terça-feira, 13 de novembro de 2012 By: Fred

{clube-do-e-livro} N°08 A Ciência Confirma o Espiritismo - Aécio Pereira Chagas

... Aécio Pereira Chagas
> A Ciência confirma o Espiritismo?
Artigos



Temos observado na literatura espírita (livros, revistas, jornais) que constantemente
surgem afirmações do tipo "a Ciência moderna confirma o Espiritismo", seguida de
citações, a nosso ver, muito duvidosas a respeito de questões científicas. Muitas vezes
percebemos no autor uma seriedade de propósitos, porém suas citações nem sempre se
apóiam bem no que poderíamos chamar de um "conhecimento científico estabelecido".
São citadas obras de divulgação científica que nem sempre primam pelo rigor e, o que é
pior, são às vezes escritas com uma "segunda intenção". Perguntará então o leitor: "O
que há de errado nos textos de divulgação científica? Será que a Ciência moderna não
confirma o Espiritismo?" Neste artigo vamos tecer inicialmente algumas considerações
sobre materialismo, espiritualismo, a Ciência e sua divulgação, sobre outros temas
decorrentes e, finalmente, tentaremos responder a estas duas questões.

1. Materialismo e espiritualismo
Muitos compêndios de Filosofia ensinam que as escolas filosóficas, as visões de mundo,
as ideologias, etc., podem se alinhar em dois grandes grupos: o grupo materialista, para
os quais tudo é matéria, senso o pensamento uma qualidade da matéria, e o grupo
espiritualista ou idealista, para os quais o espírito existe como uma realidade
independente da matéria (vide, por exemplo, Dicionário de Filosofia, Durozoi e
Roussel, Papirus, 1993). "(…) Com efeito, o espiritualismo é o oposto do materialismo.
Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista

(…)" (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Introdução, 75a edição, FEB, pág. 13). As
filosofias, as ideologias, dentro de cada um dos dois grupos, estão longe de
concordarem entre si em muitos outros pontos, a não ser neste único aspecto de aceitar
ou não a existência do espírito. O Espiritismo evidentemente está no segundo grupo e,
como já bem apontou Deolindo Amorim (O Espiritismo e as doutrinas espiritualistas,
3a ed., Livraria Ghignone Editora, 1979), o fato de uma doutrina ser espiritualista não
significa que está de acordo com o Espiritualismo, a não ser na crença do espírito como
algo diferente da matéria.

Conforme já tivemos oportunidade de expressar no artigo "O Espiritismo na
Academia?" (Revista Internacional de Espiritismo, fevereiro 1994, pp. 20-22, e março
1994, pp. 41-43), dentro do contexto cultural ocidental, no qual estamos inseridos,
desde o início do século passado, após a Revolução Francesa, tem havido uma luta


ideológica que pode ser rotulada de materialismo x espiritualismo. Não vamos discutir
sobre a origem desta luta e como ela está inserida na sociedade, suas conseqüências,
etc., o que não caberia aqui. [Nota 1] Mas esta luta tem-se travado nos vários segmentos
da sociedade e da cultura; a ponto de não mais se perceber que ela existe, salvo no
aspecto religioso, que costuma ser mais gritante. Do lado materialista a ideologia
predominante é a que podemos chamar de positivista ou mecanicista, não
necessariamente ligada à filosofia positivista, formulada por Auguste Comte, a partir de
1830, mas com muita coisa em comum. A ideologia (ou mentalidade) positivista
essencialmente é de índole materialista, anticlerical, pretensamente racionalista,
valorizando o "conhecimento objetivo", ou seja, o conhecimento apreendido pelos
sentidos. Já do lado espiritualista, o principal representante tem sido a Igreja Católica
Romana, seguida das diversas igrejas reformadas. No final do século passado houve
uma "grande batalha" entre essas facções, que se traduziu num debate ideológico e em
coisas mais "práticas", como disputas por cátedras, pelo controle de instituições
culturais e acadêmicas, etc., visando ao controle do "saber oficial". Com a entrada de
uma outra facção do lado materialista, o marxismo, depois da Revolução Russa de
1917, a balança pendeu para este lado, porém a guerra ainda não acabou, e estamos
nela. Os leitores espíritas poderão ler, com a atenção voltada nesta direção, o
extraordinário livro de Camille Flammarion, Deus na Natureza (Rio, Federação Espírita
Brasileira), escrito no século passado, onde perceberão o debate deste com os
positivistas. A Filosofia, as Ciências, as Artes, e a própria Religião, têm sido usadas
como armas nesta luta. No caso das Ciências, têm sido utilizadas teorias científicas para
justificar determinadas posições ideológicas. Por exemplo, a teoria de Darwin e
Wallace, ou seja, a "Teoria da Seleção Natural", formulada para explicar a evolução
biológica das espécies animais e vegetais, foi utilizada para explicar o desenvolvimento
das sociedades humanas, sob o nome de "Darwinismo Social", justificando as
desigualdades sociais, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, dos fins do
século passado.

2. A palavra 'ciência' e seus significados
Passemos agora a um outro tópico: os significados da palavra "Ciência". Vários são os
sentidos que esta palavra pode ter, obviamente relacionados entre si. "Ciência" significa
conhecimento, sendo usada com significado geral ("o fruto da árvore da ciência do bem
e do mal") ou restrito ("a ciência de fazer papagaios de papel"). Significa um
determinado tipo de conhecimento já consagrado como tal, como a Física, a Química, a
Biologia, etc. Significa a atividade através da qual se obtém este conhecimento ("fazer
ciência" = realizar uma determinada atividade científica). Significa também o conjunto
de pessoas empenhadas na atividade científica: "a comunidade científica". Quando se
diz que a "ciência aceita a tese de que há outros mundos também habitados", está se
querendo dizer que a comunidade dos cientistas (ou parte dela) aceita esta tese, pois
obviamente não há ainda um estudo científico, no sentido convencional do termo, sobre
outros mundos habitados.

Nem sempre porém a comunidade científica é homogênea e coesa. os cientistas são
pessoas que em suas atividades profissionais buscam objetividade, precisão, rigor
lógico, etc., porém fora dessas atividades são pessoas comuns, com todas
idiossincrasias, prenoções e preconceitos do vulgo. Kardec já comenta isto na
Introdução de O Livro dos Espíritos e em O que é o Espiritismo. Bertrand Russell,


conhecido filósofo deste século, menciona em um de seus textos (A perspetiva
Científica, trad. J. B. Ramos, Cia. Ed. Nacional. 1956):

Se algum de vossos amigos for um cientista, acostumado a maior precisão quantitativa
em suas experiências, e que possua a mais recôndita capacidade de inferir, podereis
sujeitá-lo a pequena experiência sem dúvida significativa. Caso escolherdes em
palestra como assunto política, teologia, impostos sobre a renda, corretagem, a
vaidade das classes trabalhadoras e outros tópicos de natureza semelhante,
provocareis sem dúvida uma explosão e ireis escutá-lo expressar opiniões que não
forram verificadas, com um dogmatismo que nunca poderia expressar com relação a
resultados que fossem fundados em suas pesquisas de laboratório.

3. A divulgação do conhecimento científico
O conhecimento científico, ou seja, o conhecimento resultante da atividade científica, é
divulgado de várias maneiras, ou, como chamaremos, níveis. [Nota 2] Vamos
considerar apenas a divulgação que gera publicações (revistas, livros, etc.) ou
eventualmente filmes, vídeos, etc. Então podemos ter os seguintes níveis:

1o nível – É a divulgação que um ou vários pesquisadores fazem de seu trabalho, de
suas idéias, entre os outros pesquisadores da mesma área. É feita normalmente no jargão
próprio e seu entendimento requer um treino adequado naquela área de conhecimento.
São utilizadas revistas especializadas, livros, etc., que têm uma característica toda
própria: o autor e o leitor são pessoas da mesma profissão e, grosso modo, do mesmo
nível de conhecimento, ou seja, ambos são membros da mesma comunidade na qual a
publicação circula.

2o nível – O conhecimento é divulgada principalmente entre os estudantes de uma dada
disciplina. O conhecimento é preparado de forma a iniciar os estudantes naquele campo
do conhecimento. São geralmente escritos por pessoas com treino naquele campo
(cientistas, professores), e utilizam o jargão próprio, porém de uma forma "amenizada".
São os materiais didáticos na forma de livros, revistas, filmes, etc. Evidentemente o
autor e o leitor são pessoas de profissão e nível de formação diferentes, pois o estudante
está se iniciando naquela comunidade, porém ainda não é um membro.

3o nível – Divulgação para os "leigos". O conhecimento é também preparado para ser
transmitido aos não especialistas, porém sem a preocupação de formar o futuro
especialista, senso às vezes, feito até em forma de lazer. Podem ser escritos por
cientistas, professores ou divulgadores. Estes últimos nem sempre têm um treino
naquela área de conhecimento; são profissionais da escrita (escritores, jornalistas, e
outros) que estão mais preocupados na "digestibilidade" do conhecimento pelo "leigo".

No 2o e 3o níveis têm papéis importantes na preparação do conhecimento. Estes
mesmos pontos de vista que externamos poderá o leitor também os encontrar na
interessante matéria veiculada na revista Veja, de 21 de dezembro de 1994, pág. 138, da
autoria de Neuza Sanches, referente aos textos de História do Brasil para estudantes
secundários. Muitas vezes, nesta preparação do conhecimento, verdades são
transformadas em meias-verdades, involuntária ou voluntariamente … e é neste buraco
que muitas vezes caímos. [Nota 3]


4. Matéria e energia
Para ilustrar o que dissemos no item anterior, vejamos um caso freqüentemente
mencionado em textos espíritas, e em muitos outros, que "a matéria é energia
condensada … de acordo … com Einstein, através de sua equação E=mc2 …".

ESsta afirmação equivocada nunca é encontrada em textos de Física ou Química sérios,
seja do 1o, 2o ou 3o níveis. Mas em muitos do 3o nível (e até do 2o), que são, muitas
vezes, utilizados como fonte de referência. Por que estas afirmações, no nosso entender,
são equivocadas?

Não vamos aqui, por falta de espaço, discorrer sobre o que vem a ser energia, no sentido
empregado pela Física. [Nota 4] O ponto importante que queremos frisar é que energia e
massa são propriedades da matéria. A célebre equação de Einstein, E=mc2, diz que a
energia total de um sistema é calculada através do produto da massa pelo quadrado da
velocidade da luz, ou seja, como a maioria das equações físicas, relaciona duas
propriedades da matéria: a massa e a energia. Esta equação, e outras no âmbito da teoria
da relatividade, vai unificar os princípios de conservação de massa e de energia, que
passam agora a ser um só: "princípio de conservação da massa e energia".

Por que então surgiu esta afirmação "a matéria é energia condensada"?

Como falamos acima, no item 1, os grupos empenhados na luta ideológica que
mencionamos procuram buscar apoio na Ciência. E no caso interpretou-se um resultado
científico à luz de uma determinada ideologia, no caso espiritualista, interessada em
negar, se possível, a existência da matéria, ou pelo menos em diminuir sua importância
dentro da visão de mundo dessa ideologia. À medida que isto é feito (negar a matéria),
este conjunto de idéias se torna "mais verdadeiro". Esta interpretação interessou (e
interessa) a muitos grupos espiritualistas, que desta forma tentam mostrar a primazia do
espírito sobre a matéria, sem usar de outros fenômenos ou argumentos como a
mediunidade e a reencarnação. A Doutrina Espírita não necessita deste tipo de
"argumento" para afirmar a existência do espírito e sua primazia sobre a matéria, pelo
fato de o espírito ser o princípio inteligente. Isto é um ponto básico da Doutrina e suas
conseqüências são verificadas na prática. Não é pelo fato de o Espiritismo ser
espiritualista que necessita negar a existência da matéria. Recordemos a Questão 27 de
O Livro dos Espíritos (43a edição, FEB):

P : "Há então dois elementos gerais do Universo: a matéria e o Espírito?"
R : "Sim e acima de tudo Deus, o criados, o pai de todas as coisas. Deus, espírito e
matéria, constituem o princípio de tudo o que existe (…)."
Emmanuel, este Espírito que nos tem dado tantos ensinamentos e orientações, disse
alhures que "matéria é luz congelada". Estaria Emmanuel, segundo o que dissemos
acima, errado? Não. Em primeiro lugar a frase tem um certo sentido metafórico, porém,
mesmo considerando-a ao pé da letra, ela não está errada, pois a luz é matéria. A luz,
como outras formas de radiações, é um determinado tipo de matéria, e como tal
apresenta diversas propriedades desta, como a massa e a energia. Muitas vezes se
utilizam, no meio espírita, expressões como: "o passe é uma transferência de energia".
Tal expressão não é incorreta, pois a energia está associada aos fluidos transferidos, o


que fica subtendido. [Nota 5] Esta, como grande parte das expressões coloquiais que
utilizamos, carece de precisão, porém se fôssemos ser sempre precisos em nossa
linguagem usual, acabaríamos doidos ou mudos.

5. A Ciência é materialista?
Retomemos os significados da palavra Ciência, que vimos acima. Costuma-se
mencionar que "a Ciência é materialista". Mas qual "Ciência"? Dos significados vistos
podemos considerar dois: um primeiro, significando conhecimentos específicos (Física,
Química, etc.), e um segundo significando a comunidade científica.

O primeiro significado nos faz pensar também nos significados do termo "materialista".
As Ciências da matéria (Física, Química, Biologia, etc.) são "materialistas" porque
evidentemente estudam a matéria e somente a matéria, pois foram feitas para isso.
Querer que elas sirvam para outra finalidade, ou seja, estudar aspectos não materiais da
Natureza, é propor, a nosso ver, uma temerosa aventura. Essas tentativas, algumas
registradas na história, outras não, sempre redundaram em fracasso. Por outro lado o
termo materialista, no sentido filosófico (como visto no item 1), não faz muito sentido
ao ser aplicado às ciências da matéria.

Tomando agora o segundo significado do termo ciência – a comunidade dos cientistas –
a pergunta - título deste item: "A Ciência é materialista?", é bem apropriada. Como
também já mencionamos, o cientista é cientista apenas enquanto exerce sua profissão;
for a dela é um cidadão comum, com todas as idiossincrasias comuns. De fato, a
maioria da comunidade científica, em âmbito mundial, é materialista no sentido
filosófico do termo, assim como também o é a maioria dos membros das sociedades aos
quais pertencem os grandes contingentes científicos da atualidade (e isto gostaríamos de
frisar). E aqui vale lembrar a advertência de Emmanuel, ou seja, da necessidade de os
cientistas se evangelizarem.

Em resumo, a Ciência, pelo fato de estudar a matéria não deve ser por isso considerada
materialista, porém a comunidade científica é, em sua maioria, materialista. [Nota 6]

6. A Ciência confirma o Espiritismo?
Voltemos então às perguntas iniciais: "O que há de errado nos textos de divulgação
científica? Será que a ciência moderna não confirma o Espiritismo?" Cremos que o que
foi dito acima já responde, em parte, a estas perguntas, principalmente à primeira.

Os textos de divulgação científica, independentemente da qualidade individual de cada
um, o que não vem agora ao caso, costumam trazer em seu bojo alguma coisa a mais
que os resultados das investigações científicas. Tudo bem, cada um tem o sagrado
direito de se expressar. No entanto cada um tem também o sagrado direito de aceitar ou
não. Este sagrado direito nem sempre é exercido e aceitam-se certas afirmações
cegamente. Kardec nos ensinou o que fazer com as mensagens mediúnicas; vamos
aplicar estes critérios também nas mensagens dos encarnados. Em resumo, acho que
com os textos de divulgação científica não há nada de errado; alguém está "vendendo
seu peixe" e outros simplesmente estão "comprando", sem verificar se o mesmo "está
bom ou não".


E a Ciência confirma o Espiritismo?

O outro aspecto a considerar é que o Espiritismo é também uma Ciência. O sucesso
das ciências em geral significa também o sucesso da ciência espírita. O raciocínio pode
parecer simplista, em parte devido à maneira rápida com que estamos tratando, porém
as dificuldades de se entender o que vem a Ciência. Com relação a esta questão o leitor
poderá compulsar o artigo "O paradigma espírita", do nosso confrade Silvio Seno
Chibeni (Reformador, junho 1994, pp. 176-80), bem como as referências aí citadas que,
cremos, esclarecerão melhor a questão. A nosso ver, este é um dos caminhos de
confirmação do Espiritismo pela Ciência. O Espiritismo é uma ciência que trata de uma
ordem diferente de fenômenos que aqueles de que tratam as ciências da matéria, como
já afirmou Kardec. A comparação dos resultados destas ciências não faz portanto muito
sentido, principalmente tendo em vista que os "últimos resultados científicos", das
ciências da matéria, estão entre as coisas mais mutáveis que existem.

Uma outra linha de comparação que se pode fazer entre Ciência (ainda entendida com
conhecimento específico) e Espiritismo seira através do desenvolvimento dos estudos
psicológicos ou dos estudos do ser humano em geral. A Psicologia atual está longe de
ser considerada uma ciência madura (ou mesmo Ciência, no pensar de alguns), no
entanto muitos estudiosos, quase sempre fora do contexto do que poderíamos chamar de
"Psicologia Oficial", têm dado contribuições interessante. Os trabalhos de Ian
Stevenson (Vinte casos sugestivos de reencarnação, Difusora Cultural, São Paulo, 1978
e Vida antes da vida, Livraria Freitas Bastos, Rio de Janeiro, 1988) e outros, trouxeram
resultados notáveis. O leitor interessado nesta área poderá consultar o livro Alquimia da
Mente, do conhecido escritor espírita Hermínio C. de Miranda (Publicações Lachâtre,
Niterói, RJ, 1994), onde muitos outros estudiosos não-espíritas têm apresentado
contribuições interessantes. Essa área de estudo, ou seja, o estudo da mente, é uma área
comum ao Espiritismo. É possível que num futuro não muito longínquo, os estudos
nesta direção chegarão aos mesmos resultados já afirmados pelo Espiritismo, porém, de
todo o vasto leque de tentativas de se estudar a mente humana sem considerar a
existência do Espírito, a maior parte tem esbarrado em resultados ou em dificuldades
onde se faz necessário considerar esta hipótese, sem a qual se entra num beco sem saída.
Talvez pudéssemos atrevidamente "profetizar" que quando a psicologia adotasse o
paradigma espírita, estaríamos realmente no "início dos novos tempos".

Há ainda um outro ponto a observar, ligado às ciências da matéria. Muitos estudiosos
têm-se envolvido numa determinada linha de pesquisa, que remonta à época das mesas
girantes, e que tem por objetivo provar a existência do Espírito através de métodos
físicos. Apesar de não estar só, em minha obscura opinião, esta linha não chegou e nem
chegará a nada, pois os métodos físicos são adequados para se estudas a matéria (foram
feitos para isto). Caso alguém evidencie a presença do Espírito através de um método
físico, cabe sempre um questionamento metodológico, e daí não se chega a parte
alguma. Por outro lado, muitos confrades poderiam ainda argumentar com o fato de
Kardec, em suas obras, mencionar várias vezes que o Espiritismo e a Ciência
marchariam lado a lado. Estas afirmações poderiam causar (e causam) em muitos
leitores a impressão de que Kardec falava das ciências da matéria. Creio que Kardec
tinha em mente a Ciência Espírita, que ele acreditavam com toda a certeza, que ainda
estava no começo e que iria crescer, porém é melhor passar a palavra ao próprio Mestre
Lionês (O que é o Espiritismo, Cap. I, Segundo Diálogo – O Céptico, Oposição da
Ciência, págs. 77 e 78, 36a ed., FEB):


As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da matéria, que se pode, à
vontade, manipular; os fenômenos que ela produz têm por agentes forças materiais.

Os do Espiritismo têm, como agentes, inteligências que têm independência, livre-
arbítrio e não estão sujeitas aos nossos caprichos; por isso eles escapam aos nossos
processos de laboratório e aos nossos cálculos, e, desde então ficam fora dos domínios
da ciência propriamente dita.

A Ciência enganou-se quando quis experimentar os Espíritos, como experimenta uma
pilha voltaica; foi malsucedida como devia sê-lo, porque agiu visando uma analogia
que não existe; e depois, sem ir mais longe, concluiu pela negação, juízo temerário que

o tempo se encarregou de ir emendando diariamente, como já tem emendado outros; e,
àqueles que o preferiram, restará a vergonha do erro de se haverem levianamente
pronunciado contra o poder infinito do Criador.
As corporações sábias não podem nem jamais poderão pronunciar-se nesta questão;
ela está tão for a dos limites de seu domínio como a de decretar se Deus existe ou não;
é pois, um erro fazê-las juiz dela.

Cremos também ter respondido, ainda que de maneira incompleta, à pergunta título
desde artigo. O que nos moveu a percorrer este caminho foi justamente a preocupação
com as afirmações que colocamos no início. Se não fosse isto, seguiríamos o caminho
adotado pelo confrade Luiz Signates, expresso no excelente artigo "Ciência versus
Religião: o debate vazio" (Reformador, abril de 1994, pág., 118), com o qual
concordamos plenamente e que, de um certo modo, converge aos pontos de vista que
externamos também no artigo já mencionado "O Espiritismo na Academia?"

As críticas que aqui fizemos são genéricas e não são de modo nenhum, pessoais.
Gostaríamos que outros pontos de vista fossem também colocados.

Artigo publicado em Reformador, julho de 1995, pp. 208-11. Digitado por Rodrigo
Almeida Gonçalves.

Notas

1. É bem conhecido o caso de um candidato a um importante cargo público em nosso
país que foi derrotado "na boca da urna" por se dizer ser ateu. Em muitos países,
inclusive o nosso, muitos candidatos fazem suas campanhas políticas de Bíblia na mão.
[volta]

2. Não vamos considerar a comunicação oral, que também satisfaz aos critérios que
vamos apresentar, mas seu lado informal confunde-se com o lado formal, do qual
estamos tratando.[volta]
3. Ouvi certa vez a expressão "duas meias-verdades não fazem uma verdade inteira"
[volta]

4. A palavra energia tem também outros significados, o que pode provocar confusões.
Vide Xavier Jr. A. L., "Algumas considerações oportunas sobre a relação Espiritismo-
Ciência", Reformador de agosto de 1995, pp. 244-46.[volta]

5. Estaria Emmanuel utilizando um sentido diferente para a palavra energia? Se ele
usou, já não temos o que comentar, pois o sentido da frase é agora praticamente literal.
Vide a nota 4. [volta]
6. Não vamos estender mais sobre esta questão do materialismo na Ciência. O leitor
interessado poderá consultar o livro A Ciência em Ação, de Claude Chrétien, trad. M. L.
Pereira, Papirus Editora, 1994. [volta]
... Aécio Pereira Chagas

> Polissemias no Espiritismo

Artigos


Há tempos atrás, compulsando uma gramática (Gramática Normativa, Rocha Lima, José
Olympio Ed.), deparei com este termo: polissemia, nome dado ao fenômeno lingüístico
em que uma palavra tem vários significados. Como exemplo pode-se citar:

> massa, significa quantidade de matéria (Física); o material com que se faz pão, bolo
etc. (mistura de farinha, água e outros ingredientes); multidão, turba.

> cabo, posto militar; acidente geográfico; fim (ao cabo de uma semana terminara sua
tarefa); matar (deu cabo de seu desafeto); cabeça ou princípio (de cabo a rabo);
extremidade por onde se segura um objeto (cabo de vassoura, de panela etc.); corda
(cabo de aço).

O leitor poderá encontrar mais exemplos consultando um dicionário.

Convivemos com este fato e em nossa vida muitos mal-entendidos são conseqüência
desta pluralidade de significados. Muitas vezes o sentido de uma palavra é dado pelo
seu contexto, pelo sentido geral do assunto, da frase dita ou escrita, da expressão de
quem a diz etc. Outras vezes, quando estas condições não existem ou não são claras,
ficamos ou sem entender ou entendemos aquilo que achamos ser, ou o que queremos
que seja. Por exemplo, a frase solta "o cabo avança pelo mar", o que significa? Qual aí o
sentido da palavra "cabo"?


Quando escrevia este texto vi também que esta preocupação não era só minha. O
Editorial da Revista Internacional de Espiritismo (abril de 96), A Doutrina e a
Semântica, externava as mesmas preocupações. Kardec, no item I da Introdução de O
Livro dos Espíritos, fala do significado das palavras, das anfibologias, termo que
significa (cf. Dicionário do Aurélio) duplicidade de sentido em uma construção
sintática, ambigüidade. Apesar dos esforços do Codificador, termos com vários
significados surgiram entre os espíritas e alguns deles, às vezes, causam confusão. Isto é
natural em qualquer linguagem, em qualquer idioma. Na linguagem científica, que se
esmera para não ser ambígua, isto ocorre freqüentemente, havendo então a necessidade
de se especificar ou adjetivar os termos ... quando se quer evitar a confusão.

Vamos considerar três palavras que, talvez pelo fato de serem utilizadas dentro e fora do
contexto espírita, tornaram-se polissêmicas. São elas: fluido, magnetismo e energia.

FLUIDO: Esta palavra é utilizada na Física e no Espiritismo com sentidos bem
diferentes. No século XIX, fluido, em Física, era empregado para designar materiais
capazes de penetrar pelos vazios da matéria e de se escoar. A eletricidade, o calor, a luz
etc., eram tidos como fluidos, além dos gases e líquidos em geral (ar, água etc.).
Posteriormente estas idéias foram abandonadas pelos físicos, passando o termo fluido a
designar somente os gases e os líquidos em geral, e não mais a eletricidade, o calor, a
luz etc. Nessa época, século XIX, Kardec, fazendo uma analogia dos "materiais"
mencionados e manuseados pelos espíritos, com a eletricidade (então caracterizada pelo
fluido elétrico), denomina-os de fluidos, às vezes adjetivados ou não, como o chamado
fluido magnético, para designar o fluido utilizado pelos magnetizadores. Com o
abandono do termo pelos físicos para caracterizar a eletricidade, o calor etc., o termo
fluido introduzido por Kardec tornou-se interessante, sem perigo de confusão, pois o
significado atualmente utilizado em Física não tem como ser confundido com o
significado utilizado pelo Espiritismo. Parece que Kardec adivinhou ...

MAGNETISMO: Este termo surge associado à palavra magneto, outro nome dado ao
ímã. O comportamento de atração e repulsão dos corpo imantados, como a bússola,
parece ter inspirado muitos pesquisadores, principalmente o famoso médico e químico
suíço Paracelsus (1493 -1541), a utilizarem a analogia destes com os fenômenos
humanos que eles pesquisavam (simpatias e antipatias, indução psíquica, cura pela
imposição das mãos etc.), dando o nome "magnetismo animal". Este nome ganhou
grande notoriedade com o famoso médico austríaco Franz Anton Mesmer (1775 1815).
Posteriormente, em 1841, o tema foi rebatizado por hipnotismo, pelo médico
escocês James Braid (1795 - 1860). O termo magnetismo seguiu sendo utilizado até
hoje, conforme pode-se constatar inclusive na literatura espírita. Magnetismo tem então
dois significados: o primeiro (mais antigo) corresponde ao utilizado em Física: estudo
dos ímãs, efeitos das correntes elétricas, eletroímãs etc. O segundo corresponde ao
conjunto de fenômenos humanos caracterizados por uma influência de um indivíduo
sobre outro(s), que transcende à ação e percepção puramente sensorial (não sei se esta é
um boa definição, porém creio ser suficiente para os propósitos deste artigo). Apesar da
polissemia, não há porque confundir os dois significados. Se o magnetismo humano
e/ou animal está ou não relacionado com o magnetismo dos imãs e correntes elétricas (é
até possível que esteja) não importa, o ponto principal, atualmente, é que ambos são
conceitos diferentes e em âmbitos diferentes.


ENERGIA: Talvez seja um dos termos polissêmicos mais geradores de confusão. A
palavra energia (do grego: , significando capacidade de trabalho, dentre outros) já havia
sido utilizada por Aristóteles, porém introduzida (ou reintroduzida) na Física por
William Thomson, mais conhecido por Lord Kelvin (1824 - 1907), em 1852,
praticamente com o mesmo sentido: capacidade de produzir trabalho. Este é o primeiro
significado da palavra. Antes disto, em Física, usava-se as palavras força e vis (do latim,
também significando força). Ao longo do século XIX, o termo energia vai se
popularizando entre os físicos, e depois fora da Física. Na época de Kardec, o termo
força, com o sentido de energia, é ainda predominante. Atualmente força e energia, no
contexto da Física Clássica, têm significados distintos, o primeiro está associado à
segunda lei do movimento de Newton (força = massa aceleração) e o segundo à
capacidade de produzir trabalho (trabalho = força deslocamento). Força e energia são
propriedades da matéria. Note que Kardec praticamente não utiliza esse último termo.
Posteriormente a palavra energia foi tomando outras acepções, sendo ampliado,
generalizado, adquirindo outras conotações. No final do século XIX e início deste, o
famoso químico alemão Wilhelm Ostwald (1853 - 1932) desenvolveu uma doutrina
filosófica materialista chamada de Energeticismo. Esta doutrina era uma extensão, ou
variante, do empiriocriticismo, nome da filosofia positivista nos países de língua alemã.
Ostwald, baseando-se na ciência da Termodinâmica, procura explicar os fenômenos
naturais e humanos reduzindo-os às transformações energéticas. Quem leu o livro de
Camille Flammarion Deus na Natureza (edição FEB), nota que ele debate com vários
filósofos e cientistas materialistas, Moleschott e Büchner, entre outros. Ostwald é um
continuador destes, procurando ampliar e melhorar as idéias dos mesmos. O próprio
desenvolvimento da Ciência no começo deste século acabou por enterrar o
Energeticismo, porém esta idéia de que matéria é energia ( e energia, no caso, já não
sabemos mais o que é) permaneceu. Muitos vêem na expressão "matéria é energia
condensada" um dos últimos esforços do materialismo para poder explicar o espírito.
Talvez por isto muitas pessoas trazem esta idéia para o movimento espírita, supondo
que estão explicando a existência do espírito à luz da "ciência moderna" (que não é
ciência e nem moderna). Neste caso também podemos afirmar que energia é um termo
que abrange a matéria. Eles não se contrapõem, um engloba o outro.

Talvez por influência do Energeticismo, energia passou a designar também radiações,
como a luz, as ondas de rádio, a radioatividade etc. Este é outro significado do termo,
popularizado pelos textos de divulgação científica (ver A Ciência confirma o
Espiritismo?, Reformador, julho 1995).

Encontramos na literatura espírita a expressão: "o passe é uma transfusão de energias
psíquicas" (Emmanuel; O Consolador, psicografia de F. C. Xavier, questão 98, edição
FEB). Nesta frase, o sentido do termo energias tem o mesmo sentido do original:
capacidade de produzir trabalho, no caso psíquico. Talvez, por extensão do termo,
considerando que o passe seja visto também como uma transferência de fluidos, os
termos energia e fluido passaram a ter o mesmo significado. E encontramos
freqüentemente na literatura espírita expressões que contém este último significado,
como por exemplo: "Quando mais desmaterializado [o perispírito], mais energia
possui e mais leve se torna" (Abel Glaser e Caibar Schutel (espírito), Conversando
sobre Mediunidade, p. 193, Casa Editora "O Clarim"). Note que aqui o termo energia
pode ter também o significado de "capacidade de produzir trabalho", porém de qualquer
modo é sempre oposto à idéia de matéria, diferente do mencionado anteriormente, em
que energia abrange matéria. O termo energia significando fluido leva-nos a interpretar


de forma diferente a frase "matéria é energia condensada". Ela pode ser entendida agora
como "matéria é fluido condensado", o que esta de acordo com os ensinamentos de O
livro dos Espíritos, que diz que a matéria é uma modificação do fluido cósmico
universal

Para o termo energia há ainda outros significados a serem destacados. Na
expressão "Fulano tem uma energia ...", o significado de energia pode ser entendido
como vitalidade, vigor (coerente com o sentido usado na Física), ou pode ser entendido
como personalidade marcante, forte. Em Nutrição o termo energia aparece associado ao
seu significado em Física. A expressão "alimento energético" significa um alimento que
ao ser metabolizado produzirá uma grande quantidade de energia, uma grande
capacidade de produzir trabalho, como as gorduras. Temos visto também a mesma
expressão utilizada com sentido diferente: alimentos como broto de alfafa, broto de
feijão designados como "alimentos energéticos" em suas embalagens. Pelo que pude
entender, a idéia a ser transmitida é que este alimento é um "promotor de vitalidade",
rico em vitaminas, em substâncias que, no organismo, podem ser precursores de
catalisadores bioquímicos e, talvez, em fluidos vitais. Aqui o termo energético não tem

o significado normalmente utilizado em Nutrição.
Realmente a coisa é confusa. Alguns podem ter a opinião contrária, que as coisas não
são assim e que eu é que as estou fazendo confusas. Podem achar que estou "fazendo
tempestade em copo d'água". É possível e espero estar. Muitos espíritas não levam o
Espiritismo a outros campos do saber ou atividades humanas, porém trazem estes ao
Espiritismo sem, às vezes, muito critério. É essa a nossa preocupação.

Para finalizar quero apenas realçar que não estou condenando as pessoas por utilizar
este ou aquele termo. As idéias precisam ser expressas e nem sempre temos palavras
para isto. Desejo apenas lembrar uma lição que Kardec nos deixou através de seu
trabalho: critério para escrever e falar, critério para ler e ouvir.

Fontes : Revista Internacional de Espiritismo - set/1996 e Portal do Espírito


... Aécio Pereira Chagas

> As Provas Científicas

Artigos



Certas pessoas, muitas vezes bem-intencionadas, buscam provas científicas referentes à
imortalidade do Espírito, à comunicabilidade deste conosco, à reencarnação e sobre
outros pontos fundamentais da Doutrina Espírita. Isso é muito salutar, mas o problema é
que, entre essas pessoas, algumas passam toda a existência terrena procurando essas
provas, ou melhor, atrás "da prova", e nunca a encontram apesar de terem tido contato
com inúmeros fatos que a confirmam. Algumas assim agem por um ceticismo crônico,
crentes de bem procederem cientificamente, pois acreditam (aqui elas não são céticas)
que um "verdadeiro cientista não tem idéias preconcebidas". Acho que essas pessoas
que passam o tempo todo atrás das provas e continuam insatisfeitas precisam ser
informadas do que vem a ser uma "prova científica". É o que pretendemos mostrar.

Vamos utilizar-nos de um exemplo para ilustrar nossos pontos de vista. E o que
escolhemos é a "teoria atômico-molecular", devido à nossa experiência como
pesquisador no campo da Química. O que se segue é um diálogo imaginário (ou não tão
imaginário assim) que tivemos com uma pessoa a princípio cética.

Inicialmente ela nos perguntou:

-- "Você acredita na existência de átomos e moléculas?"

-- "Não só acredito, mas sei que eles existem", respondi.

-- "Como você pode provar isso?"

-- "Não lhe posso oferecer nenhuma prova como aquelas apresentadas nos tribunais;
inclusive nunca os vi, toquei ou mesmo os senti de alguma maneira, nas formas que
penso que sejam. O que me faz saber que os átomos e as moléculas existem é um
conjunto de evidências experimentais, um conjunto de provas. Nenhuma delas por si é
suficiente par provar a existência dos átomos ou das moléculas. Vendo a coisa de outra
maneira, todo esse conjunto de evidências experimentais ou de experimentos só pode
ser explicado, entendido, racionalizado, por meio da admissão da existência dos átomos
e moléculas, e essa miríade de experimentos é que constitui "a prova". Cada um dos
experimentos, considerados separadamente, pode até ser explicado por outras hipóteses
ou teorias, mas até hoje ninguém encontrou nenhuma outra alternativa que desse conta
de todo o conjunto de experimentos considerados, a não ser a "teoria atômicomolecular".
Um dado experimento pode ser explicado pela hipótese de que a matéria é
contínua, alguns outros também, mas há muitos outros que não. Podemos até inventar
hipóteses as mais estapafúrdias, mas com lógica e bom senso perceberemos que poderão


dar conta apenas de alguns poucos fatos. Não vou citar aqui os experimentos; nas
bibliotecas encontramos centenas e centenas de descrições deles.

"Ainda mais: como já sei que os átomos e as moléculas existem, como cientista não vou
mais procurar provas de sua existência. Vou daí para a frente. Vou realizar
experimentos nos quais a priori já considero existentes os átomos e moléculas, e os
resultados têm sido até agora coerentes com isso. Assim procedem também os meus
colegas cientistas do mundo todo."

Da mesma maneira que se faz a pergunta sobre os átomos e as moléculas, faz-se
também com relação à existência dos Espíritos e a outros pontos que mencionamos no
início deste artigo. A resposta que daríamos a essa pergunta seria a mesma dada sobre
os átomos e as moléculas: "Não só acredito, mas sei que eles existem." -- "Como você
pode provar isso?" -- "Não posso lhe oferecer nenhuma prova, como aquelas
apresentadas num tribunal; inclusive nunca os vi, toquei ou mesmo os senti de alguma
maneira, na forma que penso que tenham. O que me faz saber que os Espíritos existem é
um conjunto de provas (...)." O leitor poderá continuar o diálogo, é só trocar 'átomos e
moléculas' por 'Espíritos'. Alternativa para 'Espíritos' (como a hipótese da matéria
contínua no lugar dos átomos)? É só procurar uma dessas muitas explicações
"parapsicológicas" que há por aí (o inconsciente etc.).

Quanto aos novos experimentos, já há uma diferença: são poucos os que vão à frente, a
maioria ainda está querendo "provar" que o Espírito existe.

Se as pessoas que buscam provas sobre esses pontos básicos da Doutrina Espírita, após
examinarem todo esse conjunto de evidências que a própria Doutrina oferece, além de
outras procedentes de fontes não espíritas, ainda quiserem "a prova", é porque
continuam desinformadas sobre a atividade científica (ou não a aceitam) ou realmente
não querem aceitar nada. Mas isso não acontece apenas com o Espiritismo. Com átomos
e moléculas hoje em dia não se pode ser cético, mas com outras coisas... Há pouco ouvi:
"(...) afinal de contas, a teoria da Evolução ainda não está cientificamente provada"...

Fonte: Revista Reformador, agosto de 1987, pp. 232-33.


... José Reis Chaves

> Deus e o livre-arbítrio

Artigos



O nosso livre-arbítrio está para o nosso intelecto, assim como a nossa fala está para o
nosso pensamento. O livre-arbítrio supõe a existência do intelecto, assim como a fala
supõe a existência do pensamento. E esses nossos atributos interagem e confundem-se
entre si no nosso agir constante.

Para Spinoza, o nosso livre-arbítrio é limitado, pois depende de nossa consciência, que
nunca é totalmente plena. Só a de Deus o é. E, segundo Santo Agostinho, ele é-nos
limitado por causa do nosso pecado original. E, na verdade, o pecado original é o nosso
carma com o qual nascemos.

São polêmicas essas questões do livre-arbítrio e do seu oposto, o determinismo, pois
ambos são relativos. Quanto mais evoluído for o espírito, maior é seu livre-arbítrio, e,
conseqüentemente, maior sua responsabilidade. É oportuno aqui nos lembrarmos da
frase de Pietro Ubaldi: "Só há responsabilidade onde há liberdade"

Com efeito, diante do livre-arbítrio, a Doutrina da Predestinação é insustentável. O
Nazareno, com sua frase "Eu sou o caminho", mostrou-nos que nós temos que optar por
seu Evangelho, mas se o nosso destino já tivesse sido traçado por Deus, para que
escolheríamos esse caminho? O Novo Catecismo da Igreja diz que o vigário de Cristo
na Terra é a voz de nossa consciência. E a pergunta 621 do "Livro dos Espíritos" de
Kardec tem, como resposta, que a Lei de Deus está escrita na nossa consciência. Ora,
Deus não teria gravado nela a sua Lei, se não fosse para ela ser seguida por nós, e para
isso, ela tem que passar pelo crivo de nossa vontade. E o nosso destino é feito por nós
mesmos, isto é, pelo nosso carma, pois a Lei de Causa e Efeito é inexorável. "A toda


ação corresponde uma reação de igual potência e reversibilidade". "Colhemos o que
plantamos". E "Ninguém deixará de pagar até ao último centavo". Mas, também, ao
pagarmos o último centavo, estaremos quites!

Se o mundo está um caos, é justamente porque os seres humanos abusam do seu livre-
arbítrio. E, Infelizmente, os dirigentes de religiões, às vezes, não ensinam para os seus
fiéis que seu ego tem de ser disciplinado e dominado pelo seu eu interior, e não o
contrário. Segundo o ensinamento de Jesus, é imprescindível a renúncia a nós mesmos,
como condição, "sine qua non", ficaremos estagnados espiritual e moralmente.

E como, também, as explicações teológicas tradicionais não satisfazem às indagações
existenciais de muitos sobre a balbúrdia do mundo, eles acabam abraçando o ateísmo
Mas a crença racional em Deus é sempre uma realidade mais concreta, haja vista o que
disseram Voltaire e Einstein, respectivamente: "Se Deus não existisse, nós teríamos que
O inventar" e "Cada porta do conhecimento que abro, encontro Deus."

Autor do livro "Quando Chega a Verdade" (Ed.Martin Claret), entre outros.
E-mail: jrchaves@redevisao.net.


... José Reis Chaves

> A Diversidade religiosa

Artigos


As pessoas têm graus diferentes de evolução oriundos de reencarnações passadas de
seus espíritos. Cada espírito, pois, vem com seu próprio acervo cultural, inclusive o
religioso.

O espiritismo não tem rituais e não faz casamentos. Porém o conhecido médium baiano
psicopictógrafo (de pintura mediúnica) José Medrado, que vai à Europa e a outras partes
do mundo, várias vezes por ano, fazer suas pinturas mediúnicas em redes de TV, é a
favor do casamento espírita.


Fundador e dirigente da famosa comunidade espírita de Salvador, "Cidade da Luz", ele
pediu ao Tribunal de Justiça da Bahia a instituição do casamento espírita. O espiritismo
é uma ciência e aceita, pois, a evolução. Mas alguns meios espíritas perseguem os
inovadores. E até o chamado "olho grande", às vezes, se encontra entre eles.

Como se vê, os espíritas erramos também, pois somos seres humanos imperfeitos, como
qualquer outra pessoa, em busca da perfeição. O Alamar Régis, fundador e diretor da
Rede Visão Espírita, é também vítima de muitas dessas perseguições de espíritas
fundamentalistas. Ele acaba de enviar uma carta à Federação Espírita Brasileira (FEB),
apelando para o seu presidente e vice-presidente, respectivamente, Nestor Masotti e
Altivo Ferreira, pedindo apoio para o casamento espírita que, é óbvio, não terá caráter
de sacramento e será grátis. Essa briga é entre respeitados gigantes espíritas do mundo,
já que é aqui no Brasil que o espiritismo, a exemplo do catolicismo, mais se difundiu.
Porém até o autor desta coluna, o qual é uma figura modesta dentro do espiritismo, mas
porque o seu trabalho tem um forte enfoque de Bíblia e de mídia, é também vítima de
alguns dirigentes espíritas que tentam ignorá-lo e isolá-lo, quando o espiritismo é
bíblico em toda a acepção da palavra, além de o Espírito de Verdade ter dito que a
maior caridade que podemos fazer com a doutrina espírita é a sua divulgação.

Diante desses fatos, perguntamos: será que o espiritismo vai cometer os mesmos erros
da Igreja, que, justamente por ignorar, nos tempos passados, a inevitabilidade da
diversidade religiosa das pessoas, acabou levando o cristianismo a fracionar-se em mais
de 300 igrejas?

http://www.apologiaespirita.org

... José Reis Chaves

> A Mulher não é Ovípara

Artigos


Existe na nossa sociedade de cultura ocidental judaico-cristã um trauma, ou seja, o do
pavor que a sociedade tem de ver uma mulher solteira ficar grávida e,
conseqüentemente, o de ela vir a ter um filho. É que o judaísmo e o cristianismo sempre
condenaram exageradamente a sexualidade fora do casamento. No entanto, antes de
haver religiões e casamentos no mundo, nossos ancestrais já tinham seus filhos, sem o
que não poderíamos existir!


Deixando de lado esses traumas de pecados da sexualidade fora do casamento, presentes
ainda em nosso inconsciente coletivo, e que foram e são ainda responsáveis por tantos
abortos, convém dizer aqui que o aborto constitui falta grave contra as leis espirituais
divinas e naturais.

Há dois tipos de vida, ou seja, a vida em estado potencial e a vida atualizada. Um grão
de feijão é uma vida em estado potencial de um pé-de-feijão. Ao ser colocado na terra
úmida, ele brota e se torna a vida atualizada de um pé-de-feijão, mesmo ainda antes de
ele chegar à superfície da terra. Também com relação aos seres ovíparos que nascem de
ovos, podemos dizer que essas duas vidas existem. Por exemplo, o ovo galado de
galinha é uma vida de um pintinho, mas apenas em estado potencial. Esse ovo só vai se
tornar uma vida atualizada de um pintainho, depois de ser submetido a uma temperatura
apropriada debaixo duma galinha ou numa chocadeira, pelo tempo de 21 dias. Assim,
pois, a destruição de um ovo, mesmo galado, não é a destruição da vida de uma
avezinha, a qual, por enquanto, só existe no ovo em estado potencial.

Mas como a mulher não é ovípara, a vida do feto nela é atualizada dentro dela mesma,
desde o instante da concepção. Conseqüentemente, se ela eliminá-lo, mesmo que ele
seja ainda um embrião, ela está destruindo uma vida humana já atualizada, cometendo,
pois, um infanticídio e se tornando uma verdadeira assassina do seu próprio filho
inocente e indefeso, quando ela, até pelo instinto, deveria protegê-lo!


... José Reis Chaves
> A reencarnação segundo a Bíblia e a ciência
Artigos



Queremos, primeiramente, agradecer à articulista Cleomar Borges de Oliveira, que
neste conceituado Órgão de Imprensa Espírita ("Nova Era", de Franca, SP), de
novembro de 2001, teceu comentários sobre o livro de nossa modesta autoria, cujo título


encabeça esta matéria. Agradeço também ao meu amigo, o Professor psicobiofísico
Henrique Rodrigues, que me deu esse Periódico, que considero de alto nível.

O nosso objetivo não é polemizar com a nobre jornalista, mas tão-somente esclarecer
algumas questões que nos parecem interessantes para os leitores do jornal "A Nova
Era".

O livro "A Reencarnação Segundo a Bíblia e a ciência" é uma tese sobre a
reencarnação, do ponto de vista bíblico e científico. Dizendo em outros termos, o autor
apenas se propôs a defender a Teoria da Reencarnação para os católicos e evangélicos, e
não para os espíritas que já a aceitam normalmente. Para isso valeu-se desses dois
pilares respeitados, a Bíblia e a Ciência. Assim, o livro "sub examine" pontifica por
uma verdade espírita, a reencarnação, e não por todas as verdades espíritas, mesmo
porque, quando o escreveu o seu autor ainda não era espírita, embora já tivesse pela
Doutrina Kardecista uma simpatia toda especial. Também Jesus e Kardec não disseram
tudo.

E, quando o autor recorre a outras correntes filosóficas religiosas reencarnacionistas,
principalmente orientais, o objetivo do autor foi mostrar a universalidade da Doutrina
Reencarnacionista, e jamais pensou em subordinar o Pensamento Kardequiano àquelas
correntes filosóficas religiosas, embora elas sejam anteriores ao Kardecismo, o que deve
ter levado a ilustre articulista a interpretar de modo diverso o pensamento do autor.

Sobre o termo Neo-Espiritismo, de fato se trata de um vocábulo impróprio, não obstante
ele circular entre alguns autores incipientes na Doutrina Espírita, como o era o autor,
quando escreveu essa obra, e como, aliás, ele ainda assim se considera. Mas, a partir da
4ª edição dela - ele está na 6ª -, essa falha já foi retificada.

Quanto ao fato de o autor ser católico e reencarnacionista, e mesmo de ser católico e
espírita, trata-se de uma coisa muito simples, embora pareça contraditória.
Simplesmente ele é um católico herege, isto é, não aceita todos os dogmas da Igreja.
Para não ser um católico desse gênero, deveria aceitá-los todos. Mas os dogmas da
Igreja – diga-se de passagem – estão caindo num esvaziamento muito grande, inclusive
entre os próprios teólogos.

Isto porque eles foram instituídos em épocas remotas pelos Concílios, quando a
mentalidade da Humanidade era outra, além de terem sido não só expostos aos cristãos,
mas impostos. E, assim, se algumas pessoas mais inteligentes e mais cultas repeliam-
nos, naqueles tempos longínquos, iam para a fogueira.

Mas, hoje, não temos mais fogueiras inquisitoriais, e a mentalidade do homem do
Século XXI mudou. Por outro lado, também, nem todo católico herege é
necessariamente um desafiador da Igreja, e muito menos, um inimigo dela.

Além do mais, muitas heresias de hoje, como alguns fatos da Igreja o demonstram,
serão verdades da Ortodoxia Católica de amanhã. João Huss, por exemplo, morreu na
fogueira, porque era contra a interrupção da comunhão sob as duas espécies de pão e
vinho. E hoje a Igreja voltou a essa prática em muitas igrejas, dependendo da
determinação do vigário. E a tudo isso se junte a afirmação do Apóstolo Paulo de que as
heresias são necessárias. E Jesus era um judeu, sim, mas um judeu herege. Por isso os


sacerdotes passaram a odiá-Lo, e acabaram tramando a sua morte na Cruz.

Há uma frase muito conhecida nos meios espíritas: "O Espiritismo é o Cristianismo
redivivo". Mas trata-se do Cristianismo Primitivo, e não deste de nossos dias, e muito
menos do da Idade Média. E o Cristianismo Primitivo aceitava a reencarnação, já que os
expoentes da Teologia Cristã, entre eles São Clemente de Alexandria, Orígenes, São
Gregório Nasiazeno e o Papa São Gregório Magno, eram adeptos da reencarnação.

Por isso, quando o autor se diz católico espírita, hoje, ele considera-se um adepto
daquele Cristianismo Primitivo ainda não adulterado por dogmas instituídos pelos
teólogos nos Concílios, ao longo da História do Cristianismo, principalmente os de
Nicéia de 325 e 383.

E, segundo as estatísticas, a metade dos católicos do Brasil é espírita, freqüentando os
centros, e lendo a Literatura Espírita. E outras estatísticas mostram também que cerca de
70% dos católicos crêem na reencarnação.

O autor considera-se incluído nessas estatísticas, embora saiba que o Espiritismo
propriamente dito não tem rituais, cerimônias nem Sacramentos.

Mas a Doutrina Espírita não possui preconceito contra religião nenhuma. E na sua
trilogia de ser Ciência, Filosofia e Religião, arrasta adeptos de outras religiões,
principalmente por influência desse seu aspecto religioso.

E é oportuno que nos lembremos aqui de que Bezerra de Menezes teve como sendo suas
últimas palavras uma piedosa oração feita a Maria Santíssima, como ele a chamava.
Também Luiz Sayão desencarnou-se louvando-a com especial devoção.

E queremos deixar claro aqui que o Espiritismo é incompatível com o Catolicismo do
ponto de vista dogmático, e não, bíblico.

Destarte, o que se diz católico espírita, como vimos acima, é um católico herege. Mas
não é o que preconiza a Doutrina Kardecista, quando afirma que o Espiritismo não é a
religião do futuro, mas o futuro de toda religião?

E, realmente, é o que está acontecendo. Enquanto que o Espiritismo não se proclama
como sendo a verdadeira religião – a única que salva -, ele está infiltrando-se entre os
adeptos de outras religiões. E a Igreja Católica, na prática, muito discretamente, mas a
passos firmes, vem aceitando as verdades espíritas. E uma delas é a sua afirmação de
que quem disser que só ela salva, está errado, pois que todos se salvarão. E, por ser a
maior religião do Brasil, possui o maior número de adeptos com um pé nela e outro no
Espiritismo. E seu conceito de inferno, também, hoje, é espírita, pois ela diz que se trata
de um estado de consciência, como o ensina o Espiritismo.

O autor do livro em apreço trabalha no sentido de levar para os nossos irmãos católicos
as verdades espíritas, ao invés de abandonar a Igreja, pois para ele é preferível a busca
da unidade à da separação, que já prejudicou demais a Humanidade em sua caminhada
para a perfeição, considerando justamente como sendo um dos maiores obstáculos para
essa nossa jornada espiritual evolutiva o fundamentalismo religioso, de qualquer que
seja a religião.


Muita paz para todos nós espíritas e não espíritas.

Belo Horizonte, 21-11-2001.

José Reis Chaves
*Autor do livro, entre outros, "A Face Oculta das Religiões",
Editora Martin Claret.
escritorchaves@ig.com.br


http://www.ajornada.hpg.ig.com.br


... Victor Leonardo da Silva Chaves
> Dialética e Espiritismo
Artigos



Constantemente, no meio espírita, assistimos a palestras ou lemos trabalhos, onde o
palestrante ou o escritor cita a Dialética como se fosse uma doutrina que avalizasse a
verdade. Já tivemos oportunidade de consultar um artigo, cujo autor pretensamente trata
da "dialética espírita".

A palavra dialética vem do grego: prefixo "dia", que significa "através", e do termo
"logos", que significa "palavra".

Dialética, etimologicamente, seria "arte da discussão", "arte de esclarecer", "arte de
enganar", "arte de esclarecer através das idéias". No curso da história da Filosofia, o
conceito de dialética já passou por altos e baixo. Platão, os escolásticos e Hegel a
exaltaram. Aristóteles, os renascentistas e Kant a desdenharam. De meados do Século
XIX ao XX, seu sentido foi um pouco deturpado com o fito de atender os interesses de
correntes ideológicas. Marx usou a dialética materialista para criar seu Materialismo
Histórico, a fim de explicar a marcha da humanidade sem necessitar de uma Providência
Divina. O conceito de dialética usado hoje pelos intelectuais é um misto da forma
idealista de Hegel e da materialista de Marx.

O constante "vir-a-ser" dialético satisfaz à ideologia indeterminista tanto do
anarquismo, como a do neoliberalismo. Esse pensamento é incompatível com uma
doutrina que crê em um Deus criador e providente [vide itens 5.2., 5.4., e 5.5.].


Hegel [1770-1831] graduou-se em pastor luterano. Discordando de pontos doutrinários,
abandonou o pastorado e tornou-se Professor de filosofia. Foi fortemente influenciado
pelo Romantismo alemão que fazia apologia da revalorização do panteísmo pagão
germânico. Essa é a razão porque Hegel apresenta sempre vaga idéia de Deus,
identificado-O com a natureza, diferindo de um Deus criador e providente.

Marx [1818-1883] era francamente materialista. Portanto, sua doutrina não podia
explicar os fenômenos naturais determinados por uma Causa externa [Deus]. A teoria
dialética ajudava explicar tudo sem recorrer a determinações externas aos fatos ou às
coisas.

O Romantismo surgiu no final do século XIX, influenciando arte, ciência, filosofia.
Suas manifestações diferiam conforme o setor, o local e o momento de aparecimento.
Por isso, falamos de Romantismo alemão, italiano.

Mencionamos também Romantismo na Música, nas artes plásticas, na Arquitetura, etc..
Esse movimento prolongou-se por todo o Século XIX, ingressando no Século XX sob a
forma do Niilismo de Nietzsche e da fenomenologia de Husserl. Ambas influenciaram o
Existencialismo Fenomenológico de Heidegger e o Existencialismo Materialista de
Sartre e, mais recentemente o Estruturalismo. Por isso, a Dialética ficou preservada para
explicar todos os fenômenos da vida humana. Ela passou a fazer parte do "espírito da
época" [Zeitgeist] e, assim, perece lógica a fundamentação nela para qualquer
demonstração. Por essa razão, no Movimento Espírita Brasileiro, aparecem pessoas que
são influenciadas por esse "espírito da época" e facilmente introduzem no Espiritismo
idéias contraditórias a seus princípios.

Essa confusão tem várias causas. A primeira é pelo fato dessa palavra ter vários
significados e, por isso, as pessoas podem estar defendendo idéias dialéticas diferentes,
achando que estão em comunhão de pensamento.

A segunda é política; na segunda metade do Século XX, houve uma expansão do
pensamento marxista, o que ajudou a divulgar a doutrina dialética. A terceira causa é o
pensamento estruturalista que dominou também nessa época [com apogeu na Década de
60, identificando-se com a ideologia de protesto] e foi muito influenciado pelo
anarquismo francês. A doutrina dialética, embora seja uma forma de determinismo
causal, induz ao indeterminismo, o que satisfaz aos interesses anarquistas, pois, o
constante "vir-a-ser" inevitavelmente induz a uma indeterminação. A segunda e a
terceira causas são conseqüências do Romantismo.

Das várias acepções da palavra "dialética', vamos examinar apenas a "Dialética Idealista
de Hegel" e a "materialista de Marx", por serem essas as formas que provocam esse
mistifório no Movimento Espírita Brasileiro.

Hegel alegava que toda afirmação traz dentro de si sua negação, o que evidentemente
resulta na negação da primeira afirmação, o que já se torna uma segunda afirmação,
contendo dentro de si sua própria negação. Essa cosmovisão conduz necessariamente a
um indeterminismo, pois nada pode ser definitivo, eliminando a possibilidade de uma
determinação finalista dada por um Deus providente. Didaticamente essa teoria é
apresentada como consistindo de tese [posição] que produz sua antítese [oposição]. A


união dessas duas produz a síntese [composição] que é uma nova tese que produzirá sua
antítese.

Marx não aceitou a forma idealista dessa teoria e forneceu-lhe uma explicação
materialista. Não é justificável neste trabalho, explicarmos a distinção precisa entre
essas duas formas de pensamento dialético. Basta que o leitor entenda que dialética
resume-se didaticamente na seqüência infindável de tese, antítese e síntese.

Para exemplificar, faremos essa comparação. Os que aceitam o pensamento dialético,
usam como prova a ascensão, apogeu e declínio de várias civilizações do passado. Essas
civilizações ao se estabelecerem traziam dentro de si a sua "negação" ou "antítese", que
a aniquilaria futuramente. Marx afirmava que o Capitalismo trazia dentro de si suas
contradições, o que o destruiria. A LE 786 mostra o inverso. O nascimento, crescimento
e declínio de uma civilização são providências de Deus - há um fator externo
determinado-os - não há contradições internas. A LE 788 e EE 24.4 afirmam que os
povos são individualidades coletivas, tendo uma infância, uma idade da madureza e uma
decrepitude - nascem,crescem e morrem. Especificamente, em EE 24.4 é afirmado que
cada coisa tem que vir em sua época própria, demonstrando que o aparente "vir-a-ser",
que seria um indeterminismo, é, na verdade, um determinismo finalista [providencial].
Todo o Capítulo III do EE demonstra como a evolução dos mundos, onde reencarnam
Espíritos, é determinada e não ocorrendo ao sabor do indeterminismo dialético.
Portanto, a "contradição", a "antítese", vem do exterior, não está embutida na "tese", há
uma determinação finalista [providencial] de um Deus providente.

Outro exemplo. A morte é a única coisa certa em nossas vidas. Até a velhice é duvidosa,
pois podemos morrer antes de atingi-la. Depois que nascemos, não fazemos outra coisa
se não caminharmos para morte. Essa realidade fatalista induziu alguns pensadores a
tentar explicar essa inexorabilidade da morte pela dialética.

A vida traria dentro de si sua oposição que é a morte. Para a Doutrina, a essência é a
vida espiritual. A passagem pela matéria é apenas um acidente. Aquilo que entendemos
por "vida" [o período em que o Espírito está reencarnado na matéria] é o que é
transitório, fugaz. Pelo contrário, a morte não é a negação da vida, mas sua continuação,
ou, inversamente, a vida que é uma continuação temporária da erraticidade. A morte não
existe para a Doutrina.

O que entendemos por morte física é apenas o cumprimento de uma etapa da longa vida
de um Espírito. Quando o Espírito reencarna sua morte [desencarnação] já está
determinada, cumprindo uma finalidade e não um "vir-a-ser" indeterminado.

Kardec chama esse determinismo de finalista de fatalidade, porque naquela época o
binômio determinismo / indeterminismo ainda não estava desenvolvido pela Filosofia.
Há uma explanação sobre o conceito de "fatalidade" da LE 851 à LE 867 e na LE 872
[p.400]. A doutrina dialética não admite autoridade externa aos fatos ou coisas,
determinando-os.

Julgamos que não cabe qualquer visão dialética dentro do Espiritismo. Achamos que as
opiniões citadas acima, podem decorrer da falta de conhecimento ou pela indução feita
pelo pensamento moderno. Seria uma manifestação do "espírito da época" [Zeitgeist].


Victor Leonardo da Silva Chaves, Médico e Licenciado em Filosofia


Amílcar Del Chiaro Filho
> O Espírita e a Política
Artigos


Aproximam-se as eleições, e como não poderia deixar de ser, os centros espíritas são
cortejados por candidatos à procura de votos, oferecendo vantagens inúmeras e
promessas falazes. Quase sempre esbarram numa resistência férrea, de muitos espíritas,
que não admitem intromissão política nas instituições doutrinárias, no que fazem muito
bem.

Infelizmente nem todos tem esse cuidado, e por outro lado, alguns exageram e propõem
a criação de um partido espírita, para fazer frente aos lobbys religiosos que se formam
nos cenários políticos do país, procurando alcançar seus propósitos proselitistas. Até
hoje o bom senso espírita tem prevalecido e nos livramos dessa possibilidade.

Entretanto, se as instituições espíritas não devem se envolver com a política, o espírita é
cidadão e deve exercer os seus direitos políticos com honradez. Aqueles que tem
vocação política devem procurar exercê-la, mas como lembra o Prof. Herculano Pires,
deverão revestir-se de honestidade até a medula.

É muito bom que, a política militante, que agita sentimentos, que perturba, que separa
pessoas nas suas relações de amizade e, não raro, até familiares, fique longe das nossas
Instituições Doutrinárias, mas já não podemos dizer o mesmo da política vista como
ciência superior que trabalha por melhores condições de vida, portanto, uma política de
regras morais para o bem estar do povo, essa é bem-vinda.

Rui Barbosa, o extraordinário estadista brasileiro que recebeu o título de Águia de Haia,
pela sua atuação na Conferência Internacional, realizada naquela capital, ao ser


admoestado pelo presidente da Assembléia, após um seu pronunciamento, porque a
política estava excluída dos debates, ele respondeu: "A política, no sentido mais
corrente da palavra, essa ninguém discute, está-nos absolutamente vedada. Nada temos
a ver com os assuntos internacionais, com as contendas que dividem as nações, os
litígios de amor próprio, de ambição ou de honra, as questões de influência, de
equilíbrio ou de predomínio, aquelas que conduzem ao conflito ou à guerra. Quanto a
outra, na elevada acepção do termo, a mais alta e nem por isso menos prática, no que se
relaciona com os interesses supremos que unem as nações, umas com as outras, acaso
pode ser-nos vedada esta política? Não, senhores".

O que queremos dizer com este trecho do discurso de Rui Barbosa, é que a política,
como concebida por Rui, não é vedada aos espíritas, porque trata-se da justiça social, da
convivência entre as pessoas, do amor fraterno.

Trata-se da construção de um mundo melhor, de paz, harmonia e dignidade, onde todos
tenham o suficiente para viver, onde não exista fome, pobreza, ignorância. Onde exista
assistência médica, emprego, lazer e escolas em todos os níveis, para todos. Onde a
criança e o idoso sejam prioridade. Onde a vida seja vivida com dignidade.

Essa é a política a que todos espíritas devem estar engajados, e como eleitores,
precisamos votar em candidatos que se afinem com essas idéias e vivam esses ideais.

(Jornal Verdade e Luz Nº 176 de Setembro de 2000)

... Amílcar Del Chiaro Filho

> A grande tarefa do Espiritismo

Artigos


Enquanto muitas pessoas procuram o Espiritismo para resolver problemas triviais da
vida, embora reconheçamos que alguns são especialmente dolorosos, não percebem que

a grande tarefa do Espiritismo é mostrar a sobrevivência da alma, e a finalidade
evolutiva do existir, assim como a orientação ético-moral, emanada do Evangelho de


Jesus de Nazaré.

Ao se conscientizar da sobrevivência, o homem, se liberta do terror com que encara a
morte. No entanto, o Espiritismo responsabiliza-o, também, pela aplicação do seu
aprendizado moral, alargando os horizontes do conhecimento.

Devemos considerar que não é apenas o Espiritismo que ensina a sobrevivência, todas
as religiões o fazem, contudo, o Espiritismo dá uma nova dinâmica à imortalidade,
tirando-a de uma situação estática, para a dinâmica.

Consideramos, também, que a estrutura doutrinária do Espiritismo, não se limita a
pregar a sobrevivência, mas comprova-a através das pesquisas. Ao falar da
reencarnação, não a apresenta como um dogma de fé, mas como lei natural.

Quanto ao Evangelho, ele é visto, pelo espiritismo, como um código moral, suscetível
de erros, interpolações, adulterações, por isso, seguindo os passos de Allan Kardec,
aceitamos sem tergiversações os ensinamentos morais do Evangelho. É, sobretudo, um
livro humano, portanto, com as limitações humanas. Nele, encontramos os maravilhosos
ensinamentos de Jesus de Nazaré, juntamente com textos distorcidos ou interessados em
defender idéias, nem sempre condizente com o próprio evangelho.

O Espiritismo não pode ficar subordinado a imposições dogmáticas ou aos
convencionalismos humanos. Em Espiritismo não cabe o crer pelo crer, pois a fé deve
ser racional.

Sabemos que para muitos as proposições espíritas são assustadoras. Unir fé e razão,
assim como a religiosidade à filosofia e à ciência, e transformar a alma ou espírito em
objetos de observações e pesquisas, pode, realmente, desestruturar a mente humana.

Os místicos-religiosos, dificilmente aceitam as idéias espíritas. Aqueles que aprenderam
ouvir e aceitar o que lhe dizem, desde crianças, sem questionar, não conseguem
entender essa revolução conceptual. Ao contrário disso, aqueles que procuram novos
rumos para as suas vidas, certamente encontrarão no espiritismo roteiro seguro para a
emancipação do pensamento.

A fé espírita, afirma Herculano Pires, como já dizia Allan Kardec, é iluminada pela
razão, mas a razão espírita, por sua vez, é iluminada pela fé, de maneira que não pode
ser confundida com a razão céptica. Enquanto esta é espiritualmente estéril, a razão
espírita é espiritualmente fecunda, abrindo para a mente humana perspectivas cada vez
mais amplas de compreensão do homem, do mundo e da vida.

(Jornal Verdade e Luz Nº 169 de Fevereiro de 2000)


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o Seno Chibeni
> Os acréscimos e modificações na 13a edição francesa do Livro dos Espíritos


Artigos


Em 1865, saiu a 13a edição francesa de Le Livre des Esprits. Segundo registra a
"Nota explicativa" da reprodução da 2a edição publicada pela FEB em 1998 (ver
resenha em Mundo Espírita, fevereiro de 2002, p. 5), Kardec introduziu no texto
diversos "acréscimos e modificações". Ao contrário do que aconteceu com a Errata da
5a edição (ver Mundo Espírita, ... de 2002, p....), essas alterações se incorporaram
definitivamente à obra. Estão presentes nas edições correntes em francês, português,
inglês e esperanto que pudemos consultar, o que evidencia que elas se basearam em
alguma edição posterior à 12a. (Aliás, quase nenhuma tradução de textos espíritas
indica precisamente o original utilizado – um indício, dentre muitos outros, da falta de
rigor editorial.)
O objetivo deste artigo é traduzir e comentar o trecho da "Note explicative" referente
aos acréscimos e modificações. Na Nota, esse trecho forma um único parágrafo; as
alterações são numeradas por letras. Para clareza de exposição, apresentaremos os itens
em parágrafos separados, mantendo porém a numeração original. Como as referências
são feitas pelas páginas e linhas da edição francesa, forneceremos entre colchetes e em
itálicos informações que facilitem a localização em outras edições.

A) página 20: modificação da redação das linhas 5, 6 e 7 [período final do comentário
de Kardec à questão 51];

B) página 59: indicação do Livro dos Médiuns na nota que segue a resposta à questão


137;

C) página 60: indicação do parágrafo II na nota de rodapé [no final do comentário de
Kardec à questão 139];

D) página 107: modificação da redação e acréscimos a partir da linha 4 [item 222, sexto
parágrafo do fim para o começo (essa contagem varia de tradução para tradução), a
partir da expressão "Outro, no entanto, ela apresenta ..." (na tradução de Guillon
Ribeiro, FEB)];

E) página 252: supressão, conforme a "Errata" mencionada acima [final da resposta à
questão 586];

F) páginas 263/264: acréscimo no comentário de Allan Kardec a partir do 2o parágrafo
(O ponto inicial ...) [questão 613; note-se que na tradução de Guillon Ribeiro este ficou
sendo o 3o parágrafo do comentário de Kardec];

G) página 377: modificação do 1o sub-título, de "Questões morais diversas" para "As
virtudes e os vícios" [título da primeira seção do último capítulo da 3a parte];

H) página 384: correção na redação da resposta à questão 911, de "eles" para "elas"
[note-se que na elegante e correta tradução de Guillon o pronome ficou elíptico; refere-
se às formas verbais "Querem" e "ficam"].

Conforme fizemos notar em nossa resenha da edição histórica de Le Livre des Esprits
publicada pela FEB, o admirável esforço empreendido pela Union Spirite Française et
Francophone, que se responsabilizou pelas pesquisas bibliográficas nas edições
guardadas na Biblioteca Nacional da França, ficou parcialmente comprometido, no que
tange ao tópico que estamos analisando no presente artigo, pela falta de precisão em
alguns dos itens dessa lista de "acréscimos e modificações". Examinemos a lista:

Itens B, G e H: estão inteiramente claros.

Item E: dada a reprodução da Errata no final da edição, a alteração feita aqui também
pode ser determinada com precisão (ver artigo em Mundo Espírita, ... de 2002, p. ...).

Item C: há aqui uma pequena ambigüidade: Kardec terá acrescentado a nota de rodapé
inteira ou apenas, em seu final, o símbolo "§ II" ?

Item F: também aqui há alguma margem para dúvida: o "acréscimo" refere-se a todo o
texto do comentário, a partir do ponto indicado, ou houve um acréscimo dentro dele? (A
frase francesa "ajout dans le commentaire d'Allan Kardec à partir..." não deixa isso
totalmente claro.)

Item A: aqui a falta de informação é grave: o que precisamente foi modificado?

Item D: novamente, ficamos sem saber o que foi modificado e acrescentado no texto de
quase uma página, a partir do ponto indicado.


Evidentemente, quem realizou as pesquisas nas edições francesas tinha todas as
informações necessárias para sanar as ambigüidades e pontos obscuros que apontamos.
É lamentável que elas não tenham sido fornecidas na Nota explicativa aposta no início
da edição da FEB. Mas a falha poderá ser facilmente reparada em futura reedição.

Como também já sugerimos na resenha, o rigor editorial recomendaria que todas as
alterações feitas na 13a edição (ou em qualquer outra) não fossem incorporadas ao texto
histórico que a FEB, o CEI, a USFF e o IDE em boa hora deram a público. Este deveria
ser a reprodução exata do texto da 2a edição francesa, tal qual saiu em Paris em 1860, e
de que a FEB guarda precioso exemplar. Todas as alterações ulteriores feitas por Kardec
deveriam estar registradas, de forma precisa e completa, em notas ou apêndices
preparados pelos editores. Aguardamos, pois, que num futuro breve isso seja feito, em
benefício das pesquisas espíritas, e no sentido da implantação no meio espírita de uma
tradição de tratamento cuidadoso de textos como a que existe na área acadêmica.

Texto publicado em Mundo Espírita, novembro/2002, p. 5.


... Silvio Seno Chibeni

> Ciência Espírita

Artigos


Le Spiritisme est une science qui traite de la nature, de l'origine et de la destinée des
Esprits, et de leur rapports avec le monde corporel.
Allan Kardec

1. INTRODUÇÃO: CIÊNCIA E PSEUDO-CIÊNCIA
Com a frase em epígrafe, que figura no Preâmbulo do importante livro O que é o
Espiritismo, Allan Kardec indica, de modo sumário porém preciso, o objeto de estudo
do Espiritismo, enquanto ciência. Quando a escreveu, em 1859, Kardec já havia, ao
longo de alguns anos de investigações teóricas e experimentais intensas, desenvolvido
suficientemente o Espiritismo para poder afirmar sem hesitação que se tratava de uma
nova disciplina científica. Como é bem sabido, os desdobramentos filosóficos e morais
que essa disciplina comporta foram igualmente objeto de grande atenção por parte de
Kardec. No presente trabalho centralizaremos nossa análise no aspecto científico do


Espiritismo, atendendo à natureza desta seção da Revista Internacional de Espiritismo.

[1]
A questão de que características tornam uma disciplina merecedora do qualificativo
científica tem ocupado lugar proeminente nos estudos dos filósofos da ciência.
Notadamente nas últimas três décadas, progressos significativos foram realizados no
sentido de se lhe oferecer uma resposta satisfatória. Um dos elementos mais importantes
nesse aperfeiçoamento de nossa concepção de ciência foi a maior atenção que os
filósofos da ciência passaram a atribuir à análise detalhada da história da ciência, dentro
de uma abordagem historiográfica renovada.

Reconhece-se hoje entre os especialistas que a concepção comum de ciência padece de
defeitos sérios, por não resistir nem a variados argumentos filosóficos recentemente
levantados, nem ao confronto com a descrição da gênese, evolução e estrutura das
disciplinas científicas maduras, ou seja, da Física, da Química e da Biologia. Os
elementos problemáticos dessa visão ordinária de ciência, esposada tanto pelo homem
comum como por expressiva parcela dos próprios cientistas, compareciam igualmente
nas concepções que os filósofos defendiam até a primeira metade de nosso século. A
versão mais bem articulada dessa concepção é a doutrina filosófica conhecida como
Positivismo Lógico, que teve seu apogeu nas décadas de 1920 e 1930. Por motivos que
não cabe aqui examinar, essa posição filosófica exerceu entranhada influência sobre os
cientistas, e essa influência perdura até nossos dias, a despeito daquela concepção haver
sido abandonada há muito pelos filósofos.

Esses fatos são importantes em nossa análise das linhas de pesquisa que pretendem
competir com o Espiritismo, pois elas começaram a surgir precisamente quando o
Positivismo Lógico fornecia os parâmetros segundo os quais uma atividade
genuinamente científica se desenvolveria. Ora, tais parâmetros sendo equivocados,
como se percebeu depois, aquelas linhas de pesquisa nascentes, que alimentavam a
pretensão à cientificidade, acabaram por assimilar uma visão de ciência irreal. Isso
levou a que adotassem métodos inadequados aos fins a que se propuseram, bloqueandolhes
as possibilidades de contribuir significativamente para o avanço de nosso
conhecimento no domínio do espírito.

Lamentavelmente, a adoção de uma concepção falha de ciência levou os pesquisadores
da Parapsicologia e demais linhas de investigação que surgiram após ela a não somente
empenharem infrutiferamente os seus esforços, como também a desprezarem, ou mesmo
repelirem, as conquistas e métodos de uma legítima ciência do espírito, surgida ainda no
século XIX, a saber, o Espiritismo.

Em trabalhos anteriores (ver Nota 1, acima) procuramos fornecer alguns detalhes dessa
situação, que embasam as afirmações precedentes. Essa tarefa pressupõe, naturalmente,
a comparação dos fundamentos, estrutura e métodos do Espiritismo com aqueles que as
investigações recentes em Filosofia da Ciência mostraram caracterizar as disciplinas
paradigmaticamente científicas, como a Física, a Química e a Biologia. Não há espaço
para reproduzir aqui as análises que empreendemos naqueles trabalhos. Para fins de
completude, porém, indicaremos a seguir, de forma simplificada, alguns de seus pontos
principais.


Grosso modo, a visão comum de ciência envolve a assunção de que uma ciência inicia
seu desenvolvimento com um período longo de coleta de dados experimentais (dados
empíricos, na linguagem filosófica); nessa etapa não compareceriam hipóteses teóricas
de nenhuma espécie. Uma vez de posse de um conjunto suficientemente grande e
variado de dados, os cientistas aplicariam então certos métodos seguros e neutros para
obter as teorias científicas, que seriam descrições objetivas da realidade investigada.

O exame cuidadoso da história da ciência e os argumentos filosóficos desenvolvidos
pelos filósofos da ciência contemporâneos mostraram que essa caracterização da
atividade científica não somente não corresponde ao que de fato ocorreu e continua
ocorrendo com as ciências bem estabelecidas, como também pressupõe procedimentos
impossíveis. Observação e teoria, experimento e hipótese nascem e se desenvolvem
juntos, num complexo processo simbiótico de suporte recíproco. A acumulação prévia
de dados neutros, ainda que fosse possível, seria inútil. Nenhum conjunto de dados leva
de modo lógico a leis científicas a imaginação criadora do homem desempenha um
papel essencial na gênese das teorias científicas.

A imagem de ciência a que os filósofos da ciência chegaram a partir das conquistas
recentes indica que uma ciência autêntica consiste, simplificadamente, de um núcleo
teórico principal, formado por hipóteses fundamentais. Esse núcleo é circundado por
hipóteses auxiliares, que o complementam e efetuam sua conexão com os dados
empíricos. Essa estrutura mais ou menos hierarquizada faz-se acompanhar de
determinadas regras, nem sempre explícitas, que norteiam o seu desenvolvimento
futuro. De um lado, há as regras "negativas", que estipulam que nesse desenvolvimento
os princípios básicos do núcleo teórico devem, o quanto possível, ser mantidas
inalteradas. Eventuais discrepâncias entre as previsões da teoria e as observações
experimentais devem ser resolvidas por ajustes nas partes menos centrais da malha
teórica, constituídas pelas hipóteses auxiliares; regras "positivas" sugerem ao cientista
como, quando e onde essas correções e complementações devem ser efetuadas.

Ao contrário do que se supõe na visão comum de ciência, não há restrições sobre a
natureza das leis de uma teoria científica, que podem inclusive ser de caráter
predominantemente metafísico. A restrição fundamental é que a estrutura teórica como
um todo forneça previsões empíricas corretas, ou seja dê conta dos fatos. O exame das
teorias científicas maduras e dos padrões avaliativos adotados pelos cientistas indica
ainda que algumas características devem necessariamente estar presentes em qualquer
boa teoria científica. Inicialmente, ela deve ser consistente. Deve ser abrangente,
explicando um grande número de fatos. Deve, por fim, apresentar as virtudes estéticas
de unidade e simplicidade, ou seja, a explicação que fornecem dos diversos fenômenos
deve decorrer de maneira natural e simples de um corpo de leis teóricas integrado e tão
reduzido quanto possível. Há ainda o vínculo externo de que uma teoria não deve
conflitar com as demais teorias científicas bem estabelecidas que tratam de domínios de
fenômenos complementares (por exemplo, uma teoria biológica não deve pressupor leis
químicas e físicas que contrariem as leis bem assentadas da Química e da Física).

2. O ESPIRITISMO COMO CIÊNCIA
A inspeção meticulosa e isenta das origens, estrutura e desenvolvimento do Espiritismo
revela que ele possui todos esses requisitos de uma ciência genuína. Em artigo anterior


("A excelência metodológica do Espiritismo") procuramos mostrar, além disso, que
Allan Kardec admiravelmente antecipou- se às conquistas recentes da Filosofia da
Ciência, e compreendeu essa realidade. Sua visão de ciência, exposta explícita e
implicitamente em seus escritos, corresponde à visão moderna e justa mencionada
acima. Isso teve a conseqüência feliz de que, ao travar contato com uma nova ordem de
fenômenos, Kardec empregou em sua investigação métodos e critérios corretos, o que
possibilitou o surgimento de uma verdadeira ciência do espírito.

O corpo teórico fundamental do Espiritismo encontra-se delineado em O Livro dos
Espíritos. O exame dessa obra revela sua consistência e seu alto grau de coesão, uma
notável concatenação das diversas leis, a amplitude de seu escopo, e o perfeito
casamento da teoria com os fatos. Ademais, ali estão implícitamente presentes as
diretrizes que nortearam os desenvolvimentos ulteriores das investigações espíritas.
Parte significativa desses desenvolvimentos foi, como se sabe, levada a cabo pelo
próprio Kardec, e se acham exarados nas demais obras que escreveu. Consoante com a
natureza de uma verdadeira ciência, o desenvolvimento experimental e teórico do
Espiritismo prosssegue até hoje, pelos esforços de pesquisadores encarnados e
desencarnados.

Contrariamente ao que alguns críticos mal informados acerca do Espiritismo e das
teorias científicas contemporâneas alegam, o Espiritismo não conflita com qualquer
uma das teorias científicas maduras, quer da Física, quer da Química ou da Biologia. É
de crucial importância notar, como o fez Kardec, [2] que embora o Espiritismo seja uma
ciência, ele não se confunde com as referidas ciências, do mesmo modo como elas não
se confundem entre si. Os domínios de fenômenos por elas tratados não coincidem,
sendo antes complementares.

A percepção dessa distinção evita uma série de julgamentos e posturas equivocados, que
têm ameaçado até mesmo o próprio Movimento Espírita. Vêem-se, com efeito, pessoas
que imaginam que a ciência espírita consiste em determinadas investigações envolvendo
experimentos conduzidos com o auxílio de aparelhagens de uso nos laboratórios de
Física, e dentro de referenciais teórico-conceituais emprestados à Física. Assume-se,
assim, que é o uso desses aparelhos e o emprego de terminologia técnica (aliás quase
sempre incompreendida por quem a usa dentro de tais contextos) que confere
cientificidade a essas investigações.

Dada a relevância da elucidação dos sérios enganos envolvidos em semelhantes
alegações, nesta Seção e na seguinte nos deteremos um pouco mais sobre elas. [3]

A observação mais importante é a de que o estabelecimento dos princípios básicos do
Espiritismo prescinde completamente do uso de qualquer aparelho e do recurso a
qualquer teoria física. O mais fundamental de tais princípios é o da existência do
espírito, ou seja, da existência de algo no homem que é a sede do pensamento e dos
sentimentos e sobrevive à morte corporal. Como enfatizou Kardec, a comprovação
cabal desse princípio se dá através dos fenômenos a que denominou "de efeitos
intelectuais", quais sejam a tiptologia, a psicofonia e a psicografia. Quem quer que
reflita isentamente sobre fenômenos dessa ordem não terá dificuldade em reconhecer
que atestam a existência do espírito de modo inequívoco as tentativas de "explicações"
alternativas que se têm procurado oferecer surgirão como ridículas.


Nessa avaliação, é importante notar a diferença que existe entre esse princípio básico do
Espiritismo e alguns dos princípios das teorias físicas e químicas contemporâneas, por
exemplo. Neste último caso, o "grau teórico" (se assim nos podemos exprimir) é muito
maior, ou, em outros termos, os princípios estão muito mais distantes do nível
fenomenológico, ou seja, da observação empírica direta. Em tal caso, o caminho que vai
da observação até o princípio teórico é bastante indireto e tortuoso, passando por uma
série de teorias auxilires, necessárias, por exemplo, para tratar do funcionamento e
interpretação dos dados dos aparelhos envolvidos. Nessas circunstâncias, a segurança
com que os princípios podem ser asseridos fica evidentemente limitada; há em geral
possibilidades plausíveis de explicações dos mesmo fenômenos através de princípios
teóricos diferentes; a história da Física e da Química tem ilustrado a vulnerabilidade de
suas teorias.

No caso do princípio espírita em questão (bem como de vários outros dos princípios
básicos do Espiritismo), a situação é bastante diversa. Trata- se de um princípio
pertencente à classe de princípios a que os filósofos denominam "fenomenológicos",
que estão na base do edifício do conhecimento, dado o seu alto grau de certeza.
Proposições dessa classe são, por exemplo, as de que o Sol existe, de que o fogo queima
e a cicuta envenena, a de que determinado familiar veio nos visitar no dia tal e nos
deixou uma caixa de bombons, etc. Nestes casos, embora explicações alternativas sejam
em princípio possíveis, [4] elas são tão inverossímeis que não merecem o assentimento
de nenhum ser racional. Notemos que a inferência espírita diante de um fenômeno de
efeitos intelectuais não difere em nada das inferências que fazemos a partir dos
fenômenos ordinários. Quando, por exempo, o carteiro traz à nossa casa um papel no
qual lemos certas frases, não nos acudirá à cabeça a idéia de que elas não foram escritas
por um determinado amigo, por exemplo, quando relatam fatos, contêm expressões e
expressam pensamentos peculires e íntimos. Exatamente o mesmo se dá com os
abundantes e variados casos de psicografia de que todos somos testemunha. Não
constitui exagero, pois, afirmar-se que a constatação cuidadosa de uns poucos casos
dessa espécie (como por exemplo os que nos têm oferecido a extraordinária
mediunidade de Chico Xavier) é suficiente para eliminar qualquer dúvida.

Como se isso não bastasse, a base experimental do Espiritismo incorpora ainda muitos
outros tipos de fenômenos, como a psicofonia, a xenoglossia, as materializações, os
casos de vidência, a pneumatografia e a pneumatofonia, etc. Além desses fenômenos,
que formam uma classe específica, a dos fenômenos espíritas, o Espiritismo apoia-se
também, em virtude de oferecer-lhes explicações científicas, em uma multidão de
fenômenos ordinários. Referimo-nos, por exemplo, às nossas inclinações e sentimentos,
às peculiaridades de nosso relacionamento com as pessoas que nos cercam, aos
acontecimentos marcantes de nossas vidas, aos distúrbios da personalidade, aos efeitos
psicosomáticos, aos sonhos, à evolução das espécies e das civilizações, etc.

Entendemos que a desconsideração desse vasto corpo de evidências indiretas a favor do
Espiritismo constitui omissão séria da parte de seus críticos. Com seu agudo senso
científico, Kardec percebeu desde o início que o alcance do Espiritismo transcendia de
muito os fenômenos mediúnicos e anímicos específicos que motivaram o seu
surgimento. Referindo-se às suas impressões diante das realidades novas que se lhe iam
descortinando através de suas cuidadosas observações e raciocínios, Kardec assim se
expressou: "Logo compreendi a gravidade da exploração que ia empreender; entrevi
naqueles fenômenos a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e


do futuro da Humanidade, a solução do que eu havia procurado durante toda a minha
vida; era, numa palavra, toda uma revolução nas idéias e nas crenças (...)". [5] "O
estudo do Espiritismo é imenso", disse Kardec em outra passagem; "interessa a todas as
questões da metafísica e da ordem social; é todo um mundo que se abre diante de nós."

[6]
3. PSEUDO-CIÊNCIAS DO ESPÍRITO
Na Seção precedente iniciamos a enumeração dos métodos e procedimentos anticientíficos
que caracterizam as linhas de pesquisa alternativas do espírito, indicando que
a natureza de seu objeto de estudo é tal que o recurso a aparelhos e a métodos
quantitativos em geral é dispensável e mesmo arrriscado, pelos enganos a que pode
levar. Isto vale pelo menos quanto ao estabelecimento dos princípios fundamentais da
ciência do espírito, concebendo-se que em um futuro distante o detalhamento de alguns
pontos mais técnicos, como por exemplo os relativos às leis dos fluidos, possa requerer
uma integração mais estreita com a física e a química mais refinadas de então.

Prosseguiremos agora nossa enumeração, começando por um tópico ligado ao que
expusemos no final da Seção precedente. Referimo-nos à abrangência do Espiritismo. O
escopo dessa ciência é incomparavelmente mais amplo do que o de todas as teorias
alternativas. Uma inspeção destas últimas mostra que consideram apenas uns poucos
fenômenos isolados, sem levar em consideração uma multidão de outros, igualmente
relevantes.

Esse desprezo de fatos importantes resulta essencialmente de duas fontes: 1)
preconceitos e interesses diversos; e 2) falta de um corpo teórico que norteie a pesquisa
experimental. Quanto ao primeiro fator, não há o que comentar. Quanto ao segundo,
notemos que está intimamente ligado à falsa concepção de ciência adotada, que imagina
ser possível se fazer ciência sem teoria.

Outra deficiência séria que apresentam esses sistemas não-espíritas é que mesmo para
os grupos reduzidos de fenômenos que levam em conta, as explicações oferecidas
pecam pela falta de unidade e organicidade, recorrendo a leis e princípios
desconectados.

Além disso, tais explicações em geral falham em satisfazer um outro requisito
fundamental de uma genuina explicação científica: a simplicidade. As explicações são
em geral ainda mais inexplicáveis que os fatos que se propõem a explicar.

Encontramos ainda explicações puramente verbais, ou seja, que não apresentam
qualquer conteúdo, limitando- se ao uso de termos técnicos, buscados nas diversas
ciências ou criados a esmo, procurando-se com isso conferir ares científicos à suposta
explicação. Muitas pessoas não familarizadas com a ciência deixam-se fascinar por tais
artifícios, não percebendo que qualquer explicação satisfatória deve caracterizar-se pela
clareza e inteligibilidade (como nos dá magnífico exemplo o Espiritismo) e que o
recurso à linguagem técnica só é legítimo dentro do contexto teórico que lhe é próprio.

Outro tipo freqüente de deficiência que notamos nos sistemas que pretendem competir
com o Espiritismo refere-se ao recurso a conceitos e teorias científicas obsoletos, ou o


uso não-profissional das teorias contemporâneas. As ciências, principalmente a Física e
a Química, passaram por transformações radicais em nosso século as teorias atuais
envolvem conceitos extremamente abstratos, distantes da intuição do senso comum,
além de técnicas matemáticas de grande complexidade. Em seus aspectos essenciais,
essas teorias não são acessíveis ao leigo, que, quando instruído, em geral ainda tem para
si a imagem do mundo fornecida pelas teorias do século passado. Os muitos livros de
popularização da ciência via de regra não resolvem esse problema; mesmo quando são
escritos por profissinais (o que é raro), inevitavelmente têm de recorrer a simplificações
drásticas, que resultam em distorções sérias na imagem que oferecem das teorias
expostas. Como resultado, a virtual totalidade das pessoas que têm se aventurado a
estabelecer vínculos diretos entre os fenômenos espíritas e as teorias da Física cai, ou no
recurso a teorias superadas, ou em confusões que mostram-se ridículas aos olhos dos
cientistas com formação profissional. Essas pessoas acabam pois involuntariamente
prestando um desserviço à causa da investigação científica do espírito.

Mais um fator importante que entrava as linhas de pesquisa não-espíritas é o sistemático
desprezo pelas contribuições anteriormente efetuadas por outros pesquisadores. Cada
um quer começar tudo de novo, e criar seu próprio sistema. Se a dúvida equilibrada
representa prudência, quando se torna irrestrita e irrefletida, aliando-se à presunção e ao
orgulho, inviabiliza o avanço do conhecimento. Se nas ciências acadêmicas se tivesse
adotado semelhante atitude, elas estariam ainda em seus primórdios.

Por fim, lembramos ainda que muitas das tentativas não-espíritas de estudo dos
fenômenos espíritas fracassam por não reconhecer a influência de fatores morais em sua
produção, influência essa que em em certos casos é determinante.

4. PERSPECTIVAS DA CIÊNCIA ESPÍRITA
Como vimos na Seção 1, uma ciência autêntica deve envolver um programa de
pesquisa, que auxilie o seu progresso. Com a lucidez científica que lhe era peculiar,
Allan Kardec apontou diretrizes seguras para o desenvolvimento do Espiritismo.

De um lado, temos suas análises que advertem contra os métodos e procedimentos anticientíficos
que poderiam embaraçar a marcha do Espiritismo. Nas duas seções
precedentes enumeramos alguns dos mais importantes deles; Kardec percorreu-os todos,
e ainda outros, oferecendo sólida fundamentação às suas críticas. [7]

De outro lado, Kardec legou-nos investigações paradigmáticas sobre os tópicos mais
fundamentais da ciência espírita, que serviram de modelo pra os pesquisadores que
vieram após ele, e que devem continuar desempenhando essa tarefa nas pesquisas
futuras.

Simplificadamente, poderíamos classificar assim as áreas principais de
investigação espírita:

1. ) Evolução do espírito: o elemento espiritual dos seres dos reinos inferiores; origem
dos espíritos humanos; encarnação e reencarnação pluralidade dos mundos habitados.
2. ) O mundo espiritual.

3. ) Interação espírito-corpo: perispírito, efeitos psicossomáticos, mediunidade.
4. ) Implicações morais (uma área científica e filosófica): livre-arbítrio, lei de causa e
efeito.
Note-se que não incluímos o tópico "comprovação da existência do espírito". A
razão é evidente: trata-se de uma questão já resolvida, na qual não devem as
investigações estacionar. Foi uma etapa preliminar, e quem não a percorreu não pode,
em boa lógica, pretender-se espírita, ou estar realizando pesquisas espíritas. É de
lamentar que tal fato nem sempre seja percebido ou compreendido por pessoas que
militam dentro das próprias fileiras espíritas. Os espíritas, para quem a existência do
espírito é uma realidade insofismável, por a havermos constatado através de
observações e argumentos racionais, devemos deixar àqueles que ainda não a
reconheceram a tarefa de prová-la uma vez mais, pela maneira que bem entendam. Mas
não devemos empenhar nossos esforços em uma investigação redundante, e que deporia
contra as nossas próprias convicções. [8]

Três outros aspectos importantes no desenvolvimento do Espiritismo foram enfatizados
por Kardec.

No item VII da Introdução de O Livro dos Espíritos, Kardec afirma que "o
Espiritismo não é da alçada da ciência". Evidentemente, trata-se aqui das ciências
acadêmicas, ou seja, da Física, da Química e da Biologia. O argumento para tal assertiva
baseia-se nas peculiaridades do objeto de estudo e métodos do Espiritismo e das
referidas ciências, assunto este tratado na Seção 2, acima. Vale a pena reproduzir aqui,
por sua propriedade, o arrazoado que, no texto, antecede a assertiva em questão:

As ciências ordinárias assentam nas propriedades da matéria, que se pode
experimentar e manipular livremente. Os fenômenos espíritas repousam na ação de
inteligências dotadas de vontade própria e que nos provam a cada instante não se
acharem subordinadas aos nossos caprichos. As observações não podem, portanto, ser
feitas da mesma forma; requerem condições especiais e outro ponto de partida. Querer
submetê- las aos processos comuns de investigação é estabelecer analogias que não
existem. A ciência propriamente dita, é, pois, como ciência, incompetente para se
pronunciar na questão do Espiritismo: não tem que se ocupar com isso, e qualquer que
seja o seu julgamento, favorável ou não, nenhum peso poderá ter.

As relações entre o Espiritismo e as ciências ordinárias são, antes, de
complementaridade, como também notou Kardec. No parágrafo 16 do Capítulo I de A
Gênese, lemos a seguinte frase, ao final de uma extensa argumentação: "O Espiritismo
e a ciência completam-se reciprocamente".

O segundo aspecto importante a ser notado liga-se parcialmente ao precedente: Kardec
observa que não apenas existe uma relativa autonomia entre o Espiritismo e as ciências
ordinárias como também os cientistas das academias não estão, pelo simples fato de
serem cientistas, mais capacitados do que as demais pessoas para se pronunciar nas
questões relativas ao Espiritismo. O assunto é abordado, entre outros lugares, em uma
das respostas ao Céptico de O que é o Espiritismo (Cap. I, Segundo diálogo, seção


"Oposição da ciência").

Vejamos estes trechos significativos:

Concordai, também, que ninguém pode ser bom juiz naquilo que está fora de sua
competência. Se quiserdes edificar uma casa, confiareis esse trabalho a um músico? Se
estiverdes enfermo, far-vos-eis tratar por um arquiteto? Se estais a braços com um
processo, ides consultar um dançarino? Finalmente, quando se trata de uma questão de
teologia, alguém irá pedir a solução a um químico ou a um astrônomo? Não cada um
em sua especialidade. (...)

A ciência enganou-se quando quis experimentar os Espíritos como o faz com uma pilha
voltaica; foi mal sucedida, como devia ser, porque agiu pressupondo uma analogia que
não existe; e depois, sem ir mais longe, concluiu pela negação, juízo temerário que o
tempo se encarrega de ir emendando diariamente, como já o fez com tantos outros. (...)

As corporações científicas não devem, nem jamais deverão pronunciar-se nesta questão
ela está tão fora dos limites do seu domínio como a de decretar se Deus existe ou não é,
pois, um erro tomá-las aqui por juiz.

Kardec lembra aqui que cada um é competente em sua especialidade, que alguém que
haja se especializado no estudo de determinada ordem de fenômenos materiais (um
físico ou um biólogo, por exemplo), não adquire, por esse simples fato, competência
para se pronunciar sobre uma ordem de fenômenos completamente diferentes, a menos,
obviamente, que essa pessoa tenha se dedicado séria e longamente ao seu estudo. Não
devemos, pois, cair no erro freqüente hoje em dia de atribuir aos cientistas das
academias uma superioridade que eles de fato não possuem na avaliação das pesquisas
espíritas.

Por fim, Kardec tomou um extremo cuidado em preservar, e recomendar a preservação,
da coerência e integridade da ciência espírita, pela não-intromissão em sua estrutura
teórico-conceitual de elementos heterogêneos, oriundos de outros programas de
pesquisa. Kardec dotou o Espiritismo de um arsenal conceitual-nomológico próprio, e
qualquer desenvolvimento da teoria espírita deve fazer-se recorrendo-se aos seus
elementos, ou, se algum acréscimo se fizer necessário, o elemento adicionado não pode
conflitar com as leis básicas bem estabelecidas do Espiritismo. Notemos que precauções
semelhantes são tomadas na evolução das ciências ordinárias. No caso do Espiritismo, é
admirável que ao propor o referido corpo de conceitos e leis, Kardec teve a lucidez de
não admitir elementos demasiadamente vulneráveis às transformações futuras das
ciências. É assim que o Espiritismo é uma teoria fenomenológica, pelo menos em seus
fundamentos. Kardec não se aventurou, por exemplo, a formular modelos para o
perispírito, ou explicações técnicas para os fenômenos mediúnicos em termos de
conceitos e princípios vulneráveis das ciências de seu tempo. Retrospectivamente,
vemos agora que isso providencialmente preservou o Espiritismo das reviravoltas
profundas ocorridas nas ciências, durante as primeiras décadas de nosso século.
Espelhando-nos na atitude prudente de Kardec, não devemos, por nossa vez, procurar
fazer o que ele não fez, e prematuramente associar o Espiritismo às teorias científicas
contemporâneas. A progressividade do Espiritismo, uma de suas características
essenciais, dado que é uma ciência que se apoia em fatos, não significa a absorção


irrestrita de qualquer teoria que apareça. Essa advertência foi claramente exposta no
parágrafo 55 do Capítulo I de A Gênese (grifamos):

Entendendo com todos os ramos da economia social, aos quais dá o apoio das suas
próprias descobertas, [o Espiritismo] assimilará sempre todas as doutrinas
progressivas, de qualquer ordem que seja, desde que hajam atingido o estado de
verdades práticas e abandonado o domínio da utopia, sem o que se suicidaria.

Não poderíamos encerrar estes apontamentos sem mencionar um ponto de crucial
importância, sobre o qual Kardec não se cansava de insistir: O objetivo essencial
do Espiritismo é tornar melhor o homem, convencendo- o, através dos fatos e da
razão, de que somente o comportamento evangélico lhe assegurará um porvir feliz.

E é nessa tarefa de esclarecimento que a ciência espírita é chamada a desempenhar a sua
mais importante tarefa, conforme lemos nos comentários que Kardec tece às questões

147 e 148 de O Livro dos Espíritos:

[...] A missão do Espiritismo consiste precisamente em nos esclarecer acerca desse
futuro, em fazer com que, até certo ponto, o toquemos com o dedo e o penetremos com
o olhar, não mais pelo raciocínio somente, porém pelos fatos. Graças às comunicações
espíritas, não se trata mais de uma simples suposição, de uma probabilidade sobre a
qual cada um conjeture à vontade, que os poetas embelezem com suas ficções, ou
cumulem de enganadoras imagens alegóricas. É a realidade que nos aparece, pois que
são os próprios seres de além-túmulo que nos vêm descrever a situação em que se
acham, relatar o que fazem, facultando-nos assistir, por assim dizer, a todas as
peripécias da nova vida que lá vivem e mostrando-nos, por esse meio a sorte inevitável
que nos está reservada, de acordo como os nossos méritos e deméritos. Haverá nisso
alguma coisa de anti-religioso? Muito ao contrário, porquanto os incrédulos
encontram aí a fé e os tíbios a renovação do fervor e da confiança. O Espiritismo é,
pois, o mais potente auxiliar da religião. Se ele aí está, é porque Deus o permite, e o
permite para que as nossas vacilantes esperanças se revigorem e para que sejamos
reconduzidos à senda do bem pela perspectiva do futuro.

REFERÊNCIAS

BORGES DE SOUZA, J. "Pesquisas e métodos", Reformador, abril de 1986, pp. 99


101.
CHAGAS, A. P. "O que é a ciência?", Reformador, março de 1984, pp. 80-83 e 93-95.

-----------. "As provas científicas", Reformador, agosto de 1987, pp. 232-233.

CHIBENI, S. S. "Espiritismo e ciência", Reformador, maio de 1984, pp. 144-147 e 157


159.
-----------. "Os fundamentos da ética espírita", Reformador, junho de 1985, pp. 166-169.

-----------. "A excelência metodológica do Espiritismo", Reformador, novembro de


1988, pp. 328-333, e dezembro de 1988, pp. 373-378.


KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d.
----------. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro, 43ª ed., Rio de Janeiro,
Federação Espírita Brasileira, s.d.


----------. Qu'est-ce que le Spiritisme. Paris, Dervy-Livres, 1975.


----------. O que é o Espiritismo. S. trad., 25ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita
Brasileira, s.d.


----------. La Genèse, les Miracles et les Prédictions selon le Spiritisme. Paris, La
Diffusion Scientifique, s.d.


----------. A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Trad. Guillon
Ribeiro, 23ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.


----------. Oeuvres Posthumes. Paris, Dervy-Livres, 1978.


----------. Obras Póstumas. Trad. Guillon Ribeiro, 18ª ed., Rio de Janeiro, Federação
Espírita Brasileira, s.d.


Notas de Rodapé


1 Em nosso artigo "Espiritismo e ciência" abordamos de modo mais extenso o aspecto
ciêntífico do Espiritismo, à luz da moderna Filosofia da Ciência. Retomamos o assunto
no trabalho mais abrangente e menos tecnico "A excelência metodológica do
Espiritismo", que contém também uma análise do aspecto religioso do Espiritismo. Em
"Os fundamentos da ética espírita" examinamos com algum detalhe as implicações
morais da ciência espírita. Para o aspecto científico do Espiritismo, recomendamos
ainda a leitura dos artigos "O que é a ciência" e "As provas científicas", de Aécio
Pereira Chagas, e "Pesquisas e métodos", de Juvanir Borges de Souza. As referências
completas desses artigos, todos publicados em Reformador, encontram-se na lista
bibliográfica, aposta no final deste artigo.


2 Para um tratamento desse ponto, ver a Seção 3 de nosso "A exelência metodológica
do Espiritismo".


3 Para um tratamento mais extenso desse tópico, ver nossos artigos já referidos.


4 Por exemplo, o ponto luminoso que vemos diariamente no céu poderia ser uma
alucinação coletiva, ou a visita do parente pode não ter passado de um sonho, e a caixa
de bombons pode coincidentemente ter sido trazida por um promotor de vendas ousado
que por acaso tinha uma chave que serviu em nossa porta.


5 Oeuvres Posthumes, item "A minha iniciação no Espiritismo". Nesta e nas demais
citações de obras de Kardec, traduzimos diretamente a partir das edições francesas
indicadas na lista de referências bibliográficas, aproveitando, em grande parte, as
traduções publicadas pela Federação Espírita Brasileira.



6 Le Livre des Esprits, Introdução, Seção XIII.


7 Esses estudos de Kardec são comentados em nosso artigo "A excelência metodológica
do Espiritismo", especialmente em sua seção 4.
8 Para esse ponto, ver também o artigo "As provas científicas", de Aécio P. Chagas.


Artigo publicado na Revista Internacional de Espiritismo, março 1991



Silvio Seno Chibeni
> O enobrecimento do Movimento Espírita
Artigos



O Espiritismo representa um patrimônio intelectual de alto valor. Comprova, por meio
de suas investigações científicas, a natureza espiritual e imortal do ser humano e as leis
que regulam sua evolução. Elaborado filosoficamente, esse conhecimento possibilita a
fundamentação de um corpo de princípios morais capazes de colocar o homem no
caminho seguro de sua felicidade. Um exame do Movimento Espírita atual revela, no
entanto, que ainda falta muito para que a atuação espírita reflita, de forma mais fiel e
completa, a nobreza do Espiritismo. Os objetivos do Movimento – estudo,
desenvolvimento, divulgação e vivência do Espiritismo – encontram-se parcialmente
comprometidos por aberrações da prática espírita, propagação de teses incompatíveis
com os fundamentos teóricos do Espiritismo, divulgação de material de má qualidade,
assim como pelas polêmicas irracionais, pelos ataques a pessoas e instituições, e, de um
modo geral, por comportamentos anti-fraternos entre os próprios espíritas.

Nós, espíritas, precisamos fazer uma reflexão isenta, madura e aprofundada sobre essa
situação, contribuindo para que o Movimento se torne verdadeiramente digno do
Espiritismo. Apresentamos em seguida algumas sugestões preliminares para direcionar
essa reflexão.

Aspectos Intelectuais:

1. Preservação do núcleo teórico espírita. O Espiritismo, como toda disciplina
científica, tem um núcleo de princípios teóricos básicos que fornece os elementos

essenciais para a explicação dos fenômenos de que a teoria trata. Esse núcleo foi
estabelecido por Allan Kardec. É em torno desse núcleo que o natural desenvolvimento
da teoria deve realizar-se, por complementações e ajustes na parte menos central da
malha teórica. Estudar, divulgar e priorizar as obras básicas de Allan Kardec, eis nossa
diretriz metodológica central.

2. Tolerância intelectual. Por definição, o espírita é alguém que, recorrendo à
evidência racional e experimental fornecidas pelo Espiritismo, já se convenceu acerca
da verdade dos aludidos princípios básicos. No entanto, à semelhança do que ocorre
com as disciplinas acadêmicas, o Espiritismo tem áreas de fronteira, onde estão se
dando os desenvolvimentos teóricos. Nessas áreas há, naturalmente, questões ainda não
resolvidas, que aguardam o concurso do tempo e dos esforços de pesquisa para o seu
esclarecimento. Faz parte essencial de toda atividade de pesquisa, tanto na ciência como
na filosofia, a pluralidade de vistas acerca dessas questões em aberto. Sem tolerância
intelectual, a criatividade científica e filosófica ficaria impedida de contribuir para o
avanço das disciplinas. No meio espírita, há que se cultivar essa tolerância, aprendendo-
se a conviver pacífica e construtivamente com opiniões divergentes acerca de problemas
teóricos periféricos. O direito ao livre exame deve ser respeitado sempre.
3. Prudência intelectual. Por outro lado, as pesquisas nas áreas de fronteira devem ser
conduzidas com grande prudência e equilíbrio, a exemplo do que fez Kardec, a fim de
que o desenvolvimento teórico assente em bases seguras. Muitas das questões debatidas
no Movimento revelam-se, à luz de análises filosóficas rigorosas, serem questões mal
formuladas, que não são, portanto, passíveis de solução. Quanto às genuínas, seu
esclarecimento é importante, porém não apressado. Temos de ser pacientes
intelectualmente, e não apenas em nossa vida comum. O máximo cuidado deve ser
exercido para se separar aquilo que já possui evidência cabal daquilo que constitui mera
especulação ou opinião pessoal. A exemplo dos fundadores de nossa tradição
intelectual, os filósofos gregos da Antigüidade, devemos isentar nossas investigações de
qualquer interesse pessoal; o único interesse legítimo deve ser a busca da verdade como
um fim em si.
Aspectos Morais:

4. Fraternidade. Nenhum espírita poderia, sob pena de agir de forma incompatível com
seu conhecimento, resvalar para o campo da ironia, da indiferença, da discriminação, e
muito menos da inveja, do ciúme, da rudeza e da calúnia contra quem quer que seja, e
especialmente contra companheiros de ideal espírita. A necessidade de uma elevação no
padrão comportamental espírita é imperiosa e urgente, para que o valioso patrimônio
intelectual de que somos guardiães não seja dilapidado. Embora a correção de nossos
velhos hábitos não seja tarefa fácil, a abstenção de agir com animosidade e desamor
relativamente aos espíritas que não pensam exatamente como nós está ao alcance de
todos, com um pouco de reflexão e esforço. Fraternidade já! Paz no Movimento
Espírita! Tratar todo e qualquer espírita como um irmão querido, independentemente de
existir ou não divergências entre suas idéias e ações e as deles; perdoar unilateralmente
toda ofensa recebida; exercitar a indulgência. Esses são nossos lemas morais de
aplicação urgente.
5. Sinceridade. A falta de sinceridade é um dos fatores mais danosos ao relacionamento

humano. Especialmente aqueles que partilham um ideal superior, como nós os espíritas,
temos de ser inteiramente transparentes relativamente às nossas preocupações, motivos
e intenções. Cada um poderá, assim, agir com maior segurança, e os projetos coletivos
poderão ser desenvolvidos com racionalidade e previsibilidade. Deve inspirar-nos aqui

o exemplo de Paulo de Tarso, que adotou para si essa regra de conduta e esforçou-se
sempre para que vigorasse na comunidade cristã.
6. Humildade. Complemento indispensável a essa regra de transparência é a humildade
com que devemos receber toda apreciação de nossas idéias e atos partida de coidealistas
que interagem conosco com espírito de sinceridade plena. Partindo do fato
inconteste de nossas imensas limitações intelectuais e morais, devemos receber as
opiniões de nossos companheiros de doutrina com atenção e tranqüilidade,
aproveitando-as no que tiverem de bom para o aperfeiçoamento de nós próprios e de
nossa obra coletiva. Quanto ao que não houver consenso, confiemos no concurso do
tempo e do desenvolvimento natural do conhecimento espírita para o devido
esclarecimento. Temos suficientes pontos em comum para nos unir. Melindre nunca!
Eis outro princípio fundamental para aplicação imediata.
Sugestões de leitura:

Sobre os primeiros tempos do Movimento Espírita e a postura de Kardec diante de
suas dificuldades:

• Thiesen, F. e Wantuil. Z. Allan Kardec (3 vols.) 1ª ed., Rio, FEB, 1979/80.
• Kardec, A. Obras Póstumas. Trad. L. O. Guillon Ribeiro, 18ª ed., Rio, FEB, 1981.
• –––––. Viagem Espírita em 1862. Trad. W. L. Rodrigues, 2ª ed., Matão, O Clarim,
1981.
Sobre o cuidado com as publicações espíritas:

• Kardec, A. "Deve-se publicar tudo o que dizem os Espíritos?" Revista Espírita,
novembro 1859.
• –––––. "Exame das comunicações mediúnicas que nos são endereçadas" Revista
Espírita, maio 1863.
• Cintra, J. C. A. e Castilho, J. A. "Deve-se publicar tudo? E divulgar tudo o que se
publica?" Reformador, abril de 1988, pp. 104-106.
• Nazareth, J. Z. "Critérios de seleção e divulgação do livro espírita" Anuário Espírita
2002, pp. 17-21.
Sobre a ciência espírita, suas relações com as ciências acadêmicas e suas
implicações morais:

• Chibeni, S. S. "A excelência metodológica do Espiritismo", Reformador, novembro de
1988, pp. 328-333, e dezembro de 1988, pp. 373-378.
• –––––. "O paradigma espírita", Reformador, junho de 1994, pp. 176-80.
• –––––. "O Espiritismo em seu tríplice aspecto: científico, filosófico e religioso",
Reformador, agosto 2003, pp. 315-319, setembro 2003, pp. 356-359, outubro 2003, pp.
397-399.
Sobre a nossa condição de espírita:

• Chibeni, S. S. "Ser espírita", Mundo Espírita, julho 2003, caderno especial.

Sobre as personalidades e missões singulares de Francisco Cândido Xavier e
Yvonne Pereira, bem como suas relações de estima e colaboração com instituições
espíritas que desempenharam papel histórico importante na consolidação e
preservação do Espiritismo:

• Schubert, S. C. Testemunhos de Chico Xavier. 1ª Ed., Rio, FEB, 1986.
• Pereira, Y. A. À Luz do Consolador. 1ª ed., Rio, FEB, 1997.
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... Silvio Seno Chibeni

> Entrevista

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Entrevista com Silvio Seno Chibeni

Considerações preliminares (S. S. Chibeni):

Gostaria inicialmente de agradecer ao GEAE a oportunidade desta entrevista. As
questões propostas parecem-me bastante relevantes, dadas as dificuldades de
compreensão do Espiritismo no Movimento Espírita atual. No entanto, para que fossem
adequadamente tratadas, seria preciso dispor de um espaço muitas vezes maior do que o
que é razoável ocupar em uma entrevista deste tipo. Ressalto, assim, a necessidade de os
leitores complementarem seus estudos nas fontes pertinentes: os textos acadêmicos de
filosofia ou ciência e, no caso do Espiritismo, a vasta bibliografia de boa qualidade
disponível, começando sempre pelas obras fundamentais de Allan Kardec.

Diversos tópicos desta entrevista foram analisados em artigos de minha autoria ou coautoria,
publicados na imprensa espírita. Destacaria, em especial, os seguintes
trabalhos:


* "Espiritismo e ciência", Reformador, maio de 1984, pp. 144-47 e 157-59.
* "A excelência metodológica do Espiritismo", Reformador, novembro de 1988, pp.
328-333, e dezembro de 1988, pp. 373-378.
* "Ciência espírita", Revista Internacional de Espiritismo, março 1991, pp. 45-52.
* "O paradigma espírita", Reformador, junho de 1994, pp. 176-80.
* "Os fundamentos da ética espírita", Reformador, junho de 1985, pp. 166-9.
* "Por que Allan Kardec?" Reformador, abril de 1986, pp. 102-3.
* "Estudo sobre a mediunidade" (em co-autoria com Clarice Seno Chibeni),
Reformador, agosto de 1997, pp. 240-43 e 253-55.
Outros artigos importantes sobre os temas desta entrevista e que nela serão
eventualmente citados são:

* CHAGAS, A. P. "O que é a Ciência?", Reformador, março de 1984, pp.
80-83 e 93-95.
* ---. "As provas científicas", Reformador, agosto de 1987, pp.
232-33.

* ---. "O Espiritismo na Academia?", Revista Internacional de Espiritismo, fevereiro de
1994, pp. 20-22 e março de 1994, pp. 41-43 .

* ---. "A ciência confirma o Espiritismo?", Reformador, julho de 1995, pp. 208-11.

* ---. "Polissemias no Espiritismo", Revista Internacional de Espiritismo, setembro de
1996, pp. 247-49.

* XAVIER Jr., A. L. "Algumas considerações oportunas sobre a relação Espiritismo-
Ciência", Reformador, agosto de 1995, pp. 244-46.
Alguns desses artigos encontram-se, ao lado de outros, disponíveis na Internet.
Consultem-se as páginas:

* Grupo de Estudos Espíritas da Unicamp:
http://www.geocities.com/Athens/Academy/8482
* Spiritism to the World:
http://www.ifi.unicamp.br/~xavier/spirit.html
* Federação Espírita Brasileira (Reformador):
http://www.febrasil.org.br
Nas transcrições de trechos das obras clássicas de Allan Kardec utilizei os originais


franceses, aproveitando em grande parte as excelentes traduções publicadas pela
Federação Espírita Brasileira.

Para facilitar a exposição, as questões foram por mim reordenadas, numeradas e
agrupadas, para constituir blocos temáticos: as duas primeiras versam sobre problemas
semânticos, a terceira sobre a religião espírita e as restantes referem-se a vários aspectos
das relações entre o Espiritismo e a ciência.

Questão 1:

a) Existe um problema de sentido de palavras que tem gerado polêmicas no meio
Espírita. Trata-se da interpretação da própria palavra "Espiritismo". Há os que
interpretam a palavra em sentido mais amplo, como significando o estudo dos
fenômenos mediúnicos e das comunicações com os Espíritos, neste sentido há razão em
falar-se em "Espiritismo Kardecista" e "Espiritismo Cristão", pois o haveria também
sem estar ligado à codificação elaborada por Kardec. Outros são da opinião que
compartilho, que a palavra "Espiritismo" se refere apenas à Doutrina Espírita, conforme
a codificação de Kardec, empregando-se para os outros casos a designação de "Novo
Espiritualismo", "Espiritualismo Moderno" e "Doutrina Espiritualista". Neste caso, as
designações "Espiritismo Kardecista" e "Espiritismo Cristão" seriam apenas um modo
de dar ênfase a idéias embutidas na própria palavra, seriam redundâncias
desnecessárias.

b) Um fato que dificulta a questão é o desenvolvimento histórico separado que
seguiram os estudos das manifestações mediúnicas no mundo latino e no mundo
anglo-saxão. O mundo anglo-saxão tardou a aceitar a reencarnação e também se dividiu
em uma infinidade de correntes de pensamento diferentes. Parece-me que na época de
Kardec esse fato ainda não estava muito claro e que na introdução do Livro dos
Espíritos a definição da palavra "Espiritismo" tende ao sentido mais amplo.

c) Essa questão também se desdobra nas discussões em torno da Umbanda e do
Candomblé, vertentes também baseadas em fenômenos mediúnicos, de surgimento
posterior à codificação espírita e que, apesar de apresentarem características conflitantes
com ela, são por alguns classificadas como Espiritismo.

Dentro dos estudos que o senhor tem feito a respeito das características da Doutrina
Espírita, como vê essa questão?

Resposta à Questão 1:

A palavra 'Espiritismo' tem, de fato, sido utilizada com acepções bastante diversas.
Trata-se de um fato comum em toda linguagem natural; somente em linguagens
artificiais, como por exemplo certas linguagens da lógica e da matemática, consegue-se
evitar a polissemia.

As palavras, quer escritas, quer faladas, são símbolos com os quais representamos idéias
ou conceitos. Essa relação de representação é arbitrária, ou seja, associamos tal palavra
a tal idéia de forma inteiramente livre e convencional.


A necessidade de comunicação, que constitui o principal objetivo da linguagem,
recomenda-nos, no entanto, entrarmos em acordo com os outros integrantes de nossa
comunidade lingüística acerca dessas convenções, para se evitarem desentendimentos
semânticos. Nas linguagens ordinárias tal acordo estabelece-se de forma natural e
muitas vezes inconsciente, possibilitando um razoável grau de comunicação, pelo
menos quanto às noções do dia-a-dia. Quando surgem noções novas ou complexas,
porém, costuma ocorrer um período de indefinição ou confusão, que pode se prolongar
muito, se não tomarmos as providências cabíveis, para que todos utilizem as mesmas
palavras para designá-las.

Quando Allan Kardec deu início a uma nova abordagem dos fenômenos mediúnicos e
anímicos - que sempre existiram, naturalmente -, preocupou-se com esse ponto,
conhecedor que era da filosofia. Dessa forma, percebendo que o desenvolvimento de
uma nova teoria tipicamente envolve a criação de novos conceitos, cunhou diversos
termos, nos casos em que se fazia absolutamente necessário, como 'Espiritismo',
'espírita', 'perispírito', 'mediunidade' e outros tantos, utilizados, por exemplo, para
designar diversas noções da teoria dos processos mediúnicos. Fez isso de forma
deliberada e explícita, em diversas de suas obras. Além desses neologismos, a teoria
espírita exigiu a alteração dos significados de muitas palavras já em uso, como é o caso
de 'Deus', 'anjo', 'demônio', 'céu', 'inferno', 'bem', 'mal', etc.

Nesses casos também Kardec indicou claramente as novas acepções dadas aos
vocábulos.

Não obstante todas as precauções tomadas por Kardec, é inegável que muitas das
palavras cuja acepção ele procurou fixar a bem da inteligibilidade vêm sofrendo desvios
de significado por vezes bastante grandes, como se ressalta corretamente nos itens (a) e

(c) da questão, em relação à própria palavra 'Espiritismo'. Fatos desse gênero ocorrem
também nas diversas disciplinas acadêmicas, porém em menor escala, dadas as
peculiaridades das correspondentes comunidades lingüísticas, formadas por indivíduos
que passaram por longo e rigoroso (idealmente!) processo de formação. No caso do
Espiritismo, porém, não há e nem deve haver uma formação oficial dos espíritas. A
preservação doutrinária e, por conseguinte, lingüística, do Espiritismo fica, assim, na
dependência do empenho de cada pessoa e de cada instituição (centro, federação,
editora) em estudar profundamente os textos básicos, mantendo-os constantemente
como referência ou paradigma, ainda que complementações e ajustes periféricos se
façam eventualmente necessários (veja-se o artigo "O paradigma espírita", citado no
início).
Ora, é isso o que pouco se vê no Movimento Espírita atualmente.

Somente alguns lêem; poucos estudam; raros compreendem. Faltam reuniões de estudo
de Espiritismo em muitos centros. Editoras, revistas e jornais proliferam sem limites, e
publicam sem critérios doutrinários rigorosos. O resultado não poderia ser outro:
confusões, desorientações e disputas quase generalizadas.

O que fazer? Um pouco de reflexão mostra que os problemas de linguagem do
Movimento Espírita não podem ser resolvidos com determinações impositivas
deste ou daquele teor, ou de apelo a dicionários. Os filósofos contemporâneos têm
ressaltado que o conteúdo semântico do vocabulário de uma disciplina pode ser


delimitado por meio de definições explícitas, mas apenas parcial e preliminarmente. O
que confere significado completo e estável às palavras é sua utilização em corpos
teóricos coerentes e com potencial elucidativo de uma determinada gama de fenômenos.
Considere-se, por comparação, as definições de 'massa', 'força impressa', 'inércia', etc.
que Newton fez figurar no início de sua monumental obra Philosophiae Naturalis
Principia Mathematica. É claro que elas servem para indicar algo, porém se forem
isoladas da teoria mecânica desenvolvida no restante do livro perderão inteligibilidade e
conteúdo cognitivo. Ou, para tomar um exemplo negativo, analisem-se as propostas de
investigação que surgiram com a pretensão de substituir o Espiritismo, como a
metapsíquica e a parapsicologia. À falta de teorias completas e coerentes - pois que não
as têm - tais disciplinas viram-se e ainda vêem-se a braços com notória proliferação
terminológica que, não obstante sua aparente sofisticação, pouco parece contribuir para
a veiculação de conceitos inteligíveis, com conteúdo empírico e fertilidade heurística.

No caso do Espiritismo, Kardec e alguns dos seus continuadores mais lúcidos trataram
de desenvolver o arcabouço lingüístico simultaneamente com uma teoria dotada de
todas as principais características de uma boa teoria científica, e na medida estrita da
necessidade de expressão simbólica dos conceitos envolvidos. Desse modo, para o
estudioso atento e esclarecido do Espiritismo não há lugar para dúvidas e mal-
entendidos acerca das noções e princípios fundamentais. As confusões que se notam nos
meios espíritas ou semi-espíritas não provêm de falhas estruturais ou conceituais no
programa de pesquisa espírita iniciado por Kardec, mas da falta de preparo e de estudo
sério, conforme já ressaltei. O remédio é, pois, único e fácil de encontrar, mas de difícil
aplicação. Requer-se uma mudança de atitude intelectual e prática, que começa pelo
reconhecimento do valor paradigmático das realizações de Kardec, passa pela
disposição de colocar a doutrina acima de vaidosas concepções pessoais e falsas
necessidades de modernização, e culmina com a instituição de uma política sistemática
e pertinaz de valorização do estudo e do rigor doutrinários nos centros, federações e
editoras.

É justo registrar aqui que é ao longo dessas linhas que se vem pautando a atuação de
diversos indivíduos e instituições respeitáveis no Movimento Espírita, do tempo de
Kardec aos nossos dias, cabendo destacar, por seu vulto e ancianidade, as contribuições
da Federação Espírita Brasileira. Em torno desse núcleo é que devemos nos reunir,
somando esforços na preservação do patrimônio inestimável que Kardec nos legou.

Para finalizar, retomo de forma mais tópica alguns dos pontos da questão formulada.
Acho sensata a opinião expressa no item (a) da pergunta, de que se deveria reservar a
palavra 'Espiritismo' para designar aquilo para que foi cunhada, ou seja, a
doutrina, teoria, paradigma, ou programa de pesquisa iniciado por Kardec.

A afirmação feita no item (b), de que "na introdução do Livro dos Espíritos a definição
da palavra 'Espiritismo' tende ao sentido mais amplo" apontado não me parece
inteiramente justa. No item I dessa Introdução Kardec traça a distinção clara entre o
espiritualismo e a doutrina que vai ser exposta no livro - e se encontra, aliás, resumida
na própria Introdução, item VI - cunhando o termo 'Espiritismo' para designar esta
última. Lembremos ainda que a Introdução só veio à luz com a segunda edição do livro,
em 1860, quando já vários anos haviam transcorrido desde a delimitação e consolidação
do corpo doutrinário, mesmo antes da publicação da primeira edição, em 1857, e após
ela com o lançamento de diversas outras obras, inclusive a Revue Spirite. Não havia


pois à época nenhuma indefinição no pensamento de Kardec quanto à natureza do
Espiritismo e, por conseguinte, no emprego que fazia da palavra 'Espiritismo' (salvo
talvez passagens isoladas em que o contexto permitia uma flexibilização do escopo do
termo, sem que com isso se instaurassem confusões).

Retomando o curso principal da argumentação, se outras pessoas utilizam a palavra
'Espiritismo' com acepções diversas da original, para designar, por exemplo, o
espiritualismo ou o "novo espiritualismo", ou seitas mediunistas afro-brasileiras, quase
nada podemos fazer, dado o respeito que devemos ter pela liberdade de expressão. A
única medida eficaz que podemos tomar é a de insistir no seu uso original, em todas as
ocasiões que se nos deparem, fazendo ver as diferenças doutrinárias existentes entre as
abordagens. Há, ou podem ser criadas, palavras em número suficiente para designar sem
ambigüidade todas as teorias, doutrinas ou seitas. Não creio que devamos apelar para
artifícios aparentemente mais fáceis, como o de acrescentar adjetivos diversos
('kardecista', 'cristão', etc.) ao termo 'Espiritismo'. Se descuidarmos da preservação
doutrinária nas instituições e publicações, tais expressões sofrerão, a seu turno, desvios
de significado, que terão de ser corrigidos novamente com mais acréscimos, num
processo sem fim certo.

Questão 2:

Outra afirmativa que se ouve periodicamente é a necessidade de atualização dos
termos técnicos utilizados no Espiritismo. Para algumas pessoas o uso de termos
como "fluidos", "mediunidade", etc. prejudica a posição científica do Espiritismo. Há
alguma fundamentação, dentro da filosofia da ciência, para essas criticas? O
Espiritismo, sendo uma ciência independente, dedicada ao estudo de fenômenos que
escapam ao escopo das ciências clássicas, não teria a liberdade de definir seus próprios
termos? Historicamente o Espiritismo precede a Metapsíquica e a Parapsicologia,
também é anterior às novas concepções de matéria e energia da Física Moderna, não lhe
daria tal posição, de pioneiro no estudo e definição dos fenômenos, o direito de
estabelecer sua própria nomenclatura?

Resposta:

As considerações sobre a natureza da linguagem apresentadas na resposta à Questão 1 já
forneceram o essencial para esclarecer o presente problema. Igualmente, as afirmações
implícitas nas próprias interrogações do final da questão quase que me dispensam de
respondê-la. Todavia, gostaria de acrescentar algo em sentido explícito.

De fato, propostas de revisão do vocabulário técnico do Espiritismo são bastante
comuns hoje, especialmente por parte de pessoas com alguma familiaridade com as
disciplinas acadêmicas. Os termos mencionados como exemplo parecem, em particular,
causar certo incômodo, sendo freqüentemente substituídos por palavras como 'energia' e
'paranormalidade', 'sensibilidade', etc. Imagina-se estar assim conferindo maior
cientificidade ao Espiritismo, livrando-o de noções "ultrapassadas" do século XIX.

Ora, o mais elementar senso filosófico mostra que não é no vocabulário que assenta o
caráter científico ou não de uma disciplina. As palavras são, como já foi lembrado,


meros símbolos para a expressão de conceitos; se estes não encontrarem respaldo em
uma teoria científica coerente, abrangente e empiricamente adequada, de nada adiantará
modificá-las. Por outro lado, uma teoria científica não será substancialmente alterada
pela modificação de seu vocabulário. Logo, qualquer alegação de que o Espiritismo tem
de passar por uma atualização não pode limitar-se à substituição de palavras, como
ingenuamente se procura fazer. Essa alegação só se poderia justificar a partir de uma
análise profunda, exaustiva e meticulosa da teoria espírita e de todos os fatos de que
trata, que revelasse racionalmente que ela não lhes dá explicação adequada, ou contém
falhas de consistência lógica, propondo-se concretamente uma outra teoria melhor que a
possa substituir. No parágrafo 14, n. 8, de O Livro dos Médiuns Kardec resume as
condições para uma crítica sustentável do Espiritismo (e, aliás, de qualquer outra
ciência) que, por sua lucidez e atualidade, merece ser aqui reproduzida:

O Espiritismo não pode considerar crítico sério senão aquele que tudo tenha visto,
estudado e aprofundado com a paciência e a perseverança de um observador
consciencioso; que do assunto saiba tanto quanto o adepto mais esclarecido; que haja,
por conseguinte, haurido seus conhecimentos algures, que não nos romances da ciência;
aquele a quem não se possa opor fato algum que lhe seja desconhecido, nenhum
argumento de que já não tenha cogitado e cuja refutação faça, não por mera negação,
mas por meio de outros argumentos mais peremptórios; aquele, finalmente, que possa
indicar, para os fatos averiguados, causa mais lógica do que a que lhe aponta o
Espiritismo. Tal crítico ainda está por aparecer.

Esse trecho serviu de mote para o meu artigo "A excelência metodológica do
Espiritismo", citado no início da entrevista, no qual procuro mostrar, ainda que de forma
breve e simplificada, que as condições para uma revisão do Espiritismo em nome da
cientificidade até hoje não foram satisfeitas. A teoria espírita kardequiana tem tudo o
que é essencial para sua classificação como uma ciência genuína, à luz das concepções
atuais da filosofia da ciência. Não é naturalmente o caso de repetir aqui o que expus
nesse trabalho e em outros sobre o mesmo tema. No entanto, parece-me importante
particularizar um pouco a análise com vistas aos exemplos dados na pergunta.

A palavra 'mediunidade' foi criada por Kardec para designar a faculdade que certos
indivíduos possuem de servir, em maior ou menor grau e de modos diversos, de
intermediários entre os Espíritos e os homens. Essa noção recebeu precisão e conteúdo
cognitivo por sua inserção em uma teoria completa dos fenômenos mediúnicos, exposta
principalmente no Livro dos Médiuns (ver o artigo "Estudo sobre a mediunidade").
Embora ela se encontre, como qualquer teoria, em contato periférico com teorias de
áreas contíguas, de dentro e de fora do Espiritismo, possui bases de sustentação
autônomas, não tendo que sofrer alterações substanciais ou terminológicas em virtude
do que possa ocorrer nesses domínios conexos.

As modificações que se têm proposto para o Espiritismo geralmente limitam-se ao
plano lingüístico, como se se tivesse vergonha de escrever ou pronunciar as palavras
'médium' e 'mediunidade', preferindo-se antes adornar o discurso com termos
rebuscados, provenientes de linhas de investigação incipientes ou pseudo-científicas,
como a metapsíquica, a parapsicologia e diversas vertentes ligadas à psicologia ou
mesmo a doutrinas orientalistas.

É evidente que isso só contribui para aumentar as dificuldades de compreensão e


comunicação ou, o que é pior, para dispersar as pesquisas relativamente ao núcleo
teórico paradigmático da ciência espírita, com graves repercussões para o seu
desenvolvimento.

Constitui fato reconhecido entre os filósofos da ciência contemporâneos que as
substituições de conceitos e teorias numa ciência somente se justificam pela
degeneração global do programa de pesquisa no qual se inserem, juntamente com o
fornecimento efetivo de um programa alternativo que o suplante em coerência,
abrangência, precisão e fertilidade heurística. Ora, não padece dúvida para qualquer
estudioso isento que nada disso sequer esboçou-se no caso do Espiritismo.

Considerações semelhantes aplicam-se à palavra 'fluido'. É certo que ao cunhar a
expressão 'fluidos espirituais' para denotar certos elementos materiais "sutis" que tomam
parte em processos diversos examinados pelo Espiritismo, como a ação dos Espíritos
sobre a matéria ordinária (mediunidade, curas, passes, etc.), ou a constituição dos
corpos e da ambiência dos Espíritos (perispírito, objetos do mundo espiritual, etc.),
Kardec procurou analogias, ainda que tênues, com certos elementos que, segundo as
melhores teorias físicas da época, participariam dos fenômenos elétricos, magnéticos ou
térmicos, os chamados fluidos elétrico e magnético, e o calórico, igualmente invisíveis,
sutis, imponderáveis.

Ora, como não houve mais do que analogia e apropriação de um símbolo lingüístico
para construir uma expressão nova - 'fluidos espirituais', que em geral se simplificava
para 'fluidos', dentro do contexto espírita - , não se segue que a teoria espírita tenha de
ser modificada terminológica ou substancialmente na caracterização dos referidos
processos porque as teorias físicas que sugeriram as analogias tenham sido alteradas ou
substituídas no curso evolutivo da física.

Um historiador da ciência bem informado seguramente poderá encontrar diversas
situações semelhantes no âmbito das ciências acadêmicas.

Reportemo-nos de passagem ao que aconteceu na química quando as teorias físicas
sobre a estrutura da matéria se alteraram na década de 1920, com o desenvolvimento e
aceitação da mecânica quântica. Embora os químicos tenham levado em conta a nova
teoria física, dada a proximidade e as interseções entre as áreas, tendo-se mesmo criado
ramos e técnicas de cálculo novos na química, as concepções e métodos referentes às
ligações químicas, estruturas moleculares, etc. continuaram mais ou menos como eram,
em um amplo espectro de investigações teóricas e experimentais.

Voltando ao caso do Espiritismo, salienta-se bem na pergunta que "ele constitui uma
ciência independente, dedicada ao estudo de fenômenos que escapam ao escopo das
ciências clássicas", tendo "a liberdade de definir seus próprios termos"; e, poderia
acrescentar, seus conceitos e teorias. Modificações nesses pontos só se legitimariam,
repito, na medida em que análises rigorosas internas ao programa científico espírita
indicassem sua necessidade.

Ainda com relação à noção de fluido, deve-se notar que ela não é abominada na física,
como parecem sugerir os reformistas. Em primeiro lugar, cumpre notar que todos os
líquidos e gases são fluidos, e seu estudo é feito em diversas áreas da ciência, como a
hidrodinâmica.


Depois, quanto à eletricidade, magnetismo e termodinâmica, as teorias atuais
prescindem dessa noção no nível operacional, tendo assumido feições
preponderantemente matemáticas e preditivas. Quando se desce à análise de
fundamentos - e raros cientistas dedicam-se a isso atualmente - percebe-se que, à
semelhança das demais teorias da física, estão envoltas em problemas conceituais
graves. Não é nada claro, por exemplo, o que seja um campo elétrico ou magnético, não
do ponto de vista de sua caracterização matemática, é claro, mas de sua representação
intuitiva, de sua essência, do modo pelo qual surge, se propaga e causa certos
fenômenos. Lembremo-nos, incidentalmente, que os próprios pais da teoria
eletromagnética, como Faraday e Maxwell, jamais dispensaram o conceito de fluido
quando se tratava de explicar

-e não simplesmente calcular - os fenômenos.
Dir-se-á talvez que Einstein baniu esse conceito da ciência ao criar a teoria da
relatividade restrita em 1905. Embora essa afirmação se tenha tornado comum em
certos círculos, entre os especialistas em fundamentos não há consenso algum sobre o
ponto, não obstante seja claro que o chamado "éter eletromagnético" regido por leis
mecânicas não compareça na aludida teoria. Mas essa não é a única teoria da ciência,
nem tampouco está isenta de dificuldades conceituais e teóricas diversas.
Evidentemente, este não é o lugar para adentrar esse tópico complexo. Fica, porém, uma
advertência aos espíritas de boa vontade para que não se deixem influenciar facilmente
por tais assertivas, antes que façam estudos profissionais, que levem em conta, por
exemplo, a teoria da relatividade geral e todas as perplexidades que envolvem as teorias
do espaço-tempo e da cosmologia contemporâneas.

Apenas para concluir, vale mencionar que virou moda nos meios espíritas e semiespíritas
a substituição da palavra 'fluido' por 'energia', sempre no pressuposto de que é
por aí que vai a ciência.

Ora, assim como as noções de espaço, tempo, força, massa, carga elétrica, campo, etc., a
noção de energia é objeto de inúmeras dificuldades conceituais, não se ganhando nada
em clareza, precisão e cientificidade com a sua utilização, muito pelo contrário.
Ademais, esse uso apresenta o inconveniente de se dar numa área distante da área de sua
criação original, a física, representando uma enxertia no programa científico espírita,
fonte certa de confusões.

A respeito da utilização das noções das palavras 'fluido', 'energia' e 'magnetismo' no
Espiritismo, recomendo a leitura do artigos do prof. Aécio P. Chagas, "Polissemias no
Espiritismo" e "A ciência confirma o Espiritismo?", indicados no início. Outra
análise profissional do emprego impróprio de noções científicas, em particular da noção
de energia, no Espiritismo é feita no artigo "Algumas considerações oportunas sobre
a relação Espiritismo-Ciência", de Ademir L. Xavier Jr., que também consta da lista
de referências especiais que dei no início.

Questão 3:

a) Dentro dos conceitos atuais da ciência e da filosofia, como poderíamos classificar o
Espiritismo? O que lhe parece a clássica apresentação do Espiritismo como uma
doutrina de conseqüências cientificas, filosóficas e religiosas?


b) Considerando esta forma de apresentar a doutrina, segundo seus aspectos básicos,
qual seria a diferença entre dizer-se "conseqüências religiosas" e "conseqüências
morais"?

c) No GEAE tem-se discutido muito a aplicação da designação de "Religião" para o
Espiritismo, aparentemente não há divergências quanto à classificação de "Ciência" ou
"Filosofia". No seu ponto de vista, como professor dedicado ao estudo da Filosofia e da
Ciência, o que caracteriza uma "Religião", ou seja, quais são os limites entre "Ciência",
"Filosofia", "Moral" e "Religião" - onde uma termina e começa a outra? O Espiritismo,
dentro dessa classificação, é uma "Religião"?

Resposta:

A perspectiva para a compreensão do Espiritismo apontada no item (a) parece-me
correta, desde que se mude um pouco a forma de expressão.

Dizer que ele é uma doutrina "de conseqüências" científicas, filosóficas e morais
implica considerá-lo como uma quarta coisa, da qual decorreriam essas conseqüências.
Na verdade, poderíamos afirmar que ele constitui uma ciência associada a uma filosofia
e a um sistema moral, ou, mudando a ênfase, uma filosofia com bases científicas e
implicações morais.

Quanto aos itens (b) e (c), cumpre lembrar inicialmente que a moral (ou ética) é uma
das áreas da filosofia, investigada com atenção por filósofos de todas as épocas, desde a
Grécia Antiga até nossos dias.

De modo muito simplificado, poderíamos defini-la como o estudo do bem e do mal. Seu
problema fundamental é o estabelecimento de critérios pelos quais se possam distinguir
as ações em boas e más, certas e erradas, ou, sob outro ângulo, avaliar criticamente os
critérios propostos para tal fim pelas diferentes religiões, ideologias, sistemas políticos,
etc.

Nunca houve uma sociedade humana civilizada totalmente destituída de códigos morais
que estabeleçam limites para as ações dos indivíduos.

Nos primórdios da civilização tais códigos usualmente baseavam-se nas concepções
religiosas vigentes, a seu turno amplamente dependentes do ensino de indivíduos
considerados especiais, tais como profetas, pitonisas, gurus, etc. Tais pessoas muitas
vezes alegavam dispor de meios incomuns, sobrenaturais, de comunicação com a
própria Divindade ou divindades; as suas doutrinas eram, pois, tidas como "revelações".

Especialmente a partir do Renascimento (séculos XV e XVI, digamos), a autoridade
moral das religiões estabelecidas em tais bases começou a ser mais e mais questionada.
O movimento intelectual de valorização das faculdades cognitivas naturais - a razão e a
observação - encontrou terreno preparado pelas fragilidades teóricas do revelacionismo
religioso que, ademais, havia tantas vezes conivido, legitimado ou participado
diretamente de ações pessoais e institucionais em franco desacordo com um certo
sentido ético natural do ser humano.


Sob a influência vigorosa de grandes filósofos do período moderno, entre os quais
cumpre destacar o inglês John Locke (1632-1704), as legislações civis dos povos mais
esclarecidos foram se dissociando dos sistemas religiosos, quaisquer que fossem. Pontos
altos desse processo foram, por exemplo, as revoluções inglesa (1688) e francesa
(1789), e a assinatura da Constituição Americana (1789). Em todos esses episódios, os
códigos de direitos e deveres dos cidadãos resultaram de acordos sociais tácitos ou
explícitos. Os filósofos acadêmicos modernos desenvolveram seus estudos éticos sob
perspectivas diversas e nem sempre compatíveis umas com as outras, mas que em geral
excluem consciente e explicitamente quaisquer fundamentos religiosos, teológicos ou
místicos.

A moral sempre constituiu parte integrante das religiões. No entanto, estas não se
resumem à proposição e defesa de sistemas morais, incluindo, de modo típico, cultos,
liturgias e rituais diversos, hierarquias de poder, princípios teológicos abstratos sem
relação direta com a questão da conduta humana, etc. Foi essa bagagem-extra, aliás, o
que mais repulsa causou aos chamados "livres-pensadores", responsáveis pela
renovação da filosofia e da ciência a partir do Renascimento, tendo conduzido, por um
processo compreensível de exacerbação, ao ateísmo e ao materialismo, em graus sem
precedentes na história da humanidade.

Perdidas as bases religiosas tradicionais, a ética teve dificuldades para estabelecer
princípios de conduta objetivos. Nasceu daí uma vertente bastante visível na
sociedade hodierna, que é o chamado "relativismo ético", segundo o qual o que é certo
ou errado, bom ou ruim, depende da pessoa, do grupo social, da época, etc. De forma
oportunista, intelectuais ou pseudo-intelectuais têm explorado esse canal para tentar
legitimar os mais aberrantes comportamentos individuais ou grupais, contribuindo
assim decisivamente para a degeneração das estruturas psicológicas e sociais.

No campo da filosofia acadêmica, existem propostas éticas não-religiosas que
procuram refutar o relativismo, dividindo-se em duas grandes classes: os sistemas éticos
racionalistas ou aprioristas, como o de Immanuel Kant (1724-1804), e os sistemas
utilitaristas, desenvolvidos mais amplamente por Jeremy Bentham (1748-1832) e John
Stuart Mill (1806-1873). Pode-se afirmar com razoável segurança que o efeito prático
das abordagens éticas do primeiro tipo sobre as sociedades contemporâneas é
virtualmente nulo, por razões que não vem ao caso examinar aqui. Quanto à segunda
proposta, embora a palavra 'utilitarismo' tenha impropriamente adquirido uma
conotação negativa fora dos círculos filosóficos, é inegável que repercutiu de forma
profunda no estabelecimento dos melhores sistemas sociais existentes, quer do ponto de
vista material, quer dos direitos humanos e do fomento às artes, ciências e filosofia.
Mesmo nessas sociedades, porém, assiste-se hoje à crescente desvalorização das
avaliações a longo prazo das ações humanas, com o esquecimento dos princípios
filosóficos seguros que nortearam os seus fundadores, abrindo-se largos espaços para o
referido relativismo moral.

Quando devidamente compreendido, o Espiritismo traz contribuições inestimáveis a
todo esse panorama da ética, tão imperfeitamente esboçado aqui. Refinando e
estendendo o conhecimento acerca do ser humano, ele permite a elaboração de uma
ética objetiva e clara, explorando, com adaptações, a vertente iniciada por Bentham e
Mill.


Tratei desse assunto nos artigos "Os fundamentos da ética espírita" e "A excelência
metodológica do Espiritismo" (seção 5), cujas referências foram dadas no início da
entrevista, devendo ser consultados para o desenvolvimento e conclusão desta resposta.

Em diversas de suas obras, Kardec deu grande importância ao estabelecimento da moral
espírita, abordando o assunto em profundidade. Mostrou que com o conhecimento
científico espírita a moral deixa de ser uma questão de especulações abstratas ou de
opiniões, estando indissociavelmente ligada ao estudo das conseqüências das ações
humanas em conexão com a busca da felicidade, objetivo comum de todos os seres
humanos. Ressaltou ainda que o corpo de princípios morais obtidos por essa via
racional-experimental coincide com aquele proposto por Jesus. Assim, conforme
registrou no parágrafo 56 do primeiro capítulo de A Gênese, o Espiritismo "[dá] por
sanção à doutrina cristã as próprias leis da Natureza".

Ora, na medida em que fornece ao homem conhecimento seguro das regras de conduta
capazes de harmonizá-lo consigo mesmo e com os demais seres, o Espiritismo torna-se
"o mais potente auxiliar da religião", conforme nota Kardec nos lúcidos comentários
adidos às questões 147 e 148 de O Livro dos Espíritos. A religião aqui aludida não se
confunde, evidentemente, com as doutrinas religiosas tradicionais, com todo o seu
conjunto de dogmas e práticas exteriores, sendo antes a religião no sentido próprio do
termo, a re-ligação da criatura ao Criador.

A velha questão de se o Espiritismo é ou não uma religião não admite, pois, resposta
unívoca, dada a duplicidade semântica do termo 'religião'. Esse ponto foi
magnificamente estudado e, para o bom entendedor, esgotado, no texto de Kardec
intitulado "Le Spiritisme est-il une religion?", que apareceu na Revue Spirite de 1868.
(Esse artigo foi transcrito na coletânea L'Obsession, editada em Farciennes, Bélgica,
pela Éditions de l'Union Spirite, 1950, pp. 279-92; uma tradução confiável para o
vernáculo, de Ismael Gomes Braga, pode ser encontrada no Reformador de março de
1976.) Para encerrar, vejamos estes parágrafos do famoso artigo:

[...] o Espiritismo é, assim, uma religião? Sim, sem dúvida, senhores:

No sentido filosófico o Espiritismo é uma religião, e disso nos honramos, pois que é a
doutrina que funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos não em uma
simples convenção, mas sobre a mais sólida das bases: as próprias leis da Natureza.

Por que então declaramos que o Espiritismo não era uma religião? Pela razão de que há
apenas uma palavra para exprimir duas idéias diferentes, e que, segundo a opinião geral,

o termo religião é inseparável da noção de culto, evocando unicamente uma idéia de
forma, com o que o Espiritismo não guarda nenhuma relação. Se se tivesse proclamado
uma religião, o público nele não veria senão uma nova edição, ou uma variante, se
quisermos, dos princípios absolutos em matéria de fé, uma casta sacerdotal com seu
cortejo de hierarquias, cerimônias e privilégios; não o distinguiria das idéias de
misticismo e dos enganos contra os quais se está freqüentemente bem instruído.
Não apresentando nenhuma das características de uma religião, na acepção usual da
palavra, o Espiritismo não poderia nem deveria ornar-se de um título sobre cujo
significado inevitavelmente haveria mal-entendidos. Eis porque ele se diz simplesmente
uma doutrina filosófica e moral.


Considerações preliminares às respostas das Questões 4 a 7, sobre a ciência
espírita e temas correlacionados (S. S. Chibeni):

Essas questões finais são relevantes, dada a autoridade de que a ciência desfruta hoje em
dia. É fácil constatar que esse fato é freqüentemente explorado para induzir à aceitação
de determinadas teses, processos, produtos, sistemas políticos, etc. Há um efeito quase
que intimidador associado à rotulação de algo como 'científico'.

Bens de consumo variados, desde cremes dentais até sofisticados aparelhos
eletrodomésticos são ditos terem sido elaborados por processos científicos, ou
submetidos a testes científicos. Geralmente despreparadas para avaliar por si próprias
se, em cada caso, a qualificação é ou não pertinente, as pessoas tornam-se vítimas de
manipulações diversas.

Mesmo no plano das idéias e teorias - e isso é o que mais de perto nos interessa aqui -, a
demanda por cientificidade é notória. Diversas disciplinas mais recentes na história do
pensamento, ou menos seguras de seus fundamentos e métodos, procuram de alguma
forma modelar-se pelas disciplinas mais estabelecidas e bem sucedidas, como a física, a
química e a biologia, inquestionavelmente consideradas científicas. Em nome desse
processo de modelagem, porém, têm-se produzido verdadeiras aberrações científicas,
que retardam o desenvolvimento das disciplinas nascentes ou em vias de consolidação.
Embora a proposta de aprender-se algo acerca da natureza da ciência, ou do chamado
"método científico", pela inspeção das disciplinas paradigmaticamente científicas seja
adequada e mesmo indispensável, a falta de preparo filosófico tem amiúde levado ao
seu fracasso parcial ou total.

Um elemento central na análise da ciência é a distinção entre teoria, método e objeto de
estudo. As diversas ciências distinguem-se, em primeira instância, por seus objetos de
estudo, os conjuntos de fenômenos que investigam. Fenômenos mecânicos, elétricos,
magnéticos e nucleares, por exemplo, são do escopo da física; a formação e dissociação
de moléculas constitui objeto de estudo da química; a vida, em muitas de suas
expressões, é examinada pela biologia.

Existem, naturalmente, pontos de contato, interseções e hibridações entre as ciências,
mas isso não invalida a distinção fundamental apontada.

Ora, dada a diversidade de objetos de estudo, haverá diferenças expressivas nos
métodos e características teóricas das várias ciências. A identificação de elementos
comuns entre elas é tarefa mais difícil do que à primeira vista parece, constituindo um
tópico dos mais importantes da área da filosofia denominada filosofia da ciência.

Em alguns dos artigos mencionados no início da entrevista, procurei apresentar alguns
traços gerais dessa disciplina, em conexão com o exame do aspecto científico do
Espiritismo. Uma tese central ali defendida é que o Espiritismo, tal como
estruturado por Allan Kardec, exibe todas as características de uma genuína
ciência, à luz da filosofia da ciência contemporânea. A ciência espírita têm por objeto
de estudo o elemento espiritual do ser humano, que se manifesta em múltiplos
fenômenos psicológicos, sociológicos, anímicos e mediúnicos, sendo estes últimos os
que desencadearam as pesquisas iniciais e permitiram o estabelecimento das leis


fundamentais da teoria.

Naqueles trabalhos argumento, ademais, que o Espiritismo constitui a única abordagem
científica disponível para essa gama de fenômenos. As propostas alternativas surgidas
após ele invariavelmente incorreram nas aludidas distorções de concepção, por falta,
entre outras coisas importantes, de uma adequada percepção das diferenças de objetos
de estudo relativamente às ciências exatas. Possuindo conhecimentos sólidos das
ciências e da filosofia, Kardec reconheceu-as prontamente, apontando-as em diversas de
suas obras, como por exemplo no item 7 da Introdução de O Livro dos Espíritos e ao
longo das primeiras partes de O que é o Espiritismo e O Livro dos Médiuns. Estruturou
então a teoria espírita em conformidade com as peculiaridades dos fenômenos de que
trata, conferindo-lhe, ademais, consistência lógica, simplicidade, poder explicativo,
abrangência, coerência e integração harmônica com ciências limítrofes, atributos
igualmente necessários para qualquer disciplina que queira fazer jus ao título de
'científica'.

Feitas essas observações, posso adentrar agora mais diretamente os tópicos específicos
das perguntas formuladas.

Questão 4:

Costuma-se dizer que a "Ciência" aprova ou rejeita determinado ponto.

O que podemos entender por isso? Existe realmente uma "posição oficial" da ciência?
Nesse caso quais seriam os órgãos ou pessoas que poderiam ter tal prerrogativa, de
determinar a posição oficial da ciência? Nos parece que pela época de Kardec essa frase
normalmente se referia as grandes academias e aos órgãos oficiais dos estados europeus,
há hoje algum equivalente?

Resposta:

Esses problemas já foram tratados de modo seguro e esclarecedor em dois artigos do

Prof. Aécio P. Chagas, "O que é a Ciência?" e "A Ciência confirma o
Espiritismo?", incluídos na lista de referências bibliográficas especiais do início da
entrevista. Não me cabe aqui reproduzi-los. Relembrarei alguns dos tópicos principais
de sua análise e estenderei um pouco a discussão para responder de forma explícita o
que se pergunta aqui.

Uma distinção importante destacada nos referidos trabalhos é aquela entre "ciênciaconhecimento",
"ciência-atividade" e "ciência-comunidade". Quando se afirma que a
ciência aprova isso ou aquilo, pode-se estar querendo dizer duas coisas: Ou que a coisa
faz parte, ou pode ser deduzida, do corpo teórico paradigmático de uma das ciências
maduras (física, química e biologia); ou, em sentido secundário, que a comunidade
científica tem uma opinião mais ou menos geral a seu respeito, embora ela ainda não
faça parte de nenhuma teoria bem estabelecida.

A idéia de uma "posição oficial" da ciência só é razoável se entendida com referência às
teorias que, à época, integram os paradigmas das ciências maduras. Felizmente, não


existe na ciência um Conselho Supremo (como o de certas religiões, partidos ou
governos) que decida qual é a ortodoxia. Faz parte da própria natureza da ciência
contemporânea a pulverização do poder de avaliação em um sem-número de instâncias,
entre as quais encontram-se as academias, departamentos universitários e institutos de
pesquisa, agências de fomento e, principalmente, os periódicos especializados. Os
profissionais acadêmicos não ignoram que esses jornais e revistas canalizam hoje o
grosso da produção científica, possuindo complexo sistema de filtragem que em inglês
se chama de "double-blind refereeing": os trabalhos submetidos para publicação são
enviados anonimamente a vários membros conceituados da própria comunidade,
científica que os examinam criticamente e anonimamente. Teses discrepantes dos
paradigmas que não sejam maciçamente apoiadas por evidências experimentais e
argumentos racionais são barradas por esse sistema. Se quisermos, podemos dizer que
conflitam com a "posição oficial", mas apenas nesse sentido específico. Não estou
afirmando que o sistema seja infalível, mas ao lado de procedimentos semelhantes de
rigor na preparação de profissionais, contratação, etc., asseguram o delineamento das
teorias, técnicas e processos da ciência, possibilitando o seu progresso.

No tempo de Kardec as publicações periódicas eram em número bem menor e não
haviam ainda assumido o papel central que desempenham hoje; o conhecimento
científico era veiculado principalmente em livros e memórias, publicados sob iniciativa
individual ou das academias. Estas últimas ocupavam, conforme se sugere na pergunta,
um papel muito importante; as instâncias avaliatórias da ciência eram, pois, mais
centralizadas. Não raro isso deu margem a abusos e decisões erradas, como aliás
observou Kardec várias vezes, ao discutir o caráter falível das corporações científicas.
Hoje abusos e erros também ocorrem, e em bom número, porém são geralmente
detectados mais facilmente pela enorme e integrada malha da comunidade científica.

Questão 5:

Pela época do surgimento do Espiritismo, alguém que se dedicasse à pesquisa dos
fenômenos mediúnicos, e não se inclinasse a considera-los como fantasias ou fraudes,
se arriscava ao descrédito nos meios científicos e acadêmicos. Houve alguma mudança
nessa postura? Dentro dos conceitos atuais, ainda existe o antagonismo entre ciência e o
espiritualismo, ela é necessariamente materialista?

Resposta:

Existe, como está implícito na resposta precedente, um certo grau de conservadorismo
na "ciência-comunidade", e as análises filosóficas contemporâneas reconhecem aí um
requisito importante de qualquer ciência madura. A compreensão desse ponto paradoxal
requer estudos especializados. Em alguns de meus artigos sobre a ciência espírita
procurei indicar o papel daquilo que Imre Lakatos chamou de "heurística negativa" de
uma ciência. Trata-se, de forma simplificada, da decisão metodológica explícita ou
tácita dos membros de uma comunidade científica de preservar, tanto quanto possível, o
núcleo de leis fundamentais de seu programa científico de pesquisa. Esse filósofo da
ciência argumentou convincentemente que sem essa política conservadora o
desenvolvimento científico ficaria inviabilizado. É somente quando condições
excepcionais se reúnem, envolvendo o fracasso sistemático do programa de pesquisa em


resolver problemas teóricos e de ajuste empírico, que o núcleo do programa é revisto ou
rejeitado.

Na atividade normal da ciência os ajustes e desenvolvimentos teóricos se dão em partes
menos centrais da malha teórica, o denominado "cinturão protetor" de leis auxiliares.

Menciono isso para ressaltar que a relutância da comunidade científica em aceitar
uma nova teoria sobre o ser humano, como é o caso do Espiritismo, é natural e
esperada. A isso cumpre acrescentar o fato de o Espiritismo tratar de uma ordem de
coisas que escapam ao domínio das ciências ordinárias, cujo objeto de estudo são os
fenômenos e leis pertinentes à matéria. No referido parágrafo 7 da Introdução de O
Livro dos Espíritos Kardec discorre lucidamente sobre o assunto, de uma perspectiva
filosófica bem avançada em relação à sua época, concluindo seguramente que "o
Espiritismo não é da alçada da ciência", isto é, das ciências acadêmicas. Retoma essa
análise de forma mais extensa em O que é o Espiritismo, onde encontramos, por
exemplo, este interessante raciocínio no capítulo I, segundo diálogo, seção "Oposição
da ciência":

As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da matéria, que se pode, à
vontade, manipular; os fenômenos que ela produz têm por agentes forças materiais.

Os do Espiritismo têm, como agentes inteligências que possuem independência, livre-
arbítrio e não estão sujeitas aos nossos caprichos; por isso eles escapam aos nossos
processos de laboratório e aos nossos cálculos, e, desde então, ficam fora dos domínios
da Ciência propriamente dita.

A Ciência enganou-se quando quis experimentar os Espíritos como o faz com uma pilha
voltaica; foi mal sucedida, como devia ser, porque agiu pressupondo uma analogia que
não existe; e depois, sem ir mais longe, concluiu pela negação, juízo temerário que o
tempo se encarrega de ir emendando diariamente, como já fez com tantos outros [...].

As corporações científicas não devem, nem jamais deverão, pronunciar-se nesta
questão; ela está tão fora dos limites do seu domínio como a de decretar se Deus
existe ou não; é, pois, um erro tomá-las aqui por juiz.

No primeiro capítulo de A Gênese, parágrafo 16, Kardec salienta, a esse propósito, que
estudando domínios diferentes e complementares, o espírito e a matéria, "o Espiritismo
e a ciência completam-se reciprocamente".

A autonomia do Espiritismo com relação às ciências ordinárias parece-me
suficientemente demonstrada (não aqui, neste breve resumo, evidentemente, mas nos
extensos estudos feitos por Kardec e outros pensadores espíritas). Vejo com
preocupação a incompleta percepção desse ponto por muitos espíritas em nossos dias,
aqueles que pretendem, como dizem, "trazer a ciência para o Espiritismo". Não se dão
conta, ou se esquecem, de que o Espiritismo já constitui por si uma ciência
independente e vigorosa, e que, ademais, a peculiaridade de seu objeto de estudo torna
fora de propósito qualquer hibridação fundamental com as ciências da matéria. Há, é
claro, áreas periféricas de contato, como por exemplo, o estudo das enfermidades
psicossomáticas, onde pode e deve haver contribuições mútuas.


Não se deve confundir o que estou dizendo com as críticas justificadas, já avançadas por
Kardec, a pessoas que, em nome da ciência ou não, julgam o Espiritismo sem haver
examinado atentamente todos os fatos de que trata, bem como sua estrutura teórica. Isso
é inadmissível filosófica e cientificamente. Tal atitude infelizmente continua sendo
comum, inclusive nos meios acadêmicos. A especialização que caracteriza a formação
científica parece mesmo favorecê-la, com também notou Kardec no referido item de O
Livro dos Espíritos:

Aquele que se fez especialista prende todas as suas idéias à especialidade que adotou.
Tirai-o daí e o vereis sempre desarrazoar, por querer submeter tudo ao mesmo cadinho:
conseqüência da fraqueza humana.

Na pergunta formulada alude-se também à questão mais geral da posição da
ciência acerca do espiritualismo. Conforme em outras palavras ressaltou Aécio
Chagas nos artigos mencionados, não faz muito sentido discutir se as ciências
acadêmicas, enquanto conhecimento, são materialistas ou não. Foram concebidas
expressamente para descrever e explicar exclusivamente os fenômenos materiais, não
tendo nada a dizer sobre a disputa materialismo versus espiritualismo, que gira em torno
da questão da existência de algo além da matéria. Se se pergunta agora se a comunidade
científica acadêmica é materialista ou não, a questão faz sentido, mas só admite resposta
estatística, visto que a convicção pessoal de cada um de seus integrantes acerca desse
problema filosófico não constitui critério necessário ou suficiente para a sua admissão
na profissão. Parece certo, pelo menos, que uma parcela expressiva dos cientistas atuais
é materialista, mas isso talvez apenas reflita o padrão geral de crença das sociedades nas
quais mais prosperam as ciências, como sugere o Prof. Chagas.

Seja como for, nós espíritas não devemos nos inquietar com isso, como advertiu Kardec
ainda no mesmo parágrafo de O Livro dos Espíritos, de onde extrairei mais este trecho,
para concluir:

O Espiritismo é o resultado de uma convicção pessoal, que os cientistas, como
indivíduos, podem adquirir, abstração feita de sua qualidade de cientistas [...].

Quando as crenças espíritas se houverem difundido, quando estiverem aceitas pelas
massas humanas [...], com elas se dará com o que tem acontecido com todas as idéias
novas que hão encontrado oposição: os cientistas se renderão à evidência. Lá chegarão
individualmente, pela força das coisas. Até então será intempestivo desviá-los de seus
trabalhos especiais, para obrigá-los a se ocupar de um assunto estranho, que não lhes
está nem nas atribuições, nem no programa.

Enquanto isso não se verifica, os que, sem assunto prévio e aprofundado da matéria, se
pronunciam pela negativa e escarnecem de quem não lhes subscrevem o conceito,
esquecem que o mesmo se deu com a maior parte das grandes descobertas que fazem
honra à Humanidade.

Questão 6:

A transcomunicação instrumental, o fenômeno de quase-morte e a terapia de vidas
passadas, que surgiram recentemente como novos campos de estudos, são fenômenos


que representam desafios para as concepções cientificas vigentes e tem suscitado
bastante interesse na Europa e nos Estados Unidos. Dentro da filosofia da ciência, qual
seria a abordagem adequada a ser seguida no seu estudo? Os Espíritas tem
individualmente participado do desenvolvimento dessas pesquisas, mas seria
recomendável um engajamento maior das instituições espíritas?

Haveria justificativa para algo como um comitê patrocinado por uma federação ou um
conselho espírita?

Resposta:

A análise do estatuto científico das três áreas de investigação mencionadas exigiria uma
atenção particularizada em cada caso, não cabendo no escopo desta entrevista. De um
modo geral, a abordagem científica de qualquer classe de fenômenos requer o
cumprimento de uma série de condições. Mais uma vez, não há espaço aqui para
enumerá-las.

Poderia destacar, no entanto, que o desenvolvimento de uma disciplina científica
pressupõe não apenas a observação rigorosa dos fatos, mas principalmente a formulação
de teorias logicamente consistentes, abrangentes, coerentes, simples e integradas às
teorias estabelecidas de domínios conexos de fenômenos. Insisto nesse ponto porque a
falha metodológica mais comum nas linhas de investigação que têm pretendido, sem
sucesso, suplantar o Espiritismo em nome da cientificidade é exatamente a desatenção
ao aspecto teórico. Aliás, como já indiquei em alguns dos artigos mencionados, isso
parece ser uma herança indesejável das concepções antigas de ciência, de cunho
positivista.

Muitas coisas que se têm visto com relação às aludidas abordagens parecem
indicar que as falhas de concepção científica que caracterizaram a metapsíquica e
a parapsicologia não foram definitivamente superadas. Não quero, evidentemente,
generalizar; mas que há um risco potencial aqui, há. Seria sensato que os investigadores
interessados nesses fatos, ou alegados fatos, desenvolvessem seus estudos a partir do
fértil e seguro programa científico de pesquisa espírita, pois que nunca se apontaram
razões ponderáveis para a sua substituição. Ao invés disso, avançam-se insinuações
explícitas ou implícitas de que serão essas e outras linhas de pesquisa assemelhadas que
finalmente colocarão o estudo do espírito na rota da ciência ...

Quanto ao engajamento de instituições espíritas, com a constituição de comissões, não
me parece recomendável, não apenas em vista das reservas expressas acima, mas
também porque tal prática não mais condiz com a ciência, devendo ser deixada para
partidos políticos, administradores e seitas hieraquizadas. Na ciência, e portanto no
Espiritismo, a regra do jogo é o livre-exame, o intercâmbio de idéias, a sujeição de
todas as propostas à mais vigorosa crítica. Que cada um, pois, investigue o que achar
melhor, já que todo fato tem uma certa importância para o nosso conhecimento do
mundo; previna-se, no entanto, de assumir certas teses filosóficas sobre a cientificidade
desse ou daquele método, dessa ou daquela disciplina, sem os necessários estudos
profissionais.


Questão 7:

Alguns partidários do Espiritismo "não-religioso" ou "laico" argumentam que a ênfase
religiosa tem prejudicado os aspectos científicos da doutrina. Que a pesquisa espírita
tem sido relegada a segundo plano e praticamente inexiste. O que caracterizaria uma
pesquisa científica espírita? Seria um ramo separado da ciência ou uma postura
diferenciada dentro dos ramos atuais? O que poderia ser feito para incentivar o
desenvolvimento dessa pesquisa?

Resposta:

Na perspectiva do Espiritismo, resumida na resposta à Questão 3, a genuína religião
está na busca e cultivo de princípios morais capazes de nos colocar em harmonia
com o plano da Criação, transformando-nos gradualmente em seres felizes que
espalham felicidade ao seu redor.

Assim entendida, a religião integra-se naturalmente à ciência espírita, pois que é esta
que determina as conseqüências globais das ações humanas a curto e longo prazos,
formando a base experimental sobre a qual a razão operará para identificar os preceitos
de conduta que nos aproximem da felicidade. Ver, portanto, antagonismos ou tensões
quaisquer entre a religião e a ciência espíritas constitui evidência de pouco estudo e
pouca reflexão sobre a verdadeira índole do Espiritismo.

Infelizmente, o despreparo e os atavismos de muitos indivíduos que colaboram de boa
vontade nas fileiras espíritas fazem com que certas práticas pouco condizentes com a
pureza doutrinária se implantem em diversas instituições, e acabem mesmo divulgadas
em palestras, livros e periódicos ditos espíritas. Quem compreende essa situação deve
trabalhar para modificá-la. Mas a via para isso é a do esclarecimento, do estudo, do
convencimento pela razão e pelo amor, jamais os anátemas ou, o que é ainda pior, o
repúdio daquilo que se supõe ser o "aspecto religioso do Espiritismo".

É provável, aliás, que essa "rejeição do bebê com a água do banho" tenha pesado muito
no declínio e virtual extinção do movimento espírita em países europeus a partir,
digamos, do início do século.

Não se pode mutilar um corpo doutrinário integrado, como o é o Espiritismo, sem arcar
com efeitos drásticos, seja qual for a área em que o tenhamos atingido. Assim, num
sentido oposto ao considerado na pergunta, pode-se querer desprezar as bases científicas
do Espiritismo, e as conseqüências não seriam melhores.

Quanto à pesquisa científica espírita, acredito que sua natureza já tenha sido salientada
nas respostas precedentes. No artigo "A ciência espírita" abordo explicitamente o tema,
ainda que de forma breve, lembrando que constitui equívoco imaginar que essa pesquisa
deva dar-se nas mesmas instituições e com os mesmos métodos e pressupostos teóricos
que os das ciências da matéria. O reconhecimento desse ponto seria de suma
importância hoje em dia, quando se nota uma inclinação de muitos espíritas na direção
de linhas de pesquisa científica e filosoficamente primitivas relativamente à do genuíno
Espiritismo.

A afirmação de que não se têm realizado pesquisas científicas espíritas parece resultar


de uma compreensão deficiente do que sejam a ciência e o Espiritismo. Após as
fundamentais realizações de Allan Kardec, que instituíram o paradigma científico
espírita, outros investigadores encarnados e desencarnados prosseguiram em sua
extensão, não necessariamente em laboratórios acadêmicos, porque não é aí que os
fenômenos relativos ao espírito podem mais apropriadamente ser estudados, mas nos
centros espíritas, no recesso dos lares, no mundo espiritual, e onde quer que se possa
observar e refletir sobre a face espiritual do ser humano. Gosto de dar como exemplos
de pesquisadores espíritas André Luiz, Philomeno de Miranda e Yvonne Pereira,
dentre tantos outros, que, num trabalho silencioso e fecundo, enriqueceram o acervo de
informações e reflexões sobre os fenômenos anímicos e mediúnicos, as condições da
vida no plano espiritual, a lei de causa e efeito, etc. Quem ler suas obras apenas
superficialmente, ou com inadequado senso científico, tenderá a ver nelas apenas
romances, historietas e narrações literárias, quando na realidade seu objetivo primordial
é bem outro.

O incentivo e incremento das pesquisas científicas espíritas deve, pois, principiar com a
identificação e o abandono de abordagens incipientes ou pseudo-científicas, prosseguir
com a adesão às linhas de pesquisa paradigmáticas da doutrina, e concluir com o estudo
filosófico das conseqüências da ciência espírita para a questão de nosso acerto com as
normas morais evangélicas, sem o que essa ciência se tornará estéril.

Campinas, maio de 1998.

http://www.geae.inf.br/


... Silvio Seno Chibeni

> A Errata do Livro dos Espíritos

Artigos


Conforme registra a edição histórica de Le Livre des Esprits publicada pela FEB em
1998 (ver resenha em Mundo Espírita, fevereiro de 2002, p. 5), a 5a edição francesa, de
1861, trazia uma errata, com extensão de uma página. A errata apareceu somente nessa


edição; na edição da FEB a errata foi reproduzida na posição original, no final da obra.
Por sua importância histórica, daremos em seguida sua tradução integral. Os números
de página referem-se à edição francesa (o exame comparado da errata com o texto da 2a
edição, reproduzido fotograficamente pela FEB, indica que a 5a edição manteve a
paginação da 2a). Para facilitar a localização em outras edições, damos, quando
necessário, o item ou sub-item, entre colchetes. Teceremos depois alguns comentários
sobre as alterações indicadas por Kardec.

ERRATA

Página 73, no final da nota [n° 165], acrescentar: Na morte natural, a perturbação
começa antes da cessação da vida orgânica, perdendo o Espírito toda consciência de si
no momento da morte. Segue-se daí que ele jamais testemunha o último suspiro. As
convulsões da agonia são efeitos nervosos que quase nunca o afetam. Dizemos quase,
porque em certos casos tais sofrimentos lhe podem ser impostos como expiação.

Página 109, n° 226, no final da nota, acrescentar: Entre os Espíritos não encarnados,
alguns há que têm missões a cumprir e ocupações ativas, gozando de relativa felicidade,
enquanto que outros vagueiam na incerteza. São estes últimos os errantes, na verdadeira
acepção do termo, constituindo, de fato, aquilo que se designa pela expressão almas a
penar. Os primeiros nem sempre se consideram errantes, pois fazem uma distinção entre
a sua situação e a dos outros (1015).

Página 137, n° 285 [a], acrescentar: Quando necessário, podem igualmente se
reconhecerem pela aparência que tinham quando vivos. Ao Espírito recém-chegado, e
ainda pouco familiarizado com seu novo estado, os Espíritos que o vêm receber
apresentam-se sob uma forma que lhe permite reconhecê-los.

Página 191, n° 437, acrescentar: ver o n° 257, "Ensaio teórico da sensação nos
Espíritos".

Página 210, n° 479, acrescentar: ver o Livro dos Médiuns, cap. "Da Obsessão".

Página 252, linha 2 [n° 586, final da resposta], suprimir: e intuitiva.

Dessa errata, apenas o último item foi incorporado às edições posteriores, embora
somente a partir da 10a edição. Apresenta-se aqui uma série de dúvidas de natureza
histórica, cujo esclarecimento requer dados não disponíveis. Mesmo assim é útil
enumerá-las, analisando-as como pudermos, para que saibamos doravante o que fazer
com a errata em nossos estudos espíritas.

Por que a errata apareceu somente na 5a edição? Por que, com a apontada exceção, não
foi incorporada ao texto das edições subseqüentes? Pode ser que razões econômicas
tenham se anteposto a isso, pois com o sistema de impressão da época qualquer
alteração que exigisse repaginação implicaria refazer todo o texto daquele ponto em
diante. Inspecionando graficamente o original, no entanto, nota-se que isso ocorreria
apenas com os itens 226 e 285, as demais alterações sendo incorporáveis sem
repaginação. Se uma alteração foi incorporada, por que não as outras três? Pode-se
supor que aqui Kardec levou em conta a natureza das alterações: a do item 586 é


imperiosa, pois configura um erro – certamente um lapso, e não alguma falha de
observação ou raciocínio –, enquanto que as demais são em certa medida opcionais.
Essa suposição é bem plausível no caso dos itens 437 e 479, que são meras indicações
de referências cruzadas. Quanto à outra mudança que não requereria repaginação, a do
item 165, trata-se de um esclarecimento bastante útil acerca do processo de
desencarnação. Teria Kardec julgado que ainda faltava apoio mais sólido ao que
afirmou na errata? De qualquer forma, à luz do que sabemos hoje não parece haver
falhas nas afirmações feitas.
São igualmente interessantes as alterações referentes aos itens 226 e 285, cuja
incorporação no texto apresentaria dificuldades gráficas. A última complementa de
forma muito relevante a resposta inicial, um tanto obscura, referente ao modo de
reconhecimento dos Espíritos. Essa complementação foi corroborada plenamente pelos
estudos espíritas ulteriores, especialmente pelos relatos mediúnicos detalhados de que
dispomos hoje, como os de André Luiz, Philomeno de Miranda, Yvonne Pereira, etc.

Finalmente, quanto ao item 226, nota-se que Kardec procurou, na errata, restabelecer o
sentido próprio da expressão Espírito errante. Ora, com o desaparecimento da errata e a
não incorporação dessa correção às edições subseqüentes, esse objetivo acabou não
sendo alcançado. Cristalizou-se em toda a literatura espírita o significado que Kardec
reconheceu como impróprio, segundo o qual Espírito errante é sinônimo de Espírito
desencarnado, independentemente de sua condição.

Tentemos agora, para concluir, avaliar a errata de forma geral, para nortear nossos
estudos daqui para diante, e sugerir diretrizes aos editores da obra fundamental do
Espiritismo.

É inegável que o único erro propriamente dito é o do item 586, que foi corrigido por
Kardec, embora tardiamente. Dele estão isentas as edições correntes em francês,
português, inglês e esperanto a que tivemos acesso; devem, pois, ter se baseado em
edições posteriores à 10a.

As referências cruzadas, do penúltimo e antepenúltimo item da errata, são
evidentemente úteis, devendo pois ser incorporadas às novas edições. O mesmo vale,
com mais forte razão, para os esclarecimentos sobre a perturbação espiritual
conseqüente à desencarnação e sobre a aparência dos Espíritos desencarnados.

Quanto ao adjetivo errante, é claro que a reversão do uso corrente no meio espírita é
difícil, quando não impossível, ao menos a curto prazo. Isso não impede, porém, que a
observação de Kardec seja inserida nas edições futuras.

Além disso, seria interessante que os escritores e expositores espíritas levassem em
conta esse ponto, o que gradualmente induziria ao restabelecimento do sentido
etimológico do termo.

Resta a questão editorial: as novas edições devem reproduzir a errata no final ou
incorporar as alterações ao longo do próprio texto? Não temos dúvida de que a segunda
opção é preferível. Primeiro, a errata está disponível para os pesquisadores em sua
versão original, na edição histórica da FEB. Depois, e mais importante, o leitor espírita
médio de hoje certamente terá mais facilidade para perceber as mudanças se elas
estiverem no próprio texto. É claro que neste caso deve haver notas de rodapé indicando


precisamente cada alteração, com uma referência histórica geral à errata numa
introdução ou apêndice do editor.

A descoberta e publicação da errata foi uma contribuição relevante para os estudos
referentes ao Livro dos Espíritos, e portanto ao Espiritismo de um modo geral, não
devendo, por isso, ficar confinada ao restrito círculo daqueles que puderam ler o
importante volume editado pela FEB.

Texto publicado em Mundo Espírita, setembro/2002, p. 10.


Silvio Seno Chibeni
> O Espiritismo em seu tríplice aspecto: científico, filosófico e religioso
Artigos



Resumo:

Tornou-se comum no meio espírita afirmar-se que o Espiritismo é ciência, filosofia e
religião, ou tem um "tríplice aspecto", englobando as três áreas. Essa caracterização
não pode ser encontrada exatamente nesses termos na obra de Kardec. É, porém, correta
e, em sua essência, está presente no pensamento do criador do Espiritismo e de seus
mais lúcidos continuadores. No entanto, a questão tem dado lugar a mal-entendidos, por
causa da compreensão incorreta ou imprecisa dos conceitos de ciência, filosofia e
religião, bem como da verdadeira natureza do Espiritismo. Este trabalho procura
contribuir para esclarecer o assunto, com o apoio da filosofia e dos próprios textos de
Kardec.

1. Introdução
Ao refundir o material da primeira edição de O Livro dos Espíritos (1857), preparando
a segunda edição (1860), Kardec achou por bem inserir, já na primeira linha da livro, na
folha de rosto, a seguinte frase: "Filosofia Espiritualista". Kardec quis, com ela,
fornecer ao leitor uma caracterização sucinta do caráter do Espiritismo, cujas bases a
obra assentava. Essa caracterização é depois detalhada de modo implícito ou explícito
no resto do livro e no restante de sua produção espírita. Uma das primeiras
especializações do conceito expresso na frase é introduzida já na Introdução do mesmo


livro, item I, no qual Kardec traça a distinção entre espiritualismo e Espiritismo. A
partir desse ponto, tratará sempre (salvo para efeito de comparação) do conceito mais
específico de filosofia espírita.

O destaque dado por Kardec a esse conceito indica que é por ele que devemos começar
a análise do chamado "tríplice aspecto" do Espiritismo. Essa caracterização não pode
ser encontrada exatamente nesses termos na obra de Kardec. Não nos ocuparemos aqui
da questão histórica da origem dessa maneira tão disseminada de compreender o
Espiritismo. Nosso objetivo neste artigo é estabelecer que ela é, em sua essência,
correta, e que está presente no pensamento do criador do Espiritismo. Além disso,
pretendemos esclarecer alguns mal-entendidos a que a caracterização tem dado lugar,
por causa da compreensão incorreta, ou imprecisa dos conceitos de ciência, filosofia e
religião, bem como da verdadeira natureza do Espiritismo.

2. O que é filosofia?
Antes de tentarmos entender o que Kardec entendia por 'filosofia espírita', e por que
ele priorizou essa noção ao dar uma fórmula sucinta do Espiritismo, é importante
compreendermos a noção geral de filosofia. É claro que se trata de um assunto
complexo, que requereria estudos especializados para ser abordado de forma
satisfatória. O que exporemos aqui é apenas um esboço, mas que, tanto quanto
julgamos, é correto e útil para investigações ulteriores.

Como quase todas as palavras, filosofia possui diversos significados. Popularmente, o
termo tem hoje três acepções principais: 1) certos valores ou princípios de vida, muito
gerais e variáveis segundo os indivíduos ou grupos sociais; 2) certos métodos, regras e
propósitos de um empreendimento qualquer; e 3) certas doutrinas esotéricas ou
místicas. Nenhum desses três significados corresponde à noção original, acadêmica, de
filosofia, e que foi usada por Kardec em quase todas as ocasiões em que falou no
aspecto filosófico do Espiritismo.

Não obstante aparentemente simples, as questões do que é e para que serve a filosofia –
no sentido acadêmico do termo – estão entre as que mais dificuldades e divergências
causam entre os próprios filósofos profissionais. Esse mero fato, porém, já indica algo
importante sobre a natureza da filosofia: o questionamento sistemático, incessante e
profundo de tudo o que se afirma.

As origens da filosofia remontam à Grécia Antiga. Pela própria etimologia do termo,
notamos que a filosofia era entendida como o amor do saber, ou a busca da verdade.
Naquela época e, em certa medida, por muitos séculos da era cristã, a filosofia
englobava todos os ramos do conhecimento puro (em contraste com as artes e ofícios, o
conhecimento "aplicado"). Gradualmente, alguns desses ramos foram se tornando
autônomos, como a matemática, a astronomia, a história, a biologia, a física. Mais ou
menos a partir do século XVII, alguns deles começam a ser agrupados sob outra
denominação: a de ciência.

Hoje em dia costuma-se considerar pertencentes ao tronco principal da filosofia as
disciplinas da estética, lógica, ética, epistemologia e metafísica. De forma muito
simplificada, pode-se dizer que a estética examina abstratamente a beleza e a feiúra; a
lógica investiga o encadeamento formal das proposições; a ética estuda questões


relativas ao bem e ao mal, aos direitos e deveres; a epistemologia ocupa-se do
conhecimento, suas origens, fundamentos e limites, enquanto que a metafísica procura
especular sobre a natureza última das coisas. Fora esses ramos fundamentais, há ainda
diversos outros que resultam de suas interconexões e especializações, como a teologia,
a filosofia política, a filosofia da linguagem, a filosofia da ciência.

Uma das principais correntes filosóficas contemporâneas propõe que a filosofia não
deve ser entendida como a formulação ou defesa de teses ou conjuntos de teses sobre o
que quer que seja, mas simplesmente como o desenvolvimento de métodos de análise
crítica e sistemática, a serem aplicados especialmente ao chamado conhecimento
científico. Nessa perspectiva, o filósofo seria alguém que tenta explicitar os conceitos,
os pressupostos, a estrutura lógica e as implicações das teorias científicas, políticas,
religiosas, etc. Semelhante atitude crítica – que não se confunde com uma crítica
leviana, estouvada ou interesseira – seria a essência da filosofia, o elemento comum que
permearia a grande variedade de linhas filosóficas existentes.

Embora quando se olhe para as abstrações e sutilezas tipicamente discutidas pelos
filósofos se possa concluir que a filosofia para nada serve, a referida proposta talvez
permita encontrar, num plano afastado do das necessidades materiais cotidianas, uma
finalidade útil para a filosofia: a elucidação das bases, métodos e implicações das
ciências e de outras disciplinas intelectuais, contribuindo assim para a identificação de
fundamentos falsos ou inseguros, de falácias argumentativas, de dogmas encobertos.

Ensinando, ou pelo menos convidando, o homem a refletir criticamente sobre tudo o
que se afirma ou faz em todos os setores, a filosofia de alguma forma auxilia o
aprimoramento de seu intelecto e, talvez, de seus sentimentos, que o diferenciam de um
mero ser que come, bebe, dorme e se reproduz.

3. A filosofia espírita
Passando agora à noção de filosofia espírita, uma observação preliminar importante é
que no tempo de Kardec o sentido original, amplo, da palavra 'filosofia' ainda
prevalecia, em boa medida. Assim, ao dizer que o Espiritismo era uma filosofia, Kardec
não estava excluindo seu caráter científico, muito pelo contrário. Além disso, como a
ética ou moral é uma das áreas da filosofia – e isso até hoje –, aquela designação
também não excluía o aspecto moral do Espiritismo, que é a essência da chamada
religião espírita. Detalharemos esses pontos nas seções seguintes deste trabalho.

Há referências à filosofia, ou à filosofia espírita, em todas as obras de Kardec. O
significado preciso das expressões varia, é claro, segundo o contexto. De um modo
geral, podemos identificar duas acepções principais da expressão, uma ampla e outra
restrita.

Na acepção ampla, Kardec entende pela expressão alguma teoria, conjunto de teses, ou
atividade intelectual que se caracterizam pela racionalidade, e se inserem portanto na
tradição da filosofia acadêmica de cultivo do saber pelo saber. Nesse sentido a filosofia
engloba a própria ciência e a moral, como já apontamos. Há dezenas de passagens nas
obras de Kardec em que a expressão é usada nessa acepção. A primeira é, naturalmente,
a já mencionada frase da folha de rosto.Vejamos algumas outras, restringindo-nos, por
falta de espaço, ao Livro dos Espíritos (os itálicos do termo 'filosofia' são nossos).[2]


LE, Prolegômenos: "Este livro é o repositório de seus ensinos. Foi escrito por ordem e
mediante ditado de Espíritos superiores, para estabelecer os fundamentos de uma
filosofia racional, isenta dos preconceitos do espírito de sistema."

LE, Prefácio da 2a edição (que não é mais reproduzido nas edições atuais): "O ensino
relativo às manifestações dos Espíritos, propriamente ditas, bem como aos médiuns,
forma uma parte distinta da filosofia espírita, podendo constituir objeto de um estudo
especial" [a ser desenvolvido no Livro dos Médiuns].

LE, Conclusão, item V: "Três períodos distintos apresenta o desenvolvimento dessas
idéias: primeiro, o da curiosidade, que a singularidade dos fenômenos produzidos
desperta; segundo, o do raciocínio e da filosofia; terceiro, o da aplicação e das
conseqüências. O período da curiosidade passou; a curiosidade dura pouco. Uma vez
satisfeita, muda de objeto. O mesmo não acontece com aquilo que se dirige à razão e
evoca reflexões sérias. Começou o segundo período, o terceiro virá inevitavelmente."

LE, Conclusão, item VII: "O Espiritismo se apresenta sob três aspectos diferentes: o
fato das manifestações, os princípios de filosofia e de moral que delas decorrem e a
aplicação desses princípios. Daí, três classes, ou, antes, três graus de adeptos: [...]" [3]

Na acepção restrita da expressão 'filosofia espírita', Kardec refere-se a tópicos
clássicos tratados pelos filósofos, como a existência e atributos de Deus, a distinção
alma-corpo, as idéias inatas, o livre-arbítrio, a objetividade dos critérios morais, etc. Na
maior parte das vezes em que ele usa o termo 'filosofia' nesse sentido mais específico,
quer ressaltar um ponto de central importância: a capacidade que o Espiritismo tem de
tratar com segurança, clareza e plausibilidade alguns dos mais espinhosos e desafiadores
problemas filosóficos. Em alguns casos o ponto é mencionado genericamente; em
outros ele considera explicitamente esses problemas. Vejamos alguns exemplos,
começando com alguns trechos do primeiro tipo (destacamos o termo 'filosofia').

LE, Conclusão, item 1: "Pois bem! Sabei, vós que não credes senão no que pertence ao
mundo material, que dessa mesa, que gira e vos faz sorrir desdenhosamente, saiu toda
uma ciência, assim como a solução dos problemas que nenhuma filosofia pudera ainda
resolver."

LE, Conclusão, item 6: "Mesmo quem não testemunhou nenhum fenômeno material
relativo às manifestações dos Espíritos diz para si próprio: à parte esses fenômenos, há a
filosofia, que me explica o que nenhuma outra havia explicado. Nela encontro, por
meio unicamente do raciocínio, uma solução racional para os problemas que no mais
alto grau interessam ao meu futuro. Ela me dá calma, segurança, confiança; livra-me do
tormento da incerteza."

QE, Preâmbulo: No terceiro capítulo, publicamos um resumo de O Livro dos Espíritos,
com a solução, pela doutrina espírita, de certo número de problemas do mais alto
interesse, de ordem psicológica, moral e filosófica, que diariamente são propostos, e aos
quais nenhuma filosofia deu ainda resposta satisfatória. [...] Procurem resolvê-los por
qualquer outra teoria, sem a chave que nos fornece o Espiritismo; comparem suas
respostas com as dadas por este, e digam quais são as mais lógicas, quais as que melhor
satisfazem à razão."


Vejamos agora algumas passagens com referências a problemas filosóficos
tradicionais, que têm solução adequada pelo Espiritismo. Indicamos sumariamente
entre colchetes o problema em questão.

LE, Introdução, item 17 [a continuidade evolutiva na criação]: "A razão nos diz que
entre o homem e Deus outros elos necessariamente haverá, como disse aos astrônomos
que, entre os mundos conhecidos, outros haveria, desconhecidos. Que filosofia já
preencheu esta lacuna? O Espiritismo no-la mostra preenchida pelos seres de todas as
ordens do mundo invisível e estes seres não são mais do que os Espíritos dos homens,
nos diferentes graus que levam à perfeição. Tudo então se liga, tudo se encadeia, desde

o alfa até o ômega."
LE, item 222 [a desigualdade das aptidões face à justiça divina]: "Qual a filosofia ou a
teosofia capaz de resolver estes problemas? É fora de dúvida que, ou as almas são iguais
ao nascerem, ou são desiguais. Se são iguais, por que, entre elas, tão grande diversidade
de aptidões?"

LM, par. 35, n. 2 [o futuro do homem]: "O Livro dos Espíritos. Contém a doutrina
completa, como a ditaram os próprios Espíritos, com toda a sua filosofia e todas as suas
conseqüências morais. É a revelação do destino do homem, a iniciação no conhecimento
da natureza dos Espíritos e nos mistérios da vida de além-túmulo."

ESE, cap. 5, item 6 [a dor face à justiça divina]: "Que dizer, enfim, dessas crianças que
morrem em tenra idade e da vida só conheceram sofrimentos? Problemas são esses que
ainda nenhuma filosofia pôde resolver, anomalias que nenhuma religião pôde justificar
e que seriam a negação da bondade, da justiça e da providência de Deus, se se
verificasse a hipótese de ser criada a alma ao mesmo tempo que o corpo e de estar a sua
sorte irrevogavelmente determinada após a permanência de alguns instantes na Terra."

CI, parte 1, cap. 1, item 13 [a questão do materialismo e do panteísmo]: Apresente-selhe,
porém, um futuro condicionalmente lógico, digno em tudo da grandeza, da justiça e
da infinita bondade de Deus, e ele repudiará o materialismo e o panteísmo, cujo vácuo
sente em seu foro intimo, e que aceitará à falta de melhor crença. O Espiritismo dá coisa
melhor; eis por que é acolhido pressurosamente por todos os atormentados da dúvida, os
que não encontram nem nas crenças nem nas filosofias vulgares o que procuram. O
Espiritismo tem por si a lógica do raciocínio e a sanção dos fatos, e é por isso que
inutilmente o têm combatido."

G, cap. 4, item 11 [a origem das faculdades espirituais do homem]: "Mas a história do
homem, considerado como ser espiritual, se prende a uma ordem especial de idéias, que
não são do domínio da Ciência propriamente dita e das quais, por este motivo, não tem
ela feito objeto de suas investigações. A Filosofia, a cujas atribuições pertence, de modo
mais particular, esse gênero de estudos, apenas há formulado, sobre o ponto em questão,
sistemas contraditórios, que vão desde a mais pura espiritualidade, até a negação do
principio espiritual e mesmo de Deus, sem outras bases, afora as idéias pessoais de seus
autores. Tem, pois, deixado sem decisão o assunto, por falta de verificação suficiente."

G, cap. 4, item 12 [origem e destino do homem]: "Esta questão, no entanto, é a mais
importante para o homem, por isso que envolve o problema do seu passado e do seu


futuro. A do mundo material apenas indiretamente o afeta. O que lhe importa saber,
antes de tudo, é donde ele veio e para onde vai, se já viveu e se ainda viverá, qual a
sorte que lhe está reservada. Sobre todos esses pontos, a Ciência se conserva muda. A
Filosofia apenas emite opiniões que concluem em sentido diametralmente oposto, mas
que, pelo menos, permitem se discuta, o que faz com que muitas pessoas se lhe
coloquem do lado, de preferência a seguirem a religião, que não discute.

OP, pp. 86-7 [o problema mente-corpo]: Onde acaba o poder da alma sobre os corpos?
Qual a parte dessa força inteligente nos fenômenos do Magnetismo? Qual a do
organismo? Aí estão questões de muito interesse, questões graves para a Filosofia,
como para a Medicina. [...] Tínhamos, como se vê, grandes motivos para avançar que o
estudo dos fenômenos magnéticos guarda fortes relações com a filosofia e a psicologia.

QE, pp. 169-70, 189 [a imortalidade da alma] As manifestações não são, pois,
destinadas a servir aos interesses materiais; sua utilidade está nas conseqüências morais
que delas dimanam; não tivessem, elas, porém, como resultado senão fazer conhecer
uma nova lei da Natureza, demonstrar materialmente a existência da alma e sua
imortalidade, e já isso seria muito, porque era largo caminho novo aberto à Filosofia.
[...] Nas lições de filosofia clássica, os professores ensinam a existência da alma e seus
atributos, segundo as diversas escolas, mas sem apresentar provas materiais. [...]
Quando um cientista emite uma hipótese, sobre um ponto de ciência, procura com
empenho e colhe com alegria tudo o que possa demonstrar a veracidade dessa hipótese;
como, pois, um professor de filosofia, cujo dever é provar a seus discípulos que eles têm
uma alma, despreza os meios de lhes fornecer uma patente demonstração?

Esses trechos ilustram bem a afirmação de Kardec em O que é o Espiritismo (diálogo
com o cético, p. 65) de que "O Espiritismo prende-se a todos os ramos da Filosofia
[...]". E note-se que tal afirmação é confirmada não só por passagens como as citadas,
em que o termo 'filosofia' aparece explicitamente (e há ainda muitas outras em que isso
ocorre), mas também pelos estudos efetivamente desenvolvidos por Kardec acerca de
numerosos outros tópicos filosóficos.

4. O que é ciência? [4]
Como já ressaltamos, aquilo que hoje chamamos ciência derivou da filosofia, tal qual
entendida nos primeiros tempos de nossa cultura ocidental. É importante, pois,
identificar os traços que servem para distinguir o conhecimento científico de outros
tipos de conhecimento. Essa é uma das questões de que se ocupa um dos ramos
especiais da filosofia mencionados anteriormente, a filosofia da ciência.

Notadamente na segunda metade do século XX, progressos significativos foram
realizados nessa área. Reconhece-se hoje entre os especialistas que uma certa
concepção de ciência cujas origens remontam à época do nascimento da ciência
moderna, no século XVII, e que é comum até hoje entre o público leigo, padece de
sérias inadequações. Ela não resiste nem a variados argumentos filosóficos levantados
mais recentemente, nem ao confronto com a descrição da gênese, evolução e estrutura
das disciplinas científicas maduras, ou seja, da física, da química e da biologia. A versão
mais bem articulada dessa concepção é a doutrina filosófica conhecida como
positivismo lógico, que teve seu apogeu nas décadas de 1920 e 1930.


Grosso modo, essa visão comum de ciência pressupõe que uma ciência inicia seu
desenvolvimento com um período longo de coleta de dados experimentais (dados
empíricos, na linguagem filosófica); nessa etapa não compareceriam hipóteses teóricas
de nenhuma espécie. Uma vez de posse de um conjunto suficientemente grande e
variado de dados, os cientistas aplicariam então certos métodos supostamente seguros e
neutros para obter as teorias científicas, que seriam descrições objetivas da realidade
investigada.

O exame cuidadoso da história da ciência e os argumentos filosóficos desenvolvidos
pelos filósofos da ciência contemporâneos mostraram que essa caracterização da
ciência não somente não corresponde ao que de fato ocorreu e continua ocorrendo com
as ciências bem estabelecidas, como também pressupõe procedimentos impossíveis de
serem levados a cabo. Observação e teoria, experimento e hipótese nascem e se
desenvolvem juntos, num complexo processo simbiótico de suporte recíproco. A
acumulação prévia de dados neutros, ainda que fosse possível, seria inútil. Nenhum
conjunto de dados leva de modo lógico a leis científicas; a imaginação criadora do
homem desempenha papel essencial na gênese das teorias científicas.

A imagem de ciência a que os filósofos da ciência chegaram a partir das pesquisas
recentes indica que uma ciência autêntica consiste, de modo simplificado, de um núcleo
teórico principal, formado por leis fundamentais, introduzidas a título de
hipóteses. Esse núcleo é circundado por hipóteses auxiliares, que o complementam e
efetuam sua conexão com os dados empíricos. Essa estrutura teórica mais ou menos
hierarquizada faz-se acompanhar de determinadas regras, nem sempre explícitas, que
norteiam o seu desenvolvimento. De um lado, há a regra "negativa", que estipula que
nesse desenvolvimento os princípios do núcleo teórico devem, o quanto possível, ser
mantidos inalterados. Eventuais discrepâncias entre as previsões da teoria e as
observações experimentais devem ser resolvidas por ajustes nas partes menos centrais
da malha teórica, constituídas pelas hipóteses auxiliares. Regras "positivas" sugerem ao
cientista como, quando e onde essas correções e complementações devem ser efetuadas.
Essa é uma descrição sucinta e simplificada daquilo que o filósofo da ciência
contemporâneo Imre Lakatos chamou de programa científico de pesquisa. [5]

A exigência fundamental de um programa científico de pesquisa é que a estrutura
teórica como um todo forneça previsões empíricas corretas, ou seja dê conta dos fatos.
Outras características importantes de qualquer boa teoria científica são: a consistência: a
teoria não pode envolver contradições; a coerência: os princípios da teoria devem
apoiar-se mutuamente; a abrangência: a teoria deve explicar, ao menos em linhas gerais,
todos os principais fenômenos de seu domínio; deve ainda exibir unidade e
simplicidade, ou seja, a explicação que fornecem dos diversos fenômenos deve decorrer
de maneira natural e simples de um corpo de leis teóricas integrado e tão reduzido
quanto possível. Há, por fim, o vínculo externo de não conflitar com as demais teorias
científicas bem confirmadas que tratem de domínios de fenômenos complementares.

Tendo fornecido essa noção geral, bastante simplificada e incompleta, da concepção
contemporânea de ciência, passemos à questão da ciência espírita.

5. A ciência espírita

A inspeção meticulosa e isenta das origens, estrutura e desenvolvimento do Espiritismo
revela que ele possui todos requisitos de uma ciência genuína, segundo as
caracterizações da filosofia da ciência contemporânea, como a esboçada na seção
precedente. Em artigo anterior, "A excelência metodológica do Espiritismo",
procuramos mostrar, além disso, que Allan Kardec antecipou-se às conquistas recentes
da filosofia da ciência, e compreendeu muito bem a questão. Sua visão de ciência,
exposta explícita e implicitamente em seus escritos, corresponde efetivamente à visão
que os filósofos da ciência têm hoje. Isso teve a conseqüência feliz de que, ao travar
contato com uma nova ordem de fenômenos, Kardec empregou em sua investigação
métodos e critérios corretos, o que lhe possibilitou a implantação de uma verdadeira
ciência do espírito.

O corpo teórico fundamental do Espiritismo encontra-se delineado em O Livro dos
Espíritos. O exame dessa obra revela a adequação da teoria com os fatos, sua
consistência e seu alto grau de coesão e simplicidade, bem como a amplitude de seu
escopo. Ademais, ali estão implicitamente presentes as diretrizes que nortearam os
desenvolvimentos ulteriores das investigações espíritas. Muitos desses
desenvolvimentos foram, como se sabe, implementados pelo próprio Kardec, e se
acham expostos nas demais obras que escreveu. Consoante com a natureza de uma
verdadeira ciência, o progresso experimental e teórico do Espiritismo prossegue até
hoje, pelos esforços de pesquisadores encarnados e desencarnados.

Em contraste com os fundamentos científicos sólidos lançados por Kardec no estudo do
elemento espiritual do homem, as linhas de pesquisa que surgiram mais tarde, com a
pretensão de competir com o Espiritismo nessa área, não alcançaram o mesmo sucesso.
Deve-se notar, a tal respeito, que elas tiveram início justamente na época em que o
positivismo lógico fornecia os parâmetros segundo os quais uma atividade
genuinamente científica se desenvolveria. Ora, tais parâmetros sendo equivocados,
como os filósofos perceberam depois, as linhas de pesquisa nascentes, que alimentavam
a pretensão à cientificidade, acabaram por assimilar uma visão de ciência irreal. Isso
levou a que adotassem métodos inadequados aos fins a que se propuseram, bloqueandolhes
as possibilidades de contribuir significativamente para o avanço de nosso
conhecimento no domínio do espírito.

Lamentavelmente, a adoção de uma concepção falha de ciência levou os pesquisadores
dessas linhas de investigação a não somente empenharem de modo infrutífero os seus
esforços, como também a desprezarem, ou mesmo repelirem, as conquistas e métodos
de uma legítima ciência do espírito, o Espiritismo. Uma análise mais detalhada desse
ponto pode ser encontrada na seção 4 de "A excelência metodológica do Espiritismo", e
não será reproduzida aqui.

6. A ciência espírita e as ciências acadêmicas
Contrariamente ao que alguns críticos mal informados acerca do Espiritismo e das
teorias científicas contemporâneas alegam, o Espiritismo não conflita com qualquer
uma das teorias científicas maduras, quer da física, quer da química ou da biologia. É de
crucial importância notar que embora o Espiritismo seja uma ciência, ele não se
confunde com tais ciências, do mesmo modo como elas não se confundem entre si.


Os domínios de fenômenos por elas tratados não coincidem, sendo antes
complementares.

Kardec compreendeu perfeitamente bem essa distinção, e chamou a atenção para ela em
diversos de seus textos, como por exemplo no item VII da Introdução do Livro dos
Espíritos. Ali argumentou com segurança que "o Espiritismo não é da alçada da
ciência", ou seja, das ciências acadêmicas. Por outro lado, no parágrafo 16 do primeiro
capítulo de A Gênese, enfatizou a referida complementaridade do Espiritismo e dessas
ciências, afirmando que "o Espiritismo e a ciência completam-se reciprocamente".[6]

A percepção desses pontos evita uma série de julgamentos e posturas equivocados, que
têm ameaçado o movimento espírita atual. Vêem-se, com efeito, pessoas que imaginam
que a ciência espírita consiste justamente naquelas linhas de investigação iniciadas
depois de Kardec, e cuja fragilidade científica é evidente, à luz de uma análise filosófica
cuidadosa. Outros pensam que a ciência espírita consiste de investigações do âmbito das
ciências acadêmicas, especialmente as que envolvam experimentos conduzidos com o
auxílio de aparelhagens complexas, de uso nos laboratórios de física, e dentro de
referenciais teórico-conceituais emprestados dessa ciência. Assume-se que é o uso
desses aparelhos e o emprego de terminologia técnica (aliás quase sempre não
compreendida por quem a usa dentro de tais contextos) que confere cientificidade às
investigações.

Dada a gravidade dos enganos envolvidos em semelhantes posições, vale a pena nos
determos um pouco mais sobre elas. Deve-se, além dos esclarecimentos gerais já
indicados, notar que o estabelecimento dos princípios básicos do Espiritismo prescinde
completamente do uso de qualquer aparelho e do recurso a qualquer teoria física. O
mais fundamental de tais princípios é o da existência do espírito, ou seja, da existência
de algo no homem que é a sede do pensamento e dos sentimentos e sobrevive à morte
corporal. Como enfatizou Kardec, a comprovação cabal desse princípio se dá mediante
os fenômenos a que denominou "de efeitos intelectuais", quais sejam a tiptologia, a
psicofonia e a psicografia. Quem quer que reflita com isenção sobre fenômenos dessa
ordem não terá dificuldade em reconhecer que atestam a existência do espírito de modo
inequívoco.

Nessa avaliação, é importante notar a diferença que existe entre esse princípio básico do
Espiritismo e alguns dos princípios das teorias físicas e químicas contemporâneas, por
exemplo. Nestes últimos casos, o "grau teórico" (se assim nos podemos exprimir) é
muito maior, ou, em outros termos, os princípios estão muito mais distantes do nível
fenomenológico, ou seja, da observação empírica direta. O caminho que vai da
observação até o princípio teórico é bastante indireto, passando por uma série de teorias
auxiliares, necessárias, por exemplo, para tratar do funcionamento e interpretação dos
dados dos aparelhos envolvidos. Nessas circunstâncias, a segurança com que os
princípios podem ser afirmados fica evidentemente limitada; há em geral possibilidades
plausíveis de explicações dos mesmo fenômenos através de princípios teóricos
diferentes. E, de fato, a história da física e da química tem ilustrado a instabilidade de
suas teorias que avançam além do nível da percepção direta.

No caso do referido princípio espírita, bem como de vários outros dos princípios
básicos do Espiritismo, a situação é bastante diversa. Trata-se de princípios pertencentes
à classe de princípios a que os filósofos denominam "fenomenológicos", que estão na


base do edifício do conhecimento, dado o seu alto grau de certeza. Proposições dessa
classe são, por exemplo, as de que o fogo queima e a cicuta envenena.

Notemos que a inferência espírita diante de um fenômeno de efeitos intelectuais – a
saber, que são causados por uma inteligência humana desencarnada – não difere em
nada das inferências que fazemos a partir dos fenômenos ordinários. Quando, por
exemplo, o carteiro traz à nossa casa um papel no qual lemos certas frases, não nos
acudirá à cabeça a idéia de que elas não foram escritas por um determinado amigo, por
exemplo, quando relatam fatos, contêm expressões e expressam pensamentos peculiares
e íntimos, característicos daquele amigo. Exatamente o mesmo se dá com numerosos e
variados casos de psicografia ou outras manifestações inteligentes. Não constitui
exagero, pois, afirmar-se que a constatação cuidadosa de uns poucos casos dessa espécie
é suficiente para eliminar qualquer dúvida acerca da sobrevivência do ser.

É importante observar, por fim, que além dos fenômenos especiais que formam a classe
dos fenômenos espíritas, o Espiritismo apóia-se também em uma multidão de
fenômenos ordinários, em virtude de oferecer uma base sólida para sua compreensão.
Referimo-nos, por exemplo, às nossas inclinações e sentimentos, às peculiaridades de
nosso relacionamento com as pessoas que nos cercam, aos acontecimentos marcantes de
nossas vidas, aos distúrbios da personalidade, aos efeitos psicossomáticos, aos sonhos, à
evolução das espécies e das civilizações, etc.

Entendemos que a desconsideração desse vasto corpo de evidências indiretas a favor do
Espiritismo constitui omissão séria da parte de seus críticos. Com seu agudo senso
científico, Kardec percebeu desde o início que o alcance do Espiritismo transcendia de
muito os fenômenos mediúnicos e anímicos específicos que motivaram o seu
surgimento. "O estudo do Espiritismo é imenso", disse Kardec em outra passagem;
"interessa a todas as questões da metafísica e da ordem social; é todo um mundo que se
abre diante de nós"
(O Livro dos Espíritos, Introdução, item XIII).

7. O aspecto religioso do Espiritismo [7]
Do mesmo modo como tem havido falta de compreensão acerca do caráter científico do
Espiritismo e de suas relações com as ciências, seu caráter religioso e suas relações
com as religiões também têm constituído ponto de freqüentes confusões. Assim como
se pode mostrar ser o Espiritismo científico, embora não se inclua entre as ciências
ordinárias, por estudar um domínio diverso de fenômenos, pode-se, conforme o fez o
próprio Kardec, mostrar que o Espiritismo é religioso, embora não se confunda com
as religiões ordinárias. Se no estabelecimento da primeira dessas teses é necessário
identificar corretamente que características de uma teoria a tornam científica, temos,
para justificar a segunda, que estabelecer critérios adequados para a classificação de
uma doutrina no âmbito religioso.

A palavra religião evoca, por sua origem, à idéia da "re-ligação" do homem ao Criador.
Como se sabe, ao longo da história inúmeras propostas se apresentaram de como essa
"re-ligação" deve ser entendida e efetuada, resultando daí as diversas "religiões".


Afora divergências sobre a própria noção de Deus e da natureza do ser humano, as
religiões se diferenciam quanto aos requisitos propostos para que a criatura se religue a
Deus. Quase sempre, eles incluem a adequação da conduta a certas regras morais.
Tipicamente, também incluem a satisfação de providências formais e externas de vária
ordem: participação em cultos, rituais, cerimônias; realização de determinados gestos;
recitação de fórmulas e rezas; adoração de imagens e objetos diversos; promessas,
penitências, jejuns, etc.

Ora, já se pode perceber aqui algumas distinções fundamentais entre o Espiritismo e as
religiões ordinárias. Como elas, o Espiritismo também se preocupa com o destino do
homem, na Terra e no além-túmulo, procurando instruí-lo quanto ao que deve fazer para
que alcance estados de felicidade cada vez maior. No entanto, o Espiritismo propõe que
esse objetivo pode ser alcançado exclusivamente pela adaptação da conduta a
determinados preceitos morais. Qualquer medida de ordem exterior é mostrada ser não
somente ineficaz, mas também, em muitos casos, nociva, por desviar a atenção do ponto
principal e induzir ao sectarismo.

Depois, uma diferença crucial surge no modo pelo qual as regras éticas são
justificadas. As religiões ordinárias procuram justificar as normas morais que propõem
recorrendo à autoridade desse ou daquele indivíduo ou instituição. Já o Espiritismo
fundamenta o corpo de seus princípios éticos – sintetizados no preceito cristão do amor
ao próximo – no conhecimento que cientificamente alcança das conseqüências das
ações humanas ao longo da existência ilimitada dos seres, conjugado à cláusula
teleológica de que todos almejam a felicidade. Não há aqui lugar para dogmas e
imposições, mas exclusivamente investigação livre e racional dos fatos. Aliás esse já era

o modo pelo qual o Apóstolo Paulo entendia a moral, pois em sua primeira carta aos
Coríntios (10:23) asseverou: "Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas
são lícitas, porém nem todas edificam."
Em diversas de suas obras, Kardec deu grande importância ao estabelecimento da
moral espírita, abordando o assunto em profundidade. Mostrou que, com o
conhecimento científico espírita, a moral deixa de ser uma questão de especulações
abstratas ou de opiniões, estando indissociavelmente ligada ao estudo dos efeitos
naturais das ações humanas, em conexão com a busca da felicidade, objetivo comum de
todos os seres humanos. Ressaltou ainda que o corpo de princípios morais obtidos por
essa via da razão e da experiência coincide com aquele proposto por Jesus. Conforme
registrou no parágrafo 56 do primeiro capítulo de A Gênese, o Espiritismo "[dá] por
sanção à doutrina cristã as próprias leis da Natureza".

Ora, na medida em que fornece ao homem conhecimento seguro das regras de conduta
capazes de harmonizá-lo consigo mesmo e com os demais seres – e portanto,
efetivamente, com o plano divino –, o Espiritismo torna-se "o mais potente auxiliar da
religião", conforme nota Kardec nos lúcidos comentários adidos às questões 147 e 148
de O Livro dos Espíritos. A religião aqui aludida não se confunde, evidentemente, com
as doutrinas religiosas tradicionais, com suas hierarquias, dogmas inquestionáveis e
práticas exteriores, sendo antes uma religião no sentido próprio do termo, explicado
acima.

A velha questão de se o Espiritismo é ou não uma religião não admite, pois, resposta
unívoca, dada a duplicidade semântica do termo 'religião'. Esse ponto foi estudado em


profundidade no artigo de Kardec intitulado justamente "Le Spiritisme est-il une
religion?", que apareceu na Revue Spirite de 1868.[8] Para encerrar, vejamos estes
parágrafos do famoso texto:

[...] o Espiritismo é, assim, uma religião? Sim, sem dúvida, senhores: No sentido
filosófico o Espiritismo é uma religião, e disso nos honramos, pois que é a doutrina que
funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos não em uma simples
convenção, mas sobre a mais sólida das bases: as próprias leis da Natureza.

Por que então declaramos que o Espiritismo não era uma religião? Pela razão de que
há apenas uma palavra para exprimir duas idéias diferentes, e que, segundo a opinião
geral, o termo religião é inseparável da noção de culto, evocando unicamente uma
idéia de forma, com o que o Espiritismo não guarda qualquer relação. Se se tivesse
proclamado uma religião, o público nele não veria senão uma nova edição, ou uma
variante, se quisermos, dos princípios absolutos em matéria de fé, uma casta sacerdotal
com seu cortejo de hierarquias, cerimônias e privilégios; não o distinguiria das idéias
de misticismo e dos enganos contra os quais se está freqüentemente bem instruído.

Não apresentando nenhuma das características de uma religião, na acepção usual da
palavra, o Espiritismo não poderia nem deveria ornar-se de um título sobre cujo
significado inevitavelmente haveria mal-entendidos. Eis porque ele se diz simplesmente
uma doutrina filosófica e moral.

8. Conclusões
Inegavelmente, o Espiritismo é um empreendimento intelectual de ampla envergadura.
Em diversas ocasiões Allan Kardec ressaltou o seu caráter abrangente, bem como a
importância de considerá-lo em seu conjunto, quando se trata de avaliá-lo e de
investigar suas implicações.

Como vimos, na primeira linha da segunda edição do Livro dos Espíritos Kardec
caracterizou-o sucintamente como "filosofia espiritualista". Espiritualista, porque
estando centrado na constatação de que o homem é essencialmente, enquanto ser
pensante, espírito, insere-se no âmbito das doutrinas que se contrapõem ao
materialismo. Filosofia, porque investiga esse ser espiritual segundo uma abordagem
racional, sistemática e abrangente, típica da tradição de pesquisa inaugurada pelos
filósofos gregos, e que permeia toda a cultura ocidental até hoje. Nesse sentido original,
a filosofia abarcava todos os ramos do saber puro. Mesmo aquilo que, a partir de uma
certa época da história do pensamento, passou a ser chamado de ciência caía sob o
escopo da filosofia.

Assim, a caracterização kardequiana em análise não deve ser tomada como excluindo a
dimensão científica do Espiritismo, muito pelo contrário. Conforme deixou claro no
desdobramento de suas pesquisas, Kardec compreendeu que tal dimensão não somente
existia, mas que constituía mesmo a base sobre a qual a filosofia espírita repousa. Note-
se, por exemplo, que no preâmbulo de O que é o Espiritismo Kardec o define como
"uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas
relações com o mundo corporal". Quando bem compreendida, essa definição não
conflita com a que está na página de rosto do Livro dos Espíritos. Apenas salienta que
os fundamentos da filosofia espírita são científicos, e não puramente especulativos, ou


derivados de alguma tradição mística, religiosa, ou qualquer outra. Foi a análise
científica de certos fenômenos que deu origem ao Espiritismo, e estabeleceu desde
então o núcleo teórico sobre o seu objeto de estudo, ou seja, o espírito.

No entanto, como essa análise conduz, por sua própria natureza, a tópicos extremamente
abrangentes e fundamentais, no que diz respeito ao conhecimento do espírito, ela avança
por domínios tipicamente considerados filosóficos, mesmo segundo a concepção
contemporânea, mais restrita, de filosofia. O caso quiçá mais importante dessa extensão
é o da moral (ou ética). Kardec explorou com grande lucidez as implicações do
conhecimento científico espírita para as questões-chave da moral, dentre as quais a da
fundamentação das regras morais. Fez notar que o conhecimento científico acerca do
homem propiciado pelo Espiritismo permite o estabelecimento de um corpo de
princípios morais objetivos, e que ele coincide com aqueles propostos pelo Cristo.
Salientou ainda que tais princípios sintetizam o que há de essencial na noção de religião.
Nesse sentido, e apenas nele, o Espiritismo pode ser dito uma religião, adverte Kardec
no famoso artigo da Revue Spirite.

Dessa forma, os chamados "três aspectos" (ou "partes") do Espiritismo encontram-se
inextricavelmente ligados. Talvez mesmo devêssemos evitar a utilização dessa
expressão, porque pode induzir à idéia errônea de que se trata de três elementos
separados ou separáveis, que agrupamos apenas por conveniência. É significativo, a
esse respeito, que o próprio Kardec tenha evitado caracterizar o Espiritismo em tais
termos. Quando tentou sintetizar a natureza do Espiritismo, recorreu ora à noção de
filosofia, ora à de ciência, dependendo do contexto. Mas em ambos os casos indicou que
não se tratava de uma delimitação muito estreita da noção.

Se pensarmos no Espiritismo em termos de filosofia, será uma filosofia apoiada em
bases científicas, e que tem como um dos objetivos centrais o estudo das questões
morais. Se pensarmos em termos de ciência, não será uma pesquisa seca, que
simplesmente constate e sistematize fatos, mas de uma investigação de longo alcance
sobre um objeto de fundamental importância, o elemento espiritual. Essa ciência
complementa, pois, as ciências acadêmicas, cujo objeto de estudo é o elemento material.
E, pela própria natureza de seu objeto de estudo, a ciência espírita necessariamente diz
respeito a tópicos genuinamente filosóficos, dentre os quais ressalta, por sua
importância prática, aqueles referentes à moral.

Referências

Chalmers, A. F. What is this Thing called Science? 2nd. ed., Buckingham, Open
University Press, 1982.

Chibeni, S. S. "Os fundamentos da ética espírita", Reformador, junho de 1985, pp. 166


9.
–––. "A excelência metodológica do Espiritismo", Reformador, novembro de 1988, pp.
328-333, e dezembro de 1988, pp. 373-378.

–––. "Ciência espírita", Revista Internacional de Espiritismo, março 1991, pp. 45-52.

–––. "O paradigma espírita", Reformador, junho de 1994, pp. 176-80.


–––. "As acepções da palavra 'Espiritismo' e a preservação doutrinária". Reformador,


julho de 1999, pp. 212-214. (Questões sobre a natureza do Espiritismo – I.)
–––. "Revisão da terminologia espírita?". Reformador, agosto de 1999, pp. 250-252.
(Questões sobre a natureza do Espiritismo – II.)


–––. "A religião espírita". Reformador, setembro de 1999, pp. 280-282. (Questões sobre


a natureza do Espiritismo – III.)
–––. "A 'ciência oficial'". Reformador, outubro de 1999, pp. 312-313. (Questões sobre
a natureza do Espiritismo – IV.)


–––. "As relações da ciência espírita com as ciências acadêmicas". Reformador,


novembro de 1999, pp. 344-346. (Questões sobre a natureza do Espiritismo – V.)
–––. "Algumas abordagens recentes dos fenômenos espíritas". Reformador, dezembro
de 1999, pp. 380-383. (Questões sobre a natureza do Espiritismo – VI.)


–––. "A pesquisa científica espírita" Reformador, janeiro de 2000, pp. 24-25. (Questões


sobre a natureza do Espiritismo – VII.)
Kardec, A. Le Livre des Esprits. Reprodução fotomecânica da 1a ed. francesa. 1a ed,
bilíngüe, trad. e ed. Canuto Abreu. São Paulo, Companhia Editora Ismael, 1957.


–––. Livre des Esprits. Reprodução fotomecânica da 2a ed. francesa, com adendos do


Autor. 1a. ed., Rio, Federação Espírita Brasileira, 1998.
–––. O Livro dos Espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 43a ed., Rio de Janeiro, Federação
Espírita Brasileira, s.d.


–––. Revue Spirite. Coleção da Federação Espírita do Paraná.
–––. Qu'est-ce que le Spiritisme. Paris, Dervy-Livres, 1975.
–––. O que é o Espiritismo. (s. trad.) 25a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita


Brasileira, s.d.
–––. Le Livre des Médiums. Paris, Dervy-Livres, 1972.
–––. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro, 59a ed., revista, Rio de Janeiro,


Federação Espírita Brasileira, s.d.
–––. Voyage Spirite en 1862. Paris, Vermet, 1988.
–––. L'Évangile selon le Spiritisme. (Reprodução fotográfica da 3a edição francesa.) 1a


ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1979.
–––. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 113a ed., Rio, FEB.
–––. Le Ciel et l'Enfer. Farciennes, Editions de l'Union Spirite, 1951.



–––. O Céu e o Inferno. Trad. de Manuel Quintão. 28ª edição, Rio de Janeiro, Federação
Espírita Brasileira, s.d.

–––. La Genèse, les Miracles et les Prédictions selon le Spiritisme. Paris, La Diffusion
Scientifique, s.d.

–––. A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Trad. Guillon
Ribeiro, 23a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s. d.

–––. Oeuvres Posthumes. (Ed. André Dumas.) Paris, Dervy-Livres, 1978. Também na
edição original de Leymarie, em texto eletrônico, Centre d'Études Spirites Léon Denis:
http://perso.wanadoo.fr/charles.kempf/

–––. Obras Póstumas. Trad. Guillon Ribeiro, 18a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita
Brasileira, s.d.

Lakatos, I. "Falsification and the methodology of scientific research programmes". In:
Lakatos I, e Musgrave, A. (eds.) Criticism and the Growth of Knowledge. Cambridge,
Cambridge University Press, 1970. Pp. 91-195.

[1] Texto apresentado no XII Congresso Estadual de Espiritismo (USE). Campinas, SP,
17 a 20/4/2003.
[2] Neste trabalho usaremos as seguintes abreviações: LE - O Livro dos Espíritos; QE –
O que é o Espiritismo; LM – O Livro dos Médiuns; ESE – O Evangelho Segundo o
Espiritismo; CI – O Céu e o Inferno; G – A Gênese; OP – Obras Póstumas (as
referências de páginas deste livro são feitas pela tradução da FEB); VE – Viagem
Espírita em 1862 (páginas pela edição francesa corrente).
[3] Outros exemplos importantes do uso da expressão 'filosofia espírita' na acepção
ampla estão em: LM, parágrafos 14 (n. 7) e 32, capítulo 31 (item 18); OP, pp. 221, 247
e 253; QE, Preâmbulo; VE, pp. 6, 8 e 20.
[4] Esta seção e a seguinte aproveitam partes de nossos artigos "Espiritismo e ciência" e
"A excelência metodológica do Espiritismo", que deverão ser consultados para um
tratamento mais detalhado do assunto. Ver também os artigos sobre ciência espírita na
série "Questões sobre a natureza do Espiritismo". As referências são dadas no final
deste trabalho.
[5] Ver Lakatos 1970. Para uma exposição acessível dessa e de outras abordagens da
questão da natureza da ciência, consulte-se Chalmers 1982. Para uma análise da ciência
espírita à luz de outra teoria filosófica contemporânea acerca da ciência, elaborada por
Thomas Kuhn mais ou menos no mesmo período, ver nosso artigo "O paradigma
espírita".
[6] Note-se que nessas citações o termo 'ciência' é usado numa acepção mais restrita do
que a anteriormente elucidada. Para um estudo mais completo da análise kardequiana
das relações entre o Espiritismo e as ciência ordinárias, ver a seção 3 de "A excelência

metodológica do Espiritismo" e as partes IV e V da série "Questões sobre a natureza do
Espiritismo".

[7] Esta seção aproveita idéias e trechos de nossos artigos "Os fundamentos da ética
espírita", "A excelência metodológica do Espiritismo", seção 5, e "A religião espírita"
(o terceiro artigo da série "Questões acerca da natureza do Espiritismo"), que deverão
ser consultados para um maior desenvolvimento do assunto.
[8] Dezembro, pp. 353-62. Note-se que se trata de uma dos últimos números da Revue
compostos por Kardec. O texto expressa, pois, o seu pensamento mais refletido sobre o
assunto.
http://www.geocities.com


... Silvio Seno Chibeni
> A Errata do Livro dos Espíritos
Artigos



Conforme registra a edição histórica de Le Livre des Esprits publicada pela FEB em
1998 (ver resenha em Mundo Espírita, fevereiro de 2002, p. 5), a 5a edição francesa, de
1861, trazia uma errata, com extensão de uma página. A errata apareceu somente nessa
edição; na edição da FEB a errata foi reproduzida na posição original, no final da obra.
Por sua importância histórica, daremos em seguida sua tradução integral. Os números
de página referem-se à edição francesa (o exame comparado da errata com o texto da 2a
edição, reproduzido fotograficamente pela FEB, indica que a 5a edição manteve a
paginação da 2a). Para facilitar a localização em outras edições, damos, quando


necessário, o item ou sub-item, entre colchetes. Teceremos depois alguns comentários
sobre as alterações indicadas por Kardec.

ERRATA

Página 73, no final da nota [n° 165], acrescentar: Na morte natural, a perturbação
começa antes da cessação da vida orgânica, perdendo o Espírito toda consciência de si
no momento da morte. Segue-se daí que ele jamais testemunha o último suspiro. As
convulsões da agonia são efeitos nervosos que quase nunca o afetam. Dizemos quase,
porque em certos casos tais sofrimentos lhe podem ser impostos como expiação.

Página 109, n° 226, no final da nota, acrescentar: Entre os Espíritos não encarnados,
alguns há que têm missões a cumprir e ocupações ativas, gozando de relativa felicidade,
enquanto que outros vagueiam na incerteza. São estes últimos os errantes, na verdadeira
acepção do termo, constituindo, de fato, aquilo que se designa pela expressão almas a
penar. Os primeiros nem sempre se consideram errantes, pois fazem uma distinção entre
a sua situação e a dos outros (1015).

Página 137, n° 285 [a], acrescentar: Quando necessário, podem igualmente se
reconhecerem pela aparência que tinham quando vivos. Ao Espírito recém-chegado, e
ainda pouco familiarizado com seu novo estado, os Espíritos que o vêm receber
apresentam-se sob uma forma que lhe permite reconhecê-los.

Página 191, n° 437, acrescentar: ver o n° 257, "Ensaio teórico da sensação nos
Espíritos".

Página 210, n° 479, acrescentar: ver o Livro dos Médiuns, cap. "Da Obsessão".

Página 252, linha 2 [n° 586, final da resposta], suprimir: e intuitiva.

Dessa errata, apenas o último item foi incorporado às edições posteriores, embora
somente a partir da 10a edição. Apresenta-se aqui uma série de dúvidas de natureza
histórica, cujo esclarecimento requer dados não disponíveis. Mesmo assim é útil
enumerá-las, analisando-as como pudermos, para que saibamos doravante o que fazer
com a errata em nossos estudos espíritas.

Por que a errata apareceu somente na 5a edição? Por que, com a apontada exceção, não
foi incorporada ao texto das edições subseqüentes? Pode ser que razões econômicas
tenham se anteposto a isso, pois com o sistema de impressão da época qualquer
alteração que exigisse repaginação implicaria refazer todo o texto daquele ponto em
diante. Inspecionando graficamente o original, no entanto, nota-se que isso ocorreria
apenas com os itens 226 e 285, as demais alterações sendo incorporáveis sem
repaginação. Se uma alteração foi incorporada, por que não as outras três? Pode-se
supor que aqui Kardec levou em conta a natureza das alterações: a do item 586 é
imperiosa, pois configura um erro – certamente um lapso, e não alguma falha de
observação ou raciocínio –, enquanto que as demais são em certa medida opcionais.
Essa suposição é bem plausível no caso dos itens 437 e 479, que são meras indicações
de referências cruzadas. Quanto à outra mudança que não requereria repaginação, a do
item 165, trata-se de um esclarecimento bastante útil acerca do processo de


desencarnação. Teria Kardec julgado que ainda faltava apoio mais sólido ao que
afirmou na errata? De qualquer forma, à luz do que sabemos hoje não parece haver
falhas nas afirmações feitas.
São igualmente interessantes as alterações referentes aos itens 226 e 285, cuja
incorporação no texto apresentaria dificuldades gráficas. A última complementa de
forma muito relevante a resposta inicial, um tanto obscura, referente ao modo de
reconhecimento dos Espíritos. Essa complementação foi corroborada plenamente pelos
estudos espíritas ulteriores, especialmente pelos relatos mediúnicos detalhados de que
dispomos hoje, como os de André Luiz, Philomeno de Miranda, Yvonne Pereira, etc.

Finalmente, quanto ao item 226, nota-se que Kardec procurou, na errata, restabelecer o
sentido próprio da expressão Espírito errante. Ora, com o desaparecimento da errata e a
não incorporação dessa correção às edições subseqüentes, esse objetivo acabou não
sendo alcançado. Cristalizou-se em toda a literatura espírita o significado que Kardec
reconheceu como impróprio, segundo o qual Espírito errante é sinônimo de Espírito
desencarnado, independentemente de sua condição.

Tentemos agora, para concluir, avaliar a errata de forma geral, para nortear nossos
estudos daqui para diante, e sugerir diretrizes aos editores da obra fundamental do
Espiritismo.

É inegável que o único erro propriamente dito é o do item 586, que foi corrigido por
Kardec, embora tardiamente. Dele estão isentas as edições correntes em francês,
português, inglês e esperanto a que tivemos acesso; devem, pois, ter se baseado em
edições posteriores à 10a.

As referências cruzadas, do penúltimo e antepenúltimo item da errata, são
evidentemente úteis, devendo pois ser incorporadas às novas edições. O mesmo vale,
com mais forte razão, para os esclarecimentos sobre a perturbação espiritual
conseqüente à desencarnação e sobre a aparência dos Espíritos desencarnados.

Quanto ao adjetivo errante, é claro que a reversão do uso corrente no meio espírita é
difícil, quando não impossível, ao menos a curto prazo. Isso não impede, porém, que a
observação de Kardec seja inserida nas edições futuras.

Além disso, seria interessante que os escritores e expositores espíritas levassem em
conta esse ponto, o que gradualmente induziria ao restabelecimento do sentido
etimológico do termo.

Resta a questão editorial: as novas edições devem reproduzir a errata no final ou
incorporar as alterações ao longo do próprio texto? Não temos dúvida de que a segunda
opção é preferível. Primeiro, a errata está disponível para os pesquisadores em sua
versão original, na edição histórica da FEB. Depois, e mais importante, o leitor espírita
médio de hoje certamente terá mais facilidade para perceber as mudanças se elas
estiverem no próprio texto. É claro que neste caso deve haver notas de rodapé indicando
precisamente cada alteração, com uma referência histórica geral à errata numa
introdução ou apêndice do editor.

A descoberta e publicação da errata foi uma contribuição relevante para os estudos
referentes ao Livro dos Espíritos, e portanto ao Espiritismo de um modo geral, não


devendo, por isso, ficar confinada ao restrito círculo daqueles que puderam ler o
importante volume editado pela FEB.

Texto publicado em Mundo Espírita, setembro/2002, p. 10.


... Silvio Seno Chibeni
> O Espiritismo em seu tríplice aspecto: científico, filosófico e religioso
Artigos



Resumo:

Tornou-se comum no meio espírita afirmar-se que o Espiritismo é ciência, filosofia e
religião, ou tem um "tríplice aspecto", englobando as três áreas. Essa caracterização
não pode ser encontrada exatamente nesses termos na obra de Kardec. É, porém, correta
e, em sua essência, está presente no pensamento do criador do Espiritismo e de seus
mais lúcidos continuadores. No entanto, a questão tem dado lugar a mal-entendidos, por
causa da compreensão incorreta ou imprecisa dos conceitos de ciência, filosofia e
religião, bem como da verdadeira natureza do Espiritismo. Este trabalho procura
contribuir para esclarecer o assunto, com o apoio da filosofia e dos próprios textos de
Kardec.

1. Introdução
Ao refundir o material da primeira edição de O Livro dos Espíritos (1857), preparando
a segunda edição (1860), Kardec achou por bem inserir, já na primeira linha da livro, na
folha de rosto, a seguinte frase: "Filosofia Espiritualista". Kardec quis, com ela,
fornecer ao leitor uma caracterização sucinta do caráter do Espiritismo, cujas bases a
obra assentava. Essa caracterização é depois detalhada de modo implícito ou explícito
no resto do livro e no restante de sua produção espírita. Uma das primeiras
especializações do conceito expresso na frase é introduzida já na Introdução do mesmo
livro, item I, no qual Kardec traça a distinção entre espiritualismo e Espiritismo. A
partir desse ponto, tratará sempre (salvo para efeito de comparação) do conceito mais
específico de filosofia espírita.


O destaque dado por Kardec a esse conceito indica que é por ele que devemos começar
a análise do chamado "tríplice aspecto" do Espiritismo. Essa caracterização não pode
ser encontrada exatamente nesses termos na obra de Kardec. Não nos ocuparemos aqui
da questão histórica da origem dessa maneira tão disseminada de compreender o
Espiritismo. Nosso objetivo neste artigo é estabelecer que ela é, em sua essência,
correta, e que está presente no pensamento do criador do Espiritismo. Além disso,
pretendemos esclarecer alguns mal-entendidos a que a caracterização tem dado lugar,
por causa da compreensão incorreta, ou imprecisa dos conceitos de ciência, filosofia e
religião, bem como da verdadeira natureza do Espiritismo.

2. O que é filosofia?
Antes de tentarmos entender o que Kardec entendia por 'filosofia espírita', e por que
ele priorizou essa noção ao dar uma fórmula sucinta do Espiritismo, é importante
compreendermos a noção geral de filosofia. É claro que se trata de um assunto
complexo, que requereria estudos especializados para ser abordado de forma
satisfatória. O que exporemos aqui é apenas um esboço, mas que, tanto quanto
julgamos, é correto e útil para investigações ulteriores.

Como quase todas as palavras, filosofia possui diversos significados. Popularmente, o
termo tem hoje três acepções principais: 1) certos valores ou princípios de vida, muito
gerais e variáveis segundo os indivíduos ou grupos sociais; 2) certos métodos, regras e
propósitos de um empreendimento qualquer; e 3) certas doutrinas esotéricas ou
místicas. Nenhum desses três significados corresponde à noção original, acadêmica, de
filosofia, e que foi usada por Kardec em quase todas as ocasiões em que falou no
aspecto filosófico do Espiritismo.

Não obstante aparentemente simples, as questões do que é e para que serve a filosofia –
no sentido acadêmico do termo – estão entre as que mais dificuldades e divergências
causam entre os próprios filósofos profissionais. Esse mero fato, porém, já indica algo
importante sobre a natureza da filosofia: o questionamento sistemático, incessante e
profundo de tudo o que se afirma.

As origens da filosofia remontam à Grécia Antiga. Pela própria etimologia do termo,
notamos que a filosofia era entendida como o amor do saber, ou a busca da verdade.
Naquela época e, em certa medida, por muitos séculos da era cristã, a filosofia
englobava todos os ramos do conhecimento puro (em contraste com as artes e ofícios, o
conhecimento "aplicado"). Gradualmente, alguns desses ramos foram se tornando
autônomos, como a matemática, a astronomia, a história, a biologia, a física. Mais ou
menos a partir do século XVII, alguns deles começam a ser agrupados sob outra
denominação: a de ciência.

Hoje em dia costuma-se considerar pertencentes ao tronco principal da filosofia as
disciplinas da estética, lógica, ética, epistemologia e metafísica. De forma muito
simplificada, pode-se dizer que a estética examina abstratamente a beleza e a feiúra; a
lógica investiga o encadeamento formal das proposições; a ética estuda questões
relativas ao bem e ao mal, aos direitos e deveres; a epistemologia ocupa-se do
conhecimento, suas origens, fundamentos e limites, enquanto que a metafísica procura
especular sobre a natureza última das coisas. Fora esses ramos fundamentais, há ainda


diversos outros que resultam de suas interconexões e especializações, como a teologia,
a filosofia política, a filosofia da linguagem, a filosofia da ciência.

Uma das principais correntes filosóficas contemporâneas propõe que a filosofia não
deve ser entendida como a formulação ou defesa de teses ou conjuntos de teses sobre o
que quer que seja, mas simplesmente como o desenvolvimento de métodos de análise
crítica e sistemática, a serem aplicados especialmente ao chamado conhecimento
científico. Nessa perspectiva, o filósofo seria alguém que tenta explicitar os conceitos,
os pressupostos, a estrutura lógica e as implicações das teorias científicas, políticas,
religiosas, etc. Semelhante atitude crítica – que não se confunde com uma crítica
leviana, estouvada ou interesseira – seria a essência da filosofia, o elemento comum que
permearia a grande variedade de linhas filosóficas existentes.

Embora quando se olhe para as abstrações e sutilezas tipicamente discutidas pelos
filósofos se possa concluir que a filosofia para nada serve, a referida proposta talvez
permita encontrar, num plano afastado do das necessidades materiais cotidianas, uma
finalidade útil para a filosofia: a elucidação das bases, métodos e implicações das
ciências e de outras disciplinas intelectuais, contribuindo assim para a identificação de
fundamentos falsos ou inseguros, de falácias argumentativas, de dogmas encobertos.

Ensinando, ou pelo menos convidando, o homem a refletir criticamente sobre tudo o
que se afirma ou faz em todos os setores, a filosofia de alguma forma auxilia o
aprimoramento de seu intelecto e, talvez, de seus sentimentos, que o diferenciam de um
mero ser que come, bebe, dorme e se reproduz.

3. A filosofia espírita
Passando agora à noção de filosofia espírita, uma observação preliminar importante é
que no tempo de Kardec o sentido original, amplo, da palavra 'filosofia' ainda
prevalecia, em boa medida. Assim, ao dizer que o Espiritismo era uma filosofia, Kardec
não estava excluindo seu caráter científico, muito pelo contrário. Além disso, como a
ética ou moral é uma das áreas da filosofia – e isso até hoje –, aquela designação
também não excluía o aspecto moral do Espiritismo, que é a essência da chamada
religião espírita. Detalharemos esses pontos nas seções seguintes deste trabalho.

Há referências à filosofia, ou à filosofia espírita, em todas as obras de Kardec. O
significado preciso das expressões varia, é claro, segundo o contexto. De um modo
geral, podemos identificar duas acepções principais da expressão, uma ampla e outra
restrita.

Na acepção ampla, Kardec entende pela expressão alguma teoria, conjunto de teses, ou
atividade intelectual que se caracterizam pela racionalidade, e se inserem portanto na
tradição da filosofia acadêmica de cultivo do saber pelo saber. Nesse sentido a filosofia
engloba a própria ciência e a moral, como já apontamos. Há dezenas de passagens nas
obras de Kardec em que a expressão é usada nessa acepção. A primeira é, naturalmente,
a já mencionada frase da folha de rosto.Vejamos algumas outras, restringindo-nos, por
falta de espaço, ao Livro dos Espíritos (os itálicos do termo 'filosofia' são nossos).[2]


LE, Prolegômenos: "Este livro é o repositório de seus ensinos. Foi escrito por ordem e
mediante ditado de Espíritos superiores, para estabelecer os fundamentos de uma
filosofia racional, isenta dos preconceitos do espírito de sistema."

LE, Prefácio da 2a edição (que não é mais reproduzido nas edições atuais): "O ensino
relativo às manifestações dos Espíritos, propriamente ditas, bem como aos médiuns,
forma uma parte distinta da filosofia espírita, podendo constituir objeto de um estudo
especial" [a ser desenvolvido no Livro dos Médiuns].

LE, Conclusão, item V: "Três períodos distintos apresenta o desenvolvimento dessas
idéias: primeiro, o da curiosidade, que a singularidade dos fenômenos produzidos
desperta; segundo, o do raciocínio e da filosofia; terceiro, o da aplicação e das
conseqüências. O período da curiosidade passou; a curiosidade dura pouco. Uma vez
satisfeita, muda de objeto. O mesmo não acontece com aquilo que se dirige à razão e
evoca reflexões sérias. Começou o segundo período, o terceiro virá inevitavelmente."

LE, Conclusão, item VII: "O Espiritismo se apresenta sob três aspectos diferentes: o
fato das manifestações, os princípios de filosofia e de moral que delas decorrem e a
aplicação desses princípios. Daí, três classes, ou, antes, três graus de adeptos: [...]" [3]

Na acepção restrita da expressão 'filosofia espírita', Kardec refere-se a tópicos
clássicos tratados pelos filósofos, como a existência e atributos de Deus, a distinção
alma-corpo, as idéias inatas, o livre-arbítrio, a objetividade dos critérios morais, etc. Na
maior parte das vezes em que ele usa o termo 'filosofia' nesse sentido mais específico,
quer ressaltar um ponto de central importância: a capacidade que o Espiritismo tem de
tratar com segurança, clareza e plausibilidade alguns dos mais espinhosos e desafiadores
problemas filosóficos. Em alguns casos o ponto é mencionado genericamente; em
outros ele considera explicitamente esses problemas. Vejamos alguns exemplos,
começando com alguns trechos do primeiro tipo (destacamos o termo 'filosofia').

LE, Conclusão, item 1: "Pois bem! Sabei, vós que não credes senão no que pertence ao
mundo material, que dessa mesa, que gira e vos faz sorrir desdenhosamente, saiu toda
uma ciência, assim como a solução dos problemas que nenhuma filosofia pudera ainda
resolver."

LE, Conclusão, item 6: "Mesmo quem não testemunhou nenhum fenômeno material
relativo às manifestações dos Espíritos diz para si próprio: à parte esses fenômenos, há a
filosofia, que me explica o que nenhuma outra havia explicado. Nela encontro, por
meio unicamente do raciocínio, uma solução racional para os problemas que no mais
alto grau interessam ao meu futuro. Ela me dá calma, segurança, confiança; livra-me do
tormento da incerteza."

QE, Preâmbulo: No terceiro capítulo, publicamos um resumo de O Livro dos Espíritos,
com a solução, pela doutrina espírita, de certo número de problemas do mais alto
interesse, de ordem psicológica, moral e filosófica, que diariamente são propostos, e aos
quais nenhuma filosofia deu ainda resposta satisfatória. [...] Procurem resolvê-los por
qualquer outra teoria, sem a chave que nos fornece o Espiritismo; comparem suas
respostas com as dadas por este, e digam quais são as mais lógicas, quais as que melhor
satisfazem à razão."


Vejamos agora algumas passagens com referências a problemas filosóficos
tradicionais, que têm solução adequada pelo Espiritismo. Indicamos sumariamente
entre colchetes o problema em questão.

LE, Introdução, item 17 [a continuidade evolutiva na criação]: "A razão nos diz que
entre o homem e Deus outros elos necessariamente haverá, como disse aos astrônomos
que, entre os mundos conhecidos, outros haveria, desconhecidos. Que filosofia já
preencheu esta lacuna? O Espiritismo no-la mostra preenchida pelos seres de todas as
ordens do mundo invisível e estes seres não são mais do que os Espíritos dos homens,
nos diferentes graus que levam à perfeição. Tudo então se liga, tudo se encadeia, desde

o alfa até o ômega."
LE, item 222 [a desigualdade das aptidões face à justiça divina]: "Qual a filosofia ou a
teosofia capaz de resolver estes problemas? É fora de dúvida que, ou as almas são iguais
ao nascerem, ou são desiguais. Se são iguais, por que, entre elas, tão grande diversidade
de aptidões?"

LM, par. 35, n. 2 [o futuro do homem]: "O Livro dos Espíritos. Contém a doutrina
completa, como a ditaram os próprios Espíritos, com toda a sua filosofia e todas as suas
conseqüências morais. É a revelação do destino do homem, a iniciação no conhecimento
da natureza dos Espíritos e nos mistérios da vida de além-túmulo."

ESE, cap. 5, item 6 [a dor face à justiça divina]: "Que dizer, enfim, dessas crianças que
morrem em tenra idade e da vida só conheceram sofrimentos? Problemas são esses que
ainda nenhuma filosofia pôde resolver, anomalias que nenhuma religião pôde justificar
e que seriam a negação da bondade, da justiça e da providência de Deus, se se
verificasse a hipótese de ser criada a alma ao mesmo tempo que o corpo e de estar a sua
sorte irrevogavelmente determinada após a permanência de alguns instantes na Terra."

CI, parte 1, cap. 1, item 13 [a questão do materialismo e do panteísmo]: Apresente-selhe,
porém, um futuro condicionalmente lógico, digno em tudo da grandeza, da justiça e
da infinita bondade de Deus, e ele repudiará o materialismo e o panteísmo, cujo vácuo
sente em seu foro intimo, e que aceitará à falta de melhor crença. O Espiritismo dá coisa
melhor; eis por que é acolhido pressurosamente por todos os atormentados da dúvida, os
que não encontram nem nas crenças nem nas filosofias vulgares o que procuram. O
Espiritismo tem por si a lógica do raciocínio e a sanção dos fatos, e é por isso que
inutilmente o têm combatido."

G, cap. 4, item 11 [a origem das faculdades espirituais do homem]: "Mas a história do
homem, considerado como ser espiritual, se prende a uma ordem especial de idéias, que
não são do domínio da Ciência propriamente dita e das quais, por este motivo, não tem
ela feito objeto de suas investigações. A Filosofia, a cujas atribuições pertence, de modo
mais particular, esse gênero de estudos, apenas há formulado, sobre o ponto em questão,
sistemas contraditórios, que vão desde a mais pura espiritualidade, até a negação do
principio espiritual e mesmo de Deus, sem outras bases, afora as idéias pessoais de seus
autores. Tem, pois, deixado sem decisão o assunto, por falta de verificação suficiente."

G, cap. 4, item 12 [origem e destino do homem]: "Esta questão, no entanto, é a mais
importante para o homem, por isso que envolve o problema do seu passado e do seu


futuro. A do mundo material apenas indiretamente o afeta. O que lhe importa saber,
antes de tudo, é donde ele veio e para onde vai, se já viveu e se ainda viverá, qual a
sorte que lhe está reservada. Sobre todos esses pontos, a Ciência se conserva muda. A
Filosofia apenas emite opiniões que concluem em sentido diametralmente oposto, mas
que, pelo menos, permitem se discuta, o que faz com que muitas pessoas se lhe
coloquem do lado, de preferência a seguirem a religião, que não discute.

OP, pp. 86-7 [o problema mente-corpo]: Onde acaba o poder da alma sobre os corpos?
Qual a parte dessa força inteligente nos fenômenos do Magnetismo? Qual a do
organismo? Aí estão questões de muito interesse, questões graves para a Filosofia,
como para a Medicina. [...] Tínhamos, como se vê, grandes motivos para avançar que o
estudo dos fenômenos magnéticos guarda fortes relações com a filosofia e a psicologia.

QE, pp. 169-70, 189 [a imortalidade da alma] As manifestações não são, pois,
destinadas a servir aos interesses materiais; sua utilidade está nas conseqüências morais
que delas dimanam; não tivessem, elas, porém, como resultado senão fazer conhecer
uma nova lei da Natureza, demonstrar materialmente a existência da alma e sua
imortalidade, e já isso seria muito, porque era largo caminho novo aberto à Filosofia.
[...] Nas lições de filosofia clássica, os professores ensinam a existência da alma e seus
atributos, segundo as diversas escolas, mas sem apresentar provas materiais. [...]
Quando um cientista emite uma hipótese, sobre um ponto de ciência, procura com
empenho e colhe com alegria tudo o que possa demonstrar a veracidade dessa hipótese;
como, pois, um professor de filosofia, cujo dever é provar a seus discípulos que eles têm
uma alma, despreza os meios de lhes fornecer uma patente demonstração?

Esses trechos ilustram bem a afirmação de Kardec em O que é o Espiritismo (diálogo
com o cético, p. 65) de que "O Espiritismo prende-se a todos os ramos da Filosofia
[...]". E note-se que tal afirmação é confirmada não só por passagens como as citadas,
em que o termo 'filosofia' aparece explicitamente (e há ainda muitas outras em que isso
ocorre), mas também pelos estudos efetivamente desenvolvidos por Kardec acerca de
numerosos outros tópicos filosóficos.

4. O que é ciência? [4]
Como já ressaltamos, aquilo que hoje chamamos ciência derivou da filosofia, tal qual
entendida nos primeiros tempos de nossa cultura ocidental. É importante, pois,
identificar os traços que servem para distinguir o conhecimento científico de outros
tipos de conhecimento. Essa é uma das questões de que se ocupa um dos ramos
especiais da filosofia mencionados anteriormente, a filosofia da ciência.

Notadamente na segunda metade do século XX, progressos significativos foram
realizados nessa área. Reconhece-se hoje entre os especialistas que uma certa
concepção de ciência cujas origens remontam à época do nascimento da ciência
moderna, no século XVII, e que é comum até hoje entre o público leigo, padece de
sérias inadequações. Ela não resiste nem a variados argumentos filosóficos levantados
mais recentemente, nem ao confronto com a descrição da gênese, evolução e estrutura
das disciplinas científicas maduras, ou seja, da física, da química e da biologia. A versão
mais bem articulada dessa concepção é a doutrina filosófica conhecida como
positivismo lógico, que teve seu apogeu nas décadas de 1920 e 1930.


Grosso modo, essa visão comum de ciência pressupõe que uma ciência inicia seu
desenvolvimento com um período longo de coleta de dados experimentais (dados
empíricos, na linguagem filosófica); nessa etapa não compareceriam hipóteses teóricas
de nenhuma espécie. Uma vez de posse de um conjunto suficientemente grande e
variado de dados, os cientistas aplicariam então certos métodos supostamente seguros e
neutros para obter as teorias científicas, que seriam descrições objetivas da realidade
investigada.

O exame cuidadoso da história da ciência e os argumentos filosóficos desenvolvidos
pelos filósofos da ciência contemporâneos mostraram que essa caracterização da
ciência não somente não corresponde ao que de fato ocorreu e continua ocorrendo com
as ciências bem estabelecidas, como também pressupõe procedimentos impossíveis de
serem levados a cabo. Observação e teoria, experimento e hipótese nascem e se
desenvolvem juntos, num complexo processo simbiótico de suporte recíproco. A
acumulação prévia de dados neutros, ainda que fosse possível, seria inútil. Nenhum
conjunto de dados leva de modo lógico a leis científicas; a imaginação criadora do
homem desempenha papel essencial na gênese das teorias científicas.

A imagem de ciência a que os filósofos da ciência chegaram a partir das pesquisas
recentes indica que uma ciência autêntica consiste, de modo simplificado, de um núcleo
teórico principal, formado por leis fundamentais, introduzidas a título de
hipóteses. Esse núcleo é circundado por hipóteses auxiliares, que o complementam e
efetuam sua conexão com os dados empíricos. Essa estrutura teórica mais ou menos
hierarquizada faz-se acompanhar de determinadas regras, nem sempre explícitas, que
norteiam o seu desenvolvimento. De um lado, há a regra "negativa", que estipula que
nesse desenvolvimento os princípios do núcleo teórico devem, o quanto possível, ser
mantidos inalterados. Eventuais discrepâncias entre as previsões da teoria e as
observações experimentais devem ser resolvidas por ajustes nas partes menos centrais
da malha teórica, constituídas pelas hipóteses auxiliares. Regras "positivas" sugerem ao
cientista como, quando e onde essas correções e complementações devem ser efetuadas.
Essa é uma descrição sucinta e simplificada daquilo que o filósofo da ciência
contemporâneo Imre Lakatos chamou de programa científico de pesquisa. [5]

A exigência fundamental de um programa científico de pesquisa é que a estrutura
teórica como um todo forneça previsões empíricas corretas, ou seja dê conta dos fatos.
Outras características importantes de qualquer boa teoria científica são: a consistência: a
teoria não pode envolver contradições; a coerência: os princípios da teoria devem
apoiar-se mutuamente; a abrangência: a teoria deve explicar, ao menos em linhas gerais,
todos os principais fenômenos de seu domínio; deve ainda exibir unidade e
simplicidade, ou seja, a explicação que fornecem dos diversos fenômenos deve decorrer
de maneira natural e simples de um corpo de leis teóricas integrado e tão reduzido
quanto possível. Há, por fim, o vínculo externo de não conflitar com as demais teorias
científicas bem confirmadas que tratem de domínios de fenômenos complementares.

Tendo fornecido essa noção geral, bastante simplificada e incompleta, da concepção
contemporânea de ciência, passemos à questão da ciência espírita.

5. A ciência espírita

A inspeção meticulosa e isenta das origens, estrutura e desenvolvimento do Espiritismo
revela que ele possui todos requisitos de uma ciência genuína, segundo as
caracterizações da filosofia da ciência contemporânea, como a esboçada na seção
precedente. Em artigo anterior, "A excelência metodológica do Espiritismo",
procuramos mostrar, além disso, que Allan Kardec antecipou-se às conquistas recentes
da filosofia da ciência, e compreendeu muito bem a questão. Sua visão de ciência,
exposta explícita e implicitamente em seus escritos, corresponde efetivamente à visão
que os filósofos da ciência têm hoje. Isso teve a conseqüência feliz de que, ao travar
contato com uma nova ordem de fenômenos, Kardec empregou em sua investigação
métodos e critérios corretos, o que lhe possibilitou a implantação de uma verdadeira
ciência do espírito.

O corpo teórico fundamental do Espiritismo encontra-se delineado em O Livro dos
Espíritos. O exame dessa obra revela a adequação da teoria com os fatos, sua
consistência e seu alto grau de coesão e simplicidade, bem como a amplitude de seu
escopo. Ademais, ali estão implicitamente presentes as diretrizes que nortearam os
desenvolvimentos ulteriores das investigações espíritas. Muitos desses
desenvolvimentos foram, como se sabe, implementados pelo próprio Kardec, e se
acham expostos nas demais obras que escreveu. Consoante com a natureza de uma
verdadeira ciência, o progresso experimental e teórico do Espiritismo prossegue até
hoje, pelos esforços de pesquisadores encarnados e desencarnados.

Em contraste com os fundamentos científicos sólidos lançados por Kardec no estudo do
elemento espiritual do homem, as linhas de pesquisa que surgiram mais tarde, com a
pretensão de competir com o Espiritismo nessa área, não alcançaram o mesmo sucesso.
Deve-se notar, a tal respeito, que elas tiveram início justamente na época em que o
positivismo lógico fornecia os parâmetros segundo os quais uma atividade
genuinamente científica se desenvolveria. Ora, tais parâmetros sendo equivocados,
como os filósofos perceberam depois, as linhas de pesquisa nascentes, que alimentavam
a pretensão à cientificidade, acabaram por assimilar uma visão de ciência irreal. Isso
levou a que adotassem métodos inadequados aos fins a que se propuseram, bloqueandolhes
as possibilidades de contribuir significativamente para o avanço de nosso
conhecimento no domínio do espírito.

Lamentavelmente, a adoção de uma concepção falha de ciência levou os pesquisadores
dessas linhas de investigação a não somente empenharem de modo infrutífero os seus
esforços, como também a desprezarem, ou mesmo repelirem, as conquistas e métodos
de uma legítima ciência do espírito, o Espiritismo. Uma análise mais detalhada desse
ponto pode ser encontrada na seção 4 de "A excelência metodológica do Espiritismo", e
não será reproduzida aqui.

6. A ciência espírita e as ciências acadêmicas
Contrariamente ao que alguns críticos mal informados acerca do Espiritismo e das
teorias científicas contemporâneas alegam, o Espiritismo não conflita com qualquer
uma das teorias científicas maduras, quer da física, quer da química ou da biologia. É de
crucial importância notar que embora o Espiritismo seja uma ciência, ele não se
confunde com tais ciências, do mesmo modo como elas não se confundem entre si.


Os domínios de fenômenos por elas tratados não coincidem, sendo antes
complementares.

Kardec compreendeu perfeitamente bem essa distinção, e chamou a atenção para ela em
diversos de seus textos, como por exemplo no item VII da Introdução do Livro dos
Espíritos. Ali argumentou com segurança que "o Espiritismo não é da alçada da
ciência", ou seja, das ciências acadêmicas. Por outro lado, no parágrafo 16 do primeiro
capítulo de A Gênese, enfatizou a referida complementaridade do Espiritismo e dessas
ciências, afirmando que "o Espiritismo e a ciência completam-se reciprocamente".[6]

A percepção desses pontos evita uma série de julgamentos e posturas equivocados, que
têm ameaçado o movimento espírita atual. Vêem-se, com efeito, pessoas que imaginam
que a ciência espírita consiste justamente naquelas linhas de investigação iniciadas
depois de Kardec, e cuja fragilidade científica é evidente, à luz de uma análise filosófica
cuidadosa. Outros pensam que a ciência espírita consiste de investigações do âmbito das
ciências acadêmicas, especialmente as que envolvam experimentos conduzidos com o
auxílio de aparelhagens complexas, de uso nos laboratórios de física, e dentro de
referenciais teórico-conceituais emprestados dessa ciência. Assume-se que é o uso
desses aparelhos e o emprego de terminologia técnica (aliás quase sempre não
compreendida por quem a usa dentro de tais contextos) que confere cientificidade às
investigações.

Dada a gravidade dos enganos envolvidos em semelhantes posições, vale a pena nos
determos um pouco mais sobre elas. Deve-se, além dos esclarecimentos gerais já
indicados, notar que o estabelecimento dos princípios básicos do Espiritismo prescinde
completamente do uso de qualquer aparelho e do recurso a qualquer teoria física. O
mais fundamental de tais princípios é o da existência do espírito, ou seja, da existência
de algo no homem que é a sede do pensamento e dos sentimentos e sobrevive à morte
corporal. Como enfatizou Kardec, a comprovação cabal desse princípio se dá mediante
os fenômenos a que denominou "de efeitos intelectuais", quais sejam a tiptologia, a
psicofonia e a psicografia. Quem quer que reflita com isenção sobre fenômenos dessa
ordem não terá dificuldade em reconhecer que atestam a existência do espírito de modo
inequívoco.

Nessa avaliação, é importante notar a diferença que existe entre esse princípio básico do
Espiritismo e alguns dos princípios das teorias físicas e químicas contemporâneas, por
exemplo. Nestes últimos casos, o "grau teórico" (se assim nos podemos exprimir) é
muito maior, ou, em outros termos, os princípios estão muito mais distantes do nível
fenomenológico, ou seja, da observação empírica direta. O caminho que vai da
observação até o princípio teórico é bastante indireto, passando por uma série de teorias
auxiliares, necessárias, por exemplo, para tratar do funcionamento e interpretação dos
dados dos aparelhos envolvidos. Nessas circunstâncias, a segurança com que os
princípios podem ser afirmados fica evidentemente limitada; há em geral possibilidades
plausíveis de explicações dos mesmo fenômenos através de princípios teóricos
diferentes. E, de fato, a história da física e da química tem ilustrado a instabilidade de
suas teorias que avançam além do nível da percepção direta.

No caso do referido princípio espírita, bem como de vários outros dos princípios
básicos do Espiritismo, a situação é bastante diversa. Trata-se de princípios pertencentes
à classe de princípios a que os filósofos denominam "fenomenológicos", que estão na


base do edifício do conhecimento, dado o seu alto grau de certeza. Proposições dessa
classe são, por exemplo, as de que o fogo queima e a cicuta envenena.

Notemos que a inferência espírita diante de um fenômeno de efeitos intelectuais – a
saber, que são causados por uma inteligência humana desencarnada – não difere em
nada das inferências que fazemos a partir dos fenômenos ordinários. Quando, por
exemplo, o carteiro traz à nossa casa um papel no qual lemos certas frases, não nos
acudirá à cabeça a idéia de que elas não foram escritas por um determinado amigo, por
exemplo, quando relatam fatos, contêm expressões e expressam pensamentos peculiares
e íntimos, característicos daquele amigo. Exatamente o mesmo se dá com numerosos e
variados casos de psicografia ou outras manifestações inteligentes. Não constitui
exagero, pois, afirmar-se que a constatação cuidadosa de uns poucos casos dessa espécie
é suficiente para eliminar qualquer dúvida acerca da sobrevivência do ser.

É importante observar, por fim, que além dos fenômenos especiais que formam a classe
dos fenômenos espíritas, o Espiritismo apóia-se também em uma multidão de
fenômenos ordinários, em virtude de oferecer uma base sólida para sua compreensão.
Referimo-nos, por exemplo, às nossas inclinações e sentimentos, às peculiaridades de
nosso relacionamento com as pessoas que nos cercam, aos acontecimentos marcantes de
nossas vidas, aos distúrbios da personalidade, aos efeitos psicossomáticos, aos sonhos, à
evolução das espécies e das civilizações, etc.

Entendemos que a desconsideração desse vasto corpo de evidências indiretas a favor do
Espiritismo constitui omissão séria da parte de seus críticos. Com seu agudo senso
científico, Kardec percebeu desde o início que o alcance do Espiritismo transcendia de
muito os fenômenos mediúnicos e anímicos específicos que motivaram o seu
surgimento. "O estudo do Espiritismo é imenso", disse Kardec em outra passagem;
"interessa a todas as questões da metafísica e da ordem social; é todo um mundo que se
abre diante de nós"
(O Livro dos Espíritos, Introdução, item XIII).

7. O aspecto religioso do Espiritismo [7]
Do mesmo modo como tem havido falta de compreensão acerca do caráter científico do
Espiritismo e de suas relações com as ciências, seu caráter religioso e suas relações
com as religiões também têm constituído ponto de freqüentes confusões. Assim como
se pode mostrar ser o Espiritismo científico, embora não se inclua entre as ciências
ordinárias, por estudar um domínio diverso de fenômenos, pode-se, conforme o fez o
próprio Kardec, mostrar que o Espiritismo é religioso, embora não se confunda com
as religiões ordinárias. Se no estabelecimento da primeira dessas teses é necessário
identificar corretamente que características de uma teoria a tornam científica, temos,
para justificar a segunda, que estabelecer critérios adequados para a classificação de
uma doutrina no âmbito religioso.

A palavra religião evoca, por sua origem, à idéia da "re-ligação" do homem ao Criador.
Como se sabe, ao longo da história inúmeras propostas se apresentaram de como essa
"re-ligação" deve ser entendida e efetuada, resultando daí as diversas "religiões".


Afora divergências sobre a própria noção de Deus e da natureza do ser humano, as
religiões se diferenciam quanto aos requisitos propostos para que a criatura se religue a
Deus. Quase sempre, eles incluem a adequação da conduta a certas regras morais.
Tipicamente, também incluem a satisfação de providências formais e externas de vária
ordem: participação em cultos, rituais, cerimônias; realização de determinados gestos;
recitação de fórmulas e rezas; adoração de imagens e objetos diversos; promessas,
penitências, jejuns, etc.

Ora, já se pode perceber aqui algumas distinções fundamentais entre o Espiritismo e as
religiões ordinárias. Como elas, o Espiritismo também se preocupa com o destino do
homem, na Terra e no além-túmulo, procurando instruí-lo quanto ao que deve fazer para
que alcance estados de felicidade cada vez maior. No entanto, o Espiritismo propõe que
esse objetivo pode ser alcançado exclusivamente pela adaptação da conduta a
determinados preceitos morais. Qualquer medida de ordem exterior é mostrada ser não
somente ineficaz, mas também, em muitos casos, nociva, por desviar a atenção do ponto
principal e induzir ao sectarismo.

Depois, uma diferença crucial surge no modo pelo qual as regras éticas são
justificadas. As religiões ordinárias procuram justificar as normas morais que propõem
recorrendo à autoridade desse ou daquele indivíduo ou instituição. Já o Espiritismo
fundamenta o corpo de seus princípios éticos – sintetizados no preceito cristão do amor
ao próximo – no conhecimento que cientificamente alcança das conseqüências das
ações humanas ao longo da existência ilimitada dos seres, conjugado à cláusula
teleológica de que todos almejam a felicidade. Não há aqui lugar para dogmas e
imposições, mas exclusivamente investigação livre e racional dos fatos. Aliás esse já era

o modo pelo qual o Apóstolo Paulo entendia a moral, pois em sua primeira carta aos
Coríntios (10:23) asseverou: "Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas
são lícitas, porém nem todas edificam."
Em diversas de suas obras, Kardec deu grande importância ao estabelecimento da
moral espírita, abordando o assunto em profundidade. Mostrou que, com o
conhecimento científico espírita, a moral deixa de ser uma questão de especulações
abstratas ou de opiniões, estando indissociavelmente ligada ao estudo dos efeitos
naturais das ações humanas, em conexão com a busca da felicidade, objetivo comum de
todos os seres humanos. Ressaltou ainda que o corpo de princípios morais obtidos por
essa via da razão e da experiência coincide com aquele proposto por Jesus. Conforme
registrou no parágrafo 56 do primeiro capítulo de A Gênese, o Espiritismo "[dá] por
sanção à doutrina cristã as próprias leis da Natureza".

Ora, na medida em que fornece ao homem conhecimento seguro das regras de conduta
capazes de harmonizá-lo consigo mesmo e com os demais seres – e portanto,
efetivamente, com o plano divino –, o Espiritismo torna-se "o mais potente auxiliar da
religião", conforme nota Kardec nos lúcidos comentários adidos às questões 147 e 148
de O Livro dos Espíritos. A religião aqui aludida não se confunde, evidentemente, com
as doutrinas religiosas tradicionais, com suas hierarquias, dogmas inquestionáveis e
práticas exteriores, sendo antes uma religião no sentido próprio do termo, explicado
acima.

A velha questão de se o Espiritismo é ou não uma religião não admite, pois, resposta
unívoca, dada a duplicidade semântica do termo 'religião'. Esse ponto foi estudado em


profundidade no artigo de Kardec intitulado justamente "Le Spiritisme est-il une
religion?", que apareceu na Revue Spirite de 1868.[8] Para encerrar, vejamos estes
parágrafos do famoso texto:

[...] o Espiritismo é, assim, uma religião? Sim, sem dúvida, senhores: No sentido
filosófico o Espiritismo é uma religião, e disso nos honramos, pois que é a doutrina que
funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos não em uma simples
convenção, mas sobre a mais sólida das bases: as próprias leis da Natureza.

Por que então declaramos que o Espiritismo não era uma religião? Pela razão de que
há apenas uma palavra para exprimir duas idéias diferentes, e que, segundo a opinião
geral, o termo religião é inseparável da noção de culto, evocando unicamente uma
idéia de forma, com o que o Espiritismo não guarda qualquer relação. Se se tivesse
proclamado uma religião, o público nele não veria senão uma nova edição, ou uma
variante, se quisermos, dos princípios absolutos em matéria de fé, uma casta sacerdotal
com seu cortejo de hierarquias, cerimônias e privilégios; não o distinguiria das idéias
de misticismo e dos enganos contra os quais se está freqüentemente bem instruído.

Não apresentando nenhuma das características de uma religião, na acepção usual da
palavra, o Espiritismo não poderia nem deveria ornar-se de um título sobre cujo
significado inevitavelmente haveria mal-entendidos. Eis porque ele se diz simplesmente
uma doutrina filosófica e moral.

8. Conclusões
Inegavelmente, o Espiritismo é um empreendimento intelectual de ampla envergadura.
Em diversas ocasiões Allan Kardec ressaltou o seu caráter abrangente, bem como a
importância de considerá-lo em seu conjunto, quando se trata de avaliá-lo e de
investigar suas implicações.

Como vimos, na primeira linha da segunda edição do Livro dos Espíritos Kardec
caracterizou-o sucintamente como "filosofia espiritualista". Espiritualista, porque
estando centrado na constatação de que o homem é essencialmente, enquanto ser
pensante, espírito, insere-se no âmbito das doutrinas que se contrapõem ao
materialismo. Filosofia, porque investiga esse ser espiritual segundo uma abordagem
racional, sistemática e abrangente, típica da tradição de pesquisa inaugurada pelos
filósofos gregos, e que permeia toda a cultura ocidental até hoje. Nesse sentido original,
a filosofia abarcava todos os ramos do saber puro. Mesmo aquilo que, a partir de uma
certa época da história do pensamento, passou a ser chamado de ciência caía sob o
escopo da filosofia.

Assim, a caracterização kardequiana em análise não deve ser tomada como excluindo a
dimensão científica do Espiritismo, muito pelo contrário. Conforme deixou claro no
desdobramento de suas pesquisas, Kardec compreendeu que tal dimensão não somente
existia, mas que constituía mesmo a base sobre a qual a filosofia espírita repousa. Note-
se, por exemplo, que no preâmbulo de O que é o Espiritismo Kardec o define como
"uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas
relações com o mundo corporal". Quando bem compreendida, essa definição não
conflita com a que está na página de rosto do Livro dos Espíritos. Apenas salienta que
os fundamentos da filosofia espírita são científicos, e não puramente especulativos, ou


derivados de alguma tradição mística, religiosa, ou qualquer outra. Foi a análise
científica de certos fenômenos que deu origem ao Espiritismo, e estabeleceu desde
então o núcleo teórico sobre o seu objeto de estudo, ou seja, o espírito.

No entanto, como essa análise conduz, por sua própria natureza, a tópicos extremamente
abrangentes e fundamentais, no que diz respeito ao conhecimento do espírito, ela avança
por domínios tipicamente considerados filosóficos, mesmo segundo a concepção
contemporânea, mais restrita, de filosofia. O caso quiçá mais importante dessa extensão
é o da moral (ou ética). Kardec explorou com grande lucidez as implicações do
conhecimento científico espírita para as questões-chave da moral, dentre as quais a da
fundamentação das regras morais. Fez notar que o conhecimento científico acerca do
homem propiciado pelo Espiritismo permite o estabelecimento de um corpo de
princípios morais objetivos, e que ele coincide com aqueles propostos pelo Cristo.
Salientou ainda que tais princípios sintetizam o que há de essencial na noção de religião.
Nesse sentido, e apenas nele, o Espiritismo pode ser dito uma religião, adverte Kardec
no famoso artigo da Revue Spirite.

Dessa forma, os chamados "três aspectos" (ou "partes") do Espiritismo encontram-se
inextricavelmente ligados. Talvez mesmo devêssemos evitar a utilização dessa
expressão, porque pode induzir à idéia errônea de que se trata de três elementos
separados ou separáveis, que agrupamos apenas por conveniência. É significativo, a
esse respeito, que o próprio Kardec tenha evitado caracterizar o Espiritismo em tais
termos. Quando tentou sintetizar a natureza do Espiritismo, recorreu ora à noção de
filosofia, ora à de ciência, dependendo do contexto. Mas em ambos os casos indicou que
não se tratava de uma delimitação muito estreita da noção.

Se pensarmos no Espiritismo em termos de filosofia, será uma filosofia apoiada em
bases científicas, e que tem como um dos objetivos centrais o estudo das questões
morais. Se pensarmos em termos de ciência, não será uma pesquisa seca, que
simplesmente constate e sistematize fatos, mas de uma investigação de longo alcance
sobre um objeto de fundamental importância, o elemento espiritual. Essa ciência
complementa, pois, as ciências acadêmicas, cujo objeto de estudo é o elemento material.
E, pela própria natureza de seu objeto de estudo, a ciência espírita necessariamente diz
respeito a tópicos genuinamente filosóficos, dentre os quais ressalta, por sua
importância prática, aqueles referentes à moral.

Referências

Chalmers, A. F. What is this Thing called Science? 2nd. ed., Buckingham, Open
University Press, 1982.

Chibeni, S. S. "Os fundamentos da ética espírita", Reformador, junho de 1985, pp. 166


9.
–––. "A excelência metodológica do Espiritismo", Reformador, novembro de 1988, pp.
328-333, e dezembro de 1988, pp. 373-378.

–––. "Ciência espírita", Revista Internacional de Espiritismo, março 1991, pp. 45-52.

–––. "O paradigma espírita", Reformador, junho de 1994, pp. 176-80.


–––. "As acepções da palavra 'Espiritismo' e a preservação doutrinária". Reformador,


julho de 1999, pp. 212-214. (Questões sobre a natureza do Espiritismo – I.)
–––. "Revisão da terminologia espírita?". Reformador, agosto de 1999, pp. 250-252.
(Questões sobre a natureza do Espiritismo – II.)


–––. "A religião espírita". Reformador, setembro de 1999, pp. 280-282. (Questões sobre


a natureza do Espiritismo – III.)
–––. "A 'ciência oficial'". Reformador, outubro de 1999, pp. 312-313. (Questões sobre
a natureza do Espiritismo – IV.)


–––. "As relações da ciência espírita com as ciências acadêmicas". Reformador,


novembro de 1999, pp. 344-346. (Questões sobre a natureza do Espiritismo – V.)
–––. "Algumas abordagens recentes dos fenômenos espíritas". Reformador, dezembro
de 1999, pp. 380-383. (Questões sobre a natureza do Espiritismo – VI.)


–––. "A pesquisa científica espírita" Reformador, janeiro de 2000, pp. 24-25. (Questões


sobre a natureza do Espiritismo – VII.)
Kardec, A. Le Livre des Esprits. Reprodução fotomecânica da 1a ed. francesa. 1a ed,
bilíngüe, trad. e ed. Canuto Abreu. São Paulo, Companhia Editora Ismael, 1957.


–––. Livre des Esprits. Reprodução fotomecânica da 2a ed. francesa, com adendos do


Autor. 1a. ed., Rio, Federação Espírita Brasileira, 1998.
–––. O Livro dos Espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 43a ed., Rio de Janeiro, Federação
Espírita Brasileira, s.d.


–––. Revue Spirite. Coleção da Federação Espírita do Paraná.
–––. Qu'est-ce que le Spiritisme. Paris, Dervy-Livres, 1975.
–––. O que é o Espiritismo. (s. trad.) 25a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita


Brasileira, s.d.
–––. Le Livre des Médiums. Paris, Dervy-Livres, 1972.
–––. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro, 59a ed., revista, Rio de Janeiro,


Federação Espírita Brasileira, s.d.
–––. Voyage Spirite en 1862. Paris, Vermet, 1988.
–––. L'Évangile selon le Spiritisme. (Reprodução fotográfica da 3a edição francesa.) 1a


ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1979.
–––. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 113a ed., Rio, FEB.
–––. Le Ciel et l'Enfer. Farciennes, Editions de l'Union Spirite, 1951.



–––. O Céu e o Inferno. Trad. de Manuel Quintão. 28ª edição, Rio de Janeiro, Federação
Espírita Brasileira, s.d.

–––. La Genèse, les Miracles et les Prédictions selon le Spiritisme. Paris, La Diffusion
Scientifique, s.d.

–––. A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Trad. Guillon
Ribeiro, 23a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s. d.

–––. Oeuvres Posthumes. (Ed. André Dumas.) Paris, Dervy-Livres, 1978. Também na
edição original de Leymarie, em texto eletrônico, Centre d'Études Spirites Léon Denis:
http://perso.wanadoo.fr/charles.kempf/

–––. Obras Póstumas. Trad. Guillon Ribeiro, 18a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita
Brasileira, s.d.

Lakatos, I. "Falsification and the methodology of scientific research programmes". In:
Lakatos I, e Musgrave, A. (eds.) Criticism and the Growth of Knowledge. Cambridge,
Cambridge University Press, 1970. Pp. 91-195.

[1] Texto apresentado no XII Congresso Estadual de Espiritismo (USE). Campinas, SP,
17 a 20/4/2003.
[2] Neste trabalho usaremos as seguintes abreviações: LE - O Livro dos Espíritos; QE –
O que é o Espiritismo; LM – O Livro dos Médiuns; ESE – O Evangelho Segundo o
Espiritismo; CI – O Céu e o Inferno; G – A Gênese; OP – Obras Póstumas (as
referências de páginas deste livro são feitas pela tradução da FEB); VE – Viagem
Espírita em 1862 (páginas pela edição francesa corrente).
[3] Outros exemplos importantes do uso da expressão 'filosofia espírita' na acepção
ampla estão em: LM, parágrafos 14 (n. 7) e 32, capítulo 31 (item 18); OP, pp. 221, 247
e 253; QE, Preâmbulo; VE, pp. 6, 8 e 20.
[4] Esta seção e a seguinte aproveitam partes de nossos artigos "Espiritismo e ciência" e
"A excelência metodológica do Espiritismo", que deverão ser consultados para um
tratamento mais detalhado do assunto. Ver também os artigos sobre ciência espírita na
série "Questões sobre a natureza do Espiritismo". As referências são dadas no final
deste trabalho.
[5] Ver Lakatos 1970. Para uma exposição acessível dessa e de outras abordagens da
questão da natureza da ciência, consulte-se Chalmers 1982. Para uma análise da ciência
espírita à luz de outra teoria filosófica contemporânea acerca da ciência, elaborada por
Thomas Kuhn mais ou menos no mesmo período, ver nosso artigo "O paradigma
espírita".
[6] Note-se que nessas citações o termo 'ciência' é usado numa acepção mais restrita do
que a anteriormente elucidada. Para um estudo mais completo da análise kardequiana
das relações entre o Espiritismo e as ciência ordinárias, ver a seção 3 de "A excelência

metodológica do Espiritismo" e as partes IV e V da série "Questões sobre a natureza do
Espiritismo".

[7] Esta seção aproveita idéias e trechos de nossos artigos "Os fundamentos da ética
espírita", "A excelência metodológica do Espiritismo", seção 5, e "A religião espírita"
(o terceiro artigo da série "Questões acerca da natureza do Espiritismo"), que deverão
ser consultados para um maior desenvolvimento do assunto.
[8] Dezembro, pp. 353-62. Note-se que se trata de uma dos últimos números da Revue
compostos por Kardec. O texto expressa, pois, o seu pensamento mais refletido sobre o
assunto.
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... Silvio Seno Chibeni
> A Excelência Metodológica do Espiritismo

Artigos


Sumário

1. Introdução
2. O Espiritismo é científico
3. "O Espiritismo não é da alçada da ciência"
4. As deficiências das chamadas "ciências psi"
5. O Espiritismo é religioso
1. Introdução
O Espiritismo não pode considerar crítico sério senão aquele que tudo tenha visto,
estudado e aprofundado com a paciência e a perseverança de um observador
consciencioso; que do assunto saiba tanto quanto o adepto mais esclarecido; que haja,
por conseguinte, haurido seus conhecimentos algures, que não nos romances da
ciência; aquele a quem não se possa opor fato algum que lhe seja desconhecido,
nenhum argumento de que já não tenha cogitado e cuja refutação faça, não por mera
negação, mas por meio de outros argumentos mais peremptórios; aquele, finalmente,
que possa indicar, para os fatos averiguados, causa mais lógica do que a que lhe
aponta o Espiritismo. Tal crítico ainda está por aparecer.

Allan Kardec, Le Livre des Médiuns, § 14, n. 8. [nota 1]


Ao procurarmos aplicar esses critérios para a caracterização de um crítico legítimo do
Espiritismo a cada um daquele que o têm pretendido ser durante os mais de cento e
vinte anos que se passaram desde que Allan Kardec os enumerou, verificamos,
facilmente e sem possibilidade de erro, que mesmo hoje tal crítico "ainda está para
aparecer", em patente demonstração da excelência metodológica do Espiritismo, da
solidez de seus fundamentos, de sua superioridade relativamente aos demais sistemas,
doutrinas, teorias que com ele têm em comum o mesmo objeto de estudo, ou seja, a
existência e a natureza do elemento espiritual.

Essa tese foi tão lucidamente defendida pelo próprio Kardec em várias de usas obras
que acreditamos redundantes quaisquer argumentações posteriores. Nosso propósito
aqui será, portanto, tão unicamente o de relembrar alguns dos aspectos já considerados
pelo Codificador da Doutrina Espírita, comentando-os dentro do contexto de certas
dificuldades encontradas por alguns espíritas quando da análise comparativa do
Espiritismo com "sistemas" alternativos.

Não é inexpressivo o número de indivíduos e instituições ditos espíritas empenhados na
busca de "novidades" que possam, segundo pensam, "atualizar" a Doutrina, dar-lhe
"fundamentação científica", "harmonizá-la às conquistas da Ciência". Nesse sentido,
procuram ressaltar e dar cobertura - inclusive através de periódicos espíritas, ciclos de
palestras, etc - a pesquisadores das chamadas "ciências psi", notadamente aqueles
detentores de títulos acadêmicos. Tentaremos, dentro das limitações de espaço de um
artigo, mostrar que tais atitudes decorrem de uma injustificável inversão de valores,
prejudicial tanto ao Movimento Espírita como ao próprio desenvolvimento da Doutrina
e do conhecimento humano em geral.

2. O Espiritismo é científico
O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem
como de suas relações com o mundo corporal.

Allan Kardec, Qu'est-ce que le Spiritisme, Preâmbulo.

Evidentemente, o estatuto científico de uma teoria não pode ser decidido através da
mera deliberação de se definir como uma "ciência". Esse atributo é inerente à natureza
intrínseca da teoria, e não à denominação que se lhe dê.

A tarefa de determinar quais as características de uma teoria são necessárias e
suficientes ao seu enquadramento na categoria de ciência cabe à sub-área da Filosofia
intitulada Filosofia da Ciência. Essa disciplina, assim como outros ramos do saber,
vem evoluindo constantemente. Em seu caso específico, progressos essenciais
ocorreram no século XX, e , mais acentuadamente, a partir da década de 60. Os
trabalhos de vários filósofos, entre os quais Karl Popper, Willard Quine, Thomas
Kuhn, Paul Feyerabend e Imre Lakatos, evidenciaram graves problemas na
concepção de ciência que prevaleceu durante séculos, e ainda hoje é muito freqüente
encontrar-se entre os não são filósofos.

A compreensão dessa visão "antiga" de ciência, de suas várias dificuldades, dos
argumentos avançados por esses filósofos e das novas concepções que propuseram


requer estudos especializados de muitos anos, não podendo pois ser avançada dentro de
um artigo, por maior que seja sua extensão. Em trabalho anterior tivemos ocasião de
tentar fornecer uma tosca idéia dessas questões. Procuraremos aqui relembrar algo do
que ali foi exposto, a fim de dar substância à nossa presente argumentação. [nota 2]

Muito simplificadamente, poderíamos dizer que pelo menos desde o surgimento da
ciência moderna, por volta do século XVII, acreditava-se que a Ciência consistia na
catalogação neutra de um grande número de "fatos", dos quais então resultariam, de
maneira "espontânea", certa e infalível, as leis gerais que o regem; a reunião de tais leis
constituiria então uma teoria científica.

Conforme mencionamos, essa visão "clássica" de ciência mostrou-se insustentável.
Percebeu-se que a descrição, busca e classificação dos fatos necessariamente envolve
pressuposições teóricas de um tipo ou de outro; que nenhuma lei teórica pode resultar
lógica e infalivelmente de um conjunto de fatos, qualquer que ele seja; que uma teoria
científica não é um simples amontoado de leis, sendo, antes, uma estrutura dinâmica
complexa, na qual participam elementos de diversas naturezas, como resultados
observacionais, hipóteses livremente concebidas, regras para o desenvolvimento futuro
da teoria, decisões metodológicas, fragmentos de outras teorias etc.

Imre Lakatos sistematizou as novas idéias surgidas na Filosofia da Ciência, propondo
que a atividade científica desenvolve-se em torno do que denominou "programa
científico de pesquisa". [nota 3] Um tal programa de pesquisa consiste, em termos
simplificados, de um "núcleo rígido" de hipóteses teóricas básicas, suplementado por
um "cinturão protetor" de hipóteses auxiliares, que serve para ligar e ajustar o núcleo
aos fenômenos de que a ciência trata. A cada programa ainda estão associadas duas
"heurísticas", uma "negativa", que é a decisão metodológica de se manter inalteradas as
hipóteses do núcleo, e outra "positiva", que é um conjunto de sugestões ou idéias de
como mudar ou desenvolver o cinturão protetor de modo que o programa dê conta de
novos fenômenos e explique os já conhecidos de maneira mais precisa. Um programa de
pesquisa é dito "progressivo" caso leve sistematicamente à descoberta de novos fatos,
que sejam por ele explicados; caso contrário, será dito "degenerante".

Tomando o exemplo de um dos mais bem sucedidos programas de pesquisa da Física, a
Mecânica Newtoniana, vemos que possui um núcleo rígido formado pelas três leis
newtonianas do movimento e pela lei da gravitação universal, que a heurística negativa
do programa recomenda sejam mantidas inalteradas: eventuais discrepâncias com a
experiência devem ser eliminadas através de ajustes nas hipóteses auxiliares do cinturão
protetor. Esse processo ocorreu várias vezes durante o desenvolvimento do programa,
como quando, no século XIX, se verificou que as previsões teóricas para a trajetória do
planeta Urano conflitavam com os dados da observação astronômica; ao invés de
imputar esse desvio a possível falsidade das leis do núcleo rígido, assumiu-se que
deveria existir um corpo celeste desconhecido perturbando a trajetória do planeta; mais
tarde, foi, de fato, observada a existência desse corpo, o planeta Netuno. Assim como
nesse episódio, a conjunção das heurísticas negativa e positiva do programa newtoniano
levou à inúmeros desenvolvimentos: novas teorias ópticas, novos aparelhos e técnicas
de observação, criação de novos ramos da Matemática etc. A partir do início de nosso
século, porém, o programa tornou-se degenerante, por motivos vários que não cabe
expor aqui, vindo a ser substituído pelos programas das Teorias da Relatividade e da
Mecânica Quântica.


Olhando agora para o Espiritismo, vemos que traz em si todas as características de um
programa de pesquisa progressivo, sendo, portanto, genuinamente científico, segundo o
critério lakatosiano.

Possui um núcleo rígido formado pelo princípio da existência de uma "inteligência
suprema, causa primária de todas as coisas", dotada da suprema justiça e bondade; pela
lei de causa e feito; pela imortalidade dos seres vivos; por sua evolução ilimitada; pela
existência do livre arbítrio, a partir de determinado estágio evolutivo. Desse núcleo
pode-se, com o auxílio da lógica ("raciocínio") e de assunções auxiliares, deduzir
("explicar") a infinidade de fenômenos de que trata o Espiritismo: os fenômenos
mediúnicos e anímicos, a evolução dos seres, seus estados psicológicos, sua condição
após a morte etc. Todos esses fato, analisados extensiva e objetivamente pelo
Espiritismo, embasam e sancionam o corpo de seus princípios teóricos; este, a seu
turno, concatena, torna inteligíveis, explica aqueles fatos.

Allan Kardec percebeu, em admirável antecipação às conquistas recentes da Filosofia da
Ciência, a importância fundamental dessa "simbiose" entre fenômeno e teoria, e
expendeu extensos comentários sobre ela em várias de suas obras. Os três capítulos
iniciais da primeira parte de O Livro dos Médiuns, por exemplo, são uma obra prima
de argumentação filosófica que, embora visando à elucidação de uma questão
ligeiramente diferente, contém valiosos elementos relevantes ao assunto que estamos
analisando. Comecemos por estas considerações do Parágrafo 19:

É crença geral que, para convencer, basta apresentar fatos. Esse, com efeito, parece o
caminho mais lógico. Entretanto, mostra a experiência que nem sempre é o melhor,
pois que a cada passo se encontram pessoas que os mais patentes fatos absolutamente
não convenceram. A que se deve atribuir isso? É o que vamos tentar demonstrar.

No Parágrafo 29 Kardec volta ao ponto:

Podemos dizer que, para a maioria dos que não se preparam pelo raciocínio, os
fenômenos materiais quase nenhum peso têm. Quanto mais extraordinários são esses
fenômenos, quanto mais se afastam das leis conhecidas, maior oposição encontram e
isto por uma razão muito simples: é que todos somos naturalmente a duvidar de uma
coisa que não tem sanção racional. Cada um a considera de seu ponto de vista e a
explica a seu modo [...].

Essa "sanção racional" é a que advém da explicação dos fatos através da teoria. No
Parágrafo 34, após ressaltar a importância dos fatos na fundamentação da teoria, Kardec
considera, por outro lado, que de dez pessoas novatas que assistam a uma sessão de
experimentação espírita "nove sairão sem estar convencidas e algumas mais incrédulas
do que antes, por não terem as experiências correspondido ao que esperavam".

Prossegue então Kardec:

O inverso se dará com as que puderem compreender os fatos, mediante antecipado
conhecimento teórico. Paras estas pessoas, a teoria constitui um meio de verificação,
sem que coisa alguma as surpreenda, nem mesmo o insucesso, porque sabem em que


condições os fenômenos se produzem e que não se lhes deve pedir o que não podem
dar. Assim, pois, a inteligência prévia dos fatos não só as coloca em condições de se
aperceberem de todas as anomalias, mas também de apreenderem um sem número de
particularidades, de matizes, às vezes muito delicados, que escapam ao observador
ignorante.

Considerações interessantes nesse mesmo sentido encontram-se também em O que é o
Espiritismo. No diálogo com o Crítico (Cap. I, Primeiro Diálogo) Kardec pondera, em
resposta à solicitação que este lhe faz de permissão para assistir a algumas experiências:

E julgais que isto vos baste para poder, ex professo, falar de Espiritismo? Como
poderíeis compreender essas experiências e, ainda mais, julgá-las, quando não
estudaste os princípios em que elas se baseiam? Como apreciaríeis o resultado,
satisfatório ou não, de ensaios metalúrgicos, por exemplo, não conhecendo a fundo a
metalurgia?

Mais adiante, no diálogo com o Céptico (Cap. I, Segundo Diálogo, seção "Elementos de
convicção") Kardec coloca a questão em termos explícitos:

Há duas coisas no Espiritismo: a parte experimental das manifestações e a doutrina
filosófica. Ora, eu sou todos os dias visitado por pessoas que ainda nada viram e crêem
tão firmemente como eu, pelo só estudo que fizeram da parte filosófica; para elas o
fenômeno das manifestações é acessório; o fundo é a doutrina, a ciência; eles a vêem
tão grande, tão racional, que nela encontram tudo quanto possa satisfazer às suas
aspirações interiores, à parte o fato das manifestações; do que concluem que, supondo
não existissem as manifestações, a doutrina não deixaria de ser sempre a que melhor
resolve uma multidão de problemas reputados insolúveis. Quantos me disseram que
essas idéias estavam em germe no seu cérebro, conquanto em estado de confusão. O
Espiritismo veio coordená-las, dar-lhes corpo, e foi para eles como um raio de luz. É o
que explica o número de adeptos que a simples leitura de O Livro dos Espíritos
produziu. Acreditais que esse número seria o que é hoje, se nunca tivéssemos passado
das mesas girantes e falantes ?

A primeira sentença que destacamos revela uma vez mais que Kardec localizava o
caráter científico do Espiritismo na "doutrina", na sua "parte filosófica", que, no
contexto de nossa análise, deve ser entendido como aquilo a que vimos denominando
"teoria". Os fatos em si não constituem a ciência.

Nosso segundo destaque mostra que Kardec já entendia o papel da teoria como dando
"corpo", ou seja, coesão, inteligibilidade, aos fenômenos, que é a tarefa que Lakatos
atribui aos princípios teóricos do programa de pesquisa, notadamente os de seu núcleo
rígido.

No decorrer das próximas seções a tese da cientificidade do Espiritismo pela qual vimos
argumentando receberá indiretamente mais elementos de comprovação.


3. "O Espiritismo não é da alçada da Ciência"
A frase que serve de título a esta seção foi extraída do Item VII da magnífica peça
"Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita", que Kardec fez figurar como introdução
de O Livro dos Espíritos. Esse item trata especificamente da relações entre a Doutrina
Espírita e a Ciência, devendo esta ser entendida aqui como o conjunto das ciências
ordinárias, "oficiais", das academias, tal como a Física, a Química e a Biologia. [nota 4]

Apesar da clareza e da robustez argumentativa com que Allan Kardec abordou esse
assunto, não somente nessa seção de O Livro dos Espíritos, mas também em outras de
suas obras, especialmente em O que é o Espiritismo, O Livro dos Médiuns e A Gênese,
Os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo, curiosamente observam-se ainda
hoje muitos equívocos em sua apresentação, mesmo por parte de espíritas. Destarte,
mais uma vez repetimos que não acrescentando nada ao que já disse o preclaro
Codificador, mas apenas relembrando seus argumentos. [nota 5]

Começaremos notando que a afirmação de Kardec em consideração vem, no texto,
precedida pela palavra portanto, o que mostra que, seguindo a regra que invariavelmente
adotou, Kardec ofereceu um argumento à assertiva, que, dada a sua importância, não
poderia ser postulada dogmaticamente.

Esse argumento encontra-se no próprio parágrafo que contém a assertiva em discussão:

As ciências ordinárias assentam nas propriedades da matéria, que se pode
experimentar e manipular livremente; os fenômenos espíritas repousam na ação de
inteligências dotadas de vontade própria e que nos provam a cada instante não se
acharem subordinadas aos nossos caprichos. As observações não podem, portanto, ser
feitas de mesma forma; requerem condições especiais e outro ponto de partida. Querer
submetê-la aos processos comuns de investigações é estabelecer analogias que não
existem. A Ciência, propriamente dita, é, pois, como ciência, incompetente para
pronunciar na questão do Espiritismo: não tem que se ocupar com isso e qualquer que
seja o seu julgamento, favorável ou não, nenhum peso poderá ter.

É admirável a simplicidade do argumento: o Espiritismo e a Ciência tratam de domínios
diferentes de fenômenos: o primeiro dos relativos ao elemento espiritual, a segunda
daqueles concernentes ao elemento material. Têm, portanto, métodos específicos e
objetivos distintos, não cabendo, pois, julgamentos recíprocos.

Notemos que não se pode confundir o fato de o Espiritismo ser uma ciência - o que
procuramos mostrar na seção anterior - com a assunção falsa de que ele pertence ao
domínio da Ciência (ou seja, da Física, da Química e da Biologia).

Um pouco adiante, Kardec enfatiza:

Repetimos mais uma vez que, se os fatos a que aludimos se houvessem reduzido ao
movimento mecânico dos corpos, a indagação da causa física desse fenômeno caberia
no domínio da Ciência; porém, desde que se trata de uma manifestação que se produz
com exclusão das leis de Humanidade, ela escapa à competência da ciência material,


visto não poder exprimir-se nem por algarismos, nem pela força mecânica.

Estudando domínios diferentes e complementares, "O Espiritismo e a Ciência se
completam reciprocamente", conforme destacadamente exarou Kardec no Parágrafo 16
do Capítulo I de A Gênese.

Antes de prosseguirmos, vejamos como Kardec reapresenta o argumento em estudo em
O que é Espiritismo. Ali, o assunto é tratado extensivamente. Na décima quinta
resposta ao Crítico (Cap. I, Primeiro Diálogo), Kardec lembra uma vez que:

os fenômenos espíritas diferem essencialmente dos das ciências exatas: não se
produzem à vontade; é preciso que os colhamos de passagem; é observando muito e
por muito tempo que se descobre uma porção de provas que escapam à primeira vista,
sobretudo, quando não se está familiarizado com as condições em que se pode
encontrá-las, e ainda mais quando se vem com o espírito prevenido.

E, na resposta seguinte, enfatiza:

Não se pode fazer um curso de Espiritismo experimental como se faz um de Física ou
de Química, visto que nunca se é senhor de produzir os fenômenos espíritas à vontade,
e que as inteligências que lhe são o agente fazem, muitas vezes, frustrarem-se todas as
nossas previsões.

No diálogo com o Céptico (Cap. I, Segundo Diálogo, seção "Oposição da Ciência")
Kardec enfoca outro aspecto da questão, igualmente já tratado no referido Item VII da
Introdução de O Livro dos Espíritos. Estabelecida a independência da Ciência e do
Espiritismo, resta ver se estariam os cientistas mais autorizados que as demais pessoas a
se pronunciar sobre o Espiritismo. Tal questão é ainda atual, já que vemos muitos
espíritas na posição em que Kardec situa o Céptico do diálogo: afligem-se por buscar o
apoio dos cientistas. "Admito perfeitamente", diz o Céptico, "que eles não são
infalíveis; mas não é menos verdade que, em virtude do seu saber, sua opinião vale
alguma coisa, e que, se ela estivesse do vosso lado, daria grande peso ao vosso sistema".

A réplica de Kardec vem, como sempre, vazada no bom senso e na lógica:

Concordai, também, que ninguém pode ser bom juiz naquilo que está fora da sua
competência.
Se quiserdes edificar uma casa, confiaríeis esse trabalho a um músico?
Se estiverdes enfermo, far-vos-ei tratar por um arquiteto?
Quando estais a braços com um processo, ides consultar um dançarino?
Finalmente, quando se trata de uma questão de teologia, alguém irá pedir solução a um
químico ou a um astrônomo?
Não, cada um em sua especialidade.
As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da matéria, que se pode, à
vontade, manipular.; os fenômenos que ela produz têm por agentes forças materiais.
Os do Espiritismo têm, como agentes, inteligências que possuem independência, livre-
arbítrio e não estão sujeitas aos nossos caprichos; por isso eles escapam aos nossos



processos de laboratório e aos nossos cálculos, e, desde então, ficam fora dos domínios
da Ciência propriamente dita.
A Ciência enganou-se quando quis experimentar os Espíritos como o faz com uma pilha
voltaica; foi mal sucedida, como devia ser, porque agiu pressupondo uma analogia que
não existe; e depois, sem ir mais longe, concluiu pela negação, juízo temerário que o
tempo se encarrega de ir emendando diariamente, como já fez com tantos outros [...].
As corporações científicas não devem, nem jamais deverão, pronunciar-se nesta
questão; ela está tão fora dos limites do seu domínio como a de decretar se Deus existe
ou não; é, pois, um erro tomá-las aqui por juiz.

Kardec mostrou que nem o estudo do Espiritismo cabe à Ciência, nem estão os
cientistas em posição privilegiada para sobre ele opinar. Foi mesmo além: dada a
freqüente distorção que o envolvimento com sua especialidade impões à sua maneira de
apreciar as coisas, suas opiniões podem até mesmo estar mais sujeitas a equívocos. No
referido item de O Livro dos Espíritos Kardec considera:

Aquele que se fez especialista prende todas as suas idéias à especialidade que adotou.
Tirai-o daí e o vereis sempre desarrazoar, por querer submeter tudo ao mesmo
cadinho: conseqüência da fraqueza humana.

Nada obsta, evidentemente, a que os cientistas se interessem, enquanto homens, pelo
Espiritismo, e o estudem e avaliem nessa condição. Um pouco abaixo do trecho que
acabamos de transcrever, Kardec pronuncia-se nesse sentido:

O Espiritismo é o resultado de uma convicção pessoal, que os cientistas, como
indivíduos, podem adquirir, abstração feita de sua qualidade de cientistas [...].
Quando as crenças espíritas se houverem difundido, quando estiverem aceitas pelas
massas humanas [...], com elas se dará com o que tem acontecido com todas as idéias
novas que hão encontrado oposição: os cientistas se renderão à evidência. Lá
chegarão, individualmente, pela força das coisas. Até então será intempestivo desviálos
de seus trabalhos especiais, para obrigá-los a se ocupar de um assunto estranho,
que não lhes está nem nas atribuições, nem no programa. Enquanto isso não se
verifica, os que, sem assunto prévio e aprofundado da matéria, se pronunciam pela
negativa e escarnecem de quem não lhes subscrevem o conceito, esquecem que o
mesmo se deu com a maior parte das grandes descobertas que fazem honra à
Humanidade.

Ainda um último aspecto está envolvido nas relações entre o Espiritismo e a Ciência: a
necessidade que ele tem de não entrar em descompasso com o progresso científico.

O local clássico onde Kardec tratou desse ponto é o Parágrafo 55 do Capítulo I de A
Gênese. Começa considerando que "apoiando-se em fatos [a revelação espírita] tem que
ser, e não pode deixar de ser, essencialmente progressiva". Esse caráter essencial do
Espiritismo resulta de sua natureza genuinamente científica: embora o núcleo de seus
princípios básicos permaneça inalterado, complementações e ajustes nas assunções
auxiliares do cinturão protetor o colocam sempre em concordância com as novas
descobertas. É isso que se tem verificado ao longo da história do Espiritismo. O núcleo


doutrinário fundamental contido em O Livro dos Espíritos foi, nas mãos equilibradas do
próprio Kardec, desdobrado e ampliado nos estudos que resultaram nas demais obras da
Codificação. Hoje em dia, a vasta literatura mediúnica legitimamente espírita ampliou,
por exemplo, os informes sobre o mundo espiritual. E isso, repetimos, sem confronto
com os princípios básicos.

No entanto, é preciso cautela no entendimento da progressividade do Espiritismo.

Primeiro, ela deve ocorrer de acordo com a heurística positiva do próprio programa
espírita, sem recurso a elementos estranhos, venham de onde vierem, sob o risco de este
perder sua consistência.

Depois, a harmonia com as conquistas da Ciência não deve ser buscada irrestritamente e
a qualquer preço, visto estar ela, em suas proposições abstratas, constantemente sujeita a
enganos e retificações. Kardec percebeu isso de maneira clara, mesmo tendo vivido
antes das grandes revoluções científicas do início de nosso século. No item de O Livro
dos Espíritos de que estamos tratando encontramos este trecho:

Desde que a Ciência sai da observação material dos fatos, para os apreciar e explicar,

o campo está aberto às conjecturas [...]. Não vemos todos os dias as mais opostas
opiniões serem alternadamente preconizadas e rejeitadas, ora repelidas como erros
absurdos, para logo depois aparecerem proclamadas como verdades incontestáveis?
Aliás, é interessante notar que se Kardec não tivesse imprimido ao programa espírita a
independência e autonomia que lhe imprimiu, ajustando-o, ao invés, de modo irrestrito
agraves teorias científicas da época, ele teria, como conseqüência das aludidas
revoluções, soçobrado irremediavelmente.

Aparentemente, os que em nossos dias advogam a tese do "ajuste à Ciência" ainda não
se deram conta desse fato, nem perceberam que no referido parágrafo de A Gênese
Kardec deixou clara uma ressalva vital, ao falar desse ajuste:

Entendendo com todos os ramos da economia social, aos quais dá apoio das suas
próprias descobertas, [o Espiritismo] assimilará sempre todas as doutrinas
progressivas, de qualquer ordem que sejam, desde que hajam atingido o estado de
verdades práticas e abandonado o domínio da utopia, sem o que ele suicidaria.

Notemos que o "suicídio" do Espiritismo adviria, segundo Kardec, não só de sua
estagnação (aspecto esse sempre lembrado), mas também de sua assimilação de
doutrinas que não hajam atingido o estado de "verdades práticas"(o que em geral passa
despercebido, por ter ficado implícito no texto).

Agora é certo que não há nenhum princípio científico estável, nenhuma "verdade
prática", que o Espiritismo não tenha ou assimilado, ou mesmo antecipado, sendo,
portanto, improcedente os pruridos de reforma e atualização da Doutrina.

4. As deficiências das chamadas "ciências psi"

Todas as teorias que pretendem elucidar os fenômenos mediúnicos, alheias à Doutrina
Espiritista, pecam pela sua insuficiência e falsidade.

Emmanuel

Essa assertiva de Emmanuel, que abre o Capítulo XIV do primeiro livro que nos legou
por via mediúnica (Emmanuel, psicografado por Francisco Cândido Xavier.), há mais
de cinqüenta anos, pode, a alguns, parecer demasiadamente forte. No entanto, assim
como tudo o que nos tem dito o iluminado Espírito, decorre de uma análise isenta e
racional dos fatos. As conquistas recentes da Filosofia da Ciência, ainda não alcançadas
àquela época, evidenciam inequivocamente a correção desse juízo. É o que tentaremos
resumidamente mostrar nesta seção.

A primeira linha de pesquisa não espírita dos fenômenos espíritas (anímicos e
mediúnicos) que chegou a constituir uma "escola" foi a Metapsíquica, que se
desenvolveu nas duas primeiras décadas desse século e culminou com a publicação em
Paris em 1922 do clássico Traité de Métapsychique, de Charles Richet. Logo após, essa
escola foi cedendo lugar à Parapsicologia, cujo pioneiro foi o norte-americano J. B.
Rhine, que em 1937 publicou seu New Frontiers of the Mind. De lá para cá, sob a
inspiração dessa disciplina, surgiram e continuam surgindo, em vertiginosa
multiplicação, várias outras linhas de investigação dos chamados "fenômenos
paranormais". Talvez não seja exagero afirmar que elas são quase tão numerosas
quanto os pesquisadores, cada um com seu "sistema" próprio. Denominaremos aqui, por
simplicidade, de ciências psi o conjunto de tais sistemas, muito embora, como veremos,
não sejam ciências genuínas.

Entre os traços comuns dessas disciplinas, destacaríamos a pretensão à cientificidade, a
suposição de que aderem ao "método científico", o emprego de métodos quantitativos e
de aparelhos, uma certa aversão a "teorias" etc.

Ocorre que à época do nascimento da Parapsicologia, ou seja, nas décadas de 20 e 30, a
Filosofia da Ciência vivia o apogeu do Positivismo Lógico. Essa doutrina filosófica
representou, por assim dizer, a tentativa suprema de articulação da visão clássica de
ciência, que mencionamos anteriormente. Em que pese o empenho dos maiores
filósofos da época, porém, tal programa malogrou de forma espetacular e definitiva,
diante dos argumentos contra ele levantados, principalmente pelos filósofos que citamos
na seção 2 (Reformador, novembro de 1988, págs. 328-331).

Apesar disso, tal foi a intensidade desse movimento filosófico, que exerceu uma
influência sem precedentes sobre os cientistas, a qual sobreviveu ao seu fracasso,
perdurando até nossos dias, com conseqüências funestas para a Ciência.

Inevitavelmente, a Parapsicologia, que nascia àquela época com pretensões à
cientificidade, procurou seguir de forma estrita os cânones preconizados pelo
Positivismo Lógico para a caracterização de uma ciência. (Esse fenômeno ocorreu
também com a Sociologia e com a Psicologia, que também andavam à procura de
cientificidade. A propósito, é significativo o fato de Rhine e outros pioneiros da
Parapsicologia terem sido psicólogos.)


A conseqüência não poderia ser outra: essa nova disciplina carregou consigo, desde a
sua concepção, as deficiências graves da visão lógico-positivista de ciência, vindo a
adotar métodos incompatíveis com os fins a que se propõe, perseguindo um ideal de
cientificidade completamente ilusório. E atrás dela vieram as demais, a despeito da
louvável boa intenção da maioria de seus profitentes.

Para ilustrar essa situação, consideremos agora alguns exemplos concretos dos
equívocos em que incorrem essas pretensas ciências.

a) Seguindo a velha "receita", procuram acumular fatos sobre fatos, sem o auxílio de um
corpo teórico ordenador. Vimos acima quão inócuo e anti-científico é esse
procedimento, e quão bem Kardec compreendeu tal realidade.

b) Quando explicações são dadas, são-no fragmentariamente, cada fato sendo
"explicado" por uma hipótese isolada. Desse modo, mesmo se artificialmente
agruparmos essas hipóteses, não formaremos senão um todo inconsistente, o que viola a
própria Lógica. A moderna Filosofia nem mesmo considera explicações genuínas
"explicações" isoladas de fatos.

c) As explicações são, via de regra, ainda mais fantásticas do que os fatos a que se
propõem explicar. Nas admiráveis refutações aos contraditores do Espiritismo contidas
em várias de suas obras, notadamente em O que é o Espiritismo (Cap. I), O Livro dos
Médiuns (Primeira Parte, Cap. IV), ,O Céu e o Inferno (Primeira Parte) e O Livro dos
Espíritos (Introdução, Item XVI), Allan Kardec, com a agudeza de espírito que o
caracterizava, já apontava esse tipo de problema. Na seção "Falsas explicações dos
fenômenos", do primeiro desses livros, Kardec pergunta:

Como podem pretender dar conta dos fenômenos espíritas [através da hipótese da
alucinação] sem serem antes capazes de explicar sua explicação?

E mais adiante acrescenta:

É realmente curioso observar os contraditores empenharem-se na busca de causas cem
vezes mais extraordinárias e difíceis de compreender do que aquelas que lhes apresenta

o Espiritismo.
Outro tipo de pseudo-explicação comumente encontrada são as explicações puramente
nominais: carecem de qualquer substância, consistindo unicamente do emprego de
fraseologia excêntrica na descrição dos fenômenos. Emmanuel profliga semelhante
vício filosófico no parágrafo que segue imediatamente ao que abre esta seção:

Em vão, procura-se complicar a questão com termos rebuscados, apresentando-se as
hipóteses mais descabidas e absurdas [...].

d) Quando "teorias" são fornecidas, não dão conta de todos os fatos. Aqui também
Kardec já alertou (O Livro dos Médiuns, parágrafo 42):

O que caracteriza uma teoria verdadeira é poder dar razão de tudo. Se, porém, um só


fato que seja a contradiz, é que ela é falsa, incompleta, ou por demais absoluta.

e) Muitos fatos relevantes simplesmente não são reconhecidos. Isso pode resultar: i de
idéias preconcebidas, como no caso daquelas que negam a priori a possibilidade de
sobrevivência do ser, e portanto não investigam uma vasta quantidade de fenômenos
relativos a ela. (Esse problema atinge as raias do absurdo no horror que alguns
investigadores têm pelos médiuns - exatamente o manancial mais abundante de
fenômenos de que se dispõe!); ou ii. da falta de uma teoria que guie na busca e análise
dos fatos. Vimos acima com Kardec quão longe está o Espiritismo de incorrer em
semelhantes enganos.

f) Emprego de técnicas de investigação inadequadas. O caso típico e mais importante é

o recurso ao "método quantitativo". Como se sabe, tal método constitui uma das
maiores bandeiras da Parapsicologia e demais "ciências psi", que julgam assim estar
seguindo os afortunados caminhos da Física e da Química. Ora, se indubitavelmente a
análise das quantidades desempenha nessas ciências um papel importante (embora não
exclusivo!), não se segue daí que deva ser igualmente frutífero no estudo de uma ordem
de fenômenos completamente diferente. De fato, são, neste caso, de todo dispensáveis
(para dizermos pouco). É até mesmo ridículo querer substituir a prova cabal fornecida
por uma manifestação inteligente (como por exemplo uma carta que contém
informações detalhadas de episódios e coisas desconhecidas) por medidas de desvios
estatísticos em experimentos de identificação de cartas de baralho, ou similares. Não
que estas últimas sejam irrelevantes; mas a evidência que podem dar é imensamente
mais fraca e duvidosa do que a que resulta das manifestações inteligentes, e mesmo de
efeitos físicos extraordinários produzidos através de um médium possante. (Parece
estarmos aqui na situação de guerreiro que, dispondo de um moderno canhão, prefira
servir-se de um tosco estilingue...)
Essa situação foi, como sempre, percebida e combatida por Allan Kardec, que não só
enfatizou repetidamente a importância crucial e a superioridade dos fenômenos
mediúnicos de efeitos inteligentes, como também explicitamente referiu-se à
inadequação dos métodos quantitativos, conforme se observa nas citações que fizemos
na seção 3, em especial neste trecho de O que é o Espiritismo (destacamos):

[Os fenômenos espíritas] têm, como agentes, inteligências que têm independência,
livre-arbítrio e não estão sujeitas aos nossos caprichos; por isso eles escapam aos
nossos processos de laboratório e aos nossos cálculos [...]. A Ciência enganou-se
quando quis experimentar os Espíritos, como o faz com uma pilha voltaica; foi mal
sucedida como devia ser, porque agiu pressupondo uma analogia que não existe.

Também no Item de O Livro dos Espíritos que vimos analisando Kardec alerta
(destacamos):

[As manifestações espíritas] escapam à competência da ciência material, visto não
poder expressar-se por algarismos, nem pela força mecânica.

g) Recurso desnecessário e perigoso a aparelhos sofisticados. Não obstante de inegável
valor nas investigações da matéria, como mostram os notáveis avanços da Física e da


Química, a prescindibilidade de aparelhos no estudo dos fenômenos espíritas ficou
evidenciada pelas considerações expendidas no item anterior. Além disso, há mesmo
riscos em sua utilização. Primeiro, tal utilização pode encobrir deficiências
metodológicas profundas, produzindo uma ilusória impressão de rigor, de
cientificidade. Depois, e mais importante, do ponto de vista epistemológico (ou seja, da
teoria do conhecimento), as observações por meio de aparelhos ocupam um nível bem
mais baixo na escala da confiabilidade do que aquelas que podem ser alcançadas de
modo imediato. (Assim, uma das mais difundidas vertentes da Epistemologia chega
mesmo a negar que entidades teóricas não diretamente observáveis possuam
"referentes", ou seja, contrapartes reais.) A razão disso é simples: quando se utiliza um
aparelho para fazer certa observação, o resultado da mesma pressuporá a validade das
teorias envolvidas na construção e no funcionamento do aparelho, introduzindo-se,
desse modo, mais elementos de incerteza.

Essas considerações epistemológicas explicam, por sinal, a grande estabilidade do
núcleo de princípios fundamentais do Espiritismo, quando comparado aos das teorias
científicas, pois repousam em fenômenos extremamente básicos do ponto de vista
epistêmico, com o mesmo grau de certeza, quanto, por exemplo, as proposições de que
temos agora uma folha de papel diante de nós, de que há nela algo escrito, de que nos
achamos sentados etc. Medeia vasta distância conceitual entre proposições desse tipo e,
por exemplo, aquelas sobre a estrutura dos átomos, dos buracos negros, sobre o
mecanismo das mutações genéticas etc.

h) Referência a conceitos e teorias científicas obsoletos. A Física deste século
introduziu, como já dissemos, alterações radicais em suas teorias, e conseguintemente
em nossa visão do mundo. Conceitos que faziam parte da Física Clássica, como os de
espaço e tempo absolutos, partículas, campos etc., foram ou totalmente abandonados, ou
revistos profundamente, por não mais servirem às novas teorias, não dando conta dos
fenômenos observados. Assim, é inacreditável que haja pesquisadores das "ciências psi"
tentando elaborar "teorias" e "modelos" para o Espírito baseados em noções de
partículas e campos, e ainda mais, com a pretensão de estarem seguindo a Ciência!
Vemos aqui uma vez mais a lucidez de Kardec e dos Espíritos que o auxiliavam, ao não
vincularem os princípios centrais do Espiritismo a nenhuma dessas noções. Assentaram-
no, antes, em proposições básicas, "fenomenológicas", como dizem os filósofos,
exatamente por serem estáveis.

i) Desprezo pelo passado: cada pesquisador em geral reinicia as investigações a partir
do "nada", como se outros já não tivessem efetuado constatações dignas de confiança.
Se a dúvida equilibrada representa prudência, quando se torna irrestrita e irrefletida,
aliando-se à presunção e ao orgulho, inviabiliza o conhecimento. Se na Ciência se
tivesse adotado semelhante atitude, não se teria saído de sua pré-história.

j) Ignorância da relevância dos fatores "morais" na produção de certos fenômenos.
Kardec não tardou reconhecer, em seus estudos, a influências por vezes crucial de
fatores ligados à harmonia de pensamento dos médiuns, experimentadores e assistentes,
aos objetivos a que se propõem, à sua condição moral etc. O assunto é abordado, entre
outros lugares, no Capítulo XXI de O Livro dos Médiuns, onde Kardec ressalta a
"enorme influência do meio sobre a natureza das manifestações inteligentes" (parágrafo
233). Essa influência vem sendo também ilustrada e enfatizada na boa literatura
mediúnica, que nos mostra em detalhe a complexidade do trabalho dos Espíritos na


produção dos fenômenos. Assim, apenas para tomar um dos inúmeros exemplos,
lembremos a descrição que André Luiz dá em Missionários da Luz (Cap. X) da
profunda perturbação causada nos trabalhos de materialização a que presenciava pelo
simples ingresso no recinto de um homem interiormente desequilibrado, e, depois, pelos
pensamentos descontrolados dos participantes da reunião. Diante da surpresa, o
Instrutor Alexandre elucida (destacamos):

Nestes fenômenos, André, os fatores morais constituem elementos decisivo de
organização. Não estamos diante de mecanismos de menor esforço e, sim, ante
manifestações sagradas da vida, em que não se pode prescindir dos elementos
superiores e da sintonia vibratória.

Também Emmanuel expende considerações desse mesmo teor no Capítulo XIII de seu
já citado livro Emmanuel (destacamos):

Não são poucos os estudiosos que procuram investigar os domínios da ciência psíquica,
na sede de encontrar o lado verdadeiro da vida; porém, se muitas vezes acham apenas

o malogro das suas expectativas , o soçobro dos seus ideais, é que se entregam a
estudos arriscados sem preparação prévia para resolver tão altas questões, errando
voluntariamente com espírito de criticismo, muitas vezes injustificável, já que não é
filho do raciocínio acurado, profundo. O êxito no estudo de problemas tão
transcendentais demanda a utilização de fatores morais, raramente encontrados; daí a
improdutividade de entusiasmos e desejos que podem ser ardentes e sinceros.
5. O Espiritismo é religioso
[...] o Espiritismo é, assim, uma religião ? Sim, sem dúvida, senhores: No sentido
filosófico o Espiritismo é uma religião, e disso nos honramos, pois que é a doutrina que
funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos não em uma simples
convenção, mas sobre a mais sólida das bases: as próprias leis da Natureza.

Por que então declaramos que o Espiritismo não era uma religião ? Pela razão de que
há apenas uma palavra para exprimir duas idéias diferentes, e que, segundo a opinião
geral, o termo religião é inseparável da noção de culto, e evoca unicamente uma idéia
de forma, com o que o Espiritismo não guarda qualquer relação. Se se tivesse
proclamado uma religião, o público nele não veria senão uma nova edição, ou uma
variante, se quisermos, dos princípios absolutos em matéria de fé, uma casta sacerdotal
com seu cortejo de hierarquias, cerimônias e privilégios; não o distinguiria das idéias
de misticismo e dos enganos contra os quais se está freqüentemente bem instruído.

Não apresentando nenhuma das características de uma religião, na acepção usual da
palavra, o Espiritismo não poderia nem deveria ornar-se de um título sobre cujo
significado inevitavelmente haveria mal-entendidos. Eis porque ele se diz simplesmente
uma doutrina filosófica e moral.

Allan Kardec [nota 6]

Do mesmo modo como tem havido falta de compreensão acerca do caráter científico do


Espiritismo e de suas relações com as ciências, seu caráter religioso e suas relações com
as religiões também têm constituído ponto de freqüentes confusões.

Assim como se pode mostrar ser o Espiritismo científico, embora não se inclua entre
as ciências ordinárias, por estudar um domínio diverso de fenômenos, pode-se,
conforme o fez o próprio Kardec, mostrar que o Espiritismo é religioso, embora não
se confunda com as religiões ordinárias.

Se no estabelecimento da primeira dessas teses tivemos que identificar corretamente que
características de uma teoria a tornam científica, temos, para justificar a segunda, que
estabelecer critérios adequados para a classificação de uma doutrina no âmbito
religioso.

Essa tarefa deve começar pela análise etimológica da palavra religião. Ela vem do Latim
religione, derivado de religare, que naturalmente significa "religar", estando, neste caso,
subentendido que "religação" é da criatura ao Criador.

Surge aqui a primeira diferença entre o Espiritismo e as religiões ordinárias.

Estas usualmente entendem por Deus um ser supremo, criador de tudo o que existe,
porém com características notoriamente antropomórficas.

Já o Espiritismo define-o como "a inteligência suprema, causa primária de todas as
coisas"(O Livro dos Espíritos, Questão n 1.), dando-lhe por atributos exclusivamente a
eternidade, a imutabilidade, a imaterialidade, a unicidade, a onipotência e a soberana
justiça e bondade (ibidem, Questão 13), o que evidentemente exclui qualquer caráter
antropomórfico.

A segunda diferença fundamental está na maneira pela qual o Espiritismo entende que a
religação entre a criatura e Deus pode e deve ser promovida.

Segundo as religiões ordinárias, ela se dá através do ajuste da criatura a certas regras
morais (éticas) e/ou da satisfação de providências formais e externas de vária ordem,
dependendo da religião: batismo, crisma, comunhão, confissão; participação em cultos,
rituais, cerimônias; realização de determinados gestos; recitação de fórmulas e rezas;
adoração de imagens e objetos diversos; promessas, penitências, jejuns; trazer em si as
"marcas de Deus" etc.

Já o Espiritismo propõe que a religação da criatura ao Criador se faz exclusivamente
pela adaptação de sua conduta a determinados preceitos morais, as medidas de ordem
exterior sendo tidas não somente como supérfluas, como também de todo
desaconselhadas e combatidas.

A terceira diferença reside em quais são as regras morais em questão.

O Espiritismo toma-as como unicamente aquelas propostas por Jesus, e que se resumem
no preceito do amor ao próximo.


Já as religiões ordinárias podem, dependendo do caso, incluir ou não as normativas
evangélicas, ou incluí-las parcialmente, ou acrescentar-lhes outras, ou alterar-lhes a
interpretação original etc.

Por fim, crucial diferença surge no modo pelo qual essas regras éticas são
justificadas.

As religiões ordinárias "justificam" as normas morais que propõem recorrendo à
autoridade desse ou daquele indivíduo ou instituição; são dogmas, portanto artigos de fé
a serem aceitos sem exame.

Já o Espiritismo fundamenta o corpo de seus preceitos éticos no conhecimento que
cientificamente alcança das conseqüências das ações humanas ao longo da existência
ilimitada dos seres, conjugado à cláusula teleológica de que todos almejam a felicidade.
Não há aqui lugar para dogmas e imposições, mas exclusivamente investigação livre e
racional dos fatos. Aliás esse já era o modo pelo qual o Apóstolo Paulo entendia a
moral, pois em sua primeira carta aos Coríntios (10:23) asseverou: "Todas as coisas são
lícitas, mas nem todas convêm; todas são lícitas, porém nem todas edificam."

Em artigo anterior ("Os fundamentos da ética espírita"; ver Referência Bibliográficas.)
expusemos com certa extensão esse processo de fundamentação da moral espírita.
Dada a relevância do tema, recorreremos aqui a algumas citações de Kardec, a fim de
ilustrar o ponto e deixar clara sua posição.

Nos comentários às Questões 147 e 148 de O Livro dos Espíritos, que tratam do
materialismo, Kardec refere-se à hipótese da aniquilação do ser com a morte corporal:

Triste conseqüência, se fora real, porque então o bem e o mal não teriam objetivo, o
homem estaria justificado em só pensar em si e em colocar acima de tudo a satisfação
de seus prazeres materiais; os laços sociais se romperiam, e as mais santas afeições se
quebrariam irremediavelmente.

Passemos agora à Questão 222 do mesmo livro, onde encontramos:

Ora, pois: se credes num futuro qualquer, certo não admitis que ele seja idêntico para
todos, porquanto, de outro modo, qual a utilidade do bem ? Por que haveria o homem
de constranger-se ? Por que deixaria de satisfazer a todas as suas paixões, a todos os
seus desejos, ainda que à custa de outrem, uma vez que isso não lhe alteraria a
condição futura ?

No Item IV da Conclusão dessa obra Kardec é ainda mais explícito (destacamos):

O progresso da Humanidade tem seu princípio na aplicação da lei de justiça, de amor e
de caridade. Tal lei se funda na certeza do futuro; tirai-lhe essa certeza e lhe tirareis a
pedra fundamental. Dessa lei derivam todas as outras, porque ela encerra todas as
condições da felicidade do homem.


No Item VIII Kardec reitera:

Razão, portanto, tivemos para dizer que o Espiritismo, com os fatos, matou o
materialismo. Fosse este o único resultado por ele produzido e já muita gratidão lhe
deveria a ordem social. Ele, porém, faz mais: mostra os inevitáveis efeitos do mal e,
conseguintemente, a necessidade do bem.

O Capítulo I de A Gênese está repleto de considerações sobre essa fundamentação
experimental-racional da ética espírita. Recomendamos vivamente a leitura, pelo menos,
dos Parágrafos 31, 32, 35, 37, 42, 56 e 62. Do Parágrafo 37 extraímos esta assertiva
(destacamos):

Tirai ao homem o espírito livre e independente, sobrevivente à matéria, e fareis dele
uma simples máquina organizada, sem finalidade, nem responsabilidade [...].

No Parágrafo 42 encontramos:

Demais, se se considerar o poder moralizador do Espiritismo, pela finalidade que
assina a todas as ações da vida, por tornar tangíveis as conseqüências do bem e do mal
[...].

No Parágrafo 56 Kardec volta ao assunto, desta vez analisando as relações entre a moral
evangélica e a espírita, que, conforme observamos, coincidem quanto às normas morais
(destacamos):

O que o ensino dos Espíritos acrescenta à moral do Cristo é o conhecimento dos
princípios que regem as relações entre os mortos e os vivos, princípios que completam
as noções vagas que forneceu da alma, de sue passado e de sue futuro, e que dão por
sanção à doutrina cristã as próprias leis da Natureza. Com o auxílio das novas luzes
que o Espiritismo e os Espíritos espargem, o homem compreende a solidariedade que
une todos os seres; a caridade e a fraternidade se tornam uma necessidade social; ele
faz por convicção o que fazia unicamente por dever, e o faz melhor.

Encerrando essas notáveis citações de Kardec, que aliás poderiam estender-se ainda
muito, adentrando, por exemplo, O Céu e o Inferno, obra inteiramente dedicada ao
estudo teórico e experimental das conseqüências das ações humanas, voltamos ao
comentário às Questões 147 e 148 de O Livro dos Espíritos, que fecha com chave de
ouro estas nossas reflexões:

[...] a missão do Espiritismo consiste precisamente em nos esclarecer acerca desse
futuro, em fazer com que, até certo ponto, o toquemos com o dedo e o penetremos com
o olhar, não mais pelo raciocínio somente, porém, pelos fatos. Graças às comunicações
espíritas, não se trata mais de uma simples suposição, de uma probabilidade sobre a
qual cada um conjeture à vontade, que os poetas embelezem com suas ficções, ou
cumulem de enganadoras imagens alegóricas. É a realidade que nos aparece, pois que


são os próprios seres de além-túmulo que nos vêm descrever a situação em que se
acham, relatar o que fazem, facultando-nos assistir, por assim dizer, a todas as
peripécias da nova vida que lá vivem e mostrando-nos, por esse meio, a sorte inevitável
que nos está reservada, de acordo com os nossos méritos e deméritos. Haverá nisso
alguma coisa de anti-religioso? Muito ao contrário, porquanto os incrédulos
encontram aí a fé e os tíbios a renovação do fervor e da confiança. O Espiritismo é,
pois, o mais potente auxiliar da religião. Se ele aí está, é porque Deus o permite e o
permite para que as nossas vacilantes esperanças se revigorem e para que sejamos
reconduzidos à senda do bem pela perspectiva do futuro.

Notas [volta ao índice]

1. Em nossas citações das obras de Allan Kardec utilizamos os originais franceses,
aproveitando amplamente as traduções editadas pela Federação Espírita Brasileira; ver
Referências Bibliográficas, no final deste artigo. [volta]
2. "Espiritismo e Ciência. Esboço de uma análise do Espiritismo à luz da moderna
Filosofia da Ciência"; ver Referências Bibliográficas. O leitor interessado em filosofia
da ciência poderá consultar o livro de Alan Chalmers What is this thing called science,
que é razoavelmente acessível e contém abundantes referências às fontes primárias.
[volta]

3. Ver, por exemplo, seu famoso artigo "Falsification and the methodology of scientific
reserch programmes", citado nas Referências Bibliográficas. [volta]
4. A inclusão da Psicologia e da Sociologia é problemática, já que não parecem, em sua
atual fase de desenvolvimento, cumprir os requisitos mínimos de uma verdadeira
ciência. Nós espíritas temos razões adicionais para essa dúvida, dado que tais
disciplinas, pretendendo estudar o ser humano, ignoram precisamente o que lhe é mais
essencial, ou seja, o Espírito. [volta]
5. Esse tema foi também lucidamente tratado em artigo recente de Juvanir Borges de
Souza, "Pesquisas e Métodos", publicado no número de abril de 1986 de Reformador,
cuja leitura recomendamos vivamente. [volta]
6. "Le Spiritisme est-il une religion ?", Revue Spirite, 1868, p. 357. Transcrito em
L'Obsession, pp. 279-92 (ver Referências Bibliográficas). Uma tradução desse artigo,
por Ismael Gomes Braga, apareceu em Reformador, de março de 1976. Os destaques na
citação acima são nossos. [volta]
Referências Bibliográficas

ANDRÉ LUIZ. Missionários da Luz. (Psicografia de Francisco Cândido Xavier.) 6a ed.,
Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.


BORGES DE SOUZA, J. "Pesquisas e Métodos", Reformador, abril de 1986, pp. 99


101.
CHALMERS, A. F. What is this thing called science? St. Lucia, University of
Queensland Press, 1976.

CHIBENI, S. S. "Espiritismo e Ciência". Esboço de uma análise do Espiritismo à luz da
moderna Filosofia da Ciência". Reformador, maio de 1984, pp. 144-7 e 157-9.

-----. "Os fundamentos da ética espírita". Reformador, junho de 1985, pp. 166-9.

EMMANUEL. Emmanuel. Dissertações mediúnicas sobre importantes questões que
preocupam a Humanidade. (Psicografia de Francisco Cândido Xavier.) 5a ed., Rio de
Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.

KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (O Livro dos Espíritos.
Trad. de Guillon Ribeiro. 43a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.)

-----. Qu'est-ce que le Spiritisme. Paris, Dervy-Livres, 1975. (O que é o Espiritismo. s.
trad. 25a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.)

-----. Le Livre des Médiums. Paris, Dervy-Livres, 1972. (O Livro dos Médiuns. Trad.
Guillon Ribeiro, 46a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.)

-----. La Genèse, les Miracle et les Prédictions selon le Spiritisme. Paris, La Diffusion
Scientifique, s.d. (A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Trad.
Guillon Ribeiro, 23a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s. d.)

-----. L'Obssession. Extraits textuels des Revues Spirites de 1858 a 1868. Farciennes,
Bélgica, Éditions de l'Union Spirite, 1950.

LAKATOS, I. "Falsification and the methodology of scientific reserch programmes".
In: LAKATOS, I. & Musgrave, A. eds. Criticism and the Growth of Knowledge.
Cambridge, Cambridge University Press, 1970. pp. 91-195.

Publicado em Reformador, novembro de 1988, pp. 328-33 e dezembro de 1988, pp.
373-78.


... Silvio Seno Chibeni

> A página de rosto da segunda edição de
O Livro dos Espíritos

Artigos



Página de rosto, ou folha de rosto, é a página inicial de um livro, onde devem aparecer
as informações básicas sobre a obra: o título e subtítulo, nome completo do autor,
tradutor (se houver), edição, local de publicação, editora e ano de publicação. As
convenções acadêmicas atuais estabelecem também que no verso dessa página sejam
registradas informações mais detalhadas, como a data da primeira edição, o título
original, o copyright e o ISBN (International Standard Book Number), além de dados
para indexação e catalogação bibliográfica.

Atualmente, há muito pouca preocupação no meio espírita com essas normas, sendo
freqüente que nas obras espíritas não se forneçam vários desses dados importantes,
dificultando trabalhos de pesquisa mais refinados. Allan Kardec, porém, sempre cuidou
com bastante zelo do aspecto formal de seus livros. Além de conterem todas as
informações bibliográficas básicas, suas páginas de rosto apresentavam um aspecto
gráfico sóbrio e claro. Vale a pena, pois, reproduzirmos abaixo (mantendo,
aproximadamente, os tipos e espaçamentos do original) a página de rosto da 2a edição
de O Livro dos Espíritos, de 1860, edição esta que estamos comentando nesta série de
artigos (ver resenha em Mundo Espírita, ... de ...).

PHILOSOPHIE SPIRITUALISTE

––––––––

LE LIVRE

DES ESPRITS

CONTENANT


LES PRINCIPES DE LA DOCTRINE SPIRITE

SUR L'IMMORTALITE DE L'AME, LA NATURE DES ESPRITS ET LEUR RAPPORTS

AVEC LES HOMMES; LES LOIS MORALES, LA VIE PRÉSENTE, LA VIE

FUTURE ET L'AVENIR DE L'HUMANITÉ

Selon l'enseignement donné par les Esprits supérieurs

à 1'aide de divers médiums

RECUEILLIS ET MIS EN ORDRE

PAR ALLAN KARDEC

––––––––

SECONDE EDITION

Entièrement refondue et considérablement augmentée

PARIS

DIDIER ET Cie, LIBRAIRES-ÉDITEURS

35, QUAI DES AUGUSTINS

LEDOYEN, Libraire, Galérie d'Orléans, 31

AU PALAIS-ROYAL

Réserve de tous droits.

Faremos agora a alguns comentários acerca do conteúdo dessa página, indicando todas
as alterações com relação à página de rosto da 1a edição, de 1857.

1. Filosofia espiritualista. Essa frase não constava da 1a edição. No primeiro parágrafo
da Introdução de ambas as edições, no entanto, Kardec forneceu esclarecimentos
preliminares básicos sobre a natureza da disciplina que o livro estava inaugurando: o
Espiritismo. O termo 'Espiritismo' é um neologismo criado por Kardec exatamente
para distinguir a nova disciplina da doutrina geral do espiritualismo, cujas origens
remontam a épocas imemoriais. O Espiritismo é uma forma especial e bem delimitada

de espiritualismo. A frase inicial da página de rosto indica, num par de palavras, que a
obra insere-se no escopo do espiritualismo.

A palavra filosofia, por outro lado, indica a metodologia da nova disciplina.
Contrariamente ao que se entende popularmente por esse termo, e mesmo
contrariamente a um sentido mais especializado que assumiu contemporaneamente no
meio acadêmico, por filosofia entendia-se, à época, qualquer disciplina que abordasse
de forma sistemática e racional uma área do saber. Esse significado remonta à
Antigüidade. Para os Gregos, que conceberam tal enfoque racional e criaram o termo,
filosofia era o amor do conhecimento, em suas múltiplas áreas. O que hoje chamamos
ciência era, por exemplo, parte da filosofia. No tempo de Kardec esse sentido original
da palavra ainda prevalecia, e foi geralmente empregado por Kardec em suas obras.
Assim, ao dizer que o Espiritismo era uma filosofia, não estava excluindo seu caráter
científico, muito pelo contrário. Além disso, como a ética ou moral é uma das áreas da
filosofia – e isso até hoje –, aquela designação também não excluía o aspecto moral do
Espiritismo.

2. Quanto ao título do livro, procura refletir o fato de terem sido os Espíritos a fonte de
onde se originou o Espiritismo, primeiro pela produção de fenômenos que mostraram a
existência deles, e depois pelas informações detalhadas que forneceram sobre sua
natureza. Elaboradas por Kardec, tais informações vieram a constituir o corpo de
princípios básicos da filosofia espírita. Sendo o livro, como se afirma nos
Prolegômenos, o "repositório" do ensino dos Espíritos, a denominação de O Livro dos
Espíritos era inteiramente apropriada, mesmo que ele não tenha sido fornecido pronto
pelos Espíritos.
3. A afirmação de que o livro "contém os princípios da doutrina espírita" é
igualmente justa. Embora não tenha, nem pretenda ter, um caráter final, fechado, dada a
progressividade do novo ramo do saber, o livro certamente contém os seus "princípios",
ou seja, os fundamentos teóricos sobre os quais deve assentar todo o desenvolvimento
ulterior da disciplina. O reconhecimento da existência desses princípios, e o seu
emprego efetivo nas pesquisas ulteriores é de suma importância, segundo as análises
filosóficas contemporâneas. É exatamente o que ocorre com as ciências acadêmicas
maduras. (Veja-se, a respeito, nossos artigos "A excelência metodológica do
Espiritismo" e "O paradigma espírita", cujas referências bibliográficas são fornecidas
no final.)
4. Vem, em seguida, a indicação sumária dos tópicos acerca dos quais versam esses
princípios: "a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os
homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da humanidade". Essa
enumeração é bastante fiel ao que de fato existe na obra. É interessante observar que o
primeiro item da lista, a imortalidade da alma, foi introduzido na 2a edição. Não se
trata, na verdade, da indicação de uma expansão do escopo da obra, mas simplesmente
da explicitação do segundo item. O esclarecimento espírita da natureza dos Espíritos
evidencia que são nada mais nada menos do que as almas dos homens, e que estas são
imortais. Kardec certamente julgou conveniente explicitar isso já na página inicial do
livro.

5. "Segundo o ensino dado pelos Espíritos superiores, com o auxílio de diversos
médiuns, recolhidos e organizados por Allan Kardec". Essa frase indica sucintamente a
fonte da doutrina espírita (os Espíritos, no sentido explicado no item 2, acima), o modo
específico da obtenção das informações deles provenientes (as comunicações
mediúnicas), e o papel que coube a Kardec. Fica, assim, claro o caráter geral da obra.
Aparentemente, Kardec estimou que havia lugar para alguma confusão na frase
equivalente da 1a edição, que era: "Escrito sob o ditado e publicado por ordem de
espíritos superiores". A compreensão correta pressupõe certa familiaridade com a área,
e isso naturalmente não podia ser assumido. A expressão "escrito sob o ditado" poderia
dar a impressão de que a obra foi dada pronta – o que está muito longe da realidade.
Vale a pena transcrever, acerca desse ponto, o item 13 do capítulo 1 de A Gênese,
capítulo em que Kardec faz uma lúcida análise do caráter do Espiritismo:
Por sua natureza, a revelação espírita tem duplo caráter: participa ao mesmo tempo da
revelação divina e da revelação científica. Participa da primeira, porque foi
providencial o seu aparecimento e não o resultado da iniciativa, nem de um desígnio
premeditado do homem; porque os pontos fundamentais da doutrina provêm do ensino
que deram os Espíritos encarregados por Deus de esclarecer os homens acerca de
coisas que eles ignoravam, que não podiam aprender por si mesmos e que lhes importa
conhecer, hoje que estão aptos a compreendê-las. Participa da segunda, por não ser
esse ensino privilégio de indivíduo algum, mas ministrado a todos do mesmo modo; por
não serem os que o transmitem e os que o recebem seres passivos, dispensados do
trabalho da observação e da pesquisa, por não renunciarem ao raciocínio e ao livre-
arbítrio; porque não lhes é interdito exame, mas, ao contrário, recomendado; enfim,
porque a doutrina não foi ditada completa, nem imposta à crença cega; porque é
deduzida, pelo trabalho do homem, a observação dos fatos que os Espíritos lhe põem
sob os olhos e das instruções que lhe dão, instruções que ele estuda, comenta, compara,
a fim de tirar ele próprio as ilações e aplicações. Numa palavra, o que caracteriza a
revelação espírita é o ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua
elaboração fruto do trabalho do homem.

Por outro lado, a expressão "e publicado por ordem de espíritos superiores" poderia
sugerir uma relação de comando entre os Espíritos e Kardec, e talvez a subserviência
deste – o que também de modo algum corresponde à realidade. No texto introdutório da
segunda parte das Obras Póstumas Kardec salienta:

Um dos primeiros resultados que colhi das minhas observações foi que os Espíritos,
nada mais sendo do que as almas dos homens, não possuíam nem a plena sabedoria,
nem a ciência integral; que o saber de que dispunham se circunscrevia ao grau, que
haviam alcançado, de adiantamento, e que a opinião deles só tinha o valor de uma
opinião pessoal. Reconhecida desde o princípio, esta verdade me preservou do grave
escolho de crer na infalibilidade dos Espíritos e me impediu de formular teorias
prematuras, tendo por base o que fora dito por um ou alguns deles.

(...) Vi logo que cada Espírito, em virtude da sua posição pessoal e de seus
conhecimentos, me desvendava uma face daquele mundo, do mesmo modo que se chega
a conhecer o estado de um país, interrogando habitantes seus de todas as classes, não
podendo um só, individualmente, informar-nos de tudo. Compete ao observador formar

o conjunto, por meio dos documentos colhidos de diferentes lados, colecionados,

coordenados e comparados uns com outros. Conduzi-me, pois, com os Espíritos, como
houvera feito com homens. Para mim, eles foram, do menor ao maior, meios de me
informar e não reveladores predestinados.

Tais as disposições com que empreendi meus estudos e neles prossegui sempre.
Observar, comparar e julgar, essa a regra que constantemente segui.

A frase "escrito por ordem e sob ditado de Espíritos superiores" aparece nos
Prolegômenos, em ambas as edições, mas ao encontrá-la o leitor já terá passado pela
Introdução, e disporá de esclarecimentos mais extensos nos parágrafos adjacentes. Para
figurar na folha de rosto a nova frase da 2a edição é mais apropriada, por ser mais
precisa e menos propensa a confusões.

6. Em seguida, a página de rosto informa que se trata de uma "segunda edição,
inteiramente refeita e consideravelmente aumentada". Esse dado é importante. Primeiro,
por prevenir o leitor de que é uma obra revista; depois, por indicar o dinamismo do
projeto kardequiano: a busca constante de aperfeiçoamento.
7. Por fim, temos os dados da edição: o local de publicação, os editores, a data e a
reserva de direitos. Quanto aos editores, houve uma mudança com relação à primeira
edição. Aquela fora publicada por E. Dentu, libraire, Palais Royal, Galérie d'Orléans,
13. Dentu havia, por sinal, sido o editor de pelo menos uma das obras pedagógicas de
Kardec, ou melhor, Rivail: o Plan Proposé pour l'Amélioration de l'Éducation Publique,
de 1828 (ver fac-símile da página de rosto em Textos Pedagógicos, obra editada por D.
Incontri, que traz a tradução desse Plano e de mais um texto de Rivail). Dentu ainda
aparece como co-editor da Instruction Practique sur les Manifestations Spirites, de
1858, do Imitation de l'Évangile selon le Spiritisme, de 1864, e do Évangile selon le
Spiritisme, de 1866. Didier e Ledoyen foram editores ou co-editores de quase todos os
livros espíritas de Kardec, geralmente de forma conjunta, como no presente caso.
Pierre-Paul Didier foi um dos mais dedicados colaboradores de Kardec, membro
fundador da Société Parisienne des Études Spirites, tendo nela atuado como médium
(ver Allan Kardec, de Z. Wantuil e F. Thiesen, vol. III, pp. 82, 377, 79 e 323);
desencarnou em 2/12/1865, mas continuou, como Espírito, diretamente envolvido nas
atividades de Kardec (ibid., pp. 85, 92, 289).
8. Na página que faz face à folha de rosto há ainda alguns dados interessantes:
a) Há, no início, uma lista das "Obras do mesmo autor": Qu'est-ce que le Spiritisme?
(1859), Instruction Practique sur les Manifestations Spirites (1858) e a Revue Spirite
(lançada em 1858). Ao título das duas primeiras obras seguem os dizeres das
respectivas páginas de rosto, o formato e o preço. No caso da Revue, indica-se o
subtítulo, "Revista de estudos psicológicos", e a existência no final do livro de um
"prospecto detalhado" sobre o periódico. Possivelmente tratava-se de um folheto
avulso, que não foi reproduzido na edição histórica que estamos analisando nesta série
de artigos.
b) Vem, depois, o anúncio de uma obra "no prelo, a sair em abril de 1860", cujo título
seria Le Spiritisme Expérimental (O Espiritismo Experimental). Os detalhes que

seguem a esse título são, com pequenas diferenças, os mesmos que figuram na página
de rosto de O Livro dos Médiuns, inclusive a frase "para dar seqüência ao Livro dos
Espíritos". É, pois, seguro assumir que se tratava realmente do Livro dos Médiuns, e
que Kardec mudou o título na última hora! Note-se, a propósito, que a frase Espiritismo
experimental aparece no topo da página de rosto do Livro dos Médiuns,
apropriadamente indicando a natureza da obra. Segundo informação dada na edição
corrente da tradução do Livro dos Médiuns editada pela FEB, o livro saiu em Paris em
15/1/1861, o que mostra a ocorrência de um atraso, relativamente às expectativas de
Kardec por ocasião da redação do anúncio. (No próximo artigo desta série veremos que
Kardec repete essencialmente o mesmo anúncio no Prefácio.)
c) Por fim, há uma nota dizendo que "as pessoas que queiram se comunicar com o autor
do Livro dos Espíritos, e que não saibam o seu endereço, podem lhe enviar suas cartas
... por intermédio do Sr. Ledoyen, livreiro, depositário de todas as suas obras ...". Com o
crescimento do projeto espírita, Kardec deve ter julgado conveniente desvincular o seu
endereço pessoal daquele dos editores dos livros. Aparentemente, porém, a tentativa não
foi muito longe: assim como anteriormente com a Instruction Practique, nas páginas de
rosto do Imitation e do Évangile o endereço de Kardec voltaria a aparecer. E no caso da
Revue nunca houve indicação de nenhum editor, mas apenas o endereço de seus
escritórios, que sempre ficaram na residência de Kardec (rue des Martyrs até meados de
1860, e depois passage Ste.-Anne, que desde abril abrigava também a Societé). Isso
mostra o extraordinário empenho de Kardec com o projeto do Espiritismo. Lembramos,
a propósito, que todas as despesas e riscos da edição pioneira de O Livro dos Espíritos e
da Revue foram inteiramente arcados por Kardec (ver a obra Allan Kardec, vol. II, pp.
76 e 257, e vol. III p. 22).
d) No pé da página está o impressor da obra (não confundir com o editor): P.-A.
Bourdier et Cie., rue Mazarine, 30, Paris. A informação é repetida na última página do
livro (onde costuma figurar em qualquer obra). Essa gráfica não é a mesma da 1a
edição, impressa na Imprimerie de Beau, em Saint-Germain-en-Laye.

Referências:

CHIBENI, S. S. "A excelência metodológica do Espiritismo", Reformador, novembro
de 1988, p. 328-333, e dezembro de 1988, p. 373-378. (Reproduzido em Mundo
Espírita, n. 1384, novembro de 1999.)

––. "O paradigma espírita", Reformador, junho de 1994, p. 176-80. (Também
disponível, junto com a referência anterior, no site do Grupo de Estudos Espíritas da
Unicamp: http://www.geocities.com/Athens/Academy/8482 .)

KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Reprodução fotomecânica da 2a ed. francesa, com
adendos do Autor. 1a. ed., Rio, Federação Espírita Brasileira, 1998.

––––. Le Livre des Esprits. Reprodução fotomecânica da 1a ed. francesa. 1a ed,
bilíngüe, trad. e ed. Canuto Abreu. São Paulo, Companhia Editora Ismael, 1957.

––––. Revue Spirite. Texto eletrônico, Centre d'Études Spirites Léon Denis,
http://perso.wanadoo.fr/charles.kempf/

––––. A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Trad. Guillon


Ribeiro. 23a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s. d.


––––. Obras Póstumas. Trad. Guillon Ribeiro. 18a ed., Rio de Janeiro, Federação
Espírita Brasileira, s.d.
INCONTRI, D. (ed.) Textos Pedagógicos. 2a ed. Bragança Paulista, Comenius, 1999.
WANTUIL, Z. & THIESEN, F. Allan Kardec, 3 vols. 1a ed., Rio, Federação Espírita


Brasileira, 1979/80.
(Texto publicado em Mundo Espírita, março/2002, pp. 6-7.)


... Silvio Seno Chibeni
> As paixões: uma breve análise filosófica e espírita
Artigos



Resumo:

Neste trabalho desenvolve-se um estudo das paixões da alma com base na seção
intitulada "Paixões" do capítulo "Da perfeição moral" de O Livro dos Espíritos, bem
como em tópicos da obra de René Descartes, As Paixões da Alma.

1. Introdução
Abrindo a seção sobre as paixões de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec pergunta: ([2])

907. Será intrinsecamente mau o princípio originário das paixões, embora esteja
na Natureza?
Antes de analisarmos a resposta dos Espíritos, detenhamo-nos um pouco sobre a própria
questão.

O primeiro ponto a ser notado é que Kardec indaga acerca do princípio originário
das paixões, e não delas próprias, ou seja, procura esclarecimento sobre a origem, a
fonte de onde promanam as paixões.


A segunda observação importante é que há, na pergunta, uma afirmação categórica: esse
princípio do qual provêm as paixões está na Natureza, isto é, faz parte da ordem
natural das coisas.

Ora, o conceito ordinário de paixão, adotado pelo homem comum, traz consigo uma
conotação negativa evidente: associa-se paixão a desequilíbrio, tumulto emocional ou
desvios patológicos do sentimento, sendo mesmo freqüente ouvir-se frases como 'Isto
não é amor, é paixão', ou 'Fulano está cego de paixão'.

A questão proposta por Kardec motiva-se exatamente pelo conflito entre essa acepção
vulgar do termo 'paixão' e a análise filosófica das paixões (de que trataremos na seção
seguinte), que indica serem elas provenientes de causas naturais. Considerando que tudo
aquilo que pertence à ordem natural obedece a uma sabedoria e a uma bondade
supremas, tendo, em outras palavras, sido instituído por Deus, como poderia essa fonte
sábia e boa levar, em última instância, a sentimentos intrinsecamente maus?

Vejamos o que respondem os Espíritos:

"Não, a paixão está no excesso de que se acresceu a vontade, visto que o princípio que
lhe dá origem foi posto no homem para o bem, tanto que as paixões podem levá-lo à
realização de grandes coisas. O abuso que delas se faz é que causa o mal."

A resposta corrobora, portanto, aquilo que está implícito na afirmação de Kardec: o
princípio originário das paixões é bom, tendo sido "posto no homem para o bem". O
mal que vulgarmente se associa às paixões é o resultado de uma distorção do sentimento
original. Do contexto é justo depreender que essa distorção corre por conta do livre
arbítrio humano na condução de seus sentimentos, não podendo ser imputada à fonte
natural e neutra de onde provêm.

Na questão seguinte, de número 908, Kardec indaga como se pode "determinar o limite
onde as paixões deixam de ser boas para se tornarem más", obtendo esta resposta:

"As paixões são como um corcel, que só tem utilidade quando governado e que se torna
perigoso desde que passe a governar. Uma paixão se torna perigosa a partir do momento
em que deixais de poder governá-la e que dá em resultado um prejuízo qualquer para
vós mesmos, ou para outrem."

Vemos, pois, que o limite natural das paixões se estabelece com base em dois critérios:

1. a capacidade de seu controle; e,
2. os males que possam causar a terceiros ou àquele próprio que as vivencia.
2. A natureza das paixões
Inegavelmente, dada a ordinária carga negativa associada ao conceito de paixão, a
afirmativa de Kardec e dos Espíritos de que a fonte original das paixões é boa tende a
causar estranheza na maioria das pessoas. Por tal motivo julgamos importante fazer uma
incursão, ainda que breve e simplificada, nos domínios da filosofia, que tem as paixões


como um de seus temas mais discutidos. Os fundamentos dessa afirmativa serão, desse
modo, elucidados.

Como ocorre com boa parte dos vocábulos das línguas naturais, a palavra 'paixão'
comporta diversos significados. Na acepção popular em nossos dias, ela designa certos
sentimentos fortes, exacerbados, tumultuados, que em geral se associam à afeição
votada a pessoas e mesmo a coisas e atividades: 'Matou-se por paixão', 'É apaixonado
por carros', 'Tem paixão pelo futebol'.

Do ponto de vista filosófico, porém, o termo 'paixão' possui significados mais
amplos e neutros quanto ao bem e ao mal. Em seu significado etimológico, paixão se
contrapõe a ação. Isso fica mais claro nas línguas inglesa e francesa, em que esses
vocábulos, passion e action, estão mais próximos de sua origem latina. Ação atuar, agir;
paixão sofrer a ação, recebê-la passivamente.

Nesse sentido básico, e hoje em dia em desuso, poder-se-ia dizer que ação e paixão são
como as faces de uma mesma moeda. Sempre que algo age, alguma outra coisa sofre
paixão. Eu bato na mesa ação; a mesa recebe a pancada paixão. O mesmo fenômeno que
para mim é ação, para a mesa é paixão.

Aqui estamos interessados não em coisas em geral, mas no ser humano, que pode, ele
também, agir e sofrer paixão. Nesse caso, porém, o conceito de paixão se tornará
mais específico, como veremos.

Na visão de homem estabelecida pelo Espiritismo, ele é um ser dual, composto de
corpo (matéria) e alma (espírito). Embora remonte à Antigüidade, essa visão dualista
tornou-se proeminente na filosofia a partir da contribuição de René Descartes (15961650).
Um dos maiores filósofos e cientistas de todos os tempos, Descartes foi o
principal responsável pela inauguração da filosofia moderna, renovando amplamente as
teorias e conceitos filosóficos anteriores. Esteve ainda entre os criadores da ciência
moderna, ao lado de Galileo e Newton, Boyle e Huygens, entre outros.

Em sua doutrina, o sábio francês dissociou da alma a função de mantenedora da vida
orgânica, tomando-a unicamente como o ser pensante, independente da matéria. Uma
análise cuidadosa revela muitos pontos comuns entre as visões espírita e cartesiana do
homem. Não podemos adentrar esse vasto e difícil assunto neste pequeno texto. Iremos
apenas destacar alguns elementos mais diretamente ligados à questão das paixões. O
último livro de Descartes publicado durante sua vida trata especificamente das paixões,
intitulando-se justamente As Paixões da Alma (Les Passions de l'Âme, 1649). Essa
obra exerceu grande influência no futuro das discussões filosóficas acerca das paixões,
só sendo rivalizado, no século seguinte, pelas obras do grande filósofo escocês David
Hume (1711-1776), escritas dentro de perspectiva filosófica bastante diversa.

Dadas as grandes transformações por que passou a física em nosso século, não é
possível expressar em linguagem ordinária como a ciência contemporânea caracteriza a
matéria. Na concepção cartesiana, que prevaleceu e influenciou profundamente toda a
ciência por quase trezentos anos, matéria é a substância extensa, com forma e
movimento, que preenche todo o universo e atua exclusivamente por forças mecânicas
de contato. No nível dos objetos com que lidamos enquanto homens comuns, podemos


pensar na matéria aproximadamente ao longo dessas linhas, mas apenas para fixar
idéias, conscientes de que essas noções não mais bastam às novas teorias físicas.

Quanto ao espírito, para Descartes ele era, como já indicamos, a substância pensante, a
sede do pensamento, da vontade e dos sentimentos. Ao contrário de sua concepção de
matéria, essa idéia de espírito mostra-se perfeitamente adaptável ao que conhecemos
hoje, não mais pelas ciências acadêmicas, que por sua natureza não se ocupam com isso,
mas pela ciência espírita, inaugurada por Allan Kardec. ([3])

Podemos, para os nossos propósitos aqui, considerar a alma ou espírito como tendo três
"faculdades" (termo de Descartes):

1. vontade;
2. pensamento;
3. percepção.
A vontade se exerce quando a alma quer algo; o pensamento, quando ela raciocina,
duvida, compara, abstrai etc. Pensamento e vontade assim definidos são, por assim
dizer, as "dimensões" ativas da alma. A percepção seria, por outro lado, sua dimensão
passiva. Isso fica mais claro quando enumeramos as formas gerais dessa percepção:

a) sensações dos corpos (formas, solidez, cores, sons etc.);

b) percepções das operações da própria alma (percepção de que está raciocinando,
duvidando, querendo, imaginando, sentindo etc.); e

c) sentimentos (amor, ódio, tristeza, alegria etc.)

Em um sentido filosófico um pouco mais específico do que aquele já apontado, ligado à
etimologia do termo 'paixão', todos esses três tipos de percepção poderiam ser ditos (e o
são por Descartes) paixões da alma, porque ao contrário dos atos volitivos e intelectuais,
acontecem passivamente à alma quando ela se encontra em determinadas situações.
Quando o corpo a que está associada tem seus sentidos despertos e em bom
funcionamento, postos em contato com uma vela acesa, por exemplo, a alma sentirá,
quer queira, quer não, uma certa forma, uma certa luz, uma certo calor (sensações).
Quando a alma se auto-examina, ou, em linguagem filosófica, reflete, introspecta, não
pode deixar de perceber que está raciocinando, ou duvidando, ou querendo algo, se de
fato estiver (percepções das operações da alma). Por fim, diante de um gesto amigo ou
de um carinho, sentirá a alma o amor; diante de uma ofensa, poderá sentir ódio ou
mágoa; recebendo uma boa notícia, perceberá sua alegria, e assim por diante
(sentimentos).

Chegamos, finalmente, ao ponto pretendido. Em seu sentido filosófico mais estrito a
palavra 'paixão' denota exatamente esta última modalidade de percepções da alma:
sentimentos como o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, a admiração e o desejo.

Descartes considerava que as seis paixões que acabamos de enumerar eram básicas,
enquanto que as demais, tais como o orgulho e a humildade, a veneração e o desdém, a


esperança e o desespero, o medo e a coragem, a vergonha e a cólera, o remorso e a
piedade seriam derivadas das paixões fundamentais por combinações e variações.

Não haveria espaço para explicar ou reproduzir aqui a complexa teoria cartesiana das
paixões. Tampouco nos deteremos sobre a interessante análise que faz de cada paixão
em particular, análise que ocupa boa parte do livro As Paixões da Alma. Ressaltaremos,
entretanto, alguns pontos que podem contribuir para a nossa compreensão da natureza
desses sentimentos.

No referido livro, assim como em outras obras, Descartes elabora detalhada teoria
fisiológica que, embora hoje em dia possa parecer tosca e quimérica em muitos
aspectos, representou um trabalho pioneiro, exercendo significativa influência no
posterior desenvolvimento da ciência biológica.

A teoria cartesiana descrevia o corpo humano, como, aliás, todo universo material, em
termos de um conjunto incrivelmente complexo de corpúsculos que agem sob leis
mecânicas, leis que o próprio Descartes havia deduzido de pressupostos racionalistas na
obra Os Princípios da Filosofia, de 1644. Ele foi um dos primeiros cientistas a
reconhecer a teoria da circulação do sangue, proposta por William Harvey no início do
século XVII. Descartes mantinha (de forma não totalmente original) que no sangue
havia certos corpúsculos materiais extremamente pequenos e móveis, chamados
espíritos animais. Não obstante o nome, não se tratava de modo algum de espíritos no
sentido de seres inteligentes, mas de matéria pura e simples. Essas partículas diminutas
eram como que "filtradas" nos "poros" do cérebro, passando a percorrer os nervos. O
fluxo dos espíritos animais no sistema nervoso é a chave para explicar, na teoria
cartesiana, fenômenos fisiológicos e psico-fisiológicos fundamentais, como o
funcionamento dos sentidos, as motricidades voluntária e involuntária, e as próprias
paixões da alma. Embora as paixões sejam percepções da alma, tinham, segundo essa
teoria, uma contraparte fisiológica essencial. Infelizmente não poderemos fornecer
detalhes aqui.

Abrimos um parêntese para mencionar um aspecto da teoria psico-fisiológica de
Descartes que chama a atenção de pesquisadores espíritas: o papel central atribuído à
glândula pineal, ou epífise, situada na base do cérebro. Até bem recentemente, a ciência
acadêmica considerava que essa glândula não exercia nenhuma função relevante no
homem adulto, julgando, pois, errônea a teoria de Descartes. No entanto, descobertas
recentes vêm levando uma revisão dessa posição; a pineal parece ter determinante
influência no controle de outras glândulas importantes, e portanto em toda a economia
orgânica. Décadas antes que se começasse a perceber isso nos círculos oficiais, o
cientista espírita desencarnado André Luiz recuperou e desenvolveu os elementos
aproveitáveis da teoria cartesiana. Ambos, Descartes e André Luiz, atribuem à pineal o
papel mais importante na ligação alma-corpo; seria, nas palavras do primeiro deles,
como que a "principal sede da alma", o lugar do mundo orgânico onde a alma "exerce
imediatamente suas funções" (As Paixões da Alma, § 32).

Voltando à análise do conceito restrito de paixão, enfatizemos que ele preserva o
elemento essencial da noção abrangente: a passividade. Amor, ódio, alegria, tristeza e
demais paixões são algo que "se apodera" de nós de forma involuntária: pelo menos na
sua gênese imediata não temos nenhuma participação voluntária. Embora Descartes não
se tenha servido desta expressão, poderíamos dizer, simplificadamente, que para ele as


paixões eram o resultado de uma espécie de automatismo psico-fisiológico. Na esfera
fisiológica, esse automatismo envolvia, de forma essencial, o fluxo dos espíritos
animais e sua interação com a pineal; na mente, manifestava-se como as percepções de
amor, ódio etc., que cada homem sabe o que são por experiência direta.

Desnecessário notar que a ciência contemporânea não mais utiliza a noção de espíritos
animais. No entanto, temos aqui mais um caso típico da história da ciência em que,
embora rejeitados pela evolução da ciência, conceitos e teorias do passado aparecem
ainda, embora bastante modificados, refinados e complementados, nas teorias mais
recentes. A idéia geral de que algo percorre os nervos, trazendo as informações
sensoriais para o encéfalo e conduzindo para os órgãos motores os impulsos nele
originados mostrou-se fecunda e sustentável, estando presente na teorias científicas
contemporâneas, que descrevem esse algo em termos de correntes elétricas.

Também a associação das paixões a um certo automatismo pode ser mantida até
hoje. Estendendo de maneira profunda e segura a investigação do ser humano, o
Espiritismo modificou e complementou a descrição desse automatismo, que deixa de
estar centrado na estrutura fisiológica, residindo antes no próprio espírito, em sua
existência que antecede e sucede à do corpo denso, com possíveis influências também
do seu envoltório perispiritual. Assim é que se constata por observação direta que os
Espíritos desencarnados continuam tendo sentimentos aparentemente semelhantes às
nossas paixões. Isso indica que a causa imediata das paixões não se pode reduzir a
processos referentes ao corpo denso, como achava Descartes. O fato de que diante de
determinados estímulos externos ou internos a alma é automaticamente objeto daqueles
sentimentos que chamamos paixões deve-se a uma faculdade inerente à própria alma,
que tem uma razão de ser providencial, conforme vimos na introdução deste trabalho.
(Retomaremos esse tópico mais adiante.)

Detenhamo-nos agora sobre as causas mediatas ou primeiras das paixões. Estas eram
por Descartes classificadas em três grupos (As Paixões da Alma, § 51):

i) os objetos dos sentidos: alguém escuta uma boa notícia e sente alegria; vê uma
criança sendo maltratada e sente indignação ou cólera; cheira fumaça e sente medo de
incêndio;

ii) as ações da alma: alguém pensa em suas qualidades e sente orgulho ou humildade;
duvida da sinceridade de um amigo e sente tristeza; imagina os efeitos de uma tragédia
e sente pena dos envolvidos;

iii) o "temperamento do corpo" e as "impressões que se encontram fortuitamente no
cérebro". São desse tipo, por exemplo, as paixões que temos "quando nos sentimos
tristes ou alegres sem que possamos dizer o motivo".

Este último item enseja aos pesquisadores espíritas outra oportunidade de complementar

o que afirmou Descartes. Pelas investigações científicas dos fenômenos espíritas,
conhecemos inúmeros fatos e leis da realidade espiritual que o filósofo aparentemente
ignorava. É indubitável que alterações diversas do corpo, especialmente do sistema
nervoso, podem de fato fazer surgir sentimentos ou paixões na alma. No entanto,
sabemos que em muitas ocasiões em que não encontramos sua causa última naquilo que
explicitamente observamos, quer no mundo exterior e em nossos corpos, quer em nossa

alma, podem dever-se a fatores espirituais, tais como as vivências no mundo espiritual
durante o sono, as influências obsessivas e telepáticas de um modo geral, ou a emersão
parcial de nosso pretérito remoto.

3. O controle das paixões
Chegamos agora a um ponto saliente do estudo das paixões, enfatizado na seção de O
Livro dos Espíritos que estamos analisando, e que recebeu também grande atenção da
parte de Descartes: a questão de seu controle, domínio ou governo. Dada a própria
conceituação de paixão, ou seja, de algo que acontece involuntariamente em nossa alma,
uma impressão preliminar poderia ser a de que as paixões escapam, por sua própria
natureza, a toda possibilidade de controle voluntário. No entanto, o assunto é complexo,
e exige exame mais detido. Comecemos transcrevendo o item 909 de O Livro dos
Espíritos:

909. Poderia sempre o homem, pelos seus esforços, vencer as suas más inclinações?
"Sim, e, por vezes, fazendo esforços pequenos. O que lhe falta é a vontade. Ah! quão
poucos dentre vós fazem esforços!"

Embora não se fale aqui explicitamente em paixões, está claro a partir do contexto que
as referidas "más inclinações" estão associadas ao desvirtuamento dos sentimentos
naturais que estão na origem das paixões. Temos, por exemplo, uma tendência que
parece natural, maior ou menor conforme a pessoa, de sentir orgulho quando nos
elogiam, mágoa quando nos ofendem, inveja quando vemos alguém possuir aquilo que
queríamos para nós próprios. Nos itens 910 e 911 a referência às paixões se torna
explícita. No primeiro deles assevera-se que os bons Espíritos podem nos auxiliar a
vencer as más paixões, pois que "é essa a missão deles." O segundo vai agora transcrito
em sua íntegra:

911. Não haverá paixões tão vivas e irresistíveis, que a vontade seja impotente para
dominá-las?
"Há muitas pessoas que dizem: Quero, mas a vontade só lhes está nos lábios. Querem,
porém muito satisfeitas ficam que não seja como "querem". Quando o homem crê que
não pode vencer as suas paixões, é que seu Espírito se compraz nelas, em conseqüência
de sua inferioridade. Compreende a sua natureza espiritual aquele que as procura
reprimir. Vencê-las é, para ele, uma vitória do Espírito sobre a matéria."

Repare-se que nessas passagens o conceito de paixão está sendo restringido ao seu uso
mais ordinário, de algo com conotação negativa, que requer controle ou superação. Isso
não implica que devamos dissociá-lo de sua significação filosófica original, esboçada na
seção precedente. Tudo o que nela foi visto aplica-se também aqui, onde se trata de
paixões particulares, aquelas que redundam em um mal qualquer para algo ou alguém.

Feitas essas ressalvas, retomemos o cerne desses três quesitos de O Livro dos Espíritos.
Neles se afirma resolutamente que as paixões negativas podem ser controladas pela
vontade. Como fica então a conclusão a que havíamos chegado pela análise filosófica de
que as paixões são aparentemente incontroláveis?

Veremos agora que esse é um conflito apenas aparente, que se dissolve diante de um
exame mais acurado. Descartes empreendeu ele próprio esse exame, e podemos
aproveitá-lo quase que integralmente aqui, com as necessárias simplificações. Esses


estudos de grande beleza e profundidade encontram-se principalmente nos parágrafos
44 a 50, e 137 a 148 de As Paixões da Alma.

Iniciemos pelo parágrafo 46. Quando sofremos uma paixão qualquer, embora seu
afloramento seja espontâneo, involuntário, dado o automatismo que opera em nós,
podemos, por nossa vontade, não consentir em seus efeitos e reter muitos dos
movimentos aos quais ela dispõe o corpo. Por exemplo, se a cólera faz levantar a mão
para bater, a vontade pode comumente retê-la; se o medo incita as pernas a fugir, a
vontade pode detê-las, e assim por diante. ([4])

Eis, portanto, uma constatação simples, porém altamente relevante para o controle das
paixões: sustar os seus efeitos maléficos sobre as coisas e pessoas. Isso está em nosso
poder, desde que tenhamos vontade firme e discernimento moral para reconhecer quais
os efeitos bons e quais os ruins. (Abordaremos o assunto do senso moral na próxima
seção.)

No entanto, ainda que exercida eficazmente essa limitação das manifestações externas
das más paixões resta o fato de que elas continuam existindo enquanto fenômenos de
nosso mundo íntimo, ou seja, os sentimentos continuam presentes em nossa alma,
prejudicando-nos a paz interior. O que fazer agora?

Descartes enfatiza que a vontade não tem o poder de excitar ou suprimir diretamente as
paixões (§ 45). Um pouco de reflexão leva-nos a concordar com ele. Bastará ao
orgulhoso simplesmente querer ser humilde? De alguma coisa adiantará ao que está
triste dizer para si próprio: 'Ficarei alegre agora'? Vencerá alguém a mágoa
simplesmente desejando alijar-se dela? Parece que não; falta algo além da vontade.

O que seria esse algo não se explicita na seção em exame de O Livro dos Espíritos. A
resposta está implícita no conjunto da obra e suas complementações. Um dos méritos do
texto de Descartes é justamente o de enfocar o problema de forma quase explícita.
(Dissemos quase porque o que exporemos a seguir é fruto de uma elaboração de várias
observações e asserções de Descartes).

O filósofo francês afirma, notemos bem, que não temos controle direto sobre as paixões.
Isso não significa que não possamos controlá-las indiretamente, mediante certos
artifícios. Consideremos uma útil analogia de que Descartes lança mão no parágrafo 44.
Constitui fato patente que há certos movimentos corporais sobre os quais a vontade é
incapaz de atuar diretamente, como a abertura ou fechamento das pupilas: ninguém as
abre ou fecha voluntariamente. No entanto, podemos facilmente fazê-las se fechar ou
abrir indiretamente, voltando nossos olhos para uma região mais clara ou outra mais
escura. Sobre os movimentos dos olhos, pálpebras e face temos pleno controle e,
explorando o automatismo fisiológico, logramos controlar a abertura das pupilas de
forma indireta. As paixões, diz Descartes (§ 45), podem, de forma análoga, ser excitadas
ou suprimidas indiretamente pela representação das coisas que costumam estar unidas
às paixões que queremos ter, e que são contrárias às que queremos rejeitar. Assim, para
excitarmos em nós a coragem e suprimirmos o medo, não basta ter a vontade de fazê-lo,
mas é preciso aplicar-nos a considerar as razões, os objetos ou os exemplos que
persuadem de que o perigo não é grande; de que há sempre mais segurança na defesa do
que na fuga; de que teremos a glória e a alegria de havermos vencido, ao passo que não


poderemos esperar da fuga senão o pesar e a vergonha de termos fugido, e coisas
semelhantes.

Como no caso da abertura das pupilas, podemos estudar o automatismo das paixões e
colocá-lo a nosso serviço. O exemplo dado por Descartes refere-se à paixão do medo.
Tentemos ver como seria no caso da mágoa. Diante de uma ofensa, pode acontecer de
ficarmos magoados, quer queiramos ou não. Reconhecendo porém os malefícios desse
sentimento, aplicamo-nos em combatê-lo. Para tanto, temos que nos "representar"
coisas que sabemos estar unidas ao perdão e que são contrárias à mágoa. Podemos, por
exemplo, ponderar que o ofensor é uma pessoa infeliz; que não teve ainda a glória de
ascender a um patamar comportamental melhor; que pode ter agido sob o peso de
problemas que desconhecemos; que pode não ter encontrado na infância pais devotados
e bons que lhe ensinassem a virtude por palavras e atos; que ele colherá frutos amargos
de sua ação; que, de nosso lado, havemos de possuir em nosso passado fatores que
determinaram a necessidade ou conveniência de enfrentarmos semelhante provação.
Examinando as obras espíritas voltadas à orientação moral, é fácil encontrar muitas
considerações desse teor. Os bons autores espíritas sabem que a melhoria moral da
criatura não é uma questão de prescrições, de proibições, mas de esclarecimento e de
substituição de hábitos.

Falamos em hábitos e isso nos conduz a outro tópico da análise cartesiana. Quando
recorremos à noção de automatismo para explicar o mecanismo das paixões devemos
esclarecer mais sua natureza, se é permanente e inalterável ou não. Pois bem: Descartes
sustentava que esse automatismo das paixões (embora, repitamos, não tenha usado essa
expressão) podia ser alterado. Essa possibilidade era por ele entendida em termos das
associações de pensamentos e movimentos corporais com os fluxos dos espíritos
animais. Ele assumia que a Natureza determinava essas associações, mas que podíamos
até certo ponto alterá-las "por hábito" (§ 50). Lembra, por comparação, que mesmo os
animais podem ter suas reações naturais parcialmente alteradas por condicionamento
(como diríamos hoje). O cão, que por uma disposição natural é levado a correr na
direção da perdiz para apanhá-la, pode ser treinado para deter-se quando a vê, esperando
pelo caçador. E conclui (§ 50):

Ora, essas coisas são úteis de saber para nos encorajar a aprender a regrar nossas
paixões. Pois dado que se pode, com um pouco de engenho, mudar os movimentos do
cérebro nos animais desprovidos de razão, é evidente que se pode fazê-lo melhor ainda
nos homens, e que mesmo aqueles que possuem as almas mais fracas poderiam adquirir
um império bem absoluto sobre todas as suas paixões, se empregassem bastante
engenho em domá-las e conduzi-las.

Deve estar claro que o "engenho" ou habilidade a que se refere Descartes é
precisamente a aludida técnica de a alma "representar" para si as coisas que tendam a
diminuir as paixões que quer combater e a incrementar as que lhes são contrárias. Desse
modo, novas associações mentais se estabelecem (para ele seriam associações psicofisiológicas),
e as más paixões se vão amainando, até voltarem à sua condição natural e
primitiva, incapaz de produzir males. A cólera, por exemplo, iria se transmudando em
mágoa, e esta depois se reduziria à mera desaprovação, ao mero desagrado, natural e
decorrente do próprio senso moral, de que não se pode nem deve abdicar.


4. As paixões e a moral
Até aqui tentamos analisar as paixões dos pontos de vista fisiológico, psicológico e
anímico. Utilizamos as noções de paixões boas e más, de efeitos bons e maus, de
malefícios e benefícios sem questionar a distinção do bem e do mal. É evidente que para
aplicarmo-nos ao controle de nossas paixões é preciso antes saber distinguir o bem do
mal. Isso cabe à área da filosofia denominada moral ou ética. Descartes e a maior
parte dos grandes filósofos atribuíram grande importância ao estudo da moral,
procurando determinar o critério do bem e do mal e os fundamentos nos quais se apóie.
Não podemos adentrar esse assunto aqui. Iremos nos ater unicamente a alguns aspectos
das relações entre as paixões e a moral, tratados em As Paixões da Alma.
No parágrafo 47, Descartes fornece uma explicação para o fenômeno psicológico do
conflito entre aquilo que a alma quer e o que sente como paixão. ([5]) Não se trata, diz
Descartes, de um combate entre a "parte inferior" e a "parte superior" da alma,
conforme se costuma imaginar. A alma é una, não se concebe que tenha partes. A
explicação do fato liga-se àquilo que, em adaptação da terminologia cartesiana, vimos
denominando automatismo das paixões. Não desceremos aos detalhes dessa complexa
explicação. Notemos apenas que é fácil entender o referido conflito quando se nota que
a alma responde às situações, no nível das paixões, segundo reflexos parcialmente
incondicionados e parcialmente condicionados, conforme vimos anteriormente. No
plano intelectual e moral, porém, essas mesmas situações passam por exames via de
regra conscientes e deliberados, podendo daí resultar serem apreendidas de modo
diverso. Quando tratamos do controle das paixões estava implícito esse descompasso
entre senso moral e paixões, pois o controle só é percebido como necessário quando as
paixões não se harmonizam com aquilo que se julga ser correto ou bom.

O parágrafo 48 aborda a questão do esforço que a alma faz para superar esse conflito
íntimo. Inspecionemos na íntegra esse interessante parágrafo (os destaques são nossos):

Ora, é pelo desfecho desses combates que cada qual pode conhecer a força ou a
fraqueza de sua alma. Pois aqueles cuja vontade pode, naturalmente, com maior
facilidade, vencer as paixões e sustar os movimentos do corpo que os acompanham têm,
sem dúvida, as almas mais fortes. Há, porém, os que não podem comprovar a própria
força porque nunca levam a combate sua vontade juntamente com suas próprias armas,
mas apenas com as que lhes fornecem algumas paixões para resistir a algumas outras. O
que denomino próprias armas da vontade são os juízos firmes e determinados sobre o
conhecimento do bem e do mal, consoante os quais ela resolveu conduzir as ações de
sua vida. E as almas mais fracas são aquelas cuja vontade não se decide assim a seguir
certos juízos, deixando-se arrastar continuamente pelas paixões presentes, que, sendo
muitas vezes contrárias umas às outras, puxam-na sucessivamente cada uma para o seu
lado e, fazendo-a combater contra si mesma, colocam-na no estado mais deplorável
possível. Assim, por exemplo, quando o medo representa a morte como um extremo
mal, que só pode ser evitado pela fuga [do perigo], e a ambição, de outro lado,
representa a infâmia dessa fuga como um mal pior que a morte, essas duas paixões
agitam diversamente a vontade, que, obedecendo ora a uma, ora a outra, se opõe
continuamente a si própria, tornando assim a alma escrava e infeliz.

A "força" da alma é definida com referência à sua vontade. As pessoas de vontade fraca
deixam-se simplesmente levar pelas paixões, tão amiúde contrárias umas às outras, do
que resulta o mais deplorável estado de alma. No entanto, só a vontade forte não basta; é


necessária a utilização das "armas" da vontade, que são "juízos firmes e determinados
sobre o conhecimento do bem e do mal". Ou seja, a alma precisa saber distinguir de
forma segura o bem do mal. Tem de possuir critérios morais sólidos, caso contrário
poderá aplicar sua vontade sobre alvos errados, dando combate a paixões boas ou
cultivando paixões más, como acontece, por exemplo, com quem alega que a humildade
não se coaduna com a dignidade humana, ou que o ciúme é necessário ao amor.

No parágrafo seguinte (49), Descartes observa que "há pouquíssimos homens tão fracos
e irresolutos que nada queiram senão o que suas paixões lhes ditam". Isso, porém, não é
tudo:

Há, entretanto, grande diferença entre as resoluções que procedem de alguma falsa
opinião e as que se apóiam tão-somente no conhecimento da verdade, visto que se
seguirmos estas últimas estaremos certos de não ter jamais do que nos lamentar nem
arrepender, ao passo que o teremos sempre, se seguirmos as primeiras, quando lhes
descobrimos o erro.

O conhecimento moral é, pois, de capital importância para que a alma alcance o
equilíbrio interior, pela indispensável iluminação do processo de controle das paixões. E
nesse particular o Espiritismo tem contribuições de alta relevância para fazer. De modo
pioneiro na história do pensamento, forneceu à moral um embasamento seguro e
objetivo, a partir da análise racional dos fatos da vida humana, vistos de uma
perspectiva muito ampliada e detalhada com relação àquelas do materialismo ou das
religiões dogmáticas. À luz do conhecimento espírita, o critério do bem e do mal, do
certo e do errado, dos deveres e direitos, não é mais uma questão de gosto, de
prescrições, de cultura ou de época, nem se funda "em algumas paixões pelas quais a
vontade se deixou anteriormente vencer ou seduzir" (ibid., § 49). Resulta, antes, do
exame objetivo das conseqüências de nossas ações, com vistas à aproximação gradual
da felicidade. ([6])

Para exemplificar o raciocínio, consideremos as paixões do amor e do ódio, da
humildade e do orgulho, da piedade e da dureza, da esperança e do desespero, da
coragem e do medo. Se perguntarmos quais delas devem ser cultivadas e quais
reprimidas, a resposta pressuporá um certo critério moral. Evidentemente existe na
humanidade terrena, em seu presente estado evolutivo, uma multiplicidade de critérios
morais, capazes de levar a diferentes classificações das paixões enumeradas. Há quem
julgue, por exemplo, que a humildade rebaixa a criatura; que a piedade é apanágio das
almas frágeis; que a desesperança é a postura correta diante da triste situação do mundo
e da natureza humana...

Com sua ética objetiva, o Espiritismo pode pôr termo a tais disparidades de opinião,
indicando claramente quais as paixões e atitudes que melhor conduzem o homem à
almejada felicidade, concebida em termos amplos e perenes. Na lista que demos, por
exemplo, são as primeiras paixões de cada par, nunca as segundas, aquelas que devemos
permitir que vicejem em nossas almas.

Ao mesmo tempo em que nos esclarece acerca do bem e do mal, o Espiritismo fornece
os meios para podermos executar o controle das "más inclinações", ao longo das linhas
sugeridas por Descartes. Na seção anterior, exemplificamos esse processo no caso da
mágoa. Procedendo de modo semelhante com as demais paixões, elas serão


reconduzidas ao seu estado de pureza original, conforme se expressa nas questões 907 e
908 de O Livro dos Espíritos. Nos judiciosos comentários que as seguem, Kardec
afirma que as paixões "são alavancas que decuplicam as forças do homem e o auxiliam
na execução dos desígnios da Providência". A finalidade boa das paixões é destacada
em termos equivalentes por Descartes no parágrafo 52 de As Paixões da Alma: "o
emprego de todas as paixões consiste apenas no fato de disporem a alma a querer coisas
que a Natureza dita serem úteis a nós, e a persistir nessa vontade, assim como a mesma
agitação dos espíritos [animais] que costuma causá-las dispõe o corpo aos movimentos
que servem à execução dessas coisas". (Ver também os parágrafos 137 e 138.)

Detenhamo-nos ainda um pouco sobre esse tópico. À primeira vista, é fácil reconhecer
que o amor, a coragem e alegria, por exemplo, provêm de princípios bons e concorrem
para o nosso bem. No entanto, mesmo essas paixões boas podem ser mal conduzidas e
desvirtuadas, levando, respectivamente, ao ciúme, à temeridade e ao estouvamento.

Por outro lado, não é imediata a identificação de origens boas e providenciais das quais
paixões como a cólera ou o orgulho possam provir. Descartes, Kardec e os Espíritos
que com ele colaboraram nos asseguram que os há, todavia. Ensaiemos uma busca.

A cólera é o sentimento violento de desagrado e revolta que costuma surgir de
ofensas físicas ou morais graves, não raro desaguando em ações retaliatórias
variadas. Examinando o caso, percebemos que a face moralmente insustentável da
cólera é a vingança, bem como o tumulto interior a que arroja. Entretanto, em suas
origens podemos localizar algo bom: a desaprovação da agressão. Ora, tal desaprovação
deflui naturalmente do senso moral, da faculdade de discernir o certo do errado, de que
não podemos abdicar sem retroceder ao estágio da animalidade. O perdão que a ética
espírita e cristã recomenda de modo algum significa a aprovação moral das ofensas.

O orgulho, por sua vez, é o sentimento de superioridade em relação aos
semelhantes, capaz de induzir-nos a desprezá-los e até mesmo a subjugá-los,
quando temos poder para tanto. Embora patentemente injustificável frente ao
conhecimento espírita, remontando aos seus princípios talvez possamos identificar algo
como a confiança nas próprias potencialidades. Sentimento benéfico, essa auto-
confiança é indispensável para que não nos amolentemos, não descreiamos de nosso
aprimoramento físico, intelectual, artístico e moral. É somente quando, por excesso,
ultrapassa seus limites naturais, que ela se transmuda em orgulho pernicioso.

5. Na direção do Infinito
Não poderíamos concluir este pequeno trabalho sem mencionar que no final da terceira
parte de seu livro Descartes apresenta brevemente um outro aspecto das percepções da
alma, complementar ao das paixões, tais quais as entendia. Vimos que para ele estas
últimas tinham sempre uma "contraparte" orgânica. Sugerimos, por nossa vez, que esse
aspecto talvez não seja central nas paixões, que parecem antes ser inerentes à própria
alma.

De qualquer modo, dentro do referencial que elaborou, Descartes também notou que há
percepções da alma que radicam nela própria, ou, em suas palavras, "emoções interiores
que são excitadas na alma apenas pela própria alma" (§ 147; grifamos). Um dos
exemplos que dá é a "alegria intelectual" que sentimos quando lemos um romance ou


assistimos a uma peça teatral em que as situações excitam em nós diversas paixões,
como a alegria, a tristeza, o ódio, o amor, trazendo-nos todas uma espécie de prazer de
ordem superior.

Vejamos estas belas passagens do parágrafo 148, em que Descartes desenvolve o tema:

Ora, visto que essas emoções interiores nos tocam mais de perto e têm, por conseguinte,
muito mais poder sobre nós do que as paixões que se encontram com elas, e das quais
diferem, é certo que, contanto que a alma tenha sempre do que se contentar em seu
íntimo, todas as perturbações que vêm de outras partes não dispõem de poder algum
para prejudicá-la. Servem, antes, para lhe aumentar a alegria, pelo fato de, vendo que
não pode ser por elas ofendido, conhecer com isso a sua própria perfeição. E, para que a
nossa alma tenha assim do que estar contente, precisa apenas seguir estritamente a
virtude. Pois quem quer que haja vivido de tal maneira que sua consciência não possa
censurá-lo de alguma vez ter deixado de fazer todas as coisas que julgou serem as
melhores (que é o que chamo aqui seguir a virtude), recebe daí uma satisfação tão
poderosa para torná-lo feliz que os mais violentos esforços da paixão nunca têm poder
suficiente para perturbar a tranqüilidade de sua alma.

Descartes aponta, assim, uma espécie de sublimação dos sentimentos, na direção da
alegria perene e sem mácula que resulta tão-somente da prática da virtude. Essa a
alegria que viveremos um dia, quando, pelos nossos esforços, lograrmos alcançar a
excelsa condição de Espíritos puros.

Referências

CHIBENI, S.S. "Os fundamentos da ética espírita", Reformador, junho de 1985, pp.
166-9. "A excelência metodológica do Espiritismo", Reformador, novembro de 1988,
pp. 328-33, e dezembro de 1988, pp. 373-78. "O paradigma espírita", Reformador,
junho de 1994, pp. 176-80.

DESCARTES, R. Les Passions de l'Âme. In: Adam, C. e Tannery, P. (eds.) Oeuvres de
Descartes. Tomo XI, pp. 291-497. Paris, Vrin, 1967. (As Paixões da Alma. Trad. J.
Guinsburg e Bento Prado Jr. In: Descartes - Obra Escolhida, pp. 295-404. São Paulo,
Difusão Européia do Livro, 1973.)

KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (dépôt légal 1985). (O
Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro, 64a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita
Brasileira, s.d.)

Artigo publicado em Reformador de junho de 1997, pp. 176-180.

NOTAS:

([1]) Gostaria de agradecer a Márcio Corrêa, Cosme Massi e Matthieu Tubino pelos
comentários feitos a versões preliminares deste trabalho.


([2]). Nesta e demais citações do O Livro dos Espíritos utilizamos o texto original,
aproveitando em grande parte a tradução de Guillon Ribeiro, publicada pela Federação
Espírita Brasileira.

([3]) Sobre a ciência espírita, ver nossos artigos "O paradigma espírita" e "A excelência
metodológica do Espiritismo", bem como as referências neles contidas.

([4]) Nesta e demais citações desse livro utilizamos o original francês, aproveitando,
quando possível, a tradução brasileira indicada na lista bibliográfica.

([5]) Essa tensão já havia, aliás, sido comentada, em termos diversos, por Paulo no
capítulo 7 da Epístola aos Romanos.

([6]) Para uma análise sucinta desse ponto ver nosso artigo "Os fundamentos da ética
espírita".

http://www.espirito.org.br/portal/artigos/geeu/as-paixoes.html

... Silvio Seno Chibeni

> Por que Allan Kardec?

Artigos


.
Dogmatismo?
.
Tradicionalismo?
.
Fanatismo?
.
Visão estreita?


Vejamos:

1. A obra de Allan Kardec, quando analisada internamente, revela uma solidez lógica,
uma racionalidade, uma limpidez argumentativa, uma coerência de fazerem inveja aos
mais conceituados tratados filosóficos que a Humanidade possui;
2. Allan Kardec revelou, em tudo o que fez, uma prudência, um equilíbrio, uma
sobriedade, um espírito positivo e despreconcebido, um bom senso, enfim, que
singularizam sua figura entre todos os expoentes da cultura humana;

3. A obra de Allan Kardec, contrariamente ao que em geral acontece com outras que
abordam os mesmos assuntos, está firme e amplamente baseada em fatos, cuidadosa e
minuciosamente examinados à luz dos referidos critérios racionais; não surgiu entre as
quatro paredes de um gabinete, mas de uma extensa convergência de informações;
4. Allan Kardec era possuidor de uma vasta erudição, transitando inteiramente à vontade
pelos mais variados campos do saber – das ciências às artes, das filosofias às religiões –
o que lhe permitiu trazer ao seu domínio de estudo os mais relevantes problemas que
interessam ao homem, dentro de uma visão abarcante e integrada da realidade;
5. A obra de Allan Kardec apresenta-se dentro de padrões de clareza e objetividade tais,
que não deixa nenhuma margem a ambigüidades e mal-entendidos, especialmente
quanto aos pontos fundamentais;
6. Allan Kardec soube ser impessoal, separando com rigor suas opiniões pessoais e
peculiaridades de sua vida privada do conhecimento doutrinário, que é independente e
objetivo; jamais pretendeu a posse exclusiva e completa da verdade, nunca recusou um
princípio pelo só fato de ter sido descoberto ou proposto por outrem, nunca hesitou em
abandonar uma idéia quando provada errônea por argumentos insofismáveis;
7. A obra de Allan Kardec é incomparavelmente abrangente, ocupando-se desde os fatos
mais palpáveis, destacadamente os relativos à sobrevivência do ser, até as mais
profundas investigações da ética, passando pelo exame lúcido das grandes questões
filosóficas que ao longo das eras têm desafiado o raciocínio do homem;
8. Allan Kardec tem sido confirmado, por fontes independentes e fidedignas, como um
grande emissário de Jesus, especialmente escolhido por Ele para concretizar na Terra a
Sua promessa do envio do Consolador, ([1]) que nada mais é do que o Espiritismo, que
veio para nos ensinar todas as coisas (o esclarecimento abundante que traz), para nos
fazer lembrar tudo o que Jesus nos disse (a sanção e explicação que ele nos dá dos
Evangelhos), e que estará sempre conosco (a perenidade do Espiritismo);
9. A obra de Allan Kardec não é uma estrutura estática e fechada, mas sim dinâmica e
aberta a complementações futuras, incorporando a característica da progressividade,
essencial a todo sistema científico ou filosófico que não pretenda ser sepultado pelas
constantes e inevitáveis descobertas de fatos novos e pela ampliação geral do
conhecimento humano;
10. Allan Kardec testemunhou em todos os atos de sua vida a sua condição de Espírito
de escol: jamais prejudicou a alguém; só com o bem retribuiu as ingratidões, ofensas e
calúnias com que em vão tentaram embaraçar-lhe os passos; doou-se por completo à
grande obra de educação dos homens que é o Espiritismo: a ela sacrificou o conforto, o
repouso, os bens materiais, a saúde e até a própria vida.
Estudemos com seriedade essa obra. Conheçamos de perto esse autor. ([2])

Depois, comparemo-los à obras e autores que os pretendam superar. Quais se poderão
gloriar de fazer-lhes frente em apenas algumas das dez características enumeradas (para
não dizer em todas)?


Retornemos, por fim, à questão: Por que Allan Kardec?

Talvez já não seja difícil respondê-la... ([2])

Artigo publicado em Reformador, julho de 1995, pp. 208-11. Digitado por Rodrigo
Almeida Gonçalves.

NOTAS:

([1]) Para uma visão precisa, detalhada e completa da personalidade de Allan Kardec,
bem como das origens, dimensões e significado de sua obra, consulte-se o livro Allan
Kardec (3 vols.), de Zêus Wantuil e Francisco Thiesen, editado pela Federação Espírita
Brasileira em 1979/80.

([2]) Para uma exposição do caráter legitimamente científico (à luz da moderna filosofia
da ciência) do desenvolvimento de uma atividade de pesquisa em torno de um núcleo de
princípios básicos (como o Espiritismo o faz em relação aos princípios fundamentais da
obra de Allan Kardec), veja-se o artigo "Espiritismo e ciência", em Reformador de maio
de 1984. (Nota do Autor em outubro de 1998: Para o mesmo tema, ver também os
artigos "A excelência metodológica do Espiritismo" e "O paradigma espírita",
publicados na mesma revista, números de novembro e dezembro de 1988 e junho de
1994, respectivamente.)


... Silvio Seno Chibeni
> O Paradigma espírita
Artigos


Resumo:


Este trabalho indica as linhas gerais da visão kuhniana de ciência, em contraste com as
concepções anteriores. Depois, argumenta que a Doutrina Espírita constitui um
paradigma científico, no sentido apontado por Kuhn, sendo, portanto, genuinamente
científica. O criador do paradigma foi Allan Kardec. Diante da tradição de ciência
normal estabelecida pelo paradigma kardequiano, que prossegue com grande sucesso
até nossos dias, transparece a inadequação das tentativas de se iniciarem outros
paradigmas (metapsíquica, parapsicologia, etc.).

1. Introdução
Muito se tem discutido nos meios espíritas a questão da cientificidade do Espiritismo.
Embora Allan Kardec a tenha abordado de forma precisa e completa, alegam alguns que
desenvolvimentos recentes na ciência e em linhas não-espíritas de pesquisa dos
fenômenos a que chamam "paranormais" trouxeram novidades ao palco dos debates.
Neste trabalho procuraremos investigar o aspecto científico do Espiritismo e a alegação
acima, recorrendo à filosofia da ciência contemporânea, e, mais especificamente, aos
estudos do filósofo americano Thomas Kuhn.

A filosofia da ciência é o ramo da filosofia que se ocupa da análise do conhecimento
científico: seus fundamentos, sua abrangência, sua especificidade, sua evolução. De
maior relevância para os nossos presentes propósitos é a questão do chamado critério de
demarcação entre ciência e não-ciência, ou pseudo-ciência. Essa questão interessou de
perto a todos os filósofos que se dedicaram ao estudo da ciência, havendo se destacado
com o surgimento da ciência moderna, nos séculos 16 e 17. Nessa época, as
investigações científicas, especificamente no domínio daquilo que hoje chamamos
física, conduziram a um notável incremento no poder preditivo e explicativo da ciência,
com as contribuições de Galileo, Huygens, Descartes e Newton, entre outros.

Difundiu-se então a idéia, antecipada por Francis Bacon, de que o sucesso da ciência se
devia à adoção de um método especial, o chamado método científico. A aplicação
desse método é que demarcaria a ciência genuína das atividades não-científicas. A
explicitação, compreensão e elaboração do método científico passou a constituir tópico
de pesquisa dos filósofos (que, em muitos casos, eram os próprios cientistas a divisão
mais ou menos nítida entre a ciência e a filosofia é recente).

Em uma descrição aproximada, pode-se afirmar que a questão do método científico
recebeu uma resposta mais ou menos uniforme desde o século 16 até meados de nosso
século, quando então começou a ser posta em dúvida. Embora fosse muito útil, não
dispomos de espaço aqui para apresentar as idéias centrais da concepção clássica de
ciência e das críticas que recentemente levaram à sua substituição. {nota 1} Diremos
apenas que essa concepção clássica é ainda a que predomina entre o público leigo, e, em
boa parte, entre os cientistas, havendo, pois, um descompasso entre eles e os filósofos e
historiadores da ciência contemporâneos.

Em seus traços mais gerais, a visão clássica da ciência assume que uma disciplina
científica é aquela que parte de um processo longo de coleta de dados, ou seja, de
observação dos fenômenos. Desses dados resultariam então as leis gerais que regem os
fenômenos. Reunidas, essas leis formariam as teorias científicas. O progresso da ciência
se daria pelo acréscimo de novas observações, das quais resultariam leis adicionais, que
iriam se incorporando às teorias.


No processo assim esquematizado são essenciais as seguintes assunções: 1) Na etapa de
coleta de dados não intervém nenhuma diretriz teórica: as observações são neutras; 2)
Igualmente, as leis resultam dos fenômenos por um método neutro, objetivo e infalível;
e, 3) As novas leis descobertas ao longo da evolução da ciência são sempre
complementares, nunca incompatíveis, com as leis já estabelecidas.

A articulação suprema dessa concepção tradicional de ciência se deu no bojo do
programa filosófico do positivismo lógico, que floresceu nas décadas de 1920 a 1940.
Esse programa alcançou níveis admiráveis de sofisticação formal e teórica, vindo a
exercer uma profunda e duradoura influência sobre a classe científica. Já em 1934,
porém, o filósofo austríaco, mais tarde naturalizado britânico, Karl Popper publicou
um livro intitulado A Lógica da Descoberta Científica (Popper 1968), contendo
críticas incisivas à concepção clássica, lógico-positivista de ciência. Tais objeções
passaram em grande parte desapercebidas até o final da década de 1950, quando
apareceu uma versão inglesa do livro, e o programa do positivismo lógico já havia
experimentado por mais de duas décadas um processo vigoroso de auto-crítica.

Mais uma vez, limitações de espaço não nos permitem expor aqui as críticas de Popper,
ou sua concepção de ciência, conhecida hoje por falseacionismo. Observamos apenas
que, a seu turno, o falseacionismo topou com restrições mais ou menos severas,
levantadas por outros filósofos da ciência. Dentre eles, os mais importantes são Thomas
Kuhn, Imre Lakatos e Paul Feyerabend. {nota 2} Em trabalhos anteriores (Chibeni
1984, 1988 e 1991), tivemos a ocasião de tratar da filosofia da ciência de Lakatos, em
conexão com a questão da ciência espírita. Agora, tentaremos abordar essa mesma
questão à luz das idéias kuhnianas da ciência. Salientamos, desde já, que para que fosse
levado a cabo de maneira satisfatória, esse empreendimento exigiria uma exposição
detalhada da filosofia de Kuhn, o que evidentemente não pode caber nas dimensões de
um artigo. Pretendemos, pois, que o que se vai seguir seja tomado apenas como uma
motivação para estudos ulteriores.

2. Esboço da filosofia da ciência de Kuhn
Kuhn começou sua carreira acadêmica como físico teórico, interessando-se depois por
história da ciência. Ao longo das importantes investigações que empreendeu acerca das
teorias científicas passadas, realizadas segundo uma nova perspectiva historiográfica,
que procura compreender uma teoria a partir do contexto de sua época, e não do ponto
de vista da ciência de hoje, Kuhn se deu conta de que a concepção de ciência tradicional
não se ajustava ao modo pelo qual a ciência real nasce e se desenvolve ao longo do
tempo. Essa percepção da inadequação histórica das idéias usuais sobre a natureza da
ciência o conduziu, finalmente, à filosofia da ciência. Seus estudos nessa área
apareceram publicados de modo mais amplo em seu livro de 1962, A Estrutura das
Revoluções Científicas. Esse trabalho viria a exercer uma influência decisiva nos
rumos da filosofia da ciência. Embora em uma linguagem aparentemente acessível,
Kuhn avança nele teses bastante sofisticadas sobre o conhecimento científico e o
conhecimento em geral, que receberam críticas filosóficas diversas ao longo dos anos.
Naturalmente, este não é o lugar para adentrarmos essas discussões. Limitar-nos-emos a
expor simplificadamente alguns dos pontos destacados por Kuhn e que se tornaram
reconhecidos, com esta ou aquela alteração menor, pela quase totalidade dos filósofos
da ciência. Felizmente, são esses pontos mais consensuais os que maior relevância têm
para os nossos propósitos neste artigo.


A espinha dorsal da concepção kuhniana de ciência consiste na tese de que o
desenvolvimento típico de uma disciplina científica se dá ao longo da seguinte estrutura
aberta:

fase pré-paradigmática > ciência normal > crise > revolução >

nova ciência normal > nova crise > nova revolução ...

Daremos agora uma explicação simplificada das noções envolvidas nessa cadeia
evolutiva de uma ciência.

A fase pré-paradigmática representa, por assim dizer, a pré-história de uma ciência,
aquele período no qual reina uma ampla divergência entre os pesquisadores, ou grupos
de pesquisadores, sobre quais fenômenos dever ser estudados, e como o devem ser,
sobre quais devem ser explicados, e segundo quais princípios teóricos, sobre como os
princípios teóricos se inter-relacionam, sobre as regras, métodos e valores que devem
direcionar a busca, descrição, classificação e explicação de novos fenômenos, ou o
desenvolvimento das teorias, sobre quais técnicas e instrumentos podem ser utilizados, e
quais devem ser utilizados, etc. Enquanto predomina um tal estado de coisas, a
disciplina ainda não alcançou o estatuto de científica, ou seja, não constitui uma ciência
genuína.

Uma disciplina se torna uma ciência quando adquire um paradigma, encerrando-se a
fase pré-paradigmática e iniciando-se uma fase de ciência normal. Este é o critério de
demarcação proposto por Kuhn para substituir o critério da concepção clássica
(esboçado na seção anterior). O termo 'paradigma' tem uma acepção bastante elástica no
texto original de Kuhn, e não podemos aqui adentrar as sutilezas de seu significado. Em
seu sentido usual, pré-kuhniano, o termo significa 'exemplo', 'modelo'. Assim, amo,
amas, ama, amamos, amais, amam é um paradigma da conjugação do indicativo
presente dos verbos regulares da Língua Portuguesa terminados em 'ar'.

Kuhn percebeu que a transição para a maturidade, para a fase científica, de uma
disciplina envolve o reconhecimento, por parte dos pesquisadores, de uma realização
científica exemplar, que defina de maneira mais ou menos clara os principais pontos de
divergência da fase pré-paradigmática. A mecânica de Aristóteles, a óptica de Newton,
a química de Boyle, a teoria da eletricidade de Franklin estão entre os exemplos dados
por Kuhn de paradigmas que fizeram algumas disciplinas adentrar a fase científica.

É difícil explicitar, especialmente em poucas palavras, os elementos que entram na
formação de um paradigma. Kuhn sustenta mesmo que essa explicitação nunca pode ser
completa. A razão disso é que o conhecimento de um paradigma é, em parte, tácito,
adquirido pela exposição direta ao modo de fazer ciência determinado pelo paradigma.
Assim, por exemplo, é somente fazendo óptica à maneira de Newton que se pode
conhecer completamente o paradigma óptico newtoniano, ou fazendo eletromagnetismo
à maneira de Maxwell que se pode conhecer completamente o paradigma
eletromagnético.

No entanto, podemos, a título de balizamento, considerar como partes integrantes de
um paradigma: uma ontologia, que indique o tipo de coisa fundamental que constitui a
realidade; princípios teóricos fundamentais, que especifiquem as leis gerais que regem o


comportamento dessas coisas; princípios teóricos auxiliares, que estabeleçam sua
conexão com os fenômenos e as ligações com as teorias de domínios conexos, regras
metodológicas, padrões e valores que direcionem a articulação futura do paradigma;
exemplos concretos de aplicação da teoria; etc.

Um paradigma fornece, pois, os fundamentos sobre os quais a comunidade científica
desenvolve suas atividades. Um paradigma representa como que um "mapa" a ser
usado pelos cientistas na exploração da Natureza. As pesquisas firmemente assentadas
nas teorias, métodos e exemplos de um paradigma são chamadas por Kuhn de ciência
normal. Essas pesquisas visam, principalmente, a extensão do conhecimento dos fatos
que o paradigma identifica como particularmente significativos, bem como o
aperfeiçoamento do ajuste da teoria aos fatos pela articulação ulterior da teoria e pela
observação mais precisa dos fenômenos.

Um ponto importante destacado por Kuhn é que enquanto o "mapa" paradigmático
estiver se mostrando frutífero, e não surgirem embaraços sérios no ajuste empírico da
teoria, o cientista deve persistir tenazmente no seu compromisso com o paradigma.
Embora a ciência normal seja uma atividade altamente direcionada, e em um certo
sentido seletiva, essa restrição é essencial ao desenvolvimento da ciência. É somente
centrando sua atenção em uma gama selecionada de fenômenos e princípios teóricos
explicativos que o cientista conseguirá ir fundo no estudo da Natureza. Nenhuma
investigação de fenômenos poderá ser levada a cabo com sucesso na ausência de um
corpo de princípios teóricos e metodológicos que permitam seleção, avaliação e crítica
do que se observa. Aqui se nota um dos principais enganos da concepção clássica de
ciência, que imaginava ser possível fazer observações neutras. Nas concepções
contemporâneas, reconhece-se que fatos e teorias estão em constante relação de
interdependência, como que em "simbiose", os primeiros sustentando as últimas e estas
contribuindo para a sua seleção, classificação, concatenação, predição e explicação. De
posse de um corpo de princípios teóricos e regras metodológicas, o cientista não precisa
a cada momento reconstruir os fundamentos de seu campo, começando de princípios
básicos e justificando o significado e uso de cada conceito introduzido, assim como a
relevância de cada fenômeno observado.

Kuhn entende a ciência normal como uma atividade de resolução de "quebra-cabeças"
(puzzles), já que, como eles, ela se desenvolve segundo regras relativamente bem
definidas. Só que na ciência os quebra-cabeças nos são apresentados pela Natureza. Ao
longo da exploração de um paradigma pode ocorrer que alguns desses quebra-cabeças
se mostrem de difícil solução. O dever do cientista é insistir no emprego das regras e
princípios paradigmáticos fundamentais o quanto possa. Utilizando a analogia, não vale,
por exemplo, cortar um canto de uma peça do quebra-cabeça para que se encaixe em
uma determinada posição. Mas no caso da ciência esse apego ao paradigma, que é
essencial, como indicamos acima, não pode ser levado ao extremo. Quando quebra-
cabeças sem solução a que Kuhn denomina anomalias se multiplicam, resistem por
longos períodos aos melhores esforços dos melhores cientistas, e incidem sobre áreas
vitais da teoria paradigmática, chegou o tempo de considerar a substituição do próprio
paradigma. Nestas situações de crise, membros mais ousados e criativos da comunidade
científica propõem alternativas de paradigmas. Perdida a confiança no paradigma
vigente, tais alternativas começam a ser levadas a sério por um número crescente de
cientistas. Instala-se um período de discussões e divergências sobre os fundamentos da
ciência que lembra um pouco o que ocorreu na fase pré-paradigmática. A diferença


básica é que mesmo durante a crise o paradigma até então adotado não é abandonado,
enquanto não surgir um outro que se revele superior a ele em praticamente todos os
aspectos.

Quando um novo paradigma vem a substituir o antigo, ocorre aquilo que Kuhn chama
de revolução científica. Grande parte das teses filosóficas sofisticadas desse autor que se
tornaram alvo de polêmicas entre os especialistas ligam-se ao que ele assevera acerca
das revoluções científicas. Conforme já alertamos, não adentraremos esse assunto aqui.
O esquema geral da natureza da ciência que apresentamos acima representa a
contribuição mais consensual de Kuhn à filosofia da ciência, e pode também ser
identificado, com adaptações, principalmente terminológicas, na filosofia da ciência de
Lakatos, a segunda das duas mais sistemáticas e importantes tentativas contemporâneas
de compreensão da ciência.

3. O paradigma espírita
Neste ponto o leitor familiarizado com a história do Espiritismo e que tenha lido,
estudado, meditado e compreendido a obra de Allan Kardec já terá percebido o
embasamento de nossas teses principais: a obra de Kardec constitui um genuíno
paradigma científico, e esse paradigma representa, até hoje, a única diretriz segura ao
longo da qual se podem desenvolver pesquisas científicas acerca dos fenômenos
espíritas e do aspecto espiritual do ser humano em geral.

A explicitação completa dessas teses exigiria que percorrêssemos toda a história do
Espiritismo, toda a obra kardequiana, e as tentativas de estudo dos fenômenos espíritas
fora do paradigma espírita. Evidentemente, não há espaço aqui para encetarmos tal
empreendimento. Indicaremos apenas alguns pontos mais salientes, para motivar
aqueles que queiram refletir sobre o assunto.

Como repetidamente enfatizou o próprio Kardec, alguns dos fatos mais significativos
que serviram de base para as suas pesquisas eram conhecidos, embora de modo
impreciso e obscuro, desde os primeiros tempos da civilização humana. No entanto,
transparece claramente que, não obstante tenham sempre sido objeto de estudo por parte
de indivíduos e doutrinas, não havia, até o advento do Espiritismo, um paradigma
científico que os concatenasse e integrasse em um corpo de princípios teóricos precisos
e abrangentes, acompanhados de métodos, critérios e valores que definissem rumos
confiáveis ao longo dos quais a sua investigação pudesse caminhar. Foi a fase préparadigmática
das pesquisas do espírito.

Tal fase encerrou-se com o trabalho de Allan Kardec. Ele nos legou um paradigma
admiravelmente coerente, abrangente, empiricamente adequado e heuristicamente fértil,
que não deixa nada a desejar aos mais bem sucedidos paradigmas das ciências
ordinárias, como a termodinâmica, o eletromagnetismo, as teorias da relatividade, a
mecânica quântica, etc.

Como uma indicação geral e aproximada, podemos dizer que O Livro dos Espíritos
estabeleceu a ontologia e os princípios teóricos básicos; O Livro dos Médiuns e a
segunda parte de O Céu e o Inferno efetuaram a conexão com a base experimental; O
Evangelho segundo o Espiritismo e a primeira parte de O Céu e o Inferno exploraram as
repercussões filosóficas do paradigma no campo da ética; {nota 3} A Gênese, os


Milagres e as Predições segundo o Espiritismo e ensaios diversos nas Obras Póstumas e
Revista Espírita aprofundaram vários pontos da teoria, sendo que a Revista constitui
também valioso repositório de relatos experimentais.

Imperioso notar que a teoria espírita se faz acompanhar daqueles elementos vitais
de um legítimo paradigma científico, e que nem sempre são inteiramente
explicitáveis: critérios, métodos e valores que norteiam a busca, descrição e avaliação
tanto de fatos como de princípios teóricos auxiliares. E mais: Kardec nos forneceu em
profusão exemplos concretos de problemas resolvidos pela teoria espírita, verdadeiros
modelos a serem seguidos na abordagem de outros problemas. Vemos, em consonância
com as concepções de Kuhn, que tais aplicações exemplares da teoria desempenham de
fato grande papel na assimilação da real essência do Espiritismo. Aqueles que não se
debruçaram sobre eles, e inspecionaram os princípios espíritas apenas "de fora", e
muitas vezes mesmo de forma fragmentária, encontram-se incapacitados de bem julgar

o paradigma kardequiano; não adquiriram aquilo que Kuhn (seguindo Michael Polanyi)
chama de conhecimento tácito da ciência espírita.
Examinando a história do Espiritismo após Kardec, vemos que o paradigma por ele
iniciado prosseguiu o seu desenvolvimento, dentro de uma bem sucedida tradição de
ciência normal. Léon Denis, nos primeiro tempos, e depois Bezerra, Emmanuel,
André Luiz, Yvonne Pereira, Philomeno de Miranda, entre outros, foram
pesquisadores encarnados ou desencarnados que se destacaram na extensão do
paradigma em sua pureza original.

Uma questão que naturalmente pode ser suscitada pela comparação do paradigma
espírita com os paradigmas das ciências ordinárias é a das revoluções científicas. A
história mostra a ocorrência de revoluções em quase todas as áreas da ciência, e se
poderia perguntar se o Espiritismo não estaria também sujeito a uma revolução. Essa é
uma questão delicada, e no pouco espaço que nos resta aqui não lhe podemos fazer
justiça plena. Nossa resposta comporta duas observações principais, que esboçamos a
seguir.

Primeiro, o exame isento e criterioso da situação mostra de forma inquestionável que o
Espiritismo não experimenta, nem jamais experimentou, qualquer processo de
acumulação de anomalias, e muito menos em seus pontos essenciais, acumulação essa
que constitui, segundo Kuhn, um pré-requisito para o desencadeamento de uma crise,
capaz de justificar a proliferação de teorias alternativas, e, eventualmente, a substituição
do paradigma. Aproveitamos para notar aqui que, em vista disso, incorreram em erro
científico aqueles que, já desde os primeiro tempos, têm desenvolvido suas pesquisas
fora do paradigma espírita. Não há razões científicas para essa atitude, que só contribui
para a dispersão de esforços tão prejudicial ao avanço do conhecimento, como mostrou
Kuhn.

A segunda parte de nossa resposta passa pela observação de que, dada a natureza
específica do paradigma espírita, não se deve esperar que tenha um dia que ser
abandonado ou modificado em seus princípios fundamentais. A razão disso é que,
exceto por alguns princípios reguladores abstratos, tais princípios encontram-se muito
próximos do nível fenomênico, de modo que, utilizando-nos da nomenclatura filosófica,
poderíamos classificar a teoria espírita como essencialmente fenomenológica. O
exemplo mais claro de uma teoria desse tipo nas ciências ordinárias é a termodinâmica,


desenvolvida em meados do século 19. Por ser fenomenológica, ela goza de uma alta
estabilidade diante do progresso de outras áreas da ciência, havendo atravessado
incólume as radicais mudanças de paradigma ocorridas na física nas primeiras décadas
de nosso século. Essa característica da termodinâmica exerceu grande atração sobre
Einstein (entre outros), que procurou desenvolver sua teoria especial da relatividade em
moldes fenomenológicos.

Em termos simplificados, podemos tentar esclarecer esse ponto dizendo que nas teorias
não-fenomenológicas (ditas teorias construtivas), que são a maioria das teorias da física
e da química, o "grau de teoricidade" dos princípios é muito maior ; eles estão bem mais
distantes da observação empírica direta. Em tal caso, o caminho que vai dos fenômenos
até os princípios teóricos é bastante tortuoso, passando por uma série de teorias
auxiliares, necessárias, por exemplo, para tratar do funcionamento e interpretação dos
dados fornecidos pelos aparelhos envolvidos. Nessas circunstâncias, a segurança com
que os princípios podem ser asseridos fica evidentemente reduzida; há, em geral,
possibilidades plausíveis de explicação dos mesmos fenômenos por princípios teóricos
diferentes. A história da física e da química ilustra bem a vulnerabilidade de suas teorias
construtivas, que vão sendo substituídas de tempos em tempos.

No caso dos princípios espíritas básicos, como a existência e sobrevivência do espírito,

o livre-arbítrio, a lei de causa e efeito, a reencarnação, etc., a situação é bastante diversa.
Sua confirmação independe totalmente de aparelhos, conforme bem enfatizou Kardec, o
que é uma enorme vantagem do ponto de vista epistemológico, pelas razões esboçadas
acima. São proposições da mesma classe epistêmica que, digamos, as proposições de
que o Sol existe, de que o fogo queima, a cicuta envenena, etc. Notemos que a
inferência espírita diante de um fenômeno de efeitos intelectuais não difere em nada das
inferências que fazemos a partir dos fenômenos ordinários. Quando, por exemplo, o
carteiro traz à nossa casa um papel no qual lemos certas frases, não nos acudirá a idéia
de que elas não foram escritas por um determinado amigo, quando relatam fatos,
contêm expressões e veiculam pensamentos peculiares e íntimos. Exatamente o mesmo
se dá com os variados e abundantes casos de psicografia de que somos testemunhas.
Não constitui exagero, pois, afirmar-se que a constatação cuidadosa de uns poucos casos
dessa espécie é suficiente para eliminar qualquer dúvida quanto ao princípio básico da
Doutrina Espírita, a existência e sobrevivência do espírito.
Como se isso não bastasse, a base experimental do Espiritismo incorpora ainda muitos
outros tipos de fenômenos, como a psicofonia, a xenoglossia, as materializações,
vidência, a pneumatografia e a pneumatofonia, etc. Além desses fenômenos, que
formam uma classe específica, a dos fenômenos espíritas, o Espiritismo apóia-se
também em inúmeros fenômenos ordinários. Referimo-nos, por exemplo, às nossas
inclinações e sentimentos, às peculiaridades de nosso relacionamento com as pessoas
que nos cercam, aos acontecimentos marcantes de nossa vida, aos distúrbios da
personalidade, aos efeitos psicossomáticos, aos sonhos, à evolução das espécies e das
civilizações, etc. Entendemos que a desconsideração desse vasto corpo de evidências a
favor do Espiritismo constitui séria omissão por parte de seus críticos e daqueles que
tentam fazer ciência não-espírita do espírito.

Em outro artigo (Chibeni 1988; ver também Chibeni 1986) procuramos mostrar que
Kardec possuía um senso científico e filosófico que caminhava muito adiante de seu
tempo, identificando corretamente as características de uma verdadeira ciência, e


desenvolvendo suas pesquisas de acordo com elas. Isso fica claro tanto da análise de sua
obra, como de inúmeras declarações explícitas suas sobre a natureza da ciência, o que
torna ainda mais lamentável a busca de uma ciência do espírito fora do paradigma
kardequiano, busca essa que prossegue até nossos dias, quando os avanços da filosofia
da ciência já puderam mostrar cabalmente onde ela de fato se encontra.

1. Para um esboço desses pontos, ver Chibeni 1984. [volta]
2. Suas obras mais representativas são Kuhn 1970, Lakatos 1970 e Feyerabend 1978.
Para uma exposição mais ou menos acessível das idéias principais desses filósofos e da
concepção clássica de ciência, ver Chalmers 1978. [volta]
3. Sobre a ética espírita e sua fundamentação na ciência espírita, ver Chibeni 1985.
[volta]

Referências bibliográficas:

(O leitor poderá encontrar vertidas para o nosso idioma todas as obras em língua
estrangeira desta lista bibliográfica, embora, com exceção das indicadas traduções das
obras de Kardec a cargo da Federação Espírita Brasileira, essas traduções apresentem,
como é quase regra, falhas mais ou menos graves, que não as recomendam ao estudioso
exigente.)

CHALMERS, A. F. What is this Thing called Science? St. Lucia, University of
Queensland Press, 1978.

CHIBENI, S.S. Espiritismo e ciência. Esboço de uma análise do Espiritismo à luz da
moderna filosofia da ciência. Reformador, maio de 1984, pp. 144-7 e 157-9.

----------. Os fundamentos da ética espírita. Reformador, junho de 1985, pp. 166-9.

---------- . Por que Allan Kardec ? Reformador, abril de 1986, pp. 102-3.

----------. A excelência metodológica do Espiritismo. Reformador, novembro de 1988,
pp. 328-33 e dezembro de 1988, pp. 373-8.

----------. Ciência espírita. Revista Internacional de Espiritismo, março de 1991, pp. 45


52.
FEYERABEND, P. K. Against Method. London, Verso, 1978.

KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. O Livro dos Espíritos.
Trad. Guillon Ribeiro, 43ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.

----------. L'Évangile selon le Spiritisme. Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira,
1979. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 87ª ed., Rio de
Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.

----------. Le Ciel et l'Enfer. Farciennes, Éditions de L'Union Spirite, 1951. O Céu e o


Inferno. Trad. Manuel Quintão. 28ª ed. Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira,

s.d.
----------. La Genèse, les Miracles et les Prédictions selon le Spiritisme. Paris, La
Diffusion Scientifique, s.d. A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o
Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro, 23ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita
Brasileira, s.d.

----------. Oeuvres Posthumes. Paris, Dervy-Livres, 1978. Obras Póstumas. Trad.
Guillon Ribeiro, 18ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.

KUHN, T. S. The Structure of Scientific Revolutions. 2nd. ed., enlarged. Chicago and
London, University of Chicago Press, 1970.

LAKATOS, I. Falsification and the methodology of scientific research programmes. In:
Lakatos & Musgrave 1970, pp. 91-195.

LAKATOS, I. & MUSGRAVE, A. (eds.) Criticism and the Growth of Knowledge.
Cambridge, Cambridge University Press, 1970.

POPPER, K. R. The Logic of Scientific Discovery. 2nd. ed., revised. London,
Hutchinson, 1968.

Artigo publicado no Reformador de junho de 1994, pp. 176-80.

... Silvio Seno Chibeni

> O prefácio de Kardec à segunda edição francesa de
" O Livro dos Espíritos "

Artigos


Em 1860, foi publicada a segunda edição de O Livro dos Espíritos, "inteiramente
refundida e consideravelmente aumentada", conforme anuncia sua página de rosto.
Contém, como se sabe, de 1019 itens, distribuídos em quatro partes, enquanto que a


anterior, de 1857, tinha apenas 501, em três partes.

Kardec escreveu uma nota, ou prefácio, explicando as razões e critérios da nova edição.

Incompreensivelmente, esse prefácio não é atualmente reimpresso nas edições
brasileiras ou francesas, com a exceção da edição de Le Livre des Esprits publicada
em reprodução fotomecânica pela Federação Espírita Brasileira em 1998. Por seu valor
histórico e elucidativo da natureza da obra, reproduzimo-lo em seguida, traduzido para o
português:

NOTA

SOBRE ESTA NOVA EDIÇÃO

Anunciamos, na primeira edição desta obra, a publicação futura de uma parte
suplementar. Seria composta de todas as questões que não encontraram lugar naquela
edição, ou que circunstâncias ulteriores e novos estudos tivessem originado. Como,
porém, são todas relativas a uma ou outra das partes nela já tratadas, das quais são o
desenvolvimento, sua publicação isolada não teria feito nenhuma seqüência. Preferimos,
assim, esperar a reimpressão do livro, para fundir tudo num mesmo conjunto. É o que
agora fazemos. Aproveitamos para conferir à distribuição das matérias uma ordem bem
mais metódica, ao mesmo tempo que suprimimos tudo o que estava repetido. Esta
reimpressão pode, pois, ser considerada uma obra nova, embora os princípios não
tenham sofrido nenhuma alteração, com um pequeno número de exceções, que são antes
complementos e esclarecimentos do que verdadeiras modificações. A coerência dos
princípios expostos, não obstante a diversidade das fontes em que os buscamos,
representa fato importante para o estabelecimento da ciência espírita. Nossa
correspondência mostra que comunicações idênticas em todos os pontos, ao menos
quanto ao fundo, foram obtidas em diferentes localidades, e isso mesmo antes da
publicação de nosso livro. Ele veio confirmá-las e dar-lhes corpo regular. A história, por
sua vez, prova que a maioria desses princípios foram proferidos pelos mais eminentes
homens dos tempos antigos e modernos, trazendo-lhes, assim, a sua sanção.

O ensino relativo às manifestações dos Espíritos, propriamente ditas, bem como aos
médiuns, forma uma parte distinta da filosofia espírita, podendo constituir objeto de um
estudo especial. Havendo recebido desenvolvimentos bastante expressivos em
conseqüência da experiência adquirida, acreditamos ser nosso dever fazer dele um
volume separado, contendo as respostas dadas a todas as questões concernentes às
manifestações e aos médiuns, além de numerosos comentários sobre o Espiritismo
prático. Essa obra será a continuação ou complemento do LIVRO DOS ESPÍRITOS. 1

(1) No prelo.
Daremos agora algumas informações complementares, tecendo alguns comentários
sobre as afirmações de Kardec nesse prefácio, seguindo a ordem em que são feitas.

1. O anúncio de "uma parte suplementar", a que Kardec se refere, apareceu no final do
Epílogo da 1a edição (p. 158). Esse epílogo contém apenas três parágrafos, ocupando
uma página. O primeiro, sobre as causas do ceticismo quanto à doutrina espírita, foi

aproveitado integralmente na 2a edição, figurando no início da seção 17 da Introdução.
O segundo, sobre a natureza da ciência espírita e sobre o objetivo central do livro, teve
igual destino, formando o segundo parágrafo daquela seção, porém com o acréscimo de
algumas frases e a supressão de outra.

O terceiro parágrafo é o seguinte:

O ensino dos espíritos prossegue, atualmente, acerca de diversas partes cuja
publicação adiaram, para que tenham tempo de as elaborar e completar. A próxima
publicação que dará seqüência aos três livros [partes] desta primeira obra conterá,
entre outras coisas, os meios práticos pelos quais o homem pode neutralizar o egoísmo,
fonte da maioria dos males que afligem a sociedade. Tal assunto toca todas as questões
referentes à sua posição no mundo e ao seu porvir terrestre.

Vem, por fim, uma nota:

Nota. – Essa segunda parte será publicada por encomenda, sendo remetida às pessoas
que se houverem inscrito para tal fim, por meio de solicitação escrita (grátis, sem
qualquer pagamento antecipado).

Antes de comentarmos o conteúdo desses textos, atentemos num detalhe: a publicação
sob encomenda da parte suplementar. Isso não deve causar estranheza, se lembrarmos
que a publicação inicial do Livro dos Espíritos correu inteiramente por conta de Kardec,
ou seja, os custos de composição, impressão e distribuição foram cobertos por seus
limitados recursos financeiros. Não havia, é claro, nenhuma certeza de retorno, dado o
caráter incomum da obra e os preconceitos vigentes. Ao estabelecer o esquema de
encomenda (ou "assinatura" – souscription) para a publicação suplementar, Kardec
deve, com toda probabilidade, ter sido movido pela prudência, evitando lançar-se num
empreendimento incerto e talvez demasiadamente pesado para a sua modesta posição.
Com as encomendas, poderia estimar com mais segurança a tiragem a ser feita, evitando
eventuais desperdícios.
Mas como vemos pela afirmação que abre o prefácio, esse projeto não foi
implementado, tendo sido substituído por outro melhor. É, pois, incorreta a
interpretação de Canuto Abreu, expressa em nota ao pé das páginas 158 e 159 de sua
edição bilíngüe da 1a edição de O Livro dos Espíritos, de que o anunciado suplemento
seria o opúsculo Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas (Instruction Pratique
sur les Manifestations Spirites, Paris, bureau da Revue Spirite, Rue des Martyrs, 8;
Dentu; Ledoyen; 152 pp.), que veio a público em 1858. Além de não ser compatível
com o que diz Kardec, essa interpretação não subsiste ao exame do conteúdo do
opúsculo: ele não se dirige à questão do controle do egoísmo, nem de sua relação com
as posições presente e futura do homem. Trata, sim, como o próprio título indica, da
questão das manifestações espíritas. Com a publicação de O Livro dos Médiuns, em
1861, Kardec deixou de imprimir o opúsculo, à época já esgotado, considerando-o
superado, quanto à abrangência e organização, pela nova obra.
O que veio, então, a ser do material que teria formado o suplemento? O próprio Kardec
esclarece: ele foi incorporado à nova edição do Livro dos Espíritos. De fato, vemos que
na 2a edição o assunto do egoísmo recebeu atenção mais ampla e sistemática. Na 1a ele
havia ocupado diversos itens no capítulo "Da perfeição moral do homem". Mas esse
capítulo integrava a parte "Das esperanças e consolações" (que era a terceira e última
parte do livro), e não a parte "Das leis morais" (que era a segunda parte). Na 2a edição o


capítulo foi deslocado para esta parte moral, onde se insere mais naturalmente. Além
desse rearranjo, o capítulo ganhou novos e importantes itens específicos sobre o
egoísmo, como os de número 917 a 919, com as expressivas contribuições de Fénélon,
Santo Agostinho e do próprio Kardec. Note-se, em particular, que as frases do Epílogo
que expressam a preocupação de Kardec com os "meios práticos" de combate ao
egoísmo refletem-se de forma muito próxima nas questões formuladas nesses itens.

Além disso, o estudo das condições presente e futura do homem, a que também se refere
Kardec no anúncio do suplemento, foi claramente ampliado e tornado mais metódico.
Mesmo com a exclusão do capítulo sobre a perfeição moral, a parte sobre as esperanças
e consolações foi bastante estendida, embora passando a consistir, na 2a edição (onde é
a quarta parte), de apenas dois capítulos, "Penas e gozos terrestres" e "Penas e gozos
futuros", que correspondem aos anteriores "Ventura e desventura na Terra" e "Penas e
recompensas futuras".

2. O segundo ponto do prefácio, a incorporação de novos estudos e a melhor
distribuição das matérias, fica bem exemplificada pelo que acabamos de apontar. Uma
apreciação completa da magnitude e êxito dessas alterações só pode ser alcançada pela
análise comparativa detalhada das duas edições, o que não podemos, evidentemente,
fazer aqui. Queremos apenas salientar que ao entregar-se a tão delicada e trabalhosa
tarefa – qual a de praticamente refazer o livro inteiro – Kardec deu-nos dois importantes
exemplos: o da humildade e o do zelo incessante pela qualidade de tudo o que dava a
público. A reflexão sobre esses exemplos, e sobretudo a sua imitação, traria benefícios
evidentes ao estado atual da produção bibliográfica espírita e do movimento espírita em
geral.
3. Quanto à supressão de "tudo o que estava repetido", evidentemente não se refere a
qualquer descuido na redação do texto original. Kardec tinha estilo conciso, e sempre
esteve muito atento a esse tipo de falha. Trata-se da eliminação da forma de
apresentação dupla, em diálogo, na coluna da esquerda, e em texto corrido, na da
direita. Na 1a edição esse formato era adotado apenas na primeira parte da obra. Foi
agora abandonado, porque se estendido ao livro todo tornaria suas dimensões
impraticáveis.
4. O próximo item do prefácio que merece destaque refere-se à constante atenção de
Kardec às investigações situadas fora de sua esfera direta de ação. É bem conhecida a
extensão de sua correspondência, que em alguns anos tornou-se humanamente
impossível de manter-se em dia (ver Allan Kardec, de Z. Wantuil e F. Thiesen, vol. III,
p. 111). É também notório o seu interesse pelas fontes não espíritas, a começar pelas
obras clássicas de todas as áreas e épocas, e incluindo o acompanhamento da imprensa
leiga em diversos países. Essas fontes constituíram para Kardec motivo de inumeráveis
estudos, especialmente na Revue Spirite (veja-se o artigo inicial da Revue, janeiro de
1858). Embora, como veremos em artigo futuro, a correspondência referente ao
Espiritismo não tenha desempenhado um papel tão extenso quanto às vezes se supõe na
produção inicial de Kardec, ela gradualmente adquiriu maior importância. Aqui Kardec
chama a atenção para o fato singular de que nessa correspondência podia-se isolar um
núcleo comum de idéias básicas, fato relevante para o estabelecimento da ciência

espírita. Nota, por fim, que eminentes pensadores de todas as épocas e áreas do saber
esposaram diversos dos princípios dessa ciência, embora – podemos acrescentar – de
forma fragmentária e menos rigorosa do que no Espiritismo (cf. itens 145, 581 e 623628
de O Livro dos Espíritos). A história dá, assim, uma espécie de sanção àqueles
princípios.

5. Por fim, o último parágrafo do prefácio indica outra área em que as pesquisas
evoluíam com particular rapidez: as manifestações espíritas. Poucos sabem hoje que a
1a edição continha, em sua primeira parte, um capítulo intitulado justamente
"Manifestações dos espíritos". Dada, porém, a extensão do material que se acumulava
sobre esse assunto, Kardec percebe a necessidade de uma nova publicação, específica
para ele; não seria viável a ampliação ulterior do Livro dos Espíritos. A obra que Kardec
anuncia estar no prelo é, pois, O Livro dos Médiuns, cuja primeira edição é de 1861.
Analisando o referido capítulo, vemos que pode ser considerado o embrião desse novo
livro.
Referências:

KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Reprodução fotomecânica da 2a ed. francesa, com
adendos do Autor. 1a. ed., Rio, Federação Espírita Brasileira, 1998.

––––. Le Livre des Esprits. Reprodução fotomecânica da 1a ed. francesa. 1a ed,
bilíngüe, trad. e ed. Canuto Abreu. São Paulo, Companhia Editora Ismael, 1957.

––––. Revue Spirite. Reprodução em imagem digitalizada a partir da coleção da
Federação Espírita do Paraná. Também disponível, em texto eletrônico, no site do
Centre d'Études Spirites Léon Denis http://perso.wanadoo.fr/charles.kempf/

––––. Instruction pratique sur les manifestations spirites. Paris, La Diffusion
Scientifique, 1986.

––––. Instrução Prática sobre as Manifestações Espíritas. Trad. Cairbar Schutel. In:
Iniciação Espírita, 6a ed., São Paulo, Edicel, 1977. Também: Matão, Casa Editora O
Clarim, 1987.

WANTUIL, Z. & THIESEN, F. Allan Kardec, 3 vols. 1a ed., Rio, Federação Espírita
Brasileira, 1979/80.

(Texto publicado em Mundo Espírita, junho/2002, pp. 6-7.)


Silvio Seno Chibeni

> O que é ciência?

Artigos


Resumo:
Este trabalho apresenta para um público geral algumas das principais concepções de
ciência defendidas por filósofos da ciência desde o surgimento da ciência moderna, no
século XVII. Procura-se destacar que essas concepções evoluíram na direção de uma
melhor adequação ao que de fato se verificou na história da ciência.

Índice:

1. A visão comum de ciência
2. Objeções à visão comum da ciência
3. Popper e o falseacionismo
4. Limitações do falseacionismo
5. Lakatos: uma visão contemporânea da ciência
Referências
1. A visão comum de ciência
Constitui crença generalizada que o conhecimento fornecido pela ciência distingue-se
por um grau de certeza alto, desfrutando assim de uma posição privilegiada com relação
aos demais tipos de conhecimento (o do homem comum, por exemplo). Teorias,
métodos, técnicas, produtos, contam com aprovação geral quando considerados
científicos. A autoridade da ciência é evocada amplamente. Indústrias, por exemplo,
freqüentemente rotulam de "científicos" processos por meio dos quais fabricam seus
produtos, bem como os testes aos quais os submetem. Atividades várias de pesquisa
nascentes se auto-qualificam "científicas", buscando afirmar-se: ciências sociais, ciência
política, ciência agrária, etc.

Essa atitude de veneração frente à ciência deve-se, em grande parte, ao extraordinário
sucesso prático alcançado pela física, pela química e pela biologia, principalmente.
Assume-se, implícita ou explicitamente, que por detrás desse sucesso existe um
"método" especial, uma "receita" que, quando seguida, redunda em conhecimento certo,
seguro.

A questão do "método científico" tem constituído uma das principais preocupações
dos filósofos, desde que a ciência ingressou em uma nova era (ou nasceu, como


preferem alguns), no século 17. Formou-se em torno dela e de outras questões
correlacionadas um ramo especial da filosofia, a filosofia da ciência. Investigações
pioneiras sobre o "método científico" foram conduzidas por Francis Bacon (15611626).
Secundadas no século 17 por declarações de eminentes cientistas, como Galileo,
Newton, b, e, no século seguinte, pelos Enciclopedistas, suas teses passaram a gozar de
ampla aceitação até nossos dias, não tanto entre os filósofos, mas principalmente entre
os cientistas, que até hoje muitas vezes afirmam seguir o método baconiano em suas
pesquisas. Isso é singular, visto que os estudos recentes em história da ciência vêm
revelando que os métodos efetivamente empregados pelos grandes construtores tanto da
ciência clássica quanto da moderna têm pouca conexão com as prescrições do filósofo
inglês.

De forma simplificada, podemos identificar nas múltiplas variantes dessa visão da
atividade científica e da natureza da ciência - a que chamaremos visão comum da
ciência - algumas pressuposições centrais:

a) A ciência começa por observações. Bacon propôs que a etapa inicial da
investigação científica deveria consistir na elaboração, com base na experiência, de
extensos catálogos de observações neutras dos mais variados fenômenos, aos quais
chamou "tábuas de coordenações de exemplos" (Novum Organum, II, 10). Como
exemplo, elaborou ele mesmo uma lista de instâncias de corpos quentes, visando iniciar

o estudo científico do calor. Essa tábua é então complementada por duas outras,
igualmente de longa extensão, reunindo "instâncias negativas" (corpos privados de
calor) e casos de corpos que possuem uma "disposição" para o calor.
b) As observações são neutras. As referidas observações podem e devem ser feitas
sem qualquer antecipação especulativa, sem qualquer diretriz teórica. A mente do
cientista deve estar limpa de todas as idéias que adquiriu dos seus educadores, dos
teólogos, dos filósofos, dos cientistas; ele não deve ter nada em vista, a não ser a
observação pura.

c) Indução. As leis científicas são extraídas do conjunto das observações por um
processo supostamente seguro e objetivo, chamado indução, que consiste na obtenção
de proposições gerais (como as leis científicas) a partir de proposições particulares
(como os relatos observacionais). Servindo-nos de uma ilustração simples, a lei segundo
a qual todo papel é combustível seria, segundo a visão que estamos apresentando, obtida
de modo seguro de um certo número de observações de pedaços de papel que se
queimam. A lei representa, pois, uma generalização da experiência. O processo inverso,
de extração de proposições particulares de uma lei geral, assumida como verdadeira, cai
no domínio da lógica, sendo um caso de dedução.

Durante a primeira metade do século XX, uma plêiade de eminentes filósofos
empreendeu aperfeiçoar aquilo que vimos denominando de concepção comum de
ciência, em um sofisticado programa filosófico, conhecido como positivismo lógico.
Esse movimento, cujo núcleo original formou-se em torno do chamado Círculo de
Viena, na década de 1920, exerceu uma influência marcante sobre a comunidade
científica, que perdura até nossos dias, não obstante críticas severas ao positivismo
lógico haverem surgido ainda na década de 1930.

2. Objeções à visão comum da ciência

Iniciemos nossa simplificada exposição das objeções à visão comum da ciência
examinando brevemente a questão da justificação da indução. Dentro do âmbito restrito
de nossa discussão, o processo dedutivo não apresenta maiores dificuldades; podemos
assumir que se a verdade de uma proposição estiver assegurada, também o estará a de
todas as proposições que dela decorrerem dedutivamente, pelo uso das leis da lógica.
Tais leis, no entanto, não asseguram a validade do processo indutivo. Voltando ao nosso
exemplo, nenhum conjunto de observações de incineração de pedaços de papel, por
maior e mais variado que seja, é suficiente para justificar logicamente a lei segundo a
qual todo papel é combustível. Não há contradição formal, lógica, em se afirmar que
embora todos os pedaços de papel já examinados tenham se queimado, esta folha não é
combustível. Isso pode contrariar o senso-comum, as leis da química e da física, mas
não as da lógica.

Eliminada a possibilidade de justificação lógica, resta, segundo os pressupostos
empiristas dos próprios defensores dessa concepção, unicamente a justificação empírica.
No entanto, os filósofos John Locke e David Hume apontaram, no final do século 17 e
início do 18, que a justificação empírica da indução envolve dificuldades insuperáveis.

Essa constatação veio a exercer uma enorme influência na filosofia, estimulando, por
um lado, a retomada de doutrinas racionalistas (Kant) e, por outro, a reformulação dos
objetivos empiristas, com o reconhecimento de que o ideal original de certeza e
infalibilidade do conhecimento geral do mundo exterior não pode ser atingido.
Procurou-se, assim, determinar condições nas quais o salto indutivo seja feito da
maneira mais segura possível. Entre as condições que têm sido propostas destacaríamos:

d) o número de observações de um dado fenômeno deve ser grande;

e) deve-se variar amplamente as condições em que o fenômeno se produz; e

f) não deve existir nenhuma contra-evidência, i.e., observação que contrarie a lei.

Embora pareçam prima facie razoáveis, um pouco de reflexão e inspeção cuidadosa da
história da ciência revelam que tais condições não são nem suficientes para garantir as
inferências indutivas, nem necessárias ao estabelecimento de nossas melhores teorias
científicas.

Que não são suficientes para assegurar a validade do processo indutivo já está claro de
nossas considerações anteriores. Dada uma proposição geral qualquer, não importa quão
numerosas e variadas tenham sido as observações que lhe forneceram suporte indutivo,
é sempre possível que a próxima observação venha a contrariar as anteriores, falseando
a proposição geral. Se apelarmos para o princípio da regularidade da natureza,
estaremos na obrigação de justificá-lo. Mas tal princípio evidentemente não é de
natureza lógica; e se lhe quisermos dar justificação empírica, caímos de novo no
problema da indução.

Além disso, podemos ver que as condições enumeradas também não são necessárias
para as mais importantes teorias científicas. Primeiro, quando à condição (d), atentemos
para o fato de que alguns dos mais fundamentais experimentos científicos não foram
repetidos senão umas poucas vezes, ou mesmo, como é comum, foram realizados
apenas uma vez. Muitas das generalizações empíricas nas quais mais certeza


depositamos resultaram de uma única observação. Quem, por exemplo, duvidaria que a
explosão de bombas atômicas causa a morte de seres humanos após Hiroshima haver
sido arrasada?

Quanto à condição (e), notemos que a variação das condições de observação também
não tem ocorrido ao longo do desenvolvimento da ciência. Essa exigência é inexeqüível,
se interpretada rigorosamente, já que os fatores que em princípio podem influir são em
número indefinido. Por exemplo, para verificarmos a lei da queda dos corpos, teríamos
que variar não somente a forma e a massa do corpo que cai, e o meio no qual se move,
mas também a sua temperatura, a sua cor, a hora do dia na qual o experimento é feito, a
estação do ano, o sexo do experimentador, o seu cheiro, etc. Isso faz ver que há sempre
pressuposições teóricas guiando a escolha das condições que devem ser controladas ou
variadas; são nossos pressupostos teóricos que nos causam riso diante de algumas das
condições que acabamos de enumerar. Este ponto será retomado adiante, dada a sua
importância.

Finalmente, nem mesmo a condição (f) tem sido respeitada pela ciência. As teorias
científicas nascem e se desenvolvem em meio a inúmeras "anomalias" ou contra-
exemplos empíricos. A teoria de Copérnico conviveu, até o advento do telescópio, com

o contra-exemplo da observação da invariância das dimensões de Vênus ao longo do
ano. A mecânica newtoniana atingiu a glória mesmo tendo que aguardar décadas antes
que pudesse entrar em acordo com as observações da trajetória da Lua; e nem foi
abandonada no século 19 quando não pôde dar conta da órbita de Urano. A hipótese de
Prout sobre os pesos atômicos dos elementos químicos esperou quase um século antes
que seu conflito com abundantes experiências fosse removido.
Passemos agora às objeções ao princípio (a) da visão comum da ciência: começo da
investigação científica por observações.

O comentário que fizemos sobre a variação das condições de observação já indica uma
dificuldade: se não tivermos nenhuma diretriz teórica para guiar as observações, estas
nunca poderão ser concluídas, já que a rigor teríamos que considerar uma infinidade de
fatores. Essa constatação de que, por uma questão de princípio, a investigação científica
não pode principiar com observações puras é reforçada pelo testemunho histórico. Os
catálogos baconianos são uma ficção, nunca tendo sido elaborados por qualquer
cientista. O cientista, quando vai ao laboratório, sempre tem uma idéia, ainda que
provisória e reformulável, do que deve ou não ser observado, controlado, variado.

É interessante ainda lembrar que há casos notáveis de descobertas de leis científicas
estimuladas por fatores não-empíricos. Um exemplo típico é a idéia ocorrida ao físico
francês Louis de Broglie de que a matéria dita "ponderável" (elétrons, átomos, etc.)
apresentaria um comportamento ondulatório. Essa idéia, que contribuiu decisivamente
para os desenvolvimentos que levaram ao surgimento da mecânica quântica, não se
baseava de modo direto em nenhuma evidência empírica disponível na época (1924),
mas na consideração estética, de simetria, de que se a luz, tida como de natureza
ondulatória, apresentava, em determinadas circunstâncias, um comportamento
corpuscular (fato esse, aliás, também constatado depois de haver sido previsto
teoricamente por Einstein), então os corpúsculos materiais igualmente deveriam, em
certas circunstâncias, comportar-se como ondas.


As objeções que se têm levantado contra o princípio (b), da neutralidade das
observações, são demasiadamente complexas para serem tratadas neste texto voltado a
um público leigo. De forma simplificada, a análise filosófica e psicológica do processo
de percepção fornece evidência de que o conteúdo mental (idéias, conceitos, juízos)
formado quando se observa um determinado objeto ou conjunto de objetos varia
significativamente de indivíduo para indivíduo, conforme sua bagagem intelectual. Em
certo sentido, a apreensão da realidade se faz parcialmente mediante "recortes" próprios
de cada observador, determinados por sua experiência prévia, as teorias que aceita, os
objetivos que tem em vista. A tarefa de isolar elementos completamente objetivos, ou
pelo menos inter-subjetivos, em nossas experiências está envolta em dificuldades
maiores do que se supôs nas etapas iniciais do desenvolvimento da filosofia empirista
moderna, quando se propunha que o material básico de todo conhecimento era um
conjunto de "idéias", "impressões", "conceitos" ou "dados sensoriais" comuns. Parece
que em cada ocasião em que a mente interage com algo, esses dados sensoriais já vêm
inextricavelmente associados a interpretações, condicionadas pelos fatores apontados.

Tais constatações, porém, não devem conduzir a um subjetivismo completo,
incompatível com aquilo que de fato se faz em nosso dia-a-dia e na ciência. Aliás, parte
da atividade científica consiste justamente em se buscar uma descrição tão objetiva
quanto possível do mundo, e o que está sendo aqui exposto visa apenas a indicar que
esse ideal tem que ser buscado por meio de um controle crítico incessante dos fatores
subjetivos inelimináveis. Ao contrário do que poderia resultar de uma abordagem
estritamente kantiana dessa questão, defendemos que a "grade" intelectual segundo a
qual percebemos a realidade não é fixa, determinada de forma totalmente independente
de nosso arbítrio, mas pode ser adaptada por esforços deliberados, com a finalidade de
se encontrar uma representação das coisas que mais se aproxime daquele ideal,
maximizando-se simultaneamente a coerência e o poder explicativo de nosso conjunto
de crenças e teorias.

3. Popper e o falseacionismo
Objeções incisivas à concepção comum de ciência, então vestida nas roupagens do
positivismo lógico, foram levantadas já em 1934 pelo filósofo austríaco (mais tarde
naturalizado britânico) Karl Popper, exatamente quando essa doutrina vivia o seu
apogeu. Tais objeções, enfeixadas no livro Logik der Forschung, publicado em Viena
naquele ano, foram ignoradas durante quase trinta anos, só recebendo atenção no final
da década de 1950, quando os próprios positivistas lógicos já haviam admitido muitas
limitações no seu programa original. Em 1959, o livro de Popper foi revisto, ampliado e
vertido para o inglês, sob o título The Logic of Scientific Discovery. A partir de então
(e, é claro, não somente pela influência desta obra) instalou-se um período de
significativos avanços na filosofia da ciência, com o aperfeiçoamento e crítica das teses
popperianas, e com o aparecimento de outras concepções de ciência, entre as quais se
destacam as de Thomas Kuhn e Imre Lakatos.

A idéia central de Popper é a de substituir o empirismo justificacionista-indutivista da
concepção tradicional por um empirismo não-justificacionista e não-indutivista, que
ficou conhecido por falseacionismo. Popper rejeita que as teorias científicas sejam
construídas por um processo indutivo a partir de uma base empírica neutra, e propõe
que elas têm um caráter completamente conjetural. Teorias são criações livres da mente,
destinadas a ajustar-se tão bem quanto possível ao conjunto de fenômenos de que


tratam. Uma vez proposta, uma teoria deve ser rigorosamente testada por observações e
experimentos. Se falhar, deve ser sumariamente eliminada e substituída por outra capaz
de passar nos testes em que a anterior falhou, bem como em todos aqueles nos quais
tenha passado. Assim, a ciência avança por um processo de tentativa e erro, conjeturas e
refutações. "Aprendemos com nossos erros", enfatiza Popper, que traça um paralelo
(com restrições importantes) entre a evolução da ciência e a evolução das espécies,
segundo a teoria de Darwin-Wallace:

Nosso conhecimento consiste, em cada momento, daquelas hipóteses que mostraram
sua (relativa) adaptação, por terem até então sobrevivido em sua luta pela existência,
uma luta competitiva que elimina as hipóteses não-adaptadas. (Objective Knowledge, p.
261.)

A cientificidade de uma teoria reside, para Popper, não em sua impossível prova a
partir de uma base empírica, mas em sua refutabilidade. Ele argumenta que
somente as teorias passíveis de serem falseadas por observações fornecem informação
sobre o mundo; as que estejam fora do alcance da refutação empírica não possuem
"pontos de contato" com a realidade, e sobre ela nada dizem, mesmo quando na
aparência digam, caindo no âmbito da metafísica. Alguns dos exemplos preferidos de
Popper de teorias irrefutáveis, e portanto não-científicas, são a astrologia, a psicanálise e

o marxismo.
Vejamos agora como a concepção falseacionista posiciona-se diante das características
da ciência que constituíram embaraço à concepção indutivista tradicional.

Primeiramente, notemos que a visão falseacionista escapa completamente ao problema
da justificação da indução, já que nela não se pretende que as teorias sejam provadas
indutivamente. O vínculo empírico das teorias se localiza em sua refutabilidade. E aqui

o falseacionismo explora habilmente a assimetria lógica que existe entre os processos de
inferência de proposições particulares a partir de proposições gerais e de gerais a partir
de particulares: se nenhum conjunto finito de proposições particulares pode levar
logicamente uma proposição geral, a falsidade de uma proposição particular acarreta
logicamente a falsidade da proposição que representa a sua generalização. Ilustremos o
ponto retomando o nosso exemplo da lei segundo a qual todo papel é combustível.
Conforme mencionamos, essa lei não pode ser provada logicamente por observações de
pedaços de papel que se queimam. Porém se encontrarmos um único pedaço de papel
incombustível, concluiremos logicamente que a referida lei é falsa.
Uma segunda vantagem da concepção falseacionista está em não pretender que a
investigação científica comece por observações.

Discorrendo sobre as relações entre observação e teoria, Popper afirma:

Acredito que a teoria - pelo menos alguma expectativa ou teoria rudimentar - sempre
vem primeiro, sempre precede a observação; e que o papel fundamental das observações
e testes experimentais é mostrar que algumas de nossas teorias são falsas, estimulando-
nos assim a produzir teorias melhores.


Conseguintemente, digo que não partimos de observações, mas sempre de problemas ¾
seja de problemas práticos ou de uma teoria que tenha topado com dificuldades.
(Objective Knowledge, p. 258.)

Isso isenta o falseacionismo de várias das objeções filosóficas, notadamente da relativa
à necessidade de diretrizes teóricas na condução das observações, e também o colocam
em concordância com o processo que efetivamente ocorre ao longo da história da
ciência.

Por fim, além do apelo intuitivo do falseacionismo (em nossa vida prática, pelo menos,
freqüentemente aprendemos com nossos erros), cabe mencionar que o compromisso
com essa posição filosófica força a formulação das teorias de maneira clara e precisa.
De fato, não é fácil ver como uma teoria obscura ou imprecisa possa ser submetida a
testes rigorosos e, ainda que o seja, poderá ser sempre salva de um veredicto
desfavorável por meio de reinterpretações, de manobras semânticas, o que trai sua
irrefutabilidade, e portanto o seu caráter não-científico.

4. Limitações do falseacionismo
Embora represente um avanço em relação à concepção comum de ciência, o
falseacionismo, tal qual o descrevemos acima, de modo simplificado, padece de várias
limitações. Não faríamos justiça plena a Popper atribuindo-lhe essa forma tosca de
falseacionismo, não obstante haja evidência textual que poderia ser evocada para essa
atribuição, como gostam de notar seus opositores.

Foge ao escopo deste nosso trabalho efetuar uma análise dos muitos matizes do
pensamento popperiano, bem como avaliar as críticas que lhe foram feitas. Diremos
apenas que mesmo as versões mais sofisticadas do falseacionismo não estão isentas de
dificuldades, o que deu lugar ao surgimento de diversas teorias da ciência alternativas.
Essas teorias vão desde a metodologia dos programas científicos de pesquisa, de
Lakatos, que representa um desdobramento das linhas popperianas, até o auto-
denominado "dadaísmo metodológico", de Paul Feyerabend, que nega a existência de
qualquer método na ciência. Daremos abaixo uma descrição breve das idéias centrais de
Lakatos, não somente por suas virtudes intrínsecas, mas também por servir bem às
nossas análises posteriores. Antes, porém, exporemos de forma sucinta algumas das
objeções que se têm levantado contra o falseacionismo, e que motivaram o
desenvolvimento das concepções lakatosianas.

A dificuldade mais fundamental enfrentada pelo falseacionismo é o chamado "problema
de Duhem-Quine". Vimos acima que uma proposição geral como 'Todo papel é
combustível' pode ser falseada por uma proposição particular como 'A folha de papel x
não é combustível', cuja verdade usualmente se admite apoiar na experiência. No
entanto, as teorias reais ou de algum interesse nunca são proposições gerais isoladas,
mas conjuntos de tais proposições, e não podem, além disso, ser submetidas a testes
empíricos senão quando suplementadas por teorias e hipóteses auxiliares (como as
referentes ao funcionamento dos aparelhos eventualmente empregados na observação),
proposições acerca das condições iniciais e de contorno, etc. Se então esse complexo de
proposições permite inferir uma proposição que conflita com alguma proposição
empírica, o máximo que a lógica nos informa é que o conjunto de proposições está
refutado, caso se assuma a verdade da proposição empírica. Mas não nos habilita a


singularizar como responsável por essa refutação uma das proposições do conjunto,
nem mesmo o subconjunto delas que constitui a teoria particular que estamos
procurando testar.

Ilustremos a dificuldade considerando uma situação que, segundo a concepção
falseacionista, representaria a refutação de uma dada teoria mecânica por observações
astronômicas. Para fixar idéias, tomemos essa teoria como sendo a mecânica
newtoniana, que consiste de três leis dinâmicas, as conhecidas "leis de Newton", que
denotaremos por L1, L2 e L3, e da lei da gravitação universal, que denotaremos por G.
Uma eventual refutação dessa teoria por uma proposição empírica, E, implica
necessariamente a possibilidade de se deduzir a partir dela uma proposição T
logicamente incompatível com E. Em outros termos, diríamos neste caso que a previsão
teórica T (a respeito, por exemplo, da trajetória de um dado planeta) foi contrariada pela
experiência, expressa através da proposição E, estando assim refutada a teoria mecânica
em questão.

O problema está em que o conjunto de leis L1, L2, L3 e G não basta para a dedução de
nenhuma proposição do tipo de T. Para tanto, deve ser complementado por várias outras
proposições, classificadas em duas categorias principais: De um lado, estão as
proposições gerais (A1, A2, A3, ... ) de teorias auxiliares, como por exemplo as de
teorias ópticas envolvidas na construção e operação dos telescópios usados na
observação do planeta, na correção das aberrações ópticas introduzidas pela atmosfera
terrestre, etc. De outro lado, há as proposições particulares (I1, I2, I3, ... ) referentes às
chamadas condições iniciais do problema, como sejam as empregadas para especificar
as massas e posições iniciais do planeta, da Terra, do Sol e dos demais planetas e
satélites. Temos então que é somente o amplo conjunto de proposições L1, L2, L3, G,
A1, A2, A3, ... I1, I2, I3, ... que permite inferir uma proposição T imediatamente
confrontável com a observação. Se agora encontrarmos que essa proposição T é
empiricamente falsa, poderemos concluir somente que a vasta conjunção de proposições
que permitiu deduzi-la é falsa; mas a lógica não dá nenhuma indicação de qual (ou
quais) proposição que a compõe é falsa; sabemos apenas que pelo menos uma deverá
sê-lo, mas não qual. Assim, o conflito de T com a observação não pode ser interpretado
como uma refutação da teoria mecânica em análise (e mesmo que pudesse, não
saberíamos qual das leis que a compõem é falsa), pois a falha pode estar em qualquer
uma das inúmeras proposições subsidiárias A1, A2, A3, ... I1, I2, I3, ... . Conforme se
verifica pelo exame cuidadoso das situações reais de teste das teorias científicas, esse
conjunto de proposições subsidiárias é em geral bastante extenso.

Quine expressou metaforicamente o problema em foco dizendo que "nossas proposições
sobre o mundo externo enfrentam o tribunal da experiência sensível não
individualmente, mas corporativamente" ("Two dogmas of Empiricism", seção 5).
Recorreu ainda a duas imagens para figurar as relações entre teoria e experiência:

A totalidade de nosso assim chamado conhecimento ... é um tecido feito pelo homem,
que toca a experiência somente em suas bordas. Ou, mudando a imagem, a ciência é
como um campo de força cujas condições de contorno são a experiência. Um conflito
com a experiência na periferia causa reajustes no interior do campo ... A reavaliação de
algumas proposições acarreta a reavaliação de outras, devido às interconexões lógicas
entre elas ... Mas o campo é de tal modo subdeterminado por suas condições de
contorno (a experiência), que há muita liberdade de escolha sobre quais proposições


devem ser reavaliadas à luz de qualquer experiência individual contrária. (Ibid., seção
6.)

Conforme vemos, o problema de Duhem-Quine incide sobre os próprios fundamentos
da concepção falseacionista de ciência. Sua relevância é acentuada pelo testemunho da
história da ciência, que fornece muitos exemplos de conflitos entre previsões teóricas e
observações que foram resolvidos não pelo abandono da teoria particular que levou à
previsão, mas por ajustes nas teorias subsidiárias requeridas para a efetivação do teste.
Mencionamos anteriormente alguns exemplos importantes, que agora relembraremos,
junto com mais alguns.

A teoria astronômica de Copérnico conflitava com a observada constância nas
dimensões de Vênus e Marte ao longo do ano. O heliocentrismo não foi por isso tido
como refutado por todos; muitos preferiram colocar em dúvida a assumida capacidade
de nosso sistema visual perceber pequenas variações de tamanho de objetos brilhantes
pequenos. O mesmo ocorreu com relação a inúmeras previsões mecânicas
empiricamente falsas que os opositores do sistema copernicano deduziram da hipotética
rotação da Terra: a produção de ventos fortíssimos na direção oeste; a projeção de todos
os corpos soltos sobre a superfície da Terra; o desvio para oeste de corpos em queda
livre; a Lua seria deixada para trás pela Terra em seu movimento de translação, etc.
Bruno, Galileo, Kepler e outros não viram nessas abundantes conseqüências falsas da
teoria heliocêntrica a sua refutação, preferindo atribuí-las às teorias mecânicas
subjacentes, muito embora o desenvolvimento de uma nova mecânica, capaz de
produzir previsões empíricas corretas a partir da teoria heliocêntrica, devesse ainda
aguardar a contribuição de Newton, no final do século 17.

Por sua vez, a mecânica newtoniana dava resultados incorretos para a trajetória da Lua.
Isso não foi interpretado como sua refutação; o ajuste empírico da teoria foi alcançado
em meados do século 18, por modificações nas técnicas matemáticas envolvidas nos
cálculos da trajetória lunar. Caso semelhante se deu com as previsões da teoria
newtoniana para a órbita de Urano, incompatível com as observações astronômicas do
início do século 19. Desta vez, a refutação da teoria foi evitada pelo questionamento das
condições iniciais do problema, introduzindo-se a hipótese de um corpo celeste até
então nunca observado, que modificaria as forças gravitacionais que atuam sobre aquele
planeta. Esse hipotético corpo foi mais tarde detectado empiricamente, sendo o que hoje
se conhece como o planeta Netuno.

Também já aludimos à hipótese que Prout propôs em 1815 acerca dos pesos atômicos
dos elementos químicos, que conviveu durante quase cem anos com farta evidência
empírica contrária. A discrepância foi atribuída a pressuposições referentes aos
processos de purificação química. Aqui também esse redirecionamento da refutação
mostrou-se justificado pelos desenvolvimentos científicos de nosso século.

Finalizando esta breve exposição das dificuldades do falseacionismo, temos ainda que
mencionar que a ênfase que dá ao processo de falseamento das teorias conduz
freqüentemente a uma subestimação do papel das confirmações no desenvolvimento da
ciência. (Entendemos aqui 'confirmação' não no sentido da concepção tradicional de
ciência, que em geral se confunde com 'prova'; por esse termo significamos apenas a
evidência empírica favorável.)


Na versão tosca que lhe demos acima, o falseacionismo não reconhecia a importância
das confirmações. Um tanto impiedosamente, poderíamos isolar muitas passagens dos
escritos de Popper que parecem apoiar esse ponto de vista, como por exemplo esta
prescrição feita à página 266 de seu Objective Knowledge: "Tenha por ambição refutar
e substituir suas próprias teorias." Ou ainda estas frases de Conjectures and Refutations:
"Observações e experimentos ... funcionam na ciência como testes de nossas conjeturas
ou hipóteses, i.e., como tentativas de refutação" (p. 53). "Todo teste genuíno de uma
teoria é uma tentativa de falseá-la ou refutá-la" (p. 36).

Não podemos disfarçar nossa estranheza diante de tais afirmações, dado seu contraste
com a atitude usual dos cientistas, que vem norteando o desenvolvimento da ciência.
Naturalmente, quando considerado em seu conjunto, o pensamento popperiano mostra-
se mais refinado. Popper trata mesmo com alguma extensão o assunto da "evidência
corroborativa". Não é claro, todavia, que ele tenha feito justiça plena ao papel que a
confirmação efetivamente desempenha na ciência. Vejamos, por exemplo, este seu
comentário específico sobre a questão: "Evidência confirmatória não deve contar,
exceto quando é o resultado de um teste genuíno da teoria, ou seja, quando possa ser
apresentada como uma tentativa séria, não obstante mal sucedida, de falsear a teoria."
(Conjectures and Refutations, p. 36; o destaque é de Popper.) O desacordo com o que se
observa na prática da ciência reside não no reconhecimento de que as "confirmações
devem contar somente se são o resultado de predições arriscadas" (ibid., p. 36), mas na
insistência em interpretar observações e experimentos como tentativas deliberadas de
refutação. Definitivamente, parece não haver exemplos de cientistas que se tenham
empenhado ansiosamente na refutação de suas próprias teorias, ou daquelas com as
quais simpatizem. E o que vimos acima nos autoriza a concluir que se esse fosse o
objetivo precípuo dos cientistas, não lhes faltariam razões para dar como refutadas todas
as teorias científicas.

Além disso, há que observar a irrelevância de certas refutações para a ciência. Este
ponto foi expresso com clareza por Chalmers em seu livro What Is This Thing Called
Science? (pp. 51-2):

É um erro tomar a falseação de conjeturas ousadas e altamente falseáveis como ocasiões
de significantes avanços na ciência ... Avanços significantes distinguem-se pela
confirmação de conjeturas ousadas ou pela falseação de conjeturas prudentes. Casos do
primeiro tipo são informativos, e constituem uma importante contribuição ao
conhecimento científico, exatamente porque assinalam a descoberta de algo
previamente não-cogitado ou tido como improvável ... As falseações de conjeturas
prudentes são informativas porque estabelecem que o que era considerado
pacificamente verdadeiro é de fato falso ... Em contraste, pouco se aprende com a
falseação de uma conjetura ousada ou da confirmação de uma conjetura prudente. Se
uma conjetura ousada é falseada, então tudo o que se aprende é que mais uma idéia
maluca mostrou-se errada ... Semelhantemente, a confirmação de hipóteses prudentes ...
indica meramente que alguma teoria bem estabelecida e vista como não-problemática
foi aplicada com sucesso mais uma vez.

5. Lakatos: uma visão contemporânea da ciência
Do que vimos sobre as limitações das concepções indutivista e falseacionista de ciência,
transparece que elas representam as teorias científicas e suas relações com a experiência


de modo demasiadamente simples e fragmentário. A inspeção da natureza, gênese e
desenvolvimento das teorias científicas reais evidencia que devem ser consideradas
como estruturas complexas e dinâmicas, que nascem e se elaboram gradativamente, em
um processo de influenciação recíproca com a experiência, bem como com outras
teorias. Essa visão da ciência é ainda apoiada por argumentos de ordem filosófica e
metodológica.

Se é verdade que as teorias científicas devem apoiar-se na experiência - embora não dos
modos descritos pelo indutivismo e pelo falseacionismo -, residindo mesmo nela a sua
principal razão de ser, não é menos verdade que a busca, condução, classificação e
análise dos dados empíricos requer diretrizes teóricas.

Além disso, a própria malha conceitual através da qual formulamos nossas idéias e
experiências sensoriais constitui-se ao menos parcialmente pela atuação de nosso
intelecto. No caso específico dos conceitos abstratos da ciência, o exame de sua criação
e evolução mostra que surgem tipicamente como idéias vagas, só adquirindo significado
gradualmente mais preciso na medida em que as teorias em que comparecem se
estruturam, embasam e ganham coerência.

Por fim, em contraste com o que propõe a visão indutivista (e talvez também a
falseacionista), as teorias científicas não consistem de meros aglomerados de leis gerais.
Devem incorporar ainda regras metodológicas que disciplinem a absorção de impactos
empíricos desfavoráveis, e norteiem as pesquisas futuras com vistas ao seu
aperfeiçoamento.

O filósofo Imre Lakatos sistematizou de maneira interessante as características da
ciência que vimos discutindo, introduzindo a noção de programa científico de pesquisa.
Iniciaremos nossa breve e simplificada exposição das idéias centrais de Lakatos
recorrendo a este parágrafo do citado livro de Chalmers (p. 76):

Um programa de pesquisa lakatosiano é uma estrutura que fornece um guia para futuras
pesquisas, tanto de maneira positiva, como negativa. A heurística negativa de um
programa envolve a estipulação de que as assunções básicas subjacentes ao programa,
que formam o seu núcleo rígido, não devem ser rejeitadas ou modificadas. Esse núcleo
rígido é resguardado contra falseações por um cinturão protetor de hipóteses auxiliares,
condições iniciais, etc. A heurística positiva constitui-se de prescrições não muito
precisas que indicam como o programa deve ser desenvolvido... Os programas de
pesquisa são considerados progressivos ou degenerantes, conforme tenham sucesso, ou
persistentemente fracassem, em levar à descoberta de novos fenômenos.

O núcleo rígido (hard core) de um programa é aquilo que essencialmente o identifica e
caracteriza, constituindo-se de uma ou mais hipóteses teóricas. Eis alguns exemplos. O
núcleo rígido da cosmologia aristotélica inclui, entre outras, as hipóteses da finitude e
esfericidade do Universo, a impossibilidade do vazio, os movimentos naturais, a
incorruptibilidade dos céus. O núcleo da astronomia copernicana consiste das assunções
de que a Terra gira sobre si mesma em um dia e em torno do Sol em um ano, e de que
os demais planetas também orbitam o Sol. O da mecânica newtoniana é formado pelas
três leis dinâmicas e pela lei da gravitação universal; o da teoria especial da relatividade,
pelo princípio da relatividade e pela constância da velocidade da luz; o da teoria da
evolução de Darwin-Wallace, pelo mecanismo da seleção natural.


Por "uma decisão metodológica de seus protagonistas" (Lakatos 1970, p. 133), o núcleo
rígido de um programa de pesquisa é "decretado" não-refutável. Possíveis discrepâncias
com os resultados empíricos são eliminadas pela modificação das hipóteses do cinturão
protetor. Essa regra é a heurística negativa do programa, e tem a função de limitar,
metodologicamente, a incerteza quanto à parte da teoria atingida pelas "falseações".
Recomendando-nos direcionar as "refutações" para as hipóteses não-essenciais da
teoria, a heurística negativa representa uma regra de tolerância, que visa a dar uma
chance para os princípios fundamentais do núcleo mostrarem a sua potencialidade. O
testemunho da história da ciência parece de fato corroborar essa regra, como vimos nos
exemplos que demos acima. Uma certa dose de obstinação parece ter sido essencial para
salvar nossas melhores teorias científicas dos problemas de ajuste empírico que
apresentavam quando de sua criação.

Lakatos reconhece, porém, que essa atitude conservadora tem seus limites. Quando o
programa como um todo mostra-se sistematicamente incapaz de dar conta de fatos
importantes e de levar à predição de novos fenômenos (i.e., torna-se "degenerante"),
deve ceder lugar a um programa mais adequado, "progressivo". Como uma questão de
fato histórico, nota-se que um programa nunca é abandonado antes que um substituto
melhor esteja disponível.

A heurística positiva de um programa é mais vaga e difícil de caracterizar que a
heurística negativa. Segundo Lakatos, ela consiste "de um conjunto parcialmente
articulado de sugestões ou idéias de como mudar ou desenvolver as 'variantes
refutáveis' do programa de pesquisa, de como modificar, sofisticar, o cinturão protetor
'refutável'." (op. cit. p. 135) No caso da astronomia copernicana, por exemplo, a
heurística positiva indicava claramente a necessidade do desenvolvimento de uma
mecânica adequada à hipótese da Terra móvel, bem como de novos instrumentos de
observação astronômica, capazes de detectar as previstas variações no tamanho aparente
dos planetas e as fases de Vênus, por exemplo. Assim, o telescópio foi construído
algumas décadas após a morte de Copérnico pelo seu ardente defensor, Galileo, que
também principiou a criação da nova mecânica. Esta, a seu turno, uma vez formulada
por Newton, apontou para um imenso campo aberto, no qual se deveriam buscar uma
nova matemática, medidas das dimensões da Terra, aparelhos para a detecção da força
gravitacional entre pequenos objetos, etc.

Tentando uma representação gráfica de um programa de pesquisas lakatosiano teríamos
mais ou menos o seguinte:

A concepção lakatosiana de ciência envolve um novo critério de demarcação entre
ciência e não-ciência. Lembremos que o critério indutivista considerava científicas
somente as teorias provadas empiricamente. Tal critério é, como vimos, forte demais:
não haveria, segundo ele, nenhuma teoria genuinamente científica, pois todo
conhecimento do mundo exterior é falível. Também o critério falseacionista, segundo o
qual só são científicas as teorias refutáveis, elimina demais: como nenhuma teoria pode
ser rigorosamente falseada, nenhuma poderia classificar-se como científica.

O critério de demarcação proposto por Lakatos, por outro lado, adequadamente situa no
campo científico algumas das teorias unanimemente tidas como científicas, como as
grandes teorias da física. Esse critério funda-se em duas exigências principais: uma


teoria deve, para ser científica, estar imersa em um programa de pesquisa, e este
programa deve ser progressivo. Deixemos a Lakatos a palavra (1970, pp. 175-6):

Pode-se compreender muito pouco do desenvolvimento da ciência quando nosso
paradigma de uma porção de conhecimento científico é uma teoria isolada, como 'Todo
cisne é branco', solta no ar, sem estar imersa em um grande programa de pesquisa.
Minha abordagem implica um novo critério de demarcação entre 'ciência madura', que
consiste de programas de pesquisa, e 'ciência imatura', que consiste de uma colcha de
retalhos de tentativas e erros ...

A ciência madura consiste de programas de pesquisa nos quais são antecipados não
apenas fatos novos, mas também novas teorias auxiliares; a ciência madura possui
'poder heurístico', em contraste com os processos banais de tentativa e erro.
Lembremos que na heurística positiva de um programa vigoroso há, desde o início, um
esboço geral de como construir os cinturões protetores: esse poder heurístico gera a
autonomia da ciência teórica.

Essa exigência de crescimento contínuo [progressividade do programa] é minha
reconstrução racional da exigência amplamente reconhecida de 'unidade' ou 'beleza' da
ciência. Ela põe a descoberto a fraqueza de dois tipos de teorização aparentemente
muito diferentes entre si. Primeiro, evidencia a fraqueza de programas que, como o
marxismo ou o freudismo, são indubitavelmente 'unificados', e fornecem um plano
geral do tipo de teorias auxiliares que irão utilizar para a absorção de anomalias, mas
que invariavelmente criam suas teorias na esteira dos fatos, sem ao mesmo tempo
anteciparem fatos novos. (Que fatos novos o marxismo previu desde, digamos, 1917?)
Em segundo lugar, ela golpeia seqüências remendadas de ajustes 'empíricos' rasteiros e
sem imaginação, tão freqüentes, por exemplo, na psicologia social moderna. Tais
ajustes podem, com o auxílio das chamadas 'técnicas estatísticas', produzir algumas
predições 'novas', podendo mesmo evocar alguns fragmentos irrelevantes de verdade
que encerrem. Semelhantes teorizações, todavia, não possuem nenhuma idéia
unificadora, nenhum poder heurístico, nenhuma continuidade. Não indicam nenhum
programa de pesquisa, e são, no seu todo, inúteis.

Referências

BACON, F. Novum Organum. Trad. A.R. de Andrade. São Paulo, Abril Cultural, 1973.

CHALMERS, A.F. What is this Thing called Science? St. Lucia, University of
Queensland Press, 1976.

EINSTEIN, A. Autobiographical notes. Trad. P.A. Schilpp. In: Schilpp 1949, pp. 3-94.
1949a.

LAKATOS, I. Falsification and the methodology of scientific research programmes. In:
Lakatos & Musgrave 1970, pp. 91-195.

LAKATOS, I. & MUSGRAVE, A. Criticism and the Growth of Knowledge.
Cambridge, Cambridge University Press, 1970.


LOCKE, J. An Essay Concerning Human Understanding. London, Oxford University


Press, 1975.
POPPER, K.R. The Logic of Scientific Discovery. 5.ed., revista. London, Hitchison,
1968.


-. Conjectures and Refutations. 4.ed., revista. London, Routledge and Kegan Paul, 1972.
-. Objective Knowledge. Oxford, Clarendon Press, 1972.
QUINE, W.V.O. Two dogmas of empiricism. In: Quine 1953, pp. 20-46.
-. From a Logical Point of View. Cambridge, Mass., 1953.
SCHILPP, P. A. Albert Einstein: Philosopher-Scientist. 3rd. ed. La Salle, Illinois, Open


Court, 1949.
silvio seno chibeni
Departamento de Filosofia - IFCH - Unicamp
chibeni@... - http://www.unicamp.br/~chibeni


... Silvio Seno Chibeni
> As relações da ciência espírita com as ciências acadêmicas
Artigos



Este artigo examina brevemente alguns aspectos das relações entre a ciência espírita e
as ciências acadêmicas, destacando-se a esclarecida e firme postura de Allan Kardec a
esse respeito.[1]

Questão:

Na época do surgimento do Espiritismo alguém que se dedicasse à pesquisa dos
fenômenos mediúnicos e não se inclinasse a considerá-los como fantasias ou fraudes
arriscava-se a cair em descrédito nos meios científicos e acadêmicos. Houve alguma


mudança nessa postura? Ainda existe antagonismo entre ciência e espiritualismo? A
ciência é necessariamente materialista?

Resposta:

Existe, como está implícito nas considerações feitas no artigo precedente, um certo grau
de conservadorismo na "ciência-comunidade", e as análises filosóficas contemporâneas
reconhecem aí um requisito importante de uma ciência madura. A compreensão desse
ponto paradoxal requer estudos especializados. Em alguns artigos sobre a ciência
espírita (ver referências bibliográficas) procurei indicar o papel daquilo que o filósofo
da ciência Imre Lakatos chamou de "heurística negativa" de uma ciência. Trata-se, de
forma simplificada, da decisão metodológica explícita ou tácita dos membros de uma
comunidade científica de preservar, tanto quanto possível, o núcleo de leis fundamentais
de seu programa científico de pesquisa.

Lakatos argumentou convincentemente que sem essa política conservadora moderada e
racional o desenvolvimento científico ficaria inviabilizado. É somente quando
condições excepcionais se reúnem, envolvendo o fracasso sistemático do programa de
pesquisa em resolver problemas teóricos e de ajuste empírico que o núcleo do programa
é revisto ou rejeitado. Na atividade normal da ciência os ajustes e desenvolvimentos
teóricos se dão em partes menos centrais da malha teórica, que Lakatos denominou de
"cinturão protetor" de leis auxiliares.

Menciono isso para ressaltar que a relutância da comunidade científica em aceitar uma
nova teoria sobre o ser humano, como é o caso do Espiritismo, é natural e esperada.
Cumpre notar que o Espiritismo trata de coisas que escapam ao domínio das ciências
ordinárias, cujo objeto de estudo são os fenômenos e leis pertinentes à matéria.
Detenhamo-nos um pouco mais sobre esse ponto.

Um elemento central na análise da ciência é a distinção entre teoria, método e
objeto de estudo. As diversas ciências distinguem-se entre si, em primeira instância,
por seus objetos de estudo, os conjuntos de fenômenos que investigam. Fenômenos
mecânicos, elétricos, magnéticos e nucleares, por exemplo, são do escopo da física; a
formação e dissociação de moléculas constitui objeto de estudo da química; a vida, em
muitas de suas expressões, é examinada pela biologia. Existem, naturalmente, pontos de
contato, interseções e hibridações entre as ciências, mas isso não dilui a distinção
fundamental entre elas.

Ora, dada a diversidade de objetos de estudo, haverá diferenças expressivas nos
métodos e características teóricas das várias ciências. A identificação de elementos
comuns entre elas é tarefa mais difícil do que à primeira vista parece, constituindo um
tópico dos mais importantes da área da filosofia denominada filosofia da ciência.

Nos artigos mencionados procurei apresentar alguns traços importantes dessa disciplina,
em conexão com o exame do aspecto científico do Espiritismo. Uma tese central neles
defendida é que o Espiritismo, tal como estruturado por Allan Kardec, exibe todas as
características de uma genuína ciência, à luz da filosofia da ciência contemporânea. Não
se deve, porém, confundir o fato de o Espiritismo ser uma ciência com a suposição falsa
de que ele é parte das ciências acadêmicas, que tratam de fenômenos referentes à
matéria.


No parágrafo 7 da Introdução de O Livro dos Espíritos Kardec discorre lucidamente
sobre o assunto, de uma perspectiva filosófica bem avançada para sua época, concluindo
seguramente que "o Espiritismo não é da alçada da ciência", isto é, das ciências
acadêmicas. Retoma essa análise de forma mais extensa em O que é o Espiritismo,
onde encontramos, por exemplo, este interessante raciocínio no capítulo I, segundo
diálogo, seção "Oposição da ciência":

As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da matéria, que se pode, à
vontade, manipular; os fenômenos que ela produz têm por agentes forças materiais.

Os do Espiritismo têm como agentes inteligências que possuem independência, livre-
arbítrio e não estão sujeitas aos nossos caprichos; por isso eles escapam aos nossos
processos de laboratório e aos nossos cálculos, e, desde então, ficam fora dos domínios
da Ciência propriamente dita.

A Ciência enganou-se quando quis experimentar os Espíritos como o faz com uma pilha
voltaica; foi mal sucedida, como devia ser, porque agiu pressupondo uma analogia que
não existe; e depois, sem ir mais longe, concluiu pela negação, juízo temerário que o
tempo se encarrega de ir emendando diariamente, como já fez com tantos outros [...].

As corporações científicas não devem, nem jamais deverão, pronunciar-se nesta
questão; ela está tão fora dos limites do seu domínio como a de decretar se Deus existe
ou não; é, pois, um erro tomá-las aqui por juiz.

No primeiro capítulo de A Gênese, parágrafo 16, Kardec salienta, a esse propósito, que
estudando domínios diferentes e complementares "o Espiritismo e a ciência
completam-se reciprocamente".

A autonomia do Espiritismo com relação às ciências ordinárias parece estar
suficientemente demonstrada (não aqui, neste breve resumo, evidentemente, mas nos
extensos estudos feitos por Kardec e outros pensadores espíritas). Preocupa a
incompleta percepção desse ponto por muitos espíritas em nossos dias, aqueles que
pretendem, como dizem, "trazer a ciência para o Espiritismo". Não se dão conta
adequadamente de que o Espiritismo já constitui por si uma ciência independente e
vigorosa, e que, ademais, a peculiaridade de seu objeto de estudo torna fora de propósito
qualquer hibridação fundamental com as ciências da matéria. Há, é claro, áreas
periféricas de contato, como por exemplo, o estudo das enfermidades psicossomáticas,
onde pode e deve haver contribuições mútuas.

Não se deve confundir o que estou dizendo com as justificadas críticas já avançadas por
Kardec a pessoas que, em nome da ciência ou não, julgam o Espiritismo sem haver
examinado atentamente todos os fatos de que trata, bem como sua estrutura teórica. Isso
é inadmissível filosófica e cientificamente. Tal atitude infelizmente continua sendo
comum, inclusive nos meios acadêmicos. A especialização que caracteriza a formação
científica parece mesmo favorecê-la, com também notou Kardec no referido item de O
Livro dos Espíritos:


Aquele que se fez especialista prende todas as suas idéias à especialidade que adotou.
Tirai-o daí e o vereis sempre desarrazoar, por querer submeter tudo ao mesmo cadinho:
conseqüência da fraqueza humana.

Na pergunta formulada alude-se também à questão mais geral da posição da ciência
acerca do espiritualismo. Conforme em outras palavras ressaltou Aécio Chagas em
alguns de seus artigos mencionados na lista de referências, não faz muito sentido
discutir se as ciências acadêmicas, enquanto conhecimento, são materialistas ou não.
Foram concebidas expressamente para descrever e explicar exclusivamente os
fenômenos materiais, não tendo nada a dizer sobre a disputa materialismo versus
espiritualismo, que gira em torno da questão da existência de algo além da matéria.

Se se pergunta agora se a comunidade científica acadêmica é materialista ou não, a
questão faz sentido, mas só admite resposta estatística, visto que a convicção pessoal de
cada um de seus integrantes acerca desse problema filosófico não constitui critério
necessário ou suficiente para a sua admissão na profissão. Parece certo que significativa
parcela dos cientistas atuais é materialista, mas isso talvez apenas reflita o padrão geral
de crença das sociedades nas quais mais prosperam as ciências, como sugere o Prof.
Chagas.

Seja como for, nós espíritas não devemos nos inquietar com isso, como advertiu Kardec
ainda no mesmo parágrafo de O Livro dos Espíritos, de onde extrairei mais este
trecho, para concluir:

O Espiritismo é o resultado de uma convicção pessoal, que os cientistas, como
indivíduos, podem adquirir, abstração feita de sua qualidade de cientistas [...].

Quando as crenças espíritas se houverem difundido, quando estiverem aceitas pelas
massas humanas [...], com elas se dará com o que tem acontecido com todas as idéias
novas que hão encontrado oposição: os cientistas se renderão à evidência. Lá chegarão,
individualmente, pela força das coisas. Até então será intempestivo desviá-los de seus
trabalhos especiais, para obrigá-los a se ocupar de um assunto estranho, que não lhes
está nem nas atribuições, nem no programa. Enquanto isso não se verifica, os que, sem
assunto prévio e aprofundado da matéria, se pronunciam pela negativa e escarnecem de
quem não lhes subscrevem o conceito, esquecem que o mesmo se deu com a maior parte
das grandes descobertas que fazem honra à Humanidade.

* * *

Referências:

Alguns artigos encontram-se disponíveis no site do Grupo de Estudos Espíritas da
Unicamp: http://www.geocities.com/Athens/Academy/8482

CHAGAS, A. P. "O que é a Ciência?", Reformador, março de 1984, p. 80-83 e 93-95.

––. "O Espiritismo na Academia?", Revista Internacional de Espiritismo, fevereiro de
1994, p. 20-22 e março de 1994, p. 41-43 .

––. "A ciência confirma o Espiritismo?", Reformador, julho de 1995, p. 208-11.


––. Ainda sobre as relações entre as ciências e o Espiritismo. (Submetido para
publicação.)

CHIBENI, S. S. "Espiritismo e ciência", Reformador, maio de 1984, p. 144-47 e 157


59.
––. "A excelência metodológica do Espiritismo", Reformador, novembro de 1988, p.
328-333, e dezembro de 1988, p. 373-378.

––. "Ciência espírita", Revista Internacional de Espiritismo, março 1991, p. 45-52.
––. "O paradigma espírita", Reformador, junho de 1994, p. 176-80.

KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (O Livro dos Espíritos.
Trad. de Guillon Ribeiro. 43a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.)

––. Qu'est-ce que le Spiritisme. Paris, Dervy-Livres, 1975. (O que é o Espiritismo. s.
trad. 25a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.)

––. La Genèse, les Miracles et les Prédictions selon le Spiritisme.Paris, La Diffusion
Scientifique, s.d. (A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Trad.
Guillon Ribeiro, 23a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s. d.)

Notas

[1] O conteúdo do texto corresponde, com adaptações, a parte de entrevista concedida
por mim ao GEAE (Grupo de Estudos Avançados de Espiritismo), pioneiro na
divulgação do Espiritismo pela Internet. A entrevista foi publicada no Boletim n. 300
(edição extra), que circulou em 7/7/1998, podendo ser encontrado no site
http://www.geae.org. Gostaria de agradecer ao GEAE a anuência para o aproveitamento
desse material nesta série de artigos. Sou especialmente grato aos seus membros Ademir
L. Xavier Jr., pela iniciativa da entrevista, e Carlos A. Iglesia Bernardo, por haver
reunido as relevantes e oportunas questões.
Artigo publicado em Reformador, novembro de 1999, pp. 344-346.


... Silvio Seno Chibeni

> A religião espírita

Artigos



O presente artigo examina algumas questões ligadas ao aspecto religioso do
Espiritismo, que apesar de ter sido lucidamente abordado por Kardec ainda é objeto de
discussão em alguns setores do movimento espírita. [1]

Questões:

a) Dentro dos conceitos atuais da ciência e da filosofia, como poderíamos classificar o
Espiritismo? O que lhe parece a clássica apresentação do Espiritismo como uma
doutrina de conseqüências cientificas, filosóficas e religiosas?

b) Considerando essa forma de apresentar a doutrina, segundo seus aspectos básicos,
qual seria a diferença entre dizer-se "conseqüências religiosas" e "conseqüências
morais"?

c) No GEAE (Grupo de Estudos Avançados de Espiritismo) tem-se discutido a
aplicação da designação de religião para o Espiritismo; aparentemente, não há
divergências quanto à sua classificação como ciência e filosofia. Segundo a filosofia, o
que caracteriza uma religião? Quais os limites entre ciência, filosofia, moral e religião?
O Espiritismo é uma religião?

Respostas:

A perspectiva para a compreensão do Espiritismo apontada no item (a) parece-me
correta, desde que se mude um pouco a forma de expressão. Dizer que ele é uma
doutrina "de conseqüências" científicas, filosóficas e morais implica considerá-lo como
uma quarta coisa, da qual decorreriam essas conseqüências. Na verdade, poderíamos
afirmar que ele constitui uma ciência associada a uma filosofia e a um sistema moral,
ou, mudando a ênfase, uma filosofia com bases científicas e implicações morais.

Quanto aos itens (b) e (c), cumpre lembrar inicialmente que a moral (ou ética) é uma
das áreas da filosofia, investigada com atenção por filósofos de todas as épocas, desde a
Grécia Antiga até nossos dias. De modo muito simplificado, poderíamos defini-la como

o estudo do bem e do mal. Seu problema fundamental é o estabelecimento de critérios
pelos quais se possam distinguir as ações em boas e más, certas e erradas, ou, sob outro
ângulo, avaliar criticamente os critérios propostos para tal fim pelas diferentes religiões,
ideologias, sistemas políticos, etc.
Nunca houve uma sociedade humana civilizada totalmente destituída de códigos morais
que estabelecessem limites para as ações dos indivíduos. Nos primórdios da civilização


tais códigos usualmente baseavam-se nas concepções religiosas vigentes, a seu turno
amplamente dependentes do ensino de indivíduos considerados especiais, tais como
profetas, pitonisas, gurus, etc. Tais pessoas muitas vezes alegavam dispor de meios
incomuns, sobrenaturais, de comunicação com a própria Divindade ou divindades; suas
doutrinas eram, pois, tidas como "revelações".

Especialmente a partir do Renascimento (séculos XV e XVI), a autoridade moral das
religiões estabelecidas em tais bases começou a ser mais e mais questionada. O
movimento intelectual de valorização das faculdades cognitivas naturais – a razão e a
observação – encontrou terreno preparado pelas fragilidades teóricas do revelacionismo
religioso que, ademais, havia tantas vezes conivido, legitimado ou participado
diretamente de ações em franco desacordo com um certo sentido ético natural do ser
humano (discriminações, perseguições, torturas, assassinatos, etc.).

Sob a influência vigorosa de grandes filósofos do período moderno, entre os quais
cumpre destacar o inglês John Locke (1632-1704), as legislações civis dos povos mais
esclarecidos foram se dissociando dos sistemas religiosos, quaisquer que fossem. Pontos
altos desse processo foram, por exemplo, as revoluções inglesa (1688) e francesa
(1789), e a assinatura da Constituição Americana (1789). Em todos esses episódios, os
códigos de direitos e deveres dos cidadãos resultaram de deliberações e acordos tácitos
ou explícitos de grupos laicos. Os filósofos acadêmicos modernos desenvolveram seus
estudos éticos sob perspectivas diversas e nem sempre compatíveis umas com as outras,
mas que em geral excluem consciente e explicitamente quaisquer fundamentos
religiosos, teológicos ou místicos.

A moral sempre constituiu parte integrante das religiões. No entanto, estas não se
resumem à proposição e defesa de sistemas morais, incluindo, de modo típico, cultos,
liturgias e rituais diversos, hierarquias, princípios teológicos abstratos sem relação
direta com a questão da conduta humana, etc. Foi essa bagagem-extra, aliás, o que mais
repulsa causou aos chamados "livres-pensadores", responsáveis pela renovação da
filosofia e da ciência a partir do Renascimento, tendo conduzido, por um processo
compreensível de exacerbação, ao ateísmo e ao materialismo, em graus sem precedentes
na história da humanidade.

Perdidas as bases religiosas tradicionais, a ética teve dificuldades para estabelecer
princípios de conduta objetivos. Nasceu daí uma vertente bastante visível na sociedade
hodierna, que é o chamado relativismo ético, segundo o qual o que é certo ou errado,
bom ou ruim, depende da pessoa, do grupo social, da época, etc. De forma oportunista,
intelectuais (ou pseudo-intelectuais) têm explorado esse canal para tentar legitimar os
mais aberrantes comportamentos individuais ou grupais, contribuindo assim
decisivamente para a degeneração das estruturas psicológicas e sociais.

No campo da filosofia acadêmica, existem propostas éticas não-religiosas que procuram
refutar o relativismo, dividindo-se em duas grandes classes: os sistemas éticos
racionalistas, ou aprioristas, como o de Immanuel Kant (1724-1804), e o utilitarismo,
que encontra raízes em Locke, mas só foi desenvolvido mais explicitamente por Jeremy
Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873). Pode-se afirmar com razoável
segurança que o efeito prático dos sistemas éticos do primeiro tipo sobre as sociedades
contemporâneas é quase nulo, por razões que não vem ao caso examinar aqui. Quanto à
segunda proposta, embora a palavra 'utilitarismo' tenha impropriamente adquirido uma


conotação negativa fora dos círculos filosóficos, é inegável que repercutiu de forma
profunda no estabelecimento dos melhores sistemas sociais existentes, quer do ponto de
vista material, quer dos direitos humanos e do fomento às artes, ciências e filosofia.
Mesmo nessas sociedades, porém, assiste-se hoje a crescente desvalorização das
avaliações a longo prazo das ações humanas e ao esquecimento dos princípios
filosóficos seguros que nortearam os seus fundadores, abrindo amplo espaço para o
referido relativismo moral.

Quando devidamente compreendido, o Espiritismo traz contribuições importantes para
todo esse panorama da ética, tão imperfeitamente esboçado aqui. Refinando e
estendendo o conhecimento acerca do ser humano, ele permite a elaboração de uma
ética objetiva e clara, explorando, com adaptações, a vertente de Bentham e Mill. Tratei
desse assunto nos artigos "Os fundamentos da ética espírita" e "A excelência
metodológica do Espiritismo" (seção 5), que devem ser consultados para o
desenvolvimento ulterior desta resposta.

Em diversas de suas obras, Kardec deu grande importância ao estabelecimento da moral
espírita, abordando o assunto em profundidade. Mostrou que com o conhecimento
científico espírita a moral deixa de ser uma questão de especulações abstratas ou de
opiniões, estando indissociavelmente ligada ao estudo das conseqüências das ações
humanas, em conexão com a busca da felicidade, objetivo comum de todos os seres
humanos. Ressaltou ainda que o corpo de princípios morais obtidos por essa via da
razão e da experiência coincide com aquele proposto por Jesus. Conforme registrou no
parágrafo 56 do primeiro capítulo de A Gênese, o Espiritismo "[dá] por sanção à
doutrina cristã as próprias leis da Natureza".

Ora, na medida em que fornece ao homem conhecimento seguro das regras de conduta
capazes de harmonizá-lo consigo mesmo e com os demais seres, o Espiritismo torna-se
"o mais potente auxiliar da religião", conforme nota Kardec nos lúcidos comentários
adidos às questões 147 e 148 de O Livro dos Espíritos. A religião aqui aludida não se
confunde, evidentemente, com as doutrinas religiosas tradicionais, com suas
hierarquias, dogmas inquestionáveis e práticas exteriores, sendo antes uma religião no
sentido próprio do termo, a re-ligação da criatura ao Criador.

A velha questão de se o Espiritismo é ou não uma religião não admite, pois, resposta
unívoca, dada a duplicidade semântica do termo 'religião'. Esse ponto foi lucidamente
estudado e, a meu ver, esgotado, no artigo de Kardec intitulado justamente "Le
Spiritisme est-il une religion?", que apareceu na Revue Spirite de 1868. Para encerrar,
vejamos estes parágrafos do famoso texto:

[...] o Espiritismo é, assim, uma religião? Sim, sem dúvida, senhores: No sentido
filosófico o Espiritismo é uma religião, e disso nos honramos, pois que é a doutrina que
funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos não em uma simples
convenção, mas sobre a mais sólida das bases: as próprias leis da Natureza.

Por que então declaramos que o Espiritismo não era uma religião? Pela razão de que
há apenas uma palavra para exprimir duas idéias diferentes, e que, segundo a opinião
geral, o termo religião é inseparável da noção de culto, evocando unicamente uma
idéia de forma, com o que o Espiritismo não guarda qualquer relação. Se se tivesse
proclamado uma religião, o público nele não veria senão uma nova edição, ou uma


variante, se quisermos, dos princípios absolutos em matéria de fé, uma casta sacerdotal
com seu cortejo de hierarquias, cerimônias e privilégios; não o distinguiria das idéias
de misticismo e dos enganos contra os quais se está freqüentemente bem instruído.

Não apresentando nenhuma das características de uma religião, na acepção usual da
palavra, o Espiritismo não poderia nem deveria ornar-se de um título sobre cujo
significado inevitavelmente haveria mal-entendidos. Eis porque ele se diz simplesmente
uma doutrina filosófica e moral.

* * *

Referências:

CHIBENI, S. S. "A excelência metodológica do Espiritismo", Reformador, novembro
de 1988, p. 328-333, e dezembro de 1988, p. 373-378. (Disponível no site do Grupo de
Estudos Espíritas da Unicamp: http://www.geocities.com/Athens/Academy/8482.)

––. "Os fundamentos da ética espírita", Reformador, junho de 1985, p. 166-9.
KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 43a ed., Rio de Janeiro,
Federação Espírita Brasileira, s.d.

––. A Gênese, os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro,
23a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s. d.)

––. Le Spiritisme est-il une religion? In: L'Obssession.Extraits textuels des Revues
Spirites de 1858 a 1868. Farciennes, Bélgica, Éditions de l'Union Spirite, 1950. (Uma
tradução confiável para o vernáculo, de Ismael Gomes Braga, pode ser encontrada no
Reformador de março de 1976.)

Notas

[1] O conteúdo do texto corresponde, com algumas adaptações, a parte de entrevista
concedida por mim ao GEAE (Grupo de Estudos Avançados de Espiritismo), pioneiro
na divulgação do Espiritismo pela Internet. A entrevista foi publicada no Boletim n. 300
(edição extra), que circulou em 7/7/1998, podendo ser encontrado no site
http://www.geae.org. Gostaria de agradecer ao GEAE a anuência para o aproveitamento
do material nesta série de artigos. Sou especialmente grato aos seus membros Ademir L.
Xavier Jr., pela iniciativa da entrevista, e Carlos A. Iglesia Bernardo, por haver reunido
as relevantes e oportunas questões.
Artigo publicado em Reformador, setembro de 1999

... Silvio Seno Chibeni

> Resenha: Le Livre des Esprits

Artigos



Em agosto de 1998, a Federação Espírita Brasileira (FEB) publicou obra de
significativo valor histórico: o original francês da segunda edição de Le Livre des
Esprits (O Livro dos Espíritos), dado a público no início de 1860. Como todos sabem,
foi esta a edição que se tornou definitiva, tendo quase o dobro da extensão da primeira
edição, de 1857. O que a publicação traz de novo é o fato ser a reprodução fotomecânica
da edição original, a partir de precioso exemplar existente na biblioteca da FEB. Temos,
pois, o texto tal como saiu das mãos de Kardec (ou quase; ver adiante). Isso permite
conferir eventuais falhas de impressão nas edições atuais. De fato, já pudemos constatar,
por exemplo, algumas pequenas trocas de letras e falhas de pontuação na edição
francesa corrente, da Dervy-Livres (Paris, s.d., dépôt légal 1985; essa edição
aparentemente coincide com a que a FEB digitalizou e tornou disponível em seu site,
embora no texto eletrônico conste "Éditions de l'Union Spirite Kardeciste Belge,
1954"). Além disso, a nova publicação mostra exatamente a estética do texto original,
com a sóbria e criteriosa escolha de tipos, espaçamento, etc. que caracterizava as obras
de Kardec.

Infelizmente, a edição é limitada, não se encontrando à venda. Para o bem das pesquisas
espíritas, esperamos vivamente que os editores tornem o importante volume disponível
para qualquer interessado. Seria também desejável que a eventual reedição futura do
livro apresentasse melhor padrão gráfico. Pelo menos o exemplar que temos às mãos
(que nos foi gentilmente cedido pela FEB) tem diversas páginas com letras
relativamente esmaecidas e, de um modo geral, falta nitidez em quase todo o livro. Na
sugerida reedição, poderiam ser utilizados os mesmos critérios e métodos técnicos
empregados nas excelentes reproduções do Imitation de l'Évangile selon le Spiritisme
(1979), do próprio Evangile selon le Spiritisme (1979), do Procès des Spirites (1975) e
do Répertoire du Spiritisme (1974). Esperamos, por fim, que a reprodução do Livre des
Esprits represente a retomada dessas felizes iniciativas da FEB, tão necessárias para
enriquecer o material bibliográfico espírita, e que novas obras de valor histórico sejam
igualmente objeto de publicação.

Colaboraram nessa nova edição do Livro dos Espíritos o Conselho Espírita
Internacional (coordenação), o Instituto de Difusão Espírita (impressão) e a União
Espírita Francesa e Francófona. A esta última coube a realização de pesquisas na
Biblioteca Nacional da França, para averiguar possíveis alterações nas edições que se
seguiram à segunda. Foram de fato encontradas diversas mudanças, conforme indica a
Nota Explicativa dos editores. Passamos agora a indicar e comentar brevemente os itens
dessa nota, reservando para outros artigos a serem publicados por este periódico a
consideração detalhada de cada um deles, assim como de outros tópicos relacionados a
essa edição.

1) Uma "Nota" aos Prolegômenos, que foi depois retirada, a partir da 10a edição, de


1863. Na edição da FEB a nota foi reproduzida no local em que originalmente estava,
ou seja, no final dos Prolegômenos.

2) Uma "Errata", de uma página de extensão. Ela apareceu apenas na 5a edição, de
1861, após a última página. Dela, apenas um item, a supressão de duas palavras no final
da resposta à questão 586, foi incorporado às edições posteriores. Na edição da FEB a
errata foi reproduzida na posição original.

3) Pequenos acréscimos e modificações, em sete pontos, no texto da 13a edição, de
1865, que foram incorporados às edições subseqüentes. A edição da FEB incorpora
essas sete alterações no próprio texto, sem nenhuma indicação local; a Nota Explicativa
menciona as mudanças, mas em dois casos as informações dadas não permitem saber
exatamente o que foi alterado, mencionando-se apenas, genericamente, "modificações"
ou "acréscimos" nas linhas tais e tais. Isso desaponta o pesquisador espírita. O problema
poderá, no entanto, ser facilmente corrigido na futura reedição, que esperamos ver,
fornecendo-se, na Nota Explicativa ou em um apêndice, as indicações completas e
precisas. Seria preferível que as alterações não fossem incorporadas ao texto, com
atualmente. Afinal, trata-se de reprodução fotográfica do exemplar da segunda edição, e
nela tais alterações não figuravam. Teríamos, então, um texto histórico puro, tal qual era
vendido no Quai des Augustins ou no Palais Royal em 1860. Como saiu, o texto nem é
este texto estritamente histórico, pois incorpora sem aviso preciso as alterações de 1865,
nem é o texto ideal que, aparentemente, Kardec gostaria de ter visto, pois não incorpora,
por razões gráficas, os itens da Errata de 1861, com exceção da supressão das duas
palavras no item 586.

Ademais, quanto a este último ponto, temos de reconhecer que provavelmente nunca
saberemos ao certo o que seria esse texto ideal: Por que a Nota aos Prolegômenos foi,
afinal, retirada? Por que a Errata só apareceu na 5a edição? Por que, dela, somente um
item mínimo foi incorporado às edições subseqüentes, quando a existência das outras
alterações mostra claramente que Kardec teve a oportunidade de incorporar todos?
Estudos históricos poderão, talvez, nos dar bases para alguma suposição acerca disso
tudo, mas a rigor nunca saberemos.

Texto publicado em Mundo Espírita, 69 (1441), p. 5, fevereiro/2002


... Silvio Seno Chibeni

> Revisão da terminologia espírita?

Artigos



Neste artigo analisa-se criticamente a proposta de revisão de certos termos utilizados em
Espiritismo, que alguns alegam ser necessária para a "modernização" da doutrina ou
para sua "adaptação" ao progresso da ciência. [1]

Questão:

Algumas pessoas alegam que é necessário atualizar os termos técnicos utilizados no
Espiritismo. Para elas o uso de termos como 'fluidos', 'mediunidade', etc. prejudica a
posição científica do Espiritismo. Há alguma fundamentação, em filosofia da ciência,
para essas criticas? Sendo uma ciência independente, dedicada ao estudo de
fenômenos que escapam ao escopo das ciências clássicas, o Espiritismo não teria a
liberdade de definir seus próprios termos? Historicamente, o Espiritismo precede à
metapsíquica e à parapsicologia, sendo também anterior às novas concepções de matéria
e energia da física atual. Isso não lhe daria a posição de pioneiro no estudo e definição
dos fenômenos espíritas, cabendo-lhe o direito de estabelecer sua própria nomenclatura?

Resposta:

As considerações sobre a natureza da linguagem apresentadas no primeiro artigo desta
série já forneceram o essencial para esclarecer o presente problema. Igualmente, as
afirmações corretas implícitas nas próprias interrogações do final da questão tornam a
resposta quase desnecessária. Todavia, gostaria de acrescentar algo em sentido
explícito.

De fato, propostas de revisão do vocabulário técnico do Espiritismo são bastante
comuns hoje, especialmente por parte de pessoas com alguma familiaridade com
disciplinas acadêmicas. Os termos mencionados como exemplo parecem, em particular,
causar-lhes certo incômodo, sendo freqüentemente substituídos por palavras como
'energia' e 'paranormalidade', 'sensibilidade', etc. Imagina-se estar assim conferindo
maior cientificidade ao Espiritismo, livrando-o de noções "ultrapassadas" do século

XIX. Ora, o mais elementar senso filosófico mostra que não é no vocabulário que
assenta o caráter científico ou não de uma disciplina.
As palavras são, como foi lembrado no artigo anterior, meros símbolos para a expressão
de conceitos; se estes não encontrarem respaldo em uma teoria científica coerente,
abrangente e empiricamente adequada (isto é, adaptada aos fatos), de nada adiantará
modificá-las. Por outro lado, uma teoria científica não será substancialmente alterada
pela modificação de seu vocabulário. Logo, qualquer alegação de que o Espiritismo tem
de passar por uma atualização não pode limitar-se à substituição de palavras, como


ingenuamente se procura fazer. Essa alegação só se poderia justificar a partir de uma
análise profunda, exaustiva e meticulosa da teoria espírita e de todos os fatos de que
trata, que revelasse racionalmente que ela não lhes dá explicação adequada, ou contém
falhas de consistência lógica, propondo-se concretamente uma outra teoria melhor que a
possa substituir. No parágrafo 14, n. 8, de O Livro dos Médiuns Kardec resume as
condições para uma crítica sustentável do Espiritismo (e, aliás, de qualquer outra
ciência) que, por sua lucidez e atualidade, merece ser aqui reproduzida:

O Espiritismo não pode considerar crítico sério senão aquele que tudo tenha visto,
estudado e aprofundado com a paciência e a perseverança de um observador
consciencioso; que do assunto saiba tanto quanto o adepto mais esclarecido; que haja,
por conseguinte, haurido seus conhecimentos algures, que não nos romances da
ciência; aquele a quem não se possa opor fato algum que lhe seja desconhecido,
nenhum argumento de que já não tenha cogitado e cuja refutação faça, não por mera
negação, mas por meio de outros argumentos mais peremptórios; aquele, finalmente,
que possa indicar, para os fatos averiguados, causa mais lógica do que a que lhe
aponta o Espiritismo. Tal crítico ainda está por aparecer.

Esse trecho serviu de mote para o artigo "A excelência metodológica do Espiritismo",
citado na lista de referências bibliográficas. Nele procuro mostrar, ainda que de forma
breve e simplificada, que as condições para uma revisão do Espiritismo em nome da
cientificidade até hoje não foram satisfeitas. A teoria espírita kardequiana tem tudo o
que é essencial para sua classificação como uma ciência genuína, à luz das concepções
atuais da filosofia da ciência. Não é naturalmente o caso de repetir aqui o que expus
nesse trabalho e em outros sobre o mesmo tema. No entanto, parece-me importante
particularizar um pouco a análise, com vistas aos exemplos dados na pergunta.

A palavra 'mediunidade' foi criada por Kardec para designar a faculdade que certos
indivíduos possuem de servir, em maior ou menor grau e de modos diversos, de
intermediários entre os Espíritos e os homens. Essa noção recebeu precisão e conteúdo
cognitivo por sua inserção em uma teoria completa dos fenômenos mediúnicos, exposta
principalmente em O Livro dos Médiuns (ver o artigo "Estudo sobre a mediunidade",
citado no final). Embora ela se encontre, como qualquer teoria científica, em contato
periférico com teorias de áreas contíguas, de dentro e de fora do Espiritismo, possui
bases de sustentação autônomas, não tendo que sofrer alterações substanciais ou
terminológicas em virtude do que possa ocorrer nesses domínios conexos.

As modificações que se têm proposto para o Espiritismo geralmente limitam-se ao
plano lingüístico, como se se tivesse vergonha de escrever ou pronunciar as palavras
'médium' e 'mediunidade', preferindo-se antes adornar o discurso com termos
rebuscados, provenientes de linhas de investigação incipientes ou pseudo-científicas,
como a metapsíquica, a parapsicologia e diversas vertentes ligadas à psicologia ou
mesmo a doutrinas orientalistas.

É evidente que isso só contribui para aumentar as dificuldades de compreensão e
comunicação ou, o que é pior, para dispersar as pesquisas relativamente ao núcleo
teórico paradigmático da ciência espírita, com graves repercussões para o seu
desenvolvimento. Constitui fato reconhecido entre os filósofos da ciência
contemporâneos que as substituições de conceitos e teorias fundamentais numa ciência


somente se justificam pela degeneração global do programa de pesquisa no qual se
inserem, juntamente com o fornecimento efetivo de um programa alternativo que o
suplante em coerência, abrangência, precisão e fertilidade heurística. Ora, não padece
dúvida para qualquer estudioso isento que nada disso sequer esboçou-se no caso do
Espiritismo.

Considerações semelhantes aplicam-se à palavra 'fluido'. É certo que ao cunhar a
expressão 'fluidos espirituais' para denotar certos elementos materiais "sutis" que
tomam parte em processos diversos examinados pelo Espiritismo, como a ação dos
Espíritos sobre a matéria ordinária (mediunidade, curas, passes, etc.), ou a constituição
dos corpos e da ambiência dos Espíritos (perispírito, objetos do mundo espiritual, etc.),
Kardec procurou analogias, ainda que tênues, com certos elementos que, segundo as
melhores teorias físicas da época, participariam dos fenômenos elétricos, magnéticos ou
térmicos: os chamados fluidos elétrico e magnético, e o calórico, igualmente invisíveis,
sutis, imponderáveis.

Ora, como não houve mais do que analogia e apropriação de um símbolo lingüístico
para construir uma expressão nova – 'fluidos espirituais', que em geral se simplificava
para 'fluidos', dentro do contexto espírita – , não se segue que a teoria espírita tenha de
ser modificada terminológica ou substancialmente na caracterização dos referidos
processos porque as teorias físicas que sugeriram as analogias tenham sido alteradas ou
substituídas no curso evolutivo da física.

Um historiador da ciência bem informado seguramente poderá encontrar diversas
situações semelhantes no âmbito das ciências acadêmicas. Reportemo-nos de passagem,
por exemplo, ao que aconteceu na química quando as teorias físicas sobre a estrutura da
matéria se alteraram na década de 1920, com o desenvolvimento e aceitação da
mecânica quântica. Embora os químicos tenham levado em conta a nova teoria física,
dada a proximidade e as interseções entre as áreas, tendo-se mesmo criado ramos e
técnicas de cálculo novos na química, as concepções e métodos referentes às ligações
químicas, estruturas moleculares, etc. continuaram mais ou menos como eram, em um
amplo espectro de investigações teóricas e experimentais.

Voltando ao caso do Espiritismo, salienta-se bem na pergunta que ele constitui "uma
ciência independente, dedicada ao estudo de fenômenos que escapam ao escopo das
ciências clássicas", tendo "a liberdade de definir seus próprios termos"; e, poderia
acrescentar: seus conceitos e teorias. Modificações nesses pontos só se legitimariam,
repito, na medida em que análises rigorosas internas ao programa científico espírita
indicassem sua necessidade.

Ainda com relação à noção de fluido, deve-se notar que ela não é tão abominada na
física como parecem crer os reformistas. Em primeiro lugar, cumpre notar que todos os
líquidos e gases são fluidos, e seu estudo é feito em diversas áreas da ciência, como a
hidrodinâmica. Depois, quanto à eletricidade, magnetismo e termodinâmica, as teorias
atuais prescindem dessa noção no nível operacional, tendo assumido feições
preponderantemente matemáticas e preditivas. No entanto, quando se desce à análise de
fundamentos – e raros cientistas dedicam-se a isso atualmente – percebe-se que, à
semelhança das demais teorias da física, estão envoltas em problemas conceituais
graves. Não é nada claro, por exemplo, o que seja um campo elétrico ou magnético
(noções usadas nas teorias físicas que sucederam às teorias de fluidos), não do ponto de


vista de sua caracterização matemática, é claro, mas de sua representação intuitiva, de
sua essência, do modo pelo qual surge, se propaga e causa certos fenômenos.
Lembremo-nos, por fim, que os próprios pais da teoria eletromagnética, como Faraday
e Maxwell, não dispensaram o conceito de fluido quando se tratava de explicar – e não
simplesmente calcular – os fenômenos.

Dir-se-á talvez que Einstein baniu esse conceito da ciência ao criar a teoria da
relatividade restrita, em 1905. Embora essa afirmação se tenha tornado comum em
certos círculos, entre os especialistas em fundamentos não há consenso sobre o ponto,
não obstante seja claro que o chamado "éter eletromagnético" regido por leis mecânicas
não compareça na aludida teoria. Mas essa não é a única teoria da ciência, nem
tampouco está isenta de dificuldades conceituais e teóricas diversas. Evidentemente,
este não é o lugar para adentrar esse tópico complexo. Fica, porém, uma advertência aos
espíritas de boa vontade para que não se deixem influenciar facilmente por tais
assertivas, antes que façam estudos profissionais, que levem em conta, por exemplo, a
teoria da relatividade geral e todas as perplexidades que envolvem as teorias do espaço-
tempo e da cosmologia contemporâneas, nas quais noções muito próximas à de fluido
parecem estar encontrando lugar.

Apenas para concluir, vale mencionar que virou moda nos meios espíritas e semiespíritas
a substituição da palavra 'fluido' por 'energia', sempre no pressuposto de que é
por aí que vai a ciência. Ora, assim como as noções de espaço, tempo, força, massa,
carga elétrica, campo, etc., a noção de energia é objeto de inúmeras dificuldades
conceituais, não se ganhando nada em clareza, precisão e cientificidade com a sua
utilização, muito pelo contrário. Ademais, esse uso apresenta o inconveniente de se dar
numa área distante da área de sua criação original, a física, representando uma enxertia
no programa científico espírita, fonte certa de confusões.

A respeito da utilização das noções das palavras 'fluido', 'energia' e 'magnetismo' no
Espiritismo, recomendo a leitura do artigos de Aécio P. Chagas, "Polissemias no
Espiritismo" e "A ciência confirma o Espiritismo?" Outra análise profissional do
emprego impróprio de noções científicas, em particular da noção de energia, no
Espiritismo é feita no artigo "Algumas considerações oportunas sobre a relação
Espiritismo-Ciência", de Ademir L. Xavier Jr., que também consta da lista de
referências bibliográficas.

* * *

Referências:

CHAGAS, A. P. "A ciência confirma o Espiritismo?", Reformador, julho de 1995, p.
208-11.

––. "Polissemias no Espiritismo", Revista Internacional de Espiritismo, setembro de
1996, p. 247-49.

CHIBENI, S. S. "A excelência metodológica do Espiritismo", Reformador, novembro
de 1988, p. 328-333, e dezembro de 1988, p. 373-378.


––. "Estudo sobre a mediunidade" (em co-autoria com Clarice Seno Chibeni),
Reformador, agosto de 1997, p. 240-43 e 253-55.

KARDEC, A. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro, 59a ed., revista, Rio de
Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.

XAVIER Jr., A. L. "Algumas considerações oportunas sobre a relação Espiritismo-
Ciência", Reformador, agosto de 1995, p. 244-46.

Notas

[1] O conteúdo do texto corresponde, com algumas adaptações, a parte de entrevista
concedida por mim ao GEAE (Grupo de Estudos Avançados de Espiritismo), pioneiro
na divulgação do Espiritismo pela Internet. A entrevista foi publicada no Boletim n. 300
(edição extra), que circulou em 7/7/1998, podendo ser encontrado no site
http://www.geae.org. Gostaria de agradecer ao GEAE a anuência para o aproveitamento
do material nesta série de artigos. Sou especialmente grato aos seus membros Ademir L.
Xavier Jr., pela iniciativa da entrevista, e Carlos A. Iglesia Bernardo, por haver reunido
as relevantes e oportunas questões.
Artigo publicado em Reformador, agosto de 1999

... Silvio Seno Chibeni

> Resenha: Le Livre des Esprits

Artigos


Em agosto de 1998, a Federação Espírita Brasileira (FEB) publicou obra de
significativo valor histórico: o original francês da segunda edição de Le Livre des
Esprits (O Livro dos Espíritos), dado a público no início de 1860. Como todos sabem,
foi esta a edição que se tornou definitiva, tendo quase o dobro da extensão da primeira
edição, de 1857. O que a publicação traz de novo é o fato ser a reprodução fotomecânica
da edição original, a partir de precioso exemplar existente na biblioteca da FEB. Temos,
pois, o texto tal como saiu das mãos de Kardec (ou quase; ver adiante). Isso permite
conferir eventuais falhas de impressão nas edições atuais. De fato, já pudemos constatar,
por exemplo, algumas pequenas trocas de letras e falhas de pontuação na edição
francesa corrente, da Dervy-Livres (Paris, s.d., dépôt légal 1985; essa edição
aparentemente coincide com a que a FEB digitalizou e tornou disponível em seu site,


embora no texto eletrônico conste "Éditions de l'Union Spirite Kardeciste Belge,
1954"). Além disso, a nova publicação mostra exatamente a estética do texto original,
com a sóbria e criteriosa escolha de tipos, espaçamento, etc. que caracterizava as obras
de Kardec.

Infelizmente, a edição é limitada, não se encontrando à venda. Para o bem das pesquisas
espíritas, esperamos vivamente que os editores tornem o importante volume disponível
para qualquer interessado. Seria também desejável que a eventual reedição futura do
livro apresentasse melhor padrão gráfico. Pelo menos o exemplar que temos às mãos
(que nos foi gentilmente cedido pela FEB) tem diversas páginas com letras
relativamente esmaecidas e, de um modo geral, falta nitidez em quase todo o livro. Na
sugerida reedição, poderiam ser utilizados os mesmos critérios e métodos técnicos
empregados nas excelentes reproduções do Imitation de l'Évangile selon le Spiritisme
(1979), do próprio Evangile selon le Spiritisme (1979), do Procès des Spirites (1975) e
do Répertoire du Spiritisme (1974). Esperamos, por fim, que a reprodução do Livre des
Esprits represente a retomada dessas felizes iniciativas da FEB, tão necessárias para
enriquecer o material bibliográfico espírita, e que novas obras de valor histórico sejam
igualmente objeto de publicação.

Colaboraram nessa nova edição do Livro dos Espíritos o Conselho Espírita
Internacional (coordenação), o Instituto de Difusão Espírita (impressão) e a União
Espírita Francesa e Francófona. A esta última coube a realização de pesquisas na
Biblioteca Nacional da França, para averiguar possíveis alterações nas edições que se
seguiram à segunda. Foram de fato encontradas diversas mudanças, conforme indica a
Nota Explicativa dos editores. Passamos agora a indicar e comentar brevemente os itens
dessa nota, reservando para outros artigos a serem publicados por este periódico a
consideração detalhada de cada um deles, assim como de outros tópicos relacionados a
essa edição.

1) Uma "Nota" aos Prolegômenos, que foi depois retirada, a partir da 10a edição, de
1863. Na edição da FEB a nota foi reproduzida no local em que originalmente estava,
ou seja, no final dos Prolegômenos.

2) Uma "Errata", de uma página de extensão. Ela apareceu apenas na 5a edição, de
1861, após a última página. Dela, apenas um item, a supressão de duas palavras no final
da resposta à questão 586, foi incorporado às edições posteriores. Na edição da FEB a
errata foi reproduzida na posição original.

3) Pequenos acréscimos e modificações, em sete pontos, no texto da 13a edição, de
1865, que foram incorporados às edições subseqüentes. A edição da FEB incorpora
essas sete alterações no próprio texto, sem nenhuma indicação local; a Nota Explicativa
menciona as mudanças, mas em dois casos as informações dadas não permitem saber
exatamente o que foi alterado, mencionando-se apenas, genericamente, "modificações"
ou "acréscimos" nas linhas tais e tais. Isso desaponta o pesquisador espírita. O problema
poderá, no entanto, ser facilmente corrigido na futura reedição, que esperamos ver,
fornecendo-se, na Nota Explicativa ou em um apêndice, as indicações completas e
precisas. Seria preferível que as alterações não fossem incorporadas ao texto, com
atualmente. Afinal, trata-se de reprodução fotográfica do exemplar da segunda edição, e
nela tais alterações não figuravam. Teríamos, então, um texto histórico puro, tal qual era
vendido no Quai des Augustins ou no Palais Royal em 1860. Como saiu, o texto nem é


este texto estritamente histórico, pois incorpora sem aviso preciso as alterações de 1865,
nem é o texto ideal que, aparentemente, Kardec gostaria de ter visto, pois não incorpora,
por razões gráficas, os itens da Errata de 1861, com exceção da supressão das duas
palavras no item 586.

Ademais, quanto a este último ponto, temos de reconhecer que provavelmente nunca
saberemos ao certo o que seria esse texto ideal: Por que a Nota aos Prolegômenos foi,
afinal, retirada? Por que a Errata só apareceu na 5a edição? Por que, dela, somente um
item mínimo foi incorporado às edições subseqüentes, quando a existência das outras
alterações mostra claramente que Kardec teve a oportunidade de incorporar todos?
Estudos históricos poderão, talvez, nos dar bases para alguma suposição acerca disso
tudo, mas a rigor nunca saberemos.

Texto publicado em Mundo Espírita, 69 (1441), p. 5, fevereiro/2002


... Silvio Seno Chibeni

> Revisão da terminologia espírita?

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Neste artigo analisa-se criticamente a proposta de revisão de certos termos utilizados em
Espiritismo, que alguns alegam ser necessária para a "modernização" da doutrina ou
para sua "adaptação" ao progresso da ciência. [1]

Questão:

Algumas pessoas alegam que é necessário atualizar os termos técnicos utilizados no
Espiritismo. Para elas o uso de termos como 'fluidos', 'mediunidade', etc. prejudica a
posição científica do Espiritismo. Há alguma fundamentação, em filosofia da ciência,
para essas criticas? Sendo uma ciência independente, dedicada ao estudo de
fenômenos que escapam ao escopo das ciências clássicas, o Espiritismo não teria a
liberdade de definir seus próprios termos? Historicamente, o Espiritismo precede à
metapsíquica e à parapsicologia, sendo também anterior às novas concepções de matéria
e energia da física atual. Isso não lhe daria a posição de pioneiro no estudo e definição
dos fenômenos espíritas, cabendo-lhe o direito de estabelecer sua própria nomenclatura?


Resposta:

As considerações sobre a natureza da linguagem apresentadas no primeiro artigo desta
série já forneceram o essencial para esclarecer o presente problema. Igualmente, as
afirmações corretas implícitas nas próprias interrogações do final da questão tornam a
resposta quase desnecessária. Todavia, gostaria de acrescentar algo em sentido
explícito.

De fato, propostas de revisão do vocabulário técnico do Espiritismo são bastante
comuns hoje, especialmente por parte de pessoas com alguma familiaridade com
disciplinas acadêmicas. Os termos mencionados como exemplo parecem, em particular,
causar-lhes certo incômodo, sendo freqüentemente substituídos por palavras como
'energia' e 'paranormalidade', 'sensibilidade', etc. Imagina-se estar assim conferindo
maior cientificidade ao Espiritismo, livrando-o de noções "ultrapassadas" do século

XIX. Ora, o mais elementar senso filosófico mostra que não é no vocabulário que
assenta o caráter científico ou não de uma disciplina.
As palavras são, como foi lembrado no artigo anterior, meros símbolos para a expressão
de conceitos; se estes não encontrarem respaldo em uma teoria científica coerente,
abrangente e empiricamente adequada (isto é, adaptada aos fatos), de nada adiantará
modificá-las. Por outro lado, uma teoria científica não será substancialmente alterada
pela modificação de seu vocabulário. Logo, qualquer alegação de que o Espiritismo tem
de passar por uma atualização não pode limitar-se à substituição de palavras, como
ingenuamente se procura fazer. Essa alegação só se poderia justificar a partir de uma
análise profunda, exaustiva e meticulosa da teoria espírita e de todos os fatos de que
trata, que revelasse racionalmente que ela não lhes dá explicação adequada, ou contém
falhas de consistência lógica, propondo-se concretamente uma outra teoria melhor que a
possa substituir. No parágrafo 14, n. 8, de O Livro dos Médiuns Kardec resume as
condições para uma crítica sustentável do Espiritismo (e, aliás, de qualquer outra
ciência) que, por sua lucidez e atualidade, merece ser aqui reproduzida:

O Espiritismo não pode considerar crítico sério senão aquele que tudo tenha visto,
estudado e aprofundado com a paciência e a perseverança de um observador
consciencioso; que do assunto saiba tanto quanto o adepto mais esclarecido; que haja,
por conseguinte, haurido seus conhecimentos algures, que não nos romances da
ciência; aquele a quem não se possa opor fato algum que lhe seja desconhecido,
nenhum argumento de que já não tenha cogitado e cuja refutação faça, não por mera
negação, mas por meio de outros argumentos mais peremptórios; aquele, finalmente,
que possa indicar, para os fatos averiguados, causa mais lógica do que a que lhe
aponta o Espiritismo. Tal crítico ainda está por aparecer.

Esse trecho serviu de mote para o artigo "A excelência metodológica do Espiritismo",
citado na lista de referências bibliográficas. Nele procuro mostrar, ainda que de forma
breve e simplificada, que as condições para uma revisão do Espiritismo em nome da
cientificidade até hoje não foram satisfeitas. A teoria espírita kardequiana tem tudo o
que é essencial para sua classificação como uma ciência genuína, à luz das concepções
atuais da filosofia da ciência. Não é naturalmente o caso de repetir aqui o que expus


nesse trabalho e em outros sobre o mesmo tema. No entanto, parece-me importante
particularizar um pouco a análise, com vistas aos exemplos dados na pergunta.

A palavra 'mediunidade' foi criada por Kardec para designar a faculdade que certos
indivíduos possuem de servir, em maior ou menor grau e de modos diversos, de
intermediários entre os Espíritos e os homens. Essa noção recebeu precisão e conteúdo
cognitivo por sua inserção em uma teoria completa dos fenômenos mediúnicos, exposta
principalmente em O Livro dos Médiuns (ver o artigo "Estudo sobre a mediunidade",
citado no final). Embora ela se encontre, como qualquer teoria científica, em contato
periférico com teorias de áreas contíguas, de dentro e de fora do Espiritismo, possui
bases de sustentação autônomas, não tendo que sofrer alterações substanciais ou
terminológicas em virtude do que possa ocorrer nesses domínios conexos.

As modificações que se têm proposto para o Espiritismo geralmente limitam-se ao
plano lingüístico, como se se tivesse vergonha de escrever ou pronunciar as palavras
'médium' e 'mediunidade', preferindo-se antes adornar o discurso com termos
rebuscados, provenientes de linhas de investigação incipientes ou pseudo-científicas,
como a metapsíquica, a parapsicologia e diversas vertentes ligadas à psicologia ou
mesmo a doutrinas orientalistas.

É evidente que isso só contribui para aumentar as dificuldades de compreensão e
comunicação ou, o que é pior, para dispersar as pesquisas relativamente ao núcleo
teórico paradigmático da ciência espírita, com graves repercussões para o seu
desenvolvimento. Constitui fato reconhecido entre os filósofos da ciência
contemporâneos que as substituições de conceitos e teorias fundamentais numa ciência
somente se justificam pela degeneração global do programa de pesquisa no qual se
inserem, juntamente com o fornecimento efetivo de um programa alternativo que o
suplante em coerência, abrangência, precisão e fertilidade heurística. Ora, não padece
dúvida para qualquer estudioso isento que nada disso sequer esboçou-se no caso do
Espiritismo.

Considerações semelhantes aplicam-se à palavra 'fluido'. É certo que ao cunhar a
expressão 'fluidos espirituais' para denotar certos elementos materiais "sutis" que
tomam parte em processos diversos examinados pelo Espiritismo, como a ação dos
Espíritos sobre a matéria ordinária (mediunidade, curas, passes, etc.), ou a constituição
dos corpos e da ambiência dos Espíritos (perispírito, objetos do mundo espiritual, etc.),
Kardec procurou analogias, ainda que tênues, com certos elementos que, segundo as
melhores teorias físicas da época, participariam dos fenômenos elétricos, magnéticos ou
térmicos: os chamados fluidos elétrico e magnético, e o calórico, igualmente invisíveis,
sutis, imponderáveis.

Ora, como não houve mais do que analogia e apropriação de um símbolo lingüístico
para construir uma expressão nova – 'fluidos espirituais', que em geral se simplificava
para 'fluidos', dentro do contexto espírita – , não se segue que a teoria espírita tenha de
ser modificada terminológica ou substancialmente na caracterização dos referidos
processos porque as teorias físicas que sugeriram as analogias tenham sido alteradas ou
substituídas no curso evolutivo da física.

Um historiador da ciência bem informado seguramente poderá encontrar diversas
situações semelhantes no âmbito das ciências acadêmicas. Reportemo-nos de passagem,


por exemplo, ao que aconteceu na química quando as teorias físicas sobre a estrutura da
matéria se alteraram na década de 1920, com o desenvolvimento e aceitação da
mecânica quântica. Embora os químicos tenham levado em conta a nova teoria física,
dada a proximidade e as interseções entre as áreas, tendo-se mesmo criado ramos e
técnicas de cálculo novos na química, as concepções e métodos referentes às ligações
químicas, estruturas moleculares, etc. continuaram mais ou menos como eram, em um
amplo espectro de investigações teóricas e experimentais.

Voltando ao caso do Espiritismo, salienta-se bem na pergunta que ele constitui "uma
ciência independente, dedicada ao estudo de fenômenos que escapam ao escopo das
ciências clássicas", tendo "a liberdade de definir seus próprios termos"; e, poderia
acrescentar: seus conceitos e teorias. Modificações nesses pontos só se legitimariam,
repito, na medida em que análises rigorosas internas ao programa científico espírita
indicassem sua necessidade.

Ainda com relação à noção de fluido, deve-se notar que ela não é tão abominada na
física como parecem crer os reformistas. Em primeiro lugar, cumpre notar que todos os
líquidos e gases são fluidos, e seu estudo é feito em diversas áreas da ciência, como a
hidrodinâmica. Depois, quanto à eletricidade, magnetismo e termodinâmica, as teorias
atuais prescindem dessa noção no nível operacional, tendo assumido feições
preponderantemente matemáticas e preditivas. No entanto, quando se desce à análise de
fundamentos – e raros cientistas dedicam-se a isso atualmente – percebe-se que, à
semelhança das demais teorias da física, estão envoltas em problemas conceituais
graves. Não é nada claro, por exemplo, o que seja um campo elétrico ou magnético
(noções usadas nas teorias físicas que sucederam às teorias de fluidos), não do ponto de
vista de sua caracterização matemática, é claro, mas de sua representação intuitiva, de
sua essência, do modo pelo qual surge, se propaga e causa certos fenômenos.
Lembremo-nos, por fim, que os próprios pais da teoria eletromagnética, como Faraday
e Maxwell, não dispensaram o conceito de fluido quando se tratava de explicar – e não
simplesmente calcular – os fenômenos.

Dir-se-á talvez que Einstein baniu esse conceito da ciência ao criar a teoria da
relatividade restrita, em 1905. Embora essa afirmação se tenha tornado comum em
certos círculos, entre os especialistas em fundamentos não há consenso sobre o ponto,
não obstante seja claro que o chamado "éter eletromagnético" regido por leis mecânicas
não compareça na aludida teoria. Mas essa não é a única teoria da ciência, nem
tampouco está isenta de dificuldades conceituais e teóricas diversas. Evidentemente,
este não é o lugar para adentrar esse tópico complexo. Fica, porém, uma advertência aos
espíritas de boa vontade para que não se deixem influenciar facilmente por tais
assertivas, antes que façam estudos profissionais, que levem em conta, por exemplo, a
teoria da relatividade geral e todas as perplexidades que envolvem as teorias do espaço-
tempo e da cosmologia contemporâneas, nas quais noções muito próximas à de fluido
parecem estar encontrando lugar.

Apenas para concluir, vale mencionar que virou moda nos meios espíritas e semiespíritas
a substituição da palavra 'fluido' por 'energia', sempre no pressuposto de que é
por aí que vai a ciência. Ora, assim como as noções de espaço, tempo, força, massa,
carga elétrica, campo, etc., a noção de energia é objeto de inúmeras dificuldades
conceituais, não se ganhando nada em clareza, precisão e cientificidade com a sua
utilização, muito pelo contrário. Ademais, esse uso apresenta o inconveniente de se dar


numa área distante da área de sua criação original, a física, representando uma enxertia
no programa científico espírita, fonte certa de confusões.

A respeito da utilização das noções das palavras 'fluido', 'energia' e 'magnetismo' no
Espiritismo, recomendo a leitura do artigos de Aécio P. Chagas, "Polissemias no
Espiritismo" e "A ciência confirma o Espiritismo?" Outra análise profissional do
emprego impróprio de noções científicas, em particular da noção de energia, no
Espiritismo é feita no artigo "Algumas considerações oportunas sobre a relação
Espiritismo-Ciência", de Ademir L. Xavier Jr., que também consta da lista de
referências bibliográficas.

* * *

Referências:

CHAGAS, A. P. "A ciência confirma o Espiritismo?", Reformador, julho de 1995, p.
208-11.

––. "Polissemias no Espiritismo", Revista Internacional de Espiritismo, setembro de
1996, p. 247-49.

CHIBENI, S. S. "A excelência metodológica do Espiritismo", Reformador, novembro
de 1988, p. 328-333, e dezembro de 1988, p. 373-378.

––. "Estudo sobre a mediunidade" (em co-autoria com Clarice Seno Chibeni),
Reformador, agosto de 1997, p. 240-43 e 253-55.

KARDEC, A. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro, 59a ed., revista, Rio de
Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.

XAVIER Jr., A. L. "Algumas considerações oportunas sobre a relação Espiritismo-
Ciência", Reformador, agosto de 1995, p. 244-46.

Notas

[1] O conteúdo do texto corresponde, com algumas adaptações, a parte de entrevista
concedida por mim ao GEAE (Grupo de Estudos Avançados de Espiritismo), pioneiro
na divulgação do Espiritismo pela Internet. A entrevista foi publicada no Boletim n. 300
(edição extra), que circulou em 7/7/1998, podendo ser encontrado no site
http://www.geae.org. Gostaria de agradecer ao GEAE a anuência para o aproveitamento
do material nesta série de artigos. Sou especialmente grato aos seus membros Ademir L.
Xavier Jr., pela iniciativa da entrevista, e Carlos A. Iglesia Bernardo, por haver reunido
as relevantes e oportunas questões.
Artigo publicado em Reformador, agosto de 1999



... Silvio Seno Chibeni
> Os Trabalhadores da Última Hora
Artigos



1. Introdução
Como todo estudioso do Espiritismo sabe, o título do presente artigo é o título dado por
Allan Kardec ao capítulo 20 de O Evangelho Segundo o Espiritismo. O que poucos
talvez tenham notado é que esse é o único capítulo do livro que não possui comentários
do próprio Kardec: à transcrição da passagem evangélica – a intrigante parábola dos
trabalhadores da última hora – seguem-se imediatamente as Instruções dos Espíritos, em
número de quatro. Isso, porém, não passa de detalhe curioso, já que os textos de Kardec
e os dos Espíritos expressam um pensamento uno, não sendo raro que os primeiros
superem os segundos em alcance, clareza e precisão. O que mais importa são os
ensinamentos contidos no capítulo. Iremos, por economia de espaço, restringir nossa
análise à parábola e ao primeiro texto escolhido por Kardec para comentá-la, de autoria
de Constantino, Espírito Protetor, recebida em Bordeaux em 1863.

2. A parábola

Para comodidade do leitor, transcreveremos agora todo o texto da parábola citado por
Kardec. Notemos, desde já, que se trata de uma das muitas ocasiões em que Jesus
procura ensinar algo sobre Deus e as leis divinas – "o reino dos céus" – por meio de
uma comparação com uma estória envolvendo coisas e situações ordinárias. Eis a
parábola, registrada em Mateus 20:1-16:

O reino dos céus é semelhante a um pai de família que saiu de madrugada, a fim de
assalariar trabalhadores para a sua vinha. – Tendo convencionado com os trabalhadores
que pagaria um denário a cada um por dia, mandou-os para a vinha. – Saiu de novo à
terceira hora do dia e, vendo outros que se conservavam na praça sem fazer coisa
alguma, – disse-lhes: Ide também vós outros para a minha vinha e vos pagarei o que for
razoável. Eles foram. – Saiu novamente à hora sexta e à hora nona do dia e fez o
mesmo. – Saindo mais uma vez à hora undécima, encontrou ainda outros que estavam
desocupados, aos quais disse: Por que permaneceis aí o dia inteiro sem trabalhar? – É,
disseram eles, que ninguém nos assalariou. Ele então lhes disse: Ide vós também para a
minha vinha. – Ao cair da tarde disse o dono da vinha àquele que cuidava dos seus
negócios: Chama os trabalhadores e paga-lhes, começando pelos últimos e indo até aos
primeiros. – Aproximando-se então os que só à undécima hora haviam chegado,
receberam um denário cada um. – Vindo a seu turno os que tinham sido encontrados em
primeiro lugar, julgaram que iam receber mais; porém, receberam apenas um denário
cada um. – Recebendo-o, queixaram-se ao pai de família, – dizendo: Estes últimos
trabalharam apenas uma hora e lhes dás tanto quanto a nós que suportamos o peso do
dia e do calor. – Mas, respondendo, disse o dono da vinha a um deles: Meu amigo, não
te causo dano algum; não convencionaste comigo receber um denário pelo teu dia? –
Toma o que te pertence e vai-te; apraz-me a mim dar a este último tanto quanto a ti. –
Não me é então lícito fazer o que quero? Tens mau olho, porque sou bom? – Assim, os
últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos, porque muitos são os
chamados e poucos os escolhidos.

3. Começando a entender...
Das parábolas evangélicas, algumas são de compreensão relativamente fácil, como a do
bom samaritano (Lc 10:25-37) e a dos talentos (Mt 25:14-30). Outras, porém, trazem
dificuldades interpretativas consideráveis, exigindo mais meditação e maior
familiaridade com o conjunto da doutrina cristã para que um sentido razoável seja
alcançado. Dissemos um sentido, porque a riqueza alegórica dessas estórias contadas
pelo Mestre em geral deixa aberta a possibilidade de diversas interpretações.

A parábola dos trabalhadores da última hora seguramente pertence à classe das
parábolas "difíceis", já que compara o reino dos céus, onde tudo é justiça, com uma
situação aparentemente injusta: a remuneração igual a jornadas de trabalho desiguais.

Não obstante essa dificuldade central, a parábola contém, felizmente, alguns pontos
mais ou menos claros, com os quais devemos principiar nossos esforços interpretativos.
Trata-se de várias "pontes" que ligam os elementos da estória com o reino dos céus:

o pai de família – Deus
a vinha – o Universo
os trabalhadores – os seres humanos
o trabalho na vinha – o trabalho no bem

as horas – qualquer período de tempo

o salário – a felicidade
Embora nem todas as ligações sugeridas sejam triviais, acreditamos que sejam as que
mais naturalmente ocorrem a quem se dedique a entender o texto evangélico. O sentido
geral do ensinamento é que é difícil de apreender, dado o aparente conflito da idéia de
um Deus justo com o modo pelo qual o senhor da vinha remunerou os trabalhadores.
Logicamente, só temos duas opções para eliminar o conflito: ou supomos que Jesus de
fato pretendeu caracterizar Deus como injusto; ou revemos nossa impressão inicial, de
que o comportamento do senhor da vinha foi injusto. Ora, como a primeira alternativa é
insustentável, face ao conjunto dos ensinamentos cristãos, temos de desenvolver a
segunda opção. Para tanto, comecemos atentando para o seguinte:

a) O pai de família pagou aos trabalhadores da primeira hora exatamente o valor
combinado, de modo que não os prejudicou, como ele mesmo lembrou quando eles se
queixaram;

b) Quanto aos demais, a parábola nada diz sobre acerto de salário, sugerindo-nos que os
trabalhadores aceitaram a oferta de trabalho sem pré-condições;

c) O próprio senhor da vinha justifica sua ação, dizendo que foi um ato de bondade: o
denário que mandou dar aos que foram convocados mais tarde seria, pois, parte
remuneração pelas horas que trabalharam e parte auxílio espontâneo.

Assim, quando consideramos os casos separadamente vemos que em suas relações com
cada grupo de obreiros o senhor nada fez de errado.

Mas mesmo nos termos em que a questão é colocada no item (c), ficamos incomodados
com o fato de que o senhor distribuiu o benefício-extra desigualmente: quanto mais
tarde chegaram, menor a parcela do denário correspondente à remuneração, e portanto
maior a que representaria o auxílio.

Talvez seja útil transpor a questão para situações de nosso dia-a-dia. Quando saímos
pela rua e damos esmolas desiguais a dois pedintes estaremos sendo injustos? Quando
contribuímos, em trabalho ou dinheiro, com duas instituições de caridade, porém em
maior medida a uma do que à outra, é injustiça?

Nossas reflexões sobre esse problema podem ser auxiliadas pelas considerações
expendidas por Constantino na mencionada instrução. Passemos, pois, a ela.

4. Recorrendo a Constantino...
O texto de Constantino compõe-se de quatro parágrafos, que passam gradativamente aos
níveis interpretativos mais alegóricos da parábola. O curto parágrafo inicial atém-se
ainda de forma quase que exclusiva ao sentido literal do texto evangélico:

[§ 1] O obreiro da última hora tem direito ao salário, mas é preciso que a sua boa-
vontade o haja conservado à disposição daquele que o tinha de empregar e que o seu
retardamento não seja fruto da preguiça ou da má-vontade. Tem ele direito ao salário,
porque desde a alvorada esperava com impaciência aquele que por fim o chamaria para


o trabalho. Laborioso, apenas lhe faltava o labor.
Vemos que o Espírito destaca alguns aspectos importantes que ainda não havíamos
considerado. Há uma condição para o recebimento do denário: a disposição permanente
para o trabalho. Aqueles que foram contratados à terceira, sexta, nona e undécima hora
tinham boa-vontade, ansiavam por trabalhar. Faltou-lhes, porém, a oportunidade.
Quando o senhor da vinha os convocou, aceitaram pressurosamente e, segundo se
depreende, sem sequer inquirir pela remuneração.

Visando a realçar esse ponto, no segundo parágrafo Constantino estende a parábola para
uma hipotética situação contrastante:
[§ 2] Se, porém, se houvesse negado ao trabalho a qualquer hora do dia; se houvesse
dito: "tenhamos paciência, o repouso me é agradável; quando soar a última hora é que
será tempo de pensar no salário do dia; que necessidade tenho de me incomodar por um
patrão a quem não conheço e não estimo! quanto mais tarde, melhor"; esse tal, meus
amigos, não teria tido o salário do obreiro, mas o da preguiça.

As disposições positivas dos trabalhadores da última hora podem, assim, ser entendidas
como fatores que sensibilizaram o pai de família, induzindo-o ao gesto de generosidade.

Ademais, vale lembra que ao perguntar, no item 930 de O Livro dos Espíritos, acerca da
situação das pessoas que se vêm impossibilitadas de trabalhar por causas independentes
de sua vontade, Kardec obtém a observação de que "Numa sociedade organizada
segundo a lei do Cristo ninguém deve morrer de fome". E, explicando o ponto, os
Espíritos acrescentam: "Com uma organização social criteriosa e previdente, ao homem
só por culpa sua pode faltar o necessário." É, pois, uma clara alusão à solidariedade que
os homens devem se esforçar por implantar no mundo.

Felizmente, notamos que esse pensamento, de vanguarda para a época, já vem se
difundindo entre as lideranças mais lúcidas de nossa sociedade, tanto assim que em
muitos países já existe o seguro-desemprego, para acudir aos trabalhadores que
contingencialmente se encontrem sem oportunidade de emprego. Nenhuma pessoa
sensata classificaria de injusto esse dispositivo, muito pelo contrário.

Ora, nessa perspectiva o senhor da parábola seria alguém que, mesmo naqueles tempos
primitivos, teria sido tocado pela dificuldade daqueles homens que impacientemente
esperavam pela oportunidade de ganhar seu pão, solidarizando-se com eles por meio,
primeiro, da oferta de trabalho e, depois, pelo auxílio pecuniário adicional.

Afastando-nos agora um pouco do sentido literal da estória, ensaiemos a sua
interpretação em termos do "reino dos céus". Com base no que foi visto até aqui, infere-
se que com a parábola Jesus procurou salientar a virtude da boa-vontade e da disposição
para o trabalho. Num plano mais amplo, o trabalho não deve, é claro, ser entendido
unicamente como o trabalho ordinariamente assim considerado, as atividades braçais e
intelectuais passíveis de remuneração. "Toda ocupação útil é trabalho", conforme a
resposta à questão 675 de O Livro dos Espíritos. Tudo o que concorra para o
desenvolvimento próprio, do semelhante e, em geral, da criação, é trabalho, nessa
conceituação estendida.

A mensagem mais evidente da parábola é, pois, a importância de nosso engajamento nas


atividades da "vinha" universal. Ele traz para nós o "salário" da felicidade: o bem-estar
físico, a satisfação intelectual, o prazer do cultivo do Belo, a tranqüilidade moral.

A diversidade dos grupos de trabalhadores da parábola indica a diversidade dos seres
criados e das tarefas a desempenhar em cada estágio de sua evolução. Deus reconhece
essa diversidade, convocando cada um a seu tempo para as tarefas adequadas ao
momento. E contanto que haja disposição para o trabalho, todos recebem o fruto de seus
labores, por mais modestos que sejam. Não espera o Senhor que, num dado "dia" todos
desempenhem as mesmas tarefas. A meta de todos deve ser a de colaborar cada vez
mais na obra divina, mas a convocação divina leva em conta a capacidade presente de
cada um. A nós cabe estar permanentemente dispostos ao labor, para que não sejamos
como os servos imaginados por Constantino, que receberam somente o "salário da
preguiça", ou seja, a estagnação evolutiva.

Não somente a preguiça e a indiferença têm de ser evitadas, mas também a afoiteza e a
precipitação. Por falta de bom-senso, arriscamo-nos freqüentemente em tarefas para as
quais não estamos, presentemente, preparados. Pior ainda: movidos pelo orgulho
lançamo-nos em empreendimentos que se nos afiguram "grandes", não pelo bem que
deles decorra, mas pela evidência em que nos coloquem. O malogro parcial ou total, e a
dura decepção de nossa vaidade é o resultado inevitável de tais iniciativas.

A igualdade dos "pagamentos" que cada trabalhador de boa-vontade recebe reflete a
bondade divina, que valoriza tudo aquilo que venhamos a fazer na obra do bem. Não
ressaltou Jesus esse ponto na expressiva passagem do óbolo da viúva? (Ver Mc 12:4144
e Lc 21:1-4, bem como os comentários de Kardec a essa passagem no item 6 do
capítulo 13 de O Evangelho Segundo o Espiritismo.)

Outra virtude veladamente evocada pela parábola é o desinteresse. Conforme já
notamos, os trabalhadores da última hora e todos os demais que foram convocados
depois do início do dia aceitaram a oferta de trabalho sem perguntar quanto ganhariam.
Do mesmo modo, nossa meta é fazer o bem pelo bem, tão logo a ocasião apareça, e não
"por cálculo", contabilizando os benefícios que dele nos advenham. Kardec sabiamente
inseriu um estudo sobre esse ponto logo após o referente ao óbolo da viúva, nos itens 7
e 8 do capítulo 13 de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Todo esse capítulo, aliás,
contém reflexões valiosas sobre o assunto, complementando as fundamentais
elucidações contidas na seção inicial do capítulo "Da perfeição moral" de O Livro dos
Espíritos.

Por fim, além da indolência e do interesse, mais um vício parece ser exprobrado na
parábola: a inveja ("Tens mau olho, porque sou bom?"). Vendo o gesto de generosidade
do pai de família, os trabalhadores da primeira hora queixaram-se, muito embora no que
lhes dissesse respeito ele houvesse agido com correção. Aproveitando uma sugestão
interpretativa feita anteriormente, seria mais ou menos como se nos queixássemos do
governo por conceder auxílio-desemprego a um colega provisoriamente desempregado.
Além de injustificável inveja, faltaríamos com a solidariedade, que deve reinar entre os
homens em geral. (Questão deixada para o leitor: Quem os trabalhadores da primeira
hora poderiam simbolizar?)

5. Ainda com Constantino...

Após ter comentado, assim, a situação dos preguiçosos e indiferentes, Constantino
prossegue, penúltimo parágrafo da mensagem:
[§ 3] Que dizer, então, daquele que, em vez de apenas se conservar inativo, haja
empregado as horas destinadas ao labor do dia em praticar atos culposos; que haja
blasfemado de Deus, derramado o sangue de seus irmãos, lançado a perturbação nas
famílias, arruinado os que nele confiaram, abusado da inocência, que, enfim, se haja
cevado em todas as ignomínias da Humanidade? Que será desse? Bastar-lhe-á dizer à
última hora: Senhor, empreguei mal o meu tempo; toma-me até ao fim do dia, para que
eu execute um pouco, embora bem pouco, da minha tarefa, e dá-me o salário do
trabalhador de boa vontade? Não, não; o Senhor lhe dirá: "Não tenho presentemente
trabalho para te dar; malbarataste o teu tempo; esqueceste o que havias aprendido; já
não sabes trabalhar na minha vinha. Recomeça, portanto, a aprender e, quando te
achares mais bem disposto, vem ter comigo e eu te franquearei o meu vasto campo,
onde poderás trabalhar a qualquer hora do dia."
Agora não se trata mais da indolência do servo que despreza o trabalho, mas da ação
destrutiva daquele que, ao invés de ajudar, atrapalha a obra divina. A extensão dos
comentários de Constantino para esse tópico é particularmente relevante para nós,
Espíritos ligados à Terra. A observação dos fatos confirma a classificação de Kardec na
seção "Destinação da Terra – Causas das misérias humanas", do capítulo 3 de O
Evangelho Segundo o Espiritismo, da Terra como planeta especialmente destinado ao
abrigo de Espíritos desajustados com as leis divinas. Como reafirmaria depois
Emmanuel, "todas as entidades espirituais encarnadas no orbe terrestre são Espíritos que
se resgatam ou aprendem nas experiências humanas, após as quedas do passado, com
exceção de Jesus-Cristo..." (O Consolador, questão 243).

Também sabemos, à luz dos ensinos cristãos e espíritas, que nossa interferência indébita
na harmonia universal traz para nós conseqüências negativas, sofrimentos e tribulações
que visam a impor limites à nossa ação maléfica, despertando-nos para o bem. Não
desenvolveremos esse tema aqui, por sobejamente explorado na boa literatura espírita.

Centremos nossa atenção nas singulares palavras de Constantino. Como entender a
reação atribuída ao Senhor, diante do servo mau: "Não tenho presentemente trabalho
para te dar..." ? Tolher-nos-ia Deus a oportunidade do trabalho depois que falimos?
Sabemos, por outro lado, que é somente pelo trabalho no bem que repararemos nossos
erros, apagando suas repercussões. (Ver o "Código penal da vida futura", no capítulo 7
da primeira parte de O Céu e o Inferno.)

Inspecionando mais atentamente o texto, vemos que o Senhor não impede para sempre

o servo "cevado em todas as ignomínias" de trabalhar em sua vinha. Depois que
reaprender a trabalhar construtivamente, ser-lhe-á novamente franqueado o vasto campo
de ação na vinha.
Mas por que esse impedimento temporário? É que a prática do mal pode de tal forma
destrambelhar-nos que, por algum tempo, naturais limitações nos advirão. Seria como
um motorista insensato, que provoca um acidente e vai hospitalizado. Enquanto
permanecer internado, não poderá desenvolver todas as atividades para as quais estaria
em princípio capacitado. É um período de recomposição.

Do mesmo modo, aos nossos desatinos espirituais sobrevém um estágio de reequilíbrio,
de aprendizado pela dor, de reflexão. Se, porém, esse estágio no "hospital" divino nos


limita em alguns aspectos – as idiotias, as paralisias, as enfermidades degenerativas
incuráveis, a miséria extrema, etc. – sempre resta-nos a possibilidade de agir no bem
pela paciência e resignação, pelos esforços para corrigir-nos, pela gratidão a quem nos
auxilie, pelo sorriso de esperança, e por tantas outras formas.

6. Seriam os espíritas os trabalhadores da última hora?
Concluindo este nosso estudo, vejamos agora o último parágrafo do texto de
Constantino. Com base nele, bem como numa passagem da Instrução que o segue, de
Henri Heine, difundiu-se no meio espírita a idéia de que "os espíritas são os
trabalhadores da última hora". Não é raro vermos esse pensamento exposto até mesmo
com uma certa ponta de orgulho. Afinal, na parábola os trabalhadores da undécima hora
são aqueles que mais se beneficiaram da magnanimidade do senhor. Estaríamos todos,
então, admitidos à vinha, com salário integral e tudo.

Será isso o que os Espíritos escreveram, ou deram a entender? Examinaremos aqui
apenas o que diz Constantino, pois a mensagem de Heine parte de uma perspectiva
diferente e requereria outro artigo. Eis o parágrafo:

[§ 4] Bons espíritas, meus bem-amados, sois todos obreiros da última hora. Bem
orgulhoso seria aquele que dissesse: Comecei o trabalho ao alvorecer do dia e só o
terminarei ao anoitecer. Todos viestes quando fostes chamados, um pouco mais cedo,
um pouco mais tarde, para a encarnação cujos grilhões arrastais; mas há quantos séculos
e séculos o Senhor vos chamava para a sua vinha, sem que quisésseis penetrar nela! Eis-
vos no momento de embolsar o salário; empregai bem a hora que vos resta e não
esqueçais nunca que a vossa existência, por longa que vos pareça, mais não é do que um
instante fugitivo na imensidade dos tempos que formam para vós a eternidade.

A leitura atenta deste trecho não parece corroborar a referida interpretação. Primeiro, a
frase inicial qualifica os espíritas: "Bons espíritas...". O adjetivo 'bons' em geral passa
despercebido! Logo, a frase não diz respeito aos espíritas em geral, mas aos bons
espíritas. E todos conhecemos a impressionante lista de qualidades dos bons espíritas,
que Kardec registrou no capítulo 17 do Evangelho Segundo o Espiritismo, seções "O
homem de bem" e "Os bons espíritas".

Além disso, a frase não tem o artigo definido 'os' antes de 'obreiros da última hora',
como normalmente se diz. A inclusão do artigo emprestaria ao pensamento um ar de
sectarismo e orgulho incompatível com a índole da doutrina espírita. Os bons espíritas
não são os obreiros da última hora, com a implícita exclusão dos outros homens, mas
simplesmente obreiros da última hora. Eles são aqueles que passaram, numa "hora"
relativamente recente da história da humanidade, a trabalhar, ao lado de tantos outros,
na vinha do Senhor.

E mais: nem mesmo entendida corretamente a comparação de Constantino serviria de
fundamento a qualquer sentimento ufanista no meio espírita. Afinal, os trabalhadores da
última hora não tiveram nenhum mérito relativamente aos da primeira hora.
Simplesmente são aqueles para quem, por uma razão ou por outra, a tarefa chegou um
pouco mais tarde.


Prosseguindo, o Espírito modifica um pouco a alegoria, ao salientar que mesmo estes
em geral ignoraram durante séculos os apelos do Senhor para o trabalho na vinha! A
rigor, então, os bons espíritas não deveriam se orgulhar nem mesmo de terem sempre
estado aguardando ansiosamente o chamado para a obra divina. Estão, via de regra, na
condição geral da humanidade terrena, de Espíritos que fizeram mau uso de seu livre-
arbítrio em passado próximo ou distante.

No entanto, o que os caracteriza – sem a exclusão de outros, repetimos – é que agora já
superaram aquele período de "hospitalização", e reaprenderam a trabalhar no bem. Esse

o seu maior salário: a bênção de já poderem trabalhar na construção de sua felicidade,
mediante o amor ativo ao próximo e a si mesmos.
Que dizer agora dos espíritas que ainda não podem ser ditos bons? Esses são os que, não
obstante terem as luzes dos princípios espíritas ao seu alcance, ainda resistem
indolentemente a trabalhar, ou a trabalhar tanto quanto sua condição permitiria; ou
aqueles, em condição mais lastimável ainda, que ainda se "cevam nas ignomínias"
morais, sem envidar esforços para emendar-se.

É claro que essa classificação não é nítida, ou seja, não há apenas dois grupos de
espíritas. Há uma gradação contínua, começando naqueles francamente retardatários e
terminando nos que já entendem e vivenciam plenamente as diretrizes divinas para os
homens. Caberá a nós determinar, pelo exame isento de nossos pensamentos e atos,
nossa posição nessa escala, e incessantemente procurar galgar posições cada vez mais
avançadas, pela reparação de nossos erros, pela superação de vícios e conquista de
virtudes.

Referências bibliográficas

EMMANUEL. O Consolador. (Médium Francisco Cândido Xavier.) 8a ed., Rio de
Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1940.

KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 43a ed., Rio de Janeiro,
Federação Espírita Brasileira, s.d.

–––. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. de Guillon Ribeiro. 111a ed., Rio de
Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.

–––. O Céu e o Inferno. Trad. de Manuel Quintão. 28ª edição, Rio de Janeiro, Federação
Espírita Brasileira, s.d.

... Silvio & Clarice Seno Chibeni

> Estudo sobre a mediunidade

Artigos



1. Introdução
A mediunidade desempenha papel essencial no estabelecimento da base experimental da
ciência espírita e nas atividades dos centros espíritas. Seu estudo sistemático e contínuo
possibilita a correta compreensão tanto de sua natureza como de suas finalidades,
habilitando-nos a dela obter seguros e produtivos resultados, com vistas ao nosso
aperfeiçoamento intelectual e moral.

Esse estudo deve necessariamente estar centralizado no mais completo e profundo
tratado que já se escreveu sobre a mediunidade: O Livro dos Médiuns, de Allan
Kardec. Os presentes apontamentos devem ser tidos unicamente como uma exposição
incompleta de alguns tópicos importantes, destinada a facilitar posteriores contatos com
essa obra fundamental e a vasta literatura subsidiária surgida desde sua publicação, em
1861.

No Vocabulário Espírita que forma o capítulo 32 desse livro Kardec dá como
sinônimos os termos mediunidade e medianimidade, definindo-os com "a faculdade
dos médiuns". Quanto à palavra médium, Kardec explicita o seu significado em várias
passagens de suas obras, como por exemplo nesse mesmo Vocabulário, onde se
encontra esta definição sucinta:

MÉDIUM. (do latim, medium, meio, intermediário). Pessoa que pode servir de
intermediário entre os Espíritos e os homens.

Ao analisar os conceitos de médium e de mediunidade, faz notar que a palavra médium
comporta duas acepções distintas, expressas com clareza neste trecho da Revue Spirite:

Acepção ampla:

Qualquer pessoa apta a receber ou a transmitir comunicações dos Espíritos é, por isso
mesmo, médium, quaisquer que sejam o modo empregado e o grau de desenvolvimento
da faculdade, desde a simples influência oculta até à produção dos mais insólitos
fenômenos.

Acepção restrita:

Em seu uso ordinário, todavia, esse termo tem uma aplicação mais restrita, aplicando-se
às pessoas dotadas de um poder mediador suficientemente grande, seja para a produção
de efeitos físicos, seja para transmitir o pensamento dos Espíritos pela escrita ou pela
palavra.


Quando analisamos um texto ou um discurso onde o termo médium aparece, é
importante reconhecer em qual desses sentidos está sendo empregado, a fim de se
evitarem mal-entendidos e discussões sem fundamento. Assim, por exemplo, a
afirmação feita no parágrafo 159 de O Livro dos Médiuns de que "todos [os homens]
são quase médiuns" deverá ser entendida apenas na acepção ampla do termo, pois
sabemos, pela questão 459 de O Livro dos Espíritos, que todos somos passíveis de
receber a influência dos Espíritos, ainda que sob a forma sutil de intuição. Incorreremos
em grave equívoco se concluirmos daí que todos somos mais ou menos médiuns no
sentido restrito e usual da palavra, ou seja, se julgarmos que todos podemos produzir
manifestações ostensivas, tais como a psicofonia, a psicografia, os efeitos físicos etc.

2. A natureza da mediunidade
Limitando-nos daqui para frente à acepção restrita do termo «médium», que é a mais
usual e relevante, estaremos, no que se vai seguir, entendendo a mediunidade como a
aptidão especial que certas pessoas possuem para servir de meio de comunicação entre
os Espíritos e os homens.

A questão que naturalmente surge neste ponto é a de se determinar qual é a natureza da
faculdade mediúnica: quais as suas causas, por que surge somente em determinadas
pessoas e em modalidades e graus diversos, se é passível de desenvolvimento forçado
mediante alguma técnica etc.

Um aspecto central relativo à natureza da mediunidade acha-se exposto na resposta à
questão que Kardec endereçou aos Espíritos no parágrafo 226 de O Livro dos
Médiuns:

O desenvolvimento da mediunidade guarda proporção com o desenvolvimento
moral dos médiuns?

"Não; a faculdade propriamente dita prende-se ao organismo; independe do moral. O
mesmo, porém, não se dá com o seu uso, que pode ser bom ou mau, conforme as
qualidades do médium".

Como observamos pela resposta dos Espíritos, a capacidade de servir de "ponte" entre o
mundo espiritual e o mundo material está ligada a fatores de ordem orgânica. Esse
ponto encontra-se exarado em vários lugares das obras de Kardec e de outros autores
espíritas abalizados, passando, no entanto, despercebido à maioria das pessoas, mesmo
espíritas.

Já em 1859 Kardec afirmava, em seu livro Instruções Práticas sobre as Manifestações
Espíritas que "essa faculdade depende de uma disposição orgânica especial, suscetível
de desenvolvimento". Em O Livro dos Médiuns as referências nesse sentido são
numerosas. No parágrafo 94, por exemplo, que trata das manifestações físicas
espontâneas, os Espíritos informam que a aptidão de ser médium de efeitos físicos "se
acha ligada a uma disposição física". Bem mais adiante, ao estudar a formação dos
médiuns (§ 209), Kardec retorna ao assunto:

Têm-se visto pessoas inteiramente incrédulas ficarem espantadas de escrever
[mediunicamente] a seu mau grado, enquanto que crentes sinceros não o conseguem, o
que prova que esta faculdade se prende a uma disposição orgânica.


Notemos que nesta última passagem há referência a mais um princípio importante: a
mediunidade não depende das convicções filosóficas ou das crenças religiosas do
médium.

Por fim, em resposta à questão 19 do parágrafo 223 desse mesmo livro os Espíritos
esclarecem que "a mediunidade propriamente dita independe da inteligência bem
como das qualidades morais" do médium. Portanto a mediunidade independe também
do desenvolvimento intelectual do médium.

Resumindo o que vimos até aqui:

A mediunidade é a faculdade especial que certas pessoas possuem para servir de
intermediárias entre os Espíritos e os homens. Ela tem origem orgânica, e independe:

· da condição moral do médium;

· de suas crenças;

· de seu desenvolvimento intelectual.

No parágrafo 200 de O Livro dos Médiuns, Allan Kardec deixa claro que "não há
senão um único meio de constatar [a existência da faculdade mediúnica em alguém]: a
experimentação". Ou seja, só poderemos saber que uma pessoa é médium observando
que efetivamente é capaz de servir de intermediário aos Espíritos desencarnados.

Isso naturalmente remete à importante questão do desenvolvimento da mediunidade.
Por sua importância e pelas confusões e equívocos a que se tem prestado, merece ser
abordada numa seção especial.

3. O desenvolvimento da mediunidade
Uma primeira observação a ser feita é que se a presença da faculdade mediúnica em
uma pessoa independe de sua condição moral, intelectual e de crença, ninguém poderá
tornar-se médium tão-somente pelo fato de moralizar-se, ou de estudar, ou de aderir às
convicções espíritas. É evidente que essas atitudes serão de imenso proveito para a
criatura, pois a colocarão em condições de compreender e utilizar bem a faculdade
mediúnica que porventura possua.

É significativo, a esse respeito, que Kardec tenha alertado já no terceiro parágrafo da
Introdução de O Livro dos Médiuns que muito se enganaria aquele que "supusesse
encontrar nesta obra uma receita universal e infalível para formar médiuns".
Lança mão, a seguir, de uma comparação muito clara e objetiva, que esclarece o assunto
à saciedade :

Se bem que cada um traga em si o gérmen das qualidades necessárias para se tornar
médium, tais qualidades existem em graus muito diferentes e o seu desenvolvimento
depende de causas que a ninguém é dado conseguir se verifiquem à vontade. As regras
da poesia, da pintura e da música não fazem que se tornem poetas, pintores, ou músicos
os que não têm o gênio de algumas dessas artes. Apenas guiam os que as cultivam no
emprego de suas faculdades naturais. O mesmo sucede com o nosso trabalho. Seu


objetivo consiste em indicar os meios de desenvolvimento da faculdade mediúnica,
tanto quanto o permitam as disposições de cada um, e, sobretudo, dirigir-lhe o emprego
de modo útil, quando ela exista.

O caráter espontâneo da faculdade mediúnica é ainda destacado no parágrafo 208 de O
Livro dos Médiuns (o destaque é nosso):

Se os rudimentos da faculdade [mediúnica] não existem, nada fará que apareçam [...].

No capítulo intitulado "Manifestações dos Espíritos" de Obras Póstumas (parágrafo 6,
no 34) encontramos esta densa passagem (destaque nosso):

O desenvolvimento da faculdade mediúnica depende da natureza mais ou menos
expansível do perispírito do médium e da maior ou menor facilidade da sua assimilação
pelo dos Espíritos; depende, portanto, do organismo e pode ser desenvolvida quando
exista o princípio; não pode, porém, ser adquirida quando o princípio não exista.

E no parágrafo 198 de O Livro dos Médiuns, que trata da diversidade das faculdades
mediúnicas, lemos ainda:

Em erro grave incorre quem queira forçar a todo custo o desenvolvimento de uma
faculdade que não possua. Deve a pessoa cultivar todas aquelas de que reconheça
possuir o gérmen. Procurar à força ter as outras é, antes de tudo, perder tempo, e, em
segundo lugar, perder talvez, enfraquecer com certeza, as de que seja dotado.

Encerrando esse parágrafo, Kardec transcreve comunicação mediúnica de Sócrates
sobre o desenvolvimento da mediunidade, que contém grave advertência:

Quando existe o princípio, o gérmen de uma faculdade, esta se manifesta sempre por
sinais inequívocos. Limitando-se à sua especialidade, pode o médium tornar-se
excelente e obter grandes e belas coisas; ocupando-se de tudo, nada de bom obterá.
Notai, de passagem, que o desejo de ampliar indefinidamente o âmbito de suas
faculdades é uma pretensão orgulhosa, que os Espíritos nuncam deixam impune. Os
bons abandonam o presunçoso, que se torna então joguete dos mentirosos. Infelizmente,
não é raro verem-se médiuns que, não contentes com os dons que receberam, aspiram,
por amor-próprio ou ambição, a possuir faculdades excepcionais, capazes de os
tornarem notados. Essa pretensão lhes tira a qualidade mais preciosa: a de médiuns
seguros.

Apenas como exemplo de opinião de um outro autor, corroborativa da de Allan Kardec,
vejamos como Emmanuel responde à questão 384 de seu livro O Consolador, questão
essa que versa especificamente sobre o tema que estamos focalizando:

Dever-se-á provocar o desenvolvimento da mediunidade?

A mediunidade não deve ser fruto de precipitação nesse ou naquele setor da atividade
doutrinária, porquanto, em tal assunto, toda a espontaneidade é indispensável,
considerando-se que as tarefas mediúnicas são dirigidas pelos mentores do plano
espiritual.


Logo em seguida, em resposta à questão 386, o conceituado Espírito reitera:
Ninguém deverá forçar o desenvolvimento dessa ou daquela faculdade, porque,
nesse terreno, toda a espontaneidade é necessária; observando-se, contudo, a floração
mediúnica espontânea, nas expressões mais simples, deve-se aceitar o evento com as
melhores disposições de trabalho e boa-vontade [...].


Precisamos, portanto, estar vigilantes quanto à opinião, infelizmente tão comum no
meio espírita, de que as pessoas que aparecem nas casas espíritas devem, cedo ou tarde,
ser encaminhadas às chamadas "sessões de desenvolvimento mediúnico". São dois os
motivos mais freqüentemente alegados para esse tipo de recomendação:


1. o empenho e dedicação com que alguém se interesse pelo Espiritismo, sugerindo,
segundo julgam, que tem "todas as condições" para exercer a mediunidade;
2. os desequilíbrios variados de saúde ou de comportamento que apresente, notadamente
quando venham desafiando a perícia dos médicos.
Ora, no primeiro caso dever-se-ia ponderar que as boas disposições da pessoa deverão
ser aproveitadas antes de mais nada em seu aperfeiçoamento intelectual e moral, e,
em se tratando de sua colaboração nas atividades do centro espírita, naquele setor ao
qual mais se ajuste por sua formação profissional, seus interesses e disponibilidades,
quais sejam a condução de estudos, a evangelização infanto-juvenil, a administração, a
biblioteca, as visitas fraternas, a costura de enxovais, a faxina, a distribuição de
alimentos, a acolhida aos novos freqüentadores etc., ou os trabalhos mediúnicos, se os
sinais de mediunidade se apresentarem de forma espontânea.

No segundo caso, que é o mais freqüente, seria preciso compreender que o mero fato de
alguém encontrar-se desequilibrado significa que não pode ser inserido no grupo
mediúnico, sob o risco de comprometer o seu bom funcionamento. A mediunidade em
si é uma faculdade neutra, que não tem qualquer conexão com os desajustes físicos,
mentais e espirituais da criatura. Estes surgem por motivos específicos, e requerem o
tratamento médico, psicológico ou espírita adequado ao caso. Somente após seu retorno
à normalidade é que a pessoa poderá participar, como médium, dos trabalhos
mediúnicos, se a faculdade surgir espontaneamente. O exercício da mediunidade não é
recomendável na presença de determinadas enfermidades físicas, como por exemplo,
nas doenças contagiosas, ou onde o equilíbrio orgânico esteja "por um fio" e a atividade
mediúnica envolva situações que emocionem muito o médium. No caso dos
desequilíbrios mentais e espirituais, o exercício mediúnico não pode nunca ser iniciado,
ou continuado. Um médium nessas condições não poderá contribuir positivamente,
além de gerar dificuldades para o grupo, facilitando mesmo a atuação de Espíritos
interessados na instalação da desarmonia, dos melindres, das suspeitas, do
enregelamento das relações entre os membros.

O desenvolvimento mediúnico a ser promovido nos centros espíritas não deve nunca ser
entendido como o aprendizado de técnicas e métodos para fazer surgir a mediunidade,
pois que não os há nem pode haver, mas exclusivamente como o aprimoramento e
direcionamento útil e equilibrado das faculdades surgidas de forma natural, o que
pressupõe o aperfeiçoamento integral do médium, por meio do estudo sério e de seus
esforços incessantes para amoldar suas ações às diretrizes evangélicas.


Ressaltemos, outrossim, que os núcleos espíritas não deverão iniciar qualquer trabalho
mediúnico, quer de desenvolvimento (no sentido correto do termo), quer, menos ainda,
de assistência aos Espíritos enfermos, se não estiverem seguros de que dispõem de
colaboradores suficientemente preparados, por seus conhecimentos doutrinários, por seu
equilíbrio psicológico e por sua conduta cristã, que disponham de tempo para encetar
com regularidade tão delicada tarefa.

Resumindo o que foi visto nesta seção:

· A mediunidade é uma faculdade natural, que surge espontaneamente.

· Não se deve procurar desenvolvê-la enquanto não aflorar por si só.

· O desenvolvimento da mediunidade deve ser entendido unicamente como a sua
educação, o seu aprimoramento, a sua disciplina, o seu direcionamento útil para o bem.

· A mediunidade não é a causa primária dos desequilíbrios orgânicos e psicológicos.

· O exercício da mediunidade não deve ser colocado como a culminação obrigatória das
atividades do cooperador da casa espírita.

4. Os mecanismos da mediunidade
Na presente seção procuraremos reunir alguns informes sobre os mecanismos da
faculdade mediúnica, ou seja, sobre como se dá o fenômeno mediúnico. A fonte básica
continuará sendo Allan Kardec. Iniciemos com este trecho, já parcialmente transcrito,
do capítulo "Manifestações dos Espíritos" de Obras Póstumas (§ 6, no 34; o destaque é
nosso):

O fluido perispirítico é o agente de todos os fenômenos espíritas, que só se podem
produzir pela ação recíproca dos fluidos que emitem o médium e o Espírito. O
desenvolvimento da faculdade mediúnica depende da natureza mais ou menos
expansível do perispírito do médium e da maior ou menor facilidade da sua assimilação
pelo dos Espíritos.

Esmiuçando as informações aqui contidas, notamos:

1. O perispírito desempenha papel de capital importância no processo mediúnico.
2. Sendo o perispírito "o agente de todos os fenômenos espíritas", e estes só podendo
produzir-se pela ação recíproca dos fluidos que emitem o médium e o Espírito, temos
como regra sem exceções que, ocorrendo um fenômeno de comunicação com o mundo
espiritual, necessariamente haverá a participação de um médium. Em alguns casos,
como em certas manifestações de efeitos físicos, não se nota a presença do médium,
mas podemos estar certos de que haverá alguém, em algum lugar, servindo de médium,
ainda mesmo que este não esteja consciente do papel que desempenha. Também
percebemos que serão vãos os esforços de certos pesquisadores que, desprezando a
riquíssima contribuição do Espiritismo para o estudo daquilo que (impropriamente)
denominam "paranormalidade", tentam detectar o Espírito unicamente por meio de
aparelhos. Se algum instrumento chegar a registrar um espírito, é porque houve a

participação oculta de algum médium. Neste caso, seria mais confiável analisar a
manifestação diretamente, sem o recurso indireto de instrumentos, que sempre
constituem fonte adicional de incertezas.

3. A presença da faculdade mediúnica em alguém liga-se à possibilidade de seu
perispírito "expandir-se". Veremos logo mais que essa "expansão" do corpo espiritual
pode ser entendida como a sua parcial desvinculação do corpo físico.
4. A efetivação da comunicação exige, além da "expansão" do perispírito do médium, a
assimilação deste com o perispírito do Espírito comunicante, ou seja, tem de haver
sintonia entre ambos. Esse fato importante, de que o médium em geral não é capaz de
comunicar-se indiscriminadamente com todos os Espíritos, é exposto em Obras
Póstumas imediatamente após o trecho que acabamos de transcrever (§ 6, no 35; os
grifos são nossos):
As relações entre os Espíritos e os médiuns se estabelecem por meio dos respectivos
perispíritos, dependendo a facilidade dessas relações do grau de afinidade existente
entre os dois fluidos. Alguns há que se combinam facilmente, enquanto outros se
repelem, donde se segue que não basta ser médium para que uma pessoa se comunique
indistintamente com todos os Espíritos. Há médiuns que só com certos Espíritos podem
comunicar-se ou com Espíritos de certas categorias, e outros que não o podem a não ser
pela transmissão do pensamento, sem qualquer manifestação exterior.

No exame do assunto do item 3, podemos colher subsídios em André Luiz, o autor
espiritual que tanto tem contribuído para a extensão de nosso conhecimento científico
acerca da mediunidade. Em sua obra Evolução em Dois Mundos, ao analisar a fase
evolutiva em que se elaborava a faculdade de desprendimento do veículo perispiritual
durante o sono (capítulo 17, item "Mediunidade espontânea"), adianta esta valiosa
informação (grifamos):

Consolidadas semelhantes relações com o Plano Espiritual [...], começaram na Terra os
movimentos de mediunidade espontânea, porquanto os encarnados que demonstrassem
capacidades mediúnicas mais evidentes, pela comunhão menos estreita entre as células
do corpo físico e do corpo espiritual, em certas regiões do campo somático, passaram
das observações durante o sono às da vigília, a princípio fragmentárias, mas acentuáveis
com o tempo [...].

Vemos, assim, que o respeitado cientista deixa entrever a correlação íntima entre a
possibilidade de contato com a realidade espiritual durante a vigília (mediunidade) e um
certo "afrouxamento" das ligações entre as células do perispírito e as suas
correspondentes do corpo material. Prosseguindo, André Luiz explicita mais essa
correlação:

Quanto menos densos os elos de ligação entre os implementos físicos e espirituais, nos
órgãos da visão, mais amplas as possibilidades na clarividência, prevalecendo as
mesmas normas para a clariaudiência e modalidades outras, no intercâmbio entre as
duas esferas [...].

Refletindo um pouco sobre as assertivas de André Luiz, verificamos, inicialmente, que
não conflitam com a explicação dada por Kardec, em termos da capacidade de


expansão do perispírito do médium. Há, pelo contrário, até um reforço, já que a noção
de "expansão" é aqui suficientemente abrangente e flexível para permitir ulteriores
elaborações e detalhamentos, dentro da natureza eminentemente progressiva do
Espiritismo. Podemos compreender, deste modo, a "expansibilidade" do perispírito
como a sua faculdade de desvinculação parcial e temporária do corpo físico,
passando, nesse estado especial, a partilhar da realidade do mundo espiritual para nela
colher impressões diversas, sem no entanto perder a possibilidade de atuação sobre o
corpo denso.

É fundamental deixar claro que o que acabamos de expor não corrobora de modo algum
a idéia popular de que no processo mediúnico o Espírito do médium "sai" e "dá lugar"
ao Espírito comunicante, que passaria então a servir-se diretamente do corpo do
médium. Os Instrutores Espirituais já esclareceram a Kardec, no importante capítulo
"Do papel do médium nas comunicações espíritas" de O Livro dos Médiuns que
essa idéia não corresponde à realidade. A mensagem sempre passa pelo Espírito do
médium, mesmo quando ele não guarda disso a consciência ao despertar do transe.
Vejamos o que dizem no item sexto do parágrafo 223:

O Espírito que se comunica por um médium transmite diretamente o seu
pensamento, ou este tem por intermediário o Espírito do médium?

"É o Espírito do médium que é o intérprete, porque está ligado ao corpo que serve para
falar e por ser necessária uma cadeia entre vós e os Espíritos que se comunicam, como é
preciso um fio elétrico para comunicar à grande distância uma notícia e, na extremidade
do fio, uma pessoa inteligente que a receba e transmita".

Compreendemos então que, em última instância, o comando do veículo físico só pode
ser feito pelo seu próprio "dono". Poderíamos dizer que o corpo material é feito "sob
medida" para cada Espírito, e que não "serve" para nenhum outro. O Espírito estranho
não tem como agir diretamente sobre as células materiais formadas sob a influência de
outro Espírito e para o seu próprio uso.

É interressante notar que nas questões seguintes à transcrita os Espíritos frisam mesmo
enfrentando uma oposição inicial de Kardec que essa é uma regra absoluta, sem
exceções, nem mesmo na mediunidade dita "mecânica", ou ainda nos casos de efeitos
físicos onde uma mensagem inteligente é transmitida (tiptologia, escrita por meio de
pranchetas etc). Vemos, na questão 10 do referido parágrafo, que os Espíritos
expressam indiretamente sua desaprovação a esse modo de denominar a mediunidade na
qual o médium não guarda consciência do conteúdo da cominicação: o médium jamais
atua como máquina, mecanicamente.

Resumindo o conteúdo desta seção:

· O perispírito desempenha papel essencial em todos os processos mediúnicos.

· A faculdade mediúnica liga-se à possibilidade de o perispírito desvincular-se
parcialmente do corpo físico durante a vigília.

· A comunicação não se efetiva sem que haja sintonia entre os perispíritos do médium e
do Espírito.


· A comunicação espiritual, ainda que de efeitos físicos, sempre passa pelo Espírito do
médium.

5. As modalidades mediúnicas
Um aspecto importante dos esclarecimentos de André Luiz é que permitem
compreender não somente como se dá o fenômeno mediúnico, mas também o porquê
da existência de diferentes modalidades de mediunidade. Observamos, pelos trechos
citados, que a faculdade mediúnica será deste ou daquele tipo conforme a região do
organismo em que as células do perispírito apresentem maiores possibilidades de
desvinculação das que lhe correspondem no corpo físico. Desse modo, segundo o
exemplo dado, se for nos órgãos da visão que ocorre a maior liberdade das células do
perispírito, a mediunidade assumirá a forma de vidência; se nos órgãos da audição, a de
audiência; se nos da fala, a de psicofonia, e assim por diante.

Devemos notar, no entanto, que os órgãos a que se refere André Luiz são, conforme se
depreende de outras passagens de sua obra, não tanto os órgãos periféricos olhos,
ouvidos, mãos etc., mas fundamentalmente as regiões do cérebro responsáveis por
seu comando. De fato, a ciência mostrou que há no cérebro grupos de neurônios
(células nervosas) mais ou menos especializados para as diversas faculdades sensoriais
e motoras. No caso da visão, por exemplo, tais neurônios recebem, através do nervo
óptico, os impulsos elétricos gerados na retina do olho, sinais esses que a alma
interpreta como imagens. O mesmo se dá, mutatis mutandis, com os demais sentidos.
No caso das funções motoras, ao comando da alma determinados centros cerebrais
enviam, através dos diferentes nervos, impulsos elétricos aos músculos, resultando daí
os movimentos corporais.

Kardec dividiu os médiuns em duas grandes categorias: os de efeitos físicos e os de
efeitos intelectuais. Os primeiros são "aqueles que têm o poder de provocar efeitos
materiais, ou manifestações ostensivas"; os segundos, "os que são mais especialmente
próprios a receber e a transmitir comunicações inteligentes" (O Livro dos Médiuns,
parágrafo 187). Para fins didáticos, é conveniente subdividir a categoria de efeitos
inteligentes em dois grupos: efeitos sensoriais (percepção da realidade espiritual na
forma de uma impressão dos sentidos) e efeitos intelectuais propriamente ditos
(transmissão de uma mensagem inteligente pela palavra escrita, oral, por gestos etc.).

Apresentaremos agora um quadro sinótico com os principais tipos de fenômenos
mediúnicos, associados às diversas modalidades mediúnicas. Trata-se de uma adaptação
do que foi elaborado por Jayme Cerviño em seu livro Além do Inconsciente, reunindo
apenas as modalidades mais importantes. Nesse interessante e original livro, o autor
infere, a partir de estudos clássicos da psicologia experimental e da neurofisiologia, bem
como de investigações sobre os fenômenos espíritas, quais regiões do encéfalo estariam
associadas às diferentes categorias de fenômenos espíritas.

EFEITOS INTELECTUAIS

(mediunidade de expressão cortical)

Efeitos estritamente intelectuais
(córtex frontal)


intuição
psicografia
psicofonia
psicopraxia
Efeitos sensoriais
(córtex extrafrontal)
vidência
audiência
sensitividade

EFEITOS FÍSICOS

(mediunidade de expressão subcortical)

Telergia
sons
luzes
odores
movimentos
curas
Teleplastia
materializações
Somatização
transfiguração
estigmatização

6. O exercício da mediunidade
Na seção 2 deste trabalho vimos que se deve fazer uma distinção clara entre a
mediunidade, enquanto faculdade, e o seu uso ou exercício. Se a faculdade em si é
neutra, o mesmo não vale para o seu uso, que pode ser bom ou mau, dependendo da
condição moral do médium.

Na Introdução de O Livro dos Médiuns Kardec destaca entre os objetivos da obra a
orientação para que a mediunidade seja empregada de modo útil. Um requisito essencial
para isso é a compreensão de sua natureza e mecanismos, no que o Espiritismo tem
contribuído de forma decisiva. Respeitando a liberdade humana, ele não poderia
prescrever normas de conduta para os médiuns de maneira cega, impositiva, sem um
esclarecimento racional da sua necessidade. É fácil constatar a justeza da afirmação de
Kardec, nessa mesma Introdução, de que "as dificuldades e os desenganos com que
muitos topam na prática do Espiritismo se originam na ignorância dos princípios desta
ciência".

A preocupação com a compreensão e o exercício corretos da mediunidade vem sendo
partilhada pelos espíritas sérios, que se conscientizaram da necessidade do crescimento
espiritual do médium para que sua faculdade seja bem empregada. Muitos dos grandes
autores espíritas dos dois planos da vida nos têm legado estudos e lições preciosas sobre
a mediunidade e seu objetivo. Procuraremos, no que se vai seguir, compilar alguns
desses ensinamentos.


Comecemos, no entanto, com O Livro dos Médiuns, em cujo parágrafo 226 Kardec
pergunta aos Espíritos (no 3):

Os médiuns que fazem mau uso de suas faculdades, que não se servem delas para o
bem, ou que não as aproveitam para se instruírem, sofrerão as conseqüências
dessa falta?

"Se delas fizerem mau uso, serão punidos duplamente, porque têm um meio a mais de
se esclarecerem e não o aproveitam. Aquele que vê claro e tropeça é mais censurável do
que o cego que cai no fosso."


A questão da responsabilidade moral do uso da mediunidade é semelhante à das
demais faculdades do homem. Aquele que emprega mal a inteligência, a palavra, os
dotes artísticos ou a força física arcará com as conseqüências desse emprego, devendo
expiar e reparar as faltas cometidas. No caso da mediunidade há um agravante,
conforme se salienta na resposta dada, pois ela é poderoso recurso iluminativo.


É por meio da mediunidade que nos certificamos de nossa natureza imortal, fato de
suma importância, em torno do qual gira todo o Espiritismo e sua doutrina moral. É ela
que nos desvenda a vida futura, possibilitando-nos conhecer de modo abrangente os
efeitos de nossas ações. Ajuizaremos então com mais acerto sobre o que nos convém ou
não fazer, com vistas à nossa felicidade integral.


Para nós, os encarnados, a mediunidade constitui advertência contra o equívoco de tudo
considerarmos do ponto de vista de nossos interesses materiais e imediatos,
incentivando-nos a lutar contra o egoísmo, o embrutecimento dos prazeres, a estagnação
do conhecimento.


Para os desencarnados sofredores, revoltados ou aturdidos, representa muitas vezes a
via preferencial de despertamento, possibilitando-lhes retomar o progresso espiritual. A
maioria das instituições espíritas em nosso país hoje em dia centraliza sua atuação
mediúnica precisamente nessa tarefa, tão louvável pelos benefícios que espalha, mas
também tão delicada em sua condução, exigindo muito preparo da equipe, quer no que
concerne ao conhecimento doutrinário e à disciplina, quer quanto ao espírito fraterno e à
devoção incondicional ao bem do próximo.


A esse respeito adverte Emmanuel no capítulo "Examinando a mediunidade" do livro
Encontro Marcado:
O exercício da mediunidade nas tarefas espíritas exige larga disciplina mental, moral
e física, assim como grande equilíbrio das emoções.


Na obra Educação e Vivência, lição "Mediunidade e problemas", o Espírito Camilo
tece as seguintes considerações, ainda dentro desse tópico:
Tristemente, porém, muitas dessas criaturas que se sabem ou se imaginam médiuns não
são bafejadas pelos recursos de amadurecido estudo, a fim de que compreendam o que é
que se passa nesse vasto território dos fenômenos psíquicos.


Seria de esperar que os indivíduos que se embrenham pelos bosques das percepções
mediúnicas fossem caindo em si, aprendendo que todos terão que dar conta desses
talentos formidáveis que lhes são concedidos, nas experiências terrenas, na condição de



empréstimo, proporcionando liberdade e ventura íntimas, logrando evadir-se dos
tormentosos episódios do pretérito culposo ou negligente.

E em Cintilação das Estrelas (capítulo 32) esse lúcido Espírito prossegue no assunto:

Em mediunidade é importante que o médium se aplique em melhorar-se a si
próprio, ampliando as percepções, iluminando-se a cada hora, nas lutas que deve
enfrentar, na pauta do cotidiano.

O desenvolvimento da mediunidade marcha ladeando o desenvolvimento do
médium. Quanto melhor o indivíduo, maior a sua fulgência mediúnica no bem.

Aprimore-se o homem para que se lhe ampliem as posições de sensibilidade
mediúnica.

Têm-se infelizmente observado muitos agrupamentos mediúnicos descuidados quanto
às superiores finalidades da mediunidade, bem como quanto às diretrizes doutrinárias
que devem guiar sua prática. Não raro desenvolvem suas atividades de forma
ritualística, tratando os médiuns como simples máquinas de comunicação.

No momento do intercâmbio, os trabalhadores assumem posturas formais, como que
denotando concentração e devoção ao bem, mas que nem sempre se fazem acompanhar
das atitudes íntimas correspondentes. Manoel Philomeno de Miranda comentou esse
tópico no capítulo intitulado "Mediunidade e viciação", do livro Sementeira da
Fraternidade (p. 123):

O médium é filtro por cuja mente transitam as notícias da vida além-da-vida.

Nesse sentido, consideramos a concentração mental de modo diverso dos que a
comparam a interruptor de fácil manejo que, acionado, oferece passagem à energia
comunicante, sem mais cuidados... A concentração, por isso mesmo, deve ser um estado
habitual da mente em Cristo, e não uma situação passageira junto ao Cristo.

Já analisamos na seção 3 a situação na qual o aparecimento da faculdade mediúnica se
dá juntamente com desequilíbrios físico-espirituais variados, destacando o erro dos que
consideram tais distúrbios como uma conseqüência da mediunidade em si. Em
Educação e Vivência (p. 111), Camilo enfoca outro ângulo dessa questão:

A decantada "mediunidade de provas" não passa de episódio no qual alguém em provas
e sérias expiações recebeu da Divina Misericórdia as excelências da sensibilidade
mediúnica, através de cujas portas será chamado ou convocado à assunção de
responsabilidades, bem como ao cumprimento dos deveres para com Deus, através do
próximo.

Dessa forma a mediunidade, mesmo quando se apresente assinalada por impertinentes
padecimentos dos médiuns, representa para eles a mão da Celeste Providência evitando
dores maiores e tormentos mais acerbos.

A origem do nosso sofrimento, da nossa aflição, não reside na mediunidade, mas a
bagagem de desacertos que ainda trazemos, acumulada nesta e em vidas pregressas. É


por isso que nossos recursos mediúnicos, neutros em si memos, amiúde ainda se ligam
aos mundos de sombra. Mal empregada, a mediunidade significará o cultivo da
ignorância, a disseminação da dúvida e da mentira, o insuflamento do egoísmo e do
orgulho, da vaidade e do personalismo, o verbo e o texto degradantes, a manipulação de
forças mentais deletérias, a porta aberta às obsessões.

No capítulo 39 do livro Sementeira da Fraternidade, Vianna de Carvalho descreve a
mediunidade como "canal cósmico por onde transitam seguras as consolações e
esperanças para o atribulado espírito humano" (p. 179), destacando outro aspecto da
mediunidade: o consolo que prodigaliza ao homem em sua vida de incertezas e de
dores. Que de mais belo existe do que saber que o abismo que se imagina existir entre
nós e os entes queridos que já partiram não é intransponível; que os sofrimentos que não
conseguimos evitar têm causas justas ligadas ao nosso passado!...

Dádiva com que a misericórdia divina nos favorece, informando-nos de nossa natureza
de seres imortais, a mediunidade bem empregada reveste as formas de esclarecimento
acerca da vida além-túmulo, de consolo para os que perderam a esperança, de
advertência salvadora para os equivocados, de amparo para os que cambaleiam, de
recursos terapêuticos para os que enfermaram, de despertamento para os sofredores e os
trânsfugas do dever que já cruzaram a aduana da morte. Daí a necessidade de
desenvolvermos esse abençoado talento, nos trabalhos da caridade, nos exercícios
constantes de benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições dos
outros, de perdão das ofensas, conforme a questão 886 de O Livro dos Espíritos.

Reconheçamos, acima de tudo, que mais importante do que sermos bons médiuns, no
que toca à faculdade, é sermos médiuns bons, a serviço de Jesus.

Referências bibliográficas

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13a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1955. Evolução em Dois
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59. "A excelência metodológica do Espiritismo", Reformador, novembro de 1988, pp.
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EMMANUEL. O Consolador. (Médium Francisco Cândido Xavier.) 8a ed., Rio de
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KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (dépôt légal 1985).
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1986. Le Livre des Médiums. Paris, Dervy-Livres, s.d. (dépôt légal 1978). O Livro dos
Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro, 59a ed., revista, Rio de Janeiro, Federação Espírita
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Fraternidade. (Ditado por Espíritos diversos a Divaldo Pereira Franco.) 3a ed., Salvador,
Livraria Espírita Alvorada Editora, 1979. Capítulo 25, pp. 121-24.

VIANNA DE CARVALHO. "Hipnose e mediunidade", in: Sementeira da Fraternidade.
(Ditado por Espíritos diversos a Divaldo Pereira Franco.) 3a ed., Salvador, Livraria
Espírita Alvorada Editora, 1979. Capítulo 39, pp. 177-81.

(Artigo publicado na Revista Internacional de Espiritismo, setembro de 1996, pp. 24749.)


... Silvio & Silvia Seno Chibeni

> A concepção espírita de fatalidade

Artigos


1. Introdução {nota 1}
No capítulo "Da lei de liberdade" de O Livro dos Espíritos Allan Kardec analisou com


lucidez diversas questões relativas à fatalidade, dedicando-lhes uma seção inteira. Neste
artigo pretendemos expor brevemente a concepção espírita de fatalidade, estabelecida
naquela seção e em obras complementares.
Ao iniciar qualquer estudo, é sempre conveniente ter clareza quanto ao significado
preciso dos termos envolvidos. Consultando o dicionário, verificamos que fatalidade é a
marca do que é fatal, a força que predispõe irrevogavelmente os acontecimentos, o
destino. Fatal é aquilo que é certo, prescrito pelo destino, irrevogável, que
necessariamente acontecerá, inevitável, decisivo, inadiável, funesto, nefasto.

As duas últimas acepções do adjetivo fatal indicam algo de caráter negativo. Na
concepção vulgar, esse aspecto mistura-se às primeiras acepções, resultando daí a idéia
de que a fatalidade é a ocorrência inevitável de alguma coisa ruim. Essa associação da
predeterminação com algo trágico, nefasto, porém, não é necessária. Em um sentido
geral, a noção de fatalidade é neutra quanto à natureza boa ou má dos acontecimentos.
Ao inspecionarmos a seção sobre a fatalidade de O Livro dos Espíritos verificamos
facilmente que é esta noção geral, neutra, que está sendo ali estudada; é, portanto, a que
nos interessará neste trabalho também.

Como o próprio termo indica, dizer que um fato está predeterminado é afirmar que sua
ocorrência é determinada de maneira certa pelo estado de coisas que a antecede. A
noção de predeterminação pressupõe a existência de uma como que "amarração" entre
os acontecimentos: uns levariam a outros infalivelmente.
Quando consideramos os acontecimentos do mundo de um modo geral, são concebíveis
três possibilidades: 1) todos estariam predeterminados (determinismo); 2) nenhum
estaria predeterminado (aleatoriedade); e, 3) apenas alguns estariam predeterminados.
Conforme veremos, é esta última posição, intermediária entre os dois extremos, que é
aceita pela ciência contemporânea e pelo Espiritismo.

Ao formular a pergunta 851 de O Livro dos Espíritos, que abre a seção sobre a
fatalidade, Kardec esclarece que entende a fatalidade como a predeterminação completa
dos acontecimentos. Ao longo da seção, são expostos os motivos pelos quais não pode
existir a fatalidade nesse sentido extremo, de uma predeterminação de tudo quanto
ocorre. São também indicadas as circunstâncias especiais em que pode haver um certo
tipo de predeterminação dos acontecimentos. A compreensão satisfatória desses pontos
requer a análise de vários conceitos filosóficos, como o de determinismo, o de livre-
arbítrio, o de causalidade etc. É o que procuraremos fazer a seguir, de forma bastante
simplificada.

2. Determinismo e livre-arbítrio
A tese filosófica do determinismo, discutida há milênios pelos filósofos, sustenta que
tudo o que acontece está predeterminado, podendo em princípio ser previsto por quem
possua conhecimento completo do mundo em um dado instante. O Universo seria
comparável a uma imensa máquina em funcionamento automático e infalível.

No exame das questões relativas ao determinismo é de suma importância, quer do ponto
de vista filosófico, quer espírita, distinguir os acontecimentos do âmbito exclusivo da
matéria daqueles que envolvem seres de natureza espiritual.
Muitos filósofos e cientistas de épocas passadas sustentaram que a matéria comporta-se
de forma completamente determinista. Com a criação da ciência moderna, nos séculos


XVI e XVII, essa posição ganhou força, visto que as novas teorias mecânicas, que
culminaram na monumental síntese newtoniana, incorporam o determinismo em suas
equações fundamentais.
Com o ulterior desenvolvimento da ciência a crença no determinismo enraizou-se. No
final do século XIX e início do século atual, a formulação do eletromagnetismo, da
mecânica estatística e das teorias da relatividade dentro desse mesmo referencial
conceitual foi freqüentemente interpretada como sua consolidação definitiva.

No entanto, essa visão de mundo suscitou dificuldades filosóficas de grande monta,
quanto à sua compatibilização com o livre-arbítrio humano. Com efeito, a experiência
psicológica da liberdade de nossos pensamentos e ações é algo indubitável. Mas essa
experiência parece conflitar com o determinismo da matéria, qualquer que seja a
concepção acerca da natureza humana. É interessante notar que, com seu senso
filosófico apurado, Allan Kardec abre a referida seção sobre a fatalidade precisamente
com uma questão sobre o conflito entre fatalidade plena e livre-arbítrio.

Na perspectiva materialista, tudo no homem seria matéria. Ele estaria, pois, sujeito ao
mesmo determinismo que existe no movimento dos astros, na queda de uma pedra, no
movimento de um relógio. Como conciliar isso com o fato de sentirmos, com toda a
clareza de que é capaz o nosso entendimento, que levantamos ou abaixamos o braço,
andamos para a esquerda ou a direita, dizemos isso ou aquilo, com inteira liberdade?

Dificuldade semelhante surge na visão dualista, segundo a qual o homem é um espírito
ligado a um corpo. Se o corpo, que é matéria, tiver seus mínimos movimentos
predeterminados, como poderá o espírito atuar livremente sobre ele, fazendo-o executar
essa ou aquela ação?

Os esforços dos filófosos para solucionar o problema não alcançaram qualquer êxito.
Felizmente, porém, ele tornou-se amplamente irrelevante com o advento da mecânica
quântica, na década de 1920. Essa teoria descreve a estrutura íntima da matéria, e
representa a mais abrangente, precisa e bem sucedida teoria científica de todos os
tempos. Pois bem: ao contrário das demais teorias físicas, a mecânica quântica não
prevê um comportamento totalmente determinista para a matéria. Além disso,
sofisticados estudos teóricos e experimentais recentes indicaram que qualquer tentativa
de reinstalar teorias deterministas na microfísica encontrará necessariamente
dificuldades proibitivas.

Tais avanços da ciência parecem haver renovado o referencial conceitual no qual o
problema do livre-arbítrio humano deve ser analisado. As perspectivas de se conceber o
ser humano como um espírito livre que atua sobre um corpo material desbloquearam-se.
Deve-se todavia notar que ainda quase nada foi feito nesse sentido nos círculos
acadêmicos.{nota 2}
O Espiritismo, porém, há muito tempo estabeleceu essa concepção, por meio de suas
investigações científicas dos fenômenos espíritas. Confirmou a visão dualista que situa

o pensamento, a vontade e o sentimento do homem num espírito independente da
matéria. Mostrou também que esse espírito antecede e sobrevive ao corpo. De acordo
com os últimos avanços da ciência, o comando do corpo pelo espírito é perfeitamente
compatível com as leis que regulam o comportamento da matéria, já que estas
contemplam a existência de processos indeterministas no nível dos constituintes
fundamentais dos corpos, como prótons, nêutrons, elétrons etc.

3. Fatalidade e relação de causa e efeito
Estudemos um pouco mais a questão da predeterminação dos acontecimentos do
domínio exclusivo da matéria. Segundo a ciência contemporânea, muitos desses
acontecimentos de fato são predeterminados. Os movimentos dos orbes celestes, a
queda de uma maçã, a propagação de uma onda de rádio constituem exemplos típicos.
Especificada a altura da qual a maçã cai, sua forma, a viscosidade do ar, a força
gravitacional que sobre ela exerce a Terra etc., as leis da mecânica permitem em
princípio o cálculo do tempo de queda e a velocidade que terá ao atingir o solo, entre
outras coisas.
Se quisermos, podemos caracterizar esses eventos previstos como efeitos, e a força
gravitacional e as condições iniciais da maçã como causas. Dadas as causas, seguem-se
os efeitos de modo certo. Isso faz ver que a fatalidade parcial que existe no mundo
material está ligada à existência de certas relações causais.

Conforme apontamos na seção anterior, a física contemporânea reconhece que, mesmo
no âmbito puramente material, há processos indeterministas, que não seguem esse
padrão de previsibilidade estrita. Nesses casos, as noções de causa e efeito continuam
aplicáveis, embora em sentido ampliado: as causas não determinam os efeitos
individualmente, mas apenas as probabilidades de sua ocorrência.

Ao considerarmos os eventos em que participam seres humanos, fatores novos
intervêm, devido à presença do elemento espiritual dotado de livre-arbítrio. Esses
eventos em geral também não são passíveis de uma descrição determinista.

Todavia, enquanto encarnados estamos em associação estreita com a matéria, sendo
possível que o encadeamento estrito de alguns eventos materiais nos afete de modo
direto ou indireto. Por exemplo, vários processos físicos, químicos e biológicos do
corpo humano são, em boa aproximação, deterministas. A passagem de uma corrente
elétrica intensa através do corpo provoca choques; a ingestão de determinada porção de
uma substância venenosa causa a morte; doses apropriadas de radiação gama destroem
tumores, enquanto que doses muito elevadas os ocasionam; a transpiração resfria a pele;
e assim por diante.

Desse modo, na medida em que participamos do mundo material há certos
acontecimentos que se podem dizer predeterminados em nossas vidas. O que os
predetermina, porém, são leis físicas, químicas, biológicas, na presença de certas causas.

É indispensável observar que muitas dessas causas decorrem, a seu turno, de ações que
livremente praticamos. No caso da ingestão do veneno, por exemplo, pode-se dizer que
a pessoa fatalmente morrerá. A predeterminação da morte, todavia, é condicionada à
prévia ingestão da substância tóxica, o que em geral depende da livre decisão de
alguém. A morte não está predeterminada em termos absolutos: se o veneno não for
ingerido, ou se for administrado um antídoto eficaz, ela não advirá.

Tudo isso é do escopo das ciências acadêmicas. O Espiritismo complementa-as de
forma substancial, fornecendo o conhecimento de inúmeros e importantes outros
vínculos causais entre os acontecimentos. Por sua própria concepção, tais ciências
restringem sua análise ao aspecto material do ser humano. Não podem, assim,


acompanhar os efeitos das ações humanas além da morte corporal, nem identificar
causas e efeitos de natureza espiritual, presentes, por exemplo, em fenômenos
mediúnicos, obsessivos e anímicos. Foi a ciência espírita que, pioneiramente, adentrou
esse estudo utilizando-se de metodologia racional-experimental.{nota 3}

É nesse sentido que muitos autores espíritas costumam referir-se à chamada lei de causa
e efeito, ou de ação e reação, que regula as ocorrências da vida, em um sentido amplo,
englobando os eventos referentes ao ser espiritual. A lei de causalidade restrita ao
domínio da matéria, que as ciências ordinárias estudam, pode ser entendida como caso
especial dessa lei mais ampla.

4. Livre-arbítrio e relação de causa e efeito
Cada evento tem uma causa, em geral bastante complexa, envolvendo múltiplos eventos
anteriores, próximos ou remotos no espaço e no tempo. Todos esses fatores têm de estar
presentes para que o acontecimento se verifique. Voltando ao exemplo da maçã, para
ela cair em tantos segundos e com tal velocidade uma série de condições têm de ser
satisfeitas: força de atração, desprendimento da macieira, ar com uma certa viscosidade
etc. É o conjunto dessas condições que, mais apropriadamente, se deve entender como a
causa da queda, embora nas situações ordinárias se fixe a atenção em apenas algumas
delas, por conveniência ou dificuldade de conhecê-las todas. A pergunta "Por que a
maçã caiu desse modo?" pede a especificação de uma causa. Dependendo do interesse, a
resposta enfocará um determinado componente da causa total: um dirá que foi porque a
Terra a atraiu; outro, que foi porque se soltou do galho; outro ainda porque ventou forte,
todos podendo estar certos.

Os acontecimentos de que diretamente participamos são passíveis de análise
semelhante, ou seja, podemos investigar suas causas gerais ou particulares. Meu dedo se
queimou porque o encostei numa uma panela quente; meu ritmo cardíaco aumentou
agora porque acabo de correr; fiquei sonolento esta tarde porque me alimentei
excessivamente no almoço. Nessas respostas, apenas os fatores mais salientes das
causas foram apontados. As causas são, nesses casos, mais ou menos próximas no
tempo, e dependem de escolhas que livremente fizemos: pegar a panela sem luvas,
correr ao invés de andar, comer demais.

O Espiritismo mostra-nos que se as causas dos acontecimentos mais importantes
de nossas vidas, felizes ou dolorosos, não puderem ser localizadas na vida presente,
certamente existirão em passado anterior ao nosso renascimento. Os efeitos de
nossos atos, conformes ou contrários à lei que vela pela harmonia do Universo, podem
ser imediatos ou ocorrer em futuro mais ou menos distante. É isso, incidentalmente, que
possibilita entender muitas das disparidades nas condições físicas, sociais etc., dos seres
humanos dentro do quadro da justiça divina. Cada pessoa encontra-se num contexto
parcialmente determinado pelo conjunto de suas ações desta vida, das vidas anteriores e
dos períodos na erraticidade, sempre levadas em conta suas necessidades expiatórias,
provacionais e de aprendizado de um modo geral.

A possibilidade de interferirmos no curso dos acontecimentos, agravando ou atenuando
os efeitos ruins, promovendo ou embaraçando os efeitos bons, encontra-se claramente
expressa na questão 860 de O Livro dos Espíritos, que agora transcrevemos em parte:
{nota 4}


Pode o homem, pela sua vontade e por seus atos, fazer que se não dêem
acontecimentos que deveriam verificar-se e reciprocamente?
"Pode-o, se essa aparente mudança na ordem dos acontecimentos tiver cabimento
na seqüência da vida que ele escolheu. [...]"


Todas as nossas ações, por insignificantes que sejam, fazem-se acompanhar de certos
efeitos, que se vão superpondo uns aos outros. Em cada momento, vivemos em meio a
esse conjunto de efeitos. A importância prática de adquirirmos conhecimento acerca das
leis que regem a matéria e o espírito reside em que, sabendo melhor quais serão os
efeitos daquilo que fizermos, poderemos agir de modo a criar situações que nos
aproximem da felicidade. Somos, por assim dizer, os construtores de nossos próprios
destinos.

5. Programação da existência corporal
Boa parte das questões que formam a seção sobre a fatalidade de O Livro dos Espíritos
referem-se direta ou indiretamente à questão da programação da existência corporal.
Essa programação enquadra-se no princípio geral que estamos analisando. Na medida
em que o ser amadurece espiritualmente, tornando-se mais consciente, poderá avaliar
por si próprio as principais ações praticadas e, no estado de erraticidade, planificar
certos aspectos de sua futura encarnação, freqüentemente auxiliado por Espíritos
amigos. Assim é que, por exemplo, seu corpo, seu meio social, os componentes de seu
grupo familiar poderão, em certa medida, ser objeto de escolha, com vistas às suas
necessidades evolutivas.

Levando porém em conta que entre a época da programação e a da ocorrência
programada os seres envolvidos continuarão agindo, criando novos efeitos que se
juntarão aos anteriores, o fato poderá ser parcialmente alterado. Conforme assinala
Allan Kardec no item 872, os detalhes dos acontecimentos dependem de circunstâncias
que o próprio homem encarnado cria pelos seus atos.
Na resposta à questão 861 encontramos uma importante distinção, quanto à fatalidade,
entre os acontecimentos materiais e os de ordem moral (espiritual):
"Demais, sempre confundis duas coisas muito distintas: os sucessos materiais da vida e
os atos da vida moral. Se há, às vezes, fatalidade, é nos acontecimentos materiais cuja
causa reside fora de vós e que independem da vossa vontade. Quanto aos atos da vida
moral, esses emanam sempre do próprio homem que, por conseguinte, tem sempre a
liberdade de escolher. No tocante, pois, a esses atos, nunca há fatalidade."

Podemos entender melhor esse ponto se considerarmos o fato, anteriormente apontado,
de que somente a matéria, por ser inanimada e passiva, pode estar sujeita a um
preordenamento preciso. Já os nossos atos, estes subordinam-se em cada instante à
nossa vontade livre. Assim, um corpo malformado ou perfeito, uma doença grave ou
sua cura, uma queda mortal, poderão ser fatais, no sentido mais estrito do termo. Mas
um assassinato, uma difamação, uma reconciliação, uma doação caritativa nunca serão
fatais. Note-se que isso vale para todas as partes envolvidas, mesmo as que ocupam a
posição de vítimas. Ninguém pode renascer para ser alvo de difamação ou assassinato,
porque isso exigiria que alguém renascesse para difamar ou assassinar, o que é
claramente absurdo.


É por isso que a resposta da questão 851 adverte que a fatalidade só pode existir com
relação às provas físicas (como certas doenças e acidentes que se não conseguem
evitar), nunca porém com relação às provas morais (como as traições, os desgostos
com o comportamento de entes queridos, as humilhações).

6. Previsão do futuro
O problema controverso da previsão do futuro também se elucida quando se
compreendem corretamente as leis que correlacionam os eventos de nossas vidas. O
futuro será, em princípio, previsível somente na medida em que se tenha acesso
completo e seguro às causas dos eventos, e as leis que os correlacionem forem de tipo
determinista. Dissemos em princípio porque, mesmo conhecendo completamente as
causas e sendo as leis deterministas, faz-se ainda mister efetuar as deduções dos efeitos,

o que em geral está fora de nossa capacidade prática.
Ora, no que toca aos acontecimentos não-triviais das vidas dos homens, ordinariamente
nenhuma dessas três condições é satisfeita. Não conhecemos a totalidade das causas;
não há encadeamento determinista dos eventos (devido à presença do livre-arbítrio); e,
mesmo que houvesse, não seríamos efetivamente capazes de deduzir os efeitos das
causas, dada a complexidade extrema das situações típicas.

Disso se conclui que, a não ser em condições muito especiais e limitadas, dentro do
domínio exclusivamente material, o futuro é indeterminado e imprevisível. (Para
maiores detalhes sobre esse assunto, consulte-se Chagas 1996.)

7. Aspectos morais
Com o esclarecimento racional fornecido pelo Espiritismo, as questões da fatalidade e
do destino perdem o caráter místico com que freqüentemente são revestidas. Nada do
que nos sucede é questão de sorte ou azar. Vemos que são quiméricas as idéias de que
ocorrências de nossas vidas são influenciadas pelos astros, pelos nomes, pelos números
e outros fatores externos semelhantes, que não encontram lugar na lei de causa e efeito e
na justiça divina.

O mal que nos acontece, acontece na hora certa, na medida certa, porém como
conseqüência de ações más livremente praticadas, nesta vida ou em vidas anteriores.
Igualmente, as situações felizes que vivemos não são obra de puro acaso, mas foram
preparadas por nós mesmos quando agimos de acordo com as recomendações
evangélicas, ou seja, quando fazemos o bem.
Não há um destino transcendente, que nos arraste em seu turbilhão, independentemente
do que sejamos ou façamos.{nota 5} O destino que existe é aquele que nós mesmos
construímos, e que podemos ir modificando a cada momento, no quadro das leis
naturais que regem o mundo. Esse ponto é expresso de forma muito feliz por Emmanuel
no capítulo "Fatalidade e livre-arbítrio" do livro Nascer e Renascer, do qual destacamos
os seguintes trechos:

É por isso que fatalidade e livre-arbítrio coexistem nos mínimos ângulos de nossa
jornada planetária.

Geramos causas de dor ou alegria, de saúde ou enfermidade em vários momentos de


nossa vida.

O mapa de regeneração volta conosco ao mundo, consoante as responsabilidades
por nós mesmos assumidas no pretérito remoto e próximo; contudo o modo pelo
qual nos desvencilhamos dos efeitos de nossas próprias obras facilita ou dificulta a
nossa marcha redentora na estrada que o mundo oferece.

Importa notar ainda que as leis naturais, ou divinas, têm por objetivo último o bem da
criatura. É fácil perceber, por exemplo, que as dores físicas conseqüentes a algumas de
nossas ações visam à preservação de nosso corpo. Assim, se não sentíssemos dor ao
tocar um objeto quente, não o soltaríamos imediatamente, resultando daí lesões graves
em nossa mão. De igual modo, as dores morais, e mesmo certas dores físicas sem causa
imediata, objetivam à nossa educação espiritual. Ajudam-nos a ver que, com nossas
ações, interferimos indebitamente na harmonia do Universo, violando as leis de amor
que nos devem guiar o comportamento frente aos homens e demais seres da criação.


Consideremos um exemplo: uma pessoa resolve embriagar-se e, nesse estado, põe-se a
dirigir um veículo. Em seu percurso, atropela um pedestre, ferindo-o gravemente. O
motorista contrai, nesse instante, um débito para com a lei divina, que lhe será causa de
sofrimentos futuros. Cedo ou tarde enfrentará as conseqüências dolorosas de seu ato,
tendo ainda que reparar o mal causado ao seu próximo. Mas como Deus não é apenas a
suprema justiça, mas também a suprema bondade, o devedor não precisará pagar sua
dívida com a mesma "moeda"; poderá, por vontade própria, resolver saldá-la com amor.
Eis porque o apóstolo afirmou: "O amor cobre a multidão de pecados" (I Pedro 4: 8),
contrapondo-se ao ditado de que "quem com ferro fere, com ferro será ferido".


Para o pedestre, a ocorrência possivelmente representará o efeito de uma dívida
anteriormente contraída, de um erro cometido no passado próximo ou distante. Terá
sido uma forma bastante dura de aprender e resgatar, determinada pelas necessidades do
seu caso particular. Em outros casos, o aprendizado e a expiação de erros semelhantes
podem ser alcançados por processos mais brandos, menos dolorosos.


A lei pode ser flexibilizada, porque seu objetivo é sempre educar, nunca punir. Se a
criatura já aprendeu a lição, reparou seu erro e está exercendo o amor, não mais precisa
continuar sofrendo. Sobre esse ponto, é oportuna a leitura da seção "Código penal da
vida futura", do capítulo 7 da primeira parte de O Céu e o Inferno, de Allan Kardec.


Vejamos estes trechos:


16o. O arrependimento é o primeiro passo para a melhora; mas só isso não basta, sendo
ainda precisas a expiação e a reparação.
Arrependimento, expiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os
traços de uma falta e suas conseqüências.
O arrependimento suaviza as dores da expiação, ao dar esperança e preparar os
caminhos da reabilitação. Contudo, somente a reparação pode anular o efeito,
destruindo a causa; o perdão seria uma graça, e não uma anulação.


17o. O arrependimento pode ocorrer em qualquer parte e em qualquer momento; se
tardar, o culpado sofrerá por mais tempo.
A expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais, que são a conseqüência da falta



cometida, verificando-se quer já na vida presente, quer após a morte, na vida espiritual,
ou ainda numa nova existência corporal, até que os traços da falta sejam apagados.

A reparação consiste em fazer o bem a quem se haja feito o mal. [...]

A possibilidade do abrandamento das conseqüências dolorosas de nossas ações pelos
esforços que façamos nesse sentido é ilustrada em conhecido episódio narrado por
Hilário Silva no livro A Vida Escreve (cap. 20, "O merecimento"):

Saturnino Pereira sofre um acidente na fábrica onde trabalha, vindo a perder o polegar
direito. Seus colegas e amigos comentam a injustiça da ocorrência, dada a grande
dedicação de Saturnino ao bem de todos. Comparecendo à reunião mediúnica em que
colabora regularmente, um benfeitor espiritual espontaneamente lhe esclarece que, em
existência anterior, foi poderoso sitiante que, num momento de crueldade, puniu
barbaramente um pobre escravo, moendo-lhe o braço direito no engenho. Com o
despertar de sua consciência, atrozes remorsos torturaram-no no além-túmulo.
Deliberou então impor-se rigoroso aprendizado, programando um acidente para a futura
encarnação, no qual perderia o braço. No entanto, sua renovação para o bem,
testemunhada por suas ações, possibilitou que o acidente apenas lhe ocasionasse a perda
de um dedo.

Notas

1. Algumas idéias deste texto foram motivadas por palestra proferida por José Carlos
Angelo Cintra no âmbito da II Semana Espírita da Unicamp, promovida pelo Grupo de
Estudos Espíritas da Unicamp, em outubro de 1995. [volta]
2. Algumas propostas têm-se difundido nos círculos leigos, misturando referências
esparsas à física contemporânea com idéias religiosas, místicas etc. No entanto, uma
análise autorizada e isenta revela que são prematuras e pouco rigorosas. O que estamos
afirmando no texto não deve ser entendido como uma aprovação, ou mesmo um
incentivo a trabalhos dessa natureza. Estamos apenas salientando que a visão da matéria
fornecida pela ciência de hoje não representa mais um obstáculo à concepção espírita do
homem como um ser dotado de livre-arbítrio. Sobre esse ponto, ver os artigos Xavier Jr.
1995, Chagas 1995 e Chibeni 1984. [volta]
3. Sobre a ciência espírita e suas relações com a ciência acadêmica, consultem-se
Borges de Souza 1986, Chagas 1984, 1987 e 1994, Chibeni 1988, 1991 e 1994, bem
como os trabalhos citados na nota 2. [volta]
4. Nesta e demais citações de obras de Allan Kardec, utilizamos os textos originais,
aproveitando em grande parte as traduções publicadas pela Federação Espírita
Brasileira. [volta]
5. Diante de certas ocorrências trágicas, é comum ouvir-se dizer que "tinham que
acontecer", que "estavam escritas". Essa opinião, que o Espiritismo mostra incorreta
quando generalizada, é analisada de forma interessante em Simonetti 1996. [volta]
Referências


• BORGES DE SOUZA, J. "Pesquisas e métodos", Reformador, abril de 1986, pp. 99101.
• CHAGAS, A. P. "O que é a ciência", Reformador, março de 1984, pp. 80-83 e 93-95.
• -----. "As provas científicas", Reformador, agosto de 1987, pp. 232-33.

• -----. "A Ciência confirma o Espiritismo?" Reformador, julho de 1995, pp. 208-11.

• -----. "O Espiritismo na Academia?" Revista Internacional de Espiritismo, fevereiro de
1994, pp. 20-22 e março de 1994, p. 41-43.

• -----. Sobre a previsão do futuro. Revista Internacional de Espiritismo, maio de 1996,
pp. 124-25.

• CHIBENI, S.S. "Espiritismo e ciência", Reformador, maio de 1984, pp. 144-47 e 15759.
• -----. "A excelência metodológica do Espiritismo", Reformador, novembro de 1988,
pp. 328-33, e dezembro de 1988, pp. 373-78.

• -----. "Ciência espírita", Revista Internacional de Espiritismo, março de 1991, pp. 45


52.
• -----. "O paradigma espírita", Reformador, junho de 1994, pp. 176-80.

• EMMANUEL. "Fatalidade e livre-arbítrio" (Psicografia de F. C. Xavier.). In: Nascer e
Renascer. São Bernardo do Campo, GEEM, 1982.
• KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Paris, Dervy-Livres, s.d. (dépôt légal 1985). O
Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro, 64a ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita
Brasileira, s.d.
• -----.Le Ciel et l'Enfer. Farciennes, Editions de l'Union Spirite, 1951. O Céu e o
Inferno. Trad. Manuel Quintão, 28a ed., Rio de Janeiro, Federação Espíria Brasileira,

s.d.
• SILVA, H. A Vida Escreve. (Psicografia de F. C. Xavier e Waldo Vieira.) 5a ed., Rio
de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1960.
• SIMONETTI, R. "Tinha que acontecer?", Reformador, maio de 1996, pp. 138-39.
• XAVIER JR., A. L. "Algumas considerações oportunas sobre a relação Espiritismo-
Ciência", Reformador, agosto de 1995, pp. 244-46.
Artigo publicado em Reformador de junho de 1997, pp. 176-180.
... Daniel Chiozzini


> O direito de morrer
Artigos


O caso da norte-americana Terry Schiavo suscitou o debate sobre a eutanásia em todo o
mundo. A decisão pelo desligamento ou não dos aparelhos que a mantinham viva
estendeu-se pelos tribunais. Vários laudos técnicos foram usados na disputa judicial,
além de funcionarem também como atenuante para a solução final: ela praticamente não
teria sofrido durante os treze dias em que ficou sem água e comida até falecer, já que
seu cérebro estaria comprometido a ponto dela não sentir mais dor, fome ou sede. O
embate jurídico em torno da manutenção ou não da vida da paciente mostrou que a
questão, do ponto de vista exclusivo da medicina e do direito, está longe de ter um
ponto final. Nesse contexto, a ética e a filosofia podem contribuir de maneira
significativa para um avanço das discussões e de critérios para decisões em torno do
assunto.

Entre os médicos, o conceito de morte cerebral é padronizado e aceito
internacionalmente. Ocorre quando um paciente encontra-se em um quadro de falência
total do sistema nervoso central, caracterizável como irreversível. Já uma falência
parcial do cérebro pode levar ao controverso conceito de "estado vegetativo", quando
existe um comprometimento das respostas do organismo aos estímulos nervosos. Mas,
em muitos casos, o grau desse comprometimento é impossível de ser aferido e avaliado
com exatidão. Desse modo, os argumentos de natureza estritamente técnica mostram-se
insuficientes para decidir pela interrupção ou não da vida de uma pessoa que, por
exemplo, vive com o auxílio de aparelhos. O debate ético em torno do assunto, que no
Brasil é ainda incipiente, lança novos pontos de vista sbre a eutanásia.

"O que seria, no caso de Terry Schiavo, algo praticamente indolor?" indaga o filósofo e
professor da Universidade de São Paulo (USP), Renato Janine Ribeiro. Para ele, na
ciência, há um forte elemento amoral, ou seja, uma tendência de isentar-se de
julgamentos morais e manter-se neutra. Tal característica é oriunda do fato que seus
avanços, muitas vezes, já se confrontaram com valores considerados corretos pela
sociedade na qual ela está inserida e se desenvolvendo. Um exemplo significativo pode
ser situado nos primórdios dos chamados estudos científicos: "A ciência começou a
fazer anatomia quando isso era um pecado mortal, uma entre muitas coisas que a
religião desaprovava", afirma. No entanto, Janine lembra que, embora a anatomia tenha
sido fundamental para o progresso da medicina, os estudos anatômicos também foram
feitos, por exemplo, em prisioneiros durante o século XVI: "Quando o rei Carlos IX, da
França, foi ferido em um torneio, o médico dele, Ambroise Paré, recebeu vários presos


condenados à morte para estudar possíveis tratamentos, e todos morreram nas
experiências", afirma. Assim, "é muito difícil dizer que o que hoje a moral condena não
vá ser, dentro de um tempo, aceito", completa.

Janine revela não ter uma opinião fechada sobre a eutanásia e que é cético em relação a
uma possível solução ou regra única para definir em quais casos o paciente tem direito a
morrer. Para ele, os cuidados médicos podem prolongar uma agonia por muito tempo ou
assegurar uma morte limpa e sem dor, mas a decisão sobre isso não pode ser do médico.
"Deve ser, em última análise, uma decisão da pessoa que há de viver ou morrer e, antes
disso, uma decisão da sociedade", diz. Deste modo, Renato Janine aponta para a
necessidade de uma discussão ética sobre o assunto, incluindo os limites entre os
direitos sociais e individuais, nos mais variados casos em que a eutanásia é cogitada.

A questão apontada pelo filósofo e a necessidade de um posicionamento da sociedade
englobam o paciente que, conscientemente, opta pela morte. Trata-se de uma ocasião
em que a discussão sobre os limites da autonomia individual é mais latente, uma vez
que, em muitos casos, a pessoa manifesta o interesse por morrer antes do tempo que ela
poderia ficar viva com auxílios técnicos da medicina ou até mesmo se curar. Embora
também tenha dúvidas sobre a maneira adequada para decidir-se sobre a eutanásia
nesses casos, Janine aponta um possível caminho para iniciar essa discussão: o respeito
pelo direito da pessoa de não querer mais viver. Uma das maneiras de fazer isso é o
diálogo com o indivíduo sobre a opção feita por ele e não simplesmente a tentativa de
convencê-lo do contrário. Seria uma maneira de fugir de uma tendência de infantilizálo,
como muitas vezes ocorre com os idosos. "Isto significa que, se uma pessoa não quer
mais viver devido a um sofrimento intenso e irreversível, deve ter meios de poder
abreviar sua vida, tal como exemplifica o filme Menina de Ouro, de Clint Eastwood",
conclui.

Também para o médico e filósofo Rodrigo Siqueira Batista, coordenador do Núcleo de
Estudos em Filosofia e Saúde da Fundação Educacional Serra dos Órgãos (Feso), é
imprescindível tornar essa discussão mais ampla. Para ele, a eutanásia não tem recebido
a devida atenção da comunidade médica brasileira. Devido ao fato da sua prática ser
considerada crime pelo artigo 121 do Código Penal, tem sido mantido um "espúrio
pacto de silêncio" nas Unidades de Assistência à Saúde. Ele menciona que a decisão de
interromper ou não a vida dos pacientes acaba por ser tomada às escuras, por
profissionais habitualmente sem qualquer preparo para enfrentar a situação, muitas
vezes à revelia dos familiares e do próprio enfermo: "Discutir e ponderar sobre ética e
eutanásia, demarcando-se adequadamente os conceitos e enfocando-se os argumentos
favoráveis e contrários à sua realização, torna-se fundamental para a formação laboral
em saúde, bem como para o mais amplo exercício da cidadania, ao menos em
sociedades laicas e plurais", afirma.

Nesse sentido, Siqueira Batista entende que uma das ponderações importantes para essa
discussão é a noção de finitude da vida, uma das marcas profundas da condição humana.
"Desde tempos imemoriais, vêm sendo desenvolvidos modos para se lidar com a
efemeridade da vida, como no caso das narrativas míticas gregas, por exemplo, nas
quais deuses e homens eram distinguidos pela sujeição à mortalidade", explica.
Posteriormente, as religiões e a filosofia também desempenharam esse papel, e
atualmente ele também vem sendo exercido pela ciência. No contexto atual, é
imprescindível realçar a inserção da ciência como uma das modalidades de explicação


da realidade: "Ainda que se torne possível um prolongamento da vida, a questão da sua
finitude estará sempre enraizada na experiência humana de existir", afirma. Segundo o
pensador, "tornar-se imortal representa, em última análise, abdicar de ser humano",
completa.

Para Eduardo Cruz, chefe do Programa de Pós-graduação em Ciência de Religião da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), um avanço sobre a questão da
eutanásia está relacionada a uma aproximação equilibrada entre ciência e religião. "Ao
ver a religião apenas como resquício de um passado de superstições e dogmatismo,
alguns cientistas podem prejudicar a própria sociedade a quem querem beneficiar",
afirma. Ele procura realçar a lógica do pensamento religioso diante dos avanços da
medicina, que permitem hoje a possibilidade de uma "sobrevida" do paciente com
graves problemas de saúde. Ele diz que as religiões optaram, de um modo geral, pela
naturalidade da vida e da morte dos seres humanos. "Meios de prolongar
intoleravelmente a vida não são incentivados, enquanto o término antecipado da
existência é condenado", afirma. Essa postura contrária à eutanásia, segundo ele, advêm
da impossibilidade de reversão do processo e do questionamento da objetividade do
paciente e dos parentes em um momento de extrema emoção.

Para Cruz, outra questão presente no discurso religioso que critica a eutanásia é a idéia
da inserção de cada indivíduo no fluxo da existência e da sociedade: "Esta concepção,
de certa forma, vai contra o postulado da modernidade da soberania do indivíduo em
tomar qualquer decisão", afirma. Segundo o pesquisador, esse princípio não se restringe
ao âmbito religioso, pois o direito e a moral contemporâneos, já apresentam limites ao
poder de decisão do indivíduo. "Seja porque uma ação deste pode ter um impacto direto
na vida social, como roubar, por exemplo, seja porque, aos poucos, essas decisões
podem corroer o tecido social e o fluxo da natureza", explica. Desse modo, o homem
que reivindica o direito à eutanásia, definido como um indivíduo em face de um
incômodo existencial, não deve ter sua vontade como único referencial: "Não há um
direito sagrado a uma existência sem problemas", afirma.

Já Rodrigo Siqueira Batista aponta também algumas perspectivas para desenvolver o
debate sobre a eutanásia. A primeira delas seria recuperar o sentido originário da
palavra eutanásia, literalmente "boa morte" (eu – regular/justamente //com bondade,
benevolência; e tanatos – morte), livrando-a de ranços e seqüelas remanescentes da
política nazista de extermínio, erroneamente traduzida por "eutanásia".

A segunda perspectiva aproxima-se da posição de Eduardo Cruz. "É preciso uma
profunda discussão acerca da autonomia do sujeito – possivelmente o mais poderoso
argumento pró-eutanásia – na medida em que a autonomia individual, ainda que
plenamente defensável, é sujeita a grande polêmica em termos do seu alcance,
chegando-se, inclusive, a questionar a sua real existência", afirma. O pesquisador cita
filmes de ficção científica, como Gattaca e Brilho eterno de uma mente sem lembrança,
nos quais a ciência desenvolve técnicas para moldar a personalidade e o fenótipo do ser
humano. "Trata-se de uma fecunda discussão sobre livre arbítrio/ determinação para o
âmbito da vida e o para o futuro da humanidade", diz Batista.

Uma terceira perspectiva vai ao encontro da proposta de Renato Janine. Rodrigo
Siqueira Batista afirma a necessidade de entender a eutanásia como um ato inscrito no
paradigma da compaixão, segundo o qual o homem em processo de morrer deve ser


acolhido, como um igual, em seus mais íntimos propósitos – independentes de serem
livres ou determinados – ainda que estes se dirijam para a interrupção da própria
existência. Mesmo que a compaixão esteja sendo pouco prestigiada nas reflexões
contemporâneas, ele afirma que integrá-la aos demais fios que compõem o grande
tecido dos debates sobre a eutanásia é uma forma de olhar e acolher o homem que
morre, "um genuíno ato de fraternidade, permitindo-lhe, quiçá, a restituição da
prerrogativa de sonhar com seus melhores dias de outrora", conclui.

http://www.comciencia.br/reportagens/2005/05/03.shtml


... Isaias Claro

> Aborto eugênico

Artigos


Condensado da palestra do Dr. ISAIAS CLARO, na Escola de Pais Eurípedes
Barsanulfo, promovida pelo Centro Espírita OBREIROS DO SENHOR (CEOS) e
proferida na Instituição Assistencial Meimei (IAM) São Bernardo do Campo em
março/94.

O tema é de uma atualidade impressionante. Neste minuto uma alma foi impedida de
reencarnar. Alguém, em algum lugar do mundo, abortou. Enquanto nos demoramos
nesta abordagem necessariamente ligeira, dezenas de espíritos estarão sendo impedidos
de retornar ao proscênio da luta corporal.

O artigo 128, do Código Penal, diz que o aborto não é punível, apenas em duas
hipóteses.

Quando a mulher corre risco de vida. É o chamado aborto necessário. Sacrifica-se o ser
em formação, porque é uma expectativa de vida. Este postulado jurídico tem
consonância com o pensamento espírita. Se consultarmos a questão 359 de O livro dos
Espíritos, verificaremos que o aborto necessário, que se realiza para salvar a vida da


mãe, é moral. Tem perfeito amparo nos códigos soberanos da Justiça Divina e não é
contra a lei natural.

Porque se se preservar a mulher em detrimento da criança, o espírito, que iria
reencarnar, não está impedido de fazê-lo outra vez e poderá retornar em uma nova
experiência. Para isso, evidente que os pais pratiquem conjunção carnal. O espírito,
portanto, poderá retornar sem prejuízo algum para a sua evolução.

O Código Penal ainda diz que se a gravidez decorre de estupro, a mulher pode praticar o
abortamento, através de médico. É o chamado aborto sentimental.

Este caso não tem amparo nas leis morais. Não direi que a Doutrina Espírita é contra o
aborto sentimental. Direi que o aborto sentimental se opõe às leis morais. Porque não
sei se o Espiritismo é contra alguma coisa. O Espiritismo esclarece para libertar
consciências, mas a pessoa guarda certa relatividade na sua liberdade. Então não direi
que a Doutrina Espírita proíbe, direi que o aborto sentimental se opõe às leis morais.

Não é nada fácil para uma moça, uma mulher, trazer em sua cavidade uterina, na sua
intimidade, um ser gerado em situações não desejadas, imprevistas, violentas, fruto de
uma relação espúria, não nascido do amor, na entrega espontânea, buscada na plenitude
fisiológica, emocional, espiritual. E ficamos a imaginar que a mulher está grávida de um
estupro.

Eu atendi algumas mulheres estupradas. Pude perceber que elas são, até hoje, vivas-
mortas ou mortas-vivas, porque se aniquilaram emocional e espiritualmente. Incapazes
de nos olhar nos olhos. Sem coragem de enfrentar a vida com denodo, em virtude
daquela ação violenta. Mas se ela conseguir manter a gravidez e levá-la a termo, que
progresso extraordinário está realizando, estará se sublimando. Se isso não lhe for
factível, depois de nascida a criança que a dê em adoção, é melhor que abortar.

Tramita no Congresso Nacional um outro inciso ao artigo 128 Projeto ou anteprojeto
que permitirá à mulher abortar através de médico, até a 25a semana de gestação, desde
que tenha sido diagnosticada anomalia física ou mental do feto em formação.

Tudo em nome da eugenia, (do grego eu, bem + genos, de origem, isto é, boa geração),
ciência criada no século passado por Francis que viveu de 1822 a 1911. Esta nova
ciência pretende o aperfeiçoamento físico, fisiológico e psicológico das raças. Há que se
matar todo o ser que apresente uma deformidade, uma anomalia qualquer. Esta proposta
não é nova no Brasil. Surgiu em 1984 através de portaria do Ministério da Saúde, mas
tem precedentes na França, na Inglaterra e em outros países da Europa.

Em Roma já existia o extermínio de crianças com deficiência física. Eram mortas,
pois não se prestavam aos fins bélicos do império romano. Constituíam-se em peso
morto, pois o Estado tinha que arcar com o ônus na manutenção daquelas criaturas que
nunca se prestariam aos interesses dos romanos, que dominavam o mundo, naquela
época.

Na segunda Guerra Mundial, com Adolfo Hitler, nós sabemos do extermínio de milhões
de pessoas em nome da eugenia, da etnia. Hitler anelava padronizar as pessoas
humanas. Os filmes, a literatura, mostram as experiências que eram feitas para que


todos tivessem olhos azuis ou verdes, e milhares de criaturas foram cegas e mortas em
nome desta eugenia, etnia, cujo objetivo era a padronização das raças. O extremo da
eugenia poderia levar muitas pessoas à morte por não alcançarem os padrões de estética,
de plástica. Se alguém não estivesse dentro das regras de beleza, poderia ser morto.

O que teria sido do nosso Aleijadinho e de todos os nomes ilustres da nossa história e
mesmo dentro da Doutrina Espírita, como Jerônimo Mendonça, Hellen Keller, este
exemplo para a humanidade, surda, cega, muda, realizou um trabalho notável.

Hellen Keller soube que uma professora estava ensinando surdos e mudos a falar, e ela
se interessou. Foi ter com Anne Sullivan que colocava o seu dedo na boca de Hellen
Keller e colocava o dedo de Hellen na sua boca. Emitia sons e a discípula não ouvia,
mas sentia a ressonância do som na boca de Anne Sullivan. Em uma semana a jovem já
estava falando e disse: "Eu já não sou mais muda, já posso falar", e foi lutando a vida
inteira contra as suas deficiências físicas. Viajou o mundo fazendo palestras e hoje se
manifesta aqui, ali, alhures, livre das amarras físicas, demonstrando que as limitações
são do corpo e não da alma.

Nada, portanto, poderia justificar o aborto eugênico. Vamos a algumas razões. Em
nome do aborto eugênico o médico é quem praticaria o crime. Vejam que paradoxo! O
médico, cuja profissão é salvar, preservar a vida, melhorar as condições físicas e
psíquicas do homem, estaria a serviço da carnificina, transformando os nossos hospitais
em matadouros.

É paradoxal. O Código de Ética Médica, no Brasil, é explicito: não é permitido
práticas eugênicas ou eugenésicas, o Código de Ética Médica Internacional, o Código
Lawyer Book depois do holocausto, fere a mentalidade médica. Em nome da eugenia se
praticariam abusos. Qualquer gravidez indesejada seria interrompida. Bastaria que um
ou dois médicos atestassem anomalia física ou mental no feto em gestação e o aborto
estaria consumado. E cá entre nós, a Justiça ou a Polícia não tem meia técnica para
desautorizar um atestado médico.

Para provar o contrário, precisaríamos de outro médico com coragem, independência de
atestar outro diagnóstico contrário. Mas como realizar uma necropsia num ser que já
está sepultado e decomposto? Tudo se invalida. Nunca se conseguiu, na prática, uma
condenação por aborto. É necessária uma prova técnica, científica, palpável. Há ainda o
risco de erro no diagnóstico. Será que a anomalia diagnosticada no feto não poderia ser
revertida no futuro?

Fala-se, hoje, em terapia gênica, na possibilidade muito concreta de se introduzir genes
sadios nas pessoas.

Fala-se, também, abertamente, em doenças genéticas, em mutações, transformações
dos genes que poderão impedir alguém nascer com alguma deficiência. Os genes são
corpúsculos invisíveis a olho nu, responsáveis pela transmissão aos descendentes das
características físicas dos seus ancestrais. Porque os filhos se parecem com os pais no
aspecto físico, na moral nem sempre, salvo se forem espíritos simpáticos, se estiverem
no mesmo patamar evolutivo, com as mesmas tendências, com as mesmas aptidões. A
parecença física depende das leis da hereditariedade. Os genes estão inseridos nos


cromossomos que fazem parte das células. Através dos genes nós transmitimos aos
nossos descendentes os caracteres físicos, não morais.

Estes genes, com o passar dos tempos, podem sofrer uma mutação, uma transformação,
dando origem a uma doença genética. Pela terapia genética, assim como se faz um
transplante de rim, de coração, pode-se introduzir genes saudáveis no organismo, em
substituição aos genes doentes. Se o feto for portador de alguma anomalia, haverá a
possibilidade de se reverter o quadro por esse processo e, assim, poderá ser evitado o
aborto.

É a terapia genética vindo ao encontro da necessidade do aperfeiçoamento das raças.

A questão 692 de O Livro dos Espíritos mostra quão atual é este livro. Só não tem a
expressão eugênica, que é um neologismo.

P. "O aperfeiçoamento das raças animais e vegetais pela Ciência é contrário à lei
natural? Seria mais conforme a essa lei deixar as coisas seguirem o seu curso normal?
R. Tudo se deve fazer para chegar à perfeição. O próprio homem é um instrumento de
que Deus se serve para atingir os seus fins. Sendo a perfeição o alvo para que tende a
Natureza, o favorecer a sua conquista é corresponder àqueles fins."
A terapia gênica tem amparo moral. É perfeitamente factível, mas sabemos que
também poderão ocorrer abusos, principalmente com os animais: ratos, camundongos,
que servem à pesquisa científica.

A medicina fetal também invalida a necessidade do aborto, quando se detecta alguma
má formação no feto. O médico abre o ventre materno, tira o nenê, submete-o à cirurgia,
devolve-o à cavidade uterina, fecha o útero e a gravidez continua.

Todos são enfoques científicos, culturais para evitar o aborto eugênico.

Devemos também levantar a questão filosófico-doutrinária que tão bem esclarece.

O que é o corpo? É o instrumento que permite ao espírito reencarnante realizar o seu
fanal, qual seja, o de construir a sua perfeição relativa. A vida orgânica, material, não é

o fim em si mesma. O espírito pré-existe ao corpo e sobrevive a ele quando do recesso
celular. Vivíamos antes da concepção e continuaremos a viver. Já estamos na
imortalidade, não precisamos morrer para nos tornarmos imortais.
A deficiência física ou mental é reflexo das vidas anteriores. O espírito é que tem a
deficiência. O corpo funciona como uma esponja, um escafandro e serve para limpar as
impurezas.

Estamos aqui por pouco tempo e por mais que o corpo nos faça sofrer, que esteja
doente, vai permitir ao espírito uma libertação.

E eu pergunto. O que é saúde? O que é doença? A definição será tão simples como
parece? Chico Xavier, do ponto de vista físico, é considerado uma pessoa extremamente


doente, no entanto, tem uma saúde espiritual de ferro. Hitler, perfeitamente saudável.
Era vegetariano e Chico alimenta-se de carne, só para mostrar a relatividade das coisas.

O que é saúde, então? E como diz Jerônimo Mendonça "a doença do corpo trabalha a
saúde da alma".

"É uma benção, um aguilhão benéfico", diz o Irmão X, porque dá ao espírito a condição
de resgatar o passado.

Nem toda doença, porém, tem origens cármicas. André Luiz relata, num dos seus
livros, o caso de uma jovem que reencarnaria num corpo escultural. Temerosa de que
poderia "escorregar" de novo, pediu um "defeitozinho" para que não corresse o mesmo
risco.

Muitas vezes, como diz Nancy Puhlmann di Girolamo, em seu livro "O castelo das aves
feridas", existem espíritos que amam os excepcionais e pedem para vir excepcionais e
servirem de cobaias de experiências científicas. Eles, que nada devem, auxiliam os que
têm débito no passado.

Outro exemplo é o cego de nascença de quem os discípulos perguntaram à Jesus: Mestre,
quem pecou? E Jesus respondeu: - Nem ele nem seus pais.

E como explicar a cegueira deste homem? É provável que ele já era cristão antes de
reencarnar e estava planejado de vir cego e ser curado pelo Mestre para contribuir a que
os céticos cressem em Jesus. Muitos têm a missão de despertar os outros.

Se impedíssemos os espíritos de reencarnar por serem portadores de anomalias, eles não
resgatariam o passado e não cumpririam a missão. Com todo respeito e carinho, será
que Jerônimo Mendonça teria feito tudo o que fez se tivesse uma saúde perfeita? Os
problemas ensinam, a dor é despertador.

O câncer, a AIDS, as deficiências estão na alma. Se a lei a que me referi for aprovada,
consentindo o aborto eugênico, a Lei a Deus terá outras formas para se cumprir. Uma
criança pode nascer sã, mas nos primeiros passos, num tombo bobo, torna-se deficiente.
E não vai se matar um filho com um ano ou dois.

Se formos abortar, abortemos o orgulho, o egoísmo, a ambição, a vaidade, pais do
aborto eugênico, defeitos esses capazes de nos concentrar na vida material.

Porque hoje somos valorizados pelo que temos, ou que carregamos, ou pela nossa
beleza plástica, ou pela apresentação.

Jerônimo Mendonça é um exemplo notável. Portador de várias doenças ficou décadas
numa mesma posição. Sua cama era seu banheiro, sua tribuna. Fundou dois centros
espíritas, gravou muitas fitas e viajou por dezenas de cidades do Brasil. Escreveu cinco
livros, fundou uma creche em Ituiutaba. Um espírito que, nesta condição, realizou tanto.
Isto mostra que o corpo não impede a realização da alma.


Quantos sadios estão se comprometendo, perdendo a oportunidade excelente na
ociosidade, na preguiça, na acomodação, enquanto outros vitimados por estas limitações
vão à luta, superam-se pela fé, pelo amor, pelo desejo de servir, realizam obras notáveis.

Morgana, minha filha, tem 12 anos, l6 cirurgias, já extraiu um rim e é portadora de
hidrocefalia, tem válvula no cérebro; não tem controle dos esfíncteres; não têm
sensibilidade nos membros inferiores motores; vive na cadeira de rodas. Eu sou uma
pessoa abençoada. Ela me ensinou a viver. Estou longe de viver como deveria viver,
mas com ela, tenho certeza, sou bem melhor. Com ela, em nossa casa, tudo mudou, tudo
ganhou beleza. Ela demorou dois anos para sentar pela primeira vez, sem cair do lado,
quatro anos para ficar em decúbito ventral. Mostrou-nos o valor das coisas pequenas,
que vamos de lá para cá, que nos sentamos sem perceber.

Se a minha filha veio para ficar, ela vai ficar. Não conto para despertar compaixão, mas
para dizer que um filho excepcional é um excepcional filho.

... José Marcelo G. Coelho

> O Pensamento

Artigos


Diferentemente dos orientais, nós, os representantes da chamada civilização ocidental,
dificilmente nos dedicamos a aprofundamentos em torno das imensas potencialidades
mentais de que dispomos.

A ciência acadêmica, materialista por excelência, estabelece que o pensamento é um
fenômeno meramente fisiológico, decorrente da incessante atividade neuronial.

Em tempos idos, acreditávamos que os pensamentos que emitíamos eram de nossa


exclusiva propriedade, razão pela qual permaneceriam, por assim dizer, encarcerados
em nossos cérebros.

Entretanto, nascida em berço europeu, a Doutrina Espírita fez surgir, sobretudo pelas
vias da razão, um novo conceito daquilo que reputamos como sendo o mais importante
atributo do Espírito.

A questão 833 de O Livro dos Espíritos nos esclarece que é pelo pensamento que o
homem desfruta de uma liberdade sem limites. A problemática que então se
estabelece é a de não avaliarmos, com total exatidão, a verdadeira amplitude das
conseqüências de nossas produções mentais.

André Luiz, em sua obra Mecanismos da Mediunidade, psicografada por Francisco
Cândido Xavier e Waldo Vieira, nos afirma que pensar é o ato de emitir matéria
mental. Assim sendo, o pensamento deixa de ter um aspecto de invisibilidade para
assumir a condição de matéria em movimento. Mas... de que modo isso se processa?

Recorrendo novamente à primeira obra basilar do Espiritismo, verificamos que Kardec,
em nota correspondente à questão 495, nos esclarece que é exatamente através do
fluido cósmico (presente em todo o universo) que os corpúsculos mentais se
movimentam. Por certo, não conseguimos visualizá-los com nossos olhos grosseiros,
apenas lhes sentimos os resultados, da mesma forma como divisamos claramente a luz
do sol refletida na Terra, mas, nunca, a movimentação das partículas que lhe deram
origem.

Importante ressaltar que, em virtude das ondas emitidas por sua mente, o homem se
mantém enclausurado nas zonas inferiores da vida carnal, acometido por diversos
males, de ordem física e psíquica, decorrentes das vibrações deletérias com as quais se
ajusta.

Todavia, é também a partir do pensamento que todos nós, seres eternos que somos, nos
candidatamos aos mais altos vôos em direção ao sublime caminho de luz que nos
cumpre trilhar.

Ademais, bem sabemos que toda vibração, de qualquer matiz, ao ser lançada no espaço,
certamente há de influenciar tantos outros seres, encarnados e desencarnados, que,
conscientemente ou não, nutrir-se-ão das mesmas emanações, num fenômeno natural de
afinização.

Lembremo-nos, finalmente, que a tão falada reforma íntima, que se traduz por constante
renovação de atitudes, inicia-se, incontestavelmente, pela reformulação lenta e
gradual de nossa vida mental.

Artigo publicado originalmente no Jornal "A Senda", Vitória, Espírito Santo, em edição
de Fevereiro de 2003

Allan Kardec, no livro
"O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO"



(cap. XXVII, item 10):

"O Espiritismo nos faz compreender a ação da prece, ao explicar a forma de
transmissão do pensamento, seja quando o ser a quem oramos atende ao nosso apelo,
seja quando o nosso pensamento eleva-se a ele. Para se compreender o que ocorre nesse
caso, é necessário imaginar todos os seres, encarnados e desencarnados, mergulhados no
fluido universal que preenche o espaço, assim como na terra estamos envolvidos pela
atmosfera. Esse fluido é impulsionado pela vontade, pois é o veículo do pensamento,
como o ar é o veículo do som, com a diferença de que as vibrações do ar são
circunscritas, enquanto as do fluido universal se ampliam ao infinito. Quando, pois, o
pensamento se dirige para algum ser, na terra ou no espaço, de encarnado para
desencarnado, ou vice-versa, uma corrente fluídica se estabelece de um a outro,
transmitindo o pensamento, como o ar transmite o som.

A energia da corrente guarda proporção com a do pensamento e da vontade. É assim
que os Espíritos ouvem a prece que lhes é dirigida, qualquer que seja o lugar onde se
encontrem, assim que os Espíritos se comunicam entre si, que nos transmitem suas
inspirações, e que as relações se estabelecem à distância entre os próprios encarnados".

http://www.ieja.org/portugues/p_index.htm

... Humberto Schubert Coelho

> A Mediunidade na Literatura - Grécia

Artigos


Como este texto pretendemos abrir caminho para discussões e exposições de fatos
incontestavelmente mediúnicos, seja na exposição de obras da literatura clássica, seja no
processo de sua escrita.

É bem conhecida a importância dos poetas e literatos de todas as épocas sobre a religião
e a cultura. Muitas vezes são indivíduos positivamente inspirados, além de trazerem
grande bagagem de conquistas na área da sensibilidade e da memória, como
freqûentemente ocorre entre artistas. A vantagem da literatura está em que este campo
da Arte situa-se na fronteira entre a pura Arte, de um lado, e as Ciências Humanas e a
Filosofia, de outro. O argumento, portanto, está presente na grande obra literária, a
discursividade, a exposição mais ou menos racional dos temas, enfim, elementos que
pôem a Literatura em condição privilegiada para a transmissão de uma mensagem, mais


do que apenas um sentimento.

Sob o termo literatura também se englobam relatos menos artísticos, ensaios e trabalhos
de caráter mais teórico, de modo que os diálogos de Platão (428/427-348/347 a.C.) ou
os livros da Bíblia estão perfeitamente inseridos sob este termo.

Uma boa mostra da forte presença da mediunidade entre os gregos, e que nos ajuda a
compreender como eles tinham consciência do fenômeno, é a passagem do diálogo
platônico Timeu, onde os ministros do Deus Supremo, os deuses menores ou
"demônios", deveriam seguir a ordem de criar o corpo humano de modo que ele fosse o
mais próximo possível do Deus Supremo. Neste próposito, deram ao homem um órgão
(supostamente o fígado) que percebe a inspiração divina, destacando-se que a inspiração
não acomete aos homens mais sábios, mas aos mais tolos ou que parecem loucos:

Nenhum homem em sua sobriedade atinge o estado de inspiração divina profética, mas
quando ele recebe a palavra profética, ou a sua inteligência é afastada pela dormência,
ou ela se torna equívoca pelo estado de posssessão, e aquele que quiser interpretar as
palavras divinas, seja obtidas em sonho ou acordado, ou determinar racionalmente o
significado das visões de aparições, compreendendo os resultados destes fenômenos
para o bem ou o mal dos homens, no passado, presente ou futuro, deve primeiramente
recuperar sua sobriedade.

No entando, continua Platão:

Nem sempre um homem se lembra daquilo que disse em estado profético, de modo que
é conveniente haver uma ou mais testemunhas durante a profecia e as visões. Assim,
aqueles que estão em seu estado de perfeita sobriedade, podem interpretar melhor a
narrativa daqueles que estiverem inspirados.
(http://www.classicallibrary.org/plato/dialogues/17_Timaeus.htm)

Observa-se claramente que Platão não está defendendo um argumento, está meramente
descrevendo um fato, tal era a naturalidade com que lidava com fenômenos deste tipo.

Igualmente clara é a conclusão a que ele chega no Íon:

E assim Deus arrebata a mente dos poetas, e os utiliza como seus ministros, assim como
também usa adivinhos e os santos profetas, de modo que nós que os escutamos sabemos
que a sua fala não provém deles, e eles não pronunciam palavras vazias neste estado de
inconsciência, mas é o próprio Deus quem fala, e através deles Ele conversa conosco.
(http://www.classicallibrary.org/plato/dialogues/8_Ion.htm)

Somando-se os dois relatos percebemos que o estado profético ou inspirado, descrito
pelo filósofo, tem importantes implicações científicas. Como Kardec, ele (ou talvez seu
mestre Sócrates) parece ter avaliado rigorosamente o processo a ponto de formular uma
compreensão teórica bastante correta da fenomenologia mediúnica. Estão perfeitamente
descritos o estado de passividade do médium e o fato de a comunicação não provir dele,

o caráter transcendente da comunicação, o fato de poder se processar no sonho ou no
estado de transe, o fato de a mediunidade ser, muitas vezes, uma missão atribuída aos
"ministros de Deus".

Platão também dava a entender, nestas e em outras obras, que o estado profético destes
inspirados podia ser utilizado por outros para obter informações sobre a realidade maior,
para além do mundo dos sentidos. Muitos dos conhecimentos platônicos parecem ter
sido obtidos por esta via, conforme ele mesmo admite, embora os historiadores prefiram
imaginar que ele os obteve alhures, da Ásia Menor, da Índia, do Egito.


Lembramos também que era costume entre os gregos consultar as pítias (ou pitonisas),
seja no famoso oráculo de Delfos, seja em lugares e seitas menos famosos. Os relatos de
Heródoto (482-420 a.C) e a literatura grega deixam a entender que as sacerdotisas do
templo profetizavam tanto por "encomenda" quanto espontaneamente.


Também não nos perderemos na imensidão dos relatos mitológicos, que entre uma
fantasia e outra sugerem fenômenos de vista mediúnica, incorporação, previsões, etc.;
nem na evidência direta da inspiração através das "musas". Atentamos tão somente, a
título de exemplo, à obra madura de Homero (c.850 a.C), a Odisséia, onde ele dá
importantes indícios de que as práticas mediúnicas lhe eram comuns.


No Canto XI, quando Odisseu (ou Ulisses) tem de descer ao Hades, ele encontra a
sombra de sua mãe. Após as apresentações e explicações necessárias o herói tenta
abraçá-la três vzes, e não a podia tocar, percebendo que ela se desvanecia como uma
sombra ou como se fora "feita de sonho". Indignado, ele pergunta à mãe o que ocorre, e
ela lhe responde:


(...) Está é a condição de todo homem mortal quando morre, pois os nervos já não unem
mais carne e ossos:
A potente energia do fogo o consome todo quando toda a vida abandona a branca
ossada e o princípio vital se nos torna o mesmo que um sonho.
Mas procura volver o quanto antes à luz, e recorda de tudo isto, de modo que possa
contá-lo à tua esposa.
(Homero, Odisea. Buenos Aires: Planeta, 2007. p. 195)


Percebem-se diversas características interessantes neste encontro. A primeira é o modo
com que ambas as personagens se expressam sobre a substância da mãe, que "parece um
sonho", sugerindo claramente que a viagem de Odisseu ao Hades não foi feita em
sonho, mas que ele estava desperto diante dos mortos e podia constatar serem eles
formados de outra substância.


A segunda informação importante é a recomendação da mãe de que ele deveria recordar
do que se passou, recomendação importante, considerando-se que o próprio Platão já
havia dito em sua análise da mediunidade que "[...] ou a sua inteligência é afastada pela
dormência, ou ela se torna equívoca pelo estado de possessão [...]". Homero, muito
antes de Platão, apresenta a mesma idéia , sugerindo a necessidade de um esforço
posterior ao contato com os mortos, no sentido de se recordar do ocorrido.


Por fim, não é menos importante, embora sutil, a recomendação da mãe de Odisseu para
que ele "conte à esposa" o que se passou. É o caráter prático da comunicação, e denota o
interesse caritativo do Espírito em instruir e alertar os encarnados. Em toda a literatura,
seja a mais artística ou mais ensaística, os relatos mediúnicos geralmente recomendam a
divulgação ou a transmissão da informação a outros. Só em raríssimos casos, quando a
informação envolve riscos para alguém, há recomendações para que se mantenha o



segredo.

A obra de Homero tem duas grandes vantagens: a de ser uma obra de formação da
própria cultura helênica, estabelecendo paradigmas da própria religião a partir daí, e a
de expressar um virtuosismo literário até hoje admirável, dando idéia de quão
impressionante deve ter sido para a Grécia num momento em que ela sequer havia
estabelecido a sua civilização.

A viagem de Odisseu ao Tártaro também se tornou um paradigma na literatura
ocidental. Virgílio (c. 70-19 a.C.) faz o seu Enéias descer ao mundo dos mortos, cerca
de oito séculos depois de Homero, e depois Dante (1265-1321 d.C.) descreve na Divina
Comédia uma viagem ao Inferno, passando pelo Purgatório, ao Céu, tomando a sombra
de Virgílio como guia nesta inusitada peregrinação, mais de mil anos depois de seu
conterrâneo da Roma Antiga.

Por este motivo, a Odisséia tem a prerrogativa de haver despertado as intuições latentes
de inúmeros outros pensadores e artistas, os quais a partir de então estariam sempre
mais próximos de semelhante viagem ao mundo dos mortos.


... Rogério Coelho

> Cizânias e dissidências

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"Vim separar de seu pai o filho, de sua mãe a filha, de sua sogra
a nora; e o homem terá por inimigos os de sua própria casa".

-Jesus. (Mt.; 10:35.36.)
Como toda escola de pensamento, o Espiritismo tem seus adeptos e contraditores, isto é,
criaturas que o acoroçoam e outras que tem por inimigas...

Adversários e adeptos se dividem em várias modalidades, conforme podemos
compreender pelas explicações oferecidas por Allan Kardec na Codificação Espírita.
Incompreensões existem não somente por parte dos inimigos do Espiritismo, mas


também por parte dos adeptos, haja vista as tricas que nada deixam a dever às
maquinações farisaicas do tempo de Jesus, e que pululam no movimento espírita,
corporificadas pela saraivada de anátemas mútuos lançados indiscriminadamente em
todas as direções...

Jesus foi e ainda é o Grande Incompreendido pelos que se consideram cristãos, vez que
não obstante, sendo Sua a Lei de amor, na verdade, paradoxalmente, a cizânia é que é
praticada em larga escala.

As incompreensões, as rixas partidárias, as ciumeiras, as invejas, fazem parte do acervo
da limitada individualidade humana, e é por isso que todas as criaturas que viveram à
frente de seu tempo, como "pontas de lanças", sofreram as conseqüências danosas por
suas idéias revolucionárias e pagaram alto preço pelo atrevimento de tentar acordar a
Humanidade do ancilosante marasmo em que se locupleta.

Evidentemente o Espiritismo não se encontra infenso a essa particularidade
antropológica, aliás, prevista por Jesus no versículo em epígrafe.

No livro "Libertação", através da mediunidade de Francisco C. Xavier, André Luiz
narra a lenda egípcia do peixinho vermelho, que por ter dito uma visão mais abrangente
da realidade em que vivia junto com os seus companheiros, foi expulso do tanque, da
mesma forma que foi expulso do templo aquele cego de nascença que Jesus curou,
porque ostentava uma realidade insofismável que os fariseus, do alto pedestal do
orgulho em que se colocavam, não puderam contemplar e muito menos admitir.

Sócrates, que viveu milênios à frente de seu tempo foi obrigado a beber cicuta; e assim
sempre aconteceu com os Espíritos de vanguarda que aqui aportaram para fazer com
que a Humanidade avançasse na senda do progresso.

Allan Kardec tem sido o grande incompreendido tanto pelos não espíritas quanto pelos
espíritas propriamente ditos. E, em conseqüência, o Espiritismo também não tem tido
melhor sorte...

Herculano Pires, atento a essas questões, oferece-nos uma explicação lógica e clara para
a existência das cizânias e dissidências. Segundo esse grande escritor espírita este
estado de coisas se deve ao fato de que o Espiritismo é uma doutrina do futuro, e como
tal, não foi ainda devidamente assimilada pelas criaturas; daí as incompreensões que
campeiam por todos os lados e até mesmo a explicação do absurdo dos absurdos que é a
incompreensível e antecipadamente malograda tentativa de "atualização de Kardec"
perpetrada por alguns "entendidos" (!?)

Segundo Herculano Pires[1],

"(...) Mais de um século após o advento da Codificação do Espiritismo, reina ainda
grande incompreensão a respeito da Doutrina Espírita, de sua própria natureza e de sua
finalidade. A Codificação, entretanto, foi elaborada em linguagem clara, precisa,
acessível a todos. À lucidez natural do espírito francês, Kardec juntava a sua vocação e
a sua experiência pedagógicas, além da compreensão invulgar de tratar com matéria
sumamente complexa.


Vemo-lo afirmar, a cada passo, que desejava escrever de maneira a não deixar margem
a interpretações, ou seja, para divergências interpretativas.

Qual o motivo, então, por que os próprios adeptos do Espiritismo, ainda hoje, divergem,
no tocante a questões doutrinárias de importância? E qual o motivo por que os não-
espíritas continuam a tratar o Espiritismo com a maior incompreensão? Note-se que não
nos referimos aos adversários, pois estes têm a sua razão, mas aos "não-espíritas".
Parece-nos que a explicação, para os dois casos, é a mesma. O Espiritismo é uma
doutrina do futuro. À maneira do Cristianismo, abre caminho no mundo, enfrentando a
incompreensão de adeptos e não-adeptos.

Em primeiro lugar, há o problema da posição da doutrina: Uns a encaram como
sistematização de velhas superstições; outros, como tentativa frustrada de elaboração
científica; outros, como ciência infusa, não organizada; outros ainda, como esboço
impreciso de filosofia religiosa; outros, como mais uma seita, entre as muitas seitas
religiosas do mundo. Para a maioria dos adeptos e não-adeptos, o Espiritismo se
apresenta como simples "crença", espécie de religião e superstição, ao mesmo tempo,
eivada de resíduos mágicos.

Ao contrário de tudo isso, porém, o Espiritismo, segundo a definição de Kardec e dos
seus principais continuadores, constitui a última fase do processo do conhecimento.
Última não no sentido de fase final, mas da que o homem pôde atingir até agora, na sua
lenta evolução através do tempo. É evidente que se trata do conhecimento em sentido
geral, não limitado a um determinado aspecto, não especializado... Nesse sentido geral,

o Espiritismo aparece como uma síntese dos esforços humanos para compreensão do
mundo e da Vida. Justifica-se, assim, que haja dificuldade para a sua compreensão,
apesar da clareza da estrutura doutrinária da Codificação. De um lado, o povo não pode
abarcá-lo na sua totalidade, contentando-se com o seu aspecto religioso; de outro, os
especialistas não admitem a sua natureza sintética; e de outro, ainda os preconceitos
culturais levantam numerosas objeções aos seus princípios".
Como então identificar os Verdadeiros Espíritas? Em qual setor encontra-se o
verdadeiro sentido do Espiritismo? Quem, afinal está com a razão e caminhando na
direção certa? Para responder a estas indagações, só mesmo recorrendo à Codificação
Espírita[2], onde o Espírito de Verdade desenhou o perfil e a performance do Espírita
Cristão, isto é, dos Verdadeiros OBREIROS DO SENHOR.

Ditosos os que hajam dito a seus irmãos: "Trabalhemos juntos e unamos os nossos
esforços, a fim de que o Senhor, ao chegar, encontre acabada a obra", porquanto o
Senhor lhes dirá: "Vinde a mim, vós que sois bons servidores, vós que soubestes impor
silêncio aos vossos ciúmes e às vossas discórdias, a fim de que daí não viesse dano para
a obra!" Mas, ai daqueles que, por efeito das suas dissensões, houverem retardado a
hora da colheita, pois a tempestade virá e eles serão levados no turbilhão! Clamarão:
"Graça! graça!" O Senhor, porém, lhes dirá: "Como implorais graças, vós que não
tivestes piedade dos vossos irmãos e que vos negastes a estender-lhes as mãos, que
esmagastes o fraco, em vez de o amparardes? Como suplicais graças, vós que buscastes
a vossa recompensa nos gozos da Terra e na satisfação do vosso orgulho? Já recebestes
a vossa recompensa, tal qual a quisestes. Nada mais vos cabe pedir; as recompensas
celestes são para os que não tenham buscado as recompensas da Terra."


Deus procede, neste momento, ao censo dos seus servidores fiéis e já marcou com o
dedo aqueles cujo devotamento é apenas aparente, a fim de que não usurpem o salário
dos servidores animosos, pois aos que não recuarem diante de suas tarefas é que ele vai
confiar os postos mais difíceis na grande obra da regeneração pelo Espiritismo.
Cumprir-se-ão estas palavras: "Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os
primeiros no reino dos céus."

Segundo Fénelon[3],

(...) As criaturas que se acham imbuídas dos verdadeiros princípios do Espiritismo vêem
unicamente irmãos em todos os espíritas, e não rivais. Os que se mostrassem ciosos de
outros grupos provariam existir-lhes no íntimo uma segunda intenção, ou o sentimento
do amor próprio, e que não os guia o amor da verdade. Afirmo que, se essas pessoas se
achassem entre vós, logo semeariam no vosso grupo a discórdia e a desunião. O
verdadeiro Espiritismo tem por divisa benevolência e caridade. Não admite qualquer
rivalidade, a não ser a do bem que todos podem fazer. Todos os grupos que inscreverem
essa divisa em suas bandeiras estenderão uns aos outros as mãos, como bons vizinhos,
que não são menos amigos pelo fato de não habitarem a mesma casa.

Os que pretendam que os seus guias são Espíritos melhores que os dos outros deverão
prová-lo, mostrando melhores sentimentos. Haja, pois, luta entre eles, mas luta de
grandeza d`alma, de abnegação, de bondade e de humildade. O que atirar pedra a outro
provará, por esse simples fato, que se acha influenciado por maus Espíritos. A natureza
dos sentimentos recíprocos que dois homens manifestem é a pedra de toque para se
conhecer a natureza dos Espíritos que os assistem".

Em uníssono com Fénelon, S. Vicente de Paulo acrescenta[4]:

"O Espiritismo deve ser uma égide contra o espírito de discórdia e de dissensão; mas,
esse espírito, desde todos os tempos, vem brandindo o seu facho sobre os humanos,
porque cioso ele é da ventura que a paz e a união proporcionam.

Espíritas! Bem pode ele, portanto, penetrar nas vossas assembléias e, não duvideis,
procurará semear entre vós a desafeição. Impotente, porém, será contra os que tenham a
animá-los o sentimento da verdadeira caridade. Estai, pois, em guarda e vigiai
incessantemente à porta do vosso coração, como à das vossas reuniões, para que o
inimigo não a penetre. Se forem vãos os vossos esforços contra o de fora, sempre de vós
dependerá impedir-lhe o acesso em vossa alma. Se dissensões entre vós se produzirem,
só por maus Espíritos poderão ser suscitadas.

Mostrem-se, por conseguinte, mais pacientes, mais dignos e mais conciliadores aqueles
que no mais alto grau se achem penetrados dos sentimentos dos deveres que lhes impõe
a urbanidade, tanto quanto o vero Espiritismo. Pode dar-se que, às vezes, os bons
Espíritos permitam essas lutas, para facultarem, assim aos bons, como aos maus
sentimentos, ensejo de se revelarem, a fim de separar-se o trigo do joio.

Eles, porém, estarão sempre do lado onde houver mais humildade e verdadeira
caridade".

Em inspirada peroração completa Dufêtre[5]:


"Espiritismo! Doutrina consoladora e bendita! felizes dos que te conhecem e tiram
proveito dos salutares ensinamentos dos Espíritos do Senhor! Para esses, iluminado está

o caminho, ao longo do qual podem ler estas palavras que lhes indicam o meio de
chegarem ao termo da jornada: caridade prática, caridade do coração, caridade para com
o próximo, como para si mesmo; numa palavra: caridade para com todos e amor a Deus
acima de todas as coisas, porque o amor a Deus resume todos os deveres e porque
impossível é amar realmente a Deus, sem praticar a
caridade, da qual fez ele uma lei para todas as criaturas".
[1] - Herculano Pires "O Espírito e o Tempo"- Edicel – 3ª edição.
[2] - Kardec, A. "O Evangelho Segundo o Espiritismo" – Capítulo XX, item 5
[3] - Kardec, A. "O Livro dos Médiuns" – 2ª parte - Capítulo XXXI, tomo XXII, § 2º e
3º.
[4] - Kardec, A. "O Livro dos Médiuns" – 2ª parte - Capítulo XXXI, tomo XXVI,
[5] -Kardec, A. "O Evangelho Segundo o Espiritismo" – Capítulo X, item 18, § 2º.
http://www.ajornada.hpg.ig.com.br/colunistas/rogeriocoelho/rc-0003.htm


... Rogério Coelho
> Como conciliar Livre-arbítrio como Presciência Divina?
Artigos



"Na esfera individual, o livre-arbítrio é o único elemento dominante. A existência de
cada homem é resultante de seus atos e pensamentos."

-Emmanuel[1]
Perante o conhecimento antecipado que Deus tem de todas as coisas, pode-se
verdadeiramente afirmar a liberdade humana? Eis aí um árduo problema de metafísica
!...


Em sua obra admirável, Léon Denis vem em nosso socorro em tão intricado assunto,
informando-nos que esta "questão aparentemente complexa e árdua que faz correr rios
de tinta possui solução das mais simples. Mas o homem não gosta de coisas simples;
prefere o obscuro, o complicado, e não aceita a verdade senão depois de ter esgotado
todas as formas do erro...

Deus, cuja ciência infinita abrange todas as coisas, conhece a natureza íntima de cada
homem e as impulsões, as tendências, de acordo com as quais poderá determinar-se.
Nós mesmos, conhecendo o caráter de uma pessoa, poderíamos facilmente prever o
sentido em que, numa dada circunstância, ela decidirá, quer segundo o interesse, quer
segundo o dever. Uma resolução não poderá nascer de nada. Está forçosamente ligada a
uma série de causas e efeitos anteriores de que deriva e que a explicam. Deus,
conhecendo cada alma em suas menores particularidades, pode, pois, rigorosamente,
deduzir, com certeza, do conhecimento que tem dessa alma e das condições em que ela
é chamada a agir, as determinações que, livremente, ela tomará.

Notemos que não é a previsão de nossos atos que os provoca. Se Deus não pudesse
prever nossas resoluções, não deixariam elas, por isso, de seguir seu livre curso. É assim
que a liberdade humana e a previdência divina conciliam-se e combinam, quando se
considera o problema à luz da razão.

O círculo dentro do qual se exerce a vontade do homem, é, de mais a mais,
excessivamente restrito e não pode, em caso algum, impedir a ação divina, cujos efeitos
se desenrolam na imensidade sem limites. O fraco inseto, perdido no canto de um
jardim, não pode, desarranjando os poucos átomos ao seu alcance, lançar a perturbação
na harmonia do conjunto e colocar obstáculos à obra do Divino Jardineiro.

(...) A liberdade é a condição necessária da alma humana que, sem ela, não poderia
construir seu destino. É em vão que os filósofos e os teólogos têm argumentado
longamente a respeito desta questão. À porfia tem-na obscurecido com suas teorias e
sofismas, votando a Humanidade à servidão em vez de a guiar para a luz libertadora. A
noção é simples e clara. Os druidas haviam-na formulado desde os primeiros tempos de
nossa História. Está expressa nas "Tríades" por estes termos:

Há três unidades primitivas: Deus, a luz e a liberdade.

À primeira vista, a liberdade do homem parece muito limitada no círculo de fatalidades
que o encerra: necessidades físicas, condições sociais, interesses ou instintos. Mas,
considerando a questão mais de perto, vê-se que a alma tem sempre liberdade suficiente
para quebrar este círculo e escapar às forças opressoras.

A liberdade e a responsabilidade são correlativas no ser e aumentam com sua elevação;
é a responsabilidade do homem que faz a sua dignidade e moralidade.

Para todo Espírito, por menor que seja o seu grau de evolução, a Lei do dever brilha
como um farol, através da névoa das paixões e interesses. Por isso, vemos todos os dias
homens nas posições mais humildes e difíceis preferirem aceitar provações duras a se
abaixarem a cometer atos indignos.

O livre-arbítrio é, pois, a expansão da personalidade e da consciência.


Para sermos livres é necessário querer sê-lo e fazer esforço para vir a sê-lo, libertando-
nos da escravidão da ignorância e das paixões baixas, substituindo o império das
sensações e dos instintos pelo da razão.

Isto só se pode obter por uma educação e uma preparação prolongada das faculdades
humanas: libertação física pela limitação dos apetites; libertação intelectual pela
conquista da verdade; libertação moral pela procura da virtude. É esta a obra dos
séculos."

Allan Kardec publicou na "Revue Spirite" de outubro de 1863 uma página mediúnica,
onde um Espírito familiar narra possuir o Universo uma grande lei que domina tudo: A
Lei do Progresso.

"É em virtude dessa lei" – ensina o Espírito, na obra citada – "que o homem, criatura
essencialmente imperfeita, deve, como tudo quanto existe em nosso globo, percorrer as
fases que o separam da perfeição. Sem dúvida, Deus sabe quanto tempo cada um levará
para chegar ao fim; como, porém, todo progresso deve resultar de um esforço tentado
para o realizar, não haveria nenhum mérito se o homem não tivesse a liberdade de tomar
este ou aquele caminho.

Não se poderia afirmar sem blasfêmia, que Deus tenha querido a infelicidade de Suas
criaturas, desde que os infelizes expiam sempre, tanto uma Vida anterior mal
empregada, quanto sua recusa a seguir o bom caminho, quando este lhe era mostrado
claramente. Assim, depende de cada um abreviar a prova que deve sofrer; e, por isto, os
guias seguros, bastante numerosos, lhe são concedidos, para que seja inteiramente
responsável por sua recusa de seguir seus conselhos. O livre-arbítrio existe, pois, muito
realmente no homem, mas com um guia: a consciência.

Vós todos que tendes acesso ao grande foco na nova ciência, (o Espírito refere-se ao
Espiritismo), não negligencieis de vos penetrar das eloqüentes verdades que ela vos
revela, e dos admiráveis princípios que são a sua consciência.

Segui-os fielmente: é aí, sobretudo, que brilha o vosso livre-arbítrio.

Penetrai-vos de todos os preceitos que vos chegam do Mundo Espírita Superior e assim
tereis contribuído em larga parte para a realização dos desígnios da Providência."

[1] - Emmanuel/Xavier, F.C. "Palavras do Infinito"
http://www.ieja.org/portugues/Estudos/Artigos

... Rogério Coelho

> As Tensões nossas de cada dia

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Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei.

Jesus. (Mt., 11:28.)

Stress é um neologismo inventado por engenheiros ingleses para expressar o ponto de
tensão máxima capaz de causar a ruptura de uma estrutura.

Hoje em dia, com a explosão demográfica e o novo status-quo vigente, isto é, a Vida
interpessoal, deixando aquela característica pachorrenta e morigerada dos velhos tempos
de nossos avoengos para o frenesi e desassossego da atualidade, a palavra stress
transcendeu sua etimologia e emprego inicial e hoje é sinônimo do mal do século.

O stress tem motivado a maior parte das doenças que acometem o homem
moderno...

José M. Martins que fez doutorado em Psicologia Clínica nos U.S. afirma:

(...) Ao longo de sua Vida o homem moderno vai se repletando de lixo psicológico, ou
seja: acumula na intimidade da personalidade situações psicológicas não equacionadas
que, num processo de somatização provocam, a longo prazo, a implosão do stress.


O corpo humano possui defesas naturais para situações de conflito, mas são defesas que
têm as suas limitações. O arsenal defensivo presto se esgota e o indivíduo fica à mercê
dos desgastes perniciosos.

O stress, segundo Martins,

(...) é uma resposta de alerta diante de uma ameaça: O coração dispara, o sangue foge
das superfícies (colapso periférico) e a criatura fica pronta para atacar ou fugir como o
homem primitivo ficava diante das feras. Há descarga de hormônios no organismo, a
musculatura fica tensa, pronta para a ação. O organismo tem um dispositivo automático
regulador do desarme dessa tensão, mas se a situação se repete com muita freqüência,
sem a respectiva resposta do esgotamento da tensão, o stress se torna crônico e daí
surgem as doenças.

Se a pessoa dilui a carga descarga hormonal em uma conseqüente ação de defesa ou
ataque, respondendo adequadamente ao conflito que a gerou, a situação passa,
equaciona-se a situação estressante, e o seu organismo se reequilibra, voltando à
normalidade.

Eliminar ou diminuir o stress nem sempre significa descansar, tirar férias, segundo
ensina o psicólogo:

(...) As pessoas precisam reaprender ou permitir que aconteçam os períodos de
restauração. E esse período só ocorre se houver a expressão emocional. Faz-se mister
uma aprendizagem específica das relações da emoção com o corpo. A mesma parte do
sistema nervoso que coordena a relação emocional é responsável, também, pelo
funcionamento da digestão, da circulação, etc... Chama-se Sistema Nervoso Autônomo
(SNA). Isso quer dizer que, pela lei natural, é um sistema independente, que deveria
funcionar por si próprio, mas, nós estamos sempre tentando interferir nele com reações
do tipo: não posso, não devo...

O stress em si não é problema. O problema é a forma como a pessoa reage a ele,
tentando bloquear o sistema nervoso autônomo. Portanto, não é uma situação externa
que leva à doença: O que nos faz adoecer é o jeito como a gente lida com a gente
mesmo.

Há que se permitir - cada um - o seu momento de stacato. Temos que ter a nossa ilha de
sossego interno; parar as correrias, as azáfamas...

A prece e a meditação são componentes importantes de nosso arsenal defensivo;
uma leitura edificante, uma música suave, relaxante, também atendem à nossa
necessidade de refazimento.

Quando, porém, toda a nossa munição foi gasta e o desassossego íntimo continua;
quando não estamos mais sabendo lidar conosco mesmos, recorramos a Jesus, o Médico
das Almas, lembrando-nos de Suas consoladoras palavras: Vinde a mim, todos que
estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.

O auto-conhecimento é outro expressivo fator de combate ao stress; e Sócrates
identificando isso, propalou alto e bom som a frase que encontrou gravada no Templo


de Delfos, na Grécia: Conhece-te a ti mesmo.

Hoje em dia, a psicologia vem reafirmando a necessidade de viajarmos aos escaninhos
interiores do Self.

Segundo o psicólogo espírita Adenáuer Novaes (1),

(...) A mente humana cria mecanismos de defesa para seguir as tendências arquetípicas,
face à necessidade de manutenção do complexo do ego, que, ao longo do processo
evolutivo, vai se estruturando com muita autonomia, e, enquanto não se encontra
fortalecido, evita o desabrochar da verdadeira personalidade que é o Espírito imortal.

A própria Vida nos ensina que devemos encontrar nossa via pessoal, que se constitui na
descoberta do próprio caminho traçado por Deus. Essa via é o fio condutor de nossas
Vidas. Somos como a seta do arqueiro que não sabe em que direção vai, mas ela é
previamente estabelecida e obedece ao impulso inicial de ir sempre para a frente.

Disse Jesus: Todo aquele, pois, que ouve as minhas palavras e as pratica, será
comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha.

Certamente que Seu objetivo não é nos ensinar técnicas de construção de fundação de
casas. Ele apenas se utiliza de uma comparação de solidez da rocha à maturidade de
quem segue e pratica os Seus ensinamentos.

Do ponto de vista psicológico, percebe-se que Ele nos leva à base do psiquismo
humano, trazendo-nos a necessidade de perceber a dialética entre a prática e a teoria.
Construir a casa sobre a rocha equipara-se a construir, na consciência, um ego
estruturado sobre a segura orientação do Self. A consolidação do ego como agente
consciente do Self é fundamental ao progresso espiritual. Colocar o ego em sintonia
com o Self equivale a descobrir os propósitos da encarnação, isto é, o por quê e o para
quê se está encarnado.

Construir a casa sobre a rocha equivale a dizer que o processo é interno, e não externo, é
profundo, e não superficial.

Jesus, o inigualável Psicólogo já nos orientava a respeito da importância do
autoconhecimento como fator de alforria espiritual e liberação de toda e qualquer
forma de stress ao informar que O Reino dos Céus está dentro de nós. Encontrá-lo em
nós mesmos, tal a finalidade da encarnação, tal o diploma da libertação, tal a profilaxia
e ao mesmo tempo o antídoto para as enfermidades!...

(1) Adenáuer Marcos Ferraz de Novaes Psicologia do Evangelho Cap. 18, Ed. Fundação
Lar Harmonia
(Publicado no Boletim GEAE Número 347 de 1 de junho de 1999)

http://www.espirito.org.br/portal/artigos/geae/as-tensoes-nossas.html



... Rogério Coelho
> O Espiritismo não faz milagres
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De maneira racional a Doutrina Espírita esclarece os "milagres" de acordo com as leis
naturais:


"(...) O Espiritismo vem, a seu turno, fazer o que cada ciência fez no seu advento:
revelar novas leis e explicar os fenômenos na alçada dessas leis".
Allan Kardec


Certa feita, um eclesiástico dirigiu a seguinte pergunta ao Mestre Lionês: "Todos
aqueles que tiveram missão de Deus de ensinar a verdade aos homens, provaram sua
missão por milagres. Por quais milagres provais a verdade de vosso ensinamento?"


A resposta de Kardec não se fez esperar :


"(...) Confessamos – humildemente -, que não temos o menor milagre a oferecer;
dizemos mais: O Espiritismo não se apóia sobre nenhum fato miraculoso; seus
adeptos nunca fizeram e não têm a pretensão de fazer nenhum milagre; não se
crêem bastante dignos para que, à sua voz, Deus mude a ordem eterna das coisas. O
Espiritismo constata um fato material, o da manifestação das almas ou Espíritos. Esse
fato é real, sim ou não? Aí está toda a questão; ora, nesse fato, admitindo como
verdadeiro, nada há de miraculoso. Como as manifestações desse gênero, tais como as
visões, aparições e outras, ocorreram em todos os tempos, assim como atestam as
histórias, sagradas e profanas, e os livros de todas as religiões, outrora puderam passar
por sobrenaturais; mas hoje que se lhes conhece a causa, que se sabe que se produzem
em virtude de certas leis, sabe-se também que lhes falta o caráter essencial dos fatos
miraculosos, o de fazer exceção à lei comum.


Essas manifestações, observadas em nossos dias com mais cuidado do que na
antigüidade, observadas sobretudo sem prevenção, e com a ajuda de investigações tão
minuciosas quanto as que se aplicam no estudo das ciências, têm por conseqüência
provar, de maneira irrecusável, a existência de um princípio inteligente fora da matéria,
sua sobrevivência aos corpos, sua individualidade depois da morte, sua imortalidade,
seu futuro feliz ou infeliz, por conseguinte, a base de todas as religiões.



Se a verdade não fosse provada senão por milagres, poder-se-ia perguntar: Por que os
sacerdotes do Egito, que estavam no erro, reproduziram diante do Faraó aquilo que
Moisés fez? Por que Apolônio de Tiana, que era pagão, curava pelo toque, devolvia a
visão aos cegos, a palavra aos mudos, predizia as coisas futuras e via o que se passava à
distância? O próprio Cristo não disse: "Haverá falsos profetas que farão prodígios"? Um
de nossos amigos, depois de uma fervorosa prece ao seu Espírito protetor, foi curado
quase instantaneamente de uma enfermidade, muito grave e muito antiga, que resistia a
todos os remédios; para ele o fato era verdadeiramente miraculoso; mas, como ele
acreditava nos Espíritos, um cura, a quem contou a coisa, disse-lhe que o diabo também
pode fazer milagres. "Nesse caso, disse esse amigo, se foi o diabo que me curou, é ao
diabo que devo agradecer."

Os prodígios e os milagres não são, pois, o privilégio exclusivo da verdade, uma vez
que o próprio diabo pode fazê-los.

(...) Há no Espiritismo duas coisas: o fato da existência dos Espíritos e de suas
manifestações, e a doutrina que disso decorre. O primeiro ponto não pode ser posto
em dúvida senão por aqueles que não viram ou que não quiseram ver; quanto ao
segundo, a questão é saber se essa doutrina é justa ou falsa: é um resultado de
apreciação.

(...) Considerai o Espiritismo, se o quiserdes, não como uma revelação divina, mas
como a expressão de uma opinião pessoal, a tal ou tal Espírito, a questão é saber se ela é
boa ou má, justa ou falsa, racional ou ilógica. A que se reportar para isso? É ao
julgamento de um indivíduo? De alguns indivíduos mesmo? Não; porque, dominados
pelos preconceitos, as idéias preconcebidas, ou os interesses pessoais, podem se
enganar. O único, o verdadeiro juiz, é o público, porque ali não há o interesse de
associação. Além disso, nas massas há um bom senso inato que não se engana. A lógica
sã diz que a adoção de uma idéia, ou de um princípio, pela opinião geral, é uma prova
de que ela repousa sobre um fundo de verdade.

Os Espíritas não dizem, pois: "Eis uma doutrina saída da boca do próprio Deus,
revelada a um único homem por meios prodigiosos, e que é preciso impor ao gênero
humano." Eles dizem, ao contrário: "Eis uma doutrina que não é nossa, e da qual não
reivindicamos o mérito; nós a adotamos porque a achamos racional. Abribuí-lhe a
origem que quiserdes: de Deus, dos Espíritos ou dos homens; examinai-a; se ela vos
convém, adotai-a; caso contrário, ponde-a de lado."

Não se pode ser menos absoluto!

O Espiritismo não vem, pois, intrometer-se na religião; ele não se impõe; não vem
forçar a consciência, não mais dos católicos do que dos protestantes, dos judeus; ele se
apresenta e diz: "Adotai-me, se me achais bom."

É culpa dos Espíritas se o acham bom? Se nele se encontra a solução do que se
procurava em vão alhures? Se nele se haurem consolações que tornam felizes, que
dissipam os terrores do futuro, acalmam as angústias da dúvida e dão coragem para o
presente? Não se dirige àqueles a quem as crenças católicas ou outras bastam, mas
àqueles que elas não satisfazem completamente, ou que desertaram; em lugar de não


mais crer em nada, os conduz a crerem em alguma coisa, e a crer com fervor.

Pergunta-se sobre que milagre nós nos apoiamos para crer a Doutrina Espírita boa. Nós
a cremos boa, não só porque é nossa opinião, mas porque milhões de outros pensam
como nós; porque ela conduz a crer aqueles que não crêem; dá coragem nas misérias da
vida. O milagre?! É a rapidez de sua propagação, estranha nos fastos das doutrinas
filosóficas; foi por ter, em alguns anos, feito a volta ao mundo, e estar implantada em
todos os países e em todas as classes da sociedade; foi por ter progredido, apesar de
tudo o que se fez para detê-la, de ultrapassar as barreiras que se lhe opôs; de encontrar
um acréscimo de forças nas próprias barreiras. Está aí o caráter de uma utopia? Uma
idéia falsa pode encontrar alguns partidários, mas nunca tem senão uma existência
efêmera e circunscrita; perde terreno em lugar de ganhá-lo, ao passo que o Espiritismo
ganha-o em lugar de perdê-lo. Quando é visto germinar por todas as partes, acolhido por
toda a parte como um benefício da Providência, é que ali está o dedo da Providência; eis

o verdadeiro milagre, e nós o cremos suficiente para assegurar o seu futuro.
(...) Em resumo: O Espiritismo, para se estabelecer, não reivindica a ação de nenhum
milagre; não quer, em nada, mudar a ordem das coisas; procurou e encontrou a causa de
certos fenômenos, erradamente reputados como sobrenaturais; em lugar de se apoiar no
sobrenatural, repudia-o por sua própria conta; dirige-se ao coração e à razão; a lógica
lhe abre o caminho".

1- KARDEC, Allan. A Gênese. 43.ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003, cap. XIII, item 4, §
1º.

2- KARDEC, Allan. Revue Spirite. Araras: IDE, 1993, p. 40 e seguintes.

O autor é Presidente-fundador da Soc. Muriaense de Estudos Espírita, expositor e
escritor.

http://www.oclarim.com.br/revista/texto_2/texto_2.html


... Vovó Maria Conga da Bahia

> Um Dia Num Terreiro de Umbanda

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Um Dia Num Terreiro de Umbanda

Vovó Maria Conga da Bahia

(Médium Mãe Iassan)

Era dia de gira. O terreiro já estava todo limpo e preparado.

Os médiuns responsáveis pela limpeza daquele dia conversavam
alegremente.

A dirigente e as mães pequenas já haviam feito todas as firmezas e
podiam agora se juntar aos demais médiuns para um entrosamento maior.

O ambiente era tranqüilo e feliz.

Duas horas antes do início efetivo da sessão começaram a chegar
os demais médiuns pertencentes a Casa.

Uns mais efusivos que outros como ocorre em todo grupo, todos se
cumprimentam alegremente.

Faltando uma hora para o início dos trabalhos é iniciada a
palestra destinada a assistência e médiuns.

Com a palestra já quase no fim, eis que chega Dora, médium de
pouco mais de três meses na Casa.

Entra quieta e apressada, cumprimenta os irmãos de corrente com um
"Oi" geral, um sorriso amarelo e vai direto para o vestiário
trocar de roupa. Alguns médiuns se entreolham sem saber o porque
daquela irmã nunca se entrosar com eles.

Chega sempre em cima da hora da sessão, nunca se oferece para ajudar
na faxina do terreiro e nem participa das obras assistenciais. Mesmo
quando é sessão de desenvolvimento, entra muda e sai calada.

Essa atitude dela vem já causando algum desconforto entre alguns
médiuns, que resolvem, com a "melhor das boas intenções"
perguntar a Mãe no Santo, faltando menos de 15 minutos para o
início da sessão, se ela não sabe o porque desse
"descaso" para com os irmãos e para com a própria Casa.

A Mãe no Santo responde:

-Deixem a Dora em paz... ela tem compromissos previamente assumidos que
a impedem de estar mais tempo junto de nós. Isso não significa que

ela não gosta da Casa ou de nós. Por que ao invés de ficarem
especulando não tentam colocá-la mais a vontade em nossa Casa?

Mas Rodrigo é curioso... e dispara:

-Mas Mãe, nem quando ela chega aqui ela fala com a gente direito...
Entra muda e sai calada. Assim fica difícil fazer amizade com ela.
-Ela é tímida. Não lhe passou pela cabeça que a sua forma
de aproximação pode assustá-la ou afastá-la? Menos julgamento,
meu filho e mais amor...
Rodrigo não gostou da resposta da Mãe, mas silenciou pois o olhar
dela lhe disse que o assunto estava encerrado, até porque a sessão
já ia começar.

-Vão para dentro do terreiro... diz a Mãe. Preciso me preparar.
Rodrigo vai para dentro do terreiro determinado a descobrir os "tais
compromissos" e se Dora era realmente tímida ou antipática.
Afinal, ele trabalhava tanto, fazia tanto pela Casa limpava, fazia
faxina, chegava cedo no terreiro, participava das aulas, palestras,
sessões de desenvolvimento... e tinha o mesmo tratamento que Dora?
Recebia da Mãe o mesmo sorriso, a mesma atenção... Não achava
justo isso. Ia dar um jeito de mostrar para a Mãe que ela estava
sendo condescendente demais com aquela médium tão inexpressiva e
indisciplinada.

Começa a sessão... os trabalhos transcorrem normalmente. Dora
incorpora pela primeira vez o seu Caboclo... Saúda o Caboclo chefe e
diz ao Caboclo da Dirigente:

- Esse Caboclo tá muito satisfeito com o que seu aparelho vem fazendo
com minha filha. Ela precisa de muita orientação e amparo. Não
permita que turvem os olhos e o coração do seu aparelho com
maledicências...
O Caboclo chefe responde:

-Pode ficar tranqüilo. Meu aparelho já sabe.
Ao ver que Dora havia incorporado, Rodrigo sente aumentar ainda mais a
sua inveja... e pensa "Agora que ela vai ter mais atenção
mesmo... se sem incorporar nada já recebia atenção... agora
então..." Rodrigo tenta em vão escutar o que os Caboclos
estão dizendo. A sua ansiedade não permitiu que ele mesmo
incorporasse seu enviado de Oxoce. Desequilibrou-se e acabou ficando sem
receber as irradiações maravilhosas de seu guia, que tenta
exaustivamente chamá-lo a razão, dizendo a seu ouvido:


-Meu filho, reflita no real motivo que se empenha tanto em ajudar na
Casa. É por humildade ou para "aparecer". A Mãe tem que
zelar por todos igualmente e é óbvio que irá se preocupar com
os que mais necessitam. Abranda o teu coração e sossega teu
pensamento para que possa fazer o que devia ser o teu primeiro objetivo
aqui... praticar a caridade servindo de aparelho para mim e a tua Banda
toda...
Mas nada... Rodrigo não lhe dava ouvidos. A corrente da Casa já
havia anulado a ação dos espíritos trevosos que circundavam o
terreiro, mas eles encontravam dificuldade em afastar alguns pois
estavam encontrando ressonância de sentimentos em Rodrigo que estava
com a "guarda aberta".

O Caboclo Chefe, Sr. Pena Branca, foi avisado pelos guardiões o que
estava se passando. Ele olhou Rodrigo que de tão cego que estava
não percebeu o olhar do Caboclo. O sr. Pena Branca avançou em
direção a Rodrigo que cantava pontos sem prestar a menor atenção a

o que estava acontecendo a sua volta, pois o seu olhar estava fixo sobre
Dora incorporada. Quando deu por conta, Sr. Pena Branca estava na sua
frente... e falou:
-Curumim! Presta atenção na gira e não em médium. Presta
atenção ao seu guia...
-Mas eu não estou sentindo a vibração dele... acho que não vem
hoje...
-Ele está do seu lado! Sempre! Ele tem compromisso com você e com
a Casa. Você é que está preocupado com coisa que não é
para se preocupar e nem saber. Coisa que não deveria ser do seu
interesse. Cuida do teu e do que veio fazer aqui!
Ato contínuo eleva a mão sobre a testa de Rodrigo sem tocá-la
buscando cortar o elo de ligação com os espíritos trevosos que
desta feita insistem em atuar no mental de Rodrigo.

Rodrigo fecha os olhos e balança suavemente para frente e para
trás... o Sr. Pena Branca dá o seu brado e o Caboclo Flecheiro
incorpora em Rodrigo.

Os dois conversam. O Sr. Pena Branca pede que seja enérgico com
Rodrigo. Que o oriente a deixar os assuntos que não sejam de sua
alçada fora de seus pensamentos. Que não seja intransigente com os
irmãos, que controle a sua curiosidade e julgue menos. Que veja todos
os irmãos iguais e que se conscientize do seu papel dentro do
terreiro e dentro da Umbanda.


O Caboclo Flecheiro promete que irá continuar trabalhando mas que
Rodrigo tem o seu livre arbítrio e pede ajuda nessa tarefa. O Sr.
Pena Branca promete interceder também.

Iniciam as consultas e o trabalho transcorre com tranqüilidade.

Ao término da sessão Dora é só sorrisos. Feliz por haver
incorporado pela primeira vez o seu Caboclo, quase corre para perto da
Mãe e a abraça agradecida.

-Mãe, obrigada! As suas palavras ontem me deram novo incentivo, nova
vida. Renovaram o meu desejo de crescer, estudar, evoluir. Fiz tudo
direitinho conforme a senhora orientou e hoje vi que não estou
louca... Cheguei aqui hoje ainda com um pouco de medo. Mas... Ele existe
mesmo e a sensação é maravilhosa. Aqui é a minha Casa por que
é a Casa Dele. Além do mais, hoje quando fui fazer a entrevista de
emprego, me saí tão bem que já começo a trabalhar na
segunda-feira e terei mais tempo para me dedicar ao Centro e aos estudos
da espiritualidade.
A Mãe sorri e responde:

-Viu minha filha? Todos nós passamos por isso, sentimos esse medo,
essa insegurança... só que alguns esquecem que um dia foram
inseguros e tiveram seus problemas também.
Nesse momento a Mãe lança um olhar significativo para Rodrigo que
abaixa a cabeça envergonhado.

Dora acompanha o olhar da Mãe e vê Rodrigo. Dirige-se a ele
sorrindo e com os olhos cheios de lágrimas, diz:

-Rodrigo, você me ajuda? Gostaria muito de ajudar na limpeza de
nosso terreiro e em todas as tarefas disponíveis, agora que arrumei
outro emprego e não trabalho mais em dia de sessão. Como posso
fazer? Falo com quem? Você sempre foi tão prestativo e atencioso
comigo... pode me ajudar?
Felizmente a excitação de Dora não permitiu que ela percebesse o
quão desconcertado e envergonhado Rodrigo estava, pois ele ouvira na
íntegra a conversa entre o seu Caboclo e Sr. Pena Branca e agora
ouvia aquilo...

A Mãe no Santo sorri. Mais uma lição havia sido aprendida por
aquele filho tão querido. Ela volta-se para o Congá e sorri ao
olhar a imagem de seu Caboclo e em pensamento diz: "Obrigada Pai!
Obrigada Umbanda pela oportunidade do aprendizado constante!"

Mensagem Inspirada por Vovó Maria Conga da Bahia


Médium Mãe Iassan


.. Consciência Espírita -Jornal Consciesp
> Allan Kardec: a mensagem do antigo druida para as gerações futuras
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"E haverá no mundo uma religião única, bela e digna de Deus, dirigida pela 'A
Verdade'. Os seus fundamentos já foram lavrados".
Comunicação recebida pela mediunidade da menina Ruth, uma das quatro sensitivas
adolescentes que serviram de instrumentos para o recebimento de O Livro dos Espíritos,
cujas informações, transmitidas pelos Espíritos Superiores, foram compiladas por Allan
Kardec.


Muitos mestres, muitas verdades e muitos discípulos confusos


Ao longo da história, tomamos conhecimento de inúmeros missionários, disseminadores
de revelações espirituais específicas, fundadores de novas escolas espiritualistas das
mais diferentes interpretações. Nos dias de hoje enxameiam sacerdotes, pastores,
médiuns, gurus, mestres, magos, sensitivos, hierofantes, mediadores entre homens e
forças superiores. Todos são portadores de novas revelações. Alguns são bem
intencionados e sinceros, outros excêntricos e egocêntricos. Mas, a maioria destes novos
missionários, atribuem para si mesmos a posse do verdadeiro conhecimento, ou, no
mínimo, auto proclamam-se os verdadeiros propagadores da verdade.


Assim, podemos constatar: há muitos "mestres", muitas "verdades", mas também,
muitos discípulos confusos.


A desmistificação do conhecimento secreto


Allan Kardec, embora tido pelos espíritas como um missionário, jamais se proclamou
como tal. Sua doutrina não é produto de uma tese pessoal, de cunho personalista,
elaborada por revelação em algum "lugar santo", isolado, após alguma superexperiência
mística e solitária, totalmente subjetiva.



Sua mensagem não tem caráter dúbio, secreto, iniciático, simbólico, ainda que em sua
essência estejam elementos do conhecimento perdido das antigas escolas de mistério,
outrora revelado por luminares guardiões desse conhecimento espiritual, cuja
disseminação perpetuava-se de boca a ouvido, à meia luz dos grandes templos de
mistérios de todas as grandes civilizações do passado.


Seu corpo doutrinário é exposto de forma exotérica (exposto ao público e não esotérica
= fechada dentro de um grupo) e didática, desmistificando a aura de mistério, de
sobrenatural e maravilhoso que tanto impressiona os incautos, mas que também fascina
os orgulhosos e manipuladores do bom-senso.


Três tipos de pessoas que hostilizam Allan Kardec e sua mensagem


Este insigne missionário ainda é praticamente desconhecido em nossos dias, assim
como sua mensagem, que se constitui uma exaltação à lógica e à moral para o homem
contemporâneo, mais emancipado de atavismos.


Allan Kardec é hostilizado por três classes de pessoas:
a - Pessoas de mentalidade materialista, espiritualmente incultas, incapacitadas para
compreender algo que transcenda o limitado alcance dos cinco sentidos.


b - Pessoas bem intencionadas, porém, presas a dogmas de fé, ainda inaptas a apreender
a essência abrangente de sua mensagem. São sinceros em suas convicções, embora estas
sejam frágeis, embasadas na fé cega e no comportamento imediatista, hiperatrofiado
pelo excessivo enfoque ao culto exterior.


c - Pessoas que reconhecem mas temem o alcance e a profundidade de sua revelação,
em função de interesses escusos e mundanos. Às vezes também, por estarem atados,
consciente ou inconscientemente, a convicções próprias e, assim, preferem combatê-lo e
repudiá-lo. Normalmente, são de mentalidade preconceituosa e fundamentalista,
vivendo acomodados aos mais aprisionadores atavismos.


A mensagem que satisfaz mente e coração


Allan Kardec traz uma mensagem libertadora. Uma revelação interessantíssima, com
impacto direto sobre o coração, pelas vias do raciocínio, a todo ser humano não
preconceituoso, com ouvidos para ouvi-la e disposição para estudá-la, discerni-la, sentila,
praticá-la, para só assim, então, começar a compreendê-la.


Este incomparável missionário da religião interior, cujo exemplo, senso moral e
aspiração elevada dão testemunho da grandeza intocável de seu espírito superior, pode
ser conhecido em plenitude através do legado incomparável de sua obra que, na
verdade, nada mais é senão a compilação de um sopro provindo de horizontes mais
longínquos, tingidos pelas cores de um novo e desconhecido alvorecer — faixas
vibracionais onde atua a existência supradimensinal do homem.


O menino de olhos claros, de personalidade enérgica e perseverante


Aquele que hoje conhecemos pelo nome de Allan Kardec chamava-se Hippolyte Léon
Denizard Rivail. Nascido em Lyon, França, às 19h do dia 3 de outubro de 1804, era



filho de antiga família lionesa, católica, nobre e de tradição. Foram seus pais Jean-
Baptiste Antoine Rivail, respeitável advogado e juiz do tribunal de Lyon, e Jeanne
Louise Duhamel.

Hippolyte desde cedo mostrou inclinação para os estudos filosóficos e científicos.

Privilegiado pela atmosfera de um lar harmonioso, teve seu desenvolvimento espiritual
e cultivo de sua notável inteligência favorecidos pela sabedoria e bondade de seus pais.

Era um menino simpático e robusto, de testa ampla, olhos cinzentos, bem claros, quase
azuis e de grande vivacidade. Tranqüilo e moderado, seu temperamento equilibrado
denotava personalidade enérgica e perseverante.

Época de guerras e descrença

O pequeno Rivail nasceu em uma época de graves agitações políticas, conflitos sociais e
religiosos, não apenas na França, mas em todo o mundo. Era a época de Napoleão I. Os
franceses sofriam o peso de intermináveis chacinas e toda a Europa se transformara em
sangrento campo de batalha.

O materialismo, a descrença, a intolerância religiosa predominavam. Os membros
proeminentes do clero, com raras exceções, compartilhavam avidamente da roda dos
interesses mundanos, tragicamente esquecidos do exemplo do Sublime Nazareno, de
quem se auto-intitulavam legítimos representantes na Terra.

Em razão dos abusos desses sacerdotes, que jamais esconderam sua predileção por
César, além de suas superficiais interpretações teológicas que unicamente fomentavam

o culto exterior, os homens do povo se revoltavam e os mais cultos passavam a duvidar
das realidades espirituais.
O alvorecer da religião interior

Surgiam, então, novos filósofos, escritores, cientistas e artistas que negavam a
existência de Deus e a imortalidade da alma.

O materialismo erguia o seu cetro sobre o império do ceticismo e da indigência
existencial.

Todas as exterioridades da Igreja, as semeaduras de descrença da filosofia, da ciência e
da arte, geravam enorme inquietação espiritual nas almas, fomentavam um amargo
vazio interior.

Mas justamente quando o Positivismo de Auguste Comte preconizava o absurdo da
negação e o Catolicismo extravagantemente proclamava, com Pio IX, a infalibilidade
papal (o papa não erra), o céu deixava cair a revelação abençoada dos túmulos, que
começaria a germinar, gradativamente, nos canteiros da razão e do sentimento do
homem contemporâneo, promovendo a essencial revolução íntima e silenciosa, que
culmina no alvorecer da religião interior.

Lyon, a "cidade dos mártires"


O menino Hippolyte tinha o hábito de meditar sobre as águas contrastantes de dois rios
de sua cidade natal: o Sona, sereno e inspirador, quase imóvel, e o Ródano, impetuoso e
lendário. Virgílio, o famoso poeta romano, cantou o Sona em seus versos. Já o Ródano,
fora o rio dos navegadores gauleses, dos fenícios, dos gregos e dos romanos. Sobre suas
águas Potino trouxera para Lyon o Evangelho de Jesus Cristo.

Rivail amava sua querida Lyon. Sentia prazer em visitar as velhas ruínas e os lugares
tradicionais da cidade que fora, outrora, a capital da Gália Romana.

Absorto em meditações, o pequeno missionário visitava os teatros romanos em ruínas,
as antigas construções cristãs, os bairros operários e os museus. Aprendera que Lyon
fora a "cidade dos mártires" e que, nos primórdios do Cristianismo, abrigara o sangue de
inúmeros mártires, sacrificados pela intolerância dos romanos, tais como Potino, quase
centenário, arrastado e espancado por cruéis verdugos... a jovem escrava Blandina,
submetida a torturas e à morte no anfiteatro... o menino Pôntico, de apenas quinze
anos... Átalo, Alexandre e muitos outros...

Assim, seus olhos mergulhavam num tempo perdido e insondável, naquela presente e,
ao mesmo tempo, distante terra dos gauleses, tida pelos antigos autores, Lucano,
Horácio e Florus como "depositária dos mistérios do nascimento e da morte..."

O professor que era chamado de "pai"

Aos 12 anos, Rivail concluiria seus estudos em sua amada Lyon. Seus pais, desejosos
em lhe oferecer boa educação, vivendo o clima das lutas religiosas reinantes na França
de então, entenderam por bem confiar o único filho ao famoso educador Johann
Heinrich Pestalozzi, o mais sábio, respeitado e célebre professor daquele tempo,
precursor da moderna educação, da chamada "escola ativa" e fundador da primeira
escola profissional do mundo, na Suíça.

Doutor em direito e professor de história na Universidade de Zurique, Pestalozzi
consagrou sua inteligência, seu tempo, seu coração e sua vida à causa dos órfãos e da
infância desamparada, vitimada pelas guerras. Foi inspirador dos famosos "jardins de
infância" de Froebel e disseminador de abrigos educativos em várias cidades de sua
pátria. Seus evoluídos conceitos sobre educação espalharam-se pela Europa e pela
América, reformando o antigo sistema das escolas.

Benfeitor da humanidade, manuseava a bíblia todos os dias. Educador de órfãos e de
príncipes, era justo e bom, sustentador de idéias liberais.

Desfrutaria o menino Rivail a companhia desse mestre em excelência, verdadeiro
formador de caráter. Tão amado era que seus alunos o chamavam de "pai" Pestalozzi.

No castelo às margens de um antigo lago gaulês

O famoso Instituto Pestalozzi ocupava um antigo castelo em Yverdon — a mesma
cidade gaulesa antiqüíssima de Elbrodunum. O edifício, ladeado por quatro grandes
torres, erguia-se às margens do Lago de Neuchatel.

Foi na atmosfera inspiradora e pacífica deste velho castelo que Rivail conviveu com seu


educador durante oito anos, preparando-se para o magistério. Dele absorveu a bondade e
a sabedoria proveniente de seu espírito superior, cujo coração grandioso abrigava com
carinho e afeto as crianças ricas, mas também as pobres, fazendo de seu famoso instituto
um oásis de harmonia e estudo num mundo, lá fora, de guerras e ignorância.

O discípulo substitui o mestre

Após dois anos de sua chegada à Suíça, com 14 anos, o adolescente Rivail já lecionava
para alguns de seus colegas, em classes a ele confiadas por Pestalozzi.

Dedicado ao estudo das diversas disciplinas do curso normal do Instituto, estudou ainda
teologia, filosofia e diversas línguas. Adquiriu consistentes conhecimentos em
medicina, apresentando brilhante tese por ocasião de sua formatura.

Ainda em Yverdon, aos 19 anos, interessou-se pelos estudos do magnetismo, na época,
catalisador do interesse dos sábios e médicos da França e outros países europeus.

Já moço, Rivail recebeu toda a confiança de seu mestre, tornando-se o discípulo
predileto. Todas as vezes que Pestalozzi se ausentava do Instituto, o jovem lionês
assumia sua direção, coordenando e lecionando os mais variados cursos.

Mentalidade tolerante e liberal

Nessa atmosfera pacífica e de fertilidade cultural-espiritual, o jovem, católico até então,
conheceu dissabores e desgostos por parte de alguns protestantes de Yverdon. Mas ele
nunca se abateu. Ao contrário, fortaleceu e aprimorou seu sentimento de tolerância e
respeito às crenças alheias. Talvez, até, sob as sombras do castelo do Instituto, tenha
cogitado uma reforma espiritual que fizesse desaparecer ódios religiosos e reunificasse

o Cristianismo, de acordo com o Espírito de Amor de Jesus.
Em 1824, Pestalozzi, já velho e esgotado, providenciava o fechamento do famoso
instituto, em decorrência dos incontáveis sofrimentos morais por que passava. Rivail,
completara vinte anos. Mestre e discípulo se abraçam e se despedem. O jovem professor
parte para Paris, França, levando na intimidade de sua alma, as lições inesquecíveis do
grande educador, cuja influência moral jamais deixaria de inspirá-lo, durante todos os
grandes momentos de sua vida missionária.

O jovem professor Rivail, seu Instituto e suas obras

Com larga experiência de magistério, pois iniciara aos 14 anos, na Suíça, o jovem
professor Rivail, como passa a ser conhecido, inicia sua carreira, bacharelado em
ciências e letras.

Em 1824, publica, na capital francesa, suas primeiras obras: "Aritmética do 1.º Grau" e
um "Curso Teórico e Prático de Aritmética", segundo o método de Pestalozzi (em dois
volumes).

Um ano depois, com vinte e um anos, publica nova obra: "Escola de Primeiro Grau" e
funda um colégio nos moldes do Instituto de Yverdon, denominado "Instituto
Educacional Técnico". Disposto ao trabalho, mas não dispondo de recursos financeiros,


torna-se então sócio de um tio, irmão de sua mãe, que lhe provê o capital necessário
para as instalações da escola.

Publica vários outros livros com ampla aceitação em todo o país: obras sobre
matemática, sobre a língua francesa, sobre física, fisiologia e astronomia. Muitas de
suas obras foram adotadas pela Universidade da França, o que atesta o alto valor dos
livros do jovem professor.

Notoriedade e vigor cultural

Rivail continua seus estudos lingüísticos na França. Além de sua língua pátria, conhecia
profundamente o inglês, o alemão e o holandês. Falava, também, o italiano e o espanhol
e possuía sólidos conhecimentos do latim, do grego e do gaulês.

Essa grande capacitação do jovem professor deu-lhe notoriedade ao mundo da cultura
francesa, principalmente, com a publicação de uma obra importantíssima, editada em
1831, aos 27 anos: "Gramática Francesa Clássica". Ainda no mesmo ano, o já famoso
professor apresenta à Academia Real de Arrás um importante trabalho: "Qual o Sistema
de Estudos mais em Harmonia com as Necessidades da Época?". Nesta obra, ele
abrange o tema da reforma dos estudos clássicos. Essa tese alcançou o primeiro prêmio
da Academia, que lhe conferiu medalha de ouro e reconhecimento no meio cultural.

Tornou-se conhecido na Alemanha por traduzir para o alemão várias obras de educação
e de moral, principalmente de Fénelon que, posteriormente, se apresentaria, em espírito,
a Allan Kardec como um dos integrantes da equipe de espíritos encarregados em
transmitir a Terceira Revelação.

Amélie Boudet, companheira inseparável de todos os momentos

Hippolyte Rivail prossegue pela vida revelando-se um trabalhador de fôlego, sempre
acordando muito cedo, lecionando, escrevendo, traduzindo. Depois de algum tempo,
com os frutos de seu trabalho honesto, conquista uma relativa estabilidade econômica

Aos 27 anos, casa-se com distinta professora, a senhorita Amelie Boudet, uma jovem
culta, poetisa e pintora que conhecera no "Instituto Educacional Técnico". Lecionava
letras e belas-artes.

Foram muito felizes, verdadeiramente unidos na alegria e na dor dos grandes
testemunhos. O amor de ambos transcendeu os estreitos limites de um casamento
comum, estendendo-se à humanidade, no esforço pela divulgação de uma
imprescindível revelação do Alto concedida à Terra.

"Trabalho, Solidariedade e Tolerância"

Rivail notabilizou-se através de inúmeras sociedades culturais da França. Torna-se sócio
honorário da "Sociedade de Estudos Gramáticos de Paris"; sócio catedrático do
"Instituto Histórico da França", membro da "Sociedade de Ciências Naturais da França"
e de muitas outras intituições parisienses e outras cidades.

Em razão da inconseqüência de seu tio e sócio, jogador inveterado, Rivail atravessa


seríssimas dificuldades em 1835, sendo forçado a fechar seu Instituto para não acarretar
prejuízos a terceiros.

Liquidado o Instituto, recebe determinada quantia a ele correspondente, confiando-a a
um amigo comerciante. Dias depois, esse comerciante abre falência, nada deixando aos
credores.

Esses dois reveses não abatem o ânimo do casal. Rivail e Gaby, como era conhecida
Amélie na intimidade, dispõem-se a todos os sacrifícios. Sob o lema de Rosseau
"Trabalho, Solidariedade e Tolerância", recebido de Pestalozzi, na Suíça, ambos
trabalham, irmanam-se no espírito de solidariedade conjugal, perdoando sempre e
tolerando com resignação as duras provas da vida.

Lecionando gratuitamente a jovens franceses desfavorecidos

Uma das inquestionáveis provas da elevada condição moral de Rivail está no fato de
receber alunos pobres em sua própria casa, justamente na fase financeira mais difícil de
sua vida. Leciona-lhes, gratuitamente, durante cinco anos, cursos de química, física,
astronomia e anatomia comparada. Esses cursos beneficiam inúmeros jovens e
adolescentes franceses, encerrando exemplo vivo de amor e caridade, recebido de seu
mestre Pestalozzi, remanescente em seu coração generoso. O dedicado professor não é
indiferente às grandes dificuldades desses muitos estudantes desfavorecidos.

Nessa sua difícil fase, durante o dia encarrega-se da contabilidade de três
estabelecimentos comerciais. À noite, continua trabalhando, escrevendo novas obras
didáticas, traduzindo livros ingleses e alemães para editoras francesas e dando aulas
particulares nos cursos de Levy-Alvarés. Leciona, ainda, diversas disciplinas no "Liceu
Polimático", onde assume o cargo de diretor.

O fenômeno das "mesas girantes"

Em 1854 Rivail, com 50 anos, é um mestre respeitado, escritor reconhecido com obras
didáticas adotadas pela Universidade da França. Equilibrado, sua mente está
amadurecida e o coração sereno e compassivo, pronto para dar início ao cumprimento
da missão que haveria de desempenhar.

A França, assim toda a Europa estava com a atenção voltada para os fenômenos das
chamadas "mesas girantes". Pessoas de todos os níveis culturais e sociais,
indiferentemente de suas convicções religiosas, estavam às voltas com sessões em que
se realizavam fenômenos de efeitos físicos.

Nessas sessões, as mesas eram movimentadas por entidades espirituais, respondendo,
por códigos, às perguntas feitas pelos participantes.

Muitas pessoas sérias, orientadas por espíritos bondosos e sábios, obtinham
comunicações elevadas e interessantes. Mas em geral, esses fenômenos se davam para o
divertimento dos salões parisienses, alheios para compreender a extensão do novo
fenômeno.

Do ceticismo à investigação criteriosa


Foi o magnetizador Fortier quem falou ao professor Rivail sobre esses espantosos fatos
mediúnicos. Outro amigo, companheiro de juventude, um corso de nome Carloti,
também chamou-lhe a atenção sobre tais acontecimentos inexplicáveis.

Em razão de sua mentalidade crítica e científica, o respeitado professor manteve-se
reservado e distante. Até que um dia, no lar dos amigos sr. Pârtier e senhora
Plainemaison, pela primeira vez, assiste a diversos fenômenos mediúnicos, onde as
mesas saltavam e corriam, sozinhas.

O que o professor via em casa de seus amigos, repetia-se por todas as partes do mundo.
Mas os assistentes, com raras exceções, pareciam não compreender o alcance de tudo
aquilo, fazendo dessas reuniões um passatempo ocioso e fútil.

Mais tarde, diria Allan Kardec: "Entrevi naquelas aparentes futilidades, no passatempo
que faziam daqueles fenômenos, qualquer coisa de sério, como que a revelação de uma
nova lei, que tomei a mim mesmo investigar a fundo".

Assim, Rivail mudaria o rumo dos experimentos, dirigindo perguntas filosóficas,
recolhendo informações, comparando-as, categorizando-as. Em sessões especiais,
utilizaria a mediunidade de duas meninas, filhas de seu amigo Boudin, Caroline e Julie,
quando recebe a maior parte dos ensinamentos contidos em O Livro dos Espíritos.

O antigo druida reaparece

Através de um espírito guia da família Boudin, Rivail tomou conhecimento de que se
chamara Allan Kardec, numa existência anterior, ao tempo de Júlio César, na Gália, na
verdade, antigo nome do território francês. De acordo ainda com esse espírito amigo,
que se apresentava com o nome de Zéfiro, declarou ainda ser o professor Rivail um
antigo sacerdote gaulês — um druida. O próprio Zéfiro teria sido seu discípulo e
companheiro de tarefas religiosas entre os gauleses. Allan Kardec era, na hierarquia
sacerdotal da época, seu superior.

Zéfiro ainda fez outra revelação: Rivail estaria novamente nas lutas terrenas para
cumprir importante missão espiritual. Mais tarde, outros benfeitores espirituais
confirmariam essa revelação. Todos lhe prometiam auxílio, encorajavam-no e
aconselhavam-no a ter perseverança e discrição,

Os druidas foram detentores de grandes conhecimentos secretos, tradicionalmente
transmitidos de boca a ouvido. Entre esses conhecimentos estavam a reencarnação, a
concepção dos diferentes domínios espirituais, as diferentes categorias de espíritos, a
evolução contínua do espírito, a lei de causa e efeito, entre outros.

Por ocasião do lançamento de O Livro dos Espíritos, em 1857, o professor Rivail
resolveu apresentá-lo a público com o seu antigo nome gaulês — Allan Kardec.

Assim, reaparece o antigo druida, adequando conhecimentos já vivenciados e melhor
apreendidos, apto a novamente transmiti-los, tornando-se verdadeiro porta-voz de uma
legião de outros tantos seres espirituais, mais emancipados da ignorância espiritual que,
por enquanto, ainda ensombrece a Terra.


A Doutrina Espírita revelada pela mediunidade de quatro meninas

É interessante observar que a excelência doutrinária inegável do Espiritismo, codificado
por Allan Kardec deve-se, em sua quase totalidade, à mediunidade de quatro meninas.
Através da inocência e da potencialidade mediúnica dessas quatro inocentes crianças,
foram trazidas à Terra explicações notáveis, questões complexíssimas das mais variadas
áreas da filosofia, ciência e religião, mantendo-se irrefutáveis até os dias de hoje —
sobretudo o aspecto moral. Os opositores gratuitos do Espiritismo jamais tocam neste
assunto, pois trata-se de um fato difícil para se depreciar e muito menos para se refutar.

As meninas foram: Caroline e Julie Boudin (16 e 14 anos, respectivamente), Ruth
Japhet e Aline Carlotti— verdadeiros anjos reveladores da nova mensagem do Céu para
os dias futuros. As reuniões, a princípio, realizavam-se na intimidade da casa da família
Boudin e as respostas dos espíritos eram transmitidas por meio da cesta de bico, a que
se adaptava um lápis. As meninas punham as mãos sobre a cesta que se movia,
escrevendo mensagens, com absoluta impossibilidade sincrônica de ação dos médiuns
na escrita. Esses escritos, que deram origem a O Livro dos Espíritos, seriam,
posteriormente, comparados aos de outros médiuns, todos rigorosamente escolhidos
pelo codificador.

O antigo druida ressurgido teria ainda recebido comunicações da parte dos bons
espíritos, através de outra menina médium: Ermance Dufaux. Essas mensagens tiveram
por objetivo encorajá-lo na realização de uma nova empreitada: A "Revista Espírita".
Ermance, aos 14 anos, psicografara um admirável livro histórico "A Vida de Joana
d'Arc, Ditada por Ela Mesma", além de outras obras.

O Livro dos Espíritos: Código para uma nova fase da evolução humana

O Livro dos Espíritos causou grande repercussão na França. Homens de ciências e artes
como o astrônomo Camille Flammarion, o grande poeta Victor Hugo, os escritores
Balzac e Teophile Gautier, o pensador Léon Denis, além de inúmeros outros filósofos e
literatos sentiram-se atraídos pela luz da nova revelação.

O próprio imperador da França, Napoleão III, sobrinho de Napoleão Bonaparte, solicita
a presença de Kardec no Palácio das Tulherias e mantém longas conversações com o
codificador sobre O Livro dos Espíritos.

Esta obra é o marco inicial, a pedra fundamental do Espiritismo. Mais do que isso, é
também o código de uma nova fase da evolução humana.

Sobre O Livro dos Espíritos, explica J. Herculano Pires: "O livro começa pela
metafísica, passando em seguida à cosmologia, à psicologia, aos problemas
propriamente espíritas da origem e natureza do espírito e suas ligações com o corpo,
bem como aos da vida após a morte,. para chegar, com as leis morais, à sociologia e à
ética e concluir, no Livro IV, com as considerações de ordem teológica sobre as penas e
gozos futuros e a intervenção de Deus na vida humana."

A Revista Espírita e a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas


No dia 1.º de janeiro de 1858 surge a Revista Espírita, dirigida pessoalmente por Allan
Kardec, até sua desencarnação, em 1869.

Três meses depois, é fundada a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, tendo como
seu presidente espiritual o espírito de São Luis, ou Luis IX, rei da França.

Ainda neste mesmo ano, Kardec publica um pequeno livro de esclarecimentos
doutrinários denominado Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas.

No ano seguinte, em 1859, mais uma obra do codificador é trazida à lume: O que é o
Espiritismo, uma introdução aos estudos da doutrina.

Viagens espíritas e a publicação de O Livro dos Médiuns

Em 1860, o antigo druida ressurgido visita diversas cidades da França. O objetivo é
esclarecer, confortar e incentivar os primeiros núcleos espíritas recém-formados.

Na noite de 19 de setembro, Kardec é recebido no Centro Espírita de Broteaux, único
existente em Lyon, uma das cidades visitadas. À porta esperam-no Dijou, operário,
chefe de oficinas, e sua esposa. É o primeiro encontro de dirigentes espíritas da História.
A mão do grande pensador aperta vigorosamente os dedos calosos e ásperos do
companheiro, a quem chama "irmão".

Nos primeiros dias do ano seguinte, em 1861, o infatigável missionário publica outra
obra: O Livro dos Médiuns. Considera-o como sendo "a continuação de O Livro dos
Espíritos", pois também neste, os ensinamentos pertencem aos espíritos.

Mesmo escrito há mais de 100 anos esta obra continua atualíssima e nenhuma outra,
sobre a fenomenologia mediúnica, conseguiu superá-la.

Explica o codificador, na introdução: "A prática espírita é difícil, apresenta dificuldades
que somente um estudo sério e completo pode prevenir".

Ainda em setembro deste mesmo ano, Kardec viaja novamente a Sens, Macon e Lyon,
constatando o desenvolvimento da doutrina, não apenas entre os instruídos e cultos,
mas, também, entre os humildes e os simples de coração. Em outubro visita Bordéus.

A reação do clero ante o Espiritismo

O ano de 1861 ainda traz um fato desagradável na história da doutrina. Allan Kardec
envia obras espíritas à Espanha, a pedido do amigo Lachatre, livreiro de Barcelona. A
finalidade era difundir as novas idéias naquele país.

Mesmo estando pagas as taxas da alfândega espanhola, o bispo de Barcelona apreende
ilicitamente trezentos volumes e os faz queimar em praça pública, como nos antigos
tempos da Inquisição.

Essa atitude do clero gerou grande revolta e muitos assistentes gritaram: "Abaixo a
Inquisição!".


Contudo, essa atitude intransigente contribuiu enormemente para a propaganda da
doutrina.

A perseguição prosseguiu, dissimulada, mas acirradamente, por muito tempo. O clero
nunca escondeu seu desagrado com relação à mensagem espírita.

Atualmente, a Igreja Católica, através dos esforços ecumênicos do Papa João Paulo II e
também em função de comissões enviadas pelo Vaticano, para observação de
fenômenos paranormais e de Transcomunicação Instrumental, reconhece, em seu Novo
Catecismo, a possibilidade de comunicação com as almas dos "mortos" e até permite,
em alguns casos e com reservas, essas comunicações.

"O Espiritismo em sua Expressão Mais Simples"

A 15 de janeiro de 1862 aparece um pequeno livro intitulado O Espiritismo em Sua
Expressão Mais Simples, também de autoria do antigo druida. Trata-se de uma síntese
da Doutrina, escrita com simplicidade, "ao alcance de qualquer inteligência", esclarece

o missionário.
Este livro alcança uma repercussão intensa, cumprindo anterior previsão de um de seus
guias espirituais, que afirmara: "Este pequeno livro produzirá um efeito que não
esperas... Será difundido com grande amplitude e penetrará toda parte".

De fato, a Doutrina se espalha pela Europa, pela América, pelo norte da África, pelos
países da Ásia. As obras de Allan Kardec são traduzidas para vários idiomas. Em pouco
tempo, apenas O Espiritismo em Sua Expressão Mais Simples ganha versão para nove
idiomas: alemão, inglês, português, polonês, grego moderno, italiano, espanhol, russo e
croata...

"Viagem Espírita de 1862"

Os espíritas de Lyon e de Bordéus, nesse mesmo ano de 1862, recebem mais uma vez a
presença do codificador. Durante os meses de setembro e outubro, sob rigoroso inverno,

o missionário realiza longa excursão de divulgação dos princípios da Doutrina. Visita
vinte cidades da França, discursando cinqüenta vezes, unificando o pensamento e a
conduta dos espíritas.
Essa viagem originou duas publicações: Viagem Espírita de 1862, e Refutações às
Críticas contra o Espiritismo.

Em um de seus discursos, nessa sua peregrinação espírita, o antigo druida afirma:
"Homens da mais alta posição honram-me com sua visita, porém nunca, por causa
deles, um proletário ficou na antecâmara. Muitas vezes, em meu salão, o príncipe se
assenta ao lado do operário. Se se sentir humilhado, dir-lhe-ei simplesmente que não é
digno de ser espírita. Mas, sinto-me feliz em dizer, eu os vi, muitas vezes, apertarem-se
as mãos, fraternalmente, e então, um pensamento me ocorria: 'Espiritismo, eis um dos
teus milagres; este é o prenúncio de muitos outros prodígios!'"

"O Evangelho Segundo o Espiritismo"
Tratado moral dos ensinamentos de Jesus


Kardec publica, em 1864, uma pequena brochura: Resumo da Lei dos Fenômenos
Espíritas e também a obra que se consiste em verdadeiro tratado moral dos
ensinamentos de Jesus: O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Inspirada e inteligentemente, o antigo druida esclarece o objetivo dessa obra notável:
"Podemos dividir as matérias contidas nos Evangelhos em cinco partes:
1) Os atos comuns da vida do Cristo;
2) Os milagres;
3) As profecias;
4) As palavras que serviram para o estabelecimento dos dogmas da igreja;
5) O ensino moral. Se as quatro primeiras partes têm sido objeto de discussões, a última
permanece inatacável. Diante desse código divino, a própria incredulidade se curva. É o
terreno em que todos os cultos podem encontrar-se, a bandeira sob a qual todos podem
abrigar-se, por mais diferentes que sejam as suas crenças. Porque nunca foi objeto de
disputas religiosas, sempre e por toda parte provocadas pelos dogmas. Se os
discutissem, as seitas teriam, aliás, encontrado nele a sua própria condenação, porque a
maioria delas se apegaram mais à parte mística do que à parte moral, que exige a
reforma de cada um. Para os homens, em particular, é uma regra de conduta, que
abrange todas as circunstâncias da vida privada e pública, o princípio de todas as
relações sociais fundadas na mais rigorosa justiça. É, por fim, e acima de tudo, o
caminho infalível da felicidade a conquistar, uma ponta do véu erguida sobre a vida
futura. É essa parte que constitui o objeto exclusivo desta obra".

No Catálogo dos Livros Proibidos

Prossegue o ano de 1864. O Espiritismo ganha vulto com extraordinária rapidez. Dando
mostras de sua intolerância, explícita no auto-de-fé de Barcelona, a Igreja Católica
Romana inclui em seu Índex, ou seja, no seu Catálogo dos Livros Proibidos, as
seguintes obras de Allan Kardec: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns e O
Evangelho Segundo o Espiritismo.

O codificador não se abate. Continua levando a bom termo sua missão, tornando-se
respeitado pelo seu bom-senso e conduta moral irrepreensível.

Faz uma visita à Suíça, a terra de Pestalozzi. Regressando a Paris é chamado pelos
espíritas de Bruxelas e de Antuérpia para uma visita às suas associações belgas.

"O Céu e o Inferno – A Justiça de Deus Segundo o Espiritismo"

Em agosto, de 1865, é publicado pela Livraria Espírita de Paris seu novo livro: O Céu e

o Inferno – A Justiça de Deus Segundo o Espiritismo.
Explica o codificador que o homem carrega dentro de si a necessidade de crer, mas para
que essa crença satisfaça a seus anseios,ela deve corresponder às suas necessidades
intelectuais.

Assim, a crença na sobrevivência do espírito e a possibilidade de comprovação de sua
existência supramaterial serão o primeiro ponto de contato das diversas interpretações
religiosas que igualmente proclamam essas mesmas realidades, porém, cada uma a seu
modo.


Elucida Allan Kardec: "Por instinto tem o homem a crença no futuro, mas não
possuindo até agora nenhuma base certa para defini-lo, a sua imaginação fantasiou os
sistemas que deram causa à diversidade de crenças. A Doutrina Espírita sobre o futuro

— não sendo uma obra de imaginação mais ou menos arquitetada engenhosamente,
porém o resultado da observação de fatos materiais que se desdobram hoje à nossa vista
— congraçará, como já está acontecendo, as opiniões divergentes ou hesitantes e trará
gradualmente, pela força das coisas, a unidade de crenças sobre esse ponto, não já
baseada em simples hipótese, mas na certeza. A unificação feita relativamente à sorte
futura das almas será o primeiro ponto de contato dos diversos cultos, um passo imenso
para a tolerância religiosa em primeiro lugar e, mais tarde, para a completa fusão".
Elevando-se, pelo pensamento, acima da humanidade

Não resistindo ao excesso de trabalho, em 1866, Allan Kardec cai enfermo. Mesmo
assim, logo que se restabelece, retorna aos seus inúmeros deveres de missionário,
cuidando da Revista Espírita, dirigindo a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas,
respondendo às cartas provindas das localidades mais distantes do mundo, socorrendo
silenciosamente os sofredores e doentes, preparando novos livros e publicações
doutrinárias.

Allan Kardec passa a ser alvo de terríveis perseguições, não apenas por parte do clero,
mas também, sofre a traição dos próprios companheiros. Mas sempre a generosidade de
seu coração soube suplantar a todas essas injúrias. Seus escritos e sua conduta falam a
favor de sua invariável delicadeza de linguagem, jamais ferindo ou ofendendo seus
adversários. Em toda e qualquer celeuma, escrita ou verbal, sua superioridade moral
prevalece sobre seus contendores.

E quando se via golpeado pela injúria ou pela maledicência, quando vítima de inveja e
ingratidão, ele mesmo dizia, que nessas horas dolorosas da vida, procurava se elevar,
através do pensamento, acima da humanidade e se colocava, mentalmente, no mundo
invisível, imaginando-se na pátria espiritual, por antecipação, tornando-se inacessível
para as maldades humanas, que já não mais o atingiam. Conta, ainda, que se habituou de
tal maneira a esse exercício espiritual que a maldade dos homens nunca mais o
pertubaram...

"Da parte dos Bons Espíritos"

Sua forma de praticar o bem, socorrendo os aflitos e necessitados, sempre foi oculta,
conforme ensinava Jesus: "Não saiba a vossa mão esquerda o que faz a direita".

Conta Alexandre Delanne, pai do cientista e escritor espírita Gabriel Delanne, que
conhecera um pobre velhinho confinado a extrema pobreza. Mesmo assim, em suas
privações, vivia resignado, graças à leitura de uma pequena brochura de Alllan Kardec,
que lhe fora oferecida. Certo dia, ao tomar conhecimento desse fato, relata Delanne, o
grande missionário chorou. E com lágrimas nos olhos, enviou uma soma em dinheiro ao
pobre ancião e, além disso, vários volumes de suas obras.

Por não ter filhos, era com amor paternal que amava e amparava os pobres e os
sofredores. Visitava as moradas do infortúnio e adentrava, anonimamente e com passos


resolutos, com sua companheira Gabi, ambientes onde a dor lancinava o corpo e a alma.
Visitava detentos e doentes, enviava recursos monetários às famílias necessitadas, em
envelopes fechados, sem indicar a procedência. Nos envelopes escrevia apenas: "Da
parte dos Bons Espíritos".

O continuador da obra de Kardec

Em 1867, juntamente com sua inseparável companheira, faz nova viagem a Bordéus,
Orleães (a cidade que Joana D´Arc libertou dos ingleses), e Tours, realizando
conferências e ensinamentos. Em Tours acontece o encontro de Kardec com um jovem
de vinte e um anos, que seria um de seus grandes discípulos e continuador de sua obra:
Léon Denis.

Um dos mais profundos pensadores espíritas, Denis deixou obras notáveis, entre elas,
"O Problema do Ser do Destino e da Dor", "Depois da Morte", "Cristianismo e
Espiritismo", "No Invisível", entre outras.

Seu continuador, ao estabelecer suas pesquisas e expressar sua linha de pensamento
sobre as realidades da alma, afirmaria em "O Problema do Ser...": "Adotamos aqui os
termos, as vistas os métodos de que se serviu Allan Kardec, como sendo os mais
seguros, reservando-nos o acrescentar ao nosso trabalho todos os desenvolvimentos que
resultaram das investigações e experiências feitas nos cinqüenta anos decorridos desde o
aparecimento de suas obras".

A Gênese

Em 1868, o grande missionário publica uma obra de grande valor científico: "A Gênese

— Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo". Nesta obra o codificador deixa o
campo exclusivamente doutrinário para evidenciar as relações do Espiritismo com a
ciência. Os dados espíritas lhe servem para colocar o problema da origem planetária em
termos científicos, desmistificar a distorção do Cristo sobrenatural, criado pelo
Cristianismo distorcido de suas raízes simples e consoladoras, conspurcado pela
enfatização superatrofiada nos milagres e no sobrenatural.
Allan Kardec soube esclarecer, na Gênese, que os fatos das manifestações espíritas nada
têm de extra-humano, na verdade, é a humanidade espiritual que vem conversar com a
humanidade corporal e dizer:

"Nós existimos, logo o nada não existe. Eis o que somos e o que sereis. O futuro vos
pertence, assim como a nós. Vosso caminho estava nas trevas, e viemos clareá-lo, e vos
abrir as vistas. Não tínheis direção, indo ao acaso, e nós vos apontamos o objetivo. A
vida terrestre era tudo para vós, porque nada era por vós percebido, do lado de lá. Nós
viemos informar-vos, mostrando-vos a vida espiritual: a vida terrestre nada é. Vossa
visão parava no túmulo, nós vos mostramos, além dele, um horizonte esplêndido.
Ignoráveis porque sofríeis sobre a terra, agora, no sofrimento enxergais a justiça de
Deus. O bem parecia não produzir frutos, e, de agora em diante, terá um objetivo e será
uma necessidade. A fraternidade não era senão uma bela teoria, e agora assenta-se sobre
uma lei da Natureza. Sob o império da crença de que tudo acaba com a morte, a
imensidade é vazia, o egoísmo reina entre vós como senhor, e vossa palavra de ordem é:
'Cada um por si'. Com a certeza do futuro, os espaços se povoam ao infinito, o vácuo e


a solidão não existem em parte alguma, a solidariedade liga todos os seres, de um lado e
de outro do túmulo. É o reino da caridade com a divisa: 'Um por todos e todos por um'.
Enfim, alcançado o termo da vida, dizíeis um eterno adeus aos que vos são caros,
enquanto que agora lhes direis: 'Até a vista!'"

O retorno à Vida Maior

Em princípios de 1869, o grande missionário prepara-se para transferir-se de sua casa,
da Rua de Sant'Ana, para a Vila Ségur. A Sociedade de Estudos Espíritas, sempre bem
conduzida pelo codificador, reorganiza-se sobre novas bases. A "Revista Espírita"
prossegue como o veículo oficial catalisador e disseminador do Espiritismo em vários
países.

Allan Kardec planeja muitas coisas em favor da Doutrina. Intenciona escrever novas
obras e construir uma casa-abrigo para os trabalhadores do Espiritismo que
envelhecessem sem recursos. Com as economias provenientes de suas obras
pedagógicas, comprara um terreno na Avenida Ségur.

No dia 31 de março de 1869, entre 11 e 12 horas da manhã, ao atender a um visitante
que lhe solicita um exemplar da "Revista Espírita", repentinamente, a velha
enfermidade do coração liberta seu grandioso espírito.

Conclusão: A possibilidade de ser e tornar-se cada vez mais e melhor

A mensagem espírita, bem compreendida em teoria e prática, descortina a seus adeptos
um vasto horizonte religioso-filosófico-científico, proporcionando um gradativo
refinamento de cogitações e conseqüente elevação de aspirações.

Uma educação espiritual consistente, não coercitiva, racional e consoladora — este é o
legado de Allan Kardec, o antigo druida ressurgido. Sua mensagem é destinada às
gerações futuras, mais despojadas e sublimadas pela dor do milenar desengano
resultante da pertinente transgressão às leis divinas. Estas gerações compreenderão a
Terceira Revelação, pois que a viverão em profundidade. A evidência da vida ultrafísica
se imporá, irrefutavelmente, convergindo a humanidade para a religião interior,
cósmica, referida por Jesus como a que seria vivenciada "em espírito e verdade" —
unificando o rebanho disperso em torno do único Pastor.

Mesmo assim, ainda hoje, se adotarmos por base a noção do ser pensante, como o fez
Descartes, temos nos princípios essenciais do Espiritismo os meios concisos de
desenvolver essa noção, desdobrá-la, pois poderemos afirmar com Léon Denis:

"O primeiro princípio do conhecimento é a idéia do Ser (Inteligência e Vida). A idéia do
ser impõe-se: Eu sou! Esta afirmação é indiscutível. Não podemos duvidar de nós
mesmos. Mas, esta idéia, só, não pode bastar; deve complementar-se com a idéia de
ação e vida progressiva: Eu sou e quero ser, cada vez mais e melhor!"

Ao que a voz do próprio Mestre, pelo decorrer das eras, continua a ressoar, exortando:
"Sede perfeitos, como perfeito é vosso Pai que está nos céus..."

OBRAS CONSULTADAS:


A Gênese – Allan Kardec

Editora Lake
A Vida de Allan Kardec para as Crianças – Clóvis Tavares
Editora Lake

Allan Kardec – Vol. I, II, e III – Zêus Wantuil e Francisco Thiesen

Federação Espírita Brasileira - FEB
Allan Kardec (O Druida Reencarnado) – Eduardo Carvalho Monteiro
Editora EME

O Céu e o Inferno – Allan Kardec

Editora Lake
O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec
Editora Lake

O Livro dos Espíritos – Allan Kardec

Editora Lake
O Livro dos Espíritos e sua Tradição Histórica e Lendária – Canuto Abreu
Edições LFU

O Livro dos Médiuns – Allan Kardec

Editora Lake
O Problema do Ser, do Destino e da Dor – Léon Denis
Editora Federação Espírita Brasileira - FEB

Obras Póstumas – Allan Kardec

Federação Espírita Brasileira - FEB
Revista Espírita n.º 4, Abril de 1858, Allan Kardec
Instituto de Difusão Espírita - IDE

Viagem Espírita em 1862 – Allan Kardec
Casa Editora O Clarim
CONSCIÊNCIA ESPÍRITA – JORNAL CONSCIESP
www.consciesp.org.br - consciesp@consciesp.org.br


... Claudio C. Conti
> Sono, Sonambulismo, êxtase e dupla vista


Artigos


"O homem é para si mesmo um mistério vivo. De seu ser não se conhece nem utiliza
senão a superfície. Há em sua personalidade profundezas ignoradas em que dormitam
forças, conhecimentos, recordações acumuladas no curso das anteriores existências,
um mundo completo de idéias, de faculdades, de energias, que o envoltório carnal
oculta e apaga, mas que despertam e entram em ação no sono normal e no sono
magnético."

Léon Denis; No Invisível - pg 131

O Espiritismo veio ensinar um número infinito de lições, para o ser humano, a respeito
de si mesmo. Contudo, é preciso reconhecer que esta afirmação pode causar estranheza
naqueles que não têm conhecimento mais aprofundado, acreditando que o Espiritismo
não passa de uma doutrina que apresenta conceitos de ordem moral, todavia, vai muito
mais além, pois traz as explicações para a necessidade da aplicação destes conceitos.

Neste processo de autoconhecimento, verifica-se que em vários momentos e atitudes a
que erroneamente não se credita muita importância, podem ser imprescindíveis para a
manutenção da harmonia interior. Um destes momentos é quando o corpo adormece,
mas, na sua condição de espírito, o indivíduo se mantém ativo.

Sono, sonambulismo, êxtase e dupla vista são fenômenos a que o espírito está sujeito e,
devido ao pouco conhecimento sobre estas questões, muitas podem ser as
conseqüências devido a uma avaliação errônea, por parte de profissionais da área
médica, quando deparados com pacientes sujeitos a tais ocorrências. Contudo, devido a
semelhanças e peculiaridades de cada uma, apresentam uma certa dificuldade para o seu
entendimento.

Quais seriam as semelhanças e as diferenças entre sono, sonambulismo e êxtase? E a
dupla vista estaria relacionada a esses assuntos? Para responder a estas perguntas é
preciso, primeiramente, esclarecer que todos estes fenômenos estão baseados no mesmo


princípio: a emancipação da alma. Emancipação significa libertação e que, para isso, é
necessário uma predisposição do organismo físico.

Para compreendermos esta questão, é preciso uma breve introdução.

Sabemos que o ser humano é formado por 3 partes principais: o espírito, o perispírito e

o corpo físico. Na erraticidade, isto é, na vida como espírito desencarnado, o espírito
mantém o seu perispírito, portanto, o espírito sempre manterá o seu primeiro invólucro,
o perispírito. Contudo, a constituição do perispírito não é a mesma para todos os
espíritos; dependendo do seu grau de adiantamento será mais ou menos sutil. É fácil de
compreender que a quantidade de matéria que envolve o espírito proporcionará
limitações para sua vida, pois o mesmo ocorre conosco, não podemos comparar a
versatilidade que temos durante o inverno, quando normalmente vestimos roupas
pesadas, com o verão, quando usamos roupas mais leves.
É isto o que diz o O Livro dos Espíritos na questão 186.

186. Haverá mundos onde o Espírito, deixando de revestir corpos materiais, só tenha
por envoltório o perispírito?
"Há e mesmo esse envoltório se torna tão etéreo que para vós é como se não existisse.
Esse o estado dos Espíritos puros."
No momento da fecundação do óvulo, o espírito, juntamente com o perispírito se liga ao
ovo presidindo, então, a formação do corpo. Durante este processo, como é apresentado
no livro A Gênese, o perispírito se liga ao corpo físico molécula a molécula, pois se um
está sendo moldado pelo outro, é óbvio que deva existir uma superposição exata, um
casamento perfeitos de todas as partes. Contudo, não devemos imaginar que o espírito
esteja encarcerado no corpo; a questão 141 d'O Livro dos Espíritos deixa bem claro:

141. Há alguma coisa de verdadeiro na opinião dos que pretendem que a alma é exterior
ao corpo e o circunvolve?
"A alma não se acha encerrada no corpo, qual pássaro numa gaiola. Irradia e se
manifesta exteriormente, como a luz através de um globo de vidro, ou como o som em
torno de um centro de sonoridade. Neste sentido se pode dizer que ela é exterior, sem
que por isso constitua o envoltório do corpo. A alma tem dois invólucros. Um, sutil e
leve: é o primeiro, ao qual chamas perispírito, outro, grosseiro, material e pesado, o
corpo. A alma é o centro de todos os envoltórios, como o gérmen em um núcleo, já o
temos dito."
No outro extremo, isto é, no momento da desencarnação, quando ocorre a morte do
corpo físico, ocasião em que não apresenta mais condições de ser animado pelo espírito,

o processo se dá de modo inverso, ocorre o desligamento do perispírito, e o espírito está
liberto da matéria densa, porém não completamente liberto, pois ainda estará revestido
do seu perispírito. Em resumo, o grau de liberdade do espírito estará relacionado com o
seu grau evolutivo.
Sabemos que os espíritos manipulam os fluidos, matéria sutil, através do pensamento. A
matéria no estado de fluido é facilmente moldável, capaz de ser influenciada sob a mais
leve pressão, sendo o perispírito uma condensação destes fluidos em torno da
inteligência e que serve de ligação entre o espírito e a matéria densa.


Sob este prisma pode-se conduzir o seguinte raciocínio: temos, de um lado, algo tão
imaterial como o espírito e na outra extremidade algo tão material como a matéria
densa, então, para que possa haver uma comunicação perfeita entre estes dois extremos,
podemos compreender que a composição do perispírito de um mesmo Espírito e,
conseqüentemente, a sua densidade deva, também, variar seguindo um sistema de
camadas, onde as camadas mais sutis do perispírito ficam mais próximas do Espírito, se
adensando gradativamente até entrar em contato com o corpo físico. A camada mais
exterior, a mais densa, chamada de "duplo etérico", se dissipa quando se dá a morte do
corpo físico.

De volta ao assunto, todas as vezes que nos preparamos para dormir, estamos, na
verdade, nos preparando para um desprendimento. Durante o sono o espírito se liberta
parcialmente do corpo físico, mantendo-se ligado pelo cordão fluídico, que funciona
como um fio condutor, onde o espírito é capaz de receber e transmitir informações do e
para o corpo físico que permanece dormindo. Desta forma, mesmo com o espírito
estando afastado do corpo, este não é um navio a deriva, o capitão, que no caso é o
espírito, mantém o controle sobre a situação.

Isto pode até parecer muito estranho, mas o espírito tem uma grande necessidade destes
momentos de libertação, não sendo nem mesmo necessário que se esteja em sono
profundo, como descrito na questão 407.

407. É necessário o sono completo para a emancipação do Espírito?
"Não; basta que os sentidos entrem em torpor para que o Espírito recobre a sua
liberdade. Para se emancipar, ele se aproveita de todos os instantes de trégua que o
corpo lhe concede. Desde que haja prostração das forças vitais, o Espírito se desprende,
tornando-se tanto mais livre, quanto mais fraco for o corpo."
Neste estado, que é chamado de desdobramento, o espírito poderá se deslocar
livremente, o cordão fluídico não exerce nenhum impedimento, haja vista que é
altamente elástico, podendo se estender a longas distâncias.

É preciso ter em mente que o espírito desdobrado, podendo se deslocar livremente, irá
para o local que lhe interessar. Desta forma, alguém preocupado com seu trabalho
poderá, durante o sono, se ocupar de seu ofício profissional; aqueles que gostam de
festas e lugares barulhentos irão, com toda certeza para boates, bares, etc.; aqueloutros
que se dedicam ao estudo, irão para locais onde estejam sendo realizadas reuniões de
estudo; ainda existem aqueles que, devido ao ócio, nem saem do quarto, permanecendo
ao lado do corpo em completa inércia.

Assim, além de refazer as forças do corpo, o sono é também uma grande oportunidade
do espírito se encontrar com seus entes amados que já se encontram na outra esfera de
ação. É a forma de sempre nos mantermos em contato com a verdadeira realidade, que é
a vida espiritual.

Embora possa parecer estranho que se diga que quando se dorme o espírito passeia e,
quando acordado, não se consegue lembrar do que aconteceu, na situação de encarnado
os sentidos são muito limitados, e esta limitação é feita pelos órgãos físicos. O
indivíduo comum, aquele que não possui capacidade mediúnica exacerbada, somente


consegue manter a lembrança daquilo que lhe chega por intermédio dos órgãos
corporais. É o que nos informa os espíritos na questão 403 de O Livro dos Espíritos.

403. Por que não nos lembramos sempre dos sonhos?
"Em o que chamas sono, só há o repouso do corpo, visto que o Espírito está
constantemente em atividade. Recobra, durante o sono, um pouco da sua liberdade e se
corresponde com os que lhe são caros, quer neste mundo, quer em outros. Mas, como é
pesada e grosseira a matéria que compõe, o corpo dificilmente conserva as impressões
que o Espírito recebeu, porque a este não chegaram por intermédio dos órgãos
corporais."
Desta forma é possível usufruir os benefícios do esquecimento durante a vida terrena,
pois as recordações de existências passadas poderiam comprometer o bom andamento
das atribuições na presente encarnação. Conseqüentemente, se fosse possível a
lembrança das vivências durante o período que se encontra desdobrado, ocasiões em
que pode haver uma correspondência com vidas anteriores, o espírito poderia
correlacionar as pessoas com quem convive com aquelas com que já viveu, o que
poderia trazer graves malefícios.

Muitos acreditam que seria muito mais fácil repararem erros cometidos anteriormente se
não houvesse o esquecimento completo do passado. Lendo os vários relatos que se
encontram na literatura espírita, e considerando que a grande maioria ainda se encontra
em níveis evolutivos muito parecidos, pode-se concluir que as histórias de muitos destas
personagens dos livros representam o comum da humanidade. Seria muito desgastante
se fosse possível lembrar dos absurdos que foram cometidos outrora.

Contudo, para aquele que realmente acredita na necessidade de conhecer o passado, não
é necessário muito esforço, basta apenas analisar sua vida atual, suas dificuldades, seja
de relacionamento ou de aceitação própria, assim como suas virtudes, para ter
consciência dos tipos de erros cometidos e das aquisições.

Assim, Leon Denis, no livro O Invisível, pg. 156 e 157, dividiu os sonhos em três tipos
principais:

-Sonho ordinário - puramente cerebral, simples repercussão das disposições físicas ou
preocupações morais, além do reflexo das impressões arquivadas no cérebro durante a
vigília.
-Primeiro grau de desprendimento - mergulha no oceano de pensamentos e imagens,
que de todo lado rolam no espaço, deles se impregna, e aí colhe impressões confusas,
tem estranhas visões e inexplicáveis sonhos, podendo mesclar com reminiscências de
vidas anteriores.
-Sonhos etéreos - o espírito se subtrai à vida física, desprende-se da matéria, percorre a
superfície da Terra e a imensidade, onde procura os seres amados e guias espirituais.
Em resumo, há três tipos do que é considerado sonho, sendo que um deles, o último,
corresponde a lembranças das vivências do espírito enquanto desdobrado.


Considerando, agora, que o espírito desdobrado esteja em condições de usufruir uma
maior liberdade de ação, que seria o sonambulismo. Estando mais liberto, o espírito terá
percepções muito mais apuradas que no sonho.

Neste estado, o espírito poderá inclusive usar o seu próprio corpo para efetuar qualquer
ação, neste caso é que se dá o fenômeno de sonambulismo comumente conhecido,
quando a ação do espírito sobre o corpo não é o mesmo de quando está em vigília. O
processo é semelhante ao que ocorre quando um espírito atua sobre uma mesa, por
exemplo, com a única diferença de que, para atuar sobre a mesa, o espírito necessita de
um médium de efeitos físicos para doar fluido vital, enquanto que no sonambulismo não
há esta necessidade, pois o próprio corpo já está saturado deste fluido.

Liberto de suas vestes corporais, o espírito poderá perambular livremente, com isso,
poderá visitar locais e descrevê-los.

A capacidade do espírito é realmente impressionante e o estudo destas faculdades
fascina, contudo, pode-se questionar o porquê não é possível usufruir destas faculdades
de forma mais intensa, isto é, mantendo a consciência de tudo.

Infelizmente, a humanidade ainda não tem condições morais suficientemente
desenvolvidas para usar estas faculdades. O homem ainda utiliza seu conhecimento para
benefício próprio e, muitas vezes, por meios ilícitos. Já foi divulgado que, durante a
Segunda Guerra, foram realizados experimentos com sonâmbulos para visitarem, em
espírito, as defesas do inimigo e descrevê-las. Isto seria a utilização de uma faculdade
espiritual para fazer espionagem.

Poder-se-ia imaginar que, caso este processo fosse difundido e, obviamente, com total
controle da situação, com certeza não tardariam as firmas de segurança especializadas
em "guardas espirituais".

As seguintes questões de O Livro dos Espíritos esclarecem em maior profundidade:

432. Como se explica a visão a distância em certos sonâmbulos?
"Durante o sono, a alma não se transporta? O mesmo se dá no sonambulismo."
433. O desenvolvimento maior ou menor da clarividência sonambúlica depende da
organização física, ou só da natureza do Espírito encarnado?
"De uma e outra. Há disposições físicas que permitem ao Espírito desprender-se mais
ou menos facilmente da matéria."
434. As faculdades de que goza o sonâmbulo são as que tem o Espírito depois da morte?
"Somente até certo ponto, pois cumpre se atenda à influência da matéria a que ainda se
acha ligado."
Analisando o sono e o sonambulismo, é possível reconhecer que existem algumas
gradações com que o espírito poderá se libertar do corpo físico.

Agora, diante desta teoria, se torna mais fácil a compreensão do êxtase, que nada mais é
do que um estado ainda mais liberto do que no sonambulismo. Estando mais liberto, o
espírito poderá ir a lugares mais longínquos, usufruirá maiores possibilidades de ação.


Durante o sono e o sonambulismo, o espírito transita pela Terra, podendo vivenciar
experiências tanto do mundo material quanto do mundo espiritual, porém o extático é
capaz de visitar mundos mais etéreos, superiores ao que vivemos, e vislumbrar as suas
maravilhas e a felicidade. Nesta condição, como diz Kardec, em O Livro dos Espíritos,
pg 243:

No estado de êxtase, o aniquilamento do corpo é quase completo. Fica-lhe somente,
pode-se dizer, a vida orgânica. Sente-se que a alma se lhe acha presa unicamente por um
fio, que mais um pequenino esforço quebraria sem remissão.

Nesse estado, desaparecem todos os pensamentos terrestres, cedendo lugar ao
sentimento apurado, que constitui a essência mesma do nosso ser imaterial. Inteiramente
entregue a tão sublime contemplação, o extático encara a vida apenas como paragem
momentânea. Considera os bens e os males, as alegrias grosseiras e as misérias deste
mundo quais incidentes fúteis de uma viagem, cujo termo tem a dita de avistar.

É fácil de compreender que esta faculdade é um pouco "perigosa", pois existe a
possibilidade do espírito, diante do reconhecimento da existência de mundos onde que
impera a felicidade, não querer mais retornar ao mundo de sofrimento em que se
encontra, nesta situação ocorreria o desencarne do espírito. Todavia, o estudo é de
fundamental importância para se ter o conhecimento de que, terminando com a vida
corpórea nesta condição, seria um caso de suicídio, com isso, não estaria ajudando em
nada para viver naquele mundo, mas, na verdade, estaria se distanciando muito mais
daquele mesmo mundo que gostaria de viver.

Finalmente, a dupla vista.

Sendo também um estado de desprendimento, ocorre em estado de vigília, o espírito
liberto momentaneamente, é capaz de entrar em contato com o mundo espiritual,
podendo usufruir algumas de suas propriedades de espírito liberto. Nesta condição, é
capaz de ver, sentir e ouvir além das limitações impostas pelo organismo físico.

Sabemos que os sentidos pertencem ao espírito e não ao corpo físico, o corpo apenas
exerce limitações ao mundo material em que se vive. Liberto, mesmo que
momentaneamente, o espírito é capaz de ver além e através dos obstáculos físicos.

CEMA - Centro Espírita Maria Angélica
www.cema.org.br / Todos os direitos reservados.

http://www.cema.org.br/Artigo16.htm

... Eliza Corte

> Planejamento de palestras : o fortalecimento espiritual do homem

Artigos



Planejamento de palestras

TEMA: o fortalecimento espiritual do homem

Correlacionar a 2ª epístola de Paulo a Timóteo, 2:15 – "Procura apresentar-te a Deus,
aprovado como obreiro que não têm do que se envergonhar".

Ilustrar com "O bosque" (texto esparso)

Tal qual a pérola, o aperfeiçoamento espiritual do homem dá-se por interferência de
circunstância difíceis com as quais ele deve aprender e amadurecer. Para tanto,
atendamos aos deveres diários que a vida nos prescreveu, administrando-os com
sabedoria e amor e, assim, adicionaremos novas parcelas de saber ao nosso
fortalecimento espiritual.

O BOSQUE

Tempos atrás eu era vizinho de um médico cujo "hobby" era plantar árvores no enorme
quintal de sua casa. Às vezes, observava da minha janela o seu esforço para plantar
árvores e mais árvores, todos os dias. O que mais chamava a atenção, entretanto, era o
fato de que ele jamais regava as mudas que plantava.

Passei a notar, depois de algum tempo, que suas árvores estavam demorando muito para
crescer. Certo dia, resolvi então aproximar-me do médico e perguntei se ele não tinha
receio de que as árvores não crescessem, pois percebia que ele nunca as regava. Foi
quando, com um ar orgulhoso, ele me descreveu sua fantástica teoria.

Disse-me que, se regasse suas plantas, as raízes se acomodariam na superfície e ficariam
sempre esperando pela água mais fácil, vinda de cima. Como ele não as regava, as
árvores demorariam mais para crescer, mas suas raízes tenderiam a migrar para o fundo,
em busca da água e das várias fontes nutrientes encontradas nas camadas mais inferiores
do solo. Assim, segundo ele, as árvores teriam raízes profundas e seriam mais
resistentes às intempéries, essa foi a única conversa que tive com aquele meu vizinho.


Logo depois fui morar em outro país, e nunca mais o encontrei. Vários anos depois, ao
retornar do exterior fui dar uma olhada na minha antiga residência. Ao aproximar-me,
notei um bosque que não existia antes. Meu antigo vizinho havia realizado seu sonho!

O curioso é que aquele era um dia de um vento muito forte e gelado, em que as árvores
da rua estavam arqueadas, como se não estivessem resistindo ao rigor do inverno,
entretanto, ao aproximar-me do quintal do médico, notei como estavam sólidas as suas
árvores: praticamente não se moviam, resistindo implacavelmente àquela ventania toda.
Que efeito curioso, pensei eu... As adversidades pela qual aquelas árvores tinham
passado, tendo sido privadas de água, pareciam tê-las beneficiado de um modo que o
conforto o tratamento mais fácil jamais conseguiriam.

Todas as noites, antes de ir me deitar, dou sempre uma olhada em meus filhos, debruço-
me sobre suas camas e observo como têm crescido. Freqüentemente, oro por eles. Na
maioria das vezes, peço para que suas vidas sejam fáceis: "Meu Deus, livre meus filhos
de todas as dificuldades e agressões desse mundo". Tenho pensado, entretanto, que é
hora de alterar minhas orações. Essa mudança tem a ver com o fato de que é inevitável
que os ventos gelados e fortes nos atinjam e aos nossos filhos. Sei que eles encontrarão
inúmeros problemas e que, portanto, minhas orações para que as dificuldades não
ocorram, têm sido ingênuas demais. Sempre haverá uma tempestade, ocorrendo em
algum lugar, portanto, pretendo mudar minhas orações.

Farei isso porque, quer nós queiramos ou não, a vida não é muito fácil. Ao contrário do
que tenho feito, passarei a orar para que meus filhos cresçam com raízes profundas, de
tal forma que possam retirar energia das melhores fontes, das mais divinas, que se
encontram nos locais mais remotos.

Oramos demais para termos facilidades, mas na verdade o que precisamos fazer é pedir
para desenvolver raízes fortes e profundas, de tal modo que quando as tempestades
chegarem e os ventos gelados soprarem, resistiremos bravamente, ao invés de sermos
subjugados e varridos para longe.

Uma pérola é formada lentamente, pelo acréscimo de camadas

Uma enciclopédia descreve a formação de uma pérola da seguinte maneira:

Pérola (do latim pirula = pequena pêra), corpo redondo de madrepérola que se forma no
interior de algumas conchas marinhas ou de água doce em conseqüência de um tumor
epitelial. Durante o alastramento das células epiteliais, elas segregam, inicialmente,
como na formação da casca, uma substância córnea (conchina) e depois a madrepérola
(carbonato de cálcio ortorrômbico = aragonita) em calotas concêntricas.

Uma pérola é formada com dores


Quando um corpo estranho ("grão de areia", etc.) entra na ostra, provocando atrito com
seu corpo e o ferindo, a ostra, a ostra libera uma secreção que encapsula o corpo
estranho e aos poucos se forma uma preciosa pérola.

A Ostra e a Pérola

Uma ostra que não foi ferida não produz pérolas. As pérolas são feridas curadas. Pérolas
são produtos da dor, resultado da entrada de uma substância estranha ou indesejável no
interior da ostra, como um parasita ou um grão de areia. A parte interna da concha de
uma ostra é uma substância lustrosa chamada nácar. Quando um grão de areia penetra,
as células do nácar começam a trabalhar e cobrem o grão de areia com camadas e mais
camadas para proteger o corpo indefeso da ostra. Como resultado, uma linda pérola é
formada. Uma ostra que não foi ferida, não produz pérolas, pois a pérola é uma ferida
cicatrizada.

BIBLIOGRÁFIA À SER CONSULTADA:

Obras básicas da Doutrina Espírita:

O LIVRO DOS ESPÍRITOS, livro quarto, cap. II, Penas e Gozos Futuros, obra
codificada por Allan Kardec.


O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, cap. V, Bem-aventurados os aflitos,
obra codificada por Allan Kardec.


Outras obras:
VINHA DE LUZ, mens. 53, Sementeira e ceifas, Emmanuel, FEB


PALAVRAS DA VIDA ETERNA, mens. 81, Prosseguindo, mens. 84, Divino dons,
mens. 132, Diante da providência, mens. 136, Na vitória real, Emmanuel, Edição CEC


Outras fontes:

O BOSQUE, texto esparso

PARÁBOLAS PROFÉTICAS: Uma pérola é formada com dores, pág. 101, A pérola é
formada lentamente pelo acréscimo de camadas.

Planejamento: Eliza Corte - Centro Espírita Obreiros do Senhor (CEOS)


... Mônica Corullón
> O Trabalho Voluntário



Artigos


Manual elaborado para o Programa de Promoção do Voluntariado do Conselho
Comunidade Solidária

Sumário :

O Voluntário...
Motivações para a Ação
O Terceiro Setor
Sentido Comunitário
Impacto do Setor Voluntário
Influências Culturais e Religiosas
Valorização e Preconceitos
Voluntários Profissionais
Voluntariado no Brasil
Programa de Estímulo ao Voluntariado no Brasil
Detalhamento das Áreas de Responsabilidades dos Núcleos
Modelo de Funcionamento dos Núcleos
Detalhamento do Programa de Capacitação
Marketing Social e Estratégia Geral de Comunicação
Estratégias Específicas de Estímulo ao Trabalho Voluntário
Protagonismo Social dos Jovens
Voluntários da Terceira Idade
Profissionais Liberais: Médicos, Arquitetos, Advogados, Psicólogos...
Voluntariado Empresarial: Motivando os funcionários
Outros Temas para Estudo e Reflexão

O VOLUNTÁRIO


"... tem o dom de se doar,... e em algum momento sente-se chamado a desenvolvê-lo..."
"... dispõe-se a fazer um trabalho sem interesse de retorno material, apenas espiritual ...
ou em troca de algo intangível..."
"... através da atuação junto à sociedade, sente-se útil...
*... doa sua força de trabalho para alguma causa humana, social ou ambiental..."



"... tem um conceito mais estruturado do papel do indivíduo na sociedade ... pensa e age
de maneira coletivas.."
"... coloca-se à disposição ... contribui... oferece-se sem pensar em retribuição... de livre
e espontânea vontade..."
"... valoriza a satisfação pessoal de ter colaborado para tornar os outros mais felizes..."


Segundo definição das Nações Unidas, "o voluntário é o jovem ou o adulto que, devido
a seu interesse pessoal e ao seu espírito cívico, dedica parte de seu tempo, sem
remuneração alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem
estar social, ou outros campos..."

Em recente estudo realizado na Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança, definiu-se o
voluntário como ator social e agente de transformação, que presta serviços não
remunerados em benefício da comunidade; doando seu tempo e conhecimentos, realiza
um trabalho gerado pela energia de seu impulso solidário, atendendo tanto às
necessidades do próximo ou aos imperativos de uma causa, como às suas próprias
motivações pessoais, sejam estas de caráter religioso, cultural, filosófico, político,
emocional.

Quando nos referimos ao voluntário contemporâneo, engajado, participante e
consciente, diferenciamos também o seu grau de comprometimento: ações mais
permanentes, que implicam em maiores compromissos, requerem um determinado tipo
de voluntário, e podem levá-lo inclusive a uma "profissionalização voluntária"; existem
também ações pontuais, esporádicas, que mobilizam outro perfil de indivíduos.

Ao analisar os motivos que mobilizam em direção ao trabalho voluntário, (descritos
com maiores detalhes a seguir), descobrem-se, entre outros, dois componentes
fundamentais: o de cunho pessoal, a doação de tempo e esforço como resposta a uma
inquietação interior que é levada à prática, e o social, a tomada de consciência dos
problemas ao se enfrentar com a realidade, o que leva à luta por um ideal ou ao
comprometimento com uma causa.

Altruísmo e solidariedade são valores morais socialmente constituídos, vistos como
virtudes do indivíduo. Do ponto de vista religioso acredita-se que a prática do bem salva
a alma; numa perspectiva social e política, pressupõe-se que a prática de tais valores
zelará pela manutenção da ordem social e pelo progresso do homem. A caridade (forte
herança cultural e religiosa), reforçada pelo ideal, as crenças, os sistemas de'valores, e o
compromisso com determinadas causas, são componentes vitais do engajamento.

Não se deve esquecer, contudo, o potencial transformador que essas atitudes
representam para o crescimento interior do próprio indivíduo.

MOTIVAÇÕES PARA A AÇÃO (sumário)

Uma das razões freqüentemente apontadas para o engajamento em trabalhos voluntários
é que nas atividades diárias não existem muitos desafios nem realizações, nem liberdade
de ação suficiente, e nas empresas em geral não existe uma missão, apenas
conveniência.


Também é comum que as pessoas realizem alguma atividade "socialmente útil", como
forma de retribuir à sociedade todo o conhecimento e experiências adquiridas ao longo
da vida, ou apenas para ter uma ocupação do seu tempo livre, às vezes produto inclusive
da situação de desemprego. Outro forte motivo alegado é a necessidade interior de fazer

o bem, uma satisfação íntima pelo prazer de servir, estar bem consigo mesmo
beneficiando o outro, dando de si, sem esperar nada em troca.
Verificam-se certas mudanças nos padrões do voluntariado nos últimos anos. As
pessoas estão mais interessadas em se envolver em mais de uma causa, oferecendo seu
trabalho voluntário em diferentes atividades. Também atuam mais na defesa dos direitos
(advocacy) e no ativismo político. Enquanto ainda desejam se envolver com atividades
de serviço, também desejam fazer diferença através de petições, abaixo-assinados,
influência nas políticas públicas, e outras formas ativas de participação cívica. É
necessário considerar a crescente noção de cidadania e de defesa de direitos humanos e
sociais presente na sociedade atual.

O principal diferencial das práticas filantrópicas atuais com relação ao passado reside no
fato de que sua população clientela não é mais concebida como sujeitos dependentes e
tutelados. Os cidadãos engajam-se em atividades voluntárias não apenas para exercitar a
caridade, mas para exercer suas cidadanias na defesa dos seus direitos e os dos outros.

Segundo documentação dos pesquisadores, o trabalho voluntário pode melhorar a auto-
imagem, promover um sentimento de realização e competência e agir como um antídoto
para o stress e a depressão. De fato, alguns estudos mostram que os voluntários tendem
a ser mais saudáveis e felizes e viver mais que aqueles que não o são. Na realidade
brasileira, segundo dados recolhidos na prática, voluntários de camadas
socioeconômicas baixas, com problemas de inserção social, rejeição, falta de raízes
devido às constantes migrações, encontram no trabalho voluntário um forte componente
para conformarem sua identidade, aumentarem sua autoestima, e se sentirem
valorizados no meio social em que atuam.

O TERCEIRO SETOR (sumário)

O Terceiro Setor, espaço privilegiado para a ação voluntária, cumpre basicamente as
seguintes funções:

> Iniciar novas idéias e processos.- o ambiente é propício para a inovação. A cada
momento surgem idéias sobre como fazer as coisas de modo diferente, e se possível,
melhor do que antes, inovando-se em áreas onde os órgãos públicos carecem de
conhecimento ou temem se aventurar.
> Influenciar políticas públicas: organizações voluntárias podem testar novas idéias,
iniciar serviços controvertidos em seus estágios iniciais, e podem exercer influência
direta na formatação e promoção de políticas públicas.
> Apoiar minorias ou interesses locais: podem experimentar novas idéias com menos
precaução que os governos, podem apoiar causas e interesses que seriam rejeitados por
preconceitos ou interesses prioritários das maiorias.
> Promover parcerias: Com freqüência as organizações voluntárias estimulam e
coordenam atividades nas quais tanto o governo como a empresa privada interagem em
prol do bem público.


> Ajudar outros países: as organizações voluntárias oferecem ajuda em situações onde o
auxílio dos governos seria politicamente inaceitável.
> Promover a cidadania participativa e o altruísmo.- uma das mais importantes
contribuições das organizações voluntárias, além do que fazem pelos seus beneficiários,
é a transformação pessoal dos seus participantes voluntários.


SENTIDO COMUNITÁRIO (sumário)

Na história européia, a filantropia e a caridade eram predominantemente virtudes
privadas. Eram noções perpétuas, imutáveis, até certo ponto rígidas.

Já que era mais virtuoso dar do que receber, o valor da caridade provinha mais dos
motivos do próprio doador do que dos efeitos da sua ação.

Nos Estados Unidos, o espírito filantrópico desenvolveu-se, mudou, floresceu e se
institucionalizou de uma maneira peculiar. A nota dominante era a preocupação com a
comunidade. Os propósitos da filantropia eram o enriquecimento da qualidade de vida
das comunidades. O foco mudou do doador para o receptor, da salvação das almas para
a resolução de problemas, da consciência individual para as questões comunitárias.

Através da participação dos seus membros, esperava-se que a comunidade gerasse seus
próprios benefícios, hoje em dia sendo vista cada vez menos como o alvo da
generosidade do doador e cada vez mais como uma parte integrante do capital social.

No Brasil não existe uma forte tradição comunitária. Talvez se explique historicamente
pelo fato de os colonizadores aqui apartarem movidos por interesses individuais, pela
ânsia do lucro rápido, para extrair as riquezas do Novo Mundo com o único objetivo de
enriquecer a metrópole.

IMPACTO DO SETOR VOLUNTÁRIO (sumário)

O setor voluntário joga um papel integrador, reunindo indivíduos, grupos, instituições e
inclusive países que em outros contextos poderiam estar em conflito ou competição
entre si. Assim como produz novas idéias sobre comportamento social, o setor é ativo
também na preservação de antigas tradições e valores da cultura.

Através da participação em atividades voluntárias, as pessoas encontram espaço para
seu crescimento pessoal, para a "auto-atualização" segundo termo cunhado por Maslow.
O processo de se informarem, de aprimorarem seu espírito crítico, leva-os à
conscientização dos problemas. Para muitos, a ação voluntária permite a utilização de
talentos, habilidades e potenciais não aproveitados no seu dia a dia profissional.

Por último, os voluntários representam um recurso latente de participação para causas
ou ações de que a sociedade como um todo venha a precisar em situações de
emergência, constituindo-se num enorme reservatório de energia em potencial que pode
ser mobilizada em prol do bem comum.


O papel tradicional do indivíduo voluntário prestando serviços de assistência continuará
corno uma importante contribuição e uma saída para o compromisso pessoal. Este
papel, porém, deve ser continuamente submetido à análise e redefinição para passar nos
testes de relevância e prioridade.

INFLUÊNCIAS CULTURAIS E RELIGIOSAS (sumário)

Quase todas as religiões, mesmo as mais novas, compartilham os ensinamentos de
Jesus, Moisés, Alá e Buda, expressas na Bíblia, no Velho Testamento, no Alcorão, nos
Dez Mandamentos, na Torah. E todas elas consideram a caridade como a maior das
virtudes.

Na tradição judaico-cristã, a caridade era diretamente relacionada com o alívio das
necessidades dos pobres, famintos, doentes (tradição do Bom Samaritano). Já entre os
gregos e romanos, o objeto da doação não eram os indivíduos necessitados, mas o
público em geral, a cidade.

A intenção não era tanto aliviar o sofrimento, como enriquecer a qualidade de vida. Este
conceito grego, mais amplo, está mais intimamente relacionado com a idéia atual de
instituição filantrópica.

Embora as pessoas tenham se reunido para propósitos assistenciais e solidários desde o
começo dos tempos, as modernas formas associativas do esforço voluntário foram
muito estimuladas pela Reforma, e seu movimento pela liberdade de associação,
incentivado pela urbanização da sociedade durante a revolução industrial, e
expandiram-se rapidamente no século XX. Estas organizações foram criadas e muitas
existem até hoje para preencher grande variedade de propósitos, das necessidades
individuais dos seus membros a serviços mais amplos para as comunidades.

Em pesquisa recente no Brasil, Emerson Giumbelli afirma que mesmo com suas
divergências, espiritismo e catolicismo são semelhantes quanto ao significado da
caridade: a salvação está relacionada ao "outro", e este pode ser o "pobre", o
"necessitado" ou o "desvalido..." Mais do que um valor, a caridade é um mandamento,
que mobiliza recursos pessoais (voluntários) e financeiros (contribuições) para ações
filantrópicas, seja em instituições específicas ou nos diversos centros espíritas. A
maioria das instituições espíritas se declaram com fins assistenciais (71%), o que
demonstra que a motivação religiosa e a atividade assistencial estão articuladas, a última
não existindo desvinculada da primeira. É porque a caridade faz parte da doutrina
espírita que a filantropia adquire sentido.

Tanto a militância pelas causas sociais como o voluntariado partem de uma emoção,
entre elas a indignação, ou a compaixão. O importante ponto em comum é que ambos se
transformam a si mesmos, e assim, em conjunto, os indivíduos, as comunidades, e o
país caminham em direção à confiança e à solidariedade.

É lícito pensar em "politizar a ação voluntária" no sentido de não perder de vista as
causas reais dos problemas, possibilitando que o voluntário se transforme e transforme
seu entorno, sentindo-se co-responsável pelas soluções a médio e longo prazo.


Pressente-se um esgotamento dos antigos modelos de voluntariado, ou seja, da simples
ação apenas pela boa vontade, e do trabalho somente por motivos pessoais. O trabalho
voluntário enquanto exercício de cidadania deve não só procurar a defesa de direitos,
mas também assumir cada vez maiores responsabilidades.

VALORIZAÇÃO E PRECONCEITOS (sumário)

Existem na sociedade certos preconceitos, ao se ver o voluntariado não como um
trabalho senão apenas como um passatempo. Também é comum se associar o perfil do
voluntário ao de senhoras desocupadas e sem especialização; às vezes, os voluntários
são alvo da desconfiança dos funcionários contratados das instituições, que se sentem
ameaçados em seus postos de trabalho.

Por outro lado, algumas causas sensibilizam mais a sociedade em geral, especialmente a
criança doente ou deficiente, e os voluntários que se dedicam a este segmento contam
com grande valorização e prestígio social pela sua escolha, dependendo do tipo de
instituição ou do tamanho do projeto.

VOLUNTÁRIOS "PROFISSIONAIS" (sumário)

Muitas organizações sem fins lucrativos ainda dizem: "Nós não remuneramos os
voluntários, portanto não podemos exigir nada deles..." Hoje se faz necessária uma
mudança de atitude: "Os voluntários precisam obter muito mais satisfação de suas
realizações, exatamente porque não recebem nenhuma remuneração..." A constante
transformação do voluntário, de amador bem-intencionado a membro não remunerado
da equipe, profissional e treinado, é o progresso mais significativo no setor sem fins
lucrativos.

A priori, as pessoas não são "voluntárias em si.. " A instituição que as acolhe tem que
transformá-las em voluntários, aprimorando e desenvolvendo seu impulso solidário para
transformá-lo em compromisso. É fundamental considerar o bem-estar do voluntário,
sua gratificação, satisfação, felicidade e prazer ao realizar o trabalho solicitado, assim
como o potencial de desenvolvimento pessoal (profissional e emocional), e sobretudo,
as motivações que o levaram até a instituição.

Na relação entidades/voluntários, o espaço para a ação tem que ser um sistema
motivador. Deve existir uma política definida, conceito e objetivos claros sobre o
trabalho voluntário; objetivos específicos: resultados e metas claramente definidos para

o trabalho voluntário; sistemas de capacitação, aperfeiçoamento, avaliação, e motivação
constantes; e um sistema de informação, com indicadores de resultado, para dar retorno
da ação, como uma espécie de prestação de contas dos resultados atingidos pelo esforço
comum. A maior frustração de um voluntário é a falta de organização da entidade.
Ao estudar programas voluntários, uma conclusão inevitável é que eles requerem um
certo nível de suporte financeiro, especialmente para garantir a contratação de um
diretor ou coordenador. Conforme o depoimento de muitas instituições ouvidas, é
recomendável que o gerenciamento do corpo de voluntários esteja em mãos de um


profissional remunerado, funcionário efetivo da instituição, para garantir a continuidade
dos planos, e evitar sucessivas mudanças de rumo na política do corpo de voluntários.

A chegada dos voluntários nas instituições deve ser preparada cuidadosamente: é
preciso perceber que as instituições possuem uma história, uma cultura, uma dinâmica e
uma equipe que já está desenvolvendo um trabalho, o que a iniciativa da inserção do
voluntário vem se somar às presentes e não procura negar o já realizado.

Mas quais são as necessidades deste pessoal não remunerado? Que razões eles têm para
permanecer na instituição? Sua primeira e mais importante exigência é que a
organização tenha uma missão clara, que dirija todas suas atitudes. A segunda é
treinamento. Uma das maneiras mais eficazes para motivar e manter os voluntários
veteranos é reconhecer sua competência utilizando-os como agentes para treinar os
recém-chegados.

Por seu lado, as pessoas devem gostar do trabalho voluntário que realizam e devem ser
seletivas, aceitando aqueles que melhor se encaixem nas suas habilidades e preferências.
Devem se comprometer apenas com o tempo de que realmente dispõem para executar as
tarefas, e não assumir responsabilidades que não poderão cumprir.

Os voluntários se afastam da instituição quando a prática do grupo não satisfaz suas
necessidades e expectativas. Para obter os melhores esforços de uma pessoa na equipe,
ela precisa:

> saber o que se espera dela
> sentir que pertence à organização
> sentir que honestamente se precisa dela
> poder partilhar o planejamento das metas do grupo em clima de liberdade
> sentir que é possível alcançar os objetivos e que os mesmos têm sentido para ela
> ter delegação de responsabilidades que desafiem suas habilidades.

Não menos importante é o fato de que o trabalho voluntário deve ser fácil para o
indivíduo, o que deve priorizar a escolha por ações próximas de sua residência, para
tornar acessível o seu desempenho, fator relevante, por exemplo, no recrutamento de
voluntários da terceira idade.

Outrossim, a entidade deve considerar pelo menos uma ajuda de custo para cobrir
despesas de material, transporte, alimentação ou outras, originadas pelo seu trabalho, e
mais especialmente para voluntários de baixa renda, que não têm possibilidades de
contribuição financeira.

Até onde sabemos, parece mais fácil perder um voluntário do que ganhar outro.
Portanto, uma estratégia de estímulo será sem dúvida profissionalizar esta ação não
remunerada dentro da instituição. Se as ONGs quiserem atrair e manter seus
voluntários, terão que utilizar a competência e os conhecimentos que eles aportam.

Precisarão lhes oferecer realizações com um propósito. Profissionalizar o setor requer
uma missão clara, aprendizado e ensino contínuos, gerência por objetivos e auto-
avaliação, alto nível de exigência mas a correspondente liberdade de ação e
responsabilidade pelo desempenho e pelos resultados.


VOLUNTARIADO NO BRASIL (sumário)

O trabalho voluntário, as ações voluntárias e a concepção de voluntário não são temas
com forte tradição de estudos ou mesmo debates na sociedade brasileira. Historicamente
este tipo de trabalho esteve vinculado à atuação de damas caridosas da sociedade,
essencialmente tratando-se de um trabalho feminino. Só recentemente, nas últimas
décadas, em decorrência da luta por direitos humanos, civis e sociais é que este trabalho
começou a ser visto, em algumas esferas da sociedade civil, como possibilidade de ação
cívica, bem como de ação voltada para o bem alheio (ou público).

A ação voluntária pode ser apenas uma ajuda informal (ao vizinho, ao colega), um
esforço no sentido de consolidar o espírito comunitário, uma ajuda formal, através dos
serviços sociais organizados, e/ou uma oportunidade para mudanças sociais. No Brasil
de hoje, em maior ou menor grau, estão presentes as quatro vertentes, com certa
predominância da terceira. Organizações tradicionais, especialmente as ligadas a
movimentos religiosos e variadas instituições da área da saúde, vêm realizando desde há
décadas importantes contribuições no aproveitamento do trabalho voluntário.

Na década de 90, o surgimento da Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida,
constituiu-se em fato de extrema relevância para revitalizar uma consciência
adormecida na sociedade brasileira: a solidariedade, traduzida em esforço voluntário.

A proposta da Ação pela Cidadania foi deixar de esperar por ações estruturais que não
estariam ao alcance do cidadão, mas estimular o gesto imediato, o alimento para quem
tem fome, partindo para ações emergenciais como um primeiro passo. A partir deste
movimento, muitos outros surgiram com a mesma proposta: fazer com que a sociedade
tome iniciativas imediatas para resolver os seus problemas e, ao mesmo tempo,
pressione o Estado para que ele cumpra seu papel de formular políticas públicas.

PROGRAMA DE ESTÍMULO AO VOLUNTARIADO NO BRASIL (sumário)

O Programa de Estímulo ao Voluntariado ora apresentado tem como objetivo geral
promover o conceito e a prática da cidadania no país pela participação consciente,
solidária e comprometida dos indivíduos em ações voluntárias, oferecendo canais
organizados para a ação.

Seus objetivos específicos são: valorizar a imagem do voluntário, aumentar o número de
indivíduos e ações voluntárias, qualificar os agentes voluntários, e produzir e socializar
informações.

As duas grandes linhas estratégicas propostas contemplam inicialmente a criação de
uma rede de Núcleos de Voluntários, em grandes cidades de várias regiões do país, e
uma ampla campanha de marketing e comunicação, embasadas em sólidas parcerias
entre os diversos atores.

Entre as atividades que estes Núcleos realizariam, destacam-se:


> o reconhecimento, a valorização e a difusão das ações voluntárias já existentes;
> a promoção do valor social do trabalho voluntário;
> a conscientização, mobilização e engajamento de novos voluntários;
> a organização da oferta e da demanda;
> a capacitação das entidades para o gerenciamento dos voluntários;
> a capacitação de voluntários em habilidades específicas;
> a realização de pesquisas sobre a realidade atual do esforço voluntário e a publicação
dos resultados das ações já existentes;
> a publicação e distribuição de Manuais de Orientação gerais e específicos.


Sugerimos que estes Núcleos promovam programas de capacitação, para aumentar o
conhecimento e as habilidades das organizações sobre o recrutamento e o
gerenciamento dos voluntários, e focalizem suas ações em seis áreas prioritárias: a
situação da infância, a pobreza, a saúde, a educação, o meio-ambiente e situações
extraordinárias (por exemplo, prevenção de desastres naturais, preparação para
Olimpíadas e outros).


Os Conselhos de cada Núcleo seriam formados por dirigentes locais de organizações
que já trabalham com voluntários, considerando as especificidades de cada um, para
compor um corpo diretivo com "expertise" em diversas áreas temáticas, assim como em
técnicas de recrutamento, seleção, treinamento, gerenciamento e reconhecimento de
voluntários.


DETALHAMENTO DAS ÁREAS DE RESPONSABILIDADE DOS NÚCLEOS

(sumário)

1. informação e comunicação: · pesquisa, cadastro/catálogo de oferta e demanda, banco
de dados, produção de material de apoio, distribuição, divulgação, socialização de
experiências bem sucedidas, insucessos e suas causas, diversas mídias.
2. ação política:
> articulação entre as organizações, intercâmbio de experiências;
> parcerias entre diversos atores (Estado, Empresa Privada, Sociedade Civil);
fortalecimento dos mecanismos democráticos de participação (Conselhos, Fóruns);
aspectos legais do trabalho voluntário, legislação trabalhista, estatutos,
regulamentações, cumprimento das leis existentes;
> propostas de políticas públicas eficazes em relação ao desenvolvimento e seguridade
sociais; exigência de sua existência e de seu cumprimento;
3. marketing; mobilização, incentivo e reconhecimento:
> promoção de mudança da imagem do trabalho voluntário freqüentemente visto ainda
sob o viés do antigo ranço assistencialista e como um simples passatempo, amador e
desvalorizado.
> estratégias gerais de incentivo ao protagonismo social, fomentando a > construção da
cidadania pela participação e ampliando a visão de comunidade;
> reconhecimento público do valor do trabalho voluntário
4. acolhida, seleção, encaminhamento, orientação:
> processo de acolhimento dos interessados em voluntariar que não sabem a quem se

dirigir:
> "triagem" na recepção, avaliação de suas capacidades, habilidades, e potencialidades,
encaminhamento seletivo de acordo com a demanda, orientação.


5. capacitação:
> capacitação dos dirigentes de instituições e dos formadores de voluntários;
> identificação e desenvolvimento das lideranças comunitárias;
> capacitação dos voluntários em conteúdos gerais, no seu papel de protagonista social,
na formação de atitudes e da sua mentalidade;
> na sua postura, compromisso, responsabilidade, incluindo a transcendência,
trabalhando suas motivações, limitações, frustrações;
> conhecimento, compilação e divulgação de treinamentos especializados nas áreas de
saúde, educação e outras, para articulação entre entidades da área.
6. avaliação:
> processo de avaliação contínua da ação voluntária no país.
MODELO DE FUNCIONAMENTO DOS NÚCLEOS (sumário)

Os Núcleos de Voluntários, para cumprir com a sua missão de incentivar, promover e
organizar o trabalho voluntário no país, deverão desempenhar as seguintes funções:

1. nas relações com os voluntários
> acolhida, recepção, informações
> organização da oferta e da demanda (cadastro, banco de dados)
2. nas relações com as entidades, orientação para:
> recrutamento, seleção, encaminhamento, orientação, desligamento
> gerenciamento dos voluntários
> treinamento
> descrição das tarefas
> acompanhamento, supervisão
> avaliação
> motivação, estímulo e reconhecimento
> treinamento dos funcionários, relações com os voluntários
> aspectos legais, estatuto das instituições, relações de trabalho
> encontros e intercâmbios, seminários de formação
3. nas relações gerais com a sociedade
> planejamento comunitário
> desenvolvimento de programas preventivos e com uma atitude pró-ativa na >
resolução dos problemas
> parcerias com todos os potenciais agentes de mudança social
> ênfase no desenvolvimento de programas de trabalho voluntário corporativo ou
empresarial
4. na produção de conhecimento
> pesquisa, estatísticas, tendências
> banco de dados sobre ações voluntárias

> sistematização das experiências
> organização e socialização de bibliografia

5. na disseminação e divulgação
> comunicação: diversas mídias
> publicações; manuais específicos
> encontros, conferências e seminários públicos
6. nas relações interinstitucionais
> participação nos Fóruns sobre trabalho voluntário
> participação nas entidades associativas internacionais
> intercâmbio de experiências, conferências nacionais e internacionais
DETALHAMENTO DO PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO (sumário)

1. Liderança: desenvolvimento de habilidades de liderança dos dirigentes dos Núcleos,
dos membros de seus Conselhos, da equipe técnica. Deverão se capacitar para inspirar
confiança e demonstrar credibilidade e excelência na sua ação, e deverão poder treinar
outros líderes comunitários.
2. Cooperação e colaboração entre os Núcleos: estabelecimento da rede, Capacitar para
que sejam catalisadores e mobilizadores de voluntários sobre problemas específicos
enfrentados pelas suas comunidades. vês da organização e sistematização
sensibilização, e torná-los perenes, atrás deste enorme potencial voluntário no Brasil3.
Sistema de qualidade do modelo: permitir que os Núcleos tenham acesso a
informações atualizadas sobre as melhorias práticas. Treinar para recolher, sistematizar
e disponibilizar informações.
4. Planejamento financeiro: auxiliar os Núcleos a encontrar equilíbrio financeiro e
estabilidade, treinando líderes e Conselhos para se engajarem em planejamentos
financeiros de longo alcance, para identificar e aceder a fontes apropriadas de
financiamento.
5. Marketing: treinar os Núcleos para obter visibilidade e posicionamento dentro de suas
comunidade, para assumir um papel protagônico na mobilização de voluntários e na
resolução dos problemas da comunidade.
6. Avaliação de impacto: desenvolver entre os Núcleos a capacidade de determinar o
sucesso reduzindo os problemas comunitários.
7. Tecnologia: treinar as equipes dos Núcleos para poder avaliar e utilizar tecnologia
apropriada, para melhorar todos os aspectos do funcionamento.
8. Treinar multiplicadores: capacitar multiplicadores para proporcionar maior alcance da
ação, melhor construção e desenvolvimento de habilidades da equipe e dos voluntários.
MARKETING SOCIAL E ESTRATÉGIA GERAL DE COMUNICAÇÃO


(sumário)

Na sociedade atual, o ser humano recebe milhares de mensagens diferentes por dia, em
diversos meios e formatos. Para que uma mensagem obtenha destaque na mente de uma
pessoa e seja assimilada em detrimento de todas as outras, é necessária a confluência de
vários fatores: predisposição do indivíduo, adequação da linguagem, do momento, do
canal, etc.

Os problemas sociais quase sempre pedem uma mudança, seja da sociedade como um
todo ou de um grupo específico. O desafio e o objetivo específico do marketing social é
planejar e gerar esta mudança social.

A maior parte da população sabe da existência dos problemas sociais. Eles estão
estampados nos jornais e noticiários de TV e rádio, que exercem relativamente bem seu
papel de denúncia, e também no cotidiano, nas esquinas das ruas, no ar que se respira,
basta olhar o ambiente que nos cerca.

Mas o que a maioria das pessoas não sabe é da existência dos canais para participar
efetivamente do processo de mudança e melhoria da qualidade de vida da comunidade.
Ou não foram atingidos por campanhas que contivessem o argumento adequado para
romper a inércia e engajá-los na luta por urna causa social.

Campanhas de cunho social existem há tempos, mas seu retorno não é facilmente
rnensurável, e alguns exemplos indicaram que os resultados ficam aquém do esperado.
Após as campanhas publicitárias da Ação pela Cidadania, que contaram com a força da
imagem singular do Betinho, e amplo apoio dos meios de comunicação para sua
divulgação maciça, o nível de consciência em geral da população mudou; perdeu-se a
vergonha de falar sobre o sonho de um país melhor.

Durante os três anos e meio da Campanha da Ação Pela Cidadania foram criados,
produzidos e veiculados gratuitamente 28 comerciais, 32 anúncios, 11 spots de rádio.
Publicitários, fotógrafos, diretores de cinema, cenógrafos, produtores de elenco,
maquinistas, eletricistas, locutores, produtoras, agências de propaganda e praticamente
toda a mídia nacional, prestaram sua solidariedade através do seu trabalho voluntário.
Caso as atividades fossem pagas, calcula-se que seriam necessários cerca de 2 milhões
de dólares para a produção, mais de 2,5 milhões para remuneração dos artistas
participantes, e cerca de 20 milhões de dólares para a sua veiculação nestes três anos.

As mensagens chamavam "todos" a lutar em benefício do "outro", a responsabilidade
de "cada um..." O desafio agora é colher os frutos desta sensibilização, e torná-los
perenes, através da organização e sistematização deste enorme potencial voluntário no
Brasil.

Em geral, campanhas de arrecadação de recursos sempre dão retorno mais imediato,
especialmente quando o canal de participação está bem estruturado (doação a ser
cobrada na conta telefônica, por exemplo). Já para engajar indivíduos em trabalho
voluntário as ações necessárias são mais complexas, e envolvem o uso de estratégias de
comunicação mais dirigidas, orientadas a públicos específicos, num trabalho mais
próximo, quase de corpo a corpo, para reforçar o apelo das campanhas massivas.


Para atingir uma efetiva mobilização e engajamento, devemos considerar diferentes
públicos alvos:


> Instituições sem fins lucrativos que já utilizam ou que precisam de trabalho
voluntário. Elas seriam as parceiras iniciais e as geradoras de demanda.
> Empresas que desejem fomentar o espírito voluntário entre seus funcionários e que
possam colaborar com recursos humanos e financeiros para a manutenção do Programa.
> Todas as pessoas com predisposição ao trabalho voluntário; aqueles que "querem
fazer algo mas não sabem como... "
> Governos, pela imprescindível articulação com as políticas públicas.
Imprensa, pelo seu papel difusor.
> Agências de comunicação, promovendo a produção das diversas peças.
> Veículos de comunicação, fornecendo espaços gratuitos.


Neste Programa o "produto" a ser colocado no mercado são idéias e comportamentos. O
comportamento é resultado da conscientização e da internalização de atitudes e valores
sobre a importância do voluntariado. Uma campanha de mobilização em direção ao
trabalho voluntário deve ter duas fases iniciais: a conscientização sobre o que é ser
voluntário (valorização do conceito), e a geração de fluxo de candidatos para os Núcleos
(incentivar a disponibilidade de fazer).


Em síntese, uma estratégia geral de Comunicação deve despertar a consciência e a
participação de indivíduos, mostrando que eles podem ser agentes de transformação,
quebrando a estrutura de cegueira e indiferença. Ela teria os seguintes objetivos
específicos:


> Relançar o conceito de Voluntário. Criar uma identidade, mudar a imagem de um
produto antigo e desgastado. Valorizá-la, enfatizando o exercício da cidadania pela
participação.
> Propor ferramentas concretas de ação. Remetendo à informação e treinamento
disponíveis nos Núcleos de Voluntários.
> Atrair e mobilizar participantes.
> Informar resultados, prestar contas para reforçar a credibilidade. Este cuidado
colabora para diminuir a desconfiança e o medo da corrupção.
> Levar a uma mobilização do meio político, através da pressão da opinião pública, para
que soluções estruturais venham a ser adotadas, objetivando mudanças.


MOTIVAÇÃO PARA A AÇÃO: A NECESSIDADE E A POSSIBILIDADE
CONCRETA DE FAZER O BEM, AOS OUTROS E A ELAS MESMAS.
A CHANCE REAL DE ROMPER COM A INÉRCIA.


ESTRATÉGIAs ESPECÍFICAS DE ESTÍMULO AO TRABALHO
VOLUNTÁRIO (sumário)

Para promover um efetivo engajamento, as estratégias são múltiplas e diferenciadas,
dirigidas tanto ao público que já desenvolve alguma ação, como aos indivíduos
voluntários em potencial; também precisam ser considerados como públicos alvos as
próprias organizações que utilizam este tipo de serviço, sejam governamentais ou do


Terceiro Setor, e os fornecedores de serviços (comunicação, veiculação, criação gráfica,
impressão, distribuição, etc.).

Não se deve esquecer que líderes atuantes na comunidade, formadores de opinião,
empresários sensíveis à problemática social, são importantes alvos a atingir para
contribuir com sua experiência profissional na composição dos Conselhos das
organizações e dar assim maior impulso, credibilidade e visibilidade às ações.

As estratégias de estímulo ao engajamento voluntário da sociedade não necessariamente
devem ser orientadas apenas por faixa etária, mas ligadas às habilidades, talentos e
interesses das pessoas, porque muitas ações podem ser igualmente desempenhadas por
jovens, adultos e idosos. Podem ser considerados também outros grupos segundo
diferentes critérios: profissionais liberais ativos, que podem doar horas de trabalho;
profissionais aposentados, que podem ensinar seu ofício; funcionários de empresas, e
outros.

Também é muito importante que as instituições informem claramente ao voluntário em
potencial quais os objetivos do trabalho, a curto, médio e longo prazo. Os objetivos
quantitativos, as metas a atingir, devem ser bem explícitos, e a gerência orientada para
os resultados; os objetivos qualitativos devem contar com um minucioso plano de
avaliação do impacto, sem descuidar dos objetivos para o desenvolvimento pessoal e
profissional dos próprios voluntários.

Desta maneira, os candidatos sentem-se participantes de um processo bem planejado,
bem controlado e que lhe fornece medidas concretas do alcance de sua ação, e do seu
próprio crescimento.

Ao implantar estratégias específicas, deve existir previamente uma demanda clara e
definida e, sempre que possível, devem se basear em pesquisas prévias.

Diversos grupos de público de voluntários:

> crianças (escoteiros, bandeirantes, alunos de 12 grau, etc.)
> jovens (estudantes de escolas, colégios, universidades; jovens da comunidade,
membros de clubes e associações religiosas, culturais, de serviço)
> idosos, terceira idade em geral
> adultos, sociedade em geral (indivíduos, sindicatos, clubes, associações)
> profissionais aposentados
> profissionais liberais e/ou autônomos
> profissionais ativos, funcionários de empresas e suas famílias - pessoas que estiveram
doentes, ou sofreram emocionalmente por diversos motivos, ou que foram dependentes
de tóxicos, etc.(para grupos de auto-ajuda).


Diversos grupos de público beneficiário:

> crianças e adolescentes (de rua, institucionalizadas, da comunidade; de diversas
classes sociais, com diversos tipos de necessidades: dificuldades de aprendizagem,
problemas de saúde, e outros; jovens em situação de risco: "pré-delinquentes",
prostituídos/as)


> idosos (asilos, casas de repouso, nas famílias da comunidade)
> população com carências, em geral (habitação, alimentos, serviços de saúde)
> doentes, deficientes, dependentes (pacientes e seus familiares)
> vítimas de desastres e catástrofes naturais
> meio ambiente, ecossistema
> artes, cultura: museus, orquestras, acervos, monumentos, manifestações de arte
popular, diferentes etnias, etc.


Diversos tipos de ação:

> ajuda emergencial ou em situações extraordinárias (desastres: primeiros socorros,
abrigos, alimentos, roupas, mutirão para reconstrução de casas danificadas; preparação
para grandes eventos nacionais, como Olimpíadas, etc.)
> ajuda assistencial, (arrecadação e distribuição de alimentos, agasalhos, captação de
recursos materiais e financeiros, serviços de atendimento em saúde e educação, etc.)
> campanhas pontuais de doações diversas: remédios, equipamentos, dinheiro
companhia, lazer, recreação: visitas e passeios com crianças, idosos ou doentes
> aconselhamento de jovens: estudo, profissões
> saúde: serviços médicos, psicológicos, de enfermagem, nutrição, medicina preventiva,
vacinação; pacientes e familiares em hospitais, conforto emocional; grupos de auto-
ajuda;
> educação: de adultos -alfabetização, ofícios-; ajuda a crianças/jovens com problemas
de aprendizagem, orientação vocacional e profissional.
> defesa dos direitos (advocacy), diversas causas
capacitação em geral, profissionalização, a jovens e adultos.
> meio ambiente: reflorestamento, prevenção de desastres ecológicos, denúncias,
proteção de animais.


PROTAGONISMO SOCIAL DOS JOVENS (sumário)

Acreditamos que um programa de voluntariado deve propiciar aos adolescentes e jovens

o acesso a práticas em causas ligadas ao bem comum, ao meio ambiente, à preservação
de bens culturais, ao resgate de memória histórica, assim como a proporcionar
companhia e lazer a outros indivíduos.
Pode se estimular a participação promovendo debates e encontros em escolas e
universidades, distribuindo material informativo (folhetos, brochuras, cartazes, fichas
para cadastro), e estimular a reflexão sobre o tema através de concursos de textos,
artigos e teses sobre voluntariado.

Seguem, apenas a modo de exemplo, alguns tipos de trabalho voluntário que os jovens
podem realizar.

Trabalhos de tipo individual, estabelecendo relações pessoais sólidas com o
beneficiário:

> jovens estudantes ajudando crianças com problemas de aprendizagem nas escolas da
comunidade, como "tutores...


> jovens "adotando" uma criança sem pai/ou mãe na comunidade, acompanhando seu
desenvolvimento e desempenho escolar.
> jovens que superaram problemas de dependência, como drogas, álcool e outros
comportamentos auto-destrutívos, auxiliando jovens que estejam enfrentando a mesma
situação.
> jovens que superaram doenças graves, fazendo companhia e aconselhamento a
crianças ou jovens na mesma situação.
> jovens que "adotam um avó"; fazem companhia, oferecem distração e entretenimento,
aulas de informática ou leituras para um idoso solitário, na comunidade ou em
instituições.


Trabalhos em grupos:

> Programas de manejo e conservação da natureza em reservas ambientais, programas
de limpeza e conservação de parques, praças, jardins e pátios de escolas ou entidades.
> Diversos tipos de atividades culturais para a comunidade: shows, mostras, exposições,
feiras.
> Acampamentos de trabalho de fins de semana: estudantes universitários selecionando
uma comunidade e ajudando na reparação (pintura, telhado, parte elétrica e hidráulica)
das casas de habitantes de baixa renda.


VOLUNTÁRIOS DA TERCEIRA IDADE (sumário)

As pessoas da terceira idade, geralmente já aposentadas, têm mais tempo disponível
nesta etapa da vida; também costumam sofrer as conseqüências da solidão, seja por não
terem familiares próximos, ou pela falta de oportunidade de convivência assídua com
filhos e netos. Por outro lado, numa cultura que sobrevaloriza a