BARBARA WOOD
A PEDRA da
BÊNÇÃO
Tradução de GILSON B. SOARES
NOVA ERA
Este livro é dedicado com amor à meu marido George.
Agradecimentos
Agradeço especialmente a algumas pessoas muito especiais:
Jennifer Enderlin, minha editora de texto na St. Martins
Press; Harvey Klinger, meu agente; e a dois caros amigos,
Sharon Stewart e Carlos Balarezo.
O que eu faria sem vocês?
Prólogo
TRÊS MILHÕES DE ANOS ATRÁS
A Pedra da Bênção se formou a incontáveis anos-luz da
Terra, do outro lado das estrelas.
Surgiu de uma explosão cataclísmica de proporções estelares
que lançou fragmentos cósmicos através do espaço. Como
um navio reluzente, o pedaço incandescente de massa
estelar navegou pelo mar sideral, rugindo e sibilando na
noite escura enquanto se apressava rumo à destruição
inevitável num jovem e selvagem planeta.
Mastodontes e mamutes pararam de pastar e piscaram por
causa da faixa chamejante no céu, o conteúdo de ferro do
meteoro criando um rastro incandescente enquanto ardia na
atmosfera. Testemunhando o evento catastrófico estava uma
família de assustados hominídeos — pequenas criaturas que
se assemelhavam aos macacos, embora suas sobrancelhas
não fossem tão proeminentes, e andassem eretos — à pro-
cura de alimento numa floresta primeva. De súbito, eles
ficaram paralisados de medo e em seguida foram atirados ao
chão de sua postura ereta recém-adquirida em conseqüência
da onda de choque causada pelo impacto do meteorito.
A colisão aqueceu a pedra a ponto de derretê-la e espalhar
fragmentos como chuva. Na fornalha do vulcão a poeira de
estrelas do meteoro se liquefez e fundiu-se com elementos
cristalinos na terra, o quartzo doméstico despedaçou-se para
abraçar microdiamantes cósmicos como se pelo toque da
vara de condão de um alquimista. A cratera formada pelo
impacto esfriou-se gradualmente e se encheu com água da
chuva e, por dois milhões de anos, torrentes pluviais,
descendo de vulcões próximos, alimentaram o lago da
cratera, assoreando-a, cobrindo os fragmentos celestiais com
camada após camada de areia. Depois um sublevantamento
geológico mudou para leste a bacia de drenagem do lago,
criando uma torrente que começou a escavar uma ravina que
iria um dia, bem no futuro, ser chamada de Olduvai num
continente chamado África. O lago finalmente se esvaziou e
ventos subseqüentes carregaram as camadas de assoreamento
para expor mais uma vez os fragmentos do meteoro. Eram
duros, pelotas feias brilhando apenas aqui e ali. Mas um deles
era singular, forjado talvez por acaso, sorte ou destino.
Nascido da força e violência, era liso e ovóide após milênios
sendo curtido e polido por água, areia e vento, e reluzia com
um profundo brilho azul tal como o céu que o havia
liberado. Pássaros voavam acima, despejando sementes que
vicejaram em luxuriante vegetação, dando à pedra um
anteparo protetor de modo que apenas um ocasional raio de
sol, refletido de sua superfície de cristal, denunciava sua
presença.
Outros mil anos se passaram, depois mais outros, enquanto a
pedra que um dia seria reverenciada como mágica e terrível,
amaldiçoada e abençoada, esperava...
LIVRO UM
ÁFRICA
100 MIL ANOS ATRÁS
A caçadora agachou-se na relva, as orelhas lançadas para trás,
o corpo retesado e pronto a saltar.
A curta distância, um pequeno grupo de humanos escavava
em busca de sementes e raízes, sem se dar conta dos olhos
de âmbar que os observavam. Embora de envergadura
maciça com músculos poderosos, a caçadora era, contudo
um animal lento. Ao contrário de seus adversários, os leões e
leopardos, que eram ágeis e caçavam sua presa, o tigre-
dentes-de-sabre precisava ficar à espreita e pegar sua caça de
surpresa.
E assim ela permaneceu imóvel na relva amarelada,
observando, esperando enquanto a presa, sem desconfiar,
chegava mais perto.
O sol se ergueu e a planície africana ficou mais quente. Os
humanos iam avançando em sua interminável busca de
alimento, estofando a boca com nozes e bagas, enchendo o
ar com o som de mastigação ruidosa e o ocasional grunhido
de palavra falada. A fera esperava. Era preciso ter paciência.
Finalmente, uma criança, mal se sustentando nas pernas, se
afastou de sua mãe. O bote foi rápido e brutal. Um grito
agudo da criança e a caçadora estava trotando rapidamente
com o corpo tenro em suas mandíbulas letais. Os humanos
imediatamente lhe deram caça, gritando e brandindo lanças
frágeis.
E então a tigresa se foi, desaparecendo em meio ao
emaranhado de arbustos para sua toca oculta, a criança
freneticamente se contorcendo e guinchando entre dentes
cortantes. Os humanos, temendo segui-la na mata densa,
corriam em frenesi, pulando para cima e para baixo,
golpeando o solo com porretes rústicos, seus berros se
elevando ao céu, onde abutres já começavam a se reunir na
esperança de sobras. A mãe da criança, uma jovem mulher
que os outros chamavam de Vespa, corria de um lado para
outro diante da abertura por onde a fera havia desaparecido.
Então veio o grito de um dos homens. Ele gesticulou para
que fossem embora e todos eles, como um único corpo,
saíram em largas passadas do emaranhado espinhoso. Vespa
se recusava a partir, muito embora duas mulheres tentassem
arrastá-la. Ela arremessou-se ao solo e uivou como se
acometida de dor física. Por fim, assustados pelo pensamento
de que o felino pudesse retornar, os outros a abandonaram e
empreenderam uma rápida escapada para uma plataforma de
árvores próxima, onde se apressaram a subir para a segurança
dos galhos.
Lá permaneceram até que o sol começou a mergulhar no
horizonte e as sombras se adensaram. Já não ouviam mais os
gritos da mãe desesperada. O silêncio do fim de tarde só
havia sido quebrado uma vez por um único grito agudo, e
depois tudo se aquietou. Com os estômagos roncando e a
sede impelindo-os a se mover, eles desceram das árvores e
olharam brevemente para o ponto sangrento onde tinham
visto Vespa pela última vez, depois voltaram-se para oeste e
recomeçaram sua busca de alimento.
O pequeno bando de humanos caminhava empertigado
enquanto atravessava a savana africana, os membros longos e
os torsos esguios movendo-se com uma fluida graça animal.
Não usavam nenhuma roupa, nenhum ornamento.
Carregavam lanças e machadinhas rústicas. Eram setenta e
seis, sua faixa etária se estendendo de recém-nascido à
velhice. Nove das mulheres estavam grávidas. Enquanto
seguia inflexivelmente à frente na sua eterna procura de
comida, esta família de primeiros humanos ignorava que dali
a centenas de milhares de anos, num mundo que não
podiam imaginar, seus descendentes iriam chamá-los de
Homo sapiens — "Homem, o Sábio".
Perigo.
Mulher Alta jazia imóvel no ninho-leito que havia partilhado
com Velha Mãe, os sentidos repentinamente em alerta para
os sons e odores do alvorecer. A fumaça da fogueira do
acampamento quase extinta. O aroma pronunciado de
madeira carbonizada. O ar frio e cortante. Pássaros nos
galhos das árvores, acordando para o dia, arrulhando e
crocitando numa cacofonia de pios. Mas nenhum rosnado de
leão ou latido de hiena, nenhum silvo de serpente, que eram
os habituais avisos de perigo.
Mesmo assim, Mulher Alta não se moveu. Embora tremesse
de frio e desejasse aquecer-se junto a Velha Mãe, que devia
estar perto das pedras refratárias atiçando as cinzas para a
vida, ela permaneceu no leito. O perigo ainda estava lá, podia
senti-lo fortemente.
Ergueu lentamente a cabeça e piscou através do amanhecer
enfumaçado. A Família estava agitada. Ela ouvia a voz
rascante e ofegante de início da manhã de Espinha de Peixe,
assim chamado quando quase morreu engasgado com uma
espinha e Ventas o salvou ao esbordoá-lo firme entre as
omoplatas, fazendo a espinha sair voando para a fogueira do
acampamento. Espinha de Peixe não teve mais fôlego desde
então. Lá estava Velha Mãe como sempre, alimentando o
fogo com relva enquanto Ventas se agachava junto a ela para
examinar uma irritante picada de inseto infeccionando no
seu saco escrotal. Atiçadora de Fogo estava sentada e
ninando seu bebê. Faminto e Caroço ainda ressonavam nos
seus leitos enquanto Escorpião urinava numa árvore. E na
meia-luz a silhueta de Leão que grunhia em atividade sexual
com Descobridora de Mel.
Nada fora do comum.
Mulher Alta sentou-se e esfregou os olhos. O sono da
Família tinha sido perturbado durante a noite pelos gritos
frenéticos de um dos filhos de Ratinha, um garoto que
dormia tão perto do fogo que rolara para cima das cinzas
quentes e ficara gravemente queimado. Foi uma lição
aprendida por todas as crianças. A própria Mulher Alta
ostentava uma cicatriz de queimadura ao longo da coxa
direita desde que dormira muito perto do fogo quando
criança. O garoto, embora choramingando agora que sua
mãe aplicava lodo molhado à carne viva, parecia bem.
Mulher Alta olhou para os outros membros da Família que
estavam começando a se arrastar para beber água no poço,
seus movimentos sonolentos e preguiçosos. Não via neles
quaisquer sinais de alarme ou medo.
Ainda assim, alguma coisa estava errada. Embora não
pudesse vê-la, ouvi-la ou farejá-la, a jovem mulher sabia com
cada instinto do seu corpo que uma ameaça espreitava nas
proximidades. Mas Mulher Alta não possuía o intelecto
mental para apreender o que poderia ser, nem o dom da
linguagem para transmitir seus temores aos outros. Na sua
mente ela ouvia: aviso. Mas se ela fosse falar a palavra, os
outros rapidamente iriam procurar por cobras venenosas,
cães selvagens ou tigres-dentes-de-sabre. Não veriam nada e
especulariam por que Mulher Alta os alertara.
Não é um aviso para hoje, sussurrou sua mente quando ela
por fim deixou a segurança do seu ninho-leito. É um aviso
para amanhã.
Mas a jovem fêmea nesta família de humanos primevos não
tinha como expressar seu pensamento. Eles não possuíam o
conceito de "futuro". O perigo que estava vindo era estranho
para criaturas que só conheciam o perigo presente. Os
humanos na savana viviam tal como os animais em torno
deles, pastando e rapinando, procurando água, correndo dos
predadores, aliviando ânsias sexuais e dormindo quando o sol
se punha e os estômagos estavam cheios.
À medida que o sol matinal despontava, a Família foi saindo
da proteção das espadanas e juncos e seguiu para a planície
aberta, sentindo-se a salvo agora que a aurora rompera por
completo sobre seu mundo, dispersando a noite e seus
perigos. Mulher Alta, com o coração repleto de um pavor
sem nome, juntou-se aos outros enquanto eles abandonavam
o acampamento noturno e começavam a busca diária por
comida.
Ela parou e recomeçou a examinar as cercanias, esperando
vislumbrar a nova ameaça que sentia tão fortemente. Mas
tudo que via era um mar de relva da cor do leão, pontuado
com árvores frondosas e outeiros rochosos se estendendo até
os morros distantes. Predadores não seguiam o grupo de
humanos impelidos pela sede, nenhuma ameaça pairava sob
o céu nevoento. Mulher Alta viu rebanhos de antílopes
pastando, girafas mordiscando folhas, zebras balançando os
rabos. Nada de estranho ou novo.
Apenas a montanha à frente no horizonte. Estivera
adormecida por alguns dias, mas agora soltava fumaça e
cinzas para o céu. Aquilo era novo.
Mas os humanos o ignoravam — Ventas, enquanto
capturava um gafanhoto e o esmagava na boca; Descobridora
de Mel, enquanto arrancava um feixe de flores para ver se as
raízes eram comestíveis; Faminto, enquanto procurava
abutres no céu nevoento, o que seria indício de uma carcaça
e a possibilidade de carne. Ignorantes da ameaça que o
vulcão representava, os humanos continuavam na sua coleta
inflexível, caminhando descalços sobre a terra vermelha e a
relva espinhenta, vagueando por um mundo feito de lagos e
pântanos, florestas e savanas, e habitado por crocodilos,
rinocerontes, babuínos, elefantes, girafas, lebres, besouros,
antílopes, abutres e serpentes.
A família de Mulher Alta raramente encontrava outros da
sua própria espécie, embora ocasionalmente sentisse que
humanos viviam além dos limites do seu próprio pequeno
território. Teria sido difícil se aventurar além das orlas da sua
terra, pois estas eram barreiras difíceis de transpor: uma
escarpa íngreme de um lado, um rio largo e profundo do
outro, e ainda um pântano impassível. A família de Mulher
Alta mantinha-se dentro dessas fronteiras, seguindo o
instinto e a memória, perambulando e sobrevivendo por
gerações.
A Família viajava num grupo compacto, mantendo os
velhos, mulheres e crianças no centro protegido enquanto
os homens guarneciam os flancos com porretes e
machadinhas, atentos aos predadores, que sempre visavam
ao fraco, e este bando de humanos era realmente fraco;
tinham ficado sem água desde a véspera. Eles se arrastavam
sob o sol que despontava, os lábios e bocas ressequidos
enquanto sonhavam com um rio correndo límpido, onde
encontrariam tubérculos, ovos de tartaruga e feixes de
vegetação comestível, ou talvez uma lebre, um saboroso
flamingo capturado entre touceiras de papiro. Seus nomes
mudavam segundo as circunstâncias, pois nomes nada mais
eram que artifícios de comunicação, um meio de capacitar os
membros da família a gritar ou falar um para o outro.
Descobridora de Mel ganhou seu nome no dia em que
encontrou uma colméia e a Família teve o gosto de açúcar
pela primeira vez em mais de um ano. Caroço recebeu seu
nome após subir numa árvore para escapar de um leopardo,
só para cair ao solo e ganhar uma pancada na cabeça que
formou um galo permanente. Caolho perdeu a vista direita
quando ele e Leão tentaram enxotar um bando de abutres
que se alimentavam de um rinoceronte morto, e um dos
abutres havia reagido. Sapo era perito na captura de sapos,
distraindo sua presa com uma das mãos e agarrando-a com a
outra. Mulher Alta foi assim chamada porque era a mais alta
da Família.
Os humanos viviam por impulsos, instintos e intuições
animais. Poucos deles nutriam pensamentos. E como não
pensavam, não faziam perguntas e, portanto, não tinham
necessidade de vir com respostas. Eles não especulavam, não
questionavam nada. O mundo era feito somente do que eles
podiam ver, ouvir, cheirar, tocar e provar. Nada era oculto
ou desconhecido. Um tigre-dentes-de-sabre era apenas isso
— um predador quando vivo, uma fonte de alimento quando
morto. Por esta razão os humanos não eram supersticiosos e
ainda não haviam formado conceitos de magia, espíritos ou
poderes ocultos. Eles não tentavam explicar o vento porque
não lhes ocorria assim fazer. Quando Atiçadora de Fogo
sentava-se para fazer uma fogueira, não se preocupava em
saber de onde vinham as fagulhas, ou por que um ancestral,
milhares de anos antes, tivera a idéia de fazer fogo. Atiçadora
de Fogo simplesmente aprendera ao observar sua mãe, que
por sua vez tinha aprendido ao observar a mãe dela.
Alimento era qualquer coisa que pudessem encontrar, e
como possuíam recursos de fala e habilidades sociais
limitados, a caça era primitiva, ficando restrita a presas
menores — lagartos, pássaros, peixes e coelhos. A família de
Mulher Alta vivia na ignorância de quem ou o que eles
eram, e do fato de que tinham percorrido uma longa escala
evolucionária, significando que eles e sua espécie
permaneceriam fisicamente imutáveis pelas próximas
centenas de milhares de anos.
Eles também ignoravam que, com Mulher Alta e o novo
perigo que ela sentia, uma segunda evolução estava prestes a
começar.
Enquanto procurava plantas comestíveis e insetos, uma visão
a assombrou: o poço que tinham ativado para aquela manhã.
Para pesar da Família, durante a noite a água ficara tão
coberta de fuligem e cinza vulcânicas que tornara-se
imprestável para beber. A sede os impelira quando eles
normalmente teriam ficado para comer, e os impelia agora,
continuamente, para oeste, seguindo Leão, que sabia onde se
situava o manancial seguinte de água fresca, as cabeças
erguendo-se acima da relva alta, de modo que pudessem ver
os rebanhos de animais selvagens movendo-se na mesma
busca por água. O céu tinha uma cor estranha, o ar estava
com odor acre e penetrante. E diretamente à frente no hori-
zonte, a montanha expelia fumaça como nunca fizera antes.
A noite nunca era silenciosa na planície africana, com leões
rugindo sobre presas recém-abatidas e hienas emitindo
latidos arrepiantes para alertar os parceiros da possibilidade
de alimento. Os humanos abrigados na floresta dormiam de
modo intermitente, apesar das fogueiras que mantinham
contra a escuridão para lhes fornecer luz e calor e conservar
as feras à distância. Mas duas noites antes tinha sido
diferente. Apesar de habituados ao perigo constante, o medo
dos humanos havia aumentado e se aguçado, fazendo-os
piscar no escuro e ouvir o martelar de seus corações. Algo
estranho e terrível estava acontecendo no mundo à volta
deles, e como não tinham palavras para essas novas
calamidades, nenhum pensamento coerente nas suas mentes
primitivas poderia trazer razão, e, portanto consolo, e os
assustados humanos só podiam se arrebanhar nas garras do
puro poder irracional.
Eles não tinham como saber que terremotos haviam
sacudido esta região muitas vezes antes, ou que a montanha
no horizonte expelira lava para o céu por milênios, ficando
adormecida ocasionalmente, como esteve nas últimas poucas
centenas de anos. Mas agora ela estava ativa, seu cone
lançando um apavorante brilho vermelho contra o céu
noturno, a terra tremendo e rugindo como se tivesse vida.
Mas apenas Mulher Alta se lembrava desses terrores
enquanto os outros de seu grupo percorriam com os olhos o
solo e a vegetação, atentos a cupinzeiros, plantas carregadas
de vagens e parreiras rastejantes que poderiam ser indício de
bagas amargas.
Quando Caolho chutou um tronco apodrecido para expor
larvas coleantes, os humanos caíram sobre o banquete,
pegando as larvas e enchendo a boca com elas. A comida
nunca era partilhada. O mais forte comia, o mais fraco
passava fome. Leão, o macho dominante no grupo, abriu
caminho para encher as mãos de petiscos brancos.
Quando jovem, Leão tinha se aproximado da carcaça de uma
velha leoa e conseguira esfolá-la antes que os abutres
descessem. Ele envergou o couro sangrento sobre os
ombros, permitindo que se ajustasse a seu corpo enquanto
fedia e tornava-se viveiro de bichos de varejeira até
finalmente secar. Como não a removera ao longo dos anos, a
pele dura era agora parte dele, seu longo cabelo havia
crescido dentro dela e rangia quando ele se movia.
Leão não havia sido escolhido como o líder da Família —
entre eles não existia voto ou consenso. Ele simplesmente
decidira um dia que seria o líder e os outros o haviam
seguido. A companheira ocasional de Leão, Descobridora de
Mel, era dominante entre as fêmeas porque era grande e
forte e possuía uma personalidade cobiçosa e agressiva. Nas
refeições ela empurrava para fora do caminho as mulheres
mais fracas a fim de obter comida para sua prole, roubando
das outras e devorando mais do que lhe caberia. Leão e
Descobridora de Mel usavam ambas as mãos em concha para
pegar as gordas larvas brancas do tronco podre e encher a
boca com elas, e quando se sentiam satisfeitos e
Descobridora de Mel tinha visto que suas cinco crias haviam
comido, eles se afastavam para que os mais fracos da família
pudessem encher as bocas com as sobras das indolentes
larvas.
Mulher Alta mastigou um punhado de larvas e depois cuspiu
a papa na palma da mão. Quando estendeu a mão para Velha
Mãe, que não tinha dentes, a anciã sorveu de bom grado o
alimento mastigado.
Devoradas as larvas, os humanos descansavam sob o sol do
meio- dia. Os homens mais fortes ficavam vigiando os
predadores enquanto os demais se ocupavam com as
atividades cotidianas de ninar bebês, enfeitar-se, cochilar e
se empenhar em alívio sexual. Os intercursos sexuais
costumavam ser breves e eram rapidamente esquecidos,
mesmo entre casais que partilhavam uma afeição temporária.
Não existiam relacionamentos de longo prazo, e a satisfação
da ânsia sexual era assumida aleatoriamente ao sabor do
acaso. Escorpião fungava ao redor das mulheres, sem saber
que estava procurando o odor característico que indicava
que uma fêmea estava em sua fase fértil. Às vezes era a
fêmea quem fazia a busca, como Bebê fazia agora,
instintivamente ansiosa por um intercurso apressado com
um macho. Uma vez que Escorpião já estava ocupado com
Ratinha, Bebê escolheu Faminto e, embora ele não estivesse
interessado a princípio, ela conseguiu excitá-lo e montou
nele com a maior satisfação.
À medida que a Família se dedicava às suas necessidades, e a
montanha ao longe continuava a expelir fogo e gás para o
céu, Mulher Alta mantinha uma atenta vigilância, esperando
vislumbrar as orelhas ou a sombra do novo perigo que os
espreitava. Mas não havia nada ali.
Eles se arrastaram durante a tarde, a sede queimando suas
bocas, as crianças chorando por água, as mães tentando
acalmá-las enquanto os homens faziam rápidas incursões
longe do grupo, protegendo os olhos para perscrutar a
planície, procurando indícios de um poço ou córrego. Eles
seguiram rastros de elas e gnus, esperando que os rebanhos
os conduzissem à água. Reparavam na direção dos pássaros
em vôo, particularmente aves pernaltas: garças, cegonhas e
egretas. Procuravam também por elefantes porque eram
animais que passavam a maior parte do seu tempo na água,
rolando na lama para esfriar o couro ressecado pelo sol ou
submergindo quase por completo, deixando apenas a
extremidade de suas trombas à tona para poderem respirar.
Mas os humanos não viram garças, elãs, gnus nem elefantes
que pudessem conduzi-los à água.
Ao se aproximarem dos ossos de uma zebra, tiveram uma
breve satisfação. Mas quando viram que os ossos compridos
já tinham sido quebrados e o tutano sugado, foi grande a sua
decepção. Os humanos nem precisaram examinar as pegadas
em volta da carcaça para saber que as hienas haviam roubado
seu banquete.
Seguiram em frente. Perto de um outeiro relvoso, Leão fez o
grupo dar uma parada abrupta, silenciando-o com um gesto.
Eles prestaram atenção e na brisa ouviram um "yeow-
yeow... yeow" nas proximidades — os ruídos chilreados
característicos que os guepardos fazem para se comunicar
com sua prole. Cautelosamente, os humanos recuaram,
mantendo-se contra o vento para que os felinos não os
farejassem.
Enquanto as mulheres e crianças escavavam à procura de
quaisquer vegetais ou insetos comestíveis que pudessem
encontrar, os homens, com suas lanças com pontas de
madeira aguçadas, estavam em alerta para uma possível caça.
Embora as perícias de caça organizada estivessem além das
capacidades deles, sabiam que uma girafa ficava mais
vulnerável quando bebendo em um poço — tinha de abrir
amplamente as pernas para alcançar a água, e nesta posição
era um alvo fácil para humanos que agissem com rapidez e
lanças afiadas.
Ventas gritou subitamente de satisfação quando apoiou-se
num joelho e apontou para rastros dispersos de chacais no
solo. Os chacais eram notórios por enterrar suas presas
mortas e voltar para comê-las mais tarde. Mas uma escavação
frenética na área circundante não surtiu nenhuma caça
recém-enterrada.
Eles prosseguiram — calorentos, famintos, sedentos, até que
Leão finalmente soltou um grito que os outros entenderam
como significando que tinha descoberto água. Então,
começaram a correr. Mulher Alta envolveu Velha Mãe com
um braço para ajudá-la a prosseguir.
Leão nem sempre tinha sido o líder da Família. Antes dele,
um homem chamado Rio fora o membro dominante,
tomando para si as melhores porções de alimento,
monopolizando as fêmeas, decidindo onde a Família
dormiria à noite. Rio ganhara seu nome por causa de um
perigoso encontro com uma inundação. A Família
conseguira alcançar terras altas a tempo, mas Rio fora
apanhado. Uma árvore arrancada das raízes pela correnteza
havia sido a sua salvação. Encontraram-no dias depois sobre
um banco de areia, machucado, exausto, mas ainda vivo. A
Família o chamou assim por causa do novo rio que passou a
fluir pelo seu território, e por algum tempo ele usufruiu da
supremacia sobre o grupo, até que Leão o desafiou por causa
de uma fêmea.
A luta tinha sido até a morte, os dois se agredindo com
porretes enquanto a Família assistia, aos gritos. Quando um
ensangüentado Rio finalmente fugiu, Leão sacudiu os
punhos no ar e depois prontamente possuiu uma excitada
Descobridora de Mel com grande vigor. Rio nunca mais foi
visto, nem se ouviu falar dele de novo.
Depois disso, a Família seguira Leão obedientemente e sem
questionar. Sua rústica sociedade não era igualitária pela
simples razão de que os membros da família não eram
capazes de pensar por si próprios. Como os rebanhos
pastando na savana em torno deles, ou os seus primos
macacos vivendo nas distantes florestas tropicais, o grupo
precisava de um líder para sobreviver. Alguém sempre se
destacava sobre os demais, quer pela força física, quer pela
superioridade mental. Nem sempre era um macho. Antes do
líder chamado Rio houvera uma mulher forte de nome
Hiena, assim chamada por que ria que nem uma. Ela
conduzira a Família no seu ciclo eterno e imutável de
escavação-coleta. Hiena se lembrava das fronteiras do
território, sabia onde havia água boa, onde podiam encontrar
bagas e quais estações produziam nozes e sementes. E
quando uma noite ela foi apanhada longe dos outros por um
bando de hienas, a Família vagueou sem rumo até que uma
inundação transformou Rio em seu novo líder.
Agora Leão os guiava até o suprimento de água fresca de que
ele se lembrava de quatro estações atrás — um poço
artesiano bem protegido sob uma saliência pedregosa. Eles se
precipitaram para o poço e beberam sofregamente até se
fartar. Mas quando, saciada a sede, olharam em volta à
procura de comida, nada encontraram. Nenhum banco de
areia no qual escavar ovos de tartaruga ou caranguejos de
água doce, nem flores de raízes tenras nem vegetação
abrigando sementes saborosas. Leão observou o cenário com
desprazer — certamente houvera relva ali antes — e por fim
indicou com um grunhido que tinham de prosseguir.
Mulher Alta parou para olhar o poço no qual tinham acabado
de beber. Examinou a superfície clara e depois olhou para o
céu fumacento. Olhou de novo para a água e desta vez levou
em conta a saliência rochosa. Franziu o cenho. A água que
haviam ativado de manhã estava imprestável para beber. Esta
água estava limpa e doce. Sua mente pelejou para fazer a
ligação. O céu fuliginoso, a saliência rochosa, a água limpa.
E então o pensamento se formou: Esta água estava protegida.
Ela observou a Família enquanto caminhavam penosamente
— Leão liderando-os com seu manto de pele, Descobridora
de Mel ao seu lado com um bebê nos braços, uma criança
pequena montada nos ombros e uma outra mais velha
agarrada a sua mão livre —, tropeçando, vacilando, a sede
esquecida agora que suas barrigas doíam de fome. Mulher
Alta queria chamá-los de volta. Queria avisá-los de algo, mas
não sabia do quê. Tinha a ver com o novo perigo sem nome
que vinha sentindo ultimamente. E agora ela sabia que, de
alguma maneira, o perigo estava ligado à água — a água
coberta de fuligem do amanhecer, este poço límpido e o
poço para onde Leão os levava, mais distante ao longo da
antiga trilha.
Sentiu um puxão no braço. Velha Mãe, o pequeno rosto
esbranquiçado virado para Mulher Alta com uma expressão
preocupada. Elas não deviam ficar para trás.
Quando a Família chegou a um baobá carregado de frutos,
todos que podiam agitar uma vara golpearam os galhos,
fazendo cair os frutos carnudos. A Família se banqueteou,
sentados ou agachados, ou mesmo comendo de pé, de modo
que pudessem ficar de olho em possíveis predadores. Depois
cochilaram debaixo da frondosa árvore, sentindo o calor da
tarde se assentar em sua carne e ossos. Mães amamentavam
bebês enquanto os irmãos rolavam alegremente na terra.
Caolho estava interessado por uma fêmea. Ele observava
Bebê enquanto ela vasculhava as vagens na esperança de
encontrar uma fechada, e quando ele lhe fez cócegas e
atacou-a, ela riu e ficou de quatro, permitindo que ele a
penetrasse. Descobridora de Mel catava piolhos no cabelo
emaranhado de Leão, Velha Mãe besuntava de cuspe a
queimadura do garotinho e Mulher Alta, recostada
melancólica contra uma árvore, mantinha os olhos na
distante montanha raivosa.
Após um cochilo, eles puseram-se em atividade e, mais uma
vez impelidos pela fome, seguiram para oeste. Ao pôr-do-
sol, a Família chegou a um largo riacho onde elefantes se
banhavam, borrifando água com suas trombas. Os humanos
se aproximaram cautelosos da margem, atentos a qualquer
coisa que se assemelhasse a troncos flutuantes. Podiam ser
crocodilos, apenas com os olhos, narinas e uma pequena
parte do dorso à tona da água. Embora os crocodilos
caçassem principalmente à noite, eles eram notórios por
atacar durante o dia se pressentissem uma presa fácil. Mais
de uma vez os humanos tinham visto um dos seus, ser
arrebatado da margem de um rio e carregado para o fundo
num piscar de olhos.
Embora ficassem consternados ao encontrar a superfície do
preguiçoso riacho coberta de fuligem e cinza, viram apesar
de tudo uma abundância de pássaros ao longo das margens
— tordeiros e íbis, gansos e maçaricos -—, uma promessa de
ninhos cheios de ovos. E como o sol estava mergulhando no
horizonte e as sombras se adensavam, decidiram passar a
noite ali.
Enquanto algumas das mulheres e as crianças começavam a
reunir talos altos de capim e plantas flexíveis para os ninhos-
leito, Mulher Alta e Velha Mãe e outras mulheres escavavam
as margens arenosas à procura de crustáceos. Sapo e seus
irmãos caçavam rãs-touro. Durante a estação seca as rãs-
touro ficavam adormecidas em tocas debaixo do solo, só
saindo quando os primeiros pingos da estação chuvosa
amaciavam a terra. Como ali não chovia havia várias
semanas, os garotos esperavam que a caça fosse boa.
Atiçadora de Fogo mandou seus filhos colherem o estrume
de qualquer rebanho que tivesse pastado ali recentemente e
depois pôs-se a trabalhar com suas pedras de ignição, usando
gravetos secos para iniciar um fogo lento. Quando se
acrescentou estrume de zebra e gnu, a fogueira ardeu
instantaneamente, e os homens acenderam tochas feitas de
seiva e ramos de árvores em volta do perímetro do
acampamento para manter os predadores afastados. Uma
hora de coleta também produziu folhas de chicória,
tubérculos e a carcaça de um mangusto gordo que ainda não
estava bichada. Os humanos comeram avidamente,
devorando tudo, sem guardar sequer uma semente ou um
ovo para a fome do dia seguinte.
Finalmente se acomodaram para a noite dentro da proteção
de uma cerca feita de arbusto espinhoso e ramos de acácia,
os homens reunidos a um lado do fogo enquanto as
mulheres e crianças se juntavam do outro. Agora era a hora
de se enfeitar, um ritual noturno que era impelido pela
necessidade primal por companhia e toque, e que de
maneiras sutis estabelecia que existia um arremedo de ordem
social entre eles.
Usando uma machadinha de quartzo que Faminto tinha feito
para ela, Bebê cortou o cabelo de seus filhos. Se não fosse
controlado, o cabelo cresceria até a cintura e se tornaria um
risco. Bebê era a prova disso, tendo fugido de sua mãe
quando era pequena porque odiava ter seu cabelo cortado,
ele cresceu até a cintura e era alisado com gordura, até que
um dia ele se emaranhou num arbusto espinhoso,
prendendo-a. Quando a Família finalmente soltou a histérica
Bebê da armadilha, partes de seu couro cabeludo tinham sido
laceradas e sangravam profundamente. Foi quando ela
recebeu seu nome, porque não parou de chorar por vários
dias. Agora as partes calvas na cabeça de Bebê haviam
cicatrizado e o cabelo crescia em tufos horrorosos.
Algumas mulheres catavam piolhos no cabelo dos filhos,
esmagado-os entre os dentes, e emplastravam os pequeninos
e outras mulheres com lodo trazido do poço. O riso delas
elevava-se para o céu como as fagulhas das fogueiras, com a
ocasional palavra penetrante ou de aviso.
Embora as mulheres estivessem ocupadas, todas se
mantinham de olho em Estéril, assim chamada por não ter
filhos. Ela andava seguindo a grávida Fuinha por toda parte.
Todos se lembravam do dia em que Bebê tinha parido sua
quinta cria e Estéril a havia arrebatado, com placenta e tudo,
e fugido com ela. Todos saíram em sua perseguição até que a
pegaram, o recém-nascido morrendo no tumulto quando as
mulheres a surraram quase até a morte. Depois disso, Estéril
sempre seguia atrás da Família quando eles saíam para
escavar e dormia distante do fogo, como uma sombra à orla
do campo. Mas Estéril estava se tornando ousada
ultimamente e ficava rodeando Fuinha, que se mostrava
assustada. Ela perdera suas três crianças anteriores por picada
de cobra, queda de um precipício rochoso e para um
leopardo que ousadamente invadira o acampamento uma
noite e carregara a criança.
Os homens estavam reunidos do outro lado da fogueira
principal. Sempre que um jovem macho tornava-se crescido
demais para ficar com as mulheres e bebês, ele ia sentar-se
com os homens mais velhos, para observar e imitar as mãos
cheias de cicatrizes e calos enquanto eles aparavam
ferramentas de sílex e afiavam gravetos compridos para
transformá-los em lanças rudimentares. Aqui, os jovens
machos, não mais sob o domínio de suas mães, aprendiam os
comportamentos masculinos: a transformar madeira em
armas e rocha em ferramentas; a identificar rastros de
animais; a sentir o odor do vento e farejar uma presa. Eles
aprendiam as poucas palavras, sons e gestos que os machos
usavam para comunicação. E, como as fêmeas, eles
enfeitavam um ao outro, arrancando coisas vivas do cabelo
emaranhado e besuntando de lodo o corpo um do outro. O
lodo, como uma proteção contra o calor, picadas de insetos e
plantas venenosas, tinha de ser reaplicado diariamente e era
uma parte importante do ritual noturno. Os jovens machos
trapaceavam pela honra de enfeitar Leão e os homens mais
velhos.
Lesma, assim chamado por ser vagaroso, estava rugindo seu
protesto por ter de montar guarda. Após uma troca de gritos
e punhos furiosos, Leão acomodou a disputa rachando uma
lança na cabeça de Lesma. O homem derrotado seguiu para
seu posto, limpando o sangue dos olhos.
O velho Escorpião esfregou o braço e a perna esquerdos, que
estavam ficando estranhamente dormentes, enquanto
Caroço tentava coçar uma comichão que não podia alcançar,
recorrendo à árvore mais próxima, onde se esfregou acima e
abaixo no tronco duro até a pele se romper e sangrar.
Ocasionalmente eles relanceavam os olhos sobre o fogo para
as industriosas mulheres, criaturas que os homens
subconscientemente reverenciavam porque só as mulheres
pariam bebês, os machos sendo alheios da sua própria parte
no processo. As fêmeas eram imprevisíveis. Uma mulher
que não estivesse interessada em relação sexual podia ser má
quando forçada. O pobre Beiço, que costumava ser chamado
de Nariz de Pássaro, adquirira seu nome depois de um
encontro com Mulher Alta. Quando ele tentou penetrá-la
contra sua vontade, ela reagiu, mordendo parte de seu lábio
inferior que sangrou por vários dias e exsudou pus. O
ferimento se fechou como uma fenda pregueada. Agora, seus
dentes inferiores estavam permanentemente à mostra.
Depois disso, Beiço deixou Mulher Alta em paz, como fez a
maioria dos outros machos. Os poucos que haviam tentado
possuí-la decidiram, após uma luta exaustiva, que não valia a
pena, pois o que não faltava eram fêmeas tolerantes por
perto.
Sapo estava aborrecido consigo mesmo. No ano anterior ele
e uma jovem, chamada Tamanduá por causa da sua paixão
por formigas, tinham usufruído de uma união especial, como
Bebê e Caolho, que estavam atualmente, terna e
aconchegadamente, apreciando o prazer sexual. Mas agora,
como a barriga de Tamanduá crescera e ela não queria ter
nada com ele, os avanços de Sapo eram recebidos com tapas
e sibilos. Ele já vira acontecer antes. Uma vez que uma
fêmea paria, ela preferia a companhia de outras mulheres
que tinham filhos. Juntas, elas riam e conversavam enquanto
amamentavam seus bebês e ficavam de olho nas crianças que
já deambulavam, ao passo que os machos desprezados fica-
vam relegados às suas atividades solitárias de manufatura de
ferramentas e armas.
A união mãe-filho era o único vínculo real que a Família
conhecia. Se um homem e uma mulher se juntavam,
raramente era por longo tempo, o curso do seu
relacionamento pegando fogo de paixão para logo arrefecer.
Escorpião, o amigo de Sapo, agachou-se junto a ele e bateu
no seu ombro em simpatia. Ele também experimentara
intimidade com uma mulher até que ela teve um bebê e não
quis mais nada com ele. Claro que havia aquelas que, como
Descobridora de Mel, permaneciam afeiçoadas a um
homem, especialmente quando ele tolerava seus bebês,
como Leão fazia. Mas Escorpião e Sapo não tinham paciência
com os bebês das mulheres e preferiam fêmeas que não
apresentassem empecilhos.
Sapo sentia o calor aumentar dentro dele. Olhava com inveja
para Caolho e Bebê, ternos e amorosos um com o outro.
Caolho usufruía de liberação sexual sempre que desejava,
Bebê sendo constantemente tão bem-disposta a permitir que
ele se satisfizesse. Formavam presentemente o único casal
firme, dormindo juntos, partilhando afeição. Caolho até
mesmo tolerava os filhos dela, algo que poucos machos
faziam.
De olho nas mulheres, Sapo tentou despertar interesse em
algumas ao exibir sua ereção e lançando-lhes um olhar
esperançoso. Mas ou elas o ignoravam ou então o
enxotavam. Assim, ele voltou para a fogueira e remexeu as
brasas. Para seu prazer encontrou uma cebola esquecida,
esturricada, mas ainda comível. Ele entregou-a para
Atiçadora de Fogo, que imediatamente agarrou o acepipe e
se pôs de quatro, apoiando-se num braço enquanto que com
a mão livre comia ruidosamente a cebola. Sapo não demorou
muito. Ele logo se satisfez e caminhou trôpego para dormir
no seu ninho-leito.
Quando Leão acabou de comer, seu olhar caiu sobre Velha
Mãe, que estava chupando uma raiz. Leão e Velha Mãe
tinham sido paridos pela mesma mulher, haviam mamado
nos mesmos peitos e brincado juntos quando crianças.
Depois que Velha Mãe havia procriado doze vezes, Leão
demonstrara respeito por ela. Mas agora ela estava ficando
senil e formou-se em sua mente a noção obscura de que
estavam desperdiçando comida com a velha. Antes que ela
pudesse esboçar qualquer reação, ele passou rápido por ela,
arrebatou a raiz de seus dedos e enfiou-a entre os próprios
dentes.
Vendo o que tinha acontecido, Mulher Alta foi até a
consternada Velha Mãe, fazendo uns ruídos cantarolados e
puxando o cabelo dela.
Velha Mãe era a pessoa mais antiga da Família, embora
ninguém soubesse exatamente quão antiga, uma vez que a
Família não fazia cálculos de anos ou estações. Se alguém
tivesse feito as contas, eles saberiam que ela alcançara a
adiantada idade de 55 anos. Mulher Alta, por outro lado,
vivera por 15 verões e sabia vagamente que era a filha de
uma mulher que Velha Mãe tinha parido.
Observando Leão enquanto ele circulava pelo acampamento
antes de se acomodar em seu ninho-leito, Mulher Alta
sentiu-se invadida por uma inquietação inominável. Tinha a
ver com Velha Mãe e quão indefesa ela estava. Uma
lembrança indefinida veio à sua mente jovem: sua própria
mãe, tendo quebrado uma perna, foi deixada para trás
quando não pôde mais caminhar, uma figura solitária sentada
contra o tronco de uma árvore espinhosa, observando a
Família prosseguir. O grupo não podia ficar sobrecarregado
por um membro fraco, pois os predadores estavam sempre
vigilantes na relva alta. Quando a Família passou de novo por
ali, não havia nenhum vestígio da mãe de Mulher Alta.
Finalmente todos começaram a se acomodar para a noite,
mães e filhos enrolados juntos nos seus ninhos-leitos, os
homens do outro lado da fogueira, encontrando pontos
confortáveis, deitando costas com costas para se aquecer,
sobressaltando-se e se virando aos sons de rosnados e latidos
próximos na escuridão. Incapaz de dormir, Mulher Alta
deixou o ninho-leito que dividia com Velha Mãe e seguiu
cautelosa até a água. A curta distância viu que uma pequena
manada de elefantes — apenas fêmeas com suas crias —
viera para passar a noite, dormindo na maneira peculiar da
sua espécie, recostados contra uma árvore ou uns contra os
outros. Quando alcançou a beira da água, olhou para a
superfície coberta com espessa cinza vulcânica. A seguir
olhou para cima, para as estrelas sendo lentamente devoradas
por fumaça, e tentou mais uma vez entender o turbilhão em
sua mente.
Isto relacionava-se com o novo perigo.
Ela olhou de volta para o acampamento, onde setenta e
poucos humanos estavam se acomodando para a noite.
Imediatamente, roncos se elevaram para o céu, junto a
grunhidos e suspiros noturnos. Ela reconheceu os gemidos e
ofegos de um casal engajado em intercurso sexual. Um bebê
chorou e foi rapidamente aquietado. O som inconfundível
de Ventas arrotando. E os bocejos ruidosos dos homens que
guardavam o perímetro com lanças e tochas para proteger a
Família durante a noite. Todos pareciam despreocupados;
para eles a vida seguia como sempre tinha sido. Mas Mulher
Alta estava inquieta. Somente ela sentia que o mundo não ia
bem.
Mas de que maneira? Leão estava conduzindo a Família para
todos os lugares ancestrais que haviam percorrido por
gerações. Encontravam a comida que sempre tinham
encontrado; encontravam até mesmo água onde
supostamente deveria estar, embora coberta de cinza. Havia
a segurança e a sobrevivência de sempre. Mudança assustava
a Família. O conceito de mudança nem passava por suas
mentes.
Mas agora estava começando a passar — ao menos pela
mente de um de seus membros mais jovens.
Mulher Alta examinou a noite com seus olhos castanhos,
atenta a qualquer movimento suspeito. Sempre alerta, nunca
baixando aguarda, Mulher Alta vivia como a Família vivia,
por instinto, sagacidade e um forte senso de sobrevivência.
Mas esta noite era diferente, como tinham sido as últimas
poucas noites, desde que a sensação de um perigo havia sido
plantada dentro dela. Um perigo que não podia ver nem dar
nome. Que não deixava rastros nem indícios, que não
rosnava nem silvava, que não possuía nem garras nem
caninos, embora fizesse os pequenos pêlos de sua nuca se
arrepiarem.
Ela examinou as estrelas e viu o quanto estavam tragadas pela
fumaça. Viu as cinzas chuviscando do céu. Examinou a água
coberta pela fuligem e inalou o odor de enxofre e magma
que vinha do distante vulcão. Viu o modo como a relva se
vergava ao vento noturno, como as árvores se inclinavam e
de que maneira as folhas secas voavam. E de repente, com
um pulo do seu coração, entendeu.
Mulher Alta prendeu a respiração e congelou enquanto a
ameaça sem nome tomava forma em sua mente e percebeu
tudo num segundo atordoante, despercebido por qualquer
outro membro da família: que o poço de água do dia seguinte
— apesar do que gerações de experiência lhes haviam
mostrado — ia ser coberto com cinza.
Um grito rasgou a noite.
Era Fuinha, nas dores do parto. As mulheres rapidamente a
ajudaram a sair do acampamento e ir para o recesso das
árvores. Os machos pularam nervosamente para a periferia
do acampamento, empunhando as lanças rústicas e juntando
pedras para jogar nos predadores. Tão logo os felinos e
hienas ouvissem o grito de um ser humano vulnerável e
sentissem o cheiro de sangue do parto, certamente viriam.
As fêmeas humanas instintivamente formaram um círculo
em torno de Fuinha, de costas para ela, gritando e batendo
com os pés para encobrir os gritos de dor e a vulnerabilidade
da parturiente.
Ela não teve ajuda. Agarrando-se ao tronco de uma acácia,
Fuinha ficou de cócoras e empurrou, fazendo força
enquanto se encontrava nas garras do frio terror. Acima dos
gritos das mulheres teria ela ouvido o rugido triunfante de
um leão? Haveria um bando de felinos prestes a voar das
árvores, com garras, mandíbulas e olhos amarelos, para
rasgá-la em pedaços?
Finalmente o bebê nasceu e Fuinha de imediato o levou ao
peito, sacudindo-o e dando palmadas até ele chorar. Velha
Mãe ajoelhou-se ao lado e massageou-lhe o abdome, como
fizera ao longo dos anos a si mesma e suas filhas, induzindo a
placenta a ser expelida. E quando a placenta saiu e as
mulheres enterraram apressadamente o sangue e as
secundinas, a Família se reuniu em torno da nova mãe para
olhar com curiosidade a criatura que se contorcia no seu
seio.
De repente, Estéril lançou-se à frente e arrebatou o bebê que
mamava dos braços de Fuinha. As mulheres correram atrás
dela, jogando pedras. Estéril largou o bebê, mas as mulheres
continuaram a perseguição até capturá-la. Arrancaram galhos
das árvores e bateram nela sem piedade, só parando quando
a forma ensangüentada a seus pés estava irreconhecível.
Quando tiveram certeza de que Estéril não mais respirava
voltaram ao acampamento com o bebê que,
miraculosamente, ainda vivia.
Leão decidiu que a Família deveria se mudar sem demora. O
cadáver de Estéril e o sangue do parto atrairiam perigosos
carniceiros, principalmente os abutres que podiam ser
determinados e destemidos. Assim, levantaram
acampamento embora ainda fosse noite e, armados com
tochas, fizeram seu caminho pela planície aberta. Enquanto
viajavam sob a lua cheia, ouviram atrás deles os animais
chegarem, rosnando selvagemente enquanto dilaceravam o
corpo de Estéril.
Outro amanhecer e a cinza leve continuava a cair do céu. Os
humanos começaram a se agitar, despertando para o
barulhento canto de pássaros e o ruidoso guinchar de
macacos nas árvores. Atentos aos predadores agora que as
fogueiras periféricas se haviam extinguido, seguiram para o
bebedouro onde zebras e gazelas tentavam em vão saciar a
sede. A água não podia ser vista por causa da espessa camada
de fuligem depositada na sua superfície. Mas os humanos,
capazes de afastar com as mãos a poeira vulcânica,
encontraram água quase saibrosa e de péssimo sabor.
Enquanto os outros começavam a escavar à procura de ovos
e crustáceos, e a vasculhar as tocas em busca de rãs,
tartarugas e raízes de lírio, Mulher Alta voltou os olhos para
oeste, onde a montanha fumacenta avultava na paisagem
ainda escura do amanhecer.
As estrelas não podiam ser vistas, por causa das grandes
nuvens de fumaça que se formavam em todas as direções.
Virando-se, Mulher Alta perscrutou o horizonte a leste, que
estava ficando pálido, onde o sol em breve surgiria. Lá o céu
estava claro e fresco, as últimas estrelas ainda visíveis. Olhou
de volta para a montanha e vivenciou de novo a revelação da
noite anterior, quando, pela primeira vez na história de seu
povo, havia tomado partes separadas de uma equação e as
combinado em uma resposta: a montanha estava expelindo
fumaça... o vento soprava para leste... desta forma
contaminando os reservatórios de água em seu caminho.
Tentou contar aos outros, tentou encontrar palavras e gestos
que transmitissem a essência deste novo perigo. Mas Leão,
agindo apenas por instinto e memória ancestral, nada
sabendo do conceito de causa e efeito, e compreendendo
apenas que o mundo sempre tinha sido de um jeito e o seria
eternamente, não era capaz de dar este salto mental. O que
tinham a montanha e o vento a ver com água? Pegando sua
lança rústica, ele ordenou que a Família se pusesse a
caminho.
Mulher Alta insistiu.
— É mau! — disse, desesperadamente, apontando para oeste.
— Mau! — depois gesticulou freneticamente para leste, onde
o céu estava claro e onde sabia que a água seria limpa. — Lá
bom! Nós vamos!
Leão olhou para os outros. Mas suas faces estavam
inexpressivas porque não faziam idéia do que Mulher Alta
tentava dizer. Por que mudar o que sempre tinham feito?
E assim abandonaram o acampamento mais uma vez e
começaram sua coleta diária enquanto observavam o céu
procurando abutres, que poderiam significar uma carcaça e a
possibilidade de ossos compridos cheios de saboroso tutano.
Leão e os homens mais fortes sacudiam árvores para
derrubar nozes e frutos, e vagens que seriam tostadas mais
tarde na fogueira. As fêmeas se agachavam junto ao
cupinzeiro, inserindo gravetos para expelir os gordos insetos
e comê-los. As crianças ocupavam-se com um ninho de
formigas do mel, mordendo cuidadosamente os abdomes
inchados de néctar enquanto evitavam suas aguçadas man-
díbulas. Com o alimento chegando em tão magras porções, a
coleta nunca cessava. Só raramente deparavam com um
animal morto recentemente, que ainda não tinha sido
descoberto pelas hienas e abutres, e os humanos o esfolavam
e se fartavam com a carne.
Mulher Alta caminhava com medo: A água estará pior mais
adiante.
Por volta do meio-dia, ela subiu num pequeno outeiro e,
protegendo os olhos, examinou a savana amarelo-leão.
Quando imediatamente começou a chamar e agitar os
braços, os outros souberam que ela achara um ninho de ovos
de avestruz. Os humanos se aproximaram cautelosos,
espionando a enorme ave que guardava o ninho. As penas
pretas e brancas lhes diziam que era um macho, o que era
incomum, já que normalmente cabia às fêmeas de cor
castanha chocar no ninho durante o dia, enquanto os
machos chocavam à noite. Aquele ali parecia enorme e
perigoso. Mantiveram-se atentos para a fêmea, que por certo
estaria nas proximidades e que seria igualmente letal ao
guarnecer seu ninho.
Leão deu um grito e Faminto, Caroço, Escorpião, Ventas e
todos os outros machos investiram correndo para o avestruz
com lanças e porretes, gritando e enxotando e fazendo o
maior barulho possível. A ave gigante voou do ninho com
um grande bater de asas e enfrentou os intrusos, as penas do
peito sobressaindo, o pescoço estendido à frente enquanto
atacava com o bico e chutava com suas poderosas pernas.
Então a fêmea apareceu, uma enorme ameaça castanha
disparando pela planície na velocidade máxima, as asas
espalhadas, o pescoço estendido à frente, o grito alto e
estridente.
Enquanto Leão e os homens lutavam com as aves, Mulher
Alta e as outras fêmeas recolhiam o maior número de ovos
que podiam e saíam em disparada. Alcançando um bosquete,
elas começaram imediatamente a quebrar os ovos enormes e
a beber seu conteúdo. Quando Leão e seus companheiros
voltaram ofegantes, tendo deixado um desolado casal de
avestruzes para gemer sobre um ninho destruído, eles
pegaram a sua parte, martelando a casca espessa dos ovos
para abrir buracos, depois puxando a gema e a clara com os
dedos. Alguns gritaram deliciados quando encontraram fetos
de avestruz nos seus ovos e estalaram as criaturas,
triturando-as em suas bocas. Mulher Alta pegou um ovo para
Velha Mãe, rachou-o no topo e o depositou nas mãos da
idosa. Quando teve certeza de que Velha Mãe havia comido
o suficiente, sentou-se para comer o último ovo que
poupara. Mal o tinha aberto, quando Leão surgiu, arrebatou-
lhe o ovo e o enfiou na boca, engolindo a gema enorme e
soltando um arroto barulhento. A seguir ele jogou fora a
casca vazia e atacou-a, fazendo-a mudar de posição.
Agarrando seus pulsos com uma das mãos e pressionando
seu pescoço com a outra, avançou para dentro dela enquanto
Mulher Alta gritava em protesto.
Ao terminar, ele caminhou trôpego para uma soneca,
procurando o lugar mais sombreado. Ele chegou ao melhor
ponto apenas para encontrar Escorpião recostado
desafiadoramente a uma árvore. Um punho erguido e um
rosnado de Leão, um breve choque de vontades, e Escorpião
se afastou ressentido e mal-humorado.
Ao meio-dia eles dormiram, quando a savana estava em paz.
Um grupo de leões se estendia ao sol, não muito distante,
mas os restos de uma caça próxima — que estava sendo
terminada por abutres e na qual os humanos não tinham o
menor interesse, eles próprios saciados — garantiram ao
povo de Mulher Alta que os felinos haviam comido re-
centemente e que, portanto não representavam ameaça.
Enquanto a Família cochilava, Mulher Alta remexia as cascas
de ovo estilhaçadas na esperança de encontrar restos de
gema e clara. Mas pior do que sua fome era a sede. Mais uma
vez ela observou as nuvens de fumaça no céu e sentiu que
quanto mais seguissem naquela direção, pior seria a qualida-
de da água.
A montanha fumacenta tinha ido dormir, sua pluma de
escória e cinzas definhando, de modo que o ar havia
clareado um pouco. Após dias subsistindo de raízes, cebolas
silvestres e dos raros ninhos de ovos, os humanos agora
ansiavam por carne. Seguiram um rebanho misto de
antílopes e zebras, sabendo que os felinos estariam fazendo o
mesmo. Quando o rebanho parou para pastar, Ventas subiu
num outeiro relvoso para dar uma olhada enquanto os outros
ficavam agachados na vegetação.
Em meio à quietude da manhã, à medida que o dia
esquentava e a terra começava a crestar, os humanos
observavam e esperavam. Finalmente, sua paciência foi
recompensada. Viram uma leoa movendo-se furtivamente
pela relva. Os humanos sabiam como ela caçava: uma vez
que muitos animais podiam correr mais rápido que o leão,
ela ficaria contra o vento, sem ser notada, rastejaria até o
mais perto possível dos animais pastando até sua presa ficar
ao alcance.
Mulher Alta, Velha Mãe, Bebê, Faminto e os demais se
agacharam imóveis, seus olhos em Ventas enquanto ele
assinalava o progresso do felino. De repente, a leoa disparou
à frente, fazendo pássaros alçarem vôo em sobressalto. O
rebanho pôs-se em fuga. A leoa, porém era ágil, correndo
apenas um curto percurso antes de capturar uma zebra
estropiada. A leoa voou no ar e desferiu uma patada no
flanco da zebra, fazendo-a cair de lado. Enquanto a zebra
lutava para se levantar, a leoa já estava sobre ela, cravando as
mandíbulas no seu focinho, mantendo a pressão ali até que,
gradualmente a zebra sufocou e morreu. Enquanto a leoa
arrastava sua presa para a sombra de um baobá, os humanos a
seguiram — contra o vento e silenciosamente. Voltaram a se
agachar quando viram o grupo de machos e filhotes se
apressando à frente para o banquete. O ar foi brevemente
preenchido com rosnados e silvos selvagens enquanto os
leões lutavam uns com os outros antes de se acomodarem
para devorar a carcaça. Acima, os abutres já voavam em
círculos.
Com os estômagos roncando e as bocas salivando na
expectativa de carne, a família de Mulher Alta esperou
pacientemente, escondida, observando. O ar se encheu
brevemente de rosnados e silvos selvagens. Até mesmo as
crianças sabiam que o silêncio era crucial, que ele significava
a diferença entre comer e ser comido. A tarde se estendeu,
as sombras se adensaram, os únicos sons na brisa sendo a
alimentação voraz dos felinos. As costas e as pernas de
Ventas doíam. Faminto queria desesperadamente coçar as
axilas; moscas tinham se fixado na pele nua e mordiam
ferozmente. Mas os humanos não se moviam. Sabiam que
sua oportunidade chegaria.
O sol afundava no horizonte. Várias crianças começaram a
queixar-se e a chorar, mas agora os felinos, já plenamente
saciados, começavam a se afastar da dilacerada carcaça para
tirar uma longa soneca. Os humanos observavam enquanto
os machos se afastavam a trote, bocejando, seguidos pelos
gordos filhotes com os focinhos ensangüentados. Quando os
leões se haviam jogado sob o baobá, os abutres se moveram.
Ventas e Faminto olharam para Leão, aguardando pelo sinal,
e quando ele foi dado, todos se lançaram à frente, gritando e
jogando pedras nos abutres. Mas os pássaros gigantes,
impelidos pela sua própria fome, não iam desistir do prêmio.
Espalhando suas asas maciças, eles resistiram com bicos e
garras para proteger o que era seu.
Os humanos foram forçados a bater em retirada, famintos e
cansados, alguns sangrando pelo confronto com os abutres.
Eles se agacharam de novo na relva, desta vez, atentos às
hienas e cães selvagens que inevitavelmente viriam limpar
os ossos. Após um breve crepúsculo, a noite caiu e os
abutres continuaram a se banquetear. Mulher Alta passou a
mão sobre os lábios crestados. O estômago doía-lhe de fome.
Os bebês de Descobridora de Mel choramingavam em pro-
testo. E ainda assim os humanos esperavam.
Finalmente, à medida que uma lua fulgurante se erguia acima
do horizonte, lançando um brilho láteo na paisagem, os
abutres foram embora, empanturrados. Brandindo lanças e
uivando na maior capacidade de seus pulmões, os humanos
conseguiram manter as hienas afastadas do que restara da
zebra — pouco mais do que couro e osso. Eles agiram
rapidamente, usando machadinhas afiadas para separar as
pernas da zebra do corpo. Com seus troféus sobre as cabeças
os humanos partiram, deixando que as hienas acabassem
com tendões, ligamentos e pêlos.
Dentro de um bosquete protetor, Atiçadora de Fogo
começou imediatamente a acender fogueiras para manter os
predadores à distância. Leão e outros homens fortes
puseram-se a trabalhar, arrancando a pele das pernas da
zebra. Depois que estavam limpas, quebraram os ossos com
rapidez e perícia para expor o precioso e cremoso tutano
rosado que havia no seu interior. Salivando, os humanos
gemeram e suspiraram à semelhante visão, e
instantaneamente se esqueceram das longas horas de vigília
na relva, das juntas e dos membros doloridos. Não houve
nenhum frenesi alimentar por causa do tutano. Leão repartiu
igualmente a iguaria apetitosa e desta vez todos receberam
seu quinhão, até mesmo Velha Mãe.
Mulher Alta tentou novamente protestar contra a direção
que estavam tomando e desta vez Leão atingiu-a com o
dorso da mão, fazendo-a rolar pelo chão. Reunindo as
crianças e bebês e suas poucas posses, a Família recomeçou a
seguir para oeste. Velha Mãe foi ajudar Mulher Alta, emitin-
do sons tranqüilizadores e dando tapinhas na face furiosa da
neta.
Quando começaram a respirar o ar vulcânico fumacento,
Velha Mãe de repente gemeu e levou a mão ao peito. Seus
passos falharam enquanto ela ofegava. Mulher Alta pegou-a
pelo braço, levantando-a. Deram mais alguns passos quando
Velha Mãe finalmente soltou um grito e desfaleceu. Os
outros relancearam os olhos para ela, mas continuaram an-
dando, preocupados somente com comida. Observavam os
cupinzeiros e arbustos de bagas, árvores carregadas de nozes,
e a coisa mais rara de todas: uma colméia. Mas não davam a
menor importância a Velha Mãe, que fizera o parto de
metade de suas mães. Apenas Mulher Alta se preocupava em
ajudar a idosa, finalmente erguendo-a e carregando-a nos
ombros. A medida que o céu equatorial despontava, o peso
ia aumentando. Finalmente, após uma viagem extenuante,
Mulher Alta, com toda a sua estatura e força, não pôde mais
carregar Velha Mãe.
Elas desabaram por terra e a Família, forçada a parar, ficou ali
em volta, indecisa. Leão ajoelhou-se sobre a mulher
inconsciente e cheirou sua face. Deu uns tapinhas nas
bochechas de Velha Mãe e forçou-a a abrir a boca. Depois
ele viu os olhos fechados e os lábios azulados.
— Hum, morta — grunhiu, querendo dizer que tinha sido
melhor assim. Levantou-se e comandou: — Vamos.
Algumas das mulheres começaram a choramingar. Outras
irromperam em lágrimas. Descobridora de Mel bateu com os
pés, agitou os braços e fez sons de lamento. Narigudo
recolheu sua mãe inconsciente nos braços e chorou sobre
ela. Caroço sentou-se ao lado de Velha Mãe e pegou as mãos
dela. As crianças pequenas, aterrorizadas pelas ações dos
adultos, começaram a chorar. Mas Leão, pegando suas lanças
e porrete, deu as costas ao grupo e começou a marchar
resoluto para oeste. Um por um, eles o acompanharam, até
que todo o bando se foi, os retardatários olhando para trás
enquanto Mulher Alta ficava com Velha Mãe.
Mulher Alta amava Velha Mãe com uma ferocidade que não
sabia definir. Quando sua verdadeira mãe tinha ficado para
trás por causa de uma perna quebrada, Mulher Alta havia
chorado por vários dias. Foi Velha Mãe quem a tinha tomado
num reconfortante abraço, e quem a alimentara e dormira
junto a ela depois disso. Mãe da minha mãe, pensou Mulher
Alta, compreendendo vagamente sua ligação especial com
esta mulher numa família que não possuía nenhum conceito
de parentesco.
Em breve elas se viram sozinhas na savana, com exceção dos
abutres que voavam em círculos acima. Mulher Alta arrastou
Velha Mãe para a segurança das árvores e recostou-a contra
um tronco robusto. O dia estava morrendo. O cair da noite
traria os carnívoros de olhos dourados que chegariam perto
das humanas indefesas.
Mulher Alta encontrou duas pedras e, agachando-se junto a
um monte de folhas secas, começou a esfregar uma pedra na
outra. Era preciso paciência infinita e força de vontade, e
seus ombros e costas começaram a doer com o esforço. Mas
ela vira Atiçadora de Fogo realizar aquilo com sucesso
inúmeras vezes, de modo que sabia ser possível. Mais e mais,
enquanto o céu escurecia e as estrelas pelejavam para espiar
através da fumaça vulcânica, Mulher Alta atritava as pedras
uma na outra e por fim foi recompensada com uma pequena
chama. Ela gentilmente soprou-a para a vida, alimentando-a
com mais folhas secas até que flamejou mais alta. A seguir,
colocou pedras em volta do fogo e gravetos em cima, e
extraiu conforto do brilho contra a noite.
Velha Mãe, ainda inconsciente, continuava a respirar com
dificuldade, os olhos fechados, o rosto contorcido de dor.
Mulher Alta sentou-se perto dela e aguardou. Já vira a morte
antes. Ela chegava para os animais da savana. Às vezes
chegava também para alguns membros da Família. Seus
corpos eram deixados para trás e a Família conversaria sobre
eles por talvez uma estação ou duas até que fossem
esquecidos. O fato de que ela própria poderia um dia morrer
não entrava na cabeça de Mulher Alta. Os conceitos de
mortalidade e conhecimento de si própria lampejavam
menos em sua mente do que as distantes estrelas.
Após um instante, Mulher Alta percebeu que Velha Mãe
precisava de água. Quando viu um canteiro de flores, quase
tão alto quanto ela, salpicado de florações bem formadas e
folhas felpudas, ela calculou que deveria haver água por
perto. Ficando de quatro, escavou o solo esperando
encontrar umidade. Ouviu um bando de hienas latindo nas
proximidades, seus corpos fazendo sons farfalhantes no
mato. Os pêlos na nuca de Mulher Alta se arrepiaram. Já
tinha visto hienas arrebatarem um ser humano, devorando-o
vivo selvagemente enquanto o infeliz gritava. Mulher Alta
sabia que somente o fogo mantinha as feras a distância e que
deveria voltar imediatamente a ele e manter as chamas vivas.
Seu cavoucar tornou-se cada vez mais frenético. Certamente
haveria água por perto para sustentar flores tão grandes e
caules tão carnudos. Ela cravou os dedos na terra dura até
que sangraram.
Sentou-se em frustração, a fadiga rastejando por seus
membros, e com um forte desejo de dormir. Mas tinha de
encontrar água e precisava manter o fogo. E devia proteger
Velha Mãe dos predadores que espreitavam na escuridão.
E então ela viu um raio de luar refletido. Água! Clara e azul,
empoçada na base de uma das flores. Mas quando esticou o
braço para ela descobriu que a água estava dura e não era
uma pequena poça, afinal. Colhendo-a com a mão em
concha, ficou intrigada com o fato de a água azul estar
embaçada com as folhas secas da planta dedaleira. Como po-
deria a água ser sólida? E ainda assim só podia ser água, pois
era transparente e lisa e parecia que a qualquer momento
tornar-se-ia líquida.
Ela carregou a pedra, formada havia três milhões de anos a
partir de um meteorito, e voltou para onde Velha Mãe
estava. Embalando a anciã nos braços, gentilmente passou a
pedra lisa entre seus lábios ressequidos. Velha Mãe
imediatamente começou a sugar, a saliva aparecendo nas
comissuras dos lábios, de modo que Mulher Alta soube que a
água se tornara líquida.
Um momento depois, contudo, para sua surpresa, o cristal
escorregou dos lábios de Velha Mãe e quando Mulher Alta o
recuperou viu que a água continuava sólida. Mas agora ela
pôde vê-la mais claramente, porque a língua da anciã limpara
a pedra dos seus resíduos vegetais.
O cristal se ajustava presunçosamente na palma da mão de
Mulher Alta, tal como um ovo se acomodaria num ninho. E
era liso como um ovo, mas com uma superfície aquosa que
refletia a luz da lua tal como fazia um lago ou um riacho.
Quando o revirou, ergueu-o entre dois dedos, viu azuis mais
profundos no seu núcleo e depois, mais profundo ainda,
alguma coisa branca, aguçada e cintilante.
Um suspiro de Velha Mãe desviou a atenção de Mulher Alta
do cristal. Ela viu com espanto que os lábios da anciã haviam
mudado do azulado para um tom rosado e que ela respirava
mais facilmente. Pouco depois, Velha Mãe abriu os olhos e
sorriu. A seguir sentou-se e tocou os seios murchos com
espanto. A dor no peito se fora.
Juntas, elas olharam fixamente para a pedra transparente.
Alheias aos poderes curativos da digitalina na planta, elas
acreditaram que havia sido a água na pedra que salvara Velha
Mãe.
Quando alcançaram a Família ao alvorecer, os outros
ergueram a vista de sua coleta com suave curiosidade, pois
Mulher Alta e Velha Mãe já tinham começado a sair da
lembrança deles. Com gestos e palavras limitadas, Velha Mãe
explicou como a pedra-água a trouxera de volta da morte. E
quando Mulher Alta passou a pedra de mão em mão pelos
familiares sedentos, eles a sugaram até que começaram a
salivar. Por um momento a sede foi aplacada e, por um
momento, cada um deles olhou Mulher Alta com espanto e
um pouco de medo.
Ela deparou com o estranho por acidente. Estivera
escavando em busca de ovos de salamandra na folhagem alta
que orlava o lago ocidental quando o ouviu à beira da água.
Ela nunca o vira antes — um homem alto com ombros
largos e coxas musculosas — e enquanto o espiava, ficou
especulando de onde ele tinha vindo.
A Família chegara ao lago no dia anterior para descobrir a
água coberta de cinzas e todos os peixes mortos e
apodrecidos. A coleta de ovos de tartaruga e répteis provara-
se infrutífera, e a vegetação ao longo da margem estava tão
coberta de cinzas vulcânicas que raízes tinham ficado
enegrecidas e impróprias para consumo. Da vida dos pássaros
silvestres só restavam ninhos cheios de comida boa de grou
e ovos de pelicano. Havia apenas um pequeno bando de
patos lutando pela sobrevivência entre espadanas e juncos
embranquiçados. Todos os membros fisicamente aptos da
família se haviam dispersado numa área ampla em busca de
comida enquanto os idosos e as crianças permaneciam
acampados numa saliência rochosa relativamente a salvo de
predadores. Mulher Alta havia avistado uma pequena
manada de zebras de joelhos à beira da água, tentando beber
através da cinza, quando viu o jovem estranho. Ele estava
fazendo algo intrigante.
Enquanto segurava uma tira feita de tendão animal, enlaçada
e provida de uma pedra, com a outra mão ele jogou um seixo
na água, obrigando os patos selvagens a alçar vôo de repente.
Depois o estranho rodopiou o tendão sobre a cabeça e o fez
arremessar a pedra. Diante dos olhos atônitos de Mulher
Alta, a pedra atravessou o ar e acertou um dos patos,
fazendo-o desabar. O jovem chapinhou na água rasa e reco-
lheu o pato morto.
Mulher Alta ofegou.
O estranho parou. Virou-se na direção dela e perscrutou
com atenção a muralha de relva até que Mulher Alta,
inexplicavelmente encorajada, saiu do esconderijo.
Cometeu a ousadia porque usava em volta do pescoço a
poderosa pedra-água presa num cordão feito de relva. Ela
pendia entre seus seios como um pingo d'água gigante, seu
núcleo nebuloso, formado há três milhões de anos quando a
poeira de diamante cósmica fundira-se com o quartzo da
terra, bruxuleando como um coração.
Ela e o estranho entreolharam-se cautelosamente.
A aparência dele diferia levemente daquela da Família: o
nariz de um formato diferente, a mandíbula mais forte, os
olhos uma intrigante cor de musgo. O cabelo, como aquele
da família de Mulher Alta, era longo e emaranhado, e
entretecido com barro vermelho, mas ele o havia enfeitado
com pedaços de concha e pedra, o que Mulher Alta achou
muito cativante. O mais intrigante nele era a coleção de ovos
de avestruz que pendia de seus quadris num cinturão feito de
juncos tecidos. Ele fizera buracos nos ovos e os tampara com
barro.
Embora suas línguas não se assemelhassem, o jovem
conseguiu explicar que seu nome era Espinho e que procedia
de outra família além da planície, num vale que Mulher Alta
jamais vira. Com gestos e sons, ele contou a Mulher Alta por
que recebera o nome de Espinho.
Enquanto ele pulava em volta gritando em dor zombeteira,
fazendo a mímica do seu acidente, massageando as nádegas
onde muitos espinhos tinham se enfiado, Mulher Alta
rapidamente entendeu que ele ganhara seu nome ao cair
sobre uma moita de espinhos. Ela riu histericamente e
quando ele terminou, grato pelo riso dela, o jovem deu o
pato para Mulher Alta.
Ela ficou sombria. Uma lembrança de súbito obscureceu sua
mente: muito tempo atrás, antes que Leão fosse o líder,
antes até do líder chamado Rio, quando ela era muito
pequena, dois estranhos foram parar no acampamento.
Tinham vindo de além da cordilheira, onde a Família nunca
se aventurara. Todos desconfiaram de início, mas depois os
novos machos foram aceitos no grupo. Mas então algo tinha
acontecido — uma luta. Mulher Alta se lembrava do sangue
e do líder da Família mutilado na relva. Um dos dois
estranhos assumira o lugar dele e a Família o seguira depois
disso.
Será que este estranho viera para matar Leão e tornar-se o
novo líder?
Enquanto ela o observava em muda curiosidade, Espinho
caçou mais alguns patos com sua funda e pedras e, juntos,
eles os levaram para o acampamento de Mulher Alta.
A Família gritou deliciada com os patos, pois fazia vários dias
que não sentiam o gosto de carne, e depois todos voltaram
sua curiosidade para o recém-chegado. Crianças espiavam
encabuladas por detrás das pernas de suas mães, enquanto as
garotas mais velhas o fitavam ousadamente. Descobridora de
Mel esticou a mão para pegar a genitália de Espinho, mas ele
pulou para trás, rindo, os olhos fixos em Mulher Alta.
Quando Leão gesticulou para os ovos de avestruz em torno
da cintura de Espinho, este soltou um e ofereceu a ele. Leão
ficou intrigado com o buraco tampado, examinou-o, depois
enfiou o dedo no buraco e ficou atônito ao descobrir água
em lugar de gema. Espinho demonstrou como aprumar o
ovo e deixar a água gotejar para a boca. A seguir entregou o
ovo a Leão para que ele bebesse. A Família estava atônita.
Que tipo de ave poria ovos com água dentro? Mas Mulher
Alta entendia: Espinho colocara a água depois de esvaziar as
cascas dos ovos. Daí chegou a uma conclusão ainda mais
espantosa, a de que tinha palavras para explicar e que não
passava de uma idéia conflitante em sua mente: Espinho
carregava água com ele já prevendo a futura sede.
Puseram os patos no fogo, para soltar as penas e cozinhar
parcial' mente a carne. E a Família usufruiu de um banquete
aquela noite, que se encerrou alegremente com todos
arremessando ossos uns nos outros. Velha Mãe sugou com
alegria o tutano de pato e engoliu a água fresca dos ovos de
avestruz. Todas as mulheres no grupo olhavam para o jovem
macho, excitado por seu vigor e suas cabriolas. E até mesmo
os homens, por enquanto, ficaram felizes em receber o
intruso no seu meio.
A Família permaneceu em torno do lago, banqueteando-se
com os patos de Espinho enquanto eles duraram. Espinho
não se sentava ao redor do fogo como os outros homens
faziam, afiando ferramentas de pedra e fabricando lanças.
Havia uma inquietação nele, e uma necessidade de atenção.
Para Mulher Alta ele parecia uma criança grande, ansiosa
para provocar riso nos outros com suas pantomimas. Diante
dos olhares levemente curiosos dava cambalhotas, pulava e
fazia mímica, sem qualquer motivo aparente. Mas depois de
algumas noites, com Mulher Alta sendo a primeira a
compreender o que ele queria dizer, a Família começou a
apreender que havia significado nas palhaçadas do recém-
chegado.
Ele estava contando histórias.
Platéias numa era futura o chamariam de um canastrão, mas
a família de Mulher Alta estava entusiasmada por sua arte
cênica. Diversão era algo desconhecido para eles, e a
narração de eventos passados mais estranha ainda. Porém, à
medida que começaram a entender seus gestos, sons e
expressões faciais, viram histórias emergindo. Eram histórias
simples, pequenos dramas nos quais Espinho encenava uma
caçada com o povo carregando vitoriosamente uma girafa
nas costas para o acampamento, ou um quase afogamento no
qual uma criança era salva, ou uma luta feroz com um
crocodilo que resultava em morte. Espinho em breve tinha a
família de Mulher Alta rindo e batendo nas coxas, ou
chorando e derramando lágrimas pelas faces, ou ofegando de
medo ou grunhindo em espanto. A comida poderia ser
escassa neste lago abandonado por outros animais, e a água
poderia ser ruim e salobra, matando até os peixes que nela
residiam, mas Espinho fazia os humanos se esquecerem da
fome e sede enquanto narrava vezes sem conta a história
cômica de como ganhara seu nome. Eles nunca se cansavam
de vê-lo cair na "moita de espinhos" e sofrer com eles
enfiados nas nádegas.
E então, uma noite, os espantou ainda mais ao se transformar
de repente em outra pessoa.
Ele se levantou do seu lugar junto ao fogo e começou a andar
em volta do círculo de uma maneira estranha — o braço
esquerdo encolhido, a perna esquerda arrastando-se para
trás. De início lançaram-lhe olhares intrigados e depois
ofegaram. Ele parecia Escorpião! Subitamente apavorados,
olharam em torno para ver se Escorpião ainda estava
presente — teria ele, de alguma forma, se apossado do corpo
de Espinho? Mas ele estava lá, olhando em choque para o
recém-chegado. O lado esquerdo de Escorpião ficara cada
vez mais dormente, tornando inúteis seu braço e perna
esquerdos.
E então, diante de olhos atônitos, Espinho passou para outra
postura, oscilando os quadris e fazendo a mímica de encher
a boca de comida. Descobridora de Mel!
Ventas gritou com raiva e medo, mas algumas das crianças
riram. E então quando Espinho puxou o longo cabelo
emaranhado até se arrepiar e depois caminhou com passos
miúdos afetados — e todos reconheceram de imediato Bebê
—, os outros começaram a rir.
Em breve Espinho tinha todo mundo uivando com histeria e
a coisa tornou-se um jogo. Ele caminhava trôpego,
examinava um graveto e todos gritavam: "Lesma!" Ele
esfregava as costas de cima a baixo numa árvore e todo
mundo exclamava: "Caroço!" E quando levantava um
menino pequeno nas costas, enganchando os braços da
criança sob o queixo e as pernas em volta da cintura, numa
imitação do manto pútrido que Leão usava, todos agarravam
o estômago num acesso de riso.
Espinho ficava feliz em fazê-los rir. Esta família não era
diferente da sua: coletavam os mesmos alimentos, seguiam
trilhas antigas, viviam na mesma estrutura. Mulheres e
crianças agrupavam-se, enquanto os machos formavam seu
próprio grupo à parte, e ainda assim todos se empenhavam
na sobrevivência da Família. As mulheres se dedicavam aos
mesmos rituais de embelezamento e criação dos filhos,
enquanto os homens afiavam lanças e cortavam
machadinhas das rochas. A raiva era rápida para se
manifestar, mas também arrefecia rapidamente. Havia os
costumeiros ciúme e inveja, amigos e inimigos. Velha Mãe
lembrava Salgueiro em sua família, com as pernas tortas e
seios esbranquiçados e gengivas desdentadas. Ventas e
Caroço o faziam se lembrar de seus irmãos e de como
tinham feito travessuras juntos quando pequenos.
E então havia Mulher Alta.
Ela era diferente dos outros, não apenas mais alta como
também mais sábia. Ele via a preocupação com que
observava a montanha fumegante no horizonte, como o
cenho dela se franzia à visão das nuvens negras formando-se
no céu. Ele próprio havia observado o mesmo fenômeno e
achou-o preocupante. Porém mais que a inteligência era o
corpo forte de Mulher Alta que o atraía, as pernas longas e o
passo firme. Gostava do modo como ela ria e como tratava as
mulheres mais fracas com justiça, sempre se certificando de
que tivessem o que comer. Ela o fazia se lembrar das
mulheres de sua família, uma lembrança que estava se
desvanecendo cada vez mais rápido.
Espinho não sabia por que deixara sua família. Certa manhã
fora acometido por uma inquietude inexplicável. Ele pegara
sua machadinha e seu porrete e partira. Outros homens antes
dele já tinham feito o mesmo: o irmão de sua mãe, Braço
Curto, e o irmão mais velho de Espinho, Uma Orelha. Nem
todos os homens deixavam a família de Espinho. A maioria
ficava. Mas a sede de viagem acometia uns poucos em cada
geração, e quando eles partiam nunca voltavam.
Espinho abandonara sua família adormecida com imagens
vagas na sua mente: da mulher que lhe dera vida, das suas
irmãs. Agora, enquanto olhava para esta atraente fêmea alta,
não estava cônscio de que a escassez de fêmeas desejáveis
em sua família tivesse sido a razão de sua partida, de que
havia ido embora por instinto, tal como outros machos
jovens de outros grupos humanos tinham de tempos em
tempos, ao longo das gerações, se juntado a sua própria
família. Espinho não se despedira. Com o tempo, sua família
o esqueceria, bem como, com o tempo, Espinho se
esqueceria dela.
O lago finalmente ficou tão poluído que o último dos patos
desapareceu, forçando a família a se mudar.
As condições pioraram. Começaram a encontrar animais
mortos e, embora no início isto significasse banquetes de
carne para a família, à medida que prosseguiam na sua
viagem para oeste e encontravam cada vez mais elãs, gnus,
elefantes e rinocerontes — centenas de milhares de carcaças
malcheirosas, o ar espesso com o fedor de carne podre e
nuvens de moscas-varejeiras —, a carne agora estava pútrida
demais para ser consumida por humanos.
Mulher Alta percebeu que animais de rebanho andavam
morrendo porque a vegetação estava coberta de cinza e
escumalho. Só quem estava comendo bem eram os
carniceiros, chacais, hienas e abutres, todos ficando gordos.
Ela e Espinho concordavam que havia uma ligação entre o
vulcão e os animais que morriam. Mas Leão insistia para que
a Família seguisse para oeste a fim de encontrar água e
comida.
A cada dia que passava, as fontes de água se tornavam cada
vez piores. A comida escasseava à medida que os pequenos
animais desapareciam e as plantas eram sepultadas em
fuligem. O céu ficava cada vez mais escuro e o solo
estrondeava com freqüência crescente. A cada pôr-do-sol,
Mulher Alta observava a montanha fumacenta com aflições
e entendia cada vez mais claramente que Leão os estava
guiando para o perigo.
O leite das mães secava e os bebês morriam. Após carregar
seu bebê morto durante dias, Fuinha finalmente sentou-se ao
lado de um alto cupinzeiro que dias antes teria fornecido um
banquete para a Família, mas que agora se achava
inexplicavelmente vazio, e então inclinou a cabeça sobre seu
bebê e lá permaneceu enquanto a Família prosseguia.
Uma noite Mulher Alta agitou-se num sono inquieto, seus
sonhos visitados pelo sorriso e cabriolas cômicas de Espinho.
Ela agitou-se num calor que nunca sentira antes, e num
anseio que parecia fome, embora não fosse comida o que
desejasse. Despertou com o latido solitário de um cachorro
distante e então viu uma silhueta movendo-se pelo acam-
pamento adormecido. Reconheceu Espinho e especulou
sobre o que ele estaria fazendo. Talvez apenas se aliviando.
Talvez estivesse vindo para o ninho-leito dela. Mas Espinho
rastejou pelo acampamento, passou pela periferia e saiu na
planície aberta. Mulher Alta o seguiu, mas só até as tochas
protetoras e a cerca de ramo de acácia, onde Lesma e
Escorpião estavam em sentinela. Ela esperou pela volta de
Espinho. Ao alvorecer ele ainda não tinha voltado e a
Família precisava partir;
Passaram-se quatro dias e Espinho ainda não se reunira ao
grupo. Mulher Alta chorou silenciosamente em seu ninho-
leito, temerosa de que o estranho encantador estivesse
morto, e imaginando por que ele partira quando a Família o
recebera tão bem. A paixão que ela havia começado a sentir
por ele foi substituída por dor e pesar, emoções que a jovem
nunca vivenciara antes.
E então, de súbito, ele estava lá, de pé sobre um outeiro, o
sol poente às suas costas, agitando os braços e pulando sem
parar. A Família reconheceu seus sons e gestos como sendo
bons sinais e correu em sua direção. Ele acenou para que o
seguissem, e todos correram atrás do jovem enquanto ele os
conduzia ao longo de um serpenteante leito de rio, agora
seco, e por sobre outra colina, ao longo de um estreito
cânion rochoso, onde apontou orgulhoso para o que
descobrira.
Um bosquete de tamarineiros. E cada parte do tamarino era
comestível.
Os homens assolaram como gafanhotos as árvores altas e
densamente ramificadas, arrebatando as vagens polpudas,
rasgando as folhas, desnudando a casca e enchendo a boca.
O fruto carnudo saciava a sede e a casca tapeava a fome.
Atiçadora de Fogo acendeu uma fogueira e todos lançaram
sementes de tamarindo nas pedras quentes para comê-las
mais tarde.
Agora Mulher Alta chorava de alegria, e de admiração.
Todos achavam que Espinho tinha fugido da sede e da fome.
Mas agora todos sabiam que ele saíra em busca de comida
para a Família — e a encontrara.
O equilíbrio de poder mudou num instante. Para Espinho foi
dado agora o tamarindo mais suculento. Para Leão deram os
restos.
Quando os tamarineiros foram devastados, sem sobrar folha,
semente ou pedaço de casca, a Família partiu. Mas desta vez
todos carregavam líquido. Antes que consumissem toda a
polpa encontrada no fruto do tamarino, Espinho lhes
mostrara como espremê-la nos ovos de avestruz vazios para
levar com eles.
Ainda depararam com carcaças apodrecidas, mas o tutano
estava bom e nutritivo. Por um momento o vulcão
descansou e as estrelas puderam de novo ser vistas
brevemente. E quando Espinho levou a Família a um poço
artesiano que lhes deu água fresca, ele decidiu que passariam
a noite ali.
Leão não foi consultado.
O calor que tinha começado a arder em Mulher Alta, na
noite em que todos pensaram que Espinho os havia
abandonado, continuou a crescer dentro dela até que os
pensamentos em Espinho preenchessem sua mente noite e
dia. Estava faminta pelo seu corpo, seu toque. Quando a
Família se enfeitava junto à fogueira do acampamento, era
Espinho quem ela queria sentir espalhando lodo em sua pele.
Mulher Alta relanceou os olhos encabulada pelo
acampamento para vê-lo com os outros rapazes,
demonstrando-lhes como tinha feito sua funda, rindo com
eles. E quando olhou de volta, ela sentiu o surto de calor,
como fagulhas disparadas das brasas.
Dominada pela inquietação, ela se afastou do grupo e foi até
o afloramento rochoso onde algumas garças sujas de fuligem
chapinhavam na rasa água artesiana. Estava vagamente
cônscia do seu contentamento em ver as estrelas e a lua,
muito embora o céu ainda estivesse nevoento, e também
contente do solo não ribombar havia vários dias.
E poderia ter especulado sobre estes mistérios se não
estivesse tomada por um estranho encantamento.
Quando ouviu passadas através da relva seca não ficou
alarmada. Um instinto lhe disse quem era e por que ele a
tinha seguido. Virou-se e viu o sorriso de Espinho à luz da
lua.
Ela já vira outros agirem desta forma muitas vezes sem
compreender por que o faziam, o toque e a intimidade, o
saborear e o farejar. Mas agora isto a deixou totalmente
cálida. Espinho pressionou a boca em suas faces e pescoço, e
esfregou o nariz contra o dela; as mãos de Mulher Alta
descobriram pontos no corpo dele que o fizeram gemer.
Ambos riram. Começaram a fazer cócegas um no outro até
que Mulher Alta, guinchando de tanto rir, de repente livrou-
se e fugiu dele. Espinho a perseguiu, gritando e agitando os
braços. Mulher Alta certificou-se de não superá-lo, embora
pudesse tê-lo feito com suas pernas compridas. Quando ele a
capturou, ambos berrando de riso, Mulher Alta caiu de
joelhos e permitiu-lhe que a penetrasse. Antes que ele
acabasse, escapou de novo e, rindo, rolou de costas e puxou-
o para baixo. Quando Espinho voltou a penetrá-la, Mulher
Alta o agarrou com firmeza e rolou vezes sem conta com ele
dentro dela, seus gritos de prazer se elevando ao céu.
Passavam os dias completamente envolvidos um com o
outro. Ele a cheirava toda. Ela provava o sal nas axilas dele.
Espinho pulava de um lado para outro e cabriolava. Ele se
espichava tão alto quanto podia e expandia o peito para
mostrar-lhe quão grande era. Ela desviava a vista
pudicamente, fingindo não se importar. Embora ele tivesse a
sua coleção de fêmeas, sua afeição era somente para Mulher
Alta. Enfeitavam-se mutuamente e dormiam no mesmo
ninho, braços e pernas entrelaçados. Mulher Alta jamais
conhecera afeição tão profunda, nem mesmo por Velha
Mãe. Quando dormia nos braços de Espinho não sentia
medo de nada, e quando ele a acariciava e penetrava
agarrava-o com uma paixão dolorida. Também havia algo
mais: não estava mais só em seu medo de um novo perigo
porque Espinho também olhava para o céu e via como o
vento soprava a fumaça e sabia que perigo jazia além do
próximo amanhecer.
Velha Mãe por fim morreu, fechando os olhos com a cabeça
acomodada na barriga grávida de Mulher Alta. A Família
berrava e batia no chão com bastões, depois finalmente
depositaram o corpo da anciã na relva e partiram.
Certa manhã, quando o céu se encheu de fumaça e o solo
ribombou, a filha mais velha de Descobridora de Mel,
recém-entrada na puberdade e sentindo novos instintos
excitantes brotando dentro de si, observava Espinho
enquanto ele criava uma nova funda do tendão arrancado da
carcaça de um elã. Ela olhava para seus ombros largos e
braços fortes, depois se aproximou dele, rindo, e inclinou-se,
rebolando o traseiro nu. Espinho ficou instantaneamente
excitado. Mas ela não era a parceira que ele desejava. Pondo-
se de pé, olhou em torno à procura de Mulher Alta e, ao vê-
la debulhando vagens do baobá, correu até ela. Fez-lhe
cócegas, brincou com o cabelo dela, pulou em torno e fez
ruídos cômicos. Ela riu e puxou-o para baixo, entre os
arbustos, onde copularam sob o sol quente.
Leão observava em frio distanciamento. Desde a chegada do
estranho que as fêmeas haviam deixado de oferecer-se a ele.
As crianças seguiam o recém-chegado por toda parte, os
homens olhavam Espinho com admiração. Com suas pedras
mortíferas Espinho conseguia derrubar o pássaro ocasional
que se aventurasse no céu repleto de fumaça. A noite ele os
divertia com sua mímica engraçada. Todo mundo gostava de
Espinho.
A idéia foi de Descobridora de Mel, já que sentia-se infeliz
com o modo como Espinho invertera o equilíbrio de poder
na Família. Agora que Leão havia sido deposto, devia ela,
portanto, estando Mulher Alta grávida, assumir o posto de
fêmea dominante.
Aproximaram-se de Espinho com sorrisos e gestos de
amizade — Caroço, Faminto, Ventas e Descobridora de Mel,
a facção leal a Leão.
Espinho estava sentado sob a sombra de uma acácia,
colocando tendões rígidos nas suas novas fundas. Espinho
tinha colhido os compridos tendões da carcaça decomposta
de uma girafa e agora os mastigava e socava com pedras até
que estivessem flexíveis o bastante para produzir uma arma
acurada.
Ele olhou para o sorriso de Descobridora de Mel, que estava
lhe oferecendo um punhado de pequenas maçãs murchas.
Espinho ficou deliciado. Esta mulher forte não fora calorosa
com ele desde que se juntara à Família. Ficou contente em
saber agora que ela finalmente o aceitava. Enquanto ele se
erguia e pegava as maçãs, Leão e os outros homens
apareceram subitamente com porretes, bastões e pedras
grandes.
Espinho os fitou, intrigado. Depois sorriu e ofereceu-lhes
uma parte das maçãs. Quando Leão jogou fora as frutas, o
rosto de Espinho ficou sem expressão e no momento
seguinte estavam todos sobre ele, cinco homens robustos
agitando suas armas contra seu corpo esguio.
Usando os braços para se proteger, Espinho saltou para trás e
caiu contra a árvore. Enquanto as pancadas choviam sobre
ele, Espinho tentava freneticamente entender o que estava
acontecendo. Caiu de joelhos e procurou pelas fundas que
jaziam na relva. Alcançou-as, mas o porrete de Leão bateu
contra seus antebraços. Espinho tentou fazer algo engraçado,
fazê-los rir, mas o sangue escorria do seu nariz e couro
cabeludo. Enquanto estava de joelhos, abriu as mãos numa
pergunta: por quê? Leão provocou um alto estalido ao vibrar
seu porrete na têmpora de Espinho. Enquanto se
enrodilhava e tentava se proteger, Espinho gritava sob a
chuva de porretadas e pontapés. Pouco antes de perder a
consciência, sua mente reviveu com imagens: da mulher que
o dera à luz, do acampamento no vale onde havia crescido,
das risadas com seus irmãos, da consciência de liberdade na
savana sob o sol quente. E depois a dor abateu-se sobre ele
como uma maré negra. Mulher Alta foi seu último
pensamento antes de morrer.
Tendo ouvido os gritos, Mulher Alta e os outros irromperam
do mato. E quando ela viu o corpo massacrado de Espinho,
seus uivos se elevaram aos céus. Ela caiu sobre Espinho e
urrou seu ultraje. Puxou-o pelos ombros, tentando despertá-
lo; lambeu seus ferimentos e provou seu sangue. Tomou-lhe
o rosto espancado nas mãos e deixou que suas lágrimas
caíssem sobre a carne machucada. Mas ele continuava
imóvel e sem respirar. A família observava em silêncio
enquanto Mulher Alta continuava a uivar e a bater no solo
com os punhos. E então ela caiu num silêncio mortal, e
quando afinal se ergueu, todos recuaram.
Ela era uma visão de poder — alta e grávida com a pedra-
água azul reluzindo entre os seios intumescidos. Encontrou
os olhos dos matadores de Espinho um por um, e todos eles,
exceto Leão e Descobridora de Mel, desviaram a vista,
envergonhados.
O silêncio caiu sobre a cena, só quebrado pelo zumbido dos
insetos e pelo som distante da terra ribombando. Toda a
Família olhava, até mesmo as crianças continham a língua
enquanto Mulher Alta desafiava os adversários com um
olhar decidido.
E então, todos os olhos acompanhado-a, ela abaixou-se
lentamente e apanhou do chão uma das fundas de Espinho e
uma pedra. Leão retesou- se em preparação, os dedos
apertados em torno do cabo de seu porrete. Mas Mulher Alta
moveu-se tão rápida e inesperadamente que o pegou de
guarda baixa. Num piscar de olhos ela tinha a funda de
Espinho equipada com a pedra pontiaguda e, com uma
varredura em arco do braço, arremessou-a certeiramente
contra o crânio de Descobridora de Mel.
Atônita, a mulher mais velha cambaleou para trás. Antes que
qualquer um pudesse reagir, antes que Leão pudesse erguer o
porrete, Mulher Alta rodopiou de novo a funda, desta vez
atingindo Descobridora de Mel entre os olhos. Com um grito
ela caiu, e no mesmo instante Mulher Alta estava de pé
sobre ela, rodopiando a funda para baixo com grande força,
golpeando vezes sem conta, até que o rosto de Descobridora
de Mel ficou irreconhecível.
Quando acabou, Mulher Alta virou-se para Leão e cuspiu
com desprezo a seus pés.
Ele não se moveu. Com o vento quente espalhando cinza
vulcânica a sua volta, Mulher Alta manteve os olhos fixos
em Leão, desafiando-o para luta, muito embora ele fosse
maior e mais forte, carregasse lanças e um porrete, e suas
costas estivessem protegidas pela pele podre de uma leoa.
Enquanto se desafiavam com olhares hostis, o ódio mútuo
enchendo o ar como as centelhas do vulcão, a Família
olhando com a respiração suspensa à espera do próximo
movimento, a terra subitamente tremeu, mais violentamente
do que costumava, desequilibrando as pessoas.
Instintivamente, a Família correu para as árvores próximas,
mas Mulher Alta não se moveu. Atrás da floresta erguia-se a
montanha de fogo. A cinza chovia lá de cima, brasas quentes
e destroços incandescentes. Os galhos mais altos explodiam
em chamas.
E subitamente tudo ficou claro para ela, o perigo sem nome
que tinha começado a espreitá-la meses antes, seu crescente
senso de pavor, de saber que alguma coisa estava errada.
Agora deu outro salto: Este lugar não era bom. E embora sua
espécie tivesse vivido e evoluído ali por milhões de anos, era
hora de partir.
Olhou para a água-pedra que pendia entre os seios. Ergueu-a
e segurou-a na palma da mão como um ovo e, dando as
costas para a montanha escaldante, viu que a extremidade
mais fina da pedra azul apontava diretamente à frente, na
direção leste, e no seu núcleo de cristal-diamante viu um rio
e a promessa de água.
Erguendo um braço, apontou para oeste, onde o céu estava
repleto de fumaça vulcânica negra, e gritou:
— Ruim! Nós morremos! — Depois ergueu o outro braço e
apontou para o céu claro a leste. — Lá! Nós vamos! — Sua
voz era forte e sobressaía sobre o ruído ribombeante. A
Família trocou olhares nervosos e ela pôde ver por sua
postura que muitos queriam ir com ela. Mas ainda estavam
com medo de Leão.
— Nós vamos — disse com firmeza, apontando.
Leão virou-se na direção do vulcão fumegante num gesto de
desafio e destemor. E quando começou a caminhar, outros o
seguiram— Faminto, Caroço e Escorpião.
Mais uma vez, Mulher Alta cuspiu no chão com desprezo,
depois lançou um último olhar a Espinho, o pobre corpo
espancado já desaparecendo debaixo de uma camada fina de
cinza. Olhou para os outros — Bebê, Ventas, Atiçadora de
Fogo, Espinha de Peixe — e quando viu que estavam com
ela, virou as costas à nuvem letal que enchia o céu a oeste e
deu seu primeiro passo decisivo para o leste, voltando pelo
mesmo caminho que tinham vindo.
Não pararam para olhar Leão e seu pequeno grupo se
dirigindo resolutamente para oeste, mas permaneceram
junto a Mulher Alta, cuja passada larga quase os deixava para
trás. Ao longo do caminho pararam para colher ovos de
avestruz e enchê-los com água fresca, e quando encontraram
comida Mulher Alta instruiu os companheiros a não comer
tudo, mas a carregar sementes e nozes, para o caso de
necessidade futura.
Enquanto viajavam para leste, o solo continuou o ribombar
e, finalmente, a montanha explodiu. Mulher Alta e seu
grupo viraram-se para ver uma enorme nuvem negra se
espalhando rapidamente pelo céu, embaçando o sol e
engolfando o ocidente num inferno de condenação. Era a
erupção final de um vulcão que, num dia futuro muito
longínquo, seria chamado Kilimanjaro. E engoliu num
instante Leão e seu teimoso bando de seguidores.
Ínterim
Triste pela morte do jovem macho que a havia encantado e
tendo em mente que jamais iria esquecê-lo, Mulher Alta deu
as costas ao jardim que uma vez tinha sido o seu mundo.
Armada com a água-pedra e acreditando que o poder para
conduzir seu povo vinha desta e não de dentro de si própria,
continuou a levar a Família para leste, onde, tal como
previra, encontraram água fresca. Permaneceram lá tempo o
bastante para Mulher Alta dar à luz seu primeiro filho, não
sabendo que ele era a progênie do jovem macho chamado
Espinho. Depois se puseram em marcha até que finalmente
alcançaram um litoral rico em crustáceos e, quando
escavaram o solo, poços de água potável. Encontraram ali
também uma nova espécie de árvore que fornecia alimento,
água e sombra: o coqueiro que crescia fartamente. Ali a
Família permaneceu por outros milhares de anos, até que sua
população cresceu demais para o supri- mento local de
comida. E mais uma vez tiveram de se mudar. Alguns se
dirigiram para o sul ao longo da costa para estabelecer a
África meridional, porém a maioria seguiu para o norte,
acompanhando as linhas costeiras de terras que um dia se
chamariam Quênia, Etiópia e Egito. Paravam ali por
gerações, povoando um lugar, depois se mudando, sempre
em busca de novas fontes de comida e territórios virgens. E
com eles ia a pedra azul, passada de uma geração para outra.
À medida que os milênios passavam, os descendentes de
Mulher Alta espalharam sua semente ao longo de rios e
vales, sobre montanhas e florestas, desbravando o novo
território tão distante das suas origens, aprendendo a
construir abrigos ou a viver em cavernas, criando palavras e
meios de se comunicar, desenvolvendo novas ferramentas e
armas e técnicas de caça. À medida que melhorava a
habilidade lingüística, o mesmo se dava com a organização
social, que capacitava a criação de grupos de caça planejados.
Os humanos evoluíram de coletores para predadores. O
pensamento nasceu e com ele as perguntas, e com as
perguntas veio a necessidade de respostas. E assim havia
espíritos, tabus, certo e errado, fantasmas, e a magia nasceu.
Assim a pedra azul, fragmento de um antigo meteoro, tendo
viajado com os humanos, reverenciada e acalentada, tornou-
se não mais poderosa em si mesma, mas poderosa por causa
do espírito que nela habitava.
Quando os descendentes de Mulher Alta alcançaram o Nilo,
eles se dividiram — alguns decidiram ficar; outros,
prosseguir, e a pedra azul foi carregada rumo ao norte, onde
geleiras cobriam o mundo em gelo branco cegante. O povo
de Mulher Alta encontrou outros que já estavam lá — outra
raça de humanos que haviam nascido de ancestrais separados
e que eram, portanto levemente diferentes, mais pesados,
nutridos e mais peludos. Escaramuças por território eram
inevitáveis e a água-pedra mágica caiu nas mãos do clã
estrangeiro, que adorava lobos. Uma xamã deste Clã do Lobo
olhou fundo no núcleo do cristal e reconheceu sua magia, e
assim ela a pôs na barriga de uma estatueta de pedra.
Assim a água-pedra tornou-se um símbolo da gravidez e do
poder feminino.
Livro Dois
O ORIENTE PRÓXIMO
35 MIL ANOS ATRÁS
Elas nunca tinham visto nevoeiro antes.
As assustadas mulheres, tão longe de seu lar e
irremediavelmente perdidas, pensaram que a névoa branca
fosse um espírito maligno arrastando-se na floresta sobre pés
fantasmagóricos, separando os humanos fugitivos dos demais
habitantes do mundo, mantendo-as aprisionadas num
domínio silencioso e sem feições. À tarde, a névoa se
dissipava o suficiente para dar às mulheres uma breve visão
das redondezas e depois, quando as estrelas sumiam, ela
voltava sorrateira e isolava as mulheres mais uma vez.
Mas a névoa não era a única ameaça nesta nova paisagem
estranha por onde a tribo de Laliari tinha vagueado por
semanas. Havia fantasmas por toda parte — escondidos, sem
nome, terrificantes. Portanto, as andarilhas permaneciam
agrupadas enquanto viajavam por este mundo hostil,
tremendo de frio na névoa rodopiante porque só usavam
saias de palha — roupa adequada para o vale fluvial quente
que havia sido seu lar, mas insuficiente nesta nova terra
estranha para a qual se viram forçadas a fugir.
— Estamos mortas? — indagou num sussurro Keeka,
enquanto mantinha o bebê adormecido em sua teta. —
Perecemos com os homens no mar raivoso e agora somos
fantasmas? Morrer é isto? — Ela estava se referindo à sua
cegueira na névoa espessa, à maneira soturna como suas
vozes soavam, aos sons embotados que seus pés descalços
faziam no solo. Era como se caminhassem por um domínio
que não pertencia aos vivos. Keeka achava que pelo menos
deviam parecer fantasmas—certamente suas companheiras
pareciam, enquanto se moviam cautelosas através da espessa
névoa branca, mulheres de seios nus com o cabelo caindo
até a cintura, os corpos pesadamente ornados com concha,
osso e marfim, fardos de couro animal amarrados nos
ombros, as mãos segurando lanças com ponta de pedra. Mas
elas não tinham feições de fantasmas, pensou Keeka. Os
olhos, arregalados de medo e confusão, eram
definitivamente humanos.
— Estamos mortas? — repetiu ela.
Mas Keeka não recebia nenhuma resposta de sua prima
Laliari, que estava por demais, pesarosa para falar. Porque
pior do que o nevoeiro ameaçador, o frio e os fantasmas
ocultos era a perda dos seus homens.
A cabeça escura de Doron desaparecendo na água violenta.
Ela tentou retratar seu adorado Doron como tinha sido antes
da tragédia — jovem, sem barba, esguio —, um corajoso
caçador que preferia sentar-se pacificamente e esculpir
marfim junto ao acampamento noturno. Doron gostava de
rir e contar histórias, e tinha uma tolerância rara com
crianças, ao contrário dos outros homens do clã, que não
eram pacientes com os mais novos. Doron não se importava
que subissem no seu colo, de fato gostava disso, e podia ser
visto rindo (embora ficasse vermelho de embaraço quando
flagrado). Mas Laliari se lembrava principalmente do abraço
de Doron à noite, de como ele adormecia depois com os
braços em torno dela, respirando suavemente em sua nuca.
Laliari reprimiu um soluço. Não devia pensar nele. Pensar
nos mortos trazia má sorte.
A invasão os pegara de surpresa. Laliari e seu povo levavam
sua vida cotidiana no vale fluvial que habitavam por
incontáveis gerações quando estrangeiros do oeste haviam
aparecido de súbito através das planícies relvosas, centenas
de milhares deles, dizendo que sua terra estava morrendo e
virando um deserto. Tinham explicado seu apuro enquanto
olhavam cobiçosamente as terras férteis de cada lado do rio
de Laliari, os rebanhos pastando, a fartura de peixes e aves.
Uma generosidade de alimento. Mas eles queriam se
apoderar de tudo. A disputa territorial que se seguiu tinha
sido longa e amarga, com os recém-chegados mais fortes e
em maior número empurrando o clã de Laliari para o norte,
forçando-os a fugir com seus pertences nas costas — os
ossos maciços de elefante que formavam a estrutura de suas
tendas ambulantes, e os couros que estendiam sobre os ossos
para servir de teto e paredes. Quando o clã chegou ao delta
onde o rio se bifurcava encontrou outro povo, muito
parecido com o seu, mas não disposto a partilhar suas fontes
de alimento. E assim ocorreu outra batalha sangrenta por
terra e comida. O resultado foi o povo de Laliari ter sido
expulso de novo, desta vez para leste.
O que havia começado com um enorme êxodo de várias
centenas de pessoas reduzira-se àquela altura a um bando de
89, com as mulheres, crianças e idosos seguindo à frente
enquanto os homens permaneciam à retaguarda para
protegê-los da perseguição dos habitantes do delta.
Chegaram a uma vasta extensão de terra pantanosa e juncos
e começaram a atravessá-la. No exato momento em que as
mulheres chegaram ao outro lado, viraram-se a tempo de ver
uma monstruosa muralha de água investindo como se
surgida do nada, um dilúvio veloz disparando pelo pantanal
enquanto engolia os homens indefesos que estavam na
metade da travessia.
As mulheres, no seu solo elevado, observaram chocadas os
caçadores desaparecerem num instante na água turbulenta,
braços e pernas se agitando como frágeis gravetos, os gritos
dos homens silenciados à medida que a água enchia seus
pulmões. E depois a inundação foi se acalmando e as
mulheres, ignorando que esta área pantanosa era sujeita aos
caprichos das marés de quadratura da primavera — que a
transformavam por vezes num atoleiro e numa inundação
em outras — acreditaram estar na margem de um mar
recém-formado.
Atônitas e em choque, voltaram-se para o norte, seguindo a
orla oriental do novo mar até chegarem a uma massa de água
mais larga — maior do que seu próprio rio no seu ponto mais
amplo, mais larga do que o novo mar que cobrira o pantanal
de juncos e os corpos de seus homens. De fato, esta vasta
área continuava até o horizonte e as mulheres não podiam
ver nem terras nem árvores do outro lado. Era também a
primeira vez que viam uma ressaca e gritaram de pavor
enquanto a água rolava na direção delas em ondas imensas,
explodindo na praia, recuando, só para rolar à frente de
novo, como um animal tentando atacá-las. Embora tivessem
encontrado bastante alimento ali, nos remansos formados
pela maré — lapas, litorinas e mexilhões —, as mulheres
tinham-se virado e fugido, seguindo terra adentro para longe
do mar que um dia seria chamado de Mediterrâneo, e
atravessaram um deserto hostil até alcançarem um vale
fluvial nevoento que pouco se assemelhava àquele de onde
tinham vindo.
Aqui, separadas de sua terra ancestral, de seus homens e de
tudo que conheciam, começara a procura de um novo lar —
um bando esfarrapado e errante de 19 mulheres, dois anciãos
e 22 bebês e crianças.
Enquanto viajavam através de mais um alvorecer enevoado,
tendo passado outra noite sem lua, tomadas pelo medo, as
mulheres mantinham uma vigilância esperançosa por sinais
do espírito do seu clã, a gazela. Não tinham avistado
nenhuma desde que deixaram o vale fluvial. E se não
houvesse gazelas nesta terra estranha? O clã morreria sem o
seu espírito? Laliari, arrastando-se à frente com sua parentela
feminina por um vale estranho, estava assombrada com um
pensamento até mais assustador: ali havia coisas piores do
que perder o espírito do clã. Coisas até mesmo piores do que
perder seus homens. Porque neste estranho mundo envolto
pela névoa não podiam ver a lua. Na verdade, fazia semanas
que não a viam.
Laliari não estava só nos seus temores. Enquanto as outras
mulheres pranteavam a perda de seus homens, maior ainda
era o pesar pela perda da lua, que não aparecia havia muitos
dias. Começaram a recear que a lua tivesse ido embora para
sempre. Sem a lua não haveria bebês, e a falta de bebês
significaria a morte definitiva do clã. Os primeiros sinais já
surgiam entre elas: nas semanas desde que tinham sido
largadas à própria sorte, nenhuma das mulheres engravidara.
Enquanto mudava a posição do pesado fardo de seus ombros,
Laliari olhou à frente para os dois anciãos que lideravam o
pequeno bando em meio ao nevoeiro e tentou se reconfortar
com o pensamento de que Alawa e Bellek, com seus poderes
sobrenaturais e conhecimento de magia, encontrariam a lua.
Mas Laliari não poderia saber que Alawa era impelida por um
profundo terror que ela própria sentia e que abrigava um
terrível segredo.
A velha Alawa era a Guardiã dos Chifres da Gazela e,
portanto, depositária da história do clã. Seu nome significava
"aquela que tem procurado", porque quando criança tinha se
extraviado e o clã a procurara durante dias. Ela tivera a honra
de usar os chifres de gazela na cabeça, amarrados sob o
queixo com tiras de tendão animal. Os lóbulos das orelhas de
Alawa tinham sido tão esticados ao longo dos anos com
penduricalhos ornamentais que agora repousavam sobre os
ombros ossudos. No meio dos seios murchos pendiam
colares de concha, osso e marfim. Amuletos cobriam as
outras partes de seu corpo, não para ornamentação, mas para
magia ritualística. O povo de Alawa sabia que para a
sobrevivência cada orifício corporal devia ser guardado
contra a invasão de espíritos malignos. Na infância, o septo
nasal era perfurado com pena de avestruz e mantido aberto
até a idade adulta com uma agulha de marfim. Isto impedia
que espíritos malignos entrassem no corpo pelas narinas. As
orelhas eram perfuradas, em cima e embaixo, bem como os
lábios. Amuletos mágicos estavam atados aos cintos de modo
que pendiam protetoramente sobre nádegas e púbis, pois os
espíritos eram notórios por penetrar nos seres humanos
pelos orifícios retais e vaginais.
O outro ancião era Bellek, o xamã do clã e Guardião dos
Cogumelos. Como Alawa, seu cabelo era longo e branco,
amarrado com contas que tilintavam gentilmente enquanto
ele caminhava. Sua única vestimenta era uma tanga feita de
pele de gazela macia, estando seu corpo pesadamente
decorado com amuletos mágicos, tal como Alawa. Bellek
carregava cogumelos secos numa algibeira de couro, mas
também procurava por frescos nas áreas boscosas às margens
deste rio estrangeiro. Embora houvesse fartura de cogumelos
e o bando se alimentasse bem deles enquanto viajava por
esta terra estranha de névoas e fantasmas, Bellek estava
procurando por um determinado cogumelo, aquele com um
"caule fino e comprido e um chapéu peculiar que sempre
acharam semelhante a um mamilo de mulher. Eram estes
cogumelos que, quando ingeridos, transportavam uma
pessoa a um plano metafísico habitado por seres
sobrenaturais.
Laliari estava grata pelo clã ainda dispor de Bellek e Alawa,
pois os idosos eram os mais prezados membros da
comunidade e, juntos, Laliari estava certa, a velha dupla
encontraria a lua.
Como se sentindo os olhos da garota sobre si, Alawa parou
de súbito e voltou-se para observar a mulher mais jovem
através da névoa. Os outros também pararam e olharam
alarmados para Alawa. O silêncio que os engolfava era
aterrorizante, pois tratava-se do silêncio de fantasmas
contendo suas línguas, de espíritos malignos esperando para
arremeter. Várias das mulheres reuniram os filhos a sua volta
e estreitaram os bebês nos braços. O momento parecia estar
suspenso no tempo. Laliari prendeu a respiração. Todos
esperavam. E então Alawa, tendo chegado a uma decisão
secreta, virou-se e retomou sua marcha cansada.
A decisão secreta de Alawa era a seguinte: não chegara ainda
a hora de contar aos demais o seu novo conhecimento, que
lhe deixava o coração pesado de tristeza. Havia lido as pedras
mágicas e analisado os seus sonhos, tinha observado a
fumaça da fogueira do acampamento e rastreado o vôo das
fagulhas, e tudo aquilo havia revelado uma terrível verdade
que não deixava dúvida na mente de Alawa.
Para a sobrevivência do clã, as crianças deveriam morrer.
À tarde o nevoeiro se dissipou, como sabiam que
aconteceria, permitindo aos refugiados uma visão de uma
desconhecida terra florestal e uma margem de rio arenosa
diante do sol que mergulhava no horizonte e lhes roubava a
luz.
Pararam para descansar. Enquanto Keeka e outras mulheres
jovens se acomodavam para amamentar e garotas
adolescentes iam buscar água, Laliari abriu sua última reserva
de tâmaras e as distribuiu entre o grupo. As tâmaras haviam
sido colhidas dias antes, num pequeno bosque de palmeiras
junto ao rio. Com todos jogando pedras nos cachos de frutos
suculentos à grande altura, tinham feito uma generosa coleta,
banqueteando-se ali mesmo e depois enchendo os cestos
para carregá-los nas costas.
Enquanto os outros comiam, Alawa separou-se do grupo
para encontrar um local parcialmente ensolarado para a
leitura de suas pedras. Ao mesmo tempo, encurvado e de
vista curta, Bellek examinava cada galho e rebento, cada
arbusto e talo de grama a fim de determinar se este era um
lugar de bom augúrio para ali se fixarem. Até então, quase
nada de boa magia havia visto ali.
Havia 65 mil anos não ocorrera a um homem chamado Leão
que seu povo podia alterar suas circunstâncias. Mas isto havia
ocorrido a uma garota chamada Mulher Alta e foram as ações
empreendidas por ela que possibilitaram a sobrevivência da
raça. Foi este o legado que deixou para seus descendentes,
saber que não precisavam ficar à mercê de seu meio
ambiente. Contudo, no decorrer dos milênios, como os
humanos se haviam multiplicado e expandido as fronteiras
de seu mundo, os descendentes de Mulher Alta tinham se
especializado no seu recém-adquirido conhecimento de
mudança e controle, pois agora tentavam constantemente
administrar cada aspecto microscópico do seu meio
ambiente através do apaziguamento e da veneração de
fantasmas. Tinham de ficar sempre alertas, a fim de manter o
equilíbrio de seu mundo. O mais leve passo em falso podia
desagradar os espíritos e trazer má sorte ao povo. Se
cruzassem um riacho tinham de primeiro dizer: "Desejamos
passar em paz, ó espírito deste riacho." Quando matavam um
animal, pediam o perdão dele. Ficavam sempre "lendo" as
redondezas. Enquanto seus ancestrais, havia 65 milênios,
mal deram atenção a um vulcão fumegante, Laliari e sua
família liam presságios na mais leve fagulha de uma brasa.
Por isso, Alawa, enquanto interpretava o lançamento de suas
pedras mágicas, imaginava o que haviam feito de errado no
Mar de Juncos para que ele engolisse os caçadores. Claro
que, ignorando tratar-se de um mar, não poderiam ter
proferido as palavras adequadas. Nem sequer sabiam seu
nome, então como poderiam ter invocado os espíritos
daquelas águas? Mas certamente tinham sido sinais a ser lidos
— sempre havia sinais. O que teriam deixado escapar que
evitaria a catástrofe?
E, pensou sombriamente enquanto juntava suas pedras,
sinais que evitariam a catástrofe ainda por vir. Porque mais
uma vez a coleção de seixos e pedrinhas passadas de mão em
mão ao longo de incontáveis gerações, todo o caminho
retroagindo ao primeiro Guardião dos Chifres de Gazela,
transmitia a mesma mensagem: as crianças teriam de morrer.
Ela espiou por entre as árvores o lamentável grupo de
mulheres e crianças, enfraquecido pela falta de sono. Eram
assoladas por pesadelos, sonhos terríveis em que Alawa
acreditava fossem a conseqüência dos mortos não terem tido
um lugar de repouso. Se o lugar de repouso tivesse sido
providenciado, os fantasmas infelizes não estariam agora
assombrando os sonhos dos vivos.
Sua própria filha, correndo, um invasor grudado nos seus
calcanhares, agarrando seus cabelos esvoaçantes,
desequilibrando-a, e depois batendo-lhes nas costas, seu
porrete subindo e descendo, sem parar.
De início foram apenas uns poucos invasores e Doron e os
caçadores foram capazes de expulsá-los. Mas então outros
estranhos haviam chegado, tendo ouvido falar da fértil
savana verde exuberante de vida selvagem, e depois mais
invasores, enxameando como formigas sobre as colinas
ocidentais até que o povo de Alawa fosse sobrepujado.
Seguindo para o norte, haviam encontrado outros
assentamentos — parentes que viam na reunião anual dos
clãs: o Clã do Crocodilo, do qual Bellek viera muitos anos
antes, e o Clã da Graça, que havia sido o de Doron. Aqui,
com a ajuda dos parentes, o povo de Alawa tentara parar e
lutar. Porém os invasores, mais fortes e mais numerosos,
insistiram no seu ataque, decididos a não dividir o seu vale
fértil.
O pequeno Hinto, filho da filha de Alawa, agarrado por um
braço e arremessado ao arpara cair sobre a lança de um
invasor. Istaqa, Guardião da Cabana da Lua, virando-se para
arremessar uma lança num perseguidor, só para ser atingido
por uma pedra no rosto, com tanta força que lhe rachou o
crânio. O sangue escorrendo na terra. Os gritos dos feridos.
Os gemidos dos moribundos. O medo cego e o pânico. A
velha Alawa correndo pela vida, os pés batendo em cadência
com o coração em disparada. O jovem Doron e os caçadores
ficando para trás a fim de proteger as mulheres e os idosos.
Talvez eles devessem realizar a assembléia silenciosa agora,
pensou Alawa enquanto se punha de pé, as velhas juntas
estalando. Talvez isto apaziguasse os fantasmas infelizes que
estavam assombrando seus sonhos. Mas havia um problema:
realizar o ritual implicava falar os nomes dos mortos, e para
fazê-lo era preciso quebrar o mais poderoso tabu do clã.
Ela olhou para as crianças e sentiu-se assolada por imensa
tristeza. Muitas eram órfãs, suas mães tendo sido mortas
durante as batalhas com os invasores. E ali estava o pequeno
Gowron, filho da filha de sua filha, brincando com uma rã
que havia encontrado. A própria Alawa tinha perfurado o
pequeno nariz dele com o osso de garça que impedia a entra-
da de maus espíritos no corpo pelas narinas. Doía no coração
de Alawa saber que ele devia morrer.
Ela voltou sua atenção para Bellek, inclinado e arquejando
enquanto explorava os bosques de tamargueiras circundantes
em busca de sinais e presságios. Ele precisava encontrar a
lua, e, portanto era crucial que prestasse atenção e se
concentrasse em cada pequeno detalhe. Um equívoco
poderia trazer desgraça para eles.
Mesmo na sua terra ancestral o povo tinha vivido em
constante medo do mundo que os cercava. A morte vinha
com freqüência, rápida e brutal, de modo que mesmo lá,
entre rochas, árvores e rio familiares, havia bastante o que
temer. O povo se mantivera em alerta constante para não
ofender quaisquer espíritos, proferindo constantemente os
encantamentos, carregando os amuletos certos, fazendo os
gestos apropriados que haviam aprendido desde a mais tenra
infância. Mas um dos problemas que enfrentavam neste
estranho lugar era não saber o nome das coisas. Estavam
vendo flores e árvores desconhecidas, pássaros de nova
plumagem, peixes que nunca haviam encontrado antes.
Como chamá-los? Como saber se não causariam dano aos
sobreviventes do Clã da Gazela?
Enquanto observava o velho e murcho xamã prosseguir nas
suas leituras, agachando-se para examinar um seixo,
cheirando uma flor, peneirando a terra por entre os dedos,
Alawa imaginava como ele reagiria às notícias dela. Ocorreu-
lhe que Bellek poderia não gostar de ter de matar as crianças,
mesmo que isto significasse a sobrevivência do clã.
Também lhe ocorreu que Bellek já não era mais útil.
Alawa, de qualquer modo, sempre desdenhara os homens, já
que eles não criavam vida, e com freqüência especulara por
que a lua produzia meninos. Talvez lá no seu vale fluvial os
homens tivessem sido bons para trazer para casa carne de
rinocerontes e hipopótamos, tarefa pesada demais para
mulheres, alimentando assim o clã por semanas. Mas este
novo lugar era farto de alimento ao alcance da mão para ser
colhido. Caçadores não eram mais necessários. Era por isto
que seus sonhos e as pedras mágicas lhe diziam para
sacrificar as crianças? Como uma forma de depurar o clã?
Alawa voltou sua atenção para as crianças enquanto elas
comiam e brincavam e grudavam-se aos seios maternos. Ela
observava especialmente os meninos, que iam da idade
lactente ao início da puberdade. Garotos acima desta faixa
etária haviam deixado suas mães para se juntar ao bando de
caçadores, tendo, portanto perecido no Mar de Juncos.
Enquanto mantinha os olhos nos meninos, Alawa pensou de
novo nos caçadores mortos, na lua perdida e nos pesadelos
que estavam assolando as mulheres, e o pensamento
assustador que se formara em sua mente dias antes falou mais
alto agora: que os homens afogados eram infelizes e tinham
inveja dos vivos. Era por isto que assombravam os sonhos
das mulheres. Como poderia ser de outra forma se nunca
houvera uma assembléia silenciosa realizada por eles? Todo
mundo sabia que os mortos invejavam os vivos, o que
explicava por que os fantasmas eram tão temidos. E os
caçadores mortos não invejariam especialmente os meninos
que podiam ver crescendo para assumir seus lugares?
Por mais que relutasse em levar a cabo a tarefa, Alawa estava
firme na sua resolução. Enquanto os caçadores continuassem
a ter inveja dos garotos, e, portanto a assombrar as mulheres,
a lua não apareceria. E sem a lua, o clã morreria. Portanto, os
garotos deveriam ser sacrificados para afastar os fantasmas.
Então a lua voltaria e colocaria novos bebês no ventre das
mulheres. E assim o clã sobreviveria.
Na próxima parada para descanso, as mulheres sentaram-se
recostadas nas árvores para amamentar os bebês e aninhar as
crianças. Algumas, tendo chegado ao limite de sua energia,
começaram a chorar.
Todos tinham perdido entes queridos no Mar de Juncos —
filhos, irmãos, sobrinhos, tios, parceiros de cama. Bellek vira
a morte de seus irmãos mais novos; Keeka, a dos filhos das
irmãs de sua mãe; Alawa, cinco filhos e doze filhos de suas
filhas; Laliari, seus irmãos e seu amado Doron. Uma perda
além da compreensão, além da conta. Quando a maré nova
engolira o bando de caçadores, as mulheres tinham percor-
rido a praia de cima a baixo, aos gritos, na esperança de
encontrar sobreviventes. Duas se haviam lançado na água
turbulenta, desaparecendo para sempre. As mulheres
acamparam na nova praia por uma semana até que Bellek,
depois de ter comido cogumelos mágicos e caminhado pelo
domínio inferior, decidira que o lugar trazia má sorte e que
deviam partir. Isto foi quando haviam seguido rumo ao norte
para encontrar um mar vasto e terrível, e então voltaram
para o interior, para ir em busca da lua.
Mas ainda não a tinham encontrado e as mulheres estavam
inconsoláveis.
Ao ver as lágrimas escorrendo pelas faces de Keeka, Laliari
abriu a bolsa que pendia do cinto e, tirando um punhado de
nozes, ofereceu à prima.
Keeka tinha sido roliça antes dos invasores chegarem. Ela
adorava comer. Tinha vivido numa cabana com sua mãe, a
mãe de sua mãe e seus próprios seis filhos, e toda noite,
depois da refeição comunal, ela corria de volta à cabana para
estocar a comida que escondera debaixo da saia de palha.
Keeka também adorava se acasalar com os homens e não
precisava ser persuadida. Não obstante, os caçadores que
entravam e saíam de sua cabana com freqüência lhe davam
presentes extras de alimento, e assim peixe seco e pernis de
coelho pendiam do teto de seu abrigo, junto a cebolas,
tâmaras e espigas de milho. Mas ninguém se importava.
Todos no clã comiam bem.
Enquanto Keeka pegava as nozes e as devorava, Laliari olhou
para trás, por entre as árvores e viu uma figura trágica
espreitando da névoa: Aquela-que-não-tem-nome. Laliari
estava espantada por ter a pobre criatura sobrevivido tanto
tempo, já que fora excluída do clã, tendo de seguir atrás dos
outros através da névoa espessa. Laliari sentia piedade dela.
As pessoas tinham medo de mulheres sem filhos porque as
consideravam possuídas por um espírito maligno. Se não,
como explicar por que a lua não as favorecia com bebês?
Antes que os invasores chegassem, Aquela-que-não-tem-
nome tinha vivido à margem do assentamento, tratada como
invisível, comendo sobras jogadas fora. Ela havia sido
proibida de tocar na comida que outra pessoa fosse comer,
ou na água, ou na cabana de alguém. E nenhum homem
podia abraçá-la, não importava quão desesperada fosse sua
necessidade de alívio sexual.
Não-tem-nome não havia nascido com má sorte. De fato,
começara como qualquer outra garota. Laliari lembrava-se de
quando o clã celebrara o primeiro fluxo lunar de Não-tem-
nome, como ela havia sido tratada especialmente de acordo
com a tradição, todos pronunciando seu nome com alegria,
mimando-a e cumulando-a de presentes e comida. E houve
celebração maior ainda quando tornou-se grávida pela
primeira vez e sua posição no clã elevou-se bastante. Mas
quando o fluxo lunar de Não-tem-nome continuou
aparecendo regularmente e as estações iam e vinham sem
que produzisse um bebê, as pessoas começaram a olhá-la de
esguelha até que finalmente tornou-se uma pária, privada de
seu nome e da permanência junto ao clã.
Embora Laliari tivesse se acostumado com a pobre criatura
que os vinha seguindo desde o Mar de Juncos, a presença
sombria de Não-tem-nome agora fazia o medo crescer
dentro dela. Sem a lua, iriam todas terminar que nem ela?
Laliari enrolou os dedos ansiosos em volta do amuleto
mágico que usava no pescoço, um talismã de marfim que
tinha sido esculpido durante a lua crescente. Também usava
um colar feito com mais de cem vespões que esme-
radamente colecionara, secara e lustrara. Pareciam pequenas
nozes e faziam um som crepitante suave enquanto andava.
Não era para ornamentações, mas para que o poder dos
espíritos vespões a protegessem e ao seu clã, os vespões
sendo defensores tão ferozes de seus próprios lares. E numa
bolsinha que pendia do cinto tecido de sua saia de palha
estavam as preciosas sementes e pétalas secas da flor-do-
lótus, seu espírito protetor pessoal.
Mas Laliari agora pouco conforto encontrava em amuletos e
colares. Ela e suas irmãs e primas haviam perdido sua terra,
seus homens, e a lua. Se ao menos pudesse falar o nome do
seu adorado Doron, que conforto isto seria.
Mas nomes eram magia poderosa, não deviam ser
pronunciados de modo frívolo, pois um nome incorporava a
própria essência de uma pessoa e estava diretamente ligado
ao seu espírito. Como os nomes envolviam magia e sorte e
determinavam como devia correr a vida de uma pessoa, eles
não eram dados superficialmente, mas só depois de uma
meditação e da leitura de sinais de presságios. Às vezes um
nome mudava na adolescência, ou após um acontecimento
de vulto na vida de uma pessoa. Ou, dependendo de uma
ocupação específica que adotassem, como Bellek, que
significava "leitor de sinais". Laliari, significando "nascida
entre os lótus", tinha sido assim chamada porque sua mãe
apanhava água do rio quando as dores do parto começaram.
Até o fim de seus dias Laliari seria protegida pela flor-do-
lótus. Keeka, "filha do pôr-do-sol", assim era desde que havia
nascido. Libertador, "gavião que espalha suas asas", havia
sido o mais poderoso dos caçadores. Uma vez adotado um
nome, ele não podia mais ser usado de novo. Finalmente,
trazia má sorte falar o nome de uma pessoa depois da morte,
como se isto invocasse o seu infeliz fantasma. E assim Laliari
teve de parar de falar o nome de Doron, e, portanto o
próprio Doron foi definitivamente esquecido.
Ela puxou a pele de gazela mais sobre si. Quando
descobriram que não podiam mais agüentar o frio, as
mulheres tinham amarrado os fardos que transportavam às
costas, as peles de animais servindo de agasalho. Em casa,
quando o rio estava baixo, viviam junto à margem, mas
quando o rio começava a sua cheia anual e inundava as
margens, o povo derrubava seus abrigos e se mudava para
um terreno mais alto, construindo novos abrigos de peles e
presas de elefante. Quando se viram forçados a fugir dos
invasores, as mulheres haviam amarrado as preciosas peles
em fardos e as transportavam nas costas. Agora as usavam
como proteção contra o frio que fazia nesta terra estrangeira.
Tiritando de frio, Laliari pensou de novo em Doron e em
como ele a havia aquecido à noite na cabana de sua mãe.
Lágrimas brotaram em seus olhos. Laliari amava Doron
porque ele fora muito paciente com ela depois da morte do
bebê. Embora a maioria dos homens pranteasse a morte de
qualquer criança, já que era uma perda para o clã, eles
rapidamente se refaziam e não conseguiam entender o
prolongado pesar de uma mãe. Afinal, argumentavam os
homens, a lua sempre dava mais crianças a uma mulher. Mas
Doron havia compreendido. Apesar de ele próprio jamais ter
sabido o que era parir um filho ou uma filha, e que seu único
parentesco com um bebê só pudesse ser pelos filhos de sua
irmã, entendia que o bebê de Laliari era do sangue dela e que
ela lamentaria como ele próprio teria lamentado a morte do
filho de sua irmã.
Agora Doron estava morto. Engolido por um mar recém-
nascido.
Alawa gritou em alarme. As árvores estavam chorando!
Era apenas a névoa, tão espessa no vale que o orvalho tinha
se acumulado nos galhos e folhas e gotejava como chuva.
Mas Alawa sabia o que isto realmente significava: os espíritos
das árvores estavam infelizes.
Fez um gesto protetor e recuou rapidamente. Seus medos
cresciam a cada dia. Apesar da insistência de Bellek de que
quanto mais para o norte seguissem maior a chance de
encontrarem a lua, Alawa não estava tão certa. Tudo sobre o
exílio deles havia sido estranho e desnorteante, começando
com o mar interior que não continha nenhum peixe, nem
vida de qualquer espécie. Quando as mulheres viajaram para
leste a partir do mar que não possuía nenhuma margem
oposta e encontraram um volume de água no qual nenhum
peixe nadava, nenhuma alga vicejava, circundado por uma
praia coberta de sal que não produzira mexilhões ou juncos
— um mar completamente sem vida —, ficaram alarmadas.
Até mesmo Alawa havia jurado que nunca tivera uma visão
tão estranha. Mas então seguiram o litoral salgado e
chegaram a um rio que fluía para trás!
Temeroso demais para dar outro passo, o grupo havia
acampado na margem do rio que fluía para trás, enquanto
Bellek comera os cogumelos mágicos e caminhara pela terra
de visões. Ao despertar, ele havia decretado que este novo
rio era seguro, apesar de seu fluxo para trás, e que deviam
continuar a segui-lo, pois a lua ficava ao norte, além da
névoa.
E assim partiram, viajando primeiro por um trecho seco
onde o solo era rochoso e coberto de vegetação esparsa, e
depois para um lugar ao longo do rio fluindo para trás onde
cresciam salgueiros, oleandros e tamargueiras. Mas à medida
que progrediam cada vez mais para o norte, o rio se
estreitava e serpenteava, com colinas escarpadas erguendo-se
acima das margens. Bem ao contrário do rio largo e plano de
sua terra de origem! E este rio fluía como uma serpente,
desviando-se para trás em si mesmo, de modo que às vezes o
bando de Alawa estava caminhando para oeste ao longo de
sua margem, a seguir para o norte e depois para leste! Como
se o rio não pudesse decidir o que queria.
Haviam encontrado estranhas paisagens. Ao norte do mar
morto depararam com uma planície aberta onde crescia
relva farta. Mas onde estavam os animais? Bellek examinou o
solo e descobriu vestígios de estrume, o que significava que
rebanhos tinham passado por ali. Onde estavam agora? Teria
o estranho nevoeiro noturno carregado os animais para
longe, como fizera com a lua?
E agora tinham deparado com árvores que choravam. A cada
noite sem lua, a cada dia sem que ninguém engravidasse no
bando, a ansiedade de Alawa crescia. Os meninos deviam ser
sacrificados logo ou a lua estaria perdida para sempre.
Ao pôr-do-sol depararam com uma visão que os deixou
atônitos. As mulheres e crianças caíram em silêncio e
olharam fixamente, incapazes no início de acreditar no
espetáculo inteiramente horrível. Na base de um penhasco
elevava-se uma montanha de esqueletos — centenas de an-
tílopes empilhados uns sobre os outros, os crânios fendidos,
os ossos quebrados. Alawa olhou para cima e viu a íngreme
parede de um penhasco elevando-se acima das carcaças.
Estes animais tinham se atirado do platô para a morte. Por
quê? O que os teria assustado?
As mulheres se apressaram, ansiosas em deixar para trás os
fantasmas dos desditosos animais.
Chegaram finalmente à margem de um lago de água doce
que gerações futuras iriam chamar erroneamente de Mar da
Galiléia. Densamente margeado por árvores e arbustos,
tamargueiras e rododendros, suas águas eram pródigas em
peixes e uma fartura de pássaros povoava a praia. Ali o
nevoeiro se dissipara e a luz do sol do fim de tarde ainda
aquecia a terra. Farejando o vento e estudando as nuvens,
Bellek ergueu seu cajado, que estava decorado com amuletos
mágicos e rabos de gazela, e decretou que ali a magia era boa,
ali iriam acampar e passar a noite.
Enquanto ele e a velha Alawa dedicavam-se aos seus rituais
noturnos para deixar o acampamento a salvo de espíritos
malévolos, gravando símbolos protetores nas árvores e
arrumando pedras em ordem ritualística, as mulheres
desdobravam os couros para criar quebra-ventos. Como as
presas de elefante tinham sido perdidas quando os caçadores
se afogaram, era impossível construir cabanas adequadas, de
modo que usaram três troncos, árvores novas e galhos
robustos enfiados no solo. O povo do Clã da Gazela praticava
a vida comunal — os abrigos eram divididos não para
famílias individuais, mas de acordo com grupos e propósito
ritualístico. Havia as cabanas mais amplas, onde os caçadores
dormiam separados das mulheres; as cabanas individuais dos
idosos reverenciados; os abrigos das mulheres jovens que
ainda não haviam tido bebês; a cabana da lua das mulheres; a
cabana do xamã; a cabana dos jovens caçadores
principiantes; e algumas pequenas unidades matriarcais con-
sistindo de avó, mães, irmãs e bebês. E os abrigos eram
sempre redondos, de modo a não haver cantos onde
espíritos pudessem espreitar.
Suas prioridades nesta noite, enquanto se apressavam para
montar acampamento antes do sol se pôr, eram a cabana de
Alawa e a cabana da lua.
Durante a menstruação as mulheres eram vulneráveis e
precisavam de proteção contra espíritos malignos e
fantasmas infelizes que estavam sempre esperando por uma
chance de se apossar de um ser humano vivo. Esta era a
época de magia poderosa, quando se decidia se a nova vida
começaria no corpo de uma mulher. Ela olharia para a lua e a
fase lunar sinalizaria a sua hora de apartar-se dos demais. Ela
pegaria seus amuletos mágicos e alimentos especiais e se
retiraria para esperar e observar os sinais: se o fluxo lunar
viesse, não haveria criança nela. Mas se ele não aparecesse,
então ela estava grávida. Assim a cabana da lua foi erguida
primeiro, com Alawa entoando encantamentos protetores
em torno da entrada, festonando cordões de conchas de
cauri, símbolo poderoso da genitália feminina, e traçando
símbolos mágicos na terra, usando ocre para simbolizar o
precioso sangue lunar.
O segundo abrigo era para Alawa. Poucas mulheres viviam
depois da menopausa e, portanto aquelas que o conseguiam
eram tratadas com o maior respeito, pois acreditava-se que
eram possuidoras da grande sabedoria lunar.
Enquanto procurava por comida, o grupo deparou com uma
árvore que era nova para eles: da altura do joelho e folhosa,
carregada de vagens contendo sementes brancas e carnudas.
Depois de provarem para ter certeza de que o fruto não era
venenoso, as mulheres começaram imediatamente a colher
os grãos-de-bico. Nesse ínterim, Bellek foi até a beira da água
e, por mais precária que estivesse sua vista, enxergou vida
nos bancos de areia do lago, fazendo-o estalar os lábios na
expectativa de uma refeição de peixe cozido. Mandaram as
crianças procurar bagas e ovos, com advertências severas
para que respeitassem os tabus adequados, muito embora
estivessem numa terra estranha, e para que se certificassem
de não ofender quaisquer espíritos.
Finalmente Alawa designou alguém para observar a lua, com
instruções para acordar todo o grupo ao primeiro
avistamento. Com sorte, esta seria a noite da lua surgir antes
que o nevoeiro voltasse.
Enquanto as mulheres e crianças se agrupavam junto ao fogo
confortador para comer e se enfeitar mutuamente, para
remendar cestos e afiar lanças, amamentar bebês e tentar
esquecer seus medos, Alawa deslizou para a beira da água. Se
a lua não se mostrasse naquela noite, tinha decidido, então
ela deveria agir. No dia seguinte os meninos teriam de
morrer.
Enquanto alimentava seus seis filhos, Keeka observou a
velha se esgueirar do acampamento, o corpo outrora
orgulhoso agora dolorosamente curvado sob o peso dos
chifres de gazela. Keeka vinha suspeitando já havia algum
tempo que Alawa carregava um segredo. Ela sabia o que era.
Alawa estava se preparando para escolher sua sucessora.
E como a Guardiã dos Chifres de Gazela era a mais
importante pessoa do clã, sempre tinha a melhor cabana, a
melhor comida. Keeka queria ser a sucessora de Alawa, mas
não era uma coisa que pudesse simplesmente pedir. A
escolha era determinada por presságios, pela leitura de sinais
e pela interpretação dos sonhos. Uma vez feita a escolha, a
sucessora viveria constantemente ao lado de Alawa para
aprender a história do clã, ouvir as narrativas e memorizá-
las, como Alawa tinha feito quando era jovem, muitas
estações atrás. E agora haveria uma nova narrativa adicionada
à longa história do clã: a invasão do povo ocidental, a luta do
clã pelo vale fluvial, o afogamento dos homens no novo mar,
a perda da lua, e esta viagem para encontrar um novo lar.
Enquanto via Alawa desaparecer através do matagal em
direção ao lago, a atenção de Keeka foi capturada por uma
risada estridente. Sua prima Laliari havia pegado um dos
órfãos em seu colo e fazia-lhe cócegas. Os pensamentos de
Keeka se congelaram. Desconfiava que Alawa poderia
escolher Laliari.
O ódio de Keeka pela prima começara dois anos antes,
quando o belo Doron havia se juntado ao Clã da Gazela.
Keeka tentara de todos os modos atraí-lo para sua cabana,
mas ele estava interessado somente em Laliari. E aquilo era
raro. A união física entre homens e mulheres era sempre
aleatória e em série, com poucas normas e nenhum
compromisso. Mas Doron e Laliari haviam desenvolvido
uma afeição singular que os tornara desinteressados em
outros, um relacionamento que antecipava o casamento e a
união de um casal por toda a vida, conceitos que só
existiriam depois de 25 milênios.
Quanto mais Keeka desejara o jovem e belo caçador, e
quanto mais ele a ignorava, mais o seu desejo de tê-lo
crescera para virar uma obsessão. Quando ele se afogou no
Mar de Juncos, Keeka sentiu um júbilo secreto, pois agora
Laliari também não poderia tê-lo. Aos seus sentimentos de
triunfo sobre a prima juntava-se o fato de que Laliari não
tinha filhos, seu bebê tendo morrido antes de completar uma
estação. E uma vez que não havia lua nesta nova terra para
dar-lhe outro filho, Keeka, com sua ninhada de seis, olhava
para a prima com um senso de superioridade presunçosa.
Agora odiava pensar em Laliari como a sucessora de Alawa.
Depois da refeição e dos enfeites, era a hora das histórias. As
mulheres esperavam Alawa aparecer junto à fogueira e
começavam sua recitação noturna. O povo de Laliari gostava
das histórias porque elas os ligava ao passado e os faziam
sentir-se parte de um cosmo de outro modo desnorteante e
assustador. As narrativas os ligavam à natureza; mitos e len-
das confortavam em familiaridade e explicavam mistérios. As
mulheres e crianças sempre mantinham silêncio quando
Alawa começava em sua voz frágil e estalante: "Muito, muito
tempo atrás... antes que existisse o Clã da Gazela, antes que
houvesse gente, antes que houvesse o rio... nossas mães
vieram do sul. Elas nasceram da Primeira Mãe, que as man-
dou seguir para o norte e encontrar um lar. Trouxeram o rio
com elas. A cada nascer da lua elas fizeram a água fluir, até
que vieram para o nosso vale e souberam que sua andança
havia terminado..."
À medida que a ausência de Alawa da fogueira se
prolongava, as mulheres tentavam controlar seus medos.
Sabiam que ela estava procurando a lua. Mas agora que a
noite tinha caído, o nevoeiro se arrastado de volta para o
vale, as mulheres suspeitavam que Alawa mais uma vez não
teria a visão da lua.
Laliari olhou para cima e tentou perscrutar através do teto
nevoento. A lua era mais do que a doadora de bebês e
reguladora dos corpos das mulheres: também fornecia luz
valiosa durante a noite quando necessário. Ao contrário do
sol, que brilhava inutilmente durante o dia quando já havia
luz e cuja face era brilhante demais para ser encarada, uma
pessoa podia olhar para a lua horas e horas sem ficar cega. A
lua, dependendo das suas fases, fazia com que as flores se
abrissem à noite, os felinos caçassem, as marés enchessem.
A lua era previsível, reconfortante como uma mãe. A cada
noite, após os dias terríveis da Lua Negra, o clã se reunia no
trecho sagrado do rio e observava a primeira ascensão da Lua
Bebê — uma lasca de unha no horizonte. Eles davam
suspiros de alívio, depois se felicitavam e dançavam
enquanto ela se erguia no céu, pois significava que a vida ia
continuar.
Enquanto Laliari embalava um dos bebês sem mãe, seus
pensamentos se desviaram para o bebê que havia parido um
ano antes. A lua o tinha dado a ela pouco depois de Doron
juntar-se ao clã. O neonato não viveu muito tempo, porém,
e Laliari teve de levá-lo para as colinas escarpadas a leste e
deixá-lo lá. Às vezes olhava na direção do sol nascente e
imaginava seu bebê lá, especulando se o seu espírito estaria
infeliz. Sentira um curioso impulso de voltar ao local, mas
trazia má sorte ficar perto do lugar de coisas mortas. Se
alguém morresse numa cabana, ela era queimada e o clã se
mudava para um ponto mais distante ao longo do rio para
montar um novo acampamento.
Retroagindo no tempo da doença e morte do seu bebê,
Laliari só podia culpar a si mesma, pois devia ter ofendido
involuntariamente um espírito, de modo que ele veio a
puni-la matando seu filho. E ainda assim Laliari era sempre
cuidadosa em seguir os regulamentos e obedecer às leis da
magia e da sorte. Era por isto que o território deles tinha sido
invadido por estrangeiros, resultando na morte de seus
caçadores no mar de juncos assassino? Será que todo o clã,
de alguma forma, negligenciara alguma coisa? Então como
eles esperavam sobreviver neste novo lugar, quando nem
sequer conheciam nenhuma das regras?
Ela sabia que trazia má sorte pensar nos mortos, mas ainda
era um grande conforto preencher a mente com lembranças
de Doron. Como eles haviam se conhecido, por exemplo. O
Encontro Anual dos Clãs acontecia a cada ano durante a
inundação, quando o rio transbordava de suas margens.
Milhares afluíam vindo de vales acima e abaixo, montando
abrigos redondos e içando símbolos dos clãs. Era durante o
Encontro que se resolviam as disputas, traçavam-se as linhas
de parentescos, trocavam-se notícias e mexericos, dívidas
eram pagas, desforras obtidas e, mais importante de tudo,
pessoas mudavam de família. As famílias com poucas
mulheres recebiam fêmeas de famílias com excesso delas.
Era um processo prolongado e complexo, levado a cabo por
todos os grupos, com os anciãos intervindo nas situações de
conflito. Doron e outro rapaz tinham sido trocados por duas
moças do clã de Laliari. Ela e Doron haviam passado uma
semana se observando dissimuladamente. Tinha sido uma
época de acanhamento e excitação, de despertar dos
instintos. Laliari nunca notara antes como os homens
possuíam ombros maravilhosamente fortes — especialmente
Doron — e o Doron de 19 anos de idade descobrira-se
afogueado à visão da cintura fina e amplos quadris de Laliari.
Na época em que o Encontro Anual tinha sido dissolvido e
Doron seguira com Laliari e o clã dela para sua terra
ancestral, ambos passavam cada noite nos braços um do
outro.
Subitamente acometida de pesar, Laliari apoiou a testa nos
joelhos e começou a chorar em silêncio.
Lá embaixo, na beira da água, outra alma estava desolada de
pesar. Alawa, olhando por sobre a extensão de água, chegara
a uma dolorosa decisão: era assim que os meninos deviam
morrer — por afogamento, como haviam morrido os
caçadores.
Ela voltou-se para o som de passos e viu a silhueta familiar de
Bellek emergir por entre os juncos altos. Ele parou ao lado
dela por um longo momento, o peito ossudo subindo e
descendo em respiração dificultosa. Havia algum tempo que
sabia que Alawa estava chegando a uma importante decisão.
Ela está ficando pronta para escolher sua sucessora, pensou.
Ele gostaria de opinar na escolha, mas apenas a Guardiã dos
Chifres de Gazela sabia quem deveria ser a próxima Guardiã.
Isto nada tinha a ver com opiniões e votos, mas sim com o
que o mundo-espírito desejava, com o que o espírito-gazela
quisesse. E apenas Alawa sabia o que lhe diziam seus sonhos
e as pedras mágicas.
— Vai ser Keeka? — perguntou ele, suavemente, esperando
que não fosse. Keeka possuía um traço de glutoneria que ele
temia ser prejudicial para o clã. Se a escolha lhe coubesse
optaria por Laliari, porque a guardiã das histórias do clã tinha
de ser isenta de egoísmo.
Alawa balançou a cabeça lentamente por causa do peso dos
chifres de gazela. Quando era mais jovem os chifres lhe
tinham sido quase leves. Mas com a idade foram ficando
pesados, de modo que seu pescoço vergava debaixo deles.
— Amanhã os meninos devem morrer — disse numa voz
coaxante.
Ele a fitou como se não tivesse ouvido corretamente.
— O que disse?
— Os meninos devem morrer. Os fantasmas dos caçadores
estão invejosos deles. É por isso que nos assombram, é por
isto que a lua se esconde. Se os meninos não morrerem,
então o clã morrerá. Para sempre.
Ele inspirou fundo e traçou um gesto protetor no ar.
— Nós o faremos no lago — disse Alawa, resoluta. — Os
caçadores morreram afogados e assim será com os meninos.
— Ela voltou os olhos penetrantes para ele. — Bellek, você
também deve morrer.
— Eu? — espantou-se ele. — Mas o clã precisa de mim!
— O clã ainda terá a mim. E se a lua desejar que tenhamos
homens, ele nos dará outros.
— Mas que ameaça eu represento? Os meninos, sim, porque
eles crescerão para se tornar caçadores. Mas eu sou um
velho.
A voz dela se elevou.
— E você tornou os caçadores invejosos por continuar vivo.
Homem egoísta! Teria coragem de ameaçar nosso povo de
extinção por se negar a cumprir o presságio?
Ele começou a tremer.
— Não pode haver um engano?
— Como ousa?! — gritou ela. — Você questiona os meus
sonhos! Questiona o que os espíritos me contaram! Você
traz má sorte para nós com suas dúvidas! — Ela agitou as
mãos diante dos próprios olhos como se para enxotar um
espírito maligno. — Renegue o que acabou de dizer ou todos
nós sofreremos as conseqüências!
— Desculpe — disse ele numa voz minúscula. — Não tive a
intenção de duvidar. Os espíritos falaram. Os... — Ele mal
pôde forçar-se a dizer: — Os meninos morrerão.
Enquanto Alawa dormia debaixo das macias peles de
animais, Laliari encontrava-se sentada com as costas apoiadas
na parede de couro. Ela ficara surpresa quando a anciã pediu
que lhe fizesse companhia na cabana. Laliari não deixara de
notar os olhares de admiração e inveja de todos os demais.
Especialmente de Keeka, pois todos sabiam o que isto
significava: que Alawa estava considerando fazer de Laliari
sua sucessora.
Mas a anciã tinha ido dormir imediatamente, e agora a
cabana estava aquecida e aconchegante. Laliari trouxe os
joelhos ao peito e, enlaçando-os com os braços, descansou a
cabeça nos antebraços. Ela não pretendera pegar no sono,
mas quando acordou a luz da aurora nevoenta já rastejava
por debaixo da tenda. E ela soube, mesmo sem olhar, que
Alawa estava morta.
A jovem mulher fugiu para fora da cabana, o cabelo
projetando-se em terror. Nunca antes estivera em
proximidade tão estreita com uma pessoa no momento da
morte. Para onde tinha ido o espírito de Alawa? Laliari se
lembrou de que no lar deles, lá no rio, um homem e uma
mulher estiveram dormindo juntos e o homem despertara
para descobrir a mulher morta. Bellek fizera leituras e
proclamara que o homem estava agora possuído pelo espírito
da mulher morta. Assim, o clã o expulsou do assentamento e
não lhe permitiu voltar. E nunca mais o viram.
Em pânico, Laliari apertou as narinas, tentando
atrasadamente impedir que o fantasma da anciã entrasse
nelas. Seus lamentos acordaram os outros. Imediatamente
eles rasgaram a cabana de Alawa e fizeram preparativos para
a reunião silenciosa. Bellek examinou Laliari com grande
atenção, olhando seus ouvidos, olhos, boca e vagina até ficar
satisfeito. "Não há nenhum espírito", disse com firmeza,
deixando-a à vontade. Talvez Alawa estivesse muito velha
para o espírito deixar seu corpo rapidamente, como
acontecia com gente mais jovem. Aquele velho fantasma
poderia, mesmo neste exato momento, estar ainda lutando
para escapar de seu invólucro de carne. Bellek informou às
desventuradas mulheres que era necessário fazer uma boa
reunião silenciosa como garantia de que, quando partissem, a
velha Alawa não os seguisse para assombrá-los.
Era um ritual tão velho quanto o tempo, realizado através das
gerações desde que o primeiro povo pranteou seus mortos.
Bellek traçou um círculo na terra em volta do cadáver de
Alawa e entoou palavras mágicas. Enquanto fazia isto, as
mulheres comeram e beberam até se fartar, pois iriam jejuar
até o próximo ciclo do sol. As crianças iriam sentar-se
silenciosamente com as mães, só deixando o círculo para se
aliviar quando suas bexigas estivessem cheias. O silêncio
tinha de ser absoluto e ninguém deveria comer ou beber,
pois se o fizessem os espíritos dos falecidos ficariam
incomodados e ciumentos. Todos sabiam que os fantasmas
estavam infelizes — afinal, ninguém queria morrer. E como
sentiam-se infelizes, os fantasmas queriam tornar os vivos
infelizes também, e portanto os assombravam. O propósito
da assembléia silenciosa era convencer o fantasma de que
este lugar era tedioso, sem comida, bebida ou risos, na
esperança de que isto os levasse a procurar lugares melhores.
Bellek havia coberto o cadáver com uma pele de gazela,
dizendo aos outros que era para impedir o espírito de Alawa
de tentar possuir um deles. Mas fizera isto por outro motivo.
Ninguém mais senão ele notara as marcas na garganta da
anciã e a expressão de medo que se congelara em seu rosto
ao morrer — prova de que Alawa havia interpretado mal
seus sonhos e cometera um erro acerca dos caçadores
desejarem que os meninos fossem sacrificados. Como ela
poderia ter morrido de susto e estrangulamento se não fosse
obra dos fantasmas dos caçadores, que rastejaram até sua
tenda e a mataram?
Por sorte, Alawa não havia revelado seus planos a mais
ninguém, e assim Bellek guardou o segredo para si. Enquanto
estivesse vivo, os meninos estariam a salvo — e ele também.
Depois que as desoladas mulheres sentaram-se em um
círculo silencioso por um dia e uma noite, os estômagos
roncando de fome, as bocas ressecadas de sede, as juntas
doendo por falta de movimento, as crianças inquietas e
irritadas, elas dividiram os pertences de Alawa de acordo
com a necessidade individual, com os chifres de gazela indo
para Bellek. Por fim, deixando o corpo onde jazia,
desmontaram o acampamento e retomaram sua viagem para
o norte.
As noites se tornaram mais frias, o nevoeiro rolava vezes
sem conta, e as mulheres do Clã da Gazela, desacostumadas
com o outono e seus nevoeiros e não sabendo que ele
finalmente cederia lugar às chuvas de inverno, acreditavam
que ficariam presas na névoa para sempre. Elas tiritavam de
frio nos seus abrigos precários, desfrutavam de pouco sono e
aquecimento, até que finalmente, uma noite, foram
acordadas por uma violenta tormenta, diferente de tudo que
já haviam vivenciado — uma tempestade que rugia de oeste
berrava descendo as montanhas próximas e fustigava o frágil
acampamento com um bafo gélido, caindo como lanças. As
mulheres combatiam o vento para conservar seus abrigos,
mas o malévolo vendaval, uivando como um animal ferido,
derrubava os couros protetores de gazela e os carregavam
para o lago turbulento. Árvores e arbustos eram
desenraizados, ramos encharcados voavam enquanto as
mulheres aterrorizadas se amparavam umas nas outras e
tentavam proteger as crianças.
Quando terminou e o raiar do dia expôs uma paisagem
devastada, as mulheres tiveram uma visão que as deixou
atônitas: as montanhas, que eram verdes, agora estavam
brancas.
— O que é isto? — perguntou Keeka, abraçando com força
os filhos pequenos enquanto as outras mulheres gritavam e
gemiam de medo. Laliari olhou fixamente para os picos
distantes e sentiu um bolo frio formar-se na garganta. O que
significavam as montanhas brancas? Tinham virado
fantasmas? Estaria o mundo chegando ao fim?
O velho Bellek, trêmulo pela umidade, os lábios e dedos
esfolados pelo frio, olhava desolado por sobre o lago onde as
peles de gazela flutuavam na água. Ele não tinha medo das
montanhas — há muito tempo, na sua infância, ouvira
narrativas sobre uma coisa chamada neve. O mundo não
estava chegando ao fim, mas o tempo estava mudando. Ele
decidiu que, pela sobrevivência, o grupo tinha de encontrar
um abrigo mais firme.
Virou-se para oeste e contemplou os penhascos que se
erguiam como paredes a prumo da planície ondulada. Os
penhascos eram acanalados com cavernas. Bellek suspeitava
que elas poderiam ser quentes e secas no seu interior, mas o
velho era cauteloso com cavernas. Seu povo nunca vivera
nelas e certamente jamais as explorara por dentro. Cavernas
eram o covil de morcegos e chacais. Pior, cavernas eram a
morada dos espíritos infelizes dos mortos. Ainda assim,
pensava enquanto esfregava os braços congelados, sem as
presas de elefante e agora as peles de gazela, como é que as
mulheres fariam abrigos adequados?
Quando anunciou sua decisão de investigar as cavernas, um
coro de protestos se elevou. Mas Laliari, vendo a sabedoria
da decisão, se ofereceu para acompanhá-lo. Todavia, estivera
na cabana da lua durante a tempestade, e seu fluxo mensal
ainda não cessara, de modo que tinham de esperar.
Por volta do terceiro dia já era seguro para ela viajar, e assim
coletaram comida e água e passaram um dia em preparação
espiritual. Partiram pesadamente armados com amuletos
poderosos e com símbolos místicos pintados em seus corpos
como proteção contra fantasmas e seres sobrenaturais. Com
as mulheres e crianças soluçando numa despedida infeliz, a
corajosa dupla seguiu para oeste do lago.
Alcançaram os penhascos ao meio-dia, onde fizeram uma
pausa para comer tâmaras e ovos de tordeiro e entoar
encantamentos para aplacar espíritos hostis. Laliari começou
a subir primeiro, encontrando a rota mais fácil entre os
penedos, depois parando para ajudar Bellek. Encontraram
uma trilha rústica levando às cavernas e suas saliências
rochosas, uma trilha coberta de ossos de animais e
ferramentas de sílex, indicando que pessoas já tinham vivido
ali.
Laliari cantava em voz alta ao entrar, mais um aviso a
possíveis humanos do que aos espíritos. Se houvesse de fato
pessoas vivendo ali, ela não queria alarmá-las ou pegá-las
desprevenidas. Era melhor anunciar sua presença, decidiu.
Uma abordagem ruidosa significava que não tinham nada a
esconder e chegavam amistosamente.
Mas não encontraram ninguém.
As cavernas de calcário eram profundas e escuras, habitadas
somente por formidáveis estalagmites. Em cada uma Laliari e
Bellek encontraram ferramentas de pedra cobrindo o chão
— machadinhas, raspadeiras e cutelos —, bem como restos
de animais — cavalos, rinocerontes e cervos — indicando
que pessoas já tinham vivido ali, e também que haviam se
alimentado bem. Mas para onde tinham ido os humanos que
deixaram lareiras carbonizadas, ferramentas quebradas e, em
algumas, símbolos espantosos pintados nas paredes de
calcário, os dois só podiam especular.
Após um dia e uma noite investigando as cavernas, Laliari e
Bellek ficaram desestimulados. Embora fossem claramente
excelentes abrigos — afinal, outras pessoas tinham
considerado as cavernas habitáveis — era exatamente porque
outro povo havia vivido neles que Bellek não podia instalar
ali seu clã. A caverna que selecionassem teria de ser intocada
por humanos ou espíritos, pois do contrário isto poderia ser
um convite à má sorte pairando sobre suas cabeças.
Ao segundo crepúsculo uma leve garoa começou a cair,
deixando as rochas escorregadias. Enquanto se arrastavam ao
longo do precipício para a caverna seguinte, Bellek perdeu o
equilíbrio e caiu. Laliari o agarrou, mas não antes que a ponta
aguçada de uma pedra cortasse sua canela. Laliari ajudou o
velho por todo o restante do caminho, onde rapidamente
escaparam da chuva entrando numa caverna aquecida e seca.
Ali percebera não só evidência de habitação humana, como
também os vestígios de uma fogueira recente. Quando
sentiram no ar os cheiros remanescentes de alimento
cozido, a sua fome voraz superou o medo de estranhos.
Olhando apressadamente em volta à procura de habitantes
— a caverna parecia ter sido abandonada —, eles, a seguir,
procuraram por comida. Quando Laliari viu o que estava
obviamente recém-enterrado no chão da caverna, recordou-
se de que às vezes seu povo estocava ou "sazonava" alimento
na terra. Caiu de joelhos e começou a cavar. Quando seus
dedos encontraram algo macio e firme que parecia um
animal, ela sorriu para Bellek. Com sorte, teriam o que
comer. Mas quando retirou a terra e viu o que estava
enterrado ali, deu um grito e saltou para trás.
Bellek adiantou-se e espiou a cova.
Um garotinho jazia de lado com os joelhos dobrados junto
ao peito. Arrumados em torno dele havia ferramentas de
sílex e chifres de cabra, e espalhadas sobre o cadáver pétalas
de jacinto e malva-rosa e ramagens de pinheiro. Bellek
rapidamente fez um sinal protetor e recuou. Estavam na
presença de uma criança recém-falecida!
Laliari arregalou os olhos assustados para o ancião e, antes
que pudesse perguntar a ele o que deviam fazer para se
salvarem, uma forma negra subitamente entrou na caverna,
enorme e peluda. Arremeteu sobre Laliari, mandando-a ao
chão.
Com os punhos e dentes Laliari combateu a fera, rolando
com ela numa luta violenta. Quando conseguiu pôr-se de pé,
a fera capturou-a pelo tornozelo e a puxou de volta.
Pegando-a pela cintura» a besta ergueu Laliari no ar e, com
força inumana e um rosnado brutal, arremessou-a ao outro
lado da caverna, onde ela bateu de cabeça contra a parede.
Ignorando Bellek, que mantinha-se congelado em choque, o
animal — que afinal não passava de um homem usando peles
— correu de volta à cova funerária e começou a cobrir
rapidamente a criança morta.
Momentos depois, Laliari voltou a si. Quando sua mente
clareou e os olhos entraram em foco, descobriu-se sentada
com as costas apoiadas na parede da caverna, Bellek
agachado a seu lado, uma das mãos sobre a perna
ensangüentada. Ela então olhou na direção do centro da
caverna, onde ocorria uma cena espantosa.
O bruto que a havia atacado estava de cócoras sobre a cova
onde jazia a criança morta soltando sons lúgubres, os braços
agitando-se como aqueles de um homem possuído por um
espírito. Laliari foi instantaneamente possuída pelo terror.
Ela queria correr para fora da caverna e afastar-se o mais que
pudesse do cadáver, porém a perna de Bellek sangrava
gravemente e o velho estava ficando pálido. Chegou mais
perto, pôs um braço em torno dos ombros dele e tentou
imaginar na sua mente confusa o que deveriam fazer para se
proteger.
Nesse meio-tempo, enquanto continuava a ignorar os dois
intrusos, o homem vestido de peles encerrou seu cântico e
espargiu o último punhado de pétalas sobre a sepultura.
Depois voltou à fogueira quase extinta e reavivou-a, a fumaça
espiralando para desaparecer através de um orifício não visto
no teto. Relanceou o olhar mais uma vez para os estranhos,
para ver os amplos olhos da garota observando-o.
Ele havia saído para caçar e agora tirava a pele de duas lebres
e jogava as carcaças nas chamas. Quando uma ficou crestada,
limpou as cinzas e preparou-se para devorá-la. O homem
chamava-se Zant e era o último de seu povo neste vale.
Enquanto comia, Zant olhava zangadamente para os dois
agachados contra a parede. O ancião gemia de dor enquanto
o sangue escorria do ferimento. A garota mantinha os braços
em torno dele, com medo nos olhos. Deveria tê-los matado
por quebrarem um tabu tão poderoso como profanar um
túmulo. Talvez ainda o fizesse, pensou enquanto continuava
a comer.
As horas se passaram. O estranho permaneceu agachado
junto ao fogo cálido, o rosto refletido no brilho. Laliari
pensara a princípio que fosse um animal porque nunca tinha
visto um humano usando peles. Ele era feio também, achou,
a testa proeminente e nariz enorme fazendo-o parecer mais
um animal do que gente. Mais perturbadora ainda era a cor
dos olhos, que ela podia ver mesmo desta distância: eram
azuis, como o céu. Laliari nunca tinha visto olhos azuis antes
e imaginou se eram olhos de um fantasma. Seria por isso que
ele não temia estar na presença de um cadáver?
Quando os gemidos de Bellek ficaram mais altos, o estranho
se levantou e foi até eles. Laliari ficou de pé e colocou-se
entre Bellek e o estranho. Ele empurrou-a para o lado e
agachou-se. Laliari observou atentamente enquanto ele
inspecionava o ferimento. Ao mais leve gesto de ameaça, ela
defenderia Bellek com a sua vida. Mas tudo que o estranho
fez foi tirar alguma coisa de uma bolsa no seu cinto e aplicá-
la no ferimento. Quando Bellek retraiu-se ao toque do
homem, Laliari preparou-se para saltar sobre ele. Mas então
o desconforto de Bellek pareceu acalmar-se após um
momento, e o estranho voltou para perto do fogo. Laliari foi
no mesmo instante para o lado de Bellek, examinando com
atenção o corte na sua canela, farejando o ferimento para
saber o que o estranho havia aplicado. Lançou a Bellek um
olhar indagador, e ele pareceu despreocupado. Um
momento depois, o estranho retornou com um odre de água
e uma lebre assada, entregando ambos a Laliari.
Embora esfomeada, ela hesitou. A distribuição de comida no
clã era governada por regulamentos complexos, e o consumo
de carne dependia de muitas condições: qual o caçador que
havia abatido o animal e em que circunstâncias, quem era a
mãe do caçador e a mãe da mãe dele, quais anciãos tinham o
direito de comer primeiro, em qual fase da lua estavam.
Como Laliari poderia ter certeza de que o estranho
pronunciara os encantamentos corretos quando matara a
lebre? Ela certamente não o ouvira entoar as invocações
adequadas enquanto esfolava a coisa e a lançava ao fogo.
A idéia de consumir carne proibida a encheu de uma vaga e
incômoda sensação de sacrilégio, mas a carne estava tostada
e rosada e gotejando gordura e sucos, seu aroma sublime. E o
pobre Bellek lambia os beiços. A fome venceu. Laliari
aceitou o oferecimento.
Seu instinto a impelia a devorar a lebre imediatamente, mas a
lei do clã ditava que Bellek deveria comer primeiro. Assim,
ela mordeu nacos, mastigou, depois cuspiu a papa na palma
da mão para ele lamber sofregamente. O processo era lento e
trabalhoso, e o tempo todo o estranho permaneceu
agachado, observando-os.
A saia de palha de Laliari parecia desconcertá-lo enquanto
ele virava a cabeça, tocando as longas fibras secas com um
dedo curioso. Ele puxou o cinto de relva tecida, como se
intrigado com o mistério da relva brotar da pele dela. Depois
ele olhou longa e firmemente para a agulha de marfim que
perfurava o nariz dela, e quando esticou a mão para tocá-la,
Laliari afastou-a com um tapa.
Quando o velho tinha comido até se fartar e fechado os
olhos fatigado, Laliari devorou o resto da lebre, sugando até
os ossos e lambendo a gordura dos dedos, o tempo todo de
olho no estranho feioso.
Finalmente ele entediou-se e voltou para junto do fogo.
Estava quente na caverna e todos acabaram caindo no sono.
Laliari acordou durante a noite para ver o estranho deitado
de bruços sobre o túmulo, soluçando. Ela estava intrigada.
Entendia o pesar, mas será que ele não se dava conta de que
estava atraindo má sorte para si ao permanecer tão próximo
de um cadáver? A própria Laliari desejava poder fugir desta
caverna. Mas a chuva agora estava caindo com mais força lá
fora, e a perna ferida de Bellek o tornara incapaz de
caminhar. Visões da criança morta na cova encheram de
novo sua cabeça, e pensamentos de seu fantasma espreitando
nas sombras tornaram o sono impossível.
Finalmente o estranho sentou-se e, após ficar sentado por
longo tempo no monte de terra, como se avaliando uma
decisão em sua mente, fez um gesto para que Laliari se
juntasse a ele no fogo.
Ela relutou até que a curiosidade a venceu. Olhou para
Bellek, que dormia intermitentemente, depois foi até a
fogueira, mantendo distância da sepultura da criança.
Quando cruzou as pernas e sentou-se, relanceou os olhos
para os pertences do estranho amontoados perto de seu leito
de peles: lanças com ponta de sílex e machadinhas, pequenas
bolsas de couro estofadas com conteúdos misteriosos, tigelas
ocas de pedra cheias de nozes e sementes. Ela mantinha as
mãos acima do fogo para aquecê-las. Conservando a cabeça
baixa, estudou o estranho por entre as pestanas. Colares de
tendão animal com penduricalhos de osso e marfim pendiam
sobre o peito peludo. O cabelo longo e emaranhado estava
amarrado com contas e conchas. Pequenas tatuagens de cor
púrpura pontuavam braços e pernas. Em outras palavras, ele
se assemelhava aos homens de seu próprio clã, com exceção
das feições grosseiras.
Ela perguntava a si mesma por que ele estava sozinho ali,
para onde seu povo tinha ido.
Por fim, olhou-o diretamente e perguntou:
— Quem é você?
Ele sacudiu a cabeça. Não entendia.
Usando gestos repetitivos, apontando para si e depois para
ele, Laliari finalmente transmitiu sua pergunta. Ele bateu no
peito e de sua boca saiu algo que soava como "Ts'ank't". Mas
quando ela tentou repetir, o mais próximo a que pôde chegar
disso foi "Zant". E "Laliari" estava tão acima da capacidade
dele, não importava quão atentamente observasse os lábios e
a língua dela enquanto pronunciava o nome, que acabou
virando "lali" e assim ela era Lali.
Tentaram maior comunicação com Zant dando nome a
outras coisas — a caverna, o fogo, a chuva, até mesmo Bellek
— usando palavras de sua própria língua. Mas Laliari tinha
dificuldade em repeti-las. E quando disse palavras na língua
dela Zant tentou pronunciá-las, mas logo desistiu.
Finalmente ficaram em silêncio, reconhecendo os limites de
suas capacidades de comunicação, olhando as chamas para
avaliar este milagre de conhecer um humano de outro
mundo. Uma pergunta, porém, dominava a mente de Laliari
e por fim ela não se conteve mais. Apontando para o monte
de terra fofa no centro do chão da caverna, lançou um olhar
indagador a Zant.
Ela ficou atônita ao ver as lágrimas inundarem os olhos dele.
Poucos homens no seu clã choravam abertamente, e quando
as lágrimas desceram por suas faces, ficou ainda mais
alarmada. Havia poder nas lágrimas, tal como havia poder
em sangue, urina e saliva. Mas ele meramente enxugou-as e
proferiu uma palavra incompreensível. Quando lançou-lhe
um olhar intrigado, ele repetiu a palavra e, enquanto a
repetia vezes sem conta, apontando para o monte, Laliari
percebeu que estava dizendo o nome da criança.
Laliari ficou de pé, horrorizada. Olhou rapidamente em volta
da caverna procurando o fantasma do garoto, fazendo gestos
frenéticos para se proteger.
Zant não entendia. Gostava de dizer o nome do menino,
pois trazia-lhe conforto. Por que isto a assustava? Erguendo-
se de junto do fogo, arrastou-se de volta à sepultura, onde se
ajoelhou e amorosamente bateu de leve na terra recém-
socada. Mas Laliari só conseguiu sacudir a cabeça, temerosa.
Zant pensou a respeito. Voltou à fogueira e, agachando-se de
novo, procurou dentro da pele que cobria seu torso e tirou
uma pequena pedra cinzenta. Estendeu-a para Laliari.
Como ela não a pegou, ele grunhiu uma palavra e, para
grande espanto de Laliari, sorriu. Isto transformou seu rosto.
De repente, a brutalidade desapareceu e ele pareceu tão
comum como qualquer um de seus próprios parentes.
Continuou a oferecer a pedra e ela afinal aceitou. Segurando-
a na palma da mão, franziu o cenho sobre a pedra, sem com-
preender.
A pedra cinzenta, que tinha claramente sido moldada por
ferramentas, enchia sua mão. Pontuda no topo e no fundo, a
parte do meio era formada por protuberâncias macias e
redondas. Laliari não fazia idéia do que era até que Zant
tocou-lhe o peito nu com a ponta de um dedo e depois
tocou uma das saliências redondas na pedra. Ela olhou com
mais atenção e, depois de um segundo, o formato tornou-se
reconhecível. Era uma mulher grávida.
Laliari ofegou. Nunca vira antes a representação de um
humano. Que magia era esta que lhe permitia segurar uma
pequena mulher na sua mão?
E então a luz do fogo reproduziu a estatueta em lampejos
penetrantes e Laliari viu que, fixada no abdome da estatueta,
estava a mais linda pedra azul que já vira. Parecia água
congelada, ou um pedaço do céu de verão. Era como o azul
dos olhos de Zant, e quando captou a luz do fogo, disparou
de volta reflexos tão deslumbrantes que Laliari ficou
mesmerizada.
Trouxe a pedra para mais perto e olhou atentamente para seu
núcleo translúcido. A fogueira estalou. Bellek ressonou no
seu canto. Laliari continuou a olhar fixamente para as
profundezas de azul cristalino até que viu — e gritou.
No interior da pedra azul pôde ver um bebê num útero!
Zant tentou explicar que muito tempo antes seus
antepassados haviam tomado a pedra azul de invasores do sul
e uma curandeira de seu povo a inserira na barriga da
estatueta de pedra. O que Laliari não podia saber era que
quando os ancestrais de Zant seguiram rebanhos de animais
para o sul rumo a climas mais quentes, haviam levado a
pedra azul de volta para os territórios de seus proprietários
originais, os descendentes de Mulher Alta, dos quais,
ironicamente, Laliari era uma.
Agora ele estava tentando explicar a Laliari uma ligação entre
a estatueta grávida e a criança morta na cova. Mas Laliari, por
mais que desejasse entender, continuava no escuro.
De repente, um gemido alto encheu a caverna e Bellek
gritou por Laliari. Quando foi até ele, viu que estava
enrodilhado de lado e tremendo gravemente. Tentou
esfregar seus membros frios e fazer respiração boca a boca,
mas seu tremor só ficava cada vez mais violento e os lábios
adquiriam um tom azulado. Afastando-a gentilmente, Zant
acolheu o frágil ancião nos braços e carregou-o de volta ao
fogo. Depositando Bellek no círculo de calor, Zant pegou
um de seus próprios cobertores de pele e dobrou-o sobre o
corpo trêmulo. Após um instante, Bellek se aquietou de
novo, dormindo pacificamente. Zant pousou a mão desa-
jeitada sobre a testa frágil e murmurou palavras que Laliari,
mistificada, não entendeu.
O estado de Bellek piorou. O ferimento infeccionara e ele
ardia de febre. Mas Zant cuidou do velho diligentemente.
Apesar da chuva incessante, ele se aventurava todo dia fora
da caverna e retornava com alimento que o velho podia
comer — raízes macias, ovos e nozes moídas numa pasta
comestível — e remédios — aloé para o ferimento, casca de
salgueiro embebida em água quente para a febre. Enquanto
Laliari observava o quão ternamente Zant cuidava do velho
xamã, pousando a cabeça frágil de Bellek no seu braço forte
para ajudá-lo a beber e cantando suavemente em sua língua
estrangeira, começaram a desvanecer sua cautela e repulsa
iniciais por ele.
Ainda assim, continuava sendo um homem misterioso.
Por que estava sozinho? Onde estava seu povo? Teria seu clã
morrido porque não havia mais lua? Seria a criança na cova a
última de sua espécie e agora Zant se achava sozinho?
O que tinha acontecido aos rebanhos de animais no vale,
para onde tinham ido?
Finalmente havia a pequena mulher grávida com o bebê de
pedra azul no abdome. O que significava?
Enquanto tais perguntas povoavam sua mente, Laliari
preocupava-se também com seu próprio povo no
acampamento junto ao lago. Sem os poderes de Alawa e
Bellek, eles ficavam indefesos e vulneráveis. E certamente
estariam apavorados agora — nunca antes seu povo passara
tantos dias de aguaceiro interminável. Enquanto olhava na
direção da abertura da caverna e via a chuva constante lá
fora, ela pensava na lua perdida, nos animais que se foram do
vale, em Zant como o último de sua espécie, e especulava:
Estará o mundo chegando ao fim?
Enquanto Zant continuava a cuidar de Bellek para restaurar-
lhe a saúde, era hora de exploração e descoberta para o
homem e a mulher de raças diferentes. Zant instruiu Laliari
no conhecimento de ervas curativas locais encontradas no
vale, e Laliari colheu raízes e vegetais, demonstrando como
seu povo os cozinhava. Mas Zant desprezava essas coisas.
Seu povo só comia carne. Ele dispensou os vegetais com um
desdenhoso aceno de mão. "Para cavalos", disse. "Não para
homens". Ele explicou que pertencia ao Clã do Lobo e os
lobos eram carnívoros. Laliari nunca tinha visto um lobo.
Espalhadas pela caverna havia peculiares tigelas de pedra,
cada uma contendo resíduos de gordura animal queimada.
Zant demonstrou sua utilidade ao pôr uma tigela no fogo e
depois entregá-la a Laliari. Ela observou espantada. Era uma
luz queimando constantemente. Uma vez que seu povo não
habitava cavernas e vivia em abrigos com aberturas para o
céu — e, portanto para as estrelas e a lua —, nunca tinha
inventado lâmpadas. E enquanto seu povo havia aprendido a
carregar brasas para fazer um fogo futuramente, o fogo em si
nunca era carregado!
Zant transportava coisas em sacolas confeccionadas de
bexigas, estômagos e couros de animais. Laliari, procedente
de um vale fluvial rico em relvas altas e juncos, carregava um
cesto que espantou Zant, pois ele nunca vira palha trançada.
Como Zant e seu povo eram carnívoros, nunca tinham sido
hábeis na captura de peixes. Por que seriam, com tanta caça
à sua volta? Mas a caça agora escasseava no vale, e na chuva
era mais pobre ainda. Assim, Laliari demonstrou como
pescar com uma rede feita de fibras vegetais e tendões
animais. Escolhendo um dia em que a chuva estiou
brevemente e o sol despontou por entre as nuvens, eles
desceram um córrego apinhado de peixes. Desenrolando a
rede que carregava no cesto, Laliari pôs peso nela com
pedras e lançou-a no riacho. Zant, excitado ao ver tantos
peixes se contorcendo na rede, entrou na água para içá-la.
Mas ele escorregou e caiu, fazendo Laliari se dobrar de riso
enquanto ele subia de volta à margem, sacudindo-se
comicamente. Sua túnica de pele estava encharcada,
portanto ele a despiu e pôs sobre as pedras para secar. O riso
de Laliari morreu ao ver seu torso nu.
A pele dele era branca como nuvens de verão, mas coberta
por finos pêlos negros que reluziam com gotículas de água.
O peito era fundo, os ombros e braços poderosamente
musculosos. Uma tanga de couro fino cobria sua
masculinidade, mas as nádegas estavam expostas, firmes e
brancas, movendo-se enquanto o sol se escondia atrás de
uma nuvem e o dia esfriava. Quando Zant ergueu os braços
para torcer o comprido cabelo, Laliari viu músculos e
tendões se retesarem sob sua pele molhada de um modo que
lhe susteve a respiração.
Quando o sol surgiu um instante depois, Zant virou-se para
ele e ergueu o rosto para receber os cálidos raios. Ele ficou
completamente imóvel, sua nudez sarapintada de luz solar e
sombra, brilhando com a água, o longo cabelo preto
escorrendo pelas costas. Laliari observou-o de perfil, o peito
poderoso empinado à frente, o cenho pesado e o nariz
grande se impelindo na direção do céu, e ela imaginou em
pasmo encantamento se era assim que um lobo se parecia.
E depois as nuvens cobriram o sol, o dia voltou a esfriar e o
momento terminou, mas não o encantamento de Laliari.
Enquanto observava Zant recuperar sua túnica encharcada,
ela se maravilhava com o poder e o mistério sombrio dele, e
sentiu um calor estranho começar a arder nas suas
entranhas. Quando ele se virou de súbito e seus olhos azuis
capturaram os dela, Laliari sentiu o coração pular de um jeito
como nunca antes, como uma gazela no interior de seu peito
— alegre, feliz, saltando de vida.
Mas depois ela ficou imediatamente triste, pois lembrou-se
da solidão dele.
Todos os dias Laliari observava Zant deixar a caverna, com
lança e machadinha em punho, e desaparecer na chuva.
Regressava um bom tempo depois, sempre com uma caça,
mas tremendo de frio, sem nada falar, esfolando o animal e
lançando a carne no fogo. Ela o observava se agachar e olhar
fixamente para as chamas, um olhar de tristeza desamparada
no rosto, e especulava. Por que ele ficava? Por que não
partia? De vez em quando ele olhava para cima, como se
sentisse que ela o observava, seus olhos se encontravam e
Laliari sentia alguma coisa — ela não sabia o quê — tomar
lugar no interior aquecido e fumacento da caverna.
Passado algum tempo, Zant começou a levar o alimento
cozido para ela e Bellek. Certificava-se de que ambos tinham
comido antes de se servir, embora fosse ele o responsável
pela caça. E enquanto comia, Laliari sentia os olhos dele
sobre ela, olhos cheios de solidão, indagando, ansiando.
Passavam as manhãs à procura de comida, as tardes em
comunicação canhestra e as noites em sono inquieto. Não
possuíam as palavras para descrever o que estava
acontecendo, nem podiam explicar o fluxo de emoções
estranhas que os capturara. Laliari e Zant cuidavam de
Bellek, trazendo-o de volta à saúde, mas ambos sentiam algo
mais acontecendo na caverna, algo tomando forma, como
um fantasma, porém não inamistoso, talvez como o fantasma
do fogo, porque cada qual sentia um calor crescendo dentro
de si. Laliari se perguntava como o povo de Zant extraía
prazer, e Zant queria saber como os homens e mulheres do
povo dela se acasalavam. Tabus desconhecidos permaneciam
entre eles, bem como o temor de quebrá-los.
Quando Laliari deixou a caverna subitamente um dia,
levando seus pertences e algum alimento, murmurando
palavras de estímulo ao velho Bellek, Zant entendeu. As
mulheres de seu próprio clã praticavam a segregação durante
seu fluxo lunar.
Quando ela retornou à caverna, cinco dias depois, Zant
exibiu-lhe uma visão espantosa que abriu sua mente e
explicou muitas coisas.
A chuva tinha estiado e o sol rompeu por entre as nuvens.
Certificando-se de que Bellek permanecia quente e
confortável, Zant tomou Laliari pela mão, levou-a para fora
da caverna, e subiram uma trilha estreita que ia até o cume
dos penhascos. Lá, parada no topo do mundo sob um céu
que continuava ao infinito, Laliari sentiu o vento invadir seu
espírito e erguê-la a grandes alturas. Abaixo, viu as planícies
e colunas ondulantes, agora começando a se cobrir com o
verde da primavera, e ao longe o imenso lago de água doce,
onde seu povo estava acampado. Laliari nunca estivera tão
alto, nunca tivera uma tal visão do mundo.
Mas esta não foi a única visão que ia explicar muitas coisas.
Zant, sem dizer uma palavra, guiou-a até a distante e abrupta
beirada do platô. Laliari ficou apavorada ao chegar a uma
queda tão repentina e precipitosa, mas Zant agarrou seu
braço e sorriu encorajando-a. Ela moveu-se até a beirada e,
com medo de que o vento pudesse carregá-la, olhou para
baixo.
Lá, viu algo que lhe interrompeu a respiração.
Abaixo deles, erguendo-se do fundo de uma ravina
profunda, estava uma montanha de carcaças de cavalo.
Animais inteiros, apenas com as barrigas rasgadas, tinham as
peles, ossos e caudas intactos. O fedor era atordoante, pois as
carcaças estavam apodrecendo. Por meio da gesticulação e
mímica de Zant, o horrível quadro começou a se formar na
mente de Laliari: Zant e seu povo tinham conduzido aquela
manada à destruição. Era assim que eles caçavam. Ela se
lembrou da montanha de carcaças de antílopes que seu povo
tinha encontrado semanas antes, de como o fato havia
chamado a atenção de todos. Agora entendia que eles
tinham sido impelidos a galope do penhasco para sua
destruição.
Mas, ela se deu conta com evidente horror, eles só haviam
utilizado uma pequena parte dos animais. À medida que Zant
falava com suas palavras canhestras e gesticulação inábil,
Laliari imaginava a carnificina: o povo de Zant rasgando a
barriga dos animais, muitos deles ainda vivos, e tateando
dentro para arrancar os órgãos tenros, banqueteando-se com
corações pulsantes e fígados fumegantes, pintando-se com
sangue, ganhando poder com o espírito do cavalo.
A princípio, Laliari ficou horrorizada com o desperdício. Seu
próprio povo teria feito uso de cada órgão e tendão, até
mesmo das crinas de cavalo. Mas depois viu que o tabu mais
horrendo havia sido quebrado: a maioria desses animais
compunha-se de fêmeas. Quando seu clã caçava só visava
aos machos, uma vez que estes, incapazes de parir filhotes,
não eram necessários para a sobrevivência de um rebanho.
Matar as fêmeas significava matar sua futura prole e,
definitivamente, matar o rebanho por completo. Enquanto
ela olhava em desalento para o desperdício da matança —
algumas das fêmeas tinham morrido prenhes —, percebeu
que seu povo não havia encontrado cavalos durante sua
viagem desde o Mar de Juncos. Seriam estes os últimos da
espécie?
Ela voltou-se para o homem que a excitara e aturdira, e que
agora a horrorizava e causava repulsa, como fizera na noite
em que se conheceram. Um homem capaz de aplicar um
toque tão gentil no ferimento infeccionado de um velho
frágil, e ainda assim capaz de impelir centenas de cavalos a
uma morte inútil sem sequer pensar neste desperdício.
Enquanto ele continuava a falar, gesticulando para o norte
com a mão nodosa, batendo no peito, exibindo orgulho e
bravata, mas com os olhos traindo a completa solidão que o
dominara nestas semanas, uma revelação rompeu como uma
aurora na mente de Laliari: que Zant não era o último de sua
espécie, afinal. Seu povo, tendo matado em demasia neste
vale, via-se agora forçado a seguir para o norte em busca de
outros rebanhos. Eles eram o Clã do Lobo, explicou ele, e,
portanto estavam seguindo as alcatéias que iam atrás das
manadas. Seu povo estava acampado a apenas uns poucos
dias de jornada para o norte, depois do lago e na direção das
montanhas, onde esperavam por ele.
Finalmente Bellek ficou curado e Zant declarou que era hora
de ele partir. Recolheu seus pertences e depois iniciou uma
triste despedida. Agora era o momento do toque permissivo,
pois iam separar-se.
— Lali — disse ele de uma maneira tão desesperada que
tocou-lhe o coração, e os dedos rudes dele nas suas faces
enviaram ondas de calor por seu corpo. Ela cobriu a mão
dele com a sua e pressionou-a contra o rosto, virando a
cabeça de modo que seus lábios encontrassem a palma da
mão calosa num longo e doloroso beijo.
Sob as espessas sobrancelhas, lágrimas brilhavam nos olhos
azuis. Ele falou seu nome de novo, mas nenhum som saiu.
Emoções sem nome e sentimentos indefinidos inundaram
Laliari, que nunca havia sido tocada desta forma — nem no
primeiro abraço de Doron, nem ao testemunhar a morte
dele. Este estrangeiro sombrio e desconcertante de outro
mundo havia entrado em seu íntimo de uma forma que
Laliari desconhecia, despertando um novo espírito, um que
ansiava, ardia e acreditava que ela morreria sem Zant.
Ele puxou Laliari para os seus braços e ela roçou-lhe a face
com a boca. A respiração de Zant era quente no seu
pescoço; sentiu a masculinidade contra si. Zant baixou-a para
o chão da caverna e Laliari o atraiu para cima dela. Ele a
chamou de Lali e febrilmente acariciou-lhe os membros. Ela
murmurou "Zant" e abriu-se, oferecendo-se. Zant era maior
do que Doron em tudo, e senti-lo a fez perder a respiração.
Bellek, esperando lá fora na saliência rochosa, e
compreendendo essas coisas, agachou-se e começou a catar
lêndeas no cabelo.
Zant ficou com Laliari por sete noites e sete dias, tempo que
passaram se conhecendo e descobrindo um ao outro,
gastando as horas do dia em caça e pesca e as horas noturnas
em abraços apaixonados. Quando ele finalmente partiu,
souberam que nunca mais se veriam. O lugar de Laliari era
junto a seu povo, onde, embora nunca tivesse sabido, iria um
dia usar os chifres de gazela. E Zant devia apressar-se rumo
ao norte para juntar-se ao seu clã, ignorando que, por causa
da sua forma de caçar, manadas inteiras de mamutes, cavalos,
renas e cabritos-monteses seriam impelidos para a beira de
penhascos, muitos deles para a extinção de suas espécies.
Zant e seu povo migrariam para o norte, ignorando o fato de
que sua própria raça estava à beira da extinção, por motivos
que permaneceriam um mistério 35 mil anos no futuro,
quando ele e sua espécie seriam chamados de Homens de
Neandertal.
Após a partida de Zant, Laliari recolheu suas coisas
tristemente e preparava-se para voltar ao lago com Bellek
quando encontrou enfiada em um dos seus cestos a pequena
estatueta com o bebê de pedra azul na barriga. Um presente
de Zant.
Enquanto vagueavam pela planície, Laliari ajudando Bellek
quando ele manquejava, especulavam em silêncio se o
acampamento ainda estaria lá, já que haviam se ausentado
por muito tempo. Mas então viram a fumaça das fogueiras e
ouviram no vento o riso das crianças. E quando chegaram
mais perto viram...
Fantasmas!
Bellek conteve-se e emitiu um som estranho de espanto.
Mas a vista de Laliari estava melhor e assim ela pôde ver que
os homens no acampamento não eram fantasmas, mas sim
seus próprios caçadores, dados como mortos no mar porém
agora muito bem vivos. Eles apressaram o passo e logo Laliari
estava correndo, procurando desesperadamente por um ros-
to familiar no grupo. E então o viu.
Doron, que havia sobrevivido ao afogamento no mar
raivoso.
Eles tinham sido carregados por quilômetros correnteza
abaixo, explicaram dramaticamente à excitada platéia, e
foram depositados na praia — uma praia oposta àquela onde
estavam as mulheres. E assim tiveram de esperar a maré
mudar e o Mar de Junco recuar antes que pudessem fazer a
travessia. Não sabiam para onde haviam ido as mulheres.
Decorreram dias antes que achassem a trilha do grupo,
depois do que haviam simplesmente seguido os símbolos
mágicos, que Bellek entalhara nas árvores durante a
caminhada das mulheres pelo vale fluvial acima.
E agora estavam ali, o clã reunido mais uma vez. Laliari
olhou para Doron com lágrimas de alegria, mas com Zant no
pensamento...
Naquela noite, enquanto Bellek regalava a todos com o relato
da permanência deles nas cavernas — muito embora tivesse
passado a maior parte do tempo adormecido — e enquanto
Laliari passava a estatueta da fertilidade em torno do círculo
para que todos se maravilhassem, veio de repente um grito
da orla do acampamento. Um dos caçadores que haviam sido
designados para observar a lua entrou correndo na luz,
agitando os braços, uma expressão desvairada no rosto.
Todos ficaram imediatamente de pé e correram para uma
clareira onde então eles viram...
Todos arfaram.
A lua erguia-se grande, redonda e brilhante no céu
iluminado pelas estrelas.
O Clã da Gazela fez uma grande comemoração àquela noite,
na qual Bellek distribuiu cogumelos mágicos. Logo, todos ao
redor da fogueira se deliciavam com alucinações, cores
intensificadas e um sentimento glorioso de bem-estar. Os
corações inflados de afeição mútua, as pulsações aceleradas
pelo desejo. Casais se formaram, Doron guiando Laliari para
a privacidade dos juncos e espadanas. Bellek se viu embalado
nos braços de duas mulheres jovens extasiadas. E Libertador,
o companheiro caçador de Doron, buscou conforto entre as
pernas quentes e bem-vindas de Não-tem-nome,
esquecendo a posição dela como pária.
Na manhã seguinte, todos concordaram que não poderia ser
coincidência que a lua tivesse retornado com Laliari e Bellek.
E Laliari, ela própria tentando explicar o fenômeno
espantoso, disse que a lua devia ter vindo com a pedra azul
que o estranho na caverna lhe dera.
Os outros duvidavam da conclusão de Laliari e
silenciosamente decidiram que ela estava errada, até um mês
depois, quando a maioria das mulheres do clã descobriu-se
grávida, inclusive Não-tem-nome. A estatueta foi examinada
mais detidamente desta vez e agora não podia haver engano:
havia os seios e a barriga de uma mulher grávida, e ao centro
do cristal azul um bebê podia ser visto claramente.
A pedra trouxera a lua, e, portanto a vida, de volta ao clã.
E assim outra celebração teve lugar, com todos cantando em
louvor de Laliari. Enquanto modestamente aceitava a
honraria, pensando tristemente em Zant, mas com felicidade
em Doron, ela deixou de notar do outro lado do círculo um
par de olhos observando-a — Keeka, que não estava nem
um pouco satisfeita por sua prima ter regressado das
cavernas.
A vingança estava na mente de Keeka.
Ela estivera secretamente satisfeita quando a exploração das
cavernas por Laliari se estendera por semanas. Embora
tivesse ficado assustada — como todos os demais — com o
pensamento que Bellek poderia ter morrido e assim ficariam
privados de alguém que lesse os presságios e os orientasse,
ela secretamente esperara que a prima nunca mais voltasse. E
então, quando Doron e os outros sobreviventes
reapareceram, Keeka tinha visto a chance de conquistar
Doron. Quase o havia conseguido, também. Ele começara a
sentar-se perto dela durante a refeição da noite e
demonstrara interesse em dormir com ela — e então Bellek
e Laliari ressurgiram da névoa!
Nos sete anos desde então, Laliari subira no conceito do clã
porque eles acreditavam que sua pedra da fertilidade retirara
a lua do esconderijo. Tão poderosa era a pedra azul que
mesmo a estéril Não-tem-nome dera à luz e agora
readquirira o seu antigo nome e era respeitada como mãe. O
clã havia escolhido Laliari como a nova Guardiã dos Chifres
de Gazela. Agora tinha três filhos, Doron dormia na sua
cabana em vez de com os caçadores, e todo mundo a amava.
Keeka, no seu ciúme, não pôde mais suportar.
Mas o método de vingança tinha de ser cuidadosamente
planejado. Laliari não devia saber que era Keeka quem a
havia matado, pois do contrário o fantasma de Laliari iria
assombrá-la por toda a sua vida. Mas como matar uma pessoa
sem o conhecimento dela? Todos os métodos em que pôde
pensar — usar uma lança ou um porrete, empurrar Laliari do
alto de um penhasco — careciam do necessário anonimato.
E ela não podia enganar a prima do modo como havia
enganado a velha Alawa. Quando Keeka rastejara na cabana
da velha para estrangulá-la — o que tinha sido obrigada a
fazer após entreouvir Alawa contar a Bellek que deveriam
matar os meninos, os meninos de Keeka! —, ela havia
coberto o rosto com lodo e disfarçado o cabelo com folhas,
convencendo a anciã de que era um fantasma. Mas Laliari
tinha mente e olhos aguçados e saberia quem era sua
assassina.
As mulheres tinham ido às planícies ondulantes para colher
plantas da primavera. No seu novo lar o clã se havia adaptado
a um novo ritmo sazonal. Em vez de serem governados pela
inundação anual de um rio, como tinham sido no seu vale
ancestral a oeste do Mar de Juncos, eles eram agora
regulados pelo ciclo de nevoeiro outonal, pela neve do
inverno, pela floração da primavera e pelo calor do verão.
Tiveram de aprender os novos padrões migratórios da caça e
dos pássaros, e quando sair em busca de cereais e frutos
silvestres comestíveis. As saias de palha não mais protegiam
contra o frio do inverno, e assim aprenderam a confeccionar
túnicas e perneiras com as peles de animais. Nos invernos se
recolhiam às cavernas quentes e secas nos penhascos, mas
saíam na primavera para construir abrigos de relva junto ao
lago de água doce.
E assim foi que Keeka, junto a outras mulheres, estava
coletando comida quando deparou com uma planta que
nunca vira antes. Tinha origem bem mais ao norte, nas
montanhas de um país que um dia seria chamado Turquia, e
ao longo dos séculos a semente desta planta havia sido
carregada pelos ventos e enraizou-se nas margens do lago da
Galiléia. Keeka, com seus cestos entretecidos e varas de
cavar, fez uma pausa para contemplar os estranhos caules
altos e vermelhos e amplas folhas verdes. O clã tinha
encontrado muitos alimentos novos no vale, de modo que
isto não constituiu nenhuma surpresa. Contudo, enquanto se
inclinava para colher uma, viu algo que a fez congelar.
Roedores jaziam mortos no solo entre as novas plantas.
Keeka arfou e deu um passo atrás. Havia espíritos malignos
neste lugar! Enquanto ela traçava um gesto protetor e
murmurava apressadamente um encantamento, algo entre os
roedores mortos a fez parar e chegar mais perto para
examinar.
Após um momento, percebeu que os animais deviam ter
mordiscado as folhas desta nova planta pouco antes de
morrer. Na verdade, um ainda estava vivo, retorcendo-se em
convulsões. Um instante mais tarde, enrijeceu-se e morreu.
Keeka manteve distância, temerosa do espírito venenoso
que residia na planta, mas não fugiu porque uma visão
inesperada formava-se na sua mente: Laliari deitada no solo
como os roedores, morta pelo espírito maligno da planta.
Viu de repente ali o seu instrumento de vingança.
Repleta de uma excitação irrefletida, Keeka correu para a
beira da água e cobriu as mãos com lodo fresco. Depois
entoou encantamentos protetores enquanto cautelosamente
tirava o ruibarbo do solo. Jogando rapidamente a planta no
cesto, correu de volta à água para lavar e esfregar as mãos.
Sorriu por sua sagacidade, pois não seria ela a perpetrar o
assassinato, mas sim o espírito maligno na planta. Enquanto
se apressava de volta ao cesto com seu conteúdo maligno,
pensou em como seria a sua vida depois que Laliari se fosse,
e aí seu sorriso alargou-se numa deliciosa expectativa de
seduzir o belo Doron na sua cabana.
As tentativas iniciais do clã de fabricar roupas resultaram em
fracasso total — pois as peles dos caprinos que podiam
encontrar se tornavam duras, rígidas e não-maleáveis —, e
assim o povo de Laliari havia tiritado de frio no seu primeiro
inverno nas cavernas. Mas Laliari tinha visto quão macias e
flexíveis eram as peles de Zant, portanto ela e as suas
parentas passaram todo o inverno seguinte esticando e
raspando os couros até que secassem e adquirissem uma
maciez confortável. Depois utilizaram agulhas de osso para
perfurar as peles a fim de extrair fibras para costura. Era por
isso que agora ela permanecia numa pequena colina ventosa
usando uma longa túnica de pele de cabra e botas de couro,
sua nenêm de oito meses abrigada numa bolsa de pele de
ovelha às suas costas. Os dois outros filhos de Laliari, Vivek e
Josu, estavam aquecidos em mantas e perneiras feitas da pele
macia de gazela enquanto caçavam gafanhotos.
Laliari era uma figura destacada ao se postar alta e orgulhosa
na colina, examinando a nova vegetação para os primeiros
frutos da primavera, pois na cabeça ostentava os chifres de
gazela do clã, atados firmemente sob o queixo com tendão
animal. Ela estava pensando no canteiro de alho que vicejava
córrego abaixo, mas infelizmente era cedo demais para
colhê-lo. Seria preciso esperar pelos meados do verão, o que
era péssimo para o clã, que havia desenvolvido um gosto por
ele. Ela olhou para a antiga e maciça figueira que vicejava na
colina e estudou o fruto ainda não maduro. Haveria outro
ciclo lunar antes que o clã pudesse provar a doçura do figo.
Finalmente, ela divisou um pé de amora de que se lembrava
do ano anterior, e ficou deliciada ao descobrir as primeiras
bagas prontas para serem colhidas.
Enquanto juntava as amoras no cesto, a brisa mudou e a
banhou com um delicado perfume — o aroma do jacinto
azul-escuro, brotando aos milhares sobre as colinas e prados.
Também em floração, quase da noite para o dia, havia
campos de narcisos brancos ofuscantes. Depois de passar os
meses sombrios em cavernas fumacentas, o povo do Clã da
Gazela estava se deleitando no renascimento da primavera.
A própria Laliari estava inundada de alegria inexprimível. A
nenêm adormecida em suas costas e ao lado dela, na relva
alta e doce, seus dois filhos preciosos.
O mais velho, Vivek, tinha seis anos de idade com espessas
sobrancelhas sombreando os olhos, e já em tão tenra idade
exibia os sinais da proeminente mandíbula que teria um dia.
Sua semelhança com Zant não se constituiu numa surpresa
para Laliari, já que fora a estatueta da fertilidade de Zant,
com o bebê de pedra azul na barriga, que lhe tinha dado este
filho. O segundo filho de Laliari, Josu, era um garoto esperto
de quatro anos com cabelo louro-acastanhado e braços e
pernas gorduchos. Amanhã seria o dia de ele ter o nariz
perfurado. Haveria uma grande celebração e ele ganharia sua
própria machadinha e um colar de conchas feito com
talismãs de boa sorte.
Era difícil se lembrar agora do terror que uma vez sentira
naquela terra, ou que seu povo se considerara estranho ali. O
clã chegara a amar aquele lugar por causa do lago de água
doce. Ela ergueu o rosto para a brisa e pensou em Zant. Ela
esperava que ele tivesse encontrado seu povo, que estivesse
feliz agora e que fosse à caça com seus companheiros. Laliari
nunca mais retornara à caverna onde se haviam conhecido,
pois uma criança jazia sepultada lá e Bellek decretara que a
caverna era proibida.
Ouvindo um assovio alto, Laliari voltou-se para ver a prima
Keeka chegando. Apesar da friagem no ar, Keeka estava de
seios nus e exibindo orgulhosamente um lindo colar de
litorina que um dos caçadores fizera para ela. Keeka
envelhecera desde a travessia do Mar de Juncos, e depois
que o clã havia se estabelecido junto ao lago, retomara seu
velho hábito de estocar comida.
Contudo, para surpresa de Laliari, Keeka tinha vindo
partilhar esta ocasião. Trazia um cesto contendo folhas
verdes largas e declarou que era uma nova planta
maravilhosamente deliciosa que havia descoberto. Grata,
Laliari aceitou o cesto e em troca ofereceu a Keeka um cesto
de amoras. Enquanto Keeka se afastava sorrindo, já
enchendo a boca com punhados de amoras, Laliari deu uma
pequena mordida na nova planta e não achou nada de
especial na folha castanho-amarelada.
— Mamãe.
Ela olhou para baixo, viu Josu com as mãozinhas estendidas e
deu-lhe uma folha, em seguida dando outra ao garoto mais
velho. Vivek provou a folha e, fazendo uma careta, cuspiu-a.
Mas Josu mastigava na maior felicidade a sua folha de
ruibarbo.
Tendo enchido de amoras dois cestos grandes, Laliari
chamou os dois filhos e seguiram de volta ao acampamento.
Outras mulheres estavam chegando agora com suas coletas:
dentes-de-leão verdes e pepinos silvestres, sementes de
coentro e ovos de pomba, bem como um bom arrasto de
juncos, que serviam para fazer cestos e tinham um núcleo
comestível. Os homens retornaram com peixes na rede,
cestos de lapa e duas cabras jovens recém-esfoladas. Tudo
seria repartido segundo as normas e todos comeriam bem,
Enquanto eram entoados os encantamentos ritualísticos, a
carne foi cortada, assada e distribuída, primeiro para as mães
dos caçadores, a seguir para os idosos e assim por diante,
com os próprios caçadores sendo os últimos da fila. Laliari
amamentava a neném e verificava se seus outros filhos
recebiam comida suficiente. Enquanto Vivek engolia feliz
uma gema de ovo, o pequeno Josu continuava a segurar a
folha de ruibarbo, mordiscando-a o tempo todo. Alguém
deparara com um campo de trigo temporão e o tinha
partilhado. Cada pessoa enfardava os caules unidos e
segurava as espigas sobre o fogo até que a palha estivesse
quase toda queimada. Depois esfregavam as espigas entre as
palmas das mãos para soltar os grãos enquanto os iam
enfiando na boca.
Depois da refeição, o acampamento ficava barulhento como
de costume, com as mulheres se enfeitando e tecendo
cestos, os homens afiando facas de sílex e comentando a
caçada do dia. Isto foi momentos antes de Laliari notar que
Josu estava se queixando de dor na boca. Ela deu uma olhada
e viu curiosas lesões no interior de suas bochechas e lábios.
Ficou instantaneamente alarmada. Será que um espírito
maligno tinha entrado nele? Josu ainda não usava as
perfurações protetoras no nariz e nos lábios.
— Aqui também — acrescentou ele, pressionando o abdome
com as mãos.
— Está doendo aí?
Ele fez que sim com a cabeça.
O coração de Laliari saltou. O fantasma tinha entrado pela
boca e agora estava no estômago do menino!
Enquanto tentava pensar no que fazer, Josu começou a
estremecer. Ela o trouxe para seus braços.
— Está com frio, meu tesouro?
Os grandes olhos redondos a fitaram de volta quando os
tremores subitamente pioraram.
Agora outras mulheres se aproximavam, inspecionando o
garoto, pondo as mãos nele e murmurando preocupação.
Laliari o estreitou nos braços e embalou-o. Quando ele de
repente começou a dar chiados e ofegar, Laliari chamou
Bellek. Quando o ancião chegou com seus amuletos e
encantamentos, o clã se agrupou em torno para observar.
Bellek examinou o garoto e se pôs a trabalhar imediatamente
com seus remédios. Enquanto as chamas das várias fogueiras
dançavam sob as estrelas, lançando os humanos
alternadamente em brilho e sombra, ele colocou talismãs
poderosos no corpo de Josu, entoando encantamentos
místicos enquanto o fazia. Depois mergulhou os dedos em
potes de corantes e pintou símbolos curativos na testa, peito
e pé do garoto.
A respiração de Josu piorou.
À frente do grupo, enquanto enfiava nozes na boca com
suprema indiferença, Keeka observava. Devido à sua própria
cobiça básica, não lhe havia ocorrido que Laliari ofereceria as
folhas primeiro aos filhos. Assim o espírito do mal tinha
entrado no garoto em vez de em Laliari. Keeka era
inteligente o bastante para saber que não teria outra chance e
que Doron não seria dela. Ainda assim, extraiu alguma
satisfação com a expressão de terror rio rosto da prima, e as
lágrimas que escorriam por suas faces.
A esta altura Josu estava inconsciente e todo o clã olhava,
sem fala.
E então, de repente, ele começou a ter convulsões.
— Salve-o! —gritou Laliari, segurando-o.
Enquanto o velho Bellek tremia sem saber o que fazer, as
convulsões pararam.
— Josu? — chamou Laliari em súbita esperança.
O peito do garoto inflou numa profunda inspiração, depois
ele soltou o ar num tremor prolongado e desigual. E então
ficou imóvel.
A assembléia silenciosa foi a mais profunda e pesarosa
assembléia que o clã já havia realizado, e mesmo quando
começaram a desmontar o acampamento — pois agora eles
deviam partir e entregar o corpinho de Josu aos elementos
— ainda assim ninguém falou, seus movimentos pesados e
laboriosos, os rostos marcados pelo pesar.
Mas urgia que partissem, agora que o ritual tinha sido
realizado, e enquanto punham seus fardos nos ombros para
começar a viagem mais distante ao longo da praia, Laliari não
se moveu. Permaneceu ao lado do cadáver do filho, o rosto
dela mais branco do que a neve remanescente nas
montanhas distantes. Os membros do clã moviam-se
nervosamente, aterrorizados com a má sorte que ela estava
trazendo para eles.
Quando subitamente recolheu o frio menininho nos braços
e lamuriou-se para o céu, os outros se afastaram de medo.
Devemos deixá-la, sugeriu metade deles. Mas ela tem os
chifres de gazela, argumentaram os outros. Doron acocorou-
se perto dela, a indecisão sombreando seu belo rosto. Ele
estendeu a mão, porém não ousou tocá-la.
Depois de um choro amargo pelo filho, Laliari finalmente
silenciou e um estranho ânimo se abateu sobre ela. Ficou
mortalmente calma, os olhos fixos e sem expressão. Estavam
fixos nas cavernas dos penhascos próximos. De repente,
pensou na caverna onde havia conhecido Zant e na criança
lá sepultada. Procurando numa pequena sacola que pendia de
sua cintura, ela pegou a estatueta de pedra com o bebê de
cristal azul no abdome. Enquanto o olhava fixamente, se
recordou da noite em que Zant a mostrara pela primeira vez,
a noite em que ele havia enterrado a criança. Não entendera
à época o que ele estava tentando lhe dizer, mas agora
ocorria-lhe: o cristal não representava um útero com um
bebê dentro — era um túmulo com uma criança nele.
Meu filho não será deixado para os animais selvagens. Não
será deixado ao vento e aos fantasmas. E não será esquecido.
Enquanto os outros observavam, perplexos, Laliari primeiro
certificou-se de que a nenêm estivesse a salvo na bolsa às
suas costas, depois recolheu o corpo de Josu, instruiu Vivek
a agarrar-se em sua saia e começou a se afastar do
acampamento.
Os outros pararam, perguntando-se o que ela estaria fazendo.
Mas quando Bellek começou a capengar atrás dela, os demais
começaram a segui-los. Mas mantiveram distância, ficando
atrás do velho xamã cheios de curiosidade. Ele ordenaria que
abandonasse o garoto e voltasse? E para onde estaria indo
Laliari?
Tiveram a resposta quando ela chegou ao sopé do penhasco
e iniciou a desajeitada subida pela trilha rochosa que tinham
usado pelos sete anos passados. Precisou parar diversas vezes
para depositar o corpo de Josu e ajudar Vivek a subir e
ultrapassar penedos, depois pegava de novo o trágico fardo e
retomava seu caminho, resoluta.
Ela não olhava para trás.
A caverna que Laliari escolheu era uma que não tinha sido
habitada e por isto era pequena e pouco profunda, o teto
baixo demais. Mas estava protegida dos elementos e o chão
era macio e arenoso. Depositando Josu gentilmente, pegou o
graveto de cavar que sempre pendia de seu cinto e começou
a escavação.
Todos se agruparam à entrada, espiando, sussurrando,
ninguém corajoso o bastante para entrar. Alguns minutos
depois, a neném de Laliari começou a chorar. Ela fez uma
pausa na escavação para soltar a bolsa das costas e levá-la ao
peito. Quando a neném se satisfez e dormiu de novo, Laliari
colocou-a num local seguro e recomeçou a escavar.
Quando já havia produzido uma cova, ergueu o corpo de
Josu e ternamente o colocou lá dentro, ajeitando-o numa
posição confortável, como se estivesse adormecido. Depois
se levantou e saiu da caverna, os outros abrindo caminho
para ela passar. Todos se posicionaram no precipício rochoso
para observar, enquanto ela se movia em meio a penedos e
arbustos colhendo flores silvestres e ramos fragrantes.
Quando seus braços estavam cheios, voltou com as folhagens
e gentilmente espalhou-as sobre o corpo de Josu. A seguir
cobriu-o com terra arenosa, enchendo a cova e socando a
terra até que estivesse firme.
Foi então para a entrada da caverna, onde seu filho de seis
anos de idade estava com Doron. Pegando Vivek pela mão, o
levou até a sepultura e disse:
— Você não precisa ter medo. Seu irmão está dormindo
agora. Está a salvo de fantasmas e de danos. E ele não pode
lhe causar nenhum mal. O nome dele é Josu e você vai se
lembrar dele para sempre.
Todos arfaram. Laliari tinha mencionado o nome do morto!
Ela não se importava com ninguém, nem mesmo com
Bellek, que estava mortalmente pálido. Estava consciente
apenas do tremendo alívio que a inundou ao saber que o
filho ficaria a salvo ali naquela caverna, para continuar junto
a sua família para sempre.
Quando finalmente ela emergiu sob a luz da lua, com a
neném atada às costas e o pequeno Vivek a seu lado, Laliari
ergueu a estatueta com a pedra azul para que todos a vissem.
Todos permaneceram em silêncio para ouvi-la, pois afinal
era a Guardiã dos Chifres de Gazela.
— A Mãe dá a vida, e para a Mãe a vida retorna. Não
devemos nos esquecer desta dádiva que ela nos dá. Deste dia
em diante, o nome dos mortos deixa de ser tabu.
Laliari sabia que não seria fácil para seu povo superar um
antigo tabu. Mas manteve-se firme em sua nova resolução.
Seu povo não sofreria mais, como ela e as mulheres haviam
sofrido por seus homens supostamente afogados, sem o
consolo de pronunciar o nome de seus entes queridos. Os
mortos não deviam ser esquecidos, ela entendia agora. Uma
sabedoria aprendida de um estrangeiro chamado Zant.
Ínterim
Todos passaram a temer Laliari depois disso – pelo menos
por um tempo. Mas quando viram que nenhuma má sorte se
abatera sobre o clã por ela ter pronunciado o nome de uma
criança morta, que de fato a nova estação trouxe uma fartura
de alimento ao vale, começaram a especular se ela possuía
algum novo poder. Quando Bellek morreu na primavera
seguinte, Laliari falou seu nome durante a assembléia
silenciosa, narrou os feitos dele durante sua longa vida.
Depois deitou-o para descansar na caverna junto a Josu.
Quando mais uma vez não ocorreu má sorte ao clã por
Laliari ter quebrado o tabu do nome, os outros começaram a
perder o medo e a pronunciar o nome daqueles que partiram
muito tempo atrás — filhos e irmãos que tinham perecido às
mãos dos invasores.
Quando os fantasmas não mais os assombravam e o vale
continuou a prover alimento farto, o povo começou a se
esquecer do antigo tabu até que se tornou normal falar dos
falecidos nas assembléias silenciosas — de modo que não era
mais uma assembléia silenciosa, mas sim uma assembléia
memorial. Como foi a tosca estatueta com a espantosa pedra
azul que havia instruído Laliari nessas novas leis, tornou-se o
costume em cada assembléia memorial passar a pedra de mão
em mão para cada participante segurá-la enquanto falava
palavras de louvor e se recordava dos falecidos.
Quando, anos depois, Laliari foi posta a repousar na caverna,
junto ao filho, cada integrante do clã se revezou para contar
as melhores coisas que se lembrava da idosa Guardiã dos
Chifres de Gazela, mas o que mais sobressaiu foi a época,
muitas estações atrás, antes que a maioria do clã tivesse
nascido, que Laliari trouxera a lua e a fertilidade de volta a
seu povo e os havia ensinado a relembrar os mortos.
Agora que a raça de humanos que quase havia levado a vida
selvagem à extinção tinha partido, ela gradualmente
retornava ao vale do rio Jordão, e o povo do Clã da Gazela
seguia as manadas, movendo-se com as estações, veraneando
em frescas nascentes ao sul, hibernando nas aquecidas
cavernas ao norte. E sempre, para onde quer que fossem, a
pequena estatueta da fertilidade os acompanhava.
O milagre da pedra azul residia na sua beleza. Se ela tivesse
sido mais vulgar como o jaspe, ou opaca e embotada como a
cornalina, poderia ter sido deixada de lado, extraviada e
esquecida. Mas seu brilho estonteante fascinava as pessoas, e
cada geração subseqüente ficou tão enfeitiçada que a pepita
tremeluzente de meteorito cósmico foi passada adiante e
mantida a salvo, para ser reverenciada, adorada e admirada.
A pedra azul por fim se tornou tão especial que o clã parou
de carregá-la por toda parte como se fosse um amuleto
vulgar. Como era engastada no abdome de uma mulher de
pedra, um abrigo em miniatura foi construído para ela, uma
pequenina cabana feita de madeira e lodo entregue aos
cuidados de um zelador especial. Tal como o Guardião dos
Chifres de Gazela e o Guardião dos Cogumelos, havia agora
um Guardião da Pedra.
Dez mil anos depois que Laliari e Zant tinham caído nos
braços um do outro, um inverno particularmente frio atingiu
o vale e o mar da Galiléia ficou coberto de neve. O povo do
Clã da Gazela sentou-se agrupado nas suas cavernas e o
Guardião da Pedra teve um sonho. No sonho o cristal azul
falou com ele e disse-lhe que estava farto de viver num
corpo pequeno. Assim, os anciãos do clã conferenciaram e
decidiram que a pedra deveria ser transferida para um novo
corpo, melhor e mais amplo, como era merecedor o seu
poder. Artesãos foram incumbidos de esculpir uma nova
estatueta, mais detalhada e mais real, desta vez com feições
faciais e até mesmo um comprido cabelo de mulher
delineado em sua cabeça. O cristal azul foi então
amorosamente inserido no seu abdome, pois o cristal era o
espírito da estátua. A pequena casa da estátua foi também
ampliada e construída com material mais durável e, por ficar
mais pesada, exigia agora dois homens para carregá-la até
uma plataforma entre dois postes. Toda vez que o Clã da
Gazela se mudava, a estátua seguia com eles na sua casa
especial, e os homens disputavam a honra de ser um dos
carregadores.
À medida que o tamanho da estátua e de sua casa cresciam,
aumentava em poder na mente das pessoas. Vinte mil anos
depois de Laliari ter enterrado seu filho numa caverna da
Galiléia, o povo do Clã da Gazela sabia que uma deusa
habitava entre eles. Ela vivia no útero de cristal de uma
mulher de pedra que vivia na sua própria casa de pedra.
O clã cresceu em tamanho e número até que se tornou
amplo demais para ser sustentado pelas fontes locais de
alimento. E assim grupos menores se dispersaram para
reclamar outros territórios de caça e coleta. Mas todos
continuavam a pertencer à mesma tribo, reverenciando os
mesmos ancestrais e a mesma deusa, e todos se reuniam em
um Encontro de Clãs anual no verão, junto a uma nascente
perene, bem ao norte do mar Morto e a oeste do rio Jordão.
Havia dois clãs principais agora, o ocidental e o setentrional,
que eram divididos em famílias. A família de Talitha era do
Clã da Gazela, no norte; Serophia pertencia ao Clã do Corvo,
no oeste. Tinha se tornado costume, quando as famílias e
clãs se reuniam anualmente no oásis ao norte do mar Morto,
passar a guarda da deusa para outra família a fim de ser
mantida em segurança até o ano seguinte. Gerações futuras
iriam declarar que não havia sido nenhuma coincidência o
fato de Talitha ter descoberto o suco de uva mágico
exatamente no verão em que a deusa estava sob sua guarda.
E foi então que toda a encrenca começou.
Mas, na realidade, diriam os contadores de história, a
encrenca realmente começara anos antes, quando Talitha e
Serophia eram jovens e os clãs estavam acampados ao norte
do mar morto, enfrentando o ressequido calor do verão. Não
era incomum aparecerem estranhos ocasionais, caçadores
que preferiam viver e perambular sozinhos, sem ligações
com famílias ou clãs. Tais homens surgiam das colinas com
caça fresca e procuravam o acampamento em busca de uma
lareira, onde partilhariam sua caça com quem quer que a
esfolasse e cozinhasse para eles. Talitha, a roliça mãe de
cinco filhos, era conhecida por possuir uma boa lareira, cujo
fogo nunca se extinguia. Suas pedras de cozimento estavam
sempre quentes, e ela conhecia segredos acerca de
condimentos. Também tinha um corpo voluptuoso e gostava
de usufruir o prazer com os homens. Assim foi que o
estranho chegado naquele verão, um caçador forte chamado
Bazel, carregando uma bela ovelha sobre os ombros, dirigiu-
se à tenda da Talitha, onde permaneceu por uma semana,
desfrutando de seu leito e de sua comida. Quando ele deu
sinais de que ia partir, pois perambular era parte de sua
natureza, Talitha decidiu que queria mantê-lo, e assim o
seduziu com deliciosos grãos assados e suco prensado das
uvas, habilidades que ela aperfeiçoara e que não partilhava
com ninguém.
Ele ficou mais uma semana na tenda de Talitha, e então,
certa manhã, foi para as montanhas caçar gazelas. Quando
voltou, não foi para Talitha, mas para um abrigo de palha do
outro lado da nascente, onde outro clã estava acampado. Este
segundo abrigo era mantido por uma mulher chamada
Serophia, mais nova e mais esguia que Talitha, e com menos
filhos. Ali Bazel passou outras duas semanas de prazer antes
de mais uma vez virar os olhos inquietos para o horizonte.
Enquanto os homens do clã ficaram para lá de satisfeitos em
saber que o recém-chegado ia partir, pois eles próprios
ambicionavam Talitha e Serophia, as duas mulheres não
gostaram nem um pouco da decisão de Bazel. Cada qual
queria ficar com o caçador para si permanentemente.
A competição que se seguiu tornou-se a principal diversão
naquele verão e foi comentada durante muitos anos. Talitha
e Serophia desfecharam uma campanha que os caçadores
declararam ser comparável às melhores táticas de qualquer
batalha ou caçada, com Bazel alegremente no meio,
dividindo seu tempo entre tenda e choça o mais
democraticamente possível. Ele nunca se alimentara tão
bem, nem desfrutara de tanto sexo. Foi um verão que jamais
esqueceria.
Mas então chegou o dia em que videntes anunciaram ser a
hora de desfazer o Encontro e os clãs começarem a voltar
para seus lares de inverno. Talitha e Serophia ficaram
desesperadas, pois Bazel ainda não assumira um
compromisso.
Ninguém pôde dizer realmente o que aconteceu depois.
Acusações partiam de todos os lados: alguns diziam que
Talitha havia posto mau-olhado em Serophia; outros diziam
que Serophia fizera magia negra para Talitha. As duas
mulheres foram acometidas de um fluxo sangrento que
provocava urinação dolorosa, tornando-as incapazes de fazer
sexo, e que só foi melhorar no inverno. Nem os videntes
nem as curandeiras puderam adivinhar qual era o problema,
nem descobrir uma cura. Ainda assim, ficou claro que cada
uma tinha sido invadida por um espírito maligno. Uma
noite, durante um escurecer da lua, Bazel decidiu partir antes
que o acusassem de ter trazido este espírito maligno para o
acampamento. Pegou sua lança e escafedeu-se do
acampamento para nunca mais ser visto.
Enquanto os clãs viajavam para o oeste e para o norte rumo
às terras ancestrais, ambas as mulheres estavam doentes e
infelizes, cada qual culpando a outra por este infortúnio, e
cada qual alimentando um rancor tão profundo e negro que
estava fadado a ter repercussões nos séculos por vir.
"E agora chegamos ao Verão das Uvas." Era como os
contadores introduziam o assunto. "O verão em que toda a
encrenca começou."
A esta altura o caçador Bazel estava esquecido. Somente o
ódio mútuo entre as duas mulheres persistia. Com o passar
dos anos, cada qual subira de posição no respectivo clã.
Ambas haviam produzido um número prodigioso de filhos,
sendo agora avós reverenciadas, cheias do poder lunar pós-
menopausa. Talitha desenvolvera ossos largos e estrutura
pesada porque trazia o sangue de Zant nas veias. Serophia
ainda era esguia, mas sem nenhum traço de fragilidade.
Ambas eram feitas de boa têmpera e tinham personalidade
indomável. À medida que as estações passavam e os clãs
continuavam a se reunir anualmente, a guerra continuava,
surda. "Argh, os grãos-de-bico de Serophia têm gosto de
estrume de porco!" Talitha resmungava para as mulheres dos
outros clãs. "Cada ovo em que Talitha toca apodrece!"
Serophia dizia a quem quisesse ouvir.
A rivalidade entre elas tornou-se uma lenda e uma fonte de
divertimento para os mexeriqueiros do clã. Abelhudos
corriam de lá para cá, a fim de repassar as novidades. Quando
Serophia declarava: "Quando um homem se enfia entre as
pernas de Talitha, ela cai no sono!" Talitha replicava:
"Quando um homem se enfia entre as pernas de Serophia,
quem cai no sono é ele!" Mesmo os homens — aqueles que à
ocasião não estavam envolvidos com mulheres e que,
portanto reuniam-se ao lado de fora da tenda comunal dos
caçadores, homens que raramente se envolviam em questões
femininas — acabaram se envolvendo. Pontos eram ganhos
por um lado e outro, apostas eram feitas. A cada encontro de
verão, as mais recentes notícias sobre a briga Talitha-
Serophia tornavam-se o divertimento noturno em todas as
fogueiras de acampamento.
Por causa de uma febre e uma fraqueza, a pendenga
terminou durante o que em breve seria o lendário Verão das
Uvas.
O clã de Talitha, na sua jornada pelas cavernas do norte,
tinha sido retardado por uma febre de início de verão que se
disseminara entre as crianças, de modo que o clã de Serophia
foi o primeiro a chegar à nascente do sul. Vendo que
estavam sozinhos, e sabendo que Talitha tinha uma paixão
por uvas, Serophia ordenou aos seus parentes que colhessem
todas as uvas silvestres, limpando as videiras. Quando os
outros clãs menores chegaram, Serophia alegremente trocou
as uvas pelas mercadorias que os outros tinham a oferecer —
fibra de linho do sul, sal do leste. Mas quando o enorme
bando de Talitha chegou, não havia mais uvas para
comerciar, e nada restava nas videiras. Quando Talitha soube
do que tinha acontecido, ficou furiosa.
Ela marchou até a tenda de Serophia e quando viu manchas
frescas de suco de uva na saia de couro de corça da sua rival,
ela explodiu:
— Você deixa os bodes montarem em você!
— Os escorpiões fogem quando vêem você chegar! — cuspiu
Serophia de volta.
— Os abutres nem tocariam na sua carcaça!
— Quando as cobras mordem você, elas morrem!
As famílias tiveram de apartá-las, e enquanto Serophia
apreciava o presunçoso sentimento de vitória, Talitha
tramava secretamente a retaliação.
No verão seguinte, Talitha providenciou para que seu clã
chegasse primeiro. Lá, o seu povo limpou as videiras até a
última uva. Comeram parte da colheita e negociaram parte
com os clãs, menores. O que sobrou, Talitha mandou que
estocassem em cestos estanques e depois os escondessem
numa caverna de calcário próxima. Quando os clãs
retornassem no verão seguinte, Serophia poderia colher
todas as uvas que quisesse, pois Talitha já teria um
suprimento secreto.
Mas quando os clãs se reuniram um ano mais tarde na
nascente perene para erguer suas tendas e choupanas, para
acender suas fogueiras para cozinhar e começar os rituais de
verão de fazer negócios, formar alianças e julgar infratores da
lei, o povo de Talitha teve um choque. Os cestos cheios de
uvas, tão bem escondidos, que tinham permanecido
intocados na caverna escura e fria por um ano, haviam
sofrido uma estranha transformação.
As uvas tinham continuado a amadurecer até que as peles se
romperam e se misturaram com as polpas, de modo que os
cestos continham agora um mingau amolecido. Mas o aroma
não era desagradável, e quando um dos videntes mergulhou
um dedo no suco e o provou, descobriu um sabor exótico e
intrigante.
Talitha então mergulhou a mão, encheu a palma com o caldo
púrpura e o sugou. Todos esperaram enquanto ela estalava os
lábios e a língua percorria o interior da boca, com um ar de
indecisão no rosto.
— O que você acha, Talitha? — perguntou Janka, o atual
Guardião da Deusa, um homem solene e enfadonho dado a
ares de empáfia.
Talitha lambeu o restante da mistura na palma da mão e
depois encheu a mão em concha de novo. Ela não conseguia
decidir se gostava do sabor ou não. Mas havia algo mais,
alguma coisa que ela não podia pôr o dedo para...
Ela bebeu um pouco mais, pensou a respeito um pouco mais
e descobriu-se de súbito em animada disposição. Declarando
bebível aquele suco de uva, Talitha ordenou aos homens que
arrastassem os pesados e inflados cestos de volta ao
acampamento deles, que era apenas parte de um maciço
acampamento com centenas de tendas e abrigos na planície
que circundava a fonte borbulhante. Na hora em que o
grupo de Talitha voltou com os cestos, inúmeras fogueiras de
cozinhar enviavam fumaça para as estrelas, risos e gritos
enchiam o ar, famílias ocupavam-se com a indústria da vida
— então o povo do Clã da Gazela se reuniu para avaliar o
novo mistério que os envolvia.
Sentada num amplo escabelo, os cotovelos firmados nas
coxas monumentais, Talitha mergulhou uma taça de madeira
em um dos cestos da caverna e bebeu de novo. Enquanto
todos observavam e esperavam, ela mais uma vez estalou os
lábios e fez a língua percorrer o interior da boca. Um gosto
estranho, pensou, mas palatável. Não havia nada da habitual
doçura encontrada no sumo de uva, mas sim uma espécie
peculiar de secura. Sinalizando para os outros, todos
enfiaram suas taças de madeira na beberagem e provaram-na,
alguns hesitantes, outros destemidamente. Lábios estalavam
ruidosamente, opiniões percorriam o círculo, a indecisão
impelia as taças de volta ao suco vezes sem conta.
Numa coisa todos concordaram: eles não faziam a menor
idéia do que estavam bebendo.
Decorrido algum tempo, contudo, sintomas estranhos
começaram a se manifestar: fala engrolada, marcha vacilante,
soluços e explosões de riso sem razão aparente. Talitha ficou
um tanto alarmada. Teria seu povo sido possuído por
espíritos malignos? Lá estavam seus dois irmãos, segurando-
se um no outro enquanto cambaleavam. E suas irmãs, uma
rindo à toa, a outra chorando. Ela própria sentia-se um tanto
acalorada. Quando o normalmente reservado Janka soltou
gases, todos explodiram em riso. Apreciando esta reação, ele
repetiu o gesto de propósito, e quando todos riram a mais
não poder como se fosse a coisa mais engraçada de suas
vidas, ele fez sons grosseiros com a boca até que todo o
grupo estava rolando de rir, segurando a barriga. Talitha
também ria, mas um medo pairava no fundo de sua mente.
Não era assim que eles agiam habitualmente. O que os estava
possuindo? Infelizmente não podia pensar com clareza e, à
medida que bebia mais do suco de uva, ia se esquecendo do
assunto. E então quando Janka, o enfadonho e solene
Guardião da Deusa, agarrou-a de repente e começou a beijá-
la, em vez de sentir-se ultrajada — Talitha certamente não
dera a entender que estava interessada em copular com ele
—, ela riu e alegremente levantou a saia para ele para sua
grande surpresa.
Ele terminou rapidamente e logo rolou de lado para cair no
sono ao seu lado. Talitha serviu-se de mais suco de uva e
percebeu chocada que seus joelhos não doíam mais.
Fazia meses que os joelhos a incomodavam, as juntas
inchando a ponto de ela ter de ser carregada por toda parte.
Até mesmo o curto trajeto até a caverna de calcário a havia
afligido com tamanha dor que exigira dois homens robustos
para carregá-la de volta. Mas agora, estranhamente, os
joelhos não só se apresentavam em bom estado, como
também pareciam os joelhos de uma mulher jovem!
Isto tanto a espantava quanto a agradava — certamente
estavam tomando uma bebida mágica. Uma bebida repleta
dos espíritos da felicidade e da saúde. Uma bênção da deusa!
Porém quanto mais bebia, em vez de continuar a sentir-se
jovem e alegre, começou a sentir-se emotiva e, depois de
outra dose mais forte ainda, conseguiu se pôr de pé e seguiu
cambaleando pelos acampamentos, esbarrando nas pessoas,
quase chegando a derrubar uma tenda, até entrar no recinto
de Serophia, onde todos caíram no mais absoluto silêncio.
Talitha começou a chorar e a bater no peito.
— Nós somos primas, Serophia! Somos parentes! Devíamos
amar uma à outra, não nos odiarmos! Estou errada. Sou
muito ambiciosa e egoísta. — Ela se ajoelhou. — Pode me
perdoar, minha cara prima?
Serophia estava em tal estado de choque que só pôde olhar
fixamente de boca escancarada. Dois dos sobrinhos de
Talitha, que estiveram procurando-a, entraram no círculo e,
ao verem a tia em tal estado, imediatamente a pegaram pelos
cotovelos, ergueram-na e saíram do recinto, com Serophia e
seus parentes olhando abobados.
Quando chegaram à tenda de Talitha, ela estava incoerente
— tal como os demais membros da família. Quando os
sobrinhos a depositaram sobre suas peles de dormir, ela caiu
no sono imediatamente, seu alto ressonar enchendo a noite.
Na manhã seguinte a história foi diferente.
Todos começaram a despertar lentamente para descobrir que
se sentiam absolutamente mal. Demônios martelavam suas
cabeças e agitavam seus estômagos, espíritos malignos
provocavam cólicas nos seus intestinos e desencadeavam
diarréia. Suas mãos tremiam, a visão estava turva.
Mortificação e embaraço os assolaram enquanto subitamente
se recordavam das momices da noite anterior. Pior, afligiam-
se com a perda de memória.
Quando Talitha saiu cambaleando de sua tenda, agarrando a
cabeça, semicerrou os olhos na luz da manhã para ver Ari de
quatro, vomitando violentamente; Janka bebendo de uma
cabaça de água como se todos os rios do mundo não
pudessem saciar sua sede; e todos os outros agarrando a
cabeça e gemendo. Algumas mulheres estavam temerosas de
descobrir evidência física de envolvimento em intercurso
sexual do qual não conseguiam se lembrar.
Talitha estava tão perplexa, quanto assustada. Como podiam
ter ficado tão alegres na noite anterior, e ainda assim se
sentir à beira da morte na manhã seguinte? Certamente
haviam sido possuídos por espíritos que a princípio os
fizeram sentir-se felizes e alegres, mas depois os deixaram
doentes e infelizes — os mais ardilosos espíritos!
A própria Talitha não se lembrava de sua visita ao
acampamento de Serophia até que viu a expressão
envergonhada de seus dois sobrinhos, os únicos que não
haviam bebido o suco de uva na noite anterior. Enquanto ela
especulava por que eles não a fitavam nos olhos e por que
pareciam crianças travessas a ponto de levar uma sova,
ocorreu-lhe a razão. Ela se ajoelhara pedindo o perdão de
Serophia.
"Pelas tetas da Deusa!" ela berrou. Todos eles estiveram
possuídos pelo espírito do mal?
Não obstante, Talitha não queria abrir mão por completo da
nova bebida. Afinal, tinha havido bom humor. Ela instruiu
os videntes e o Guardião da Deusa para que lessem os sinais e
presságios, que meditassem a respeito do que havia
acontecido e que orassem à Deusa por orientação. E depois
de um dia de retiro e prece, jejum e ingestão de cogumelos
mágicos, os profetas do clã declararam que a bebida tinha
sido transformada pela Deusa e dado a eles, filhos eleitos,
como uma dádiva especial. Afinal, os videntes e o Guardião
da Deusa também se lembravam das boas sensações da noite
anterior. E assim abordaram a situação com cuidado, olhando
o suco transformado como uma bebida sagrada, não para ser
tomada levianamente, mas sim com grande solenidade.
A notícia espalhou-se pelo vasto acampamento até que todos
só falavam no suco de uva mágico. Talitha convidou os
chefes dos outros clãs a beber o suco e dar sua opinião.
Serophia não foi convidada ostensivamente. Eles passaram a
taça de mão em mão e provaram o vinho. Sentiram as veias
se aquecerem e os ouvidos zumbirem agradavelmente. Os
chefes de clã e videntes conferenciaram e debateram,
beberam mais vinho e por fim concordaram que o suco
encantado não era uma coisa má. Afinal, deixava a pessoa
alegre, amortecia a dor e proporcionava um sono pacífico.
De fato, era claramente uma bebida sagrada, imbuída pela
Deusa do espírito da vida.
O Clã da Gazela hibernou nas cavernas do norte e na
primavera seguinte chegou ao local do Encontro antes dos
outros clãs. Eles colheram as uvas e as transportaram direto
para as cavernas secretas acima do mar Morto. Esperaram
uma semana e voltaram para provar o suco. Mas tudo que
encontraram foram uvas. Esperaram mais uma semana, e
ainda não havia nenhum suco mágico. Finamente Talitha
declarou que era preciso esperar um ano para que ocorresse
a transformação, e assim mantiveram-se afastados da
caverna, cuja existência não revelavam aos outros clãs. E
quando retornaram no verão seguinte, foram direto para sua
caverna secreta, onde provaram, o suco com grande
apreensão. A transformação ocorrera! Desta vez Talitha
partilhou a bebida especial com os outros clãs e aceitou
artigos em barganha.
Na quarta vez em que a família visitou a nascente perene,
Talitha disse que não fazia sentido voltar às cavernas para o
inverno quando podiam construir abrigos firmes ali. Melhor
ficar e vigiar as uvas, ela ponderou, do que partir e correr o
risco de outras pessoas se apoderarem delas.
Mas sua antiga tradição dizia: o que foi, é; o que é, sempre
será. Eles fizeram o circuito anual norte-sul-norte
simplesmente porque sempre o tinham feito. Mas agora, tal
como Mulher Alta havia determinado que, para a
sobrevivência, o povo deveria partir, Talitha decidiu que seu
povo deveria ficar. Assustava-os não retornar às cavernas
para o inverno, mas ao mesmo tempo descobriram que
gostavam de ficar ali na nascente perene. Também temiam
secretamente que, caso partissem, nunca mais pudessem
provar da bebida mágica. Portanto, Talitha enviou um
contingente ao norte para desenterrar os ossos de seus
ancestrais da caverna e trazê-los de volta para um novo
sepultamento. Ponderava que se os ancestrais fossem
enterrados ali, então aquela seria a terra ancestral.
Assim, construíram abrigos sólidos e autonomearam-se
guardiões do vinho alegre. Ao voltarem no verão seguinte,
com a uva já madura, Talitha liderou a família na colheita, na
produção do suco e estocagem da bebida mágica.
Desconhecendo a levedura que ocorria espontaneamente na
casca das uvas, ou sua ação química sobre o açúcar na fruta,
transformando-o em álcool, ou que o processo era chamado
de fermentação, eles acreditaram que fosse a Deusa
instilando a uva, de outra forma inócua, com propriedades
que deixavam os homens alegres e as mulheres grávidas.
A família de Talitha monopolizava as videiras, mas
felizmente trocavam o vinho por mercadorias que os outros
clãs tivessem a oferecer. Mas enquanto ela excluía o clã de
Serophia deste vívido comércio, que dava a ela uma vitória
na sua rixa com a prima, Talitha não sabia que outra
descoberta secreta estava ocorrendo.
Uma segunda colheita valiosa vicejava naturalmente junto à
nascente perene, e a cada verão os clãs desfrutavam de mais
cevada do que necessitavam, assando as espigas nas suas
fogueiras e comendo os grãos. Serophia decidiu que, em
retaliação pela vitória de Talitha, iria monopolizar a colheita
de cevada, negociando com os outros mas excluindo o clã da
sua rival. Também decidiu que, tal como o clã de Talitha, sua
família permaneceria na nascente para garantir a posse da
cevada. Mas nenhuma caverna secreta estava envolvida; as
sementes de cevada colhidas eram armazenadas em cestos
em uma das tendas de Serophia, e divididas para consumo ou
comércio.
E mais anos se passaram, com o clã de Talitha trocando
vinho por mercadorias de um lado da nascente e o clã de
Serophia permutando grãos de cevada do outro, até o Verão
da Chuva, quando um segundo milagre ocorreu.
A chuva era bastante rara no vale do rio Jordão, mais ainda
durante o verão, e então quando uma tempestade desabou,
enviando um dilúvio que durou dias sobre o acampamento,
os infelizes colonos descobriram goteiras nas suas tendas que
nunca antes tiveram de enfrentar. Não só dormiram com as
roupas ensopadas, como a chuva inundou os cestos com os
grãos de cevada armazenados, estragando-os.
Serophia, no seu orgulho, não mandou esvaziar os cestos. Ela
manteve segredo do suprimento de cevada estragada para
que o fato não chegasse ao conhecimento de Talitha e lhe
desse um motivo para tripudiar. E então, num dia de outono,
um sobrinho notou que a tenda onde estava estocada a
cevada estragada tinha um cheiro peculiar. Fazendo uma
inspeção, a família descobriu que os cestos estavam inchados
e distendidos, e que dentro deles, em vez de sementes
encharcadas de cevada, havia um líquido espesso que
desprendia um aroma pungente. Como Talitha, o clã de
Serophia nada sabia acerca de levedura transportada pelo ar e
seu efeito sobre a cevada ensopada de água e a resultante
fermentação. Tudo que sabiam era que a bebida
transformada deixava as pessoas exultantes.
Com o tempo, os descendentes de Serophia aprenderam a
fabricar cerveja intencionalmente e assim nasceu um novo
comércio.
Como os clãs não mais perambulavam, o povo descobriu que
tinha tempo extra nas mãos, e assim transformaram o seu
tempo e energia despreocupadamente à fabricação de jóias,
ferramentas e instrumentos musicais, e aperfeiçoando os
métodos de curtição de couro. A comida tornou-se mais
sofisticada. Em vez de comer grãos de trigo silvestre direto
da espiga, as mulheres descobriram que moer o grão entre
pedras e cozinhá-lo com água produzia um mingau nutritivo.
Num dia de outono uma mulher chamada Fara foi
subitamente retirada dos seus afazeres e, na sua pressa,
entornou a mistura de água e grão nas pedras quentes.
Quando ela retornou descobriu uma iguaria mais gostosa do
que mingau, e que se conservava bem. E assim uma terceira
família decidiu tornar a nascente perene o seu lar
permanente, e se dedicou à lucrativa indústria da
panificação.
Mais famílias chegavam, e uma vez que as pessoas
começaram a cultivar seus próprios vegetais, que eram
regados pela nascente borbulhante, fornecendo assim uma
fonte de alimento pronto, o povo não via mais necessidade
de perambular em busca de comida fresca. Começaram a
construir moradias permanentes e a permanência significava
que a riqueza material não mais se limitava ao que um
indivíduo pudesse carregar. Casas particulares feitas com
tijolos de lodo começaram a se encher com mercadorias e
pertences pessoais, bugigangas e penduricalhos, criando pela
primeira vez duas novas categorias de pessoas: o rico e o
pobre.
E a Deusa, com sua miraculosa pedra azul que transformava
uva em vinho e cevada em cerveja, tornou-se o foco de uma
nova tendência de preces. Não eram mais apenas preces para
os mortos, para fertilidade e saúde; agora havia preces para a
chuva e para fazer as lavouras vicejarem, preces por uma
colheita farta, preces para mais fregueses.
O pobre orava para tornar-se rico, e o rico orava para ficar
mais rico.
Livro Três
VALE DO RIO JORDÃO
10.000 ANOS ATRÁS
Por tudo que Avram sabia, a noite poderia ter sido
preenchida com portentos e aparições, cometas e a lua se
eclipsando — uma noite sinistra e assustadora, anunciando o
Juízo Final e o Armagedom. Ou poderia ter sido uma
pacífica noite de verão. Ninguém saberia disto por Avram —
ele estava num mundo todo seu.
Que sonho ele tivera! Marit nos seus braços, luxuriante e
complacente, cálida e acessível, inclinando-se, erguendo os
quadris e os lábios para ele. Um sonho tão repleto de paixão
que mesmo agora, enquanto percorria o vinhedo na luz fria
do alvorecer, a pele de Avram ainda ardia de febre.
Enquanto subia a escada de madeira da torre de observação,
mão após mão, rodelas de pão de cevada balançando de uma
corda a um dos ombros, um odre de cerveja diluída
pendendo do outro—pois Avram passaria o dia na torre,
observando saqueadores —, sentiu sua excitação recomeçar.
Quando chegou ao topo, tinha de novo uma ereção plena.
Em toda a sua vida Avram nunca estivera tão apaixonado, ou
tão infeliz.
Estava com 16 anos de idade.
O objeto de seu amor era uma garota de 14 anos, com seios
em botão e olhos como os de uma gazela. Tinha membros
longos, era graciosa como o vento, de temperamento doce e
afável. A sua infelicidade residia no fato de Marit pertencer à
Casa de Serophia, ao passo que Avram integrava a Casa de
Talitha. A rixa entre as famílias já durava dois séculos e o
ódio mútuo era lendário. Se alguém soubesse do amor
secreto de Avram pela proibida Marit, ele seria humilhado
publicamente, amaldiçoado, surrado, confinado à míngua, e
talvez até mesmo castrado. Pelo menos era assim que a
mente jovem de Avram imaginava a punição que poderia
sofrer.
Mas não podia parar de pensar nas palavras que seu abba,
Yubal, pronunciara três anos antes, quando Avram começara
a notar mudanças no seu próprio corpo. "A vida é dura,
companheiro. E uma labuta diária preenchida com dor e
sofrimento. Assim, na sua sabedoria, a Deusa nos concedeu
o dom do prazer para compensar toda essa infelicidade. Ela o
fez para que homens e mulheres possam se dar prazer, a fim
de fazê-los esquecer sua infelicidade. Portanto, quando o
desejo cair sobre você, companheiro, extraia seu prazer onde
puder, pois é isto que deseja a Mãe de nós todos."
Evidentemente Yubal estava certo, pois parecia a Avram que
os cidadãos do Lugar da Nascente Perene estavam
singularmente preocupados em agradar a Deusa neste
aspecto. O passatempo tradicional do assentamento era um
círculo interminável de paixões, se estabelecendo e se
rompendo. Cidadãos brincalhões, que sempre gostaram de
mexericos, sentar-se-iam sobre barris de cerveja e fariam
apostas sobre quanto tempo um novo casal duraria, ou quem
estaria rastejando diante da cabana de quem. Às vezes, a
ruptura de um relacionamento era mútua, porém com mais
freqüência devia-se ao tédio de um dos parceiros, que se
afastava. Era quando irrompiam as brigas, em especial se um
dos parceiros tivesse ido viver com outra pessoa. Todos
ainda comentavam sobre o dia em que a parteira Lea havia
flagrado Uriah, o fabricante de flechas, com uma das irmãs
Cebola. Lea arrancara o couro cabeludo da mulher e depois
jogara água fervente em Uriah. O fabricante de flechas
escapara do assentamento para nunca mais voltar. Mas
também houve aquelas raras pessoas que ficaram juntas por
uma vida inteira — sua própria mãe e o seu abba tinham sido
um tal exemplo —, e era assim que ele visualizava agora para
si mesmo e a deliciosa Marit: amantes pela eternidade.
Enquanto permanecia sob a plataforma sombreada no topo
da torre — a cobertura de palha sendo vital, pois agora era
verão e os dias iam ficando mais quentes —, Avram tentou
atrair com profundas inspirações o ar gélido da manhã,
esperando que ele esfriasse seu ardor de modo a poder
concentrar-se na busca de sinais de saqueadores através das
colinas e ravinas. E estava determinado a fazer um bom
trabalho. No ano anterior, quando saqueadores tinham vindo
do leste, não houvera nenhum aviso. Sua mãe havia sido
brutalmente chacinada e suas duas irmãs raptadas. E por isso
a torre fora construída, e era trabalho de Avram sentar-se lá
em cima como um guarda contra futuros ataques.
Os saqueadores não vinham a cada ano, não havia como
prever seus ataques. Uma raça selvagem, sua terra ficava do
outro lado das montanhas orientais, que vivia da caça e do
roubo. Ninguém sabia quem eles eram ou como viviam,
porque ninguém tivera coragem de segui-los após uma
incursão. Mas circulavam rumores. Dizia-se que os
saqueadores comiam pedra e bebiam areia, que não tinham
nenhuma mulher de sua própria raça, mas que se
perpetuavam raptando as mulheres de outras tribos. Que suas
almas podiam deixar os corpos enquanto dormiam. Que
podiam mudar de forma e com freqüência espreitavam o
povo da nascente perene disfarçados como corvos e ratos.
Que comiam seus mortos.
Portanto a vigilância era essencial. Mas não era fácil
examinar constantemente o horizonte procurando
saqueadores, ou proteger as fileiras de videiras dos ladrões,
especialmente enquanto Avram não pudesse excluir de sua
mente a bela Marit e o delicioso sonho que tivera na noite
anterior. Certamente nenhum homem jamais tinha sido tão
afligido pelo desejo como ele. Nem mesmo o seu abba,
Yubal, que chorara abertamente quando a mãe de Avram
tinha sido morta, declarando que era a única mulher que já
amara.
O rapaz aprumou os ombros e começou sua vigilância.
O céu estava róseo acima das montanhas orientais e o
assentamento chamado de Lugar da Nascente Perene — e
que situava-se a meio dia de viagem a oeste do rio que o
povo chamava de Jordão, que significava "o descendente",
pois fluía do norte para o sul — despertava na névoa matinal,
fogueiras crepitavam para a vida, aromas de pão fresco e
carne assada enchiam o ar, vozes se elevavam em
raiva,,alegria, surpresa e impaciência. De onde se encontrava
Avram podia não apenas ver o vinhedo de seu abba como
também os campos de cevada de Serophia — e bosques de
oliveiras e pomares de romãzeiras e plataformas de tamarei-
ras — e uma excelente vista do assentamento central, um
vasto conglomerado de cerca de duas mil almas vivendo em
casas de tijolos de lodo, choupanas de palha, tendas de pele
de cabra ou simplesmente dormindo no chão enrodilhados
em peles e com seus bens terrenos protegidos sob a cabeça.
Enquanto muitas pessoas viviam aqui permanentemente,
algumas chegavam num dia para partir no outro. Pessoas
vinham ao Lugar da Nascente Perene para trocar obsidiana
por sal, conchas de cauri por óleo de linho, malaquita verde
por fibra de linho, cerveja por vinho, e carne por pão. E no
centro desta colméia de humanidade, com longos canais de
irrigação se expandindo como as patas de uma aranha,
borbulhava a nascente perene de água doce, onde mesmo
agora na luz do dia que rompia, meninas e mulheres
mergulhavam seus cestos e cântaros.
Avram suspirou, inquieto. Todas aquelas fêmeas e nenhuma
delas era tão linda ou fascinante quanto sua amada Marit.
Como muitos garotos de sua idade, Avram não era
inexperiente nas questões de sexo. Embora a diversão
consistisse principalmente em ir para as colinas com seus
amigos para capturar uma ovelha selvagem e passear
montado nela, ele se empenhara em algumas limitadas
experiências sexuais com garotas. Mas com Marit ele nunca
tivera qualquer experiência, afinal. Em todos aqueles anos
vivendo em propriedades adjacentes eles jamais haviam
trocado uma única palavra. Ele tinha certeza de que sua avó
o mataria se tentasse.
Avram desejava ter vivido nos Velhos Dias, que ele
imaginava terem sido bem melhores que os atuais. Ele
adorava ouvir as histórias dos ancestrais — não de Talitha e
Serophia, mas dos ancestrais muito antigos — quando seu
povo era nômade e tinha vivido em uma única tribo e ho-
mens e mulheres extraíam seu prazer com quem lhes
aprouvesse. Mas agora não havia mais nômades viajando em
grandes clãs, mas sim pequenas famílias que viviam em uma
casa no mesmo trato de terra e que de algum modo fazia o
povo pensar que aqueles que viviam no mesmo trato de terra
eram melhores do que os que viviam em outro. "O vinho de
Yubal tem gosto de mijo de jumento", Molok, o abba de
Marit, vivia falando. "A cerveja de Molok foi espremida dos
testículos de porcos" Yubal, o abba de Avram, contra-
atacava. Não que os dois homens expressassem tais opiniões
cara a cara. Membros das Casas de Talitha e Serophia não se
falavam havia gerações.
Portanto era esperado que nunca, jamais, se visse um rapaz e
uma moça dessas famílias nos braços um do outro.
Avram não achava justo. A rivalidade pertencia aos
ancestrais, não a ele. Os ancestrais tinham tido sua hora e sua
opinião. Agora era a vez de Avram. Ele fantasiava acerca de
fugir com Marit (uma vez imaginou um modo de falar com
ela primeiro), levá-la para longe do vinhedo dele e do campo
de cevada dela, para longe das tendas, cabanas e casas de
tijolos de lodo, para explorarem o mundo juntos. Porque
Avram tinha nascido sonhador e indagador, a alma inquieta,
a mente eternamente perguntando e especulando os
porquês. Em outra época ele teria sido um astrônomo ou um
explorador, um inventor ou um erudito. Mas telescópios e
navios, a metalurgia e o alfabeto, até mesmo a roda e os
animais domesticados ainda eram coisas muito distantes.
Desatando uma rodela achatada de pão de cevada, ele
arrancou um pedaço e, enquanto mastigava, voltou os olhos
para o amontoado das humildes moradias de tijolos de lodo
que se acocoravam à beira do campo de cevada de Serophia
— a cabana de secagem, o galpão, onde os barris de grãos de
cevada fermentavam para virar cerveja, e a casa particular,
onde a família de Marit vivia — e soltou um suspiro repleto
de anseio, seu ardor muito mais aguçado porque não fazia
idéia de como Marit se sentia em relação a ele.
Pensou nas ocasiões em que havia capturado o olhar dela.
Apenas umas poucas semanas antes, no festival do Equinócio
da Primavera, ela havia subitamente desviado a vista e um
rubor apareceu em seu rosto. Era um sinal de boa sorte?
Significava que ela correspondia ao seu sentimento? Se ao
menos ele soubesse!
À medida que o sol distante rompia sobre as montanhas,
Avram tentava vislumbrar Marit no assentamento — nesta
hora tão adiantada, ele consideraria um vislumbre dela como
um sinal de boa sorte, significando que o restante do dia
correria bem. Mas tudo que viu foi a gorda Cochava
correndo atrás dos filhos com uma vara; dois oleiros
discutindo aos brados a respeito de um barril de cerveja
(aparentemente não haviam parado de beber durante a noite
toda); Enoch, o tiradentes, e Lea, a parteira, se empenhavam
numa cópula apressada contra uma árvore. Viu o pescador
Dagan cambaleando deploravelmente para fora da cabana de
Mahalia, seus pertences voando atrás dele, arremessados por
uma mão furiosa lá dentro. No mês passado Dagan estivera
vivendo com Ziva, e nos mês retrasado com Anath. Avram
imaginava o que haveria de errado com Dagan, que fazia as
mulheres se cansarem dele tão rapidamente e expulsá-lo.
Pobre Dagan — sem uma mulher e sua lareira, como um
homem ia viver?
Então Avram teve uma visão que o fez rir bem alto. Ali
estava o louco Namir com outras das suas experiências com
cabras! Dois anos antes, Namir insistira na noção de que em
vez de caçar as cabras nas colinas, matando o que
precisavam e depois retornando ao assentamento, seria bem
menos trabalhoso trazer as cabras vivas para casa,
guardando-as num cercado, e abatendo-as como alimento ou
comércio sempre que houvesse necessidade. Assim, ele e
seus sobrinhos foram para as colinas e capturaram o máximo
possível de cabras. Mas como desejavam que o rebanho se
perpetuasse por si mesmo, capturaram somente as fêmeas,
deixando os machos para trás. Mas depois de um ano, as
cabras paravam de dar cria e a remanescente do pequeno
rebanho era comida ou negociada. Enquanto seus vizinhos
riam, Namir dedicava-se a fazer seu plano funcionar.
"Afinal", ele dizia a seus amigos por cima dos tonéis de
cerveja, "se os rebanhos de cabras se perpetuam nas colinas,
por que não no meu cercado?"
Então ele ia lá de novo e capturava outras cabras, trazendo-as
para o redil com cercas feitas de gravetos, galhos e arbustos.
Desta vez nenhuma das cabras havia dado cria, mas em
época alguma o rebanho cativo fora comido ou vendido.
Então aqui estava ele de novo, determinado a manter o seu
rebanho de cabras, liderando seus atrapalhados sobrinhos
pelo assentamento que despertava, enquanto carregavam as
cabras, balindo e se contorcendo amarradas em varas
compridas. Avram simplesmente podia ver, através do
acúmulo de fumaça, quatro homens sentados sob uma árvore
e partilhando um barril de cerveja, que gritavam insultos
para Namir e faziam apostas sobre quanto tempo duraria este
rebanho capturado.
Avram achava que todo mundo no assentamento tinha um
esquema, e não tão absurdo quanto o de Namir. Ele se
lembrava de quando todos haviam zombado de um outro
homem, Yasap, que chegara dez anos antes e plantara
campos de flores. O povo tinha rido: Para que serviam as
flores? Todos pararam de rir quando as abelhas descobriram
os campos e Yasap manteve colméias e estocou mel. Pela
primeira vez desde que se lembravam, as pessoas tiveram
açúcar o ano todo, e tão grande era a procura que Yasap se
tornara o terceiro homem mais rico do assentamento.
Cada vez mais pessoas, chegando ao Lugar da Nascente
Perene pela primeira vez, olhavam em torno e viam
oportunidades para uma vida mais fácil, construíam abrigos e
paravam de perambular. Pessoas com habilidades especiais
trocavam seus serviços por comida, roupa e jóias: barreiros e
tatuadores, adivinhos e leitores dos astros, entalhadores de
ossos e polidores de pedra, pescadores e curtidores de couro,
parteiras e curandeiras, armadilheiros e caçadores. Todos
vinham, a maioria ficava.
Se eu fosse livre e dono do meu nariz, Avram pensou, nem
tentaria pensar em maneiras de permanecer aqui. Eu
empacotaria pão e cerveja, pegaria minha lança e iria ver o
que há do outro lado das montanhas.
Ao ouvir gritos estridentes, ele olhou para baixo e viu seus
irmãos pequenos correndo por entre as filas de parreiras,
expulsando os pássaros. Respectivamente com 13, 11 e 10
anos, os garotos adoravam o vinhedo e fizeram dele o seu
mundo. Na colheita da semana seguinte, eles se alinhariam
com os adultos para encher cestos com fruta madura, e mais
tarde, quando todas as uvas estivessem colhidas, os pezinhos
dos garotos iriam trabalhar duro na prensa, esmagando as
uvas para produzir suco.
Avram já ia acenar para Caleb, o mais velho de seus irmãos
menores, quando viu algo que o fez congelar. Uma mulher
idosa, de seios nus e trajando uma saia comprida de pele de
corça, o cabelo trançado exibindo estrias brancas debaixo da
tintura de hena, caminhava penosamente ao longo da trilha,
sobrecarregada pelos muitos colares de pedras e conchas que
pesavam sobre seu corpo murcho. Mas ela era saudável, e era
dever de uma mulher ostentar assim a riqueza da família.
Os olhos de Avram quase saltaram das órbitas. Por que sua
avó seguia pela trilha rumo ao Santuário da Deusa? Isto o
espantou e alarmou. O que ela estava fazendo do lado de fora
tão cedo? Só podia ser uma mensagem urgente. Teria ela
descoberto acerca do seu desejo secreto por Marit? Estaria
indo pedir à Deusa que lançasse um encantamento sobre ele?
Como muitos rapazes, Avram tinha pavor da sua avó. As
anciãs possuíam poder inimaginável.
Ele alcançou automaticamente o talismã que pendia de um
cordão de couro em volta de seu pescoço. Por tradição,
quando uma criança chegava aos sete anos e dava a
impressão de que chegaria à idade adulta — pois muitas
morriam precocemente —, ela ganhava um nome perma-
nente e uma pequena algibeira na qual levava talismãs
preciosos: o seu cordão umbilical, seco e enrugado, o
primeiro dente, um cacho do cabelo da mãe. Talvez um
pequeno fetiche animal, algumas folhas secas de uma planta
protetora, tudo destinado a pessoa saudável e livre de dano.
Enquanto apertava o talismã que continha seixos mágicos,
pedaços de osso e de galhos, Avram especulava se seria
poderoso o bastante para protegê-lo de sua própria avó.
Ele observava a velha caminhar entre as cabanas e abrigos,
contornando pilhas de vísceras animais, apressando-se em
meio ao mau cheiro que circundava o curtume onde couros
sangrentos estavam sendo estendidos ao sol, e por fim
subindo a trilha que conduzia à pequena estrutura de tijolos
de lodo que abrigava o Santuário da Deusa. Avram viu Reina,
a sacerdotisa, emergir da pequena casa para recepcionar a
visitante.
Mesmo dali, Avram podia ver os seios magníficos de Reina.
No verão, todas as mulheres do assentamento ficavam de
seios nus de modo que os homens pudessem banquetear os
olhos com os tesouros de suas mulheres. Era isto que havia
desencadeado seu novo desejo por Marit: quando ela havia
se transformado de menina em mulher? Os seios de Reina
eram empinados e firmes, nem um pouco caídos como
costumavam ser os das mulheres de sua idade, porque nunca
tivera filhos. Quando havia sido designada sacerdotisa,
dedicara a sua virgindade à Deusa. Mas isto não a fazia
menos feminina. Reina avermelhava os mamilos com ocre e
perfumava os cabelos com óleos fragrantes. Seus quadris
eram amplos e a cintura de sua saia de pele de corça ficava
bem abaixo do umbigo, pouco acima do triângulo abençoado
que não era domínio de nenhum homem.
Avram suspirou de novo em desejo e confusão típicos da
juventude, imaginando por que a Deusa tinha criado esta
fome perturbadora entre homens e mulheres. Reina, em
quem nenhum homem podia tocar, fazendo com que os
homens ansiassem tocá-la acima de tudo. Marit, a dona do
seu coração e a quem nunca teria. Onde estava o prazer nisto
tudo?
Quando viu sua avó sair pouco depois do Santuário da Deusa,
onde a estátua sagrada com o núcleo de cristal azul era
guardada e cuidada, ficou surpreso com a pressa da anciã em
voltar para casa, como se estivesse premida pela urgência.
Logo depois Avram ouviu duas vozes na casa se elevando.
Vovó e seu abba estavam discutindo!
Um momento depois, o abba irrompeu da casa como se
tomado pela fúria, e disparou pela trilha de terra que levava
aos campos de cevada e à casa onde Marit morava.
Avram ficou incomodado ao ver Yubal tão aflito. Uma
lembrança: Yubal carregando-o nos ombros, as enormes
mãos dele apertando seus tornozelos, as passadas largas de
Yubal sustentando-os através dos prados e cruzando regatos.
Avram sentira-se como um gigante e cavalgara aqueles
ombros largos com tamanho orgulho que não queria mais
descer. Avram não conhecia quaisquer outros garotos que
tivessem usufruído de um tal relacionamento com seu abba.
Nem todos os homens mereciam o honorífico "abba", que
significava "senhor", ou "mestre", habitualmente acima de
um negócio próspero, por vezes acima da casa e dos filhos
de uma mulher que se tornara devotada a ele. Embora
poucos homens ficassem com uma mulher por longo tempo,
especialmente se começassem tendo filhos, Yubal era uma
rara exceção, pois tinha sido claro na sua afeição pela mãe de
Avram, e vivera na casa dela por vinte anos.
Avram observou Yubal — belo em roupa de pele excelente,
o cabelo longo e a barba ricamente lubrificados como
convinha à sua posição elevada — dar alguns passos e depois
parar subitamente, coçar o queixo, e voltar-se para pegar a
trilha em direção ao assentamento, como se tivesse mudado
de idéia de repente. Momentos depois, Avram viu Yubal
sentar-se debaixo da árvore umbrosa de Joktan, o mercador
de cerveja. Yubal foi saudado com palavras de boas-vindas,
pois era um dos mais estimados e admirados no
assentamento. Depois ele fez sinal para Joktan, que
apresentou um canudo de junco que quase chegava a dois
braços de comprimento. Yubal afundou o canudo no alto
tonel, afastando a espuma do processo de fermentação que
sempre entupia a superfície, e começou a sugar o líquido
abaixo. A cerveja de Joktan era muito inferior à de Molok,
mas Yubal jurava que preferia beber mijo de serpente a
permitir que a cerveja da família de Serophia passasse por
seus lábios.
Ao ver Yubal, Avram redobrou seus esforços como vigia.
Era por causa de seu abba que ele queria fazer um bom
trabalho. Queria que Yubal se orgulhasse dele. Contudo, por
mais que se esforçasse para ser um bom atalaia, havia
lembretes em toda parte da sua nova obsessão por Marit e
sexo.
Reluzindo brilhantemente no sol da manhã sobre a porta da
casa do polidor de pedra estava um retrato recém-pintado da
genitália feminina. O velho estava esperançoso de que isto
ajudasse na gravidez de suas filhas. Muitas famílias pintavam
tais símbolos ao lado de suas portas da frente — em geral
seios e vulvas — na esperança de convidar a fecundidade
para suas casas. Tais mulheres esperançosas procuravam a
sacerdotisa Reina em busca de encantamentos mágicos,
poções de fertilidade e ervas com poderes sobrenaturais.
Os homens não tomavam parte na busca da fertilidade
porque o povo de Avram ainda não estava ciente de que eles
contribuíam para a procriação. A concepção era um mistério
trabalhado unicamente pelas mulheres, através do poder da
Deusa.
Um grito trouxe sua atenção de volta ao assentamento e às
suas atividades. Um dos criminosos atados a um poste de
punição perto da nascente borbulhante gritava para as
crianças que lhe arremessavam fezes e coisas podres.
Embora habitualmente fossem os trapaceiros e mentirosos,
invasores de propriedade e mexeriqueiros maliciosos os
candidatos aos postes de punição, o homem que estava lá
agora, nu e indefeso, tinha ficado bêbado, subido num
telhado e urinado em passantes incautos. Sua punição teria
sido mais leve se uma das vítimas não fosse a avó de Avram.
Mais dois homens estavam amarrados aos postes, punição
pelo estupro de uma filha da Casa de Edra. Como estes
homens eram o alvo das mulheres iradas, que jogavam
pedras e estrume neles, um grupo de circunstantes apostava
se os estupradores sobreviveriam até o pôr-do-sol.
A justiça na comunidade era rápida e brutal. Ladrões tinham
a mão cortada. Assassinos eram executados. Do seu ponto
privilegiado na torre, Avram pôde ver, do outro lado dos
campos de trigo, o cadáver de um assassino que pendia de
uma árvore, a execução tão recente que os corvos ainda
estavam bicando seus olhos.
Avram congelou.
Em seguida protegeu os olhos e tentou aguçar o alcance de
visão. Aquilo era uma coluna de poeira? Vindo de nordeste?
Ele sentiu um nó na garganta. Saqueadores!
Mas então seus olhos se arregalaram e ele arquejou. Não
eram saqueadores, afinal, mas sim a caravana de Hadadezer!
— Mãe Abençoada! — gritou ele, e, como não podia descer
os degraus com rapidez suficiente, se jogou da metade da
escada para o chão.
Avram correu gritando e agitando os braços — os
mercadores de obsidiana tinham chegado! Esta noite haveria
um banquete sem igual. E num ajuntamento tão feliz, com
tantas pessoas bebendo e se deleitando, quem notaria se dois
jovens se arriscassem a trocar um olhar proibido?
A caravana era sempre uma visão a ser contemplada: um rio
virtual de humanidade que havia fluído por cima de
montanhas, campinas e riachos, mil almas marchando como
vadios, cada homem um animal de carga vergado ao peso de
mercadorias e suprimentos. Alguns levavam cangas de
madeira nos ombros com fardos pendendo de cada
extremidade; outros sustentavam nas costas cestos presos por
tiras de couro que passavam por suas testas; mercadorias
mais pesadas eram rebocadas sobre trenós por equipes de
homens emparelhados. Era um esforço longo, lento,
opressivo para cobrir muitos quilômetros, tropeçando em
cardos e pedras, assando debaixo do sol, congelando sob a
chuva, através de desfiladeiros e de desertos abrasadores.
Mas não havia outra maneira de fazer isto. O povo do sul
queria o que o povo do norte tinha a fim de comerciar e
vice-versa. Embora alguns montanheses valentes do norte
fossem experientes com gado para domá-lo e treiná-lo a fim
de que se tornassem animais de tração e carga, os resultados
até então tinham sido malsucedidos. Assim, às costas dos
homens chegavam malaquita e azurita, ocre e cinabre;
artigos feitos de alabastro, mármore e pedra; de peles e
chifres; e os finos artigos de mesa pelos quais o país do norte
era famoso — molheiras, oveiros e travessas minúsculas com
cabos entalhados. Tudo isto era trazido para o sul, onde seria
trocado por papiro e óleos, especiarias e trigo, turquesa e
conchas, que seriam transportados para o norte nas mesmas
costas arqueadas.
Na caravana também havia mulheres, da mesma forma
sobrecarregadas com roupas de cama, tendas, aves vivas e
apetrechos de cozinha — as mulheres que estavam seguindo
seus homens ou que se juntaram ao comboio no meio do
caminho, algumas carregando crianças no ventre, poucas
delas tendo nascido durante o impressionante progresso da
caravana para o sul. Algumas dessas mulheres deixariam a
caravana quando ela chegasse ao Lugar da Nascente Perene,
ao passo que as mulheres locais abandonariam a Nascente
Perene e desapareceriam rumo ao sul com a caravana.
 frente deste enorme comboio humano viajava um
mercador de obsidiana chamado Hadadezer, cujo meio de
transporte pessoal era outro portento digno de nota.
Hadadezer não caminhava — para lugar algum. E
certamente não os 3.200km que compreendiam o percurso
de sua caravana. Uma plataforma de transporte consistindo
de duas estacas firmes com uma cilha de galhos e juncos era
carregada nos ombros de oito homens robustos. Nela
Hadadezer viajava em esplendor, sentado de pernas cruzadas
sobre esteiras, com macias almofadas estofadas de penas de
ganso apoiando braços e costas. Uma vez que todo mundo
sabia que um homem gordo era um homem rico, a julgar
pela generosa cintura de Hadadezer, ele devia ser o homem
mais rico do mundo.
O comprido cabelo preto de Hadadezer era impressivamente
lubrificado e trançado, alcançando a sua cintura, bem como a
sua enorme barba preta, também lubrificada e trançada, e
entremeada com uma opulência de contas e conchas. Ele
usava uma túnica de couro que alcançava os joelhos e era
inteiramente coberta de conchas de cauri, um traje tão
esplêndido que fazia as pessoas babar em assombro. Seis mil
anos depois, os descendentes de Hadadezer se enfeitariam
com ouro e prata, diamantes e esmeraldas, mas naquele
tempo, quando os metais e gemas preciosos ainda estavam
para ser descobertos nos recessos secretos da terra, o cauri
era o ornamento opcional. Serviam também como moeda no
comércio.
Hadadezer era conhecido em toda parte como sendo um
homem astuto. Na sua juventude ele iniciara um comércio
de olíbano, uma resina colhida de uma árvore chamada
lebonah — que significa "branco" — que crescia no norte.
Quando aceso, o incenso liberava um delicioso perfume,
tornando-se imediatamente popular, com uma grande
demanda nos dois vales do rio. No entanto, embora cobrasse
caro pelo produto, Hadadezer também pagava um alto preço
aos coletores da resina, sobrando-lhe uma pequena margem
de lucro. Mas em determinada estação, enquanto atravessava
o país densamente florestal do norte, ele descobriu que a
madeira fragrante dos juníperos e pinheiros, quando
pulverizada, adulterava de tal maneira o incenso de olíbano
que ninguém poderia reclamar que estava recebendo um
produto diluído. Desta maneira ele aumentou seu
suprimento de resina, cobrou o mesmo preço e conseguiu
um lucro muito maior.
Hadadezer nunca deixava escapar uma oportunidade. Uma
razão para seu sucesso como mercador era que utilizava uma
forma complexa de contabilidade que só ele entendia. Como
papel e escrita ainda estavam a 4.000 anos no futuro, o
mercador de obsidiana confiava num sistema de símbolos
gravados em tábuas de argila que só ele podia identificar,
amarradas em vários cordões que pendiam do seu cinto.
O povo do assentamento apressou-se a recepcionar a
caravana em ansiosa expectativa da noite iminente em que
velhas camaradagens seriam renovadas, amantes se
reuniriam, inimigos resolveriam suas pendências, contratos
seriam acertados, promessas cumpridas e negociados todos
os tipos de mercadorias e serviços. À medida que o sol se
erguia e liberava um dia abrasador, tendas eram armadas,
fogueiras acesas, odres de vinho e barris de cerveja abertos.
E tal como os cidadãos do assentamento buscariam diversão
e prazeres no acampamento da caravana, os componentes do
serviço braçal da caravana, tendo trabalhado por tanto
tempo, iriam para a aldeia à procura de pão, cerveja, jogo e
sexo.
Hadadezer ficaria no Lugar da Nascente Perene por cinco
dias, após o que seus homens levantariam acampamento,
colocariam os fardos nos ombros e prosseguiriam rumo ao
sul para o vale do rio Nilo, onde acampariam de novo, antes
de dar meia-volta e refazer toda a jornada para casa ao norte.
Hadadezer fazia todo o percurso, do seu lar montanhês no
norte ao delta do Nilo no sul, em um ano e suas visitas ao
Lugar da Nascente Perene coincidiam com cada solstício de
verão e de inverno.
Cada homem e mulher capazes de caminhar, rastejar ou ser
carregados estariam no banquete da noite, pois ia ser uma
noitada de prazer e diversão. Os cidadãos diligentes do Lugar
da Nascente Perene passavam as duas metades do ano na
expectativa da chegada da caravana de Hadadezer. Esta noite
eles próprios iam se divertir.
Com uma exceção infeliz.
Depois de ter tido permissão para observar a Procissão da
Deusa enquanto ela percorria o acampamento da caravana
para abençoar os visitantes e todo o comércio que ali seria
realizado, Avram fora mandado de volta ao vinhedo, onde
seus irmãos mais novos estavam em patrulha contra os
ladrões.
Carregando sua tocha flamejante enquanto subia e descia
pelas fileiras de parreiras, Avram pensava ansiosamente nos
homens da caravana e nas histórias maravilhosas que sempre
contavam de caçadas selvagens, de mares que afogavam
homens, de mulheres com fogo entre as pernas e gigantes
altos como as árvores. Eles tinham viajado Nilo acima e
encontrado povos com a pele escura como a noite. No
extremo norte viram um animal que não era nem cavalo
nem antílope, mas alguma coisa entre essas espécies, com
duas corcovas no dorso. Avram ansiava por ser um
mercador. Não queria ficar esmagando uvas com os pés até o
fim de sua vida.
Também sabia que Marit estaria em algum lugar naquela
grande aglomeração de humanidade feliz, talvez comprando
hena ou admirando um colar de conchas. Talvez se afastasse
da companhia da mãe e das irmãs para assistir a um macaco
amestrado fazendo estripulias, ou comprar uma das
guloseimas condimentadas pelas quais as mulheres da
montanha eram famosas. E enquanto estivesse lá, fora do
olho vigilante de sua família, sob a lua e as estrelas, em meio
aos sons de riso, de disputas e festança, e rodeada pelos
aromas inebriantes de fumaça, perfume e comida sendo
cozinhada, talvez nem se importasse com a proximidade de
um certo rapaz, talvez ele até tocasse acidentalmente em seu
braço.
A paixão era mais forte do que a obediência. Avram não
pôde mais agüentar. Entregando a tocha a seu irmão Caleb
com uma desculpa murmurada, ele escapuliu do vinhedo
como uma sombra.
O acampamento cobria a planície além dos campos de trigo
e cevada e se estendia quase até o rio Jordão, a fumaça de
seus fogos se elevando até as estrelas. Havia tanta coisa
acontecendo, tanta coisa para ver e fazer que, enquanto
Avram se entregava à multidão de festeiros, sua mente quase
se desviou da obsessão por Marit. Parou agora e então
observou entretenimentos tais como acrobatas e mágicos,
dançarinos e malabaristas, encantadores de serpentes e
espertalhões — todos ávidos por separar o espectador
incauto de suas preciosas conchas de cauri.
Em toda parte em que Avram ia, comida era oferecida.
Espetos maciços continham carne assada de porco ou
cabrito, esteiras e junco estavam amontoados de pilhas de
pão de cevada e tigelas de mel, e nem se podia contar o
número de tonéis de cerveja com canudos compridos para
beber. E ele continuou a procurar por Marit.
Aproximou-se de uma multidão assistindo a uma dançarina
que nada vestia exceto um colar e cinto feitos de conchas.
Ela era linda e voluptuosa, toda curvas, suor e carne,
remexendo-se e dançando mais sedutoramente a uma batida
de tambor e acompanhamento de palmas. Avram não sabia
quem era, mas queria entocar-se com ela, incendiar-se no
seu recesso mais profundo. Sentiu um calor elevar-se nele,
ardendo mais do que mil sóis. A garganta ficou seca. A
língua enchia sua boca. Os olhos disparavam como flechas
para as coxas da moça. Pensou em Marit. Uma fome dolorida
o invadiu.
Desviou os olhos da dançarina e viu, a uma curta distância, o
abba de Marit pechinchando passionalmente com um
vendedor de marfim. Molok era um homem baixo, de
pernas tortas compactas e uma barriga generosa pendendo
por cima do cinto, um sinal de prosperidade e uma paixão
pela sua própria cerveja. Um homem de temperamento
intenso que podia cortar os testículos de qualquer homem
descendente de Talitha que olhasse na direção de uma
mulher do clã de Serophia.
Avram sentia o coração chegar à garganta. Que loucura era
esta? Por que persistia nesta obsessão fadada a não ter um
final feliz?
Estava a ponto de decidir que sua procura por Marit só traria
má sorte e que deveria voltar para patrulhar o vinhedo com
seus irmãos, o que era esperado que estivesse fazendo,
quando viu um grupo de damas reunido em torno de um
vendedor de hena. Não foi a aparência das mulheres que
captou sua atenção, mas sim o modo como elas soavam: seu
riso, e de uma em especial, alto e ritmado como o canto de
um certo passarinho que vivia nos salgueiros às margens do
rio.
Num instante o acampamento sumiu. A terra desapareceu
sob os pés de Avram. O céu acima dissolveu-se no nada. Até
que só restou a doce Marit e seu riso delicioso.
— Abra caminho, garoto! — gritou um açougueiro que
estava tentando passar com uma carcaça de ovelha.
Mas Avram parecia feito de pau — apalermado e imóvel. Seu
mal de amor o lavava como chuva morna. Os pulmões se
esforçavam para respirar. Ele imaginou se era possível
morrer de amor.
E então Marit virou-se e olhou para ele. E um milagre
ocorreu.
A noite subitamente retornou com todas as suas estrelas e a
lua, reluzindo mais brilhantemente do que fizera em um
milênio, e a terra voltou a sustentar seus pés, boa, sólida e
cheia de promessa; o acampamento se materializou de novo
com todas as pessoas rindo, música e dançarinos rodopiando,
e uma sensação festiva no ar fumacento. O coração de
Avram deslizou de volta ao peito enquanto outra parte dele
se erguia, e o calor brotou por toda a sua pele. Porque Marit
estava olhando para ele — direto para ele, os olhos escuros
grudados nos dele, prendendo-o, bebendo-o, tomando-o
para dentro de si, como fizera muitas vezes nos sonhos de
Avram.
Ele engoliu em seco. Não podia haver nenhum equívoco
naquele olhar.
O Vale dos Corvos era um leito de rio que se enchia de água
turbulenta durante as tormentas de inverno, mas que ficava
seco durante o verão.
A sombra de Avram iluminada pela lua o seguia como uma
cúmplice, intensamente delineada nas paredes rochosas do
cânion estreito. Ele prestava atenção ao silêncio, aos uivos
solitários dos chacais, ao vento assoviando através da ravina
rochosa. Havia uma friagem no ar noturno, mas sua pele
ardia de febre. Ele observou a lua, cheia e brilhante, traçar o
seu eterno curso no céu.
Nutria pouca esperança de que Marit viesse. O subterfúgio
era simples: recorrera à ajuda de um amigo para passar uma
mensagem secreta a Marit quando ela visitasse o poço. Ele
diria a ela que Avram havia encontrado uma flor rara no
Vale dos Corvos e que gostaria de lhe mostrar. Marit saberia
que se tratava de uma mentira, mas era a desculpa necessária
para ela, se quisesse mesmo vir.
Avram acocorou-se e esperou. Quando a brisa mudou, ele
ouviu a música e os risos da festa de despedida da caravana, e
seu nariz captava um ocasional aroma de cozinha. Seu
estômago roncava, mas ele não estava faminto. Sua
impaciência e nervosismo cresciam.
O tempo passou. A lua continuou a viajar pelo céu. Avram
pôs-se de pé e ficou medindo passos. Marit não viria. Tinha
sido um tolo em pensar o contrário.
E então lá estava ela, como se houvesse deslizado de um raio
lunar e pousado silenciosamente.
Olharam um para o outro pelo curto espaço rochoso. Era a
primeira vez na vida deles que ficavam sozinhos -— sempre
havia por perto as irmãs dela ou os irmãos de Avram, ou
outras pessoas do assentamento. Mas agora eram somente
eles, sozinhos sob as estrelas.
Avram percebeu que estava tremendo, tanto de medo
quanto de excitação. Em todas as suas fantasias ele nunca
havia se deparado com o medo. E, súbita e tardiamente,
ocorreu-lhe que as ancestrais estariam aqui com eles neste
cânion: Talitha e Serophia, combatentes fantasmagóricas
vigilantes para ver que tabus a sua progénie iria quebrar. Ele
sentiu um suor frio percorrer-lhe as costas e traçar trilhas
gélidas espinha abaixo. Avram tinha certeza de que, se acaso
se voltasse de súbito veria Talitha de pé atrás dele, furiosa,
irada, pronta a separar-lhe a cabeça do corpo.
Ele viu Marit esfregar os braços e olhar furtivamente para a
esquerda e a direita, como se também esperasse ver sua
vingativa ancestral assomar sobre ela para desferir um golpe
mortal.
Mas o momento se estendeu e tudo que ouviam era o vento
assoviando por entre as rochas, e tudo que viam eram
sombras, a luz da lua, e um ao outro. Avram clareou a
garganta. Sua voz lhe soou como um trovão.
Marit olhava para as próprias mãos.
— A flor — disse suavemente. — Você...
Ele engoliu em seco.
— Eu...
Ela esperou.
Ele achou que as chamas fossem irromper todas sobre ele.
— Eu... — recomeçou.
Todas as fantasias acerca deles trocando as primeiras palavras
não o haviam preparado para a realidade. De repente sentiu
os olhos de sua avó e seu abba sobre si, e de seus ancestrais
por todo o caminho de volta até Talitha, e sentiu uma
estocada de medo. Um suor frio extinguiu o calor na sua pele
e o fez tremer. O que ele estava fazendo? Quebrando o mais
sério tabu da sua família!
E aí ele viu que Marit também tremia e percebeu o risco que
assumira ao vir encontrá-lo, quão perigoso era igualmente
para ela. Molok produziria estrias vermelhas nas suas costas
nuas se soubesse!
Eles poderiam desistir agora e ainda se salvarem. Ele correria
para o alto das colinas e deixaria Marit voltar para casa. Nada
teria sido mais sábio.
Mas nenhum dos dois se moveu. Estavam prisioneiros do
luar e do seu desejo mútuo, a garota de 14 anos de idade e o
garoto de 16 a um passo de se tornarem homem e mulher.
Mais tarde, nenhum dos dois saberia dizer quem foi que
tomou a iniciativa. Mas um passo era só o que bastava, etapas
restantes seguindo-se numa ordem rápida, e num instante
aquilo anulava todos os séculos e éons de tempo que os
precederam antes que estivessem nos braços um do outro.
Avram pressionou os lábios contra os de Marit, cujos braços
enlaçaram-lhe o pescoço. No seu desesperado, apressado e
muito desajeitado primeiro beijo, cada qual imaginava as
paredes do cânion se fendendo e desabando para sepultar os
dois numa avalanche. Eles imaginavam ouvir os gritos dos
ancestrais ultrajados e sentir o hálito frio da morte cair sobre
eles.
Mas no fim eram apenas Avram e Marit, abraçados e em
fogo, alheios a quaisquer fantasmas que pudessem estar
observando, esquecidos de tabus e repercussões, de linhas de
sangue e vingança. E quando tomaram fôlego suficiente para
proferir uma palavra, ambos escolheram a palavra "amor".
Na manhã seguinte, Avram ficou atento aos sinais de má
sorte para a família. Acordou esperando encontrar a casa em
ruínas, ou o telhado em chamas, ou uma erupção de pústulas
em sua pele. Mas a manhã estava calma e sua avó tomava seu
desjejum de cerveja, como de hábito. Ela não se queixou de
sonhos maus, não exibiu quaisquer sinais de que algo
estivesse errado. Yubal, todavia, parecia num ânimo mais
pensativo do que habitualmente, mas Avram atribuiu isto à
colheita de uva iminente.
Avram consumiu sua cerveja e pão em silêncio nervoso e,
antes de sair de casa, prestou obediência extra aos ancestrais,
deixando a maior porção do seu desjejum para eles como
costumava, orando para que não assombrassem a casa por
causa de uma transgressão com Marit.
Embora vivesse em medo constante de retaliação, do solo
subitamente engolindo-o, ou de um raio do céu de verão
atingindo-o, os dias passaram sem nenhuma evidência de má
sorte entrando na casa. Avram ganhou confiança e
conseguiu arranjar outro encontro secreto com Marit no
Vale dos Corvos. Ela também não relatou nada fora do
comum em sua casa — nem assombrações, nem má sorte —,
de modo que estava tudo bem com os ancestrais que eles
tivessem feito o que fizeram. "E vontade da Deusa que
tenhamos prazer", Avram argumentou, enquanto a atraía
para seus braços. "Portanto, quem são os ancestrais para
desobedecer à Deusa?"
Como conseguiram manter suas atividades clandestinas em
segredo foi um milagre que os convenceu de que a Deusa
devia estar do lado deles, pois nas semanas e meses que se
seguiram, os dias preenchidos com beijos roubados, noites
de abraços proibidos, ninguém nas famílias suspeitou e os
dois nunca foram descobertos. Avram conseguia escapar a
pretexto de ir pescar e ninguém percebia nada de estranho
no comportamento de Marit, pois estava na idade em que as
garotas ficavam sonhadoras e davam caminhadas ao luar. Sua
mãe até mesmo a encorajava, porque caminhadas ao luar
com freqüência resultavam em gravidez.
Enquanto Avram e Marit expressavam seu amor secreto ao
longo das estações, esquecidos do resto do mundo, perdidos
nos olhos um do outro, uma mudança ocorreu no jovem de
16 anos. Quando estava com Marit, ele se sentia completo,
como se fossem uma só alma partilhando dois corpos. E
quando se viam afastados, ele sentia-se vazio e sem objetivo.
Pior eram os cinco dias por mês que ela passava na cabana da
lua em comunhão especial com a Deusa — em tais ocasiões
Marit não só ficava separada dele fisicamente, como também
em espírito, pois os dias confiscados eram gastos em prece e
ritual e em comunhão direta com Al-Iari.
Avram e Marit partilhavam não só o seu amor e seus corpos,
mas também seus sonhos. Ele contou a ela que ansiava por
ser um mercador como Hadadezer. Não queria esmagar uvas
com os pés por toda a sua vida. O problema era que o sonho
conflitava com seu coração, pois se optasse pela vida de
mercador nunca estaria em casa e não veria Marit por longo
tempo. Como conciliar as duas coisas?
Marit tinha uma visão diferente: "Eu amo ser parte de uma
longa corrente de vida, saber que saí da minha mãe, que saiu
da mãe dela, todo o percurso de volta a Serophia e até a
própria Deusa Al-Iari. Isto me dá um grande consolo e
também uma sensação maravilhosa de saber que minhas
filhas, quando as tiver, vão crescer para dar continuidade à
corrente."
Avram foi subitamente golpeado pelas injustiças da vida. A
estirpe de uma mulher continuava enquanto a de um
homem não, exceto por suas irmãs.
À época em que meio ano tinha se passado e estava quase na
hora do solstício de inverno e do retorno da caravana de
Hadadezer, Avram e Marit orgulhavam-se de como haviam
mantido o seu segredo. Tinham até mesmo conseguido
fingir, na frente dos outros, que eles se detestavam. Na sua
ingenuidade juvenil acreditavam que poderiam continuar
com isto para sempre.
Não havia prova maior do poder criador de vida da Deusa do
que na feitura do vinho. Então não era a caverna o útero da
Mãe Terra? E não era o suco de uva do vinhedo de Yubal
como o fluxo lunar mensal de uma mulher? Todo mundo
sabia que quando o fluxo lunar de uma mulher era mantido
dentro de seu útero, uma criança começava a crescer. E
assim se dava com o milagre do vinho: o suco da uva era
carregado para a caverna-útero e lá conservado em mistério
e escuridão até que, seis meses depois, os homens chegavam
para descobrir que ele tinha sido miraculosamente
transformado numa bebida com "vida".
Portanto, a degustação da vindima era o mais importante e
solene rito religioso no Lugar da Nascente Perene. A própria
Deusa, carregada nos ombros de homens robustos, seu
núcleo de cristal azul reluzindo aos primeiros raios solares,
liderava a procissão até a caverna sagrada no sul. A estátua
havia sido esculpida cem anos antes a partir de um único
bloco de arenito. Tinha 90 cm de altura e era maravilhosa
em seus detalhes, desde os olhos amplos e sábios de Al-Iari
até as delicadas sandálias nos seus pés. A pedra de cristal,
antiga e mágica, e poderosa além de tudo conhecido até
então, assentava-se entre os seios nus da Deusa.
O ar da manhã era revigorante e gélido, o solstício de
inverno estando a poucos dias dali enquanto o cortejo
marchava solenemente ao longo da planície e descia para o
rio, continuando rumo ao sul para o mar Morto, onde
ficavam as cavernas de vinho sagradas. Os penhascos foram
alcançados ao meio-dia, onde a sacerdotisa ordenou que
todos dessem uma parada. Vendo que a Deusa estava sobre
seu trono de pedra, Reina conduziu uma prece. Uma ovelha
foi sacrificada e colocada sobre o altar.
Então a avó de Avram, seu abba, Yubal, Avram e seus irmãos
mais novos continuaram a subir sozinhos a estreita trilha até
a entrada da caverna.
Nem um som era ouvido em meio à sussurrada reunião, pois
a primeira degustação da vindima de verão diria às pessoas
como seria o ano dali para a frente.
A avó parou na entrada e, erguendo os braços, orou em voz
alta para a Deusa e para quaisquer espíritos e fantasmas que
pudessem estar nas proximidades. Ela pronunciou palavras
que retroagiam aos dias de Talitha, quando o primeiro vinho
foi criado nesta caverna, depois empoou a soleira com
olíbano e folhas de loureiro, uma mistura sagrada com o
intuito de santificar a área. Ela entrou primeiro, para fazer
fogo com sílex e acender as lamparinas que tinham sido
colocadas lá no verão. Ela pisava de leve para sua intrusão
não perturbar a sacralidade da caverna.
Quando ela se convenceu de que os odres de vinho estavam
intocados, que nenhum sacrilégio havia sido cometido ali
durante os meses de fermentação — pois a morte era a
punição para qualquer um que entrasse na caverna do vinho
— ela chamou Yubal. Ele era o abba da casa, era também o
abba do vinhedo, e portanto devia ser o primeiro a provar.
Para surpresa de Avram, Yubal tocou seu braço e indicou
que deveria juntar-se a eles. Avram nunca cruzara a soleira
da caverna sagrada. Estava cheio de espanto enquanto seguia
Yubal na escuridão e podia sentir a presença do poder da
Deusa a sua volta. Pensou em Marit lá fora entre os
circunstantes e encheu-se de orgulho por ela poder vê-lo
entrar na caverna sagrada.
Yubal fez uma pausa diante dos odres de vinho, estocados
em prateleiras de calcário esculpidas das paredes da caverna,
e olhou para o rapazola a seu lado, alto e bonito, com os
primeiros vestígios de barba no rosto. Yubal não podia
explicar por que se sentia daquela maneira em relação ao
garoto. Acontecera enquanto a mãe de Avram estava grávi-
da. Eles deitavam-se juntos em sua esteira de dormir e Yubal
olhava admirado para o grande volume em sua barriga,
observando-o se mexer quando o bebê estava ativo. Yubal
pousava a mão naquela maravilhosa protuberância e sentia o
bebê mover-se sob os dedos, e alguma coisa miraculosa
baixava sobre ele — parecia que o bebê estava se mexendo
dentro dele próprio.
— Antes de continuarmos, Avram — disse Yubal numa voz
baixa e ressonante que não ia além da entrada da caverna —,
tenho algo a lhe contar. — Ele sorriu. — Novidades
maravilhosas.
Ele fitou os olhos expectantes do garoto e tornou-se mais
sombrio. No passado nunca tivera dificuldade para falar com
Avram. Eles haviam sido muito chegados e nunca tiveram
problemas de comunicação. Nem mesmo naquela vez em
que Avram completou 13 anos e Yubal tivera de explicar os
regulamentos e tabus em relação às mulheres, sobre a tenda
especial para onde elas se recolhiam uma vez por mês, o
fluxo lunar que criava vida nova e que era o único campo de
ação das mulheres. Havia sido difícil explicar tudo isto ao
garoto. O poder do mistério feminino simplesmente quase
lhe bloqueava as palavras na boca.
Apesar de toda a sua riqueza, Yubal era um homem simples.
Entendia do seu vinhedo e do seu vinho, mas as mulheres
escarneciam dele. Havia aquele segredo sobre elas... aquele
lugar escondido dentro delas onde um homem extraía seu
prazer mas também onde a vida começava, onde a Deusa
morava. O medo do sangue menstrual era forte em Yubal, tal
como na maioria dos homens. Até mesmo entrar em contato
com ele, segundo os mitos, significava morte instantânea
para um homem, pois o sangue lunar carregava o poder da
Deusa, o poder da vida e da morte. Quando o sangue de uma
mulher parava de vir, isto significava que uma nova criança
estava sendo formada. Mas quando o fluxo aparecia, isto
significava que a vida havia morrido.
— Nossa casa está para receber um novo membro — disse
Yubal, agora à luz bruxuleante da caverna.
Avram fitou-o, surpreso. Na sua fascinação por Marit, Avram
estivera tão cego a tudo que nem soubera que seu abba se
achava envolvido em planos para unir sua família a outra.
Mas, claro, era um passo que, cedo ou tarde, deveria ser
dado.
As tradições e leis das alianças familiares começaram com as
primeiras famílias do assentamento, gerações atrás, quando
atacantes chegaram e saquearam lavouras e casas. Os
ancestrais haviam decidido que, para a sobrevivência do
assentamento, as famílias deviam proteger-se. Através de
gerações descobrira-se que o meio mais exitoso de garantir
proteção mútua em tempos de invasão ou calamidades era a
permuta periódica de filhos e filhas. No caso da família de
Avram, havia poucos varões para trabalhar no vinhedo e
proteger a safra dos saqueadores. Yubal costumava contratar
homens para ajudar, mas eles tendiam a comer as uvas e
fugiam à chegada dos invasores. Do mesmo modo, não havia
mulheres agora na Casa de Talitha, exceto a idosa avó.
Contando somente com Yubal e Avram e os três garotos
mais novos, a casa iria morrer. Assim, uma mulher seria
agregada à família, de preferência uma com muitos irmãos e
tios, homens dispostos a proteger o vinhedo e não roubar da
família à qual se haviam juntado.
— Quem vai ser? — perguntou Avram, com várias candidatas
povoando sua mente — as filhas de Sol, o plantador de
milho, as sobrinhas de Guri, o fabricante de lamparinas, a
mais nova das irmãs Cebola.
Yubal pigarreou e mudou de posição.
— Uma filha da Casa de Serophia vai se juntar à nossa família.
Avram olhou fixamente para ele.
— Serophia — murmurou bobamente.
Yubal ergueu a mão.
— É um choque para você, eu sei. Mas a Deusa foi consultada
e falou por intermédio de Reina. Também consultamos o
leitor dos astros e os videntes. Todos concordaram que uma
família tão antiga e nobre como a nossa só pode aliar-se a
uma casa de igual estatura. Qual seria ela senão a de
Serophia?
O próprio Yubal não ficara muito feliz com a idéia, e
argumentara a respeito com a avó. Edra era uma boa Casa,
ele havia sugerido, e também a linhagem de Abihail. Mas a
avó — e a Deusa — havia prevalecido. Não seria nenhuma
outra casa. E assim, por meio de um representante (já que
era impensável que abbas rivais se falassem), Yubal abordara
Molok sobre a questão de criar uma aliança entre as duas
famílias. Mas Yubal tivera uma vantagem. Soubera pelo
mercador Hadadezer que Molok estava ficando preocupado
com o seu comércio cervejeiro. Estava se tornando cada vez
mais fácil fabricar cerveja — tudo que tinha-se de fazer era
comprar pão de cevada, colocá-lo de molho para formar uma
pasta e estocar o produto até que fermentasse, sem precisar
se incomodar com um campo de cevada que exigia cultivo,
colheita e proteção contra gafanhotos e ladrões. Corria o
boato de que o negócio de Molok estava começando a
fracassar e que ele procurava maneiras de diversificar para
manter a prosperidade da família. Porém Molok era rico em
outra área: sua casa tinha muitos filhos fortes, e assim Yubal
decidiu que a proteção dos filhos de outro homem em troca
de uma prensa de vinho e uma parte da colheita de uva era
uma boa barganha. Depois de séculos de rivalidade, uma
aliança foi acertada.
— Embora os descendentes de Serophia devam ainda nos
odiar — disse Yubal —, eles protegerão a irmã em caso de
ataques, protegendo também a nós e ao nosso vinhedo.
— Com qual filha, abbal — perguntou Avram num sussurro.
— A mais nova. A garota Marit.
Avram sentiu-se como se atingido por um raio e
empanzinado por mel ao mesmo tempo. Seu choque e sua
alegria colidiram para deixá-lo tonto.
Yubal apressou-se ao perceber o choque nas feições de
Avram.
— Não o culpo por ficar furioso. Mas isto é pelos ancestrais e
pela linhagem de sangue. Mas agora tenho notícias
melhores!
Avram tentou encontrar voz para dizer: "O que haveria de
melhor do que ter minha amada Marit debaixo de meu
próprio teto", porém Yubal continuava a falar rapidamente:
— Entrei em acordo com Parthalan, da Casa de Edra. Vamos
nos unir mandando você para morar com eles. Pense nisso,
Avram! Morar com os fabricantes de conchas! Uma posição
muito invejada, uma vez que o trabalho deles é limpo, sem
suor, sem calos, as mãos deles estão sempre macias e limpas.
E eles têm várias filhas bonitas com as quais você pode ter
prazer.
Yubal estava contente com sua própria esperteza — veja só a
expressão no rosto do garoto! Ele está prestes a desmaiar
com a sua súbita boa sorte. Uma vez que Avram era um
sonhador, sempre imaginando o que haveria do outro lado
das colinas e não se interessando pelo vinhedo ou pela
produção do vinho, Yubal achara que a melhor solução
estava em Parthalan, pois ele e suas filhas viajavam
anualmente para o Grande Mar, onde coletavam conchas de
cauri, mariscos, vieiras e madrepérola, que traziam para ser
esculpidas em forma de jóias, fetiches, amuletos e adornos
mágicos. Parthalan era rico e estivera procurando um varão
saudável para agregar a sua família. Portanto, Yubal fechou
um acordo com Parthalan: Avram ia se juntar à Casa de Edra
e, em troca, Parthalan faria um pagamento anual à Casa de
Talitha em conchas de madrepérola.
O rosto de Yubal reluzia de alegria à luz bruxuleante.
— Finalmente você verá o que existe do outro lado das
colinas! Que vida melhor você poderia pedir?
— Oh, abba — gritou Avram, a voz ressoando das paredes da
caverna. — Estas são notícias terríveis.
A face de Yubal murchou.
— O que quer dizer? Você devia estar jubiloso. Nunca se
sentiu feliz trabalhando no vinhedo ou na prensa de vinho.
Agora lhe está sendo oferecida a chance de ver o que existe
do outro lado do horizonte. Estou realizando o seu sonho e
você fica furioso?
— Meu sonho é Marit! — replicou Avram.
Yubal o olhou fixamente.
— Do que está falando?
— Marit. Eu amo Marit.
—- Você tem uma paixão pela garota? Eu nem fazia idéia.
Você por certo manteve isto em segredo.
Avram baixou a cabeça.
— Abba, não posso deixá-la.
— Mas tem de fazê-lo.
— Não posso ser separado de Marit.
— Você ainda é muito jovem, companheiro. Uma vez que
passar as mãos nas coxas suculentas das filhas de Parthalan...
— Não quero as filhas do fabricante de conchas. Quero
Marit!
O rosto de Yubal ficou sombrio. Amava o garoto, mas
Avram estava passando dos limites na caverna sagrada.
— Você não pode tê-la, Avram, e fico de coração partido
agora, ao saber o que fiz. Mas todos os arranjos já foram
feitos com Parthalan, os acordos estabelecidos. Juramos
diante da Deusa. Não podemos voltar atrás em nossa palavra.
— Yubal pousou a mão pesada no ombro de Avram. — Mas
pense nisto: Marit estará em nossa casa, a salvo e protegida.
E estará aqui quando você voltar do Grande Mar.
Avram sentia-se totalmente infeliz.
— Os caçadores de madrepérola se ausentam por um ano a
cada vez.
— Mas eles retornam para esculpir e vender suas conchas.
Você ficará com Marit então.
— Eu morrerei no Grande Mar.
Yubal suspirou. O dia não correra como ele esperara. Ainda
assim, nada se podia fazer a respeito. Além disso, Avram era
jovem, superaria o problema. Era hora de prosseguir e se
lembrar do que tinham ido fazer na caverna. Mas, primeiro,
havia algo mais que Yubal queria fazer.
Ele usava uma presa de lobo numa tira de couro em volta do
pescoço. Certa vez estivera caçando nas colinas e fora
atacado por um lobo. Yubal por pouco não morrera — seu
corpo ainda exibia as cicatrizes. Os homens que o trouxeram
para casa, coberto de sangue, também tinham trazido o lobo
morto, com a faca de Yubal enterrada em seu peito. Yubal
mais tarde retirou uma das presas do lobo como troféu e a
colocou num pingente: um grande canino amarelo ainda
com as manchas cor de ferrugem de seu próprio sangue. Era
uma poderosa proteção contra malefícios porque possuía o
espírito do lobo.
Ele tirou a presa do pescoço e a pendurou no pescoço de
Avram.
— Para protegê-lo enquanto estiver no Grande Mar.
O jovem ficou sem fala. Olhou para o poderoso talismã e
sentiu uma constrição na garganta. Custou a encontrar a voz.
— Juro honrar a família e o seu contrato com Parthalan,
abba.
E na sua mente ele viu Marit, acenando adeus de um outeiro,
sua figura ficando menor até se perder de vista.
Só mesmo um cego, pensou Hadadezer cinicamente, não
veria que Yubal tinha cometido um terrível erro.
Enquanto devorava um pernil de cordeiro, o mercador de
obsidiana vez por outra limpava as mãos gordurosas na sua
farta barba e olhava em torno, achando que o banquete mais
parecia um funeral do que uma festa. Os irmãos da garota do
clã de Serophia contemplavam o dote. Molok bebia demais.
A mãe de Marit exibia um falso riso, demasiadamente alto.
Usando jóias de conchas e ossos em excesso, parecia que a
qualquer momento desabaria sob todo aquele peso. A avó da
Casa de Talitha, exibindo um rosto nauseantemente doce,
bajulava os convidados. E havia comida demais, mesmo para
estas famílias ricas. O que esperavam? Que uns poucos
gestos, um ritual prescrito, juras diante de sua deusa —- e de
repente todo o ódio que tinha sido entranhado neles desde o
nascimento desapareceria? Pelo Grande Criador! Havia má
sorte demais pairando sobre o banquete. Pela primeira vez,
em todos os seus anos de comes e bebes no Lugar da
Nascente Perene, Hadadezer estava ansioso por voltar para
sua própria tenda e afastar-se daquela atmosfera aziaga.
Infelizmente, era um convidado de honra — sua caravana
deveria partir no dia seguinte para o norte — e, portanto não
podia se retirar. Tinha de ficar sentado naquela festa
deplorável e depois seguir a procissão que sairia da casa da
garota até seu novo lar. Uma curta distância separava a Casa
de Serophia da de Talitha, mas na mente de Hadadezer seria
um cortejo interminável. Suspirou. Felizmente não se
esperava que adiasse sua partida para juntar-se à procissão
que levaria o taciturno garoto do clã Talitha, Avram, para seu
novo lar com os fabricantes de conchas.
Pelo menos a garota parecia feliz, sentada no seu pequeno
trono decorado com flores de inverno, na cabeça uma coroa
de flores de loureiro, o peito mal se elevando e baixando ao
peso de tantos colares de conchas de cauri, presentes da
família e de amigos. Mas seus novos parentes, Yubal e
Avram, pareciam tão desolados quanto duas almas poderiam
estar. E estavam bebendo demais, mesmo para os padrões de
Hadadezer.
A noite arrastou-se com um falso ar de felicidade até que
finalmente a sacerdotisa Reina deu o sinal para que se
efetivasse o estágio final da unificação das duas famílias.
Hadadezer suspirou de alívio e sinalizou para seus
carregadores, que imediatamente se apresentaram e puseram
nos ombros a liteira. Seguiram a garota e sua família a uma
distância discreta, depois o mercador fez outro sinal e seus
carregadores desviaram-se da procissão e levaram o amo para
o acampamento da caravana, onde duas jovens adoráveis
aguardavam para partilhar a cama dele.
Yubal mal podia caminhar. Lamentava tanto o contrato que
fizera com os caçadores de madrepérola—na verdade achara
que Avram receberia a notícia com satisfação — que enfiara
mais vinho pela goela abaixo do que estava acostumado.
Uma dor profunda que nenhuma quantidade de bebida
fermentada poderia amenizar também afligia Yubal: a
realidade de que ele tivera de procurar Molok para propor
esta aliança. Embora de início se sentisse presunçoso ao
saber do desespero de Molok para salvar seu decadente
negócio de cerveja, até mesmo saindo das negociações
achando que fizera um favor ao homem, a realidade do passo
que tinha dado agora estava cravada na sua garganta como
um espinho. Por maiores que fossem as bênçãos da Deusa ou
os bons augúrios dos amigos, as garantias dos videntes e dos
leitores de astros de que fizera a coisa certa, nada podia
afastar a sensação amarga no estômago de Yubal. Ele ainda
odiava o clã de Serophia, Molok acima de todos, e agora
lamentava não ter encontrado outro jeito de proteger seu
vinhedo.
Avram também estava infeliz porque partiria em uma
semana para passar um ano fora. E, assim, também bebera
mais vinho do que estava acostumado.
Quando o cortejo chegou à casa de Talitha, Reina invocou as
bênçãos da Deusa e o grupo reunido saudou e desejou
felicidades às suas famílias. Molok e sua irmã deram um beijo
de despedida em Marit, os carrancudos irmãos dela olharam
para Yubal e mandaram-lhe uma mensagem silenciosa de
que estariam muito atentos ao bem-estar da irmã. E então o
grupo se desfez, com Yubal e Avram cambaleando bêbados
para seus catres enquanto a avó conduzia Marit para a parte
da casa destinada às mulheres.
A lua estava cheia, amarela e protuberante, mais parecendo
uma lua de primavera do que de inverno, e penetrava através
do telhado de palha com mil raios minúsculos. A luz
radiante também penetrou pela pequena janela na parede de
tijolos de lodo e caiu em frente a Marit enquanto ela se
deitava de olhos arregalados em sua nova cama. Ela
aguardava por Avram. Haviam combinado que, quando
todos estivessem dormindo, ele viria para a cama dela.
Mas onde ele estava?
Ela prestou atenção no silêncio na casa, quebrado apenas
pelo ressonar da velha e dos irmãos mais novos. Depois,
decidindo que não esperaria mais, deslizou para fora da
cama, nua, e foi pé ante pé até o outro lado.
No mesmo momento, Yubal agitava-se num sonho afetado
pela lua no qual a sua amada parceira de cama, a mãe de
Avram, lhe aparecia, dizendo que não estava morta, afinal, e
que voltara para ele. Mas enquanto a tomava nos braços e
eles começavam a fazer amor, acordou de súbito e piscou
numa névoa de embriaguez, incapaz de distinguir entre
sonho e realidade. Para onde ela tinha ido?
Ouvindo um som, virou a cabeça para o lado e a viu — a
mãe de Avram, jovem, esguia e nua, atravessando na ponta
dos pés o cômodo comunal. Ela estava vindo para o lado
masculino da casa, para ele.
Yubal conseguiu se levantar e se aproximar dela, puxando-a
rudemente para seus braços.
O grito de Marit acordou Avram. Ele piscou na escuridão e
franziu o cenho para as duas figuras humanas capturadas
brevemente na luz irregular da lua. Teve dificuldade de se
livrar da visão dupla. Esfregou os olhos e observou de novo.
Ele levantou-se e caiu de joelhos. Não, devia estar sonhando.
Era uma alucinação.
Olhou para eles novamente. A imagem nadava diante dele,
como se a casa houvesse de alguma forma afundado na
nascente perene, estivesse debaixo da água. Viu braços
pálidos contorcendo-se como serpentes, e duas cabeças
realizando uma dança estranha. Pernas trôpegas, corpos se
agitando. Amantes num abraço aquático.
E então vivenciou um daqueles momentos de clareza
absoluta em meio a um estupor embriagado: Marit! Nos
braços de Yubal!
Tentou outra vez se pôr de pé, mas o chão debaixo dele
oscilava e balançava como a torre de observação numa
tempestade. A bile subiu- lhe à garganta e ele percebeu que
ia vomitar.
Correu para fora a tempo, vomitando no pequeno canteiro
de repolho de sua avó. Aspirou o ar noturno e quando
começava a voltar para a casa, a náusea recomeçou.
As mãos de Yubal no corpo de Marit.
Tentou voltar, porém um mal-estar pior do que aquele
causado pelo vinho o sobrepujou. Yubal e Marit! Seus
pensamentos voavam e colidiam, sem coesão, não passando
de uma mixórdia de conceitos e sentimentos borrados.
Assim, ele virou-se e correu. Suando e sentindo-se mal, com
o mundo rodopiando a sua volta, se embrenhou no vinhedo,
onde seu cérebro intoxicado explodiu com pensamentos
irracionais. A mente perturbada de Avram chegou a noção
de que Yubal planejara tudo aquilo só para ter Marit.
— Não — sussurrou, enquanto desabava no chão.—Não pode
ser.
Tentou achar um sentido para o que seus olhos tinham visto,
mas o cérebro estava encharcado de vinho, os pensamentos
não vinham numa ordem lógica. De repente, raiva e ciúme
explodiram dentro dele.
Erguendo o punho em direção ao céu, gritou:
— Você me traiu! — Engasgou nos seus soluços enquanto se
equilibrava nas pernas trôpegas. — Fez tudo isto de
propósito! Trazendo minha amada para a casa e me enviando
para o Grande Mar. Você queria ela para si o tempo todo!
Maldito seja, Yubal! Que sofra mil mortes terríveis!
Soluçando cheio de náuseas, o mundo rodopiando a sua
volta, Avram correu de novo, chocando-se com as videiras,
os olhos cegados pelas lágrimas, a doença de corpo e alma
engolfando-o enquanto mergulhava numa escuridão que o
engoliu por completo.
Luz brilhante. Gemidos.
Avram jazia completamente imóvel, imaginando por que se
sentia tão mal. A cabeça martelava e o estômago roncava. A
boca parecia tão seca como poeira e amarga.
Outro gemido. Ele percebeu que saíra de sua própria
garganta.
Pouco a pouco, ergueu as pálpebras e se acostumou com a
luz. Luz do sol, filtrando-se por uma abertura numa tenda.
Por que ele estava numa tenda?
Quando tentou se sentar, a náusea o percorreu numa onda
tão poderosa que ele caiu de costas no leito. Um leito de
peles. Não o seu próprio leito.
De quem era aquela tenda? E por que ele estava nela? Como
chegara ali? Tentou se lembrar, mas sua mente estava escura
como um tanque de lama. A memória chegou-lhe em vagas
reminiscências: o banquete celebrando a aliança das duas
famílias, o cortejo para casa. Sua avó conduzindo Marit para
o setor feminino da casa, ele e Yubal se deitando nas suas
esteiras de dormir.
A partir daí, nada.
Quando ouviu um som sussurrante, voltou-se na sua direção
e viu uma mulher de pele escura embalando utensílios de
cozinha num cesto. Tentou falar e, quando ela viu que ele
estava acordado, deu-lhe um odre de água para beber,
explicando que ela e suas irmãs o haviam encontrado do lado
de fora da tenda, jazendo sobre o próprio vômito.
Trouxeram- no para dentro e o limparam, depois deixaram-
no dormir.
Ele sentou-se e aninhou a cabeça, que estava cheia de
demônios furiosos. O jovem de 16 anos não se lembrava de
ter-se sentido tão mal em sua vida. Estava doente?
Vomitando? Mas por que ali no acampamento da caravana?
Por que não na sua casa?
Ele conseguiu se ajoelhar, depois se pôr de pé, mas oscilou
instavelmente e sua cabeça martelou sem piedade. Confuso,
observou a mulher azafamada em levar coisas para fora da
tenda. De fato, tudo que restava era o leito onde tinha
dormido. Então lembrou-se: a caravana de Hadadezer estava
partindo esta manhã.
Devo voltar para casa antes que notem que saí.
Mas a luz cegante do sol o fez parar na abertura da tenda.
Pondo a mão sobre os olhos, combateu a náusea crescente e
tentou aprumar-se. Sua bexiga estava cheia e ele tinha
urgência em aliviar-se.
Havia privacidade atrás da tenda. Enquanto urinava, viu o
vasto acampamento sendo desmontado. Então virou-se na
direção do assentamento, onde percebeu que um grande
coro de choro e lamento erguia-se para o céu, um som que
só ocorria quando alguém importante tinha morrido.
Contornando a frente da tenda onde a mulher de pele escura
estava descravando as estacas, Avram perguntou-lhe o que
havia acontecido no assentamento. Ela explicou que um
vinicultor estivera fazendo amor com uma garota e morrera
nos braços dela.
Avram pestanejou para ela. Um vinicultor? Fazendo amor
com uma garota?
E tudo retornou: Avram acordando para ver Yubal beijando
Marit. A fuga para a horta, o punho erguido e a maldição
gritada aos céus. E então...
Agora se lembrava, uma cena indistinta e horrenda que
observara do seu esconderijo entre as videiras: um grito,
seguido por Marit correndo da casa. Sua avó saindo,
chorando e golpeando o peito. Os irmãos de Avram
cambaleando como se atingidos por um raio. Outras pessoas
chegando, indo para a casa. Os vizinhos gritando: "Yubal está
morto! O abba da Casa de Talitha foi juntar-se aos seus
ancestrais."
Avram agora lembrava-se do seu choque embriagado à
ocasião, escondido nas videiras, sem conseguir sair do lugar
em estupefação. Yubal estava morto?
E então a lembrança: Avram, sacudindo um punho para o
céu. "Que sofra mil mortes horríveis!"
Ele correu às cegas do vinhedo, nauseado e confuso,
descobrindo-se no santuário da Deusa.
A memória retornou-lhe, indistinta e obscura. A casa de Al-
Iari, pequena e de teto rebaixado, o interior escuro
iluminado por lamparinas que lançavam luz sobre prateleiras
repletas de amuletos mágicos, ervas curativas, poções, pós e
encantos para fertilidade. E acima o altar dela...
A estátua.
E, deslumbrante à luz das lamparinas, a pedra azul. O
coração da Deusa. O seu coração clemente. Em seu
desespero embriagado, Avram tinha impulsivamente lançado
os braços em torno das pernas de pedra de Al-Iari, perdendo
o equilíbrio e levando a imagem ansiada com ele. Um
estalido alto.
Avram agora cambaleava contra a tenda como se tivesse sido
atingido. A Deusa caída estilhaçada no chão.
Não podia ter sido real! Não passava de um distorcido e
monstruoso pesadelo.
Quando ouviu alguém fazendo-lhe uma pergunta, ele piscou
para a mulher de pele escura.
— Você conhece o vinicultor? — repetiu ela.
Mas tudo em que ele conseguia pensar era na estátua
estilhaçada de Al-Iari. Não houve nenhum pesadelo, tinha
sido real. Ele havia matado a Deusa!
E então outra lembrança: o cristal azul, sua mão buscando-o
cegamente, enroscando-se em volta dele, tateando por seu
talismã, enfiando a pedra dentro da macia bolsa de couro.
A respiração suspensa pelo choque, Avram trouxe agora a
mão para cima e pousou-a sobre o peito, onde podia sentir,
sob a túnica, a protuberância do talismã. Mas agora estava
maior e tinha uma nova solidez.
A pedra azul, o coração da Deusa.
Tentou se mover, tentou gritar, forçar lágrimas, impelir os
pulmões a expressar seu ultraje e pesar. Mas nada dentro dele
se moveu, seu corpo não obedecia. Como um homem sob
um encantamento, observou as mulheres desmontarem a
tenda e a empacotarem num trenó. E quando começaram a
caminhar com o restante da caravana, um êxodo em massa
se retirando do Lugar da Nascente Perene, Avram, sem
hesitar, juntou-se a ela.
Era uma família de sete mulheres: avó, mãe, três filhas e duas
primas. Disseram-lhe que eram emplumadoras e que seria
bem-vindo se quisesse acompanhá-las. E assim ele seguiu
com as emplumadoras, um rapaz mudo e sem nome que
teria deixado as mulheres precavidas se não fosse tão bem-
apessoado e nitidamente o filho de uma família rica.
Os dias e semanas se passaram numa névoa. Avram fazia o
trabalho pesado para as mulheres durante o dia e à noite elas
o acarinhavam e beijavam, dizendo que ele era um garoto
muito bonito, e o atraíam para seus corpos cheios de luxúria.
Passado algum tempo, o entorpecimento se desvaneceu e
Avram reconheceu o completo infeliz em que se trans-
formara. Ele matara seu abba, trouxera desgraça para sua
linhagem e rompera um contrato com Parthalan, tinha
abandonado Marit e, ao roubar o coração da Deusa, a havia
matado igualmente. E assim ele permitia que as mulheres,
que desconheciam os detalhes de sua tragédia, o
consolassem e lhe oferecessem refúgio.
Elas ignoravam que o garoto viajando em sua companhia não
passava de uma sombra, uma carapaça sem alma que não
tinha nenhum objetivo. Seu corpo movia-se por instinto —
para dormir, comer, urinar. Quando uma xícara era colocada
em suas mãos ele bebia, e quando as mulheres visitavam seu
leito à noite, o corpo de Avram reagia como o de um
homem e ele extraía seu prazer. Mas o próprio Avram não
sentia nenhum prazer, nenhuma fome ou dor. Ele se movia
num domínio que não pertencia nem aos vivos nem aos
mortos.
A caravana seguia rumo ao norte, um lento rio de
humanidade sobrecarregada, parando em pequenos
assentamentos e depois prosseguindo, passando pelo lago de
água doce e a Caverna de Al-Iari, na floresta luxuriante onde
crescia a árvore lebonah. Avram puxava o trenó das
emplumadoras e montava a tenda delas à noite enquanto
suas companhias femininas o alimentavam e se deliciavam
com sua juventude e inocência. E embora ele houvesse
perdido todo cuidado com sua própria segurança e bem-
estar, alguma coisa nele o fazia manter-se escondido de
Hadadezer, que tinha sido amigo de Yubal.
Entorpecido em mente, corpo e espírito, Avram observava
as emplumadoras no seu habilidoso trabalho. O talento delas,
conhecido ao longo da rota da caravana, que ia das
montanhas do extremo norte ao delta do Nilo, residia no seu
instinto para dispor penas sobre couro do modo como eram
assentadas em camadas num pássaro. Eram também peritas
no uso da cor, de modo que seus leques, capas, cintos e
capuzes obtinham os mais altos preços.
Sabendo que havia um espírito mau de doença dentro dele, a
matriarca alimentava Avram com infusões medicinais
destinadas a afastar os maus espíritos. Ela cantarolava sobre
Avram e pousava nele as mãos curativas. Suas filhas e
sobrinhas o rodeavam num adorável círculo e cantavam para
ele, especialmente quando ele acordava dos pesadelos nos
quais via-se correndo atrás de Yubal, tentando chamá-lo de
volta.
Talvez não houvesse um espírito maligno dentro dele, afinal,
a matriarca por fim decretou quando as suas ministrações
não apresentaram reação. Talvez o próprio espírito do rapaz
tivesse morrido. E uma vez morto, um espírito não podia ser
revivido.
Era primavera quando a caravana finalmente emergiu de um
desfiladeiro da montanha e serpenteou para seu platô imenso
e relvoso onde outras famílias estavam acampadas junto a
um lago raso. As emplumadoras convidaram Avram a
continuar com elas até a sua aldeia de casas de pedra, situada
a apenas um dia de viagem, onde ele poderia viver uma vida
de ócio com elas por dois anos, antes que se juntassem de
novo à caravana de Hadadezer. Mas ele sentiu uma
compulsão em movimento, o sol poente chamando-o por
motivos que não entendia. Ele descobriu que este era um
acampamento de inverno e que uma vez que as chuvas
cessassem as famílias ali acampadas descravariam as estacas
das tendas e seguiriam os rebanhos que migrariam em busca
da relva de primavera. Portanto foi até as tendas e ofereceu-
se como trabalhador braçal caso lhe permitissem viajar com
eles.
E assim Avram continuou a sua fuga do Lugar da Nascente
Perene. As emplumadoras deram-lhe um adeus lacrimoso e
uma linda capa feita com penas de ganso, e com sua nova
família ele viajou através do platô da Anatólia, uma suave
planura de relva baixa, salgueiros atrofiados e tulipas e
peônias silvestres. Eles seguiram enormes manadas de
cavalos, burros e antílopes selvagens. Avram viu os camelos
de corcova dupla, marmotas gordas se aquecendo ao sol,
estorninhos cor-de-rosa agrupados aos milhares, e grous que
construíam os ninhos no solo. Mas, no que lhe interessava,
todas essas maravilhas poderiam ter sido cinza e pedra.
Avram não dissera seu nome nem contara sua história à
família nômade, mas trabalhava duro para eles e mantinha
sua paz. Quando as mulheres rastejavam para o seu leito,
reagia tão objetiva e mecanicamente como tinha sido com as
emplumadoras. Ele dava-lhes prazer com seu corpo, mas não
dava nada do seu coração.
Quando chegaram à orla ocidental do platô, ele acenou para
a família e continuou a descida para o litoral, onde alcançou
um exíguo corpo de água que erroneamente tomou por um
rio, não sabendo que era de fato um estreito ligando dois
grandes mares e separando dois continentes. Avram também
não sabia do encolhimento de geleiras no continente
europeu e da resultante elevação do nível do mar, que ao
longo dos milênios transformaria este pequeno estreito
numa ampla passagem de navegação que seria um dia
chamado de Bósforo.
Foi aqui que ele viu barcos pela primeira vez e conheceu um
homem que o levaria para o outro lado. Avram acabara de
completar 18 anos e achava que sua vida chegava ao fim.
Ele viajava sozinho.
Se percebia sinais de humanos, fazia um longo contorno para
evitá-los. E na sua auto-suficiência adquirida durante a
inflexível jornada para o ocidente, Avram o sonhador
tornou-se gradualmente Avram o caçador, aquele que
preparava as armadilhas, o pescador. Ele desenvolveu
armadilhas para pegar coelhos e lanças para pescar salmão.
Escavava em busca de crustáceos ao longo das praias e
dormia ao lado de uma fogueira solitária à noite. A capa de
penas o protegia do vento e da chuva e durante o verão
inclemente ele a pendurava em estacas para fazer sombra.
Seu corpo adolescente magro começou a ganhar
musculatura, e a barba despontou. Ele prosseguia para oeste
quando podia, mas quando encontrava litorais e via-se à orla
de mares sem praias do lado oposto, movia-se rumo ao
norte, sem saber que estava traçando rotas que oito milênios
depois seriam seguidas por homens chamados Alexandre, o
Grande, e São Paulo.
No estuário na costa leste da terra que um dia seria chamada
Itália, ele se deparou com uma aldeia onde pessoas comiam
uma quantidade tremenda de amêijoas; tinham até mesmo
uma ferramenta especial de sílex para abri-las. Aquele povo
vivia em abrigos de palha que vinham abaixo a cada
tempestade. Como Avram fizera uma exaustiva viagem e
necessitava de descanso, decidiu permanecer com eles por
uma estação e depois seguir em frente. Mas não dissera aos
comedores de amêijoas o seu nome e sua história, nem
aprendera a língua deles, pois agora considerava a vida uma
efêmera impermanência, e saber de nomes e histórias não
tinha mais importância. Sempre que ansiava por seu lar no
Lugar da Nascente Perene, ou experimentava sentimentos
cálidos naquela direção, ele endurecia seu coração juvenil e
se recordava do crime que havia cometido e da desonra que
trouxera para sua família. Era um homem amaldiçoado e
destinado a ser excluído para sempre de seu próprio povo.
O horizonte continuava a chamá-lo, tal como na sua
infância, só que agora ele o seguia não para ver o que havia
do outro lado, mas sim porque não tinha mais para onde ir. E
na sua necessidade irracional de pôr cada vez mais chão
debaixo de seus pés, em lugar nenhum encontrou outro
assentamento igual ao seu na nascente perene. Certa vez
havia imaginado que em toda parte as pessoas viviam em
casas feitas de tijolos de lodo e mantinham seus próprios
pomares, mas agora via, enquanto viajava para o norte,
atravessando rios e prados sem nome, subindo colinas e
picos, que os habitantes do Lugar da Nascente Perene eram
únicos no mundo.
Soube também algo mais: por causa da presa de lobo que
Yubal lhe dera na caverna sagrada do vinho, ele não podia
sofrer dano algum. Nos dias e semanas viajando para a
nascente do rio Jordão e além, e depois para oeste através do
platô anatoliano, e finalmente ao fazer a travessia num barco
de fundo chato, nenhum dano sofrera. Se os comedores de
amêijoas o receberam bem, outros o trataram com cautela.
Os animais o deixavam em paz. E assim ele veio a perceber
que era o poder do espírito do lobo que o protegia.
Mas a proteção não lhe trazia nenhuma alegria ou auxílio,
pois havia uma certa ironia no fato de Yubal ter dado a ele a
presa de lobo. Se Yubal a tivesse conservado para si, a
maldição de Avram não o teria matado.
Ele continuou rumo ao norte, seguindo rios caudalosos e
sobrevivendo em montanhas mais altas do que qualquer uma
que já vira. Descobriu florestas e bétulas, pinheiros e
carvalho nas quais a caça principal era o cervo vermelho e
gado selvagem. Ali deparou com uma raça de caçadores de
bisões. Ele trocou sua capa de penas, que já não era mais
excelente, mas ainda assim uma novidade, por peles, botas e
lança adequadas. Juntava-se a grupos de caça, ficava com eles
por um tempo e depois seguia viagem. Ele nunca revelava o
seu nome, jamais contava a sua história. Mas era um bom
caçador, sempre dividia a caça, respeitava as leis e os tabus
dos outros e nunca se deitava com uma mulher sem o
consentimento dela.
Em todo este tempo mantinha a pedra azul junto ao peito,
escondida, um símbolo de seus crimes e sua vergonha.
Desde sua fuga do Lugar da Nascente Perene que ele não a
tirava de sua bolsinha-talismã. Mas nem um dia se passava
sem que não estivesse ciente de sua presença ali: fria,
impessoal, sentenciosa. E à noite, quando era visitado por
sonhos — de Marit procurando por ele no Vale dos Corvos,
Yubal chamando-o para baixo da torre de observação —,
nada contava aos companheiros a respeito do seu tormento.
Chegou o dia em que a inquietação lhe sobreveio
novamente. Olhando para o norte, perguntou aos caçadores
de bisão o que havia naquela direção. "Fantasmas", eles
disseram.
Assim, Avram disse adeus aos caçadores de bisão e seguiu
rumo ao norte para a terra dos fantasmas.
Enrolado em peles, com lanças e flechas amarradas às costas,
e viajando sobre as raquetes de neve que os caçadores lhe
tinham dado, Avram finalmente chegou à orla de uma vasta
e branca região selvagem. Havia mais neve do que ele já vira,
neve infinita sem nenhuma montanha oposta, nem mesmo
um horizonte, e os ventos sopravam mais ferozmente do
que jamais imaginara, produzindo rajadas uivantes, mais
parecidas com os gritos de mil demônios, que lhe
atravessavam a pele até congelar seu próprio núcleo. Ele
pensou: Cheguei ao fim do mundo. Este é o meu destino.
Enquanto começava a caminhar, o vento mudou e soprou
seu capuz de pele para trás, fulminando seu rosto com um
bafo gélido. Pegando rapidamente o capuz e mantendo-o
com firmeza debaixo do queixo, ele prosseguiu em frente,
ignorando que de fato estava cruzando um mar, que não se
encontrava mais em terra firme. Não fazia idéia do que havia
no fim de sua jornada, exceto uma vaga noção de que se
dirigia para a terra dos mortos. Enquanto lhe ocorria que já
deveria estar morto e que isto era uma mera formalidade, o
gelo sob seus pés subitamente cedeu, mergulhando-o na
água gelada.
Avram lutou freneticamente por um apoio no gelo, que
continuava a se quebrar sob suas luvas de pele. Enquanto se
debatia na água, algo chocou-se contra suas pernas e ele
vislumbrou um enorme monstro marrom nadando em volta
dele. Foi dominado pelo terror. Não desejava mais estar
morto, mas sim bem vivo. Porém seus esforços eram fúteis
enquanto sentia as pernas se entorpecerem na água, um
entorpecimento que começava a se arrastar por todo o
corpo. Quando o último ponto de apoio no gelo se rompeu e
a água gélida cobriu-lhe a cabeça, seu último pensamento foi
para Marit e para o cálido brilho do sol.
Avram estava voando. Mas não como um pássaro, percebeu,
pois estava meio sentado, meio reclinado, os braços
dobrados confortavelmente sobre o peito, debaixo de uma
pilha de peles. É assim que os mortos viajam para a terra dos
ancestrais?
Enquanto piscava através de uma camada de pele em volta
da face, viu a paisagem toda branca passar correndo. Franziu
o cenho. Não voava, tampouco estava correndo, pois suas
pernas estavam esticadas diante dele e igualmente
embrulhadas em peles quentes. Olhou direto à frente e
quando seus olhos foram capazes de focalizar, viu que estava
sendo transportado por uma alcatéia de lobos. Sou o jantar
deles. Talvez fosse uma vingança por Yubal ter matado
aquele lobo tantos anos atrás. Portanto, a presa não mais
servia como proteção.
Podem me comer então, gritou sua mente. É o que mereço.
E de novo caiu na inconsciência.
Quando acordou em seguida, a sensação de voar tinha
diminuído e ele viu pequenas colinas redondas e brancas se
delineando mais perto. Olhou para os lobos de novo e desta
vez percebeu que não eram lobos comuns e que pareciam
estar atrelados a tiras de couro. Quando ouviu um grito,
notou que alguém estava de pé logo atrás, elevando-se acima
dele, gritando comandos para os lobos. Tentou ver um rosto,
mas ele estava coberto com peles.
Decidindo que não tinha certeza de que preferia estar morto,
desmaiou de novo e quando acordou foi para descobrir-se
num pequeno lugar escuro que cheirava a óleo queimado e a
suor humano. Piscou e tentou ajustar a visão. O teto era feito
de gelo. Estaria ele numa caverna de gelo? Nada disso, ele
podia ver as suturas onde os blocos de gelo se uniam. Era
uma casa — feita de gelo. E estava deitado em algum tipo de
leito, e por debaixo das peles estava nu. Alguém lhe tirara as
roupas! Tentou apalpar seu talismã, mas havia algo errado
com seus braços. Não conseguia movê-los.
Uma voz próxima, a seguir uma sombra na parede. Piscou de
novo e viu um rosto entrar em foco. Velho, enrugado e com
um sorriso desdentado. Ela falou. Por fim, ele achou que era
uma mulher. E então, para seu espanto, ela retirou suas
cobertas, expondo-o ao ar. "Mulher indecente!", gritou, só
para perceber que o grito tinha sido dentro de sua cabeça.
Ele não podia mover a mandíbula, nem mesmo abrir a boca.
Enquanto Avram jazia alquebrado e indefeso, a velha
escancarou sua boca e espiou dentro; depois inspecionou seu
umbigo e estimulou os testículos. Finalmente, as mãos rudes
começaram a trabalhar na sua carne congelada, primeiro
apertando e pressionando seus dedos, depois massageando a
vida de volta a eles. Ergueu as mãos dele até sua boca e
soprou nelas. Ele não sentiu o hálito quente nem o toque das
mãos. E quando ela se inclinou sobre seu corpo, continuou a
não sentir nada.
Ela parou e lançou-lhe um olhar preocupado. Após proferir
algumas palavras incompreensíveis, rastejou para fora do
abrigo por uma abertura que não havia notado antes. "Você
não tem que deitar em cima de mim!" ele queria gritar, mas
seus lábios e a língua não obedeciam.
Ela não o deixou por longo tempo e quando saiu e retornou,
estava acompanhada de outra pessoa, uma figura alta e de
ombros largos. Avram observou intrigado a outra pessoa
despir camadas de roupas para revelar seios fartos, cintura
fina e quadris deslumbrantes. Ela deitou-se ao lado dele e o
tomou nos braços. A velha os cobriu e saiu da cabana de
gelo.
Avram vagueou dentro e fora da consciência muitas vezes
antes de ficar plenamente desperto. A primeira coisa que
notou foram as pestanas douradas jazendo no alto de faces
pálidas, um nariz afilado e uma larga boca rosada. Bem mais
tarde, ele descobriria que o nome dela era Frida e que fora
quem salvara sua vida ao puxá-lo do gelo.
Sua recuperação levou semanas e deveu-se principalmente a
Frida e à velha, que o massageavam e alimentavam com
peixe e sopa e ervas curativas. Homens vieram olhá-lo,
agachando-se no interior da pequena casa e fazendo
perguntas que não entendia. A cada noite ele sentia-se ador-
mecer nos braços cálidos de Frida e despertar na manhã
seguinte para descobrir o cabelo cor de linho dela espalhado
sobre seu peito. Na manhã em que acordou com uma ereção,
a velha declarou-o curado e Frida não dormiu mais com ele
depois disso.
Mais tarde, ele descobriria por que salvaram sua vida e por
que dividiram com ele o pequeno estoque de comida que
tinham. Antes que ele houvesse caído no gelo, antes que
tivesse começado sua jornada através do mar congelado, um
vento soprara o capuz da sua cabeça e Frida o tinha visto.
Ignorando que havia gente por perto, Avram pegara o capuz
de volta e começava a seguir pelo ermo congelado, mas não
sem Frida ter visto o cabelo preto e a pele trigueira. Entre os
deuses deles, ela explicaria mais tarde, depois que Avram
aprendeu a língua, os de cabelo escuro eram os guardiães das
florestas e cavernas e possuíam poderes prodigiosos.
Certa manhã, finalmente, a velha depositou as roupas de
Avram diante dele, novamente secas e macias, e ele
ansiosamente as vestiu. Não conteve a alegria ao ver seu
talismã, ainda na bolsinha de couro, e que pareceu-lhe estar
intocado. Mas mesmo assim a abriu, para certificar-se de que
nada de valor se tivesse perdido na sua luta com o gelo.
Embora a velha observasse curiosa à medida que os objetos
eram retirados — a tira que era o seu ressequido cordão
umbilical, um dente de bebê, a presa de lobo de Yubal —, foi
só quando viu o cristal azul que ela gritou.
Para espanto de Avram, ela rastejou apressada retirando-se
da casa de gelo e ele pôde ouvi-la gritando lá fora. Um
momento depois, o homem mais corpulento que Avram já
vira espremeu-se para dentro. Por um instante, Avram
pensou que o estranho ia roubar o cristal. Em vez disso, ele
se acocorou no chão de gelo e olhou maravilhado para a
pedra. Olhou para Avram e fez uma pergunta à qual este só
pôde responder: "Não entendo a língua de vocês." O homem
assentiu e começou a se retirar. Depois parou e fez sinal para
que Avram o seguisse.
Com o talismã em segurança em torno de seu pescoço e
oculto de novo sob a túnica de pele, Avram deu seus
primeiros passos para descobrir que a "manhã" tinha raiado
apenas em sua imaginação, pois descobriu-se numa terra de
escuridão constante.
O povo reuniu-se em volta dele, timidamente curioso acerca
do recém-chegado. Usavam jaquetas com capuz, calças e
botas, à prova de água, de pele de foca, e todos eram tão
parecidos que ele imaginou como os homens e mulheres
podiam distinguir seus parceiros nos momentos de prazer.
Mas a maioria deles se assemelhava a fantasmas, pois a pele
era como fumaça branca e o cabelo tinha a cor de trigo
desbotado. E como eram altos! Até mesmo as mulheres
superavam Avram em altura. Elas pareciam considerar uma
novidade a sua baixa estatura, cabelo preto e pele azeitonada.
O líder do clã apresentou-se como Bodolf.
Na sua jornada pelo continente, Avram havia encontrado
ursos. Bodolf lhe lembrava um urso — um urso enorme e
pálido, com uma risada trovejante. Bodolf não usava
nenhum óleo em sua barba, como faziam os homens no clã
de Avram, mas trançava o longo cabelo louro. Todavia, suas
tranças não eram adornadas com conchas e contas, mas sim
com ossos de dedos humanos. "Arrancados dos cadáveres de
nossos inimigos", Bodolf vangloriou-se mais tarde.
Avram foi então apresentado a um homem chamado Eskil, a
quem considerou irmão de Bodolf, tão forte era a
semelhança. Mas então reparou que Eskil era
consideravelmente mais jovem — tio e sobrinho talvez? E
então tudo se esclareceu quando Bodolf disse:
"Eskil e eu não somos parentes de sangue. Ele é filho de
minha parceira de fogueira, a mulher com quem passei todos
os meus invernos." Bodolf era um daqueles que não
buscavam variedade, mas satisfazia-se com a mesma mulher
a cada ano.
Aquela noite — embora o sol nem tivesse despontado —- o
clã realizou um banquete em homenagem ao seu visitante
que possuía um pedaço do céu. Avram comeu foca pela
primeira vez na vida, e também experimentou azeite de
baleia e a carne de um urso cuja pele era branca como a
neve. Eles ansiavam impressioná-lo com sua iguaria favorita
— um ganso assado que tinha sido alimentado apenas com
peixe podre, o que supostamente conferia à carne um sabor
exótico, que Avram porém achou repugnante. Ainda assim,
ele estava grato por continuar vivo e na companhia de uma
raça tão hospitaleira. Especialmente as mulheres, com seus
cabelos parecendo barbas de milho e a pele macia como
fruto, que o consideravam uma novidade intrigante.
Ele continuou a partilhar a casa de gelo da velha e ganhava
seu sustento entretendo o clã com o que eles chamavam de
mentiras: descrições de palmeiras e desertos arenosos, girafas
e hipopótamos, e verões tão quentes que a água caída numa
pedra chiava e evaporava.
Aos primeiros sinais da primavera, o clã de Bodolf, que se
autodenominava o Povo da Rena, deixou as casas de gelo e
viajou de trenó para uma região montanhosa, onde pinheiros
e bétulas estavam derramando suas camadas de neve. Ali o
povo se pôs a trabalhar cortando troncos de árvores. O
trabalho prosseguiu noite e dia até que uma robusta casa de
troncos foi construída, ampla o bastante para que todos lá
vivessem e dormissem. Avram ajudava, brandindo machados
e aplicando resina de pinheiro, comendo com eles na hora
das refeições, mas dormindo sozinho à noite. Avram não
queria aprender a língua deles, não queria saber seus nomes.
Quando tinha seus momentos a sós, ele olhava para o verde
novo crescendo e, lembrando-se da primavera no Lugar da
Nascente Perene, voltava os olhos para o sul. Uma vez que
não podia mais prosseguir nem para o norte nem para oeste
— ele havia chegado à orla do mundo —, talvez fosse hora
de voltar.
Mas... para onde? Para o Lugar da Fonte Perene, onde só
conheceria desonra? Só havia uma razão para voltar: ele
fantasiava Marit vivendo na sua casa, em companhia da sua
avó e irmãos.
"Fique com a gente", Bodolf disse, pondo o braço em torno
dos ombros do rapaz. "Nós lhe contaremos nossas histórias e
você nos contará as suas. E beberemos juntos e alegraremos
os corações de nossos ancestrais."
Eles apresentaram Avram ao hidromel, uma bebida feita de
mel fermentado que consumiam em quantidades copiosas
nos meses de verão. Quando Avram provou a bebida e viu
quão atrativamente o cabelo de Frida capturava a luz do
fogo, decidiu que não havia pressa em partir.
Ele os observava na caça, ouvia-os conversar e,
gradualmente, embora a contragosto, aprendeu a língua
deles.
— Como vocês vieram viver num lugar como este? —
perguntou ele, pensando na sua terra abençoada pelo sol,
que parecia um lugar mais adequado para se viver.
— Nossos ancestrais viveram originalmente no sul. Quando
as renas ouviram os chamados para o norte, elas para lá se
dirigiram e nossos ancestrais as seguiram. — Bodolf apontou
para as montanhas se elevando da terra como facas e os
grandes rios de gelo no meio. — Os chamados vinham
daquelas geleiras. Eles foram se retirando para o norte e
deixaram para trás o líquen e o musgo de que nossa rena
tanto gostava. Assim, pode-se dizer que aquelas geleiras nos
trouxeram para cá.
— Por que elas estão se retirando?
Bodolf deu de ombros.
— Talvez o céu as esteja chamando de volta.
— E voltarão de novo? — perguntou Avram, tentando
imaginar um mundo inteiramente coberto de gelo.
— Isso depende dos deuses. Talvez. Algum dia.
Avram olhou para o cercado onde os estranhos lobos eram
mantidos. Para seu espanto, os homens os estavam
alimentando e não eram atacados.
— Como isto é possível? — indagou Avram.
— Vocês não têm cães lá na sua terra?
— O que são cães?
— Primos dos lobos.
— Vocês os domaram?
— Eles é que nos domaram — disse Bodolf com um sorriso.
— Eles se aproximaram dos nossos ancestrais e disseram: "Se
nos alimentarem, trabalharemos para vocês e lhes faremos
companhia nas noites escuras."
Avram aprendeu que o povo de Bodolf venerava a rena,
como fornecedora de alimento e peles, mas também como
criadora de vida.
Os magníficos animais eram mantidos num amplo cercado
onde tinham liberdade para circular, belos animais com pêlo
escuro e mantos brancos, e chifres tão esplêndidos que
pareciam árvores. Ver tais animais domesticados pelos
homens era um assombro para Avram, porém mais
espantoso ainda era como as renas permitiam-se ser
ordenhadas. Ele pensou em Namir e suas experiências para
domesticar as cabras e de repente adquiriu um novo respeito
pelo homem, porque não pensava que fosse possível domar
os animais.
Bodolf contou-lhe acerca dos dias dos seus ancestrais,
quando eles costumavam caçar rebanhos de renas no gelo e
como um homem havia se extraviado de seu grupo de caça.
Enquanto ele jazia na neve, congelado, faminto à beira da
morte, uma rena se materializou e agachou-se junto a ele,
mantendo-o aquecido com seu corpo maciço, permitindo
depois que ele bebesse o seu leite. E enquanto Rena o trazia
de volta à vida, ela disse para o homem: "Não nos cacem e
não nos abatam. Levem algumas de nós para viver com
vocês e os alimentaremos e manteremos aquecidos. Mas
deixem meus rebanhos vaguearem livres." Assim, eles
capturaram fêmeas por algum tempo, e então Rena chegou
ao ancestral num sonho e falou de novo: "Você não pode
separar minhas fêmeas dos machos, pois como os homens e
mulheres, minhas renas devem ter prazer." Assim, os
ancestrais trouxeram um macho para viver com as fêmeas, e
o povo teve leite para sempre depois disso.
Avram franziu o cenho.
— Mas como é que os animais obtêm prazer? — perguntou,
tentando imaginar isto.
Bodolf riu e fez um gesto com as mãos.
— Do mesmo jeito que os humanos! Os animais não são
diferentes!
Tendo visto animais apenas quando os haviam caçado nas
colinas, perseguindo-os com lanças, arcos e flechas, Avram
nunca presenciara este comportamento. Se a Deusa criou ato
de prazer íntimo para as pessoas, por que não também para
os animais?
— Com a chegada da primavera — disse Bodolf com
satisfação —, os novilhos terão nascido.
Avram cerrou as sobrancelhas.
— Como sabe disso? A lua escolhe quando os novos vão
nascer. Os homens não têm como prever isto.
Bodolf lançou-lhe um olhar impaciente.
— Vocês não têm animais na sua terra?
— Temos muitos.
— E eles não dão cria?
— Quando caçamos na primavera, vemos filhotes entre os
rebanhos.
— Então isto pode ser previsto! Porque é desta maneira —
disse Bodolf, mais uma vez fazendo um gesto rude do ato
sexual com suas mãos — que o espírito de Rena provê as
fêmeas de cria. Ela faz o mesmo com os humanos. Quando
uma mulher sonha com uma rena, ou inala a fumaça da
carne de rena no fogo, ou se usa um amuleto de rena em
volta do pescoço, ela ficará grávida. A rena é a doadora de
vida de todas as coisas. Não acontece o mesmo entre seu
povo?
— Na minha terra é a lua que deixa uma mulher com criança
— disse Avram, ainda não convencido acerca de animais e
prazer sexual.
Contudo, mais intrigante para Avram do que o enigma da
rena era o das próprias pessoas. Ele observou mais casais
permanentes entre o Povo da Rena do que entre sua própria
espécie. Não havia alianças entre famílias, mas sim entre
duas pessoas: a mulher fornecia lareira e abrigo, enquanto o
homem provinha alimento e proteção. Talvez isto se devesse
aos invernos prolongados e inclementes que tornavam a vida
mais dura aqui, fazendo, portanto a sobrevivência depender
de cooperação. Avram pensou: Um homem aqui não tem
como sair vagando à noite em busca de mulher, não é como
nas noites quentes e abafadas no Lugar da Nascente Perene,
onde a cópula é freqüente e sob as estrelas.
Quando o verão se foi e o inverno era iminente, Bodolf
propôs a Avram que escolhesse uma companheira para a
estação fria. Quando Avram disse que estava acostumado a
dormir junto aos homens, Bodolf e os outros irromperam em
riso e disseram: "Escolha uma mulher. O que há de melhor
para se manter aquecido?"
Ele pensou em Frida e descobriu que ela ainda não havia
escolhido um parceiro para o inverno. No entanto, para
obter acesso ao abrigo de uma mulher o homem primeiro
tinha de demonstrar que era um bom provedor de alimento.
E assim Bodolf e Eskil levaram Avram para fazer sua
primeira caçada.
Os caçadores deslizaram através dos ermos congelados sobre
esquis e trenós puxados por cães enquanto iam à caça do
urso polar e do alce. Avram jogou para trás seu capuz e
ergueu o rosto para o céu. Que velocidade! Que liberdade!
Ele chamou os outros e eles acenaram de volta, e por um
momento Avram se esqueceu de sua condição desolada e
amaldiçoada, de que era um assassino, um rompedor de
juramentos, um homem que havia abandonado sua amada e
maculado a honra de sua família. Durante estas poucas horas
ele se sentiu limpo e livre, e por um breve tempo se
permitiu pensar com sentimentalismo nos três irmãos,
imaginando como eles teriam apreciado esta aventura no
gelo.
Mas quando viu Bodolf e Eskil juntos, e seu vínculo especial,
isto o fez se lembrar de seu relacionamento com Yubal, e
seu coração doeu de novo com pesar. Alguma coisa ele podia
dizer a esta gente: que era possível matar um homem com
um juramento proferido.
Os dias ficaram mais curtos e o Povo da Rena deixou a
floresta e dirigiu-se ao ermo congelado para construir suas
casas de gelo. Bodolf testou a neve com sua faca em vários
lugares antes de encontrar o peso e a textura certos para a
construção.
— A neve é muito irregular aqui... macia demais no topo e
dura demais no fundo. Mas é o melhor que podemos
encontrar.
Ele e Eskil cortaram o primeiro bloco de gelo. Avram
ajudou-os a virar o enorme pedaço; a seguir, Bodolf esculpiu
um bloco utilizável do meio dele. Os blocos foram fixados
camada por camada numa espiral e quando o domo foi
completado, Bodolf escavou uma plataforma de dormir ao
varrer com a pá para fora do pequeno buraco de entrada o
excesso de neve na base do domo.
Depois de construírem o abrigo deles, Bodolf e Eskil levaram
Avram à caça da foca, que era feita no oceano congelado.
Bodolf explicou que, como as focas precisavam respirar, elas
faziam buracos no gelo quando ele começava a congelar e
depois retornavam periodicamente em busca de ar. Avram
observou enquanto os caçadores usavam seus semi-lobos
para localizar estes buracos pelo odor, depois eles deslizavam
um osso de baleia fino pelo gelo e esperavam. Quando o osso
de baleia trepidava, isto significava que a foca estava subindo
à superfície e assim o caçador rapidamente arremessava o
seu harpão. Isto exigia que um homem ficasse totalmente
imóvel por várias horas, uma tarefa à qual Avram estava
acostumado, graças aos seus turnos de vigia na torre de
observação de Yubal.
Embora todos rissem das tentativas frustradas de Avram em
arpoar uma foca, eles finalmente se uniram e o ajudaram a
capturar uma, de modo que ele não teria de passar os meses
de inverno com velhos que roncavam. Era costume trazer
uma carcaça de foca diretamente a uma mulher, pois ela
devia oferecer-lhe uma caneca de água como sinal de
hospitalidade, tornando assim propício o espírito da foca.
Portanto, Avram trouxe sua foca para Frida. Ela ofereceu
água ao animal e convidou Avram para sua lareira.
Eles estavam na casa de gelo de Bodolf e sua mulher de
muitos anos, Thornhild, com Eskil e uma garota de sorriso
tímido, e Avram e Frida, que se sentaram de mãos dadas.
Eles ouviam os lobos uivando na noite e a explicação de
Bodolf para Avram.
— Ninguém sabe por que os lobos uivam. Talvez eles vejam
fantasmas, ou estejam possuídos pelos espíritos dos homens
que mataram. Talvez gostem do som das suas próprias vozes
— disse Bodolf com um sorriso. — Eles bebiam o último
hidromel do verão e apreciavam o calor das peles e de um
braseiro fumegante na aconchegante casa de gelo. — Os
lobos têm grande satisfação em uivar juntos. Já os ouvi uivar
quando saúdam um ao outro depois de uma caçada.
— Como as pessoas — disse Avram com um sorriso.
Ele sentia-se cada vez mais à vontade com o Povo da Rena,
muito embora se achasse superior a eles e soubesse que eles
próprios se consideravam superiores a ele. Sua rivalidade era
bem-humorada. Quando Avram tentou descrever sua casa,
Bodolf perguntou:
— Vocês vivem na mesma casa o ano todo?
— Sim, e por muitos anos.
Seus companheiros ficaram chocados. Empinaram os narizes
e fizeram caras e bocas.
— Nós as varremos — disse Avram na defensiva. —
Mantemos as casas limpas.
— Por que ficam na mesma casa?
— Para tomar conta do vinhedo.
— Têm de tomar conta do vinhedo?
— Foi o que eu disse.
— Se não tomarem conta as uvas não vão crescer?
— Oh, as uvas crescerão.
— Então por que tomar conta do vinhedo?
— Para evitar que outros peguem as uvas.
— Por que evitar que outras pessoas peguem as uvas?
— Porque elas são nossas.
Bodolf trocou olhares com os outros.
— Então quando estrangeiros aparecem a uva não é para eles?
— Isso mesmo.
— Por que não? O fruto está na parreira.
— Mas meu abba plantou as parreiras e portanto as uvas são
dele.
Eskil franziu o cenho.
— Se o seu abba morresse, as uvas também morreriam?
— Bem, não.
— Então como é que elas são dele?
Avram explicou a história de Talitha e Serophia, que contou
com grande solenidade. Para sua indignação, eles explodiram
em risos. Mas então, enquanto continuava a beber o mel
fermentado e a contar sua história, ele também começou a
achá-la engraçada e, após um instante, viu-se agarrando o
estômago e rindo das extravagâncias daquelas mulheres
impossíveis tanto tempo atrás.
No final, apesar de suas diferenças, Avram e o Povo da Rena
concordavam numa coisa: que bebidas fermentadas eram
maravilhosas.
Finalmente eles quiseram ouvir sua própria história, e
quando a contou Avram assim concluiu:
— Não sei por que fujo ou por que continuo fugindo. Poderia
ter ficado com as emplumadoras e levado uma vida
confortável. Mas fui impelido para o oeste e agora pareço ter
chegado ao fim do mundo.
— Talvez você esteja numa busca de visão — disse Bodolf, e
os outros concordaram solenemente.
Assim Avram passou seu segundo inverno entre o Povo da
Rena, caçando focas e trazendo-as para Frida, dormindo nos
braços dela à noite, rindo com ela durante o dia — embora
noite e dia fosse tudo a mesma coisa. Ela mostrou-lhe luzes
no céu setentrional, fantasmas dançantes de cores fabulosas.
Ele contou-lhe sobre o deserto e o mar de sal sem nenhuma
forma de vida. Faziam amor no seu casulo de peles e gelo, e
nos braços de Frida ele se esquecia por instantes da vergonha
que o impelira até ali e do crime que havia cometido. Ele
enterrava o rosto no cabelo de barba de milho e declarava
que ela era o amor da sua vida. Mas Frida limitava-se a rir e o
provocava, pois ouvira-o chamar por Marit durante o sono, e
sabia que sua rival era uma mulher de sonho com cabelos
negros.
Avram aprendeu a viver num novo ritmo de luz e escuridão.
Os dias eram mais brilhantes da primavera ao fim do verão, e
mais escuros entre o outono e a primavera. Por três meses o
sol nunca caía abaixo do horizonte e por três meses nunca
despontava. O ciclo de mudança das estações era o
surgimento e desaparecimento de gelo sólido no mar. Ele
aprendeu acerca dos deuses de Bodolf e da superstição de seu
povo e respeitou suas crenças. Aprendeu a gostar do sabor da
carne de foca, e no verão acompanhava Frida ao cume dos
picos nevados, de onde podiam ver o mundo inteiro. O
Povo da Rena se tatuava usando uma fina agulha de osso para
desenhar um traçado coberto de fuligem sob a pele, e numa
primavera Avram corajosamente submeteu-se à arte da
agulha na testa. O Lugar da Nascente Perene tornou-se um
sonho. Marit e os outros pareciam produto de sua
imaginação. Aquela terra de calor e luz solar, tão distante
desta terra de frio e neve, talvez nem existisse.
Quando uma das cadelas de trenó pariu uma ninhada de
filhotes, Avram descobriu uma cachorrinha mais afetuosa do
que os outros e começou a visitar o cercado onde eram
mantidos. O sentimento deve ter sido mútuo, pois a filhote
começava a gemer sempre que Avram ia embora.
Finalmente começou a pular o cercado e a seguir Avram até
a casa de troncos. Avram deu-lhe o nome de Cadela e ela
tornou-se sua companhia constante depois disso.
Foi durante seu quinto verão com o Povo da Rena que os
sonhos começaram. Cenas envolvendo Yubal e Marit, a
sacerdotisa Reina, seus irmãos, e até mesmo Hadadezer;
sonhos cálidos e sedutores, coloridos nos verdes e dourados
da primavera do Jordão. A mente adormecida de Avram
nadava como um bebê buscando aquecimento, os dedos
alcançando papoulas vermelhas e peônias rosadas, tâmaras
doces e romãs suculentas. Os sonhos eram tão reais que
quando ele acordava ficava atônito por ver-se de volta ao
gélido norte, e especulava como sua alma fora capaz de viajar
uma distância tão grande em tão curto tempo.
Os sonhos aumentaram em freqüência e intensidade até
fazê-lo chorar e se lamentar como um cão doente. Bodolf e
Frida ficaram cada vez mais alarmados. Portanto consultaram
a leitora de pedras.
A leitora de pedras era pequena e velha, seu corpo
parecendo uma castanha murcha dentro do seu invólucro de
peles de foca e rena. Mas os olhos eram aguçados como a
estrela polar, e piscavam com uma intensidade que fez
Avram acreditar que ela teria as respostas.
Todos se sentaram num círculo e observaram o oráculo
soprar numa sacola de couro e depois jogar as pedras num
quadrado de pele de foca macia. Ela apontou com um dedo
arqueado para cada uma delas. Sua voz soou estalada:
— Esta pedra detém suas esperanças e medos. Esta pedra é o
que não pode ser alterado e deve ser esperado. Esta aqui fala
de sua atual situação. — Ela olhou para Avram. — Você
deseja ficar. Você deseja partir. Este é o seu dilema.
— As pedras podem me dizer o que fazer?
Ela respirou lenta e suavemente.
— Existe um espírito animal do seu lado, um que não
reconheço. Um pequeno animal com chifres altos que
ondulam como fumaça. Seu couro é da cor do hidromel,
listras pretas delineiam sua barriga branca. — Ela ergueu os
olhos. — É o espírito do seu clã.
—- A gazela — disse ele, pasmo. Como a velha podia
descrevê-la tão bem, se nunca tinha visto uma antes? — O
que ela quer que eu faça?
A velha sacudiu a cabeça.
— Não é o que ela quer que você faça. — A velha o encarou
fixamente por um momento, os olhos parecendo duas
pontas de agulha no rosto enrugado. — Há outra pedra —
disse ela, por fim. — Não as minhas. Mas esta aí. — Apontou
para a bolsa que pendia sobre o peito dele. — Azul como o
céu, transparente como o mar. Esta pedra possui a resposta.
Avram ergueu o amuleto que tinha sob a jaqueta de pele e
abriu-o com cuidado. Trazendo o cristal para fora, ele o
embalou na palma da mão, a poderosa pedra que tinha sido
dada à seu povo pela própria Laliari antes do começo dos
tempos. Quando olhou no seu núcleo, viu a poeira do
diamante cósmico e percebeu que se tratava da nascente
borbulhante que era o coração do seu lar. Ele pensou: O
cristal é o coração da Deusa, pertence do santuário no Lugar
da Nascente Perene.
Era também onde seu próprio coração pertencia, entre seu
próprio povo. Ele sabia disso agora. Durante sua estada entre
o povo da Rena, Avram ignorava a lenta mudança que
ocorrera no seu íntimo. O pesar se dissolvera, e com seu
declínio uma nova emoção tomara o seu lugar: um anseio de
voltar para casa.
Quando disse adeus ao Povo da Rena, Avram deu a presa de
lobo para Bodolf, porque o lobo era inimigo deles. Em troca,
Bodolf deu-lhe um pedaço de âmbar entalhado na forma de
um urso polar. Ele beijou Frida, que estava grávida de nove
meses, e desejou-lhe o melhor. Depois pendurou seu fardo
às costas, pegou a lança e o arco e, com Cadela trotando a
seu lado, dirigiu-se para o sul, rumo à ponte de gelo que o
levaria ao outro lado do mar, de volta à trilha que o trouxera
para cá cinco anos antes.
A época em que Avram alcançou a aldeia da montanha que
era o lar de Hadadezer, fazia quase um ano desde que deixara
Bodolf e seu povo, e mais de nove anos desde que fugira do
Lugar da Nascente Perene. Ele e Cadela tinham vivido uma
aventura juntos, viajando de volta pelas montanhas e rios de
que Avram se lembrava ter atravessado na vinda. Eram bons
companheiros, dormiam juntos para se aquecerem, Cadela
dava o alarme quando havia perigo próximo e Avram
partilhava sua caça todas as noites com a fiel canina. Haviam
também salvado a vida um do outro — uma vez, quando um
urso atacou Cadela e a teria matado não fosse a lança
habilidosamente arremessada por Avram, e outra vez em
que um felino selvagem pulou sobre Avram e o teria
dilacerado até a morte não fossem as fortes mandíbulas de
Cadela. Para Avram fora também um tempo de descoberta.
Seu único relacionamento com animais tinha sido para usá-
los como alimento ou vestuário. Mas este novo contato com
a cachorra trouxe uma alegria tranqüila que Avram jamais
conhecera.
Quando chegaram à fortaleza de pedras nas montanhas, a
dupla causou uma comoção enquanto os homens de guarda
queriam matar o "lobo". Mas Avram foi capaz, ao invocar o
nome de Hadadezer, de forçá-los a poupar sua companheira.
E quando ele foi conduzido por um labirinto de altos muros
e túneis de pedra, as pessoas murmuravam embasbacadas
entre si a respeito do animal selvagem.
A cidade fortificada era um peculiar aglomerado de casas tão
coladas umas às outras que partilhavam paredes comuns,
formando uma estranha colméia de moradas sem janelas ou
portas, servindo de entrada as aberturas nos tetos. Avram foi
conduzido a um pátio tão sombreado por muralhas e pelos
picos de montanha circundantes que nenhuma luz solar
tocava as pedras do pavimento. Aqui Hadadezer estava
vivendo seus dias derradeiros, numa esplêndida plataforma
forrada com almofadas e peles, cercado por criados que
atendiam todas as suas necessidades. Seu rosto estava
redondo como a lua cheia e reluzia de suor, o corpo enorme
e pesado com pés inchados, dando a impressão de que não
tocava o solo havia anos. Seus olhos quase saltaram das
dobras de carne que os envolviam quando viu seu visitante.
— Grande Criador, é meu velho amigo Yubal!
Avram parou de chofre e imaginou se o mercador estaria
vendo fantasmas. E então percebeu que Hadadezer estava
olhando para ele.
— Está equivocado, pois sou Avram, filho de Chanah, da
Casa de Talitha. Não deve se lembrar de mim...
— É claro que me lembro de você! — o velho exultou. —
Grande Criador, que dia abençoado este para ver o filho de
meu bom e querido amigo, que seu espírito possa conhecer a
paz!
— Filho? — disse Avram.
Hadadezer agitou os braços, tão grossos como pernis de
cordeiro.
— Falo de modo figurado, já que obviamente, um homem
não pode ter filhos. Mas sua semelhança com Yubal, possa
ele descansar com a Deusa, é prova do forte espírito e
influência do estimado homem sobre você! — Ele deu uma
ordem e o objeto mais espantoso foi trazido ao pátio: uma
lousa de obsidiana quase tão alta e larga quanto um homem,
polida como uma faca e tão plana quanto o mar Morto,
encaixada numa moldura de concha. Quando angulada na
posição certa, o fantasma de Yubal materializou-se dentro do
vidro vulcânico. Avram pulou para trás e traçou no ar um
sinal protetor.
Hadadezer riu.
— Não tenha medo, companheiro! Trata-se apenas de você,
num reflexo espelhado!
Aturdido, Avram girou a cabeça para lá e para cá, ergueu um
pé calçado de pele e depois o outro, e concluiu que a
imagem era mesmo a dele.
Isto o deixou subitamente nervoso. O único lugar onde uma
pessoa podia ver seu reflexo era na água, e considerava-se de
muito mau agouro alguém olhar-se fixamente na água, pois
ela poderia roubar-lhe o espírito.
Agora ele olhava fascinado para o homem barbudo que o
observava do vidro preto. E era Yubal, sem tirar nem pôr.
— Vamos, vamos, sente-se — disse Hadadezer. — Iremos
comer, beber e conversar sobre os velhos dias, que eram
melhores que os atuais. Desde o início dos tempos, os velhos
dias sempre foram os melhores.
Enquanto os criados do anfitrião traziam um enorme barril
de cerveja com dois canudos compridos, Avram relatou sua
longa e extraordinária jornada, omitindo apenas o motivo
que o levara a partir.
— E o que é isto? — disse Hadadezer, notando Cadela pela
primeira vez. Ela se enroscava aos pés de Avram e
descansava a cabeça sobre as próprias patas.
— É minha fiel companheira.
— Você viaja com uma loba? E eu que pensava já ter visto de
tudo! Que tipo de mundo é este? — perguntou Hadadezer,
após sugar uma boa quantidade de cerveja e limpar a boca
com a mão.
— É tão diferente como as pessoas são diferentes. Há
homens que vivem como ursos, homens que vivem no gelo,
homens que rastejam sobre as barrigas e pintam as imagens
dos animais que mataram.
— E cidades? Você viu cidades?
— Só aqui e no Lugar da Nascente Perene. — De repente, ele
encheu-se de melancolia ao mencionar o local onde nascera
e por estar de novo na companhia de alguém que fazia parte
do seu passado. As lembranças voltaram, deixando um nó na
sua garganta.
Hadadezer deve ter notado a névoa nos olhos de Avram,
pois disse em voz baixa:
— Nós todos nos perguntamos para onde você teria ido. A
maioria o considerou morto. Você fugiu porque Yubal tinha
morrido? Sim, claro que foi por isso. Você era jovem e
estava assustado. E compreensível. Depois que Yubal morreu
e você desapareceu, ficou óbvio para todos que tinha sido
um grande erro tentar unir as duas famílias. Era claro que as
maldições de Talitha e Serophia pairavam sobre todos.
Travessas de comida foram postas diante deles: galinha
cozida recheada, vegetais no azeite, pão sem fermento,
tigelinhas de sal e uma repelente infusão chamada iogurte.
— Sim, suponho que tenha sido um choque para você, pobre
companheiro — continuou Hadadezer enquanto se servia de
pombo assado recheado de cogumelo e alho —, saber da
morte de Yubal. Não foi, porém uma surpresa para mim,
nem um pouco.
A mão de Avram, segurando uma noz em salmoura, parou
diante da boca.
— O que quer dizer?
— Yubal andava se queixando da cabeça. Acredito que nunca
lhe contou para não preocupá-lo. Toda vez que ele se
enfurecia ou fazia esforço excessivo, sua cabeça martelava
dolorosamente. Ele me perguntou se eu tinha um remédio e
respondi que não. Contudo, avisei-o para controlar seu
temperamento e corpo, já que eu tinha visto este mal afligir
homens muito mais jovens. Dizem que ele morreu enquanto
se empenhava com uma jovem. — Hadadezer assentiu
sabiamente. — Foi isto que o matou.
Avram olhava em franco aturdimento para aquela montanha
humana, cuja barba estava salpicada com o jantar da véspera.
Yubal já tinha um problema que acabaria por matá-lo? Então
não havia sido a maldição de Avram a causa de sua morte?
Ele estava estupefato. Depois de carregar o peso da culpa
todos aqueles anos, e tendo ele sido subitamente suspenso...
Yubal já trazia a morte dentro de si.
Eu não matei meu adorado abba.
Avram mal pôde conter um choro de alegria. Subitamente
extasiado, ele queria sacrificar-se de imediato para a deusa e
para quaisquer deuses locais que existissem. Sentia vontade
de pular e lançar os braços em volta do montanhoso
Hadadezer. Ele queria dançar e contar a todos como o
mundo era um lugar maravilhoso. Em vez disso, tomou um
generoso gole de cerveja e estalou os lábios com prazer.
Hadadezer acomodou seu enorme peso na plataforma, que
lhe servia não só de liteira como também de leito.
— Muita coisa aconteceu depois disso, meu rapaz — disse.
Dois anos depois da morte de Yubal, os saqueadores
chegaram, desta vez em maior número. Muita gente morreu.
E então, no ano seguinte, vieram os gafanhotos.
Avram ficou repentinamente solene, e ávido por notícias de
casa.
— Minha avó ainda está viva? E como vão meus irmãos?
— Por acaso, a noite em que Yubal morreu representou
minha última visita a sua casa. Quando retornei para cá para
as montanhas, percebi que meus dias de mercador haviam
chegado ao fim. Passei o comércio das caravanas para os
filhos de minha irmã, de modo que pudesse desfrutar os anos
que me restavam. Meus sobrinhos só relatam as novidades
mais importantes: saqueadores, gafanhotos, colheitas
devastadas. Mas os nomes de quem está vivo, de quem
morreu... — Ele abriu as mãos gordas como presunto.
Continuou para explicar que seu comércio de caravanas
passava por tempos difíceis, devido em parte aos infortúnios
do Lugar da Nascente Perene. — Eles não mais comerciam
vinho — disse —, e isto é uma coisa que lamento
profundamente.
O canudo de beber caiu da mão de Avram.
— O que aconteceu com o vinho?
Hadadezer deu de ombros.
— Eles agora só o produzem para consumo próprio.
Avram imaginou seus irmãos labutando no vinhedo, homens
agora, não mais garotos, pelejando para plantar as videiras,
colher as uvas, encher a pensa de vinho e depois transportar
as cascas para a caverna sagrada. Tudo isto sem a sábia e
inflexível supervisão de Yubal.
— Está voltando para lá? — perguntou Hadadezer, enquanto
discretamente puxava uma bexiga de cabra e urinava dentro
dela. Avram imaginou como o homem devia fazer para
esvaziar os intestinos e tentou não pensar mais nisto.
— Sim, estou indo para casa. Já faz quase dez anos.
Hadadezer assentiu, entregando a bexiga a um criado e
limpando as mãos na barba.
— Estou pensando, meu jovem amigo, que podemos tocar
um negócio juntos, eu e você. — E quando o astuto
mercador esboçou o plano que tinha em mente, Avram teve
de reconhecer que ele servia a seus dois objetivos. Quando a
caravana partisse de novo para o sul em seu circuito anual,
Avram estaria à testa dela.
Ele passou o verão na peculiar cidade montanhesa de
Hadadezer, apreciando a hospitalidade do mercador e
aceitando os recatados convites feitos pelas sobrinhas de
Hadadezer para partilhar da cama delas. Enquanto estava lá
ele viu muitos prodígios novos, pois aquele povo intrépido
era de uma estirpe industriosa e inventiva: experiências em
cerâmica feita de barro e cozida num forno; pepitas de cobre
sendo derretidas e moldadas em ferramentas; homens
começando a treinar gado para puxar arados. Quando Avram
comentou sobre uma mulher que amamentava um cordeiro
no próprio seio, Hadadezer disse:
— Observamos que um bebê e um cordeiro neonato formam
um rápido vínculo com sua mãe. Quando separado do
rebanho ao nascer e amamentado por uma ama-de-leite
humana, o cordeirinho liga-se à mãe postiça e vive
docilmente com a família humana. Descobrimos isto por
acidente. Uma mulher que havia perdido seu bebê adotou
sem remorso um filhotinho selvagem e amamentou-o, e
desde então ele a segue por toda a aldeia. Agora nós temos
cabras domesticadas. Agora não é preciso caçá-las —
acrescentou Hadadezer, um homem devotado a encontrar
meios para conservar sua energia.
Avram foi levado a uma fieira de baias de madeira onde as
vacas eram abrigadas, animais que não haviam nascido na
terra agreste, mas aqui, nos estábulos da montanha, onde
eram mantidas por causa do seu leite, tal como as renas de
Bodolf.
— Você notou que reverenciamos o touro, Avram — disse
Hadadezer, que tinha sido trazido aos estábulos na sua liteira.
— O touro é o criador da vida. Nossas mulheres se banham
no sangue do touro a fim de engravidar.
Avram notara os chifres de bezerro que estavam presentes
em muitas casas, e símbolos do touro em toda parte. Ele
olhou com assombro para os plácidos animais que se
deixavam manipular pelos homens. Que magia possuía este
povo para domar animais?
— No tempo de nossos ancestrais — disse Hadadezer
enquanto oferecia a Avram uma taça de iogurte —, antes de
construirmos esta cidade de montanha, quando ainda
vivíamos em tendas e vagueávamos pela planície,
adorávamos a terra e o céu, pois nada sabíamos de como o
touro dava à vaca sua cria. E então os deuses disseram aos
nossos ancestrais que parassem de vaguear e construíssem
este lugar, e que trouxessem animais das planícies e os
mantivessem aqui, de modo que o espírito do Grande Touro
pudesse tornar nosso povo frutífero. É isto que faz o meu
povo tão forte, Avram, o espírito do Grande Touro, ao passo
que o seu povo nasceu da lua, o que o torna fraco. Não
pretendo insultar, mas apenas falar a verdade. Você verá por
si mesmo como a vida no Lugar da Nascente Perene perdeu
vigor e vitalidade. Se pudesse, eu mandaria um touro com
você, mas eles são impossíveis de controlar.
Avram notou que Hadadezer falava de touros tal como
Bodolf havia falado da rena, de modo que imaginou que cada
raça era propagada por um deus diferente. Isto explicava por
que os povos do mundo variavam na sua aparência e
características — o Povo da Rena, com cabelos e pele claros
por beber o leite da rena; o povo de Hadadezer, com suas
feições avermelhadas do sangue do touro. E meu povo é
pequeno e escuro, pois nascemos da lua e o domínio dela é a
noite.
Enquanto residiu entre os muros de pedra e o povo de pele
rosada, aprendendo seus costumes e dormindo com suas
mulheres, acostumando o estômago com iogurte, queijo e
leite, uma estranha doença começou a se insinuar na alma de
Avram. Não era uma doença carnal, alardeada por sinais ou
sintomas físicos, mas sim por um distúrbio do espírito. En-
trou no corpo de Avram por meio de sonhos que eram
sinistros e turbulentos, e as lembranças que traziam eram
espontâneas, sombrias e inquietantes, tudo centrado num
único tema: a noite em que Yubal morreu. No sono Avram
era forçado a reviver aquela noite vezes sem conta, vendo-se
despertar, flagar as duas figuras nuas abraçadas na escuridão,
percebendo que Yubal havia maquinado tudo de modo a ter
Marit para si. A dor daquela descoberta voltava com força
renovada a cada manhã em que Avram despertava de sonhos
que o deixavam banhado em suor. Em todos aqueles anos
viajando por terras estrangeiras, pouca atenção dedicara à
duplicidade de Yubal, o próprio motivo que o levara a
amaldiçoá-lo, em primeiro lugar. Mas agora sabia que não
fora sua maldição que tinha matado Yubal. Agora que estava
livre para recordar outros aspectos daquela noite fatídica,
Avram foi assolado com a verdade inevitável e brutal de que
o homem que tinha amado e reverenciado havia arranjado
para que partisse com os caçadores de madrepérola de modo
a ter Marit para si.
Por fim, o calor do verão se foi e Hadadezer consultou o
vidente local, que declarou ser uma ocasião propícia para a
partida da caravana.
Na noite que antecedeu a partida, Hadadezer confidenciou a
Avram que não deveria ter entregue o negócio aos filhos de
sua irmã, porque eles eram um bando de indolentes que
desprezavam o trabalho duro e que não possuíam tino
comercial. Ele admitiu francamente achar que o estavam
trapaceando. Infelizmente a tradição ditava que a herança
deveria permanecer no seio da família.
— Mas isto não significa que eu não possa colocar agentes ao
longo da rota, homens com cuja lealdade possa contar.
Avram seria o representante de Hadadezer no lugar da
Nascente Perene. Os quatro outros agentes eram os filhos da
mulher com quem o mercador vivera por muitos anos. O
mais velho exibia uma tal semelhança com Hadadezer que
Avram foi levado a se recordar de Yubal e dele próprio, e de
Bodolf e Eskil. Hadadezer confiava nestes três homens
porque eles o amavam e honravam, além de manterem uma
contabilidade honesta do comércio nos assentamentos onde
viviam: no país das árvores lebonah, na costa do Grande
Mar, na embocadura do delta do Nilo e na aldeia que estava
florescendo e crescendo rapidamente nas margens
meridionais do rio. Hadadezer ofereceu presentes ao seu
hóspede e Avram os escolheu cuidadosamente, pensando
em Parthalan, Reina e Marit. Estes presentes seriam o
começo de sua reparação a eles. Em troca, deu a Hadadezer
o urso polar de âmbar de Bodolf, que o velho mercador
apreciou como uma criança.
Na manhã da partida, Avram viu outra curiosidade: burros
treinados para carregar grandes cargas. Embora o Povo da
Rena tivesse domado as renas para dar leite e os cães para
puxar trenós, certamente não havia pensado em utilizá-los
para transporte de carga. Isto era espantoso.
— Existem limites — avisou Hadadezer. — Se tratar e
alimentar bem os burros, eles carregarão as cargas para você.
Não tente montar neles, pois se verá desagradavelmente
jogado de volta ao chão.
Avram riu e pensou que o velho mercador devia estar
bêbado, pois quem alguma vez ouvira falar de um homem
montando um animal?
Hadadezer tinha os burros e os homens carregados com
mercadoria para comerciar — sementes para cultivo,
obsidiana para fabricar ferramentas e armas —, bem como
provisões de peixe salgado, cerveja e pão.
— Como um investimento — disse ele para Avram, bufando
pelo esforço de ter dado tantas ordens, muito embora não
tivesse saído de sua liteira —, refortifique o assentamento na
primavera, Avram. Torne-o de novo um lugar próspero,
deste modo minha caravana voltará a ser lucrativa.
Avram deu um beijo de adeus nas sobrinhas rechonchudas
de Hadadezer e, enquanto conduzia a caravana pelo portão
principal da cidade murada e rumo ao desfiladeiro sul da
montanha, animou o coração e aferrolhou o espírito. Estava
preparado para pedir perdão aos irmãos por ter fugido e
desonrado a família; ele se lançaria diante de Parthalan e
restauraria a honra familiar; suplicaria perdão a Marit e
voltaria a dedicar seu coração a ela. Mas nunca pediria
perdão ao fantasma de Yubal, pois ele é que lhe devia
perdão.
A caravana percorria a mesma rota para o sul que levara um
jovem desolado para o norte dez anos antes, mas agora
Avram via o interior com olhos abertos. Naquela jornada no
passado em companhia das emplumadoras ele era um rapaz
sem alma que tinha olhado a paisagem com olhos
desinteressados e nada observara. Mas agora via florestas de
cedro fragrantes e suntuosas, a Caverna de Al-Iari e o lar dos
seus ancestrais, e um rio tão docemente familiar que caiu por
terra e chorou com alegria cheia de remorso.
O céu estava cinzento e uma chuva fina de inverno caía
quando a caravana chegou ao Lugar da Nascente Perene. A
multidão de boas-vindas na colina estava menor do que no
passado, e Avram imaginou se era porque não havia mais
torres de observação, ninguém para alertar os cidadãos de
que a caravana estava chegando. Mas à medida que chegava
mais perto, caminhando à frente de sua tropa de burros, ele
viu que o próprio assentamento estava muito menor desde
que o vira pela última vez, e percebeu em choque que não
havia mais estruturas de tijolo de lodo, nem a casa onde
havia crescido. Reconheceu o homem que veio correndo
para saudá-lo como Namir, o domesticador de cabras, mais
velho e grisalho e caminhando desajeitado por causa de uma
coxeadura. Atrás dele vinha gente que Avram não conhecia,
de modo que imaginou que talvez toda a população tivesse
se mudado em dez anos.
Namir então parou de súbito, piscou como uma coruja e
gritou:
— É um fantasma! — E correu de volta para o assentamento
antes que Avram pudesse assegurar-lhe de que não era Yubal
retornando de entre os mortos.
Os outros, os cidadãos mais velhos, pararam igualmente
embasbacados, as faces pálidas de medo, enquanto os mais
jovens comiam com os olhos Cadela e a tropa de burros, pois
nunca tinham visto tais coisas.
Avram deu o sinal para a caravana armar acampamento.
Homens exaustos descarregaram seus fardos, rezingando em
voz alta como era o seu direito, fogueiras de cozinhar foram
acesas — embora mais fumaça do que chama se elevasse dos
galhos e gravetos umedecidos — e as tendas se ergueram à
luz garoenta. Avram achou que era um deplorável negócio
de ralé, sem comparação com os grandes dias de Hadadezer.
Mas seu ânimo estava elevado enquanto procurava
ansiosamente por rostos familiares na multidão crescente.
Seus irmãos, será que os reconheceria? Sua avó já deveria ter
morrido. E Marit, ainda uma garota em sua mente, estaria ela
aqui?
Finalmente um homem de baixa estatura, mas com a pose
empertigada de um galo de briga se adiantou, caminhando
com um imponente cajado de madeira. Levou algum tempo
para Avram reconhecer Molok, o abba de Marit.
— Bem-vindos, bem-vindos! — gritou ele com entusiasmo,
mas Avram notou o ar de curiosidade no rosto do velho
enquanto o fitava com o cenho franzido de um homem
tentando identificar alguma coisa. Agora todos vinham
saudar a caravana à medida que a notícia se espalhava pelo
assentamento e mais gente ia chegando.
Três homens vieram correndo, ainda empunhando suas
enxadas. Avram mal os reconheceu. Em todos os seus anos
de viagem, os irmãos tinham permanecido jovens em sua
mente, ele nunca os imaginara crescendo. Mas eles eram
adultos agora, robustos e bonitos. Para choque de Avram,
Caleb caiu de joelhos e enlaçou suas pernas com os braços.
— Abençoado seja este dia que traz nosso irmão para casa!
Pensávamos que estivesse morto!
— Levante-se, mano — disse Avram, erguendo Caleb pelos
cotovelos. — Eu é que devia cair a seus pés.
Abraçaram-se, derramando lágrimas nos ombros um do
outro, e depois os irmãos mais novos recepcionaram Avram,
chorando abertamente de alegria.
— Conheço você, homem? — perguntou Molok,
semicerrando os olhos tomados pela catarata. — Não me é
estranho.
— Abba Molok — disse ele, respeitosamente. — Sou Avram,
filho de Chanah, da Casa de Talitha.
— Avram?! Disseram que você estava morto. Mas está
carnudo demais para ser um fantasma! — Molok ergueu os
braços, dando-se ares de importância, e decretou que o resto
do dia seria de comemoração, um anúncio desnecessário,
uma vez que barris de cerveja já vinham sendo rolados,
bodes e ovelhas recém-abatidos chegavam às costas dos ho-
mens, rodelas de pão de cevada se materializavam
juntamente com potes de mel, travessas de peixe salgado e
fartura de frutas. O som de flautas e chocalhos encheu o ar
antes que todas as tendas estivessem erguidas, com gritos de
congraçamento e reconhecimento e risos de boas-vindas
enquanto o pessoal da caravana se misturava com o povo do
assentamento.
Afinal, era que nem nos velhos dias.
Ao crepúsculo todo o assentamento, ao que parecia, tinha se
apresentado, partilhando comida e fogareiros, mexericos e
novidades. Mas os dois rostos que Avram procurava ainda
não haviam surgido. Ele receava perguntar aos seus irmãos o
que fora feito de Marit e da sacerdotisa Reina.
Embora o assentamento fosse o seu lar, Avram montou um
pequeno acampamento no interior da caravana, ainda
incerto da sua posição entre sua gente. Apesar de não mais
sentir-se culpado pela morte de Yubal, havia ainda a questão
da desonra. Mas nada parecia errado enquanto seus irmãos,
na maior felicidade, traziam patos para assar, cestos de pão e
odres de vinho. Eles estavam cheios de novidades para
contar, mas também ansiavam por ouvir as novidades de
Avram, notando a tatuagem em sua testa e querendo saber
onde ele estivera em todos aqueles anos.
Quando Avram viu como seus velhos amigos e vizinhos se
entregavam prazerosamente à celebração improvisada, seus
infortúnios momentaneamente esquecidos, suas
preocupações com o dia de amanhã voando como um
pássaro, algo que não lhe ocorrera em todos aqueles anos de
ausência ocorreu-lhe agora: que o povo do assentamento não
sabia quem havia roubado o coração de cristal azul da Deusa.
Além disso, ignoravam que ele havia fugido por covardia, ou
que propositadamente desonrara o contrato que Yubal
firmara com os caçadores de madrepérola. A reputação de
desgraça e vergonha entre seu povo, na imaginação de
Avram, devia-se apenas ao fato de que, como dissera
Hadadezer, não sabiam o que acontecera com ele. Eles
acharam que eu tinha sido morto, ou seqüestrado, ou
vagueado para escapar do pesar e de alguma forma morrido.
Como posso pedir-lhes perdão se nem sabem o que há para
perdoar?
E então viu alguma coisa mais nos olhos deles, repletos de
esperança: não queriam conhecer a verdade. Deu-se conta
num momento de sobressalto que, tão grandes tinham sido
os fardos e os infortúnios sofridos durante sua ausência, seria
a maior crueldade introduzir agora desonra, vergonha e
culpa em suas vidas. Assim, inventou uma vívida história
envolvendo pesar, sumiço, perda de memória, ter sido
capturado, e sua luta para voltar — uma história épica
recheada com deuses e monstros, mulheres lascivas e
façanhas heróicas. A maioria duvidou da narrativa, mas
adorou-a como entretenimento e, enquanto passavam de
mão em mão o odre de vinho, ninguém o culpou pelo que
havia acontecido dez anos antes. O passado se fora.
Embebedar-se era tudo com que se preocupavam agora.
E foi então que seus irmãos lhe contaram sua própria história
triste.
Houve outras épocas de má sorte enquanto ele estava
ausente, contaram-lhe, não apenas os saqueadores, mas
também alguns verões desafortunados e depois os gafanhotos
que em um único ano devoraram todas as lavouras, de modo
que muitas famílias retomaram a vida nômade. O
assentamento, uma vez tão amplo e próspero, ficou reduzido
a uns poucos abnegados. "De que vale plantar e cultivar uma
colheita só para ela ser roubada?"
Ele perguntou acerca da colheita de verão da uva, já que o
solstício de inverno era iminente e eles teriam de ir em
breve à caverna sagrada para a degustação da nova vindima.
Mas Caleb sacudiu tristemente a cabeça, dizendo que
houvera uma colheita deplorável naquele verão, apenas o
suficiente para comerciar com viajantes em trânsito.
— Os nômades vieram, acamparam aqui e se alimentaram das
nossas uvas. Como só nós três os impediríamos? Não
podemos montar guarda dia e noite.
— Mas e quanto aos filhos de Serophia?
— Depois que Yubal morreu, Marit voltou para sua família —
explicou Caleb, com amargura — e assim não mais tivemos a
proteção dos seus irmãos. Quando os saqueadores chegaram,
os filhos de Serophia se apressaram em salvar sua safra de
cevada, enquanto o nosso vinhedo foi devastado. Levamos
dois anos para ter de novo uma boa safra, mas aí vieram os
gafanhotos e nos arruinaram mais uma vez. Desde então,
mal somos capazes de produzir vinho suficiente para o nosso
consumo, pouco sobrando para comerciar.
Eram notícias alarmantes, pois o comércio vinícola era o
esteio do assentamento, fora o vinho que tornara aquele
povo próspero, fazendo com que largasse sua vida nômade
para se fixar ali.
— Isto agora vai mudar — garantiu Avram ao irmão. —
Faremos o vinhedo florescer novamente, e da próxima vez
que os saqueadores vierem estaremos preparados.
Ele já formulava um plano em sua mente: ofereceria aos
homens locais um odre de vinho em troca de patrulhamento
noturno do vinhedo.
— Onde está Reina, a sacerdotisa? — perguntou, por fim, em
voz cautelosa, receoso do que fossem lhe contar.
Reina estava vigiando seu santuário, disseram. A Deusa não
mais aparecia entre seu povo, suas procissões tinham sido
interrompidas dez anos antes. Mas ela ainda estava lá, bem
como a sua fiel criada.
Escusando-se da companhia dos irmãos e convidando-os a
comer e beber à vontade e ficar junto à sua fogueira, Avram
ergueu-se sobre pernas instáveis e se afastou do
acampamento ruidoso. Dirigiu-se primeiro ao que restava do
vinhedo de Talitha e ficou desolado ao encontrá-lo mirrado
e empobrecido à luz mortiça de um dia nublado. Seus irmãos
tinham erguido as defesas possíveis em torno de uma
pequena parcela de videiras, mas o resto do que um dia
foram campos vastos e florescentes estava agora abandonado
e tomado por ervas daninhas. Não havia nenhum vestígio da
torre de observação que um dia estivera ali, e onde se situara
a boa casa de tijolos de lodo havia agora uma ampla tenda
feita de pele de cabra.
Com um senso crescente de pavor, Avram prosseguiu pelo
assentamento, que estava silencioso, já que a maioria dos
cidadãos se divertia no acampamento da caravana. Aqui ele
recebeu um choque até maior. As condições eram piores do
que imaginara de início. A moradia de Guri, o fabricante de
lamparinas, a tenda dos seis irmãos fabricantes de linho, a
casa das irmãs Cebola, a residência de Enoch, o arranca-den-
tes, e de Lea, a parteira, a casa de tijolos de lodo de Namir e a
de Yasap, o coletor de mel — tudo se fora. O assentamento
estava caindo aos pedaços e tinha o aspecto temporário da
época dos ancestrais, sem nenhum sinal de permanência.
Quando encontrou Parthalan, o caçador de madrepérola,
Avram quase sucumbiu. O velho estava sozinho e quase
cego, mal subsistindo num abrigo de palha e mal
conseguindo esculpir as poucas conchas que lhe chegavam.
Ele chorou ao ver Avram, não denotando qualquer acusação
ao rapaz pelo seu próprio infortúnio.
— A vida é uma maldição — disse Parthalan. — A morte é
uma bênção.
Avram pensou nos presentes que trouxera para Parthalan:
lindas conchas para esculpir que se estragariam sob as mãos
vacilantes do homem quase cego.
Enquanto deixava o velho artesão de conchas, Avram sentiu
a bile subir-lhe à garganta. Nada acontecia por acaso, ele
sabia, tudo tinha uma causa. Enquanto olhava em torno do
empobrecido assentamento e notava o selo da má sorte em
tudo que via, ele soube qual era a causa. Tudo era culpa de
Yubal. Se não fosse a duplicidade de Yubal, maquinando
alianças que traziam má sorte a fim de obter Marit para si, ele
talvez não tivesse morrido e hoje o vinhedo estaria
florescente, a comunidade próspera.
Com o coração pesado de amargura, Avram tomou a última
trilha que sabia ser preciso seguir: a que levava à residência
de Serophia. A Marit.
Ali também não existia mais a casa de tijolos de lodo, seu
alicerce dilapidado visível nas extremidades da tenda que
havia sido erguida no local. Ela se encontrava à entrada,
alimentando o forno, as rodelas de pão de cevada dourando
nas pedras quentes. Ela não olhou para cima, mas Avram
sentiu que ela sabia da sua presença.
Marit se tornara lindamente roliça durante sua ausência. Não
mais esguia, ela estava feminil, com carne e curvas para
encher os braços de um homem. Mas não os braços dele,
pensou resolutamente, pois embora seu coração ainda doesse
de amor por ela e seu corpo estivesse faminto pelo contato, a
lembrança daquela última noite, quando a viu nos braços de
Yubal, era mais dolorosa do que mil ferimentos de faca. Ele
sabia que nunca seria capaz de fitá-la novamente sem se
recordar do logro de Yubal, nem de pousar as mãos sobre a
pele dela sem ver as marcas das dele, nuas e aferradas num
abraço febril.
— Por que você veio? — perguntou ela numa voz tão
inexpressiva quanto poeira.
Avram ficou sem saber o que dizer. Havia imaginado que ela
ficaria satisfeita em revê-lo. Ou pelo menos contente por
saber que ele estava vivo.
Ela virou-se e o fitou com olhos pétreos. O rosto, ainda
redondo e lindo, estava delineado com rugas, e os cantos da
boca descaídos por tantos anos de penúria e
desapontamento.
— Eu sabia que você estava vivo, Avram. Todos os outros
diziam que deveria estar morto, mas aqui no meu coração eu
sabia o que lhe havia acontecido. Você nos viu naquela
noite, Yubal e eu. Você acordou, nos viu, e depois fugiu.
Esperei que voltasse e, como não o fez e os dias e semanas se
passaram, me dei conta de que você tinha fugido, e por quê.
— Eu tinha todo o direito — replicou ele em justa
indignação.
— Você não tinha nenhum direito! Ficou com ciúme de
mim e Yubal sem sequer saber o que estava vendo. Você
tirou sua conclusão e julgou nós dois. Achou que eu e Yubal
estávamos tendo prazer juntos.
— Foi o que vi.
— Avram, você já observou a lua por tempo demasiado? Se
tivesse observado por mais um momento, teria me visto
repelir o abraço de Yubal, teria ouvido Yubal me chamar
pelo nome de sua mãe. Teria visto ele se desculpar
embaraçado, o teria visto começar a voltar para o seu leito, e
depois o teria visto agarrar a cabeça e desabar no chão. Não
confiava em nós? No seu abba e na sua amada?
Ele pestanejou.
— Eu pensei...
— Este é o seu problema! Pensar demais! — Ela enxugou
uma lágrima no rosto.
Ele a olhou fixamente, atordoado demais para falar.
— Nenhum homem se deitou comigo depois daquilo.
Tornei-me uma mulher intocável porque acreditavam que
eu fosse amaldiçoada e que fazia cair mortos os homens que
me tocassem. Em todos esses anos jamais experimentei o
conforto de um único abraço.
— Por que não esclareceu tudo? — gritou ele.
— Como combater um boato, Avram? O povo sempre
acreditará naquilo que deseja acreditar, quer seja verdade ou
não. — Ela acrescentou, amarga: — Certamente, você
acreditou.
— Como você deve ter me odiado em todos esses anos —
sussurrou ele, roucamente.
— A princípio odiei. Depois amadureci para sentir apenas
desprezo. Enquanto todos diziam que devia estar morto e eu
ficava orando por você, guardei segredo. De qualquer modo,
quem me daria ouvidos? Uma mulher com uma maldição
pesando sobre ela! — Colocando as mãos nos quadris, ela
espichou o queixo e disse em tom desafiador: — Você é o
único homem com quem me deitei. Pode dizer a mesma
coisa, Avram? Com quantas mulheres você se deitou nestes
dez anos?
Ele a fitou, um tolo indefeso, enquanto sua mente contava as
mulheres: as emplumadoras, as nômades, as comedoras de
amêijoas, as caçadoras de bisões, Frida, as sobrinhas de
Hadadezer.
Marit deu-lhe as costas e alimentou mais o forno.
— Dez anos jogados fora. Eu e você estamos no meio das
nossas vidas, Avram. Sua avó viveu até os 62 anos, mas ela
era abençoada. Ninguém vive tanto tempo. Tudo que
podemos esperar por enquanto é alguns anos à mais de boa
saúde, antes de nos tornarmos um fardo para nossas famílias.
E um fardo eu serei, pois a Deusa optou por me negar filhos.
Sou estéril, Avram, e não há nada menos merecedor de
alimento e abrigo do que uma mulher estéril. Agora vá
embora. Vá sentir piedade por si próprio em outro lugar.
Não vai encontrar nenhuma piedade aqui.
Ele saiu cambaleando para a noite, atordoado e confuso.
Grande Deusa! gritava sua mente. O que foi que eu fiz?
Seus pés o conduziram para o único lugar que restava para ir.
O santuário da deusa era menor e mais humilde do que
aquele de tijolos de lodo que ele se recordava, e era feito
apenas de madeira e palha com uma cabana anexa onde
morava a sacerdotisa. Soubera por seus irmãos que Reina
havia sido reduzida a baixas condições, embora fosse ainda a
sacerdotisa de Al-Iari. Ela fora raptada pelos saqueadores,
disseram, e a experiência a deixara amarga. Para culminar,
por causa do desaparecimento da pedra azul, muitas pessoas
se afastaram da Deusa — especialmente depois dos
saqueadores e dos gafanhotos, seguidos pelo verão de má
sorte em que as colheitas goraram. O povo culpava a
sacerdotisa por ter interpretado mal os sinais, e, portanto
Reina não mais recebia os presentes generosos do passado,
mal tendo o bastante para a mera subsistência.
Encontrou-a mexendo uma panela de mingau no fogo,
adicionando ervas para economizar. Seu cabelo estava
grisalho agora, mas esmeradamente penteado e trançado.
Não usava mais o vestido de linho fino; uma pele de corça
manchada cobria sua estrutura esguia. Ela parecia cansada,
derrotada. Avram sentiu-se perdido de repente. Tinha vindo
em busca de consolo e orientação, ter seu mundo posto em
ordem novamente. Mas a sacerdotisa parecia mais
necessitada de ajuda do que ele. Ficou sem saber o que dizer,
então arrastou os pés para anunciar sua presença.
Ela ergueu a vista e seus olhos se arregalaram.
— Yubal!
— Acalme-se, Senhora Sacerdotisa — disse ele, depressa. —
Não sou Yubal, não sou um fantasma. Sou Avram.
— Avram? — Ela pegou uma lamparina e trouxe para perto
dele. A luz ele viu os círculos escuros sob os olhos de Reina,
a idade que os últimos dez anos tinham posto sobre ela, e as
cavidades nas suas faces. Isto o alarmou. Nem mesmo a
sacerdotisa estava imune à má sorte deste lugar.
Os olhos dela se encheram de lágrimas enquanto
inspecionava cada centímetro da face de Avram, tocando o
seu comprido cabelo entrançado, sua barba de adulto, até
mesmo o grisalho nas têmporas, embora não tivesse ainda
trinta anos. Os olhos de Reina pareciam banquetear-se nele
enquanto passeavam pelos ombros largos e o peito
musculoso, depois para o rosto, e detinham-se um momento
na curiosa tatuagem. Então ela sorriu. O sorriso suavizou-lhe
as feições e a fez parecer mais jovem.
— Sim, é Avram. Agora posso ver. Mas como se parece com
Yubal! Ouvi dizer que a caravana chegou, mas ninguém me
disse que você havia chegado com ela. Vamos, temos de
beber e relembrar, e agradecer à Deusa pelo seu retorno a
salvo.
Ela não lhe perguntou por que fora embora, nem para onde
tinha ido e por que regressara. Era como se toda a
curiosidade tivesse ido embora dela. Ou talvez, pensou ele,
dez anos de privações a tivessem ensinado a aceitar e não
mais questionar. Reina não tinha nenhum vinho para ofe-
recer e a cerveja estava diluída e choca, mas ele aceitou-a
com grande gratidão e sentou-se com ela ao lado de um
braseiro fumegante, pois a noite invernal estava esfriando.
Reina bebeu, e Avram ficou chocado por ela não ter servido
primeiro uma libação para a Deusa.
— É bom revê-lo, Avram — disse ela, calorosamente. — Ver
você é como ter Yubal de volta. Eu era apaixonada por ele,
você sabe.
Isto o pegou de surpresa.
— Eu não sabia.
— Era um segredo meu. Mas apesar de nunca ter tido prazer
com ele havia desejo no meu coração, e, portanto creio que
a Deusa me puniu por quebrar meu voto de castidade.
Quando os saqueadores atacaram e me usaram brutalmente,
isto matou dentro de mim todo o desejo por Yubal ou por
qualquer outro homem, e ensinou-me que o prazer entre
homem e mulher não é prazer, mas sim dor.
Ele olhou para seu caneco de madeira, para a ínfima ração de
cerveja com resíduos flutuando na sua superfície, e sentiu o
coração retumbar dentro do peito.
— Sinto muito, mesmo — sussurrou, sentindo-se tão
desolado quanto as terras incultas do povo de Bodolf. —
Como foi que tanta má sorte chegou para nosso povo?
Ela sacudiu a cabeça.
— Não sei nem mesmo quando começou. Talvez tenha
começado com alguma coisa pequena, talvez alguém
invadindo a sombra de outro, ou uma criada quebrando uma
panela, ou um ancestral sendo insultado.
— Eu fugi — revelou ele.
Ela assentiu com a cabeça, os olhos fixados na pequena
chama da lamparina.
— Vi uma coisa que interpretei mal, e como um covarde...
Reina ergueu a mão endurecida pelos calos.
— O que passou, passou. E o amanhã pode jamais chegar.
Assim, devemos viver o momento presente, Avram.
— Vim em busca de perdão.
— Não tenho nada que perdoar.
— Refiro-me ao perdão da Deusa.
Ela lançou-lhe um olhar atônito.
— Você não sabia? A Deusa nos abandonou. — Ela falava
com simplicidade e sem rancor, como se toda raiva tivesse
sido drenada de dentro dela. Isto o alarmou mais do que se
ela houvesse descarregado sua fúria sobre ele, tal como fizera
Marit.
E de repente deu-se conta da magnitude de sua transgressão.
A má sorte deste lugar não fora conseqüência de uma panela
quebrada ou da afronta sofrida por um ancestral. Era culpa
dele. Avram, filho de Chanah, da estirpe de Talitha. Ele
havia causado esta calamidade.
— Grande Deusa — murmurou, enquanto o quadro terrível
desdobrava-se diante dela: seu equívoco em relação a Yubal
e Marit, o roubo do cristal e sua fuga covarde para o norte.
Tirando o amuleto de debaixo da túnica, ele abriu e despejou
a pedra azul na mão. Entregou-a para Reina, o cristal
captando a luz da lamparina e refletindo-a na forma de
estrelas.
Ela arfou.
— Você trouxe a Deusa de volta!
— Não — disse ele. — Ela é que me trouxe de volta. Você
deve mostrar a pedra às pessoas, de modo que saibam que a
Deusa voltou para elas.
Reina chorou por um momneto, o rosto enterrado nas mãos,
os ombros finos tremendo. Então se recompôs e pegou a
pedra gentilmente, como se fosse frágil como casca de ovo.
— Não contarei ao povo por enquanto, porque existem
aqueles que vão se lembrar de que a pedra desapareceu na
mesma noite da sua fuga, e concluirão que ela voltou no
mesmo dia do seu regresso. Planejarei um momento especial
para revelar o milagre às pessoas, de modo que nenhuma
suspeita recaia sobre você. Construirei para ela um novo
santuário, maior e melhor que o antigo. Darei um enorme
banquete e direi ao povo que a Deusa voltou para nós.
— Acho que regressei com uma nova sabedoria — disse
Avram —, pois pude ver o mundo e a gente que nele habita.
Mas descobri que não tenho nenhuma sabedoria, afinal, e
que estou tão destroçado quanto na época em que as
emplumadoras me levaram para o norte. Toda esta má sorte
aconteceu por minha causa. O que devo fazer para me
redimir e trazer mais uma vez a boa sorte para nosso povo?
Ela pousou a mão no braço dele.
— Já prestou seus respeitos a Yubal desde que regressou?
Tem de fazê-lo, Avram. Vá honrá-lo imediatamente, e reze
por ele. Yubal era sábio. Ele lhe mostrará o caminho. E —
acrescentou, com voz trêmula — bendito seja por trazer de
volta o espírito da Deusa, pois agora ela trará prosperidade
para nossos filhos!
Enquanto se preparava para partir, ele fez uma pausa.
— Marit não tem filhos — disse. — Pode ajudá-la?
— Ela já me procurou e tentamos, ano após ano. Dei-lhe
amuletos e poções, preces e encantamentos. Dei-lhe
placenta para comer e fumaça para inalar. Mas todo mês seu
fluxo lunar aparece. — Reina segurou o cristal azul junto ao
peito e seu sorriso brilhou como nos velhos dias. — Mas
talvez agora haja esperança, pois Marit ainda está na sua fase
fértil.
Avram retornou à tenda dos irmãos e encontrou o nicho
ancestral onde viviam as pequenas estátuas dos antepassados.
A de Yubal tinha a forma de um lobo e Avram se lembrou
da presa de lobo que Yubal lhe dera. Disse agora ao seu
venerado abba:
— Em todos aqueles dias e noites de minha fuga para o oeste,
enquanto atravessava terras estrangeiras e hostis, pensei que
era o espírito do lobo que me protegia. Mas agora sei que era
você, abba, caminhando comigo, me guiando, mantendo-me
a salvo. — Ele pegou a minúscula presa de lobo e beijou-a.
— Juro, abba, sobre o seu espírito e os espíritos de nossos
ancestrais, que reverterei a má sorte que trouxe para nosso
povo.
Ele teve um sonho no qual Yubal lhe falava. Yubal segurava
a pedra azul da Deusa e dizia:
— Você deve construir defesas para o assentamento. Uma
muralha e uma torre.
— Começarei a cortar árvores — respondeu Avram no seu
sonho.
— Não, árvores não. As defesas não devem ser feitas de
madeira, pois a madeira pode queimar.
— Tijolos de lodo, então. Começarei a trabalhar
imediatamente.
Mas Yubal sacudiu a cabeça.
— Tijolo de lodo se dissolve na chuva. — Ele estendeu a
pedra azul a Avram. — É como isto que você deve construir.
As paredes devem ser tão duráveis quanto o núcleo da
Deusa.
Quando acordou, Avram já sabia o que tinha de fazer.
Após um desjejum de pão e cerveja, calçou suas perneiras de
pele e as botas, mas ficou nu da cintura para cima. A seguir,
antes do sol despontar sobre os penhascos a leste, ele pegou
os burros de Hadadezer e subiu para as colinas próximas. A
medida que o céu se nublava e um vento frio soprava,
Avram seguia trabalhando. Escavou a terra com as mãos nuas
e recolheu pedras de um peso tão grande que o fizeram
ofegar com o esforço. Hora após hora, ele laboriosamente foi
desenterrando pedras e colocando-as nas alcofas dos burros.
Quando retornou ao assentamento seguiu direto para a fonte
borbulhante e esvaziou as alcofas no solo. Depois, sem uma
palavra sequer aos circunstantes, voltou para as colinas.
Continuou indo e vindo, mourejando sob o céu cinzento,
mudo acerca de seu trabalho enquanto trazia pedras e mais
pedras para depositar junto à fonte — e os cidadãos se
agrupavam e observavam. Ele labutou até bem depois do
crepúsculo, sem dizer uma palavra a ninguém, levando os
burros para fora do assentamento e retornando com as
pedras. Sua única companhia era Cadela, que trotava
fielmente a seu lado.
Naquela noite Avram caiu na cama exausto, dormiu só um
pouco e levantou antes da aurora para alimentar os animais,
afagando-os e sussurrando nas suas orelhas. E depois os
conduziu de volta às colinas.
Mais pessoas se agrupavam para observar sua desconcertante
atividade. Alguém arrastou um barril de cerveja para o local
e vendeu canudos. Os homens começaram a especular o
insano projeto de Avram. Uma pilha de pedras ao lado da
fonte borbulhante. Teria ele enlouquecido?
Quando finalmente começaram a dirigir-se a ele, indagando
sobre o que estava fazendo, Avram não respondeu. Seu rosto
era uma máscara de firme determinação. E quando ele fazia
uma pausa, era apenas para mergulhar as mãos no
escoamento da fonte, pois as palmas estavam esfoladas e
sangrando. Quando Caleb e seus outros irmãos chegaram,
Avram não falou com eles. Somente quando a muralha e a
torre estivessem concluídas é que ele expiaria seus pecados.
Ele trabalhava até o ponto da exaustão, nunca descansando,
mal comendo, até finalmente desmaiar junto à fonte, ao lado
da sua montanha de pedras.
Os circunstantes receavam tocá-lo, pois achavam que estava
possuído. Quando Marit chegou correndo e o viu jazendo
inconsciente no solo, cuspiu para eles e perguntou:
— Vocês não têm nenhum orgulho? Não têm honra? Não
movem um dedo para ajudar seu amigo?
Caleb surgiu e ajudou a carregar Avram para a tenda de
Marit, onde o depositaram na cama dela, no compartimento
feminino do abrigo. Os irmãos de Marit, que tinham vindo
do campo de cevada para almoçar, olharam para seu velho
rival com desdém, mas um olhar feroz da sua irmã os
silenciou.
— Peguem sua refeição e voltem para o trabalho — disse e
eles obedeceram, pois Marit se tornara a chefe da família
desde que sua mãe morrera e Molok ficara perturbado da
cabeça.
Marit lavou as mãos de Avram e aplicou um ungüento
curativo, depois as envolveu em ataduras de linho. Ela
limpou-lhe o rosto e lavou seu peito e os membros, e
enquanto o fazia suas lágrimas caíam sobre a pele nua de
Avram. Ela contou a Avram que ele havia olhado para a lua
por tempo demasiado, mas seu corpo estava gasto e a pele
acinzentada, e ela soube que demônios o tinham impelido a
escavar pedras nas colinas. Cadela enroscava-se à seus pés e
Marit não conseguia afastar o animal.
Quando Avram acordou, Marit estava afagando sua testa e
dizendo:
— Avram, nem consigo começar a entender o que aconteceu
a todos nós, ou por que a Deusa escolhe tais sinais para nós.
Sou uma simples mulher. Mas de uma coisa estou certa: de
meu amor por você. Ela se estendeu ao lado dele e Avram
debilmente a tomou nos braços. Ele já sentia a boa sorte
retornando.
Na manhã seguinte ele acordou com gritos de júbilo.
— O que está havendo?
Marit estava penteando e trançando seu cabelo. Ela sorriu-
lhe e parecia quase jovem outra vez.
— Reina está dizendo que o coração da Deusa retornou. — E
ela caiu nos braços dele para expressar sua alegria.
Quando se viu forte o bastante, Avram retomou a tarefa de
reunir pedras para a muralha e a torre. Marit juntou-se a ele,
carregando dois cestos. Ao meio-dia, Caleb e seus outros
irmãos aumentaram o grupo. E ainda assim os cidadãos
continuavam só olhando.
No terceiro dia Namir chegou com um cesto, trazendo
quatro de seus sobrinhos. Ao anoitecer, a pilha de pedras
aumentara consideravelmente.
Na manhã seguinte, Avram acordou para descobrir homens
e garotos já no trabalho, indo e voltando constantemente do
assentamento, despejando pedras e retornando às colinas. A
visão do cristal azul no peito da Deusa tinha animado os
cidadãos da nascente perene, dando-lhes uma nova
esperança.
Avram ordenou que uma trincheira fosse cavada para ser a
fundação da muralha. As mulheres tomaram parte,
prendendo a bainha de suas saias nos cintos e agachando-se
com gravetos de cavar e cestos. À medida que a trincheira se
transformava num enorme perímetro em volta do poço, os
homens rapidamente decidiram que queriam suas casas no
interior da muralha, e assim a indústria manufatureira de
tijolos começou até que todo o assentamento reviveu com a
tarefa de sua reconstrução, o poder da Deusa mais uma vez
dentro deles. Eles labutaram por todo o inverno e a
primavera, com os garotos em torres de observação
provisórias para vigiar os invasores. E a primeira camada de
pedras foi erguida.
Enquanto isso, Avram contratara homens para patrulhar os
vinhedos em troca de vinho. Seus irmãos trouxeram as
videiras de volta à vida e agora elas estavam florescendo e
produzindo frutos. Outros cidadãos uniram-se para ajudar a
manter o vinhedo saudável. Podavam e tiravam as ervas
daninhas, fertilizavam e regavam, pois todos gostavam de
vinho e mantinham afastados os ladrões de uvas com varas e
porretes.
E então ocorreram dois milagres para os quais Avram não
estava preparado.
O primeiro aconteceu depois do desaparecimento de Cadela
numa tarde. Isto deixou Avram preocupado por vários dias
até que, certa manhã, ela se materializou à porta, o pêlo
coberto com as urtigas das colinas, e caiu exausta a seus pés.
Decorrido algum tempo, Avram notou que a barriga de
Cadela começou a inchar, e quando ela pariu uma ninhada
de filhotes, ele soube que uma nova população havia fixado
residência no Lugar da Nascente Perene.
Então ocorreu o segundo milagre.
-— Estou grávida —- disse Marit com tal assombro na voz
que se pensaria que ela havia visto o próprio rosto da Deusa.
Foi de fato um milagre, um sinal de que a Deusa trouxera as
suas bênçãos de volta a seu povo. Mas enquanto fazia um
terno amor com Marit àquela noite, Avram estava ciente de
que alguma coisa no fundo de sua mente, como uma
borboleta translúcida, perturbava e provocava sem que
conseguisse capturá-la.
Naquele verão, enquanto novas camadas eram acrescentadas
ao perímetro da muralha, casas de tijolo de lodo iam sendo
erigidas no interior do círculo e uma robusta torre de pedra
começava a se erguer sob as mãos dos pedreiros, o vinhedo
de Avram produziu uma farta colheita e todos fizeram uma
pausa na construção para esmagar as uvas na prensa de
vinho.
Reina e a Deusa lideraram o cortejo até a caverna sagrada, e à
medida que se aproximavam soprou um vento suave e
tranqüilizante, adocicado e fresco. Avram fez uma pausa
para observar a planície que se estendia até o mar Morto e
teve a estranha sensação de que alguém com hálito
perfumado o estava bafejando. Seu cabelo e barba se
agitavam à brisa de verão e então a luz do sol dardejou sobre
o mar morto em lanças de luz dourada. O dia assumiu um ar
surreal. De repente, ele ouviu o zumbido pesado dos insetos,
as cores ficaram mais brilhantes do que antes, como se toda a
natureza a sua volta estivesse tentando lhe dizer alguma
coisa.
Ele fez a procissão parar na base dos penhascos e semicerrou
os olhos para a sombreada abertura da caverna. Ela o golpeou
de novo, como golpeara gerações anteriores, com aquela
forma parecida com um útero. E no útero da Mãe Terra o
suco de uva seria carregado e colocado nas prateleiras
esculpidas, onde permaneceria a salvo no escuro enquanto a
Deusa elaborava sua transformação mágica e dotaria de vida
o suco, fazendo-o virar vinho.
Enquanto Avram olhava fixamente para a caverna, a
borboleta translúcida voltou para os recessos de sua mente,
para esvoaçar com intangibilidade enlouquecedora: era um
pensamento esperando para ser formado, uma idéia prestes a
se tornar conhecida. Porém, por mais que ele tentasse
agarrá-la, ela não vinha a ele.
Depois que os odres de vinho foram colocados na caverna,
todos retornaram ao assentamento para continuar
trabalhando na muralha e nas casas de tijolo de lodo. Mas a
mente de Avram estava distraída. Ele ajudava a misturar
palha ao lodo para fazer os tijolos, inspecionava o progresso
da muralha de pedra e trabalhava com os outros homens
para montar a escada interna da nova torre, mas parte de sua
mente sempre continuava a caçar o fogo-fátuo que nela
fixara residência.
Então, um fim de tarde, quando estava sentado debaixo de
um caramanchão, bebendo cerveja enquanto Marit amassava
ervilhas e cebolas para a ceia, seus olhos caíram sobre Cadela
amamentando as crias. E ocorreu-lhe algo que não havia
notado antes: que quatro filhotes eram brancos como Cadela,
mas dois eram cinzentos como os lobos selvagens das
colinas.
Pela primeira vez Avram imaginou como Cadela tinha
engravidado. Cadela procedia de uma terra bem afastada da
soberania da lua. Era oriunda do território da deusa Rena.
Teria o poder de fertilidade de Rena se estendido tão longe?
Além disso, como o espírito do lobo entrara no útero de
Cadela?
O ânimo de Avram tornou-se filosófico enquanto olhava
para Marit, muito adiantada em sua gravidez, e ele se
perguntou: E isto que cria vida? Bodolf e seu povo
acreditavam que era o espírito da rena. Hadadezer acreditava
no espírito do touro. E o povo da Nascente Perene sabia que
era a lua quem criava vida. Será que haveria um poder mais
amplo, um poder mais difuso que o da rena, do touro e das
luas locais? Pensou de novo na caverna do vinho e no suco
de uva armazenado na escuridão fecunda, sendo
transformado de suco em vinho, recebendo a "vida" doada
pela Deusa. E mais uma vez o pensamento impalpável,
aquela borboleta irritante, que recusava-se a ser capturada.
Nas semanas seguintes, Avram descobriu-se dando longas
caminhadas pelas campinas e cânions desertos, para ficar à
sós consigo mesmo e seus pensamentos indefiníveis. A noite
ele se revirava em sonhos estranhos envolvendo Bodolf e
Eskil, Yubal e ele próprio, Hadadezer e os filhos da mulher
com quem o mercador vivera por muitos anos. O significado
dos sonhos lhe escapa até uma tarde de outono, quando ele
foi mais uma vez impelido a separar-se da companhia dos
homens, com apenas Cadela trotando fielmente nos seus
calcanhares. Avram chegou a um lago. Agachou-se e viu
Yubal olhando para cima. Foi então que o significado dos
sonhos lhe ocorreu: os homens mais novos assemelhavam-
se aos seus anciãos.
Tal como os filhotes de Cadela eram parecidos com a mãe,
mas assemelhando-se também aos lobos das colinas.
Uma tarde foi visitar Namir, que estava resmungando com
uma aljava de flechas, tentando em vão endireitá-las. Depois
de oferecer a Namir um odre de vinho e tomar assento à
sombra, Avram perguntou ao velho o que ele havia
observado entre os rebanhos de cabras.
— Você os viu fazer isto? — E fez um gesto com ambas as
mãos.
Namir deu de ombros.
— Vi as cabras fazerem muitas coisas. Elas correm, brincam e
lutam, como fazem as pessoas.
— Mas você viu isto? — E repetiu o gesto.
Namir trouxe uma haste de flecha para perto dos olhos e
examinou- a com desprazer.
— Sim, suponho que sim.
— Por que elas fazem isto?
Ele finalmente desviou a vista do seu trabalho.
— Avram, você olhou para a lua por tempo demais?
— Quando você prendia as cabras, só prendia as fêmeas?
— E claro! Os machos são inúteis. A não ser que seja para
comê-los diretamente.
Avram contou-lhe sobre as renas de Bodolf e os touros de
Hadadezer. Namir coçou a cabeça.
— Está dizendo que os animais sentem prazer como nós
humanos? Algum daqueles seus burros deu-lhe um coice na
cabeça, Avram?
— Quando nós caçamos, os animais fogem de nós. Tão logo
sentem o nosso cheiro, eles se dispersam, não param para ter
prazer um com o outro. Como sabemos o que eles fazem
quando não estamos por perto?
Namir torceu o nariz.
— Hã?
— Animais num cercado, alimentados e domesticados, não
fogem de nós. Namir, vi com meus próprios olhos animais
tendo prazer da mesma maneira que os homens.
— Loucura! — disse o velho com uma risada, mas Avram
percebeu a curiosidade rastejando nos olhos dele.
Esta noção não abandonava a mente de Avram. Ele pensou
de novo no cercado das renas — os machos montando as
fêmeas. A época não sabia que os animais faziam isto.
Explorou as lembranças dos dias iniciais de sua fuga, quando
viajara através da planície da Anatólia com os nômades.
Haviam acampado entre rebanhos selvagens e vez por outra
ele vira animais montando um no outro. Avram havia
pensado que talvez fosse uma forma de luta, ou brincadeira.
Recordou-se do touro de Hadadezer dando prazer às vacas. E
de Cadela desaparecendo nas colinas e voltando para parir
filhotes mestiços de lobo.
Era este ato que criava vida nova? Não espírito-criado, mas
sim macho e fêmea, homem e mulher. Mas como? Porque
isto não ocorria a toda hora. Havia, porém o velho Guri, o
fabricante de lamparinas, que gostava de ter seu prazer com
garotas novas, e elas nunca engravidavam. E a mais velha das
Irmãs Cebola, que deitava com muitos homens e nunca teve
filho. E então ele pensou: garotas e mulheres mais velhas
não têm o fluxo lunar.
Ficou atônito. Era isso? Todos sabiam que o fluxo lunar era o
que a Deusa usava para criar bebês. Mas e se o fluxo lunar
fosse como suco de uva? Porque este era o milagre essencial
da vida: as uvas não se fermentavam em vinho, nem o suco
de uva fermentava-se contido numa taça de madeira. Uvas
eram uvas e suco era suco. Era necessário o poder da Deusa
na sua caverna para transformá-los em vinho.
Mas são necessários homens para carregar o suco de uva até
a caverna.
Avram paralisou-se como se atingido por um raio. Virando o
rosto para a brisa, perscrutou a distância e viu na planície
ondulada que circundava a fonte borbulhante os novos
campos arados para plantio. E percebeu o que não tinha visto
antes: como os sulcos no solo pareciam as partes íntimas de
uma mulher. E então visualizou a semente sendo espalhada
pela mão de um homem.
Homens e mulheres juntos é que criavam vida?
Não, ele se corrigiu. É a Deusa quem cria vida — este poder
é só dela. Mas ela usa tanto o macho quanto a fêmea para
formar esta nova vida.
Ele quase caiu sob o peso da revelação: O vinho é feito do
mesmo modo que são feitos os bebês, através do poder da
Deusa. Mas simplesmente como as uvas colocadas na
caverna não se transformam numa bebida sagrada, mas sim
exigem o esforço colaborativo do homem para se
transformarem em vinho, então resulta que o fluxo lunar por
si só não pode se tomar uma criança, pois exige o
envolvimento de um homem. E sementes espalhadas
forçadamente em sob não preparado não são propensas a
brotar como aquelas semeadas em campos arados. Caverna,
campo e mulher: todos são a Mãe. Cada qual traz a vida. Mas
não por si próprios; cada qual necessita da colaboração de
um homem.
E então vinha a mais perturbadora percepção de todas:
Marit, que não havia se deitado com homem nenhum em
onze anos, agora estava grávida.
Avram foi para o santuário da Deusa buscar aconselhamento.
Ele orou e silenciosamente perguntou: Estou entretendo
pensamentos blasfemos? Mas então viu Reina e lembrou
que, muito tempo antes, ele a tinha olhado com desejo
juvenil e que havia se perguntado à época por que a Deusa
criara esta ânsia confusa entre homens e mulheres. Agora
lhe parecia, como na sua atormentada juventude, que a
intimidade entre homens e mulheres não era só prazer,
como Yubal o fizera acreditar. "A Deusa deu-nos este prazer
para nos ajudar a esquecer nossa dor", seu abba dissera
tempos antes. Mas agora não fazia sentido para Avram. A
busca do prazer íntimo era acompanhada pela dor e com
freqüência seguida por tragédia. Por que tinha a Deusa criado
este magnetismo inescapável entre homens e mulheres?
E então ela falou para ele: É para garantir que a vida seja
criada, Avram.
Ele começou a tremer de excitação. Sua pergunta seguinte
quase o aterrorizou: E, portanto isto é homem e mulher,
macho e fêmea? ele perguntou referindo-se à estátua com o
coração de meteorito.
Como se em resposta, o cristal azul pareceu tremeluzir e
emitir pontos de luz. Avram olhou fixamente para a pedra
mística e procurou profundamente no seu coração, lutando
para ver uma resposta. E no instante seguinte sua mente
abriu-se numa epifania cegante: onde tinha visto uma vez a
essência láctea no núcleo do cristal como a nascente perene,
ele agora a reconhecia como uma essência do homem
quando extrai seu prazer com uma mulher. O fluxo lunar e o
fluido de um homem, combinando-se na caverna da mulher, para a
Deusa operar seu milagre.
De repente, tudo se encaixava. Como se tivesse observado o
mundo com olhos turvos por toda a sua vida e subitamente
sua visão estivesse aguçada. Tudo isto fazia sentido, o milagre
completo da coisa. Agora ele o via em todo lugar que ia:
pássaros construindo ninhos juntos, macho e fêmea, para
produzir ovos e alimentar suas crias; peixes nadando nos
riachos, as fêmeas para depositar ovos, os machos para nadar
sobre eles e abençoá-los com sua essência procriadora. Ele se
sentiu ligado a tudo do gênero humano e a tudo da natureza
de um modo como nunca sentira antes. Não mais um
espectador na criação, mas uma parte integral dela.
Recordou-se do que Marit dissera certa vez acerca de ser um
elo numa longa corrente. Agora ele também era parte da
corrente, sem o qual os elos subseqüentes não se ligariam aos
precedentes. Marit, grávida — do seu filho.
Era como se o céu tivesse se aberto. Por toda a sua vida
Avram especulara e desejara desvendar os mistérios da
natureza. Enquanto olhava em volta de si mesmo, tudo de
repente fez sentido, de repente ele entendeu.
Voltou direto para sua tenda, onde se prostrou diante dos
avatares dos ancestrais, e falou para Yubal, abrindo o coração
e oferecendo a alma, declarando seu amor e reverência pelo
homem, derramando lágrimas de alívio e alegria enquanto
chamava o seu abba, desta vez acrescentado uma nova
interpretação à palavra, pois embora tivesse sempre
significado "mestre" ou "intendente de uma casa", a partir de
agora significaria também "pai".
Avram não divulgou este seu novo conhecimento, pois sabia
que o povo se limitaria a rir e a declarar que havia fitado a lua
por tempo demais. Mas discretamente aconselhou Namir a
colocar os machos junto das fêmeas da próxima vez em que
capturasse um rebanho, e assinalou a Guri, o fabricante de
lamparinas, que o seu projeto de criar porcos não era uma
noção bizarra. A Marit, porém, ele contou as novidades
miraculosas, e ela as aceitou por terem vindo da Deusa.
Avram sabia que, no devido tempo, à medida que os homens
criassem burros e cães, cabras e porcos, eles iriam fazer as
mesmas observações que ele fizera, e chegar às mesmas
conclusões.
Por fim, a muralha foi concluída.
Todos se reuniram para celebrar a inauguração da nova torre,
que iriam chamar de Jericó, significando "abençoada pela
lua". Avram subiu pela nova escada de pedra doze anos
depois do dia em que subira a escada de madeira da torre de
observação de seu pai no vinhedo, num fatídico amanhecer
que parecia tão distante no tempo. À época, era um garoto
imberbe, repleto de incertezas e falta de objetivo,
impulsionando-se para cima degrau por degrau, tentando
extrair sentido de um mundo confuso. Agora era um
homem, confiante e cheio de propósito, pousando os pés
com firmeza, um após outro, nos degraus de pedra.
Entre os orgulhosos espectadores estava Marit, carregando
seu filho no quadril, um menino robusto de treze meses. Ao
seu lado estava Cadela, sua barriga outra vez inchada e
flanqueada por uma nova geração de filhotes. Avram tinha
visto as primeiras crias de Cadela crescerem para a
maturidade e depois fazer travessuras e montar uma na outra
até que as fêmeas engravidaram, de modo que uma nova
geração de cães domesticados estava prestes a juntar-se ao
assentamento. Namir estava sorrindo à luz do sol, o gordo,
próspero e muito orgulhoso proprietário de um florescente
rebanho de cabras, porque aceitara o conselho de Avram.
Guri estava de novo fazendo experiências com porcos e as
irmãs Cebola acrescentando um cercado de patos no seu
terreno, descobrindo, tal como Avram descobrira, que havia
uma harmonia maior na natureza do que pensavam
anteriormente, uma assombrosa interdependência que era
como uma linda e tremeluzente teia de aranha, com animais,
espíritos e humanos — todos ligados num contrato sagrado.
Avram alcançou o topo da torre, e quando emergiu na
brilhante luz do sol, um rugido elevou-se da multidão. Os
cidadãos de Jericó olhavam para sua realização com grande
orgulho e segurança, pois em nenhum lugar do mundo havia
muralhas como aquelas, que nenhum invasor seria capaz de
derrubar. Enquanto recebia bem o rugido ensurdecedor,
sentindo-se em paz e perdoado de seus pecados passados,
Avram permitiu que seus pensamentos flutuassem acima das
distâncias até alcançarem o Povo da Rena — Frida e o filho
que estava carregando quando ele partiu. Seu filho.
Avram deixara seu sangue lá no norte congelado, a estirpe de
Talitha, a estirpe de Yubal, para ser carregado por outros, a
tantos quilômetros de distância.
Ínterim
Avram nunca entendeu por que lhe havia sido dado o
conhecimento da paternidade. Mas a Deusa tinha suas razões
e pelo resto da vida ele agradeceu-lhe dia e noite, suas preces
repletas de louvores para a Mãe de todos. Com o tempo,
embora não nos dias de Avram ou nos dias de seus filhos e
netos, a Mãe de Todos se juntaria ao Pai de Todos, até que
um dia, no futuro não muito distante, a Mãe seria suplantada
inteiramente pelo Pai.
Jericó prosperou. Avram e Marit tiveram mais filhos, o
rebanho de cabras de Namir aumentou, novas ninhadas
nasceram para Cadela e suas crias. Guri deixou de fabricar
lamparinas para ser um próspero criador de porcos. Novas
safras foram plantadas, trigo e milho, algodão e fibra de
linho, mais animais foram domesticados e criados para dar
leite, ovos e lã. Com rendimento aumentado e boa sorte, o
povo fez sacrifícios para a Deusa. Seu santuário foi ampliado
e o número de sacerdotisas cresceu. Com o passar dos
séculos, a muralha não mais guardava semelhança com
aquela arquitetada por Avram, pois, como era de se esperar,
ao longo das eras as muralhas de Jericó cairiam para ser
reconstruídas vezes sem conta.
A manufatura de têxteis chegou a Jericó, e também o
alfabeto e a escrita. Dois mil anos após Avram e Marit
juntarem seus ancestrais, um homem chamado Azizu estava
na sua roda de oleiro e acidentalmente a derrubou. Enquanto
a observava girar ao seu lado, uma idéia ocorreu- lhe.
Resultaria em muita tentativa e erro, mas Azizu teve êxito
em fazer duas rodas rolarem sobre um eixo, acima do qual
ele colocou um carro. Agora ele podia transportar dez vezes
mais cerâmica do que antes, e creditava sua inspiração a uma
visita ao santuário da Deusa, onde beijara seu coração de
cristal azul para ter sorte. Quatro mil anos depois de
Hadadezer espantar Avram com pepitas de cobre extraídas
com as mãos em concha do leito de um riacho, homens
estavam garimpando cobre e latão e fundindo-os juntos para
produzir bronze. Mil anos depois disso, os homens
descobriram o ferro e como dominá-lo, e o mundo mudou
para sempre.
À medida que as populações aumentavam, assentamentos se
tornaram aldeias e aldeias se tornaram cidades. Líderes se
destacaram das massas e se chamaram reis ou rainhas para
governarem os outros. O poder de Al-Iari cresceu, seu
santuário tornou-se um tabernáculo e depois um templo
com sacerdotes e sacerdotisas. Seu povo chamou a si mesmo
de cananitas, e viajantes de Babilônia e Suméria a reconhece-
ram como a sua adorada Ishtar e Inanna. Perto de Baal ela
era venerada por sua fertilidade, e embora sua fisionomia
mudasse com o passar dos anos, sendo sua estátua substituída
muitas vezes, o velho cristal azul ainda era o seu coração.
E assim ela sobrevivera, protegida e adorada por milhares de
gerações desde a época da Laliari e Zant. E então invasores
chegaram do vale do Nilo, liderados por um faraó,
conquistador feroz, chamado Amenófis que levou de volta
não apenas escravos como também se apossou de deuses e
deusas. Entre eles figurava a Deusa padroeira de Jericó, que
foi abrigada temporariamente e respeitada no santuário de
deusas egípcias menores, onde seu coração cristalino
capturou o olhar de uma rainha adúltera.
Quando a rainha foi depositada para seu repouso final numa
esplêndida tumba além da imaginação (devido à consciência
culpada do rei que a envenenara) o cristal azul a
acompanhou, e ali rainha e cristal dormiram num mundo
escuro e sem ar, anônimos e esquecidos por milhares de
anos até que ladrões de tumbas, bêbados, cheirando a urina e
cobertos de picadas de pulga, abriram caminho na tumba e
trouxeram a antiga pedra azul de volta à luz do dia. A lágrima
de meteorito azul-do-céu mudou de mãos ao longo de uma
sucessão de anos enquanto foi trazida, vendida, roubada,
disputada e apostada até parar em poder de um importante
funcionário romano, que mandou engastar a pedra num
lindo colar para sua esposa.
Ele pretendia que o presente fosse uma punição.
Livro Quatro
ROMA, 64 D.C.
A prece da Sra. Amélia era de desespero.
Por favor, permiti que a criança seja saudável.
O santuário dos deuses domésticos continha várias
divindades romanas, portanto a Sra. Amélia tinha de recorrer
a alguma das mais poderosas no panteão. Mas, uma vez que
as circunstâncias exigiam a interferência especial de uma
deusa que tivesse empatia com o apelo de uma mãe, a Sra.
Amélia havia escolhido uma a quem o povo chamava de
Virgem Abençoada (porque concebera um filho sem a
assistência de um homem), uma deusa que conhecera o
sofrimento quando seu filho fora pendurado numa árvore
para morrer, descer ao submundo e depois voltar
ressuscitado. Portanto era a esta piedosa mãe, a Rainha do
Céu, a quem a Sra. Amélia fazia agora o seu pedido:
— Permiti, por favor, que a criança nasça sem defeitos ou
incapacidades. Permiti que caia nas boas graças do marido de
minha filha e que seja aceita na família.
Suas palavras sussurradas morreram no silêncio da manhã.
Morreram porque não havia nenhum significado por trás
delas, nenhuma fé. Sua prece era uma impostura, uma
devoção da boca para fora. A Sra. Amélia fazia esses apelos
de piedade porque era o que se esperava dela; como uma
matrona modelo romana ela sempre fez a coisa certa, sempre
manteve as aparências. Mas seu coração estava
completamente vazio de fé. Como podia uma mulher
acreditar em deusas quando os homens tinham o direito de
dispor dos bebês das mulheres?
Terminada a prece, ela persignou-se, tocando a testa, o peito
e os ombros, porque uma vez tinha visto isto sendo feito por
um devoto de Hermes, o antigo deus-salvador conhecido
como a Palavra Tornada Carne. O sinal-da-cruz vinha de
anos de hábito. A Sra. Amélia não mais acreditava no seu
poder. Ela se lembrava de um tempo em que as preces eram
um consolo, em que os deuses eram um consolo. Mas agora
os deuses se tinham ido e não havia nenhum consolo no
mundo.
De repente a casa foi tomada por gritos, ecoando das
paredes, colunas e estatuária. Sua filha estava em trabalho de
parto havia um dia e meio e as parteiras começavam a se
desesperar.
A Sra. Amélia deu as costas à Virgem Abençoada Juno, mãe
do deus- salvador Marte, e passou pela colunata sombreada
que envolvia o jardim interno da vila, onde uma fonte
jorrava docemente neste dia quente de primavera. A Sra.
Amélia não se incomodava em visitar o santuário dos
ancestrais. Fazia anos que não orava para eles. Sem deuses
não poderia haver vida após a morte, e sem vida após a
morte os ancestrais não poderiam existir.
Ela deslizou silenciosamente pelo átrio onde rapazes
jogavam dados e riam, despreocupados com os gritos que
rasgavam a paz matinal. Eram três filhos dela e dois genros,
bem como amigos íntimos da jovem cujo filho estava
lutando para vir ao mundo. Enquanto atravessava o umbral
da porta aberta viu o marido da sua filha, um jovem prestes a
ser pai reclinado à vontade, bebendo vinho e jogando dados
como se não desse a menor importância ao mundo.
Talvez ele não dê, pensou com um rancor que não lhe era
peculiar. O parto era somente problema das mulheres.
Um pensamento voejou como uma sombra pela mente de
Amélia, rápido e negro como um corvo: Nós mulheres
carregamos filhos dentro de nossos corpos, os alimentamos
com nosso fôlego e nosso sangue, nossos batimentos
cardíacos bombeiam a vida neles, e por quase dez meses a
criança e a mãe são um único ser. E então chegam as dores
do parto, o dilacerar da carne e o fluxo de sangue, a agonia
de impelir a nova vida para o mundo. Porém para você,
jovem pai, não há dor nem sangue. Um momento de prazer
e, nove meses depois, você bebe vinho, joga dados e decide
o destino do recém-nascido.
Amélia experimentou uma pontada de ressentimento. Não
apenas em relação ao seu genro, mas a todos os homens que
decidiam sobre a vida e a morte tão cegamente como se
estivessem num jogo de dados. Ela nem sempre se sentira
assim. Houve um tempo em que Amélia, esposa do poderoso
e nobre Cornélio Gaio Vitélio, acreditava nos deuses e
pensava que a vida era boa. Mas toda a alegria e fé se
extinguiram no dia em que a morte prevalecera sobre a vida.
Um dia não diferente do de hoje.
Seu caminho foi bloqueado de repente por um homem
idoso, o Leitor dos Pássaros, que ela contratara para
interpretar os sinais. O velho grego exercia um lucrativo
negócio porque os romanos eram um povo supersticioso,
sempre observando sinais e presságios, lendo significado em
cada nuvem e ribombar de trovão. Para um romano o dia
não podia começar sem que antes não fosse determinado se
era um dia auspicioso para tratar de negócios, para se casar,
para fazer molho de peixe. E entre todos os instrumentos de
augúrio, desde os nós dos dedos às folhas de chá, o vôo dos
pássaros era o mais importante — até mesmo a palavra
"auspicioso" derivava de auspicium, que significava
adivinhação por meio do vôo dos pássaros.
— Li os auspícios, senhora — começou o Leitor dos
Pássaros. — Vejo um homem. Seus braços estão abertos,
prontos para abraçá-la.
-— A mim? Certamente se refere à minha filha. Ou ao seu
recém-nascido.
— Os sinais são muito claros. Um homem está vindo para sua
vida, senhora. E está abrindo os braços em boas-vindas.
O único homem em quem podia pensar era seu marido,
Cornélio, que deveria voltar em breve do Egito. Mas isto não
seria possível. Fazia anos que ele não abria os braços para ela.
— O que dizem os pássaros sobre minha filha?
O adivinho deu de ombros — um gesto rápido — e estendeu
a mão para receber o pagamento.
— Nada dizem sobre ela, apenas sobre a senhora.
Amélia deu ao homem uma moeda de ouro e apressou-se ao
longo da colunata rumo ao quarto onde sua filha pelejava
para trazer uma nova vida ao mundo.
A Sra. Amélia havia tomado todas as precauções para
assegurar o êxito desta gravidez, a primeira de sua filha mais
nova. Tão logo Cornélia lhe anunciara a gravidez, Amélia
insistira para que ficasse em casa por esse tempo, casa, neste
caso, sendo a vila no campo onde a família Vitélio havia
produzido vinho e azeite durante gerações. Amélia teria
preferido sua casa na cidade, mas sempre que seu marido
Cornélio estava ausente, como agora, insistia para que ela e a
criadagem se retirassem para o campo. Apenas Amélia
conhecia a razão secreta para esta regra inflexível. Só ela
sabia que era uma forma de punição.
Ela entrou no quarto, que estava repleto de parteiras e suas
assistentes, as tias e primas de Cornélia, sua irmã mais velha
e duas cunhadas, além do astrólogo que sentava-se a um
canto com seus mapas e instrumentos, pronto a registrar o
momento do nascimento da criança. Seguindo uma tradição
muito antiga entre as famílias aristocratas, a filha de Amélia
recebera seu nome em homenagem ao pai, portanto
Cornélia (tal como o filho mais velho era Cornélio), o que às
vezes gerava confusão. Amélia gostaria que a filha tivesse o
seu nome, mas assim não ocorrera.
O coração de Amélia tendia para Cornélia que, aos 17 anos,
tinha a mesma idade que ela própria ao dar à luz seu
primeiro filho, que estaria agora com 26 anos se tivesse
vivido. A segunda gravidez de Amélia resultara em aborto,
mas a terceira, quando estava com 21 anos, gerara seu filho
mais velho, Cornélio, de 22 anos, estudando direito para
seguir as pegadas de seu ilustre pai. Amélia engravidara sete
vezes depois disso: uma tinha lhe dado seus gêmeos, agora
com 20 anos, uma produzira Cornélia, duas geraram bebês
que morreram na infância, uma outra dera- lhe Gaio, seu
filho de 13 anos, mais uma terminara em aborto e a gravidez
final, seis anos antes, quando ela estava com 37 anos, tinha
sido aquela que alterara sua vida e seu universo para sempre.
Aproximou-se da cama da filha e, olhando-a com simpatia e
preocupação, colocou a mão na testa febril de Cornélia num
desejo sincero de que pudesse ser capaz de transferir a dor
para si.
A jovem afastou-lhe a mão.
— Onde está papai? — perguntou, mal-humorada. — Quero
papai.
Amélia sentiu uma estocada de dor. Cornélia não tinha
concordado
finalmente em ficar na casa de campo porque quisesse estar
com a mãe, mas sim porque desejava estar lá quando seu pai
retornasse do Egito.
— Mandei uma mensagem para Óstia — disse Amélia. — Tão
logo o navio chegue, ele será avisado.
Cornélia desviou a vista da mãe e ergueu as mãos para a irmã
e as cunhadas. As jovens mulheres se agruparam em torno
dela até que Amélia viu-se fora do círculo. Ela não protestou.
Já tinha sido excluída do círculo familiar anos antes, quando
o desgosto a impelira a cometer um ato imperdoável.
Meninas pequenas que um dia a adoravam e a seguiam por
toda parte como raios de sol, tinham virado as costas para
uma mulher que decidiram não ser mais digna do seu amor.
Sim! ela queria gritar, assim como quisera gritar nos últimos
seis anos. Cometi adultério. Busquei consolo nos braços de
outro homem. Mas não foi por necessidade de sexo ou amor
— fui movida pelo pesar, porque minha filha nasceu aleijada
e meu marido a jogou fora!
Mas o grito foi mudo, como sempre acontecia — ninguém
se importava com o motivo que havia levado Amélia a
dormir com outro homem, somente com que o tinha feito
— e ela apertou as mãos com força enquanto observava a
parteira em seu trabalho. A mulher havia lubrificado o canal
de parto com gordura de ganso, e mesmo assim o bebê não
vinha. Ela então extraiu uma comprida pena branca da sua
sacola, subiu no leito para montar na mulher em trabalho de
parto e começou a atiçar o nariz de Cornélia para que ela
espirasse.
A Sra. Amélia fechou os olhos enquanto uma lembrança
dolorosa lampejava em sua mente. Seu próprio trabalho de
parto durante o nascimento de seu último filho, o bebê que
Cornélio se recusara a aceitar, ordenando a uma criada que o
levasse, com poucos minutos de nascido, para ser deixado
exposto às intempéries num monte de lixo. Amélia nem
chegara a ver o bebê. Tinha sido tirado direto de seu útero
para Cornélio, que dera uma olhada no pé deformado e
declarara a criança inadequada. Amélia passara os anos que
se seguiram tentando entender o que tinha feito para causar
a deformação, pois certamente só devia culpar a si mesma.
De que outro modo explicaria a má-formação do pé? Com o
coração cheio de pesar ela havia revivido vezes sem conta os
meses da gravidez, tentando descobrir o único erro, o único
deslize que cometera e que causara a deformação. E então
lhe ocorrera: o dia em que estivera sentada no jardim de sua
casa citadina. Lia um livro de poesia e não sentira a borboleta
pousar no seu pé. Foi só quando olhou para baixo que a viu,
e como ficara tão absorta pela sua proximidade e beleza, e
sua evidente falta de medo — pois continuara pousada ali,
agitando suas asas frágeis —, não a tinha enxotado. Não sabia
quanto tempo a borboleta ficara descansando no seu pé, mas
era claro que tinha sido o suficiente para deixar uma marca
no bebê que tomava no seu útero naquele momento, pois
três meses mais tarde ele nasceu com um pé deformado,
marcando-o para ser jogado num monte de lixo.
Por este motivo, a Sra. Amélia tinha sido tão protetora em
relação à filha nos últimos meses, lendo os auspícios várias
vezes por dia, atenta aos sinais, tomando cuidado para não
quebrar quaisquer tabus ou atrair má sorte para a casa.
Quando um gato preto aparecera no jardim, ela mandara
matá-lo de imediato. Mas um gato branco extraviado tinha
sido trazido e mimado para dar sorte. A Sra. Amélia não
suportaria ver a filha passar pela agonia que ela própria
passara com aquele último bebê perdido.
Uma vez que a pena não produzira resultados, a parteira
procurou de novo em sua sacola e extraiu uma medida de
pimenta que esvaziou na palma da mão. Levando-a ao nariz
de Cornélia, mandou-a inalar profundamente. A jovem o fez
e produziu um espirro tão violento que o bebê foi impelido
para baixo.
— Eis a cabeça! — gritou a assistente.
Momentos depois, o neonato escorregou para o cobertor à
espera. Enquanto a parteira atava e cortava o cordão
umbilical, a Sra. Amélia se postou apreensiva ao lado da
cama.
— E um menino? — perguntou Cornélia, arquejante. —
Nasceu perfeito?
Mas Amélia não disse nada. Tendo nascido o bebê, a questão
agora saía das mãos das mulheres. O que acontecesse a seguir
dependia do marido de sua filha. Se ele rejeitasse o filho,
então era melhor Cornélia não ficar sabendo de nada, pois
ele seria levado da casa e depositado num monte de lixo para
ser exposto aos elementos.
Tão logo a parteira enrolou o neonato num cobertor, a Sra.
Amélia tomou-o dela e, embalando gentilmente o bebê,
apressou-se para fora do quarto. Atrás de si, Amélia ouviu
Cornélia perguntando à parteira se era menino ou menina.
Mas a mulher, já escaldada, sabiamente ficou em silêncio.
Quanto menos a mãe soubesse do bebê, melhor.
A Sra. Amélia penetrou no átrio e de imediato ganhou a
atenção dos rapazes lá reunidos: seu filho mais velho,
Cornélio, que já era pai de duas crianças; o filho seguinte,
gêmeo da filha de 20 anos de Amélia; o filho mais novo, de
apenas 13 anos; o jovem marido de sua filha de 20 anos;
primos e amigos íntimos; e finalmente o marido de Cornélia,
de 19 anos, espigando-se alto e orgulhoso, ciente da
solenidade da antiga tradição que estava prestes a seguir e da
gravidade de suas ações seguintes.
Ela depositou o bebê aos pés dele e recuou. Ninguém se
moveu ou respirou enquanto ele se inclinava e abria o
cobertor para ver o sexo da criança. Se fosse menina, e não
tivesse defeitos, ele a reconheceria como sua e depois a
entregaria para amas-de-leite escravas, como ditava o
costume. Mas se fosse menino, e sem defeitos, ele o pegaria
no colo e o declararia seu filho diante da família e amigos.
O momento se prolongou. Amélia estava quase em pânico.
Seis anos atrás, Cornélio abrindo o cobertor, vendo que era
uma menina, e a seguir vendo o pé defeituoso que a deixaria
aleijada por toda a vida. Virando-se de costas. Gesticulando
furioso para a escrava que desapareceu com a criança como
se fosse um lixo derramado. E Cornélia, de apenas 11 anos,
entrando às pressas no quarto e dizendo: "Mamãe, o papai
mandou jogar fora o bebê. Era um monstro?"
E agora a própria Cornélia estava esperando pelas mesmas
notícias...
O recém-nascido era um menino, perfeito e imaculado. O
jovem pai abriu um sorriso e ergueu o bebê do chão.
— Tenho um filho! — gritou, e todos deram vivas e o
cumprimentaram.
A Sra. Amélia quase desfaleceu de alívio. Mas quando já ia
correr de volta à filha com as boas novas, houve uma súbita
comoção do lado de fora. Filo, o mordomo da vila,
materializou-se à porta com seu bastão de madeira e postura
majestosa.
— Senhora, o amo chegou — anunciou.
Ela levou a mão à boca. Não estava preparada!
Amélia não seguiu diretamente para recepcionar Cornélio.
Em vez disso observou das sombras enquanto escravos se
apressavam em receber seu amo com vinho e bebida, para
livrá-lo de sua toga, para alvoroçar em torno dele em nítido
excitamento: quando o amo estava fora, a vida no campo era
mortalmente tediosa. Cornélio aceitou a adulação com a
afabilidade de um rei. Aos 45 anos, Cornélio era alto e bem-
apessoado, com apenas um leve tom grisalho nas têmporas.
Amélia quase pôde se lembrar de como era quando estava
apaixonada por ele. Mas isto foi antes que descobrisse seu
frio e implacável coração, quando ele soubera por amigos de
sua breve indiscrição com um poeta de passagem por Roma.
Ela havia confessado e pedido perdão, dizendo a ele que
tudo se devera ao pesar pela perda de seu último bebê, e que
o poeta tinha entoado as palavras que ela precisava ouvir.
Mas Cornélio replicara que nunca a perdoaria, e então tudo
mudou.
Ela seguiu silenciosamente o marido enquanto ele ia direto
para o quarto de parto, onde cumprimentou seu genro e
pegou o bebê da ama-de-leite para cumulá-lo de atenções.
Depois ele sentou-se no leito e inclinou-se sobre Cornélia,
que sempre tinha sido a sua favorita. Quando os dois estavam
juntos, Amélia sempre se sentia excluída. Que segredos
estaria ele sussurrando agora para a filha?
Um garotinho chegou correndo e gritando:
— Papai! Papai!
Lúcio, um garoto gorducho e mimado de nove anos, era
seguido por um velho cachorro chamado Fido, o nome
romano mais popular para um cachorro, significando "fiel".
Fido era um nome adequado também para o menino, pois
ele adorava o pai e o seguia por toda parte. Amélia observava
Cornélio envolver o menino num amoroso abraço. Ele não
era realmente filho deles, apenas adotivo. Cornélio adotara o
garoto quando ele ficou órfão aos três anos. Lúcio era filho
de primos distantes, e, portanto da família. Amélia tentara
amar Lúcio, mas não conseguira encontrar lugar no seu
coração. Não era culpa do garoto. Amélia jamais se esque-
ceria de que Cornélio tinha aceitado um filho de outra
mulher enquanto se livrara do seu.
Amélia estava com 37 anos quando concebera seu último
filho. Já havia começado a sentir as mudanças no corpo,
sinais de que sua fertilidade estava chegando ao fim. E,
portanto aquela tinha sido uma gravidez especial porque
seria a sua última, e ela havia amado a vida no seu útero mais
profundamente do que qualquer um de seus outros filhos.
Seria a companhia na sua velhice, quando os outros filhos
teriam crescido e seguido suas vidas, o filho especial a
receber da velha mãe atenção e sabedoria.
E então Cornélio o havia jogado fora.
Amélia tentara lembrar a si mesma de que na verdade
deveria ser grata: ter cinco filhos sobreviventes em dez
gestações era um sinal de favorecimento dos deuses.
Crianças romanas nem sequer recebiam nome até
completarem um ano de idade, a mortalidade infantil era,
portanto comum. Teria aquele ser precioso sobrevivido ao
monturo? Haveria em algum lugar de Roma uma orfãzinha
manquitolando com um pé aleijado? Pessoas que escavavam
lixo para recuperar vasos quebrados, lamparinas, sobras de
papiro e roupa, às vezes recolhiam bebês ainda respirando.
Tais resgates não eram feitos por compaixão, mas sim por
lucro: uma criança podia ser criada com um mínimo de
alimentação e cuidados e depois, se vivesse até os três ou
quatro anos de idade, poderia ser vendida no mercado de
escravos por um lucro quase puro. Se tivesse sorte, a criança
cresceria para servir a um senhor bondoso. O mais provável,
porém era que fosse vendida para uma servidão brutal e, se
de todo atraente, para entretenimento sexual.
Após observar a reunião da família como se através dos
olhos de um estranho — pois sabia que nunca seria incluída,
não importando que fosse esposa e mãe —, Amélia saiu de
seu lugar nas sombras e foi dar instruções ao cozinheiro para
o banquete da noite. A tensão da manhã dispersada, a casa
agora estava em plena atividade. O fato de o recém-nascido
ter sido aceito na família pelo jovem senhor era motivo
suficiente para comemoração, mas agora havia a perspectiva
extra e excitante de retorno à cidade.
Mas enquanto Amélia inspecionava a caça recém-abatida e
discutia os molhos com o cozinheiro, para sua grande
surpresa o mordomo Filo apareceu inesperadamente
anunciando que seu marido queria vê-la. Amélia não
confiava em Filo. Sabia que suas pálpebras sonolentas es-
condiam um arguto intelecto. Desconfiava que ele a
espionava e relatava suas atividades a Cornélio.
Amélia não seguiu direto para os aposentos privativos do
marido: parou na sua própria suíte para verificar o cabelo, a
roupa, o perfume. Ficou subitamente nervosa. Por que ele
pedira para vê-la? Amélia e o marido mal se falavam, até
mesmo depois de uma separação de sete meses.
Cornélio Vitélio, um dos advogados mais populares de Roma
e presentemente um favorito da plebe, tinha ido ao Egito
para supervisionar os negócios que a família mantinha lá.
Amélia e o marido eram muito ricos. Enquanto Cornélio era
dono de minas de cobre na Sicília, uma frota de navios
cargueiros e lavouras de grãos no Egito, Amélia possuía
vários imóveis de aluguel no coração de Roma.
Ela o encontrou sentado a uma pequena escrivaninha. Havia
acabado de chegar de uma jornada tão longa e já se inteirava
da correspondência e das novidades. Ela ficou ali plantada
pacientemente. Então limpou a garganta e finalmente
perguntou:
— Como estava o Egito, meu senhor?
— Egípcio — respondeu ele, de modo desinteressado.
Amélia gostaria de ter ido com ele. Desde criança que
sonhava em visitar as ruínas do Egito, mas claro que tais
sonhos estavam agora além de toda esperança de se
tornarem realidade. Enquanto esperava nervosa que
Cornélio dissesse por que mandara chamá-la, pensou
freneticamente acerca dos últimos sete meses para ver se
havia alguma coisa que o marido pudesse remotamente
considerar uma infração das regras que lhe impusera.
Mas era impossível se lembrar de algo. Cornélio poderia
interpretar sua mais leve palavra ou gesto como um ato de
rebelião. Fosse o que fosse, o que faria com ela desta vez?
Deixá-la na casa de campo enquanto retornava para Roma?
Achava que não ia agüentar por muito mais tempo aquela
exclusão.
Sua punição sempre se manifestava de modo sutil. E parte de
seu controle sobre ela era que nem sempre permitia-lhe
abordar o assunto a ser explicado. Cornélio a tinha julgado e
ponto final. Ela queria dizer- lhe: "Deixe-me contar por que
fiz aquilo."
Mas o assunto estava encerrado, muito embora fosse o
assunto dela, parte de sua vida, e ela teria controle sobre
qualquer coisa que fosse discutida ou não. Cornélio não a
interrogara como outros maridos costumavam fazer. Não
erguera a voz ou a xingara. Ela com freqüência pensava que,
se ao menos fizesse essas coisas, então o "monstro" poderia
ser trazido à tona e talvez expulso de suas vidas. Mas
Cornélio bloqueara todas as saídas, assegurando-se de que o
fantasma sem nome não pudesse escapar, que continuasse a
viver entre eles como seu tormento particular.
O adultério foi algo que tinha simplesmente acontecido. Ela
ficara desconsolada com a perda do bebê. O caso de amor só
durara uma semana, mas tinha sido o bastante. Em vez de
divorciar-se e bani-la para o exílio, como era o seu direito,
Cornélio a surpreendera ao continuar casado com ela. A
ocasião havia achado que era seu modo de perdoá-la. O
verdadeiro motivo, porém, era exatamente o oposto.
Cornélio agora controlava por completo a sua vida e
periodicamente, como parte de sua punição contínua,
ordenava que permanecesse no campo. Amélia adorava a
cidade, onde estavam todos os seus amigos e seus amados
teatros e livrarias. Sempre que era obrigada a ficar no campo
lembrava-se de Júlia, a filha de Augusto, que fora exilada para
a ilha de Panolateria, um árido afloramento vulcânico no
oceano que era tão pequeno que ela podia percorrer toda sua
extensão e largura em menos de uma hora. Júlia não tinha
direito a vinho nem alimentos preferidos, nem animais de
estimação ou entretenimentos ou companhia — nenhum
tipo de luxo. E lá tinha morrido após anos sem ver ninguém
a não ser o velho que trazia peixe da praia. Tal era o destino
das esposas adúlteras quando não eram de fato executadas
por seu crime.
Cornélio porém escolhera uma punição mais lenta, mais
dolorosa. Em vez de simplesmente abatê-la com um golpe e
bani-la para o exílio, ele mantinha Amélia de modo a poder
rebaixá-la lentamente, privando-a de autoconfiança e
orgulho. Havia a estátua de uma deusa no jardim, exposta aos
elementos, e a cada estação ela ficara um pouco menor, um
pouco mais reduzida enquanto o vento e a chuva a erodiam.
Muito tempo atrás tinha sido uma bela e perfeita estátua,
com feições faciais distintamente cinzeladas, mas agora o
nariz, as faces e o queixo estavam desgastados, o rosto sem
forma a ponto de não mais se saber que deusa tinha sido. Era
assim que Amélia agora se via: era uma estátua exposta aos
ímpetos do marido. E, como uma estátua, permanecia
imóvel sem poder fugir. Algum dia, temia, estaria tão
descaracterizada que sua identidade não mais seria
conhecida.
Cornélio ergueu-se por fim da escrivaninha e entregou-lhe
uma pequena caixa de ébano.
Amélia olhou para ela.
— O que é isto?
— Fique com ela.
Ele havia lhe trazido um presente? Seu coração pulou com
uma breve esperança. Os meses passados no Egito e a
ausência de casa teriam lhe dado uma pausa para refletir e
reconsiderar? Ela pensou na profecia do Leitor de Pássaros,
de um homem recebendo-a de braços abertos, e imaginou
num ímpeto de excitamento se Cornélio por fim a perdoara.
Amélia inspirou fundo quando abriu a caixa e viu o que
havia dentro dela: o mais estranho colar em que já havia
pousado os olhos.
Atordoada de alegria e súbita esperança, cuidadosamente
tirou a corrente de ouro da caixa e segurou-a de encontro à
luz. Engastada com perícia no ouro estava uma atordoante
pedra azul, lisa e em forma de ovo, emitindo tonalidades dos
céus, do arco-íris e lagos. Enquanto colocava o colar no
pescoço, Cornélio disse:
— Diz a lenda que foi encontrado no túmulo de uma rainha
egípcia que enganou o marido e foi condenada à morte por
isso.
A alegria e a esperança de Amélia desmoronaram. Neste
instante, ela viu a verdade de sua vida: uma mulher cujos
filhos não mais precisavam dela, cujo marido era frio e cruel,
e cujos poucos amigos mexericavam sobre ela pelas costas.
Uma situação intolerável. Ainda assim, nunca poderia partir,
pois a lei dava a Cornélio direito absoluto de vida e morte
sobre ela. Além disso, ela errara e merecia ser punida.
Amélia acordou com um sobressalto.
Prestou atenção na noite e ouviu, através da janela aberta, o
barulho incessante da cidade. O tráfego sobre rodas era
proibido nas ruas de Roma durante o dia, e, portanto a noite
era preenchida pelo clape-clape de cascos e pelo rangido das
carroças. Mas não fora a cidade que a tinha acordado.
— Quem está aí? — sussurrou na escuridão.
Como não houve resposta, continuou imóvel, prendendo a
respiração. Estava certa de ter sentido uma presença no
quarto.
— Cornélio? — chamou, mesmo sabendo que seria
impossível.
Sua pele de repente arrepiou-se e sentiu o couro cabeludo
comichar. Tomada por um pavor inominável, sentou-se. O
quarto estava inundado por um radiante luar. Olhou em
torno do quarto, mas não viu ninguém.
Levantando-se da cama, atravessou o quarto para olhar pela
janela. Roma dormia. Telhados, torres, colinas e vales, tudo
estava banhado pela luz brilhante da lua e das estrelas. E o
inflexível tráfego nas ruas, estranhamente solene e abafado,
como se fantasmas fossem os condutores dos cavalos e
mulas.
Sentiu um gélido arfar às suas costas. Virando-se num
sobressalto, examinou o quarto mais uma vez. Seus sentidos
estavam aguçados. A mobília destacava-se com soturna
nitidez à luz sobrenatural da lua. De repente, nem parecia
mais seu quarto, afinal. Ele a fazia pensar em túmulos e
morte.
Atravessando o chão frio, alcançou a penteadeira e olhou
para a caixa de ébano que Cornélio trouxera do Egito. E de
repente ela soube: Aí jaz a presença sem nome. O cristal
azul odioso que repousara por mil anos sobre o peito de uma
mulher morta. Aquilo a aterrorizou. Quando Cornélio o
entregara a ela, Amélia olhara longa e detidamente para as
profundezas azuis da pedra, e o que tinha visto a inundara de
tamanho pavor que pusera de lado o colar, jurando nunca
mais trazê-lo de novo à luz.
Porque tinha visto o fantasma da rainha assassinada.
Enquanto um raio de sol matinal filtrava-se através da janela,
Amélia sentou-se à penteadeira como sempre fazia,
aplicando maquiagem, examinando as jóias, arrumando o
cabelo: um ritual necessário. Amélia conservava sua sanidade
mantendo as aparências. Ao arrumar o cabelo, ela arrumava
suas emoções. Ao fazer o que se esperava dela, não precisava
pensar ou tomar decisões. Sendo uma mulher de certa
posição, havia regras que deviam ser seguidas, e Amélia as
seguia quase obsessivamente. Era como um mímico no
teatro, toda gestos e nenhuma substância. Tinha amado
Cornélio uma vez, muito tempo antes, mas agora não con-
seguia relembrar como tinha sido — amar Cornélio ou
simplesmente amar. Ela não ficara apaixonada por seu
amante, um homem que conhecera por somente uma
semana e cujo rosto mal podia invocar agora. Em
retrospecto, não podia se recordar das emoções que a
impeliram ao abraço dele, e por certo não restava nenhum
vestígio daquela fortuita paixão física.
O adultério era uma coisa estranha. Tudo dependia de quem
o cometia, e com quem. Entre as classes baixas, a traição
conjugal era quase um esporte nacional e uma grande fonte
de piada para o teatro. Mas a nobreza se pautava por um
padrão diferente, e uma esposa transviada era vista como
traidora não só pelo marido, mas também por toda a classe
social a que pertencia. Como Lucilla, a linda viúva de um se-
nhor famoso, lhe dissera uma vez despudoradamente, o
pecado não era o adultério em si, mas sim a adúltera ser
flagrada. Amélia tinha agido na maior estupidez, e por isso os
senhores e damas de Roma não podiam perdoá-la.
— Cuidado com o número quatro, senhora — grasnou o
astrólogo numa voz envelhecida enquanto consultava um
mapa astral.
A Sra. Amélia desviou a vista do espelho. Estivera aplicando
pó-de-arroz nos círculos escuros sob os olhos, porque, uma
vez que conseguira voltar a dormir, os pesadelos a assolaram
com terrificantes cenários de túmulos, sarcófagos e rainhas
mortas vingativas.
— O número quatro? — perguntou ela.
— E o seu número de má sorte hoje — explicou o velho que
lia o horóscopo de Amélia a cada manhã. — Deve ser
evitado a todo custo.
Ela olhou para o seu reflexo. Por que evitaria um número
que era tão prevalente? O universo era feito de quatros: os
quatro elementos, os quatro ventos, as quatro fases da lua. E
as pessoas: quatro membros, os quatro ventrículos cardíacos,
quatro paixões.
Suas garotas escravas estavam arrumando seu cabelo para o
dia e fazendo um belo trabalho, pois gostavam da sua ama.
Amélia era mais gentil do que muitas senhoras da sua classe
e não espetava as escravas com grampos de cabelo se não
fizessem as coisas de modo correto.
As duas jovens escravas trabalhavam com o cuidado
necessário para uma senhora variar o estilo do seu cabelo;
usar o mesmo cabelo dia após dia simplesmente não se fazia.
Nesta manhã os longos cachos de Amélia, tingidos com hena
para cobrir fios grisalhos, estavam assentados com uma tiara
na sua cabeça. Como esposa de um Vitélio, era importante
que sempre se apresentasse no melhor de si. Amélia usava
vestidos feitos de seda chinesa, colares feitos de pérolas do
oceano Indico e jóias de prata espanhola e ouro da Dalmácia.
Uma estranha poderia até mesmo invejá-la.
— Existe algo nos seus mapas acerca de um homem me
saudando com os braços abertos? — perguntou.
O idoso adivinho arqueou as espessas sobrancelhas brancas.
— Braços abertos, senhora?
— Como se para me abraçar ou me acolher.
Ele sacudiu a cabeça e recolheu seus apetrechos.
— Nada, senhora — disse e saiu.
Amélia mordeu o lábio. O Leitor de Pássaros na casa de
campo nunca errava. Suas profecias se confirmavam com
freqüência fantástica. Infelizmente o leitor de auspícios não
acompanhara o séquito familiar na volta à cidade.
Ela estremeceu — não de frio, mas de medo. O colar. Ele a
assustava, mesmo oculto na caixa. O cristal azul, duro e frio a
fazia pensar em morte. Era da cor da crueldade e da
intransigência. Não havia piedade na pedra, tal como não
havia nenhuma no doador. Agradável à vista, mas duro e frio
com um coração ilegível, como o próprio Cornélio.
Pensou no poder do marido, no poder dos homens em geral.
Que poder tinham as mulheres? A virgindade de Amélia, e,
portanto sua sexualidade, havia sido guardada por seu pai e
seus irmãos. Quando se casou, fora entregue pelo pai ao seu
marido. Em nenhuma fase da sua vida tinha sido dona de si
própria. Quando os irmãos chegavam de visita, eles a
saudavam, como todos os parentes homens romanos
saudavam seus parentes mulheres, com beijos em ambas as
faces. Não era um gesto de afeição, mas um meio
dissimulado para detectar vinho no hálito da mulher, pois
beber álcool era considerado inadequado. Não tenho sequer
o direito de decidir o que entra em meu estômago!
Amélia estremeceu de novo, quase receosa de mirar-se no
espelho por medo do que poderia ver — o espectro da
rainha morta pairando atrás dela. Aquele colar horrível. Era
como se Cornélio tivesse trazido um fantasma para o lar. Se
ao menos ela pudesse orar! Houve uma época em que a
prece tinha sido um consolo. Mas agora só havia um deserto
espiritual, onde a fé tinha um dia florescido.
Como invejava sua amiga Raquel, tão devota, tão ativa na sua
comunidade religiosa, e tão certa do seu lugar no mundo.
Raquel sabia da sua perda de fé e tentara, a sua maneira
persuasiva e gentil, trazer a amiga para a fé judaica. Mas a
religião de Raquel apenas frustrou e confundiu Amélia. Se
uma centena de deuses romanos não conseguiam inspirar a
fé, como é que apenas um conseguiria?
Com os pensamentos agora em Raquel, Amélia se recordou
da sua surpresa da noite anterior, quando recebera um
convite para comparecer hoje à casa da amiga. Era um dia
em que normalmente Amélia não teria visto Raquel, pois era
o dia sagrado da sua religião, chamado Sabbath. Mais
espantoso ainda era que o convite mencionava uma refeição.
Como a lei rabínica proibia os judeus de comer com gentios,
em todos aqueles anos de amizade nem uma única vez ela e
Raquel haviam repartido um pão. E, portanto Amélia estava
excitada e ansiosa pelo dia. Mas precisava ser cautelosa para
não demonstrar sua alegria a Cornélio, ou ele poderia
ordenar que ficasse em casa.
Amélia sabia por que Cornélio tinha permitido que
continuasse sua amizade com Raquel, quando a havia
privado de quaisquer outros privilégios e liberdade: era para
ter algo que mantivesse seu poder sobre ela, uma coisa
preciosa que pudesse tomar e assim conservá-la com medo
dele. Se Cornélio negasse todos os seus prazeres e a tornasse
sua prisioneira, nada mais teria com que ameaçá-la, controlá-
la. As saídas para a casa de Raquel eram o constante lembrete
de Cornélio acerca de seu poder sobre a esposa. E ele a
mantinha em suspense. Amélia nunca sabia até o último
minuto se ele lhe daria permissão para sair de casa. Portanto,
embora ela estivesse feliz por rever Raquel, permanecia
aquela nuvem: seria esta a última vez?
— O dia é o mais favorável para apresentar seu caso no
tribunal, excelência. — O astrólogo pessoal de Cornélio
assentiu com satisfação sobre seus cálculos. — Mais
favorável, de fato. Eu diria que o caso estará resolvido ao
meio-dia.
Enquanto três escravos penavam para arrumar a toga de seu
amo, medindo acuradamente as pregas, Cornélio relanceou
os olhos para a porta aberta. Sabia que Amélia, pairando
como um pardal, espreitava logo além dela.
Ela nem sempre tinha sido tímida. Houve um tempo em que
Amélia fora uma mulher forte com uma personalidade
adequada a sua própria posição de relevo na sociedade
romana. A triste ruína tinha sido por sua própria culpa. E o
divórcio com banimento era a punição adequada. Mas
somente Cornélio sabia de sua razão secreta para continuar
casado com ela. Os romanos não gostavam de solteiros,
especialmente os ricos. O Imperador Augusto tinha ido tão
longe a ponto de quase transformar a solterice em crime. Se
Cornélio se divorciasse de Amélia, cada mãe de uma filha
solteira, cada viúva ou divorciada, cada mulher casadoura no
Império estaria atrás dele. Assim sendo, Amélia era o seu
escudo. Ele de fato estava contente com o modo como
manipulara sua vida tão bem. Amélia não era mais uma
esposa ingerente nem um obstáculo, não constava mais em
sua agenda de obrigações — realmente podia ignorá-la por
completo —, embora ainda fosse uma barreira conveniente
contra as caçadoras de marido. Muito bem arranjado, de fato.
E aquele colar! Um golpe de gênio, poderia dizer de si
mesmo. No momento em que o mercador egípcio lhe
oferecera o colar roubado de uma tumba, Cornélio soubera
que era perfeito para Amélia — a quinquilharia extravagante
de uma rainha adúltera. E a ocasião não poderia ter sido
melhor. A indiscrição de sua esposa já fazia seis anos e as
pessoas começavam a esquecer. O cristal azul com sua lenda
escandalosa era a maneira perfeita para refrescar a memória
das pessoas. Era também um meio excelente de anunciar de
modo sutil o seu crescente poder em Roma, pois o cristal
dizia: Se eu posso fazer isto com minha esposa, imagine o
que posso fazer com você.
Uma pequena multidão o aguardava no átrio. Só fazia dois
dias que Cornélio estava em Roma e já se espalhara a notícia
de que o rico patrono estava de volta.
Eles sempre chegavam ao raiar do dia. Jovens famintos
buscando favores, referências, apresentações. Eles se
apressavam de seus alojamentos decrépitos em cortiços para
vir prestar seus respeitos ao patrono do qual dependiam para
a subsistência. Em troca de presentes e alimentos, estes
ansiosos clientes acompanhavam Cornélio nas suas rondas
pela cidade. Era uma tradição romana: quanto maior o
séquito, mais importante o patrono. E Cornélio Gaio Vitélio
tinha umas das maiores claques em Roma.
Cornélio era um advogado bem-sucedido e influente, com
muitos contatos nos altos escalões. Sempre que era
anunciado que ele ia se apresentar nos tribunais, multidões
afluíam para assistir. Sua generosidade era também bastante
notória. Cornélio patrocinava dias grátis nos banhos, com
seu nome exibido com destaque num estandarte sobre a
entrada. Na arena, um dos toldos para abençoado alívio da
luz do sol tinha o nome de Cornélio estampado, informando
ao populacho que esta sombra tinha sido fornecida por ele
gratuitamente. Ele enviava escravos para as ruas soprando
trombetas e proclamando sua grandeza, seguidos por mais
escravos distribuindo pão. Cornélio aspirava ser cônsul
algum dia, perdendo em poder apenas para o imperador, o
que lhe dava o direito de ter um ano batizado com seu
nome, de modo que fosse lembrado por toda a eternidade.
Pães e toldos eram um preço ínfimo a pagar por tal glória.
Ele pensou em Amélia, de pé em frente a sua porta,
esperando.
Um homem tinha somente uma verdadeira posse: o seu bom
nome. Que lhe tirassem suas terras, sua fortuna e suas
realizações, e mesmo assim ninguém tocaria nele enquanto
mantivesse intacto o seu bom nome.
Esta era uma coisa que um homem tinha o direito de
defender a qualquer preço. E não havia humilhação pior em
Roma do que ser motivo de riso. Ser alvo de piadas era para
outros homens, não para Cornélio Gaio Vitélio, cujo sangue
patrício corria mais puro do que o do próprio imperador
(embora Cornélio fosse o último a ousar relembrar Nero
deste fato). Banir sua esposa adúltera para o exílio teria sido
fácil demais, a saída do covarde. Cornélio mostrava a Roma
de que têmpera era feito ao mantê-la e fazer dela um
exemplo contínuo para as outras esposas.
O casamento deles tinha sido arranjado, a unificação de duas
famílias poderosas por meio do contrato esponsalício de
Cornélio e Amélia quando tinham 11 e 8 anos de idade,
respectivamente. Oito anos depois se casaram e passados
mais cinco já eram pais. Após o primeiro filho, que ganhou o
nome do pai, houve uma sucessão de gestações, resultando
em abortos, partos de natimortos e bebês saudáveis — uma
mistura normal. Com o passar dos anos, Cornélio estabeleceu
sua reputação pela oratória e por ganhar causas nos tribunais,
e Amélia era uma esposa exemplar. Um homem não podia
querer mais.
Então ela veio a tornar-se amiga de Agripina, mãe de Nero e
a mais poderosa mulher do Império romano — uma mulher
que certa vez assistira aos jogos usando mantos tecidos
inteiramente com fios de ouro, de modo que havia ofuscado
os espectadores! Agripina estava morta agora, graças aos
deuses, mas Cornélio jamais se esqueceria daquele momento
de humilhação seis anos antes no circo, quando ele e
Amélia, ela grávida à época, entraram no camarote imperial
como convidados e a multidão se levantou com um rugido
de aprovação. Cornélio tinha erguido os braços em
agradecimento pela adulação e Agripina dissera: "Estão
saudando a sua esposa e não a você, seu idiota."
Como ele saberia que Amélia tinha convencido
pessoalmente o mais popular auriga de Roma a sair de sua
aposentadoria para uma última corrida? As atividades de uma
esposa não eram da conta do marido, desde que seus filhos
estivessem sendo criados adequadamente, a casa fosse bem
administrada e ela mantivesse ilibados o seu nome e a sua
reputação. Tudo mais a que as esposas se dedicassem —
caridade, festas, compras — não dizia respeito aos maridos.
Assim, como Cornélio poderia saber que Amélia liderara
uma delegação de senhoras patrícias para adular e implorar
ao arrogante auriga que voltasse para mais uma corrida?
Como Amélia tinha sido bem-sucedida onde outros haviam
fracassado e como Roma adorava o auriga a ponto de quase
endeusar o homem, a turba elevara Amélia à posição de
heroína.
E seu marido completamente por fora.
Cornélio virou alvo de piadas durante meses depois disso. As
pessoas recitavam rimas e rabiscavam versos nos muros,
tornando "Cornélio Vitélio" um eufemismo para marido tolo.
E não havia nada que pudesse fazer a respeito sem que
parecesse mais tolo ainda. A humilhação e o ressentimento o
haviam devorado como um câncer até que ocorreu-lhe uma
idéia de vingança. Não poderia derrubar Amélia do seu
pedestal popular, mas por certo seria capaz de derrubá-la do
pedestal pessoal. Mesmo que o bebê tivesse nascido perfeito,
ele o teria declarado inadequado e o mandaria para o lixo.
Por sorte tinha sido uma menina, e ninguém olhara de perto
o bastante ou tivera coragem para contestar a existência de
um pé deformado. Retirada a criança, apesar das súplicas
histéricas, para ficar exposta numa pilha de lixo a ser
consumido por pássaros, ratos e pelas intempéries, o
domínio de Cornélio estabelecia-se mais uma vez.
E então a tola mulher tinha ido dormir com outro homem
— um poeta popular! E ainda fora estúpida o bastante para
não ser discreta, e aí sua indiscrição foi descoberta. Mais uma
vez, Cornélio tivera de agir. Mas não para bani-la de Roma.
Já que era tão queridinha da ralé, que a ralé fosse
constantemente lembrada de que não passava de uma puta.
Tendo os escravos finalmente ajeitado sua toga, Cornélio
afastou-se e foi examinar-se num espelho de corpo inteiro
feito de cobre polido.
— Suponho que queira visitar a judia — disse ele para
ninguém em particular. Cornélio nunca se referia a Raquel
pelo nome. Não gostava de judeus e opunha-se à política
imperial de tolerância em relação a eles e sua seita secreta.
Havia também convenientemente se esquecido de que fora
o marido da judia, um médico chamado Solomon, o salvador
da vida de um de seus filhos.
Amélia finalmente entrou pela porta aberta.
— Se eu puder.
Ele agitou a toga, virou-se de um lado e do outro diante do
espelho, deu uma ordem aos criados, examinou as unhas
perfeitamente manicuradas, e depois perguntou:
— E algo que você realmente deseja fazer?
Ela mordeu o lábio inferior.
— Sim, Cornélio. — Queria desesperadamente ter permissão
para ir à casa de Raquel. Após visitar a amiga, esperava parar
nas livrarias perto do Fórum para ver se havia chegado uma
nova coleção de poesia. Mas teria de ser uma parada rápida, e
teria de esconder o livro de Cornélio.
Ele finalmente a fitou.
— Você não está usando o meu presente.
O coração dela saltou. O colar!
— Pensei... ele não parece caro demais para...
— A judia é sua melhor amiga. Achei que você gostaria de
mostrá-lo a ela.
Amélia engoliu em seco.
— Está bem, Cornélio. Eu o usarei, se assim deseja.
— Neste caso, pode ir visitá-la.
Ela tentou não demonstrar seu intenso alívio.
— Esteja de volta antes do pôr-do-sol — acrescentou ele. —
Teremos convidados à noite.
— Quem...
— E nada de parar nas livrarias perto do Fórum. Venha direto
para casa. Eu saberei, se assim não fizer.
Ela baixou a cabeça e sussurrou:
— Está bem, Cornélio.
Ele a dispensou e Amélia retornou aos seus aposentos; lá,
retirou da caixa o colar de ouro com o odiado cristal azul e
colocou-o no pescoço. Quando sentiu o peso dele contra o
peito, intuiu sombras se agrupando a seu redor. Não teve
escolha senão levar consigo o fantasma da rainha egípcia.
Enquanto percorria as ruas na sua liteira acortinada, Amélia
recebia bem o barulho e os odores de Roma. Acostumadas
com o ar puro do campo, suas narinas experimentaram um
choque, como sempre ocorria durante os primeiros dias de
regresso à cidade, devido aos odores e miasmas que
envolviam esta metrópole eternamente malcheirosa. Não
precisou abrir a cortina para saber que estavam na rua dos
Pisoeiros, pois estes usavam urina no tratamento da lã e
portanto sempre punham jarras do lado de fora das lojas para
que os passantes urinassem nelas. O odor era tão familiar
quanto de pão assando. Em outras ruas, fezes animais e
humanas assavam ao sol para desprender um fedor que se
mesclava aos aromas de cozinha, bem como de peixe se
deteriorando. Mas para Amélia o cheiro mais penetrante e
mais bem-vindo de todos era o de humanidade.
As ruas de Roma estavam congestionadas de gente buscando
excitamento e diversão; gente comprando, gente vendendo,
homens desejando ser vistos ou ver quem podiam ver,
mulheres fazendo escândalo ou mexericando. Cada esquina
tinha seus artistas itinerantes — malabaristas, palhaços,
adivinhos e encantadores de serpentes. O caminho podia ser
bloqueado por uma multidão assistindo a um engolidor de
espadas ou um trio de acrobatas esperando ganhar algumas
moedas. Mágicos com pombos competiam contra anões com
macacos. Havia cantores e artistas de calçada, engolidores de
fogo e mímicos. Oradores subiam em caixotes e falavam de
tudo, desde as virtudes da alimentação natural aos males do
sexo. Marinheiros com perna de pau divertiam as pessoas
com papagaios treinados para falar palavrões; poetas
declamavam em grego e latim; charlatães vendiam poções e
elixires que curavam tudo. Fosse nas praças de mercados,
nos parques no Fórum, nas ruas estreitas ou largas, as turbas
romanas remoinhavam como cardumes de peixes
incansáveis, eternamente em busca de entretenimento. Elas
lotavam lojas e tavernas com seu apetite por vinho e carne;
mexericavam e flertavam, brigavam e marcavam encontros
amorosos em mil lugares animados. Os becos escuros
ofereciam diversão mais abjeta: lutas selvagens de cães,
dançarinas nuas, prostitutas infantis. Sexo era comprado
barato e consumado rapidamente sem qualquer sentimento.
Mulheres sofrendo privações se ofereciam, bem como suas
filhas e até suas crianças por uma bisnaga de pão. E
assassinatos eram cometidos, em acessos emocionais ou por
meio de frio planejamento.
A Sra. Amélia, que navegava por tudo aquilo na sua liteira
transportada por quatro escravos fortes que gritavam para
abrir caminho, adorava aquela atmosfera. Roma a fazia
reviver, e a ajudava a esquecer o fantasma que viajava em sua
companhia.
Na hora em que a liteira parou diante de um muro alto com
um sólido portão, o sol tinha alcançado seu auge. Amélia
puxou uma corda e ouviu um sininho em algum lugar no
interior. Quando o portão se abriu e Amélia começou a
entrar, ela esticou o braço e esfregou a ponta dos dedos
sobre uma pequena peça de argila inserida no muro. Era cha-
mada de mezuzah e continha um papiro com palavras
sagradas inscritas. Ela o tocou automaticamente, da mesma
maneira como fazia o sinal-da-cruz de vez em quando, não
porque acreditasse no poder das palavras, mas por respeito a
Raquel, que acreditava.
Para Amélia, a melhor parte de estar com Raquel era a
sensação de ficar à vontade. Raquel não era uma mulher
competitiva ou mexeriqueira. Amélia nunca se sentia como
se estivesse sendo silenciosamente avaliada ou criticada,
como acontecia com outras mulheres do seu círculo social.
Com Raquel, qualquer pessoa podia ser falante ou calada na
sua companhia. Quando se encontravam, o passatempo
preferido delas era dar caminhadas ao longo do rio Tibre,
percorrer as prateleiras de livros, observar os divertimentos
de rua, ou passar horas sem fim no jardim de Raquel num
jogo amistoso de cães-e-chacais, onde só se ouvia o rolar dos
dados e o claque-claque produzido pelo movimento das
peças do jogo. Mas elas nunca haviam ceado juntas, e,
portanto Amélia estava na expectativa de uma nova
experiência.
Sua amiga desceu para recepcioná-la, uma mulher mais
velha, rechonchuda e de rosto redondo, com uma riqueza de
colares de prata reluzindo no peito.
— Minha querida Amélia — disse Raquel enquanto se
abraçavam. — Como senti sua falta! — Lágrimas brilhavam
nos seus olhos. — E você ganhou outro neto!
— Um menino saudável!
— Graças a Deus! Cornélia está passando bem?
— Ela e o marido ainda estão no campo. Deverão retornar a
Roma dentro de poucos dias. Mas você, Raquel, você parece
ótima! — Fazia sete meses que não se encontravam, e
embora sua amiga sempre se apresentasse no ápice da saúde,
Amélia não pôde deixar de notar que a mulher mais velha
refulgia por completo. Trajando uma onerosa seda azul-
escura, orlada com adornos de prata, Raquel realmente
parecia anos mais jovem. Ao enlaçar o braço no de Amélia,
Raquel explicou que ela e suas filhas tinham acabado de
retornar da sinagoga e que Amélia era a primeira convidada a
chegar.
— Hoje é o Shavuot, o feriado que celebra o dia em que
Moisés recebeu de Deus a Torá e os Dez Mandamentos no
monte Sinai. Em Jerusalém, o povo está levando oferendas
dos primeiros frutos das suas colheitas para o templo. É por
isso que minha casa está decorada especialmente com flores
e plantas, para nos lembrar que se trata de um feriado da
colheita. É um festival de peregrinação, e Solomon e eu
sempre esperamos algum dia celebrar o Shavuot em
Jerusalém.
Ela parou a meio caminho porque algo tinha reluzido à luz
do sol, chamando sua atenção: uma corrente de ouro em
volta do pescoço de Amélia.
— O que é isto? Um colar que você esconde?
Quando Amélia trouxe o cristal azul para a luz, Raquel fez
menção de tocá-lo.
— Não o faça — disse Amélia, puxando-o de volta.
— Por quê?
— Há uma maldição nele.
Os olhos de Raquel se arregalaram em choque.
— Este colar foi tomado da múmia de uma rainha egípcia.
Raquel pôs a mão no peito.
— Roubado da morta? Deus nos proteja, Amélia, por que usa
uma coisa dessas?
— Porque Cornélio me obrigou.
Raquel não disse nada. Todas as palavras que tinha a dizer
sobre Cornélio haviam sido proferidas muito tempo antes.
— Sinto-lhe a presença.
— De quem?
— Da rainha morta. E como se Cornélio tivesse trazido o
fantasma dela para casa.
— Não há fantasmas nesta casa — disse Raquel dando o braço
a Amélia. — Estará a salvo aqui.
Enquanto entravam no frescor do átrio, Raquel parou e
tomou as mãos de Amélia entre as suas com uma calidez
especial na voz.
— Não posso lhe esconder as boas-novas por nem um
minuto a mais. Oh, minha cara amiga, que coisa maravilhosa
aconteceu enquanto você estava no campo! Você sabe como
a vida tem sido desolada para mim desde o falecimento de
Solomon.
O marido de Raquel tinha sido um médico treinado na escola
grega — um médico hipocrático muito requisitado por sua
perícia e honestidade. As duas mulheres se conheceram
quando um dos filhos de Amélia foi ferido e mandaram
chamar Solomon. Ele e Raquel eram recém-chegados a
Roma, procedentes de Corinto. Solomon tinha explicado que
seus pais e irmãos eram médicos lá, e como não queria tomar
a clientela deles preferiu vir para Roma, onde descobriu que
havia carência de bons médicos. Raquel e Solomon tinham
usufruído de um daqueles raros casamentos em que os
cônjuges se adoram. Em Roma era altamente deselegante
maridos e mulheres apaixonados, e especialmente
reprovador demonstrações de afeição diante dos outros.
Amélia se recordava do quanto ficara chocada ao ver
Solomon beijar a esposa na face. Raquel não tinha sido mais
a mesma desde a sua morte, pois havia ficado um vazio
incapaz de ser preenchido.
Mas agora ela parecia fervilhante de alegria.
— Eu — disse para Amélia — costumava pensar: se ao menos
pudesse ter uma garantia de que tornaria a ver Solomon!
Bem, agora tenho esta garantia. — Raquel continuou para
contar acerca de um herói judeu que chamavam de
Redentor, de uma promessa de vida eterna. — Cristo é o
nosso meio de obter paz espiritual. Na sua morte ele unificou
judeus e gentios ao romper com aquilo que os dividia, a
velha lei, o que resultou na criação de uma nova.
Quando viu o ar intrigado de Amélia, ela riu.
— É confuso — disse —, mas em breve ficará tudo claro. Há
respostas aqui também para você, minha cara amiga.
Os outros começaram a chegar. Amélia ficou surpresa com a
mistura de convidados, pois certa vez Raquel lhe dissera que
ela era sua única amiga não-judia e, ainda assim, havia
gentios no grupo. E nem se restringiam à categoria social de
Raquel, mas pareciam ter sido extraídos de todos os degraus
da vida, incluindo escravos que, para espanto de Amélia,
eram recepcionados com a mesma calidez. Era um
acontecimento. Como o judaísmo era tão misterioso para a
maioria dos romanos, Amélia tinha imaginado que seus
rituais religiosos fossem acontecimentos silenciosos e
solenes, como aqueles nos templos de Isis e Juno. Mas
Raquel explicou à espantada amiga que estas reuniões eram
padronizadas com base nos encontros semanais na sinagoga,
que tinham propósitos tanto sociais quanto espirituais.
Havia três mesas de jantar circundadas por nove sofás, com
três convidados por sofá. Neste dia Raquel exibia sua
habilidade como boa anfitriã, pois era considerado falta de
educação ter menos de nove pessoas a uma mesa, ou mais de
27 pessoas numa festa. Todas as lareiras tinham sido acesas
na noite anterior, pois era proibido acender fogueiras no
Sabbath.
— E um prazer receber os gentios entre nós hoje — disse
Raquel, quando todos haviam se acomodado.
Um homem idoso usando um solidéu e um xale franjado
protestou em voz alta sobre a presença de não-judeus e saiu.
Mandando um rapaz atrás dele, Raquel explicou a Amélia:
— Muitos de nós ainda estão divididos em questões de
prática. Cada comunidade tem suas próprias regras e dogmas
de crença. Os anciãos estão tentando unificar as
comunidades, mas o mundo é um lugar grande. Os irmãos e
irmãs em Corinto mantêm práticas diferentes das nossas, e
os irmãos e irmãs em Éfeso mantêm práticas diferentes
daquelas de Corinto e de nós em Roma!
Amélia viu que o velho vinha sendo conduzido de volta pelo
rapaz, que dizia:
— Lembre-se das palavras do profeta Isaías quando disse:
"Farei de vós uma luz para os gentios, para que possais levar
minha salvação para os confins da terra."
O idoso assumiu seu lugar no sofá, mas ainda não parecia
convencido ou contente com a presença de não-judeus.
— Sh'ma Yisrael: Adonai Elohenu Adonai Ehad! — entoou
Raquel, conduzindo os judeus à prece.
— Barukh Shem Kevod Malkhuto le-olam vaed! Entoaram
eles de volta.
Raquel então sorriu para os novos convidados e repetiu a
prece em latim para que entendessem:
— Ouve, ó Israel: o Senhor é nosso Deus, o Senhor é Único!
Abençoado seja o Seu glorioso Reino para todo o sempre!
A reunião parecia consistir de leitura de cartas e narração de
histórias. Amélia reconheceu algumas das histórias, uma vez
que a ressurreição de deuses não era novidade. O deus Marte
havia sido martirizado e descido ao inferno por três dias e
voltara. Outros salvadores tinham feito o mesmo em épocas
anteriores; até mesmo Rômulo, o primeiro rei de Roma,
aparecera em carne e osso aos seus seguidores após sua
morte e dissera a eles que estava sendo levado aos deuses.
Júlio César e Augusto eram agora deuses. Homens se
tornando deuses era lugar-comum. E quanto a uma vida após
a morte, Isis já prometera isto. O grupo falou da crucificação
de seu redentor. Isto nada significava para Amélia, pois
criminosos eram crucificados todo dia. Cruzes se
enfileiravam nas estradas que levavam a Roma, e era raro ver
uma desocupada. E quanto a Jesus realizando milagres e
curando doentes, isto também não era coisa rara, pois em
Roma milagres eram observados nas ruas diariamente,
mágicos que transformavam água em vinho, e curadores
fazendo o aleijado andar. Ainda assim, ela ouvia
educadamente e se espantava com a atenção dos ouvintes.
A prima de Raquel de Corinto estava presente, aquela que
trouxera cartas para ser lidas em voz alta.
— Não temos sinagogas — sussurrou Raquel para Amélia —,
nem templos, nem centros estruturados de veneração.
Reunimo-nos em casas particulares. Minha prima, tal como
eu, é uma benfeitora da nova fé e dá festas na sua casa em
Corinto. A sua cunhada, que vive em Efeso, é também
benfeitora e dá banquetes em sua casa. E assim que nos
reunimos. Mas não somos iguais em nossas regras e crenças.
Existe um grupo em Alexandria, por exemplo, que é
formado inteiramente de gentios, e portanto escolheram
organizar suas reuniões no domingo, o dia sagrado de Mitra,
em vez de no Sabbath. E não seguem a regra kosher de
alimentação, mas comem aquilo que sempre comeram:
porco e crustáceos, leite com carne. Os companheiros que
conheceram o Mestre enviam cartas para as muitas
comunidades numa tentativa de nos juntar sob uma única
ideologia. Mas é difícil, sendo o império tão vasto.
Amélia não via tanta influência gentia nesta reunião. A
maioria era de judeus. Havia um menorá sobre a mesa. A
cabeça de Raquel estava coberta, como a dos homens, e a
maioria deles usava xales franjados e filactérios na testa.
Primeiro eles recitaram preces em hebraico, depois em
latim. E os pratos, embora variados e fartos, nada continham
de porco ou crustáceos, nem leite ou queijo. Mas havia peixe
no vapor com um molho saboroso, galinha ensopada e uma
vitela doce e tenra.
Raquel, presidindo, explicou aos recém-chegados que era um
banquete em homenagem à chegada Daquele Que Era
Aguardado — o Messias que trará o reino de Deus para os
judeus. Depois os apresentou:
— Hoje temos novos amigos entre nós. Alguns de vocês
desaprovam gentios em nosso meio. Mas Paulo nos disse que
perante Deus não somos nem judeus nem gentios, mas todos
iguais diante Dele.
Raquel repartiu pedaços de pão e passou-os ao redor.
— Bem-aventurados sejam os humildes — cantou ela.
— Pois eles herdarão a terra — entoaram os outros em
resposta.
E assim por diante, num belo cântico antifonário.
Amélia notou que eles dirigiam suas preces a alguém
chamado Abba.
— Abba é o nome do seu deus? — perguntou ela.
— O aramaico era a língua de nosso Senhor, e "abba" é a
palavra aramaica para "pai". Jesus se dirigia a Deus como
Abba, e assim fazemos agora.
Embora o ânimo deles fosse alegre, Amélia sentia uma
tensão subjacente. Havia uma estranha ansiedade entre o
grupo e, à medida que ouvia suas histórias, ela começou a
entender a fonte desta ansiedade: o redentor deles havia sido
crucificado trinta anos antes e poucos dos seus seguidores
originais ainda estavam vivos. Todos diziam isto dando a en-
tender que seu retorno se daria em breve.
— A qualquer dia agora — garantiu Raquel ao grupo.
Aquilo era novidade para Amélia, pois não conseguia
imaginar um único deus salvador que tivesse prometido
voltar, ou que tivesse voltado de fato após ressuscitar. Raquel
continuou, contando sobre tribos nas fronteiras do império
que fomentavam rebelião contra Roma, e depois citou sinais
e prodígios que anunciavam o fim do mundo.
As palavras de encerramento foram pronunciadas por um
homem idoso a quem eles chamavam de Pedro, o que soava
estranho para Amélia, pois estavam falando em latim e,
portanto chamando-o de Rocha. Nunca antes soubera de um
homem chamado Rocha. Quando perguntou por que tinha
um nome tão estranho, Raquel replicou:
— Porque ele é Simão, a Rocha, que se refere a sua
tenacidade e lealdade. Ele foi o primeiro discípulo de nosso
Senhor.
Pedro não parecia fazer jus a seu homônimo. Baixo, velho e
frágil, ele ceve de ser ajudado a ir até o sofá, onde começou a
falar numa voz tão suave quanto uma pluma. Começou
louvando a Deus e depois falou sobre a sacralidade da vida.
Boa parte disso pouco significava para a Sra. Amélia, que
ouvia educadamente exortações como: "Sois um povo eleito,
um sacerdócio régio, uma nação sagrada. Uma vez não
formastes um povo, mas agora sois o povo de Deus", e "O
fim dos tempos está próximo, portanto viveis vossas vidas
aqui como estrangeiros em medo."
Finalmente houve uma coleta de dinheiro, parte do qual
seria distribuído entre os pobres de Roma, o restante sendo
enviado para comunidades cristãs carentes do império.
Quando todos se preparavam para ir embora, Raquel pediu
que Amélia ficasse, pois estava ansiosa por ouvir a opinião da
amiga. Mas Amélia teve de confessar que não entendia esta
nova crença, nem podia aceitar que o mundo estivesse
próximo do fim.
— Muito obrigada, minha querida amiga, por me incluir no
encontro de hoje. Mas isto não é para mim. Não possuo a fé
que você exige dos seus correligionários. Nem sinto que o
seu redentor se interessaria por mim. — Ela se calou de
súbito.
O frágil e velho apóstolo chamado Pedro preparava-se para
liderar o grupo numa prece final, e ante os olhos atônitos de
Amélia ele se levantou, abriu os braços e começou a recitar:
— Pai Abençoado no Céu...
Ela olhou chocada para os braços abertos e se lembrou da
profecia do Leitor de Pássaros. Era este o homem previsto?
O calor do verão se abatia sobre eles e, portanto Raquel
preparava o jardim do peristilo para a reunião do Sabbath. O
grupo aumentara e ela não mais podia manter o banquete em
três conjuntos de três sofás. Agora os convidados sentavam-
se no chão ou em bancos, e comiam de tábuas de pão que ela
passava de mão em mão. Como não possuíam um lugar
formal de veneração, eles chamavam seu grupo de uma
ecclesia, uma palavra grega que significava "convocado à
assembléia" e que gerações futuras chamariam de igreja. A
casa de Raquel era agora uma casa-igreja, como era o lar de
Cloé em Corinto, o de Ninfa em Laodicéia, e assim por
diante. E todas as casas-igrejas reunidas estavam começando
a ser chamadas de Igreja Universal.
A fé crescia com tal rapidez que Raquel agora realizava
batismos diariamente na fonte do seu jardim no peristilo,
com sua pequena estátua de Baco no topo, despejando água
sobre os cristãos convertidos. Ela levava a cabo o ritual da
maneira como sua prima Cloé lhe ensinara, que tinha
aprendido do missionário Paulo, que aprendera de Pedro em
Jerusalém. Havia conforto no ritual e na corrente
inquebrantável, pois o próprio Jesus tinha sido assim
batizado no rio Jordão. E agora, quase quarenta anos depois,
seus seguidores faziam o mesmo. Raquel teve também de
batizar sua melhor amiga.
Ela olhou para Amélia, cuja contribuição para a refeição
comunal era de pãezinhos assados por ela mesma e
estampados com a cruz de Hermes.
Amélia não fazia idéia de quão intensamente Raquel orava
por ela. Não era apenas para trazer a amiga para o alegre redil
de Jesus Cristo — uma razão mais urgente deu força às
preces de Raquel: a salvação da alma imortal de Amélia. A
própria conversão de Raquel havia ocorrido em janeiro, num
dia chuvoso que nunca esqueceria, quando ouvira a mensa-
gem da Palestina de que o salvador havia muito esperado dos
judeus tinha chegado afinal e que, quando ele retornasse, as
pessoas se reuniriam com os falecidos, pois como prometera
Paulo, a morte era somente sono, uma "noite entre dois
dias", e que aqueles batizados em nome do Senhor
reviveriam. Pedro pousara as velhas mãos nodosas na cabeça
de Raquel e ela sentira-se de imediato aliviada de seu pesar.
Desejava que Amélia tivesse a mesma alegria.
Quando Solomon morreu, Amélia a havia consolado, vindo à
casa com qualquer tempo, com palavras ou silêncio,
dependendo do seu estado de espírito à ocasião, mas sempre
partilhando o pesar e o fardo de se ver subitamente sozinha
no mundo. Muitas vezes, naqueles dias tristes, Raquel
imaginara como poderia ter suportado tudo aquilo sem
Amélia.
E então os papéis se inverteram.
— Sinto como se estivesse perdendo minha alma —
confessara Amélia uma tarde, enquanto a escuridão
suavemente se insinuava no jardim privado. — Cornélio está
me sugando, Raquel, e não tenho a força para combatê-lo.
Raquel desejou poder arrancar o colar do pescoço da amiga e
triturar o venenoso cristal azul debaixo dos seus calcanhares.
Mas Cornélio cuidara para que a esposa o usasse todos os
dias; e pior, Amélia acreditava merecer o castigo.
— Cometi adultério — dizia, com tristeza.
— Amélia, ouça-me: um dia o Senhor apareceu a um grupo
de pessoas prestes a apedrejar uma mulher por adultério. Ele
os interrompeu e ofereceu a primeira pedra a qualquer um
na turba que não tivesse cometido um pecado. E ninguém
aceitou a pedra, Amélia! Cornélio não tem pecados?
— Para ele é diferente. Para os homens é diferente.
Raquel não pôde argumentar contra isso, pois a desigualdade
entre homens e mulheres era a mesma tanto nas tradições
romanas quanto judaicas, que situavam o pai ou marido
acima das mulheres na casa. Mas Jesus havia prezado a
igualdade entre homens e mulheres, e a própria Raquel não
era a prova disso? Na sinagoga ela devia sentar-se num bal-
cão, atrás de uma cortina, sem tomar parte ativa no serviço,
ao passo que nos banquetes do Sabbath em sua casa, para
celebrar a ressurreição do Senhor, ela era a diaconisa, aquela
que presidia ao serviço, às preces, que repartia o pão
comunal. E quando Jesus retornasse e o novo reino de Deus
tivesse início, esta seria uma nova era tanto para homens
quanto para mulheres.
Raquel não desistiria em relação à amiga. Quando Jesus
retornasse, somente aqueles que fossem batizados seriam
admitidos no novo reino. E iria retornar em breve, pois
Pedro disse que o Senhor prometera voltar durante a vida
dos seus discípulos. Jesus tinha morrido havia mais de trinta
anos, seus seguidores que ainda viviam estavam em idade
avançada, como Pedro, que era tão frágil a ponto de parecer
que cada expiração sua seria a última. Enquanto provava o
guisado que estivera cozinhando desde o início do Sabbath
na noite anterior, com pedaços de cordeiro tão tenros que
desmanchavam na boca, Raquel jurava que, custasse o que
custasse, qualquer que fosse a força e objetivo mental que
tivesse de empregar, iria salvar a alma da amiga.
Amélia cantarolava enquanto arrumava as pequenas fôrmas
de pão nas travessas. Essas pequenas tarefas a faziam sentir-
se útil. Na sua própria casa ela não era mais necessária.
Cornélio passava cada vez mais tempo no palácio imperial, já
que se tornara um integrante do círculo íntimo de Nero. E
embora Amélia tivesse cinco filhos, um genro, duas noras e
quatro netos, sua casa no Aventino era um lugar
estranhamente silencioso e deserto. Só restavam os dois
garotos: Gaio, que dentro de dois anos receberia a toga da
maioridade e que já passava a maior parte do tempo com
colegas de escola e tutores, não tendo mais tempo para dedi-
car à mãe; e o pequeno Lúcio, que não era seu filho legítimo,
que tinha babá e tutores e a atenção de Cornélio quando o
marido estava em casa. Amélia percorria os cômodos,
colunatas e jardins da sua residência na colina como que
procurando alguma coisa. Raquel disse-lhe que era por fé
que ela ansiava, mas Amélia não tinha muita certeza. Se
fosse fé que estivesse procurando já não a teria encontrado a
esta altura, neste viveiro de zelo e fervor religioso? Em
algumas reuniões, as pessoas caíam no chão em acessos de
êxtase religioso, falando incoerentemente ou profetizando o
fim dos tempos. O grupo orou, cantou e batizou novos
convertidos, atestou o Senhor como o seu salvador e
hipotecou a alma a Deus. Mas até então nada disso
sensibilizara Amélia.
Dedicou sua atenção ao preparo de comida especial para o
pobre Jafé que, não tendo língua, sentia dificuldade para
comer. Sua língua havia sido cortada por um amo sádico e
ele se juntara à casa-igreja de Raquel porque o Deus judaico
ouvia a prece muda. Um sacerdote no templo de Júpiter
tinha cobrado uma taxa para recitar em voz alta a prece de
Jafé, dizendo: "Como espera que o deus o ouça se não pode
falar?"
Quando Amélia passou uma travessa de pão para Cleandro,
um jovem escravo com um pé deformado a quem Raquel
libertara recentemente, não pôde deixar de pensar no seu
bebê, novamente especulando se havia sobrevivido ao
monturo ou se já estava no além esperando para reunir-se à
sua mãe, como Jesus havia prometido. Se ao menos ela
pudesse acreditar! Amélia não se juntara ao grupo de Raquel
movida pela fé, mas por amizade. Sentia-se útil agora, e parte
de uma família: Gaspar, o escravo liberto com apenas um
braço; Jafé, o mudo sem língua; Cloé, a evangelista de
Corinto; Feba, uma diaconisa idosa que vivia aqui em Roma.
Para Amélia não importava que Jesus fosse muitas coisas para
muita gente — sábio, rebelde, mestre, curador, redentor,
filho de Deus —, pois não tinha o próprio Jesus falado em
parábolas que cada um deveria interpretar sua mensagem
segundo a própria crença? Amélia via Jesus como um
professor da vida moral. Não via divindade nele, nem
poderes miraculosos, à exceção de que sua mensagem
trouxera a felicidade de volta à sua vida. Aquilo era um
milagre.
Imaginou se Cornélio havia notado a mudança nela. E se por
ventura pensasse nela, o que poderia supor que estivesse
fazendo? Será que no seu quadro mental ela e Raquel seriam
duas matronas contentes, comparando os netos e se
queixando dos penteados da moda? Provavelmente não
poderia imaginar que nas reuniões semanais Amélia se
descobrira integrada, especialmente na mistura social.
Estremeceu ao pensar na reação dele ao fato de sua esposa
estar repartindo o pão com homens e mulheres de baixa
extração, ou descobrir que ela doara um bracelete — que
tinha sido o seu presente de casamento a ela, 27 anos antes
— para ajudar a tirar da prisão um judeu de Tarso.
Cornélio. Após tantos anos, ainda não o compreendia. Por
que, por exemplo, depois de seis anos, ele estava
aumentando sua punição a ela, aproveitando cada
oportunidade para humilhá-la, quando por certo já era hora
de deixar o assunto cair no esquecimento? Mas então
começou a perceber os olhares enviesados na sua direção e a
ouvir os sussurros às suas costas. Logo após seu retorno a
Roma, os rumores por fim chegaram ao seu conhecimento:
Cornélio levara a bela viúva Lucilla para o Egito. Amélia
ficou arrasada. O colar de cristal azul era um meio de manter
em destaque o pecado dela, enquanto ele tranqüilamente
seguia em frente com seu próprio pecado.
Desde o retorno do campo, ela e Cornélio tinham
mergulhado de volta no turbilhão social de jantares toda
noite e festividades nos feriados, já que a alta sociedade
romana pouco mais tinha a fazer. Cornélio sempre insistia
para que Amélia usasse o colar egípcio, e embora ela o
escondesse sob o vestido, ele a obrigava a mostrá-lo aos
outros, enquanto contava a lenda da rainha adúltera. A
Imperatriz Pompéia, a esposa de Nero, sopesara na mão o
pesado pingente de ouro, estreitara os olhos ao brilho do
cristal azul e dissera com alegria deliciada: "Que escândalo!"
Pesadelos assombravam Amélia e durante o dia, estivesse
cuidando do jardim, tecendo, ou inspecionando a casa,
sentia a sombra negra da rainha egípcia nos seus calcanhares,
um fantasma malévolo a recordar seu pecado. Mas quando ia
aos alegres banquetes do Sabbath na casa de Raquel, onde os
convidados eram ruidosos e seguiam as leis do seu deus,
Amélia sentia o coração leve. Desejava poder dizer a Raquel:
"Sou uma crente." Mas como ocorria isto, este milagre da fé?
O que era isto que atuava dentro das pessoas, que
vivenciavam súbitas epifanias, exatamente ali no jardim de
Raquel, forçando-as a cair de joelhos e a falar numa língua
incompreensível? E por que este poder misterioso funcio-
nava em algumas pessoas, mas não em outras? Toda semana,
congregantes cantavam, batiam palmas e gritavam "Aleluia!"
E lançavam-se num frenesi, ficavam cada vez mais febris de
devoção e muitos caíam em acessos de êxtase religioso e
histeria, enquanto os demais simplesmente olhavam em
frustração.
Estavam todos tão convencidos de que o mundo estava
chegando ao fim — não só os do grupo de Raquel, mas
também os visitantes das casas-igrejas de todo o império —,
que muitos tinham aberto mão de todas as suas posses. Até
mesmo a casa de Raquel estava mudando: ela libertara seus
escravos, boa parte da sua mobília cara se fora, e seus
vestidos de seda tinham sido substituídos por roupas feitas
em casa. E ela constantemente coletava dinheiro para enviar
aos seus irmãos mais pobres em Jerusalém, e sua exótica
coleção de colares de prata tinha sido sacrificada para
financiar missões evangélicas na Espanha e na Germânia.
Mas Amélia descobrira que a falta de uma fé unificada entre
os cristãos estava crescendo. Mais gentios se juntavam,
pessoas de todas as classes sociais trazendo com elas, suas
próprias crenças, de modo que quando Raquel encerrou,
liderando-os na prece "Ouve, ó Israel!", vários se
persignaram, ou fizeram o sinal sagrado de Osíris.
Ocasionalmente, visitantes especiais vinham falar para a
assembléia, alguns que até mesmo tinham conhecido Jesus,
mas estes eram homens muito velhos que falavam em voz
coaxada, seu grego tão coloquial que precisavam de intér-
pretes mesmo num grupo que falava grego! Para
perplexidade de Amélia, mesmo estes homens podiam não
concordar com o que acontecera na Galiléia havia mais de
trinta anos. Havia os seguidores de um homem chamado
Paulo, que nunca conhecera Jesus pessoalmente, mas que
era popular porque as pessoas interpretavam a sua pregação
como se pudessem prosseguir levando a mesma vida de
antes (Paulo continuava escrevendo epístolas para orientar as
pessoas nesta questão, mas elas aparentemente continuavam
a interpretá-lo mal). Outro grupo, formado principalmente
de gregos, interpretava a mensagem de Cristo de acordo com
a filosofia grega. Os seguidores de Pedro, o homem mais
popular no movimento cristão, acreditava na observância
estrita da lei judaica e que os gentios deveriam ser
convertidos ao judaísmo antes de se tornarem cristãos. E
depois havia os místicos, procedentes de religiões miste-
riosas. Eles alegavam que a nova seita não deveria se
desenvolver em torno de homens comuns, mas apenas pela
união mística com Cristo. Cada grupo se achava mais correto
e superior aos outros.
Crenças individuais variavam igualmente: embora todos
acreditassem na volta iminente de Jesus, alguns diziam que
ele chegaria numa carruagem de ouro, outros diziam que
chegaria humildemente montado num burro; alguns
argumentavam que ele deveria vir para Roma, outros diziam
que deveria aparecer primeiro em Jerusalém. Sobre o Reino
de Deus, eles discordavam quanto a sua natureza, onde se
situava e quando seria estabelecido. Alguns olhavam Jesus
como um príncipe da paz, outros como um profeta da
guerra.
Para aumentar a confusão, havia os muitos evangelhos que
circulavam em pergaminhos, cartas e livros, cada qual
declarando ser a "autêntica" mensagem de Cristo, embora
todos tivessem sido escritos muito tempo depois de sua
morte. Para aumentar ainda mais a confusão, havia o fato de
que poucos homens que conheceram Jesus realmente ainda
estavam vivos. Uma nova geração que nunca ouvira a
pregação de Jesus estava interpretando eventos de trinta
anos passados, cotejando-os com questões e maneiras
contemporâneas. O debate sobre a conversão dos gentios
continuava acirrado: batismo ou circuncisão. Os que
defendiam a circuncisão alegavam que era fácil demais juntar
a fé, que os convertidos não renunciariam aos seus velhos
deuses, meramente acrescentando Jesus ao seu panteão.
Cristãos gentios estavam começando a louvar o nome de
Jesus no 25º dia de dezembro, quando comemoravam o
nascimento de Mitra, e adeptos de Isis, a Rainha do Céu,
diziam que a mãe de Jesus, Maria, era a Deusa encarnada.
Cada pessoa acreditava que era do seu deus o reino que Jesus
proclamava.
Havia até mesmo um debate acerca do nome do Senhor. Ele
era Joshua, Yeshua, Iesous, ou Jesus, dependendo da nação e
língua de cada um. Alguns o chamavam de Bar-Abbas,
significando "filho do pai", ao passo que outros
argumentavam que Bar-Abbas, cujo primeiro nome era
também Jesus, fora um homem completamente diferente. E
aqueles que o chamavam de Jesus bar-Joseph eram
contestados pelos que alegavam que se o Senhor se
autodenominava o filho de Deus, então ele não tinha
nenhum pai terreno, como outros salvadores que o
antecederam.
Mas Amélia não estava preocupada com regras e ideologia,
ou com quem estava certo ou errado, ou com qual fosse o
verdadeiro nome do Senhor, pois ao contrário dos outros ela
não acreditava em Jesus, nem no seu deus, nem nas
promessas que tinha feito. Amélia comparecia às reuniões
semanais pela amizade e boa companhia, para estar entre
pessoas que não mexericavam, que não julgavam seus erros
passados, que davam-se as mãos e cantavam juntas e
partilhavam um farto banquete em nome de um mártir
crucificado. Vinha principalmente porque, como Raquel
havia prometido, o fantasma maligno que habitava o cristal
azul que ela usava sob o vestido ficava do lado de fora da
porta — e pelo conjuro de uma tarde Amélia conhecia paz e
amor e sentia-se livre do medo.
Finalmente todos haviam chegado e a reunião do Sabbath
estava prestes a começar. Raquel se preparava para ler a Torá.
Havia escolhido uma passagem do Deuteronômio:
- Que outra nação é tão grande a ponto de ter seus deuses
próximos a ela do modo como o Senhor nosso Deus está
próximo a nós sempre que oramos a ele?
Raquel tinha finalmente rompido com a sinagoga, onde as
mulheres eram proibidas de ler a Torá para a congregação.
Quando o rabino lhe disse que devia interromper tal prática,
ela lhe recordou que Míriam fora uma profetisa por seus
próprios méritos e que ajudara seu irmão Moisés a tirar os
israelitas do Egito como uma igual, não como uma
subordinada dele.
Antes que pudesse desenrolar o pergaminho, um dos seus
escravos libertos veio correndo ao jardim para avisá-la que
um retardatário tinha chegado. Irrompeu um grande
alvoroço quando todos souberam quem era.
— Quem é? — perguntou Amélia ao se voltar para a idosa
Feba.
— Seu nome é Maria e conheceu o Senhor — disse Feba
com a reverência e hesitação na voz que uma presença tão
importante merecia. — Uma mulher de posses e influência,
que alimentou e abrigou Jesus e os apóstolos que deveriam
divulgar a mensagem.
Amélia sabia que Jesus tivera muitas mulheres entre seus
adeptos, mulheres que deram sua riqueza a ele e sua causa,
tal como Raquel, Feba e Cloé faziam hoje. Mas não sabia que
alguma delas ainda estivesse viva.
— Maria foi sua companheira mais íntima — prosseguiu Feba
—, seu primeiro apóstolo. Quando Jesus foi preso, Pedro e os
outros negaram conhecê-lo. Quando Jesus foi crucificado,
foram só as mulheres que choraram ao pé da cruz. As
mulheres recolheram seu corpo e o colocaram na tumba. E
depois que a tumba foi lacrada, foram as mulheres que
mantiveram vigília do lado de fora, porque Pedro e os
homens estavam se escondendo com medo. Quando Jesus
saiu da tumba foi para as mulheres que ele apareceu primeiro
e falou-lhes da sua ressurreição. Creio secretamente — disse
a anciã com uma luz nos olhos — que quando o Senhor
retornar, virá primeiro para esta mulher, para Maria.
A visitante não tinha uma aparência marcante. Mulher de
idade avançada, era baixa e encurvada e trajava roupa branca
tecida em casa. Caminhava com uma bengala e com a ajuda
de uma mulher jovem, e quando falou foi numa voz tão fina
quanto a asa de uma borboleta. O seu grego era o dialeto
coloquial da Palestina, e sua jovem acompanhante o traduziu
para o latim em benefício da assembléia. Ela falava
claramente, mas do fundo do coração.
O dia de julho era quente; moscas voejavam no jardim,
abelhas enchiam o ar com seu zumbido. Dificilmente
soprava uma brisa, de modo que as pessoas tinham de se
abanar. A um canto, um velho começou a cochilar.
Maria primeiro pediu que todos orassem com ela. Todos se
levantaram com os braços abertos e a cabeça para trás numa
imitação do Ser Crucificado, os olhos abertos e voltados para
o céu enquanto cantavam alto e em uníssono. Depois, vários
se persignaram. Maria então começou sua história:
— Meu Senhor é o mais bondoso dos homens. Ele amava as
criancinhas e seu coração chorava à visão de doença,
pobreza e injustiça. Ele curava, abençoava e ensinava
bondade.
O calor do dia se fixou no jardim, como um convidado
desejando ouvir a história, trazendo com ele uma espécie de
calidez mágica, um efeito soporífero que transformava as
palavras da anciã num cântico hipnótico. Embalada pelo
calor e pela cadência das palavras de Maria, Amélia sentiu-se
deslizar para uma espécie de consciência alterada, como se
tivesse bebido vinho sem adicionar água, e após um
momento começou a não mais ouvir palavras, mas sim a ver
imagens. Viu-se caminhando com Jesus nas verdejantes
colinas da Galiléia; de pé à margem do lago e ouvindo-o
pregar de um barco de pesca; ela sentada entre rochas e relva
enquanto ele falava de cima de um outeiro a respeito de
misericórdia e bondade e de oferecer a outra face; provou
seu vinho durante um casamento e sentiu o sorriso dele
esfregar sua face quando passou por ela.
Maria falou de cambistas e sacerdotes, de uma menininha
em coma, de um homem chamado Lázaro. Amélia viu um
banquete de peixe e pão, cheirou a poeira das estradas e
atalhos da Palestina e ouviu o tropel dos cascos quando os
soldados romanos passaram.
O ar pesado, o calor, o zumbido de abelhas, e o jardim
deslizou para uma outra era, outro lugar, levando Amélia
junto. A voz débil de Maria pintando retratos vívidos. E
então, de súbito...
Ele estava lá! No jardim de Raquel! O judeu renegado e o
pregador da paz, o fanático armado e o filho de Deus, suas
imagens múltiplas espiralando das pedras quentes do
calçamento, tremeluzindo como fantasmas, finalmente se
reunindo para formar um homem.
Amélia estava paralisada. As palavras de Maria, voejando no
ar túrgido com as abelhas e libélulas, tinham trazido o
homem para a companhia deles, e Amélia viu a carne, o
sangue e os tendões dele. Quando Maria falou que Jesus
questionou por que Deus colocara este fardo sobre ele,
Amélia viu o embaraço nos seus olhos e o suor na sua testa.
Quando contou como Jesus orou, Amélia viu a glória
irradiada do rosto dele. Todos os Jesus que tinham pregado e
debatido por toda parte estavam ali agora, entre os brotos e o
verdor de um jardim romano, na forma de um homem, não
mais um mito ou mistério, mas um homem nascido de uma
mãe, pleno de todas as esperanças e dúvidas e defeitos que
eram o quinhão da humanidade.
— E então ele foi traído — disse Maria, a voz falhando. —
Soldados romanos o desnudaram e zombaram dele,
perfuraram sua testa com espinhos e lanharam-lhe as costas
com chicotadas. E depois o meu Senhor foi forçado a
carregar as traves da sua cruz por toda Jerusalém enquanto o
povo apupava e jogava sujeira nele. Pregos foram cravados
nos seus pulsos e pés, e a seguir ele foi içado para que todos
vissem. Meu precioso Senhor ficou pendurado como um
animal deplorável, sangrando e indefeso, humilhado e
envergonhado. Quando as moscas começaram a se
banquetear nos ferimentos, quando o ar começou a
abandonar seus pulmões e o rosto se contorceu na agonia
final, ele falou. Pediu ao Pai que perdoasse os homens que
lhe tinham feito aquilo.
Alguns no jardim começaram a chorar, um suave som
sussurrado, mais angustiado na sua contenção do que todos
os uivos de pranteadores da terra. Outros estavam chocados
demais até mesmo para respirar. Amélia viu-se
profundamente tocada. Nenhuma das pregações de Pedro,
das exortações de Paulo e das leituras de pergaminhos,
epístolas e evangelhos haviam conseguido aquilo que as
palavras faladas suavemente pela anciã Maria tinham feito:
trazer Jesus para a vida.
Amélia pressionou a mão contra o peito, pois sentia o ar
preso nos pulmões. Quando sentiu o colar sob o tecido,
imaginou o que seria. Então, lembrando-se, retirou o
pingente e olhou para o cristal azul à luz difratada do jardim
de Raquel. Enquanto olhava fixamente o cristal, pôde ver a
pobre criatura que tinha sido torturada pelos soldados
romanos, seu corpo emaciado por meses de privação e
sacrifício, o rosto escorrendo sangue, a pele tenra ferida e
lanhada, os pés escorregando e vacilando nas pedras ásperas
de uma rua de Jerusalém. Amélia já vira muitos criminosos
crucificados, ainda assim nunca tinha visto o homem, nunca
parara para pensar sobre a mente e o coração sob a carne
torturada. Quantos deles, aquelas pobres criaturas pendendo
de vigas ao longo da via Ápia, tinham sido inocentes?
Quantos tiveram famílias, mulheres que amavam, crianças
com quem sonhavam? Quantos haviam sido pendurados em
cruzes injustamente, enquanto as famílias choravam a seus
pés?
— Sim — repetiu Maria, a voz cansada pela lembrança
daquela tragédia ocorrida trinta anos antes —, depois de tudo
que sofreu, nosso Senhor pediu a Deus que perdoasse os que
o haviam torturado.
Amélia sentiu um aperto na garganta. Via o cristal azul em
meio às lágrimas; parecia liquefazer-se em suas mãos. Jesus,
depois de tudo que fizeram com ele, no seu último alento,
pediu a seu deus que perdoasse aqueles que tanto o haviam
maltratado. E de súbito viu claramente o coração do cristal.
Não era o fantasma de uma rainha egípcia, afinal, nem Simão
Pedro em prece, mas sim Jesus, pendendo na cruz, os braços
abertos em boas vindas, pronto para abraçá-la. Tal como
havia profetizado o Leitor de Pássaros!
Amélia gritou. Estivera-o carregando todas aquelas semanas
contra o peito sem saber — o homem com os braços abertos
para recebê-la.
Amélia foi batizada.
Todos compareceram, todos os seus novos amigos.
Festejaram depois, e oraram, choraram e riram juntos.
Raquel teve a honra de realizar a cerimônia no tanque de sua
fonte, com lágrimas de alegria escorrendo pelas faces
enquanto a água escorria sobre a cabeça de Amélia. Não
importava para Amélia que a família nada soubesse da sua
recém-conversão religiosa. Eles não entenderiam e ela não
iria tentar explicar. Talvez com o tempo, disse a si mesma,
começasse a falar de sua experiência pessoal, e talvez
pudesse trazer um dos filhos para sua nova fé. Era sua
esperança secreta: ver Cornélia e os outros ajoelhados em
alegria na fonte batismal de Raquel.
— O que é isto? — ouviu Cornélio perguntar quando entrou
no jardim. Como era seu hábito, ele falava sem um
cumprimento ou introdução.
Amélia estava regando as flores e especulava se as rosas de
verão sempre tiveram este aroma tão peculiar. Sentia como
se estivesse vendo o mundo com novos olhos, como o
evangelista Paulo disse ter ocorrido quando as escamas
caíram dos seus olhos. Tudo em torno dela assumia uma
nova cor, nova vibração. Como aquelas rosas. Decidiu que
cortaria um buquê para Feba, que estava de cama com um
resfriado de verão, e lhe faria uma visita. Era uma das
obrigações dos membros da casa-igreja realizar o Bikur
Cholin — o grande mitzvah, ou ato louvável, de visitar os
doentes —, mas Amélia não encarava isto como um dever.
Considerava Feba como uma irmã.
Sua fé ainda não estava consolidada como a de Raquel.
Embora se sentisse enlevada, ainda continuava confusa. Não
era algo que pudesse explicar a alguém, não havia palavras
suficientes. A aceitação total não era instantânea. Ainda era
preciso pensar muito a respeito. O conceito de um deus
totalmente aceito embora não visto, por exemplo. Não havia
estátuas nem imagens dele. Amélia nunca antes rezara para
um espírito. Seu cristal azul ajudava, pois nele podia ver a
imagem do Redentor crucificado. Outros na casa-igreja
também empregavam imagens, pois as pessoas adoravam
seus símbolos familiares e reconfortantes e não viram razão
para abrir mão deles: Gaspar orava para sua estátua de
Dioniso, ele próprio tendo sido um deus-salvador
crucificado; Jafé continuava a usar sua velha cruz de
Hermes; e um recém-chegado da Babilônia, que um dia
adorara Tamuz, o Pastor, tinha pintado um pequeno mural
no jardim de Raquel representando Jesus como um pastor
com um cordeiro nos ombros. O conceito de haver apenas
Deus e não Deusa era igualmente difícil para Amélia aceitar,
pois toda a natureza não era feita de macho e fêmea?
Portanto, como os cristãos que ainda oravam a Isis, Amélia
conservava sua fé em Juno, a Virgem Abençoada. Outros
dogmas da nova fé também eram novos e ela lutava para
aceitá-los, mas de uma coisa não tinha dúvida, que Jesus a
perdoara por seus pecados e fraquezas e que uma nova vida a
aguardava.
— Amélia — repetiu Cornélio, com impaciência —, o que é
isto?
— Bom-dia, Cornélio. — Ela não se voltou.
— Quero saber o que é isto.
— Há uma coisa interessante acerca das rosas de verão —
disse ela, olhando para os frágeis botões nas mãos. — Sempre
ensinei a remover todos os botões e folhas fenecidos para
estimular a planta a rebrotar. Mas nem todas as rosas
rebrotam, sabia disso? Algumas são apenas brotações de
primavera e para esse tipo de rosa mesmo que você as apare
nada acontece. Mas para aquelas que rebrotam, tais como
estas rosas-chá, este procedimento estimulará a nova leva de
brotos.
— Amélia — disse ele exasperado —, olhe para mim quando
estiver falando com você.
Ela voltou-se, e o olho de Cornélio captou o lampejo de luz
solar azul no peito de Amélia. O colar estava visível,
aparente.
— Não acha interessante, Cornélio? — continuou ela. — Que
ao remover flores mortas você promova o crescimento de
novas?
— Diga-me o que é isto.
Ela olhou de relance para o objeto na mão dele.
— Parece um pergaminho, Cornélio.
— É o balanço dos aluguéis coletados no quarteirão de
cortiços no Décimo Distrito. Ou melhor, dos aluguéis não
coletados. Você não pressionou os inquilinos a pagar. Por
quê?
— Porque eles não podem. Há mães com crianças e ninguém
para provê-las. Há homens libertos sem emprego. Há
doentes e idosos. Não têm condições de pagar o aluguel.
— Isto não é problema nosso. Quero esses aluguéis cobrados
imediatamente.
— O prédio é meu, Cornélio. Eu decidirei sobre os aluguéis.
Suas palavras, e seu tom, o silenciaram por um momento.
— Você nunca teve qualquer tino comercial, Amélia —
disse. — Mandarei Filo com o guarda da cidade para cobrar
aqueles aluguéis.
— O prédio é meu — repetiu ela, terna, mas firmemente. —
Meu pai o deixou para mim. Sou a proprietária legal. E
decido quem paga aluguel e quem não.
— Não percebe quanto dinheiro estamos perdendo?
Ela o olhou de cima a baixo, detendo-se na fina toga branca
com bainhas púrpuras em dobras exatas sobre o corpo dele.
— Você não olha para os carentes alimentados por ele.
Os olhos dele chamejaram.
— Muito bem — disse, batendo com o pergaminho na palma
da mão, como se para pontuar as palavras. — Eu mesmo vou
cobrar os aluguéis.
Cornélio levou um mês com um pelotão de guardas para
arrancar o exorbitante aluguel dos assustados inquilinos;
Amélia levou uma tarde para devolvê-lo.
— Todos os nossos amigos estão comentando, Amélia. Você
fez de mim motivo de chacota.
Estavam de novo no jardim. Cornélio ostentava uma
expressão tempestuosa.
— Cornélio — disse ela, usando o tom que costumava
empregar para dirigir-se ao pequeno Lúcio —, eu lhe disse
que não ia cobrar aluguel daquela gente. Não até que as
condições deles melhorem.
Ele semicerrou os olhos para o colar, novamente sobre o
vestido.
— Não sei o que deu em você, mas acho que precisa
permanecer em casa por uns tempos. Não vai mais visitar a
judia. — Ele virou-se para sair, depois parou: — Amélia?
Você me ouviu?
— Sim, Cornélio, ouvi.
— Está resolvido, então. Você não vai visitar a judia.
Enquanto olhava para Cornélio, ela pensou na crença de
Raquel de que o mundo estava chegando a um fim. Muitos
cristãos partilhavam da crença e portanto nas reuniões do
Sabath ocorreram muitos debates acerca da natureza deste
fim. Iria o mundo se transformar numa bola de fogo?
Haveria terremotos e inundações? Nações se sublevariam e
lutariam até que só restasse uma única? Muitos viam anjos
com trombetas no caminho, outros viam pragas e morte.
Qualquer que fosse a possibilidade, Amélia imaginava como
Cornélio reagiria. Fantasiou-o andando de um lado para o
outro, como fazia nos tribunais, e gritando: "Ei, esperem um
minuto, não podem fazer isto!" Ela quase sorriu.
— Amélia? Você me ouviu?
— Sim, Cornélio, ouvi.
— Muito bem, então. Você nunca mais irá à casa da judia. —
Começou a se retirar de novo, depois parou. — Amélia?
— Sim, Cornélio?
Os olhos dele chamejaram para o peito dela, onde o colar
egípcio estava atrevidamente exposto, o cristal azul lançando
agudos reflexos à luz do sol.
— Acha que isto é apropriado? — disse, apontando para o
colar.
Ela olhou para baixo.
— Foi um presente seu, Cornélio. Não quer que eu o exiba?
Depois que a apóstola chamada Maria partira, naquele
memorável dia da epifania de Amélia, ela havia perguntado a
Raquel como poderia obter este perdão que Jesus pedira para
seus torturadores e ficou atônita ao saber que a pessoa não
tinha de pagar taxas a um templo nem sacrificar um animal.
Nem teria de recorrer a um intermediário como um
sacerdote ou uma sacerdotisa. "Basta falar diretamente a
Deus," Raquel dissera, "peça o perdão Dele, conserve isto no
seu coração e será perdoada."
Amélia voltara da casa de Raquel num turbilhão de emoções.
Grata por não haver ninguém em casa quando chegou,
seguiu direto para seu santuário particular, um pequeno
jardim com uma fonte e uma estátua de Ísis, e lá refletiu
durante a tarde e a noite sobre o que tinha acontecido. A
raiva dos homens que torturavam seres inocentes
permanecia com ela até que ficou mais focalizada. Cornélio,
recusando-se a perdoá-la. Mas depois que dormiu e
despertou para um novo amanhecer, suas paixões se
destilaram para um elemento singular: um novo poder. Não
mais repleta de fúria, não mais em dor e confusão, não mais
se sentindo fraca e indefesa, Amélia despertara para uma
nova aurora e um novo ser. Então deslizou o colar por cima
da cabeça e o deixou pender exposto sobre o vestido,
enquanto pensava: "se sou uma mulher marcada, então é
melhor deixar que o mundo veja."
Cornélio estreitou os olhos. Não era hábito de Amélia fazer
encenações. Esqueceria o assunto do colar por enquanto.
— Então está decidido — disse ele. — Você não verá mais a
judia. — Esperou. — Você me ouviu?
— Ouvi.
— Então obedecerá.
— Não, Cornélio. Continuarei a visitar minha amiga Raquel.
— Amélia!
— Sim, Cornélio?
Ela notou pela primeira vez que ele começara a pentear o
cabelo de trás para a frente. A calvície não era admirada em
Roma, era de fato considerada um sinal de fraqueza. Os
homens portanto se submetiam a grandes sacrifícios para
compensar, os mesmos homens que ridicularizavam suas
esposas por gastar tempo demais com seus cabeleireiros. Esta
constatação sobressaltou Amélia, mais ainda porque
despertava-lhe não um sentimento de desdém pelo marido,
mas sim de pena. Bustos de Júlio César mostravam-no como
um homem de cabelo muito ralo. Ainda assim era um herói,
um deus, ninguém pensava no seu couro cabeludo quando
admirava o homem. Ela queria dizer a Cornélio, que passava
horas com seu pente e óleos: lustre sua calvíce, faça-a
reluzir, e depois siga em frente para a grandeza.
— Proíbo-a de voltar a pôr os pés lá — disse ele.
Ela examinou as rosas.
— Amélia, você me ouviu?
— Não sou surda, Cornélio.
— Então nunca mais irá à casa da judia.
Ela continuou cortando os botões e folhas murchas e
colocando-os numa cesta.
Cornélio franziu o cenho.
— Está passando mal?
— Por que diz isto, Cornélio?
— Você está febril.
— Não, não estou.
— Então por que está agindo de modo tão estranho?
— Estou?
— O que há com você?! — explodiu ele e instantaneamente
se arrependeu. Cornélio se orgulhava de nunca perder a
compostura. Oradores e advogados habilidosos tinham
tentado tanto e jamais causaram mais que uma fratura na sua
compostura. E agora sua esposa, entre todas as pessoas, o
estava desconcertando. Ele não ia tolerar isto. — Você me
ouviu — disse num tom definitivo. Depois girou nos
calcanhares e saiu.
A mudança espantosa permaneceu com ele toda aquela tarde
e à noite, mas recusou-se a ser arrastado para qualquer tipo
de jogo que estivesse em andamento. Sabia que nada tinha a
temer. Nem em mil anos Amélia ousaria desobedecê-lo.
Mas mesmo assim, na manhã seguinte, ela fez justamente
isso.
— Onde está a Sra. Amélia? — perguntou ao mordomo Filo.
— A senhora saiu, meu senhor.
— Para onde?
— Para onde ela sempre vai no sábado, senhor. Para a casa da
judia.
Cornélio ficou rubro. Ela ousara desobedecê-lo. Não haveria
uma segunda vez.
Naquela noite, quando Amélia retornou, ele estava à espera.
— Retire esse colar.
— Mas agora que comecei a gostar dele...
— Sei que isto é uma espécie de manobra para me forçar a
perdoá-la...
— Ora, Cornélio, não preciso que você me perdoe. Já fui
perdoada por alguém maior que você.
— Quem?—perguntou ele com um riso seco. — A judia?
Pare com isso, Amélia.
— Se devo ficar marcada como uma adúltera, Cornélio, então
deixe que todo mundo saiba da minha vergonha.
— Quero que tire esse colar.
— Você deseja que eu seja sempre lembrada do meu pecado,
não é assim?
— Isto tudo é por causa daquele maldito bebê, não é?
Amélia arqueou as sobrancelhas.
— "Maldito bebê"? Refere-se à nossa filha, nosso último
bebê? Sim, suponho que este momento tenha suas raízes
naquele outro momento, seis anos atrás. Tentei ser
obediente quando você jogou fora a minha filha, mas entrei
em depressão. E você nem se importou, Cornélio. Assim
busquei consolo nos braços de outro homem. Talvez isto
tenha sido um erro, não sei. Mas sei que aquilo que você fez
com minha filha foi errado.
— A lei diz...
Ela empinou o queixo.
— Não me interessa o que diz a lei. Leis são escritas pelos
homens. Um bebê pertence a uma mulher e a ninguém
mais. Você não tinha o direito de jogar minha filha fora para
ficar ao relento e morrer.
— A lei me dava todo o direito — replicou ele, descartando a
acusação.
— Não. Esta é a lei do homem, uma lei fabricada. Para uma
mulher, o nascimento de um filho é a lei da natureza, e
nenhum reles homem pode subordiná-la.
Quando Amélia se virou para sair, ele disse:
— Fique, Amélia. Ainda não acabei de falar com você.
Mas ela continuou andando, saindo do aposento.
O uso espalhafatoso do cristal azul por parte de Amélia
tornou-se o mexerico da sua classe social e mais uma vez foi
o estopim de novas piadas sobre Cornélio. Ele por fim exigiu
que Amélia lhe devolvesse o colar e Amélia se recusou. Para
que ficasse a salvo, ela o colocava debaixo do travesseiro, de
modo que, se Cornélio tentasse pegá-lo, ela despertaria e o
impediria. Mas ele nunca tentou.
Quando se falaram de novo, Cornélio estava irrompendo
pela casa e berrando ordens para que os escravos
começassem a empacotar as coisas para uma mudança para a
casa de campo. Amélia presumiu que Cornélio a estivesse
punindo de novo, mas quando ele disse que havia um surto
de malária e que enquanto o Campus Martius não fosse
drenado ninguém estaria a salvo, ela captou um fundo de
verdade nas palavras dele.
A malária vinha assolando a cidade havia séculos, e ao
mesmo tempo em que ninguém conhecia uma solução para
erradicar a doença em definitivo, tinha sido notado que se os
pântanos no Campus Martius fossem drenados, a doença
regrediria. Solomon, o marido médico de Raquel, havia
sugerido que a doença não era de fato causada pelo ar viciado
— o mal aria —, mas sim pelos mosquitos que proliferavam
nos pântanos. Contudo, como Solomon era um judeu, os
magistrados da cidade não lhe deram a menor atenção.
O que definitivamente convenceu Amélia de que esta
mudança nada tinha a ver com o seu recente desafio foi que
Cornélio também insistia para que toda a família fosse para o
campo — Cornélia com o bebê e seu jovem marido, os
gêmeos, de 20 anos, e suas esposas e bebês, o Cornélio Filho,
de 22 anos, com sua esposa e duas crianças, Gaio, o caçula de
13 anos, e Lúcio, o filho adotivo, com Fido nos seus
calcanhares. Acompanhado por babás e tutores, criados
pessoais e uma enorme comitiva de escravos e guardas, o clã
Vitélio partiu da cidade de Roma no início de uma manhã de
julho, a maioria deles procurando evitar o calor, o mau
cheiro e o barulho da cidade por algum tempo.
Somente Amélia tinha suas dúvidas.
Embora a propriedade de Vitélio, tal como as de todas as
famílias romanas ricas, tivesse escravos que nada mais faziam
senão tecer e produzir as roupas da família, Amélia
acreditava, como muitas matronas, na virtude fora de moda
de realizar ela própria tais tarefas.
E assim sentava-se à sombra de um sicômoro, com uma
sacola de lã a seus pés, cardando as fibras em preparo para
transformá-las em fios. Não estava sozinha. Suas duas filhas e
duas noras, cada qual balançando um berço ou segurando
uma criança se debatendo, seus filhos menores Gaio e Lúcio,
e uma variedade de garotos e meninas, filhos dos escravos,
reuniam- se ao seu redor para ouvir histórias que ela contava
sobre um homem chamado Jesus e os três magos que lhe
trouxeram presentes quando nasceu.
Era outra das divisões da nova fé: enquanto os cristãos judeus
enfatizavam obediência a Deus e à lei de Deus, os cristãos
gentios adoravam histórias sobre o seu redentor. E uma vez
que pouco se sabia da vida do Senhor antes dos anos finais
de seu ministério, e como poucos que realmente o
conheceram ainda estavam vivos, os hiatos eram alegre-
mente preenchidos pelos adeptos que forneciam histórias
que achavam adequadas a Jesus. Outros deuses-salvadores,
como Dioniso, Mitra e Krishna, tinham sido visitados por
magos e pastores ao seu nascimento, tal como foi Jesus, pois
fazia pleno sentido. Fazia alguma diferença que as histórias
tivessem ou não autenticidade histórica? Na sua familiaridade
universal, elas serviam para tornar mais fácil a aceitação de
Jesus pelos neófitos.
Quando Amélia terminou a história, o pequeno Lúcio pôs os
braços em volta de Amélia.
— Jesus também me ama, mãe? — perguntou ele.
— Crianças, vão brincar — ordenou Cornélia de repente,
queixando-se de que fazia muito calor para ter crianças por
perto. Sua irmã e cunhadas, entediadas com as histórias e
com o calor, recolheram seus bebês e se dirigiram para a
residência, onde os chafarizes ofereciam algum alívio. Mas
Cornélia permaneceu debaixo da árvore, ordenando a um
escravo que trouxesse mais vinho gelado e a outro que
aplicasse mais vigor à pena de avestruz que usava para abaná-
la. Balançando o berço onde seu bebê se agitava nas suas
fraldas molhadas, ela disse:
— Tive um sonho esta noite. Alguma coisa está errada na
cidade.
Ganhou imediata atenção de sua mãe. Sonhos eram
importantes.
Suas mensagens não deviam ser ignoradas.
— Não era nada específico — continuou Cornélia, olhando
fixamente para o muro do jardim, como se pudesse ver além
dele, por sobre os quilômetros e as montanhas, até onde
Roma assava no calor de julho. — Gostaria que papai viesse
se juntar a nós.
— Ele tem muitas obrigações.
— Obrigações! — replicou Cornélia, mal-humorada. — Ele
está em Roma com sua amante! Não sabia disso, mãe, que
papai tem uma amante?
Amélia havia muito que suspeitava. Cornélio tinha um
apetite sexual saudável, e como fazia anos que não visitava
seu leito, ela presumia que buscasse alívio em outra cama.
Continuou a cardar a lã.
— Como pode tolerar isto?
Amélia olhou para a filha. Cornélia estava representando a
parte injuriada, com se o pai estivesse sendo infiel a ela.
— O que seu pai faz é da conta dele.
— Sabe quem é, não sabe? E Lucilla. Ele a levou para o Egito.
Sabia disso?
Amélia não queria falar a respeito, pois era de mau gosto e,
além do mais, sua filha não tinha nada a ver com isso.
Cornélia olhou para a mãe e disse, franzindo o cenho:
— Você está ganhando peso.
Amélia se examinou. Era verdade, ela estava ficando
rechonchuda. Mas que mulher não fica, depois de dez
gestações?
— Acontece que as pessoas envelhecem, Cornélia — disse,
especulando à inesperada crítica.
— Mesmo assim, isso não fica bem. — Cornélia gesticulou
com impaciência para que a ama-de-leite levasse o bebê. —
E esta nova religião. Venerar um judeu morto! Não tem
cabimento.
Amélia depôs a cardação.
— Cornélia, por que está tão furiosa comigo?
— Não estou furiosa com você.
— Bem, então alguma coisa a deixou de mau humor.
Cornélia, com 17 anos de idade e detestando a monotonia da
vida campestre, enxotou uma abelha do braço.
— A amante de papai. Você o forçou a isso.
— Este assunto é entre mim e seu pai.
— E depois por que usa esse colar? Não é correto ostentá-lo.
Amélia contornou sua impaciência.
— Foi presente do seu pai.
— Francamente, mamãe, não sou criança. Sei por que ele o
deu a você. Roma inteira sabe. Portanto, deveria evitar usá-
lo.
Amélia passou a mão sobre a lã cardada, sentindo a preciosa
lanolina na ponta dos dedos. O fato que acontecera seis anos
antes nunca fora abordado entre as duas. E havia desejado
que nunca fosse.
— Cornélia, querida — começou.
— Não tente se defender — disse Cornélia enquanto pegava
um cacho perdido de cabelo na nuca suada e o enfiava de
volta no coque. — Você fez papai se afastar — disse com
petulância. — Ele é apenas um homem. Com a sua
infidelidade, você o impeliu para outra mulher.
— Cornélia!
— É verdade. Do contrário, papai jamais cometeria adultério.
Amélia olhou fixamente para a filha, totalmente chocada.
— E ele continua se encontrando com ela — continuou
Cornélia, irritada. — E tudo por sua culpa!
— O que seu pai faz rio tempo que lhe sobra...
— E não é só isso. Tem esse garoto, Lúcio. — O órfão que
Cornélio adotara.
Amélia olhou para onde Lúcio estava brincando com Fido.
— O que tem ele?
— Ele a chama de mãe.
— Sou a mãe dele, pelo menos legalmente — disse Amélia, e
um terrível pressentimento começou a pairar sobre ela. — E
ele é um parente de sangue — continuou, a garganta se
apertando com um presságio enregelante. — Seus pais eram
da família Vitélio.
— Oh, mãe, como pode ser tão cega?
De repente, tudo veio à luz. O que Amélia tinha sabido
inconscientemente por algum tempo, mas que ela ignorara
enganando a si mesma: a semelhança com Cornélio devia-se
ao sangue Vitélio. Mas agora percebia claramente o que
Cornélia estava a ponto de revelar: que Lúcio era filho de
Cornélio.
Pressionando a mão contra o colar, extraindo consolo ao
sentir o cristal sob dos dedos, ela recitou uma prece
silenciosa: Deus, dai-me força...
— Não vamos mais falar neste assunto — disse de modo
áspero, procurando por mais lã.
— E não a incomoda o fato de Lúcio ser filho de Lucilla? Que
todos em Roma saibam que papai adotou o bastardo de sua
amante e que continua se encontrando com ela?
— Já basta! — disse Amélia. E enquanto enfrentava o olhar
desafiador da filha, notou pela primeira vez que a forte
semelhança de Cornélia com o pai não era natural. Amélia se
recordou de uma época em que Cornélia possuía feições
mais suaves, um rosto mais clemente. Mas à medida que os
anos passavam ela desenvolvera o hábito de apertar as
narinas e enrijecer os lábios em constante desaprovação, tal
como Cornélio. O resultado foi moldar seu rosto como o
dele. — Cornélia, o que a faz me desprezar tanto?
A filha desviou os olhos.
— Você traiu papai.
— Depois que ele jogou fora meu bebê. — Pronto. Estava
dito.
— Ele fez a coisa certa. Ela era deformada! Você deve ter
feito alguma coisa errada!
Amélia ficou atônita ao ver sua filha à beira das lágrimas.
-— Foi tudo culpa sua! O bebê... tudo!
E no exato momento em que Cornélia fazia a acusação, um
escravo chegou correndo e gritando:
— Senhora! Senhora! Roma está em chamas!
Eles viram as labaredas por seis dias, recebendo informes de
mensageiros que iam diariamente se inteirar da catástrofe. A
rotina na vila se alterou. Houve uma pausa nas atividades
cotidianas enquanto a família e os escravos subiam no
telhado e viam o céu vermelho a distância. Roma, pegando
fogo...
Era o fim do mundo? Amélia especulou. Era isto que Raquel
e seus amigos estiveram profetizando? Jesus estava prestes a
entrar em Roma?
Cornélio mandou avisar que estava tudo bem. Tinha ido a
Anzio para dar as notícias ao imperador. Mas era com seus
amigos que Amélia estava preocupada: Feba, que estava
velha e doente; Jafé, que, sendo mudo, não podia pedir
socorro; e Gaspar, o maneta. Com eles iriam escapar das
chamas?
Mais tarde saberiam que o fogo tinha começado no circo,
onde se juntavam o Palatino e as colinas Celina. Irrompendo
em lojas que vendiam produtos inflamáveis e incentivado
pelo vento, o incêndio se alastrara instantaneamente, já que
não havia mansões muradas nem templos para detê-lo. O
fogo tinha se propagado primeiro pelos espaços planos,
depois pelas colinas, evitando todos os esforços capazes de
interrompê-lo. As ruas estreitas e sinuosas da cidade velha e
os cortiços irregulares tornaram o seu progresso rápido e
fácil. Mas o pior foi o pânico que tomou conta da população
enquanto tentava escapar por avenidas e becos
congestionados de gente. Testemunhas oculares traziam
relatos do caos — os mais fortes pisoteando os indefesos.
Quando o povo corria às cegas, berrando pelas ruas repletas
de fumaça, encontrava uma muralha de chamas diante dele
ou flanqueando-o. Quando alguns conseguiam escapar para
um quarteirão vizinho eram seguidos pelo fogo — como
uma besta com vontade própria. Finalmente o populacho
aterrorizado conseguiu fugir para as estradas que levavam aos
campos e fazendas.
Houve relatos bizarros de gangues ameaçadoras impedindo
que se combatesse as chamas. Tochas eram abertamente
arremessadas por homens que declaravam estar cumprindo
ordens. E então começava a obscena e desenfreada
pilhagem. Pessoas que jaziam nas ruas, ainda vivas, eram
despojadas de roupas e jóias. Homens tentando salvar suas
casas eram ameaçados com porretes enquanto vândalos se
apressavam em saquear.
Quando Nero retornou para a cidade que ainda ardia em
chamas, certificando-se de que todos soubessem que havia
deixado a segurança de Anzio, arriscando, portanto a própria
vida por amar tanto o seu povo, ele mandou abrir o Campus
Martius, os prédios públicos de Agripa, até mesmo seus
próprios jardins para refrigério das massas desabrigadas.
Mandou que trouxessem alimentos das cidades vizinhas e o
preço do milho foi reduzido. Ainda assim, essas medidas não
lhe valeram nenhum elogio, pois começara a espalhar-se um
boato de que, enquanto a cidade queimava, Nero havia se
exibido para o seu círculo íntimo, cantando sobre a
destruição de Tróia. E um boato ainda pior: que o próprio
Nero, desejando construir uma nova cidade, havia ordenado
o incêndio.
Por volta do sexto dia, as chamas em fúria só encontravam
solo nu e céu aberto, e o fogo finalmente se extinguiu ao
sopé da colina Esquilina. Dos catorze distritos de Roma,
somente quatro permaneceram intactos. Três ficaram
completamente ao rés do chão, os outros foram reduzidos a
ruínas fumegantes. Era impossível contar as mansões, casas
de cômodos e templos destruídos. E o número de
desabrigados, crianças órfãs e viúvas estava além de qualquer
avaliação.
Por uma semana Amélia ficou com o coração na garganta
enquanto pensava nos seus amigos, aguardando
ansiosamente por notícias. Se não tivesse sua própria família
para pensar, teria ido pessoalmente, pois levas de refugiados
estavam agora se amontoando nas estradas e esmolando
junto às vilas dos ricos. Ela teria aberto suas portas caso não
houvesse maus elementos entre eles, bandidos que, tirando
vantagem do desastre, passaram a saquear o interior, a atacar
refugiados e residências, até que uma coorte de soldados foi
despachada para restaurar a ordem.
Até receber uma mensagem da própria Raquel, Amélia nada
pôde fazer senão esperar, preocupar-se e orar.
Cornélio finalmente retornou para relatar que embora suas
propriedades na cidade tivessem sido poupadas, boa parte das
outras na colina eram ruínas enegrecidas, e a casa da família
fora danificada pela fumaça. Ele providenciara
imediatamente a construção de uma nova residência, e nesse
meio-tempo toda a família iria permanecer no campo, onde
a água e o ar eram puros e frescos, ficando a salvo de
doenças que estavam agora grassando na cidade destruída.
Levaria ainda quase um ano antes que retornassem, mas
nesse ínterim Amélia recebeu uma carta de Raquel dizendo
que a casa dela havia sido poupada e que a maioria dos
membros da casa-igreja, graças a Deus, passaram incólumes
pelo desastre. Eles estavam retomando as reuniões semanais
do Sabbath e incluindo Amélia nas suas preces. Raquel tam-
bém conseguiu enviar visitantes e cartas de Paulo, e
aproveitando-se de que Cornélio passava a maior parte do
tempo na cidade, Amélia organizou uma pequena casa-igreja
e convidou a família e escravos para participar. Cornélia nada
tinha a ver com as atividades de sua mãe e passava a maior
parte do tempo irascível por causa da sua segunda gravidez,
mantendo um pavilhão de veraneio adjacente à vila, onde
recebia seus próprios amigos.
Enquanto isso, Roma foi reconstruída e muitos lucraram
com isso. Nero contratou empreiteiros para retirar entulho e
despejá-lo nos pântanos de Óstia em embarcações que
desciam o Tibre. Ele decretou que uma parte de cada prédio
novo fosse feita de pedras à prova de fogo vindas de Alba.
Proprietários eram obrigados a manter em suas casas aparatos
de combate a incêndio, tais equipamentos podendo ser
comprados de distribuidores locais. Roma se mantinha viva
com o tilintar das moedas trocando de mãos.
Passado algum tempo, Amélia começou a especular a nova
jovialidade de Cornélio. Sempre que visitava a vila de campo,
ele anunciava que iam ficar incrivelmente ricos com a
reconstrução de Roma. Seus navios foram os únicos a obter
o contrato para transportar os novos materiais de construção.
Ele tivera a previsão, gabava-se, de monopolizar o mercado
nas pedreiras. Após um momento, relembrando como ele
tinha insistido para que toda a família se mudasse para o
campo, e a pressa nesta mudança, um pensamento terrível
começou a assombrar Amélia: Cornélio teria sabido do
incêndio antes do tempo?
Chegou finalmente o dia em que ele anunciou que estava
tudo pronto para retornarem à cidade. Ninguém ficou com o
coração mais feliz do que Amélia.
— Poderia ser roubado — disse Cornélio, franzindo o cenho
para o cristal azul que reluzia tão impudentemente no peito
de Amélia. — Um ladrão poderia arrancá-lo do seu pescoço.
Seria melhor deixar o colar em casa, Amélia.
Mas ela limitou-se a dar a resposta habitual.
— Foi um presente seu, e deverei usá-lo sempre.
— Então pelo menos use-o sob o vestido.
Mas Amélia não fez qualquer movimento para ocultar o
cristal azul.
Na sua liteira acortinada eles estavam chegando ao grande
circo na colina Vaticano. Era um grande dia para o
imperador e toda Roma se dirigia para lá. Amélia na verdade
não queria ir, mas sabia que sua ausência seria notada pela
família imperial. Além disso, seu marido era um dos
patrocinadores dos eventos do dia; ela dificilmente poderia
perdê-los. Jamais apreciara os combates dos gladiadores nem
os torneios de matança de feras. Mas iria suportar aquilo,
pois Cornélio prometera que no dia seguinte poderia visitar
Raquel.
Fazia menos de uma semana de seu retorno à Roma e
Amélia tivera pouco tempo para se inteirar das notícias mais
recentes junto a seus amigos cristãos. Como Cornélio havia
prometido, sua nova casa na colina Aventino era ainda mais
espaçosa e luxuosa do que a antiga mansão, e Amélia tivera
as mãos e as horas ocupadas com compra de mobiliários,
pintura dos murais, aquisição de novos escravos. E então
Cornélio anunciara que Nero estava oferecendo jogos em
agradecimento aos deuses pelo renascimento da cidade.
Multidões entravam pelas rampas e pelas fileiras
ascendentes, se empurrando, acotovelando, engalfinhando
para ocupar a metade superior dos inúmeros assentos
sobranceiros à enorme arena. Agitado e barulhento, despido
de educação e boas maneiras, o povaréu se espremia,
homens, mulheres e crianças, gritando, rindo e suando na
sua paixão por entretenimento. Mais abaixo as primeiras filas
estavam ocupadas por senadores, sacerdotes, magistrados e
outros funcionários proeminentes. As fileiras seguintes
estavam abarrotadas de cidadãos ricos e bem-situados. Era
onde o clã Vitélio tinha um camarote exclusivo.
Toda a família comparecera. Sentados atrás de Cornélio e
Amélia, estavam Cornélia e o marido, Cornélio Júnior e a
esposa, os gêmeos com as esposas e os jovens Gaio e Lúcio.
As mulheres jovens já juntavam as cabeças, mexericando
sobre quem estava lá e com quem; quem estava vestindo as
cores erradas naquele ano, usando penteados fora de moda,
quem parecia mais velho, mais gordo, menos aceitável
socialmente. Amélia esforçou-se para ignorar a presença da
bela viúva Lucilla, que sentava-se desacompanhada a dois
camarotes de distância, convidada de um senador. Lucilla
reverberava ao sol com seu cabelo tingido de louro, num
atordoante vestido e estola de seda cor-de-rosa.
No decorrer do ano do Grande Incêndio, Amélia e a filha
não discutiram mais sobre a amante de Cornélio. Não
obstante, ainda era possível sentir a tensão entre elas, um
bolsão de ar gélido que apartava mãe e filha.
Um céu impecável pairava acima; mais tarde, os toldos
seriam desdobrados para proteger os espectadores do sol.
Aromas de fritura flutuavam sobre a multidão enquanto
vendedores ambulantes preparavam alimentos que seriam
vendidos durante o dia: salsichas de porco e pão quente,
pombos assados e peixe ensopado, tortas de fruta e bolos de
mel. E acima do burburinho dos que chegavam havia o
rugido das feras inquietas e assustadas nas jaulas. O estado de
espírito era febril, pois espalhara-se pela cidade que Nero
estava oferecendo uma surpresa especial naquele dia, uma
que ele e seus patrocinadores tinham conseguido manter em
segredo. Não restava nenhum assento vago quando as
trombetas anunciaram a chegada da família imperial.
Retardatários tiveram de ficar de pé no topo do estádio, que
já estava totalmente lotado. Irrompeu um tumulto nos
portões de entrada para a arena, enquanto avisavam a uma
turba furiosa que não havia mais lugares. Com lanças e
porretes os guardas a dispersaram, com pessoas sendo
pisoteadas no processo. Um dia típico no circo.
Os jogos foram abertos com grande pompa e fanfarra e
cerimônias religiosas, pois tinham suas raízes na propiciação
ritual dos deuses séculos antes. Sacerdotes e sacerdotisas
sacrificavam carneiros e pombos e os ofereciam a Júpiter e
Marte, a Apolo e Vénus. Incenso flutuava no ar, água sacra
era espargida na areia. Cada um dos espectadores sabia que
havia um lado solene para os entretenimentos na arena, que
tal esporte sangrento era necessário para a saúde e contínua
prosperidade do império.
Nero chegou, atravessando a areia com grande cerimônia,
deixando a turba eufórica. Uma vez acomodado no camarote
imperial, ele ordenou a abertura dos jogos. Uma fanfarra de
trombetas introduziu um espetáculo de mímica, seguida por
xamãs e mágicos, acrobatas e palhaços, ursos bailarinos e
destemidos ginetes a cavalo, trupes de garotas dançarinas em
trajes sensuais, bandas marciais e desfiles de elefantes, girafas
e camelos. Um espetáculo cômico com avestruzes, mantidas
em cativeiro por tanto tempo que ao serem libertadas,
literalmente brincavam em volta da arena; era um grande
prazer para a turba, pois arqueiros apareciam de súbito e
caçavam as aves cômicas e assustadas com flechadas até
dizimar todas elas. A seguir começaram os jogos sangrentos:
combates de gladiadores, caçada a feras, batalhas simuladas,
até que a areia ficasse toda vermelha. Nos intervalos, vinham
os escravos com ganchos e correntes para arrastar cadáveres
e carcaças e espalhar areia limpa, enquanto os espectadores
comiam, bebiam e se aliviavam.
O dia avançava e ficava mais quente. As latrinas
transbordantes começavam a feder e o odor de sangue, não
importava o quanto estivesse coberto por areia, enchia o ar.
Quando a turba começou a se inquietar, trombetas ressoaram
e Nero anunciou que, pela vontade dos deuses, havia
descoberto os autores do incêndio que destruíra a sua
adorada cidade e matara e ferira tantos de seus amados
cidadãos. Portões se abriram e um esfarrapado grupo de
pessoas saiu, piscando à luz do sol. Amélia olhou, surpresa.
Ela esperara ver bandidos rudes, desertores do exército, o
tipo de gente que sempre via nestas execuções criminais.
Mas este grupo parecia constituído de...
Mulheres! Velhos! Crianças!
— Cornélio — disse Amélia com veemência, mas silenciosa
o bastante para que ninguém mais ouvisse —, certamente
Nero não acredita que estas pessoas sejam responsáveis pelo
incêndio!
— Ele tem provas.
— Mas olhe para elas. Dificilmente são...
Ela franziu o cenho. Estava vendo rostos familiares entre
eles? Inclinou-se à frente e sombreou os olhos. Aquele
velho... possuía uma forte semelhança com Pedro, o
pescador, que tinha sido convidado para a casa-igreja de
Raquel.
Ela ofegou. Era Pedro! Sendo chicoteado por um soldado até
cair de joelhos e a multidão rugir com aprovação. E lá estava
Priscila! E Flávio, e o velho Saul.
— Mãe Abençoada Juno! — sussurrou Amélia. — Cornélio,
eu conheço aquelas pessoas!
Como Cornélio não disse nada, Amélia olhou para ele e ficou
atônita ao ver o sorriso presunçoso em sua face. Cornélio
não a fitou nos olhos, mas manteve o olhar no
entretenimento de cuja organização participara: a execução
dos pretensos autores do Grande Incêndio.
E então Amélia viu algo que fez seu estômago embrulhar e a
garganta se contrair. Suas mãos voaram para a boca e ela deu
um grito. Raquel, lá na arena ensangüentada, sendo impelida
pela ponta de uma lança. O cabelo estava solto e caindo
sobre os ombros. Mesmo daquela distância, Amélia pôde ver
cortes e hematomas. Sua amiga tinha sido torturada.
Amélia sentou-se, congelada e sem fala, enquanto observava
o grupo cambalear até onde cruzes tinham sido fixadas na
areia — os guardas golpeando velhos, mulheres e crianças
até pô-los de joelhos e obrigando-os a rastejar até as vigas de
madeira cruzadas e a deitar de costas enquanto 25 mil
espectadores riam, zombavam e gritavam:
— Morte aos judeus!
— Cornélio, é preciso parar com isso — disse Amélia num
esforço sobre-humano.
— Shhh! O imperador!
Amélia olhou para Nero, que por acaso, naquele momento,
olhava na direção deles. Quando ele deu um aceno amigável
e Amélia não notou qualquer malícia no seu sorriso,
nenhum rancor no olhar, ela percebeu que o imperador não
fazia a menor idéia de sua ligação com as pessoas que iam
morrer.
Olhou de novo para Cornélio, o belo perfil dele apresentado
a ela como a efígie de uma moeda.
— Interrompa isto — repetiu com mais firmeza. — Não pode
permitir tal coisa. Aquelas pessoas são inocentes. São amigos
meus.
Cornélio por fim se virou para ela com um ar que a congelou
até a medula.
— Por que eu deveria fazer o que você pede? Por acaso eu
não lhe fiz pedidos que preferiu ignorar? — Seu olhar se
fixou de modo significativo no cristal azul no peito de
Amélia.
Ela sentiu-se subitamente arrasada.
— Está fazendo isto para me punir? Está matando inocentes
por causa... — Foi tomada pela náusea. — ...por causa de sua
raiva contra mim? Por tudo que é mais sagrado, Cornélio,
que tipo de monstro é você?
— O gentil, Amélia — disse ele com um sorriso —, que sabe
como agradar uma multidão. — Ele acenou um braço
abarcando os espectadores, cujo rugido de aprovação era
ensurdecedor.
As mortes de Raquel e dos outros foram tornadas grotescas.
Aqueles não condenados à crucificação foram vestidos com
peles de animais e dilacerados por cães e leões. As
crucificações ficaram para o final, ao pôr-do-sol, de modo
que o efeito dos corpos queimados fosse o mais espetacular
possível. Amélia ficou chocada ao observar as cruzes se
erguerem no ar com cordas puxadas por outros cristãos
condenados. Ouviu os cânticos e preces e gritos das
deploráveis criaturas pendendo das cruzes enquanto punham
fogo em uma a uma. A platéia gritava em aprovação
enquanto as vítimas gritavam e se contorciam sob as chamas.
— Morram! — gritavam. — Morram os incendiários de nossa
cidade!
Amélia via desejo de vingança nos rostos, pois muitos
haviam perdido seus lares ou entes queridos no Grande
Incêndio. Depois disto eles voltariam para casa apaziguados,
um pouco menos queixosos, um pouco menos infelizes com
sua sina, e os boatos de que o próprio Nero incendiara Roma
iriam gradualmente se extinguir.
— Preciso parar com isso! — Amélia começou a se levantar
do assento, mas Cornélio agarrou-lhe o braço com força.
— Está louca? — sibilou ele. — Pense na sua família!
Olhou por sobre o ombro para Cornélia e a irmã unidas
enquanto apontavam para alguém na frisa dos magistrados.
Os dois garotos, Gaio e Lúcio, tendo se entediado com o
espetáculo, estavam na fileira de cima, cuspindo nos
espectadores abaixo. Seus filhos adultos e genros estavam se
espreguiçando com os braços enganchados nos encostos de
seus assentos, meio observando o espetáculo com taças de
vinho nas mãos.
Amélia começou a soluçar. À medida que a fumaça e o odor
de carne queimada atingia suas narinas, ela foi sentindo o
fogo das cruzes descer por sua garganta abaixo e queimar-lhe
o coração. Sentia a alma inflamar-se enquanto seus amigos
ardiam na arena abaixo. O enjôo aumentou e a dor percorria
cada nervo e fibra do seu corpo. Raquel já estava
irreconhecível, e embora seu corpo carbonizado se movesse,
Amélia orou para que fosse apenas reflexo e não porque sua
amiga ainda estivesse viva.
Ninguém questionou a matança. Ninguém parou para pensar
que, para pôr um fim aos boatos que o ligavam ao Grande
Incêndio, Nero havia decidido inculpar outros. Ninguém
questionou a escolha de um grupo de judeus renegados
chamados cristãos, que já possuíam má fama na cidade.
Dentre as áreas poupadas pelo fogo, uma foi a região ao
longo do rio Tibre onde vivia uma enorme população judia.
E todos ainda se lembravam de quando, apenas quinze anos
antes, o Imperador Cláudio banira alguns judeus ricos de
Roma por causarem princípios de tumultos nas sinagogas
com suas disputas a respeito de Cristo.
Com a dor desvanecendo para choque e embotamento,
Amélia olhou para o rosto de Cornélio enquanto seus amigos
cristãos ardiam. As feições do marido conservavam um tal ar
de ódio puro, não-diluído, que ela ficou chocada. E então
percebeu que não era a primeira vez que via tal expressão no
rosto dele. Tinha vindo à tona uma vez antes, também na
arena, quando haviam sido convidados para o camarote
imperial e a multidão saudara Amélia. Cornélio tinha erguido
os braços, entendendo que a adulação fosse dirigida a ele. E
aí a mãe de Nero o humilhara, chamando-o de idiota, e por
um instante Cornélio lançara este mesmo olhar venenoso
sobre ela.
De repente, Amélia soube a verdade.
Amélia chorou como nunca havia chorado antes. Nem
mesmo quando Cornélio jogara fora seu bebê ela derramara
lágrimas tão angustiadas. Enquanto a casa dormia e tudo
estava em silêncio, deitou-se de bruços e enterrou o rosto no
travesseiro, os pulmões liberando grandes soluços, a dor
dilacerando-lhe o corpo. Por todo o tempo que lhe restasse
de vida, jamais a imagem da morte de Raquel sairia de sua
mente. Nem ela queria que saísse. Seria o seu memorial
particular para a querida amiga, o lembrete diário do martírio
de Raquel.
Outras emoções a inundaram juntamente com o pesar: fúria,
amargura, ódio. Saíram com suas lágrimas como veneno,
ensopando o travesseiro até que, bem depois da meia-noite,
seu choro começou a se extinguir.
Sentou-se na cama, sentindo uma nova hostilidade estranha
no coração. Não em relação ao Imperador Nero, nem à turba
na arma, mas a um único homem: um monstro chamado
Cornélio.
Foi até os aposentos e postou-se sobre Cornélio enquanto ele
dormia, as perguntas sussurrando na sua mente: Por que
Nero puniu os cristãos? Como ele soube de nós? Em Roma
parece haver uma seita religiosa em cada esquina. E não
passamos de um ramo dos judeus. Informações sobre nosso
grupo não chegariam tão alto quanto aos ouvidos de Nero... a
não ser que alguém nos delatasse a ele. Alguém que desejasse
nos ver destruídos. Foi você, Cornélio? Foi mais uma de suas
maneiras de me punir? Que monstro você é! Jesus,
pendurado na cruz, foi capaz de perdoar seus verdugos. Mas
não posso perdoá-lo, Cornélio.
Ocorreu-lhe que podia matá-lo naquele momento, enquanto
dormia. Podia esfaqueá-lo ali mesmo e depois dar o alarme,
rasgar seu vestido e dizer aos guardas da casa que um invasor
tinha sido o criminoso. E ela escaparia livre. Mas Amélia
sabia que jamais mataria Cornélio. A liberdade não viria com
a morte dele, porque ela já estava livre.
Amélia ergueu o cristal azul à luz da lua e viu o espírito
benevolente abrigado no seu peito. O fantasma da rainha
egípcia se fora. Um salvador assumira o seu lugar.
Ela foi com um único escravo, um africano enorme que era
cristão. Ele iluminou o caminho com uma tocha grande o
suficiente para deter quaisquer possíveis ladrões nas ruas
tomadas pela noite. Quando chegaram à barulhenta casa de
cômodos, uma das poucas não atingidas pelo Grande
Incêndio, o africano liderou o caminho por uma estreita
escadaria de pedra repleta de odores repulsivos, ratos em
fuga, paredes cobertas com inscrições raivosas. Não havia
portas nos batentes, apenas trapos pendentes que forneciam
alguma privacidade.
Amélia não tinha medo. Era uma nova mulher. E viera
buscar respostas.
Chegando à porta que lhe havia sido indicada, abriu a cortina
de trapo e espiou. A ocupante, uma velha decrépita, olhou
para cima, com um sobressalto. Estava comendo mingau de
uma tigela de madeira, sua única luz sendo a proveniente da
lua.
Amélia tirou o véu que lhe cobria a cabeça e aproximou a
tocha do rosto de modo que a mulher pudesse vê-la
claramente.
— Você me conhece, mãe? — disse ela, usando o título
respeitoso para mulheres idosas.
A mulher olhou-a chocada e com medo.
— Não tenha medo. Não vim lhe fazer mal. — Amélia tirou
algumas moedas e as depositou sobre a mesa. — Diga, não
está me reconhecendo?
A parteira olhou para as moedas, a seguir para sua espantosa
visitante. Baixou a tigela e limpou os dedos na roupa
— Eu me lembro de você — disse.
-— Você fez o parto de uma criança sete anos atrás. Uma
menina.
A velha assentiu.
— A criança era deformada?
A parteira baixou a cabeça.
— Não...
E tudo se encaixou então. A ira de sua filha, gritando: "E
tudo culpa sua. O bebê... tudo." Cornélia tinha 11 anos de
idade quando o bebê nasceu e foi depositado aos pés de
Cornélio. Ela voltara correndo para o quarto, medo nos
olhos, exigindo saber por que seu pai tinha recusado o bebê.
Agora Amélia entendia. A criança nascera perfeita e a
pequena Cornélia, adoradora incondicional do pai, não havia
entendido por que Cornélio faria tal coisa.
Agora Amélia sabia a verdade: não era a mãe que Cornélia
odiava.
Quando chegou em casa na colina do Aventino, Cornélio
sentia-se de bem com a vida. Acabara de ganhar uma causa
no tribunal e a platéia tinha aplaudido. Seu lar estava de novo
em paz e Amélia era outra mulher. Desde que testemunhara
a punição dos cristãos na arena, ela mais uma vez se tornara
uma mulher calada e dócil. E parara de ostentar aquele
maldito colar para que todos vissem.
Ao entrar no átrio imaginou onde estariam os escravos. Era
hábito do mordomo recepcioná-lo, porém não havia
qualquer sinal de Filo. Estava a ponto de chamar por ele
quando ouviu vozes cantando em uníssono. Aproximou-se
mais do jardim e ouviu as palavras em latim: "Pai-nosso que
estais no céu, abençoado seja o vosso nome. Venha a nós o
vosso reino, assim na terra como no céu. E o pão nosso de
cada dia nos dai hoje, perdoai nossos pecados e livrai-nos do
mal."
Cornélio atravessou a porta aberta e olhou para o jardim. Um
grupo de pessoas — a maioria estranhos, mas seus escravos
entre eles, inclusive Filo — estava de pé com os braços
abertos, as cabeças jogadas para trás e olhos fechados
enquanto oravam. Então viu Amélia diante do grupo,
liderando-o.
Quando todos fizeram o sinal-da-cruz e disseram "amém",
Amélia abriu os olhos e lançou-lhe um olhar direto.
Mas ambos sabiam ter chegado a um ponto decisivo.
Como a casa e todos os escravos e bens de Raquel haviam
sido confiscados por Nero, a reunião semanal de Sabbath
seria realizada na casa de Feba. Mas ela estava muito idosa e a
artrite a incomodava, e, portanto necessitava de assistência.
Amélia estava no mercado, comprando comida para o
banquete. Apesar do que acontecera com Raquel e os outros,
mais pessoas do que nunca estavam se juntando à fé cristã,
especialmente quando Nero parara de persegui-los. Por isso
esperava-se uma multidão. Enquanto pechinchava pelo
melhor preço do vinho, os pensamentos de Amélia estavam
naqueles sacrificados na arena.
Boatos haviam percorrido a cidade. Após o Grande Incêndio,
todos diziam, Nero tentara aplacar os céus. Depois de
consultar livros sibilinos, preces foram dirigidas a Vulcano,
Ceres e Prosérpina. Juno também foi propiciada. Mas nem os
recursos humanos, nem a munificência imperial, nem o
apelo aos deuses puderam eliminar suspeitas sinistras de que
o incêndio tinha sido perpetrado a mando do próprio
imperador. Para abafar este boato, Nero precisou de bodes
expiatórios. E escolheu os cristãos.
Ninguém soube por que escolheu aquele grupo em
particular, embora Amélia tivesse suas próprias suspeitas
sombrias. O povo dizia que provavelmente era porque os
cristãos fossem na maioria ricos, e os romanos sempre
invejaram e suspeitaram dos ricos, perguntando como eles
podiam possuir tanta riqueza. Circularam boatos de magia
negra e sacrifícios de crianças. Estranhamente, após o
espetáculo na arena, a perseguição aos cristãos teve um fim.
O plano de Nero voltara-se contra ele, à medida que as
vítimas ganharam a simpatia do povo, que sentia que
inocentes tinham sido sacrificados em lugar do interesse
nacional pela brutalidade de um homem. E, de qualquer
modo, ninguém se importava muito com uma seita
insignificante, até o próprio Nero se esquecera dos cristãos
por causa de seus próprios problemas pessoais. E assim os
cristãos estavam de novo a salvo.
—- Desculpe-me, por acaso é a sra. Amélia, esposa de
Cornélio Gaio Vitélio?
Amélia virou-se para deparar com um oficial da Prefeitura
parando diante dela, o rosto sombreado pela viseira do
capacete. Estava acompanhado por seis guardas robustos.
— Sou — disse ela.
— Poderia nos acompanhar, senhora?
A Prefeitura romana, que abrigava a principal prisão da
cidade, situava-se junto ao Fórum como uma presença
imponente. Do lado externo, uma impressionante fachada de
mármore branco com lindas colunas estriadas e estatuária
dava para a praça aberta, mas seu interior era um
emaranhado de corredores e celas escuras e ameaçadoras.
— Por que me trouxeram aqui? — indagou Amélia enquanto
era levada para os porões abaixo do prédio principal. Sua
escolta nada respondia, mas marchava inflexível ao seu lado,
o clangor das suas couraças ecoando das paredes úmidas.
Pararam diante de uma pesada porta de madeira. O guarda a
abriu e deu um passo para o lado, indicando a Amélia que
entrasse.
— Sou uma prisioneira?—perguntou em descrença. À luz da
tocha do guarda ela pôde ver o interior sinistro da cela,
pequena e cheirando mal.
— Por favor, senhora — disse, gesticulando de novo.
O impulso de Amélia foi protestar, até mesmo fugir. Mas
sabia que não adiantava. Qualquer que fosse o equívoco
cometido, em breve seria esclarecido. De cabeça erguida,
entrou na cela como se estivesse entrando num templo
iluminado pelo sol.
A porta foi batida com estrondo atrás dela, que ouviu o giro
das chaves na fechadura. Enquanto os guardas se afastavam,
levando a tocha, a escuridão caiu sobre Amélia, que foi
tomada imediatamente pelo pânico. Correu até a porta e fez
pressão contra ela. Havia uma pequena abertura pouco acima
de sua cabeça, coberta com barras e além do seu alcance.
Mesmo na ponta dos pés não conseguia ver lá fora. Mas uma
luz tênue filtrava-se de candelabros no corredor e por fim
seus olhos se ajustaram à escuridão.
A cela era escura e cheirava a mofo e urina, com correntes
nas paredes e palha podre amontoada nos cantos. Podia ver
antigas manchas de sangue no chão, podia ouvir os gritos
débeis dos outros prisioneiros. Combatendo o medo e o
pânico que ameaçavam capturá-la, tentou ordenar os
pensamentos. Claro que havia um equívoco! Mas... os
guardas tinham sabido onde encontrá-la no mercado;
haviam-na identificado à primeira vista e sabiam seu nome.
Isto significava que alguém os instruíra. Mas quem? E, mais
intrigante ainda, por quê?
De repente, um terrível pressentimento a invadiu: Poderiam
mantê-la encarcerada ali para sempre? Desabou no chão de
pedra, o ouvido pressionado contra a porta maciça e sentada
com os joelhos encolhidos. A escuridão fechava-se em
torno, e a miríade de odores desagradáveis enchia sua
cabeça. Sentiu alguma coisa passar correndo por seu pé e
gritou. Certamente a família daria por sua falta e iria
investigar! Mas ela ouvira falar de gente sendo encarcerada
nesta prisão para sempre, esquecida...
Juntou as mãos e começou a rezar.
Cornélio Vitélio chegou à prisão vestindo sua toga de bainha
púrpura, uma vestimenta para poucos privilegiados, e a usava
agora de propósito, não tanto para impressionar os guardas
da Prefeitura, mas para relembrar Amélia de sua posição e
poder.
— Ela está aqui? — perguntou ao homem de serviço.
— Esteve aqui desde o primeiro turno de guarda, excelência
— disse o comandante da guarda, dando a Cornélio o tipo de
saudação breve que os militares de carreira dispensavam aos
civis importantes. —Já faz dez horas.
— Sem comida e água?
— Nem uma gota ou naco, como o senhor ordenou. Mas
demos a ela um balde para suas necessidades. Por quanto
tempo deveremos mantê-la aqui?
— Eu lhe informarei. Por enquanto não diga nada a ela.
O comandante da guarda aprendera ao longo dos anos que
era melhor manter a boca fechada. O popular advogado —
ele próprio já bebera diversas cervejas pagas por Cornélio
Vitélio — não era o primeiro homem a ter um parente
incômodo mantido na prisão como um meio de reprimir um
comportamento indesejado. Ele deu uma piscadela e voltou
ao seu jogo de dados,
Cornélio seguiu o carcereiro pelo corredor malcheiroso e
parou do lado de fora da porta para entrar com a mente
organizada, como freqüentemente fazia diante de um
tribunal. Depois fez um sinal para o carcereiro.
— Pelos deuses, Amélia! — disse enquanto se apressava para
dentro, a porta batendo atrás dele.
— Cornélio! — Ela correu para os braços do marido.
— Não pude acreditar quando me disseram que estava presa!
— Por que estou aqui? Estou sob prisão? Ninguém me disse
nada.
— Sente-se, fique calma. Parece que alguém a denunciou
como cristã.
Ela olhou para ele.
— Mas Cornélio, não é segredo eu ser cristã. E não é um
crime ser.
— Receio que Nero ainda esteja buscando vingança contra os
cristãos, mas faz isto em segredo, por causa da antipatia
pública. — Quando viu que Amélia acreditava nele, pois
ficara muito pálida e parecia assustada, ele acrescentou: —
Nero permitiu que eu viesse falar com você antes que o
interrogatório de verdade comece.
— Está se referindo a... tortura? — disse ela com a boca tão
seca que mal podia falar.
— Renuncie a esta nova fé, Amélia. É só me dar o nome dos
adeptos e estará livre.
— E se eu não der?
— Então está fora das minhas mãos. —Ele as espalhou para
enfatizar.
Amélia pensou nas pessoas que se haviam tornado preciosas
para ela
— Gaspar, Jafé, Cloé, Feba — e começou a tremer
violentamente. Seria capaz de dar os nomes sob tortura?
— Até quando... — começou ela. — Até quando Nero
insistirá nisso?
Cornélio deu de ombros, do modo como ela o vira fazer
durante um julgamento. Um gesto mais expressivo do que
palavras.
— Cornélio, me ajude! Quero viver! Quero ver nossos netos
crescerem. Quero ver Gaio receber sua toga de adulto. —
Naquele momento a vida nunca parecera tão doce. E jamais
ela sentira-se tão desesperada. — Por favor, Cornélio! Peço-
lhe em nome dos nossos filhos. Ajude-me!
Ele a pegou pelos ombros.
— Eu quero, Amélia. Pelos deuses, por tudo que houve entre
nós, jamais desejaria que passasse por isto! Mas Nero pôs isto
na cabeça. Diga o que eles querem saber e sairá daqui
comigo hoje mesmo.
Ela o fitou, os olhos cheios de terror.
— Não... posso.
— Então me diga que passarei para os guardas. Eles
permitirão. Quando e onde acontece a próxima reunião dos
cristãos? E quem são eles?
Amélia não tinha como saber que Cornélio não faria nada
com os nomes — que ele não contaria aos guardas e os
amigos dela escapariam incólumes. Ela acreditava que eles
seriam prejudicados e permaneceu em silêncio. Cornélio
tentou outra tática.
— Desista desta nova fé, Amélia, e podemos voltar a ser
como antes, anos atrás, quando éramos felizes. Levarei você
para o Egito. Gostaria disso?
Ela procurou o rosto do marido à luz da tocha que
bruxuleava através da pequena grade na porta. Cornélio
pareceu genuinamente incomodado.
— Nero pode matar o meu corpo, Cornélio — disse, por fim
—, como fez com meus amigos. Mas eles não estão mortos.
Portanto, ele não tem poder sobre a morte. No fim, o que
ele realmente ganha?
Cornélio lançou-lhe um olhar perscrutador. Estaria Amélia
se referindo a Nero, ou havia uma referência velada a ele
próprio? Não, não percebia nenhuma malícia nos olhos dela.
— Se permitir que isto aconteça, você não pode me amar
nem à sua família. Você não está pensando em nossos filhos!
— Mas eu estou! — gritou ela. — Oh, Cornélio, é por meus
filhos que faço isto!
— Se não quiser me dar ouvidos, Amélia, então não há nada
que eu possa fazer. — Ele virou-se para sair.
— Não! — gritou Amélia. — Não me abandone aqui!
— Basta uma coisa bem simples para obter sua liberdade,
Amélia. Qualquer criança pode ver isto.
Ela o fitou horrorizada.
— Vai mesmo deixar-me aqui neste lugar horrendo?
— Como eu disse, está fora das minhas mãos.
Cornélio certificou-se de parecer tão impotente e abjeto
quanto possível quando a porta da cela foi fechada e
aferrolhada, mas enquanto seguia o carcereiro pelo corredor
sentiu-se levemente aborrecido com a recusa de Amélia em
cooperar. Havia esperado pelo último minuto de súplica e
choro e depois pela sua vitória. Portanto disse ao
comandante da guarda para manter Amélia sem comida e
água durante a noite. Ele pensou por um momento.
—- Pode providenciar para que ouça sons de tortura? —
perguntou.
— Posso fazer melhor que isso, excelência — disse o soldado,
que freqüentemente aliviava o tédio do seu serviço com
diversões sádicas. — Posso entrar na cela da senhora com as
mãos cheias de sangue. Sempre funciona.
Amélia acordou com o som da chave na fechadura de ferro.
Sentou-se devagar, sentindo dores em todas as juntas por ter
dormido num chão de pedra. Havia mordidas em sua pele;
algumas coçavam, outras doíam. Jamais experimentara tanta
sede.
— Cornélio? — sussurrou.
Mas era sua filha. Amélia ficou surpresa com a aparência
terrível de Cornélia.
— Mãe — disse a jovem de 19 anos enquanto se reunia a
Amélia num abraço cheio de lágrimas. — Que coisa terrível!
— Você trouxe... — começou Amélia. Estava chocada com
sua própria fraqueza física. — Posso beber um pouco de
água?
Cornélia bateu na porta e gritou o pedido da mãe. Um
minuto depois o carcereiro — não era o mesmo da noite
anterior — voltava com uma moringa de água, uma tocha
acesa e dois banquinhos para sentar. Tinha o ar de um
homem não muito satisfeito com seu serviço.
— Eu soube por Cornélio — disse Cornélia, referindo-se ao
irmão, não ao pai. — Ele esteve visitando um cliente aqui na
prisão e ouviu falar que você tinha sido detida. Oh, mãe, não
pude acreditar! Por que está aqui?
Amélia teve primeiro que aplacar a sede, bebendo direto do
gargalo e apreciando a sensação da água escorrendo por suas
mãos, braços e pescoço. Imaginou que nem cem banhos a
tornariam limpa. Por fim relatou a conversa que tivera com
Cornélio, especulando por que ele não estava lá.
— Mas — disse Cornélia, com uma carranca — não ouvi falar
de nenhuma nova perseguição. Nero está preocupado
demais com o próprio pescoço ultimamente para dar atenção
aos outros.
E então Amélia soube. O que ela realmente sabia, no fundo
coração - o que a havia visitado em sonhos e sussurrado a ela
em cadência com o rumor dos ratos e os gritos intermináveis
dos outros prisioneiros: que tudo aquilo era obra de
Cornélio. Ao forçá-la a renunciar a sua nova fé, ele triunfaria
sobre ela novamente.
E, no instante seguinte, Cornélia também soube.
— É papai, não é? — sussurrou. — Por quê? Por que ele
odeia você?
— É tudo por causa de vaidade ferida. Fui a causa de um
grande golpe no orgulho de seu pai. Não o fiz de propósito.
A multidão na arena...
— Eu me lembro! Todo mundo falou disso por semanas,
Papai achou que a turba o estava saudando, quando era a
você. É por isso...
— Por isso o que, Cornélia?
A jovem baixou a cabeça.
— Vi o bebê. Era perfeito. Não havia nenhum pé deformado.
Mas papai ordenou que o levassem. Foi horrível. Não soube
o que pensar dele.
— Seu pai era o seu herói e se transformou apenas num
homem.
— E ele continua a punir você. Não permita, mãe. Dê o que
ele quer e ficará livre.
Amélia sacudiu a cabeça.
— Se der o que Cornélio quer, nunca mais serei livre.
— Será, sim. Eu a ajudarei! Ele não poderá perseguir nós
duas, mãe - o tom de Cornélia ficou frenético —, ele não é
Nero! E somente papai que a está fazendo passar por isto.
— Filha, ouça-me. Não importa que seja Nero, ou um estádio
cheio de gente, ou apenas um homem. Não posso renunciar
à minha fé.
Cornélia caiu de joelhos e, pousando a cabeça no colo da
mãe, soluçou, Enquanto acariciava o cabelo da filha, Amélia
admirou-se de que dois anos antes, no dia em que Cornélia
deu à luz seu primeiro filho, ela, Amélia, era uma mulher
sem fé. Mas agora tinha uma fartura de fé e gostaria de poder
partilhá-la com a filha, passando-a para ela como uma taça de
esperança efervescente.
— Vá agora, filha — murmurou ela. — Tome conta da
família por mim. Cuide para que todos fiquem bem. E
quanto ao pequeno Lúcio, trate-o como seu irmão, Cornélia,
pois ele de fato é.
Abraçaram-se, beijaram-se e disseram adeus, com Cornélia
protestando que devia cuidar era da libertação da mãe. Mas
Amélia sabia que não seria fácil, pois Cornélio detinha todo o
poder ali.
Sua filha tinha ido embora fazia poucos minutos quando
Cornélio chegou. Amélia suspeitou que ele já estivesse lá
fora, à espera.
— De uma vez por todas, mulher, vai renunciar a esta
loucura? — perguntou. E quando sacudiu a cabeça, Amélia
viu a autêntica frustração no rosto dele.
— Cornélio, acho que quando você me levou ao circo, foi
para me assustar — acusou ela. — Creio que esperava que
testemunhar a morte de Raquel me faria desistir da nova fé.
Mas teve o efeito contrário. Por causa daquilo que vi, por
causa do que você me forçou a testemunhar — sua voz ficou
mais forte —, por ter assassinado meus amigos, estou mais
firme do que nunca em minha resolução. Jamais darei os
nomes dos meus companheiros cristãos, e nunca renunciarei
à minha fé.
Ele se avultou sobre ela em sua impressiva toga profissional
— um traje que fazia as multidões lhe abrirem caminho — e
ela viu a raiva fervilhar em seus olhos. Mas Cornélio não
disse mais nenhuma palavra, e quando girou nos calcanhares
e saiu, a porta fechando-se atrás dele, Amélia soube que sua
causa estava perdida. Quer Nero estivesse envolvido quer
não; quer as acusações contra ela fossem verdadeiras quer
não, ela sabia que de alguma forma Cornélio ia arquitetar sua
desforra final sobre ela. Iria vê-la punida na arena. E Amélia
não estaria só: ele crucificaria Jafé, Cloé e todos os outros,
deixando-a por último.
Descendo o corredor úmido e subindo as escadas
escorregadias que deveriam ter provocado tamanho pavor na
sua esposa a ponto de torná-la obediente a ele de novo,
Cornélio galgava furioso cada degrau. Mas uma nova idéia já
se formava em sua mente, um meio de transformar em
vantagem esta situação posta a perder. Diria a Amélia que
conseguira obter sua libertação ao usar seu peso político e o
prestígio de seu nome e reputação. Ela então comentaria isto
com os seus amigos até que, em brevíssimo tempo, ele,
Cornélio, despontasse como herói.
Assim, foi com alguma impaciência que ele quis dar a ordem
para o comandante da guarda libertá-la, como os dois tinham
previamente combinado. Porém o comandante não estava.
Um subalterno explicou que seu superior se ausentara
momentaneamente e levara consigo o molho de chaves.
— Vá procurá-lo! — berrou Cornélio, ansioso agora para
obter a libertação de Amélia e o realce de sua reputação.
Na cela escura, Amélia sentia-se mal e aterrorizada. Suava
em bicas e tremia da cabeça aos pés. Pensava nos anos que
ainda lhe restariam. Sua família, os bebês que ainda iam
crescer, sua casa na cidade, e até mesmo a vila no campo,
tudo se tornou de repente precioso para ela. Queria assistir às
cerimônias da toga de Gaio e Lúcio, ver o filho mais velho
ganhar sua primeira causa nos tribunais, embalar os novos
bebês de suas filhas, ficar velha e sábia e aproveitar cada
crepúsculo flamejante. Como havia prezado tudo isto, sua
vida, sua família, em que teria louvado cada alvorecer,
abraçado cada dia!
Ela orou como nunca havia orado antes, esta mulher que em
certa época não tivera fé, mas que estava agora tão repleta de
fé que orava não só ao seu novo redentor, mas também à
Mãe Abençoada Juno. Orou por um sinal. O que devo fazer?
Esperou pela resposta, mas tudo que ouvia era o silêncio
opressivo das paredes maciças que a aprisionavam e os gritos
débeis de prisioneiros suplicando por liberdade, comida e
água. Ouvia os batimentos do seu próprio coração, os
temores sussurrados da própria consciência. Ela orava e
prestava atenção. E finalmente, exausta de medo, fome e
sede, Amélia tirou o colar de debaixo do vestido e olhou
fixamente para o coração do cristal azul, o amontoado de
poeira cósmica que tomara a forma de um salvador
crucificado. E foi assim que a resposta lhe veio.
Foi esta pedra que lhe devolvera a fé nos deuses e fortalecia
sua fé agora. E soube o que devia fazer.
Com mãos trêmulas, esforçou-se para soltar o cristal do seu
engaste de ouro. Quando o conseguiu, segurou-o contra a
débil luz e quase gritou ante tamanha beleza. Devido ao
engaste de ouro, não tinha visto sua linda transparência, a
nitidez e a claridade totais da imagem de Jesus no seu
interior. Como era estranho agora pensar que havia
considerado esta pedra amaldiçoada, que a imagem era a de
um fantasma. Mas, claro, era exatamente assim que Cornélio
queria que ela pensasse.
E então pensou na dor que estava por vir, na tortura e
agonia, e por fim na morte ignominiosa na arena. Sabia que
sob tortura não teria força para não revelar os nomes e
paradeiro de seus amigos. Seu coração martelou. Em espírito
queria ser forte, mas sabia que a carne poderia fraquejar.
Porém talvez adquirisse a força antes de a tortura começar.
De repente viu-se pensando de novo naquele dia, oito anos
antes, em que Cornélio, decidindo sobre a vida e a morte,
optara pela morte. Agora Amélia enfrentava a mesma
escolha. Pensando no bebê inocente exposto ao relento para
morrer, ela escolheu a vida: a vida eterna.
Tendo tomado a decisão, Amélia sentiu uma estranha calma
pairar sobre si e, de repente, todos os mistérios ficaram
claros. Talvez, pensou, quando falou sobre o fim do mundo,
Jesus não quisesse dizer que o fim chegaria para todas as
pessoas de uma vez, mas sim para cada qual em seu tempo, à
medida que alguém morresse e uma nova vida começasse.
Para mim, esta noite, o mundo chega a um fim.
Ela susteve a respiração e ficou atenta. Ouviu vozes
murmuradas no fim do corredor. Tinha de agir rapidamente,
antes que viessem buscá-la.
Engolir a pedra não foi fácil. Tão logo a pôs na boca,
começou a suar e sentiu o estômago embrulhar. E pensou
em toda a vida que ainda teria pela frente, a bela casa e o
marido querendo agora ser amoroso com ela, querendo
começar de novo, cumulá-la de presentes. Mas tudo em que
podia pensar era no homem na cruz que perdoara seus
crucificadores e que a tinha purificado pelo batismo.
Pôs a pedra mais fundo na boca e ainda assim não conseguiu
engolir. Portanto impeliu-a com o dedo e quando começou a
ter náuseas, receou vomitá-la de volta ou que perdesse os
sentidos e os guardas extraíssem a pedra antes que
completasse o seu trabalho.
Nauseada e sentindo uma dor cruciante, forçou o cristal mais
fundo na garganta, rezando mentalmente: "Deus, perdoai-
me por tirar minha própria vida, mas sou feita de carne fraca.
Não posso suportar o fato de levar meus amados amigos para
a arena comigo, embora nossas mortes sejam aquelas dos
mártires."
E então entrou em ação o selvagem instinto de
sobrevivência, e ela entrou em pânico. O coração disparou e
as mãos aferraram a garganta. Embora quisesse morrer, o
corpo resistia. Os pulmões lutavam para respirar. A boca se
arreganhava buscando ar. Estocadas de dor disparavam pelo
peito, e a cabeça parecia a ponto de explodir. Ela caiu ao
chão e se contorceu como um peixe fora da água. Sentia os
pulmões em fogo e sinos repicando em seus ouvidos.
Querido Deus, terminai com meu sofrimento!
E então veio de repente uma estranha paz e a vida refluiu do
seu corpo como as pétalas de uma rosa de verão, caindo uma
a uma. E assim fez o cristal azul, este fragmento do cosmo —
maravilhoso no seu mistério e perfeição, tendo muito tempo
antes orientado uma garota da África chamada Mulher Alta,
tendo levado uma outra chamada Laliari a perder o medo dos
mortos e tendo mostrado a um homem chamado Avram o
seu lugar no mundo —, alojado firmemente na garganta de
uma mulher de tremenda fé. À medida que a escuridão
começou a engolfá-la, enquanto se preparava para a morte e
para reunir-se a Raquel e seus queridos amigos, e talvez à
criança abandonada que nascera perfeita, Amélia não deixou
de notar a ironia: o objeto com o qual seu marido pretendera
puni-la veio a ser o instrumento da sua redenção.
Ínterim
Os guardas não sabiam como ela havia morrido, mas seu
rosto estava congestionado de sangue, a língua púrpura e
projetada. O médico da prisão disse que a sra. Amélia tinha o
aspecto de alguém que sofrera um ataque cardíaco. O medo
da tortura na arena deve ter sido grande para ela, disse.
Cornélio se recordava de que Amélia tinha dito que sua idéia
de levá-la ao circo fracassara. Era verdade. Ele desejara
causar medo nela, mas não a ponto de matá-la.
Então Cornélio viu uma coisa que os outros não perceberam
— estava faltando a pedra do colar — e nesse momento
soube o que Amélia tinha feito.
Mas não desejando que sua esposa adquirisse o prestígio de
mártir, preferindo em vez disso que o povo acreditasse que
havia morrido por covardia, ele nada revelou sobre a falta da
pedra azul e o heróico método de morte que ela empregara.
Manteve-se em silêncio e tornou-se o modelo de marido
pesaroso.
Sua filha Cornélia, por sua vez, ficou furiosa de pesar,
culpando o pai pela tragédia. Proibiu-o de cremar a mãe e,
em vez disso, Amélia teve seu repouso final num belo
mausoléu que parecia uma casa, com falsas janelas, portas e
um jardim. E toda semana Cornélia ia visitar o túmulo,
fazendo uma grande demonstração do seu pesar. Como uma
desforra particular contra o pai, Cornélia abraçou a religião
de sua mãe — embora não acreditasse nela — e praticou o
cristianismo abertamente, transformando seu lar numa casa-
igreja, ostentando isto sempre que podia, até chegar o dia em
que percebeu ser realmente uma cristã. No seu novo zelo ela
fez campanha para manter viva a memória da mãe e assim
insistiu para que os cristãos comemorassem o martírio de
Amélia todo ano na data de sua morte. Cornélia fazia um
panegírico anual sobre como Amélia desafiara as autoridades
e morrera por sua fé.
Quando o primeiro filho de Cornélia — o menino nascido
no dia do retorno de Cornélio do Egito, trazendo consigo o
colar com o cristal azul roubado da tumba de uma rainha —
chegou à idade adulta e tornou-se um cristão apaixonado e
destacado diácono da igreja, ele ordenou que fosse feito um
relicário de prata para abrigar os restos de sua avó. Num dia
de grande veneração, perante uma assembléia de centenas
de devotos, os ossos envoltos num sudário foram
reverentemente mudados do caixão para o relicário e
colocados num santuário onde todos podiam vir a venerá-
los.
Nos seus dias finais, Cornélia seguiu os passos da mãe e
tornou-se mártir à época do Imperador Domiciano, que
mandou cortar sua língua durante um espetáculo no circo.
Cornélio, não tendo sofrido grande perda com a morte da
esposa, finalmente foi indicado para cônsul, obtendo assim
um ano batizado em sua homenagem e garantindo, ele
presunçosamente acreditava, sua lembrança na história.
Infelizmente, o império passou para um novo governo e a
lista dos cônsules caiu no esquecimento. Ao mesmo tempo,
Amélia veio a tornar-se conhecida pelo martírio que sofreu e
até mesmo ganhou uma igreja em sua homenagem. E
Cornélio Gaio Vitélio desapareceu da história.
Os ossos de Santa Amélia foram removidos da cripta familiar
durante a era de ouro do Imperador Marco Aurélio e
colocados numa igreja recém-construída onde milhares iam
venerá-la. Lá ela dormiu pacificamente, os descendentes
louvaram anualmente sua memória na data do martírio, até
que, no ano de 303 d.C., irrompeu a última e mais brutal das
perseguições aos cristãos sob a gestão do Imperador
Diocleciano.
O primeiro edito de Diocleciano foi proibir as assembléias
cristãs. E as igrejas e livros sacros deviam ser destruídos, e
todos os cristãos obrigados a renegar sua religião e sacrificar-
se somente aos deuses do Estado. A penalidade para os
recalcitrantes era a morte. Durante uma reunião secreta de
bispos e diáconos, ficou combinado que, embora a morte
significasse martírio instantâneo e, portanto união com Jesus
no céu, era também necessário para a fé que alguns de seus
integrantes sobrevivessem para levar a palavra além do
império. Muitos foram atraídos para selecionar estes
missionários. Relíquias, livros e objetos sacros, entre os quais
o relicário contendo os restos de Santa Amélia foram
reunidos e escamoteados de Roma no meio de uma noite
tempestuosa, e embarcados num navio sobre um mar
encapelado.
Rompendo ondas tão altas quanto prédios numa noite negra
como breu, a Sra. Amélia, ex-mulher de Cornélio Gaio
Vitélio, foi trasladada para a província da Britânia, onde
simpatizantes cristãos viviam num assentamento chamado
Portus, certa vez uma guarnição romana, mas agora uma
florescente cidade conhecida por suas enguias.
Livro Cinco
INGLATERRA, 1022 D.C.
Madre Winifred, prioresa do convento Santa Amélia, olhou
pela janela do scriptorium e pensou: primavera!
Oh, abençoadas cores da natureza, pincel de Deus em ação:
botões de cereja rosa pálido, amoras vermelhas e pretas,
bagas escarlates de pilriteiro e junquilhos amarelo-sol. Oxalá
sua própria paleta de pintura fosse tão rica e variada! As
iluminuras que poderia criar!
As cores davam esperanças. Talvez este ano o abade lhe
permitisse pintar o retábulo do altar.
Seu entusiasmo murchou. Ela tivera o sonho de novo,
embora não pudesse realmente chamá-lo de um sonho, pois
lhe viera enquanto estava acordada. Uma visão, então,
enquanto orava para Santa Amélia. E na visão contemplou o
que já tinha visto inúmeras vezes: a vida da santa abençoada,
desde a adolescência à conversão ao cristianismo, desde sua
prisão por soldados romanos a uma morte de mártir nas
mãos do Imperador Nero. Embora Winifired não fizesse
idéia de como eram os soldados romanos, ou até mesmo um
imperador romano, nem como as pessoas se vestiam e
viviam mil anos atrás — e claro que ninguém sabia como
Amélia tinha sido, por certo seus ossos não eram examinados
havia séculos —, tinha certeza de que a visão era acurada,
pois procedia de Deus.
O problema agora era como convencer o abade. Tal qual um
osso entre dois cachorros, o retábulo era uma questão que
havia preocupado os dois por mais tempo do que Winifred
podia lembrar. Ela pedia para trabalhar em algo mais
desafiador do que um manuscrito, e o abade (tanto o atual
quanto seus antecessores) se opunha, alegando que sua
vontade era inconveniente e de fato beirava os pecados do
orgulho e da ambição. Embora Winifred aquiescesse a cada
vez, pois assumira votos de obediência, sua mente rebelde
pensava secretamente: os homens pintam quadros, as
mulheres só são boas para letras maiúsculas.
Porque era exatamente isto que Madre Winifred e as irmãs
do convento faziam: pintavam letras maiúsculas, conhecidas
como iluminuras, que eram tão famosas em toda a Inglaterra.
O único problema era que Winifred não queria pintar
iluminuras, e era isto que o abade queria que ela pintasse.
Suspirou e lembrou a si mesma que a vida de uma freira se
resumia a obediência.
Enfiando as mãos nas volumosas mangas de seu hábito, ia
afastar-se da janela, onde se distraíra com os arco-íris da
primavera, quando viu Andrew, o idoso zelador do priorado,
correndo pelo jardim e acenando com as mãos. Ao perceber
o ar de preocupação no rosto dele, Madre Winifred
inclinou-se para fora. Nas janelas do convento não havia vi-
dros, já que as freiras não podiam arcar com tal despesa.
Mourejando com seu topete grisalho, Andrew pediu o
perdão da prioresa e disse que estava subindo numa árvore, a
fim de cortar galhos velhos para servir de lenha, quando vira
Padre Edman na estrada vindo nesta direção.
— Suponho que levará uns quinze minutos para chegar aqui.
Winifred reagiu com um brando alarme. Por que ele estava
chegando agora? O abade vinha apenas uma vez por mês ao
Santa Amélia para ouvir confissões e pegar manuscritos. Ele
costumava rezar a missa muito bem, mas agora era ocupado
e importante demais para perder tempo com um punhado de
freiras idosas. Padres em funções menores eram designados
para este dever incômodo.
— Acho que deve haver más notícias, madre.
Winifred franziu os lábios. Nunca soubera que o abade
alterasse sua agenda para trazer boas notícias. Ainda assim,
não havia necessidade de disseminar pânico.
— Talvez tenha vindo nos informar que nosso telhado será
consertado este ano.
— Seria uma notícia abençoada, por certo.
— Mas por enquanto não conte nada às outras. Não
precisamos perturbá-las sem necessidade. — Agradecendo e
pedindo ao zelador que a avisasse quando Padre Edman
tivesse alcançado o portão, saiu da janela. Guardando para si
a notícia da visita do abade, pois temia que isto preocupasse
suas irmãs, seguiu pela fileira de freiras que já estavam no
trabalho naquela gloriosa manhã de primavera do século XI
de nosso Senhor.
O scriptorium do convento era uma sala ampla contendo
uma comprida mesa e escrivaninhas em toda extensão das
paredes, onde as irmãs do Santa Amélia se ocupavam no seu
requintado trabalho. As persianas ficavam abertas para deixar
entrar a luz matinal. As irmãs trabalhavam em silêncio, as
cabeças com véus pretos inclinadas sobre a tarefa. Winifred
uma vez visitara o scriptorium da abadia de Portminster,
onde o silêncio era imposto aos monges beneditinos, embora
copiar textos sacros não fosse uma ocupação silenciosa.
Alguns monges estavam começando a experimentar a nova
leitura silenciosa, mas a maioria ainda lia do modo como as
pessoas tinham feito por séculos: em voz alta.
Enquanto os monges na abadia de Portminster escreviam o
texto autêntico de um livro, ali no Santa Amélia elas
acrescentavam a primeira letra numa página deixada em em
branco por eles. E embora fossem as iluminuras e não o
texto que haviam ganhado fama em toda a Inglaterra, eram
os monges que recebiam o crédito. Madre Winifred aceitou
isto como a ordem natural das coisas, pois era obediente a
Deus, à Igreja e aos homens. Mesmo assim, às vezes achava
que seria ótimo se a perícia, talento e devoção das suas irmãs
fossem reconhecidos de uma vez por todas.
Isto levou de volta seus pensamentos para o abade. Sua visão
tinha sido tão forte esta última vez que sentiu uma urgência
de tocar no assunto com ele. Claro que nunca poderia se
dirigir ao abade, mas sim esperar que ele se dirigisse a ela.
Em quarenta anos de vida no priorado, Winifred raramente
se aventurara além dos seus muros, e mesmo quando o fazia
era para percorrer uma curta distância — nas ocasiões em
que membros falecidos de sua família eram enterrados no
cemitério da aldeia. Uma vez, ela comparecera à posse de
Padre Edman como o novo abade de Portminster.
O abade... Muito estranho que estivesse fazendo uma visita
não programada naquela manhã específica. Seria a mão de
Deus agindo? Seria um sinal de que o abade iria finalmente
se abrandar e satisfazer sua vontade? Entenderia ele por fim
que o retábulo não era o próprio prazer ou orgulho de
Winifred, mas uma dádiva à santa abençoada em gratidão
pelo que fizera por ela?
Quando Winifred era criança, vivendo na mansão do seu
pai, havia sido possuída por uma misteriosa habilidade para
encontrar coisas perdidas, um alfinete, um broche, e certa
vez até mesmo um pastelão de carne que fora carregado por
um cachorro. A avó disse a Winifred que ela possuía o dom
da visão, herdado dos seus ancestrais celtas, mas avisou-a
para não contar a ninguém, pois poderiam considerá-la uma
feiticeira. Portanto Winifred havia mantido a sua segunda
visão em segredo até o dia em que, por acidente, toda a
mansão fora vasculhada, de cabo a rabo, em busca de uma
colher de prata que sumira. A Winifred de 14 anos a tinha
"visto" na despensa, atrás de uma batedeira. Depois de
recuperada a colher, todos exigiram saber como ela
adivinhara que estava lá. Sem conseguir explicar, foi
considerada malévola e culpada. Ganhou uma sova e o pai do
garoto a quem havia sido prometida desmanchou o com-
promisso, alegando fraqueza de caráter por parte da garota.
Foi então que se dirigiu à capela de Santa Amélia e orou por
ajuda.
Enquanto sua mãe e irmãs continuavam a oferecer preces na
capela, Winifred saíra para explorar o local, e quando entrou
no scriptorium, onde as irmãs se inclinavam sobre seu
trabalho, e viu suas paletas e pigmentos, suas penas e
pergaminhos, soube que era ali que desejava permanecer.
O pai de Winifred ficara muito feliz com o pedido da filha de
entrar para o convento, e nele Winifred estava vivendo
desde então. Nem um dia se passava sem que ela deixasse de
oferecer uma prece de graças a Santa Amélia, que a tinha
resgatado de um futuro deplorável: uma filha sem casar, sem
produzir netos, pouco contribuindo para seu sustento, estava
destinada a se tornar a mais desdenhada das criaturas, a tia
solteirona cujas famílias eram obrigadas a sustentar e em
troca tendo de agüentar maus humores e rabugices.
O scriptorium no Santa Amélia cheirava a óleo e cera,
fuligem e carvão, enxofre e matéria vegetativa. Uma névoa
pairava no ar enquanto lamparinas ardiam dia e noite, não
para iluminar, mas para a coleta do negro-de-fumo
necessário para a fabricação de tintas. As freiras também
faziam seus próprios pigmentos: o mais fino azul-escuro era
extraído do lápis-lazúli, que só vinha do Afeganistão; para
obter tinta vermelha usavam zarcão, cinabre ou besouros
quermes esmagados; e a fabricação de umas poucas cores
constituía um segredo só conhecido dentro daquelas
paredes.
A cabeceira da mesa central estava Irmã Edith, que era a
mais hábil na aplicação de folha de ouro, o primeiro estágio
da iluminura. Era preciso mão especial para aplicar a base de
gesso e depois a folha de ouro por cima; um olho arguto para
saber quando a fundação estava na umidade certa, para
absorvê-la no ponto certo, para pressionar a seda, manejar a
ferramenta de polimento até um ponto. Mão mais pesada ou
um olho menos arguto que os da Irmã Edith e a
ornamentação com folha de ouro seria, na melhor das
hipóteses, de segunda classe.
Outra irmã estava pintando uma miniatura de Adão e Eva no
Jardim do Eden. Estavam ambos nus, ambos femininos com
quadris e ventres arredondados, já que a freira não fazia idéia
de como era um homem nu. Quanto à genitália, folhas de
figueira eram uma dádiva divina, pois as irmãs não tinham
noção de como os homens eram sob suas vestimentas. A
própria Madre Winifred, com toda a sua idade, era
totalmente ignorante da anatomia humana, mesmo a
feminina, jamais tendo assistido num parto ou visto uma
mulher desnuda. Era familiarizada com metáforas: a chave
do homem para a fechadura da mulher, a espada dele para a
bainha dela, e assim por diante. Mas o assunto de copular e
procriar estava além da compreensão de Madre Winifred.
Ela nunca pensara em sexo, ou imaginara que sentia falta
dele. Até onde entendia (principalmente das histórias que
ouvira de damas convidadas ao convento), o sexo tinha sido
criado como um esporte para os homens e um suplício para
as mulheres. Lembrava-se de quando sua irmã mais velha
tinha contraído matrimônio e as primas vieram ajudar a
embalar as coisas para sua viagem, de como as garotas deram
risinhos ao ver a chemise cagoule, uma camisola volumosa
com um pequeno buraco na frente, para permitir fecundação
com o mínimo contato corporal.
— Por que não descansa um pouco, irmã? — perguntou
Winifred para a freira idosa que estava prestes a pintar a
serpente.
— Sinto muito que eu esteja demorando tanto, madre, mas
minha vista...
— Isto acontece a todas nós. Ponha o pincel de lado e feche
os olhos por alguns minutos. Talvez uns goles de água
possam ajudar.
— Mas o abade disse...
Winifred franziu os lábios. Desejou que Padre Edman,
durante sua última visita, não tivesse sido tão veemente em
suas queixas sobre a lentidão cada vez maior da tarefa. Não
havia necessidade de perturbar as irmãs com sua crítica. E
ainda havia as enfermidades para complicar. Agnes era idosa,
era de se esperar que seu trabalho demandasse mais tempo.
— Esqueça o abade — disse Winifred, gentilmente. — Deus
não deseja que nos esgotemos a serviço Dele. Descanse os
olhos e reassuma depois. — Mentalmente acrescentou mais
um item a sua lista de pedidos a fazer ao abade: um colírio
medicinal para a Irmã Agnes.
Sinos replicaram então, convocando as freiras para as terças,
a terceira das sete horas canônicas estabelecidas durante o
dia para cântico religioso. Depondo cuidadosamente os
pincéis e penas, as freiras sussurraram uma prece sobre o
trabalho por terminar, fizeram o sinal-da-cruz e saíram em
silêncio.
Depois de passarem pelo claustro velho de séculos, elas se
reuniram no coro que era o coração de sua capela: à direita
ficava o altar onde as irmãs celebravam a missa; à esquerda,
sob um tabique de madeira, situava-se a nave onde as pessoas
locais, peregrinos e convidados do convento vinham
participar da missa. A capela, um pequeno e modesto prédio
feito de pedra, era o coração das humildes estruturas que
constituíam o priorado de Santa Amélia, construído três
séculos antes. As irmãs, vivendo sob o Regulamento de São
Benedito, que exigia silêncio, celibato, abstinência e pobreza,
dormiam em celas em um dormitório e comiam num amplo
refeitório. Um dormitório levemente mais suntuoso era
destinado às residentes permanentes que não eram freiras e
sim damas de posses que tinham vindo em retiro. Havia
também uma casa de hóspedes para peregrinos e viajantes,
embora permanecesse vazia ultimamente. Perto da pequena
igreja ficava o capítulo onde as freiras se reuniam para ler o
Regulamento e confessar seus pecados, e finalmente o
scriptorium onde passavam a maior parte de suas horas.
Todas estas estruturas de pedra estavam dispostas em volta
do claustro, um retângulo de colunatas arqueadas onde as
irmãs faziam seu exercício. Do interior destes muros frios,
cinzentos e silenciosos vinham os mais espantosamente
belos manuscritos de toda a Inglaterra.
Winifred observou o punhado de irmãs enquanto entravam
na frisa do coro para cantar. Certa vez tinham formado um
grupo amplo, mas agora estava reduzido, suas componentes
frágeis e idosas, sem uma única noviça jovem entre elas. Não
obstante, Winifred era uma rígida disciplinadora e
inspecionava suas freiras todas as manhãs para ver se os
hábitos estavam imaculados: túnica preta, escapulário e véu;
touca branca e faixa na cabeça. Em tempo inclemente ou
para raras viagens fora do convento, elas usavam pelerines
pretas com capuz. Cada uma tinha um cinto de corda em
volta da cintura, do qual pendia um rosário e uma faca de
pão. Suas mãos nunca deviam ser vistas a não ser dentro de
luvas, os braços cruzados à cintura por trás do escapulário.
Os olhos estavam sempre voltados para baixo em modéstia e
humanidade. Embora as conversas fossem permitidas, às
vezes eram mantidas em tom baixo com um mínimo de
palavras.
Como em todos os conventos na Inglaterra, o noviciado só
era aberto às mulheres da nobreza. Mulheres da classe média
tinham pouca esperança de ser aceitas num convento e
camponesas não possuíam a menor chance. Winifred
gostaria de abrir a irmandade para mulheres de classe média
com vocação e posses, e talvez até para a ocasional garota
camponesa que merecesse. Mas as regras eram aquelas e não
podia mudá-las. O Santa Amélia estava também equipado
para receber moças estudantes residentes — filhas de ricos
barões — para aprender bordado, etiqueta, e aquelas com
pais de mente liberal, a ler e escrever latim e treinar a
aritmética básica, de modo que um dia se tornassem capazes
de administrar uma casa. O Santa Amélia também costumava
abrigar viúvas com dinheiro e nenhum lugar para ir e
mulheres buscando refúgio de maridos e pais abusivos—um
santuário feminino livre de homens e da dominação
masculina.
Elas já tinham formado uma comunidade próspera de quase
sessenta almas. Agora havia apenas onze, incluindo a própria
Madre Winifred. Os demais eram sete irmãs veladas, duas
idosas da nobreza que já viviam lá havia muito tempo para se
mudarem para o novo convento, e Andrew, o idoso zelador,
criado no convento desde a infância, quando tinha sido
abandonado no portão dentro de um cesto.
Era por causa do novo convento a dezesseis quilômetros de
distância, construído cinco anos antes e abrigando uma
relíquia muito mais importante que os ossos de uma santa,
que o Santa Amélia agonizava. O outro convento estava
atraindo as noviças, damas convidadas, garotas estudantes
em busca de instrução, peregrinos e viajantes, todos
enchendo os alojamentos e os cofres do Convento da Vera
Cruz. Winifred tentava não pensar nas escrivaninhas vazias
no scriptorium, nos tinteiros havia muito tempo secos e em
suas irmãs remanescentes que labutavam nas iluminuras e
que, tal como ela, estavam envelhecendo. O priorado do
Santa Amélia tinha perdido pupilas e noviças para o
Convento da Vera Cruz porque houvera relatos de curas
miraculosas por lá: esposas ficando grávidas, barões fazendo
fortunas. O abade dissera a Winifred que já fazia muito
tempo que nenhum milagre era realizado no Santa Amélia.
Mas Winifred achava que Amélia realizava milagres todo dia
— era só olhar para as iluminuras!
Não obstante, os peregrinos tinham parado de vir. Como se
podia competir com o Vera Cruz? Os peregrinos raramente
visitavam ambos os santuários — quando se viaja muitos
quilômetros por uma bênção ou uma cura, a pessoa escolhe
uma lasca da árvore do sofrimento de Cristo em vez dos
ossos de uma mulher — e assim o Santa Amélia ia ficando
cada vez mais para trás à cada ano.
E, por fim, quem podia competir com juventude e riqueza?
Winifred estava na casa dos cinqüenta e não tinha mais
família. Quando seu irmão rico e com ligações políticas ainda
era vivo, seu lugar estava seguro. Mas ele estava morto agora,
suas irmãs e cunhados todos falecidos, sua família sem um
tostão e recentemente desaparecida. O novo convento,
porém, era mantido pelo pai da nova prioresa, Oswald de
Mercia, que era muito rico e muito generoso. E, claro, tinha
pleno apoio da abadia.
A Abadia de Portminster, situada no alto de uma colina
sobranceira à pequena cidade de Portminster e ao rio Fenn,
originou-se de uma guarnição romana estabelecida em 84
d.C. na costa oriental da Inglaterra que tinha se desenvolvido
numa cidade portuária adequadamente chamada Portus,
famosa por sua baía protegida e comércio de enguias, uma
atividade que continuou até os dias de Winifred. No século
IV, os restos mortais de Santa Amélia haviam sido trazidos
de Roma para Portminster por cristãos buscando refúgio da
perseguição do Imperador Diocleciano. Um grupo de
monges eremitas, vivendo num monasterium nos arredores
de Portus, adotou a santa fugitiva e deu-lhe refúgio. Ao
longo dos séculos a influência anglo-saxã corrompeu a
palavra "monasterium" para "mynster", e quando surgiu uma
igreja recém-construída deram-lhe o nome de Portus
Mynster. No ano de 882, dinamarqueses pilharam e in-
cendiaram Portminster, mas os restos mortais de Santa
Amélia foram mais uma vez resgatados e escondidos numa
pequena comunidade de irmãs sacras que viviam num
priorado que se situava no fim de uma esquecida estrada
romana.
Um século depois, quando monges beneditinos chegaram e
construíram uma abadia em Portminster, houve discussão
sobre o que fazer com os ossos de Santa Amélia. Decidiu-se
por fim permitir que continuassem no modesto priorado
porque à época uma reputação já se estabelecera acerca dos
milagres realizados pela santa, atraindo peregrinos e visitan-
tes de toda parte. Santa padroeira das doenças do peito, dizia-
se que Amélia curava tudo, desde pneumonia a colapso
cardíaco — alguns chegavam a declarar que a santa
abençoava outras aflições do coração, ou seja, mal de amor.
Assim, o priorado cresceu em fama e riqueza, enquanto a
Abadia de Portminster, que ficava a doze quilômetros de
distância e governava o priorado, já havia alcançado uma
reputação espantosa por sua produção de exóticos
manuscritos com iluminuras.
Enquanto as freiras entoavam o cântico religioso para a terça,
os olhos de Winifred desviaram-se para o altar onde ficava o
pequeno relicário que continha os ossos de Santa Amélia. Ela
retratou seu retábulo imaginado por trás dele: um tríptico de
três painéis de madeira com debruns dourados, cada um com
quatro braços de altura e três braços de largura. No primeiro
ela iria retratar a conversão de Amélia ao cristianismo; no
segundo suas missões aos doentes e pobres; e por fim,
Amélia agarrando o peito e comandando seu coração a parar
antes que os soldados romanos pudessem forçá-la a
renunciar a sua fé.
Os olhos de Winifred voltaram-se para o andaime
empoeirado que abraçava o teto acima do altar. As escoras e
abraçadeiras que tinham sido erguidas cinco anos antes,
quando o abade prometera reformar o teto. Contudo, com a
abertura do novo convento e todo o dinheiro de Oswald
vertendo naquela direção, o abade considerara este projeto
de reforma um desperdício, e ele foi cancelado. Mas os
operários tinham deixado o andaime, e para Winifred a sua
presença era quase uma zombaria.
Enquanto as irmãs erguiam as vozes em Salve Regina,
Winifred vislumbrou uma sombra do outro lado da tela
destinada a separar os leigos das freiras. Era Andrew.
-— O abade está no último trecho do caminho — disse ele
baixinho, os olhos arregalados de preocupação,
— Obrigado, Andrew — murmurou ela. — Vá recebê-lo no
portão.
Deixando as irmãs com seu cântico, Winifred apressou-se
pelo claustro em direção à cozinha, onde uma mulher de
cabelos grisalhos num avental simples estava fervendo
mingau sobre um fogo. Era Dame Mildred, que viera para o
convento há 25 anos, após a morte de seu marido. Como
nenhum de seus filhos havia sobrevivido até a idade adulta e
seus próprios parentes já estivessem mortos e enterrados, ela
adotara a comunidade de freiras como sua família. Quando
sua fortuna acabou e ela não pôde mais pagar pela
hospedagem, alegremente assumiu as funções de cozinheira,
e havia muito tinha se esquecido de que já fora uma dama da
nobreza.
— Vamos precisar de cerveja para o abade — disse Winifred.
-— E de algo para ele comer.
— Ai de mim, por que ele vem? É cedo demais!
Embora Mildred tivesse recebido uma ordem para buscar
cerveja, ela abandonou seu posto e seguiu Winifred até o
portão, onde ambas observaram ansiosas a aproximação do
abade.
— Mãe reverenda! — disse Mildred em súbita alegria. —
Olhe! O abade traz uma braçada de faisões! — Sua alegria
murchou. — Não, é só um faisão. Somos onze aqui, mal
temos para ir levando, e se o bispo decidir cear conosco...
— Não se preocupe. Daremos um jeito.
Madre Winifred observou o progresso do abade enquanto
trotava em seu belo cavalo na trilha do jardim. Pela postura
dele Winifred podia dizer que seus temores eram
justificados. O abade trazia mais do que livros sacros em sua
mochila. Também trazia más notícias.
Deus a abençoe, prioresa — saudou ele, enquanto apeava do
cavalo.
— E também ao senhor, abade.
Madre Winifred olhou para o insignificante faisão, pensando
que não haveria nenhuma ceia farta naquela noite, ao
mesmo tempo que o abade farejava o ar discretamente mas
sem detectar qualquer aroma convidativo vindo da cozinha.
Ele se lembrou dos dias em que podia ficar na expectativa do
famoso blankmanger de Winifred, que ela fazia
pessoalmente, de pasta de galinha misturada com arroz
cozido, leite de amêndoas, açúcar e anis. Ela costumava fazer
deliciosos bolinhos de peixe e frituras de dar água na boca. E
suas tortas de ameixa... Ele suspirou com as lembranças. Uma
pena, aqueles dias não existirem mais! Agora, se ficasse para
cear podia esperar pão dormido, sopa rala, repolho murcho e
feijões que lhe causariam flatulência a semana inteira.
Entraram juntos no capítulo com os estômagos roncando.
Enquanto caminhavam, falaram do tempo e outras
amenidades, "tópicos de circunlóquio", como a prioresa os
considerava, pois conhecia o abade muito bem para saber
quando ele estava ocultando notícias desagradáveis. E o olho
arguto de Winifred não deixou de notar que ele estava
usando roupas novas. Seu manto, embora preto, ofuscava
distintamente ao sol, tal como o ponto brilhante no seu
couro cabeludo, onde os cabelos tinham sido raspados para
uma tonsura. Ela também notou que a cintura havia se
expandido desde a última vez em que o viu, apenas duas
semanas antes.
Mas a prioridade em sua mente era o propósito desta visita
inesperada, o assunto que o abade estava evitando. Ele não
precisava se incomodar; Winifred já sabia qual era a má
notícia: não haveria consertos no teto este ano. Ela e as
irmãs iriam sofrer outro inverno de baldes e panelas e camas
encharcadas.
Talvez ela pudesse transformar em vantagem esta visita
funesta. Sendo o portador de notícias tão decepcionantes, o
abade dificilmente poderia continuar recusando o seu pedido
para pintar o retábulo do altar. Ela apelaria a qualquer resíduo
de caridade abrigado no coração dele.
Winifred acreditava na Bíblia ao pé da letra, mas deixando
espaço para interpretação. Embora acreditasse que Deus
havia criado os homens primeiro, duvidada que os tivesse
criado mais espertos. Não obstante, assumira votos de
obediência e, portanto iria obedecer ao abade — dentro da
razão. Se ele não podia dar-lhe um telhado novo, então
deveria consentir na questão do retábulo. Ela merecia
tamanha consideração. Beirando os sessenta, Winifred era
uma das mulheres mais idosas que ele conhecia. Era de fato
mais velha que muitos homens — mais velha certamente
que o abade — e achava que somente isto a habilitava a um
privilégio especial.
Quando entraram na casa do capítulo, um salão ventoso
mobiliado com cadeiras de espaldar reto e dominado por
uma enorme lareira cheia de fuligem, Winifred perguntou ao
abade se ele trouxera chá de casca de salgueiro.
— Não é a primeira vez que faço este pedido, abade.
Enquanto baixava o traseiro numa cadeira confortável, o
abade especulou se Winifred usava sua touca apertada
demais ou se o rosto estava naturalmente contraído. Depois
captou um vislumbre das mãos dela e concluiu, pelas
manchas azul-escuro, que Winifred passara a manhã
recolhendo folhas de isate. A erva arbustiforme de folhas
largas, que continha a matéria-prima de uma tintura azul, era
um excelente substituto para o índigo indiano importado que
entrava nos pigmentos das freiras, mas que era raro e
dispendioso.
— Não se deve pensar só no seu conforto, Madre Winifred
— admoestou ele, gentilmente.
Ela franziu os lábios.
— Estava pensando na artrite da Irmã Agatha. A dor é tão
forte que ela mal pode empunhar um pincel. Se minhas
irmãs não puderem pintar... — replicou ela, deixando a
ameaça pairar no ar.
— Está bem. Mandarei o chá tão logo retorne à abadia.
— E carne. Minhas irmãs precisam comer. Elas precisam de
energia para trabalhar — disse enfaticamente.
Ele fez uma carranca. Sabia que ela estava por cima.
Winifred tinha uma maneira de manter suas iluminuras
como reféns em troca de confortos materiais. Mas não estava
em posição de barganhar. A procura pelas iluminuras estava
crescendo, embora cuidasse para não deixar Winifred saber
disso.
Seria incorreto dizer que o Abade Edman detestasse
mulheres. Ele simplesmente não via nenhuma utilidade para
elas e imaginava por que Deus, na Sua sabedoria infinita,
optara por criar uma tal adversária como meio de reproduzir
Seus filhos. Porque Edman estava convencido de que
homens e mulheres jamais iriam, por toda eternidade,
aprender a conviver. Se não fosse por causa da mulher, Adão
teria permanecido no Eden e todos os homens estariam
vivendo no Paraíso até hoje. Infelizmente, a Inglaterra não
era nenhum paraíso e este convento caía sob sua esfera de
ação como abade de Portminster, e, portanto era seu dever
realizar visitas regulares. Mas ele nunca se demorava,
fazendo o que tinha de fazer e partindo tão rapidamente
quanto a polidez permitisse.
Enquanto tentava relaxar nesta atmosfera totalmente
feminina — por que as mulheres nutriam uma paixão tão
frívola por flores? —, ele pensou nos irmãos da sua ordem
que tinham dificuldade em manter seus votos de celibato.
Edman era celibatário, embora como um sacerdote isto não
lhe fosse exigido. Grande parte dos padres eram casados, o
que estava além de sua compreensão, e mais espantoso foi o
incidente em 964, quando o Bispo Ethelwold deu aos padres
casados na Catedral de Winchester a opção de conservar
suas esposas ou seus empregos, e eles optaram pelas esposas.
O celibato nunca havia sido um problema para Edman,
porque jamais tivera qualquer desejo de entrar em conjunção
com uma mulher, e estava completamente além de sua
compreensão por que qualquer homem racional desejasse
isto. Nascido na pobreza com apenas a mais vaga lembrança
de sua mãe e órfão após a morte do pai pescador, Edman
sobrevivera na cidade portuária por esperteza, permitindo
aos lavradores e peixeiros que o usassem como animal de
carga. Tinha recebido mais repreensões injustas do que sua
cabeça podia contar, o que lhe ensinou a não ter compaixão
ou ternura por qualquer mulher viva. Foi a amabilidade de
um padre local, que o ensinou a ler e escrever, que resgatou
Edman de uma vida de humilhação e desespero esmagador.
Ele entrou nas ordens sacras e, com ambição, raciocínio ágil
e capacidade de fazer os amigos certos, galgara a escada
clerical até que agora chefiava uma ilustre abadia e uma
próspera ordem de escribas beneditinos.
Portanto, ele se agastava com essas visitas obrigatórias ao
priorado de Santa Amélia. Certamente isto podia ser
delegado a um preposto e, de fato, certa vez mandara um de
seus subordinados ao convento para buscar um manuscrito
com iluminuras. Madre Winifred ficara tão afrontada que
dissera que o manuscrito não estava terminado, dando a
entender ainda que não estaria até que o próprio abade
viesse buscá-lo. A criatura tinha uma estranha maneira de
ser obediente e desafiadora ao mesmo tempo. Mas em
algumas questões Edman batera pé firme — por exemplo no
pedido dela para pintar o retábulo — e nisto ela cumprira
suas ordens. Graças a Deus, pois o abade não podia dispor do
tempo que ela gastaria no Santa Amélia enquanto suas artes
fossem necessárias para atender à demanda crescente por
iluminuras.
Ainda assim, apesar de seu desprazer em visitar o convento,
tinha de admitir que lugares como este serviam a um
propósito útil. Muitas mulheres indesejadas eram mandadas
para um convento para viver de modo respeitável, em
segurança e sem causar problemas para os homens da
família. É claro que havia as criaturas que preferiam a
companhia de sua própria espécie, mulheres que se
recusavam a obedecer homens, mulheres que se achavam
iguais ou superiores aos homens, mulheres que tinham a
estranha noção de que poderiam cuidar de si mesmas. Os
conventos, portanto, serviam aos objetivos tanto dos
homens quanto das mulheres. O abade desejava apenas que
as criaturas não fossem tão fanáticas por higiene. O odor de
suor honesto nunca matou ninguém, mas Winifred e suas
companheiras, como todas as damas bem-nascidas, sempre
cheiravam a lavanda e tanásia, que espalhavam nos seus col-
chões para enxotar as moscas.
— Como foi a sua visita a Canterbury, abade? — perguntou
Madre Winifred, não de todo interessada e esperando que a
resposta dele não se alongasse demais. Pela protuberância na
mochila, ela podia dizer que ele trouxera mais trabalho para
suas irmãs, o que significava que ela deveria ocupar-se da
preparação de novos pigmentos.
Edman achava tão penoso explicar que semicerrou os olhos.
Na Catedral de Canterbury ele havia testemunhado uma
estranha visão. Alguma coisa chamada peça, na qual os
homens vestidos a caráter representavam uma história. A
peça fora encenada como parte dos serviços da Páscoa e era
uma nova invenção dos padres de lá. Quando um monge
vestido como o Demônio entrou no palco, a congregação
tinha irrompido em medo e fúria e quase matara o pobre
homem ao investir contra ele. O argumento era que tais
encenações ajudariam o povo a aprender as histórias da
Bíblia com mais facilidade, porém o abade tinha suas
dúvidas. Se as pessoas pudessem simplesmente ver uma
história, por que perderiam tempo ouvindo os sermões? Os
homens cultos parariam de ler a Bíblia? Talvez esta coisa
chamada "peça" não pegasse. Ele por certo não tencionava
fazer tais encenações na sua abadia.
Especulava se as peças não seriam um sinal da mudança dos
tempos. Embora tivesse havido um dia, apenas 22 anos
antes, em que a Igreja achara que os tempos fossem mudar
tão drasticamente que chegou a anunciar literalmente o fim
do mundo.
Em que decepção se transformara o milênio! Toda a
preparação e histeria, os banquetes e orgias, as pessoas
afluindo à abadia para confissão, os suicídios e profetas do
apocalipse, todos pensando que Jesus estava voltando e que o
mundo se aproximava do fim. E os debates intermináveis!
Nós contamos mil anos a partir do nascimento ou da morte
de Cristo? O milênio assinala o segundo advento de Cristo ou
o início do reino de Satã? A destruição do Santo Sepulcro em
Jerusalém pelos muçulmanos foi um sinal? Mas isto ocorrera
em 1009. Poderiam nove anos mais tarde ainda fazer parte
do milênio? O abade Edman, à época um jovem clérigo,
havia-se juntado ao movimento Paz de Deus num esforço
para refrear a violência dos senhores feudais. Claro que a
febre do Juízo Final tivera seus benefícios. Um rico barão do
condado doara todas as suas terras e riqueza à Abadia de
Portminster e viajara para passar a véspera do milênio no
Vaticano vestido de trapos de penitência e cinzas. E então,
na manhã de 1º de janeiro do ano 1000 — nada. Apenas
outra manhã fria com as habituais dores e flatulência.
— Minha viagem correu bem, graças a Deus — disse ele, por
fim, esperando que estas amenidades não levassem de novo
ao pedido de pintar o arruinado retábulo, que assunto
enfadonho! Não importava quantas vezes tivesse dito a ela
que estava fora de questão. Será que não sabia que ir contra a
vontade do abade era ir contra a vontade de Deus?
Claro que sabia, por isso não o havia desobedecido. A
mulher era um modelo da complacência cristã, embora
usasse a oportunidade da confissão para introduzir
sorrateiramente suas pequenas rebeliões. "Sou culpada do
pecado da gula", murmurava através da tela do
confessionário, "e desejo que o abade forneça mais comida
para mim e minhas irmãs." Ele ignorava a trapaça e ordenava
três padres-nossos para o pecado da gula.
Mas a contrariedade do abade era temperada com piedade.
Pobre Winifred. Tão logo se espalhara a notícia do novo
convento e de suas generosas amenidades, tinha havido um
êxodo embaraçoso de freiras, damas e pupilas do Santa
Amélia. Mas como poderia ser de outra maneira? Winifred
dificilmente seria conhecida por ter uma mesa farta. Era
parcimoniosa com carvão e lenha, e não admitia animais de
estimação. As damas convidadas com freqüência queixavam-
se a ele das condições precárias. E agora estavam abrigadas
confortavelmente no novo lugar, onde lareiras afastavam o
frio e na mesa da ceia havia fartura de carne e vinho. A
pobre Winifred foi deixada aqui nestes alojamentos ventosos
com um grupo de seguidoras descarnadas e leais. Não fosse a
contínua produção de iluminuras fabulosas, ele já teria
fechado este velho lugar havia muito tempo.
Dame Mildred tinha assado bolos de aveia com mel, um
alimento saudável muito necessitado pelas irmãs. Mas como
a despensa estava com estoque reduzido de aveia e mel, ela
fizera exatamente onze bolos pequenos, um para cada uma
das irmãs e um para Andrew, o zelador. Como não podia
permitir que a prioresa passasse pelo embaraço de nada ter a
oferecer ao abade, ela anunciou o prato, pensando em abrir
mão de seu próprio bolo para que o abade pudesse conhecer
a hospitalidade delas. Para seu espanto e de Winifred, o
abade pegou três bolos de uma vez e os devorou.
Observaram-no mastigar o precioso alimento e depois servir-
se de mais três. Os bolos desapareceram e Madre Winifred
ficou ultrajada.
Enquanto empurrava os bolos com uma caneca de cerveja
fraca, o Padre Edman não deixou de notar os olhares que as
duas mulheres trocaram e os ignorou. O abade não se
desculpou por seu apetite, pois acreditava que Deus gostava
de ver seus servos bem alimentados. Como poderia
converter pagãos ao cristianismo se ele próprio parecesse um
espantalho? "Como pode o seu Cristo ser bom se deixa seus
filhos passando fome?" E o Abade Edman levava a sério sua
evangelização, pois embora a Inglaterra tivesse todas as
marcas exteriores do cristianismo, o abade estava mais do
que ciente de que muitos compatriotas adoravam árvores e
círculos de pedra. Antigas superstições e comportamentos
pagãos jaziam sob uma superfície muito fina de pretensa
piedade e, portanto a luta pelas almas humanas era uma
batalha sem fim. Ele se via como um guerreiro de Cristo, e
todos sabiam que soldados deviam comer. Limpando os
dedos no seu hábito, passou ao assunto que interessava e
pegou na mochila as novas páginas que necessitavam de
letras maiúsculas. Ele também trouxera um livro para
Winifred pôr iluminuras — era mais um sinal da mudança
dos tempos que pessoas que não os clérigos estivessem
começando a demonstrar interesse por livros.
— O patrono quer ter este retrato na página de rosto, usando
armadura, montado no cavalo com escudo e com uma
equipe de justa. Ele deseja que sua dama seja ilustrada no
começo de um dos salmos.
Winifred assentiu. Este era um pedido comum. Ela
costumava escolher o salmo 101 para a dama de um
cavalheiro. Em latim começava com a letra "D", que
emprestava a forma certa e espaço para uma figura humana.
Além disso, a frase de abertura, traduzida, era "Cantarei do
seu amor", da qual as damas sempre gostavam.
Embora uma variedade de livros estivessem sendo
atualmente publicados com iluminuras na Inglaterra e na
Europa, desde os Evangelhos e livros litúrgicos às obras do
Antigo Testamento e coleções de antigos autores transcritas
pelos copistas carolíngios, a especialidade regional do Padre
Edman eram os livros de salmos ilustrados com cenas
bíblicas de uma excelência encontrada somente na
Inglaterra, graças a Winifred. A ilustração era executada num
estilo vívido, com figuras humanas em posturas animadas e
usando roupagens adejantes. Como Winifred tinha sido
instruída quando menina por um artista treinado no estilo
Winchester de iluminuras, sua arte-final se manifestava em
ricas colorações de azul e verde, suntuosas bordaduras de
ornamentação de folhas e animais, mas também acrescida de
sua própria marca registrada nos padrões em espiral,
entrelaçando animais reminiscentes de trabalho em metal.
A competição entre os centros produtores de livros era
feroz, cada abadia ou catedral querendo que seus livros
fossem os mais populares entre reis e nobres. Mas a
manufatura das iluminuras era um processo lento, com a
maioria das catedrais e mosteiros produzindo apenas dois
livros por ano. Foi um dos antecessores de Edman quem
teve a idéia de pôr as freiras do Santa Amélia neste trabalho,
pois com suas mãos menores, visão mais aguçada e dom para
o detalhe, elas podiam trabalhar sobre as letras maiúsculas
enquanto os monges se dedicavam a toque de caixa ao texto
principal. O orgulho tinha impedido o ex-abade de revelar
que a arte-final era realizada por mulheres, portanto todos
creditavam aos monges da Abadia de Portminster a produção
de uma arte tão miraculosa e numa rapidez tão fenomenal.
"Eles trabalham com a velocidade de Deus", o abade gostava
de dizer.
Mas agora havia um problema: as noviças não estavam mais
vindo para o Santa Amélia e as freiras-artistas estavam
morrendo. Foi o bispo quem apresentou uma solução. E foi
uma solução razoável e brilhante, achava Edman, mas sabia
que Winifred não veria desta maneira.
Seu movimento seguinte tinha de ser cuidadoso, pois não
fazia idéia de como ela reagiria ao que ia dizer. Devia levar
em conta aquela rebeldia peculiar da madre. Se não a
manipulasse com cuidado, tudo poderia se perder. E o abade
era um homem ambicioso. Dirigir uma abadia era uma prova
de sucesso, é claro, mas ele sentia-se destinado a coisas
maiores. Uma nova catedral estava sendo construída em
Portminster, o que significava que um bispo lá seria
instalado, e Padre Edman pretendia ser este bispo. Mas
grande parte do seu sucesso dependia de Winifred continuar
produzindo iluminuras.
Enquanto o abade devorava os bolos destinados a alimentar
onze pessoas, Winifred pedira que os manuscritos
completados fossem trazidos à casa do capítulo. Edman os
examinava agora. Como sempre, as cores eram empolgantes
e vívidas. Ele podia jurar que se a pessoa tocasse no
vermelho poderia sentir uma pulsação, se farejasse o amarelo
sentiria a fragrância de ranúnculo. O abade achava uma
estranha ironia que a própria Winifred fosse tão melancólica
e sem cor enquanto suas criações eram estupendamente
vibrantes.
Ele não elogiou o trabalho — nunca o fazia e Winifred
jamais esperou isto. Mas mesmo assim viu a admiração nos
olhos dele e experimentou um momento de orgulho.
Portanto achou que já era mais do que hora de renovar seu
pedido para pintar um retábulo no altar.
Ele ouviu pacientemente sua explicação.
— Desejo dar a Santa Amélia alguma coisa em troca de tudo
que ela me deu.
Mas ele já pretendia baixar-lhe a crista. Edman não
permitiria que Winifred assumisse um projeto que
demandaria meses — um tempo precioso que poderia ser
usado para ensinar as noviças a arte das iluminuras.
Ele pigarreou e tentou dar a impressão de que levara o
pedido a sério.
— Tenho certeza de que Santa Amélia sabe que fez o
suficiente a serviço dela por todos esses anos, prioresa.
— Então por que não consigo parar de pensar no retábulo?
Está na minha cabeça dia e noite.
— Talvez você necessite orar — sugeriu ele.
— Já o fiz, e a única resposta que pareço ter é pensar mais
ainda no retábulo. Agora chego a sonhar com isso. Sinto-me
conduzida pela mão de Deus.
O abade franziu os lábios. Este era um pensamento perigoso:
uma mulher receber ordens diretamente de Deus. E se todas
as mulheres obtivessem tal noção? Nesse caso, esposas não
mais obedeceriam aos maridos, filhas não obedeceriam aos
pais e a sociedade seria lançada no caos.
— Acontece, prioresa, que um retábulo não terá nenhuma
utilidade para o Santa Amélia.
As sobrancelhas quase inexistentes de Winifred se
arquearam.
— Como assim?
Ele pigarreou de novo, desta vez mais nervoso.
— Receio que o Santa Amélia vá ser fechado.
Ela olhou fixamente para ele e o silêncio pairou no
ambiente. Através das pesadas portas vinha o som de
passadas curiosas.
— O que quer dizer? — perguntou ela, por fim.
— Quero dizer, Madre Winifred, que estes velhos prédios
não têm mais jeito, e é um desperdício de dinheiro tentar
reformá-los. Falei com o bispo e ele concorda com que a
senhora e suas irmãs se mudem para o Convento da Vera
Cruz e que este lugar seja fechado.
— Mas e o nosso trabalho... as iluminuras?
— Ele continuará, é claro. E vocês ensinarão suas habilidades
para a nova geração de freiras, assim poderão continuar com
a tradição.
Ela ficou sem ação. De todas as possíveis más notícias que
previra, esta nem sequer lhe passara pela cabeça.
— E quanto a Santa Amélia?
— Ela terá sua própria capela na nova catedral em
Portminster.
A hora era tardia, a capela estava vazia e silenciosa, exceto
por uma figura solitária iluminada pelo bruxulear de uma
única vela. Winifred ajoelhada.
Jamais conhecera tamanho desespero. O dia que se iniciara
com tanta cor e promessa era agora tão sombrio quanto um
inverno inglês. Mudar- se do único lar que já conhecera! Ter
de começar, neste estágio final da sua vida, a ensinar
habilidades e conhecimento de uma existência inteira a
jovens noviças. Ter de informar a suas queridas e idosas
irmãs que seriam transferidas para alojamentos estranhos
onde teriam de se adaptar, após anos de uma rotina familiar,
a novos costumes e comportamentos. Como comunicar uma
coisa dessas? Décadas de dedicação não valiam nada?
Mas o pior, oh, o pior era se ver separada de sua santa
abençoada.
Na maior parte de sua vida Winifred tinha rezado
diariamente para Santa Amélia. Ela nunca começava ou
terminava um dia sem dialogar com a santa. Winifred jamais
viajara para longe do priorado porque não gostava de se
afastar da sua santa. Era Amélia quem lhe dava sabedoria e
força. Amélia era mais do que uma mulher que morrera mil
anos antes, ela era a mãe que Winifred mal conhecera, a
filha que nunca tivera, as irmãs que tinha enterrado no
cemitério do convento. E agora, sentada solitária na capela
em meio à luz tremeluzente e paredes de pedra silenciosas,
Winifred estava sendo forçada a dizer adeus. Sentia-se como
se estivesse sentada à beira de um grande e aterrorizante
abismo.
— Abade — conseguiu dizer, quando se recuperou do
choque provocado pela notícia —, vivi aqui por mais de
quatro décadas. Não conheço outro lar. Este lugar é onde a
abençoada Santa Amélia me concedeu o talento para a
pintura. Como posso deixá-lo? Se for separada de Santa
Amélia perderei meu dom.
— Bobagem — disse o abade. — O seu dom vem de Deus. E
ainda poderá visitar Santa Amélia na catedral de vez em
quando.
Visitar Santa Amélia de vez em quando. Eu morrerei...
Agora seu coração se dilacerava em conflito. Desde a
infância tinha sido ensinada a obedecer a pai, marido, padre,
igreja. Mas houve ocasiões em sua vida em que sentira
possuir melhor discernimento e ser capaz de tomar decisões
melhor do que os outros. Na virada do milênio, por
exemplo, o antecessor do Padre Edman lhe havia ordenado
que seguisse com as irmãs para a Abadia de Portminster a
fim de orar pela salvação de suas almas. Mas Winifred sentira
fortemente que estariam a salvo com Santa Amélia e,
portanto desobedeceu o abade. Aconteceu que a histeria
irrompeu na abadia na virada do milênio, houve tumulto e
pessoas ficaram gravemente feridas porque o abade não
soubera conduzir as coisas. Seu próprio pânico em relação ao
milênio iminente tinha meramente inflamado o povo já
impressionável. Assim, graças à desobediência premeditada
de Winifred, suas irmãs e hóspedes foram poupadas.
Mas o que ela deveria fazer nesse caso? As questões não
estavam claramente definidas. Ela ergueu os olhos para o
relicário no altar, brilhando opacamente à luz de vela. O
fardo de governar e cuidar de sessenta freiras, damas e
pupilas, além de supervisionar diariamente as necessidades
físicas e espirituais de rebanhos de peregrinos, não chegava
nem à metade da responsabilidade que agora enfrentava pela
sua reduzida família de onze pessoas.
Winifred vivenciara um momento de recriminação amarga:
não se tratava realmente de fechar um lugar antiquado,
pensava, porque com algum dinheiro e um pouco de
organização, o Santa Amélia poderia se tornar auto-
suficiente de novo. Tratava-se de mulheres chegando ao
ocaso de sua utilidade, pois o que o abade queria era que
Winifred começasse a treinar as noviças na pintura de
iluminuras. "Deixe que Agnes e Edith dêem um descanso às
suas mãos cansadas e aproveitem seus últimos dias em paz.
Deixe que mãos mais jovens assumam o fardo do trabalho",
ele tinha dito. E ela replicara que suas irmãs adoravam o tra-
balho e que afastá-las dele seria como roubar dessas
mulheres a sua razão de viver. Mas o abade se recusara a
ouvir.
Isto fez Winifred sentir-se velha e decadente, um refugo
inútil, como uma agulha de costura quebrada. A idade de
nada valia; a juventude era tudo. E como uma pilha de folhas
mortas a ser varrida de modo a permitir que folhas novas e
verdes brotassem do solo, ela e suas idosas irmãs seriam
varridas.
Pela primeira vez em décadas, Winifred viu-se no limite do
desespero. Aquele doce e humilde priorado havia
sobrevivido a três séculos de tormentas, inundações,
incêndios e até mesmo às incursões dos vikings. Agora ia ser
derrubado por uma lasca de madeira!
Repentinamente temerosa de que seus pensamentos fossem
sacrílegos — pois não era uma lasca de madeira qualquer que
o novo convento abrigava! —, Winifred uniu as mãos e
gritou:
— Ó abençoada Amélia, nunca vos pedi nada!
Era verdade. Enquanto as pessoas procuravam a santa
pedindo favores, curas e respostas para desejos, Madre
Winifred, zeladora da santa por quarenta anos, havia
oferecido apenas preces de agradecimento. Mas agora tinha
um pedido, e não era material. Não estava buscando alívio
para dor física, nem aconselhamento sentimental nem um
marido — o que pedia agora era orientação.
— Dizei-me o que fazer. — Quarenta anos de autocontrole
finalmente desmoronaram. — Por favor, ajudai-me! —
gritou, e fez algo que nunca fizera antes: precipitou-se sobre
o altar e apertou contra o peito o relicário de prata.
Percebendo horrorizada o que tinha feito — o relicário
nunca fora tocado nem com um espanador —, ela
rapidamente recuou, murmurando desculpas e fazendo o
sinal-da-cruz, e acabou prendendo o pé na bainha de seu
hábito. Perdeu o equilíbrio, buscou um ponto de apoio,
agarrando a toalha do altar involuntariamente, caiu e
derrubou tudo consigo — flores, candelabros, relicário.
Bateu nos degraus de pedra com impacto doloroso, rolou,
bateu com a cabeça e ficou momentaneamente sem
sentidos. Quando sua cabeça clareou, um minuto depois,
Winifred se descobriu caída apática nos degraus do altar, os
olhos fixados no andaime acima, uma dor aguda no crânio.
Quando tentou se mover, descobriu o braço direito preso
debaixo de um peso.
O relicário. Que havia se quebrado.
E os ossos da santa jaziam expostos pela primeira vez em
quase mil anos.
Winifred se pôs de pé e sussurrou "Mãe de Deus!", enquanto
olhava horrorizada para as relíquias profanadas.
Seu coração batia desenfreadamente enquanto tentava
pensar no que fazer. Tinha havido profanação? Haveria um
ritual especial para a substituição dos ossos da santa? O abade.
Tinha de contar imediatamente ao abade.
E então algo a deteve. Contendo o impulso de sair correndo
da capela, Madre Winifred ajoelhou-se lentamente e olhou
maravilhada para os delicados objetos esparramados nos
degraus. Pareciam conchas, ou minúsculas pedras
encontradas num riacho — frágeis e vulneráveis, havia um
osso de dedo aqui, um esguio osso de braço ali. Para seu
espanto, o esqueleto, em sua maior parte, estava completo,
embora todo desconjuntado agora e se esfarelando. O crânio
ainda estava ligado ao pescoço, o pescoço às omoplatas. As
costelas tinham caído havia muito tempo e a pelve se
desmanchara em centenas de pedaços. Mas agora o que lhe
chamava a atenção era o pescoço, pois havia alguma coisa
entre os ossos...
Chegou mais perto e forçou a vista à luz fraca da capela. Na
base do crânio, onde as duas primeiras vértebras se uniam...
Seus olhos se arregalaram. Cambaleando, pegou a lamparina
e a trouxe para perto dos ossos. Prendeu a respiração
enquanto observava como a chama bruxuleante dançava
sobre os ossos pálidos e captava o brilho mais estranho e
minúsculo no interior deles.
Franziu o cenho, pois ossos não faiscavam.
Aproximou mais a lamparina e inclinou-se, estreitando os
olhos, focalizando, detendo-se entre as duas vértebras. Uma
aragem soprou através da capela, fazendo a chama dançar, o
brilho ocorrer novamente. Era como a faísca que se vê
quando se golpeia um sílex, pensou.
O que era aquilo?
Uma sensação soturna a percorria enquanto se ajoelhava
solitária na capela silenciosa junto aos ossos de mil anos.
Winifred teve de súbito a mais forte noção de que não estava
mais sozinha. Olhou em torno e viu que a capela se achava
vazia. Ninguém, nada, estava ali à espreita. Ainda assim, o
cabelo sob sua touca agitou-se como se para se pôr de pé; sua
nuca se arrepiava como se alguém respirasse sobre ela.
Havia alguém ali.
E então ela soube. Num átimo, na mais espantosa clareza
mental que jamais vivenciara em sua vida: era Santa Amélia,
despertada de seu longo sono pela violação de seus ossos.
— Por favor, perdoai-me — sussurrou trêmula, enquanto
tentava pensar num modo de juntar os ossos e recolocá-los
no relicário. Teria de ser feito do modo mais religioso e
reverente possível — e sem que ninguém soubesse. Estava
mais do que certa de que os ossos tinham sido destinados a
ser vistos somente por ela e ninguém mais. Foi um sinal.
Santa Amélia estava tentando dizer-lhe alguma coisa.
Quando a chama tremeluziu de novo e mais uma vez
produziu um brilho entre os ossos do pescoço, Winifred
estendeu a mão trêmula e, com a ponta do dedo indicador
em riste, tocou cautelosamente a espinha seca e gredosa. As
vértebras separaram-se, de tão velhas e ressecadas estavam. E
enquanto elas caíam, como as metades de uma noz,
expuseram um objeto tão estonteantemente maravilhoso que
Winifred, com um grito, caiu para trás e bateu de nádegas no
chão.
Entre os ossos cervicais de Santa Amélia estava a mais linda
pedra azul que já vira.
Winifred a manteve consigo secretamente, escondida num
bolso profundo de seu hábito. O cristal azul da garganta de
Santa Amélia. Não contou a ninguém, depois de recolocar os
ossos no relicário e devolvê-lo ao altar, pois precisava avaliar
o mistério que desvendara. Por que o cristal estava ali? Como
havia se alojado nos ossos cervicais da santa? E seria mesmo
um sinal de Santa Amélia? O que mais poderia ser, porém?
Os ossos ficaram lacrados no relicário por séculos, por mil
anos, pelo que Winifred sabia, então por que haviam
escolhido aquele momento para se revelar? A resposta era
óbvia: depois da saída do abade, fora tomada por um
desespero tão grande que poderia ter acreditado que o sol
nunca mais despontaria. E portanto Amélia havia falado
através do cristal azul.
Mas qual era a mensagem? Teria algo a ver com a mudança
para o novo convento? Se assim fosse, Amélia lhe dizia para
ir ou ficar? Nada jamais pesara tanto na mente e no coração
de Winifred quanto esta nova rodada de eventos. As
mulheres a ela subordinadas dependiam de sua correta
tomada de decisão.
E eram tão desamparadas! Lá estava a pobre Dame Odelyn,
idosa e paralítica, esperando junto ao poço que alguém
chegasse para pegar-lhe água. Odelyn viera para o Santa
Amélia havia muito tempo, quando uma incursão dos
vikings acabara com toda a sua família. Jóias que herdara,
escondidas no poço atrás da mansão, haviam custeado sua
residência permanente no convento. Mas desde aquele dia
em que tivera de descer ao poço para recuperar o tesouro ali
escondido por seu pai, mal conseguindo fazer a descida, pois
tinha acabado de rastejar de seu esconderijo e visto os
cadáveres massacrados dos pais e irmãos, Odelyn ficara
traumatizada. E havia ainda Irmã Edith, que estava tão
esquecida que precisava ser conduzida toda noite ao
necessarium porque sempre errava o caminho. E Agatha, cuja
artrite era por vezes tão dolorosa que necessitava de ajuda
para comer. A lista era interminável. Como poderia
Winifred dizer a estas mulheres que iriam ser privadas da
única vida que conheciam, de tudo que era reconfortante e
familiar, para ser lançadas em um ambiente totalmente
estranho?
Em busca da resposta para sua charada, ela focalizou-se no
cristal azul. Tornou-se obcecada por suas cores e tentava
recriá-las quando misturava pigmentos. Segurando a pedra
semitransparente contra a luz ela via explosões de cores,
faixas de azul-do-céu e centáurea-azul, lagos de safira,
tanques de água-marinha. Mas a cor continuava mudando.
Olhava para a pedra à luz do sol e da lamparina, durante uma
tempestade ou ao crepúsculo, e via tons de anil, turquesa,
azul-marinho, ultramarino, lápis-lazúli, índigo. Winifred
estava fascinada pela cor e composição do cristal. A pedra
não era inteiramente transparente, pois havia uma turvação
no seu núcleo, um aglomerado de partículas que reluziam
quando o sol incidia direto nelas. Prata esbranquiçada,
assumindo uma forma diferente segundo o ângulo que fosse
observada. Ela pendurou o cristal num fio fino e o deixou
rodopiar lentamente à luz do sol. A substância-alma pareceu
se mover e mudar. Era hipnotizante. Conforme Winifred
observava, ela quase acreditava estar vendo o fantasma de
uma mulher ali, chamando...
Ela gostaria de capturar isto em um pergaminho, mas seria
um milagre, pois onde iria encontrar tais azuis, tanta luz e
transparência, nuanças líquidas como aquelas?
— Não tocou no seu desjejum — disse Dame Mildred com
grande preocupação depois que as irmãs tinham saído da
reitoria para o scriptorium.
Era incomum a frugal Madre Winifred não limpar seu prato;
nem mesmo tomara o seu tônico matinal. Winifred
acreditava na antiga e saudável prática de enxotar o inverno
do sangue bebendo-se uma infusão de ervas da primavera.
Desde os seus dias como uma jovem noviça, ela revitalizava
anualmente o corpo ao tomar um chá feito de raiz de
bardana, folhas de violeta, urtiga, mostarda, dente-de-leão,
brotos de hemerocale, e cebola silvestre. O gosto era ruim,
mas bastante revigorante.
— Você tem estado diferente desde a visita do abade.
Dame Mildred sempre fazia Winifred se lembrar dos
pequenos cães fraldeiros que as damas preferiam, a espécie
que podia ser carregada numa manga e que espiava com
grandes olhos aquosos. Winifred suspeitava de que nada
escapava à atenção de Mildred, especialmente sendo a sua
função tão crucial para o convento. As irmãs a procuravam
com suas aflições e padecimentos, pedindo-lhe linimentos,
tônicos, curas e alimentação fortificante. Mildred era uma
mulher pequena, porém mais enérgica para todo o seu
tamanho do que o desajeitado abade.
— As notícias dele foram tão ruins? — pressionou Mildred.
— Não teremos nosso telhado consertado este ano — disse,
por fim, Winifred.
Não era toda a verdade, mas também não era mentira. Ela
ainda não dera as más notícias às irmãs, querendo orar
primeiro. Ganhara um pouco de tempo ao dizer ao abade
que suas freiras não conseguiriam trabalhar nos manuscritos
mais recentes se soubessem da iminente transferência para o
novo convento, e assim ele lhe concedera um período de
dois meses, decorridos os quais a mudança aconteceria.
Nesse meio-tempo Winifred analisava o milagre e o mistério
do cristal azul e tentava descobrir sua mensagem.
Deixando Dame Mildred com uma expressão de ceticismo
no rosto, Winifred seguiu para o scriptorium onde as irmãs
já estavam a postos, silenciosas e reverentes, criando cenas
bíblicas de cor tão gloriosa e vibrante que seriam o assunto
da Inglaterra. Os pigmentos eram o segredo da criação das
notáveis iluminuras. Quão boa, afinal, era a perícia do artista
quando tinturas inferiores eram usadas? Mas agora o seu
estoque era baixo, e o que restava era de má qualidade.
Winifred tentara extorquir algumas moedas do abade para a
compra de novos suprimentos, mas ele recusara o pedido,
sabendo que a madre operaria milagres com o pouco que
tinha, tal como sempre fizera no passado.
Winifred pensava agora no anel novo que ela não deixara de
notar na mão do abade. Um presente de um patrono da
abadia, sem dúvida. O valor daquela jóia poderia suprir as
freiras por um ano de pigmentos da melhor qualidade, talvez
até ela pudesse comprar malaquita com a qual criaria verdes
empolgantes. Mas ela e suas irmãs deviam estar satisfeitas em
obter verdes de espinheiro e amora e, se realmente
pressionadas, das bagas de madressilva e folhas de erva-
moura. Provavelmente teriam que recorrer ao suco de íris,
que era um processo delicado exigindo paciência e
habilidade. As flores azul-escuro não pareciam ser uma fonte
provável de verde, pois a cor apurpurada que precisava ser
primeiro espremida não era prometedora. Mas assim que ela
foi combinada com alume, um claro e lindo verde apareceu.
O segredo, Winifred sabia, era remover todo o pólen.
Era correto o abade, com seu belo anel, obrigar as irmãs a
tanto trabalho extra?
E estava claro que este ano iam ter de produzir seus amarelos
a partir de casca de macieira. Se ao menos ela pudesse
conseguir açafrão! O açafrão era o elemento indispensável
para imitar o ouro. Uma pitada de açafrão seco num prato,
coberto com clara de ovo e posto para ferver, produzia um
amarelo forte, lindamente transparente. Winifred gostava de
usar este açafrão vítreo para causar um efeito ornamental de
pena em volta de iniciais coloridas, para molduras imitando
ouro de painéis ilustrativos em livros, e para esmaltes e
toques dourados em linhas de escrita em vermelho e preto.
Mas não tinham nenhum açafrão, ao passo que o abade
possuía um lindo anel de rubi!
Ela quase gritou de frustração e desespero. O abade esperava
que ela fizesse o melhor com seus parcos recursos e agora ia
ter de ensinar tudo que sabia às jovens freiras! Não apenas a
desenhar, pintar ou fazer pigmentos, mas também a comprar
os ingredientes e impedir que fossem fraudadas. O abade não
via que durante este processo de aprendizado as discípulas
iriam produzir iluminuras muito pobres? Não podia ele
prever que a reputação de seus livros seria prejudicada até
que a habilidade das noviças alcançasse o nível de excelência
das próprias irmãs que ele estava determinado a aposentar?
Sua falta de antevisão a enfurecia. Típico da maioria dos
homens, pensou amargamente, o abade só pensava no
presente. As mulheres que se preocupassem com o amanhã.
— Madre Winifred! — soou a voz de Dame Mildred
enquanto entrava apressada no scriptorium, as sandálias
produzindo sons nas pedras do pavimento. — O mascate
cigano está aqui! O Sr. Ibn-Abu-Aziz-Jaffar!
A alegria de Winifred foi instantânea.
— Deus seja louvado! — gritou ela. Por certo era outro sinal
de Deus: justamente quando estavam mais carentes de
suprimentos, o Todo- Poderoso trazia o vendedor de
pigmentos até sua porta. — As bênçãos de Deus, Sr. Jaffar!
— saudou ela, enquanto corria pela trilha com os véus
negros se agitando a sua volta.
— O mesmo lhe desejo, cara senhora! — saudou ele de volta,
tirando o chapéu da cabeça e inclinando-se com uma
elegante mesura.
Um homem de origem estrangeira com pele azeitonada e
barba prateada aparada rente, o mascate sempre saudava a
prioresa de um modo que a fazia se lembrar de cortes e reis.
Jaffar usava um manto adornado com estrelas e luas; seu
chapéu era acolchoado e orlado com franjas. Era alto e
imponente, e embora a madre o situasse com quase sessenta
anos, ele conservava as costas retas e os ombros aprumados.
Seu velho cavalo puxava uma carroça das mais curiosas,
pintada com símbolos celestes, signos zodiacais, cometas,
arcos-íris, unicórnios e olhos amplos que tudo viam. O
mascate era amplamente conhecido como um fornecedor de
sonhos e magia, poeira de estrelas e esperança. As pessoas
gostavam do modo como o nome dele — Ibn-Abu-Aziz-
Jaffar — rolava de seus lábios; as crianças seguiam sua
carroça, entoando o seu nome, fazendo com que esposas
saíssem de suas cabanas. Na realidade ele era Simão, o Levita,
e era um judeu. Ele dizia a todo mundo que era dos "confins
da Arábia, mas de fato tinha nascido em Sevilha, Espanha.
Para seus fregueses ele era um cigano-cristão, mas sob o
manto comprido usava um xale com borlas e à noite, quando
estava sozinho, recitava "Ouve ó Israel". Simão não escondia
sua identidade por causa do preconceito local (a perseguição
aos judeus só irromperia plenamente na Europa 300 anos
depois, quando a Peste Negra teria de ser atribuída a
alguém), mas porque descobrira que gostava de representar a
persona exótica e da notoriedade resultante disso. Ele
gostava de vender mistério e ilusão; deliciava-se ao ver os
rostos das crianças iluminados com sua magia e
prestidigitação, pois o próprio Simão era jovem de coração.
Tinha chegado à Inglaterra por acidente num navio que se
dirigia a Bruges e que acabara perdendo o rumo. Ao
descobrir que ele era diferente — em sua terra natal era
simplesmente igual a todo mundo, mas aqui era diferente,
único —, decidiu ficar, pois havia lucro em ser diferente.
Levava uma vida solitária, fazendo um circuito anual de ida e
volta entre Londres e a Muralha de Adriano, e sonhava com
o dia em que se recolheria a sua pequena cabana e
aposentaria o velho cavalo Seska, seu fiel companheiro havia
quinze anos.
O Sr. Ibn-Abu-Aziz-Jaffar possuía, porém uma fraqueza que
em mais de uma ocasião quase resultara em sua ruína: ele
adorava mulheres. Fossem jovens ou velhas, gordas ou
magras, lentas ou ágeis, ele encontrava alegria e mistério
maravilhosos em cada mulher que conhecia. Às vezes
especulava se isto era porque procedia de uma família de oito
irmãos homens. Mulheres eram uma dádiva de Deus aos
homens, declarava, a despeito do que a Torá dizia acerca de
Lilith e do desastroso envolvimento de Adão com ela. Simão
adorava a maciez e o cheiro delas, seus humores
inconstantes, como podiam às vezes ser mais fracas do que
os homens, outras vezes mais fortes. O seu feroz instinto
maternal. Seus sorrisos provocantes. E o cabelo longo — oh,
como adorava o cabelo longo delas! Embora Simão já
estivesse entrado em anos, não era tão velho a ponto de não
gostar de um aperto firme, seios fartos e um coração cálido.
Ele nunca forçou ou assumiu compromisso com uma
mulher: ou ela vinha de livre e espontânea vontade ou então
nada feito. Mas as mulheres em toda parte ficavam intrigadas
com os forasteiros e imaginavam nos seus corações
abençoados que um homem vindo de tão longe devia saber
mais sobre a arte do amor do que as sobras locais. E a verda-
de era: ele sabia.
Ele viajava só e raramente era abordado, pois mesmo os
salteadores respeitavam o curador e eles próprios às vezes
necessitavam do tolo, ou adivinho. Embora as pessoas não os
soubessem ler, os símbolos pintados nas laterais da carroça
anunciavam suas habilidades como alquimista, adivinho,
dentista, mágico. Ele comerciava tudo — botões, alfinetes,
dedais e fio, poções e ungüentos, garrafas e colheres — com
uma exceção: não negociava relíquias e bens religiosos. Pois
Simão, o Levita, pertencia àquela mais rara das estirpes: era
um mascate honesto. Portanto, deixava a venda de cabelos,
dentes e ossos de santos para os charlatães e sacerdotes, e às
vezes achava que não havia nenhuma diferença entre
ambos. Também tinha sua própria opinião sobre a lasca da
cruz de Cristo que estava abrigada no novo convento estrada
acima, pois já encontrara outras lascas semelhantes em suas
viagens pela Espanha e França e ouvira falar de outras pela
Europa e na Terra Santa, e decidiu que os cálculos mentais
de qualquer idiota revelariam que todas as pretensas lascas da
Vera Cruz, se colocadas uma em cima da outra, alcançariam
a lua.
Ele lembrava-se da loucura que acometera a Inglaterra 22
anos antes, quando uma coisa chamada milênio deveria ter
ocorrido. Isto intrigou Simão, pois não havia nenhum marco
de mil anos segundo o calendário judaico, nem segundo o
calendário de seus irmãos de raça, os muçulmanos, que
contavam seus anos a partir do tempo de Maomé. Aquilo
significava que apenas um terço do mundo ia acabar
enquanto o resto continuaria como antes? Tudo resultou
numa questão discutível, pois a meia-noite fatal veio e se foi
sem incidentes, e agora os padres declaravam que era no
próximo milênio — mil anos a partir daqui, no impossível de
imaginar ano 2000 — que Jesus e seus anjos desceriam à
terra.
À medida que viajava pela zona rural inglesa, Simão era
muitas coisas, mas toda vez que parava no priorado de Santa
Amélia, perto do rio Fenn, ele era o Simão autêntico.
Admirava a prioresa e sabia que ela podia ver através de sua
simulação e reconhecia e respeitava sua sabedoria e erudição.
E assim ele tirava o chapéu franjado e livrava-se do bastão e
gestos místicos. Mas conservava o manto de mágico por
achar que lhe emprestava dignidade.
Já fazia um ano desde que passara por aqui, e a decadência do
lar das freiras o deixou alarmado: os muros desmoronando,
os campos sem cultivo, a ausência de gansos ou galinhas,
ervas daninhas crescendo sobre a trilha que uma vez tinha
sido aplainada pelos pés dos peregrinos. Ele soubera que o
novo convento estava crescendo em popularidade, mas não
havia imaginado que a abadia próxima abandonaria aquelas
mulheres a tal ponto. Por certo o abade gordo podia ver que
as devotas irmãs precisavam de comida na mesa e cerveja
nas taças.
Quando Winifred viu o sorriso de dentes alvos no rosto
azeitonado, deu-se conta de que sentia-se muito feliz em
rever o Sr. Jaffar. Winifred era muito pouco mundana, tendo
nascido a trinta e dois quilômetros do priorado e nunca em
sua vida viajado por uma distância maior do que esta. Ela
sabia um pouco de latim e tinha lido a Bíblia, mas a extensão
de sua leitura parava por aí. Winifred e suas irmãs nada
conheciam do mundo, apenas o que ouviam dos peregrinos
e viajantes. E como ambos haviam parado de vir ao Santa
Amélia, as visitas do Sr. Ibn-Abu-Azziz-Jaffar eram por
demais preciosas, pois o mascate itinerante trazia sempre
novidades e mexericos.
Ele era um homem estranho, quase repelente em seu
exotismo, embora possuidor de uma personalidade
curiosamente intrigante. Tivesse ela se permitindo tais
pensamentos mundanos, notaria que ele era muito bonito.
Embora desconfiasse de que não fosse cristão, sabia que
tinha o mais alto respeito por Deus. E às vezes dizia as coisas
de maneira tal que acendiam pequenas velas em sua mente.
Jaffar era diferente dos outros mascates que por ali passavam.
Aqueles eram homens imundos, desonestos e grosseiros, ao
passo que o Sr. Jaffar era limpo e gracioso, com um encanto
estranho. Acima de tudo, era confiável.
No passado, outros mercadores de material de pigmento a
haviam trapaceado. Azurita barata era fácil de passar como
um caro lápis-lazúli. Para ser identificadas, as pedras tinham
de ser aquecidas ao rubro: a azurita ficava preta, o lápis-lazúli
permanecia inalterável. A azurita era comprada em pó, e
havia trapaceiros que misturavam areia ao pigmento moído
para aumentar o peso de venda e isto arruinava a coloração.
Da mesma forma, mercadores desonestos punham o melhor
azul no topo do saco e a parte de qualidade inferior no
fundo. Mas não o Sr. Jaffar, que agora abria uma caixa ao lado
de sua carroça e exibia uma tal riqueza de material de pintura
que ela olhou como se fossem travessas de comida num
banquete.
— O bom Deus o trouxe no momento mais propício, Sr.
Jaffar, pois minhas irmãs e eu estamos necessitadas de
suprimentos novos. Estamos desesperadas por amarelos.
Para seu júbilo, ele mostrou cálculos biliares.
Winified enfiou a mão num bolso profundo e pegou o globo
cheio de água que usava para amplificar seu trabalho. O Sr.
Jaffar uma vez tentara lhe vender uma nova invenção de
Amsterdam — vidro polido que chamavam de lente —, mas
ela desistira da compra pelo seu elevado preço. Enquanto
Winifred examinava os cálculos biliares através do globo,
Simão pensou: aí residia o verdadeiro dom da mulher, pois
Winifred era mais do que simplesmente talentosa em
desenho e pintura, ela possuía o mais fantástico senso de cor.
Sob os dedos ágeis e olhos argutos, o mais prosaico dos
elementos ganhava a coloração mais gloriosa em toda a
criação de Deus. Era só pegar o pigmento conhecido como
verde-seiva, um substituto para o verdete, que era raro e
muito mais caro. O verde-seiva era feito de bagas maduras de
sanguinheiro misturadas com alume e deixado a se espessar
por evaporação. O resultado era um verde-oliva transparente
e rico. Embora outros mosteiros já tivessem dominado a cor,
a perícia de Winifred residia em durabilidade criativa.
Normalmente, o verde-seiva não durava muito, o que ficava
evidente na pobre qualidade de manuscritos com apenas
décadas de idade. Madre Winifred, contudo, conhecia o
segredo do espessamento correto do suco, mantendo-o
depois em uma bexiga como um denso xarope, em vez de
deixá-lo secar. Quando usado desta forma num manuscrito, a
cor não só era bonita de se ver, mas também durável.
Enquanto Winifred examinava os pós e minerais, a matéria-
prima que iria criar animais vivos numa página, Simão a
observava detidamente e achava que ela parecia diferente
hoje. Havia sombras no seu rosto, correntes perturbadoras
nos seus olhos. Ele sempre considerara a prioresa uma
criatura plácida, se não um tanto séria e sem humor. Jamais a
considerara capaz de sentir-se inquieta.
Winifred escolheu cuidadosamente o que ia comprar.
— Estou sem dinheiro no momento — disse. — O senhor
vai permanecer na vizinhança por alguns dias, como é o seu
costume, não?
Ele alisou o bigode impecavelmente aparado e pensou
sombriamente. Ficou evidente para Simão que a prioresa
possivelmente não poderia ficar com os artigos que havia
escolhido. Como iria pagar? Não obstante, não queria
embaraçá-la levantando a questão — Simão conhecia muito
bem como era importante a pessoa manter seu orgulho. Se
ao menos ela pudesse pagar com um ou dois de seus livros
de iluminuras! Em Londres já lhe haviam perguntado se
poderia obter manuscritos de Portminster. Um único livro
de Winifred e ela poderia ter todos os pigmentos que
desejasse. Mas ele sabia que a madre não pagaria com um
manuscrito, pois acreditava que eles pertenciam ao abade.
— Muito bem, cara dama, concluiremos nossa transação
daqui a três dias.
Ele imaginou que agora seria convidado para uma cerveja e
talvez um bolo e, erradamente, tomou a hesitação dela como
se significando que estivesse pensando a mesma coisa. Em
vez disso, para sua surpresa, ela perguntou se ele, sendo um
alquimista, poderia avaliar um objeto um tanto estranho que
viera a cair em seu poder.
Esperando por um dente de santo ou um trevo-de-quatro-
folhas, Simão ficou atônito quando ela entregou-lhe um
cristal azul que era tão profundo e azul quanto o mar
Mediterrâneo. Ele o farejou e sussurrou um juramento na sua
língua nativa, depois aproximou o cristal de seu olho arguto
e o examinou detidamente.
Simão mal podia falar, tal a beleza da pedra. Numa época em
que era considerado danoso cortar uma gema, pois
acreditava-se que isto destruiria a magia da pedra, raramente
se via um cristal de transparência tão clara. Simão vira apenas
uns poucos — ele já tinha sido lapidador de diamantes e mal
podia acreditar que tão nebulosa peça de cristal pudesse
abrigar tamanho brilho interior. Ainda assim esta pedra
parecia não- lapidada, pois estava lisa e tinha uma vaga forma
ovóide, apenas levemente mais larga do que um ovo de
papo-roxo, porém de um azul mais espetacular. Poderia ser
água-marinha? Certa vez ele tinha visto uma esmeralda das
minas de Cleópatra. Aquela também havia sido lapidada e
ofuscava a vista com seu brilho. Mas não, esta não era tão
verde nem tão pura no núcleo quanto a esmeralda.
Embora não conseguisse identificar a pedra, sentia que
possuía grande valor.
— Conheço um homem em Londres — disse Jaffar —, um
comerciante de gemas.
Winifred tinha ouvido sobre Londres. A maioria das pessoas
possuía escasso conhecimento do mundo além de poucos
quilômetros em qualquer direção a partir de onde viviam;
poucos sabiam da existência de outros países e sua única
familiaridade com estrangeiros era saber que os vikings, que
certa vez tinham flagelado a Inglaterra, eram demônios do
além-mar. Mas Winifred sabia que Londres era uma cidade
do sul, um próspero centro de comércio onde vivia o rei.
— Londres é o lugar perfeito para vender semelhante gema
— continuou Jaffar.
— Vender!
— Ora — disse ele, devolvendo-lhe a pedra —, não era isto
que queria me pedir?
— Vender a pedra de Amélia? — replicou ela, como se o
mascate houvesse acabado de lhe pedir para cortar o braço. E
então prevaleceu o bom senso. — Ela é assim tão valiosa?
— Minha cara prioresa, eu poderia conseguir-lhe uma
fortuna por esta pedra. Sua singularidade valeria um resgate
em ouro.
Winifred arregalou os olhos e sua mente prática subitamente
zumbiu com novos pensamentos e planos. Com um resgate
em ouro ela poderia consertar o telhado, reforçar os muros,
providenciar camas novas e depois talvez plantar algumas
safras e comprar umas poucas cabras, contratar mão-de-obra
local para ajudar a tornar o convento auto-suficiente de
novo, atrair novas noviças e damas com suas doações e o
patrocínio de suas famílias. Instantaneamente, no ofuscante
lampejo azul de um cristal, Winifred viu um novo futuro
brilhante para o Santa Amélia.
E então franziu o cenho.
— Devo consultar o abade.
— Ele decide o que fazer com a pedra?
— O abade nem sabe ainda que ela existe.
O Sr. Ibn-Abu-Aziz-Jaffar alisou a barba.
— Hum — murmurou, e Winifred leu o significado do
resmungo.
— Eu deveria contar ao abade — disse ela em tom não muito
convincente. — Não deveria?
Ele perguntou como ela obtivera aquela gema e quando ela
contou, Simão, o Levita, disse:
— Na minha opinião, minha cara prioresa, esta gema foi dada
apenas à senhora. Como um presente da santa. — Quando
ela mordeu o lábio em incerteza, Simão disse seriamente. —
A senhora foi apanhada num dilema.
Ela inclinou a cabeça velada.
— Sim, fui.
— Um dilema entre fé e obediência.
— Sinto que Deus está tentando me dizer alguma coisa. Mas
Ele disse ao abade exatamente o oposto. Como vou escolher?
— Cabe à senhora decidir. Deve olhar dentro de seu coração
e ouvir o que ele está dizendo.
— Refiro-me a Deus, não ao meu coração.
— Não são a mesma coisa? — Ele perguntou mais sobre o
cristal, especificamente como ela achava que se alojara nos
ossos cervicais da santa. Winifred então contou-lhe como
Amélia comandara seu próprio coração a parar antes que as
autoridades pudessem torturá-la para que denunciasse os
outros cristãos.
— Nesse caso — continuou ele — pareceria, se esta pedra
está passando uma mensagem, como a senhora crê, que a
mensagem é para ser seguida a seu próprio critério.
O rosto dela se iluminou.
— E este o meu pensamento! — E de repente estava
contando-lhe acerca do seu sonho de pintar um retábulo
para Santa Amélia.
— E o que mais a perturba — disse o sábio forasteiro — é
que, se for viver no novo convento, terá de abandonar este
sonho.
— Sim — arfou ela. — Sim...
— Nesse caso, deve ouvir seu coração.
— Mas Deus se manifesta por intermédio do abade. —
Quando o mascate nada falou e ela percebeu o ceticismo no
rosto dele, apressou-se em acrescentar: — Sr. Jaffar, estou
desconfiada de que não seja cristão.
Ele sorriu.
— Desconfiou corretamente.
— Não há sacerdotes na sua fé?
— Não como os seus. Temos rabinos, porém eles são mais
conselheiros espirituais do que porta-vozes de Deus.
Acreditamos que Deus nos ouve e nos fala diretamente. —
Ele quis acrescentar que o Senhor crucificado de Winifred
havia sido um rabino, mas decidiu que não era hora nem
lugar para abordar semelhante tópico. Preferiu dizer: —
Estarei acampado no riacho por alguns dias enquanto visito
as fazendas das redondezas, após o que seguirei para
Portminster. Antes de eu partir, poderá me contar sobre sua
decisão. E espero, cara prioresa, que seja a decisão certa.
Madre Winifred decidiu ir sozinha à abadia. Embora as
integrantes de sua ordem costumassem viajar em duplas ou
em grupos, esta era uma viagem que ela sabia que deveria
fazer sozinha. Ainda não havia transmitido as más notícias às
outras, embora as ordens do abade fossem para deixar o
Santa Amélia o mais cedo possível. Talvez ela o tivesse feito
sem hesitar não fosse o incidente com o relicário e a
descoberta do cristal azul. Mas o incidente tinha ocorrido, e
ela estava de posse do notável talismã de Santa Amélia, e
agora sentia a compulsão de conferir com o abade o que
fazer em seguida.
Ela havia rezado a noite inteira e, apesar de não ter dormido,
sentia- se estranhamente revigorada. Seus pés pisavam
firmes ao tomar a trilha que saía do convento, resolução e
espírito fortes, pois levava consigo o cristal azul de Santa
Amélia.
Quando chegou à alameda principal, Winifred viu que afinal
não ia fazer a viagem sozinha. Juntou-se a um grupo de
peregrinos que se dirigia ao convento da Vera Cruz — eles
haviam passado direto pelo Santa Amélia.
— Temos de chegar ao convento ao meio-dia—explicou o
líder. — E a hora em que as irmãs põem a mesa. Disseram-
me que hoje teremos nossa fartura de cordeiro e pão. —
Então viu o hábito de Winifred e, alma obtusa que era,
percebeu por fim a sua identidade. Enrubescendo, disse sem
jeito: — Não quisemos incomodar as boas irmãs do Santa
Amélia, sendo os maltrapilhos que somos. — E seguiu para a
dianteira do grupo, onde podia se livrar de seu embaraço.
Encontraram mais pessoas na estrada: fazendeiros levando
sua produção para a feira de Portminster, cavaleiros
acompanhados de seus guardas, damas em liteiras
acortinadas. A estrada serpenteava através de florestas de
olmos, pilriteiros e faias, onde ravinas se abriam subitamente
para revelar canteiros de campainhas e córregos se reunindo
em laguinhos escuros salpicados de sol. Trilhas conduziam
da estrada para casas de fazenda e campinas onde ovelhas
pastavam. E vez por outra encontravam calçamentos de
pedra com manufatura antiga, fazendo-os lembrar que
legiões romanas haviam passado por ali. E em meio a toda
aquela gente, e às cores da primavera, inalando o ar florestal
animado pelo canto matinal dos pássaros, Winifred sentiu a
confiança aumentar. Estava fazendo a coisa certa, muito
embora, caso tivesse sabido, o abade a acusaria de
desobediência.
Os mais velhos no grupo falavam dos vikings, demônios
altos e de barbas amarelas que usavam capas vermelhas sobre
cotas de malha, e eram notórios por combater com um
frenesi sedento de sangue, como lobos enlouquecidos. As
lembranças dos vikings davam a estes anciãos uma espécie
de prestígio, pois fazia trinta anos desde a decisiva Batalha de
Maldon, quando os dinamarqueses, com a ajuda do mais
temido rei viking, Olaf, derrotaram os anglo-saxões e
assolaram a Inglaterra. E muito embora a derrubada do Rei
Ethelred pelo dinamarquês Rei Sweyn, alçando o
dinamarquês Canuto ao poder, fosse de memória mais
recente, os mais novos no grupo viajante não tinham
nenhuma experiência com tal temor. Embora ainda
corressem rumores de ataques aqui e ali por vikings que se
recusavam a aceitar a nova paz com a Inglaterra, o terror
constante dos últimos cem anos acabara afinal. A Inglaterra
aprendera a dormir tranqüila à noite, e o verso "Que o bom
Senhor nos livre da fúria dos nórdicos" tinha sido retirado da
litania.
Chegaram a um poste sinalizador com a seta "Portminster"
apontando direto à frente, outra estava voltada para a
esquerda, apontando uma estreita alameda, marcada
"Mayfield", e a terceira seta, mais nova, indicava à direita e
dizia "Convento da Vera Cruz". Não havia sido intenção de
Winifred visitar o novo convento, embora ela descobrisse
seus pés voltando-se para esta nova alameda, com o grupo de
peregrinos, cujo tópico da conversa havia mudado para o
que os aguardaria na mesa das freiras.
Vislumbraram os muros através das árvores, e a primeira
coisa que Winifred ouviu foi o som de risos. Risos
femininos, vindo do convento.
E a seguir ouviu vozes — chilreando, cacarejando, como
galinhas excitadas. Franziu o cenho. Como alguém poderia
se concentrar em questões espirituais com todo aquele
barulho? Enquanto atravessavam a campina externa, ela
parou e olhou: duas jovens em trajes de noviças estavam
jogando uma bola uma para outra, rindo, seus hábitos esvoa-
çando indecentemente à brisa. Uma terceira estava atiçando
um cachorrinho com um osso, fingindo arremessá-lo e
depois rindo quando ele corria para buscá-lo. Duas outras
noviças estavam em escadas apoiadas em macieiras, as saias
arregaçadas, colhendo frutos e gritando alegremente uma
para outra. Atravessando os portões principais e entrando no
pátio interno, Winifred ficou atônita ao encontrar um
mundo ativo de comércio em funcionamento, com
peregrinos, gente da cidade, damas hóspedes e freiras, todos
se misturando. Quiosques de madeira tinham sido erguidos
para a venda de bugigangas de convento — emblemas
bordados para que os peregrinos provassem ter visitado o
santuário, frascos de água benta, contas de rosário, estátuas,
simpatias para boa sorte, doces e pães — e com as freiras
envolvidas no comércio!
Enquanto passava pela multidão que se assemelhava a uma
feira de aldeia, seu choque inicial virou preocupação. Nada
havia de pio neste lugar, nenhuma dignidade ou decoro. O
abade lhe assegurara que estas irmãs seguiam a Regra de São
Benedito, mas Winifred não via nada de modéstia, pobreza,
humildade ou silêncio aqui.
Quando subia os degraus para a casa do capítulo, uma certa
ironia a acometeu: que riqueza atraía riqueza. Enquanto
parecia óbvio a qualquer observador casual que era o
convento de Santa Amélia que estava terrivelmente
necessitando de dinheiro, os gastos do abade eram
desperdiçados neste novo convento, fundado por um barão
rico que não media despesa. Os pomares fora dos muros!
Winifred pressionou a mão contra o estômago roncando
como se para acalmar uma criança petulante. Chegou a
pensar em roubar algumas maçãs e levá-las para suas irmãs
famintas.
O interior da casa do capítulo era igual ao lar de um homem
rico, com candelabros de prata, bela mobília e tapeçarias nas
paredes. E quando a Madre Rosamund chegou para recebê-
la, Winifred sentiu um segundo choque.
Era isto que diziam ao povo: quando o dinamarquês Canuto
tornou-se o rei de toda a Inglaterra, Oswald de Mercia
induziu outros ingleses a declarar sua aliança a ele. Por isto
ele foi recompensado com terras no condado de
Portminster. E quando Canuto, no seu zelo para tornar-se "o
mais cristão dos reis", anunciou sua intenção de construir
novos mosteiros, Oswald requisitou o privilégio de construir
um convento em honra de seu novo suserano. O que
convenceu o conquistador dinamarquês foi o relato que
Oswald fez de uma história sobre o ano em que viajou até
Glastonbury, para onde, segundo diziam, José de Arimatéia
tinha trazido o Cálice Sagrado de Cristo. Lá chegando e
acampando uma noite ao longo da estrada, Oswald teve um
sonho no qual a localização de uma preciosa relíquia lhe foi
revelada. No fundo de uma caverna estava um cofre de ferro
contendo uma peça da cruz de Cristo, enterrada ali pelo
próprio Arimatéia. Oswald a trouxera para abrigá-la na capela
de sua família. Aconteceu que a filha mais velha de Oswald,
Rosamund, era devotamente religiosa e havia orado, durante
as batalhas entre os dinamarqueses e ingleses, pela vitória
dinamarquesa por sentir que era vontade de Deus — ou
assim disse Oswald. Por causa das preces da filha, e da peça
da Vera Cruz, Canuto graciosamente permitiu a fundação do
novo convento em seu nome.
Assim dizia a história. Mas a verdade era: Oswald de Mercia,
um covarde até a medula, foi lutar ao lado do rei inglês
Ethelred quando viu o rumo que a guerra estava tomando.
Assim ele trocou de lado, voltando para seus camaradas
ingleses. Quanto a sua filha Rosamund, ela não era lá tão
religiosa e detestava os homens. Preferindo a companhia de
mulheres, ela se recusava a casar, não importando o quanto o
pai a ameaçasse ou subornasse. Ela também queria poder.
Assim, ele achou a solução perfeita: deixá-la dirigir um
convento. Não poderia ser um convento qualquer, mas um
que tivesse prestígio e importância. E que melhor meio de
dar prestígio a uma instituição do que depositando uma
relíquia muito importante dentro de seus muros — e o que
poderia ser maior do que a cruz na qual tinha morrido o
próprio Cristo? Claro que não houve nenhuma visita a
Glastonbury, nem sonho, nem caverna, e nenhum cofre de
ferro contendo a Verdadeira Cruz. O relicário no altar da
capela do novo convento não continha nada mais do que ar.
Winifred agora via-se frente a frente com a prioresa do
convento que estava levando o Santa Amélia à ruína. Madre
Rosamund era espantosamente jovem. Não teria mais do que
seis anos na ordem. Levaria quase trinta anos antes que
pudesse obter o posto de prioresa. Um cacho extraviado do
lindo cabelo ruivo tinha escapado de dentro da touca de
Rosamund, e Winifred teve o pensamento maldoso de que
fosse de propósito. Ela imaginou a fútil jovem diante de um
espelho e escondendo debaixo do tecido branco engomado
uma agulha de costura só para puxar o cacho perfeito. O mais
chocante de tudo, porém, eram as mãos da jovem mulher —
elas estavam por todo o lugar, como borboletas frenéticas
atadas por fios aos seus punhos. Agitavam-se para cima e
para baixo, para dentro e para fora, suas mangas caindo para
expor os braços até os cotovelos! Estava claro que Rosamund
não tivera nenhum treinamento formal na disciplina
beneditina. E se assim fosse, então como poderia ela, como
prioresa, treinar suas irmãs?
O coração de Winifred estava pesado. Como iria ensinar
àquelas garotas frívolas a arte da iluminura sagrada?
Simplesmente não poderia. Iria, sim, dizer ao abade que este
novo convento era uma afronta à ordem e que ele deveria
intervir pessoalmente e restaurar a disciplina. Winifred não
se importava com o quão rico fosse o pai de Rosamund; este
convento era uma ofensa a Deus.
— Minha cara Madre Winifred, como deve estar ansiosa por
usufruir seus anos de descanso depois de tanto servir a Deus.
Despir o manto de prioresa para ser de novo uma freira.
Winifred olhou para ela. Do que aquela garota estava
falando? E então tudo lhe ficou claro como o cristal azul da
pedra de Amélia: claro que não poderia haver duas prioresas
num convento! Uma vez que o abade nada dissera a respeito,
era óbvio que esperava que Winifred fizesse a dedução
lógica. Mas mesmo assim ela chegou como um choque. Ela
perderia o seu título e seria reduzida de novo a uma freira
comum, e obrigada a reportar-se como "madre" a uma garota
jovem o bastante para ser sua neta — isto era inimaginável!
— Não que vá deixar de ter responsabilidades! — acrescentou
suavemente a jovem. — Minhas meninas estão ansiosas para
aprender a pintar aquelas adoráveis iluminuras!
Winifred balançou a cabeça. Rosamund fazia a coisa parecer
uma brincadeira de criança.
— Há algo mais nisto do que simplesmente pintar retratos —
respondeu. — Terei de ensinar a feitura de pigmentos, seu
uso adequado...
— Oh, mas meu pai vai nos fornecer tintas! As mesmas tintas
que são usadas em Winchester! Ele as trará a cada mês
especial!
Winifred sentiu os ossos congelarem. Usar pigmentos que já
tinham sido misturados por outros?
— Mas sempre comprei minha matéria-prima do Sr. Jaffar —
disse num tom que pareceu quase de súplica.
— Não fazemos negócio com ele — disse Rosamund com in-
disfarçado desprezo. — Ele ofendeu meu pai. Aquele patife
está proibido de pôr os pés em nossa propriedade. E isto se
estende por todo o caminho da estrada principal.
Winifred sentiu o chão tremer sob os pés. Os cantos da sala
ficaram indistintos. Estava a ponto de desfalecer com o
choque do que acabara de transpirar. Não mais ser a prioresa,
não mais ter controle sobre a manufatura dos pigmentos, que
era a sua própria razão de viver. E agora mais essa: nunca
mais ver o Sr. Jaffar!
Enquanto Rosamund escoltava sua convidada num giro pelo
novo convento, alegremente apontando todos os
maravilhosos luxos e amenidades, Winifred mal ouvia uma
palavra. Caminhava com a dificuldade de uma mulher que
havia subitamente envelhecido vinte anos. Sua cabeça
balançava de pesar, decepção e choque. Mas enquanto era
conduzida de um cômodo a outro, através de um jardim
enclausurado e descendo alamedas de piso de laje, o choque
se transformou em percepção, até que seus olhos
gradualmente se abriram e perguntou a si mesma: Como
podia ter pensado que ela e suas irmãs nunca se mudariam
para este lugar?
Era um outro mundo, um mundo maravilhoso. Cada quarto
de hóspedes tinha seu necessarium exclusivo — um
pequeno closet construído fora da parede externa com um
cano levando os dejetos para uma fossa abaixo. Que luxo,
não ter de se arrastar penosamente sob qualquer tempo
quando a natureza pedia! Havia amenidades só encontradas
nos lares da nobreza rica: velas marcadas para assinalar o
tempo, lanternas de chifre de boi transparente, pisos recém-
varridos cobertos com ceras de aroma doce. E mais luxos: no
pátio atrás da cozinha, criados contratados ferviam trajes,
lençóis e roupas de baixo numa tina de madeira contendo
uma solução de cinzas de lenha e soda cáustica. Garotas
trabalhavam numa horta, mulheres alimentavam bandos de
galinhas e gansos gordos. Um velho contratado fabricava
barras de sabão perfumado.
A cozinha era cinco vezes maior que a do Santa Amélia e
suas despensas plenamente abastecidas ainda cheiravam a
madeira e cal frescos. Os olhos de Winifred se arregalaram à
visão da refeição do meio-dia: um presunto inteiro, tiras de
bife malpassado, pão crocante, barris de cerveja e vinho.
Quando Rosamund lhe serviu um generoso prato, Winifred
alegou que tinha comido bastante antes de sair do Santa
Amélia, mas, sem querer ofender, ela levaria a comida para o
convento para consumi-la à noite. Na verdade, pretendia
dividi-la com as outras, que havia muito não provavam uma
iguaria.
Foi depois levada à capela principal onde os peregrinos —
cavaleiros e mendigos, nobreza e clero, doentes e aleijados
— esperavam em fila para orar diante do magnífico santuário
da Vera Cruz. Esta igreja tinha algo que a sua própria capela
não possuía: uma janela de vitral. E quanto ouro! E quantas
velas, todas brancas e retas. Tudo para reverenciar um
pedaço de pau, enquanto os ossos de uma mulher de
verdade, martirizada em nome de sua fé, estavam abrigados
em lugar simples onde as velas eram atarracadas e cheiravam
mal. Winifred não se sentia amarga em relação a este con-
traste, apenas triste, e de repente quis juntar Santa Amélia
nos seus braços e sussurrar: "Isto aqui pode ser grandioso,
porém você é mais amada."
Por fim, este lugar tinha uma enfermaria que humilhava o
Santa Amélia. Oito leitos e uma irmã-enfermeira. Winifred
arregalou os olhos ao ver o armário de remédios: as poções,
loções, ungiientos e pomadas, pílulas e pós. Vários frascos de
colírio. Remédios para artrite. Tônicos para males renais.
Encantada com o generoso estoque de medicamentos e
pensando no necessarium particular que Irmã Edith deveria
ter no seu próprio aposento, de modo a não precisar de
acompanhante à noite, e no rapaz no pátio externo sempre
pronto a tirar água do poço, acabando assim com o trauma
de Dame Odelyn em relação a poços...
Winifred suspirou. Não havia como negar. Este lugar seria
um refúgio para suas irmãs idosas. Elas seriam bem
alimentadas e cuidadas. Pouco importava que não tivessem
mais funções. Paz e conforto valiam mais.
Ela havia sido convidada para pernoitar nos alojamentos de
hóspedes, onde os colchões eram estofados com penugem
de pato êider, mas Winifred estava ansiosa para voltar ao seu
lar antes do escurecer. Agradecendo a hospitalidade de
Rosamund, saiu da casa do capítulo tão rápido quanto o
decoro permitia. Depois de cruzar os portões e descer a
trilha para a estrada principal, parou debaixo de uma faia
frondosa e, sozinha nas sombras, retirou o cristal azul do
bolso.
Enquanto ele repousava em sua mão, captando a luz do sol
que se filtrava através dos galhos acima, Winifred percebeu
que o cristal não tinha sido um sinal, afinal de contas. Não
havia nenhuma mensagem de Amélia, nenhum significado
para a descoberta da pedra. Tinha sido um acidente, nada
mais. Winifred sabia agora que ela e suas irmãs deveriam ir
para lá e viver suas vidas naquele convento. Daria o melhor
de si para ensinar às noviças a arte das iluminuras, mas sabia
que a excelência, que uma vez houvera em seus trabalhos,
não se repetiria, pois já sentia a centelha criativa se
desvanecendo. O talento com que o Santa Amélia a havia
dotado tantos anos antes já rendera o máximo. Daqui em
diante, Winifred seria uma artista comum; ela ensinaria
garotas comuns a executar pinturas comuns. E arquivaria de
uma vez por todas o seu sonho banal de criar um retábulo
esplêndido para Santa Amélia.
O Sr. Ibn-Abu-Aziz-Jaffar retornou três dias depois,
conforme prometera. E Winifred tinha o dinheiro que devia
a ele, pois vendera o único artigo de valor que o convento
possuía, uma bela tapeçaria unicorne que pendia na casa do
capítulo. Que necessidade havia para ela agora que o Santa
Amélia ia ser fechado?
Jaffar disse que lamentava ouvir que ela ia perder seu lar, e
acrescentou que rezaria por sua felicidade e sucesso no novo
lugar. E então ele fez uma coisa surpreendente: deu-lhe um
presente, algo que ele poderia claramente ter vendido por
um bom preço: um maço de caríssimo cinabre espanhol. Ele
o depositava agora gratuitamente nas mãos da prioresa,
manchadas e calejadas pelo trabalho.
Winifred olhou sem fala para o presente. A pedra vermelha,
moída, daria uma excelente tintura, da qual estavam
extremamente necessitadas.
— Obrigada, Sr. Jaffar — disse ela com toda humildade.
Ele a chocou ainda mais ao pegar a mão dela entre as suas.
Em quarenta anos Winifred numa sentira um toque
humano, e certamente não de um homem! E naquele
instante a coisa mais estranha ocorreu: Winifred sentiu a
pele cálida sob seus dedos e pela primeira vez na vida viu um
membro do sexo oposto não como um pai ou irmão, um
mercador ou padre, mas como um homem. Ela olhou nos
vívidos olhos negros de Simão e sentiu alguma coisa
estranha mover-se dentro do peito.
E então teve uma visão, uma função da premonição celta
que certa vez a levara a achar colheres e tortas de carne
perdidas, mas desta vez era algo perdido no passado: num
lampejo viu-se encontrando este mesmo homem no dia que
antecedeu sua primeira visita ao Santa Amélia, mais de
quarenta anos antes. Mas agora ele era um jovem andarilho
carregando bolas de malabarista e uma caixa de truques
mágicos. Seus olhos se encontraram enquanto passavam pela
alameda, depois se desencontraram. Porém mais tarde, na
capela do Santa Amélia, a Winifred de 14 anos pensa no belo
jovem com quem cruzou na estrada. Ela não percorre o
convento e não descobre por acaso o scriptorium; em vez
disso volta para casa com a mãe e irmãs, a fim de viajar no
dia seguinte para a feira na cidade, onde encontra o jovem
pela segunda vez.
Nesta ocasião eles se falam, e a magia entre ambos é
instantânea. Ele fala com um sotaque carregado e suas roupas
são estrangeiras. Ele diz ter vindo da Espanha e que deseja
percorrer o país levando sonhos e alegria ao povo. Promete
voltar algum dia, e assim Winifred espera por ele. Cinco
anos se passam até que ela o vê de novo, e lá está ele no
portão da mansão, com uma carroça nova em folha e cavalo,
e pede que ela vá com ele. Percorrerão o mundo juntos, ele
diz, e terão muitos filhos e muitas aventuras. Então Winifred
foge com o estrangeiro sem olhar para trás.
Ela piscou, prendeu a respiração e fitou os olhos escuros do
Sr. Jaffar. E se deu conta de que tivera apenas um vislumbre
do que poderia ter sido.
— Para onde vai depois daqui? — perguntou ela, de repente.
A pergunta o surpreendeu.
— Para a abadia, prioresa. Vendo remédios para os monges
de lá.
— Vá para o interior — disse ela. — Viaje primeiro para
Mayfield.
— Mas Mayfield fica fora do meu caminho, são mais dois dias
de viagem. E depois, para fazer o caminho de volta...
— Por favor — disse ela com urgência.
— Pode me dizer por quê?
— Tenho um pressentimento. Uma sensação. Deve seguir
daqui para o interior, viajar por Bryer Wood.
Ele pensou no que ela dissera.
— Discutirei isto com Seska, prioresa — disse ele, referindo-
se ao cavalo. — Se ele concordar, faremos o desvio.
A seguir, ele subiu na carroça, pegou as rédeas e acenou um
adeus pela última vez.
— Onde está a Irmã Agnes? É hora de partirmos.
Dame Mildred chegou à casa do capítulo com os últimos
pacotes de suas coisas — velhas panelas e frigideiras, um rolo
de pastel quebrado, artigos inúteis mas com valor
sentimental que não poderia deixar para trás, muito embora
Winifred a tivesse informado de que não precisaria mais
cozinhar.
— Agnes está no cemitério — disse Mildred, respirando
ofegantemente pelo esforço. Ela se recusara a deixar para trás
até mesmo uma colher; todos os apetrechos de cozinha
tinham sido limpos e embalados em sacos. O homem
incumbido de fazer a mudança para o novo convento ia
precisar de mais de uma carroça. Era irônico: embora as
irmãs tivessem assumido votos de pobreza, a exigência para
entrar num convento era um pagamento em dinheiro e
mercadorias para uso comum. E embora Winifred e suas
damas fossem elas próprias pobres, não obstante tinham os
efeitos acumulados de gerações de mulheres acompanhando-
as.
Winifred não ficou surpresa em saber que Agnes estava no
cemitério do convento. Ela o visitara a cada domingo
durante sessenta anos. Agora deveria dar adeus a este ritual.
A prioresa foi encontrar a freira idosa ajoelhada junto a um
pequeno túmulo à sombra de um olmo que recentemente
tinha sido atacado por uma praga de folhagem. Ela estava
retirando as folhas mortas com os dedos artríticos. E estava
chorando.
Winifred ajoelhou-se ao lado dela, persignou-se e fechou os
olhos em oração. O caixão em miniatura abaixo delas
continha o cadáver de um bebê que vivera somente umas
poucas horas. Sessenta anos antes, durante um ataque
nórdico a Portminster, Agnes e suas primas tinham sido
capturadas no rio por um bando de vikings. Enquanto as
outras garotas logravam escapar, Agnes havia sido apanhada
e estuprada. Quando engravidou, poucas semanas depois,
fora trazida ao convento com ordens para lá ficar, pois na
opinião de seu pai ela havia desonrado a família. As freiras a
acolheram, mas o bebê não viveu muito tempo. Depois de
ele ser enterrado no cemitério do convento, Agnes
permaneceu de vez e nunca mais viu sua família. Ela
assumiu os votos e aprendeu a pintar iluminuras, passando
cada domingo a prantear num túmulo que tinha a simples
inscrição: "John — m. 962 Anno Domini".
Ela olhou para os galhos nus e imaginou por que Deus havia
atacado a árvore com praga justamente agora, pois as folhas
choviam sobre o túmulo e dentro de horas ele estaria
completamente coberto. Depois que as freiras se mudassem
não haveria mais ninguém para limpar as folhas do túmulo.
— Em breve meu pequenino Johnny estará coberto e
esquecido.
Ela já juntara uma pilha de folhas ao lado do túmulo, que
Andrew queimaria mais tarde. Só que Andrew não estaria
mais lá; ele estava de mudança com elas para o novo
convento.
Winifired ajudou a anciã a se levantar.
— Andrew diz que o novo convento é enorme — disse
Agnes.
— É, sim, Irmã Agnes, mas é também belo e novo. E... — e
olhou através de suas próprias lágrimas para a árvore
consumida pela praga — ...todas as árvores lá são saudáveis e
verdes.
— Nunca acharei meu caminho por lá.
Winifred ouvira o mesmo temor expressado pelas outras
freiras. Ela própria tivera de aprender a se orientar pelo
labirinto de corredores, pátios e prédios.
— E nunca mais poderei pintar — lamentava-se Agnes,
enxugando os olhos.
— É hora de você descansar. Passou toda a sua vida a serviço
de Deus.
— Quem se aposenta é cavalo velho—replicou Agnes,
petulante. — Por acaso sou uma inútil? Ainda posso enxergar
e empunhar uma pena. O que farei comigo mesma? E quem
cuidará do meu pequeno Johnny aqui?
— Venha — disse Winifred. — É hora de irmos.
Reuniram-se na casa do capítulo, que era dominada por uma
enorme lareira que havia sido instalada duzentos anos antes
por uma prioresa que era particularmente sensível ao frio;
seu irmão rico pagara pela ostentosa lareira, que era grande
demais para o recinto, mas negligenciara no fornecimento
constante de lenha e carvão que ela exigia, e, portanto a
lareira caíra em desuso. Gravadas na cornija maciça estavam
as palavras de Cristo por meio das quais Winifred e suas
irmãs tentavam viver: "Mandatum novum do vobis: ut
diligatis invicem" — "Dou-vos uma nova lei: amai-vos uns
aos outros."
Dame Mildred hesitava em se desfazer de sua panela gigante.
Fazia anos que não era utilizada por causa da cada vez mais
reduzida população do convento.
— É uma excelente panela — queixou-se. — Ela nos
alimentou durante vários invernos rigorosos. Não
deveríamos deixá-la para trás.
— E grande demais, irmã — disse gentilmente Winifred. —
Não vamos conseguir carregá-la. Talvez, mais tarde,
possamos mandar alguns homens vir buscá-la.
Mildred parecia indecisa, o olhar pesaroso voltando-se na
direção da cozinha como se ela estivesse abandonando um
filho.
Foram interrompidas por gritos do lado de fora e o som de
cascos de cavalo no pátio. Andrew entrou correndo, rosto
pálido e tagarelando algo sobre um ataque. Enquanto
Winifred corria para ele, outro homem entrou, o rosto
afogueado pela dura cavalgada. Usava o emblema da abadia e
portava uma alabarda.
— Desculpem — disse sem fôlego. — Os vikings atacaram e
recebi ordens de escoltar as senhoras à abadia para protegê-
las.
— Vikings! — Winifred fez o sinal-da-cruz e as outras
começaram a gritar.
O homem contou rapidamente o que acontecera: os
nórdicos tinham desembarcado em Bryer's Point e
percorrido a curta distância até o Convento da Vera Cruz. Os
relatos eram vagos, mas acreditava-se que todo o complexo
havia sido saqueado e incendiado. Pouco sabia dos
peregrinos e das irmãs, só tinha certeza de que Madre
Rosamund conseguira escapar e fora à abadia para dar o
alarme.
— Ela disse que suas freiras correram para se refugiar na
capela, e lá os demônios as encontraram, todas abraçadas, e
foram massacradas ali onde estavam, como gansos num
cercado. E agora fui mandado para buscar a senhora e suas
freiras. Venham rapidamente, o tempo é curto.
— Mas a abadia fica a alguma distância daqui! — protestou
Winifred. — Não poderíamos encontrar os vikings no meio
do caminho?
— Com certeza não estarão a salvo aqui, prioresa — disse o
homem, impaciente. — Depressa! Escoltarei vocês.
Tomaremos a carroça do homem. — Referia-se ao homem
que havia sido contratado para transferi-las para o novo
convento.
Enquanto as irmãs choravam e se agitavam à beira do pânico,
Winifred tentava pensar. Os invasores não haviam atacado a
cidade portuária nem a abadia, mas optaram por um
convento desprotegido. O que os impediria de voltar-se
nesta direção na esperança de um segundo massacre fácil? Se
assim fosse, o soldado e suas indefesas escoltadas dariam de
cara com os invasores.
Cada instinto lhe dizia que estariam mais seguras
permanecendo lá. Topar com os vikings na estrada era
suicídio certo, mas permanecer no Santa Amélia daria tempo
aos soldados de Oswald de dar caça e talvez expulsar os
invasores.
Winifred sentiu a pedra no seu bolso e recordou como Santa
Amélia havia enfrentado seu destino com coragem, como
não sucumbira à tortura dos homens. Santa Amélia tinha
feito mais do que desafiar as ordens de um mero abade, ela
havia se rebelado contra a autoridade do imperador de
Roma.
— Não — disse ela, de súbito. — Nós ficaremos.
Os olhos do soldado se esbugalharam.
— Está louca? Olhe, recebi ordens e pretendo levá-las.
Agora, por favor, todas para a carroça.
Foi como se ele não tivesse falado. As freiras idosas e duas
damas se agruparam em volta da prioresa como pintos em
torno de uma galinha:
— O que devemos fazer? — perguntaram.
Winifred lembrou-se de um relato de muitos anos antes,
quando ela era criança e os vikings haviam atacado uma
aldeia do norte, ao longo do litoral. Os aldeões se agruparam
na igreja. Os vikings puseram fogo no prédio e todos lá
dentro pereceram. Lembrou-se também de como ela e seus
irmãos se agrupavam durante uma tempestade assustadora.
Não devemos nos agrupar, pois é isto que eles esperam que
façamos.
— Agora me ouçam, caras irmãs. Lembrem-se de como
nossa abençoada santa enfrentou um processo pior de que
este, pois não era apenas a sua fé que estava sendo posta à
prova, mas também sua carne. Mas ela reuniu coragem para
passar a perna em seus verdugos, e assim faremos nós.
— Mas como, Madre Winifred? — perguntou Dame Mildred
com voz trêmula.
— Cada uma de vocês deve encontrar um esconderijo
individual, um lugar onde os invasores não esperem
descobrir uma dama. Não se escondam debaixo da cama ou
num guarda-roupa, pois são os primeiros lugares que os
dinamarqueses vão vasculhar.
— Não podemos nos esconder todas juntas?
— Não — disse Winifred com firmeza. — Acima de tudo,
não devemos nos esconder juntas, nem mesmo em duplas.
— Prioresa, é uma ordem do abade que... — O soldado da
abadia insistiu.
— Eu sei o que é melhor para minhas mulheres. E você
também ficará.
— Eu?! — Ele pôs a mão no peito, chocado. — Devo
retornar para a abadia.
— Você permanecerá — comandou ela. — Encontrará um
esconderijo e nele deverá ficar, em silêncio e quieto, até que
dê um sinal de que está tudo limpo.
— Mas recebi ordens do...
— Jovem senhor, você está em minha casa, e sou a
autoridade aqui. Faça como eu digo, e rápido.
Após um momento de agitação ineficaz, as mulheres
finalmente deixaram a casa do capítulo, cada qual correndo
para o local que mais amavam, achando que isto as
protegeria, ou para aquele que mais temiam, acreditando que
um vilão o temeria também, e assim Dame Mildred correu
para buscar refugio na sua amada cozinha; a Irmã Agnes para
o túmulo de seu adorado Johnny; Dame Odelyn para o seu
odiado poço no pátio. E assim continuou até que as onze
remanescentes do Santa Amélia desapareceram ante os olhos
atônitos do guardião da abadia. Ele achava que isto não daria
certo e que todas elas seriam massacradas como ovelhas.
Mas ele subestimou a sagacidade de Madre Winifred. As
freiras, sendo bem menores do que os corpulentos vikings,
eram capazes de se espremer em esconderijos aos quais os
invasores não teriam acesso, tal como camundongos num
buraco na parede. E assim Dame Mildred removeu as teias
de aranha que haviam crescido sobre a boca de sua enorme
panela, entrou nela e recolocou as teias sobre a cabeça. Irmã
Gertrude, encontrando força e sagacidade inimaginadas,
subiu na chaminé da enorme lareira na casa do capítulo e
dependurou-se como um morcego assustado nas dobradiças
do fumeiro. A Irmã Agatha correu para o dormitório, onde
rasgou a costura de um colchão, retirou um pouco do estofo
de palha, jogou-o fora pela estreita janela, depois se enfiou
dentro do colchão e segurou o rasgo na costura com a ponta
dos dedos. Dame Odelyn pensou em descer no balde até o
fundo do poço apavorante, mas então percebeu que o balde
baixado dentro do poço poderia dar uma pista. Portanto ela
arduamente desceu usando as pedras irregulares da parede do
poço como apoio. A Irmã Agnes lançou-se sobre o túmulo
do pequeno Johnny e cobriu-se com a pilha de folhas mortas
pela praga. A Irmã Edith, que sempre tinha dificuldade em
encontrar o necessarium, apressou-se direto para ele e
espremeu-se no espaço malcheiroso entre o vaso e a parede.
Só depois de certificar-se de que todas estavam escondidas
em segurança, incluindo Andrew e o soldado da abadia, é
que Winifired finalmente subiu no andaime sobre o altar e
ali escondeu-se.
Mal tinham acabado de se esconder, os vikings chegaram,
irrompendo no pátio externo com uivos ferozes e gritos
sedentos de sangue. Invadiram a casa do capítulo e a capela,
os dormitórios e refeitórios, cozinha e scriptorium como um
estouro de boiada. Como Winifred previra, eles procuraram
sem descanso pelas irmãs escondidas: no confessionário,
atrás do altar e tapeçarias, dentro de armários e baús, debaixo
das camas. Dentro do poço Dame Odelyn mantinha o rosto
voltado para baixo e viu na água o reflexo de um rosto
aureolado com cabelos ruivos que olhava lá de cima. Mas ele
não a viu, pois seu vestido azul-escuro confundia-se com as
sombras no fundo do poço. Na cozinha, nenhum viking se
incomodou em olhar dentro da panela gigante com a boca
coberta por teias de aranha. Gertrude, no colchão, ouviu
passos pesados e prendeu a respiração. Ouviu a porta sendo
escancarada; sentiu um par de olhos examinar o cômodo;
depois ouviu os passos ressoando no cômodo ao lado.
Cada mulher aterrorizada no seu esconderijo especial ouvia
os vilões vasculhando tudo, pilhando, destruindo, e gritando
maldições quando nenhuma mulher era encontrada.
Winifred, escondida no andaime, apertou com força a pedra
azul enquanto observava com a respiração suspensa o líder
viking irromper na capela, olhando lentamente ao redor. Era
o homem mais alto que já tinha visto, com músculos que
pareciam melões e o cabelo como fogo. Ele pegou o relicário
de prata de Santa Amélia e abriu-o, esparramando os ossos e
espalhando-os com os pés. Após uma busca debaixo e atrás
do altar, no confessionário, em cada nicho ou recesso onde
uma mulher poderia se esconder, ele pôs a caixa debaixo do
braço e saiu.
Winifred não relaxou a postura. Embora cada junta e
músculo does- sem por causa da posição desconfortável
entre as vigas, ela ficou tão imóvel quanto pôde, orando para
que os invasores terminassem logo o seu trabalho de
destruição e partissem. Sentiu o suor porejar por todo o seu
corpo. Ele pingava no seu couro cabeludo e debaixo do véu.
Suas mãos estavam úmidas. De repente, para seu desespero,
o cristal azul escorregou de seus dedos molhados e bateu no
chão diretamente abaixo.
Teve de morder a língua para não gritar, e rezou com toda a
sua fé para que nenhum outro viking entrasse na capela. Mas
para seu horror o líder voltou, como se tivesse se esquecido
de alguma coisa ou sentido algo errado ali. Winifred
observou com terror enquanto o gigante alto e louro, usando
capacete com chifres, caminhava lentamente pela ala central
até o fundo do altar. Fez meia-volta e seu pé chutou o cristal.
Winifred sufocou um arquejo.
O nórdico olhou para baixo, pegou a gema reluzente e
depois olhou em volta, sabendo que o cristal não estivera ali
um momento antes. Ergueu o rosto e perscrutou as sombras
acima, a construção de tábuas, sarrafos e suportes. Olhou por
um longo momento. Winifred viu um par de penetrantes
olhos azuis, mas não sabia dizer se ele poderia vê-la.
De repente, o olhar circulante parou e seus olhos
encontraram os dela. A madre susteve a respiração enquanto
aferrava-se à madeira podre e tentava não agitar a poeira
sobre as vigas.
O momento se prolongou, com o selvagem abaixo olhando
para a freira aterrorizada lá em cima.
E então, na sua língua estrangeira, ele gritou uma ordem para
seus homens e Winifred viu, através da janela do clerestório,
os outros reunindo sua pilhagem. Quando dois homens
chegaram com tochas, o líder rosnou para eles e gesticulou
para que saíssem. Quando correram para fora, ele olhou para
cima de novo, e desta vez houve um lampejo nos seus olhos,
um leve erguer de sua boca. Outra pessoa poderia ter
interpretado o olhar como uma saudação de coragem e
ingenuidade; Winifred viu apenas como o poder de Santa
Amélia atuando.
Ela esperou um longo tempo antes de descer. Seus ossos
protestaram quando finalmente desvirou-se da posição
incômoda e quase perdeu o pé de apoio enquanto descia para
o chão. A seguir apressou-se subindo as estreitas escadas que
levavam ao topo do campanário e olhou para fora. A
distância ouviu o tropel de cascos de cavalo — os homens de
Oswald perseguindo os invasores em fuga. Depois o tropel se
desvaneceu e a tarde ficou silenciosa e quieta.
Ela chamou as irmãs de seus esconderijos, ajudando-as a sair
dos espaços apertados para os quais poucas horas antes
haviam deslizado com facilidade, e todas se reuniram na
capela para rezar. Quando elas contaram como haviam
escapado de ser descobertas, cada qual no seu respectivo
esconderijo peculiar, e como Winifred pensou no andaime
erguido havia cinco anos, quando os consertos no teto
deveriam ter sido iniciados, como ela o amaldiçoara por todo
esse tempo e no fim tinha sido o andaime que a salvara, e
pensando no pavor que Odelyn tinha de poços, e no
necessarium que havia sido a maldição da vida de Edith, e
nas folhas que iam cobrir a sepultura do pobre Johnny, ela
concluiu: o andaime, o panelão, o olmo atacado pela praga, o
poço — itens que só provocaram irritação e dor de cabeça —
não foram acidentais. Foram milagres. Nada nos salvaria se
não tivéssemos a coragem de usá-los. A coragem de Amélia.
Winifred pensou na pedra azul que o viking havia pegado e
esperou que a graça de Santa Amélia tivesse ido com ele e
que, de alguma forma, algum dia trouxesse luz ao coração do
bárbaro.
Enquanto descia a alameda em seu excelente cavalo, o abade
pensava quão conveniente o novo convento tinha sido para
a abadia. Infelizmente, fora inteiramente destruído pelos
vikings, ao passo que o Santa Amélia, por algum milagre,
tinha sido poupado. E por ter sido poupado, era agora o
único convento em Portminster. Por ironia, se ambos hou-
vessem sido destruídos, a reconstrução seria feita em um só
lugar, ficando o Santa Amélia entregue às ruínas.
Quando tomou a encruzilhada, juntou-se ao fluxo de
peregrinos que se dirigiam ao priorado. A lasca da cruz de
Cristo havia sido consumida pelo fogo no outro convento,
portanto Amélia voltara a ser a única relíquia na área. O
abade sabia que um milagre ocorrera ali. Por que os vikings
não tinham também incendiado este lugar? Todo mundo
dizia que Santa Amélia os havia detido. Mas, pensando na
indomável Madre Winifred, ele especulou...
Mudanças ocorreram desde o milagre dos dinamarqueses.
Odores maravilhosos vinham agora da cozinha, onde um
gostoso ensopado estava fumegando na panela gigante de
Dame Mildred. Lá fora, um rapaz tirava água do poço e
entregava o balde à Dame Odelyn. Outro rapaz varria as
folhas de um pequeno túmulo. Havia atividade por toda
parte, e uma nova prosperidade.
Mas o abade não viera aqui hoje para cumprimentar as freiras
do Santa Amélia. Estava aqui porque ouvira notícias
perturbadoras: Madre Winifred não estava treinando
pessoalmente as jovens noviças na iluminura de
manuscritos, mas delegando a tarefa às freiras mais velhas. E
em que a prioresa empregava seu tempo enquanto isso?
Pintava aquele retábulo dilapidado!
Bem, ele ia pôr um fim a isto de uma vez por todas. Não ia
mais tolerar desobediência daquela mulher.
Ele esperava que Winifred estivesse no portão para recebê-lo
como sempre fizera no passado, mas ela não se encontrava
lá. Era Irmã Rosamund, agora uma residente do Santa Amélia
e rebaixada do posto de prioresa, embora parecesse não se
importar. Agora era prioresa-assistente e alegremente
encarregava-se de cuidar do conforto de viajantes, pupilas e
damas, além de supervisionar a manutenção dos prédios, do
abrigo das cabras, ovelhas e galinhas, e verificar se a mesa de
jantar estava sempre com abundância de comida.
Rosamund graciosamente escoltou o abade até o novo
solário onde Madre Winifred estava sentada a um cavalete,
pintando. Ele estava começando a falar quando olhou para o
painel e emudeceu. E depois viu algo ainda mais
desconcertante: Madre Winifred estava sorrindo!
Ele sentou-se e permaneceu em silêncio enquanto ela
trabalhava. Winifred havia criado uma excêntrica Santa
Amélia, radiante e humilde, servindo aos pobres,
disseminando a palavra de Cristo. No quarto painel do novo
retábulo, Santa Amélia segurava um cristal azul na mão em
concha, junto à garganta. O abade não via o sentido disto,
mas era uma cena linda de tirar o fôlego.
Quando uma noviça lhe trouxe cerveja, que ele bebericou
distraidamente, o Padre Edman não só havia decidido que
deixaria Winifred terminar o retábulo, como já tinha
pensado em pinturas futuras que ele a incumbiria de fazer.
Os patronos iriam pagar generosamente por elas.
Ínterim
Quando viu a magnificência do retábulo de Winifred, o
abade teve uma súbita mudança de opinião. Concedeu-lhe
todo o crédito para estimulá-la e depois encomendou um
tríptico para sua própria igreja. Ele nunca chegou a bispo,
morrendo dois anos depois, engasgado com uma espinha de
peixe durante sua terceira porção do jantar da Páscoa.
Madre Winifred viveu mais trinta anos, passando seus dias
na produção de um número prodigioso de pinturas
magníficas, retábulos e miniaturas — madonas, crucifixos e
natividades —todos identificados como de sua autoria pelo
indefectível cristal, pois naquele tempo os artistas não
assinavam suas obras.
Pouco depois do ataque dos vikings, o Sr. Ibn-Abu-Aziz-
Jaffar voltou ao Santa Amélia para uma última visita,
agradecer a Madre Winifred pelo aviso de que não fosse à
abadia naquele dia, enquanto sua decisão de seguir para o
interior e viajar para Mayfield o desviara do caminho dos
vikings, salvando assim sua vida. Madre Winifred, se
esquecendo da premonição que herdara dos ancestrais celtas,
concedeu todo o crédito a Santa Amélia e convidou o
mascate a descansar no priorado pelo tempo que desejasse.
Ele decidiu se aposentar por lá, vivendo numa pequena
cabana com seu fiel cavalo Seska e terminando seus dias
num padoque. Simão, o Levita, vez por outra ajudava no
convento, era popular entre visitantes e peregrinos, e
continuou sendo o amigo e conselheiro de Madre Winifred.
Eles desenvolveram um ritual de se encontrar todas as tardes
para uma conversa amena — Simão, o judeu, e Winifred, a
freira — até a morte dele, catorze anos depois. Embora ele
nunca tivesse se convertido ao cristianismo, Winifred
insistiu para que seu velho amigo recebesse os ritos finais e
fosse enterrado em solo consagrado.
Enquanto Madre Winifred continuava a executar suas
pinturas, as mãos e os olhos finalmente começaram a sentir
o peso da idade. Às vezes ela fazia uma pausa no trabalho
para pensar no viking que se apossara da pedra azul e
imaginava o uso que ele teria feito do poder de Santa Amélia.
O que aconteceu foi o seguinte: quando os vikings
retornaram ao seu barco, descobriram-no em chamas e
foram cercados pelos soldados de Oswald de Mercia, que os
massacraram até o último homem. O próprio Oswald tomou
parte na pilhagem dos corpos e encontrou uma curiosa pedra
azul, inacreditavelmente linda. Ele mandou engastá-la numa
espada que mais tarde acompanhou um desditoso soldado
cruzado a Jerusalém, onde a pedra foi removida do punho da
espada e levada de presente para o califa de Bagdá. Lá ela
ornamentou por um tempo o turbante preferido do califa.
Num momento de fraqueza, o califa deu o cristal para uma
dançarina do templo, que o usava no umbigo enquanto
dançava para ele e depois, durante a noite, para seu amante
ilícito. O cristal foi carregado em bolsos e algibeiras, teve
donos e donas, foi vendido e comprado e roubado de novo,
até ser trazido de volta através do canal da Mancha por um
soldado voltando das Cruzadas. Tendo ficado cego em
consequência de um combate perto de Jerusalém e
esperando obter uma cura, ele juntou-se a um grupo de
peregrinos a caminho de Canterbury. Foram atacados por
bandidos que venderam seu butim no norte. Lá o cristal foi
engastado na tampa de uma caixa de jóias de madrepérola
por um jovem que esperava conquistar a afeição de uma
dama com um presente extravagante. Mas quando a dama
recusou o pedido de casamento do pretendente, ele partiu
para o continente, onde jurou se matar tão logo encontrasse
um lugar adequado. Então conheceu um homem de Assis
chamado Francisco, que estava fundando uma nova
irmandade baseada na pobreza e, num impulso, o jovem
rejeitado juntou-se à ordem abdicando de todas as suas
posses, incluindo a amaldiçoada caixa de jóias.
O camponês, que encontrou a caixa na pilha de oferendas de
caridade dos franciscanos, retirou a pedra da tampa e com ela
comprou um pão. Quando a mulher do padeiro viu a gema
fascinante, trocou-a por uma nova invenção, um espelho de
vidro, acreditando que um objeto que mostrava seu reflexo
era mais precioso.
Em 1349, a Peste Negra matou um terço da população
européia, e naquele tempo o cristal azul foi responsabilizado
por sete mortes e seis curas enquanto passava de falecido
para sobrevivente, de paciente para médico. Quase cem anos
depois, quando uma jovem chamada Joana foi queimada viva
na França por heresia, um homem na multidão que assistiu
ao suplício não percebeu que estava sendo roubado. O ladrão
levou-lhe dois florins de ouro e um cristal azul.
Em 1480, num dia quente de verão, uma multidão reuniu-se
nas colinas perto de Florença para ver um artista-inventor de
28 anos demonstrar sua mais recente criação, que ele
chamava de pára-quedas. Os espectadores alegremente
apostavam se o jovem idiota quebraria ou não o pescoço,
mas quando Leonardo da Vinci pousou ileso num campo
gramado, o cristal azul passou das mãos de um príncipe
Medici para um viajante erudito que levou a reluzente gema
de volta a Jerusalém como presente para sua amada filha, só
para descobrir que ela morrera de parto durante sua
ausência. Tal foi sua amargura pela morte dela que escondeu
o odiado cristal, pois ele o fazia se lembrar da única filha. E lá
ele ficou, numa caixa de ouro numa linda casa com vista para
a Cúpula da Rocha, esperando por seu próximo dono, sua
próxima virada do destino.
LIVRO SEIS
ALEMANHA, 1520 D.C.
Se lhe perguntassem, Katharina Bauer diria que iria se casar
com Hans Roth por amor. Mas na verdade ansiava por fazer
parte de uma família.
Poder chamar uma mulher de irmã, ou tia, ou um homem de
irmão, ou tio, ou saudar alguém como prima, sobrinha ou
sobrinho, este era o estofo dos sonhos de Katharina Bauer.
Com 17 anos de idade e a filha única de uma viúva que vivia
num quarto humilde em cima de uma hofbrauhaus,
Katharina desejava acima de cada estrela, cada talismã de boa
sorte, pertencer a uma família numerosa e feliz. E Hans
Roth, 22 anos de idade, com os olhos azuis de centáurea, por
acaso possuía uma família assim.
Um dos três filhos e duas filhas de Herr Roth, o fabricante
de canecos, e de sua hausfrau, Hans vivia numa colméia
repleta de parentes, agregados e uma variedade de parentela,
todos envolvidos na fabricação e venda de canecos de
cerveja. E agora que Katharina tinha recebido permissão para
ajudar durante as fases mais movimentadas do negócio
(embora não fosse paga para isso), fazendo-a sentir-se parte
da família Roth, ela secretamente esperava que por esta
época no próximo ano estivesse se dirigindo a Herr Roth
como "papai".
Era assim o verdadeiro amor, dizia Katharina a si mesma
enquanto alegremente ajudava Hans na sala de secagem —
esta sensação de alegria silenciosa, paz e contentamento.
Tinha visto isto em casais mais velhos, pessoas que se
haviam casado para sempre. Que sorte seria para ela e Hans
se pudessem começar já desta maneira. Que estrada perfeita
se estendia diante deles!
Quanto aos outros aspectos do casamento — o leito conjugal
e bebês — Katharina preferia não se alongar nisto, pois beijar
Hans era até onde desejava ir. Durante aqueles poucos
momentos roubados, quando ficavam a sós, nos bosques ou à
beira do rio, fora das vistas de todos, e Hans se mostrava
mais ansioso do que de hábito, Katharina tinha de afastar-lhe
as mãos e lembrar a ele que ainda não estavam casados. Mas
quando chegasse a época adequada ela faria seu dever e
sofreria a breve união física necessária para produzir filhos.
Enquanto erguiam os canecos de cerveja recém-chegados
das prateleiras de secagem, detectaram os aromas deliciosos
infiltrando-se pela janela aberta: costeletas de porco chiando
no fogo, repolho cozinhando numa panela, batatas assando,
pão fresco saindo do forno — Fray Roth estava preparando
sua habitual refeição pesada do meio-dia. Katharina sabia que
não seria convidada; Frau Roth não era notada por sua
generosidade. Mas Katharina não almoçaria com eles, de
qualquer modo, não enquanto sua mãe estivesse em casa
pensando no que fazer com queijo e ovo. Vez por outra um
freguês satisfeito pagava Isabella Bauer com salsichas e
batatas, que ela esticava por uma semana em refeições para si
e Katharina. Mas o pão era farto, sempre havia pão, e como
tinham a sorte de morar em cima da hofbrauhaus, e como o
proprietário, Herr Muller era enrabichado pela mãe de
Katharina, não faltava cerveja.
— Estes vão para a Itália — disse Hans, enquanto colocavam
os canecos secos no forno de queima.
Katharina não deixou escapar a nota de reverência e
admiração na voz dele enquanto dizia "Itália", pois Hans
ansiava conhecer o mundo. Para Katharina, porém, o mundo
era Badendorf, onde a praça do mercado central era
dominada por uma fonte e rodeada dos dois lados por lojas e
casas com fachadas de madeira e alvenaria; no terceiro lado
ficava a hofbrauhaus; e no quarto lado a rathaus de trezentos
anos que tinha sua porta de entrada no segundo andar,
alcançada por uma escada que podia ser retirada em caso de
perigo; ao lado ficava a igreja romanesca do século V, com
fundações, dizia-se, que remontavam aos antigos romanos. A
marktplatz era o cenário para os festivais anuais, casamentos,
celebrações, para vendedores de frutas e vegetais e para a
ocasional peça religiosa. No entendimento de Katharina
Bauer, Badendorf era o mundo inteiro.
Ela não sabia o que havia em torno da margem do rio, ou do
outro lado da montanha, nem queria saber. Não tivera
notícia da coroação que acabara de acontecer, numa cidade
chamada Aachen, de um rei chamado Carlos V, e que foi o
maior evento deste tipo desde a coroação de Carlos Magno.
Nem estava ciente de que um outro homem, um monge
agostiniano chamado Martin Lutero, acabara de ser rotulado
de herege pelo papa por disseminar novas e perigosas idéias,
e que seus protestos iam se espalhar como fogo em madeira
seca pela Europa devido à oportuna invenção de um terceiro
homem chamado João Gutenberg. Katharina só sabia de sua
cidade, da floresta, do castelo e dos cidadãos de Badendorf.
Isto bastava.
Quando Hans pegou um caneco passado por ela, seus dedos
se tocaram e ela viu um rubor se formar nas faces dele.
Nenhum rubor se formou no rosto dela, pois o amor que
Katharina sentia pelo jovem não era do tipo "fogoso", como
ela achava ser o dele. Nem mesmo tinha certeza de que
aquele tipo de amor realmente existisse fora das canções,
poemas e contos românticos. O que contava era empatia,
afeto, e uma profunda sensação de sentir-se confortável com
alguém. Como tinha conhecido
Hans por toda a vida, este amor crescera lentamente com
eles e quando os pais deles mencionaram casamento,
parecera simplesmente natural para Katharina que deveriam
continuar suas vidas juntos. E seria um casamento perfeito,
sabia, com ela tornando-se a mais requisitada costureira em
Badendorf e com Hans dirigindo a famosa fábrica de canecos
de cerveja Roth.
Séculos antes, fontes naturais de águas termais trouxeram os
romanos para esta região por motivos de saúde. Embora as
fontes tivessem secado, no seu lugar restou uma argila que
era perfeita para fabricação de faiança. E assim Badendorf
ficou famosa por seus canecos de cerveja. Cada um
começava como um punhado de argila crua que era
modelada, esculpida e pintada à mão, e depois levada ao fogo
e envernizada. A fim de secar a argila e dar consistência aos
canecos, eles eram secados a ar por muitas horas na sala de
secagem antes de ir para o forno de queima. O processo geral
levava vários dias e exigia um bocado de paciência. Este era o
segredo dos canecos Roth: quanto mais lentamente a água
era extraída da argila, mais forte o produto final se tornava. E
assim os canecos Roth eram procurados por toda a Europa e
além. O que significava que algum dia Hans se tornaria um
homem muito rico. Então Katharina teria condições de
comprar uma casa grande para a mãe e cuidar para que ela
nunca mais trabalhasse.
Terminado o seu trabalho da manhã, Katharina seguiu Hans
ao ateliê, onde a fornada mais recentemente aquecida estava
sendo equipada com tampas de peltre.
Duzentos anos antes, os médicos haviam deduzido que a
peste era transmitida pelas moscas e assim, para evitar que a
doença se espalhasse, aprovou-se uma lei exigindo que todas
as bebidas ficassem cobertas. O problema era que uma tampa
removível tirava o prazer de beber cerveja, pois o caneco
ocuparia as duas mãos. Uma solução fez-se necessária e assim
surgiu a tampa articulada, permitindo que as pessoas
utilizassem somente uma das mãos sem deixar de cumprir a
lei. Os canecos Roth eram famosos por suas tampas ornadas
e decorativas que sempre complementavam o desenho do
próprio caneco.
Enquanto Katharina ajudava dois primos de Roth com um
fardo incômodo de palha prensada, Hans chegou por trás
dela e, enlaçando-a pela cintura, sussurrou algo no seu
ouvido. Katharina riu e escorregou do abraço, simulando ter
apreciado o flerte. Mas secretamente esperava que, quando
estivessem casados, ela não a tocasse tanto. E, de qualquer
forma, não seria decente, uma vez que seriam um respeitável
casal.
Quando ela já ia comentar acerca da hora e de que sua mãe a
esperava, subitamente ouviram um grito lá fora. Alguém
chamava freneticamente o nome de Katharina.
Ela saiu para ver Manfred, o filho do hofbraumeister,
correndo pela praça, agitando os braços e procurando por
todo mundo como um moinho.
— Katharina! — gritou. — Venha depressa! Houve um
acidente. Sua mãe...
Katharina saiu. Manfred caiu no degrau ao lado dela. Estava
sem fôlego.
— Ela estava atrás da carroça de cerveja quando o cavalo
empinou. Um barril rolou da carroça e atingiu sua mãe. O
doutor árabe está com ela.
Katharina agradeceu silenciosamente a Deus por isto. O
idoso médico era o homem em quem mais confiava no
mundo.
O Dr. Mahmoud fugira da Espanha 28 anos antes, quando os
mouros foram expulsos pela Rainha Isabel. Ele estava no
norte comprando remédios quando recebeu a notícia de que
toda a sua família havia sido aniquilada e que era muito
perigoso retornar a Granada. Após um ano vagueando pela
Europa encontrara refúgio em Badendorf, onde Isabella
Bauer, sabendo o que era ser um estrangeiro numa cidade
estrangeira, o tinha tratado com gentileza e convencido os
cidadãos a aceitá-lo.
O Dr. Mahmoud foi a primeira pessoa que Katharina viu
quando chegou à porta aberta do quarto em cima da
hofbrauhaus — seu corpo idoso vestido com os exóticos
mantos da sua cultura, um turbante cobrindo o cabelo
branco. O Frei Pastorius, um jovem irmão religioso com uma
compleição franzina e um pé deformado, estava a um canto,
rezando.
Quando viu sua mãe deitada inconsciente no leito, com uma
atadura ensangüentada na testa, Katharina correu até a beira
da cama e caiu de joelhos.
Isabella Bauer, a melhor costureira de Badendorf e de toda a
região circundante, estava com 38 anos e embora tivesse
conhecido uma vida de privação e fadiga, ainda conservava
as feições da juventude. Mas agora, os olhos fechados em
coma mortal, ela parecia ainda mais jovem, o rosto suavizado
das linhas de preocupação e idade, a cútis pálida e imaculada.
— Mamãe? — chamou Katharina, pegando a mão fria e
inerte da mãe. — Mamãe? — chamou um pouco mais alto.
Olhou para o Dr. Mahmoud, cuja expressão era grave.
Katharina sentiu o coração parar. Sua mãe era a única família
que tinha. Ela pouco sabia de seu pai, pois era apenas um
bebê quando ele morreu vítima de uma febre virulenta que
assolou a aldeia deles no norte. Não havia nem mesmo um
túmulo para ela visitar. Os mortos tinham sido queimados,
para deter a disseminação da febre. Ela e a mãe haviam
escapado e vindo para o sul para se estabelecer em
Badendorf. Quando Katharina ficou mais velha, com
freqüência voltava os olhos verdes para o norte, para a
margem do rio e o mundo que nunca tinha visto, imagi-
nando a aldeia e o belo homem sorridente que fora o seu pai.
Embora Katharina e a mãe não pertencessem à florescente
classe mercantil alemã, e sua existência fosse uma luta diária
e com freqüência passassem necessidades (Isabella muitas
vezes tinha de procurar seus clientes e quase implorar pelo
pagamento que lhe deviam), elas não se consideravam
pobres. Moravam num pequeno quarto em cima da cer-
vejaria, o único lar que Katharina já conhecera, usavam
vestidos consertados e sapatos remendados, e às vezes
passavam fome ou ficavam sem aquecimento no inverno,
mas se consideravam abençoadas por não pertencerem à
classe camponesa que era explorada pelos nobres. Isabella
Bauer costumava dizer à filha que poderiam não ter
dinheiro, mas mantinham a dignidade.
E a vida, no todo, tinha sido boa. Havia um pequeno jardim
murado nos fundos da hofbrauhaus, onde Frei Pastorius
ensinava latim aos garo- tos e o Dr. Mahmoud atendia seus
pacientes. E ali a luz também era melhor e, portanto
Katharina e a mãe costuravam no jardim enquanto o idoso
médico árabe consultava os pacientes detrás de um biombo
portátil que ele trazia de seu quarto, e Frei Pastorius
martelava latim rudimentar nas cabeças teimosas dos filhos
de comerciantes.
Numa manhã típica, enquanto Katharina e Isabella
costuravam seus finos padrões, o ar enchia-se com o canto
de pássaros e o recitar dos alunos do frade: "Anima bruta,
anima divina, anima humana..." pontuados por uma tosse
ocasional detrás do biombo do doutor. Assim, a mente
jovem e ágil de Katharina, enquanto tecia rosas e folhas em
linho, absorvia as lições destinadas aos garotos: "Leone
fortior fides."
Agora, ajoelhada ansiosamente junto ao leito da mãe,
Katharina ouvia o canto dos pássaros filtrar-se do jardim
através da janela aberta, e foi subitamente acometida por um
sentimento premonitório de que os dias idílicos no jardim
tinham acabado.
Finalmente, as pálpebras de Isabella se abriram. Seu olhar
ficou momentaneamente sem foco, depois ela viu Katharina,
seu cabelo dourado formando um halo à luz do sol que
entrava pela janela. Isabella sorriu. Como ficara linda a sua
menina! O cabelo, uma vez pálido como barba de milho,
agora era de um dourado profundo. Pele imaculada. Olhos
verde-claros. Isabella ergueu a mão para a face lisa e disse
com grande esforço:
— Deus decidiu me chamar para Ele, filha. Eu tinha pensado
que teria mais tempo.
— Mamãe — soluçou Katharina, pressionando a mão fria no
rosto dela. — Você vai ficar boa. O Dr. Mahmoud cuidará
disso.
Isabella sorriu tristemente e rolou a cabeça no travesseiro.
— Sei que só me restam alguns minutos. Eu pensei que
seriam anos, mas Deus, na Sua sabedoria...
Katharina esperou. O Dr. Mahmoud continuava alerta, os
olhos negros fixos na paciente, enquanto Frei Pastotius não
cessava de murmurar suas preces. Uma multidão curiosa se
havia aglomerado à porta, mas Herr Müller os mantinha do
lado de fora.
Isabella inspirou fundo e falou de novo:
— Tem uma coisa que você deve saber, minha filha, uma
coisa que preciso lhe contar...
Lágrimas rolaram dos olhos de Katharina sobre o lençol
manchado de sangue.
— Ali — sussurrou Isabella —, na arca. — Apontou para a
única peça de boa mobília que possuíam: uma arca de
madeira que continha seus tecidos, linhas, agulhas e
tesouras. — A caixa de fitas. Traga-a para mim.
Quando Katharina voltou ao leito com a caixa de fitas,
Isabella disse:
— Agora devo... lhe contar, Katharina. Seja forte. Peça a
Deus por força. E hora de você conhecer a verdade.
A garota esperou. O Dr. Mahmoud inclinou-se à frente. Uma
abelha voou através da janela aberta, zumbiu em torno como
se procurando alguma coisa, depois voou para fora.
— O que é, mamãe? —estimulou gentilmente Katharina.
Lágrimas brotaram nos olhos de Isabella enquanto dizia:
— Não sou a sua verdadeira mãe. Você não é minha filha
autêntica.
Katharina olhou para ela, depois franziu o cenho. Olhou para
o Dr. Mahmoud, para Frei Pastorius, que interrompera suas
orações. Teria ouvido direito?
— É verdade, Katharina — disse Isabella com grande esforço.
— Você não é uma filha do meu corpo. Você veio de outra
mulher.
— Mamãe, você não está bem. O Dr. Mahmoud disse que
sofreu um golpe grave na cabeça.
— Estou em meu juízo perfeito, Katharina. Agora preste
atenção, pois não tenho muito tempo. — Isabella tomou
uma profunda inspiração, soltou o ar, tomou outra. —
Dezenove anos atrás, uma peste devastou minha aldeia no
norte, levando meu marido e meus bebês, deixando-me
sozinha. Nós, os poucos sobreviventes, nos espalhamos.
Terminei numa estalagem onde trabalhei como camareira e
também fiz serviços de costura. Uma família chegou certa
noite, a esposa estava grávida. Incumbiram-me de bordar
uma roupa de batizado para o bebê.
Mas a mãe morreu ao dar à luz. O marido me procurou... ele
estava devastado pelo pesar. Nunca vi um homem chorar
tanto.
Outra respiração dificultosa.
— Ele me disse que estava em viagem... que ele e seus filhos
iam para muito longe e não poderiam levar um bebê. Ele
chegou no meio da noite, Katharina, chorou como uma
criança e pediu-me que criasse o bebê, prometendo que
voltaria para buscá-lo. Este bebê era você, Katharina.
A multidão à porta murmurou até que Herr Miiller ergueu os
braços pedindo silêncio. O Dr. Mahmoud pegou o punho de
Isabella e sentiu a pulsação. Sua expressão ficou mais
sombria. Seu olhar revelou a Katharina que não havia muito
tempo.
— Assim — continuou Isabella —, fiquei com o bebê para
mim, prometendo cuidar bem dele até que seu pai
retornasse. Depois disso, deixei a estalagem. Não confiava
nos proprietários e achava que poderiam roubá-lo de mim,
pois o estrangeiro me dera moedas de ouro para cuidar de
você. Vim aqui para Badendorf, onde contei a todo mundo
que era viúva, o que era verdade, e que o bebê era meu, o
que era mentira. Achei que seu pai ainda poderia me
encontrar, pois eu não tinha ido para muito longe...
A voz de Isabella morreu e ela passou a língua sobre os
lábios secos. Gentilmente, o Dr. Mahmoud pôs a mão sob a
cabeça da paciente e levou-lhe um copo de água à boca. Mas
ela foi incapaz de beber.
— O homem... seu pai—disse, após uma longa pausa —,
Katharina, me deu uma coisa... Abra a caixa e retire as fitas.
O fundo da caixa... levante-a. Tem alguma coisa lá. Pertence
a você.
Katharina ficou surpresa ao descobrir um fundo falso na
caixa. Quando o levantou, encontrou um objeto enrolado
num lenço. Desenrolando-o, viu, com os olhos marejados de
lágrimas, uma pintura religiosa em miniatura do tamanho de
sua mão.
— Esta é uma de um par... um díptico, como aquele em cima
do altar de nossa igreja. Porém muito menor, como pode
ver. Está vendo a pedra azul no retrato, filha? Ela está
também na outra pintura. Juntas, elas contam uma história.
— Mãe... — interrompeu a voz de Katharina. — Não estou
entendendo.
— Seu pai... ele tinha duas pequenas pinturas... um díptico
em miniatura unido por uma dobradiça. Ele o dividiu ao
meio... — Isabella fechou os olhos, recordando o ritual
solene que tivera lugar no meio de uma noite dezessete anos
antes — ... e deu-me esta metade, esta pequena pintura,
dizendo que caso ele próprio não pudesse voltar para buscá-
la, se fosse incapaz de viajar e tivesse que mandar um
representante, este homem apresentaria a outra metade e,
quando elas combinassem eu saberia.
Katharina olhou confusa para a mãe, depois franziu o cenho
para a pequena pintura em suas mãos.
— É a Virgem Santíssima? — No pequeno painel, uma
mulher vestida com trajes medievais estava segurando um
cristal azul junto à garganta. Um gesto misterioso. Mas não
havia nenhuma dúvida sobre o valor da pedra, pois era
gloriosa na sua cor e transparência.
A voz de Isabella veio de muito longe, como se o seu
espírito já estivesse partindo.
— Ele mostrou-me a outra pintura... Em latim, no topo, dizia:
"Sancta Amaelia, ora pro nobis."
— Santa Amélia, orai por nós — murmurou Katharina,
incapaz de tirar os olhos da pintura em miniatura que havia
pertencido a seu pai.
— Ele disse... o cristal azul na pintura é a Pedra de Santa
Amélia, que possui propriedades curativas porque foi dada a
Amélia pelo próprio Jesus.
Katharina ficou hipnotizada pela pintura. Como descrever a
cor da pedra? Não era azul-celeste, pois era pálido demais,
nem azul-marinho, pois este era muito profundo. E não era
simplesmente uma coloração, mas sim camada sobre
camada, como se não fosse a pintura de uma pedra, mas sim
a própria pedra. Katharina não tinha como saber que a
pintura fora feita na Inglaterra por uma prioresa chamada
Madre Winifred, quinhentos anos antes.
— Seu pai estava trajado como um homem rico — disse
Isabella num sussurro. — Poderia ter sido um nobre. Deixou
uma sacola de moedas de ouro. Gastei só um pouco, apenas
para nos estabelecermos aqui em Badendorf. Depois disso,
nunca mais toquei no dinheiro porque é o seu legado. A
cada ano, no seu aniversário... prometia a mim mesma que
lhe contaria a verdade. Mas não consegui me obrigar a fazê-
lo. Você entrou na minha vida num tempo em que eu estava
repleta de pesar e dor pela perda dos meus bebês. Deus que
me perdoe, mas uma parte de mim torcia para que o homem
nunca voltasse para buscá-la. Mas agora que estou morrendo,
você tem o direito de saber a verdade.
— Calma, mamãe. Conserve suas forças. Podemos conversar
mais tarde.
Isabella sacudiu a cabeça, um gesto que lhe exigiu grande
esforço.
— Você nunca me foi dada, Katharina. Era só para eu cuidar
de você até que ele voltasse. Mas ele não retornou, e isto só
poderia ser porque estava ferido, doente ou aprisionado em
algum lugar. Talvez exatamente agora esteja rezando a Deus
para que seja devolvida a ele. — Ela estendeu a mão e tocou
nas tranças douradas de Katharina. — O cabelo dele era da
cor do seu. Ele tinha uma barba amarela magnífica, como
um raiar de sol. Olhe no verso da pintura.
Katharina virou-a e leu a inscrição: "Von Grünewald".
— É o nome da sua família — disse Isabella. — Como vê...
você nunca deveria ter sido minha. Seu destino está em
outro lugar. Você deve procurar seu pai, Katharina. Ele pode
estar ferido. Talvez doente. Deve ir ao encontro dele.
— Mas não posso abandonar você! — gritou Katharina.
— Criança, tudo isto não era para mim. Talvez, se lhe tivesse
dito a verdade muito tempo atrás, as coisas tivessem sido
diferentes. Mas no meu egoísmo mantive silêncio. Agora
tenho de fazer a reparação. O estrangeiro... ele merece ter a
sua filha.
Katharina começou a soluçar.
— Mas como o encontrarei?
— Ele disse que ia em busca da pedra azul que está nessa
pequena pintura, me contou que estava indo para Jerusalém,
onde achava ser o paradeiro da pedra. Encontre-a... — disse
Isabella, esforçando-se para respirar. — Encontre a pedra
azul e encontrará seu pai. Quando comparar esta pintura em
miniatura com o seu par, terá encontrado ele, é vontade de
Deus.
A mão débil, que costurara tantas flores belas, e pássaros e
borboletas, tremia contra a face da filha.
— Prometa-me que irá, Katharina. Porque aonde quer que
esta pedra azul leve você, lá encontrará seu destino.
Com essas palavras, Isabella deu seu último suspiro.
Katharina arremessou-se sobre o corpo da mãe e chorou,
enquanto o Dr. Mahmoud e Frei Pastorius cuidavam para
que os curiosos e Herr Müller se dispersassem em silêncio.
Isabella Bauer foi enterrada no cemitério da igreja local
depois de um serviço fúnebre no qual seus inúmeros
fregueses louvaram sua habilidade e se gabaram de possuir
muitas peças finas decoradas por sua mão talentosa.
Ofereceram especiais condolências a Katharina, homens e
mulheres que uma vez tinham feito Isabella Bauer e a filha
esperar horas na entrada de serviço de suas residências, e
que freqüentemente não pagavam por seu trabalho de
semanas, mas que agora, que a garota poderia ser de
linhagem nobre e herdeira de uma pequena fortuna, tra-
tavam-na com grande respeito e deferência.
Katharina portou-se de modo apático durante os dias que se
seguiram, chocada com a repentina e inesperada reviravolta
em sua vida. E quando começou a se refazer um pouco de
seu pesar, pensou na história incrível que sua mãe lhe
contara, imaginando se era verdade. Assim, com o Dr.
Mahmoud e Hans Roth acompanhando-a para dar proteção,
Katharina deixou Badendorf pela primeira vez na vida,
viajando rumo ao norte para uma aldeia situada a apenas
dezesseis quilômetros de distância, mas que parecia outro
mundo para a garota de 17 anos de idade.
Lá encontrou a estalagem onde havia nascido. Depois foi até
a igreja próxima e o idoso padre se lembrou de uma mulher
morrendo ao dar à luz, uma dama da nobreza, forasteira. Ela
estava sepultada no cemitério. Katharina encontrou a
sepultura: a data da morte era a do seu nascimento. E o
sobrenome era Grünewald.
Enquanto se ajoelhava ao lado do túmulo, Katharina tentou
sentir alguma coisa pela mulher ali sepultada, mas não
conseguiu. Seu pesar era pela costureira que havia sido sua
mãe de verdade. Mesmo assim, ali jaziam os ossos e o pó da
mulher que lhe tinha dado vida, e Katharina sentiu-se
inundada por uma estranha emoção. Enquanto pousava as
mãos na lápide de Maria von Grünewald, falecida aos 26
anos, Katharina jurou procurar seu pai — o marido desta
pobre mulher —, e não importava os obstáculos que tivesse
de enfrentar, iria se juntar a sua verdadeira família.
A ida de Katharina Bauer para Jerusalém tornou-se o assunto
do dia.
Hans não ficou nada satisfeito.
— Você precisa mesmo ir?
Como era impensável que viajasse sozinha, Katharina pedira
primeiro a Hans que fosse com ela, mas claro que não
poderia, pois era imprescindível na direção da fábrica de
canecos. Depois ela pedira a Frei Pastorius, mas o pobre
homem não tinha constituição forte o bastante para
empreender tal jornada, por mais que desejasse conhecer a
cidade sagrada. Finalmente ela foi aconselhar-se com o Dr.
Mahmoud, que respondera dizendo que conhecer um pai, e
prestar respeito a ele, era muito importante. Acrescentou
que, por coincidência estivera pensando em viajar para o
Cairo, onde desejava terminar seus dias, o que não demoraria
muito tempo, já que era um homem idoso. E assim
decidiram que viajariam juntos.
— Fiz uma promessa, Hans — disse Katharina resolutamente
enquanto retornavam de seu último passeio nos bosques que
circundavam Badendorf. — Preciso encontrar minha
família.
— Mas eu sou sua família. Quando se casar comigo...
Ela tomou-lhe as mãos e sorriu tristemente enquanto dizia:
— Sim, sei disso, Hans. Mas meu pai pretendia voltar para
mim. Só pode ser por causa de uma grande calamidade que
ele não voltou. Tenho sonhos... vejo-o na prisão, sozinho e
esquecido, ou doente numa aldeia longe daqui. Preciso
encontrá-lo. Devo isto a ele. E à minha mãe. Minhas duas
mães. Depois que tiver feito isto, voltarei para você.
Frau Roth, que nunca acreditou que alguém fosse bom o
bastante para casar com seus filhos e que apenas
relutantemente testemunhava o "sim" deles no altar, sempre
abrigara a esperança de que Hans, seu bebê, jamais se
casasse. Era de conhecimento geral que Herr Roth sofria de
uma doença cardíaca e que Frau Roth, sendo de constituição
robusta e vontade férrea, provavelmente sobreviveria a ele
por muitos anos. Ela não pretendia ficar sozinha e
certamente, de modo algum, ser dependente de uma nora —
menos ainda a filha de uma mera costureira (Frau Roth nem
por um momento acreditou na história de um nobre rico).
"Katharina deve ir, meu filho", tinha dito no tom mais cálido
que pôde reunir. "E obrigação dela estar com seu pai."
— Então prometa que voltará para mim — disse Hans com
uma tal paixão que embaraçou Katharina. — Faça o que tem
de fazer, encontre seu pai, faça as pazes com seu passado. E
depois volte para ser minha esposa.
E assim, em cima das pesadas promessas que Katharina fizera
às suas mães — uma no leito de morte, a outra numa
sepultura — ela acrescentou outra: voltar a Badendorf e ser a
esposa de Hans.
A caravana mercantil chegou e toda a Badendorf foi ver a
partida de Katharina. Frau Roth fez uma grande exibição da
bolsa cheia de táleres de prata e pfennigs que estava dando a
Katharina como um presente-surpresa. A sacola foi passada
em volta para que todos olhassem e elogiassem a
generosidade de Frau Roth, e então, quando ninguém estava
olhando ela retirou metade das moedas, botou-as
discretamente no bolso e entregou a sacola bem mais leve a
Katharina.
O enorme comboio mercantil tinha sido formado por uma
liga de mercadores e investidores que juntaram recursos para
proteger suas mercadorias na estrada: peles e âmbar do litoral
norte para ser trocados no sul por frutas; azeite e especiarias,
que seriam então levados de volta ao norte. A caravana era
fortemente protegida por soldados contratados, que
cavalgavam lado a lado com as enormes carroças puxadas por
cavalos robustos. Ao longo do caminho, certos bandidos
ferozes receberiam pagamentos como "pedágio", e em troca
manteriam afastados os outros salteadores. Civis se juntavam
a essas enormes caravanas, o único meio de viajar com
segurança.
Katharina e o Dr. Mahmoud iam viajar com o mais recente
embarque para exportação dos canecos de cerveja de Herr
Roth, e quando faziam uma despedida lacrimosa, Hans deu a
Katharina um caneco especial: o motivo decorativo era uma
cena de montanha com um pequeno camafeu da cidade de
Badendorf, meticulosamente esboçado e pintado pelo
próprio Herr Roth. Frei Pastorius, encabulado e com o rosto
vermelho de embaraço, deu um presente a Katharina: uma
bolsa de couro cru lustrado e encerado, à prova de água,
atado a uma tira de couro para ser levada sob as roupas. Era
do tamanho perfeito para a miniatura de Santa Amélia.
E então partiram, um comboio de um quilômetro e meio de
extensão que se originara em Antuérpia e continuaria por
Nuremberg, o centro comercial e financeiro da Europa.
Seguiria uma das principais rotas comerciais terrestres e
esperava chegar aos Alpes no verão, quando os desfiladeiros
estariam sem neve. A trilha era conhecida como a Rota do
Âmbar e fora estabelecida antes mesmo que os romanos
tivessem invadido a Europa, milhares de anos antes, quando
o povo da Idade da Pedra, no longínquo norte, juntava o
precioso âmbar e o transportava por terra desde o mar do
Norte até o litoral do Mediterrâneo e do Adriático. As
legiões romanas haviam construído estradas e pontes,
tornando os Alpes mais facilmente transponíveis. As
Cruzadas e a súbita popularidade das peregrinações na Idade
Média aumentaram o tráfego na rota, e à época da viagem do
Dr. Mahmoud e Katharina, eles faziam parte de um desfile
de mercadores, caminhantes, peregrinos, pedintes, nômades,
cavaleiros e até mesmo carroças postais do rei. Era um
cortejo colorido, com homens tocando gaitas, mulheres
carregando pão e bebês, crianças perseguindo cachorros, um
grupo barulhento puxando carroções, carretas e troles
rangentes, alguns a cavalo mas a maioria a pé, mudando
constantemente em cada encruzilhada, onde alguns
deixavam o comboio e outros se juntavam. O percurso era
retardado por muitas paradas, na medida em que cada
fronteira ou divisa a ser transposta exigia uma inspeção de
documentos e prova de que o viajante não sofria de peste.
As paradas noturnas eram ao ar livre ou em rudes estalagens
que cobravam preços exorbitantes. Nos desfiladeiros alpinos
eram ajudados pelo povo local, treinado especialmente para
carreto que exigia vigor.
Katharina estava achando a aventura maravilhosa, pois
apreciava a segurança de viajar sob a proteção de mercadores
prósperos que contratavam arqueiros para protegê-los e o
conforto de viajar numa carroça fechada que lhe servia de
cama à noite. E durante os fins de tarde, tranqüilamente
junto à fogueira do acampamento, o Dr. Mahmoud ensinava-
lhe sua língua nativa, pois acreditava que o conhecimento do
árabe seria uma vantagem para ela na Terra Santa. Enquanto
contava a ela histórias de sua juventude, suas lembranças
eram todas literalmente doces, pois falava de um fruto
dourado da Espanha chamado laranja, e de um suculento
fruto egípcio chamado tâmara, nenhum dos quais Katharina
jamais provara. Mas a facilidade relativa de sua jornada para o
sul terminou quando ela e o Dr. Mahmoud tiveram de
despedir-se da caravana em Milão, pois a agência
exportadora dos Roth ficava em Gênova, e então foram
aconselhados a não velejar a partir de Gênova, pois levaria
mais tempo e ainda correriam o risco de ser atacados por
piratas da Barbária. Então juntaram-se a uma caravana
mercantil que levava têxteis franceses para ser trocados em
Veneza por vidro de Murano, e seguiram a planície do rio
Pó até virarem ao norte para Pádua, e dali para a costa do
Adriático. De Badendorf até os Alpes estiveram entre
amigos, porém agora se viam em companhia de estranhos, e
assim resolveram se resguardar. O Dr. Mahmoud aprendera
muito tempo antes o que era sobrevivência silenciosa. Ele
nunca revelava ser muçulmano, pois corria o risco de ser
considerado inimigo, principalmente agora que se
aproximavam do Mediterrâneo, onde os odiados turcos
dominavam os mares.
Veneza representou um choque. Embora no caminho
tivessem atravessado cidades maiores, e até mesmo a
impressionante metrópole de Nuremberg, estas não
passavam de exibições comparadas com Veneza. Katharina
jamais vira uma cidade tão plana. Não havia uma montanha
ou colina à vista; as pessoas viviam em canais e circulavam
em pequenos barcos com curiosas proas curvas; e os
cidadãos vestiam-se mais suntuosamente do que pudera ver
em qualquer das cidades do norte. Mulheres da classe alta
cambaleavam em sapatos de plataforma alta e não cobriam o
cabelo, como era moda na Alemanha, mas arrumavam seus
cachos e madeixas com redes e fitas douradas. Katharina
nunca vira homens com cabelos tão longos, especialmente
os jovens, que lhe pareceram muito efeminados. Mas não
havia nada de feminino no modo como lançavam sugestivos
olhares em sua direção. Seu próprio cabelo era também uma
atração. Muito embora sua coloração dourada fosse um tanto
chamativa em Badendorf, não era incomum. Porém, quanto
mais seguia para o sul, mais singular ele se tornava. Embora
visse mulheres com cabelo louro, ele era tingido e
obviamente artificial, de modo que Katharina
freqüentemente atraía olhares de admiração de homens
estranhos. Ela se mantinha próxima ao Dr. Mahmoud,
agarrada aos seus fardos, e agora se dirigiam ao porto na vasta
laguna.
Enquanto progrediam pelas ruas estreitas e ao longo de
canais, puderam ver uma festa de casamento acontecendo
em uma das magníficas mansões. De uma sacada, os noivos
estavam alegremente jogando comida para a multidão abaixo:
Katharina viu toda uma chuva de faisões assados, fôrmas de
pão dourado, frutas cristalizadas e amêndoas açucaradas
caindo para as mãos dos felizes receptores. A uma rápida
sugestão do Dr. Mahmoud, eles se juntaram à multidão e
pegaram uma pequena peça de queijo e um cacho de uvas
rosadas, com que se banquetearam enquanto prosseguiam na
sua jornada para o porto. Tais ostentações de riqueza e
generosidade, souberam mais tarde, eram típicas desta
poderosa cidade marítima. Igualmente excessivo, Katharina
e o Dr. Mahmoud aprenderam, era o senso de justiça dos
venezianos. Quando dobraram uma esauina se depararam
com um bando furioso que momentos antes trucidara dois
homens. As vítimas tiveram o peito rasgado e seus corações
palpitantes espetados nas portas de uma pequena igreja. Era
um ato de vingança, um dos circunstantes contou a
Katharina. Na semana anterior os dois homens haviam
assassinado o chefe de uma das famílias mais poderosas de
Veneza.
Eles se apressaram rumo ao porto, onde depararam com mais
visões espantosas. Em meio a uma floresta de mastros,
castelos de proa, velas e cordames, Katharina viu a água
flutuante com caravelas, carracas, galeões, navios redondos,
latinas, navios mercantes, belonaves, canoas, dingas, lanchas,
balsas e até dois juncos chineses de velas vermelhas surradas
pela ação do tempo. O cais estava congestionado com hordas
de peregrinos, tanto cristãos quanto muçulmanos, indo ou
voltando de seus lugares santos. Havia marinheiros de todas
as marinhas, mercadores, eruditos, oficiais, tripulantes
inferiores esfarrapados e estivadores transportando fardos,
barris, animais e mercadorias para bordo. O ar estava repleto
de sons, uma centena de línguas estrangeiras, e cheiros
estranhos. Katharina viu até mesmo uma coisa chamada
livraria. Embora já tivesse visto livros impressos — a igreja
de Badendorf orgulhava-se de sua Bíblia produzida numa
prensa tipográfica —, nunca vira tantos livros quanto nessa
loja: mais de quatrocentos em estoque!
Katharina jamais sonhara com viagem e aventura, e agora
ambas tinham se imposto sobre ela. Seu espírito era uma
curiosa dicotomia de alegria e tristeza, pois enquanto
lamentava ter perdido sua mãe, Badendorf e Hans,
emocionava-se com o pensamento de encontrar sua
verdadeira família de sangue. Ela não acreditava que uma
pessoa pudesse olhar para a frente e para trás ao mesmo
tempo, e estava fazendo justamente isto.
Eles foram aos escritórios do porto, onde o árabe e o rústico
espanhol do Dr. Mahmoud foram de pouca utilidade, mas o
alemão e as noções de latim de Katharina ajeitaram as coisas.
Infelizmente, em toda parte em que indagavam, recebiam
uma variedade de respostas, de capitães recusando-se a levar
um muçulmano, de capitães recusando-se a levar uma
mulher, de capitães recusando-a levar passageiros de
qualquer tipo.
A superstição secundava o medo na vida de um marinheiro:
se um pagão não afundasse um navio, então uma mulher o
faria.
O dia estava chegando ao fim e a esperança deles também. O
Dr. Mahmoud sugeriu que procurassem alojamento para
passar a noite e tentassem de novo na manhã seguinte.
Foi então que Katharina viu o estrangeiro. Ele chamou-lhe a
atenção porque era diferente dos outros no cais, embora ela
não soubesse explicar exatamente por quê. Tinha o aspecto
de um nobre no seu gibão acolchoado branco, calções
acolchoados azuis e meias também azuis. Usava um manto
estranho que estava fora de moda, porque naqueles dias os
homens já não mais usavam mantos. Era todo branco com
uma cruz azul de oito pontas bordada nas costas, como se
pertencesse a uma ordem religiosa. Cabelo e barbas cortados
rente acima de uma gola de rufos. Alto e esguio. Espada
elegante pendendo de um cinto no quadril esquerdo.
Claramente um homem rico. Mas havia algo na maneira
como olhava para o mar; um ar de mistério em torno dele,
ou talvez fosse saudade, o que manteve o interesse de
Katharina. Ele virou-se de súbito para falar com um dos
carregadores, e Katharina captou uma sombra de tristeza nos
seus olhos. A tragédia assombra este homem, pensou e
surpreendeu-se consigo mesma. Estrangeiros em Badendorf
raramente lhe chamavam a atenção, sem contar sua
imaginação. Ainda assim, este homem simplesmente o fizera
e ela não sabia por quê.
Ao se virar para o Dr. Mahmoud a fim de perguntar para
onde iriam em seguida, desordeiros surgiram de repente sabe
lá Deus de onde e os encurralaram para roubar seus
pertences. Katharina gritou e viu seu idoso acompanhante
cair por terra.
Vendo o que tinha acontecido, o estrangeiro de manto
imediatamente interveio:
— Fora daqui, seus patifes nojentos! — gritou ele,
alcançando-os e agarrando os dois pela gola. Tão logo
largaram seu butim, os ladrões se escafederam,
desaparecendo na multidão. — Está ferida? — perguntou o
estrangeiro a Katharina, falando em latim, a língua universal
dos viajantes cristãos.
— Estamos bem. Obrigada, senhor — disse Katharina, sem
fôlego mais pela proximidade do estranho do que pelo ataque
dos ladrões.
— Sou Dom Adriano de Aragão, um cavaleiro da Irmandade
de Maria. Ele é um turco? — Acenou com a cabeça na
direção do Dr. Mahmoud.
Katharina enchia os olhos com o estrangeiro. De perto ele
era ainda mais impressionante. Não apenas bonito, mas
também de feições interessantes. E as sombras de saudade e
solidão ficaram até mais evidentes.
— O Dr. Mahmoud é da Espanha, tal como o senhor.
Isto não pareceu interessá-lo.
— Para onde estão indo?
— Para Haifa e depois para Jerusalém.
Ele examinou-a novamente. Uma garota, com o cabelo
parecendo ouro torcido em trança e a ingenuidade de um
bebê recém-nascido. O que ela fazia na companhia de um
árabe idoso e dirigindo-se a Jerusalém? Isto não seria da sua
conta, se ela não fosse uma cristã a caminho da Terra Santa,
pois ele assumira um voto de ajudar peregrinos na sua
jornada para Jerusalém.
— Posso levá-la até Haifa — disse ele, acrescentando
rapidamente: — Mas só você. O velho não.
— Mas não posso abandonar o Dr. Mahmoud!
Dom Adriano ficou surpreso ao ouvir a paixão na voz dela e
vê-la nos seus olhos verdes. Não poderia haver ligação de
sangue entre a garota e o velho, portanto o que os ligava?
Pensou mais um pouco. A família de Dom Adriano tinha
lutado para expulsar os mouros da Espanha. Seu pai havia
morrido combatendo os muçulmanos. E a irmandade a que
pertencia, sediada numa fortaleza na ilha de Creta, dedicava-
se a retomar a Terra Santa dos bárbaros muçulmanos e
devolvê-la à cristandade.
Mas finalmente, decidindo que seu dever era com uma
peregrina cristã, ele assentiu. Que o velho os seguisse de
perto. Ele não seria de responsabilidade de Dom Adriano.
— Espere aqui — disse ele e se afastou, seu manto branco
com a cruz azul se agitando à brisa.
Katharina o observou se empenhar com um capitão de navio
no que parecia uma furiosa discussão, pois o capitão
continuava sacudindo a cabeça. Mas Dom Adriano, sendo
alto e de porte impactante — e não havia qualquer dúvida
sobre sua patente e posição —, por fim levou a melhor e o
capitão assentiu.
— Convenci o capitão — disse, ao retornar — de que levar
um muçulmano a bordo poderia ser uma boa segurança se
encontrarmos piratas da Barbária, pois eles deixarão um de
seus homens santos escapar ileso, bem como qualquer um
que esteja em sua companhia. Também ajudou o fato de seu
amigo ser médico. Mas o capitão diz que sua tripulação não
tem mulher a bordo. Marinheiros são uma raça supersticiosa
Qualquer dificuldade e eles a culparão, senorita. Ele diz que
só há um meio de levá-la. Vai ter de se disfarçar.
— Me disfarçar? Como?
— Viajará como o neto do velho.
Dom Adriano levou-os a uma pequena taverna e lá os
deixou, dando ao proprietário um florim para ficar de olho
neles. Quando retornou, pouco tempo depois, levou
Katharina e o Dr. Mahmoud para um beco onde, após
certificar-se de que estavam sozinhos e fora de vista, entre-
gou a ela um frasco de uma pasta preta malcheirosa.
— Isto tornará seu cabelo castanho — disse, e depois deixou-
a para fazer o trabalho.
Enquanto Katharina massageava a tintura no couro cabeludo
e no comprido cabelo, o Dr. Mahmoud procurou na sua
sacola de viagem um galabeya sobressalente, um comprido
manto egípcio que pendia frouxo sem revelar a forma do
corpo. Do xale de Katharina ele conseguiu fazer um turbante
decente para cobrir o cabelo recém-tingido, que ela enrolou
na cabeça, dobrando as pontas desgarradas. Quando estava
vestida, ela emergiu detrás de uma pilha de barris. Foi com
olho de médico que Mahmoud estudou o produto acabado.
Detectou um problema com os seios, por isso pegou um rolo
de ataduras de sua caixa de remédios e disse-lhe para atar o
peito do modo mais plano que pudesse. Ele discretamente
virou-se de costas enquanto Katharina completava o
disfarce.
Quando voltaram ao cais viram Dom Adriano se apressar na
direção deles, e quando seus olhos bateram em Katharina,
sua boca abriu-se em leve surpresa. Ela estava tão esguia e
tão bem disfarçada que seria tomada por um rapaz.
Ele havia comprado garrafas de água, pão, queijo, frutas e
tiras de carne-seca, pois os passageiros tinham de se
abastecer. Na hora em que subiram a prancha de embarque,
o idoso muçulmano, seu neto e o cavaleiro cristão, o sol
declinava no horizonte e os marujos rizavam as velas.
Era um navio português que acabara de trazer marfim da
África e agora se dirigia à índia com o porão cheio de
lingotes de cobre para os artesãos de Bombaim. Houve um
breve atraso enquanto o capitão ordenava que parte da carga
fosse retirada e rearrumada, pois uma carga que se deslocasse
no porão podia causar um naufrágio. Uma vez convencido
de que o cobre estava estocado baixo o bastante para dar
estabilidade ao navio, ele deu ordens de içar velas. Conduziu
sua tripulação numa prece e Katharina ouviu sinceridade nos
seus padre-nossos, pois embora o percurso oceânico fosse o
meio mais rápido de se viajar, era também o mais perigoso. E
depois dois garotos tocaram uma flauta e um tambor
enquanto os marinheiros se azafamavam com cordas e
sarilhos, o ritmo da melodia ajudando-os a trabalhar em
conjunto. Finalmente estavam velejando para fora da laguna
e entrando em mar aberto. Katharina ficou de pé na proa, o
rosto exposto ao vento enquanto pensava, não no povo e na
aldeia que deixara para trás, mas na família que a esperava
em uma terra desconhecida.
Tal como os marinheiros, eles dormiam em redes
penduradas entre fardos de carga no porão do navio. O
espaço era tão apertado que as refeições eram feitas numa
pequena mesa calçada entre dois canhões. Mas na maioria
das vezes, quando o tempo permitia, os três passageiros fica-
vam no convés, ao ar livre.
Katharina pensava no seu salvador, pois Dom Adriano
permanecia com ela e o Dr. Mahmoud o tempo todo e
anunciava com sua presença imponente que era o seu
protetor, mas, por outro lado, não tinha nada a ver com eles.
Ela notou que ele não tocava em carne nem vinho, e
especulou se isto tinha a ver com os votos de sua irmandade.
E quando o observava rezar — de joelhos, segurando a
espada diante de si com ambas as mãos, o punho da arma
parecendo um crucifixo —, suspeitava que fosse um homem
profundamente religioso.
Mas um homem perturbado.
Havia rugas no seu rosto que de início achou tivessem sido
criadas pela sabedoria e experiência. Mas depois pensou: não,
elas foram criadas pela dor. E havia o ar de anseio enquanto
ficava olhando o mar por horas sem fim. O que estava
vendo? O que estava procurando? Adriano observava o pôr-
do-sol, observava o céu escurecer e as estrelas surgirem uma
a uma, o rosto erguido para o alto como se esperasse ver
alguma mensagem escrita no céu. Ele carregava o silêncio
em torno de si mesmo como o manto de cavaleiro que
usava. Aquele silêncio estava enrolado nele. Era para manter
as coisas de fora ou conservá-las dentro? Talvez as duas
coisas. Katharina nunca antes ficara curiosa acerca de uma
pessoa. Nunca especulara sobre o que Hans estava pensando,
nunca desejara mergulhar na intimidade dele. O que via na
superfície ela aceitava como a pessoa inteira. Nunca lhe
ocorrera que segredos e paixões podiam jazer sob a
superfície. Mas agora não podia parar de pensar neste
estrangeiro enigmático que parecia, dia após dia, não ser
deste mundo, mas em vez disso habitar a paisagem interior
de sua alma.
Seus pensamentos a sobressaltaram. Ocorreu-lhe que eram
os pensamentos sábios e elevados de um adulto. Considerou
as centenas de quilômetros que tinham percorrido, todas as
cidades e pessoas que viram, e agora se encontrava num
vasto oceano, o que a fez se sentir subitamente adulta. Tinha
comemorado seu 18º aniversário na Rota do Âmbar e agora
não se achava mais uma garota, mas sim uma mulher.
Gostava da sensação e acreditava que agora compreendia
tudo acerca da vida. Havia passado por muita coisa num
espaço de tempo muito curto, perdendo a mãe e
conhecendo a verdade sobre o seu nascimento e identidade
e agora, a meio caminho no mar Adriático, estava
convencida de ter visto a maior parte do mundo. E quando
pensou em Jerusalém e no dramático encontro com seu pai e
família, imaginou-se voltando a Badendorf, sendo recebida
como uma pessoa especial por ter viajado para tão longe e se
tornado uma mulher sábia. Ela já sabia como descreveria
Jerusalém para todo mundo, suas magníficas igrejas dispostas
em fileiras, o povo totalmente pio e religioso, todos falando
latim e concedendo bênçãos como uma coisa natural. E
como ela seria a pessoa mais conhecedora do mundo em
Badendorf, as pessoas viriam buscar seu conselho, até
mesmo o Padre Benedict, cuja única alegação para a fama
residia numa viagem que fizera a Roma. Mas ele nunca tinha
ido a Jerusalém, onde o próprio Jesus havia caminhado.
À medida que os dias passavam e o horizonte se estendia
diante deles, Katharina tornou-se terrivelmente enjoada, mas
o Dr. Mahmoud amenizou seu desconforto com um remédio
feito de gengibre. Ela também se sentia desconfortável com
os olhares da tripulação, que ficava observando-a com
expressões indecifráveis. E quando o navio passava um longo
tempo sem visão de terra, ela sentia um pânico especial no
coração. Para refrigério, ela freqüentemente tirava a pintura
em miniatura da bolsa de couro que Frei Pastorius lhe dera e
que usava sob o manto egípcio. Sentada no convés, joelhos
puxados para cima, embalando a miniatura nas mãos, fixava
os olhos no cristal azul e imaginava o que havia nele que
fizera seu pai abandonar a filha recém-nascida para ir
procurá-lo. E se o tivesse achado, e o poder do cristal fosse
tal que tivesse varrido toda a lembrança de sua mente,
fazendo-o se esquecer de suas obrigações na Alemanha?
Ela desejava poder também conservar o caneco que Hans
lhe dera porque nestes lugares desconhecidos e assustadores
ela extrairia conforto de um objeto tão familiar e da sensação
da argila de Badendorf sob seus dedos. Mas o caneco havia
sido embalado com sua trouxa de roupas, bastante protegido
nas dobras de saias e corpetes, xales e estolas, para evitar que
se quebrasse. Ela só poderia ver o caneco quando chegasse a
seus alojamentos em Jerusalém. A casa de seu pai, talvez?
Eles partilhariam uma bebida no caneco e o pai, sendo um
nobre alemão e havia muito ausente de casa, iria chorar à
visão de um caneco de cerveja tão excêntrico.
Uma semana após a partida de Veneza, a tempestade atingiu-
os.
Metade dos marinheiros quis içar a vela mestra, a outra
metade disse que não era hora, pois o vento estava
aumentando. Irrompeu uma disputa. Decidiram por içar a
vela mestra, mas então já era tarde demais, a lona se rasgou.
Todos os fogos se apagaram: o do fogão do cozinheiro e das
lanternas. O mar se erguia. Katharina e o Dr. Mahmoud se
agarravam um ao outro. Trovão e relâmpago baixaram de
súbito sobre eles, e uma chuva pesada desabou. O vento se
intensificou até que o mastro principal se partiu com um
poderoso som estalejante e desabou no convés. Os marujos
caíram de joelhos e começaram a rezar em voz alta. Ondas
gigantescas se ergueram por cima das amuradas e lavaram os
conveses. Barris e fardos, soltando-se, se arrastaram de um
lado para o outro e finalmente caindo no mar. O navio
estava na verdade sendo engolido e indo para o fundo, mas
no instante seguinte reerguia-se de novo como se num
repuxo. E continuou para cima e para baixo na tempestade,
com sua frágil tripulação humana gritando, rezando e se
agarrando à vida.
Katharina acordou para se descobrir numa praia, as roupas
ensopadas, seu longo cabelo emaranhado de algas. O céu
estava cinzento mas a chuva havia cessado, e o oceano se
turvava como um furioso metal líquido com pontos
espumantes. Pranchas de madeira e retalhos de vela
flutuavam nas ondas. Ela olhou para os lados e só o que viu
foram os restos do navio e da carga espalhados entre as
dunas. Não havia ninguém.
Lutou para se pôr de pé e olhou em volta atordoada. Onde
estava o navio? Onde estava a tripulação?
— Dr. Mahmoud! — gritou. A única resposta foi o uivo
zombeteiro do vento.
Ao caminhar ao longo da praia, seu galabeya se arrastando e
esfarrapando na areia molhada, ela encontrou um corpo. Era
o capitão, e caranguejos já se banqueteavam. Mais adiante
encontrou os destroços de uma arca de madeira, mas pouco
restava do seu conteúdo. Seguindo em frente, viu um caco
de cerâmica branca. Pegou-o e limpou a areia. Era parte do
caneco de cerveja que Hans lhe dera. Procurou pelo resto,
mas não achou outros pedaços. Ainda entorpecida pelo
choque, Katharina embalou o pequeno fragmento na mão —
a pintura em miniatura de Badendorf aninhada nas
montanhas.
Então viu uma figura à frente, cambaleando pela areia, o
manto esvoaçando e rodopiando a sua volta. Dom Adriano!
Katharina começou a correr, agitando os braços e chamando,
tropeçando na bainha do galabeya rasgado.
— Graças a Deus! — gritou quando se alcançaram. Caiu nos
braços dele, soluçando. Ele a envolveu no seu manto úmido,
e os dois choraram e tiritaram de frio juntos até que
finalmente se ajoelharam e rezaram por terem sobrevivido.
— Onde estamos?—perguntou ela, os lábios rachados e
encrostados pelo sal.
Ele semicerrou os olhos para o sombrio oceano e o
horizonte invisível.
— Não faço a menor idéia, senorita.
— Viu o Dr. Mahmoud?
Seus olhos encheram-se de tristeza enquanto dizia:
— Eu o vi se afogando. Procurei-o sob a água, mas ele tinha
ido para o fundo. Sinto muito.
Ela chorou de novo, sentando-se na areia e puxando os
joelhos para o peito. Dom Adriano enrolou seu manto de
cavaleiro em torno dela e saiu em busca de lenha seca para
uma fogueira.
Algum tempo depois ela se lembrou da pequena pintura de
Santa Amélia. Gritou de alegria quando ainda a encontrou
em volta do pescoço na bolsa à prova de água, e quando a
trouxe para a luz das chamas da fogueira de Dom Adriano,
extraiu esperança da reconfortante imagem de Amélia e do
cristal azul.
Adriano explorou as proximidades e descobriu que estavam
numa ilha que era pouco mais que um afloramento rochoso
no mar com nenhum sinal de verdor ou vida selvagem. Mas
ele encontrou barris de água arremessados à praia e madeira
seca o suficiente para conservar a fogueira. Juntos, ele e
Katharina cavaram em busca de caranguejos e outros
crustáceos, que cozinharam entre pedras quentes e algas
secas.
O céu escureceu tanto que eles souberam que o sol tinha se
posto, mas nuvens bloquearam as estrelas e uma névoa se
arrastou do oceano. Dom Adriano protegeu o fogo para
mantê-lo ardendo. Katharina olhava fixamente para as
chamas como se em transe. Continuava imaginando o Dr.
Mahmoud como o tinha visto pela última vez: sendo varrido
pela borda do navio, o turbante solto, um ar de terror no
rosto. Ela pensou nas semanas em que viajaram juntos, sua
paciência gentil e nas coisas que lhe havia ensinado. Tinha
esperança de que pudesse convencê-lo a ficar em Jerusalém
com ela em vez de ir para o Cairo, pois o médico árabe tinha
sido a pessoa mais próxima de um parente de sangue que já
conhecera. Estava também cheia de pesar pela morte da mãe
e isto a surpreendeu, pois aprendera a superar isto. Mas a
recente morte havia renovado o velho pesar, de modo que
Katharina, chorando, lamentava não só pelo Dr. Mahmoud,
mas por sua mãe, por sua mãe biológica, pela tripulação e o
capitão do navio português.
Nos dias que se sucederam, mais corpos de tripulantes
apareceram na praia, e a dupla em dificuldades deu a eles um
enterro cristão, Adriano recolhido em profundo silêncio, e o
pesar e desespero de Katharina aumentando. Finalmente,
certa manhã ela deparou com o cadáver pálido de um dos
rapazes que tocavam flauta e tambor no navio, e ela sabia
que não poderia continuar. Acreditando que sua
sobrevivência tinha sido um acidente, que deveria estar no
fundo do mar com o Dr. Mahmoud, correu para a
arrebentação, tentando se afogar nas ondas.
Mas Adriano foi atrás dela e, depois de uma breve luta na
água, conseguiu trazê-la de volta e depositá-la na areia. Lá,
ele segurou-a pelos ombros e disse com paixão:
— Não sabemos qual é o propósito de Deus. Não podemos
adivinhar Seu desígnio. Devemos apenas cumprir Sua
ordem. Ele nos poupou, senorita, por qual razão, não sei.
Mas cair no desespero é desafiar a vontade de Deus. Por
amor a Ele, você deve continuar viva. — Era o máximo de
palavras que tinha falado em vários dias, e meramente
pronunciá-las pareceu renovar sua força.
Katharina chorou por um longo tempo depois disto, e
embora ainda achasse que deveria ter morrido com o Dr.
Mahmoud, não mais tentou se afogar. Comia um pouco e
bebia um pouco, e vagueava pela pequena praia com os
olhos fixos no horizonte distante, decidindo que ela e
Adriano estavam provavelmente tão bem quanto os mortos,
de qualquer forma.
Dormiram juntos para se aquecer e quando amanheceu
Katharina acordou para sentir os braços do cavaleiro
enlaçando-a, seu corpo sólido contra o dela, o batimento
firme do coração de Adriano sob sua cabeça. Levantando-se,
estudou o rosto dele à pálida luz da aurora, notando como a
areia e os cristais de sal se grudavam às espessas pestanas e
sobrancelhas castanhas e à barba cortada rente. Que sonhos
perturbados, especulou, faziam os olhos dele rolarem sob as
pálpebras? Que paixões o impeliam a permanecer vivo, e a
mantê-la viva? Porque sabia que sem Adriano certamente
iria se matar. Então se lembrou de ter acordado durante a
noite aos gritos, e Adriano ali para agarrá-la e reconfortá-la.
O que a fizera gritar? Sonhos de afogamento.
Pela primeira vez em dias, a aurora trouxe a luz do sol, pois
as nuvens se haviam dispersado e o oceano até mesmo
reluzia em alguns pontos. Enquanto Adriano conseguia
pegar alguns peixes na água rasa, Katharina percorreu a praia
e encontrou outro barril de água do navio. Especulou quanto
tempo poderiam sobreviver numa ilha em que nem uma
única árvore crescia. Tinha frutos do mar, porém nada mais.
Pássaros não vinham aqui para desovar. Nenhuma vegetação
irrompia das fissuras. Então ocorreu-lhe se era adequado um
homem e uma mulher viverem juntos sem ser casados. A
Igreja incluiria vítimas de naufrágio quando catalogava
pecados?
Quando outro pôr-do-sol pareceu zombar do estado
deplorável deles, pois era evidente que a tormenta desviara
demais o navio da rota e, portanto fora de vista de outros
navios de passagem, Adriano encontrou voz e palavras.
— Por que vai para Jerusalém? — perguntou, enquanto
atiçava o fogo.
Enquanto Katharina trançava o comprido cabelo que, para
sua surpresa, continuava castanho, já que a tintura não fora
lavada pela água do mar, ela contou-lhe sua história,
terminando com:
— Portanto, vou em busca do meu pai.
— Um homem que abandonou você?
— Tenho certeza de que não foi intencional. Ele garantiu que
voltaria para me buscar.
— Mas e este rapaz que mencionou, Hans Roth? Poderia ter-
se casado com ele, vivido com muito conforto. Correu o
risco de perder tudo isto?
Ela o fitou com olhos firmes.
— Meu pai poderia estar ferido, ou nas mãos de homens
cruéis. É meu dever encontrá-lo.
Isto deu a ele algo sobre o que pensar. Para dizer a verdade,
Dom Adriano ressentia-se amargamente das mulheres. Tinha
amado uma única mulher na sua vida, e quando ela o havia
traído com outro homem, jurara nunca mais amar outra
mulher como a amara, nem confiar mais em mulher alguma.
Ao ingressar na Irmandade de Maria e assumir votos de
celibato, afastou as mulheres de sua mente.
— É um sacerdote? — perguntou ela, apontando para a cruz
azul bordada no peito de seu manto branco.
Adriano lançou-lhe um olhar atônito e depois seu rosto se
suavizou num sorriso.
— Não, senorita, sou apenas um servo do Senhor. — Ele caiu
em silêncio e olhou sombriamente para as chamas. Por fim,
disse: — Matei um homem que não era meu inimigo e
arruinei a vida de uma mulher. Por um dia e uma noite
prostrei-me diante de um altar, pedindo um sinal à Mãe
Abençoada. Ela veio a mim numa visão e falou de uma
irmandade dedicada a restaurar seu trono na Terra Santa.
Ingressei na irmandade. Já faz vinte anos, e continuo
servindo tanto à irmandade quanto à Mãe Abençoada. —
Voltou seu sofrido olhar para Katharina. — Quem era o
velho que chamava de Mahmoud?
— Quando fiquei órfã, ele tornou-se meu guardião.
— Um pagão?
— Ele acredita em Deus e reza. Talvez com mais freqüência
do que nós. O Dr. Mahmoud é um bom homem. —
Lágrimas brotaram em seus olhos. — Era — corrigiu-se,
suavemente.
Dom Adriano tinha suas próprias opiniões sobre homens
bons e homens ateus, mas as mantinha para si mesmo. Que
criança inocente ela era, para lançar-se no mundo sem
nenhuma proteção senão a de um velho e frágil pagão. Dom
Adriano sentiu uma rara emoção agitar-lhe o coração, algo
que não sentia havia muito tempo, desde que uma mulher
chamada Maria destruíra sua vida e o fizera jurar nunca mais
amar de novo.
E então ele rapidamente se afastou. Não havia lugar para
mulheres na mente de um homem envolvido numa cruzada
religiosa.
Enquanto Katharina observava as fagulhas se erguerem para
as estrelas, lembranças vaguearam por sua mente: a mãe
contando-lhe as histórias de Rapunzel e Chapeuzinho
Vermelho. As duas saindo para passear na neve. Isabella
varando a noite para terminar o bordado para uma freguesa,
tirando o strudel ainda quente do forno, e o delicioso
banquete que partilharam naquela noite. Dormindo juntas
nas noites frias, Katharina observando a neve cair da janela e
sentindo-se a salvo e amada:
— Minha mãe — disse, baixinho ao atiçar o fogo — poderia
ter ficado com as moedas de ouro e me deixado na
estalagem, ou talvez arranjado um marido rico com aquelas
moedas de ouro. Mas não o fez. Ela me manteve, me criou e
me amou. Passou fome mesmo tendo aquelas moedas de
ouro escondidas em nosso quarto. Sacrificou-se tanto para
conservar aquelas moedas para mim, e agora as perdi nesse
oceano e a desapontei.
Adriano assentiu, sério.
— A mãe é a primeira a nos amar, e a primeira a quem
amamos. O pai sempre vem depois. — Seus olhos pousaram
no horizonte. — Eu sirvo a Deus, mas é a Mãe Santíssima
que amo e a quem dediquei minha vida e alma. — Passou os
olhos em Katharina. — Tanto quanto você, lamento ter
desapontado minha mãe. Mas sairemos desta ilha, senorita.
Não seremos deixados para morrer aqui.
Katharina olhou para as rochas estéreis atrás deles,
escarpadas, escuras e proibidas, e pensou: Nada cresce aqui,
nada sobrevive aqui, como conseguiremos? Então olhou para
Adriano e maravilhou-se com a fé que ele tinha nos
apóstolos.
Adriano mantinha-se vigilante enquanto a garota dormia, os
olhos fixos no oceano escuro, observando os perigos que
sabia que estavam à espreita. Não contou a ela que embora
tivessem sobrevivido ao naufrágio, havia outras coisas a
temer, pois a ameaça de que fossem encontrados por
corsários da Barbária ou por uma belonave otomana era
bastante real. E o destino provável para qualquer um deles —
uma garota indefesa e um cavaleiro cristão — era cruel.
Todavia, ele rezava e extraía esperança dos pensamentos de
Deus de que um navio veneziano seria o primeiro a
aparecer.
Seus salvadores resultaram não ser nem piratas nem turcos,
mas sim predadores a bordo de uma caravela grega, um dos
muitos navios mercenários oportunistas que varriam o
Mediterrâneo em busca de qualquer coisa que pudesse ser
negociada com lucro. Neste caso era um capitão que vendia
escravos para a corte do sultão. Ele viu que valia a pena
manter a garota virgem, por isso ameaçou matar qualquer
tripulante que a tocasse. Da mesma forma queria conservar o
cavaleiro em condição saudável, pois sabia que os turcos
reservavam uma tortura de morte especial para os cavaleiros
cristãos.
E assim, em vez de continuar a leste para Jerusalém e para o
cristal azul de Santa Amélia, Katharina viu seu rumo
subitamente alterado quando a caravela apontou para o norte
e navegou para Constantinopla, o centro do Império
Otomano.
— Para onde estão nos levando? Por favor, tenho de ir para
Jerusalém. Se é dinheiro que desejam, meu pai...
As súplicas de Katharina caíram em ouvidos moucos.
Agrilhoada e ignorada, ela se retraiu em espanto e
infelicidade sombrios, rezando para que Adriano estivesse a
salvo e que este pesadelo terminasse em breve.
A caravela grega tinha parado na ilha sem nome na
esperança de encontrar água potável. Agora, acorrentada no
porão e enfrentando um destino desconhecido, Katharina
não sabia se agradecia a Deus por sua boa sorte ou se
amaldiçoava sua má sorte. Afinal, não eram mais náufragos,
mas agora se encontravam num navio de escravos. Se a
caravela grega não tivesse aparecido, ela e Adriano poderiam
ter ficado presos naquele afloramento estéril até o fim dos
seus dias.
Quando a caravela aportou em Constantinopla, o porão
estava repleto de mercadorias humanas que iam desde
crianças a pessoas idosas, de todas as nacionalidades e
línguas, pois havia parado no meio do caminho para atacar,
seqüestrar, roubar e comprar escravos para o sultão. Durante
a viagem, Katharina tinha sido mantida embaixo com os ou-
tros, aglomerada num espaço sem luz e malcheiroso, com
pouca água e comida, sem comunicação com o mundo
exterior, violentamente enjoada, e certa de que ia morrer. Só
voltou a ver Adriano quando foram arrastados do porão
superlotado para a luz do sol no porto azafamado. Com a luz
perfurando seus olhos, ela o viu agrilhoado a uma fileira de
homens de aspecto deplorável, Adriano destacando-se por
causa de sua altura e porte. Estava seminu e parecia ter
sofrido maus-tratos, mais ainda mantinha a cabeça erguida e
ela o viu se abaixando para ajudar um companheiro cativo
que tropeçara. Katharina tentou fazer-lhe um sinal, mas
chicotes os impeliram para direções opostas, até que ela o
viu desaparecer num aglomerado colorido e ruidoso.
A luz do sol e o ar puro pouco fizeram para reanimá-la. O
cabelo tingido emaranhado e fervilhando de piolhos, o
galabeya manchado de vômito, ela cambaleava descalça
sobre o crestado calçamento de pedras arredondadas, com
seus companheiros chicoteados e gritando de dor. Não foi
longa a jornada até o portão imperial, uma imponente arcada
de mármore branco aberta a todos e situado a uns cem
metros do hipódromo e da basílica de Hagia Sophia, que
havia sido convertida numa mesquita. Penduradas do outro
lado do portão estavam as cabeças apodrecidas de
criminosos, como um aviso à população. Por esta entrada
maciça fluíam pessoas, desde dignitários de alto escalão às
classes mais baixas — muçulmanos e cristãos, cidadãos e
forasteiros — todos observados por guardas ameaçadores
armados com cimitarras, lanças e flechas.
Impelidos por feitores com chicotes, as garotas e mulheres
espancadas foram amontoadas num pátio menor guardado
por negros enormes com lanças. Ali as cativas foram
desnudadas e deixadas para tremer de frio sob o céu.
Katharina quis gritar em protesto. Eles tomaram a bolsa de
couro de Frei Pastorius que continha a miniatura de Santa
Amélia e o caco de cerâmica de Badendorf. Tinha sido o seu
pequeno pedaço da Alemanha, um caco de cerâmica feita
em solo alemão, modelada por mãos alemães, e pintada com
amor alemão. Onde quer que pudesse estar fisicamente, era
lá que seu coração pertencia. Mas agora isto tinha sido
tomado dela, com a pintura que a identificaria para seu pai.
Como a obteria de volta?
Uma mulher de aparência imponente apareceu,
equilibrando-se em sapatos muito altos e usando um
penteado cômico que a tornava ainda mais alta. Ela parava
diante de cada cativa e dizia: "Crente ou não-crente?" As
respostas sussurradas, ela realizava então um exame
superficial e selecionava a pobre mulher ou garota com uma
única palavra: "cozinha", "lavanderia", "caserna", ou
"mercado". Quando a mulher chegou a ela, Katharina já
havia deduzido que aquelas que alegavam ser crentes eram
mandadas para o mercado de escravos ou, talvez pior, para as
casernas próximas para servir de objeto de prazer para os
soldados.
Antes que a mulher formulasse sua pergunta, Katharina
deixou escapar "La illaha illa Allah!", que significava, "Não
existe nenhum deus senão Alá", a prece essencial
muçulmana que havia aprendido com o Dr. Mahmoud.
A mulher ergueu as sobrancelhas.
— Você é muçulmana?
Katharina mordeu o lábio. O Dr. Mahmoud ensinara-lhe o
suficiente sobre o Islã e o Corão de modo que ela sabia passar
como crente desta fé. Mas então pensou em Adriano e na
devoção dele à Virgem Maria e no voto que fizera de ajudar
viajantes cristãos. E sabendo que ele seria torturado por
causa de sua fé, que nunca fingiria ser outra coisa senão um
seguidor de Cristo, baixou a cabeça e murmurou:
— Não, senhora, sou cristã. Mas sei ler e escrever —
acrescentou depressa, esperando que isto a poupasse do
destino das outras mulheres, pois desconfiava que a vida na
cozinha e na lavanderia do palácio era dura e curta.
A mulher ficou mais tempo com Katharina do que ficara
com as outras, inspecionando suas mãos e dentes, indagando
sobre sua linha sanguínea, ao que Katharina respondeu ser
de uma estirpe nobre. Finalmente a mulher fez sinal a um
assistente, que conduziu Katharina por uma porta que, para
sua surpresa, abria-se para as termas, onde mulheres e
garotas conviviam em diversas formas de roupas de baixo.
Ali ela foi escovada e examinada em busca de piolhos, com a
atendente resmungando que era bem notório que cristãos
não se lavavam com muita freqüência. E então, para seu
choque adicional, foi forçada à remoção de todos os pêlos do
corpo, o que, descobriu mais tarde, era exigido de todos os
homens e mulheres muçulmanos, segundo exigência do
Corão.
Recebeu roupas limpas — um curioso enxoval de mantos
compridos, calções e um véu para cobrir o rosto — e, depois
de um breve interrogatório e de uma demonstração de sua
perícia com uma agulha, foi designada para a equipe da
Supervisora de Guarda-Roupa. Logo descobriu que esta
função, por mais baixa e servil que fosse, permitia-lhe
percorrer toda a ala feminina do palácio com um grupo de
costureiras, cada qual especializada numa tarefa. Se Katharina
trabalhasse bem, disseram-lhe, poderia um dia ser elevada ao
cargo de Guardiã da Fiação, cuja única tarefa seria organizar e
acompanhar a fiação de bordado, tendo suas próprias
assistentes. Embora esta pequena informação significasse
claramente uma boa notícia e ajudasse a animá-la, para
Katharina representava uma sentença de prisão, pois
indicava que passaria a vida inteira naquele lugar.
Foi assim que começou sua nova vida no palácio do grande
sultão em Constantinopla. Ninguém se importava que ela
fosse uma cidadã alemã à procura do seu pai, que fosse uma
mulher livre com seus direitos, que pudesse até mesmo ter
sangue nobre. De fato, ninguém ligava a mínima para ela,
nem mesmo para seu nome, pois o palácio do sultão era
povoado por milhares de escravos e criados que tinham
vindo como cativos a uma época ou outra. Viviam suas vidas
dentro daquelas altas muralhas com um ar resignado, e
muitos até extraíam vantagem da situação, chegando ao topo
de sua própria classe, acumulando riqueza e posição política.
Um complexo de pavilhões nas cercanias verdejantes,
circundado por muros altos, o serralho situava-se numa
colina com vista para o fórum de Teodósio e para os
fabulosos estábulos do sultão que abrigavam quatro mil
cavalos. Dentro deste mundo isolado e exótico, Katharina
provou arroz pela primeira vez e aprendeu a beber café o dia
inteiro. Também aprendeu a prostrar-se de joelhos cinco
vezes por dia durante as chamadas para a prece, e a cada vez
seu coração doía com a lembrança do Dr. Mahmoud, que
tinha orado desta mesma maneira no jardim em Badendorf,
durante a viagem ao longo da Rota do Âmbar e no convés do
desventurado navio português. Nas suas preces também se
lembrava de Adriano, desesperadamente esperançosa de que
ele ainda estivesse vivo e em algum lugar próximo, e de seu
pai, renovando sua determinação de ir para Jerusalém e
encontrá-lo.
As mulheres que viviam no harém imperial eram divididas
em duas categorias: as concubinas e aquelas que as serviam.
As concubinas eram mulheres que, tendo alcançado os
estritos critérios de beleza, postura e encanto, haviam sido
separadas como parceiras sexuais para o sultão. As serviçais,
que iam desde trabalhadoras braçais àquelas com talento e
instrução, atendiam à miríade de necessidades das
concubinas. Katharina foi posta para trabalhar acrescentando
floreados e enfeites aos tecidos que já eram ricos e suntuosos
além da imaginação. Mas pelo menos não foi designada para
as cozinhas ou para as termas, onde as serviçais eram
incumbidas de manter a água aquecida (em outras sociedades
este serviço era feito por homens, mas nenhum homem
tinha permissão de entrar no serralho).
Katharina sabia que um outro mundo — um mundo real de
comércio, ciência e homens — existia em outra dependência
do palácio. Havia uma câmara secreta no topo do Portão
Imperial para que as damas do sultão observassem os desfiles
sem ser vistas, e de onde Katharina assistia aos intermináveis
cortejos de dignitários estrangeiros, visitantes, embaixadores,
chefes de estado, cientistas e artistas. Esta era uma época de
exploração e descoberta, e como o sultão se considerava um
governante esclarecido, ele recepcionava o mundo à sua
porta. Debaixo da arcada de mármore cavalgavam
conquistadores espanhóis com índios trazidos do Novo
Mundo, presenteando o sultão com astecas e incas.
Emissários da corte de Henrique VIII traziam livros de
astronomia e obras musicais compostas pelo próprio rei. E da
Itália chegavam artistas com novas idéias para pintura e
escultura. Quando via estes europeus passando montados
abaixo, Katharina desejava gritar para eles: "Ei, estou aqui!
Por favor, me levem embora!" Mas embora aquele mundo
real ficasse além de umas poucas muralhas altas, ele poderia
igualmente existir entre as estrelas, pois era tão inacessível
quanto elas para as mulheres do Harém Imperial.
Embora às vezes Katharina achasse que enlouqueceria nesta
gaiola de ouro, e chorasse com freqüência no travesseiro
tarde da noite, ela mantinha-se em silêncio e inseria-se na
rotina deste mundo de irrealidade, acompanhando as
costureiras, fazendo a sua finíssima costura, observando e
ouvindo enquanto ia contando os dias e esperava uma
oportunidade de escapar. Discretamente indagou acerca de
um homem que fora feito prisioneiro com ela e trazido para
Constantinopla pelos mesmos mercadores de escravos. Um
cavaleiro cristão espanhol, disse ela. Perguntou também
sobre pertences tomados dos cativos, pois havia algo especial
que era seu e que precisava desesperadamente obter de
volta. Mas suas perguntas eram recebidas com indiferença e
olhares vagos.
Assim, teria de encontrá-los por conta própria: Adriano e a
miniatura de Santa Amélia.
Embora vivesse numa espécie de prisão, era uma prisão com
sua própria forma de liberdade, pois enquanto permanecesse
dentro dos muros do serralho Katharina estava livre para
circular por onde desejasse. Os corredores sem fim com seus
magníficos pilares e fontes de pedra, os bancos de mármore
e os exóticos terraços, os jardins onde músicos tocavam sem
parar, as súbitas e inesperadas praças onde malabaristas e
dançarinos se exibiam, os labirintos de aposentos e banhos
termais eram todos como uma cidade independente de luxo
imponderável, seus residentes mimados tendo todas as
vontades satisfeitas. O recinto inteiro estava repleto de um
delicioso aroma de cítricos, já que todas as colunas e paredes
de mármore eram lavadas diariamente com sumo de limão
para fazê-los brilhar. Mas havia um lugar onde Katharina
estava proibida de ir: uma linda colunata arqueada chamada o
Portão da Pérola. Este levava, ela foi prevenida, aos
aposentos privativos da Sultana Safiya, a concubina favorita
do sultão, onde só aqueles sob convite podiam entrar.
Havia sempre alguma coisa excitante acontecendo naquele
palácio, quer fosse um feriado religioso com música e
banquete, uma festa comemorando o aniversário de alguém,
ou um festival de veneração ao sultão, com paradas e
trombetas e artistas visitantes. No Harém Imperial os
momentos mais excitantes aconteciam quando uma garota
era selecionada para a cama do sultão. Embora as mulheres
do palácio, da mais humilde escrava à sultana, fossem todas
propriedade pessoal do sultão para fazer tudo que ele
desejasse, poucas realmente o encontravam. Era por isso que
havia tão poucas crianças no harém: apenas garotinhas que
tinham sido geradas pelo sultão. Três garotos haviam
morrido na infância, deixando somente um filho vivo para o
sultão, de uma concubina que Katharina jamais tinha visto.
Se tais mulheres ficassem grávidas (em geral de um guarda
ou de um visitante que conseguira se introduzir) eram
condenadas à morte. Garotas entravam virgens entre aquelas
paredes e passavam toda a vida sem conhecer o toque de um
homem. Portanto, quando o sultão escolhia uma garota para
sua cama (e ninguém sabia exatamente como a seleção era
feita, já que ele nunca visitava o harém), os dias de
preparação incluíam-se entre os de celebração mais animada,
com muita excitação, mexericos e especulação cercando o
evento enquanto a afortunada era banhada e massageada e
vestida com os trajes e jóias mais finos, tratada como uma
rainha e recebia instruções sussurradas sobre como agradar o
sultão. Na manhã seguinte, a empolgação continuava
enquanto todos ficavam na expectativa dos presentes que a
garota receberia, especulando sobre a generosidade do sul-
tão, todos genuinamente felizes por ela, celebrando sua boa
sorte e ansiosos para saber como havia sido a noite. Embora
a garota nunca mais fosse ser chamada de novo para a cama
do sultão, ela, contudo se tornava uma pessoa especial por
ter sido escolhida, e sua posição de destaque no harém estava
assegurada.
Outra diversão preferida entre as mulheres era embarcar em
pequenos botes sobre uma enorme piscina interna,
desenrolando os turbantes das cabeças dos eunucos e ver
qual equipe conseguia puxar mais rápido os turbantes para a
água. Havia diversões sem fim com macacos, papagaios e
pombos adestrados que usavam pequenos adornos de pérola
nas patas e executavam truques; horas sem fim passadas em
torno de tabuleiros de gamão e xadrez; tardes intermináveis
provando vestidos e véus, chinelos e jóias; escovando os
cabelos umas das outras, ou fazendo experiências com
cosméticos, misturando perfumes, testando este ou aquele
creme e raspando pêlos imaginários de qualquer parte do
corpo.
O mexerico era igualmente parte integrante do harém, à
medida que concubinas e suas criadas adoçavam boatos tal
como faziam frutos cristalizados: quem estava dormindo
com quem (Jamila e Sara), quem partira o coração de quem
(aquela bruxa da Farida e a pobrezinha da Yasmin), quem
estava manobrando para obter favores com a Sultana Safiya,
quem estava engordando, quem estava ficando velha. O
tópico principal durante semanas tinha sido o escandaloso
caso de amor entre Mariam e um dos eunucos africanos —
quando descobertos, ambos foram decapitados e seus
cadáveres pendurados no Portão Imperial como um aviso
para todos.
O principal passatempo de Katharina, contudo, era
simplesmente ocupar as horas ociosas. Boa parte de seu
tempo era passada nos banhos — lavando-se, sendo
massageada e depilada. As mulheres demoravam- se nas
saunas por horas, beliscando frutas e bebendo refrescos
enquanto mexericavam. Não havia banheiras nas termas,
pois os turcos suspeitavam de que um demônio jinn
espreitava na água parada, de modo que as mulheres
sentavam-se em bancos de mármore e eram ensaboadas e
esfregadas por escravos. Katharina estava atônita com a falta
de pudor daquelas mulheres, pois usavam apenas uma tira
para cobrir sua nudez e desfilavam de um lado para o outro a
exibir peitos e nádegas firmes. Como raramente estas
mulheres sensuais iam acabar nos braços de um homem viril
— os eunucos geralmente não sendo de nenhum interesse
—, elas buscavam prazer sexual umas com as outras e
freqüentemente formavam ligações românticas que
acabavam em violentas manifestações de ódio e ciúme.
Tanto tédio, languidez e falta de objetivo enchiam Katharina
de uma vaga inquietude. Estas mulheres tinham sido todas
trazidas para cá contra sua vontade, mas mesmo assim
pareciam satisfeitas, felizes até, como se os seus corações e
lembranças estivessem entorpecidos. Estavam levando vidas
que eram uma espécie de morte agradável e Katharina temia
que se passasse tempo demais neste lugar encantando
também sucumbiria a sua magia. E isto jamais deveria
acontecer. Tinha feito uma promessa de leito de morte para
encontrar seu pai. E devia sua vida a Adriano.
Assombrada por visões do que poderia estar acontecendo
com ele naquele momento, Katharina consumia-se de culpa
por causa da vida de luxo que estava levando. A cada manhã,
com a primeira das cinco preces do dia, lembrava a si mesma
de que na ilha Adriano não a havia abandonado. Portanto,
ela não faltaria a ele agora. De um modo ou de outro, pagaria
a sua dívida.
Lá estava ele de novo, o eunuco desfigurado, observando-a.
Katharina teve certeza agora de que não era coincidência.
Depois de semanas encontrando-o nos locais mais estranhos,
convenceu-se de que ele a estava seguindo. E isto a
assustava.
Após oito meses no Harém Imperial, Katharina conseguira,
por meio de sagacidade e astúcia, manter-se à parte da
miríade de relacionamentos emaranhados, atritos e
ciumeiras, politicagem e conspirações, golpes e contragolpes
que constantemente fervilhavam entre as facções e grupos
rivais. A hierarquia era crucial, e mudava e se alterava como
dunas de areia, com as concubinas ascendendo ou decaindo
dentro da hierarquia do harém, obtendo o favorecimento da
maioria ou perdendo-o por causa de um capricho. Somente a
Sultana Safiya, a favorita do sultão, permanecia acima de
todas, e Katharina ainda não tivera sequer um vislumbre
desta grandiosa personagem. Enquanto outras tentavam
atraí-la para as diversas facções, ela conseguia manter-se
neutra e, depois de um certo tempo passou a ser respeitada
por isto, pois todas sabiam que podiam confiar nela e
depender de sua honestidade. Também conseguira cair nas
boas graças de suas temperamentais supervisoras — da Seda,
da Fiação, das Chinelas — e embora não tivesse feito
exatamente quaisquer amigas no harém, tampouco ganhara
inimigas.
Mas os eunucos eram outro assunto, e mesmo depois de oito
meses tentando se adaptar a este mundo impossível, e que
era diferente do mundo lá fora, ainda não conseguia
compreender as estranhas criaturas que guarneciam as
mulheres.
O harém era supervisionado exclusivamente por eunucos
negros que eram propositalmente feios ou deformados a fim
de desestimular qualquer interesse romântico por parte das
mulheres. Capturados na África quando jovens, eles eram
castrados no caminho, em geral num deserto onde a areia
escaldante era o único remédio contra a alta incidência de
hemorragia fatal, sendo a operação tão extensa: pois para ser
qualificado para o Harém Imperial o eunuco devia se
submeter à remoção completa do pênis e dos testículos
(resultando na necessidade de urinar por um canudo que o
eunuco mantinha escondido no turbante). Os eunucos
podiam alcançar grande poder e eles próprios tinham uma
equipe de criados e escravos; podiam ser inimigos
formidáveis se alguém incorresse no seu desagrado. Por isso,
Katahrina preocupava-se com este que claramente a estava
seguindo por toda parte e espionado-a. A quem ele se
reportava, e por quê?
Suas suspeitas foram respondidas numa noite em que foi
acordada em sua cama no dormitório pela mão que
subitamente tapou sua boca. Não era incomum garotas
desaparecerem misteriosamente e nunca mais se saber delas
— dizia-se que era sempre por infração, desfavorecimento,
ciúme. Para onde estas infelizes eram levadas ninguém sabia,
e ninguém ousava tentar descobrir.
Katharina foi carregada do dormitório enquanto as garotas
observavam fingindo dormir, temerosas de que o simples
fato de testemunhar pudesse acarretar-lhes o mesmo
destino.
Mas uma vez lá fora, à luz da lua, o eunuco a depositou no
chão e fez um gesto para que ficasse em silêncio e o seguisse.
Conduziu-a até um aposento numa ala especial do harém,
onde viviam apenas as damas mais altamente favorecidas.
Katharina ficou atônita com a suntuosidade do local. Este
santuário interno era mais grandioso do que tudo que já vira
até então, com suas ricas tapeçarias, divãs estofados e
mobiliário de ouro. Quem quer que vivesse ali tinha riqueza
e poder.
E então Katharina a viu — uma mulher não muito mais
velha que ela, esguia e graciosa, vestida em sedas
bruxuleantes de tom carmim e cinabre, debruadas em ouro.
— Paz de Alá — disse a jovem mulher com um sorriso. —
Por favor, retire o seu véu.
Katharina assim fez, expondo o longo cabelo que estava
atado em tranças intrincadas ao redor da cabeça.
— É o seu chapéu — veio a segunda ordem, embora fosse
mais um pedido, e Katharina retirou o pequeno chapéu de
seda parecido com uma caixa que cobria o cocuruto de sua
cabeça. A concubina estudou-a por um momento, depois
irrompeu numa risada agradável. — Parece que você está
usando um solidéu amarelo!
Katharina enrubesceu. Todas as garotas implicavam com ela
sobre isto. Elas adoravam ouvi-la contar de como se
disfarçara como um rapaz e de como tingira o cabelo para
parecer uma egípcia. Porém mais hilariante ainda era que
agora seu cabelo havia crescido parcialmente, os primeiros
poucos centímetros mantendo a cor dourada natural
enquanto as madeixas compridas ainda conservavam o tom
castanho.
— Meu eunuco contou-me que você era loura — disse a
jovem mulher, estendendo a mão. — Por favor, sente-se.
Fique à vontade.
A seguir, gesticulou para que os criados servissem café em
pequenas xícaras, café que Katharina achou intragável.
— Estive observando-a — disse a misteriosa anfitriã. — Ou
melhor, meu eunuco esteve de olho em você e se
reportando a mim. — Bebericou o café refinadamente. —
Você não se juntou a nenhuma facção. Não há nenhuma
concubina que possa, como se diz, alegar que a tem no
bolso. Isto revela algo acerca do seu caráter, pois algumas
delas podem ser bastante persuasivas quando recrutam seus
capachos. Você conservou sua independência, o que é raro
no harém.
Ela falava em árabe, língua que Katharina aperfeiçoara no
decorrer dos meses; era capaz de entender sua anfitriã e
fazer-se entendida.
— O que a sultana deseja de mim? —- perguntou.
Katharina sabia que os sultãos otomanos tinham deixado de
se preocupar com o casamento e que nesta dinastia fazia
séculos que não surgia uma esposa. As concubinas favoritas,
contudo, podiam ascender a uma posição especial e, por falta
de um título melhor, a atual favorita recebia o honorífico de
sultana.
A jovem mulher a corrigiu.
— Não sou a sultana. Mas sou a segunda favorita do sultão.
Meu nome é Asmahan e mandei trazê-la aqui para pedir um
favor.
Katharina ficou imediatamente em guarda.
— Um favor, senhora?
— Há oito anos fui raptada do meu lar em Samarcanda e
vendida para a corte do sultão — falou Asmahan com voz
suave e melíflua. — Como você — continuou —, tornei-me
uma prisioneira do harém, condenada a passar a minha vida
aqui. Mas tive sorte... fui escolhida para passar uma noite
com o sultão. Como você sabe, tais mulheres ganham
projeção, muito embora nunca se encontrem com ele de
novo. Mas no meu caso, Alá seja louvado, fiquei grávida.
Durante nove meses fui mimada, afagada e observada
enquanto todos esperavam para ver se eu ia produzir um
menino ou uma menina. Se fosse menina, ela seria criada no
harém e preparada para um futuro casamento político. Mas
se fosse um menino...
Katharina já ouvira falar que o sultão tinha um filho de uma
concubina favorita. Asmahan era invejada por todo o harém.
— O sultão deve estar muito feliz — disse Katharina, por falta
de algo mais a dizer e imaginando que favor esta mulher
poderosa possivelmente lhe pediria.
— Sim. Ele adora nosso filho. Bulbul é freqüentemente
recolhido e levado para passar alguns dias nos aposentos do
sultão. — Mais um gole na forte bebida.
Katharina esperou.
Asmahan inclinou-se à frente e sua voz ficou mais tensa.
— A sultana também está grávida. Por certo você também
sabe disso.
Katharina teve vontade de dizer que se um tordo botasse um
ovo no palácio todos os seus milhares de habitantes
saberiam.
— Ouvi dizer — disse. A Sultana Safiya, a mulher mais
poderosa do Império Otomano, porque só ela era chamada
repetidamente de volta à cama do sultão.
— Não é sua primeira gravidez — continuou Asmahan numa
voz que mal passava de um sussurro. Katharina imaginou
que mil olhos ocultos as observavam, que mil orelhas
ouviam por detrás das cortinas. — As outras gestações
resultaram em abortos, ou então deram à luz meninas. Mas
os astrólogos dizem que desta vez é um menino. Sabe o que
aconteceu com as outras mulheres que engravidaram do
sultão?
Katharina tinha ouvido histórias. Uma pobre criatura, poucas
semanas antes, estava no seu quinto mês de gravidez, foi
chamada aos aposentos de Safiya e nunca mais foi vista. Os
rumores eram de que Safiya havia chutado a barriga da
garota, provocando um aborto que pôs fim à vida de mãe e
filho.
— Por vários métodos a sultana conseguiu manter o caminho
livre para seu próprio filho. Eu tive sorte... e fui esperta.
Quando se aproximava a minha vez, pedi ao sultão para
deixar seus médicos pessoais de sobreaviso. Safiya não
poderia me tocar ou ao meu bebê. Sei que ela odeia meu
filho. Mas mesmo assim ela não teve a desfaçatez de tentar
removê-lo. Mas, uma vez que ela dê à luz um filho, então
pode legalmente livrar-se do meu.
— Ela vai matá-lo? — indagou Katharina.
— Antes o fizesse! Mas um destino pior aguarda meu
pequeno Bulbul se a sultana der à luz um filho. — Asmahan
olhou em torno, muito embora estivessem sozinhas no
luxuoso cômodo. — Existe neste palácio um lugar chamado a
Gaiola. É um cômodo muito pequeno no fim de um longo
corredor. As portas e janelas são lacradas de modo a não
haver contato com o mundo exterior. Lá vivem príncipes
turcos que não tiveram permissão de herdar o trono. São
criados em isolamento completo por surdos-mudos, e após
muitos anos finalmente enlouquecem.
— Mas que crueldade! Por que isto?
— Existe uma lei do governo turco que diz que o filho que
herda o trono deve eliminar seus irmãos. Mas a remoção
deve ocorrer sem derramamento de sangue. O
aprisionamento em vida na Gaiola é a sua sentença. É o que
acontecerá com o meu Bulbul se Safiya der um filho ao
sultão.
— Não entendo, senhora. Seu filho é mais velho.
— Mas tenho um berço inferior ao de Safiya. Ela é oriunda
de uma família turca muito nobre e antiga, ao passo que a
minha é de nômades... somos ricos e poderosos em nossa
terra, mas isto não conta aqui. Safiya não perde a
oportunidade de lembrar isto ao sultão, e já o posso ver
mudando de opinião.
— Mas como é que posso ajudá-la?
— Por vontade de Deus, você levará Bulbul de volta para
minha família em Samarcanda.
Katharina soltou um profundo suspiro.
— Samarcanda? Mas por que eu, senhora? Entre centenas de
mulheres dentro desses muros...
-— Porque é a única que deseja escapar daqui. Tenho
observado em você uma ânsia por sair deste lugar. Alguma
coisa a espera além destas muralhas. As mulheres, na sua
maioria, são felizes aqui, como certamente já notou. Muitas
foram raptadas de aldeias pobres onde enfrentavam uma vida
dura com maridos dominadores. Aqui, elas vivem no luxo e,
pelo menos dentro destas paredes, usufruem de liberdade. E
aquelas que não são felizes, pelo menos estão resignadas com
seu destino. Também escolhi você — acrescentou, enquanto
erguia os braços para tirar o elaborado véu escarlate da
cabeça e revelar um cabelo dourado — porque também tem
pele clara e é loura como eu. Bulbul passaria por seu filho.
Katharina ficou maravilhada ao ver um cabelo da cor do seu.
Louras eram incomuns no Harém Imperial, mas como o
cabelo louro era considerado um sinal de fraqueza e falta de
paixão no sangue, mulheres deste tipo físico faziam o
possível para tingir o cabelo.
— Eu faria isto pela senhora, pois está certa: desejo sair daqui.
Mas não posso fazer como me pede.
Ela ergueu as sobrancelhas exoticamente pintadas.
— Por que não? Deseja sair deste lugar, não é verdade?
— Oh, mas é claro, senhora — disse Katharina com paixão.
— Estou procurando minha família. Tal como a senhora, fui
separada da família muitos anos atrás... jamais conheci meu
pai e irmãos e descobri em mim mesma uma ânsia profunda
de conhecê-los.
Asmahan assentiu, séria.
— Ser separada dos parentes de sangue é uma infelicidade. É
por isso que Bulbul deve ficar com seus parentes. Mas por
que não fará isto por mim?
— Tem um homem, um cavaleiro cristão, que foi capturado e
trazido para Constantinopla. Não posso ir sem ele.
Asmahan franziu o cenho.
— Um cavaleiro cristão não duraria muito tempo numa
cidade turca, tão profundo está enraizado o ódio. Ele já deve
ter sido torturado e morto há muito tempo, que a
misericórdia de Deus caia sobre ele.
— Mas não sei com certeza. Não posso partir até saber sobre
o destino de Adriano. E se ele estiver vivo, deve ir comigo.
Asmahan levou isto em conta.
— Mandarei investigar — prometeu.
— Posso lhe pedir outro favor, senhora? — perguntou ela. —
Quando fui trazida para o palácio, tinha uma pequena posse
comigo, uma sacola de couro contendo lembranças
sentimentais. Esta sacola me foi tomada. A senhora seria
capaz de encontrá-la para mim?
Asmahan franziu o cenho.
— Como regra, as posses dos cativos são consideradas inúteis
demais para o sultão e sua família para que se preocupem
com isto, e, portanto são dadas como pagamento aos homens
que trouxeram os cativos para nós, ou para os pobres da
cidade, como parte do programa de caridade do sultão. Verei
o que posso fazer. Isto está acima de Deus. — Seu tom se
tornou cauteloso: — Agora preste atenção. Este é um
assunto perigoso. Há espiões por toda parte. A sultana está
de olho em mim. Agora que ficou minha amiga, você não
está mais a salvo e deve ficar atenta à sua retaguarda o tempo
todo. Volte de novo amanhã à noite. E traga seu estojo de
bordado.
Na sua visita seguinte aos aposentos de Asmahan, Katharina
encontrou a bolsa de couro dada por Frei Pastorius jazendo
miraculosamente no divã. Caiu sobre ela e abriu-a
imediatamente. A pintura em miniatura de Santa Amélia
ainda estava lá. E o caco de cerâmica de Badendorf.
Pressionando-os contra o peito, Katharina chorou:
— Deus a abençoe, senhora — disse. — Acaba de restituir
minha vida.
Asmahan conteve a língua, achando que seria cruel demais
deixar a garota saber que aqueles artigos eram tão
insignificantes que ninguém quisera ficar com eles, nem
mesmo os mendigos que iam ao hospital de caridade para
ganhar roupas e um cálice de vinho medicinal. Mas via
aquilo com simpatia, pois ela própria daria todo o seu ouro e
jóias para sentir sob os dedos nada mais que um pêlo de
carneiro do vasto rebanho de seu pai. Isto confirmava o
velho adágio de que uma pérola para um valia menos que um
seixo para outro.
Depois disso, Katharina passou a ir todas as noites aos
aposentos de Asmahan, levando o estojo de bordado a
pretexto de costurar alguma coisa para a concubina, mas na
verdade para conhecer Bulbul, um garotinho roliço, louro e
afável que, quando chegasse o momento, teria de seguir
calado e de boa vontade com sua nova mãe.
Era uma manhã fria e nevoenta, com uma leve garoa caindo
sobre a cidade de Constantinopla. A Supervisora do Guarda-
Roupa chegou correndo ao Pavilhão das Pombas, onde suas
assistentes estavam costurando um conjunto para a
afortunada garota que tinha sido selecionada para a cama do
sultão, e arrancou agulha e linha das mãos de Katharina.
— É a sultana! Mandou chamá-la!
O coração de Katharina saltou. A sultana! Teria ela
descoberto o plano secreto de Asmahan?
Um eunuco esperava para escoltá-la, um homem de aspecto
formidável que ela nunca vira antes. Trajando mantos
elegantes, o turbante ricamente emplumado e feito de tecido
dourado. O nariz havia sido cortado muito tempo antes e
substituído por um bico de ouro, fazendo-o parecer uma
criatura mitológica. Não proferiu uma única palavra a
Katharina ao fazer meia-volta e liderar o caminho. Ela o
seguia, curiosa, mas quando se aproximaram do proibido
Portão da Pérola, ela começou a tremer de medo. Quantos já
haviam passado por esta arcada e nunca retornaram? Se a
sultana tivesse descoberto acerca de sua colaboração secreta
com Asmahan, podia perder as esperanças de sair viva
daqueles aposentos.
Katharina não acreditava que pudesse existir alojamentos
mais suntuosos que os de Asmahan, mas a suíte particular da
sultana a deixou sem fôlego. Ouvira dizer que a sultana era
apaixonada por pérolas, mas o que viu suplantou toda a
imaginação. Todas as cortinas, colgaduras, tapeçarias,
escabelos, divãs e até mesmo os capachos no chão eram
trançados com pérolas brancas, pretas e rosadas. E sentada
numa cadeira que parecia um trono (também adornada com
centenas de pérolas) estava uma mulher tão coberta de
roupas decoradas com pérolas que parecia ter ficado parada
sob uma nevasca. Katharina nunca tinha visto tantas pérolas
em uma pessoa. Como ela podia andar com tanto peso em
cima?
O olhar de Safiya era tão duro e permanente quanto suas
preciosas pérolas, e estudava a costureira-assistente com
franqueza inescrutável. Katharina tentou não ficar nervosa
sob o olhar frio, e procurou não olhar fixamente. Rímel
pesado delineava as pálpebras da mulher, quase lhe
obscurecendo os olhos, e tinha tanto vermelho nos lábios
que parecia ter comido geléia e esquecido de usar o
guardanapo. Apesar da maquiagem exagerada, era evidente
que a concubina favorita do sultão estava velha — o que era
de surpreender. Katharina ouvira dizer que Safiya tinha
quase quarenta anos. Como era estranho que o sultão
convocasse esta mulher de volta ao seu leito quando tinha a
opção de centenas de garotas núbeis.
A gravidez de Safiya estava bem avançada.
— Você tem visitado Asmahan. Por quê? — perguntou, a
voz soou cortante e mortal como uma cimitarra.
Katharina tentou parar de tremer.
— Ela gosta dos meus bordados, senhora.
— Considero o seu trabalho medíocre. Asmahan não tem
bom gosto. — Os olhos escurecidos de rímel perfuraram
Katharina, que sentia o coração subir à garganta. — Por que
está trêmula, garota?
— É que eu nunca... -— Ela lambeu os lábios ressequidos —
... nunca estive em presença de uma figura tão magnífica,
senhora. É como estar olhando para uma deusa.
Katharina não fazia idéia de onde as palavras brotaram,
mesmo assim elas surtiram efeito. A sultana pareceu
suavizar-se um pouco; mesmo uma mulher tão exaltada não
estava imune a lisonja.
— Você vai fazer uma coisa para mim — disse ela, que não
era mulher de perder tempo. — Se a fizer bem, darei o que
você quiser.
Katharina mal conseguiu dissimular seu choque.
— O que é que deseja, senhora?
-— Você vai espionar Asmahan. Observar o que ela faz, com
quem se encontra, e ouvir tudo que é dito. Depois vem se
reportar a mim. Está me entendendo?
— Sim, senhora. Há alguma coisa em particu...
— Tudo — cortou ela. — Conte-me tudo que acontece. Eu
decidirei o que é importante. — Olhou pensativa para
Katharina por um momento, depois disse: — Talvez você
deva alguma lealdade ou aliança a Asmahan. É problema seu,
não deixe que isto interfira na tarefa que lhe designei. Mas
no caso de seu coração fraquejar, lembre-se de minha pro-
messa de lhe dar tudo que desejar, caso seu relatório me
agrade.
A sultana suspirou e pousou as mãos pesadas de jóias no
ventre protuberante.
— Carrego o herdeiro do sultão — disse, um anúncio
desnecessário e sem deixar espaço para equívocos: o filho de
Asmahan não teria a menor chance.
Quando Katharina ia se retirar, a voz dura da sultana
advertiu:
— Tome cuidado, garota, pois enquanto estiver espionando
Asmahan também estará sendo vigiada. Cada passo que der
me será relatado.
Katharina continuou visitando Asmahan todas as noites sob
o pretexto de bordar para ela, mas agora carregando o fardo
de um novo e terrível segredo. Enquanto brincava com
Bulbul e lhe contava histórias e cantava para ele, com
Asmahan olhando com grande tristeza porque estes eram
seus últimos dias com o filho, Katharina imaginava o que ia
contar à Sultana Safiya, pensava se deveria confidenciar este
novo desdobramento a Asmahan, e especulava se Adriano
seria algum dia encontrado. Durante o dia, aonde quer que
fosse, Katharina imaginava-se observada por centenas de
olhos ocultos. O palácio era uma parafernália de portas
secretas, passagens ocultas e biombos com buracos para
espiar. Era espião espionando espião. A cada noite, quando ia
aos aposentos de Asmahan, ela perguntava se havia notícias
de Adriano e a cada noite a resposta era de que não havia
novidades. Até que Katharina começou a pensar seriamente
que a sultana tinha mais poder que Asmahan. Se eu relatar
esta história à sultana, será que ela resgatará Adriano para
mim e nos libertará? "Darei qualquer coisa que desejar",
dissera a poderosa Safiya
Foi então que, certa noite, Asmahan disse:
— O perigo para meu filho está aumentando. Safiya jurou que
ele não será o herdeiro do sultão.
— Mas e se a sultana tiver uma menina?
— Então ela matará meu filho por inveja. A cada dia a vida
dele corre mais perigo. Fico cada vez mais temerosa. Meu
eunuco encontrou um guarda-costas em quem podemos
confiar. O homem permanecerá com Bulbul a cada minuto
até o dia da partida.
— Tem certeza de que pode confiar nele? — Não pode
confiar nem em mim! pensou Katharina e amaldiçoou o
destino que a pusera em tal situação: ajudar Asmahan ou se
tornar espiã e pedir ajuda à sultana para encontrar Adriano.
— Você se considera uma boa juíza de caráter, Katharina?
Talvez possa me dizer se podemos confiar neste homem. —
Asmahan apontou na direção de seu jardim particular, onde
Bulbul gostava de brincar com barquinhos no tanque de
peixes.
Katharina saiu sob o céu noturno e viu, parada debaixo de
um salgueiro-chorão, uma figura humana alta trajando um
manto — um homem, magro e macilento, com uma barba
hirsuta e o cabelo passando dos ombros. E quando ele se
voltou, Katharina viu olhos abrigados em escuras cavidades,
e linhas profundas traçadas a cada lado de uma boca que não
sorria havia muito tempo.
Ele a fitou por um momento, e então o reconhecimento
inundou seu rosto.
— Graças a Deus em Sua misericórdia — sussurrou ele e deu
um passo vacilante em sua direção.
Katharina o alcançou primeiro, e braços emaciados a
enlaçaram no mais terno dos abraços. Ela sentiu pele e osso
sob o manto e chorou num ombro emagrecido.
Adriano chorou com ela, pois imaginara que nunca a veria
de novo.
— Como...? — começou ela, recuando e bebendo a imagem
dele com os olhos.
Adriano enxugou as lágrimas:
— Enquanto estava no porão malcheiroso de um navio de
escravos pensei numa garota que havia conhecido, uma
garota muito valente que abandonou a segurança da sua
cidade, deixou uma vida confortável e segura para sair pelo
mundo em busca de seu pai. Nenhum perigo haveria de
dissuadi-la do seu objetivo, nem mesmo depois de ter
naufragado numa ilha com um estranho. Quando ouvi a
determinação na voz dela, e vi a força no seu espírito,
pensei: Certamente posso ser como esta reles garota. Ofereci
uma prece à Virgem Santíssima, renovando o meu voto de
restaurar Sua soberania em Jerusalém e de me juntar aos
meus irmãos cavaleiros em Creta. E, enquanto dormia, a
Virgem Santíssima me apareceu em sonho e me disse que eu
de nada lhe servia morto, pois mártires não construíam
igrejas, e que ela precisava de seus soldados vivos. Assim, lá
mesmo no navio de escravos, descartei meu manto de
cavaleiro e me livrei de qualquer evidência de minha
verdadeira posição, de modo que quando fomos retirados do
porão daquele navio no cais, ninguém sabia de minha
identidade. Simulei ser mudo, mas quando viram meu
tamanho, os supervisores mandaram-me para trabalhar nas
olarias, pois as obras neste palácio nunca terminam. Desde
então, estive construindo as próprias muralhas que nos
prendem aqui.
Ele tomou as mãos lisas e suaves de Katharina nas suas mãos
calosas.
— O que me manteve vivo foi o voto que fiz para a Virgem,
pois devo retornar a Jerusalém. Mas pensar em você,
Katharina, também me manteve vivo, pois eu sabia que teria
a energia e a força para superar este infortúnio. — O
espectro de um sorriso bailou nos seus lábios. — E pensei
que certamente eu, um cavaleiro da Irmandade de Maria,
poderia fazer o que uma simples garota faz.
Asmahan entrou no jardim, parou para observar o
improvável casal à luz da lua — a carnuda garota em sedas, o
homem esquelético em farrapos — e disse:
— Decidi, Katharina, que você não deveria viajar sozinha,
pois poderia chamar muita atenção. Deveria ir na companhia
de um homem que pudesse passar por seu marido, além de
servir de proteção para você e meu filho. Tenho bastante
dinheiro para arranjar um lugar para vocês dois e Bulbul
numa caravana. Darei cartas para levar a minha família. Meu
pai é o xeique Ali Sayid, um homem rico e poderoso. Ele a
recompensará muito bem por tudo que tiver feito.
Katharina olhou para Asmahan com olhos marejados de
lágrimas. Todos os pensamentos na sultana, em espionagem
e intriga saíram de sua mente. Estava ciente apenas de uma
coisa: das mãos rudes e calosas segurando as suas.
— Meus espiões — disse Asmahan — contaram-me que uma
caravana vai partir para Samarcanda na primeira lua cheia.
Pedirei permissão ao sultão para visitar a mesquita nesse dia.
Direi a ele que é o aniversário de meu pai e que desejo
homenageá-lo e oferecer-lhe preces. O sultão não recusará.
Levarei Bulbul comigo e, claro, um grupo de eunucos e
damas para proteção. Você e o seu espanhol estarão entre
eles. Nós mulheres rezamos atrás de uma tela na mesquita,
de modo que os homens não podem nos ver. Você poderá
escapulir sem ser vista com meu filho, e meu eunuco levará
você e Adriano ao local de partida das caravanas. Depois
disso, retornarei ao palácio.
Katharina finalmente encontrou sua voz, embora fosse
difícil na magia daquela noite.
— Mas certamente o sultão dará pela falta do garoto.
— O sultão está atualmente preocupado em derrubar o
império dos Cavaleiros de Rodes — os olhos de Asmahan
oscilaram para Adriano — e suas visitas ao nosso filho não
têm sido freqüentes. Quando ele der pela falta de Bulbul,
você e ele estarão bem no meio do caminho e ninguém
saberá para onde foram.
Katharina não desejava perguntar, mas teve de fazê-lo
porque era uma pergunta razoável.
— Por que a senhora não pode ir conosco?
— Se eu desaparecesse, isto seria notado de imediato e uma
busca seria desfechada. Os guardas do sultão me achariam
em poucos dias. Mas decorrerão semanas até que percebam
que Bulbul se foi e, por esta ocasião, será tarde demais para
que consigam rastreá-los. — Ela entregou um pacote a
Katharina. — Vocês viajarão primeiro para Bagdá, que é a
orla do Império Otomano. Nesta primeira parte da viagem
viajarão sob a proteção do sultão. Obtive papéis que
garantirão sua passagem a salvo. De Bagdá vocês se juntarão a
uma caravana rumo a Samarcanda, e nesta parte da jornada
estarão sob a proteção do meu pai. Mantive negociações
secretas com o embaixador de Samarcanda, que
providenciou os documentos necessários. Meu pai é um
homem poderoso, seu nome é temido. Vocês estarão a salvo.
Uma vez em Samarcanda, ele a recompensará
generosamente pelo que fez. E uma vez que entregue Bulbul
aos cuidados de minha família, estará livre para ir aonde
quiser.
Bagdá, Samarcanda... Tão longe de Jerusalém, tantos
quilômetros na direção errada! Mas Katharina pensou no
pequeno Bulbul e depois em uma bebê que tinha sido dada
fazia quase dezenove anos por um pai recentemente
enviuvado que partira em busca de uma pedra azul. Esta
situação difícil lembrava muito a sua. E aqui a vida dela
corria perigo.
— Senhora — disse —, não tenho palavras para exprimir
minha gratidão. Por ter encontrado Adriano e por...
Asmahan estendeu a mão cheia de jóias.
— Faço isto por meu filho, e por nenhum outro motivo.
Mantenha-o a salvo e fale a ele de mim com freqüência.
Katharina não reviu Adriano depois disso, pois aos homens
não era permitida a companhia de mulheres, e portanto
apenas ela acompanhava Bulbul quando ele era convocado
aos aposentos privados do sultão.
Mas Katharina continuou a visitar Asmahan a cada noite,
levando sedas e bordados, e a cada manhã relatava para a
sultana que Asmahan falara mal das outras concubinas e da
politicagem do harém, imaginando se a arguta mulher
poderia perceber seu subterfúgio. A cada noite, na alcova do
dormitório, Katharina olhava para a pintura da Pedra de
Santa Amélia e sentia o coração disparar cheio de esperança:
faltava pouco agora, ela e Adriano mais uma vez se veriam
livres e ela estaria de novo na estrada para o cristal azul e, se
Deus permitisse, para sua família.
Dois dias antes de levarem a cabo o plano de fuga, a notícia
espalhou-se pelo palácio como fogo: Safiya estava em
trabalho de parto. Todas as atividades foram suspensas
enquanto todos esperavam ansiosamente por notícias.
Asmahan mantinha Bulbul por perto, enquanto Katharina
aguardava as novidades no dormitório.
E então elas chegaram: a sultana dera à luz um menino.
Tiveram de correr contra o tempo. No instante em que teve
o recém-nascido posto no seio, Safiya reclamou seu direito
legal de ter o filho de Asmahan trancado na Gaiola. Quase de
imediato, Asmahan foi abandonada por seus eunucos e
guardas mais jovens. Não fazia mais sentido ir à mesquita
para oferecer preces ao seu pai. Era apenas questão de horas
até que os eunucos da sultana chegassem para levar Bulbul.
Embora Adriano ainda acreditasse que os turcos fossem
pagãos ateus e seus inimigos jurados, mesmo assim esta
concubina salvara sua vida e o reunira a Katharina, e assim
ele era o seu protetor declarado. Ou pelo menos protetor do
filho dela, pois, definitivamente, nada podia ser feito para
salvar Asmahan. Com a ajuda do fiel eunuco de Asmahan,
Adriano escalou o muro do jardim e, com Bulbul amarrado
às costas — adormecido, pois tinham-lhe dado leite
misturado com suco de papoula —, ajudou Katharina a subir
atrás dele. Sob a cobertura da noite, seguiram o eunuco pelo
labirinto de muros externos e alamedas que circundavam o
palácio, e finalmente pela coelheira de ruas e becos sinuosos
da cidade. Antes de saírem, Asmahan dera a Katharina um
pequeno cofre de madeira repleto de dinares de ouro, a
moeda do Império Otomano. Tinham-se abraçado e
Asmahan beijou o filho pela última vez. Agora, enquanto
Katharina e Adriano seguiam o eunuco até o vasto acampa-
mento da caravana, ela soube que o destino de Asmahan tão
logo sua trapaça fosse descoberta seria a mesma punição que
todas as mulheres do harém recebiam ao transgredir os
regulamentos do sultão: ela seria lacrada num saco com um
gato e uma serpente e jogada nas águas do estreito de
Bósforo.
A caravana partiu ao alvorecer, um comboio de mil camelos
que levava perfume e cosméticos do Egito e no meio do
caminho recolheria vidro colorido na Síria e couro nas
estepes eurasianas — tudo destinado à China, onde as
pessoas adoravam tais coisas -— para ser trocados por seda e
jade, que na volta seriam levados para as nações do
Ocidente, onde as pessoas adoravam tais coisas. Ao longo do
caminho encontravam artistas indo para a China —
malabaristas, acrobatas, cantores, mágicos — e, voltando do
Oriente para a Europa, monges, eruditos e exploradores.
Embora fossem encontrar vida selvagem, Katharina e
Adriano levaram provisões de pães, frutos secos, carne
salgada e queijo curado, bem como farto suprimento de água.
E eles se deliciavam em ser um trio despreocupado: Adriano,
o protetor; Katharina, a nutriz; e Bulbul, o "filho" deles.
Enquanto Constantinopla e seus terrores ficavam para trás,
enquanto viajavam sob o sol e ao ar livre, comiam
fartamente e descobriam miríades de motivos para rir.
Adriano readquiriu vida e força. Seu corpo ganhou
consistência e a animação recomeçou a brilhar nos seus
olhos. Katharina disse-lhe somente uma vez que agora ele
estava livre para seguir para Jerusalém, que não estava
obrigado a fazer com ela a longa jornada para Samarcanda,
mas Adriano a silenciou com a decisão de não sair de seu
lado até que cumprisse a promessa feita a Asmahan. Depois
disso, acrescentou, retornariam juntos para Jerusalém.
À medida que a caravana serpenteava em seu caminho para
o leste, Katharina — que certa vez pensara ter visto a maior
parte do mundo a apenas poucas milhas no Adriático —
encontrou o deserto pela primeira vez e o terrível portento
das tempestades de areia, que se erguiam tão repentinamente
que a morte reclamava o viajante que não estivesse alerta.
Ela e Adriano logo aprenderam a observar os camelos; se os
animais começassem subitamente a rosnar e enterrar os
focinhos na areia, isto significava que uma tempestade de
areia se aproximava, muito embora o dia estivesse claro. Os
viajantes imediatamente enrolavam com panos os narizes e
bocas e, repentinamente, a tempestade se apresentava, feroz
e rápida, para se desfazer num instante.
Ao longo do caminho acampavam principalmente ao ar
livre, sob as estrelas, nos oásis e encruzilhadas, mas às vezes
paravam em guarnições e caravançarás, onde encontravam
estalagens e leitos adequados, e músicos e entretenimento
animado. À medida que passavam entre areias douradas e
céu de azul profundo, sob nuvens brancas impelidas pelo
vento e à sombra de palmeiras de cor verde-esmeralda, a
jornada adquiriu um aspecto irreal para Katharina, que
segurava Bulbul nos braços enquanto o camelo os sacolejava
e balançava num quase cochilo. A frente ela observava
Adriano, com os ombros largos e costas retas, um homem de
convicções profundas e devoção a Deus, um homem
misterioso, também.
Katharina não soube precisar o momento em que se
apaixonou. Talvez tivesse sido muito tempo antes, quando o
viu pela primeira vez nas docas de Veneza. Ou ao observá-lo
rezar no convés do navio português. Ou enquanto dormiam
nos braços um do outro numa ilha deserta, sentindo-se
como os últimos humanos na terra. Onde e quando quer que
tenha começado seu amor por ele, Katharina o mantinha em
segredo, pois Adriano tinha sua própria estrada a seguir, tal
como ela. Nunca abriria o coração, mas sim conservaria seu
amor junto a si, protegendo-o na câmara especial onde
conservava a sua mãe, e seu pai, e agora até mesmo a infeliz
concubina Asmahan, que lhes salvara a vida.
Mas estas emoções novas e estranhas a sobressaltaram, pois
não vivenciara uma paixão assim por Hans Roth. Parecia
incompreensível para ela agora, enquanto se inflamava com
cada olhar de Adriano e o som da sua voz, que certa vez
considerara o amor romântico um mito. Seu desejo por
Adriano era maior do que qualquer fome ou sede que já
tivesse experimentado; era uma ânsia do espírito que
ocupava sua mente noite e dia. Portanto, o amor de
Katharina necessitava de um escoadouro, e ela o descobriu
na feitura de um novo manto para ele. Tendo secretamente
pechinchado no mercado de Ankara por um novo manto
branco e um pouco de fio de seda e agulhas, ela trabalhava
na sua tarefa de amor a cada hora de descanso do dia, quando
Adriano saía com os homens para caçar ou catar lenha para
as fogueiras. Sabia que Adriano carregava uma dor no
íntimo, mais profunda que as cicatrizes no pobre corpo
torturado, uma dor que vislumbrara pela primeira vez nas
rugas delineadas no rosto, e que tinha percebido na voz dele
quando, naquela ilha deserta, ele falara de uma mulher que
havia amado. Embora Katharina soubesse que jamais poderia
ser o bálsamo para aquela dor profunda, rezou para que o
novo manto ajudasse a restaurar um pouco da dignidade
dele.
Adriano também ocupava seus pensamentos por causa de
algo que a intrigava, um enigma que se aprofundava a cada
dia que passava. Ele dissera-lhe ter assumido votos de
celibato e austeridade quando se juntara à irmandade, e que
esses votos foram assumidos como penitência por ter matado
um homem. Mas agora que passavam dias e noites em
privacidade, partilhando comida e abrigo, fingindo ser pai e
mãe do pequeno e adorável Bulbul, Katharina ia se
conscientizando da verdadeira extensão daqueles votos. Dias
e noites num navio português, e alguns dias encalhados
numa ilha, não haviam sido suficientes para ela observá-lo
verdadeiramente. Mas aqui, no deserto sem fronteiras,
debaixo de um sol que se estendia até a eternidade,
Katharina observava Adriano com uma clareza que era
transparente como vidro. E pareceu-lhe que seu voto de
abstinência e austeridade iam além de limites razoáveis, pois
ele não só abstinha-se de carne e vinho, mas também do
alimento na porção adequada. Ele parecia quase à beira da
inanição para punir seu corpo, impelindo-se além da
resistência diária, continuando a trabalhar e caçar e cortar
lenha muito tempo depois que seus companheiros se
retiravam para junto das fogueiras. O crime que ele havia
cometido (e ela não tinha certeza de que havia sido um
crime, pois não estava lutando por uma mulher que amava,
lutando por seus direitos?) acontecera havia mais de vinte
anos. Penitenciara-se o suficiente? Ou — e esta suspeita
crescia a cada distância que deixavam para trás, à medida que
a caravana prosseguia para leste — havia mais na história do
que tinha sido revelado?
Deu-se conta de que sua obsessão por ele a desviava do
propósito de sua vida: encontrar seu pai. E, portanto tinha de
confiar cada vez mais no retrato de Santa Amélia a fim de
relembrá-la do seu objetivo. Como uma suplicante na igreja
com um desejo genuíno de oferecer preces, mas cuja mente
instável se extraviava através das janelas de vitral para os
campos de margaridas além, Katharina precisava cada vez
mais de força de vontade para manter o coração no rumo
certo. Noite após noite, no que se tornou um ritual, ela
levava a pequena pintura para a luz e olhava para o cristal
azul enquanto silenciosamente recitava a litania: É aqui que jaz
meu destino.
Tão logo Bulbul fosse entregue à família de sua mãe,
Katharina ia fazer meia-volta e seguir para Jerusalém, para
procurar o cristal azul e encontrar seu pai.
E Adriano deveria seguir para onde seu destino o levasse.
A caravana era como uma criatura dinâmica em constante
mutação, com gente entrando e saindo, clãs inteiros ou
viajantes solitários, fazendo o comboio encolher ou se
esticar como uma serpente enquanto coleava através do
deserto, da pastagem e do planalto. Sentindo-se a salvo agora
nas suas falsas personas, e estando tão distantes de
Constantinopla e do perigo de serem encontrados, Katharina
e Adriano faziam amizade com os recém-chegados,
partilhando fogo e comida, e depois dando adeus a eles ao
longo do caminho e recebendo a companhia de novos
conhecidos.
A questão da língua começou a tornar-se um problema à
medida que seguiam para leste, pois encontravam novos
dialetos e mutações de idiomas que pensavam dominar. O
árabe ficou cada vez mais difícil para Katharina, e o grego de
Adriano tornou-se cada vez mais inútil. Embora o latim
tivesse sido levado para leste ao longo de milhares de anos,
os dois achavam difícil compreender como a antiga língua
fora tão mudada e adaptada às regiões locais. Mas dava para
se entenderem; a comunicação particular começou a confiar
menos em palavras e mais nos gestos, expressões faciais e
silêncios preenchidos com olhares significativos. Era,
começavam a perceber à medida que passavam dia e noite na
companhia um do outro, tudo de que precisavam.
No norte da Pérsia, a caravana parou num pequeno vale
entre duas cordilheiras escarpadas, e aqui encontraram um
curso de água mais marcante: nenhuma vegetação crescia às
suas margens, tudo à volta era rochoso e estéril, mas a água
corria morna e, para espanto de todos, corria verde
brilhante. Isto era conseqüência de depósitos minerais na sua
nascente, explicou o líder da caravana, que davam à água o
seu notável tom de esmeralda. Mas ela era potável e até
mesmo, alguns alegaram, saudável. E assim acamparam ao
lado do riacho cor de esmeralda, mil tendas e uma centena
de fogueiras à luz da lua.
Katharina apreciou a oportunidade de poder finalmente dar
uma boa lavada no cabelo. Embora o tivesse lavado
ocasionalmente no decorrer das semanas, a água tinha de ser
racionada. Para manter o cabelo limpo ela usara um truque
aprendido com beduínos locais, cujas mulheres esfregavam
uma mistura de cinza e soda nos cabelos e depois passavam
horas penteando-o. Deste modo a tintura escura, aplicada lá
em
Veneza para que pudesse passar por árabe, começou a
desvanecer para um castanho-claro, com as raízes recém-
crescidas dando-lhe um "capuz" louro. Mas agora ela usava o
sabão adequado, cobrindo o cabelo de espuma, escovando,
massageando e enxaguando. Depois secava o cabelo ao
vento, de modo que ele se encapelava como uma juba
dourada. O efeito foi tal que todos no acampamento paravam
para olhar.
Adriano principalmente.
Naquela noite, debaixo de uma lua reluzente, Katharina deu
a Adriano o novo manto que bordara e ele ficou sem
palavras. Tinha seu emblema às costas, a cruz azul de oito
pontas da irmandade que dava significado a sua vida. Mais
uma vez ele usaria dignidade como se fosse uma vestimenta,
e proclamaria ao mundo sua dedicação à Virgem Santíssima.
E finalmente aqui, sob as estrelas, Adriano contou a
Katharina sua história completa.
Ela já sabia que mais de vinte anos antes, em Aragão, ele se
apaixonara perdidamente por uma garota chamada Maria,
com quem assumira compromisso de casamento, quando
então ela confessara que estava apaixonada por outro.
Adriano se enfurecera e desafiara o rival. Lutaram. Adriano o
matou e Maria, pesarosa, recolheu-se a um convento, onde
ele supunha que ainda vivesse até aquele dia. Era tudo que
Katharina sabia da história dele. Mas nesta noite, com a lua
cheia, gorda e majestosa no céu noturno e o riacho cor de
esmeralda gorgolejando suavemente no seu leito pedregoso,
Adriano confessou a dor que o assolava em cada dia de sua
vida.
— Eu sabia — disse, enrolando-se no seu manto de cavaleiro
—, no fundo do coração eu sabia que Maria não me amava.
Foram o orgulho e a arrogância que me cegaram para este
fato. Acreditava que com o tempo poderia fazê-la me amar.
Mas o outro homem... se tivesse sido qualquer outro homem
eu poderia deixar passar. Poderia ter feito vista grossa e
esperado que Maria voltasse para mim. Mas o outro homem
era meu irmão, e isto não consegui suportar.
Ele voltou os olhos angustiados para Katharina.
— Sim, o homem que matei era meu irmão. Eu o matei por
causa do ciúme cego. Ele era inocente de qualquer crime ou
má conduta contra mim. Não tenho qualquer direito à
felicidade, Katharina. Não tenho nenhum direito a amá-la ou
ser amado por você.
Irrompeu em amargos soluços e Katharina pôs os braços em
torno dele. Adriano enterrou o rosto nos cabelos dourados
de Katharina e sentiu a calidez daquele corpo jovem contra o
seu, os lábios dela nas suas faces e pescoço, as lágrimas de
ambos se misturando, até que finalmente as bocas se uniram.
Deitaram-se debaixo do manto com a cruz azul e por fim
encontraram refrigério no amor.
Mais tarde, quando despertaram, Adriano levantou-se,
tomou Katharina pela mão e levou-a até a margem do riacho
cor de esmeralda. Ali enfiou sua espada no solo, a bela arma
com punho de ouro que Asmahan lhe dera para a proteção
de seu filho. Ele e Katharina se ajoelharam, como se diante
de uma cruz.
— Embora estejamos muito longe de padres e igrejas — disse
ele, pegando a mão dela —, somos vistos por Deus, pela Mãe
Abençoada e por todos os santos. E é diante destas gloriosas
testemunhas, minha adorada Katharina, que nos declaro
marido e mulher e dedico meu corpo e alma a você, meu
amor e minha devoção, até o fim da minha vida e depois que
estivermos mortos e unidos no céu.
Katharina fez o mesmo juramento e, independentemente do
que os esperasse no futuro, ela e Adriano estariam ligados
para sempre.
Desfrutaram uma semana de amor como marido e mulher,
ambos imaginando o que tinham feito para merecer tamanha
felicidade, cada qual prometendo a Deus realizar grandes
obras e favores em recompensa por esta alegria.
Num amanhecer, eles rastejaram para fora da tenda a fim de
se banhar no rio. Adriano enrolou-se no seu manto de
cavaleiro, Katharina juntou-se às outras mulheres e crianças
em outra parte do rio, brincando com Bulbul na água e
dizendo-lhe, como fazia diariamente, que em breve ele se
reuniria ao seu avô e seus primos. Quando ele perguntava,
como sempre fazia, se sua mãe estava indo para lá, Katharina
respondia:
— Não sei, talvez. — Era pelo menos uma meia-verdade. E
acrescentava: — Mas ela quer que você fique com seu avô,
que o ensinará a montar num cavalo. — Pela primeira vez,
contudo, ela lamentou ter de entregar o garoto à família, pois
rias semanas desde a partida de Constantinopla começara a
amá-lo.
Ela o estava enrolando numa toalha quando ouviu o primeiro
grito. Voltando-se, viu homens a cavalo, agitando enormes
espadas, galopando pelo acampamento.
Katharina pegou o garoto e correu. Alcançou a parte do rio
onde os homens se banhavam e viu que tinham sido pegos
de surpresa. Na confusão viu Adriano, realçado pelo manto
de cavaleiro, sua alvura reluzindo ao sol da manhã. Ela o
chamou no justo momento em que uma espada era enfiada
nas suas costas, diretamente no centro da cruz azul de oito
pontas. Olhou horrorizada enquanto ele abria os braços e a
seguir desabava sobre os joelhos, e depois caía sobre o rosto,
uma faixa de sangue fluindo das costas. Ela viu a espada
sendo erguida bem alto e depois baixada sobre o pescoço de
Adriano. Virou-se e tapou os olhos de Bulbul enquanto
ouvia o som seco de uma cabeça sendo decepada do corpo.
Katharina voltou-se e correu, mas foi alcançada pelos
atacantes. Bulbul foi arrebatado de seus braços. Ela observou
horrorizada enquanto o garoto voava pelo ar, como se fosse
um pássaro sem peso, e depois caía de ponta-cabeça num
rochedo, o crânio infantil arrebentando-se como um melão.
E a seguir uma dor aguda encheu sua própria cabeça e a
escuridão a engolfou como uma noite súbita.
Ao recobrar a consciência, Katharina viu-se num complexo
com outras mulheres, algumas chorando, outras furiosas, e
umas poucas abatidas e desoladas. Ela não se lembrava de
nada. A cabeça doía e sentia-se nauseada.
Onde estava? Esfregou os olhos e olhou em volta. Pelo que
pôde ver, ela e as outras estavam num recinto improvisado
com paredes feitas com pele de cabra. Não havia nenhum
abrigo debaixo do sol abrasador, exceto uma árvore
desfolhada que espalhava galhos secos e quebradiços. Além
das paredes de pele de cabra e da fumaça das fogueiras, ela
pôde ouvir gritos, discussões e o galope de cavalos.
Quando a cabeça começou a clarear e a náusea passou, mas
sem que ainda toda a sua memória retornasse, ela viu
homens inspecionando rudemente as garotas, desnudando-
as. Como lhe pareceu que não tinham nenhum interesse em
usar as mulheres sexualmente, ocorreu-lhe que deviam ser
traficantes de escravos.
A caravela grega! O palácio do sultão! De novo, não!
Katharina recuou até tropeçar e cair de encontro ao tronco
de uma velha árvore morta. Levando a mão ao peito, sentiu
alguma coisa sob o vestido. Tirou-a e ficou surpresa ao
descobrir uma pequena bolsa de couro numa correia. Era
vagamente familiar e ela suspeitou de que devia ser
importante, de modo que a retirou apressadamente do
pescoço e a enfiou num olho de nó no tronco da árvore,
tomando cuidado para não ser vista.
Mas então os homens a alcançaram e começaram a comentar
excitadamente acerca de seu cabelo. Embora não entendesse
a língua, alguns gestos eram universais, e ela soube que tinha
algum valor para eles. Despiram-na e a examinaram por
completo. Finalmente, quando terminaram com todas as
mulheres cativas, recolheram todas as roupas e pertences e
distribuíram mantos grosseiros de lã barata. Quando as
cativas foram deixadas em paz e o sol começou a se pôr, e as
outras mulheres sentaram- se em grupos para lamentar e
chorar, Katharina rastejou de volta à árvore e discretamente
retirou a bolsa escondida, devolvendo-a ao seu lugar seguro
em volta do pescoço.
Foi durante a noite que tudo voltou a ela, pois sonhou com
Adriano e Bulbul, e despertou aos gritos. E quando a
percepção plena do que havia acontecido e da sua nova
situação a atingiu com força brutal, ela começou a chorar tão
amarga e desconsoladamente que as outras a deixaram
sozinha.
Katharina viveu num estado de torpor depois disso,
ignorando as abordagens das outras mulheres, não
respondendo a perguntas, só bebendo água quando era posta
nos seus lábios, mas recusando comida enquanto ficava
sentada olhando fixamente para o horizonte distante.
Adriano, jazendo morto com uma espada enfiada entre as
omoplatas.
Bulbul, com o crânio arrebentado num rochedo.
Ainda assim ela estava viva, e era novamente uma escrava.
Quando uma das mulheres da tribo veio lavar o cabelo de
Katharina, ela não questionou nem protestou. A tarefa da
mulher foi vigorosa e completa, e quando o cabelo secou, ela
penteou as madeixas douradas e chamou as outras no
cercado para admirar os lindos cachos da cor do sol. No dia
seguinte a mulher retornou com sabão e uma faca afiada, e
desta vez raspou a cabeça de Katharina, juntando os cabelos
num cesto. Mais uma vez Katharina não protestou e ficou
olhando para o deserto que se estendia até o infinito.
Uma semana mais tarde, porém, Katharina viu uma mulher
que, a julgar pelas muitas moedas que usava, era a esposa
principal do chefe, orgulhosamente ostentando uma peruca
loura feita de modo rudimentar. No seu estado de torpor,
Katharina vagamente imaginou por que essas mulheres iriam
se incomodar com perucas se tinham de manter as cabeças
cobertas. E então, naquela noite, ela ouviu gemidos de êxtase
sexual provenientes da tenda do chefe e se lembrou
dolorosamente de como Adriano adorava passar as mãos
pelo seu cabelo.
Na manhã seguinte, um homem entrou furioso no cercado.
Agarrou a cabeça de Katharina e examinou-a como se fosse
um melão. Depois começou a gritar pela mulher que lhe
pelara a cabeça. Não entendendo a língua, Katharina não
podia imaginar do que se tratava, mas a palavra "Zhandu"
repetia-se, e o homem gesticulava sem parar em direção ao
leste.
Por intermédio de suas companheiras de cativeiro, Katharina
descobriu que aquela gente era da tribo kosh, famosos
mercadores de escravos da região, um povo arrogante que
acreditava ser o primeiro a ser criado pelos deuses e que
todas as outras raças vieram depois e portanto criadas para
servi-los.
Uma sociedade nômade guerreira que não se miscigenava
com outras raças por considerarem-nas inferiores, os kosh
tinham rostos redondos e chatos e olhos oblíquos, e nunca
tinham visto um cabelo como o de Katharina. Montavam
cavalos fogosos de pelagem lanosa e crinas emaranhadas.
Quando desmontaram o acampamento e começaram a
jornada para o leste, Katharina mais uma vez não questionou
nem reclamou do seu destino. Mas enquanto cobriam
muitos quilômetros, parando brevemente em assentamentos
para vender sua mercadoria humana, sendo ela própria
mantida à parte do leilão, Katharina começou a perceber que
os kosh a estavam levando para um lugar chamado Zhandu.
Enquanto caminhava ao lado dos cavalos e dos camelos de
duas bossas dos kosh, Katharina ignorava as areias
escaldantes sob os pés descalços, a fraqueza dos ossos, a
fome no estômago. Só pensava em Adriano: onde estava sua
alma? Tinha voado de volta à Espanha e estava agora na sua
amada Aragão? Ou seguira para Jerusalém e era agora uma
das sombras numa pequena igreja dedicada à Virgem
Santíssima? Ou pairava sobre as cabeças de seus camaradas
na irmandade em Creta, incentivando-os silenciosamente na
sua luta contra os infiéis? Às vezes, tarde da noite, quando o
vento soprava lamentosamente e Katharina olhava para as
estrelas, quase podia sentir Adriano a seu lado, um fantasma
consolador ansiando tomá-la em braços corpóreos.
E então, uma noite, um homem veio inspecioná-la e discutiu
animadamente com a mulher que se tornara responsável por
ela. Katharina já ouvira o dialeto kosh o suficiente para
captar algumas palavras rudimentares, e percebeu que a
mulher estava cobrando um preço exorbitante por ela.
Quando o homem exigiu saber por que, a mulher apontou
para a barriga arredondada de Katharína e disse: "Há uma
criança ali."
E Katharina saiu instantaneamente do seu estado de torpor.
Ela olhou para baixo, maravilhada, e deu-se conta de que a
mulher estava certa, pois na sua apatia não notara que sua
menstruação não aparecera, nem percebera que a barriga
havia crescido apesar de comer pouco.
O filho de Adriano.
Por fim, conseguiu tirar a bolsa de couro do Frei Pastorius de
debaixo do manto encardido e examinar seu conteúdo. E
quando viu a pequena recordação de Badendorf e a
miniatura de Santa Amélia com o cristal azul, ela chorou de
novo. Mas mesclada com o seu pesar estava a centelha de
uma nova esperança — uma parte de Adriano ainda vivia.
A imensa caravana dos kosh continuava seguindo para leste,
só parando para vender escravos e se abastecer,
aprofundando-se cada vez mais nas regiões mais misteriosas
e distantes do mundo que Katharína conhecia. Embora seus
captores a alimentassem, era apenas o bastante para mantê-la
viva, e agora Katharina queria muito viver. Assim passou a
lutar por nacos extras de comida e ainda roubava das outras,
a fim de alimentar a nova vida que crescia dentro de si.
Achava que os kosh eram uma raça selvagem, sem deus, e
brutal além do imaginável. Quando um criminoso era
decapitado, a tribo jogava pólo com a sua cabeça. Os casa-
mentos eram primitivos, a noiva em potencial pulando num
cavalo e afastando-se a galope com os pretendentes em sua
perseguição. O homem que a capturasse e a derrubasse por
terra tornava-se o seu marido. Os kosh faziam seus escravos
trabalhar até a morte e deixavam os corpos insepultos para
trás. Ainda assim eles riam, dançavam e cantavam bastante, e
tomavam uma bebida fermentada tão forte que apenas os
seus eflúvios deixavam Katharína tonta.
Depois de algum tempo, observando e ouvindo, ela
aprendeu a língua deles, como tinha uma vez aprendido
latim e árabe, pois isto poderia significar sua sobrevivência e
da criança no seu ventre.
"Finalmente, enquanto os kosh hibernavam num platô entre
antigas muralhas esfareladas construídas por uma raça
esquecida, o bebê de Katharina nasceu, uma menina de
cabelo claro que com seu choramingo abriu uma fratura no
muro de pedra que envolvia o coração da mãe. Chamou-a de
Adriana em homenagem ao pai e, à medida que os dias e
semanas passavam, enquanto dava de mamar à criança e a
embalava e mimava, Katharina experimentou uma mistura
da sua tristeza com o início de uma nova alegria inesperada.
A filha de Adriano, com seu cabelo parecendo um tosão.
Mas ela havia nascido abaixo do peso e estava lutando para
sobreviver. O leite de Katharina secou muito repentina-
mente e ela teve de brigar de novo por comida.
Quando o chefe e a esposa principal vieram inspecionar,
viram o cabelo dourado da bebê e assentiram com satisfação,
e mais uma vez Katharina ouviu-os dizer a palavra "Zhandu"
e soube que ela e a filha estavam sendo guardadas para
alguém especial.
Enquanto transpunham as montanhas da Grande Dor de
Cabeça, os kosh acamparam num desfiladeiro circundado
por altos picos nevados e uma noite ouviram um som
parecendo um trovão que alarmou Katharina, mas apenas
excitou seus captores. Ao amanhecer, eles enxamearam à
frente a pé, escalando o desfiladeiro até que chegaram ao
local da avalanche recente. Cavaram freneticamente na
neve, uma empreitada dura que exigia o trabalho de todos,
mesmo das cativas, até que seus esforços foram
recompensados. Dando gritos de alegria os mercadores de
escravos descobriram os corpos e a carga da infeliz caravana
que fora apanhada pela avalanche. Katharina de início
pensou que estavam procurando sobreviventes. Mas quando
uma vítima ainda viva foi descoberta, mataram-na a
porretadas, pois os kosh só estavam interessados no butim.
Enquanto ela observava a pilhagem obscena e ouvia os
abafados gritos de socorro, os captores de Katharina
aliviaram os mortos e moribundos de suas roupas e jóias e
carregaram bastante riqueza aquele dia, pois tinha sido uma
caravana procedente da China, abarrotada de ouro e seda.
Quando a caravana kosh recomeçou sua jornada optou por
uma rota alternativa, pois o desfiladeiro não estaria
transitável antes da primavera, quando a neve derretida e os
corpos de homens e animais seriam carregados para longe.
Katharina teve visões maravilhosas e terríveis durante sua
permanência com os kosh, e os observou como duas
pessoas: a Katharina que se maravilhava com a diversidade
do mundo, e a Katharina que segurava a filha de Adriano no
seu peito e chorava silenciosamente.
Somente uma vez tentou escapar. Numa encruzilhada
haviam passado por um vasto acampamento onde centenas
de cavalos, camelos e pôneis estavam bebendo e a fumaça de
mil fogueiras erguia-se calorosamente para o céu. Quando os
traficantes de escravas com cabelos de fogo acamparam rio
acima, a uns dezesseis quilômetros da encruzilhada,
Katharina esperou até que o acampamento estivesse
silencioso e adormecido para escapulir da tenda das cativas,
desatar um cavalo e, com Adriana amarrada com segurança a
seu peito, cavalgar em fuga.
Foi capturada poucos metros além do perímetro, arrastada de
volta e espancada severamente à vista de todos. Depois disso,
sempre que a caravana se avizinhava de outros viajantes ou
assentamentos, alguém tomava Adriana de Katharina e ficava
com a bebê até que prosseguissem viagem. Isto evitava que
tentasse novas fugas.
Atravessaram as dunas vermelho-douradas do amaldiçoado
deserto de Takli Makan, onde miragens e sons sinistros
assombravam os viajantes incautos até a morte. Aqui as
areias mudavam tão rápida e imprevisivelmente que a trilha
logo ficava coberta. Portanto, os que passavam por este
caminho erguiam torres de ossos de animais para marcar o
caminho para os outros. Quando os kosh construíram estas
torres do deserto, elas eram feitas de ossos humanos. A
caravana serpenteou através de gargantas de rios nevoentos e
terras de pastagem ventosas. No calor do verão só viajavam à
noite; no inverno enfrentavam nevascas e geleiras.
Levou mais dois anos até os kosh alcançarem o seu destino
no alto das montanhas, num ponto remoto longe da Estrada
da Seda, onde sentinelas montavam guarda em estranhas
torres de pedra. E quando por fim chegaram ao ponto final
de sua rota, na base de um platô coberto de nuvens onde
diziam que nenhum estrangeiro podia ir, Katharina perma-
necera com os mercadores de escravos por quase quatro
anos. Seu cabelo crescera de novo, descendo pelas costas, e
ela estava com 23 anos de idade. Adriana, sua filha, estava
com três anos.
O caminho para Zhandu era um íngreme e estreito
desfiladeiro de montanha que cada vez mais se inclinava e
estreitava. A subida era em fila indiana ao longo deste
precipício, cercado de ambos os lados por enormes paredes
de rocha montanhosa da cor do ferro. Ao fim da perigosa
trilha erguia-se um elevado portão de madeira, da espessura
de muitos braços, encimado com pregos e homens armados
de lança. Não havia outro caminho para o platô a não ser
este portão, e só aqueles com permissão do Governante
Celestial podiam passar. Era desta maneira que Zhandu
permanecera por séculos isolado do mundo.
Após ter permissão de cruzar o portão, a caravana dos kosh
prosseguiu até transpor a Ponte Celestial, uma proeza de
engenharia em mármore e granito fixada sobre pilonos
maciços através dos quais rugia um rio verde-esmeralda e
branco de espuma, inchado pela neve derretida das
montanhas. Aqui se espalhava um platô que dava a sensação
de se estar no topo do mundo — um panorama repleto de
árvores verdes e campos férteis. Os olhos de Katharina se
arregalaram maravilhados com os hectares de frutas, flores e
relva, pois nunca vira nada que se assemelhasse tanto ao
Jardim do Éden. E no centro deste fabuloso platô erguia- se
uma cidade de cúpulas e espiras e muros brancos que parecia
de fato ondular à luz intensa do sol.
Os kosh acamparam no platô à sombra de Zhandu, com seus
domos resplandecentes cor de turquesa e torres de cristal
por trás de muralhas intransponíveis. Não era qualquer um
que recebia permissão de entrar; milhares acampavam na
planície e somente podiam olhar em admiração para uma
cidade que era às vezes engolfada por nuvens baixas, de
modo que parecia estar flutuando.
Quando um representante cavalgou para fora da cidade a fim
de confabular com o líder kosh, Katharina perguntou a uma
das mulheres o que os kosh, e todos os outros mercadores
acampados na planície, queriam de Zhandu. O que os
motivara a empreender uma viagem tão longa e perigosa até
aquele lugar no fim do mundo? A curta resposta foi que
Zhandu possuía tanta riqueza que nem sabiam o que fazer
com ela. Eles pagavam qualquer preço que fosse pedido e
nunca regateavam. E então, quando Katharina viu iaques
carregados com pilhas de maravilhosas peles brancas e lhe
disseram que era o pagamento por ela, lembrou-se de quão
valiosas eram essas peles, chamadas de arminho, lá em
Constantinopla e até mesmo na Europa, e era espantoso
como as entregavam como se fossem prosaicas fôrmas de
pão. O que seus captores disseram era verdade. Claramente
Zhandu pagava qualquer preço, não importava o quão
exorbitante, e não ligava se era um preço justo ou não.
Katharina montou numa mula, com Adriana no colo, atada
ao camelo de duas corcovas do representante, que viajava
dentro de uma liteira acortinada, de modo que ninguém
podia vê-lo. Acompanhando-os, ia uma centena de guardas
em uniformes perfeitamente combinados de pantalonas
azuis, túnicas escarlates e turbantes amarelo-canário.
Enquanto o peculiar cortejo transpunha os monumentais
portões da cidade, Katharina deu uma olhada para trás e viu
que os kosh já desmontavam as tendas para partir, sem
dúvida ansiosos para retornar à civilização e obter um lucro
cem vezes maior com suas peles de arminho.
Katharina e a filha não foram levadas para muito longe na
cidade. Quase imediatamente foram desmontadas da mula
por uma equipe de criados vestidos de azul e vermelho
usando chinelos peculiares com a ponta curvada para cima.
Passaram rapidamente por uma porta num muro onde foram
entregues a um camareiro suntuosamente trajado que, sem
dizer palavra, as apressou por um comprido corredor. Depois
subiram três escadarias sinuosas, desceram mais corredores,
passaram debaixo de arcadas e através de portas muitas vezes
mais altas do que um homem, até que sem a menor
cerimônia e sem qualquer palavra foram depositadas num
jardim contendo os pássaros de aspecto mais notável que
Katharina já vira: criaturas enormes de um rosa brilhante que
se apoiavam numa só perna.
Surgida não se sabe de onde, uma mulher de aspecto
impressionante veio flutuando num mar de rosa. Tinha o
mesmo rosto redondo e os olhos amendoados dos kosh, e
faltava um dente no seu sorriso. Seu penteado era espantoso:
as longas madeixas vermelhas arranjadas como duas enormes
rodas, uma de cada lado da cabeça, com faixas coloridas e
ornamentos de prata, ouro e pérolas. O bordado no seu traje
de seda era impressionante além da crença, mesmo para
Katharina, que já tinha visto trabalho de agulha excêntrico
no palácio do sultão. O pavão turquesa e dourado bordado no
traje da mulher parecia que ia subitamente espalhar as penas
de sua cauda e andar pomposo para fora do tecido.
Ela vinha com uma expressão feliz e esperançosa, notou
Katharina, mas seu sorriso murchou tão logo viu a cativa. A
mulher franziu o cenho para o comprido cabelo louro de
Katharina, depois fitou-a nos olhos.
— Ora, bolas! — disse ela e voltou-se para sair.
— Por favor, senhora — disse Katharina rapidamente na
língua dos kosh.
A mulher se voltou, um ar de surpresa no rosto.
— Você fala nossa língua? — perguntou.
— Estive com o seu povo por quatro anos — disse Katharina,
supondo pelas feições nítidas da mulher que ela era kosh. —
Por favor, podemos ir, eu e minha filha?
A mulher olhou para Katharina como se ela fosse uma
simplória, fez outro gesto impaciente, deslizando fora de sua
nuvem de seda.
Voltando-se para o camareiro, um homem usando um
comprido manto de seda escarlate e um chapéu preto de
seda, Katharina disse:
— Devo partir. Vocês não podem me manter aqui.
Ele lançou-lhe um olhar igual ao da mulher:
— Você pode ir — disse, com indiferença. — A Suprema
Irmã não quer você. — Ele também falou em dialeto kosk,
mas uma versão modificada, que Katharina levou algum
tempo para entender.
Ela pestanejou.
— Posso sair deste lugar? Posso deixar Zhandu? Eu e minha
filha? Não somos prisioneiras?
— Você deve partir. Não mantemos prisioneiros e não
gostamos de hóspedes. — Ele franziu o nariz como se
detectando um odor. — Os guardas as levarão de volta ao
portão.
— Agora? Mas não temos dinheiro nem comida.
— Isso não é da nossa conta.
— Então por que fomos trazidas para cá?
Ele fez um aceno, descartando.
— Houve um engano — disse, vagamente. — Você terá que
partir.
Katharina observou-o se retirar. Tentou protestar quando
homens em pantalonas e túnicas de seda coloridas a
arrastaram para o jardim. Eles não eram ameaçadores, como
tinham sido os guardas e eunucos no palácio do sultão, mas
exibiam a impaciência de homens ansiosos por seu almoço.
Ela tentou argumentar com eles.
— O povo que me trouxe para cá, os kosh, já estava partindo.
Jamais conseguirei alcançá-los. Para onde vou com minha
filha?
Mas eles apressaram o passo até que ela apertou Adriana nos
braços e disparou por um longo corredor que parecia levar
apenas a mais corredores. Quando olhou para trás, os guardas
haviam desaparecido.
Olhou em torno, perplexa. O que deveriam fazer agora? Não
podiam partir e não podiam ficar!
Quando Adriana disse "mamãe" e descansou a cabeça no seu
ombro, Katharina percebeu que a provação a deixara
fatigada. A pobre menininha, nascida abaixo do peso e agora
pequena para a idade, conseqüência da vida dura e de
privações entre os kosh. E como os kosh não se
incomodaram em alimentá-las naquela manhã, mais
provavelmente achando que seria desperdício de comida já
que iam ser vendidas para Zhandu, Adriana estava mais
enfraquecida ainda. Katharina decidiu que iria encontrar um
lugar para esconder-se durante a noite e imaginar o que fazer
pela manhã.
Depois de vaguear por mais corredores infinitos, descobriu
que o palácio de Zhandu parecia uma colméia, com
cortesãos elegantemente vestidos indo e vindo, inclusive
mulheres, um agudo contraste com a corte segregada de
Constantinopla. Todos tinham as feições asiáticas e o cabelo
ruivo dos kosh, portanto Katharina especulou se as duas
raças tinham brotado dos mesmos ancestrais remotos. Os
homens usavam chapéus exagerados do tamanho de rodas de
carroça, as abas debruadas com pele, as copas altas e
pontudas. As mulheres armavam seus longos cabelos em
estilos impossivelmente intricados, cada qual mais exótico
que o outro, e todas pareciam ter um propósito enquanto
passavam com papéis e livros, instrumentos musicais e
travessas de comida, nenhuma prestando a menor atenção à
mulher em farrapos segurando uma criança apática.
Tentando evitar guardas ou qualquer um que pudesse
expulsá-las da cidade, Katharina apressou-se acima e abaixo
de corredores de mármore polido até chegar a uma ala
aparentemente deserta. Lá encontrou uma porta com teias
de aranha no seu lintel e, achando que era um cômodo
abandonado e, portanto um lugar seguro para se esconder,
empurrou a porta e entrou.
A luz filtrava-se pelas altas janelas estreitas, iluminando uma
torre de pedra redonda cheia, do chão ao teto, de todos os
tipos de armamento: espadas e lanças, machados e azagaias,
arcos e flechas, e muitos estilos de cotas de malha e
armaduras. Claramente tinha vindo parar num arsenal de
armas, mas havia algo estranho — tudo estava coberto de
poeira e festonado com teias de aranha, como se não tivesse
sido usado por décadas.
Katharina foi até a janela e olhou para fora. Da base do muro
de pedra, um precipício caía centenas de metros para uma
vasta planície abaixo que se estendia pelo horizonte. De cada
lado, montanhas escarpadas perfuravam o céu com picos
permanentemente cobertos de neve. Lembrando o que lhe
tinham dito acerca do estreito desfiladeiro ser o único meio
de chegar a Zhandu, Katharína percebeu que nenhum
inimigo poderia atacar este reino encarapitado no alto da
montanha, e provavelmente nem tivesse tentado por
gerações. Portanto, os cidadãos desta fabulosa cidade não
haviam conhecido guerra ou invasores por séculos.
Ela encontrou mantas de lã estocadas numa arca e antigos
capacetes de couro que, enrolados na lã, poderiam ser usados
como travesseiros. Deixando Adriana a salvo no cômodo,
advertindo-a para que não tocasse em nada, Katharina saiu e
seguiu por um corredor onde se lembrou de ter visto o que
parecia ser o santuário de uma deusa. A estátua no nicho era
uma mulher esbelta com um sorriso piedoso; comida e velas
ardendo tinham sido deixadas aos seus pés. Notando uma
semelhança com a Virgem Santíssima, Katharina sussurrou
uma prece e tirou um pouco da comida e uma das velas,
sabendo que a deusa entenderia.
Ela e Adriana banquetearam-se com figos e bolos e uma
pequena jarra do que tinha gosto de suco de fruta morno.
Depois de comerem, Katharina realizou o ritual noturno que
iniciara quase no momento em que Adriana nasceu: ela
pegava a pintura de Santa Amélia e o caco de cerâmica de
Badendorf e contava à filha a história de sua vida. Falava
sobre Hans Roth e Isabella Bauer e das outras pessoas da
cidade, e depois contava a Adriana sobre a família que
esperava por elas onde quer que o cristal fosse encontrado
— um avô e possivelmente muitos primos, porque Isabella
havia mencionado os filhos de um nobre, que já teriam se
casado e tido filhos.
— Qual é o seu nome? — Katharina perguntava à filha todas
as noites.
E a cada noite a menina respondia:
— Adriana von Grünewald.
Quando via a filha bocejando, Katharina sabia que era hora
de uma história, para ajudar a menina a dormir em paz
durante a noite, porque Adriana com freqüência acordava
com pesadelos nos quais sonhava com os kosh.
— Era uma vez... — começou ela. — Katharina tinha
ensinado à filha a língua dos seus captores, pois algum dia
isto poderia significar a sobrevivência, portanto nesta noite
contou a história de Amélia e do cristal azul na língua kosh.
Mas uma vez que Katharina nunca ouvira falar de Santa
Amélia antes do dia em que sua mãe morreu, e não conhecia
a verdadeira história da santa, ela inventou uma — ...uma
boa e gentil dama chamada Amélia, que vivia nos bosques
perto de Badendorf. Amélia era muito pobre, exceto por um
tesouro precioso que lhe pertencia: um cristal azul perfeito
que Jesus lhe dera quando caminhava um dia nos bosques,
faminto, e ela deu-lhe pão e salsichas para comer. Bem, no
castelo no alto da montanha morava um rei malvado que
queria o cristal azul...
Ignorando as fugitivas escondidas no arsenal abandonado,
um velho usando chinelas brancas e um longo manto branco
percorria os corredores do palácio quando ouviu a voz.
Parando para ouvir melhor, encostou o ouvido na porta.
Quando, minutos depois, ouviu as palavras "e Amélia e o
belo príncipe viveram felizes para sempre", empurrou a
porta e bateu palmas.
Katharina olhou com um sobressalto.
— Conte outra história — disse o homem numa variação do
dialeto kosh peculiar em Zhandu, e a seguir sentou-se no
chão, cruzando as pernas.
Katharina olhou fixamente para o intruso. Ele era muito
velho e sua cabeça era perfeitamente redonda, como uma
laranja, e calva exceto por uma franja de cabelo branca. Os
olhos eram amendoados como aqueles dos kosh, com uma
qualidade estrábica que fazia-o parecer estar sorrindo quando
na verdade não estava. Tudo nele parecia redondo: a barriga
sob o manto branco, a ponta do nariz e as bochechas que se
erguiam quando sorria, o que parecia ocorrer sem qualquer
motivo. Seria ele um retardado? especulou ela.
— Outra história — repetiu, desta vez um tanto impaciente.
Katharina olhou para Adriana, que olhava fixamente para o
peculiar visitante. Durante sua curta vida entre os kosh ela
aprendera a ficar quieta na presença de estranhos e a não
chamar a atenção para si.
Vendo que o peculiar homenzinho não iria embora até ter
ouvido uma história, Katharina decidiu-se por "Chapeuzinho
Vermelho", que era curta, na esperança de que ele depois se
fosse.
Mas quando acabou, tendo o caçador matado o lobo, o velho
bateu palmas, riu com suas gengivas desdentadas e pediu-lhe
que contasse outra. Katharina alegou que a menina estava
com sono. Ele ficou irritado. Quando ela disse que seria
bem-vindo se voltasse no dia seguinte, o velho começou a
gritar e, de súbito, guardas armados de lanças se mate-
rializaram do nada.
Katharina ficou de pé, Adriana nos seus braços, e recuou das
lanças com pontas de ouro. Enquanto o velho continuava a
arengar de modo tão incoerente que Katharina não
conseguia entender o que estava dizendo, outra pessoa
apareceu subitamente como se do ar, fazendo-a imaginar se
não andara à procura do velho.
Era a mulher do jardim, cujo camareiro chamara de Irmã
Suprema, agora trajando um manto de seda bordado com
flores tão impressionantes que Katharina pensou que podiam
atrair abelhas.
— Por que ainda se encontra aqui e por que está afligindo
meu irmão? — perguntou a mulher.
— Não tínhamos para onde ir....
Ela berrou para os guardas, que deram um passo à frente.
— Por favor, senhora — disse Katharina. — Deixe-nos ficar
apenas mais um pouco. Minha filha não está bem.
— Isto não é da minha conta — rosnou a mulher.
— Mas é claro que é! Fui trazida para cá pelos kosh. Eles me
venderam a vocês.
— Sim, mas não podemos usá-la. Portanto, tem que ir
embora.
— Não posso ir! Minha filha não está bem!
Os olhos amendoados voltaram-se na direção de Adriana.
— O que há de errado com ela?
— Não fomos alimentadas direito pelos kosh. Deram-nos
restos que nem seus cachorros comeriam. Ela não teve
alimento suficiente quando era bebê. Preciso fazê-la
recuperar a saúde.
— Os kosh são uns porcos — cuspiu ela no dialeto dos
"porcos". — Ainda assim, você deve partir.
— Mas posso trabalhar para pagar por nossa estada — disse
rapidamente Katharina, desesperada. — Sei bordar. Faço
trabalho de agulha muito bom.
— Ora! Estamos cheios de mulheres fazendo bordado. Eu
também bordo. E posso dizer que melhor do que você. —
Quando já ia se retirar, a Suprema Irmã foi detida pelo velho,
que a puxou pela manga e sussurrou-lhe algo no ouvido. Ela
voltou-se e estreitou os olhos para Katharina. — Meu irmão
diz que você conta histórias. Que histórias?
Katharina ficou logo na defensiva. Seria um crime contar
histórias neste lugar?
— Eu só estava contando histórias para crianças, contos de
fada, que não causam nenhum dano.
— Conte-me uma.
Que tipo de gente era esta? Será que tinham medo de
histórias?
— Mas são apenas histórias de fada. São inofensivas, senhora.
— Quero ouvir. — E, para surpresa de Katharina, a mulher
sentou- se no chão e cruzou as pernas, como o velho tinha
feito.
Katharina tentou pensar na história mais inofensiva que
conhecia, no caso de suas histórias causarem uma ofensa
involuntária que lançassem ela e Adriana numa masmorra.
Optou por "Rapunzel" e instantaneamente teve uma platéia
embevecida, incluindo sua própria filha, o velho, a irmã dele
e os guardas, que haviam se aproximado para ouvir. E
quando chegou ao fim e contou como Rapunzel tinha
enganado a bruxa, todos riram e bateram palmas com
satisfação, de Adriana ao mais feroz dos guardas.
A atitude da mulher mudou instantaneamente.
— Esta foi uma boa história — disse, o rosto redondo
irradiando um sorriso. — Conte outra.
— Mas, senhora, minha filha está cansada e fraca. Ambas
estamos exaustas.
— Outra história, depois vocês podem dormir.
Quando Katharina chegou na metade de "A tartaruga e a
lebre", Adriana estava adormecida em seus braços. Mas sua
singular platéia continuava mais alerta e atenta do que
nunca, mal respirando ou piscando enquanto bebiam cada
palavra que ela pronunciava. E quando chegou ao final,
todos riram e deram vivas à tartaruga.
Katharina maravilhou-se com a reação daquelas pessoas a
histórias tão simples que achava que fossem universais. Em
casa, só se podia contar tais histórias a crianças que nunca as
tinham ouvido, pois do contrário a platéia se entediava e
exigia alguma história nova. Teria o isolamento do povo de
Zhandu resultado numa carência de novas histórias?
especulou ela. E, entediados com os seus, ansiavam por
novos mitos e lendas tal como as outras raças ansiavam por
ouro e vinho?
A Irmã Suprema levantou-se.
— Você pode ficar. Contará histórias para nós.
A mente de Katharina disparou, cheia de esperança.
— Podemos ter um quarto para nós?
— Enquanto tiver histórias para nos contar.
— E comida para minha filha?
A mulher desviou os olhos, depois torceu o nariz e disse:
— Ela está franzina — disse. — Precisa engordar. Conte-nos
histórias e terão um ótimo alojamento, roupas boas e comida
farta. — Ela riu de seu próprio emprego das palavras. — Meu
irmão está muito feliz — disse, dando uma pancadinha no
braço do velho. — Ele providenciará para que vocês também
sejam. — Mas Irmã Suprema acrescentou: — Vocês viverão
conosco para sempre.
O alívio de Katharina transformou-se em pânico.
— Mas preciso ir para Jerusalém.
— Hã? Onde fica isso?
Katharina ficou momentaneamente sem fala. O mundo
inteiro ouvira falar de Jerusalém.
— É uma cidade... — começou a explicar, mas foi contida
por um gesto de impaciência.
— Depois de contar todas as histórias, poderá partir.
— Vou precisar de dinheiro para a viagem.
A mulher deu de ombros.
— Dinheiro não nos falta. Conte histórias e vai ficar rica.
Assim Katharina ficou sabendo que se tornara a contadora de
histórias para o Governante Celestial, rei de Zhandu, e para
Rosa de Verão, sua irmã.
Na primeira noite de histórias, quando ela e Adriana foram
conduzidas aos aposentos reais, Katharina recebeu um
choque. Em vez de apenas o rei e sua irmã, viu-se diante de
uma platéia de centenas.
Não ficou intimidada. Contar uma história para uma criança
ou para trezentos adultos era a mesma coisa: prender sua
atenção, dar-lhes um herói, mantê-los numa expectativa
angustiante, e depois recompensá-los com um final feliz.
Enquanto narrava, escribas sentados em escrivaninhas
elaboradamente entalhadas, com pergaminhos, penas e
tintas, registravam suas histórias na intrincada caligrafia de
Zhandu. Isto seria copiado, disseram-lhe, e distribuído por
todo o reino para que outros contadores de histórias lessem
para os mais influentes cidadãos.
Ela narrou para o Governante Celestial e sua corte histórias
das florestas de sua terra natal — "O Príncipe Sapo", "Branca
de Neve" e "As doze princesas dançarinas". Quando os
contos folclóricos alemães se esgotavam, ela contava a vida
de Jesus e dos santos, e depois histórias de Maomé que
ouvira em Constantinopla. As preferidas eram histórias re-
pletas de seres assombrosos tais como sapos falantes,
macacos dançarinos, cavalos voadores e ogros que se
escondiam debaixo de pontes para capturar passantes
incautos. E milagres e maldições não faltavam. A cada noite
ela deliciava a platéia crescente, e a cada dia era recompensa-
da com a prometida moeda de ouro, comida farta e a
liberdade que a cidade oferecia. Deste modo, Katharina
aprendeu que as pessoas eram as mesmas em todo lugar,
fossem campônios em uma fazenda na Alemanha, ou
mágicos em algum antigo reino montanhoso, pois o povo de
Zhandu ria quando camundongos enganavam os gatos,
choravam quando belas heroínas morriam e aplaudiam
quando valentes heróis saíam vitoriosos. Horrorizavam-se
quando a rainha má acreditava estar comendo o coração de
Branca de Neve; gritavam "Cuidado!" quando Chapeuzinho
Vermelho encontrava o lobo na floresta; estremeciam quan-
do Katharina descrevia as grandes florestas sombrias onde
viviam sapos e ogros malignos; zombavam da pobre raposa
que dizia que as uvas estavam verdes; e batiam palmas
quando o heróico Siegfried tomava o tesouro mágico dos
Nibelungos. Mas a história que preferiam era aquela da
garota cuja mãe no leito de morte diz a ela que vá em busca
do seu pai, e ao longo do caminho a garota encontra muitas
aventuras e percalços. E quando Katharina concluía a
história, todos perguntavam: "A garota encontrou o pai?" E
então ela contava-lhes que era sua própria história e eles
aplaudiam e diziam que era a melhor de todas.
Pela primeira vez desde o acampamento junto ao riacho cor
de esmeralda, Katharina conhecia a felicidade. Zhandu era
um fabuloso espetáculo de cumes de montanha nevados e
vales musgosos, cúpulas douradas e espiras de marfim. Tudo
tinha um nome deliciosamente sonoro: Portão de Jade,
Palácio da Felicidade Celestial, Salão das Contemplações
Alegres. Os poucos visitantes que vinham do mundo
exterior eram trazidos para a frente do Espelho das Verdades
Ocultas, e um feiticeiro — ele era o Wu, que na língua
ancestral significava "mágico" — examinava o reflexo para
julgar a honestidade da pessoa. A cada noite um exército de
cozinheiros criava milagres culinários: torres de algodão de
açúcar, maçapão moldado em forma de flores e animais,
bolos multicoloridos que derretiam na língua. Raras e
caríssimas ovas de peixe, trazidas em etapas persistentes do
longínquo norte, eram arrumadas com esmero sobre pães e
biscoitos finos. O vinho era gelado com neve trazida das
montanhas.
Quando Katharina havia chegado lá com os kosh, ficara
maravilhada com a riqueza em peles de arminho que os kosh
receberam em pagamento por ela, e imaginava se o povo de
Zhandu era tão rico a ponto de não se preocupar com
dinheiro. Mas agora descobria que não havia nada que o
mundo exterior pudesse oferecer: o povo de Zhandu
usufruía de árvores que davam frutos e nozes o ano inteiro;
campos de cereais e vegetais; caça em farta quantidade; uma
floresta inteira de colméias fornecedoras de mel; e água
fresca e saudável borbulhando de nascentes perenes. Poucos
estrangeiros tinham permissão de entrar, e menos ainda
eram convidados a comerciar. Emissários saíam,
inspecionavam os produtos em oferta e com freqüência
voltavam de mãos vazias. Zhandu tinha todas as sedas, jóias,
alimentos, vinho e confortos que se poderia desejar.
Exceto histórias. Porque, pela primeira vez em gerações,
alguém do mundo exterior trouxera algo novo.
Katharina e a filha ganharam aposentos fabulosos, com leitos
amplos com colchas de seda, roupas e jóias novas, toda
comida que podiam consumir, e a liberdade de circular pela
cidade — desde que retornassem à noite para a história do
Governante Celestial. Elas adotaram as maneiras e costumes
de Zhandu. E Katharina descobriu o segredo dos
inacreditáveis penteados das mulheres: penteados moldados
a partir de jade muito fino eram primeiro firmados no couro
cabeludo, e depois o cabelo comprido era penteado sobre a
moldura, com cachos e tranças acrescentados de modo que
nada do jade ficasse visível, dando a impressão de que o
cabelo era natural, todo fixado no lugar com compridas
varetas de marfim que pareciam agulhas de tricô. A mãe e a
filha estrangeiras usavam mantos compridos de seda e
chinelas com ponta virada para cima e a cada noite, depois
de contar as histórias, Katharina conferia a lentamente
crescente pilha de moedas, pensando no dia em que poderia
retomar sua jornada.
À medida que se ajustavam à vida neste reino notável, os
pesadelos de Adriana começaram a regredir: lembranças de
ter visto um homem sendo queimado por simples prazer,
tendo de brigar com cachorros por comida, ser tirada de sua
mãe como uma forma de punição. Também começou a
ganhar força e saúde. O médico da corte examinou a criança
e disse que ela sofria de uma fraqueza no sangue causada por
má alimentação enquanto estava no útero. Então prescreveu
um chá especial de Zhandu, que juntamente com a água que
Rosa de Verão alegava ser mágica e o ar puro devido à
altitude, tinha maravilhosos poderes curativos.
Mas o médico avisou que seria perigoso a garota viajar, pois
sua saúde estava garantida em Zhandu e iria piorar se ela se
afastasse das influências saudáveis do lugar. Katharina aceitou
o conselho, especialmente depois de uma vida repleta de
perigo, quando muitas vezes achou que a filha não
sobreviveria. Podia ver que aqui em Zhandu, afinal, Adriana
estava a salvo e segura. A menina conheceu pela primeira
vez a estabilidade de um lar, tal como Katharina conhecera
certa vez com Isabella Bauer em Badendorf. Será que ela
teria o direito de tirar isto dela?
E toda noite, após Adriana ter adormecido e o palácio
mergulhado em silêncio, Katharina sentava-se junto a uma
lamparina e olhava fixamente para a pintura de Santa Amélia
e o cristal azul. Jerusalém estava tão distante que parecia
quase inexistente, e agora fazia quase 25 anos desde que seu
pai partira e a deixara aos cuidados de uma costureira sem
vintém. Será que ele ainda estaria vivo?
Quando já estavam lá havia um ano e Katharina contava suas
moedas de ouro e imaginava se já tinham o suficiente para
deixar Zhandu, Rosa de Verão procurou-a.
— Venha comigo — disse ela.
Katharina automaticamente pegou a mão de Adriana, mas
Rosa de Verão disse:
— Deixe a menina. Poderá ficar assustada.
Mas Katharina nunca ia a lugar algum sem a filha, e assim
Adriana foi levada por um corredor desconhecido até uma
parte do palácio que Katharina jamais visitara antes. Rosa de
Verão parou diante de uma porta trancada e vigiada.
— Ele assustará você no início, mas não vai machucá-la —
disse, seriamente.
— Quem vou conhecer, senhora?
— Meu filho, o príncipe herdeiro de Zhandu.
Katharina ficou chocada. Nunca ouvira falar de um príncipe,
ou de quaisquer herdeiros do trono. Ficou ainda mais
surpresa ao ser introduzida através de mais duas portas
trancadas e vigiadas, e então ao mais deslumbrante aposento
que já tinha visto.
Nem uma única janela perfurava as paredes; nem uma réstia
de luz penetrava. Em vez disso, uma centena de lanternas
pendiam dos tetos altos, e chamas ardiam de candelabros ao
longo das paredes. O enorme aposento era encimado por
uma alta abóbada que havia sido pintada de azul com nuvens
brancas; o chão era dominado por um tanque cuja água se
encrespava com peixinhos dourados, e até mesmo uma garça
branca passeava entre os juncos. Arvores cresciam em
enormes vasos, e arbustos e todas as variedades de flores
floresciam em volta do tanque, dando a impressão de estar
ao ar livre embora não houvesse nenhum céu de verdade
acima. Tufos de grama cresciam aqui e ali e pisos de lajotas
tinham sido assentados. Seguindo Rosa de Verão, chegaram a
um agradável pavilhão igual àqueles dos jardins externos,
brilhantemente iluminado por lamparinas. Katharina não
podia crer nos seus olhos: gazelas pastavam entre os arbustos
e um pássaro cantou acima, sobressaltando-a. Era como se,
por alguma razão insondável, o mundo exterior tivesse sido
trazido para dentro.
— Fique calma — disse Rosa de Verão. — No começo ele
assusta as pessoas. Mas garanto-lhe que é inofensivo.
Katharina especulou se aquilo era uma espécie de prisão
onde mantinham o príncipe herdeiro, longe da luz do sol e
dos olhos de seus súditos, e tentou adivinhar qual tinha sido
o seu crime. Ela apertou mais a mão de Adriana e
tardiamente questionou sua decisão de trazê-la.
Seu nome era Lo-Tan, que significava "Dragão Feroz", e foi
explicado a Katharina que toda noite, quando ela contava
suas histórias para a corte de Zhandu, ele sentava-se
escondido atrás de um biombo, ouvindo. Mas agora ele
desejava conhecer pessoalmente a contadora de histórias.
Rosa de Verão continuou dizendo que por causa de seu filho
Katharina havia sido trazida a Zhandu. O Governante
Celestial expedira uma proclamação pedindo uma mulher
que se adequasse a uma certa descrição, com o intento de
casá-la com seu herdeiro. Quando Lo-Tan apareceu,
Katharina percebeu imediatamente por que havia sido
rejeitada tão logo
Rosa de Verão pusera os olhos nela: pois, por mais clara e
loura que fosse, não era tão branca quanto este jovem, de
fato tão pálido e sem cor que se tratava daquilo que
Katharina ouvira chamar de albino.
Teria ele recebido seu nome na esperança de que se
transformasse num dragão feroz? Porque para Katharina ele
mais parecia uma pomba, uma pomba imaculada, suave,
gentil e da cor de neve. Katharina ficou cativada pelos seus
olhos — pupilas vermelhas em íris cor-de-rosa. Eles se
fixaram nela de modo firme e confiante, e seu sorriso era
amistoso e desconcertante.
Antes que Katharina pudesse retribuir sua saudação
suavemente falada, Adriana livrou-se da mão da mãe e, em
vez de fugir como Rosa de Verão tinha temido, correu até o
príncipe.
— Você é um coelho? — perguntou, puxando a pantalona de
seda amarela dele.
— Adriana! — ralhou sua mãe.
Mas o príncipe apenas riu. Apoiando-se num joelho, ele
perguntou à menininha de cinco anos:
— Eu me pareço com um coelho?
Adriana franziu o cenho.
— Bem, você não tem as orelhas compridas.
Ele riu.
— É porque não as uso o tempo todo.
O rosto dela se iluminou.
— E mesmo? Onde você guarda elas?
Lo-Tan se pôs de pé novamente e falou para Katharina numa
voz tão suave quanto nuvens.
— A jovem dama me honraria contando uma história?
— A honra seria toda minha — disse Katharina, enrubescida.
E Rosa de Verão sorriu com lágrimas de alívio e gratidão nos
olhos.
Katharina e Adriana passavam as tardes no encantador
jardim interno, descobrindo piscinas e quedas d'água, mais
pássaros voando livremente, cervos domesticados. Como os
médicos da corte tinham avisado que qualquer exposição ao
sol podia adoecê-lo ou talvez até matá-lo, Lo-Yan nunca ia
além daquelas paredes. Mas Katharina não se importava, pois
encontrava paz e tranqüilidade na presença dele. E Adriana,
a quem ele dera o apelido de Mosca Feliz, adorava brincar na
sua terra encantada de mentirinha.
Timidamente, Dragão Feroz confessou a Katharina que
achava o nome dela inadequado e difícil de pronunciar,
portanto deu-lhe um nome novo: Wei-Ming, que significava
Lótus Dourado. Assim, quando Rosa de Verão procurou
Katharina uma tarde no Jardim das Reflexões de Paz, dirigiu-
se a ela como Lótus Dourado e disse solenemente:
— Você está pensando em nos deixar.
Katharina percebeu a tristeza no rosto redondo da mulher e
deu-se conta de quanto passara a gostar de Rosa de Verão e
de como lamentaria deixá-la.
— Sim. Já tenho dinheiro suficiente para pagar a passagem
numa caravana para Jerusalém.
— E levará sua filha?
Katharina não respondeu de imediato, pois ainda estava
indecisa. Adriana estava agora com cinco anos, uma criança
saudavelmente feliz com muitos amigos, sendo Dragão Feroz
o seu preferido. Ela era uma presença tão alegre na corte,
com seus mantos de seda em miniatura e o cabelo dourado
trançado em pontas, tagarelando em kosh como se tivesse
nascido ali, que se tornara a favorita de todos. Mas Katharina
dissera o tempo inteiro que a sua estada era apenas
temporária, que algum dia deveriam partir.
— Deixe-me fazer-lhe uma proposta — disse Rosa de Verão
num tom amável, entendendo o dilema da jovem mulher,
pois que mãe podia deixar sua filha para trás e partir numa
longa e imprevisível viagem? — Esta Jerusalém de que fala é
muito distante. Muitas coisas podem acontecer no tempo
que se leva para chegar lá. Você já foi seqüestrada e vendida
duas vezes. Poderia acontecer de novo. E Mosca Feliz ficaria
órfã, se deixá-la aqui. Se levá-la consigo, poderia ser morta
ou vendida para a escravidão, ou no mínimo ficar doente ao
ser afastada das influências climáticas saudáveis de Zhandu.
Katharina assentiu. Rosa de Verão não estava dizendo nada
que ela já não tivesse considerado. Parecia não haver
solução: ela precisava partir, embora não pudesse levar nem
abandonar a filha.
E então Rosa de Verão pronunciou palavras que, pela
primeira vez em sua vida, deixaram Katharina sem fala.
— Case-se com meu filho e encontraremos seu pai para você.
Quando Katharina não conseguiu responder, Rosa de Verão
falou rapidamente:
— Nossa dinastia precisa de herdeiros saudáveis. Você sabe
que meu irmão não tem descendentes vivos, e Lo-Tan é
meu único filho. Quinze anos atrás, quando Lo-Tan tinha
doze, enviamos uma proclamação procurando uma mulher
com as características dele. Achamos que era assim que
deveria ser feito. Mas agora pensamos que jamais
encontraremos uma mulher como ele.
Katharina se recuperou.
— Mas... eu não o amo.
Rosa de Verão olhou para ela, confusa.
— O que o amor tem a ver com o casamento? Eu não amei o
pai de Lo-Tan.
— E eu já me casei — disse Katharina, suavemente.
Rosa de Verão bateu na mão dela.
— Minha querida criança, o homem do seu coração está
morto. Você tem de viver sua vida. Estou certa de que ele
desejaria isto. Diga-me: você pelo menos gosta de meu filho?
— Oh, sim — respondeu Katharina, que desenvolvera uma
profunda afeição pelo gentil Lo-Tan, o homem mais amável
e modesto que já conhecera e que gostava muito de Adriana.
— Se casar-se com ele — continuou Rosa de Verão —,
poderá permanecer em Zhandu e expediremos proclamações
como já fizemos quando procurávamos por uma mulher
albina. Você já viu a que longas distâncias chegam as nossas
proclamações. Não a pegamos lá nos confins da Pérsia?
Também podemos alcançar Jerusalém. Todas as caravanas
param aqui, e todos os chefes de caravana conhecem as
riquezas que os esperam se trouxerem o que procuramos.
Desta maneira, Lótus Dourado, você não precisará ser
separada de sua filha, nem correr os riscos de uma viagem
tão longa e perigosa, e ainda encontrará seu pai!
— Preciso pensar a respeito — retorquiu Katharina.
E naquela noite rezou para Santa Amélia em busca de
orientação, segurando a pequena pintura que tinha uma
cópia em algum lugar do mundo, outra pequena pintura de
Santa Amélia e seu sagrado cristal azul, mais provavelmente
em poder de um nobre europeu com uma barba parecida
com uma refulgência dourada de sol, esperando que sua filha
o encontrasse. Rezou também pelo espírito de Dom
Adriano, a quem amaria pelo resto da vida, e finalmente
orou sobre a forma adormecida de sua filha, a pequena
Mosca Feliz, reluzindo de saúde e livre por fim dos
pesadelos.
À medida que a luz do sol filtrava-se através das cortinas de
seda de seu quarto na manhã seguinte, e Katharina ouvia os
sussurros dos cortesãos, e o retinir das fontes e o glorioso
canto dos pássaros, ela se admirou de sua hesitação. Porque o
que Rosa de Verão dissera era sábio: as proclamações de
Zhandu de fato alcançavam os confins do mundo e se
alguém fosse capaz de encontrar seu pai, seriam os
emissários deste reino montanhoso.
E, afinal, Katharina gostava de Lo-Tan.
E ela disse sim e, num glorioso dia de verão, quando todos os
cidadãos de Zhandu se uniram para a grande celebração,
Katharina Bauer-von Grünewald, de Badendorf, Alemanha,
mãe de uma criança de um cavaleiro da Irmandade de Maria,
Dom Adriano de Aragão, Espanha, casou-se com o sobrinho
albino do Governante Celestial e filho de Rosa de Verão, o
príncipe Lo-Tan, tornando-se a princesa Wei-Ming de
Zhandu.
Como prometido, o Governante Celestial enviou homens à
procura da pedra azul e de seu pai: mensageiros e emissários
carregando proclamações prometendo ricas recompensas a
qualquer um que voltasse com informações sobre a pedra
azul, ou trouxesse a própria pedra, ou um estrangeiro de
barba amarela.
A notícia se espalhou, levada por camelos e iaques, pelas
bocas de homens sonhando com as riquezas de Zhandu, em
conversas nas guarnições, em diálogos nos caravançarás e
encruzilhadas. Onde quer que dois viajantes se
encontrassem numa fogueira de acampamento, o cristal azul
de Zhandu e o estrangeiro de barba amarela eram discutidos.
Tal como vento soprando através de dunas de areia, as
proclamações se espalharam tanto que no espaço de um ano
os primeiros frutos começaram a aparecer: pedras azuis de
todas as espécies foram trazidas até o platô aos pés de
Zhandu, algumas tão grandes quanto melões, outras tão
pequenas quanto ervilhas; azul-pavão e azul-celeste, algumas
mais para o verde, outras mais para o preto. Diariamente os
guardas saíam para recolher as pedras e levá-las para
Katharina inspecionar, e a cada dia a recompensa deixava de
ser paga.
Então o Governante Celestial mandou seus artistas copiarem
o díptico de Santa Amélia em papel durável. Os desenhos
ficaram bem parecidos, apesar de não captarem o azul vívido
do cristal e de a santa ter feições um tanto asiáticas. Estes
desenhos saíram de Zhandu na forma de pergaminhos, com
uma promessa de recompensa escrita neles em kosh, latim,
árabe e alemão.
Anos se passaram. Embora o amor de Katharina nunca
chegasse perto da paixão faminta que sentira por Adriano,
sua estima pelo gentil marido se aprofundou. Ela partilhava
com ele aquele mundo sem sol, e Adriana cresceu e
floresceu para se tornar a irmã mais velha de dois meninos e
uma menina. Quando teve idade suficiente, Adriana
freqüentou a escola com outras crianças da corte,
aprendendo as operações fundamentais num aparelho
chamado ábaco e a pintar letras e palavras rudimentares em
caligrafia. Embora ela nada aprendesse de geografia, pois o
povo local acreditava que o mundo era plano e que Zhandu
constituía o seu centro, havia lições de astronomia e
matemática, poesia e pintura.
Pedras azuis continuavam chegando a Zhandu — grandes e
pequenas, transparentes e opacas, de azul pálido a azul vivo
— e com elas chegavam histórias de homens de barba
amarela. Katharina ouvia cada uma com a mesma atenção
com que examinava as pedras, mas nenhuma descrição
combinava com o nobre alemão que fora para Jerusalém em
busca de um cristal azul mágico.
"Finalmente, no verão do décimo ano, após expedida a
primeira proclamação, e Katharina, embora feliz com Lo-
Tan e seus filhos nascidos em Zhandu, começasse a achar
que ela mesma deveria ter empreendido a jornada, chegou
um mensageiro dizendo que mercadores haviam encontrado
o homem que procurava a pedra azul.
— Vocês encontraram meu pai? — perguntou Katharina,
sempre esperançosa.
— E o estamos trazendo para você!
O estrangeiro foi levado ao Jardim da Felicidade Eterna,
onde a família real estava reunida em angustiante
expectativa. O coração de Katharina martelava com
ansiedade enquanto sua mente disparava com perguntas: O
que diremos um ao outro? Como me dirigirei a ele? Meus ir-
mãos o acompanham?
E então ele passou pela arcada e entrou na esplêndida luz do
sol. Katharina deu um grito. Ela viu primeiro o manto e,
embora já surrado e remendado, e não tão branco como
tinha sido no riacho cor de esmeralda, ainda parecia belo e
dignificante. A pele de Adriano estava bronzeada pelo sol e
contrastava com o cabelo branco que caía à altura dos
ombros. Embora o cabelo não mais fosse negro, os olhos
ainda eram, e ele não tinha o rosto de um idoso, mas sim de
um homem bem viajado.
Katharina correu para os braços dele, e enquanto todos
olhavam em espanto e admiração, Adriano contou-lhe que
estava em Tashkent quando havia encontrado um homem
que andava exibindo o pequeno desenho, e soube então que
conseguiria achá-la.
Katharina banqueteou os olhos sobre ele, tocou-lhe os
braços, sentiu sua solidez e silenciosamente agradeceu a
Deus por este milagre.
— Mas você foi morto junto ao riacho cor de esmeralda! Eu
vi!
Adriano não conseguia se fartar da visão dela, mesmo esta
Katharina estrangeira em mantos de seda e o cabelo dourado
armado na cabeça como uma exótica gaiola.
— Havia um homem na caravana que cobiçava meu manto e
o roubou enquanto eu me banhava. Teve a má sorte de,
naquele exato momento, os kosh atacarem. Fui ferido e
quase me afoguei no riacho. Mas fui resgatado por nômades
que me levaram para suas tendas e cuidaram de mim até eu
recuperar a saúde.
Percebendo que uma história estava a ponto de ser contada,
Governante Celestial, Rosa de Verão e Lo-Tan se
aproximaram para ouvir.
— Depois que me recuperei — explicou Adriano — e acenei
adeus para meus salvadores, fui procurar você, Katharina.
Mas não havia nenhuma pista, eu não tinha como saber qual
a direção que você havia tomado e se até mesmo estava viva.
Assim fui para Jerusalém, pois achava que se fosse encontrá-
la em algum lugar só poderia ser lá. Procurei pela pedra azul,
mas não estava mais por lá. Conheci um homem que me
falou de um nobre saxão, o Barão von Grünewald, que
também estivera em Jerusalém procurando a pedra azul.
Chegamos com quinze anos de atraso, Katharina. O homem
disse que o alemão seguiu depois para Bagdá, e, portanto
segui a pista dele até lá. Por todos estes anos estive seguindo
a trilha de seu pai, na esperança de que me levasse até você.
— Mas nunca o encontrou?
— Não, mas encontrei você — disse ele com um sorriso.
— Mas e o seu trabalho em Creta? Aquele da sua irmandade?
Não tinha de ir ter com eles?
— Enquanto estive em Jerusalém ouvi notícias dos turcos
invadindo Creta, onde minha irmandade foi exterminada. —
Ele fez uma pausa e olhou para sua platéia com o ar de um
homem trazendo um segredo maravilhoso. — E agora as
boas-novas... Katharina, embora não tenha encontrado seu
pai, sei onde ele está.
Um arquejo coletivo encheu o jardim, pois todos estavam
familiarizados com a busca de uma vida inteira empreendida
por Katharina.
— Conte-me rapidamente — pediu ela.
— Quando estava em Tashkent, conheci um homem que me
contou sobre um pai e três filhos, alemães, carregando uma
pequena pintura como a sua. Estavam procurando uma pedra
azul. Segundo me foi contado, eles descobriram que a pedra
tinha sido vendida para monges viajando para Catai, onde
foram encaminhados para a corte do imperador. É para onde
foi seu pai, Katharina, para a China, e provavelmente
continua por lá.
Trouxeram comida e vinho, e o incrível povo em
deslumbrantes sedas adejava em volta dele como pássaros
exóticos. Embora grisalho e conturbado, Adriano mesmo
assim destacava-se em Zhandu e ria com toda aquela
atenção, verdade seja dita, pois não fazia a menor idéia do
que esperar quando estava sendo escoltado para este reino
isolado no teto do mundo.
Mas quando uma jovem foi trazida diante dele, e inclinou-se
respeitosamente chamando-o de pai, seu riso morreu. O
jardim caiu em silêncio, até mesmo os pássaros e a fonte
tilintante pareceram silenciar em respeito à reação deste
homem ante a revelação de algo que nunca soubera: que
tinha uma filha.
Levou alguns minutos até que pudesse falar, e foi numa voz
embargada de emoção que disse:
— Em nossa casa em Aragão havia um retrato de minha mãe
quando tinha a sua idade. Você poderia ser ela, Adriana, a
semelhança é forte demais.
Pai e filha se abraçaram e todos choraram, ninguém tão alto
quanto o Governante Celestial, que soluçava como uma
criança e enxugava as lágrimas nas mangas brancas
imaculadas.
Naquela noite, enquanto Katharina estava deitada nos braços
de Lo-Tan, ele sussurrou para ela:
— Se quiser voltar para Adriano como esposa dele, eu
entendo e a libero, pois ele é o seu primeiro marido. E se
decidir seguir para Catai e procurar seu pai, dou-lhe a minha
bênção. Mas suplico a Kwan Yin, minha querida Lótus
Dourado, que me conserve para sempre em seu coração.
Mas ela replicou:
— Eu e Adriano nunca fomos casados de verdade. Não de
acordo com nossas leis. Meu marido é você, Lo-Tan, e
sempre será. — Quanto ao outro, seu coração estava pesado
quando disse: — Uma pedra azul significou mais para meu
pai do que sua própria filha. Ele não me deixou aos cuidados
de uma estranha, ele me abandonou. E se eu fosse atrás dele
agora, estaria abandonando meus próprios filhos. Mas, ao
contrário de meu pai, meus filhos significam mais para mim
do que uma impalpável pedra azul. Não irei atrás dele. Meu
lugar é aqui, com você, com minha família.
Na manhã seguinte ela procurou Adriano, que estava
maravilhado com toda a riqueza e glória de Zhandu.
— Não irei para Catai à procura de meu pai. — disse, pegando
as mãos dele. — Creio que o cristal azul tornou-se a obsessão
dele, tal como se tornou a minha. E acredito que em algum
ponto ao longo do caminho perdi de vista meu verdadeiro
objetivo, tal como meu pai perdeu o dele. Meu pai escolheu
seu caminho, Adriano, e eu escolhi o meu. Ficarei aqui. Mas
sentiria uma grande alegria se você encerrasse sua longa
jornada e permanecesse neste lugar. Pode ficar aqui... como
meu dileto amigo? — indagou, pois o seu casamento com
Lo-Tan permanecia entre eles e ambos sabiam que jamais
poderiam reacender a intimidade que tinham um dia
partilhado.
O tom de Adriano foi profundo e sincero quando replicou:
— Quando você me conheceu, Katharina, eu era um homem
intolerante. Carreguei ódio no coração por todos os homens
de outra crença. Usei a religião como padrão para avaliar um
homem. Se ele não abraçasse Cristo, então não podia ser um
homem de valor. Em minha arrogância, acreditei ser meu
destino trazer todos os homens para o verdadeiro Deus,
fosse pela palavra ou pela espada. Mas quando readquiri
consciência após o ataque no riacho esmeralda e me
descobri na companhia de adoradores do fogo, eu estava à
beira da morte e eles cuidaram de mim, me devolveram a
saúde e trataram-me com bondade. Em outra época eu os
teria chamado de adoradores do demônio, mas durante mi-
nha convalescença vi que eram apenas pessoas, como as de
qualquer outro lugar, lutando para sobreviver, vivendo em
medo e esperança, e adorando os poderes nos quais
acreditavam. Eu ficaria feliz em permanecer aqui e ensinar
sobre Jesus ao povo de Zhandu, Katharina, e se vierem a
aceitá-Lo, então que assim seja. Não comungo mais da
crença de que se deve quebrar crânios para trazer a
verdadeira fé às pessoas, pois não estou mais convencido de
que só existe uma fé verdadeira.
Adriano continuou para dizer que não tivera nenhum direito
de desposá-la anos antes. Ele quebrara seus votos e
acreditava que o que havia acontecido no riacho fora a sua
punição. Passou os últimos dez anos penitenciando-se dos
seus pecados, ao procurar o cristal azul e o pai de Katharina e
mantendo-se no celibato.
Katharina aceitou isto, mas quando percebeu como as damas
da corte olhavam para o robusto estrangeiro, e riam à socapa
e cochichavam atrás de seus leques abertos, imaginou se o
voto de celibato renovado de Adriano duraria muito tempo.
Ela se maravilhava com os mistérios do destino. E se sua
mãe, Isabella Bauer, tivesse morrido antes que Katharina a
tivesse alcançado? E se ela morresse guardando o segredo do
seu nascimento? Katharina teria se casado com Hans Roth e
se mudado para a casa dos fundos da fábrica de canecos de
cerveja, e teria terminado os seus dias acreditando que
Badendorf era o mundo.
— Tive de me disfarçar — disse a Adriano — como um
rapaz e vivi num harém turco; naufraguei, fui raptada,
vendida como escrava; fui cristã, muçulmana e adoradora de
uma deusa; amei um homem, depois o perdi e o encontrei
de novo; conheci o êxtase e a dor, plenitude e perda. Falei
alemão, árabe, latim e a língua de Zhandu; viajei até os
confins da terra e vi portentos indescritíveis. Mas Badendorf
continuava sendo meu lar. E de certa maneira ainda é, com
sua marktplatz e a familiar rathaus, o rio, a floresta e o
castelo. Mas Zhandu é também meu lar.
E embora eu duvide de que algum dia vá encontrar meu
verdadeiro pai, mesmo assim tenho um pai no Governante
Celestial. Tenho um irmão em você, Adriano, e uma irmã e
terceira mãe em Rosa de Verão. Primos, tias e tios não me
faltam aqui em Zhandu, e tenho uma parentela maior até
mesmo do que a dos Roth de Badendorf. E tenho Adriana, e
Lo-Tan e meus filhos com ele. Por todos estes anos procurei
por minha família, e só agora percebo que ela esteve aqui o
tempo todo. Procurei pelo cristal azul, mas ele também
esteve comigo o tempo todo, nesta pequena pintura de Santa
Amélia. E, portanto ficarei aqui, em Zhandu, no lugar a que
pertenço.
Ínterim
Katharina viveu o que ainda tinha de vida no reino
montanhoso isolado do mundo, vendo seus filhos
crescerem, assumindo o trono ao lado de Lo-Tan quando ele
sucedeu ao seu tio como Governante Celestial. Quando Rosa
de Verão morreu e foi para seu repouso final, Katharina
lamentou de novo pelas mães que tinha amado. E quando
Adriano morreu, à idade de 93 anos, toda a população o
pranteou, pois todos adoravam suas histórias.
Mais duas gerações vieram e se foram, contando e
recontando as histórias de Katharina von Grünevald, até que
finalmente o reino de Zhandu foi derrubado, não por um
exército invasor, mas pela própria natureza — um terremoto
tão poderoso que pôs abaixo as muralhas, cúpulas e espiras da
fabulosa cidade, matando todos os seus habitantes. E depois
vieram as tempestades, de chuva e neve, cobrindo as ruínas
de Zhandu com lama, penedos e deslizamentos de areia
maciços. Enquanto se passavam décadas e séculos, o clima
mudou e as areias do deserto vieram enterrar a última ponta
da última espira, de modo que nos cinco séculos seguintes
arqueólogos vasculhariam o entulho tentando imaginar a
cidade que certa vez se assentara ali.
O Barão Johann von Grünewald tinha de fato ido à China
com seus filhos, depois de se inteirar, por intermédio de um
mercador em Tashkent, que o cristal azul acompanhava um
consórcio de monges cristãos que tencionavam evangelizar a
corte do imperador. Ele jamais se esqueceu de que tinha
deixado uma filha na Alemanha aos cuidados de uma
costureira, e no fundo do coração acreditava que um dia
voltaria para buscá-la. Mas o barão era um homem nascido
para perambular, tudo de que precisava era uma busca. Tal
como o Santo Graal de Cristo atraindo homens de mente
nobre para terras estrangeiras, assim a Pedra de Santa Amélia
era o seu ímã. Mas quando por fim a encontrou, em poder
de um cortesão versado na arte do amor, e enroscou seus
dedos em volta do objeto que procurara por quase toda a
vida, seu objetivo morreu, e o mesmo sucedeu com ele.
Ainda jurando voltar para casa e reunir-se à filha, Johann
von Grünewald morreu na longínqua China sem jamais pôr
os pés de novo na sua amada Europa.
Da China o cristal azul foi embarcado num navio de
especiarias seguindo para as índias Holandesas, onde a gema,
tendo perdido toda a ligação com os santos cristãos, foi
chamada de Estrela de Catai por um romântico capitão de
navio que acreditava ser a pedra possuidora de uma magia de
amor. De posse dela esperava convencer uma certa jovem
dama de Amsterdam a casar-se com ele.
Ao longo da costa da índia, o navio se deparou com o
infortúnio, o capitão foi vendido como escravo e a Estrela de
Catai foi levada para um templo em Bombaim, onde foi
engastada na estátua de um deus, passando a ser conhecida
por uns tempos como o Olho de Krishna. Mas quando o
templo foi atacado e saqueado durante uma guerra religiosa,
mais uma vez o cristal azul se viu libertado e levado para
Amsterdam por um capitão de navio holandês que vendeu a
pedra para um mercador de gemas chamado Hendrick
Kloppman. Pelas cartas escritas anos antes pelo capitão do
navio de especiarias à corporação dos joalheiros pedindo
uma avaliação do valor da pedra, Kloppman a identificou
como a Estrela de Catai e deduziu a partir das cartas que o
capitão apaixonado tencionara levá-la para uma certa jovem
na rua Keisersgracht. Agindo honradamente e como um
homem consciencioso, Kloppman procurou a jovem dama e
ofereceu-lhe a gema. Já não muito jovem e passado todo o
desejo por casamento, ela aceitou o cristal com indiferença,
dizendo ter apenas uma vaga lembrança do infeliz capitão do
navio de especiarias, e vendeu-o no ato para Kloppman por
dinheiro suficiente para abrir uma loja de roupas e se tornar
independente. Kloppman seguiu para Paris, onde, esperando
obter lucro dez vezes maior pela pedra, enfatizou o aspecto
romântico da Estrela de Catai, inventando uma história
acerca de um mágico na corte imperial da China e de como
ele criara o cristal a partir das geleiras do norte e de ossos de
dragão, do sangue de uma fênix e do coração de uma virgem.
Em Paris houve quem acreditasse nele.
Livro Sete
MARTINICA 1720 D.C.
Brigitte Bellefontaine tinha um segredo.
Envolvia amor proibido com um patife de olhos negros.
Enquanto sentava-se à penteadeira, escovando os cabelos e
removendo a maquiagem, tentava não pensar nisto, pois a
cada dia que passava o peso da culpa crescia.
Um som rude a arrancou de seus pensamentos. Olhou para o
marido refletido no espelho, atrás dela. Henri. Esparramado
na cama e roncando. Bêbado de novo.
Brigitte suspirou. Não havia nada pior do que um francês que
não sabia beber vinho.
E ele tinha prometido. Naquela noite, depois que os
convidados partissem, ele iria proporcionar-lhe uma noitada
especial sob as estrelas.
"Tal como antigamente, ma cherie, quando éramos jovens
amantes", ele disse. E então os convidados chegaram e a
festa transcorreu desenfreada, com o vinho sendo servido
fartamente. E agora Henri estava deitado de costas na cama,
a peruca torta, o colete manchado de amostras do cardápio
da festa: bolinhos de bacalhau e crepes gotejando chocolate
derretido.
Brigitte depôs a escova de cabelo e olhou tristonha para a
peça de joalheria que havia usado na festa: um atordoante
broche de ouro branco com um cristal azul no centro
circundado por diamantes e safiras. A Estrela de Catai, que
havia sido tão plena de promessa romântica na sua ingênua
juventude.
Acreditava-se que a Estrela de Catai trouxesse amor e
romance para a vida de quem a usasse. Não tinha sido o que
o cigano também predissera? E assim foi... por um tempo. Na
noite de núpcias de Brigitte, Henri (o homem que agora
roncava na cama) havia sido um amante magnífico, e a
Brigitte de 17 anos pensara ter morrido e ido ao céu. Mas
agora, vinte anos mais tarde e com sete filhos, ela tinha tudo,
mas abandonara a esperança de conhecer a verdadeira paixão
novamente. Henri era um bom homem, porém não havia
mais fogo nele. E Brigitte ansiava por fogo.
Inquieta demais para dormir, ela se levantou e foi até as
portas que se abriam para uma sacada. Saindo para a noite
tropical fragrante com os perfumes de frangipana e mimosa,
ela fechou os olhos e o retratou — não Henri, mas o
estrangeiro de olhos negros, alto e nobre, de feições
aristocráticas e ostentando, impecavelmente vestido, o porte
de um hábil espadachim e amante travesso. Ele surgia, súbita
e inesperadamente, quando ela estava no jardim, ou
observando peixes exóticos na laguna, materializando-se no
dia abafado como as nuvens de tempestade que se formavam
sobre a ilha escura e rapidamente alagavam a Martinica com
um tórrido aguaceiro, depois se dissipavam e só restava a
lembrança. Ele era assim. E o ato de amor deles era como
uma tempestade tropical — feroz, fumegante, irresistível. O
simples pensamento nele enviava tremores por todo o seu
corpo.
Infelizmente, ele não existia.
Brigitte pensava que ia enlouquecer se nunca mais
vivenciasse romance e paixão novamente. Mas como isso
algum dia aconteceria? Era impensável que mantivesse um
caso com algum dos colonos locais. Tinha de pensar na sua
reputação e na do seu marido. E como ninguém mais havia,
ela se refugiara num amante de fantasia, um cavalheiro dia-
bólico de sua imaginação cujo nome mudava de acordo com
seu humor e a história. Geralmente ele era francês,
chamava-se Pierre, ou Jacques, e vinha à ilha apenas por um
dia, encontrando-a na gruta onde usufruíam uma tarde
inteira de amor apaixonado. E quando ia embora ele prome-
tia voltar algum dia, uma promessa que nutria sua alma e a
mantinha viva.
Suas fantasias não só serviam para trazer amor a sua vida,
mas também para recapturar sua juventude, pois nelas era
novamente jovem, esguia e linda, virando a cabeça dos
homens como fizera muito tempo antes. Infelizmente,
embora tais fantasias lhe dessem prazer, elas também a
enchiam de culpa. Brigitte era uma boa católica e acreditava,
como os padres pregavam, que um ato pecaminoso cometido
no coração era equivalente a um cometido na carne. Ter
pensamentos lascivos fora dos laços matrimoniais era um
pecado. Se ela imaginasse fazer amor com um dos colonos,
isto seria adultério. Mas seria adultério se o amante não
existisse?
Ela pousou os olhos no horizonte distante, identificável
apenas por sua ausência de estrelas. Céu noturno brilhante
acima, oceano negro ameaçador abaixo. E além... Paris. A
seis mil quilômetros de distância, onde seus amigos, família e
filhos viviam num mundo tão diferente das índias Ocidentais
que bem poderiam estar vivendo na lua.
Brigitte desejou que pudesse estar lá com os filhos. Não
sentia falta do frio ou das multidões de Paris, mas ansiava
pela vida cultural e social, Nascida na nobreza, havia
desfrutado da companhia de reis e rainhas e do melhor da
sociedade francesa. Sentia falta das peças de Molière e
Racine e dos espetáculos da Comédie Française, aqueles dias
gloriosos em que o Rei Sol esbanjava dinheiro em artes. Mas
que peças estavam encenando agora? Qual era o último
chiste? O que as damas estavam usando na corte? Os colonos
na Martinica dependiam do correio doméstico para todas as
suas notícias, e às vezes elas chegavam tarde ou nem che-
gavam, por causa dos caprichos dos mares, do mau tempo e
dos piratas. Três anos antes souberam que seu grande rei,
Luís XIV, estava morto — e só souberam depois de dois
anos! Agora o seu bisneto, Luís XV, um garoto de dez anos,
ocupava o trono francês.
Chegou uma brisa noturna, agitando as frondes das palmeiras
e as folhas gigantes das bananeiras, ondeando as dobras do
penhoar de seda de Brigitte. Enquanto a brisa roçava sua pele
nua como uma visão de amante, ela sentiu sua dor se
aprofundar. E isto a assustava. Sentia-se fraca e vulnerável.
Mandar os filhos para a metrópole era algo que todos os
colonos faziam, para garantir que fossem educados como
cavalheiros e damas. Assim Brigitte mandara sua animada
prole para a irmã em Paris, a fim de que recebesse ensino
adequado de conduta e etiqueta. Mas agora, sentia
enormemente a falta dos filhos. Tinha tempo de sobra em
suas mãos, luz do sol, perfumes tropicais, ventos alísios
balsâmicos. Henri tinha os campos de cana-de-açúcar, o
engenho e a destilaria de rum para ocupar seu tempo. Mas
com a partida dos filhos e os criados cuidando de tudo, o que
mais havia para uma dama fazer nestas ilhas? Brigitte era uma
leitora ávida, mas até mesmo este passatempo, ultimamente,
estava refletindo seu descontentamento crescente, pois sua
predileção tendia para casais de amantes trágicos: dois
franceses como ela própria, Abelardo e Heloísa; dois
italianos, jovens, mas não menos trágicos, Romeu e Julieta;
dois ingleses, de muito tempo atrás, Tristão e Isolda; e um
soldado romano e uma rainha egípcia, Antônio e Cleópatra.
Ela devorava estas histórias tristes e românticas como suas
amigas devoravam frutos suculentos e rum. Não havia
tristeza melhor, ela achava, do que a doce tristeza. Na sua
fantasia, ela e o seu amante viviam separados, e a dor
deliciosa que isto trazia ao seu coração a mantinha
suspirando durante as tardes abafadas.
Tentou convencer-se de que os sonhos eram muito mais
satisfatórios do que a realidade. Além disso, os sonhos eram
seguros, ao passo que a realidade podia ser repleta de perigos.
Apesar de a Martinica ser um Éden tropical, tinha também
seus perigos — das tempestades súbitas e destrutivas, do
vulcão no monte Pelée ameaçando uma erupção, das febres
e doenças exóticas, e do pior dos perigos: piratas. No próprio
jantar desta noite, a conversa não havia se restringido ao
preço do rum e dos escravos, mas versado sobre piratas, e
um deles em particular — um cão inglês chamado
Christopher Kent. Um dos convidados, um plantador de
abacaxi, sofrera um prejuízo apenas alguns dias antes,
quando a escuna de Kent, Bold Ranger, atacou o navio
mercante do homem, abordou-o, jogou a tripulação no mar
e ganhou uma fortuna em moedas de ouro. Ninguém sabia
como Kent era, embora os poucos sobreviventes de seus
ataques o descrevessem como muito alto e com o aspecto do
demônio.
A noite subitamente explodiu em gritos provenientes das
senzalas — homens empenhados em lutas mangusto-e-
serpente. Como os ventos alísios e palmeiras farfalhantes, era
o som da ilha chamando-a. Isto fazia Brigitte pensar no povo
nativo que vivera ali muito tempo antes, os índios com seus
tambores e nudez, vivendo como Deus os criara, como Adão
e Eva. Seus espíritos ainda estavam ali — nas árvores e
riachos e nos picos de montanha encobertos pela névoa.
Agora, novos primitivos habitavam por lá, procedentes da
África; mais gente desnuda com tambores que enchiam as
noites com sua batida e ritmos primevos, cantando e
dançando à luz de fogueiras.
O ar ficou pesado, lembrando a Brigitte que estavam no
início da estação dos furacões. Ela voltou para dentro,
fechou as portas duplas e depois se dirigiu para a penteadeira
a fim de devolver a Estrela de Catai a sua caixa. O cristal azul
tinha, com o passar dos anos, se tornado simbólico dos
mares azuis que a cercavam, do azul do céu que a cobria. E
quando olhou no núcleo da pedra ela viu fogo e paixão. A
sua paixão. Presa, lutando para se libertar.
Foi para a cama e puxou as botas do marido. Henri estava
sorrindo no seu sono. Ela suspirou de novo. Henri não era
um homem mau, apenas inconsciente. Enquanto deslizava
entre as cobertas para perto dele, fechou os olhos e, embora
suas fantasias secretas a enchessem de culpa, mais uma vez
invocou a imagem dele, seu amante de fantasia. Quando se
deixava levar para o sono começou a sonhar, e no sonho ele
buscava por ela.
Henri Bellefontaine não estava alheio ao recente
descontentamento de sua esposa. Afinal, ela não tinha mais
os filhos para ocupar seu tempo. Henri, por sua vez, tinha a
plantação para administrar. Ele plantava açúcar e exportava
rum, com interesses paralelos na cultura e exportação de
canela, cravo-da-índia e noz-moscada, em grande demanda
na Europa para uso culinário, medicinal e perfumista.
Portanto, Henri era muito rico, mas também muito ocupado.
Mas o que Brigitte tinha? Considerando-se um adorável e
atencioso marido, mas enganando-se inteiramente sobre a
causa dos freqüentes suspiros e inquietude da esposa
(saudade do lar, pensava, e falta dos filhos), Henri adquiriu o
que achava ser o remédio perfeito.
Comprou um telescópio para ela.
Montou-o numa plataforma especial no telhado, um belo
instrumento de latão importado da Holanda, fixado sobre um
tripé com uma visão completa de 360 graus da ilha e além.
Henri congratulou-se por seu brilhantismo. Brigitte não mais
se sentiria tão só e isolada, pois a lente traria o mundo para a
ponta dos seus dedos: o horizonte, com a França — e seus
filhos — bem ali na sua orla; as ilhas mais próximas (retalhos
de verde-esmeralda flutuando sobre o azul do mar); os
azafamados portos da Martinica com navios chegando e
partindo; e finalmente os quebra-mares e ameias, as
alamedas e becos estreitos e telhados se erguendo em
camadas nas colinas.
O gesto dele comoveu Brigitte, pois Henri era um homem
gentil e seu coração estava no lugar certo. Afinal, ele não a
havia levado para os confins da terra. A Martinica era o
centro cultural das Antilhas francesas, uma ilha rica e
aristocrática famosa por seu gracioso estilo de vida, bem
como por sua luxuriante vegetação tropical, desfiladeiros
profundos e penhascos elevados. A própria casa deles era
uma magnífica plantação empoleirada nos contrafortes do
monte Pelée, um vulcão que periodicamente despejava
vapor e fazia o solo tremer, como se para lembrar aos
humanos de sua mortalidade. A casa era desenhada em
típico estilo creole com os cômodos principais no andar
térreo e os dormitórios acima. Circundando-a havia
gramados verdejantes parecendo tapetes fabulosos, ladeados
por palmeiras cujas frondes se farfalhavam ao vento. Brigitte
adorava o seu lar tropical, e adorava a Martinica. Ninguém
sabia ao certo por que a ilha tinha este nome. Alguns diziam
que derivava de um termo indígena que significava "flores";
outros diziam que vinha de São Martinho. Mas Brigitte
Bellefontaine, com seu coração romântico, acreditava que
quando Colombo a descobriu e achou a ilha fantasticamente
linda, deu-lhe o nome de uma mulher que amava em
segredo.
Tornou-se um hábito de Brigitte subir diariamente ao seu
observatório no telhado ao crepúsculo, sua hora preferida do
dia, quando o trabalho cessava e começavam os
entretenimentos da noite; uma hora em que também
mudanças ocorriam sobre o Caribe, o céu luminoso dando
lugar a um negro firmamento salpicado de estrelas. Brigitte
daria instruções aos escravos da cozinha para o jantar, depois
tomaria um longo e langoroso banho, colocaria suas roupas
de baixo, vestiria o seu diáfano penhoar e subiria ao telhado
para observar o sol fazer sua espetaculosa saída do mundo.
Enquanto bebericava um cálice de rum, Brigitte mantinha o
olho na lente, vasculhando o mar e a baía, as montanhas e as
nuvens, as pequenas aldeias de pescadores, e pensou sobre a
chegada da noite. Não haveria convidados esta noite, já que
era domingo. A noite seria só dela e de Henri. Ficaria o
marido com ela ou seria seduzido pelas tentações da ilha, na
forma de jogatina em Saint-Pierre? Quando Henri acordou
aquela manhã para perceber que pegara no sono antes de
cumprir sua promessa, tinha ficado arrependido. "Ma chere!
Ma puce! Sou indigno de ti." Depois lhe dera uma bicota no
rosto e, vestido em seus trajes de montaria, saíra para
inspecionar as plantações de cana-de-açúcar.
Brigitte viu luzes se acendendo na cidade portuária, portas
sendo escancaradas para o pôr-do-sol, botes trazendo
visitantes famintos dos navios ancorados. Quase podia ouvir
a música e o riso, sentir o cheiro dos aromas de cozinha, ver
os sorrisos das pessoas. Desviando o telescópio do
assentamento, examinou os picos luxuriantemente verdes
das montanhas e as cristas se erguendo e caindo como ondas
do oceano, selvas tropicais alcançando cada tonalidade de
verde conhecido do olho humano. E agora girava para leste,
desviando-se do céu escarlate para o lado tranqüilo a
barlavento da ilha, com suas praias imaculadas e lagunas
verde-limão e angras ocultas...
Parou. Mastros? Velas enfunadas?
Focalizou a lente, trazendo o navio para a claridade e
prescrutando atentamente. Tinha de ser uma escuna
americana, a julgar pelos dois mastros e casco estreito, e pelo
fato de ter um baixo calado para ser capaz de navegar em
águas rasas e em uma enseada tão minúscula.
Brigitte franziu o cenho. Por que estava ancorado lá?
Girou o telescópio levemente, para o mastro principal, pelas
vergônteas e enxárcias, até que viu a bandeira.
Um navio pirata! Não havia como confundir a insígnia, que
os franceses chamavam deturpadamente de joli rouge —
"belo vermelho" — e os ingleses de Jolly Roger. Em geral os
navios piratas exibiam crânios e tíbias cruzadas; esta bandeira
era desenhada com uma alfange pingando sangue.
— Mon Dieu! — sussurrou. Ela sabia que navio era este — o
Bold Ranger — pertencente ao sanguinário Christopher
Kent. Não pôde ver nenhum tripulante a bordo.
Começou a tremer. Onde eles estavam? Ouvira falar no
método de Kent — atacar rápida e brutalmente. Atacar,
saquear e ir embora antes que as vítimas pudessem se
defender.
Freneticamente, perscrutou através da lente, examinando as
colinas entre a angra e a plantação, uma distância de três
quilômetros. Henri e seus homens estavam em algum lugar
em todo aquele verde, inspecionando o corte da cana, mas
não conseguia encontrá-los.
Christopher Kent era o pesadelo de todo colono. Era um
daqueles bucaneiros que não se restringiam a atacar navios,
mas que também faziam ousados ataques em terra. Todos os
donos de plantação mantinham suas fortunas escondidas em
algum lugar de suas propriedades. Era o único meio de
garantir que ficassem a salvo. Kent sabia disso. Ele viria à
noite, apanharia suas vítimas desprevenidas e as forçaria a
revelar a localização do seu ouro. Geralmente empregando
tortura.
— Por favor, meu Deus — sussurrou ela, sentindo a boca
subitamente seca. — Não permiti que venham por este
caminho.
E então os viu — os piratas estavam subindo a colina, dando
estocadas nos supervisores e escravos através dos canaviais.
Henri sendo derrubado do seu cavalo...
— Colette, traga o meu mosquete! — Ela sabia que não podia
acertar coisa alguma daquela distância, mas talvez pudesse
disparar tiros de aviso. Especulou se os soldados na fortaleza
estavam cientes dos piratas. Duvidava. Se assim fosse, os
sinos da igreja estariam repicando e os canhões disparando.
Kent e seus homens haviam rastejado pelo lado barlavento
da ilha e se esgueirado para a pequena enseada. Duas cristas
escondiam o platô, onde a propriedade Bellefontaine se
espalhava por muitos hectares. Os piratas atacariam, fariam o
seu trabalho letal, silenciosa e rapidamente, e partiriam como
fantasmas, deixando somente cadáveres e uma ruína em
chamas. Levaria pelo menos um dia para os soldados se
inteirarem do que havia acontecido e, a esta altura, o navio
de Kent já estaria longe no mar.
— O que é, senhora? — perguntou a jovem negra sem fôlego
enquanto subia a estreita escadaria, segurando
desajeitadamente o comprido mosquete. Colette era uma
escrava africana de terceira geração. Era nascida na
Martinica, bem como sua mãe, mas sua avó havia sido
trazida da África com milhares de outros para trabalhar nas
plantações de açúcar e tabaco dos colonos franceses.
— Mande Hércules para a fortaleza — começou Brigitte,
tentando localizar os piratas sem ajuda do telescópio. Mas o
sol finalmente mergulhara além do horizonte e a luz se
desvanecia. — Diga-lhe para ir correndo, Colette! Diga-lhe
que são piratas...
E então ela o viu pelo telescópio: Christopher Kent, uma
figura alta e ameaçadora, todo vestido de preto. Usava
calções justos e um casaco comprido, os reluzentes botões
de ouro de seu colete refletindo os últimos raios do sol. O
rosto estava sombreado pela aba larga do chapéu tricorne,
com uma copiosa pena branca se agitando à brisa. Quando
ele se virou e seu rosto veio parcialmente à luz, ela percebeu
com um choque que ele a fazia se lembrar do amante
fantasma de suas fantasias.
A mente de Brigitte trabalhava rapidamente. A fortaleza
ficava a dezesseis quilômetros, sobre terreno montanhoso, e
a noite caía, mergulhando a selva e as trilhas em escuridão
muito antes que um mensageiro pudesse ao menos sair. Os
piratas tinham tochas acesas, que agora ardiam
brilhantemente no lusco-fusco declinante, e as chamas
estavam progredindo firmes como serpentes colina acima.
Dando uma última olhada em Kent pelo telescópio — ele
mal era visível agora no dia que morria rapidamente, uma
figura fantasmagórica caminhando através da densa
vegetação, como um conquistador...
— Esqueça — disse Brigitte, e descartou o mosquete.
— Mas, madame — gritou Colette. — São piratas! Temos que
avisar todo mundo!
— Calma — disse Brigitte enquanto descia as escadas e ia para
o quarto. — Não conte a ninguém, Colette! — A situação de
repente requeria outra estratégia. Mas também exigia cabeça
fria.
Ela possuía um lindo vestido que nunca usara. Trouxera-o da
França vinte anos antes, um vestido muito especial que havia
planejado usar nas comemorações do aniversário do rei. Mas
tinha ficado grávida durante a viagem à Martinica e, depois
do nascimento do primeiro filho, não coubera mais no
vestido. Engravidara de novo e o ciclo continuou até desistir
de usar o vestido. E, de qualquer modo, havia outro rei ago-
ra, um que ela nem conhecia.
O vestido de seda era num deslumbrante rosa, o peitilho
bordado em exuberante escarlate e tons de púrpura, com a
anágua num amarelo forte constrastante, como era a moda
na época, quando os vestidos visavam ofuscar e as cores
deviam ser tão chocantes e contrastantes quanto possível.
Assemelhava-se muito a um crepúsculo tropical: o sol
dourado ardendo contra um céu avermelhado. Ela ficara
com a cintura aumentada depois do nascimento do sétimo
filho, de modo que o vestido finalmente coube (com a ajuda
de um espartilho apertado), mas a esta altura o vestido estava
irremediavelmente fora de moda. Um estilo tão elaborado e
tedioso havia saído de moda por ocasião da morte de Luís
XIV. Como poderia usá- lo? E assim o vestido se tornara um
símbolo: de juventude acabada e de oportunidades perdidas,
e a simples constatação disso recordava as suas paixões
juvenis e beijos roubados nos jardins de verão.
Seu coração disparava enquanto tirava o vestido do baú e
dava ordens a uma Colette muito aturdida. Era difícil se
apressar com um aparato tão complicado — os espartilhos,
saias e anquinhas e todos os cordões e fechos, e com Colette
tão aterrorizada que estava prestes a fugir. A própria Brigitte
estava nas garras do medo, mas conservava a imagem de
Kent em primeiro plano na mente — uma figura sombria e
ameaçadora. Prendendo a respiração enquanto Colette
apertava o último cordão, Brigitte fez um rápido cálculo
mental: os piratas deviam estar agora à beira da destilaria. A
distância dali até a casa principal era de uns oitocentos
metros.
Finalmente, mirou-se no espelho. Mas franziu o cenho ao se
ver refletida. Embora o vestido fosse impressionante, ela
própria ainda aparecia velha e roliça. Kent dificilmente lhe
daria uma segunda olhada. Foi então que se lembrou da
Estrela de Catai. Com dedos trêmulos, levou o broche ao
ponto mais baixo de seu décolletage, de modo que os
diamantes e safiras dessem ao cristal azul a aparência de uma
borboleta — que havia pairado e pousado sobre o seu peito
exposto.
A transformação foi instantânea. Uma nova mulher surgiu
diante dela refletida no espelho. O cristal possui de fato
magia! Brigitte Bellefontaine estava de novo jovem, esguia e
bonita.
Antes de descer, tomou as mãos de Colette num aperto
firme.
— Agora preste atenção — disse. — Logo iremos receber
visitantes não-convidados. Não fique com medo. Não tente
fugir.
— Mas, senhora...
— Colette! Ouça com atenção, pois você deve fazer
exatamente como eu disser...
Antes de deixar o quarto, Brigitte deu mais uma olhada em si
no espelho e sorriu aprovando. Relanceando o olhar para o
mosquete encostado à parede pensou: Às vezes um vestido é
melhor que uma arma.
Embora os Bellefontaine possuíssem mais de cem escravos
— nos campos, no engenho e na destilaria de rum —, só
havia um punhado de homens com pistolas e mosquetes
para mantê-los intimidados e obedientes. Ao atravessar a sala
de estar principal da casa, ela ouviu passadas lá fora, ordens
resmungadas, o som ocasional de um chicote. As mulheres
escravas, cujo trabalho se concentrava na casa-grande, nas
hortas e terreiros de aves, vieram correndo à visão dos seus
homens chegando cambaleantes ao pátio principal sob a
mira de pistolas e espadas. Elas imediatamente soltaram uivos
de lamento. Criados da casa correram às janelas e lá se
amontoaram, olhando para fora com olhos assustados.
Brigitte parou para compor-se. Mal podia respirar. Lá fora
ouviu gritos e tiros. Mas esperou atrás da porta da frente
trancada, acalmando- se, como uma atriz prestes a fazer sua
entrada triunfal. Controlando-se, pois seu impulso era fugir,
ela aguardou por outro longo minuto e então alcançou a
porta, abrindo-a lentamente.
Os piratas eram uma visão assustadora com seu arsenal de
armas: mosquetes, bacamartes, alfanges, adagas e pistolas.
Alguns brandiam até mesmo machadinhas de abordagem
usadas para cortar redes e cordame. Eram uns cinqüenta,
calculou Brigitte, e vestiam-se num arranjo de trapos e
farrapos, com os cabelos longos imundos e botas que não
combinavam. Contra o pano de fundo de tochas ardentes
eles pareciam, ou assim Brigitte achava, o exército de ímpios
e demônios de Satanás.
Henri estava amarrado com cordas e tinha sido posto de
joelhos. Brigitte se conteve para não correr até ele.
A varanda era ornada com trepadeiras, que possuíam flores
de todas as cores do arco-íris, e os pilares eram grossos e
revestidos de parreiras verdes. O perfume combinado era
forte e estonteante, enquanto a última de umas poucas
abelhas industriosas zumbia ao redor das florações.
Assim emoldurada, como se num palco de teatro, Brigitte
não disse uma palavra, mas ficou de pé ali até que, um por
um, os homens silenciaram e olharam-na fixamente.
O Capitão Kent havia alcançado o primeiro degrau quando
percebeu que todos haviam caído em silêncio. Virou-se e
olhou para cima. Agora, na escuridão e à luz da tocha,
Brigitte pôde ver melhor suas feições: eram penetrantes e
duras. Kent estava usando um comprido casaco preto, bem-
cortado, quase alcançando seus tornozelos. Era ricamente
bordado com seda e fio de ouro, e os botões eram de ouro
reluzente. Seus calções eram pretos, e usava meias brancas
imaculadas e sapatos bem lustrados com fivelas de ouro.
Franzidos brancos enfeitavam seu pescoço e punhos.
Debaixo do seu chapéu tricorne de abas largas ele não usava
nenhuma peruca, mas tinha o cabelo longo preso num rabo-
de-cavalo com cachos laterais sobre as orelhas, na última
moda. Cada centímetro de um garboso cavalheiro, pensou
Brigitte, como se tivesse chegado para assistir a uma ópera
em vez da pilhagem de sua casa.
Quando os olhos do pirata encontraram os seus, um
pensamento alarmante veio-lhe de súbito à mente: Na tenda
do adivinho nos jardins de Versalhes, uma grande celebração
pelo aniversário do rei, com atores, malabaristas e um
autêntico carnaval. O velho cigano dizendo à Brigitte de 16
anos: "Esta pedra azul possui um tremendo fogo. Está vendo?
Está preso dentro. Um dia este fogo será liberado e a
consumirá. Em amor. Em paixão. Nos braços de um homem.
Um homem que fará tanto amor com você que você quase
sucumbirá ao êxtase."
Agarrando as mãos fortemente diante de si, Brigitte se
adiantou até a beirada da varanda.
— Bem-vindo a minha casa, m'sieu — disse suavemente, do
modo mais gracioso e sem medo que pôde.
Ele a olhou fixamente. Depois sorriu. E pelo modo como a
fitou de cima a baixo — ela sabia que apenas uma hora antes
ele não a teria olhado daquela maneira. Mas ela estava linda
agora, por causa da magia do cristal azul. Ele havia lançado
um encantamento que a transformara.
— Milady — disse ele, tirando o chapéu com um floreio e
estendendo uma perna enquanto fazia uma reverência.
A voz dela mal passava de um sussurro, ainda assim o
silêncio era tanto entre os homens agrupados que todos
ouviram.
— Oferecemos ao senhor a hospitalidade de nossa casa.
Brigitte agradeceu silenciosamente a Deus por ela e suas
irmãs terem tido um tutor inglês na infância, pois seu pai
acreditava que as filhas deveriam ter uma educação eclética a
fim de atuarem com desembaraço nos mais variados círculos
culturais. Uma de suas irmãs casara-se com um barão inglês e
tinha se mudado para a Inglaterra, de modo que nos últimos
vinte anos Brigitte escrevera cartas em inglês para seus
sobrinhos — graças a Deus por isso também. Embora não
fosse fluente na língua, conseguia fazer-se entender.
Kent arqueou as sobrancelhas.
— Hospitalidade! Não pretendemos ficar, senhora. Viemos
buscar o ouro e em seguida seguiremos nosso caminho.
Vários metros atrás, seu marido, tendo sido posto de joelhos,
gritou:
— Salve-se, Brigitte!
Ela umedeceu os lábios.
— Recusar hospitalidade é grosseria, m'sieu. E ouvi dizer que
o senhor é um cavalheiro.
Ele sorriu.
— Então sabe quem sou — disse ele.
— É o Capitão Christopher Kent.
— E não tem medo de mim?
— Tenho — disse ela no tom mais descontraído que pôde,
mas seu coração martelava de medo. — Mas
independentemente de quem seja, senhor, ou de sua
intenção aqui, é costume entre minha classe social oferecer
hospitalidade ao visitante.
A risada dele foi curta e seca.
— Está pensando que alguns poucos mantimentos salvarão
seu ouro?
Ela ergueu o queixo.
— Está interpretando mal minha intenção, senhor. Poderá
ter seu ouro, já que é óbvio que não tenho como impedi-lo.
Mas havia imaginado que, sendo um cavalheiro, entenderia
as regras do comportamento civilizado.
Seus olhos escuros tremeram e ela soube que havia tocado
num ponto sensível. Pirata ou não, Christopher Kent
acreditava piamente que fosse um cavalheiro. Por que se
vestia tão bem quando seus homens mais pareciam animais?
— Tenho seis leitões suculentos, prontos para ser assados —
acrescentou ela.
Ele colocou as mãos nos quadris.
— Bem, este é um truque novo! — comentou e riu.
Enquanto alguns dos homens riam, um deles, mais velho do
que Christopher Kent, com um cabelo comprido retorcido
num ninho de tranças e um câncer crescendo ao lado do
nariz, adiantou-se.
— Me desculpa, madama, mas cumé que prepara esses leitão?
— perguntou.
Brigitte recusou-se a dar atenção ao homem. Continuou a
dirigir-se a Kent.
— Eu os tempero com cravo-da-índia e alho, alcaparras e
orégano, acompanhados de pão quente embebido em molho
de alho, queijo de cabra com ervas e uma sopa fria de
gengibre. Tortas de manga com calda de chocolate para a
sobremesa.
— E que que tem pra beber? — perguntou o grosseirão,
respeitosamente.
— Vinho francês e conhaque — respondeu ela a Kent.
O homem esfregou o lado bom do nariz.
— Até que a idéia não é má, Chris. Deus sabe que tem um
tempão que a gente não come comida boa.
— E deixar os soldados nos pegarem com a guarda baixa? Não
vê que é um truque, Sr. Phipps?
— Acho que os soldados nem sabem que a gente está aqui,
Chris. Mas posso verificar. — Ele acrescentou, mais baixo:
— E não acho que é um truque dela. A dama está só
barganhando. Acha que a gente vai ter piedade.
Kent pensou a respeito. E enquanto o fazia Brigitte inspirou
profundamente, fazendo o broche de cristal no peito reluzir
seu fogo azul.
Como ela pretendia, isto capturou o olhar de Kent. Ele deu
uma olhada no seio branco e fez um sinal para Phipps, que
por sua vez mandou dois homens subirem em árvores para
vigiar. Kent então fez outro sinal e um grupo de homens
correu à frente, subiu ruidosamente os degraus da varanda,
passou por Brigitte e entrou na casa.
Ela empregou todo o seu autocontrole para ignorar os sons
de pilhagem e vandalismo no interior. Sua casa nada
significava neste momento; toda a sua preciosa mobília e
cerâmica, cortinados e jóias. Os piratas podiam ter tudo.
O Sr. Phipps voltou para relatar:
— Os vigias dizem que tudo está tranqüilo, nada de gritos de
alarme, tudo normal no porto. E o banquete, o que acha,
Chris?
Kent subiu os degraus e se aproximou de Brigitte. Ela mal
podia respirar enquanto olhava para cima, pois ele era bem
mais alto.
— Como vou saber que não pretende nos envenenar? —
indagou. — Já fui enganado antes por uma mulher bonita.
Ela prendeu a respiração. Kent a havia chamado de bonita!
— Uma cautela compreensível, m'sieu. Então deixe que seus
próprios homens façam o abate, preparem o espeto e
supervisionem o preparo dos molhos e temperos. Meus
escravos provarão tudo que for preparado.
Ela viu o movimento sombrio nos olhos dele enquanto
avaliava o que era certamente uma situação inesperada.
— Espero que não me tome por um tolo — disse ele,
suavemente.
Seus olhos se encontraram e se fixaram.
O momento se estendeu; Brigitte prendeu a respiração. Este
era o momento crucial. E então Kent relaxou, os lábios
curvados num sorriso.
— Muito bem, vamos comer! — disse.
Seus homens aplaudiram e Kent, inclinando-se na direção de
Brigitte, disse:
— Agora vamos aos negócios. Onde está o ouro, senhora, ou
teremos de arrancar a informação do seu marido?
Recordando-se das histórias que ouvira sobre Kent — como
seus homens tinham amarrado donos de plantação pelos
pulsos debaixo do sol abrasador do meio-dia até que
contassem onde sua fortuna estava escondida —, ela disse:
— Por favor, não maltrate meu marido. Se prometer não
causar dano a ele, eu lhe mostrarei o tesouro.
Certificando-se primeiro de que as covas de assar estivessem
sendo preparadas e de que os escravos da cozinha
entendessem suas tarefas, garantindo-lhes que se todos
cooperassem nada sofreriam, Brigitte conduziu Kent e um
punhado de homens do pátio principal até uma trilha
pavimentada de lajes abaixo, uma das muitas passagens
espalhadas neste paraíso tropical levando a jardins e chalés,
bem como aos engenhos e destilarias de rum e, além destes,
às senzalas dos escravos. Brigitte caminhava à frente de seus
"convidados" com gracioso andar deslizante aprendido muito
tempo antes na infância, suas volumosas saias rosa e amarelo
flutuando ao longo da trilha como se não houvesse pernas
humanas impulsionando-as abaixo. Era uma passada que
aperfeiçoara nos jardins de Versalhes para ganhar a atenção
dos rapazes namoradores; usava-a agora para guiar ladrões até
um tesouro.
Chegaram a uma clareira em meio à vegetação luxuriante e
viram-se diante de uma visão que fez até mesmo aqueles
homens rudes arregalarem os olhos de admiração. Havia um
mirante, aparentemente iluminado pelas estrelas, branco e
bruxuleante na noite. Brigitte deu graciosamente um passo
para o lado, como se fosse servir chá.
— Aí está — disse, apontando para o piso da estrutura. —
Debaixo daquelas tábuas.
Fixando as tochas ardentes no chão, os piratas arremeteram à
frente, as machadinhas quebrando e dilacerando as tábuas.
Romperam o piso e içaram as arcas escondidas debaixo dele.
Brigitte permaneceu muda enquanto os piratas arrastavam
seu butim de volta à casa-grande. Uma fogueira tinha sido
acesa, ela notou, usando-se a fina mobília de sua casa como
lenha. À luz das chamas, os saqueadores abriram as arcas e
gritaram alto quando viram as moedas de ouro, pois eram de
moedas que os piratas mais gostavam.
Aquele foi claramente o sinal para que a comemoração
tivesse início, pois uma rabeca surgiu sabe-se lá de onde e
alguém começou uma animada jiga. Outros haviam
arrombado a destilaria e rolavam enormes barris de rum. As
escravas começaram a passar nervosamente em meio ao
bando de homens com garrafas e taças de vinho, enquanto
do outro lado da fogueira as covas de assar já tinham os
porcos girando nos espetos. Brigitte viu seu marido e os
outros cativos sendo impelidos a estocadas para dentro do
chiqueiro, onde foram jogados no esterco enquanto seus
verdugos se dobravam de rir.
Em algum lugar durante a penosa marcha desde os canaviais,
Henri tinha perdido sua magnífica peruca. Grande e
ricamente preta ela tinha sido, com cachos cuidadosamente
dispostos elevando-se sobre sua cabeça e caindo em cascata
pelos ombros e costas. Recém-chegados à ilha assinalavam
que tais perucas estavam agora fora de moda, mas Henri não
se importava. Era apegado às velhas tradições, que ditavam
que um cavalheiro devia parecer elegante o tempo todo, não
importava o tempo ou a tarefa em que estivesse empenhado.
Mas ela havia sido arrebatada de sua cabeça e agora estava de
cabeça nua, o cabelo grisalho se elevando em tufos enquanto
os piratas o aguilhoavam, chutavam e zombavam dele.
Brigitte enterrou as unhas nas palmas das mãos e manteve a
compostura. Ela queria agarrar uma das tochas ardentes e
partir sobre o bando de piratas, usando-a como uma clava.
Mas no instante seguinte Kent estava olhando para ela, que
lembrou-se da sua resolução e de que esta noite seria sua
última chance.
— Hum — fez ele, estudando-a à luz bruxuleante da tocha.
— O que a faz ser tão destemida, posso saber?
O comentário a sobressaltou. Poderia ele ver a pulsação em
disparada no seu pescoço, o medo em seus olhos, o tremor
em suas mãos?
— Não sou destemida — disse ela, o que era verdade. Mas do
que ela tinha medo era outra questão.
— Quando saiu da sua casa não parecia estar surpresa em nos
ver. Parecia que estava nos esperando.
Ela apontou para o telhado da casa.
— Há um telescópio naquela plataforma. Vi vocês vindo da
praia.
Kent a fitou com grande interesse.
— Gostaria de ver este telescópio.
Ela assentiu e liderou o caminho. Passaram pelo pátio onde
os leitões giravam em espetos cortados de galhos. Os
homens de Kent estavam na maior felicidade esvaziando os
barris de rum. No topo de duas palmeiras muito altas, vigias
com lunetas estavam de olho na fortaleza e na cidade de St.
Pierre. Ao menor sinal de movimentação militar, dariam o
sinal e Kent e seus homens desapareceriam. Brigitte rezou
para que nenhum sinal fosse dado.
A casa havia sido completamente saqueada, com cerâmica
estilhaçada nos pisos de madeira polidos, móveis virados,
peças de ouro e prata amontoadas numa pilha junto à porta,
prontas para ser carregadas. Muda, Brigitte conduziu Kent
através do jardim dos fundos, onde orquídeas púrpura e
buganvílias laranja se misturavam com hibiscos escarlates e
oleandros rosa pálido. Ela o precedeu na subida da estreita
escadaria, as costas retas, a cabeça erguida, como se ela
estivesse dando dignidade monárquica a um giro por sua
casa. Mas estava ciente da aguçada alfange que pendia da
cintura dele, da pistola e da adaga enfiadas no seu cinto. O
espaço entre suas omoplatas se arrepiava de medo. Sentia
como se estivesse sendo seguida por um animal selvagem,
como a pantera-negra que o governador mantinha enjaulada
em sua casa.
Quando chegaram ao telhado e à curiosa plataforma com um
corrimão baixo, viram que a lua cheia estava começando a se
elevar. Também tiveram uma boa visão do complexo abaixo,
onde os aterrorizados escravos de Brigitte cozinhavam sob
os olhos vigilantes dos piratas, sendo obrigados a provar tudo
que faziam. Até mesmo o molho usado nos leitões era
provado primeiro.
Ao som de tanta música, Brigitte lançou um olhar curioso a
Kent, que sorriu.
— Somos uma tripulação privilegiada, pois temos músicos
entre nós. Não é todo navio pirata que espera ter pelo menos
um tocador de gaita e de rabeca. — Ele acenou com a cabeça
enquanto se inclinava sobre a grade para observar as
festividades lá embaixo. — Tenho uma boa tripulação. —
Phipps, o homem com os muitos rabos-de-cavalo, era o
imediato, o homem forte do navio, o juiz do navio e o
encarregado de punir as infrações menores. Era também o
responsável pela seleção e divisão do butim. Havia Jeremy, o
mestre de cabotagem encarregado da navegação, e Mulligan,
o contramestre, Jack, o artilheiro-chefe, Obadiah, o mestre
de velas, Luke, o carpinteiro. Tinham até mesmo um
cirurgião de bordo, embora ele fosse de pouca utilidade em
águas tropicais, onde as principais causas de morte fossem as
incuráveis, febre amarela, malária e disenteria. Sua principal
tarefa era fazer amputações.
Brigitte mostrou o telescópio e notou que ele teve de se
abaixar para espiar por ele, já que era tão alto. Ela também
percebeu um corpo de grande força física sob o casaco
comprido e calções. Os colonos franceses, tendo escravos
para fazer todo o trabalho e com tal fartura de comida e
bebida, eram uma cambada de indolentes; homens que
haviam se esquecido da prática da esgrima e da equitação.
Mas ela suspeitava que Christopher Kent reunia a força
muscular com a perícia na arte do duelo.
Kent olhou pelo telescópio e então, satisfeito, porque
soldados não tinham sido despachados do forte distante,
empertigou-se e voltou sua atenção à perplexa anfitriã. Seus
olhos foram dos seios para o broche.
— Esta aí é uma bela peça — comentou.
— É uma pedra famosa, m'sieu, chamada a Estrela de Catai.
Foi desenhada na longínqua China por um mágico que, diz a
lenda, a criou para conquistar o coração de uma dama. A
pedra supostamente traz amor e romance para quem a
possuir.
Ele sorriu e estendeu a mão querendo tocar a pedra.
Brigitte pôs a mão protetoramente sobre ela. Ele não devia
tê-la, ainda! Ela precisava estar linda, pelo menos por mais
algum tempo. Se ele a tomasse agora, sua beleza iria com a
pedra e o plano fracassaria.
— Eu a darei de presente a você quando partir.
Ele riu e seu olhar demorou-se na mão dela, que protegia
não só o broche mas também o seio.
— E a que se refere quando diz que vai me dar de presente?
O broche ou o tesouro debaixo dele?
Ela tentou não desviar a vista, mas sim enfrentar o olhar
ousado dele, desafio por desafio.
— E assim que tratam as mulheres na ilha onde você vive?
Ele desviou os olhos para o horizonte distante e pareceu
avaliar o que responderia.
— Não vivo numa ilha — disse, por fim. — Tenho uma
plantação na colônia americana de Virgínia.
O choque de Brigitte foi evidente.
— Você vive entre gente civilizada?
— De fato, entre a assim chamada gente civilizada — disse
ele com um sorriso torto —, que apóia minha pirataria.
Afinal, pilhagem só é pilhagem até que seja vendida. Sem
compradores não haveria razão para a pirataria.
— Não entendo.
— São os americanos que compram minhas mercadorias. Na
Inglaterra, os piratas são tratados impiedosamente, mas nos
portos da América dispõem de proteção, até de
hospitalidade. São os americanos que aprovisionam meu
navio e encontraram compradores para meus tesouros, por
uma comissão, é claro. Assim, os americanos enriquecem
comigo.
Ela franziu o cenho.
— É inimaginável.
— É política. Ao apoiar bucaneiros como eu, os amencanos
estão desferindo um golpe contra o governo britânico, uma
luta que, com o tempo, está crescendo e se tornando mais
amarga. Os ingleses criaram este regulamento chamado Lei
da Navegação, que estipula que qualquer mercadoria só pode
ser importada pelas colônias da Inglaterra, por navios
britânicos com tripulação britânica. Os americanos não
acham isto justo e burlam a lei britânica sempre que podem.
— Quer dizer que meus adoráveis castiçais e a porcelana de
minha mãe...
— Mais provavelmente vão acabar numa cornija de lareira
em Boston.
— Mas foi um presente do meu marido! — protestou Brigitte,
quando ele começou a desatarraxar o telescópio.
Ele riu enquanto sopesava o instrumento na mão.
— Homem sentimental, o seu marido.
— Não está entendendo, m'sieu — disse ela com indignação.
— Pelo que entendo, as mulheres preferem presentes que
tenham um significado romântico, mas um telescópio?
— E mais do que um mero telescópio, m'sieu. E um
instrumento de poder.
— Como assim?
— Eu vi vocês, não vi? E vocês nem sabiam de minha
presença.
— Sim — replicou ele, lentamente. — E verdade. Você nos
viu chegando e não sabíamos. Mas podia ter dado o alarme.
Muito curioso.
Kent caminhou até a escada e fez um sinal para que ela o
precedesse. Portanto, Brigitte desceu para o piso abaixo e
liderou o caminho até a sala de estar principal, onde, para sua
surpresa, Kent tirou o chapéu e pediu algo para beber. Seu
cabelo era do preto mais profundo, sem uma sombra de
grisalho, embora ela situasse sua idade mais próxima dos
quarenta que dos trinta, pois seu rosto, quando visto bem de
perto, era marcado pelas rugas da vida e do tempo.
Recusando uma garrafa que já estava aberta e insistindo para
que ela buscasse outra ainda lacrada, Kent foi até a varanda
onde conferenciou brevemente com o Sr. Phipps.
— Continua tudo normal no forte e na cidade — disse a
Brigitte, ao entrar. — Ainda não fomos percebidos.
Através das cortinas transparentes da janela principal, ela
pôde ver a lua continuando a se elevar e a despejar sua luz
sobre o pátio onde os piratas estavam se tornando ruidosos e
algumas mulheres escravas eram encorajadas a ser amigáveis.
Ainda não haviam começado a comer, mas aromas de
fumaça e assado enchiam o ar.
Kent olhou para o retrato sobre a lareira, uma cena pastoral
representando Henri e Brigitte Bellefontaine sentados
debaixo de um enorme carvalho, com os filhos reunidos a
sua volta. Quando Kent comentou sobre as crianças e sua
semelhança fortuita com a mãe e não com o pai, Brigitte
disse:
— Eles significam o mundo para mim. Meus filhos são a
minha vida.
— Ainda assim, os mandou embora.
— Uma decisão que lamento. — Ela trouxe uma bandeja com
dois cálices cheios de conhaque. Kent mandou-a provar os
dois antes de escolher um.
— Você me insulta — sussurrou ela.
— Milady, há mil maneiras de matar um homem, mas o
envenenamento é uma arte feminina. E existem mil
maneiras de envenenar — replicou Kent e depois disse: —
Teremos uma lareira acesa? A noite está começando a esfriar.
Brigitte chamou um dos escravos para acender a lareira e
agora as chamas estavam lançando sobre as paredes a sombra
alta de Christopher Kent.
Ele provou o conhaque, observando Brigitte por sobre a
borda do cálice.
— Então seu marido arrasta você para este fim de mundo,
onde não pode criar seus filhos.
— Meu marido não me "arrastou". Viemos para cá construir
alguma coisa. Os Bellefontaine são uma antiga e nobre
família, mas a geração anterior esbanjou a fortuna, de modo
que não houve terras para meu marido herdar. Ele aceitou
um oferecimento do rei para vir e ajudar a construir a
colônia. Em troca, a terra seria nossa. Aqui é o nosso verda-
deiro lar, m'sieu, que construímos para nossos filhos, pois
eles voltarão para a Martinica. Estão em Paris apenas
temporariamente, para seus estudos. E é por isto que lhe
peço — continuou, um tanto sem fôlego — que não mate
meu marido. Nossos filhos precisam do pai.
Kent olhou pela janela e viu o Sr. Phipps observando uma
das escravas provar um naco de pão recém-assado antes de
ele próprio servir-se de um pedaço. Tudo estava sob
controle.
— Homens como seu marido — disse Kent agora, num tom
sombrio e letal —, homens com riqueza e poder, precisam
aprender lições.
— Ele caiu num silêncio soturno, sua expressão cada vez
mais turbulenta e ilegível enquanto observava seus homens
dançando ao redor da fogueira. Depois se voltou, como se
lembrando subitamente de onde estava, e disse em tom mais
ameno. — De qualquer forma, o destino de seu marido não
depende de mim, mas de meus homens.
— Mas certamente poderia ordenar a eles que...
— Está se vendo claramente que não entende a lei dos mares,
milady. Posso ser o capitão do navio, mas somos uma
tripulação democrática, como são as de todos os navios
piratas. O que meus homens decidem é da conta deles fazer.
Não lhes dou ordens nem os faço acatá-las. O que acontecer
não é de minha responsabilidade.
Ele caminhou até as portas abertas para o jardim dos fundos.
— Que perfume é este? — perguntou, inalando o ar noturno.
Era uma mistura estonteante de jasmim, lírio-do-vale, frésias
púrpura e cor-de-rosa, lilás e madressilva.
— Que pirata é este que não assume responsabilidade por
suas ações? - indaga ela atrás dele.
Ele voltou-se.
— Madame, você não conhece nada a meu respeito nem do
meu mundo. Pense o que quiser. Por que eu me importaria?
— Então culpa o mundo pelos seus males?
— O que o mundo algum dia me fez?
— Você mata por vingança, não é? Até mesmo os inocentes?
— É a lei da sobrevivência. Como o gavião mata a cobra,
como a cobra mata o rato. Só o forte sobrevive, foi tudo que
aprendi.
— Mas por que só ataca os franceses?
— Ataco qualquer um. A humanidade é minha inimiga. Não
faço distinção entre ingleses e franceses, espanhóis ou
árabes. Sou um príncipe autônomo, madame. Tenho tanto
direito de fazer guerra no mundo inteiro quanto quem
comanda uma esquadra no mar ou um exército em terra.
Ela deu-lhe as costas, sem fala. Viu as flores no seu jardim
brilhando intensamente ao luar como se fosse dia. Ouviu os
chamados encantadores de um pássaro noturno. A ilha
continuava adormecida sob a lua refulgente. Não havia
nenhum canhoneio do forte. Nenhum sinal de navios, nem
tochas sendo carregadas montanha acima. E os vigias no alto
das palmeiras não haviam gritado nenhum alarme. Abaixo,
fumaça picante e cozimento aromático enchiam o ar, e
cantar embriagado e som estridente de rabeca eram
quebrados por riso feminino alto.
Kent caiu em silêncio e pareceu retrair-se.
— Estranho — murmurou, após um momento. — Tenho
visitado estas ilhas em todos estes anos, caminhei por suas
terras e bebi das suas nascentes, ancorei nas suas águas e
provei seus frutos. Ainda assim, realmente nunca vi estas
ilhas.
Brigitte esperou, e a noite pareceu esperar com ela.
Imaginou todos os pássaros exóticos com suas plumagens
coloridas, todas as flores tropicais com suas folhas e pétalas
suculentas, as estrelas cintilantes e a lua cheia e cor de
marfim, até mesmo as arrebentações brancas na praia
distante, imaginou que todo o universo havia parado por um
instante para esperar com ela.
— Embora eu pareça estar vendo-as agora. A Martinica, pelo
menos. Que magia atua neste lugar? — O olhar dele caiu
sobre o cristal azul no peito de Brigitte. — Esta é uma pedra
misteriosa. Nunca vi uma assim antes. Nem mesmo um
diamante ou safira. E como um topázio azul, porém mais
profundo e mais nevoento. E o que jaz no seu núcleo? Um
feixe de estrelas, parece.
— Existe magia atuando aqui — disse, ao fixar os olhos nos
dela. — Será a ilha? Ou você, madame? Que espécie de
encantamento lançou sobre mim? — Seu cenho franziu-se e
ele pareceu perturbado. — Eu e meus homens devíamos
partir — disse decisivamente. — Fico nervoso ao
permanecer tanto tempo num lugar. Fomos seduzidos,
desconfio.
O coração dela saltou. Ele não podia ir embora!
— Seus homens ainda não comeram.
— Podem levar a comida com eles.
— Os leitões ainda não estão prontos. E alguns de seus
homens... — Sua voz arrastou-se enquanto olhava para as
árvores frondosas que circundavam a casa. Kent captou sua
mensagem: ele também vira alguns de seus homens se
esgueirando para os arbustos com as escravas.
Lançou-lhe outro olhar prolongado e curioso.
— Por que não tem medo de nós?
— Mas eu tenho.
— Você já disse, mas não consigo acreditar. Nunca vi uma
mulher agindo como você. Estou acostumado com histeria,
fuga, desmaios. Ou mulheres se escondendo atrás de seus
homens. Você é feita de um estofo diferente. — Seus olhos
se desviaram do rosto dela para os ombros, nus e brancos ao
luar. — Mas está tremendo, madame. A noite está esfriando.
— Nesta altitude — disse ela sem fôlego, como se a altitude
dificultasse a respiração — a temperatura cai à noite, muito
embora desfrutemos de dias muito quentes.
— E como se aquecem à noite? — perguntou, enquanto a
ironia bailava em seus olhos.
— A Martinica tem seus lugares quentes.
Kent notou o desafio nos olhos dela. E quando Brigitte se
moveu levemente, captou o reflexo de fogo azul no seu
peito. Outro desafio?
— Mostre-me esses lugares quentes — disse em voz baixa.
Enquanto atravessavam de novo o pátio fumacento, alguns
homens de Kent se dirigiram a ele alegremente, fazendo
comentários jocosos acerca de sua parceira. Agora eles
estavam partindo pedaços de pão para si mesmos e
entalhando abacaxis e cocos. Brigitte notou que estavam
usando suas próprias adagas em vez das facas de cozinha
fornecidas pelas escravas. Também notou que o Sr. Phipps
havia encontrado as taças de peltre novas em folha chegadas
recentemente da França, ainda na sua embalagem de palha,
pois era nelas que os piratas bebiam, mais uma vez evitando
a possibilidade de ser envenenados. Na verdade, eles não
corriam quaisquer riscos, cuidavam para que cada cebola,
cada pitada de pimenta que entravam nos pratos fossem
testadas num humano, e uma vez que os leitões estavam
assados preferiram cortá-los com suas próprias adagas.
Mas pelo menos estavam comendo e bebendo, que era com
que Brigitte havia contado, impedindo que se retirassem tão
logo se apossassem do ouro. Se fossem embora ela nunca
mais teria outra chance com Kent.
Brigitte mantinha a cabeça erguida e tentava não olhar na
direção do marido enquanto conduzia o capitão pirata em
meio à multidão em festa, passava pela beira do gramado
imaculado e entrava na fria e densa folhagem da selva.
Tão logo as folhas e frondes espessas se fecharam atrás deles,
o som foi abafado e um estranho silêncio os engolfou.
Brigitte ouviu atrás de si a alfange de Kent sendo sacada da
bainha. Mas apressava-se à frente na trilha mal visível ao
luar. Acima, a cobertura frondosa só permitia alguns
lampejos da lua cheia; criaturas invisíveis rastejavam aos pés
deles, e olhos dourados piscavam na escuridão. Finalmente
chegaram à orla da floresta densa e puderam ouvir acima um
curioso som precipitado.
Brigitte entrou primeiro, e quando Kent juntou-se a ela,
parando abruptamente ao lado, ouviu a afirmação sussurrada
do pirata. Porque estavam diante de uma visão além da
crença.
A lagoa estava talvez a uns trinta metros abaixo, orlada por
amplas pedras lisas, baixios juncosos, dunas relvosas, e uma
estreita faixa de praia arenosa. Ela se abria para o céu de
modo que a lua cheia refletia-se como uma moeda de ouro à
superfície da água, que se agitava em círculos concêntricos
provenientes da mais espantosa queda d'água, originada de
um gêiser que borbulhava através de rochas altas acima e
cascateava num jorro de espuma branca e vapor quente.
Embainhando sua alfange, pois percebeu que não havia
nenhuma armadilha ali, Kent deu um passo à frente.
— Nunca em minha vida vi um lugar como este! — afirmou,
de novo. — E como uma casa de banho! Como a água fica
tão quente?
— É aquecida por nascentes vulcânicas muito abaixo do solo
— explicou Brigitte, notando que uma fina transpiração
tinha brotado na testa dele. Aqui, neste clima abafado,
orquídeas silvestres cresciam em profusão e parreira verde-
jade, flores de flamingo, muitas variedades de hibisco e
outras plantas carnudas com caules intumescidos.
Caminhando até a margem, Kent pôs as mãos nos quadris e
examinou a cena espantosa. A atmosfera tórrida já começava
a enrolar as pontas de seu cabelo e contas de suor a aparecer
em torno de sua boca. Ele tirou o chapéu e depois o
comprido casaco preto, dobrando-o cuidadosamente no
chão. Brigitte viu como a camisa de linho branca começara a
grudar nele em partes úmidas, delineando os músculos.
Kent esfregou a testa, confuso. A névoa quente e o perfume
floral estavam confundindo seu raciocínio. Este paraíso
verdejante e opulento o havia privado da lógica e da
sanidade. Em toda a sua vida nunca se vira tão seduzido,
nem sequer pensara que algum dia poderia ser. Olhou para
sua enfeitiçante companhia e de novo o refulgir do fogo azul
no peito de Brigitte capturou seu olhar. Era o cristal que
estava lançando o encantamento, ou era a mulher? Ou
ambos?
Ele a alcançou em quatro passadas e tomou-a nos braços.
— Desde que chegamos — disse numa voz áspera — tive a
sensação de que você queria nos manter aqui. Desconfiei de
uma armadilha. Pensei que tivesse mandado mensageiros ao
forte. Mas já era tempo agora de os soldados terem chegado,
e meus vigias já os teriam detectado. Não mandou nenhuma
mensagem, mandou?
Ela sacudiu a cabeça.
— Queria que eu ficasse?
Ela assentiu lentamente.
— Jure. Por tudo que lhe é mais sagrado. Jure que é verdade
que queria que eu ficasse.
— Juro — sussurrou ela. — Pela vida dos meus filhos, juro
que queria que você ficasse. — E era a verdade.
Ele a puxou para si e beijou-a. Separaram-se por apenas um
instante, para tomar um fôlego apressado, depois ele a atraiu
para si novamente enquanto a cachoeira se despejava cheia
de vapor e a lua olhava para baixo com um olho imparcial.
Brigitte, rendendo-se aos beijos dele, pensou no adivinho
cigano de tanto tempo atrás e percebeu que a lenda era
verdadeira: a Estrela de Catai possuía os poderes do amor e
da paixão. Sem ela, Brigitte soube, esta noite nunca teria
acontecido.
Jaziam sobre a relva úmida, exaustos. Haviam nadado na
lagoa aquecida e se abraçado debaixo da queda d'água.
— Você é mágica e rara, tal como esta pedra azul, e tão linda
quanto ela. Venha comigo, Brigitte. Venha viver comigo na
minha plantação na Virgínia. Eu a faria muito feliz —
murmurou Kent.
Falou durante algum tempo sobre seu lar na América, e
depois foi caindo no sono com Brigitte em seus braços,
olhando para a lua tropical enquanto ela fazia seu lento
progresso rumo ao horizonte ocidental.
Kent acordou com o som de pássaros. O céu ainda estava
escuro, mas a lua se fora e o alvorecer não ia demorar. Viu
Brigitte de pé à beira da água, tão vestida quanto poderia
estar sem a ajuda de uma criada para dar os laços no
espartilho.
Kent vestiu-se silenciosamente, envolto na magia do que
tinha acontecido. E enquanto tomavam o caminho de volta
para a plantação e a realidade, Kent soube de duas coisas: que
desejava ficar com esta mulher e que estava com uma fome
desesperada.
A maioria de seus homens estava espalhada em volta da
fogueira quase extinta, cochilando, de boca aberta. Alguns
cambaleavam em torno, gemendo e vomitando. As
mulheres tinham desaparecido.
Colette apareceu de repente, como se estivesse esperando a
volta de sua ama, trazendo um prato de comida quente e
uma caneca de rum.
— Ela guardou um pouco para você — disse Brigitte a Kent,
pegando o prato e estendendo-o a ele. — Do contrário só
teriam sobrado ossos.
Kent sorriu enquanto sentava-se no gramado e enchia a boca
com a carne suculenta. Tinha sido temperada e assada com
perfeição. Seus homens, quando ficassem sóbrios, jurariam
que nunca mais comeriam tão bem.
Ele virou o rosto para o leste, onde a claridade começava a
lavar o horizonte.
— Temos de zarpar em breve. Meu navio está escondido,
mas ainda corre o risco de ser descoberto.
Brigitte olhou para os chiqueiros, onde os homens tinham
sido trancados. A maioria dormia, tendo bebido toda a sua
cota de rum que as mulheres tinham trazido para eles. Mas
não receberam comida, sob ordens estritas de Colette, que
fora instruída por Brigitte. Ela viu Henri, ainda acorrentado,
parecendo abjeto e infeliz.
— Recolha tudo que queira levar consigo o mais rápido
possível — disse Kent enquanto devorava a suculenta carne
de leitão e empurrava com rum. — Não vai precisar de muita
coisa, querida, pois comprarei todos os vestidos e jóias que
quiser.
Brigitte viu Colette junto à varanda, observando, olhos
solenes na face negra. Permanecia de braços cruzados, como
se os eventos da noite não lhe dissessem respeito.
O céu continuava a clarear e a floresta tropical circundante
despertou com guinchos de macacos e o estridente cantar de
pássaros. O último dos piratas desabou ao chão, mas Kent
não notou empenhado em embeber o resto de molho no seu
prato num pedaço de pão.
— Não está com fome, meu amor? — perguntou com a boca
cheia.
Ela por fim se ajoelhou ao lado dele, as saias se espalhando ao
seu redor, as cores do vestido parecendo um pôr-do-sol —
ouro em fundo rosado.
— A Martinica é conhecida por suas flores, m'sieu. Mas,
mesmo assim, muitas de nós trazemos de casa nossas plantas
preferidas. Conhece o oleandro? — Ela apontou para uns
arbustos altos e folhosos ostentando brotos cor-de-rosa.
Cepos brancos podiam ser vistos onde os galhos tinham sido
cortados mais cedo.
Kent sugava o último osso de leitão e depois mastigou o
pedaço restante de pele tostada.
— Espere até ver as flores na América, minha cara.
Ela apontou para os espetos descartados ao lado das covas de
assar.
— Assamos os leitões naqueles galhos. Eu disse a Colette que
se certificasse de que toda a cortiça fosse bem aparada, antes
de se enfiar a carne nos espetos.
Ele tomou um grande gole de rum e lançou-lhe um olhar
perplexo.
— O que isto tudo tem a ver comigo? — perguntou.
— O oleandro é venenoso. Cada parte dele.
Kent pareceu confuso.
— Seus homens não estão dormindo, m'sieu, eles estão
mortos. — Gesticulou para Colette que, sabendo o que era
esperado dela, saiu correndo. Foi de um homem a outro, a
todos os corpos esparramados no pátio, sentiu a pulsação de
cada um no pescoço, brevemente. Ao terminar, deu um
sorriso de triunfo para sua ama.
Kent piscou.
— Mortos? Do que está falando? — E então a compreensão
despontou sobre ele tal como o alvorecer desponta sobre os
picos das montanhas e dispara estrias de luz através da
plantação. Agora ele viu o que não tinha visto na luz
nevoenta da aurora: que seus homens jaziam em posições
estranhas e pareciam silenciosos demais para quem está dor-
mindo.
Ele se pôs de pé, derrubando o prato e o copo.
— Não acredito em você. Cada etapa do banquete foi
supervisionada, cada ingrediente foi provado.
— Você só pensa no veneno que vem de fora para dentro.
Nunca pensou no veneno que vem do interior para fora.
Enquanto o assamento prosseguia, a seiva dos galhos de
oleandro foi liberada e penetrou na carne dos porcos.
— Não acredito em você.
— Olhe para seus homens.
Ele virou-se lentamente, piscando à visão dos corpos
estirados na luz pálida do amanhecer.
A voz de Brigitte chegou-lhe através da vagarosa fumaça das
fogueiras.
— Você disse que existiam mil maneiras de envenenar um
homem. Estava errado, m'sieu. Há mil maneiras, e mais uma.
Você não sabia do oleandro.
Kent lançou-lhe um olhar incrédulo.
— Quando tomou esta decisão?
— A partir do momento em que os vi pelo telescópio. Antes
que você e seus homens chegassem à plantação. Esteve certo
o tempo todo, m'sieu. Foi uma armadilha. Quando os vi
subindo a colina e soube que não havia mais tempo de avisar
a fortaleza, percebi que nossa única esperança residia no
envenenamento de todos vocês. Mas isto requeria mantê-los
aqui. E a única forma de conseguir isto era seduzindo você.
— Por Deus, mulher, você não me seduziu! Foi justamente o
contrário!
Ela apontou para os espetos descartados.
— Aqueles já estavam preparados antes de vocês chegarem à
plantação. Já pensou por que não mandei um mensageiro ao
forte tão logo os vi? Verdade, os soldados não poderiam
chegar a tempo, mas mesmo assim não lhe pareceu estranho
que eu nem tentasse?
Ele não respondeu, mas passou as mãos sobre o rosto
transpirante, que tinha ficado chocantemente branco.
— Decidi não mandar um mensageiro ao forte porque os
soldados iriam se pôr em marcha e vocês os veriam e teriam
escapado. Para meu plano funcionar eu precisava segurá-los
aqui até que os leitões fossem comidos. Portanto, assumi um
jogo.
O olhar de Kent tornou-se furioso.
— Quer dizer que aquilo que partilhamos na gruta nada
significou para você?
— Significou algo para mim, m'sieu. Significou salvar a vida
de meu marido. Também significou salvar o legado dos meus
filhos. — Ela apontou para as arcas de moedas de ouro que
os piratas escavaram debaixo do mirante. — Aquele ouro
pertence aos meus filhos. Meu marido construiu essa fortuna
para transmitir aos nossos filhos e filhas. Pensou que eu
deixaria você levá-la?
Ele subitamente agarrou a cabeça.
—- Não me sinto bem.
— Deveria tê-lo afetado rapidamente. Ao contrário de seus
homens, você comeu um pouco mais, apenas a carne. E teve
pouco para beber.
— Vai ficar parada aí me vendo morrer?!
— Você mesmo escolheu isso — disse ela, sem qualquer
vestígio de piedade na voz.
— Tem coragem de dizer isto... depois do que tivemos
juntos? Você gostou!
— Que pretensão, m'sieu. Seu toque foi nojento.
— Então você não passa de uma puta.
— Não, m'sieu, sou simplesmente uma mulher que faz tudo
para conservar sua família. Até mesmo dormir com uma
serpente.
O suor escorria de sua testa.
— Enganei-me ao considerá-la uma dama.
— Você se enganou ao subestimar o que uma mulher é capaz
de fazer para proteger sua família.
Ele apertou o estômago.
— Pelo amor de Deus! — gritou.
Ela o observou com um frio distanciamento, como olharia
para uma panela a ferver. Quando a cor dele passou de
branco para cinza, e depois um estranho púrpura ergueu-se
do seu pescoço, ela disse:
— Meus escravos já estão a caminho da fortaleza para alertar
os soldados. Não vai demorar até que cheguem aqui. Mas
você já estará morto até lá.
Kent tentou alcançá-la. Ela recuou e, enquanto ele caía, seus
dedos se enroscaram no braço, rasgando o corpete. Quando
Kent bateu no chão, o cristal azul estava fechado no seu
punho, suas tonalidades de magia e encantamento brilhando
entre os dedos ao sol nascente.
-Ma chou, você é o assunto das Antilhas. É uma heroína!
Eles estavam prontos para dormir. Embora tivessem acabado
de receber convidados, Henri fizera questão de manter-se
sóbrio. E agora olhava para a esposa com amor e desejo nos
olhos.
— Vê que ironia, Henri? Se eu lhe tivesse contado qual a
verdadeira fonte de meu descontentamento, você nunca me
compraria o telescópio, e sem o telescópio aquela noite teria
sido bem diferente.
— Graças a Deus, então, por eu ser tão obtuso.
Ela entrou sob as cobertas e apagou a vela.
— Henri, quero trazer as crianças de Paris. Sei que não se faz
isto. Colonos não educam seus filhos nas ilhas. Mas seremos
os primeiros. Importaremos tutores, instrutores de
equitação, damas de boa qualidade para ensinar etiqueta e
conduta. Talvez eu possa fundar uma escola. Sim, é o que
faremos.
— Sim, ma chou — disse Henri, decidindo que de agora em
diante diria sim a tudo que ela pedisse.
Ele tentou tocá-la, mas ela recuou.
— O que é, ma chou?
— Você se apaixonou por mim porque eu era linda. E depois
você viu o quanto estava bonita naquela noite com Kent.
Mas foi a Estrela de Catai. Ela me deixou linda, e fui capaz de
distrair o Capitão Kent por tempo suficiente. — Com muito
tato, Henri não perguntou sobre o que aconteceu na lagoa e,
apesar de o desalinho de suas roupas na manhã seguinte
(Brigitte tinha claramente lutado com o patife e defendido
sua honra), convencera-se de que sua esposa, sendo uma
hábil conversadora, tinha meramente falado com o inglês a
noite toda. Brigitte, é claro, não o desenganou desta noção.
— Mas você é linda — disse ele. — Não precisa de nenhuma
gema para isto. — Ele pensou por um momento, depois
disse: — Muito bem. — Saiu da cama e voltou logo depois.
No escuro ela sentiu os dedos dele no corpete de sua
camisola.
— O que está fazendo?
— Tornando-a bonita. Aqui. Aqui está o seu cristal azul.
E ela sentiu sua magia atuar de imediato, a Estrela de Catai,
transformando-a. Aceitou muito feliz o abraço de Henri,
sentindo-se bonita de novo, pois o que pode funcionar com
um pirata pode igualmente funcionar com um marido.
E depois que satisfizeram sua paixão, e Brigitte decidindo que
a vida na Martinica ia ser um paraíso, afinal, Henri acendeu a
vela para iluminar o camafeu de marfim que ele havia
pendurado no peito dela. O cristal azul estava ainda na caixa.
Ela sorriu suavemente e o procurou mais uma vez.
Ínterim
Depois da derrota de Christopher Kent, a Martinica nunca
mais sofreu invasões piratas, e a assim chamada idade de
ouro da pirataria chegou ao fim logo depois, quando todas as
marinhas do mundo se uniram para limpar os mares. Henri e
Brigitte viveram até a idade madura de 60 e 63 anos,
respectivamente, deixando um legado de riqueza e honra
para os filhos. A plantação Bellefontaine sobreviveu a
terremotos, furacões e a uma erupção maciça do monte
Pelée para se tornar, na atualidade, uma popular atração
turística onde os visitantes ouvem de simpáticos guias de
excursão a excitante história de como o casal Bellefontaine,
armados somente com um telescópio e um mosquete,
conseguiram derrotar cem piratas sanguinários no decorrer
de uma única noite.
Em 1760, o filho, à época um homem dissoluto, sofrendo,
de gota e doença venérea, estava num jogo de pôquer com
um homem chamado
James Hamilton. Tudo que restava ao Bellefontaine era um
cristal azul que havia pertencido a sua mãe. Não fazia idéia
do seu valor, só que ficara conhecido como Estrela de Catai.
Ele perdeu o jogo e a posse do cristal passou para James
Hamilton, que o deu de presente a sua amante, Rachel, que
deu-lhe dois filhos bastardos na ilha de Nevis, nas Antilhas.
Pouco depois que a família mudou-se para a ilha de St. Croix,
James Hamilton abandonou Rachel e os dois meninos,
Alexander e James. Usando o cristal azul como penhor,
Rachel obteve um empréstimo e abriu uma lojinha na cidade
principal, onde James aprendeu carpintaria e Alexander, de
11 anos de idade, tornou-se burocrata no posto comercial.
Eles prosperaram e Rachel pôde resgatar o cristal azul, por
motivos sentimentais.
Quando o filho mais novo completou 17 anos, um clérigo
local levantou recursos para mandá-lo estudar em Nova
York. Enquanto cursava o Kings College, Alexander
Hamilton conheceu e se apaixonou por Molly Prentice, filha
de um ministro metodista. Ele jurou devoção a Molly e deu-
lhe o cristal azul, que sua mãe lhe dera de presente quando
partiu das Antilhas, para selar seu juramento. O pai de Molly,
porém, não aprovou o relacionamento da filha com um
rapaz pobre de linhagem dúbia, e mandou-a para a casa de
parentes em Boston, onde mais tarde Molly se apaixonou e
casou com Cyrus Harding, dando-lhe oito filhos. Ela nunca
mais viu Hamilton, mas guardou o cristal como lembrança
de seu primeiro amor. Quando soube da morte dele em
duelo com um homem chamado Aaron Burr, não agüentou
mais olhar para o cristal e deu-o de presente de núpcias à
filha Hannah, uma moça com tendências místicas que
alegava ser capaz de se comunicar com os mortos. O cristal,
Hannah declarava, era de grande ajuda neste aspecto.
Livro Oito
O OESTE AMERICANO
1848 d.C.
Leste, Sul, Norte e Oeste,
Dizei-me, ó Espírito, que caminho é melhor.
Após terminar seu cântico silencioso, Matthew Lively
manteve os olhos fechados por mais um instante, depois os
abriu para ver onde o cristal giratório tinha ido descansar.
Era assim que Matthew tomava todas as decisões
importantes: consultando a Pedra da Benção.
Abriu os olhos. A pedra apontava para oeste.
Sentiu um pequeno arrepio de excitação. Já tinha desejado ir
para o oeste, para ver a nova região do outro lado das
montanhas Rochosas, talvez até mesmo cavar uma vida
inteiramente nova para si por lá. Mas se a Pedra da Bênção
lhe tivesse dito que fosse para o leste, e depois para a Europa,
ele cruzaria o oceano; o sul o teria levado à Flórida, e o norte
o faria embrenhar-se nos ermos do Canadá.
Mas a pedra apontava para a palavra "oeste", que ele
escrevera numa ampla folha quadrada de cartolina com as
palavras "sul", "leste" e "norte", delineando os quatro pontos
cardeais com a ajuda de um compasso. Depois havia
colocado o cristal liso, que sua mãe batizara de a Pedra da
Bênção, no centro da folha e o rodopiara. Ele tinha parado
com a sua extremidade mais fina apontando para oeste.
Ele mal continha sua alegria. Amassando a cartolina e
devolvendo o cristal ao seu estojo especial forrado de veludo
vermelho, apressou-se em descer para comunicar seus
planos à mãe. Mas parou ao pé da escada. As cortinas
estavam cerradas na entrada para a sala de visitas, o que
significava que uma sessão estava em andamento e que,
portanto sua mãe não podia ser perturbada.
Matthew não se importou. Era jovem e estava faminto,
então comemoraria com bolo e leite na cozinha até que os
clientes de centro espírita de sua mãe tivessem partido.
Enquanto cortava para si uma generosa fatia de bolo de
chocolate, ele esperava que a mãe tivesse feito bons contatos
com os espíritos nesta tarde; não estava disposto a discutir
com ela, nem aturar uma recusa à sua partida para a Costa
Oeste. Matthew precisava ir; ele morreria aqui em Boston se
não fosse.
Tudo por causa de Honoria. Ela quase o matou ao recusar sua
proposta de casamento. Seu coração sofria uma dor mortal.
Não havia placebos para este tipo de ferida. Não era só por
ela ter dito não, mas o modo como disse. Com um tom
horrorizado: "Eu não poderia viver com um homem que lida
diariamente com corpos de falecidos." Matthew não a
culpava. A própria Honoria era frágil, passando metade do
tempo recolhida ao leito onde recebia as visitas. Além disso,
ele próprio não era feito de proporções heróicas. Matthew
Lively sabia muito bem o que as pessoas viam quando
olhavam para ele: um jovem pálido e nervoso que
freqüentemente gaguejava e que, apesar de sua formação
universitária, era completamente inseguro.
Ainda assim, a rejeição de Honoria o havia magoado e
Matthew Lively, 25 anos de idade e terminando seu copo de
leite, decidiu descartar as mulheres para sempre.
Hannah Lively, filha de Molly Prentice, que certa vez fora o
interesse amoroso de Alexander Hamilton, chegou à
cozinha, uma mulher simples em bombazina preta, uma
pequena touca de renda na cabeça.
— Foi uma boa leitura, mãe? — perguntou Matthew.
Orgulhava-se do fato de sua mãe ser uma das espiritualistas
mais procuradas da Costa Leste.
— Os espíritos vieram com muita clareza hoje. Mesmo sem a
ajuda da Pedra da Bênção. — A seguir ela lançou-lhe um
olhar de expectativa.
— Mãe, a pedra apontou para oeste!
Ela assentiu sabiamente
— O espírito-guia no cristal sabe onde jaz o seu destino.
Com 60 anos de idade e considerada uma autêntica profetisa
por seus muitos amigos e vizinhos, Hannah Lively
acreditava piamente no poder do cristal, portanto Matthew
não lhe contou que o fizera girar 11 vezes antes que
apontasse finalmente para oeste. Ele supunha que a pedra
simplesmente necessitava de aquecimento.
— Tenho de partir imediatamente para Independence —
disse ele empolgado. — Dizem que não se deve partir depois
de primeiro de maio. As caravanas que seguem depois das
primeiras não obtêm boa pastagem ao longo da trilha, e é
crucial alcançar as montanhas da Califórnia antes da primeira
nevasca... — Ele parou quando percebeu o que tinha reve-
lado: que o tempo todo planejara ir para o oeste.
Sua mãe não se importou. Desde que o cristal houvesse dado
sinal verde, seu filho estava livre para seguir para onde seu
coração mandasse.
Ouviram a porta da frente se abrir e fechar, pés pisando no
capacho do hall Era o pai de Matthew, batendo as gotas de
chuva de sua cartola — um cavalheiro alto de cabelos
grisalhos com porte distinto, como convinha a sua profissão.
— O garoto do Simson morreu — disse, solenemente. —
Pneumonia, não podia ser salvo. — E seguiu para a
biblioteca.
Jacob Lively sentou-se à escrivaninha e, como era seu
hábito, cuidou dos negócios antes de qualquer outra coisa.
Um meticuloso mantenedor de registros, o Lively mais
velho pegou um atestado de óbito em branco, molhou a
caneta no tinteiro e preencheu cuidadosamente os campos,
sacando o relógio de bolso para confirmar a hora da morte:
foi uma caminhada de seis minutos exatos desde a casa de
Simson.
Só depois de concluída a tarefa é que deu atenção à família e,
transformando-se em marido e pai, levantou-se com um
sorriso.
— Posso deduzir, pelo aspecto do rosto de meu filho, que
uma decisão foi tomada?
— Vou para o oeste, pai.
Jacob abraçou Matthew.
— Sentirei sua falta, filho — disse, com uma rara emoção —,
e esta é a verdade de Deus. Mas você nasceu para fincar
raízes em terra estranha. Sempre soubemos disso, eu e sua
mãe. — Os Lively tinham visto a inquietação crescente no
filho mais novo e entendido a sua ânsia em partir para um
lugar onde se sentisse necessário. Reconheciam que o oeste
era onde suas habilidades seriam mais do que necessárias. —
Agora que a hora está sobre nós, filho, desejo-lhe boa sorte.
Os pais o presentearam com uma valise preta com suas
iniciais estampadas em ouro. Dentro, havia bisturis, tesouras,
agulhas para suturar pele e carne, fios de seda e categute,
esparadrapos e ataduras, seringas e cateteres — tudo novo
em folha. Os olhos dele se arregalaram quando tirou da valise
um prezado instrumento.
— Um estetoscópio!
— Francês legítimo — disse o pai com o peito inflado de
orgulho. Poucos estavam em uso deste lado do Atlântico.
O longo tubo de madeira, com uma extremidade alargada
para ser colocada sobre o peito de um paciente, só tinha sido
inventado alguns anos antes. As criações originais haviam
sido muito mais curtas, e então os médicos perceberam que
um tubo de asculta mais comprido permitia distância
suficiente para evitar que as pulgas do paciente pulassem
sobre eles.
Antes de Matthew partir, sua mãe queria fazer uma última
leitura, pois planejava mandar a Pedra da Bênção com ele,
levando em conta que naquela viagem de quase cinco mil
quilômetros entre Boston e o Oregon, seu filho precisaria
muito mais do cristal do que ela.
Enquanto a mãe se consultava reservadamente com a Pedra
da Bênção, Matthew andava de um lado para outro na sala. A
aventura iminente tanto o empolgava quanto assustava. Era a
primeira vez na vida que assumira a iniciativa de fazer algo
por conta própria. Desde pequenino que tinha sido um
seguidor. Havia até mesmo acompanhado os irmãos mais
velhos na profissão do pai (e se Matthew algum dia teve
aspirações de seguir uma outra carreira, ele as havia
sepultado, pois uma iniciativa tão ousada não estava em sua
natureza).
Depois de ter comungado com o espírito na Pedra da
Bênção, Hannah pegou a mão do filho e depôs o cristal nela,
fechando os dedos dele em torno da pedra.
— Preste atenção agora, filho — disse ela, gravemente. —
Um grande desafio o espera. Você deve enfrentá-lo com
força, coragem e sabedoria.
— Sei disso, mãe — replicou, gentilmente. — É uma jornada
longa e incerta para o Oregon.
— Não, filho, não estou falando da viagem. Sim, ela será
árdua, mas qual a trilha que não é? Falo de uma outra coisa...
um momento decisivo na jornada. Uma coisa—seu rosto
ficou perturbado — terrível e sombria.
Isto o alarmou.
— Posso evitá-la?
Ela sacudiu a cabeça.
— Ela foi colocada diante de você, é a sua sina. Mas está lá
como um teste. Deixe o cristal guiá-lo, filho, ele o conduzirá
à luz e à vida.
E então chegou a hora da partida. Ele tinha um longo
caminho a percorrer — a pé, a cavalo, de charrete, de balsa e
trem — de Boston à Independence, Missouri, onde a estrada
do seu destino ia começar.
— Eu já disse a você — o guia da caravana gritou com
franqueza. — Não vou levar mulheres desacompanhadas e
ponto final!
Emmeline Fitzsimmons olhou exasperada para Amos Tice.
Tinha passado as duas últimas semanas em Independence, o
ponto de partida para a Trilha de Oregon, percorrendo o
vasto acampamento onde famílias aguardavam o início da
jornada para o oeste, e ainda não encontrara um chefe de
caravana disposto a levá-la. Não era justo. Uma boa quan-
tidade de homens solteiros estavam encontrando vaga nas
caravanas. Mas uma mulher sozinha...
Ela queria gritar.
O Capitão Amos Tice fora originalmente um montanhês
desbravador e seu traje mostrava isso: jaqueta franjada de
pele de gamo sobre calças listradas, botas, camisa de flanela e
um cinto indígena de contas do qual pendia uma comprida
faca de caça. Seu chapéu de aba larga manchado de suor
sombreava um rosto avermelhado pelo sol e uma barba
agrisalhada pela idade e vida dura. Ninguém sabia
exatamente do que era "capitão", mas ele tinha fama de ser
justo e cuidar para que os imigrantes chegassem ao seu
destino.
Tice examinou a audaciosa jovem mulher de cima a baixo:
embora Emmeline Fitzsimmons não fosse exatamente
bonita, e ele não tinha nada contra sardas e cabelos soltos
provocativos, ainda assim era graciosa, ele pensou, e gostou
da sua figura rechonchuda e robusta. Mas ela era um convite
à encrenca no livro de qualquer homem.
— Sinto muito, moça — repetiu ele. — Mas temos
regulamentos. Não é permitido mulher solteira viajar
sozinha.
Emmeline estava para lá de frustrada. Este era o sétimo guia
de caravana que a recusava e suas possibilidades estavam
diminuindo. Os primeiros comboios já haviam partido;
dentro de duas semanas as partidas seriam suspensas por
causa da neve nas Sierras.
— Mas eu posso ser útil. Sou parteira. — Ela abarcou com o
braço a multidão de mulheres e crianças. — Pela aparência
de algumas dessas mulheres, elas vão precisar dos meus
serviços.
Tice franziu o cenho em desaprovação. Nenhuma dama
educada mencionaria um assunto tão delicado quanto o
estado gestante de uma mulher. Duvidou que ela fosse
mesmo parteira. Jovem demais, gentil demais. E
desacompanhada. O tipo que causava as piores encrencas. A
jornada para o Oregon tinha pouco mais de três mil
quilômetros e com a ajuda de Deus levaria quatro meses.
Eram quilômetros demais e noites demais para ter uma
mulher assim no trajeto. Começou a virar-se, apresentando
as costas largas como sua palavra final.
— Se eu encontrar alguém — disse ela, rapidamente —, se
encontrar uma família que se responsabilize por mim,
permitiria que eu me juntasse a sua caravana?
Ele coçou a barba e cuspiu suco de tabaco no solo
lamacento.
— Tudo bem, mas primeiro tenho de aprovar a família.
Independence era uma agitada cidade de fronteira onde se
misturavam todos os tipos de pessoas: caçadores canadenses
envoltos em peles; tropeiros mexicanos em vistosas jaquetas
azuis e pantalonas brancas; índios kanza pobremente
vestidos montados em pôneis; oportunistas ianques
vendendo tudo de imaginável sob o sol; e milhares de
imigrantes com seus carroções e vívidas esperanças. O ar
primaveril crepitava com o clangor das marteladas dos
ferreiros, os gritos dos batoteiros nas ruas lamacentas e os
sons de pianos fluindo dos cabarés. Pessoas apressadas
entravam e saíam das lojas repletas de mercadorias,
enquanto os índios se agrupavam nas ruas para vender suas
habilidades.
Enquanto Emmeline permanecia de pé em frente aos
armazéns movimentados, imaginando o que fazer em
seguida, ela entreouviu um homem dizer para outro:
— Isso mesmo, senhor, ouvi diretamente do meu irmão. Ele
diz que lá no Oregon os porcos correm livres por toda a
parte e sem dono, gordos e roliços e já cozinhados, com
garfos e facas enfiados neles, de modo que tudo que você
tem a fazer é cortar uma fatia toda vez que estiver com
fome.
Foi então que ela viu o jovem doutor, indo para o boticário
do outro lado da rua.
Tendo uma idéia súbita, atravessou a rua correndo e entrou.
Parando para deixar que os olhos se acostumassem com a
penumbra da loja, ela viu anúncios das Pílulas Biliares de
Windham, do Bálsamo de Gileade do Dr. Solomon e do
Ungüento de Holloway. As prateleiras atrás do balcão
estavam repletas de tônicos e pós, destinados à curar tudo,
de gota a câncer, todos alegando resultados comprovados.
Emmeline pegou um frasco do Xarope Calmante para Bebês.
O rótulo dizia que continha morfina e álcool. A dosagem
recomendada era "até o bebê se acalmar".
Depois ela viu o jovem doutor conversando com o
farmacêutico.
Deduzira que era um médico por causa da valise preta que
carregava — era idêntica àquelas que seu pai e tios sempre
levavam nas consultas domiciliares, a inconfundível valise
preta do médico. O próprio jovem estava magro e pálido, seu
terno mal-ajustado. E Emmeline achou que ele parecia
nervoso. Quando passou no meio dos fregueses e se
aproximou dele no balcão, o rapaz abriu a valise preta e tirou
um frasco para o farmacêutico encher. Emmeline viu a gaze
e ataduras, fios de sutura e tesouras.
— Desculpe-me, doutor, mas estive pensando se poderia me
ajudar.
Ele voltou-se para ela, sobressaltado.
— Está falando comigo? — perguntou, um rubor se elevando
do seu colarinho branco engomado.
Emmeline havia sido criada muito bem para saber que não se
devia abordar um homem estranho sem ter sido primeiro
apresentada. Mas estes eram tempos peculiares, e ali era a
fronteira.
— Meu nome é Emmeline Fitzsimmons — disse,
ousadamente —, estou tentando ir para o oeste. Sou uma
dama que vive por conta própria, porém os chefes de
caravana estão relutantes em me aceitar. Deixe-me viajar
com você, doutor. Posso ser sua assistente. Sou uma parteira
experiente. — Ela ergueu a sacola de couro que continha os
instrumentos e remédios de seu ofício. — Mas sou muito
mais do que isso — apressou-se em acrescentar enquanto ele
continuava a fitá-la boquiaberto. — Meu pai era médico e o
ajudei no seu consultório. Eu também queria ser doutora,
mas não me aceitaram na faculdade de medicina. — E
acrescentou, amarga: — Só os homens podem se tornar
doutores. — Depois sorriu animadamente. — Mas eu lhe
seria de grande ajuda.
Matthew não sabia o que dizer à descarada mulher. Ao
contrário de sua adorada Honoria, que era esguia e frágil, a
Srta. Fitzsimmons era roliça e de seios fartos. Tinha lábios
vermelhos cheios e os olhos eram orlados com pestanas
compridas. Ela exalava um perfume feminino que quase o
deixava tonto. Engoliu em seco. A feminilidade espalhafatosa
da jovem o inibia, e estava horrorizado por ela sugerir algo
tão impensável: dois estranhos, um homem e uma mulher,
viajarem juntos.
— Eu... eu sinto muito — gaguejou ele.
— Olhe — disse ela, abrindo a sacola e extraindo certidões de
nascimento em branco. — Vi atestados de óbito na sua
valise. Como duas pessoas podem combinar melhor? Eu
chamo a isso de um sinal!
Mas Matthew limitou-se a murmurar desculpas, pegou o
frasco com o farmacêutico e saiu apressado.
Recusando-se a ser derrotada, Emmeline retornou ao imenso
acampamento de imigrantes no rio e examinou o cenário
mais uma vez. Muitas das caravanas já haviam partido,
poucas permaneciam. Ela realmente queria juntar-se ao
grupo de Tice, que deveria partir pela manhã. Ao contrário
da maioria dos guias de caravana, Tice já tinha ido ao Oregon
e voltado, conhecia o caminho e conhecia os índios. Por isto
seu preço era maior do que aquele cobrado pelos outros
guias; mas não importava o quanto Emmeline tivesse
oferecido pagar, não era o bastante.
Parou para observar um homem jovem num terno
axadrezado e chapéu-coco montar uma câmera sobre um
tripé enquanto uma pequena multidão assistia. O letreiro no
seu carroção dizia: "Silas Winslow, processo de
daguerreotípia. Retratos com qualidade garantida." A nova
invenção estava no auge. A própria Emmeline já se sentara
para tirar um retrato antes de sair de casa no Illinois, uma
lembrança para suas irmãs. Infelizmente, não pôde tirar um
retrato delas para levar consigo, portanto só carregaria a
lembrança dos rostos das irmãs no coração.
Prosseguiu por entre os carroções onde os homens
conferiam as provisões e lubrificavam as rodas, e as mulheres
supervisionavam o embarque dos utensílios. Quando
Emmeline deparou com uma família recém-chegada, a
esposa em gravidez adiantada tentando lidar com crianças,
galinhas e uma carroça, ela abordou a azafamada mulher e
apresentou-se do modo mais caloroso que seu estado de
ânimo podia oferecer.
— Sou parteira treinada e serei muito útil quando começar
seu trabalho de parto, que com toda certeza será na estrada.
A mulher disse chamar-se Ida Threadgood e que ficaria grata
pela ajuda.
— Seria uma bênção de Deus se viajasse conosco, Srta.
Fitzsimmons. Uma bênção, de fato. Só que aquele homem
— disse Ida amargamente enquanto voltava-se com
expressão atormentada na direção do marido que colocava os
bois na canga — é uma maldição.
Na límpida manhã primaveril de 12 de maio de 1848, todos
trajavam as melhores roupas de domingo, as damas em
espartilhos apertados e usando chapéus floridos com pára-
sol, luvas e leques, os homens bem barbeados, de cabelo
engomado, usando suspensórios e cintos com fivelas novas e
reluzentes. As casas de banho de Independence ficaram
lotadas na noite anterior, todos os imigrantes querendo
tomar um banho caprichado antes de enfrentar a estrada.
Uma banda tocava "Yankee Doodle" e "Star Spangled
Banner" enquanto fogos de artifício espocavam e o Sr. Silas
Winslow tirava retratos daqueles que podiam pagar. Família
e amigos acenavam e enxugavam lágrimas das faces
enquanto diziam adeus a entes queridos que partiam para um
lugar desconhecido.
E então, colocando um pé diante do outro, os imigrantes
começaram sua jornada. Seria uma viagem de milhares de
quilômetros a uma velocidade de três quilômetros por hora.
Eles se acomodaram nos carroções cobertos de lona e
puxados por bois, que eram apelidados de escunas das
pradarias, porque se moviam através da relva alta dando a
impressão de navios velejando em meio a um mar verde. A
caravana consistia de 72 carroças, 136 homens, 65 mulheres,
125 crianças e 700 cabeças de gado e cavalos. Cada carroça
seguia carregada com móveis e pertences pessoais, mais as
provisões compradas em Independence: 100 quilos de
farinha, 50 quilos de bacon, 5 quilos de café, 10 de açúcar, 5
de sal. Suprimentos adicionais incluíam arroz, chá, feijão,
frutas secas, vinagre, picles e mostarda. Os imigrantes
também levavam artigos para comerciar: bobinas de algodão
para os índios que encontrassem no caminho; renda e seda
para os espanhóis; livros e ferramentas para os ianques já
estabelecidos no oeste. As mulheres traziam toalhas de mesa,
porcelana e a Bíblia da família. Os homens traziam armas,
enxadas e pás. Eram acompanhados por um sortimento de
cães, galinhas e gansos.
A trilha seguia a oeste de Independence, através do território
dos índios shawnee, acompanhando o curso do rio Kansas,
onde conseguiram ajuda de índios locais para a travessia em
balsas (os índios cobravam 75 cents por carroça, o que os
imigrantes chamaram de roubo de estrada). Enquanto os
homens seguiam a cavalo, a maioria das mulheres caminhava
ao lado das carroças, assim como os condutores de bois, com
apenas os velhos e crianças debaixo das lonas. Ao fim do
primeiro dia, a massa de carroças, bois, cavalos e mula parou
para acampar à noite. Jantaram, dormiram, alimentaram os
animais e na manhã seguinte retomaram viagem. Isto iria
continuar pelos quatro meses seguintes, como uma grande
aldeia em movimento. Encontravam gente ao longo do
caminho dirigindo-se para a Califórnia, agora que havia sido
anexada aos Estados Unidos e não mais havia guerra com o
México. Mas os imigrantes a caminho do Oregon não viam
sentido em ir para a Califórnia, que havia sido descrita como
uma "terra inóspita sem valor que só tinha mexicanos e
índios". Um sujeito, apressado e montado a cavalo, disse algo
sobre descoberta de ouro, mas todos riram e zombaram dele
como um tolo impressionável.
A pradaria estendia-se diante deles, plana, relvosa e viçosa
onde tinha chovido. Os imigrantes ficavam de olho no
horizonte enquanto caminhavam ao lado de seus carroções e
bois, cada família seguindo obstinadamente a precedente e
liderando a que vinha atrás: Tim e Rebecca O'Ross e seus
filhos de casamentos anteriores; Charlie Benbow e a esposa
Florine, os granjeiros; Sean Flaherty, o cantor irlandês e sua
amistosa cadela preta, Daisy; os quatro irmãos Schumann da
Alemanha, cuja carroça ia cheia de enxadas de ferro fundido
e outros equipamentos agrícolas (os Schumann falavam
muito pouco inglês e por um longo tempo pensaram que a
palavra para "mula" era "maldição").
Os imigrantes começaram como estranhos um para o outro,
mas rapidamente se tornaram íntimos. Como o Capitão
Amos Tice nunca fazia perguntas sobre os assuntos pessoais
de um homem, só se preocupando com que lhe pagasse o
preço da viagem e concordasse em trabalhar duro e ajudar
nas tarefas, caça e defesa contra os índios, cabia aos próprios
viajantes se conhecerem. Desta maneira descobriam quem
procedia de Ohio, Illinois ou Nova York; quem tinha qual
profissão; quem enviuvara e se casara de novo e quantas
vezes. Uma tarde, um condutor de bois do Kentucky
chamado Jeb abordou Matthew Lively e falou, "A Sra.
Threadgood disse que a Srta. Fitzsimmons contou a ela que
você é médico. Pode me arrancar um dente?" Jeb estava
esfregando a mandíbula inchada e parecendo um tanto
verde. Mas Matthew disse não ter prática em extrair dentes,
mas que ouvira dizer que Osgood Aahrens, no último
carroção, era barbeiro e, portanto tinha.
Ida e Barnabas Threadgood, como a maioria dos casais na
caravana, estavam no seu terceiro e quarto casamentos,
respectivamente, pois tinham enviuvado de seus
acasamentos anteriores, e tinham uma ninhada de filhos. Ida
estava satisfeita com a assistência da Srta. Emmeline, que
ajudava a cozinhar, lavar e cuidar das crianças em troca de
uma cama no carroção e a proteção de uma família (pois foi
notado entre os homens que uma mulher desacompanhada
estava na caravana e aí começaram a zumbir em torno dela
que nem abelhas). Este fato não passou despercebido a
Albertina Hopkins, que declarou: "Aquela garota vai causar
rebuliço entre os homens solteiros. Guardem minhas
palavras: a Srta. Emmeline Fitzsimmons será motivo de
brigas."
As outras mulheres concordaram, pois desconfiavam de uma
mulher viajando por conta própria, especialmente uma
mulher jovem que parecia não fazer segredo de estar
desacompanhada. A Srta. Fitzsimmons não estava nem um
pouco envergonhada ou recatada, e se imiscuía com os
homens um tanto livremente demais para o gosto das outras
mulheres.
Enquanto revirava o bacon na frigideira, Albertina disse em
voz alta o bastante para que todos, inclusive Emmeline,
ouvissem: "Nenhuma mulher decente andaria por aí com a
cabeça descoberta como aquela, deixando o cabelo esvoaçar
livremente. Todos sabem o que aconteceu com Jezebel na
Bíblia."
Albertina também opinava sobre outros tópicos. Quando
depararam com uma família de negros na trilha, tentando ir
para oeste por conta própria com nada mais que três
carroças, foi feita uma votação acerca do pedido deles para se
juntarem à caravana. Embora Emmeline, Silas Winslow,
Matthew Lively, Ida e seu marido votassem a favor dos
negros, todos os demais rejeitaram a idéia. Assim, Amos Tice
teve de explicar aos ex-escravos do Alabama que fariam
melhor se fossem para a Califórnia, onde negros eram bem
recebidos. "O Oregon não está admitindo negros", ele disse,
o que era verdade.
Enquanto deixavam para trás três carroças decrépitas, seis
bois, dois cavalos, uma vaca e uma família de cinco adultos e
sete crianças na pradaria aberta, Albertina Hopkins declarou:
"Se as pessoas de cor querem ir para o oeste, isto não é da
minha conta. Não tenho nada contra essa gente. Só acho que
eles deveriam viajar com a sua própria raça. E por que
alguém iria para um lugar onde não é desejado, está além de
minha compreensão."
Albertina era uma mulher obesa com cara de buldogue e
uma voz tão alta quanto sua corpulência. Do mesmo modo
que expressava sua cristandade, opinava acerca da moral
duvidosa da Srta. Fitzsimmons, e tinha até mesmo batizado
seus filhos em honra a duas frases em aramaico na Bíblia — a
garota de Talitha Cumi, que significava "Levanta, menini-
nha"; e o garoto de Maranatha, que significava "O Senhor
está chegando". Albertina, sempre falando acerca de suas
boas obras — talvez porque ninguém mais o fizesse —
acreditava estar sendo chamada para o oeste a fim de levar o
Senhor e a civilização aos pagãos (embora não soubesse ao
certo quem eram os pagãos no Oregon).
O Sr. Hopkins, por outro lado, era um homem tranqüilo,
gentil e agradável. Quando ambos enviuvaram, ele trouxera
outro grupo de crianças para o casamento, da sua primeira
esposa, e Albertina também viera com três, mas acabaram
tendo mais dois. Era um bando de fedelhos aos olhos da
caravana, correndo livres, pegando comida, atormentando os
animais. Mas Albertina fazia vista grossa para as travessuras
dos filhos e apregoava em voz alta que eles eram uns
anjinhos. Cada homem na caravana lamentava pelo tranqüilo
Sr. Hopkins e especulava qual seria a fonte de sua paciência
sofrida até que uma noite, poucos dias após deixarem o Forte
Loramie, os irmãos Schumann o encontraram sentado atrás
de um choupo, bebendo escondido de uma botija de uísque.
Durante a quarta noite em acampamento, Albertina falou
enquanto assava seus biscoitos: "Aquela Emmeline
Fitzsimmons me disse ter 25 anos. Podem imaginar isto?"
Albertina prosseguia usando expressões como "encalhada" e
"deixada na prateleira". "Considero inadequado uma mulher
solteira dar assistência aos partos. Nem quero saber como ela
aprendeu sua profissão. Uma garota ainda donzela não
entende dessas coisas." E acrescentou com um suspiro:
"Pobre da Ida Threadgood." — As outras concordaram.
Matthew Lively não pôde deixar de ouvir, já que a voz de
Albertina se espalhava pelo ar. Teve a forte sensação de que
a Sra. Hopkins estava errada acerca da Srta. Fitzsimmons
estar "encalhada". Nesses primeiros poucos dias na trilha
teve fartas oportunidades de observar a jovem mulher de
cabelo cor de gengibre silvestre, já que a carroça dos Thread-
good era a terceira a sua frente, e suspeitava de que a Srta.
Fitzsimmons não se permitia ser escolhida pelos homens,
cabendo a ela a iniciativa da escolha. E se ela era uma
solteirona, era porque não havia sido pedida em casamento.
Ele não sabia por que a Srta. Fitzsimmons chamava tanto a
sua atenção. Não gostava particularmente dela. Parecia muito
pouco feminina, e quando a observava comer com um
apetite masculino chegava a ter náuseas. Sua adorada
Honoria mal deixava a comida passar por seus lábios. Era tão
magra que seus malares e clavículas ficavam dolorosamente
proeminentes. E era tão fraca que mal podia erguer um leque
para se abanar. Não era de admirar que metade dos rapazes
em Boston estivessem desesperadamente apaixonados por
ela. Mas havia algo atraindo-o para a Srta. Fitzsimmons o
tempo todo, e ele desconfiava de que os motivos dela em ir
para o oeste eram iguais aos seus — encontrar um lugar onde
suas habilidades fossem necessárias.
À medida que a caravana avançava através da planície de
Kansas, Ida Threadgood pressionou as mãos na barriga
inchada e disse a Emmeline: "Graças a Deus você veio
conosco. Isto não foi idéia minha. O tolo sem miolos do meu
marido vendeu a fazenda e nem sequer me avisou. De lá fui
retirada, com cinco filhos e mais um a caminho."
Emmeline tentou ocultar seu choque. Nunca tinha ouvido
antes uma mulher falar tão desrespeitosamente do marido,
mas estava aprendendo com muita rapidez que Ida não era a
única com tais sentimentos. Muitas das mulheres na
caravana estavam lá contra a vontade, acompanhando um
marido ou pai para o oeste porque não tinham outra opção.
Elas resmungavam suas queixas junto às fogueiras de comida
e tinas de lavar roupa, longe dos ouvidos dos homens. Uma
jornada como esta era uma aventura exclusivamente
masculina. As mulheres precisavam de raízes, de um lar
permanente, em especial quando os bebês começavam a
chegar. Uma vez que nada mais podiam fazer, elas se
consolavam com a crença de que a fartura de amanhã seria
ganha com o trabalho duro de hoje.
A cento e oitenta quilômetros de Independence, depois de
doze dias de viagem, a Sra. Biggs entrou em trabalho de
parto. Quando Emmeline chegou para assisti-la, Albertina
Hopkins tomou-lhe a frente, quase a derrubando ao solo e
bloqueando o caminho para o carroção. Emmeline,
querendo ir às vias de fato com a hipócrita Albertina,
conteve-se em consideração à pobre parturiente.
No dia seguinte uma tempestade maciça se formou no
horizonte e, enquanto se avizinhava rapidamente, a caravana
dispôs as carroças num enorme círculo e fez um cercado
para o gado e cavalos, depois sentaram-se tremendo de frio
debaixo das lonas esvoaçantes enquanto trovões
ribombavam e relâmpagos ziguezagueavam. Tendo sido
apanhada pelo súbito aguaceiro enquanto ajudava a desatrelar
os bois dos Threadgoods,
Emmeline correu para se abrigar na carroça mais próxima,
que por acaso pertencia a Matthew Lively. Eles se
aconchegaram em reverente silêncio enquanto a natureza
fustigava os animais e ameaçava derrubar os carroções,
provocando os gritos das mulheres e o choro das crianças. E
então, tão rápido quanto surgira, a tempestade se espalhou
pela planície, deixando atrás de si o mais espetacular arco-íris
que alguém já tinha visto. Albertina Hopkins, descendo da
sua carroça e enxotando a filharada rebelde para brincar na
lama, olhou para a ruptura nas nuvens e disse, "Ah, o sol
saiu", transpirando uma espécie de orgulho como se tivesse
ela própria provocado o fenômeno.
Enquanto rastejava para fora do carroção, Emmeline sentiu
sua curiosidade aumentar a respeito do jovem Dr. Lively. O
rosto fino e comprido fazia-o parecer como se já tivesse
presenciado muitos funerais. Teria ele perdido um monte de
pacientes? ela especulava. Emmeline ignorava que ao mesmo
tempo Matthew estava pensando: Por que a Srta.
Fitzsimmons está sempre sorrindo? Onde ela consegue tanta
energia? Ninguém nunca lhe disse que é censurável para
uma garota falar demais?
Em 29 de maio, depois de duas semanas e meia de viagem,
chegaram às margens do rio Big Blue, que fluía para o Kansas
procedente do norte, e os imigrantes ficaram desanimados
ao descobrir que as chuvas pesadas tinham aumentado tanto
o volume do rio que era impossível atravessá-lo. Como a
caravana se viu obrigada a fazer uma parada, os imigrantes
aproveitaram a oportunidade para sua primeira lavagem de
roupa e tomar banho desde que partiram de Independence.
Sabão de sebo foi vigorosamente aplicado aos corpos e às
roupas, as crianças sendo esfregadas com camisas, vestidos,
cobertores, casacos e partes "indecentes" para lá de
encardidas. Naquela noite uma lua crescente surgiu e os
imigrantes se divertiram com música e histórias e flertes
inocentes junto às muitas fogueiras. Silas Winslow, um
solteiro bom partido com uma profissão lucrativa, descobriu-
se como o foco da atenção de mães de filhas solteiras, bem
como Matthew Lively, agora que se espalhara a notícia de
que era médico.
Mas enquanto Winslow apreciava inteiramente ser tratado
como um príncipe, e devorava as tortas e permitia que as
damas fizessem remendos e lavassem suas roupas, Matthew
Lively não usufruía disso. Tímido por natureza e desajeitado
no trato social, Matthew jamais se vira antes no centro da
atenção feminina. Além do mais, a frágil Honoria ainda era
dona de seu coração e ele continuava a sofrer a dor da
rejeição de sua proposta de casamento. Assim, as ávidas
filhas dos fazendeiros e colonos, procurando ativamente por
maridos, deixavam-no assustadiço. A única exceção era a
notável Srta. Emmeline Fitzsimmons, que ouviram ter dito
que não acreditava em casamento. Matthew a ouvira dizer
isto à Sra. Ida Threadgood, explicando que o casamento era
uma instituição artificial, inventada pelos homens como um
meio de subjugar as mulheres. E, portanto, embora ela não o
desconcertasse da mesma maneira que as filhas dos
imigrantes, trazendo-lhe tortas e sorrisos de flerte,
desconcertava-o mesmo assim.
Finalmente o rio ficou transponível, mas balsas seriam
necessárias para levar os carroções à outra margem. Assim,
choupos foram cortados para fazer uma enorme balsa de
troncos, grande o bastante para carregar uma escuna da
pradaria. O trabalho foi duro, já que a correnteza era
profunda e rápida; e forçar os cavalos e bois a atravessar a
nado revelou-se uma tarefa quase impossível. Os imigrantes
trabalharam por dois dias, debaixo de um novo aguaceiro, até
toda a caravana cruzar o rio; durante esse tempo os ânimos
se acirraram e dois condutores de bois quase se mataram
numa briga de faca.
Já no outro lado, encharcados, enlameados e exaustos, os
desanimados imigrantes tentavam pôr os bois na canga,
reunir os cavalos e o gado e fazer algum tipo de fogo para
cozinhar, quando de repente Barnabas Threadgood deu um
grito e desabou no chão.
Todos se agruparam em torno do homem inconsciente
enquanto Emmeline corria para buscar Matthew Lively.
— Ele nunca teve isso antes — disse Isa, parada ao lado do
marido com as mãos nos quadris.
Matthew chegou abrindo caminho e, apoiando-se num dos
joelhos, sentiu a pulsação no pescoço de Barnabas. Os
circunstantes permaneceram em silêncio enquanto Matthew
abria a valise preta e tirava o estetoscópio, coisa que
ninguém nunca tinha visto. Arregalaram os olhos enquanto
Matthew colocava a extremidade do tubo no peito do
homem e auscultava. Depois de um momento, olhou para
cima e disse, penalizado:
— Seu marido está morto, madame.
— Isto é um fato? — perguntou Ida.
Ela passou um minuto olhando para o rosto do marido,
depois mudou o olhar para o oeste, a seguir voltou a olhar
para o leste, examinando-o por um tempo mais longo.
— Depois que o enterrarmos — disse, por fim —, vou voltar
para o Missouri.
Para choque de Emmeline, quatro outras esposas juntaram-
se a Ida, com os filhos e seis condutores de bois. Se os
maridos protestaram, não o fizeram em voz alta. Mas agora
Emmeline estava sem transporte de novo, no meio do nada,
a duzentos e cinqüenta quilômetros de Independence.
Quando Amos Tice comunicou-lhe que ela teria de retornar
com Ida, Emmeline bateu pé firme e insistiu que ia para o
Oregon.
O que aconteceu a seguir surpreendeu até mesmo o
experiente Tice: quatro condutores de bois, dois fazendeiros
viúvos, Silas Winslow, o daguerreotipista e um impetuoso
adolescente, todos se ofereceram para escoltar a Srta.
Fitzsimmons até o Oregon. Vendo que uma briga estava
prestes a irromper sobre a quem caberia dar proteção à
jovem dama, Matthew voltou a seu carroção e secretamente
pegou a Pedra da Bênção.
Enquanto a segurava na palma da mão, ele avaliou suas ações
inesperadas. A decisão acerca do que seria feito com a Srta.
Fitzsimmons estava acima de Amos Tice, ou acima da
própria jovem voluntariosa, e isto certamente não era da
conta de Matthew. Mas alguma coisa dentro dele, estranha e
perturbadora, o apoquentara para se adiantar e assumir a
iniciativa. Sua consciência o instava a tomar uma decisão, e
Matthew não estava acostumado a isso.
Ainda assim, não seria um ato inteiramente seu. Ele faria o
que a Pedra da Bênção lhe dissesse para fazer.
Ele desenvolvera um ritual de olhar para o cristal toda noite
antes de dormir e a cada manhã ao acordar porque não
conseguia tirar da mente a profecia de sua mãe, de que um
grande desafio, "terrível e sombrio", o aguardava. Estava
esperançoso de encontrar um meio de evitar o que quer que
fosse, mas o espírito-guia não lhe estava dizendo nada.
Agora tinha outra pergunta para fazer à pedra azul, e pegou
uma lousa de jardim-de-infância, que usava especialmente
para fazer perguntas ao cristal, e um pedaço de giz. Em uma
extremidade da lousa escreveu a palavra "sim", na outra,
"não". Depois colocou o cristal entre elas e perguntou:
"Devo me oferecer para levar a Srta. Fitzsimmons até o
Oregon?" e girou o cristal. Ele apontou para "sim". Girou-o
de novo. E mais uma vez. Quando continuou a dar "sim",
decidiu que não era bom perguntar ao Espírito Guia se não
estaria atraindo má sorte para si mesmo. Assim, voltou para o
tumulto que a Srta. Fitzsimmons involuntariamente defla-
grara, com Tice tentando separar dois brigões. Com o
coração disparado e as palmas das mãos suando com esta
audácia que não era absolutamente do seu feitio, ofereceu-se
para levar Emmeline na sua carroça.
Ela aceitou de imediato.
Enterraram Barnabas Threadgood à beira da trilha, rezaram
uma prece apressada e puseram de novo os carroções em
movimento. Seguindo em direção contrária, pelo mesmo
caminho que tinham vindo, Ida Threadgood e sua prole,
com outros três carroções com mulheres e crianças e
condutores de bois que mudaram de idéia acerca de ir para o
oeste, iniciavam a viagem de volta à civilização.
Enquanto a caravana para o Oregon seguia seu caminho,
Albertina Hopkins deixou que todos soubessem que não
aprovava duas pessoas solteiras viajando juntas.
"Isto não é da conta dela", Emmeline queixou-se enquanto
subia na boléia da carroça ao lado de Matthew.
Matthew não disse nada. Mas, no fundo, concordava com a
Sra. Hopkins.
Albertina continuou a opor-se furiosamente ao arranjo e
disse isto ao Capitão Tice na primeira oportunidade. Algumas
das mulheres a apoiaram, mas outras não se importaram e
pediram a Tice que deixasse os dois médicos em paz.
"Podemos precisar de ambos", Florine Benbow disse, mal
sabendo que falava palavras proféticas.
Enquanto atravessavam as imensas pradarias de relva alta do
Kansas e do Nebraska, que pareciam se estender até o
infinito, Emmeline e Matthew sugeriram um arranjo no qual
fariam tudo correta e adequadamente, com Emmeline
dormindo na carroça enquanto Matthew se ajeitaria num
saco de dormir no chão, mantendo a decência intacta. Mas
eles comiam juntos, armavam e desmontavam acampamento
juntos, cuidavam dos bois, calçavam a carroça e pegavam
água juntos. Caíram na rotina diária da caravana: ao raiar do
dia, um berrante soava para despertar o acampamento. Os
homens que haviam passado a noite cuidando do rebanho
traziam o gado e os cavalos do pasto enquanto as mulheres
acendiam as fogueiras e preparavam desjejuns de pão, bacon
e café. Depois que todos haviam comido — geralmente um
momento agradável —, as tendas eram desarmadas e tudo
guardado nos carroções, os bois trazidos e atrelados à canga.
A caravana partia por volta das 7h para aproveitar o frescor e
cobrir quilômetros antes do meio-dia, quando paravam para
uma hora de descanso antes de retomar o caminho para
outra jornada de cinco horas. Quando o Capitão Tice
finalmente fez sinal para a parada noturna, foi acompanhado
por gemidos de alívio e uns poucos vivas fatigados. Agora os
carroções foram dispostos em círculos e acorrentados para
proteção contra possíveis ataques dos índios, embora estes
preferissem atacar caravanas em movimento e em linha reta.
Os animais eram postos para pastar e as mulheres
cozinhavam o jantar. As horas que se seguiam à refeição
eram as mais agradáveis do dia, a oportunidade de fazer
visitas, talvez com música e dança, certamente mexericos e
algumas boas histórias narradas em volta das fogueiras.
Parecia um sonho para pessoas acostumadas ao
confinamento de fazendas e casas: os dias eram duros, mas as
noites pacíficas, e os acampamentos lembravam
piqueniques, com as pessoas fazendo amigos, crianças
correndo livremente, comida sendo generosamente
partilhada. Ciúme ainda não tinha irrompido, a inveja não
começara a fervilhar, queixas ainda não haviam começado a
chegar até a tenda de Amos Tice. Brevemente, os ânimos
começariam a se exaltar, nervos estariam à flor da pele, e
Tice seria acusado, como costumava acontecer com todos os
chefes de caravana, de ser injusto e de ter protegidos.
Era um trabalho ingrato. Cabia a Tice determinar cada
aspecto da vida na caravana, a ordem dos carroções em fila, a
designação das tarefas de cortar lenha e buscar água, manter
vigilância, reunir gado. Em dias por vir, aqueles na rabeira da
caravana se queixariam de ter de respirar a poeira dos que
estavam à frente, e muito embora Tice fizesse um rodízio na
ordem das carroças de modo que todos tivessem sua vez na
dianteira, ninguém ficava satisfeito.
Cabia-lhe também servir de juiz. Quando a cadela de Sean
Flaherty atacou as galinhas dos Benbow e matou seis antes
de ser capturada, os Benbow exigiram que ela fosse morta.
Mas Sean agarrou-se a Daisy e suplicou por ela em lágrimas,
dizendo que a cadela era tudo que tinha no mundo. Houve
uma votação e Daisy foi poupada, com Flaherty pagando um
preço justo pelas galinhas.
Tinham também suas tristezas. Jeb, o condutor de bois do
Kentucky, sucumbiu finalmente ao abscesso que
infeccionara no seu maxilar depois que barbeiro Osgood
Ashrens extraiu o dente dolorido. Enterraram-no ao longo
da trilha e prosseguiram. Mais sepulturas iam se acumulando
à medida que crianças morriam de sarampo, homens eram
esmagados sob as rodas das carroças e bebês não sobreviviam
ao parto, sendo por vezes enterrados com as mães. A
caravana encontrou mais sepulturas ao longo do caminho,
cavadas por imigrantes que partiram antes. Nas décadas
seguintes a Trilha do Oregon estaria repleta de milhares de
cruzes e lápides.
Enquanto o carroção de Matthew rolava puxado por cavalos,
Emmeline sentava-se a seu lado na boléia, o rosto exposto ao
sol, e imaginava a terra prometida adiante, onde homens e
mulheres viveriam como iguais. Matthew, manejando as
rédeas e mantendo suficiente distância do carroção à frente
de modo a não respirar sua poeira, deleitava-se com o amplo
brilho de sol das planícies, que lhe exibia uma existência tão
diferente das escuras salas de consulta da comunidade
espírita de Boston. Lá, a vida focalizava-se nos mortos, aqui
centrava-se nos seres vivos — no gado pastando, nos gaviões
planando no ar, nas crianças correndo e rindo, em Daisy
latindo para os coelhos e perus estúpidos demais para fugir.
Eles pouco falavam, a filha do médico de Illinois e o jovem
de Boston, enquanto viajavam lado a lado na boléia, os olhos
fixos no horizonte à frente. Eles nunca haviam imaginado
uma terra tão vasta, um céu tão ilimitado. Sentiam as almas
se expandindo a cada quilômetro vencido, como se tivessem
vivido sua juventude comprimidos num sótão e agora
estivessem sendo arejados num varal ensolarado. E como o
horizonte continuasse distante e fugidio, e o carroção
sacolejasse, pareceu a Emmeline que era uma boa hora para
conversar. Estava curiosa acerca da pedra azul que vira o Dr.
Lively pegar e olhar num momento, e portanto ela
perguntou a respeito.
— É chamada de Pedra da Bênção — explicou ele,
semicerrando os olhos ao brilho do sol enquanto manejava
as rédeas, — Foi dada a minha mãe no dia em que se casou.
Ela diz que é muito antiga, talvez tão antiga quanto o próprio
mundo, e que traz os poderes de todas as pessoas que a
possuíram, retroagindo às eras. Minha mãe sempre
consultava a pedra para orientação, e assim faço eu. — Ele
não continuou para dizer que sua mãe também a tinha usado
para contactar os mortos. Nem contou a Emmeline acerca da
lúgubre profecia de sua mãe quanto a um grande desafio que
o aguardava, sombrio e terrível. Talvez ele já tivesse vindo e
ido embora: talvez o teste de sua alma tivesse sido a decisão
de viajar com Emmeline, porque isto certamente não o
tornara popular entre os demais — homens e mulheres.
O interesse dela se acendeu.
— E o cristal realmente o orienta?
— Sem ele eu estaria perdido. Às vezes penso —
acrescentou, constrangido — que já nasci covarde. Não
consigo tomar decisões por conta própria, parece.
— Você é apenas cauteloso, Dr. Lively — disse ela. — Meu
problema é ser atirada demais. Nada me assusta. E às vezes
isto me bota em apuros.
Ela retirou o gorro e sacudiu à brisa os cabelos soltos.
— Você não sabe a sorte que tem sendo homem. Você pode
seguir a carreira que quiser, sem preconceitos. Eu queria ser
médica, mas não me foi permitido porque sou mulher. Não é
justo. É por isso que estou indo para o oeste. A atmosfera
será mais tolerante lá, e democrática. Uma autêntica terra de
liberdade. Existe um novo espírito na nação, as mulheres
estão despertando. Assisti a uma convenção maravilhosa em
Seneca Falis, onde foi esboçada uma Declaração de
Sentimentos enumerando dezesseis formas de discriminação
contra as mulheres, incluindo direito de voto, salários iguais
para as mesmas funções, controle de nossas pessoas e de
nossos filhos. Nós mulheres estamos começando a nos
mobilizar, Dr. Lively.
Matthew remexeu-se pouco à vontade na boléia. Já estava
familiarizado com as opiniões radicais da Srta. Fitzsimmons.
Embora não tivessem partido havia muito tempo de
Independence, Emmeline já começara a receber propostas
de casamento — de cada um dos irmãos Schumann (com o
Sr. Hopkins servindo de intérprete); de Sean Flaherty, que
declarou que ia ter a maior plantação de batata de todo o
Oregon; do jovem Dickie O'Ross, cuja voz falhou quando
fazia a proposta. Mas Emmeline recusara todas, dizendo que
não era porque não tivessem qualidades, mas sim porque ela
não planejava se casar. Explicou a cada um que não
tencionava ser estorvada por uma instituição artificial que foi
inventada pelas igrejas e pela sociedade para manter as
mulheres na linha. Se ela tivesse filhos, o faria sem ter de
prestar contas a um marido.
As esposas na caravana, simples lavradoras ou aldeãs que
nunca antes ouviram tais idéias radicais ou leram um livro
intitulado Uma defesa dos direitos femininos, de Mary
Shelley, consideravam Emmeline ou jovem demais para ter
opinião, ou talvez perturbada da cabeça (embora algumas
secretamente invejassem a sua independência inflamada e
desejassem a sua sorte). Porém Matthew já encontrara
mulheres como a
Srta. Fitzsimmons em Boston, que se chamavam de
feministas e que o haviam deixado inquieto. Agora ele
ansiava por sua tranqüila, pálida e frágil Honoria, que quase
não falava e que certamente não tinha idéias políticas na
cabeça! Toda noite, quando o acampamento estava adorme-
cido e ele ficava sozinho, tentando consultar a Pedra da
Bênção para ver o Espírito Guia que sua mãe tinha visto (mas
de algum modo fracassando), também pegava a fotografia de
Honoria, tão magra e de olhos encovados que era quase um
fantasma. Comia tão mal que os vestidos ficavam largos nela.
Os pulsos eram tão delicados como ossos de passarinhos, as
faces tão afundadas que lhe davam um aspecto etéreo: a linda
e emaciada Ligéia de Edgar Allan Poe.
— O que acha da anestesia? — indagou Emmeline agora,
mudando de assunto tão abruptamente que o pegou
distraído. —- Clorofórmio, éter! — falou antes que ele
pudesse responder. — Ela vai revolucionar a cirurgia. Meu
pai assistiu à remoção de um tumor mamário. A mulher
ficou dormindo o tempo todo! E a próxima revolução será a
admissão de mulheres na medicina. Há preconceito demais
no leste. As coisas serão diferentes no oeste.
Ela fez uma pausa.
— Dr. Lively -— disse —, você precisa sorrir mais.
E ele pensou: E você precisa falar menos.
Quando adentraram pelo território dos índios pawnee, os
homens mantiveram as armas à mão, carregadas e semi-
engatilhadas. Mas os índios pareciam meramente movidos
pela curiosidade e esperando presentes.
À medida que o calor e a poeira aumentavam e a paciência
começava a se esgotar, tornou-se cada vez mais difícil
manter modos civilizados e gentis, mas as mulheres estavam
determinadas. Muitas continuavam a usar espartilhos,
embora algumas discretamente se livrassem dos apetrechos
que as restringiam. Chapéus floridos eram guardados em
baús, dando-se preferência aos mais práticos gorros de
algodão. E embora as toalhas de mesa estivessem agora
dispensadas e a porcelana de qualidade (tal como ocorrera na
travessia de muitos rios turbulentos) estivesse guardada a
salvo, ainda assim as crianças e os homens eram obrigados a
tomar banho antes das refeições e a dar graças antes que
atacassem a comida. E quando um homem foi encontrado
enforcado num choupo — morto havia uns três dias, o que
significava ter sido um componente da caravana à frente —
com um letreiro em seu pescoço dizendo "trapaceando no
jogo", eles pararam para fazer-lhe um caixão e dar-lhe um
enterro decente.
Quando pararam para acampar junto ao rio Little Blue,
Victoria Correll entrou em trabalho de parto do seu primeiro
filho. Albertina Hopkins, que se havia autonomeado
parteira, tomou conta da situação, apesar dos esforços de
outras duas mulheres que ofereceram ajuda. Sua voz podia
ser ouvida através da lona da carroça ao admoestar a Sra.
Correll, para que parasse de agir como criança. "Quieta agora.
Que tola você está sendo! A Bíblia não diz que Deus fez as
mulheres para parir crianças em sofrimento e dor? Toda esta
cena é uma ofensa aos ouvidos do Todo-Poderoso."
Quando Albertina saiu da carroça para ir à latrina que havia
sido construída para as mulheres num bosquete de choupos,
Emmeline se esgueirou para dentro da carroça e,
destampando um frasco que trouxera consigo, disse para a
pobre parturiente: "Deus pode ter nos dado a dor, mas
também nos dispôs dos recursos para aliviá-la. Este é um
elixir de ervas que meu pai sempre deu às mulheres em
trabalho de parto. Facilitará seu trabalho e tornará mais fácil
a passagem do bebê para este mundo."
Albertina ficou injuriada, mas depois disso as mulheres
passaram a procurar Emmeline por causa de problemas
femininos, pois tinha um sortimento de remédios para
acalmar dores, nervos e mal-estar em geral.
Quando chegou à orla oriental do território cheyenne, a
caravana deparou com um rio engrossado com uma perigosa
contracorrente. Normalmente teriam acampado até que o rio
se acalmasse, mas os homens estavam nervosos pela
proximidade de índios belicosos, de modo que votaram por
uma tentativa de travessia. Os protestos de Albertina
Hopkins de que era domingo, e que não deviam se
empenhar em tal trabalho em pleno Sabbath, caíram em
ouvidos moucos. Portanto quando, no meio da tarde, o
carroção dos Correll virou, lançando a Sra. Correll e o bebê
recém-nascido para a morte nas águas turbulentas, o olhar
triunfante de Albertina dizia: Eu bem que avisei.
Emmeline e Florine Benbow cuidaram dos cadáveres,
vestindo-os, arrumando os cabelos da Sra. Correll e
enrolando o bebê no cobertor mais bonito que puderam
encontrar. Silas Winslow tirou o retrato deles de graça, uma
lembrança para o Sr. Correll, que tristemente aceitou um
cavalo dos irmãos Schumann e seguiu para o Missouri, para
nunca mais ser visto.
A caravana prosseguiu.
Silas Winslow, no seu carroção que chocalhava com placas
de cobre e garrafas de produtos químicos, continuava a
exercer um lucrativo comércio com os retratos de
recordação dos mortos à medida que novos infortúnios se
abatiam sobre a caravana: pneumonia, disenteria, crianças
caindo das carroças e morrendo sob as rodas. Ninguém
culpava o Dr. Matthew Lively por não ter conseguido salvar
nenhum deles. Todos sabiam que não havia muita coisa que
um médico pudesse fazer contra doenças devastadoras e
ferimentos gravíssimos. Mas ele ajudava a construir os
caixões e preenchia atestados de óbito para que as famílias
levassem com elas para o Oregon — outra lembrança.
No dia 9 de junho chegaram ao Platte, um rio largo e raso a
quatrocentos e oitenta quilômetros por terra de
Independence, o que significava que os imigrantes haviam
completado a primeira etapa da viagem. De agora em diante
estariam viajando por um novo tipo de território, uma região
de relva curta, artemísias, cactos e aridez cada vez maior.
Aqui a caravana encontrou pela primeira vez uma nova
forma de comunicação: crânios esbranquiçados de búfalos ao
lado da trilha com mensagens escritas neles por integrantes
de caravanas precedentes. Um desses crânios alertava aos
que vinham atrás que havia encrenca com os pawnee mais
adiante e muita lama na trilha.
A viagem se tornava cada vez mais difícil. O calor do verão
era opressivo e trazia doenças. Enguiços nos carroções
aumentavam por causa do encolhimento das rodas e das
rachaduras da madeira. Árvores e vegetação eram esparsas e
portanto eles tinham de recolher estrume de búfalo para
acender as fogueiras. Quando não havia estrume disponível,
eles caminhavam nas nuvens de poeira atrás das carroças
para colher ervas daninhas para combustível. As mulheres
colhiam bagas silvestres e conseguiam enrolar massa nas
boléias das carroças e assar tortas em pedras aquecidas para
dar variedade à alimentação, que consistia principalmente de
feijões e café. Ocasionalmente os homens saíam para caçar e
traziam alce, mas com freqüência retornavam sem nada e
acabavam tendo de comerciar camisas com os índios em
troca de salmão e carne seca de búfalo. Os imigrantes
encontravam sepulturas novas ao longo do caminho, mas
prosseguiam destemidos, e quando Billy Cego, o batedor
noturno (que mal enxergava durante o dia mas que tinha
melhor visão noturna do que qualquer homem vivo, sendo
portanto sua tarefa vigiar o gado enquanto os demais
dormiam), foi encontrado morto pela manhã com uma
flechada nas costas e seu cavalo tendo desaparecido, os
imigrantes não entraram em pânico; eles simplesmente
deixaram uma mensagem num crânio de búfalo para os
comboios que vinham atrás.
Diante dos enguiços de carroças e de cangas dos bois,
envenenamento alimentar, mordidas de cães e serpentes e
mais sarampo, disenteria e febre, morte no parto e outras
mazelas, o suprimento médico de Matthew foi gradualmente
se reduzindo. Da mesma forma Emmeline viu-se
assoberbada na sua profissão, pois muitas das mulheres
começaram a antipatizar com Albertina e pediam sua ajuda
quando sentiam as dores do parto. Como Florine Benbow
previra, "o casal médico" estava provando ser indispensável.
E, involuntariamente, Emmeline e Matthew começavam a
se tornar um casal também de outras maneiras.
A maioria se recolhia cedo à noite, mas alguns esticavam o
tempo, principalmente os mais jovens. Matthew gostava de
aproveitar o tempo tranqüilo no acampamento para ler,
principalmente poesia, às vezes a Bíblia. Emmeline gostava
de olhar fixamente as estrelas.
— Como sabemos que estamos indo na direção certa? —
perguntou ela numa noite.
Ele pousou o livro e apontou para o céu noturno.
— Você conhece a Ursa Maior? Aquelas estrelas lá, que
formam uma caçarola gigante? Vê as duas estrelas na
extremidade da alça? Elas apontam para a Estrela Polar, e ela
está sempre dentro de um grau do verdadeiro norte.
Emmeline olhou para ele admirada e disse:
— Reconheço, Dr. Lively, que é um homem instruído.
Duas noites depois, Matthew tentava costurar um botão na
sua camisa usando uma agulha de sutura curvada e fio
cirúrgico de seda. Estava a ponto de desistir. Quando notou
Emmeline observando-o, pensou que ela fosse rir. Mas, para
surpresa dele, ela apareceu com uma pequena caixa de
costura, pegou a camisa e, sentando-se ao lado dele, disse
com muito tato: "Eu mesma me atrapalho na hora de fazer
remendos, mas talvez tenha um pouco mais de experiência."
Ela fez um trabalho perfeito.
Com o passar do tempo — dos dias assolados por calor,
poeira e moscas, e noites repletas de uivos de lobos e ventos
soprando lugubremente —, a opinião de Matthew acerca da
Srta. Fitzsimmons, que nunca se queixara de fazer trabalho
de homem, foi se alterando. Quando os rios engrossavam e
as carroças encalhavam, Emmeline se enfiava na água sem
pensar em si mesma, as saias encapelando-se em torno dela
enquanto empurrava com toda a sua força para livrar as rodas
do lodo. Ela incitava os bois com os homens, lavava roupa,
esfolava búfalos e costurava lonas. Matthew começou a
sentir uma crescente admiração por ela. Cada vez menos
olhava para o retrato da frágil Honoria, e quando o fazia
imaginava quanto tempo ela teria sobrevivido nesta jornada.
Por certo teria sido um fardo em vez de uma ajuda.
Matthew também estava mudado fisicamente. Havia
músculos crescendo debaixo das mangas da camisa e o rosto
mostrava-se cada vez mais bronzeado no espelho. A palidez
dos salões escuros tinha sido sobrepujada por um vigoroso
clima de sol, calor, poeira e tempestades. Calos cresciam em
suas mãos enquanto trabalhava ao lado de Emmeline
Fitzsimmons.
E então veio a noite em que a cadela de Sean Flaherty,
Daisy, roubou uma das tortas de carne de Rebecca O'Ross. A
visão da cadela correndo pelo acampamento com a torta na
boca e a diminuta Sra. O'Ross perseguindo-a com um rolo de
pastel provocou gargalhadas gerais. Juntando- se aos risos,
Matthew olhou para Emmeline e viu que ela ria tanto que
lágrimas escorriam por suas faces. E percebeu que a paixão
corria fundo em cada traço da personalidade da jovem, não
só na maneira de comer, ou propalar sua opinião sobre os
direitos das mulheres. Emmeline Fitzsimmons recebia,
abraçava e curtia a vida com toda a exuberância que Deus lhe
dera. E no instante seguinte uma noção espontânea reluziu
em sua mente: que ela devia ser passional no amor.
Sentiu as faces arderem e o ar preso momentaneamente no
peito. Quando ela subitamente virou-se para ele e seus olhos
se encontraram, Matthew sentiu o coração pular um
batimento.
Em 26 de junho, a caravana acampou perto do Forte Laramie
sob um céu cálido e límpido. Bandos de índios sioux,
preparando-se para guerra com os vizinhos crow, visitaram o
acampamento, onde partilharam do desjejum dos imigrantes,
composto de pão e carne, em troca de contas e penas. Todos
mostraram um espírito amigável, diminuindo um pouco o
temor que os americanos tinham dos nativos. Mas quando
um caçador de peles francês, chamado Jean Baptiste, juntou-
se à caravana por um dia e falou-lhes da possibilidade de
neve prematura nas montanhas, novos temores se elevaram
(todos tinham ouvido relatos de imigrantes anteriores
ficando bloqueados pelo inverno nas montanhas e morrendo
de fome), portanto Amos Tice informou ao grupo que seria
mais sábio se acelerassem o passo.
Em 4 de julho, os imigrantes comemoraram o 72º
aniversário da nação com cerveja e fogos de artifício,
discursos patrióticos e preces. Dois mil guerreiros sioux,
resplandecentes em peles de búfalo enfeitadas com contas e
penas e cavalgando como um exército para enfrentar os
crow em batalha, fizeram uma pausa para observar os
curiosos festejos dos estrangeiros brancos. Matthew Lively,
aceitando um cálice do conhaque do Sr. Hopkins, que o
discreto homem havia guardado justamente para esta
ocasião, voltou-se com os demais para olhar em direção ao
leste e se recordar dos amigos e entes queridos que ficaram
para trás. Matthew pensou na sua mãe e nas sessões espíritas,
enquanto Emmeline Fitzsimmons, parada ao seu lado e
segurando uma taça do vinho de Charlie Benbow (de um
barrilete que sobrevivera à travessia do rio), pensou nos seus
pais enterrados nas sepulturas gêmeas na fazenda que ela
havia herdado e vendido. Sean Flaherty ergueu um brinde à
Irlanda; Tim O'Ross pensava em uma ruiva de Nova York; os
Schumann se recordavam da família na Baviera. Juntos,
todos saudaram o lar que tinham deixado, depois voltaram-se
para encarar o oeste e brindar ao novo lar que viria.
O dia 17 de julho os encontrou acampados no cume de
South Pass, a ampla passagem através das Montanhas
Rochosas, espinha dorsal do continente. Este era um tempo
para fazer consertos e remendos, fixar e escorar, e para
avaliar a importância deste ponto sem volta, pois o South
Pass era a metade do caminho: no lado oriental da grande
divisa, os rios corriam para o Mississippi, do outro lado
corriam para oeste, rumo ao Pacífico. Surgiram tabuleiros de
xadrez e baralhos, uma gaita e uma rabeca tocaram uma
música animada. O Sr. Hopkins bebia uísque tranqüilamente,
enquanto sua esposa autoritária mantinha sua corte habitual
e deixava as crianças correrem agitadamente pelo
acampamento.
Emmeline remendava a saia à luz de um lampião quando a
filha mais velha dos Hopkins veio procurá-la, timidamente.
Era filha da primeira esposa do Sr. Hopkins. Albertina era
sua madrasta e a garota tinha pavor dela. Portanto, trouxe
seus temores secretos para Emmeline, a parteira. Após ouvir
as primeiras palavras entrecortadas da envergonhada
confissão, Emmeline rapidamente apreendeu a situação — a
garota andara de namoricos com um dos condutores de bois
e o inevitável estava prestes a acontecer.
— Receio que possa ser verdade — disse Emmeline
baixinho, dando um tapinha na mão da garota apavorada. —
Este é o primeiro sinal de que há um bebê a caminho,
quando a menstruação não vem. — Quando a garota
começou a chorar, principalmente por medo da ira de sua
madrasta, Emmeline tornou-se mais prática. — Ouvi falar
que há um pastor na caravana que segue um pouco à frente.
Pedirei ao Dr. Lively que cavalgue até lá para buscá-lo.
Vocês serão casados, o que é a coisa mais sábia a fazer.
O pastor, que na viagem já estivera orando sobre mais
túmulos do que imaginara ser possível, simplesmente ficou
muito feliz em voltar quilômetros atrás para oficiar um
casamento na caravana Tice, e até algumas famílias quiseram
vir com ele, por diversão e necessidade de comemoração.
Depois que a filha de Hopkins e o condutor de bois deram o
"sim", presididos por uma majestosa Albertina, que não
estava nada satisfeita por ter ignorado o segredo da enteada,
houve uma animada festa, com música de violino e dança
sob um céu estrelado, e Silas Winslow tirou o retrato do feliz
casal.
Durante as festividades, enquanto comiam bolo sem glacê e
bebiam sidra morna, Emmeline olhou para Matthew à luz
das fogueiras e pensou: Ele ganhou confiança. Não é mais o
homem nervoso de três meses atrás. E o bronzeado combina com
ele.
Ela continuou para analisar exatamente o que fazia o Dr.
Lively parecer tão especial para ela em meio a um grupo de
tantos homens, a maioria deles mais forte e mais
resistentemente do que Matthew. E pensou: É a bondade dele.
Porque, independente das circunstâncias, do quão terrível
ou desgastante fosse uma situação, podia-se contar com a
ajuda de Matthew mesmo sem ele ter sido consultado. Ele
voluntariamente compartilhava sua comida e sua carroça,
com freqüência dando carona a mulheres exaustas quando
seus próprios maridos ignoravam as necessidades delas; e
indagando sobre a saúde e o conforto de todos quando os
outros estavam fatigados demais para dar qualquer
importância.
Naquele mesmo momento, enquanto Emmeline estava
pensando no Dr. Lively e começando a aceitar que não era
tão feio afinal, e até mesmo bonito, Matthew pensava
também em Emmeline Fitzsimmons. Mas seus pensamentos
não eram tão amplos ou abrangentes quanto os dela. Seu
foco mental era muito singular: agora que havia observado
melhor, a figura curvilínea da Srta. Fitzsimmons era um
tanto cativante, afinal.
O Forte Bridger, assim chamado em homenagem a Jim
Bridger, seu fundador, tinha servido de posto comercial nos
últimos cinco anos — um estabelecimento com prédios
construídos de troncos, por onde circulavam índios trajando
peles de gamo, caçadores de peles, lenhadores e imigrantes a
caminho do oeste. Ao se aproximar do forte, a caranava Tice
encontrou um comboio dirigindo-se para leste, os
desanimados imigrantes tendo desistido e optado pela volta
ao lar. Para a maioria, foi a grave perda de vidas que havia
destroçado o seu sonho, e o comboio de vinte carroças
consistia principalmente de mulheres, crianças e uns poucos
velhos. A própria caravana Tice era menor, com 12 carroças
e 32 almas, e após três meses na trilha, eles constituíam um
bando ainda mais desorganizado do que quando partiram de
Independence, malgrado os esforços para manter padrões de
comportamento civilizado. As crianças andavam descalças e
num desalinho vergonhoso, os homens ostentavam barbas
longas e malcuidadas, as roupas estavam imundas e rasgadas.
Até mesmo Silas Winslon, o daguerreotipista almofadinha,
exibia nódoas no colete xadrez espalhafatoso e manchas de
graxa nas roupas caras que nenhuma quantidade de soda
cáustica e cinza poderia remover. Os integrantes não
conservavam mais o espírito animado que uma vez
considerara esta jornada como uma brincadeira, pois ciúme e
ódio, discussões e rixas, ressentimentos e rivalidades amargas
tinham irrompido ao longo da trilha, de modo que muitos
amigos antigos eram agora inimigos. Mas eles estavam felizes
por ter chegado ao que viam como a encruzilhada para o
trecho final da jornada: dali eles virariam para o norte rumo
ao Oregon.
E ali, também, alguns tomariam uma decisão que se tornaria
a sua sentença de morte.
De passagem pelo forte estava um montanhês que fizera
todo o caminho para o oeste e agora regressava para o leste,
um homem que avisava a todos que quisessem ouvir que no
caminho lhes falariam de um atalho, que deveriam evitar a
todo custo.
— Sigam a trilha normal das caravanas e jamais se desviem
dela — avisou a Amos Tice e a outros guias de caravana. —
Tomar o atalho poderia ser fatal.
Mas Tice contestou:
— Se existe uma rota mais curta, então é uma tolice seguir a
trilha regular. — Ele falou como se estivesse pensando no
bem-estar dos seus imigrantes, mas algo havia acontecido
com Amos Tice nos últimos quilômetros antes de
alcançarem o Forte Bridger; ele sofrera uma total mudança
de objetivo, embora ninguém na caravana soubesse. Jean
Baptiste, o caçador de peles francês que visitara a caravana
por um dia, viajara através das Sierras levando algo mais do
que peles. Ele estava carregando um cartaz que trouxera de
um lugar na Califórnia chamado a Serraria de Sutter. Para
impedir que o francês mostrasse o cartaz a qualquer outro
integrante de sua caravana, ou aos imigrantes que estavam
voltando atrás, Amos Tice pagou generosamente por ele.
Isto porque, no íntimo, Amos Tice era um homem
tremendamente ambicioso. Sua única razão para servir de
guia ao Oregon tinha sido reclamar para si mesmo o máximo
de terra livre possível, além de extrair lucro dos sonhos e
esperanças dos imigrantes. Mas tudo mudou quando viu o
cartaz trazido pelo francês, pois ele anunciava a descoberta
de ouro na Califórnia.
Tice comprou o cartaz, o francês partiu e Tice guardou a
novidade para si mesmo. Estivera ruminando o problema ao
longo dos últimos quilômetros até o Forte Bridger,
imaginando como chegar à Califórnia. Abandonar a caravana
significava viajar sozinho, uma aposta altamente perigosa.
Havia segurança na quantidade, razão das caravanas terem
sido originalmente formadas. Levar essa gente consigo até a
Califórnia era, portanto o objetivo secreto de Tice. Ao
chegar lá, ele os abandonaria e começaria a negociar com
ouro. Mas como convencer o grupo a mudar de rota? A
solução abençoada veio justamente do montanhês que avisa-
va contra dar ouvidos a rumores acerca de um atalho para o
Oregon.
Tice atiçou as chamas do boato, dizendo que ouvira falar que
a rota alternativa não só era mais curta como também mais
agradável, e que os imigrantes para o Oregon não
precisariam sofrer os riscos e dificuldades dos que os
precederam. A seguir, Rice inventou um mapa. Parecia au-
têntico — trabalhou nele em segredo por um dia e uma
noite, fazendo com que parecesse usado, bem manuseado e
confiável. Também certificou-se de que a trilha que
tomariam ficasse bem longe dos mórmons que se haviam
estabelecido no ano anterior perto de uma região que
cruzariam. Amos Tice figurara entre os milicianos que
tinham detido e encarcerado (e depois assassinado, embora o
próprio Tice não fosse o executor) Joseph Smith apenas três
anos antes, e portanto nenhum resquício de amor restara
entre Tice e os Santos do Ultimo Dia. Depois ele apresentou
seu novo plano e o mapa "autêntico" aos componentes da
caravana acampados junto ao Forte Bridger. O entusiasmo e
a empolgação na sua voz não eram falsos, pois sua mente
estava repleta de visões de riachos fluindo engrossados com
pepitas de ouro.
— É tão claro como o dia — dizia ele, abrindo o mapa para
que todos vissem. — A Trilha do Oregon segue através de
montanhas perigosas e depois há uma longa e arriscada
jornada fluvial em balsas onde muitos companheiros já
pereceram. Proponho esta rota aqui. Vejam, segue direto por
uma bela e desimpedida planície, depois mais um estirão por
um desfiladeiro. Na Califórnia viramos para o norte e
seguimos a rota mais plana, mais agradável, e refrescada pela
brisa do mar, onde vicejam árvores frutíferas até onde a vista
pode alcançar.
— Mas não é mais longa? — perguntou Charlie Benbow.
— Em quilômetros, sim, mas a rota normal demanda mais
tempo, sofrimento e perigo. Lembram-se do South Pass
através das Rochosas? Quão fácil e agradável foi a travessia?
Bem, as Sierras não se parecem em nada com as Rochosas.
Cruzá-las será como um passeio no parque!
E acreditaram nele.
Todavia, queriam pensar um pouco. Afinal, este era o último
posto avançado, e além estava o ermo ainda virgem. Assim,
enquanto ruminavam a proposta de tomar o atalho, os
imigrantes aproveitaram os poucos dias de descanso para
novos reparos nas carroças e arreios, para alimentar os
cavalos e o gado e estocar comida para a trilha à frente.
Estavam otimistas. O Paraíso jazia logo além da próxima
cordilheira, as Sierras da Califórnia. O grupo de Tice quase
podia sentir a brisa fresca do Pacífico na face.
Mas vários outros tinham suas dúvidas. Matthew Lively não
embarcou no novo plano de Tice, preferindo consultar o
Espírito Guia na Pedra da Bênção (embora no íntimo
sentisse que o atalho não era uma boa idéia). Permitiu a
Emmeline que se juntasse a ele, pois agora estava acos-
tumado a mostrar-lhe a pedra e explicar como funcionava.
Sentaram-se na traseira de sua carroça, circulados pelo brilho
quente de um lampião, enquanto os demais prosseguiam em
sua labuta ruidosa sob o céu estrelado. Matthew usou de
novo a lousa, escrevendo nela "não" e "sim". Enquanto
indagava baixinho se deveriam tomar o atalho, Emmeline es-
tava sentada solenemente, observando o cristal rodopiar
antes de parar diante da palavra "sim".
Matthew franziu o cenho. Detestava duvidar da sabedoria do
cristal, mas alguma coisa bem no seu íntimo dizia-lhe que
deveriam continuar na velha trilha rumo ao norte.
Emmeline concordava. Embora acreditando-se aventurosa e
disposta a tentar qualquer coisa nova, parecia tolice
abandonar uma trilha conhecida por outra, por mais
prometedora que soasse.
— Gire-a de novo — disse ela.
E veio a resposta "sim".
Matthew esfregou o queixo.
— A Pedra da Bênção diz que devemos seguir Amos Tice.
— E o que você acha que deveríamos fazer?
Matthew não fazia idéia. Nunca em sua vida tomara uma
decisão por conta própria. Mesmo quando era garoto e sua
mãe tomava as decisões por ele, ela consultava o cristal
primeiro.
— Minha mãe sempre disse que os espíritos nos guiam, e que
deveríamos levá-los em conta.
— Mesmo que a sua intuição diga o contrário?
— Minha intuição, tenho vergonha de dizer, sempre foi
fraca. Quando era garoto, deixava-me influenciar pelos meus
irmãos. Quando fiquei mais velho, imitava meus pares.
Receio que eu seja um seguidor, Srta. Fitzsimmons, e irei
para onde quer que líderes como Amos Tice, ou o espírito-
guia no cristal, me digam para ir.
Ele fitou-a à luz dourada do lampião e notou a linda
coloração âmbar dos olhos dela.
— O que você fará, Srta. Fitzsimmons? — perguntou ele,
sentindo um bolo na garganta, pois temia a resposta. Foi só
neste momento que Matthew percebeu quão profundos
eram seus sentimentos em relação a Emmeline.
— Descobri em você uma confortadora companhia de
viagem, Dr. Lively — disse ela, baixinho —, e acredito que
trabalhamos bem juntos. Se eu deixar sua companhia agora,
acharia difícil encontrar alguém tão amigável que me
convide a acompanhá-lo. Portanto, irei para onde você for,
Dr. Lively.
Matthew sentiu o coração disparar. Engoliu em seco e
lambeu os lábios.
— Srta. Fitzsimmons — disse ele, rapidamente —, há uma
coisa que deveria saber...
— Ei, vocês — veio uma voz da escuridão. Viram Silas
Winslow perambulando com a arrogância que lhe era
peculiar, chapéu-coco puxado até as sobrancelhas. — Não
vou seguir com Tice, Srta. Fitzsimmons — disse ignorando
Matthew, seu rival pelas atenções de Emmeline. — Estou
seguindo para o norte com uma nova caravana que está
sendo formada por Sthephen Collingsworth. Se descobrir-se
sem acompanhante, ficarei feliz em escoltá-la até o Oregon.
— Pousou teatralmente a mão no peito. — E asseguro-lhe,
Srta. Fitzsimmons, a máxima qualidade cavalheiresca
enquanto estiver sob minha proteção.
Emmeline piscou para ele e abriu a boca para falar quando
foram subitamente interrompidos por gritos.
— Dr. Lively! — soou uma voz pelo acampamento. — Dr.
Lively! Joe Strickland foi ferido gravemente!
O condutor de bois jazia gemendo em sua carroça,
inconsciente de dor. Explicaram a Matthew que seu pé tinha
sido pisoteado por um boi indócil que não queria voltar para
sua canga. Um simples olhar para o pé dele dizia até ao maior
dos leigos que Joe estava num sério apuro. O osso se
expusera através da pele, e enquanto o sangue começava a
estancar, uma horrível coloração púrpura se espalhava a
partir dos dedos. Com a assistência de Emmeline, Matthew
lavou o ferimento, aplicou ungüento e depois o cobriu com
ataduras limpas. Quando tentou empurrar o osso exposto de
volta ao lugar, Joe gritou e recaiu na mais profunda
inconsciência. A face adquiriu um cinza alarmante e ele
suava profusamente. Como Joe estava viajando sozinho,
Emmeline ofereceu-se para cuidar dele.
Naquela noite decisões foram tomadas. Várias caravanas se
dividiram, algumas com integrantes do grupo original de
Tice decidindo seguir com Collingsworth para a trilha norte
e recém-chegados de outras caravanas optando por juntar-se
a Amos Tice no seu atalho. Silas Winslow, apaixonado pela
Srta. Fitzsimmons, decidiu por fim juntar-se ao grupo de
Tice.
Despediram-se das pessoas com quem tinham viajado desde
o Missouri, prometendo se reencontrarem no Oregon.
Embora novos integrantes houvessem aderido, com carroças
e gado, esposas e filhos, a caravana Tice estava menor agora,
consistindo de 35 carroções, 69 homens, 32 mulheres, 71
crianças e 300 cabeças de gado e cavalos.
A esperança crescia à medida que os carroções passavam por
riachos repletos de trutas, campos cobertos de flores
silvestres, bosques luxuriantes de álamos e salgueiros. A
caravana sentia-se mais forte agora que havia "sangue" novo,
pois os integrantes recém-admitidos eram fortes e saudáveis.
Porém Matthew Lively estava para lá de apreensivo; alguma
coisa estava errada e ele não podia se intrometer. Especulava
se a profecia terrível e sombria de sua mãe seria a causa. Mas
guardou as dúvidas para si. Os demais pareciam achar que
Tice tivera uma boa idéia e os ânimos estavam elevados.
O idílio não durou muito tempo.
Após os primeiros dias agradáveis de viagem, a caravana
chegou às montanhas Wasatch, uma cordilheira de altos
picos cobertos de neve e abismos profundos. Os lados desses
cânions eram atravancados por salgueiros, arbustos densos
de bagas, e grossos choupos, negundos e amieiros, e os leitos
de rios eram estreitos e cheios de penedos. Isto exigia
requisitar cada homem capaz no grupo para ajudar a
desobstruir a rota.
Armados com machados e facões, correntes e pás, eles
abriam caminho através da densa vegetação. A cada noite os
homens caíam exaustos nos seus cobertores enquanto as
mulheres cuidavam de bolhas e arranhões de maridos,
irmãos e filhos com pomadas e palavras de incentivo. Mas
pelo menos tinham água, assinalou Tice, e pasto para o gado.
Porém tinham também enxames de moscas e mosquitos.
Progredindo apenas oito quilômetros por dia, finalmente
forçaram as parelhas de bois a puxar as carroças por sobre o
cume das montanhas Wasatch, e quando desceram do outro
lado, os imigrantes depararam com o obstáculo formidável
que tinham de superar: o deserto do Grande Lago Salgado.
Os acampamentos noturnos eram menos animados agora e
envoltos em silêncio sóbrio. As viagens diurnas tornavam-se
mais lentas, pois a temperatura era muito alta e crestava o
deserto. Ferimentos contraídos nas montanhas Wasatch
atrasavam a viagem, pois havia cada vez menos homens
aptos para atrelar e desatrelar os bois, e pausas freqüentes
para repousar se faziam necessárias. Enquanto as mulheres se
preocupavam com seus homens — o pé de Joe Strickland
começara a infeccionar embora Emmeline desse o melhor
de si para cuidar dele —, Amos Tice abrigava uma
preocupação secreta: que estavam se atrasando. À frente
aguardavam as Sierras e a ameaça de neve.
Do outro lado do leito do lago estéril prosseguiram sob um
sol impiedoso. À medida que o calor aumentava, parecendo
um forno, os imigrantes acreditavam que haviam entrado
num novo inferno. Eles banhavam a língua dos animais com
toalhas molhadas, pois tão sem água e carente da mais leve
umidade era esta terra árida que temiam que os cavalos e o
gado enlouquecessem de sede. Era um deserto alcalino
desolado onde não se via uma coisa viva. Os carroções que
iam à frente pareciam gigantescos através das ondas de calor
amplificadas. As montanhas ao longe pareciam flutuar no ar.
O sol do meio-dia batia como um martelo. A forja de
Vulcano, pensavam aqueles mais instruídos do grupo. Ao
pôr-do-sol as sombras estendiam-se por quilômetros. O ar
noturno era como um tenaz fino perfurando os cobertores.
Crianças choravam, o gado mugia. A superfície da planície
era tão compacta que os cascos dos animais não deixavam
mais que uma leve impressão no sal duro e na crosta alcalina,
mas quando os carroções alcançaram o centro do deserto,
encontraram um lago raso que transformava o álcali numa
massa pastosa. Agora era como caminhar sobre um mingau
de aveia. Cada passada exigia esforço para tirar o outro pé do
atoleiro. O esterco viscoso cobria os pés como moldes de
cimento, aglomerava-se em volta das rodas das carroças e
fazia os bois tropeçar.
Ainda assim os imigrantes prosseguiam através da fornalha,
crestados, suando com o calor. O pé de Joe Strickland
piorou. Com a infecção e a febre devastando o corpo do
pobre homem, Emmeline viajava na carroça dos
Hammersmiths com a cabeça de Joe aninhada no colo.
Outros integrantes estavam agora igualmente enfermos, mas
sabiam que tinham de continuar em frente, que parar
significava a morte.
Um grupo de homens escolhidos pelos demais anunciou a
Tice sua intenção de ir procurar ajuda com os mórmons
(embora ninguém fizesse a menor idéia de onde exatamente
se estabelecera o povo de Brigham Young), mas Tice,
sabendo ter má reputação entre os Santos do Último Dia,
declarou peremptoriamente que os mórmons estavam longe
demais do caminho e que seria suicídio procurá-los.
Seguiram em frente, no calor escaldante do dia e no frio
noturno de estalar os ossos, lábios rachados e sangrando, as
línguas inchadas, a água sendo repartida a colheradas. Os
bois dos irmãos Schumann finalmente não resistiram mais,
caindo de joelhos e berrando de sede. Assim, os quatro
alemães enterraram suas enxadas e implementos agrícolas na
areia com a intenção de vir buscá-los depois que achassem
terra no Oregon.
O novo bebê dos Biggs, cujo parto fora feito três meses antes
por Albertina Hopkins, sucumbiu ao calor e foi enterrado na
areia. As galinhas dos Benbow começaram a cair de calor e
sede, e até mesmo Daisy, a cadela habitualmente agitada,
caiu junto à carroça de Sean Flaherty.
Eles achavam que o deserto do Grande Lago Salgado não
terminaria nunca.
Mas finalmente terminou, e enquanto a exaurida caravana
arrastou- se até o primeiro poço no sopé das colinas,
enquanto o dia calorento dava lugar à noite fria, enquanto o
gado disparava para a água e as pessoas tentavam não fazer o
mesmo, e enquanto Matthew Lively estava pensando que
isto era a sombria e terrível provação profetizada por sua
mãe, Emmeline veio procurá-lo e disse:
— Joe Strickland tem gangrena. O pé dele precisa ser
amputado.
De repente, Matthew sentiu-se como se carregasse sobre os
ombros o peso do mundo e todos os seus habitantes.
Afundando no chão, onde estivera tentando acender uma
fogueira, ele sacudiu a cabeça.
— Não posso fazer isto — disse.
Emmeline sentou-se junto a ele e pousou a mão no seu
braço. Como ela própria e os demais, Matthew tinha o rosto
vermelho e empolado, os olhos turvos, as roupas grudentas
de suor e sujeira.
— Eu o ajudarei — disse ela. — Certa vez assisti meu pai na
amputação de uma perna. Não sou medrosa, Dr. Lively.
Ele olhou para ela e sentiu como se fosse chorar.
— Não sou médico, Srta. Fitzsimmons.
— O que quer dizer?
— Quero dizer que não sou um praticante de medicina. Você
fez esta suposição lá em Independence e eu não a corrigi.
-— Então o que você é?
— Sou um agente funerário. — A voz dele soou pequena e
frágil.
Ela pestanejou, a testa se enrugando.
— Um agente funerário? Como um papa-defunto?
— Exatamente isso,
— Mas... sua valise médica...
— Os instrumentos de um homem que cura corpos são os
mesmos de um homem que leva corpos para o repouso
eterno. Especialmente quando o falecimento foi causado por
ferimentos. Temos de fazer as mesmas suturas e curativos
como qualquer médico. E o estetoscópio... é o meio de
termos certeza de que o homem está mesmo morto antes
que vá para o túmulo.
— Mas eu o vi comprando remédios no boticário!
— Eram para mim mesmo. Sofro de males do peito durante o
inverno.
Emmeline estava tão atônita que mal podia falar.
— Por que não me corrigiu? Por que deixou todo mundo
acreditar que era um médico?
Ele lançou-lhe um olhar pesaroso.
— Se tivesse um grupo de pessoas dependendo de você para
viver diria a elas que era um papa-defunto? Srta.
Fitzsimmons, você esteve se queixando de preconceito e
estigma por causa de seu sexo. Bem, eu enfrento os mesmos
preconceitos e estigmas por causa da minha profissão.
A expressão de Emmeline tornou-se pensativa.
— Sim — disse ela. — Acho que entendo seus motivos.
— Deixo as pessoas desconfortáveis — disse ele tristemente.
—Faço- as se lembrar de algo de que não querem ser
lembradas. Mas é o negócio de nossa família! — Meu pai é
agente funerário, bem como meus irmãos. Não tive escolha
senão acompanhá-los.
— Meu querido Matthew — disse ela gentilmente, tratando-
o pela primeira vez pelo nome de batismo. — Não se sinta
envergonhado e embaraçado pela profissão que seu pai lhe
ensinou, pois não há nada de vergonhoso no que você faz. E
uma profissão honrada, uma função necessária, e as pessoas
precisam de homens como você, que respeitam os mortos
sem lamentações, porque o tenho visto agir quando alguém
morre. Meu pai e tios contaram-me de papa-defuntos
roubando cadáveres e enganando as famílias, outros
vendendo às famílias caixões que não podiam fornecer
aproveitando-se de seu pesar e culpa. Você pode fazer a
diferença, Matthew, e preencher uma necessidade muito
importante, porque é exigido durante um dos mais tristes e
vulneráveis momentos numa vida humana.
Ele só pôde olhar para ela, e recordar as palavras de Honoria
quando ela rejeitou sua proposta de casamento: "Eu nunca
poderia viver com um homem que lida com cadáveres."
— Então... minha profissão não a incomoda?
— Eu seria a pior das hipócritas se dissesse que sim. Tomei a
decisão de vir para o oeste ao perceber o quanto o leste é
arraigado a preconceitos e tradições ultrapassados. As pessoas
são moldadas e espera-se que continuem assim. Eu queria ser
médica, mas tudo que podiam me dizer era que mulheres só
serviam para ser esposas e mães. Assim decidi vir para onde
o pensamento é livre e não obstado por preconceitos taca-
nhos. Bem, que tipo de feminista seria eu se exigisse mente
aberta dos outros e não mantivesse minha própria mente
aberta?
— E você não acha... — E pigarreou e as faces enrubesceram
— ... que existe um problema com meu nome? Eu preferiria
não ter de trocá-lo.
Ela o fitou por um momento e depois, entendendo, fez um
"Oh!" e sua mão voou para a boca.
— Portanto, você vê que não apenas serei um pária como
também motivo de riso.
Ela sorriu.
— O nome incomodou seu pai? Então não vai incomodar
você.
— É diferente — disse ele, infeliz. — Em Boston os Lively
têm sido agentes funerários por gerações. Desde a chegada
dos primeiros colonos. Ninguém dá um segundo
pensamento ao nome. Mas veja bem: um agente funerário
chamado Lively pode adquirir algum respeito?
Emmeline admitiu que podia ser um problema, mas agora
não era hora de se preocupar com o nome. Joe Strickland ia
morrer se algo não fosse feito para salvar sua perna.
Eles foram para o carroção dos Hammersmiths e embora Joe
tivesse estado inconsciente por dois dias, ele abriu os olhos
e, num daqueles momentos de clareza que às vezes
sobrevêm a um homem no limiar da morte, disse:
— Aprecio o que fez por mim, doutor, e embora eu saiba
que só quer me ajudar, não vou deixá-lo cortar minha perna.
Venho sendo condutor de gado desde garotinho. Não sei
fazer mais nada. E não existe nada mais inútil do que um
condutor de bois com uma perna só. Portanto direi minhas
despedidas agora, se não se importa.
Joe morreu naquela noite, mas ninguém culpou Matthew —
disseram que ele fez o melhor possível. Emmeline descobriu
uma nova admiração por Matthew Lively naquela noite,
porque embora lhe doesse na consciência manter sua
profissão em segredo, ele colocava os sentimentos das
pessoas diante dos seus próprios. Ela manteve o segredo dele
e continuou a chamá-lo de doutor.
Quanto ao próprio Matthew, nas semanas por vir ele se
lembraria desta noite e perceberia que este foi o instante em
que se apaixonou.
Prosseguiram a jornada. Mais bois pereceram na planície
salgada e o gado vagueou em busca de água. Mais quatro
carroças foram abandonadas e as famílias enterraram
pertences que não podiam mais carregar, com o intuito de
voltar algum dia para pegá-los. Debaixo do solo estéril
ficaram arcas de roupas e lembranças, heranças de família e
colchas, batedeiras de manteiga e frigideiras. Durante a
viagem as famílias tinham planejado diferentes maneiras de
guardar seu dinheiro. Alguns simplesmente o empacotaram
em arcas com outros pertences; outros abriram buracos nas
tábuas da carroça e neles esconderam moedas. Silas Winslow
tinha uma caixa de latão especial rotulada: "Soda cáustica! Se
aberta, poderá causar queimaduras instantâneas nos olhos e
pele."
Era na caixa que ele havia escondido todo o seu dinheiro.
Tendo agora de abandonar o carroção e todo o equipamento
fotográfico, ele pendurou às costas a pesada caixa cheia de
moedas.
Havia uma sensação de urgência na caravana. Tinham
perdido dias em infrutífera procura de gado extraviado, o
verão estava acabando, a neve agora já coroava os picos das
redondezas, os víveres diminuíam e estavam ainda
enfrentando centenas de quilômetros do deserto do Nevada.
Uma vez saídos da terra desértica do Utah encontraram
território montanhoso. De um alto desfiladeiro puderam ver
outro vale deserto, e além daquela outra cordilheira seguida
de outro vale. Assim era a topografia do Nevada: um ritmo
de vale e cordilheira, cordilheira e vale, estendendo-se do
deserto de sal às Sierras, cada vale um deserto, cada
cordilheira uma muralha. E nada havia a fazer senão pôr um
pé adiante do outro e esperar que o último dos bois resistisse.
Entraram no território dos índios paiute, onde as incursões
eram um meio de vida. Gado era roubado durante a noite,
cavalos laçados em plena luz do dia. E à medida que o
número de bois diminuía, mais carroças tinham de ser
abandonadas. A maioria dos imigrantes estava agora a pé,
tendo deixado boa parte de seus pertences para trás. Crianças
dividiam a mesma montaria, enquanto as provisões restantes
tinham sido empilhadas na última das carroças.
Charlie Benbow perdera quase toda a sua criação de galinhas,
mas ainda havia algumas vivas, e ele as mantinha sob olhar
vigilante dia e noite. A filha de Hopkins que se casara em
South Pass procurou Emmeline reservadamente queixando-
se de dores. Como a garota estava grávida de quatro meses,
Emmeline ficou alarmada. Mas escondeu seus temores e deu
à jovem um tônico calmante. Sean Flaherty ainda tinha sua
cadela Daisy, mas poucas batatas com as quais começar sua
fazenda no Oregon. E Osgood Aahrens perdeu todos os seus
instrumentos de barbeiro num atoleiro. Quando a caravana
por fim retomou a viagem ao longo do serpenteante rio
Truckee, o gado remanescente estava macilento e tro-
peçando nas pedras, as pessoas fracas e desnutridas com os
suprimentos perigosamente baixos, e quando viram afinal a
Sierra Nevada, a cordilheira estava coberta por nuvens
negras e sinistras.
NA terceira semana de outubro a exaurida caravana entrou
num amplo vale de montanha onde encontraram neve
rodopiando entre os pinheiros. Aqui eles se reagruparam e
descansaram, acampando do melhor jeito que podiam. Mas
acordaram na manhã seguinte com uma leve nevasca e
perceberam que deveriam apressar a subida ao cume da
Sierra, do outro lado de onde situava-se a Califórnia.
Cinco dias depois alcançaram um lago, além do qual ficava o
desfiladeiro que cruzava as Sierras. Tentaram atravessá-lo,
mas a neve frustrou seus esforços, obrigando-os a se retirar
para a margem do lago, onde havia solo plano, lenha e
perspectiva de caça. Ali construíram abrigos improvisados
aproveitando tendas, roupa de cama, mantas de búfalo e
arbustos. Eram 159 pessoas amontoadas em toscas
habitações, esperando que a neve prematura derretesse e
fossem capazes de atravessar o desfiladeiro. Enquanto
esperavam e oravam, fizeram um inventário de tudo que
restava, e descobriram que ainda tinham carroças com gado
e cavalos e algumas provisões: feijão, farinha, café e açúcar.
Ficou decidido que tudo seria partilhado, inclusive as
galinhas de Benbow e as batatas de Flaherty, e distribuído
igualmente entre as famílias.
Naquela noite, quando Albertina Hopkins protestou dizendo
que as garotas solteiras, os olhos apontados para Emmeline
Fitzsimmons, deveriam dormir em um abrigo separado, seu
marido disse baixinho, "cale-se mulher", e Albertina
assentiu.
Matthew foi incapaz de dormir. Um vento gélido penetrava
nas fendas e rachaduras do abrigo, tornando impossível ficar
confortável. Mas alguma coisa mais também o mantinha
acordado: o pressentimento incômodo, que o acompanhara
nas dez semanas desde a partida do Forte Bridger, de que
algo estava terrivelmente errado.
Caminhando entre corpos adormecidos, ele sacudiu Amos
Tice para acordá-lo e exigiu num sussurro áspero que o guia
se encontrasse com ele lá fora, onde, por sorte, um céu claro
e uma lua brilhante iluminavam a paisagem nevada. Com
uma energia inédita, Matthew insistiu para dar uma olhada
no mapa de Tice, dizendo que esta não era a trilha fácil que o
guia prometera.
O chefe da caravana resmungou, mas foi pegar o mapa,
secretamente esperando que Matthew não conseguisse ler
bem à luz da lua. Mas quando o papel se abriu nas suas mãos,
e sua própria respiração gelada lhe toldava a visão, Matthew
pôde ler bem o suficiente. E o que viu foi algo que não havia
notado lá no Forte Bridger: este era um mapa desenhado de
forma amadorística e sem escalas.
— Onde conseguiu isto, Amos? — perguntou,
suspeitosamente.
Tice não enfrentou seu olhar.
— Lá no Forte Bridger.
— Ou seja: lá onde aquele velho montanhês estava dizendo a
todos que ignorassem os rumores acerca de um atalho. Você
viu este mapa e acreditou nele? Por quê? Ele é falso, Amos!
Qualquer um pode ver isto!
Alguma coisa se acendeu nos olhos de Tice, um lampejo de
poder num rosto fatigado. Ele riu de uma maneira que
alarmou Matthew e disse:
— Acho que isto não importa agora. — Ele procurou dentro
de sua jaqueta de pele de gamo franjada e extraiu um papel
grosso esfarrapado, desdobrou-o e mostrou um cartaz
anunciando a descoberta de ouro na Serraria de Sutter.
Matthew olhou em choque.
— Você deveria ter perguntado aos demais se estavam
interessados em ouro!
Mas Tice apenas riu de novo e retornou ao abrigo. Na manhã
seguinte, o guia da caravana e mais cinco homens tinham
ido embora.
Os imigrantes haviam sido abandonados.
Desfizeram o acampamento, encheram as carroças restantes
e puseram-se a caminho, determinados a transpor as
montanhas. Porém encontraram mais neve e foram
malsucedidos em outras tentativas de atravessar as Sierras. O
tempo estava ficando mais frio, com pesadas nuvens
pendendo baixas sobre os pinheiros. As roupas dos
imigrantes estavam frias e úmidas enquanto eles tremiam até
os ossos, pânico e desespero mal eram controlados e todos
oravam para que o tempo melhorasse.
Quando uma chuvarada de surpresa encharcou a caravana,
alguns disseram que a chuva era um bom sinal, mas Matthew
lembrou-se de algo que ouvira Jim Bridger dizer no forte:
"Chuva no vale da Sierra significava neve no desfiladeiro."
Pela primeira vez na vida, Matthew sentiu um medo
genuíno. Já lidara com os mortos muitas vezes em sua jovem
vida, tanto na agência funerária do pai quanto nas sessões
espíritas de sua mãe, mas nunca tivera de pensar a sua
própria morte antes. E isto o aterrorizava. Ele se recordava
de quão valente se sentira, sentado na boléia da carroça
quando partiram de Independence, Missouri, um êxodo de
gente corajosa para conquistar a imensidão agreste. Mas
agora via, através de olhos recentemente frios, que não
houvera nenhuma bravura verdadeira entre eles, pois todos
tinham considerado a viagem como uma pândega, uma
aventura alegre com piqueniques ao longo do caminho.
Ninguém havia previsto isto.
Enquanto armavam um novo acampamento com abrigos
improvisados, seu ânimo em baixa, os imigrantes oravam
para que a chuva derrotasse as nevascas, mas acordaram na
manhã seguinte para ver que a neve estava ainda mais
profunda.
A montanha à frente era intimidante, mas eles sabiam que
deviam se apressar. Os bois estavam fracos com uma dieta de
ramos de pinheiros, e mais carroções tiveram de ser
abandonados. Empilharam o que puderam nos bois
remanescentes e eles próprios carregaram o resto, com as
crianças levando pequenos fardos nos ombros.
A neve tinha agora um metro de profundidade.
Apressaram o passo, mas o último pico da montanha erguia-
se diante deles como uma muralha branca. Desanimados e
exaustos, o enfraquecido bando não pôde prosseguir. Assim
retiraram-se para um pequeno lago onde, durante outra
tempestade de neve, novamente construíram abrigos com
tábuas das carroças, tetos de lona, adicionando roupas de
cama e peles de búfalo para afastar o frio. Acenderam
fogueiras no interior e foram rapidamente assolados pela
fumaceira, fazendo com que corressem para fora, tossindo e
arfando, para abrir buracos de ventilação nas peles, o que
também deixava o frio entrar. A caça era pobre aqui.
Matthew apanhara em armadilha um coiote, e o remoso
animal foi devorado com uma coruja ferventada para fazer
um caldo que foi servido apenas às crianças e aos doentes.
Caçar cervos também provou-se inútil, já que este animal
prefere altitudes mais baixas. Feijão e farinha eram
preparados para render o máximo e racionados em magras
porções. As últimas galinhas de Benbow foram comidas e as
batatas de Flaherty se acabaram. Apesar de tudo, eles ainda
davam graças antes de cada parca refeição. A dois mil metros
acima do nível do mar, eles pelejaram para produzir
fogueiras e mantê-las acesas. Os integrantes mais fracos
tinham dificuldade em respirar nesta altitude. E a pobre
garota Hopkins recém- casada, grávida de cinco meses,
sofreu um aborto que quase lhe custou a vida. O feto teve
um funeral cristão e Albertina Hopkins, bem mais magra
desde a partida de Independece e bem menos falante, cuidou
com dedicação de sua enteada.
Após sete dias de neve ininterrupta, o sol apareceu e,
encorajados, os imigrantes votaram para enviar um grupo até
o desfiladeiro na esperança de que pudessem atravessá-lo e
descer até a Serraria de Sutter, de onde poderiam mandar
uma equipe de resgate. Foram escolhidos os oito homens
mais fortes, mas quando Matthew Lively se ofereceu como
voluntário, todos concordaram que o "doutor" deveria ficar
com as mulheres e os doentes. O grupo foi vestido com as
roupas mais quentes e recebeu pacotes de carne seca. Todos
tentaram dar ao grupo um caloroso bota-fora.
Eles voltaram ao pôr-do-sol. Não havia como avançar,
disseram. As tempestades de neve tinham bloqueado todas
as trilhas.
Alguém calculou que foi por volta de 5 de dezembro que os
imigrantes começaram a matar o gado remanescente, porém
muitos animais tinham vagueado nas tempestades para
acabar sepultados pela neve. E os homens tiveram tão pouco
sucesso na caça que um novo pensamento arrepiante
começou a penetrar na mente dos imigrantes: se ficassem
confinados ali por todo o inverno, não haveria comida
suficiente.
Florine, a esposa de Charlie Benbow, foi descoberta
congelada durante o sono. Como o solo estava duro demais
para se cavar uma sepultura, ela foi enrolada num lençol e
depositada entre duas tábuas e depois coberta com pedras.
Outra tentativa de escapada foi feita, desta vez com mulheres
no grupo, mas foram novamente repelidos por outra
nevasca. Sentaram-se amontoados nos seus precários abrigos,
congelados e ferroados, tentando extrair calor das fogueiras
que se extinguiam enquanto encontrar lenha seca se tornava
cada vez mais difícil. Bíblias que haviam sido usadas para
conforto espiritual eram agora colocadas no fogo para
conforto físico, como era tudo que não podia ser usado ou
comido. Eles observaram em desolado desespero enquanto
os Salmos, os Cânticos de Salomão, os Evangelhos e as
Epístolas de Paulo caíam na fogueira. Novas nevascas
durante a noite sepultaram seus depósitos de carne, tomando
um dia inteiro de busca com varas longas para localizá-la. Na
manhã seguinte, a carne armazenada sumiu de vez,
carregada por lobos.
Num raro acesso de inspiração heróica, movido
principalmente pela fome, Silas Winslow decidiu enfrentar o
cume por conta própria, determinado a trazer turmas de
resgate até o acampamento. Foi encontrado dois dias depois,
ainda vivo mas cego pela neve. Quando o transportaram de
volta, envolveram seus olhos com morim para evitar mais
dano a eles. Seu moral estava elevado o bastante para
gracejar dizendo que esperava que a perda de visão fosse
temporária, pois para que serviria um fotógrafo cego?
Emmeline deu o melhor de si para animar o grupo de
imigrantes. Envolvia-os com canções e histórias, e pedia a
cada um que contasse seus planos para o Oregon. As
primeiras noites foram bem-sucedidas, mas à medida que o
frio se intensificava e todos tremiam com os dentes
chocalhando apesar do fogo e dos cobertores, eles se
tornavam menos propensos a conversar.
Os temores de Matthew se intensificaram, como os de todos
os demais, pois havia um horror não mencionado pairando
no ar. A paisagem, incluindo penedos, pinheiros e o
pequeno lago, estava agora completamente branca. Não
havia um pássaro, um peixe, uma noz de pinheiro. Quando
os suprimentos acabassem, outras coisas teriam de ser
comidas.
E quando até mesmo estas — os cães sobreviventes, as
sementes de maçã dos irmãos Schumann, couro cozido —
fossem consumidas, algo mais teria de ser encontrado.
Matthew segurava o cristal azul na mão enluvada noite e dia
enquanto fixava os olhos encovados nos seus companheiros.
A inanição estava chegando mais perto. Todos estavam
sofrendo de ulceração causada pelo frio. Quando Daisy, o
último dos cães sobreviventes, foi sacrificada para ser
comida, Sean Flaherty saiu disparado do abrigo num
paroxismo de pesar e tentou enforcar-se numa árvore. Mas o
galho congelado se quebrou e os homens puderam trazê-lo
de volta para dentro.
A Pedra da Bênção não tinha respostas, por mais que
Matthew nela fixasse o olhar. Nada sentiu do seu pretenso
poder espiritual, não ouviu respostas sussurradas em
exalações fantasmais.
Mais pessoas começaram a padecer de febre e pneumonia.
Dois rapazes, Freddy Hastings e Abe Waterford, com as suas
mães em casa aguardando ansiosamente cartas do Oregon,
mergulharam para a morte nas águas quando tentaram abrir
um buraco no lago congelado para pescar. Os outros se
encontravam fracos demais para içá-los e lá eles foram
deixados para o degelo da primavera. Quando os irmãos
Schumann conseguiram capturar ratos, que tostaram em
brasas de carvão, houve uma luta obscena por comida —
ossos, rabos, tudo. Mesmo assim, Osgood Aaherens
conduziu uma oração de graças antes que consumissem a
repulsiva refeição.
Por fim, nenhum alimento restou. Cozinharam couro e
comeram a goma residual que se formou no fundo da panela.
Assaram cordões de sapatos entre as cinzas e comeram as
tiras crocantes. Pelas primeira vez não deram graças.
Enfraqueciam cada vez mais. Sonhavam com comida. Um
homem, enlouquecido pela fome, correu para fora da tenda
encharcada e foi encontrado horas depois, morto na neve.
Deixaram-no lá, para ser coberto pelas nevascas. Charlie
Benbow começou a manter conversas com a falecida esposa,
Florine.
Matthew e Emmeline dormiam enlaçados nos braços um do
outro. Não entretinham pensamentos de romance ou de
intimidade física, mas simplesmente extraíam calor, toque e
amor um do outro.
O amanhecer do Dia de Natal trouxe uma nova nevasca. O
vento cortava através das tendas como espadas e uivava
como fantasmas atormentados pela dor. Os ocupantes de
olhos vítreos dos frágeis abrigos tinham dificuldade em
acender e conservar acesos os fogos. Pilhavam seus
pertences, procurando por algo comestível. Jogavam fora
ouro e moedas, pois não tinham mais qualquer valor ou
importância. Já estavam havia duas semanas sem comida de
qualquer espécie, subsistindo somente de gelo derretido que
bebiam em goles.
Rebecca O'Ross, que não era uma mulher forte, para
começar, foi a primeira entre os adultos a morrer de fome.
Seu marido Tim estava tão desligado de pesar que teve de ser
arrastado do túmulo dela por quatro homens, receosos de
que ele congelasse ali até a morte. Seu filho, Dickie,
enroscado num canto do abrigo, chorou até ficar em
silêncio, de olhos vítreos fixados no nada.
Quando, uma semana depois, um dos irmãos Schumann
morreu de pneumonia, pela primeira vez houve hesitação
entre os sobreviventes acerca de seu funeral. Palavras não
eram proferidas, e as pessoas mal podiam se fitar nos olhos,
mas o terrível pensamento pairava sobre elas o tempo todo,
tão alto como o vento uivante que nunca interrompia o seu
tormento incessante.
Ali, na pessoa de Helmut Schumann, jazia alimento fresco.
— Meu Deus, não! — gritou Matthew quando o pleno
significado do silêncio lhe ocorreu. — Não somos animais.
— Mas nós somos — replicou o Sr. Hopkins, suave e
tristemente.
— Humanos, talvez, e filhos de Deus. Porém animais, de
qualquer modo, e precisamos comer. — Sua esposa,
Albertina, soluçava com o rosto enterrado nas mãos. Era
difícil reconhecer naquela criatura esquelética em roupas
folgadas a mesma mulher dominadora que partira de
Independence oito meses antes. Mas seus dois filhos
estavam mortos, seu espírito alquebrado.
— E o que comerei? — gritou Manfred Schumann. — Não
posso comer meu próprio irmão!
Outro silêncio cheio de significado lhe respondeu: Helmut
era apenas o primeiro; outros se seguiriam, por certo.
Matthew correu para fora, cambaleando na neve, lágrimas se
congelando em suas faces. Caiu de joelhos e chorou,
soluçando pesadamente. Quando Emmeline juntou-se a ele,
puxou-a para seus braços. Apesar das camadas de roupa, o
casaco dela feito de um cobertor, ele sentiu a pele e os ossos.
Não era mais uma jovem mulher robusta. Mas ainda havia
vida em seus olhos que examinavam o rosto de Matthew
com angústia e compaixão, e vida nos seus lábios quando
procuraram e beijaram a boca dele.
— Não podemos fazer isto. — Ele soluçava no pescoço de
Emmeline.
— Não podemos nos rebaixar a tanto!
— Temos opção? Devemos nos deixar morrer? Matthew,
estamos isolados aqui. E deveremos estar até a primavera.
Não há comida. Não há... — Ela então também desatou a
chorar e se abraçaram na neve, balançando de um lado para
outro, seus uivos de desespero se elevando até o céu frígido
e indiferente.
Finalmente, readquirindo o controle, Emmeline puxou
Matthew para se pôr de pé e disse:
— Eles precisam de um líder. Precisam de alguém que os
mantenha unidos em corpo e espírito. Eles respeitam você.
— Não sou um líder. A corajosa é você, Emmeline. Tem sido
desde o início em Independence, quando se determinou a
fazer esta viagem por conta própria.
Ela o fitou com firmeza.
— Não sou corajosa, Matthew. Não sou mais. Ando
assustada, fora de meu juízo perfeito. Toda aquela coragem...
foi tudo conversa porque era tão fácil. Mas agora que me
deparo com a necessidade de bravura autêntica, descubro
que não tenho nenhuma. Você tem sorte — acrescentou. —
- Tem a Pedra da Bênção para guiá-lo. Eu só tenho a mim
mesma, e de fato sou uma guia muito fraca.
Ele tirou o cristal do bolso e tentou ver o Espírito Guia que
sua mãe sempre via. De repente, toda a esperança e
fingimento de crença na pedra deu lugar à fome e ao
desespero.
— É uma fraude! Uma farsa! — gritou e arremessou a pedra
com um vigoroso lançamento.
— Não! — disse Emmeline, pois embora ela própria não
acreditasse na magia do cristal sabia que Matthew ainda
acreditava. Ela cambaleou pela neve procurando
freneticamente o cristal.
— Espere — disse Matthew, indo atrás dela.
Quando o encontraram e Emmeline se abaixou para pegá-lo,
Matthew viu alguma coisa na neve. Franziu o cenho.
Apertou os olhos e se abaixou. Esfregou os olhos e piscou.
Não havia erro: eram rastros de urso.
— O que é? — perguntou Emmeline ao ver a expressão no
rosto dele.
Matthew ergueu-se e olhou em volta. A paisagem era de um
branco ofuscante e quase descaracterizada. Ele observou
procurando algum movimento.
Então franziu o nariz.
— Sente o cheiro?
Ela fungou o ar.
— Que fedor horrível!
— Acho que sei o que é. — Ele se adiantou pela neve
profunda e Emmeline o seguiu.
Depararam com um pequeno monte de fezes de urso. Ainda
fumegavam, o que significava que estavam frescas — o urso
estava por perto.
— Temos de contar aos outros! — disse Emmeline. —
Podemos matá-lo! Teremos comida e...
— Não! Um grupo de pessoas assustaria a fera e então nunca
mais a acharíamos. Se eu pudesse acertá-lo com um tiro...
— Matthew, você não é um caçador...
Mas ele sabia que isto era algo para fazer sozinho e com
rapidez. Com o coração martelando de medo, correu até um
dos abrigos e silenciosamente pegou a arma de Charlie
Benbow. Nada contaria aos outros, que estavam, de qualquer
modo, desatentos e letárgicos demais para notar ou se
importar que ele estivesse pegando o rifle. Seria uma coisa
cruel demais soerguer as esperanças deles. Ele disse a
Emmeline que esperasse por ele no abrigo aquecido. E que
rezasse.
Matthew sabia que era loucura um homem enfrentar um
urso sozinho com apenas uma arma, mas a razão não fazia
parte de seu pensamento exatamente agora. Ele engatilhou o
rifle e enfiou a única outra bala em sua mitene para
recarregamento rápido. Depois seguiu os rastros do urso com
grande dificuldade, pois a neve estava ofuscante e sua visão
cada vez mais borrada. Cada tomada de fôlego era uma
estocada nos pulmões e ele não tinha mais sensação nos pés.
Parava com muita freqüência para ouvir, mas a floresta
branca estava em silêncio.
Seu desespero crescia. Havia encontrado o animal! Tinha de
impedir que os outros fossem em frente com o ato
impensável que estavam avaliando. Matthew havia sido
criado com a noção de respeito aos mortos. A profanação era
algo abominável. Os mortos não podiam se defender; cabia
aos vivos protegê-los.
Mas as pessoas no acampamento mal eram seres vivos agora;
eram eles próprios cadáveres ambulantes.
De súbito, ele congelou. Lá estava, a uns cem metros à
frente, um enorme urso-pardo escavando a neve. Matthew
moveu-se lentamente à frente, depois se agachou atrás de
uma árvore, engatilhou o rifle, fez cuidadosamente pontaria
e atirou.
O urso deu um rosnado e recuou nas patas traseiras. Vendo
Matthew, atacou. Matthew apressadamente colocou pólvora
na arma e socou a segunda carga de chumbo. Nivelou o rifle
e disparou de novo. O urso se abaixou e oscilou. Depois se
apoiou nas quatro patas e fugiu.
— Espere — disse Matthew fracamente, não acreditando que
tivesse chegado tão perto e agora perdido a caça. — Por
favor! — começou a chorar. Toda aquela carne! Poderia ter
salvado a todos. Mas sua pontaria fora medíocre. Ele tinha
errado.
A seguir viu a trilha de sangue na neve.
Correu de volta ao acampamento o mais rápido que pôde,
tropeçando e caindo na neve. Encontrou vários homens
agrupados em torno do cadáver de Helmut Schumann, com
o Sr. Benbow empunhando uma faca de açougueiro.
— Pare! — gritou Matthew.
Quando contou-lhes apressadamente sobre o urso,
acrescentando que deviam segui-lo, nem todos
concordaram.
— Um urso ferido é muito perigoso — disse Aahrens, o
barbeiro.
— Já vi o que um urso ferido pode fazer com um homem —
acrescentou Charlie Benbow. — E suicídio, doutor.
— Por que não vai atrás dele? — indagou Bret
Hammersmith. — Dê uma boa olhada. Depois venha nos
buscar.
Matthew olhou nos olhos encovados e faces ossudas
marcadas com a loucura da fome. Sabia que não iam esperar
por sua volta com notícias do urso, que só queriam se ver
livres dele.
— Estou fraco — disse ele, e era a pura verdade. — Não
posso dar mais que uma caminhada através da neve e então
estarei acabado. Peço que façam esta caminhada comigo. Eu
acertei aquele urso. Ele não vai viver muito tempo. E onde o
encontrarmos, encontraremos comida. E sobreviveríamos.
Aqui — ele olhou em volta para o inferno para o qual
haviam descido —, mesmo que nossos corpos sobrevivam,
nossos espíritos morrerão.
Mas Emmeline também estava aterrorizada em deixar o
acampamento. Ele a tomou pelas mãos congeladas.
— Você precisa ser corajosa, Emmeline. Pelos outros. Se
você for, eles a seguirão.
— Mas estou com medo.
— Providenciarei para que corra tudo bem conosco. Não se
preocupe, minha querida.
Por fim acabaram seguindo-o, pessoas famintas segurando-se
umas nas outras, carregando entes queridos nos ombros,
caminhando com dificuldade pela neve, semimortos de
fome. Levavam apenas uns poucos pertences — cobertores e
lençóis, utensílios de cozinha e as cinzas quentes das suas
fogueiras cuidadosamente protegidas. Por diversas vezes
quiseram desistir, pois pareciam estar perdidos num limbo
branco ofuscante. Mas Matthew descobriu gotas de sangue,
escarlates na neve, e apressou seu maltrapilho grupo à frente,
prometendo-lhes um banquete de carne assada no fim.
Descreveu gordura chiando numa panela até eles quase
sentirem o cheiro e a saliva escorrer. Emmeline participou
pegando cada um pelo braço, fazendo-os se pôr de pé,
dizendo-lhes como tinha visto o urso ferido — uma mentira
— e como tinha certeza de que estava morto agora. Era só
mais um pouco à frente... mais alguns passos... apenas um
outro passo... não, não, não, não parem, não caiam, aqui está
meu braço...
Ruth Hammersmith afundou na neve e ali ficou como um
peso morto. O marido desabou ao seu lado e disse aos outros
que prosseguissem. Olhou para eles com olhos encovados
orlados com sombras negras.
As pessoas semimortas prosseguiram, sem pensar, mal
ouvindo as palavras de encorajamento de Matthew,
perseverando mecanicamente na neve, mãos e pés
dormentes pelo congelamento, rostos brancos pelo frio
extremo.
Outros caíram, segurando suas crianças nos braços.
Emmeline tentava animá-los, mas ela própria estava cansada
demais, tendo apenas força suficiente para seguir Matthew.
E quando parecia até mesmo a Emmeline e Matthew que sua
jornada não tinha esperança, encontraram a caverna, a trilha
sangrenta entrando nela.
Enquanto os outros esperavam a uma distância segura,
Matthew e Manfred Schumann entraram cautelosamente,
ouvindo, farejando o ar, rifle engatilhado e pronto.
Encontraram o urso lá dentro, e estava morto.
Manfred e Osgood Ashrens encontraram força para cravar as
facas e abrir a barriga do animal. A visão das tenras vísceras
cruas se derramando para o chão da caverna, os outros
avançaram, caindo sobre os maços sangrentos e fumegantes
num irracional frenesi alimentar. Eles se empanturraram no
sangue e na carne ainda quentes, e então, sentindo-se
fortalecidos, voltaram ao longo da trilha para resgatar os que
haviam ficado pra trás. Os Hammersmits estavam mortos,
mas os demais foram trazidos, inundando a caverna com seu
calor humano, enchendo as barrigas com carne de urso.
Naquela noite dormiram exaustos apoiados na carcaça, as
crianças rastejando dentro dela para obter calor. E quando
acordaram, fizeram uma fogueira das cinzas, ofereceram a
Deus uma prece de graças e começaram a esquartejar o urso.
Comiam diretamente dele, lançando pedaços de carne no
fogo, mas depois também começaram a cortar tiras finas
compridas e pendurá-las sobre a fumaça até que secassem,
desta forma preservando a carne para as frias semanas que
viriam. Enterraram os ossos e o crânio, para desencorajar os
lobos e depois usaram a pele do urso, que quase cobria o
chão da caverna, como um tapete para aquecimento.
Mais seis pessoas pereceram, apesar do alimento e do
aquecimento, mas quando ficou evidente que os demais
sobreviveriam, Matthew fez uma contagem do grupo: havia
agora 55 homens, 24 mulheres e 53 crianças. Quarenta
almas a menos desde que deixaram o Forte Bridget
E num dia em que o sol aqueceu pela primeira vez e eles
encontraram a primeira neve derretida ao lado de um riacho,
Matthew virou-se para Emmeline e, tomando-lhe o rosto
entre as mãos, disse com paixão: — Adoro o som da sua voz,
Emmeline. Não pare nunca de falar. Jamais fique em
silêncio. Quando começamos esta jornada, eu era me-
lancólico e sisudo demais. E achava que você sorria demais.
Mas sua alegria impediu-me de afundar. Cresci entre os
mortos e a penumbra, mas você trouxe luz e animação para
minha vida.
— E você me impediu de cair no mundo, querido Matthew,
pois eu era frívola e superconfiante. Você é a minha rocha e
minha estabilidade.
O grupo de resgate de Sutter chegou em meados de março,
liderado por um dos homens que fugira com Amos Tice.
Assim que alcançaram a civilização, o homem fora
acometido de culpa e contou às autoridades sobre uma
caravana de imigrantes bloqueada no alto do último desfila-
deiro. Voluntários imediatamente se ofereceram, carregados
com armas e provisões, e fizeram a jornada em tempo
recorde.
Dos 172 homens, mulheres e crianças que deixaram o Forte
Bridger em agosto, menos de 120 sobreviveram.
Todos disseram à equipe de resgate que foram salvos graças
ao Dr. Lively que com sua coragem tomou a decisão correta
diante da adversidade extrema.
Nenhum deles mencionou o incidente a respeito do cadáver
de Helmut Schumann.
Quando chegaram enfim à Serraria de Sutter e viram que era
um lugar de crescimento e novos começos, com a febre do
ouro em toda parte, Matthew tirou a Pedra da Bênção do
bolso uma última vez.
— Eu não o vejo — disse decisivamente.
— Não vê o quê?
— O espírito-guia. Está vendo esta mancha no núcleo do
cristal? Como poeira de diamante? Muda de forma quando se
vira a pedra na luz. Minha mãe dizia que era um espírito,
mas vejo apenas depósitos minerais. — Entregou-o a
Emmeline. — O que você vê?
Ela perscrutou o núcleo do cristal.
— Um vale — disse. — O vale verdejante para onde estamos
indo nos fixar e iniciar vida nova. — Devolveu-lhe o cristal.
— Estranho — refletiu ele, tentando ver o vale de Emmeline
na Pedra da Bênção. — O tempo todo pensei que era o
cristal que me dizia o que fazer. Mas talvez fosse eu quem
tomava as decisões, não a pedra. Eu queria vir para o oeste,
então girei a pedra onze vezes até ela apontar para oeste. E
quando Ida Threadgood a abandonou no rio e você precisou
de alguém com quem viajar — virou-se e sorriu para ela —,
eu já havia tomado minha decisão de pedir-lhe que viesse
comigo. Se eu não tivesse assim desejado, nunca teria
consultado a Pedra da Bênção, para começar. Mas nunca tive
confiança suficiente em mim mesmo para tomar minhas
próprias decisões. A pedra era minha muleta. Não preciso
mais dela.
— Não seja tão apressado no seu juízo — disse ela, tendo
dado bastante crédito ao milagre ocorrido no lago da
montanha. — Foi a Pedra da Bênção que nos levou aos
rastros do urso. Não fosse ela, estaríamos certamente mortos
agora.
Ele assentiu, imerso em pensamento por um momento.
— Estive pensando, Emmeline — disse —, que Lively pode
ser um nome estranho para um agente funerário, mas é um
nome perfeito para uma parteira. — Depois, com toda
seriedade: — Sei que você jurou nunca se casar, mas...
Ela levou um dedo aos lábios dele e disse com um sorriso:
— Claro que casarei com você, meu querido Matthew, pois
formamos um par perfeito: parteira e agente funerário.
Ajudo a trazer pessoas ao mundo e você as escolta para fora
dele.
Ela tomou a Pedra da Bênção dele mais uma vez e segurou-a
à luz do sol.
— Pensei em todas as pessoas que tiveram este cristal, que
olharam para ele em busca de orientação, proteção ou sorte.
E imagino se foram como você, Matthew, cego às suas
próprias forças, dando crédito a um pedaço de mineral
inanimado. Mas você descobriu seu próprio poder no fim, o
espírito que está em todos nós, o espírito para superar a
adversidade. As pessoas são fortes, Matthew, sei disso agora.
Podemos enfrentar quaisquer desafios colocados em nosso
caminho, e podemos triunfar. Você está certo, não
precisamos mais dela — concluiu, colocando a pedra no
bolso dele. — Mas talvez alguém no futuro possa usar a
Pedra da Bênção e permitir que ela o ajude a descobrir sua
própria força, sabedoria e poder interiores.
Matthew beijou Emmeline, a seguir tomou as rédeas e pôs a
carroça em movimento, rumo ao seu futuro no vale
verdejante, em direção a uma nova esperança.
Ínterim
Os Lively compraram terra, investiram em minas de ouro e
ferrovias e ficaram ricos. Matthew tornou-se um líder em
sua comunidade, e nos seus últimos anos foi eleito para a
Câmara Estadual e tornou-se uma figura de liderança e
prestígio. Quando lhe indagaram que conselho daria aos
futuros imigrantes que tomassem as trilhas do Oregon e da
Califórnia, Matthew disse: "Não peguem atalhos." Ele e
Emmeline viveram até a velhice e foram sepultados em
Livelyville, Califórnia.
A Pedra da Bênção foi herdada por seu primogênito, Peter,
que a passou para sua filha Mildred, após ela se formar em
medicina. A Dra. Lively levou o cristal da boa sorte com ela
para a África, onde passou trinta anos em trabalho médico
missionário antes de voltar aos EUA para se tratar de uma
doença rara contraída durante um safári em Uganda. Como
Mildred Lively não tinha filhos, ela doou o cristal à mulher
que foi sua enfermeira nos meses finais, uma nipo-americana
chamada Toki Yoshinaga.
Toki e sua família foram removidas de seu lar em São
Francisco após o bombardeio de Pearl Harbor e mandadas
para viver num lugar chamado Manzanar. Depois da guerra a
família foi forçada a vender todos os bens que lhes restavam
a fim de se recompor. O cristal azul foi vendido por cem
dólares, uma soma considerável em 1948.
O comprador foi um contador chamado Homer cujo hobby
era gemologia, e quando examinou esta nova aquisição na
bancada de trabalho na sua garagem, ele percebeu
emocionado que poderia ter descoberto um novo mineral.
Submetendo o cristal ao seu primeiro escrutínio científico
desde que um holandês chamado Kloppman o analisou em
Amsterdam no ano de 1698, Homer considerou-o uma
pedra dura, 8.2 na escala de Moh, com um brilho aguçado e
clivagem muito baixa. O azul recordava-lhe variedades de
topázio e turmalina, mas possuía uma "estrela" no seu centro
como as safiras às vezes faziam. Sentindo excitamento pela
primeira vez em muitos anos, ele empacotou a pedra com
outras e foi para uma convenção de gemologia em
Albuquerque, Novo México, onde esperava confirmar sua
nova descoberta, com a possibilidade de dar o seu próprio
nome à gema — "homerita" lhe soava bem. Na convenção,
Homer conheceu uma jovem dama muito interessada em
pedras preciosas e ela o convenceu a levá-la ao hotel onde
ele se hospedava para ver sua coleção. Infelizmente, o
ingênuo contador interpretou mal as intenções da viçosa
dama e, na expectativa de uma aventura sexual, sofreu um
infarto fulminante.
A coleção de Homer foi deixada negligenciada na garagem
por sua viúva até que, decidindo mudar-se para um
condomínio de aposentados na Flórida, ela vendeu "toda
aquela inutilidade" para um espírito livre chamado Raio de
Sol, que produzia bijuterias e toda a parafernália contestatória
para as principais lojas do Hollywood Boulevard. Assim, em
1969, a Pedra da Bênção foi parar num lugar chamado
Woodstock, engastada no cabo de uma pinça de fumar
maconha pertencente a um hippie chamado Argyle. Após a
morte de Argyle, numa guerra não-declarada no Sudeste da
Ásia, sua irmã recebeu seus pertences e, achando a pinça,
desengastou o cristal azul. Achando que a pedra não passava
de um pedaço de vidro, ela a deu de presente à filha de oito
anos que, usando folha de alumínio e cola, fez do cristal uma
coroa para uma de suas bonecas.
Quando a garota chegou à idade universitária e saiu de casa,
doou todos os seus velhos brinquedos para o Exército da
Salvação, de onde o cristal azul foi resgatado por uma mulher
que regularmente percorria brechós procurando artigos de
valor negligenciados por olhos menos argutos — pelo menos
na sua opinião. Viu possibilidades no cristal, pois era adepta
da Nova Era e sentiu vibrações definidas quando o pegou.
E assim a pedra azul que havia viajado através de galáxias e
nebulosas para pousar numa Terra primordial — um cristal
cósmico que dera a uma proto-humana chamada Mulher
Alta a sabedoria de quando conduzir seu povo para longe do
perigo, que havia confortado Laliari e iluminado Avram, e
concedido fé à senhora Amélia, e dado à Madre Winifred a
coragem para desobedecer à ordem de um abade, e a
Katharina a esperança de encontrar seu pai, e canalizou a
paixão recolhida de Brigitte Bellefontaine para um uso
prático, e finalmente transformou Matthew Lively em dono
de seu próprio destino — assim esta Pedra da Bênção veio a
residir numa pequena loja de uma comunidade praiana da
Califórnia. Hoje se encontra na vitrine num despretensioso
mostruário de cristais curativos, cartas de tarô e incenso. Se
você não andar muito rápido, nem distraído demais lendo
um jornal ou falando no telefone celular, poderá vê-la.
E se sentir necessidade de descobrir sua força interior, ou
coragem, ou sabedoria, entre na loja, observe a pedra,
segure-a na mão e veja o que ela lhe diz. O dono da loja está
disposto a vendê-la a um preço razoável... para a pessoa
certa.
Lively: vívido, animado, vivaz. (N. do T).
| Lançamento Arcanjo Micael A Pedra da Bênção - Barbara Wood links abaixo digitalização, formatação e revisão - Lucia Garcia Sinopse: Há três milhões de anos, após uma explosão cataclísmica de proporções estelares, um meteorito caiu sobre a Terra, revelando uma linda e reluzente pedra azul. Cem mil anos depois, Mulher Alta, um membro da família dos primeiros seres humanos que habitaram o planeta, encontrou o fragmento do cosmos numa savana africana e ele moldou não apenas o seu destino, mas também o das gerações futuras. Dos habitantes da pré-história ao antigo Israel, da Roma dos Césares à Inglaterra medieval, da Alemanha de Carlos V e Martinho Lutero aos mares do Caribe, das trilhas do Oregon e da Califórnia do oeste americano do século XIX aos dias de hoje, o caminho da pedra e o da história do mundo encontram-se ligados pela misteriosa magia do cristal. Entrelaçando o passado e o presente com uma habilidade surpreendente, Barbara Wood nos conduz numa viagem épica que atravessa cinco continentes, narrando as aventuras de personagens que, ao entrar em contato com a pedra aprenderam como superar as adversidades, enfrentar os desafios e transformar suas vidas.
| ||||||||||||||
| |
0 comentários:
Postar um comentário