BLOFELD
http://groups.google.com/group/digitalsource
Tradução
ISA
SILVEIRA
LEAL
MIROEL
SILVEIRA
Título
do
original:
Mantras
Sacred
Words
of
Power
Para
Lu
K'uan-yü
(Charles
Luk)
a
quem
o
Ocidente
tanto
deve
por
sua
lúcida
interpretação
das
obras
chinesas,
a
qual
contém
tesouros
da
sabedoria
budista
e
taoísta.
SUMÁRIO
Prefácio
do
Autor
1 A
Floresta
dos
Reclusos
2 A
Tradição
Perdida
3 O
Início
feio
da
Compreensão
4 A
Deidade
Interior
5 Alguns
Mantras
Iogues
6 Palavras
de
Poder
7 Shabda,
o
Som
Sagrado
PREFÁCIO
DO
AUTOR
Como
as
coincidências
se
juntam
estranhamente!
Muitas,
muitas
vezes,
damos
com
uma
palavra
ou
com
um
pensamento
que
estavam
havia
muito
ausentes
de
nós,
e
de
repente
descobrimos
que
eles
ecoaram
de
novo,
duas
ou
três
vezes,
num
intervalo
de
poucos
dias.
Há
muitos
anos
acariciei
a
idéia
de
escrever
um
livro
sobre
mantras,
e
depois
a
descartei.
Senti
que
não
seria
correto
expor
assuntos
sagrados
a
um
possível
menoscabo
ou,
levianamente,
pôr
de
lado
as
salvaguardas
com
as
quais
o
conhecimento
mântrico
havia
sido
preservado
da
profanação
durante
séculos.
De
poucos
anos
para
cá,
entretanto,
as
circunstâncias
se
alteraram.
O
interesse
pela
sabedoria
do
Oriente,
que
milhares
de
jovens
do
Ocidente
agora
demonstram,
é
genuíno
e
não
desprovido
de
reverência;
ao
contrário
de
seus
antecessores
e
antepassados,
eles
não
menosprezam
o
que
é
misterioso,
simplesmente
por
não
estar
de
acordo
com
as
categorias
do
pensamento
científico
ocidental.
Esta
mudança
de
atitude
merece
e
recebeu
uma
calorosa
resposta;
hoje
em
dia,
até
os
mais
conservadores
guardiões
das
tradições
orientais
estão
inclinados
a
abrandar
o
rigor
das
antigas
salvaguardas,
devido
à
compaixão
por
aqueles
cujo
desejo
de
sabedoria
é
sincero,
e
que
se
acham
impossibilitados
de
viajar
para
longe
de
seu
chão
a
fim
de
sentar-se
aos
pés
dos
sábios
durante
anos
infindáveis.
Havia
pouco,
uma
série
de
incidentes
me
fizera
ponderar
de
novo
sobre
as
implicações
dessa
modificação,
quando
chegou
uma
carta
de
um
autor,
eminente
autoridade
sobre
budismo
chinês,
Lu
K'uan-yü
(Charles
Luk),
insistindo
comigo
para
que
me
dispusesse
a
escrever
exatamente
a
espécie
de
trabalho
que
eu
tivera
em
mente.
Minha
primeira
reação
foi
de
cautela.
Respondi
que
me
sentia
hesitante
devido
aos
votos
de
samaya,
que
prescrevem
discrição
quanto
a
todo
conhecimento
que
se
obtém
através
da
iniciação
tântrica;
pois,
apesar
de
meu
lama,
o
Venerável
Dodrup
Chen,
haver-me
dado
permissão
para
escrever
qualquer
coisa
que
me
parecesse
adequada,
sinto
natural
relutância
em
tomar
decisões
sobre
tal
matéria.
Depois
chegou
nova
carta
de
Lu
K'uan-yü,
com
a
mesma
finalidade
da
primeira.
Após
ponderar
sobre
essa
sugestão,
aceitei-a,
mas
com
uma
auto-imposição:
decidi
limitar-me
a
falar
de
mantras
que,
já
tendo
sido
publicados,
deviam
certamente
ser
conhecidos
(e
talvez
mal
compreendidos)
pelos
não-
iniciados.
Desta
maneira,
eu
esperava
evitar
revelações
não
recomendáveis
e,
ao
mesmo
tempo,
esclarecer
algumas
concepções
provavelmente
errôneas.
Seguindo
a
linha
geral
que
eu
havia
dado
aos
meus
livros
anteriores
sobre
assuntos
similares,
comecei
pelo
que,
para
mim,
era
o
começo,
relatando
mais
ou
menos
cronologicamente
meus
encontros
iniciais
com
a
prática
mântrica.
Por
isso,
os
dois
ou
três
primeiros
capítulos
não
têm
profundidade,
mas
espero
que
sejam
considerados
interessantes.
Os
leitores
que,
até
aqui,
consideram
os
mantras
como
mágicos
ou
conversa
fiada
descobrirão
que
foi
quase
essa
a
minha
atitude
no
início,
apesar
de
a
fé
na
sabedoria
dos
meus
amigos
chineses
me
impedir
de
trancar
a
mente
contra
o
que
parecesse
tolice.
Espero
conseguir
despertar
reverência
pelas
artes
mântricas,
e
pela
crença
em
sua
validade,
exatamente
como
foram
despertadas
em
mim
—
passo
a
passo.
Gostaria
de
enfatizar
que
cheguei
aos
mantras
por
acaso,
e
não
por
decisão
própria.
Apesar
de
meu
interesse
por
eles
ser
perfeitamente
sincero,
não
busquei
conhecimentos
mântricos,
e
o
que
adquiri
foi
incidental
na
minha
procura
de
iogues
através
dos
quais
conseguisse
a
Iluminação,
da
qual
os
mantras
algumas
vezes
fazem
parte.
Tive
muita
sorte
ao
encontrar
homens
de
sabedoria
e
verdadeira
santidade,
tanto
chineses
quanto
tibetanos,
muitos
dos
quais
versados
em
erudição
mântrica,
mas
estou
longe
de
dominar
o
assunto.
0
fato
de
ter
ousado
escrever
sobre
isso
não
é
porque
eu
saiba
muito,
mas
porque
muitos
outros,
que
não
tiveram
as
oportunidades
que
eu
tive,
talvez
saibam
menos
ainda.
Até
esta
data
—
tal
como
o
leitor
descobrirá
ao
final
—
existem
aspectos
dos
mantras
que
permanecem
tão
misteriosos
para
mim
quanto
antes.
Geralmente,
divido
os
mantras
em
três
categorias,
das
quais
só
me
sinto
capaz
de
falar
com
ligeira
autoridade
sobre-a
primeira:
1—
Mantras
usados
na
contemplação
iogue,
maravilhosos
mas
não
miraculosos.
2—
Mantras
com
efeitos
aparentemente
miraculosos.
3—
Mantras
que,
se
tudo
quanto
se
afirma
a
seu
respeito
for
válido,
devem
provisoriamente
ser
julgados
capazes
de
agir
miraculosamente,
ao
menos
até
que
a
forma
de
sua
ação
seja
melhor
compreendida.
A
maior
parte
do
que
se
segue
aos
dois
ou
três
capítulos
introdutórios
concerne
à
contemplação
iogue.
Apesar
de
ser
considerado
o
menos
espetacular
aspecto
dos
mantras,
este
é
o
único
de
importância
definitiva.
Estou
grato
a
Lu
K'uan-yü
por
seu
encorajamento,
ao
Lama
Anagarika
Govinda
por
uma
carta
que,
em
conjunto
com
suas
obras
publicadas,
solucionou
vários
problemas
para
mim;
ao
meu
bom
amigo
Gerald
Yorke
pela
informação
sobre
a
teoria
hindu
do
poder
mântrico,
assim
como
de
várias
práticas
ocidentais
análogas
ao
uso
dos
mantras;
e
a
dom
Sylvester
Houédard,
da
Prinknash
Abbey,
pelas
volumosas
notas
eruditas
das
quais
extraí
minhas
referências
à
Prece
de
Jesus1
e
ao
Ismu'z
at
dos
Sufis.
John
Blofeld,
A
Casa
do
Vento
e
da
Nuvem
1 A Prece de Jesus, equivalente ao Pai-Nosso do Catolicismo, foi crida no cristianismo ortodoxo
por São João Crisóstomo, santo notabilizado por sua eloqüência.
Capítulo
1
A
FLORESTA
DOS
RECLUSOS
Era
como
um
sonho.
Dentro
do
largo
aposento,
e
apesar
de
os
raios
das
velas
refletirem-se
nos
cálices
e
instrumentos
rituais
reunidos
sobre
o
altar,
brilhando
com
luz
prateada,
e
apesar
de
o
mandala
das
divindades,
erguido
atrás
dela,
conter
todas
as
colorações
imagináveis,
a
luz
que
prevalecia
era
um
dourado
pálido,
cor
da
esteira
de
palha
de
arroz
estendida
de
uma
parede
à
outra,
com
sua
superfície
imaculada
interrompida
apenas
por
um
altar
baixo
e
quadrado,
de
madeira
negra,
e
pelas
fileiras
de
almofadas
cor
de
bronze,
usadas
para
meditação.
As
almofadas,
no
momento,
estavam
ocupadas.
A
não
ser
pelo
movimento
dos
lábios
e
pela
respiração,
as
figuras
envoltas
em
branco
assemelhavam-se
a
estátuas,
tão
profunda
era
a
tranqüilidade
invocada
pelas
sílabas
em
tom
grave
emanadas
de
suas
bocas
e
reguladas
pelo
ritmo
majestático
do
tambor:
LOMAKU
SICHILIA
JIPIKIA
NAN
SALABA
TATAGEATA
NAN.
ANG
BILAJI
BILAJI
MAKASA
GEYALA
SATA
SATA
SARATÉ
SARATÉ
TALAYI
TALAYI
BÍDAMANI
SANHANJIANI
TALAMACHI
SIDA
GRIYA
TALANG
SOHA!
Logo
cheguei
a
saber
que
nenhum
dos
devotos,
apesar
de
suas
mentes
responderem
sem
falha
ao
encantamento,
conhecia
o
significado
daquelas
sílabas,
cujo
som
era
mais
inspirador
do
que
um
solene
peã!
A
linguagem
não
era
a
de
sua
nativa
Cantão;
nem
sequer,
apesar
de
ter
sido
transmitida
a
seu
professor
pelo
Mestre
dele
no
Japão,
era
japonês;
nem
mesmo
o
chinês
medieval,
conquanto
o
mantra
tenha
alcançado
o
Japão
vindo
da
China,
mil
anos
antes;
nem
era
sânscrito
—
mas
talvez
o
sânscrito
modificado
através
dos
séculos
por
toda
uma
série
de
transições.
Estranhamente,
nada
disso
importava,
pois
as
sílabas
de
um
mantra,
ainda
que
acaso
inteligíveis,
não
deviam
seu
poder
ao
significado,
ao
nível
do
pensamento
conceituai.
Ali
estava
o
início
de
um
mistério
ao
qual,
de
então
por
diante,
eu
dedicaria
toda
a
minha
vida.
E
agora,
após
quatro
décadas,
não
posso
na
verdade
dizer
que
o
desvendei!
Quando,
na
juventude,
tomei
a
primeira
resolução
de
ir
à
China,
uma
doença
súbita
me
compeliu
a
desembarcar
em
Hong-Kong.
Ali,
as
circunstâncias
me
levaram
a
permanecer
pôr
um
ano
ou
mais,
cultivando
a
amizade
de
um
grupo
de
chineses
conservadores,
que
apaixonadamente
se
apegavam
à
velha
sabedoria
e
às
tradições
de
sua
raça.
Entre
eles
havia
um
médico
da
velha
escola,
estudante
de
rosto
pálido,
de
trinta
e
poucos
anos,
que,
desprezando
as
modas
ocidentais,
usava
um
severo
barrete
de
cetim
preto,
encimado
por
um
pingente
escarlate,
e
no
verão,
uma
túnica
de
fina
seda
branca
que
chegava
ao
tornozelo
e
tinha
a
gola
erguida.
No
inverno,
essa
túnica
era
substituída
por
outra
de
seda
mais
pesada,
de
cor
sombria
e
acolchoada
com
paina
de
seda,
sobre
a
qual
usava
com
freqüência
uma
jaqueta
manchu,
formal,
de
cetim
preto
estampado.
Tal
como
proclamava
sua
aparência,
o
Dr.
Tsai
Ta-hai
era
totalmente
um
homem
de
tradição,
mas
não
amante
da
fossilizada
rigidez
confuciana
—
e
imbuído
pelo
espírito
humanístico,
místico
e
brincalhão
que
caracteriza
as
mais
finas
formas
da
poesia
e
da
pintura
chinesas.
Profundo
conhecedor
das
tradições
taoístas
e
budistas,
vivia
mergulhado
no
mistério
das
miríades
de
formas
mutantes
criadas
pelo
Tao
informe,
autoperpetuador
e
imutável,
representado
com
tanta
agudeza
em
velhos
poemas
e
paisagens.
Quando
nos
conhecemos,
ele
estava
entusiasmado
com
uma
forma
de
budismo
esotérico
não
mais
habitual
na
China,
mas
que
sobrevivera
de
modo
truncado
no
Japão,
de
onde
havia
sido
recentemente
transmitida
para
um
grupo
de
devotos
em
Hong
Kong.
Nossa
amizade,
que
seria
cimentada
mais
tarde
por
um
juramento
de
fraternidade,
cresceu
magicamente
desde
a
noite
de
nosso
primeiro
encontro.
Noutro
livro,
The
Wheel
of
Life
[A
Roda
da
Vida]
descrevi
mais
longamente
a
maneira
pela
qual
estando
mal,
com
febre
intermitente,
mandei
meu
empregadinho
cantonês
de
12
anos
procurar
um
médico;
e
de
como
esse
rapazinho,
nada
sabendo
a
respeito
das
preferências
de
um
estrangeiro,
tivesse
corrido
até
o
mais
próximo
—
o
Dr.
Tsai
Ta-hai,
naturista
chinês
que,
apesar
da
surpresa
ao
ser
chamado
por
um
"diabo
estrangeiro",
acorreu
imediatamente,
tocando
com
seus
dedos
esguios
um
de
meus
pulsos
de
cada
vez,
descobrindo
não
só
um,
mas
seis
pulsos!
Seu
método
de
diagnóstico
não
era
menos
estranho
para
um
jovem
recém-chegado
da
Inglaterra;
consistia
em
mergulhar
sua
mente
em
tranqüilidade
interior
e
intuir,
em
silêncio,
as
perturbações
nos
ritmos
de
meu
corpo.
A
receita,
que
redigiu
em
bela
caligrafia
com
o
conjunto
de
acessórios
de
escrita
que
formava
a
parte
mais
essencial
de
seu
equipamento
médico
portátil,
levou-me
à
compra
de
muitos
pacotinhos
de
estranhas
substâncias,
as
quais
fervidas
juntas
produziram
um
líquido
ralo,
negro
e
amargo
com
espantosas
propriedades
curativas.
Descobrindo
que
eu
era
budista,
ele
me
interrogou
com
deliciado
espanto.
Nunca
esquecerei
a
alegria
que
iluminou
seu
rosto
ao
saber,
pela
primeira
vez
em
sua
vida,
que
havia
deparado
com
um
ocidental
ansioso
por
aprender
com
os
chineses,
em
vez
de
estar
determinado
a
impor-lhes
sua
maneira
ocidental
de
pensar.
Assim
que
me
restabeleci,
meu
novo
amigo
me
levou
a
uma
reunião
numa
casa
que,
tal
como
proclamava
uma
tabuleta
de
laca
acima
da
entrada,
era
curiosamente
denominada
"A
Floresta
dos
Reclusos".
Era
na
verdade
uma
espécie
de
templo
particular,
pertencente
a
uma
associação
de
budistas
leigos.
Fui
informado
de
que
quase
todas
as
cidades
da
China
tinham
sua
Floresta
de
Reclusos,
mas
que
aquela
era
incomum,
porque
seus
membros
adotavam
uma
forma
de
budismo
que,
tendo
desaparecido
da
China
mil
anos
antes,
havia
sobrevivido
no
Japão
como
seita
Shingon.
O
mestre-residente,
Lai
Fa-shih
(Mestre-Dharma
Lai),
depois
de
passar
alguns
anos
em
retiro
no
Monte
Koya,
não
muito
longe
de
Kioto,
tinha
voltado
do
Japão
para
instruir
seus
confrades
chineses
sobre
o
que
sobrara
da
tradição
secreta
que
havia
prevalecido
entre
seus
antepassados
na
época
em
que
havia
florescido
a
Seita
Esotérica
(Mi
Tsung).
A
seita
Shingon,
assim
como
sua
contrapartida
tibetana,
a
Vajrayana
ou
Mantrayana,
protege
seus
segredos
de
ioga
contra
a
profanação,
restringindo
a
instrução
apenas
aos
iniciados.
Foi
por
especial
cortesia
dos
amigos
de
Ta-hai
que
o
jovem
inglês
Ah
Jon,
como
me
chamavam,
teve
permissão
para
freqüentar
e
até
participar
dos
ritos,
apesar
de
não
ter,
até
então,
uma
iniciação
preliminar.
A
bondade
dessas
pessoas
não
tem
limites.
A
Floresta
dos
Reclusos,
elevando-se
num
pequeno
cume
perto
de
Causeway
Bay,
no
que
era
então
uma
área
rural,
tinha
aparência
comum,
mais
ocidental
do
que
chinesa,
pelo
estilo.
Muitos
de
seus
quartos,
aos
quais
estavam
ligadas
largas
varandas
envidraçadas,
eram
iguais
aos
que
se
encontravam
em
muitas
residências
da
classe
média
em
Hong
Kong
naquele
período;
mas
no
andar
superior
ficava
a
bonita
sala
que
descrevi,
sempre
perfumada
pela
queima
de
sândalo.
Atrás
do
altar,
com
seus
requintados
conjuntos
de
prata,
erguiam-se
vários
painéis
pintados,
dos
quais
o
que
ficava
no
centro
reproduzia
nove
"Budas
e
Bodhisattvas
meditando",
sentados
no
centro
e
nas
pétalas
de
um
lótus.
Estes
painéis,
e
as
figuras
de
outros
painéis
subsidiários,
eram
esculpidos
em
cores
claras
e
brilhantes,
de
estilo
notavelmente
semelhante
ao
dos
afrescos
encantadores
que
se
vêem
nas
paredes
dos
antigos
templos-
cavernas
da
China,
da
índia
e
do
Ceilão.
A
semelhança
não
se
limitava
aos
arranjos,
à
postura
e
ao
Simbolismo,
mas
era
criada
principalmente
pelas
sublimes
expressões
e
pela
etérea
delicadeza
das
figuras
-as
que
encimavam
nuvens
pareciam
realmente
etéreas
e
as
aladas
pareciam
voar.
Iconograficamente,
o
painel
central
parecia
uma
forma
de
mandala
tibetana.
Sentado
no
centro
do
lótus
ficava
o
Buda
Vairochana;
outros
quatro
Budas
em
meditação,
representando
Energias
da
Sabedoria
Compassiva,
ocupavam
as
pétalas
correspondentes
aos
principais
pontos
da
circunferência,
e
quatro
Bodhisattvas
ficavam
sentados
nas
demais
pétalas.
Impressionado
pela
beleza
do
arranjo,
não
tive
então
nenhuma
idéia
sobre
seu
significado
esotérico.
Voltando
a
refletir
sobre
isso
agora
não
tenho
dúvidas
sobre
a
ascendência
comum
às
seitas
de
Shingon,
japonesa,
e
Vajrayana,
tibetana,
conquanto
a
primeira
preserva
apenas
uma
pequena
parte
dessa
herança.
Recém-chegado,
atraído
à
China
pela
beleza
e
pela
sabedoria
que
havia
recolhido
nas
traduções
da
poesia
chinesa
de
Waley
e
Obata,
e
noutras
fontes
similares,
eu
estava
ansioso
por
apreciar
quaisquer
experiências
que
meus
amigos
chineses
tivessem
a
oferecer;
de
modo
que
adotei
facilmente
seus
rumos,
sem
criticar
qualquer
coisa
que
eles
sugerissem,
e
deixando
que
a
compreensão
surgisse
mais
tarde.
Uma
ou
duas
noites
por
semana,
nós
nos
reuníamos
numa
varanda
fechada,
contígua
à
sala
do
santuário.
Os
outros
vestiam
túnicas
chinesas
sobre
suas
calças
largas
de
seda;
eu,
as
roupas
que
havia
trazido
da
Inglaterra,
cujas
calças
eram
lamentavelmente
impróprias
para
sentar
de
pernas
cruzadas
numa
almofada,
pela
duração
dos
ritos.
Em
breve
comecei
a
ir
com
um
par
de
calças
de
seda
embrulhadas,
de
modo
que,
antes
de
entrar
na
sala
do
santuário,
podia
trocar
de
roupa,
vestindo
como
os
outros
túnicas
de
tecido
branco
liso
com
largas
mangas.
Um
mês
depois,
avancei
mais
ainda,
chegando
lá
com
roupas
chinesas,
apesar
de,
naquela
época,
um
inglês
precisar
ter
verdadeira
coragem
para
usar
"roupas
nativas"
numa
colônia
inglesa.
Isso
significava
ter
claro
desprezo
por
seus
compatriotas,
despertando
também
boa
quantidade
de
ironia,
educadamente
disfarçada,
no
grande
número
de
chineses
que
supunham
que
o
progresso
consistia
em
macaquear
cegamente
as
noções
ocidentais
de
maior
poderio
militar;
mas
eu
me
contentava
com
a
aprovação
de
Ta-hai
e
de
seus
amigos.
Satisfeito
e
sem
espírito
crítico
sobre
tudo
quanto
esses
amigos
julgavam
válido
para
me
ensinar,
e
pronto
a
agir
como
eles
com
o
mínimo
espalhafato,
procurei
ter
o
comportamento
de
qualquer
outro
membro
da
Floresta
dos
Reclusos,
apesar
de
os
outros
serem
tão
acomodados
e
de
tão
bom
gênio
que
me
teriam
sem
dúvida
perdoado
qualquer
relutância.
Por
exemplo:
sabendo
que
a
maioria
dos
ingleses
julgava
humilhante
inclinar
a
cabeça
até
o
chão,
de
boa
vontade
eles
me
teriam
desculpado
por
não
me
prosternar
diante
de
Lai
Fa-shih,
nosso
Mestre-Dharma;
ao
passo
que,
ansioso
por
evitar
o
que,
perante
os
chineses,
pudesse
ser
considerado
impropriedade,
insisti
em
me
inclinar
diante
dele,
ainda
que,
fosse
lá
pelo
que
fosse,
isso
me
fizesse
corar
de
modo
risível.
Esta
descrição
de
minha
atitude
naquela
época
tem
sua
importância
em
relação
ao
que
tenho
a
dizer
agora
sobre
mantras,
pois
é
necessário
ressaltar
que
eu
aceitava
totalmente
os
elaborados
ritos
Shingon,
impressionado
por
sua
beleza
e
por
confiar
em
que
eles
deviam
ter
um
profundo
significado
simbólico,
que
se
tornaria
aparente
com
o
correr
do
tempo.
Isto,
julgo
eu,
é
base
mais
segura
para
adquirir
verdadeiro
conhecimento
sobre
tais
assuntos
do
que
a
contrária
—
o
preconceito
de
que,
se
alguma
coisa
parece
terrível
e
sem
sentido
em
termos
de
sua
própria
cultura,
deve
necessariamente
ser
assim.
Com
paciência,
aprendi
a
entrelaçar
meus
dedos
para
formar
mudras
(gestos
rituais)
e
recitar
mantras,
embora,
naquele
momento,
eu
só
os
confundisse,
em
minha
ignorância,
com
encantamentos
mágicos.
Além
de
Ta-hai,
outros
dois,
tendo
um
benevolente
interesse
pelo
jovem
neófito
inglês,
tomaram-
me
especialmente
sob
sua
guarda
—
Pun
Yin-ta,
a
quem
os
associados
mais
jovens
chamavam
de
Irmão
Mais
Velho,
e
um
parente
dele,
que
parecia
ser
geralmente
denominado
como
Quinto
Tio.
Com
a
ajuda
deles,
aprendi
o
mínimo
do
aspecto
formal
dos
ritos,
a
fim
de
poder
participar
sem
muito
embaraço.
Ao
entrar
na
sala
do
santuário,
primeiro
ficávamos
de
pé
diante
de
uma
janela
e
executávamos
alguns
mudras
purificadores,
cada
qual
com
seu
mantra
adequado,
que
tanto
ressoava
aos
meus
ouvidos
quanto
agitava
a
minha
mente.
Depois,
ante
o
santuário,
inclinávamos
a
cabeça
até
o
chão,
três
vezes,
antes
de
sentarmos
de
pernas
cruzadas
nas
almofadas.
Junto
do
altar
baixo
sentava-se
o
principal
celebrante
(com
freqüência
era
o
Quinto
Tio),
de
modo
que
o
incensório
e
outros
instrumentos
rituais
ficavam
confortavelmente
ao
alcance.
De
um
lado
ficavam
os
músicos
que
deveriam
acompanhar
o
ritual
com
clarineta,
citara
(tocada
pelo
Irmão
Mais
Velho),
tangendo
instrumentos
e
um
tambor.
Começando
com
um
cantochão
melodioso
ligado
à
queima
do
incenso
e
terminando
com
um
mantra
final,
o
rito
principal
durava
mais
ou
menos
uma
hora.
Algumas
passagens
da
liturgia
eram
cantadas;
outras,
inclusive
os
mantras,
salmodiadas
ou
moduladas,
mas
de
maneira
pouco
semelhante
ao
cantochão
que
forma
parte
dos
rituais
católico
ou
ortodoxo.
Os
mantras,
que
em
geral
eram
recitados
3,
7,
21
ou
108
vezes,
dependendo,
em
parte,
de
sua
extensão,
eram
todos
expressos
na
estranha
linguagem
nem
chinesa
nem
realmente
indiana,
da
qual
dei
um
exemplo;
eram
acompanhados
de
complicados
gestos
que
os
outros
faziam
com
graça
encantadora,
enquanto
meus
dedos,
não
tendo
a
agilidade
chinesa,
traíam
minha
timidez.
A
liturgia
era
tão
bonita
que,
mesmo
não
entendendo
até
então
o
seu
significado,
eu
aceitava
de
bom
grado
o
tormento
da
cãibra
nas
pernas.
A
dor
me
distraía
miseravelmente,
mas
eu
permanecia
fascinado
até
o
momento
em
que
tinha
de
lutar
para
me
pôr
de
pé
a
fim
de
cumprir
a
tríplice
prostração
final.
Eu
gostaria
de
poder
oferecer
uma
narrativa
lúcida
do
significado
íntimo
desses
ritos,
que
conferiam
ao
rosto
dos
outros
participantes
a
expressão
de
quem
vive
profundas
experiências
espirituais.
Infelizmente,
não
freqüentei
as
reuniões
durante
o
tempo
suficiente
para
alcançar
o
ponto
de
compreendê-las
intuitivamente;
e,
conquanto
meus
amigos
fizessem
o
máximo
para
explicar
o
texto
da
liturgia,
meu
conhecimento
do
chinês
(ou
antes,
do
dialeto
cantonês
falado
em
Hong
Kong)
era
então
rudimentar
para
que
eu
pudesse
fazer
muito
progresso.
O
Quinto
Tio
e
os
outros
procuravam
pacientemente
me
instruir
em
seu
inglês
de
sotaque
tão
agradável,
mas
a
matéria
era
difícil,
e
muito
do
que
conseguiram
transmitir-me
eu
esqueci
depois,
devido
à
minha
subseqüente
preocupação
com
as
formas
do
budismo
mais
puramente
chinesas
(e,
mais
tarde,
tibetanas).
O
propósito
principal
dos
ritos
era
promover
a
intuição
mística
de
dois
campos
interpenetrantes
da
consciência,
o
relativo
e
o
absoluto;
os
mantras
e
os
mudras
faziam
parte
dos
meios
pelos
quais
os
ritos
externos
criavam
uma
profunda
experiência
intuitiva
dos
mistérios
que
simbolizavam.
Entretanto,
uma
vaga
noção
do
poder
dos
mantras
me
foi
conferida
pela
recitação,
108
vezes,
de
uma
única
sílaba
—
BRONG.
Num
certo
ponto
da
liturgia,
o
tambor
voltava
a
ressoar
e,
a
cada
batida,
ele
emitia
um
som
profundo,
BRONG!
BRONG!
BRONG!
Enquanto
estes
108
gritos
repercutiam,
havia
uma
invasão
sobrenatural
de
tranqüilidade.
Minha
mente,
então
já
totalmente
esquecida
das
dores
nas
pernas,
elevava-se
e
entrava
num
estado
de
extática
serenidade.
Essa
transição,
que
minha
consciência
estava
destinada
a
sofrer,
em
maior
ou
menor
medida,
como
resposta
a
outros
mantras,
é
algo
que
só
se
pode
compreender
através
da
experiência;
nunca
pode
ser
captada
em
palavras.
Naquele
momento,
a
experiência
era
tão
nova
e,
de
certo
modo,
tão
dilacerante,
que
a
volta
a
um
estado
normal
de
consciência
trazia
consigo
algo
do
terror
que
alguém
sentiria
ao
recuar
da
beira
de
um
abismo
infinito!
Nenhum
dos
outros
mantras
que
repetimos
naquelas
sessões
produziu
o
efeito
assinalado
em
mim,
de
modo
que
cheguei
a
atribuir
a
magia,
não
ao
mantra,
mas
às
batidas
do
tambor
—
concepção
errônea
que
só
foi
esclarecida
muitos
anos
mais
tarde.
Sempre
que
o
interroguei
sobre
o
significado,
o
propósito
ou
a
ação
dos
mantras,
Ta-hai,
que
mal
falava
inglês,
deixava
que
o
Quinto
Tio
explicasse.
Já
havíamos
tido
uma
conversa
sobre
o
assunto,
mais
ou
menos
assim:
"Tio,
durante
o
fa
(rito),
há
algumas
partes
que
eu
penso
serem
chamadas
de
chou
(mantras).
A
maneira
de
as
recitar
é
tão
estranha;
a
linguagem
nem
parece
chinesa.
Não
seria
japonesa,
seria?"
Sorrindo
largamente,
com
os
olhos
enrugados
de
bom
humor,
ele
pensava
um
momento
e
depois
emitia
alguma
horrível
palavra
como
"Hongcanjapchinsanskese",
enquanto
todas
as
pessoas
próximas,
depois
de,
por
um
momento,
mostrarem
confusão,
caíam
na
risada.
"O
que
é
que
isso
quer
dizer?"
"Ah!
Ah!
Isso
quer
dizer
que
os
sons
que
você
ouve
são
a
maneira
cantonesa
de
Hong
Kong
de
pronunciar
as
palavras
chinesas
escritas
há
milhares
de
anos
na
forma
cantonesa-japonesa
do
Mestre
Lai,
de
maneira
que
podemos
saber
que
sons
os
monges
indianos
produzem
quando
usam
mantras
sânscritos!
Talvez
os
fantasmas
dos
monges
indianos
se
surpreendessem
se
viessem
aqui
e
nos
ouvissem.
Talvez
não
reconhecessem
uma
palavra,
hein,
Ah
Jon?"
Acontece
que
o
pequeno
gracejo
do
Tio
continha
um
importante
princípio,
no
qual
pensei
muito
enquanto
me
preparava
para
escrever
este
livro.
Mesmo
entre
pessoas
instruídas
há
muita
gente
que
pensa
que,
para
ser
eficaz,
o
mantra
depende
das
vibrações
que
desperta
e,
portanto,
de
uma
enunciação
correta.
Se
assim
fosse,
na
verdade,
os
mantras
sânscritos
pronunciados
por
chineses,
tibetanos
ou
japoneses
dificilmente
poderiam
ser
eficazes,
pois
os
sons
que
emitem
quase
não
são
reconhecidos
em
sânscrito!
Assim,
SVAHA
em
sânscrito
se
torna
SOHA
em
chinês
e
tibetano,
SAWAKA
em
japonês.
De
igual
modo,
AUM
se
transforma
em
OM,
UM
e
até
em
UNG,
ONG
ou
ANG
em
várias
línguas
e
dialetos
e,
no
entanto,
permanece
maravilhosamente
eficaz
quando
as
condições
mentais
que
governam
o
uso
das
sílabas
mântricas
são
observadas
com
correção.
Segue-se
daí
que
é
preciso
aceitar
a
afirmativa
do
Lama
Govinda,
de
que
o
verdadeiro
poder
do
mantra
reside
menos
no
som
do
que
na
mente
de
quem
o
emprega.
Isto,
sem
dúvida,
é
verdade
total
quanto
aos
mantras
usados
no
decurso
da
contemplação
iogue,
ainda
que
não
seja
verdade
quanto
aos
mantras
usados
para
certos
propósitos
diferentes.
Noutra
vez
em
que
falei
com
o
Quinto
Tio
sobre
o
assunto,
fiz
uma
pergunta
que
aqueles
que
tudo
ignoram
sobre
o
processo
dos
mantras
costumam
fazer
com
boa
dose
de
ironia.
"Tio,
como
podem
palavras
que
não
têm
o
menor
significado
até
mesmo
para
a
pessoa
que
as
pronuncia
ser
de
qualquer
utilidade?
Como
podem
auxiliar
o
progresso
espiritual?
É
certo
que
não
podemos
esperar
que
forças
sobrenaturais
respondam
apenas
às
pessoas
que
a
elas
se
dirijam
numa
linguagem
especial!"
Dessa
vez,
ele
não
sorriu.
Tentando
encontrar
um
modo
de
exprimir
seu
pensamento
em
inglês,
replicou
gravemente:
"As
palavras
que
têm
significado
só
para
o
uso
comum
—
não
têm
muito
poder
e
atrapalham
o
caminho,
como
rochedos
que
viram
um
barco.
As
palavras
com
muito
poder
não
demonstram
seu
significado
real
—
é
melhor
esquecer
seu
significado
e
manter
a
mente
livre."
Duvido
que
eu
tenha
compreendido
tudo
exatamente,
naquele
momento,
mas
agora
sei
que
ele
procurou
comunicar
algo
do
profundo
mistério
que
existe
na
essência
da
questão.
Naquele
tempo,
tive
de
continuar
confiando
na
sabedoria
da
crença
de
meus
amigos
na
eficácia
dos
mantras.
Foi
o
que
fiz,
com
mais
boa
vontade
ainda,
após
ter
descoberto
por
acaso
que
o
Quinto
Tio,
longe
de
confiar
cegamente
ou
por
repetição
do
que
ouvia
dizer,
era,
à
sua
maneira,
um
especialista
em
mantras;
com
o
emprego
dos
ritos
que
incluem
os
mantras,
ele
havia
conseguido
uma
extraordinária
vitória
sobre
um
dos
mais
formidáveis
demônios
conhecidos
pelo
homem!
Tal
como
contei
detalhadamente
no
meu
livro
anterior,
The
Wheel
of
Life
[A
Roda
da
Vida]
ele
se
sentia
curado,
pouco
antes,
do
vício
do
ópio,
ingerido
a
vida
toda
em
doses
maciças
e
diárias,
sem
recorrer
à
ajuda
médica
ou
ao
método
do
abandono
gradual.
Renunciou
à
droga,
súbita
e
totalmente,
confiando
apenas
nos
recursos
de
sua
própria
mente,
fortalecida
pela
realização
dos
ritos
de
ioga
durante
muitas
horas,
todos
os
dias,
num
período
de
vários
meses.
Durante
esse
tempo
todo,
ele
havia
permanecido
surdo
aos
apelos
de
seus
lacrimosos
parentes,
que
lhe
afirmavam
que
sua
obstinação
em
recusar
tratamento
médico
lhe
custaria
a
vida.
Os
terríveis
efeitos
causados
pela
súbita
abstenção
de
doses
maciças
de
ópio,
longamente
usadas,
são
agora
tão
conhecidos
que
a
façanha
do
Quinto
Tio
será
mais
entendida
agora
do
que
o
foi
quando
saiu
meu
livro
anterior;
sobretudo
no
caso
de
pessoas
idosas
nas
quais
esses
efeitos,
ainda
que
mitigados
por
tratamento
clínico,
em
geral
eram
fatais.
Mais
notável
é
o
fato
de
que,
apesar
do
choque
em
seu
sistema
nervoso,
resultante
de
abrupta
abstenção
após
mais
de
trinta
anos
de
vício,
o
Tio
recuperou
totalmente
a
saúde
e,
daí
por
diante,
não
foi
perturbado
pelo
desejo
de
voltar
a
ele.
Certa
vez,
quando
passamos
a
noite
com
um
grupo
de
amigos
num
templo
taoísta
nas
montanhas
de
Kwangtung,
alguém
que
nada
sabia
sobre
o
passado
do
Tio
sugeriu
que
preenchêssemos
as
horas
de
ócio
com
um
pouco
de
ópio;
logo
depois
nos
foi
trazida
uma
bandeja
de
implementos,
e
o
Tio
passou
umas
duas
horas
junto
à
lâmpada,
preparando
os
cachimbos
para
os
outros
com
as
próprias
mãos.
Sorria
com
benignidade,
enquanto
nuvens
de
fumaça,
outrora
sedutoras,
elevavam-se
acima
da
esteira;
ele
estava
perfeitamente
à
vontade,
enquanto
seus
dedos
giravam
a
vasilha
de
prata,
à
medida
em
que
as
pílulas
de
ópio
eram
seguradas
acima
da
lâmpada;
tagarelava
sobre
isso
ou
aquilo,
sereno,
imperturbado
por
algo
que,
para
outros
em
sua
situação,
deveria
ser
uma
tentação
muito
mais
cruciante
do
que
a
sofrida
por
um
alcoólatra
reabilitado,
que
servisse
num
bar
sem
que
ninguém
o
impedisse!
Quando,
secretamente
envergonhados
por
termos
permitido
que
ele
fosse
submetido
a
tal
prova,
exprimimos
nossa
admiração,
ele
nos
respondeu,
rindo,
que
seu
santuário
particular
tinha
sido
a
melhor
das
clínicas,
e
o
poder
dos
mantras,
o
melhor
dos
remédios!
Voltemos
às
conversações
anteriores
sobre
os
mantras:
chegou
o
momento
em
que
minha
mente,
educada
à
maneira
ocidental,
rejeitou
essas
palavras
sem
sentido,
imbuídas
de
poder.
Quanto
mais
eu
pensava
nessas
passagens
da
liturgia
recitadas
num
sânscrito
corrompido,
mais
chegava
a
pensar
que
isso
envolvia
um
grande
elemento
de
auto-sugestão.
Então,
certa
noite,
as
recitações
mântricas
no
santuário
me
deixaram
num
estado
estranhamente
exaltado,
que
não
podia
ser
atribuído
apenas
à
magia
sensual
produzida
pela
música
misteriosa,
pelo
cantochão
sonoro
e
pelo
perfume
de
sândalo
incensado.
Como
de
costume,
eu
e
alguns
dos
nossos
amigos
ficamos
algum
tempo
na
varanda,
proseando
calmamente.
Ao
notar
minha
expressão
exultante,
alguém
observou
de
modo
aprovador:
"Ah
Jon
está
começando
a
encontrar
seu
caminho."
Os
outros
sorriram,
mas
eu
disse:
"Estou
perplexo.
Os
ritos
têm
a
intenção
de
nos
ajudar
a
conseguir
um
estado
de
percepção
da
verdadeira
natureza
da
mente
—
mente
que
não
é
de
vocês
nem
minha,
mas
a
manifestação
do
ilimitado
Tao.
Há
pouco
me
parecia
assim,
porém
pode
ter
sido
apenas
o
efeito
de
tanta
beleza
e
por
eu
ter
sido
dominado
pela
serenidade
das
pessoas
que
me
cercam."
Delicadamente,
eles
me
interrogaram
mais
e,
de
certo
modo,
deixei
escapar
a
opinião
de
que
os
mantras
e
mudras
nada
mais
podiam
senão
acrescentar
uma
agradável
sensação
de
mistério
ao
ritual.
Diante
disso,
um
homem
idoso,
cujo
nome
não
recordo
(mas
tenho
clara
lembrança
de
sua
túnica
de
seda
branca
brilhante,
que
ainda
não
tinha
adquirido
o
agradável
tom
amarelado
conferido
pelo
tempo),
disse
concisamente
em
cantonês:
"Os
jovens
devem
aprender
a
andar,
antes
de
dar
opiniões
sobre
como
voar."
Essa
gélida
reprovação,
partindo
de
alguém
que,
mais
de
uma
vez,
havia
sugerido
a
impropriedade
de
se
admitir
um
não-iniciado
nos
ritos,
tornou
impossível
o
prosseguimento
do
assunto;
mas
um
homem
mais
moço,
com
pena
de
me
ver
tão
humilhado,
fez
questão
de
me
alcançar
quando
eu
ia
a
caminho
da
primeira
parada
de
ônibus,
e
me
convenceu
a
ir
com
ele
a
uma
"queima
noturna"
(expressão
cantonesa
que
significava
fazer
ligeira
refeição),
numa
casa
de
chá
próxima.
Comendo
talharim,
ele
se
tornou
eloqüente
sobre
o
assunto
"mantras":
"Em
geral
as
pessoas,
Ah
Jon,
usam
os
mantras
como
magia
para
ter
sorte,
ou
afastar
doenças,
ou
outros
males.
Talvez
tenham
razão
ao
agir
assim,
pois
os
mantras
dão
freqüentemente
resultado,
mas
eu
lhe
peço
para
não
acreditar
nisso.
Suplico-lhe
que
acredite
que
eles
são
da
maior
ajuda
na
alteração
dos
estados
de
consciência.
O
que
eles
fazem
é
serenar
sua
mente
para
que
ela
não
corra
atrás
dos
pensamentos."
Ele
continuou
explicando
que,
sendo
vazios
de
sentido,
os
mantras
não
promovem
pensamentos
conceituais,
como
as
orações,
as
invocações
e
coisas
semelhantes
estão
aptas
a
fazer;
e
que,
como
cada
mantra
possui
uma
misteriosa
correspondência
(ele
não
conseguiu
explicar
que
espécie
de
correspondência)
com
as
várias
potencialidades
profundamente
embutidas
em
nossa
consciência
(talvez
quisesse
referir-se
ao
subconsciente,
ele
poderia
nos
fazer
saltar
para
um
estado
que,
de
outra
maneira,
seria
difícil
de
alcançar.
Não
me
lembro
de
suas
palavras
textuais,
mas
sei
que
ele
foi
o
primeiro
a
exprimir
uma
idéia
que,
mais
tarde,
foi
amplamente
confirmada
pela
minha
própria
experiência.
É
por
isso
que
recordo
a
ocasião
de
maneira
tão
vivida.
Sentado
comigo
no
andar
superior
de
um
ônibus
que
se
dirigia
para
o
centro
de
Hong
Kong,
ele
continuou
explicando
que
era
inútil
aplicar
palavras
com
significado
em
qualquer
cerimônia
religiosa,
pois
as
palavras
incitam
o
pensamento
dualístico,
que
impede
a
mente
de
entrar
num
estado
verdadeiramente
espiritual.
Suas
últimas
palavras,
pronunciadas
em
voz
bastante
alta
—
quando
eu
me
preparava
para
saltar
—
foram:
"As
pessoas
que
rezam
com
palavras
Não
passam
de
principiantes.
Não
faça
isso!"
Alguns
passageiros
que
entendiam
inglês
olharam
para
ele
como
se
o
considerassem
um
tanto
louco,
e
eu
mesmo
fiquei
pasmo
com
sua
veemência
tão
pouco
chinesa,
mas
agora
sei
que
sua
mente
era
bem
sadia.
O
domínio
que
o
Quinto
Tio
possuía
do
idioma
inglês,
apesar
de
muito
adequado
para
quase
todos
os
propósitos,
era
insuficiente
para
que
eu
tivesse
certeza
de
como
ele
considerava
os
mantras,
mas
hoje
penso
que
ele
também
acreditava
que
o
som
das
sílabas
mântricas
criava
movimentos
correspondentes
nas
profundezas
da
consciência
de
quem
o
usava.
Essa
ênfase
sobre
o
som
foi
especialmente
perturbadora
no
seu
gracejo
com
a
palavra
"Hongcanjapchinsanskese".
Penso
que
ele
talvez
se
referisse
a
uma
espécie
de
"som
ideal"
—
isto
é,
a
uma
imagem
mental
do
som
OM,
em
vez
dos
sons
determinados
que
os
indivíduos
emitem.
Infelizmente,
o
Quinto
Tio
morreu
muitos
e
muitos
anos
antes
que
essa
questão
me
ocorresse.
Um
mês
ou
mais
após
essa
memorável
viagem
de
ônibus,
recebi
a
primeira
das
duas
principais
iniciações
Shingon,
mas
me
beneficiei
menos
do
que
havia
esperado;
o
manual
esotérico
ao
qual
então
tive
acesso
era,
sem
dúvida,
escrito
em
chinês,
e
eu
não
podia
entender
muita
coisa,
mesmo
com
a
ajuda
dos
meus
amigos
que
falavam
inglês.
Além
do
mais,
meu
estudo
do
Shingon
encerrou-se
abruptamente,
quando
me
tomei
de
súbito
entusiasmo,
por
influência
de
Ta-hai,
por
outro
ramo
do
budismo
—
o
Vajrayana.
Este
novo
e
fascinante
estudo
tinha
muita
relação
com
os
mantras,
mas
de
novo
tive
muita
dificuldade
com
os
textos
chineses.
Depois
de
algum
tempo,
a
única
consideração
que
me
impediu
de
voltar
à
total
descrença
na
eficácia
dos
mantras
foi
a
fé
na
sabedoria
de
Ta-hai
e
de
outros;teria
sido
presunção
de
um
moço
educado
numa
cultura
tão
alheia
à
deles
pôr
de
lado
convicções
de
homens
tão
sábios.
Entre
os
mantras
Shingon
que
aprendi,
naqueles
primeiros
tempos,
há
um
assim:
ONG
KALO
KALO
SENDARI
MATONGI
SAWAKA.
Não
posso
lembrar
a
que
propósito
ele
se
presta,
mas
provou
ser
particularmente
válido
para
aliviar
o
medo
e
a
histeria
em
outras
pessoas.
Se
o
efeito
dos
mantras
fosse
limitado
ao
poder
de
confortar
e
aliviar,
teriam
sido,
espiritualmente,
de
significado
menor
do
que
o
da
magia
branca;
mas
sei
que
meus
amigos
acreditavam
que
há
mantras
e
mantras,
numa
ordem
ascendente,
desde
remédios
para
curar
doenças
temporárias
até
o
enevoado
ápice,
além
da
visão
dos
que
não
são
místicos
consumados.
Naturalmente,
os
grandes
mantras
não
eram
ensinados
aos
neófitos
—
não
é
preciso
uma
escavadeira
para
esmagar
uma
formiga,
nem
se
usa
um
palito
de
dentes
para
arpoar
uma
baleia!
Pouco
antes
de
partir
de
Hong
Kong
rumo
à
China,
um
evento
de
grande
significado
na
minha
vida
—
ao
qual,
no
entanto,
não
dei
muita
importância
no
momento
—
abriu
caminho
para
alguns
preciosos
conhecimentos
de
contemplação
iogue,
incluindo
a
prática
de
mantras
e
muitas
outras
coisas,
das
quais
eu
só
tiraria
vantagem
mais
de
vinte
anos
depois.
Foi
a
minha
primeira
iniciação
na
seita
Vajrayana,
que
há
muito
tempo
vem
sendo
o
principal
repositório
da
sabedoria
iogue,
há
quase
dois
mil
anos
propalada
pela
grande
universidade
monástica
da
índia,
Nalanda.
Quando
Ta-hai,
meio
abruptamente,
começou
a
me
persuadir
de
que
seria
melhor
procurar,
para
além
de
Shingon,
os
métodos
para
alcançar
uma
rápida
realização
mística,
cessaram
meus
estudos
da
doutrina
Shingon
de
dois
domínios
de
consciência
interpenetrantes,
o
Garbhadhatu
(Domínio
Relativo)
e
o
Vajradhatu
(Domínio
Absoluto).
O
entusiasmo
de
meu
amigo
pelo
que
(com
razão,
acho
eu)
ele
considerava
o
mais
rico
e
mais
largamente
variado
campo
de
conhecimento
da
ioga
possuído
pelos
lamas
do
Tibete
arrebatou-me,
apesar
de
causar
espanto
e
alguma
desaprovação
entre
muitos
de
meus
amigos.
Naquele
tempo,
o
Vajrayana
era
quase
desconhecido
em
Hong
Kong
e
no
sudeste
da
China
em
geral,
mas
prevalecera
em
grande
escala
no
norte,
uma
vez
durante
a
Dinastia
Mongol
(1280-1368
d.C),
e
de
novo
na
Dinastia
Ta
Ch'ing,
estabelecida
pelos
manchus
(1644-1911).
Até
que
ponto
os
estudos
anteriores
do
meu
amigo
o
tinham
levado
nessa
direção,
não
sei;
o
que
conduziu
o
assunto
a
um
ponto
culminante
foi
a
chegada
a
Hong
Kong
de
um
famoso
lama
tibetano,
capaz
de
ensinar
diretamente
em
chinês,
em
vez
de
o
fazer
por
intermédio
de
um
intérprete
(com
freqüência,
incompetente).
Então,
como
agora,
essa
era
uma
capacidade
rara.
Cedendo
à
persuasão
de
Ta-hai,
o
lama
concordou
em
permanecer
em
Hong
Kong
para
instruir
um
grupo
de
chineses
leigos
que,
sendo
já
bem
versados
na
doutrina
budista
e
nas
práticas
da
ioga,
em
breve
poderiam
estar
preparados
para
uma
iniciação
abrangente
que
lhes
permitisse
realizar
as
iogas
que
ele
ensinasse,
mesmo
após
sua
partida
para
Lhasa.
Mais
uma
vez,
graças
à
calorosa
proteção
de
Ta-hai,
o
jovem
inglês
Ah
Jon
foi
aceito
nesse
círculo
místico,
apesar
de
pouco
qualificado
para
essa
honra.
Tendo
obtido
a
permissão
do
lama
para
que
eu
fosse
admitido,
Ta-hai
exclamou,
exaltado,
em
cantonês:
"Os
professores
trazidos
do
Monte
Koya
por
Mestre
Lai,
ainda
que
excelentes,
são
menos
do
que
a
décima
parte
do
que
vamos
aprender
com
este
lama
tibetano."
Mas
sobre
esse
ponto
os
membros
da
Floresta
de
Reclusos
ficaram
divididos:
alguns,
ansiosamente
interessados
pelo
curso
de
estudos
do
lama;
outros,
inclusive
o
Quinto
Tio
e
o
Irmão
Mais
Velho,
portavam-se
com
cautela.
O
curso
prosseguiu,
dia
e
noite,
durante
semanas.
Prejudicado
pelos
problemas
de
linguagem
e
por
meu
trabalho
—
eu
havia
começado
a
lecionar
numa
escola
nos
confins
da
península
de
Kowloon
—
fiz
poucos
progressos,
mas
me
permitiram
receber
a
iniciação
que
formava
o
ponto
culminante
de
nossos
estudos.
Assim
como
Ta-hai
ficara
comovido
ao
conhecer
um
budista
ocidental
(raro
espécime
na
China
daquele
tempo),
assim
aconteceu
com
o
lama.
Ambos,
por
sua
vez,
concederam-me
privilégios
sem
precedentes.
O
lama,
pondo
de
lado
meus
modestos
protestos
com
um
sorriso,
observou
que,
ainda
que
eu
levasse
alguns
anos
para
poder
utilizar
a
iniciação,
ele
havia
"plantado
algumas
sementes"
em
minha
mente,
as
quais
poderia
esperar
que
florescessem
na
estação
adequada.
A
importância
dessa
iniciação
no
atual
contexto
foi
que,
além
de
me
abrir
caminho
para
estudar
a
Vajrayana
nos
anos
seguintes,
impediu-me
de
ceder
ao
crescente
ceticismo
com
relação
aos
mantras,
pois
o
lama
foi
muito
persuasivo
sobre
essa
matéria.
Mesmo
assim,
apesar
de
guardar
na
memória,
como
era
preciso,
os
mantras
sânscrito-tibetanos
requeridos
pela
iniciação,
não
pude
reunir
mais
do
que
uma
meia-crença
em
seu
poder
sobre
a
mente.
Logo
após
a
partida
do
lama,
viajei
para
o
continente
chinês,
por
onde
vaguei
durante
muitos
anos,
aceitando
emprego
para
lecionar,
quando
estava
em
crise
aguda
de
dinheiro,
ficando
meses,
de
vez
em
quando,
em
mosteiros
budistas
ou
taoístas,
e
às
vezes
voltando
a
Hong
Kong
para
visitar
meus
amigos
queridos.
Infelizmente,
há
anos
que
o
Quinto
Tio,
Ta-hai
e
o
Irmão
Mais
Velho
faleceram.
É
sobretudo
a
Ta-hai
que
devo
o
interesse
permanente
dos
anos
posteriores
pela
contemplação
iogue
Vajrayana,
porém
meu
débito
para
com
todos
é
imenso.
Seria
muito
agradável
saber
que
minhas
obras
sobre
budismo
chinês
e
tibetano
representam
o
florescimento,
não
sem
algum
mérito,
dos
ensinamentos
devido
à
imensa
bondade
demonstrada
a
Ah
Jon,
jovem
inglês
que
os
procurou
de
mãos
vazias.
Capítulo
2
A
TRADIÇÃO
PERDIDA
Agora,
findaram-se
as
noites
passadas
entre
figuras
de
túnicas
brancas
banhadas
em
luz
dourada,
entoando
extasiadamente
a
sílaba
mântrica
BRONG.
Eu
havia
entrado
noutro
mundo,
não
muito
diferente,
onde
meus
companheiros
eram
monges
chineses,
vestidos
de
negro,
com
as
cabeças
raspadas.
Era
a
primeira
hora
da
madrugada
e
o
palco
era
o
vestíbulo
de
um
grande
templo
com
telhados
duplamente
curvos,
enfileirados,
que
se
erguiam
por
entre
os
pátios
cheios
de
flores
de
um
mosteiro.
Sobre
o
altar
elevado
brilhavam
inúmeras
velas,
iluminando
com
fulgor
as
três
enormes
estátuas
douradas
—
os
Budas
e
o
Mundo
Triplo;
no
entanto
o
vestíbulo,
com
seus
pilares
festivamente
pintados
e
suas
vigas
no
teto,
era
sombrio,
vasto
demais
para
que
a
luz
ressaltasse
os
rostos
entre
a
multidão
dos
devotos.
Suas
escuras
túnicas
monásticas
fundiam-se
com
a
escuridão
circundante,
de
modo
que,
às
vezes,
o
mar
de
rostos
pálidos
assemelhava-se
a
um
grupo
de
espíritos
desencarnados.
Em
dado
momento,
os
monges
se
tinham
enfileirado
perante
o
altar,
mas
logo
se
voltavam
e
formavam
agora
dois
grupos
que
se
defrontavam
ao
longo
da
nave
central,
desde
o
altar
até
a
maciça
porta
de
entrada.
Eu
estava
de
pé
junto
ao
grupo
do
lado
direito,
e
pude
observar
as
expressões
dos
que
estavam
do
lado
esquerdo.
Ao
meu
lado,
o
chantre,
brandindo
um
bastão
em
forma
de
lótus
emergindo
da
haste,
batia
um
ritmo
mântrico
no
"tambor-peixe
de
madeira",
grande
bloco
de
madeira,
assim
chamado
devido
a
uma
longínqua
semelhança
com
a
cabeça
de
um
peixe;
e
de
vez
em
quando
outro
monge
marcava
o
cantochão
batendo
num
grande
vaso
de
bronze.
Com
este
sonoro
acompanhamento,
a
assembléia
entoava
um
longo
mantra
expresso
numa
linguagem
que
já
não
era
reconhecível
como
sânscrito;
mas,
como
agora
eu
já
sabia,
seu
efeito
não
dependia,
em
absoluto,
do
significado
conceituai
das
sílabas
sagradas.
A
onda
de
som
era,
sem
dúvida,
exaltadora;
à
medida
que
as
notas
jorravam,
minha
mente
erguia-se
em
asas
de
não-pensamento
pelo
poder
de
um
antigo
mistério,
e
eu
sentia
o
desejo
de
juntar
minha
voz
à
dos
outros.
Em
tal
ambiente,
teria
sido
perdoável
supor
que
a
centenária
tradição
mântrica
ainda
florescesse.
Não
era
assim.
Felizmente
para
mim,
o
interesse
pelos
mantras
não
ficava
entre
as
razões
que
me
levavam
a
pretender
ficar
muito
tempo
naquele
mosteiro.
Eu
havia
ido
para
a
China
à
procura
de
estilos
de
vida
que
tivessem
sobrevivido
ao
assalto
das
inovações
estridentes
do
Ocidente,
e
estava
ansioso
por
adquirir
algo
de
valor
para
meu
desenvolvimento
espiritual;
os
mantras,
apesar
de
todo
o
seu
fascínio,
não
eram
essenciais
para
nenhuma
destas
finalidades,
de
modo
que
não
fiquei
abalado
com
a
descoberta
de
que
restava
pouca
coisa
da
antiga
tradição
mântrica
ainda
em
vigor
na
China,
provavelmente
porque
a
Seita
Esotérica
(Mi
Tsung),
da
qual
derivava
o
conhecimento
dos
mantras,
estava,
havia
muito,
agonizante.
Os
mantras,
apesar
de
terem
preeminência
na
liturgia
monástica,
que
permanecera
intocada
durante
séculos,
eram
agora
considerados
meios
para
obter
boa
sorte,
encantamentos
mágicos,
e
não
como
auxiliares
do
desenvolvimento
espiritual.
A
história
seguinte
é
uma
das
inúmeras
que
ouvi,
e
que
serve
para
reforçar
esta
convicção.
Certa
noite,
logo
após
minha
chegada
ao
mosteiro,
eu
caminhava
pelos
bosques
circundantes
com
Su
Ting,
jovem
monge
que
se
tornara
meu
mentor
e
companheiro.
Por
acaso,
ele
havia
falado
sobre
o
poder
dos
mantras
e,
achando-me
um
tanto
cético,
disse
com
animação:
"Todas
as
pessoas
do
Oceano
Ocidental
são
tão
difíceis
de
convencer
como
você?
É
estranho!
Basta
que
você
use
um
pouco
os
seus
olhos
e
ouvidos
para
descobrir
coisas
por
você
mesmo.
Lembra-se
de
Hui
Ting,
o
monge
ao
qual
você
deu
aqueles
biscoitos,
quando
ele
partiu
com
os
outros
peregrinos
para
o
Pagode
Dourado
em
Burma?
Ele
poderia
ter-lhe
contado.
Há
alguns
anos,
quando
ele
era
estudante
primário
em
Mengtsê,
sua
cidade
natal,
fez
amizade
com
o
filho
de
um
comerciante,
cujo
sobrenome
era
Kao.
Quando,
afinal,
ele
resolveu
tornar-se
monge,
Kao
pensou
que
ele
estivesse
louco
e
gritou
para
os
vizinhos
que
não
deixassem
um
moço
promissor
jogar
fora
sua
felicidade
por
causa
de
'uma
porção
de
superstições
tolas'.
Você
sabe
como
são
as
pessoas.
Depois
perderam-se
de
vista,
como
é
natural,
por
alguns
anos.
Hui
Ting,
tendo
feito
seus
votos,
veio
para
nossa
companhia
há
cinco
ou
seis
anos.
Então,
no
inverno
passado,
alguém
veio
bater
no
portão
do
mosteiro
quando
já
era
noite.
Quando
foi
recebido,
pediu
bruscamente
que
o
Recebedor
de
Hóspedes
o
levasse
para
ver
o
'jovem
Chang,
de
Mengtsê'.
Chang
é
um
sobrenome
tão
comum,
e
é
claro
que
nós,
que
deixamos
nossos
lares,
de
modo
nenhum
usamos
nossos
sobrenomes;
portanto,
levou
algum
tempo
para
se
descobrir
que
ele
se
referia
a
Hui
Ting.
Nosso
visitante,
como
você
já
deve
ter
adivinhado,
era
Kao.
Assim
que
os
dois
ficaram
a
sós,
Hui
Ting
comentou:
"Você
mudou,
velho
amigo.
Não
posso
dizer
que
está
com
boa
aparência.
Você
está
magro.
Quanto
à
sua
cor,
você
tinha
as
bochechas
tão
vermelhas
quanto
as
do
Deus
da
Guerra,
e
agora..."
"Você
tem
razão,
pequeno
careca.
O
que
mais
poderia
ter-me
trazido
a
esta
toca
de
eunucos
desorientados?
Eu
estou
doente.
Os
médicos
não
ajudam
e,
como
último
recurso,
vim
procurá-lo,
para
ver
se
por
acaso
existe
algo
de
válido
em
sua
sagrada
tolice.
Você
tinha
muito
bom-senso,
o
que
me
leva
a
supor
que
deve
ter
tido
uma
boa
razão
para
abandonar
tão
ansiosamente
as
alegrias
do
mundo.
Você
era
um
moço
que
gostava
de
garotas
bonitas;
agora,
você
não
pode
sequer
ter
uma
esposa,
ainda
menos
divertir-se
com
meretrizes
hábeis
na
música
e
você-sabe-mais-no-quê."
"Hui
Ting
sorriu.
Lembrava-se
de
que
era
o
próprio
Kao
que
se
envolvia
com
mulheres
da
vida,
e
não
se
ofendia
absolutamente
com
essa
maneira
de
colocar
as
posições.
'Não
se
preocupe
com
minhas
dificuldades
—
elas
não
são
o
que
você
imagina.
Que
é
que
o
trouxe
até
nós,
batendo
em
nosso
portão
a
esta
hora
de
uma
noite
tão
gelada
de
inverno?"
"A
história
de
Kao
era
que,
um
ou
dois
anos
antes,
ele
havia
atirado
com
violência
sua
esposa
para
o
mundo
dos
fantasmas.
Sempre
censurando
suas
infidelidades,
ela
o
havia
induzido
a
espancá-la
e,
ao
cair
de
costas
com
os
golpes,
fraturara
a
cabeça,
batendo
na
quina
de
uma
mesa
pesada.
A
fratura,
agravada
pelo
virulento
veneno
do
ódio,
causara
a
sua
morte.
Mas
não
era
só
isso.
Assim
que
ela
foi
colocada
no
caixão,
ele
começou
a
sofrer
violentas
dores
na
cabeça,
exatamente
na
parte
correspondente
à
batida
fatal."
"O
espírito
dela
está
à
minha
procura",
queixou-se
Kao.
"Não
posso
trabalhar.
Não
posso
descansar.
Desisti
da
minha
loja
e
o
preço
que
recebi
por
ela
foi
engolido
por
um
grupo
de
médicos
incompetentes.
Agora
eles
dizem
que
tenho
um
tumor
incurável.
A
não
ser
que
Vossa
Reverência
possa
sugerir
uma
cura
para
isso,
estou
perdido.
A
própria
Morte,
em
si
mesma,
não
seria
tão
má,
mas
imagine
se
eu
tiver
que
encarar
esse
fantasma
malévolo
no
mundo
dos
espíritos?"
"Não
sendo
médico,
Hui
Ting
estava
em
apuros.
Gostaria
de
ajudar,
mas
como?
A
única
coisa
que
sabia
fazer
era
meditar.
Só
pôde
pensar
numa
forma
de
poderosa
aspiração
para
o
bem
estar
de
seu
amigo
e
invocar
o
Buda
Que
Cura.
Isto
deu
provas
de
ser
inesperadamente
efetivo.
Passando
para
um
estado
de
tranqüilidade,
ele
abriu
os
olhos
e,
ao
fazer
isto,
ouviu
uma
voz
que
saía
de
seus
próprios
lábios,
que
disse:
"Volte
para
Mengtsê.
Levante
antes
da
madrugada,
todos
os
dias.
Agasalhe-se
por
causa
do
frio
e
vá
sentar
junto
ao
lago,
no
Templo
do
Clemente
Kuan
Yin,
no
limite
leste
da
cidade.
Mantendo
o
olhar
na
água,
recite
o
mantra
que
lhe
ensinarei,
milhares
de
vezes
em
cada
manhã.
Os
primeiros
sinais
de
sucesso
serão
o
aparecimento
de
ondinhas
na
água,
como
se
uma
pedra
fosse
atirada
nela,
e
a
diminuição
de
sua
dor.
Se
você
se
concentrar
corretamente,
essas
ondas
criadas
pela
sua
mente
serão
cada
dia
mais
pronunciadas.
Continue
até
que
o
próprio
Misericordioso
se
manifeste,
erguendo-se
do
centro
em
ondas
concêntricas.
Quando
isso
acontecer,
cumprimente-o
com
humildade
e
vá
embora.
Não
será
preciso
voltar
lá."
"Kao
fez
o
que
a
voz
havia
ordenado.
Dentro
de
poucos
dias,
sua
dor
se
tornou
menos
intensa
e,
apesar
de
ter
apanhado
um
resfriado,
certo
dia
em
que
esperou
sentado,
com
paciência,
durante
uma
leve
tempestade
de
neve,
ele
persistiu
até
que
as
sílabas
mântricas,
precedendo
o
esforço
de
sua
mente,
causaram
ondas
circulares,
tal
como
fora
predito.
No
décimo
quinto
dia
da
segunda
lua,
ele
viu
um
peixe
branco
saltar
de
dentro
das
ondas,
permanecer
no
ar
pelo
espaço
de
três
batidas
de
gongo
e
manifestar-se
como
uma
radiosa
figura
envolta
em
branco
puro,
apesar
de
não
ser
uma
figura
maior
do
que
a
de
um
recém-nascido.
Inclinando-se
até
o
chão
três
vezes,
Kao
correu
para
casa
cheio
de
alegria.
A
cura
fora
completada
e
agora,
todos
os
anos,
ele
vem
aqui
no
Aniversário
do
Clemente
Kuan
Yin
para
tomar
parte
nas
celebrações
e
fazer
oferendas
à
nossa
comunidade."
Su
Ting
me
asseverou
que
as
ondas
no
lago
e
o
aparecimento
do
Misericordioso
Bodhisattva
em
forma
de
miniatura
eram
fenômenos
objetivos
evocados
pelo
mantra,
em
conjunção
com
a
poderosa
concentração
da
mente
de
Kao.
Apesar
de
não
estar
convencido,
não
rejeitei
totalmente
a
possibilidade
de
que
Su
Ting
tivesse
razão.
Agora
tenho
certeza
de
que
ele
tinha
razão,
pois
os
mantras
pronunciados
com
profunda
sinceridade
libertam
poderes
mentais
criativos,
dos
quais
naturalmente
não
temos
consciência.
Mesmo
assim,
a
história
exemplifica
a
preocupação
chinesa
com
um
aspecto
dos
mantras
que
é
apenas
de
importância
secundária.
Histórias
dessa
espécie,
como
é
natural,
tornavam-me
duplamente
curioso
sobre
os
mantras
que
formavam
parte
da
liturgia
monástica
usada
em
toda
a
China,
sem
levar
em
conta
se
era
um
mosteiro
da
Seita
Ch'an
(Zen),
da
Seita
Ching
T'u
(Pura
Terra)
ou
qualquer
outra.
Verifiquei
que
era
difícil
obter
informação
abundante
sobre
o
assunto.
Os
monges
mais
velhos
que
procurei
para
orientação
geralmente
fugiam
de
minhas
perguntas,
estendendo-se
sobre
a
excelência
de
certas
fórmulas
devotas
que,
apesar
de
não
diferirem
dos
mantras
pelo
efeito,
pertenciam
a
categoria
diferente
de
expressão
sagrada,
como
veremos
adiante.
Ao
passo
que
os
mantras
são
denominados
chou
em
chinês,
as
fórmulas
devotas
são
conhecidas
como
nien-fu
(que
correspondem
ao
sânscrito
japa.
Ambas
induzem
a
um
estado
contemplativo
da
mente,
a
qual
fica
livre
do
pensamento
dualístico,
mas
diferem
completamente;
enquanto
os
mantras
despertam
uma
resposta
direta
dentro
da
própria
mente
do
devoto,
as
fórmulas
nien-fu
são
apelos
ostensivos
para
que
uma
resposta
divina
venha
de
fora.
Entretanto,
essa
diferença
só
se
mantém
no
nível
da
verdade
relativa,
não
havendo
divisão,
no
sentido
principal,
entre
o
interior
e
o
exterior
em
tais
assuntos,
pois
nossas
mentes
e
a
Mente
são
reconhecidas
como
sendo
uma
coisa
só.
Na
verdade,
o
mais
elevado
propósito
do
procedimento
iogue
é
realizar
uma
experiência
direta
da
unidade
das
mentes
com
a
Mente.
Enquanto
os
místicos
cristãos
e
sufi
consideram
essa
experiência
como
atingindo
a
união
entre
o
homem
e
Deus,
e
os
adeptos
budistas
e
taoístas,
uma
realização
de
um
estado
de
união
com
a
Fonte
Suprema
que,
desde
o
início,
nunca
cessou
de
existir,
estas
diferenças
conceituais
não
têm
validez
definitiva.
Dentro
do
aprisco
do
budismo,
o
uso
de
fórmulas
nien-fu
assemelha-se
muito
superficialmente
a
uma
posição
teísta,
ao
passo
que
as
outras
posições,
inclusive
aquela
em
que
os
mantras
são
usados,
são,
obviamente,
livres
de
teísmo;
no
entanto,
em
essência,
e
como
resultado,
o
uso
é
o
mesmo.
Segue-se
agora
o
relatório
das
fórmulas
dos
mantras
e
das
nien-fu.
Diariamente,
antes
do
nascer
do
sol,
a
comunidade
de
todos
os
mosteiros
chineses
budistas
é
convocada
ao
vestíbulo
pelo
clangor
ressoante
de
uma
chapa
de
bronze,
alternado
com
o
ribombar
de
um
gigantesco
tambor.
Os
monges
prosternam-se
três
vezes,
regulando
seus
movimentos
pelas
notas
de
um
carrilhão
de
prata,
depois
de
se
reunirem
ante
as
estátuas
resplandecentes
dos
Budas
do
Mundo
Tríplice,
as
quais
são
tão
elevadas
que
as
feições
esculpidas
e
os
sorrisos
enigmáticos,
revelando
o
êxtase
da
mente,
ficam
perdidos
na
sombra.
Depois
se
elevava
um
solene
hino
incensatório
como
prelúdio
para
ritos
em
que
três
principais
correntes
se
intercalavam:
cantos
de
bênção
e
aspiração
(o
equivalente
mais
próximo
da
oração),
a
recitação
de
mantras
e
o
pronunciamento
de
fórmulas
devotas
(nien-fu)
dirigidas
a
Amitabha,
encarnação
da
luz
da
verdade,
ou
a
Avalokitesvara
(Kuan
Yin),
corporificação
da
suprema
compaixão.
Um
mantra
realmente
impressionante
de
três
mil
sílabas
era
recitado
durante
quase
trinta
minutos,
ainda
que
o
ritmo
batido
no
tambor-peixe
de
madeira
fosse
rápido
e
não
lento.
No
entanto,
tais
mantras
litúrgicos,
emitidos
de
maneira
monótona
demais
para
serem
chamados
de
cânticos,
eram
mais
melodiosos
e
variados
do
que
o
cantochão
propriamente
dito.
Apesar
de
ter
sua
origem
na
índia,
a
melodia
não
podia
mais
ser
reconhecida
como
indiana.
Todos
os
monges
recitavam
toda
a
liturgia
de
cor
e,
ainda
que
as
seções
mântricas
não
contivessem
nenhum
significado
inteligível,
eu
podia
ver,
pelas
expressões
dos
que
ocupavam
a
nave,
que
elas
inspiravam
exaltação.
Na
verdade,
havia
sempre
um
punhado
de
monges
que
tinha
tosse
ou
resfriados
e
alguns
irrequietos
e
jovens
noviços,
que
aparentavam
o
desejo
de
que
o
rito
terminasse.
Mas
a
maioria
da
assembléia
permanecia
de
pé,
imóvel,
de
olhos
fechados,
a
bem-
aventurança
iluminando
os
seus
rostos.
Eu
também
me
sentia
invadido
e
elevado
por
aquela
torrente
solene
de
sons,
desejando
participar.
Desanimado
pela
dificuldade
de
decorar
tudo,
nunca
aprendi
o
mais
longo
dos
mantras,
mas
consegui
entregar
à
memória
inclusive
o
de
415
sílabas,
Ta
Pei
Chou
(Mantra
da
Grande
Compaixão)
que,
em
certas
ocasiões,
era
repetido
vinte
e
uma
vezes,
ou
até
cento
e
oito
vezes
consecutivas.
Havia
um
velho
monge
que,
em
resposta
à
minha
pergunta
sobre
a
razão
da
serenidade
inspirada
pelos
mantras,
respondeu
que
era
o
som,
que,
inspirado
de
modo
misterioso,
tornava
a
mente
capaz
de
secreta
afinidade
com
o
Tao,
a
Fonte
do
Ser,
mas
a
resposta
não
me
impressionou,
por
ser
muito
vaga.
Eu
ainda
estava
inclinado
a
supor
que
o
efeito
era
semelhante
ao
da
hipnose,
devendo-se
mais
ao
ritmo
do
tambor
e
ao
melodioso
clangor
da
grande
chapa
de
bronze
do
que
aos
próprios
mantras;
ainda
assim,
reconheci
a
superioridade
do
pronunciamento
mântrico
sobre
a
oração,
pois
as
orações
transmitem
um
significado
conceituai
ao
evocar
o
pensamento,
o
que
impede
a
serenidade
da
mente
do
adepto.
A
mente
de
alguém
não
consegue
atingir
um
estado
de
calma,
sem
perturbações,
refletindo
a
serenidade
da
Fonte,
enquanto
estiver
ligada
a
dualismos
como
"Eu,
o
adorador;
Ele,
o
Adorado".
A
oração
é,
no
máximo,
uma
forma
elementar
de
comunhão
mística;
quanto
às
orações
que
contêm
petições,
nada
menos
espiritual
e
com
interesse
pessoal
do
que
rezar
por
uma
vitória,
por
tempo
bom
ou
boa
sorte,
que
só
pode
ser
obtida
à
custa
dos
outros.
Não
era
de
admirar
que
eu
confundisse
o
processo
dos
mantras
com
algo
semelhante
ao
poder
hipnótico.
Os
ocidentais,
educados
para
questionar,
analisar,
investigar,
ficam
portanto
impedidos
de
chegar
espontaneamente
ao
êxtase
místico.
Quanto
aos
outros
componentes
da
liturgia
chinesa
budista,
sem
comparação,
a
mais
interessante
era
a
recitação
de
fórmulas
devotas
—
prática
de
nien-fu
mas
eu
também
apreciava
os
cânticos
de
bênção
e
os
anelos,
pela
riqueza
de
sua
imaginação.
Imagens
como
"Buda
brilhando
com
a
Lua
da
Flor
Dourada",
"Buda
fulgurante
com
a
Irradiação
Cor
de
Pérola
do
Sol
e
da
Lua"
talvez
promovam
a
realização
intuitiva
da
experiência
mística,
geralmente
acompanhada
pela
percepção
da
luz
interior.
Namo
O-mi-to
Fu
(Reverência
ao
Buda
Amitabha
ou
à
Encarnação
da
Luz
sem
Limites),
a
fórmula
nien-fu
mais
largamente
usada,
tem,
é
claro,
um
significado
conceituai,
mas
era
usada
na
maneira
pela
qual
os
místicos
da
Igreja
Ortodoxa
empregam
a
Prece
de
Jesus,
isto
é,
como
meio
de
transcender
o
pensamento
conceituai
e
de
estabelecer
a
comunhão
com
O
Que
Existe
no
íntimo.
A
recitação
da
fórmula
constituía
uma
parte
importante
do
rito
noturno.
Os
monges,
fossem
apenas
um
punhado
ou
várias
centenas
deles,
perambulavam
pelo
vestíbulo
do
santuário,
enfileirados,
às
vezes
passando
por
trás
das
estátuas
douradas,
às
vezes
indo
e
vindo
do
espaço
entre
as
estátuas
e
o
altar,
onde
ardiam
as
lâmpadas
e
as
velas.
À
frente
caminhava
o
celebrante,
seguido
pelo
chantre
que
batia
o
ritmo
num
tambor
portátil,
decorado
com
laca
dourada
e
escarlate.
Inicialmente,
o
andar
era
lento
e
às
vezes
se
prolongava
sobre
cada
sílaba
—
NA-a-a-a
MO-o-o-o-o
O-a-a-
a-a
Ml-a-a-a-a
TO-a-a-a
FU-u-u-a-a-a.
Depois,
o
ritmo
se
acelerava,
os
sapatos
de
sola
de
tecido
batiam
mais
rápido
e
a
invocação
assumia
uma
urgência
crescente.
Ao
final,
os
monges
avançavam
tão
depressa
quanto
podiam
sem
desandar
numa
correria
ou
tropel,
enquanto
a
invocação
era
encurtada
para
quatro
sílabas
pronunciadas
com
rapidez,-
OMITO
FU,
OMITO
FU,
OMITO
FU.
.
.
Então,
à
medida
que
se
elevava
o
fervor,
e
às
vezes
subia
num
crescendo,
uma
nota
semelhante
à
de
um
sino
soava
na
chapa
sonora,
o
que
levava
a
procissão
a
uma
parada.
Seguia-se
um
momento
de
silêncio,
interrompido
talvez
por
um
suspiro.
Então,
CLANG!
Com
este
sinal
partido
da
grande
chapa
de
bronze,
os
monges,
adequadamente,
apressavam-se
a
retomar
seus
lugares
no
centro
do
vestíbulo,
para
os
estágios
finais
do
rito.
Esotericamente,
eles
haviam
recorrido
ao
Buda
Amitabha
para
que
os
admitissem,
quando
morressem,
em
sua
Terra
da
Pureza,
onde,
libertos
de
todos
os
obstáculos
mundanos,
pudessem
se
preparar
para
a
inefável
beatitude
do
Nirvana.
Esotericamente,
a
Terra
da
Pureza
era
reconhecida
como
algo
inatingível
dentro
da
mente
do
próprio
devoto
—
um
estado
de
tranqüilidade
que
sobreviria
quando
a
mente
fosse
expurgada
do
desejo
desordenado,
e
iluminada
pela
compaixão,
uma
perfeita
unidade
das
mentes
com
Mente!
Ensinaram-me
que
pronunciar
o
nome
sagrado
com
perfeita
concentração,
mil
vezes,
dez
mil
vezes
ao
dia,
fosse
com
a
mente
e
os
lábios
ou
só
com
a
mente,
sem
dar
importância,
por
menor
que
fosse,
ao
assunto
prático
do
dia,
suscitaria
um
estado
de
santidade
para
além
do
pensamento
conceituai.
A
consciência,
liberta
das
distinções
mutiladoras
entre
pensador
e
pensamento,
entre
pensamento
e
objeto
do
pensamento,
expandir-se-ia
e
assumiria
a
vastidão
e
sublimidade
da
Fonte
Suprema
—
Amitabha
reconhecida
como
Pura
Mente,
o
Tao,
Nirvana!
Naturalmente,
naquele
tempo
eu
ignorava
o
significado
secreto
da
doutrina
da
Terra
da
Pureza;
os
monges,
na
sua
sabedoria,
abstinham-se
de
expor
doutrinas
tão
sutis
a
noviços,
e
eu
não
tinha
Ta-hai
ou
o
Quinto
Tio
para
murmurar
pequenas
explicações
aos
meus
ouvidos.
É
preferível,
além
do
mais,
deixar
que
o
conhecimento
vivificante
surja
por
si
mesmo.
Apesar
disso,
eu
já
tinha
conseguido
entender
que
a
prática
nien-fu
seguida
durante
o
rito
noturno
não
era
essencialmente
diferente
da
recitação
dos
mantras
pela
manhã;
as
duas
práticas
envolviam
o
uso
de
palavras
de
um
modo
que
transcendia
o
seu
significado.
Tendo
sonhado
de
longe
com
a
China,
desde
meus
onze
anos,
tinha
ânsia
de
conhecer
cada
vez
mais
o
que
me
parecia
uma
terra
mágica.
Minhas
irrequietas
viagens
levaram-me
a
inúmeros
santuários
budistas
e
taoístas,
sendo
alguns
grandes
mosteiros
e
outros
pequenos,
quase
sem
visitar
os
templos.
Os
locais
haviam
sido
escolhidos
com
amorosa
atenção
e
pelos
encantos
da
natureza.
Encontravam-se
tetos
curvos
cobertos
de
porcelana
verde,
azul
ou
amarela,
erguendo-se
como
palácios
de
fadas
entre
bosques
de
cedros
ou
moitas
de
bambus
delicados.
Às
vezes,
seus
muros
escarlates
ou
carmesins
podiam
ser
vistos
junto
à
saliência
de
um
rochedo
que
dominava,
lá
de
cima,
uma
torrente
fumegante,
ou
um
elegante
pagode
ser
entrevisto
sobre
o
topo
de
uma
colina
à
beira
de
um
lago,
com
seus
onze
ou
treze
andares
refletidos
na
superfície
da
água.
Beleza
e
mais
beleza!
Os
imponentes
portões
de
entrada
desses
santuários
formavam
o
limiar
de
um
mundo
de
mistério.
Até
mesmo
as
cozinhas
e
banheiros,
até
as
divisões
para
latrinas,
tinham
nalguma
parede
ou
pilar
um
pedaço
de
papel
escarlate
inscrito
com
um
mantra
apropriado
para
cozinhar,
lavar-se
ou
esvaziar
os
intestinos,
preciosos
lembretes
sobre
a
santidade
de
cada
ação,
de
cada
objeto,
sem
excluir
os
que
enchem
de
nojo
as
pessoas
sem
discernimento.
Deste
modo,
os
monges
eram
exortados
a
não
fazer
um
uso
menos
apropriado
do
tempo
dedicado
a
tarefas
e
a
abluções
do
que
das
horas
que
passavam
na
sala
de
meditação.
A
completa
negação
do
ego,
a
união
consciente
com
a
Fonte
do
Ser
é
uma
realização
tão
difícil
dentro
do
tempo
de
uma
vida
que
nem
um
momento
pode
ser
desperdiçado;
pois,
se
a
oportunidade
é
perdida,
quanto
tempo
a
mais
de
vida
não
se
passará
até
que
as
condições
necessárias
para
progresso
ulterior
sejam
encontradas?
Tais
foram,
pelo
menos,
os
pensamentos
que
inicialmente
inspiraram
a
colocação
de
mantras
em
lugares
tão
pouco
apropriados,
mas
a
longa
familiaridade
havia
enfraquecido
a
sua
mensagem.
É
duvidoso
que
ao
menos
um
monge,
entre
dez
ou
vinte,
tenha
realmente
recitado
um
mantra
enquanto
se
agachava
sobre
uma
fossa.
Lamento
agora
não
ter
indagado
por
que
certos
mantras,
particular,
eram
julgados
apropriados
para
a
ablução
ou
a
defecação.
A
resposta
poderia
ter
lançado
alguma
luz
sobre
a
questão
de
fazer
distinção
entre
toda
uma
série
de
mantras
necessários
para
corresponder
à
variedade
de
circunstâncias,
ao
passo
que
uma
fórmula
nien-fu
é
considerada
inteiramente
Suficiente
para
uso
em
todas
as
contingências.
Havia
mantras
especiais
para
uso
durante
as
refeições.
0s
monges,
tendo
entrado
no
refeitório,
ficavam
de
pé,
em
Silêncio,
enquanto
um
deles
fazia
uma
oferenda
aos
espíritos
girantes
que
se
acreditava
estarem
ali
aglomerados.
Erguendo
alguns
grãos
de
arroz,
em
pauzinhos,
o
monge
os
depositava
sobre
um
baixo
pilar
de
pedra,
esculpido
em
forma
de
lótus
e
que
ficava
no
pátio
adjacente.
Ao
fazê-lo,
recitava
um
mantra
que
converteria
mentalmente
a
oferenda
num
grande
banquete.
Apesar
de
não
estar
convencido,
então,
da
existência
desses
invisíveis
aglomerados,
eu
admirava
a
prática,
tomando-a
como
um
lembrete
diário
do
dever
budista
da
compaixão
para
com
qualquer
espécie
de
ser
sensitivo,
e
da
verdade
da
ioga
de
que
nada
é
o
que
parece
ser,
sendo
ilusória
a
aparente
solidez
dos
Objetos,
sendo
os
visíveis
e
os
invisíveis
igualmente
reais
ou
irreais.
O
mais
belo
e
misterioso
dos
ritos
monásticos
era
o
usado
para
saciar
a
fome
das
"bocas
ardentes"
ou
dos
espíritos
atormentados
de
homens
que
haviam
sido
avarentos.
Quando
ocorria
uma
morte,
era
costume
dos
parentes
do
morto
realizarem
vários
atos
caridosos
para
acrescentar
sua
provisão
de
méritos
%
assim
exercer
uma
influência
benigna
nas
condições
de
sua
existência
seguinte;
dessas
ações,
em
geral
faziam
parte
a
distribuição
gratuita
de
algum
texto
sagrado,
como
o
Diamante
Sutra
e
o
oferecimento
de
um
banquete
para
as
"bocas
ardentes".
Para
esse
rito,
o
principal
oficiante,
vestido
com
uma
túnica
escarlate
e
dourada,
e
usando
o
chapéu
em
forma
de
lótus
com
cinco
pétalas
de
um
Bodhisattva,
sentava
na
ponta
da
mesa
comprida
e
estreita,
com
seus
assistentes
colocados
em
banquetas
de
cada
lado
e
equipados
com
acessórios
tais
como
livros
litúrgicos,
tambores,
sinos
e
implementos
rituais.
A
mesa
era
então
colocada
de
modo
a
ficar
de
frente
para
um
pátio
bastante
espaçoso
para
acomodar
a
multidão
de
hóspedes
invisíveis
bocas-ardentes
com
gargantas
finas
como
hastes
de
grama
e
monstruosas
barrigas,
nas
quais
bastava
jogar
um
grão
de
arroz
ou
um
gole
de
água
para
que
se
transformassem
logo
numa
chama
ardente,
a
não
ser
que
esse
alimento
se
transformasse
em
amrta
(néctar)
para
conforto
dos
hóspedes.
À
medida
que
o
rito
prosseguia,
os
dedos
do
oficiante
agitavam-se
durante
uma
série
de
mudras,
tão
graciosamente
como
os
gestos
de
uma
dançarina
indiana;
enquanto
isso,
ele
entoava
uma
seqüência
de
mantras
pontilhada
pela
batida
do
tambor
de
madeira
e
o
tilintar
de
um
sino
ritual.
Os
verdadeiros
adeptos
dessa
tarefa
sabiam
produzir
ondas
de
sons
impressionantemente
melodiosos.
As
palavras
não
podem
reproduzir
a
beleza
desse
rito
ou
a
melancolia
e
pavor
que
ele
criava
no
coração
dos
presentes.
Os
lindos
gestos
e
o
canto
misterioso,
com
suas
cadências
antigas,
atuavam
de
tal
modo
sobre
os
sentidos
que
era
fácil
ver
a
multidão
de
espíritos
atormentados
e,
igualmente,
"ouvir"
seus
gritos
lamentosos
enquanto
esperavam,
com
angústia
e
agoniada
ânsia,
pelo
amrta
que
aplacaria
sua
fome
e
sua
sede.
Não
era
preciso
crer
firmemente
nessas
presenças
invisíveis
para
se
comover
com
o
drama
do
ritual,
pois
o
mundo
está
repleto
de
seres
famintos
e
carentes
—
humanos,
animais,
e
talvez
membros
de
ordens
invisíveis
—
lamentavelmente
necessitados
da
compaixão
que
brota
na
mente,
tal
como
ensina
a
experiência
iogue.
Por
mais
impressionantes
que
fossem
esses
remanescentes
de
uma
rica
tradição
mântrica
outrora
difundida,
em
breve
me
vi
forçado
a
concluir
que
o
conhecimento
sobre
a
natureza
e
função
dos
mantras
se
havia
tornado
raro
na
China,
exceto
nas
regiões
fronteiriças
onde
florescia
a
Vajrayana
e
em
certas
cidades
da
Mongólia
e
do
Tibete,
onde
foram
reintroduzidos
por
pequenos
grupos
de
devotos.
O
prevalecimento
dos
mantras
na
liturgia
monástica
seguida
pelas
seitas
Ch'an
(Zen)
e
da
Terra
da
Pureza
era
a
curiosa
e
fortuita
sobrevivência
do
tempo
em
que
a
extinta
Seita
Esotérica
havia
florescido.
Provavelmente,
a
liturgia
havia
sido
planejada
de
forma
aceitável
para
todas
as
seitas,
numa
época
em
que
a
Seita
Esotérica
ainda
se
mantinha
entre
as
outras,
e
a
intenção
havia
sido
a
de
que
todas
as
abordagens
da
sabedoria
iogue
deviam
ser
encorajadas.
Como
os
mosteiros
chineses
eram
fortalezas
da
tradição,
ninguém
havia
pensado
em
modificar
a
liturgia,
mas
era
raro
encontrar
um
monge
que
fosse
capaz
de
expor
uma
tradição
mântrica.
A
maior
parte
dos
monges,
tendo
perdido
os
aspectos
mais
sublimes,
contentava-se
em
considerar
os
mantras
como
força
mágica,
útil
para
o
alívio
de
doenças,
e
para
transformar
as
oferendas
para
os
espíritos,
sem
preocupação
direta
com
os
que
estão
ligados
à
suprema
tarefa
de
alcançar
uma
realização
mística.
Para
um
Mestre-
Dharma
preparado
para
discorrer,
mesmo
brevemente,
sobre
os
mantras,
havia
dezenas
deles
que
preferiam
falar
a
respeito
dos
maravilhosos
frutos
da
prática
nien-fu,
ou
sobre
os
métodos
contemplativos
da
seita
Ch'an.
A
serenidade
experimentada
durante
a
recitação
dos
mantras
litúrgicos
era
bem
real;
no
entanto,
eu
tinha
certeza
de
que
haviam
sido
mantidos
mais
por
respeito
à
tradição
do
que
pelo
cuidado
com
seu
valor
como
auxílio
para
o
progresso
na
ioga.
Como
é
natural,
eu
estava
muito
influenciado
pelas
idéias
de
meus
mestres
chineses
e
pelos
monges
com
os
quais
costumava
passar
semanas
ou
meses
de
cada
vez,
de
modo
que
continuei
a
compartilhar
de
sua
atitude
para
com
os
mantras,
continuando
a
atribuir
seu
efeito
sobre
mim
ao
canto
sonoramente
ritmado,
mais
do
que
ao
poder
das
próprias
sílabas
mântricas.
Mas
sempre
que
eu
deixava
perceber
que
considerava
os
ritos
para
alimentar
espíritos
e
bocas-ardentes
como
encantadoras
alegorias
com
a
intenção
de
desenvolver
uma
compaixão
espontânea,
os
monges
repreendiam
minha
descrença
e
insistiam
comigo
sobre
o
que
sem
dúvida
julgavam
ser
verdadeiros
relatos
de
maravilhas
produzidas
pelos
mantras.
Entre
essas
histórias,
havia
uma
que
me
causou
grande
impressão
porque,
verdadeira
ou
não,
parecia
indicar
o
que
poderia
ser
a
fonte
real
do
poder
mântrico,
se
é
que
tal
poder
existe
de
fato.
Não
me
lembro
do
nome
do
Mestre-Dharma
que
foi
o
principal
protagonista,
mas
o
chamarei
de
Hung
Kuan
Fa-Shih.
Assim
é
a
história:
0
Mestre-Dharma
Hung
Kuan
Fa-Shih
era
tão
maravilhosamente
adepto
da
realização
dos
ritos
para
beneficiar
bocas-ardentes
e
espíritos
errantes,
que
aos
circunstantes
parecia
estar
presente
uma
multidão
que
se
reunia
junto
à
mesa,
em
que,
vestido
como
um
Bodhisattva,
ele
ficava
sentado
entoando
as
palavras
sagradas,
com
as
mãos
adejantes
e
os
dedos
girando,
à
medida
que
os
mudras
iam
sendo
substituídos.
Mais
de
uma
vez,
alguém
o
ouvira
dizer:
"Entre
os
cidadãos
de
todos
os
universos
das
dez
direções,
não
há
nenhum
tão
maldoso
como
aquele
que
transgrediu
a
incomensurável
compaixão
de
Buda.
Os
que
temem
pelo
bem-estar
dos
seus
mortos
podem
murmurar
o
nome
deles
para
mim.
Mesmo
que
sejam
culpados
de
crimes
nefandos,
como
matar
e
comer
a
carne
dos
seus
parentes,
eu
não
os
abandonarei.
Foi
este
o
voto
que
fiz
perante
a
face
do
Buda
Compassivo."
Até
mesmo
os
descendentes
de
diabos
podem
ser
movidos
pela
piedade
filial,
de
modo
que
aconteceu
virem
filhos
e
filhas
de
criminosos
decapitados
e
de
outros
miseráveis
que
haviam
mergulhado
em
crimes.
Eles
vinham
procurar
o
Mestre-Dharma
em
segredo
e
implorar
sua
ajuda.
Ele
nunca
a
recusou.
Certa
noite,
ele
admitiu
em
seu
eremitério
um
moço
que
viera
interceder
por
seu
pai,
notório
bandido,
culpado
não
só
de
um
mas
de
dois,
entre
os
cinco
crimes
que,
segundo
o
ensinamento
ortodoxo
budista
são
indizivelmente
atrozes.
Tendo
liderado
o
ataque
a
um
convento
isolado,
ele
imitara
seus
companheiros,
violentando
e
assassinando
castas
freiras
e
"tirando
sangue
do
corpo
de
um
Buda",
isto
é,
cortando
com
sua
espada
as
imagens
sagradas!
Suspirando
ao
pensar
em
crime
tão
insensato
e
apavorante,
Hung
Kuan
concordou
com
o
pedido
do
moço
e,
despertando
seu
discípulo
mais
chegado,
preparou-se
imediatamente
para
lutar
pela
libertação
do
espírito
atormentado.
Durante
o
rito,
os
outros
notaram,
com
preocupação,
que
de
vez
em
quando
o
Mestre-Dharma
titubeava,
com
as
faces
brancas
como
cinza*,
as
mãos
trêmulas,
a
voz
chegando
a
ser
um
sussurro,
mas,
de
cada
vez,
ele
parecia
fortalecer-se
e
o
rito
prosseguia.
Emergindo
da
escuridão
circundante,
o
espírito
do
chefe
dos
bandidos
apareceu.
Ficou
de
pé,
inclinado
sob
o
peso
acabrunhador
dos
pecados.
Foi
fácil
notar
o
feliz
momento
em
que
esse
peso,
abruptamente,
caiu.
Imediatamente,
sua
forma
enevoada
ficou
ereta
e,
olhando
o
moço,
gritou
num
tom
de
gelar
sangue,
como
falam
os
que
ultrapassaram
o
limiar
da
morte:
"Moço
infeliz!
Você
teria
agido
melhor
se
deixasse
seu
pai
sofrer
uma
era
de
tormento
do
que
privar
o
mundo
deste
santo
monge
que
salvou
um
número
incontável
de
miseráveis
criaturas
de
uma
sorte
dolorosa
e
que
tinha
muitos
anos
de
vida
diante
dele!"
Com
estas
palavras,
o
espírito
desapareceu.
O
Mestre-Dharma,
lutando
contra
a
fraqueza,
conseguiu
força
suficiente
para
terminar
o
rito,
antes
de
cair
morto
nos
braços
de
seu
choroso
discípulo.
Afinal,
voltando-se
para
o
aterrorizado
moço,
esse
monge
falou
com
tristeza:
"Nosso
Mestre
foi
capaz
de
libertar
numerosos
espíritos
pelo
poder
de
seu
mérito.
Todo
mantra
que
ele
pronunciou,
cada
um
de
seus
gestos
sagrados,
tudo
foi
fortalecido
pela
vitalidade
de
sua
mente
imperturbável.
Sem
dúvida,
ele
sabia
que
libertar
um
espírito
carregado
por
tão
repugnantes
crimes,
como
os
de
seu
pai,
esgotaria
sua
reserva
de
força
vital.
Entretanto,
em
vez
de
rejeitar
seu
voto,
ele
o
ajudou
de
boa
vontade,
mesmo
sabendo
que
isso
lhe
custaria
a
vida!
O
mínimo
que
você
pode
fazer
é
apressar-se
em
entrar
num
mosteiro
e
passar
sua
vida
adquirindo
mérito
para
ajudar,
por
sua
vez,
alguns
espíritos
desgraçados."
Assim
fez
o
moço,
porém
a
recompensa
foi
pequena
diante
de
tão
irreparável
perda.
Há
outra
história
que
permanece
em
minha
memória
provavelmente
porque,
quer
seja
verdadeira
ou
apenas
criada
como
um
conto
moral,
contém
um
elemento
factual
com
relação
à
natureza
do
mantra.
Na
província
de
Honan
havia
duas
crianças,
Lao
San
e
Lao
Szê.
Como
Confúcio
em
tempos
antigos,
o
menino
e
a
menina
gostavam
de
imitar
as
cerimônias
adultas.
Além
de
realizar
"casamentos",
"funerais"
e
"cerimônias
da
lua
cheia",
usando
bonecas
para
representar
bebês
de
um
mês,
freqüentemente
visitavam
um
templo
deserto
a
fim
de
se
prosternarem
até
o
chão
diante
de
Buda
Compassivo.
Certo
dia,
para
sua
considerável
mas
não
imensa
surpresa,
a
estátua
do
Buda
falou
com
eles,
comunicando
uma
breve
fórmula
sagrada
cujas
sílabas
eles
decoraram
com
atenção,
apesar
de
incapazes
de
entender
seu
significado.
Foi
um
segredo
que
guardaram
dos
outros
e,
sempre
que
surgia
um
problema
infantil,
eles
repetiam
as
sílabas
num
murmúrio,
e
o
problema
era
resolvido,
logo
ou
pouco
tempo
depois.
No
inverno
seguinte,
eles
pararam
por
acaso
diante
de
um
lago
gelado,
para
ver
outras
crianças
patinando.
Em
dado
momento,
um
garoto
de
uns
catorze
anos
aproximou-se
do
centro
do
lago,
mais
do
que
seus
companheiros.
Subitamente,
com
o
som
de
um
tiro
de
revólver,
o
gelo
se
partiu
e
começou
a
baixar.
Com
a
rapidez
do
pensamento,
os
irmãos
pronunciaram
sua
fórmula
sagrada,
depois
do
que
o
gelo
partido,
através
do
qual
a
água
começava
a
subir,
ficou
firme
até
que
o
patinador
alcançasse
o
gelo
mais
firme
perto
da
margem.
Dançando
de
satisfação,
Lao
San
e
Lao
Szê
gritaram
a
plenos
pulmões
que
o
garoto
devia
a
vida
às
suas
palavras
mágicas.
Meio
impressionadas,
meio
caçoístas,
as
outras
crianças
se
reuniram
à
volta
deles,
exigindo
uma
explicação.
"Quais
palavras
mágicas?"
exclamou
outro
garoto,
torcendo
o
braço
de
Lao
San
até
que
ele
gritou,
pedindo
piedade.
Instintivamente,
os
irmãos
sabiam
o
que
aconteceria
se
revelassem
seu
segredo,
mas
a
dor
era
forte
demais
para
que
o
menino
a
suportasse.
Soluçando
amargamente,
revelou
a
sagrada
fórmula:
Naturalmente,
as
outras
crianças
exigiram
uma
demonstração
antes
de
soltar
sua
vítima.
Infelizmente,
quando
aplicada
para
salvar
um
cão
vadio
de
uma
saraivada
de
pedras,
o
mantra
falhou.
E
também
nunca
mais
agiu,
para
Lao
San
e
Lao
Szê.
A
verdade
contida
nesta
pequena
história
é
a
de
que
os
adeptos
da
arte
mântrica
que
se
gabam
de
sua
realização,
ou
procuram
demonstrá-la
para
outros,
perdem
seu
poder.
Isso
é
lamentável,
pois
o
reconhecimento
desse
fato
reforça
a
modéstia
natural
que
advêm
do
progresso
espiritual,
com
o
resultado
de
que
raramente
alguém
pode
testemunhar,
a
não
ser
por
acaso,
manifestações
convincentes
do
poder
mântrico.
A
convicção,
em
geral,
só
é
obtida
como
resultado
do
poder
interior
que
a
pessoa
alcança.
0
fato
de
que
este
genuíno
conhecimento
mântrico
tenha
sido
outrora
muito
difundido
na
China
é
verificável
por
várias
passagens
da
liturgia
budista.
Por
exemplo:
há
uma
passagem,
conhecida
como
"Mêng-Shan
Shih
Shih-I"
(literalmente,
"Doação
do
Monte
Secreto
de
Oferendas")
que,
de
modo
superficial,
assemelha-se
a
mágica
quando
o
oficiante
traça
com
a
ponta
do
dedo
uma
sílaba
mântrica
sobre
uma
tigela
de
água
pura,
a
fim
de
convertê-la
em
amrta
ou,
como
dizem
os
chineses,
kan-lu
(orvalho
doce);
mas
é
notável
que,
antes
do
mantra,
vêm
as
palavras:
"Quem
quer
que
deseje
compreender
os
Budas
do
Mundo
Tríplice
deve
entender
que
o
universo
inteiro
consiste
em
nada
além
da
mente."
Isto,
como
vim
a
saber
mais
tarde,
é
o
contexto
no
qual
toda
a
ciência
dos
mantras
deve
ser
entendida.
Nesta
passagem,
temos
o
remanescente
do
conhecimento
profundo
anteriormente
transmitido
pela
Seita
Esotérica.
Por
que
teria
desaparecido
da
China
esta
seita
com
seus
fascinantes
segredos,
há
quase
mil
anos?
Provavelmente,
porque
empregou
a
imagem
sexual
que,
por
motivos
perfeitamente
respeitáveis,
caracteriza
a
Seita
Vajrayana
do
Tibete.
Se
é
assim,
as
autoridades
confucianas,
ignorando
a
elevada
natureza
das
doutrinas
veladas
por
essa
imagem,
devem
ter
ficado
assustadas.
Os
confucianos,
sem
serem
puritanos
inflexíveis,
eram
chocantemente
cheios
de
preconceitos,
e
podem
muito
bem
ter
dado
ordens
para
que
as
imagens
e
pinturas
sagradas
fossem
destruídas.
Outra
possibilidade
é
a
de
que,
impressionados
pelos
relatos
sobre
os
estranhos
poderes
dos
iniciados,
os
confucianos
os
tenham
tomado
por
feiticeiros,
perseguindo-os
com
rigor.
Em
toda
a
história
e
em
muitas
partes
do
mundo,
a
acusação
de
feitiçaria
tem
freqüentemente
sido
feita
a
expoentes
das
formas
mais
esotéricas
de
religião,
apesar
de
sua
conduta
ser
em
geral
inatacável,
governada
por
intenções
da
mais
irrepreensível
pureza.
Capítulo
3
O
INICIO
DA
COMPREENSÃO
Mais
uma
vez,
abria-se
a
cortina
para
uma
cena
desconhecida.
Os
grandes
templos
que
eu
visitara
na
China
ficavam
mil
milhas
a
leste.
Ali,
ao
pé
do
Himalaia,
erguiam-
se
montanhas
que
cortavam
transversalmente
a
fronteira
indo-tibetana,
havia
muitos
adeptos
de
ioga,
mas
nada
das
maravilhas
arquitetônicas,
sobreviventes
de
eras
passadas.
Após
alguns
dias
de
caminhada
através
das
montanhas,
encontrei
um
templo
rústico,
construído
com
materiais
de
fácil
aquisição.
Quadrangular
e
artisticamente
despretensioso,
apenas
uma
entrada
pintada
e
um
telhado
piramidal
proclamavam
seu
propósito
sagrado.
No
interior,
sombrio,
uns
poucos
lamas,
com
túnicas
de
um
castanho
sujo,
estavam
sentados
de
pernas
cruzadas
em
suas
almofadas,
no
chão,
diante
de
um
altar
guarnecido
com
lamparinas
e
vasilhas
de
prata
para
oferendas,
e
aquelas
curiosas
figuras
chamadas
torma,
feitas
com
massa
de
farinha
amanteigada.
Pesadas
nuvens
de
incenso
pairavam
no
ar.
No
lugar
em
que
deveria
haver,
em
templo
mais
rico,
uma
esplêndida
imagem,
estava
pendurado
um
esfarrapado
thanka
(pergaminho
de
parede)
representando
uma
divindade
feminina
de
aspecto
feroz,
com
um
pé
levantado
e
pousado
sobre
o
joelho,
o
outro
pisando
um
disco
solar
apoiado
por
um
cadáver
que
jazia
de
costas
sobre
o
desenho
de
uma
lua
a
cobrir
um
lótus
gigantesco.
O
diadema
que
cingia
seu
cabelo
cor
de
fogo
era
composto
de
esqueletos
humanos;
um
colar
de
cabeças
cortadas
adornava
sua
carne
nua,
de
violenta
cor
escarlate.
Apesar
da
estranheza
desses
atributos,
não
senti
receio
algum,
pois
a
expressão
dos
lamas
era
suave
e
delicada;
por
bizarros
que
fossem
os
símbolos
sobre
os
quais
meditavam,
dificilmente
se
poderia
duvidar
de
que
fossem
homens
de
bondosa
disposição
e
de
pensamentos
sadios.
Junto
com
o
fantástico
tilintar
de
sinos
vajra
e
a
batida
dos
tambores
de
mão
giratórios,
tocados
por
bolinhas
presas
a
tiras
de
couro,
os
lamas
estavam
produzindo
uma
inundação
de
sons
que
mais
pareciam
brotar
de
seus
ventres
que
de
seus
órgãos
vocais.
Mais
do
que
nunca,
até
então,
reconheci
o
poder
dos
mantras
em
transportar
a
mente
a
um
estado
de
tranqüila
bem-aventurança.
Também
me
regozijei
com
o
pensamento
de
que
aquela
cena
era
em
tudo
semelhante
à
que
devia
ter
surpreendido
viajantes
como
eu,
que
passaram
por
aquela
região
mil
ou
mais
anos
antes.
Antes
de
deixar
a
China,
as
sementes
plantadas
em
minha
mente
pelo
lama
tibetano
de
Hong
Kong
haviam
sido
regadas
de
vez
em
quando,
pois
eu
me
havia
hospedado
com
freqüência
em
mosteiros
de
estilo
tibetano,
nas
províncias
mais
remotas;
mas
somente
em
1948,
ano
em
que,
com
tristeza,
eu
disse
adeus
à
terra
que
tanto
amava,
estabeleci
contato
com
os
lamas
tibetanos
e
comecei
a
adquirir
uma
visão
real
sobre
o
mundo
mágico
da
Vajrayana.
Durante
a
década
seguinte,
fiz
várias
e
prolongadas
visitas
aos
montes
do
Himalaia
—
ao
belo
Gangtok
e
ao
mosteiro
da
montanha
de
Tashiding,
cercado
por
uma
torrente,
em
Sikkim,
e
àquelas
cidades
montanhesas
nas
fronteiras
da
índia,
para
as
quais
tantos
lamas
eminentes
haviam
fugido
após
o
avanço
chinês
sobre
Lhasa.
Os
tibetanos
são,
de
muitas
maneiras,
um
povo
materialista;
noutras,
são
como
seres
de
outra
era,
tão
rica
é
sua
satisfação
pelas
coisas
simples,
tão
espontâneo
seu
riso
e
tão
permanente
sua
alegria
e
fé
em
Cho
—
o
Dharma
Sagrado.
Como
exilados
empobrecidos,
estavam
quase
sempre
malvestidos,
sem
os
acessórios
coloridos
que
haviam
emprestado
esplendor
a
seus
antigos
rituais,
porém
seus
ritos
permaneciam
inspiradores
—o
rufar
dos
tambores
e
o
estrépito
dos
címbalos,
o
poder
elementar
da
melodia
sagrada,
os
ritmos
impressionantes
dos
cânticos
e
as
expressões
extasiadas
que
se
viam
no
rosto
dos
celebrantes.
Era
fácil
ver
que
suas
mentes
se
haviam
elevado
até
o
reino
intemporal
de
alegria
e
mistério.
Em
breve,
atingi
visão
nova
sobre
a
natureza
dos
mantras;
como
manifestações
do
shabda
(som
sagrado)
eles
têm
qualidades
em
comum
com
a
música
religiosa
tibetana,
onde
por
sua
vez
ecoam
a
voz
dos
ventos
em
lugares
elevados,
o
bramido
das
torrentes
montanhosas
e
o
estalar
dos
trovões.
Alguns
dos
tesouros
da
mente
que
podem
ser
descobertos
na
região
do
Himalaia,
inspiradora
de
terror,
foram
descritos
em
três
dos
meus
livros
anteriores
[The
Wheel
of
Life,
The
Way
of
Power
e
Beyond
the
Gods),
neste,
descreverei
em
particular
o
que
é
pertinente
aos
mantras.
Por
acaso,
mais
do
que
por
escolha,
os
ensinamentos
e
iniciações
que
recebi
foram
transmitidos
sobretudo
por
Nyingmapas,
isto
é,
adeptos
de
uma
antiga
seita
que
floresce
nas
fronteiras
a
leste
—
Kham
e
Amdo
(Ch'inghai)
e
no
minúsculo
reino
de
Sikkim.
Há
budistas
que
consideram
erro
o
fato
de
esta
seita
ter
perdido
muito
de
suas
características
monásticas,
pois
é
verdade
que
os
lamas
Nyingmapas
são,
com
freqüência,
leigos
casados
e
não
monges.
E
isso
porque
a
seita
fugiu
à
"reforma"
que
foi
capaz
de
preservar
sem
interrupção
certas
tradições
secretas,
vindas
de
remota
antigüidade.
Não
existindo
contrapartida
budista
nos
antagonismos
e
rivalidades
que
tão
tragicamente
despedaçaram
a
Cristandade,
onde
as
seitas
tibetanas
divergem
é
em
relação
ao
método
e
não
à
doutrina;
portanto.,
os
lamas
Nyingmapa
ensinam
a
contemplação
e
os
exercícios
de
ioga,
enquanto
os
lamas
Gelugpa
exigem
dos
neófitos
um
longo
estudo
preliminar
da
doutrina,
sendo
a
prática
iogue
muitas
vezes
adiada
até
a
idade
madura.
Qual
seja
o
sistema
mais
sensato,
é
questão
de
opinião;
mas
meu
encontro
com
os
mestres
Nyingmapa
foi
sem
dúvida
uma
vantagem,
por
me
terem
ministrado
de
boa
vontade
o
ensino
da
ioga.
Os
tibetanos
absolutamente
não
são
grandes
mestres
nas
artes
secretas
da
ioga.
Ao
contrário,
o
budismo
prevalece
entre
eles,
tanto
no
nível
popular
como
no
mais
elevado,
e
grande
parte
do
que
ali
presenciei
no
começo
me
lembrava
igual
situação
na
China,
onde
pouca
distinção
se
fazia
entre
mantras
e
feitiçaria.
Por
exemplo:
sempre
que
eu
ia
àquelas
montanhas,
tinha
provas
da
prodigiosa
fé
na
eficácia
do
mantra
OM
MANI
PADME
HUM
como
encantamento
protetor;
estava
inscrito
em
rochedos
na
estrada
e
sobre
muros
erigidos
especialmente
para
exibi-lo,
muitas
vezes
com
as
sílabas
pintadas
em
sua
apropriada
colocação
iogue.
Em
toda
parte
viam-se
pessoas
que
giravam
moinhos
de
rezas
contendo
rolos
de
seda
ou
de
papel
nos
quais
o
mantra
fora
escrito
cem
ou
mil
vezes;
ouvi
falar
de
moinhos
de
rezas
movidos
por
rios
turbulentos
e
vi
potentes
tambores
metálicos
de
rezas
colocados
junto
aos
portões
dos
templos,
onde
todo
peregrino
que
passasse
podia
fazê-los
ressoar.
Enquanto
giram
seus
moinhos
de
rezas,
os
devotos
entoam
as
sílabas
mântricas
e
as
visualizam,
de
modo
que
as
três
faculdades
humanas
do
corpo,
da
fala
e
da
mente
ficam
todas
entrosadas
por
OM
MANI
PADME
HUM!
Os
passageiros
dos
ônibus
de
longa
distância,
os
trabalhadores
do
campo
e
os
refugiados
em
farrapos
olhando
cobiçosamente
as
vitrinas
das
lojas
recitam
esse
mantra
durante
horas
a
fio.
Conhecido
como
o
Mani,
é
o
mantra
do
Bodhisattva
Avalokiteshvara
da
Suprema
Compaixão,
que
toma
a
forma
do
Senhor
Chenserig
na
Mongólia
e
no
Tibete,
e
da
bela
Kuan
Yin
(Kannon)
na
China
(e
no
Japão).
O
Avalokiteshvara
é
conhecido
pelos
sábios
não
tanto
como
deus
ou
deusa,
mas
como
a
encarnação
mental
de
uma
força
abstrata
demais
para
ser
descrita
de
outra
forma
que
não
acrescenta
nem
diminui
a
força
do
mantra.
Aquilo
que
para
os
não-instruídos
é
uma
divindade
adorada
revela-se
igualmente,
para
todos,
uma
fonte
poderosa
de
inspiração;
pois
Avalokiteshvara,
quer
seja
considerado
como
um
ser
de
existência
própria
ou
como
uma
criação
mental
dos
devotos,
personifica
a
tremenda
força
da
compaixão,
que
se
distribuí
imparcialmente
entre
todos
os
seres
sensíveis.
Também
não
é
significativa
a
diferença
de
sexo
nas
duas
manifestações,
pois
os
atributos
sexuais
dos
Bodhisattvas
são
uma
questão
exclusivamente
convencional.
Parece
ser
mais
apropriada
para
personificar
o
espírito
da
compaixão
a
forma
feminina,
mas
a
encarnação
masculina,
Chenresig,
apresenta-se
como
um
ser
de
aparência
não
menos
delicada,
cujo
sexo
só
é
óbvio
para
os
que
conhecem
as
convenções
iconográficas
indo-tibetanas.
Entre
as
numerosas
narrativas
associadas
com
o
Mani,
a
minha
predileta
é
incidentalmente
chinesa,
mas
muito
semelhante
às
que
são
conhecidas
entre
os
tibetanos.
Um
guerreiro
mesquinho,
conhecido
por
sua
implacável
crueldade,
presenciando
a
fuga
de
suas
tropas
que
deixavam
o
campo
em
carreira
impetuosa,
teve
também
de
fugir
para
não
cair
nas
garras
de
seu
rival.
Depois
de
tirar
o
uniforme
e
envergar
a
roupa
azul
de
um
camponês
grosseiramente
tecida
em
casa,
correu
como
louco
para
as
montanhas.
Faminto
e
cansado,
seguiu
adiante,
tão
depressa
quanto
seu
esgotado
cavalo
pôde
levá-lo.
Ao
chegar
a
segunda
noite,
sentiu-se
bastante
a
salvo
para
passá-la
num
eremitério
próximo
da
estrada.
Descobrindo
que
os
únicos
habitantes
eram
um
idoso
lama
mongólico
e
um
rapazinho
que
ali
trabalhava,
agiu
com
brutal
truculência,
forçando-os
a
encher
suas
sacolas
vazias
com
todas
as
coisas
portáteis
de
valor
que
o
eremitério
continha.
Roubar
seus
hospedeiros
era,
afinal,
sua
forma
habitual
de
pagar
a
hospitalidade,
pois
a
única
função
dos
civis
era
permitir
que
os
heróis
vivessem
bem.
Como
as
celas
dos
monges
eram
pequenas
e
sem
conforto,
ordenou
que
colocassem
um
divã
na
sala
do
santuário
e
ali,
sem
ficar
perturbado
pela
luz
de
duas
velas
votivas
que
iluminavam
uma
estátua
do
Compassivo
Kuan
Yin,
mergulhou
num
sono
espasmódico.
Com
pena
de
seu
grosseiro
perseguidor,
o
velho
lama
se
esgueirou
até
o
divã
e,
sentado
de
pernas
cruzadas
sobre
as
lajes,
num
local
sombrio,
começou
a
repetir
o
mantra
OM
MANI
PADME
HUM,
num
murmúrio
que
durou
a
noite
toda;
a
não
ser
quando
via
o
guerreiro
agitar-se
no
sono,
então
verbalizava
as
sílabas
silenciosamente,
temendo
perturbar
o
adormecido.
Não
havia
ressentimento
no
coração
do
velho,
nenhum
lamento
pela
perda
dos
valores,
sem
importância
para
ele,
apenas
o
compassivo
desejo
de
salvar
o
hóspede
das
conseqüências
de
sua
loucura.
Durante
a
noite
inteira,
o
guerreiro
sonhou.
Quadros
e
mais
quadros
surgiram
em
sua
mente,
de
alegrias
sentidas
em
vidas
anteriores;
neles,
sempre
havia
alguém
que
o
havia
tratado
com
amor
—
a
mãe,
a
irmã,
algum
amigo
querido
e
assim
por
diante
—
mas
todos
esses
episódios
eram
seguidos
por
outros,
dilacerantes,
nos
quais
ele
via
uma
das
pessoas
queridas
na
aparência
de
uma
de
suas
incontáveis
vítimas;
muitas
e
muitas
vezes
teve
de
suportar
a
dor
de
reviver
seus
atos
de
tortura,
assassinato
ou
decapitação
de
alguém
que
reconhecia
ser
um
generoso
benfeitor
em
vida
anterior.
Era
insuportável,
era
horrível,
ver-se
como
um
feliz
garoto
sendo
acarinhado
por
sua
mãe
que
o
adorava
e
depois
como
o
brutal
violador
e
executante
da
mesma
pessoa
amada
noutra
aparência
facilmente
reconhecível;
fossem
quais
fossem
as
lágrimas
e
lamentações,
ele
não
podia
suster
sua
mão.
Despertou
com
a
primeira
luz
da
madrugada,
o
corpo
banhado
em
suor,
a
mente
enevoada
pelo
desprezo
de
si
mesmo.
De
joelhos,
caiu
ante
a
imagem
do
Compassivo
Kuan
Yin
e
bateu
sua
cabeça
nas
lajes,
num
frenesi
de
remorso.
Entretanto,
seguindo
as
instruções
dadas
na
noite
anterior,
o
rapazinho
havia
tirado
o
cavalo
do
estábulo
e
colocado
nele
os
alforjes
com
os
valores
roubados.
Tendo
feito
isso,
ajudou
o
velho
lama
a
levar
para
o
hóspede
uma
refeição
com
chá
quente,
oferecendo-lhe
o
parco
alimento
de
que
dispunham
naquele
pobre
lugar.
Depois,
com
grande
espanto
do
rapazinho,
o
guerreiro,
antes
tão
truculento,
inclinou-se
até
o
chão
ante
o
lama
e
implorou
para
ser
aceito
como
discípulo.
"Não",
foi
a
resposta.
"A
vida
monástica
não
é
para
você.
Continue
o
seu
caminho.
Se
em
qualquer
tempo
sua
sorte
melhorar,
use
seu
poder
e
sua
riqueza
para
o
bem-estar
dos
oprimidos,
lembrando
que
qualquer
um
deles
pode
ter
sido
seu
pai,
sua
mãe
ou
seu
amigo
numa
das
vidas
anteriores,
pois
as
vidas
de
todos
os
seres
sensíveis
se
interligam
no
passado
durante
eras
inumeráveis."
Pasmo
diante
dessa
íntima
conexão
entre
aquelas
palavras
e
seu
pesadelo
recente,
o
guerreiro
implorou
ao
lama
que
lhe
desse
algo
a
que
se
apegasse
nos
anos
futuros,
ao
que
o
velho
respondeu:
"Nada
há
no
universo
mais
forte
que
o
poder
da
compaixão.
Apegue-se
apenas
a
isso.
Se
os
seus
esforços,
alguma
vez,
falharem,
devido
à
carga
do
karma
criminoso,
que
as
palavras
do
mantra
de
Kuan
Yin,
OM
MANI
PADME
HUM
sejam
o
sinete
do
seu
pacto
para
nunca
mais
ceder
à
crueldade
e
à
avareza."
Assim
o
guerreiro,
depois
de
devolver
o
roubo,
partiu
envergonhado.
Dizem
que,
anos
depois,
alguns
de
seus
antigos
subordinados
o
encontraram
ganhando
seu
arroz
como
arrieiro,
empregado
numa
comunidade
de
monges
em
remoto
mosteiro
do
cume
oriental
do
Wu
T'ai.
Os
não-iniciados
usam
o
Mani
muitas
vezes
como
feitiço
protetor
contra
toda
espécie
de
má
sorte,
seja
do
próprio
indivíduo
ou
de
outrem.
Ele
é
pronunciado
em
momentos
de
perigo,
entoado
suavemente
quando
se
conforta
alguém
em
aflição
e
recitado
mentalmente
ou
alto,
em
repetição
infindável,
pelos
que
buscam
nascimento
na
Terra
da
Pureza.
Inúmeros
tibetanos
morrem
tendo
nos
lábios
o
Mani.
Há
também
muitas
aplicações
especiais
do
mantra.
Há
pouco
tempo
o
sr.
Lu
k'uan-yü
escreveu-me
sobre
sua
aplicação
curativa
no
tratamento
das
alucinações
correntes
e
doenças
psíquicas
similares.
0
paciente
deve
se
sentar
diariamente
diante
de
uma
vasilha
de
água
e,
invocando
Avalokiteshvara
de
todo
o
coração,
olhar
para
a
tigela
durante
algum
tempo,
enquanto
recita
o
Mani.
Quando
se
vê
um
lótus
emergindo
da
água,
a
cura
é
garantida.
Eu
mesmo
pude
me
curar,
no
espaço
de
uma
noite,
de
uma
doença
que
me
atacou
durante
uma
semana,
em
viagem
a
cavalo
através
das
montanhas
no
norte
da
China.
Tendo
caído
da
minha
mula
e
sendo
acudido
e
levado
até
a
hospedaria
mais
próxima,
recuperei
a
consciência
ao
descobrir,
sentado
na
minha
cama,
um
lama
mongol
entoando
suavemente
OM
MANI
PADME
HUM.
Maravilhosamente
recuperado,
senti
a
fadiga
e
a
doença
desaparecerem,
e
na
manhã
seguinte
continuei
a
viagem,
sentindo-me
tão
bem
como
no
primeiro
dia.
É
possível
argumentar
que
o
efeito
dos
mantras
em
tais
circunstâncias
é
puramente
psicológico.
Isso
é
bem
verdade,
mas
num
sentido
que
não
é
de
todo
simples.
A
energia
da
compaixão
personificada
por
Avalokiteshvara
é
real,
e
reside
no
nível
profundo
de
nossa
consciência;
está
presente
em
todos
nós,
ainda
que
escondida
pelos
obstáculos
do
ego,
e
é
despertada
pelas
sílabas,
sobretudo
quando
pronunciadas
com
profunda
aspiração
pela
felicidade
de
outrem.
Por
uma
razão
qualquer,
essa
energia
é
mais
facilmente
evocada
do
que
outras
similares,
para
as
quais
existem
outros
mantras;
provém
daí
a
larga
popularidade
do
Mani
entre
os
que
não
receberam
o
ensinamento
da
ioga,
do
qual
depende
a
eficiência
dos
demais.
0
Mani
também
pode
ser
empregado
em
níveis
mais
elevados
de
ensinamento,
e
não
são
poucos
os
lamas
eruditos
que
o
consideram
o
mantra
dos
mantras,
inteiramente
completo
em
si
mesmo,
desde
que
alguém
conheça
os
meios
de
usá-lo
efetivamente.
Apesar
das
aparências,
nenhuma
operação
mágica
participa
dele.
O
mantra,
além
de
ter
uma
afinidade
psíquica
com
um
elemento
encaixado
na
consciência
de
quem
o
usa,
e
com
um
elemento
idêntico
na
psique
daqueles
sobre
os
quais
é
usado,
recebe
enorme
força
de
poder
cumulativo
das
sagradas
associações
com
as
mentes
das
inúmeras
pessoas
que
o
pronunciaram
durante
o
curso
de
séculos.
Ao
relatar
o
que
se
segue
sobre
algumas
das
práticas
iogues
do
Mani,
antecipo-me
de
algum
modo
para
reunir
tudo
quanto
foi
dito
sobre
este
mantra
num
só
lugar.
Segundo
a
doutrina
Mahayana,
tal
como
interpretada
pela
seita
Vajrayana,
a
suprema
energia
que
brota
da
Fonte
Suprema,
e
dali
para
as
profundezas
da
consciência
do
adepto
-tem
dois
aspectos:
a
sabedoria
da
realização
sagrada
e
a
sabedoria
da
compaixão.
Esta
última
muitas
vezes
é
personificada
pelo
Buda
Amitaba,
do
qual
Avalokiteshvara
é
conhecido
como
uma
emanação
divina.
Entre
as
inúmeras
formas
do
Bodhisattva
Avalokiteshvara,
a
mais
freqüentemente
admirada
é
a
de
uma
divindade
de
quatro
braços,
de
pura
cor
branca,
duas
mãos
prendendo
uma
jóia
colocada
palma
a
palma
num
gesto
de
oração,
duas
mãos
erguidas
à
direita
e
à
esquerda,
uma
segurando
um
fio
de
contas
de
cristal,
simbolizando
a
contemplação,
a
outra
com
um
lótus
que
representa
a
perfeição
espiritual.
Mas
a
contemplação
bem
realizada
não
requer
reflexão
cuidadosa
sobre
o
Simbolismo;
há
profundas
razões
na
ioga
para
essa
forma
da
divindade,
sua
postura,
seus
gestos,
suas
cores
e
atributos,
que
são
reconhecidos
e
aceitos
por
todos
quantos
admitem
que
a
tradição
vinda
de
Nalanda
há
séculos
atrás,
e
mantida
no
Tibete
de
hoje,
nada
contém
de
fantasioso
ou
arbitrário.
Exceto
no
início
da
prática
da
ioga,
pouca
preocupação
se
tem
com
o
assunto,
porque
pensar
muito
na
interpretação
do
Simbolismo
pode
levar
à
distração;
é
preciso
permitir
que
os
símbolos
ajam
diretamente
sobre
um
nível
mais
profundo
da
consciência.
A
forma
bonita
do
Bodhisattva
Kuan
Yin
(Kannon),
conhecida
por
todos
os
amantes
da
arte
chinesa
e
japonesa,
é,
similarmente,
produto
da
intuição
iogue;
mas
os
artistas,
ignorando
o
fato
de
que
Kuan
Yin
é
uma
divindade
de
meditação
e
não
um
deus,
podem
ter
introduzido
detalhes
imaginosos
que
não
se
encontram
em
pinturas
ou
estátuas
especialmente
preparadas
como
apoio
para
a
meditação.
0
Mani
pode
ser
usado
em
qualquer
momento,
sem
preparo
especial,
por
aqueles
que
possuem
algum
conhecimento
dos
métodos
da
ioga
contemplativa,
ou
por
aqueles
capazes
de
imbuir
a
forma
do
ser
compassivo
com
o
poder
advindo
das
associações
que
ele
desperta
em
suas
mentes.
Sua
recitação
por
adeptos
é,
em
geral,
acompanhada
da
visualização
da
forma
divina
e
das
sílabas,
cada
qual
com
sua
cor
apropriada;
simultaneamente,
brota
na
mente
do
adepto
o
desejo
profundo
pelo
bem-estar
dos
seres
sensíveis
e
a
vontade
de
experimentar
compaixão
por
todos
eles
—
não
só
por
aqueles
que
é
fácil
amar,
como
amigos,
cavalos,
elefantes
e
Cachorrinhos,
mas
também
pelas
criaturas
até
então
consideradas
repelentes,
como
insetos
nocivos,
répteis,
soldados,
bandidos,
fantasmas
e
demônios.
A
princípio,
mesmo
sendo
incapazes
de
amá-los,
é
possível
ao
menos
simpatizar
com
suas
tristezas
e
alegrar-se
com
suas
transitórias
alegrias,
vendo-os
como
seres
igualmente
condenados,
como
nós
mesmos,
a
vagar
de
nascimento
em
nascimento,
era
após
era,
até
alcançar
a
Luz.
Objetos
anteriores
do
desagrado
do
adepto,
suas
inimizades
ou
aversões
peculiares
devem
ser
os
primeiros
destinatários
do
poder
do
Mani,
devendo
o
adepto
dirigir
seu
pensamento
para
eles
com
todo
o
amor
de
que
seja
capaz.
Possuído
de
tristeza
pelos
fardos
que
todos
devem
carregar,
e
ansioso
pela
felicidade
universal,
ele
olha
as
belas
feições
do
Bodhisattva,
já
radiantemente
visíveis
à
sua
visão
interior,
e
recita
repetidamente
OM
MANI
PADME
HUM!
Ou
então
se
aprendeu
com
um
mestre
tibetano,
UM
MANI
PEME
HUNG!
(A
vogai
"U"
é
semelhante
à
primeira
vogal
da
palavra
inglesa
"woman";
o
"A"
é
pronunciado
como
em
"father";
"PEME",
contração
de
"PADME",
soa
quase
como
"pay-may",
com
a
diferença
de
que
o
"P"
fica
parecido
com
o
"B".)
OM,
simbolizando
a
origem,
a
Fonte
Suprema,
o
Dharmakaya,
o
Absoluto,
é
uma
palavra
de
grande
poder
criativo,
considerada
com
freqüência
como
sendo
a
soma
de
todos
os
sons
do
universo
—
a
harmonia
das
esferas,
talvez.
MANI
PADME
(jóia
no
lótus)
significa
vários
conceitos
como:
a
sabedoria
essencial
que
existe
no
âmago
da
doutrina
budista;
a
sabedoria
esotérica
da
Vajrayana
contida
na
filosofia
esotérica
Mahayana;
a
Mente
contida
dentro
de
nossas
mentes;
o
eterno
no
temporal;
o
Buda
em
nossos
corações;
a
meta
(suprema
sabedoria)
e
os
meios
(compaixão);
e,
se
posso
permitir-me
tirar
uma
inferência,
o
Cristo
interior
que
reside
na
mente
do
cristão
místico.
HUM
é
o
condicionado
no
incondicionado
(que
é
para
OM
assim
como
Tê
é
para
Tao
na
filosofia
taoísta);
representa
a
realidade
sem
limites
incorporada
dentro
dos
limites
do
ser
individual
e,
deste
modo,
une
todos
os
seres
e
objetos
separados
ao
OM
universal;
é
a
não-morte
no
efêmero,
além
de
ser
uma
palavra
de
grande
poder
que
destrói
os
empecilhos
criados
pelo
ego.
Tais
interpretações
são
naturalmente
de
interesse,
mas
é
necessário
acentuar
que
a
reflexão
sobre
o
Simbolismo
não
faz
parte
da
prática
contemplativa.
As
sílabas
mântricas
não
podem
produzir
seu
efeito
total
sobre
os
mais
profundos
níveis
na
consciência
do
adepto
se
a
sua
mente
está
apinhada
de
conceitos
verbais.
O
pensamento
reflexivo
deve
ser
transcendido,
abandonado.
Quanto
à
maneira
de
recitação,
não
deve
haver
regras
fixas
a
não
ser
aquelas
impostas
pelo
mestre,
se
ele
assim
o
quiser.
A
sílaba
OM
é
em
geral
enfática
e
mais
ou
menos
prolongada,
de
modo
que
o
M
final
vibre.
MANI
PADME
(ou
MANI
PEME)
são
recitadas
quase
como
uma
palavra.
HUM
(OU
HUNG)
é
às
vezes
retardada.
Podemos
desenhar
o
ritmo
assim:
_
----—
—!
O
mantra
deve
ser
pronunciado
em
tom
monótono;
ou
com
a
sílaba
OM
um
tanto
mais
alta
do
que
o
resto;
ou
com
as
cinco
primeiras
sílabas
em
tom
monótono
e
baixo,
mas
com
o
HUM
tão
mais
alto
do
que
o
resto,
como
o
sol
fica
acima
do
dó
em
nossa
escala
musical.
Nesse
caso
o
diagrama
se
modificaria
para
—
----—
!
Quando
a
recitação
chega
ao
fim,
os
devotos
permitem
que
a
figura
mental
do
Bodhisattva
desapareça
de
sua
mente,
qualquer
que
seja
o
método
aprendido,
e
depois
refletem
com
gratidão
sobre
os
resultados,
tais
como
o
poder
de
gerar
compaixão
e
distribuí-la
imparcialmente,
a
mais
íntima
e
simpática
compreensão
dos
corações
de
seres
aflitos
(ou
de
algum
ser
ou
seres
em
particular),
ou
o
alívio
da
dor,
da
tristeza
ou
da
confusão
mental
na
mente
da
pessoa
para
a
qual
se
dirigiram
os
votos
do
adepto.
Antes
de
se
levantar,
não
se
deve
esquecer
de
realizar
o
ato
mental
de
dedicar
o
mérito
resultante
de
sua
prática
ao
bem-estar
de
todos
os
seres,
pois
esta
é
a
conclusão
essencial
de
todas
as
práticas
e
ritos
iogues.
Um
método
popular
de
usar
o
Mani
é
o
de
gerar
compaixão
para
com
todos
os
seres
do
universo,
dirigindo
a
mente
para
cada
um
dos
seis
estados
de
existência
por
sua
vez,
enquanto
se
repete
o
mantra
muito
lentamente,
talvez
21
ou
108
vezes;
em
resposta
a
OM,
raios
brancos
sobre
o
mundo
dos
devas;
a
MA,
raios
verdes
sobre
o
reino
dos
asuras
(titãs);
a
NI,
raios
amarelos
sobre
o
reino
humano;
a
PAD,
raios
azuis
sobre
o
reino
dos
animais;
a
ME,
raios
vermelhos
sobre
o
reinado
dos
pretas
(bocas
ardentes);
e
a
HUM,
raios
escuros
e
enfumaçados
sobre
os
habitantes
(criados
pela
mente)
do
inferno.
As
sílabas
são
visualizadas
como
se
fossem
evoluindo
lentamente
dentro
do
coração
do
Bodhisattva,
cada
qual
irradiando
seus
raios
na
direção
certa.
A
natural
inclinação
dos
devotos
chineses
para
contemplar
a
compaixão
sob
forma
feminina
é
compartilhada
pelos
tibetanos
que,
portanto,
contemplam
Tara,
emanação
de
Avalokiteshvara.
De
acordo
com
a
necessidade
individual,
Tara
é
representada
de
maneiras
variadas,
como
uma
figura
maternal
de
grande
beleza
ou
como
uma
linda
virgem.
O
método
de
contemplá-la
é
semelhante
ao
usado
para
outras
formas
Yidam
(formas
de
divindade
interior),
como
serão
descritas
em
outro
capítulo.
Aqui,
voltando
ao
uso
popular
dos
mantras,
vou
alistar
os
que
pertencem
às
vinte
e
uma
formas
em
que
Tara
é
invocada
pelos
que
procuram
proteção
contra
uma
ou
outra
calamidade.
São
elas:
A
Tara
Verde
(fonte
das
outras
vinte
emanações):
UM
TARE
TÜTARE
TURE
SOHA
A
Tara
Que
Evita
Desastres:
UM
BANZA
TARE
SARVA
BIGANEN
SHINDHAM
KURU
SOHA
A
Tara
Que
Evita
Calamidades
Vindas
da
Terra:
UM
TARE
TUTARE
TURE
MAMA
SARVA
LÁM
LÁM
BHAYA
SHINDHAM
KURUSOHA
A
Tara
Que
Evita
Destruição
Produzida
Pela
Água:
ÚM
TARE
TUTARE
TURE
MAMA
SARVA
BHAM
BHAM
DZALA
BHAYASHINDHAM
KURUSOHA
A
Tara
Que
Evita
a
Destruição
Produzida
Pelo
Fogo:
UM
TARE
TUTARE
TURE
MAMA
SARVA
RAM
RAM
DZALA
BHAYA
SHINDHAM
KURUSOHA
A
Tara
Que
Evita
a
Destruição
Causada
Pelo
Vento:
UM
TARE
TUTARE
MAMA
SARVA
YAM
YAM
DZALA
BHAYA
SHINDHAM
KURUSOHA
A
Tara
Que
Aumenta
a
Sabedoria:
UM
RATANA
TARE
SARVA
LOKAJANA
PITEYA
DARÁ
DARÁ
DIRI
DIRI
SHÊNG
SHÊNG
DZA
DZANJIA
NA
BU
SHÊNG
KURU
UM
A
Tara
Que
Evita
Calamidades
Vindas
do
Céu:
UM
TARE
TUTARE
TURE
MAMA
SARVA
DIK
DIK
DIKSHNA
RAKSHA
RAKSHA
KURUSOHA
A
Tara
Que
Evita
Destruição
Causada
Por
Exércitos:
UM
TARE
TUTARE
TURE
MAMA
SARVA
DIK
DIK
DIKSEHNA
RAKSHA
RAKSHA
KURU
SOHA
A
Tara
Que
Evita
Calamidades
Provindas
do
Inferno:
UM
TARE
TUTARE
TURE
MAMA
SARVA
RANDZA
DUSHEN
DRODA
SHINDAM
KURUSOHA
A
Tara
Que
Evita
Danos
Causados
Por
Ladrões:
UM
TARE
TUTARE
TURE
SARVA
DZORA
BENDA
BENDA
DRKTUM
SOHA
A
Tara
Que
Aumenta
Poder:
UM
BEMA
TARE
SENDARA
HRI
SARVA
LOKAWASHUM
KURU
HO
A
Tara
Que
Evita
Males
Causados
Por
Demônios:
UM
TARE
TUTARE
TURE
SARVA
DUSHING
BIKANEN
BHAM
PEH
SOHA
A
Tara
Que
Evita
Males
Que
Afetam
o
Gado:
UM
TARE
TÜTARE
TURE
SARVA
HAM
HAM
DUSHING
HANA
HANA
DRASAYA
PEH
SOHA
A
Tara
Que
Evita
Males
Causados
Por
Animais
Ferozes:
UM
TARE
TÜTARE
TURE
SARVA
HEH
HEH
DZALEH
DZALEH
BENDAPEHSOHA
A
Tara
Que
Evita
Efeitos
Maléficos
de
Venenos:
UM
TARE
TÜTARE
TURE
SARVA
DIKSHA
DZALA
YAHA
RAHA
RÁ
PEH
SOHA
A
Tara
Que
Vence
Demônios:
UM
GARMA
TARE
SARWA
SHATDRUM
BIGANEN
MARA
SEHNA
HA
HA
HEH
HEH
HO
HO
HUNG
HUNG
BINDA
BINDA
PEH
A
Tara
Que
Cura
Doenças:
UM
TARE
TÜTARE
TURE
SARVA
DZARA
SARVA
DHUKKA
BRASHA
MANAYA
PEH
SOHA
A
Tara
Que
Confere
Longevidade:
UM
TARE
TÜTARE
TURE
BRAJAAYIUSHEI
SOHA
A
Tara
Que
Confere
Prosperidade:
UM
TARE
TÜTARE
TURE
DZAMBEH
MOHEH
DANA
METI
SHRI
SOHA
A
Tara
Que
Realiza
Pedidos:
UM
TARE
TÜTARE
TURE
SARVA
ATA
SIDDHI
SIDDHI
KURU
SOHA
Imagem
das
páginas
contendo
os
mantras
acima:
Estes
vinte
e
um
mantras
foram
transcritos
de
acordo
com
a
pronúncia
tibetana.
Os
E
finais
devem
ser
pronunciados;
por
exemplo,
TARE
é
pronunciado
como
"ta-
rey".
As
sílabas
SOHA
representam
a
palavra
sânscrita
"svaha";
PEH
representa
a
"phat"
sânscrita;
e,
é
claro,
UM
representa
"om".
Entretanto,
por
uma
razão
que
se
tornará
aparente,
a
pronúncia
correta
não
é
importante,
desde
que
sejam
evitados
erros
elementares
como
pronunciar
TARE
como
se
tivesse
uma
sílaba
só,
tal
como
na
palavra
inglesa
"tare".
A
eficácia
destes
vinte
e
um
mantras
tem
sido
comprovada
por
tanta
gente
que
não
pode
ser
desprezada
com
um
sorriso,
mas
precisei
de
algum
tempo
até
chegar
a
uma
distinção
entre
eles
e
o
abracadabra
de
nossas
histórias
de
fadas
ocidentais.
Mais
tarde,
aprendi
que
eles
são
empregados
para
agir
em
razão
de
certas
afinidades
com
certos
elementos
da
consciência,
mais
profundos
do
que
o
nível
do
pensamento
conceituai.
Ainda
assim,
conservo
dúvidas
sobre
como
operam.
Conseguirão
resultados
de
maneira
análoga
ao
esfacelamento
de
uma
vidraça,
como
tanger
uma
corda
de
alaúde
afinada
na
nota
certa
(neste
caso,
devem
estar
imbuídos
de
um
poder
não
explicável
apenas
por
tais
afinidades),
ou
agem,
não
por
circunstâncias
externas,
mas
sobre
a
pessoa
que
usa
o
mantra,
inspirando-
lhe
uma
fé
que
aumente
seu
poder
para
enfrentar
tais
circunstâncias?
Os
tibetanos
apresentam
provas
persuasivas
da
primeira
sugestão,
mas
a
segunda
é
mais
fácil
de
aceitar.
Duas
idéias
estão
sendo
debatidas
no
moderno
Ocidente:
a
(I)
de
que
todas
as
doenças
são
psicossomáticas
e
a
(II)
de
que
há
meios
psicológicos
para
reduzir
a
"tendência
para
acidentes".
Se
aceitarmos
essas
premissas,
não
é
ir
longe
demais
supor
que
um
mantra,
ao
despertar
uma
força
até
então
insuspeitada
dentro
da
psique,
possa
modificar
a
vulnerabilidade
relativa
à
doença
ou
ao
perigo
externo.
Entretanto,
essa
maneira
relativamente
científica
de
considerar
este
assunto
deixa
fora
de
estudo
grande
número
de
efeitos
espetaculares
reivindicados
pela
ioga
mântrica,
tais
como
a
possibilidade
de
causar
ou
de
evitar
chuvas
de
pedra!
Alguma
especulação
sobre
esse
extraordinário
aspecto
dos
mantras
será
encontrada
no
último
capítulo;
não
que
seja
de
grande
importância;
tais
maravilhas
são
julgadas
pelos
lamas
como
de
significado
trivial,
comparadas
com
o
uso
dos
mantras
que
são
dedicados
ao
alcance
da
suprema
realização
humana,
que
é
a
Luz.
À
medida
que
aumentava
meu
interesse
pela
verdadeira
finalidade
dos
mantras,
também
diminuía
minha
crença
em
suas
maravilhas
exteriores
—
mas
devo
confessar
que
tal
crença
nunca
ficou
adormecida!
Meu
primeiro
encontro
com
os
lamas
Nyingmapa
aconteceu
em
Sikkim,
terra
de
vales
verdes
e
alcantilados,
aninhados
abaixo
dos
lindos
campos
de
neve
de
Kanchenjunga.
Diferentes
do
Tibete,
ali
não
há
grandes
mosteiros,
mas
eremitérios
que
consistem
em
pequenos
templos
cercados
pelos
chalés
de
madeira
dos
lamas,
que
podem
ser
monges
ou
leigos
casados.
Se
eu
não
tivesse
um
conhecimento
anterior
da
Vajrayana,
poderia
facilmente
partilhar
da
errada
concepção,
perpetuada
pelos
viajantes
ocidentais
que
deixam
a
região
do
Himalaia,
de
que
existe
aqui
uma
forma
de
budismo
tão
profundamente
incrustada
de
magia
e
demonologia
que
mal
pode
ser
reconhecida
como
manifestação
do
Dharma
Sagrado.
Os
interiores
bastante
sombrios
dos
pequenos
templos
contêm
algumas
representações
dos
Budas
e
Bodhisattvas
com
a
expressão
serena,
familiar
a
todos
os
budistas,
olhos
semicerrados,
lábios
entreabertos
por
sorrisos
que
indicam
felicidade
interior;
mas
há
muito
mais
representações
de
seres
demoníacos,
com
chifres
cruéis
e
garras,
línguas
pendentes
e
olhos
faiscantes,
mãos
inumeráveis
segurando
horríveis
panóplias
de
armas,
exibindo
temíveis
objetos
como
cabeças
de
esqueletos
viradas
para
cima,
cheias
de
sangue
fresco.
Adornadas
com
colares
de
ossos
ou
cabeças
cortadas,
elas
se
ostentam
sobre
montes
de
cadáveres,
tanto
animais
quanto
humanos,
ou
de
corpos
recentemente
estripados
que
se
retorcem!
O
que
parece
ter
escapado
aos
olhos
de
muitos
escritores
que
obscurecem
o
assunto
da
"depravação
religiosa
dos
tibetanos",
foram
as
expressões
e
atitudes
dos
lamas
—
homens
piedosos,
longe
de
serem
desgraçados,
perdidos
em
horríveis
fantasias
de
luxúria,
crueldade
e
medo,
sempre
exibindo
aparência
atraente;
bondosos,
generosos,
facilmente
levados
ao
riso,
nada
têm
da
rígida
solenidade
nem
do
premeditado
coleguismo
tantas
vezes
encontrados
nos
sacerdotes
de
outros
países;
e
seus
olhos
refletem
doçura
e
sabedoria,
nascidas
de
longa
comunhão
com
a
paz
interior.
Vendo-os
desta
maneira,
pus
de
lado
as
dúvidas
remanescentes,
e
aceitando
de
boa
fé
o
que
me
intrigava
ou
entristecia,
deixei
que
meus
lamas
me
orientassem
como
quisessem.
Isso
foi
bom,
pois
os
lamas
que
encontrei
em
Sikkim,
e
os
outros
com
os
quais
estudei
depois
em
Kalimpong
e
noutros
lugares,
possuíam
uma
riqueza
de
dons
para
oferecer
—
tesouros
de
vida,
tesouros
da
mente.
Se
fiz
má
aplicação
do
conhecimento
sagrado
que
me
transmitiram,
com
tanto
trabalho,
a
culpa
não
terá
sido
deles.
Se
eu
tivesse
ido
procurar
esses
lamas
Nyingmapa
pronto
a
aceitar
seu
ensinamento
apenas
em
meus
próprios
termos,
ou
em
termos
do
racionalismo
em
mim
implantado
na
escola,
se
eu
tivesse
má
vontade
em
dar
crédito
aos
assuntos
não
apoiados
pelo
que
eu
considerava
prova
científica,
tivesse
eu
insistido
em
fixar-me
numa
direção
estritamente
lógica,
suponho
que
nada
teria
aprendido.
Os
adeptos
Vajrayana,
dedicados
à
percepção
em
suas
próprias
mentes
da
verdade
absoluta,
empregam
realmente
métodos
que
mais
parecem
mágica
do
que
ciência,
acreditando
que
o
imaginado,
e
portanto
nascido
da
mente,
não
é
menos
real
do
que
o
mundo
da
matéria
—
também
este
criado
pela
mente.
A
princípio
tive
dúvidas
e
reservas,
mas
chego
hoje
a
concluir
que,
apesar
de
aquilo
que
os
Mayanistas
denominam
verdade
relativa
(isto
é,
"verdade
factual"
a
respeito
do
que
chamamos
"o
mundo
real")
ser
a
província
da
ciência
e
da
lógica,
é
função
de
uma
doutrina
espiritual
indicar
a
verdade
absoluta,
a
qual,
pertencendo
ao
não-duplo,
ao
indivisível,
ao
incomensurável,
pode
ser
experimentado
pela
intuição,
mas
nunca
entendido
pelo
pensamento
conceituai
—
vem
daí
a
confiança
dos
iogues
nas
imagens
vividas,
na
contemplação
do
aparentemente
"faz
de
conta";
este
precisa
vestir
o
intangível
com
formas
e
cores,
de
que
a
mente
possa
apoderar-se
enquanto
luta
para
se
libertar
dos
sulcos
mentais
produzidos
pela
sua
aplicação
exclusiva
ao
tangível.
Deste
modo,
a
imaginação
se
torna
um
instrumento
mais
precioso
do
que
o
pensamento.
Ultrapassando
o
ensinamento
doutrinário,
a
Vajrayana
confere
ênfase
à
experiência
intuitiva
direta.
Apesar
de
ser
uma
forma
especializada
em
contemplação,
seus
adeptos
penetram
mais
fundo
do
que
as
chamadas
leis
imutáveis
que
governam
o
ambiente
externo.
Há
cientistas,
assim
como
místicos,
que
reconhecem
a
validez
puramente
relativa
dessas
leis
—
como
Einstein
fez.
Talvez
a
própria
ciência
estabeleça
algum
dia
ou
pelo
menos
corrobore
com
a
necessidade
de
uma
notável
profundeza
de
percepção
mística
por
parte
dos
que
desejam
desvendar
a
face
da
realidade.
Para
a
maioria
dos
ocidentais,
a
percepção
mística,
como
meio
para
atingir
a
verdade,
é
um
conceito
tão
pouco
familiar
que
podemos
ser
perdoados
por
acharmos
totalmente
bizarro
o
processo
usado
para
alcançá-la.
Outra
razão
para
que
alguns
viajantes
ocidentais
inteligentes
ficassem
inclinados
a
considerar
a
Vajrayana
uma
mixórdia
de
superstições
é
o
fato
de
ela
conter
tantos
paralelos
semelhantes
ao
folclore
que
por
toda
parte
precedeu
o
conhecimento
científico.
Por
isso
ela
não
parece
outra
coisa
senão
a
sobrevivência
da
antiga
ignorância;
mas,
tal
como
bem
sabem
os
discípulos
de
C.
G.
Jung,
a
imaginação
contida
no
folclore
possui
imenso
significado
psicológico;
os
que
se
recusam
a
aceitá-lo,
ou
que
o
desprezam,
sofrem
perda
irreparável.
Apesar
de
meus
lamas
se
preocuparem
mais
com
os
efeitos
subjetivos
dos
mantras
sobre
a
mente
dos
adeptos
do
que
com
a
realização
de
milagres
pela
ajuda
do
poder
mântrico,
eles
nunca
pareciam
duvidar
desta
última
possibilidade,
por
mais
que
desencorajassem
infrutíferas
curiosidades
sobre
o
assunto.
Num
momento
confirmavam
que
tais
fatos
se
realizavam
com
freqüência;
noutro
me
repreendiam
por
pedir
que
me
permitissem
presenciar
um
desses
milagres.
Não
sei
se
acabei
por
pensar
que
aquela
relutância
em
dar
uma
demonstração,
ainda
que
mínima,
devia-se
à
falta
de
confiança
em
seus
próprios
poderes.
Antes
que
uma
total
descrença
se
cristalizasse
em
minha
mente,
dei
com
algo
que
me
impressionou
como
sendo
pelo
menos
a
corroboração
parcial
do
poder
dos
mantras
em
obter
resultados
objetivos.
Por
sorte,
descobri
que
o
controle
mântrico
dos
sonhos
é
possível.
Pode-se
argumentar
que
o
que
ocorre
nos
sonhos
é
inteiramente
subjetivo,
pois
o
drama
todo
se
passa
na
mente
de
quem
sonha;
no
entanto,
há
uma
espécie
de
objetividade
participante,
porque
os
sonhos
não
podem
ser,
normalmente,
controlados
pela
consciência,
e
seu
conteúdo
sem
dúvida
varia
segundo
os
desejos
de
quem
sonha.
Para
tornar
o
assunto
mais
claro,
devo
antecipar
um
assunto
que
na
verdade
pertence
ao
próximo
capítulo,
ou
seja,
o
Yidam,
a
deidade
interior.
As
iogas
relativas
ao
Yidam
são
baseadas
num
princípio
que
pode
ser
expresso
assim:
Olhe
para
dentro!
Nenhum
Buda,
Bodhisattva
ou
deidade,
nenhuma
força
divina,
elevada
ou
inferior,
pode
ajudá-lo
a
alcançar
a
Luz,
se
você
partir
de
fora.
A
Mente
é
Rainha.
A
sua
mente
constitui
a
única
fonte
da
sabedoria
e
do
poder
iogue.
Portanto,
conheça
sua
mente,
reconhecendo
nela
tudo
o
que
é
sagrado
e
digno
da
mais
alta
reverência.
Pois
a
sua
mente
também
é
a
Mente,
a
própria
substância
do
ilimitado,
o
não-duplo,
o
próprio
Absoluto!
Infelizmente,
a
vitória
no
conhecer
a
própria
mente
é
tarefa
mais
penosa
que
se
pode
imaginar.
Portanto,
em
conjunto
com
a
sabedoria
devem
estar
os
meios.
Todo
o
Simbolismo
do
grande
sistema
Vajrayana
surgiu
destes
dois:
a
sabedoria,
como
finalidade;
os
dois
reunidos
como
Caminho.
Na
verdade,
o
ensinamento
de
Buda
conduz
à
Luz
mas
não
antes
que
seja
abandonado,
deixando
que
a
sabedoria
aja
no
interior.
Uma
importante
aplicação
iogue
deste
princípio
consiste
em
visualizar
dentro
de
si
mesmo
uma
deidade,
personificando
um
aspecto
da
realidade
que
seja
possível
descobrir
por
baixo
das
camadas
do
erro
nascidas
no
ego.
Essa
deidade
é
apropriada
para
as
necessidades
do
discípulo;
ela
personifica
a
potencialidade
divina
de
que
é
dotada
toda
criatura,
a
essência
encontrada
no
íntimo
de
todo
indivíduo,
enquanto
ainda
transcende
todos
os
laços
individuais
do
seu
não-duplo,
infinito,
eterno.
O
Yidam
que
me
foi
designado
foi
a
Tara
Verde;
o
rito
para
invocá-la
envolvia
a
repetição
_muito
freqüente
do
seu
mantra,
de
modo
que
OM
TARE
TÜTÃRE
TURE
SWÃHÃ
voltava-me
sempre
à
mente,
qualquer
que
fosse
o
objeto
de
interesse
para
a
minha
atenção.
Eu
ainda
não
havia
alcançado
o
ponto
em
que
o
mantra
evolui
espontaneamente,
mas
havia
chegado
bastante
perto
para
que
ele
me
acorresse
de
súbito
à
mente
e
aos
lábios
em
momentos
de
crise.
Desde
a
infância
tenho
pesadelos
periódicos
durante
os
quais
posso
ser
ameaçado
por
implacáveis
inimigos,
ou
me
agacho,
enquanto
edifícios
à
minha
volta
caem
em
chamas
sob
uma
saraivada
de
bombas.
Vejo
violentos
jatos
de
fogo
serem
arremessados,
enquanto
o
solo,
em
todas
as
direções,
estremece
e
desaba.
Às
vezes,
vejo-me
escoltado
para
um
local
de
execução,
tomado
por
pensamentos
fúnebres,
como
dar
um
último
adeus
ao
sol
nascente,
preocupando-me
com
a
idéia
de
como
meus
filhos
suportarão
a
vergonha
de
ter
um
pai
executado,
ou
como
minha
filha
caçula
conseguirá
viver
sem
mim.
Algumas
vezes,
sou
perseguido
por
serpentes
ou
agarrado
por
vampiros.
Esses
pesadelos
estão
sempre
cheios
de
detalhes
horrivelmente
realísticos,
e
minhas
emoções
são
as
de
um
homem
realmente
envolvido
em
tais
situações.
Esses
sonhos
ainda
me
afligem
de
vez
em
quando,
mas
perderam
muito
de
seu
poder
aterrorizador
porque,
certa
noite,
descobri
que
uma
rápida
emissão
do
mantra
de
Tara
interrompia
de
imediato
qualquer
perigo
ameaçador.
Raramente
acordo
nesse
ponto,
mas
a
circunstância
ameaçadora
é
afastada,
e
o
sonho
toma
uma
direção
agradável,
durante
a
qual
vejo
uma
ilha
montanhosa
que
se
ergue
no
meio
de
um
mar
coberto
de
espuma
—
a
Potala
de
Tara
no
Oceano
do
Sul
—
ou
alguma
outra
cena
também
deliciosa,
na
qual
as
cores
são
infinitamente
mais
bonitas
do
que
outra
coisa
qualquer
que
eu
já
tenha
visto
quando
em
vigília.
Ocasionalmente,
a
forma
difere.
Não
faz
muito
tempo,
sonhei
que
tinha
sido
levado
a
um
lugar
de
confinamento
—
onde
a
única
saída
era
por
uma
porta
bem
vigiada.
Não
sei
como,
eu
sabia
que
havia
sido
injustamente
levado
para
uma
casa
de
doentes
mentais
—
um
cadafalso
pareceria
menos
deplorável!
Os
atendentes,
era
óbvio,
tinham
um
prazer
sádico
diante
de
meus
frenéticos
apelos
para
ser
liberado.
Como
sempre,
o
mantra
de
Yidam
não
surgiu
em
minha
mente
senão
quando
cheguei
ao
ponto
de
total
desespero.
Tal
lembrança
me
trouxe
um
momento
de
grande
alegria;
mas,
dessa
vez,
antes
que
eu
tivesse
tempo
de
pronunciá-lo,
um
de
meus
irônicos
captores
o
pronunciou,
ele
mesmo,
acrescentando
com
um
sorriso:
"0
que
está
esperando?
Vamos,
apele
para
seu
precioso
Yidam,
se
quer
perder
tempo
e
saliva."
Fiquei
apavorado!
Nunca
havia
sentido
tal
desalento.
Quase
abandonei
meu
Yidam,
quase!
Mal
ousando
esperar,
pronunciei
o
mantra.
Apesar
de
o
efeito
imediato
ter
sido
simplesmente
o
de
excitar
uma
ironia
que
dominava
meu
mais
leve
fio
de
esperança,
dentro
de
instantes
eu
passava
através
da
janela
sem
ser
impedido
por
suas
grades!
Alguns
anos
antes
de
ser
perseguido
por
este
sonho,
eu
tinha
feito
outra
descoberta
que
me
convencera
da
eficiência
do
meu
mantra
Yidam.
Um
amigo,
interessado
na
aparente
similaridade
entre
a
experiência
iogue
e
os
estados
provocados
por
alucinógenos,
persuadiu-me
a
experimentar
mescalina.
O
efeito
da
droga
sobre
mim
foi
terrível
—
de
tal
modo
que
duvido
tenha
alguém
jamais
experimentado
pior
"Viagem"
que
a
minha!
Bem
consciente
do
que
me
cercava
e
ainda
capaz
de
falar
durante
os
estágios
iniciais,
comer
e
beber,
passei
por
uma
dilacerante
desintegração
acompanhada
por
um
tormento
mental
quase
intolerável.
Eu
teria
dado
tudo
no
mundo
para
encontrar
um
alívio
imediato,
mas
era
feriado
e
eu
percorreria
toda
a
cidade
de
Bangkok
sem
achar
um
médico
que
me
tratasse
contra
a
mordida
de
um
cão
hidrófobo,
e
menos
ainda
para
livrar
um
tolo
das
conseqüências
de
sua
tolice
—
ou
foi
isso
o
que
pensei
na
ocasião
sendo
provavelmente
uma
alucinação.
Durante
horas
a
agonia
continuou,
intensificando-se
em
vez
de
diminuir.
Desejei
morrer
literalmente!
Afinal,
num
espírito
de
total
desprendimento,
apelei
com
humildade
para
meu
Yidam,
usando,
é
claro,
o
seu
mantra.
Num
instante;
a
situação
foi
transformada!
O
horror
cedeu
lugar
à
beatitude,
no
mesmo
grau
de
intensidade!
Vou
relatar
mais
uma
experiência
de
qualidade
diferente,
mas
o
mantra
de
meu
Yidam
fez
de
novo
a
sua
parte.
Em
si
mesmo,
o
incidente
seria
trivial
demais
para
ser
digno
de
relato,
se
não
fosse
porque,
pela
primeira
vez,
o
mantra
produziu
um
efeito
inteiramente
externo
para
mim.
Se
alguém
se
gabar
do
poder
iogue,
não
será
apenas
um
ímpio,
mas
também
encontrará
maneira
segura
de
perdê-lo;
no
entanto,
neste
caso,
não
existe
nenhuma
gabolice,
pois
o
resultado,
não
sendo
intencional,
não
reflete
nenhuma
capacidade
especial
de
minha
parte,
mas
só
o
poder
do
próprio
mantra.
Eu
tinha
ido
passar
alguns
dias
com
um
amigo
que
possuía
em
seu
apartamento
de
Hong
Kong
uma
antiga
e
bela
estátua
de
Tara
Verde.
Antes
de
me
deitar,
pedi
incenso
e
uma
tigela
de
água
para
usar
num
breve
ritual
que
um
de
meus
lamas
me
havia
ordenado
realizar
todos
os
dias
de
minha
vida,
sem
falta.
Meu
amigo,
que
eu
ficara
conhecendo
na
Floresta
de
Reclusos
quando
ainda
éramos
ambos
muito
jovens,
era
erudito,
estudioso
do
budismo,
mas
muito
conhecedor
da
Vajrayana.
Por
curiosidade,
ele
perguntou
se
podia
estar
presente
enquanto
eu
realizasse
o
ritual,
com
o
que
concordei
de
boa
vontade;
portanto,
ambos
sentamos
em
almofadas,
lado
a
lado,
diante
do
relicário
onde
ele
havia
colocado
a
estátua
da
Tara
Verde.
Como
de
costume,
acendi
varetas
de
incenso
e
depois
iniciei
o
que
deveria
ser
unicamente
a
transformação
mental
da
tigela
de
água
no
oceano
do
líquido
que
simboliza
a
sabedoria.
Que
eu
saiba,
nada
inesperado
ocorreu;
mas
quando
nos
levantamos
de
nossas
inclinações
finais,
meu
amigo
—
sem
muita
surpresa
—
comentou
serenamente
que,
durante
minha
recitação
mântrica,
a
água
da
tigela
havia
ficado
verde
—
a
cor
de
Tara!
0
mantra
nunca
tivera
tal
efeito
até
então,
nem
existia
a
intenção
de
que
houvesse
qualquer
transformação
física
da
água.
Sem
dúvida,
o
fenômeno
resultou
da
conjunção
do
poder
mântrico
e
do
que
residia
na
antiga
estátua.
Como
meus
pensamentos
estavam
voltados
para
meu
íntimo,
eu
não
ficara
olhando
a
água
da
tigela
e
não
posso
dizer
se
na
verdade
ela
ficara
verde,
ou
se
isso
havia
acontecido
apenas
na
mente
de
meu
amigo;
em
qualquer
caso,
o
efeito
foi
externo
na
medida
em
que
o
mantra
que
pronunciei
causara
algo
fora
de
mim.
O
incidente
teve
certa
influência
sobre
minha
capacidade
de
crer
em
histórias
muito
mais
espetaculares
a
respeito
de
mantras;
apesar
de
pouco
importante,
foi
da
mesma
qualidade
daqueles
acontecimentos
espetaculares
nos
quais
eu
tivera
tanta
dificuldade
em
acreditar.
Capítulo
4
A
DEIDADE
INTERIOR
As
recordações
de
cenas
que
me
marcaram,durante
o
desenvolvimento
gradual
de
minha
percepção
de
ioga
não
são
apenas
reuniões
em
templos
grandes
ou
pequenos.
Como
era
de
esperar,
algumas
percepções
preciosas
surgiram
durante
as
horas
que
passei
em
meu
relicário
aqui
em
Bangkok.
Recordo
particularmente
minha
alegria
quando,
poucos
meses
depois
de
começar
a
praticar
ioga
contemplativa,
pela
primeira
vez
tudo
aconteceu
de
modo
correto,
com
certeza
porque
eu
havia
aprendido
a
fazer
o
que
devia,
sem
esforço.
Eu
estava
sentado
diante
do
meu
altar
particular,
onde
tremulavam
velas
em
duas
lamparinas
tibetanas
de
prata,
o
incenso
ardia
num
turíbulo
oblongo
com
a
perfuração
desenhada
na
forma
do
mantra
OM
MANI
PADME
HUM,
de
modo
que
a
fumaça
se
erguia
na
configuração
de
cada
uma
daquelas
sílabas,
à
medida
que,
por
sua
vez,
as
varetas
eram
queimadas.
Não
havia
tormas,
pois
nunca
aprendi
a
fazê-las;
havia
oferendas
de
símbolos
de
substâncias
como
água
pura,
grãos,
flores
e
frutas,
colocadas
em
pequenas
tigelas
de
prata.
Ainda
que
nenhum
desses
objetos
fosse
essencial
à
ioga,
era
agradável
tê-los;
os
relicários
devem
ser
arrumados
para
ficarem
tão
limpos
e
atraentes
quanto
possível.
Atrás
do
altar,
pendia
um
thanka
representando
a
Tara
Verde,
o
Yidam
que
eu
havia
escolhido,
encarnação
do
"Buda
no
meu
coração".
Com
suavidade,
recitei
seu
mantra,vendo
mentalmente
a
figura
da
Tara
viva
com
o
bija-mantra
TAM
brilhando
no
centro
do
seu
coração.
Em
volta
dele
giravam
as
sílabas
OM
TARE
TÜTARE
TURE
SWAHA,
uma
fita
brilhante
de
fogo
verde-claro,
e
seu
movimento
destilava
um
néctar
branco
que
passava
pelo
alto
de
minha
cabeça,
penetrando-a
e
arrastando
impurezas
para
fora,
na
forma
de
uma
fumaça
negra;
transformando
meu
corpo
num
vaso
de
cristal
transbordante
de
elixir
mais
branco
do
que
a
neve.
Dentro
em
pouco,
as
sílabas
resplandecentes
se
anularam
dentro
do
TAM,
o
TAM
se
dissolveu
e
nada
ficou
a
não
ser
a
entrada
numa
consciência
sem
objetivo.
A
contemplação
da
deidade
interior,
personificação
de
nossa
divindade
inata,
forma
a
verdadeira
fundação
da
ioga
mântrica
dirigida
para
a
rápida
obtenção
da
Iluminação.
A
maneira
de
evocar
essa
deidade
permaneceu
em
segredo
durante
muito
tempo,
e
ainda
é
ensinada
com
circunspecção.
Mesmo
agora,
a
iniciação
quase
não
pode
ser
dispensada;
além
de
exigir
instrução
correta,
ela
confere
mais
poder
—
transmissão
da
virtude
iogue
do
lama
e
de
toda
a
linha
de
seus
predecessores,
que
se
estende,
no
caso
dos
Nyingmapas
e
Kargyupas,
até
o
Precioso
Guru
Padma
Sambhava
e
até
o
próprio
Shakyamuni
Buda.
Na
Europa
e
na
América
a
iniciação
já
não
é
de
tão
difícil
obtenção,
agora
que
se
estabeleceram
lá
alguns
lamas
refugiados.
As
iniciações
também
servem
a
outro
propósito:
evitar
resultados
maléficos
devido
à
conduta
imprópria
nos
rituais
iogues.
Como
outras
forças
poderosas,
os
mantras
iogues
podem
ser
usados
para
construir
ou
para
destruir.
Sua
função
destruidora
é
dirigida
exatamente
para
a
obstrução
interior
à
Iluminação,
à
carga
do
karma
nesta
vida
e
nas
anteriores,
mas
os
mantras
podem
ser
inadvertidamente
mal-
empregados,
com
perigosas
conseqüências,
e
já
houve
iogues
que
abusaram
deliberadamente
de
seu
conhecimento
para
fins
perversos.
Por
isso,
todas
as
seitas
esotéricas
budistas
—
a
indo-tibetana
Vajrayana,
a
japonesa
Shingon
e,
enquanto
existiu,
a
chinesa
Mi
Tsung
—
têm
confinado
a
instrução
mântrica
a
iniciados.
Até
hoje,
os
métodos
para
empregar
mantras
importantes
são
preservados
dos
não-iniciados
e,
apesar
de
outros,
como
OM
Mani
PADME
HUM,
serem
muito
usados,
são
formalmente
comunicados
só
depois
de
se
darem
dois
passos
—
primeiro,
um
pequeno
wang
(aumento
de
poder);
segundo,
um
loong
ou
transmissão
oral
de
palavras
que
devem
ser
ditas
pelo
lama
ao
ouvido
do
discípulo.
O
fato
de
as
solicitações
para
iniciação
aumentarem
consideravelmente
e
de
a
permissão
para
escrever
sobre
assuntos
iogues
já
não
ser
de
difícil
obtenção
é
em
grande
parte
devido
à
ocupação
do
Tibete
pela
China,
pois
a
morte
ou
o
exílio
de
tantos
lamas
despertou
preocupação
a
respeito
da
continuidade
da
transmissão
do
conhecimento
sagrado.
Outra
razão
é
que
os
lamas,
movidos
por
um
espírito
de
compaixão,
concordam
agora
com
as
necessidades
de
discípulos
estrangeiros,
que
raramente
podem
permanecer
junto
de
um
lama
o
bastante
para
obter
sua
confiança
e
aprovação,
à
maneira
antiga.
É
uma
sorte
que
o
deliberado
abuso
dos
mantras
por
adeptos
ocidentais
seja
pouco
provável.
Em
primeiro
lugar,
não
é
fácil
adquirir
as
técnicas
necessárias
para
produzir
resultados
maléficos;
em
segundo
lugar,
os
que
não
têm
reverência
pelos
mantras
pouco
se
importarão
com
eles,
ao
passo
que
os
que
têm
reverência
estão
a
par
dos
perigos
do
abuso.
A
ioga
mântrica
faz
parte
de
uma
tradição
que
reconhece
que
todas
as
atividades
do
corpo,
da
fala
e
da
mente,
são
boas
e
más,
produzem
conseqüências
às
quais
o
autor
não
tem
possibilidade
de
fugir.
0
uso
impróprio
do
conhecimento
iogue
traz
a
retribuição
em
seu
lastro.
A
carga
kármica
de
um
adepto
que
empregue
os
mantras
para
levar
um
inimigo
à
destruição
é
duplamente
pesada:
ao
pecado
de
tirar
a
vida
é
acrescentado
o
de
profanação
do
conhecimento
sagrado.
A
biografia
de
Milarepa
relata
quão
duramente
foi
punido
pelo
mestre
Marpa
o
poeta
que
profanou
o
conhecimento
mântrico,
quando,
sendo
jovem,
ele
o
tinha
usado
para
destruir
os
perseguidores
de
sua
família.
Antes
de
lhe
conceder
sequer
uma
migalha
de
ensinamento,
Marpa
fez
o
moço
sofrer
anos
de
amarga
servidão,
exigindo
que
ele
construísse
casas
e
mais
casas
sobre
distantes
cumes
de
morro,
com
pedras
e
argila
trazidas
de
longe
e
ordenando
depois
que
ele
destruísse
imediatamente
as
casas
e
levasse
de
volta
a
argila
e
as
pedras
para
seu
lugar
de
origem.
Com
dor
nos
músculos,
nos
membros
e
com
os
ombros
cobertos
de
esfoladuras,
o
infeliz
moço
obedecia.
Marpa,
é
claro,
exercia
sua
compaixão;
causar
a
Milarepa
um
amargo
sofrimento
na
vida
presente
era
a
maneira
mais
adequada
de
reduzir
a
carga
kármica
resultante
do
seu
chocante
abuso
de
poderes
obtidos
através
da
ioga.
Eu
não
poderia
descrever
o
pernicioso
uso
dos
mantras
mesmo
que,
perversamente,
desejasse
fazê-lo,
pois
meus
bondosos
mestres
nem
sonharam
em
me
transmitir
tal
conhecimento.
O
que
mais
se
deve
temer
é
o
mau
uso
não-
proposital,
razão
importante
para
adquirir
a
instrução
cuidadosa
que
se
segue
à
iniciação.
O
que
distingue
a
maneira
mística
iogue
da
de
outras
religiões
é
a
admissão
de
que
o
Esclarecimento-Libertação-
Salvação
provém
do
nosso
próprio
íntimo..
Aí
está
a
chave
do
mais
elevado
conhecimento.
É
com
isto
em
mente
que
se
deve
procurar
o
verdadeiro
sentido
dos
mantras
e
de
todos
os
outros
auxílios
para
o
progresso
iogue.
Em
termos
gerais,
há
dois
conceitos
diferentes
desta
verdade.
Enquanto
os
místicos
cristãos
e
muçulmanos,
compreendendo
a
experiência
mística
à
luz
dos
seus
dogmas,
concebem
como
obter
a
união
com
Deus,
os
budistas
e
taoístas
concebem
como
realizar
o
Nirvana
ou
o
Tao.
As
diferentes
maneiras
para
dominar
a
finalidade
não
são
de
grande
importância,
mas
existe
uma
profunda
diferença
entre
obter
e
realizar:
o
primeiro
verbo
sugere
uma
separação
entre
o
devoto
e
sua
finalidade,
que
deve
ser
superada;
o
segundo
implica
numa
união
que
nunca
cessou
de
existir,
mesmo
que,
em
meio
às
ilusões
nascidas
do
ego,
não
se
perceba
quando
acontece
a
realização.
Ainda
assim,
a
verdadeira
experiência,
quer
se
chame
obtenção
ou
realização,
não
difere,
pois
é
produto
da
intuição
direta
da
Verdade
Suprema.
Budistas
e
taoístas
gozam
da
vantagem
de
não
haver
conflito
entre
os
que
aderem
aos
caminhos
místico
ou
não-
místico.
Na
teoria,
pelo
menos,
todo
budismo
é
místico,
pois,
não
reconhecendo
um
criador
onipotente,
ele
ensina
que
não
existe
a
quem
agradar,
ofender,
aplacar
e
que,
por
conseguinte,
toda
realização
deve
se
processar
dentro
do
próprio
íntimo.
A
Escola
Mahayana
de
Budismo,
da
qual
a
Vajrayana
faz
parte,
vai
mais
longe,
proclamando
que
o
universo
inteiro
resulta
do
jogo
da
Mente.
A
Mente
é
a
única
realidade
e
a
aparente
individualidade
de
nossas
mentes
finitas
resulta
da
ignorância
de
nossa
verdadeira
natureza,
que
nasce
de
uma
ilusão
primordial.
Essa
concepção
do
universo
é
compartilhada
por
certas
seitas
hindus,
que
usam
uma
espécie
diferente
de
ioga
mântrica;
mas,
como
não
fui
iniciado
em
nenhuma
delas,
não
posso
descrever
sua
ioga
por
conhecimento
direto,
de
modo
que
achei
melhor
não
tentar
essa
descrição.
Místicos
consumados,
apesar
das
diferenças
de
terminologia,
reconhecem
que
a
experiência
da
união
mística
é
a
mesma
para
todos.
Ao
se
tornarem
consumados,
eles
se
elevaram
acima
de
dogmas
conflitantes,
do
preconceito
e
da
controvérsia.
Por
outro
lado,
os
que
ainda
não
provaram
a
alegria
mística
podem
ficar
intrigados
em
relação
ao
que
motiva
uma
aproximação
interior
única
para
a
sabedoria.
Muitos
contestam
a
necessidade
de
qualquer
forma
de
atividade
espiritual,
além
da
observância
de
um
razoável
código
de
moral.
Alguns
chegam
a
destacar
até
isso.
No
caso
de
alguns
raros
afortunados,
a
experiência
mística
surge
por
si
mesma,
conferindo
tanta
beatitude
que
essas
questões
parecem
ridículas.
A
seguir,
na
boa
sorte
vêm
aqueles
nos
quais
não
a
experiência,
mas
uma
grande
sede
por
ela,
surge
espontaneamente;
apesar
de
atormentados
enquanto
sua
sede
não
for
saciada,
são
confortados
por
um
pré-conhecimento
intuitivo
da
felicidade
que
podem
atingir.
Mas,
e
quanto
ao
resto
—
isto
é,
a
maioria
das
pessoas?
Não
é
preciso
muita
reflexão
para
sentir
o
quanto
a
vida
é
pouco
satisfatória,
até
que
ponto
ela
é
enfadonha,
se
não
de
todo
tristonha
ou
trágica;
o
quanto
são
fugazes
suas
satisfações,
como
são
decepcionantes
as
mais
vivas
esperanças.
Ante
essa
realidade
melancólica
e
muitas
vezes
dolorosa,
gerações
de
antepassados
nossos
procuraram
refúgio
na
piedade
e
na
crença
de
que
o
céu
proporcionaria
compensação
por
seus
sofrimentos
terrenos.
Hoje,
entretanto,
essas
simples
crenças
perderam
seu
poder
de
consolo.
Mas,
e
se
houvesse
uma
religião
acima
de
todas
as
religiões,
uma
verdade
resplandecente
e
viva,
a
inspiração
real
de
todas
as
religiões,
freqüentemente
tão
mal
compreendida
que
sua
luz
quase
não
é
vista?
Não
há
maneira
de
provar
aos
cegos
que
a
luz
existe.
É
preciso
que
eles
vençam
sua
cegueira
e
entendam
a
luz
por
si
mesmos
pois
ela
nunca
pode
ser
explicada
por
palavras.
Quanto
a
mim,
a
primeira
insinuação
de
sua
existência
me
veio
quando
fui
envolvido
pela
atmosfera
de
alegria
e
de
bondade,
própria
das
pessoas
que
passaram
suas
vidas
contemplando
o
que
existe
em
seu
íntimo,
em
vez
de
dissipar
as
forças
no
incessante
jogo
dos
fenômenos
exteriores.
Devido
à
circunstância
de
a
maioria
dos
tibetanos
estarem
imersos
numa
antiga
e
esclarecida
tradição,
encontra-se
um
número
suficiente
de
lamas
imbuídos
de
alegria,
compaixão
e
íntima
serenidade,
que
os
convencem
de
que
compartilham
de
um
segredo
infinitamente
digno
de
ser
conhecido.
É
claro
que
eles,
como
os
budistas
em
geral,
não
têm
o
monopólio
desse
segredo;
conheci
taoístas
em
cujos
rostos
transparecia
a
mesma
tranqüilidade
abençoada,
e
tenho
lido
narrativas
sobre
místicos
hindus,
sufis
e
cristãos
com
idêntica
realização.
Os
taoístas
quase
desapareceram
da
Terra,
e
os
místicos
aperfeiçoados
são
mais
raros
do
que
antes,
por
isso
é
sensato
procurar
mestres
na
região
fronteiriça
do
Himalaia,
onde
ainda
florescem
as
antigas
tradições
contemplativas.
Ao
mesmo
tempo
que
os
meios
para
a
realização
mística
não
são
de
propriedade
exclusiva
de
nenhuma
fé,
o
budismo
oferece
realmente
duas
vantagens
especiais:
refreia
a
insistência
sobre
determinadas
crenças
que
muitas
vezes
constituem
um
obstáculo
para
o
progresso
espiritual
e
fornece
toda
uma
panóplia
de
métodos
contemplativos
para
cultivar
a
intuição
da
realidade.
Minha
preferência
pessoal
pela
forma
Mahayana
de
budismo
é
enraizada
em
duas
circunstâncias:
ela
oferece
uma
larga
variedade
de
meios
apropriados
para
diferentes
temperamentos
e
níveis
de
compreensão
e,
o
que
é
ainda
mais
importante,
propõe
claramente
a
doutrina
da
Mente
como
Suprema
Realidade.
Dentro
do
conjunto
da
Mahayana,
encontrei
as
iogas
contemplativas
da
seita
Vajrayana,
particularmente
inspiradoras;
de
outro
modo
eu
teria
dificuldade
em
escrever
sobre
mantras,
pois
essa
é
a
seita
que
deve
ser
procurada
quando
se
busca
um
profundo
conhecimento
mântrico.
A
doutrina
Vajrayana
oferece
dois
preciosos
pontos
de
vista
sobre
a
verdade,
um
deles
comum
a
todas
as
seitas
Mahayanas,
o
outro
é
um
segredo
outrora
bem
guardado.
São
eles:
o
reconhecimento
da
identidade
samsara
e
do
Nirvana;
e
um
conceito
altamente
esotérico
—
"Eu
sou
o
Buda!"
Samsara
é
o
fluxo
universal
em
que
as
criaturas
são
condenadas
a
vagar
enquanto
persiste
a
ilusão,
nascida
do
ego,
sobre
a
existência
independente,
pois
nosso
mundo
é
apenas
uma
fração
infinitesimal
do
todo.
0
Nirvana
é
o
ser-
não-ser
final,
além
da
concepção
humana,
e
que
não
será
alcançado
até
que
a
última
parcela
de
ego-ilusão
não
tenha
sido
descartada.
No
entanto,
samsara
e
Nirvana
não
são
dois!
Não
se
vai
de
um
para
o
outro,
nem
há
seres
individuais
que
façam
essa
transferência;
existe
apenas
a
queda
de
uma
ilusão,
o
súbito
reconhecimento
das
coisas
como
realmente
são,
a
revelação
da
verdadeira
natureza
de
si
mesmo
e
de
todos
quanto
ainda
possam
existir.
Para
usar
uma
simples
analogia
—
uma
criança
nascida
e
criada
num
quarto
escuro
como
breu
deve
imaginar
seu
ambiente
vazio
de
cor
e
de
forma
visual;
então
aparece
a
luz
e
tudo
fica
gloriosamente
diversificado;
no
entanto,
o
quarto
é
o
mesmo,
nada
mudou,
a
não
ser
a
concepção
que
a
criança
fazia
sobre
o
seu
ambiente.
"Eu
sou
o
Buda!"
Se
Buda
significa
o
Supremo,
o
que
os
místicos
teístas
chamam
de
Deus
Pai,
vemos
que
aquilo
que
essas
tremendas
palavras
encarnam
é
a
própria
essência
da
percepção
mística.
Quem
as
compreende
percebe
que
é,
ao
mesmo
tempo,
o
adorador
e
o
adorado,
o
individual
e
o
universal,
um
ser
aparentemente
insignificante
mas,
na
verdade,
divino!
Dessa
percepção
brotam
três
obrigações:
tratar
todos
os
seres,
por
mais
que
sejam
exteriormente
repugnantes,
como
personificações
da
sagrada
essência;
reconhecer
todos
os
sons,
por
mais
que
ofendam
os
ouvidos,
como
componentes
de
sons
sagrados,
e
recordar
que
qualquer
coisa
em
todo
o
universo
não
passa
de
Nirvana,
por
mais
densas
que
sejam
as
nuvens
sombrias
da
ilusão.
Portanto,
aconteça
o
que
acontecer,
o
adepto
é
vestido
de
divindade;
com
seus
olhos
de
sabedoria,
percebe
o
que
é
sagrado
em
todos
os
seres,
em
todos
os
sons,
em
todos
os
objetos;
e
seu
coração
de
sabedoria
gera
uma
desmedida
compaixão.
A
partir
do
momento
em
que
o
aspirante
começa
a
procurar
a
liberação
de
seu
íntimo,
abandona
o
dualismo
de
adorador
e
adorado,
e
reconhece
a
identidade
do
"próprio
poder"
e
do
"poder
alheio"
como
fontes
de
inspiração
espiritual;
os
grilhões
da
consciência
do
ego
são
quebrados;
e
à
medida
que
se
dissipa
o
poder
do
ego
ilusório,
as
qualidades
de
paciência,
clemência
e
compaixão
florescem.
Ainda
assim,
grande
perigo
está
inerente
à
liberação
do
conceito
"Eu
sou
o
Buda!";
mal
compreendido,
leva
a
um
comportamento
grosseiramente
irresponsável
e
a
um
orgulho
gabola
que,
aumentando
o
ego
em
vez
de
o
diminuir,
envolve
o
aspirante
ainda
mais
no
cativeiro
da
ilusão.
Por
isso,
tal
conhecimento
era
outrora
oculto
dos
profanos;
por
isso,
os
lamas
ensinam
meios
habilidosos
para
neutralizar
esse
grande
risco.
Ninguém
deve
refletir
"Eu
sou
o
Buda"
sem
recordar
que,
no
nível
da
verdade
absoluta,
não
existe
essa
entidade,
o
"Eu"!
A
simples
aceitação
da
doutrina
de
que
a
divindade
reside
no
íntimo
é
coisa
muito
diferente
de
experimentar
intuitivamente
a
sua
verdade;
entretanto,
até
que
essa
experiência
se
manifeste,
nada
de
valor
permanente
foi
conseguido.
Para
completar
uma
viagem
a
pé,
digamos
de
Paris
a
Lhasa,
é
preciso
dar
um
passo
na
direção
sudeste;
bem,
a
viagem
começou
mas
ainda
se
está
tão
longe
de
Lhasa
como
cidadãos
que
saíram
de
suas
casas
para
comprar
pão;
mas
já
se
está
melhor
do
que
antes,
quando
a
viagem
era
considerada
apenas
como
um
plano
para
ir
a
um
lugar
qualquer.
Assim
é
com
o
aspirante.
É
porque
a
viagem
da
aceitação
até
o
conhecimento
da
verdade
é
tão
cheia
de
abismos
que
o
budismo
Vajrayana
proporciona
uma
variedade
de
meios
para
se
atingir
a
meta
tão
rapidamente
quanto
possível
à
capacidade
individual
de
cada
um.
Ambas,
a
tarefa
e
a
meta,
são
psicológicas,
pois
a
longa
estrada
começa
e
termina
dentro
do
espaço
de
um
esqueleto
humano.
Os
mantras
fazem
parte
dos
habilidosos
meios
empregados
desde
o
começo
da
viagem
e
são
usados
exatamente
até
aquele
ponto
alto
no
qual
os
"meios"
de
toda
espécie
são
abandonados.
A
ioga
mântrica
exige,
primeiro
e
acima
de
tudo,
a
adoção
de
um
Yidam,
por
cujo
intermédio
encarna-se
a
deidade
interior.
Para
os
budistas
de
algumas
outras
seitas,
sejam
seguidores
do
Zen
ou
dos
Theravadins,
isso
pode
parecer
uma
perversão
ridícula
de
uma
de
suas
crenças
mais
caras;
pois,
tradicionalmente,
os
budistas
são
ensinados
a
descartar
toda
divindade.
É
verdade
que,
no
nível
popular,
muitas
vezes
os
crentes
dirigem
petições
às
divindades
de
outras
crenças
(hindus,
taoístas
e
assim
por
diante,
segundo
as
localidades),
mas
os
benefícios
que
buscam
nada
têm
a
ver
com
o
progresso
espiritual.
(Certa
vez,
ajudei
uma
moça
presbiteriana,
infeliz
no
amor,
a
entrar
na
Walsingham
Abbey
para
acender
velas
à
Virgem;
o
que
era
importante
é
que
a
fé
que
ela
professava
—
como
o
budismo
—
não
lhe
oferecia
possibilidades
de
um
final
feliz).
Segundo
a
doutrina
budista,
como
todo
o
universo
resulta
do
exercício
da
mente,
não
pode
haver
nenhum
criador
onipotente
senão
ela;
os
deuses
são
apenas
uma
das
várias
ordens
de
seres
que,
apesar
de
talvez
possuírem
poderes
invejáveis,
têm
crescimento
e
morte,
de
acordo
com
uma
escala
de
tempo
apropriada
à
sua
natureza.
Buda
falou,
com
freqüência,
sobre
deuses
num
contexto
que
abarca
tantos
deuses
quanto
os
grãos
de
areia
que
existem
no
Ganges;
ele
ensinou
que
é
inútil
invocá-los
para
obter
progresso
espiritual,
que
depende
exclusivamente
do
esforço
individual.
Noutras
palavras,
devemos
considerar
os
deuses
como,
digamos,
panteras
e
delfins
*—
bem
reais,
mas
pertencentes
a
uma
espécie
que
pouco
tem
a
ver
com
o
homem
espiritual.
Não
devem
ser
confundidos
com
os
deuses
os
Budas
e
Bodhisattvas
do
panteão
da
Mahayana.
Nestes
está
incluído
o
Buda
histórico;
mas,
na
maior
parte,
são
personificações
de
forças
que
emanam
da
energia
sabedoria-compaixão,
gerada
pela
Mente.
Assim,
a
sabedoria
é
personificada
por
Manjushri,
a
compaixão,
por
Avalokiteshvara,
a
perfeita
atividade,
por
Vajrapani,
etc.
No
nível
popular,
são
muitas
vezes
confundidas
com
deidades
e
é
conveniente
referir-se
a
elas,
coletivamente,
por
esse
nome;
mas
são
reconhecidas
pelos
adeptos
da
ioga
como
sendo
simultaneamente
emanações
da
Mente
que
tudo
abrange
e,
em
certo
sentido,
criações
da
nossa
própria
mente.
Voltando
aos
métodos
da
ioga
mântrica,
ainda
que
para
o
leigo
se
pareçam
com
ritos
teísticos,
eles
são
na
verdade
soberbos
métodos
psicológicos
para
alcançar
uma
realização
intuitiva
direta
sobre
a
deidade,
em
nossas
mentes.
Para
dar
ênfase
à
natureza
especial
dos
objetos
de
contemplação,
muitas
vezes
eu
me
refiro
a
eles
como
"Deidades
de
meditação".
Qualquer
delas
pode
ser
usada
como
Yidam
ou
"deidade
interior"
do
adepto,
individualmente.
Há
centenas,
senão
milhares
delas,
e
estão
colocadas
numa
hierarquia
que
corresponde
à
diferenciação
crescente
da
energia
sabedoria-
compaixão,
em
progressivas
distâncias
da
Fonte.
É
vital
que
os
adeptos
aprendam
a
conhecer
que
esses
riachos
jorram
de
dentro
de
si
mesmos,
pois
sua
mente,
na
aparência
individual,
não
é
senão
a
Mente
infinita;
entretanto,
a
princípio
deve-se
encará-la
como
se
fluísse
do
exterior,
pois
então
a
Mente
é
provisoriamente
concebida
como
estando
"além
de";
em
seguida,
como
interior;
e,
afinal,
como
interior
e
exterior,
já
reconhecidas
como
idênticas.
A
Mente
e
a
sua
mente
não
são
duas!
Para
assisti-lo
nesta
realização
(que
deve
ir
muito
além
da
simples
aceitação
intelectual),
o
adepto
recebe
um
Yidam
que
personifica
uma
forma
diferente
da
energia
sabedoria-
compaixão.
Sobretudo
na
Ásia,
os
aspirantes
estão
dispostos
a
crer,
de
início,
que
seus
Yidams
são
deidades
com
existência
própria
que
devem
ser
convidadas
para
uma
vida
interior;
além
do
mais,
até
os
aspirantes
mais
avançados
são
ensinados
a
começar
visualizando
os
Yidams
como
se
fossem
externos;
e,
num
estágio
ulterior,
devem
alternar
essa
prática
com
a
visualização
dos
Yidams
como
forças
internas.
À
medida
que
os
adeptos
atingem
níveis
mais
elevados,
não
devem
abandonar
de
todo
suas
práticas
iniciais,
pois,
ao
passo
que
a
contemplação
de
uma
divindade
externa
leva
ao
erro
do
teísmo,
a
contemplação
ininterrupta
da
deidade
interior,
quando
a
compreensão
ainda
não
está
amadurecida,
pode
levar
a
resultados
deploráveis,
dando
lugar
ao
orgulho,
aumentando
assim
o
poder
do
ego.
Também,
num
certo
sentido
restrito,
o
Yidam
é
um
ser
separado
-não
realmente
separado
da
mente
do
adepto,
pois
a
Fonte
Suprema
e
o
adepto
são
um
só,
ainda
que
separados
no
sentido
de
que
o
Yidam,
sob
certos
aspectos,
pertence
ao
reino
das
aparências
no
qual
as
entidades
individuais
têm
realmente
uma
existência
transitória,
pois
a
deidade
não
representa
a
Fonte
em
si
mesma,
mas
uma
das
energias
diferenciadas
que
dela
jorram,
energias
que
se
bifurcam
e
se
redividem
à
medida
que
aumenta
a
distância
da
Fonte.
Forças
e
objetos
podem
ser
ao
mesmo
tempo
separados
e
não-separados
—
isso
é
bem
explicado
pela
doutrina
de
interpenetração
contida
no
Avatamsaka
(Hua
Yen)
Sutra,
que
estabelece
de
que
maneira
cada
objeto
no
universo
é
penetrado
por
—
e
penetra
—
qualquer
outro
objeto.
Dizer
que
Yidam
e
adepto
são
separados
é
errado
num
certo
sentido;
dizer
que
são
idênticos
é
errado
noutro
sentido;
vem
daí
a
necessidade
de
alternar
os
dois
processos.
Isso
é
análogo
a
outra
verdade
mística
profunda:
assim
como
o
universo
contém
todos
os
seres,
assim
também
cada
ser
contém
o
universo.
A
contemplação
do
Yidam
em
si
mesmo
confere
percepção
de
todo
válida,
mas
o
erro
será
evitado
se
se
acrescentar
a
percepção
que
surge
da
contemplação
do
Yidam
como
algo
exterior.
0
Yidam,
designado
para
um
aspirante
cuja
capacidade
iogue
seja
(como
a
minha)
modesta,
é
em
geral
a
encarnação
de
um
riacho
subsidiário
da
energia
sabedoria-compaixão,
tais
como
Tara
ou
dakini,
pois
esses
riachos
subsidiários
estão
mais
próximos
do
nível
da
verdade
relativa,
à
qual
pertence
a
consciência
"cotidiana",
de
modo
que
são
mais
fáceis
de
entender
do
que
energias
mais
rarefeitas,
a
menor
distância
da
Fonte.
A
ênfase
é
dada
sobre
a
prática
e
não
sobre
a
crença.
Sempre
que
a
intuição
direta
é
a
finalidade,
as
crenças
são
de
menor
importância;
portanto,
a
extensão
até
a
qual
um
aspirante
tem
consciência
da
verdadeira
natureza
da
meditação
sobre
deidades
faz
pouca
diferença
para
o
seu
progresso;
mais
tarde,
a
compreensão
brotará
por
si
mesma.
Assim
sendo,
chego
a
pensar
que
a
contemplação
iogue
que
envolve
a
invocação
do
Yidam
poderia
ser
usada
efetivamente
pelos
adeptos
de
qualquer
religião;
assim
como
as
formas
de
Yidam
visualizadas
pelos
tibetanos
são
tiradas
da
iconografia
indiana
e
Bon,
assim
também
a
iconografia
usada
pelos
cristãos
e
por
outros
pode
ser
tomada
de
empréstimo
de
uma
iconografia
que
lhes
fosse
conhecida.
Para
que
essa
inovação
se
tornasse
aceitável
às
autoridades
clericais,
os
Yidams
teriam
de
ser
representados
como
uma
ajuda
psicológica
para
a
intuição;
a
princípio,
tal
concepção
meio
limitada
sobre
a
natureza
dos
Yidams
não
teria
grande
importância;
e
quando
surgisse
a
intuição,
quaisquer
erros
de
compreensão
se
corrigiriam
por
si
mesmos.
Os
cristãos
nunca
puderam
reconciliar-se
com
práticas
espirituais
que
acarretassem
a
adoração
ritual
de
"deidades
pagãs",
mas
isso
não
seria
obstáculo.
Como
as
deidades
de
meditação
não
são
nem
mais
nem
menos
do
que
personificações
de
energias
intangíveis,
elas
podem
assumir
qualquer
forma
associada
ao
temor
sagrado
na
mente
do
adepto.
Isto,
entretanto,
é
pura
especulação;
nunca
pensei
em
consultar
lamas
ou
sacerdotes
cristãos
sobre
o
assunto.
No
entanto,
essa
sugestão
não
é
frívola;
seria
absurdo
supor
que
os
grandes
místicos
do
passado,
que
falaram
sob
a
inspiração
do
Espírito
Santo,
ou
do
Cristo
interior
e
da
união
com
o
Deus
Pai,
estivessem
falando
de
algo
fundamentalmente
diferente
do
caminho
e
da
finalidade
do
misticismo
budista.
É
na
invocação
às
deidades
de
meditação
-com
freqüência
mas
não
sempre
o
Yidam
do
adepto
—
que
os
mantras
representam
seu
melhor
papel;
todos
os
outros,
ainda
que
espetaculares,
são
puramente
secundários.
Cada
uma
dessas
deidades
tem
um
bija-mantra
de
uma
sílaba,
um
mantra-coração
composto
de
várias
sílabas,
e
algumas
vezes
também
um
mantra
mais
longo,
e
todos
eles
encarnam
a
energia
que
essa
deidade
particular
personifica.
Os
bija-mantras,
além
de
serem,
como
são,
as
sementes
que
dão
nascimento
às
"cenas
de
transformação"
na
mente
do
adepto,
e
que
formam
a
substância
das
visualizações
iogues,
são
também
associados
com
o
que
é
conhecido
em
ioga
como
os
centros
psíquicos
do
corpo
(chakras),
e
podem
ser
empregados
para
estimular
esses
centros
com
a
energia
de
que
são
dotados.
O
ensinamento
diz
que
os
bija-mantras,
em
particular,
devem
muito
de
sua
eficiência
ao
shabda
(som
sagrado),
força
misteriosa,
da
qual
falarei
no
capítulo
final;
além
do
mais,
o
Lama
Govinda
nos
informa
que
os
sons
têm
uma
qualidade
diretiva
—
para
cima
ou
para
baixo;
horizontais
ou
verticais,
etc.
mas
este
é
um
dos
vários
aspectos
dos
mantras
que
não
posso
elucidar
por
carecer
de
conhecimento
de
primeira
mão.
Na
contemplação
iogue,
a
principal
função
dos
bija-
mantras
é
inicialmente
dirigir
a
energia
personificada
pelo
Yidam
para
a
imagem
que
o
adepto
cria
em
sua
própria
mente.
Enquanto
o
mantra-coração
está
sendo
recitado,
ele
é
visualizado
como
um
círculo
de
sílabas
brilhantemente
coloridas
que
giram
em
volta
do
bija-mantra,
resplandecendo
no
centro
do
Yidam.
Às
vezes,
num
lampejo,
a
visualização
conduz
a
uma
experiência
de
união
com
a
deidade
invocada;
mas
não
antes
que
a
longa
prática
tenha,
por
assim
dizer,
enchido
os
mantras
brilhantes
com
o
próprio
sangue
do
adepto,
pois
deve
haver
o
encontro
e
a
fusão
da
energia
do
Yidam
com
a
do
adepto.
Os
mantras-coração
não
são
grupos
de
sílabas
arbitrariamente
inventados,
mas
intimamente
ligados
tanto
com
a
energia
invocada
e
com
suas
contrapartidas
na
consciência
profunda
do
adepto;
provém
daí
o
extraordinário
poder
de
despertar
a
energia
adormecida
de
sua
psique.
Quando,
num
estágio
ulterior,
a
verdadeira
natureza
da
deidade
é
revelada,
os
véus
da
ilusão
são
rasgados
e
surgem
percepções
cada
vez
mais
exaltadas.
Um
lama,
ao
escolher
o
Yidam
para
cada
discípulo
no
momento
de
sua
iniciação,
avalia
com
cuidado
suas
necessidades
especiais.
Alguns
Yidams
são
dotados
de
uma
beleza
sobre-humana;
assim,
Tara
muitas
vezes
toma
a
forma
de
uma
virgem
encantadora,
e
tanto
Padma
Sambhava
(o
Precioso
Guru
dos
Nyingmapas
e
Kargyupas)
como
Manjushri
Bodhisattva
(corporificação
da
sabedoria)
aparecem
às
vezes
com
a
beleza
da
juventude;
na
verdade,
o
Precioso
Guru
pode
até
ser
representado
por
um
garoto
bochechudo
e
de
faces
rosadas
que
mal
ultrapassou
a
primeira
idade.
Por
outro
lado,
há
Yidams
de
aspecto
feroz
que
fazem
gelar
o
coração,
alguns
com
muitas
cabeças
e
membros,
e
com
toda
espécie
de
terríveis
atributos
e
ornamentos.
Tudo
isso
nem
de
longe
se
assemelha
à
"ira
de
Deus"
mas,
pelo
contrário,
representa
os
poderes
indômitos
necessários
para
esmagar
as
paixões
arraigadas
e
as
más
tendências
com
que
o
ego
se
defende
contra
os
valorosos
esforços
para
terminar
com
sua
dissolução.
O
ensinamento
explica
que,
quando
se
morre,
quando
se
entra
no
bardo
ou
no
estado
intermediário
entre
a
morte
e
o
renascimento,
encontramos
exatamente
essas
formas-pensamento
aterradoras
que
o
iogue,
familiarizado
com
elas
durante
suas
meditações,
irá
reconhecer
como
amigas
e
aliadas,
ao
passo
que
os
ignorantes
fugirão
delas
e
assim
se
enredarão
em
renascimentos
indesejáveis.
Ao
manter-se
com
a
forma
abrangente
de
toda
a
natureza
do
Absoluto,
do
qual
todas
essas
formas
descendem,
até
a
linda
Tara
tem
sua
forma
triste
e
demoníaca
e,
inversamente,
o
horrível,
chamejante
Yamantaka
de
cabeça
de
touro,
pode
ser
personificado
como
o
amável
jovem
Manjushri;
pois
é
assim
que
se
transcende
o
dualismo.
Se
os
adeptos
se
apegassem
à
beleza
e
fugissem
do
horror,
se
procurassem
sempre
a
alegria
e
excluíssem
o
terror
de
suas
mentes,
como
lhes
seria
possível
alcançar
o
reino
da
não-dualidade?
São
necessários
não
só
"um"
mas
"ambos"
para
se
chegar
ao
"nenhum".
A
evocação
do
Yidam
requer
mais
do
que
o
exercício
de
uma
imaginação
exercitada
e
a
lembrança
dos
muitos
detalhes
significativos.
Para
que
a
forma
representada
seja
imbuída
de
vida
e
confira
seu
poder,
deve
ser
liberada
uma
energia
misteriosa,
através
da
recitação
e
visualização
dos
mantras
adequados.
Como
resultado
de
longa
prática,
os
adeptos
consumados
são
capazes
de
evocar
tais
deidades
e
mantras
instantaneamente
e
servir-se
de
seu
poder,
mesmo
quando
não
está
sendo
realizada
a
ioga
contemplativa;
mas
a
recitação
e
a
visualização
são
efetivas,
a
não
ser
que
a
deidade
invocada
seja
solicitada
para
"viver".
A
projeção
de
representações,
por
si
só,
não
tem
valor.
Entretanto,
talvez
devido
aos
mantras,
a
tarefa
é
mais
fácil
do
que
outras
formas
de
contemplação
meditativa.
Os
meditadores
experimentados
sabem
como
é
freqüente
acontecer
que
um
período
de
meditação
se
passe
em
vão,
quando
a
mente
se
comporta
mais
como
um
cervo
da
floresta
do
que
como
um
cavalo
de
batalha
bem
treinado;
os
pensamentos
recusam-se
a
se
afastar
e
se
exige
um
tremendo
esforço
para
realizar
o
que
devia
ser
feito
sem
sacrifício.
Se
algum
praticante
de
meditação
zen
ou
theravadin
cair
muitas
vezes
nesse
estado
insatisfatório,
sua
resolução
poderá
desaparecer,
seguindo-se
o
tédio
e
a
inércia.
Em
tais
casos,
os
métodos
Vajrayana
dão
prova
da
maravilhosa
maneira
de
evitar
o
fracasso.
Enquanto
alguém
recita
o
mantra
do
Yidam
e
contempla
as
sílabas
ardentes
que
giram
em
torno
de
outra
e
depois
se
amalgamam,
pode
ocorrer
uma
súbita
transformação,
como
quando
se
aperta
um
botão
e
a
luz
inunda
um
quarto
escuro;
e
então
o
adepto
é
transportado
para
um
domínio
de
consciência,
belo
em
sua
serenidade,
um
estado
de
aguda
percepção
que,
sendo
vazio
de
objeto,
é
de
inconcebível
pureza.
Os
métodos
Ch'an
(Zen)
e
Vajrayana,
na
aparência
tão
diferentes,
na
realidade
têm
muito
em
comum.
Ambos
são
conhecidos
como
métodos
que
encurtam
o
caminho,
devido
à
sua
finalidade
comum
—
o
Esclarecimento
nesta
vida
mesma.
Apesar
de
serem
diferentes
os
seus
pontos
de
partida,
assim
que
o
domínio
do
pensamento
conceitual
é
deixado
para
trás,
os
caminhos
convergem.
Que
é
Yidam
senão
a
corporificação
da
Mente
Original,
forma
usada
para
cobrir
o
inconcebível
até
o
ponto
em
que
as
formas
são
transcendidas?
Enquanto
o
Ch'an
(Zen)
com
sua
austera
simplicidade
é
idealmente
apropriado
para
certos
temperamentos,
há
aspirantes
que
consideram
que
a
cor,
o
som
e
o
movimento
inerentes
à
ioga
contemplativa
Vajrayana
aumentam
seus
poderes
de
concentração;
é
natural
que
tais
manifestações
de
forma
diferenciada
devam
ser
transcendidas
por
fim,
mas
elas
mesmas
proporcionam
o
poder
para
realizar
esse
propósito
—
deste
modo,
os
aliados
caros
ao
ego
são
usados
para
a
sua
destruição!
A
sabedoria
de
Ch'an
reside
na
sua
retirada
do
campo
de
opositores
em
guerra;
a
sabedoria
de
Vajrayana
reside
em
serem
empregadas
as
armas
dos
antagonistas
a
fim
de
pôr
em
fuga
seus
exércitos;
cada
uma
delas,
à
sua
maneira,
leva
diretamente
ao
estado
não-dualístico.
A
essência
do
método
preliminar
iogue
para
atingir
a
realização
mística
de
nossa
verdadeira
natureza
pela
evocação
da
deidade
interior
é
a
seguinte:
A
fim
de
que
a
ioga
seja
de
todo
eficiente,
o
Yidam
é
concebido
no
início
como
uma
divindade
externa,
pois
o
instinto
ilusório
que
faz
os
homens
buscarem
um
deus
exterior
não
deve
ser
violado,
mas
satisfeito,
até
que
o
aspirante
seja
levado
a
abandoná-lo.
Em
breve,
ele
alcança
a
intuição
direta
de
que
o
Yidam
reside
interiormente;
em
seguida,
ele
percebe
que
o
Yidam
é
interior;
mais
tarde,
ele
percebe
a
sua
própria
identidade
com
o
Yidam
e,
num
estágio
seguinte,
reconhece
que
o
Yidam
também
se
identifica
com
a
Fonte
Suprema.
Assim
se
descobre
que
a
separação
nos
domínios
da
forma
e
do
vácuo,
pelo
uso
de
meios
apropriados,
é
ilusória.
O
inconcebível
é
concebido
quando
é
corporificado
conceitualmente
até
o
momento
em
que
cessa
a
necessidade
de
conceitos.
Este
processo
assemelha-se
tão
intimamente
ao
faz-de-conta
infantil
que
se
fica
pensando
por
que
homens
de
intelecto
superior
se
preocupam
com
ele,
em
vez
de
começar
pelo
mais
alto
nível
de
compreensão
de
que
são
capazes.
O
ponto
importante
é
que
a
simples
compreensão
nada
vale;
a
experiência
precisa
desenvolver-se
a
um
nível
mais
profundo
do
que
o
do
intelecto;
as
técnicas
para
apressar
esse
desenvolvimento
são
mais
profundas
do
que
parecem
a
princípio.
O
simples
raciocínio
não
leva
à
experiência
perceptual
da
verdade
que,
assim
como
o
grande
contém
o
pequeno,
também
o
pequeno
contém
o
grande,
no
sentido
de
que
toda
a
extensão
disto,
e
todos
os
universos
possíveis
estão
inseridos
dentro
de
cada
crânio
humano!
O
recurso
do
faz-de-conta
é
menos
raro,
como
técnica
espiritual,
do
que
geralmente
se
pensa.
Por
exemplo,
dentro
da
congregação
das
religiões
teísticas,
apesar
de
se
considerar
que
Deus
não
tem
forma,
seus
adoradores
lhe
atribuem
alguma
forma
imaginada;
de
que
outro
modo
poderiam
imaginá-lo?
O
método
Vajrayana
simplesmente
sistematiza
uma
abordagem
que
outros
usam
instintivamente.
A
Fonte
Suprema,
incomensurável,
intangível,
isenta
de
atributos,
fica
naturalmente
além
da
concepção;
portanto,
devem
ser
empregados
meios
para
entendê-la.
A
princípio,
procura-se
compreender
uma
de
suas
emanações
intermediárias
com
características
que
se
relacionam
de
certo
modo
com
a
ausência
e
de
outro
modo
com
o
reino
da
forma.
É
nisso
que
reside
o
segredo
do
Yidam
—
uma
forma
temporariamente
dada
à
ausência
de
forma,
e
que
tem
atributos
sobre
os
quais
a
mente
pode
apoiar-se,
mas
não
tão
sólida
que
a
ausência
de
sua
natureza
se
perca
de
vista,
a
não
ser
por
neófitos
que
têm
muito
a
aprender.
A
Vajrayana
ultrapassa
as
religiões
teísticas
em
sua
aspiração
a
um
grau
de
perfeição
no
qual
não
só
a
forma
da
deidade
mas
a
própria
deidade
chegue
a
ser
reconhecida
como
um
conceito
inteiramente
provisório.
De
madrugada,
antes
de
levantar,
o
adepto
recita
o
mantra
que
encarna
a
energia
do
seu
Yidam,
que
assim
é
invocado.
Após
suas
abluções
matinais,
ele
se
dirige
ao
santuário,
onde
são
feitas
oferendas
como
água
pura,
flores,
incenso,
lâmpadas
e
assim
por
diante,
que
são
arrumados
diante
de
uma
estátua
de
Buda.
Se
possível,
deve
haver
um
quadro
ou
estátua
do
Yidam.
As
oferendas
podem
ser
de
extrema
simplicidade
(uma
só
flor
ou
vasilha
de
água),
ou
tão
elaboradas
quanto
se
quiser
fazê-las.
Tendo
tocado
com
a
cabeça
no
chão
por
três
vezes,
o
adepto
converte
mentalmente
o
gesto
em
oferendas
de
grande
magnificência,
pronunciando
o
mantra
OM
AH
HUM,
quando
toca
cada
uma
delas;
por
estas
sílabas,
ele
as
penetra
com
seu
corpo,
fala
e
mente,
de
modo
que
cada
flor
ou
feixe
de
varetas
de
incenso
representa
sua
total
entrega
pessoal.
Segue-se,
depois,
a
aceitação
dos
Quatro
Refúgios
-
refúgio
no
Guru,
no
Buda,
no
Dharma
(Doutrina)
e
no
Saitigha
(Comunidade
Sagrada).
Depois,
refletindo
sobre
suas
imperfeições,
o
adepto
resolve
abjurá-las;
depois
do
que
se
rejubila
com
os
méritos
dos
que
alcançaram
a
realização
suprema.
Seu
lama,
com
certeza,
já
lhe
ensinou
como
celebrar
várias
outras
iogas
preliminares
deste
gênero.
Então,
fixando
a
mente
na
última
meta
de
sua
prática,
ele
recita
o
mantra
OM
SVABHAVASUDDHAH
SARVA
DHARMAH
SVABHAVA
SUDDHO
HAM
AH
HUM,
que
significa:
"Despidos
de
auto-identidade
são
todos
os
componentes
da
existência,
despido
de
toda
identidade
sou
eu."
Estas
sílabas,
estando
imbuídas
de
poder
mântrico,
ajudá-lo-ão
a
chegar
pela
intuição
à
sublime
verdade
que
contêm.
A
contemplação
iogue
do
Yidam
compreende
mantras,
mudras
e
visualização
e,
deste
modo,
congrega
as
três
faculdades:
corpo,
fala
e
mente.
O
adepto
observa
um
vácuo
sem
formas
no
qual,
de
súbito,
aparece
uma
sílaba
mântrica
luminosa.
Isso
de
repente
se
transforma
num
lótus
que
tem
como
centro
o
bija-mantra
do
Yidam.
Num
lampejo,
isso
se
modifica
para
uma
representação
do
Yidam,
cujos
detalhes
de
forma,
claramente
visualizados,
transportam
seu
significado
psíquico
para
a
mente
do
adepto.
Em
seguida,
pronunciando
um
mantra,
o
vivido
Yidam
é
invocado,
penetrando
na
semelhança
mentalmente
criada
que
se
acha
no
lótus
e,
mais
uma
vez,
aparece
o
bija-mantra,
agora
rodeado
pelo
mantra-
coração
—
faixa
de
sílabas
fulgurantes.
Pronunciando-as
incontáveis
vezes,
o
adepto
completa
as
sílabas,
à
medida
que
giram
e
emitem
raios
que
brilham
sobre
as
criaturas
nas
dez
direções;
uma
corrente
de
luz
entra
em
seu
corpo
através
da
parte
superior
da
cabeça.
Então,
diminui
a
forma
do
Yidam,
que
passa
para
dentro
do
adepto
também
pelo
alto
da
cabeça
e
vai
repousar
em
seu
coração;
depois
do
que
o
adepto
se
sente
diminuir
de
tamanho
até
que
ele
e
o
Yidam
se
tornam
coextensivos,
imersos,
inseparáveis.
Já
não
são
dois.
Então,
o
mantra
gira
dentro
de
seu
coração
único.
Depois
as
sílabas
se
retiram
para
a
inicial
OM,
que
é
absorvida
pelo
bija-mantra
no
centro,
o
qual
se
contrai
e
derrete
dentro
do
minúsculo
círculo
que
encabeça.
Finalmente,
esse
círculo
desaparece
e
nada
resta
senão
o
vácuo,
pois
o
adepto-Yidam
entrou
em
samadhi
—
estado
beatífico
de
consciência
sem
objetivo,
ficando
assim
até
quando
esse
estado
for
mantido
sem
esforço.
Ao
se
retirar
do
samadhi,
o
adepto
oferece
várias
aspirações,
que
sempre
incluem
o
desejo
cordial
de
que
os
Budas
e
seus
Seres
Esclarecidos
permaneçam
no
universo
"girando
a
Roda
da
Lei".
Por
último,
ele
oferece
seus
próprios
méritos
para
benefício
de
todos
os
seres
sensitivos.
Tendo-se
unido
com
o
adepto
durante
a
ioga
matinal,
o
Yidam
permanece
com
ele
e
é
retido,
se
possível,
durante
o
dia
todo.
Quando
o
corpo
do
adepto
já
se
tornou
o
templo
desse
ser
sagrado,
o
adepto
reforça
sua
percepção
da
unidade
entre
adorado
e
adorador,
convertendo
mentalmente
tudo
o
que
lhe
agrada—o
sabor
da
boa
comida,
a
doçura
da
brisa
em
sua
pele—
em
oferendas
para
o
Yidam.
O
mantra
do
Yidam
está
para
sempre
em
seus
lábios
e
em
sua
mente,
de
modo
que,
à
medida
que
passa
o
tempo,
as
sílabas
surgem
de
forma
espontânea.
À
noite,
e
talvez
com
maior
freqüência,
a
ioga
é
repetida
e,
ao
retirar-se
para
dormir,
o
adepto
usa
a
mantra
para
solicitar
à
deidade,
que
fica
acima
de
sua
cabeça,
que
guarde
o
seu
sono.
Ele
também
pode
criar
uma
tenda
—
vajra,
um
pavilhão
protetor,
cujo
conteúdo
é
formado
por
cetros-vajra
entrelaçados
ou
pelas
sílabas
do
mantra
do
Yidam.
Entre
os
co-produtos
imediatos
desta
prática
iogue
há
um
especialmente
apreciado:
em
momentos
de
crise,
o
mantra
salta
para
a
mente
de
um
modo
espontâneo,
resultando
que
o
adepto
pode
aguardar
a
morte
com
seus
pensamentos
fixados
sobre
o
Yidam
e
com
o
mantra
do
Yidam
nos
lábios.
Se
por
acaso
a
morte
ocorrer
antes
que
ele
tenha
alcançado
uma
percepção
direta
e
intuitiva
da
meta,
pelo
menos
o
adepto
pode
esperar
o
renascimento
em
circunstâncias
que
favorecerão
seus
futuros
progressos.
Se
um
aspirante
deseja
instruir-se
sobre
as
maravilhosas
técnicas
tântricas
para
transformar
as
energias
geradas
pelas
paixões
em
potentes
armas
para
destruí-las,
de
modo
a
anulá-las
bem
depressa,
o
Yidam
provavelmente
será
uma
das
divindades
ferozes.
Seria
especialmente
perigoso
adotar
uma
delas,
a
não
ser
que
o
lama
do
aspirante
esteja
à
mão
para
orientar,
pois
elas
corporificam
energias
muito
poderosas,
apropriadas
para
uma
tarefa
difícil,
que
facilmente
podem
escapar
ao
controle.
Sobre
os
mais
elevados
estágios
do
caminho
iogue
não
posso
dizer
muita
coisa;
meu
conhecimento
é
muito
limitado
e,
seja
como
for,
não
seria
adequado
descrevê-los;
mas
é
possível
calcular
as
maravilhosas
experiências
subjetivas
invocadas
pelos
mantras
na
mente
de
um
iogue
consumado.
Há
um
bija-mantra
que
transforma
instantaneamente
o
iogue
na
aparência
de
uma
das
divindades
ferozes;
ele
se
vê
como
essa
divindade;
seu
ser
parece
pulsar
com
tão
estupendo
poder
e
assumir
tamanha
vastidão
que
as
palavras
não
são
mais
do
que
pedras
brilhantes
em
seu
atalho.
Assim
que
pronuncia
esse
mantra,
miríades
de
seres,
réplicas
de
sua
terrível
forma,
extravasam
de
seu
corpo
e
cobrem
o
céu,
lutando,
rechaçando
obstáculos
destruidores
para
o
progresso
iogue.
Cada
um
desses
seres
é
imbuído,
na
energia
corporificada
naquela
sílaba,
e
é
tão
grande
o
seu
número
que
eles
enchem
o
universo
—
não
resta
uma
abertura
de
espaço,
tendo
sido
dissolvidos
todos
os
objetos
ou
aparências
que
o
espaço
contém
com
uma
sensação
auditiva
exaltada.
Nada
permanece
da
carne
do
iogue,
senão
o
que
pulsa
e
lateja.
Deste
modo,
são
purgadas
de
seu
ser
ilusório
todas
as
entidades
componentes,
dentro
e
fora
delas.
Há
mantras
para
invocar
do
Vácuo
sílabas
que
cintilam
como
raios
de
luz,
como
sóis
nascentes
que
lançam
brilhantes
faixas
de
luz
colorida,
que
se
dividem
e
subdividem
até
que
60
milhões
de
raios
sejam
projetados.
De
certas
sílabas
surgem
conjunções
de
divindades
que
enchem
o
céu
antes
de
serem
reabsorvidas
e
reincorporadas.
De
outras,
brotam
panoramas
vastos,
complexos
e
infinitamente
esplêndidos
que,
dissolvendo-se
em
raios
de
luz,
fluem
de
novo
para
as
sílabas
fulgurantes.
As
palavras
não
podem
transmitir
o
esplendor
dessas
imagens;
mas
tentar
visualizá-
las
sem
imbuí-las
com
energia
mântrica
produziria
apenas
pálidas
contrapartidas
daquilo
que
os
iogues
são
capazes
de
conjurar
quando,
depois
do
treino,
que
em
geral
significa
passar
muitos
anos
em
total
solidão,
tiverem
requintado
seus
poderes
contemplativos
e
dominado
de
todo
a
prática
da
invocação
mântrica.
Então,
suas
mentes
serão
como
filamentos
sem
os
quais,
ainda
que
perto
de
uma
fonte
de
energia
elétrica,
sua
casa
continua
às
escuras.
Não
se
deve
supor
que
toda
essa
fantasia
psicodélica
deva
ser
procurada
e
desfrutada
em
proveito
próprio.
Toda
essa
riqueza
de
cores
brilhantes,
o
malabarismo
com
o
espaço,
que
reduz
os
mundos
ao
tamanho
de
pedrinhas,
não
tem
importância
a
não
ser
que
leve
a
uma
total
compreensão
do
Vazio.
O
iogue
deve
chegar
a
perceber
que
ele
próprio
e
todos
os
universos
que
ele
contém
são
vazios
do
menor
indício
de
exclusividade.
Ele
deve
vivenciar
a
relatividade
do
vasto
e
do
minúsculo,
a
interpenetração
e
a
suprema
identidade
de
todos
os
objetos
e,
acima
de
tudo,
o
essencial
vazio-não-vazio
do
samsara.
Assim
é
a
mente
preparada
para
a
consumação-liberação
do
encantamento
desse
mestre
dos
mágicos,
o
ego,
e
obtenção
da
felicidade
da
união
realizada,
a
Iluminação,
o
Nirvana!
Se,
como
temo,
estas
palavras
deixarem
de
inspirar
um
sagrado
temor,
a
falha
é
minha.
Ainda
tenho
muito
que
andar
e
não
posso
escrever
sobre
os
mais
elevados
mistérios
por
experiência
direta.
Entretanto,
não
aprendi
a
revelação
do
próprio
Mistério
Sublime,
mas
apenas
de
um
dos
meios
para
alcançá-lo.
O
livro
que
descreva
os
equipamentos
usados
pelos
escaladores
do
Himalaia
é
um
pobre
substituto
para
que
se
dominem
os
deslumbrantes
picos
de
neve
naquela
montanha,
que
é
a
mais
bela
e
mais
sagrada
de
todas
as
montanhas,
o
Kanchenjunga!
Capítulo
5
ALGUNS
MANTRAS
IOGUES
Certa
vez,
circunvagando
pela
grande
stupa
(chetiya)
na
antiga
cidade
de
Nakorn
Pathom
na
Tailândia
central,
dei
com
a
visão
mais
inesperada,
e
ali
fiquei
em
transe:
um
vasto,
mas
adoravelmente
gracioso
edifício
de
cone
maciço
e
estupenda
abóbada,
recoberto
com
ladrilhos
da
cor
do
sol.
Era
como
se
um
montículo
da
neve
de
Kanchenjunga
tivesse
sido
transportado
para
aquela
planície
tórrida
e
tremeluzente.
Lá,
nos
jardins
luxuriantes,
além
da
face
ocidental
da
stupa,
havia
uma
piscina
ornamentada,
de
cujo
centro
se
erguia
uma
estátua
de
Padma
Sambhava,
o
Nascido
do
Lótus,
o
"Precioso
Guru"
dos
Nyingmapas!
Numa
terra
em
que
a
forma
tibetana
do
Budismo
é
virtualmente
desconhecida
e
não
se
ouve
falar
na
seita
Nyingma,
encontrar
uma
estátua
deste
ser
era
quase
tão
extraordinário
como
deparar
com
uma
figura
da
Virgem
na
Meca!
Assombrado,
eu
olhava,
enquanto
recordações
me
assaltavam.
Quase
podia
ouvir
a
batida
e
a
cadência
dos
címbalos
e
o
som
excitante
dos
tambores
rituais
tibetanos.
Para
mim,
o
perfume
de
frangipana
estava
magicamente
transmudado
na
fragrância
do
incenso
tibetano
tocado
pelo
aroma
mais
picante
da
fumaça
das
lamparinas.
Até
meu
ouvido
mais
íntimo
vinha
o
cantochão
do
mantra
do
Precioso
Guru
elevando-se
como
um
peã,
como
em
alguma
grande
reunião
tibetana,
durante
a
qual
são
recitados
versos
em
sua
honra
e
mil
vozes
se
juntam
no
mantra
OM
AH
HUM
VAJRA
GURU
PADMA
SIDDHI
HUM!
Essas
recordações,
por
sua
vez,
evocavam
um
mar
de
benevolentes
rostos
tibetanos
iluminados
pelo
transe.
Vivendo
numa
cidade
onde
a
madrugada
é
recebida
por
uma
esquadra
de
caminhões
com
dez
rodas,
que
aumentam
de
velocidade
bem
diante
da
janela
do
meu
quarto,
regozijo-
me
com
as
lembranças
de
uma
região
majestosamente
bela
da
Terra,
onde
o
silêncio
reina
sobre
os
montes
e
uma
vigorosa
tradição
mística
ainda
sobrevive
—
uma
tradição
não-confinada,
como
no
Japão,
a
templos
que
formam
ilhas
de
tranqüilidade
cercadas
pelo
ruído
ensurdecedor
da
cidade
moderna,
mas
que
é
compartilhada
por
todos
os
povos
de
ascendência
tibetana,
habitantes
de
montes
e
vales
que
se
acocoram
sob
a
sombra
dos
picos
de
neve
himalaianos,
que
os
sobrepujam.
Nessa
região
abençoada,
ainda
não-poluída
pelo
mau
cheiro
do
petróleo
e
pelo
lixo
das
sacolas
plásticas,
são
encontrados
não
só
lamas
santos,
mas
muitos
leigos
em
vários
caminhos
da
vida
que
não
são
impedidos,
na
dureza
de
sua
luta
pela
existência,
de
cultivar
o
atalho
da
cultura
iogue.
Ali,
a
ioga
ainda
mantém
sua
conotação
adequada
—
"união".
Isto
fica
muito
longe
do
sistema
de
exercícios
ginásticos
comparáveis
ao
judô
ou
ao
karatê,
que
muitas
vezes
passam
por
ioga
no
Ocidente.
Podem
ser
incluídos
exercícios
físicos
—
alguns
muito
excitantes,
tais
como
a
geração
de
calor
interno
que
capacita
os
adeptos
a
se
sentarem,
despidos,
na
neve
e
no
gelo
derretido
em
contato
com
sua
carne
mas
sua
ioga
é,
essencialmente,
a
ioga
que
existe
na
mente,
sendo
seu
propósito
nada
menos
que
a
experiência
mística
exaltada,
conhecida
pelos
budistas
como
Supremo
Esclarecimento.
Muito
dela
consiste
em
práticas
contemplativas
tais
como
a
ioga
Yidam
da
qual
os
únicos
componentes
físicos
são
as
recitações
que
acompanham
e
as
posturas
sagradas.
As
iogas
psicofísicas
para
se
harmonizarem
com
os
canais
de
"respiração,
psíquicos
e
de
vitalidade"
com
o
intuito
de
alcançar
a
Iluminação
ainda
nesta
vida
são
ensinadas
apenas
aos
adeptos
adiantados
e
o
ensinamento
é
estritamente
confinado
a
iniciados
selecionados.
O
que
é
preciso
descrever
agora
são
as
iogas
contemplativas
para
as
quais
é
comparativamente
fácil
conseguir
a
iniciação;
os
mantras
incluídos
já
apareceram
em
diversas
publicações
e
não
podem
ser
considerados
secretos,
ainda
que
alguns
dos
seus
mais
elevados
usos
pertençam
ao
conhecimento
sagrado
cujo
acesso
é
ainda
cuidadosamente
guardado.
Bem
acima
do
que
pode
ser
chamado
de
budismo
popular,
elas
são
no
entanto
largamente
praticadas
numa
região
onde
lamas
capacitados
para
conferir
iniciações
não
são
difíceis
de
encontrar.
A
ioga
da
deidade
interior,
em
geral,
forma
o
âmago
da
prática
iniciática
do
leigo
tibetano,
mas
raramente
o
todo;
é
provável
que
seu
lama
exija
dele
a
realização
de
certas
iogas
suplementares
durante
as
quais
algumas
deidades
diferentes
de
Yidam
são
visualizadas
e
usados
outros
mantras.
Essa
contemplação
de
mais
do
que
uma
deidade
deu
o
ensejo
absurdo
a
uma
acusação
contra
a
Vajrayana:
a
de
que
é
politeísta!
Nada
poderia
estar
mais
longe
da
realidade,
pois
os
iniciados
estão
perfeitamente
cientes
de
que
existe
apenas,
em
última
fase,
a
fonte
da
sabedoria
intuitiva;
a
corporificação
desta
Fonte,
ou
de
suas
emanações
em
várias
formas,
é
devida
ao
reconhecimento
de
que
as
emanações
diferenciadas
da
energia
suprema
da
sabedoria-compaixão
pode
ser
percebida
mais
facilmente
por
mentes
que
ainda
estão
longe
da
Iluminação.
Mais
tarde,
o
adepto
descobre
que
há
razões
psicológicas
sensatas
para
muitos
aspectos
da
prática
iogue
que,
a
princípio,
podem
parecer
de
valor
discutível.
Mantras
de
Apoio
Mesmo
antes
da
iniciação,
muitos
tibetanos
terão
provavelmente
tomado
parte
em
ritos
centrados
no
mantra
da
compaixão,
OM
MANI
PADME
HUM,
sobretudo
aquelas
evocações
comunitárias
de
Avalokiteshvara
Bodhisattva,
durante
as
quais
as
aspirações
pelo
bem-estar
de
indivíduos,
grupos
de
pessoas
ou
seres
sensitivos
em
geral
são
imbuídos
pelo
mantra
cujo
poder
traz
algum
alívio
para
os
sofrimentos.
De
espécie
um
tanto
diferente
são
as
evocações
que
podem
ser
denominadas
"de
apoio",
pois
são
usadas
em
relação
com
grande
número
de
iogas
de
maneira
periférica.
De
particular
importância
é
o
mantra
OM
AH
HUM.
Trata-se
de
sílabas
de
grande
poder;
a
primeira
e
a
terceira
são
tão
impregnadas
de
significado
que
muitas
páginas
seriam
necessárias
para
elucidar
exaustivamente
este
mantra.
Usado
como
"mantra
de
apoio",
ele
tem
tido
funções
principais
em
três
casos:
(1)
para
criar
uma
atmosfera
ritualmente
pura
antes
de
iniciar
a
prática
mais
importante;
(2)
para
transmudar
oferendas
materiais
em
suas
principais
contrapartidas;
e
(3)
para
servir
de
compensação
para
um
mantra
que
foi
esquecido
ou
que
se
ignora.
Neste
contexto,
OM,
a
sílaba
inicial
de
quase
todos
os
mantras,
encarna
(como
sempre)
um
tremendo
poder
criador
e
representa
o
Infinito,
a
Mente
Única,
a
consciência
que
tudo
abrange
e
a
própria
essência
da
existência.
AH
mantém
e
preserva
o
que
OM
cria.
HUM
imbui
o
que
foi
criado
com
energia
vital,
além
de
submeter
a
paixão
e
destruir
o
pensamento
dualístico.
Juntas,
as
três
sílabas
preparam
e
purificam
a
mente
do
adepto
para
a
ioga
que
ele
vai
realizar.
Ao
fazer
oferendas
como
parte
do
antigo
ritual
que
governa
as
iogas
desta
espécie,
sendo
seu
propósito
simbolizar
a
renúncia
dos
desejos
mundanos,
o
adepto
insere
o
nome
da
substância
oferecida
entre
a
primeira
e
a
segunda
sílabas
do
mantra,
assim
OM
PUSHPÉÃH
HU
M,
OM
DUPHE
AH
RUM,
quando
as
palavras
inseridas
significam
flores
e
incenso.
Para
substituir
corretamente
um
mantra
de
saudação
a
uma
deidade
particular
de
mediação,
o
mantra
requer
a
inserção
do
nome
da
deidade,
assim:
-OM
SAMANTABHADRA
AH
HUM.
Mantras
compostos
deste
modo
podem
ser
usados
para
transpor
a
"energia"
das
deidades
nomeadas
para
os
vários
centros
psíquicos
(chakras)
do
corpo
do
adepto.
Durante
certos
ritos
contemplativos,
um
OM
é
visto
acima
da
sobrancelha
da
deidade,
um
AH
vermelho
reverbera
em
sua
garganta
e
um
HUM
brilha
sobre
seu
coração;
raios
de
luz
colorida
procedentes
dessas
sílabas
penetram
as
partes
correspondentes
da
pessoa
do
adepto,
purificando
o
seu
corpo,
a
sua
fala
e
a
sua
mente
ou,
num
nível
mais
profundo,
sua
respiração,
seus
canais
psíquicos
e
sua
vitalidade.
Neste
caso,
OM
representa
o
Dharmakaya
ou
Corpo
Místico
(Vazio)
de
alguém
Totalmente
Iluminado;
AH
representa
a
Fala
Sagrada;
HUM
representa
a
Mente
de
Buda.
Quando
usado
para
acompanhar
oferendas,
o
mantra
simboliza
a
total
submissão
das
faculdades
do
corpo
do
adepto,
sua
fala
e
mente;
de
outro
modo,
significa
a
aspiração
do
adepto
para
se
assemelhar
à
pureza
do
Buda,
nessas
três
faculdades.
Assim
como
OM
AH
HUM
purifica
o
próprio
adepto,
assim
o
mantra
RAM
YAM
KHAM
(sua
pronúncia
rima
com
a
palavra
inglesa
come)
purifica
o
lugar
onde
a
ioga
será
realizada.
A
visualização
que
a
acompanha
é
grandiosa
e
terrível.
O
adepto
se
julga
sentado
no
centro
de
uma
área
cercada
por
chamas
devastadoras
como
o
fogo
pelo
qual
o
universo
será
destruído
ao
final
de
um
kalpa:
rodeando
as
chamas,
há
uma
negra
tempestade
como
um
turbilhão
ao
fim
de
uma
era;
além
fica
um
oceano
coberto
de
imensas
ondas
violentamente
agitadas.
Segundo
a
ioga,
este
mantra
sela
o
ambiente
do
adepto,
tornando-o
inacessível
às
más
influências,
que
se
tornam
mais
violentas
à
medida
que
o
sucesso
se
aproxima,
gerado
por
agentes
aos
quais
a
virtude
é
odiosa
—
agentes
que
todo
meditador
experimentado
conhece.
Um
modo
menos
eficiente
de
purificar
a
arena
da
ioga
é
recitar
OM
VAJRA
BHÜMI
AH
HUM,
no
qual
"vajra"
(adamantina)
denota
a
não-substância
do
Vazio
—
Realidade
Suprema;
e
"bhumi"
significa
simplesmente
"local".
Por
meio
deste
mantra,
um
domínio
de
vazio
sem
mancha,
brilhante,
é
conjurado
pela
mente;
o
poder
das
sílabas
OM
AH
HUM
imbui
a
vizinhança
do
adepto
com
a
qualidade
do
puro
vazio
e
ele
julga
os
fenômenos
à
sua;volta
em
seu
estado
absoluto;
são
então
indistinguíveis
do
Grande
Vazio.
O
Mantra
de
Transmutação
da
Fala
Exige-se
freqüentemente
dos
iniciados
num
curso
de
ioga
contemplativa
que
comecem
cada
dia
recitando
um
mantra
composto
de
todas
as
vogais
e
consoantes
do
alfabeto
tibeto-sânscrito,
que
em
conjunto
compreende
os
elementos
de
qualquer
mantra
imaginável;
o
propósito
é
levar
à
transmutação
da
fala
do
adepto,
no
sentido
de
purificar
sua
pronúncia
à
maneira
da
ioga.
A
fórmula
Nyingmapa
seguinte
combina
esse
mantra
com
uma
recitação
introdutiva
que
fornece
a
instrução
para
a
visualização
requerida:
OM
AH
HUM!
Crepitam
línguas
de
fogos
de
Ram2
E
formam
um
vajra
com
três
dentes
de
luz
vermelha
-
Dentro,
o
Mantra
da
Causalidade,
Com
vogais
e
consoantes
mântricas
ao
redor
Em
letras
como
um
fio
de
pérolas.
Delas,
A
luz
se
expande
em
oferendas
e
conquista
A
alegria
dos
Budas
e
de
seus
filhos3.
Contraindo-se,
purifica
a
fala
De
obscuridades;
assim,
realiza
2 RAM
corporifica
a
energia
do
fogo.
3
"Filhos
de
Buda"
é
o
termo
usado
para
os
fiéis
budistas.
A
transmutação
da
fala
de
Vajra4,
depois
do
que
Todos
os
siddhis5
são
obtidos.
Agora,
recita-se:
AÃIIUÜRRLLEAIOAUAMAH
(sete
vezes)
KÁ
KHA
GA
GHA
NGA
CA
CHA
JA
JHA
NYA
TA
THA
DA
DHA
NA
TA
THA
DA
DHANA
PA
PHA
BA
BHA
MAYARA
LA
WA
SA
SH
A
SA
H
AKSH
A
H
(sete
vezes)
OM
YE
DHARMA
HETU
PRABHAWA
HETUN
TESHAN
TATHAGATO
HYAVADAT
TESHAN
CA
YO
NIRODHA
EVAM
VÃDI
MAHA
SR
AM
A
NAH
SWAHA
(sete
vezes)
O
Mantra
do
Precioso
Guru
Os
budistas
de
todas
as
escolas
e
seitas
refugiam-se
diariamente
na
Jóia
Tríplice
—
o
Buda,
a
Dharma
(Doutrina)
e
a
Samgha
(comunidade
sagrada).
A
estas,
os
seguidores
da
Vajrayana
acrescentam
uma
quarta
—
o
Guru.
Quando
os
Refúgios
são
recitados,
o
Guru
vem
em
primeiro
lugar
—
Namo
Gurubé,
Namo
Buddhaya,
Namo
Dharmaya,
Namo
Sanghaya.
Isto
é
para
reconhecer
que
é
ao
guru
do
adepto
e
aos
dos
lamas
de
sua
formação,
chegando
até
o
próprio
Buda,
que
ele
deve
seu
total
conhecimento
dos
outros
Fala
de
Vajra
significa
o
dom
da
fala
que
deve
ser
transmudado
para
a
forma
iogue.
5 Poderes
Refúgios.
Como
é
apropriado
em
toda
prática
iogue,
a
confiança
no
guru
é
absoluta.
Se
a
sua
integridade
ou
sabedoria
for
posta
em
dúvida,
os
iogues
ficam
na
perigosa
posição
de
homens
que
navegassem
ao
longo
de
costas
rochosas
num
mar
desconhecido
sem
um
navegador
ou
com
um
navegador
em
cujo
conhecimento
não
tivessem
confiança!
Os
riscos
seriam
terríveis!
Portanto,
o
que
é
conhecido
como
guru,
em
ioga,
forma
uma
parte
essencial
da
ioga
Vajrayana.
Os
lamas
Nyingmapa
e
os
da
maioria
de
outras
seitas
ensinam
que
os
discípulos
foram
iniciados
nos
sagrados
poderes
da
ioga
para
que
o
ultrapassem
o
domínio
das
semelhanças
até
o
reino
beatífico
do
puro
ser,
de
modo
que,
percebendo
sua
identidade,
possam
apoiar-se
espontaneamente
em
ambos,
invocando
primeiro
o
Precioso
Guru,
Padma
Sambhava,
Fundador
da
Linhagem
Nyingma,
cuja
forma,
para
propósitos
contemplativos,
é
considerada
como
corporificando
todos
os
outros
mestres
do
conhecimento
sagrado.
Como
a
forma
imaginada
é
uma
criação
mental
que
personifica
o
primeiro
dos
Quatro
Refúgios,
talvez
a
identidade
do
Precioso
Guru
não
seja
de
total
importância
para
a
prática.
Entretanto,
ele
é
bem
conhecido
por
todos
os
tibetanos,
tanto
na
lenda
como
na
história.
A
lenda
conta
que
Padma
Sambhava
é
assim
chamado
porque
chegou
a
ficar
conhecido
pelos
homens
por
sua
aparição
numa
gigantesca
flor
de
lótus
que
flutuava
sobre
as
águas
de
um
lago,
na
terra
de
Urgyen,
que
em
tempos
antigos
ficava
na
região
além
da
fronteira
noroeste
do
Tibete.
Historicamente,
ele
é
conhecido
por
ter
sido
um
dos
grandes
iogues
que
levaram
o
Buda
Dharma
da
índia
para
o
Tibete
(século
VII
d.C).
Desde
essa
época,
ele
tem
sido
venerado,
logo
abaixo
do
Buda,
nos
corações
dos
homens,
pois
é
a
cabeça-de-ponte
da
grande
seita
Vajrayana
do
Budismo
Mahayana.
Na
verdade,
em
contextos
em
que
a
Realidade
Absoluta
é
encarada
como
a
fonte
suprema
de
todo
conhecimento
sagrado,
a
forma
do
Precioso
Guru
é
empregada,
na
ioga,
como
personificação
do
Dharmakaya,
o
Corpo
no
qual
o
Buda
e
o
Absoluto
são
indistintamente
um
só.
Ensina-se
que
as
transformações
corporais
do
Precioso
Guru
são
inúmeras;
convencionalmente,
ele
é
com
mais
freqüência
representado
como
um
belo
jovem
ou
como
um
homem
jovem
e
barbudo,
sentado
à
maneira
iogue
da
"postura
real".
Com
os
dedos
da
mão
direita,
que
segura
uma
Vajra
(símbolo
da
adamantina
não-substância
do
Vazio),
ele
forma
o
mudra
da
"proteção
contra
o
obscurecimento
do
Dharma".
Com
sua
mão
esquerda,
ele
segura
uma
taça
de
crânio
humano
(que
significa
renúncia)
transbordante
de
amrta
(ou
néctar
da
imortalidade)
coberta
por
um
vaso
cheio
da
mesma
não-substância.
Um
tridente
mantido
no
lugar
por
seu
braço
esquerdo
representa
os
três
reinos
da
existência
samsárica,
e
as
três
cabeças
representam
ali
os
três
Corpos
místicos
dos
Esclarecidos,
sendo
um
deles
um
crânio
humano
que
sugere
a
ausência
de
atributos
ou
vazios
do
Dharmakaya.
Todo
detalhe
de
sua
forma
tem
seu
próprio
significado
simbólico.
Durante
a
contemplação
iogue,
os
Nyingmapas
visualizam
todos
os
lamas
de
sua
linhagem,
na
representação
do
Nascido
no
Lótus,
reverenciando-se
a
todos
como
sucessivas
encarnações
do
Dharmakaya,
na
presunção
de
que
o
maior
mérito
de
um
guru
é
o
poder
de
suas
palavras
para
transmitir
a
luz
da
Realidade
Absoluta.
Portanto,
começam
sua
meditação
criando
uma
imagem
mental
do
Precioso
Guru
e
conferindo-lhe
vida
por
intermédio
do
mantra
do
Guru,
prestando
assim
homenagem
à
meta
inimaginável
do
comportamento
místico
e
a
toda
a
linhagem
de
mestres
que
mostraram
o
caminho
para
alcançá-lo.
Seja
qual
for
a
prática
principal
de
um
adepto
Nyingmapa,
ele
deve
recitar
alguns
versos
de
invocação
ao
Nascido
no
Lótus
e
repetir
o
mantra
algumas
centenas
ou
milhares
de
vezes.
O
que
se
segue
agora
é
típico
dos
muitos
versos
dessa
espécie;
eles
pertencem
a
velhos
textos
e
foram
extraídos
de
um
sadhana
(rito
contemplativo)
composto
pelo
Venerável
Chogyam
Trungpa
Tulku:
Ó
Precioso
Guru,
Buda
do
Tríplice
Tempo,
Senhor
dos
Poderes
Sagrados,
sempre
em
Grande
Beatitude,
inclino-me
a
teus
pés.
Afastador
de
todas
as
dificuldades,
que
se
revela
em
forma
irada
para
afastar
ilusões.
Oro
a
ti,
suplicando
sagrada
determinação.
Oro
a
ti,
Lama,
Jóia
entre
Jóias,
Pedindo
determinação
para
afastar
todo
pensamento
individual,
Que
doravante
pareçam
sem
sentido
as
coisas
mundanas,
Que
a
sagrada
determinação
dos
pensamentos
não
se
afaste,
Que
eu
compreenda
a
minha
mente
como
a
incriada,
não-nascida.
Que
a
inquietação
inata
seja
apaziguada,
Que
minha
mente
se
torne
veículo
adequado
para
o
Atalho
mais
Profundo.
Que
minha
obtenção
da
Verdade
Suprema
fique
livre
de
obstáculos.
Que
o
poder
da
Sabedoria
e
da
Compaixão
se
aperfeiçoe
em
mim.
E
que
eu
possa
alcançar
esta
união
com
o
Buda,
o
Dominador
de
Vajra.
Para
realizar
a
ioga
do
Precioso
Guru,
o
adepto
senta-
se,
pela
manhã,
num
lugar
calmo
e
limpo.
Após
certos
preliminares
como
os
que
precedem
a
contemplação
do
Yidam,
sua
mente
torna-se
serena,
não-perturbada
por
pensamentos
preocupantes.
Desejando
o
bem
de
todos
os
seres
e
resolvido
a
usar
qualquer
poder
que
alcance
para
benefício
de
outros,
ele
visualiza
um
plácido
lago
azul
sobre
o
qual
flutua
um
lótus
gigantesco
que
suporta
discos
lunares
e
solares
dentro
de
suas
pétalas
bem
abertas.
Ali
está
sentada
a
Eterna
Criança,
Padma
Sambhava,
o
Precioso
Guru,
que
o
adepto,
cheio
de
alegria
e
emoção,
reconhece
como
a
representação
do
Dharmakaya,
mas
também
como
a
representação
de
seu
mestre
e
de
todos
os
lamas
de
sua
filiação.
Ao
fazer
reverência
ao
Precioso
Guru,
ele
reverencia
a
todos.
Tendo
orado
para
pedir
bênção,
o
afastamento
de
todos
os
obstáculos
e
a
obtenção
do
poder
espiritual
ilimitado,
ele
começa
sua
recitação
do
mantra
do
Guru
pelo
qual
a
forma
visualizada
é
dotada
de
força
vital
e
a
união
com
o
Guru
é
completada:
OM
AH
HUM
VAJRA
GURU
PADMA
SIDDHI
HUM!
Na
tradução
do
Venerável
Chõgyam
Trungpa
Tulku,
o
significado
interior
dessas
sílabas
é
o
seguinte:
OM
é
a
origem,
o
Dharmakaya.
AH
é
a
inspiração,
o
Sambhogakaya.
HUM
é
a
expressão,
o
Nirmanakaya.
VAJRA
é
a
união
desses
três.
GURU
é
a
visão
interior
que
instrui,
o
ponto
central
da
mandala.
PADMA
é
a
compaixão
destemida.
SIDDHI
é
o
poder
do
Reino
Dharma.
HUM
é
a
unidade
dessas
qualidades
em
nós.
Quando
desaparece
a
visão
do
Precioso
Guru
sobrevém
um
estado
de
consciência
sem
objetivo,
a
que
se
seguem
certas
aspirações
e
uma
dedicação
do
mérito
recém-
alcançado
para
o
bem-estar
de
todos
os
seres.
O
Precioso
Guru
é
a
suprema
corporificação
do
poder
tântrico,
através
do
qual
é
possível
emancipar-se
das
garras
do
pensamento
dualístico,
ser
capaz
de
usar
todas
as
energias,
sejam
boas
ou
más
na
origem,
para
a
rápida
realização
da
Iluminação.
Dizem
que
ele
praticou
a
meditação
usando
pilhas
de
cadáveres
como
assento,
tendo
transmudado
a
carne
dos
cadáveres
em
puro
alimento,
o
que
é
talvez
uma
alegoria
forçada
para
ilustrar
o
processo
de
transmudar
o
sujo
em
limpo.
Pode-se
dizer
o
mesmo
sobre
a
verdade
da
história
na
qual
ele
foi
transformado
na
sílaba
HUM
e
depois
engolido
por
uma
dakini
feroz,
em
cujo
corpo
recebeu
a
iniciação
e
foi
purificado
de
todas
as
corrupções.
Tais
imagens
podem
ser
revoltantes;
mas,
a
não
ser
que
a
beleza
e
a
felicidade
sejam
aceitas
imparcialmente,
como
pode
ser
sobrepujado
o
pensamento
dualístico?
Os
Mantras
das
Terríveis
Divindades
O
Yidam
escolhido
por
um
discípulo
no
momento
de
sua
iniciação
não
é
sempre
um
ser
bonito
como
Tara.
De
acordo
com
as
circunstâncias,
pode
ser
escolhida
uma
das
terríveis
divindades,
tais
como
Yamantaka
—
horripilante
corporificação
do
suave
patrono
de
sabedoria
e
erudição,
Manjushri
Bodhisattva.
Na
verdade,
cada
uma
das
deidades
de
meditação
tem
uma
contrapartida
aterrorizadora,
sem
a
qual
não
haveria
liberação
para
o
"bom"
e
o
"mau"
do
pensamento
dualístico.
Até
a
delicada
Tara
pode,
às
vezes,
aparecer
como
uma
dakini
ou
deidade
fêmea,
de
aparência
feroz.
Contemplar
as
deidades
em
suas
formas
horríveis
é
um
meio
de
obter
tremendo
poder
para
destruir
todos
os
obstáculos
do
ego
—
paixões,
desejos,
ilusões
—
criados
pela
ignorância,
assim
como
negar
o
dualismo
envolvido
na
preferência
pelas
formas
agradáveis
ao
olhar.
Alguém
que
desconheça
as
características
especiais
do
budismo
Vajrayana
admitiria
que
a
aparência
diabólica
de
Yamantaka
não
é
outra
senão
a
do
jovem
e
encantador
Manjushri,
de
voz
suave!
De
pele
azul,
com
muitas
cabeças
(a
maior
é
de
um
touro
feroz;
a
menor,
uma
minúscula
e
sorridente
cabeça
de
Buda
acima
de
todas,
a
única
que
sugere
que
sua
função
é
secretamente
benigna),
Yamantaka
tem
incontáveis
membros;
as
mãos,
que
não
empunham
uma
ou
outra
de
uma
variada
coleção
de
armas
assassinas,
seguram
objetos
tão
terríveis
como
uma
taça
de
sangue
no
feitio
de
um
crânio
humano;
sob
seus
pés,
jazem
montes
de
cadáveres;
seus
ornamentos
são
confeccionados
com
ossos,
esqueletos
humanos
e
cabeças
cortadas;
brotam
chamas
de
seu
corpo
em
todas
as
direções
—
no
entanto,
apesar
de
os
iogues
consumados
o
virem
como
um
ser
fantasmagórico
e
raivoso,
cercado
de
fogo
ardente,
sua
proximidade
não
os
atemoriza,
pois
eles
bem
sabem
que
essa
ferocidade
não
é
dirigida
contra
os
seres
humanos
e
pecadores,
mas
contra
as
más
inclinações
de
suas
mentes
e
contra
o
ego,
que
deve
ser
destruído
impiedosamente
antes
que
se
conquiste
a
Iluminação.
Ele
é
a
encarnação
de
suas
paixões,
cobiças
e
ilusões,
mas
também
dos
poderes
maravilhosos
da
transmutação
pelos
quais
a
energia
gerada
por
esses
erros
é
usada
contra
eles.
As
armas
de
Yamantaka,
com
suas
lâminas
afiadas
e
denteadas,
são
instrumentos
com
os
quais
a
sabedoria
corta
os
laços
da
escuridão;
o
horrível
colar
que
pende
de
seu
pescoço
é
composto
de
cabeças,
não
de
seres
humanos,
mas
de
paixões
decapitadas.
Os
seguidores
de
tradições
com
aparência
menos
apavorante
inclinam-se
a
dizer
que
não
há
necessidade
de
um
Simbolismo
tão
bestial,
mas
nele
está
contido
algo
mais
do
que
um
Simbolismo;
o
iogue
deve
vivenciar
essas
formas
assustadoras
como
realidades
vivas
carregadas
de
feroz
energia
e
movimento;
de
certo
modo,
ele
deve
aspirar
o
cheiro
do
touro
e
sentir
o
bafo
chamuscante
das
chamas
como
parte
de
uma
tremenda
experiência
psíquica,
pela
qual,
dia
após
dia,
as
forças
do
ego
são
derrotadas.
Não
se
trata
de
olhar
figuras
apenas,
ou
de
meditar
sobre
vagas
formas
sem
vida.
A
Fonte-Realidade,
apesar
de
ser,
ao
fim,
calma,
remota,
intangível,
cria
toda
espécie
de
contraste
violento
no
reino
das
aparências.
Como
tudo
isso
pode
ser
descartado
pelos
que
procuram
conhecer
a
Verdade
como
um
todo?
Além
do
mais,
desde
que
a
consciência
humana
contém
tanta
coisa
egoística,
violenta,
cruel
e
profundamente
enraizada,
como
podem
essas
más
tendências
ser
combatidas
senão
por
forças
tão
implacáveis
e
impiedosas
como
elas
próprias?
Destruí-las
dentro
do
espaço
de
um
período
de
vida
é
tarefa,
não
para
melindrosos,
mas
para
gigantes
indomáveis
que
venceram
o
medo
e
o
ódio.
Yamantaka,
cujo
nome
significa
Vencedor
da
Morte,
é
assim
denominado
porque
a
contemplação
de
sua
forma
pelos
iogues
adequadamente
instruídos
constitui
um
dos
poderosos
meios
pelos
quais
a
cadeia
de
uma
era
de
nascimento
é
morte
é
subitamente
cortada.
Libertando
a
mente
da
dualidade,
a
morte
e
a
vida
são
transcendidas,
mas
as
inclinações
maléficas
escondidas
nas
profundezas
da
consciência
do
adepto
devem
ser,
primeiro,
levadas
para
a
claridade,
reconhecidas
pelo
que
são
e
depois
destruídas.
A
forma
iogue
da
deidade
retrata
simultaneamente
a
fealdade
do
mal,
a
energia
causticante
e
a
força
feroz
de
vontade
necessárias
para
sua
rápida
destruição.
A
contemplação
de
formas
tão
plácidas
como
as
de
Chenresig
ou
de
Tara
é
um
remédio
insuficiente
para
se
vencer
a
cobiça
ou
a
paixão
dominadoras;
daí,
a
absoluta
necessidade
da
ioga
para
seres
como
Yamãntaka
e
as
terríveis
dakinis
nuas.
Quando
Yamãntaka
é
evocado,
deve
haver
uma
resolução
ardente
de
apagar
o
tríplice
fogo
da
paixão,
da
cobiça
e
da
ignorância.
O
mantra
pelo
qual
sua
forma
está
imbuída
de
vida
é
o
seguinte:
OM
YAMÃNTAKA
HUM
PHAT!
Os
mantras
de
deidades
lutadoras
são
breves!
Dessas
sílabas,
só
PHAT
(em
tibetano:
Pé)
exige
explicação.
Sua
rápida
e
explosiva
ejaculação
afasta
más
influências,
chama
de
volta
a
mente
distraída
para
a
unidade
durante
a
ioga
contemplativa,
e
representa
um
estímulo
para
a
visão
espiritual.
Essa
forma
de
ioga,
como
todas
as
outras,
deve
terminar
com
um
sentimento
de
gratidão
cordial
pelo
poder
recebido
e
ser
seguida
pela
dedicação
do
merecimento
a
todos
os
seres.
O
Mantra
da
Sabedoria
e
do
Ensinamento
Assim
como
Avalokiteshvara
personifica
a
compaixão,
a
contrapartida
do
benigno
e
encantador
Manjushri
personifica
a
sabedoria.
Não
se
deve
temer
a
arma
que
ele
mantém
erguida:
é
a
espada
para
Discriminar
o
Conhecimento,
pela
qual
os
laços
da
ignorância
são
destruídos.
Seu
outro
atributo,
um
livro
ou
uma
pilha
de
volumes,
representa
a
Perfeição
da
Sabedoria
Sutra,
que
muitos
tibetanos
apreciam
acima
de
tudo.
Às
vezes,
Manjushri
é
visto
de
pernas
cruzadas
sobre
um
lótus;
mais
freqüentemente,
está
a
cavalo
sobre
um
tigre
bonito,
de
aparência
amigável.
A
única
lembrança
de
sua
emanação
odiosa
é
a
cor
azul
de
sua
pele.
Pelos
Nyingmapas,
ele
é
raramente
tido
como
um
Yidam,
pois
se
acredita
que
ele
é
arisco
e
dificilmente
atende
pela
forma
de
invocação
habitual;
no
entanto,
é
de
presumir
que
os
Gelugpas
pensem
de
modo
diferente,
pois
ele
e
Yamãntaka
são
os
principais
guardiões
de
sua
seita.
Há
ocasiões
em
que
é
extremamente
apropriado
buscar
sua
ajuda.
Em
geral,
ele
é
invocado
por
escritores
que
iniciam
novas
obras
nos
campos
das
artes
e
do
conhecimento
científico.
Muitos
livros
começam
com
alguns
versos
em
sua
honra,
para
que
não
se
cometam
erros
graves.
Seu
mantra
é:
OM
ARAPACHANA
DHI
Existe
a
peculiaridade
de
que,
após
ter
sido
pronunciado
várias
vezes,
é
então
falado
com
repetição
múltipla
da
sílaba
final,
tornando-se
OM
ARAPACHANA
DHTH
DHTH
DHTH
DHTH
DHTH.
.
.
Como
em
todos
os
mantras,
a
mente
é
Rainha.
Deve
haver
uma
poderosa
aspiração
para
que
o
fluxo
da
sabedoria
brote
do
íntimo
e
também
um
sentimento
de
gratidão
cordial
quando
o
fluxo
é
mentalmente
apreendido.
O
Mantra
da
Purificação
O
mantra
conhecido
por
todos
os
iniciados
é
o
de
Vajrasattva,
suprema
encarnação
da
energia
sabedoria-
compaixão,
que
é
retratada
no
próprio
centro
da
mandala
ou
padrão
esquemático
que
ilustra
as
divisões
e
subdivisões
dessa
energia;
assim,
ele
representa
o
Buda
Sabedoria
em
sua
forma
pura
e
não-diferenciada.
Como
até
os
mais
destacados
adeptos
dificilmente
podem
evitar
uma
ocasional
infração
dos
votos-samaya
feitos
por
ocasião
da
iniciação,
é
necessário
que
haja
meios
de
reparar
os
danos.
Isso
é
feito
pelo
adepto
que
visualiza
Vajrasattva
sentado
sobre
sua
cabeça.
Depois
de
invocações
apropriadas
e
da
geração
do
verdadeiro
arrependimento
pelo
mal
feito,
são
recitadas
as
Cem
Sílabas
Mantras
várias
vezes,
durante
o
que
brota
um
brilhante
néctar
branco
do
coração
da
deidade,
passando
pelo
alto
da
cabeça
do
adepto,
enchendo
gradualmente
todo
o
seu
corpo
e
expelindo
de
seus
orifícios
inferiores
as
correntes
escuras
das
más
inclinações
que
fluem
para
as
bocas
escancaradas
de
Yama
(Morte)
e
seus
servidores
reunidos
numa
praça
subterrânea,
profunda,
diretamente
abaixo
de
onde
está
sentado
o
adepto,
realizando
seus
ritos
de
purificação.
Quando,
após
um
tempo
que
pode
ser
para
alguns
desconfortavelmente
longo,
o
adepto
percebe,
segundo
a
ioga,
que
seu
corpo
está
limpo
e
brilha
agora
como
um
vaso
de
cristal
transbordante
de
puro
néctar
branco,
desiste
de
recitar
as
Cem
Sílabas
Mantras
e
começa
a
recitação
do
mantra
do
coração
de
Vajrasattva,
como
segue:
OM
VAJRASATTVA
HUM.
Essas
sílabas
cintilam
à
sua
volta,
emitindo
raios
de
luz
brilhantemente
colorida
—
OM,
branca
na
frente;
VAJRA,
amarela
à
direita;
SAT,
vermelha
atrás;
TVA,
verde
à
esquerda
e
HUM,
azul
em
seu
coração.
Continuando
essa
prática
pelo
maior
tempo
possível,
o
adepto
conclui
o
rito
da
maneira
usual,
culminando
numa
dedicação
do
mérito.
Todas
essas
práticas
dependem
do
reconhecimento
de
que
por
todo
o
universo,
todos
os
objetos
aparentes
são
nascidos
da
mente.
0
que
explica
o
fato
de
as
sílabas
mentalmente
criadas
poderem
encher
o
céu
com
uma
multidão
de
deidades
brilhantes
é
o
seguinte:
assim
como
o
Vazio
(o
Tao,
o
Deus
Pai,
a
Mente,
a
Mãe
do
Universo)
é
a
fonte,
contingente
e
vida
de
todos
os
fenômenos,
assim
cada
mente
individualmente
e
o
contingente
do
Vácuo!
Sendo
de
natureza
única
e
livres
das
leis
espaciais,
elas
são
coterminantes.
Toda
santidade
e
sabedoria
ali
residem.
A
verdadeira
natureza
do
homem
transcende
a
mais
elevada
concepção
de
divindade
jamais
formulada
neste
ou
noutros
mundos.
Dentro
da
dimensão
de
seu
crânio,
giram
galáxias
inteiras.
Livre
do
tempo
e
do
espaço,
o
Vasto
Contingente
de
universos
tão
numerosos
como
os
grãos
de
areia
do
rio
Ganges
está
presente
em
sua
inteireza
dentro
da
mais
minúscula
de
suas
partes!
Mas
as
mentes
iludidas
pelo
pensamento
dualístico
estão
cegas
para
a
sua
verdadeira
natureza;
e
a
simples
aceitação
intelectual
da
verdade
nada
faz
para
a
percepção
direta
de
seu
esplendor.
Portanto,
vários
meios
habilidosos
foram
imaginados
para
alimentar
uma
percepção
clara.
Os
mantras,
gestos
e
visualizações
empregados
nestas
iogas
dão
acesso
a
fatores
psíquicos
mergulhados
no
nível
mais
profundo
da
consciência
do
adepto.
Homens
analfabetos
ou
muito
eruditos,
supersticiosos
ou
relativamente
esclarecidos
podem
usá-los
com
igual
proveito,
com
a
diferença
de
que
o
erudito
poderá
ter
de
lutar
com
mais
pesada
carga
de
obscurantismos
que
o
homem
simples.
Aí
está
o
verdadeiro
significado
dos
mantras.
Ainda
que
possam
ser
usados
efetivamente
para
realizar
uma
variedade
de
propósitos,
sua
mais
elevada
meta
é
assistir
o
contemplador
do
mantra
para
que
chegue
a
ver
face
a
face
a
sua
própria
divindade.
Por
comparação,
todas
as
outras
finalidades
são
triviais.
Capítulo
6
PALAVRAS
DE
PODER
Nos
capítulos
anteriores,
além
de
descrever
como
fui
levado
a
um
meio
onde
as
artes
mântricas
ainda
florescem,
estendi-me
principalmente
sobre
a
função
dos
mantras,
pouco
dizendo
a
respeito
de
sua
natureza.
Já
esclareci
que,
entre
os
tibetanos,
sua
função
primordial
está
relacionada
com
a
ioga
primitiva;
e
já
me
referi
ao
seu
uso
para
obter
resultados
aparentemente
externos
à
mente
de
quem
os
controla,
tais
como
alívio
nas
doenças,
mas
sugeri
que
sua
influência
em
tais
casos
pode
ser
mais
subjetiva
do
que
a
princípio
pode
parecer.
Mencionei,
também,
apesar
de
não
ter
investigado,
a
afirmativa
de
muitos
tibetanos
de
que
os
mantras
podem
realmente
conseguir
resultados
miraculosos,
tais
como
causar
ou
evitar
tempestades
de
granizo.
No
momento,
deixarei
esta
terceira
possibilidade
e
me
contentarei
com
as
duas
asserções
de
que
os
mantras
podem
ser
usados
à
maneira
iogue
com
efeitos
espantosos,
e
de
que
algumas
vezes
parecem
operar
de
modo
totalmente
objetivo,
em
parte
ou
no
todo.
Surgem
agora
duas
questões:
Qual
é
a
natureza
dos
mantras
e
a
verdadeira
explicação
para
o
seu
poder?
Se,
como
se
supõe
com
freqüência,
é
apenas
a
fé
na
eficácia
que
lhe
confere
poder,
haverá
real
necessidade
de
uma
grande
linha
de
mantras?
QUALQUER
mantra
produziria
todos
os
resultados
realizáveis,
se
um
adepto
adequadamente
treinado
estivesse
convencido
de
sua
eficácia
para
todos
os
propósitos?
A
natureza
exata
dos
mantras
é
matéria
tão
difícil
de
esclarecer,
que
me
parece
melhor
começar
revendo
o
assunto
num
contexto
global,
pois
há
poucas
comunidades
no
mundo
nas
quais
a
crença
generalizada
nos
poderes
transformadores
e
criativos
da
palavra
nunca
se
tenha
arraigado.
Com
relação
à
poderosa
força
do
shabda
(som
sagrado),
a
doutrina
hindu,
ensinada
por
algumas
seitas
até
hoje,
tem
paralelos
antigos
em
conceitos
tais
como
o
Logos,
a
harmonia
das
esferas
e
assim
por
diante.
Possivelmente,
o
dictum
pronunciado
por
Confúcio,
há
cerca
de
dois
mil
e
quinhentos
anos,
sobre
o
fato
de
ser
a
música
essencial
para
a
governança
do
Estado,
possui
um
significado
mais
transcendental
do
que
em
geral
se
aceita.
Há
nos
escritos
dos
antigos
muitas
passagens
curiosas
que
atribuem
um
estupendo
e
até
um
supremo
poder
criador
à
divina
energia
do
som.
Em
escritos
ulteriores,
tais
passagens
tornam-se
escassas;
com
exceção
de
certas
seitas
tântricas
hindus,
diminuiu
a
crença
de
que
uma
suprema
energia
do
som
produziu
a
criação
do
universo;
mas
há
vestígios
dessa
crença,
ou
de
outras
análogas
sobre
a
atribuição
de
poder
criador,
transformador
ou
destruidor
de
pronunciamentos
esotéricos,
que
sobrevivem
abrangendo
desde
os
mantras
até
palavras
de
feiticeiros.
Narro
alguns
exemplos
ao
acaso,
tanto
passados
quanto
presentes:
Há
uma
figura
Cabalística
da
Árvore
da
Vida
que,
representando
o
universo,
tem
vinte
e
dois
membros,
cada
um
dos
quais
representa
uma
letra
do
alfabeto
hebraico,
à
qual
é
atribuída
uma
hierarquia
correspondente
de
idéias.
Essa
noção
dos
sons
de
um
alfabeto,
que
representa
magicamente
a
totalidade
da
sabedoria,
faz
lembrar
o
Mantra
da
Transmutação
da
Fala,
já
descrito.
Aprendemos
com
G.R.S.
Mead
que
a
liturgia
mitraica
continha
fórmulas
mágicas
consideradas
como
"sons
de
raiz",
que
davam
origem
a
certos
poderes
divinos.
0
termo
"sons
de
raiz"
traz
logo
à
mente
os
bija-mantras,
pois
"bija"
significa
"semente".
Novalis
conta-nos
que
a
fala
das
noviças
de
Sais
era
um
canto
maravilhoso,
cujos
tons
penetravam
o
íntimo
da
natureza,
"dilacerando-o";
e
cujas
vibrações
"produziam
imagens
de
todos
os
fenômenos
do
mundo".
A
evocação
de
imagens
é
precisamente
a
função
dos
mantras
usados
na
ioga
contemplativa;
e
a
desintegração
de
entidades,
em
resposta
a
palavras
de
poder,
talvez
se
fundamente
no
ponto
de
vista,
que
será
examinado
no
capítulo
seguinte,
de
que
cada
objeto
está
relacionado
com
um
som
sutil
que,
pronunciado,
pode
destruir,
modificar
ou
dar
vida
ao
objeto
correspondente.
Se
existem
realmente
iogues
com
o
poder
de
desintegrar
objetos
ao
pronunciarem
mantras
apropriados,
o
segredo
deve
estar
no
exemplo
de
objetos
desintegrados
por
alguma
sutil
contrapartida
de
vibração
física.
A
reversão
desse
processo
mágico
seria
responsável
pelo
aparecimento
de
objetos
surgidos
do
nada.
Sinto-me
inclinado
a
mencionar
essa
possibilidade,
apesar
de
não
estar
absolutamente
convencido
de
que,
mesmo
supondo
que
ocorram
realmente
milagres,
a
explicação
esteja
nessa
direção.
A
profundidade
da
passagem
inicial
do
Evangelho
de
São
João,
talvez
raramente
compreendida,
não
é
o
testemunho
único
da
existência
de
uma
crença,
outrora
predominante,
de
que
o
universo
nasceu
do
som;
até
hoje
podemos
encontrar
na
índia
os
que
afirmam
que
o
universo
surgiu
em
resposta
à
criativa
sílaba
OM,
e
em
tempos
antigos
houve
provavelmente
muitas
culturas
para
as
quais
a
influência
de
crenças
similares
foi
decisiva.
Dispersas
pelas
obras
dos
gregos
gnósticos,
há
passagens
que
levam
a
essa
conclusão,
e
as
liturgias
das
igrejas
cristãs
contêm
o
que
parecem
ser
remanescentes
claros,
apesar
de
meio
superficiais,
do
conhecimento
concernente
às
sutis
qualidades
do
som.
A
queda
dos
muros
de
Jericó
foi
por
vezes
encarada
sob
esta
luz,
e
não
é
raro
encontrar
pessoas
que
afirmam
que
"amém"
e
"aleluia"
têm
(ou
tiveram
outrora)
um
significado
mântrico.
Certamente,
é
estranho
que
essas
palavras
fossem
deixadas
sem
tradução
em
contextos
em
que
tudo
o
mais
foi
reproduzido
em
linguagem
moderna.
Se
nenhuma
virtude
mântrica
foi
jamais
ligada
ao
som
do
"amém"
(que
a
Enciclopédia
Britânica
garante
não
ser
mais
do
que
um
termo
de
concordância,
confirmação
ou
desejo),
não
haveria
razão
para
não
ser
traduzido.
Ouvi
dizer
que
na
liturgia
da
Igreja
Ortodoxa
Grega,
onde
aparece
na
forma
arameen
ou
ahmeen,
seu
uso
é
muito
próximo
do
dos
mantras.
O
caso
do
"aleluia"
é
de
certo
modo
similar;
pois,
ostensivamente,
não
significa
mais
do
que
"Deus
seja
louvado"
(Yaveh,
o
Senhor);
o
fato
de
terem
conservado
essa
palavra
na
sua
forma
original
sugere
que
sua
virtude
é
considerada
inerente
ao
som.
Será
que
o
costume
hebreu
de
nunca
pronunciar
o
verdadeiro
nome
da
divindade
reflete
o
medo
pelo
poder
das
palavras
sagradas?
Talvez
seja
simplesmente
respeito,
como
os
chineses
evitam
palavras
que
acaso
formem
parte
do
nome
paterno,
mesmo
quando
sejam
usadas
comumente
com
kuang
(luz)
ou
wen
(literatura).
Por
outro
lado,
pode
ser
devido
à
crença
de
que
o
verdadeiro
nome
de
Deus
é
uma
palavra
de
terrível
poder
que
poderia
destruir
quem
a
empregasse
—
conceito
que
também
tem
uma
contrapartida
chinesa,
exemplificada
pela
deliberada
pronúncia
errada
da
palavra
"four"
em
cantonês,
por
ser
homônima
do
termo
que
significa
"morte"
—
palavra
de
mau
agouro,
cuja
elocução
poderia
acarretar
conseqüências
fatais.
Também
ficamos
pensando:
por
que
a
Igreja
Católica
prescreve
múltiplas
repetições
do
Pai-nosso
e
da
Ave
Maria
se
o
fato
de
se
recitar
essas
orações
não
tivesse
um
significado
que
ultrapasse
o
sentido?
Pois
o
sentido,
longe
de
ser
valorizado
pela
repetição,
é
por
ela
atenuado.
Haverá
talvez
algum
sinal
de
sentimento
em
relação
ao
poder
do
som
na
tristeza
despertada
em
alguns
católicos
pelo
costume
recém-introduzido
de
se
rezar
a
Missa
em
vernáculo,
em
vez
de
o
fazer
em
latim?
Serão
consideradas
como
diminuídas
algumas
virtudes
sacramentais,
na
esteira
dos
conhecidos
sons
latinos?
Dentro
do
rebanho
do
Islã,
será
derivado
da
crença
na
virtude
do
som
do
sagrado
nome
o
costume
de
o
dervixe
repetir,
horas
a
fio,
o
nome
de
Alá?
Deduzir
destes
exemplos
vestígios
de
um
reconhecimento,
outrora
largamente
difundido,
do
poder
mântrico,
talvez
seja
ir
longe
demais,
mas
não
podemos
deixar
de
fazer
essa
indagação.
As
histórias
de
feitiçaria
e
magia
dão
muito
valor
às
palavras
de
poder
—
abracadabra
é
apenas
uma
entre
uma
quantidade
infinda
de
palavras
mágicas,
às
quais
são
atribuídos
efeitos
miraculosos.
Por
terem
tais
feitiços
intenções
indignas,
o
princípio
básico
não
fica
alterado.
Além
do
mais,
a
feitiçaria
muitas
vezes
floresce
como
remanescente
de
uma
religião
outrora
respeitável,
agora
adulterada
pela
supressão
e
conseqüente
substituição
de
seus
ministros
categorizados
por
camponeses
quase
analfabetos,
em
lugares
afastados
das
sedes
de
cultura
e
autoridade,
de
modo
que
talvez
as
palavras
mágicas
tenham
origem
em
palavras
sagradas
de
poder.
Nem
os
mantras
nem
os
feitiços
podem
ser
bons
ou
maus
em
si
mesmos;
como
espadas,
podem
ser
postos
a
serviço
de
bons
ou
maus
propósitos;
a
eficácia
que
possam
ter
depende
de
um
acompanhamento
mental,
pois
seria
ridículo
supor
que
palavras
pronunciadas
distraidamente
sejam
mais
eficientes
do
que
a
tentativa
de
uma
criança
para
apressar
a
mudança
de
uma
luz
no
tráfego
para
verde,
gritando
abracadabra.
Entretanto,
não
vale
dizer
que
as
palavras
não
têm
importância
para
os
acontecimentos;
pois,
a
não
ser
que
sua
pronúncia
seja
uma
fonte
ou
veículo
de
poder,
para
que
deveria
haver
palavras
mágicas?
Todos
os
amigos
aos
quais
escrevi
indagando
sobre
analogias
ocidentais
com
o
Budismo
e
com
os
mantras
hindus
citaram
a
Prece
a
Jesus
dos
adeptos
mais
inclinados
à
mística
dos
ramos
grego
e
russo
da
Igreja
Ortodoxa.
Pessoalmente,
considero
tal
oração
mais
próxima
dos
mantras
do
que
das
fórmulas
nien-fu
(nembutsu
ou
japa)
anteriormente
descritas.
No
entanto,
como
é
provável
que
essas
fórmulas
operem
de
modo
muito
semelhante
ao
dos
mantras,
e
recebam
seu
poder
de
uma
fonte
comum,
a
Prece
a
Jesus
é
de
grande
interesse
neste
contexto.
Agradeço
a
dom
Sylvester
Houédard
pelas
notas
eruditas
nas
quais
se
abeberam
os
comentários
seguintes.
A
Prece
a
Jesus
é
uma
fórmula
mística
que
diz:
"Senhor
Jesus
Cristo,
Filho
de
Deus,
tem
piedade
de
nós"
(as
palavras
"de
nós"
são
às
vezes
substituídas
por
"de
mim,
pecador").
Seja
ou
não
resultado
da
inspiração
sufi,
ou
possivelmente
de
influência
mais
indireta
originada
em
fonte
hindu
ou
budista,
ela
foi
usada
no
monte
Athos
dentro
de
um
contexto
iogue
assim
como
concentração
na
respiração
e
nas
batidas
cardíacas,
fixação
do
olhar
e
evocação
da
luz
interior;
com
freqüência,
ela
é
usada
mais
simplesmente
como
um
foco
de
concentração
iogue,
sendo
recitada
verbal
ou
mentalmente
sem
interrupção.
Das
muitas
referências
a
essa
oração
nos
escritos
místicos
cristãos,
há
uma
pelo
Pseudo-
Crisóstomo
que,
de
imediato,
relembra
a
ioga
Yidam.
É
assim,
em
parte:
De
manhã
à
noite,
repita...
(a
Prece
a
Jesus)
Enquanto
come,
bebe
e
assim
por
diante
Até
que
ela
penetre
no
coração,
Desça
às
profundezas
do
coração...
O
coração
para
absorver
o
Senhor,
O
Senhor
para
absorver
o
coração
Até
que
sejam
uma
unidade.
Você
é
também
o
templo
e
o
lugar
Onde
praticar
a
oração.
Um
relatório
encantador
sobre
o
uso
tradicional
dessa
oração
(sem
os
acompanhamentos
especiais
acima
mencionados)
está
contido
na
autobiografia
de
um
simples
místico
russo
que
fez
dela
o
centro
de
sua
vida;
este
livro
foi
traduzido
para
o
inglês
por
R.
M.
French
sob
o
título
de
The
Way
of
a
Pilgrim.
Passaram-se
muitos
anos
desde
que
o
li;
mas,
se
minha
memória
merece
confiança,
o
peregrino
se
dispôs
a
recitar
a
oração,
dia
e
noite,
sem
interrupção,
de
modo
que
ela
continuava
em
sua
mente
mesmo
quando
conversava
com
outros
ou
cuidava
dos
seus
afazeres.
Sua
narrativa
sobre
os
maravilhosos
resultados
combina
exatamente
com
o
que
escreveram
devotos
chineses
e
japoneses
sobre
a
invocação
do
Buda
Amitabha.
A
leitura
do
que
ele
conta
é
suficiente
para
desmoralizar
a
idéia
de
que
a
repetição
de
uma
simples
fórmula,
dia
após
dia,
ano
após
ano,
é
uma
prática
estéril,
ainda
menos
uma
prática
aloucada.
Percebe-se
nela
a
força
latente
e
a
mesma
elevação
espiritual
exaltada
que
me
fizeram
ficar
alegremente
humilde
na
presença
dos
santos
devotos
do
Buda
Amitabha.
A
dom
Sylvester
devo
também
a
seguinte
informação
sobre
uma
fórmula
meio
parecida,
usada
pelos
sufis
em
busca
de
comunhão
mística
com
Deus.
É
conhecida
como
Ismu'z
Zat
(Nome
da
Essência
Divina)
e
uma
versão
dela
diz:
"Hu
El-Haiy
El-Quaiyum"
(Ele,
o
Vivo,
o
Auto-Subsistente).
Ao
passo
que
isso
faz
lembrar
as
fórmulas
nien-fu,
há
também
sufis
que
recitam
a
sílaba
"Hu"
ou
"Huwa"
apenas,
mental
ou
oralmente,
sem
interrupção,
prática
tão
próxima
da
recitação
da
sílaba
mântrica
OM
que
ficamos
a
pensar
se
é
correto
traçar
uma
linha
divisória
entre
nien-fu
e
a
prática
mântrica.
Recentemente,
o
maior
interesse
pelo
uso
de
mantras
hindus
e
budistas
fez
com
que
o
termo
sânscrito
"mantra"
tenha
passado
para
as
línguas
modernas,
mas
tem
sido
empregado
de
forma
um
tanto
incorreta.
Para
falar
adequadamente,
os
mantras,
em
contradição
com
outras
invocações
consideradas
sagradas
(que
podem,
no
entanto,
como
tal,
ser
consideradas
por
agirem
mantricamente),
são
arranjos
de
sílabas
sagradas,
variando
de
uma
até
vários
milhares
de
sílabas,
cuja
eficácia
não
depende
em
absoluto
de
seu
significado
verbal,
ainda
que
alguma
espécie
de
sentido
possa
ser
extraída
delas.
OM
MANI
PADME
HUM
é
um
bom
exemplo
de
mantra,
do
qual
apenas
a
primeira
e
a
última
sílabas
têm
realmente
um
sentido
verbal,
embora
não
dê
mais
do
que
uma
vaga
sugestão
.de
sua
verdadeira
importância.
Mesmo
naquelas
partes
do
mundo
budista
onde
a
influência
Vajrayana
tem
sido
virtualmente
nula,
formas
de
práticas
quase
mântricas
são
muito
usadas,
com
mais
freqüência
do
que
supõem
muitos
ocidentais
convertidos
ao
budismo.
De
fato,
até
mesmo
a
seita
Ch'an
(Zen),
que
sempre
é
citada
pelos
escritores
ocidentais
como
rigidamente
oposta
a
ritos,
recitações
e
outras
práticas
litúrgicas,
faz
uso
dos
mantras;
por
exemplo,
os
monges
de
Ch'an
recitam
diariamente
o
Menor
Coração
Sutra,
obra
de
imensa
profundeza,
que
termina
com
as
palavras
GATÉ
GATÉ
PARAGATÉ
PÀRASAMGATÉ
BODHI
SVAHA.
Isto
é
descrito
nesse
sutra
como
"o
mantra
inigualável,
o
aliviador
de
todo
sofrimento"
e,
apesar
de
ter
um
sentido
mais
ou
menos
inteligível
(Longe,
longe,
para
bem
longe,
bem
longe
—
Iluminação!),
é
usado
sem
referência
ao
seu
sentido,
sendo
de
fato
uma
invocação
de
Prajnaparamita,
corporificação
da
sabedoria
transcendental.
Similarmente,
tem
sentido
apenas
superficial
a
referência
aos
budistas
Theravadin
do
sudoeste
da
Ásia,
como
se
eles
não
dessem
valor
aos
mantras.
0
Sutra
Mangala,
cantado
em
casamentos,
inaugurações
e
em
outras
ocasiões
festivas,
é
um
entre
vários
textos
cuja
recitação
é
considerada
auspiciosa,
produtora
de
boa
sorte.
Estes
e
os
Parittas
são
recitados
para
afastar
doenças
e,
sem
serem
exatamente
mantras,
são
muito
estimados
por
seu
efeito
mântrico.
Assim,
de
certo
modo
diariamente
é
recitada
a
fórmula
para
buscar
refúgio
na
Tríplice
Jóia,
invariavelmente
cantada
três
vezes.
A
ênfase
na
múltipla
recitação
de
fórmulas
sagradas
indica
que
alguma
virtude,
além
do
sentido
comunicado,
é-lhes
inerente,
que
elas
são
portadoras
de
bênção
ou
afastam
popularmente
o
mal;
noutras
palavras,
que
elas
têm
as
exatas
qualidades
que
são
atribuídas
aos
mantras.
O
fato
de
que
essa
atribuição
de
poder
semelhante
aos
mantras
não
é
(ou
anteriormente
não
era)
de
todo
inconsciente,
apóia
no
uso
que
os
Thai
Theravadins
fazem
do
termo
suat
mon
(que
significa
literalmente
"recitando
mantras"),
quando
se
referem
a
essa
prática,
pois
"mon"
é
a
contração
da
palavra
"mantra".
O
uso
de
mantras,
ou
de
outras
fórmulas
verbais
consideradas
como
imbuídas
de
poder,
é
uma
característica
daqueles
tipos
de
prática
religiosa
essencialmente
místicos.
Das
três
categorias
em
que
divido
os
mantras
—
isto
é,
os
subjetivos,
os
aparentemente
objetivos
e
os
realmente
objetivos
em
sua
maneira
de
operar
—,
é
certo
que
a
primeira
e
provavelmente
a
segunda
realmente
operem
por
meio
de
processos
criativos,
transformadores
e
destruidores,
que
acontecem
dentro
da
mente
de
quem
os
opera.
Apenas
os
que
ficam
na
terceira
categoria
têm
uma
semelhança
mais
do
que
superficial
com
as
magias.
Dos
outros
dois,
a
primeira
categoria
é
superiormente
importante.
Hoje
em
dia,
pelo
menos,
o
ensinamento
dos
lamas
sobre
o
assunto
dos
mantras
é
quase
totalmente
relativo
ao
seu
uso
na
ioga
contemplativa;
eles
tendem
a
abandonar
outros
usos
por
serem
pouco
importantes,
não
merecendo
atenção
continuada
—
não
porque
a
crença
no
que
poderíamos
chamar
de
fenômenos
sobrenaturais
tenha
diminuído,
mas
simplesmente
em
razão
de
sua
preocupação
única
com
o
rápido
desenvolvimento
espiritual
de
seus
discípulos.
No
nível
popular,
entretanto,
os
tibetanos
têm
enorme
interesse
pelo
que
são,
ou
parecem
ser,
efeitos
objetivos
realizáveis
por
mantras
provavelmente
considerados
mais
ou
menos
idênticos
às
palavras
mágicas.
Muito
se
ouve
falar
de
mantras
que
são
usados
para
afastar
perigos
e
infortúnios,
mas
poucas
pessoas
parecem
ter
pensado
na
questão
de
saber
se
quem
lida
com
mantras
atinge
a
invulnerabilidade
a
certas
doenças
por
ter
entrado
numa
transformação
interior
ou
se,
na
verdade,
pode
causar
transformações
em
objetos
externos
ou
em
circunstâncias.
Não
devemos
tratar
com
escárnio
essas
crenças
populares.
Há
provas
mais
do
que
suficientes
para
indicar
que
alguns
dos
efeitos
"externos"
atribuídos
aos
mantras
realmente
ocorrem.
Os
fatos
aí
estão
mas,
não
obstante
qualquer
posição
que
se
tome
com
relação
a
eles,
certos
aspectos
permanecem
obscuros.
Por
exemplo:
não
se
pode
duvidar
de
que
os
mantras
são
às
vezes
suficientes
para
a
cura
de
doenças,
seja
do
adepto
ou
de
outra
pessoa.
Sei
disso
por
experiência
própria,
pois
obtive
e
testemunhei,
se
não
curas,
pelo
menos
alívio
de
doenças
efetuado
pelos
mantras.
No
entanto,
há
lamas
altamente
conhecidos
por
sua
habilidade
iogue
que
sofrem
penosamente
de
doenças
periódicas
como
asma,
que
eu
acredito
seja
de
caráter
"psicossomático",
a
ponto
de
ser
suscetível
de
um
tratamento
subjetivo.
Por
que
eles
não
se
curam
pela
ioga?
Será
porque
não
podem
ou
porque
são
impedidos
de
o
fazer
devido
a
seu
íntimo
conhecimento
sobre
a
ação
da
lei
kármica,
pela
convicção
de
que
o
sofrimento
é
justo,
e
afastá-lo
numa
forma
seria
simplesmente
adiá-lo
para
outra?
Sobre
os
mantras
usados
para
tratar
de
grande
variedade
de
doenças,
os
das
Vinte
e
Uma
Taras
oferecem
um
exemplo
abrangente.
Já
ouvi
relatos
devidamente
documentados
para
que
se
possa
duvidar
de
todos.
Todavia
acho
difícil
aceitar
que
os
mantras
possam
causar
incêndios,
inundações
ou
amainar
tempestades;
ou
forçar
soldados
—
possivelmente
demônios
—
a
abandonar
seus
bárbaros
desígnios.
Entretanto,
encontrei
por
acaso
alguns
artigos
científicos
que
podem
ser
relevantes
sobre
o
assunto.
Segundo
algumas
autoridades,
toda
doença
é
fundamentalmente
psicossomática;
se
é
assim,
então
as
curas
mântricas
causam
menos
surpresa.
Além
disso,
existe
o
conceito
da
"tendência
para
acidentes",
que
relata
desagradáveis
circunstâncias
externas
ligadas
a
estados
de
espírito.
Quando
soubermos
mais
sobre
o
indivíduo
propenso
a
acidentes,
poderemos
começar
a
vislumbrar
os
princípios
baseados
na
operação
dos
mantras
das
Vinte
e
Uma
Taras.
Por
enquanto,
devemos
buscar
alguma
espécie
de
explicação,
que
não
seja
total
nem
particularizada,
sobre
a
concepção
mística
da
mente,
como
fundamento,
recipiente
e
essência
de
todos
os
fenômenos.
Quando
se
aceita
este
ponto
de
vista,
os
mais
espetaculares
mistérios
deixam
de
assombrar
—
ou,
talvez,
os
mais
triviais
objetos
e
circunstâncias
são
revelados
como
mistérios
da
mais
elevada
ordem,
resultando
daí
que
nada
quanto
a
mente
possa
conceber
pareça
totalmente
improvável.
Ao
ler
sobre
tibetanos
e
ao
conversar
com
eles,
chegamos
a
encontrar
referências
ao
que
comumente
é
considerado
como
poderes
supranormais.
Há
muito
aceitei
o
fato
de
que
tais
poderes
podem
ser
desenvolvidos;
pois
pelo
fato
de
raramente
ou
nunca
serem
exibidos
com
propósito
de
demonstrar
sua
existência,
não
se
pode
deixar
de
topar
com
tais
exemplos
quando
se
vive
entre
pessoas
com
elevado
treino
ióguico.
O
exemplo
mais
difundido,
freqüentemente
testemunhado,
é
o
poder
da
telepatia;
sem
desejar
fazê-lo
em
especial,
muitos
lamas
bem-dotados
demonstram,
com
seus
discípulos,
uma
desconcertante
capacidade
para
ler
pensamentos
ainda
não-verbalizados,
inclusive
pensamentos
que
alguém
nem
sonharia
em
tornar
audíveis,
mesmo
que
tivesse
tal
oportunidade!
Isso
não
deveria
parecer
estranho.
Se
a
dedicação
a
toda
uma
vida
de
árdua
prática
iogue
deixasse
de
produzir
frutos
notáveis,
os
tibetanos
—
povo
muito
prático
—
teriam
abandonado
suas
práticas
ascéticas,
há
séculos.
Em
assuntos
desta
ordem,
é
claramente
difícil
apontar
com
exatidão
o
significado
dos
mantras,
pois
eles
constituem
apenas
um
dos
muitos
fatores
envolvidos
no
treino
da
ioga,
e
não
podem
ser
divorciados
dos
processos
psíquicos
que
acompanham
sua
recitação.
Por
mais
longe
que
alguém
vá,
tentando
explicar
tais
assuntos
em
termos
subjetivos,
fica-se
com
um
sólido
saldo
de
efeitos
mântricos
que
dessa
maneira
não
podem
ser
explicados;
ou
nos
devemos
recusar
a
dar
crédito
ao
fato
de
que
eles
às
vezes
ocorrem,
ou
então
aceitá-los
como
miraculosos.
De
um
ponto
de
vista
não-iogue,
este
é
o
aspecto
mais
intrigante
de
todo
este
assunto.
Nas
obras
de
alguns
dos
primeiros
missionários
cristãos
que
escreveram
relatos
sobre
a
região
do
Himalaia
e
sobre
o
próprio
Tibete,
podem-se
achar
descrições
de
tais
ocorrências
extraordinárias,
como
o
desaparecimento,
a
transformação
ou
a
multiplicação
de
objetos
materiais
em
resposta
a
pronunciamentos
mântricos;
e
eu
dei
com
um
relato
semelhante,
escrito
não
há
muito
tempo
por
um
membro
da
seita
dos
Adventistas
do
Sétimo
Dia
(ou
Testemunhas
de
Jeová
—
não
posso
lembrar
qual).
Além
do
mais,
há
inúmeros
relatos
tibetanos
sobre
lamas
capazes
de
façanhas
como
criar
réplicas
animadas
de
seus
próprios
corpos
a
fim
de
aparecer
simultaneamente
em
duas
localidades
distantes.
Nem
devemos
subestimar
aquelas
passagens
da
biografia
do
grande
poeta-sábio
Milarepa,
que
descreve
miraculosas
ocorrências
durante
o
período
anterior
à
sua
regeneração,
tais
como
produzir
uma
tempestade
de
granizo,
que
destruiu
os
perseguidores
de
sua
família.
Na
verdade,
conheci
muitas
pessoas,
nem
todas
do
Tibete,
que
afirmam
ter
testemunhado
o
acúmulo
ou
a
dispersão
de
nuvens
de
chuva
mediante
habilidades
mântricas;
uma
dessas
pessoas
foi
o
Residente
Indiano
em
Sikkhim,
alguns
anos
atrás;
homem
muito
conhecido
por
sua
sagacidade
e
erudição.
Ele
não
é
absolutamente
da
espécie
de
pessoa
que
inventa
ou
modifica
histórias
de
milagres
apenas
pelo
gosto
de
impressionar
o
auditório.
Nunca
ouvi
os
meus
lamas
desprezarem
tais
ocorrências
como
indignas
de
crédito;
julgo
que
sua
relutância
em
discuti-las
comigo
se
devia
ao
sentimento
de
que
minha
curiosidade
era
um
tanto
repreensível,
como
a
de
um
visitante
ao
qual
fossem
oferecidas
pérolas
e
jade,
mas
insistisse
com
seus
hospedeiros
para
que
lhe
mostrassem
alguns
brinquedos
engenhosos
e
divertidos.
Pondo
de
lado,
delicadamente,
minhas
perguntas,
eles
me
deixavam
perplexo.
Se
os
meus
lamas,
de
sabedoria
inatacável,
acreditavam
quase
certamente
que
os
objetos
externos
podem
sofrer
a
ação
e
até
serem
transformados
pelo
poder
mântrico,
penso
que
deve
haver
alguma
base
para
essa
crença.
Teoricamente,
é
claro,
isso
implica
em
admitir
que
um
iogue
consumado,
perseguido
por
um
tigre,
faria
com
que
a
fera
diminuísse
até
ficar
do
tamanho
de
um
gatinho
ou
desaparecesse
de
todo!
Bem,
minha
credulidade
não
vai
tão
longe;
no
entanto,
já
tenho
testemunhado
algo
(admito,
muito
menos
sensacional)
parecido
com
tal
façanha;
vi
certa
vez
um
cão
furioso,
ladrando,
virar-se
de
súbito
e
retirar-se,
com
a
cauda
entre
as
pernas,
em
resposta
a
um
mantra
suavemente
entoado,
sem
qualquer
acompanhamento
de
natureza
agressiva
no
som
e
no
gesto!
Deste
modo,
sinto-me
tentado
a
aceitar
um
princípio,
rejeitando
suas
conseqüências.
Talvez
eu
não
devesse
rejeitá-las;
minha
firme
convicção
de
que
o
universo
é
uma
criação
mental
deveria
logicamente
acarretar
o
reconhecimento
de
que
nada,
em
todo
o
campo
dos
fenômenos
objetivos,
é
na
verdade
impossível
para
um
adepto
capacitado
em
manipular
criações
mentais.
Entretanto,
o
máximo
que
posso
fazer
nesse
sentido
é
não
trancar
minha
mente
com
firmeza
contra
certas
possibilidades
só
porque
me
impressionaram
de
modo
bizarro.
Era
natural
que
os
meus
lamas
desencorajassem
a
simples
curiosidade
ou
o
interesse
acadêmico
por
esses
assuntos;
eles
achavam
que
um
estudioso
de
ioga
devia
ficar
totalmente
ocupado
com
o
uso
prático
do
que
tivesse
aprendido.
Isto
me
obrigou
a
depender
da
observação
casual
ou
até
da
simples
especulação.
No
capítulo
seguinte,
ofereço
—
de
modo
muito
tentador
—
as
sugestões
de
que
façanhas
mântricas
realmente
extraordinárias
podem
requerer
um
domínio
das
leis
do
shabda
(som
sagrado);
e
que,
possivelmente,
muitos
lamas
não
têm
total
conhecimento
dessas
leis
ou,
ainda,
não
estão
preparados
para
discuti-las;
a
primeira
possibilidade
explicaria
por
que
hoje
a
invocação
de
objetos
surgidos
do
nada,
ou
desaparecidos,
seja,
ainda
que
teoricamente
possível,
vista
com
raridade.
Com
relação
aos
efeitos
subjetivos
e
facilmente
demonstráveis
dos
mantras
usados
na
ioga
contemplativa,
não
há
lugar
para
dúvidas.
Basta
aprender
a
ioga
de
modo
correto
para
descobrir
o
poder
dos
mantras,
cada
qual
por
si
mesmo.
Aqui,
a
única
dificuldade
estaria
em
persuadir
os
meditadores
de
outras
crenças
a
aceitar
as
imagens
de
aparência
exótica
como
verdadeiras
encarnações
de
princípios
ou
fenômenos
psíquicos
da
mais
elevada
santidade.
Não
posso
dar
ênfase
maior
do
que
afirmando
que
a
suprema
experiência
mística
é
a
mesma
para
todas
as
crenças,
sejam
elas
inicialmente
concebidas
como
União
com
Deus
Pai
ou
como
realização
de
união
com
a
Fonte,
que
nunca
foi
interrompida
desde
o
princípio,
mas
apenas
perdida
de
vista.
Qualquer
que
seja
a
fé,
seus
adeptos
com
certeza
perceberão
isso
por
si
mesmos
quando
alcançarem
um
estágio
elevado;
mas,
no
começo
e
durante
todo
o
tempo
em
que
persistam
as
imagens
de
qualquer
espécie,
os
diferentes
conceitos
que
as
pessoas
tiverem
do
Sublime
continuarão
a
colorir,
não
só
as
suas
crenças
pessoais,
mas
também
suas
experiências
psíquicas.
Lembro-me
de
certa
correspondência
que
tive
há
pouco
tempo
com
uma
senhora
européia,
que
me
escreveu
contando
como,
durante
experimentos
com
LSD
visando
a
objetivos
religiosos,
havia
desfrutado
a
comunhão
com
o
Buda
Amitabha
e
com
seu
guru
tibetano.
Sem
ter
a
pretensão
de
questionar
tais
asserções,
sugeri
que
sua
experiência,
apesar
de
ser
de
ordem
espiritual,
deveria
ter
recebido
seu
conteúdo
específico
e
seu
colorido
da
meditação
sobre
essas
duas
criaturas.
Em
muitos
casos
de
experiências
místicas
iniciais,
sejam
alcançadas
através
da
prática
iogue
ou
induzidas
por
drogas
ou
por
outros
meios,
não
se
pode
ter
certeza
quanto
a
ser
o
conteúdo
independente
de
crenças
preconcebidas
e
imagens
anteriormente
conhecidas;
só
no
estágio
em
que
a
imagem
for
transcendida
é
que
a
certeza
é
alcançada.
Contudo,
a
universalidade
do
conteúdo
da
experiência
mística
realmente
profunda,
independentemente
de
treino
e
crença,
tornou-se
clara
para
mim
durante
o
estágio
inicial
de
minha
prática.
Enquanto
estava
na
China,
encontrei
duas
formas
principais
de
comportamento
iogue:
um,
concebido
em
termos
de
crença
religiosa
bem
definida
(em
geral
no
Amitabha
ou
Kuan
Yin),
o
outro,
em
termos
de
abstrações
de
estilo
zen,
tais
como
a
Mente
Única,
o
Grande
Vazio
(ou
Vazio-não-Vazio),
a
Fonte
Suprema
(Tao)
e
assim
por
diante.
Os
adeptos
do
primeiro,
que
é
chamado
o
outro-poder
iogue,
em
geral
sabiam
desde
o
começo,
ou
então
chegavam
a
reconhecer
que
a
meditação
de
Budas
e
Bodhisattvas
invocados
por
mantras
ou
por
práticas
nien-fu
são
apenas
materializações
de
forças
benéficas
que
emergem
da
Fonte
Suprema,
e
para
ela
retornam,
e
que
residem
na
consciência
do
próprio
indivíduo.
A
única
diferença
verdadeira
entre
eles
e
os
adeptos
do
autopoder
iogue
(tais
como
os
adeptos
do
Zen)
é
que
estes
preferem
alcançar
a
mesma
meta
sem
a
ajuda
de
materializações
psíquicas.
O
reconhecimento
da
validade
e
da
subjacente
identidade
destes
dois
caminhos
deverá
estender-se
além
da
comunidade
budista.
A
união
mística
com
Deus,
buscada
pelos
cristãos,
usa
o
que
os
budistas
chamam
de
outro-poder
iogue,
ao
passo
que
os
budistas
Mahayana
inclinam-se
para
as
duas
espécies,
mas
com
ênfase
individual
numa
ou
noutra.
Os
mestres
chineses
e
tibetanos
têm
sabedoria
demais
para
insistir
em
que
qualquer
dos
principais
atalhos
iogues
seja
intrinsecamente
superior
ao
outro;
muita
coisa
depende
do
temperamento
e
das
inclinações
do
discípulo.
Pessoalmente,
dou
ênfase
ao
outro-poder
iogue
na
minha
prática
(a
não
ser
que
se
considere
que
a
ioga
contemplativa
contém
elementos
de
ambos),
simplesmente
porque
o
uso
de
mantras
e
de
subsídios
similares
leva
a
resultados
raramente
alcançáveis
só
pelo
auto-poder
iogue.
Este,
indubitavelmente,
é
o
principal
propósito
dos
mantras,
e
aqui,
pelo
menos,
"mágica"
nenhuma
é
utilizada.
Eles
servem
ao
propósito
até
que
o
adepto
se
aproxime
do
ápice
no
caminho,
onde
todas
as
práticas
estabelecidas
são
descartadas,
ou
caem
por
si
mesmas.
Capítulo
7
SHABDA,
O
SOM
SAGRADO
O
fato
de
que
a
crença
no
poder
mântrico,
ou
em
qualquer
coisa
semelhante,
tenha
sido
outrora
mais
ou
menos
acatada
em
todo
o
mundo,
pode
encorajar
alguém
a
crer
na
sua
realidade,
mas
nada
faz
para
elucidar
a
verdadeira
natureza
dos
mantras.
Dizer
que
a
fonte
do
poder
é
a
mente
não
nos
leva
mais
longe,
sobretudo
se
esse
alguém
acreditar,
como
todos
os
que
usam
mantras,
que
tudo
quanto
é
concebível
deriva
da
mente.
E
mais:
há
um
bom
número
de
anedotas
correntes
em
círculos
tibetanos
que,
tomadas
em
si
mesmas,
levariam
à
conclusão
de
que
não
há
necessidade
de
uma
série
de
mantras
diferentes;
de
que
um
mantra
(seja
aprendido
ou
inventado
para
os
propósitos
de
alguém)
seria
suficiente.
Aqui
vão
duas
dessas
anedotas:
Uma
narrativa
chamada
Lam-rim
Zin-dr'ol
Lag-chang
fala
de
um
monge
indiano
que
interrompeu
seu
retiro
anual
durante
a
estação
chuvosa
para
visitar
sua
mãe,
supondo
que
ela
estava
sem
comida
e
desesperada.
Surpreso
por
vê-la
alegre
e
com
boa
aparência,
ficou
ainda
mais
admirado
quando
ela
lhe
contou
que
havia
aprendido
um
mantra
pelo
qual,
"pelo
poder
da
Grande
Deusa",
ela
podia
fazer
com
que
as
pedras
fervessem,
transformando-se
em
alimento;
mas,
sendo
homem
de
profunda
erudição,
mal
a
ouviu
recitar
o
mantra,
começou
a
corrigir
numerosos
erros
na
pronúncia.
Infelizmente,
quando
a
pobre
mulher
recitou
o
mantra
corretamente,
provou
que
este
era
ineficiente,
e
então
seu
filho
aconselhou-a
a
voltar
para
seu
modo
de
recitação,
e
logo,
graças
à
sua
grande
fé,
ela
pôde
voltar
alegremente
a
transformar
pedras
em
comida!
No
She-nyan
Ten-tsül
Nyong-la
Né-tu
K'a-wa,
há
uma
história
sobre
um
tibetano
que
tinha
grande
fé
na
sabedoria
dos
gurus
indianos
mas
pouco
conhecimento
do
sânscrito.
Tendo
viajado
para
a
índia,
visitou
um
famoso
guru
num
momento
pouco
favorável,
e
foi
recebido
com
um
grito
"Vá
embora!"
e
um
gesto
de
adeus.
O
tibetano
tomou
essas
duas
coisas
por
um
poderoso
mantra
com
seu
respectivo
mudra
e,
repetindo-os
no
retiro
de
uma
montanha,
alcançou
rapidamente
um
alto
nível
de
realização.
Ao
voltar
para
o
guru
a
fim
de
lhe
agradecer,
soube
de
seu
erro
ridículo;
mas
o
guru,
em
vez
de
repreendê-lo
pela
tolice,
deu-lhe
parabéns
por
ter
realizado
uma
valiosa
compreensão
de
uma
prática
não-convencional,
devido
à
sua
fé
inflexível!
Tenho
a
certeza
de
que
muitos
lamas
tibetanos
compartilham
uma
atitude
liberal
para
com
os
mantras,
apesar
dessas
anedotas;
no
entanto,
exceto
em
raros
casos
de
incomparável
fé,
é
bem
difícil
que
sons
tolos
como
bá-bá-bá
ou
bu-bu-bu
sejam
eficientes
como
substitutos
para
os
mantras;
de
outro
modo,
a
grande
quantidade
de
mantras
atual
não
se
teria
expandido
ou,
em
todo
caso,
ainda
não
seria
ensinada
numa
seqüência
de
importância
ascendente.
Meus
lamas
não
me
esclareceram
com
relação
a
esse
assunto;
na
verdade,
sua
dedicação
total
ao
progresso
iogue
de
seus
discípulos
era
tal
que
essas
questões
logo
cessaram
de
ocupar
minha
mente.
Igual
foi
minha
atitude
com
relação
aos
mais
espetaculares
ou
"miraculosos"
usos
dos
mantras;
pois,
à
medida
que
meus
estudos
progrediram,
fui
pensando
cada
vez
menos
neles;
pois
fui
conscientizado
de
que
os
verdadeiros
iogues
não
deveriam
ficar
muito
abalados,
mesmo
pela
visão
de
um
tigre
mantricamente
raivoso
transformado
ante
seus
olhos
num
diminuto
gatinho!
A
morte
chega
para
todos
de
um
modo
ou
de
outro;
podemos
escapar
da
boca
de
um
tigre
para
nos
afogar-nos
ignominiosamente
numa
lagoa,
ao
passo
que
ninguém
escapa
de
vagar,
entre
nascimento
e
nascimento,
no
triste
e
muitas
vezes
doloroso
domínio
da
ilusão,
até
que
tenha
conseguido
a
dispersão
final
de
seu
ego;
uma
ajuda
como
a
que
os
mantras
podem
dar
nesse
sentido
é
de
importância
duradoura.
Ainda
assim,
seria
contra
a
natureza
que
uma
pessoa
comum
como
eu
não
tenha
curiosidade
alguma
quanto
à
possível
transformação
de
animais
ferozes
em
inofensivos
gatinhos
—
mesmo
compreensivamente
frustrados!
O
aspecto
mágico
dos
mantras
nunca
perdeu
de
todo
sua
atração
para
mim;
e,
portanto,
neste
capítulo
final,
oferecerei
algumas
especulações
relativas
tanto
à
natureza
dos
mantras
quanto
à
possibilidade
de
que
possam
às
vezes
afetar
miraculosamente
os
objetos
externos,
pois
que
estas
duas
matérias
estão
de
todo
ligadas
entre
si.
Há
autoridades,
sobretudo
hindus
(talvez
em
teoria,
budistas),
que
afirmam
que
os
mantras
são
manifestações
do
shabda
(o
som
sagrado),
energia
com
poderes
criativos,
transformadores
e
destrutivos,
tão
fortes
quanto
os
que
são
atribuídos
pelos
teístas
a
seu
Deus
(ou
deuses).
Infelizmente,
é
difícil
encontrar
uma
descrição
clara
sobre
a
natureza
do
shabda.
Seria
risível
supor
que,
não
obstante
as
obras
de
vários
escritores
modernos,
o
shabda
atue
através
de
vibrações
físicas!
Sem
dúvida,
as
vibrações
físicas
estão
bem
longe
do
sublime
conceito
hindu
sobre
o
poder
criador
do
shabda,
que
parece
um
eco
das
palavras
de
São
João:
"No
começo
era
o
Verbo.
.
.
e
o
Verbo
era
Deus."
Por
outro
lado,
o
conceito
gnóstico,
Logos
(a
Palavra),
deve
envolver
alguma
espécie
de
relação
com
o
som,
pois
de
outro
modo
a
escolha
desse
termo
seria
inexplicável.
Penso
que
podemos
aceitar
a
existência
de
uma
correspondência
entre
o
shabda
e
o
som
comum,
por
mais
elevado
que
um
seja
em
relação
ao
outro.
É
provável
que
se
trate
de
uma
correspondência
similar
àquela
que
reúne
o
prana-vayu
(ch'i
em
chinês)
e
o
ar
comum
que
respiramos.
Apesar
de
que,
como
sabe
todo
adepto
da
ioga
da
respiração,
o
prana
(energia
cósmica)
é
levado
ao
corpo
através
dos
poros
e
das
narinas
e
o
ar
comum
nada
mais
é
do
que
seu
condutor
e
sua
contrapartida,
simplesmente.
Ao
passo
que,
enquanto
o
som
e
o
movimento
do
ar
se
relacionam
com
a
física,
o
shabda
e
o
prana
são
misteriosas
energias
cuja
natureza
só
pode
ser
de
todo
compreendida,
se
é
que
pode,
apenas
pelos
iogues
mais
adiantados.
Os
escritores
ocidentais
contemporâneos
parecem
particularmente
inclinados
a
uma
errônea
concepção,
bem
difundida,
quanto
ao
sentido
do
ensinamento
de
que
todo
ser
—
humano,
animal,
divino,
demoníaco
—
toda
substância
e
toda
entidade
física
possuem
uma
qualidade
shábdica
para
a
qual
podem
ser
encontradas
sílabas
mântricas
correspondentes.
Um
escritor
após
outro
tem
diminuído
a
estatura
do
shabda,
baixando-a
ao
nível
da
eletrônica.
Assim,
o
Dr.
Evans
Wentz,
apesar
de
ter
convivido
com
mestres
tibetanos
eruditos,
usa
o
termo
"grau
particular
de
vibração"
para
indicar
a
qualidade
shábdica
de
um
objeto
ou
som
sutil.
Mais
recentemente,
Philip
Rawson,
num
livro
chamado
Tantra,
escreveu
sobre
a
textura
de
objetos,
até
de
aparência
muito
densa,
como
sendo
"de
uma
espécie
relacionada
com
vibração";
até
aí
nada
de
mais,
pois
é
realmente
possível
que
um
efeito
shábdico
de
mantra
sobre
um
objeto
externo
ao
iogue
seja
sutilmente
relacionado
com
vibração;
mas
o
escritor
continua,
afirmando
que
tudo
quanto
é
vivenciado
como
diferenças
e
interações
entre
coisas
materiais
é
devido
a
"padrões
de
interferência
produzidos
entre
freqüências
combinadas"!
Sei
muito
pouco
de
física
para
ser
capaz
de
polemizar
sobre
o
assunto,
mas
tenho
certeza
de
que
esse
conceito
deixaria
pasmos
os
expoentes
tibetanos
da
ioga
mântrica!
Desde
que
o
Lama
Govinda,
cujo
conhecimento
sobre
a
operação
dos
mantras
é
profundo,
usa
os
termos
"sutil
vibração"
ao
falar
deles,
não
me
aventuro
a
sugerir
que
o
termo
"vibração"
seja
totalmente
descartado
sobre
essa
conexão,
mas
creio
que
deveria
ficar
claríssimo
que
"sutis
vibrações"
devem
ser
de
ordem
muito
diferente
das
que
são
associadas
com
aeroplanos!
A
tolice
de
pensar
em
termos
de
algo
como
vibrações
físicas
pode
ser
facilmente
demonstrada;
as
variações
da
sílaba
mântrica
OM
(por
exemplo,
UM)
produzem
os
mesmos
efeitos
mântricos
e
qualquer
vibração
envolvida
deve
resultar
do
M
final;
mas,
se
é
assim,
o
que
dizer
dos
bija-mantras
HUM,
TAM,
RAM,
YAM,
KHAM
e
muitos
outros
que
compartilham
desse
final
e
no
entanto
possuem
usos
mântricos
de
enorme
diferença?
E
que
dizer
das
variantes
de
OM
que,
apesar
de
eficientes,
não
contêm
esse
M
final,
por
exemplo,
UNG
(tibetano),
ANG
(chinês)
e
ONG
(japonês)?
Consideremos
também
a
sílaba
destrutiva
PHAT;
em
sua
forma
sânscrita
ela
parece
destruidora;
entretanto,
chineses
e
tibetanos
a
usam
efetivamente,
apesar
de
a
pronunciarem
mais
ou
menos
como
PHÉ!
Não
se
deve
deduzir
por
estes
exemplos
que
a
correlação
entre
o
shabda
e
o
som
comum
seja
insignificante;
exatamente
como
o
ar
é
o
veículo
do
prana,
assim
o
som
deve
ser
o
veículo
do
shabda.
O
fato
de
que
existe
uma
relação
ficou
gravado
em
mim
por
experiências
como
a
seguinte:
mergulhei
numa
espécie
de
exaltação
ao
passar
por
um
eremitério
chinês
das
montanhas,
ao
pôr-do-sol
e
ao
ouvir
ressoar
o
bok-bok-bok
de
um
"tambor
de
madeira
em
forma
de
peixe"
na
tranqüilidade
da
noite
—
exaltação
da
mesma
qualidade
da
obtida
com
o
auxílio
dos
mantras.
No
que
muitas
pessoas
erram
é
em
atribuir
importância
excessiva
à
maneira
pela
qual
as
sílabas
mântricas
são
pronunciadas.
Estou
convencido
de
que
o
som
componente,
tomado
isoladamente
do
resto,
tem
pouco
significado.
Se
alguém
não-
instruído
em
ioga
mântrica
ouvisse
um
mantra
recitado
erradamente
por
um
verdadeiro
mestre
entre
outros
mestres,
e
se
então
ele
o
reproduzisse
com
perfeição
—
enunciação,
ritmo,
vibrações,
tanto
sutis
quanto
grosseiras
—,
o
efeito
seria
nulo!
Lama
Govinda
aproxima-se
do
âmago
da
questão
ao
ensinar
que
as
vibrações
sutis
dos
mantras
são
intensificadas
por
associações
mentais
que
se
cristalizam
à
volta
deles
por
tradição
ou
experiência
individual.
Segue-se
que
a
forma
da
enunciação,
mesmo
não
sendo
de
importância
primordial,
é
de
muito
menor
conseqüência
em
comparação
com
o
ato
mental
que
a
acompanha.
E
verdade
que
o
som
sutil,
quando
combinado
com
o
poder
mental,
pode
evocar
forças
adormecidas
na
mente
de
quem
o
usa;
mas,
ao
passo
que
o
poder
mental
divorciado
do
som
sutil
pode
em
si
mesmo
ser
muito
eficaz,
o
contrário
não
se
verifica.
Mesmo
aceitando
a
idéia
de
que
a
qualidade
shábdica
de
um
mantra
é
um
componente
importante
de
sua
eficiência,
essa
qualidade
entra
em
ação
apenas
quando
o
mantra
é
pronunciado
por
alguém
adequadamente
instruído
na
arte
da
visualização
da
ioga,
pois
os
mantras
não
têm
apenas
som,
mas
também
forma
e
cor;
a
forma
da
imagem
prototípica
ou
símbolo
com
que
é
associado
deve
ser
evocada
no
ato
da
recitação,
pois
essa
imagem
é
o
repositório
de
toda
a
energia
psíquica,
emocional
e
espiritual
com
que
o
adepto
a
dotou
durante
meses
ou
anos
de
prática
iogue,
junto
com
a
energia
psíquica
associada
por
todos
os
adeptos
que
alguma
vez
se
tenham
concentrado
sobre
essa
imagem
ou
símbolo
particular,
desde
que
surgiu.
(Aceitar
que
a
energia
gerada
por
uma
sucessão
de
iogues
através
dos
séculos
está
presente
nesses
símbolos
é
um
conceito
que
não
surpreenderá
os
que
conhecem
os
ensinamentos
de
C.
G.
Jung
sobre
arquétipos.)
Tal
como
ficou
explicado
no
capítulo
da
divindade
interior,
os
lamas
ensinam
que
o
mantra
apropriado
para
cada
uma
das
formas
divinas
contempladas
personificam
a
energia
psíquica
desse
''ser".
Noutras
palavras,
a
imagem
da
deidade
ou
da
sílaba
mântrica
que
a
simboliza,
visualizada
pelo
iogue,
é
um
centro
para
as
poderosas
associações
do
pensamento,
construídas
à
sua
volta
por
incontáveis
iogues
durante
séculos
e
pelo
próprio
adepto
em
suas
meditações;
entretanto,
também
constitui
uma
personificação
particular,
que
brota
da
Fonte,
e
é
a
esse
aspecto
que
a
qualidade
shábdica
do
mantra
apropriado
pertence
provavelmente.
Como
o
som
não
é
mais
do
que
um
símbolo
do
poder
latente
do
mantra,
a
pronúncia
errada
das
sílabas
não
é
assunto
grave,
pois
é
a
intenção
do
adepto
que
liberta
os
poderes
de
sua
mente.
Apesar
de
o
mantra
poder
consistir
em
sílabas
às
quais
nenhum
sentido
conceituai
está
ligado,
pronunciá-las,
no
entanto,
torna
possível
conjurar
instantaneamente
no
espírito
as
qualidades
psíquicas
com
as
quais
se
aprendeu
a
associá-las.
Portanto,
e
plausível
supor
que
a
qualidade
ou
poder
shábdico
não
reside
propriamente
no
som
produzido
mas
no
som
arquetípico
que
representa,
pois
então
a
igual
efetividade
de
sons
variados
como
OM,
UM,
UNG
etc.
torna-se
de
todo
explicável
e
não
só
em
termos
de
fé.
Meu
amigo
Gerald
Yorke,
de
notável
erudição
em
algumas
categorias
de
palavras
de
poder,
chamou
minha
atenção
para
o
conceito
metafísico
do
shabda,
que
prevalece
em
círculos
tântricos
hindus.
Com
permissão
dele,
fiz
breve
resumo
da
informação
que
me
foi
oferecida.
Antes,
porém,
devo
esclarecer
que,
apesar
de
este
conceito
hindu
poder
ter
importância
básica
sobre
a
natureza
dos
mantras,
é
um
grave
erro
aproximar
demais
o
ensinamento
tântrico
hindu
e
o
budista;
as
tradições
iogues
dos
dois
sistemas
são
por
vezes
diametralmente
opostas,
até
em
pontos
de
importância
capital;
além
do
mais,
os
indianos,
sendo
por
natureza
amantes
da
especulação
metafísica,
diferem
de
maneira
fundamental
dos
tibetanos
e
chineses,
muito
mais
pragmáticos
e
objetivos;
de
modo
que,
apesar
de
a
ioga
tântrica
e
a
budista
brotarem
da
mesma
fonte,
nenhuma
base
conceituai
comum
pode
ser
encontrada
para
elas.
Os
mestres
hindus
da
ioga
mântrica
têm
fama
de
conferirem
imensa
importância
à
correção
do
som
e
à
vibração;
a
pronúncia
do
mantra
é
inacessível
aos
não-
iniciados,
que
assim
ficam
efetivamente
impedidos
de
utilizar
seu
poder.
Ensina-se
que
o
universo
é
"o
jogo
do
espírito
no
éter
da
consciência
(chitakasha)"
e
que
o
espírito,
afastando-
se
de
Deus,
torna-se
Deus-som
(Shabdabrahman),
e
as
miríades
de
objetos
que
constituem
o
universo
são
criações
do
som
ou,
por
outra,
do
shabda.
Além
do
mais,
o
aspecto
feminino
(ativo)
de
Deus
pode
ser
invocado
pela
fala,
ao
passo
que
o
aspecto
masculino
(passivo)
só
pode
ser
procurado
no
silêncio.
A
energia
criadora
de
Deus
dá
surgimento
à
substância
sutil
do
som,
que
por
sua
vez
se
transforma
numa
onda
que
pode
ser
ouvida.
Em
certo
sentido,
todo
o
universo
procede
de
OM
—
a
totalidade
de
todo
som.
Há
quatro
planos
do
shabda
—
o
que
não
é
som
nem
silêncio,
mas
transcende
a
ambos;
o
que
não
pode
ser
ouvido
ou
sequer
imaginado,
mas
só
é
vivenciado
diretamente
num
estado
iogue
de
consciência;
o
que
pode
ser
imaginado
mas
não
ouvido,
manifestando-se
apenas
em
sonho
e
visão;
e
o
que
é
fala
e
simples
ruído.
Por
meio
do
mantra
OM,
pode-se
passar
do
quarto
plano
para
o
primeiro.
Cada
ruído
da
natureza
é
uma
trindade
de
som,
de
forma
e
de
percepção.
Cada
sílaba
mântrica
possui
completa
correspondência
com
a
idéia
que
representa;
daí,
pela
pronúncia
correta
da
sílaba
certa,
sem
cogitação,
podemos
conceber
a
idéia
de
planos
ascendentes
que
se
elevam
até
Deus.
Até
que
ponto
este
ensinamento
é
aceito
pelos
iogues
tibetanos
eu
não
sei.
Se
tal
doutrina
de
fato
existe
entre
eles
(numa
forma
que
se
adapte
ao
conceito
budista
de
um
universo
sem
Deus
Criador),
deve
ser
mantida
como
sagrada
demais
para
os
ouvidos
dos
iniciados
comuns,
ou
então,
como
parece
mais
provável,
deve
ser
considerada
metafísica
demais
para
ter
algum
valor
prático
para
eles.
Os
mestres
budistas
se
interessam
muito
mais
pela
aplicação
prática
do
conhecimento
sagrado
do
que
pela
teoria
subjacente.
Eu
gostaria
de
ter
adquirido
um
conhecimento
maior
sobre
o
conceito
tibetano
da
natureza
do
shabda.
Meus
lamas
nada
mais
fizeram
do
que
mencioná-lo
de
passagem
como
um
componente
do
poder
mântrico.
Fui
levado
a
formar
minha
própria
hipótese,
que
pode
ter
ou
não
ter
alguma
base
factual;
ela
se
relaciona
com
a
diferença
que
tracei
atrás,
entre
a
operação
subjetiva
e
externa
dos
mantras.
No
caso
da
primeira,
é
mais
do
que
claro
que
a
exatidão
da
pronúncia
e
a
entonação
não
têm
grande
importância,
de
onde
minha
conclusão
de
que
o
shabda
relaciona-se
aqui
com
sons
arquetípicos,
mais
do
que
com
o
som
realmente
produzido.
No
último
caso,
parece-me
exatamente
possível
que
a
perfeição
da
pronúncia
seja
um
ingrediente
essencial
para
uma
operação
mântrica.
Milhares
de
tibetanos
usam
mantras
efetivamente
para
propósitos
de
ioga
todos
os
dias,
ao
passo
que
efeitos
''mágicos"
sobre
objetos
externos
agora
são
raros
-apesar
de,
a
não
ser
que
não
se
levem
em
conta
os
testemunhos,
não
serem
desconhecidos
mesmo
hoje
—
neste
século.
Parece
que
a
maioria
dos
lamas
não
conhece,
ou
então
prefere
não
ensinar
segredos
shábdicos
pertinentes
ao
uso
miraculoso
dos
mantras.
Se
aceitarmos
a
idéia
de
que,
em
tempos
anteriores,
estes
segredos
eram
largamente
ensinados
mais
do
que
agora,
isso
explicaria
por
que
há
tantas
referências
a
operações
mântricas
"mágicas"
na
literatura
tibetana.
Tal
hipótese
resolveria
a
contradição
entre
o
ponto
de
vista
de
que
a
pronúncia
perfeita
é
de
suprema
importância,
e
outro
ponto
de
vista,
baseado
na
experiência
de
efeitos
mântricos
durante
a
contemplação
iogue,
de
que
não
tem
importância
alguma;
porque
daí
se
inferiria
que
cada
um
dos
pontos
de
vista
é
correto
em
relação
a
uma
ordem
de
objetivos.
Trata-se
de
um
pensamento
excitante,
pois
então
se
pode
aceitar
a
idéia
de
que
ainda
hoje
pode
haver
adeptos
que,
como
herdeiros
do
conhecimento
secreto
transmitido
através
das
idades,
são
capazes
de
realizar
façanhas
tão
prodigiosas
como
criar
réplicas
de
espíritos
à
imagem
de
seus
próprios
corpos!
Trata-se
também
de
um
pensamento
confortador,
pois
a
insistência
dos
lamas
de
que
tais
fatos
na
verdade
ocorrem
cria
um
infeliz
dilema:
ou
se
é
compelido
a
acreditar
no
quase
inacreditável,
ou
então,
desde
que
em
geral
é
impossível
duvidar
da
boa-fé
do
lama,
o
discípulo
pode
supor
que
o
mestre
é
crédulo
demais.
Entre
essas
alternativas,
a
primeira
torna-se
possível
apenas
se
alguma
outra
explicação,
como
aquela
que
expus,
estiver
à
mão;
a
segunda
envolve
o
paradoxo
de
se
atribuir
simples
credulidade
a
homens
que,
obviamente,
são
dotados
de
visão
objetiva
e
extraordinariamente
sábios.
É
óbvio,
para
mim,
que
os
mantras
usados
na
contemplação
iogue
nos
conferem
um
tremendo
poder,
tanto
como
creio
no
calor
do
sol
ou
na
umidade
da
chuva,
pois
tudo
isto
é
questão
de
experiência
direta;
no
entanto,
a
natureza
do
shabda
permanece
indefinível.
Os
vagos
depoimentos,
como
os
de
que
sons
especiais
têm
afinidades
shábdicas
com
componentes
especiais
da
consciência
sobre
os
quais
agem,
deixam
muita
coisa
inexplicada.
Mas
talvez
seja
melhor
não
haver
maior
interesse
sobre
as
razões
do
poder
de
um
mantra
ou
sobre
a
maneira
com
que
este
age.
Milhões
de
pessoas
usam
a
eletricidade
para
iluminar
e
aquecer
suas
casas
sem
compreender
sua
natureza
ou
saber
como
funciona.
A
vida
é
curta
demais
para
fazermos
exaustivas
indagações
sobre
tudo
aquilo
de
que
nos
servimos.
Neste
universo
mentalmente
criado,
nada
é
o
que
parece,
e
foi
o
próprio
Buda
quem
ensinou
que
o
tempo
gasto
em
especulação
quanto
ao
"porquê"
das
coisas
seria
mais
bem
gasto
se
se
vivenciasse
a
essência
dessas
coisas.
Se
a
chuva
é
produzida
por
dragões
celestes,
como
os
chineses
outrora
julgavam,
ou
pela
condensação
da
água
retirada
da
terra,
é
coisa
que
não
faz
diferença
sobre
o
efeito
da
chuva.
Sejam
dragões
ou
não,
sem
chuvas
não
há
colheitas,
não
há
vida!
É
claro
que
devemos
ter
critério
para
observar
a
recitação
dos
mantras,
sobretudo
porque
sua
eficácia
é
essencial
para
o
sucesso.
Pessoalmente,
acho
que
cada
tradição
deve
ser
observada
tal
como
é,
na
forma
em
que
foi
transmitida
pelo
mestre,
ainda
que,
se
alguém
tem
vários
mestres,
poderiam
resultar
notáveis
discrepâncias.
Se
eu
usasse
todos
os
mantras
sobre
os
quais
recebi
instrução,
em
outra
época,
pronunciaria
alguns
no
curioso
sino-japonês-
sânscrito
usado
na
Floresta
dos
Reclusos,
não
poucos
à
maneira
chinesa
e
muitos
em
tibetano.
Assim
seja!
Deste
modo,
tenho
fé
neles.
A
necessidade
de
conseguir
um
modo
de
pronunciar
mantras
no
qual
se
tenha
confiança
é
em
si
mesma
uma
razão
—
talvez
a
menos
importante
e
no
entanto
não-destituída
de
importância
—
para
buscar
a
iniciação.
0
lama
que
o
transmite
tê-lo-á
recebido
como
transmissão
oral
provinda
dos
antigos
fundadores
de
sua
linhagem.
Da
necessidade
de
visualizar
corretamente
as
sílabas
mântricas
nasce
um
problema
especial
para
os
ocidentais.
Certa
vez,
perguntei
ao
Assistente
Júnior
de
Sua
Santidade,
o
Dalai
Lama,
se
o
efeito
seria
prejudicado
quando
os
equivalentes
das
letras
tibetanas
fossem
visualizados.
Após
cuidadosa
reflexão,
o
Venerável
lama
respondeu:
"Não
pode
haver
nenhuma
virtude
especial
nas
letras
tibetanas,
pois
com
freqüência
visualizamos
mantras
compostos
de
sílabas
anotadas
num
dos
escritos
indianos
usados
para
trancrevê-
los.
Portanto,
à
primeira
vista,
parece
que
qualquer
escritura
serviria.
Entretanto,
uma
importante
feição
dos
alfabetos
tibetano
e
indiano
não
é
perceptível
em
inglês;
nossa
maneira
de
combinar
consoantes
e
vogais
num
único
componente
leva
à
visualização
de
sílabas
mântricas
que
se
retraem
para
dentro
de
si
mesmas,
contraindo-se
dentro
do
minúsculo
círculo
na
parte
superior
(por
exemplo,
dentro)
e
desaparecendo.
Penso
que
a
visualização
de
sílabas
em
sua
forma
inglesa
com
vogais
e
consoantes
escritas
lado
a
lado
seria
efetiva."
É
preciso
dar
grande
valor
ao
conselho
de
tão
eminente
autoridade.
Apesar
disso,
no
caso
de
pessoas
que,
não
conhecendo
o
sânscrito
nem
o
tibetano,
acham
impossível
realizar
essa
visualização
na
forma
tradicional,
não
posso
deixar
de
pensar
que
seria
melhor
visualizar
os
equivalentes
ingleses
do
que
prescindir
de
toda
a
sua
prática,
pois
então
o
uso
dos
mantras
seria
sem
dúvida
inútil.
Quando
alguém
se
inicia
na
ioga
mântrica
é
natural
que
indague
sobre
o
sentido
das
sílabas;
mas
é
melhor
não
ficar
muito
interessado
nisso,
pois
pensar
sobre
o
significado
conceitual
é,
invariavelmente,
um
prejuízo
para
o
progresso
na
ioga.
O
uso
dos
mantras
pertence
ao
domínio
do
não-
pensamento,
bem
conhecido
pelos
seguidores
da
seita
Zen.
É
preciso
transcender
o
dualismo
de
sujeito
e
objeto
e
as
ilusórias
atrações
da
seqüência
lógica;
quando
se
dá
ênfase
a
isso
a
realização
final
é
prejudicada.
Este
ponto
pode
ser
ilustrado
por
uma
analogia:
nas
igrejas
de
culto
cristão,
a
música
representa
muitas
vezes
grande
parte;
em
seu
equivalente
budista,
raramente
existe
um
acompanhamento
musical
a
não
ser
a
batida
dos
instrumentos
de
percussão.
As
melodias,
mesmo
que
não
tenham
palavras,
se
dispõem
ao
sonho
—
talvez
exaltado,
mas,
seja
como
for,
acarretando
o
jogo
do
pensamento;
ao
passo
que
um
súbito
clangor
de
instrumentos
rítmicos
pode
lançar
ou
arrebatar
a
mente
para
o
domínio
do
não-pensamento.
(Não
é
preciso
dizer,
mas
"não-pensamento",
neste
contexto,
não
denota
um
estado
de
torpor
sem
pensamento,
nem
a
descida
da
consciência
do
devoto
para
um
nível
de
madeira
ou
de
pedra
sem
vida,
mas
a
transcendência
do
estado
habitual
de
consciência,
um
salto
da
percepção
sujeito-objeto
para
a
percepção
extática
da
não-
dualidade.)
Escrever
um
livro
sobre
mantras
foi
coisa
parecida
com
tentar
prender
o
ar
numa
rede.
Tantas
vezes,
propor-me
a
explicar
uma
doutrina
mística
foi
como
prender
o
inefável
—
como
se
isso
fosse
possível!
O
sublime,
descido
ao
nível
do
senso
comum,
desaparece
ou
é
diminuído.
Ao
procurar
compartilhar
o
conhecimento,
é
fácil
demais
cair
no
erro
de
crianças
que,
tendo
acabado
de
aprender
a
ler
as
horas,
pensam
que
são
capazes
de
dissecar
e
de
reajustar
o
relógio
do
papai!
A
ioga
contemplativa
pertence
a
uma
elevada
ordem
de
conhecimento
a
cuja
explicação
o
mais
sensato
é
fugir;
é
tão
fácil
provocar
o
ridículo
e
—
o
que
é
pior
—
escrever
algo
perigosamente
errôneo.
No
entanto,
pessoas
criadas
numa
sociedade
que
desconhece
os
meios
de
alcançar
os
poderes
transcendentais
da
mente
estão
ansiosas
por
explorar
tais
assuntos.
Mas,
por
estarem
em
geral
afastadas
das
fontes
tradicionais
de
conhecimento,
a
compreensão
errônea
facilmente
surge,
tal
como
a
crença
de
que
os
mantras
são
palavras
mágicas,
ou
que
sua
ação
é
governada
pela
vibração
física.
Mesmo
com
relação
à
ioga,
é
preciso
começar
de
algo
próximo
ao
nível
do
senso
comum;
mais
tarde,
à
medida
que
o
conhecimento
se
expande,
o
senso
comum
pode
ser
atirado
ao
monte
gigantesco
do
lixo
onde
carros
enferrujados,
latas
usadas
e
fragmentos
plásticos
são
empilhados,
formando
um
monumento
apropriado
ao
gênio
do
homem
moderno
em
roubar
à
vida
o
seu
mistério
e
em
privar
a
natureza
do
que
lhe
pertence.
Observação:
Esta
obra
foi
digitalizada
pelo
grupo
Digital
Source
para
proporcionar,
de
maneira
totalmente
gratuita,
o
benefício
de
sua
leitura
àqueles
que
não
podem
comprá-la
ou
àqueles
que
necessitam
de
meios
eletrônicos
para
ler.
Dessa
forma,
a
venda
deste
e-book
ou
até
mesmo
a
sua
troca
por
qualquer
contraprestação
é
totalmente
condenável
em
qualquer
circunstância.
A
generosidade
e
a
humildade
é
a
marca
da
distribuição,
portanto
distribua
este
livro
livremente.
Após
sua
leitura
considere
seriamente
a
possibilidade
de
adquirir
o
original,
pois
assim
você
estará
incentivando
o
autor
e
a
publicação
de
novas
obras.
http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros
http://groups.google.com/group/digitalsource
JOHN BLOFELD, Mantras Palavras Sagradas de Poder (pdf)
Link: http://www.ziddu.com/download/16268357/HNBLOFELDMantrasPalavrasSagradasdePoderpdfrev.pdf.html
" Como as coincidências se juntam estranhamente!
Muitas, muitas vezes, damos com uma palavra ou com um pensamento que estavam havia muito ausentes de nós, e de repente descobrimos que eles ecoaram de novo, duas ou três vezes, num intervalo de poucos dias. Há muitos anos acariciei a idéia de escrever um livro sobre mantras, e depois a descartei. Senti que não seria correto expor assuntos sagrados a um possível menoscabo ou, levianamente, pôr de lado as salvaguardas com as quais o conhecimento mântrico havia sido preservado da profanação durante séculos."
( do autor)
Boa leitura
Abraços.
M. Loureiro
http://www.manuloureiro.blogspot.com/
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http://www.romancessobrenaturais-loureiro.blogspot.com/
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"Tudo aquilo que não podemos incluir dentro da moldura estreita de nossa compreensão, nós rejeitamos."
Henry Miller
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