Um dia provoquei a suprema revelação,
e quase com asco replicou-me:
- Não lhe dá vergonha?
Vestida com trajes claros, era mais fresca com o decote simples
e com o penteado negligente, em cujos cachos parecia adejar a cinta de
seda azul, com nó em forma de borboleta. Quando se sentava para coser,
estendia-me no chinchorro de frente, aparentando não reparar nela, mas
olhando-a às escondidas; e enchia-me de impaciência a frieza de seu trato,
a tal ponto que repetidas vezes interroguei-a colérico:
— Mas não estou falando com você?
Ávido por conhecer a causa de seu retraimento, cheguei a pensar
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que estivesse com ciúmes e tentei fazer leve alusão à menina Griselda,
com quem se mantinha em atrito constante e costumava chorar.
— Que lhe diz de mim a patroa?
— Que você é inferior a Barrera.
— Como assim? Em que sentido?
— Não sei.
Esta revelação salvou definitivamente a honra de Franco, porque
desde esse momento a menina Griselda pareceu-me detestável.
— Inferior porque não a persigo?
— Não sei.
— E se a perseguisse?
- Que seu coração responda.
- Alícia, você viu algo?
— Que ingênuo que você é! Todas se apaixonam por você?
Provocou-me nesse instante, ferido em meu orgulho, a desnudar-me
os braços e gritar-lhe várias vezes: imbecil, pergunta quem foi que me deu
essas mordidas!
Don Rafo apareceu no umbral.
Vinha do fato, aonde foi nessa manhã para oferecer os cavalos.
Franco e a menina Griselda, que o acompanharam, regressariam pela tarde.
Ele veio logo, aproveitando a curiara, para consultar um negócio comigo
e requerer meu consentimento. O velho Zubieta dava fiado mil ou mais
touros, a preço baixo, com a condição de que os pegáramos, mas exigia
seguranças e Franco arriscava sua fundação com esse fim. Era a oportunidade
de associar-nos: o lucro seria avultado.
Jubiloso, disse a don Rafo: farei o que vocês queiram! E acrescentei
estreitando Alícia em meus braços: esse dinheiro será para ti!
— Eu darei meus cavalos como contribuição e voarei a Arauca
para exigir o cancelamento de algumas dívidas. Poderei reunir até mil
pesos e com essa soma se farão, em parte, os gastos de saca. Ademais,
empenhada a fundação, o velho fechará o negócio com Franco, de cujos
serviços sempre necessita, e mais agora que o gado está parado por desordem
dos vaqueiros.
— Tenho ainda trinta libras nos bolsos. Aqui estão, aqui estão!
Só ficarei com algo para certos gastos de Alícia e para pagar nossa permanência
nesta casa.
— Muito bem! Marcharei dentro de dois dias, e aqui me terão a
meados do mês entrante, antes das grandes chuvas, porque o inverno
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já se aproxima. A fins de junho chegaremos a Villavicencio com o gado.
Depois, a Bogotá! A Bogotá!
Quando Alícia e don Rafael saíram ao pátio, minha fantasia
abriu as asas:
Vi-me de novo entre meus condiscípulos, contando-lhes minhas
aventuras de Casanare, exagerando-lhes minha repentina riqueza, vendo-
os felicitar-me, entre surpresos e invejosos. Convidaria-os para comer
em minha casa, porque já para então teria uma própria, com jardim
perto de meu quarto de estudo. Ali os congregaria para ler-lhes meus últimos
versos. Com freqüência, Alícia nos deixaria a sós, urgida pelo pranto
do pequenino, chamado Rafael, em memória a nosso companheiro
de viagem.
Minha família, realizando um antigo projeto, radicar-se-ia em Bogotá;
e ainda que a severidade de meus pais os induzisse a rechaçar-me,
lhes mandaria a babá com o pequeno nos dias de festa. A princípio se
negariam em recebê-lo, mas depois, minhas irmãs, curiosas, erguendo-o
nos braços, exclamariam: "É o próprio retrato de Arturo!" E minha mãe,
banhada em pranto, o mimaria satisfeita, chamando meu pai para que o
conhecesse; mas o ancião, inexorável, se retiraria para seus aposentos,
trêmulo de emoção.
Pouco a pouco, meus bons êxitos literários iriam conquistando
o indulto. Segundo minha mãe, deviam ter pena de mim. Depois da
minha formatura na Universidade, tudo se esqueceria. Até minhas amigas,
intrigadas por minha conduta, disfarçariam meu passado com esta
frase: Essas coisas de Arturo...!
— Vem cá você, sonhador — exclamou don Rafo — para saborear
o último conhaque dos meus alforjes. Brindemos os três pela sorte e o
amor.
Enganados! Devíamos brindar pela dor e a morte!
O pensamento da riqueza, converteu-se nesses dias em minha dominante
obsessão e chegou a sugestionar-me com tal poder que já me
achava ricaço luxuoso, chegado aos lhanos para dar impulso a atividade
financeira. Até na flexão de voz de Alícia encontrava a despreocupação
de quem conta com o futuro, sustentado pela abundância do presente.
Verdade que ela se encontrava enclausurada em seu mistério, mas eu me
agasalhava com esta segurança: são extravagâncias de mulher rica.
Quando Fidel avisou-me que o contrato havia melhorado, não tive
a menor surpresa. Pareceu-me que o administrador de meus bens estava
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entregando-me um informe sobre o modo acertado de como havia cumprido
minha vontade.
— Franco, isso vai sair de acordo com os desejos! E se o negócio
falhar, tenho muito com que responder!
Então Fidel, pela primeira vez, averiguou o objetivo de minha
viagem para os pampas. Lucidamente, diante da possibilidade de que
meu companheiro tivesse cometido alguma indiscrição, respondi:
- Você não falou com don Rafael? —E acrescentei depois da
negativa:
- Caprichos, caprichos! Deu na minha cabeça de conhecer Arauca,
descer o Orinoco e sair para a Europa. Mas Alícia está tão maltratada que
não sei que fazer. Além do que, o negócio não me soa mal. Faremos alguma
coisa.
— Pena me dá que essa pechugona da Griselda queira converter
sua senhora em modista.
— Despreocupe-se, Alícia encontra distração em praticar o que lhe
ensinaram no colégio. Em casa divide o tempo entre a pintura, o piano,
os bordados, os trabalhos de renda...
— Tire-me de uma dúvida: os cavalos de don Rafo, foi você quem
lhe deu?
— Já se sabe quanto o estimo! Roubaram-me o melhor, enselado,
e todo o equipamento.
— Sim don Rafo me contou... Mas ficam alguns bons.
— Regulares: os de nossa montura.
— O velho Zubieta vai gostar deles. — Que casualidade essa do negócio,
com um homem tão desconfiado! Talvez tenha feito o oferecimento
prevendo que Barrera "se meta". Nunca havia vendido colheita semelhante.
Respondia aos compradores: se já não tenho mais que vender!
Só me resta quatro bichinhos! E para estimulá-lo à venda, deviam depositar,
com pretexto de que guardasse, as libras destinadas ao tratamento,
na segurança de que o ouro ficaria ali. Uma vez, um soquero de Sogamoso
teve essa tática, homem corrido e negociante prevenido, que, para
ganhar a vontade do avô, ficou bêbedo com ele vários dias. Mas quando
foram separar a tourada, Zubieta estendeu seu bayetón fora dos currais
e desatou a mochila do cliente, advertindo-o: "Para cada tourinho que
saia, jogue-me aqui uma morrocotinha, porque eu não entendo de números".
Esgotado o depósito, o reinoso insinuou: "Me faltou dinheiro!
Fie-me os animalzinhos restantes!" Zubieta sorriu: "Camarada, não te
falta dinheiro, o que acontece é que me sobra gado!"
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E recolhendo o bayetón, regressou irredutível
Satisfeito com minha sorte, escutava a história
— Franco — disse-lhe, batendo em seu ombro. — Não se surpreenda
você de nada! O velho sabe o que faz. Terá ouvido meu nome...!
— Inconstante, inconstante, como você mudou!
— Olá! menina Griselda, que negócio é esse de tratar-me assim?
— Tá entoado pelo negócio? Pra morrocotas, o Vichada. Leve-me.
Quero ir-me contigo.
Jogou-se para abraçar-me, mas afastei-a com o cotovelo. Ela titubeou
surpreendida:
- Já sei, já sei! Tá com terronera de meu marido!
— Tenho aversão a você!
— Desagradecido! A menina Alícia não sabe nada. Só me recomendou
que não acreditasse em você.
— Que é que você está dizendo? Que diz você?
— Que o homem do lhano é o sincero; que ao serrano, nem a mão.
Pálido de cólera, entrei na sala.
— Alícia, não me agrada seu companheirismo com a menina Griselda.
Pode contagiá-la com sua vulgaridade. Não convém que você
continue dormindo em seu quarto.
— Quer que a deixe sozinha para você? Não respeitará nem ao
dono da casa?
— Escandalosa! Já estão voltando seus ciúmes ridículos?
Deixei-a chorando e me fui para o caney. A velha Tiana prendia
remendos na camisa do mulato que, semidesnudo com as mãos debaixo
da cabeça, esperava o trabalho estendido em um couro.
— Branco, refresque-se nesse chinchorro. Tá fazendo um calor
de água!
Em vão, pretendi conciliar o sono. Importunava-me o cacarejar
de uma galinha que esgaravatava no desvão, enquanto suas companheiras,
com os bicos abertos, arquejavam na sombra, indiferentes aos requebros
do galo que vinha arrastar-lhes a asa.
— Estas condenadas não deixam nem dormir!
- Mulata - disse-lhe: - qual é sua terra?
— Esta onde me acho.
— Você é colombiana de nascimento?
- Sou unicamente lhaneira, do lado de Manare. Dizem que sou
cravenha, mas eu não sou do Cravo; que sou pautenha, mas eu não sou do
Pauto.
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Eu sou de todas essas planícies! Para que mais pátria se são tão
belas e dilatadas! Bem diz o dito: onde tá seu Deus? Onde saia o sol!
— E quem é seu pai? — perguntei-lhe a Antônio.
- Minha mãe saberá.
— Filho, o importante é você ter nascido!
Com um sorriso doloroso, indaguei:
- Mulato, você vai para o Vichada?
— Tive cativado uns dias, mas o homem o soube e me empajó.
E como dizem que são montes e mais montes, onde não se pode andá
a cavalo, isso pra quê! Comigo acontece o mesmo que o gado: só quero
os restolhais e a liberdade.
- Os montes para os índios — acrescentou a velha.
- Ospelados também gostam da savana: que digam o dano que fazem.
Em que não se vê para enlaçar um touro! Necessita achar-se bem
montado e que o potro empurre. E eles o pegam de pé, numa corrida limpa,
e os desfraquecem um após o outro que dá gosto. Até quarenta reses
por dia, e devoram uma, e as demais para os zamuros e os caricaris. E
com os cristãos também são atrevidos: ao defunto Jaspe, saíram do
matorral, quase debaixo do cavalo, e o pegaram de repente e o envainaram!
E não valeu gritar-lhes. Andávamos desarmados de propósito,
e eles eram mais ou menos vinte e jogavam flechas pra todos os lados.
A velha, apertando o lenço que levava à fronte, atravessou dessa
forma:
- Era que o Jaspe os perseguia com os vaqueiros e com a cachorrada.
Onde matava um, acendia uma vela e fingia que o tava comendo
assado, pra que os fugitivos o vissem ou os vigias que estavam de atalaia
sobre os moriches.
— Mamãe, foi que os índios mataram-lhe a família e como por
aqui não há autoridade, as pessoas têm que desenredar-se sozinhas.
Já vêem o que aconteceu no Hatico: Macetearam a todos os racionais
e todavia fumegam os tições. Branco, temos que empandilhar-nos para
fazer-lhes uma buscada.
— Não, não! Caçá-los como feras? Isso é desumano!
— Pois o que você não faça contra eles, eles o fazem contra você.
— Não contradiga, zambo alegatista. O branco é mais lido que
você. Melhor que você pergunte se ele masca tabaco e dê-lhe uma mascada.
— Não, obrigado, velhinha. Isso não é comigo.
— Aí estão remendados seus chiros — disse ao mulato, ventilando a
camisa.
43
- Agora, rasga-os no monte! Você já trouxe a "venhavenha"?
Quanto faz que a solicitaram?
- Se me dá café, a trago.
— E que negócio é esse de "venhavenha"?
— Encomendas da patroa. É a casquinha de uma árvore que serve
para enamorar.
Minha sensibilidade nervosa passou por grandes crises, no que a
razão trata de divorciar-se do cérebro. Apesar de minha exuberância
física, meu mal de pensar, que tem sido crônico, consegue debilitar-me
de imediato, pois nem durante o sono fico livre da visão imaginativa.
Freqüentemente as impressões conseguem seu máximo de potência
em minha excitabilidade, mas uma impressão sói degenerar na contrária
poucos minutos depois de recebida. Assim, com a música, recorro
à gama de entusiasmo para descer depois às mais refinadas melancolias;
da cólera passo à mansidão transigente, da prudência aos arrebatamentos
da insensatez. No fundo da minha alma, acontece o mesmo que nas
baías: as marés sobem e baixam com intermitência.
Meu organismo repudia os excitantes alcoólicos, ainda que saibam
o enjôo às aflições. As poucas vezes em que me embriaguei, fi-lo por
ociosidade ou por curiosidade: para matar o tédio ou para conhecer a
sensação tirânica que bestializa os bebedores.
O dia em que don Rafo se separou de nós, senti um desgosto vago,
augúrio de males próximos, certeza de ausência eterna. Ao ver que se ia,
eu participava do entusiasmo da empresa, cujo programa começava a
cumprir-se com as gestões encomendadas a ele. Mas do mesmo modo
como a bruma ascende aos cumes, sentia subir em meu espírito o vapor
da angústia umedecendo-me os olhos. E bebi com afinco os cálices que
precederam à despedida.
Assim, por um momento, reconquistei a animação hesitante; mas
minha mente continuava deprimindo-me com o eco tenaz dos soluços
de Alícia, quando disse a don Rafael num abraço desesperado: Desde
hoje ficarei no deserto!
Eu entendi que esse deserto tinha algo a ver com meu coração.
Lembro-me que Fidel e Corrêa deviam acompanhar o viajante até
o próprio Tame, prevendo que os sequazes de Barrera o assaltariam.
Ali contratariam vaqueiros remontados para nossa colheita e não poderiam
demorar mais que uma semana para voltar à Maporita.
— Em suas mãos fica minha casa — dissera Franco, e eu aceitei
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a incumbência com desgosto. Por que não me levavam para as fainas?
Imaginariam que era menos homem que eles? Talvez se avantajassem em
destreza, mas nunca em audácia e fogosidade.
Nesse dia, senti-lhes um repentino ressentimento e, louco de álcool,
estive a ponto de gritar: quem cuida de suas mulheres, com ambas
vai para a cama!
Quando partiram, entrei na alcova para consolar Alícia. Estava
de bruços sobre seu catre, o rosto oculto nos braços, soluçante e chorosa.
Inclinei-me para acariciá-la e ela só fez um movimento para alargar o vestido
na barriga da perna. Depois, rechaçou-me com brusquidão:
— Tira! Só me faltava ver você bêbedo!
Então, em sua presença, dei um abraço na patroa.
— Não é verdade que você sim que me quer? Que só tomei dois
copinhos?
— E se os bebesse com cascas de quinina, não lhe dariam febres.
— Sim, meu amor! O que você quiser! O que você quiser!
Indubitavelmente, foi então que saiu com a garrafa para a cozinha e
colocou-lhe
"venhavenha". Mas eu, aos pés de Alícia, fiquei dormindo.
E não bebi mais nessa tarde.
Acordei com a alma escurecida pela tristeza, intratável e nervoso.
Miguel havia chegado do fato em um potro coscojero de rédea falsa,
e mantinha conversa no caney com Sebastiana:
— Venho para levar meu galo para ver se Antônio me empresta
seu tiple.
— Aqui quem manda agora é o branco. Peça-lhe permissão para
apanhar seu frango. O requinto não lhe posso emprestar não estando seu
dono.
O homem, desmontando, aproximou-se de mim timidamente:
— Esse galinho é meu, e quero colocá-lo na corda para as brigas
que vêm. Se me deixa levá-lo, espero que escureça para apanhá-lo no puleiro.
O recém-chegado me pareceu suspeito.
— O senhor Barrera não mandou nenhum recado?
— Para o senhor, não.
— Para quem?
— Pra ninguém.
— Quem lhe vendeu essa sela? — disse reconhecendo a minha, a
mesma que me roubaram em Villavicencio.
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— O senhor Barrera mascateou-a com um sujeito que veio do interior,
faz duas semanas. Disse que a vendia porque uma cobra lhe havia
matado o cavalo.
— E como se chama o que a vendeu?
— Eu não o vi. Apenas escutei o conto.
— E você costuma usar a sela de Barrera? — rugi agarrando-o pelo
pescoço. — Se não me confessa onde ele está, trituro-o a pauladas! Mas se
você for leal com minha pergunta, lhe darei o galo, o tiple e duas libras.
— Solte-me para que não maliciem que lhe confesso.
Levei-o até o curral, e me disse:
— Ficou agarrado na outra beira do monte, porque não viu o sinal
combinado, quer dizer, o bayetón estendido no tranquero, pelo lado
vermelho. Por isso me mandou com a recomendação de que se não havia
perigo, tirasse a sela do rango e o esperasse. Ele virá pela noite, e eu,
como aviso, devo tocar o tiple, mas não pude falar com a mulé.
- Não lhe diga nada!
Já escurecera e só no limite do pampa o crepúsculo diluía seu rastro
sangrento. A velha Tiana saiu da cozinha, levando aceso o lampião
de querosene. As outras mulheres rezavam o rosário com murmúrio
lúgubre. Deixei o homem esperando e fui ao quartinho de Antônio atrás
ao requinto. Na escuridão, tirei-o dapercha e a escopeta de dois canos.
Acabada a reza, apresentei-me de mãos vazias diante da menina
Griselda:
— Um homem a está esperando no pátio.
— Ah! Miguelito! Veio buscar o tiple?
— Sim. É bom emprestar-lhe. Leve-o você. Está nesse canto.
Quando saiu, pretendi em vão descobrir nos olhos de Alícia alguma
cumplicidade. Estava fatigada, queria recolher-se cedo.
— Não apetece ver a saída da lua? — propôs Sebastiana.
— Não — disse. — Chamarei-a quando estiver na hora.
E disfarçadamente apanhei a garrafa sob a ruana. Serenamente,
sem que em meu rosto se delatasse o propósito trágico, avisei à menina
Griselda, assim que regressou:
— Sebastiana pode ficar aqui na sala. Eu pendurarei meu chinchorro
no corredor do caney. Preciso de ar fresco.
— Isso sim que tá bem pensado. Não se pode dormir com esses
calores — observou a mulata.
— Se você quiser — propôs-lhe a patroa — deixa a porta escancarada.
46
Ao ouvir isso, senti uma satisfação maligna. Dei as boas-noites
acentuando estas frases: Miguel ofereceu-me cantar um corrido. Não demorarei
para deitar-me.
Em pouco tempo apagaram a luz.
Meu primeiro cuidado foi olhar se os cachorros estavam no pátio.
Chamei-os em voz baixa, andei por todas as partes com uma cautela
extraordinária. Nada! Felizmente deveriam ter seguido os viajantes.
Cheguei ao caney, orientado pelo tabaco que o homem fumava.
— Miguelito, você quer um trago?
Devolveu-me a garrafa, cuspindo:
— Como está amargo esse rum.
— Dize-me: com quem é que Barrera tem encontro?
— Não sei bem qual é.
— Com ambas?
— Assim será.
O coração começou a golpear-me o peito, como um tarol. Em minha
garganta, afogava-se, seca, a voz.
— Barrera é um cavalheiro generoso?
— É um chuzo. Diz que dá quanta mercadoria o solicitante queira,
faz com que ele assine em um livro e entrega-lhe qualquer retalho, avisando:
"O resto tenho no Vichada". Eu já lhe perdi a afeição.
— E quanto dinheiro lhe deu?
— Cinco pesos, mas me tomou recibo por dez. Me ofereceu uma
muda de roupa nova, mas até agora não me deu nada. É assim com todos.
Já despachou gente em direção a San Pedro de Arimena pra que emparelhem
bongos no Muco. Ofato ficou quase só. Até o Jesus já se mandou,
mas passando por Orocué com um recado do velho Zubieta para a autoridade.
— Está bem! Agarra o requinto e canta.
— Ainda é cedo.
Esperamos quase uma hora. A idéia de que Alícia fosse-me infiel
enchia-me de cóleras súbitas, e para não estalar em soluços, me mordia
as mãos.
— O senhor pensa mata o homem?
— Não, não! Só quero saber por que está vindo.
— E se for para esbarrar-se com sua mulherzinha?
— Também não.
— Mas isso ficaria feio para o senhor.
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— Acha que devo matá-lo?
— Essas são coisas suas. O que deve ter é cuidado comigo. Espreite-
o na paliçada porque vou começar a cantar.
Obedeci. Pouco depois, me disse:
— Não se embriague. Pulso firme na pontaria.
Mais tarde, a lua estendeu por cima do bananal um reflexo indeciso
que foi dilatando-se até envolver a imensidão. O tiple elevou um acorde
melancólico no prelúdio da toada:
Pomba pobrezinha,
que o gavião agarrou,
aqui vai a sangrenta
por onde se a levou.
Com a alma nos olhos, eu estendia a escopeta em direção ao cano,
em direção aos currais, em direção a todas as partes. O peru, da cumeeira
da cozinha, feriu a noite com gritos desafinados. Lá fora, em algum sendeiro
do restolhal, os cachorros ladraram.
Aqui vai a sangrenta
por onde se a levou.
As mulheres acenderam a luz no quarto. A velha Tiana, como uma
alma penada, assomou ao umbral.
— Olá, Miguel; deixe dormir a menina Griselda.
O cantador emudeceu e foi logo procurar-me.
— Me esqueci de dizer-lhe que eu estava na obrigação de levar-lhe
a curiara. Vou indo. Quando voltarmos, atire no da frente. Se o acerta, eu
o jogarei para os jacarés e estão acabadas as contas.
Vi-o afastar-se na embarcação, sobre a água enlutada onde as árvores
estendiam suas sombras imóveis. Depois entrou na zona escura do
charco e só senti o ondular do remo curto, rútilo como cimitarra longa.
Esperei até a madrugada. Ninguém voltou.
Deus sabe o que teria acontecido!
Ao raiar do dia, selei o cavalo de Miguel e pus a escopeta na esteira.
A menina Griselda, que andava com um balde borrifando as matas,
me observava inquieta.
— Que tá fazendo?
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— Esperando Barrera que amanheceu por aqui.
— Exagerado! Exagerado!
- Escute, menina Griselda: quanto lhe devemos?
— Cristão! Que estás fazendo?
— O que você escutou. A casa de vocês não é para gente honrada.
Nem a você lhe convém meter-se no restolhal tendo sua barbacoa.
— Bota um freio na sua língua. Tá bébedo.
- Mas não como licor que Barrera lhe trouxe.
- Por acaso foi para mim?
— Você quer dizer que foi para Alícia?
— Você não a pode obrigá nem querer você nem lhe seguir, porque
o amor é como o vento; sopra pra qualquer lado.
Ao ouvir isso, com pressa alternada, suguei a garrafa e baixei a
arma. A menina Griselda saiu correndo. Empurrei a porta. Alícia, a meio
vestir-se, estava sentada no catre.
- Compreende o que está acontecendo por sua causa? Vista-se!
Vamos! Depressa! Depressa!
— Arturo. por Deus!...
— Vou matar Barrera na sua presença!
— Por que você vai cometer esse crime?
— Não chore! O morto já está doendo em você?
— Meu Deus!... Socorro!
— Matá-lo! Matá-lo! E depois a você, e a mim, e a todos! Não estou
louco! Nem tampouco digam que estou bébedo! Louco? Não! Você
mente! Louco, não! Tira-me essa ardência que me queima o cérebro!
Onde você está? Atenda-me! Onde você está?
Sebastiana e a menina Griselda esforçavam-se por segurar-me.
— Calma, calma, por tudo que é mais querido! Sou eu. Não me conhece?
Jogaram-me em um chinchorro e quiseram costurá-lo por fora; mas
com um espernear brutal rasguei as cabuyas e, agarrando a menina Griselda
pelo pulso, arrastei-a até o pátio.
— Alcagüeta! Alcagüeta! — E com um soco no rosto, banhei-a em
sangue.
Depois, no delírio demente, me sentei sorrindo. Achava engraçado
o zumbido da casa que girava em círculo rápido, refrescando-me a cabeça.
"Assim, assim! Que não me pare porque estou louco!" Convencido
de que era uma águia, agitava os braços e me sentia flutuar no vento,
por cima das palmeiras e das planícies. Queria descer para levantar
Alícia nas garras,
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e levá-la sobre uma nuvem, longe de Batrera e da maldade.
E subia tão alto que batia asas contra o céu, o sol ardia em meu cabelo
e eu desejava o resplendor ígneo.
Quando a convulsão tornou-se crise, tentei caminhar, mas sentia
o chão correr debaixo dos meus pés em sentido contrário. Apoiando-me
na parede, entrei na sala vazia. Tinham fugido! Tinha sede e de novo
apressei a garrafa. Recolhi a arma, e para refrescar-me as bochechas
oprimia-as contra os canos. Triste porque Alícia me desamparava, comecei
a chorar. Depois, declamei aos gritos:
— Não importa que você me deixe sozinho! É para isso que sou
homem rico! Não quero nada seu, nem de seu menino, nem de ninguém!
Tomara que esse bastardo nasça morto. Nem deve ser meu filho! Se
arranca com ele se lhe der vontade. Você não passa de uma amante qualquer.
Depois dei uns disparos.
— Onde está Franco que não sai para defender sua fêmea? Aqui
estou! Vingarei a morte do capitão. Quem se apresentar, eu mato! Mas
Barrera não, Barrera não, para que Alícia se vá com ele! Troco-a por
conhaque, apenas por uma garrafa!
E, recolhendo o que tinha, montei no potro, atravessei a escopeta
e parti para a fuga pelo lhano impassível, jogando aos ares este pregão
enrouquecido e diabólico:
— Barrera, Barrera! Álcool, álcool!
Meia hora depois, as pessoas do fato me viram passar. Do outro
lado do caño gritavam-me e faziam sinais. Fustiguei o potro pelo vão
que me indicaram e saí ao pátio, dispersando as pessoas a peitadas, em
meio a uma algaravia de protestos.
— Vamos ver! Quem manda aqui? Por que Barrera está se escondendo?
Que saia.
E pendurando a escopeta na sela, saltei desarmado. Todos esperavam
perplexos. Alguns sorriam, olhando-me.
— Ah, menino! O que você quer?
Quem o disse foi uma mulherzinha espevitada, de rosto envelhecido
pelo rouge, cabelo oxigenado e braços fraquinhos arqueados sobre o cinturão
do vestido vistoso.
— Quero jogar dados! Só jogar! As libras estão nesse bolso!
E joguei umas para o alto e se espargiram no chão.
Então ouvi a voz áspera do velho Zubieta que ordenava do quarto
contíguo:
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— Clarita, o cavalheiro que entre.
Acavalado no chinchorro e estendido de costas, de camiseta e
cueca, estava o fazendeiro, de barrigaprotuberante, olhos de lince, cara
sardenta e cabelo avermelhado. Estendendo-me suas mãos, que além de
ásperas, pareciam inchadas, fez ranger um riso entre os bigodes:
— Cavalheiro, dispense que não posso me levantar!
— Eu sou o sócio de Franco, o cliente dos mil touros e, se quiser,
os pagarei à vista.
- Assim, sim; assim, sim! Mas o senhor deve pegá-los, porque a
mulatada que tenho está a pé, e não serve pra nada.
- Eu conseguirei vaqueiros, bem montados, e não deixarei que
me os surrupiem para o Vichada.
-O senhor me agrada. Isso está muito bem falado!
Saí para botar meus apetrechos e vi Clarita, cochichando com meu
inimigo enquanto com uma cabaça jogava-lhe água nas mãos. Ao ver-me,
esconderam-se atrás da casa.
— Qual foi o ladrão que recolheu o ouro que atirei aqui?
— Venha buscá-lo — replicou um homem, em quem reconheci o
da Winchester, que pretendeu arrancar a mercadoria de don Rafael.
"Agora, sim, podemos ajeitar aquilo do outro dia! Sem-vergonha, agora,
sim, estás esbarrando comigo!"
Adiantou-se ameaçador, olhando em direção ao ponto em que seu
patrão estava escondido, como se estivesse esperando uma ordem. Sem
dar-lhe tempo, aniquilei-o com um murro só!
Barrera acudiu, exclamando:
— Senhor Cova, que está acontecendo? Venha para cá o senhor!
Não dê ouvidos aos peões! Um cavalheiro como o senhor!...
O ofendido foi sentar-se contra o peitoril e, sem afastar os olhos de
mim, enxugava o sangue do nariz.
Barrera repreendeu-o com preceitos cruéis: "Malcriado, atrevido!
O senhor Cova merece respeito!" Mas ao mesmo tempo em que me convidava
para entrar no corredor, prometendo-me que o ouro me seria
devolvido religiosamente, o homem tirou a sela de meu cavalo, guardou
a escopeta e eu esqueci-me da arma. As pessoas faziam comentários na
cozinha.
No quarto, Clarita estaria contando ao velho o que estava acontecendo,
porque emudeceram ao ver-me.
— O cavalheiro regressa hoje?
51
— Não, amigo Zubieta. Não estou com vontade! Vim para beber
e para jogar, para dançar e cantar.
— É uma honra que não merecemos — afirmou Barrera - O senhor
Cova é uma das glórias de nosso país.
— É glória por quê? — interrogou o velho. — Sabe montar? Sabe
laçar? Sabe tourear?
— Sim, sim! — gritei. — O que o senhor quiser!
— Assim me agrada, assim me agrada! — E abaixou-se em direção
ao couro de tigre que tinha debaixo do chinchorro. — Clarita, dá-nos uns
brandys — disse, mostrando-lhe o garrafão.
Barrera, para não beber, saiu ao corredor e, pouco depois, veio
estendendo-me um punhado de ouro.
— Essas moedas são suas.
— Mente! A partir de agora são de Clarita.
Ela as recebeu sorrindo e agradeceu-me com esta amabilidade:
— Aprendam! É uma felicidade encontrar cavalheiros!
Zubieta ficou pensativo. Subitamente, mandou que nos aproximássemos
e, quando esvaziamos outros cálices, mostrou-nos um pequeno
embornal suspenso por um chifre na parede fronteiriça:
— Clarita, dá-nos "os molares de Santa Polônia".
Clarita pôs os dados em cima da mesa.
Sem dúvida alguma, minha nova amiga favoreceu-me naquela noite
nesse jogo plebeu, desconhecido para mim. Eu jogava os dados com nervosismo
e, às vezes, caíam debaixo do chinchorro. Então o velho, entre
gargalhadas e tosses, perguntava: Me ganhou? Me ganhou? E ela, no meio
de uma fumaçada de tabaco, ladeando o candeeiro, respondia: Jogou
cenas*. É um garoto de sorte.
Barrera, fingindo confiança nas palavras da mulher, confirmava
tais decisões; mas vivia zeloso para que não escasseasse o licor. Clarita,
ébria, apertava-me a mão no descuido; o velho, ébrio, cantarolava uma
canção obscena; meu rival, por cima da luz bruxuleante, sorria-me
irônico; eu, semi-inconsciente, repetia as paradas. Na porta do quartinho
acalorado, os peões seguiam o jogo, com interesse.
Quando fiquei dono de quase todo montão de feijões que representavam
um valor combinado, Barrera me propôs jogá-lo de paro, esvaziando
* Cenas: no jogo de dados, o resultado seis.
52
as morrocotas do jaleco. "Tire cem touros pela metade", exclamou
o velhote, dando fortes golpes na mesa. Então reparei que os sapatos
do meu adversário pisavam os de Clarita, e tive o pressentimento de que
chegava a fraude.
Com uma frase feliz, determinei à mulher:
— Joguemos isso em sociedade.
No mesmo instante, ela estendeu as mãos avaras sobre o montículo
de grãos. O rubi de seu anel acendeu-se em sangue.
Zubieta amaldiçoou sua sorte quando minha jogada o venceu.
— Agora com o senhor — disse para Barrera, soando os dados.
Recolheu-os sem alterar-se e, enquanto os agitava, mudando-os,
tentou distrair-nos com uma piada de baixo calão. Mas ao lançá-los sobre
a mesa, agarrei-os de um só golpe:
— Canalha, esses dados são falsos!
Subitamente, travou-se uma peleja e a lâmpada rodou pelo chão.
Gritos, ameaças, imprecações. O velho caiu do chinchorro, pedindo socorro.
Eu batia com os punhos no escuro, à direita e à esquerda, em
direção a qualquer lugar onde escutasse uma voz de homem. Alguém fez
um disparo, os cachorros latiram, a porta rangia com o afã do tumulto
afugentado, e ajustei-a de um empurrão, sem saber quem ficava do lado
de dentro.
Barrera exclamou no pátio: Esse bandido veio para matar-me e para
roubar o senhor Zubieta! Ontem à noite esteve me puesteando! Graças a
Miguel que se opôs ao crime e me denunciou a espreita! Prendam esse
miserável! Assassino, assassino"!
Eu, do lado de dentro, lançava-lhe insultos atrevidos e Clarita,
contendo-me, suplicava:
- Não sai, não saia, porque senão lhe crivam!
O velho choramingava espantado:
— Clareiem porque estou cuspindo sangue!
Quando me ajudaram a meter o ferrolho, senti uma de minhas mãos
umedecida. Tinha uma punhalada no braço esquerdo.
Conosco ficou fechada uma pessoa que me pôs nas mãos uma
Winchester. Ao perceber que me procurava, tentei pegá-la, pelo que,
sussurrando, repetia-me:
— Cuidado comigo! Sou o vesgo Mauco, amigo de todo mundo!
Do lado de fora, empurravam a porta e eu, sem permanecer em um
ponto só, perfurava a tiros as tábuas, iluminando o sítio com o relampejo
dos clarões. Finalmente terminou a agressão. Ficamos submersos no
53
mais pavoroso silêncio e meu ouvido espreitante dominava a penumbra.
Observei com sigilosa pupila pelos buracos que minhas balas abriram.
Havia lua e o pátio estava deserto.
Mas por instantes apanhava o rumor de vozes e risadas que
vinham quem sabe de onde. A dor da ferida começou a abater-me e a vertigem
do álcool jogou-me ao chão. Ali dessangrei-me até que Deus quis.
em meio ao pânico dos meus companheiros que, em algum canto, diziam
entre si: "Parece que está agonizando".
— Água, água! Estou ferido! Estou morrendo de sede!
Ao amanhecer, abriram o quarto e me deixaram só. Acordei com
uma indisposição desbotada com os gritos que dava o dono do fato,
repreendendo a peãozada por indolente, pois não quiseram salvá-lo da
confusão.
— Graças ao sujeito — repetia — graças ao sujeito, estou contando
o conto! Ele tinha razão, os dados eram falsos e, com eles, esse trambiqueiro
do Barrera me teria passado a perna. Aqui esbarrei com um debaixo
da mesa! Convença-se. Tem azougue por dentro.
— Não pudemos nos aproximar por causa dos tiros.
— E quem feriu Cova?
— Quem pode saber?
— Vão dizer a Barrera que não o quero aqui; que para isso
tem seus toldos, que fique por lá. Que se não sabe pra que são os caminhos;
que o sujeito está aqui com a carabina!
Clarita e o vesgo Mauco vieram em meu socorro, trazendo um caldeirão
de água quente. Descosturaram a manga da camisa para que a pudessem
tirar sem machucar-me o braço inchado e depois, umedecendo
as pontas do tecido grudado, descobriram a ferida, pequena mas profunda,
aberta sobre o músculo perto do ombro. Lavaram-na com aguardente
e, antes de esticar-lhe o cataplasma morno, o vesgo, com uma devoção
de ritual, exclamou: "Botem fé nisso, porque vou rezá-la".
Eu, admirado, observava o homúnculo de cor terrosa, faces fofas
e lábios arroxeados. Com diligência minuciosa, pôs no chão o cajado
em que se apoiava e, em cima, o sombreiro gordurento de abas roídas
que tinha como cinto um maço de cabuyas meio retorcidas. Por entre
os farrapos se podia ver suas carnes hidrópicas, principalmente o abdômen,
escorrido em rolo sobre o baixo-ventre. Voltou, pestanejando em
direção à porta com o olhinho vesgo, para repreender os garotos que
assomavam:
54
— Isso não é coisa de brincadeira! Se não vão botar fé, arranquem-
se, porque senão se perde a virtude!
Os vadios permaneceram fervorosos, como em um templo, e o
velho Mauco, depois de fazer no ar alguns sinais de magia, resmungou
uma ladainha que se chamava "A oração do juiz justo".
Satisfeito com seu ministério, recolheu o sombreiro e o pau e disse,
inclinando-se sobre o couro de touro onde me achava estendido: "Não se
deixe acochinar pela dor. Eu lhe curo presto: paro com outra reza".
Com assombro, olhei para Clarita como se fosse para indagar a certeza
de tudo que estava acontecendo. Era crente convencida, que manifestava
um respeito fanático. Para afugentar minhas dúvidas, expôs:
— Nada, garoto! Mauco entende de medicina. É quem mata as
bicheiras, rezando-as. Cura pessoas e animais.
— Não só isso — acrescentou o sujeito esquisito. — Sei muitas
orações para tudo. Pra encontrar reses perdidas, pra fazer enterros, pra
tornar-me invisível para os inimigos. Quando houve o recrutamento
da guerra grande, vieram pegar-me e eu me converti para eles em mata
de bananas. Uma vez me apanharam antes de acabar a reza e me fecharam
em um cômodo, com chave dupla; mas tornei-me formiga e me mandei.
Se não fosse por mim, quem sabe o que nos teria acontecido na algazarra
que houve pela noite. Eu estive pronto para evaporar-me quando entrassem
e tapei todos eles com minha neblina. Assim que soube que o
senhor estava ferido, lhe rezei a oração do "cura que cura" e a hemorragia
se deteve.
Lentamente fui caindo em uma quietude sonâmbula, em um vago
desejo de dormir. As vozes iam afastando-se de meus ouvidos e os olhos
se encheram de sombra. Tive a impressão de que afundava em uma cova
profunda, em cujo fundo nunca chegava.
Um sentimento de rancor me tornava odiosa a lembrança de Alícia,
a responsável por tudo que estava acontecendo. Se alguma culpa
me cabia no momento calamitoso, era a de não haver sido severo com
ela, a de não haver-lhe imposto a todo custo minha autoridade e meu
amor. Assim, com a injustiça desse raciocínio, envenenava minha alma
e inflamava meu coração.
De fato, me fora infiel? Até que ponto a sedução de Barrera lhe
havia governado o espírito? Existira essa sedução? Em que hora teria
podido chegar-lhe a influência do outro? As palavras reveladoras da menina
Griselda, não seriam mensagem de astúcia para falar-me em seu
favor, caluniando minha companheira? Talvez eu tenha sido injusto e
violento;
55
mas ela devia perdoar-me, ainda que não lhe pedisse perdão,
porque lhe pertencia com minhas qualidades e defeitos, sem que lhe
fosse dado fazer restrições a mim. Para meu desencargo, agregava-se o
fato de que a venhavenha me levou à loucura. Quando em são juízo
lhe dei motivos de queixa? Então, por que não me vinha buscar?
Por momentos, parecia vê-la chegar, sob o sombreiro de penas lânguidas,
estendendo-me os braços em meio aos soluços:
— Qual o desalmado que o feriu por minha causa? Por que você
está estirado no chão? Por que não lhe dão uma cama? -e aconchegando
o rosto em lágrimas, sentava-se em minha cabeceira, dando-me como
travesseiro suas coxas trêmulas, penteando meus cabelos para trás, com
mãos enternecidas e amorosas.
Alucinado pela obsessão, inclinava-me sobre Clarita, afastando-
me ao reconhecê-la.
— Menino, por que não descansa em meus joelhos? Quer mais limonada
para a febre? Mudo seu curativo?
Às vezes, sentia a tosse impaciente de Zubieta no corredor:
— Mulé, saia daí porque está esquentando o doente. Nem se fosse
seu marido!
Clarita dava de ombros.
E por que aquela mulher não me desamparava sendo uma escória
de lupanar, uma sobra dos prazeres baixos, uma loba ambulante
e faminta? Que mistério redimia sua alma quando me mimava com ternura
envergonhada, como qualquer mulher de bem, com Alícia, como
todas as que me amaram?
Uma vez perguntou-me quantas libras me restavam no bolso. Eram
poucas e as guardou no seio; mas em um momento em que nos deixaram
a sós, leu um papel em meus ouvidos: "Zubieta lhe deve duzentos e cinqüenta
touros; Barrera cem libras, e eu guardei para você vinte e oito".
— Clarita, você me disse que meu lucro no jogo esteve isento de
fraude. Tudo isso é para você que tem sido tão boa comigo.
— Menino, o que você está dizendo? Não vai ficar achando que lhe
estou servindo por interesse. Só quero voltar para minha terra, para pedir
perdão a meus pais, para envelhecer e morrer com eles. Barrera ficou de
custear minha viagem para a Venezuela e, em compensação, abusa de
mim, sem mais medida que seu desejo. Zubieta diz que quer casar comigo
e levar-me para a Ciudad Bolívar, ao lado dos meus velhinhos.
Confiante nessa promessa, vivi bêbeda quase dois meses, porque ele me
56
admoesta com a regra invariável: "Qual será minha mulé? Aquela que
me acompanhar para bebê".
Nessas fundações me deixou colocada o coronel Infante, guerrilheiro
venezuelano que tomou Caiçara. Ali me rifaram no jogo de cartas,
como simples coisa e fui ganha por um tal de Puentes, mas Infante
me deduziu ao liquidar o jogo. Depois, derrotaram-no, teve de asilar-se
na Colômbia e me abandonou por aqui.
Anteontem, quando você chegou a cavalo, com a escopeta no
arcão, atropelando as pessoas, com o chapéu caído na nuca, achei que
parecia com meu homem. Depois, simpatizei com você assim que soube
que é poeta.
Mauco entrava para rezar-me a ferida e tive o juízo de fingir que
acreditava em suas orações. Sentava-se no chinchorro mascando tabaco,
roendo-o de uma rosca que parecia charque ressecado e inundava o chão
de cusparadas sonoras. Depois me dava os informes sobre Barrera:
— Passa o tempo metido no toldo, febril. Só me pergunta até quando
o senhor vai ficar por aqui. Quem sabe pra que coisa o senhor lhe estará
causando mal tercio!
— Por que Zubieta não veio ocupar seu chinchorro!
— Porque é alertado e teme outra chirinola. Dorme na cozinha e se
tranca por dentro.
— E Barrera voltou à Maporita?
— As febres não o deixam pará.
Esta afirmação me aquietava o espírito, pois vivia com ciúmes de
Alícia e até da menina Griselda. Que estariam fazendo? Como qualificariam
minha conduta? Quando viriam por minha causa?
O primeiro dia que tive forças para levantar-me, suspendi o braço
em um lenço, como se fosse uma tipóia e saí ao corredor. Clarita embaralhava
as cartas junto ao chinchorro onde o velho dormia a sesta. A casa,
coberta de palha e ainda por ser concluída, desasseada como nenhuma,
só tinha habitável o espaço que eu ocupava. A cozinha, de paredões
cobertos de fuligem, defendia sua entrada com um lodaçal, formado
pelas águas que as cozinheiras derramavam. No pátio, desigual e agreste,
couros de reses sacrificadas secavam ao sol, sob o zumbido das moscas,
e deles um zamuro desprendia tiras sanguinolentas. Amarrados sobre
perchas, os galos de briga vigiavam no caney dos vaqueiros, e no solo
refestelavam-se cães e leitões.
Sem ser visto, aproximei-me do tranquem. Nos currais, de grossos
troncos pregados,
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os touros prisioneiros descadeiravam-se de sede. Atrás
da casa uns camponeses dormiam sobre um bayetón estendido por cima
das sujeiras. Pouco mais adiante, às margens do caño, divisavam-se os
toldos de meu rival e, no horizonte, em direção a fundação de La Maporita,
perdia-se a curva dos morichales... Alícia estaria pensando em mim!
Clarita, ao ver-me, correu com a sombrinha de moiré branco:
- Menino, o sol pode irritar sua ferida. Vem para a sombra. Não
torne a cometer semelhantes despropósitos.
E sorria exibindo os dentes cheios de ouro.
Como se falava intencionalmente em voz alta, o velho, ao ouvi-la,
incorporou-se:
— Assim me agrada! Os jovens não devem viver acamados!
Sentei-me sobre a viga que servia de peitoril e invoquei o meditado
interrogatório:
— Por quanto pensa dar-nos as resezínhas?
— Quais seriam?
— As do nosso negócio com Franco.
— Com ele mesmo não ficamos em nada. A fundação que dá em
penhor vale muito pouco. Mas como o senhor paga de relance, será bom
apartá-las, se tem cavalos, e depois lhes botamos um preço.
Clarita interrompeu-nos:
— E quando você vai dar a Cova as duzentas e cinqüenta que ele
ganhou?
Endireitando-se me argüiu:
— E se o senhor tivesse perdido, com que teria pago? Mostre-me
as libras que trouxe.
— Que isso? - replicou a mulher. - Por acaso você é o único
rico? Quem perde
paga!
O velho afundava os dedos entre as malhas do chinchorro.
De repente, propôs:
— Amanhã é domingo e você me dá a forra nas brigas de galo.
— Muito bem!
"Meu
admirado senhor Cova:
Que poder maléfico tem o álcool que humilha a razão humana,
rebaixando-a à torpeza e ao crime? Como pude comprometer a condição
mansa de meu temperamento em uma altercação que me enlouqueceu a
língua, até ofender de palavra a dignidade do senhor, quando seus merecimentos
me impõem vassalagem enaltecedora que me enche de orgulho?
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Se pudesse jogar-me a seus pés publicamente, para que o senhor
me pisasse antes de perdoar-me as reprováveis ofensas, creia-me que não
demoraria em implorar-lhe esta graça; mas como não tenho direito nem
de oferecer-lhe essa satisfação, eis-me aqui, contido e doente, amaldiçoando
as passadas afrontas, que, por sorte, não chegaram sequer a salpicar-
lhe a merecida fama que goza.
Como estou aviltado por meus desacertos, enquanto o senhor não
me dignifique com sua benevolência, não há de parecer-lhe estranha a
condição lamentável com que chego ao senhor, convertido em mascate
comum, que tenta introduzir-se nos domínios da poesia e da proposta
de um negócio burguês. É o caso —e perdoe-me o atrevimento — que o
nosso bom amigo, o senhor Zubieta, devia-me somas de consideração,
por dinheiro emprestado e por mercadorias, e me as pagou com touros
que se acham no curral, e que eu recebi então na expectativa de que
o senhor pudesse necessitá-los. Veja-os, pois, e se se digna a colocar-lhes
algum preço, saiba que meu maior lucro será o de haver sido útil ao
senhor em algo.
Beija seus pés, fervorosamente, seu desgraçado admirador.
Barrera."
Esta carta me foi entregue diante de Clarita. O garotinho que a
trouxe, me viu empalidecer de cólera e se ia retirando, cautelosamente,
diante da demora da resposta.
— Diga a esse sem-vergonha que quando se encontre a sós comigo,
saberá em que deu sua adulação!
Enquanto isso, Clarita relia o papelote.
— Menino, não lhe diz nada do que lhe deve, nem da punhalada,
nem do disparo; porque foi ele quem o feriu. Naquele dia, ao vê-lo
chegar, preparou o revólver e lubrificou o estilete. "Olho de Garça"
com o Miyán, o homem em quem você bateu no pátio: esse tem ordens
terminantes. E você sabe que Zubieta não deve nada ao seringueiro por
quantias emprestadas? Este lhe deu umas morrocotas para guardar,
na confiança de que eu as roubaria; mas o velho as enterrou. Depois,
engrupiu-o com os dados que você conhece. Toda manhã me pergunta:
"Já tirou as amarelas dele? Daí lhe darei para a viagem. Está se vendo que
não deseja voltar para seu extraordinário país". Esse homem tem planos
sinistros. Se você não tivesse estado aqui...
— Dá-me a carta para mostrá-la ao velho.
— Não lhe diga nada, pois ele é muito sabido. Entende que Barrera
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é perigoso e, para distraí-lo, entregou-lhe o gado que está no curral;
mas como não o pôde tirar, mandou esconder os cavalos. Só lhe deixou
os peões alugados, depois de mandar emissários para todas as partes com
a notícia de que esse ano não venderia gado para ninguém. Como Barrera
inteirou-se disso, o velho, para desmenti-lo, simulou o negócio com Fidel
Franco, sem preveni-lo que era um simples ardil contra o hóspede
molesto.
— Quer dizer que não nos venderá gado nenhum?
— Parece que foi com a sua cara.
— Como posso fazer para ganhar seu afeto?
— É muito simples. Soltando o gado que deu a Barrera. Basta
assustá-lo que ele romperá os currais.
— Você me ajudará esta noite na tarefa?
— Quando lhe der vontade. Basta que eu, com este vestido branco,
me aproxime do tranquero para que o gado barafuste. O importante é
que os peões que vigiam em volta do touril não morram atropelados.
Felizmente, se recolhem cedo.
— E poderão descobrir-nos?
— Absolutamente. Os poucos homens e mulheres que não foram
recrutados vão para os toldos para jogar cartas, assim que o velho se
encocina. Eu também irei, para afastar falsos testemunhos; e quando você
calcular que volto, me espera no corredor com a pele de tigre que Zubieta
tem na sala, debaixo do chinchorro abandonado. Levamo-la pelo bananal
e a sacudimos no curral.
— Depois, quem pudesse ver-nos, pensaria: Esses se levantaram
com o fragor do tropel.
Sepultei em meu espírito o ardil vingativo, assim como se pode
guardar uma lacraia no seio: a todo momento acordava para cravar-me
o ferrão.
Quando a tarde já reclinava nos prados, os vaqueiros retornaram
com o gado numeroso. Haviam-no levado para o pastoreio vespertino
de exuberantes lugares cobertos de grama e açudes imóveis, onde, ao beber,
manchavam com seus beiços a imagem de alguma estrela crepuscular.
Vinha na frente o rapaz que servia de puntero, acompanhando no
trotezinho de sua égua a toada pueril que amansa os gados selvagens.
Seguiam-no em grupo os touros de testa venerável e enormes chifres,
solenes no cativeiro, com um fio de espuma nas narinas, os olhos semiadormecidos,
que a fúria avermelha com repentino fogo. Atrás,
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no passo de seus rocins e em meio ao sabor de silvos monótonos, as fileiras de
peões avançavam, nos francos do formidável e letárgico rodeo.
Encerraram-no de novo, com paciente astúcia, tomando cuidado
com a dispersão. Ouvia-se somente o melancólico som cadenciado produzido
pelo guia, mais eficaz que o toque de chifre nos currais de minha
terra. Passaram as trancas e amarraram-nas com rejos irredutíveis. E
quando escureceu, acenderam em volta do curral fogueiras de bosta
ressecada para aquerenciar o rebanho que, enlevado, olhava as candeias
e a fumaça, com ruminar aprazível, ao amparo das constelações.
Enquanto isso, eu meditava sobre nosso plano da meia-noite, em
luta com o temor que me esfriava a fronte e me franzia as sobrancelhas.
Mas a certeza da vingança, a possibilidade de causar algum mal a meu
inimigo, punha vivacidade em meus olhos, engenho em minhas palavras,
ardência em minha decisão.
Perto das oito horas, o vesgo Mauco protestou contra as fogueiras
porque tresnoitavam seu galos de briga. Como ninguém quis apagá-las,
levou-os ao meu quarto.
— Dê-me pousada porque os frangotes são bons. Mas se se desvelam,
tornam-se coisa nenhuma.
Mais tarde, o fato ficou em silêncio. Sobre os restolhais vizinhos,
as lâmpadas dos toldos estendiam seu feixe luminoso.
Clarita voltou quase ébria.
— Ânimo, menino, e siga-me!
Chegamos à barda dos currais, passando pelo bananal. Um vasto
repouso adormecia a manada. Do lado de fora, espirravam os cavalos dos
que velavam. Então Clarita, trepada em meus joelhos, sacudiu a aurimanchada pele.
Subitamente, o gado começou a redemoinhar, em meio ao espantado
choque das cornaduras, apertando-se contra a vala do encerro, como
um vertiginoso marulho, com um ímpeto envolvente. Umas rês quebrou
o peito contra a porta e morreu instantaneamente, pisoteada pelo tumulto.
Os vigias começaram a cantar, acudindo com os cavalos e a boiada
se conteve; mas logo voltou a saracotear-se em ondas tempestuosas, rangeu
o tranquero, houve berros, empurrões, chifradas. E assim como a avalancha
descoalha montes e ricocheteia pelo desfiladeiro satânico, mugindo,
o grupo rompeu os troncos da prisão e espalhou-se pela planície,
sob a noite pávida com um estrondo de cataclismo, com uma convulsão
de mar embravecido.
A peãozada e o mulheril acudiram com lâmpadas, pedindo socorro.
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Até Zubieta, sempre fechado, averiguava aos gritos o que estava acontecendo.
Os cachorros perseguiam o barajuste, as galinhas cacarejaram medrosas
e os zamuros do algodoal vizinho fenderam a sombra com vôos
entorpecidos.
Dez reses ficaram esmagadas nas portilhas da curraleica, e mais
adiante, quatro cavalos. Clarita veio com esses pormenores para encarecer-
me a reserva de nossa cumplicidade.
Quando coloquei em seu antigo lugar a pele de tigre, o deserto ainda
retumbava
No dia seguinte, levantei-me depois dos comentários do acontecimento
noturno e das bravatas do velho que dissimulava com blasfêmias
seu regozijo interior. "Maldito seja! Eu não tenho a culpa de que o gado
tenha estourado. Digam a Barrera que vá buscá-lo, se tiver equipamento
pras pessoas remontarem. Mas primeiro que me pague os cavalos que se
malograram! Maldito seja!"
— O senhor Barrera quer vir pra cá pra discutir o que aconteceu na
noite de ontem.
— Não pode aproximar-se daqui porque o sujeito anda armado e
não quero mais desgostos nas minhas propriedades.
— Me tinca — observou um — que foi a alma do defunto Julián
Hurtado quem se apresentou no curral, e por isso a boiada estourou.
Alguns dos veladores viram uma figura branca em cima da cerca, do lado
onde dizem que passo o enterro.
- Pode ser verdade.
— Sim, porque numa noite dessas apareceu para nós, com uma lanterninha
na mão, pela margem da sabana, caminhando sem pisar no chão.
— E por que não lhe perguntaram, da parte de Deus, que queria?
— Porque apagou a luzinha e quase ficamos em privação.
— Bandidos! — rugiu Zubieta: — então foram vocês que estiveram
cavando nas raízes da alfarrobeira. Oxalá seja eu quem esbarre com essas
vagabundagens pra meter-lhes bala.
Quando saiu ao pátio, havia muita gente reunida, mas Barrera não
estava ali. Fazendo-me de inocente, assomei ao curral, onde vários homens
esquartejavam os touros estripados.
— De nada valeu — dizia um deles — que eu me passasse na frente
do gado, correndo com rapidez e cantando para ele na escuridão pra ver
se o apaziguava. Fui até muito longe e, graças ao meu potro, não morri
atropelado.
62
Momentos depois, ao regressar à casa, vi que Clarita, em um coquillo*
rendado, vendia rum às pessoas da reunião. Havia homens desconhecidos
e debaixo dos bayetones os galos cantavam. Os quais caminhavam
caçando apostas a la tapada, ou afiavam as esporas dos campeões,
ou com bocados de aguardente roçavam-lhes os costados, levantando-lhes
a asa. Com as patas amarradas com barbantes, escavando o chão,
desafiavam-se os rivais de plumagens vistosas e pescoços congestionados.
Por fim, Zubieta agarrou um carvão e traçou no chão do caney um círculo
irregular. Colocou-se em seu assento recostando-se em uma coluna,
freqüentou a garrafa e com uma gargalhada áspera, propôs:
— Dou cem tourinhos no requentado contra o canaguay!
Clarita, atrás do grupo, moveu a cabeça para indicar-me que não
apostasse. Mas eu, com uma arrogância insolvente, avancei dizendo:
Escolho o frango e dou as duzentos e cinqüenta reses que lhe ganhei
nos dados!
O velho correu.
Então um sujeito lhe disse apertando o punho:
— Bote dez touros contra as libras que tenho aqui, ou contra
o resto que guardo em minha faixa.
Zubieta também não aceitou. Mas o homem replicou atrevido:
— Olhe, patrão, são águias** e rainhas*** pra seu enterro da topochera.
— Mentira. Mas se o ouro é legítimo, troco-o por papel-moeda.
— Não lhe admiro.
— Empreste-me uma libra pra reconhecê-la.
O velho examinou-a por todas as partes, com olhos famintos,
apalpou a gravura, fê-la soar e depois levou-a aos dentes. Satisfeito,
gritou:
— Pago! Tá feita a briga contra o canaguay!
— Mas com a condição de que o vesgo Mauco se mande, porque
senão pode rezar meu frango.
— E eu lá sou de reza ou não reza!
Não obstante, fizeram com que ele saísse do grupo, resmungando,
e fecharam-no na cozinha.
* Coquillo: em Cuba, certo tecido de algodão muito branco.
** Águia: moeda de ouro do México e dos EUA.
*** Rainha: refere-se à figura de uma rainha na face das moedas de ouro.
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Os acareadores levantaram os galos e, chupando-lhes os esporões,
esfregaram-nos logo com limão, para contentamento do público. Logo, à
voz do juiz da peleja, defrontaram-se dentro do círculo.
A galera gritava, agachada sobre a paliçada:
— Hurra, franguinho! Ao olho, que é vermelho, à perna que é
terna; à asa, que é rala; ao bico, que é rico; ao pescoço, que é teso.
ao cotovelo, que é novelo, à morte, que é minha sorte!
Os contendores, olharam-se com ira, bicando a arena, esburacando
sobre o dorso raspado e sangüíneo a gorjeira de penas furta-cor e trêmulas.
Com movimento simultâneo, num resplendor azulado, lanceando
o vazio, por cima de suas cabeças, esquivas às pontadas e asadas.
Raivosos, em meio à gritaria dos espectadores que ofereciam gabetos,
investiram-se uma vez e outra, costuraram-se às punhaladas, agarravam-se
arquejantes; e onde o bico agarrava, entrava o esporão, com firmeza
homicida, e meio ao cintilar das plumagens, em meio ao salpicar do sangue
ardoroso, em meio ao ruído das moedas no estádio, em meio à
ovação de palmas que as pessoas fizeram quando viram o canaguay
rodopiar com o crânio aberto, sacudindo-se sob a pata do vencedor que,
erguido sobre o moribundo, saudou a vitória com um clarineio triunfal.
Nesse momento, empalideci: Franco passou o tranquero, seguido
de vários ginetes.
Zubieta não se impressionou menos ao ver os recém-chegados.
Arrastando o passo, saiu a seu encontro:
— E vocês, camaradas, pra onde é que estão indo?
— Só para aqui — disse Franco apeando.
E me abraçou com efusão.
— Que notícias tem do meu rancho? Que lhe aconteceu no braço?
— Nadinha Por acaso você não vem de La Maporita?
— Saímos diretamente de Tame; mas desde ontem que disse para
o mulato Corrêa que se extraviasse em direção à minha casa e que viesse
com você trazendo os cavalos. Este abraço quem mandou foi don Rafael.
Seguiu sua viagem sem complicações, graças a Deus. Onde é que podemos
tirar as selas?
— Aqui, no caney — resmungou Zubieta E gritou aos jogadores:
— Vão pra longe com sua vagância, porque menesto o toldo.
Eles, recolhendo seus galos, saíram em direção aos toldos, com
algazarra de tiples e maracas. E os vaqueiros tiraram as selas.
— É verdade que ontem à noite houve barajuste?
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— Por que você o diz?
— Desde esta manhã que vimos cabeças de gado que corriam
sozinhas. E pensamos: ou barajuste, ou os índios! Mas agora que passamos
pelos currais...
- Sim! Barrera deixou que a boiada fosse embora. Não sei como
remediará, sem cavalos...
— Nós nos comprometemos a pegar para ele as reses que queira,
conforme o que ele nos pagar — repôs Franco.
- Eu não permito mais que andem perambulando em minhas sabanas,
porque os bichos se mañosean.
- Queria dizer que como a partir de amanhã começaremos a
recolheita dos touros que negociamos...
— Eu não assinei documento com ninguém, nem me lembro de
trato nenhum!
Ao repetir isso, batia na perna.
Quando o velho ocupou a rede, o galeiro que havia perdido veio
e nos disse:
— Perdoem que os interrompa
— Joga pra cá as libras que lhe ganhei
— É sobre isso mesmo que queria tratar: fizeram com que o
canaguay ficasse louco, deram-lhe quinina, porque desde ontem o vesgo
Mauco mascateou as pílulas nos toldos e o senhor mesmo misturou-as
com grãos de milho. O senhor Barrera quis que eu apostasse contra o
senhor, apesar do sucedido, para provar-lhe que também não joga limpo
e que não deve continuar desacreditando-o perante o senhor Cova
- Isso vocês vão ajeitar depois - interrompeu Franco, sacudindo
o encolerizado velhote. -O importante é que me esclareça agora mesmo
essa questão do negócio, porque o senhor está equivocado se pensa que
pode brincar comigo!
— Franquinho, você veio para matar-me?
— Venho buscar o gado que me vendeu e para isso trouxe alguns
vaqueiros. Vou apanhá-lo, custe o que custar! E se não, que o diabo nos
leve!
Os vaqueiros, com ganas de um novo espetáculo, agruparam-se
ao redor do chinchorro. Ao vê-los, Zubieta exclamou:
- Senhores, sirvam-me como testemunha que tava zombando.
E cadavérico porque Franco estava com um revólver, virou-se para
mim com as pálpebras úmidas:
65
— Rapaz, pelo amor de Deus! Eu te pago suas resezinhas! Franquinho,
não me fale desse modo, porque me assusta!
O intruso, que se julgava um rábula, sentenciou:
-A lealdade é pra todo mundo! Pague também ao senhor Barrera
e ficamos em paz. Ele tá de saída para o Vichada, e o senhor é o responsável
pela demora e pelos prejuízos.
O ancião, com uma reprimenda energúmena, estourou, colocando-
se entre Fidel e eu:
- Fuleiro, fuleiro! Não está sabendo quem está aqui? Quer que lhe
botemos pra fora a pancada? Por que se mete com esses cavalheiros que
são meus clientes e amigos queridos? Vai dizer ao seu Barrera que "não
me encha o saco", porque estes aqui me dão respeito!
E, apoiando-se em nossos ombros, desfechou-lhe um pontapé.
Quando Franco viu meu ferimento e lhe contei o que ocorrera,
agarrou a Winchester para ir desafiar Barrera e saiu correndo. Clarita
conteve-o no pátio.
- Que vai fazer? Nós já nos vingamos -e contou-lhe sobre o
estouro da boiada.
Ao ver a decisão daquele homem leal que arriscava a vida por mim,
assustei-me de arrependimento e quis confessar-lhe o que havia sucedido
na La Maporita, para que ele me matasse.
- Franco — disse-lhe - eu não sou digno de sua amizade! Eu bati
na menina Griselda!
Desconcertado, afogou-se nessas palavras: "Alguma falta que cometeu?
Contra sua senhora? Contra você"?
- Não, não! Me embebedei e ofendi a ambas, sem motivo algum.
Já faz sete dias que as deixei sozinhas. Dispare contra mim essa carabina.
Jogando-a no chão, atirou-se em meus braços:
- Você deve ter razão, se não a tem, concedo-a.
E nos separamos sem dizer mais nenhuma palavra.
Então Clarita apertou-me a mão: "Por que você não me disse que
tinha mulher?"
— Porque os dois não devemos falar dela
Ficou pensativa, com os olhos para baixo, dando voltas entre os
dedos com o cordão de uma chave. Depois, ofereceu-a para mim, dizendo:
— Aí está seu ouro.
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- Eu o presenteei e se você não o aceita como presente, deixa
como pagamento por seus préstimos durante minha doença.
- Oxalá você tivesse morrido!
Vi-a afastar-se em direção à cozinha, onde os músicos bebiam
guarapo. Dali, para que eu a ouvisse, acentuou:
— Digam ao senhor Barrera que vou com ele com certeza!
E, despeitada, começou a dançar ridiculamente um bunde, levantando
o vestido acima dos joelhos, entre burlas e aplausos.
Meu coração, liberto do peso da inquietação, começou a bater
agilmente. Já não me restava outra aflição que a de haver ofendido Alícia,
mas quão doce era o pensamento da reconciliação, que se anunciava
como aroma de sementeira, como pano de fundo do amanhecer. De todo
nosso passado, só perduraria o rastro dos pesares, porque a alma é como
o tronco da árvore que não guarda a lembrança das florações passadas
senão que das feridas que lhe abriram no córtex. Mas, coitados ou venturosos,
devíamos sê-lo em grau máximo, para que mais tarde, se a fatalidade
nos afastava por caminhos diversos, nos aproximasse a recordação
quando achássemos padecimentos semelhantes aos que um dia nos sangraram,
ou contingências como as que outrora sorriram para nós, quando
tínhamos a ilusão de que nos amávamos, de que nosso amor era imortal.
Até tive desejos de confinar-me para sempre nessas planícies
fascinantes, vivendo com Alícia numa casa risonha, que levantaria com
minhas próprias mãos às margens de um riacho de águas opacas, ou em
qualquer daquelas colinas minúsculas e verdes, onde haja um poço
glauco ao lado de uma palmeira. Ali, pela tarde o gado seria reunido
e eu, fumando no umbral, como um patriarca primitivo de peito suavizado
pela melancolia das paisagens, veria os pores-do-sol no horizonte
longínquo onde a noite nasce; e já liberto das aspirações vãs, do engano
dos triunfos efêmeros, limitaria meus desejos a cuidar da zona que meus
olhos abarcassem, gozando as labutas camponesas, em consonância com
minha solidão.
Para que as cidades? Talvez minha fonte de poesia estivesse no segredo
dos bosques intactos, na carícia das aragens, no idioma desconhecido
das coisas; em cantar o que diz o penhasco à onda que se despede,
o arrebol ao pantanal, as estrelas às imensidões que ocultam o silêncio
de Deus. Ali, nesses campos, sonhei que ficava com Alícia, que envelhecia
entre a juventude de nossos filhos, que declinava ante os sóis nascentes,
que sentia nossos corações fatigados em meio à selva vigorosa dos
vegetais centenários,
67
até que um dia eu chorasse sobre seu cadáver ou ela
sobre o meu.
Franco planejou a coisa de tal modo que eu não fosse para as savanas
porque meu braço podia gangrenar se a cicatriz inflamasse. Além
disso, os potros escasseavam e era melhor destiná-los aos vaqueiros
reconhecidos. Este raciocínio encheu-me de amargura.
Quinze ginetes saíram do sítio às duas da madrugada, depois de
provar o gole de café tinto tradicional. Ao lado dos cavalos, sobre a ilharga
direita das montarias, penduravam enroladas as sogas de planície,
cujo extremo era atado ao rabo de cada corcel. Os vaqueiros reluziam
bayetones individuais, estendidos sobre as coxas para defender-se do touro
nas laçadas freqüentes, e no cinto portavam o facão dentado para descornar.
Franco me deu o revólver, mas pendurou sua Winchester na
borraina da sela.
Logo o sonho voltou a vencer-me. Ah, se tivesse sentido o que
então deve ter passado!
Pouco antes do sol sair, chegou o mulato Corrêa trazendo presos os
cavalos de don Rafael. Saí ao seu encontro, pela frente dos toldos e vi
que Barrera estava fazendo a barba. Clarita, sentada sobre um baú,
sustentava-lhe o espelho com as mãos. Sem responder-lhes o cumprimento,
coloquei-me no estribo do mulato e entramos na curralada.
— Viu Alícia, que recado você me traz?
- Não pude encontrar-me com ela, porque tava chorando fechada.
A menina Griselda lhes mandou esta maleta de roupa, deve ser pra
que se apresentem de roupa mudada. A todo momento se assoma, pra
vê se vocês chegam. Tava arrumando petacas e disse que vinham pra cá
hoje.
Esta notícia me pôs jovial. Até que enfim minha companheira viria
buscar-me!
— E chegarão na curiara?
— A patroa mandou que deixassem três cavalos.
— E perguntaram por mim?
— Minha mãe disse que você ia encher de contos a cabeça do
homem.
— E sabiam algo sobre o meu braço?
— Que aconteceu? Algum animal lhe derrubou?
— Uma feridinha, mas já estou bem.
-E onde é que está minha morocha?
68
— Sua escopeta? Deve estar com minha montaria nos toldos. Vá
reclamá-las.
Ao ficar sozinho, uma dúvida lancinante me comoveu: teria Barrera
retornado a La Maporita? Eu o tinha vigiado por Mauco da manhã à
noite; mas o vesgo me diria a verdade? E pensei: já que Barrera está se
enfeitando, significa que já sabe que Alícia chega. Talvez sim; talvez não.
Mas Alícia sabia comportar-se. Além disso, aquele homem me botava
medo. Por que não o afastava de meu pensamento para afundar-me
no augúrio da visita feliz? Se Alícia me procurava, era obedecendo ao
amor e viria para reconquistar-me, para fazer-me seu para sempre, entre
sobressaltada e exigente. Reprovaria minhas faltas com acento agravado,
com tom de recriminação; e para torná-las maiores, se ajudaria com aquele
gesto inesquecível e habitual com que fechava sua boca, contraindo
os lábios para encher de graça os buraquinhos das bochechas. E querendo
perdoar, me repetiria que era impossível o perdão, ainda que a emenda
superasse o propósito e a súplica
De minha parte, poria também em jogo minha habilidade para
retardar o instante do beijo gemebundo e conciliador. Das margens do
riacho estenderia-lhe a mão cerimoniosa para que saísse da curiara,
tomando o cuidado para que não percebesse a tipóia do meu braço doente
e depois negando-me à urgência de suas perguntas:
- Você está ferido? Está ferido?
- Não é nada grave, senhora. Aflige-me sua palidez.
O mesmo faria ao aproximar-me de seu cavalo, se viessem por terra.
Pensei em mostrar-me a ela de um jeito como nunca me viu: com
certo descuido no traje, os cabelos revoltos, o rosto ensombreado pela
barba, aparentando o porte de um macho almiscarado e trabalhador.
Ainda que Mauco costumasse esfolar-me a cara com sua navalha de talhar
correias, tomei a resolução de não ocupá-lo naquele dia, para diferenciar-
me de meu rival.
Depois decidi ir-me do sítio sem esperar pelas mulheres e aparecer
uma tarde, confundido com os vaqueiros, trazendo no rabo do potrilho
algum touro iracundo, que me perseguisse bufando e me jogasse a
montaria ao chão, para que Alícia, desfalecida de pânico, me visse rendê-
lo com o bayetón e mancorná-lo com uma só virada de rabo, em meio
à respiração ofegante da peãozada atônita.
O mulato voltou dos toldos com uma arma e montaria.
— O senho Barrera ficô aflitíssimo. Que não sabia que estas coisas
tavam lá. Entendi que eles mandariam gente buscá os bichos dispersados.
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— Lhe proíbo essa companhia Se você não quer ir sozinho, irei
junto.
— Onde foi que lhe disseram que anoiteceriam?
— Em Matanegra
— Mas don Fidel me indicou a veiga do Pauto. Vou porque a noite
me agarra e me rega a brigada.
— Guarda essa roupa naquele quarto e traga-me a carabina. Vamos
a qualquer lugar. Eu o acompanharei.
Fui à cozinha para despedir-me de Zubieta Chamei-o várias vezes.
Ninguém respondeu.
Quando estávamos tão distantes do sítio que só se percebia os tufos
de seus palmares, o mulato desmontou para carregar a escopeta
— É sempre bom andá prevenido. Pólvora pouca e munição até a
boca
— A que obedece sua precaução?
— A gente do homem pode alcançar-nos. Por isso repeti que íamos
à veiga do Pauto, para que os mucharejos que consertavam as portas do
curral o ouvissem. Agora nos arrancamos pró mundo, disse o senhor.
Havíamos caminhado três léguas mais, quando voltou a afastar-me
do pensamento de Alícia
- Quero consultar-lhe meu caso e perdoe. A Clarita "me botou o
olho".
— Está apaixonado por ela?
-É essa a consulta Faz quinze dias me jogou esse floreado:
que negrinho mais bem formado! Desse jeito, me provoca!
— E o que você respondeu?
— Fiquei com vergonha ..
-E depois?
— Isso vai também com a consulta: me propôs que enforcássemos
o velho Zubieta e fugíssemos pra longe.
— E por quê? Como? Para quê?
— Pra que diga onde tem enterrado o ouro.
— Impossível! Impossível! Essa é uma sugestão de Barrera
— Cabalmente, porque ele me disse depois: se esse mulato se vestisse
bem, como ficaria ajeitado e que mulheres cairiam por ele. Eu sei
de uma pessoazinha que o quer muito.
- E o que você respondeu?
— "Essa pessoazinha dorme com o senho!" Desse modo joguei-lhe a coisa,
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mas o maldito não se ofende por nada Pôs-se a desatinar contra
Zubieta, dizendo que ele não pagava à crioulagem seu trabalho; e quando
acontecia de dar alguinho a uma pessoa, tirava os dados pra depená-lo no
jogo. E essa sim é a verdade.
Como o calor me estava sufocando, ordenei ao mulato que me levasse
a algum esteiro onde pudesse saciar a sede.
- Puraqui não encontramos água em parte alguma Onde existe
umjugüey famoso é ao lado daquelas dunas.
Começamos a atravessar umas glebas imensas, de terra tão ressecada
e endurecida que limava os cascos das montarias. E era necessário
avançar por ali, pois os zurcàs labirínticos estendiam para os lados suas
redes de regos exaustos, conhecidos só pelo tigre e pela serpente.
O bebedouro era um pocinho de água salobre e turva, espessa
como xarope, emporcalhada pelos quadrúpedes da região. Ao vê-lo,
senti uma repugnância instintiva, mas Corrêa me seduziu com o exemplo.
Agachou-se sobre o estribo e, por entre as patas dos cavalos sitibundos,
tirou seu chifre transbordante.
— Tape-o com o lenço pra que sirva de peneira
Assim o fiz várias vezes, sacudindo os animalzinhos que abundavam
colados no revés do tecido úmido.
— Branco, puraqui anda gente forasteira Aqui tá o rastro de uma
mula ferrada, e isso não é de lei nessas savanas onde não tem pedra
O mulato tinha razão, porque a pouca distância do poço vislumbramos
dois pontos que se moviam a distância
— Essas são pessoas que andam perdidas.
— Mais parece gado.
— Aposto como são racionais.
Provavelmente nos haviam visto, porque se viraram em nossa direção.
Já percebíamos o guarda-chuva vermelho do que vinha na frente,
afligindo a mula com os estribos, envolto em um enorme lençol, à maneira
das matronas rurais. Esperamo-los debaixo de um moríche de sombra
egoísta, com curiosidade e receio.
Enquanto Corrêa remudava as bagagens, chegaram os sujeitos
desconhecidos, cumprimentando-nos aos gritos:
— Favor para a justiça que anda extraviada!
- Agora e sempre - respondeu o mulato ingênuo.
— Mostre-nos o caminho para o Sítio Grande. Este doutor é juiz de
Oracué e eu, seu secretário interino e, por extensão, condutor.
Ao ouvi-lo, averiguei se esse funcionário era o que assinava
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José Isabel Rincón Hernández; e fiz esta pergunta porque de tal pessoa eu
sabia que de peão de estrada ascendeu a músico de banda municipal e
depois a juiz de circuito de Casanare, onde seus abusos o tornavam
célebre.
— Sim — respondeu o enguardachuvado. — Eu sou o doutor e
esse que lhes fala é um simples escrevente.
O tísico rosto do senhor juiz era bilioso como seus óculos de celulóide
e repulsivo como seus dentes cheios de tártaro. Simiescamente
risível, apoiava o guarda-sol no ombro para enxugar o pescoço com uma
toalha, amaldiçoando os deveres da justiça que lhe impunham tantos
sacrifícios, como o de viajar mal montado por terras selvagens, em inevitável
contacto com pessoas ignorantes e malnascidas, expondo-se ao
risco dos índios e das feras.
— Leve-nos agora mesmo — ordenou com um acento declamador,
movendo a mulengue — ao sítio infernal onde um tal de Cova comete
crimes cotidianos; onde meu amigo, o potentado Barrera, corre sérios
riscos de vida e fazenda; onde o fugitivo Franco abusa de meu critério
tolerante, que só lhe exige conduta correta e nada mais. Coloquem-se os
senhores, incondicionalmente, a serviço da justiça e troque-nos estas bestas
por outras melhores.
— O senhor se equivoca, tanto em seus conceitos, como no caminho
que procura. Nem o sítio fica por aqui, nem as pessoas que nomeia
são todas como o senhor pensa, nem meus cavalos são bens monstrengos.
— Saiba o senhor, jovem desrespeitoso — replicou-me irado — que
por zelo plausível nos aventuramos sozinhos nesses pampas. O mensageiro
que Zubieta me enviou, clamando por auxílio contra Barrera, foi
seguido por outro deste, para exigir caução contra o fascínora Cova Viemos
para dispensar garantias e os senhores se favorecem também com
elas, porque a justiça é como o céu que nos cobre a todos. E se é verdade
que o empíreonos cobre embalde, não é menos certo que as relações
dos humanos fazem necessário a sustentação unânime do bem comum.
Toda contribuição é legal e pertence ao direito público. Se os senhores
não querem servir de guias, entregue-me uma quantia equivalente a que
um condutor de boa vontade pediria pelo seu serviço.
— O senhor está-nos declarando uma multa?
— Irrevogável, sem apelação — confirmou o secretário — leve em
conta que agora não nos pagam os soldos.
— Pois olhem os senhores — repliquei perverso —o sítio está próximo
e nós vamos para Carozal. Descabecem aquela savana, depois margeiem
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a mata do monte, atravessem o caño, "deixem-se ir" pelo esteirüo
e dali avistarão a casa antes de meia hora.
- Está ouvindo? — repreendeu o juiz. — O que eu lhe dizia.
Você fez com que eu me ensolarasse por aqui, por rotas desacostumadas,
por trágicos canaviais defraudando suas obrigações de conhecedor.
Imponho-lhe uma multa de cinco pesos!
E depois de reduzir a nossa ao fornecimento de tabaco e fósforos,
entraram no horizonte, com rumo contrário.
Corrêa esclareceu-me alguns detalhes relativos à embrulhada de
Franco em Arauca. Um jovem chamado Heli Mesa, que "atualmente
vivia como colono no riacho Caracarate", veio uma vez ao La Maporita e,
enquanto tiravam as ervas do conuco, relatou-lhe os acontecimentos
como testemunha presencial. Franco era tenente da guarnição e montara
sua casa longe do quartel, às margens do rio. O capitão começou a perseguir
a menina Griselda e, para cortejá-la a seu belprazer, deixava o
subalterno em serviço. Este, já inteirado dos propósitos do chefe, abandonou
o posto uma noite e correu à casa. Ninguém soube o que se passara
a portas fechadas. O capitão apareceu com duas punhaladas no peito e,
debilitado pela perda de sangue, morreu de febre na mesma semana,
depois de prestar declarações na justiça favoráveis ao acusado.
Nem o homem nem sua mulher foram perseguidos jamais, ainda que
tenham desaparecido na mesma noite da desgraça. Só o juiz Orocué
expedia-lhes de moto próprio bilhetes de comparência, equivalentes a
letras de câmbio, pois o ouro corria para falar por eles, com um costume
tão descarado que as ordens judiciais já se limitavam a dizer:
"Mandem o deste mês".
Enquanto conversávamos pela estepe, um zéfiro repentino e crescente
começou a agitar as crinas dos cavalos e a brincar com nossos sombreiros.
Pouco depois, umas nuvens endemoniadas levantaram-se em direção
ao sol, devorando a luz e um canhoneio subterrâneo estremecia a
terra. Corrêa me advertiu que o aguaceiro se aproximava e abreviamos
as planícies a galope tenso, tocando a brigada, solta, para que se defendessem
com liberdade. Procurávamos o abrigo dos montes ao fundo
e saímos em uma lhanura onde gemiam as palmeiras, cirandadas pela
aragem forte com uma insolência tão poderosa que as fazia desaparecer
do espaço, agachando-as sobre o solo, para que varressem o pó das pastagens
crispadas. Nas rampas, com disciplinado apuro, os rebanhos congregavam-
se, presididos por touros mugentes, de rabos desviados,
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que se impunham ao vendaval agrupando as fêmeas covardes e abrindo em volta
uma brecha categórica e defensiva. As águas corriam ao contrário e os
bandos de patos davam voltas nas alturas qual folhas dispersas. Súbito,
fechando as lonjuras entre o céu e a terra, o terrível nubífero despendurou
seus tentáculos, rasgado por faíscas, aturdido por trovões, convulsionado
por tormentas que vinham empurrando a escuridão.
O furacão foi tão furibundo que quase nos arrancava das montarias
e nossos cavalos se detiveram, dando a garupa à tormenta. Rapidamente
nos desmontamos e, solicitando os bayetones sob o aguaceiro, nos
estendemos de peito entre a capoeira. Escureceu-se o âmbito que nos
separava das palmeiras e só víamos uma, de talo grosso e longas asas que
se erguia como a bandeira do vento e zumbia ao faisquear qual isca
sob o relâmpago que a acendia; e era belo e aterrador o espetáculo daquela
palmeira heróica, que agitava as fibras do penacho flamejante
ao redor do tronco fendido e morria em seu lugar, sem humilhar-se nem
emudecer.
Quando passou a tromba-d'água, nos demos conta de que a brigada
havia desaparecido e cavalgamos para persegui-la. Calados, em meio
ao ventanval proceloso, andamos léguas e léguas sem poder encontrá-la
e caminhando atrás da nuvem que corria como um muro negro, topamos
com os penhascos do transbordado Meta. Dali, olhamos as revolucionadas
ondas ferver, em cujas cristonas molhavam-se os raios em um
serpentear implacável, enquanto que os barrancos ribeirinhos desprendiam-
se com suas colônias de monte virgem, levantando altíssimas colunas
de água. E o estrondo da queda era seguido pelo matraquear dos
cipós, até que ao fim o bosque girava no marulho, como a balsa do espanto.
Depois, entre pastagens chovidas onde as palmeiras iam levantando-
se com medo, continuamos à procura da bestiagem e, sempre perambulando,
caiu sobre nós a noite. Mofino, trotava atrás de Corrêa, no pestanejar
dos derradeiros relâmpagos, metendo-nos até a cilha nas baixadas
inundadas, quando do começo de um mirante divisamos fogueiras
longínquas que pareciam alegrar o monte. "Ali bivacam nossos companheiros,
ali estão!" E, alvoroçado, comecei a gritar-lhes.
— Pelo amor de Deus, pelo amor de Deus, cale a boca que são os
índios!
E outra vez nos afastamos pelo deserto escuro, onde começaram
a rugir as panteras, sem resolvermo-nos a descansar, sem abrigo,
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sem rumo, até que a aurora tardia abriu seu alcácer de ouro para nossa esperança
desfalecente.
Nem bem o dia tinha ficado claro, vimos uns vaqueiros que traziam
na frente a madrinha dos bois amestrados, indispensável em qualquer
trabalho, pois serve para acalmar os touros recém-agarrados. Havia saído
o sol e, sobre os grandes reflexos que estendia na lhanura, avançavam as
reses, descopando a grama.
Entre os ginetes que nos cumprimentaram não estava Fidel, mas
Corrêa chamou-os por seus nomes, atropelando-se nos detalhes sobre o
toro repentino, sobre o desaparecimento das bestas, sobre o encontro
com os indígenas.
— Mano Ugenio, é a primeira vez que me embejuco de noite nestas
savanas, e pra cúmulo, com este branco tão resignado que nem sequer
tem os braços bons. Já pensará que sou um mulato indecente.
— Isso acontece com todo mundo, mano Antuco. Lhaneiro não
dorme de touca nem pergunta por caminhos; mas com água, trovão e
relâmpago, não se pode garantir.
— E vocês estavam de batida? Como se saíram?
— Porcamente. Alegramo-nos que chovesse e viemos embora pela
tardinha. Velamos toda noite sem ver nenhuma punta porque o gado se
assustou com as trovoadas e não quis deixar o monte. Pela madrugada
saiu uma manchinha de reses, mas não foi possível tocá-la, ainda que
a madrinha tenha se portado tremendamente bem, convidando-a com
mugidos. Então resolvemos jogar os pangarés em cima deles, pra vê que é
que pegávamos: era puro vacaje velho e se perdeu a corrida. Todos laçamos
sem proveito, menos aquele mulatinho do interior, que deixou o
cavalo esnocar correndo na escuridão. Por isso tá vindo a pé, com os
arreios nas costas.
— Mano Tista — gritou Corrêa — venha, monte nesse potro, que eu
quero desentorpecer-me.
Para que não achassem que as fadigas me intimidavam, invoquei a
lembrança de Alícia para avivar-me e disse:
— Mano Sidoro, quantas reses pegaram ontem a laço?
— Umas cinqüenta. Mas pela tarde, burriaram os pescoções e quase
teve vaina entre Millán e Fidel.
— Que aconteceu? Que aconteceu?
— Que Millán apareceu com uma gente para dizer que menestava
os currais de Matanegra, para meter os touros do estouro, porque vinham
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pegá-los de novo. Franco não quis responder nem um ai, mas quando viu
que haviam trazido a cachorrada» xingou-lhe a mãe. Enquanto isso, os
outros, que na certa andam mal montados, aprochegaram-se à madrinha e
disseram que os brejanos que estavam recolhidos eram os mesmos que se
haviam ido de don Barrera e quiseram tomá-los pela força. Então nos
pegamos a muecos uns com os outros e Franco esticou a carabina para
Millán.
— E onde é que a gente de Barrera tá acampada?
— Uns voltaram. Outros andam por aí armados de machete.
Esse negócio vai ficar feio. E pra pior, vocês deixaram os cavalos fugirem.
— O mau não é esse — exclamou um que chamavam mano Fabián
— o grave é que o juiz tá no sítio, segundo disseram. Como que toparam
com ele embarbacado, e Millán fez com que um vaqueiro o encaminhasse
à vivenda. E com a justiça não nos metemos, porque nos agarra sem
dinheiro. Nós queremos ir embora.
— Companheiros — repliquei — eu me responsabilizo de que não
vai acontecer nada.
— E quem se responsabiliza por você, que é quem a autoridade está
procurando?
Fidel não se acovardou com o contratempo, nem repreendeu o
mulato; até se alegrou de que meu braço ferido pudesse manejar as rédeas.
Era de opinião que a brigada de animais havia retornado aos pastos
acostumados e que a encontraríamos na La Maporita.
Notei-o renitente em referir-se a altercação com Millán. "Essa discussão
não vale um tostão furado. Além disso, nesta savana cabem muitíssimas
sepulturas; a precaução está em arranjar para que outros façam
de mortos e nós de enterradores." Disse assim, sorridente; mas recebeu
sobressaltado a notícia de que os vaqueiros queriam deixar-nos sozinhos.
"Na certa que se vão, porque todos têm contas com a justiça, porque
todos roubam gado."
— E a que horas continuará o recrutamento? — averiguei devorando
o almoço de carne tostada, que eu mesmo cortava da costeleta chiando
no rescaldo,
— Só esperávamos a madrinha. Foi um erro levá-la para o Guanapalo,
sabendo que os índios tocam o gado por aí e que os rebanhos
se adentram por esses montes. Mas nesse banco tem dois mil cachones ou
mais.
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Os cavalos ainda resistem umas duas corridas, ou seja trinta
touros agarrados porque o ginete que perde laçada, paga multa.
- E os enviados de Barrera, onde estão?
- Olhe-os: amanheceram naqueles montículos. Essa gente não é
do ofício, com exceção de Millán, que é um verdadeiro cobra para a rabeada.
Já os notifiquei pessoalmente que se a cachorrada me alvoroça a
vacaria, podiam encomendar a alma ao diabo e que levassem saudações
nossas, porque nós os mandaríamos para o inferno.
Nesse meio tempo, os vaqueiros da madrinha encaminhavam-na
lhanura abaixo, e a deixaram em um esteiro, pastoreada por vários
rapazes. No limite oposto de um morichal, viam-se puntas de touros,
pastando descuidadamente. Avançamos abertos em arco para cair-lhes
em cima como um aguaceiro, quando ouvíssemos o grito dos caporais;
mas as reses nos farejaram e correram em direção aos montes, ficando só
um ou outro macho desafiador, empinando a cornadura para amedrontar
as montarias.
Então os cavalos lançaram-se atrás da debandada, por cima dos estevais
e dos carunchos, com uma celeridade vertiginosa e os fugitivos
se fatigaram com o zumbido das laçadas que, abertas, cruzavam o vento
para cair-lhes nos cornos. E cada vaqueiro laçou seu touro, desviando-se
para a esquerda, para que o resto da soga enrolada saltasse longe da montaria
e o potro resistisse ao tirão no rabo, sem enredar-se nem fraquejar.
Ao sentir-se agarrada, a fera indômita pulava nos matorrais e se
aguilhoava atrás do ginete, torcendo sua meia-lua de punhais. Freqüentemente,
chifrava o rocim que se enlouquecia, corcoveando para derrubar
o cavaleiro sobre as astes inimigas. Então o bayetôn ajudava:
ou caía estendido para que o touro o chifrasse enquanto o potro se continha,
ou nas mãos do vaqueiro desmontado fazia as vezes de um capote
de toureiro, em lascas desconcertantes, sem espectadores nem aplausos,
até que a rês, agarrada pelo rabo, caísse. Destramente manejava-a, fendia-
lhe o nariz com o punhal e por ali passava a soga, atando as pontas
à crina traseira do potranco, para que o bovino ficasse sujeito na cartilagem
em forma de lâmina no vibrante seio da corda dupla. Assim era
conduzido até a madrinha e quando se incorporava a ela, o ginete
virava-se sobre a garupa, soltava um cabo do brutal aguilhão e o fazia sair
a tirões pela narina atormentada e sangrante.
Eu montava alegremente um cavalinho tordilho, apaixonado
pelas distâncias, que ao ver seus companheiros balançando-se sobre o rebanho
disparou a rédeas esticadas atrás dele, com uma violência tão
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ágil que num instante a lhanura passou-se debaixo de seus cascos. Adestrado
pelo costume, pôs-se a perseguir um touro pardo e era digno de
ver-se a pujança com que fazia soar-lhe os freios sobre o lombo. De vez
em quando eu atirava o laço, com mão inexperiente; mas, de repente,
o bicho revirando-se contra mim, enfiou-lhe ambos os chifres na bexiga
da cavalgadura. O pangaré, desfundado, me desmontou com um golpe raivoso
e fugiu emaranhando-se nas entranhas, até que o cornúpeto embravecido,
ultimou-o a chifradas contra a terra.
Advertidos do aperto em que me encontrava, dois ginetes desbocaram-
se à minha procura. O animal fugiu pelos terrões. Corrêa me
deu seu potro e, ao sair desabalado atrás de Franco, vi que Millán, com
uma aceleração competidora, tendia seu cavalo contra a rês; mas esta,
quando o homem inclinou-se para agarrá-la pelo rabo, enganchou-o com
um chifre pelo ouvido, de lado a lado, desgarrou-o da montaria e, levando-
o no alto como um boneco de palha, abria com as coxas do infeliz
uma vereda profunda no pajonal. A besta, surda ao nosso clamor, trotava
com o morto de arrastão, mas, num instante horrível, pisando-o, arrancou-
lhe a cabeça com um golpe e, arremessando-a longe, começou a amparar
o tronco mutilado a cascos e chifres, até que a Winchester de Fidel,
com carga dupla, perfurou a testa homicida.
Gritamos por socorro e ninguém vinha; corri a todos os lugares
com a notícia e não encontrava ninguém. Por fim, topei com uns vaqueiros
que tinham cavalo e touro unidos aos extremos de cada soga.
Ao ver-me, cortaram-nas com os facões para acudir ao meu chamamento.
E corríamos mais pálidos que o cadáver.
Quando chegamos ao lugar da tragédia, levavam para o monte os
despejos do vitimado, na redinha de um bayetôn sustentado por quatro
pontas. Franco tinha a camisa cheia de sangue e desafogava a gritos sua
agitação entre o grupo de peões silenciosos. O morto jazia de costas sobre
um moriche tombado e o haviam coberto com sua própria ruana, à espera
da rigidez.
Então fomos buscar os restos da cabeça no meio das moitas atropeladas
e não os achamos em parte alguma. Os cachorros, em volta do
touro jacente, lambiam-lhe a cornadura.
Regressamos ao outeiro a pleno sol. Corrêa espantava com um
galho as moscas do morto. Franco, em um esteirinho próximo, se limpava
dos coágulos. Os companheiros de Millán faziam projetos para dançar
o velório.
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- O que eu teria agradecido — resmungava um deles — se desde
onte se tivessem despescoçado em nossa presença. Mas isso de dizer que
foi o touro que matou, quando ouvimos claramente os tiros, me soa esquisito.
Não tinha por que arrastá-lo e descabeçá-lo. Esse tipo de crueldade
ofende a Deus.
- Você não sabe como foi a desgraça?
- Sim, sinhô. O assassino, o touro; o morto, Millán; os cúmplices,
nós, e os inocentes, vocês. Por isso estou indo na frente, pra que abram
o buraco e aprontem a música e a bebida e cortem a mortalha para quem
a merece!
Assim disse e, resmungando ameaças, afastou-se a toda pressa.
Eu não queria ver o defunto. Sentia repugnância ao imaginar aquele
corpo rebentado, incompleto, lívido, que foi albergue de uma alma
inimiga e que minha mão castigou. Perseguia-me a recordação daqueles
olhos avermelhados e rancorosos que me assaltaram em qualquer parte,
calculando se o revólver estava em minha cintura. Aqueles olhos, onde
caíram? Estariam pendurados em alguma brenha, aderidos ao frontal
esfarrapado, esvaziados, repulsivos, gotejantes? Que seria daquela cabela
obtusa, centro da malícia, filtro da vingança, covil da maldade e do
ódio? Eu o senti crepitar ao choque com o chifre curvo que lhe assomou
pela têmpora oposta, enquanto o sombreiro desatado saltava no ar; vi
quando o touro, desgarrando-a pelo cachaço, projetou-a para cima,
qual balão desgrenhado. E que foi dela? Onde sangrava? Teria a fera
enterrado-a com seus cascos, quando defendendo o cadáver, trilhou o
matorral?
Lentamente, o desfile mortuário passou na minha frente: um homem
a pé cabrestava o cavalo fúnebre e os ginetes taciturnos vinham
atrás. Mesmo com o asco enrugando-me a pele, joguei minhas pupilas
sobre o despojo. Atravessado na montaria, com o ventre ao sol, ia o corpo
decapitado, entreabrindo as ervas com os dedos rígidos, como se fosse
para agarrá-las pela última vez. Tilintando nos calcanhares desnudos,
pendiam as esporas que ninguém se lembrou de tirar e, do lado oposto,
entre os parênteses dos braços, o cotoco do pescoço destilava aguasangre,
rica em nervos amarelentos, como raizinhas recém-arrancadas. A
abóboda craniana e as mandíbulas que a seguem faltavam ali, e somente
o maxilar inferior ria torcido, como se estivesse troçando de nós. E esse
riso sem rosto e sem alma, sem lábios que o corrigissem, sem olhos que o
humanizassem, me pareceu vingativo, torturador, e ainda hoje através
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dos dias que correm, repete-me seu esgar de além-túmulo e me estremece
de pavor.
Mais tarde, quando a comitiva começou a fumar e a conversa pôs-
se ruidosa, Franco propôs:
— Já que será necessário que se suspenda a vaquejada enquanto
a situação se normaliza, convém regressar à procura das cavalaiias. Os
vaqueiros mais bem montados, venham cá; os outros, levam a madrinha
atrás do morto. Por ali nos toparemos ao anoitecer.
Só sete peões obedeceram. Antes de abandonar os indolentes,
roguei que um rapaz se adiantasse com notícias nossas, para prevenir o
espírito de Alícia quando divisasse o cortejo que, naquele minuto, entrava
no morichal de lonjura, como se estivesse entrando por entre as colunatas
de uma basílica descoberta. Os bois da madrinhagem alongavam a
procissão.
Ainda que o mulato me tenha assinalado as savaninhas onde anoitecemos
na véspera, me foi impossível reconhecê-las, por sua semelhança
com as demais; mas percebia o rastro do ventanal nas ramagens desgrenhadas,
nos troncos fulminados de algumas palmeiras, no desengonço
dos pastos vencidos. Enquanto isso, a recordação do mutilado me acompanhava,
e com uma angústia jamais padecida, quis fugir do lhano bravio,
onde se respira um calor guerreiro e a morte cavalga à garupa dos rocins.
Aquele ambiente de pesadelo me enfraquecia o coração, e era preciso
voltar às terras civilizadas, à quietude da moleza, ao sonho e à tranqüilidade.
Diluído pelo soçobro, me atrasei de meus camaradas quando os
cachorros nos alcançaram. De repente, a matilha uivadora, com a narina
para o alto, circundou o perímetro de uma lagoa dissimulada por juncos
elevados. Enquanto os ginetes corriam fazendo fogo, vi que uma tropa
de índios se dispersava no meio do mato, fugindo em quatro pés com
uma vaquía tão acelerada que só se percebia seu roteiro pelo tremor
dos pajonales. Sem gritos nem lamentos, as mulheres se deixavam assassinar
e o varão que pretendesse usar o arco caía sob as balas, espedaçado
pelos cães de fila Mas com uma resolução repentina, surgiram
indígenas de todas as partes e fechavam com os potros para desjarretá-
los com o macaná e vencer os ginetes no corpo a corpo. Dizimados
nos primeiros ataques, debandaram em correria, numa longa competição
com os cavalos, até refugiar-se em intrincados montes.
— Aqui, Dólar, aqui Martel! — gritava eu bruscamente,
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defendendo um índio veloz que desconcertava com seus ziguezagues a dois
cachorros ferozes. Seguindo-o sempre, paralelo às curvas que descrevia,
o vi desandar o mesmo rastro, engatinhando manhosamente, sem abandonar
sua enfiada de peixes. Ao dar-se comigo, caiu no mato e eu,
receoso de seus arrojos, parei as rédeas. Mas de joelhos, abriu os braços:
"Senhor Intendente, senhor Intendente! Eu sou o Pipa! Tenha piedade
de mim!"
E sem esperar que eu o respondesse, com medo da cachorrada,
saltou para a garupa do meu alazão, abraçando-me compungido:
— Perdão, perdão! Agora conto o negócio do cavalo!
Achando que o coitado me maltratava, os homens vieram em
meu socorro e Corrêa o jogou ao chão com uma coronhada; mas se demorou
mais em cair do que em empoleirar-se de novo, exclamando:
"Nós somos amigos! Eu sou o pajem da senhora"!
- Olhem só esse come-gado, capitão da guajibera, assaltante das
fundações, a quem botamos para correr tantas vezes. Agora vai me
pagar o que aprontou, avista!
— Cavalheiro, não se equivoque, não se precipite, não me confunda;
a coisa foi que os índios me apreenderam, me empelotaron
e o senhor Intendente me libertou. Ele me conhece muito e sua senhora
me necessita!
Como todos lhe imputavam os incêndios no Haitico, fingia que estava
chorando oceanos de lágrimas, consternado pela calúnia. Depois,
aferrando-se em meus quadris, levantou suas pernas sobre as minhas para
que os cachorros não o mordessem, simulando vergonha por estar pelado.
E eu, que passei da surpresa à caridade, o conduzi na garupa rumo ao
sítio, em meio aos protestos de meus companheiros, que o ameaçavam
com a castração como represália por suas estrepulias.
Logo que recuperou a confiança, o prisioneiro iniciou seu discurso
equivocado, que interrompia para pedir-me que ordenasse aos vaqueiros
para se adiantarem. "Não o faço por mim", dizia, "mas sim pelo
senhor: pode ser que escape um tiro deles e nos atravesse as costas".
Depois, com um tom de amante que convence ao ouvido, acrescentou:
— Como ia ser possível que o senhor Intendente chegasse à sua
capital sem que lhe prestassem um recebimento digno? Estas minúcias
não me deixavam dormir naquela noite e montei em seu cavalo para
levar a notícia ao povoado, tão decidido a regressar logo que deixei para
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o senhor a minha égua enxalmada. Mas ao saber das tropelias que iam
cometer contra o senhor pela trazida da senhora, passou o seguinte
por minha cabeça: se o encarceram, ninguém me livra do meu padrinho;
se lhe revistam a bagagem, ficam com tudo; o cavalo vale mais que a potranca,
mas ambos os dois serão tomados e é preferível que eu dê minhas
trotadinhas por Casanare e retorne no fim do verão para devolver tudo,
o rocim e a sela. Mas ao baixar por essas savanas, os vaqueiros de um tal
Barrera me atalharam, dizendo que eu andava atrás do gado e queriam levar-
me preso para o Hatico e me roubaram até o sombreiro e, por ter
ficado a pé, os guahibos me prenderam. Mas estava esquecendo-me de
perguntar pela senhora. Como vai ela?
Em qualquer outra situação, o pitoresco enredo de suas desculpas
teria divertido-me; mas então, quase ao anoitecer, só queria alcançar
o morto para impedir que Alícia o visse.
À meia-luz, pela lhanura, iam os ginetes a passo lento.
Quando os alcançamos, suas caras não se diferenciavam, mas Franco
os reconheceu:
— Por onde vão os homens do cadáver?
— Os caporais resolveram atirá-lo no riacho, porque não se agüentava
a fedentina. Depois foram para suas terras, pois não queriam trabalhar
mais.
— Nós também não o acompanhamos — advertiram alguns.
— Não gosto dos sem-vergonhas e prefiro ficar sozinho. Os que
quiserem sua diária, venham comigo.
Eles pronunciaram esta grande frase:
- "Nós preferimos a liberdade."
— Pra que lado correram os camaradas?
— Pra costa do Guachiría.
— Então, adeus!
E galoparam diante da noite.
Os quatro restantes caminhamos a toda pressa à procura do sítio
semiborrento, onde pestanejava uma candeia. Mesmo com o Pipa clamando
por ajuda, forcei-o a apear-se. E por último, como um fantasma
escuro, nos perseguia na tarde alta.
Um raro temor me provocava calafrios quando nos aproximamos
dos currais. Dali, percebemos que a ramada estava em silêncio e que uma
grande fogueira clareava o pátio. Olhei para os toldos e já não os vi.
Com uma carreira súbita, cheguei até os tranqueros, e o potro, ofuscado,
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resistia em invadir a estância. Mauco e umas mulheres acudiram: "Por
Deus! Saiam logo porque senão os agarram!"
- Que está acontecendo? Onde está Alícia? Onde está Alícia?
— O velho ZubLeta dorme enterrado e tamos consolando-nos com
a candeia.
— Que aconteceu? Diga logo!
- Que essa volada lhes saiu pela culatra.
Foi preciso ameaçá-lo para que informasse: um crime havia sido
cometido na véspera. Vendo que Zubieta não se levantava, arrombaram a
porta da cozinha. Pendurado pelos pulsos no laço do chinchorro, balanceava-
se o velhote, vivo ainda, sem queixar-se nem articular uma palavra,
porque na base da língua amarraram-lhe um cânhamo. Barrera não quis
vê-lo; mas, quando o juiz chegou ao sítio, fez imputações tremendas
contra nós. Jurou que em dias anteriores tínhamos ameaçado o avô
para que revelasse o esconderijo de seus tesouros; que nessa noite, logo
que as pessoas se foram para os toldos para embriagar-se, penetramos
pelo cavalete do teto e cometemos a atrocidade, distribuídos em grupos
para cavar simultaneamente na topochera, no quartinho e nos currais. O
juiz obrigou a que todos assinassem a consabida declaração e regressou
nessa mesma tarde, custodiado por Barrera e seu pessoal; e o defunto foi
sepultado numa daquelas escavações, debaixo da mangueira grande,
talvez por cima das tinas de morrocotas, sem colocar-lhe alpargatas
novas, sem que lhe ajustassem a queixada com um lenço, nem lhe
rezassem o Pai-Nosso, nem lhe bailassem as nove noites. E para maior
desgraça, eles tinham de se preocupar para que os porcos não remexessem
na sepultura, pois uma vez já haviam desenterrado um braço do morto
e o engoliram em grunhidos horríveis.
Eu estava tão aturdido com tal história que não havia reparado que
uma das mulheres era Bastiana. Ao vê-la, gritei-lhe com um acento pávido:
- Onde está Alícia? Onde está minha Alícia?
— Foram-se! Foram-se e nos deixaram!
- Alícia? Alícia? O que vocês está dizendo?
- A menina Griselda a levou!
Apoiando os cotovelos no tranquero, comecei a chorar com pranto
fácil, sem soluços nem contorções; era que a fonte da desgraça, vertendo-
se em meus olhos, me aliviava o coração de uma maneira tão desconhecida
que, por um momento, permaneci insensível a tudo. Olhei com
cara aflitiva para meus companheiros, sem sentir pudor por minhas
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lágrimas e os vendo consolar-me como em um sonho. Ali, todos me
rodeavam. O Pipa apropriara-se de uma de minhas roupas, as mulheres assavam
carne e Franco exigia que eu fosse deitar. Mas ao dizer-me que
Alícia e Griselda eram duas vagabundas e que as substituiríamos por
outras melhores, meu despeito estourou como um vulcão e, saltando
em cima do potro, parti enlouquecido para alcançá-las e dar-lhes morte.
E na vertigem da fuga, parecia estar vendo Barrera, descabeçado como
Millán, preso pelos calcanhares ao rabo de um corcel, dispersando os
membros pelas pastagens, até que, atomizado, extinguia-se no pó dos
desertos.
Ia tão cego pela iracúndia, que só tarde percebi que galopava atrás
de Franco e que íamos chegando a La Maporita. Era verdade que Alícia
não estava ali! Deveria estar estendida na rede do meu rival, libidinosa,
enquanto eu, desesperado, desvelava a imensidão aos gritos.
Foi então que Franco tacou fogo em sua própria casa.
A língua do fósforo fez vibrar as franjas da palmicha, abrindo-se
em onda sonora que encheu a comarca de resplendores cárdeos. Num instante,
o bananal chamuscado afrouxou as folhas e as faíscas multiplicaram
os estragos na cozinha e no caney. Do mesmo modo que a víbora mapanare*,
que volta as presas contra o rabo, a labareda retorcia-se sobre si
mesma, defumando a limpidez da noite e começou a disparar bombas na
lhanura, onde o vento — aliado luciferino — emprestou suas asas à
candeia.
Nossos cavalos, espantados, retrocederam em direção ao riacho de
águas vermelhas e dali vimos desabar a morada que serviu de abrigo aos
meus sonhos de riqueza e paternidade. Entre as paredes da alcova que foi
de Alícia, o fogo se balançava como um berço.
Idiotizado, contemplava o pélago assolador sem dar-me conta do
perigo; mas quando vi que Franco se afastava daquelas lareiras, maldizendo
a vida, gritei que nos atirássemos às chamas. Alarmado por minha
demência, lembrou-me de que era preciso perseguir as fugitivas até
vingar a ofensa incrível. E correndo, correndo no meio de claridades
incomensuráveis, observamos que a casa do sítio também ardia e que as
pessoas davam alaridos nos montes.
A calorosa devastação pastava nos pajonales de ambas as margens,
* Mapanare: cobra muito venenosa da Venezuela, de cor negra e amarela.
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serpenteando nos cipoais, trepando nos moriches e rebentando-os com
retumbos de pirotecnia. Foguetes em chamas saltavam a grandes distâncias,
furtando-lhe combustível à linha de retaguarda, que estendia para
trás suas melenas de fumaça, ávida por abarcar os limites da terra e bater
seus estandartes flamígeros nas nuvens. A falange devoradora ia deixando
fogueiras nas planícies empretecidas, sobre corpos de animais carbonizados
e em toda a curva do horizonte os troncos das palmeiras ardiam
como círios enormes.
O estalido dos arbustos, o ululante coro das serpentes e das feras,
o tropel das cabeças de gado espavoridas, o amargo odor à carne queimada,
agasalharam-me o orgulho; senti prazer por tudo o que morria na retaguarda
de minha ilusão, por este oceano purpúreo que me arrojava
contra a selva, isolando-me do mundo que conheci, pelo incêndio que estendia
sua cinza sobre meus passos.
Que restava dos meus esforços, do meu ideal e de minha ambição?
Que havia conseguido minha perseverança contra o destino? Deus me
desamparava e o amor fugia!...
No meio das chamas comecei a rir como Satanás!
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SEGUNDA PARTE
-ó selva, esposa do silêncio, mãe da solidão e da neblina! Que
destino maligno me deixou prisioneiro em teu cárcere verde? Os pavilhões
das tuas ramagens, como uma imensa abóboda, sempre estão
sobre minha cabeça, entre a minha aspiração e o céu claro, que só entrevejo
quando tuas copas estremecidas movem o seu marulho, na hora dos
teus crepúsculos angustiosos. Onde estará a estrela querida que de tarde
passeia nas lombadas? Aquela celagem de ouro e púrpura com que se
veste o anjo dos poentes, por que não treme em sua cúpula? Quantas
vezes minha alma suspirou adivinhando através de teus labirintos o reflexo
do astro que empurpura as lonjuras, para os lados do meu país, onde
há lhanuras inesquecíveis e cumes de coroa branca, em cujos picos me
vi à altura das cordilheiras! Sobre que lugar a lua erguerá seu aprazível
farol de prata? Tu me roubaste o sonho do horizonte e só tens para os
meus olhos a monotonia de teu zênite, por onde passa o plácido alvorecer,
que jamais ilumina as folhagens secas de teus sonhos úmidos!
Tu és a catedral do pesadume, onde deuses desconhecidos falam
a meia-voz, no idioma dos murmúrios, prometendo longevidade às árvores
imponentes, contemporâneas do paraíso, que já eram decanas
quando as primeiras tribos apareceram e esperam impassíveis a submersão
dos séculos vindouros. Teus vegetais formam sobre a terra poderosa
família que não se trai nunca. O abraço que tuas ramalhadas não podem
dar-se é levado pelas trepadeiras e cipós, e és solidária até na dor da folha
que cai. Tuas vozes multíssonas formam um só eco a chorar pelos troncos
que se derrubam, e em cada brecha os novos gérmens apressam suas
gestações.
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Tu tens a austeridade da força cósmica e encarnas um mistério
da criação. Não obstante, meu espírito só concorda com o instável, desde
que suporta o peso de tua perpetuidade e, mais que ao carvalho de
galho robusto, aprendeu a amar a lânguida orquídea, porque é efêmera
como o homem e murchável como uma ilusão.
Deixa-me fugir, ó selva, de tuas penumbras enfermiças, formadas
com o hálito dos seres que agonizaram no abandono de tua majestade!
Tu mesma pareces um cemitério enorme, onde apodreces e ressuscitas!
Quero voltar para as regiões onde o segredo não aterroriza ninguém,
onde é impossível a escravidão, onde a vista não tem obstáculos e onde
o espírito se exalta na luz livre! Quero o calor dos areais, o reluzir das
canículas, a vibração dos pampas abertos! Deixa-me regressar para a terra
de onde vim, para desandar essa rota de lágrimas e sangue que percorri
num dia nefasto, quando atrás do rastro de uma mulher me arrastei
por montes e desertos, em busca da Vingança, deusa implacável que só
sorri em cima das sepulturas!
Esquecida seja a época miserável que vagamos pelo deserto em quadrilha
fugitiva, como salteadores. Acusados de um crime alheio, desafiamos
a injustiça e erguemos a insígnia da rebelião. Quem ousou desafiar
o rancor bárbaro do meu peito? Quem teria podido amansar-nos? As múltiplas
veredas dos pampas ficaram esmagadas naqueles dias ao galope de
nossos potros e não houve noite em que não acendêssemos em distintos
lugares a labareda fugitiva do bivaque.
Depois, debaixo de moríches enredados, improvisamos um refúgio.
Ali amontoavam-se os trastes que Mauco e Tiana salvaram da ignição
e que puseram em nossas mãos antes de ir para Orocué em missão de
espionagem. Mas não sabíamos que havia sido deles. Fidel e o mulato,
o Pipa e eu fazíamos turno todos os dias para espreitar sobre uma palmeira
a presença de alguém no horizonte ou o triângulo de fumaça,
como sinal combinado.
— Ninguém nos procurava nem perseguia! Todos nos haviam esquecido!
Eu não passava de um resíduo humano de febres e pesares. De
noite, a fome nos desvelava como um vampiro, e porque as chuvas
já vinham, combinamos a dispersão para asilar-nos logo na Venezuela
Pensei então que don Rafo viria de regresso de La Maporita e com ele
poderíamos voltar para Bogotá. Esperamo-lo muitos dias nas ilhanuras
fronteiriças a Tame. Mas assim que Franco declarou que continuaria
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sua vida nômade, não por receio à justiça ordinária, senão que pelo perigo
que algum Conselho de Guerra o castigasse como desertor, desisti
da idéia da viagem para mancomunarmo-nos no deserto e afrontar vicissitudes
iguais, já que uma mesma desventura havia-nos unido e não
tínhamos outro futuro que o fracasso em qualquer país.
E nos decidimos pelo Vichada.
O Pipa nos conduziu aos bananais silvestres de Macuana, sobre
a margem do turvo Meta, depois da desembocadura do Guanapalo.
Morava nesses montes uma tribo guahiba, semicivilizada, que aceitou
acolher-nos com a condição de que adotássemos o guayuco, respeitássemos
as poilonas e que ordenássemos às Winchesteres que "não soltassem
trovões".
Uma tarde, o Pipa apareceu com cinco indígenas que resistiam
em aproximar-se enquanto não amarrássemos os dogues. Acocorados
nas pastagem, erguiam-se para observar-nos, prontos para fugir ao menor
deslize, com o que o ladino intérprete foi conduzindo-os pela mão até
o nosso grupo, onde recebiam o atento abraço de paz com esta frase
protocolar: "Cunhado, eu querendo-te muito, cachorro não fazendo
nada, coração contente".
Todos eram robustos e jovens, de cútis achocolatada e costas hercúleas,
cujos membros estremeciam temerosos dos fuzis. Arcos e aljavas
haviam deixado na canoa que ia embalar-nos sobre as águas desconhecidas
de um rio selvagem, em direção a refúgios recônditos e temíveis,
para onde um fato implacável nos expatriava, sem outro delito que o de
sermos rebeldes, sem outra míngua que a de sermos desafortunados.
Havia chegado o momento de dispensar nossos cavalos que nos
deram apoio na adversidade. Eles recuperavam o pampa virgem e nós
perdíamos o que, satisfeitos, recuperavam, a zona onde sofremos e
batalhamos inutilmente, comprometendo a esperança e a juventude.
Quando meu alazão suado se sacudiu, livre da sela, e galopou com relinchos
trêmulos em busca do bebedouro longínquo, me senti indefeso
e só e copiei em meus olhos tristes o confim, com a amargura do
condenado à morte que se resigna ao sacrifício e vê sobre as paisagens
de sua infância o último sol arrebolar-se.
Ao descer o barranco que nos separava da curiara, voltei
a cabeça em direção aos limites dos lhanos, perdidos em uma névoa
doce, onde as palmeiras me despediam. Aquelas imensidões me feriram
e, não obstante, queria abraçá-las. Elas foram decisivas na minha
existência
89
e se enxertaram em meu ser. Compreendo que no instante da
minha agonia se borrarão das minhas pupilas vidradas as imagens mais
leais; mas na atmosfera sempiterna por onde meu espírito ascenda batendo
asas, estarão presentes as meias-cores desses crepúsculos carinhosos,
que, com suas pinceladas de opala e rosa, já me indicaram sobre o céu
amigo a vereda que segue a alma rumo à suprema constelação.
A curiara, como um ataúde flutuante, seguiu água abaixo, na hora
em que a tarde alarga as sombras. Do dorso da corrente, vislumbrava-se
ás margens paralelas, de vegetação sombria e de plagas hostis.
Aquele rio, sem ondulações, sem espumas, era mudo, tetricamente mudo
como o presságio e dava a impressão de um caminho escuro que se
movesse em direção ao vértice do nada.
Enquanto prosseguia mos silenciosos, a terra começou a lamentar-se
pela submersão do sol, cujo vislumbre empalidecia sobre as praias. Os
ruídos mais ligeiros repercutiram em meu ser, consubstanciado a tal
ponto com o ambiente que era a minha própria alma que gemia e a
minha tristeza que, tal como uma lente opaca, enchia de penumbra todas
as coisas. Sobre o panorama crepuscular, meu desconsolo foi-se
ampliando, como a noite, e lentamente como única sombra borrou os
perfis dos bosques estáticos, a linha da água imóvel, as silhuetas dos remadores...
Desembarcamos no começo de um barranco, suavizado pelos
degraus que desciam ao porto, em cujo remanso se agrupavam umas
canoas. Por uma vereda cheia de barro que se perdia no gramado, saímos
em uma pracinha de árvores derrubadas, onde nos esperava o rancho
palhiço, tão solitário naquele momento que hesitávamos em ocupá-lo,
suspeitando de alguma emboscada. O Pipa alegava com os nativos que nos
conduziram para semelhante vivenda e nos transmitia a tradução da geringonça,
segundo, a qual as pessoas das tendas se dispersaram ao ver os mastins.
Os remadores me pediam permissão para dormir nas curiaras.
E quando se foram, Fidel ordenou a Corrêa que fosse dormir com o
Pipa na barbacoa, caso ele tentasse trair-nos nessa noite; tirou a coleira
dos cachorros e, no escuro, mudou nossas redes de lugar.
Oferecendo-lhe minhas costas à carabina, me entreguei ao sonho.
O Pipa costumava fazer-me declarações de adesão incondicional e
acabou relatando-me a pavorosa série de suas andanças. Sua mão sabia
disparar a flecha barbada, em cuja ponta ia ardendo a bolota de peramán,
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que cruzava o ar como um cometa, com o uivo da consternação e do
incêndio.
Muitas vezes, para livrar-se do inimigo, se aplanou no fundo das
lagoas como um jacaré e emergia sigiloso no meio dos juncos para renovar
a respiração; e se os cachorros nadavam sobre sua cabeça, procurando-o,
estripava-os e os submergia, sem que os vaqueiros pudessem ver outra
coisa que não fosse o chapinhar de alguns juncos no afastado centro dos
charcos.
Era apenas adolescente quando veio aos Lhanos, quando o sítio
de San Emigdio estava em seu auge e ali serviu como coquis por vários
meses. Trabalhava o dia inteiro com os lhaneiros e, pela noite, agregava-se
às suas fadigas a de amontoar a lenha e a água, acender o fogo e assar a
carne. De madrugada, os caporais o despertavam a pontapés para que requentasse
o café amargo; e depois de tomá-lo, iam embora sem ajudar-lhe
a colocar a sela na besta manhosa, nem dizer-lhe em direção a qual
banco se dirigiam. E ele, levando pelo cabresto a mula das caldeiras
e dos víveres, trotava pelas estepes escurecidas, colocando o ouvido às
vozes dos ginetes, até orientar-se e seguir com eles.
Para cúmulo, a cozinheira da ramada exigia que ele cooperasse em
seus afazeres e ele, sujo de fuligem e humilde como um farrapo, resignava-
se c'om a sua situação. Mais de uma vez, ao esvaziar o grude na barbacoa,
sobre as folhas frescas que serviam de toalha de mesa, os peões atroparam-
se com a presteza de abutres famintos e ele, como todos os outros,
estendeu as desasseadas mãos sobre a carne para esquartejar algum pedaço
com seu balduque*. O animado das empregadinhas, um avozinho de fisionomia
irada, que os observava estupidamente e que já o havia açoitado
com o cinturão, começou a vociferar, mastigando, por que não se repetia
logo a panelada. Como o coquis não se afobou para obedecer-lhe,
agarrou-o por uma orelha e banhou-lhe a cara no caldo fervente. O garoto,
enfurecido, rasgou-lhe o bucho de um só talho e as entranhas do
comilão espargiram-se na barbacoa por cima dos alimentos.
O dono do sítio prendeu o garotinho, amarrando-lhe a garganta e
os braços com um mecate e mandou que dois homens o matassem nesse
mesmo dia, por trás da arrebentação do Yaguarapo. Por sorte, havia uns
índios pescando por ali, que estriparam os verdugos, mas levaram-no
consigo.
*Balduque: faca pontiaguda (Colômbia, Chile e México).
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Errante e desnudo, viveu na selva mais de vinte anos, como instrutor
militar das grandes tribos, no Capanaparo e no Vichada; como seringueiro,
no Inírida e no Vaupés, no Orinoco e no Guaviare, com os piapocos
e os guahibos, com os banivas e os bares, com os cuivas,oscanjonas
e os huitotos. Mas exercia sua maior influência nos guahibos, os quais
havia aperfeiçoado na arte das guerrilhas. Assaltou sempre com eles os
ranchos dos salivas e as fundações banhadas pelo Pauto. Caiu prisioneiro
em diferentes épocas, quando uma arraia o espetou no pé, ou quando
as febres o consumiam; mas com uma sorte perigosa, fez-se passar por
vaqueiro cativo dos sítios, da Venezuela, e conheceu diferentes prisões,
onde mantinha uma conduta irrepreensível para voltar logo à inclemência
dos desertos e ao usufruto das capitanias revoltosas.
— Eu — dizia — serei seu luzeiro nesses confins, se bota a expedição
sob meus cuidados; conheço atalhos, vaguadas*, caminhos, e em
alguns riachos tenho amizades. Procuraremos os seringueiros por toda
parte, até o fim do mundo; mas não volte a permitir que o mulato Corrêa
durma junto comigo, nem que me satirize com tanta manha Isso não é
comum entre os cristãos e desanima a qualquer homem de sentimento.
Um dia desses o arranho e ficamos em paz!
Por essa época, fui invadido pela misantropia, ensombrecendo-me
as idéias e desconjuntando-me a decisão. No sonambulismo da fadiga,
devorava minhas próprias bílis, inepto, entorpecido, como a serpente que
está mudando de pele.
Ninguém voltara a falar o nome de Alícia, para desterrá-la do meu
pensamento; mas essa delicadeza sublevava em meu coração todos os
ódios reconcentrados, ao compreender que se compadeciam de mim
como um vencido. Então, as blasfêmias chamuscavam meus lábios e um
véu de sangue se retinha diante dos meus olhos.
E Fidel, atormentar-se-ia com a lembrança obstinada? Só me parecia
triste em suas confidências, talvez para se ajustar com o meu quebranto.
Havia perdido tudo na hora impensada e, no entanto, dava a entender
que desde esse instante se sentiu mais livre e poderoso, como se o infortúnio
fosse uma simples sangria para o seu espírito.
E eu que me lamentava como um eunuco? Que estava perdendo com
Alícia que não pudesse encontrar em outras fêmeas? Ela tinha sido um
* Vaquada: linha que assinala o fundo de um vale.
92
mero incidente na minha vida e teve o fim que devia ter. Barrera merecia
minha gratidão!
Além do que, aquela que foi a minha amante tinha seus defeitos:
era ignorante, caprichosa e colérica. Faltava relevo em sua personalidade:
vista sem a lente da paixão amorosa, aparecia a mulher comum, a de encantos
atribuídos pelos admiradores que a perseguem. Suas sobrancelhas
eram mesquinhas, seu pescoço era curto, a harmonia de seu perfil um bocadinho
convencional. Desconheceu a ciência do beijo e as suas mãos
foram incapazes de inventar a menor carícia Jamais escolheu um perfume
que a distinguisse; suajuventude cheirava como a de todas.
Qual era a razão de sofrer por ela? Tinha que esquecer, tinha que
rir, tinha que começar de novo. Meu destino assim o exigia, assim o desejavam,
tácitos, meus camaradas. O Pipa, disfarçando a intenção com a
dissimulação, cantou certa vez um llorado genial, aos compassos das
maracas, para infundir-me a ironia confortadora:
No domingo a vi na missa,
na segunda a namorei,
na terça já lhe pedi a mão,
na quarta me casei;
na quinta me deixou só,
na sexta a suspirei;
no sábado o desengano...
e no domingo a procurar outra
porque só não me ajeito.
Enquanto isso, se iniciava em minha vontade uma reação quase
dolorosa, com a qual colaboraram o rancor e o ceticismo. A impenitência
e os propósitos de vingança Trocei do amor e da virtude, das noites belas
e dos dias formosos. Não obstante, uma que outra lufada do passado voltava
para refrescar o meu ardido peito, nostálgico de ilusões, de ternura e
de serenidade.
Os aborígines da choupana eram mansos, pusilânimes e eram parecidos
como frutas da mesma árvore. Chegaram desnudos, com suas dádivas
de cambures e mañoco, acondicionadas em cestos de palmeirinha
e as descarregaram sobre o alqueive, em lugar visível Dois dos índios
que manejaram a canoa traziam peixes cozidos na fumaça
Tomando cuidado para que os cachorros não grunhissem,
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fomos ao encontro do arisco grupo e depois de um bate-papo livre de geiúndios
e monossílabos castelhanos os visitantes resolveram ocupar um
extremo da vivenda, o próximo aos montes e ao barranco.
Perguntei-lhes, com indiscreta curiosidade, onde haviam deixado
as mulheres, pois não vinha nenhuma com eles. O Pipa apressou-se
em explicar-me que era imprudência fazer indagações tão desusadas, sob
o risco de que os ciumentos índios se alarmassem, índios que haviam
negado a suas petrivas, por experiência tradicional, mostrar incautamente
sua nudez para forasteiros brancos, sempre luxuriosos e abusados. Acrescentou
que as índias velhas não tardariam em aproximar-se, para ir aquilatando
nossa conduta, até que se convencessem de que éramos varões
morigerados e recomendáveis.
Dois dias depois, as matronas apareceram, em trajes de paraíso,
senis, repugnantes, batendo os flácidos seios ao caminhar, seios que ficavam
pendidos como estropalhos. Traziam sobre a grenha grandes taparas
de chichas picante, cujos respingos pegajosos gotejavam pelas rugas das
bochechas, com uma aparência de suor ácido. Ofereceram-nos a bebida
no bico da cabaça, impondo seus gestos hieráticos e logo resmungaram
mal-humoradas ao ver que só o Pipa pôde saborear a beberagem cáustica.
Mais tarde, quando começou a ressoar a chuva, agacharam-se junto
ao fogão, como gorilas mumificadas, enquanto os homens emudeciam
nos chincorros, com a letargia da indolência. Nós calávamos também no
espaço oposto, vendo a água cair na extensão da sombria veiga que oprimia
o espírito com suas neblinas e cerrações.
— É imperioso — prorrompeu Franco — decidir essa situação
pondo em prática algum propósito. Na semana entrante deixaremos essa
guarida.
— As índias já terão vindo para preparar-nos a embarcação — replicou
o Pipa — Remontaremos o rio, cruzando-o frente a Caviona, um
pouco mais acima das lagoas. Por ali tem uma vereda terrestre que vai
para o Vichada e se gasta sete dias para percorrê-la. Há que se levar o
equipamento nas costas, mas nenhum desses cunhados quer ir como
carregador. Estou trabalhando-os para que se decidam. Mas faz-se urgente
a compra de alguns corotos em Orocué.
— E com que dinheiro os adquirimos? - admoestei alarmado.
— Isso corre por minha conta. Só peço que acreditem em mim e
que continuem sendo afáveis com a tribo. Precisamos de sal, anzóis,
guarales, tabaco, pólvora, fósforos, ferramentas e mosquiteiros.
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Tudo para vocês, porque para mim nada é indispensável. E como ninguém sabe
o que nos espera nessas lonjuras...
- Será preciso vender as selas e os apetrechos?
— E quem os compra? E quem é que poderia vendê-los sem que o
agarrem? Já podemos ir jogando fora essas coisas. Daqui em diante não
teremos outro cavalo que a canoa.
- E em que lugar você esconde o ouro para seus planos?
— No garceiro de Las Hermosas. Quatro libras de pena fina, se
nos damos mal Cada semana trocaremos um feixe por mercadorias.
Quando lhes dê na telha, eu sou dos pampas, mas é muito longe.
— Isso não importa! Amanhã mesmo!
Bendita seja a difícil lança que nos conduziu para a região das
turbações e de alvura! O bosque inundado de garceiro, milionário em garças
reais, parecia um algodoal de copas nutridas; e na turquesa do céu ondeava,
perenemente, um desfile de remos cândidos, por cima dos zimbórios
do manches, onde a empenachada multidão de franguinhos agitava-
se. A nívea frota elevava-se em espiral ao nosso passo e, depois de girar
com um vozerio insólito, debandava por unidades que desciam ao estero,
entrecerrando lentamente as asas, como um velame de seda esbranquiçada.
Pensativo, junto às linfas, detinha-se o "garção-soldado", de quépi
vermelho, altura heróica e desejo marcial, cujo largo bico é prolongado
como uma espada; e à sua volta, esvoaçava o mundo babélico de pernaltas
e palmípedes, desde a corocora: de cor lacre, que humilharia o íbis
egípcio, até a cerceia azul de topete dourado e o pato enganador cor-de-rosa,
que no rosicler da alvorada lhaneira tinge as suas plumas. E por
cima desse tumulto alado, tornava a girar a coroa eucarística das garças,
despetalando-se sobre os lamaçais, e meu espírito sentia-se deslumbrado,
como nos dias de sua pureza, ao evocar as hóstias divinas, os coros angelicais,
os círios imaculados.
Parecia impossível que pudéssemos arrimar ao lugar dos ninhos e
das penas. O charco transparente nos deixou ver um exército de jacarés
submersos, no contorno das palmeiras, ocupados em recolher pombinhos
e ovos, que caíam quando as garças, em meio a uma gritaria e bicadas,
desnivelavam a ramalhada com seu peso. Por toda parte,
* Corocora: cigarra dos campos da Venezuela, também chamada coca.
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nadava o incontável bando de caribes, de ventre avermelhado e escamas plúmbleas, que
se devoram uns aos outros e descarnam em um segundo todo ser vivo que
cruze as ondas de seu domínio, motivo pelo qual homens e quadrúpedes
resistem em atirar-se para nadar e muito mais ainda ao sentir-se feridos,
pois o sangue excita instantaneamente a voracidade do terrível peixe.
Via-se a traidora arraia, de barbatanas gelatinosas e arpão venenoso que
descansa na lama como um escudo; a enguia elétrica que imobiliza com
suas descargas todo aquele que lhe tocar; a palombeta de nácar e ouro,
semelhante ao disco lunar, que desce ao fundo e enturva a água para escapar
às dentadas da toninha. E todo o imenso aquário se estendia até
o horizonte, como um lago de zinco onde flutuam as penas ambicionadas.
Remando em balsinhas inverossímeis, distribuimo-nos aqui e ali
para recolher o caro tesouro. De vez em quando, os índios invadiam o
matorral, esgaravatando nas trevas com as pás, com medo dos güios
e dos jacarés, até completar seu manolho branco, que às vezes custa a
vida de muitos homens, antes de ser levado às cidades longínquas para
exaltar a beleza de mulheres desconhecidas.
Naquela tarde, entreguei minha alma à tristeza e uma emoção
romântica me surpreendeu com carícias incertas. Por que viveria sempre
só na arte e no amor? E pensava com uma inconformidade dolorida: "Se
tivesse agora a quem oferecer esse arminhado ramalhete de plumagens,
que mais parecem espigas brancas! Se alguém quisesse abanar-se com essa
asa de codua marinha, onde a íris está presa! Se tivesse com quem contemplar
o garceiro nítido, primavera de aves e cores!
Com uma aflição humilhada, logo percebi que no véu da minha
ilusão dissimulava-se Alícia e procurei manchar com um realismo cru os
pensamentos onde a intrusa ressurgia.
Por sorte, depois de uma penosa viagem por planícies lamacentas e
riachos profundos, demos com o lugar onde as canoas haviam ficado e, a
remadas, começamos a voltar os sinuosos rios até que, ao cair a noite, entramos
no atracadouro da choupana.
De longe, a brisa nos levou o choro de um menino e, quando chegamos
à choça, umas índias jovens saíram correndo, sem atender ao Pipa
que em idioma terrígeno alcançou gritar-lhes que éramos gente amiga.
Nas seleiras e esteios, havia numerosíssimos chincorros, e no fogão, a
meio rescaldo, gorgorejava a panela de infusões.
Lentamente, assim que a candeia ergueu seu lume, os índios novos
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foram sendo apresentados a nós com suas mulheres que lhes punham a
mão direita no ombro esquerdo para advertir-nos que eram casadas. Uma
que chegou sozinha, nos mostrava o chinchorro de seu marido e apertava
o seio leitoso, dando a entender que tinha dado à luz nesse dia. O Pipa,
na frente dela, começou a intruir-nos nos costumes que regiam a maternidade
nessa tribo: ao pressentir a chegada da hora, a parturiente sobe o
monte e já volta lavada para procurar seu homem e entregar-lhe a criatura.
No mesmo instante, o pai se acama para ficar de resguardo, enquanto
a mulher lhe prepara os cozimentos contra as náuseas e a cefaléia.
Como quem está entendendo estas explicações, a moça fazia sinais
de aprovação a tudo aquilo que o Pipa se referia; e o cônjuge indolente,
com a cabeça vendada por folhas, queixava-se no chinchorro e pedia
cocos de chicha para aliviar seus padecimentos.
As índias que haviam fugido eram pollonas e cada um de nós podia
escolher a que bem entendesse, quando o chefe, um cacique matusalênico,
recompensasse dessa maneira a nossa adesão. Mas seria inocência pensar
que com requebros e sorrisos aceitariam nosso agasalho. Era preciso
espioná-las como a gazelas e correr pelos bosques até rendê-las, pois a
superioridade do macho deve ser imposta pela força, em troca de submissão
e ternura.
Eu me sentia incapaz de qualquer ilusão.
O chefe da família me manifestava certa frieza que se traduzia
em um silêncio depreciativo. Eu tentava adulá-lo de várias maneiras, com
o desejo de que me instruísse em suas tradições, em seus cantos guerreiros,
em suas lendas; inúteis foram as minhas cortesias, porque aquelas
tribos rudimentares e nômades não tinham deuses, nem heróis, nem
pátria, nem passado, nem futuro.
Aconteceu que eu trouxe do garceiro dois patos cinzentos, pequenos
como pombas, escondidos em uma mochila No dia seguinte, achei
um deles morto e o depenei junto ao fogão para que os meus cachorros
o comessem. Mas ao ver-me, o cacique agarrou suas flechas e me
ameaçou com o tacape, fazendo um alarido e proferindo lamentações
até que as mulheres, apavoradas, recolheram as penas e as sopraram no ar
da manhã.
Meus companheiros rodearam-me e me arrebataram a carabina para
que não ameaçasse o avô audaz. Este, jogando-se ao chão e cobrindo
a cara com as mãos, retorcia-se em convulsões epiléticas, começou a dar
soluços de despedida, beijava a terra e a manchava com espumaradas.
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Depois, ficou rígido, em meio ao espanto do harém desnudo, mas o Pipa jogou-
lhe rescaldo nas orelhas para que a morte não lhe comunicasse seu
segredo fatal
Então, nosso intérprete me avisou que a alma daqueles bárbaros residem
em diferentes animais, e que a do cacique se assemelhava à de um
pato cinzento. Provavelmente morreria de sugestão por haver contemplado
a ave sem vida e a tribo se vingaria do meu homicídio. Apressei-me
em tirar o outro pato e o deixei esvoaçar pela choupana; ao vê-lo, o índio
ficou em êxtase diante do milagre e seguiu os ziguezagues do vôo sobre
a plenitude do rio próximo.
O incidente pueril bastou para creditar-me como um ser sobrenatural,
dono de almas e destinos. Nenhum aborígine atrevia-se a olhar-me,
mas eu estava presente em seus pensamentos, exercendo influências desconhecidas
sobre as suas esperanças e pesares. Dois rapagões caíram aos
meus pés e se ofereceram para contemplar nossa expedição, sem que suas
mulheres oferecessem resistência. Nunca pude lembrar-me de seus nomes
próprios e só sei que se traduzidos a bom romance, queriam dizer, quase
literalmente, "Passarinho do Monte" e "Morrinho da Savana". Abracei-os
em sinal de que aceitava seu oferecimento, e assim eles tiraram as pás e
lhes substituíram o fique da forquilha, para que suportassem o impulso
da canoa ao fincar-se nos camareros dos charcos, ou nos recifes costeiros.
Por sua vez, as índias velhas ralavam aipim para a preparação do
cazabe que devia alimentar-nos no deserto. Jogavam a mistura aquosa no
sebucán, um cilindro largo de folhas de palmeiras tecidas, cujo extremo
inferior se retorce com um vencilho, para espremer o amidoado suco da
ralada. Outras, peladas em volta da candeia, requentavam o budare*, teso,
redondo e chato, sobre cuja superfície iam estendendo a massa imunda
e a alisavam com os dedos molhados com cuspe até que a torta endurecesse.
Algumas torciam sobre as coxas as fibras tiradas do miolo dos
moriches, para tecer um chinchorro novo, digno de minha estatura e de
minha pessoa, enquanto o cacique, gesticulando, me dava a entender que
celebraria com um pomposo baile a vassalagem devida à minha fortaleza
e à minha autoridade.
Meu espírito pregustava o acre sabor das próximas aventuras.
* Budare: prato ou travessa próprios para neles se cozer o pão de milho (Venezuela).
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Os índios encarregados de procurar a mercadoria para nós foram
enganados pelos feirantes de Orocué. Em troca dos artigos que levaram:
seje, chinchorros, pendare e penas, receberam quinquilharias que valiam
mil vezes menos. Ainda que o Pipa lhes tenha ensinado cuidadosamente,
os preços racionais sucumbiram à sua ignorância e a cobiça dos exploradores
tornou a enriquecer-se com o engano. Uns pacotes de sal poroso,
uns lenços azuis e vermelhos e algumas facas foram o pagamento irrisório
da remessa e os emissários voltaram felizes porque, como de outras vezes,
não lhes obrigaram a varrer as barracas, carregar água, tirar a erva da rua,
encaixotar couros.
Falida a esperança de aumentar a equipagem, nos consolamos com
a certeza de que a viagem seria menos complicada. E por fim, numa noite
de plenilúnio, ficou pronta a grande curiara que, com um brando balanço,
oferecia-se para conduzir-nos a Caviona.
Mais de cinqüenta índios afluíram ao baile, de todos os sexos e idades,
pintados e silenciosos e foram demarcando-se na praia aberta, com as
cabaças do chicha fervente. Desde a tarde haviam feito montes de
mofojoyes, uns vermes grandes de anéis peludos, que vivem enroscados
nos troncos podres. Decapitavam-nos com os dentes, como o fumante
que tira a ponta do charuto, e sorviam o conteúdo amanteigado, para depois
esfregar o invólucro vazio do animal nas cabeleiras, para lustrá-las.
Os cabelos das pollonas de seios altivos resplandeciam como verniz, debaixo
do cocar de penas de papagaio e por cima dos colares de caroços
e cornalinas.
O cacique tinha avermelhado o rosto com achiote* e mel e aspirava
o pó do yopo, introduzindo nas narinas profundos canudinhos. Como se
tivesse sido atacado pelo deliriam tremens, bamboleava-se embrutecido
no meio das moças, apertando-as e perseguindo-as, como um bode rígido,
mas impotente. Às vezes, vinha felicitar-me com a língua engrolada, porque
segundo o Pipa eu, como ele, era inimigo dos vaqueiros e havia queimado
suas fundações, coisas que me tornavam digno de um tacape fino
e de um arco novo.
No meio dessa barafunda orgiástica, a chicha de fermento atroz era
pródiga, e as mulheres e os menininhos incitavam a bacana! com seu vozerio.
Depois, começaram a girar sobre as areias num círculo moroso, ao
compasso das flautas e canas, sacudindo o pé esquerdo a cada três passos,
* Achiote: espécie de urucum.
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como manda o rigor do baile nativo. Mais parecia a dança de um vagaroso
desfile de prisioneiros, em volta da imensa argola, obrigados a repisar uma
única pegada, com a vista cravada no chão, orientados pelo queixume das
clarinetas e pelo grave repique dos tamborins. Já não se ouvia mais nada
que não fosse o som da música e o cálido ofegar dos dançantes, tristes
como a lua, mudos como o rio que os consentia sobre suas praias. De repente,
as mulheres que permaneceram silenciosas dentro do círculo abraçaram
a cintura de seus amantes e traçavam o mesmo passo, inclinadas e
entorpecidas, até que com um desafogo súbito todos os peitos fizeram
coro em um alarido ascendente, que estremecia selvas e espaços como
uma badalada lúgubre: Aaaaal... Ohé!...
Estendido de bruços sobre o areal, com as lamparinas a dar-me tons
dourados-avermelhados, eu olhava a festa singular, comprazido de que
meus companheiros girassem ébrios na dança. Assim esqueceriam seus pesares
e eles tornariam a sorrir para a vida. Mas, pouco a pouco, percebi
que gritavam como a tribo e que seu lamento acusava a mesma pena recôndita,
como se todos estivessem sendo devorados na alma por uma única
dor. Sua queixa tinha o desespero das raças vencidas e era semelhante
ao meu soluço, esse soluço das minhas aflições que costuma repercutir
em meu coração ainda que o dissimulem os lábios: Aaaaal... Ohé!...
Quando me retirei para o meu chinchorro, na mais completa desolação,
algumas índias seguiram meus passos e se agacharam perto de mim.
Ao princípio, conversavam a meia-voz, mas mais tarde uma delas
atreveu-se a levantar a ponta do meu mosquiteiro. As outras, por cima dos
ombros de sua companheira, espreitavam-me e sorriam. Fechando os
olhos, rechacei a provocação amorosa, com um profundo desejo de
libertar-me da luxúria e pedir à castidade seu abrigo tranqüilo e revigorante.
Ao amanhecer, os folgazões retomaram à choupana. Estendidos no
chão, como cadáveres, dissolviam no sono o pesadelo da embriaguez.
Nenhum dos meus camaradas havia regressado e sorri ao notar que faltavam
algumas pollonas. Mas quando desci ao rio para examinar o estado
da curiara, vi o Pipa, de boca para baixo na areia, desfalecido e desnudo
aos raios solares.
Agarrando-o pelos braços, arrastei-o para a sombra, desgostado com
o seu desejo de desnudar-se. Aquele homem vaidoso de suas tatuagens e
cicatrizes, preferia o guayuco as roupas, apesar de minhas repreensões e
ameaças. Deixei que ele cochilasse a bebedeira e ali permaneceu até a
noite. Raiou o dia seguinte e ele nem despertava nem se mexia.
100
Então, tirando a carabina, agarrei o cacique pela cabeleira e o finquei
no cascalho, enquanto Franco dava a entender que soltaria os cachorros.
O ancião abraçou-me pelas pernas, trabalhando uma explicação:
Nada! Nada! Tomando yagé, tomando yagé...
Já conhecia as virtudes daquela planta que um sábio do meu país
chamou de "telepatina". Seu suco faz com que a pessoa veja em sonhos
o que está acontecendo em outros lugares. Lembrei-me que o Pipa me
havia falado dela, agradecido por que servia para saber com segurança
para que savanas iam os vaqueiros e em quais lugares havia caça abundante.
Oferecera-se a Franco para ingeri-la para adivinhar o ponto preciso
onde estaria o raptor de nossas mulheres.
O visionário foi agarrado por pernas e braços e recostado contra
um poste. Sua cara singular e de barba rala havia assumido uma coloração
violácea. Às vezes, babava seu próprio ventre e, sem abrir os olhos,
queria agarrar os pés. Sustentei sua testa com minhas mãos, em meio ao
coro estúpido dos espectadores.
— Pipa, Pipa: o que você está vendo? O que você vê?
Com uma contração angustiosa, começou a queixar-se, saboreando
sua língua como uma bala Os índios afirmaram que só falaria quando
despertasse.
Com uma curiosidade descrente, disse de novo: "O que você está
vendo? O que você vê?
— Um... ri... o. Ho... mens, dois... homens...
— Que mais? Que mais?
— U... m... a... ca... no... a...
— Gente desconhecida?
— Uuuh... üuuuuuh... Uuuuh...
— Pipa, você está passando mal? O que você quer? O que você
quer?
— Dor... mir, dor... mir.
As visões do sonhador foram estrafalárias: procissões de jacarés e
de tartarugas, pântanos cheios de gente, flores que davam gritos. Disse
que as árvores da selva eram gigantes paralisados e que de noite conversavam
e trocavam acenos. Tinham desejos de fugir com as nuvens, mas a
terra agarrava-as pelos tornozelos, infundindo-lhes a eterna imobilidade.
Queixavam-se da mão que as feria, do machado que as derrubava, sempre
condenadas a tornar a brotar, a florescer, a gemer, a perpetuar, sem fecundar-
se, a sua espécie formidável, incompreendida. O Pipa entendeu
suas vozes iradas, segundo as quais deviam ocupar barbeitos, planícies e
101
cidades até borrar da terra o rastro do homem e balançar em uma só ramagem,
numa urdidura fechada, como nos milênios do Gênese, quando
Deus ainda flutuava sobre o espaço como uma nebulosa de lágrimas.
Selva profética, selva inimiga! Quando sua predição irá cumprir-se?
Chegamos às margens do rio Vichada derrotados pelos pernilongos.
Durante a travessia, a morte açulou-os atrás de nós e nos perseguiram dia
e noite, flutuando em uma auréola fatídica e queixosa, trêmulos como
uma corda que vibrasse pela metade. Era-nos impossível negar nosso sangue
astênico, porque nos sugavam através do sombreiro e da roupa, inoculando-
nos o vírus da febre e do pesadelo.
Aquelas que outrora foram savanas úberes, se haviam convertido
em pantanais desolados; e com água pela cintura, seguíamos o roteiro dos
condutores, com a testa banhada em suor e úmidas as maletas que transportávamos
nas costas, famintos, macilentos, pernoitando em altiplanos
de brenhas inóspitas, sem fogueira, sem leito, sem proteção.
Aquelas latitudes são miseráveis na seca e no inverno. Certa vez, na
La Maporita, quando Alícia ainda me amava, saí para o deserto para buscar
para ela um veadinho de leite. O verão calcinava a estepe tórrida e as
reses, no fogal do calor, trotavam por todas as partes procurando por
água Nos meandros do leito do rio árido, umas vitelonas escarvavam a
terra do bebedouro, ao lado de um cavalinho que agonizava com o focinho
metido no lamaçal Um bando de caricaris caçava cobras, rãs, lagartixas,
que palpitavam loucas de sede entre esqueletos de cachicamos e
chigüires. O touro que presidia a manada distribuía chifradas com uma
solicitude protetora, para obrigar a suas fêmeas a acompanhá-lo para
outras paragens em busca de algum charco, e mugia tocando sua companheira,
no meio do banco cintilante e de vegetação bravia
Mas uma novilha recém-parida, que se destampou os cascos cavando
a eira, voltou para buscar seu bezerrinho para oferecer-lhe a ubre
rachada. Abaixou-se para lambê-lo e ali morreu. Levantei a cria e expirou
em meus braços.
Mas depois, quando caíram umas chuvas, o território invertia a sua
hostilidade: em qualquer parte, empoleirados nos troncos, via-se lapas,
raposos e coelhos boiando na inundação; e ainda que as vacas pastassem
nos estuários, com água acima dos lombos, perdiam suas tetas nos dentes
dos caribes.
Atravessamos com os pés desnudos por aquelas intempéries, tal qual
o fizeram os legendários homens da conquista. Quando me mostraram o
102
monte do Vichada no oitavo dia, fui agarrado por um intenso tremor e
me adiantei com a arma no braço, esperando encontrar Alícia e Barrera
num colóquio sensual, para cair em cima deles de surpresa, como o falcão
sobre a ninhada. E ofegante e entigrecido, agachei-me sobre os barrancos
das margens.
— Ninguém! Ninguém! O silêncio, a imensidão...
A quem poderíamos perguntar pelos seringueiros? Para que seguir
caminhando rio acima pela costa desagradável? Era melhor renunciar a
tudo, esticarmo-nos em qualquer lugar e pedir a febre que nos rematasse.
O impávido fantasma do suicídio que segue esboçando-se na minha
vontade, estendeu-me seus braços nessa noite; e permaneci no chinchorro
com a mandíbula colocada no cano da carabina. Como ficaria meu rosto?
Repetiria o espetáculo de Millán? E só este pensamento me acovardava.
Lenta e obscuramente, um demônio trágico insistia em apoderar-se
de minha consciência Poucas semanas antes, eu não era assim. Mas logo
os conceitos de crime e bondade compensavam-se em minhas idéias e
concebi a tentativa mórbida de assassinar os meus companheiros, movido
pela compaixão. Para que a tortura inútil, quando a morte era inevitável
e a fome andaria mais lenta que o meu fuzil? Quis libertá-los rapidamente
e depois morrer. Com a mão esquerda no bolso, comecei a contar as
cápsulas que tinha, escolhendo para mim a mais pontiaguda. E qual deles
deveria matar primeiro? Franco estava perto de mim. Na noite chuvosa,
estiquei o braço e tateei-lhe a cabeça febril.
— O que você quer? — disse. — Por que você movia a manivela da
Winchester? A febre está me enlouquecendo.
E tomando-me o pulso, repetia:
— Coitado!... A sua está com mais de quarenta graus. Agasalhe-se
com o meu capote até suar. Esta noite será interminável.
— Logo sairá o luzeiro da madrugada Sabe — acrescentou — que o
mulatinho pode rasgar-se! Você não percebeu como se queixa? Delirou
com Sebastiana e com os rodeios. Diz que está com o fígado endurecido
como uma pedra
-A culpa é sua Não quis que ele ficasse. Estava morto de vontade
por vê-lo morrer no desamparo.
— Pensei que sua ânsia de regresso devia-se à aversão que você
sente pelo Pipa.
— Eu os reconciliarei para sempre.
— É que Corrêa teme pela ameaça de que vai causar-lhe algum malefício.
Deu para entristecer-se quando escuta um certo pássaro cantar.
103
Lembrando-me dos filtros de Sebastiana, repliquei duvidoso:
— Ignorância, superstição!
— Ontem tirou o típle para recolocar-lhe a cravelha estragada. Mas
ao tocá-lo, pôs-se a chorar.
— Me diz uma coisa, não haverá migalhas de cazabe em sua maleta?
Pare, aproxime-se.
- Para quê? Tudo acabou. Como me dói que você tenha fome!
— As frutas desta árvore serão venenosas?
— Provavelmente. Mas os índios estão pescando. Esperemos até
amanhã
E com os olhos cheios de lágrimas, desviando o cano da arma:
— Está bem! Até amanhã ..
Os cachorros começaram a manusear no meu mosquiteiro para que
abandonássemos o lhano. De fato, o rio continuava subindo.
Quando nos amparamos em uma laje do promontôrio, havia estrelas
sobre os montes. Os cachorros latiam dos barrancos.
— Pipa, chama esses cachorros que ladram como se estivessem vendo
o diabo.
E assoviei lugubremente.
Franco me explicou que o Pipa andava com os indígenas.
Então percebemos um reflexo como de lanterna, que, muito abaixo,
parecia sulcar a água, com intermitência iluminada e se perdia e,
quando amanheceu, não vimos mais.
Passarinho do Monte e Morrinho da Savana chegaram cansados com
esta notícia: Falca subindo o rio. Companheiro seguindo-a pela margem.
Falca se mandando.
O Pipa nos trouxe novos informes: Era uma canoa ligeira, com teto
de palma entrelecida. Ao notar que na sombra andavam índios, apagou a
candeia e enviesou o rumo. Devíamos espreitá-la, fazer-lhe fogo.
Mais ou menos às onze horas, a balsa remontou, sigilosamente, escondendo-
se nos estancamentos de água, debaixo dos densos guamos*.
Empenhava-se em forçar um jorro e em fugir de um redemoinho, tocou a
costa para que o homem a rebocasse pelo extremo da corrente. Viramos a
pontaria para o moço, enquanto Franco foi ao seu encontro com o
machete no alto. No mesmo instante, o timoneiro da embarcação exclamou
de pé: "Tenente! Meu tenente! Sou eu Heli Mesa!"
E saltando para a margem, abraçaram-se enternecidos.
* Guamo: árvore da família das mimosáceas.
104
Depois, oferecendo-nos ayucuta feita de tapioca, que parecia casca
de milho grossa, Mesa expôs, repetindo-nos a ração:
— Que projeto vocês estão ocultando que me perguntam pelos seringueiros?
O tal Barrera roubou essas pessoas e as está levando para o
Brasil para vendê-las no rio Guainía* . Recrutou-me também há uns dois
meses, mas fugi na entrada do Orinoco, depois de matar um de seus capatazes.
Esses dois índios que me acompanham são de Maipures.
Olhei estupefato para os meus camaradas, sentindo uma vertigem
mais horripilante que a da febre. Calávamos estremecidos, meditabundos.
Mesa nos observava com inquietação. Franco rompeu o silêncio.
— Diga-me uma coisa, Griselda está indo com os seringueiros?
- Sim, meu tenente.
— E uma moça chamada Alícia? — perguntei-lhe com a voz convulsiva.
- Também, também!...
Junto ao fogão que refulgia na areia, envolvíamo-nos na fumaça,
para esquivarmo-nos da praga. Já seria meia-noite quando Heli Mesa
resumiu seu brutal relato que eu escutava sentado no chão, com a cabeça
metida entre os joelhos.
— Se vocês tivessem visto o cano Muco no dia do embarque, teriam
pensado que aquela festa não teria fim. Barrera prodigava abraços, sorrisos,
felicitações, satisfeito com a mesnada que ia segui-lo. Os tiples e as
maracas não descansaram e, na falta de foguetes, disparávamos os revólveres.
Houve cantos, garrafas, almoço à vontade. Depois, ao tirar novos
botijões de aguardente, Barrera fez um discurso falaz, pegajoso de promessas
e carinho e nos suplicou que levássemos nossas armas em um só
bongo, a fim de que tanto júbilo não provocasse uma desgraça. Todos lhe
obedecemos sem protestar.
Ainda que bastante bêbedo, tive o pressentimento de que por aqui
não há monte apropriado para que se organize seringais e estive perto de
voltar para buscar meu rancho, para reajuntar-me com a indiazinha que
deixei. Mas como até a menina Griselda gozava os meus receios, resolvi
gritar como todo mundo quando embarquei: viva o progressista senhor
Barrera! Viva o nosso empresário! Viva a expedição!
Já lhes contei o que aconteceu depois de uma marcha de algumas horas,
* Rio Guaínia: como é chamado o Rio Negro na Colômbia.
105
assim que caímos no Vichada. O "Palomo" e o "Matacano" estavam
acampados com quinze homens num lhano e, quando chegamos,
intimaram-nos para a revista, dizendo que tínhamos invadido território
venezuelano. Barrera, diretor da jogada, ordenou-nos: "Compatriotas
queridos, filhos amados, não resistam a eles. Deixem que esses senhores
esculquem bongo por bongo para que se convençam de que somos gente
de paz".
Aqueles homens entraram, mas não saíram: ficaram em popa e proa
como sentinelas. Certos de que íamos desarmados, nos mandaram ficar
em um só lugar, ou disparariam contra nós. E mandaram fogo nos cinco
que se mexeram.
Então, Barrera clamou que seguiria adiante, até San Fernando de
Atabapo, para protestar contra o abuso e para reclamar do Coronel Funes
uma indenização de porte. Ia no melhor bongo, com as mulheres aludidas
e com as armas e as provisões. Se foi embora, foi-se, surdo aos prantos e
às recriminações.
Aproveitando-se do porre que nos vencia, o "Palomo" nos colocava
em fila e nos amarrava de dois em dois. Desde esse dia fomos escravos e
não nos deixavam desembarcar em nenhuma parte. Jogavam a tapioca em
umas coyabras e, ajoelhados, a comíamos de par em par, como cachorros
em junta, metendo a cara nas vasilhas, porque nossas mãos estavam amarradas.
Os garotinhos vão no bongo das mulheres, expostos ao sol, molhando-
se as cabecinhas para não morrer carbonizados. Partem a alma
com seus gemidos, tanto quanto a súplica das mães que pedem ramos
para tapar-lhes. No dia em que saímos para o Orinoco, um menino de
peito chorava de fome. O "Matacano", ao vê-lo cheio de chagas das picaduras
dos pernilongos, disse que se tratava de varíola e, agarrando-o pelos
pés, girou-o no ar e o atirou às ondas. No mesmo instante um jacaré
atravessou-o nos beiços e, boiando, procurou a margem para tragá-lo. A
enlouquecida mãe, lançou-se à água e teve o mesmo destino que a criaturinha.
Enquanto os sentinelas aplaudiam a diversão, consegui safar-me das
cordas, e, arrancando o gratz* do que estava perto, meti a baioneta entre
os rins do "Matacano", deixei-o cravado contra a borda e, na presença
de todos, saltei no rio.
* Gratz: arma fabricada pela indústria alemã Gratz.
106
Os crocodilos entretiveram-se com a mulher. Nenhum disparo me
atingiu. Deus premiou minha vingança e aqui estou!
As mãos de Heli Mesa me reconfortaram. Apertei-as ansioso e me
transmitiam nas suas pulsações a contração com que fincaram na carne
do capataz o aço temerário. Aquelas mãos, que sabiam amansar a selva,
também desbravavam o rio com o remo ou com a alavanca e estavam cobertas
com a penugem dourada como as bochechas do jovem indomável.
— Você não deve felicitar-me — dizia — eu devia matá-los a todos!
— Então para que a minha viagem? — repliquei-o.
— Você tem razão. De mim não roubaram mulher nenhuma, mas
um simples sentimento de humanidade me enfurece o braço. Bem sabe o
meu tenente que continuarei sendo seu subalterno, como em Arauca Vamos,
pois, procurar os foragidos, para libertar os recrutados. Estarão no
rio Guainía, no seringal de Yaguanarí. Deixando o Orinoco, passariam
pelo Casiquiare e quem sabe que dono terão agora, porque dizem que
abundam por ali os compradores de homens e mulheres. O "Palomo" e o
"Matacano" eram sócios de Barrera nesse comércio.
— E você acha que Alícia e Griselda estão vivendo como escravas?
— A única coisa que posso garantir é que valem alguma coisa e que
qualquer poderoso dará por elas até dez quintais de goma. Era essa a avaliação
que os sentinelas faziam delas.
Retirei-me pelo areal para o meu chinchorro, sombrio de pesar e de
satisfação. Que felicidade que as fugitivas conhecessem a escravidão!
Quão vingadora a chicotada que as ferisse! Andariam pelos montes sórdidos,
desgrenhadas, enfraquecidas, carregando na cabeça os caldeirões
cheios de goma, ou o feixe de lenha verde, ou os fachos de fumigar. A venenosa
língua do capataz as feriria com indecências e não lhes daria respiro
nem para gemer. De noite dormiriam no tombo escuro com os peões
numa promiscuidade hedionda, defendendo-se de beliscões e de manuseios,
sem saber quem as forçava e possuía, enquanto que a guarda gritaria
números, assim como quem está indicando o turno para os machos lascivos:
Um!... Dois!... Três!...
De repente, com o augúrio de tais visões, o coração começou a crescer
dentro do meu peito até prostrar-me numa impotência sufocadora.
Estaria Alícia levando o meu filho em suas entranhas martirizadas? Qual
o tormento mais desumano que o meu tormento que se podia inventar
contra algum varão? E caí em um colapso sibilino e minha cabeça dessangrava-
se sob as minhas unhas.
107
Insensivelmente reagi de modo perverso. Barrera a tinha reservado
para o seu leito e para o seu negócio, porque aquele miserável era capaz
de ter concubina e viver dela. Que depravações devassas, que refinamentos
voluptuosos lhe teria ensinado! E por tê-la vendido, bem, muito bem!
Dez quintais de borracha repagavam-na! Ela se entregaria por uma só
libra!
Talvez não estivesse como peona nos seringais, mas sim como
rainha na casa assoalhada de algum empresário, vestindo custosas sedas e
rendas finas, humilhando suas servas como Cleópatra, rindo-se da pobreza
com que a tive, sem poder procurar outro gozo para ela que o do seu corpo.
De sua cadeira de balanço de vime, no corredor de sombra perfumada,
com a cabeleira solta, corpinho amplo, estaria vendo os carregadores
desfilarem com os fardos de borracha em direção às embarcações, suados
e rasgados, enquanto que ela, ociosa e rica, no meio dos leques de fracas,
apagaria seus olhos no bochorno, ao som de uma vitrola de vozes sedosas,
satisfeita por ser formosa, por ser desejada, por ser impura.
Mas eu era a morte e estava em marcha!...
No povoado autóctone de Ucuné, um cacique presenteou-nos com
tortas de cazabe e discutiu com o Pipa o roteiro que devíamos seguir: cruzar
a estepe que vai do Vichada ao cano do Vúa, descer as veigas do Guaviare,
subir pelo Inírida até Pupunagua, atravessar um istmo selvoso em
busca do Isana bramador e pedir às suas correntes que nos arrojassem no
Guainía, de ondas pretas.
Este trajeto, que implica uma marcha de meses, acaba sendo mais
curto que a rota dos seringueiros pelo Orinoco e Casiquiare. Querenamos
a embarcação com peraman e nos pusemos a navegar sobre as savaninhas
enlagoadas, ajoelhados na canoa, num desconforto martirizante, com cachorros
e víveres, tirando, por turnos, com uma concha, a impertinente
água das chuvas.
O mulato Corrêa continuava cem as febres, encolhido no meio da
curiara, debaixo do bayetôn lhaneiro que, noutros tempos, serviu-lhe
para proteger-se dos touros perseguidores. Quando escutei-o dizer que inclinava
a cabeça sobre o peito para escutar um gorgulho obstinado que
estava carcomendo seu coração, abracei-o com lástima:
— Ânimo, ânimo! Você não está parecendo o homem que conheci!
— Branco, essa é a verdade. Aquele que eu era ficou nos lhanos.
Queixou-se de que o Pipa estava querendo "apertar-lhe a corda",
porque resistiu em emprestar-lhe o tiple. Chamei o astuto e o sacudi.
108
"Se tornares a assustar esse pobre rapaz com tantas mentiras, te amarrarei pelado
no formigueiro".
— Não fique me achando de tão péssima índole. É verdade que fiz
um feitiço para os fugitivos, mas esse sócio meteu na cabeça que o malefício
é para ele. Convença-se do que ouve (tirou de sua mochila um
monte de palha fiada com arame pela metade, como se fosse uma escova
inútil, e desenrolou expondo): "Todas as noites a retorcia, pensando no
Barrera, para que sinta o estrangulamento na cintura e vá despedaçando-
se até dividir-se. Ah, se eu pudesse cravar as unhas nele! Portanto, que
fique constado que ele se salva pelos medos desse mulato ignorante". —
E dizendo isso, jogou longe a feitiçaria.
Às vezes levávamos a canoa em guando, pelas costas das torrentes,
ou a carregávamos nos ombros, como se fosse a caixa vazia de algum morto
incógnito que estávamos indo buscar em terras remotas.
— Esta curiara parece um féretro — disse Fidel. E o mulato sibilino
respondeu:
— Bem, pode ser para nós mesmos.
Mesmo com ignorados rios nos oferecendo pesca, a falta de sal nos
mingou o alento e os pernilongos se somaram aos morcegos. Todas as noites
açoitavam os mosquiteiros, rangendo, e era indispensável cobrir os
cachorros. Em volta da fogueira o tigre rugia e houve momentos em que
os tiros dos nossos fuzis alarmaram as selvas, sempre intermináveis e
agressivas.
Uma tarde, quase ao escurecer, percebi um rastro humano nas
praias do rio Guaviare. Alguém estampara sobre a greda o contorno de
um pé, enérgico e diminuto, sem que o seu vestígio reaparecesse por parte
alguma. O Pipa, que estava caçando peixes com as flechas, acudiu ao
meu chamamento e em breve todos os meus camaradas estavam formando
um círculo em volta do sinal, procurando indagar o rumo que teria
seguido. Mas Heli Mesa interrompeu a matutação com esta notícia:
— Aí está o rastro da indiazinha Mapiripana!
E nessa noite, enquanto dava voltas numa tartaruga na churrasqueira,
rematou sua polêmica com o Pipa: "Não continue argumentando que
foi o Poira que esteve aqui nessas praias de noite. O Poira tem os pés tortos,
e como carrega na cabeça um braseiro ardente que não se apaga nem
quando ele submerge nos remamos, se vê por toda parte o fio das cinzas
indicadoras. Tracemos neste areal uma borboleta, com o dedo no coração,
como ex-voto propício à morte e aos gênios do bosque, pois vou
contar a história da indiazinha Mapiripana".
109
Com exceção dos maipurenhos, todos obedecemos.
"A indiazinha Mapiripana é a sacerdotisa dos silêncios, a zeladora
dos mananciais e lagoas. Vive no interior das selvas, espremendo as
nuvenzinhas, canalizando as filtrações, buscando fontes de água na felpa dos
barranchos, para formar novas vertentes que dêem seu tesouro claro aos
grandes rios. Graças a ela, o Orinoco e o Amazonas têm tributários.
"Os índios desta comarca a temem e ela tolera suas caçadas com a
condição de que não façam barulho. Os que a contrariam não caçam
nada; e basta observar a argila úmida para compreender que ela passou
assustando os animais e marcando o rastro de um só pé, com o calcanhar
para a frente, como se caminhasse retrocedendo. Sempre leva nas mãos
uma parasita e foi ela quem usou por primeiro os abanos de palmeira.
De noite, se pode percebê-la gritando nas lonjuras e, nos plenilúnios,
costeia as praias, navegando sobre uma concha de tartaruga, movida pelos
bufeos que mexem as barbatanas enquanto ela canta.
"Em outras épocas, um missionário que se embebedava com suco de
palmeira e dormia no areal com índias impúberes veio a essas latitudes.
Como era enviado do céu para derrotar a superstição, esperou que a
indiazinha descesse certa noite dos remansos do Chupave para enlaçá-la
com o cordão do hábito e queimá-la viva, como se queima as bruxas. Em
uma curva dessas praias, talvez nessa areia onde vocês estão sentados, a
via roubando os ovos do terecay e percebeu no fulgor da lua cheia que
tinha um vestido de teias de aranha e aparência de viuvinha jovem.
Começou a segui-la com um afã luxurioso, mas ela escapava dele nas penumbras;
chamava-a com apuro e o enganoso eco o respondia Assim foi
internando-o nas solidões até dar com uma caverna onde o manteve prisioneiro
por muitos anos.
"Para castigar-lhe o pecado da luxúria, chupava-lhe os lábios até
rendê-lo e o infeliz, perdendo sangue, fechava os olhos para não ver-lhe o
rosto peludo como o de um macaco orangotango. Poucos meses depois,
ela ficou grávida e teve dois gêmeos aborrecíveis: um morcego e uma coruja.
O missionário, desesperado porque engendrava tais seres, fugiu da
cova, mas seus próprios filhos perseguiram-no e, de noite, quando se
escondia, o morcego o sangrava e a lucífuga o refletia, acendendo seus
olhos pestanejantes, como lampiões de vidro verde.
"Quando amanhecia, prosseguia a marcha, dando ao flácido estômago
alguma ração de frutas e palmito. E daquela que hoje é conhecida
como o nome de Lagoa Mapiripana, andou por terra, saiu ao Guaviare,
110
por aqui em cima e, desorientado, montou em uma canoa que achou cravada
em um varadouro; mas foi impossível vencer as quedas do
Mapiripán, onde a indiazinha tinha enfurecido as águas, metendo enormes
pedras na corrente. Depois, desceu à bacia do Orinoco e foi atalhado
pelos caudais do Maipures, obra endemoniada por sua inimiga, que
fez também os saltos do Isana, do Inírida e do Vaupés. Vendo que estava
perdida toda esperança de salvação, regressou à cova, guiado pelos
focos da coruja e, ao chegar, viu que a indiazinha sorria do seu balanço
de trepadeiras florescidas. Prostrou-se para pedir-lhe que o protegesse de
sua prole e caiu sem sentido ao escutar esta admoestação cruel: Quem
pode livrar o ser humano de seus próprios remorsos'?
"Desde então entregou-se à oração e à penitência e morreu envelhecido
e extenuado. Antes da agonia, em seu mísero leito de folhas e líques,
a indiazinha o achou estendido de costas, agitando as mãos no
delírio, como se fosse para agarrar no ar a sua própria alma; e ao fenecer,
uma borboleta de asas azuis ficou esvoaçando pela caverna, imensa
e luminosa como um arcanjo, que é a visão derradeira daqueles que morrem
de febres nessas zonas."
Nunca conheci pavor igual àquele do dia em que surpreendi a alucinação
em meu cérebro. Por mais de uma semana, vivi orgulhoso da lucidez
da minha compreensão, da sutileza dos meus sentidos, da finura das
minhas idéias: sentia-me tão dono da vida e do destino, achava soluções
tão fáceis para os problemas, que me achei predestinado ao extraordinário.
A noção do mistério surgiu em meu ser. Gozava em adestrar a
imaginação e passava noites inteiras em claro, querendo saber que coisa
é o sonho e se está na atmosfera ou nas retinas.
Pela primeira vez, meu desvio mental se fez patente no fosco
Inírida, quando ouvi as areias suplicarem-me: "Não pises tão forte,
porque nos machuca. Tenha piedade de nós e lance-nos aos ventos,
porque estamos cansadas de sermos imóveis.
Agitei-as com um movimento de braço febril até provocar uma
poeirada e Franco teve de agarrar-me pela roupa para que eu não me atirasse
à água quando escutei as vozes das correntes: "E para nós, não há
compaixão? Agarra-nos em tuas mãos, para esquecer esse movimento, já
que a ímpia areia nos detém e temos horror do mar".
Assim que toquei as ondas, a demência fugiu e comecei a sofrer a
tortura de que o meu próprio ser me causava receio.
Às vezes, para distrair a preocupação, empunhava o remo até ficar
exausto,
111
tentando indagar nos olhares dos meus amigos o estado de
minha saúde. Com freqüência, surpreendia-os fazendo caretas de desconsolo,
mas me estimulavam assim: "Não te canses muito:há que se saber
o que são as febres".
No entanto, eu compreendia que se tratava de algo mais grave e
fazia poderosos esforços de sugestão para convencer-me da minha normalidade.
Enriquecia os meus discursos com temas amenos, ressuscitava na
memória antigos versos, comprazido pela vivacidade da minha razão
e depois afundava em lassidões letárgicas que terminavam dessa maneira:
"Franco, diga-me, pelo amor de Deus, se me ouviste dizendo algum
disparate''.
Pouco a pouco meus nervos se restauraram. Uma manhã acordei
alegre e dei por assoviar uma canção de amor. Mais tarde, deitei sobre as
raízes de um mogno e, de cara nos grânulos, trocei da enfermidade,
imputando a neurastenia às minhas apreensões passadas. Mas logo comecei
a sentir que estava morrendo de catalepsia. Na vertigem da agonia,
convenci-me de que não estava sonhando. Era o fatal, o irremediável.
Queria gemer, queria mexer-me, queria gritar, mas a rigidez me havia
agarrado e só meus cabelos se alvoroçavam com o sufoco das bandeiras
durante o naufrágio. O gelo me penetrou pelas unhas dos pés e ascendia
progressivamente, como a água que invade um torrão de açúcar; meus
nervos cristalizavam-se, meu coração retumbava em sua caixa vítrea e o
globo da minha pupila relampejou ao endurecer.
Aterrado, aturdido, compreendi que os meus clamores não feriam o
ar; eram ecos mentais que se apagavam em meu cérebro, sem emitir-se,
como se estivesse pensando. Enquanto isso, prosseguia a tremenda luta da
minha vontade com o corpo ignóbil. Ao meu lado, uma sombra empunhava
a foice e começou a agitá-la no vento, sobre a minha cabeça.
Apavorado, eu esperava o golpe, mas a morte mantinha-se irresoluta, até
que, levantando um pouco a haste, descarregou-a de cheio em meu crânio. A abóboda parietal, parecendo um vidro fino, tilintou ao rachar-se
e seus fragmentos ressoaram no interior, como as moedas na alcanzia.
Nesse momento, o mogno balançou os seus ramos e escutei em seus
rumores estes anátemas:
"Pique-o, pique-o com o seu ferro, para que experimente o que é o
machado na carne viva. Pique-o mesmo estando indefeso, pois ele também
destruiu as árvores e é justo que conheça o nosso martírio!"
112
Para o caso de o bosque entender meus pensamentos, dirigi-lhes
esta meditação: "Mate-me se quiseres, porque ainda estou vivo!"
E um charco podre me replicou: "E os meus vapores? Por acaso
estão ociosos?"
Passos indiferentes avançaram na folhagem caída. Franco aproximou-
se sorrindo e, com a ponta de seu dedo indicador, tocou-me a pupila
estática: "Estou vivo, estou vivo!", gritava-lhe dentro de mim. "Coloque
o ouvido sobre o meu peito e escutarás as pulsações."
Alheio às minhas súplicas mudas, chamou os meus companheiros
para dizer-lhes, sem uma lágrima: "Abram a sepultura, porque está morto.
Era o melhor que podia acontecer-lhe". E, com uma angústia desesperada,
senti os golpes da pá no areal.
Então, num esforço sobre-humano, pensei ao morrer:
"Maldita seja minha estrela aziaga, que nem em vida e nem na
morte se deu conta de que eu tinha um coração!"
Mexi os olhos. Ressuscitei. Franco me sacudia.
— Não volte a dormir sobre o lado esquerdo, porque você faz uns
barulhos pavorosos.
- Mas eu não estava dormindo! Não estava dormindo!
Os maipurenhos que vieram do Vichada com Heli Mesa pareciam
mudos. Adivinhar suas idades era uma tarefa tão aleatória como calcular
os anos dos cagados. Nem a fome, nem a fadiga, nem as contrariedades
alteraram o passivo aspecto severo de sua indolência. Assim como os
patos pescadores que exibem na praia sua parelha cinzenta, acordes no
vôo e no descanso, sempre juntos, solitários e tristes, aqueles indígenas
conviviam, entendendo-se a meia-voz e afastando-se de nós nas paradas,
para acomodar-se num grupo misturado, para sorver a xícara de yucuta,
depois de acender as fogueiras, de recolher as puas de pescar e de guarnecer
anzóis e guarais.
Nunca os vi misturarem-se aos guahibos de Macucuana, nem
festejar as anedotas e caretas do Pipa. Nem pediam, nem davam nada. O
cátire Mesa era o seu intermediário e com ele mantinham lacônicos
diálogos, exigindo a entrega da curiara — que era sua única fortuna — pois
ansiavam voltar ao rio.
— Vocês devem acompanhar-nos até o Isana.
— Não podemos.
113
— Então saibam que não entregaremos a canoa.
— Não podemos.
Quando entrávamos no Inírida, o mais velho deles me pediu encarecidamente, em um tom que era misto de súplica e de ameaça: "Deixe-
nos regressar ao Orinoco. Não atravesse essas águas que são malditas.
Acima, seringais e guarnições. Trabalho duro, gente maluca, matam os
índios".
Isto me confirmava velhos informes que o Pipa nos deu para que
desistíssemos de aproximarmo-nos dos barrancos do Guaracú.
Pela tarde, fiz que Franco os interrogasse mais amplamente e, ainda
que descuidados com o questionário, disseram que no istmo de Papunagua
vivia uma tribo cosmopolita, formada por fugitivos de seringais
desconhecidos, até do Putumayo e do Ajajú, do Apoporis e do Macaya,
do Vaupés e do Papurí, do Ti-Paraná (rio do sangue), do Tui-Paraná
(rio da espuma) e tinham corredores no meio da selva, para quando
as patrulhas fossem armadas em sua perseguição; que desde anos atrás
uns guianeses de pouca monta estabeleceram uma fabricação perto
do Isana, para ir avassalando os fugitivos, e a administrava um corso
chamado "O Cayeno"; que devíamos mudar o rumo, porque se encontrássemos
os fugitivos, nos tratariam como inimigos; e se fosse com as
barracas, nos poriam para trabalhar pelo resto de nossa vida.
O derradeiro lampejo desvaneceu-se nas águas. Escureceu. Preocupações
encontradas me combatiam com o desvelo. Aquela notícia, verídica
ou falsa, me pôs triste. A escuridão tornava-se espessa nos montes.
Que acontecimentos se cumpririam com a minha presença mais além dessas
sombras?
Perto da meia-noite, percebi latidos e palavras de algazarra. O corinho
discutidor se destacava na frente da canoa.
- Mate-o! Mate-o - dizia Mesa. Franco me chamou a gritos. Acudi
apressado, de revólver na mão.
— Esses bandidos iam mandar-se com a canoa. E querer meter-nos
nessas selvas para morrer de fome! Dizem que foi o Pipa quem os aconselhou!
- Quem está me caluniando? Isso não é possível! Afinal, eu sou
capaz de maus conselhos?
Os maipurenhos lhe argumentaram tímidos:
— Você rogou que embarcássemos a sua cama e duas carabinas.
— Confusão lamentável! Propus que vocês fugissem, porque conhecia
114
as suas intenções. Disseram que não. Acabou sendo sim. De qualquer
modo, só pelo fato de não tê-los denunciado! Não poder cravar-lhe
as unhas!
Cortando a discussão, decidi flagelar o Pipa e encomendei tal tarefa
aos seus cúmplices. Serpenteando mais que as chicotadas, implorava
clemência em meio a gemidos e chegou até a invocar o nome de Alícia.
Por isso, quando saiu o primeiro sangue, ameacei-o atirá-lo para os caribes.
Então fingiu que desmaiava, ante o assombro angustioso dos maipurenhos
e guahibos, aos quais adverti que a partir daquele momento
dispararia sobre qualquer um que se levantasse do chinchorro sem dar o
aviso regulamentar.
As semanas seguintes mal gastamos em dominar caudais trovejantes.
Mas quando achávamos que havíamos escalado todas as torrentes, o eco
do monte nos trouxe o fragor de outra rápida turbulência que, ao longe,
batia sua espuma brava como um galhardete sobre os penhascos. Numa
rapidez zumbidora, a água arqueava-se, provocando umaviração que embalava
as melenas dos bambus e fazia o tênue íris oscilar com um bamboleio
de arcada imóvel no meio da névoa do fervedouro.
Ao longo de ambas as margens, o basalto arrebentado pelo rio
erguia os seus fragmentos — tormentosa torrente em garganta estreita
— e à direita, como um braço que o morro estendia aos turbilhões, boiava
a fileira de rochas máximas com sua série de cascatas fúlgidas. Era
preciso forçar a passagem da esquerda porque as escarpas não permitiam
que levássemos a cariara na superfície. Acostumados a vencer nessas
manobras, a singrávamos pela cornija de um despenhadeiro, mas ao darmos
de cara com o triângulo dos recifes, resistiu a Solavancos e cabeçadas
no turbilhão ensurdecedor, na falta de lastro e de timoneiro, ríelí Mesa,
que dirigia o tráfego titânico, armou o revólver ao ordenar aos maipurenhos
que descessem por uma soga e ganhassem a embarcação de um salto
para apalancá-la de popa e de proa. Os briosos nativos obedeceram e,
dentro da madeira resvaladiça que ziguezagueava sobre as espumas,
esforçaram-se em impeli-la em direção ao jorro; mas de repente, ao arrebentar-
se as amarras, a canoa retrocedeu para o vaivém rugidor e, antes
que pudéssemos soltar um grito, o trágico funil sorveu-os todos.
Os sombreiros dos náufragos ficaram rodando no redemoinho,
debaixo do íris que abria suas pétalas como a borboleta da indiazinha
Mapiripana.
A frenética visão do naufrágio sacudiu-me com uma rajada de beleza.
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O espetáculo foi magnífico. A morte havia escolhido uma nova forma
contra as suas vítimas e era de agradecer-lhe pelo fato de nos devorar
sem verter sangue, sem dar aos seus cadáveres livores repulsivos. Belo morrer
o daqueles homens, cuja existência apagou-se de súbito, como uma
brasa entre as espumas, através das quais o espírito subiu, fazendo-as ferver
de júbilo!
Enquanto corríamos pelo penhasco para jogar o cabo de salvamento,
no ímpeto da ajuda tardia, eu pensava que qualquer manobra que
fizéssemos tornaria ignóbil a imponente catástrofe; e de olhos fixos no
dique, sentia o temor daninho de que os náufragos boiassem, inchados,
para misturarem-se na dança dos sombreiros. Mas o borbotão espumante
já tinha borrado com vagas definitivas os últimos rastros da desgraça.
Impaciente com a insistência dos meus companheiros que rondavam
de pedra em pedra, gritei:
— Franco, você é um imbecil. Como pretende salvar aqueles que
perecem subitamente? Que benefício lhes brindaria se ressuscitassem?
Deixe-os aí e invejemos sua morte!
Franco, que da margem recolhia tábuas partidas da embarcação, armou-
se com uma delas para golpear-me: "Teus amigos não te importam
nem um pouco? É assim que nos pagas? Nunca pensei que fosses tão
desumano, tão detestável!"
Eu, no estrondo da cólera, permanecia perplexo. Tive vagas noções
do dever e, com o olhar, procurei a minha carabina. Por cima do eco
das torrentes me feriam as palavras da agressão, que Franco continuava
emitindo aos berros, ao mesmo tempo que gesticulava diante do meu
rosto. Eu jamais tinha conhecido uma fúria tão eloqüente e tumultuosa.
Falou de sua vida sacrificada pelo meu capricho, falou da minha ingratidão,
do meu caráter voluntarioso, do meu rancor. Nem sequer havia sido
leal para com ele quando pretendi disfarçar-lhe minha condição em La
Maporita; dizer-lhe que era um homem rico quando a penúria me denunciava
como uma agulheta; dizer-lhe que era casado, quando Alícia revelava
em suas atitudes a indecisão da concubina. E zelá-la como a uma virgem
depois de tê-la encanalhado e pervertido! E esganiçar porque outro
a estava levando, quando eu, ao raptá-la, a tinha iniciado na perfídia! E
continuar procurando-a pelo deserto, quando nas cidades viviam aborrecidas
por suas virtudes mulheres solícitas de índole dócil e estampa
formosa! A arrastar-lhes na aventura de uma viagem mortífera, para
alegrar-me porque perecessem tragicamente! Tudo isso porque eu era um desequilibrado
tão impulsivo quanto teatral.
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Esta última frase me pegou como uma martelada. Eu, desequilibrado!
Por quê? Por quê? Apressei-me em devolver o golpe e fui infeliz em
minha acometida.
— Seu estúpido! Onde está o meu desequilíbrio? O que estou fazendo
por Alícia, você fez por Griselda. Acha que eu não sabia? Por causa
dela você assassinou seu capitão!
E para ofendê-lo com maior afinco, acrescentei, parodiando um
conceito célebre: "O mal não está em se ter uma amante, mas sim está em
casar-se com ela"!
Enquanto o feria com risos de sarcasmo, apoiou-se na rocha erecta.
Houve um momento que pensei que fosse cair. Minha voz o tinha transpassado
como uma lança. Então escutei revelações abrumantes:
— Eu não dei cabo do meu capitão. Foi Griselda mesma quem o
apunhalou. Aqui está o catire Mesa que foi dar-me o aviso. É verdade que
na sala escura dei uns tiros sem saber como. A mulher me tirou o revólver
e acendeu a luz, advertindo-me com esta frase heróica: "Este apagou a
vela para vir em cima de mim à galega e aí o tens. Estava revolvendo-se
em seu próprio sangue"!
A Griselda por mais culpável que fosse, se havia redimido com sua
bravura. Tirei-lhe o punhal e entreguei-me, declarando ser o autor de tudo.
Mas o capitão evitou o escândalo. Não acusou ninguém!
Digam esses que me ouvem, como me extorquia o juiz de Orocué.
Quis sumariar meu emancebamento, mas vacilou diante da idéia de que
pudéssemos ser casados. Por isso, a Griselda que é mulher de vivacidade,
não perdia ocasião para pregar nosso matrimônio. Nossa convivência
se apoiava nessa mentira. Juro que disse a verdade!
Aqueles fatos me causaram tanta surpresa que sentia um enjôo
de confusão e incerteza. Fidel continuava desnudando seu coração e
descobrindo dramas íntimos, dores do lar, desgostos de convivência
com a homicida, projetos de ansiada separação. Todos os dias cultivou
o desejo de que a mulher o abandonasse, poupando-lhe assim a vergonha
de repudiar-lhe sem motivo justificável. Mas ela, infelizmente,
não lhe fora infiel e começou a considerá-lo e atendê-lo de uma tal
maneira que o atou indestrutivelmente com uma compaixão carinhosa,
superior ao mais grave desvio. Havia organizado para ela, à custa de muitos
suores, a fundação de La Maporita. Queria deixar-lhe um estar mediano,
enquanto prescrevia a deserção, para depois voltar para Antióquia.
Mas quando se deu conta de que Barrera a desejava, acendeu-se
em ciúmes. Talvez sem o meu exemplo pernicioso,tivesse resignado-se
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a deixá-la livre; mas eu lhe contagiei com o meu furor nefando e agora
seguia os meus passos em direção ao desastre. E já era impossível a reflexão.
Não podia voltar atrás! Não admitiria a desertora nem viva nem
morta; mas também não iria causar-lhe nenhum dano! Na verdade, não
sabia o que fazer!
Não guardo outra lembrança do seu discurso: ainda que estivesse
ouvindo-o, não o escutava. O véu do passado retrocedeu em meus olhos.
Detalhes esquecidos se esclareceram e me dei conta de circunstâncias
inadvertidas. Com razão a menina Griselda queria emigrar! Por alguma
coisa tinha elevado seus gritos de consternada no dia em que empunhei
o meu facão contra Millán para impedir que arrebatasse a mercadoria
de don Rafael. O relampejo da arma luzidia representaria para ela a cena
terrível, quando o sangue do sedutor acendeu avela, anunciando: "Quis
vir à galega e aí o tens". Lembrei-me também de suas sentenças contra
os homens e até do estribilho com que morigerava os meus atrevimentos:
"Se não hás de levar-me, não sejas descarado! Que pensaste? Contigo
tenho sido uma mulher gozadora, mas com outros... me fiz valer!" E
estremecida, descarregava o punho sobre o meu peito, como se fosse para
cravar o ferro vingador.
E fora essa mulher sorridente e selvagem que Alícia havia feito
sua assessora, sua confidente. Em sua alma reconcentrada e inexperiente
um novo caráter se estava desenvolvendo, sob a influência perigosa
da amizade. Talvez pensando que eu a repudiaria a qualquer momento, pôs
sua esperança no amparo da patroa, a quem imitava até em seus defeitos,
sem admitir minhas recriminações para dar-me a entender que não estava
só e que eu podia abandoná-la quando quisesse.
Certa vez, a menina Griselda, comigo ausente, dava-lhe aulas de
tiro ao alvo. Surpreendi-as com o revólver fumegante e permaneceram
impassíveis, como se estivessem com a costura.
— Que é isso, Alícia? Você perdeu a timidez a tal ponto?
Sem responder-me, deu de ombros, mas sua companheira proferiu
sorrindo:
— É que nós, as mulheres, devemos saber de tudo. Já não se tem
garantia nem com os maridos.
Heli Mesa veio interromper minha meditação com esta súplica:
"Uma amizade como a de vocês, resiste a choques! Esta altercação não
tem importância. As mãos do tenente não se mancharam. Pode apertá-las".
Enquanto apertava as de Fidel, ordenei-lhe ao catire:
118
— Dê-me também as suas, que se mancharam por justiceiras que
são!
O Pipa e os guahibos fugiram naquela noite.
"Meus amigos, faltaria com minha consciência e minha lealdade
se não declarasse neste momento, como ontem à noite, que vocês são
livres para seguir a sua própria estrela, sem que o meu destino detenha-
lhes o passo. Mais que na minha vida, pensem na sua. Deixem-me só, porque
o meu destino desenvolverá sua trajetória. Ainda é tempo de regressar
para onde queiram. Aquele que seguir a minha rota vai com a morte.
"Se insistem em acompanhar-me, que seja percorrendo o mundo
por conta própria. Seremos solidários pela amizade e pelo proveito comum;
mas cada um enfrentará o seu destino separadamente. De outro
modo, não aceitarei sua companhia.
"Vocês dizem que da boca dessa corrente no Guaviare só se gasta
meia jornada em baixar ao povoado de San Fernando. Se não temem
que o coronel Funes possa prendê-los como suspeitos, desandem as margens
desses rápidos, construam uma balsa de troncos de bananeiras e deixem-
na rodar até o atabapo. A dispensa de vocês está nos montes: leite
de sefe, talos de manaca.
"De minha parte, só peço que me ajudem a ganhar a margem oposta.
Os maipurenhos asseguravam que o Papunagua abre o seu delta a poucos
quilômetros desta queda-d'água e que ali moram os índios puinaves. Quero
atrever-me com eles até o Guainía. E já sabem o que pretendo, ainda
que pareçam coisas de louco."
Foi dessa maneira que admoestei os meus companheiros na manhã
em que amanhecemos na Inírida abandonados sobre umas rochas.
O catire Mesa respondeu por todos:
— Os quatro formaremos um só homem. Não nascemos para relíquias.
Ao feito, peito!
E precedeu-me pela margem abrupta, procurando o melhor ponto
para aventurarmos a travessia, sem levar outro equipamento que os
chinchorros e as armas.
Claramente, desde aquele dia, tive o pressentimento do fatal.
Todas as desgraças que aconteceram, me foram anunciadas nesse momento.
No entanto, avancei indomável pela praia acima, olhando às vezes,
com um afã íntimo, a costa contrária, certo de que as plantas dos
meus pés nunca mais voltariam a calcar o solo que invadiam. Quando os
meus olhos encontravam os de Fidel, sorríamos silenciosos.
119
— Melhor que o Pipa se tenha picureado — exclamou Corrêa. —
Esse bandido endemoniado e repelente era perigoso. Como encheu
com a cantilena de que fôssemos para o Guainía pelo arrastadeiro do riacho
Nauquém! Todos esses montes metiam medo nele! Porém mais o
coronel Funes!
— Você diz bem — repliquei . — Estava sempre temendo que em
qualquer caudal saísse para atacar-nos a indiada fugitiva que se esconde
nesse deserto, onde os jorros e as matas são suas defesas.
— E tome como a fregancia de que estava vendo fumaças nos penhascos.
E não admitia que eram vapores de outras cascatas.
— Mas é inegável que alguém andou por aqui — observou Mesa. —
Olhem o cascalho do remanso: espinhas de peixe, fogueiras, cascas.
— Algo mais esquisito ainda — acrescentou Franco. — Latas de
salmão, garrafas vazias. Não se trata de índios somente. Esses são seringueiros
recém-chegados.
Ao escutar tais palavras, pensei em Barrera, mas o catire, como se
estivesse adivinhando minhas meditações, afirmou:
— Tenho plena evidência de que o nosso pessoal está no Guainía.
Além do que, os rastros são poucos. Não foram vinte pessoas que pisotearam
o areal e todos os rastros são de pés grandes. Estes foram venezuelanos.
Convém passarmos para a outra margem para procurar mais
pistas. Na linha escura daqueles montes se vê um claro. Talvez o estuário
do rio Papunagua.
E naquela tarde, estendidos de peito em uma balsa e dando braçadas
na espuma por falta de remos, passamos para a ribanceira oposta,
sobre a onda aprazível que o sol ensangüentava.
Minha dureza com o vigia foi bestial. Teria matado-o à menor
tentativa de resistência. Quando descia com os pés trêmulos os degraus
do pau oblíquo que servia de escada ao desvão, empurrei-o para que caísse;
e ao olhá-lo de bruços, inofensivo, aturdido, agarrei-o pelos cabelos
para ver-lhe a cara. Era um ancião de estatura elevada, que me fitava com
olhos tímidos e levantava os braços para cima da cabeça para impedir
que o macheteasse. Seus lábios estremeciam-se com balbucios suplicantes:
"Pelo amor de Deus! O senhor não me mate! Não me mate o senhor"!
Ao escutar tal imploração, percebendo a semelhança que a ancianidade
venerável empresta aos homens, lembrei-me do meu ancião pai
e, com a alma angustiada, abracei o prisioneiro para levantá-lo do solo em
que jazia.
120
Ofereci-lhe água em meu próprio sombreiro. "Perdoa-me, disse-
lhe; não me dera conta de sua velhice."
Enquanto isso, meus companheiros que sitiavam o barracão para
garantir o meu ataque saquearam o desvão antes que pudesse contê-los.
Pessoa alguma encontrava-se nele. Desceram com a carabina do prisioneiro.
— De quem é esta mauser? — gritou-lhe Franco.
— Minha, senhor — disse o aludido com a voz agitada.
— E que é que você faz aqui armado de mauser?
— Deixaram-me doente faz dias...
— Você é sentinela dos caudais! E se o nega, o fuzilamos!
O homem, virado na direção de Franco, queria prostar-se:
— Pelo amor de Deus, não me mate! Tenha piedade de mim!
— Onde estão — perguntei — as pessoas que o deixaram?
— Foram embora anteontem para o alto do Inírida.
— Que cadáveres içaram sobre os penhascos cimeiros do rio?
— Cadáveres?
— Sim, senhor; sim senhor! Os encontramos de manhã porque os
zamuros os denunciaram. Estão pendurados numas palmeiras, pelados,
amarrados com arames pelas mandíbulas.
— É que o coronel Funes vive em guerra com o Cayeno. Faz uma
semana que os vigias viram uma embarcação remontar. E como o Cayeno
tem correios, no dia seguinte recebeu o aviso. Trouxe vinte e cinco homens
do Isana e assaltou os navegantes.
— Essa embarcação — replicou o catire — foi aquela dos rastros nas
praias. Essas eram as fumaças que o Pipa observava.
— Diga-nos que gente era essa.
— Uns sequazes do coronel vinham de San Fernando para roubar
borracha e caçar os índios. Todos morreram. E é costume pendurá-los
para escarmento dos demais.
— E Cayeno, onde está?
— Faz o que os outros vieram para fazer.
O velho acrescentou depois de uma pausa:
— E a tropa de vocês, onde está? Por onde vieram sem que a tenham
visto?
— Uma parte está esculcando os montes; outra já está remontando
o Papunagua. O Cayeno assassinou nossas descobertas enquanto forçávamos
os caudais.
— Senhor, diz para a sua gente que se dá de cara com tombos de sertos,
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não utilize o mañoco que encontrar neles. Esse mañoco tem veneno.
— Também os mapires que estão aqui?
— Também. O mañoco que presta nós temos escondido.
— Traga-o. E coma você na nossa presença.
Quando o ancião se mexeu para obedecer-me, olhei para suas canelas
cheias de úlceras. Deu-se conta dos meus olhares e com um acento de
voz humilde encareceu: "Abram vocês mesmos os mapires. Verdadeiramente,
provoco nojo".
E ao receber a farinha salvadora que o mulato ofereceu-lhe em uma
cabaça, começou a ingeri-la, sem preocupar-se com suas lágrimas.
Para reanimá-lo, disse-lhe solícito: Não se aflija você se a vida é
dura. Deixe-nos saborear suas provisões. Você é alguém. Já seremos bons
amigos.
Naquela noite, os relâmpagos incendiavam as sombras e a selva
rangia com rumores tétricos. Estive escutando a conversa dos meus camaradas
com o inválido até o momento em que o vento de chuva apagou as
fogueiras; mas vencia-me um pesado sono e perdi a conclusão da conferência.
O velho se chamava Clemente Silva e dizia ser pastuso*. Havia
perambulado dezesseis anos pelos montes, trabalhando como seringueiro,
e não tinha um só centavo.
Num momento em que despertei, expunha no tom explícito
de quem faz constar um favor:
— Eu vi as vanguardas de vocês. Três nadadores cruzavam o rio.
Com medo de que o Cayeno regressasse, calei. E hoje quando tinha tomado
a resolução de tomar o atalho...
- Oi —interrompi, ajeitando-me no chinchorro. — Quantas pessoas
você viu? E quando?
— Tenho certeza do que digo: três nadadores, faz dois dias. Deviam
ser às sete da manhã. Para mais indícios, traziam suas roupas amarradas
na cabeça. Foi um milagre que o Cayeno não os capturasse. Acontecem
tantas coisas neste inferno...
— Boa noite. Sei quem são. Não conversaremos mais.
Disse assim para evitar possíveis indiscrições dos meus companheiros.
Mas já não pude dormir, pensando no Pipa e nos indígenas.
* Pastuso: variação de pastense, natural de Pasto, Colômbia.
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Sentia-me nervoso, decaído, diante dos perigos que nos rodeavam; mas tomei
a resolução de acabar com aquela vida de sobressaltos, sucumbindo de
qualquer modo, com meus rancores e caprichos, antes de afrouxar em
meus propósitos. Por que don Clemente Silva não me disparou um tiro,
se foi com essa ilusão que o assaltei? Por que o Cayeno se retardava com
suas correntes e suplícios? Tomara que me pendurasse numa árvore,
onde o sol apodrecesse minhas carnes e o vento me agitasse como um
pêndulo!
- Onde está don Clemente Silva? - perguntei-lhe aocatire Mesa
quando amanheceu.
- Lavando a cara na valeta.
- E por que o deixaram só? Se fugisse...
— Não há perigo nenhum! Franco está com ele. Esteve queixando-
se da perna durante toda a madrugada.
— E você, o que acha desse pobre velho?
-É nosso compatriota e não o sabe. Acho que deveríamos confessar
tudo e pedir-lhe ajuda.
Quando desci à fonte, me enterneci ao ver que Fidel lavava as chagas
do afligido. Este, ao perceber meus passos, envergonhou-se de sua miséria
e esticou a calça até o tornozelo. Respondeu-me o bom-dia com um
acento de voz perturbado.
- Essas ulcerações, de onde provêm?
- Ai, senhor, parece incrível. São picaduras de sanguessugas. Essa
maldita praga nos intoxica porque vivemos nos pantanais picando a borracha;
enquanto o seringueiro sangra as árvores, as sanguessugas sangram-
no. A selva se defende de seus verdugos e no final o homem acaba
sendo vencido.
— Julgando por você, o duelo é a morte.
- Isso sem contar os pernilongos e as formigas. Tem a vinte e
quatro* , tem a tambocha* *, venenosas como escorpiões. Algo pior ainda:
A selva transtorna o homem, desenvolvendo seus instintos mais desumanos:
a crueldade invade a alma como o espinho intrincado e a cobiça
queima como febre. A ânsia por riquezas convalesce o corpo já desfalecido
e o cheiro da borracha produz a loucura dos milhões. O peão
sofre e trabalha com o desejo de ser o empresário que possa um dia sair
* Vinte e quatro: gênero de formiga carnívora.
** Tambocha: espécie de formiga carnívora.
123
para as capitais para esbanjar a borracha que está levando, para gozar
das mulheres brancas e para embebedar-se meses inteiros, sustentado
pela evidência de que nos montes há mil escravos que dão sua vida em
troca da procura desses prazeres, como ele o fez para seu amo anterior.
Só que a realidade anda mais devagar que a ambição e o beribéri é mau
amigo. No desamparo de veigas e estradas, muitos sucumbem de febres,
abraçados à árvore que brota leite, colando suas ávidas bocas ao córtex
para na falta de água, acalmar a sede da febre com a borracha líquida;
e ali apodrecem como as folhas, roídos por ratos e formigas, únicos
milhões que lhe chegaram ao morrer.
O destino de outros é menos precário: ascendem a capatazes à
custa da crueldade e, toda noite, esperam de caderno na mão que os trabalhadores
entreguem a goma extraída, para assentar seu preço na conta.
Nunca ficam contentes com o trabalho e o chicote mede seu desgosto.
Àquele que trouxe dez litros, só lhe abonam a metade e com o resto
eles enriquecem o seu contrabando, que vendem ao empresário de outra
região, ou que enterram para trocá-lo por licores e mercadorias com o
primeiro chuchero que visite os seringais. Por sua parte, alguns peões
fazem o mesmo. A selva os arma para destruí-los, e se roubam e se assassinam,
mutuamente, amparados pelo segredo e pela impunidade, pois
não há notícias de que as árvores falem das tragédias que provocam.
— E você, por que suporta tanta desdita? — repliquei indignado.
— Ai, senhor, a desgraça anula as pessoas.
— E por que não volta para a sua terra? Que podemos fazer para
libertá-lo?
— Obrigado, senhor.
— No momento é preciso curar suas chagas. Permita-me que lhe
faça alguns remédios.
E ainda que o velho, assombrado, resistisse, arregacei sua calça até
o joelho e ajoelhei-me para examiná-lo.
— Fidel, você está cego? Tem vermes nessas úlceras!
— Vermes! Vermes!
— Sim, temos de buscar otoba para matá-los.
O velho comentava queixando-se:
— Será possível? Que humilhação! Vermes, vermes! Foi que um
dia fiquei dormindo e os moscões me surpreenderam.
Quando o conduzimos à barraca, repetia:
— Bichado, bichado e estando vivo!
124
— Sabia você — disse-lhe naquela tarde — que, por idiossincrasia,
sou amigo dos débeis e dos tristes. Mesmo que soubesse que você ia trair-
nos amanhã" mesmo, sua invalidez de hoje seria respeitada. Não sei se minhas
palavras terão crédito, mas pense que podíamos ultimá-lo pelo fato
de ser cúmplice de um bandido como o Cayeno. Você me roga que lhe
diga aonde queremos conduzi-lo preso e se permito que lave seus trapos
para morrer com roupa limpa; pois bem, nem o mataremos nem o
prenderemos. Ao contrário, peço-lhe que se encarregue de nossa sorte,
porque somos compatriotas e estamos sós.
O ancião se pôs de pé para convencer-se de que não estava sonhando.
Seus olhos incrédulos mediam-nos com insistência e, esticando os
braços em nossa direção, exclamou:
— São colombianos! São colombianos!
— Como você escutou, e seus amigos.
Paternalmente, nos foi apertando contra seu peito, sacudido pela
emoção. Depois quis fazer-nos perguntas promíscuas, sobre a pátria,
a nossa viagem, os nossos nomes. Mas eu lhe interrompi dessa maneira:
— Antes de mais nada, você deve jurar que contaremos com a sua
lealdade.
— Juro, por Deus e pela justiça!
— Muito bem. Mas que está pensando em fazer conosco? Você
acha que o Cayeno nos matará? Será necessário matá-lo?
E acrescentei para ajudá-lo em seu desconcerto:
— Ou melhor: o Cayeno pode voltar aqui?
— Não acredito. Foi embora para Caño Grande, para roubar
borracha e caçar índios. Não tem interesse nenhum em voltar logo para
os seus barracões do Guaracú, onde está a madona que veio para cobrar-
lhe.
— Quem é essa madona de que está falando?
— É a turca Zoraida Ayram, que anda por esses rios negociando
corotos com os seringueiros e tem em Manaus um armazém de secos e
molhados de renome.
— Escute aqui. É indispensável que nos conduza até o Guaracú
para falar com a senhora Zoraida Ayram, antes que o Cayeno volte.
- Conheço-a muito e fui seu servente. Ela me trouxe ao rio Negro
do Putumayo. Tratavam-me ali tão mal que me joguei aos seus pés
implorando para que me comprasse. Minha dívida valia dois mil sóis;
pagou-a com mercadorias, levou-me para Manaus e para Iquitos, sem reconhecer-
me salário nenhum e depois me vendeu por seis contos de réis
125
para seu compatriota Miguel Pezil, para os seringais de Naranjal e Yaguanarí.
— Oi, que é que você está dizendo? Conhece o seringal de Yaguanarí?
Franco, o catire e o mulato prorromperam:
— Yaguanarí!... Yaguanarí! É para lá que nós vamos!
— Sim, senhores! E segundo a madona dizia, vinte colombianos
e várias mulheres chegaram há um mês a dito lugar para picar borracha.
— Vinte! Só vinte! Mas se eram sessenta e dois!
Houve um grave silêncio de indecisão. Olhávamo-nos uns aos outros,
frios e pálidos. E repetíamos inconscientes:
— Yaguanarí! Yaguanarí!
"Como já lhes disse, acrescentou don Clemente Silva, depois que
lhe relatamos nossa odisséia, não posso dar-lhes outros informes.
Conheço Barrera de ouvir falar, mas sei que tem negócios com Pezil e com o
Cayeno e que estão tratando de liquidar o negócio porque a madona
está reclamando o pagamento de um dinheiro e se nega a conceder mais
prorrogação. Sei que Barrera estava obrigado a tirar da Colômbia um pessoal
de duzentos homens; mas apareceu com um número exíguo, pois
veio abonando aos seus credores antigas dívidas que tinha com os
seringueiros que trouxe. Além do que, nós os colombianos não temos
preços nestas comarcas: dizem que somos rebeldes e retornadores.
Compreendo perfeitamente o desejo de pôr-se a falar com a madona,
mas é preciso ter paciência. Meu turno de vigia só vence no próximo
sábado."
— E se a sua rendição nos surpreendesse, que diria?
— Não tem problema. Ele baixará pelo Papunagua e nós regressaremos
pela vereda nova, deixando-lhe uma fogueira acesa para que veja
que estive aqui. Deste desvão aqui se domina o rio e se divisa os navegantes.
Não compreendo como vocês me capturaram.
— Vínhamos perdidos por este ribeiro. E como os cachorros tinham
encontrado rastros humanos... Mas esse detalhe pouco importa. Quer
dizer que teremos de esperar?
-E aparecer nas barracas na hora em que o Váquiro esteja ausente,
inspecionando os seringueiros nas estradas. Este capataz é muito
furioso. Quando eu apontar os caneys, vocês se apresentam sozinhos,
para queixar-se que traziam mañoco fresco para vender e uns gendarmes
arrebataram-no de vocês. (Ali já se sabe que esses gendarmes eram de Funes
126
e que o Cayeno os apunhalou.) Acrescentem que a curiara trambucou
nos caudais e que vocês tiveram de vir pelas margens e montes,
até que eu pus as mãos em vocês. Advirtam que, como vinham para pedir
ajuda, levei-os à vereda do Guacurú e que vocês, acatando as minhas
instruções, estão chegando para implorar garantias. Este discurso lhe
agradará porque aumenta o crédito da empresa e desmente os seus
detratores.
— Você está contando com que a novela tenha mais êxito que a
história.
— Eu chegarei logo para fazer ressaltar a circunstância de que
vocês foram sozinhos e não desconfiaram.
— E se nos botam pra trabalhá? - observou Corrêa.
— Mulato — sentenciei — não tenha medo. Viemos para jogar
nossas vidas!
— Com relação a isso, não saberia o que aconselhar-lhes. O Cayeno
é cauteloso e cruel como um caçador. Certo de que vocês nada lhe devem
e que estão de passagem para o Brasil. Mas se lhe dá na telha de dizer que
vocês picaram a mula de outras barracas...
— Explique, don Clemente. Sabemos muito pouco desses costumes.
"Cada empresário do seringal tem caneys que servem de vivenda e
armazém. Logo conhecerão os do Guacurú. Esses depósitos ou barracas
jamais estão vazios, porque neles se guarda a borracha com as mercadorias
e as provisões e os capatazes moram ali com as suas concubinas.
O pessoal dos trabalhadores está composto, em sua maioria, de
indígenas e recrutados que, segundo as leis da região, não podem mudar
de dono antes de dois anos. Cada indivíduo tem uma conta na qual se
carrega as bugigangas que são empurradas neles, as ferramentas, os alimentos
e a borracha é abonada a um preço irrisório, determinado pelo
amo. Jamais seringueiro algum sabe quanto custa o que recebe, nem por
quanto lhe abonam aquilo que entrega, pois o segredo do empresário está
em guardar o modo de ser sempre credor. Essa nova forma de escravidão
atravessa a vida dos homens e é transmissível aos seus herdeiros.
Por seu lado, os capatazes inventam diversas formas de espoliação:
roubam a borracha dos seringueiros, tiram-lhes filhas e esposas,
mandam-nos para trabalhar em caños paupérrimos, onde não podem
tirar a borracha exigida e isso dá motivos para insultos e chicotadas,
quando não a balas e Winchester. E basta dizer que fulano se picureou
ou que morreu de febres, para que o conto se ajeite.
127
Mas não é justo esquecer a traição e o engano. Nem todos os peões
são pombas brancas: alguns solicitam o recrutamento só para roubar
aquilo que recebem, ou para sair para a selva para matar um inimigo,
ou para surrupiar os companheiros e vendê-los em outras barracas.
Isso deu motivo para um convênio rigoroso, pelo qual os
empresários se comprometem a prender todo indivíduo que não justifique
a sua procedência, ou que mostre o passaporte sem a constância
de que pagou o devido e foi dado livre por seu patrão. Por sua vez, as
guarnições de cada rio cuidam para que tal requisito se cumpra inexoravelmente.
Mas essa medida é fonte inesgotável de abusos e seqüestros.
Se o amo se nega a expedir o salvo-conduto? Se o capturador retira-o daquele
que o está apresentando? Resta-me ainda adverti-los de que o último
caso é freqüentíssimo. O prisioneiro passa ao poder daquele que o
agarrou, e este o enfia em seus seringais para trabalhar como prisioneiro
fugitivo, enquanto se averigua o conveniente. E passam anos e anos e
a escravidão nunca termina. É isso que me aconteceu com o Cayeno!
E trabalhei dezesseis anos! Dezesseis anos de misérias! Mas possuo
um tesouro que vale um mundo, que não me podem roubar, que levarei
para a minha terra se um dia chego a ser livre: um caixãozinho cheio de
ossos!
Para poder contar-lhes minha história — disse-nos nessa tarde —
teria de perder a vergonha das minhas desventuras. No fundo de cada
alma tem algum episódio íntimo, que constitui sua vergonha. O meu é
uma mácula de família: minha filha, Maria Gertrudes, deu o braço a torcer!
Havia tamanha dor nas palavras de don Clemente que nós aparentávamos
não compreender. Franco cortava as unhas com a navalha.
Heli Mesa esgaravatava o chão com um palito, eu fazia bolotas com a
fumaça do cigarro. Somente o mulato parecia enlevado com a pungente
narração.
"Sim, meus amigos — continuou o ancião — o miserável que a enganava
com promessas de matrimônio seduziu-a em minha ausência.
Meu pequeno Luciano abandonou a escola e foi buscar-me no povoado
vizinho, onde eu exercia um emprego modesto, para contar-me que os
noivos falavam de noite através do pátio interno e que sua mãe ralhara
com ele, quando deu a notícia do ocorrido. Quando ouvi seu relato,
perdi o aprumo, repreendi-o por caluniador que era, exaltei a virtude
de Maria Gertrudes e o proibi que continuasse opondo-se com ciúmes e
128
malevolência ao casamento dos jovens, que já haviam trocado alianças.
Desesperado, o pequenino começou a chorar e me declarou que estava
disposto a perder a vida antes que a desonra da família fizesse com que
ele se envergonhasse diante de seus companheiros da escola primária.
Montado em um burrico, enviei-o para a minha esposa com um
peão que levava cartas para esta e Maria Gertrudes, cheias de admoestações
e conselhos. Maria Gertrudes já não era mais minha filha!
Calculem vocês qual não seria o meu tormento em presença da
minha desonra. Meio louco, esqueci-me do lar para perseguir a fugitiva.
Fui às autoridades, implorei o apoio dos meus amigos, a proteção dos
influentes; todos me faziam engolir as lágrimas obrigando-me a contar
detalhes pérfidos e, no final, com gestos de compaixão, recriminavam-me
dessa maneira: A responsabilidade é dos pais, há que se saber como educar
os filhos.
Quando voltei para casa, humilhado pela tortura, uma nova dor me
estava esperando: o quadro-negro de Lucianito pendia no muro, perto da
carteira onde a brisa agitava as páginas de um livro desencadernado;
vi os prêmios e brinquedos na gaveta: o gorro que a irmã bordou para
ele, o relógio que lhe presenteei, a medalhinha da mamãe. Impressas no
quadro-negro, sob uma cruz, li estas palavras: Adeus, adeus!
Mais que a paralisia, a pena matou minha pobre mulher. Sentado
na borda da cama, vi-a empapando o travesseiro com o pranto, tentando
infundir-lhe o consolo que nunca conheci. Às vezes, agarrava-me pelo
braço e lançava um grito demente: Dê-me meus filhos! Dê-me meus filhos!
Para aliviá-la, recorri ao engano: inventei que tinha conseguido
fazer com que Maria Gertrudes se casasse e que Lucianito estava internado
no Instituto. A morte encontrou-a saboreando o seu pesar.
Um dia, vendo que ninguém, nem parentes nem amigos, me acompanhava,
chamei pela cerca a vizinha para que fosse cuidar da enferma,
enquanto eu me ausentava para ir em busca do médico. Quando regressei,
vi que minha esposa tinha o quadro-negro de Lucianito nas mãos
e que o mirava fixamente, convencida de que era o retrato do pequenino.
Assim acabou! Ao colocá-la no caixão, solucei esta frase: Juro por Deus
e pela justiça que trarei Lucianito, vivo ou morto, para que acompanhe à
sua sepultura! Beijei-a na testa e coloquei o rígido quadro-negro sobre
o peito da infeliz, para que levasse para a eternidade a cruz que o seu
próprio filho estampara."
— Don Clemente, não ressuscite essas lembranças que lhe fazem mal.
129
Procure omitir em sua narração todo o segredo e o sentimental.
Falemos de seus êxodos na selva.
Por um momento, apertou minhas mãos murmurando:
— Está certo. Temos de ser avaros com a dor.
"Pois bem: segui as pistas de Lucianito até o Putumayo. Foi em
Sibundoy que me disseram que tinha descido com uns homens um rapazinho
pálido, de calção de banho, que não aparentava mais que doze
anos, sem outra bagagem que um lenço com roupas. Recusou-se a dizer
quem era, e de onde vinha, mas seus companheiros pregavam com regozijo
que iam em busca dos seringais de Larranaga, esse pastense sem coração,
sócio de Arana e de outros peruanos que escravizaram mais de
trinta mil índios na bacia amazônica.
Em Mocoa sentia primeira hesitação: os viajantes haviam passado,
mas ninguém pôde dizer qual atalho da encruzilhada haviam tomado.
Era possível que tivessem ido por terra ao Caño Guineo, para sair ao
Putumayo, um pouco acima do porto de San José, e baixar o rio até
encontrar o Igaraparaná; também não era improvável que tivessem tomado
o atalho de Mocoa para Puerto Limón, sobre o Caquetá, para descer
por esta artéria para o Amazonas e subir este e o Putumayo em busca
dos seringais de La Chorrera. Eu me decidi pela última via.
Por sorte, em Mocoa um colombiano de prendas amáveis me ofereceu
curiara e proteção, o senhor Custódio Morales, que era colono
do rio Guimani. Indicou-me os perigos de investir pelos rápidos de Araracuara
e me deixou em Puerto Bizarro, para que seguisse através dos
grandes bosques, pelo rumo que vai para o porto da Florida, no Caraparaná,
onde os peruanos tinham as barracas.
Só e doente, empreendi essa viagem. Ao chegar, pedi recrutamento
e abri uma conta. Já me haviam dito que não conheciam o meu pequeno
pela região; mas quis convencer-me e saí para trabalhar a borracha.
Era verdade, o menino não estava no meu grupo, mas podia achar-
se em outros. Nenhum seringueiro jamais ouviu o seu nome. Às vezes,
o meu espírito se alegrava ao considerar que Lucianito não havia apalpado
a bruta imoralidade desses costumes; mas, quão pouco me durava o
consolo! Era certo que se encontrava em seringais remotos, sob outros
amos, educando-se na crueldade e na vilania, enlouquecido pela humilhação
e pela miséria. Meu capataz começou a queixar-se do meu trabalho.
Um dia, cruzou minha cara com uma chicotada e me mandou preso
para o barracão. Estive no cepo a noite inteira e, na seguinte,
130
me mandaram para El Encanto. Tinha conseguido o que queria: ir procurar
Lucianito em outros seringais."
Don Clemente Silva emudeceu. Tocava a testa com as mãos estremecidas,
como se ainda estivesse sentindo em seu rosto o serpenteio
da chicotada infame. E depois agregou:
— Amigos, esta pausa abarca dois anos. Dali, me picuriei para La
Chorrera.
"Lembro-me que na noite da minha chegada, festejavam o carnaval.
Na frente dos avarandados do corredor, uma multidão clamorosa
andava bêbada, índios de várias tribos, brancos da Colômbia, Venezuela,
Peru e do Brasil, negros das Antilhas, vociferavam pedindo álcool,
pedindo mulheres e chucherias. Então, de um quarto situado na parte detrás,
arremessavam triquetraques, botões, potes de atum, caixas de biscoitos,
tabaco de mascar, alpargatas, flanelas, cigarros. Os que não podiam
recolher nada, empurravam, só para se divertir, os seus companheiros
sobre os objetos que caíam e, por cima deles, engrossava-se o tumulto,
entre risadas e pontapés. Do outro lado, junto às lâmpadas fumegantes,
havia grupos nostálgicos, escutando os cantadores que entoavam canções
de suas terras: o bambuco*, ojoropo, a cumbia-cumbia**. De repente,
um capataz cabeludo e bilioso encarapitou-se sobre uma tarimba e
disparou ao vento a sua Winchester. Silêncio expectante. Todas as caras
viraram-se para o orador. Seringueiros, exclamou ele, vocês já conhecem
a liberalidade do novo proprietário. O senhor Arana formou uma companhia
que é dona dos seringais do La Chorrera e os do El Encanto. Há
que se trabalhar, há que se ser submisso, há que obedecer. Já não
resta mais nada no armazém para oferecer-lhes. Os que não puderam recolher
roupa, tenham paciência. Os que estão pedindo mulheres, saibam
que nas próximas lanchas virão quarenta, ouçam-no bem, quarenta,
para de tempo em tempo serem repartidas entre os trabalhadores que se
distingam. Além disso, logo sairá uma expedição para submeter as tribos
andoques e vai com a incumbência de recolher guarichas, onde estiverem.
Agora, prestem todos atenção: qualquer índio que tenha mulher
ou filha deve apresentá-la neste estabelecimento para se saber que se faz
dela.
* Bambuco: baile e música popular na Colômbia.
* * Cumbia-cumbia: música da América Central.
131
Imediatamente outros capatazes traduziram o discurso para a língua
de cada tribo e a festa seguiu como antes, com coros de exclamações
e aplausos.
Eu me metia no meio das pessoas, temeroso de encontrar o meu
filho. Foi a primeira vez que não quis vê-lo. No entanto, olhava para
todos os lados e resolvi perguntar por ele: senhor, conhece Luciano Silva?
Diga-me, no meio dessa gente não há nenhum pastense? O senhor sabe
por acaso se Larranaga ou Juanchito Vega vivem por aqui?
Como as minhas perguntas produzissem hilaridade, me atrevi a
penetrar no corredor. Os sentinelas me rechaçaram. Um homem veio
advertir-me que a aguardente estava sendo distribuída nas barracas. E
era verdade: por ali desfilava a multidão apresentando jarros e potes para
o vigilante que fazia a distribuição. Um quadrilheiro lunático quis gozar:
verteu petróleo em uma poncheira e ofereceu-o aos índios. Como ninguém
aceitou o engano, atirou em cima deles a vasilha cheia. Não sei
quem acendeu os fósforos, mas no mesmo instante uma labareda crepitante
torrou os indígenas que se lançaram sobre o tumulto, com um
alarido louco, abrindo caminho em direção às correntes, onde submergiram
agonizando.
Os empresários de La Chorrera assomaram na varanda com as cartas
de pôquer na mão. Que é isso?, repetiam. O judeu Barchillón tomou
a palavra: Oi, rapazes, não sejam grosseiros! Desse jeito vocês vão queimar
o ensoropado dos caneys. Larragana calcou a ordem de Juancho
Vega: Chega de diversão! Chega de diversão!
E quando sentiram o fedor de gordura humana, cuspiram em cima
das pessoas e se trancaram impassíveis.
Assim como o cavalo entra no curral e com coices e mordidas afasta
as fêmeas de sua volta, os capatazes formaram suas quadrilhas a
coronhadas e as empurraram para cada barraca, em meio a um bulício
atormentador.
Eu consegui gritar com toda a força dos meus pulmões: Luciano!
Lucianito! Teu pai está aqui!"
"No dia seguinte, minha paciência foi posta a prova. Eram quase
duas horas e os empresários continuavam dormindo. Pela manhã, quando
os grupos saíram para os trabalhos, um negrinho da Martinica se chegou
até mim, afiando na bainha de seu manchete a folha terrível. Oi!, me disse,
por que você fica aqui?
— Porque sou rumbero e vou sair para explorar.
132
— Você tem cara de picure. Você estava no El Encanto.
— E mesmo que assim fosse, ambas as regiões não são de um dono
só?
— Você era o sem-vergonha que escrevia letreiros nas árvores.
Deve agradecer que tenham perdoado.
Pus fim ao perigoso diálogo porque vi o guarda-livros abrindo a
porta do escritório. Nem ao menos virou-se para olhar-me quando o cumprimentei,
mas avancei até o balcão.
— Senhor Loaiza — disse-lhe com língua de medo — quero saber, se
for possível, quanto vale a conta de um filho meu.
— Um filho seu? Quer comprá-lo? Já lhe disseram que o vendiam?
— Só para fazer os meus cálculos... Chama-se Luciano Silva.
O homem abriu um livro grande e, agarrando o lápis, fez uns cálculos.
Meus joelhos tremeram de emoção: finalmente encontrava o paradeiro
de Lucianito!
— Dois mil e duzentos sóis — afirmou Loaiza. — Que encomenda
estão lhe pedindo por esta soma?
— Encomenda?... Encomenda?
- Naturalmente. Não estamos vendendo pessoal. Pelo contrário:
a empresa está procurando gente.
— O senhor poderia dizer-me onde está agora?
— Seu garoto? Olha com quem está falando. Essa pergunta se deve
fazer aos quadrilheiros.
Para o meu azar, o negrinho entrou nesse momento.
— Senhor Loaiza - exclamou — não perca palavras com este velho.
É um picura de El Encanto e de Ia Florida, preguiçoso e estouvado,
que em vez de picar as árvores fica gravando letreiros no córtex com a
ponta do facão. O senhor deve ir ao seringais para se convencer. Em todas
as entradas, a mesma coisa: Clemente Silva esteve aqui procurando o seu
querido filho Luciano. O senhor já viu vagabundagem como essa?
Eu como acusado, baixei os olhos.
— Senhores - prorrompi — bem se vê que os senhores nunca foram
pais!
— Que acham desse velho atrevido? Como deve ser mulherengo
quando está na época de reprodução!
Foi assim que eles me responderam, caindo na gargalhada; mas eu
me levantei como um mastro e a minha mão debilitada esbofeteou o contador.
O negro, com um só pontapé, atirou-me de boca para baixo contra
a porta. Quando me levantei, chorei de orgulho e satisfação."
133
"No quarto vizinho, alçou-se uma voz tresnoitada e ameaçante.
Não demorou em assomar-se, abotoando o pijama, um homem gorducho
e inchado, peitudo como uma fêmea, amarelado como a inveja. Antes
que falasse, o contador apressou-se em informar-lhe o acontecido:
— Senhor Arana, vou morrer de desgosto! Perdoe-me! Este homem
que está presente veio pedir-me um extrato do que está devendo à companhia;
mas assim que lhe anunciei o saldo, jogou-se para rasgar o livro,
chamou o senhor de ladrão e ameaçou apunhalar-nos.
O negro fez sinais de assentimento; fiquei aturdido de indignação;
Arana emudecia mais. Mas com um olhar desmentidor, consternou os
infames e perguntou-me colocando as mãos nos meus ombros:
— Quantos anos tem Luciano Silva, o filho do senhor?
— Ainda não fez quinze.
— O senhor está disposto a comprar de mim a sua conta e a do seu
filho? Quanto deve o senhor? Que abonos lhe fizeram pelo seu trabalho?
— Ignoro-o, senhor.
— Quer dar-me cinco mil soles pelas duas contas?
— Sim, sim, mas não tenho dinheiro aqui. Se o senhor quisesse
a casinha que possuo em Pasto... Larragana e Vega são patriotas meus.
Eles poderiam dar-lhe informações, eles foram meus condiscípulos.
— Não lhe aconselho nem que os cumprimente. Agora não
querem saber de amigos pobres. Diga-me — acrescentou levando-me para
o pátio —o senhor não tem borracha com que pagar?
- Não, senhor.
— Nem sabe quem são os seringueiros que me roubam? Se me
denunciar algum esconderijo, dividiremos a borracha que esteja ali.
— Não, senhor.
— O senhor não poderia consegui-la no Caquetá? Eu lhe apresentaria
uns companheiros para que assaltasse os barracões.
Disfarçando a repulsão que aquelas maquinações rapaces me produziam,
passei da astúcia à dubiedade. Fingi ficar pensativo. Meu subornador
apertou o assédio:
- Valho-me do senhor porque compreendo que é um homem honrado
e que saberá guardar segredo. Sua cara mesma o atesta. Se não fosse
assim, trataria-o como um picure e me recusaria a vender-lhe seu filho e
tanto um como o outro seriam enterrados nos seringais. Lembre-se de
que não tem com que pagar-me e que eu mesmo lhe dou os meios para
que fiquem livres.
134
-É verdade, senhor. Mas isso mesmo obriga a minha fé de homem
reconhecido. Não gostaria de comprometer-me sem ter a certeza de que
poderia cumprir. Gostaria de ir ao Caquetá, no momento, como rumbero,
enquanto estudo a região e abro uma vereda estratégica.
— Muito bem pensado e assim será. Isso fica ao seu cuidado e o
seu filho ao meu cuidado. Peça uma Winchester, víveres, uma bússola e
leve um índio como carregador.
— Obrigado, senhor, mas a minha conta seria aumentada.
— Sou eu quem pago isso, esse é o meu presente de carnaval."
"O passaporte que o amo me deu fazia com que os capatazes se
enfurecessem de inveja. Eu podia transitar por onde quisesse e eles deviam
facilitar-me o que fosse necessário. Minhas faculdades autorizavam-
me a escolher até trinta homens e tomá-los dos grupos que me agradasse,
no momento que fosse. Em vez de dirigir-me ao Caquetá, resolvi
desviar-me pela bacia do Putumayo. Um vigilante das estradas do caño
Eré, que chamavam com o apelido de El Pantero', prendeu-me e mandou
o salvo-conduto para consultas. A resposta foi favorável, mas reformaram
a atribuição: em nenhum caso poderia escolher Luciano Silva.
A citada ordem jogou meus planos por terra, porque eu estava
procurando meu filho para levá-lo comigo. Muitas vezes, ao ouvir o estrondo
das seringueiras derrubadas pela peãozada, pensava que meu filho
estaria com ela e que algum galho poderia esmagá-lo. Nessa época,
tanto se trabalhava a borracha negra como a siringa, chamada de goma
borracha pelos brasileiros; para tirar esta, faz-se incisões no córtex,
recolhe-se o leite em canequinhas e se coalha na fumaça;a extração daquela
borracha exigia que se derrubasse a árvore, abrir-lhe feridas de palmo em
palmo, recolher o suco e depositá-lo em buracos ventilados, onde se coagulava
lentamente. Por isso era tão fácil que os ladrões se transpussessem.
Um dia, surpreendi um peão tapando seu depósito com terra e folhas.
Já circulava o falso boato de que eu exercia a fiscalização por conta
do amo, lenda que me pôs em grandes perigos, porque me granjeou
muitos ódios. O surpreendido agarrou o machete para decapitar-me, mas
eu apontei-lhe a Winchester, advertindo-o: Vou provar que não sou espião.
Não contarei nada. Mas se o meu silêncio lhe faz algum bem, diga-
me onde está Luciano Silva.
- Ah!... Silvita? ... Silvita?... Trabalha em Capalurco, pelos lados
do rio Napo, com a peãozada de Juan Muñeiro.
Nessa mesma tarde, comecei a abrir a vereda que vai do caño Eré
135
até o Tamboriaco. Nessa travessia, gastei seis meses: tive que comer
mandioca silvestre na falta de mañoco. Que enorme devia ser a minha
extenuação, quando resolvi descansar um tempo, no abandono e na solidão!
No tamboriaco encontrei peões do grupo que residia num lugar
chamado 'El Pensamiento'. O capataz convidou-me a atravessar o cario
com o pretexto de ir visitar o barracão onde me daria víveres e curiara.
Nessa noite, assim que ficamos a sós, perguntou-me:
- E o que é que os empresários estão dizendo contra o Muneiro?
Vão persegui-lo?
— Por acaso o Muneiro...
— Fugiu com peões e borracha, faz cinco meses. Noventa quintais
e treze homens!
— Como! Como! Mas é possível?
— Trabalharam ultimamente perto da lagoa de Cuyabeno, voltaram
para Capalurco, escafederam-se pelo Napo, devem ter chegado ao Amazonas
e estarão no estrangeiro. Muneiro tinha-me proposto que topasse essa
parada, mas eu tive meu medinho, porque está na moda entre os precavidos
picurear-se com os seringueiros, prometendo-lhes vender a borracha
que levam, ratear o valor obtido e deixá-los livres. Com essa ilusão, carregam-
nos para outros rios e os vendem para novos patrões. E esse
Mufieiro é tão charlatão! E como há uma guarita de vigia na boca do rio
Mazán...
Ao ouvir essa declaração, me desconjuntei. O resto de minha vida
estava sobrando. Um consolo triste me reconfortou: bastava que o meu
filho residisse em um país estrangeiro, eu, para o resto dos dias que me
restavam, arrastaria satisfeito a escravidão em minha própria pátria.
— Mas — prosseguiu meu interlocutor — também existe o boato de
que esse pessoal não se picureou. Pensam que você levou-o consigo para
não sei que lugar.
— Mas nem ao menos eu vi o rio Napo!
— Isso é o curioso. Você sabe muito bem que um grupo zela pelo
outro e que existe uma obrigação de contar para o dono comum o que
aconteceu de bom e de mau. Mandei uma carta para El Encanto com este
aviso: 'Muneiro não aparece'. Responderam-me, mandando que averiguasse
se você o tinha levado com o seu pessoal para o Caquetá e que, em todo
caso, por precaução, mandasse Luciano Silva preso. Esperam você faz
tempo e várias comissões estão à sua procura. Eu lhe aconselharia que
voltasse para esclarecer essas coisas. Diga-lhes que eu não tenho víveres e
que o meu pessoal está morrendo de febres.
136
Quinze dias depois, regressei a El Encanto para entregar-me como
preso. Tinha saído para a exploração oito meses antes. Mesmo asseverando
que tinha descoberto caños com muita borracha e que era inocente
da fuga de Juan Muneiro e do seu grupo, decretaram-me uma novena
de vinte açoites por dia e por cima das feridas e rasgões borrifavam sal.
Na quinta flagelação já não podia levantar-me, mas arrastavam-me em
uma esteira por cima de um formigueiro de cangas e eu tinha de sair correndo.
Isso divertia às pamparras os meus vitimários.
De novo voltei a ser o seringueiro Clemente Silva, decrépito e lamentável.
Os tempos passaram por cima das minhas esperanças.
Lucianito devia ter dezenove anos."
"Nessa época houve um acontecimento transcendental na minha
vida: um senhor francês que chamávamos de 'mosiú' chegou aos seringais
como explorador e naturalista. No início, sussurou-se nos barracões que
estava vindo por conta de um grande museu e de não sei qual sociedade
geográfica; depois se disse que os donos dos seringais custeavam-lhe a
expedição.
E devia ser assim, porque Larragana entregou-lhe víveres e peões.
Como eu era o rumbero de maior perícia, retiraram-me da tropa trabalhadora
no rio Cahuinarí para que o guiasse por onde ele quisesse.
Meu machete ia abrindo a vereda através das matas e atrás de mim
desfilava o sábio com os carregadores, observando plantas, insetos, resinas.
De noite, em praias solenes, apontava seu teodolito para os céus e
se punha a colher estrelas, enquanto que eu, junto ao aparelho, iluminava-
lhe a lente com uma lanterna elétrica. Costumava dizer-me em língua
enrevesada:
— Amanhã você se orientará na direção daqueles astros. Olha bem
de que lado estão brilhando e lembra que o sol sai por aqui.
E eu lhe respondia com regozijo:
— Desde ontem fiz o cálculo desse rumo, só pelo instinto.
O francês, mesmo sendo reservado, era bondoso. É verdade que o
idioma interpunha-lhe complicações, mas comigo sempre se mostrou afável
e cordial. Admirava-se de me ver pisar os montes com os pés descalços
e me deu umas botas;sentia pelo fato de que as pragas me perseguissem,
de que as febres me domassem e me deu injeções de vários tipos,
sem esquecer-se nunca de deixar em seu copo um gole de vinho e consolar
as minhas noites com algum cigarro.
137
Até então parecia não ter-se inteirado da condição escrava dos seringueiros.
Como pensar que nos espancassem, nos perseguissem e nos
mutilassem aqueles senhores de aspecto servil e conversa melosa, que
saíram para recebê-lo em La Chorrera e no El Encanto? Mas um dia em
que vagávamos numa veiga do Yucuruma, por onde passa um velho
caminho que une barracões abandonados na solidão dessas montanhas,
o francês deteve-se para admirar uma árvore. Aproximei-me para, segundo
o costume, preparar-lhe a câmara fotográfica. A árvore castrada
antigamente pelos seringueiros era uma imensa siringa, cujo córtex ficou
cheio de cicatrizes, grossas, protuberantes, intumescidas, como quistos
apertados.
— O senhor deseja fazer alguma fotografia? — perguntei-lhe.
— Sim. Estou observando uns hieróglifos.
— Serão ameaças colocadas pelos seringueiros?
- Evidentemente. Aqui há algo como uma cruz.
Aproximei-me angustiado, reconhecendo minha obra de antanho,
desfigurada pelas pregas do córtex: Clemente Silva esteve aqui. Do outro
lado, as palavras de Lucianito: Adeus, adeus...
— Ai, mosiú —, quem fez isso fui eu!
E, apoiado no tronco, me pus a chorar.
Desde aquele momento, pela primeira vez tive um amigo e protetor.
O sábio compadeceu-se de minha desgraça e ofereceu-se para libertar-
me de meus patrões, comprando a minha conta e a do meu filho,
se ainda fosse escravo. Contei-lhe sobre a vida horrível dos seringueiros,
enumerei para ele os tormentos que suportávamos e, para que não duvidasse,
convenci-o objetivamente:
— Senhor, diga-me se as minhas costas sofreram menos que essa
árvore.
E levantando minha camisa, mostrei-lhe as carnes dilaceradas.
Momentos depois, eu e a árvore perpetuamos na Kodak nossas
feridas que, para o mesmo amo, verteram sucos diferentes: borracha e
sangue.
Dali em diante, a objetiva da máquina deu para funcionar entre a
peãozada, reproduzindo fases da tortura, sem trégua nem disfarce, fazendo
com que os capatazes corassem de vergonha, ainda que as minhas
advertências não cessassem de pregar para o naturalista o grave perigo
de que os meus amos soubessem. O sábio continuava impávido, fotografando
mutilações e cicatrizes. 'Esses crimes, que envergonham a espécie
humana — costumava dizer-me — devem ser conhecidos em todo
138
o mundo para que os governos se apressem em remediá-los.' Mandou
anotações para Londres, Paris e Lima, acompanhando retratos de suas
denúncias e os tempos passaram sem que se notasse nenhum remédio.
Então decidiu ir queixar-se com os empresários, juntou documentos
e me enviou com cartas para La Chorrera.
Só Barchillón se encontrava ali. Assim que leu o avultado ofício,
mandou que me levassem ao seu escritório.
— Onde foi que você conseguiu essas botas de soche? — grunhiu
ao olhar para mim.
— mosiú me deu com essa roupa.
— E onde foi que esse vagabundo ficou?
— Entre o caño Campuya e o Lagarto-cocha — afirmei mentindo
— um pouco mais ou menos a uns trinta dias.
— Por que é que esse aventureiro está querendo ditar regras no
nosso negócio? Quem foi que lhe deu permissão para que desse uma de
retratista? Por que diabos vive incitando os meus peões?
— Ignoro-o, senhor. Quase não fala com ninguém, e quando o faz,
é pouco entendido...
— E por que nos está propondo que o vendamos?
— Coisas dele...
O judeu saiu furioso pela porta e examinou algumas fotografias da
Kodak contra a luz.
— Miserável! Essa espinha não é a sua?
— Não, senhor, não senhor!
— Dispa-se da cintura para cima imediatamente!
E aos trancos, arrancou-me a blusa e a camiseta. Havia um tal
tremor me agitando que, por sorte, foi impossível fazer a confrontação.
O homem requisitou a caneta do seu escritório e, atirando-a em
mim de longe, cravou-a em meu homoplata. Todo meu quadril ficou tingido
de vermelho.
- Porco, saia daqui, porque você está ensangüentando o tablado.
Precipitou-me contra a varanda e tocou um apito. Um capataz que
chamávamos de El Culebrón acudiu solícito. Perguntaram-me sobre mil
coisas e eu as respondi equivocadamente. O amo ordenou ao entrar:
- Ajustem-lhe as botas com alguns grilhões, porque tenho certeza
que estão grandes para ele.
Assim se fez.
El Culebrón pôs-se em marcha com quatro homens, para levar a resposta,
segundo se dizia.
139
O infeliz francês nunca mais apareceu!"
"O ano seguinte foi um ano muito fecundo para os seringueiros em
expectativas. Não sei como, começou a circular sub-repticiamente nos
seringais e barracões um exemplar do jornal La Felpa, que era dirigido em
Iquito pelo jornalista Saldaria Roca. Suas colunas clamavam contra os
crimes que eram cometidos no Putumayo e pediam justiça para nós.
Lembro-me que a folha estava maltratada de tanto ser lida e que no seringal
do cario Algodón, remendamo-la com borracha morna para que
pudesse viajar de estrada em estrada, escondida dentro de um cilindro de
bambu que mais parecia o cabo de uma machadinha.
Apesar do nosso recato, um seringueiro do Equador que chamávamos
de "El Presbítero' soprou o que estava acontecendo para o vigilante
e, certa manhã, surpreenderam no meio de um palmeiral de chiquichiqui
um leitor descuidado e seus ouvintes, tão distraídos na leitura, que não
se deram conta do novo público que tinham. Costuraram as pálpebras do
leitor com fibras de cumare e nos outros jogaram cera quente nos ouvidos.
O capataz decidiu regressar para El Encanto para mostrar a folha
e, como não tinha cariara, ordenou-me que o conduzisse pelos montes.
Uma nova surpresa me esperava: um Visita dor tinha chegado e estava
recebendo declarações na própria casa.
Ao dizer-lhe meu nome, anotou a minha filiação e na presença de
todos perguntou-me: Você quer continuar trabalhando aqui?
Ainda que eu tenha tido a desgraça de ser tímido, alarmei as
pessoas com a minha resposta:
— Não senhor, não senhor!
O letrado acentuou com voz enérgica:
— Pode ir embora quando lhe aprouver, por minha ordem. Quais
são os seus sinais particulares?
— Estes — afirmei despindo minhas costas.
O público estava pálido. O Visitador aproximou seus óculos de mim.
Sem perguntar-me nada, repetiu:
— Pode ir embora amanhã mesmo!
E os meus amos disseram submissamente:
— Senhor Visitador, Sua Senhoria manda!
Um deles, com o desembaraço de quem recita um discurso decorado,
agregou diante do funcionário:
— Cicatrizes curiosas a deste homem, não é mesmo? A botânica
140
tem tantos segredos, principalmente nessas regiões aqui. Não sei se Sua
Senhoria terá ouvido falar de uma árvore maligna, chamada 'mariquita'
pelos seringueiros. O sábio francês, a pedido nosso, interessou-se em estudá-
la. Essa árvore, assim como as mulheres de vida fácil, oferece uma
sombra perfumada, mas ai daquele que não resiste à tentação, seu corpo
sai dali listrado de vermelho, com um comichão desesperador e vão aparecendo
manchas que supuram e depois cicatrizam enrugando a pele.
Assim como esse pobre velho aqui presente, muitos seringueiros sucumbiram
à inexperiência.
— Senhor... — quis insinuar-me, mas o homem continuou cinicamente:
— E quem acreditará que esse pequeno detalhe causa complicações
à empresa? Este negócio tem tantas ramificações, exige tanto patriotismo
e perseverança que se o governo nos desatende estes grandes bosques
ficarão sem soberania, dentro dos próprios limites da pátria. Pois;
bem: Sua Senhoria já nos deu a honra de averiguar em cada grupo quais,
são as violências, os açoites, os suplícios a que submetemos os peões,
segundo o dizer de nossos vizinhos, invejosos e despeitados, que procuram
mil maneiras de impedir que a nossa nação recupere seus territórios
e que haja peruanos nestes confins, para cujos propósitos não faltam
nunca certos escritorezinhos assalariados.
Agora retrocedo ao tema inicial: a empresa abre os seus braços
para quem necessite de recursos e queira enaltecer-se mediante o esforço.
Há aqui trabalhadores de muitos lugares, bons, maus, desordeiros,
preguiçosos. Disparidade de caráteres e de costumes, indisciplina, amoralidade,
tudo isso encontrou em La Maporita um cúmplice cômodo;
porque alguns — principalmente os colombianos — quando brigam e
se batem ou padecem o mal da árvore', vingam-se da empresa que os
corrige, desacreditando os vigilantes, a quem imputam toda e qualquer
lesão, toda cicatriz, desde as picaduras de mosquito até o menor arranhão.
Assim disse e, virando-se para as pessoas do grupo, perguntoulhes:
— Não é verdade que a mariquita abunda nestas regiões? Não é
verdade que provoca pústulas e tumores?
E todos responderam com um grito unânime:
— Sim, senhor, sim senhor!
— Por sorte — acrescentou o velhaco — o Peru atenderá à nossa
iniciativa patriótica: pedimos às autoridades que militarizem nossos
grupos,
141
mediante a direção de oficiais e sargentos, a quem pagaremos
com mão pródiga a permanência nestes confins, com a condição de que
sirvam ao mesmo tempo de fiscais para a empresa e de vigilantes nas
estradas. Dessa maneira, o governo terá soldados, os trabalhadores garantias inegáveis e os empresários estímulos, proteção e paz.
O Visitador fez um sinal de complacência."
"Um velhinho, Balbino Jácome, natural de Garzón, cuja perna direita
se secou como conseqüência da mordida de uma tarântula, foi visitar-me ao anoitecer e, recostando sua muleta debaixo da marquise da
barraca onde o meu chinchorro estava pendurado, disse parado:
— Paisano, quando pisar terra cristã, pague uma missa em minha
intenção.
- Como prêmio pela confirmação das sem-vergonhices dos empresários?
— Não. Em memória da esperança que perdemos.
— Saiba e entenda — repliquei — que você não deve valer-se de
minha pessoa. Você foi o mais abjeto dos lambones, o favorito de Juancho
Vega, a quem você superou em renegar o nosso país e em desacreditar
os colombianos.
— No entanto — contestou - meus compatriotas me devem algo.
Pois já que você se vai, posso falar-lhe claro: tive a diplomacia de namorar
os inimigos, fingindo que esgrimia o rebenque para que houvesse um
verdugo a menos. Desempenhei a função de espião para que não pusessem
outros, de capacidades verdadeiras. Nada mais fiz que amoldar-me
ao meio e jogar o tute* escolhendo as cartas. Era necessário relatar
uma fofoca? Eu a sabia e tergiversava. Haviam maltratado um sujeito
qualquer no grupo? Aplaudia o maltrato, já inevitável, e depois me
vingava do esbirro. Por que os vigilantes me mimam tanto? Porque sou
o homem das influências e da confiança. Olhe, digo a um sujeito: os
patrões souberam certa coisinha... E esse cai prostrado na minha frente,
prorrompendo explicações. Então consigo o que ninguém obteria: Não
batas nos meus paisanos; se apertas por lá, te arrebito aqui!
Dessa maneira, pratico o bem, sem escrúpulos, sem glória e com
sacrifícios que ninguém agradece. Sendo uma escória andante, faço o que
posso como bom patriota, disfarçado de mercenário. Você mesmo irá
* Tute: jogo de cartas em que ganha aquele que reunir todos os reis e coringas.
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embora logo, odiando-me, amaldiçoando-me e, ao pisar seu vale, fértil
como o meu, sentirá alegria pelo fato de que eu sofra em terra de selvagens
a expiação de pecados que são virtudes.
Confesse, paisano: na sua viagem ao Caquetá, não lhe implorei
que se picureasse? Não lhe dei a dica, só para dar um exemplo, do caso
de Júlio Sánchez, que fugiu numa canoa com a esposa grávida, por toda a
veia do Putumayo, sem sal nem fogo, perseguido por lanchas e por guarnições,
amparando-se nos lugares de água estagnada, só remontando nas
noites escuras e num tempo tão longo que quando chegou a Mocoa a
mulher penetrou na igreja levando seu menininho pela mão, nascido na
curiam?
Mas você desprezou muitas facilidades. Se eu as tivesse, se esta
invalidez não me entrevasse! Quantos fogem, por conselhos meus, prometeram-
me vir por minha causa e levar-me nos ombros; mas se mandam
sem avisar-me e se são presos sou eu quem leva a culpa e vêm dizer que
fui seu cúmplice, pelo que tenho de exigir que lhes baixem o pau, para
recuperar desse jeito a minha influência minguada. Quem foi que implorou
ao francês que pedisse Clemente Silva como rumbero? Que conjuntura
melhor para um picure? E você, longe de agradecer as minhas
sugestões, me tratou mal! E em vez de impedir que o sábio se metesse
em tantos perigos, o deixou só e teve a ocorrência de vir até o patrão com
estas cartas, para que acontecesse o que aconteceu. E agora quer que eu
me ponha a contradizer o que os patrões dizem, quando o Visitador
nos perdeu!
— Oi, paisano, explique-me isso!
- Não, porque nos ouvem na cozinha. Se quer, nos vemos mais
tardinha na curiam, com o pretexto de pescar.
Assim o fizemos."
"No porto havia diversas embarcações. Meu companheiro parou
para conversar com um remador que dormia a bordo de uma grande
lancha. Já me impacientava a demora quando ouvi que se despediam.
O marinheiro ligou o motor e a luz elétrica acendeu-se. O ventilador a
zumbir por cima da lâmpada de maior volume.
Então, por uma prancha que servia de ponte, várias pessoas de roupas
engomadas passaram para a barca, entre elas uma dama cheia de
jóias e arandelas, que ria com riso de rico. Meu companheiro se aproximou
de mim. Olhe — disse em voz baixa, os senhores amos estão tomando o chá.
143
Esta formosura a quem Sua Senhoria dá a mão, é a madona
Zoraida Ayram.'
Metemo-nos na curiara e, depois de remar um pouco, amarramo-la
em um remanso, de onde víamos luzes refletidas na corrente. Balbino
Jácome deu início à sua exposição:
Segundo Juanchito Vega me contava, as cartas que o sábio mandou
para o exterior produziram alarmes muito graves. A isto acrescente-se
que o francês desapareceu, como desaparecem aqui os homens. Mas
Arana vive em Inquito e o seu dinheiro está em todas as partes. Faz
mais ou menos seis meses, começou a mandar os jornais inimigos para
que a empresa os conhecesse e tomasse precauções a tempo.
No início, nem ao menos me mostravam; depois me perguntaram
se podiam contar comigo e me gratificaram com a administração do
armarinho.
Certa vez, quando os empresários se transladaram para La Chorrera,
uns quadrilheiros pediram quinino e pólvora. Como sei muito bem quais
os capatazes que não soletram, fiz embrulhos nesses jornais e os despachei
para os barracões e seringais, para ver se algum dia, ao ficar dando voltas
por aí, topassem com um leitor que os aproveitasse.
- Paisano - exclamei - agora sim que acredito em você. Entre nós
circulou um desses. Por causa dele vim parar aqui, para encontrar salvação!
Graças a você! Graças a você!
— Não se alegre, paisano: estamos perdidos!
— Por quê? Por quê?
- Pela vinda desse maldito Visitador! Por causa deste Visitador que
no fim de contas não fez nada! Olhe você: tiraram o cepo no dia em que
chegou e puseram-no de ponte ao desembarcar, sem que lhe desse na telha
reparar nos buracos que tem, ou nas manchas de sangue que o maculam;
fomos para o pátio, para o lugar onde esta máquina de tormento esteve
colocada e ele não percebeu a trilha que os prisioneiros deixaram ao
debater-se, pedindo água, pedindo sombra. Para gozá-lo, esqueceram na
varanda um rebenque de seis pontas e o grande imbecil perguntou se era
feito de pica de touro. E Macedo, com um grande descaramento, disse-lhe
rindo: "Sua Senhoria é um homem sagaz. Quer saber se comemos carne
de vaca. Evidentemente, ainda que o gado custe caríssimo, prendemos as
reses ali naquele poste.
— Consta-me — constatei-lhe — que o Visitador é um homem
enérgico.
- Mas sem malícia nem observação. É como um touro cego que
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só investe contra aquilo que faça barulho. E aqui ninguém se atreve a
falar! Aqui já estava tudo muito bem ajeitado e as quadrilhas reorganizadas:
os peões descontentes ou ressentidos foram concentrados sabe-se
lá onde e os índios que não entendem o espanhol foram ocupar os caños
próximos. As visitas do funcionário limitaram-se a conhecer alguns grupos,
dos cento e tantos que trabalham nesses rios e em muitos outros
inexplorados, de tal maneira que para percorrê-los e interrogá-los ninguém gastaria menos que seis meses. Ainda não faz uma semana que o
Visitador chegou e já está de volta.
Sua Senhoria se contentará em dizer que esteve na caluniada selva
do crime, que falou dos habeas corpus para os seringueiros, ouviu suas
queixas, impôs sua autoridade e os deixou em condições que não podiam
ser melhores, facultados para o retorno ao lar longínquo. E daqui em
diante, ninguém dará crédito às torturas e às espoliações e sucumbiremos
irredentos, porque o informe que Sua Senhoria apresentar será a resposta
obrigada a toda e qualquer reclamação, isso se sobrar alguma pessoa
cândida que se atreva a insistir sobre assuntos já desmentidos oficialmente.
Paisano, não se surpreenda ao escutar-me essas argumentações,
nas quais não tomo parte. É que as ouvi dos empresários. Eles tremeram
diante da idéia de sair daqui com a soga no pescoço, e hoje riem do
temor passado porque garantiram o porvir. Quando o Visitador se mexia
em direção a tal caño, em exercício de suas funções, ficávamos em casa
sem outra distração que a de apostar que não passariam de três os seringueiros
que se atreveriam a dar denúncias e que Sua Senhoria teria idêntica
frase para todos: Você pode ir embora, quando lhe aprouver'.
— Mas paisano, estamos livres! Nos deram a liberdade!
— Não, companheiro, nem sonhe com isso. Talvez alguns pudessem
ir embora, mas pagando e não têm meios. Não sabem o por onde, o como,
nem o quando. Amanhã mesmo. Esse é um advérbio que soa bem!
E o saldo e a embarcação e o caminho e as guarnições? Sair daqui para
ficar ali, não é negócio que compense os gastos, muito menos hoje que os
lucros só são abonados à base do chicote e do sangue.
— Eu estava esquecendo-me dessa verdade! Vou falar com o Visitador.
— Como?! Para interromper seu colóquio com a madona?
— Para pedir-lhe que me leve de qualquer modo!
— Não se afobe, pois amanhã será outro dia. O remador com quem
falei ao vir para cá vai estragar o motor da lancha essa noite e o
enguiço
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vai durar quanto tempo eu queira. É para isso que o armarinho está em
minhas mãos. Como pode ver, nós os lambones servimos para alguma
coisa.
— Perdoe-me, perdoe-me! Que devo fazer?
— O que Deus manda: confiar e esperar. E o que eu mando:
continuar escutando!
Sem prestar atenção à minha angústia, Balbino Jácome prosseguiu:
— Sua Senhoria não está levando nem um só preso, ainda que lhe
tenham dado algunzinhos, porque eram perigosos; não os que matam ou
os que ferem, mas os que roubam. Mas o Visitador não pôde fazer mais
nada. Antes que chegasse, espiões foram até as barracas para segredar
a fofoca de que a empresa estava querendo averiguar quais eram os servidores
de má índole, para enforcá-los todos, com essa finalidade um
certo sócio estrangeiro, que se faria passar por juiz, lhes tomaria declarações.
Esta medida teve um êxito completíssimo; Sua Senhoria achou por toda
parte gente feliz e agradecida, que nunca ouviu falar de assassinatos nem
de maus-tratos.
Mas o crime perpétuo não está na selva, mas sim nos livros: no
Diário e no Maior. Se Sua Senhoria os conhecesse, encontraria muito
mais leitura no Deve que no Haver, já que muitos homens são lesados na
conta por simples cálculo, segundo o que informam os capatazes. Contudo,
acharia dados iníquos: peões que entregam quilos de borracha por
cinco centavos e recebem tecidos de vinte pesos, índios que trabalham
há seis anos, e ainda aparecem devendo o mañoco do primeiro mês;
crianças que herdam dívidas enormes, procedentes do pai que mataram,
da mãe que forçaram, até das irmãs que violentaram, dívidas que não
saldariam em toda a sua vida, porque, quando conheçam a puberdade,
só os gastos de sua infância lhes darão meio século de escravidão.
Meu companheiro fez uma pausa enquanto me oferecia sua tabaqueira.
Eu, ainda que consternado com tanta ignomínia, quis defender
o Visitador:
- Provavelmente Sua Senhoria não tem ordem judicial para ver
esses livros.
— Mesmo que a tivesse. Estão bem guardados.
-E será possível que Sua Senhoria não leve provas de tantos
atropelos que foram públicos? Estará se fazendo de dissimulado?
— Mesmo que fosse assim. Que ganharíamos com a evidência de
que fulano matou sicrano, roubou mengano, feriu beltrano? Isso, como
diz Juanchito Vega, acontece em Iquito e onde quer que existam homens:
146
quanto mais aqui, numa selva sem polícia nem autoridade. Deus
nos livre de que se comprove algum crime, porque os patrões conseguiriam
realizar o seu maior desejo: a criação de prefeituras e de cadeias,
ou melhor, a iniqüidade dirigida por eles mesmos. Lembre-se você que
eles aspiram militarizar os trabalhadores, enquanto que na Colômbia
acontecem coisinhas reveladoras de algo muito grave, de cumplicidade
subterrânea, segundo frase de Larranaga. Os colonos colombianos não
estão vendendo a esta empresa suas fundações, forçados pela falta de garantias?
Aí estão Calderón, Hipólito Pérez e muitos outros, que recebem
o que lhes dão, achando que foram bem pagos com não perder tudo e
poder safar a onça. E Arana que é o espoliador, não continua sendo
praticamente nosso cônsul em Iquito? E o presidente da República não
disse que enviou o general Velazco para licenciar tropas e guardas no
Putumayo e no Caquetá, como resposta muda ao pedido de proteção
que os colonizadores dos nossos rios faziam-lhe diariamente? Paisano,
paisaninho, estamos perdidos! E o Putumayo e o Caquetá também estão
sendo perdidos!
Escute este conselho: não fale nada! Dizem que quem fala erra, mas
aquele que falar desses segredos, errará mais ainda. Vá, pregue-os em
Lima ou em Bogotá, se quer que o tenham por mentiroso e caluniador.
Se lhe perguntarem pelo francês, diga que a empresa o mandou para
explorar o desconhecido; e se lhe averiguam aquela fofoca de que El
Culebrón mostrou certo dia o relógio do sábio, conteste que isso foi
num dia de bebedeira e que está dormindo para sempre. Aquele que o
interrogar sobre El Chispita', responda-lhe que era um capataz bastante
ilustrado em línguas nativas:yeral, carijona, huitoto, muiname; e se você,
para enfeitar a conversa, tiver que narrar algum episódio, não conte
que esse anjinho roubava os guayucos dos indígenas para ter pretexto
para castigá-los por serem imorais, nem que os obrigava a enterrar a borracha,
só para esperar pela chegada do amo e, ocasionalmente, descobrir
para ele os esconderijos, com o que sustentava a fama de adivinho,
honrado e vivo; fale de suas unhonas, afiadas como lanças, que podiam
matar o índio mais forte com um arranhão imperceptível, não porque
fossem mágicas ou odientas, senão que pelo veneno de curare que as
tingia.
— Paisano — exclamei — você me fala de Lima e Bogotá como se
estivesse seguro de que posso sair daqui!
— Sim, senhor. Tenho quem o compre e quem o leve embora:
a madona Zoraida Ayram!
147
— Deveras? Deveras?
- Tão certo como é de noite. Esta manhã quando sua Senhoria
mandou chamá-lo para o interrogar, a madona o via da varanda, com o
binóculo; e quando você declarou em voz alta que não queria mais trabalhar,
ela pareceu muito satisfeita com tal insolência. Quem é, perguntou-
me, o velho tão arriscado? E eu respondi: nada menos que o homem
que lhe convém: é orumbero chamado O Bússola, a quem lhe recomendo
como letrado, hábil em números e faturas, perito nos tratamentos da
borracha, conhecedor de barracas e de seringais, esperto em lances de
contrabando, bom mercador, bom remador, bom calígrafo, que sua formosura
pode adquirir por muito pouca coisa. Se o tivesse tido na
ocasião do assunto de Juan Muneiro, não teria me metido em complicações.
— Assunto de Juan Muneiro? Complicações?
- Sim, descuidinhos que já passaram. A madona comprou a borracha
dos picures de Capalurco e em Iquito quiseram confiscá-la. Mas ela
triunfou. É para isso que é formosa! Haviam proibido às guarnições que
a deixassem subir esses rios e como você pode ver, o Visitador já ajeitou
tudo e até gratuitamente. No entanto: a mulher quando dá, pede; e o
homem pede quando dá.
- Companheiro, a madona deve ter notícias de Lucianito. Vou
falar com ela! Mesmo que não me compre!
Vinte dias depois estava em iquito."
"A lancha da madona rebocava um bongo de cem quintais, em
cuja popa eu governava a espadilla, sofrendo o sol. Freqüentemente
atracávamos em choupeiras do Amazonas para realizar a corotería,
mesmo que fosse trocando-a por produtos da região, jebes, castanhas,
pirarucu, já que até então a agricultura não tinha conhecido adeptos
em territórios tão dilatados. Dona Zoraida mesma pactava as trocas
com os colonos e tinha uma tal lábia de mascate que sempre que reembarcava
teve o prazer de me ver escrever no Diário as mesquinhas utilidades obtidas.
Não demorei em convencer-me de que minha ama era de um caráter
insuportável, tão atrabiliária como um cônego. Negou-se a acreditar
que fosse o pai de Lucianito, falou com desprezo do Muneiro e, à custa
* Corotería: venda de trastes, utensílios.
148
de humilhações, pude saber que os fugitivos, depois de enganá-la com
uma siringa, que 'era roubada e de ínfima classe', enganaram as guarnições
do Amazonas e subiram o Caquetá até a confluência do Apoporis,
por onde subiram em busca do rio Taraira, que tem um atalho para
o Vaupés, em cujas margens foi buscá-los para que a indenizassem dos
prejuízos, sem nada mais conseguir que decepções e até calúnias contra o
seu decoro de mulher virgem, pois houve gente sem papas nas línguas
que se atreveram a inventar um drama de amor.
— Não esqueça, velho - gritou-me um dia — da sua vil condição de
criado mendigo! Não suporto que me interrogue familiarmente sobre assuntos
que só seriam ventilados em conversas de camaradas. Chega de
perguntar-me se Lucianito é um moço bonito, se tem buço, boa saúde
e maneiras nobres. Por que me importaria com semelhantes coisas?
Por acaso ando atrás dos homens para inventariar-lhes suas lindas caras?
Será que o meu negócio é preferir os clientes galhardos? Continue assim,
atrevido e imbecil e venderei sua conta para aquele que me comprá-la!
— Madona, não me trate assim, pois já não estamos nos seringais!
Já estou farto de sofrer por filhos ingratos! Já estou há oito anos andando
atrás daquele que fugiu e ele, talvez, enquanto sinto saudades dele,
nunca terá pensado em achar-me! A dor dessa idéia é suficiente para abreviar
o meu pesar, porque sou capaz de, em qualquer momento, soltar o
timão do bongo e jogar-me n'água! Só quero saber se Lucianito ignora
que estou procurando-o; se dava com meus avisos nos troncos e nos
caminhos; se se lembrava de sua mãe!
— Ai, jogar-se n'água! Jogar-se n'água! Será possível? E os meus
dois mil sóis? Meus dois mil sóis? Quem vai pagar-me os meus dois mil
sóis?
— Já não tenho direito nem a morrer?
- Isso seria uma fraude!
— Mas a senhora acha que a minha conta é justa? Quem é que não
salda em oito anos de labuta contínua o que se come? Esses farrapos que
tornam o meu corpo vil não estão gritando a miséria em que sempre
vivi?
— E o roubo do seu filho...
— Meu filho não rouba! Mesmo tendo crescido no meio de bandoleiros!
Não o confunda com os demais. Ele não lhe vendeu nenhuma
borracha! A senhora fez o trato com Juan Muneiro, recebeu a borracha e
a está devendo em parte. Já revisei os livros!
— Ai, esse homem é um espião! Enganaram-me aqueles do El Encanto!
149
Traição do velho Balbino Jácome! Mas você não vai me enganar.
Quando desembarcarmos, farei com que o prendam!
— Sim, para que me entreguem para o juiz Valcárcel, para quem
estou levando graves revelações!
— Por Alá! Você está pensando em meter-me em novas embrulhadas?
— Não se preocupe. Não serei delator quando tenha sido vítima.
— Eu ajeito isso. Você me jogará o ódio de Arana!
— Não relatarei o negócio de Juan Muneiro.
— Você vai conseguir inimigos muito poderosos! Em Manaus
o deixarei livre. Você irá ao Vaupés, abraçará Luciano Silva, seu filho
querido, que na certa está lhe procurando.
— Não desistirei de falar com o meu cônsul. A Colômbia precisa
dos meus segredos! Mesmo que morresse imediatamente! Meu filho fica
aí para lutar!
Desembarcamos horas depois."
"A altercação com a madona me enalteceu. Nas últimas frases, me
transformei em amo, temido por minha dona, olhado com respeito pelos
servos da lancha e do bongo. O motorista e o timoneiro, que em dias
anteriores me obrigavam a lavar suas roupas, não sabiam que fazer com
o 'senhor Silva'. Ao descer à terra, um deles me ofereceu cigarros,
enquanto que o outro esticava para mim a chama do seu isqueiro, de
chapéu na mão.
— Senhor Silva, o senhor nos vingou de muitas afrontas!
A mestiça de Parintins, camareira da madona, pediu aos homens,
da lancha, que corressem as cortinas de bordo.
— Pra já, que a senhora está com enxaqueca. Já tomou duas aspirinas.
É urgente içar-lhe a rede.
Enquanto os marinheiros obedeciam, meditei meus planos: ir ao
consulado do meu país, exigir que o cônsul me assessorasse na prefeitura
ou no tribunal, denunciar os crimes da selva, contar tudo aquilo
que me constasse sobre a expedição do sábio francês, solicitar a minha
repatriação, a liberdade dos seringueiros escravizados, a revisão dos livros
e contas em La Chorrera e no El Encanto, a redenção de milhares
de indígenas, o amparo dos colonos, o livre comércio nos caños e rios.
Tudo isso depois de ter conseguido a ordem de amparo para a minha
autoridade de pai legítimo, sobre meu filho menor de idade, para levá-lo
150
comigo, mesmo que fosse pela força, de qualquer quadrilha, barraca ou
monte.
A camareira se aproximou de mim:
— Senhor Silva, nossa patroa roga-lhe que ordene tirar do bongo
tudo que está lá, e que faça as gestões indispensáveis na alfândega, como
coisa própria, por ser você o homem de confiança.
— Diga-lhe que estou indo para o consulado.
— Pobrezinha, como chorou ao pensar em Lu!
— Quem é esse Lu?
— Lucianito. Era assim que o chamava quando andaram juntos
no Vaupés.
— Juntos!
— Sim, senhor, como beijo e boca. Era muito generoso, conseguia-
lhe lotes de borracha. Quem tem os detalhes certos é a minha irmã
mais velha, que atualmente está no Rio Negro, como amante de um capataz
do turco Pezil e que foi camareira da madona antes de mim.
Ao escutar esta confidência, tremi de amargura e de ressentimento.
Virei o rosto em direção à cidade, disfarçando a minha indignação.
Ignoro em que momento me pus em marcha. Atravessei rodas de marinheiros,
filas de carregadores, grupos de guardas. Um homem me deteve
para que lhe mostrasse o passaporte. Outro perguntou-me de onde
vinha e se havia legumes para vender em minha canoa. Não sei como percorri
as ruas, subúrbios, atracadouros. Numa praça, detive-me diante de
um portão que tinha um escudo. Chamei.
— O Cônsul da Colômbia encontra-se aqui?
— Que Cônsul é esse? — perguntou uma senhora.
— O da Colômbia.
— Sim, sim.
Numa esquina, vi sobre um balcão a haste de uma bandeira. Entrei.
— Perdoe, senhor. O Consulado da República da Colômbia?
— Não é este.
E continuei caminhando ao Deus dará, até à noite.
— Cavalheiro — disse a um ninguém — onde mora o Cônsul da
França?
Imediatamente me deu as indicações. O escritório estava fechado.
Li na placa de cobre: Hora de atendimento, de nove às onze."
"Passado o primeiro nervosismo, me senti tão acovardado que senti
saudades da selvageria dos seringais. Lá nem sequer tinha conhecidos
151
e não faltava um lugar para o meu chinchorro meus costumes estavam
feitos, desde a noite sabia as tarefas para o dia seguinte e até os meus sofrimentos
vinham regulamentados. Mas na cidade percebi que me faltava
o hábito dos risos, do livre-arbítrio, do bem-estar. Vagava pelas calçadas
com o medo de ser importuno, com a melancolia de ser estrangeiro.
Parecia-me que alguém ia perguntar-me por que estava ocioso, por que
não continuava fumegando a borracha, por que havia desertado da minha
barraca. Onde falavam asperamente, minhas costas estremeciam, onde
achava luzes, meus olhos ofuscavam-se, acostumados à penumbra. A liberdade
me desconhecia, porque eu não era livre: tinha um amo, o credor;
tinha uma corrente, a dívida, e me faltavam a ocupação, o teto e
o pão.
Percorri o povoado várias vezes, sem compreender que não era
grande. Por fim, me dei conta de que os edifícios se repetiam. Em um deles,
os veículos desocupavam-se. Dentro, aplausos e músicas. A madona
desceu de um carro, em companhia de um cavalheiro gordo, cujos bigodes
eram grossos e torcidos como fios. Quis voltar para o porto e vi numa
tenda o motorista e o timoneiro.
- Senhor Silva, estamos aqui porque não há problemas na embarcação.
Já entregamos tudo. Amanhã, às doze em ponto, sai o vapor de
linha que entra no Rio Negro. A madona comprou passagem. Mas os
três viajaremos em nossa lancha. Sairemos quando o senhor ordenar.
Lhe aconselharíamos deixar seus segredos para Manaus. Aqui não lhe escutam.
Que esperança lhe deu seu Cônsul?
— Nem ao menos sei onde vive.
— Podiam dizer-me — perguntou o timoneiro aos paroquianos —
se o Consulado da Colômbia tem escritório?
— Não sabemos.
- Acho que em Arana, Vega e Companhia — insinuou o motorista
- eu conheci don Juancho Vega como Cônsul.
A estalajadeira que lavava os copos em um alguidar, advertiu seus
clientes:
— O funileiro da vizinhança me contou que chamam seu patrão
de Cônsul. Podem indagar se algum deles é colombiano.
Eu, para honra do homem, rechacei a gozação:
- Vocês nem suspeitam de quem lhes pergunto!
Contudo, ao amanhecer tive o pensamento de visitar a funilaria
e passei várias vezes na calçada oposta, com atitudes de observar, enquanto
chegava a hora de apresentar-me ao Cônsul da França. As pessoas do
152
bairro eram madrugadoras. Não demorou-se em abrir a porta indicada.
Um homem, que tinha um avental azul, soprava fora do gonzo, com grandes
foles, um braseiro metálico. Quando cheguei, começou a soldar o
gargalo de um alambique. Nas estantes alinhava-se uma profusa cacare
cada.
- Senhor, a Colômbia tem algum Cônsul neste povoado?
— Vive aqui e sairá agora.
E saiu em mangas de camisa, sorvendo sua canequinha de chocolate.
O sujeito um ogro, nem menos que isso. Ao vê-lo, aventurei uma camaradagem:
- Paisano, paisano! Venho pedir minha repatriação.
- Eu não sou da Colômbia, nem me pagam salário. Seu país não
repatria ninguém. O passaporte vale cinqüenta sóis.
— Estou vindo do Putumayo e o comprovo com a miséria das
minhas chanchiras, com as cicatrizes dos açoites, com o amarelado do
meu rosto doente. Leve-me ao tribunal para denunciar os crimes.
- Nem sou advogado nem entendo de leis. Se não pode pagar um
procurador...
- Tenho revelações sobre a exploração do sábio francês.
- Pois que as ouça o Cônsul da França.
- Um filho meu, menor de idade, foi seqüestrado nesses rios.
- Isso deve ser tratado em Lima. Como se chama o seu filho?
— Luciano Silva! Luciano Silva!
- Ah, ah, ah! Lhe aconselho ficar calado. O Cônsul da França tem
notícias. Esse sobrenome não lhe será grato. Um tal Silva foi até La Chorrera,
depois que o sábio desapareceu, usando as roupas dele. A ordem de
captura não tardará. Você conhece o rumbero apelidado de O Bússola'?
Quais serão as suas revelações?
— Versarão sobre coisas que me contaram.
— Seguramente o senhor Arana, que é quem se interessa por esse
assunto, as saberá; mas conte-as você e pede trabalho de minha parte.
Ele é um homem muito bom e lhe ajudará.
Para que não percebesse a minha agitação, despedi-me sem dar-lhe
a mão. Quando saí à rua, não acertava em encontrar o porto. O motorista
e o timoneiro estavam a bordo da lancha com uns peões.
- Vamos embora — roguei-lhes.
- Venha conhecer a três companheiros do pessoal do senhor
Pezil, o cavalheiro gordo que esteve com a madona ontem à noite no
cimena.
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Todos vamos para Manaus e vamos sozinhos porque nossos patrões
tomaram o navio.
Ao instalar-nos para partir, um desses rapazes me disse:
— De todo coração o acompanhamos em suas desgraças.
— Agradeço-lhes suas expressões do mesmo modo.
— No próprio caudal do Yavaraté, junto às raízes de um jacarandá.
— Que é que você está-me dizendo?
— Que é preciso esperar três anos para tirar os ossos.
— De quem? De quem?
- Do seu pobre filho. Uma árvore o matou!
O trovão do motor apagou o meu grito:
- Vida minha! Uma árvore o matou!
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TERCEIRA PARTE
Eu fui seringueiro, eu sou seringueiro! Vivi em estagnações lamacentas,
na solidão das montanhas, com minha quadrilha de homens
palúdicos, picando o córtex de umas árvores que têm o sangue branco,
como os deuses.
A mil léguas do lar onde nasci, amaldiçoei as lembranças porque
todas são tristes: a dos pais, que envelheceram na pobreza, esperando
o apoio do filho ausente; a das irmãs, de beleza núbil, que sorriem às
decepções, sem que a sorte mude de expressão, sem que o irmão leve
para elas o ouro restaurador!
Freqüentemente, ao descarregar a machadinha contra o tronco
vivo, senti desejos de cravá-la na minha própria mão, que tocou as moedas
sem agarrá-las; mão desventura da, que não produz, que não rouba,
que não redime e que hesitou em libertar-me da vida! E sem pensar
que tanta gente nesta selva está suportando uma dor igual!
Quem estabeleceu o desiquilíbrio entre a realidade e a alma insatisfeita?
Para que nos deram asas no vazio? Nossa madrasta foi a pobreza,
nosso tirano, a aspiração! Por olhar para o alto, tropeçávamos
na terra; por atender o ventre misérrimo, fracassamos no espírito. A
mediania nos brindou com sua angústia. Só fomos heróis do medíocre!
Aquele que conseguiu pressentir a vida feliz, não teve com que
comprá-la; aquele que procurou a noiva, achou o desdém; aquele que sonhou
com a esposa encontrou a amante; quem tentou elevar-se caiu
vencido, diante dos magnatas indiferentes, tão impassíveis como estas
árvores que nos olham languidecer de febres e de fome no meio de
sanguessugas e formigas!
155
Quis fazer um desconto à ilusão, mas uma força incógnita disparou-me mais além da realidade! Passei por cima da ventura, como uma
flecha que erra seu alvo, sem poder corrigir o impulso fatal e sem outro
destino que a queda! E a isto chamavam o meu porvir!
Sonhos irrealizados, triunfes perdidos! Por que sois fantasmas da
memória, como se quisésseis envergonhar-me? Veja no que acabou
este sonhador: em ferir árvores inermes para enriquecer os que não sonham; em suportar desprezos e vexames em troca de uma migalha ao
anoitecer!
Escravo, não te queixes da fadiga; preso, não lastimes tua prisão;
ignorais a tortura que é o vagar solto de um cárcere como a selva, cujas
abóbodas verdes têm por cova rios imensos. Não sabeis do suplício das
penumbras, vendo o sol que ilumina a praia oposta, aonde nunca conseguiremos ir! A corrente que morde vossos tornozelos é mais piedosa
que as sanguessugas desses pântanos; o carcereiro que vos atormenta
não é tão rígido como estas árvores que nos vigiam sem falar!
Tenho trezentos troncos nas minhas estradas e para martirizá-los
gasto nove dias. Limpei-lhes os cipoais e para cada um deles capinei
um caminho. Ao percorrer a taimada tropa de vegetais para derrubar
os que não choram, costumo surpreender os castradores roubando a
borracha alheia. Brigamos com mordidas e machetadas e o leite disputado se salpica de gotas avermelhadas. Mas que importa que nossas veias
aumentem a seiva do vegetal? O capataz exige dez litros por dia e o chicote é usurário que nunca perdoa!
E que importância que o meu vizinho, o que trabalha na veiga próxima, morra de febre? Já o vejo estendido nas folhagens, espantando as
moscas que não o deixam agonizar. Amanhã terei que ir embora destes
lugares, derrotado pela fedentina; mas lhe roubarei a borracha que tenha
extraído e o meu trabalho será menor. Outro tanto farão comigo quando
morra. Eu, que não roubei para os meus pais, roubarei o quanto possa
para os meus verdugos!
Enquanto ajusto no tronco gotejante o talo canalizado do caraná
para que o seu pranto trágico corra em direção à taça, a nuvem de mosquitos que o defende, chupa o meu sangue e o vapor dos bosques turva os
meus olhos. Assim, a árvore e eu, com tormentos diferentes, somos
lacrimejantes diante da morte e nos combateremos até sucumbir!
Mas eu não me compadeço daquele que não protesta. Um tremor
de galhos não é rebeldia que me inspire afeto. Por que não ruge toda a
selva e não nos aniquila como répteis para castigar a exploração vil?
156
Aqui não sinto tristeza, senão que desespero. Quisera ter com quem conspirar!
Quisera livrar a batalha das espécies, morrer nos cataclismos, ver as forças
cósmicas invertidas! Se o demônio dirigisse essa rebelião...
— Eu fui seringueiro, eu sou seringueiro! E o que a minha mão
fez contra as árvores, pode fazer contra os homens!
— Saiba você, don Clemente Silva — disse-lhe ao tomar o atalho do
Guaracú — que suas atribulações nos ganharam para a sua causa. Sua redenção
encabeça o programa de nossas vidas. Sinto que se acende em
mim um anseio de imolação; mas não me enaltece a piedade do mártir,
senão que a ânsia de entrar em contenda com essa fauna de homens de
garras, os quais vencerei com armas iguais, aniquilando o mal com o mal,
já que a voz da paz e da justiça só se pronuncia entre os rendidos. Que
ganhou você com o fato de sentir-se vítima? A mansidão prepara o terreno
para a tirania e a passividade dos explorados serve de incentivo
para a exploração. Sua bondade e sua timidez foram cúmplices inconscientes
de seus algozes.
Mesmo que as minhas iniciativas pareçam súplicas ao fracasso,
porque meu azar as desvia, tenho o pressentimento que desta vez os
meus passos se movem em direção à desforra. Não sei como acontecerão
os fatos futuros, nem quantas provações a minha perseverança resistirá;
o que menos me importa é morrer aqui, bastando que morra a tempo.
E por que pensar na morte diante dos obstáculos se, por maiores
que sejam, nunca fecharão ao corajoso a possibilidade de sobreviver a
eles? A crença no destino deve valer-nos para animar a decisão. Estes
jovens que me seguem são façanhosos, mas se você não quer afrontar
calamidades, escolha aquele que lhe aprouver e escapem com uma balsa
por este rio.
— E o meu tesouro? Não sabe que o Cayeno guarda os despojes de
Lucianito? Você acha que eu andaria solto sem essa prenda?
De momento, nada tive para replicar.
— Os ossos do meu filho são a minha corrente. Vivo forçado a portar-
me bem para que me permitam tê-los ao sol. Já disse a vocês que nem
ao menos que possuo todos: no dia em que os exumei, tive que deixar
na sepultura algumas falanges que estavam frescas ainda. Carregava-os
embrulhados em meu cobertor e, quando o Cayeno me capturou, no meu
regresso do Vaupés, no atalho que enlaça o Isana e o Kerarí, pretendia
jogá-los fora pela força. Agora os conservo, limpos, brancos, numa caixa
de querosene, debaixo da barbacoa do meu patrão.
157
— Don Clemente, você tem evidência de que esses restos...
— Sim! Esses são! A caveira é inconfundível: na gengiva superior,
um dente encavalado sobre os outros. Uma vez consegui perfurar o crânio
com a lança, pois tem um buraco no frontal.
Houve uma pausa. Não sei se naquele momento rachou-se a decisão
dos meus companheiros que calaram num coro meditabundo. O mulato
disse, aproximando-se de don Clemente:
— Camarada, sempre é o melhorzinho que a gente volte. Minha
mãe ficou sozinha e o meu gado se ressabia. Tenho quatro cornudas de
primeiro parto e na certa que já tão paridas. Deixe os ossos que são maléficos.
É mau meter-se com coisas de defuntos. Por isso é que a ladainha
diz: "Aqui te enterro e aqui te tapo; o diabo me leve se um dia te tiro".
Rogue a esses senhores que reclamem a ossamenta e a sepultem debaixo
de uma cruz e você verá como a sorte se recompõe. Resolva ligeiro
que já é tarde!
— Como? Arriscar-nos a ser presos por Funes? Você não sabe em
que terra está. Os sequazes do coronel estão perambulando por aqui.
— E já não é tempo de indecisões — exclamei colérico. - Mulato,
adiante. Já está tarde pra você!
Então, Heli Mesa, aproximou-se do tambo para acender-lhe o fogo.
Don Clemente o olhava sem protestar.
— Não, não! — ordenei — os mapires envenenados se queimariam.
Os caçadores de índios podem voltar e tomara que todos se envenenem!
Teria desejado que os meus amigos marchassem menos silenciosos:
meus pensamentos me faziam mal e uma espécie de pânico me invadia
ao meditar sobre a minha situação. Quais eram meus planos? Em que
se apoiava o meu orgulho? Em que as desventuras alheias deveriam
importar-me, se com as próprias ia de quatro? Por que fazer promessas
a don Clemente, se Barrera e Alícia me haviam comprometido? O conceito
de Franco começou a angustiar-me: "Eu era um desequilibrado
impulsivo e teatral".
Paulatinamente cheguei a duvidar do meu espírito: estaria louco?
Impossível. A febre tinha-me esquecido por uma semana. Louco por
quê? Meu cérebro era forte e as minhas idéias límpidas. Não só compreendia
que era premente ocultar minhas hesitações, senão que me dava
conta até dos detalhes minuciosos. A prova estava no que ia vendo:
o bosque naquela parte não era muito alto, não havia caminho e don
Clemente abria a marcha, partindo galhinhos no restolho para deixar
158
sinais do rumo, como se costuma fazer entre caçadores; Fidel levava
a carabina atravessada sobre o peito, engranzando com o cano, por cima
das clavículas, os cabestros da taleiga, rica em mañoco, que imitava sobre
as suas costas uma imensa corcunda; o mulato portava o pacote das redes,
um caldeirão e dois canaletes; Mesa, naquele momento, debaixo de seus
bens, saboreava um caroço maduro e balançava no ar o tição fumegante,
que carregava na mão direita, na falta de fósforos.
Louco eu? Que absurdo maior! Já me havia ocorrido um projeto
lógico: entregar-me como refém nas barracas do Guaracú, enquanto o
velho Silva ia para Manaus, levando secretamente um ofício de acusações
dirigido ao Cônsul do meu país, com o pedido de que viesse libertar-me
imediatamente e redimir os meus compatriotas. Quem, sendo anormal,
raciocinaria com maior acerto?
O Cayeno deveria aceitar minha proposta vantajosa: em troca de
um velho inútil receberia um seringueiro jovem, ou dois mais, porque
Franco e Heli não me abandonariam. Para adulá-lo, tentaria falar-lhe em
francês: "Senhor, este ancião é parente meu e, como não pode pagar-lhe
a conta, deixe-o livre e de-nos trabalho até que a saldemos". E o antigo
fugitivo de Caiena acederia sem hesitar.
Coisa fácil haveria de ser adquirir a confiança do empresário,
trabalhando com paciência e dissimulação. Não empregaria contra ele
a força, senão que a astúcia. Quanto tempo durariam nossos sofrimentos?
Dois ou três meses. Talvez nos enviasse para seringuear em Yaguanarí,
pois Barrera e Pezil eram seus sócios. E mesmo que não o fossem,
lhe exporíamos a conveniência de surrupiar os colombianos daquela zona
para os seus seringais. Em todo caso, se opusesse aos nossos planos,
fugiríamos pelo Isana e, num dia qualquer, enfrentando o meu inimigo,
o mataria, na presença de Alícia e dos recrutados. Depois, quando nosso
Cônsul desembarcasse em Yaguanarí, a caminho do Guaracú, com uma
guarnição de gendarmes, para devolver-nos a liberdade, nossos companheiros
exclamariam: "O implacável Cova nos vingou e se internou por
este deserto!"
Enquanto meditava dessa maneira, comecei a notar que as batatas
das minhas pernas afundavam na folhagem caída e que as árvores iam
crescendo a cada segundo, com uma aparência de homens acocorados,
que se empinavam espreguiçando-se, até elevar os braços verdosos por cima
da cabeça. Em vários momentos achei que percebia que o crânio me pesava
como uma torre e que os meus passos iam de lado. De fato, a cara
virou-se para o ombro esquerdo e tive a impressão de que um espírito me
repetia:
159
"Estás indo bem assim, estás indo bem! Por que caminhar como
os outros?"
Ainda que os meus companheiros caminhassem perto, não os via,
não os sentia. Pareceu-me que o meu cérebro ia entrar em ebulição. Tive
medo de encontrar-me só e, repentinamente, me pus a correr para
qualquer parte, ululando apavorado, longe dos cachorros que me perseguiam.
Não soube mais nada. Meus camaradas me desenrolaram do meio
de uma malha de trepadeiras.
— Pelo amor de Deus! Que é que você tem? Não nos conhece? Somos
nós!
— Que foi que fiz a vocês? Por que me ameaçam? Por que é que
estou amarrado?
— Don Clemente — Franco prorrompeu — desandemos este caminho:
Arturo está doente.
— Não, não! Já me tranqüilizei. Acho que quis agarrar um esquilo
branco. As caras de vocês me aterraram. Umas caretas tão horríveis...!
Assim disse e ainda que todos estivessem pálidos, para que não
duvidassem de minha saúde, me pus de guia por entre o bosque. Um instante
depois, don Clemente sorriu:
— Paisano, você sentiu a feitiçaria da montanha.
— Como? Por quê?
— Porque pisa com desconfiança e a todo instante olha para trás.
Mas não se afobe nem tenha medo. É que algumas árvores são gozadoras.
— Na verdade, não entendo...
— Ninguém nunca soube qual a causa do mistério que nos transtorna
quando vagamos na selva. Contudo, acho que acerto na explicação:
qualquer uma dessas árvores se amansaria, tornando-se amistosa e até
risonha, em um parque, em um caminho, em uma lhanura, onde ninguém
a sangrasse nem a perseguisse, mas aqui todas são perversas, ou agressivas,
ou hipnotizantes. Nestes silêncios, debaixo destas sombras, têm a sua maneira
de combater-nos: algo nos assusta, algo nos crispa, algo nos oprime
e vem o enjôo das matas e queremos fugir e nos extraviamos e por esta
razão milhares de seringueiros não voltaram a sair nunca.
Eu também senti a má influência em diversos casos, especialmente
em Yaguanarí.
Pela primeira vez, com todo o seu horror, a selva desumana se dilatou
diante de mim. Árvores disformes sofrem o cativeiro das trepadeiras
forasteiras, que a grandes distâncias as juntam com as palmeiras
160
e se despenduram numa curva elástica, semelhantes a redes mal-estendidas,
que à custa de armazenar durante anos inteiros a folhagem caída,
chamiça, frutas, desfundam-se como um saco de podridão, esvaziando
na relva répteis cegos, salamandras bolorentas, aranhas peludas.
Por toda parte, o cipó de matapalo — pulpo rasteiro das florestas
— cola seus tentáculos nos troncos, despescoçando-os e retorcendo-os,
para injetar-se neles e transfundir-se numa metempsicose dolorosa. Os
bachanqueros* vomitavam seus trilhões de formigas devastadoras, que recortam
o manto da montanha e regressam ao túnel por largas veredas,
como embandeiradas do extermínio, com seus galhardões de folhas e de
flores. O comején enferma as árvores como uma sífilis galopante, que
solapa sua lepra supliciatória enquanto vai carcomendo-lhes os tecidos e
pulverizando-lhes o córtex, até demoli-las, subitamente, com seu pesadume
de ramagens vivas.
Entretanto, a terra cumpre as sucessivas renovações: ao pé do colosso
que desaba, o gérmen que brota; no meio dos miasmas, o pólen que
voa; e por todas as partes, o hálito do fermento, os vapores quentes
da penumbra, o torpor da morte, o marasmo da procriação.
Qual é aqui a poesia dos retiros, onde estão as borboletas que parecem
flores translúcidas, os pássaros mágicos, o arroio cantor? Pobre
fantasia dos poetas que só conhecem as solidões domesticadas!
Nada de risueñores apaixonados, nada de jardim versalhesco,
nada de panoramas sentimentais. Aqui, os coaxares de sapos hidropicos,
as malezas de morros misantropos, as estagnações de caños putrefatos.
Aqui, o parasita afrodisíaco que enche o solo de abelhas mortas; a diversidade
de flores imundas que se contraem com palpitações sexuais
e seu odor pegajoso embebeda como uma droga; o cipó maligno cuja penugem
cega os animais; a pringanosa** que inflama apele, apevide do
curujú, que parece um globo irisado e só contém cinza cáustica, a uva
purgante, o caroço amargo.
Aqui, de noite, vozes desconhecidas, luzes fantasmagóricas, silêncios
fúnebres. É a morte, que passa dando a vida. Ouve-se o golpe da
fruta, que ao abater-se faz a promessa de sua semente; o cair da folha,
* Bachanqueros: tocas de insetos semelhantes à formiga, porém mais corpulentos
(Venezuela).
** Pringamosa: certa espécie de urtiga.
161
que enche o monte com um vago suspiro, oferecendo-se como adubo
para as raízes da árvore materna; o estalido da mandíbula que devora
com medo de ser devorada; o assobio de alerta, os ais agonizantes, o barulho
do arroto. E quando a alvorada rega sobre os montes sua trágica
glória, inicia-se o clamor sobrevivente: o zumbido da perua chiadora,
os retumbos do porco selvagem, as risadas do macaco ridículo. Tudo
pelo júbilo breve de viver algumas horas mais!
Esta selva sádica e virgem procura o ânimo para a alucinação do
perigo próximo. O vegetal é um ser sensível cuja psicologia desconhecemos.
Nestas solidões, quando nos fala, só o pressentimento entende o seu
idioma. Sob seu poder, os nervos do homem convertem-se em feixe de
cordas, tensas em direção ao assalto, à traição, à espreita. Os sentidos
humanos equivocam suas faculdades: o olho sente, a costa vê, o nariz
explora, as pernas calculam e o sangue clama: Fujamos, fujamos!
Não obstante, o homem civilizado é o paladino da destruição.
Há um valor magnífico na epopéia desses piratas que escravizam os
seus peões, exploram o índio e se debatem contra a selva. Atropelados
pela infelicidade, do anonimato das cidades, lançaram-se aos desertos
procurando um fim qualquer para sua vida estéril. Delirantes de impaludismo,
despojaram-se da consciência e, conaturalizados com todo risco,
sem outras armas que a Winchester, ansiando gozos e abundância, no rigor
da intempérie, sempre famélicos e até desnudos porque as roupas
se apodreciam sobre a carne.
Por fim, um dia, no penhasco de um rio qualquer, erguem uma palhoça
e se chamam "amos de empresa". Tendo a selva como inimigo,
não sabem a quem combater e investem uns contra os outros e se matam
e se subjugam nos intervalos do seu denodo contra o bosque. E é digno
de ver-se em alguns lugares como suas pegadas são semelhantes às avalanchas:
os seringueiros que existem na Colômbia destroem anualmente milhões
de árvores. Nos territórios da Venezuela o balatá desapareceu.
Dessa maneira, exercem a fraude contra as gerações do porvir.
Um daqueles homens escapou de Caiena, célebre prisão, que tem
por fosso o oceano. Mesmo sabendo que os carcereiros alimentam os
tubarões para que rondem a muralha, sem safar-se das correntes, atirou-
se ao mar. Veio para as veigas do Pupunagua, assaltou os tambos alheios,
submeteu os seringueiros fugitivos e, monopolizando a exploração da
borracha, vivia com seus partidários e seus escravos nas barracas do Guaracú,
cujas luzes longínquas, através das matas, palpitavam diante de
nós, na noite em que retardamos a chegada.
162
Quem poderia adivinhar nesse momento que nossos destinos descreveriam
também a mesma trajetória de crueldade!
Durante os dias empregados em percorrer o atalho, fiz uma comprovação
humilhante: minha fortaleza física era aparente e minha musculatura
— desgastada por febres pretéritas — afrouxava-se com o cansaço.
Só os meus companheiros pareciam imunes à fadiga e até o velho
Clemente, apesar dos seus anos e doenças, acabava sendo mais vigoroso
nas marchas. A todo instante, detinham-se para esperar-me; e mesmo
tendo desanuviado-me de todo peso, do embornal e da carabina, seguia
precisando que o cérebro mantivesse o meu orgulho em tensão para
não jogar-me ao chão e confessar-lhes o meu decaimento.
Ia descalço, com as calças arregaçadas, mal-humorado, esgarçando
lodaçais e lagoas, no meio de um bosque altíssimo cujo raizame esqueceu
a luz do sol. A mão de Fidel me dava ajuda ao pisar os troncos que
utilizávamos como pontes, enquanto os cachorros latiam em vão para que
fossem soltos naquele paraíso de caçadores, que, nem mesmo assim, me
entusiasmava.
Esta situação de inferioridade me tornou desconfiado, irritadiço,
insociável. Nosso chefe em tais emergências era, sem dúvida, o ancião
Silva e comecei a sentir contra ele uma secreta rivalidade. Suspeitei que
tenha buscado esse rumo de propósito, desejoso de fazer-me experimentar
a minha falta de condições para medir-me com o Cayeno. Don Clemente
não perdia oportunidade de ponderar-me os sofrimentos da vida
nas barracas e a contingência de qualquer fuga, sonho perene dos seringueiros,
que o vêem esboçar-se e nunca o realizam porque sabem que
a morte fecha todos os caminhos da montanha.
Essas pregações tinham eco em meus camaradas e se multiplicaram
os conselheiros. Eu não lhes ouvia. Contentava-me em replicar:
— Mesmo que vocês andem comigo, sei que vou sozinho. Estão
fatigados? Podem ir caminhando atrás de mim.
Então, silenciosos, me tomavam a dianteira, e ao esperar-me,
cochichavam olhando-me de soslaio. Isso me indignava. Sentia um ódio
súbito contra eles. Provavelmente zombavam da minha arrogância. Ou
teriam tomado um caminho que não fosse o do Guaracú?
- Escute-me, velho Silva — gritei detendo-o - se não me leva para
o Isana, lhe dou um tiro.
O ancião sabia que não o ameaçava de brincadeira. Nem sentiu
surpresa diante da minha ameaça. Compreendeu que o deserto me possuía.
163
Matar um homem! E o quê! Por que não? Era um fenômeno natural.
E o costume de defender-me? E a maneira de emancipar-me? Qual
o outro modo mais rápido de solucionar os conflitos diários?
E por este processo - ó, selva! - passamos aqueles que caímos
emtuavoragem.
Agachados entre a fronde, com as mãos nas carabinas, espreitávamos
as luzes das barracas, temerosos de que alguém nos descobrisse.
Naquele esconderijo devíamos pernoitar sem acender fogo. Soluçando
na escuridão, passava uma corrente desconhecida. Era o Isana.
- Don Clemente - disse abraçando-o - nestes rumos você é a mais
alta sabedoria!
- No entanto, acabei ficando com medo da profissão: andei
perdido mais de dois meses no seringal do Yaguanarí.
- Os pormenores estão presentes para mim. Na vez da sua fuga
para o Vaupés...
- Éramos sete seringueiros fugitivos.
— E quiseram matá-lo...
— Achavam que os extraviava de propósito.
— E o maltrataram algumas vezes...
-E noutras, pediam-me de joelhos a salvação.
— E o amarraram uma noite inteira...
— Temendo que pudesse abandoná-los.
— E se dispersaram para procurar o rumo...
— Mas só toparam com o da morte.
Este mísero ancião Clemente Silva sempre teve o monopólio da
desventura. Desde o dia em que, indo de Iquitos para Manaus escutou
notícias do filho morto, cifrou sua esperança em prolongar a escravidão.
Queria ser seringueiro alguns anos mais, até que a terra o permitisse
exumar os restos. A selva, indiretamente, o reclamava como fugitivo
e era o espectro de Lucianito que lhe pedia para voltar atrás.
Mesmo que a madona tenha querido dar-lhe a liberdade, que
ganharia com esta se devia alistar-se de novo, obrigado pela indigência,
na quadrilha de qualquer amo que talvez o afastasse do Vaupés? Em
Manaus, percorreu as agências onde os imigrantes procuram trabalho
e saiu desalentado desses tugúrios onde a escravidão se contrata, porque
os patrões só avançavam gente para o Madeira, para o Purus, para o
Ucayali. E ele queria ir-se para o infausto rio que guardava ao pé de seu
caudal a sepultura coberta de ervas, divisada por quatro pedras.
164
O turco Pezil não tinha trabalho nessas paragens, mas o levava para
o alto-Rio Negro, e isso era muito. Só que fingia não querer comprá-lo e,
por fim, cedeu aos seus rogos, estipulando com a madona uma retrovenda,
caso não lhe satisfizessem as aptidões do "colombiano". Levou-o
para sua formosa quinta do Naranjal, na margem oposta do Yaguanarí
e, durante algum tempo, manteve-o em ofícios fáceis, sob a vigilância
do muçulmano depreciativo e taciturno, sem maltratá-lo nem escarnecê-
lo.
Mas certa vez umas mulheres brigaram na cozinha e acordaram seu
senhor que dormia a sesta. Don Clemente estava no corredor, observando
o mapa da parede. O amo surpreendeu-o nessa atitude. Ordenou-lhe a gritos
que despisse as contendoras até a cintura e as açoitasse. O velho
Silva se negou a cumprir a ordem. Nessa mesma tarde o despacharam para
seringuear em Yaguanarí.
Uma das coitadas era a antiga camareira da madona, a que conheceu
no Vaupés a Luciano Silva, por ocasião de seu amancebamento com
dona Zoraida. "Não o viu morto", mas sabia o lugar de sua sepultura,
junto à correnteza do Yavaraté e já tinha dado para don Clemente todos
os sinais para que a achasse.
A desobediência do colombiano não conseguiu indultá-la dos açoites,
porque o turco feroz, com um chicote na mão, encheu-a de sangue
e contusões. Choramingando na despensa, escreveu um papel para o seu
amante que trabalhava nos seringais e pediu a don Clemente que o entregasse
ao destinatário, sem omitir nenhum detalhe sobre a covarde flagelação.
Este homem, que se chamava Manuel Cardoso, era capataz em um
barracão do cano Yurubaxí. Ao saber os percalços de sua mulher, propôs-
se a matar Pezil onde o encontrasse e, para vingar-se interinamente,
quis proceder contra os interesses do seu patrão, aconselhando aos seringueiros
que fugissem com a borracha que tinham nos tombos.
O velho Silva fingiu rechaçar essa idéia, receoso de alguma cilada,
No entanto, nos dias seguintes, comentava com os peões a insinuação
do vigilante, enquanto fumegavam o leite extraído. A resposta não mudou
nunca: "Cardoso sabe que não existe rumbero capaz de enfrentar-se
com estas montanhas".
De noite, os seringueiros meditavam sobre tal hipótese, tão sugestionadora
quanto impossível, só para ter com que conversar:
— É claro que a fuga seria irrealizável pelo Rio Negro; as lanchas
do amo parecem cachorros perdigueiros.
165
— Mas conseguindo subir o Cababurí é fácil descer o Maturacá
e sair ao rio Casiquiare.
- De acordo. Mas o Rio Negro tem uma largura de quatro quilômetros.
Há que se descartar os afluentes do seu lado esquerdo. Melhor
ainda, águas acima por este caño Yurubaxí, aos sessenta e tantos dias de
curiara, dizem que se encontra um igarapé que desemboca no Caquetá.
— Para o rio Vaupés, não tem rumo direto?
— E quem se meteria numa estupidez dessa?
O barracão estava situado sobre um arrecife que não se inunda,
único refúgio naquele deserto. Mensalmente chegava a lancha do Naranjal
para recolher a borracha e para deixar víveres. Os trabalhadores eram
escassos e o beribéri carcomia o número, sem contar os que pereciam nas
lagoas, lançados pelas febres do andaime onde se trepavam para ferir as
árvores.
Apesar de tudo, muitos passavam meses inteiros sem ver a cara do
capataz, amparando-se em choças mínimas, e voltavam para o tambo
com a borracha já fumigada, convertida em bolotas, que entregavam à
corrente em vez de conduzi-las nas curiaras. Acostumados a não afastar-
se das margens, careciam do instinto de orientação e esta circunstância
ajudou o prestígio de don Clemente, quando se aventurava pela floresta
e, cravando o machete em qualquer lugar, instava-os dias depois a que o
acompanhassem para recolhê-los, partindo do lugar que quisessem.
Uma manhã, ao sair o sol, veio uma catástrofe impressentida.
Os homens que curavam seus fígados no caney, ouviram gritos desaforados
e se agruparam na rocha. Nadando no meio do rio, como se fossem
patos descomunais, desciam as bolotas de borracha, e o seringueiro
que as tocava vinha atrás, numa canoa minúscula, apressando com o remo
aquelas que se demoravam nas estagnações de água. Diante do barracão,
enquanto pugnava para encerrar seu rebanho negro na enseada do pequeno
porto, elevou estas vozes, de mais gravidade que um pregão de guerra:
— Tambochas, tambochas! E os seringueiros estão isolados!
Tambochas! Isso eqüivale a suspender o trabalho, deixar a vivenda,
colocar caminhos de fogo, procurar outro refúgio em alguma parte.
Tratava-se da invasão das formigas carnívoras, que nascem sabe-se lá onde
e, quando o inverno chega, emigram para morrer, varrendo o monte
em léguas e léguas, com barulhos longínquos, como os de um incêndio.
Abelhas sem asas, de cabeça vermelha e corpo cítreo, impõem-se pelo
terror que inspiram o seu veneno e sua multidão. Todo refúgio, toda
greta, todo buraco; árvores, a folhagem caída, ninhos, colmeias, sofrem
166
a filtração daquela arrebentação espessa e hedionda, que devora
pimpolhos,
ratos, répteis e põe em fuga povoados inteiros de homens e bestas.
Essa notícia derramou a consternação. Os peões do tambo recolhiam
suas ferramentas e macundales com uma rapidez revoltosa.
— E de que lado vem a ronda? — perguntava Manuel Cardoso.
— Parece que agarrou ambas as margens. As antas e os caititus
atravessam o rio desta margem, mas na outra as abelhas estão alvoroçadas!
— E quais os seringueiros que estão isolados?
— Os cinco do pantanal de El Silencio, que nem sequer têm canoa!
- Que jeito? Que se defendam! Não podemos ajudar-lhes. Quem é
que se arrisca a extraviar-se nesses pântanos?
— Eu — disse o ancião Clemente Silva.
E um jovem brasileiro que se chamava Lauro Coutinho:
— Vou também. Meu irmão está lá!
Recolhendo os víveres que puderam e providos de armas e de fósforos,
os dois amigos aventuraram-se por uma vereda que, partindo da
barraca, aprofunda as matas na direção do caño Marié.
Marchavam apressados em meio ao barro dos lodaçais, com ouvido
atento e sagaz. Subitamente, quando o ancião, abrindo a senda,
começou a orientar-se na direção do pantanal de El Silencio, Lauro Coutinho
deteve-o:
— Chegou o momento de picurear-nos!
Don Clemente já pensava nisso, mas soube dissimular a sua satisfação.
— Teríamos de consultá-lo com os seringueiros...
— Respondo que assentem, sem hesitar!
E assim foi, porque no dia seguinte acharam-nos em uma choupana,
jogando os dados em cima de um lenço e embebedando-se com
vinho de palmachonta que se ofereciam em uma cabaça.
- Formigas? Que formigas? Nós cagamos nas tambochas! A
fugir, a fugir. Um rumbero como você é capaz de nos tirar do inferno!
E lá se vão pela selva, com a ilusão da liberdade, cheios de sorrisos
e de projetos, adulando o guia e prometendo-lhe sua amizade, sua lembrança,
sua gratidão. Lauro Coutinho cortou uma folha de palmeira e
a conduz no alto, como um pendão; Souza Machado não quer abandonar
sua bolota de borracha, que pesa mais de dezoito quilos, com
cujo produto pensa adquirir durante duas noites as carícias de unma
mulher,
167
que seja branca e ruiva e que transcenda a brandy e a rosas;
o italiano Peggi fala em sair para qualquer cidade para empregar-se
como cozinheiro de algum hotel onde abundam as sobras e as gorjetas;
Coutinho, o mais velho, quer casar-se com uma moça que tenha rendas;
o índio Venancio ansia dedicar-se a trabalhar curiaras; Pedro Fajardo
aspira comprar um teto para hospedar sua mãe cega; don Clemente
Silva sonha em achar uma sepultura. É a procissão dos infelizes, cujo
caminho parte da miséria e chega à morte!
E qual era o rumo que perseguiam? O do rio Curicuriarí. Entrariam
por ali no Rio Negro, setenta léguas acima de Naranjal, e passariam em
Umarituba para pedir amparo. O senhor Castanheira Fontes era muito
bom. Naquele lugar o horizonte se ampliaria para eles. Em caso de captura,
era inquestionável a explicação: saíam do monte derrotados pelas
tambochas. Que fossem perguntar ao capataz.
No quarto dia da montanha, começou a crise: as provisões escassearam
e os lamaçais eram intermináveis. Detiveram-se para descansar e, livrando-
se das camisas, rasgavam-nas para envolver a barriga da perna,
atormentada pelas sanguessugas. Souza Machado, generoso pela fadiga,
dividiu a golpes de facão sua bolota de borracha em vários pedaços
para obsequiar os seus companheiros. Fajardo negou-se a receber sua
parte: não tinha ânimo para carregá-la. Souza recolheu-a. Era borracha,
"ouro preto", e não se devia desperdiçar.
Houve um indiscreto que perguntou:
— E para onde vamos agora?
Todos replicaram recriminando-o:
— Para a frente!
Enquanto isso, o rumbero tinha perdido a orientação. Avançava
às tontas, sem deter-se, nem falando nada, para não disseminar o medo.
Por três vezes em uma hora, saiu no mesmo pântano, sem que os seus
camaradas reconhecessem o percurso. Concentrando todo o seu ser na
memória, olhando em direção ao seu cérebro, lembrava-se do mapa
que tantas vezes estudara na casa de Naranjal, e via as linhas sinuosas, que
pareciam uma rede de veias, sobre a mancha de um verde-pálido em que
ressaltavam nomes inesquecíveis: Tiya, Marié, Curi-Curiarí. Quanta
diferença entre uma região e o mapa que a reduz! Quem lhe teria dito
que aquele papel, onde apenas cabiam suas mãos abertas, encerrava espaços
tão infinitos, selvas tão lôbregas, pântanos tão letais! E ele, o rumbero
curtido, que tão facilmente costumava passar a unha de uma linha para
168
outra linha, abrangendo rios, paralelos e meridianos, como pôde acreditar
que a planta dos seus pés podiam mover-se como o seu dedo?
Mentalmente começou a rezar. Se Deus quisesse emprestar-lhe o
sol... Nada! A penumbra era fria, a fronte transpirava um vapor azul!
Avante! O sol não sai para os tristes!
Um seringueiro declarou com certeza súbita que parecia estar
escutando assobios. Todos se detiveram. Eram os ouvidos que zumbiam.
Souza Machado queria meter-se entre os outros: jurava que as árvores
lhe faziam gestos.
Estavam nervosos, tinham o pressentimento da catástrofe. A menor
palavra os faria estourar em pânico, a loucura, a cólera. Todos esforçavam-
se em resistir. Avante!
Como Lauro Coutinho pretendia mostrar-se alegre, soltou um gracejo
para Souza Machado, que parara para jogar fora a borracha. Isto forçou
a que os ânimos resignassem na hilaridade. Falaram durante um
tempo. Não sei quem fez perguntas a don Clemente.
- Silêncio — grunhiu o italiano. — Lembrem-se de que não se deve
falar com os pilotos e os rumberos!
Mas o ancião Silva, parando de repente, levantou os braços, como
o homem que se entrega preso e, encarando seus amigos, soluçou:
— Andamos perdidos!
No mesmo instante, o grupo desventurado, com os olhos virados
para os galhos e ladrando como cachorros, elevou seu coro de blasfêmias
e súplicas:
— Deus desumano! Salvai-nos, meu Deus! Estamos perdidos!
"Estamos perdidos." Estas palavras, tão simples e tão comuns,
fazem estourar, quando são pronunciadas nos montes, um pavor que não
é comparável nem ao "salve-se quem puder" das derrotas. Pela mente de
quem as escuta, passa a visão de um abismo antropófago, a própria selva,
aberta ante a arma como uma boca que engole os homens que a fome
e o desalento lhe vão colocando nas mandíbulas.
Nem os juramentos, nem as advertências, nem as lágrimas do rumbero
que prometia corrigir a rota, conseguiram aplacar os extraviados.
Arrancavam-se os cabelos, torciam os dedos, mordiam-se os lábios, cheios
de espuminha sanguinolenta, que envenenava as inculpações:
— Este velho é o responsável. Perdeu o rumo porque queria mandar-
se para o Vaupés!
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— Velho mau, velho bandido, nos levava com falcatruas para vender-
nos sabe-se lá onde!
— Sim, sim, criminoso! Deus opôs-se aos seus planos!
Vendo que aqueles loucos podiam matá-lo, o ancião Silva se pôs a
correr, mas uma árvore cúmplice enlaçou-o pelas pernas com um cipó e o
jogou ao chão. Ali o amarraram, ali Peggi exortou-os a que o linchassem.
Foi então que don Clemente pronunciou aquela frase de tanto efeito:
— Querem matar-me? Como poderiam andar sem mim? Eu sou a
esperança!
Os agressores, maquinalmente, detiveram-se.
— Sim, sim, é preciso que viva para que nos salve!
— Mas sem soltá-lo, porque senão se escapa.
E mesmo que não lhe tenham tirado as cordas, prostraram-se de
joelhos para implorar-lhe a salvação e limparem-lhe os pés com beijos e
prantos.
— Não nos desampare!
— Voltemos para a barraca!
— Se você nos abandona, morreremos de fome!
Enquanto uns choramingavam dessa maneira, outros puxavam-no
pela corda, suplicando pelo retorno. As explicações de don Clemente
pareciam reconciliá-los com a cordura. Tratava-se de um percalço muito
conhecido dos mmberos e dos caçadores e não era razoável perder o
ânimo logo na primeira dificuldade, quando havia tantos modos de solucioná-
la. Para que o assustaram? Por que se puseram a pensar no extravio?
Não os tinha instruído várias vezes sobre a urgência de desprezar essa
tentação, que as matas infundem no homem para transtorná-lo? Ele os
aconselhou a não olhar para as árvores, porque acenavam, não escutar os
murmúrios, porque dizem coisas, não pronunciar nenhuma palavra, porque
as folhagens remedam as vozes. Longe de acatar essas instruções,
entraram em troça com a floresta e lhes veio o feitiço, que se transmite
como um contágio; e ele também, mesmo indo adiante, começou a sentir
o influxo dos maus espíritos, porque a selva começou a mover-se,
as árvores dançavam diante dos seus olhos, os cipoais não lhe deixavam
abrir a vereda, os galhos escondiam-se debaixo do facão e, repetidas vezes,
quiseram tomá-lo dele. Quem tinha a culpa?
E depois, por que diabos punham-se a gritar? Que conseguiriam
com tiros? Quem senão o tigre correria para procurá-los? Por acaso estavam
provocando sua visita? Bem podiam esperá-la ao anoitecer!
Isso os aterrou e fez com que guardassem silêncio. Mas também
170
não teriam podido fazer-se entender a mais de duas jardas: à custa de
alaridos, a garganta fechou-se e, dolorosamente, falavam aos sussurros,
com um arquejar gutural e torpe, como o dos gansos.
Antes da hora em que o sol sangüíneo empenacha as lonjuras, foilhes
imperioso acender a fogueira, porque nos bosques a tarde se enluta.
Cortaram galhos e, espargindo-os sobre o barro, amontoaram-se em volta
do ancião Silva para esperar o suplício das trevas. Ah, a tortura de passar
a noite com fome, entre o pensar e o bocejar, sabendo que o bocejo
se intensificará no dia seguinte! Ah, o pesar de sentir soluços na sombra,
quando os consolos têm o sabor de morte! Perdidos! Perdidos! A insônia
jogou por cima deles o seu tropel de alucinações. Sentiram a angústia
do indefeso quando suspeita que alguém o espia no escuro. Vieram os
ruídos, as vozes noturnas, os passos medrosos, os silêncios impressionantes
como um buraco na eternidade.
Don Clemente, com as mãos na cabeça, espremia seu pensamento
para que brotasse alguma idéia lúcida. Só o céu podia indicar-lhe a orientação.
Que lhe dissesse de que lado nascia o sol! Isso lhe bastaria para
calcular outro percurso. Por um claro do telhado, parecido a uma clarabóia,
vislumbrou um retalho do éter azul, sobre o qual um galho seco
estendia suas varetas. Esta visão fez com que se lembrasse do mapa.
Ver o sol, ver o sol! Ali estava a chave do seu destino. Se ao menos falassem
aquelas copas enaltecidas que todas as manhãs o vêem passar! Por
que as árvores silenciosas iriam negar-se a dizer ao homem o que deve
fazer para não morrer? E, pensando em Deus, começou a rezar para a
selva uma súplica de desagravo.
Trepar em qualquer daqueles gigantes era quase impossível: os troncos
eram tão grossos, os galhos tão altos e a vertigem da altura espreitando
nos frondes. Se Lauro Coutinho se atrevesse, que dormia abraçando-
o pelos pés... Quis chamá-lo, mas se conteve: um barulhinho esquisito,
como o de ratos na madeira fina, rasgou a noite: eram os dentes de seus
companheiros que roíam caroços!
Don Clemente sentiu tal compaixão por eles que resolveu dar-lhes o
alívio da mentira.
— Que há? — sussurraram-lhe a meia-voz, apaixonando-se dele as
caras escuras.
E apalpavam os nós da soga que lhe apertaram.
— Estamos salvos!
Estúpidos de satisfação, repetiram a mesma frase: "Salvos, salvos!"
E prostrando-se na terra, apertaram o lodo com os joelhos, para que a
171
dor os deixasse contritos e entoaram um grande ronco de ação de graças,
sem perguntar em que consistia a salvação. Bastou que outro homem
a prometesse para que todos a proclamassem e bendissessem o salvador.
Don Clemente recebeu abraços, súplicas de perdão, palavras de
emenda. Alguns queriam atribuir-se o mérito exclusivo do milagre:
— As orações da minha mãezinha!
— As missas que ofereci!
— O escapulário que levo comigo!
Enquanto isso, a morte devia estar rindo na escuridão.
Amanheceu.
A ansiedade que os sustentava lhes acentuou no rosto a careta trágica.
Magros, febris, com os olhos avermelhados e os pulsos trêmulos,
puseram-se a esperar que o sol saísse. A atitude daqueles dementes debaixo
das árvores infundia medo. Esqueceram o sorrir e, quando pensavam
no sorriso, a boca se dobrava numa contração fantástica.
Suspeitaram do céu que não se divisava em parte alguma. Lentamente
começou a chover. Ninguém disse nada, mas se entreolharam e compreenderam-se.
Decididos a retornar, moveram-se sobre os rastros do dia anterior,
pela margem de uma lagoa onde os sinais desapareciam. Suas pegadas
no barro eram pequenos poços que se inundavam. No entanto, o rumbero
agarrou a pista, gozando do mais absoluto silêncio até perto das
nove da manhã, quando entraram em uns chuscales de vegetação plebéia
onde acontecia um fenômeno singular: tropas de coelhos e guatins*, dóceis
e estonteados, metiam-se entre suas pernas procurando refúgio. Momentos
depois, um rumor grave como o de linfas precipitadas, fazia-se
sentir vindo pela imensidão.
— Santo Deus! As tambochas!
Então, só pensaram em fugir. Preferiram as sanguessugas e abrigaram-
se em uma estagnação, com a água pelo ombro.
Dali, olharam a primeira ronda passar. Como as cinzas que de longe
lançam as queimadas, caíam sobre os charcos tribos fugitivas de baratas
e coleópteros, enquanto as margens se povoavam de aracnídeos e
répteis, obrigando os homens a sacudirem as águas fétidas para que não
avançassem nelas. Um tremor contínuo agitava o solo, como se as folhagens
* Guatim: animal roedor da Colômbia.
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estivessem fervendo por si só. Por baixo de troncos e raízes, o
tumulto da invasão avançava, ao mesmo tempo em que as árvores se cobriam
de uma mancha preta, como uma casca movediça, que ia subindo
implacavelmente, para afligir os ramos, para saquear os ninhos, para colar-
se nos buracos. Alguma doninha desorbitada, algum lagarto moroso,
alguma ratazana recém-parida eram presas ansiadas por aquele exército,
que as descarnava, em meio a chiados, com uma ligeireza de ácidos dissolventes.
Quanto tempo durou o martírio daqueles homens, sepultados até
o queixo no líquido ceno, que observavam com olhos pávidos o desfile de
um inimigo que passava, passava e tornava a passar? Horas horripilantes
em que saborearam de gole em gole o destilado fel da tortura! Quando
calcularam que a última ronda se afastava, pretenderam sair para a terra
firme, mas os seus membros estava paralisados, sem forças para descolar-
se do lodaçal onde haviam-se enterrado vivos.
Mas não deviam morrer ali. Era preciso fazer um esforço. O índio
Venancio conseguiu agarrar-se em alguns galhos e começou a lutar.
Depois agarrou-se a uns cipós. Várias tambochas desgarradas lhe roeram
as mãos. Pouco a pouco sentiu dilatar-se o molde da lama que o prendia.
Suas pernas, ao desligar-se do profundo, produziram estalidos surdos:
Upa! Outra vez e sem desmaiar! Coragem! Coragem!
Já saiu. A água borbulha no buraco vazio.
Arquejando, de boca para cima, ouviu seus companheiros desesperarem,
implorando ajuda. "Deixem-me descansar!" Uma hora depois, valendo-
se de paus e calabres, conseguiu tirá-los todos.
Esta foi a derradeira vez que sofreram juntos. Em direção a que
lado ficou a pista? Sentiam a cabeça em chamas e o corpo rígido. Pedro
Fajardo começou a tossir convulsivamente e caiu banhando-se em sangue
com um vômito de hemoptise.
Mas não tiveram pena do cadáver. Coutinho, o mais velho, aconselhava-
os a não perder tempo. "Tirar-lhe o facão da cintura e deixá-lo
aí. Quem o convidou? Por que veio se estava doente? Não devia prejudicar-
lhes." E dizendo isto, obrigou seu irmão a subir numa copaíba para
observar o rumo do sol.
O infeliz jovem, com pedaços de sua camisa, fez uma tipóia para os
tornozelos. Em vão quis aderir-se ao tronco. Puseram-no sobre as costas
para que agarrasse mais em cima e ele repetiu o esforço titânico, mas o
córtex desprendia-se e o fazia deslizar e recomeçar. Os de baixo o sustentavam,
escorando-o com forquilhas e, alucinados pelo desejo,
173
como que triplicavam sua estatura para ajudá-lo. Por fim, chegou ao primeiro
galho. Ventre, braços, peito, joelhos vertiam sangue. "Está vendo alguma
coisa?" — perguntaram-lhe. E com a cabeça dizia que não!
Já nem se lembravam de fazer silêncio para não provocar a selva.
Uma violência absurda pervertia-lhes o coração e requintava-lhes um
furor de náufrago, que não reconhece parentes nem amigos quando,
a punhaladas, mesquinha seu bote. Gesticulavam para o alto para interrogar
Lauro Coutinho. Não está vendo nada? Tem que subir mais e agarrar-
se bem!
Lauro em cima do galho, colado ao tronco ofegava sem responder-
lhes. A tamanha altitude, tinha a aparência de um macaco ferido,
que ansiava esconder-se do caçador. "Covarde, tem que subir mais!"
E loucos de fúria, ameaçavam-no.
Mas, subitamente, o rapaz tentou descer. Um grunhido de ódio
ressoou embaixo. Lauro, apavorado, respondeu-lhes: "Estão vindo mais
tambochas. Vêm mais tambo...!"
A última sílaba ficou engrolada em sua garganta, porque o outro
Coutinho, com um tiro de carabina que tirou-lhe a alma pelo costado,
fê-lo descer como uma bola.
O fratricida ficou vendo-o. "Ai, meu Deus, matei o meu irmão,
matei o meu irmão!" E jogando a arma para um lado, pôs-se a correr.
Todo mundo correu sem saber para onde. E dispersaram-se para sempre.
Noites depois, don Clemente Silva os escutou gritar, mas temeu que
o assassinassem. Também tinha perdido a compaixão, também estava possuído
pelo deserto. Às vezes, o remorso o fazia chorar, mas se reabilitava
perante sua consciência só em pensar em sua própria sorte. Apesar de
tudo, voltou para buscá-los. Achou as caveiras e alguns fêmures.
Sem fogo, nem fuzil, perambulou dois meses pelos montes, feito
um idiota, ausente de seus sentidos, animalizado pela floresta, desprezado
até pela morte, mastigando talos, cascas, cogumelos, como besta herbívora,
com a diferença que observava que tipo de caroços os micos comiam
para imitá-los.
Não obstante, uma manhã teve uma revelação repentina. Parou
diante de uma palmeira de cananguche que, segundo a lenda, descreve
a trajetória do astro diurno, assim como o girassol. Nunca tinha pensado
naquele mistério. Esteve em êxtase durante ansiosos minutos, constatando-
o, e acreditou observar a alta folhagem movendo-se pausadamente,
com o ritmo de uma cabeça que gastasse doze horas justas para inclinar-
se do ombro direito até o contrário. A voz secreta das coisas encheu-lhe a
alma.
174
Seria certo que essa palmeira, elevada naquele desterro como um
indicador em direção ao azul, estava mostrando-lhes a orientação? Verdade
ou mentira, ele a ouviu dizer. E acreditou! O que necessitava era
uma crença definitiva. E pelo caminho do vegetal começou a perseguir
o próprio.
Foi assim que pouco tempo depois encontrou a linha do rio Tiquié.
Aquele caño de curvas estreitas pareceu-lhe estagnação de águas de um
pantanal, e pôs-se a jogar-lhe folhinhas para ver se a água corria. Os Albuquerques encontraram-no nesta tarefa e, quase de quatro, arrastaram-
no para o barracão.
— Quem é este espantalho que conseguiram na caçada? — perguntaram-
lhes os seringueiros.
— Um picure que só sabe dizer: Coutinho!... Peggi!... Souza
Machado!...
Dali, ao terminar o ano, fugiu em uma canoa para o Vaupés.
Agora está aqui sentado, na minha companhia, esperando que a al
vorada raie para que cheguemos às barracas do Guaracú. Talvez esteja
pensando em Yaguanarí, no Yavareté, nos companheiros extraviados.
"Não vá você a Yaguanarí", vivia me aconselhando. Eu, lembrando-me de
Alícia e do meu inimigo, exclamo colérico:
— Irei, irei, irei!
Ao amanhecer, foi suscitada uma discussão na qual, por sorte, não
perdi o aprumo. Tratava-se da forma como devíamos pedir a hospitalidade.
Era indubitável que a presença inesperada de quatro homens desconhecidos
provocaria sérios alarmes nos tombos. Um de nós devia arriscar-
se a explorar o ânimo do empresário, para que os outros, que ficariam
na expectativa, com a selva ao alcance, não se expusessem a sofrer uma
servidão irreparável. Por fim, chegou-se à conclusão que aquela tarefa
me correspondia; mas os meus companheiros negaram-se resolutamente
a deixar que eu fosse armado.
Com esta precaução ofendiam minha cordura e, contudo, aceitei-
a de maneira tácita. Evidentemente, certos atos parece que se antecipam
às minhas idéias: quando o cérebro manda, meus nervos já estão em ação.
Era bom privar-me de qualquer meio que pudesse acender a minha agressividade;
e qualquer homem armado está sempre a dois passos da tragédia.
Entregando-lhes o revólver que tinha no cinturão, repeti-lhes as
175
minhas advertências: esperem-me aqui, se alguma coisa grave acontecer,
escaparei nessa noite mesmo e nos juntaremos para...
E parti sozinho, com o dia já entrado, em direção à morada do capataz.
Enquanto marchava com passo azarado, minha decisão começou a
tomar corpo e me lembrei do projeto do catire Mesa: assaltar a barraca,
nos apoderar do "tesouro" de don Clemente, agarrar os víveres que encontrássemos
e fugir com o rumbero pelo meio do bosque, procurando
as fontes próximas do rio Guainía, dispostos a descê-lo, sem correr contingências
com o Isana, seu tributário.
Não seria melhor invadir os tombos aos tiros e facões? Por que chegar
como mendigos para pedir amparo? Detive-me indeciso e olhei para
trás. Meus camaradas, colocando a cabeça para fora das frondes, esperavam
alguma ordem. Noutras ocasiões, teria gritado com um acento áspero
de voz: Mentecaptos! Por que deixam que os cachorros venham!
Porque Martel e Dólar corriam apressados sobre o meu rastro e, em
breve, desesperando-me de inquietação, levariam pelas barracas o anúncio
da minha presença. Impossível voltar atrás.
Avancei. Não acreditei no que estava vendo. Esses pobres cobertiços
de estilo indígena eram os tão falados barracões do Guaracú? Esses
casebres miseráveis, ameaçados pelo restolho, podiam ser a sede de um
sátrapa, que tinha escravos e concubinas, senhor dos montes e amo dos
rios? Certo que os rancheiros só constróem habitações ocasionais e
mudam sua residência de um riacho a outro, conforme a abundância do
seringal; certo que o Cayeno, estabelecido anos antes perto dos caudais
do Guaracú, foi movendo-se Isana acima, sem mudar o nome da empresa,
até situar-se no istmo de Papunagua para exercer domínio sobre o Inírida,
contra Funes. Mas estas razões não aliviavam o meu desencanto
diante do mal aspecto da sede do seringal.
Um dos tambos, pelo desleixo dos seus moradores, estava quase
enredado por um cipó andador de folhas lanosas e cabacinhas amareladas.
No chão, espinhas de peixe, conchas de tatu, vasilhas de lata carcomidas
pela ferrugem. Em chinchorros sujos, estendidos sobre a fumaça
de tições que afugentava os pernilongos, aborreciam-se umas mulheres
de fístulas que fediam a tintura de iodo e lenços amarrados na cabeça.
Não me perceberam, não se moveram. Parecia-me haver chegado a um bosque
de lenda onde a Desolação cochilava.
Foram os meus cachorros que dissiparam o marasmo: no caney
próximo, fizeram um mico guinchar, um mico que amarrado pela cintura
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pendia de um coleiro, no extremo da correia. A dona saiu. Apareceram
umas pessoas doentes. Por todos os lados, garotinhos nus e mulheres
grávidas.
— Você trouxe mañoco para vender?
— Sim. O amo está em casa?
- Naquele caney. Diga-lhe que compre. Estamos com fome.
— Manoco, ai, mañoco! De qualquer modo o pagamos!
E com uma salivação antecipada, saborearam seu próprio desejo.
O caney do amo não tinha paredes;tabiques de palmeiras dividiam
os cômodos. Propriamente, carecia de portas, mas seus buracos eram tapados
com pranchas de chusque. Naquele momento, eu não soube aonde
chamar. Por cima da palma que servia de parede a uma alcova, olhei
para dentro, com uma suspeita sutil. Numa rede de franjas floreadas, uma
mulher vestida de rendas estava fumando. Era a madona Zoraida Ayram.
E me viu bisbilhotando-a!
— Váquiro, Váquiro! Tem um homem aqui!
Não achei que dizer. Aproximei-me da porta próxima. A madona
tinha um revólver na mão, pequenino como um brinquedo. Meus camaradas
estariam observando os meus movimentos. O entrar sem chapéu
no barracão era sinal de que o capataz estava presente. Mas demorei em
pensar que era ele que estava saindo do cômodo contíguo, encapsulando
a carabina.
— Que quer você?
— Senhor, sou Arturo Cova. Pessoa de paz.
A madona, assim como quem burla de seus nervos, disse com uma
pronúncia pitoresca, reparando em mim, enquanto guardava o revólver
no corpinho:
— Ah, Alá. Levem esse imundo para a cozinha!
O Váquiro replicou, esticando para mim sua mão quadrada:
— Sou Aquiles Vácares, veterano da Venezuela, guapo pró chumbo
e pra qualquer homem!
Com o que murmurei tirando o chapéu com reverência:
- Saúde, General!
O Váquiro ocupou seu chinchorro do corredor, com a carabina
nas pernas. Ordenou-me que sentasse no banco próximo. Fiquei perplexo,
mas expliquei a minha indecisão com estas razões:
— General, seria possível que eu tomasse assento ao lado de um
chefe? Seus foros militares me o proíbem.
177
— Isso sim é verdade.
O Váquiro era bêbado, estrábico, fanhoso. Seus bigodes, inimigos
do beijo e da carícia, alvoroçavam-se, inexplicáveis, sobre a boca, em cujo
interior a caixa de dentes movia-se desajustada. Em seu rosto mestiço,
a cicatriz de algum machete pedia justiça, da orelha até o nariz. Pelo
decote de sua jaqueta irrompia do peito uma reprimida penugem hirsuta,
tão ingrata de emanação como abundante de suor termal. Seu cinturão
de couro curtido se dava a pretensão a ser um mostruário bélico:
facão, punhal, cápsulas, revólver. Vestia calça de caqui e calçava sandálias
soltas, que, ao mover-se, davam aplausos debaixo de seus calcanhares.
— Como foi que você fez para adivinhar as patentes que tenho?
— Um veterano tão eminente deve ter percorrido a lista hierárquica.
-O quê?
— Lista hierárquica.
— Me diz uma coisa: e na Colômbia falam o meu nome?
- Quem não ouviu falar do Valente Aquiles"?
— Isso sim que é verdade.
— Paladino homérida!
— Advirto-lhe que não sou de Mérida, senão que de Coro.
Nesse momento, em grupo arquejante, meus camaradas apareceram
na extremidade do corredor, desarmados. O Váquiro, suspeitante, manteve-
se de pé. Fiz uma apresentação modesta:
— Senhor general, estes são companheiros meus.
Os três, sem aproximaram-se, murmuraram confusos:
— Senhor General!... Senhor General!...
Compreendi que era tempo de improvisar um discurso lírico para
que o Váquiro se acalmasse. Tergiversei as instruções de don Clemente.
Logo minha língua adquiriu um tom irresistível de convicção. Eu mesmo
me admirava de minha imaginação, rindo, por dentro, da minha própria
solenidade.
Éramos barraqueiros do rio Vaupés e morávamos numa zona eqüidistante
de Calamar e da confluência do Itilla e do Unilla. Trabalhávamos
com mañoco, siringa e caroços. Tínhamos em Manaus um explêndido
cliente, a casa Rosas, em cujo poder eu tinha uma poupança de
umas mil libras, que representavam o meu trabalho de penosos meses
como produtor e comissionista.
Ao dizê-lo, notei que a madona punha atenção ao meu relato,
178
porque deixou de soar a rede no quarto contíguo. Este detalhe me produziu
certo soçobro e mudei o rumo das minhas fantasias.
— Senhor General, infelizmente, o Vaupés nos opõe pérfidos caudais
e, perdemos em um trambuque, na correnteza do Yavareté, nossa
colheita de agora e três anos.
E repeti, intencionalmente: no próprio caudal do Yavareté, nas
raízes de um jacarandá.
A madona assomou à porta, enchendo com a sua figura o gonzo e
o dintel. Era uma fêmea adiposa e agigantada, redonda de peitos e de
cadeiras. Olhos claros, pele leitosa, gestos vulgares. Com suas roupas
brancas e suas rendas, tinha a aparência de uma cascata. Um longo colar
de contas azuis pendia do seu seio, como uma madressilva no cume.
Seus braços, ressoando de pulseiras e desnudos desde a altura dos ombros,
eram pulposos e acetinados como duas almofadas para o prazer e, na
mão cheia de jóias, tinha uma tatuagem que representava dois corações
atravessados por um punhal.
Enquanto a olhava, absolvi mentalmente tua inexperiência, desventurado
Luciano Silva e percebi o desenlace de tua paixão!
— Quais são os rapazes que conhecem o rio Vaupés? — perguntou,
regando na atmosfera o cálido perfume de seu leque.
— Os quatro, senhora.
— E o filiado à casa Rosas? O comissionista?
— Seu admirador.
— Quanto foi que lhe ordenaram que podia pagar pela borracha?
— A de primeira, um conto de réis. Mais ou menos uns trezentos
pesos.
— Não lhe disse, Váquiro, que não se pode pagar mais?
— Olha: não permito que você me apelide assim! Chame-me pelo
meu nome: General Vácares! Aprenda com o jovem Cova que, ele sim,
sabe tratar os chefes!
— Não tenho nada a ver com nomes e títulos. Devolva o meu dinheiro
ou pague-me em borracha, ao preço de trezentos pesos, menos o
frete, porque eu não viajo à toa. O resto, não me importa nem um pouco!
— Não seja grosseira!
— Pois então não seja trambiquero, não seja canalha, nem muito
menos. Saiba que as damas devem ser recebidas de luvas brancas. Aprenda
também com este cavalheiro que me disse "seu admirador".
— Calma, minha senhora; calma, General.
O sufocado chefe ordenou-me com um gesto heróico:
179
— Vamos pra fora, onde não nos venham interromper!
Ao despedir-me da madona, fiz uma profunda reverência.
... E como lhe dizia, a casa Rosas ordenou-me que daqui em diante
esquivássemos o Vaupés e, pelo Caño Grande, desceríamos para o Inírida,
em direção a San Fernando de Atabajo, onde podíamos consignar-
lhe ao Govenador os produtos que conseguíssemos, pois era agente seu e
tinha a incumbência de remetê-los pelo Orinoco, para a ilha de Trinidad.
— Rapazes! E não sabiam que Pulido foi assassinado?
— General, vivemos no limbo dos desertos...
— Pois foi esquartejado, para roubarem o que tinha e para agarrarem
a Governança.
— O Coronel Funes!...
— Que Coronel que nada! Está degradado! Cuspa este nome!
Cuidado para não tornar a falá-lo aqui!
E para dar-me o exemplo, deixou cair uma larga salivada e a esfregou
com os calcanhares.
— Senhor General, eu fui precavido: fiz saber à casa Rosas que em
nenhum caso responderia pelos acidentes que a nova rota ocasionasse e,
aprovada esta base, deixamos nossas barracas já faz dois meses, carregados
de mañoco, sarapia* e borracha. Mas o Inírida é tão invejoso quanto
o Vaupés e, ao chegar à boca do Papunagua perdemos tudo! Viemos pelo
monte, no cúmulo da miséria, para pedir amparo.
— E o que será que você quer?
— Que me tripulem em uma canoa para enviar uma mensagem a
Manaus, levando o aviso da catástrofe e trazendo dinheiro. Seja da Caixa
do nosso cliente, seja da minha conta e que nos dêem pousada para os
quatro náufragos até que a expedição regresse.
— Não temos marinha... estamos escassíssimos de mañoco!
— Dê-me você um remador conhecedor e o mulato Corrêa irá com
ele. Pagaremos o que nos peça. Os chefes não conhecem dificuldades.
— Isso sim que é verdade!
A madona, que ouvia este diálogo, me chamou a um lado:
— Cavalheiro, eu podia vender-lhe um remador que é meu.
- Não interrompa você! Deixe-nos conversar!
— E por acaso não é meu o rumbero Silva? Não lhes provei que era o
"picure" do pessoal do Yaguanarí? Não sabem que Pezil não me pagou ele?
- Senhora, se deseja... Se o General não me proíbe...
*
Sarapia: árvore leguminosa da América do Sul, cuja madeira é empregada na
carpintaria.
180
—
Que General! Não é este que manda, mas sim o Cayeno! Este é
um pobre-diabo que vive arrotando que é administrador.
— Não seja língua de trapo! Vou provar-lhe que tenho o mando:
jovem, pode contar com a embarcação!
— Muito obrigado! Muito obrigado! Com relação ao remador, se
a senhora me vende o picure, se aceita um cheque de Manaus...
— E que me dá de garantia enquanto o descontam?
— Nossas pessoas.
— Ah, não! Isso não! Por Alá!
— Não me surpreende a desconfiança. É verdade que nossas aparências
contradizem nossa solvência: descalços, esfarrapados, necessitados.
Só aspiro pôr em suas mãos tudo aquilo que possuímos. Escolham o
pessoal que realizará a comissão. O indispensável é que saia logo com
nossas cartas e que tenha cuidado com as mercadorias e valores que solicitamos
e que vocês mesmos receberão: medicamentos, provisões e, especialmente,
alguns licores, porque convém alegrar a vida neste deserto.
— Isso sim que é verdade.
Quando a madona, pensativa, nos deixou a sós, roguei ao chefe:
— Jure-me, General, que contaremos com a sua valia!
— Jovem, gosto muito pouco de jurar sobre a cruz, porque sou
ateu. A minha religião é a da espada!
E levando a destra ao cinto, como garantia de seu juramento, mur
murou solene:
— Deus e a Federação!
Ao entardecer, a madona reapareceu. Diante do cobertiço que o
Váquiro nos destinou, deu-me a honra de passear o seu tédio, coberta
com um véu de gaze nívea que a defendia dos jejéns.
Junto à fogueira ociosos, bocejávamos em silêncio, esperando os
pescadores que foram ao rio para conseguir a ceia. Franco tirou mañoco
dos bolsos e o comíamos aos punhados, quando reparamos na mulher.
Ao vê-la, virei a cara para outro lado, com o chapéu sobre a testa, enver
gonhado da miséria em que me achava.
— Está olhando para mim?
- Muito, mas disfarça.
— Foi embora?
— Está fazendo uns carinhos nos cachorros.
- Pare de observá-la porque está se aproximando.
— Já está vindo! Já está vindo!
181
Levantei o rosto para defrontar-me com ela e a vi vindo, pisando
nas ervas, branca, em meio à penumbra semilunar. Passou perto de mim,
cumprimentando-me com a mão e envolveu esta recriminação com um
sorriso:
— Nossa! Como estamos esquives! Não há como se ter saldo na
casa Rosas.
Muda, a vi afastar-se em direção ao seu caney, quando Franco me
sacudiu:
— Ouviu? Já está intrigada com o dinheiro. Temos de conquistá-la
imediatamente!
— Sim! Vamos ver se torna a chamar-me de "sebento". Vai
cair! Vai cair! O desprezo de uma mulher não tem perdão! Imundo! De
noite vamos lavar nossas roupas e vamos secá-las na candeia. Amanhã...
A turca colocou no pátio sua cadeira portátil e se inclinou debaixo
dos luzeiros para respirar fragrâncias do monte. Aquela atitude
não tinha outra finalidade que a de fascinar-me, aqueles olhos voltados
para as alturas queriam que eu os contemplasse, aquele pensamento que
fingia vagar na noite, estava conspirando contra o meu repouso. Outra
vez, como nas cidades, a fêmea bestial e calculadora, sedenta de proveitos,
vendia-me sua tentação!
Observando-a de soslaio, comecei a sentir a agressividade que precede
os desafios. Mulher singular, mulher ambiciosa, mulher varonil! Pelos
rios mais solitários, pelas correntezas mais perigosas, atrevia sua barcaça
em busca dos seringueiros, para trocar com eles a borracha roubada por
quinquilharias, expondo-se às violências de todos os tipos, à traição de
seus próprios marinheiros, ao fuzil dos assaltantes, ansiosa por acumular
centavo por centavo à fortuna com que sonhava, ajudando-se com o seu
corpo quando o êxito do negócio assim o exigisse. Para enfeitiçar os
homens selváticos, adornava-se com grande esmero e, ao desembarcar
nos barracões, limpa, cheirosa, confiava a defesa dos seus bens à sua prometedora
sensualidade.
Quantas noites como esta, em desertos desconhecidos, teria armado
o seu catre nas areias ainda quentes, desiludida com seus esforços, com
ganas de chorar, órfã de amparo e proteção. Depois do dia sufocante,
cujo sol tosta a pele e avermelha os olhos com dupla chama ao quebrar-se
nas águas fluviais, a suspeita noturna de que os remadores vão desgostosos
a conceberem algum plano sinistro; depois do suplício dos mosquitos,
o tormento dos pernilongos, a ceia mesquinha, o resmungo do temporal,
o toró aceso e vertiginoso. E fingir confiança nos marinheiros que querem
182
roubar a embarcação e relevá-los na guarda e agüentar-lhes resmungos e
maus modos para que a alvorada continue a viagem em direção ao caudal
que proíbe a passagem, em direção às lagoas onde o seringueiro prometeu
entregar um quilo de borracha, em direção aos ranchos dos devedores
que nunca pagam e que se escondem ao divisar a nau tardia!
Assim, continuando o êxodo repetido, ao som do monótono
chapinhar dos remos, deve ter medido a imensa distância que há entre a
miséria e o ouro esplêndido. Sentada sobre os fardos, na proa da barcaça,
no abrigo de sua sombrinha, repassaria na mente as suas contas, confrontando
dívidas e ingressos, vendo impaciente como um ano passava
após o outro, sem deixar-lhe nas mãos a dádiva valiosa, como esses rios
que onde confluem só arrojam as espumas no areal. Queixosa da sorte,
agravaria sua decepção ao pensar em tantas mulheres nascidas na abundância,
no luxo, na ociosidade, que jogam com sua virtude para ter com
que se distrair e que, mesmo perdendo-a, continuam com honra, porque
o dinheiro é outra virtude. E ela, ungida no jugo da pobreza, lutando a
peito aberto para comprar o descanso da velhice e voltar para sua terra,
que lhe negou todos os prazeres, menos o de querê-la, o de recordá-la.
Talvez tenha mãe que sustentar, irmãos que educar, dívidas sagradas
para saldar. E por isso, a necessidade a forçaria a polir seu rosto, adornar
seu corpo, refinar sua lábia, para que os artigos adquirissem categoria;
as cobranças, proveito; as ofertas, solicitação.
Isso pensava já com a mente romântica, despossuído de rancor,
vendo-a engenhar-se para adquirir império sobre o meu ser. Ambiciava
o meu ouro ou a minha juventude? Bem podia escolher o que lhe aprouvesse.
Naquele momento sentia por ela a solidariedade dos desgraçados.
Sua alma, endurecida pelo comércio, devia pagar tributo ao pesar e à
ilusão, mesmo com suas ambições tendo sido sempre vulgares. Talvez,
como eu, do amor humano só conhecesse a paixão sexual, que não deixa
lágrimas, senão tédio. Alguém teria rendido seu coração? Pareceu não
lembrar-se de Lucianito quando, ao mencionar o Yavareté, fiz velada-
mente a evocação da sepultura. Talvez outros pesares constituíssem o
patrimônio da sua dor, mas era certo que sua maciça feminilidade não vivia
insensível às sugestões espirituais: seus grandes olhos denunciam por
momentos uma angústia sentimental, que parece contagiada pela tristeza
dos rios que percorreu, pela lembrança das paisagens que não voltou
a ver.
Lentamente, dentro do perímetro dos ranchos, começou a flutuar
uma melodia semi-religiosa, leve como a fumaça dos incensórios. Tive a
183
impressão de que uma flauta estava dialogando com as estrelas. Depois,
pareceu-me que a noite era mais azul e que um coro de freiras cantava no
seio das montanhas, com a voz emagrecida pelas folhagens, de lonjuras
inconcebíveis. Era que a madona tocava um acordeon sobre suas
coxas.
Aquela música de segredo e de intimidade dava motivo a evocações
e saudades. Cada um começou a sentir em seu coração que uma voz conhecida
o estava interrogando. Várias mulheres com seus bebês vieram
acocorar-se junto à tangedora. Paz, mistério, melancolia. Elevado pelos
arpejos, o espírito se desligava da matéria e empreendia viagens fabulosas,
enquanto o corpo ficava imóvel, como os vegetais circunvizinhos.
Minha psique de poeta, que traduz o idioma dos sons, entendeu o
que aquela música ia dizendo aos circunstantes. Fez aos seringueiros
uma promessa de redenção, realizável da data em que uma mão (oxalá
fosse a minha) esboçasse o quadro de suas misérias e dirigisse a compaixão
dos povos em direção às florestas aterradoras; consolou as mulheres
escravizadas, lembrando-lhes que os seus filhos hão de ver a aurora da liberdade
que elas nunca olharam e, individualmente, nos trouxe a todos o
dom de sentirmos carinho por nossas penas, por meio do suspiro e do
sonho.
Em poucos minutos, voltei a viver meus anos pretéritos, como espectador
da minha própria vida. Quantos antecedentes indicadores do
meu futuro! Minhas brigas de criança, minha puberdade agreste e voluntariosa,
minha juventude sem afagos nem amor! E quem me comovia naquele
momento até abrandar-me à mansidão e desejar estender-lhes os
braços, em meu ímpeto de perdão para com os meus inimigos? Esse milagre
era realizado por uma melodia quase pueril! Sem dúvida, a madona
Zoraida Ayram era extraordinária! Tentei gostar dela, como a todas
as outras, por sugestão. Abençoei-a, e idealizei-a. E, lembrando-me das
circunstâncias que me rodeavam, chorei por ser pobre, por andar malvestido,
pela sina de tragédia que me persegue.
Franco foi acordar-me pela manhã e encontrou meu chinchorro vazio.
Correu logo para o caño onde eu cumpria minha ablução matinal
e me deu esta notícia desconcertante:
— Vista-se ligeiro pois a madona vai propor-lhe uma transação.
— Minhas roupas ainda estão úmidas.
— Que importa? Temos que aproveitar! Ela saiu do banho, ao amanhecer,
e já nos deu um tremendo presente: biscoitos, café, duas latas de atum.
184
Quer falar com você, agora que estamos sós, já que o Váquiro foi
embora bem cedo para vigiar os seringueiros e só voltará de tardinha.
- E o que quer dizer-me?
- Que a prefira no negócio. Que se você pedir dinheiro para comprar
borracha, que tome do Cayeno tudo que tenha nestes depósitos,
para ver se ele lhe paga o que está devendo. Depressa, vamos!
A madona, no pátio, conversava animadamente com o mulato e o
catire, mostrando-lhes as rendas e os dedos, como se estivesse querendo
instá-los a que desmaiassem de admiração. "É uma vitrina ambulante —
advertiu-me Franco —: propõe-nos que compremos tecidos, anéis, jóias,
parecidas às que usa ou de melhor laia. Diz que chegou sozinha em uma
curiara, tripulada por três nativos e que deixou sua lancha no casarão
de San Felipe, em pleno Rio Negro, porque o alto-Isana é intransitável.
Mas onde tem a mercadoria que nos oferece? Eu poderia jurar que sua
barcaça está escondida em algum pantanal, com medo de que a possam
roubar, e que pessoas dedicadas a estão esperando ali."
No calor da sesta, resolvi apresentar-me à mulher em sua própria
alcova, sem anunciar-me, pensando num discurso preparado e com uma
certa emoção que aumentava a minha palidez. Surpreendi-a tragando
seu cigarro com uma piteira de âmbar, estendida na rede sonolenta, um
pé sobre o outro e a bainha da saia varrendo o chão com um compasso
vagaroso.
Ao ver-me, conseguiu sentar-se, com um desgosto fingido por
minha imprudência, ajustou-se a blusa desabotoada e, observando-me
emudeceu.
Então, com uma teatralidade ilusória, que, certamente, foi muito
sincera, murmurei abaixando os olhos:
- Não repare, senhora, nos meu pés descalços, nem em meus remendos,
nem na minha figura: meu porte é a triste máscara do meu
espírito, mas por meu peito passam todos os caminhos para o amor.
Bastou-me uma olhada na madona para compreender meu equívoco.
Tampouco entendia a necessidade da minha submissão, quando
teria podido dar à minha alma, ansiosa por um afeto qualquer, as orientações
definitivas; também não soube velar-se com o espírito para fazer-me
esquecer a fêmea diante da mulher.
Desgostoso com meu ridículo, sentei-me ao seu lado, decidido a
víngar-me de sua estupidez e, passando o braço pelos seus ombros,
dobrei-a contra mim, bruscamente e os meus dedos obstinados ficaram
marcados em sua pele.
185
Ajeitando-se o prendedor de cabelos, protestou ansiosa:
— Esses colombianos são atrevidos!
— Sim, mas em empresas de muita monta!
— Fica quieto! Deixa-me repousar!
— Você é insensível como os seus cabelos.
— Ah, por Alá!
— Beijei sua cabeça e você não sentiu.
— Para quê?
— Como se tivesse beijado a sua inteligência!
— Ah, sim!
Durante um instante ficou imóvel, menos recatada que alarmada,
sem olhar para mim, nem protestar. De repente, pôs-se de pé.
— Cavalheiro, não me belisque. Está equivocado.
- Meu coração nunca se equivoca.
E dizendo isso, mordi a face do seu rosto, só uma vez, porque nos
meus dentes ficou um saborzinho a vaselina e pó-de-arroz. A madona,
apertando-me contra o peito prorrompeu chorosa:
— Meu anjo, prefira-me no negócio. Prefira-me.
O resto foi por minha conta.
Até uns garotinhos pançudos cercaram-me com os seus alguidares,
choramingando um pedido ensinado por suas mães que, numa roda famélica,
instigavam-nos do outro caney, ajudando-lhes com os olhos na súplica
mendicante: Mañoco, ai, mañoco!
Então, a madona Zoraida Ayram, com sua mão usureira e branca,
que ainda tinha a agitação das últimas sensações, quis demonstrar sua generosidade
e obter o meu aplauso: exercendo direitos de dona-de-casa,
franqueou a dispensa aos pedinchões e ordenou-lhes encher as vasilhas
até que se saciassem. Os garotos aventuraram-se pelo mapire, como corvos
sobre o trigal, quando, subitamente, uma velha invejosa alarmou-os
com estas palavras: "Uiii! Guris! O velho!" E a turma apavorada debandou
com tal precipitação que alguns caíram derramando a preciosa dádiva,
apesar do que, os mais espertos recolheram do chão vários punhados e
os meteram na boca com terra e tudo.
O espanto daqueles pequerruchos era o rumbero Clemente Silva
que, tendo ido pescar, regressava com as redes ineficazes. Sentem um grave
receio diante do ancião, com quem os assustam desde que saem da
lactância, ensinando-lhes que, quando crescerem, ele vai extraviá-los no
186
centro das águas estagnadas, debaixo de seringais escurecidos, onde a
selva irá tragá-los.
A arisca timidez dos indiozinhos cresce sob a influência de superstições
grotescas. Para eles o amo é um ser sobrenatural, amigo do máguare,
quer dizer, do diabo, e por isso os montes lhe dão ajuda e os rios
guardam os segredos de suas violências. Aí está a ilha do "Purgatório",
onde viram perecer, a mando do capataz, os seringueiros desobedientes,
as índias ladronas, os meninos desobedientes, amarrados à intempérie,
em total nudez, para que os pernilongos e os morcegos os justiciem.
Tal castigo amedronta os pequeninos e, antes de fazer cinco anos de
idade, saem para os seringais nas quadrilhas das mulheres, com medo dos
patrões que os obrigam a picar os troncos e com medo da selva que deve
odiá-los por sua crueldade. Sempre anda com eles algum lenhador que
derruba para eles determinado número de árvores e é digno de ver-se
como torturam o vegetal no chão, ferindo-lhe galhos e raízes, com pregos
e puas, até extrair a última gota de suco.
— Don Clemente, que acha você desses rapazes?
— Que em mim têm medo do seu porvir.
— Mas você é homem de bom agouro. Compare nossos temores
de dois dias atrás com a tranqüilidade que gozamos agora.
Assim disse e, pensando em nossa próxima separação, nos arrependemos
amargamente de ter falado e emudecemos, fazendo com que
nossos olhos não se encontrassem.
— Conferenciou hoje com os meus companheiros?
— Como amanhecemos pescando, devem estar dormindo a sesta.
— Vamos vê-los!
E quando passamos na frente de um caney, próximo ao rio, vi um
grupo de meninas, de oito a treze anos, sentadas no chão, num círculo
triste. Todas elas estavam vestidas com chinques sujos, atravessadas em
forma de faixa e suspensos sobre o ombro com um cordão, de modo que
o peito e os braços ficassem nus. Uma catava piolhos de sua companheira
que havia dormido sobre os seus joelhos; outras preparavam um cigarro
no córtex de um tabari, fino como um papel; esta, de vez em quando,
mordia com displicência um abiu leitoso; aquela, de olhos estúpidos e cabelos
desgrenhados, distraía a fome de uma criatura que dava pontapés
em suas pernas, colocando o dedo mínimo em sua boca, à falta de teta
já exausta. Nunca mais verei outro grupo com uma desolação mais
infinita!
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— Don Clemente, o que é que essas indiazinhas ficam fazendo
enquanto seus pais não voltam?
— Estas são as amantes dos nossos amos. Trocaram com seus pais
por sal, tecidos, trastes velhos ou arrancaram-nas de suas choupanas como
imposto de escravidão. Elas quase não conheceram a inocência serena que
a infância respira, nem tiveram outro brinquedo que não fosse o pesado
tarro de carregar água, ou o irmãozinho sobre o quadril. Quão impuro foi
o holocausto de sua virgindade! Antes dos dez anos são compelidas à
cama, como um suplício e, descadeiradas por seus patrões, crescem enfermiças,
taciturnas, até que um dia sofrem o espanto de sentirem-se mães,
sem compreender a maternidade.
Enquanto íamos caminhando, trêmulos de indignação, observei
um semiteto de mirití, sustentado por duas forquilhas, das quais pendia
um chinchorro miserável, onde descansava um sujeito jovem, de cútis
cerosa e aspecto estático. Seus olhos deviam ter alguma lesão, porque os
cobria com os trapos amarrados sobre a testa.
— Como se chama aquele sujeito que tapou a cara com a manta
como se estivesse desgostoso com a minha presença?
— Um compatriota nosso. É o solitário Esteban Ramírez, que tem
a visão meio perdida.
Então, aproximando-se do chinchorro e descobrindo-lhe a cabeça,
disse-lhe com a voz tênue e emocionada:
— Olá, Ramiro Estévanez. Você acha que não o conheço?
Um afeto singular sempre me ligou a Ramiro Estévanez. Teria
querido ser o seu irmão mais moço. Nenhum outro amigo conseguiu
inspirar-me aquela confiança que, mantendo-se dignamente na esfera
do trivial, tem um império elevado no coração e na inteligência.
Sempre nos vimos, nunca nos chamamos por você. Ele era magnânimo;
eu, impulsivo. Ele, otimista; eu, desolado. Ele, virtuoso e platônico;
eu, mundano e sensual. Não obstante, a dessemelhança nos aproximou
e, sem desviar as inclinações inatas, nos completávamos no espírito,
pondo eu a imaginação e ele a filosofia. Também, mesmo distanciados
pelos costumes, nos influímos pelo contraste. Pretendia manter-se incólume
ante a sedução das minhas aventuras, mas quando me as censurava,
era inundado por certa curiosidade, uma espécie de regozijo pecaminoso
pelos desvios dos quais seu temperamento tornou-o incapaz,
sem deixar de reconhecer-lhes uma atração vital às tentações. Acho que,
por trás dos seus conselhos, mais de uma vez teria trocado a sua temperança por minhas loucuras. Dessa maneira, cheguei a habituar-me a comparar
188
nossos pareceres, de tal modo que em todos os meus atos já me
preocupava uma reflexão: que pensará disso o meu amigo mental?
Amava da vida tudo aquilo que era nobre: o lar, a pátria, a fé, o
trabalho, tudo que fosse digno e louvável. Arrimo de seus parentes, viveu
circunscrito à obrigação, reservando-se para si os serenos gozos espirituais
e conquistando da pobreza o luxo real de ser generoso. Viajou,
instruiu-se, comparou civilizações, compreendeu os homens e as mulheres
e, por tudo isso, adquiriu depois um sorriso sardônico, que se relevava
quando punha em seus juízos a pimenta da análise e em suas conversas
o coquetismo do paradoxo.
Outrora, assim que soube que ele cortejava uma certa beldade de
categoria, quis perguntar-lhe se era possível que um jovem pobre pensasse
em compartir com outra pessoa o escasso pão que conseguia para seus
pais. Não tratei de nada a fundo, porque ele me interrompeu com a frase
justa: "Não me resta nem o direito à ilusão"?
E a louca ilusão o levou ao desastre. Tornou-se melancólico, reservado,
e acabou por negar-me sua intimidade. Contudo, disse-lhe um dia
só para indagá-lo: "Tomara que o destino reserve o meu coração para qualquer
mulher cujos parentes não se achem superiores, por nenhum motivo,
à minha gente". E ele me replicou: "Eu também pensei nisso. Mas, que
fazer? Minha aspiração deteve-se nessa donzela".
Pouco tempo depois de seu fracasso sentimental, não o vi mais.
Soube que tinha emigrado para não sei onde e que a sorte lhe foi risonha,
segundo as relativas comodidades de sua família o pregavam,
tacitamente. E agora encontrava-o nas barracas do Guaracú, faminto, inútil,
usando outro nome e com uma venda sobre as pálpebras.
Seu pesar produziu-me um grande desconcerto e, por compassiva
delicadeza, não me atrevi a inquirir nenhum detalhe sobre a sua sorte. Em
vão esperei que iniciasse a confidência. O tal Ramiro estava mudado; nem
um abraço, nem ao menos uma palavra cordial, nenhum gesto de regozijo
por nosso reencontro, por todo esse passado que renascia em mim e no
qual possuíamos partes iguais. Em represália, adotei um mutismo
glacial. Depois, para mortificá-lo, disse-lhe secamente:
— Casou-se! Por acaso, sabia que se casou?
No fluxo desta notícia, ressuscitou para minha amizade um Ramiro
Estévanez desconhecido, porque em vez do suave filósofo, apareceu
um homem mordaz e amargo, que via a vida tal como é por certos aspectos.
Agarrando-me a mão, interrogou:
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— E será esposa verdadeira, ou só concubina do seu marido?
— E quem é que pode saber?
— Claro que ela possui virtudes para ser a esposa ideal de que nos
fala o Evangelho; mas unida a um homem que não a pervertesse nem
acanalhasse. Compreendo que o seu é um dos tantos que conheço, viúvos
da mancebia, desertores momentâneos dos bordéis, que se casam por
vaidade ou por interesse até adquirir a fêmea de linhagem para o beneplácito
da sociedade. Mas logo a depravam e a relegam ou, no santuário
do lar, transformam-na em meretriz, pois o seu ardor marital já não prospera
senão que revivendo práticas do prostíbulo.
— E qual a importância disso? Bastando que se leve um sobrenome
ilustre que seja cotado no grande mundo...
— Bendito seja Deus, porque ainda existe a inocência!
Esta frase me deu a impressão de uma alfinetada na minha pele de
homem vivido. E comecei a espreitar o momento de provar a Estévanez
que eu também entendia de mordacidade, mas a ocasião não se
apresentava e ele expôs:
— Com relação a sobrenomes,lembro-me de certa história de um
Ministro de quem fui escrevente. Que Ministro mais popular! Que escritório
mais visitado! Logo me dei conta de um fenômeno paradoxal: os
aspirantes saíam sem nada terem conseguido, mas cheios de orgulho prócer.
Certo dia, entraram no escritório dois cavalheiros vestidos a rigor,
elegantes por ofício, professores de simpatia em espeluncas e salões. O
Ministro, ao esticar a mão para eles, colocou uma atenção especial em
seus sobrenomes:
— Eu sou Zárraga — disse um deles.
— Eu sou Cómbita — murmurou o outro.
— Ah, sim! Ah, sim! Quanta honra, que prazer! Vocês são descendentes
dos Zárragas e dos Cómbitas!
E quando saíram, perguntei ao meu augusto chefe:
- Quem são os antepassados desses senhores, cuja linhagem arrancou
do senhor um elogio tão espontâneo?
— Elogio? Não sei de nada! Minha cortesia foi de lógica simples:
se um é Cómbita e o outro Zárraga, seus respectivos pais tinham esses
sobrenomes. Nada mais que isso!
Para que Ramiro não percebesse que o seu talento provocava a
minha admiração, fingi displicência, perante suas palavras. Quis tratá-lo
como a um pupilo, desconhecendo-o como mentor, para demonstrar-lhe
que o trabalho e as decepções me deram mais ciência que os preceptores
190
do filosofismo, e que as asperezas do meu caráter eram mais de acordo
para a luta do que a débil prudência, do que a mansidão utópica e a bondade
inútil. Aí estavam os resultados de um axioma tão grande: entre ele
e eu, o vencido era ele. Atrasado nas paixões, fracassado no ideal, sentiria
o desejo de ser combativo, para vingar-se, impor-se, para redimir-se, para
ser homem como os homens e rebelde contra o seu destino. Vendo-o
inerme, inepto, infeliz, esbocei para ele a minha situação com uma certa
insolência, para deslumbrá-lo com minha audácia:
— Oi, você não me pergunta que ventos me trazem por estas
selvas?
-A energia sobrante, a busca do Dourado, o atavismo de algum
avô conquistador...
— Roubei uma mulher e depois roubaram-na de mim. Estou vindo
para matar aquele que a possui:
— O penacho vermelho de Satanás não lhe cai bem.
— Mas por acaso você não acredita na minha decisão?
— E a tal mulher vale a pena? Se é como a madona Zoraida Ayram..
.
- Você sabe de alguma coisa?
— Pareceu-me que você entrou em seu caney...
— Portanto seus olhos não estão perdidos?
— Ainda não. Foi uma ímperícia minha enquanto fumigava uma
bolota de borracha. Acendi o fogo e ao tapá-lo com o funil que faz as
vezes de chaminé um galho rebelde, que chiava queimando-se, lançou-me
no rosto um jorro de fumaça.
— Que horror! É como se fosse uma vingança contra os seus
olhos!
— Como castigo pelo que viram!
Esta frase foi uma revelação para mim: Ramiro era o homem que,
segundo don Clemente Silva, presenciou as tragédias de San Fernando
dei Atabapo e costumava relatar que Funes enterrava as pessoas vivas.
Ele tinha visto coisas extraordinárias de pilhagem e crueldade e eu
morria de curiosidade para conhecer os detalhes dessa crônica pavorosa.
Até por esse aspecto Ramiro Estévanez acabava sendo interessantíssimo;
e como, ao que parece, reagia contra o divórcio da nossa fraterna
intimidade, foi-se minguando em meu coração o ressentimento e começamos
a fazer a troca das nossas infelicidades, contando-as a grandes traços.
191
Naquele dia, não trocamos nenhuma palavra sobre a tirania do
Coronel Funes, porque Ramiro não parava de fazer-me o inventário de
suas penas, como se tivesse pressa de proteção.
O que mais me doía de tudo que contava, foram as humilhações
inauditas que foi submetido por um capataz a quem chamavam de
"El Argentino", porque se dizia oriundo daquele país. Este homem,
odioso, intrigante e bajulador, impôs aos seringueiros a tormenta da
fome, estabelecendo a prática insustentável de pagar com mañoco o leite
da borracha, à razão de um punhado por litro. Tinha chegado às barracas
do Guaracú com uns fugitivos do rio Ventuário e, querendo vendêlos
ao Cayeno, converteu-se em explorador dos seus próprios amigos,
forçando-os com a chibata a trabalhos esgotantes, para demonstrar a
pujança física dos coitados e exigir um ótimo preço para eles. Gerenciava
também a choupana das mulheres, premiando com seus corpos avantajados
a abjeção de certos peões e, à custa da má índole, ganhou o
ânimo de Cayeno, até sobrepujar ao próprio Váquiro que o odiava e
brigava com ele.
No preciso instante em que Ramiro Estévanez contava tão torpes
abusos, começou a chegar nos tombos a desolada fileira dos seringueiros,
com os tarros de borracha líquida e os galhos verdes da árvore massaranduba
que preferem para fumigar, porque produzem uma fumaça densa.
Enquanto uns armavam seus chinchorros para estenderem-se para suar a
febre ou para lamentarem-se do beribéri que os inchava, outros acendiam
o fogo e as mulheres amamentavam suas crias, que não lhes davam tempo
para tirar da cabeça as tinas transbordantes de suco.
Chegou com eles e com o Váquiro um indivíduo que usava uma capa
impermeável e girava entre os dedos um chicotinho de balatá. Fez
limpar uma grande vasilha e se pôs a medir com uma concha o leite
que cada seringueiro apresentava, atordoando-os com insultos, com ameaças
e reclamações e diminuindo-lhes o mañoco a que tinham direito para
cear.
- Olha - exclamou Ramiro tremendo.-Meu homem é aquele sujeito
de capa impermeável!
— Como assim? Esse que me observa por baixo da aba do chapéu?
Não existe tal argentino! Esse é o famoso "Petardo Lesmes", popular íssimo
em Bogotá!
Ao sentir-se objeto da minha atenção, multiplicava as repreensões
e caminhava daqui para ali, como querendo que eu ficasse pasmado diante
de suas portentosas atividades de homem de empresa e me dera conta
192
do difícil que era contentar o futuro patrão. Fazendo-se de afobado e
ocupadíssimo, caminhou em minha direção, fingindo escrever, enquanto
caminhava, em uma livreta, para ter pretexto de atropelar-me.
- Amigo, o seu nome? Os informes de sua quadrilha?
Atingido pela insolência do fantoche, virei a cara em direção aos
seringueiros e respondi para envergonhá-lo:
— Sou da quadrilha dos pepitos. Os invejosos que me conheceram
em Bogotá, apelidaram-me de "Petardo Lesmes", ainda que faz tempo
que na'o lhes peço nada, apesar dos desembolsos que a sociedade ocasiona.
Preferiria empenhar minha aliança de compromisso em cubículos e
quartos de fundos, mesmo correndo o risco de que a minha prometida o
soubesse, bastando que fosse dadivoso, tal como a minha posição social o
requer. Ocupei meus momentos de estudo em dirigir cartas anônimas
para minhas primas contra seus pretendentes que não eram ricos ou que
não eram chiques. Alegrei rodas de esquina, apontando com o dedo cínico
às mulheres que desfilavam, caluniando-as de mil maneiras, para juramentar
meu cartaz de fanfarrão. Fui caixa da Junta de Crédito Distrital
por aclamação unânime dos seus membros. Os cem mil dólares de depósito
não saíram todos para os meus bolsos: só me deram quinze por
cento. Aceitei a soma com um acordo prévio para assinar o recibo por um
saldo que já não existia. Palavra dada, palavra sagrada. No princípio tive
alguns escrúpulos de inexperiente, mas a Junta me decidiu. Lembrou-me
o exemplo de tanto sujeito que saqueia com impunidade as Carteiras de
Habitações, bancos, pagadorias, sem depreciar sua boa reputação. Fulano
de tal falsificou cheques, Beltrano adulterou contas e depósitos. Sicrano
pôs do lado direito um saldo adequado à sua categoria de noivo elegante,
no que procedeu muito bem, pois não é justo nem humano trafegar com
uma talagada e maços de notas, sofrendo necessidades, com o suplício
de Tântalo, dia após dia, e ser como o burro que trota faminto carregando
a cevada no lombo. Vim para aqui, enquanto esquecem o desfalque;
voltarei logo, dizendo que andava em Nova York e chegarei vestido
de acordo com a moda, com casaco de pele e sapatos brancos, para freqüentar
minhas relações, minhas amizades e para obter outro emprego
proveitoso. Estes são os informes da minha quadrilha!
Terminei assim, olhando para Estévanez e feliz por ter encontrado
a ocasião para exibir a minha mordacidade. O Petardo Lesmes, sem transformar-
se, argumentou para mim:
- Minhas tias e minhas irmãs-pagarão tudo!
193
- Com quê, com quê? Vocês são pobres, filhos de ricos. Dividida
a herança, nos igualamos.
- Arturo Cova igualar-se a mim? Como, de que maneira?
- Desta! -e tomando-lhe o chicote, cruzei-lhe o rosto.
O Petardo saiu correndo, em meio ao barulho da capa impermeável,
gritando que lhe emprestassem uma carabina. E não me matou!
O Váquiro, a madona e os meus companheiros acudiram para conter-
me. Então, um seringueiro corpulento sorriu levantando-se:
- Isso sim que não seria com eu. Se você tivesse tocado minha
cara, um dos dois estaria no chão!
Várias pessoas da roda, replicaram-lhe:
- Não se meta a valentão, lembre-se do Chispita, que no Putumayo
lhe metia o couro!
— Sim, mas onde o encontrar, corto-lhe a mão.
- Franco, que é que Ramiro Estévanez lhe diz que estão murmurando
nos barracões?
— Ramiro se entusiasmou pelo seu ardor e se acovarda com sua imprudência.
Os seringueiros estão aplaudindo a humilhação de Petardo Lesmes,
mas vejo em todos uma certa inquietação, o pressentimento de alguma
coisa sensacional. Eu mesmo começo a sentir uma desconfiança
preocupante. Ajudado pelo catire, tentei cumprir suas ordens com respeito
à insurreição, mas ninguém quer meter-se em sublevações, desconfiam
dos nossos planos e de você mesmo. Supõem que os quer encabeçálos
para escravizá-los quando termine o golpe ou vendê-los depois. Temo
ter falado com os delatores. O Petardo Lesmes saiu essa manhã em
exploração e queria levar Clemente Silva como rumbero. Ainda bem que
o Váquiro não concordou que este marchasse.
- Que foi que você disse! É imperioso que a canoa saia nessa mesma
noite para Manaus!
-O lamentável é que seja tão pequena. Se pudéssemos caber
todos...
- Mas você não compreende seus desvarios? Devemos ficar aqui.
Nossa residência no Guaracú é a garantia dos viajantes. Se os impedissem,
se os prendessem, quem é que velaria pelo futuro deles? Temos que darlhes
tempo para que desçam o Isana. Depois faremos o que se possa para
escapar. Enquanto isso, nosso Cônsul estará de viagem e o avistaremos no
Rio Negro. Dois meses de espera, porque a madona empresta sua lancha
para os emissários e a tomarão em San Felipe.
194
— Escute-me: o velho Silva diz que não quer deixar você sozinho,
que não pode admitir favores que provenham de uma mulher que o teve
como escravo depois de ter sido concubina de Lucianito.
- Mas foi isso que combinamos desde ontem! Don Clemente vai
com o mulato e mais dois remadores! Já com os passaportes assinados.
Os víveres prontos. Só me falta escrever a correspondência.
Alarmado por esse informe, corri para buscar o ancião Silva e lhe
roguei com um acento de voz premente, provocando suas lágrimas.
- Não se detenha por meus perigos. Vá embora, pelo amor de
Deus, com os ossos do pequeno! Pense que se fica descobrem tudo e
nunca mais sairemos daqui! Guarde esse pranto para abrandar a alma do
nosso Cônsul e para fazer que venha imediatamente para devolver-nosa
liberdade. Regresse com ele e viaje de dia e de noite, na segurança de
achar-nos logo, porque então estaremos no Guainía. Você deve procurar-
nos no Yaguanarí, no barracão de Manuel Cardoso; e se lhe dizem
que nos internamos na montanha, colha a nossa pista, que nos encontrará
muito em breve. Desde agora lhe repito as súplicas de Coutinho e de
Souza Machado, quando, perdidos na floresta, beijavam seus pés: "Tenha
piedade de nós. Se você nos abandona, morreremos de fome".
Depois, apertando contra o meu peito o mulato Antônio Corrêa:
— Vai, mas não esqueça que merecemos a redenção! Não nos deixem
jogados nesses montes! Nós também queremos regressar para nossas
planícies, também temos mãe a quem adorar! Pensa que se morremos
nesta selva, seremos mais desgraçados que o infeliz Luciano Silva, pois
não haverá quem repatrie nossos despojes!
E mesmo com o Váquiro ébrio e a madona concupiscente esperando-
me para o jantar, me fechei no escritório do patrão e, em companhia
de Ramiro Estévanez, redatei para nosso Cônsul a carta que don Clemente
Silva devia levar, uma tremenda precatória, de estilo borbulhante e
apressado, como a água das torrentes.
Nessa noite, o Váquiro, parando no umbral, interrompia nosso trabalho
com inpertinências:
— Peça cachaça, peça tabaco e balas de Winchester!
Por sua vez, o catire Mesa, provido de uma tocha, apresentava-se
para repetir:
— A canoa está pronta, mas não tem ninguém que entregue o quintal
de borracha que deve levar como dinheiro para cobrir as custas da
viagem.
195
E a madona, com uma desfaçatez entediante, entrava no quartinho
mal-iluminado, me interrogava familiarmente, me servia de tacinhas de
café tinto, que ela mesma adoçava aos goles, dando-me como guardanapo
a ponta do seu avental.
Na presença do casto Ramiro, apoiou a bochecha no meu ombro,
vendo a caneta correr sobre as páginas, na luz resinosa do lampião, admirada
com a minha destreza em traçar signos que ela não entendia, tão diferentes
do alfabeto árabe.
— Ainda existe gente que sabe escrever no seu idioma! Meu anjo,
o que você está botando aí?
— Estou dizendo à casa Rosas que você tem uma borracha maravilhosa.
Indignado, Ramiro se retirou.
— Amor, não diga isso, porque senão me pedirá para que a dê em
pagamento.
— Por acaso você está devendo algo?
-A dívida não é minha, mas... gostaria que você me ajudasse!...
— Você foi fiadora?
- Sim.
— Mas o devedor lhe dava lotes de borracha.
— Eram para mim, não para a dívida.
- E uma árvore o matou! Não é verdade que uma árvore o matou,
a da ciência do bem e do mal?
- Ah! Você sabe? Sabe?
— Lembre-se que vivi no Vaupés!
Desconcertada, a madona retrocedia, mas eu, sujeitando-a pelos
braços, obriguei-a a falar:
— Não se afobe, não se desespere! É sua a culpa de que o rapaz se
tenha matado? Não me negue que ele se suicidou!
- Sim, se matou. Mas não conte aos seus amigos! Tinha tantas
dívidas! Queria que eu ficasse nos seringais vivendo com ele. Impossível!
Ou que nos casássemos em Manaus. Um absurdo! E na última viagem,
quando pernoitamos no caudal, o desiludi, exigi-lhe que me deixasse,
que não voltasse. Começou a chorar. Ele sabia que eu carregava o
revólver no corpinho. Inclinou-se. Sobre a minha rede, como se estivesse
cheirando-me, como se fosse para apalpar-me. Subitamente, um disparo.
E banhou os meus seios de sangue.
A madona, abalada pelo relato, foi chegando à porta, com as mãos
196
sobre a blusa, como se quisesse tapar a mancha quente. E fiquei sozinho.
Então, senti subir palavras de pranto, juramentos, imprecações, que
saíam do caney próximo. Don Clemente Silva e os meus camaradas rodearam-me enfurecidos.
— Jogaram eles fora! Ah, miseráveis! Jogaram eles fora!
— Como? Será possível?
— Os ossos do meu filho, do meu filho infeliz, jogaram no rio, porque
a madona, essa cachorra cínica, tinha-lhes escrúpulos. Agora, sim,
facão nessas feras! Mate-os todos!
Momentos depois, em cima da canoa desatracada, vi erguer-se na
sombra o perfil colérico do ancião. Entrei na água para abraçá-lo várias
vezes e escutei suas admoestações derradeiras: "Mate-os porque eu volto!
Mas perdoe a pobre Alícia. Faça-o por mim! Como se fosse Maria
Gertrudes.
E a canoa foi embora e compreendemos que os viajantes agitavam
os braços em nossa direção, no escuro do sombrio leito do rio. Chorando,
repetimos as palavras de Lucianito: Adeus, adeus!
Acima, o céu sem limites, a estrelada noite do trópico.
E as estrelas infundiam medo!
Vai para seis semanas que, por insinuação de Ramiro Estévanez,
distraio a ociosidade escrevendo as notas da minha odisséia, no livro de
Caixa que o Cayeno tinha em cima de sua escrivaninha como adorno
inútil e empoeirado. Peripécias extravagantes, detalhes pueris, páginas
truculentas formam a rede precária da minha narração e a vou expondo
com pesar, ao ver que a minha vida não conquistou o transcendentale
nela tudo acaba sendo insignificante e perecedouro.
Erraria quem imaginasse que o meu lápis se move com desejos de
notoriedade, ao correr apressado no papel atrás de palavras para ir fixando-
as sobre as linhas. Não ambiciono nenhum outro fim senão que o de
emocionar Ramiro Estévanez com o breviário das minhas aventuras, confessando-
lhe por escrito o curso das minhas paixões e defeitos, para ver se
aprende a apreciar em mim aquilo que o destino regateou nele, e para ver
se ele consegue estimular-se para a ação, pois sempre foi uma disciplina
proveitosa para o pusilânime fazer confrontações com o arriscado.
Já nos dissemos tudo e quase já não temos de conversar. Sua vida
de comerciante, em Ciudad Bolívar, de mineiro em não sei qual afluente
do Caroní, de curandeiro em San Fernando de Atabapo, carece de relevo
197
e de fascinação: nenhum episódio característico, nenhum gesto pessoal,
nenhum fato que sobressaia do comum. Em contrapartida, eu sim que
posso mostrar-lhe minhas pegadas no caminho, porque mesmo sendo efêmeras,
pelo menos não se confundem com as outras. E depois de mostrá-
las, quero descrevê-las, com orgulho ou com amargura, segundo a reação
que produzem em minhas lembranças, agora que as evoco sob as barracas
do Guaracú.
Se o Váquiro deletreasse as apreciações que me suscita, vingar-se-ia
soltando-me, livre das roupas, na ilha do Purgatório, para que as pragas rematassem
as sátiras e o satírico. Mas o General é mais importante que a
madona. Só aprendeu a desenhar sua assinatura, sem distinguir as letras
que as compõem e está convencido de que a rubrica é um elevado emblema
dos seus títulos militares.
Há momentos escuto o sapatear de suas sandálias e entra no escritório
para bater um papo comigo.
— Calculo que a curiara deve estar abaixo do caudal do Yuruparí.
- E não tiveram dificuldades?... O Petardo Lesmes...
- Não se preocupe! Está no Inírida e deve voltar nessa semana.
- Senhor General, ele cumpre certas ordens do senhor?
- Mandei que ele fosse perseguir os índios do caño Pendare, para
aumentar os trabalhadores. E você, jovem Cova, que é que tá escrevendo
tanto?
- Exercito a letra, meu General. Em vez de aborrecer-me matando
pernilongos...
- Isso tá bem-feito. Só porque não treinei, esqueci o pouco que
sabia. Felizmente tenho um irmão que é um velhaco em termos de caneta.
Dizem que era mau para a ortografia, mas quando vim embora, vi ele
puxar mais de meio ofício sem dicionário.
- Seu irmão também esteve em San Fernando de Atabapo?
— Não, não! Nem sei pra quê.
— Meu compatriota Esteban Ramírez era seu amigo?
- Quantas vezes lhe repeti que sim e que sim! Juntos fugimos do
índio Funes, porque você deve saber que o Tomaz é índio. Se nos agarra,
nos despescoça. E como eu conhecia o Cayeno, resolvemos vir buscá-lo.
Subimos o rio Guainía, de Maroa, e pelo arrastadeiro dos canos Mica e
Rayao passamos para o Inírida. E aqui nos vê, estabelecidos no Isana.
- General, meu compatriota agradece tanto...
— Ele está sabendo que vim embora não por medo, senão que para
não emporcarlhar-me matando Funes. Você sabe que esse bandido deve
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mais de seiscentas mortes. Puros racionais, porque dos índios não se faz
conta. Diga-lhe ao seu compatriota que lhe conte as matanças.
— Já me contou. Já as anotei.
No povoado de San Fernando, que conta apenas com sessenta casas, encontram-se três grandes rios que o enriquecem: à esquerda, o Ata
bapo, de águas avermelhadas e areias brancas; à frente, o Guaviare, de cor
dourada; à direita, o Orinoco, de águas imperiais. Em volta, a selva, a selva!
Todos aqueles rios presenciaram a morte dos seringueiros que Funes matou no dia 8 de maio de 1913.
Foi a terrível siringa — o ídolo negro — que provocou a feroz
matança. Só se tratou de uma peleja entre empresários dos seringais. Até o
Governador negociava com borracha.
E não penses que ao dizer "Funes" dei nome a uma única pessoa
Funes é um sistema, um estado de espírito, é a sede de ouro, é a inveja
sórdida. Muitos são Funes, mesmo com um só levando o nome fatídico.
O costume de perseguir riquezas ilusórias à custa dos índios e das
árvores; a enormidade paralisada de quinquilharias para peões, destinadas
a produzir até mil por cento; a competição do armazém do Governador
que não pagava nenhum direito e, ao vender com mão oficial, recolhia
com ambas as mãos; a influência da selva, que perverte como o álcool,
chegaram a criar em alguns homens de San Fernando um impulso e uma
consciência que os levou a valer-se de um assassino para que iniciasse o
que todos queriam fazer e que lhe ajudaram a realizar.
Nem acredites que o Governador delinqüia quando colava a boca
na fonte dos impostos com um pé em seu escritório e outro na loja. Tão
contrária atitude era-lhe imposta pelas circunstâncias, porque aquele território
é como uma herdade cujos gastos quem paga é o favorito que a
desfruta, inclusive seu próprio salário. O Governador dessa comarca é um
empresário cujos subalternos vivem dele; sendo seus empregados particulares,
têm uma função constitucional. Um se chama Juiz, outro Chefe Civil,
outro Registrador. Distribui-lhes ordens promíscuas, fixa-lhes os salários
e os remove de acordo com a sua vonta. Os tempos do Pretor, que distribuía
justiça nas praças públicas, revivem em San Fernando sob outra forma:
um funcionário plenipotente legisla, governa e julga permeio de partidários
assalariados.
E não é raro ver na população indivíduos que, chegados de terras
longínquas, se detêm diante de uma estalagem e dizem ao estalajadeiro
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com voz urgida: "Senhor Juiz, quando se desocupar de pesar a borracha,
faça o favor de abrir o escritório para que possamos apresentar nossas
queixas", e obtêm como resposta: "Não os atendo hoje. Nessa semana
não haverá justiça: o Governador tem me atarefado em despachar mañoco
para os barraqueiros do Beripamoni".
Isso ali é legal, correto e humano. Qualquer um tem o direito de
preocupar-se com as entradas do patrão: as rendas são o termômetro dos
salários. Bolso frouxo, pagamento mesquinho.
O Governador, Roberto Pulido, competidor comercial de seus governados,
não teria estabelecido impostos estúpidos; no entanto, urdia-se
a conjuração para suprimi-lo. Sua má estrela aconselhou-o a ditar um decreto
no qual dispunha que os direitos de exportar a borracha deveriam
ser pagos em San Fernando, com ouro ou com prata e não com letras de
câmbio giradas contra o comércio de Ciudad Bolívar. Quem tinha dinheiro
pronto? Os guardadores. Mas estes não o economizavam para emprestá-
lo: compravam borracha barata de quem tivesse necessidade de pagar
as tarifas de exportação. No princípio, os próprios conspiradores entraram
na competição desse negócio; depois tiraram daí o pretexto para estourar:
dizer que Pulido ditou seu decreto, aproveitando-se da falta de numerário,
para fazer com que lhe vendessem a borracha a um preço irrisório,
por intermédio de cupinchas confabulados. E o mataram, o saquearam
e o arrastaram e, numa só noite, desapareceram setenta homens!
Desde dias atrás - conta-me Ramiro Estévanez - percebi os preparativos
do acontecimento ominoso. Já se dizia, à boca pequena, que vários
sujeitos tinham conseguido infundir em Funes a crença de que era
apto para apoderar-se da região e até para ser Presidente da República,
quando quisesse. Acabaram não sendo falsos profetas os daquele augúrio:
porque nunca, em nenhum país, se viu tirano com tanto domínio de vidas
e fortunas como aquele que atormenta a incomensurável zona seringueira
cujas duas saídas estão fechadas: no Orinoco, pelas quedas de Atures
e Maipures; e no Guainía, pela alfândega de Amanadona.
Um dia, acudi à casa do coronel, no momento em que este ajustava
a porta do pátio. Mesmo tendo tentado fechá-la rapidamente, consegui
ver que no interior havia um considerável número de seringueiros, sentados no peitoril e no poial da cozinha, limpando suas armas. Esses homens
foram trazidos das barracas do Pasimoni, como depois se disse, e chegaram à
meia-noite no povoado, em companhia de outros barraqueiros pertencentes
ao pessoal de diferentes patrões que os esconderam cautelosamente.
200
Funes alarmou-se ao notar que eu tinha observado os seringueiros
e, procurando meu ouvido, segredou com uma amabilidade patibular:
— Não deixo que eles saiam porque se embebedam! São dos nossos.
Que é que você deseja?
— Estou devendo mil bolívares a Espinosa e está arruinando-me
com cobranças. Se você quisesse emprestar-me...
— Eu nasci para os amigos! Nunca mais Espinosa voltará a cobrar-
lhe. Você terá oportunidade de saldar essa dívida com as próprias mãos.
Esperemos até que o Governador chegue.
E Pulido chegou ao entardecer, de volta do Casiquiare, em uma lancha
à gasolina chamada Yasaná. Em companhia de vários empregados, recolheu-
se logo, porque vinha doente de febres. Enquanto isso, seus inimigos
que haviam limpado a costa de embarcações para evitar possíveis
fugas tiraram de mim o timão da lancha e o esconderam no quartinho dos
fundos do coronel, cujas paredes dão para o Atabapo.
Pouco depois veio a noite, uma noite medrosa e relampejante. Da
casa de Funes saíram grupos armados de Winchesteres, disfarçados com
bayetones para que ninguém os reconhecesse, cambaleantes pela influência
do rum que lhes excitava a animalidade. Distribuíram-se para o assalto
pelas três vielas solitárias, lembrando-se dos nomes das pessoas que deveriam
sacrificar. Alguns incluíram mentalmente nessa lista todos os indivíduos
que lhes inspiravam antipatias ou ressentimentos: os seus credores,
os rivais, os patrões. Caminhavam encostados nas paredes, tropeçando
nos porcos que cochilavam na calçada: "Porco maldito, me fez cair".
— Psiu! Silêncio! Silêncio!
Na tabacaria de Capecci, pessoas indefesas jogavam cartas, acavaladas
no balcão. Cinco homens, entre eles Funes, ficaram espreitando-as no
escuro, para quando se abrisse fogo na esquina próxima Lá, no quarto do
sentenciado, ardia uma lâmpada que lançava contra a chuva lívidas claridades.
O grupo de Lopes, felinamente, aproximou-se da janela aberta. Lá
dentro, Pulido, abrigado no seu chinchorro, bebia a poção preparada pelos
enfermeiros. De repente, virando os olhos em direção à noite, conseguiu
sentar-se: "Quem está aí"? E as bocas de vinte rifles responderam-lhe,
enchendo a casa de fumo e sangue.
Esse foi o terrível sinal, o começo da hecatombe. Nas lojas, nas ruas
e nas mansões estouraram os tiros. Confusão, clarões de pólvora, lamentações,
sombras correndo na escuridão. A matança estendeu-se a tal ponto
que até os assassinos se assassinaram. Às vezes, indo para o rio, uma procissão
consternava o pasmo das trevas, arrastando cadáveres que pendiam
201
dos membros e das roupas, atropelando-se sobre eles, como as formigas
quando transportam provisões pesadas. Por onde escapar, para onde ir?
Mulheres e criancinhas, enlouquecidas atrás de um refúgio, davam de
cara com os malfeitores que as baleavam antes de chegar. "Viva o coronel
Funes! Abaixo os impostos! Viva o comércio livre!"
Uma voz começou a correr como uma seta, como uma rajada: "Para
a casa do coronel! Para a casa do coronel!" Enquanto isso, o motor da
Yasaná matraqueava no porto sombrio. "Deixar o povoado! Embarcar!
Para a casa do coronel!"
Cessaram os tiros. Em sua sala, em sua loja, Funes andava em uma
azáfama, recebendo as pessoas incautas, separando com sorrisinhos os
que logo seriam assassinados na mansão. "Você para a lancha! Você comigo!"
Em poucos minutos o pátio ficou amontoado de rostos apavorados.
Atrás da porta da parede que dá para o rio, situou-se Gonzáles com o
machete. "Para bordo, rapazes!" E os que iam saindo rodavam decapitados,
dentro dos buracos que foram feitos para levantar a edificação.
Nem um grito, nem uma queixa!
A noite, o motor, a tempestade!
Erguendo-me na janela do corredor, onde uma lamparina pestanejava,
vi o rebanho dos detidos aglomerar-se, receosos de desfilar pela horrenda
porta, com calafrios pela intuição do perigo cruento, arrepiados
como os touros que sentem o cheiro de sangue na grama.
"Para bordo, rapazes!", repetia a voz cavernosa do outro lado do
gonzo sangrento. Ninguém saía. Então a voz pronunciava nomes.
Os que estavam dentro tentavam uma tímida resistência: "Saia primeiro!"
"Estão chamando é você!" "Mas por que é que estão me perseguindo?"
E eles mesmos se empurravam em direção à morte.
No cômodo em que eu estava, começaram a descarregar pacotes e
mais pacotes: borracha, mercadorias, baús, mañoco, o botim dos mortos,
a causa material do seu sacrifício. Uns morreram porque a cobiça dos
seus rivais estava clamando pelos despejos; outros foram sacrificados por
serem peões na quadrilha de algum patrão a quem convinha diminuir-lhe
o pessoal, para pôr um fim à competição; contra outros foi executado o
desígnio fatal, pois como deviam grandes adiantamentos de dinheiro,
matando-os, garantia-se a falência de seus empresários; outros tombaram,
com o grito agônico estrangulado, porque eram do aparato governamental,
funcionários, amigos ou familiares do aborrecido Governador. Os
outros, por ciúmes, picuinhas, inimizades.
202
— Como é possível que o encontre sem carabina? — perguntou-me
Funes. — Você não quis ajudar-nos em nada. E isso que já saldei sua dívida!
O recibo se lê neste machete!
E mostrava contra a lâmpada a lâmina sanguinolenta e desdentada.
— Não se exponha — acrescentou — a que o povo o considere inimigo
de seus direitos e de sua liberdade. É preciso adquirir credenciais:
uma cabeça, um braço, o que der para conseguir. Agarre essa Winchester
e rebúsquese: Oxalá desse de cara com Dellepiani ou com Baldomero!
E agarrando-me pelo ombro, muito amavelmente, pôs-me na rua.
Pelos lados do porto, perto da laje de Maracoa, agruparam-se umas
lanternas e desceram ao longo da margem, iluminando as águas e o areal.
Eram umas mulheres que choramingavam através dos paióis, procurando
os cadáveres dos seus parentes.
— Ai! Arrancaram os intestinos desse aqui! Iriam atirá-lo à arrebentação,
mas ele estaria flutuando ao amanhecer.
Nesse ínterim, nas mansões, sujeitos mascarados mexiam suas velas,
no afã de esconder nos buracos cheios de lixos os corpos das vítimas
e a responsabilidade dos matadores.
— Joguem-nos no rio! Não os deixem nesse pátio, porque não demoram
a feder como o diabo.
Era assim que gritava uma velhota, e ao ser desobedecida, amontoou
cinza quente nas sepulturas improvisadas.
Às vezes, perambulava pelas esquinas uma patrulha de homens insolentes,
que se espreitavam com desconfiança recíproca, disfarçando suas
estaturas e seus movimentos para tornar impossível a identificação. Alguns
se aproximavam para tatear a manga da camisa que devia estar arremangada
no braço esquerdo, mas ninguém soube com certeza com
quem andou nem a quem seu acompanhante perseguia e se separavam
sem interrogar-se nem reconhecer-se. A chuva passou, desapareceram os
cadáveres insepultos e, no entanto, a alvorada indolente demorava em
pôr fim a tão nefanda noite de pesadelo. Quando o pelotão ia se separar,
um homem inclinou a cabeça sobre o vizinho, iluminando-o com a brasa
do cigarro.
— Vácares?
- Sim!
E, escutando a voz roufenha, desferiu-lhe uma profunda facada no
largo pòmulo.
Hoje, Váquiro me assevera que foi o próprio Funes que andou morto
de vontade de cortar-lhe a jugular. Só que em San Fernando não tinha
203
coragem de revelar o nome do seu agressor, com medo das reincidências
do coronel, na frente de quem sustentava que sua ferida fora ocasionada
em um ousado duelo, ao abater na obscuridade dez contendores empadilhados.
E deverias ter visto a que extremos tão deploráveis se rebaixaram os
fernandinos para salvar sua débil pele, fazendo-se de agradecidos ao déspota
e aos seus capangas. Que adesões, que aplausos, que intimidades! A
delação foi planta parasita que enrolava-se em vivos e mortos e o fuxico e
a calúnia progrediram como peste. Os que sobreviveram à catástrofe, perderam
o direito de lamentar-se e comentar, sob o risco de que fossem silenciados
para sempre. Todo mundo transformou-se em espião e atrás das
fechaduras e fendas há olhos e ouvidos. Ninguém pode sair do povoado,
nem averiguar nada sobre o parente desaparecido, nem inquirir pelo paradeiro
do conterrâneo, sem expor-se a ser denunciado como traidor e ser
enterrado vivo até à altura dos peitos, na escavação que, pela força, o
obrigam a fazer em um areal, onde o calor o vá torrando e os abutres piquem
os seus olhos.
Mas não é só aos confinados do casario que essas tropelias estão circunscritas:
pelas selvas, rios e estradas vai crescendo a onda do sobressalto,
da conquista, do extermínio. Todo mundo mata por conta própria,
enquanto que morre e ampara seus crimes sob supostas ordens do tirano
que lhes dá a sua aprovação tácita, para desfazer-se dos autores, entregues
à mútua ferocidade.
A notícia de que Pulido prosperava adquirindo borracha é uma farsa
iníqua. Bem sabem os seringueiros que o ouro vegetal não enriquece
ninguém. Os poderosos da floresta nada mais têm do que créditos nos livros,
contra peões que nunca pagam, se não for com a vida, contra indígenas
que minguam, contra bongueros que roubam o que transportam. A
servidão nessas comarcas torna-se vitalícia para escravos e donos: tanto
um como o outro devem morrer aqui. Um fado de fracasso e maldição
persegue todos os que exploram a mina verde. A selva os aniquila, a selva
os retém, a selva os chama para tragá-los. Os que escapam, mesmo refugiando-
se nas cidades, já levam o mal no corpo e na alma. Melancólicos,
envelhecidos, decepcionados, só têm uma aspiração: voltar, voltar, sabendo
que, se voltam, perecerão. E os que ficam, aqueles que não dão ouvidos
ao chamamento da montanha, sempre declinam na miséria, vítimas
de doenças desconhecidas, sendo carne palúdica de hospital, entregando-
se ao cutelo que lhes recorta o fígado em pedaços, como se fosse a pena
por algo sacrílego que cometeram contra os índios, contra as árvores.
204
Que destino poderão ter os seringueiros de San Fernando? Dá pavor
só em pensá-lo. Passado o primeiro ato da tragédia, empalideceram;
mas o caudilho que improvisaram já tinha força, já tinha um nome. Deram
sangue para que ele provasse e ainda tem sede. Que venha aqui a Governança!
Ele matou como comerciante, como seringueiro, só para suprimir
a competição; mas como ainda sobram competidores nos seringais e
nas barracas, resolveu exterminá-los com a mesma facilidade e por isso
vai assassinando os seus próprios cúmplices.
— A lógica triunfa!
— Viva a lógica!
Calamidades físicas e morais aliaram-se contra a minha existência
no torpor desses dias viciosos. O meu decaimento e ceticismo tem como
causa o cansaço lúbrico, a astenia do vigor físico, sugado pelos beijos da
madona. Assim como esgota um esperma vertido sobre sua chama, esta
loba insaciável acabou logo com o meu ardor, ela que oxida minha viríli
dade com o seu hálito.
E odeio-a e detesto-a porque é calorosa, porque é mercenária, porque
incita, por suas polpas tiranas, por seus seios trágicos. Hoje como
nunca, sinto saudades da mulher ideal e pura, cujos braços rendam serenidade
para a inquietação, frescura para o ardor, esquecimento para os vícios
e paixões. Hoje, como nunca, ansio o que perdi em tantas donzelas
iludidas, que me olhavam com simpatia e que no segredo de seu pudor
acariciaram a ide'ia de fazer-me feliz.
A própria Alícia, com todos os caprichos da inexperiência, jamais
traiu sua índole senhorial e sabia ser digna até das maiores intimidades.
Meu ódio irrascível, meu rancor perene, o nojo que sinto ao lembrar-me
dela, não conseguem ofuscar essa honestidade que, forçosamente, devo
reconhecer-lhe e abonar-lhe, mesmo que hoje a repudie por degradada e
pérfida. Quanta diferença entre ela e a turca, a que vence em tudo, tanto
em graça como em juventude. Porque essa coroa indecorosa chega aos limites
da murchidão e da obesidade. Assim o percebi desde que a vi. Mesmo
passando dos quarenta, não se consegue descobrir nela nem um único
fio branco de cabelo, por milagre de seus cosméticos; mas eu o noto!
Ah, cansaço da presença que desgosta! Ah, nojo de beijos que não
são pedidos! Estava obrigado a disfarçar, em proveito dos nossos planos,
essa repulsão que a madona me provoca e a não ter descanso em minha
insipidez, pois nenhum dos meus amigos pode substituir-me no vil ofício
de tê-la propícia. Ela os rechaça porque sabe que o do saldo na casa
Rosas sou eu.
205
Tentei, para libertar-me, o gesto cansado, a frase dura, o desprezo
que fez nascer bolhas. Por fim rompi com ela violentamente. E hoje
não sei que fazer para reconquistá-la.
Aconteceu que nessas noites os seringueiros invadiram a choupana
das mulheres, para gozá-las como prêmio de uma semana, segundo um velho
costume. Fedendo a fumaça e a sujeira, assim que acabam de fumigar,
apresentam-se ao sentinela e, com um gesto lascivo, combinam o turno.
Os menos rixosos trocam o seu direito com os impacientes por tabaco,
por borracha ou pílulas de quinino. Ontem à noite, duas meninas montanhesas
choravam aos gritos no alto da escada, porque todos os homens as
preferiam e era impossível continuar resistindo. O Váquiro, ameaçando-as
com a chibata, insultou-as. Uma delas, desesperada, jogou-se ao chão e
quebrou um braço. Corremos com luzes para recolhê-la e a escondemos
no meu chinchorro.
— Infames, infames! Chega de abusos com essas mulheres desgraçadas!
Aquela que não tiver homem que a defenda, aqui estou!
Silêncio! Algumas índias aproximaram-se de mim. No outro caney
sorriram uns homenzarões que estimulavam sua sensualidade com piadas
obscenas. E, olhando-me, continuaram com sua ocupação, iluminados pela
chama trêmula das fogueiras, sobre cuja fumaça davam voltas — como
um assador — no pau em que a bolota de borracha se coagulava, banhando-
se a todo momento com leite com a tigelinha ou com a colher.
— Olhe aqui — disse-me um deles — se o que aconteceu lhe dói tanto,
façamos uma troca: empreste-nos a madona para que a experimentemos.
E a madona se enfureceu porque não castiguei o atrevido.
— Você fica de braços cruzados diante do que ouviu? Será que
para mim não existe respeito? Está querendo dizer que não tenho homem?
Por Alá!
— Todos são seus homens.
— Pois então, pague-me o que me deve.
— Não devo nada!
E essa manhã, quando por conselho dos meus amigos fui dar-lhe satisfações
e reconhecer-me como devedor, encontrei-a asseada, energúmena,
lacrimosa.
— Ingrato, dizer-me que não cumpre seus compromissos!
Agarrei-a pelas bochechas sem saber onde beijá-la, quando, subitamente,
recuei pálido de emoção e ganhei a porta.
206
— Franco, Franco, pelo amor de Deus! A madona com os brincos
da sua mulher! Com as esmeraldas da menina Griselda!
Como descrever a impressão penosa que foi ensombreando o rosto
de Franco ao escutar as minhas exclamações? Sentado na barbacoa, em
companhia de Ramiro Estévanez, olhava o catire Mesa tecer cestos de palha,
explicando-lhes o modo simples de urdir a trança. Com denodo instintivo,
logo que pronunciei o nome de sua mulher cerrou o punho como
quem se prepara para defendê-la; mas depois inclinou a cabeça, acesa pelo
rubor da honra ofendida. Que tenho a ver com o destino dessa senhora?,
afirmou raivoso. E, destecendo a cestinha, fingiu tranqüilidade.
De repente, disse com um tom brusco, como uma punhalada em
nosso silêncio:
- Quero ver os brincos, quero convencer-me! Onde é que está a
turca ladrona?
— Cale a boca, senão você põe tudo a perder — lhe suplicamos porque
Zoraida estava vindo em nossa direção, trazendo na boca um cigarro
sem acender. Franco, astuto, brindou-lhe com fósforos e, quando a
madona inclinou-se para a chama, o vi dominar o impulso de agarrá-la pelas
orelhas.
— São esses, são esses! — repetia ao voltar. E jogou-se de barriga
para baixo no chinchorro sem dizer mais nada.
Definitivamente, a partir desse momento, a paz de espírito me
abandonou. Matar um homem! Eis aqui o meu programa, a minha obrigação!
Sinto no rosto o hálito frio, anúncio das tempestades. Em mau momento
chega a hora tão calculada, tão perseguida. O que pedi ao futuro já é
presente. Enquanto avancei para a vingança, o conflito final me parecia
pequeno, de tão remoto; mas hoje, ao ver de perto o desenlace, acho essa
aventura excessiva, agora que estou sem saúde e sem energias, para tornar-
me soberbo e atacar.
Mas não me verão procurar um desvio para o perigo. Irei de frente,
contrariando a reflexão, surdo ao obscuro aviso que se eleva do fundo
da minha consciência: morrer, morrer!
O que mais agrava o meu atordoamento é a opinião unânime
dos meus amigos sobre a maneira de arrematar a situação: "Se Barrera
está por aqui, qual é o meu dever?"
— Matá-lo, matá-lo!
E você mesmo, Ramiro Estévanez, sustenta o conselho fatal,
207
enquanto eu, por covardia, esperava de sua prudência fórmulas piedosas. Serei
inexorável, pois é assim que você quer. Graças a vocês, a tragédia virá!
— Que fique constado!
A menina Griselda, a menina Griselda!
Franco e Heli viram-na ontem à noite, sobre a ponte de um batelón
que veio à estagnação próxima para embarcar a siringa roubada. Iluminada
com um lampião a labuta clandestina e, se não distinguiu os meus
companheiros, pelo menos já está sabendo que a estamos procurando,
porque Martel e Dólar correram para festejá-la e ela, quando o barco partiu,
levou os cachorros.
Foi Ramiro Estévanez quem soube por primeiro que os índios
transportavam a borracha dos depósitos, carregando-a no meio das trevas
para embarcadouros insuspeitados. Fez-lhe a denúncia minha protegida,
numa noite em que lhe atava o braço doente; e, inteirados da ocorrência,
a índia colocou-nos em um esconderijo para que víssemos passar a linha
de vultos no meio da mata encobridora. Dez, quinze, vinte nativos dos
que só entendem a língua yeral passavam com suas cargas, pisando em
silêncio como em uma almofada. Para maior surpresa, a madona Zoraida
Ayram fechava o desfile.
— Agarrá-la! Seqüestrá-la! Impedir a viagem! — era assim que cochichávamos
vendo-a fundir-se com a obscuridade. Sem tempo de agarrar
as carabinas, escondidas desde o dia da nossa chegada, corremos ao tambo
da mulher. A lamparina de ofuscar morcegos pulsava como uma víscera.
A bagagem intacta. A rede, ainda morna, estava cheia de cobertores e
almofadões para fazer as vezes de um corpo dormido debaixo do mosquiteiro;
aqui, as chinelas de pele de tigre; ali, a guimba do último cigarro,
ainda soltando fumaça num canto. Esses detalhes nos permitiam respirar
com sossego. A madona não saíra para fugir. Mas devíamos vigiar.
Na noite seguinte, demos início aos nossos planos. Franco e Heli,
de tangas e fardo ao ombro, entraram nus na fila dos carregadores, para
reconhecer a rota do incógnito porto e espionar as manobras dos aborígines.
Enquanto isso, Ramiro entreteve Váquiro em seu caney e eu passei
a noite com Zoraida. Sobreveio um imprevisto adverso ou propício: os
cachorros, vendo-se sós, pegaram o rastro dos meus companheiros e encontraram
sua antiga dona que, manhosamente, levou-os, sem dizer nada.
— Se não fosse pelos cachorros — declarava-me Franco ao amanhecer
— não a teria reconhecido. Tão espectral, tão anêmica, tão consumida!
Cometemos um grave erro ao desertar dos indígenas quando vislumbramos
208
as luzes do barco. Apartados da fila, na obscuridade, observamos
a pouca distância o que se passava. Mas se tivessem descoberto nossa presença,
teríamos sido assassinados. A pobre mulher, levantando uma luz,
olhava angustiada para todas as partes e, pouco tempo depois,
desatracaram
e partiram.
— Que desgraça! Corremos o risco de que não volte mais!
Então, o catire afirmou:
- Desenterradas nossas carabinas e com a desculpa de sair para seringar,
rondaremos essas lagoas a partir de hoje. Fácil coisa é achar a guarida
do bongo. Se a menina Griselda está com os cachorros, basta que assobiemos
para eles.
Faz cinco dias que se encontram ausentes e a incerteza está me tornando
louco!
A madona está cavilosa. Sua dissimulação é incompatível com a minha
paciência. Há poucos momentos quis reduzi-la com ameaças, falar-lhe
de Barrera e dos recrutados, obrigá-la a revelar tudo. Outras vezes, desligado
da esperança, tento resignar-me aos caprichos do destino, à fatalidade
dos acontecimentos que virão, dando-lhes as costas, para senti-los
chegar
sem empalidecer.
A quem esperar? Ao ancião Silva? Só Deus sabe se a tal curiara terá
perecido! Quase certo que se chegam até Manaus nosso Cônsul, ao ler a
minha carta, replicará que o seu valimento e jurisdição não chegam a essas
latitudes, ou o que é o mesmo, que não é colombiano a não ser para
determinados lugares do país. Pode ser que, ao escutar o relato de don
Clemente, coloque sobre a mesa aquele mapa custoso, pomposo, mentiroso
e deficientíssimo, que foi traçado pelo Escritório de Longitudes de
Bogotá, e lhe responda depois de uma indagação prolixa: "Aqui não constam
os rios com esses nomes. Talvez pertençam à Venezuela. Você deve
dirigir-se à Ciudad Bolívar".
E, muito satisfeito, continuará entrincheirado em sua estupidez,
porque essa pobre pátria não é conhecida por seus próprios filhos, nem
ao menos pelos geógrafos.
Diante da madona, enquanto isso, é preciso viver alerta. Sempre
odiei sua idiossincrasia carente, que tem duas antenas, como os caranguejos:
torpeza no amor e astúcia no lucro. Hoje, mais que isso, magoa-me a
sua hipocrisia, só inferior à minha sagacidade. Mas o seu fingimento habilidoso
data de poucos dias.
209
Por acaso, como pensa Ramiro, chegou-lhe algum aviso contra
mim? Onde estará Barrera, que será do Petardo Lesmes e do Cayeno?
— Zoraida, quem dissesse que você mudou comigo, teria razão!
— Por Alá! Como você prefere as índias...
— Você deve estar fartamente convencida do contrário. O seu desvio
tem como causa aquele arrebatamento... E até me censurou que não
lhe pagava! Qual testemunho pode aduzir como garantia da minha honradez?
Só um homem, com quem tive negócios em épocas passadas e que
mora nesses desertos, poderia dar-lhe informações sobre a minha retidão.
Quando a curiara que desceu para Manaus voltar, vou buscá-lo no Yaguanarí,
porque estou devendo-lhe vários contos. Chama-se Barrera!
A madona mudou de postura no catre e pestanejou abrindo os lábios.
— Narciso? Seu compatriota?
— Sim, que tem negócios com um tal de Pezil. Sem conhecer-me,
deu-me a honra de enviar-me dinheiro para o alto-Vaupe's, para que eu recrutasse
para ele índios e peões. Mais tarde, recebi ordem de suspender
aquela gestão porque ele mesmo estava pensando em ir contratá-los em
Casanare. Homem raro e empreendedor, de idéias audazes! Na última hora,
ofereceu-me ceder os seringueiros que lhe sobrassem por um baixo
preço. Sem reparar que eu já lhe devia as somas que me confiou. Vou vê-lo,
para devolvê-las e para fazer um bom trato, porque hoje em dia se ganha
muito com os seringueiros no Vaupés. Se pudesse, não negociaria em borracha,
e sim em seringueiros.
Ao ouvir isso, a madona, colocando a palma da mão nos joelhos,
fez a emocionante revelação:
— Os peões de Barrera não valem nada! Todos com fome, todos
com peste! Ao longo do rio Guainía, desembarcavam nas casas dos caboclos
para roubar tudo que encontrassem e engolir tudo que podiam: galinhas,
porcos, farinha crua, cascas de bananas. Tossindo como demônios,
devorando como lagostas. Em alguns lugares era indispensável fazer disparos
para obrigá-los a embarcar. Pezil subiu até à suafundação de San Marcelino
para encontrá-los. Ali, várias colombianas estavam doentes e ele
me deu uma a preço de custo.
— Como se chama?
— Não sei! Importa-se em sabê-lo?
- Sim... Não... Se tivesse vindo, falaria com ela primeiro, para
pedir-lhe informações sobre essa gente e, depois, para pedir-lhe reserva
absoluta e circunspecção.
210
- Em que assunto? Por quê?
— Não darei a minha confiança para quem não me dá a sua.
— Fale! Fale! Quando foi que eu tive segredos com você?
Então, invoquei o problema de cheio:
- Zoraida, quero ser generoso com a mulher que me fez de seu
corpo uma dádiva erótica. Mas em nenhum caso tolerarei que se comprometa,
imprudentemente, confiando em mim. Zoraida, todos aqui
estão sabendo que transporta de noite a borracha dos depósitos do
Cayeno para o seu batelón.
- Mentira! Mentira dos seus amigos que não gostam de mim!
— E que uma mulher chamada Griselda escreveu cartas para os
meus companheiros.
- Mentira! Mentira!
- E que avisou ao Cayeno o que está acontecendo.
- Os seus amigos! É nisso que estão metidos! Você permitiu!
- E que alguns seringueiros encontraram o esconderijo do seu barco
pirata.
- Por Alá! Que é que devo fazer? Vão-me roubar tudo!
Então eu, esquivando-me da mão que me implorava, saí do tambo,
repetindo com aquela sua sardônica indiferença:
— Mentira! Mentira!
Acabo de ver o Váquiro, deitado na sua rede do caney, onde o consome
uma febre alcoólica. Em sua volta, denunciando o suborno da turca,
há umas garrafas vazias, cujos cabazes ainda exalam o cheiro a breu,
característico dos barcos recém-chegados. Ramiro Estevanez, que deve
seu atual descanso à condescendência do capataz, suspeitou das repentinas
intimidades do casal, que se fechava a sós no depósito para trocar
palavras de mel: "Minha senhora!" "Meu General!" Veio chamar-me por
ordem deste, advertido pelo desgosto com que todos vêem o desaparecimento
dos meus companheiros. O Váquiro, baboso e sonolento, parecia
cochilar com um soluço de ânsia, sem permitir outro remédio que a cachaça.
- Não deixe que ele beba, pois vai acabar arrebentando.
E o enfermo, cravando em mim aqueles seus olhinhos idiotizados,
respondeu-me:
- Isso não é da sua conta! Chega de abusos! Chega de abusos!
- Meu General, peço licença para explicar-lhe respeitosamente...
211
— Esteje preso! Ou me apresenta aos seus companheiros, ou fica
preso!
Então Zoraida confessou para Estévanez que o Petardo Lesmes
chegaria com o Cayeno em hora imprevista e que contra nós havia não
se sabe qual suspeita.
— Como qual? — respondi com repouso fingido. — Será que o Petardo
está me caluniando por causa da minha adesão ao General Vácares?
Pois se for assim, que venham a mim as calamidades, porque tenho
o valor de reconhecer o mérito alheio e continuarei proclamando que
o homem de espada está sempre por cima dos outros. Aqui e em qualquer
lugar!
O Váquiro disse levantando-se do chinchorro:
— Isso sim que é verdade.
— Sim, é — agreguei — porque meus amigos comunicaram minhas
idéias a vários peões e estes instigam que estou conspirando contra o
Cayeno, a culpa não está no bem que se diz e sim no mal que se entende.
Se é porque despachei meus camaradas para trabalhar na quadrilha
que escolhessem, pela vergonha de vê-los ociosos, pelo desejo de corresponder
de qualquer maneira à proteção generosa de quem me hospeda,
para compensar com algum esforço o descanso que o General concedeu
para Ramiro Estévanez, que seja castigada em mim a omissão de não
ter pedido licença prévia a quem a concede, como se algum dia a delicadeza
tenha precisado de autorização para manifestar-se.
— Isso sim que é verdade!
— Se é porque você, Zoraida, anda repetindo que jamais estive em
Manaus, segundo deduziu das minhas respostas às suas perguntas sobre
edifícios, praças, bancos e ruas, você se enrola em sua desconfiança,
porque nunca disse que conheci essa capital. Para ser cliente da casa Rosas,
não é preciso passar o umbral dos seus armazéns; eu pelo menos não
precisei de tal requisito. Devo ao Cônsul do meu país a honra de ser filiado
a uma firma tão rica. Ao Cônsul, está ouvindo? Ao Cônsul, que neste
momento está sulcando o Rio Negro, vindo para corrigir não sei que desmandos,
como me informou na última carta que recebi
A madona e o Váquiro repetiram em duo:
-O Cônsul! O Cônsul!
- Sim, o meu amigo que, ao saber da minha viagem à San Fernando
de Atabapo, recomendou-me que eu recolhesse, sigilosamente, informações
dos abusos e assassinatos que Funes cometeu em terras colombianas.
212
Assim disse e, quando saí fazendo com que o meu orgulho de homem
influente sobressaísse, o Váquiro e a madona não pararam de resmungar:
-O Cônsul! E são amigos!
— Podia dizer-me você — rogava-me o Váquiro — se nessas coisas
do índio Funes acabará resultando em complicações para o meu lado?
- Mas por acaso meu General teve participação ativa na noite
aziaga?...
— Obrigado! Obrigado!
E a madona nos interrompia:
-O senhor Cônsul poderia ajudar-me a cobrar os meus créditos?
Como você vê, o Cayeno nega a dívida e foi embora do tambo para não
me pagar. Descreva para mim as contas no seu livro.
- Por acaso a borracha que você tirou dos depósitos...
- É uma sernambí de péssima classe. Por fora, a bolota dura e
polida; por dentro, areias, trapos e sujeiras. Perdi o transporte dessa
borracha porque não resistiu à prova: fundia-se ao ser colocada na água.
Se o Cônsul escutasse as minhas queixas...
— Seria preciso ir até onde ele está.
— E se não veio...
- Vem, vem e chegou a Yaguanarí. Essa mulher chamada Griselda
diz em suas cartas um montão de coisas. Seria preciso interrogá-la.
— Tenho medo dela. É de má índole. Ela junto com a "outra"
cortaram a cara do pobre Barrera.
— Do pobre Barrera!
- É por isso que não deixo que ela ande comigo.
— Convém interrogá-la imediatamente.
— Você seria capaz?
- Sim.
E a menina Griselda veio.
Nunca mais em minha vida vou sentir uma expectativa tão asfixiante
como a que embargou minha alma naquela tarde, ao escurecer,
quando a madona Zoraida Ayram pendurou sua lanterna naporta do quarto
que domina o rio. Era o sinal. Sobre a linfa trêmula do Isana corriam
os reflexos, ordenando o avanço do batelôn em cuja proa os tripulantes
deveriam estar preparados para a meia-noite.
Não posso dizer com certeza em que momento convenci a madona
213
de que devíamos fugir juntos. Meu cérebro ardia mais do que o lampião
do dintel, refulgia como o farol que convida as naus a entrarem no
porto. Uma frase, só uma frase zumbia frenética em meus ouvidos, projetando
em meus olhos imagens lúcidas: "Ela junto com a outra cortaram
a cara do pobre Barrera". A outra, a outra, quem podia ser? E por qual
motivo? Por ciúmes, por vingança, para fugir? Alícia, era Alícia? Qual das
duas tinha antecipado-se com mão débil o traço mortífero que o meu
ódio másculo devia ampliar? E enquanto a agitação me angustiava, dançava
diante das minhas retinas a máscara de um rosto ferido, que não
era rosto, nem era máscara, e sim a mandíbula de Millán, partida pelo
golpe dos chifres, que ria injuriosamente, com um sorriso enigmático e
doloroso como o de Barrera, como o de Barrera!
Bebi, bebi, bebi e não me embriaguei Meus nervos resistiam à ação
maléfica do álcool. Tomava o copo do Váquiro e, ao secá-lo, via que a
lanterna emprestava ao vidro tonalidades lívidas de punhal. Impaciente
pela demora do bongo, ia do tambo ao rio e espreitava no céu claro a
hora da meia-anoite, vendo a estrela tardia viajar, calculando sua chegada
ao zênite. O Váquiro cambaleante seguia-me por todas as partes, acossando-
me com intrigas e perguntas:
— A borracha dos depósitos foi entregue à madona por que sabiam
que eu responderia por seu valor.
— Muito bem, muito bem!
— Ela instigara o Petardo Lesmes para que montasse guarda no
rápido de Santa Bárbara para que detivesse a embarcação de Clemente
Silva, mas a cariara passou.
— É verdade, é verdade?
— Se o Cayeno notasse a diminuição na borracha do armazém,
apontaria a Zoraida como ladrona.
- Muito bem, muito bem.
- Eu tinha maliciado que a madona tentava fugir? Pois colocaria
guarnições para fechar o rio, a menos que o Cônsul pensasse em subir
até o Guaracú e eu garantira que ele não tentaria...
— Não se preocupe, pois só está vindo para recolher informações
para cortar o pescoço do tirano Funes.
— Por que o Petardo Lesmes avisou que exibiria provas de que não
eram seringueiros e sim bandidos?
— Calúnias, calúnias! Somos amigos do senhor Cônsul e isso basta!
— Zoraida, Zoraida — eu lhe dizia, afastando-me dobêbedo.—
Quando meus camaradas voltarem, abandonaremos esse presídio.
214
E ela insistia:
- Mas é verdade que você não mandou que me indispusessem com
o Cayeno? Você gosta de mim? Gosta?
- Sim, sim — e agarrando-a pelos braços, apertava-a nervoso,
até fazê-la gritar e a olhava com olhos alucinados e a figura da mulher
borrava-se da minha presença, só ficando um tecido sangrento sobre o
busto lascivo, que as têmporas de Luciano Silva empapou de cálida púrpura.
A noite era azul e os barracões estavam desertos. Ramiro Estévanez,
que não se afastava da margem, veio avisar que uns galhos baixavam
pelo rio. O batelón devia encontrar-se acima, no atracadouro desconhecido,
enviando sinais.
Ao escutar essa nova, operou-se em mim um fenômeno orgânico: as
palmas das minhas mãos esfriaram, as pulsações se moderaram e comecei
a sentir um vago alívio que me enchia de indolência, apesar da febre súbita
que dava à minha pele ardores de brasa. Eu, emocionar-me porque
uma aventureira chegava ao tambo? Já não tinha interesse em vêla,
nem em saber de ninguém. Se estava querendo proteção, que me procurasse!
E mergulhei em um desdém irônico.
— Não me convide para o porto, Zoraida, porque não vou. Se
ainda insiste que interrogue sua empregada, tem de ser a sós e aqui nesse
caney.
Minutos mais tarde, quando percebi que as duas mulheres chegavam,
quis mover-me para atenuar a chama do lampião. Dei alguns passos
e o pé direito resistia: uma leve cãibra, uma espécie de paralisia com
cócegas estremeceu-me. Lerdamente, avancei sem sentir o chão. A menina
Griselda correu para abraçar-me. Rechaçando-a com a mão, disse-lhe
secamente na frente da madona.
- Saúde!
Hoje escrevo estas páginas no Rio Negro, rio sugestivo que os nativos
chamam de Guainía. Há três semanas, no batelón da turca, fugimos
das barracas do Guaracú. Sobre a crista dessas ondas retintas que nos vão
aproximando do Yaguanarí, diante dessas margens que viram os meus
compatriotas escravizados descendo, sobre esses redemoinhos que a
curiara de Clemente Silva venceu, rememoro os acontecimentos aterradores
que precederam a fuga, inconformado com meu destino, que me
obrigou a deixar um rastro de sangue.
Aqui está a menina Griselda, de palavra saborosa e espírito enérgico,
215
cujo rosto, desgastado pela dor, aprendeu a sorrir em meio às lágrimas.
Infunde-me carinho e coragem ao mesmo tempo, essa desgraçada
que não se transtorna diante do perigo e que soube desarmar minha cólera
estúpida na noite em que nos encontramos frente a frente, sozinhos,
no caney da madona.
— Saúde — repeti, fazendo um ademão de sair do quarto.
— Pera, desconhecido. Fui trazida aqui para falar com você.
— Comigo? Sobre o quê? Você veio contar-me como vai passando?
— Igual a você. Rebentada, mas contente.
— E o seu negócio? Como anda a assistência das peãozadas? Qual
é o preço do seu amassilho fresco?
— Pra você não tenho, porque não fio. Mas como vejo que tá
necessitando, vem que ajeitamos.
Comovido por vê-la cobrir o rosto com o lenço, perguntei-lhe:
— O "menino" Barrera andou ensinando você a chorar?
— Chorar? E por quê? É que desde o dia em que me deram um
pescoção fiquei com o grilo de ficar me limpando.
Recriminando-me dessa maneira a cena brutal de La Maporita,
tentou sorrir, mas, de repente, soluçando convulsivamente, caiu aos
meus pés:
— Pare com as gozações, olha como somos desgraçados.
Quase maquinalmente, inclinei-me para levantá-la, com uma satisfação
secreta por vê-la vencida. Sentia-me aniquilado diante daquela
dor, mas meu orgulho ergueu-se como uma esfinge e calei: perguntar
por Alícia, averiguar o seu paradeiro, demonstrar interesse por saber
dela? Nunca! No entanto, acho que, inconscientemente, balbuciei
alguma pergunta, porque Griselda, sorrindo no meio do pranto, replicou:
— A qual delas se refere, à sua Clarita?
- Sim.
— Pois receba os pêsames mais sentidos, porque agora quem a tem
é don Funes. Barrera entregou-a como pagamento pela licença para transitar
o Orinoco e o Casiquiare. A pobre chorava ao ver sua sorte e nós
também chorávamos, mas levaram-na para San Fernando de Atabapo,
metida em uma canoa, sem entregar-lhe nem a roupinha nem o bauzinho,
com uma carta e alguns presentes.
— E a outra, a outra, que negócio foi esse do talho?
— Ah, seu desvairado! Com que então até que enfim você pergunta
216
por ela! Mas primeiro tem que me confessar que a Clarita foi sua
concubina, quando cê tava no Hato-Grande. Pois ficamos sabendo tudo!
— Nunca! Mas fale, aquele miserável. .
— Pessoalmente nos levou essa fofoca e, todas as noites, mandava
o Mauco afligir a menina Alícia: que você passava os dias metido no
chinchorro com a tal mulher, que a estava levando pra Venezuela e não
sei que mais. Diz, então, se a outra não teve razão para desesperar. Foi
por isso que veio embora. Foi por isso que a trouxe comigo, porque
eu também ficava sem eira nem beira. Fidel tava querendo destransar.
Me tratava mal!, . .
— Advirto-lhe que não me interessam esses contos de fadas!
Cada um merece a sina que tem. O que não aceito é que você meta Barrera
nessa intriga, querendo passar por inocente. E aqueles passeios na
curiara? E os bate-papos à meia-noite?
— Mas não eram para nada de mau. Tem razão em me julgar assim,
por ter-me engraçado pró seu lado. Foi esse o meu pecado, mas a penitência
tem sido mais grave! Eu necessitava de alguma ajuda e, como a
menina Alícia queria voltar pra sua casa em Bogotá com don Rafael,
sobreveio-me a tentação. Mas isso me pesa bastante na consciência.
Nunca, nunquinha desconsiderei Franco!
— Ah, se o fantasma do capitão falasse!...
— É bom não me lembrar dele! Pagou caro o atrevimento! Pergunte
a Fidel se você quer os detalhes, mas não me fale dele. Tenho sofrido
tanto! Imagina você o que foi para mim, esticá-lo ali, agonizando aos
pés da minha honra. E deixar que Fidel assumisse tudo para salvar-me,
pra defender-me! E depois o suplício de ver o meu homem, triste, desamuado,
arrependido, deixando-me sozinha em La Maporita, dias e
semanas, só pra não olhar para mim, para não ter que me dar a mão,
repetindo que estava com vontade de mandar-se pra bem longe, pra
outros países, prum lugar onde ninguém soubesse do acontecido e não
tivesse que tá dando de peão, arriscando a vida nas touradas. Nesse clima
o tal de Barrera se apresentou e Franco me dava rédeas soltas pró
entusiasmo, como querendo se livrar de mim, dizendo-me umas vezes
que íamos embora, noutras que ele ficava; até que Barrera, pra obrigar-
me a botar o pé no mundo, me cobrou os presentes que tinha me
dado e eu não tinha com que pagar e me ameaçou demandar o pobre
Fidel. Eram esses os bate-papos! É isso que você tá supondo de mau.
— E você quis saldar essa conta entregando a menina Alícia?
— Bota consciência no que está dizendo! Como é que você
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me joga essa acusação? Dei pró Barrera tudo o que era meu, anéis, brincos
e quis até vender minha máquina pra pagar-lhe. Depois de tudo, voltou
pra dizer-me que você era rico, que pedisse dinheiro emprestado.
A menina Alícia me escutava chorar de noite, ofereceu-se pra me ajudar,
falando com ele, pra ver se pelo menos conseguia baixar o saldo.
Nesse meio tempo, você me bateu e queria matar-nos e foi embora para a
Clarita e Barrera foi avisar-me que não esperava Franco porque cê ia me-
ter-lhe umas fofocas nos ouvidos e ele podia me moer de pancada. E,
ela fugindo de você e eu de Franco, viemos sozinhas para onde pudemos:
pra tentar a vida no Vichada.
— O afeto e o vento sopram de qualquer lado.
— Fiz mal em lhe dizer isso. Como gostava de você e a menina
Alícia queria voltar... Mas veja você que vento mais desumano, mais
espantoso: caiu em cima de todo mundo e nos dispersou como se fôssemos
lixo, longe da nossa terra e do nosso afeto.
A infeliz mulher começou a chorar e uma ternura transbordante
inundou o meu peito:
— Griselda, Griselda! Onde está Alícia?
— Depois da rixa com o Barrera, me separaram dela e me venderam.
Deve tá no Yaguanarí. Felizmente, ensinei-a a amarrar as anáguas,
a comportar-se. Não a desamparei em todo o caminho: se saíamos do
bongo, saíamos juntas, se dormíamos na praia, uma apertando a outra,
bem tapadas com folhas de palmeiras. O Barrera tava chateado, mas não
tinha coragem de ser abusivo. Uma noite, entrou no bongo e abriu uma
garrafa pra embebedar-nos. Como não aceitávamos nada, mandou que os
remadores me tirassem aos empurrões e se atirou pra forçar a menina
Alícia; mas esta desfundou a garrafa, ficando com o gargalo e, com um só
golpe, deu oito talhos na cara do velhaco.
Quando a mulher parou de falar, eu tinha quebrado minhas unhas
contra a mesa, achando que meus dedos eram punhais. Foi então que notei
que minha mão direita estava insensível. Oito talhos! Oito talhos! E
com os olhos faiscantes procurava o infame na habitação, para ultimá-lo,
para mordê-lo, para triturá-lo!
A menina Griselda me suplicava:
— Tenha calma, fique calmo! Vamos atrás dela pelo Yaguanarí.
É uma mulher honrada! Juro que não compraram ela, porque agora não
serve para os trabalhos, porque tá grávida!
Ao ouvir isso, perdi o controle de mim. A voz da patroa chegava
aos meus ouvidos como um eco longíquo, dizendo:
218
— Vamos embora, vamos! Fidel e o catire deram comigo esta
manhã e tão no bongo. Todos reconciliados!
Sem dúvida, dei uns gemidos alarmantes, porque Ramiro Estévanez
e a madona apareceram no umbral.
— Que está acontecendo? Que está acontecendo?
E a menina Griselda, vendo-me afônico, repetia-lhes:
— Vamos embora! Estamos indo embora. Os remadores disseram
que o Cayeno pode chegar.
Afobada, Zoraida começou a arrumar os trecos, oprimindo sua
serva com ordens peremptórias de ama resmungona. Desconcertado, Ramiro
aproximou-se de mim para tomar meu pulso. As mulheres andavam
numa azáfama, fazendo embrulhos e, em pouco tempo, a madona,
debaixo de seu grande chapéu, perguntou-me:
- Você tem alguma coisa para levar?
Apontando com dificuldade o livro aberto em cima da mesa, o
livro desta história fútil e montaraz, sobre cujas folhas minha mão treme,
consegui dizer:
— Isso! Isso!
E a menina Griselda o levou consigo.
- Diz uma coisa, você conseguiu esclarecer a conta que pedi? Detalhou-
a bem para mostrá-la ao Cônsul? Como você vê, Barrera ainda me
está devendo, pois enganou-me dando-me jóias ordinárias. Entregue-me as
somas que tem dele. Você podia assinar uma promissória. Que foi que a
mulherzinha lhe disse? Vamos embora, estou com medo.
E Ramiro avisou, fazendo um sinal:
— O Váquiro está acordado, no corredor.
Não consigo descrever o que fui sentindo nesses momentos: parecia
que estava morto e que estava vivo. De fato, só a zona do coração
e grande parte do lado esquerdo davam sinais de perfeita vitalidade; o
resto não era meu, nem a perna, nem o braço, nem o pulso; era algo postiço,
horrível, perturbante, ao mesmo tempo ausente e presente, que
me provocava uma náusea única, como a que deve sentir uma árvore
que vê um galho seco colado em sua parte viva. Contudo, o cérebro
executava admiravelmente suas funções. Meditei. Era alguma alucinação?
Impossível! Os mesmos sintomas de outro sonho de catalepsia?
Também não. Falava, falava, ouvia minha voz e era ouvido, mas me sentia
semeado no chão e, pela minha perna, inchada, fria e deformada
como as raízes de certas palmeiras, subia uma seiva quente, petrificante.
219
Quis mexer-me e a terra não me soltava. Um grito de espanto! Hesitei!
Caí! Ramiro exclamou, inclinando-se apressado:
— Deixe que lhe sangre!
— Hemiplegia! Hemiplegia! —repetia-lhe desesperado.
— Não! O primeiro ataque do beribéri!
Estive chorando durante toda a madrugada, sem outra companhia
que a de Ramiro, que sentado no chinchorro à minha destra não
dizia uma palavra. O hálito fresquíssimo da aurora restaurava meu corpo
e, pela feridinha que a lanceta fez em meu braço, a febre escapou.
Tentei caminhar e a perna boba se atrasava, desnivelando-me, pois de realidade
volumosa, na aparência pesava menos que uma pena. Agora sim,
compreendia porque alguns seringueiros, ao sofrer os sintomas do beribéri,
brigam enlouquecidos para que lhe amputem com uma machadada
o tornozelo insensível e correm, esvaindo-se em sangue, em direção
à barraca onde morrem comidos pela gangrena.
— Não permito que ninguém saia daqui — reclamava o Váquiro no
caney próximo, onde altercava-se com a madona. — Mesmo bêbedo, me
dou conta do que está se passando. Você me conhece!
— Está ouvindo? — dizia Ramiro. — É arriscado pensar em fugas.
Eu pelo menos não tentarei.
— Como? Pensa ficar aqui, onde a timidez fincou rebites em suas
correntes?
— A timidez e a reflexão, quer dizer, aquilo que você não tem. E
pode acrescentar outras causas: o fracasso, a decepção.
— Mas a liberdade não o entusiasma?
— Ela não me bastou para ser feliz. Eu, voltar para as cidades,
deteriorado, pobre e doente? O que deixou seus lares para conquistar
a fortuna não deve voltar pedindo esmola. Aqui pelo menos ninguém
conhece minhas vicissitudes e a miséria toma forma de renúncia obrigatória.
Vá embora, a vida nos amansou com substâncias diferentes.
Não podemos seguir o mesmo caminho. Se algum dia você encontrar
meus pais, toma cuidado para não dizer onde estou. Que o esquecimento
caia em cima de quem nunca pôde esquecer!
Estas frases com que Ramiro se despedia da ilusão e da juventude
nos fizeram chorar outra vez. Tudo isso pelo amor àquela Marina, cujo
doce nome escreveu seu destino com duas palavras:
Sempre! Nunca!
220
- Por que estão discutindo? — perguntei a Ramiro quando voltava,
ao amanhecer.
- Pela borracha dos depósitos. O Váquiro garante que faltam
mais de cento e cinqüenta arrobas e afirma que foram roubadas, porque
as embarcaram sem sua vênia. A madona está prometendo que você
responderá por ela.
— Ramiro, que devo fazer?
-É uma complicação terrível.
— Aconselhemos à madona que devolva a borracha e fujamos.
Ou se não, prendamos o Váquiro. Chame Fidel e Heli que estão no
bongo. Fale para que tragam as carabinas.
-O bongo está ancorado na margem oposta. Os que chegaram
vinham de canoa.
— Que devo fazer, Ramiro?
— Esperemos até que o Váquiro durma a sesta.
— Mas você vai embora comigo, não é mesmo? Para seguir meu
destino. Para adentrarmos no Brasil. Trabalharemos como peões, onde
não nos conheçam, nem nos persigam. Com Alícia e nossos amigos!
Essa garota é boa e a perdi. Eu a salvarei! Não me recrimine esse propósito,
essa aspiração, essa decisão! Não leve a mal que seja minha amante;
hoje é só uma mãe esperando seu próprio milagre. Tantas pessoas no
mundo se resignam a conviver com uma mulher que não é a sonhada e,
contudo, é a consentida, porque foi santificada pela maternidade. Pense
que Alícia não delinqüiu e que eu, despeitado, denigri-a. Vem, você nos
verá reconciliados sobre o cadáver do meu rival. Vamos buscá-la no Yaguanarí.
Ninguém a compra porque está grávida. Do ventre materno, meu
filho a ampara!
De repente, Ramiro, desvairado, exclamou afastando-se:
— O Cayeno! O Cayeno!
Ainda me estremeço diante da visão daquele homem rechonchudo
e ruivo, de calvície rubicunda e bigodes lassos, que dando um pescoção
no General Vácares trincou-o no pó, urgindo que o pendurassem pelos
pés e pusessem fumaça debaixo de sua cara. Demônio duma figa, dizia
mastigando as sílabas. Demônio duma figa! Então não mandei que montasse
guarnições nos caudais? Quem foi que despachou canoas para o
Brasil?
E enquanto os verdugos executavam o suplício, rugiu arrancando o
chapéu da madona:
221
— Marafona! Não tira o chapéu? Que está fazendo aqui? Não
provei que não lhe devo nada? Onde está a borracha que me roubou?
E como a madona me apontava, o pérfido sujeito veio em minha
direção:
— Bandido! Você continua cafetizando os seringueiros? Fique de
pé! Onde é que estão seus dois amigos?
Tentei levantar-me e opor-lhe resistência, mas a perna inchada me
impediu. Foi então que o homem, a pontapés e chibata, caiu em cima de
mim, chamando-me de ladrão, chamando-me de aliado do índio Funes,
até deixar-me exangue no chão.
Quando me aprumei, coberto de sangue, percebi que o Cayeno
andava pelos depósitos. Então, a peãozada antiga invadiu o pátio onde
havia uma patrulha de índios prisioneiros, com os punhos cheios de
vermes debaixo das sogas. No meio deles, o Petardo Lesmes vadiava,
apressando os capatazes que examinavam o rebanho recém-agarrado
para distribuí-lo entre suas quadrilhas. Um clamor surdo enchia o ambiente,
quando vi tirarem do montão de homens, com as mãos amarradas,
o Pipa que vinha para identificar-me, de acordo com as instruções do Petardo.
Aproximou-se de mim e, firmando sobre o meu peito o pé imundo,
gritou: "Esse é o espião de San Fernando"!
— E você, seu animal — replicou-lhe o seringueiro corpulentíssimo
que o seguia — é o Chispita daChorrera,o que, arranhando-os, matava
os índios ao seu bel-prazer, o que tantas vezes me metia o couro. Me
empresta as unhas para examiná-las.
E puxando-o pela corda, arrastava-o, com os seringueiros apupando,
até que, furibundo, cortou-lhe os braços com o machete, de um só
golpe, com o machete agarrado por ambas as mãos, e jogou no ar o par
de mãos arroxeadas, como se fossem um cacho lívido e sanguinolento.
O Pipa, atordoado, levantou-se do pó como querendo apanhá-las e agitava
os cotocos à altura da cabeça, cotocos que choviam sangue sobre o
restolho, como repuxos de algum jardim bárbaro.
Assim que o Cayeno reapareceu, os barracões do Guaracú ficaram
em silêncio.
— Colombiano. Pode tratar de me dizer onde está o bongo! Pode
ir-me devolvendo a borracha escondida! E trate de entregar-me seus companheiros!
E quando me meteram na canoa e atravessamos o rio em direção ao
batelón, vi pela última vez Ramiro Estévanez e a madona Zoraida Ayram,
no barranco do pequeno porto, chorosos, trêmulos, espantados.
222
A menina Griselda, ao ver-me contundido, adivinhou o que havia
acontecido e saiu para receber-nos na borda. O Cayeno, apagando o cachimbo
na sola do sapato, pareceu hesitar diante da repentina suspeita,
porque ordenou aos remadores da curiara que costeassem o bongo.
Os cachorros, furiosos, defendiam a ponte com fortes latidos.
— Mulher — prorrompi — prenda os animais, que o senhor está
vindo para requisitar a embarcação.
— Explique ao amo que aqui não temos mais nada a não ser a mercadoria.
Toda a borracha ficou escondida nas estagnações. Se o amo quer,
vamos até lá.
O Cayeno, de um salto, instalou-se na proa e mandou que desatracassem
assim que eu consegui subir.
— Quantas pessoas tem aqui? Onde estão os outros palhaços?
— Meu amo, tou sozinha com os três índios: dois prós remos e o
do timão.
O tirano gritou para os marinheiros da canoa:
— Upa! Voltem para as barracas para trazer carregadores!
Enquanto isso, o bongo seguia água abaixo e a menina Griselda
veio colocar-se diante do Cayeno, embaralhando explicações para impedir
que ele reparasse nos fardos da mercadoria. Meus companheiros
estavam escondidos ali, malcobertos por um saco de aniagem, de cujo
extremo seus pés saíam para fora. Um suor de morte corria por minha
cara. O Cayeno os viu e, sacando o revólver, desceu na direção deles.
— Senhor — balbuciei — são dois rapazes que estão com febres.
O déspota inclinou-se para descobri-los e, subitamente, Fidel agarrou-
lhe a arma com ambas as mãos, enquanto o catire segurava-o pela
cintura. Saltei como pude para unir-me a eles, mas o ex-presidiário, ligeiro
como um peixe, safou-se, atirando-se no rio. A menina Griselda
ainda conseguiu acertar-lhe uma remada na cabeça. Os cachorros caíram
em cima das borbulhas que o fugitivo provocou na água. O Cayeno
submergiu. Preparadas, as carabinas espreitavam nos lados. "Está aqui,
está aqui, preso ao timão!" Um, dois, dez disparos! O homem pôs-se a flutuar,
fingindo-se de morto, enquanto se afastava dos fuzis e depois os cachorros
não podiam alcançá-lo. "Ali, ali, não deixem que ele tome fôlego!"
Remávamos furiosamente no bongo, e a cabeça desaparecia, rápida
como Um pato mergulhador, para emergir em um ponto impensado, e
Martel e Dólar seguiam a rota na água carmínea, ladrando apressado atrás
da presa, até que presenciamos na costa o quadro aterrador:
223
um dos cachorros cabresteava o cadáver pelo remanso, ao extremo do intestino
que se desenrolava como um cinto, longo, sinistro.
Assim morreu aquele estrangeiro, aquele invasor, que nos lindes
pátrios devastou as selvas, matou os índios, escravizou seus compatriotas!
No domingo demos na aldeola de San Joaquim, frente à boca do
Vaupés, e não nos permitiram desembarcar. Acham que estamos empestiados,
nos vêem famintos, têm medo que roubemos víveres e galinhas.
Misturando o castelhano e o português, o prefeito ordenou-nos que saíssemos
do porto, enquanto as pessoas agrupadas no areal, velhas, mulheres,
crianças, nos ameaçavam brandindo escopetas, vassouras e paus.
"Colombianos, não, colombianos, não!" E lançavam maldições contra
Barrera que tinha levado uma praga tão daninha para o Rio Negro.
E em San Gabriel, povoado edificado sobre o desfiladeiro por onde
o rio gigante se precipita, tivemos de abandonar o bongo para não o arriscar
no caudal. O Prefeito Apostólico, Monsenhor Massa, acolheu-nos
benevolamente e ofereceu-nos a gasolina da Missão para que seguíssemos
para Umarituba. Ele me deu a notícia que nos encheu de júbilo: faz tempo
que Don Clemente desceu e o Cônsul da Colômbia, no fim da semana,
no vapor Inca que faz o trajeto entre Manaus e Santa Isabel.
Umarituba! Umarituba! João Castanheira Fontes, não contente
com presentear-nos roupa, mosquiteiros e provisões, está equipando-nos
uma canoa para a viagem ao Yaguanarí. Seguiremos terça-feira para o
Rio Negro, radiantes de esperança, trêmulos de ansiedade. O beribéri deixou
minha perna dormente, insensível, como se fosse de borracha. Mas
a alma reluz em meus olhos, poderosa como uma chama. Eu não sei o
que vai acontecer!
Hoje, água abaixo! Aqui está o morro solene cuja base lambe o
rio Curicuriarí, o rio que Clemente Silva e os seringueiros procuraram
quando estavam perdidos na floresta.
Santa Isabel! Na agência dos vapores, deixei uma carta para o Cônsul.
Nela invoco seus sentimentos humanitários em favor dos meus compatriotas,
vítimas da pilhagem e da escravidão, que gemem no meio da
selva, longe do lar e da pátria, misturando ao suco da borracha o próprio
sangue. Nela despeço-me do que fui, do que em outro ambiente
pude ter sido. Tenho o pressentimento de que minha senda chega ao seu
fim e,
224
qual surdo zumbido de remagens na tormenta, percebo a ameaça
da voragem.
Coragem! Coragem! Chegaremos hoje ao Yaguanarí, e remamos
a todo músculo porque soubemos que o meu rival sai para Barcelos. É
possível que leve Alícia consigo.
Aquele rio divide-se em imensos braços, para melhor estreitar as
ilhas incultas. Do lado direito dessa península, vê-se o caney dos empestiados,
detidos em quarentena. Por trás, desemboca o Yurubaxí.
— Catire, algum capataz pode reconhecê-lo. Agarre o meu revólver.
Guarda-o no cinto.
Vamos chegar!
Escrevo isso aqui, no barracão de Manuel Cardoso, onde don
Clemente Silva virá buscar-nos. Já livrei minha pátria do filho infame.
O recrutador já não existe mais. Matei-o! Matei-o!
Ainda o vejo saltando da curiara no pátio livre que precede ao
caney do Yaguanarí. Circundados por fogueiras medicinais, os empestiados
tossiam no meio da fumaça, sem dar-me notícias do meu inimigo,
por quem eu perguntava ansioso, antes que me visse. Num momento
como esse, tinha esquecido de procurar Alícia. A menina Griselda a tinha
abraçada ao pescoço e eu me detive sem cumprimentá-la: só queria olhar
seu ventre!
Não sei quem me disse que Barrera estava no banho e corri inerme
pelo gramado em direção ao rio Yurubaxí. Estava nu em cima de uma
tábua, junto à margem, tirando as ataduras das feridas, na frente de um
espelho. Ao ver-me, jogou-se para a roupa, para pegar a arma. Eu me interpus.
E começou entre os dois a luta tremenda, muda, titânica.
Aquele homem era forte e, ainda que minha estatura o avantajasse,
derrubou-me. Dando pontapés, convulsos, arávamos a grama e o
areal, em nós apertado, trocando nossos hálitos de boca a boca, ele
debaixo umas vezes, outras, em cima. Trançávamos os corpos como serpentes,
nossos pés chapinhavam à margem e voltávamos sobre a roupa e
rodávamos outra vez, até que eu, quase desmaiado, num ímpeto supremo,
agrandei seus cortes com meus dentes, ensangüentei-o e, raivosamente,
o submergi na linfa para asfixiá-lo como a um pombinho.
Então, desconjuntado pelo cansaço, presenciei o espetáculo mais
terrível, mais pavoroso, mais detestável: milhões de caribes caíram sobre
o ferido, em meio a um tremor de aletas e cintilações e, mesmo com ele
225
batendo as mãos e se defendendo, descarnaram-no em um segundo, arrancando
carne em cada mordida, com a celeridade de uma ninhada faminta
que tira grãos de uma espiga de milho. As águas borbulhavam em fervor
dantesco, sangüíneas, turvas, trágicas: e assim ao negativo o esqueleto
do corpo radiografado, foi emergindo na lâmina imóvel o esqueleto limpo,
esbranquiçado, semi-afundado num extremo pelo peso do crânio e
tremia contra os cipós da ribeira como em um estertor de misericórdia!
Ali ficou, ali estava quando corri para buscar Alícia e, levantando-a
em meus braços, mostrei-o a ela.
Lívida, desfalecida, deitamo-la no fundo da curiara, com os sintomas
do aborto.
Anteontem à noite, na miséria, na escuridão e no desamparo,
nasceu o pequeno setemesinho. Sua primeira queixa, seu primeiro grito,
seu primeiro pranto foram para as selvas desumanas. Viverá! Levarei-o
comigo em uma canoa por esses rios, à procura da minha terra, longe
da dor e da escravidão, como o seringueiro do Putumayo, como Júlio
Sánchez!
Ontem aconteceu o que prevíamos: a lancha de Naranjal veio
para atirar em nós, para submeter-nos. Mas lhe opusemos força à força.
Voltará amanhã. Se pelo menos viesse também a do Cônsul!
Franco e Heli vigiam em cima do penhasco, para impedir que as
montarias dos empestiados encostem. Lá escuto a flotilha mendiga
tossindo, que clama por minha ajuda, pretendendo alojar-se aqui. Impossível!
Em outras circunstâncias me sacrificaria para aliviar os meus conterrâneos.
Hoje não! Colocaria a saúde de Alícia em perigo. Podem
contagiar o meu filho!
É impossível convencer esses importunes que me apelidam seu
"redentor". Falei com eles, expondo-me ao contágio, e resistem em regressar.
Já lhes repeti que não tenho víveres. Se me acossam, nos obrigarão
a sair para o monte. Por que não vão embora para o caney do Yaguanarí,
em espera do vapor Incal Chegará de hoje para amanhã.
Sim, é melhor deixar esse rancho e refugiarmo-nos na selva, dando
tempo para que o velho Silva chegue. Improvisaremos algum refúgio
a curta distância daqui, onde seja fácil a nosso amigo encontrar-nos e se
consiga leite de seje para o menino.
Que preparem a padiola onde a jovem mãe vá deitada! Franco e
226
Heli a levarão no ar. A menina Griselda carregará a escassa ração. Eu marcharei
na frente, com meu primogênito debaixo do capote.
E Martel e Dólar atrás!
Don Clemente: Sentimos não esperá-lo no barracão de Manuel
Cardoso, porque os empestiados estão desembarcando. Aqui, aberto na
barbacoa, lhe deixo este livro, para que nele se inteire de nossa rota por
meio do croquis, imaginado, que desenhei. Cuide bem desses manuscritos e
coloque-os nas mãos do Cônsul; são a nossa história, a desolada história
dos seringueiros. Quantas páginas em branco, quanta coisa que não se
disse!
Velho Silva: Nos situaremos a meia hora dessa barraca, procurando
a direção do caño Marié, pela antiga vereda. Caso encontremos dificuldades
imprevistas, lhe deixaremos grandes fogueiras em nosso rumo.
Não se tarde! Só temos víveres para seis dias! Lembre-se de Coutinho e
de Souza Machado!
Portanto, vamos embora!
Em nome de Deus!
227
EPÍLOGO
O último cabograma do nosso Cônsul, dirigido ao senhor Ministro
e relacionado com o destino de Arturo Cova e seus companheiros, diz
textualmente:
"Faz cinco meses que Clemente Silva os procura em vão. Nem rastro
deles. A selva os devorou!"
229
VOCABULÁRIO
Acochinar, acovardar.
Afilar, engolir o anzol.
Alebrestado, mulherengo.
Alertado, cuidadoso.
Animado, amante.
Atajo, conjunto de animais.
Atravesado, belicoso..
Atravesarse, interpor-se.
Bagre, certo peixe.
BaJatá, espécie de borracha.
Banco, extensão plana de terreno.
Baquía, destreza.
Barajustar, fugir em tropel.
Barajuste, disperto, estouro da boiada.
Barbacoa, aparador de bambu.
Batelón, lancha grande.
Bayetôn, poncho grande de lá".
Bejuco, cipó.
Bejuquera ou Bejuquero, massa de cipós.
Belduque, punhal curto.
Bohío, choupana.
Bongo, lancha de madeira.
Botalón, poste para domar animais.
231
Bufeo, delfim de água doce.
Bunde, dança sapateada.
Burriar, abundar.
Caboclo, colono.
Cabuya, fibra de planta.
Cachaça, elegante.
Cachiblanco, facão pequeno.
Cachicamo, tatu.
Cacho, chifre.
Cachones, touros adultos.
Caimán, jacaré da América.
Caimito, fruta sapotácea.
Cambur, banana pequena, muito doce.
Canaguay, de plumagem dourada e esverdeada.
Candongas, brincos.
Caney, alpendre grande.
Caño, rio menor.
Caramero, paliçada.
Caribe, certo peixe muito voraz.
Caricari, espécie de falcão.
Catire, ruivo.
Cazabe, torta de farelo de jucá (ou seja, de mandioca).
Colear, derrubar a rês pelo rabo.
Comején, inseto que faz sua habitação na madeira das árvores ou das
casas e a destrói.
Conga, formiga venenosa.
Consumir, submergir.
Conuco, sementeira rústica de plantas alimentícias tropicais.
Coquis, rapaz cozinheiro.
Coortería, lote de quinquilharias.
Corotos, trastes, quinquilharias.
Corrido, poema lhaneiro.
Coscorefo, cavalo que morde o freio.
Coyabra, vasilha feita de uma cabaça.
Cumare, espécie de palmeira.
Curare, veneno vegetal muito ative.
Curiara, canoa.
Chanchira, farrapo.
232
Chicha, bebida fermentada, geralmente feita de milho.
Chigüire, capivara.
Chinchorro, rede feita de pita.
Chingue, camisola de banho.
Chirínola, luta.
Chiros, farrapos.
Chucherías, quinquilharias.
Chuchero, bufarinheiro, vendedor ambulante.
Chucho, bufarinha.
Chuscal, vegetação de chusques, bambual.
Chusque, espécie de bambu fino.
Chuzo (de), enganador.
Embarbascado, perdido, extraviado.
Embejucar, desorientar.
Embijar, pintar de vermelho com sementes de urucu.
Empajar, repreender.
Empelotar, despir-se
Encocinarset deitar-se.
Enramada, alpendre, talheiro.
Ensoropado, parede de folhas de palmeira.
Envainar, sucumbir.
Espadilla, timão.
Estero, terreno baixo e pantanoso.
Falca, grande canoa com teto.
Fabrico, fábrica.
Fotuto, cometa rústica.
Fregancia, enfado, moléstia, problema.
Fundação, pequeno povoado.
Gabela, vantagem na aposta.
Guadua, espécie de bambu grosso.
Guahibos, tribo indígena.
Guajibera, tribo de guahibos.
Guando, padiola.
Guapo, valente.
Guaral, corda do anzol.
Guarapo, suco extraído da cana, não fermentado ainda.
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Guaricha, mulherzinha, prostituta.
Guate, homem do interior.
Guayuco, tanga.
Guinchar, ferir com a ponta de um pau, picar.
Guindar, pendurar.
Guina, malefício.
Guio, enorme serpente aquática.
Hatajo, conjunto de animais.
Igarapé, riacho.
Iraca, palmicha (espécie de palmeira).
Jagüey, buraco cheio de água.
Jebe, borracha.
Jedentina, fedor, fedentina.
Jején, mosquito minúsculo.
Joropo, baile lhaneiro.
Juerga, festa, diversão.
Juerguear, alvoroçar, trapacear.
Kerosén, querosene.
Lambón, intrigante, mexeriqueiro.
Lapa, paca, animal roedor.
Llorado, canção lhaneira.
Macana, garrote.
Macetear, golpear com um facão de pau.
Macundales, trastes.
Madrinha, rês mansa que dirige o bravio.
Manaca, palmito.
Mañoco, farelo de mandioca torrado.
Manosear, melindrar-se
Mapire, cesto de palmeira.
Maraca, instrumento musical.
Marina, marmita.
Mata, ilhote de bosque na lhanura.
Mecate, corda de fibra.
234
Menestar, necessitar.
Miriti, espécie de palmeira
Montaria, piroga.
Morichal, plantação de moriches.
Moriche, espécie de palmeira.
Morocha, escopeta de dois canos.
Morrocota, moeda de ouro de valor de vinte dólares.
Mucharejo, rapaz.
Mueco, pescoção.
Mulengue, mula desprezível.
Orejano, que não tem as orelhas ressaltadas.
Otoba, certa árvore medicinal.
Pajonal, vegetação de palha brava.
Palmicha, palmeira para fazer tetos e para tecer chapéus.
Paio a pique (pau-a-pique), cerca de troncos cravados.
Parada, aposta.
Paro (en, em), de uma vez.
Patojo, de pernas curtas.
Pechugona, indelicada.
Pelado, pelado.
Pendare, certa pasta resinosa.
Pepito, gomoso, janota.
Peramán, espécie de resina.
Percha, trapézio para pendurar coisas.
Perraje, matilha de cães.
Petaca, certo baú de couro.
Petriva, mulher, em língua guahiba.
Piapoco, tucano.
Pica, atalho.
Picure, fugitivo.
Picurearse, fugir.
Pirarucu, certo peixe.
Pisco, indivíduo.
Plantanal ou platanera, bananal.
Plátano, banana.
Pollona, índia jovem.
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Puestear, espreitar.
Punta (ponta), grupo de animais.
Puntero, o que abre o desfile.
Quidam, sujeito sem importância.
Ramada, alpendre.
Rancho, casebre, choupana.
Rango, rocim.
Rasgado, generoso.
Rasgarse, morrer.
Rastrillar, acender o fósforo.
Rebuscarse, tratar de fazer algo.
Reinoso, homem do interior.
Rejo, soga de couro retorcido, chibata.
Relance (de), à vista.
Requemado, de cor vermelha-escura.
Requintos, v, tiple.
Rodeo (rodeio), rebanho.
Rumbero, o que sabe orientar-se
Ruana, espécie de poncho.
Saca, mobilização do gado,
Samán, árvore tropical.
Saquero, quem compra o gado e o mobiliza.
Sebucán, cilindro de folhas de palmeira em que se prepara "cazabe".
Seje, certa palmeira.
Sernambí, borracha de má qualidade.
Siringa, certa borracha fina.
Siringal, bosque de siringos.
Siringo, árvore da siringa.
Soche, espécie de veado.
Tabari, certa árvore.
Talanquera, cerca de um bambu gigantesco.
Tambo, espécie de alpendre.
Tapada (a Ia), escolhendo sem ver, às cegas.
Tapara, cabaça.
Terecay, espécie de tartaruga.
236
Terronera, pavor.
Tigetina, jarra metálica.
Tiple, espécie de violão.
Totima, estado da Colômbia.
Topochera, bananal (de topochos).
Topocho, espécie de banana.
Trambucar, naufragar.
Trambuque, naufrágio.
Tranquero, porta de trancas.
Vacaje, grupo de vacas.
Vaina, confusão, contratempo, entrevero.
Vaquía, destreza.
Váquiro, porco da montanha.
Velório, velório.
Volada, façanha.
Yagé, planta cujo suco tem poder hipnótico.
Yopo, pó vegetal que embriaga alucinando.
Yuca (jucá), mandioca
Yucuta, espécie de beberagem.
Zambaje, grupo de mulatos ou mamelucos.
Zamuro, espécie de urubu.
Zancudo, pernilongo.
Zural, rede intensa de acéquias naturais.
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19:06 2/9/2011 sexta-feira
Mais um livro do J. Martins
Celia
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