sábado, 1 de dezembro de 2012 By: Fred

{clube-do-e-livro} Envio 13 livros da Zíbia Gasparetto em TXT 1





Voltas que a Vida Dá
Zibia gasparetto

SUMÁRIO


VOLTAS QUE A VIDA DÁ................................................. 9
A DIFERENÇA................................................................... 13
A VISITA............................................................................. 15
O RECURSO...................................................................... 17
O CAMINHO....................................................................... 22
OS DETALHES.................................................................. 27
O ENTRAVE....................................................................... 30
O RESPEITO...................................................................... 35
O GENUFLEXÓRIO.......................................................... 39
A LENDA DOS URUÇUS................................................. 43
A CRISE.............................................................................. 45
O COMPROMISSO............................................................ 47
A CLARINADA................................................................... 51
O ESBARRO...................................................................... 54
A PUNIÇÃO........................................................................ 58
A GRAVATA....................................................................... 61
O SABER ESPERAR......................................................... 65
O RETRATO........................................................................ 69
O ARGUMENTO................................................................. 73
OFERTA.............................................................................. 77
A CORRENTE.................................................................... 81
JORNADA NOVA.............................................................. 86
O PASSE............................................................................ 89
O PREÇO DO SILÊNCIO.................................................. 93
A ESPERANÇA.................................................................. 97






VOLTAS QUE A VIDA DÁ

"Meu amigo Ricardo Teixeira de Melo, homem prudente e habilidoso, conseguiu à custa de enorme economia juntar fortuna regular.
Esforçara-se durante muito tempo no trabalho árduo, e a riqueza, coroando-lhe os esforços, o ajudara a estabelecer-se com rendosa indústria manufatureira.
Entretanto, apesar de estar financeiramente bem, Ricardo não modificou sua maneira de ser.
Habituara-se à poupança e ao controle excessivo dos mil réis, sem dar-se conta de que já podia usufruir de maior conforto e menos preocupação com a manutenção
de sua família.
E, assim, ele vigiava o horário dos empregados na fábrica, calculando o custo dos minutos perdidos nos atrasos comuns durante o serviço. Em casa, não permitia
o menor deslize no orçamento magro, jamais propiciando aos familiares o conforto e, às vezes coisas mais necessárias. Quando a esposa, aborrecida, aludia à sua vantajosa
situação financeira, ele dizia:
- Você que pensa! Eu é que sei dos compromissos e responsabilidades! Não. Não posso gastar de maneira alguma.
E a mulher tristemente remendava ao máximo as roupas da família e fazia tremenda ginástica para não sair do magro orçamento doméstico.
Dessa forma, os bens de Ricardo duplicavam sempre, sem que ele mudasse o padrão de vida a que desde jovem se habituara. Ao contrário, com o correr dos anos foi
ficando pior. Não tirava férias para melhor poder vigiar o negócio, era sempre o primeiro a chegar e o último a sair. Não tinha, por isso, tempo para dedicar-se
ao aconchego da familiar. Mal parava em casa. Desenvolvia enorme atividade no sentido de exercer o controle de tudo, e assim a neurastenia tornou-se inevitável,
e com ela o desequilíbrio orgânico.
Mas era inútil a insistência da família. Ricardo não descansava.
Certa madrugada foi chamado às pressas. Irrompera violento incêndio em sua fábrica. Ninguém descobriu a causa do sinistro, entretanto, toda a indústria foi destruída.
Sobrou, diante dos olhos esbugalhados e febris de Ricardo, um amontoado de ruínas fumegantes. Nada pôde ser salvo, nem uma peça. E, como por medida econômica Ricardo
não fizera o devido seguro contra incêndio, ficou positivamente na miséria.
Em virtude do choque emocional, foi acometido de séria enfermidade, guardando leito por algum tempo. Quando melhorou, ficou com o braço direito imobilizado e
inútil. Incapaz de recomeçar a vida por questões psíquicas, além do defeito físico, Ricardo, sem recursos outros para viver, ficou na dependência dos filhos, que
viviam de modesto salário. Todavia, habituados ao pensamento de que o pai gastava pouco, e porque ele nunca lhes dera dinheiro para as menores coisas, obrigando-os
ao trabalho se precisassem de algo, não se sentiam na obrigação de serem pródigos para com ele.
Ainda assim, enquanto os dois rapazes eram solteiros e residiam com os pais, as coisas se arranjaram regularmente, mas depois que se casaram e saíram de casa,
formando seu próprio lar, a situação tornou-se calamitosa.
Ricardo e a esposa recebiam pequena mesada, que mal dava para a modesta refeição, e com seu precário estado de saúde, ele precisava de medicamentos cada vez
mais caros. Seu corpo envelhecido requisitava maior quantidade de agasalho.
E, se alguma vez, engolindo a revolta interior, ele se dirigia aos filhos solicitando aumento da magra pensão, ouvia invariavelmente:
- Por agora é só o que posso dar. Tenho família a sustentar. O senhor não sabe minhas responsabilidades e os meus compromissos!
Quando lhe morreu a companheira, nenhum dos dois abriu-lhe as portas do lar. Alegando necessidade de tratamento especializado e para melhor atendimento médico,
internaram-no em um asilo de velhos.
Foi amargurado e triste que Ricardo retornou ao plano espiritual, depois de algum tempo de perturbação. Trazia um amontoado de queixas contra os familiares,
o que muito prejudicou seu pronto equilíbrio.
Foi por isso visitado por amoroso instrutor, desejoso de ajudá-lo. Diante do carinho e da atenção de que foi objeto, Ricardo não conteve as lágrimas, e com
voz triste, tornou:
- Ai! Meu amigo. Como é bom encontrar almas generosas no caminho! Infelizmente eu não tive essa sorte. Deus me deu por família criaturas sem coração, que jamais
se compadeceram da minha dor.
O mentor amigo, colocando, calmo, a mão sobre o braço do enfermo, perguntou:
- Mas... que fizeste para sanar o mal?
- O que podia fazer? Velho, cansado, só e doente?
- A essa altura pouco, realmente. Entretanto, tiveste inúmeras oportunidades, como pai, de construir o amor e a generosidade no coração dos teus filhos. A criança
é uma plantinha tenra que cresce em torno da estaca que lhe serve de apoio. Se esta for firme e justa, ela crescerá perfeita, na devida posição. Porém, se for mal
colocada, frouxa e indiferente, a planta proliferará irregularmente, será fraca e mirrada. Tiveste, durante o início da vida, ocasião de ensinar os teus a serem
generosos e bons, e perdeste a oportunidade, valorizando apenas a posse efêmera do dinheiro, que infelizmente não te ofereceu felicidade nem segurança; não encontravas
tempo para os laços duradouros da estima e da compreensão.
Chamado à responsabilidade, Ricardo baixou a cabeça, confuso. O mentor prosseguiu:
- Aceita as conseqüências dos teus atos com serenidade e paciência. Se nada plantaste naqueles corações, se nada deste, como querias de lá tirar ou ter direito
a alguma coisa? Valoriza a experiência, e nunca é demais recordarmos os ensinamentos do Cristo quando nos advertiu: "Não vos afadigueis pela posse do ouro, que a
traça corrói e a ferrugem consome, mas ajunteis tesouros no céu e sereis felizes".
E colocando a mão fraternalmente sobre seus ombros curvados, terminou perguntando:
- E queres maior riqueza e maior tesouro do que o amor de pai envolvendo e penetrando um coração de filho?"
Marcos Vinícius


A Diferença


"A porta fechara-se com estrépito. Mariazinha batia o pé, chorosa. Queria a boneca grande, queria!
A mãe preocupada, em vão procurava explicar-lhe por que não podia atender-lhe o desejo.
Contudo a menina desatendia a qualquer raciocínio.
Sua mãe era de condição modesta, não poderia jamais conceder-lhe o pedido. Conseguira comprar-lhe o vestidinho simples, mais alegre, e uma boneca pequena, mas
graciosa. Entretanto, a menina não ficara feliz com o presente materno.
Via a menina rica da esquina, cercada de luxo e presentes caros, de bonecas suntuosas. Não compreendia por que ela não podia ter o mesmo. Julgava que a mãe não
lhe queria dar.
- Minha filha! Compreenda que temos o bastante! Não precisamos de mais para nossa felicidade! Jesus ficará triste se você for vaidosa e a inveja agasalhar-se
em seu coração.
- Jesus não gosta de mim! - dizia ela a chorar. - Por que dá tudo às outras e a mim só isso? A senhora não diz que ele é justo e bondoso?
- É. Jesus nos tem ensinado que Deus é pai bom para todos e colocou cada um de nós no lugar onde precisa estar, para aprender a viver feliz! Não nos deu dinheiro
porque somos muito vaidosos, e o dinheiro nos faria mal. Entenda, filha, é para o nosso bem! Sejamos felizes e agradeçamos ao Senhor o pouco que temos.
A menina calou-se, pensativa, mas trazia ainda a revolta estampada na face. Apanhou a boneca modesta, que a olhava com olhos inocentes, com evidente desgosto.
Foi quando a campainha da porta soou. Seria o pai com algum presente? Correu a abrir, com a fisionomia subitamente animada.
Estacou, surpresa. Pobre mulher trazendo uma criança ao colo e outra pela mão, estendia sua palma suplicante.
A dona da casa correu a buscar algum alimento. Era noite de Natal!
A menina recém-vinda olhava maravilhada para a outra, e seus olhinhos brilhantes iam do vestido novo à boneca que ela carregava.
A outra, fitando-lhe o corpinho magro e maltratado, os pés descalços e os olhos tristes, sentiu-se repentinamente rica.
- Posso ver? - indagou a pobre criança, aproximando-se.
- Pode. Gosta?
- E a boneca mais linda que já vi!
- Você tem uma igual?
A outra balançou a cabeça.
- Não. Mas quando eu crescer, vou ter uma boneca de verdade. Que fala, que anda, que chora e que ri.
- Como assim?
- Deus vai me dar uma, mamãe disse. E será mais bonita do que todas as bonecas mortas que tem por aí.
A outra ficou pensando, pensando.
Quando se foram, a menina, aproximando-se da mãe em atitude humilde, perguntou:
- Mamãe, Deus também vai me dar uma boneca de verdade quando eu crescer?
- Vai, minha filha, se você merecer.
- E para a filha de d. Bety também?
- Sim, minha filha, se ela for boazinha.
- Então, mamãe, Deus é justo mesmo! Porque se os papais da Terra dão para as filhas as bonecas que podem, Deus dá pra todas bonecas iguais!
E sorriu, completamente feliz."
Marcos Vinícius

A Visita


"Conta a história da humanidade que em tempos idos, na velha cidade de Betânia, o Mestre um dia caminhava, cercado de discípulos, rumao à casa de Nain, homem
temente a Deus e cheio de preceitos religiosos, os quais buscava seguir criteriosa e religiosamente.
Cercado da atmosfera virtuosa, respeitado e temido pelos seus, Nain esperava orgulhoso a visita do rabi, certo de que, na sua posição privilegiada, poderia esperar
do eminente Mestre grandes prodígios e demonstrações em sua casa.
Quando mais tarde chegou o senhor Jesus, com alguns discípulos, apressou-se a recebê-lo com deferência.
O meigo rabi, a passos lentos e leves, penetrou na habitação, onde lauta mesa os esperava e os aparatos testemunhavam o desejo que Nain tinha de agradar e parecer
homem de bem.
Na singular simplicidade dos seus gestos, o Mestre tomou assento em lugar discreto e sem atavios, sereno passeando o luminoso olhar pelos demais, que cabisbaixos,
mas curiosos, aguardavam as palavras de Jesus.
Nain apressou-se a falar, dirigindo-se ao Senhor:
- Mestre, não é este o lugar que vos havia destinado em minha casa. Tomai assento no lugar de honra que preparei para vós!
E com a mão designava uma bela mesa, coberta de flores e das mais ricas iguarias da época. Um verdadeiro banquete estava à espera do convidado de honra.
O Mestre, porém, sorriu, e levantando-se, colocou a mão direita carinhosamente sobre os ombros de Nain:
- Meu amigo. Grande é a tua bondade preparando com esmero esta lauta mesa para nos receber. Entretanto, aprende que não devemos seduzir com as satisfações mundanas
aqueles que desejamos agradar. Ao meu coração basta tua sinceridade, tua presença amiga, teus pensamentos carinhosos, para abrigar-me feliz no aconchego do teu lar,
tua harmonia com tua família, teus deveres de solidariedade humana bem cumpridos, para que o ambiente se torne confortável e acolhedor.
E olhando para Nain, que cabisbaixo meditava na sua intolerância para com a esposa e os filhos, na sua intransigência em exigir dos amigos o cumprimento dos
preceitos de sua casta, continuou:
- Pediste-me que viesse a tua casa pregar a Boa Nova, trazendo meus companheiros. Entretanto, que poderia eu dizer-lhes se, homens habituados à vida áspera e
sem regalias, estão agora distraídos, pensamentos voltados às tentações da satisfação das iguarias que preparaste? Se lhes falasse mais tarde, após fazer jus à fartura
da tua mesa, não seria compreendido, porque envoltos na sonolência do estômago bem-satisfeito, não compreenderiam mais minhas palavras. Assim, meu amigo, passemos
à refeição, porque aqui não há lugar para a palavra do Senhor.
E voltando-se para Nain, que decepcionado o ouvia, arrematou:
- Quem quiser entender e ouvir as palavras renovadoras da Boa Nova, deve preparar apenas as flores do coração. Ungir seu pensamento de pureza, de bondade e de
humildade. Porque só assim poderá ter a grandeza suficiente para entender as palavras e a vontade de Deus."
Marcos Vinícius


O Recurso
"Numa cidadezinha do interior, em modesta residência coletiva, existia uma pobre viúva que com dificuldades várias lutava para conseguir o sustento de seus oito
filhos.
Apesar dos seus esforços, a vida difícil e o elevado custo das utlidades fazia com que os donativos tão insuficientes minguassem cada vez mais.
O supérfluo dos mais abastados também se restringia, e assim, dias havia em que nada tinham ela e os filhos para comer.
Mulher de ânimo forte, lavava roupas para ganhar alguns níqueis, que desapareciam no sorvedouro dos preços altos, quase inúteis, tal a sua insuficiência.
Certo dia, porém, sua situação chegara ao extremo da miséria. O inverno rigoroso minava a saúde dos filhinhos, e três deles, de tenra idadade, guardavam o leito,
ardendo em febre e tossindo sem cessar. Nada havia para comer, e o tempo não lhe permitia lavar a roupa de suas freguesas, já que com a chuva incessante não lhe
haviam dado serviço.
Vencida pelo desânimo, começou a pensar em desertar da vida. Batera em todas as portas inutilmente. Devia algum dinheiro às mulheres para as quais trabalhava,
e assim não tinham querido adiantar-lhe mais, dizendo-lhe que com a melhoria do tempo seus filhos ficariam bons.
A pobre mulher, mente escaldante, ouvindo as palavras dolorosas para seu coração de "mamãe estou com fome", começou seriamente a pensar em suicídio, e na maneira
de executá-lo. Daria seus filhos e se mataria.
Seu mentor espiritual, preocupado, sentindo-lhe a situação perigosa, conseguiu do alto permissão para intervir, suavizando-lhe a dura prova, embora a soubesse
necessária ao seu aproveitamento. Conversando com seu colaborador, deliberaram conseguir auxílio material que aliviasse temporariamente a situação, permitindo ao
mesmo tempo que a fé e a confiança nos desígnios de Deus lhe dessem forças para o futuro.
Saiu o espírito colaborador para obter recursos, enquanto o mentor espiritual procurava transmitir à pobre mulher confiança e serenidade. Ela, porém, pensamentos
depressivos, não lhe recebia as ondas de luz e esperança.
Entrementes, o espírito colaborador saíra e decidira procurar certa senhora abastada conhecida por suas obras de assistência social. Parecia-lhe indicada para
o caso, uma vez que o marido da pobre viúva fora um dos empregados nas indústrias de sua família.
Encontrou-a lendo, esticada em confortável poltrona, olhando de quando em vez para a chuva incessante que via cair através dos vidros da janela.
O espírito aproximou-se e começou a falar-lhe aos ouvidos espirituais, contando-lhe as dificuldades da pobre necessitada.
A senhora não lhe registrou a presença, mas perdeu a vontade de ler e começou a recordar-se da viúva com seus oito filhos, cujo marido morrera em um acidente.
Sentiu vontade invencível de ir imediatamente ajudá-la. Levantou-se. Porém, olhando o dia frio e chuvoso, desistiu, pensando:
- Que idéia! Sair com um tempo desses. Outro dia qualquer mandarei alguém ver se eles precisam de alguma coisa. Talvez possa encontrar roupas velhas para eles.
Preguiçosamente, sentou-se novamente, e cobrindo as pernas com gostosa manta de lã, mergulhou com determinação e prazer na leitura. E o espírito, por mais esforço
que fizesse, não conseguiu mais influenciar-lhe o pensamento, afastado da sua atuação pelas garras da preguiça.
Vendo que nada conseguia ali, ele saiu disposto a não perder tempo e encaminhou-se à casa de um espírita que trabalhava já havia algum tempo em grupos de assistência
fraterna, visitando algumas vezes os necessitados, disposto a ajudá-los.
Esperançoso, recordou-se que lhe ouvira em sessões doutrinária dissertações sobre a caridade e a beneficência. Comovera-se mesmo com sua sinceridade.
O dia estava já no fim, e o espírito foi encontrá-lo terminando a refeição da tarde, depois de um dia de trabalho. Alegrou-se vendo a fartura de sua mesa e antegozando
a utilização das sobras que certamente dariam calma e confiança à pobre viúva, alimentando-lhe os filhos.
Aproximou-se dele, tocando-lhe a fronte com a mão e transmitindo-lhe o pensamento de socorro à necessitada.
Lembrou-se o espírita incontinente da pobre viúva que tivera oportunidade de visitar em comissão assistencial e disse à esposa:
- Você não tem noção de economia. Tanta gente passando fome e nós com comida demais. Não está direito. Precisa fazer menos comida e evitar sobras.
A mulher não gostou da advertência e respondeu:
- NÃO posso adivinhar quanto vão comer cada dia. Vocês variam tanto! E quando aparecem visitas de última hora?
- Mas hoje não veio ninguém. Com um tempo desses! Dá-me vontade de levar tudo para aquela viúva que visitei outro dia!
O espírito exultou.
- Ora, com uma chuva dessas? Você se lembra do barro que que teve que enfrentar quando esteve lá?
- É verdade. Não sei o que se passa. Algo me diz que ela precisa de nós. No próximo domingo irei ter com os companheiros do centro e proporei que lhe façam uma
nova visita.
Decepcionado, o espírito viu que ele tomou um livro doutrinário e prazerosamente enterrou-se em uma poltrona e pôs-se a lê-lo, maravilhando-se com a beleza dos
seus conceitos.
O benfeitor espiritual sentiu-se momentaneamente desanimado. A quem recorrer? Aqueles que se diziam cristãos e trabalhadores do bem não tinham conseguido libertar-se
do comodismo e da preguiça. O que esperar dos demais? Em todo caso, precisava tentar.
Orou a Jesus implorando-lhe auxílio. Surpreso, viu-se transportado para uma casa humilde a poucos metros da casa da viúva. Seu interior era modesto e os poucos
móveis que ali havia eram o reflexo fiel da situação precária dos moradores.
Uma mulher jovem, mas prematuramente envelhecida, olhava com desdém para o dinheiro que havia sobre a mesa, deixado por um cavalheiro havia poucos instantes,
numa indiferença à qual os anos a haviam habituado.
Vivia só. Nenhuma mulher da vizinhança olhava para ela. Não concordavam com sua maneira livre de viver. Entretanto, ela jamais ferira os lares, respeitava-os.
Seus admiradores eram todos de fora.
Naquela noite ela sentia-se mais solitária do que nunca e lembrava-se com tristeza da sua orfandade, que separando-a dos demais irmãos, lançara-a a situações
que sua fraqueza não soubera vencer.
Condoído de sua dolorosa situação mental, o espírito aproximou-se e colocou a mão delicadamente sobre sua cabeça, buscando reconfortá-la.
Pensamentos de suicídio que lhe turbilhonavam a mente foram momentaneamente afastados. Teve vontade de fazer algo de bom antes de deixar a vida e, lembrando-se
da viúva, não pestanejou. Juntou todo o dinheiro que possuía e algum alimento e saiu, indiferente ao mau tempo, rumando para a casa da pobre mulher.
Bateu à porta timidamente. A viúva abriu e estacou, interdita.
- D. Maria... Deixe-me entrar por alguns momentos. Preciso falar com a senhora...
A outra, muda, assentiu, e a jovem mulher deu-lhe o dinheiro e os alimentos que trouxera. Sem poder conter-se, a viúva abraçou-a, agradecida, chorando de alegria.
A pobre moça, contagiada pela emoção, chorou também. Sentindo-se compreendida, contou-lhe todo o seu sofrimento, sua solidão e seu desejo de suicídio.
Vendo nela o espelho do futuro se desertasse da vida, deixando os filhos na orfandade, a viúva, profundamente comovida, abraçou-a, dizendo:
- Grande é a bondade de Deus que me permitiu ver a tempo o abismo que ia abrir-se a meus pés. Jamais esquecerei que você foi meu anjo salvador. Se quiser, pode
ficar aqui, trabalhar e começar vida nova. Juntas lutaremos melhor e conseguiremos vencer. Será uma filha para mim.
Abraçadas e comovidas, lembraram-se de dividir os alimentos entre as crianças que, felizes, cercavam sua nova benfeitora. E enquanto elas se apressavam em atendê-las
com alegria, os amigos espituais, olhos marejados e corações felizes, oravam agradecendo ao Senhor."
Marcos Vinícius


O Caminho
No plano espiritual, contam que um homem, imbuído de profundo sentimento religioso, decidiu-se a procurar o caminho mais curto de chegar ao céu.
Depois de muito pensar sobre o que deveria fazer e estudar profundamente os compêndios religiosos mais importantes da época, decidiu-se a cuidar exclusivamente
da sua salvação.
Entretanto, possuía família: esposa e três filhos, que lhe tomavam todo o tempo disponível, pois precisava trabalhar arduamente para mantê-los.
Meditando que Deus alimenta seus filhos e que Jesus ensinara que os pássaros do céu não trabalham nem amontoam em celeiros, resolveu afastar-se do lar a fim
de dedicar-se exclusivamente ao seu aperfeiçoamento espiritual.
Surdo às rogativas da esposa aflita, cujos filhos ainda pequenos impediam de trabalhar, um dia juntou seus pertences, e alegando à mulher chorosa que Jesus ensinara
que cada um deve segui-lo incondicionalmente, sem prender-se aos preconceitos de família, saiu de casa em busca da perfeição.
Caminhou em procura incessante durante longos anos, dedicando-se ao culto puro da religião, em contato com a solidão dos bosques e florestas ou isolado em templos,
onde buscava a ligação através da oração com a divindade.
Fugia ao contato com os demais por achar que estava já acima do nível comum. Possuía no corpo a leveza dos constantes jejuns, mas o espírito ainda buscava incessantemente
a paz e a serenidade almejadas.
O tempo foi passando, seu corpo envelhecendo, seus cabelos ficando brancos e as pernas cansadas, porém, ainda seu espírito procurava a ligação sonhada com a
divindade. Embora com a mesma disposição anterior, a solidão já começava a pesar-lhe, e as saudades do lar enchiam-lhe o coração de profunda melancolia.
"O que terá sido feito dos meus?", pensava muitas vezes.
Acreditando-se joguete da fraqueza, reagia, buscando fugir à depressão.
Com o tempo, sua sensibilidade emotiva o fazia ter visões, onde sempre era o objeto central, e nelas via-se recebendo o prêmio de sua vida sacrificial de repúdio
às paixões carnais comuns à humanidade.
Então, pensava ele, ajudaria a família, a esposa muito ignorante, que não conseguira compreender a superioridade das suas atitudes.
Quando a moléstia o acometeu, só e triste, não gozou do conforto acolhedor de carinho familiar e em triste situação de abandono sofreu penosa agonia. Desencarnou.
Ao despertar no plano espiritual, admirou-se com a tristeza da paisagem. Em zona ressequida e árida, onde o verde não existia, erguia-se grande templo cinzelado
de ouro e pedras preciosas. Nosso amigo penetrou em seu interior e verificou que, apesar da riqueza da sua decoração, ali não existia calor, e tudo era extremamente
inexpressivo. A um canto, longe um pouco do altar ricamente adornado, enorme biblioteca atraiu-lhe atenção, e com espanto, aproximando-se, reconheceu todas as obras
que lera durante todos aqueles anos.
A primeira impressão foi de alegria, mas, depois, a solidão começou a incomodá-lo. Sabia que tinha passado pela morte, entretanto, onde a recompensa pela sua
imensa luta?
O desassossego aumentava à medida que o tempo passava, e ele não conseguia sair do templo, apesar da vontade que tinha de fazê-lo.
Vozes começaram a escarnecê-lo, e ele não conseguia identificá-las. Diziam-lhe:
- Tu não quer ser santo? Não querias saber tudo? Aí tens, pois, o teu ideal convertido em realidade. Convém reler os teus livros. Pode ser que eles te revelem
a maneira de saíres desta situação...
E a pobre criatura, para vencer o tédio e preservar a sanidade mental, começou então a reler os livros que dantes estudara.
Porém, com singular desapontamento, ao reler o Evangelho do Senhor notou que os caracteres já lhe pareciam diferentes, e começou então a duvidar, pela primeira
vez, da eficácia da sua interpretação passada.
Dúvidas terríveis insuflaram-se em seu íntimo, e com lágrimas descendo pelas faces, não suportando mais o peso das suas resoluções passadas, orou ao Senhor implorando
auxílio.
Atendido por entidades superiores, foi levado para uma sala repleta de anciãos respeitáveis, para expor suas necessidades.
Nosso amigo, em lágrimas copiosas, expôs seu caso e concluiu:
- Sinto que não andei bem quanto à minha maneira de agir na Terra. Pensei somente em minha salvação, sem me preocupar com os meus. Agora sei que esse dever eu
não cumpri, e desejaria ajudá-los de alguma forma para poder sentir-me em paz.
O venerável ancião, olhando-o sereno, respondeu:
- Não há, por agora, necessidade de preocupação. Vossa esposa já está aqui e virá falar-vos.
Admirado, ansioso, nosso amigo aguardou a presença da companheira. Entretanto, inesperado jato de luz impediu-o de enxergar bem a criatura que se manifestava
entre eles. Auxiliado por companheiros, aos poucos conseguiu acostumar-se à claridade e pôde perceber que a entidade como que se apagava para que ele pudesse vê-la.
Estupefato, reconheceu naquela criatura radiosa e belíssima a figura humilde e simples da esposa.
Lágrimas emotivas corriam-lhe pelas faces e as palavras morreram-lhe na garganta.
O belo espírito aproximou-se e carinhosamente acariciou-lhe os cabelos encanecidos. Mudos permaneceram envoltos por emoções intraduzíveis.
O ancião, tomando a palavra explicou:
- Meu amigo. A maior conquista do espírito consiste em bem desempenhar na Terra a tarefa que por Deus lhe foi confiada. Enquanto teu espírito, alimentando ilusões,
perdia-se no fanatismo religioso, na modificação dos textos Evangélicos, adaptando-os às tuas imperfeições, sem humildade para compreendê-los, abandonaste a família
ao abandono,fugindo às obrigações mais prementes, negligenciando o burilamento dos teus sentimentos, negando-te a aprender na heterogeneidade do mundo a lição de
fraternidade do Senhor. Enquanto isso, tua mulher lutava sozinha na dura lição terrena para conseguir o sustento dos filhos que abandonaste, e embora lhe faltasse
o tempo para leitura brilhante, teve ocasião de exemplificar no trabalho e na honradez, na tolerância e na bondade, na disciplina rígida a que se impôs pela necessidade,
conseguindo educar os filhos na moral mais pura e no conceito mais elevado, encaminhando-os seguramente na senda da vida. E, se às vezes, quando a luta se exacerbava,
procurava algumas linhas do Evangelho, encontrava nelas alimento e conforto, renovação e luz, porque as podia compreender na grandeza da sua simplicidade. Os sofrimentos
dos seus, suas lutas, deram-lhe a noção exata da alheia necessidade. Assim, ajudou o quanto pôde, não com recursos financeiros, que nunca possuiu, mas com suas mãos
doloridas e calejadas pelo trabalho difícil e rude de cada dia.
Olhando o espírito confuso e triste, que cabisbaixo não ousava interromper, continuou:
- Unidos na Terra, em vida pobre e difícil, tiveram ambos a oportunidade de avançar na conquista da evolução. Escolheste o caminho mais difícil, estéril e longo;
ela soube encontrar o caminho mais curto e proveitoso. Por isso, é imprescindível que retornes à Terra. Sozinho, agora com os conhecimentos didáticos adormecidos,
serás analfabeto e trabalharás duramente para conseguir sustento. Aprenderás, assim, a lição da humildade, e talvez um dia chegues à altura da tua companheira em
planos mais altos.
E rematou, notando a profunda tristeza de nosso amigo:
- Entretanto, aprende que, embora com maiores sofrimentos, todos os caminhos conduzem a Deus."
Marcos Vinícius


Os Detalhes


Certo companheiro era muito meticuloso. Tudo quanto realizava vinha catalogado de maneira perfeita e com o maior número de detalhes possível.
Na firma onde trabalhava, na direção de importante organização, era implacável. Exigia dos seus funcionários perfeição nos mínimos detalhes, sendo por isso malvisto
por seus empregados, que sofriam suas ordens repetidas, vendo voltar inúmeras vezes seu trabalho para que fosse completado.
Em casa, aborrecia a esposa porque suas exigências causavam sempre uma série de problemas. As empregadas domésticas não paravam no emprego. Era o bastante ligeira
ruga em sua camisa ou imperceptível dobra no friso de suas calças para que ouvissem um sermão sobre como se deve passar e conservar uma roupa, devendo repetir a
operação até que ele a julgasse perfeita.
Até nos arranjos da casa nosso companheiro observava os mínimos detalhes, conhecendo um por um os arranhões dos móveis, o lugar exato das cadeiras, dos tapetes,
dos bibelôs, etc.
Sua esposa desdobrava-se em atividades e paciência para que tudo estivesse na mais perfeita ordem. Entretanto, ele sempre encontrava um pequeno detalhe esquecido
para cognominá-la de desorganizada e distraída.
Muitos toleraram os familiares, os poucos amigos. O caso tornou-se pior quando ele adoeceu. No leito, entre uma crise e outra, tornou-se mais exigente, bastando
que sua bandeja com a refeição não chegasse no no minuto exato, com todos os detalhes
Perfeitos, para que ele se dissesse vítima abandonada ao sabor da sorte, sem atendimento e consolo.
Na verdade, apesar da estima familiar, todos sentiram certo alívio quando ele passou para o plano espiritual.
De início, nosso companheiro estranhou muito a mudança de vida. Permaneceu durante longo tempo unido ao lar em que vivera, assistindo à modificação instantânea
e radical que os seus realizaram. A esposa, sentindo a alegria da liberdade, modificou todo o arranjo doméstico, e na indústria que gerenciara, onde por vezes se
refugiava certo de encontrar lá a organização que deixara, teve a surpresa de verificar que, num desafogo, seus funcionários modificavam todo o sistema de trabalho,
sob a orientação de novo e moderno gerente.
Abatido, sentindo-se só e isolado, deprimido, julgando-se vítima do descuido e do desleixo do semelhante, foi atraído pelas preces de alguns antigos companheiros
do plano espiritual a uma assembléia, onde pôde trocar idéias com instrutores desejosos de ajudá-lo.
Desabafou então seu coração. Contou como se dedicara ao lar, desejando aperfeiçoar todos os seus detalhes. Como se dedicara ao trabalho, procurando desempenhá-lo
perfeitamente.
Ao término, exigindo justiça, esperou firme, imponente, resposta, que veio de forma singular, através do diretor da augusta reunião:
- Meu amigo. Sabemos de tudo quanto nos contaste. Não há necessidade de te magoares recordando-o agora. Por um dever de justiça, e porque exiges sempre os menores
detalhes de todas as coisas, achamos necessário, neste instante em que estudamos teu passado, apreciar certas passagens de tua vida, que julgas esquecidas. Acreditamos
que queiras revê-las detalhadamente.
E, diante da surpresa do nosso companheiro, um tanto preocupado e inquieto, em pequena tela colocada diante de seus olhos começou a refletir-se, como em um filme,
a rememoração de toda sua vida, desde a primeira infância, com tal realismo que até os mínimos pensamentos eram registrados.
À medida em que as cenas se sucediam, atingindo a fase da adolescência e da mocidade, nosso amigo foi se tornando agitado. Vendo dissecada sua intimidade, que
julgara impenetrável, remexia-se na cadeira, refletindo no olhar um misto de vergonha e temor. Até que a certa altura, não conseguindo controlar-se, não suportando
mais aquela exibição, gritou:
- Parem! Parem! Pelo amor de Deus!
Imediatamente a tela desapareceu, restando nosso companheiro a soluçar desesperadamente enquanto dizia:
- Para que esmiuçar assim os erros que julguei esquecidos? Sei que estou errado. Não poderia esquecer o passado?
O instrutor espiritual aproximou-se dele, abraçando-o com carinho.
- Medita em tudo que viste. Quando amanhã tornares à Terra, na bênção da reencarnação, lembra-te sempre que não foste capaz de suportar os detalhes de tua própria
vida. Aprende por isso a torna-te tolerante para com as possibilidades alheias, não exigindo de cada um mais do que te possam dar. Procura tu mesmo te aperfeiçoares
cada vez mais, não nas exterioridades, mas nas tuas ações e no teu íntimo, exigindo de ti, isto sim, detalhadamente, a prestação de contas nas obras de cada dia.
Hilário Silva



O Entrave
"Manoel Carlos desejava havia muito o lugar de superintendente na firma onde trabalhava, por entender que, melhorando de situação financeira, recebendo maior
remuneração, poderia realizar seus antigos sonhos de fartura e despreocupação.
Desde muito moço vivera cercado de dificuldades, que lhe inutilizavam os esforços, obrigando-o a levar vida modesta e controlada.
Havia anos trabalhava devotadamente, e pela seqüência hierárquica e tempo de trabalho, era a pessoa credenciada para assumir o posto quando houvesse a vaga.
Mas, por diversas vezes, as coisas concatenavam-se de tal modo que outro assumia o lugar, e ele, decepcionado, amargurado, esforçava-se por ocultar sua revolta.
Certa vez, quando tudo parecia certo e as coisas se encaminhavam bem, Manoel Carlos não teve mais dúvidas: obteria a promoção. Entretanto, horas depois, chegou
credenciado funcionário do interior, que havia pedido transferência e ocupara o cobiçado lugar.
Profundamente decepcionado, Manoel procurou por seu superior e desabafou sua mágoa, dizendo-se profundamente injustiçado. Usou termos fortes, e no paroxismo
do desespero, só não foi despedido em consideração aos seus muitos anos de procedimento exemplar.
Aborrecido, retornou ao lar, e deprimido, contou à esposa seu fracasso, ao que ela respondeu:
- Vai ver que Alice tem razão! Eu tinha certeza de que você seria promovido! Olhe, ela acha que você está sofrendo perturbação espiritual! Ela é espírita!
- Você sabe que eu não creio nessas coisas...
- Mas o que ela diz pode ser verdade. Não custa nada irmos a uma sessão espírita. Quem sabe você tem alguém que o prejudica!
Ele estava relutante, mas tanto ela insistiu que resolveu comparecer à reunião. Ficou bem impressionado porque se tratava de um trabalho evangélico do espiritismo
cristão. Ouviu consoladoras exortações de mentores luminares enaltecendo, a paciência, a tolerância, a resignação aos desígnos sábios do alto. Mas sua situação continuou
a mesma. Ele confidenciou à esposa um mês mais tarde:
- Não adiantou o Espiritismo. Tudo continua na mesma.
- Você tem razão. Mas d. Maria me disse que onde fomos não adianta, porque a "mesa branca" não tem poderes para resolver certos casos. Acho que devíamos ir ao
terreiro do seu João. Ele ajudou seu Antônio a arrumar aquele empregão! E fez d. Sinhá achar o dinheiro que havia sido roubado.
E lá se foram os dois para o trabalho que se realizava no terreiro de seu João.
Apesar do ambiente desagradável, cheirando a fumo e a bebida, eles gostaram daquele ar de "mistério" que parecia existir no local. Conversaram com seu João,
expondo seus problemas, e o homem lhes prometeu auxílio, à guisa de polpuda recompensa, da qual receberia um sinal para "iniciar as primeiras despesas", e depois,
quando ele tivesse conquistado a melhoria, o restante.
E as coisas mudaram para Manoel. Dentro de pouco tempo foi-se desanuviando o ambiente na firma e, um dia, com alegria enorme, conseguiu a promoção que o colocava
em destaque, com o dobro do salário.
Os primeiros dias foram de euforia para ele. Sentia-se muito agradecia ao trabalho do seu João. Pagou sua dívida e integrou-se na nova posição.
Tinha maior responsabilidade, porém, sobrava-lhe muito mais tempo disponível e dinheiro para gastar. Começou, então, a apostar nos cavalos para passar o tempo,
e um dia teve a curiosidade de ir ao hipódromo assistir às corridas. Gostou. O ambiente fazia-o sentir-se importante, e havia também belas mulheres, que o atraíam.
Envolveu-se de tal maneira com o novo entretenimento que o que era um passatempo tornou-se uma necessidade. Sua esposa raramente o via em casa e vivia infeliz,
suspeitando de sua ligação amorosa com outras mulheres. O dinheiro que recebia tornou-se insuficiente para manter sua família, pois gastava-o todo no prado. Manoel
Carlos já não podia dispensar aqueles hábitos, que exigiam sempre mais dinheiro à medida que o tempo corria.
Até que, envolvido por pesados compromissos de jogo, passou a desviar quantias da firma em benefício próprio. Quando o escândalo estourou, ele, desesperado e
aflito, não podendo arcar com a responsabilidade dos seus atos, suicidou-se espetacularmente com um tiro no ouvido.
Sua esposa, acabrunhada, aflita pelos sofrimentos que tivera, deixou-se dominar por funda depressão. Sua amiga Alice foi visitá-la, desejosa de ajudá-la de alguma
forma. Espírita convicta, procurou consolá-la através do Evangelho, mas nossa irmã com amargura respondeu:
- Minha mãe sempre dizia que mudar de religião atrai a desgraça, Nós não devíamos ter nos metido com Espiritismo. O que adiantou? Ele teve a melhoria, mas recebeu
a desgraça! Eu não volto mais lá.
Mas a amiga não desanimou, continuou carinhosamente a visitá-la, até que, finalmente, conseguiu levá-la a uma reunião evangélica.
Nossa irmã, envolta em profundo abatimento, parecia não sentir as vibrações delicadas de harmonia e refazimento que envolviam o ambiente.
Quando, porém, foi pedida uma prece em benefício do espírito do seu marido, não conteve a revolta e, num desabafo, culpou o Espiritismo de ter engendrado sua
desgraça.
Dedicado mentor espiritual dirigiu-lhe palavras de carinho e,aos poucos, ela foi serenando. .
- Nós éramos felizes! Manoel, bom marido, honesto e dedicado.
- Mas vocês eram pobres! - lembrou o mentor espiritual.
- Não importa! A riqueza não traz felicidade! Nós vivíamos muito bem com a nossa pobreza, que não era tão rude assim.
Foi quando a voz suave do mentor espiritual tornou-se enérgica e firme:
- Minha filha, é hora de despertar para a realidade. Agora diante das conseqüências dolorosas que te envolvem, com o fracasso da tarefa que te trouxe à reencarnação,
queres lançar a culpa, que pressentes tua, aos ombros de outras criaturas. Lembra-te que, quando vieste ao nosso encontro, há tempos passados, não enxergavas a felicidade
que agora reconheces ter existido naquele tempo. Dizias ser imprecindível a conquista de melhor posição sócio-econômica para completar tua felicidade. Examinando
teu caso,porém, recorremos às fichas do passado de ambos, e lá encontramos erros envolvendo fracassos e derrotas, conseqüência de vício e luxúria. Sabíamos que o
maior benefício para ambos era viver afastados das facilidades e dos excessos, porque ainda não estavam suficientemente seguros nas conquistas espirituais para vencer
o passado! Por isso, aconselhamos a paciência, a resignação, a tolerância. A riqueza é prova difícil, que só muita fortaleza consegue vencer. Por isso, equilibra
o teu espírito e busca orar muito para que ambos tenham outras oportunidades o mais breve possível.
A viúva, mais serena, reconhecendo a razão do seu interlocutor, quis ainda fugir à sua responsabilidade, que lhe era difícil aceitar, e retrucou:
- Isso foi aqui. Mas na outra sessão aonde fomos, os espíritos, mesmo sabendo disso, nos deixaram errar.
- Minha filha! Não podes exigir das crianças que tenham a experiência e o conhecimento de um adulto. Certas criaturas, vivendo no imediatismo do mundo, a ele
se apegam e, do outro lado da vida, continuam a ver apenas as benfeitorias imediatas. A elas, na maioria dos casos não é dado conhecer nem penetrar no passado dos
semelhantes, e quando o conseguem, não lhes interessa o benefício futuro, voltadas que estão ainda às coisas efêmeras.
- Mas, então, somos colocados à mercê dessas criaturas? Por que nossos mentores espirituais não as impedem de conseguir o que lhes pedimos, se esse desejo nos
vai prejudicar?
- Minha filha, não temos pretensão de ensinar a quem quer que seja. Sabemos a verdade, mas desejamos que cada um aprenda a encontrá-la por si. Toda queda representa
nova experiência e, ao mesmo tempo, torna-nos mais fortes para o futuro. Ademais, aprendemos a respeitar o livre arbítrio. Procuramos sempre ajudar, orientando criteriosamente,
imbuídos de carinhoso desejo de amparo, mas se a criatura é surda às advertências, impermeável aos bons conselhos e não vê a realidade, o único remédio é deixá-la
caminhar como deseja, para que, por sua própria experiência, encontre a realidade. E o máximo que podemos fazer para cada um. Porquanto, se os conselhos ajudam e
as exortações levantam, a experiência sempre dará a conquista definitiva!
A viúva de Manoel Carlos baixou a cabeça, vencida. Pela primeira vez reconheceu a justiça divina e intimamente suplicou a Deus a oportunidade de recomeçar."
Marcos Vinícius


O Respeito
José Justino dos Santos, fazendeiro respeitado por todo o norte de Minas Gerais, orgulhava-se profundamente de duas coisas: sua fama de homem de bem e sua bela
fazenda na invernada.
Zeloso de sua família, cuidava diligente da educação dos filhos e do seu futuro. Todavia, se conhecido por bom, era também temido por intransigente com seus
códigos de honra e duro na aplicação do castigo, que sempre ministrava tanto aos servos como aos demais.
Vivia vida tranqüila. Na verdade, porém, nem de leve conhecia a metade dos acontecimentos que lhe invadiam o lar.
Tanto a esposa como os filhos e os servos, tacitamente encobriam os assuntos desagradáveis, a fim de evitarem aborrecimentos.
Por isso, quando sua filha contou em lágrimas à sua mãe que fora seduzida e abandonada, a mulher, temerosa e aflita, pensou unicamente na maneira de ocultar
ao marido tal desgraça. Temia-lhe a justiça inflexível que certamente puniria terrivelmente sua própria filha.
A jovem por alguns meses, para a casa de sua madrinha um tanto distante e, lá, deu à luz um menino, que para poder ser visto sempre pela mãe, foi dado a um dos
empregados do pai, humilde lavrador, para criar.
A jovem regressou ao lar, vivendo traumatizada pela dor de ter que quase ignorar a presença do próprio filho.
José Justino, entretanto, na austera atmosfera de sempre, arvorando-se em juiz, continuava a castigar rudemente todos aqueles que apanhava em erro.
Ignorava, contudo que seu filho mais velho, em quem depositava as mais ardentes esperanças, vivendo na cidade, cursando escola superior, envolvera-se em escabroso
romance com uma senhora casada e sofria chantagem terrível da parte de um salafrário, que para não mostrar ao marido injustiçado algumas fotografias comprometedoras,
exigia somas cada vez maiores.
O rapaz, no paroxismo da angústia, havia alguns meses recorria à mãe, que, por sua vez, subtraía ao pai a importância pedida.
José Justino, pela energia das suas atitudes e sua vida impoluta, provocava profundo temor e respeito em todos. Dizia sempre que soubera realmente educar os
seus e manter bem alta a dignidade da família.
Todavia, a situação era falsa, e um dia, José Justino surpreendeu palestra reveladora entre a esposa e a filha angustiada. Num relance, tomou conhecimento de
tudo. Sentiu-se empalidecer. Fisionomia transtornada pelo ódio, expulsou a filha de casa, ameaçando-a de morte, proibiu terminantemente que seu filho mais velho
regressasse ao lar e passou a derramar toda sua revolta sobre a angustiada esposa.
Tornou-se desconfiado, irascível.
A esposa, amargurada, sofreu vendo sua querida filha escondida em casa do lavrador humilde que lhe agasalhara o filho, e desesperou-se sentindo a angústia do
filho, a quem se viu impossibilitada de enviar dinheiro.
Mas José Justino, se era inflexível, também era pai, e sofreu a tremenda desilusão. Sentiu a solidão do casario vetusto e a morte das suas esperanças felizes.
Pela primeira vez sentiu dificuldade em aplicar castigo aos culpados. Para não sucumbir de dor e desespero, orou ao Senhor em busca de proteção e amparo, de forças
para não fraquejar na energia e na dureza das suas deliberações.
À noite, adormeceu e sonhou que se encontrava em agradável lugar, rodeado de amigos, a quem confidenciou suas desilusões. Ninguém lhe respondeu às palavras doloridas;
afastaram-se discretamente, dando passagem à luminosa figura envergando uma toga negra.
O recém-vindo sentou-se ao seu lado e, depois de cumprimentá-lhe disse:
- Vim ajudar-te. Tua rogativa comoveu-nos.
José Justino, confortado, começou a desfiar suas mágoas, quando o outro interrompeu:
- Sei de tudo. Devo dizer-te, a bem da tua felicidade: não tentes julgar ninguém. Perdoa, José. Recebe tua filha de braços abertos e a ensina-a amar-te mais
pela bondade e pela compreensão do que pelo temor. Abraça teu filho e busca orientá-lo com amor e segurança, rumo à vida honesta que sempre viveste!
O velho fazendeiro estava boquiaberto. Um juiz a dizer-lhe que pactuase com o erro, que perdoasse!
Apenas pôde articular:
- E a justiça? Não estarei sendo conivente com o erro? Não é possível perdoar! Minha formação moral o impede!
- A Deus compete a verdadeira justiça. Acorda para a realidade, José. Esquece os vícios do passado! Como eu, tu foste juiz em encarnação anterior. Rigoroso e
cumprindo à risca a lei humana, cometeste muitas injustiças. Condenaste um pobre homem que furtara para dar pão aos seus filhos a alguns anos de prisão. Depauperado,
o infeliz não suportou a prisão e veio a desencarnar pouco depois, deixando órfão um filho menor, que só e abandonado, fraco e irrefletido, entregou-se a toda série
de loucuras, desencarnando ainda jovem e em precaríssimas condições. A esposa, para manter o lar, então abandonado, escorregou para a prostituição, desesperada e
ainda incapaz de vencer honestamente sua prova.
Fez ligeira pausa, observando serenamente a fisionomia de José Justino que o remorso ensombrava. Continuou:
- Deus-te o Senhor nova oportunidade de refazeres o mal praticado recebendo em teu próprio lar, como teus filhos, a esposa e o filho do homem que rigorosamente
condenaste, para que, com amor e paciência, compreensão e tolerância, lhes ensines novamente caminho certo. Queres agora fugir à tua responsabilidade?
José Justino, envergonhado, sentindo-se arrependido, deixou pender a cabeça, entristecido.
O outro, abraçando-o com carinho, continuou:
- O respeito é uma grande virtude quando advém do amor e da confiança mútuos. Mas, quando imposto pelo terror e pela rigidez de princípios, torna-se veículo
da hipocrisia e da desilusão. Aprende a perdoar, José, e tudo se resolverá.
E no dia seguinte, ao acordar, José Justino surpreendeu a esposa ao pedir-lhe humildemente perdão e mandá-la buscar os dois filho.
Marcos Vinícius


O Genuflexório

Franzino, magro e miúdo, o menino, sentado a um canto da igreja, tinha os olhos fixos, não na pompa dos altares, não na púrpura carmezim dos oficiantes; não
na majestade das imagens mudas e asmática, mas num luxuoso genuflexório, colocado na ante-sala do altar-mor.
Tratava-se de uma peça antiga e artisticamente trabalhada. De maneira negra e estofado em vermelho, trazia já a forma dos muitos joelhos sustentados.
A missa era de gala e o burburinho dos fiéis grande. Entretanto, nem por um instante o jovenzinho desviou os olhos do sóbrio móvel.
Quando o ofício terminou, sua mãe, indiferente ao interesse não observado, chamou-o diversas vezes, e como não obtivesse resposta, puxou-o delicadamente pela
mão, arrastando-o quase nave afora.
Entretanto, funda mudança revelou o menino daí por diante. Sempre que podia voltava à igreja, de onde dificilmente conseguiam tirá-lo. Lá permanecia, quieto,
mudo, ensimesmado, olhos apenas para o genuflexório.
A princípio sua mãe, católica praticante, achou bom que o menino se interessasse pela igreja, mas com o correr dos dias, notando a singularidade do fato, sua
alegria transformou-se em preocupação. A situação chegou a tal ponto que nem a proibição da mãe o detinha. Fugia assim que deixavam de vigiá-lo e ia à igreja.
Um dia, depois de encontrá-lo mais uma vez na igreja em muda contemplação, sua mãe, transtornada, pediu conselho ao padre, que profundamente intrigado, o interrogou:
- Menino o que vem você fazer sempre na igreja?
O menino, sem desviar o olhar do objeto do seu enleio, respondei:
- Olhar, padre.
- Olhar? O quê?
- Aquele lugar onde todos os dias o senhor ou o monsenhor se ajoelham.
- O genuflexório?!!
- Sim. E esse o nome?
- E. Você gosta dele?
- Não sei...
- Olhar!
O interrogatório seguiu por aí afora, sempre versando sobre o esse tema, findo o qual tanto o padre quanto a mãe .estavam mais preocupados e intrigados ainda.
Levando a senhora para a sacristia, o padre falou-lhe de desequilíbrio emocional, de idéias fixas, e aconselhou-a a ir a um bom psiquiatra.
A pobre senhora sentiu-se ainda mais angustiada diante da sombria perspectiva. O psiquiatra procedeu a rigoroso exame e comprovou que a sanidade e o desenvolvimento
mentais eram normais no garoto, e aconselhou a mãe a dar-lhe por algum tempo a liberdade de ir olhar a peça de sua predileção.
Todavia, o padre sentiu-se incomodado com a presença na igreja daquela figura imóvel, olhos fixos, e ao cabo de certo tempo, em reunião com os pais do menino,
resolveu emprestar-lhe a velha peça até que o rapaz se curasse da mania.
Foi assim que o menino levou o genuflexório para casa. Seus olhos brilhavam quando o colocou em seu quarto. Todos os dias passava horas de joelhos, olhos fixos,
sem nada ver.
No paroxismo da angústia, não se conformando com a situacão, foi um dia sua mãe orientada a procurar um centro espírita.
Desconfiada e envergonhada, com receio de ser vista pelos conhecidos, disposta a mais aquele sacrifício supremo, com o coração descompassado, foi à casa de conhecido
espiritista que, inteirado do caso, prometeu-lhe realizar uma reunião em sua casa, levando alguns companheiros.
Na noite que aprazada foi realizada a sessão, e através de um dosmédiuns presentes manifestou-se imediatamente o espírito de uma mulher chorosa e aflita.
Chamava por Marcelo, dizendo que novamente iam separá-los.
O menino, que presenciava a cena, caiu em pranto convulso, numa reação tão inesperada quanto sua apatia era acentuada. Gritava em altos berros:
- Não! Não!!Não!!
No ambiente emotivo que se formou, após serena prece do dirigente da runião, os ânimos se foram acalmando. E enquanto se ouvia ainda os soluços incontidos do
menino, manifestou-se através dos médiuns a suave voz de um mentor espiritual:
- Tranqüiliza-te,Marcelo. Tem confiança nos desígnios do Senhor. Contemplaste hoje parte da tarefa que te competia desempenhar em atendimento do passado. Quando
em encarnação anterior desposaste formosa donzela, a amavas com profundo sentimento. Porém, quando por circustâncias naturais e necessárias à evolução espiritual
de ambos ela adoeceu e morreu, três anos depois, grande foi o teu sofrimento. Não querendo aceitar a vontade sábia do Pai, mandaste construir na rica capela do teu
castelo uma urna especial, onde colocaste o seu corpo, e lá, durante o resto da tua vida na Terra, permaneceste em oração e contemplação constante, como se ela fosse
o próprio Deus! Amando-te também e sem forças para afastar-se do local, fortemente atraída por teu pensamento afetivo, o espírito dela permaneceu a teu lado, surdo
ao apelo e aos conselhos dos amigos do plano espiritual. O tempo foi passando e tu, também velho e alquebrado, vencido por incurável moléstia, passaste para a vida
maior. Entretanto, por circustâncias próprias e caracterísricas, foste, ainda em sono letárgico, após a morte do corpo físico, levado para longe por amigos dedicados.
Lembra-te que quando recuperaste a consciência rogaste permissão para ver a esposa bem-amada. Entretanto, somente o conseguiste depois de muito esforço no campo
moral e muito trabalho em benefício do próximo. Porém, foste encontrá-la ainda jungida, não mais ao seu próprio corpo, que não era o móvel do seu interesse, mas
ao genuflexório que compraste e colocaste junto ao seu túmulo na capela, e onde permanecias durante horas imantado às tuas lembranças. Sem poder ver-te nem saber
o que te havia acontecido, ela ligara-se ao genuflexório, único elemento que no seu entender deveria levá-la a ti novamente. Acompanhara-o por toda parte durante
todos aqueles anos, sempre aguardando ansiosamente o reencontro. Não te ouviu quando procuraste convencê-la da inutilidade do seu gesto, o quanto fizeste redundou
inútil. Reconhecendo-se culpado pela situação, te dispuseste ao sacrifício da reencamação para libertá-la da terrível prisão. Viste o velho genuflexório na igreja
e sentiste de imediato a ligação que se estabeleceu entre tu e ela, que não te viu como criança que ainda és, mas como a figura do seu esposo muito amado. Entretanto,
meu filho, vinhas para libertá-la e não para imantarem-se os dois ao passado distante. Ora conosco para que ela possa libertar-se agora do terrível cativeiro, tão
longo quanto doloroso, e assim estarás livre para continuar tuas tarefas em outros campos. E, um dia, quando ambos disciplinarem os sentimentos, aprendendo a caminhar
rumo à libertação e à felicidade, estarão reunidos para sempre, amando-se com infinito e verdadeiro amor.
O garoto cessou de soluçar e em voz baixa fez profunda prece por aquela que amava.
A resposta foi apenas um murmúrio, mas alguns ouviram:
- Adeus, Marcelo. Compreendo!
E no dia seguinte, sem muitas explicações, o padre, intrigado, recebeu de volta o velho genuflexório.
Marcos Vinícius



A Lenda dos Uruçus

Historiando uma lenda antiga, conseguimos recompor uma pequena parte do fragmentário conto dos uruçus.
Havia, muitos anos passados, à margem do Araguaia, uma tribo de índios chamada Itumanim. Era uma tribo misteriosa e pouco numerosa. Vivia nos cerrados, seus membros
organizados em pequenas cabanas de palha, alimentando-se de peixes e frutos.
Jamais aproximavam de outras tribos e fugiam tacitamente ao contato com os brancos.
Porém, quando havia lua cheia, tomavam suas canoas e deslizavam rio abaixo, quietamente, encantados com a beleza da paisagem.
Ceta vez, uma expedição o que demandava o nordeste embrenhou-se naquelas matas, e seja por inexperiência dos seus condutoresou por ascassez de recursos, jamais
chegou ao seu destino.
Atacados pelas febres comuns naqueles sítios, alguns vieram a morrer, e os outros, sem víveres ou medicamentos, um a um pereceram, espalhando-se em redor uns
aqui, outros ali.
E quando os últimos sobreviventes jaziam por terra, os Itumarins começaram a chegar.
Desconfiados, lança em riste, aos poucos e constatando a inexistência de inimigos, a curiosidade foi mais forte, obrigando-os a abrir os pacotes atirados ao
solo, entre risonhos e surpresos.
Eis, porém, que um choro de criança feriu o ar.
Assustaram-se os silvícolas. Procuraram e, a poucos metros depararam-se com a cena dolorosa: uma mulher, estendida no chão, cabelos desalinhados e empastados
de suor, olhos embaciados e o rosto marmóreo, conservava ainda nos braços uma criança de dois ou três meses aproximadamente, como se quisesse protegê-la infinitamente.
Paralisaram-se os recém-chegados, indecisos. A criancinha chorava aflita, desamparada.
Para eles era um branco, um ser quase lendário, perigoso.
Foi aí que o inesperado ocorreu. Mani, a jovem índia, correu para ela e, num gesto rápido, tomou-a nos braços, aconchegando-a ao peito.
Havia dois dias tinha perdido o filho nascituro, e diante da revolta dos seus, aproximou o seio farto da boquinha sedenta e aflita.
Os lábios gulosos apertaram-se no seio moreno e começaram a sugar gostosamente.
Ninguém ousou tirar-lhe a criança, porém o desagrado foi geral. Temiam a má sorte, não podiam desrespeitar a lei da tribo.
A criança intrusa precisava morrer.
Interpelaram Mani, que brincava com os cabelos suaves e louros da criança, encantada com a beleza de sua face branca e rosada.
Negou-se ela a entregar o menino, e vendo que lho queriam tirar à força, ganhou o mato, embrenhando-se nele.
Buscaram-na em vão. Resolveram esperar na aldeia o seu regresso. Sabiam que voltaria.
Mas Mani não voltou. Desapareceu e ninguém mais a viu.
E, contam os caboclos que costumam atravessar aquelas paragens à noite, que altas horas, quando a lua é cheia, Mani aparece em uma canoa descendo o rio, cantando
feliz com seu filho branco nos braços,
E as jovens esposas que esperam seu primeiro filho, dizem que oram por ela, que costuma socorrer as crianças brancas, visitando-as nas horas mortas da noite.
Eis a lenda hoje fragmentada que a história conta, mas sabemos que em cada mulher há sempre um coração de mãe, que é sempre amei, pulsando pela fragilidade do
ser que Deus colocou em seus braços.
Gustavo Barroso
(Homenagem ao Dia das Mães)


A Crise


Certo companheiro, estudioso profundo da doutrina consoladora do Espiritismo, vivia satisfeito com suas conquistas no campo seu conhecimento.
Havia vários anos intentava a conclusão de um trabalho em que pudesse atender aos imperativos da divulgação doutrinária. Elaborara pacientemente, após alguns
anos de pesquisa e dedicação, um livro, onde grafara a experiência que conseguira armazenar.
No seu entender devia o livro servir de exemplo a todos aqueles que desejassem seguir com aproveitamento maior e mais rápido o caminho da libertação.
Naquele dia, ao encerrar a tarefa, sentia-se feliz. Podia esperar a morte com a consciência tranqüila.
Saiu para o trabalho cotidiano. No caminho, ia meditando sobre os detalhes de sua obra, na análise evangélica em confronto com os fundamentos doutrinários. Nada
esquecera, nem um detalhe.
A caridade era tratada em múltiplas facetas, às conquistas das virtudes dedicara grande parte do seu trabalho, salientara a necessidade do esforço próprio em
capítulo bem-cuidado. E, pensava ele, ao desencarnar colheria todo o benefício do seu laborioso trabalho.
Tão imbuído ia desse ideal que foi bruscamente chamado à realidade, sentindo que uma mão ligeira se infiltrava de leve no bolso de seu paletó, dele subtraindo
a carteira.
Num minuto, nosso companheiro segurou a mão atrevida e, como ela lhe escapasse no torvelinho da rua, gritou como louco:
- Pega ladrão!
Alguns populares conseguiram agarrar o dono da criminosa mão. Apareceu o guarda civil, e dentro de alguns minutos nosso companheiro se encontrava em uma delegacia.
Relatou os acontecimentos, dizendo-se vítima da má fé e do roubo. O punguista era conhecido no local como habitual protagonista de cenas idênticas.
Ele saiu de lá ruminando ainda o inesperado acontecimento.
Sentindo-se indisposto, ia distraído e ensimesmado, ao ponto de violenta freada demonstrar-lhe que sua vida estivera por um fio. Por mais que tentasse, não conseguiu
tranqüilizar o espírito, e à noite, já de regresso ao lar, tomou do Evangelho Segundo o Espiritismo. Abrindo-o, leu: "Fora da caridade não há salvação".
Caiu em si. Apresentou-se-lhe a realidade. Sentiu o problema daquela criatura envolvida nos dolorosos acontecimentos, fruto da própria intolerância do homem
e do desajuste social. Corou de vergonha.
Percebeu que por mais que pensasse estar equilibrado, por mais que pensasse estar experiente, bastavam alguns minutos de invigilância para demonstrar-lhe a face
oculta do seu caráter, trazida à tona pela crise momentânea que não soubera vencer.
Resolveu, então, rever toda sua obra, compreendendo que ainda não estava maduro para escrevê-la, e que o conhecimento só é suficientemente prático e aproveitável
se alicerçado na própria experiência.
Marcos Vinícius


O Compromisso
Mauricio de Albuquerque, homem fino, ilustrado e de posiçãodestacada na sociedade, sentia-se entediado. Não havia capricho que não houvesse conseguido realizar,
e sequioso de novas emoções, ingressou na política.
- A política - costumava dizer - é carreira nobre! Vamos trabalhar pelo povo, devolvendo à sociedade o que dela recebemos na vida.
E, com argumentos sólidos, construídos com base na vasta cultura social que detinha, Maurício empolgava nos comícios. Sabia falar ao sentimento do povo e não
havia quem, ao ouvi-lo, deixasse de pensar em sua figura elegante e bem-cuidada.
Eleito deputado com larga margem, sentiu que o cargo era insignificante e desejou mais. Argumentava com os amigos:
- Um deputado possui poder relativo. Para fazer o bem que almejo, preciso ter maiores poderes. Devemos trabalhar para que eu possa subir, a fim de ajudar a humanidade
sofredora!
Por isso, desde o primeiro dia de sua eleição não pensou senão nas eleições para vice-prefeito que se avizinhavam. Tinha projetos de vulto! Planos grandiosos!
Não apresentou nenhum projeto na câmara. Não lhe interessavam pequenos debates. Queria muito mais.
Atendia à soma sempre crescente de correligionários, a quem tudo prometia quando pudesse auferir melhor posição.
Vendo crescer sua popularidade, Maurício calmamente enfrentou e venceu o pleito que disputou. Foi eleito vice-prefeito. Contudo, a vitória mais uma vez não o
dispôs ao trabalho.
- Um vice-prefeito pouco pode fazer; é mera figura decorativa. Eu quero ser prefeito! Somente assim poderei executar nossos planos administrativos.
Foi aplaudido com entusiasmo pelos companheiros.
Maurício não se detinha para pensar. Não exercera nenhum dos cargos para os quais tinha sido eleito. Ocupava-os solenemente, mau tinha pose adequada, mas não
fazia senão propaganda eleitoral.
Certo dia compareceu a seu escritório pobre mulher, mal-vestida, tendo ao colo pálida criança.
Trazia nos olhos a tragédia da miséria física e moral. Maurício quis escapar, mas a visitante cortou-lhe a saída, dizendo suplicante:
- Doutor! Precisamos do senhor!
Contrariado, tanto mais que da infeliz criatura exalava um cheiro desagradável, de mofo, fumaça, suor, Maurício objetou:
- Não posso atendê-la agora. Volte outro dia.
E, com os olhos aflitos, procurava a secretária invigilante que lhe permitira o acesso.
- Por favor, doutor! Não posso esperar mais.
- Entenda-se com minha secretária. Preciso sair.
E afastando-a com brutalidade, saiu apressado. Pensou assim libertar-se dela, mas a cena repetiu-se no dia imediato.
Irritado, advertiu a secretária que não permitisse de forma, alguma a presença da incômoda criatura.
- Não a vi entrar, senhor - retorquiu, admirada, a secretária.
- Pois entrou - chasqueou Maurício, nervoso. - Que isto não mais se repita.
Mas o caso repetiu-se no dia subseqüente. Furioso, Maurício chamou a secretária, mas quando ela entrou na sala, a estranha mulher tinha desaparecido.
Olhando-o agastada, a secretária sugeriu:
- O senhor trabalhou demais na última campanha. Não seria melhor descansar por alguns dias?
- Ora, senhorita, não brinque. A mulher deve ter-se escondido em algum lugar.
Ambos procuraram, inutilmente.
- Foi-se embora - resmungou ele aliviado. - Melhor. Não tenho tempo a perder com mendigos.
Mas no dia imediato, quando entrou em seu gabinete, já lá encontrou a desconhecida. Dessa vez estava acompanhada por dois homens mal-vestidos e taciturnos.
Desejoso de acabar com a situação desagradável, resolveu atendê-la rapidamente. Suspirou resignado e inquiriu:
- O que deseja, afinal?
- Nós votamos no senhor. Estamos esperando o cumprimento das promessas que nos fez quando candidato a deputado. O senhor disse que cuidaria dos pobres, construiria
hospitais, escolas profissionais, daria emprego aos humildes. Estamos esperando.
Extremamente agastado por ver-se advertido por semelhante criatura, adotou um tom paternal para encobrir a irritação e respondeu:
- Como? Acaso não tenho planejado grandes coisas? E as farei assim que for prefeito.
- Mas senhor, meu marido não pode esperar. Está desempregado, Meu filho doente, eu enfraquecida, como fazer?
- O problema não é meu. Faço o que posso! Agora saiam, deixem-me trabalhar.
Eles se foram, mas Maurício tornou a encontrá-los em seu gabinete à espera no dia seguinte, e com eles conversou rudemente, ouvindo-lhes as reivindicações.
A cada dia que entrava no gabinete encontrava-os reunidos, sendo que cada vez seu número aumentava. Outros descontentes a eles se reuniam, elevando cada vez
mais o número de queixosos.
Querendo pôr fim à situação desagradável, discutia com a secretária, ordenando-lhe que vigiasse a porta de entrada para evitar tais visitas. Porém, tudo inútil.
Ao entrar, sempre os encontrava à espera, em quantidade crescente, exigindo o cumprimento das suas promessas eleitorais.
Até que um dia quis enxotá-los à força, dando murros a torto e a direita, depois de despedir a secretária em altos brados.
Foi então que, diante da moça trêmula, entraram alguns enfermeiros, e em poucos segundos dominaram Maurício, colocando-o em camisa-de-força.
E diante do médico surpreso, a secretária esclareceu, ainda nervosa:
- Todos os dias falava sozinho, doutor, e zangava-se comigo porque eu deixava entrar seus imaginários personagens. Hoje foi tomado de verdadeiro acesso de loucura.
Por isso telefonei ao senhor. Coitado do dr. Maurício! Foi excesso de trabalho, doutor, enlouqueceu de tanto trabalhar!
E, voltando-se, ainda viu o olhar colérico de Maurício conduzido em ambulância, e sua voz dizendo, convicta:
- Serei o prefeito! Todos votarão em mim. Vou trabalhar em benefício do povo!
A porta fechou-se e logo a sirene, abrindo caminho, apagou as palavras eloqüentes de Maurício.
Marcos Vinícius


A Clarinada
José Nepomuceno da Silva, homem maneiroso e serviçal, sempre que diante dos amigos gostava de contar casos pitorescos e, às vezes, no auge da narrativa, escorregava
ligeiramente para a senda do exagero, acelerando e aumentando a realidade, na ânsia de despertar admiração dos ouvintes complacentes.
Assim, vivia colecionando histórias e a ninguém desculpava pelos erros do caminho, pelo simples prazer de poder divulgar o acontecimento.
Era por isso temido e aborrecido por muitos, mas sempre havia os que estavam dispostos a ouvir, divertindo-se com seus chistes irónicos.
D. Emerenciana, sua esposa, espírita convicta, não gostava da atitude do marido, descrente e sem religião, fazendo do que para ela era mais sagrado motivo de
comentários pouco construtivos a terceiros. Advertia-o procurando fazê-lo ver que não se brinca com coisas sérias, mas José, com risinho de superioridade, objetava:
- Ora, o que é que tem? Por que não posso contar os casos dos "espíritos" aos meus amigos? - e acrescentava, malicioso, provocando hilaridade geral. - Eles nunca
se importaram!
- Algum dia, quando menos esperar, você sentirá que com essas coisas não se brinca!
E aos amigos tornava, irônico:
-Quando soar a clarinada para mim, obedecerei.
E ao amigos, maliciosos, balançavam a cabeça, divertidos.
Certo dia, porém, José não se sentiu bem. Sua cabeça estava pesadae parecia-lhe impossível reagir ao sono que o acometia. Sem saber o que fazer, teve ainda tempo
de aproximar-se de um sofá e caiu sobre ele, desfalecido.
Gritarias, pedidos de socorro aos vizinhos, a presença do médico que, aborrecido, declarou após o exame que José estava em coma: fora acometido de um colapso.
Durante algum tempo o facultativo tentou ouvir-lhe as batidas cardíacas, em vão. Diante dos familiares estarrecidos, declarou que José estava morto.
Imediatamente, como ocorre em tais circunstâncias, os amigos mais íntimos procuraram tomar as providências legais, e reunindo a documentação, saíram para tratar
do sepultamento, ao mesmo tempo que algumas senhoras piedosas providenciavam lhe o banho e a preparação para o velório.
Emerenciana chorava a um canto, procurando orar pelo amado companheiro. Havia desolação e angústia.
Contudo, José não havia propriamente perdido os sentidos.
No primeiro momento desfalecera de todo, mas recobrara o entendimento, e embora não pudesse ver, ouvia tudo quanto se passava ao seu redor.
Desesperado, tentou fazer algum movimento que demonstrasse estar vivo. Inútil. Não conseguiu. Queria gritar, mas a voz não lhe saía; mover-se, mas o corpo não
lhe obedecia. Parecia-lhe estar vivendo terrível pesadelo. Horrorizado percebeu que estavam se preparando para enterrá-lo.
Foi-lhe indescritível suplício o banho que as piedosas mulheres lhe ministraram, onde o horror misturava-se à vergonha.
Então, em meio a sua desesperação, conseguiu vislumbrar um homem que, sereno e digno, parecia esperar por ele.
Ao seu grito interior o desconhecido respondeu:
- José, na realidade, é dura a lição. Todavia, procura extrair dela o maior benefício possível. A morte nas circunstâncias em que te encontrás será para ti pesado
sofrimento. Procura aproveitar o tempo.
José, sem compreender bem, procurou responder-lhe, mas o desconhecido nada mais lhe disse. Levantou uma das mãos, colocando-a sobre sua atormentada cabeça. Como
por encanto, José passou a enxgar, como uma névoa rarefeita, tudo o que se passava ao seu redor.
Viu, sem que pudesse intervir, a azáfama dos vizinhos na preparação da sala, viu a si mesmo vestido de preto, imóvel, mãos cruzadas sobre o peito. Seu desespero
era intraduzível, mas chegou ao extremo quando trouxeram os paramentos e o caixão.
Foi quando que se lembrou de Deus. Orou em pensamento como havia muito não fazia, e ao término da sentida prece, o desconhecido dirigiu-se a sua esposa, segredando-lhe
algo aos ouvidos.
Imediatamente, d. Emerenciana levantou-se dizendo:
- Não me conformo. Meu José não pode estar morto. Quero outro médico, já! Não deixarei enterrá-lo sem que outro médico venha vê-lo.
Apesar de céticos, ninguém ousou negar esse desejo à viúva, e novo médico compareceu à casa.
Depois de exame cuidadoso, articulou:
- Não estou certo, minha senhora, mas acredito tratar-se de catapsia.
Imediatamente saiu, voltando pouco depois com um medicamento, que injetou no corpo cadaverizado de José.
E ante a estupefação geral, o marido de d. Emerenciana conseguiu ligeiro movimento de reação, demonstrando que ainda vivia.
Desde então, ninguém nunca mais ouviu José contar casos alheios. Para penitenciar-se, contava sempre o seu, ao qual deu o nome simples e elucidativo de Clarinada.
Marcos Vinícius


O Esbarro
Certo dia, eu, por acaso, caminhava descuidado pelas ruas do Rio de Janeiro, quando encontrei, num esbarro comum em meio aos transeuntes, meu amigo José.
Transpirava por todos os poros e, ao ver-me, desfez a careta de esforço penoso, desmanchando-se em alegre sorriso.
Depois dos abraços e cumprimentos, contou-me que ia com pressa para a residência de sua sogra, que estava passando mal, vítima de moléstia incurável.
Apesar da sua pressa, ainda tivemos tempo para uma cervejinha gelada, e entre um gole e outro José confidenciou:
- Gustavo, esse negócio de morte em família é uma amolação tremenda. Já é a terceira vez nestes quinze dias que sou chamado às pressas para vê-la nas últimas.
Entretanto, quando é quase certo o desenlace, minha sogra parece que recebe novo alento e torna a melhorar. Já estou cansado de ir e vir nessa expectativa, consolando
minha mulher chorosa, escutando opiniões das comadres e vizinhas entendidas quanto ao caso.. Você me conhece. Não é que eu deseje a morte da d. Sinhá, que sempre
foi muito boa, mas estou cansado; bem que ela podia deixar de sofrer!
Sorri, observando a fisionomia vermelha e suarenta de José, obrigado a carregar o peso dos seus 110 quilos ao locomover-se.
- Não se preocupe, José. O dia dela há de chegar... - e acrescentei, mais à guisa de consolo - O nosso também!
Ele fez uma careta:
- Espero morrer de velho, Gustavo. Quando a vida me cansar.
Terminamos a cerveja, despedimo-nos, e foi a última vez que vi José com vida, porque, conforme soube mais tarde, logo após nos despedirmos, ao atravessar uma
rua movimentada, foi atropelado por um automóvel.
A notícia chocou-me profundamente na ocasião, mormente porque conversáramos sobre a morte. Sua sogra, como ele previra, melhorou mais uma vez e durou ainda alguns
meses.
Tínhamos sido colegas de ginásio e inseparáveis nos folguedos da juventude. Quando me bacharelei, ele, por sua vez, cursava o terceiro ano de Engenharia, não
vindo a formar-se por razões financeiras. Casamos-nos. Eu primeiro e ele pouco depois, e por uma decorrência natural das nossas ocupações, espaçamos nossos encontros.
Enquanto eu militava no Jornalismo e na Advocacia, ele trabalhava para uma grande firma no departamento técnico.
José morreu aos 45 anos, deixando esposa e dois filhos inconsoláveis.
Quando adoeci, muitos anos depois, a lembrança do meu amigo José acudia-me constantemente e eu julgava estar abalado pela fraqueza provocada pela doença. Assim,
vencido, prostrado por moléstia invencível, fui perdendo as forças, até que compreendi que algo inusitado se passava comigo.
Parecia-me estar sob o efeito de um soporífero, desses que nos tolhem os movimentos, mas que permitem ainda o funcionamento do raciocínio.
Longo tempo permaneci nesse estado, lutando por conseguir recuperar o equilíbrio, de posse de mim mesmo. As vezes, tinha a impressão de voltar aos dias da minha
juventude, na revivescência de fatos emotivos; outras, caminhava entre pessoas estranhas e ocupadas que nem sequer se apercebiam da minha presença.
Até que um dia, num desses passeios, num esbarro mais violento, reconheci meu amigo José. Estava um pouco diferente, mais sério e composto, mas o mesmo sorriso
amigo distendeu seu rosto quando me viu.
- Estou sonhando de novo - pensei -, o Zé já morreu!
-Você está enganado, Gustavo. Sou eu mesmo! -Vendo minha estupefação, ajuntou: - Vamos conversar em um local sossegado.
Reparei que estávamos na mesma rua onde nos havíamos encontrado pela última vez. Instintivamente procurei com os olhos o bar onde havíamos estado juntos.
- Lá não - atalhou José. - Vamos à praça, mais adiante.
Caminhamos e nos assentamos em um banco do jardim.
A medida que caminhávamos eu me sentia revigorado e lúcido, como quando gozava de saúde, e por isso mesmo o raciocínio mais fácil não entendia o nosso encontro.
- Olhe-me bem!
Olhei.
- Você está bem disposto. Mas essa marca na testa, o que foi isso?
- Foi do acidente. Mas não importa. O certo é que estamamos aqui, e preciso contar-lhe uma coisa extraordinária!
- Espere... não posso compreender por que estamos aqui! Você está morto! Fui ao seu enterro!
- E eu paguei-lhe na mesma moeda. Assisti ao seu com toda as pompas e rituais.
Senti um violento choque, ao mesmo tempo que os males físicos que me afligiam voltaram a molestar-me:
- Você quer dizer que eu...
- Está morto, meu amigo! Ou melhor, está vivo, apesar do seu corpo ter morrido há quase um ano.
Acabrunhado, percebi que ele tinha razão, e ao mesmo tempo senti uma pena infinita de mim mesmo. Meu amigo sorriu e esclareceu:
- De há muito venho desejando este encontro entre nós, mas você fugia de mim sempre que o procurava.
Baixei a cabeça, confuso: nunca gostara da presença de mortos, seja de amigos ou familiares. Parecia-me superstição crer na existência deles.
- Foi quando - continuou meu amigo - lembrei-me do esbarro que tínhamos dado na avenida Rio Branco, na última vez em que mos vimos na Terra, e não tive dúvidas,
utilizei o recurso. Parece que consegui o objetivo.
Levantei os olhos para ele, e vendo-o tão bem disposto e alegre, concluí que a vida que me esperava não podia ser penosa. Retruquei conformado:
- Faz tempo que nos separamos e você ainda se lembra de mim. É um conforto vê-lo neste transe difícil.
- Outros estão em piores condições. Nós podemos considerar-nos felizes.
- Foi muito dolorosa sua morte? Se soubesse como fiquei abalado com o ocorrido!
- No momento mesmo do acidente nada senti, para lhe ser franco. Entretanto foi preciso também um esbarro para que eu acordasse. Minha sogra veio até onde eu
me encontrava e sua presença produziu em mim a concatenação de idéias que estavam esparsas em minha mente pelo choque. Vendo-a, liguei meu pensamento à minha desastrosa
ida à sua casa, e percebendo-lhe o estado de saúde de bom, renovado, no primeiro instante irritei-me porque julgava que mais uma vez me houvessem chamado inutilmente.
Quando ela me contou a realidade, não quis acreditar, precisando ir com ela ao cemitério para ler seu epitáfio e o meu. Entretanto, Gustavo, minha surpresa não foi
somente essa. Muitas outras me estavam reservadas, e certamente a você também surpreenderão.
Parecia-me incrível tudo quanto ouvia, e notando meu estadao de perplexidade, explicou:
- É meu amigo é fácil para você agora encontrar o desfecho para essa história, tão diferente das que costumava escrever, mas dela eu faria uma simples crônica
despretensiosa e a intitularia: "A história de um providencial empurrão", ou apenas "Um caso de associação de idéias pela psicanálise aplicada", método que se usa
até no além-túmulo!
Gustavo Barroso


A Punição
Jarbas de Aguiar era um homem profundamente honesto.
Trabalhava duramente valorizando o minguado salário que se esvaía diante das necessidades numerosas de sua família.
Havia catorze anos exercia o cargo de contra-mestre numa fábrica, e era estimado pelos patrões por sua energia para com os operários, vigiando-os no andamento
do trabalho sob sua responsabilidade.
Por ser homem de rígidos princípios, não tolerava o mínimo deslize, exigindo sempre o máximo de todos.
Certo dia, chamado à sala do gerente, foi informado de que havia sido descoberto um desvio de material, que por sua particularidade, podia-se presumir que tivesse
ocorrido na seção que Jarbas dirigia.
Profundamente chocado, sentiu-se no dever de garantir ao chefe que puniria energicamente o culpado, entregando-o à polícia.
O gerente, entretanto, homem de boa índole, esclareceu:
-Não quero escândalo. Não o culpo pelo ocorrido, essas coisas podem acontecer. Todavia, precisamos descobrir quem são e como realizam o trabalho. Despedirei
o culpado e tudo estará terminado. Afinal, descobrimos logo e os prejuízos ainda são pequenos.
Jarbas deu um pulo, aproximando-se mais da mesa do seu chefe.
- Isso é que não! O sr. precisa punir o culpado! Precisamos dar exemplo aos demais. A impunidade agasalha e estimula o crime. Sou de opinião que o sr. deve avisar
a polícia e o culpado ser preso publicamente, para servir de lição aos demais.
- O sr. acha?
- Claro! Se todos os que erram fossem punidos com severidade, certamente cuidariam de não errar mais. Depois, o caso foi na minha seção, também sou responsável.
Peço-lhe para recorrer à polícia.
- Está bem, se insiste. Mas chamarei um amigo meu que é investigador e fará tudo particularmente.
Via-se-lhe no semblante a contrariedade por assumir tal atitude.
Fingindo tudo ignorar e admitindo o investigador como operário comum, trabalhando com os demais, não foi difícil descobrir o culpado e surpreendê-lo em flagrante.
Imediatamente prenderam-no e dirigiram-se ao gabinete do gerente. Tratava-se de um jovem de dezoito anos, de aparência humilde, que, pálido, não encontrava palavras
para explicar-se. Fazia mais de um mês que estava na firma.
O gerente olhava o rapaz com pena e desagrado. Jarbas, que os acompanhara, censurando o jovem asperamente, continuava:
- Um homem forte como você! Devia se envergonhar! Emporcalhar-se com uma ninharia dessas! Agora vai passar bons dias descansando na cadeia, que é o lugar adequado
para um ladrão como você!
Assustado, profundamente humilhado, o jovem não ousava levantar o olhar.
- E então? - inquiriu o gerente.
O moço não respondeu.
- Não pode explicar sua atitude?
Aturdido, o rapaz balbuciou:
- Gosto de uma moça. Queria me casar com ela.
- ISSo não é motivo, é desculpa - interrompeu Jarbas.
O jovem, percebendo o bondoso olhar do gerente, voltou-se para ele e gritou, desesperado:
- Por favor! É verdade! Podem crer. Eu queria o dinheiro para me casar!
O gerente, cujo filho andava com a mesma idade, comoveu-se subitamente.
- Casar-se! Tão jovem!
Levantando a cabeça com certa altivez, o jovem respondeu:
- Sim. Embora não pareça, sou um homem de bem. Eu preciso me casar com ela. Vai ser mãe e eu sou o responsável!
Parecendo meditar profundamente, o gerente tornou:
- Que idade tem ela?
- Dezesseis!
- Não lhe ocorreu que poderia pedir auxílio a outras pessoas e que escolheu o pior caminho?
- Creio que tem razão. Mas eu estava desesperado. A família dela não sabe de nada. É gente direita, e ela tem medo das conseqüências. íamos fugir juntos.
Vendo que seu chefe se abrandava, Jarbas interveio:
- Não acredito. Se fosse moça direita não estaria nessa situação. Se a família dela fosse honesta, não deixaria a filha às soltas por aí. E essa liberdade em
demasia que aniquila com a honra das famílias. Os pais são culpados por não saberem dar exemplo a seus filhos! É melhor terminarmos logo com isto. Todo crime deve
,ser punido! Por isso, tomei a liberdade de avisar o guarda do posto. Deve ser ele que chega.
De fato, passos ouviam-se do lado de fora.
Pressuroso e fingindo não ver o olhar contrariado do chefe correu para abrir a porta. Parou, surpreso. Uma moça soluçando, de olhos vermelhos, entrou correndo,
e abraçando o joveme em desespero, disse:
- Walter, soube o que aconteceu. Também sou culpada. Eu que tive a idéia. Se você for preso, também devo ir.
Jarbas, olhos arregalados, pálido e trêmulo, não tinha mais argumentos, nem para dizer que aquela moça era sua própria filha!
Marcos Vínícius


A Gravata
Luxuoso carro parou silenciosamente frente ao suntuoso jardim de elegante residência.
Um jovem e refinado rapaz desceu apressado, ingressando quase a correr na casa silenciosa.
Estava irritado e aborrecido. Desagradável acidente forçara o seu regresso. Tinha pressa. Linda mulher o esperava para ir ao teatro, e o tempo inexoravelmente
se esvaía. Ele sabia que se atrasaria. A conquista fora difícil e a jovem era de importante família da sociedade. Depois de meses consumidos em reiteradas tentativas
para sair com ela, pela primeira vez conseguira fazê-la aceitar aquele passeio.
Vestira-se com especial cuidado. Escolhera com atenção a camisa, a gravata fora comprada especialmente após caprichosa e demorada procura, e os sapatos foram
polidos. Cuidara ao máximo de sua aparência. Sabia-a elegante e exigente.
Impaciente, aprontara-se cedo e resolvera passar pelo clube para ver alguns amigos e preencher o tempo que lhe faltava para o encontro marcado.
Estava prestes a despedir-se deles quando acontecera o imprevisto: um dos companheiros, contando uma piada, um tanto entusiasmado, apoiara uma das mãos em seu
braço, exatamente no momento em que levava o cálice de aperitivo aos lábios.
O vinho derramara-se em sua gravata elegante, salpicando-a de manchas, que se espalharam rapidamente.
O jovem dera um salto de susto, tentara limpá-la, mas só fizera sujá-la mais. No auge do desespero, destratara o amigo, que, encabulado, se desculpava.
Aflito olhara o relógio: faltavam dez minutos para a hora aprazada. Como sanar a dificuldade? As lojas tinham fechado. Seus amigos estavam com roupa esporte,
nenhum lhe poderia emprestar uma nova gravata.
Resolvera ir para casa trocá-la. Não podia comparecer ao seu encontro daquela maneira.
Saíra precipitado. Sua casa era distante, e embora pisasse no acelerador, os dez minutos se escoaram no percurso.
Entrou em casa correndo. Por sorte a porta estava apenas com o trinco. Naturalmente seus pais já se tinham recolhido.
Tal era sua pressa que não acendeu a luz. A passos largos galgou a escada, entrou em seu quarto e ligou o interruptor.
Rápido apanhou uma gravata que lhe pareceu a mais indicada e colocou-a ao redor do pescoço. Foi aí que ouviu vozes alteradas no quarto ao lado.
Apesar da pressa, esse rumor desusado prendeu-lhe a atenção. Seus pais eram pessoas educadas e amigas. Jamais discutiriam.
Aproximando-se da porta, ouviu a voz do pai dizer, abafada:
- Garanto-lhe que não tenho mais nada em casa! É tudo.
Outra voz fanhosa e desconhecida berrou:
- Não acredito. Conheço gente da sua marca! Sei que ,seu filho gasta a rodo. Não se faça de bobo. Solte a gaita. Esse revólver não é de brinquedo, moço!
O jovem compreendeu num segundo o que acontecia: sua residência estava sendo assaltada. Precisava fazer alguma coisa!
Aquele indivíduo era perigoso.
Sabia que o pai falava a verdade. Eles não guardavam as jóias ou muito dinheiro em casa. Nervoso, apagou a luz do quarto e, sorrateiramente foi ao escritório
do pai, onde sabia existir um revólver. Fechando a porta, telefonou para o posto policial mais próximo pedindo socorro.
Apanhou a arma e certificou-se de que não estava carregada. Procurou, mas não encontrou as balas. Voltou ao seu quarto. Ao passar pela porta do aposento dos
pais, no corredor, propositadamente fez forte ruído. Seu quarto ficava pegado ao dos seus pais e havia entre eles uma porta de comunicação. Fechando a porta que
dava para o corredor, esperou.
Ouviu a voz assustada do assaltante:
- O que foi isso?
- Não sei... - respondeu o pai.
- Sei que não há ninguém em casa. O criado já está bem amarrado. Preciso ver...
Ruído de porta se abrindo levemente. O jovem sustinha a respiração, enquanto segurava o revólver descarregado.
Quando ouviu passos no corredor, não perdeu tempo. Abriu a porta de comunicação e rápido agarrou o pai, surpreso, e a mãe semi-desfalecida, e arrastou-os ao
seu quarto, fechando à chave a porta intermediária.
Os três sustinham a respiração e não ousavam conversar.
Novos passos no corredor. Uma voz praguejava, ameaçadora:
- Onde estão? Não adianta se esconderem. Ah! Passaram por essa porta.
Ruído forte do trinco sendo forçado. O rapaz colocou-se atrás da porta com a coronha da arma pronta para abater o ladrão, se fosse preciso.
- Vou atirar na fechadura e matá-los como cães! Abram já esta porta!
Silêncio.
O assaltante deu alguns pontapés, mas a porta não cedeu.
Foi quando o ruído da sirene se fez ouvir. Correrias, tiros, e no fim a polícia conseguiu prender o meliante.
Os três respiraram aliviados. Imediatamente, após as primeiras informações dos guardas, cuidou o jovem de ministrar um calmante aos pais.
Quando tudo serenou, o pai perguntou, admirado:
- Você não ia ao teatro? Como conseguiu descobrir o que ocorria e voltar para casa?
Um tanto impressionado ainda pelos últimos acontecimentos, o moço respondeu:
- Eu não sabia de nada. O que me trouxe para casa foram apenas algumas manchas de vinho em minha gravata!
- Providencial foi o braço que as ocasionou, salvando-nos assim a vida!
- Tem razão, papai. - E lembrando-se do amigo a quem ofendi duramente, continuou: - Vou imediatamente telefonar-lhe agradecendo. Devo-lhe também desculpas. Além
do que, preciso telefonar a outra pessoa explicando-lhe o sucedido. Talvez possa perdoar-me.
- Estou certo que ela compreenderá, meu filho.
E enquanto o rapaz corria ao telefone, com mãos trêmulas ainda, o pai pegou a gravata manchada que fora atirada sobre a cama. Fitando-a pensativo, disse à esposa:
- Esta noite devemos a vida a esta preciosa e manchada gravata.
E quando a esposa o olhava um tanto escandalizada, objetou:
- Não foi ela instrumento de Deus?
Marcos Vinícius'


O Saber Esperar
Certa vez, em antiga cidade da Arábia, havia um velho mercador que vivia pobremente em humilde casebre.
Seu velho sonho era o de possuir um belo tapete com o qual pudesse adornar sua casa enquanto vivesse, e seu túmulo quando a morte o convocasse, inexorável.
Entretanto, não desejava um tapete comum, mas um raro e custoso trabalho que encerrasse todas as qualidades e não tivesse nenhum defeito, por mais insignificante
que fosse. Havia longo tempo trabalhava para o sustento e economizava dos seus parcos recursos a fim de amealhar o suficiente para a realização do seu velho sonho!
Após a poupança de muitos anos calculou que já possuía quantia animadora, e resolveu procurar a peça para verificar se já estava em condições de adquiri-la.
Começou então a busca.
Por suas mãos experientes e por seus olhos inquiridores passaram dezenas de peças, em uma variedade verdadeiramente prodigiosa. Todavia, se algumas provocaram
verdadeira explosão de entusiasmo, decepcionava-se em seguida porque logo se atentava em algum defeito.
Gastou assim longo tempo e chegou, por fim, à conclusão de que o tapete com o qual sonhava não existia. Ninguém ainda conseguira fabricá-lo. Os amigos aconselhavam-no
a desistir da busca ou a contentar-se com os belos mas imperfeitos trabalhos que examinara, mas o velho mercador abanava a cabeça, resoluto, dizendo:
- Se o tapete perfeito que eu desejo não existe, é preciso fazê-lo. E, se ninguém consegue fazê-lo, eu farei!
Alguns, observando sua idade um tanto avançada, riam-se dele, acreditando-o senil. Outros tentavam dissuadi-lo, mostrando-lhe sua ignorância na arte difícil
do artesanato. Mas o mercador, obstinado, procurou por uma casa onde se fabricavam lindos e coloridos tapetes e humildemente começou a trabalhar como aprendiz, iniciando-se
na tecelagem.
Depois de algum tempo de esforço e força de vontade, julgou-se com conhecimentos suficientes, e despedindo-se dos companheiros que o tinham ensinado, preparou-se
para iniciar seu trabalho. Adquiriu todo o material, tendo cuidadosa e pacientemente examinado sua qualidade, e finalmente iniciou corajosa mente o trabalho.
Durante os anos que lhe restaram de vida trabalhou na confecção do seu tapete. Cada dia, ao encerrar a tarefa, admirava embevecido sua obra e não hesitava em
desmanchar o ponto que lhe parecia imperfeito. Sentia-se feliz. E pensava:
- Jamais alguém teceu um tapete tão belo e perfeito como este.
Quando desencarnou não havia conseguido terminá-lo, mas seus amigos, conhecendo-lhe o velho desejo, adornaram seu túmulo com o tapete inacabado, procurando assim
cumprir seu último desejo.
Durante muito tempo o espírito do mercador desencarnado permaneceu jungido ao tapete, procurando terminá-lo. Nada pôde afastá-lo dessa obstinação, até que foi
novamente atraído à reencarnação na Terra.
Viveu existência difícil e obscura, procurando por algo que não sabia definir. Quando o sofrimento o atingiu nas lutas de cada dia, objetivando reajuste inevitável
com a Lei, encontrou nele reservas inusitadas de paciência e resignação, de esperança e confiança no porvir. E, assim, seu espírito foi atravessando algumas existências,
enriquecendo-se cada vez mais de virtudes, até que, após uma proveitosa e vitoriosa encarnação, foi recebido festivamente pelos amigos e companheiros alegres no
plano espiritual.
Durante a recepção, emocionado diante de tantas atenções e demonstrações de carinho, num vislumbre retrospectivo, recordou-se de algumas encarnações anteriores,
e, num átimo, lembrou-se, como a criança que se recorda de uma travessura, do seu antigo desejo de obter um tapete perfeito.
Usando os arquivos da memória, desejou rever o tapete inacabado que durante tanto tempo o maravilhara.
Tdavia, o trabalho que se lhe apresentou à visão decepciou-o. Não possuía nada de maravilhoso, pelo contrário. Vendo-o como realmente era, notava-lhe uma porção
de defeitos. Um tanto encabrunhado, verificou que seu sonho de tantos anos não passava de um trabalho de principiante, muito inferior aos que tantas vezes examinara
e se recusara a comprar.
Foi quando notou a presença de luminoso companheiro e amigo, que acompanhando-lhe o pensamento, disse-lhe:
- Não te envergonhes da tua obra, por mais imperfeita que ela agora te pareça. Há muito mais valor na obra que sai das nossa mãos, do nosso esforço, da nossa
vontade, por mais carentes que sejam, do que as que passam pelos nossos olhos, por mais belas que se nos afigurem. O tapete inacabado é precioso para ti, porque
ele deves o desenvolvimento da tua força de vontade, a conquista da humildade, por ter reiniciado, em idade avançada, um aprendizado difícil. Recorda-te que já tuas
mãos não eram firmes, teus olhos não enxergavam claro e teu corpo doía no esforço da posição que o trabalho exigia. A ele deves a conquista da paciência ao construíres
com tuas próprias mãos o trabalho desejado. Olha bem para ele e perceberás o quanto lhe deves!
O ex-mercador, comovido, fitou novamente o velho tapete inacabado, e com espanto notou que ele se revestia de luz em diversos pontos, colorindo-se de maneira
admirável. Em poucos instantes transformou-se no mais belo e maravilhoso tapete que jamais vira.
Surpreso, voltou-se para o amigo, que explicou, sorrindo:
- Enquanto, continuavas tuas lutas na Terra, teus amigos resolveram ajudar-te para que continuasses a confecção do teu tapete. Para isto, constituíram pontos
de contato entre as virtudes que desenvolveste na confecção da peça, impregnando-a. Tu mesmo, à medida que as desenvolvias, colorias e melhoravas o tapete que ora,
na festividade do teu regresso, te entregamos, como símbolo que é da conquista da tua perfeição espiritual, que, como sabes, era e é a única meta que inconscientemente
te norteava os desejos. Leva-o agora para adornar o lar que te espera no aconchego deste regresso feliz e lembra-te sempre que na vida, para a conquista do que almejamos,
é imprescindível saber esperar.
Marcos Vinícius


O Retrato

Em augusta sala de nobreza rica, coberta de brocado e de púrpura cinzelada, um homem posava, ereto, para que famoso pintor o retratasse.
Trazia sobre o corpo elegante e bem-proporcionado rica vestimenta bordada, que se completava com as rendas da camisa e os sapatos de cetim.
Tinha pouco mais de trinta anos e conservava ainda no olhar da mocidade, embora misturado ao excesso de satisfações mudanças e à fria frivolidade dos salões.
Exibia nos lábios finos e bem-delineados uma curvatura de superioridade e desdém; nas mãos nervosas e nos dedos recobertos de anéis a impaciência de ter a sociedade
e o tédio das facilidades.
O artista trabalhava calado. O pincel corria incessantemente, e seu olhar sério ia da figura elegante que retratava à tela que gradativamente ia se transformando
na cópia fiel do soberbo modelo.
O gênio trabalhava como que bafejado de profunda inspiração, e o nobre senhor identificou-se, satisfeito, no esboço que já aparecia nítido e bem-traçado.
Depois de algumas sessões, o quadro ficou terminado, e seu dono, muito satisfeito pelo trabalho, deu por ele pequena fortuna.
Mandou colocá-lo no lugar de honra da rica galeria onde figuravam seus ancestrais ilustres, e com satisfação reconheceu-lhe a superioridade em relação aos demais.
E, se antes buscava o espelho para observar cuidadosamente sua figura, em vaidoso culto de si mesmo, passou a observar o retrato, envaidecendo-se da sua figura
jovem, forte, elegante e bela.
Os anos sucederam-se e o nobre fidalgo, sempre que podia, postava-se diante do quadro, embevecido, pensando:
- Como sou belo! Como sou elegante!
Esqueceu-se do espelho, e com o tempo chegou mesmo a esquecer-se de que encanecia e que seu corpo cansado, envelhecido, nem sequer recordava a figura do retrato
de havia tantos anos.
E quando recebia os amigos, mostrava-lhes o retrato, comentava a fidelidade com que fora produzida a tela. Não lhes via a fisionomia divertida nem a tolerância
intencional que lhe demonstravam.
Certo dia adoeceu gravemente. Não podendo levantar-se para ver o quadro, ordenou aos familiares que lhe colocassem o leito na galeria, de forma que pudesse fitá-lo
sempre que abrisse os olhos.
Atendido em seu capricho de doente incurável, durante seus últimos dias de vida permanecia horas e horas fitando a tela, maravilhado. Quando desencarnou, seu
espírito não quis afastar-se do local, jungido ao retrato que venerava.
Longos anos se passaram, até que o quadro, considerado precioso, foi doado a um museu como importante relíquia.
O espírito, que dele não se havia afastado, o acompanhou, e lá assistiu, orgulhoso, às manifestações de admiração e de entusiasmo que o retrato provocava.
Entretanto, cedo observou que outros objetos havia no salão do museu, que também causavam admiração geral, e aborrecido, desejou voltar à sua galeria. Mas não
conseguiu sair dali com o quadro, por mais que desejasse.
O espírito de sua mãe, vendo-o em tão tristes circunstâncias, desejando ajudá-lo, passou a assisti-lo de perto, sem ser vista pois ele - dada sua extrema perturbação
-, mas ministrando-lhe passes e vibrações de amor.
Até que um dia, num repente de lucidez, ele conseguiu ver sua verdadeira face refletida num espelho. O choque foi indescritível!
A certeza de sua velhice e da transformação pela qual seu corpo havia passado arrancaram-lhe dos olhos lágrimas de desespero. Pensou em suicídio, mas todas as
tentativas resultaram inúteis.
Foi então que, no auge da angústia, não desejando aceitar a realidade e a ela adaptar-se, lançou-se de encontro à tela, como se pudesse animar com seu espírito
a figura jovem e arrogante do
Do moço de outrora. E tão forte foi o seu desejo que seu espírito colou-se ao retrato, mergulhando na ilusão, acreditando-se novamente de posse do seu antigo corpo.
E o quadro adquiriu mais força de atração, conseguindo, então, atrair mais e mais público ao seu redor, que se extasiava diante, comentando que a figura do retrato
parecia viva, dando a muitos a impressão de que o moço fidalgo ia sair de repente da moldura e falar.
Assim, o quadro tornou-se uma obra-prima e uma preciosidade de valor incalculável. O pintor imortalizou-se com esse retrato e seu nome gravou-se na história
da Arte com relevo.
Mas, um dia, muitos anos depois, um jovem milionário, amante, conseguiu comprá-lo por fabulosa soma. Com precauções várias e cautela compreensível, acondicionou-o
e embarcou-o no luxuoso iate para levá-lo à sua casa, do outro lado da costa.
O espírito, embora sentindo-se asfixiar dentro da embalagem, não abandonou o retrato um instante. Todavia, a certa altura da viagem, atingido por violenta tempestade,
o barco soçobrou. Salvaram-se todos os tripulantes, com exceção do jovem milionário.
Sentindo-se sucumbir, no auge da angústia, vendo que as águas destruíam impiedosamente o retrato, o espírito que o animava deu vazão ao seu desespero, tentando
por todos os meios evitar a catástrofe, sem o conseguir.
Quando o viu destruído, lembrou-se do jovem milionário, a quem culpou pelo acidente trágico. Enfurecido, procurou-o entre os destroços do barco que lhe enterrara
as ilusões, a fim de exigir-lhe contas pelo acontecido.
Depois de alguma busca, encontrou-o, e em ásperas palavras lanço-lhe em rosto a culpa da perda irreparável.
Vendo-o sereno, irritou-se ainda mais, e quando mais acerbas eram suas palavras, observou, surpreso, que ele se transformavva na figura familiar e firme do pintor
do quadro.
Boquiaberto, calou-se, vencido pela surpresa. O outro avançou para ele sereno, e tornando-lhe a mão com carinho, disse:
- Hoje saldei minha dívida contigo. Quando pintei o teu retrato eu era um pintor comum. Se mérito havia na minha arte, ele foi secundário diante do teu trabalho
no sentido de dar-lhe vida, saturando-o de vibrações vitais, provocando verdadeira atração pública. Tornei-me imortal nas academias da Terra graças a ti. Entretanto,
fui eu o causador da cristalização da tua mente, produzindo o objeto da tua triste ilusão. Assim, eu que te devia a glória, sentia-me cada vez mais culpado pela
penosa situação em que com meu auxílio te colocaste. Por isso, depois de muito pedir a Deus, consegui reencarnar na Terra com a finalidade de ajudar-te, destruindo
a obra que traçara com minhas próprias mãos. Graças a Deus consegui!
E observando o outro, que já de posse da realidade, humilhado e triste, não ousava interrompê-lo, continuou:
- Porém, meu amigo, jamais tornarei a pintar. Assim como procuravas dar vida fictícia ao quadro das tuas ilusões, eu procurava copiar as obras de Deus. Contudo,
compreendi que por mais que faça, jamais poderei imitá-las.
Tomando o braço do amigo, que pálido e triste o ouvia, conduziu-o a novos rumos, desaparecendo ambos rapidamente no horizonte.
E no dia seguinte os jornais da Terra lamentavam em manchetes a morte trágica do jovem milionário, única vítima no infortunado naufrágio, e o desaparecimento
do precioso retrato, obra-prima, perda irreparável para os amantes da Arte.
Marcos Vinícius


O Argumento

Sustentando enorme dificuldade, meu amigo Inácio Nogueira Filho trabalhava para conduzir seus familiares queridos ao aprisco amoroso e consolador do Espiritismo.
Encarando a vida com serenidade e disciplina, tinha já conseguido alimentar seu espírito com a luz da doutrina renovadora do Cristo e sentindo seu coração regozijar-se
com seus princípios elevados, desejava que os seus partilhassem sua felicidade, sendo por ela beneficiados.
todavia, inúteis tinham sido todos os seus esforços nesse sentido. A esposa concordava indiferente com tudo quanto se lhe dissesse sobre a doutrina que abraçara,
como se faz com a criança que nos historia um acontecimento sem importância, e nem sequer penetrava nos seus pensamentos. Os dois filhos, jovens e atraídos pelo
despertar das conveniências sociais e mundanas, olhavam para o pai com uma complacência manifesta quando o ouviam mencionar o Evangelho ou as máximas doutrinárias,
julgando-o intimamente um antiquado, distanciado da realidade.
Inácio sentia-se sozinho, incompreendido no seio da própria família. Contudo, alertado pelos ensinamentos cristãos, mantinha-se fiel a sua crença e estudava
pacientemente o Espiritismo.
Assim, cada dia que passava encontrava Inácio mais confiante e esperançoso, lutando com sinceridade para melhorar suas condições espirituais, suportando resignado
a tolerância ostensiva dos seus. Agindo assim, progrediu a tal ponto que sua sensibilidade mediúnica desabrochou equilibrada e rigorosamente. Impulsionado por
pensamentos edificantes, obedecendo à orientação de generosos mentores, passou ao atendimento de desafortunadas criaturas, que o procuravam para orientação e para
o passe. Tornou-se ocupadíssimo, multiplicando-se no bem.
Porém, em suas novas atividades não logrou o apoio e a compreensão dos familiares, que o julgavam fanático. Exasperavam-se de ver a casa sempre freqüentada por
pessoas estranhas, algumas mal-vestidas, trazendo no rosto a marca do sofrimento e da miséria.
Desta forma, enquanto Inácio progredia espiritualmente, afastava-se cada vez mais do entendimento restrito dos que o cercavam. Lamentava-se ele, pesaroso, mas
confiava em Deus, orando sempre em benefício deles, desejoso de vê-los comungar no mesmo ideal cristão.
Os rapazes, contudo, protestavam veementes contra a atitude paterna. A mãe solicitava paciência, contestando que Inácio, afora o seu fanatismo religioso, era
pai e marido exemplares. Mas eles, não se conformando com que o pai praticasse a mediunidade e a assistência social, alegando envergonharem-se das atividades paternas
diante dos amigos, primeiro um, depois outro, abandonaram o lar a pretexto de emprego e viajaram para cidade distante.
Inácio sofreu profundo golpe em seu amoroso coração, porém, alertando os filhos para os perigos da ambição e da vaidade, abençoou-os, comovido.
Meses depois, a esposa, a pretexto de inesperada doença do filho mais velho, viajou para visitá-lo e não falou em regresso. Algumas mas poucas cartas cada vez
mais espaçadas, até que as notícias cesaram de todo. Depois de algum tempo, recebeu lacônica notícia do casamento do filho com moça de sociedade. Compreendeu, depois,
de algumas tentativas de aproximação, que os seus envergonhavam-se dele, colocando como condição primordial na vida em comum o seu afastamento das atividades religiosas
a que se afeiçoara.
Com a saudade sangrando no coração amoroso, mas sentindo-se indesejado e incompreendido, resignado e em prece resolveu integrar-se completamente na prática do
bem, desfazendo-se dos recursos financeiros de que dispunha em benefício dos pobres. Para não ofender o orgulho da família, adotou singelo pseudônimo. Mudou-se para
quarto humilde, onde continuava sua tarefa na mediunidade, que desabrochava em vigorosa potência do seu espírito lúcido.
Os anos se passaram. Sua fama, as curas que por seu intermédio se multiplicaram, sua humilde bondade, seu imenso amor, atraíam cada vez mais a simpatia geral
e seu nome era pronunciado com respeito e carinho.
Envelhecendo já, continuava trabalhando intensamente em benefício de todos.
Certa noite, enquanto realizava um passe em sofredora criatura na ante-sala do centro espírita onde colaborava havia alguns anos, chegaram algumas pessoas abatidas
e aflitas. Sentaram-se, não antes de indagar se o grande benfeitor cuja fama os estimulara a ir até ali estava atendendo.
A mulher, bastante idosa, enxugou lágrimas discretas. O cavalheiro pálido e abatido que a acompanhava parecia distante, semi-inconsciente, e o outro, ainda,
trazia em seus braços linda criança pálida, evidenciando perturbações motoras. Todos demonstravam cansaço e sofrimento.
Abriu-se a porta. O doente, reconfortado, saiu da sala, e os recém-chegados foram convidados a entrar. Um lampejo de esperança brilhou em seus olhos tristes
e acorreram pressurosos. A porta se fechou.
Estacaram de súbito, interditos e embaraçados. Inácio, comovido, olhos alegres e fisionomia serena, reconheceu a esposa e os filhos queridos. Não como os via
na memória dos tempos felizes, mas como farrapos humanos que o materialismo e a descrença alimentara.
Abriu os braços amorosos e recebeu a esposa em lágrimas de um desabafo incontido.
- Então és tu! - murmurou, comovida. - Como podia pensar? Muitas vezes me perguntei o que teria sido feito de ti, abandonado de todos. Perdoa-nos, Inácio. A
vida nos tem castigado!
Ele ouviu penalizado a história do filho mais velho, envolvido em dolorosa obsessão. O mais moço casara-se com moça rica, bela e sadia, mas inexplicavelmente
sua filhinha nascera doente, desafiando os conhecimentos médicos, e todo o dinheiro dos pais não podia devolver-lhe a saúde. Alguém lhes falara do caridoso médium
que atendia no centro espírita. Tinham viajado de longa distância para uma consulta, tais os fatos que ouviram contar sobre suas curas, mas nunca podiam imaginar
que se tratava dele! Naquele instante de profunda emoção, pediram-lhe perdão, ao mesmo tempo que suplicavam ajuda.
Inácio abraçou-os, comovido, e tornou, suave:
- Jesus guia os nossos caminhos para a felicidade eterna. Não temam a luta e confiem. Vamos orar ao Senhor agradecendo a alegria do reencontro.
Tal a paz, a serenidade, a luz e a bondade que Inácio irradiava ao redor que os seus sentiram-se também serenos.
E, alguns dias após, quando Inácio chegou ao centro espírita, encontrou toda a família renovada, serena, solicitando-lhe a palavra com respeito, e no fim, suplicando
também a oportunidade de colaborar.
Marcos Vinícius


Oferta
Jair Medeiros, antigo e dedicado servidor em casa assistencial espírita, adoeceu gravemente.
Retido ao leito por vários dias, foi forçado pelas circunstâncias a desligar-se temporariamente da casa de trabalho, onde graciosamente prestava serviços.
Durante a fase aguda da moléstia, Jair nem sequer perguntou pelos companheiros de serviço, mas quando melhorou, embora não pudesse ainda levantar-se, dirigiu-se
à esposa carinhosa:
- Maria, por que meus amigos e companheiros foram proibidos de visitar-me? Estive tão mal assim?
- Você esteve mal, mas não foram proibidas as visitas.
- Então... não os vi?
Ela respondeu com simplicidade:
- Não vieram.
Jair lançou-lhe um olhar surpreso. Depois, querendo esconder certo desapontamento, tornou:
- Eles são muito discretos. Vai ver que não quiseram vir para não incomodar, mas se me souberem em melhor estado, virão certamente.
Mas, apesar de desejar demonstrar a costumeira alegria, Jair estava aborrecido.
De temperamento alegre e espirituoso, levava alegria onde aparecesse. Era estimado e cumpridor dos seus deveres. Aliás, sabia que sua ausência prejudicaria o
andamento do serviço no seu setor de atividades.
Mas os dias foram passando e, ainda acamado, Jair sentia-se cada vez mais abandonado pelos companheiros. Ninguém aparecia nem pedia notícias.
Certo dia, solicitou à esposa que telefonasse para a casa assistencial justificando sua prolongada ausência. A resposta foi dada em voz agradável: que ele não
se preocupasse com o seu setor porquanto tudo estava em ordem. Fora muito bem substituído.
Isso o fez sentir-se ainda mais abandonado. Ajudado pelo desânimo físico, começou a ceder a pensamentos depressivos. Não havia necessidade de voltar tão cedo
a suas atividades. Não tinha feito falta nenhuma. Seus companheiros nem sequer tinham tinham telefonado para inquirir sobre sua saúde.
Dias depois, tendo recuperado um pouco as forças, resolveu voltar. Dirigiu-se à casa assistencial, após trinta dias de ausência forçada.
O ambiente efervescia qual operosa colméia. Os assistidos assistentes, em constante atividade, permutavam experiências e, às vezes, carinho.
Sentindo-se feliz com o regresso, coração cheio de alegria, efusivamente dirigiu-se a um cooperador e amigo, que passava com alguns volumes nas mãos. Mas este,
sem parar, apenas respondeu:
- Olá, Jair. O bom filho à casa torna! Estou ocupadíssimo. Ah! Preciso falar com aquela senhora. Ei! Oh! Dona...
E saiu apressado, enquanto Jair deixava cair a mão que finalmente estendera.
Mais adiante encontrou uma senhora amiga e colaboradora do seu setor. Assim que o viu, foi dizendo:
- Olá! Sr. Jair! Sarou? - E como este acenasse afirmativamente com a cabeça, continuou: - Houve modificações no nosso trabalho. Sabe, o sr. Oswaldo é um homem
formidável. Dinamizou o serviço!
E como Jair não soubesse quem era Oswaldo, ela esclareceu:
- Ora! O novo colaborador que o substituiu. Houve tantas modificações que o sr. terá que reaprender tudo.
Jair foi ver o sr. Osvaldo. Com desagrado notou logo as modificações no sistema. Sentiu-se desnecessário. E quando Oswaldo se propôs a ensiná-lo a fazer o serviço
à sua maneira, Jair delicadamente agradeceu dizendo que não reassumiria o posto ainda. Sabendo-o entregue a mãos competentes, poderia convalescer melhor.
Quando se retirou, ia deprimido e triste. Era verdade, pensava, que os companheiros estavam muito ocupados para lhe dar mais atenção.
Ao chegar em casa, sua mulher, ouvindo-lhe o desabafo, ajuntou:
- Eu não dizia? Quantas vezes você deixou de levar-me à casa dos meus, em visita aos parentes, aos passeios, para encerrar-se naquelas paredes, trabalhando em
benefício de pessoas ingratas e ociosas! Deixe de uma vez destas coisas! Manias adqüiridas com essa loucura que é o Espiritismo.
Jair deixou pender a cabeça, abatido, e respondeu:
- Depois de tantos anos, começo a pensar que talvez você tenha razão.
Entretanto, no plano espiritual, uma sombra sinistra instalava-se ao lado de Jair, com funda ascendência sobre sua vontade, ao mesmo tempo que um seu companheiro
dirigia-se à toda pressa para um lugar muito próximo à Terra e de desagradável aparência.
Algumas entidades, trazendo na fisionomia vestígios de apego ao mundo material e aos vícios, reuniam-se, trocando idéias sobre suas atividades.
Com sua chegada, calaram-se, enquanto o recém-chegado com em largo sorriso comentou:
- Hoje concretizamos grande vitória. O caso Jair Medeiros, que nos vinha preocupando pela sua perseverança no bem, inutilizando-nos diversas realizações. Vencemos,
finalmente!
Os outros, rindo sinistramente, rodearam-no, esperando suas conclusões:
- Como sabem, tentamos diversas situações: ele não cedeu, nem à vaidade, nem a luxúria, ou às festas e prazeres, nem às mulheres ou ao dinheiro! Entretanto,
Jonas teve idéia genial. Vendo-o doente e acamado, interceptou toda assistência moral dos seus companheiros de tarefa.
Profundamente interessado, alguém perguntou:
- Como o conseguiu? Por acaso perturbou ou obscureceu , a mente deles?
- De maneira alguma. Isso seria contraproducente. Eles, em sua maioria, conhecem nossa maneira de agir. Correm logo a tomar passe ou recorrem à prece, e nada
podemos fazer. Mas Jonas inventou coisa melhor. Colaborou para o acúmulo de serviço! Trabalhamos arduamente para divulgar as atividades assistenciais da casa, sugerindo
a um número bastante grande de criaturas necessitada que comparecessem ao local. Causamo-lhes problemas de toda ordem, e eles, por sua vez, recorriam aos préstimos
dos cooperadores.
Gozando o suspense de suas palavras, concluiu:
- Vocês precisavam ver como corriam de um lado a outto tentando resolver os problemas daquela gente. Ninguém se lembrou de visitar Jair.
- E os assistentes espirituais, não fizeram nada?
- Claro que fizeram. Tentaram por todas as formas sugerir aos companheiros de Jair que fossem visitá-lo. Eles até o desejavam, mas o serviço não deu folga! -
concluiu alegre. - Você sabe que a grande parte dos assistidos da casa podemos manejar sem interferência, eles nos facilitam as atividades. Agora, meus amigos, o
problema está resolvido: Jair é nosso! A esposa está trabalhando assessorada por companheiro do nosso grupo. E logo o teremos inutilizado.
- E o seu substituto?
- Entusiasmo passageiro! Assim que o abandonarmos, ele debandará, não nos dará trabalho.
E em meio à alegria geral, ajuntou:
- Quem tiver um problema igual de afastar alguém dessas atividades assistenciais é só aproveitar a ocasião e ofertar-lhe a certeza da própria inutilidade. Quanto
aos seus companheiros, serviço neles, bastante serviço é o melhor remédio!
Marcos Vïnícius


A Corrente
Ensimesmado e taciturno, Germano de Figueiredo, sempre que chegava em sua casa, conduzia consigo o desânimo e a queixa.
Não havia nada que o fizesse sorrir, e quando a isso se via forçado por alguma alegria inesperada, o máximo que conseguia era uma careta triste e um simulacro
de sorriso desalentado.
A princípio, sua esposa intentara de todas as maneiras alegrar-lhe a existência, mas baldaram seus esforços. Era o oposto do marido, vibrante e cheia de otimismo.
Germano não sabia sorrir.
Se uma boa surpresa ou um bom evento o atingia, dizia:
- Não alimentemos ilusões. Sabe-se lá o que virá depois?
E, se ao contrário, algum acontecimento desagradável o buscava, suspirava, dizendo:
- Eu já sabia! Minha vida tem sido um acúmulo de sofrimentos...
A esposa sacudia os ombros, resignada. Sabia que Germano não tinha motivos para ser tão pessimista. A vida sempre lhe decorrera equilibrada. Filho de família
honesta e operosa do seio da classe média, recebera regular instrução, empregara-se bem, e se não possuía bens de fortuna, jamais havia sentido falta dos elementos
principais da vida, jamais enfrentara problema doloroso de envergadura. Sua saúde era boa. No entanto, Germano ostentava verdadeira obsessão pelas coisas tristes,
colecionando intimamente verdadeiras tragédias.
Seus próprios filhos evitavam-lhe a companhia, e após certa resistência, a própria esposa desistiu de fazê-lo mudar.
Entretanto, a vida, renovadora e amiga que é, resolveu escrever a lição apropriada. Chamou-o à realidade através da porta reveladora da morte. Germano desencarnou.
E, se nosso amigo se julgava infeliz ao lado dos familiares no amoroso aconchego do conforto doméstico, encontrou então na solidão que o envolveu após o túmulo
razões poderosas para lamentar-se ainda mais. Entretanto, por mais que tentasse, não conseguiu fazer-se pressentido.
- Ai de mim - lamentava-se o infeliz -, meus sofrimento continuam mesmo depois da morte! Jamais terão fim! Sombras me envolvem por toda parte. A paisagem é triste
e sombria... Quando conhecerei a alegria?
Realmente, a paisagem que o cercava era infinitamente triste. Jamais via o sol, e o local para o qual era constantemente atraído, além de escuro, sombrio e sem
vegetação, estava povoado por pássaros horripilantes e criaturas espectrais que procuravam sempre aproximar-se dele, que no paroxismo da angústia e do terror, fugia
espavorido. Então, volvia ao lar terrestre, e a casa lhe parecia envolvida por espesso nevoeiro cinza-escuro, os familiares encobertos por nuvens, como em terrível
pesadelo, jamais consiguindo ouvi-lo, por mais que gritasse.
Quanto mais se queixava e lamentava, mais depressa voltava ao local sombrio, recomeçando a estranha perseguição dos espectros e aves soturnas e a fuga desordenada
e improfícua.
Receando a loucura, Germano aprendeu através do medo e angústia a recorrer à prece, até que um dia foi recolhido em precário estado a um posto de emergência
e socorro no plano espiritual. Atendido por médico dedicado, Germano ia começar a desfiar sua coleide tristezas quando o facultativo impôs-lhe silêncio, dizendo:
- Detém tuas palavras. Conhecemos teu caso. Convém, teu próprio bem, que te prepares para receber o auxílio a que fazes jus, pelas preces de teus amigos e por
acréscimo da bondade do Senhor. Vem comigo.
E parecendo ignorar que Germano se arrastava com dificuldade, conduziu-o à pequena sala, acomodando-o em confortável poltrona.
- Agora Germano, vamos estudar o teu caso. Dizes sempre que não gozaste nenhuma alegria e que só de tristezas foi tua vida
- Sim - concordou ele. - Sofri muito. Só, velho e doente.
- E na mocidade, foste feliz?
- Nem um pouco! Sofri sempre inúmeras desilusões. A vida me foi pesado fardo.
- E a infância? - continuou o mentor com ligeiro sorriso.
- Triste - suspirou Germano. - Tão triste que nem gosto de recordá-la!
- Entretanto, meu amigo, as informações que temos diferem fundalmente. Vejamos.
Ligando delicado aparelho a um canto da sala, Germano, boquiaberto, viu aparecer em sua tela, como em um cinema, a velha e solarenga casa onde residiam seus
pais antes da época do seu nascimento. Assistiu emocionado ao carinho e à alegria de sua mãe preparando-lhe amorosamente o enxoval delicado. Seu pai, radiante e
orgulhoso com sua vinda. Depois, viu-se pequenino, entre a alegria e a felicidade geral, senhor das mais caras atenções. Menino, depois adolescente, e essas sucessivas
recordações banhavam-lhe o espírito perturbado com funda emoção. Reviu seu casamento, as alegrias sublimes da vida e do convívio em família, e no esforço dos familiares
para envolvê-lo em uma aura de alegria e serenidade, no decorrer das cenas sucessivas, começou a notar que ele aparecia sempreem contraste, insatisfeito e triste,
temeroso e infeliz. A revivência do passado despertou nele a sensação do quanto aquele tempo tinha sido feliz. Em confronto com a realidade dura que enfrentava,
e levado pela rememoração emotiva, chegou a antipatizar consigo mesmo nas cenas que assistia, voltado incessantemente ao pessimismo diante das mais caras e suaves
alegrias.
Ao término, o dedicado médico e instrutor espiritual o inquiriu:
- E então? Qual o teu veredito?
Envergonhado, Germano admitiu:
- Não posso dizer que tenha sido infeliz. Afinal, aqueles foram bons tempos! Gostaria de regressar!
O médico sorriu, bondoso:
- Por ora é impossível. Entretanto, se deseja o breve retorno à face da Terra, só há um jeito.
- Qual?
- A inscrição num curso de bom humor. Não ignoras que o pensamento é uma força viva e ativa. As vibrações negativas que alimentaste durante tantos anos atraíram
junto ao teu convívio grande quantidade de espíritos sofredores e infelizes, que se alimentavam dos teus pensamentos depressivos, formando a teu comando extensa
corrente. Criaturas que tens visto ao teu redor e te apavoram pela profunda tristeza que demonstram. Não podes voltar agora à Terra porque não terias forças para
vencer o círculo vicioso eu que te colocaste, agravando e inutilizando as mais profícuas e operosas oportunidades que te fossem oferecidas. Necessitas primeiro de
estagiar em prolongado curso de bom humor, onde aprenderás a encontrar a alegria dentro de ti mesmo e nas mil e uma ocasiões que a vida nos oferece no cultivo do
bem. E, quando tiveres armazenado boa dose de alegria, poderás voltar e estabelecer novo lar terrestre, onde deverás receber por companheiros não aqueles que amas
e que agora estão temporariamente afastados de ti, mas os que aliciaste e aos quais te ligaste pela onda de tristeza voluntariamente cultivada. Terás que aprender
a sorrir e a olhar as coisas belas da vida, apesar da triste corrente que prendeste ao teu espírito e da qual de pronto não poderás te libertar.
Abatido, mas humilde e dignificado por pensamentos novos, Germano considerou:
- Em que condições deverei voltar?
- Em condições justas, no campo vibratório que teceste durante tanto tempo. Tiveste um lar alegre e feliz, não o valorizaste. Filhos normais e inteligentes não
te deram alegria. Vida equilibrada e pacífica e não te sentiste feliz. Tranqüilidade financeira e não aproveitaste o tempo no cultivo dos valores espirituais. Por
determinação dos ajustes do passado, credores de outros tempos se aproximaram de ti em busca do equilíbrio, e tu os aliciaste à corrente da tristeza, arrojando-os
ainda mais na perturbação e no desequilíbrio. Justo, portanto, que no lar que será de luta para manutenção financeira, os recebas como companheiros e familiares,
e se conseguires reconduzi-los ao caminho do equilíbrio e da alegria, terás conseguido romper a dolorida corrente que tanto te incomoda. Poderás, então, ser feliz
e liberto, reencontrando os que amas.
E num gesto carinhoso, mas enérgico, o mentor concluiu:
- Vai meu amigo. Busca recuperar, no recomeço difícil, o tempo perdido.
Marcos Vinícius




Jornada Nova


Serpenteando as colinas qual arabesco caprichoso desenhado pacientemente no verde rude, o cavaleiro descia vagaroso.
Carregava consigo, na bagagem modesta, os presentinhos carinhosos aos familiares que havia cinco anos lhe aguardavam o regresso.
Saíra rumo a novos caminhos, em busca de uma modificação no sistema de vida que sempre fora o seu. Filho de lavradores pobres, sonhava ardentemente ir viver
na cidade. Durante muito tempo amealhou recursos para custear a viagem.
Quantas esperanças, quantos castelos sonhados no verdor sa sua juventude! Ganharia fortuna na grande cidade e voltaria para buscar sua sofrida e cansada mãe,
seu velho e resignado pai. Dar-lhes-ia muitos presentes, comprar-lhes-ia uma casa grande, com água encanada e luz elétrica. Levá-los-ia a morar na cidade.
Foi com o coração entusiasmado que João partiu do lar, levando na lembrança as lágrimas mudas dos olhos tristes da sua velha querida.
E então João voltava, e em seu rosto não brilhava mais o antigo entusiasmo. Em seu lugar havia muita doçura e uma paz que se casava bem à mansidão serena da
manhã e ao azul límpido céu.
Lá, na planície, a pequena casa humilde despertou nele um gesto de ansiedade, mas não apressou a marcha. Chegou, por fim, e sua presença provocou alegre alvoroço.
Seus irmãos acorreram surpresos, e João viu-se abraçado e beijado por todos.
Sua mãe, lágrimas nos olhos, abraçou-o silenciosa, e o pai, quieto e calado, apertou fortemente a mão calosa contra a sua.
Depois que a surpresa permitiu, a curiosidade envolveu João, que voltava da grande cidade. Queriam saber suas aventuras, seus sucessos. Como era a vida na cidade?
Então João contou-lhes as coisas que vira: famílias inteiras dormindo ao relento nas noites frias, crianças pálidas e sem sorriso abrigada em asilos, vivendo
da caridade pública, infelizes mulheres atiradas às sarjetas das ruas suspirando por um pouco de dignidade, homens correndo de um lado a outro, carregando consigo
enormes preocupações e responsabilidades. Homens e mulheres que se consideravam artistas, digladiando-se constantemente em busca da fama, pobres empregadinhos, que
acostumados às aparências, esforçavam-se nas dívidas excessivas para manutenção do seu nível de vida. Criaturas revoltadas e desajustadas, que matam e roubam, sendo
por isso segregados da sociedade em horríveis presídios e caçados como animais.
Boquiabertos, todos ouviram o curioso relato, e a certa altura um dos irmãos perguntou:
- Mas, e tua vida? Que fizeste? Conseguiste fortuna?
João, com o olhar calmo, sorriu e respondeu:
- Sim, consegui fortuna. Sou um homem muito rico!
Os outros relancearam o olhar para sua roupa modesta e sua bagagem, um tanto descrentes. João, porém, prosseguiu:
- Quando saí daqui, levava comigo o desassossego da ambição. Desejava ser rico para levá-los à cidade! Entretanto, conhecendo a realidade, o sofrimento e a luta,
o muito mal que uma cidade grande pode nos fazer, cheguei à conclusão de que a maior riqueza é o amor, a união entre todos e a paz. Aqui, embora humildes, somos
todos ricos de felicidade, de amor, na simplicidade da nossa vida. Senti que colocando-nos aqui, neste afastado, talvez Deus tenha querido nos proteger contra nossas
fraquezas, amadurecendo-nos para o futuro. Certo dia, lá na cidade, pensei: como a vida é curta! O que estou fazendo longe dos meus? Por que atirara fora a felicidade
que Deus me dera de conhecer tão carinhoso lar?
Voltei para dizer que ficarei aqui e que trabalharei alegremente ao lado de todos.
João calou-se: mas viu nos olhos de sua mãe um brilho novo, e talvez pela primeira vez em sua vida, a boca severa e rude de seu pai entreabrir-se em um doce
sorriso.
Marcos Vinícius


O Passe
Agostinho da Silva, dedicado companheiro, militando havia um decênio nas hostes espiritistas, apesar do grande conhecimento da doutrina não gostava de dar passes.
Para ele o passe era um recurso inútil, porquanto achava que o indivíduo deve ter em si mesmo a confiança para prescindir do auxílio do próximo, esperançoso e seguro
de que a Lei de Deus prevê todas as nossas necessidades.
Costumava dizer:
- Sujeitar-se ao passe é declarar publicamente sua falta de fé. Quando for permitida a cura da moléstia que nos acomete, ela se processará sem o passe, com o
médico, sem ele e, às vezes, apesar dele.
Argumentava que o espiritismo não tem rituais. O rito do passe afasta as criaturas mais cultas da doutrina, em prejuízo para sua divulgação. E como pode ser
diferente? Um homem culto, formado, intelectual, como um médico, por exemplo, receber passes de criaturas às vezes ingênuas, às vezes ignorantes, ou ainda em precário
estado de higiene física, provocando mal-estar no paciente? Não. O Espiritismo precisa banir esses rituais e preservar a pureza da doutrina.
Assim seguia Agostinho, perturbando com a lógica dos seus argumentos aqueles que, admirando seus conhecimentos literários, sua verbosidade fácil e sua simpatia
pessoal, tornavam-se também filiados à sua maneira de pensar.
Reuniam-se para estudo e cada vez mais, à força do próprio raciocínio, mergulhavam na confusão. Aos poucos chegaram à conclusão de que também não havia necessidade
de fazer preces, poquanto com elas ninguém conseguiria ludibriar a justiça e evitar sofrimento. "Deus sabe as necessidades de cada um", diziam, "e nós temos que
aceitar tudo resignados".
Entretanto, com o correr do tempo a casa foi se tornando vazia. Os amigos dispersavam aos poucos, as desculpas para o afastamento do trabalho doutrinário de
Agostinho choviam sempre, multiplicando as ausências, até que ele se encontrou só na sala vazia.
Ninguém mais o procurava para o trabalho espírita e, por fim, as desculpas cessaram também.
Deprimido, Agostinho sentiu-se incompreendido. Sua mágoa foi mais funda quando soube, por intermédio de terceiros, que seus mais íntimos amigos freqüentavam
um centro espírita com assiduidade, alguns recebendo, outros dando passes.
Foi assim que, naquela noite, sentiu-se cansado. Desanimdo. Tanta sinceridade, tanto esforço no sentido de purificar a prática doutrinária, tudo inútil.
- A humanidade - pensava ele - estava muito atrasada compreender ideais tão elevados!
Ao penetrar em seu quarto de dormir, seus olhos tristes encontraram-se com o suave e belo olhar do Cristo em feliz e harmoniosa gravura pendurada na parede.
Não orou, porque não estava em seus hábitos fazê-lo, mas do fundo do seu ser brotou um apelo mudo e sincero ao atendimento e à manifestação da justiça.
Deitou-se e dormiu. Sonhou. Encontrava-se em local sombrio e sentia-se envolvido por invencível mal-estar. Apavorado, via-se ambas as mãos mirradas e as pernas
atrofiadas, impossibilitado de locomover-se. Chorava desesperado, esforçando-se por mover os membros enrijecidos, sem conseguir. Parecia-lhe que indestrutível cadeia
o mantinha prisioneiro em tão angustiante e dolorosa situação.
Então, em resposta a suas lágrimas de desespero, um amigo querido mas não identificado no momento, libertou-o, devolvendo-lhe os movimentos. Depois, conduziu-o
a outros lugares, paisagens suaves e agradáveis. Enorme bem-estar o invadiu, retirando aos poucos o peso de suas preocupações e tristezas.
Conduzido à presença de grisalha figura, que lhe despertou de pronto o respeito e a simpatia, não pôde evitar um calafrio de horror lembrando-se da sua situação
de minutos antes.
Após as saudações naturais, tornou:
- Ainda bem que me foram buscar. Estava envolvido em horrível pesadelo.
Calou-se, ainda um tanto impressionado. Seu interlocutor olhou-o com olhos muito lúcidos, mas não lhe correspondeu o sorriso. Calmo e seguro, retrucou:
- Gostaria de retornar àquela situação?
Agostinho levantou-se de chofre:
- Deus me livre! Durou poucos segundos, entretanto, não sei se suportaria senti-la novamente sem abalar minha sanidade mental.
- Todavia - observou o nobre senhor -, durante longos anos perambulaste do lado de cá naquela situação. Não te lembras?
Agostinho sentiu profundo choque. Assustado, teve de relance a visão da sua pálida figura vagueando, desesperada e aflita.
- Mas, por quê? - indagou temeroso.
- Recua mais um pouco e verás.
Agostinho sentiu-se envolvido em um turbilhão. Viu-se em sala distinta, vestindo alvo uniforme, luvas nas mãos, bisturi em punho, operando. Depois as mãos empunhando
a cureta, assassinando crianças nascedouras, impassivelmente e com sorriso nos lábios.
Humilhado, baixou a cabeça, e quando serenou, perguntou:
- Isto é verdade? Fui eu?
- Sim - respondeu-lhe o outro, sereno. - Quando, na tua anterior encarnação como médico, jurando preservar a vida e valorizá-la, muitas vezes a destruíste. Induziste
jovens senhoras ao erro. Levianamente exploraste segredos da profissão em benefício próprio. Vieste para o plano espiritual, após a morte, sofrendo de terrível paralisia
das mãos, que se atrofiaram envolvidas por grossa camada de fluido negativo, acumulado por ti em horas e horas de esforço infeliz. Depois de anos de sofrimento,
de tratamento adequado, ingressaste nas aulas de espiritismo cristão, preparando-te para nova encarnação.. No entanto, apesar de ser melhor o teu estado, havia possibilidades
de, durante a próxima encarnação, vir teu físico a ressentir-se da enfermidade espiritual, nos órgãos atingidos.
Agostinho suspirou, emocionado.
- Para que tal não acontecesse, assististe a aulas de utilização e distribuição dos fluidos, porque nossos especialistas nesses casos opinaram que somente a
renovação constante de energias salutares conseguiriam evitar a consumação da dolorosa contingência. Entre os recursos usados, o passe aos necessitados - pelas circunstâncias
de que se reveste de verdadeiro banho energético, renovador e vigorativo - era a forma possível de preservar-te a saúde física. O cultivo da prece dar-te-ia forças
para vencer as dificuldades, conservando-te em ligação constante com teu grupo de trabalho no plano espiritual, que procuraria ajudar-te da melhor forma.
Boquiaberto, Agostinho ponderou:
- Então dar passe é para mim o remédio?
- Sem dúvida. O mais eficiente, porquanto propiciará oportunidade de, pelo benefício e pela conquista da confiança dos assistidos, orientar e reconduzir, refazer
e auxiliar quantos foram desviados ou feridos pelas tuas mãos.
E continuou suavemente:
-Vê, meu amigo, como é grande, infinita e incomensurável a bondade de Deus?
Com essas palavras sibilando nos ouvidos, Agostinho acordou impressionado.
E, no dia imediato, seus amigos estupefatos o viram, com o Evangelho Segundo o Espiritismo debaixo do braço, penetrar humilde no centro espírita e solicitar
em voz alta o auxílio de um passe!
Marcos Vinícius


Preço do Silêncio
Foi com grande satisfação que em reunião fraterna no plano espiritual revi meu amigo José, de quem me afastara havia algumas encarnações.
Juntos, tínhamos vivido em tempos passados, e eu me lembrava com certo constrangimento de certas passagens levianas que havíamos cometido.
Na verdade, eu me sentia mudado e, um pouco mais experiente, tentei afastar os pensamentos desagradáveis. José, companheiro leviano e irresponsável, apesar de
bom e generoso amigo, tinha o defeito de falar demais. Quando em palestra com alguém, esquecia a noção do equilíbrio e comentava assuntos íntimos, envolvendo reputações,
boatos, e acrescentava, no auge do entusiasmo, novas nuances para colorir o assunto, sem perceber resvalando para a calúnia. Muitas vezes causara intrigas e dissensões,
separações e litígios entre as criaturas.
Fazia-o mais por leviandade do que pelo desejo de causar dano. Geralmente arrependia-se depois, mas o mal já estava feito.
Abracei-o efusivamente, pois que o apreciava, e intimamente procurei armazenar argumentos a fim de neutralizar-lhe o verbo intempestivo.
José abraçou-me alegre, e depois de algumas palavras, juntamo-nos ao resto do grupo em agradável palestra.
Entretanto, grande surpresa me estava reservada. Durante nossas amigas confabulações José apenas pronunciou algumas palavras sérias, pausadas, e eu diria, com
alguma dificuldade. Pareceu-me completamente diferente da pessoa que eu havia conhecido antes. Estava mais equilibrado e mais feliz. Em seu olhar havia entendimento
e doçura.
Satisfeito constatei seu progresso espiritual, e quando juntos nos retiramos da assembléia, José, colocando sua mão em meu braço, tornou:
- Estou satisfeito de ver-te bem disposto. E sei que também notas que estou diferente.
-Tens razão, José. Estás muito melhor agora. - E acrescentei, receoso de recordar os erros do seu passado: - Na verdade todos temos progredido. É da Lei!
- Assim é. Entretanto, toda conquista tem um preço que é preciso pagar. E pagamos com antecedência. É preciso dar para receber.
- Mas noto que tens dificuldade em te expressares. Tu que eras tão versátil e prolixo!
- Sabes que muitos males causei com a língua a serviço da irresponsabilidade. Esse defeito representava para mim sério motivo de preocupação. Vivia atormentado,
enredado pelas dissensões e pelas intrigas que articulava, perseguido pelas consequências dessas atitudes e sentindo-me impotente para dominá-las. A cada existência,
quando voltava para cá, sentia o remorso aumentar, vendo a lista de resgates crescer consideravelmente, dificultando meu progresso espiritual. Em outros campos eu
havia feito muitos progressos, mas quando chegava nessa fraqueza, nada conseguia. Resolvi, por isso, submeter meu caso às entidades superiores encarregadas da nossa
orientação, que carinhosamente se dispuseram a estudar minhas possibilidades. Chegaram um dia a uma solução, e apresentei-me para conhecê-la. Depois de ouvir e assistir,
um pouco envergonhado, ao estudo retrospectivo de meus reflexos condicionados e de minhas atitudes passadas, meu mentor espiritual considerou:
- Acabamos de estudar teu caso. Chegaste a um tal ponto de reação motora que tua vontade é quase inócua para evitar o deslize. Por isso, torna-se preciso paralisar
o veículo do erro, para aprendires de novo e equilibradamente a manter seu controle. Aconselhamos uma reencarnação em que, por diversas circunstâncias, vennhas a
perder a língua. O que será fácil conseguir, porque, como podes ver, ela já está danificada e envolvida pelas vibrações negativas com que a brindaste. Como estás
resolvido a lutar para melhorar, conseguimos, com auxílio da prece, esta dádiva do Senhor. Os detalhes serão estudados com os irmãos reencarnacionistas.
- Confesso que senti grande abalo. Entretanto, quanto mais pensava no caso, mais compreendia que tinham razão. Renasci na França, filho de fidalgos. Contudo,
esquisita moléstia paralisava-me a língua, impedindo-me de falar como as outras crianças. A princípio lutei com todas as minhas forças para fugir à doença, que me
fazia sofrer horrivelmente. Porém, aos poucos, fui me habituando a ela. Tive paralisia completa. Não conseguia emitir nenhum som. . Na aspereza da provação, porém,
sentia-me feliz, parecendo -me que alguma força interior me sustentava. As tentações eram maiores porque as pessoas, sabendo-me impossibilitado de falar, não se
importavam de tratar dos assuntos graves na minha presença. Fui testemunha, assim, de intrigas e mentiras, ódios e perversidades, luxúria e egoísmo, que regurgitavam
nos salões da corte. Mas, assim, fui aprendendo a conhecer a beleza e a força do silêncio, e muitas vezes, presenciando o desenrolar dos fatos, agradecia a Deus
não ter podido falar sobre o assunto. Comecei a notar o perigo das palavras e suas conseqüências. Cheguei ao fim da existência mais equilibrado e sereno. Mas uma
só experiência não foi suficiente. Reencarnei de novo ainda com paralisia parcial da língua. Submetido a longo e doloroso tratamento para falar, recuperei o uso
do órgão enfermo, mas com o auxílio do alto, permaneceu um resquício da atrofia, e eu sofria terrível gagueira. Não podia conversar livremente, pois gaguejava desagradavelmente.
E, com vontade de falar, sentia vergonha, notando o mal-estar que provocava naqueles com quem conversava. Por fim, voltei nesta última encarnação com o órgão normal,
porém, conservando experiência passada, já não sentia vontade de falar. Fui envolvido e tentado por todos aqueles que colecionam os defeitos alheios e os exibem.
Com a graça de Deus, consegui vencer. - E continuou, sorrindo: - Há muitos anos que não falo tanto como hoje! Estou exausto!
Eu conjecturava na perfeição da Lei e respondi:
- Na verdade, alcançaste o progresso desejado, mas a que preço! - Terminei, um pouco chocado com o seu sofrimento.
- Ora, ora, meu amigo! Quantos acidentes seriam evitados se cada um pudesse comandar plenamente seus veículos na vida? E se não conseguem detê-lo e ele se torna
perigoso, é lógico que deve ser recolhido à oficina para conserto. Hoje, verificando o benefício do calar no momento oportuno, acho irrisório ter dado apenas uma
língua para pagar o preço do silêncio!
E eu fiquei silencioso, penetrando fundo na beleza da lição.
Marcos Vmícius


A Esperança
Jazia em um catre humilde, de dor, uma triste criatura, corpo recoberto de chagas, onde as insistentes moscas, pousando irreverentes, aumentavam o desconforto.
O velho corpo alquebrado, pele cobrindo ossos, exangüe e cansado, arquejava de quando em vez, mostrando dessa maneira que a vida ainda adejava nele em pálida despedida.
Ao redor, na choupana humilde, tudo era desolação. O único aposentado, exíguo e infeto, úmido e permeável aos rigores das invetempéries, parecia abandonado e
só, sem a atividade constante do seu ocupante.
Logo era o dia para aquela pobre criatura, sem ninguém que a socorresse, que a amparasse no transe difícil e lhe desse ao menos o conforto de um caldo quente
para aquecer o estômago.
Sombras sinistras rondavam o desolador local, e na sua indigência espiritual, aquele pobre ser alquebrado sentia a aproximação da morte.
Longe dali, porém, em casa confortável, jovem mulher recolhida em prece agradecia ao Senhor a bênção da felicidade doméstica, e coração cantante de fé, buscava
recolher do alto as dádivas do bom ânimo e da esperança para alimentar sua vida feliz.
Mas, inopinadamente, vislumbrou em distensão dos olhos espirituais a cena lúgubre da pobre e solitária criatura agonizante. Chocada, tentou afastar de si a perturbadora
visão que fora arrancá-la da agradável sensação de felicidade ao contato com a vibração mais pura. Porém, quanto mais se envolvia nos eflúvios da prece, tentando
fugir ao ambiente depressivo, mais ele se lhe apareci, numa constância irrecusável.
Então, sem poder vencer do seu coração aquela sensação de desconforto, sem poder afastar de si a cena desagradável que lhe repugnava a visão, resolveu sair em
busca da casinha abandonada que, para ela, estava ainda desocupada.
Apressada, caminhava levando no coração um sentimento angustiado que não podia reprimir.
Ao chegar ao lar humilde, entrou, e vendo o ser exangüe, cuja vida se esvaía, teve instintivamente um movimento de recuo. Mas seu coração de mulher apertou-se
ao observar o abandono e a falta de conforto do ambiente.
Timidamente, balbuciou:
- Senhor. Vim para ajudar-vos no que puder ser útil.
Um gemido doloroso avisou-a de que o enfermo ainda ouvia e estava consciente.
Tocada por um sentimento indefinível, ela, reagindo com a repulsa que a precária situação do doente lhe causava, procurando evitar o cheiro nauseabundo que seu
corpo chaguento exalava, aproximou-se devagar, e então, fixando a face carcomida e macilenta, seu coração se sobressaltou. Um angustioso pressentimento a envolveu,
e ela, esquecendo tudo o mais, deixou se cair de joelhos ao lado do catre.
Aterrorizada, procurou orar ao senhor, embora seu pensamento estivesse confuso e atemorizado, e num repente de emoção, sem poder conter-se, exclamou num grito
que lhe saiu do fundo da alma:
-Pai, perdoa-me!
Ao brado aflito de remorso e de tristeza infinita, o pobre enfermo, abrindo os olhos, fitou com alegria a figura bela, que de joelhos, olhos marejados, esperava
ansiosa uma resposta. E, então, seu rosto se iluminou em alegria incontida, enquanto com dificuldade murmurava, comovido:
- Eu tinha certeza de que haveria de ver-te pela última vez antes de partir. Queria ver-te à distância, pelo menos. Vim de longe, mas a moléstia não me deixou
aproximar de tua casa. Caí aqui, extenuado e doente. Agora, posso ir em paz.
Doce serenidade banhava a fisionomia do enfermo e o ambiente se modificara. Diante do reencontro daquelas criaturas, da pureza dos seus sentimentos, tudo se
transformara.
E a jovem mulher, amargurada e comovida, recordou-se num átimo das divergências entre seu esposo e o velho pai, que viúvo fora residir em sua casa. Dos incômodos
que sua presença lhe causara com sua intromissão em seu lar, a tal ponto de ter-lhe feito sentir a necessidade de viver recluso em seus aposentos e sozinho. Com
o remorso acicatando
o coração, lembrou-se da dor e da intranqüilidade que lera na cansada fisionomia do velho pai, que logo partira, dizendo preferir residir em casa de um amigo muito
chegado, no interior.
A verdade, porém, já o sabia, é que ele se afastara para não perturbar sua paz doméstica, e sem recursos, velho e alquebrado, sofrera todos os rigores do abandono.
Sentindo vibrar as cordas mais íntimas do coração, a filha negligente, deixando rolar as lágrimas amargas do arrependimento, disse com sinceridade:
- Pai, perdoa-me! Fui má e leviana, levar-te-ei agora para casa, seremos felizes juntos, estaremos unidos. Cuidarei de ti e hás de ficar bom!
Reunindo ainda um resquício de força, o velho respondeu:,
- Abençoada és por me ter dado a bênção da esperança nos nos últimos anos da minha vida, e agora preciso partir. Mas, um dia, estaremos juntos para sempre.
Sem ela entender, ela respondeu:
- Mas pai, fui má e injusta, releguei-te ao abandono, como podes dizer que te dei esperança?
- O amor que sinto por ti foi-me luz na aspereza do caminho. Se sofri, se chorei, se me senti abandonado da sociedade, jamais me senti só. As lembranças felizes
do nosso passado estavam comigo, e entre elas, as doces e suaves carícias da tua infância, na ingênuidade pura do teu coração de filha. Ver-te, seguir-te os passos
à distância, rezando pela tua felicidade, foi a força que me sustentou na dura provação. Sou-te por isso infinitamente grato, porque sem a esperança de ver-te e
amar-te, jamais se acenderiam para mim as luzes do coração.
E quando a filha, soluçante e enternecida, deixou pender a cabeça sobre seu peito cansado, ainda pôde sentir, em um último e derradeiro esforço, descer sobre
ela a carícia de sua mão.
Marcos Viníciuc


FIM
Este livro foi digitalizado por Katia Oliveira
e corrigido por Carlos Willians
para o uso exclusivo de deficientes visuais de acordo com as leis
vigentes no Brasil.

Tudo Tem Seu Preço

Zibia Gasparetto
ditado por Lucius

Tudo tem seu preço
VIDA & Q
TKSÂ
Sumário
Capítulo1 9
Capítulo 2 21
Capítulo 3 37
Capítulo 4 53
Capítulo 5 65
Capítulo 6 79
Capítulo 7 91
Capítulo 8 105
Capítulo 9 119
Capítulo 10 135
Capítulo 11 151
Capítulo 12 165
Capítulo 13 179
Capítulo 14 193
Capítulo 15 205
Capítulo 16 219
Capítulo 17 233
Capítulo 18 249
Capítulo 19 263
Capítulo 20 277
Capítulo 21 291
Capítulo 22 305
Capítulo 23 319
Capítulo 24 333
Capítulo 25 351
Capítulo 26 365

Marcelo entrou em casa batendo a porta com força. Foi ao banheiro, lavou o rosto, enxugou-o e respirou fundo, tentando se
acalmar. Precisava controlar a emoção.
Não podia deixar-se dominar por aquele impulso destrutivo. Afinal, ele era uma pessoa equilibrada, estava acostumado a servir
de exemplo para os outros.
No trabalho, quando alguém se irritava ou discutia, os colegas diziam:
- Como você é descontrolado! Olhe para Marcelo. Por que não faz como ele?
Em casa, sempre que havia uma discussão entre os pais ou os três irmãos, Marcelo era logo chamado para apaziguar.
- Não vale a pena se irritar - dizia ele com voz calma. - Não vai resolver mesmo!
Falava com tanta certeza que os ânimos logo se acalmavam.
Até Lúcia, irmã de seu amigo Gérson, procurava-o para pedir conselhos quando
brigava com o namorado, e ele a orientava para que tudo voltasse a ficar bem.
Marcelo gostava muito de ser bondoso. Quando alguém lhe pedia um favor, por mais difícil que fosse, ele se esforçava para
realizálo, ainda que para isso precisasse
deixar de lado alguma coisa pessoal que considerasse importante.
Achava bom ouvir dizer:
- Obrigado, Marcelo! Como você é bom! Obrigado por você existir!
Ele meneava a cabeça negando, mas seus olhos brilhavam de prazer. Ele era bom! As pessoas o amavam!
Olhou-se no espelho: seu rosto estava vermelho, os olhos congestionados. Lembrou-se de uma conversa que ouvira tempos atrás:
- Vamos falar com Marcelo. Ele faz!
- Acha que ele topa?
- Claro! É só dizer que há alguém doente ná família e pronto! Aproveite, porque sei que ele recebeu ontem.
- E se ele desconfiar?
- Ele nunca pensa mal de ninguém! Elogie bastante, comova-se, diga-lhe quanto ele é bom. Garanto que ele nem vai querer
saber detalhes. Dá logo o dinheiro.
Apesar de ter ouvido tudo, quando o amigo veio pedir, ele não teve jeito de dizer "não". Deu o dinheiro!
Marcelo abriu a torneira e lavou novamente o rosto. Precisava esfriar a cabeça. As pessoas eram maldosas, incapazes de compreender
um gesto de bondade. Pagavam o
bem com o mal.
Suspirou tentando resignar-se. Reconhecia que sempre fora rodeado de pessoas ingratas. Justamente aquelas pelas quais mais
se sacrificara eram as que o tratavam
com desprezo, indiferença e até certa agressividade. Em casa ele sempre ficava por último em tudo. A necessidade dos outros
vinha primeiro. O importante era que
os outros ficassem felizes.
Nos feriados, o plantão da empresa precisava ser atendido e havia um rodízio. Mas, fosse quem fosse designado, quem acabava
ficando era sempre Marcelo. Seja no Natal,
no último dia do ano, até no seu aniversário. É que, se alguém lhe pedia para o substituir, ele se colocava no lugar do
companheiro e resolvia sacrificar-se. Era
pessoa de sentimentos!
Acreditava que precisava fazer o bem sem esperar recompensa. Esse era seu valor, seu alimento. Dentro do sacrifício, sentia-se
bem.
10
Admirava-se de sua bondade. Sentia-se valorizado, cumprindo com seu dever.
Mas aquele dia tinha sido a gota d'água: havia visto sua namorada saindo do cinema de braço dado com outro rapaz. À tarde
ela lhe telefonara avisando que tinha apanhado
um resfriado e que não poderia sair com ele naquela noite. Ele acreditara.
Porém Gérson, amigo e companheiro de trabalho, fora procurá-lo em casa para contar-lhe que estava sendo enganado. Sem querer
acreditar, Marcelo acompanhou o amigo
até o cinema e a viu sair trocando carinhos com Valdo.
Sentiu vontade de aparecer ná frente deles, gritar sua raiva e esmurrá-los. Mas ficou parado, enquanto o amigo irritado
o incitava a reagir:
- E então? Não vai dar uns tapas nesses dois? Ele sabe que ela é sua namorada! Estão rindo de você! Vai deixar isso barato?
Vamos lá, que eu ajudo.
Mas Marcelo parecia chumbado ao chão. Ficou olhando quando eles passaram. Mirtes olhou para ele e fingiu que não o conhecia.
Foi-se embora, pendurada no braço do rapaz,
conversando animadamente.
Quando o casal entrou no carro estacionado perto e se foi, Gérson não se conteve-
- Você é muito frouxo! Como pode deixar passar uma coisa dessas?Todo mundo fala mesmo que você é um bunda-mole! Não tem
vergonha nessa cara? Amanhã eles vão espalhar
que você é um trouxa! E eu vou confirmar!
Marcelo saiu correndo e foi para casa. Queria bater naqueles dois E também em Gérson e em quem aparecesse em sua frente.
Mas conteve-se.
Respirou fundo e tentou esquecer aquela cena horrível. Mas não conseguiu. Deitou-se e não pôde dormir. As palavras do amigo
voltavam à sua mente e ele se remexia
ná cama inquieto.
ná manhã seguinte, quase perdeu a hora do trabalho. Levantou-se, lavou-se e vestiu-se rapidamente. Quando se sentou à mesa
do café, Iolanda disse assustada:
- O que foi, meu filho? O que você comeu ontem? Seu rosto está todo pipocado, vermelho.
Marcelo sentiu ligeira tontura. Passou a mão no rosto.
- Está coçando. Quase não dormi esta noite.
- Parece intoxicação. É melhor ir ao médico.
11

- É. Eu vou. Não estou me sentindo bem mesmo.
- O que você comeu ontem? Eu vivo avisando. Vocês comem essas porcarias nas lanchonetes e nem sabem como foram feitas. Só
pode dar nisso.
Marcelo levantou-se e foi olhar-se no espelho. Seu rosto estava ligeiramente inchado e cheio de pintinhas vermelhas. Concluiu
que ir ao médico seria mesmo uma boa
solução. Àquela hora Gérson já deveria ter contado aos colegas o que acontecera ná véspera.
Telefonou ao médico e marcou a consulta. No final das contas aquele adoecimento viera a calhar. Se tivesse sorte, poderia
ficar alguns dias em casa e quando voltasse
ao trabalho seus colegas já teriam esquecido o desagradável incidente da noite anterior.
Nem pensou em ligar para a namorada. Para quê? Sentia-se envergonhado pela cena que presenciara. Nunca mais iria vê-la.
Isso bastaria para que ela entendesse que
ele não aceitava traição.
Gostava de Mirtes. Estavam namorando havia mais de seis meses, e Marcelo pensara até em ir falar com o pai dela e namorar
em casa.
Uma sensação de fracasso o acometeu. Por que para ele nada dava certo? Ele fazia o melhor que podia, mas tudo saía errado.
Foi ao médico e, conforme desejava, conseguiu uma semana de licença.
Em casa, comendo a comida insossa da dieta que o médico recomendara, assistindo à televisão, sentia-se desanimado e infeliz.
Entretanto, ninguém podia saber que ele se sentia derrotado. Quando alguns amigos ligavam, dizia que estava melhorando e
aproveitando para descansar.
Recebeu alta do médico e deveria voltar ao trabalho no dia seguinte. À noite, estava em casa e o telefone tocou. Ele atendeu
e ouviu:
- Marcelo? É Mirtes. Como vai? Já sarou?
O coração dele disparou. Respondeu com voz insegura:
- Já, obrigado. Amanhã volto ao trabalho.
- Você está bem?
- Estou.
- Pois eu não. Sinto-me infeliz, estou sofrendo muito. Preciso falar com você, explicar...
- Tudo está claro. Não há nada a explicar.
- Mas eu quero. Desde aquela noite não tenho dormido. Não sei como fiz aquilo! Por favor, precisamos conversar.
12
- Para quê? Acho que não há mais nada entre nós. Está claro que você prefere Valdo. Aliás, as garotas ficam logo caidinhas
por ele. Aconteceu com você.
- Não é isso, não - respondeu ela chorando. - Não faça isso comigo. É de você que eu gosto. Quero conversar. Não me negue
esse favor. Venha, estou esperando.
Ele hesitou, depois resolveu:
- Está bem, eu vou.
- Estarei esperando no lugar de sempre.
Quando desligou o telefone, arrependeu-sse de haver prometido. A raiva ainda não havia passado. Mas ela estava chorando, arrependida,
sofrendo, e ele não poderia ignorar
o sofrimento dela.
Aprontou-se e foi ao encontro. Vendo-a, notou logo que estava abatida, havia chorado muito. Ficou sensibilizado.
- Desculpe o que fiz - disse ela. - Desejo pedir-lhe perdão. Agi sem pensar. Valdo me convidou e eu tive vontade de ir.
Mas, assim que VÍ você ná saída, me arrependi.
- Sua atitude ná hora não mostrava isso.
- As pessoas estavam olhando. Gérson estava com você. Acho até que foi ele quem lhe contou.
- Ele é meu amigo.
- Ele gosta de ver o circo pegar fogo, isso sim. Mas agora não importa. Na hora fiquei tão chocada que não tive coragem
para reagir. Fomos embora, mas, assim que
chegamos em casa, disse a ele que era de você que eu gostava e que nunca mais desejava vê-lo.
O semblante de Marcelo distendeu-se:
- Você fez isso mesmo? Disse a ele que gostava de mim?
- Disse. Ele insistiu, ficou nervoso, mas eu não cedi.
- Por que não me procurou para dizer isso? Esperou todos estes dias?
- Queria procurá-lo logo no dia seguinte, mas tive vergonha. Soube que estava doente e fiquei muito preocupada. Hoje não
agüentei e resolvi ligar.
Mirtes abraçou-o e continuou:
- Não suportava mais a saudade de você! Diga que me perdoa e que vamos continuar nosso namoro!
Ele sentia o calor do corpo dela junto ao seu e o perfume gostoso de seus cabelos. Não resistiu e beijou-a nos lábios demoradamente.
Aquele beijo tinha para ele
um misto de prazer e de dor que não sabia descrever. Foi mais saboroso do que todos os outros. Decidiu:
13
- Vamos esquecer o que passou. Só espero que você nunca mais faça aquilo.
- Amanhã gostaria que fôssemos à festa de aniversário de Nicinha. Quero que todos vejam que, apesar de tentarem nos separar,
nosso amor é mais forte.
- Quer mesmo ir? E se Valdo estiver lá? Ele é amigo dela.
- Ele terá certeza de que não quero nada com ele.
Marcelo concordou. Seria bom mostrar àquele conquistador barato que era dele que Mirtes gostava de verdade, que só porque
Valdo era boa-pinta, tinha carro do ano,
dinheiro e fama de irresistível, todas as garotas suspiravam por ele. Mas Mirtes resistira. Mirtes preferira-o a ele e dissera-o
com firmeza. Sentiu-se um herói.
Ele levara a melhor, ficara com a menina.
- Está bem. Iremos.
Despediram-se no portão da casa dela. Depois que ele se foi, Mirtes entrou e encontrou a irmã à sua espera.
- Pelo jeito, você conseguiu! Nunca pensei que ele fosse tão bobo. Ela deu de ombros:
- Ele é fácil de manejar. Aquele sem-vergonha do Valdo vai ver só. vou passar ná frente dele aos beijos com Marcelo.
Alzira começou a rir:
- E você acha que ele vai ligar?
- Valdo verá que não preciso dele. Tenho quem me queira.
- Se ele estiver com aquela loira com quem estava ontem, nem vai enxergar você.
- Chega de falar nela. Só em pensar, o sangue me sobe.
- Você é boba de se iludir com Valdo. Ele é volúvel e nunca se interessou a sério por ninguém. Dizem até que ele anda com
aquela mulher casada que sempre aparece
ná revista. Como é mesmo o nome dela?
- Não acredito em nada disso. É intriga. Inveja dos rapazes, por ele ser tão bonito e rico. Se soubesse como ele beija...
- É assim que ele faz. Assanha as meninas e depois as larga. Se eu fosse você, tirava esse cara do pensamento. Ele não serve
para nada. É fútil e mulherengo. Deixou-a
tão apaixonada que você está metendo os pés pelas mãos. Seria mais decente se deixasse Marcelo em paz. Ele é pessoa de boa-fé,
não merece ser enganado dessa forma.
Mirtes deu de ombros:
- Quem manda ser bobo? O mundo é dos espertos. Ele que aprenda a se defender. Estou fazendo o que acho bom para mim.
14
Valdo me desprezou, e não vou deixar isso passar tão facilmente. Ele ainda vai voltar, você vai ver.
- Não creio. Ele não serve para você. Insistir só vai lhe causar aborrecimento.
- Vire essa boca para lá. Você nunca concorda com o que faço.
- Só faz coisas erradas e sempre acaba se machucando. Quando vai aprender?
- Quem é você para saber o que é bom para mim? É mais nova do que eu e acha que sabe mais.
- Tudo bem. Não está mais aqui quem falou. Faça como quiser. A vida é sua. Se preferir um abacaxi, terá de descascá-lo.
Mirtes virou as costas e foi para o quarto. Precisava pensar no vestido que usaria ná festa de Nicinha. Tinha de ficar linda!
No dia seguinte, Marcelo voltou ao trabalho. Gérson, em companhia de outros colegas, estava conversando ná porta de entrada.
Vendo Marcelo aproximar-se, perguntou
com ar de deboche:
- Então, já curou a dor-de-cotovelo?
Marcelo parou, sorriu com ar de superioridade e respondeu:
- Que dor-de-cotovelo?
- A que o deixou de cama todos estes dias. Ou foi a vergonha? Enquanto os demais sorriam maliciosos, Marcelo tornou:
- Para seu governo, o que eu tive foi uma intoxicação.
- É, engolir a raiva intoxica mesmo. Marcelo ficou sério:
- Olhe aqui. Não gosto dessas insinuações. É bom que saibam a verdade. Valdo convidou Mirtes para ir ao cinema, ela ficou
tentada e foi. Mas foi até bom, porque
ela percebeu que ele não é nada do que as garotas dizem por aí. Reconheceu que é de mim que ela gosta. Deu o fora nele e
veio correndo me pedir perdão.
- Ha ha! E você, claro, perdoou. Essa, contando ninguém acredita! Só você mesmo!
- Você diz isso porque está decepcionado. Correu a me chamar para ver os dois saindo do cinema. Está claro que deseja nos
ver separados. Por quê? Está interessado
nela?
- Essa eu não quero nem coberta de ouro. É mentirosa, interesseira. Como pode ser tão confiante? Sabe o que mais? Logo no
dia seguinte em que eles foram ao cinema,
Valdo conheceu uma loira fenomenal e se agarrou nela. Desde esse dia não a largou mais. Foi isso. Mirtes não deu o fora
nele. Foi ele que a largou, como faz com
15


todas. O que ela não quer é ficar ná mão. Como não deu certo, voltou para você correndo. Afinal, mais vale um pássaro ná
mão do que dois voando...
Não adianta falar com você. Depois, ninguém tem nada com minha vida. Sei o que estou fazendo. E sabe o que mais? Está

ná hora de trabalhar. vou entrar.
Marcelo afastou-se, mas ainda ouviu alguns comentários que eles fizeram entre si e sentiu-se humilhado. Seria verdade mesmo?

Mirtes teria mentido?
Sentiu vontade de ligar para ela e desfazer o compromisso da noite. O que eles falavam podia ser verdade. Valdo era assim
mesmo. Um sentimento insuportável de fracasso
o acometeu. Mirtes só o procurara porque fora desprezada.
De certa forma, sentia-se vingado. Ela preferira o outro e fora abandonada. Bem feito! Teve vontade de acabar com o namoro

e mostrar para os colegas que ele não
se deixara enganar pelas lágrimas dela.
Mas e se ela estivesse arrependida mesmo? E se ela, ao compará-lo com Valdo, houvesse percebido sua sinceridade, sua bondade,

e o estivesse valorizando? Ele era
um moço honesto, amoroso, sincero, enquanto Valdo era farrista, volúvel. Certamente Mirtes voltara a procurá-lo porque reconhecera

suas qualidades.
Resolveu deixar tudo como estava. Iria ao aniversário de Nicinha com ela.
A festa estava animada, e, assim que entrou, Marcelo notou que os colegas presentes comentavam entre si. Mirtes estava linda.

Nunca a vira tão bela e elegante. Diante
de sua admiração, ela dissera:
Esta é uma noite especial. Temos de comemorar. Desejo que todos saibam quanto nos amamos e que estamos mais unidos do
que nunca!
Ele se sentia orgulhoso e comovido. Ela se embelezara toda para ele! Fora ao cabeleireiro, vestira-se com apuro. Era a
moça mais bonita da festa. Ela tinha razão:
todos precisavam saber que era dele que ela gostava.
Satisfeito, Marcelo cobria-a de atenções e ela correspondia mostrando-se amorosa como nunca.
Quando Valdo entrou, Marcelo notou o murmúrio entre as mulheres. Estava acompanhado por uma loira muito elegante e bonita.

Apesar de sentir uma ponta de ciúme, Marcelo
foi forçado a reconhecer que era uma mulher maravilhosa. Ouviu alguém dizer:
16
É aquela modelo alemã que está estreando como atriz. Veio filmar no Brasil algumas cenas do filme que está fazendo. Como
é mesmo o nome dela?
Ninguém sabia ao certo. Mirtes fez o possível para encobrir o despeito. A entrada triunfal deles deixou-a de mau humor.

Agarrou-se a Marcelo dizendo:
Vamos dançar, venha.
O conjunto tocava uma música romântica e Mirtes agarrou-se a Marcelo, encostando o rosto em seu peito. Ele sentia o corpo
dela colado ao seu e só tinha olhos para
ela. Nem sequer notou que Mirtes de vez em quando olhava furtivamente para os lados, procurando saber onde Valdo estava.
De mãos dadas com a loira, Valdo conversava animadamente com os pais da aniversariante. Seu sucesso não era só com as
mocinhas, mas também com os mais velhos.
Onde quer que aparecesse, era sempre bem recebido. As pessoas apressavam-se em cumprimentá-lo, dar-lhe atenção. Os garçons

serviam-no melhor e em primeiro lugar.
Pararam de dançar e Marcelo notou que os olhos de Mirtes acompanhavam Valdo, detendo-se nele. Sentiu um aperto no peito.

Não se conteve:
Você não tira os olhos de Valdo.
Estava olhando para ela. Ouvi alguns comentários no toalete.
É linda! E ele parece muito interessado nela.
É, mas logo ela volta para a Europa e ele vai ficar ná mão.
Bobagem. Ele trabalha ná empresa da família, tem dinheiro. Se quiser, pode ir atrás dela. Pelo jeito, é o que vai acontecer...
Ela se irritou:
Não sei o que vocês vêem nessa loira aguada! Só porque ela é artista, todo mundo fica logo de queixo caído. Pois para
mim isso não vale nada. É uma mulher comum,
como qualquer outra.
Você não tem por que sentir ciúme dela, afinal é muito bonita também. Para mim, você é até mais bonita do que ela!
Conheço você! Diz isso só para me agradar. Pois não precisa, ouviu? Seu fingido! Não gosto de mentiras. Não pode deixar

de ser bonzinho pelo menos uma vez ná vida?
Por que está brigando comigo? O que foi que eu fiz? Ela fez um gesto de contrariedade e respondeu:
Nada. Você nunca faz nada. É perfeito. Esta festa está uma porcaria. Vamos embora. Não agüento mais isto.
Espere aí. Até agora a festa estava maravilhosa. O que mudou?
17
Nada mudou. Eu quero ir embora.
Saíram. Durante o trajeto, Mirtes ia calada e pensativa. Valdo não pareceu sequer tê-la notado. Era irritante a maneira
como ele olhava para a loira e o sucesso
que ele fazia em todos os lugares.
O que mais irritava Mirtes era que ele parecia não fazer nada e, no entanto, as pessoas circulavam à sua volta como abelhas
no mel. Era muita sorte! Ela nunca vira
uma pessoa tão privilegiada!
Marcelo tentou conversar:
Não entendo você. Estava tão animada, cheia de amor, de carinho. De repente mudou: achou tudo ruim, ficou mal-humorada.

Aconteceu alguma coisa que não VÍ?
Aconteceu, sim. Aconteceu que de repente aquela festa ficou sem graça. Esperava tanto desta noite... Estou decepcionada.

Não tenho vontade de conversar.
Não é possível. As pessoas não mudam assim de uma hora para outra. Deve haver uma razão. Gostaria que contasse.
Estou com sono. Quero chegar logo em casa.
Ele acelerou o carro e em poucos minutos chegaram. com um beijinho ligeiro ná face e um boa-noite, Mirtes desceu do carro,

abriu o portão do jardim e entrou sem
olhar para trás.
Marcelo ficou aborrecido. O que estaria acontecendo com ela? Por que aquela mudança com relação a ele? Teria ficado com
ciúme de Valdo?
Sentiu um aperto no peito. Não. Ele se recusava a acreditar naquilo. Mirtes demonstrara que era dele, Marcelo, que ela gostava.

Fora carinhosa como nunca. Ele preferia
acreditar que ela realmente se sentira cansada e se entediara ná festa.
Ele mesmo sentira-se incomodado com as atenções que todos davam a Valdo. Não era justo. Só porque ele era rico e tinha
boa aparência, todos o cumulavam de gentilezas.
Nem os donos da casa sabiam o que fazer para agradá-lo. Desde que apareceu, ele havia sido o centro das atenções. De uma
forma ou de outra, todos se interessaram
pelo que ele falava, fazia, com quem ele estava, como estava vestido.
Era o cúmulo. Pensando bem, lá estavam rapazes bem vestidos e tão bonitos quanto ele. Por que as pessoas o endeusavam?
Sentiu uma ponta de inveja. O que ele tinha que os outros não tinham? Ele não era rico como Valdo, mas sua família era de
classe média. Seu pai era um executivo
que trabalhava para uma grande empresa, com alto salário.
18
Ele mesmo havia se formado administrador de empresas, trabalhava havia três anos em uma conceituada firma, com bom salário

e acentuadas possibilidades de progresso.
Havia começado lá quando cursava o último ano da faculdade, já pensando ná possibilidade de fazer uma carreira em sua área.
Tinha consciência de que era um bom partido para qualquer moça. Formara-se aos vinte e quatro anos, estava bem empregado,

era generoso, correto, delicado, honesto,
gentil. Por que ninguém reconhecia isso e tinha sempre de levar a pior? Por que Valdo, que era leviano e não levava nada
a sério, era sempre bem-visto?
E, ao contrário de Marcelo, Valdo nem precisou conquistar um emprego, uma vez que trabalhava nas empresas do pai, o que
eqüivale a dizer que não tinha de se esforçar.
Aliás, já ouvira comentários de que ele nem precisava cumprir horário. Podia dormir tarde, que no dia seguinte só comparecia
ao trabalho depois do almoço.
Marcelo chegou em casa desanimado e triste. A vida era injusta. Fora visível a mudança de Mirtes depois que Valdo chegou
à festa com a loira.
Um pensamento incomodou-o: teria ela se embelezado toda por causa de Valdo? Estaria, como tantas, interessada nele?
Nesse caso, seria melhor acabar com o namoro. Não se sentia disposto a conviver com essa desconfiança. Seus amigos tinham
razão. Ela o usara e ficara mal-humorada
porque as coisas não saíram como ela gostaria.
Deitado em sua cama sem poder dormir, Marcelo percebeu tudo com clareza. Ela era falsa e interesseira. Gérson estava certo.

Ele fora um fraco.
Remexeu-se ná cama e o sangue subiu em seu rosto. Por que não reagira quando os viu saindo do cinema? Ele não era covarde.

Por que ficara parado e engolira a afronta?
Ele precisava reagir. Estava cansado de ser desvalorizado, passado para trás, deixado de lado. Dali para a frente seria
durão. Não deixaria passar nada. Se alguém
o ofendesse, responderia à altura. Precisava mostrar a todos que não era o covarde que parecia ser.
Mirtes iria ver que ele não era o bobo que ela imaginava. Confortado por esse pensamento, finalmente conseguiu adormecer.
19



Valdo remexeu-se ná cama, consultou o relógio ná mesa de cabeceira e tentou reagir. Precisava se levantar. Havia dormido
muito tarde ná noite anterior, mas mesmo
assim não podia perder a hora.
Fez um esforço, levantou-se, tomou um banho rápido, engoliu o café sem muita vontade, mais para ajudar a acordar, pegou
o carro e saiu. Passava das nove, e ele costumava
chegar ao escritório da fábrica no máximo às nove e meia.
Antes desse horário, ele já estava em seu escritório, pronto para tomar conhecimento dos assuntos do dia.
Seu pai o colocara ná empresa desde menino, orientando-o sobre os negócios, fazendo-o conscientizar-se de que tudo aquilo
lhe pertencia por direito.
Desde cedo o garoto demonstrou interesse pelo trabalho, facilidade para aprender, vontade de assumir os negócios no futuro.
21
Tornou-se assim motivo de admiração e orgulho do pai, Dr. Péricles, que com a morte de seu pai recebera uma herança que
daria para ele e a família viverem pelo
resto da vida sem precisarem trabalhar.
Mas Péricles era jovem e cheio de ideais. No ano de 1945 a guerra havia terminado e o mundo estava passando por grande transformação.

Por toda parte havia grande
euforia, e tanto o comércio quanto a indústria cresciam vertiginosamente. As descobertas científicas ocorridas durante os
anos de guerra apareciam nos projetos empresariais,
tornando o progresso acessível a todos.
Péricles, depois de uma viagem aos Estados Unidos, ficou fascinado com o que viu por lá, onde, além dos aparelhos de rádio,

despontava a televisão.
Ele ficava empolgado ao passar pelas lojas em Nova Iorque, vendo o povo parado em êxtase diante de uma vitrine onde havia
um aparelho de televisão ligado. Era caro,
mas ele sabia que em pouco tempo as pessoas fariam tudo para ter um em casa.
Quando voltou ao Brasil, resolveu montar uma fábrica de aparelhos de rádio. Adquiriu um grande terreno e construiu um prédio
pequeno onde começou a fabricar material
elétrico.
Engenheiro civil por formação, ele sabia que o elemento técnico era importante para sua empresa. Contratou gente jovem,

tão interessada quanto ele em pesquisas e
novas abordagens.
O crescimento de seus negócios foi vertiginoso. Quando se casou com Almerinda, já era conhecido nos meios empresariais
como um profissional honesto, capaz e respeitado.
Os aparelhos de rádio e eletrodomésticos que montava, fabricava e vendia eram muito apreciados. Todos os anos lançava novos
modelos mais aperfeiçoados que faziam
estrondoso sucesso.
Nesse ambiente de progresso e otimismo nasceu Valdo. Era nátural que o entusiasmo de seu pai o contagiasse. Desde cedo aprendeu
os segredos da eletrônica, e, embora
conhecesse muito, não parou ali. Formou-se administrador de empresas com a aprovação dos pais, que pretendiam que ele gerenciasse
a companhia.
Rapaz bonito, inteligente, alegre e agradável, conquistava admiração e amizade onde quer que fosse. Havia nele certo carisma

que o tornava muito atraente.
Apesar de bajulado e incensado pela maioria das pessoas, Valdo não se impressionava. Para ele, a admiração delas era natural.

Reconhecia que tinha boa aparência,
dinheiro, inteligência e pais maravilhosos.
22
Tratava todos com respeito, sem fazer diferença entre uma pessoa humilde e uma de posição. As mulheres apaixonavam-se
por ele com facilidade, o que fazia Almerinda
recomendar:
Tenha cuidado, meu filho. Não alimente as ilusões delas. Você andou saindo com a filha do Dr. Isidoro, e, quando parou
de vê-la, ela ficou mal. Falou até em suicídio.
Dona Margarida me contou.
Saí com Dorinha duas vezes apenas. Notei que ela havia colado em mim, e por isso resolvi não a ver mais.
Ela não se conforma.
O que posso fazer? Ela era bonita, e desejei conhecê-la melhor. Mas assim não dá! Ela ficou toda derretida e melosa. Não
é isso que quero de uma mulher. Não sei
o que essas moças têm. Saio uma vez ou duas e elas logo falam em namorar firme, vir aqui em casa. Dão a impressão de que
querem agarrar um marido a qualquer preço.
Eu escapo, é claro.
Isso é verdade. As moças deveriam ser mais esclarecidas, conhecerem melhor um rapaz antes de pensar em namoro sério.
É por isso que eu às vezes procuro mulheres mais adultas e mais livres para me relacionar. Faço jogo aberto e não engano
ninguém.
Eu sei, filho. Mas isso também me preocupa. Um dia você vai se casar, formar uma família. Precisa conhecer uma moça boa
e digna.
Tenho tempo, mãe. Ainda não penso nisso. Quero dedicar-me aos negócios, viajar, buscar tecnologia de ponta para nossos
produtos.
Essa era a melhor forma de convencer Almerinda a não se envolver com os assuntos sentimentais do filho. Depois, ela se
sentia envaidecida com o sucesso que o filho
fazia em todos os lugares.
Valdo sentou-se à escrivaninha disposto a examinar um contrato vultoso que estava negociando com uma empresa americana.

O telefone tocou e ele atendeu:
Alô.
Uma voz de mulher falou em inglês com sotaque alemão:
Como vai, Valdo? Estou de partida hoje à noite. Gostaria de vê-lo antes de ir. Pode passar aqui no hotel?
A que horas é o vôo?
Às onze.
Terá de estar no aeroporto às nove. Está bem, passarei em seu hotel às cinco e meia.
Não pode ser antes? Pensei em uma despedida especial...
23
Lamento, Helen, mas tenho uma reunião importante logo mais e não sei a hora que vai terminar. Espero poder estar aí às
cinco e meia.
Ela suspirou e respondeu:
Está bem. Espero você.
Depois que desligou o telefone, Valdo ficou pensativo. Helen era bonita, agradável e modelo famosa. Desfilar com ela trouxera-lhe
mais popularidade. Por outro lado,
por estar com ele, ela fora introduzida ná alta sociedade paulistana, figurara nas revistas da moda. Fora lucrativo para
ambos. Mas seu interesse nela não ia além
disso.
Ele gostava de estar em evidência nos lugares da moda. Pensava que era uma maneira de tornar os produtos de sua marca sempre
lembrados. Aparecer em uma revista importante,
ainda que fosse em uma festa, tornava sua empresa lembrada, e a publicidade era gratuita.
Já ouvira comentários entre as pessoas:
Olhe o dono da Mercury. Por sinal, minha irmã tem um liqüidificador fabricado por eles.
Ficava satisfeito com isso, mas nunca forçava nada. Sua amabilidade para com as pessoas era natural. Sentia-se de bem
com a vida.
Já sua irmã Laura era muito diferente. Dois anos mais nova do que ele, era retraída, tinha dificuldade para relacionar-se.
Embora andasse sempre ná moda, freqüentasse os melhores lugares, convivesse com pessoas da classe A, ela se sentia pouco
à vontade. Nunca estava satisfeita com
sua aparência e por isso evitava tomar iniciativas ou aproximar-se mais das pessoas. ná solidão de seu quarto, sonhava em
vir a ser uma atriz, sexy, irresistível,
por quem os homens se apaixonassem.
Seu conceito de beleza era bem diferente do que ela via olhando-se no espelho. Não gostava de seu nariz. Achava sua boca
grande demais, o que a inibia de sorrir
para não chamar a atenção para ela. Além de tudo, seus cabelos castanhos e naturalmente ondulados eram rebeldes. Por mais
que os alisasse, acabavam voltando e estragando
o penteado.
Evitava maquiagem, acreditando que aquilo ressaltaria seus traços imperfeitos.
Almerinda tentava de todas as formas fazê-la entender que estava exagerando. Achava a filha bonita e não entendia por que
ela procurava parecer mais feia, evitando
tudo que pudesse torná-la atraente.
Várias vezes a levara a cabeleireiros famosos que haviam tentado mudar o corte de seus cabelos, esteticistas que aconselharam
o uso de maquiagem. A mãe comprava
os produtos, mas, chegando em casa, Laura recusava-se a usá-los, alegando que não se sentia bem com eles, voltando a ser
como era antes.
Preocupada, Almerinda conversava com o marido, que a aconselhava a esperar:
São coisas da adolescência. Isso vai passar.
Mas não passou. Ela havia completado vinte e dois anos e continuava igual. De vez em quando cismava que precisava fazer
uma plástica e ia consultar um cirurgião
famoso.
Contudo eles se recusavam a operá-la, alegando que seus traços estavam adequados a seu rosto e que não havia necessidade
de cirurgia. Alguns tentavam convencê-la
de que possuía um rosto bonito e agradável, que seria um crime tocá-lo.
Os pais concordavam; ela, porém, não. Uma amiga de Almerinda aconselhara-a a levar a filha a um psicólogo. Ela, porém, relutava.

Quando sugeriu uma consulta, Laura
ressentiu-se:
Sei que sou feia, mas louca não. Um psicólogo não vai poder mudar minha aparência.
Laura gostaria de ser como Valdo. Achava-o bonito, atraente, brilhante. Admirava-o. Tinha-o como seu ídolo. Costumava comentar
com os pais:
Não entendo como, tendo os mesmos pais, somos tão diferentes. Ele tem tudo, e eu nada. Não deixa de ser injustiça.
Minha filha, não diga isso. Você é muito bonita também. Se procurasse mostrar-se mais comunicativa, mais alegre, faria
tanto sucesso quanto ele. Mas você se retrai,
evita as pessoas, não se interessa. Como quer que elas a procurem?
Não me sinto à vontade. Sei o meu lugar.
Valdo gostava da irmã e procurara fazê-la perceber que estava errada. Mas, como ela mantivera sua atitude, mostrando-se
triste com a insistência dele, acabou por
não tentar mais nada.
Quando sua mãe comentava o assunto, ele dizia:
Mãe, não adianta. É assim que ela se vê.
Mas ela cultiva a infelicidade. É uma moça bonita, rica, instruída, tem tudo ná vida. E passa o tempo se escondendo, criticando-se,

julgando-se menos, alimentando
a infelicidade. É até pecado.
Paciência, mãe. Um psicólogo poderia ajudá-la, mas ela não aceita. Temos de respeitar.
25
Dói vê-la tão distanciada da realidade, perdendo os melhores anos de sua vida. A juventude passa logo e não volta mais.
Tem razão. Mas o que podemos fazer se ela não quer? Quando algum rapaz se interessava por Laura, esta o evitava
por considerar que tal aproximação era motivada pelo dinheiro de sua família. Ela não se acreditava capaz de despertar uma
paixão. Esse, no entanto, era seu maior
sonho.
Em suas fantasias, imaginava-se tão atraente e irresistível que os homens se apaixonavam perdidamente por ela, fazendo loucuras
para conquistá-la. Como essas fantasias
eram-lhe mais prazerosas do que a realidade, Laura consumia todo o seu tempo livre mergulhada nelas, ignorando o mundo à
sua volta.
Cursava faculdade de filosofia, ná qual tirava sempre as melhores notas. Estudava com afinco, acreditando que sua única
forma de sobressair era ser a primeira de
sua turma. Ficava muito irritada quando não conseguia a nota máxima.
Vestia-se de maneira sóbria, não mostrando interesse pelas novidades da moda que faziam o mundo mágico de suas colegas sempre
interessadas em tudo que as tornasse
mais belas.
Nunca tivera um namorado, e os que haviam se interessado por ela, não tendo encontrado reciprocidade, procuraram outras
garotas. Laura também não tinha amigas. Dava-se
bem com as colegas, mas nenhuma delas privava de sua intimidade.
O telefone tocou e Valdo atendeu:
Alô.
A telefonista respondeu:
Há um moço aqui ná recepção dizendo que é seu primo. O nome dele é Émerson de Menezes.
Émerson! Mande-o entrar!
Valdo levantou-se alegremente surpreendido.
A porta abriu-se e um moço alto, moreno, elegante, apareceu ná soleira. Aparentava uns trinta anos. Seus lábios entreabriram-se

em um largo sorriso.
Abraçaram-se com prazer.
Que bom vê-lo! Quando chegou?
Faz uma hora. Deixei as malas no hotel e vim. Estava ansioso por encontrá-los.
Sente-se e conte: por onde tem andado todos estes anos?
Não receberam meus cartões?
26
Vários. Cada um de um lugar.
Pois foi por onde andei.
Sempre me perguntei o que fez você sair assim pelo mundo, deixando aqui os parentes, os amigos, até Mildred, que sempre
pergunta de você.
Ela ainda não se casou?
Não. Tem muitos admiradores, mas quando nos encontramos dá a entender que ainda espera por você.
Os olhos castanhos de Émerson brilharam, mas ele mudou de assunto:
E vocês, como vão?
Em casa tudo ná mesma. Nestes oito anos que você esteve fora nada mudou. Sempre me intrigou essa sua vontade de sair pelo
mundo em busca de aventuras. Encontrou
o que procurava?
Aprendi muito, e isso foi o mais importante.
Nos últimos dois anos você não mandou nenhum cartão. Mamãe várias vezes mencionou esse fato, preocupada.
Lamento. Mas é que fiquei três anos no mesmo lugar.
Onde?
Em uma pequena cidade da índia.
Fazendo o quê?
Estudando em um mosteiro. Foi maravilhoso. Esse período mudou completamente minha visão da vida, das pessoas e do mundo.
Então resolveu voltar. Vai ficar por aqui?
Sim. Os monges me mandaram embora alegando que eu precisava experimentar o que aprendi lá. Achei melhor voltar para casa.
Ótimo. O que pensa fazer?
Primeiro, ver como andam os negócios.
Meu pai tem cuidado de tudo muito bem. Acho que duplicou seus bens. Sempre se preocupou com sua falta de notícias. Desejava
mandar-lhe dinheiro e prestar contas,
mas você nunca quis.
Tinha certeza de que tudo estava em boas mãos.
Nós não entendemos como pôde viver tanto tempo sem pedir dinheiro.
Trabalhei e aprendi a viver só com o necessário, o que foi ótimo. Quando saí daqui, pretendia enriquecer meu espírito.

A experiência foi muito boa.
Você veio para ficar. Quais são seus planos?
Primeiro preciso me instalar. Depois veremos.
27
Você não vai ficar em um hotel. Vamos agora mesmo buscar suas malas. Você ficará em nossa casa.
Não quero incomodar.
Nem fale nisso. Mamãe ficará ofendida. vou dar um telefonema e depois iremos ao hotel. Deve estar cansado da viagem, mas
assim que descansar vai contar-me detalhes
de como passou todos estes anos. Estou curioso.
Émerson sorriu e respondeu:
Não há muitas coisas. Embora os costumes sejam diferentes de país para país, as pessoas são muito parecidas. Os desafios,
as emoções, os conflitos e os sonhos
são os mesmos em toda parte. Foi por isso que decidi voltar. Minha vontade de andar pelo mundo acabou quando descobri isso.
Vai encontrar nossa cidade um pouco diferente. Mais movimentada, mais moderna.
Notei algumas mudanças. É natural. Mas, creia, as aparências mudaram, porém a essência permanece a mesma.
Valdo olhou-o admirado.
Você está diferente. Não sei bem o que é, mas você mudou. Émerson riu bem-humorado.
É só ná aparência. Fiquei mais velho. No fundo, continuo o mesmo.
Valdo ligou para casa contando a novidade. Depois saiu com Émerson para buscar sua bagagem no hotel.
Embora se tratassem por primos, não havia parentesco de sangue entre eles. A mãe de Émerson, tendo ficado órfã, fora criada
pela mãe de Almerinda e as duas haviam
se tornado inseparáveis mesmo depois que ambas se casaram. Os dois maridos também se tornaram muito amigos, e Émerson crescera
em convivência estreita com Laura
e Valdo.
Quando os pais de Émerson morreram em um acidente de avião, ele estava com dezesseis anos. Era filho único, e, como não
tinha outros parentes, Péricles assumiu
sua tutela e foi nomeado administrador de seus bens pelo juiz. Émerson, chocado pela morte repentina dos pais, traumatizado,
concordou em residir ná casa de seu
tutor, onde recebeu carinho e apoio.
Quando Émerson completou a maioridade, Péricles sugeriu-lhe que assumisse o controle de seus haveres, mas o rapaz pediu-lhe
que continuasse a administrá-los, dizendo-se
inexperiente.
Inteligente, arguto, questionador, não se conformava com a
28
dramática morte dos pais. Aconselhado por Péricles a cursar a universidade, interessou-se por filosofia, mas, depois de três
anos de curso, um dia chegou em casa dizendo
que a faculdade não estava sendo satisfatória.
Almerinda e Péricles tentaram impedi-lo de interromper o curso, mas foi inútil. Alegando que nele não havia encontrado as
respostas que procurava, decidiu que iria
viajar, partir em busca do conhecimento que lhe faltava.
Péricles fechou-se com ele no escritório, pedindo-lhe que desistisse da idéia.
Termine o curso, Émerson. Depois, se desejar viajar, vá. Mas é uma pena interrompê-lo quando faltam apenas dois anos para
completá-lo.
Pensei muito, tio. Noto que a vida não é como nos ensinam. As religiões, os intelectuais, os filósofos, cada povo têm
suas próprias crenças. Onde encontrar a verdade?
Onde buscar explicações para tantas injustiças que acontecem todos os dias no mundo?
A vida tem seus mistérios - considerou Péricles. Se os grandes pensadores divergem entre si, se os intelectuais não
descobriram quem tem razão, você acredita
que conseguirá resolver esse enigma? Não será melhor aceitar os limites que todos temos para entender certas coisas e tentar
viver o melhor que for possível?
Émerson meneou a cabeça negativamente.
Eu não me conformo, tio. Preciso saber mais. Em meio a tantas questões, opiniões e crenças, sinto que preciso desenvolver
meu discernimento. E a única maneira
que há para isso é experimentar.
Experimentar? Como?
Estudando a vida. Prestando atenção em como ela funciona, como age.
Nunca ouvi uma coisa dessas! Você fala como se fosse possível entender a vida! Não será muita pretensão?
Não, tio. Não sou materialista. Embora não seja religioso, reconheço a perfeição da natureza, o equilíbrio do universo.
Sinto que em tudo há uma força de comando
que age, alimentando tudo e todos.
Você fala de Deus.
Falo da fonte da vida. Do criador de tudo. Pode chamar de Deus, se quiser. Essa força comanda tudo, dirige o universo.
Deve ter um propósito. A vida ná Terra não
pode ser apenas isso que vemos todos os dias. Deve haver algo mais que justifique tantas lutas e
29

sofrimentos. Um universo tão belo e perfeito não pode existir apenas para que nossos olhos o contemplem e paguem por isso o
preço da dor. Deve haver algo mais, fatos
que ainda não conseguimos ver mas que existem e podem nos dar a chave de tudo.
Acho difícil isso. Depois, de que adianta saber, se tudo no mundo continua do mesmo jeito?
Esse é o ponto mais importante. Será que se descobrirmos essa chave não encontraremos uma forma melhor de viver? Não poderemos
criar um mundo melhor, mais harmonioso
e feliz?
Péricles sacudiu a cabeça negativamente.
Não entendo você. Por causa de um questionamento filosófico quer abandonar sua carreira, sair por aí sem rumo, em busca
de uma ilusão.
Ao contrário. O que eu quero é sair da ilusão, ir procurar a verdade, onde ela estiver.
Não sei como chegou a essa conclusão. Um rapaz como você, amante dos livros, que tem estudado os grandes pensadores...
Foram eles que me mostraram a que enganos a lógica humana pode nos conduzir. Por meio da lógica podemos chegar às maiores
loucuras.
Dessa vez você exagerou. Quer invalidar o trabalho de grandes homens?
Não. O que quero é conhecer a vida por mim mesmo. Preciso fazer isso, e o momento é agora.
Vejo que está determinado.
Estou.
Nesse caso, desisto.
Émerson deixou a universidade, comprou passagem para a Europa, deixou Péricles cuidando de seus bens, apanhou uma boa quantia
em dinheiro e partiu.
Sua família adotiva esperava que ele logo se cansasse e voltasse. Mas isso não ocorreu. Durante sua ausência e a falta de
notícias, muitas vezes perguntavam-se onde
ele estaria. De vez em quando um cartão carinhoso contava por onde ele andava.
Agora, após oito anos, ele estava de volta para ficar. Era com ansiedade e certa curiosidade que a família toda o esperava
chegar.
Quando ele e Valdo chegaram em casa, Almerinda esperava-os ná entrada, ansiosa. Abraçou Émerson comovida, dizendo alegre:
Que bom que está de volta! Senti muita saudade, meu filho! Como pôde ficar tanto tempo fora de casa?
30
Eu precisava conhecer outras coisas.
Espero que tenha voltado para ficar.
Sim. Não pretendo viajar tão cedo.
Ainda bem. É uma boa notícia.
Vamos conversar ná sala. Quero saber tudo que têm feito durante estes anos todos.
Valdo interveio:
Mãe, ele chegou hoje de viagem. Deve estar cansado.
Desculpe, meu filho. Que distração a minha. Talvez queira descansar primeiro.
Não, tia. Estou bem.
Dirigiram-se para a sala enquanto Almerinda dizia:
Laura ainda não sabe. Saiu logo cedo, mas virá para o almoço. Vai ter uma surpresa e tanto. Já avisei Péricles, que deve
estar chegando.
Sentaram-se ná sala e Émerson indagou:
Como estão todos?
Bem. Apesar do tempo decorrido, não vai encontrar muita diferença. As pessoas continuam as mesmas. O que pensa fazer agora?
Vai voltar à faculdade?
Não. Por enquanto vou assumir meus negócios. Chega de dar trabalho ao tio.
Apesar de não me dar trabalho fazer isso, reconheço que você precisa cuidar do que é seu.
Émerson levantou-se alegre:
Tio! Que bom vê-lo!
Péricles abraçou o rapaz com carinho. Gostava dele como se fosse seu filho. Assim que soube de sua chegada, largou tudo
para ir abraçá-lo.
Depois de algumas palavras de boas-vindas, Péricles perguntou:
O que pensa fazer? Quando cheguei, você dizia que não pretende voltar à faculdade.
Não mesmo. No momento desejo conhecer minha situação financeira, meus recursos, enfim, saber como estão as coisas e com
que posso contar. Depois, decidirei o
que fazer.
Bem pensado. Estou pronto para informá-lo de tudo, bem como ajudá-lo a gerenciar seus recursos.
Agradeço, tio. vou precisar mesmo.
A conversa fluiu alegre e fácil. Émerson falou dos lugares que havia conhecido, cujos costumes eram muito exóticos, e eles

31
ouviram com interesse. Falava com vivacidade, e seus olhos brilhavam vibrantes, envolvendo os presentes com a magia de sua
voz agradável, sua figura bonita, seu
entusiasmo.
Laura chegou sem que ninguém notasse, e ficou parada ná porta da sala sem coragem de interromper a narrativa, como que magnetizada.
Foi Émerson quem notou sua presença. Interrompeu o que estava dizendo, levantou-se e foi abraçá-la, dizendo:
Laura! Como vai?
Bem - respondeu ela enquanto se esforçava para controlar a emoção.
Você ficou muda! comentou Valdo.
Foi a surpresa - balbuciou ela, ainda confusa. Depois, não quis interromper a narrativa. Parecia tão interessante!
Émerson continuava abraçado a ela e conduziu-a para o seu lado no sofá.
Venha. Eu falo demais. Agora quero ouvir você. Ela deu de ombros:
Não há nada para contar. Em minha vida tudo continua igual. Nada mudou. Aliás, faz tempo que não acontece nada. As mesmas
pessoas em volta, as mesmas coisas. Não
há o que contar.
A criada avisou que o almoço estava servido, e eles se dirigiram à copa. Laura respirou aliviada. Não gostava de ser o centro
da conversa. Disfarçadamente, observava
Émerson. Voltara ainda mais bonito. Ele havia sido seu primeiro amor, nunca revelado a ninguém. Ela contava nove anos quando
ele fora morar em sua casa e desde os
doze se sentia atraída por ele.
Émerson tratava-a com carinho e amizade. Ela se sentia gratificada por isso. Logo notou como ele atraía a atenção das garotas
onde quer que fosse e muitas vezes
chorou de ciúme às escondidas.
Quando ele começou o namoro com Mildred, ela tentou conformar-se. Afinal, Mildred era bonita, alegre, disputada pelos rapazes,
enquanto ela era criança ainda, sem
graça e sem atrativos.
Às vezes imaginava-se mais velha, mais bonita, mais sensual, e via Émerson deixar Mildred e vir para ela, abraçando-a, beijando-a.
Depois, olhava-se no espelho e caía novamente em depressão. Ela nunca seria como a rival, e Émerson nunca viria a amá-la.
Quando ele resolveu viajar, ela sabia que iria sentir saudade, mas gostou de saber que ele havia terminado o namoro com
Mildred antes de partir.
O tempo passou e aquela atração da adolescência esmaeceu. Laura acreditou que houvesse sido apenas uma fantasia de menina.
Mas a emoção que sentiu vendo-o sentado
ná sala deixara-a surpreendida e sem palavras. Suas pernas tremeram, seu coração descompassou.
Ele voltara mais maduro, mais bonito. Ganhara em expressão. Em seus olhos havia um brilho diferente que ela logo notou e
que fez seu coração bater mais forte.
Estava difícil prestar atenção ao que diziam. A única coisa em que ela pensava era que ele havia voltado e, desta vez, para
ficar.
Depois do almoço, quando ele subiu para o quarto para desfazer as malas, Valdo ia segui-lo, mas Laura o deteve, perguntando
baixinho:
Mildred sabe que ele voltou?
Acho que não.
Émerson subiu e ela ficou ná sala, pensativa. Se ele não avisou Mildred de sua chegada, talvez não pretendesse reatar o
namoro. Ela nunca o esquecera. Tivera alguns
namorados, nada sério. Sempre que Mildred encontrava Laura, desabafava perguntando se tinham recebido notícias de Émerson,
se sabiam quando ele voltaria.
Ele nunca escreveu para ela. Aliás, não escreveu para ninguém. Para a família, mandava os cartões e só. Mas Mildred não
o esquecia. Dizia que não havia perdido as
esperanças, que iria esperar sua volta e que, quando ele voltasse, se casariam e viveriam felizes.
A esse pensamento, Laura estremecia. E se ele resolvesse reatar o namoro? E se houvesse voltado pensando em casar-se, ter
uma família?


Mildred continuava bonita e requestada. Era atraente e sensual. Por onde passava, sua beleza chamava a atenção. Por que não
se apaixonara por outro?
Se Laura ao menos fosse atraente como Mildred! Mas seu tipo era comum, sem graça, nunca poderia competir com ela!
Ah, se ela fosse bonita como gostaria de ser! Se seu corpo fosse escultural, seus cabelos maravilhosos, seus olhos grandes
e brilhantes... Se ela fosse charmosa
o bastante para chamar a atenção aonde fosse e os homens a perseguissem encantados... Daria tudo para ser bonita e poder
conquistar o amor de Émerson.
Ele a procuraria, diria que a amava. Ela, rodeada de rapazes, largaria todos para ficar com ele. E eles se casariam e seriam
felizes para sempre!
33
Suspirou triste. Infelizmente aquele sonho nunca se realizaria. De que adiantava sonhar se a realidade era bem outra?
No quarto, Émerson desfazia as malas enquanto Valdo falava das mudanças ocorridas quando ele esteve fora. Depois que falou
sobre todos os conhecidos, a política,
os amigos, as garotas, Valdo finalizou:
Não só Mildred mas também todas as outras vão adorar sua volta. Já estou até vendo o burburinho! Vão crivar-me de perguntas,
telefonar, convidar-nos para todas
as festas e inventar programas para nós. Vai ser uma loucura!
Émerson fixou-o e respondeu:
Espero que isso não aconteça. Pretendo levar minha vida de outra forma.
O que quer dizer? Você sempre gostou da vida social.
O tempo passa e as coisas mudam.
Não vai me dizer que pretende isolar-se.
Não disse isso.
E então?
Estive fora muito tempo. Desejo renovar amizades seguindo meus próprios critérios. Há muito deixei de ser convencional.
Você me surpreende. O que direi quando nos convidarem?
Diga que você não responde por mim. Aceite os convites, se quiser, mas deixe-me fora.
Valdo deu de ombros, dizendo:
Bem, se é assim que você quer...
Obrigado por entender.
É. Percebo que você está mudado mesmo.
Vendo que Émerson tirava alguns livros da mala e colocava-os ná estante, apanhou um deles dizendo curioso:
Você leu todos estes livros em inglês? - Li.
Você mal pronunciava algumas palavras em inglês quando saiu daqui.
É verdade. Tive de aprender. Quem viaja pelos países em que andei precisa pelo menos falar esse idioma. ná China, se não
fala chinês, pelo menos precisa do inglês.
Esteve ná China?
Estive. Esse pequeno livro é chinês.
Você lê chinês?
34
O suficiente para entender. Não falo corretamente. Prefiro o indiano. É mais fácil para mim.
Puxa. Quantos idiomas você fala? Émerson sorriu:
- Alguns. Agora preciso voltar ao português. Espero não ter misturado tudo.
Pensou no que vai fazer, já que não pretende voltar à faculdade?
Tenho alguns projetos e pretendo trabalhar neles.
Projetos? De quê?
Por enquanto são apenas idéias. Direi no momento oportuno.
Os dois continuaram conversando e Valdo, curioso, fazia o possível para que ele falasse sobre o futuro. No entanto, não
conseguiu saber mais nada.
35
Marcelo deu uma última olhada no espelho e constatou que estava mesmo muito elegante. Era sábado e ele havia combinado
de passar ná casa de Mirtes para irem ao
cinema.
Já não pensava mais em acabar com o namoro. Estivera decidido, mas Mirtes tratara-o com atenção naquela semana e ele mudara
de idéia.
Olhou o relógio e saiu apressado. Uma vez ná casa dela, tocou a campainha, esperando. Foi Alzira quem abriu a porta.
Oi, Marcelo. Como vai?
Bem, Alzira. E você?
Bem. Veio procurar Mirtes?
É. Combinamos ir ao cinema hoje. Ela hesitou, depois disse
Sinto muito, Marcelo, mas ela mandou dizer que não poderá ir.
Aconteceu alguma coisa?
Ela está com uma tremenda dor de cabeça. Foi se deitar. Pediu que a desculpasse. Amanhã ela lhe telefona.
37
Marcelo sentiu raiva, mas controlou-se. Seu rosto cobriu-se de rubor. Alzira apressou-se em dizer:
Sinto muito, Marcelo.
Ela poderia pelo menos ter me ligado, assim me pouparia de vir até aqui.
Tem razão. Mas sabe como Mirtes é: decide ná última hora.
Decide o quê? Ficar doente?
Não é isso que eu quis dizer. Ela ficou mal de repente. Não dava para telefonar. Você já devia ter saído...
Está bem. Diga-lhe que desejo melhoras. Boa noite.
Boa noite.
Alzira fechou a porta e subiu. Mirtes, diante do espelho, retocava a maquiagem.
Nunca mais me peça para fazer esse papel com Marcelo. Se não gosta dele, por que não acaba esse namoro de uma vez? Você
o faz de bobo. Ele não merece.
Você deu agora para defender os mocinhos desamparados? Fique sabendo que não tenho pena de homem nenhum. Eles, quando podem,
passam por cima de nossos sentimentos
com facilidade.
Marcelo é um rapaz bom
Parece. Garanto que qualquer dia vai mostrar as garras. Eu é que não vou nessa. Onde já se viu?
O que você está fazendo não está certo. Por que combinou com ele se não pretendia ir?
Eu pretendia. Mas depois apareceu aquele moreno fantástico e eu não ia perdê-lo por causa de Marcelo.
Lembra-se de Valdo? Pode acontecer o mesmo. Você se ilude com rapazes finos, de classe. Eles não se interessam por moças
de bairro, como nós.
Bobagem. Um homem, quando se apaixona, casa-se com qualquer uma. Eu pretendo um casamento rico. Não quero acabar como
mamãe, frustrada e pobre.
Que exagero. Não nos falta nada.
Para você, que se contenta com pouco. Não eu.
Já pensou se Marcelo desconfia e fica vigiando a casa? Ele não ficou nada satisfeito com seu recado.
Mirtes deu de ombros.
Se ele nos surpreender, não me importo. Ele é incapaz de reagir mesmo. Passei perto dele de braço dado com Valdo e ele
não fez nada. E ainda me perdoou.
38
Alzira meneou a cabeça negativamente:
Você não tem jeito mesmo.
Mirtes deu um retoque ná maquiagem, uma última olhada no espelho e sorriu satisfeita.
Hoje vai ser uma beleza. Estou muito bem. Garanto que o moreno não vai resistir.
Ela saiu e Alzira ficou observando-a pensativa, vendo-a entrar no luxuoso carro que a estava esperando ná esquina.
Não entendia como Mirtes, agindo de forma tão leviana, fazia mais sucesso do que ela, que era sincera e bem intencionada
com os rapazes. As pessoas costumavam dizer
que ela era tão bonita quanto a irmã mas não tinha tanta sorte quanto ela. Mirtes era muito requestada, nunca ficava um
fim de semana sozinha. Sempre havia alguém
lhe telefonando, convidando para sair.
Alzira foi para o quarto e olhou-se no espelho. Sabia que era bonita, elegante, cuidava da aparência, então por que estava
sempre só? Saía com as amigas, coisa
que sua irmã nunca fazia. com Alzira, Mirtes só ia às compras ou aos lugares de necessidade, nunca saía a passeio. Costumava
dizer que o lazer era para ser vivido
a dois, com um parceiro bonito, alegre. A família e as amigas ela via em outra hora.
"O que será que Mirtes tem que eu não tenho?", questionava Alzira.

ná segunda-feira de manhã, assim que Marcelo chegou ao escritório, Gérson já o esperava ná porta.
Pela sua cara, vejo que aconteceu alguma coisa. O que foi? O amigo pegou-o pelo braço e puxou-o dizendo:
Venha aqui, para que ninguém nos ouça.
Você me assusta. Está com aquela cara de suspense que já conheço. Qual é a bomba?
Mirtes. Você não foi ao cinema com ela no sábado?
Não. Como é que você sabe?
Por que ela estava em uma boate com outro.
As pernas de Marcelo tremeram e ele sentiu uma pancada no estômago.
Lá vem você de novo. Quem inventou essa história?
Ninguém. Eu VÍ. No sábado fui com Marcos à festa de
39
aniversário de uma colega da irmã dele, lá pelas bandas da Vila Madalena. Saímos de lá passava das duas. Quando passamos pela
porta de uma boate, Mirtes estava saindo
de lá com um sujeito alto, bem vestido. Fiz Marcos parar o carro e ficamos olhando enquanto o manobrista trazia o automóvel
deles. VÍ muito bem. Era ela mesma.
Estava toda derretida com o sujeito. Queria que você visse.
Marcelo ficou vermelho de raiva. Estava fazendo papel de bobo diante dos amigos. Aquela hora todos os colegas já deveriam
estar sabendo.
Mas há algo que não lhe contei, Gérson - mentiu. Nós acabamos o namoro. Ela agora é livre. Pode sair com quem quiser.
Não tenho mais nada com ela.
Gérson abanou a cabeça incrédulo:
A quem pensa que vai enganar? Quando saiu daqui ná sexta-feira, você disse que estava com pressa, queria cortar o cabelo
porque ia ao cinema com ela no sábado.
Eu ia mas não fui. Nós brigamos e não fomos. Espero que você esclareça esta história com Marcos. A esta hora ele já deve
ter contado para todo mundo.
Ele não faria isso. Nem eu. Mas sou seu amigo. Que diabo... Dói ver essa menina fazendo você de bobo.
Não tenho mais nada com ela. Está tudo acabado. Esqueça Mirtes. É o que pretendo fazer.
Gérson deu de ombros:
Bem, se é assim...
É assim. Entre nós não há mais nada.
Espero que isso o tenha curado de vez.
Marcelo entrou no escritório, foi direto para sua mesa e fingiu que começava a trabalhar. Mas sentia-se atordoado, seu estômago
enjoado, como se de repente não pudesse
digerir o que havia comido antes de sair de casa.
Gérson, que o observava disfarçadamente, aproximou-se:
Você está pálido. Está se sentindo mal?
É. Acho que comi alguma coisa que não caiu bem. vou até a copa ver se tomo um sal de frutas.
Ele saiu e Gérson meneou a cabeça inconformado. Marcelo era um rapaz trabalhador, honesto, sincero, bem-apessoado. Tinha
as melhores qualidades. Por que será que
era tão sem sorte?
"As mulheres não sabem valorizar rapazes de bem", pensou ele. Gostavam mesmo era dos ousados, dos inconstantes, dos donos
de
40
carros de luxo. Mirtes era dessas, interesseira, falsa. Por isso ele, Gérson, não confiava em mulher nenhuma.
Marcelo tomou o sal de frutas e voltou ao trabalho. Sabia que Gérson não havia mentido. Fora enganado mais uma vez. Mas
depois disso ele ia acabar definitivamente
com aquele namoro.
Porém continuava apaixonado por ela. Chegara até a pensar em casamento. Só não fizera o pedido porque suas condições financeiras
ainda não lhe permitiam oferecer
uma posição melhor. Sabia que Mirtes tinha grandes pretensões. Ela já lhe dissera que só se casaria quando pudesse ter uma
bela casa, com conforto, um carro para
uso pessoal. Além disso, sua festa de casamento teria de ser inesquecível.
Ele ganhava bem, mas, para oferecer o que ela desejava, precisava esperar mais um pouco.
Quero me casar com um homem de verdade. É ele quem deverá me sustentar, trabalhar para dar-me tudo que eu quero.
E ele sabia que ela queria carro, jóias, viagens. Por que se iludira apaixonando-se por ela? Sua família era de classe média,
desfrutavam de uma vida boa, mas não
eram ricos. Se resolvesse casar, seus pais o ajudariam, mas ele não gostaria que gastassem suas economias prejudicando seu
patrimônio. Não era justo. Haviam trabalhado
para sustentá-lo a vida inteira, pagando seus estudos, ajudando-o de todas as formas.
Ele queria ser independente, abrir seu próprio caminho ná vida.
Reconhecia que Mirtes não era moça para ele. Precisava acabar com aquela tortura e tentar esquecê-la. O rosto dela apareceu
em sua mente e ele estremeceu. Seria
difícil. Sentia-se muito atraído por ela. Seus beijos o entonteciam e ele perdia toda a resistência. Apesar disso, firmou
o propósito de afastá-la de seu caminho.
O dia custou a passar e ele não via a hora de sair, ir para casa. Às seis, finalmente deixou o escritório. Gérson esperava-o.
Vamos sair hoje à noite?
Em plena segunda-feira?
bom, pensei que quisesse se distrair. Poderíamos ouvir música ná casa de Marcos ou dar uma volta.
Obrigado, Gérson, mas estou cansado. Prefiro ir para casa. Fica para outro dia.
Você é quem manda. Até amanhã.
Marcelo saiu, apanhou o carro, mas não foi para casa. Precisava-
41
pensar, planejar o que fazer. Já estava escurecendo e as luzes da cidade estavam acesas. Deu algumas voltas e, ao passar
por uma praça quase deserta, parou.
Desceu do carro e andou procurando um lugar tranqüilo. Encontrou um banco em um canto onde não havia ninguém e sentou-se.
Ao redor havia canteiros floridos, e agradável perfume pairava no ar, mas Marcelo, perdido em seus pensamentos, nem sequer
notou. Só sua dor importava. O que fazer
para libertar-se dela?
Tentou determinar o que lhe doía mais: se a traição, a mentira ou a necessidade de renunciar àquele amor sentindo-o ainda
vibrando dentro de si.
Compreendia que Mirtes era diferente dele. Ela valorizava coisas que para ele não tinham muita importância. Reconhecia que
desejava progredir, ter conforto, enriquecer
se pudesse, tanto quanto ela. Mas a diferença estava nas prioridades. Enquanto Mirtes colocava o dinheiro como ponto principal
e para conquistá-lo passava por cima
de todos os outros valores, ele não se sentia capaz disso.
Em seu coração, o amor, a honestidade, a bondade, o respeito aos outros vinham em primeiro lugar. Um casamento assim nunca
daria certo. Jamais poderia confiar nela.
O que aconteceria se ele adoecesse, ficasse sem dinheiro? Ela não hesitaria em trocá-lo por outro.
Quanto mais pensava, mais sentia que precisava esquecer Mirtes. Então lembrava-se de seu rosto, de sua figura bonita, elegante,
seu sorriso, o brilho de seus olhos,
e seu coração disparava, ele não se sentia com coragem de deixá-la.
Ficou ali muito tempo, atormentando-se com aqueles pensamentos sem conseguir chegar a uma decisão. Sabia que se ela o procurasse,
se se arrependesse, ele a perdoaria
de novo. Passou a mão pelos cabelos desesperado. O que fazer para acabar com aquele tormento? Onde encontrar solução para
aquela louca paixão que o deixava destruído,
sem vontade, completamente infeliz?
Seu estômago doeu e ele consultou o relógio. Passava das dez. Não havia comido nada desde o almoço. Precisava ir para casa.
Sua mãe devia estar preocupada com sua
demora.
Levantou-se rapidamente e foi embora. Uma vez em casa, arrumou uma desculpa, comeu um lanche e foi se deitar. Seu corpo
doía, sentia-se muito cansado. O melhor era
tentar dormir. Talvez Mirtes não o procurasse mais, o que facilitaria separar-se dela.
Deitou-se, remexeu-se ná cama algum tempo, mas finalmente conseguiu adormecer.
42
Foi no dia seguinte, quando estava pronto para ir trabalhar, que Marcelo deu por falta de sua agenda e sua carteira. Procurou
no carro e não encontrou. Recordou-se
de havê-la apanhado e levado consigo quando foi sentar-se ná praça. Gostava de fazer anotações sobre seus problemas. Era
uma forma de estudá-los. Depois, a agenda
continha informações importantes que ele colecionara durante muito tempo e que o ajudavam em seu trabalho. Precisava encontrá-la.
Resolveu passar pelo local e procurar. Era muito provável que a houvesse esquecido sobre o banco. Mas foi em vão. Não estava
lá. Marcelo deu uma volta pelo local,
indagou de algumas pessoas que circulavam por ali e não obteve resultado.
Desanimado, foi para o escritório. Gérson, vendo-o, foi logo dizendo:
Não melhorou? Você está com uma cara...
Estou preocupado.
com Mirtes, claro Depois de ontem...
Por que você é tão maldoso? Não é nada disso. Perdi minha agenda.
Aquela que tem o diário de sua vida?
Não caçoe. Ela tem material de trabalho. Vai me fazer muita falta. Acho que a perdi.
Não se preocupe. Ela aparece. Se perdeu, alguém achou. Há o número de seu telefone nela. Logo vai encontrar. Ela só tem
utilidade para você.
É que minha carteira estava junto. Eu a coloquei ná contracapa da agenda.
Nesse caso, não vai ser fácil. Tinha dinheiro?
Não muito. Só documentos.
Puxa, que amolação. Por que não põe um anúncio no jornal?
Para quê? Se a pessoa que achou quiser entregar, tem o número do telefone.
É mesmo. O anúncio não vai adiantar muito.
Marcelo mergulhou no trabalho tentando esquecer os desagradáveis acontecimentos da véspera.
Passava das onze quando seu telefone tocou:
Quero falar com Marcelo Rodrigues de Sousa.
Sou eu. Pode falar.
Ontem passando pela praça Buenos Aires encontrei uma agenda sobre um banco. Acho que lhe pertence.
Marcelo deu um pulo:
43
Encontrou? Puxa, não sabe como está me fazendo falta...
Foi o que pensei. Por isso estou ligando. No momento não tenho um portador para mandar entregar. Eu mesmo terei um dia
muito ocupado. Há alguém que possa vir apanhá-la?
Irei agora mesmo. Qual é o endereço? Ele anotou, depois disse:
Gostaria de agradecer-lhe pessoalmente.
Ficarei aqui ainda durante meia hora.
Não estou muito distante. Chegarei antes disso. Obrigado mais uma vez.
Falou com a secretária e saiu apressado. Vinte minutos depois estava no endereço anotado. Surpreendido, reconheceu que
estava diante da casa de Valdo.
Tocou a campainha e foi conduzido a uma sala. Instantes depois, Émerson apareceu diante dele com sua agenda ná mão.
É esta?
Isso mesmo. Não sabe como lhe sou grato.
Há também uma carteira com documentos. Veja se está tudo em ordem.
Deve estar.
É bom verificar. Ontem quando fui dar uma volta ná praça, ao sentar no banco a encontrei. Como não havia ninguém por
perto, resolvi trazê-la e procurar o dono.
Mas não sei quanto tempo ela ficou naquele banco. Alguém pode ter tirado alguma coisa.
Marcelo verificou e disse satisfeito:
Está tudo aqui. Não sei como lhe agradecer. Esta é a casa de Valdo, não é?
É. Meu nome é Émerson. Sou irmão de criação dele.
Não me lembro de você.
Estive fora durante oito anos. Voltei há poucos dias. Estou morando aqui provisoriamente, até reorganizar minha vida.
Sente-se, Marcelo, vamos pelo menos tomar
um café.
Obrigado, mas não quero incomodar. Sei que deve sair dentro de alguns minutos.
Combinei ver uma casa que desejo comprar. O corretor vai passar aqui. Temos tempo até ele aparecer. Sei que no Brasil
as pessoas não primam pela pontualidade.
Marcelo sorriu, olhando-o curioso. Era muito diferente de Valdo: mais calmo, havia alguma coisa em seus olhos que o impressionou.
44
A criada apareceu e Émerson pediu-lhe que servisse um café. Depois voltou-se para Marcelo:
Costuma sentar-se naquele banco da praça?
Não. Para dizer a verdade, nunca havia ido até lá. Mas ontem foi um dia danado e eu precisava colocar os pensamentos em
ordem.
Pois eu gosto daquele lugar. Tenho ido algumas vezes e escolho sempre aquele banco. É um lugar muito bonito e tem uma
vibração muito boa.
Pode ser, mas para mim não adiantou muito. Só consegui perder a agenda e me preocupar ainda mais.
Émerson fitou-o com seriedade e permaneceu alguns instantes calado. Depois disse:
Preocupação não é solução. Só gera confusão. As boas idéias só aparecem nos momentos em que estamos calmos, harmonizados.
Eu gostaria de ter serenidade, de enfrentar meus problemas com coragem. Mas não consigo. Quando estou sob pressão, só
quero desaparecer, fugir, ignorar. Depois
fico arrasado.
Fica se culpando, sentindo-se covarde, fraco.
Isso mesmo. Parece até que você me conhece.
O medo é um sentimento doloroso. Por trás dele há sempre uma maneira inadequada de ver as coisas.
Como assim?
Há o medo real, quando nos defrontamos com uma situação que coloca em risco nossa segurança física, e há os imaginários.
Estes são em maior número, mas muito
mais fáceis de serem vencidos.
Não é o que eu penso. Gosto de tudo direito, não faço mal a ninguém, mas consigo ser sempre prejudicado. Tudo sai errado.
Surpreendido por um fato desagradável,
fico paralisado, não reajo ná hora, só muito tempo depois, e então perco a coragem para me posicionar. Acho que não vale
a pena.
Nessa hora sente-se fraco, irritado consigo mesmo. Marcelo sorriu e concordou. A criada trouxe o café e ele apanhou a
xícara que lhe estava sendo oferecida.
Obrigado. Você acabou de descrever o que acontece comigo. Ontem foi um dia horrível. Como sempre, fugi do problema mas
não consegui esquecê-lo. Senti-me sufocar,
então parei ná praça, sentei-me naquele banco. Queria fazer alguma coisa para me sentir melhor. Por fim, cansei e fui para
casa sem haver resolvido nada. Estava
tão mal que só hoje de manhã quando procurei a agenda foi que dei pela falta. Para você ver como eu estava.
45
Você se julga fraco mas não é. Esse pensamento é apenas uma forma de defesa para não ter de reagir e tomar uma decisão.
Defesa? De quê?
Se você crê que certas coisas representam um perigo, que podem causar-lhe sofrimento, sua mente cria automaticamente um
processo de defesa para protegê-lo. Entretanto,
suas crenças podem ser ilusórias, aprendidas por meio da educação, e nesse caso sua defesa, ao invés de ajudar, cria maiores
obstáculos.
Você é médico?
Não. Sou terapeuta. Por isso estive fora vários anos, estudando a vida em todos os seus aspectos.
Você fala com segurança. Gostaria de saber mais. Disse que minha fraqueza é uma forma de defesa. Nesse caso eu não deveria
ficar tão mal.
Se suas crenças fossem verdadeiras, se sua forma de ver a vida fosse real, sua defesa seria eficiente. Mas, como ela procede
de suas ilusões, não cria bons resultados.
Ao invés de eliminar, alimenta seus sofrimentos.
Poderia explicar melhor?
Você criou ná mente a idéia de que confrontar situações ou pessoas é terrível. Acreditando-se um fraco, não vai precisar
fazer isso.
bom isso é verdade. Eu odeio brigar, contrariar os outros, ter de negar alguma coisa. Prefiro me prejudicar a ferir os
outros.
Essa é uma grande ilusão. O fato de dizer "não", de se impor quando algo o desagrada não significa brigar ou apelar para
a violência. É apenas uma postura natural
que vai estabelecer para os outros o limite até onde podem chegar com você. As pessoas precisam desse referencial para
se relacionarem umas com as outras. Quando
você não faz isso, elas vão avançando e acabam abusando.
Isso sempre me acontece.
É porque você não toma conta de seu espaço. A criada apareceu ná porta.
O que foi, Lina?
O corretor chegou.
Marcelo levantou-se imediatamente:
Que pena!
Émerson sorriu levemente.
Preciso ir, mas podemos continuar nossa conversa outro dia.
Gostaria imensamente. Sou muito grato por sua gentileza. Aceitaria jantar comigo? Pode marcar o dia.
46
Claro. Pode ser ná quinta-feira?
Está marcado. Virei buscá-lo às oito.
Combinado.
Marcelo deixou a casa satisfeito. Não só encontrara a agenda e a carteira com tudo em ordem mas também ganhara um amigo.
Simpatizara com ele à primeira vista. Havia qualquer coisa em Émerson que inspirava confiança. Ele olhava nos olhos enquanto
conversava, dizia coisas que o faziam
pensar. Era prazeroso conversar com ele. Ainda bem que aceitara o jantar.

Naquela tarde, Marcelo, apesar do propósito de não procurar Mirtes, ficou pensando nela o tempo todo.
E se ela ligasse, o que lhe diria? O melhor era fingir que não sabia de nada, agir com naturalidade.
Ao pensar nisso sentia um aperto no estômago. Não, ele não podia fazer isso. Tinha de tomar coragem e acabar com o namoro.
Não podia continuar fazendo papel de
bobo.
Mas o tempo passou e Mirtes não ligou. Quando ela não telefonava por um ou dois dias, Marcelo costumava ligar para conversar
e marcar encontro. Cada vez que o telefone
tocava, ele estremecia. Não conseguiu prestar atenção ao trabalho, que rendeu muito pouco. Sua cabeça doía, e ele foi procurar
um comprimido.
Ao sair do escritório, Gérson aproximou-se:
Você está preocupado. Vai me dizer que é por causa de Mirtes?.
Não quero mais nada com ela.
Mas ainda está apaixonado, e isso é o diabo. Está triste, dá para notar.
Marcelo suspirou e não respondeu. Gérson continuou:
Olhe, Marcelo, é duro no começo, mas você vai esquecer. Lembra-se de meu caso com Marina? Eu estava louco por ela, mas,
quando percebi que ela não gostava de
mim e que estava me usando, caí fora. Hoje quando a vejo não sinto nada. Até me admiro de ter sido apaixonado por ela um
dia. Você precisa se distrair, arranjar
outra. Isso ajuda. Vamos sair hoje?
Estou cansado. Para dizer a verdade, quase não dormi a noite passada. vou para casa.
Meu medo é que Mirtes o procure chorando e você comece de novo.
Desta vez é definitivo. Estou decidido. Não dá certo mesmo.
47
Assim é que se fala! Apesar disso, seria mais seguro se fôssemos dar uma volta. Sabe como é: pode aparecer alguém interessante,
e aí você esquece a tristeza.
Para isso precisaria estar de bom humor. Ninguém vai gostar de sair comigo nesta disposição em que estou. Iremos outra
noite.
Marcelo chegou em casa, tomou um banho, jantou e foi para o quarto. Apanhou um livro e deitou-se disposto a ler. Contudo,
seu pensamento estava voltado para o telefone.
Mas ele não tocou. Mirtes teria marcado de sair novamente com o rapaz do sábado?
Precisava saber. Levantou-se, arrumou-se e saiu. Largou o carro em outra rua e foi até o bar que ficava ná esquina da casa
de Mirtes. Sentou-se em uma mesa de onde
podia observar a casa dela, pediu um refrigerante e esperou.
Olhou para o relógio. Oito horas. Eram oito e dez quando a porta se abriu e Mirtes saiu toda arrumada. Marcelo apertou os
lábios com raiva. Levantou-se e foi até
a porta. Ela caminhou até a esquiná, onde havia um carro de luxo à espera. Um rapaz alto saiu e dirigiu-se a ela. Cumprimentaram-se,
ele abriu a porta do carro,
ela entrou e foram embora.
Marcelo, cego de raiva, pagou o refrigerante e saiu rápido. Não podia duvidar mais. Era mesmo verdade. Ela o trocara por
outro. Teve vontade de esmurrá-los, de gritar
sua revolta, de bater em alguém. Diante da própria impotência, não conseguiu segurar as lágrimas que desceram por seu rosto.
Ao virar a esquina, bateu de frente com uma moça que caminhava em sentido contrário. Ela perdeu o equilíbrio e caiu. Imediatamente
ele a segurou pelo braço e ajudou-a
a se levantar.
Marcelo! É você?
Olhos molhados, rosto contraído, mãos trêmulas, ele reconheceu Alzira, irmã de Mirtes.
Desculpe... Não a VÍ. Machucou-se?
Não. Estou bem. O que está fazendo aqui? Você está transtornado. Por acaso...
Sim, eu a VÍ sair. Fiquei sabendo o que aconteceu sábado. Vim verificar e VÍ. Estava andando depressa para pegar meu carro
e ir atrás deles.
Alzira assustou-se:
Para quê?
Para desabafar, brigar, pelo menos fazer alguma coisa. Agora eles se foram. Sabe para onde?
48
Não, e mesmo que soubesse não lhe diria. Quer ir até minha casa, tomar alguma coisa? Você está muito nervoso.
Obrigado. É melhor não. Não quero ver ninguém.
Você não pode ir embora assim. Vamos até seu carro conversar um pouco.
Alzira pegou o braço dele e foram caminhando até o carro. Ele abriu a porta e entraram.
Você quer me confortar, mas estava encobrindo-a. Devem ter dado boas risadas à minha custa.
Não diga isso. Não gosto do que ela está fazendo. Várias vezes já lhe disse que, se ela quisesse sair com outros, deveria
acabar com o namoro de vocês. Seria
mais digno. Mas você sabe como ela é: só faz o que tem vontade. Não ouve ninguém. Minha mãe já cansou de dar-lhe conselhos.
Preciso esquecê-la. Ela não me ama, não é para mim.
Isso mesmo. Mirtes tem a cabeça cheia de ilusões, mania de grandeza. Quer se casar com um homem rico, não está à procura
de amor.
O diabo é que gosto dela. Está difícil aceitar a separação. Alzira suspirou inconformada. Não podia entender como um
rapaz bonito e bom como ele se humilhava daquela forma. Disse com voz firme:
Melhor aceitar o rompimento agora do que prosseguir nessa relação e vir a sofrer muito mais. Sabe de uma coisa? Mirtes
não está preparada para um namoro sério.
Não sabe o que quer. É incapaz de ser fiel.
Você deve saber o que está dizendo. - Sei.
Notando o abatimento dele, ela continuou:
Por que não dá um tempo? Quem sabe mais tarde ela tome juízo.
Está dizendo isso para consolar-me.
Não, sério. Mirtes tem sede de viver, é cheia de ilusões. Minha mãe costuma dizer que é da idade, que ela vai amadurecer.
Você é mais nova e não procede como ela. Acho que é temperamento mesmo.
Alzira não respondeu. Ela sabia que ele estava certo, mas não queria falar mal da irmã.
Olhe, vá para casa e pense no que eu lhe disse.
vou pensar. Aliás, não consigo pensar em outra coisa. Não
49
vou procurá-la outra vez. Para mim acabou. Só tenho medo de que ela venha pedir-me perdão, dizer que está arrependida.
É isso mesmo que ela vai fazer. Enquanto estiver interessada nesse com quem saiu hoje, ela nem se lembrará de você. Porém,
se ele a deixar ou se ela perder o
interesse, certamente irá procurá-lo.
O problema está aí. Não sei dizer "não" a ela. Alzira irritou-se.
Ela faz o que faz porque conta com isso. Vive dizendo que você não tem coragem de romper o namoro. Quer saber de uma
coisa? Se você fosse mais durão, ela pensaria
duas vezes antes de fazer o que faz.
Quer dizer que a culpa é minha? respondeu nervoso.
Ela é volúvel e você não tem pulso. Por isso ela não o respeita. O que ela está fazendo é falta de respeito.
Marcelo baixou a cabeça envergonhado.
Tem razão - disse vagarosamente. Preciso reagir. Mas não gosto de brigar. É horrível. Faço tudo para viver em paz.
bom, se você pensa assim, deve procurar uma moça que seja calma, sincera, bem-comportada, nunca alguém como Mirtes.
Seria melhor. Por que será que fui me apaixonar logo por ela?
Porque você gosta de mulher provocante. Nem repara nas outras.
Marcelo sorriu. Era verdade. Para ele uma mulher tinha de ser vistosa, cheia de vida, chamar a atenção aonde fosse.
Pelo jeito você me conhece mais do que eu. É a primeira vez que conversamos.
Sou observadora. Quanto mais Mirtes faz das suas, mais você a deseja. Começo a pensar que, no fundo, o que você gostaria
mesmo é de ser igual a ela, de ter coragem
para seduzir, de ser audacioso, requestado, desejado por todas as mulheres.
Isso não é verdade. Sou pacato, discreto, não gosto de chamar a atenção.
Não creio. O que você sente por minha irmã não é amor, é paixão. E a paixão aparece exatamente quando você vê no outro
um comportamento que gostaria de ter mas
que não tem coragem de adotar.
Você está fantasiando.
Pense e verá que tenho razão. Você gostaria de ter a coragem dela, de fazer o que ela faz, por isso você a perdoa quando
ela volta. Porque no fundo, apesar de
ver-se preterido, justifica-a e admira-a.
50
Marcelo não encontrou resposta. As palavras dela o incomodavam, e ele decidiu encerrar o assunto.
Obrigado por me ouvir. Foi bom termos conversado. Alzira abriu a porta do carro dizendo:
Sinto-me aliviada. Não gosto de situações dúbias. Foi ótimo conversar com você. Até outro dia.
Ela se foi, e Marcelo, durante o trajeto de volta, ficou pensando no que ela dissera. Não, ele não queria ser igual a Mirtes.
Lembrou-se de Valdo. Ele, sim, era
igual a ela. Bonito, elegante, charmoso, volúvel, chamava a atenção onde aparecia. Gostava de estar em evidência. E, além
de tudo, era rico.
Marcelo abanou a cabeça negativamente. Nunca poderia ser como ele. Não gostava de aparecer, de chamar a atenção. Era discreto,
sério, honesto, educado. Alzira estava
errada.
51


Émerson contemplou a sala com satisfação. O ambiente era simples e aconchegante, exatamente como queria. Sentou-se ná poltrona,
apanhou uma pasta e, abrindo-a, iniciou
a leitura atenta de seu conteúdo.
Não podia esquecer nenhum detalhe. Desenvolvera aquele projeto quando ainda estava no mosteiro, depois que seu professor
e mestre o chamara e dissera:
Hoje você terminou sua iniciação. Até agora a vida lhe deu tudo que foi possível para que você conquistasse seu progresso
espiritual. Você recebeu esclarecimentos,
luz, aprendeu alguns dos mistérios que só os iniciados podem penetrar. É hora de experimentar, de conferir, de descobrir
quanto você captou do que lhe foi passado.
E isso só será possível vivendo.
Mas quero ficar um pouco mais. Conheci outros povos, outros conceitos, experimentei situações, mas foi aqui que
53
encontrei a sabedoria, a paz, que minha sensibilidade se abriu e pude contemplar outras dimensões do universo. Sou muito
grato pelo carinho com que me acolheram.
Gostaria de poder permanecer aqui para sempre.
Nós o amamos muito, meu filho. Nosso coração pede a Deus por sua felicidade. Mas sua missão é lá entre seu povo, que precisa
de conhecimento. Você veio para ser
o intermediário entre a sabedoria divina e seu grupo de evolução. Ficar aqui seria impedir seu crescimento e a multiplicação
do bem. Você sabe que a separação não
existe quando estamos unidos pelo amor divino.Você tem mais um mês para estar conosco. Portanto, deve programar como deseja
iniciar seu trabalho em benefício dos
seus.
Émerson baixou a cabeça pensativo. Voltar seria encontrar novamente as injustiças sociais, a perturbação de uma sociedade
descrente mergulhada nas próprias ilusões.
Teria forças para manter o próprio equilíbrio conquistado durante aqueles anos?
O mestre colocou a mão sobre seu ombro, dizendo com voz
suave:
Se você não conseguir manter a serenidade em qualquer circunstância, então de nada lhe valeu o tempo que passou aqui.
Émerson entendeu. Era preciso enfrentar a turbulência do mundo para saber se havia aprendido. Abraçou seu mestre, curvou-se
e saiu.
A partir daquele dia, começou a programar que rumo daria à sua vida quando voltasse. Depois de muito meditar e de pedir
a ajuda espiritual dos grandes mestres do
universo, Émerson começou a esboçar seu projeto.
Acreditava ná perfeição da vida, em sua bondade e sabedoria. Descobrira que a infelicidade do homem era causada por sua
incapacidade de orientar-se, deixando-se
conduzir pelas ilusões, pagando por isso o preço da dor.
A inversão de valores criara regras sociais que deturpavam a verdade, dificultando que as pessoas pudessem escolher melhor
seus caminhos.
A maneira de enxergar a vida é fundamental porque influi nas atitudes e escolhas, programando os resultados que terão no
futuro. Portanto o sofrimento humano é um
problema de educação espiritual.
Se os homens descobrissem a finalidade da vida, se pudessem conhecer os verdadeiros valores do espírito eterno, certamente
mudariam suas atitudes e evitariam muitos
sofrimentos.
54
A evolução do espírito é lei universal. A vida cria desafios todos os dias para que a alma conquiste maturidade. As dores
do crescimento são inevitáveis. Entretanto,
elas são insignificantes diante do volume de sofrimentos que o homem cria por ignorar como a vida funciona.
Pensando assim, Émerson resolveu que criaria um instituto do conhecimento espiritual, onde desenvolveria um trabalho de
iniciação ensinando tudo que aprendera no
mosteiro. Esse conhecimento fizera-lhe imenso bem.
Saíra do Brasil cheio de dúvidas, motivadas pela perda de seus pais de forma tão violenta. Vivia inquieto, inseguro. O medo
do desconhecido perturbava-o. Para ele,
seus pais representavam segurança, mas o acidente provou que no mundo nada é seguro. Isso o tornava depressivo e infeliz.
ná China, aprendera conceitos novos de saúde e medicina, contemplara a serenidade dos sábios, começara a desenvolver sua
sensibilidade e a perceber que a vida era
mais do que o mundo material.
Mas foi ná índia, naquele mosteiro, que realmente encontrou a explicação para os problemas que o angustiavam, aprendeu os
segredos da conquista da serenidade interior,
desenvolveu mais sua sensibilidade.
O amor, o respeito e o carinho dos mestres encantaram-no. náquele ambiente sua sensibilidade se abriu a ponto de Émerson
sair do corpo conservando a lucidez e entrar
em contato com seres de outras dimensões, de onde regressava trazendo dentro do peito uma felicidade intraduzível.
Quando falou com seus mestres sobre suas idéias, eles concordaram com entusiasmo, aconselhando-o a planejar tudo nos mínimos
detalhes.
O primeiro ano seria de formação. Para levar esse projeto para a frente, Émerson precisaria formar pessoal habilitado, para
depois se aventurar a ensinar publicamente.
Enquanto relia o que estava descrito em seu projeto, Émerson recordava-se das orientações de seus superiores. Ele comprara
uma casa confortável para morar. A fortuna
que herdara dos pais fora bem administrada e aumentara consideravelmente. Péricles informara-o de tudo, colocando-se à disposição
para auxiliá-lo no que precisasse.
Ele resolvera comprar um terreno em local aprazível e sossegado, longe do bulício da cidade, e projetar o prédio do instituto.
Colocado a par dos planos, Péricles preocupou-se. Preferia que
55
Émerson continuasse trabalhando no mesmo ramo em que ele aplicara seu dinheiro com sucesso. Porém, diante do entusiasmo
e determinação de seu protegido, acabou
concordando e até o orientou ná aquisição do terreno e ná elaboração do projeto.
ná casa que Émerson comprara havia um grande salão de festas que ele decorou para iniciar seu trabalho. Acarpetou o piso,
construiu uma fonte no pequeno jardim ligado
à porta dos fundos, pintou as paredes de creme, instalou luz indireta e regulável. A um canto, uma estante com livros e
aparelho de som. Algumas poltronas, uma
mesa onde colocou alguns objetos místicos que recolhera em suas viagens. Vasos com plantas, flores no vaso sobre um aparador.
Grossas cortinas forraram as grandes
janelas e as portas de vidro, isolando os ruídos externos. Émerson gostou do ambiente impregnado de incenso, onde se sentia
ligado ao mosteiro em suas meditações.
A notícia de sua volta correu rápida por seus antigos amigos. Valdo encarregou-se de dar detalhes, avisando que Émerson
voltara diferente, místico, cheio de idéias
humanistas, tendo se tornado terapeuta em um mosteiro ná índia.
A curiosidade foi grande, principalmente de Mildred, que esperava ansiosamente sua volta. Preparou-se para aquele encontro
com esmero, cuidando de sua aparência
mais do que nunca.
Valdo convidara o amigo para diversas festas, mas Émerson recusara todas.
Antes você gostava de festas. Pretende isolar-se?
Não. Ao contrário, pretendo me relacionar melhor com as pessoas.
Então, por que não quer ir?
Tenho andado muito ocupado. Gosto de meu projeto, e o prazer que sinto em trabalhar nele vale mais do que uma festa. Logo
terei concluído a parte inicial, então
haverá tempo para acompanhá-lo.
Valdo abanou a cabeça negativamente:
Você está diferente. Gostado silêncio, da meditação... Não vai se sentir bem com o barulho. A música alta, as pessoas
gritando todas ao mesmo tempo querendo conversar...
Não me parece que você vai agüentar. Eu mesmo converso um pouco, arranjo companhia e procuro um lugar mais sossegado.
Não pretendo fugir ao convívio social. Eu posso me manter imune ao ruído. Sei como me isolar do que não me agrada.
Em sociedade isso é o ideal. Ás vezes somos forçados a escutar coisas desagradáveis e sorrir.
56
Émerson olhou-o sério.
Não vou isolar-me, mas pretendo estar nos lugares que me dão prazer. Escutar banalidades, fingir que me interessam, é
perda de tempo e não está em minhas cogitações.
Nesse caso, ficará sozinho. A sociedade é puro interesse e conveniência.
Não se iluda com as aparências. As pessoas entram no convencional, vivem papéis, e isso não satisfaz. Por dentro estão
desejando o melhor, o mais verdadeiro para
serem felizes. É preciso descobrir o que se esconde atrás do que parece, selecionar aqueles com os quais você tem afinidades
ou com quem pode aprender alguma coisa,
e em pouco tempo sua vida ganha em alegria, motivação, prazer.
Você pensa diferente de todo mundo. Se todos estão se escondendo, como é que vamos ver o que está atrás? Quem pode saber
o que se oculta atrás de um sorriso de
mulher ou de um almoço de negócios?
Émerson sorriu mostrando os dentes alvos e bem distribuídos, depois respondeu:
Não é difícil, porque o corpo fala. A boca diz uma coisa, mas a postura, os gestos, os olhos são reveladores e podem nos
contar a verdade. Basta observar.
Gostaria muito de aprender como.
Pretendo desenvolver estudos sobre esse assunto. Por enquanto vou trabalhar com as pessoas em terapia. Mais tarde, em
meu instituto quero formar terapeutas e
multiplicar o processo. É incrível como as pessoas se prendem, se limitam, se machucam, se iludem.
Pretende curá-las?
Quero que descubram sua maneira de obter felicidade. A vida só vale a pena quando sabemos vivê-la. Encontrei a serenidade
e a paz. Desejo passar esses conhecimentos
para aqueles que se interessarem em aprender como viver melhor.
Não sei se eu daria para isso. Apesar de tudo, gosto de estar em sociedade, conversar, dançar, saber as novidades. Você
sabe: eu não consigo ficar parado durante
muito tempo. Essa coisa de meditação, silêncio, solidão, não é comigo.
Émerson sorriu de novo e respondeu:
Também gosto das coisas que você gosta. Entretanto, aprendi que há momentos em que o bulício do mundo nos perturba e precisamos
fazer silêncio para ouvir o que
nossa alma quer e recuperar a serenidade. O segredo está em como você faz as coisas, e isso
57
depende sempre de como você as vê. Quando você está sereno, lúcido, a vida trabalha a seu favor, oferecendo-lhe momentos
de prazer e bem-estar.
Isso porque você gosta de estudar esses assuntos. Comigo acho que não daria certo.
Como é que sabe, se nunca experimentou? O equilíbrio espiritual é um estado de felicidade interior que só o conhece quem
já o sentiu. A vida é fonte de alegria,
prazer, bem-estar. Todos podem conquistar esse estado, desde que aprendam como. Conhecerse é o primeiro passo. Saber como
a vida funciona é fascinante. Agora mesmo
você está ná defensiva, pensando que para estudar a espiritualidade terá de deixar tudo e tornar-se um monge. Essa idéia
tem sido divulgada pelas religiões, que
se apóiam em modelos de santidade.
Você tem se afastado das festas e da sociedade.
Desejo executar meu projeto e estou entusiasmado. Mas aprecio as boas coisas da vida e não desejo abrir mão delas. Porém
desde já esclareço que não farei nada
que me desagrade. Esse é um princípio fundamental para manter meu equilíbrio.
Valdo balançou a cabeça negativamente e ajuntou:
Você não existe! Como pode acreditar que em um mundo como o nosso alguém só fará o que gosta?
Se precisar fazer alguma coisa desagradável, tentarei encontrar uma maneira melhor de encará-la. Já lhe disse que ná vida
tudo depende de como você olha para as
coisas.

Os dias passaram e finalmente Émerson disse a Valdo que estava pronto para voltar ao meio social, rever os amigos.
A notícia despertou interesse de seus antigos conhecidos. Sua volta depois de oito anos de ausência e principalmente o mistério
que havia em torno dele, que Valdo
contribuíra para alimentar, fez com que os convites chovessem. Entretanto, Émerson decidiu freqüentar apenas os lugares
da moda e o tradicional clube do qual ele
e a família de Valdo eram sócios.
Onde quer que aparecesse, despertava logo a atenção dos presentes, e os comentários multiplicavam-se. Émerson percebia,
mas não se incomodava, pois estava habituado
com a popularidade de Valdo, sempre rodeado de pessoas onde quer que fosse.
Viu aquela roda dos magnatas de petróleo? perguntou-lhe Valdo. As mulheres estão disputando a primazia de sua presença
em sua mesa. Lila perguntou-me se você aceitaria jantar ná casa dela ná próxima quinta.
Talvez.
Ela pretende formalizar o convite.
Você quer me atirar às feras, e não estou disposto a enfrentá-las. Não é isso que quero.
Não entendo você. Disse que estava disposto a freqüentar a sociedade, mas continua arredio. Julguei que quisesse se relacionar
com pessoas classe A e valorizar
seu instituto. Lila, se você esqueceu, é de uma família muito poderosa, com gente colaborando no governo. Além do mais,
tem muito dinheiro. É a pessoa certa para
quem deseja obter sucesso. Sua amizade será de grande utilidade para você.
Émerson lançou um olhar para a mulher elegante, bonita, rodeada de algumas pessoas que procuravam captar sua atenção, e
disse:
Ela não é o que parece ser. Seu rosto é uma máscara com a qual se defende daquilo que ela pensa que é. Não tem condições
de ajudar ninguém. Ao contrário: é a
mais necessitada.
Valdo abanou a cabeça admirado.
De onde tirou essa idéia? É a mulher mais invejada do clube.
Pode ser. As pessoas só vêem o que parece. Eu desejo contatar pessoas que venham somar comigo, capazes de entender meu
projeto. Pessoas que acreditem ná espiritualidade,
dispostas a conquistar o equilíbrio interior.
Neste mundo louco é quase impossível o que você quer.
- Engana-se, Valdo. O desenvolvimento do espírito, a conquista do progresso são anseios de todos. Só que ninguém ensina
como alcançá-los. Essa escola é a que quero
fundar.
Quer dizer que você já sabe como conquistar tudo isso?
Tenho estudado como a vida funciona. O universo é regido por leis cósmicas que mal conhecemos. Aprendê-las é encontrar
uma forma de viver melhor, de ser mais feliz.
Isso que você diz é muito vago. Desde que o mundo é mundo, vários filósofos tentaram definir o caminho da felicidade.
Inutilmente, pois eles mesmos não foram felizes.
Não estou interessado em filosofias, embora tenham alguns fundamentos. Quero descobrir como as coisas acontecem. Por que
uma pessoa que acreditamos bondosa é atingida
pela maldade, sofre doenças penosas ou tragédias sem-fim, enquanto outras que julgamos menos boas levam uma vida normal,
com saúde, dinheiro e até fama.
59
Valdo não se conteve:
O que pretende com isso? A vida é assim, e não há como mudar.
Engana-se, Valdo. Cada pessoa cria o próprio destino. Aquilo em que você acredita, sua maneira de ver o mundo, suas ilusões,
suas atitudes formam o ciclo de experiências
que você vai atrair no dia-a-dia. Quando você muda suas crenças e reformula seu mundo interior, toda a sua vida muda.
Isso não é possível. Como eu posso mudar os outros só mudando meus pensamentos?
Quando você muda suas crenças, você modifica suas energias, e são elas que movem todos os acontecimentos à sua volta.
Pode crer. Você, por exemplo, acredita que
é inteligente, bonito, privilegiado. Vive de bem com a vida e por isso é aceito por todos com prazer. Aonde quer que vá,
espalha energias positivas, alegres, e
as pessoas sentem isso e recebem-no com satisfação. Já uma pessoa insatisfeita, que se sente inadequada, mal-amada, emana
energias desagradáveis, e as pessoas não
a tratam com a mesma atenção com que tratam você. Já reparou isso?
Já. Eu mesmo fujo de pessoas que estão sempre reclamando. Gosto da vida e não quero perder o bom humor.
Essa é a chave de seu sucesso.
Valdo ficou pensativo por alguns instantes, depois disse:
É interessante. E tem certa lógica. Émerson sorriu e ajuntou:
É preciso valorizar o que você sente, ficar atento para os recados de sua intuição. Se você fizer isso, nunca será enganado
ou surpreendido com as atitudes das
pessoas. Elas podem mentir, e o fazem com relativa facilidade, porém as energias que exalam transmitem o que elas pensam
de verdade. Sempre que sentir rejeição
por alguma pessoa, preste atenção e tente perceber o que está atrás do que parece ser.
Eu já senti isso. E, todas as vezes que não dei atenção, me arrependi.
Isso mesmo.


Foi em um jantar ná casa de Almerinda que Émerson se encontrou com Mildred face a face. Cumprimentou-a com naturalidade.
Olhando-o nos olhos seriamente, ela comentou:
Faz tanto tempo que não nos vemos! Você não mudou nada.
60
Nem você. Continua bonita como sempre.
Ela sorriu satisfeita. Fora àquele jantar disposta a aproveitar a oportunidade de ficar perto de Émerson. Já não era mais
a jovem ingênua de outros tempos. Mais
experiente, desta vez tinha certeza de que iria conquistá-lo em definitivo.
Eles haviam se amado, e, assim como ela não conseguira esquecê-lo, ele por certo ainda guardaria no coração as lembranças
do passado. Reviver aquele amor era o que
ela mais desejava ná vida.
Valdo me disse que você voltou para ficar.
É verdade. Estou reorganizando minha vida.
As coisas mudaram muito por aqui.
Aparentemente. No fundo tudo continua igual.
Não concordo. Os costumes, as pessoas, tudo está diferente de oito anos atrás.
A procura da felicidade continua. Mildred sorriu:
Essa é a grande ilusão.
Não acredita em felicidade?
Claro. ná que é possível obter neste mundo. Saúde, uma boa conta bancária, boas amizades. Usufruir de uma vida agradável
enquanto der.
Você citou algumas coisas boas, mas quem as possui está sempre querendo mais. As conquistas materiais são insuficientes.
Eu falo de um estado de realização interior
que independe das coisas de fora. É quando você se sente alegre, não deseja nada, está em paz.
Foi isso que você foi procurar pelo mundo afora?
Foi.
E encontrou?
Sim.
Mildred não se deu por achada e comentou:
Pelo que tenho ouvido a seu respeito, você não se tornou um guru pobre. Ao contrário, comprou uma belíssima casa e não
parece disposto a renunciar o conforto nem
o dinheiro.
Não mesmo. Cada coisa tem seu valor pelo bem que nos pode proporcionar. Jogar fora o que a vida nos deu é desvalorizar
a oportunidade de viver melhor. Eu nunca
disse que o dinheiro é um mal. Como qualquer outro recurso neste mundo, depende do uso que cada um faz dele.
Digamos que você é um guru diferente.
Não sou um guru. Sou apenas uma pessoa interessada em
61
aprender a viver bem. Tive grandes mestres com os quais descobri muitas coisas, principalmente o que é importante para
mim agora. Foi tão enriquecedor que pretendo
continuar estudando.
Valdo me disse que está abrindo um instituto. Do que é?
Por enquanto é apenas um grupo de pessoas interessadas em estudar a espiritualidade. Mas falemos de você. O que tem feito
este tempo todo?
O mesmo de sempre. No fundo você tem razão. Apesar das mudanças, tudo continua o mesmo.
Émerson sorriu e concordou. Almerinda havia colocado Mildred ao lado de Émerson ná mesa do jantar. Ela tinha esperanças
de que eles acabassem reatando o namoro.
Mildred era a mulher ideal para Émerson. Ele estava retomando a vida social e ninguém melhor do que ela para colocá-lo em
evidência.
Émerson percebeu as intenções de Almerinda, mas não se importou. Não tinha nenhum interesse em reatar com Mildred. Agora,
depois de tantos anos, chegara à conclusão
de que ele e ela tinham temperamentos incompatíveis e que nunca seriam felizes juntos. Apesar de muito bonita, ela não era
a mulher que Émerson desejava. Não sentia
mais nada por ela. O antigo entusiasmo havia desaparecido.
Durante o jantar, procurou manter uma conversação trivial, enquanto ela, notando sua indiferença, procurava provocá-lo,
recordando o passado, falando de como sentia
saudade daqueles tempos.
Depois que todos se foram, Valdo comentou com Émerson:
Então, que achou de Mildred? Continua bonita como sempre.
É verdade.
Só isso? A presença dela não mexeu com suas lembranças? Ela falou nisso o tempo todo. Continua a fim de você.
Talvez esteja mesmo.
Você não parece nem um pouco interessado.
E não estou mesmo.
Houve tempo em que você pensou em casar-se com ela.
Ainda bem que não nos casamos. Nunca daria certo. Somos muito diferentes de temperamento.
O quê? Sempre achei que ela era a mulher certa para você.
Engana-se. E gostaria que vocês não ficassem querendo nos aproximar. Não tenho nenhuma intenção de namorá-la novamente.
Digo isso para que vocês não insistam.
Minha mãe é que gostaria de vê-los reatar. Ela acompanhou
62

todo o sofrimento de Mildred, que aguardava seu retorno cheia de esperanças.
Que eu nunca alimentei. Antes de partir, terminamos tudo. Nunca lhe escrevi. Se ela resolveu esperar por mim, fez mal.
É melhor que ela perceba quanto antes que
o passado acabou e não há nenhuma chance de voltar.
Você fala com uma certeza...
Aquele ciclo de minha vida se fechou. Agora, em meus planos, não há lugar para ela. Quanto antes ela perceber isto, melhor.
Não pretendo enganar ninguém.
Se é assim, faz bem. Não há nada pior do que uma mulher apaixonada esperando alguma coisa que nunca iremos dar. Eu tenho
horror a essas mulheres nos envolvendo
com olhos suplicantes, sempre querendo alguma coisa.
Émerson riu.
Elas devem estar à sua volta em todos os lugares. Tenho notado.
Pois faço de conta que não vejo.
Esse é o preço da popularidade. Elas apreciam seu sucesso.
Grudam e eu não agüento. Eu gosto mesmo é de conquistálas, isso sim. Apesar de tudo, não gosto de ficar sozinho. Já você
parece que gosta de viver só.
Não é isso. Não corro atrás das mulheres, se é o que quer dizer. Acredito que, quando você está bem, as coisas acontecem
naturalmente. A mulher que vou amar vai
aparecer em minha vida e eu a reconhecerei logo.
Valdo abanou a cabeça negativamente.
Qual, só você mesmo para ter uma idéia dessas!
É preciso estar bem para atrair a companhia de uma pessoa que traga bem-estar e felicidade. É isso que pretendo encontrar.
Que nada, você é um sonhador. Cuidado! Essa forma de pensar pode lhe trazer muita desilusão.
Émerson sorriu e não respondeu. Sabia o que estava dizendo e Valdo não tinha como entender.
63
Mildred chegou em casa arrasada. Arrumara-se tanto para aquele encontro, idealizara como seria, mas nada que esperava havia
acontecido. Émerson tratara-a cordialmente,
mas ela era suficientemente inteligente para perceber que ele havia mudado. Em seus olhos não havia mais aquele brilho quando
a fixava, e em nenhum momento ele demonstrara
alguma atenção especial.
De que lhe valera esperar tantos anos? Ele a tratara de forma banal, e notava-se que não estava nem um pouco interessado
em voltar ao passado.
Mildred atirou a bolsa sobre a cama, tirou os sapatos e deitou-se mesmo vestida, pensando numa maneira de reverter a situação.
Não pretendia aceitar a indiferença dele. Era uma mulher atraente. Ele a havia amado. Não podia deixar-se abater. Oito anos
era muito tempo. Ele a havia esquecido,
mas sob aquela indiferença
65
deveria haver ainda um pouco daquela chama que ela se encarregaria de fazer reviver.
Não estava habituada a perder. Não podia desanimar logo no primeiro encontro. Pensando bem, a resistência dele tornaria
mais interessante a conquista.
A família de Valdo mostrara claramente a intenção de promover o namoro deles. Isso mostrou-se contraproducente. Sabia como
eles pensavam, e devem ter comentado sobre
quanto ela o amava e esperara sua volta. Pois ela faria justamente o contrário. Fingiria haver esquecido o passado e talvez
até desse um pouco de corda a seus admiradores
para provocar o ciúme de Émerson.
Resolveu que ná primeira oportunidade falaria claramente com ele. Diria que do passado restou apenas a amizade, que ela
gostaria de reatar. Ouvira-o falar com
entusiasmo sobre o instituto que pretendia fundar. Mostraria interesse e tentaria participar ativamente. Era apenas questão
de tempo. Haveria de tê-lo novamente
a seu lado, apaixonado e submisso.
Animada, levantou-se e preparou-se para dormir. Deitou-se mas demorou a pegar no sono, pensando em como realizar seus planos.
No dia seguinte à tarde ligou para Laura:
Estou precisando fazer umas compras. Quer me fazer companhia? Depois poderemos ir a uma confeitaria tomar sorvete.
Eu não pretendia sair hoje.
Eu gostaria muito de conversar com você. Posso apanhá-la dentro de meia hora?
Laura hesitou um pouco, depois concordou. Quando desligou o telefone, Valdo, que ouvira a conversa, perguntou:
O que foi? Você está com uma cara...
Era Mildred. Ela me convidou para sair. Estou surpresa.
Eu sei. Vocês nunca se afinaram muito. Você sempre se esquivou dela.
Não gosto dela. É antipática, falsa, faz tipo de mulher fatal. Valdo desatou a rir.
Não está exagerando? -Não.
Então por que concordou?
Fiquei curiosa. Ela quer falar comigo.
Hmm... Vai ver, quer sua ajuda para reconquistar Émerson.
Se for isso, não vai conseguir nada. Não tenho vocação para me meter ná vida dos outros.
66
É bom mesmo. Seria pura perda de tempo. Émerson foi claro ontem comigo: não quer mais nada com ela. Não gostou da atitude
de mamãe tentando aproximá-los.
Mamãe esperava que ele voltasse interessado em reatar com Mildred.
Ele disse que nunca lhe deu esperanças. Antes de viajar, terminou tudo definitivamente.
Ela faria melhor se cuidasse de encontrar outro.
Notei um brilho de alegria em seus olhos, Laura. Gostou da atitude dele, não é?
Claro. Não gostaria que ele se casasse com Mildred. Ele merece coisa melhor.
Pensando bem, também acho.
Laura suspirou resignada e foi arrumar-se para esperar Mildred. Sentia-se aliviada. ná noite anterior, vendo Mildred tão
elegante, chamando a atenção com sua beleza,
teve medo de que Émerson se interessasse de novo por ela. Embora ele não tenha demonstrado nenhum interesse especial por
ela, Laura precisou fazer muito esforço
para que ninguém notasse quanto estava preocupada e com ciúme. Se Mildred pensava em usá-la para chegar a ele, escolhera
errado. Ela faria tudo para impedir o namoro.
Uma hora depois, sentada em frente a Mildred ná confeitaria, Laura foi direto ao assunto:
Você disse que queria falar comigo. Do que se trata? Mildred remexeu-se ná cadeira, hesitante, depois disse:
Trata-se de um assunto íntimo, confidencial mesmo. Inicialmente pensei em conversar com Dona Almerinda, mas fiquei com
vergonha. Ela poderia me interpretar mal.
Então pensei em falar com você.
Minha mãe tem por você uma grande amizade. Poderia falar com ela sobre qualquer assunto.
Sim, eu sei. Mas é sobre Émerson... Nem sei como começar...
- Fale.
Bem, você sabe... Nós fomos namorados e todos pensavam que um dia nos casaríamos. Mas isso acabou. Ele foi embora e ficamos
todos estes anos sem nos vermos.
Ela se calou pensativa.
Continue - pediu Laura.
Durante o tempo que ele esteve fora, todos em sua casa falavam que, quando ele voltasse, mais amadurecido, nós nos
67
casaríamos. Mas o tempo passou, e confesso a você que meu amor por ele acabou.
Como assim? fez Laura surpreendida.
É verdade. Eu sabia que não o amava mais. Mas como não apareceu nenhum outro que me interessasse, deixei o tempo passar
e, quando os amigos tocavam no assunto,
eu não desmentia. Contudo, ontem, ao encontrá-lo novamente em sua casa, percebi claramente que não o amo mais. Apesar de
tudo, eu ainda conservava um pouco do passado,
como um sonho romântico. Mas, vendo-o, tive certeza de que nada mais é possível entre nós.
Laura procurou disfarçar a alegria e disse com naturalidade:
Tem certeza?
Tenho. Ele mudou, eu mudei. Gosto dele como amigo. Aprecio sua inteligência e não desejo perder sua amizade. Por isso
pensei que talvez você possa me ajudar.
De que forma?
Conversando com sua família. Pedindo para que não tentem nos aproximar. Sei que eles têm boa intenção, mas sinto-me constrangida.
Não desejo que Émerson pense
que ainda estou interessada nele. Pode fazer isso por mim?
Claro. Tem certeza de que não vai se arrepender, isto é, de que não vai apaixonar-se por ele de novo?
Tenho. Para ser bem sincera, estou começando a interessarme por outra pessoa...
É mesmo? Eu conheço?
Conhece. Mas no momento prefiro manter segredo. Laura sentiu-se bem-disposta e até começou a pensar que
Mildred não era tão antipática, como sempre pensara.
Voltou para casa contente. Vendo-a, Valdo comentou:
Para quem saiu contrariada, você está melhor do que eu esperava.
Estou alegre mesmo. Não era nada do que esperávamos.
Não vai me contar?
Claro. Ela confessou que não quer mais nada com Émerson. Não o ama mais. Quer que eu peça a todos, principalmente a mamãe,
que não façam mais nada para aproximá-los.
Não diga! Será verdade? Até há bem pouco tempo, quando ela me via, mostrava-se ansiosa por notícias dele. Tem certeza
de que entendeu bem?
Tenho. Ela me explicou que guardava dele uma lembrança
68
de outros tempos e que, vendo-o, descobriu que não o amava mais. Parecia sincera. Chegou a afirmar que está interessada
em outro.
Quem diria! As mulheres são mesmo surpreendentes...
Oito anos é muito tempo.
Émerson vai ficar satisfeito.
Naquela noite mesmo, Laura conversou com os pais sobre Mildred. Péricles comentou com a esposa:
Não lhe disse? Eles notaram seu interesse em aproximá-los. É melhor não nos envolvermos mais. É problema deles.
Tem razão - respondeu Almerinda um pouco decepcionada. Pensei estar ajudando Mildred. Ela vivia perguntando por ele
com olhos brilhantes, emocionada. Quem poderá
entender?
As mulheres são imprevisíveis. Não vamos nos meter ná vida de ninguém.
Quando mais tarde Valdo contou a Émerson o que acontecera, este se sentiu aliviado.
Melhor assim. Poderemos nos encontrar sem constrangimento. Pretendo manter boas relações com as pessoas, interessá-las
em meu projeto.
Como vai indo?
Muito bem. Os primeiros interessados começam a aparecer.
Todo mundo pergunta o que você pretende, e eu não sei bem. O que devo dizer?
Nada. Dentro de alguns dias saberão.
Que mistério!
Não há nenhum mistério. Acontece que ainda estou me organizando.
Valdo abanou a cabeça e disse sorrindo:
Já sei de um punhado de moças que irão procurá-lo, seja o que for que você fizer.
Pretendo fazer um trabalho sério. E o farei apenas com quem estiver disposto a isso. O tempo é precioso. Não vou atender
quem não estiver realmente interessado
em cuidar melhor da própria vida.
Valdo deu de ombros.
Você é quem sabe. Só quero ver como elas vão reagir quando descobrirem que não adiantou jogar charme.
Émerson sorriu e não respondeu. Sabia o que queria e como fazer.
69
Marcelo entrou em casa cansado. Não via a hora de tomar um banho e relaxar. Gérson convidara-o para ir ao cinema, e ele
recusara.
Você precisa reagir. Largar Mirtes foi o melhor que lhe aconteceu. Não deve ficar em casa pensando nela.
Mirtes é um caso encerrado. Não sinto mais nada por ela. Não quero sair porque estou cansado. Iremos outro dia - respondera.
A verdade, no entanto, é que ele perdera o prazer de divertirse, de sair com os amigos. Mirtes não lhe saía do pensamento.
Não era amor, mas apenas orgulho ferido.
Ela o passara para trás sem nenhuma explicação. Várias vezes sentira vontade de ir conversar com ela, para dizer-lhe que
não a queria mais.
Apesar disso, quando o telefone tocava, imaginava que era ela. Se ela voltasse a procurá-lo, como das outras vezes, o que
lhe diria? Imaginava um diálogo em que
ela implorava e ele não voltava atrás. E mais: desprezava-a, provando assim que não a amava mais.
Porém um mês passara sem que ela o procurasse. Aos poucos ele foi se convencendo de que a perdera de fato. Tentava convencer-se
de que tinha sido melhor assim, que
ela era falsa, volúvel e que ele tivera sorte de livrar-se dela. Mas era inútil. Cenas do namoro vinham-lhe à mente e ele
sentia que apesar de tudo desejava estar
com ela. A atração que Mirtes exercia sobre ele não desaparecera. Chegou à triste conclusão de que não conseguia controlar
seus sentimentos e que não adiantava
querer negar: ele a amava e não desejava perdêla, ainda que para isso precisasse humilhar-se, sofrer, perdoar as traições
que ela lhe fizera.
Vivia insatisfeito, desejando que ela voltasse, mas ao mesmo tempo, pressentindo que iria sucumbir às suas rogativas como
sempre fizera, não queria que ela o procurasse.
Era contraditório, contudo, fosse qual fosse o pensamento que lhe ocorresse sobre ela, sentia-se derrotado, fraco. Sem ela,
sentia-se infeliz; com ela, incapaz.
Aquela sensação desagradável de fracasso não podia continuar. Tinha de libertar-se dela. Se tentasse namorar outra moça,
talvez conseguisse vencer aquele estado
de espírito.
Quando se preparava para tomar banho, sua mãe apareceu ná porta de seu quarto entregando-lhe um envelope e dizendo:
Esta carta é para você. Chegou semana passada. Lina apanhou a correspondência e esta caiu atrás do sofá. Ela nem percebeu.
Foi só hoje que achamos. Abra para ver
se é alguma coisa importante.
Marcelo apanhou o envelope bonito que Iolanda lhe estendia e comentou:
70
Não acho que seja importante. Ninguém me escreve.
Pode ser alguma conta. Melhor abrir. Marcelo abriu e leu:
"Convidamos você para a inauguração do Instituto de Desenvolvimento Espiritual. Contamos com sua presença." Seguia-se a
data e o endereço. Estava assinado por Émerson
de Menezes.
É hoje à noite - comentou Iolanda. Que instituto é esse? Nunca ouvi falar.
É um lugar de estudos. Quem está convidando é aquele moço que encontrou minha agenda. Lembra?
Sei. Você vai?
Acho que não. Estou cansado.
Ultimamente não tem saído. Precisa distrair-se. Desde que brigou com Mirtes, fechou-se em casa e não vai a lugar nenhum.
Vai ver, está esperando que ela apareça
para perdoá-la, como sempre.
Não é nada disso. Desta vez não tem volta. Acabou mesmo, Iolanda sacudiu a cabeça e saiu. Marcelo apanhou o convite,
novamente indeciso. Não sentia vontade de sair com os amigos, encontrar os conhecidos que não faziam outra coisa senão
falar sobre sua paixão por Mirtes. Sua mãe
tinha razão: precisava sair, distrairse. Mas queria ir a um lugar diferente, conhecer outras pessoas.
Consultou o relógio e decidiu ir. Guardara uma excelente impressão de Émerson, que fora muito atencioso. Haviam jantado
juntos e conversado sobre assuntos interessantes.
Marcelo chegou ao local dez minutos antes da hora marcada e admirou-se com o movimento. Foi difícil encontrar um lugar
para estacionar. ná porta, foi recebido por
um rapaz simpático que recolheu seu convite, convidando-o a entrar.
Do hall ele divisou o salão e foi até lá. Émerson conversava com duas moças e, vendo-o, imediatamente foi recebê-lo.
Que bom vê-lo! Seja bem-vindo.
Marcelo apertou a mão que ele lhe estendia com prazer.
Fique à vontade.
Obrigado.
Valdo aproximou-se e Émerson chamou-o, dizendo:
Você conhece Valdo. Ele veio gentilmente cooperar comigo esta noite.
Como vai? cumprimentou Marcelo. Apesar de conhecê-lo, nunca havíamos conversado.
71

- Bem... Você está sozinho? Venha, vou apresentá-lo a algumas pessoas.
Marcelo acompanhou-o sentindo-se alvo das atenções, pois Valdo apresentou-o a várias pessoas e ficou com ele até vê-lo
conversando com duas moças. Mostrou-se atencioso
e educado com ele, tratando-o com cortesia, e Marcelo, que sempre antipatizara com ele, começou a pensar que talvez estivesse
errado.
Conversando com as moças, Marcelo descobriu que ninguém sabia bem do que se tratava o instituto que Émerson estava inaugurando.
O salão estava em penumbra e havia
um ar de mistério nos objetos místicos que ele trouxera do Oriente e com os quais decorara o lugar. No ar havia uma música
diferente, que emprestava ao ambiente
um encanto especial. Além das flores, nos dois aparadores havia cadeiras formando a platéia onde as muitas pessoas já haviam
se acomodado. Ao fundo, pequena plataforma
com um microfone.
Às oito em ponto, Émerson dirigiu-se para lá, o que fez as duas moças que estavam com Marcelo convidarem-no a sentar-se.
Émerson apanhou o microfone e saudou as
pessoas presentes, dando-lhes as boas-vindas. Depois explicou:
- Hoje é um dia muito feliz para mim, porque estou começando um trabalho com o qual venho sonhando há algum tempo. Muitos
de vocês me conhecem e sabem que há oito
anos saí pelo mundo em busca de novos conhecimentos. Estava inquieto, procurando respostas para as muitas indagações a respeito
da vida, sem encontrar nenhuma resposta
satisfatória nos conhecimentos de nossa sociedade ou nos livros que li.
Émerson fez ligeira pausa e, constatando que o ouviam com interesse, continuou:
- Observando a perfeição da natureza, o equilíbrio do universo, a magia da vida, eu não podia entendera causa de tantas
injustiças, tantos sofrimentos, tantas guerras
existentes no mundo. Acreditando na perfeição de Deus, tanta infelicidade parecia-me inexplicável e injusta. Parti e, durante
oito anos, visitei mosteiros, procurei
sábios, mestres, e com cada um fui aprendendo a ter uma visão diferente e percebendo como contribuímos para agravar os fatos
que nos afligem no dia-a-dia. Foi num
mosteiro de uma pequena cidade da Índia no qual estive por mais de três anos que meu aprendizado se tornou mais profundo.
Para ser sincero, eu gostaria de ter ficado
lá para sempre. Havia tanta serenidade, tanta sabedoria, tanta luz, tanto amor entre as pessoas que considero um privilégio
ter estado lá.
72
- Porém um dia me comunicaram que estava na hora de voltar para minha cidade e começar a tarefa para a qual a vida me havia
preparado antes do nascimento e que eu
aceitara realizar. Foi-me revelado que eu deveria voltar, fundar um instituto para continuar meus estudos sobre a vida e
ao mesmo tempo ensinar tudo quanto havia
aprendido com os mestres.
- Aqui estou, dispondo-me a isso. Uma das coisas que aprendi foi que os homens, manipulados por uma educação colocada a
serviço dos interesses escusos de grupos
ambiciosos que buscam poder e domínio, foram invertendo os valores verdadeiros do espírito. Encontram-se perdidos no cipoal
duvidoso das indagações de uma filosofia
materialista, com o espírito incapacitado para enfrentar os desafios do amadurecimento que se fazem necessários para a conquista
da lucidez que todos viemos buscar.
Perderam a fé no próprio poder, não acreditam que são responsáveis por tudo quanto lhes acontece. E fazem mais: preferem
colocar-se na posição de vítimas de um destino
cruel, entregando-se à depressão ou à revolta. Torna-se preciso acordar a consciência de cada um para sua missão neste mundo,
conhecer de onde viemos, saber o que
estamos fazendo aqui, trabalhar para construir uma vida melhor.
- Neste instituto serão realizados cursos e conferências, terapias e estudos, com prática experimental, que vão procurar
a verdade onde quer que esteja, facilitar
que cada pessoa compreenda qual o melhor caminho para si e resolva trabalhar para melhorar seu padrão de vida. A felicidade
é conquista que tem diferentes portas,
e só a encontra quem descobre sua porta e a própria chave para abri-la.
- Aqui não vamos dar receitas, fórmulas, caminhos. Apesar de estarmos juntos no mesmo objetivo, vamos individualmente procurar
o que é melhor para nós agora.
- Estou muito feliz por estarmos juntos esta noite. Na secretaria os interessados poderão buscar as informações dos trabalhos
deste instituto, que começarão na próxima
semana. Agradeço a Deus a oportunidade que está nos oferecendo e de minha parte farei tudo para desempenhá-la com amor e
alegria. Obrigado.
Uma salva de palmas ecoou no ar, e Marcelo, na platéia, de repente sentiu como se ele já tivesse visto aquela cena. Teria
sonha
do? Quando ele já teria presenciado aquilo? Aquela lembrança apareceu forte em sua mente e ele se emocionou. Enquanto as
pessoas eram encaminhadas para a sala ao
lado,
73
onde seria servido o coquetel, Marcelo aproximou-se de Émerson, que
estava sendo muito cumprimentado, e abraçou-o dizendo baixinho: - Quando estiver livre, preciso falar com você. Agora há
pou
co me aconteceu uma coisa muito esquisita.
Émerson sorriu e respondeu:
- Você já tinha visto esta cena. Marcelo assustou-se: - Como é que você sabe? - Eu sei. Você é dos nossos.
Em outro canto da sala de conferência, Mildred dizia para a
amiga que a acompanhava:
- Vamos à secretaria pegar os folhetos. - Você vai freqüentar aqui?
- Claro que vou. Adorei a conferência.
A outra dirigiu-lhe um olhar malicioso e não fez comentários.
Depois de conseguir as informações, Mildred foi à sala do coquetel.
Embora estivesse interessada em tudo quanto Émerson fazia, não
queria demonstrar isso. Seu plano tinha de dar certo.
Olhou em volta. Precisava encontrar alguém para fingir que
estava interessada. Viu quando Marcelo abraçou Émerson e pensou: "Que homem bonito, elegante... Esse serve." Durante o coquetel,
aproximou-se de Valdo e pediu:
- Queria que me apresentasse àquele moço bonito. Você o
apresentou às outras e me deixou de lado.
- Marcelo? Venha. Vamos lá.
Depois dos cumprimentos, Mildred perguntou a Marcelo:
- Não me lembro de tê-lo visto antes. Faz tempo que conhece
Émerson?
- Não. Nosso encontro foi casual, mas ele teve a gentileza de me mandar um convite.
- Somos amigos de infância. Pretende freqüentar o instituto?
- Sim. Há algumas respostas que quero encontrar. Émerson me impressionou muito desde nosso primeiro encontro. É um mestre.
Ficarei feliz se ele me aceitar como aluno.
- Ele é fascinante, apesar de imprevisível. Nunca pensei que fosse dedicar-se ao misticismo e à religião.
- De fato, ele não parece um religioso.
- Claro que não. Gosta da vida em sociedade, é galante com as moças, apaixonado quando se interessa. Vamos ver quanto tempo
dura esse modismo dele.
74
- Não acredita que ele esteja falando sério? Ele me pareceu muito convicto e sincero.
- É. Vamos ver. Um moço rico como ele pode dar-se a certos caprichos.
Marcelo fitou-a pensativo. Os olhos dela tinham um brilho duro que o fez lembrar Mirrtes. Não eram parecidas fisicamente,
mas o olhar era semelhante.
Aquilo o incomodou. Estaria tão apaixonado que tudo lembrava sua ex-namorada? Essa impressão desapareceu quando Mildred
segurou seu braço dizendo com um sorriso
amável:
- Vamos dar uma volta, estou com sede...
Eles foram, e Mildred não o largou mais. Laura, que estava ao lado de Valdo, comentou:
- Acho que Mildred disse a verdade. Não está mais interessada em Émerson. Nunca a vi assim. Ela, sempre distante, a deusa,
a inconquistável, pendurou-se nesse rapaz
desde que chegou.
- A mim também parece estranho.
- Pode ser amor à primeira vista. O rapaz é muito bonito.
- Mas pobre para as ambições dela. As aparências enganam.
As mulheres adoram os truques e as armadilhas. - Como você é maldoso.
- Você agora deu para gostar dela. Por que será? Laura enrubesceu e respondeu:
- Minha opinião sobre Mildred continua a mesma. Não gosto dela. Também não gosto de ser maldosa. Ela é livre para se interessar
por quem quiser.
- Tem razão. Você não vai apanhar os folhetos? Sempre gostou de misticismo. Vive estudando esses temas.
- Já apanhei e acho que você deveria fazer o mesmo. Aliás, está na hora de começar a estudar a vida.
- Para quê? Tudo está correndo bem para mim. Émerson já me disse que estou bem como estou.
Laura sorriu. De fato, Valdo estava muito bem. Ela, sim, precisava compreender melhor por que não conseguia esquecer aquele
amor impossível.
Gostaria de encontrar outros interesses que dessem novo colorido à sua vida. Ia freqüentar o instituto não por causa de
Émerson mas para procurar um jeito de viver
melhor.
Seu amor por ele era sem esperanças. Ele nunca a amaria. Por isso havia tentado esquecê-lo de todas as formas. Entretanto,
olhando
75
para ele enquanto falava expondo seus projetos naquela noite, esse amor veio à tona com mais força do que nunca.
Estremeceu quando ouviu a voz de Émerson a seu lado:
- Então, Laura, o que achou?
Tentando controlar as emoções, ela respondeu:
- Sua idéia é genial. Sempre acreditei que temos muito a aprender com outros povos, outras culturas. Até aí nada de novo.
Há muitas escolas filosóficas ou religiosas
voltadas ao aprimoramento do ser. O que me agradou em sua exposição foi sua postura aberta, colocando a individualidade
como fundamento, sem imposição de idéias
ou regras, apenas com intuito de facilitar o conhecimento. Tenho certeza de que somos o produto do que acreditamos, que
nossas atitudes refletem nossas idéias e
os resultados que colhermos dimensionará a conquista de nossa felicidade. Você propõe uma escola que nos ensine a viver,
que estude práticas que vão nos levar a
sermos mais alegres e felizes. Eu desejo participar.
Émerson fitou-a com olhos brilhantes e considerou:
- Você entendeu o que eu quis dizer. Gostaria de poder contar com sua ajuda na organização do instituto.
- Eu?! Não sei se estou pronta.
- Está. Sinto que sua presença será de grande valia para nosso projeto. Convidei algumas pessoas para uma reunião domingo
à tarde, aqui. Você pode comparecer?
- Sim. Conte comigo.
Valdo, que ouvia calado, tornou:
- Fez boa escolha, Émerson. Laura tem muito conhecimento. Só que não gosta de mostrar, fala pouco, coloca-se em segundo
plano.
Émerson sorriu e respondeu:
- Com o tempo ela vai descobrir e assumir suas reais aptidões. Então se livrará dos preconceitos sociais e se mostrará como
é.
- Não sou preconceituosa - defendeu-se ela.
- Claro que é. Vive se comparando com os outros, pensando que sabem mais do que você. Julga-se menos e teme que os outros
notem isso. Por isso prefere se calar.
Às vezes sente prazer ao constatar as falhas dos outros, principalmente dos que se colocam em evidência.
Laura olhou-o surpreendida.
Por que ele a via de maneira diferente do que ela se julgava ser?
Sempre acreditara não ter preconceitos.
Vendo que ela não respondia, Valdo retrucou:
76
- Você está enganado, Émerson. Laura não tem preconceitos. Não faz diferença entre as pessoas.
- Não falo da aceitação das minorias raciais ou culturais. Falo de como ela se vê, de suas idéias sobre a própria capacidade.
Ela tem conceitos preconcebidos sobre
si mesma que são falsos. São eles que a impedem de progredir, de se mostrar como é, de posicionar-se com clareza, de participar
do banquete da vida. Vive se atormentando
com pequenas coisas aprendidas às quais se condicionou a ponto de acreditar que não merece ser verdadeiramente feliz.
Laura baixou a cabeça para esconder o brilho de uma lágrima que ameaçava cair. Émerson continuou:
- Não estou criticando você. Quero que tome consciência do que vai em seu coração. Reconhecer o que sente é o primeiro passo.
Você está madura para grandes vôos.
Estou dando uma amostra de como vamos trabalhar neste instituto.
- Ela ficou mais muda do que antes. Desse jeito não voltará mais aqui. Não acha que está sendo duro demais? - indagou Valdo,
que se sentia incomodado com a reação
da irmã.
Laura levantou o rosto emocionada e respondeu:
- Nunca ninguém me disse tanto em tão poucas palavras. Você está enganado, Valdo. Não perderei a reunião de domingo por
nada.
Émerson abraçou-a com carinho:
- Assim é que se fala. Eu sabia que podia contar com você.
Valdo fitou-os surpreendido. Ele admirava a inteligência da irmã, notava que ela se apagava diante dos outros, e várias
vezes insistira para que ela mudasse. Porém
sempre que tocava no assunto ela não queria ouvir, ficava nervosa, não aceitava o que ele dizia.
- É, meu caro, você leva jeito. Começo a pensar que vai conseguir tudo que quer.
- Vou mesmo. As pessoas estão querendo o melhor. Eu descobri algumas chaves para que elas consigam. O resto é conseqüência.
Tudo vai dar certo. Vocês verão.
Os outros dois se calaram, mas não duvidaram que ele tivesse razão. Nunca as pessoas precisaram tanto aprender a lidar com
as próprias emoções. Aquele instituto
ia ser um sucesso.
77
Mildred desligou o telefone com raiva. Marcelo havia lhe perguntado se ela estaria presente na reunião do domingo à tarde.
Respondera que sim e imediatamente foi
falar com a administração do instituto para inscrever-se. Mas para sua surpresa ficou sabendo que aquele era um encontro
do qual participariam somente alguns convidados
de Émerson.
Imediatamente procurou-o, dizendo que queria ir àquela reunião.
- Nessa você não poderá ir - respondeu ele. - Mas posso recomendar alguns cursos cujas inscrições estão abertas e que seriam
mais adequados a você.
Mildred dissimulou a contrariedade e preferiu não insistir. Pelo tom firme de Émerson, percebeu que ele não mudaria de idéia.
Decidiu agir por conta própria. Telefonou para Laura no dia seguinte. Depois dos cumprimentos, perguntou se ela iria ao
instituto no domingo.
79
- Irei.
- Você viu aquele moço moreno, lindo? - Quem?
- Marcelo. Ele se interessou por mim e eu gostei dele. Combinamos nos encontrar lá. Por isso irei com você.
- Desculpe perguntar, mas Émerson a convidou?
- Não... Mas nós somos amigos. Se eu for, ele vai gostar.
Laura hesitou um pouco, depois disse:
- Olhe, Mildred, ele me disse que não vai permitir a presença de ninguém além dos que escolheu. Trata-se de uma reunião
de trabalho. Nem Valdo ele convidou. Disse
claramente que não queria que ele fosse. Por isso, se deseja mesmo estarlá, fale com ele. Não tenho autorização para levar
ninguém.
- O que é isso, Laura? Estou estranhando você. Sempre foi muito educada.
- Desculpe. Não posso tomar essa liberdade com Émerson. Ele está levando muito a sério seu trabalho. Depois, nem sei do
que vamos tratar nessa reunião. Se você gostaria
de ir, fale com ele.
Mildred sentou-se no sofá tentando engolir a raiva. A sonsa da Laura ainda iria lhe pagar por aquela desfeita. Onde já se
viu? Ela, que sempre fora invejada e disputada
onde quer que fosse, não podia aceitar aquela humilhação.
Sabia que à tarde Laura não estaria em casa e resolveu aproveitar para visitar Almerinda. Ela gostava de tomar chá à tarde
com algumas amigas.
Encontrou-a sozinha e disse sorrindo:
- Senti saudade de tomar um chá com a senhora. Faz tempo que
não tenho esse prazer.
- Fez bem, minha filha. Sente-se, por favor.
- Obrigada. Ontem estivemos na inauguração do instituto de
Émerson. Não a vi lá.
- Não pudemos ir. Mas já estive naquele lugar e gostei muito.
Laura voltou entusiasmada. Adorou. - E Valdo?
- Bem, ele gostou, mas, para ser sincera, a meditação, o estudo, não é bem seu forte. Ele gosta mais do ruído, do movimento,
da agitação. Apesar disso, admira muito
o trabalho de Émerson.
- Na verdade, Émerson mudou muito. Não e mais a mesma pessoa. Eu o preferia como era antes. Mas isso passou. Hoje eu o vejo
de outra forma.
80
- Seu amor por ele acabou?
- Nem sei se foi amor. Acho que foi ilusão da juventude, nada mais. Quando o vi depois de tantos anos, senti que tudo estava
acabado.
- Ainda bem. Vocês são muito diferentes. Não sei se seriam felizes juntos.
- Eu gosto muito dele. Nossa amizade continua. Desejo que tenha êxito. Mas não sei se está começando bem... - Por quê?
- Ele ontem falou muito bonito. Disse que as pessoas precisam descobrir o próprio valor, mas, pelo que percebi, na hora
de agir ele não faz o que prega.
- Não?
- Não. Diz que o instituto é para todos, mas começa fazendo diferença entre as pessoas, privilegiando algumas em detrimento
de outras.
- Explique melhor. Émerson não me parece capaz disso.
- Mas é. Convidou algumas pessoas para uma reunião especial. Quando mostrei interesse em ir, ele não deixou. Convidou Laura,
até um moço desconhecido que estava
lá, e deixou-me de lado. Eu desejo aprender, estudar, quero ir a essa reunião.
- Se quer mesmo, fale com ele. Talvez tenha se esquecido. Nos últimos dias tem estado muito atarefado.
- O pior é que eu pedi e ele disse que não. Eu desejo tanto ir! A senhora poderia pedir para ele me convidar? Não precisa
dizer que estive aqui.
Almerinda remexeu-se no sofá. Era desagradável um pedido daqueles. Não costumava intrometer-se nas atividades de ninguém.
Percebeu por que Mildred fora à sua procura.
Apesar do desconforto, Almerinda disse com voz firme:
- Não posso fazer isso. Não costumo me envolver no que fazem meus filhos, muito menos Émerson. Ele sabe bem o que quer e
como fazer. Nunca me pediu opinião, é dono
de si, e eu não vou me intrometer. Aliás, ele sempre se saiu muito bem em tudo que fez. Se ele disse "não", deve saber o
que está fazendo. Se está ressentida com
a atitude dele, seria bom dizer-lhe francamente.
Mildred sentiu uma onda de rancor, mas esforçou-se para dissimular. Por que será que as pessoas sempre faziam o que Émerson
queria? Ninguém tinha coragem para enfrentá-lo.
Ele sempre fizera tudo de seu jeito e seus tutores nunca usaram nenhuma autoridade para
81
com ele. Ficara oito anos fora, como um andarilho perambulando pelo mundo, sem eira nem beira, ao invés de terminar a universidade,
como seria de bom-tom.
Tentando dissimular o rancor que estava sentindo, ela baixou os olhos pensativa, hesitou um pouco e depois respondeu:
- Farei isso. Afinal, nossa amizade nos permite essa franqueza. Ele perdeu os pais em uma idade difícil. Por causa disso
vocês o mimaram muito. Ele sempre fez o
que quis. Foi uma pena ter deixado a universidade.
Almerinda olhou-a nos olhos e respondeu com voz firme:
- Cada pessoa deve seguir a própria vocação. Suas palavras me fazem crer que não aprova seus projetos. Nesse caso, por que
deseja freqüentar o instituto?
Mildred mordeu os lábios e disse com voz que esforçou por parecer natural mas na qual Almerinda notou um fundo de irritação:
- A idéia é boa: melhorar a qualidade de vida. Ele acredita que podemos fazer isso. Quero descobrir se ele tem razão. Afinal,
quem não deseja ser feliz?
- Concordo. O chá está servido. Vamos?
Mildred notou que Almerinda estava decidida a encerrar o assunto e não voltou a ele. Conversou sobre outras coisas e despediu-se
dissimulando sua contrariedade.
Laura chegou e Almerinda contou-lhe sobre a visita de Mildred, finalizando:
- Veio aqui para me usar. Pretendia que eu insistisse com Emer
son para deixá-la ir com você à reunião de domingo.
- Por que ela não pede a ele?
- Já pediu e ele disse "não". Ela está inconformada. - Naturalmente você recusou. - Sim.
- Isso a deixa furiosa. Mildred odeia ouvir um "não".
- Ela foi desagradável. Fiquei constrangida. Questionou até a edu
cação de Émerson, insinuando que lhe demos excessiva liberdade. - Ela vai continuar tentando. Telefonou-me ontem e disse
que
iria comigo, como minha convidada. Ela vai cercar todo mundo. - Vai acabar dando um jeito.

Mildred chegou em casa e ligou para Marcelo. Uma voz de mulher respondeu que ele só voltaria depois das sete. Mildred deixou
o nome e o número e pediu que ele ligasse
quando chegasse.
82
Marcelo recebeu o recado admirado. Apesar de Mildred haver se mostrado atenciosa, não esperava que ligasse. Era moça muito
bonita, de classe, freqüentava a alta
sociedade. Chamava a atenção por onde passava. Teria se interessado por ele?
Não se sentira atraído por ela, porém ficou envaidecido. Havia sido passado para trás por Mirtes, e o interesse de Mildred
levantou seu moral.
Gérson tinha razão. Vivia repetindo que ele poderia conquistar qualquer mulher e que deveria esquecer Mirtes de uma vez.
Ao pensar nela, sentiu um aperto no peito. Apesar de tudo, ainda doía. Mas, para esquecer um amor, nada melhor do que outro.
Tomou banho, jantou, foi para o quarto, apanhou o telefone e ligou. Mildred atendeu, dizendo amável:
- Que bom que ligou! Já estava pensando que não lhe haviam passado meu recado.
- Foi minha mãe quem atendeu. Ela nunca esqueceria de me avisar. Como vai?
- Foi bom ouvir sua voz. Estava me sentindo tão para baixo... - Você? Custo a crer.
- É verdade. Estou triste mesmo. Liguei para avisar que não irei à reunião de domingo no instituto. Eu havia combinado com
você... - Não? Aconteceu alguma coisa?
- Émerson me proibiu de ir.
Marcelo ficou surpreso e não soube o que dizer. Vendo que ele não respondia, ela prosseguiu:
- Pode imaginar uma coisa dessas? Eu estava tão entusiasmada, com tanta vontade de aprender...
- Deve ter havido algum engano. Falou com ele?
- Sim. Mas ele disse que essa reunião não é para mim. Sentime inferior aos demais.
- Não deve sentir-se assim. Certamente ele não teve essa intenção. Disse que ia separar as pessoas por grupos. Você deve
estar destinada a outro grupo.
- Disse para eu me inscrever em um dos cursos na secretaria, como qualquer pessoa comum, enquanto selecionou vocês para
algo especial.
- Talvez nos destine para algo mais fácil. Digo isso porque é a primeira vez que freqüento um lugar como esse. Gostei das
idéias de Émerson, mas confesso que sou
leigo no assunto. É provável que você esteja destinada a um grupo mais adiantado.
- Está dizendo isso para me confortar. Mas penso que quando
um projeto começa errado nunca dá certo.
- Por que diz isso?
- Ele pregou a harmonia, a fraternidade, e fez diferença entre
as pessoas. Vocês podem, eu não. Isso é discriminação.
- Você está muito zangada com ele.
- Estou magoada. Somos amigos de infância. Vou passar o do
mingo triste, sozinha, sem ter com quem conversar.
Marcelo ficou calado por alguns instantes. Depois respondeu: - Você deve ter muitos amigos. Arranjará companhia com
facilidade.
- Eu não quero qualquer um. Ainda se fosse você...
- Infelizmente, prometi ir a essa reunião. Se concordar, irei vê-la assim que terminar.
- Eu não devia lhe pedir isso. Afinal nos conhecemos tão pouco! Nem sei por que estou me abrindo com você. Não é meu costume.
Esqueça.
Marcelo inquietou-se, pensou um pouco e resolveu:
- Você precisa ir a essa reunião, já que deseja tanto. Falarei
com Émerson e você irá comigo.
- Fará mesmo isso por mim?
- Farei. Amanhã irei procurá-lo. Depois telefonarei para com
binarmos. Está bem assim?
- Puxa, como você é gentil! Não se arrependerá de me haver
ajudado.
Marcelo desligou o telefone bem-disposto. Entre todos os amigos, Mildred escolhera-o para desabafar, pedir ajuda. Sentiu-se
importante. Tinha certeza de que, se
explicasse, Émerson concordaria com a presença dela.
Na tarde seguinte, quando deixou o escritório, Marcelo passou pelo instituto à procura de Émerson. Uma atendente avisou-o
que ele estava em meditação e que não podia
ser interrompido.
- Ele vai demorar?
- Não sei. Faz quase duas horas que está lá.
- Vou aguardar. Com certeza não vai demorar.
Sentou-se na sala de espera, apanhou uma revista e começou a folheá-la. Pesquisa sobre Reencarnação. Interessou-se. Um
cientista hindu relatava alguns casos comprovados
de lembranças reencarnatórias.
Marcelo nunca se interessara por aquele assunto, que julgava
84
fruto da crendice de pessoas ignorantes. Entretanto, o pesquisador era um cientista credenciado, com formação acadêmica e um
currículo invejável.
Impressionado, leu o artigo com muito interesse e nem notou o tempo passar. Surpreendeu-se quando ouviu a voz de Émerson
dizendo:
- Como vai, Marcelo?
- Bem. O assunto estava tão interessante que nem percebi sua presença.
Émerson sorriu e respondeu:
- As pesquisas sobre reencarnação são muito interessantes. - Para dizer a verdade, estou admirado. Não pensei que cientistas
se dedicassem a um assunto desses.
- Por que não? Conhecer os fenômenos da vida é muito importante. Todos nascemos e morremos. Saber de onde viemos e para
onde vamos é fundamental.
- Você acredita em reencarnação?
- Sim. É a única forma de entendermos as desigualdades sociais. Esse assunto é matéria de nossos cursos.
- Gostaria de saber mais.
- Para isso fundamos o instituto. Vamos tomar um café na copa.
Marcelo acompanhou-o. Émerson apanhou duas canecas, serviu café e convidou-o a sentar-se. Depois sentou-se a seu lado, tomou
um gole de café e disse olhando-o nos
olhos:
- Você me procurou para tratar de um assunto de outra pessoa, não é?
Marcelo meneou a cabeça afirmativamente, mas sentiu-se acanhado de repente. Émerson continuou:
- Você possui grande potencial de realização. Nesta encarnação poderá conseguir grande progresso espiritual e dar um passo
à frente na conquista de sua felicidade.
Porém deixa-se levar pelas aparências, engana-se com facilidade. Sua ingenuidade e o medo de errar têmlhe criado situações
desagradáveis, principalmente na parte
afetiva.
- De fato, não sou feliz em meus relacionamentos. Apaixoneime por alguém que não me valoriza e me deixa de lado sempre que
aparece outro mais rico ou mais bonito.
Não tenho sorte com as mulheres que amo.
- Não se trata de sorte. É você com sua maneira de agir que atrai esse tipo de pessoa em seu caminho. Você acabou um namoro
recentemente, não é?
85
- Sim. Ela me trocou por outro.
- Se arranjar outra, vai acontecer a mesma coisa.
- Nesse caso devo ficar sozinho. Não quero passar por isso de novo. É um sofrimento.
- Você é responsável pelo que está acontecendo. Precisa descobrir quais as suas atitudes que estão atraindo esse tipo de
mulher.
- Você está dizendo que sou o culpado por ela ter me traído?
- Não se trata de culpa, mas de pensar de forma inadequada. A vida responde de acordo com o que você acredita.
- Mas eu acreditei que Mirtes me amava. Ela parecia tão interessada! Estávamos quase noivos. De repente, ela estava me enganando,
dizendo que estava doente quando
na verdade saía com outro.
- Não me refiro à sua boa-fé nem à sua ingenuidade, mas às crenças que você tem, à sua maneira de olhar a vida. Você se
julga menos do que os outros e procura dissimular
isso sendo passivo, aceitando tudo que eles querem sem reagir. Pensa que sendo "bonzinho" conquistará a admiração e o
respeito. Mas não é assim que funciona. Você
entra nesse papel e esconde seus verdadeiros sentimentos. Quantas vezes diz "sim" quando seu coração está gritando que não?
Marcelo baixou a cabeça pensativo. Émerson prosseguiu:
- Você tem medo de posicionar-se. Pensa que, se disser "não", se contrariar as pessoas, será julgado mau. Isso não é verdade.
Não é assim que os outros o vêem. Eles
pensam que você é um fraco, sem vontade própria e que não merece consideração. Não é isso que sempre fazem com você?
- Pior que é. Você descreveu a minha vida.
- Por isso está na hora de mudar.
- Acha possível?
- Claro. Quando se conscientizar da verdadeira causa de seus problemas e agir de maneira mais adequada a seu temperamento,
tudo mudará para melhor.
Marcelo ficou pensativo por alguns instantes, depois disse:
- Acho que eu não devia ter vindo interceder por Mildred. Foi isso que vim fazer. Se você disse "não" a ela, deve saber
o que está fazendo.
- Isso mesmo. Mildred usou você para conseguir o que ela queria. Eu sei o que estou fazendo. Ela não tem condições de estar
na reunião de domingo. É bom que perceba
a verdade. Pessoas mimadas não suportam um "não". Isso é vaidade. No instituto estou interessado em ensinar as pessoas a
serem verdadeiras, a jogarem fora os
86
papéis sociais de conveniência que tanto as tem infelicitado. Por isso, meu amigo, não aceito interferência de ninguém.
Cada um precisa cuidar de si. Cada um responde
apenas por si.
Marcelo levantou-se e estendeu a mão:
- Desculpe ter vindo incomodá-lo. Isso não voltará a acontecer.
- Venha sempre que quiser algum esclarecimento. Estou à disposição.
- Obrigado.
Marcelo saiu pensativo. Mildred tentara usá-lo e ele caíra feito um bobo. Precisava ficar mais atento. Émerson fora preciso
e claro.
Uma coisa o intrigava: ele não chegara a dizer o motivo de sua visita. Como Émerson sabia? Alguém teria lhe contado? Mas
quem? Mildred, certamente, não.
Voltou para casa preocupado. Logo mais ela iria ligar. O que lhe diria? Pensou em arranjar uma desculpa, dizer que estivera
ocupado e não pôde ir ao instituto. Dizer-lhe
que sua visita fora inútil e que dera razão a Émerson era-lhe penoso. Sentiu uma desagradável sensação de fracasso. Talvez
fosse melhor não voltar para casa, ir
dar uma volta, ver os amigos, ir ao cinema. Assim não teria de enfrentá-la.
As palavras de Émerson vieram-lhe à mente:
- Mildred usou você. Pessoas mimadas não suportam um "não". Isso é vaidade.
De repente compreendeu. Mildred era mimada, julgava-se melhor do que os outros, por isso queria que sempre lhe fizessem
a vontade. Émerson tinha razão, mimo é vaidade
pura.
Marcelo lembrou-se de seu primo Olavo. Os pais dele o mimavam fazendo-lhe todas as vontades, e a cada dia ele ficava mais
enjoado e exigente. Toda a família, inclusive
Marcelo, antipatizava com o menino. Várias vezes ouvira sua mãe dizer que Olavo não tinha culpa. Estava sendo estragado
pelos pais, que lhe faziam todas as vontades.
Eles, sim, eram os responsáveis.
Mirtes fazia o mesmo. Era mimada, julgava-se mais bonita, mais desejada, mais sexy do que qualquer outra. Era atraente,
agradável quando queria, mas de vez em quando
tornava-se insuportável.
Fazer todas as vontades de uma pessoa, ser passivo, deixar-se usar por ela pensando em ser amado, reconhecido, valorizado,
é um erro. É fazer com que a pessoa fique
cada vez mais mimada e insuportável.
Várias vezes comentara com Gérson que as mulheres preferiam os homens "durões". Agora entendia por quê. Quanto mais seus
tios mimavam Olavo, mais rebelde e desobediente
ele se tornava.
87
Émerson dera-lhe a chave para entender esse comportamento. Não encontrando resistência a suas imposições, Olavo julgara-os fracos
e perdera o respeito. Dominava-os com
facilidade e a cada dia tornava-se mais irônico e implicante.
- É a adolescência! - justificava a tia.
- Um dia esse menino vai crescer - completava o pai.
Marcelo sentiu que precisava dizer a verdade a Mildred. Não podia mimá-la ainda mais.
Por que era-lhe tão difícil dizer um "não"? O que havia de errado nele, que detestava contrariar as pessoas ainda quando
sentia que essa seria a atitude mais adequada?
Até então acreditara que fazia aquilo por respeito aos outros, por bondade. Seus tios também pensavam assim e no entanto
estavam fazendo muito mal ao filho. Quantas
coisas ele fazia acreditando ser um bem e não eram? Émerson dissera em sua palestra que o bem sempre dá bons resultados.
Se alguém está infeliz, se tudo está dando
errado, é porque a pessoa está na ilusão do bem, não no bem verdadeiro.
Querer agradar aos outros a todo custo a pretexto de ser bom seria uma ilusão? Ele fizera isso a vida inteira e os resultados
não haviam sido positivos. Fora preterido,
desvalorizado. As pessoas o julgavam um fraco, ele dava essa impressão. Mas isso não era verdade. Se evitava brigas, desentendimentos,
não era por medo, mas por
não gostar de violência nem de ser visto como mal-educado.
Sua mãe sempre lhe dizia que só parte para a força bruta quem não tem inteligência para argumentar. Sempre se julgara inteligente
e pensava que tudo na vida poderia
ser resolvido através do diálogo. Estaria errado? Isso não estava muito claro em sua cabeça. Talvez Émerson pudesse esclarecer
melhor. Em todo caso, resolveu enfrentar
Mildred. Iria para casa e não mentiria.
Assim que chegou, ligou para ela. Apesar de haver decidido dizer-lhe a verdade, estava tenso, sentindo uma desagradável
sensação de fracasso. Por que se sentia assim
se não fora ele quem decidira dizer "não" a ela?
Pensou em desligar, mas ouviu a voz dela:
- Como vai, Marcelo? Não podia mais recuar.
- Vou bem. E você, está mais animada?
- Esperando sua resposta. Então, falou com ele?
- Sim... - Hesitou um pouco e completou: - Falei que você
queria ir.
88
- E então?
- Olhe, Mildred, ele disse que está agrupando as pessoas de acordo com os projetos que tem. Você, ele quer que vá para outro
grupo. - Quer dizer que ele disse "não"?
Embora ela tentasse dissimular, ele notou irritação em sua voz. - Isso.
- Talvez você não tenha sido convincente. O que lhe disse?
Marcelo percebeu claramente que ela estava insinuando que ele não havia se esforçado para obter sucesso. De repente, alguma
coisa se rebelou dentro dele, que respondeu:
- Olhe aqui, Mildred, você me pediu para ir falar com ele, insistir em uma coisa que ele já havia dito que não. Para lhe
fazer um favor, fui, mas me arrependi. Fiquei
constrangido.
- Por quê? Ele foi grosseiro com você?
- Absolutamente. Foi muito atencioso e deu-me todas as
explicações. Eu percebi que não deveria ter me intrometido. - Como assim? O que foi que ele disse? - É melhor ficarmos por
aqui.
- Não. Falaram sobre mim e quero saber.
- Está certo. Você pediu. Ele me explicou que, para o trabalho ter sucesso e as pessoas aproveitarem mais os cursos, ele
as agrupou conforme alguns critérios. Você
não iria se dar bem em nosso grupo. Por isso ele lhe pediu que se inscrevesse em outro.
- Ele disse isso, mas eu sei que o grupo de domingo é especial. Foi o único para o qual ele selecionou pessoas. Quanto aos
demais grupos, mandou as pessoas escolherem
e se inscreverem no que achassem melhor. Já se vê que ele me colocou de lado.
- Não foi isso que eu notei. Ele a tratou com muito respeito.
- Mas não quer que eu vá. Isso me põe para baixo. Estou me sentindo rejeitada. Até a sonsa da Laura foi convidada. Por que
você não insistiu?
- É melhor se conformar. Ele sabe o que está fazendo e não vai voltar atrás.
- Pois não me conformo. Nunca fui passada para trás deste jeito.
- Ele disse também que você está insistindo não porque faz questão de aprender mas porque é mimada e não consegue ouvir
um "não". Por sua reação, noto que ele tem
razão.
- Agora você me ofende! Como pode dizer uma coisa dessas? Você mal me conhece. Onde está seu cavalheirismo, sua educação?
89
- Eu é que sou mal-educado? Mesmo não me conhecendo bem, você me usou para que as coisas fossem do jeito que quer. Como
Émerson foi firme, sabe o que está fazendo
e disse não, você se vira contra mim, que me dei ao trabalho de fazer-lhe um favor. Para mim foi o bastante. Não me peça
mais nada nesse sentido porque não vou fazer.
Entendeu?
Mildred ficou silenciosa. Marcelo parecera-lhe fácil de manipular. Teria se enganado? Logo agora que ela contava em fazer
ciúme para Émerson desfilando com ele pelos
lugares da moda. Tentou contemporizar:
- Desculpe. Tudo bem. Vamos esquecer esse desagradável incidente. Apesar de nos conhecermos pouco, simpatizei com você e
não quero que fique sentido comigo por uma
bobagem dessas. Não irei no domingo, mas teremos outros momentos no instituto. Estou muito interessada em aprender lá.
- É melhor assim. Nós nos veremos outro dia. Agora preciso desligar. Minha mãe está me esperando para jantar.
- Está zangado comigo?
- Absolutamente.
- Continuamos amigos?
- Claro.
Quando desligou o telefone, Marcelo sentiu-se como se houvesse ganhado uma batalha. Sentiu-se forte, seguro de si. Notara
claramente quanto ela era manipuladora.
Mas dali para a frente estaria mais atento. Émerson estava certo. Pela primeira vez falara firme assim com uma mulher, e,
ao invés de ela brigar, tornara-se cordata,
delicada. Talvez se tivesse se comportado assim com Mirrtes, tudo teria sido diferente.
Mas valeria a pena continuar com aquele namoro? Mirtes se revelara mentirosa, interesseira, mimada. Ele, porém, gostava
muito dela. Era muito atraente. Quando saíam,
Mirtes chamava a atenção por onde passavam. A seu lado, ele se sentia um vencedor. Ao mesmo tempo, reconheceu que ficava
inseguro, enciumado, angustiado. No fundo,
havia sempre o medo de perdê-la. Parecia-lhe que ela era demais para ele e que a qualquer momento o deixaria.
Por que o amor fazia sofrer tanto? O melhor seria mesmo esquecer. Ela não era para ele. Nunca daria certo aquele relacionamento.
Ao pensar nisso, sentiu-se triste, deprimido. Sua amizade com Émerson aconteceu na hora certa. Ao lado dele teve certeza
de que encontraria esclarecimento e forças
para deixar aquele namoro de lado.
90
Mirtes levantou-se de sua cama e atirou a revista de lado. Estava aborrecida. A tarde já ia findando e nada de interessante
havia para fazer. Entediada, ela se olhou
no espelho. Precisava arrumar-se, sair, ver se arranjava um namorado novo.
Nos últimos tempos não havia tido muita sorte. Nada dava certo. Como sair daquela apatia? Pensou em Marcelo. Fazia dois
meses que não o via. O que estaria fazendo?
Nunca ficara tanto tempo sem a procurar. Teria arranjado outra? Ele era bonito e fácil de manejar. Se fosse rico, não hesitaria
em casar-se com ele. Ele ganhava
bem, mas ela desejava mais. Queria ter muito dinheiro, comprar jóias, viajar pelo mundo, desfrutar de luxo e conforto, gastar
à vontade.
Olhou-se no espelho e deu uma volta, observando seu corpo bem-feito. Seus olhos brilharam de satisfação. Era bonita! Podia
desejar tudo. Atraía a atenção
91
onde passava, gostava de aventuras, mas nada que pudesse ferir sua reputação.
Pretendia um marido rico. Se ao menos tivesse dinheiro para freqüentar altas rodas! Seu pai era contador de uma empresa
de porte médio. Ganhava o suficiente para
manter a família com conforto mas sem luxo. Havia comprado o sobradinho em que moravam e sentia-se satisfeito com a vida
modesta que levavam.
Várias vezes Mirtes tentara induzi-lo a procurar um emprego melhor, sem resultado. Por fim ela entendeu que, se quisesse
ser rica, deveria agir por conta própria.
Gostava de Marcelo. Era bonito e fazia boa figura. Era boa companhia também. Notava os olhares de inveja das garotas quando
saíam. Mas para casar ele não lhe servia.
"Se ele aparecesse hoje, eu até sairia", pensou.
Abriu a bolsa e procurou a carteira. Estava vazia. Sentou-se na cama irritada.
Alzira entrou no quarto e ela aproveitou para dizer:
- Preciso de dinheiro. Quanto você tem?
- Nada - respondeu a irmã.
Ela sabia que Mirtes gastava tudo e nunca devolvia. Alzira estava economizando para um curso que pretendia fazer.
- Não acredito. Você não costuma gastar nada. Guarda até os centavos. Estou precisando.
- Lamento, mas não tenho nada. Mamãe disse para você tomar banho logo porque papai está para chegar e não gosta de esperar
pelo jantar.
- Ele tem mania de andar com o relógio na mão. Nunca vi
ninguém tão metódico.
- Cada um é do jeito que é.
- Não sei como mamãe agüenta. Se fosse comigo...
Alzira não respondeu. Sentiu vontade de dizer que ela, sim,
andava insuportável, mas preferiu calar-se. Não gostava de discutir. Mirtes foi tomar banho e demorou o mais que pôde. Precisava
cuidar de sua beleza.
Quando desceu, uma hora depois, recendendo a perfume e mui
to bem maquiada, foi à sala de jantar esperando as reclamações cos
tumeiras. Não encontrou ninguém.
Ouviu vozes na sala de estar, mas as portas estavam fechadas. Al
zira apareceu na porta da cozinha e Mirtes indagou:
- Aconteceu alguma coisa? Eles estão fechados na sala.
92
- Não sei. Papai chegou, chamou mamãe e fecharam-se lá. Faz meia hora que estão conversando.
- E você não quis saber o que aconteceu? - Seja o que for, logo saberemos.
- Vou ver o que é. Não sou como você.
Foi até a porta e bateu. Houve silêncio por alguns instantes, depois Estela abriu a porta:
- O que você quer?
- Quero dizer que estamos prontas para jantar. - Pois jantem vocês. Nós não vamos agora. - O que aconteceu?
- Faça o que estou dizendo. Depois conversaremos. Comam vocês.
Estela fechou a porta e Alzira puxou a irmã dizendo:
- Venha, vamos comer. Mamãe nos contará depois.
- Não sei como você pode ser tão mosca morta. Alguma
coisa muito séria aconteceu. Desde que me lembro de existir, papai
nunca deixou de jantar na hora de costume. Mesmo quando ele e
mamãe tinham assuntos urgentes, eles se reuniam depois do jantar. Alzira deu de ombros.
- Eu vou jantar. Estou com fome.
Mirtes foi atrás dela resmungando.
Haviam terminado de comer quando Estela apareceu na sala de jantar e foi direto à cozinha.
Olhando o rosto pálido da mãe, Mirtes foi atrás dela.
- Mãe, alguma coisa de muito séria está acontecendo. O que é?
- Seu pai perdeu o emprego. Foi demitido.
- Só isso? Acho que foi bom. Lá não dava futuro mesmo. Agora ele vai ter de procurar um lugar melhor. Vou falar com ele.
- Não vai, não. Ele não está com disposição para conversar. Vou fazer um chá para ver se ele fica mais calmo. Quanto a você,
se já jantou, trate de ir para seu quarto.
Alzira observava calada. Aproximou-se e disse: - Pode ir, mãe. Eu arrumo a cozinha.
- Obrigada, minha filha.
- Vou levar o chá. E você, Mirtes, trate de ajudar sua irmã. Depois que ela se foi, Mirtes disse irritada:
- Vou para meu quarto. O clima aqui em casa hoje está horrí
vel. Talvez consiga alguém para sair. Preciso respirar um pouco.
93
- Não vai me ajudar?
- E estragar minhas unhas? Passei a tarde inteira caprichando nelas. Depois, você sabe fazer isso muito melhor do que eu.
Alzira olhou para a irmã e não respondeu. Depois que ela subiu, Alzira sentiu-se triste. Sabia que seu pai adorava aquele
emprego. Depois, ele passara dos cinqüenta
anos. Não seria fácil encontrar outro trabalho.
Mirtes foi para o quarto e olhou para o relógio. Eram sete e meia. Apanhou o telefone e ligou para Marcelo. Ele atendeu
e ela disse:
- Como vai? Sim, sou eu. Bateu a saudade. Estou muito triste. Aconteceu uma desgraça. Preciso desabafar, e você é a única
pessoa em quem confio.
Marcelo preocupou-se: - O que foi?
- O ambiente aqui em casa está muito triste. Gostaria de falar pessoalmente. Você pode vir se encontrar comigo? Ele hesitou:
- Estou ocupado.
- Agora? Sei que está sentido comigo, mas, por favor, não me deixe neste desespero. Nesta hora só consigo pensar em você.
Preciso desabafar, conversar... Se não
gosta mais de mim, saberei compreender. Quero que venha como amigo. Sua presença me confortará.
- Está bem. Irei.
- Estarei na porta esperando.
Marcelo desligou o telefone sentindo uma desagradável sensação de fracasso. Havia estabelecido o propósito de nunca mais
sair com ela. Mas Mirtes parecia muito aflita.
O que teria acontecido? Recorrera à sua amizade. Não podia deixá-la sozinha naquela hora.
Apanhou a chave do carro e saiu. Mirtes esperava-o na porta. Assim que ele parou, ela se aproximou e entrou. Marcelo fitou-a
um tanto desconfiado. Ela estava bem
arrumada, perfumada, não parecia preocupada.
Depois dos cumprimentos, ele considerou:
- Você não parece triste. Se for uma nova desculpa, irei embora agora.
Ela baixou a cabeça e respondeu com voz triste:
- Estou desesperada, mas sei conservar as aparências. - O que aconteceu?
- Vamos dar uma volta. Preciso respirar um pouco.
94
Marcelo deu partida e foi andando devagar. Escolheu uma rua tranqüila, parou e disse:
- Pode falar.
- Meu pai perdeu o emprego. Chegou em casa hoje muito abatido. - Parou alguns instantes e continuou: - Preciso fazer algo
para ajudá-lo. Ele adorava aquele emprego.
Não vai se conformar.
- De fato, é um momento difícil. Mas ele é um bom profissional. Logo conseguirá outro. Quem é bom nunca fica muito tempo
desempregado.
- Não sei... Ele está muito triste. Chegou a chorar! Nunca vi meu pai assim. Minha mãe, então, parecia doente de tão pálida.
Mirtes segurou o braço dele com força e encostando-se em seu ombro continuou com voz chorosa:
- Estou arrasada, Marcelo! Por favor, ajude-me!
Sua proximidade, seu perfume, o calor de seu corpo fizeram-no
estremecer. Tentou resistir. Ela notou sua emoção e aproximou seu
rosto do dele, dizendo baixinho:
- Marcelo! Que saudade! Neste momento triste, pensei em você, em seus beijos, seu carinho. Por favor, não me deixe!
Ele não resistiu mais. Abraçou-a e beijou-a várias vezes. Ela correspondeu com ardor. Emocionado, Marcelo sentiu que ainda
amava aquela mulher. Agora ela estava
ali, em seus braços, e ele não iria perder a oportunidade. O que acontecesse depois pouco importava. Apertou-a em seus braços
cobrindo-a de beijos como nunca fizera
antes. Mirtes deixou-se envolver pelo momento e eles se esqueceram de tudo.
Ele abriu a porta do carro e puxou-a levando-a para o banco de trás. Uma vez lá, continuou beijando-a, apertando-a em seus
braços, murmurando palavras de amor em
seus ouvidos.
Naquele instante ele pensou que precisava viver aquele momento com toda a intensidade. Era possível que logo ela se afastasse
novamente e tudo terminasse.
- Você é minha! - disse. - Pelo menos esta noite. Vou ensinar você a amar.
Mirtes perdeu o controle. Entregou-se completamente, sem pensar em mais nada.
Quando se acalmaram, ela, ainda atordoada, empurrou-o dizendo aflita:
- Marcelo! Por que fez isso? Jamais esperei que abusasse assim de minha confiança.
95
- Mirtes! Quando vim a seu encontro, não pensei em fazer nada. Mas eu a amo. Não resisti à sua proximidade. Depois, você
também quis. Não me repeliu.
Ela o fitou com raiva:
- Eu não queria nada disso.
- Não fique assim. Eu a amo. Não se preocupe. Amanhã mesmo falarei com seu pai. Vamos nos casar e tudo ficará bem.
Ela disse irritada:
- Casar com você? Nunca! Eu não quero. Tenho outros planos, e você complicou tudo. Quero ir embora. Leve-me para casa.
Ele tentou acalmá-la:
- Não fique assim! Não fizemos nada de mau. Garanto que tudo vai ficar bem. Eu assumo a responsabilidade pelo que fizemos.
- Você assume?
- Quero me casar com você!
- Casar? Você? Mas eu não quero. Não estou disposta a me tornar uma dona de casa submissa, pobre, arrastando filhos sem
futuro.
- Não entendo o que está dizendo. Ganho bem, posso oferecer uma vida confortável. Depois, eu a amo. O amor é o mais importante.
- Para mim, não. Tenho outros planos. Quero posição, sucesso, alta sociedade. Pretendo brilhar, não ser uma dona de casa
insignificante. O que aconteceu hoje não
se repetirá. Esqueça. Você não me deve nada.
Ele ainda tentou argumentar, mas ela disse com voz firme:
- Casamento está fora de cogitação. Agora leve-me para casa, senão vou embora sozinha.
Marcelo não respondeu. Acomodaram-se na frente e ele deu partida no carro em silêncio. Estava chocado. Não falaram durante
o trajeto. Quando ele parou o carro diante
da casa, Mirtes disse com voz fria:
- Não desejo mais vê-lo, Marcelo. Faça de conta que nunca nos conhecemos.
Ela entrou em casa e ele ficou alguns instantes parado sem saber o que fazer. Mirtes não era igual às outras que conhecia.
Enquanto a maioria procurava levar ao
casamento, ela o repudiara. Sentiu um aperto no peito. Angustiado, reconheceu que Mirtes nunca o amara. Por que então o
procurara? Por que se entregara daquela forma?
Era difícil entender. As emoções que havia experimentado ainda estavam presentes e ele se sentia mexido, emocionado, inseguro.

96
Talvez Mirtes houvesse reagido daquela forma por descontrole emocional. Ele havia sido o primeiro a entrar em sua intimidade.
Era possível que ela refletisse e voltasse
atrás. A esse pensamento, seu coração batia descompassado e as cenas de paixão que tinham desfrutado voltavam à sua mente
com toda a força.
Não. Não era possível que ela mantivesse aquela atitude.
Foi para casa. No dia seguinte, com certeza Mirtes lhe telefonaria arrependida. Das outras vezes ela sempre voltava a lhe
telefonar. Agora tinha um motivo maior.
Pensando assim, Marcelo deixou-se embalar nas asas do sonho. Tudo iria se resolver. Eles se casariam. Sabia que Mirtes tinha
gênio forte, mas com o tempo ela haveria
de modificar-se.

Mirtes entrou em casa irritada. Não se conformava de haver fraquejado daquela forma. Gostava de provocar, mas nunca se envolvera
a ponto de perder o controle. Por
que havia acontecido aquilo? Não estava apaixonada por Marcelo, embora gostasse de seus beijos e de sua proximidade.
A casa estava silenciosa, e ela tirou os sapatos. Não queria que sua mãe a visse chegar descomposta como estava. Cautelosamente,
foi para o quarto, trocou-se e foi
tomar um banho.
Deitou-se tentando não dar importância ao que havia acontecido. Mas as cenas de paixão que vivera com Marcelo voltaram à
sua mente e ela reconheceu que ele era muito
atraente. Se fosse rico, seria o marido ideal: manipulável, bonito, apaixonado. Precisava tomar cuidado. Nunca havia sentido
um envolvimento como aquele. Recordando-se
daqueles momentos, sentia o coração descompassarse, e uma onda de calor a acometia.
Aquele era um relacionamento perigoso. Ela não podia perder

o controle. Tinha seus objetivos de vida e não podia se deixar domi
nar. Mas a lembrança voltava e ela estremecia. Nunca imaginara

que Marcelo fosse capaz de tanto fogo. Quanto mais reconhecia isso,
mais firmava o propósito de resistir e de nunca mais tornar a vê-lo.

Ela era uma mulher moderna, que sabia o que queria da vida. Não
ia desistir de seus projetos. Nunca seria como sua mãe, resignada,
cuidando dos serviços da casa, sendo manipulada pela família inteira,
sempre passiva, como uma criada, zelando pelo conforto de todos. Ela
desejava ser servida, amada, freqüentar festas, ser valorizada, brilhar,
ter luxo, conforto. Ser feliz. Essa era a felicidade que Mirtes queria.
Por isso, apesar de ter dormido mal, por causa das emoções daquele
97
encontro com Marcelo, Mirtes não o procurou no dia seguinte como ele esperava.
Em casa, o clima era de tristeza. O pai havia comprado o jornal e tentava conseguir um emprego. A mãe fazia contas e mais
contas na mesa da cozinha enquanto Alzira
cuidava dos arranjos da casa.
- Ainda bem que levantou - disse Estela assim que ela apareceu na cozinha. - Tome café e depois vá ajudar sua irmã.
Mirtes sentou-se no canto da mesa que estava posta para o café e calmamente comeu. Depois levou a xícara para a pia e ia
se afastando quando Estela tornou:
- Não saia, não. Trate de lavar a louça do café.
- Alzira me disse que vai lavar.
Estela franziu o cenho, levantou os olhos e fixou-a dizendo com voz irritada:
- Estou mandando você fazer isso. Tem de acabar com essa mania de empurrar tudo para sua irmã. Nesta casa, todos devem colaborar
com o trabalho. Não é justo que
fique tudo por conta de um.
- A senhora sempre fez tudo. Nunca me deixou fazer nada. Sabe que não tenho jeito para certos serviços.
- Não tem vontade de aprender, isso sim. Hoje estou ocupada com outras coisas. Trate de lavar logo essa louça.
Apesar de contrariada, Mirtes resolveu obedecer. Sua mãe estava mal-humorada, e ela não estava com vontade de discutir.
Depois, o pai estava em casa. Se Estela
se irritasse, ele, como sempre, ficaria a favor dela.
Cerrou os lábios contrariada. Se antes sua mãe já reclamava por ela não gostar de fazer os serviços de casa, agora, que
o pai estava desempregado, seria pior.
Suspirou inquieta. Precisava fazer alguma coisa, cuidar de seu futuro. Não podia esperar mais. Lembrou-se de Valdo. Ele
seria o marido ideal. Era uma conquista
difícil. Depois daquele cinema, passava por ela como se nunca houvessem saído.
O que fazer para chamar sua atenção? Não freqüentava sua roda de amigos. Se pudesse ir aos lugares que ele freqüentava,
tinha certeza de chamar sua atenção. Era
bonita, elegante, os homens a desejavam.
Acabou de lavar a louça e foi para o quarto. Estendeu-se na cama, pensativa. Precisava encontrar um jeito de vê-lo com freqüência.
Mas como?
Pensou em procurar fazer amizade com alguma moça da sociedade.
98
Esse seria o caminho. De repente lembrou-se de Laura. Se conquistasse sua amizade, poderia freqüentar sua casa, ver
Valdo na intimidade da família.
Alzira entrou no quarto com um jornal na mão.
- Por que está deitada a esta hora? Já passa das dez. - Não é da sua conta.
- Arrumei as camas e você está amassando tudo. Sabe que mamãe não gosta de ver nada desfeito.
Mirtes não respondeu. Vendo Alzira arrumar-se, indagou: - Vai sair?
- Sim. Vou ver um emprego. Aliás, você também deveria fazer isso.
- Eu?! Deus me livre!
- Papai está desempregado. Já pensou no que acontecerá quando acabar o dinheiro que temos?
- Não sei por que vocês se afligem. Ele logo arranja outro emprego e tudo será como antes.
- Não vai ser fácil. Ele já passou dos cinqüenta anos. Mirtes deu de ombros.
- Ele é quem deve trabalhar. Como pai, tem obrigação de sus
tentar a família. Aliás, sempre teve dificuldade para fazer isso.
- Você é ingrata mesmo. Nunca nos faltou o essencial. Mirtes lançou-lhe um olhar de comiseração e considerou:
- Você é como eles: conforma-se com a miséria. Mas eu, não.
Você vai ver. Ainda serei muito rica.
Alzira olhou para ela com seriedade. Ia retrucar, mas desistiu. Ela nunca entenderia.
Apanhou a bolsa, avisou a mãe e saiu. Lendo o recorte que havia separado, achou o nome da empresa familiar, mas não descobriu
por quê.
Depois de conversar com a recepcionista, foi selecionada para
fazer um teste. Estava esperando em uma sala com mais duas candi
datas quando viu Marcelo passar no corredor. Imediatamente foi atrás dele e chamou: - Marcelo!
Ele se voltou surpreendido:
- Alzira! O que faz aqui?
- Vim por causa da vaga de auxiliar de escritório.
- Você não vai mais fazer aquele curso?
- Não. Meu pai perdeu o emprego e não posso esperar mais.
99
Preciso trabalhar. Estou esperando para fazer um teste. Acha que
conseguirei a vaga?
- Quem sabe? Vou ver o que posso fazer. - Vai ser muito difícil? - Não. Fique calma. - Preciso muito do emprego.
- Vou recomendá-la. - Hesitou um pouco, depois perguntou:
- Como vai Mirtes?
- Como sempre. Você me avisa se souber de alguma coisa? - Aviso. Boa sorte.
Marcelo despediu-se dela. Mirtes não havia ligado, e com cer
teza não contara nada à irmã do que havia acontecido.
No fim da tarde, Marcelo procurou o departamento pessoal para
ver o teste de Alzira. Ela se saíra bem. Mas não tinha prática. Eles
preferiam outra candidata. Marcelo interveio:
- Vocês devem dar uma oportunidade a Alzira. Trata-se de uma
moça muito séria e inteligente. Tenho certeza de que em pouco tempo
aprenderá tudo.
- A praxe é admitir pessoas experientes...
Marcelo olhou para sua interlocutora e sorriu. Sabia que ela
sentia por ele um interesse especial. Colocou a mão em seu braço
e disse:
- Escolha Alzira. Será um favor que fará para mim.
- Por que tanto interesse nessa moça?
- Sou amigo da família. O pai ficou desempregado, ela precisa
muito trabalhar.
- Está bem. Vou ver o que posso fazer.
- Obrigado. Serei sempre muito grato a você. Depois que ele se foi ela pensou:
"Não vou facilitar para essa moça vir. Ela é bonita e ele deve
estar interessado nela."
No fim do dia, quando saiu do escritório, Marcelo decidiu passar
na casa de Alzira. Era um bom pretexto para saber de Mirtes. Tocou a campainha. Mirtes abriu a porta, surpreendida.
- Como vai?
- O que quer aqui? Eu pedi que não viesse me procurar. - Vim falar com Alzira. Ela está? - Alzira? Isso é desculpa para
me ver. Antônio apareceu no hall, indagando:
- Quem está aí, Mirtes?
100
Vendo o pai, ela não respondeu de pronto. Marcelo interveio. - Vim falar com Alzira. Ela está?
- Está lá em cima. Vá chamá-la, Mirtes. Entre, por favor. - Obrigado.
Marcelo entrou enquanto Mirtes furiosa subiu à procura da irmã.
- Marcelo está lá embaixo e arranjou uma desculpa esfarrapada para me ver. Disse a papai que quer falar com você.
Alzira deu um pulo e desceu as escadas correndo. Entrou na sala ansiosa.
- Marcelo! Tem uma resposta?
- Ainda não. Mas eu a recomendei e é quase certo que a vaga será sua.
Entusiasmada, ela o abraçou contente:
- Tomara! As duas candidatas eram mais experientes do que eu. Em todo caso, obrigada por ter me recomendado.
- Obrigado, Marcelo - disse Antônio, comovido. - Não queria que Alzira trabalhasse por enquanto. Depois que a firma em que
ela trabalhava faliu e ela ficou desempregada,
eu queria que ela voltasse a estudar, mas infelizmente não deu certo. No momento estamos vivendo uma situação inesperada.
Alzira abraçou o pai, dizendo:
- Adoro trabalhar. Estou contente, papai, torcendo para esse emprego dar certo.
- Peça à sua mãe para fazer um cafezinho para nós.
Alzira saiu e Marcelo ficou conversando com Antônio. Mirtes tinha decidido não descer, mas a curiosidade foi maior. O que
estariam conversando na sala?
Ficou no alto da escada e viu quando Alzira foi à cozinha e pediu para a mãe servir café. Por que tanta deferência com Marcelo?
O que ele tinha dito?
Desceu no momento em que Estela levava a bandeja até a sala e servia o café. Admirada, ouviu que seu pai conversava com
Marcelo sobre trabalho. A mãe saiu da sala
e, vendo Mirtes parada no hall, disse:
- Vá lá. Marcelo está arranjando emprego para Alzira.
Então era aquilo. Ela fora pedir emprego a ele. Ficou irritada. Alzira estava se aproveitando do amor que ele sentia por
ela. Não queria ficar devendo favores a
ele.
Foi para o quarto. Meia hora depois, Alzira entrou e Mirtes não se conteve:
101
- Você não vai aceitar esse emprego...
- Se sair, eu aceito.
- Marcelo está fazendo isso por minha causa. Terminamos tudo. Não quero ficar devendo favores a ele.
- Engana-se. Ele nem sabia que eu queria trabalhar. Vi o anúncio no jornal e me candidatei. Fui fazer o teste e o encontrei
no corredor. Conversamos e ele se prontificou
a verificar como me saí.
- Claro que ele vai dar um jeitinho de colocar você na empresa. Só quero ver o que vai acontecer quando descobrirem que
não tem competência. Vai ser despedida.
- Tenho muita vontade de trabalhar. Isso conta. Na situação em que estamos, você deveria fazer o mesmo.
Mirtes olhou admirada para a irmã:
- Eu? Nunca! Tenho tutano. Não vou sujeitar-me a um empreguinho qualquer. Tenho outros planos. Ainda vou ser muito rica.
Alzira olhou para ela e não respondeu. As palavras de Mirtes não conseguiram empanar a alegria que sentia pela possibilidade
de conseguir a vaga. Não se importava
com o que a irmã dizia. Desde pequena descobriu que pensava muito diferente dela. Suas palavras ferinas, sua arrogância,
sua mania de grandeza e sua preguiça não
a incomodavam nem um pouco. Se assumia de boa vontade o serviço que a mãe mandava Mirtes fazer e que esta simplesmente ignorava,
era porque se sentia bem ajudando
a mãe nos afazeres domésticos. Sentia-se útil. Achava justo cooperar, uma vez que usufruía da proteção da família, que a
sustentara desde seu nascimento.
Na verdade, ela via as atitudes de Mirtes com naturalidade. Embora pensasse diferentemente, respeitava sua maneira de ser.
Não se impressionava com ela e agia do
seu jeito. Dessa forma, convivia com a irmã sem problemas.
Por ela estar sempre bem-humorada, calma, não revidando suas malcriações, Mirtes considerava-a fraca, inexpressiva.
Embora os pais amassem as duas filhas, não dispensavam igual tratamento a ambas. Por seu temperamento, Alzira era respeitada,
tratada com carinho, e muitas vezes
eles repreendiam Mirtes pela sua agressividade. Essa situação irritava-a.
Ela se julgava mais bonita, mais inteligente, e não entendia como Alzira, tão sonsa, era mais acariciada e protegida.
Agora então, com Alzira trabalhando para ajudar, seria o máximo. Certamente a elegeriam a santa da família.
Vendo a expectativa dela em conseguir o emprego, pensou:
102
"Eles não perdem por esperar. Quando eu arranjar um marido rico, irei embora para sempre. Então eles vão correr atrás de
mim. E eu farei de conta que não os conheço,
claro. Eles não têm classe para viver em sociedade."
Mirtes continuou pensando, pensando. Não agüentava mais a vida em casa. Agora, então, com o pai sem emprego, seria ainda
pior. Precisava agir. Retomou a idéia de
fazer amizade com alguma moça da sociedade. Mas como? Não tinha dinheiro para freqüentar os lugares da moda.
Resolveu que na tarde seguinte se arrumaria muito bem e iria circular pelas melhores lojas da cidade fingindo estar fazendo
compras. Não precisaria de dinheiro para
isso. A sorte haveria de favorecê-la. Animada, finalmente adormeceu.
103
Marcelo entrou na elegante perfumaria à procura de um presente para Laura. Quando começou a freqüentar os cursos de Émerson,
dois meses antes, iniciara amizade com
Laura, e na véspera ela o convidara para sua festa de aniversário. Ela era moça fina, e ele pensara em um perfume francês.
Enquanto a balconista o atendia e ele
tentava escolher, foi surpreendido por uma voz amável:
- Marcelo, como vai?
- Mildred, que surpresa!
- Já sei! Laura o convidou também.
- É verdade. Estou tentando escolher um perfume para ela.
- Que bom que você vai! Por causa da teimosia de Émerson em nos separar, não temos nos visto muito. Como vai o misterioso
curso do qual fui banida?
- Vai bem. Sei que você continua freqüentando o instituto.
- É. Continuo. Não me deixo vencer com facilidade.

(corrigir - falta a página 104)

105
- De fato. Vencemos.
- Se fizemos isso uma vez, poderemos fazer outras tantas que forem necessárias para encontrar a felicidade.
- Você acha mesmo?
- Tenho certeza. Hoje ficou claro para mim que a cada dia que passa Mirtes vai ficando mais apagada em minha vida. Chegará o dia em que não representará mais nada.
- Gostaria de dizer o mesmo quanto a Rômulo.
- Acredite nessa possibilidade. Não se deprecie. Estou vivendo esse processo. Sei que vamos vencer.
Chegaram e saíram do carro. Émerson e Laura, que vinham logo atrás, pararam e desceram.
- Obrigada por tudo. Não sei como agradecer o que fizeram por mim. - Renata abraçou Laura e continuou: - Que Deus lhe dê toda a felicidade do mundo e muitos aniversários
cheios de alegria como este.
Beijou-a carinhosamente na face. Depois Émerson abraçou-a, dizendo:
- Gostei muito de revê-la. Não se esqueça de me procurar no
instituto. Penso que teremos muito assunto para conversar.
- Irei com Marcelo.
Os dois despediram-se de Marcelo e foram saindo. Marcelo se
gurou a mão de Renata, dizendo:
- Obrigado por ter me apoiado e ficado comigo. Você entrou
em meu coração. Foi um prazer conhecê-la.
Beijou-a delicadamente na face. Renata sorriu:
- Esta noite foi mágica. Parece que a vida quis me mostrar que
tudo pode melhorar. Jamais esquecerei esta festa. Também tive mui
to prazer em conhecê-lo.
Ela entrou em casa e ele foi para o carro. No trajeto de volta,
Marcelo sentiu-se livre, forte, como nunca havia se sentido. Ele po
dia esquecer aquela paixão desastrada por uma mulher interesseira
e egoísta. Tinha quase certeza de que naquela noite Mirtes saíra de
finitivamente de sua vida.
No carro de Émerson, Laura comentou:
- Foi a festa mais bonita de minha vida. Estou muito feliz. - Sua vida poderá ser sempre assim.
- Gostei de ver Renata. Deu a volta por cima. Minha mãe con
tou que ela estava até doente por causa de Rômulo.
- Um dia ela descobrirá quanto foi bom ele a ter deixado. Esse
136
casamento nunca daria certo. Renata tem o temperamento oposto ao dele.
- É verdade. Ela sempre foi retraída. Apesar de nossas famílias se freqüentarem, nunca nos permitimos uma proximidade maior.
- Você é tão retraída quanto ela. Estou feliz por perceber que você não mais se esconde e assumiu seu real temperamento. É alegre, inteligente, brilhante e capaz.
Ela corou e respondeu:
- Você diz isso porque é meu amigo.
- Não, Laura. Eu digo porque é verdade. Esta noite, as pessoas circulavam ao seu redor disputando sua companhia. - Ele parou o carro, olhou nos olhos dela e concluiu:
- Você é linda!
Laura baixou os olhos para que ele não visse o brilho de uma lágrima que ameaçava cair. Como ela continuou calada, ele continuou:
- Eu tinha de você uma lembrança muito distante da realidade. Depois que voltei, aos poucos fui percebendo quanto estivera enganado. Você despertou em mim um sentimento
verdadeiro e profundo.
Ela levantou os olhos dos quais lágrimas incontidas haviam rolado para suas faces. Seus lábios tremiam quando ela disse:
- Eu sempre o admirei. E a cada dia o estimo mais.
Émerson abraçou-a e seus lábios se encontraram. Laura sentia o coração descompassado e todo o seu corpo estremecia sem que ela pudesse controlar. Émerson beijou-a
repetidas vezes, apertando-a em seus braços.
- Há tempos venho desejando fazer isso. Eu a amo, muito. - Eu também o amo. Sempre o amei.
Ele a beijou novamente com ardor.
- Eu pressentia, porém não tinha certeza. Nunca senti por mulher nenhuma o que estou sentindo por você. Nunca mais nos separaremos.
- Parece um sonho. Eu sentia que esta seria uma noite mágica. Não desejo que ela termine. Tenho medo de acordar e descobrir que foi apenas um sonho.
Émerson apertou-a mais de encontro ao peito, beijou-lhe levemente os cabelos e respondeu:
- É a mais absoluta verdade. Vamos nos casar e nunca mais nos separaremos. Nossa felicidade será para sempre. Eles ficaram conversando esquecidos do resto do mundo,
fazendo
137


planos para o futuro. O dia clareou e o sol despontou com toda a sua luz.
- Meu Deus! É tarde. Em casa devem estar preocupados.
- A festa acabou tarde. Seus pais devem estar dormindo. Vamos embora.
De volta à casa de Laura, desceram do carro.
- Está tudo quieto - comentou ela. - Devem estar dormindo mesmo. Venha, vamos tomar um café.
- Você está me tentando. Sabe que não sinto vontade de ir embora.
Laura abriu a porta da casa e segurou a mão dele, puxando-o para dentro.
- Venha, vamos ver o que temos para comer.
O salão continuava igual, embora os empregados já houvessem
retirado a louça usada e coberto as sobras.
Os olhos de Laura brilhavam e seu rosto estava corado de
prazer.
- Venha, vamos até a copa. Vou preparar um café.
- Tem certeza de que sabe fazer isso?
- Não me subestime. Tenho um curso completo de culinária que vai do trivial simples aos pratos mais sofisticados.
Ele a beijou levemente na face.
- Sempre fui um homem de sorte.
Enquanto ela na cozinha fazia o café, Émerson arrumou a mesa na copa, colocando várias iguarias e um dos arranjos de flores. Estavam felizes como duas crianças
em férias.
Uma hora mais tarde, quando ele se despediu, Laura foi para o quarto, preparou-se para dormir, deitou-se, mas não conseguiu pegar no sono.
Na penumbra do quarto rememorou em todos os detalhes os acontecimentos daquela noite. Ela havia notado nos olhos de Émerson um carinho especial quando a fitava,
um brilho que nunca havia notado antes. Mas ela temia estar se iludindo, deixando-se levar pelo desejo ardente de conquistá-lo.
Mas naquela noite, durante a festa, onde quer que estivesse, Laura sentira os olhos dele seguindo todos os seus passos. Ele dançou apenas com ela. Embora as outras
o disputassem, ele sorria, conversava com elas, mas depois a procurava para dançar.
Quando ele a convidou para acompanhar Renata e Marcelo, seu coração bateu mais forte. Os dois poderiam ter ido sozinhos, mas
138
Émerson usou esse pretexto para levá-la a um lugar discreto e se declarar. As palavras, os beijos trocados, ela se recordava dos mínimos detalhes.
Depois disso, cansada mas feliz, adormeceu conservando o sorriso nos lábios.
Conforme havia combinado, na terça-feira à noite Marcelo foi
buscar Renata para irem ao instituto. Convidado a entrar, foi
recebido por Marcelina. Depois dos cumprimentos, ela sugeriu:
- Sente-se, por favor. Renata já está pronta.
Ele agradeceu e sentou-se. Ela se acomodou no sofá ao lado. - Você conhece Laura há muito tempo? - Sim. Mas nos tornamos amigos no instituto de Émerson.
- Tenho ouvido falar muito nesse instituto. Émerson sempre foi
diferente dos outros rapazes.
- Eu o admiro muito. Ser seu amigo é um privilégio.
- Minha filha mostrou interesse em freqüentar esse lugar. Confesso que estou um pouco temerosa. Alguns conhecidos me disseram que ele prega idéias diferentes das
nossas. Não sei se notou, mas Renata é uma moça retraída, inexperiente, com tendências depressivas. Temo que se deixe influenciar e fique pior.
- Não há o que temer. Os ensinamentos de Émerson fazem bem e nos ensinam a viver melhor. Depois, apesar de Renata estar um pouco fragilizada, é moça inteligente
e capaz de discernir o que lhe convém - respondeu Marcelo com voz firme.
Marcelina tentou contemporizar:
- Tem razão. Émerson é um bom rapaz e teve muito boa educação. Almerinda o considera muito.
- Fique tranqüila, Dona Marcelina. Renata vai apenas
conhecer o instituto e conversar um pouco com Émerson. Renata apareceu na sala e Marcelo levantou-se. - Desculpe o atraso. Podemos ir.
Despediram-se e saíram. Marcelina procurou o marido, que lia em outra sala, e comentou:
- Não estou gostando nada desta história. Ele levantou os olhos do livro.
- Que história?
- De Renata ir com esse Marcelo ao instituto de Émerson. A filha de Adelaide está indo e mudou muito desde que começou a freqüentar esse lugar.
139
- Mudou como?
- Antes era caseira, obedecia a tudo que os pais mandavam. Agora não aceita mais as ordens. Vive discutindo. Diz que tem o direito de escolher o que fazer de sua
vida.
Os olhos de Eduardo brilharam divertidos e ele considerou:
- Adelaide é mandona mesmo. Não sei como José a tolera. Todos naquela casa só fazem o que ela quer. Quer saber? Estou do lado da menina.
Marcelina meneou a cabeça negativamente.
- Você pensou no que está dizendo? Uma menina de vinte e
dois anos não sabe o que quer da vida. Os pais devem decidir. Eduardo olhou para ela com seriedade.
- Diz isso porque você também gostaria que Renata continuasse
cordata, obedecendo a tudo que você quer. - Claro.
- Você aceitou aquele noivado com Rômulo. Eu cansei de dizer que ele não servia para Renata.
- Apesar de tudo, tenho minhas dúvidas. Afinal, ele é do nosso meio. Fino, elegante e educado. Às vezes penso que ele poderia tornar-se um bom marido. Renata é que
não conseguiu mantê-lo interessado. Também, sonsa do jeito que é...
Dessa vez foi Eduardo quem balançou a cabeça negativamente.
- Você está depreciando nossa filha. Ela é muito bonita, inteligente, tem tudo para conquistar um homem. O que eu acho é que Rômulo é falso e interesseiro. O que
ele procura é um casamento rico.
- Não seja maledicente. A família dele também é rica.
- Não creio. Eles moram longe. Sabemos só o que ele conta. Mas isso não interessa agora. Felizmente ele procurou outra vítima.
- Que horror, Eduardo! Não se pode mesmo falar com você.
Ela se foi e ele deu de ombros, reabriu o livro e mergulhou novamente na leitura.

Passava das dez da manhã na quinta-feira quando Alzira entrou no quarto e, vendo Mirtes dormindo, chamou-a:
- Mirtes, Mirtes, acorde. Levante-se. Tenho de arrumar o quarto.
A irmã se remexeu no leito e continuou dormindo.
- Vamos, acorde. Além de não ajudar em nada, ainda atrapa
lha. Mamãe está doente e não agüenta fazer todo o trabalho. Mirtes irritou-se:
140
- Deixe-me em paz. Quero dormir.
Alzira não se deu por achada. Aproximou-se da cama, tirou as cobertas e sacudiu-a dizendo:
- Deixe de ser preguiçosa. Trate de levantar. Há um cesto cheio de roupas para passar. Se não quer arrumar a casa, terá de passar roupas.
Alzira abriu as janelas e Mirtes irritada sentou-se na cama. - Como você é grossa! Não respeita ninguém. - Não gosto de gente preguiçosa.
- Quando eu for rica, irei embora, deixarei esta miséria. Vocês nunca mais me verão.
Alzira fez uma reverência, dizendo irônica:
- A princesa não precisa esperar para ir embora. A porta da rua é serventia da casa. Quanto antes, melhor.
Mirtes não respondeu. Foi ao banheiro, arrumou-se e desceu para o café. Estela preparava o almoço. Vendo-a, disse: - O café com leite está na térmica.
- Você sabe que não gosto que misture o café com o leite. - Não sei por quê. Você sempre mistura os dois na xícara. - É diferente. E este pão está murcho.
- Seu pai comprou muito cedo. Saiu para procurar emprego.
Ela tomou uma xícara de café com leite, depois foi para a sala telefonar para Mildred. Precisava fazer alguma coisa. Sua vida estava cada vez pior. Não agüentava
mais aquela pobreza. Com o pai desempregado, sua mãe tornara-se mais econômica, esticando o mais possível o dinheiro, com medo do que aconteceria se a poupança
acabasse antes de ele conseguir um emprego. Não havia dinheiro para nada. Logo agora que ela começara a freqüentar a alta sociedade e precisava vestir-se melhor.
- Alô. Como vai, Mildred?
- De mau a pior. Ainda bem que você ligou. Estou desesperada. - Aconteceu alguma coisa?
- O pior que poderia acontecer. Émerson está namorando a sonsa da Laura.
- Não diga! Bem que desconfiei. Na festa ele só dançou com Laura. E olhava para ela de um jeito...
- É comigo que Émerson vai se casar! Esse namoro não pode continuar. Hoje mesmo vou dar um jeito nisso. - O que vai fazer?
- Procurar a pessoa que vai me ajudar.
141
- Aquele pai-de-santo?
- Isso mesmo.
- Acha que ele é bom mesmo?
- Tenho certeza. Quer ir comigo?
Mirtes concordou logo. Mildred combinou de ir buscá-la às duas
da tarde. Ela mal podia esperar. Não se importou com os comentários
de Alzira, as queixas da mãe e o desânimo do pai, que voltou sem
haver conseguido emprego.
Em sua fantasia, via-se casada com Valdo, desfrutando do luxo
e da consideração da alta sociedade.
Quando Mildred chegou, Mirtes entrou no carro e depois dos
cumprimentos perguntou:
- Você acha que vai dar certo?
- Acho que sim. Tenho de tentar. Não posso cruzar os braços
vendo Laura me roubar Émerson. Eu o esperei todos estes anos na
certeza de que quando voltasse nos casaríamos. Não me conformo
em perdê-lo, ainda mais para Laura. Ele nunca se interessou por ela. - Eu também gostaria de fazer uma consulta. Esse pai-de-san
to cobra muito caro?
- Duzentos reais.
Mirtes suspirou desanimada. - O que foi?
- É muito caro. Infelizmente não tenho esse dinheiro. Meu pai
está desempregado e eu não trabalho.
- A consulta ainda é barata. Caro é o serviço que ele vai fazer.
Mas estou disposta a pagar. Afinal, é para minha felicidade.
Mirtes baixou a cabeça e esforçou-se para dominar a revolta que
sentia. Nem para isso ela tinha dinheiro. Mildred considerou:
- Você está interessada em alguém?
- Estou. Mas terei de esperar. No momento não disponho desse
dinheiro.
- Você não me disse nada! Eu confiei em você e contei tudo. Você não confia em mim.
- Não se trata disso. Foi hoje que descobri que estou apaixonada. Por isso pensei...
- Apaixonada? Por quem?
- Por Valdo. Ele sempre me interessou. Mas, como ele não me procurou mais, fiz o possível para esquecer. Contudo, vendo-o na festa, senti que ele ainda me interessa
muito. Pensei que talvez esse pai-de-santo pudesse me ajudar a conquistá-lo.
142
Mildred começou a rir.
- Até hoje ele tem sido muito arisco. Nunca se apaixonou de verdade. Eu gostaria muito que ele perdesse aquela pose e caísse a seus pés, fazendo tudo que você pedisse.
- Eu passeia manhã toda sonhando com isso. Seria a glória. Mas terei de esperar.
- Nada disso. Vou lhe emprestar o dinheiro que for preciso. Quando você puder, me paga.
Mirtes deu um grito de alegria, abraçando a amiga.
- Puxa, Mildred! Você é demais! Nunca esquecerei o que está fazendo por mim.
- Cuidado que estou dirigindo. Calma. Vou fazer isso não apenas para ajudar você mas também para ver Valdo apaixonado.
O endereço ficava na periferia e foi difícil de encontrar. Finalmente chegaram. A rua não era calçada e o número era de um galpão que parecia abandonado.
- Tem certeza de que é aqui?- indagou Mirtes olhando em volta, preocupada.
- Pelo menos foi esse endereço que me deram.
- O lugar não parece habitado. Não estou gostando nada disso. É melhor irmos embora.
- Não. Vamos ver.
Decidida, Mildred apertou a campainha. Pouco depois um rapaz moreno abriu o portão. Vendo-as, disse sério: - Entrem. Pai Tomé as espera.
As duas entraram e acompanharam o rapaz até os fundos do galpão e pararam diante de uma porta.
Mirtes estava assustada. Por ela, teria ido embora. O cheiro de incenso, fumaça e ervas a tonteava. Mildred, porém, segurou seu braço, dizendo firme:
- Vamos.
- Queiram esperar um pouco. Vou avisar que chegaram.
Ele entrou na sala e Mirtes aproveitou para dizer baixinho:
- Vamos embora, Mildred. Este lugar é perigoso. Podem nos
assaltar.
- Que nada, Mirtes. Deixe de ser medrosa. Você quis vir, agora agüente.
O rapaz abriu a porta.
- Podem entrar.
As duas obedeceram.
143
Na penumbra, sentado a uma mesa redonda em um canto da sala, ele esperava. Ao lado dele, um altar cheio de imagens, velas e ervas. -
- Quem vai consultar?
- Eu. Meu nome é Mildred.
- Sente-se. A outra deve sair.
- Ela também deseja consultar.
- Atendo uma de cada vez. O assunto é confidencial.
Mirtes sentia a cabeça atordoada, as pernas bambas. Sem dizer nada, saiu da sala e fechou a porta. Aquele ambiente a sufocava. Sentia medo, tinha vontade de sair
dali. Atravessou o galpão quase correndo e procurou a porta de saída. O rapaz surgiu em sua frente dizendo:
- Não precisa sair. Pode esperar aqui.
- Obrigada, mas prefiro esperar lá fora.
Sem esperar resposta, ela abriu a porta e saiu. Uma vez na rua, respirou fundo. Sentia como se fosse desmaiar. Olhou em volta para ver se achava algum bar ou lanchonete
para tomar um copo de água. Mas não havia nada além de algumas casas pobres e maltratadas.
Sua cabeça rodava e ela suava frio. Se ao menos tivesse a chave do carro, poderia sentar-se. Mas na pressa esquecera-se disso. Começou a andar de um lado para o
outro inquieta.
Mildred estava demorando e ela não melhorava. A custo, Mirtes conseguiu esperar. A todo momento imaginava que ia perder os sentidos.
Quando ela finalmente apareceu, Mirtes respirou aliviada. - Puxa, como você demorou!
Agora é sua vez. Pai Tomé a está esperando. - Eu não vou. Não estou me sentindo bem. - Você está pálida! Aconteceu alguma coisa?
Nada. Estou me sentindo mal e quero ir embora. - E a consulta?
- Não quero mais.
Vai se arrepender. Ele é demais. Falou tudo sobre minha vida. - Vamos embora antes que eu caia aqui mesmo.
Mildred abriu o carro e Mirtes sentou-se abrindo a janela e res
pirando fundo. Durante o trajeto de volta, Mildred começou a falar
da consulta, mas Mirtes pediu:
- Por favor. Agora não. Cada vez que você fala nisso eu fico pior. - Está bem. Pensei que você estivesse interessada em saber.
144
Voltaram em silêncio. Mildred deixou a amiga em casa, despediu-se e partiu. Mirtes entrou e foi à cozinha tomar um copo de água.
Sua mãe, vendo-a, perguntou admirada:
- Aconteceu alguma coisa? Você está pálida!
- Não aconteceu nada. Fui dar uma volta com Mildred e me senti mal. Vou me deitar.
- Vai ver, você comeu alguma coisa na rua. É melhor tomar um remédio para o fígado.
- Não comi nada. Isso vai passar.
Foi para o quarto, deitou-se, mas o mal-estar não passava. De vez em quando lhe parecia estar naquele galpão escuro, e um medo incontrolável a acometia. Levantava-se
e andava de um lado para o outro do quarto. Quando se acalmava um pouco, deitava-se, mas de repente começava tudo de novo.
Alzira entrou no quarto dizendo:
- Mamãe está chamando para jantar.
- Não quero.
Alzira acendeu a luz e Mirtes gritou:
- Apague isso.
A outra apagou, dizendo:
- O que você tem?
- Estou me sentindo muito mal.
- Nesse caso é melhor chamar mamãe.
Estela subiu rapidamente a escada.
- Ainda não melhorou?
- Estou muito mal. Parece que vou morrer. - Não diga bobagem, minha filha.
Acendeu a luz, olhou para ela e disse:
- Levante-se. Vamos ao pronto-socorro.
Ela se sentou na cama mas não conseguiu levantar. - Estou muito tonta. Não consigo.
Estela ficou nervosa. Mirtes estava desfigurada. Queria chamar um médico, mas não tinham dinheiro. Fora difícil conseguir comida para o jantar.
Desesperada, Estela sentou-se na cama. Lágrimas rolavam pelas suas faces, e ela não sabia o que fazer.
Alzira entendeu logo que não seria possível chamar um médico. - Mamãe, vou chamar Dona Isaltina. Ela vai nos ajudar.
- Nada disso. Nós somos católicas. Ela lida com espíritos. Não
vai adiantar nada.
145
- Mas eu vou assim mesmo. Outro dia ela curou Miguelzinho, lembra-se? Ele caiu da bicicleta e ficou desmaiado. Ela rezou e ele voltou a si. Vou até lá. Ela vai nos
dizer o que fazer.
Alzira saiu rápida enquanto Mirtes gemia na cama e Estela deixava as lágrimas correrem livremente. Aquela situação fora a gota d'água. Desde que o marido perdera
o emprego, ela dissimulava a preocupação tentando dar coragem a toda a família, mas estava cansada de lutar. O emprego de Alzira não saíra e ela ainda não conseguira
outro.
Mirtes agitou-se de repente. Sentou-se na cama, dizendo nervosa para a mãe:
- Não quero que ela venha. Não deixe essa mulher entrar aqui. Se ela vier, você vai ver o que eu faço.
Estela sentiu o peito oprimido. Desceu as escadas, e o marido indagou:
- O que tem Mirtes?
- Não está se sentindo bem.
- Não deve ser nada. Ela sempre teve saúde. - Mas está mal.
Estela foi à porta ver se conseguia impedir Alzira de buscar
Isaltina. Mas elas já estavam chegando. Uma vez na sala, Isaltina
perguntou:
- Onde está Mirtes?
- No quarto. Mas a senhora não precisava se incomodar.
Ela não respondeu e foi subindo as escadas. As duas a acompa
nharam. Antônio continuou na copa lendo o jornal. Sentia-se tão
deprimido que nada o interessava.
Assim que entraram no quarto, Mirtes levantou-se e começou
a andar de um lado para o outro dizendo com voz um tanto rouca: - O que você veio fazer aqui?
- Vim conversar com você - respondeu a senhora com voz
calma.
- Não temos nada para conversar.
- Temos, sim. Você vai deixar Mirtes em paz. Onde já se viu
ficar perturbando a moça?
- Quem a mandou me procurar? Eu estava quieto lá no meu can
to, esperando uma pessoa para me servir. Quando ela entrou, eu logo
vi que era ideal para mim.
- Para isso ela precisa querer ficar com você.
Vai ter de ficar.
146
- Não vai, não. - Voltando-se para Alzira e Estela, que a olhavam assustadas, ela pediu: - Vamos rezar.
As duas obedeceram, enquanto Isaltina fazia o mesmo. Depois, pegou Mirtes pela mão e conduziu-a para a cama, fazendo-a sentar-se.
- Nós vamos ajudá-lo, mas você vai prometer que a deixará em paz.
- O que eu ganho com isso?
- Ajuda espiritual. Bem-estar.
- E se eu não quiser?
- Voltará para onde veio e continuará a sofrer como até aqui. Depois de alguns segundos de silêncio, ela disse: - Está bem. Eu vou.
Mirtes estremeceu e estendeu-se na cama. Estela e Alzira, assustadas, quiseram intervir, mas Isaltina fez-lhe sinal que não.
- Continuem rezando - pediu, e depois começou a passar as mãos sobre o corpo de Mirtes.
Estela e Alzira mexiam os lábios murmurando a oração, mas a atenção estava em Mirtes.
- Dona Estela, um copo de água, por favor.
- Eu vou - resolveu Alzira para poupar a mãe.
Quando Alzira voltou com a água, Mirtes estava sentada na
cama olhando-as admirada. Isaltina pegou o copo deu-o a ela, dizen
do com voz firme:
- Beba.
Ela segurou o copo com mãos trêmulas e bebeu a água. De vez
em quando estremecia. Aos poucos a cor foi voltando a seu rosto. - Sente-se melhor? - indagou Isaltina. - Sim. Mas ainda estou com medo.
Estela perguntou preocupada:
- O que ela tem?
- Perturbação espiritual. - Vendo que elas não entenderam, esclareceu: - É o que o povo chama de encosto.
- Deus nos livre! Só nos faltava essa! - queixou-se Estela, nervosa.
- Calma, Dona Estela. Ele já foi embora. Mirtes está bem. Estela abraçou a filha, dizendo:
- Verdade, filha? Você está bem?
Estou, mãe. Já passou.
- Isso nunca aconteceu em minha família. Estou assustada. E se ele voltar, que faremos?
147
Isaltina fitou-a séria e respondeu:
- Não creio que ele volte. Foi auxiliado por amigos espirituais. Mas é bom que saibam: o mundo onde vivem os espíritos é coexistente com o nosso. Estamos separados
deles por uma cortina de energia. Em determinadas circunstâncias eles conseguem nos envolver.
- Como assim? - indagou Alzira com interesse.
- É preciso compreender que eles são pessoas que já viveram em nosso mundo. Depois da morte, por vários motivos, recusam-se a sair da crosta terrestre. São muito
envolvidos com as coisas do mundo e desejam ficar por aqui. Muitos deles são tão apegados que sentem fome, sede, vontade de fazer sexo, etc. Perambulam na atmosfera
da Terra em busca de alguém que possa ceder-lhes temporariamente o corpo para que satisfaçam essas necessidades.
Estela deixou-se cair na cama assustada:
- É difícil acreditar! Como Deus permite uma coisa dessas?
- Melhor seria indagar como as pessoas atraem em sua aura esses espíritos.
Mirtes ouvia calada. Ela sabia que havia ido a um lugar em que não devia, e não desejava que a mãe soubesse disso.
- Minha filha nunca teve nada dessas coisas! - justificou Estela. - Por que aconteceu isso a ela?
- Seria melhor que ela mesma lhe dissesse. O importante agora é tomar cuidado para que não volte a acontecer.
- Não vai acontecer de novo - prometeu a jovem, assustada.
- Não sei, Mirtes - disse Isaltina. - Sua sensibilidade aflorou. Assim sendo, seria recomendável que você procurasse informar-se sobre o assunto. Em nosso centro
há grupos de estudos que você poderia freqüentar.
- A senhora desculpe - interveio Estela -, mas no momento não temos dinheiro para nada.
Isaltina sorriu:
- Em nosso centro o atendimento é gratuito. - Ela se calou por alguns segundos, colocou a mão sobre a testa de Estela e continuou: - A senhora também precisa de
ajuda. Está no limite de suas forças. Se continuar assim, vai adoecer.
- Mas eu sou católica. Nunca fui a um centro espírita.
- Sempre haverá uma primeira vez. Aliás, há quanto tempo não vai à sua igreja? Tem tentado resolver seus problemas e os de sua família, brigando com a vida, esquecendo
que toda força, toda
148
assistência vem de Deus. Sozinhos nós não realizamos nada. Pense nisso. Amanhã à noite, às sete e meia, estarei esperando por vocês. E você, Mirtes, acompanhe sua
mãe.
Dê um recado à sua amiga: seria melhor que ela não voltasse mais àquele lugar. Ela está se metendo em confusão. Agora tenho de ir.
- Obrigada, Dona Isaltina - disse Estela. - Não sei como agradecer.
- Seu marido está muito deprimido. Se ele fosse com vocês, seria bom.
- Ele não liga para religião. Acho que nunca reza.
- Está mais do que na hora de começar. Convide-o.
Depois que ela se foi, Estela foi falar com o marido, que conti
nuava alheio a tudo, folheando o jornal na sala. - Você viu o que aconteceu?
Ele levantou a cabeça e respondeu:
- Não. O que foi?
- Mirtes passou mal e Dona Isaltina disse que era encosto. Ele meneou a cabeça negativamente:
- E você acreditou?
- Só sei que Mirtes estava muito mal. Dona Isaltina rezou e tudo passou. Ela agora está bem.
- Que bobagem! Mirtes sempre foi preguiçosa. Finge de doente para não fazer nenhum serviço.
- Não era fingimento, eu garanto. Estava até com febre.
- Você se deixa enganar por ela com facilidade. Essa de encosto é boa. - Ele começou a rir. - O medo cura qualquer manha. Antes de fazer cena, Mirtes vai pensar
duas vezes.
- Dona Isaltina recomendou irmos ao centro fazer tratamento. Todos nós, inclusive você.
- Eu sabia que ela ia querer nos levar na conversa.
- Não seja maldoso. Dona Isaltina é boa pessoa. Todos os nossos vizinhos falam bem dela. Veio assim que Alzira chamou e não cobrou nada. Afinal não tem obrigação.
- Você tem cabeça fraca. Meia dúzia de palavras e você logo se deixa levar. Eu é que não caio nessa!
- Pois eu vou lá. Nossa vida vai de mau a pior. Você também deveria ir. Ela disse que está precisando muito.
- É muita pretensão achar que ela possa nos ajudar. Se ela tivesse esse poder, estaria rica, morando em palacete e tudo. Como você é boba. Acredita em tudo!
149
- Pois eu vou tentar. Não agüento mais ver você em casa len
do esse jornal, sem dinheiro nem para comer.
- Sou um profissional competente de larga experiência. Não
consigo emprego por causa da idade. Neste país, depois dos quaren
ta e cinco anos ninguém arranja mais emprego.
Estela não respondeu. O conformismo dele irritava-a. O que
fariam se alguém adoecesse? Subiu e foi ao quarto de Mirtes, onde
Alzira tentava convencê-la a contar aonde havia ido naquele dia.
- Eu ouvi muito bem. O espírito disse que foi você quem o
procurou. É perigoso envolver-se com essas coisas sem conhecimento. - Chega de falar nisso. Você fala, mas não sabe nada. Não
quero saber mais desse negócio de espíritos.
- Você deve ir ao centro para tratamento.
- De jeito nenhum! Nunca. Já disse que não quero saber disso. Estela havia ouvido a discussão e interveio: - Nós vamos, sim. Já pensou se acontecer de novo? - Não
vai mais acontecer - garantiu Mirtes.
- Pois eu vou - disse Alzira. - Apesar do susto, me senti mui
to bem com a reza de Dona Isaltina. Parecia que eu estava flutuando. - Irei com você - disse Estela. Tudo quanto Isaltina dissera era verdade. Estela estava no limi
te de suas forças. Precisava de ajuda. Não ia perder aquela chance.
150
Estela entrou no centro espírita com o coração batendo forte. Apesar do medo que sentia, estava disposta a permanecer lá. Segurou no braço de Alzira com força.
- Calma, mãe! Não precisa ter medo. - Essa coisa de falar com os mortos
me deixa nervosa.
- Pois eu quando entrei aqui senti
uma grande alegria.
- Por quê? Não aconteceu nada.
- Não sei, mas estou me sentindo
igual a quando Dona Isaltina rezou lá em
casa.
Uma senhora atendeu-as e Alzira explicou:
- Dona Isaltina nos pediu para vir. Foram encaminhadas a uma sala onde
havia algumas pessoas.
- Sentem-se e esperem. Logo serão
chamadas pelo número.
A mulher entregou-lhes um cartão
numerado e saiu.
151
Estela olhou com curiosidade para as pessoas que estavam à sua volta. Pareciam pessoas de bem.
Uma senhora de meia-idade que estava a seu lado sorriu e perguntou:
- É a primeira vez que vocês vêm aqui?
- É - respondeu Estela.
- Pois eu, faz mais de um ano. - Tanto tempo assim?
- Meu caso era muito grave. Eu estava a ponto de enlouquecer.
Bendita a hora que meu filho me trouxe. No começo eu não queria
vir, mas ele me trazia à força. Depois fui melhorando e agora ve
nho sozinha. Estou muito melhor, mas ainda estou em tratamento.
Nunca mais precisei ser internada. O médico já me liberou, mas eu
quero continuar vindo aqui.
A porta abriu-se e uma moça chamou um número. Era o daquela
senhora. Sorrindo contente, ela atendeu prontamente. A porta
fechou-se novamente e Estela comentou baixinho:
- Ela não disse qual sua doença. - Acho que sofria dos nervos. - Ela me pareceu bem calma.
- Agora. Não a conhecemos antes.
Quando chegou a vez delas, entraram na sala. Uma moça aten
deu-as, fazendo-as sentar em frente à sua mesa.
- Meu nome é Anita. Sejam bem-vindas.
Preencheu uma ficha com nome e endereço de ambas, depois
perguntou o motivo da visita.
Alzira relatou o que havia acontecido. Anita ouviu com aten
ção. Quando terminou, ficou alguns instantes pensativa. Depois co
meçou a falar:
- Vocês estão atravessando um período difícil. Vão precisar de firmeza e otimismo. As queixas contribuem para piorar uma situação que está conturbada.
Estela remexeu-se na cadeira e não se conteve:
- Você diz isso porque não está em meu lugar. Como posso ser otimista se meu marido está desempregado, o dinheiro está acabando? Nem sei se amanhã teremos como comprar
o que comer.
As lágrimas desciam pelo seu rosto e ela, embora tentasse, não conseguia controlar-se.
- Chorar é um direito seu. Ponha para fora toda a sua angústia. Desabafe. Você vem engolindo a raiva há anos. Sua insatisfação
152
é antiga. O fato de seu marido estar desempregado foi a gota d'água. Você nunca se sentiu feliz.
Estela soluçava convulsivamente. Anita apanhou a caixa de lenços de papel e colocou-a em sua frente. Ela apanhou um, assoou o nariz e enxugou os olhos, mas as lágrimas
teimavam em cair.
Anita ficou em silêncio e Alzira olhava penalizada para a mãe. Aos poucos Estela foi serenando e por fim enxugou novamente os olhos. Disse, envergonhada:
- Desculpe. Não sei o que me deu. Isso nunca me aconteceu. - Você estava precisando desabafar. Sente-se aliviada? - Sim. Parece que saiu um peso do meu peito. -
Você se oprime, e isso a machuca muito.
Anita levantou-se, apanhou um copo de água e entregou a ela,
que tomou alguns goles.
- Agora, vamos conversar - disse Anita com voz firme.
- Vamos. Você disse que eu nunca me senti feliz. É verdade. - Mas você se casou por amor.
- Foi. Mas logo no começo percebi que ele não era como eu sonhava.
- Seu marido é um homem grosseiro?
Estela assustou-se:
- Não, ao contrário. É um homem educado, formado. Sempre me tratou bem.
- É mulherengo, preguiçoso, irresponsável?
- Não. Nada disso. Eu nunca soube que ele tivesse me traído. Sempre foi trabalhador, até demais. Está desempregado e sofrendo muito por isso. É muito responsável,
nunca deixou faltar nada para a família. Não posso dizer isso dele.
- Você tem um marido excelente.
Estela suspirou envergonhada:
- É... Acho que sim.
- Você tem duas filhas. Elas são doentes?
- Não. Sempre tiveram saúde. Mirtes tem gênio forte, mas não é ruim.
- Você tem uma bela família. Seu marido está desempregado, mas isso é uma situação temporária. Se ele é trabalhador, responsável e tem experiência profissional,
por que não consegue trabalho? As empresas estão sempre necessitando de bons funcionários. O que está errado com ele?
- Ele diz que é por causa da idade. Fez cinqüenta e cinco anos.
- Eu sei de pessoas mais velhas que são muito disputadas no mercado.
Questão de sorte. Nós nunca tivemos sorte em nada. Tudo para nós é conseguido com muito esforço e sacrifício.
- Quando você acredita que progredir é questão de sorte e que ela passa longe de vocês, está se colocando na incerteza e na dificuldade. É isso que terá.
- Como pensar de outra forma? Somos pessoas honestas, de bem, não fazemos mal a ninguém. No entanto, para nós tudo dá errado, enquanto outras pessoas que não se
esforçam tanto, não fizeram nada para merecer, têm tudo. Às vezes me pergunto se vale a pena trabalhar, ser honesta.
- Você está dizendo que Deus é injusto e irresponsável.
- Não foi isso que eu disse. Apesar de tudo, respeito a religião.
- Você diz isso mas faz o contrário. Não crê que Deus esteja no comando e tudo quanto a vida faz é justo.
- Para dizer a verdade, não creio mesmo em justiça. Basta olhar em volta, o que vai pelo mundo, para perceber isso.
- Você olha o mundo com os olhos do materialismo. É hora de aprender a enxergar a vida com os olhos da alma. Só assim poderá perceber o que vai além das aparências,
enxergar a verdade.
- Como assim? Não estou entendendo.
- Você olha em volta e, por não entender como a vida age, julga Deus injusto. Você parte do mal e quer ver o bem. Isso é impossível. É preciso partir do bem para
entender as causas do mal.
Estela meneou a cabeça e respondeu:
- Não sei como fazer isso. O mal é o mal e está em todo lugar.
- Você fala como uma materialista. Não crê em Deus.
- Não! Apesar de tudo, eu creio!
- Então você pensa que Ele não é perfeito e comete muitos erros.
- Não. Eu nunca diria isso. Deus é o criador.

- Você me disse que ele é injusto, julga mal as pessoas, dá prêmio a quem age errado e ignora as pessoas de bem. Foi isso que eu entendi.
- Entendeu mal. Deus é perfeito e não erra - respondeu ela, hesitante. - Apesar de todo o sofrimento, eu nunca falaria mal de Deus.
- Quem não entende sou eu. Se ele não erra, como explicar os problemas da sociedade e das pessoas?
154

- Isso eu não sei. Talvez os homens sejam maus. Acho que é isso. Anita sorriu enquanto Alzira observava atenta.
- Vou encaminhá-las para um atendimento espiritual que vai
ajudar a equilibrar suas energias. Vão se sentir melhor.
Entregou a cada uma um papel com as indicações do tratamen
to e um outro, dizendo:
- Aqui há uma frase para vocês pensarem durante esta semana. Leiam várias vezes ao dia. Quanto mais, melhor.
Elas agradeceram e saíram. A assistente encaminhou-as para outra sala na penumbra, onde, ao som de uma música suave, elas se sentaram. Lá havia várias pessoas. Alguém
pediu que fechassem os olhos e pensassem em luz azul, e todos obedeceram. Sentiram alguns arrepios. Estela bocejou várias vezes, abriu os olhos e viu que uma moça
à sua frente estendia as mãos sobre sua testa.
Quando saíram da sala, Estela sentiu-se bem. Comentou baixinho com a filha:
- Não pensei que fosse assim. Você está bem?
- Muito. Senti um calor no peito e uma brisa muito leve à minha volta.
Uma vez na rua, as duas leram a frase que Anita lhes dera:
"Deus não erra. Se um fato me parece errado, é porque não estou conseguindo ver a verdade. Peço a Ele que abra meu entendimento."
- Não sabia que você era tão descrente, mãe.
- Não sou descrente. Rezei muito e nunca consegui o que pedi. Cansei.
- Quem tem fé não cansa.
- Você é muito jovem, não sabe nada da vida.
- Mas também sinto que a queixa não ajuda em nada. - Vamos ver se Mirtes melhora.
- Se ela não for ao centro, não vai melhorar. Dona Isaltina disse que ela precisa estudar mediunidade.
- Ela disse, mas ainda não sei se é verdade.
- Claro que é. Se não fosse, Mirtes não teria melhorado quando ela rezou.
Estela calou-se. Sabia que era verdade. Pensou no marido. Apesar de tudo, ele era um homem bom. Lembrou-se dos tempos de namoro, de como eram apaixonados um pelo
outro. Isso foi no começo. Depois eles foram mudando e agora pareciam dois estranhos dentro de casa. Ele, calado; ela, resmungando.
Chegaram em casa e ele continuava na sala lendo. Vendo-as

155
entrar, levantou os olhos como que perguntando alguma coisa. Esperou que falassem. Estela não disse nada. Ele não quis ir, que ficasse com a curiosidade.
- Vou fazer um chá, você quer?
- Quero.
Alzira foi para o banho e Estela para a cozinha colocar a cha
leira no fogo. Estava pegando as xícaras quando Antônio entrou. - Você parece bem-disposta.
- De fato. Estou mais calma. Vou fazer um chá de erva-doce com
cravo, como nos velhos tempos.
- Pena que não temos aquele bolo de milho que você fazia. - Era muito bom. Lembra? Você comia metade ainda quente. Ele suspirou triste.
- A que ponto chegamos. Não temos dinheiro nem para um bolo
de milho.
Estela colocou água nas xícaras, aproximou-se dele e abraçou-o dizendo:
- Logo teremos isso e muito mais.
Enquanto ele a olhava admirado, olhos brilhando emocionados, ela continuou:
- Estive pensando. Não podemos desanimar. Essa situação é passageira. Você é um homem honesto, trabalhador, bom profissional. Logo vai aparecer alguém que saiba
valorizar suas qualidades.
Antônio abraçou-a e em seus olhos havia o brilho de uma lágrima:
- Não tenho sido um bom marido para você. Gostaria de darlhe mais conforto.
- Não diga isso. Você é o melhor marido do mundo. Trabalhador, sincero e responsável. Temos duas filhas lindas e cheias de saúde. Não temos do que reclamar. Vamos
agradecer a Deus nossa felicidade. Amanhã será outro dia.
Ele pousou os lábios na testa dela com carinho.
- Você é uma grande mulher. De fato, sou um homem feliz.
- Não vamos nos queixar mais. Deus vai nos ajudar, eu sinto isso.
Os dois tomaram o chá conversando sobre os primeiros tempos de casamento. Depois, abraçados, foram para o quarto. A situação ainda estava difícil, mas aquela foi
para eles uma noite de paz.
No quarto das meninas, Alzira entrou, acendeu a luz do abajur e Mirtes reclamou:
156
- Apague isso! Você me acordou.
Alzira não apagou e respondeu:
- Você devia ter ido ao centro conosco. Foi muito bom!
- Eu? Para mim bastou uma vez. Nunca mais quero ouvir falar em espíritos.
- Pois eu e mamãe gostamos muito. Nós nos sentimos muito bem! Deu uma calma, um bem-estar como havia muito eu não sentia. Mamãe voltou com uma cara... Parece outra
pessoa.
- Vocês são mesmo crédulas! Tudo impressiona. Eu não sou boba. Desses lugares quero distância. Veja se não fala mais no assunto. Só de ouvir você, fiquei toda arrepiada.
Cruz credo! Apague essa luz que eu quero dormir.
- Vou pegar a camisola e apagar.
Mirtes cobriu a cabeça resmungando. Pouco depois, Alzira deitou-se, apagou a luz e preparou-se para dormir. Acomodou-se pensando na sensação leve e de bem-estar
que sentira na hora do passe, e logo adormeceu.
Sonhou que estava caminhando em um lugar sombrio, cheio de neblina, segurando uma lanterna para iluminar o caminho. Apesar da energia pesada do local, Alzira sentia-se
muito bem, calma, lúcida e segura, sabendo muito bem o que fazer.
Caminhava a seu lado uma mulher jovem carregando uma bolsa grande cheia de pacotes.
- Tem certeza de que é por aqui? - indagou a mulher.
- Devemos estar perto. Sinto que estamos chegando - respondeu Alzira.
Caminharam mais um pouco e chegaram a uma pequena clareira onde um vulto de mulher chorava compungidamente.
- Estou cansada! Não agüento mais tanta dor. Estou arrependida de tudo que fiz. Quero me aproximar da luz, seguir o caminho do bem.
Alzira parou diante dela e logo uma luz tênue a circundou. A mulher chorosa tapou o rosto com ambas as mãos, dizendo triste:
- Quem é você? Por acaso veio responder às minhas preces? Por favor! Não olhe para mim. Estou horrível. Sinto vergonha.
- Estou vendo sua alma e noto que está sendo sincera.
- Tenha piedade! Ajude-me! Sinto fome, sede, angústia, dor. Não sei há quanto tempo estou aqui neste buraco me escondendo das sombras escuras que querem me agredir.
- Sua prece foi ouvida. Viemos buscá-la.
157
A um gesto de Alzira, aproximaram-se alguns homens carregando uma maca que colocaram ao lado da mulher. Alzira estendeu a mão, dizendo:
- Venha. Vamos levá-la a um local de tratamento. Logo estará melhor.
Com esforço, a mulher levantou-se e, amparada por Alzira, deitou-se na maca. Foi então que ela viu seu rosto. Estava desfigurado, traços acentuados pela idade avançada,
mas não havia dúvida: era Mirtes.
Assustada, Alzira deu um grito e acordou. O sonho foi tão real que ela ainda sentia o contato da mão da mulher. Aquilo só podia ter sido um pesadelo.
Levantou-se, foi à cozinha e tomou um copo de água. Todos dormiam, a casa estava silenciosa. Voltou para o quarto e deitou-se novamente. Mas a lembrança do sonho
não a deixava. Imaginava que sua preocupação com a indiferença de Mirtes a impressionara e por isso tivera aquele pesadelo. Mas reconhecia que se sentira muito bem,
sua mente parecia ter ficado clara, as idéias lúcidas. Não recordava ter se sentido tão segura de si e tão equilibrada antes. Aquilo não poderia ser um pesadelo.
Quem eram aquelas pessoas que estavam a seu lado obedecendo a suas ordens?
Tentando encontrar respostas a suas indagações, Alzira só conseguiu adormecer quando o dia já estava clareando.
Uma hora depois, Mirtes levantou-se, mais cedo do que o habitual. Sentiu o cheiro do café e teve fome. Na véspera não havia jantado. Foi à cozinha e encontrou os
pais sentados tomando a primeira refeição. Vendo-a, Estela apanhou uma xícara e colocou-a na mesa, dizendo:
- Sente-se, filha.
Depois foi ao fogão e apanhou a leiteira, colocando leite na xícara de Mirtes. A filha serviu-se de café, adoçando-o enquanto Estela voltava a sentar-se. Mirtes
apanhou um pãozinho, passou margarina e começou a comer lembrando-se do desjejum que vira na casa de Mildred. Estava cansada daquela vida de pobre. Um dia ainda
teria tudo do bom e do melhor. Ela nem notou que os pais estavam tomando café preto e que haviam guardado o leite para ela e a irmã.
Antônio levantou-se e Estela acompanhou-o. De onde estava, Mirtes podia ver o hall de entrada e saída da casa.
Depois de vestir o paletó, Antônio foi até a porta com Estela. Ela lhe disse alguma coisa. Ele sorriu e beijou-a com carinho na face.
158
Mirtes franziu a testa. Eles não haviam discutido, e ele até a
beijara. O que estava acontecendo?
Antônio saiu e Estela voltou à cozinha. Mirtes indagou: - Papai arranjou emprego?
- Ainda não.
- Pensei que sim. Vocês estavam amáveis, houve até beijinho. - Seu pai está se esforçando e precisa ser incentivado pela fa
mília. Há quanto tempo não conversa com ele?
- Eu? Ele anda mal-humorado desde que ficou desempregado. - Seria muito bom que você o tratasse com mais atenção.
- Ih! Já vi que hoje você está a fim de implicar comigo. Acho
que vou sair.
- Já que acordou cedo, o que é raro, poderia aproveitar o tempo e ir procurar um emprego.
- Eu sabia que ia sobrar para mim. Não vou me sujeitar a um empreguinho qualquer, trabalhar muito e receber quase nada no fim do mês. Eu quero muito mais.
- Para conseguir um bom emprego é preciso estudar, esforçar-se. - Para o que eu quero não preciso de nada disso. Pode crer,
mãe, vou arranjar um emprego definitivo, para toda a vida. Não vou
trabalhar e ainda terei tudo do bom e do melhor. - Isso não existe.
- Existe, sim. Logo você verá que eu consegui. Por isso, não se preocupe comigo. Sei o que fazer de minha vida. Não quero ser igual a você, depender de salário,
ficar velha e feia, contando os tostões, sem nunca ter nada meu.
- Você está falando em arranjar marido rico. É bom esquecer. Homem rico procura moça do seu nível. Desse jeito, você vai acabar mesmo é sozinha.
- Credo, mãe! Vire essa boca para lá! Pensando assim, você só podia mesmo se casar com um homem como papai. Estela fitou-a desafiadora:
- O que é que tem seu pai? É um marido excelente, e nós nos casamos por amor.
- Pode parecer bom para você, mas é pobre. Não serviria para mim.
- Cuidado com o que diz, que Deus castiga e faz você se apaixonar por um homem bem pobre.
- Isso nunca vai acontecer. Tenho a cabeça no lugar.
Ela saiu da cozinha enquanto Estela abanava a cabeça
159
negativamente. Mirtes foi para o quarto para se arrumar. Queria ir à casa de Mildred.
Alzira estava limpando o cômodo. Havia posto os travesseiros na janela para tomarem sol, tirado as roupas de cama e colocado a banqueta da penteadeira emborcada
na cama.
- Não podia esperar eu sair para fazer essa bagunça no quarto? - reclamou Mirtes.
Alzira olhou séria para ela. Havia colocado um lenço na cabeça por causa da poeira. Pensava em sair à tarde e não queria lavar novamente os cabelos.
- É dia da faxina. Você podia pelo menos arrumar sua cama.
Mirtes nem respondeu. Apanhou suas coisas e foi aprontar-se no banheiro. Vestiu-se e não gostou da roupa. Foi remexer o guarda-roupas mas não encontrou nada do seu
gosto. Tinha alguma peça para sair à noite, mas para o dia, não. Mildred acordava elegante. Ela não podia ir à sua casa como uma mendiga. Tinha uma saia de boa qualidade.
Se ao menos pudesse comprar uma blusa bonita... Seu dinheiro mal dava para pagar o ônibus. Remexeu o armário de Alzira, mas não encontrou nada que a agradasse.
Desconsolada, sentou-se na cama. Alzira, que estava limpando os vidros da janela, perguntou:
- O que foi? Desistiu de sair?
- Desgraça de vida. Preciso cuidar de meu futuro e não tenho uma roupa decente. Não posso apresentar-me com estes trapos.
- Não exagere. Você tem muito mais roupa na moda do que eu. Vai procurar emprego?
- Vou. Preciso comprar uma blusa. Você tem dinheiro para me emprestar?
Não.
Você tinha algumas economias.
Dei para mamãe.
Vida miserável. Não dá mais para agüentar viver deste jeito. Você vai mesmo procurar emprego? Vou. Por quê?
Nesse caso posso emprestar a blusa nova que Dona Olívia me
deu no aniversário. Eu ainda nem usei.
- Como você não me mostrou?
- Porque você pega sem pedir e se gosta não devolve mais.
Alzira foi ao armário e apanhou uma caixa que estava escondi
da atrás de algumas roupas. Abriu-a e entregou a blusa à irmã.
160

- Empresto só hoje.
Tratava-se de uma blusa de seda azul-clara. Era simples mas de boa qualidade, corte elegante. Não era bem o que Mirtes gostaria de usar, mas naquele momento era
o que tinha.
Vestiu-se e, sem responder às recomendações de Alzira nem às perguntas da mãe, telefonou para Mildred. Sabia que não era de bom tom aparecer sem avisar, principalmente
de manhã.
Passava das onze quando chegou à casa da amiga. Foi conduzida a seu quarto. Mildred ainda estava na cama, recostada nos travesseiros tendo à sua frente uma bandeja
com um lauto desjejum. Mirtes lembrou-se do café da manhã em sua casa. A diferença deixoua novamente irritada. Depois dos cumprimentos, Mildred ofereceu:
- Você quer comer alguma coisa?
- Não, obrigada. Já tomei café.
- Pelo menos uma fatia de bolo. Está uma delícia.
- Está bem. Aceito. Acordei muito cedo. Tomei café às sete. - Da manhã? Que horror! Por quê?
- Ontem passei o dia na cama. Hoje não tinha sono.
- Não posso entender por que passou tão mal. - Foi aquele lugar. Nunca mais ponho os pés lá.
- Bobagem. Não foi isso, não. Eu não senti nada. Aliás, estou
muito bem e confiante nos resultados.
Mirtes contou-lhe o que havia acontecido, inclusive o recado de Dona Isaltina.
- Não sabia que você era tão impressionável! Desse jeito não vai conseguir o que quer. Precisa criar coragem e ir lá. Sua consulta está paga.
- Ele não lhe devolveu o dinheiro?
- Não. Disse que você voltaria. Está esperando.
- Vai esperar sentado. Farei qualquer coisa para ter o que quero,
menos mexer com espíritos. Isso pode acabar mal.
- Você está exagerando. Quero ver sua cara quando eu estiver
casando com Émerson e você continuar sem ninguém. - Você parece ter tanta certeza...
- Tenho. Ele ainda vai ser meu! Só que Valdo não será seu! Mirtes ficou pensativa. Admirava a coragem de Mildred, mas não se sentia com forças de voltar àquele lugar.
- Pois eu vou conseguir sem precisar dele. Tenho meus próprios métodos.
- Duvido. Usei tudo que sabia com Émerson e não consegui.
161
Mirtes sentia-se angustiada, deprimida. Baixou a cabeça para ocultar as lágrimas que estavam prestes a cair. Mildred notou e perguntou:
- O que foi? Você parece preocupada.
- Estou muito triste. Quero me mostrar confiante mas não consigo.
Lágrimas rolaram pelo seu rosto e ela não conseguiu contê-las. Mildred deu-lhe um lenço, esperou que ela serenasse e depois disse:
- O que está acontecendo?
- Estou cansada. Nada que eu quero dá certo.
- Você sempre me pareceu tão confiante, tão alegre...
- Eu sou assim, mas é que estou passando por uma situação muito difícil. É muito triste ser pobre. Meu pai perdeu tudo, não encontra emprego, estamos passando momentos
penosos. Minha única opção é arranjar um marido rico. Mas para isso preciso investir em mim, freqüentar lugares de luxo, vestir-me bem, cuidar da aparência. Como
fazer isso sem dinheiro?
Mildred olhou para ela e não se comoveu. Era provável que Mirtes desejasse pedir-lhe dinheiro. Começou a achar que se precipitara pagando-lhe a consulta com pai
Tomé.
Sorriu maliciosa e respondeu:
- Mirtes, você é muito bonita. Chama a atenção dos homens por onde passa.
- Eu sei. Mas não é fácil encontrar alguém que queira casar-se. - Eu sei de meia dúzia de milionários que estariam a seus pés e
que lhe dariam tudo se você fosse gentil.
- Como assim?
- Não tem nenhum motivo para queixar-se da vida. Poderia ter
tudo, basta querer. Depois, os fins justificam os meios.
- Não estou entendendo. Explique melhor.
- Conheço alguns homens de meia-idade que gastam fortunas
com quem lhes der um pouco de ilusão. Estão cansados da rotina com
a família e adoram alguém jovem, cheia de vida, como você. Mirtes entendeu e seu rosto cobriu-se de rubor. - Eu não saberia fazer isso. - Então conforme-se em ser
pobre pelo resto da vida. - Eu quero ter família, ser admirada em sociedade.
- Conseguirá tudo isso, se agir com discrição. Encontros secretos
com pessoas importantes. Eu garanto que eles têm muito a perder
e terão mais interesse do que você em manter segredo.
162
- Não sei...
- É a única maneira que tem de subir na vida. Depois, não estará prejudicando ninguém, só usando o que é seu. Pense nisso. Sou sua amiga. Desejo que você progrida.
Eu mesma posso indicar-lhe alguns prováveis candidatos. Tenho certeza de que não se arrependerá.
- Vou pensar.
- Se eu estivesse em sua situação, não hesitaria. Nunca me conformaria em viver na pobreza.
No fim da tarde, sentada no ônibus de volta para casa, Mirtes analisava os conselhos que Mildred lhe dera. Talvez aquele fosse o caminho mais curto para alcançar
seus objetivos. Quando pensava nisso, sentia um aperto no peito e pensava em desistir da idéia. Depois lembrava-se dos problemas em sua casa, da blusa emprestada,
da falta de dinheiro, do rosto sofrido do pai, da mãe, até da irmã com lenço amarrado na cabeça limpando a casa.
Perdida em seus pensamentos íntimos, quase passou do ponto para descer. Quando chegou em casa, já estava escurecendo. Ao entrar, ouviu ruídos na cozinha. Com certeza
sua mãe fazia milagres para preparar o jantar.
Olhou em volta. A casa em penumbra pareceu-lhe feia e sem graça. Os móveis velhos, o tapete puído do hall a fizeram, por oposição, lembrar-se da casa de Mildred.
Era lá que ela queria morar. Irritada, subiu para o quarto, fechou a porta e atirou-se na cama soluçando. Revoltada, não conseguia conter o pranto, pensando:
- Por que alguns têm tudo e outros nada? O que Mildred tem melhor do que eu? Por que há tantas injustiças no mundo?
Cerrando os punhos, considerou que Mildred tinha razão. Ela não tinha capital para se vestir e freqüentar lugares de luxo. Para
(corrigir - pág 163)
conseguir o que só oáeca co~~at co~s~~o me ma_ P a ~t
um jogo de 'interesses no qual vence o mais iotte.~la tina de 5vforte. Não podia ter escrúpulos com uma sociedade que rejeita os fracos. Não importava qual o caminho,
o importante era conseguir.
Depois, vivendo no luxo, aparentando ser rica, seria aceita sem reservas, ainda mais convivendo com Mildred.
No dia seguinte começaria a traçar novos planos para sua vida.
Émerson acordou sobressaltado. Havia tido um pesadelo. Sentou-se na cama tentando acalmar-se, depois foi
até a janela. Abriu-a e respirou a brisa
fresca da manhã.
O dia estava clareando e ele contemplou os primeiros raios de sol prenunciando um dia claro e sem nuvens.
Sentia a cabeça pesada, uma dorzinha desagradável na fronte e o estômago enjoado. Passou a mão pela testa várias vezes tentando
afastar a energia pesada que o atordoava.
- Preciso descobrir de onde vêm essas energias pesadas.
Lembrou-se do sonho e sentiu um arrepio pelas costas. Estava bem quando adormeceu. Logo depois se viu em um lugar luxuoso,
mas decorado com cores berrantes que lhe
provocaram sensação desagradável. Quis sair de lá, mas ouviu uma música envolvente, sensual, e apareceu uma mulher muito
bonita, que sorriu para ele e
165
começou a dançar à sua volta fazendo arabescos com as mãos, passando-as em volta dele.
Émerson sentiu-se excitado e desejou aquela mulher. Quanto mais ela dançava à sua volta, mais ele ia se sentindo atraído.
Ela encostou o corpo no dele, provocando-o.
Ele estava fascinado. Ela aproximou os lábios carnudos para beijá-lo, então ele abriu os olhos e viu o rosto dela transformar-se
em uma horrível carantonha, cujos
dentes lembravam os de um vampiro. Imediatamente ele a empurrou e acordou suando frio, sentindo ainda as emoções daquele
encontro.
Foi à sala onde costumava meditar, acendeu um incenso, sentou-se no chão, como de costume, e iniciou a meditação.
Estava difícil concentrar-se. Seus pensamentos estavam tumultuados, ele respirava fundo, fazia relaxamento, mas não conseguia
a habitual harmonia. O rosto bonito
da mulher se oferecendo aparecia e ele se sentia inquieto, precisando fazer grande esforço para mandá-la embora.
Gastou mais de duas horas naquele esforço até que conseguiu harmonizar-se. Então evocou seu mestre espiritual. Precisava
de orientação. Sabia que havia alguém querendo
dominá-lo, para vampirizá-lo. Firmou o pensamento e perguntou:
- Quem?
Imediatamente o rosto de Mildred apareceu à sua frente. Atrás dela um homem cujos olhos magnéticos o impressionaram.
No mesmo instante mentalizou Mildred como se ela estivesse na sua frente e disse-lhe com voz firme:
- Você não vai conseguir me dominar. O que é seu volta para você. Comigo só fica o que é meu. Sou livre e tomo posse do
meu espaço.
Sentiu-se aliviado. Elevou seu pensamento e viu-se fora do corpo. À sua frente estava seu mestre espiritual. Curvou-se à
moda oriental e pediu-lhe a bênção.
Foi esse espírito que o protegeu quando de sua iniciação e peregrinação pela India. Magro, moreno, peito nu, alvo turbante
na cabeça, ele ergueu a mão sobre a cabeça
de Émerson por alguns instantes. Depois levantou-o e abraçou-o.
Émerson sentiu-se aliviado olhando seus olhos brilhantes e vivos.
- Mestre, sinto que há alguém querendo me envolver. Havia muito que não experimentava energias tão desagradáveis. Tenho
me esforçado para manter-me limpo de pensamentos
e atitudes, tenho
166
procurado viver no bem maior. Pensei que nunca mais seria afetado por essas energias.
- Agora você sabe que, apesar de seu progresso, o mundo continua sendo muito perigoso. A Terra ainda abriga espíritos muito
primitivos e suas energias pesadas circulam
na sua atmosfera. Enquanto estiver encarnado, estará sujeito a esses ataques. Você vive no bem e irradia pensamentos elevados,
por isso foi bem preparado para o
trabalho que deseja realizar. Distribuir o bem requer equilíbrio e harmonia. Cada um só pode dar o que tem. Essa é uma
encarnação que lhe está sendo muito proveitosa.
- Mas eu senti que há pessoas querendo me controlar para coisas que não quero fazer. O que aconteceu não foi só por causa
das energias negativas das pessoas. Havia
uma intenção de domínio.
- É verdade.
- Mestre, eu vi quem está querendo me envolver.
- Eu sei. Mas tenho certeza de que saberá como lidar com ela. - Sinto-me confortado com sua presença. Sou feliz por ter
sua
amizade.
Ele o fitou com tal doçura que Émerson não conteve as lágrimas. Voltou emocionado para o corpo, deixando que as lágrimas
lhe lavassem o rosto. Estava novamente bem.
Momentos antes, Mildred dormia e sonhava que estava nos braços de Émerson. Ele a abraçava e ela podia ver o desejo em seus
olhos. A sensação era tão real que ela
sentia enorme prazer no corpo. Aproximou seus lábios dos dele querendo entregar-se às sensações, mas naquele momento ele
a empurrou atirando-a longe.
Atordoada, ela o ouviu dizer:
- Você não vai conseguir me dominar. O que é seu volta para você. Comigo só fica o que é meu. Sou livre e tomo posse do
meu espaço.
Ela sentiu uma desagradável sensação e acordou assustada. Olhou em volta tentando localizar-se. Respirou aliviada e pensou:
- Foi um pesadelo!
Entretanto a sensação desagradável continuava. Sentia-se inquieta, angustiada. Levantou-se, foi à copa e tomou um copo
de água.
As cenas do sonho não lhe saíam do pensamento.
"A culpa é de Mirtes. Disse tantas besteiras que acabei sonhando. Não sei por que a levei comigo. Acho que a amizade dela
está me atrapalhando. Afinal, não preciso
dela para nada. Ela, sim, aproximou-se de mim para introduzir-se em nossa roda. Soube que a
167
família dela estava indo a um centro espírita. Talvez isso esteja atrapalhando o trabalho de pai Tomé."
No dia seguinte iria falar com ele. Afinal dera-lhe bom dinheiro havia mais de duas semanas e, até agora, nada.
O dia já havia amanhecido mas ela se deitou novamente para tentar dormir. Odiava levantar-se cedo. Contudo, não conseguiu
mais pegar no sono. Ficou se remexendo
na cama e, irritada, acabou se levantando.
Mirtes passara a semana toda pensando no que Mildred lhe
dissera e havia resolvido seguir seus conselhos. Logo depois do almoço
telefonou para a amiga.
- Ela saiu - informou a empregada. - Sabe a que horas volta? - Ela não disse.
- Diga a ela que Mirtes ligou. Peça-lhe para me ligar quando
chegar.
A criada desligou e Mildred, que estava a seu lado, comentou: - Quando ela ligar, diga sempre que não estou. Arrumou-se
e saiu rumo à casa de pai Tomé. Uma vez lá,
diante dele, Mildred disse:
- Vim para dizer-lhe que precisa fazer alguma coisa mais forte.
Até agora nada mudou. Émerson continua aquele namoro idiota
com Laura e nem olha para mim. Estou começando a pensar que
você não tem tanto poder quanto me disseram.
Ele a olhou firme nos olhos, dizendo:
- As coisas não são como você pensa. Se quer vencer, precisa
ter paciência. Comecei o trabalho. Ele não vai resistir. Você vai do
miná-lo completamente.
Mildred contou-lhe o sonho que tivera e ele meneou a cabeça,
dizendo:
- Ele reagiu. Soube livrar-se. Você não me contou que ele en
tendia de magia. Nesse caso, vou ter de fazer algo mais forte.
- Se ele entende de magia eu não sei. Mas ele tem mania de
meditação e gosta de ensinar as pessoas.
- Isso vai custar mais caro. Vou ter de sacrificar animais e com
prar muito material, sem falar das pessoas que vou ter de contratar
para irem à mata comigo.
- Quanto mais?
- Dez mil reais, para começar.
168
- Isso é demais! Está exagerando.
- Ao contrário: isso é só para começar. Vou ter de trabalhar muito.
- Tem certeza de que vai dar certo?
Ele sorriu com superioridade:
- Claro que vai! Você está lidando com quem sabe das coisas. - Nesse caso, pode fazer.
- Pagamento adiantado.
- Amanhã mesmo trago o cheque.
- Cheque não. Prefiro dinheiro.
- Está bem.
- Arrume uma peça de roupa dele, vai facilitar.
Mildred saiu de lá satisfeita. Dessa vez não podia falhar. Pensou num jeito de conseguir a roupa. Aquela noite mesmo iria
ao instituto a pretexto de inscrever-se
em algum curso. Émerson morava lá. Ela tinha certeza de conseguir o que precisava.

Mirtes desligou o telefone irritada. Onde Mildred teria ido? Por que não a convidara para ir junto?
Alzira havia terminado de arrumar a casa. Estava tomando banho e cantando. Mirtes fechou a porta do quarto com raiva. Como
sua irmã podia cantar, ser alegre, quando
tudo em casa estava ruim?
Estendeu-se na cama, desanimada. Estava sem dinheiro, sem namorado, e a melhor amiga estava se distanciando.
Alzira entrou cantarolando, cabeça enrolada na toalha. Mirtes virou-se para o lado e fingiu que estava dormindo. Alzira
vestiu-se e ligou o secador de cabelos. Mirtes
sentou-se na cama nervosa.
- Desligue essa porcaria! Não vê que estou dormindo? Você não tem respeito por ninguém!
Alzira deu de ombros e respondeu:
- Pare com isso. Você não estava dormindo. Fica estirada nessa cama sem fazer nada em pleno dia, enquanto todos estão trabalhando.
- Isso não é da sua conta. Um dia ainda vou embora e vocês nunca mais vão me ver.
Alzira terminou de secar os cabelos, arrumou-se e sentou-se na cama ao lado da dela, dizendo calma:
- Mirtes, não quero brigar com você. Sinto que está deprimida por causa de nossa situação. Vou inscrever-me em uma agência
de empregos. Você poderia ir comigo. Se
nós duas estivéssemos
169
trabalhando, tudo aqui seria mais fácil. Depois, o trabalho faz bem. Eu não gosto de ficar sem nada para fazer.
- Pois eu não nasci para ser escrava dos outros. Sei cuidar de mim. Ainda vou ter muito dinheiro, você vai ver. Quer dizer
que na empresa de Marcelo você não conseguiu
nada? Eu sabia! Você não tem nível para trabalhar lá!
- Você se engana. Fui muito bem recebida naquele lugar. Fiz teste, passei, ficaram de me chamar na primeira vaga. Só que
está demorando muito. Vou tentar outro lugar
e pegar o que sair primeiro.
- Você não vai conseguir nada.
Alzira meneou a cabeça e saiu. A agência ficava no centro da cidade. Ela tomou um ônibus, desceu na praça da Sé e foi andando
até a rua Barão de Itapetininga.
Apesar dos problemas financeiros da família, Alzira sentia-se particularmente alegre naquela tarde. Fez a entrevista na
agência. Havia trabalhado desde os catorze
anos em uma fábrica de aparelhos elétricos, onde fizera de tudo e acabara no escritório. Foi seu primeiro e único emprego.
Trabalhou lá durante seis anos. Infelizmente
a fábrica faliu. Fazia um ano que ela estava desempregada.
- Aceito qualquer tipo de trabalho - disse ela à entrevistadora. - Estou precisando muito trabalhar. Tenho bastante vontade
de aprender.
- Espere um pouco. Acho que tenho alguma coisa que pode lhe interessar.
Ela se levantou e voltou com uma ficha nas mãos.
- Você trabalhou durante seis anos em uma empresa de aparelhos elétricos. A Mercury está precisando de moças. Acho que você
poderá experimentar. Vou preparar a documentação
para que se apresente lá.
- Posso ir hoje mesmo.
A entrevistadora olhou o relógio e considerou:
- Não sei se vai dar tempo. São quase quatro horas. O
expediente vai até as seis. Não fica muito perto...
- Sei onde é. Se eu sair daqui dentro de meia hora, chegarei lá
a tempo.
Foi com o coração batendo forte que Alzira entrou na fábrica,
entregou a carta de apresentação da agência e ficou na portaria aguar
dando. Um funcionário de Recursos Humanos procurou-a dizendo: - Sinto muito, mas acabamos de contratar a última pessoa.
Notando a decepção dela, continuou:
170
- Nosso quadro na fábrica está completo. A única vaga que temos é no escritório.
- Eu posso trabalhar no escritório.
- Tem experiência?
- Tenho. No meu emprego, comecei na fábrica mas nos últimos meses trabalhei no escritório.
- Sabe datilografia?
- Sei.
- Nesse caso, vamos entrar para conversar.
Alzira acompanhou-o, coração batendo forte. O escritório era bem arrumado e o ambiente agradável. O funcionário conduziu-a
a uma pequena sala, deu-lhe uma folha
de papel escrito e disse:
- Vamos fazer um teste. Sente-se e copie esse texto.
Alzira estava nervosa. Apanhou o papel e sentou-se em frente à máquina. Precisava ficar calma. Lembrou-se de pedir ajuda
espiritual. Imaginou que estava na sala
do centro, onde se sentia tão bem.
Começou a fazer o teste. Rapidamente e sem erros, copiou o texto, depois o funcionário pediu-lhe para redigir uma carta,
o que ela fez muito bem. Quando terminou,
ele a levou para outra sala, designou uma cadeira em frente à mesa e sentou-se. Alzira esperou.
- Meu nome é Antunes. Você foi bem no teste. Preciso de seus dados.
Ela forneceu as informações.
- Você foi aprovada para a vaga. Vamos contratá-la. Volte amanhã para as formalidades.
Alzira sorriu feliz. O salário era modesto, mas, nas circunstâncias em que sua família estava, pareceu-lhe muito satisfatório.
Voltou para casa contente, ansiosa por dar a notícia à mãe. Encontrou-a na cozinha lavando louça.
- Mãe, consegui emprego!
Estela fechou a torneira da pia e exclamou contente:
- Finalmente uma boa notícia! Eu sabia que as coisas iam começar a melhorar! Onde?
- No escritório da Mercury.
- Puxa! Uma empresa grande!
Estela quis saber todos os detalhes, e Alzira contou de bom grado. Mirtes, que aparecera na porta da cozinha, ouviu a narrativa
e comentou:
- Essas empresas são exploradoras. Eu que não me sujeitaria a trabalhar o dia inteiro para ganhar tão pouco.
171
- Pois eu acho que está muito bom - disse Estela fuzilando-a com os olhos. - Se você também ganhasse o mesmo que ela vai
ganhar, nós teríamos pelo menos o que comer
enquanto seu pai não volta a trabalhar.
Mirtes levantou a cabeça com altivez e respondeu:
- Vocês ainda vão me ver com muito dinheiro.
- Como? Pretende assaltar um banco? - ironizou Alzira rindo.
- Com essas idéias você vai se dar mal - tornou Estela. - Você diz isso mas não faz nada para conseguir o que deseja. Não
quer estudar, trabalhar, se preparar. Assim
não conseguirá nem sobreviver.
- Sei o que estou fazendo. Podem caçoar à vontade. Um dia ainda vão me dar razão. Você vai ser empregadinha de escritório
na fábrica de Valdo. Eu talvez seja dona
daquilo tudo!
- Ele foi ao cinema com você uma vez e nunca mais a procurou - rebateu Alzira. - Para conseguir isso é preciso que ele queira
se casar com você.
- Não adianta falar com vocês - disse Mirtes irritada saindo da cozinha.
Estela suspirou triste:
- Essas idéias de Mirtes me preocupam. - Ela pensa em fazer um casamento rico.
- Está iludida. Moço rico casa com moça de sociedade, educa
da. Ela é bonita, está recusando os pretendentes por serem pobres.
Receio que acabe sozinha e sem ninguém.
- Ou faça um casamento sem amor, o que para mim é ainda pior. Mirtes foi para o quarto telefonar para Mildred. Não a en
controu e sentou-se na cama pensativa. Mildred andava se afastan
do. Isso não podia acontecer. Tinha de dar um jeito. Sua amizade era
preciosa.
Ocorreu-lhe que talvez tivesse feito mal de ter falado sobre sua situação financeira. Além de não ajudá-la em nada, isso
pode ter feito com que Mildred a menosprezasse.
Foi depois de haver se queixado dos problemas da família que ela se afastou.
Resolveu reagir. Abriu o armário e procurou sua melhor roupa. Vestiu-se, maquiou-se, olhou-se no espelho e sorriu satisfeita.
Vendo-a, ninguém imaginaria que fosse
tão pobre. Apanhou a bolsa e saiu.
Estava sem dinheiro. Lembrou-se dos duzentos reais que Mildred pagara a pai Tomé pela sua consulta. Se tivesse coragem,
iria pedir de volta. Afinal, a consulta não
se realizara. Mas lembrou-se do malestar que passara e desistiu. Olhou o relógio: eram sete horas.
172
Entrou no bar da esquina e pediu para telefonar. Marcelo atendeu surpreendido. Depois dos cumprimentos, Mirtes tornou com
voz triste:
- Marcelo, desculpe incomodá-lo, mas estou desesperada. Não
tenho a quem recorrer. Você sempre foi meu amigo. Reconheço que
não tenho sido boa com você, mas sei que vai me perdoar.
- Não tenho nada a perdoar, Mirtes. O que está havendo?
- Preciso de ajuda. Mas não vou falar por telefone. Estou em
um bar. Posso passar em sua casa agora? Quero conversar com você. - Claro. Estarei esperando.
- Chegarei em dez minutos. Fique na porta.
Marcelo desligou o telefone, intrigado. Mirtes parecia aflita.
Deveria acreditar? Estaria preparando alguma?
Estava esperando quando ela chegou. Depois dos cumprimen
tos, Mirtes pediu:
- Vamos a um lugar sossegado, para conversar.
- Vou tirar o carro para darmos uma volta.
Ela esperou que ele manobrasse e sentou-se a seu lado. - Vamos procurar um lugar calmo.
Ele deu algumas voltas e por fim parou em uma rua arborizada e tranqüila.
- Então, Mirtes, o que está acontecendo?
Ela começou a soluçar, o que o surpreendeu. Nunca a vira
chorar. Deu-lhe um lenço e esperou que ela se acalmasse.
- Estou desesperada. Meu pai continua desempregado, o di
nheiro acabou... Não temos nem o que comer! - Sinto muito.
- Meu pai sai cedinho, anda o dia inteiro e nada.
- Ele tem capacidade e é um homem de bem.
- Mas você sabe como é: a idade. As empresas não aceitam. Eu e Alzira temos procurado emprego, mas está difícil. Ela vai
amanhã na Mercury ver se arranja alguma
coisa. Já trabalhou, tem alguma experiência, mas eu me sinto inútil. Nunca trabalhei, e por isso ninguém quer me dar emprego.
- De fato, Mirtes, hoje em dia para conseguir emprego é preciso ter experiência. Mas vocês não podem se desesperar. Vou
ver o que posso fazer. Se souber de alguma
vaga, eu aviso.
Ela baixou os olhos para que ele não visse o brilho de raiva e ajuntou com voz chorosa:
- Obrigado. Eu sabia que podia contar com sua ajuda. Mas o
173
que faremos enquanto estivermos desempregados? Minha mãe não agüenta mais, falou até em suicídio.
- Olhe, Mirtes, não se atormente. Vou arranjar-lhe algum dinheiro.
Ela cobriu o rosto com as mãos, dizendo:
- Que vergonha, meu Deus! A que ponto chegamos!
- Não é vergonha nenhuma. Será um empréstimo. Você paga
quando puder, está bem?
Ela o abraçou beijando-lhe a face:
- Obrigada. Pagarei assim que estiver trabalhando. Eu sabia
que você iria me ajudar.
- Vamos até minha casa pegar o dinheiro. - Não quero ir, tenho vergonha. - Você fica no carro.
Eles foram e Mirtes sorriu satisfeita. Pouco depois, ele voltou e
entregou-lhe um envelope, dizendo:
- Aqui está. Tem quinhentos reais. É tudo que posso dispor no
momento.
- Obrigada, Marcelo. Você é mesmo meu amigo. Não sei como agradecer.
- Não precisa. Quer que a leve para casa?
Ele a deixou na porta e partiu, prometendo ajudá-los a encontrar emprego. Assim que o carro desapareceu na curva da rua,
Mirtes caminhou depressa e tomou um táxi.
Lembrou-se de que era quarta-feira, dia de corridas no jóquei-clube. Mildred prometera levá-la. Ela não queria esperar e
pediu ao motorista que a levasse até lá.
Durante o trajeto, retocou a maquiagem e sorriu satisfeita. Mildred tinha razão. Ela não precisaria esperar, poderia conseguir
o dinheiro que quisesse.
Entrou fingindo estar muito à vontade. Notou que alguns homens voltavam-se quando passava e sorriu confiante. Lá era o lugar
onde os milionários iam deixar seu dinheiro.
Sentou-se olhando para os lugares reservados aos associados, como se estivesse esperando alguém. Sentia-se bem no meio
das pessoas elegantes que circulavam à sua
volta. Aquele era o lugar em que ela queria estar.
Seus olhos brilhavam cheios de entusiasmo, o que a tornava mais bonita. Começou o primeiro páreo e ela acompanhou maravilhada.
A noite estava linda e o ambiente
requintado, muito agradável.
174
Um homem moreno e muito elegante sentou-se a seu lado, olhando-a com admiração. Mirtes fingiu que não notou. Pouco depois,
ele disse:
- É a primeira vez que a vejo por aqui. Onde você se escondia? - Desculpe, mas não falo com estranhos. - Eu me apresento.
Meu nome é Humberto de Morais. - Prazer.
Meu nome é Mirtes da Silva Santos. - O prazer é todo meu! Não vi seus acompanhantes. - Ainda não chegaram. Combinamos de
nos encontrar aqui.
Eles são sócios do clube.
- Talvez eu os conheça. Como se chamam?
Ela deu o nome de Mildred e ele considerou:
- O cavalo que chegou em segundo lugar no grande prêmio
era deles. Por sinal um belo animal.
Mirtes sorriu satisfeita. Ele aparentava mais de cinqüenta anos, mas era distinto e agradável.
Continuaram conversando e Mirtes de vez em quando olhava à sua volta, como se estivesse procurando alguém, e voltava a se
sentar. A certa altura comentou:
- Penso que meus amigos não virão. Deve ter acontecido alguma coisa. Acho que vou embora.
-- Por favor, não faça isso. Vamos nos sentar nas poltronas dos sócios. Poderá esperar seus amigos lá. É mais confortável.
Ela hesitou um pouco, depois sorriu e respondeu:
- Está bem, eu vou. Mas confesso que estou constrangida. Eles não podiam ter feito isso comigo.
- De fato, é deselegante deixar uma dama esperando, principalmente se estiver sozinha.
Eles mudaram de lugar e Mirtes comentou:
- Ainda bem que encontrei uma pessoa educada como o senhor. Confesso que é a primeira vez que venho aqui e jamais teria
vindo sozinha se soubesse como é.
- Não se preocupe. Também estou só, podemos fazer companhia um ao outro.
Mirtes sorriu. Humberto estava fascinado e disposto a não a perder de vista. Apostou em todos os páreos, explicando como
funcionavam as apostas e dando algumas pules
a ela para concorrer.
Mirtes adorou. Nunca havia se divertido tanto. Ganhou em um dos páreos e ficou radiante. Aquilo, sim, era vida.
Quando terminaram as corridas, Humberto convidou:
175
- Estou com fome. Quer jantar comigo? Ela hesitou:
- Não sei se devo... Afinal nos conhecemos hoje. Não sei nada sobre você.
- Vamos jantar e eu lhe contarei tudo a meu respeito.
Ela aceitou e ele a levou à boate de um hotel de luxo. O ambiente sofisticado, a música ao vivo e a beleza do lugar encantaram
Mirtes.
Fizeram o pedido, depois ele perguntou: - Você gosta de dançar? - Adoro.
- Confesso que não sou um bom dançarino, mas se quiser arriscar...
O conjunto tocava um blues, e uma cantora de voz agradável enriquecia a música. Mirtes deixou-se conduzir por ele com prazer.
Humberto não era jovem como ela, mas, além de ser elegante, dançava bem. Vinha dele um delicado perfume masculino que a
agradou.
O jantar foi servido, e Mirtes lembrou:
- Você ficou de me falar de sua vida.
- Não há muito o que dizer. Sou um empresário. Estava me
sentindo muito só esta noite. Aí você apareceu e tudo se trans
formou.
- Eu também me sentia só.
- Uma moça como você deve ter muitos admiradores. Mirtes assumiu um ar triste:
- Os moços de hoje são fúteis. Não encontrei ainda o homem
de minha vida.
- Deve ser muito exigente.
- Quero apenas alguém que me ame e eu possa corresponder.
Ainda acredito no amor.
Humberto segurou a mão dela e respondeu:
- Eu também. É o amor que impulsiona o mundo. Sou um
homem desiludido, Mirtes. Tenho sido muito infeliz no amor.
- Não posso acreditar. Um empresário elegante, fino e agradá
vel como você...
- Dediquei-me muito ao trabalho. Mas acabei descobrindo que dinheiro não traz felicidade. Agora estou em busca do amor.
Mirtes olhou-o nos olhos e suspirou. Ele apertou delicadamente a mão dela que detinha entre as suas e continuou:
176
- Você está me fazendo acreditar que nem tudo está perdido para mim. Que um dia ainda encontrarei alguém que me ame e com
quem eu possa ser feliz.
Passava das duas da manhã quando eles saíram da boate. Entraram no carro de luxo e ele disse:
- Onde você mora? Vou levá-la em casa. Ela hesitou e respondeu séria:
- Até agora você falou de sua vida, e eu não disse nada da minha. Acho que terei de dizer-lhe a verdade.
Ele, que havia dado partida no carro, desligou a chave e olhou para Mirtes.
- Você ficou séria de repente. O que tem para me dizer?
- Você me parece um homem sincero, não posso ocultarlhe nada.
- O que há? Fale. Você é casada?
- Não. Você vai me levar em casa. Não sou uma moça rica. Minha família é pobre, meu pai está desempregado. Eu odeio esta
vida de pobre. Meus amigos são ricos, freqüento
lugares de luxo, mas na verdade não tenho nada.
- O que mais tem para me dizer?
- Nada. Esta é a história da minha vida. Nesta noite você me fez muito feliz.
- Nesse caso posso esperar que você goste um pouco de mim.
Mirtes olhou-o com ternura e não respondeu. Ele a abraçou e beijou-a nos lábios. Ela correspondeu e ele a beijou várias
vezes, e cada beijo mostrava-se mais ardente.
A certa altura ela o afastou, dizendo:
- Pare, por favor. Não estou acostumada com esta emoção. - Você me atrai muito. Vamos para um lugar onde possamos ficar
sozinhos e à vontade.
- Não. Não posso fazer isso. É contra meus princípios. Por favor, leve-me para casa.
A custo Humberto concordou. Uma vez na porta da casa dela, ele disse:
- Quero vê-la de novo. Quero seu telefone.
- Não temos telefone em casa - mentiu ela. Não queria que ele ligasse para lá.
- Fique com meu cartão. Vou esperar com impaciência. Ligue-me amanhã.
Ela concordou. Trocaram alguns beijos e ela a custo desprendeu-se dos braços dele. Entrou em casa procurando não fazer ruído.
Sentia-se feliz.
Ao contrário do que imaginara, não fora difícil trocar beijos com Humberto. Era um homem fino e gentil. Sentira prazer em
estar a seu lado.
Deitou-se fazendo planos para o futuro. Seu sonho se tornaria realidade. Naquela noite dera um passo à frente para tornar-se
muito rica.
178
Alzira segurou o envelope com satisfação. Acabava de receber seu primeiro salário. Sentia-se feliz em poder contribuir no
pagamento das despesas da casa.
Seu pai continuava desempregado, mas havia conseguido prestar serviços extras a algumas pequenas empresas, ganhando algum
dinheiro. Assim, as coisas começavam a
melhorar e sua mãe não se preocupava tanto.
Só Mirtes não tinha jeito. Levava vida ociosa, saindo muito, passando os fins de semana fora de casa. Ela dizia que estava
com Mildred, viajando ou hospedando-se
em sua casa. Mas Alzira desconfiava que era mentira. Ela nunca mais as vira juntas, e, depois, Mirtes comprava muita roupa,
perfumes, adereços, sempre dizendo que
eram presentes da amiga.
Alzira fingia que acreditava para não preocupar mais os pais, que se incomodavam muito com a vida que Mirtes levava.
179
Sabia que não adiantava nada aconselhá-la, e muitas vezes, colocava o nome dela no livro de orações do centro espírita,
pedindo a Deus por ela.
Saiu pensativa de sua sala na Mercury. Caminhava pelo corredor, cabeça baixa imersa em seus pensamentos, quando esbarrou
de frente com uma pessoa que vinha em sentido
contrário. O envelope com dinheiro do salário foi atirado longe, e ela ia cair ao chão quando um braço forte a segurou.
- Meu Deus, o dinheiro!
- Calma. Ele não vai fugir.
Então ela viu que esbarrara em Valdo, o dono da empresa. Empalideceu e disse trêmula:
- Desculpe. Foi sem querer.
- Não fique assim. Não foi nada. Venha, sente-se aqui.
Fê-la entrar em uma sala e sentar-se. Ela tremia, sem saber o que dizer. Conseguiu balbuciar:
- Meu dinheiro!
Ele havia apanhado um copo de água e deu-o a ela dizendo:
- Beba.
Ela obedeceu e logo um rapaz entrou, entregando a Valdo o envelope dela e dizendo:
- Alzira deixou cair isto.
Valdo entregou o envelope a ela, que o apanhou com rapidez. Ele não conteve o sorriso e comentou:
- Pelo jeito, esse envelope deve ser muito importante para você!
- É meu primeiro salário aqui. Desculpe o transtorno. Foi mi
nha culpa. Eu estava distraída. Preciso voltar ao trabalho.
- Espere um pouco. Você está pálida. Aceita um café? Alzira aceitou, e suas mãos tremiam ao segurar a xícara.
- Você está muito nervosa. Vamos conversar um pouco. Acho
que conheço você.
- Faz um mês que estou trabalhando neste escritório.
- Não, não é daqui que a conheço. Você não tem uma irmã chamada Mirtes?
- Tenho.
- Já as vi juntas. Sabia que a conhecia. Em que seção está trabalhando?
- Sou datilógrafa.
Valdo estava intrigado. Pela atitude de Alzira, dava para
180
perceber que aquele dinheiro era importante para ela. Sinal de que estava precisando muito. Nesse caso, como Mirtes conseguia
freqüentar lugares da moda, vestindo-se
tão bem? Afinal, ela não trabalhava.
Procurou saber.
- Você poderia ter se machucado, mas só se preocupou com o dinheiro. Posso saber o que vai fazer com ele?
- Dar à minha mãe. Meu pai é contador e trabalhou muitos anos em uma empresa, mas foi despedido por causa da idade. Tem
cinqüenta e cinco anos. Está desempregado
há mais de um ano. Nossas reservas acabaram. Este dinheiro vai nos ajudar muito.
- Seu pai deve ter boa experiência profissional.
- Tem. Ficou meio revoltado, porque, depois de ter trabalhado tantos anos com dedicação, foi despedido por ser considerado
velho. Agora ninguém lhe dá uma oportunidade.
Tem prestado alguns serviços a pequenas empresas, mas ganha muito pouco.
- Ele procura emprego só como contador?
- A princípio sim, mas agora está disposto a aceitar qualquer coisa, desde que saiba fazer e que o permita sustentar a
família.
- Sente-se mais calma?
Alzira levantou-se.
- Sim. Desculpe meu nervosismo. Esbarrei logo no dono da empresa. Tive medo de que me despedisse.
- Não era para tanto. Mas daqui para a frente é melhor olhar por onde anda para que não lhe aconteça coisa pior. Depois
que ela saiu, ele pensou:
"Duas irmãs... Como podiam ser tão diferentes?"
Chamou o chefe do escritório e perguntou:
- Essa moça, Alzira, é boa funcionária?
- Estou muito satisfeito com ela. Não falta, não chega atrasada, não fica pelos cantos conversando, está sempre procurando
o que fazer. Acho que foi ótima contratação.
Está em experiência, mas, se continuar assim, vamos efetivá-la.
Valdo perguntou o salário dela e o endereço de sua casa. Ele valorizava uma boa equipe de trabalho. Pensava que só assim
conseguiria fazer a empresa crescer e tornar-se
qualificada. Esse pensamento sempre dera certo.
Na semana seguinte, Valdo mandou chamar Alzira em sua sala. Ela atendeu prontamente.
- Como vai, Alzira?
- Muito bem, obrigada.
181
- Mandei chamá-la porque gostaria que me desse algumas in
formações sobre seu pai. Ele já arrumou emprego?
Alzira corou de prazer. Estaria Valdo pensando em empregá-lo?
Apressou-se em responder:
- Ainda não. O que deseja saber?
- O nome da empresa em que ele trabalhou e por quanto tem
po ele ficou lá.
Alzira esclareceu e ele continuou:
- Estive pensando em oferecer a ele uma vaga na área de contabilidade. Não como contador, porque já temos um. Acha que ele
aceitaria?
- Seria maravilhoso! Claro que aceitaria.
- Então, peça-lhe para vir falar comigo amanhã às dez. Alzira não se conteve e exclamou:
- O senhor é maravilhoso! Nunca me esquecerei do que está
fazendo!
- Não estou prometendo nada. Vamos apenas conversar. Se combinarmos, ele poderá trabalhar aqui.
- Desculpe meu entusiasmo. Compreendo. É que pensei na alegria dele em encontrar trabalho. Logo em uma empresa como esta!
- Então está combinado. Amanhã eu o espero às dez.
Quando ela se foi, Valdo sorriu contente. O rosto daquela moça era um livro aberto. Dava para ler seus pensamentos. Era
difícil encontrar alguém tão transparente.
E como ficava bonita quando ruborizava!
De repente ele se sentiu de bem com a vida. Era muito gostoso poder dar a um homem a oportunidade de trabalhar para sustentar
sua família.

Naquela tarde, Estela, sentada na cozinha, servia um lanche ao marido. Enquanto colocava o café na xícara, dizia convicta:
- Você não pode desanimar. No centro, ontem, Dona Isaltina me chamou e disse que logo você ia ter uma boa oportunidade.
- Você é muito crédula. Depois de tantas tentativas, não creio em mais nada.
- Pois eu creio. Depois que fui ao centro nossa vida começou a melhorar. Alzira está trabalhando, gosta do emprego. E você
logo vai encontrar trabalho. Quer saber?
Sua descrença está atrapalhando. Por que não vai comigo ao centro?
182
- Você insiste nisso, não é? Pois bem, vamos combinar: se o emprego sair logo, como você diz, eu prometo que vou lá. Estela
sorriu contente:
- Você está prometendo! Eu vou cobrar. - Pode cobrar.
Uma hora depois, Alzira chegou apressada. Estava contente. O pai lia o jornal na sala e ela foi logo dizendo:
- Pai! Tenho uma boa notícia para o senhor! Acho que seu emprego pode sair.
O jornal caiu das mãos dele. Estela, que ouvira da cozinha, apareceu na sala. Os dois ouviram emocionados Alzira contar
a conversa que tivera com Valdo e finalizar:
- Bom, pai, o emprego vai depender da conversa de vocês. Mas o Sr. Valdo parece muito interessado em contratá-lo. Eu disse
que você aceitaria qualquer serviço.
- E aceito mesmo. Eu quero trabalhar.
- Sabe de uma coisa? Você disse que, se o emprego saísse, iria comigo ao centro. Mas eu acho que deveríamos ir esta noite
mesmo para pedir ajuda.
- Está bem. Eu irei com vocês.
As duas se abraçaram contentes. Era lá, naquela simples casa de orações, que elas se sentiam bem e que havia muito queriam
que Antônio usufruísse daquele bem-estar.
Na hora certa, os três estavam na sala de espera. Isaltina viu-os e foi cumprimentá-los. Depois de abraçá-los, disse:
- Estou muito feliz em vê-lo aqui, Sr. Antônio. Não precisa fazer uma consulta. Vou dar-lhe o papel para freqüentar.
Minutos depois, quando Antônio entrou na sala em penumbra e sentou-se na cadeira que lhe indicaram, ele se sentiu emocionado.
As lágrimas ameaçavam cair e ele olhou
em volta envergonhado, tentando contê-las. Sentia-se cansado, amargurado, impotente. As lágrimas desceram pelo seu rosto
e ele pensou que a penumbra era providencial,
assim ninguém o veria chorando.
Pareceu-lhe ouvir as palavras do pai:
- Homem que é homem não chora! Engula o choro!
Mesmo assim, não conseguiu parar de chorar. A música suave, as pessoas silenciosas lembravam que ele fora lá para rezar.
Havia quanto tempo não fazia uma oração?
Tentou recordar-se das que sua mãe lhe ensinara na infância, mas não conseguiu coordenar os pensamentos. Murmurou algumas

183
palavras pedindo ajuda, dizendo que sempre fora honesto, bom profissional e muito trabalhador.
Saíram da sala e Estela esclareceu:
- Agora vamos ao salão. Vai começar a palestra.
O pequeno salão estava lotado, mas os três ainda arranjaram lugar mais atrás. Isaltina apanhou o microfone, postou-se na
frente de todos e começou a falar.
O tema era a valorização do bem. Comentou que a maioria das pessoas tem o hábito de comentar o que está ruim com elas, em
ressaltar o errado, sem perceber as coisas
boas que já possuem. Esse hábito negativo lhes atrai o mal.
Depois de falar por quinze minutos, ela encerrou com a frase:
- Quem valoriza a falta só consegue obter falta. Para você melhorar sua vida é imprescindível valorizar todo bem que você
já possui. Assim, a vida vai mandar-lhe
mais. É assim que tudo funciona. Pensem nisso.
Antônio sentia-se comovido. Achava que Isaltina havia falado exclusivamente para ele. Nos últimos tempos ele só se lamentava
e se preocupava com o que não tinha.
Sentiu que, apesar do que estava lhe acontecendo, ele era um homem feliz. Tinha uma esposa companheira e dedicada, que não
media esforços para levantar seu ânimo.
Duas filhas lindas e saudáveis, uma casa para morar.
Ele possuía mais do que muita gente. O emprego era uma circunstância momentânea que de uma hora para outra poderia ser solucionada.
Mais importantes para ele eram
o amor e o respeito da família.
Pensando assim, sentiu-se bem, como havia muito não sentia. Quando saíram do centro, Estela perguntou:
- Então, Antônio, como se sente?
- Bem. Dona Isaltina estava falando para mim. Tudo quanto ela disse estava acontecendo comigo. Sabe de uma coisa? Estou
pensando...
- O quê?
- Está certo que preciso do emprego, mas eu sei que a qualquer hora ele vai sair. O importante é ter vocês ao meu lado,
me apoiando. Sem vocês eu não saberia fazer
mais nada. O melhor emprego do mundo seria inútil.
As duas abraçaram Antônio emocionadas. Era a primeira vez que ele confessava quanto gostava da família. Com carinho, Alzira
disse:
184
- Pai, estou contente por você se sentir melhor. Tenho certeza de que logo tudo vai dar certo.
- De fato, minha filha. Eu também acho.
Na manhã seguinte, Antônio estava na fábrica na hora marcada. Foi imediatamente conduzido ao escritório, e Valdo atendeu-o
pessoalmente. Ele queria conhecer melhor
o pai de Alzira para avaliar se valia a pena colocá-lo na empresa. Seria muito desagradável se, uma vez contratado, ele
não viesse a corresponder às expectativas.
Valdo gostava de dar oportunidade a quem tivesse boa vontade, porque sabia quanto era importante uma boa parceria com seus
funcionários. Pagava bem, mas exigia comprometimento
e responsabilidade.
Depois dos cumprimentos, Valdo designou a cadeira em frente à sua mesa e pediu:
- Sente-se, por favor. Vamos conversar. Antônio obedeceu. Valdo continuou:
- Alzira me disse que o senhor é contador e possui bastante experiência.
Antônio colocou um envelope sobre a mesa e respondeu:
- É verdade. Trouxe meu currículo para o senhor verificar.
- Depois verei isso. Fale-me a respeito da empresa onde o se
nhor trabalhou.
Antônio começou a descrever suas atividades no emprego em que permaneceu durante tantos anos. Apesar da tristeza de ter
sido despedido por causa da idade depois
de tantos anos de dedicação, não disse uma palavra de queixa. Ao contrário, disse que gostou de trabalhar lá porque era
uma firma idônea, pagava em dia seus funcionários
e tratava-o bem.
Valdo fitou-o sério e comentou:
- Alzira me disse que o senhor foi despedido por causa da idade. Certamente eles contrataram um contador mais jovem por
um salário menor.
- De fato, meus antigos colegas informaram que isso aconteceu mesmo. Mas, apesar disso, reconheço que foi lá que aprendi
muito. O senhor sabe: mesmo com diploma,
nossa experiência só vem com o tempo. Eles me contrataram quando eu ainda estava estudando, deram-me um cargo de confiança
quando me formei e não tinha nenhuma experiência.
- Há quanto tempo está desempregado?
- Para mais de um ano. Infelizmente, muitas empresas pensam
185

que depois dos cinqüenta as pessoas não têm condições de trabalhar. Mas eu ainda sinto que estou muito capaz. Eles estão
enganados.
Valdo gostou do que ouviu. Sabia que Antônio estava passando dificuldades mas mesmo assim teve a dignidade de não culpar
os antigos patrões. Era um homem de bons
sentimentos.
- Eu penso o contrário. O que importa para mim é o conhecimento, a postura profissional e a boa vontade. A idade é só uma
circunstância. Meu pai é mais velho do
que o senhor e ainda trabalha e dirige nossa empresa. Tenho aprendido muito com ele.
Antônio, que entrara lá acanhado, endireitou-se na cadeira. Ele possuía as qualidades citadas. Valdo continuou:
- Conforme disse à sua filha, não temos vaga de contador. Mas posso oferecer-lhe um trabalho nessa área.
- Ficaria muito honrado em vir trabalhar aqui. Estou disposto a aceitar qualquer trabalho. Sendo na área da contabilidade,
poderei prestar melhores serviços.
Valdo conversou sobre o salário e, uma vez combinado, chamou o encarregado e pediu-lhe que cuidasse de tudo.
Antônio estava radiante. Finalmente conseguira trabalho. O salário oferecido era metade do que recebia no antigo emprego,
mas ele achou que estava ótimo. Daria muito
bem para manter a família, como sempre fizera.
Chegou em casa alegre. Estela esperava-o com impaciência. Assim que entrou, ele foi logo dizendo:
- Estou empregado! Consegui!
- Venha, vamos à cozinha. Vou fazer um café e você vai me contar tudo.
Enquanto a água esquentava, os dois sentaram-se e ele disse com entusiasmo:
- Imagine: quem me entrevistou foi o filho do dono da empresa. Um moço fino, educado, que me recebeu muito bem. Você sabe
que ele nem olhou meu currículo? Disse
que valorizava mais as qualidades, a boa vontade. Acho que encontrei a empresa certa. Reparei que todos pareciam trabalhar
com alegria. Um ambiente bom.
- Você vai trabalhar no quê?
- Eles já têm contador, mas vou trabalhar na contabilidade. Terei de passar por um período de experiência, mas eu sei que
eles vão gostar de meu trabalho. Estou
disposto a me esforçar como nunca.
- Eu sei que você é capaz.
- Bem, o salário é menor do que o anterior. É natural, já que
186
não é o mesmo cargo. Mas vai dar muito bem para pagar as despesas. Assim o dinheiro de Alzira pode ficar para ela. Não vai
precisar dar nada em casa.
- Uma moça gosta de se arrumar. Ela vai ficar contente. Mas, antes disso, vamos pagar todas as nossas dívidas. O crédito
é muito importante.
- Está bem.
No dia seguinte, no horário de almoço, Alzira bateu na porta da sala de Valdo.
- Entre.
- Com licença, doutor. Vim agradecer a ajuda que o senhor
nos deu. Meu pai está feliz. Pode ter certeza de que ele vai se esfor
çar ao máximo para retribuir. O senhor não vai se arrepender.
- Seu pai é um homem inteligente. Espero que se dê bem aqui. - Tenho certeza! Ainda mais com um patrão como o senhor.
Ele sorriu e ela corou notando que seu tom
fora entusiasmado
demais. Tentou consertar:
- É que o senhor atendeu meu pai pessoalmente. Ele saiu daqui valorizado. Fazia muito tempo ele não se sentia assim. Minha
mãe mandou agradecer. Deus o abençoe.
Ela deu meia-volta e saiu quase correndo. Ele meneou a cabeça sorrindo e pensou:
"Que menina agradável. Seu rosto parece mesmo um livro aberto. Que diferença da irmã!"
Ainda na noite anterior ele vira Mirtes em companhia de um homem mais velho, jantando em um restaurante de luxo. Estava
claro que ela havia encontrado um jeito de
arranjar dinheiro. Não trabalhava. De onde tiraria o luxo que ostentava? Certamente a família não sabia de nada. Antônio
parecera-lhe um homem correto. Que subterfúgios
ela usava para enganá-los?
Dois dias depois, Estela fez o almoço e adiantou o jantar. Nem Alzira nem Antônio almoçariam em casa. Ele havia começado
a trabalhar e a empresa tinha restaurante
próprio. Isso era bom, porque assim o dinheiro que Alzira ganhara lhes daria tempo de esperar até que Antônio recebesse
o primeiro salário.
O relógio deu meio-dia e Estela subiu ao quarto de Mirtes, que ainda dormia. Abriu as janelas e chamou:
- Acorde, Mirtes. Levante-se.
Ela se revirou na cama resmungando:
187
- Deixe-me dormir.
- Não. Você está levando uma vida muito ruim. Está trocando o dia pela noite. Isso não está certo. Trate de levantar. O
almoço está pronto. Você toma um banho, almoça
e vai procurar um emprego. Não pode continuar levando essa vida sem responsabilidade.
Mirtes sentou-se na cama irritada.
- Já disse que sei cuidar de mim. Não vou me sujeitar a um emprego como o de Alzira, ganhar essa ninharia que não dá para
nada e ficar escrava o dia inteiro, fechada
dentro de um lugar horroroso, com várias pessoas para mandar em mim.
- Que idéia, Mirtes! Um emprego traz dignidade.
- Só se for para gente incapaz, como Alzira.
- Sua irmã é muito considerada no emprego. Arranjou trabalho para seu pai. Ele começou hoje. Foi o próprio filho do dono
da empresa que o contratou.
Mirtes acordou de vez. Abriu os olhos e perguntou:
- Ouvi bem? Papai foi trabalhar na empresa de Valdo?
- Foi. Alzira conversou com ele, contou que seu pai estava desempregado e ele o chamou para uma entrevista e o empregou.
- Fique sabendo que ele não fez isso por causa de Alzira. Ele está interessado em mim. É amigo de Mildred, freqüenta a casa
dela. Vocês não acreditam em mim, mas
eu ainda vou me casar com ele e ser dona daquela empresa.
Estela emudeceu de surpresa. Mirtes continuou:
- Por isso não vou me sujeitar a um empreguinho pobre, como papai e Alzira.
- Vocêestá enchendo sua cabeça de ilusões. Faço votos de que não venha a arrepender-se dessa atitude.
- Agora vou tomar um banho, me arrumar e sair. Preciso ver Mildred e contar a novidade. Ela vai gostar de saber. Torce por
mim.

No final da tarde, enquanto Antônio lia o jornal na sala, Alzira
ajudava a mãe na cozinha. Estela, lembrando-se da conversa com
Mirtes, aproveitou para perguntar:
- É verdade que o Dr. Valdo está interessado em Mirtes? Alzira olhou admirada para a mãe: - Ela disse isso?
- Disse que seu pai conseguiu o emprego por causa dela. Que
o Dr. Valdo freqüenta a casa de Mildred e está gostando dela.
- Bem, pelo que sei, há muito tempo ela foi ao cinema com
188
Valdo. Mas depois disso ele nunca mais a procurou. Tanto que ela havia desprezado Marcelo e acabou correndo atrás dele de
novo. O Dr. Valdo ofereceu o emprego porque
eu pedi.
Alzira subiu para o quarto logo depois do jantar. Sentou-se na cama pensativa e triste. De fato, Valdo lhe perguntara se
ela era irmã de Mirtes. Teria sido por isso
que fora tão gentil com ela e com o pai? Estaria mesmo interessado em sua irmã?
Mirtes era bonita, elegante, todos os homens olhavam em sua direção quando passava, enquanto ela, Alzira, não se achava
atraente. Devia logo ter percebido que a
gentileza dele tinha motivo.
Quanto mais pensava nisso, mais acreditava na possibilidade de Valdo realmente estar gostando de Mirtes. Esse pensamento
a irritava.
A atitude dele não tinha sido de bondade mas de puro interesse. Nesse caso, a opinião que havia formado dele era errada.
Valdo era igual aos outros, sempre pensando
em uma conquista fácil.
Esse pensamento causava-lhe tristeza. Ele era tão bonito! Era uma pena que fosse tão leviano a ponto de valer-se de sua
situação de moço rico e dono de uma empresa
para conquistar o amor de uma mulher.
Dali para a frente, evitaria contato com ele. Não queria servir de trampolim para Mirtes.

Mirtes saiu de casa disposta a conversar com Mildred. Nos últimos tempos, ela andava arredia e não a convidava mais para
sair. Encontravam-se ao acaso, mas, como
Mirtes sempre estava acompanhada, apenas se cumprimentavam.
Sabia que era dia de Mildred ir ao cabeleireiro e foi até lá a pretexto de fazer manicure. O salão estava lotado e ela gostou,
porque assim poderia esperar a amiga
chegar.
Apanhou uma revista e fingiu estar lendo. Viu quando ela entrou. Sabia que ela marcava hora e não ia demorar-se na espera.
Por isso, levantou-se e foi ter com ela.
- Mildred, que coincidência! Como vai? - Bem, e você?
- Eu estou ótima. Tenho de ir a um jantar esta noite e vim fazer as unhas. Puxa, estava com saudade de você. Minha vida
tem estado tão ocupada que não tenho tido
tempo para ligar.
Mildred lançou sobre ela um olhar perscrutador e notou logo que ela estava bem vestida, aparência cuidada. Teria aceitado
seu conselho?
189

- Eu também tenho estado ocupada. Mas você me parece muito bem!
Uma funcionária aproximou-se sorrindo e disse:
- Houve uma doença na família e Carlos está um pouco atrasado.
Pede desculpas, mas vai apressar-se e atendê-la em seguida.
Quer um café, uma água, um refrigerante?
- Não, obrigada. Eu espero, desde que não seja muito. Mirtes sorriu contente. Ambas sentaram-se para esperar.
- Ainda bem que encontrei você, Mirtes, assim o tempo
passará depressa. Não gosto de esperar.
- Desejo contar-lhe as novidades.
- Estou curiosa. Noto seu progresso. Parece que melhorou de
vida. Seu pai arranjou emprego?
- Sim. Tanto meu pai quanto Alzira estão trabalhando. Sabe
onde? Na Mercury.
- Na empresa de Valdo?
- Sim. Isso é muito bom. Acho que finalmente ele mostrou interesse por mim. Empregou meu pai, mesmo com a idade que ele
tem. Você sabe, nenhuma empresa o queria.
Claro que devem ter razão. Mas Valdo fez isso por mim, para me agradar.
Mildred fitou-a admirada. Seria verdade? Sugeriu:
- Nesse caso, você precisa procurá-lo para agradecer.
- Pensei nisso. Foi bom vê-la. Talvez você possa ajudar-me a encontrá-lo. Não posso procurá-lo na empresa. Meu pai saberia,
seria um desastre.
- Pensarei sobre isso. Mas conte-me: eu a vi jantando na semana passada com o Dr. Humberto.
- Você o conhece?
- Ele é dono de um cavalo que corre no jóquei. Está sempre lá.
- De fato. Nós nos conhecemos no jóquei. Ele está apaixonado por mim. Faz tudo para me agradar.
- Eu disse que daria certo. Ele é viúvo e muito rico. Você poderá vir a casar-se com ele.
- Isso não. Ele é muito agradável, fino, educado, mas eu não pretendo passar minha vida toda ao lado dele.
- Não seria ruim. Você sempre disse que só se casaria com um homem rico. Acho que encontrou o que procurava. Casando, você
terá segurança e tudo que desejar. Isso
não a impedirá de ter suas aventuras amorosas.
- Talvez. Humberto é cordato e fácil de manejar.
190
- Só há um problema. - Mildred baixou a voz e aproximou-se mais da amiga: - Ele tem um caso com uma espanhola ciumenta
que é o diabo. Ela faria tudo para impedi-lo
de se casar novamente. Certa vez ele andou saindo com uma artista famosa que vive no Rio de janeiro. Ia lá todos os fins
de semana. Até na imprensa saiu que eles
iam se casar. Mas deu em nada. Ele acabou com tudo. Depois fiquei sabendo que foi a espanhola que deu fim no romance.
- O que será que ela fez?
- Isso eu não sei. Mas de repente ele acabou o namoro, e passava
todas as noites no apartamento que montou para ela. Desde
então, que eu saiba, nunca mais teve um relacionamento firme.
- Você acha que ele ainda sai com ela?
- Tenho certeza. Por isso, se decidir casar com ele, precisa to
mar cuidado. Eu acho que ela foi em algum lugar, fez alguma coisa
para ele desistir da artista e voltar a ficar com ela.
- Você acha que isso funciona? Para você está dando certo? - Ainda não. Mas pai Tomé garante que vai conseguir.
- Eu tenho visto Émerson com Laura nos jornais e revistas.
Continuam noivos.
- Por enquanto. Émerson conhece muitas coisas sobre esses trabalhos. Por isso fica mais difícil. Entretanto, pai Tomé garantiu
que vou conseguir.
- Espero que essa espanhola não faça nada contra mim. Tenho medo dessas coisas. Não quero lidar com nada disso.
Mildred sorriu com ar de superioridade.
- Que bobagem! Eu fiz e estou muito bem. Não me aconteceu nada. Nem vai acontecer.
- Mesmo assim, eu não quero.
- Se ela fizer alguma coisa contra você, vai precisar se defender. - Nesse caso, arranjo outro namorado. Para mim tanto
faz que
seja Humberto ou outro, contanto que possa me dar o que eu quero. - Isso mesmo. Estou avisando para tomar cuidado. Mulher
ciu
menta é o diabo.
As duas riram e continuaram conversando. Apesar de haverem se distanciado durante algum tempo, possuíam muitos pontos em
comum.
191
Marcelo chegou em casa cansado, disposto a tomar um banho, comer e descansar.
Depois do jantar, os pais foram para a sala assistir a televisão, mas ele preferiu ir para o quarto. Apanhou um livro, estendeu-se
na cama e começou a ler.
O telefone tocou. Era Renata. Pelo tom de sua voz, Marcelo notou que ela estava chorando.
- Marcelo, quero conversar com você. Por favor, venha até minha casa.
- Você está chorando! Aconteceu alguma coisa?
- Venha, por favor.
- Está bem. Dentro em pouco estarei aí. Fique calma.
Vestiu-se rapidamente e desceu. Iolanda, vendo-o passar, estranhou:
- Você não disse que estava cansado e que não ia sair? Aconteceu alguma coisa?
- Nada, mãe. Vou, mas volto logo.
193
Ele se foi e a mãe comentou com o marido:
- Essas meninas vivem atrás dele. Elas ligam e ele vai.
- Isso é normal na idade dele. Não sei por que você está se
incomodando.
Ela se calou e acomodou-se no sofá. O marido sempre defendia o filho. Estava habituada.
Quando Marcelo chegou à casa de Renata, ela o esperava no portão. Ele desceu do carro e depois dos cumprimentos perguntou:
- Você quer dar uma volta? Assim poderemos conversar melhor.
Ela aceitou. Entrou no carro e ele deu partida. Andaram alguns quarteirões, até pararem em uma rua tranqüila.
Renata estava pálida, as mãos trêmulas.
- Então, Renata, o que houve?
Ela suspirou, ficou calada por alguns instantes, depois decidiu:
- Tive uma recaída.
- Como assim? Você estava tão bem!
- Estava. Mas hoje descobri que não mudei nada. Sinto-me tão fraca, sem dignidade... Um lixo!
- Fale como aconteceu.
- Bom... Ontem a noite fiquei sabendo por minha prima que Rômulo e Nora haviam brigado e terminado o noivado. Fiquei alegre
e muito descontrolada. Uma louca esperança
brotou em mim e tive vontade de vê-lo. Então, hoje fui ao clube. De fato, pouco depois que cheguei ele apareceu sozinho.
Eu estava com minha prima em uma mesa tomando
guaraná. Fingi que não o vi. Rute estava de frente para Rômulo e disse que ele estava vindo em direção à nossa mesa. Quando
ele chegou, senti as pernas bambas. Ele
nos cumprimentou e disse: "Posso me sentar com vocês?" Você pode imaginar como me senti. Achei que ele estava diferente
dos últimos tempos. Havia perdido aquele
olhar esnobe que me irritava tanto. A banda estava tocando uma música, e ele convidou Rute para dançar. Os dois foram para
a pista e eu fiquei ali, torcendo para
ele dançar comigo. A música acabou, eles voltaram e sentaram-se novamente. Eu estava certa de que ele iria me chamar para
dançar. Imaginei que dançara com Rute apenas
para não mostrar logo seu interesse em reatar comigo. Foi quando Nora entrou no salão ao lado de um rapaz alto, elegante,
bonito, que eu nunca tinha visto. Notei
que Rômulo empalideceu, pensei que fosse desmaiar. Levantou-se e foi ter com eles. Ele começou a brigar com Nora, falando
alto, coisa que eu nunca vi.
194
Logo ele, sempre tão controlado! O rapaz que estava com ela se colocou entre eles e então aconteceu uma briga. Os dois trocaram
socos, e algumas pessoas logo foram
apartar. Nora deu meia-volta e saiu sozinha. Rômulo foi atrás dela. Fiquei arrasada. Foi a primeira vez que o vi perder
o controle. Rute notou meu abatimento e tentou
convencer-me de que precisava esquecer aquele amor, etc., etc., ou seja, tudo aquilo que eu sempre disse a mim mesma. Ficamos
lá algum tempo, até eu me acalmar.
Quando saímos, foi pior. Vimos os dois no jardim trocando beijos apaixonados. Nem nos viram passar. Não sei como cheguei
em casa. Eu realmente não tenho vergonha
na cara. Depois de tudo que ele me fez... Se ele me tivesse feito um menor gesto de carinho, eu o teria perdoado e aceitado
de volta e ainda me daria por feliz.
Por que não posso aceitar que ele ama outra mulher?
As lágrimas desciam pelo seu rosto, e Marcelo, sem saber o que
dizer, abraçou-a, fazendo-a descansar a cabeça em seu peito.
- Chore, Renata. Deixe sair a mágoa que a está atormentando. Quando ela parou de soluçar, Marcelo segurou a mão dela e
levou-a aos lábios dizendo:
- Sei como está se sentindo. Eu já passei por isso várias vezes. Mas hoje posso dizer que estou curado. Creia: essa paixão
que parece não ter fim, esse sentimento
que nos rebaixa e faz sofrer o tempo todo, um dia acaba. Pode ter certeza. Sabe por quê? Por que isso não é amor. Pode
dar o nome que quiser, menos amor. Um dia,
quando menos esperar, saberá que ele desapareceu. Então, essa pessoa que lhe parecia algo inatingível estará reduzida ao
lugar-comum, notará nela defeitos corriqueiros,
não significará mais nada.
- Ah! Se eu pudesse acreditar nisso!
- Aconteceu comigo, acontecerá com você. É fatal. Não se culpe pela recaída. Também é natural. A paixão é um estado de exaltação
provocado pelas atitudes que observamos
naquela pessoa que reprimimos em nós e gostaríamos de expressar.
- Não é possível que seja apenas isso.
- Mas é. Notei, por exemplo, que você gostaria de ser controlada,
certinha, nunca perder a calma, como ele faz. O ciúme o
descontrolou e você se chocou ao perceber que ele é uma pessoa comum. - É. De fato ele parecia outra pessoa.
- A vida colocou você lá para que observando aquela cena compreendesse que ele é uma pessoa que reprime seus sentimentos.
Uma vez provocado, é tão descontrolado
quanto qualquer outro.
195

- Comigo ele nunca fez uma cena daquelas. Reconheço que nunca me amou. Deve estar muito apaixonado por ela.
- É difícil saber. O ciúme não é manifestação de amor. Nesses casos o orgulho ferido fala mais alto. Rômulo, por sua postura,
demonstra ser muito vaidoso. Ser preterido,
para ele, foi insuportável.
- Você está certo.
- Você é uma pessoa dócil, amorosa, sincera, espontânea ao expressar seus sentimentos. Não faz joguinhos tão comuns a certas
mulheres para provocar um interesse
maior. Já Nora é diferente. Esperta, agressiva, dissimulada, calculista, nunca revela seus verdadeiros sentimentos.
Renata olhou-o admirada.
- É verdade. Como é que sem conviver com eles sabe tanto a respeito de suas personalidades?
- Tenho aprendido muito com Émerson. Comecei a freqüentar seus cursos só para conseguir vencer meus pontos fracos. Estava
destruído emocionalmente por causa de Mirtes.
Com o tempo, observando o comportamento das pessoas, fui aprendendo a analisá-las com mais clareza. No trato com os outros,
ficamos apenas no que parece, e isso
favorece a ilusão. E toda ilusão atrai a desilusão.
- É o que está acontecendo comigo. Eu imaginava Rômulo muito diferente do que ele se revelou.
- Contudo, ele sempre foi o mesmo. Você é que criou um modelo do homem ideal e projetou-o sobre ele, sem pensar que ele
poderia ser muito diferente.
- Do jeito que você fala, a culpa é toda minha.
- Não se trata de culpa, mas de ingenuidade, da educação errada que recebemos. A mulher é educada para ser sustentada pelo
homem. Esse estado de dependência a torna
depressiva, porque não foi com essa finalidade que seu espírito foi criado.
- A situação da mulher tem melhorado muito nos últimos tempos. Apesar disso, continuamos nos iludindo.
- Com o passar dos anos vai melhorar muito mais. Criada na dependência, a mulher julga-se fraca, submete-se a situações
desagradáveis, com medo de ficar só. Tenho
observado que muitas mulheres que têm se mostrado corajosas, fortes, firmes em muitas circunstâncias, ao unir-se a um homem
tornam-se indecisas, ansiosas, incapazes
de tomar uma decisão.
- De fato. Minha mãe foi uma delas. Pelo que me contam as tias, ela era decidida, líder no colégio. Hoje é uma mulher pacata,
196
não consegue decidir nada sozinha. Tudo pergunta a meu pai ou a mim, nunca sabe se faz isto ou aquilo. É difícil crer que
ela tenha sido como me disseram.
- Claro que, sendo educada por uma mãe assim, você aprendeu que para ser feliz precisa ter um marido autoritário que decida
tudo. Pensou ter encontrado essas qualidades
em Rômulo. Por isso suportou esse namoro desagradável tanto tempo e sofre porque o perdeu. Você não chora porque ele a deixou
mas porque não realizou seu sonho.
- Custa-me crer no que me diz, mas não posso negar que em alguns pontos tem razão.
- Pense nisso, Renata. Tenho certeza de que encontrará outros pontos verdadeiros no que eu disse.
- Acho que vou freqüentar os cursos do instituto com mais in
teresse e assiduidade. Até então eu não estava muito motivada, mas
depois de hoje sinto que preciso cuidar mais de mim.
- Sábia decisão. Olhar para dentro de você, conhecer-se
melhor vai ajudá-la a vencer essa etapa com rapidez. Estou com sede,
vamos a uma lanchonete tomar alguma coisa?
- Eu gostaria, mas devo estar horrível.
- Está mais linda do que nunca - brincou ele, rindo.
Ele acendeu a lâmpada interna do carro. Ela abriu a bolsa, tirou
o espelho, retocou a maquiagem e perguntou: - Acha que dá para disfarçar?
- Você está tão bem! Eu acho que essa crise já acabou. Vamos embora.

Naquela mesma hora, Mirtes estava no carro de Humberto conversando. As palavras de Mildred deixaram-na intrigada. A idéia
de casar-se com ele não era de todo ruim,
uma vez que ele era fácil de manejar.
Afinal, reconhecia que na vida era difícil ter tudo. Amor e dinheiro nem sempre andam juntos. Não passara por sua cabeça
que ele estivesse tendo um caso com outra.
Humberto estava sempre disponível, levava-a a lugares públicos. Era ela quem fazia tudo para não ser vista ao lado dele.
- Você disse que tinha um assunto urgente para falar comigo, Mirtes. Do que se trata?
- Meu pai. Alguém nos viu juntos e comentou com ele, tecendo comentários desagradáveis a nosso respeito. Claro que eu neguei.
197
Mas ele ficou muito zangado. Disse que era para eu acabar com esses encontros, que eu estava falada, que um homem rico e
mais velho não podia ter boas intenções
comigo. Sem falar de minha mãe, que chorava como se tivesse acontecido uma desgraça.
Humberto abraçou-a dizendo:
- Não fique assim. Você sabe que isso não é verdade. Eu gosto muito de você. Fazia muito tempo que eu não sentia tanta atração
por uma mulher. Você me devolveu a
alegria de viver. Desde que enviuvei, só tive problemas, meus dois filhos não correspondem ao que eu planejara. A seu lado
esqueço tudo isso, sinto-me muito feliz.
- Eu também gosto muito de você. Em casa não me compreendem. Eles me criticam, porque gosto de freqüentar lugares da moda.
Sou jovem, cheia de vida. Recuso-me a
viver como eles.
Humberto acariciou os cabelos dela com carinho:
- Você está certa, meu bem. A mocidade passa depressa. É preciso aproveitar, viver com conforto, com prazer.
- Você me entende! Eu não suportaria ter de deixá-lo.
- Você não vai fazer isso!
- Meu pai disse que se eu continuar com você vai expulsar-me de casa.
- Que horror! Isso não se usa mais!
- Meus pais são antiquados. Sou moça de família, pobre mas
honrada. Aliás, meu pai vive dizendo que a honra é tudo que nós
temos.
- Se ele fizer isso, eu a protegerei. Eu a levarei para um apartamento e poderemos ficar juntos o tempo todo.
Mirtes começou a chorar. Ele beijou-lhe os cabelos com carinho.
- Não chore, meu bem. Eu já disse que cuidarei de você.
- Não posso fazer isso, desonrar minha família dessa forma. Por esse motivo, penso que vim para nos despedirmos. Este é
nosso último encontro.
Ele a apertou de encontro ao peito, beijando seus lábios com paixão.
- Não posso aceitar isso. Você é minha. Não a deixarei.
- Eu também não quero deixá-lo, mas não tenho outro jeito. - Vamos para meu apartamento, lá conversaremos melhor. Mirtes
procurou encobrir a satisfação. Era isso
mesmo que ela
queria. Pretendia usar toda a sua sedução para forçá-lo ao casamen
to. A tal espanhola precisava ser derrotada.
Uma vez no apartamento, Mirtes fingia tristeza e Humberto
198
procurava agradá-la. Mostrou-se apaixonada como ele nunca vira, embriagando-o de prazer. Ele ficou fascinado.
Ela queria ir embora e ele pedia-lhe que ficasse. Por fim, ele acabou levando-a para casa.
Ao despedirem-se, ela disse:
- Lembrarei para sempre esta noite maravilhosa. Espero que nunca me esqueça.
- Você fala como se estivesse se despedindo.
- E estou. Apesar de tudo, amo minha família. Não posso dar este desgosto a meu pai. Não vou tornar a vê-lo, Humberto.
Antes que ele reagisse, Mirtes apanhou a chave e entrou em casa. Estava contente. Se tudo saísse como previra, chegaria
ao casamento.
O primeiro impulso de Humberto foi tocar a campainha, mas conteve-se. Era madrugada. Não podia fazer aquilo e complicar
ainda mais a situação.
Voltou para o carro e foi embora. Entrou em casa nervoso, irritado. Passou pelo quarto dos filhos e constatou que, como
sempre, não haviam chegado. Um estava com
vinte e oito anos; o outro, com trinta. Gostaria que eles se casassem, formassem família. Mas eles iam de aventura em aventura
e nem pensavam nisso.
Foi para o quarto. Estendido na cama, Humberto pensava em Mirtes. Os momentos vividos naquela noite faziam-no estremecer
de prazer. Como seria bom poder esquecer
todos os problemas e viver com ela!
Estava cansado de Mercedes. O ciúme dela sufocava-o. Depois, estava sempre mal-humorada, reclamava de tudo. Queria que ele
chegasse ao casamento, mas isso não estava
em suas cogitações.
Nunca lhe prometera nada. Dava-lhe uma vida muito confortável, satisfazia-lhe alguns caprichos. Ela vivia rodeada de belas
roupas, de jóias que ele lhe dava nas
datas importantes. O apartamento estava em nome dela. Mas ela desejava muito mais. Considerava-se uma segunda esposa e
sonhava viver na mansão da família, ocupando
o lugar da falecida.
Ele não a apresentava aos amigos nem a levava aos lugares que freqüentava. Às vezes viajavam, mas quando estavam em São
Paulo nunca saíam juntos. Nos últimos tempos
ele havia espaçado as visitas. Isso a deixava furiosa, inconformada.
Humberto remexeu-se na cama inquieto. Precisava dar um jeito em Mercedes. Depois de seu relacionamento com Mirtes, não
199
suportava mais estar com ela. Para ver-se livre dela, teria de lhe oferecer alguma coisa valiosa.
Já com Mirtes ele sentia prazer de estar diante dos amigos. Ela era retraída, mas ele notava o ar de admiração dos outros
quando passava com ela. Sentia-se valorizado.
Ela pensava em deixá-lo. Não podia permitir isso. Compreendia o problema que Mirtes estava enfrentando com a família. Era
moça direita. Apesar de ser pobre, freqüentava
a casa de gente importante.
De repente ele sentou-se na cama. Mirtes era moça para casamento. Eles poderiam se casar e ficar juntos para sempre. Não
queria morar com os filhos. Compraria uma
bela casa só para os dois, e viveriam felizes.
Humberto postou-se diante do espelho e considerou:
"Apesar dos meus cinqüenta e cinco anos, estou bem conservado. Além do mais, estou cansado desta vida de solidão."
Para ele, Mercedes nunca preencheu o vazio que ficou com a viuvez. Já Mirtes era diferente. Era jovem, divertida, alegre,

não cobrava nada. Seria a companheira ideal.
Se a pedisse em casamento, ela aceitaria? Falaria com ela no dia seguinte.
Preparou-se para dormir. Deitou-se, porém o sono não vinha. Ora ficava imaginando como seria sua vida com Mirtes, o que
fariam, onde e como viveriam; ora pensava
em como se livrar de Mercedes, o que não seria nada fácil. Uma coisa era certa: não poderia começar uma vida nova ao lado
da esposa mantendo aquele relacionamento.
Na tarde seguinte, telefonou para Mirtes dizendo que precisava vê-la à noite. Ela recusou o convite, mas ele insistiu dizendo
que havia encontrado a solução para
eles.
Mirtes ficou radiante. Finalmente iria conseguir o que queria. Preparou-se cuidadosamente e saiu dizendo à mãe que Mildred
a convidara para um aniversario.
Foi com tristeza que Estela a viu sair. Ela era muito diferente de Alzira. Não parava em casa, e ninguém sabia por onde
andava. Antônio muitas vezes observara isso
e conversava com ela, que sempre tinha uma desculpa pronta.
Uma vez no carro com Humberto, Mirtes ouviu-o dizer ansioso:
- Preciso ter uma conversa muito séria com você. Vamos ao meu apartamento, onde poderemos conversar à vontade.
Mirtes concordou. Era lá que haviam estado na noite anterior. Sentaram-se lado a lado no sofá e ele começou:
- Esta noite não pude dormir pensando no que você me disse.
200
- Eu também não dormi nada - mentiu ela.
- Eu a trouxe aqui porque o assunto é importante. Toda a nossa
vida depende do que combinarmos agora. - Você me assusta!
- Responda com sinceridade, você me ama mesmo? Não está
se iludindo porque posso lhe dar tudo que deseja?
Mirtes olhou-o nos olhos e respondeu:
- Você acha que, se eu não o amasse, estaria saindo com você,
contrariando minha família?
Ele a abraçou emocionado.
- Eu também a amo. Você entrou em meu pensamento e não consigo sequer pensar na possibilidade de perdê-la. Sou muito mais
velho do que você, tenho idade para ser
seu pai. Mas aceitaria se casar comigo?
- Casar?! Você está me pedindo em casamento?
- Estou, Mirtes. Desde ontem que não penso em outra coisa. Você quer?
- Quero.
Ele a beijou nos lábios com paixão. Depois disse sério:
- Antes preciso fazer uma confissão. Espero que compreenda. - Fale.
- Eu amava muito minha esposa. Quando ela morreu, fiquei perdido. Ela deixou um vazio que nunca mais consegui preencher.

A solidão me atormentava. Então conheci
uma mulher com a qual tenho me relacionado. Sabe como é, um homem não vive só.
Mirtes retirou a mão que ele segurava, dizendo:
- Então existe outra!
- Não existe ninguém. Ela tem me ajudado a suportar meu vazio. Ontem tive certeza de que você conseguiu fazer-me esquecer
meu amor da juventude. Quero ficar com
você.
- Eu o amo e jamais concordarei em dividir seu amor com outra.
- Isso nunca acontecerá. Estou sendo sincero. Não precisava contar-lhe nada. Mas prometo que amanhã mesmo vou procurar essa
mulher e acabar nosso relacionamento
definitivamente. Aliás, desde que conheci você não tenho ido vê-la.
- Ela vai aceitar?
- Nunca lhe prometi nada. Dei-lhe um apartamento, jóias, carro. Pretendo dar-lhe uma boa importância para que possa viver
com conforto pelo resto da vida.
201
- Só nos casaremos quando esse caso estiver resolvido.
- Claro. Gostaria de formalizar o pedido com seu pai. Assim poderemos preparar tudo para o casamento.
- E seus filhos, vão concordar?
- Terão de aceitar. Pretendo comprar uma bela casa só para nós dois. Eles continuarão morando na mansão da família. Não
quero levá-la para morar naquela casa que
guarda tantas lembranças de minha primeira esposa. Desejo fazer tudo para que sejamos muito felizes.
- Tenho certeza de que seremos.
- Amanhã mesmo falarei com seu pai e marcaremos a data.
Casaremos o mais breve possível.
Mirtes hesitou e baixou a cabeça pensativa. - O que foi? Está arrependida?
- Não. Casar com você é meu maior sonho. Mas acontece
que... Você sabe... Somos pobres... Um casamento traz despesas. - Não se preocupe com isso. Tudo correrá por minha conta.

Se
você quiser, seu pai não precisará mais trabalhar.
- Nada disso. Ele nunca aceitaria. Como eu disse, é um
homem de honra.
- Fale com ele. Avise-o que amanhã à noite irei fazer o pedido. - Amanhã não. Dê-me um pouco mais de tempo. - Depois de
amanhã, então.
- Está bem, depois de amanhã.
Ele a abraçou com paixão, beijando-a muitas vezes, depois a
levou para o quarto. Humberto sentia-se o mais feliz dos homens. Mirtes voltou para casa radiante. Finalmente conseguira o
que desejava. Deixaria aquela vida de miséria e seria feliz.
Antegozava o prazer de contar à família. O que Mildred
diria? Ela insinuara que só se prostituindo conseguiria ter dinheiro.
Pois com o casamento estava provando que não só era capaz de tor
nar-se rica como de freqüentar a melhor sociedade e ser respeitada.
Era tudo que queria.
No dia seguinte, acordou na hora do almoço e foi à cozinha. Ven
do-a, Estela considerou:
- Não vai tomar café agora. Já vou servir o almoço. - O pai só voltará no fim da tarde, não é? - É. Por quê?
- Preciso falar com ele. Assunto sério.
Estela parou de colocar a comida na mesa e olhou-a desconfiada.
202
- Se você estiver com algum problema, fale comigo. Não quero que perturbe seu pai.
- Não vou perturbar ninguém. Tenho ótimas notícias. Vou me casar!
Estela quase deixou cair o prato que segurava. - Casar?! Como? Com quem?
- Vocês não o conhecem. É um homem fino, rico e muito respeitado.
Estela deixou-se cair em uma cadeira.
- Explique melhor essa história...
- Bem, o nome dele é Humberto. Nós nos conhecemos no jóquei-clube. Ele tem um cavalo de corrida. A família dele é muito
respeitada em sociedade. Mildred o conhece
bem.
- Mirtes, tenho certeza de que não ama esse moço, que vai casar-se por interesse. Não faça isso, minha filha.
Mirtes sorriu e comentou:
- Eu sabia que ia dizer isso! Não diria que Humberto é o amor da minha vida. Aliás, não acredito nessa história de amor.

Humberto é um homem fino, de classe, educado
e me ama muito. Não sabe o que fazer para me agradar. Eu o aprecio e sinto-me feliz ao lado dele. Estou decidida a casar
com ele. Ninguém me fará mudar de idéia.
Estela suspirou resignada.
- Está certo. Nesse caso, desejo que seja feliz. Ele sabe da nossa situação financeira?
- Claro. Queria até que papai largasse o emprego, e ele susten
taria toda a família. Mas eu recusei. Sei que papai não aceitaria.
- Claro que não. Nem lhe fale uma coisa dessas.
- Humberto virá aqui amanhã à noite para pedir minha mão
e marcar a data. Vamos nos casar o mais breve possível. Ele vai pa
gar todas as despesas. Papai não precisa preocupar-se com nada.
- Ele não vai gostar. Vai querer que você espere até que ele
possa fazer a parte que cabe ao pai da noiva.
- Teríamos de aguardar muito tempo. Humberto não quer
esperar. Está muito apaixonado.
No fim da tarde, quando Antônio e Alzira chegaram do trabalho, Mirtes não estava. Havia ido a casa de Mildred contar a novidade.

Estela colocou-os a par do assunto,
e Antônio não se conteve:
- Desde quando ela namora esse moço? Por que nunca nos disse nada?
203
- Não sei. Ela veio com essa novidade na hora do almoço. Estava alegre. Disse que ele é muito rico e respeitado, que ela
vai freqüentar a alta sociedade.
- Isso é tudo que Mirtes sempre desejou. Espero que ela seja feliz - disse Alzira.
- Ela saía e nunca dizia aonde ia. Vai ver que já estava namorando. Eu deveria tê-la apertado para contar o que estava fazendo.
- Pelo jeito, nada de mau - considerou Estela. - Eles vão se casar.
- Ainda bem. O futuro de Mirtes sempre me preocupou. Amanhã vamos conhecer nosso futuro genro.
- Conhecer e aprovar. Esse pedido vai ser formal, porque ela está decidida a casar-se com ele com ou sem nossa aprovação.

Disse que o namorado está muito apaixonado
e quer se casar o mais rápido possível.
- Esta história não está me cheirando bem...
- Qual nada, pai! Ela vai casar-se, ter dinheiro, como sempre quis.
- E, tem razão. Minha responsabilidade vai até o casamento. - E casamento, meu velho, é como loteria: ninguém sabe o que
vai dar. Agora vocês dois vão se lavar, que vou servir o jantar.
Eles riram e pouco depois se sentaram à mesa para comer. Mas
o assunto, como não podia deixar de ser, foi o casamento de Mirtes.
204
umberto entrou no apartamento de Mercedes e encontrou-a na sala folheando uma revista. Vendo-o, ela se levantou dizendo:
- Até que enfim lembrou-se de que estou viva!
- Como vai, Mercedes?
- Como uma mulher solitária. Por que não me avisou que viria? Não providenciei nada para jantar.
- Não quero jantar. Vim aqui para conversar.
Ela o olhou desconfiada.
- Conversar?
- Sim. Sente-se.
Ele a puxou para sentar-se a seu lado no sofá e continuou:
- Gostaria que soubesse quanto tenho apreciado sua dedicação nestes anos em que me tem feito companhia. Você me ajudou a
vencer os anos mais difíceis de minha vida
e a superar a ausência de Emília. Sou muito grato por isso.
205
- Grato? Pensei que me amasse como eu o amo!
- Eu gosto muito de você. Aprecio suas qualidades, sua
honestidade e seu desprendimento. Você tem sido uma boa companheira. - Aonde deseja chegar? Por que está me dizendo tudo isso?

- Sempre fui muito sincero com você. Nunca
lhe prometi nada,
mas, apesar disso, você sabe que eu nunca a deixaria em uma situa
ção difícil.
Mercedes empalideceu, seu rosto crispou-se dolorosamente. - O que está acontecendo? Fale logo.
- Daqui para a frente, desejo que sejamos apenas bons amigos.
Nosso relacionamento amoroso acabou.
Ela cobriu o rosto com as mãos e rompeu em soluços:
- Você quer dizer que não me ama mais? Vai ver que se apai
xonou por outra. Bem que desconfiei. Ultimamente você esfriou
comigo, não tem me procurado. Sabe há quanto tempo não
fazemos amor?
- Por isso mesmo estou aqui. Não sinto mais vontade de fazer amor com você. Mas quero manter nossa amizade.
Ela soluçou por algum tempo. Quando se acalmou, ele a abraçou dizendo:
- Você é uma mulher bonita, cheia de qualidades. Vou dar-lhe uma quantia para que nada lhe falte pelo resto da vida.
- O que vou fazer sem seu amor? Todos estes anos tenho vivido para você. Diga-me: quem é a outra?
- Não se trata disso. Acontece que não desejo enganá-la. O que sinto por você transformou-se apenas em uma boa amizade.

Não quero que se iluda pensando em um futuro
a meu lado que nunca virá. Você, como eu disse, é uma mulher bonita, moça, e pode encontrar alguém que a ame como merece.
Eu não sou esse alguém.
Mercedes tentou dissimular o desespero. Sabia que Humberto detestava cenas. Era preciso acalmar-se, estudar a situação,

depois decidir o que fazer.
Respirou fundo e olhou-o nos olhos, dizendo triste:
- Pensei que fosse para toda a vida. Mas, se você quer assim, tenho de aceitar. Espero que me dê um tempo para me acostumar
com a idéia.
- Você não entendeu. A partir de hoje, não precisa esperar-me mais. Amanhã mesmo colocarei em sua conta dinheiro suficiente
para que continue mantendo o mesmo padrão
de vida a que está acostumada. Não quero que nada lhe falte.
206
- Quer dizer que é definitivo?
- É. Tomei esta decisão depois de pensar muito, analisar meus sentimentos, e sei que desta vez acabou.
Mercedes abraçou-o e aproximou seu rosto do dele tentando beijá-lo. Humberto afastou-a delicadamente e ela reclamou:
- Vai acabar assim, sem um beijo de despedida?
- Vai. Não quero que você alimente nenhuma ilusão a nosso respeito.
Ela se recostou no sofá e fechou os olhos, tentando controlar a raiva.
- Seria interessante você fazer uma viagem, Mercedes. Há muitas excursões interessantes e divertidas. Como uma viagem de
navio, por exemplo, onde todos os dias há
uma festa.
Ela olhou-o tentando engolir a revolta. Controlando o tom de voz, respondeu:
- É. Talvez faça isso. Talvez apareça alguém, um novo amor. Não custa tentar.
Ele sorriu satisfeito. Ela parecia estar aceitando a situação com facilidade. Tirou o molho de chaves do bolso e colocou-o
sobre a mesinha.
- Já? Isso quer dizer que não pretende nem voltar aqui. Pensei que viesse outro dia para arrumar suas coisas.
- Não se preocupe com isso. São apenas algumas peças de roupas e alguns objetos de uso pessoal. Se não quiser ficar com
eles, dê para alguém que precise.
- Há alguns objetos de arte que você comprou em leilões.
- Tudo que há aqui é seu. Não quero nada. Só desejo que seja muito feliz.
Mercedes contraiu o rosto. Sentiu que as lágrimas estavam para cair. Tentou controlar-se, mas ainda assim elas desceram
pelo seu rosto.
Ele a abraçou com carinho.
- Você vai me esquecer, Mercedes. Quando tudo passar, refletirá e verá que foi melhor assim. Em um relacionamento, o amor
precisa ser recíproco. Do contrário, não
vale a pena e causa sofrimento. Agora, preciso ir. Adeus, cuide-se, seja muito feliz. Se precisar de alguma coisa, telefone.

Sabe que pode contar comigo.
Beijou-a levemente na face e saiu. Mercedes deixou-se cair no sofá em crise. Bem que desconfiara. Por que não pusera um
detetive atrás dele? Ela não era um objeto
que depois de usado é jogado
207
fora. Humberto detestava ficar só; com certeza havia arranjado outra.
Levantou-se e começou a andar de um lado para outro na sala. Tanta ingratidão era demais! Se ele pensou que ia livrar-se
dela com facilidade, estava muito enganado.
Mas, antes de tudo, precisava acalmar-se, dar um tempo para aclarar as idéias. Nervosa como estava, não conseguiria raciocinar
com clareza. Lembrou-se da ocasião
em que ele pretendia casar-se com outra. Ela conseguira reverter a situação. Agora precisava fazer o mesmo. Mas, para obter
sucesso, teria de se informar bem.
Decidiu tomar um banho de imersão para relaxar e pensar melhor no assunto.

Humberto deixou o apartamento aliviado. Ainda bem que Mercedes não fizera nenhuma cena e parecera aceitar a separação. Pensou
em Mirtes, e seu coração bateu mais
forte. Estava apaixonado. Com ela, sim, seria uma união para toda a vida.
Ele havia cumprido todas as suas obrigações familiares. Fora bom marido. Na viuvez, cuidara dos filhos com dedicação. Sua
vida fora sempre voltada à felicidade dos
outros. Trabalho e família. Estava na hora de cuidar de si.
Mirtes era jovem e cheia de vida. Notou como seus olhos brilhavam quando estavam em lugares requintados. Ele também gostava
disso e podia proporcionar-lhe tudo que
desejasse.
Depois do casamento, trabalharia menos e se dedicaria ao lazer. Queria que Mirtes se sentisse feliz.
Na noite seguinte, conforme havia combinado, tocou a campainha da casa de Mirtes. Durante o dia havia mandado flores para
a noiva e também para a futura sogra.
Mirtes abriu a porta e conduziu-o à sala onde a família reunida esperava. Depois das apresentações, enquanto Estela e as
filhas deixaram a sala a pretexto de fazer
um café, Humberto fez o pedido. Falou de sua viuvez, de sua situação financeira e do amor que sentia por Mirtes. E ficou
esperando a resposta.
Antônio observava-o pensativo. Mirtes não lhe dissera que o noivo tinha idade para ser pai dela. Contudo, pareceu-lhe pessoa
de bem. Falava de forma respeitosa,
expressava-se bem. Via-se que era um homem experiente e sociável.
- Seu pedido surpreendeu-me. Acha que se conhecem o suficiente para chegar ao casamento?
208
- Sim. Eu e Mirtes conversamos muito sobre o assunto. Eu precisava ter certeza de que ela gosta de mim o suficiente para
viver a meu lado pelo resto da vida. Senti
que ela me quer bem. Farei tudo para torná-la feliz.
- Nesse caso, tenho prazer de aceitar seu pedido. Seja bemvindo à nossa família.
O pai chamou a esposa e as filhas e anunciou o noivado. Depois dos abraços, Humberto colocou o anel de brilhantes no dedo
da noiva. Estela foi à cozinha e trouxe
uma bandeja com champanha. Mirtes havia comprado tudo e fazia questão daquele brinde. Exibia orgulhosamente o caro anel,
cujo brilho a fascinava. Estava feliz, realizada.
Dali para a frente sua vida seria maravilhosa! Finalmente teria tudo com que sempre sonhara.
Depois do brinde, a pedido de Humberto, marcaram a data do matrimônio para dali a dois meses. Ele queria menos tempo, mas

Mirtes disse que havia muitos preparativos.
Ela desejava uma festa maravilhosa. Embora ele preferisse algo mais discreto, concordou. Era a primeira vez que Mirtes se
casava, e ela deveria ter tudo a que tinha
direito.
Ela o acompanhou até o carro, onde combinaram algumas providências que tomariam no dia seguinte para começar os preparativos.
Quando ela entrou novamente em casa, o pai chamou-a para uma conversa. Sentaram-se no sofá enquanto Alzira e Estela discretamente
foram para a cozinha.
- Há quanto tempo vocês se conhecem? - Há alguns meses, papai.
- Casamento é coisa séria. Não acha que deveriam esperar mais algum tempo para se conhecerem melhor?
- Não. Humberto é um homem de bem, respeitado na alta sociedade. Você precisa ver! Quando entramos em algum lugar, todos
apressam-se em cumprimenta-lo. Freqüenta
os melhores lugares, e todos fazem tudo para agradá-lo.
- Deu para perceber que é um homem de bem. Mas tem a minha idade, poderia ser seu pai.
- O que tem isso? Ele me ama muito e seremos felizes.
- Mas e você? Gosta dele? Não estará seduzida pela posição social que ele ocupa?
- Eu gosto dele. Depois, eu sempre disse que só me casaria com um homem rico.
- Precisa considerar que ao passo que você é jovem e está na
209
plenitude de seus sonhos e desejos, ele, ao contrário, já teve família, tem filhos adultos e talvez prefira levar uma vida

mais pacata. Conheço você e sua disposição
para festas e divertimentos. Acha que ele agüentará?
Mirtes riu bem-humorada. Era com isso que ela contava depois do casamento para poder divertir-se longe da presença dele.
- Os tempos mudaram, pai. Humberto é um homem moderno. Freqüenta festas, diverte-se, tem muitos amigos. É bom que ele tenha
filhos, assim não irá me incomodar querendo
que eu os tenha. Não tenho vocação para cuidar de crianças. Seremos muito felizes, você vai ver.
- Faço votos de que isso aconteça.
Mais tarde, a sós com Estela no quarto, Antônio confidenciou: - Ela está mesmo determinada. Lamento que não deseje ter fi
lhos. Eu gostaria muito de ter netos.
- Eu também. Mas talvez ela tenha razão quanto a isso. Mirtes
nunca teve paciência com crianças.
- É uma pena. Apesar de Humberto me parecer uma boa
pessoa, esse casamento não é o que eu gostaria para ela.
- Mas é o que ela escolheu. Só nos resta aceitar e desejar que
sejam felizes.
Uma vez no quarto, enquanto Alzira ia e vinha preparando-se
para dormir, Mirtes deitou-se na cama ainda vestida e a cada pouco
estendia a mão direita contemplando o anel embevecida.
Alzira deitou-se e pediu:
- Apague a luz, Mirtes. Amanhã preciso acordar cedo para
trabalhar.
- Pois eu posso dormir até a hora que quiser. Se bem que amanhã vou sair com Humberto para ver uma mansão que ele quer comprar
para nós. Terei de escolher tudo.
Ele só vai fazer o que eu quiser.
- Espero que saiba o que está fazendo.
- Eu não disse que conseguiria? Você que é boba, sujeitando
se a um empreguinho pobre e sem futuro.
- Eu nunca me sujeitaria a um casamento por interesse. - Diz isso porque está com inveja de mim. - Apague essa luz. Vamos

dormir. Mirtes levantou-se, olhou em volta
e disse contente:
- Dentro de dois meses estarei livre desta pobreza. Você ficará
sozinha neste quarto. Faça bom proveito.
210
Rindo, ela apagou a luz e foi lavar-se no banheiro. Quando voltou, Alzira já estava dormindo. Deitou-se mas o sono não veio
logo. Não se cansava de pensar no que
iria fazer com tanto dinheiro, que coisas compraria, como seria sua vida dali para a frente.
A partir daquele dia Mirtes viu-se envolvida em um turbilhão de atividades. Humberto comprou uma mansão, e, enquanto ele
se empenhava com o decorador para terminar
de mobiliá-la dentro do prazo, Mirtes comprava um belíssimo enxoval.
Mildred, que nos últimos tempos afastara-se dela, tornou-se sua amiga íntima. Mirtes pedira-lhe que a ajudasse a organizar
tudo. Queria que Humberto se orgulhasse
dela. Não lhe bastava ser respeitada; queria ser admirada, ter classe, ser citada pelas revistas de moda como uma mulher
elegante. Mildred tinha berço e traquejo
social. Conhecia todo mundo.

No dia seguinte ao anúncio do noivado, Humberto reunira os dois filhos e comunicara-lhes seu iminente casamento. A notícia
caiu sobre eles como uma bomba. O alívio
que sentiram quando souberam que não era com Mercedes desapareceu ao saber que seria com uma jovem de vinte e cinco anos.
Mas Humberto não lhes deu chance de opinar. Relatou como um fato consumado, ao que o mais velho, Renato, considerou:
- Espero que tenha o bom senso de casar-se com separação de bens.
Os olhos de Humberto mostravam um brilho indefinível quando disse:
- Não se preocupem. Vocês não serão prejudicados. Depois de casado irei embora com minha esposa. Vocês continuarão nesta
casa. No sábado ela virá jantar aqui para
conhecê-los. Saibam que estou me casando por amor. Quero que a tratem com respeito e atenção. Até agora tenho me dedicado
à família e aos negócios. Chegou a hora
de pensar em mim. Desejo ser feliz os anos que me restam.
- Nem precisa dizer isso. Somos pessoas bem-educadas - respondeu Mauro.
- Você tem todo o direito de fazer de sua vida o que quiser. Só espero que tenha escolhido a pessoa certa - disse Renato.
- Escolhi, sim. É uma mulher linda, cheia de vida, alegre, bem-humorada. Sei que me fará muito feliz.
- Se ela for tudo isso mesmo, então terá nosso respeito. Mas, se não for...
211


Humberto olhou-o sério:
- Não vou admitir que vocês se metam em nossa vida. Por isso quero morar sozinho com ela.

Um mês depois, Marcelo passou na casa de Renata para buscá-la. Haviam combinado irem juntos a um novo curso no instituto.

Assim que entrou no carro, ela o olhou
séria e hesitou. Ele notou e perguntou:
- O que foi? Aconteceu alguma coisa?
- Tenho uma notícia de Mirtes, mas não sei como você vai receber.
- Sobre o namoro dela com o Dr. Humberto de Morais? Já os vi juntos algumas vezes e não senti nada.
- É que eles vão se casar no mês que vem. Recebemos o convite hoje.
Marcelo estremeceu e Renata continuou:
- Eu sabia que você não ia gostar.
- Você está enganada. Eu me surpreendi porque não esperava
que chegassem ao casamento.
- Vai ser uma grande festa. - Do jeito que ela queria. - Não está triste?
- Não. De certa forma sinto-me aliviado. Com esse casamen
to, ela tira um peso do meu coração. - Por quê?
- Quando namorávamos, eu não consegui controlar-me e fizemos amor. Como fui o primeiro, senti-me culpado, cheguei a pedi-la
em casamento. Mas ela recusou dizendo
que só se casaria com um homem rico que pudesse dar-lhe jóias e luxo. Ela é ambiciosa. Vendo-a com o Dr. Humberto, temia
que se tornasse sua amante e descambasse.
Mas ela soube agir e levou-o ao casamento. Fico contente. Tirou-me um grande peso.
- Se é assim, a notícia foi boa.
- Ótima. Mas o Dr. Humberto me parece ser uma boa pessoa. Ele não merecia isso.
Renata sorriu contente. Ao receber o convite de casamento, havia sentido o peito apertado. Não desejava que Marcelo sofresse.

Ele dizia ter esquecido Mirtes, mas
seria verdade? Não estaria se iludindo para não sofrer?
- O que foi, Renata? Você ficou pensativa...
212
- Você recebeu bem a notícia. Não sei se eu encararia dessa forma o convite de casamento de Rômulo.
- O quê? Você ainda pensa nele? Precisamos dar um jeito nisso. Tenho notado que tem estado mais alegre, caprichado na maquiagem,

comprado roupas novas. Está cada
dia mais bonita, cheia de vida. São sintomas de cura da paixão.
- Estou me sentindo muito melhor. Chego a esquecer que ele existe. Mas tenho medo da recaída.
- Ainda não esqueceu o que aconteceu no clube. Mas saiba que aquele acontecimento foi o começo da cura. - Pode ser.
Chegaram ao instituto meia hora antes de começar a aula. Estavam no saguão conversando com Émerson e Laura quando Mildred
se aproximou com um sorriso:
- Que bom vê-los! Foi ótimo encontrá-lo, Émerson. Quero justificar minhas faltas no curso.
- Pensei que tivesse desistido. Não veio nas três últimas aulas.
- Não desisti, não. É que tenho andado muito ocupada com os preparativos do casamento de Mirtes. Sabem como é: ela se tornou
muito minha amiga. Vai casar-se com
o Dr. Humberto de Morais. Vocês já devem ter recebido os convites.
- Eu já recebi - disse Laura.
Mildred deu uma olhada intencional para Marcelo e continuou: - Ela me pediu que a ajudasse com os preparativos do enxoval
e da festa. Vocês não ignoram que a família dela não é do nosso meio
e o Dr. Humberto é um homem muito importante.
- Mirtes escolheu a pessoa certa para ajudá-la nos preparativos
- considerou Laura sorrindo. - Ninguém conhece os costumes so
ciais como você. Tenho certeza de que será uma festa linda! - Espero que compareçam! - disse ela satisfeita. - Iremos com
certeza - disse Émerson. Mildred olhou
para Marcelo e perguntou: - E você, irá?
- Por enquanto não recebi nenhum convite.
Renata segurou o braço de Marcelo e disse com carinho:
- Nossa família foi convidada, você irá comigo. Só irei se
você for.
Marcelo abraçou-a e beijou-a levemente no rosto. - Estar com você é tudo que quero.
Mildred mordeu os lábios e tentou esconder a irritação.
213
- Mirtes fez questão de convidar você. Se ainda não recebeu o convite, deve estar para chegar. Vocês foram muito próximos.

Ela preza muito sua amizade.
- Quanto ao curso - interrompeu Émerson -, talvez seja melhor você não continuá-lo. Já perdeu três aulas e estará ocupada
até o casamento. Se desejar mesmo fazê-lo,
posso transferi-la, sem nenhuma despesa, para outro que começará dentro de um mês.
- Eu gostaria de continuar neste.
- Eu prefiro que não. Você seria prejudicada. Essas aulas são essenciais para acompanhar as que faltam. Por isso, vou riscar
seu nome da lista e posteriormente lhe
direi a data do próximo.
- Mas hoje eu tenho tempo e vou ficar.
- Não será aconselhável.
- Está me mandando embora?
- Não. Estou lhe dizendo que você não terá elementos para acompanhar nossa exposição porque perdeu exercícios e considerações
muito importantes para o aproveitamento
da matéria. Por isso, é melhor ir embora e reiniciar o curso quando dispuser de tempo para não faltar.
Émerson falou sério e em um tom firme. Mildred, apesar de irritada, resolveu acatar. Afinal, ela estaria mesmo muito ocupada
até o casamento. Ela fora lá apenas
para dar a notícia a Marcelo e ver como ele reagiria.
- Está bem - respondeu. - Farei como diz.
Ela circulou mais um pouco, cumprimentou algumas pessoas e depois foi embora. Émerson respirou aliviado. Nos últimos tempos

a presença de Mildred o incomodava.
Avesso a pensamentos negativos, ele procurara reagir tentando vê-la com bons olhos, mas quando ela se aproximava ele chegava
a sentir aversão.
- Vou entrar, Laura. Quero me preparar para a aula.
Ele foi para a sala e Marcelo considerou:
- Gostei de como você reagiu à atitude de Mildred.
- Nem podia ser diferente. Saltava aos olhos que ela queria fa
lar do casamento e ver como você reagia.
- É bem próprio dela - considerou Laura sorrindo. - Vocês con
tinuaram com aquela brincadeira de fingir um namoro ou estão namorando
mesmo?
- Está vendo, Marcelo? Você representou tão bem que até Laura acreditou.
214
- Eu não precisei representar, gosto mesmo de você. Ao que Renata respondeu:
- Você é meu melhor amigo!
Laura afastou-se para cumprimentar uma amiga, e Marcelo olhou para Renata com seriedade.
- Eu a admiro. Sua sensibilidade e delicadeza de sentimentos me emocionam. Nunca encontrei ninguém como você.
Havia tanta sinceridade no tom de sua voz que Renata se emocionou:
- Eu também nunca encontrei um homem sensível e carinhoso como você.
A campainha soou avisando que a aula ia começar, e eles foram para o salão.
Sentaram-se lado a lado, e, embora prestando atenção às palavras de Émerson, ambos sentiam que havia uma cumplicidade agradável
entre eles. Sentiam grande prazer
de estarem juntos.

Mildred deixou o instituto irritada. Marcelo continuava namorando Renata, o que contrariava seus planos de conquistá-lo

para provocar ciúme em Émerson.
Irritava-a também notar o carinho que havia entre Émerson e Laura. O noivado continuava. Tinha pago o serviço de pai Tomé
havia muito tempo e nada de resultado.
Precisava procurá-lo. Se ele não conseguisse o que lhe prometera, iria pagar caro: ela o denunciaria à polícia. Ele não
podia enganá-la daquele jeito e ficar impune.
Claro que não apareceria diretamente. Faria uma denúncia anônima. Mas, com as informações que daria, estava certa de que
ele seria punido.
Esperaria até depois do casamento de Mirtes, que, sem a ajuda dele e sem nenhuma despesa, havia conseguido o que tanto queria.
A alegria de Mirtes impressionava-a. Em seus olhos havia um brilho de felicidade que a tornava mais bela. Humberto estava
mais apaixonado a cada dia. Gastava sem
reservas, atendendo a todos os caprichos da noiva, que escolhia tudo do melhor.
Os pais de Mirtes, vendo-a tão feliz, sentiram-se aliviados. Antônio não queria, mas Estela o convenceu a aceitar que Mirtes
comprasse roupas para que todos da família
comparecessem ao casamento devidamente vestidos.
Mirtes fez questão de que a mãe e a irmã no dia do casamento
215
fossem atendidas no mesmo salão de beleza em que ela iria. Queria que toda a sua família aparecesse elegante.
No jantar a que Mirtes havia ido na casa de Humberto, notou a surpresa dos filhos dele ao verem-na. Olharam-na com altivez,

como se dissessem que sabiam que ela
estava se casando por interesse.
Sentiu que os dois rapazes não viam com bons olhos o casamento do pai, muito menos com uma jovem pobre. Receou que eles
tentassem causar empecilhos. Por isso, apesar
de contrariada com a atitude formal e educada porém antagônica deles, adotou uma postura delicada, atenciosa e reservada.
Após o jantar, quando a levou para casa, Humberto tentou justificar a postura dos filhos.
- Espero que não leve a sério a atitude deles.
- Tive a impressão de que eles não desejam que você se case de novo.
- É verdade. Eles eram bem agarrados à mãe. Mudaram muito depois que ela morreu. Às vezes penso que eles teriam preferido
que fosse eu que morresse. Não me perdoam
porque ela se foi e eu fiquei.
- Não diga isso. Eles estavam preocupados com sua felicidade. Afinal não me conhecem. Mas tenho certeza de que me aceitarão
com o tempo. Farei tudo para que sejamos
uma família feliz.
Humberto beijou a mão dela com carinho.
- Não sei o que seria de mim sem você. Não vejo a hora de tê-la para sempre a meu lado.
- Eu também não vejo a hora de tê-lo comigo. Vou fazer você muito feliz.
Mais tarde, sozinha em casa, Mirtes pensava que precisava tomar cuidado até o casamento. Sentia que os dois rapazes eram
espertos. O mais velho, principalmente,
pareceu-lhe muito observador. Precisava mostrar-se ardente, ingênua e confiante. Era esse o tipo de mulher que encantava
Humberto.
Agora que experimentava o luxo e as facilidades que o dinheiro proporciona, estava disposta a tudo para levar seu plano
adiante. Era preciso apenas um pouco mais
de paciência. Faltavam só três semanas para o casamento.
A maravilhosa casa que haviam comprado estava sendo decorada. A lua-de-mel seria na Europa, onde permaneceriam durante um
mês, tempo suficiente para que a casa estivesse
pronta quando voltassem.
O telefone tocou, interrompendo seus devaneios. Era Mildred.
216
- Aonde você foi esta noite, que não apareceu? - indagou Mirtes.
- Fui ao instituto. Eu queria dar a notícia de seu casamento a Marcelo.
- E? E o que foi que ele disse?
- Bem, ele estava com Renata. Você sabia que eles continuam namorando?
- Isso não me importa em nada. Se um dia eu quiser que ele volte para mim, é só estalar os dedos.
- Eu não teria tanta certeza, minha querida. Ele nem ligou quando mencionei seu casamento.
- Pois eu tenho certeza, sim. Mas agora não posso pensar em nada. Tenho de ter cuidado. Os filhos de Humberto podem dar
problemas.
- Qual nada! Humberto está louco por você. Mas fiquei irritada com Émerson. Ele continua com Laura.
- Bem que eu disse que aquele pai-de-santo não era de nada. - Ele garantiu, e vou dar mais um tempo a ele. Se não der certo,
ele vai se arrepender de ter me enganado. - O que vai fazer?
- Na hora você verá. Mas amanhã precisamos sair antes do meio-dia. Temos muitas coisas para ver.
- Está bem. Passarei em sua casa.
Depois de desligar, Mirtes acomodou-se para dormir. Estava cansada porém contente. Finalmente as coisas estavam dando certo
em sua vida.
217

Mercedes atirou a revista sobre o sofá com raiva. Então era isso! Humberto ia casar-se novamente. Há quanto tempo a estaria
traindo?
Nervosa, apanhou a revista outra vez e olhou a foto na qual Humberto aparecia ao lado de uma jovem linda e muito bem vestida.

Na legenda, a notícia do futuro casamento,
da recepção e da viagem que fariam à Europa em lua-de-mel.
- Esse casamento não pode se consumar! Não vou permitir. Eles me pagam!
Sentiu a cabeça tonta e sentou-se no sofá. Precisava fazer alguma coisa, agir rápido, mas o quê? Faltavam quinze dias para
o casamento. Era um tempo curto.
Da outra vez ela pedira ajuda a um paide-santo. O trabalho foi caro, mas valeu a pena. Um mês depois Humberto rompia o noivado
porque surpreendera a noiva com outro.
Ele nunca soube que o outro era um ator de teatro contratado para conquistar a noiva e em seguida deixá-la.
219
Humberto voltou para os braços de Mercedes mais apaixonado do que antes.
Embora tenham usado o ator, Mercedes acreditava que o trabalho do pai-de-santo não só contribuíra para que a noiva se apaixonasse
pelo amante mas também fizera Humberto
sentir-se atraído por ela como nos primeiros tempos.
Dias atrás, assim que Humberto decidiu abandoná-la, Mercedes foi novamente procurar pai Joaquim e pedir-lhe ajuda.
Ele lhe dissera que Humberto rompera com ela porque estava noivo de outra, que só ia casar com ele por interesse.
- Faça com que ele perceba isso e acabe com esse noivado.
Joaquim pensou um pouco e respondeu:
- Está difícil. Ele está muito apaixonado. Não vê nada. Só pensa em casar e ficar ao lado dela para sempre.
Mercedes sentiu sua raiva aumentar.
- Faça alguma coisa! Afinal, você é ou não um pai-de-santo?
- Eu sou, mas nem tudo dá para fazer. Em todo caso, vou tentar. Mas preciso de tempo.
Vendo a notícia na revista, Mercedes pensou em voltar a procurar pai Joaquim, mas desistiu. Além de não saber se daria certo,

ia demorar muito para surtir efeito.
Ela precisava de alguma coisa mais forte, talvez um detetive profissional. Porém não conhecia nenhum e não queria arriscar-se
perguntando aos conhecidos.
Decidiu comprar o jornal e procurar na seção de anúncios. Certa vez havia lido alguns. Imediatamente saiu e comprou o jornal.

Voltou para casa e iniciou a pesquisa.
Encontrou três que ofereciam informações sigilosas principalmente no campo afetivo. Satisfeita, ligou marcando hora. Queria
ser atendida imediatamente, mas só conseguiu
para a tarde seguinte.
Marcou com os três em diferentes horários. Queria escolher o melhor.
Os dois primeiros prontificaram-se a ajudá-la levantando informações sobre o casal, seguindo seus passos. Mas, quando ela
disse que queria que eles fizessem alguma
coisa para impedir o casamento, ambos se recusaram, alegando que não faziam esse tipo de trabalho.
Mercedes procurou o terceiro e disse logo:
- Vim procurá-lo porque preciso de seus serviços. Estou sendo traída pelo meu companheiro de tantos anos, que me deixou
para casar-se com uma moça que tem idade
para ser sua filha. Preciso de alguém que me ajude a impedir esse casamento.
220
- Nesse caso veio ao lugar certo! Tenho muita experiência nisso
e tenho certeza de que a madame vai ficar satisfeita.
Mercedes sorriu e sentou-se. Contou-lhe tudo e finalizou:
- Temos pouco tempo. O casamento é em menos de duas
semanas. O que você sugere?
- A madame sabe que um trabalho desses não é barato. Não trabalho sozinho. Tenho dois auxiliares.
- Estou disposta a pagar.
Combinaram um valor preliminar, porque ele alegava que precisava tomar conhecimento do caso mais de perto. Só depois de
conhecer os hábitos do casal e os horários
é que poderia sugerir as providências.
- Mas isso vai demorar. Não há tempo.
- Madame, para um trabalho bem-feito e sigiloso, temos de ter
as preliminares. Não se preocupe com o tempo. - Mas não quero que se casem.
- Não se preocupe. Faremos tudo a seu tempo. Fique tranqüila.
Mercedes deu as informações que ele lhe pediu e saiu de lá satisfeita. O detetive Sobral parecera-lhe muito eficiente. Agora,
era esperar para ver o que ele faria.
Uma vez em casa, olhando o retrato de Humberto sobre a mesinha, disse convicta:
- Você quer se livrar de mim, mas não vai ser fácil como pensa. Desta vez vai me pagar caro.
Uma semana depois, Mercedes foi procurada em sua casa pelo detetive Sobral.
- Até que enfim você apareceu! - reclamou ela. - Cansei de ligar para seu escritório e nada, ninguém atendia. Cheguei a
pensar que tinha sumido.
- A madame pensou mal. Sou um profissional honesto. Estive todos estes dias trabalhando para a senhora.
- E então?
- Bem, eu e meus assistentes ficamos de campana todo este tempo, dois com ele e um com ela. Eis o relatório de todos os
passos que eles deram. A senhora pode ler.
Mercedes pegou as folhas de papel, passou os olhos e sentiu sua raiva aumentar:
- Não me interessa saber aonde foram nem o que fizeram, se passaram a noite juntos ou não. O que quero é saber o que vai
fazer para impedir esse casamento.
221

1
- Bem, pensamos em armar uma cilada para a noiva. Na hora do casamento, aparecer na igreja um rapaz com um filho pequeno
e dizer que foi um caso dela.
- Isso não vai pegar. Toda a família dela vai estar lá, e sabem que é mentira.
- Bem, podemos então seqüestrar a noiva. Levá-la para bem longe.
- Isso é loucura. Humberto porá toda apolícia atrás de vocês e vamos todos parar na cadeia. Depois, ele ficará com ela do
mesmo jeito.
Sobral coçou o queixo e tornou:
- Do jeito que ele está enrabichado com essa moça, só vai se
separar se alguém der cabo dela.
Mercedes estremeceu. Pensou um pouco e respondeu:
- Não seria má idéia. Assim, ele nunca mais poderia voltar
para ela.
- Mas nós não fazemos esse tipo de trabalho. Somos registrados e a polícia está sempre de olho no que fazemos. Mas eu sei
de alguém que poderia fazer isso...
- É? Quem?
- Um conhecido meu. Ele mora no Mato Grosso. Vem, faz o trabalho e volta. Nunca ninguém conseguiu pegá-lo. Mas é caro.
- Dinheiro não importa. Eu pago. Mas é preciso que seja seguro. Não posso me envolver.
- Dinho é muito bom. A madame vai ficar satisfeita. Mas eu preciso de tempo. Onde ele mora não há telefone. Vou ter de viajar
até lá.
- Mas o casamento é na semana que vem.
- Que diferença faz? Não vai dar tempo antes, mas ele faz depois.
- Eles vão viajar para a Europa em lua-de-mel e ficar lá um mês.
- ótimo, assim Dinho terá tempo de planejar bem, conhecer o lugar e fazer tudo. O que a madame quer é tirar essa moça do
caminho. Isso ele faz, eu garanto.
- Então está bem. Vamos ver quanto dinheiro precisa para ir até lá. Quero também saber quanto ele vai cobrar.
- Assim que eu conversar com ele, ligo para cá. Pode ficar sossegada que tudo sairá como deseja.
Depois que ele se foi, Mercedes sentou-se pensativa. Não estaria indo longe demais? Queria Humberto de volta, mas não havia
222
pensado em chegar ao crime. Sentiu medo. Passou a mão pela testa e pensou:
- Talvez fosse melhor ligar para o detetive e voltar atrás.
Mas ela não viu que uma sombra escura se aproximou dela, dizendo ao seu ouvido:
- Eles não pensaram em você quando traíram. Eles estão felizes, enquanto você está sozinha, desprezada, jogada fora como
um objeto que não serve mais.
Uma onda de rancor a acometeu:
- Eles não pensaram em mim, em meu sofrimento. Eu, que sempre fui sincera e o amei muito... Agora, que se cansou, me joga
fora como se eu fosse um lixo. Não. Ele
precisa sofrer a dor que estou sofrendo, perder o amor dela assim como perdi o meu. Aconteça o que acontecer, não vou voltar
atrás. Eles vão pagar!
Sentia o peito oprimido, uma sensação desagradável. Concluiu que estava sofrendo e a culpa era só de Humberto.

No dia marcado, o casamento se realizou com toda a pompa que Mirtes havia planejado. A igreja estava cheia de pessoas da
alta sociedade paulistana. Ela, lindíssima
em seu vestido de seda pura; o noivo, elegante e carinhoso.
Depois realizou-se maravilhosa recepção na mansão de família de Humberto, no salão de festas luxuosamente decorado, tendo
ao fundo os músicos que durante o jantar
tocaram música suave.
Tudo estava muito bonito: a iluminação agradável, as flores, as mesas ao redor deixando no centro espaço para dançar.
Na mesa principal, os noivos sentaram-se ao centro; a família da noiva ficou ao lado do noivo, e os filhos dele ao lado
da noiva. Mirtes olhava ao redor satisfeita.
Tudo estava sendo maravilhoso.
Marcelo havia recebido convite e compareceu com a família de Renata, sentando-se com eles. O baile começou animado e Marcelo
convidou Renata para dançar.
Volteando pelo salão, ela perguntou:
- E então, como se sente?
Ele riu satisfeito.
- Muito bem com você em meus braços.
- Não brinque, Marcelo, estou falando sério. Estamos sós e você não precisa fingir.
- Não estou fingindo. É verdade. O casamento de Mirtes não me incomodou nem um pouco. Continuo me sentindo aliviado por
223
não ter de me preocupar mais com ela. E você? Como se sentiu encontrando Rômulo com Nora?
- A princípio constrangida. Depois passou. Acho que finalmente estou sarando.
- Claro que está. Vai chegar a hora que você vai questionar se um dia realmente o amou.
- Talvez.
Ele a enlaçou mais forte e entregaram-se ao prazer da dança com entusiasmo.
Antônio e Estela, sentados ao lado do noivo, sentiam-se pouco à vontade. Embora Humberto os tratasse com elegância e atenção,
eles estavam constrangidos. Aquele
não era o meio que estavam habituados a freqüentar.
- Assim que terminar este jantar, vamos embora - disse Antônio baixinho a Estela.
- Precisamos ter paciência. Não fica bem sairmos logo. Teremos de ficar pelo menos enquanto os noivos estiverem aqui.
- Não conhecemos ninguém. Não estou à vontade.
- Eu também não. Mas precisamos esperar.
Alzira, sentada ao lado dos pais, olhava tudo admirada. Mirtes finalmente conseguira o que desejava. Apesar de apreciar
a beleza do ambiente e a elegância das pessoas,
não sentia inveja da irmã.
Ao contrário dos pais, sentia-se à vontade em seu vestido azulnoite, cujo corte elegante realçava seu corpo bem-feito. Estava
portando belas jóias - que Mirtes fizera
questão de ressaltar que as estava apenas emprestando - e tinha consciência de que a maquiagem havia realçado a beleza de
seus olhos amendoados e escuros.
Havia notado que por onde passava os rapazes voltavam-se para vê-la. Alzira sentia-se viva e seus olhos brilhavam de prazer.
A orquestra começou a tocar uma canção americana em voga.
- Vamos dançar?
Ela levantou os olhos e deu com Valdo, muito elegante, à sua frente.
- Vamos - respondeu ela, recuperando-se da surpresa.
Foram para o meio do salão. Depois de alguns instantes, ele considerou:
- Você dança muito bem. É leve como uma pluma.
- Faz tempo que não danço. Mas confesso que adoro dançar.
Você também dança gostoso. Ele riu bem-humorado:
224
- Como é isso de dançar gostoso?
- Fácil, agradável, prazeroso.
- Você está sendo uma surpresa muito agradável. - Por quê?
- Nessas festas de casamento há toda uma espécie de cerimonial obrigatório, cansativo, difícil de agüentar.
- Veio dançar comigo para cumprir o cerimonial?
- Nada disso. Geralmente eu escapo. Com você estou dançando por prazer. Desde que a vi na igreja, desejei conversar com
você. Preciso saber umas coisas.
Alzira estremeceu. Muitas vezes, depois que Mirtes marcou casamento, ela havia se perguntado como Valdo estaria se sentindo,
caso estivesse interessado nela. Se
a chamou à dança para falar de Mirtes, ela o deixaria sozinho no meio do salão.
Franziu o cenho e tornou:
- Se quer saber de Mirtes, pergunte a ela. Eu não tenho nada a dizer.
- Espere aí. Não estou entendendo... Você ficou zangada, e eu ainda não disse nada...
- É que não gosto quando os rapazes vêm falar comigo para especular sobre a vida de Mirtes.
- Mas não é sobre Mirtes que eu quero falar. Alzira enrubesceu e perdeu o jeito.
- Desculpe. Eu pensei... Acho que não devia ter dito aquilo. Ele a puxou mais para perto, dizendo-lhe ao ouvido: - Você
fica linda quando ruboriza.
Alzira respirou fundo, tentando controlar a emoção. Mirtes sempre dizia que Valdo era um conquistador contumaz. Não podia
iludir-se com suas palavras. Depois de
alguns instantes ela perguntou:
- Sobre o que que você quer falar?
- Vamos dar uma volta no jardim para conversar.
Valdo segurou a mão dela e conduziu-a para fora. Andaram um
pouco por entre os canteiros e sentaram-se em um banco. - Agora você vai me dizer por que tem me evitado. - Eu?
- Você mudou comigo. Quando nos conhecemos era espontânea, transparente, natural. Depois passou a me evitar. Quando eu passo,
finge que não me vê. Nunca mais me
procurou nem sorriu para mim.
- É engano seu. Continuo a mesma.
225

- Não minta. Deve ter acontecido alguma coisa que a fez mudar. O que foi?
Ela pensou um pouco, depois decidiu: - Preciso perguntar uma coisa. - Fale.
- Você deu emprego a meu pai e a mim a pedido de Mirtes?
- Não. Eu gostei de você e a empreguei porque senti que estava com vontade de trabalhar. Com seu pai foi a mesma coisa.
Não costumo empregar pessoas porque os outros
me pedem. Há de convir que não posso gerenciar uma empresa tornando-a cabide de empregos dos amigos. Depois, nunca fui amigo
de sua irmã. Nós nos conhecemos, temos
nos visto porque ela é amiga de Mildred e freqüenta os mesmos lugares que eu. É só.
- Eu não devia ter acreditado nela!
O rosto de Valdo estava sério quando disse:
- Sou muito exigente com o padrão de funcionários de nossa empresa. Depois, não iludo ninguém. Se eu achasse que vocês não
tinham capacidade, teria sido sincero
e os aconselharia a procurar outra coisa.
- Essa idéia me atormentou muito. Fiquei pensando que estava
lá de favor. Não é um pensamento agradável.
- E por causa disso me ignorou. Agora vou me vingar de você. - Vai me despedir?
- Não. Vou dançar a noite inteira com você. Não permitirei que
dance com ninguém. Esse será seu castigo.
- Você tem o dom de me fazer ruborizar. Odeio quando isso acon
tece, mas não posso evitar - respondeu ela colocando ambas as mãos
no rosto.
Ele puxou os braços dela pelos pulsos e num ímpeto beijou-a nos lábios. O coração de Alzira disparou. Sentiu que ele a abraçava
e a beijava longamente outra vez.
- Estava com vontade de fazer isso desde que a vi na igreja - disse ele.
- Não devia ter feito isso.
- Eu senti que você também gostou.
- Sim, gostei. Mas isso não me faz esquecer a distância que nos
separa.
- Pois eu não vejo assim e quero que esqueça esse preconceito. Você me atrai, desperta em mim um sentimento novo, que eu
nunca havia sentido antes.
226
Alzira sentiu um brando calor envolver seu corpo. Era provável que ele estivesse mentindo, que dissesse aquilo a todas as
mulheres, mas era tão prazeroso ouvi-lo,
estar ali com ele trocando beijos, que ela resolveu entregar-se ao prazer daquele momento. No dia seguinte pensaria no assunto,
mas aquela noite era mágica, tudo
convidava ao amor e à alegria de viver. Ela queria aproveitar.
Deixou-se ficar ali, aninhada nos braços dele, saboreando aquele instante de felicidade.
Em outro ponto do salão, Mirtes estava exultante. Humberto sorria vendo sua felicidade e atendia a todos os seus caprichos.
Dançaram bastante. Ela havia bebido um
pouco e sentiu calor.
- Vamos dar uma volta lá fora. Estou com calor.
- Está corada mesmo. Vamos tomar ar.
Os dois saíram andando pelos amplos jardins que rodeavam a mansão.
- Vamos nos sentar aqui, descansar um pouco. Está tão agradável! - pediu Humberto.
Sentaram-se e ele a abraçou contente olhando o céu estrelado.
- Amanhã estaremos em Paris. Quero mostrar-lhe todos os encantos da Cidade- Luz. Nossa vida será sempre assim, cheia de beleza
e alegria.
- Você tem sido muito bom comigo. Estou me sentindo como uma rainha.
- Você é minha rainha.
Conversaram durante alguns minutos, depois Mirtes levantou-se: - Vamos voltar ao salão. Não quero perder nada desta festa
maravilhosa.
- Vamos. Precisamos continuar agradecendo à presença dos convidados.
De braço dado, foram dando a volta pelo jardim rumo ao salão. Foi então que Mirtes viu Alzira nos braços de Valdo. Seu rosto
endureceu, ela estremeceu de raiva.
Valdo era seu sonho de mulher, era o homem que ela queria que estivesse com ela ali, no lugar de Humberto. Como a insignificante
Alzira o tinha nos braços?
- O que foi? Você mudou de repente. Aconteceu alguma coisa?
- Minha irmã. Está ali abraçada com Valdo. - Notando a estranheza dele, tentou dissimular a raiva: - É que ele é um conquistador.
Namora todas e não valoriza nenhuma.
Minha irmã me preocupa, é inexperiente, ingênua. Temo que se iluda.
227

- Você fala como uma irmã mais velha. Mas Alzira pareceu-me uma moça bastante sensata e equilibrada. Depois, Valdo pode
ser namorador, mas é um excelente rapaz,
um empresário de nome. Não vejo motivo para sua preocupação.
Mirtes sorriu, tentando controlar o que sentia.
- Tem razão. Não há nenhum motivo para preocupar-me. Vamos voltar à festa, dançar e aproveitar tudo a que temos direito.
Humberto sorriu contente:
- Isso mesmo. Quero ver você sempre sorrindo, feliz como agora.
Alzira viu quando Mirtes passou de braço com o marido e tentou afastar-se de Valdo. Ele a puxou novamente para perto dizendo:
- Não fuja de mim. Faz parte de seu castigo ficar em meus braços.
- É que Mirtes passou por aqui e não gostou. Conheço seu olhar.
- Você tem medo dela?
- Não. Mas sei que não gostou. Pode ir contar a meu pai. - E o que tem isso?
- Ele não vai gostar. Você é o dono da empresa onde trabalha
mos. Vai dizer que não posso misturar as coisas, que preciso saber o
meu lugar, etc., etc.
- Pois eu vou dizer a ele que os tempos mudaram. As pessoas
valem pelas atitudes, pela maneira como olham a vida, não pelo que
possuem. Os bens materiais são transitórios. O que realmente tem
valor é a competência que cada um possui para conduzir sua vida e
ser feliz.
- Conquistar a felicidade é difícil. Há quem diga que não é coisa deste mundo.
- Depende de como você vê a vida e onde coloca seus objetivos. Geralmente as pessoas sonham, criam ilusões fora da realidade,
colocam seu destino nas mãos dos outros
e acabam desiludidas e infelizes.
- Explique melhor.
- Sua irmã, por exemplo, coloca os bens materiais acima dos valores do sentimento. Acredita que sendo rica, invejada, será
feliz. Por isso está fazendo um casamento
conveniente.
- Você fala como se ela fosse ser infeliz. Humberto é uma excelente pessoa. Conheço-o há pouco tempo, mas trata-se de um
homem de valor, respeitado, que a ama muito.
228
- Concordo. Se ela souber valorizar as qualidades dele e seu amor, procurar agradá-lo com sinceridade, tem chance de ter
uma vida boa, mas, pelo que tenho observado
em Mirtes, ela está longe de satisfazer-se com uma vida tranqüila. Ao contrário.
É de temperamento ardente, ousado. Não
sei se vai conformar-se com o que ele pode
lhe dar.
- Sei que você uma vez foi ao cinema com ela. Deu para perceber tudo isso tendo saído apenas uma vez? Ou será que se encontraram
mais vezes?
- Desculpe, não devia ter usado sua irmã como exemplo. Mudemos de assunto.
- Não. Agora que começou, vá até o fim.
- Uma vez convidei-a para sair porque ela me fixava quando nos encontrávamos ao acaso e tive vontade de conhecê-la.
Fomos
ao cinema e depois decidimos jantar. Comentamos
o filme, conversamos, e deu para notar quanto ela era ambiciosa.
- De fato, desde pequena sempre dizia que só se casaria com um homem rico. Depois desse cinema, vocês voltaram a sair juntos?
- Não. Sua irmã é muito bonita, chama a atenção, principalmente pelo brilho vivo do olhar, mas eu prefiro mulheres mais
suaves, de sentimentos delicados, mais femininas.
Meu temperamento nunca combinaria com o de uma mulher igual a ela. Depois, quando nos encontrávamos casualmente, em sociedade,

eu observava seu empenho em detectar
os possíveis candidatos ricos. Desculpe, não deveria falar assim com você. Aliás, nem deveria ter tocado neste assunto.

Vamos esquecer.
- O pior é que eu penso como você. Não acho que Mirtes será feliz com esse casamento. Algum dia ela poderá vir a amar de
verdade e então nem sei o que poderá acontecer.
Tentei conversar com ela, pedir que não aceitasse, mas não consegui nada. Ela riu de mim. Disse que eu estava com inveja.

Embora ela seja mais bonita e mais cortejada
do que eu, nunca senti inveja dela. Sempre desejei que Mirtes fosse muito feliz.
- Você pensa muito diferente dela. Tenho certeza de que saberá conduzir melhor sua vida. Quem a fez crer que Mirtes é mais
bonita do que você?
- Desde criança habituei-me a ouvir isso. Mas eu me sinto bem em ser como sou. Não trocaria minha vida com ninguém. Adoro
meus pais. São pessoas boas, honestas,
trabalhadoras. Educaram-nos com carinho, deram sempre o melhor que puderam. Meu maior
229
desejo é torná-los felizes. Eles se amam, se respeitam. Em nossa casa o ambiente é de paz. Como você sabe, meu pai ficou
muito tempo desempregado. Eu também não conseguia
trabalho. Passamos algumas necessidades, mas isso não é nada, porque nos ajudamos e nos apoiamos. Esse ambiente de companheirismo,
de compreensão e de amizade, vendo
minha mãe procurando economizar, sorrindo, brincando com as dificuldades, foi um exemplo que nunca esquecerei. Isso para
mim é mais importante do que tudo.
- Você está certa. Em minha casa estamos bem, nada nos falta. Podemos ter tudo que o dinheiro pode comprar. Mas nada nos
agrada mais do que nos reunirmos em família
e trocar idéias sobre nossas vidas, nossos desafios. Meus pais também se respeitam e vivem muito bem. Meu pai sempre foi
um homem muito assediado pelas mulheres.
É muito elegante, charmoso, elas dizem que ele é bonito, mas ele sempre resistiu ao assédio delas. Costuma dizer que quem
tem a mulher que ama não precisa de mais
nada. Entendo o que você quer dizer. Também acho que, quando temos a felicidade de viver em uma família que se entende
e se quer bem, tudo na vida se torna mais
fácil.
- Sempre pensei que o dinheiro favorecesse às tentações, tanto no campo afetivo quanto no profissional. Há pessoas que passam
por cima de qualquer coisa para conseguir
o que querem.
- Ilusão. Só ilusão. Gostaria que conhecesse Émerson. É como um irmão para mim. Ele tem um instituto onde ministra cursos
maravilhosos, que ensinam a trabalhar com
o emocional e o espiritual. Tenho aprendido muito com ele. Suas idéias sempre vêm ao encontro das minhas. Ele está na festa.
Vou apresentá-lo a você.
- Gostaria de conhecê-lo. Você falou em trabalhar com o espiritual. Certa vez houve um problema com Mirtes, que chegou em
casa passando muito mal. Foi no tempo em
que estávamos desempregados. Nosso dinheiro havia acabado e não podíamos chamar o médico. Então lembrei-me de uma vizinha,

Dona Isaltina. Ela costuma atender às
pessoas. Reza e elas melhoram. É uma senhora muito boa. Não cobra nada.
- Interessante. Continue.
- Ela veio até nossa casa, rezou e nos mandou orar também. Passou as mãos sobre o corpo de Mirtes e em pouco tempo ela
(corrigir - 230)
coelho} l rou. Estava com enjôo, dor de
cabeça, mal-estar, inquietação, e tudo'' cessou como que por encanto. Depois ela disse que precisávamos ir ao centro espírita

onde ela trabalhava.
- Mirtes foi?
230
- Não. Dona Isaltina disse que meu pai precisava ir porque estava com as energias muito ruins. Mas ele não quis. Fomos

eu e mamãe. Uma moça que nos entrevistou
conversou com minha mãe de um jeito tão profundo que ela desabafou, chorou, depois se sentiu muito bem. Fomos então para
o salão de passes e eu me senti como se
estivesse flutuando. Nunca havia sentido uma sensação tão boa. Foi maravilhoso. Depois disso tive vontade de ir a uma agência
procurar trabalho e me indicaram sua
empresa.
- No instituto, Émerson também ensina a trabalhar com as energias. Funciona mesmo.
- Dona Isaltina disse que meu pai logo encontraria trabalho. De fato, aconteceu. Agora vamos ao centro uma vez por semana.

Tem nos ajudado muito. Acho que, se Mirtes
tivesse ido, não teria entrado nesse casamento.
- Cada um escolhe o próprio caminho. Ela preferiu esse. - Vou torcer para que seja feliz.
Conversaram ainda algum tempo e resolveram dançar mais um pouco. Logo na entrada do salão encontraram Émerson em companhia
de Laura, Renata e Marcelo. Valdo parou
e apresentou Alzira. Depois dos cumprimentos, ele contou que Alzira e os pais freqüentavam um centro espírita, ao que Émerson
tornou:
- É bom aprender a lidar com as energias que nos rodeiam e a saber que a vida continua depois da morte do corpo.
- Desde a primeira vez que fui lá me senti muito bem. Pareço flutuar. Saio leve, vejo luzes, sinto muita alegria e paz.
Émerson olhou-a sério e respondeu:
- Você conhece muitas coisas, seu espírito é muito lúcido. Eu
me sentiria muito honrado se fosse nos visitar no instituto.
- Irei com prazer. É só me dar o endereço.
- Posso levá-la - ofereceu Valdo. - Será um prazer. Agora
que já combinamos tudo, vamos dançar.
Depois que eles saíram, Marcelo disse contente:
- Gosto muito de Alzira. Ela sempre me consolava quando Mirtes me traía e eu me sentia arrasado. Ela conseguia me colocar
para cima.
- Essa moça é um espírito muito evoluído. Feliz de quem puder viver ao lado dela.
- Não se parece em nada com a irmã - disse Renata.
- Realmente é muito agradável. Tem uma energia boa - ajuntou Laura.
231
- Você captou muito bem. Aonde ela vai, melhora o ambiente. Tem sentimentos puros. Foi por isso que a vida colocou Mirtes
ao lado dela, para dar-lhe oportunidade
de melhorar, de escolher melhor seu caminho. Vamos esperar que tenha aproveitado.
- Não sei - comentou Marcelo. - Mirtes sempre desfez da irmã, sempre a menosprezou. Dizia que ela era boba porque se contentava
em viver na pobreza. As vezes eu
sentia pena dela, por ter uma irmã tão maldosa. Apesar disso, estou certo de que Mirtes não conseguiu deixa-la triste nem
mal-humorada. Alzira é lúcida e não se
deixa impressionar pelas palavras dos outros com facilidade. Ela sabe o que quer e como quer. Apesar de ser disciplinada,

cordata, ter boa índole, só faz o que quer,
o que acha certo. O resto, ela joga fora.
- Gostaria de ser como ela - disse Renata, pensativa.
- Você é. Basta não se impressionar pelo que os outros dizem - sugeriu Marcelo.
Todos riram e Laura considerou:
- Estou tentando fazer isso há meses. Será que um dia conseguirei?
Olhando Valdo e Alzira, que volteavam pelo salão em um samba animado, Émerson sorriu e concluiu:
- Acho que desta vez Valdo encontrou a mulher que vai colocá-lo no rumo que tem de ir. Agora vamos dançar, a festa está
quase acabando e nós só iremos embora depois
do fim.
Eles foram para o meio do salão e dançaram com entusiasmo, aproveitando o momento feliz que estavam vivendo.
232
Alzira terminou o expediente. Apanhou a bolsa e foi à sala onde o pai estava trabalhando, como de costume. Vendo-a, ele disse:
- Não precisa me esperar. Hoje vou ficar um pouco mais. Preciso acabar este relatório. Avise sua mãe.
- Vai demorar? Posso ficar e ajudar, se quiser.
- Não é preciso. Não sei quanto tem
po gastarei. Talvez uma hora ou duas.
- Está bem. Eu aviso.
Alzira ganhou a rua e foi andando de
vagar, observando o pôr-do-sol que coloria
o céu formando desenhos caprichosos. - Alzira, espere.
Ela se voltou e viu Valdo, que a se
guia dentro do carro.
- O que quer?
- Falar com você. Espere. Ele desceu e aproximou-se:
- Quero conversar com você. Vamos,
vou levá-la até em casa.
233

- Obrigada. Não é preciso. O que deseja?
- Não seja mal-educada. Sou seu chefe. Deve obedecer. O rubor coloriu as faces dela.
- É meu chefe para mandar em mim no que diz respeito ao ser
viço, dentro da empresa. Fora, sou livre.
- E se eu pedir por favor? Vai me ouvir? Ela hesitou:
- Está bem.
Eles entraram no carro. Ele deu partida e saiu em silêncio.
- E então? - indagou ela. - O que deseja?
- Já vai saber.
Andou mais um pouco e parou em uma rua discreta.
- Faz quinze dias que estivemos juntos no casamento de sua irmã. Naquela noite pensei que estivéssemos nos entendendo. Nós
nos beijamos, você ficou em meus braços,
dançamos. Achei que estivesse gostando de minha companhia. Mas, depois, mudou completamente comigo. Não atende ao telefone,

na empresa me evita, finge que não me
vê. Havíamos combinado ir ao instituto. Émerson perguntou por você. Eu mesmo não sei o que pensar.
Alzira suspirou e respondeu:
- O que aconteceu naquela noite foi especial. Acabou. Sou uma moça simples, não pertenço ao seu meio social. Sei o meu lugar.
- Isso é preconceito.
- Não. É realidade. Não tenho condições de freqüentar um meio social muito acima de minhas posses, embora seus amigos sejam
muito agradáveis e tenho certeza de que
não se prenderiam a isso. Mas eu não estaria à vontade.
Valdo sentiu-se constrangido.
- Desculpe, não pensei que se sentisse assim. Se não deseja ir ao instituto, é um direito seu. Mas não precisa me evitar
por causa disso. Você não gosta de mim?
Alzira olhou-o firme nos olhos e disse séria:
- Não se trata de você. Estou apenas me protegendo. É minha maneira de ser. Você sabe que tem carisma, que as garotas disputam
sua atenção. Você pode escolher entre
as mulheres mais bonitas e famosas. Por que faz isso comigo?
- Porque eu nunca conheci nenhuma como você. Você me atrai. A seu lado me sinto alegre, bem-disposto, de bem com a vida.

Fazia tempo que não me sentia tão feliz
como naquela festa de
234
casamento. Você diz bem: há muitas garotas me rodeando, esperando atenção. Mas elas não me dizem nada. Estou cansado do convencional,

das mentiras de salão, das coisas
de aparência.
- Isso passa. Logo estará como sempre foi.
- Por que está tão resistente? Do que tem medo?
- De me machucar, de me iludir. Você está curioso porque sou diferente. Só isso.
Ele a abraçou e beijou-a nos lábios. Ela retribuiu sentindo o coração disparar e o corpo tremer.
- Você também me quer! - disse Valdo triunfante. - Eu sinto que você estremece quando a toco.
Alzira não conseguiu responder logo. Sentiu vontade de abraçá-lo e entregar-se ao sentimento que a envolvia, mas procurou
controlar-se.
- Você me pareceu corajosa, forte. Uma pessoa que sabe o que quer.
- E eu sou. Por isso tenho evitado você.
- Não. Coragem é entregar-se ao que sente sem medo. Nós sentimos uma atração forte um pelo outro. É cedo para saber se é
amor, mass se não experimentarmos nunca
saberemos. Confesso que nunca senti por uma mulher o que estou sentindo por você. É algo muito bom, forte, não quero perder
isso de jeito nenhum.
- Não sei o que dizer. Estou confusa.
- Não se sente feliz em meus braços?
- Muito. E gostaria de permanecer neles para sempre.
Valdo, emocionado, beijou-a longamente, várias vezes. Depois, acariciou-lhe os cabelos com carinho, aconchegando-a de encontro
ao peito.
- Quero ficar assim, com você, sentindo essa emoção que não me recordo de haver sentido antes.
Alzira não resistiu mais: deixou-se ficar prazerosamente usufruindo daquele momento de felicidade.
Meia hora depois, Alzira lembrou-se:
- Preciso ir embora. Minha mãe deve estar preocupada. Sempre chegamos em casa no mesmo horário.
- Estaremos lá dentro de poucos minutos. Mas prometa que não vai mais fugir de mim.
- Prometo.
Ele a deixou na porta de casa e despediu-se com um beijo carinhoso. Alzira entrou e Estela perguntou:
235

- Escutei um barulho de carro. Aconteceu alguma coisa? Seu pai não veio com você?
- Não. Ele precisou fazer hora extra.
- E você, por que demorou?
- Fiquei conversando e me esqueci da hora.
Estela olhou-a e não disse nada. Era evidente que alguma coisa havia acontecido. O rosto de Alzira estava corado, perturbado,

havia um brilho diferente em seus olhos.
Quando a filha estivesse pronta para contar, Estela estaria ouvindo, como sempre fazia. Não gostava de pressionar as filhas.

Mesmo com Mirtes, cujo comportamento
a preocupava, ela era discreta.
Quando Antônio questionava esse comportamento, Estela respondia:
- O que adianta pressionar? Elas só vão dizer o que quiserem. Prefiro que contem quando sentirem vontade, assim evito as
mentiras.
Alzira, após o banho, estendeu-se na cama, pensativa. Recordando-se do que acontecera, sentia reviverem as emoções daqueles
momentos. Valdo tinha um jeito especial
de olhá-la que a encantava. Parecia um menino descobrindo a vida, cheio de alegria e vontade de viver.
Ao mesmo tempo, ela refletia que precisava ser mais realista. Ele não era esse menino ingênuo, mas um empresário que dirigia

com capacidade uma grande empresa,
um moço rico, instruído e habituado ao convívio na alta sociedade.
Era difícil acreditar que ele estivesse mesmo interessado nela, uma moça simples que ocupava em sua empresa uma posição
humilde.
Mas ela notou como ele se emocionava quando a beijava. Percebeu o carinho com que a tratava, muito diferente dos rapazes
que havia conhecido. Desde a adolescência,
ela havia se sentido atraída por alguns jovens, iniciado namoro que invariavelmente terminava do mesmo jeito: eles desejavam
mais intimidade do que ela permitia,
aborreciam-se e terminavam.
Nos braços de Valdo ela se sentia bem, havia uma delicadeza de sentimentos que a encantava. Ela sabia que não ia conseguir
resistir.
Estela bateu na porta do quarto.
- Você quer jantar agora ou vai esperar seu pai? Alzira levantou-se, abriu a porta e respondeu: - Estou sem fome. Acho que
não vou jantar.
236
- Escutei barulho na porta. Seu pai deve estar chegando. Vou pôr a mesa. Venha pelo menos nos fazer companhia e comer um
pouco.
Ela concordou e desceu. Não queria que a mãe notasse sua emoção. Era cedo para contar-lhe o que estava acontecendo.

Naquela mesma tarde, Mildred, sentada em confortável poltrona na sala de estar de sua casa, folheava uma revista. Na mesinha
ao lado, pousavam alguns cartões que
recebera de Mirtes, encantada com a viagem.
O fato de Mirtes conseguir o que queria havia feito com que Mildred passasse a admirá-la. Na revista deparou com uma reportagem
sobre a viagem do casal e sorriu
contente. Mirtes agora pertencia à mais fina sociedade.
Virou a página e empalideceu. Lá estava uma foto de Émerson com Laura, abraçados e sorridentes. A legenda dizia que haviam
marcado o casamento para breve.
Isso não poderia acontecer. Ela não iria permitir. Atirou a revista longe, apanhou a bolsa e saiu. Tomou um táxi e foi até
o terreiro de pai Tomé. Estava furiosa.
Quando ele a recebeu, ela foi logo dizendo:
- Você me enganou. Tomou meu dinheiro e não fez nada. Emer
son vai se casar em breve. Onde está seu poder?
Ele sorriu sem demonstrar preocupação.
- Calma. Estou trabalhando. É preciso esperar.
- Estou cansada de esperar. No casamento de Mirtes eles estavam
aos beijos e abraços e eu tive de suportar isso. Não agüento
mais. Você precisa ser mais eficiente. Paguei o que me pediu pelo ser
viço. Tem de cumprir sua parte.
Ele sorriu e respondeu:
- Tenho tudo preparado. Eles vão se separar. Você vai ver uma coisa.
- Quando?
- No máximo dentro de uma semana. - Tem certeza?
- Tenho. Sei o que estou fazendo. Você vai ver. - Quero ver mesmo.
- Precisa ter fé.
- Vou esperar até a semana que vem.
Uma semana passaria depressa. Mildred saiu de lá com dor de cabeça e pensou:
237
- É a tensão. Fiquei com muita raiva.
Ela não viu que dois vultos escuros a seguiram, colando-se a seu corpo.
Vendo-se a sós, pai Tomé chamou seu ajudante e disse:
- Essa moça não é flor que se cheire. Ela pode nos causar problemas.
- Mas o pai Tomé dá jeito nela...
- É. Vamos ver. Vou fazer aquele trabalho. Desta vez tem de dar certo.

Dois dias depois, Laura acordou e ao levantar-se sentiu forte tontura que a obrigou a segurar-se na cabeceira da cama. Assustada,
sentou-se e esperou para ver se
passava. Aos poucos a tontura diminuiu mas sentiu-se enjoada e inquieta. Um aperto desagradável no peito dava-lhe a sensação
de que iria acontecer alguma desgraça.
Aos poucos seu estado foi melhorando, mas ela não conseguia afastar o medo e a preocupação. A empregada entrou no quarto
e ela sentiu vontade de mandá-la embora.
Controlou-se. Celina era uma moça boa e prestativa.
Ela se aproximou e perguntou:
- Está se sentindo bem? Está tão pálida!
Laura estremeceu e respondeu irritada:
- Deixe-me sozinha! Não se intrometa em minha vida!
Celina olhou-a assustada. Laura parecia outra pessoa. Saiu em silêncio.
Laura havia marcado um encontro com Émerson para a compra de alguns móveis que deveriam colocar na casa que haviam comprado

e onde deveriam morar depois do casamento.
Pensou em ligar para ele e suspender o encontro. Estava cansada, sentia o corpo pesado. Iriam outro dia. Telefonou para
ele.
- Estou ligando para avisar que não iremos ver os móveis hoje. Acordei indisposta. Ultimamente temos saído muito. Pretendo
passar o dia em casa descansando.
- Ontem você estava tão entusiasmada, cheia de idéias para essas compras.
- Mas hoje não estou.
- Vou passar aí para vê-la e conversaremos.
- Não. Hoje quero ficar sozinha. Preciso de paz. - Está bem.
Émerson, pensativo, desligou o telefone. Ao atender a ligação,
238
sentiu que uma onda de energia escura o envolveu e a cabeça começou a rodar. Reagiu com firmeza, procurando impedir que
ela o envolvesse mais. Imediatamente foi
ao salão de meditação, colocou-se em posição e começou a trabalhar mentalmente para libertar-se daquela energia. Nesse esforço

permaneceu por mais de uma hora.
Quando conseguiu afastá-la, permaneceu em observação para identificá-la. Percebeu que ele e Laura estavam sendo alvos de
um ataque espiritual. Queria saber como
e por quê.
A imagem de Mildred apareceu novamente à sua frente, rodeada por alguns vultos escuros. Ele sabia que ela faria tudo para
impedir seu casamento com Laura, mas que
não tinha conhecimento para mandar aquele tipo de energia. Certamente havia procurado outra pessoa. Ele queria descobrir
quem. Mas nesse momento seu guia espiritual
surgiu à sua frente e ele se curvou reverente, saudando-o.
- O trabalho é pesado. Precisaremos de preparação e apoio para desfazê-lo. Suspenda o curso desta noite. Vou fornecer as
instruções.
Émerson ouviu tudo atentamente. O guia finalizou:
- Todos deverão estar aqui às seis em ponto. Laura não vai querer vir. Terá de persuadi-la, porque está muito atingida.
- Farei tudo como diz.
- Muito bem. Conserve seu coração em paz. Confiemos em Deus. A força do mal nada é diante da luz. Vamos precisar de energias
limpas e puras para podermos trabalhar.
Eu gostaria muito, se fosse possível, que convidasse a namorada de Valdo. A energia dela seria muito importante.
Émerson agradeceu, levantou-se e ligou para a secretária do curso da noite pedindo-lhe para avisar os alunos que a aula
havia sido suspensa e seria reposta na semana
seguinte. Depois, tratou de convocar as pessoas indicadas, entre elas Marcelo e Renata.
Ligou para Valdo, que também havia sido indicado:
- Sua irmã sofreu um assédio espiritual e não está bem. Teremos de fazer uma reunião para ajudá-la, e meu guia pediu sua
presença.
- Pode contar comigo.
- Também pediu uma coisa que não sei se será possível. - O quê? - indagou Valdo, curioso.
- Disse para trazer sua namorada. A energia dela vai ajudar muito. Você está namorando?
- Estou apaixonado, se é o que quer saber. Seu guia está muito bem informado a meu respeito.
239
Émerson riu e respondeu:
- Eu não sabia, mas ele nunca se engana. Por isso dei o recado. - Vou ver o que posso fazer.
Émerson ultimou todos os preparativos para a reunião e ligou para
Laura. A empregada disse que ela estava deitada e dissera que não
queria ser incomodada.
- Diga-lhe que sou eu. - Vou tentar.
Émerson esperou alguns minutos.
- Bati na porta e disse que o senhor estava ao telefone. Ela gri
tou que não queria falar com ninguém, nem mesmo com o senhor. Ele desligou. Precisava arrancá-la da cama e levá-la para
a reu
nião na hora certa. De nada adiantaria ir até lá naquele momento.
Preferiu recolher-se em sua sala de meditação.
Sentou-se no chão e começou a mentalizar Laura, tentando li
bertá-la daquelas energias.
De repente sentiu uma rajada forte de vento e viu um homem
escuro, fisionomia endurecida, olhos metálicos, vestido com uma
manta escura, parado à sua frente, olhando-o desafiadoramente. Émerson esforçou-se para manter o equilíbrio e indagou em
pensamento:
- O que você quer aqui?
- Vim avisar que não vai adiantar você ficar aí tentando nos
mandar embora. Quanto mais interferir, mais iremos judiar dela.
Tenho como mandá-la para o hospício. Por isso, pare de intervir.
- Você não vai fazer isso. Ela não merece. É protegida da luz. - Se fosse, não a teríamos dominado. Agora pare com isso

se
não quiser que eu mande nossos homens aqui para acabar com você. - Por que está com tanta raiva? Nunca fizemos nada con
tra você.
- O aviso está dado. Se ela piorar, a culpa será toda sua.
Ele mandou em direção a Émerson uma onda escura de energia e desapareceu. Émerson sentiu a cabeça rodar e precisou fazer
grande esforço para reagir. Depois que conseguiu
desvencilhar-se daquela energia, mentalizou forças positivas e sentiu-se melhor.
Como faria para levar Laura à reunião? Tinha certeza de que aqueles espíritos fariam tudo para que ela não comparecesse.

Naquele instante, Émerson sentiu a presença
de seu guia e ouviu:
- Procure manter o pensamento positivo. Quando chegar a hora, eu avisarei e você irá buscá-la. Vamos confiar.
240
Valdo desligou o telefone e mandou chamar Alzira em sua sala. Falou-lhe sobre o convite de Émerson.
- Você sabe do que se trata?
- Só sei que o encontro será às seis horas. Deve ser importante, porque Émerson suspendeu a aula desta noite para realizar
essa reunião.
- Tem certeza de que ele se referiu a mim?
- Tenho. A única namorada que tenho é você. Aliás, Émerson não sabia que estamos namorando.
- Nem eu. Você não me pediu em namoro.
- Mas o guia espiritual dele sabia e falou em você.
- É curioso. Dona Isaltina costuma dizer que minha presença
ajuda os trabalhos do centro. Mas eu não faço nada. Só me sinto mui
to bem, como se estivesse flutuando.
- Você vai comigo?
- Preciso avisar meu pai.
- Eu a levarei para casa depois. Ele pode ficar sossegado.
- Não sei se essa idéia irá tranquilizá-lo.
- Tenho trabalhado com ele, sei que confia em mim. Aliás, o
trabalho que ele está fazendo é excelente. Meu pai me deu os para
béns por tê-lo contratado. Você fala com ele ou quer que eu fale? - Pode deixar que eu falo. Ele tem ido ao centro e entenderá.

Meia hora antes das seis, Alzira já estava no carro de Valdo rumo ao instituto. Assim que chegaram, Marcelo recebeu-os,
pedindo:
- Entrem naquela sala que está preparada. Fiquem em prece. Émerson precisa de suporte. Foi buscar uma pessoa.
Eles entraram na sala em penumbra, sentaram-se e permaneceram orando em silêncio.

Émerson chegou à casa de Laura. Seguindo instruções de seu guia espiritual, pediu à mãe dela que abrisse a porta do quarto,
que estava trancado por dentro. A chave
não encaixava e foi preciso introduzir uma espátula na fechadura e derrubar a chave que estava nela.
Émerson entrou e o quarto estava escuro. Laura estava deitada, dormindo profundamente.
- Laura, acorde. Sou eu.
Ela não acordou e ele a chamou novamente, elevando a voz. Nada. A mãe dela, impressionada, disse:
241

- O que está havendo? Esse sono não é natural. Será que ela
ingeriu algum calmante?
- Vamos ajudá-la - respondeu Émerson segurando as duas
mãos de Laura, tentando levantá-la.
Ela abriu os olhos, dizendo com voz pastosa: - Quero dormir. Deixem-me em paz.
- Não. Reaja. Esse sono não é natural. Você tem de vir comigo. Ela não respondeu e Émerson disse: - Preciso levá-la ao instituto.

É importante. - Vou ajudá-lo -
disse Almerinda, preocupada.
Émerson carregou a namorada até o carro e Almerinda acom
panhou-os. Ele a colocou no banco de trás e pediu que a mãe dela
a amparasse.
Chegaram ao instituto e imediatamente Émerson a levou até a sala de reuniões, onde o grupo esperava. Como ela não conseguisse
permanecer sentada, Émerson apanhou
um colchonete e deitou-a nele. Valdo levantou-se assustado, mas um gesto de Émerson o conteve.
- Vamos orar, meus amigos, confiantes na bondade divina que nos colocou aqui para este trabalho.
O silêncio se fez e durante alguns minutos eles permaneceram orando. Até que uma moça do grupo foi sacudida por estremecimentos

e gritou colérica:
- Quem ousa intrometer-se em meus negócios? O que vocês pensam que são? Vão se arrepender desta intromissão.
- Continuemos orando -pediu Émerson.
- Não vai adiantar nada. É melhor desistirem.
- Quem vai pensar melhor é você. Obedecendo aos que lhe mandam, está complicando sua vida. Vocês nunca vão vencer o bem.

No fim, terão de voltar atrás e refazer
tudo que estão destruindo. Pense no sofrimento pelo qual terá de passar quando for chamado a responder por suas atitudes.
- Você está querendo me atemorizar. Somos fortes, ninguém vai nos vencer.
- Você é forte mas está usando sua força contra a vida, e ela é soberana. Todos os que ficaram contra ela se arrependeram
e choraram o tempo perdido. Pense bem.
Neste momento está tendo a oportunidade de libertar-se do mal e trilhar um novo caminho de aprendizagem e progresso.
- Isso é mentira. Não confio em ninguém. A vida é um jogo de interesses em que vence o mais forte.
242
- Quem é mais forte? Você, que não sabe para onde vai nem de onde veio, ou a fonte de energia, que criou e administra o
equilíbrio de tudo? Já pensou em como você
está vulnerável ficando contra esse poder superior que pode fazer o que quiser com você?
- Senti fome e frio, e eles me socorreram. Trabalhar para eles é obrigação. Depois, eles me protegem. Sofri muita perseguição
quando cheguei aqui.
- Porque criou inimigos durante sua passagem terrestre. Quando eles lhe pediram contas, ao invés de reconhecer seus pontos
fracos você desejou brigar ainda mais.
Por isso foi usado pelos mercenários do astral, que oferecem proteção a troco de uma obediência servil e aviltante.
- Eles são meus amigos. Vão me apoiar sempre.
- E onde eles estão agora? Por que o deixaram sozinho neste
momento em que está sendo chamado à responsabilidade de suas
atitudes?
Ele manteve alguns segundos de silêncio, depois respondeu: - Não sei. Eles sumiram.
- Eles o deixaram para assumir sozinho a responsabilidade do que fez.
- Não é possível. Onde estão? Vou me vingar, eles vão ver.
- Não incorra no mesmo erro. O momento é de auxílio. Se deseja melhorar de vida, terá de mudar sua atitude. O mal cobra
um preço muito alto de quem se ilude mergulhando
em suas malhas. Saia enquanto é tempo. Estamos recebendo a visita de amigos do plano superior que vieram para ajudá-lo.
- Estou me sentindo angustiado. Eu não creio nisso porque não mereço. Tenho andado errado. Eles não vão me aceitar.
- Eles vão dar-lhe uma oportunidade se você mudar sua atitude e escolher ficar no bem. Vamos orar juntos.
Émerson pediu à luz divina que iluminasse aquele espírito. Quando terminou , a entidade rompeu em soluços. Quando se acalmou,

disse:
- Obrigado pela ajuda. Estou me sentindo melhor. Antes de ir estão me pedindo para buscar o responsável por tudo. Cuidado
com ele.
- Continuemos em prece - solicitou Émerson.
Depois de alguns instantes, um rapaz estremeceu violentamente. Sua cadeira, como que tocada por uma força invisível, foi
ao chão. As pessoas assustaram-se e Émerson
disse enérgico:
- Ninguém se mexa. Está tudo sob controle. Continuem em prece. Precisamos ajudar.
O rapaz estremecia no chão como se estivesse levando choques e gritou:
- Quem ousou invadir meu espaço? Que força é esta que tem esse poder?
- A força da luz divina - respondeu Émerson com voz serena.
- Onde estou? O que querem fazer comigo?
- Está sendo chamado a responder pelas suas atitudes. Chegou a hora de parar com suas bruxarias.
- Quem é você que me fala com autoridade? Não o conheço e não acredito em nada que está dizendo.
- É bom acreditar. O momento é muito importante. Você pensa que pode agir como se fosse Deus! Intromete-se na vida alheia,
obrigando as pessoas a fazer o que você
quer. Usa as forças da natureza, criadas para manter a vida, a serviço de seus interesses pessoais, vendendo ilusões, prometendo
tudo sem o mínimo escrúpulo. Isto
agora acabou. Chegou a hora de escolher.
- O que é isto, um julgamento?
- Um aviso. A maldade tem limites e a sua já atingiu o máximo. A vida está dando um basta, e daqui para a frente você não
poderá mais prejudicar ninguém.
- Eu não prejudico. Ajudo as pessoas a conseguir o que desejam para serem felizes.
- Mentira. Você está apenas interessado em ganhar dinheiro. Explora os pontos fracos das pessoas em proveito próprio.
- Não tenho culpa se o que elas desejam não é bom. O que é isto? Quem são estas pessoas que me rodeiam com olhos de luz
e fazem com que eu me sinta sem forças? O
que querem?
- Terá de escolher. Ou se arrepende, desfaz todas essas bruxarias que mantém em seu terreiro, ou não voltará mais para seu
corpo.
- Vão me matar? Eu não quero. Que horror! Eu não consigo voltar para o corpo. É mentira. Eu não morri! Quero voltar para
o corpo agora. Esse corpo caído não é meu.
Digam que não estou morto.
- Ainda não está, mas isso depende só de você.
- O que preciso fazer para retomar o corpo?
- Primeiro libertar Laura e eu, retirando todas as energias
negativas.
244
- Está bem. Mas preciso voltar ao corpo para fazer isso. - Deixe de mentiras. Você não precisa voltar ao corpo.

Quem pensa que vai enganar? Vamos, faça
a limpeza.
O rapaz sentou-se no chão, tossiu, esfregou as mãos e começou a resmungar em uma língua estranha. Depois de alguns minutos
ele disse:
- Pronto. Os dois já estão livres. Agora quero retomar meu corpo.
- Antes temos de conversar.
A voz de Émerson estava modificada, mais forte e com ligeiro sotaque estrangeiro. Ele continuou:
- Há muitos anos que você desenvolveu sua sensibilidade e
descobriu algumas forças da natureza. Porém, ao invés de utilizá-las a favor do bem, enveredou pelo mal, desencarnando
em péssimas condições. Durante anos no astral,
antes de reencarnar, você recebeu esclarecimentos e prometeu que nesta encarnação usaria sua sensibilidade para ajudar o
progresso da consciência. Porém, uma vez
encarnado, cedeu às tentações ambiciosas e acabou enveredando novamente pelo caminho do mal. Assim, chegou ao limite do
permitido. Só voltará ao corpo se prometer
deixar o mal e comprometer-se com os que ainda se demoram no erro.
- Eu prometo. Nunca mais farei nada disso.
- Devo esclarecer que estaremos vigilantes. Ao primeiro deslize,
deixará o corpo sem condições de regresso. Agora vá.
O rapaz estremeceu. Passou a mão pela testa, levantou-se um tan
to desconcertado e sentou-se novamente. Émerson aproximou-se de
Laura, que dormia, e colocou a mão direita sobre sua testa, dizendo: - Volte, Laura. O perigo passou. Está tudo bem.
Ela abriu os olhos e, vendo o noivo ajoelhado a seu lado, abra
çou-o assustada.
- Onde estou? Tive um pesadelo horrível. - Calma. Acabou. Está tudo em paz.
Ele a ajudou a levantar-se. Ofereceu-lhe uma cadeira para que se sentasse. Depois murmurou comovida prece de agradecimento
pela ajuda recebida e encerrou a reunião.
As luzes foram acesas e havia no rosto de cada pessoa uma indagação. Émerson explicou:
- Vocês nunca haviam participado de um trabalho deste nível. Isso mereceria uma aula especial, o que não é possível agora.
Está todo mundo bem?
245
Eles acenaram que sim e ele prosseguiu:
- Esta noite vocês viram a incorporação de uma pessoa viva.
- Se ele não aceitasse a proposta, seria mesmo tirado do corpo? - indagou Marcelo.
- Não sei. É provável que sim. A morte é uma escolha. De um jeito ou de outro cada um escolhe o momento de ir. Embora não
seja uma escolha consciente, o livre-arbítrio
é sempre respeitado.
- Será que ele vai cumprir o prometido? - indagou Renata.
- Os espíritos que estavam aqui são de alta hierarquia e cumprem o que dizem. Vão acompanhá-lo e, se ele recomeçar com o
mal, encontrarão meios de persuadi-lo.
- Eu não acreditava em bruxaria - considerou Valdo -, mas, depois do que vimos, não dá mais para duvidar. Laura chegou inconsciente,

o que me assustou muito. Eles
podem matar com uma magia dessas?
- Esse é um questionamento difícil de responder. Acredito que todos que vivem no bem sempre serão auxiliados e libertados.

O problema pode ser com alguém que opta
pela maldade e acaba tornando-se presa fácil desses espíritos. Eu confio na justiça divina e sei que não cai uma folha
da árvore sem a vontade de Deus.
- Sempre pensei que as pessoas boas, que vivem no bem, jamais fossem envolvidas por essas magias. Pelo que entendi, a bruxaria
era contra você e Laura. Vocês vivem
só no bem, ensinandonos a pensar positivo e fazer sempre o melhor que podemos. Por que foram atingidos?
- Para que aprendêssemos a lidar com essas energias. Todos nós estamos encarnados em um mundo onde há espíritos de vários
níveis de conhecimento. Além disso, há
aqueles que desencarnam e, presos aos interesses mundanos, não querem deixar a Terra, permanecendo no astral, circulando
por este mundo, influenciando as pessoas.
Para aprender a conhecer o teor das energias que nos cercam e desenvolver resistência às mais negativas, precisamos senti-las.
Como são desagradáveis, desequilibrando
o sistema nervoso, provocando vários sintomas físicos, reagimos procurando ficar bem. Assim, vamos nos tornando mais resistentes
a essas energias. A sabedoria e
o conhecimento tem o preço da experiência que cada um terá de pagar. Agora vamos embora. Outro dia falaremos mais sobre
este tema.
Enquanto as pessoas saíam, Émerson aproximou-se de Alzira.
- Obrigado por ter vindo.
- Não sei por que me convidou. Estou envergonhada. Assim
246
que me sentei na cadeira, adormeci e só acordei quando as luzes se acenderam. Não vi nada do que aconteceu. Acho que nunca
mais vai me convidar.
Émerson sorriu e seus olhos brilharam quando disse:
- Você saiu do corpo e trabalhou muito. Gostaria de poder contar com você aqui no instituto.
- Mas eu não fiz nada. Tem certeza de que fui eu?
- Tenho. Você esquece tudo assim que volta ao corpo. Gostaria de ensinar-lhe alguns exercícios para que aos poucos se torne
mais consciente.
- Quer dizer que eu me lembraria de tudo que você diz que eu fiz?
- É. Se quiser, posso ensinar. Você precisa fazer uma iniciação espiritual. Os espíritos que a acompanham são muito iluminados.
- É por isso - tornou Valdo - que eu me sinto tão feliz ao lado dela.
- Vocês serão muito felizes juntos.
Eles saíram de mãos dadas, e seus olhos brilhavam de felicidade. Depois que todos se foram, Émerson abraçou Laura, dizendo:

- Felizmente acabou tudo bem.
- Por que fizeram isso comigo?
- Queriam nos separar, mas ninguém vai conseguir. Você é a companheira que escolhi para viver pelo resto da vida. Almerinda
aproximou-se, dizendo:
- Laura precisa alimentar-se. Não comeu nada hoje. Deve estar se sentindo fraca.
- Não estou, não, mãe. Mas meu estômago está avisando que quer comer.
Eles riram. Émerson apagou as luzes e saíram abraçados. Estavam alegres e em paz.
247


Uma semana depois, Mildred levantou-se decidida a procurar alguns amigos e tentar descobrir se havia alguma novidade com
relação a Émerson e Laura.
Tomou café e foi ao clube.
Encontrou duas conhecidas estendidas ao lado da piscina. Aproximou-se e puxou conversa. A certa altura, uma delas, olhando
maliciosa para Mildred, disse:
- Você já recebeu o convite de casamento de Émerson?
Mildred empalideceu e procurou controlar-se:
- Convite? Li na revista que marcaram a data.
- Ontem à tarde recebemos o convite. Será dentro de três semanas.
- Não, ainda não recebi.
- Ontem à noite estive na casa de Laura e estavam felicíssimos. Compraram uma casa maravilhosa! Vocês precisam ver a decoração!
Mildred esforçou-se para controlar-se.
249

Pelo jeito, pai Tomé não havia conseguido nada. Fora ingênua dando-lhe dinheiro, acreditando que tivesse algum poder.

Aquilo não podia ficar assim. Ele teria
de devolver seu dinheiro ou ela o denunciaria. Sabia como fazer isso sem aparecer.
Logo protestou um compromisso e saiu. As duas moças trocaram olhares maliciosos:
- Viu como ficou descontrolada? Eu não disse que ela ainda gosta dele?
- Vi. Saiu furiosa. Pobre de quem cruzar com ela hoje.
- Do que Émerson se livrou! Laura é tão diferente! - É mesmo. Com ela ele será muito feliz.
Mildred deixou o clube e dirigiu-se imediatamente ao terreiro
de pai Tomé. Uma vez lá, tocou a campainha, mas ninguém aten
deu. Bateu palmas e nada. Tentou olhar pelo buraco que havia no
portão de madeira e não viu ninguém.
Resolveu aguardar um pouco. Foi para o carro e ficou meia hora
esperando, mas ninguém apareceu. Desceu e foi tocar novamente a
campainha. Um rapazinho que passava aproximou-se:
- Moça, está procurando pai Tomé? Ele foi embora. - Como foi embora? Para onde?
- Ninguém sabe, não, senhora. Ele fez a mudança à noite. Foi
embora sem se despedir de ninguém.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não sei. O fato é que ele estava apressado. Disse que não ia
atender mais ninguém.
- E os companheiros dele, também foram?
- O que sei é que todos sumiram. Não vai adiantar esperar. Mildred voltou para o carro nervosa. Fora enganada. Nem se
quer tinha como desabafar a raiva. Sentia a cabeça doendo, o estô
mago enjoado e um gosto amargo na boca.
Precisava fazer alguma coisa para impedir aquele casamento.
Mas o quê? Durante o trajeto de volta, tentou pensar em algo viá
vel, mas não conseguiu.
Uma vez em casa, decidiu aproximar-se do casal para ver se con
seguia ter alguma idéia. Naquela noite, iria ao instituto a pretexto
de informar-se sobre os cursos.
Chegou lá pouco antes das oito e dirigiu-se à secretaria, olhan
do em volta para ver se via um dos dois que lhe interessavam. Naquele momento, Émerson estava em sua sala, analisando alguns
documentos. De repente sentiu uma onda de energia desagradável.
250
O rosto de Mildred surgiu em sua mente. Imediatamente ligou para a secretaria, dizendo:
- Está aí com você uma moça chamada Mildred? - Está.
- Preciso falar com ela. Encaminhe-a até minha sala.
A secretária desligou e voltou-se para Mildred:
- Émerson deseja falar com você. Pediu-me para acompanhá-la
à sala dele.
Mildred sentiu-se agradavelmente surpreendida. Seria uma boa oportunidade para descobrir o que desejava. Acompanhou-a de
bom grado.
A moça bateu levemente na porta, abriu-a e Mildred entrou. - Como vai, Émerson? Que prazer vê-lo! - Entre, Mildred. Quero
conversar com você. Sente-se.
Ele apontou uma cadeira em frente à sua mesa. Esperou que ela
se acomodasse e continuou:
- Posso saber o que veio fazer aqui?
- Informar-me. Pretendo inscrever-me em algum curso.
- Várias vezes você esteve no instituto. Assistiu a palestras, cursos, mas não aprendeu nada. Acho que agora não temos mais
nada para oferecer-lhe.
- Como assim?
- Não vou aceitar você em nenhum de nossos cursos. Ela se levantou irritada:
- Por quê? Eu posso pagar como qualquer pessoa.
- Sente-se e escute. Vou dizer-lhe por que tomei esta decisão. Você vem aqui, mas não está interessada em aprender. Anos
atrás, antes de minha viagem para o exterior,
fui muito franco com você. Expliquei-lhe por que estava terminando nosso namoro. Eu senti que não desejava me casar com
você. Não lhe dei nenhuma esperança de reatar
algum dia. Apesar disso, quando voltei notei que você ainda alimentava essa ilusão.
- Eu sempre o amei!
- Só que eu nunca alimentei esse seu sentimento. Descobri que amo Laura. É com ela que desejo viver pelo resto dos meus
dias. Mas você não se conforma com isso.
Quer a todo custo nos separar, acreditando que ainda tem alguma chance comigo. Mas não há nenhuma possibilidade.
- Como pode dizer uma coisa dessas? Não posso evitar de sentir esse amor.
- Nós somos muito diferentes, Mildred. Nunca seríamos felizes juntos.
- Está sendo injusto comigo. Eu quero aprender o que você ensina. Por que não me deixa freqüentar o instituto?
- Porque se você houvesse aproveitado o que aprendeu aqui não teria ido à procura de um pai-de-santo para nos prejudicar.

Saiba que os favores desses espíritos desequilibrados
e interesseiros têm um preço muito alto que um dia terá de pagar.
-- Quem lhe contou? Acho que foi a boba da Mirtes. Ela passou mal, ficou com medo e veio atrás de você. Só pode ser isso!
- Então Mirtes sabia! Mas não foi ela quem me contou. Saiba que tenho amigos espirituais que me protegem. Foram eles que
me contaram tudo. Devo esclarecer que aquele
pai-de-santo não vai mais atrapalhar a vida de ninguém. Deixou definitivamente de fazer suas bruxarias.
Mildred empalideceu e sentiu as pernas bambas. O ar faltoulhe e ela pensou que ia desmaiar.
Émerson apanhou um copo de água e ofereceu-o a ela, dizendo:
- Beba. Estou lhe contando a verdade para ajudá-la. Não lhe desejo mal. Quero que pense bem no que estava fazendo e nos
riscos que corre envolvendo-se com forças
negativas que não conhece. Isso poderá custar-lhe muito caro. Por outro lado, analise sua vida, perceba quantotempo perdeu
alimentando uma ilusão que só lhe trará
tristeza. Você é jovem, bonita, tem classe. Não perca seu tempo, sua juventude, esperando alguma coisa que nunca acontecerá.
A atitude inesperada de Émerson deixou Mildred chocada a tal ponto que lágrimas começaram a descer pelas faces pálidas.

Émerson continuava:
- Pense, Mildred. Cuide de você, de sua vida. Não espere nada dos outros. Aceite o possível e procure dentro de você, de

seu coração, coisas que lhe dêem prazer.
Você é um espírito eterno. A vida a criou para a felicidade, mas essa é uma conquista que depende de você. Só de você. Procure
me esquecer, pois nunca voltarei para
você. Agora pode ir. Desejo que seja muito feliz.
Mildred apanhou a bolsa, pegou o lenço, enxugou as lágrimas, depois olhou-se no espelho, retocou a maquiagem, guardou tudo

e levantou-se.
- Você está me mandando embora. Nunca pensei que fosse capaz disso.
- Para nós, neste momento, é melhor ficarmos separados. Se
252
um dia a vida nos reunir novamente, espero que estejamos melhor e que nossa convivência seja mais agradável.
Ela não respondeu nada. Virou-se e saiu. Vendo-a, ninguém diria que havia chorado nem que fora desmascarada. Contudo, por
dentro, ela estava chocada. Olhar de frente
para a própria maldade é doloroso e difícil. Encarar as conseqüências do erro colocadas claramente pode ser desagradável,

mas sempre será proveitoso.
No trajeto de volta, ela não conseguia esquecer as palavras de Émerson. Como ele havia descoberto tudo? Só poderia ter sido
Mirtes. Como ela pôde ter sido tão traiçoeira?
Dizia-se sua melhor amiga e a traíra pelas costas.
Lamentou que ela estivesse ausente. Porém não lhe perdoaria aquela atitude. Por mais que negasse, só ela poderia ter contado.

Não acreditava naquela história de
que um espírito houvesse dito.
Émerson usara tal desculpa para proteger Mirtes. Poderia até ser que algum conhecido a tivesse visto indo ao terreiro. Mas,

ainda assim, como ele poderia saber por
que ela fora lá?
Émerson afirmara que pai Tomé nunca mais atenderia ninguém. Era possível que a polícia estivesse sabendo do caso.
Mildred continuava questionando sem ter certeza de nada. Quando Mirtes voltasse, teria de contar-lhe o que sabia.
Sua cabeça doía e as indagações misturavam-se a tal ponto que, ao chegar em casa, ela procurou um comprimido e foi deitarse.

Em um ponto Émerson estava certo: ela
havia perdido os melhores anos de sua juventude esperando por ele, acreditando que um dia ele voltaria.
O que fazer de sua vida agora, depois que ele afirmou de maneira tão categórica que nunca mais voltaria? Como retomar as
ilusões dos tempos de juventude e procurar
um outro amor?
Diante do espelho, no quarto, examinou-se friamente. Estava um tanto pálida, abatida, mas era bonita, elegante, tinha classe,

dinheiro. Por que se prendera tanto
a um amor que ele nunca sentira por ela?
A dor da rejeição machucava, e Mildred sentou-se na cama, chorando copiosamente. Não se lembrava de haver chorado tanto
antes. Quando as lágrimas secaram, sentiu-se
cansada. Encheu a banheira, colocou sais perfumados na água, despiu-se e sentou-se dentro dela.
Era agradável ficar assim, e ela se lembrou de que quando era criança sua mãe costumava deixá-la tomar um banho desses em
sua
253
banheira cheia de sais perfumados. Ela considerava aquilo um presente. Era como se ela fosse a mãe, a dona daqueles aposentos,

os mais luxuosos da casa.
De repente, uma dúvida acometeu-a. Se houvesse casado com Émerson, seriam felizes juntos? Ela não gostava das idéias dele

nem do tipo de vida que ele levava. Não
tinha paciência para ouvi-lo falar de seus estudos nem de seu instituto.
Reconheceu que odiava aquele instituto. Aos poucos foi percebendo que eles eram mesmo muito diferentes. Ela amava o jovem
adolescente que conhecera anos atrás, não
o homem que ele havia se tornado.
Ele não era como ela gostaria que fosse. Reconhecia isso. Essa ilusão havia infelicitado toda a sua vida. Por causa dele,
nunca olhara para os rapazes que a procuravam,
nem aceitara a corte de ninguém. Havia se fechado prisioneira de uma ilusão, de um sonho infantil que nunca se tornaria
realidade.
Naquele momento percebeu a verdade que havia nas palavras que Émerson lhe dissera. Agora precisava dar novo rumo à sua vida.
Talvez uma viagem lhe fizesse bem. No
dia seguinte iria a uma agência de turismo. Passar uma temporada em Nova Iorque seria interessante. Ela gostava de diversão,

movimento. Talvez Los Angeles ou Las
Vegas.
Permaneceu na banheira fazendo planos de viagem até sentir sono. Depois enxugou-se, colocou o pijama e deitou-se. Estava
tranqüila, a dor de cabeça havia passado.
Ajeitou-se e dormiu logo. Sonhou com dois homens de fisionomia desagradável que conversavam com ela.
- Você não pode desistir assim - disse um deles.
- Não é justo - emendou o outro. - Depois de tudo que você passou estes anos todos, agora vai deixar que ele se case e seja
feliz com a outra?
- Você precisa lutar pelo seu amor.
Mildred olhou-os séria e respondeu:
- Deixem-me em paz. Agora quero cuidar de minha vida. Chega
de perder tempo. Vou cuidar de minha felicidade.
- Sua felicidade está com ele - respondeu um. - Isso mesmo. Nós podemos ajudar você. Ela deu de ombros e respondeu:
- Não adianta. Não dá mais. Ele não serve para mim. Eu
estava iludida.
254
- Somos amigos de pai Tomé. Ele desistiu, mas nós não. Continuamos trabalhando para você.
Mildred olhou-os, sacudiu a cabeça e deu uma gargalhada.
- Não acredito em espíritos. Isto é um sonho. Vocês vão sumir e nunca mais me apareçam, porque não acredito. Nunca mais
vou procurar um pai-de-santo. Chega! Eu não
estou aqui para ser enganada.
- Você pediu, nós ajudamos. E agora você tem de retribuir. Não vai se ver livre de nós assim.
Mildred olhou-os com raiva e gritou:
- Vou. Vocês vão embora. De hoje em diante não vou alimentar nenhuma ilusão. Espíritos não existem. Sonho é ilusão. Deixem-me
em paz. Eu não devo nada a ninguém.
Pai Tomé não fez nada, não tem nenhum poder. Eu não lhes devo nada. Agora vão embora!
Mildred disse isso com tanta força que os dois foram arremessados longe. Enquanto ela se afastava, um disse ao outro:
- É melhor irmos embora de vez. Essa é páreo duro. Não vai nos obedecer.
- É. Vamos procurar outra. Ela deu nó até em pai Tomé. É melhor irmos embora mesmo.
Os dois se afastaram e Mildred continuou dormindo tranqüila. No dia seguinte, acordou descansada. Fazia tempo que não se
sentia tão bem.
Levantou-se disposta a programar sua viagem. Abriu as janelas do quarto aspirando com satisfação o perfume das flores que
vinha do jardim.
A lembrança do que acontecera na véspera apareceu de repente em sua mente, provocando certa tristeza.
- É natural - pensou -, mas a partir de hoje tudo será diferente. Não quero me sujeitar a um casamento e às obrigações de
criar uma família. Vou aproveitar a mocidade,
divertir-me, participar das coisas com interesse, descobrir novamente o prazer de viver.

Na tarde anterior, depois que Mildred saiu de sua sala, Émerson ligou para Laura combinando ir buscá-la dali a uma hora.

Os preparativos para o casamento iam adiantados
e eles precisavam ver como andava a decoração da casa. Com alegria, eles examinaram tudo na mansão em que iriam viver depois
do casamento.
Estava escurecendo quando saíram de lá e Émerson convidou
255
a para um lanche em uma confeitaria. Enquanto comiam, Laura tocou no assunto que a incomodava:
- Não me conformo com o que me aconteceu. Sempre fui uma pessoa equilibrada. Não podia ter me deixado dominar daquele jeito.
- Há coisas que ainda temos dificuldade para explicar. Esqueça isso, já passou. Você me parece bastante bem.
- Fisicamente, sinto-me bem. Porém estou fragilizada. Não sabia que era tão vulnerável.
- A magia foi feita para mim, e não foi a primeira vez.
- Você não me disse nada.
- Nesses assuntos, o melhor é não dar importância e buscar proteção. Como eu reagi, busquei ajuda espiritual e consegui
anular, eles foram atrás de você, que não
estava treinada como eu na identificação dessas energias.
- Eles pretendiam me matar?
- Eles queriam nos separar. Um amigo espiritual que nos protege avisou-me e ensinou como anular essas energias.
- Fiquei sem forças. Não conseguia pensar, só queria dormir. Mas era um sono desagradável, pesado.
- Era um transe hipnótico.
- Você disse que aquilo foi feito por um pai-de-santo encarnado. Como é que ele teve tanta força?
- A força deles é aparente. O mal vive de ilusões, explorando os pontos fracos e as crenças das pessoas.
- Depois de haver estudado tanto as energias, não consegui resistir.
- Quando estamos estudando o mundo das energias e suas influências, a vida nos permite vivenciar essas experiências para
aprendermos como funcionam e como nos tornarmos
imunes a elas.
- Quando eu ignorava o assunto, não sentia suas influências.
- Ninguém é imune a elas. Claro que, desenvolvendo a sensibilidade, você as percebe mais. Quem desconhece o assunto, ao
sentir essas influências, pensa que está
doente fisicamente. Recorre aos médicos, toma remédios.
- É por isso que em muitos casos os médicos não encontram nada e receitam calmantes, terapias.
- Os calmantes só ajudam quando o problema é emocional, ou físico. Nos casos de obsessão, de influências de espíritos, eles
fazem mal.
256
- Por quê?
- Porque, anulando a resistência, os espíritos dominam a pessoa com mais facilidade. É por isso que quando sinto algum problema
de saúde repentino, como dor de cabeça,
primeiro recorro à prece, peço ajuda espiritual. Como sou pessoa saudável, ela passa e nunca preciso de remédio.
- Já tive diversos males que com meditação e oração sumiram sem que eu tomasse nada.
- Os males provocados por energias negativas atingem nosso corpo astral e provocam sintomas que se refletem no físico: dores

que circulam ora de um lado ora de outro,
atordoamento, náuseas, arrepios, desânimo, fraqueza, etc. Se nos assustarmos, tivermos medo, elas se tornam mais fortes.

Se mantivermos a calma, não dermos importância
a elas e nos ligarmos com o bem, com a espiritualidade maior, elas vão embora. As vezes é preciso treino e tempo para conseguirmos
isso. Mas é compensador. Quando
nos livramos delas, recuperando o equilíbrio, tomamos consciência do próprio poder e da proteção divina, que nunca nos desampara.
- Depois do que passei, ficarei alerta.
- Após a conversa que tive com Mildred, acho que ela nunca mais tentará nada.
- Eu sabia que havia sido ela. Nunca aceitou nosso noivado. Muitas vezes eu sentia o olhar dela cheio de ódio sobre nós,

embora fizesse tudo para dissimular.
- É preciso compreender. Eu mudei, cresci, aprendi. Tive mestres maravilhosos que me ensinaram a enxergar a vida sob a óptica
da espiritualidade. Ela permaneceu
igual, com a mente parada na adolescência, alimentando as ilusões, distanciada da realidade. Enquanto eu evoluía, ela alimentava
o impossível. Nós somos muito diferentes.
Quando namoramos, eu era um jovem preocupado com as aparências. Sentia-me feliz por namorar uma garota que todos cobiçavam.

Quando perdi meus pais, fui sacudido
pela força espiritual, surgiram os questionamentos. Foi quando percebi que Mildred não tinha condições de me compreender,

que meus valores haviam se tornado muito
diversos dos dela. Tentei conversar, mas ela não entendeu. Antes de viajar sem data para voltar, acabei com nosso namoro,

falei de minhas razões, fiz minha parte.
Por isso, não me culpo pelo fato de Mildred ter continuado esperando.
- Ela preferiu segurar o sonho ao invés de enfrentar a verdade. - Isso mesmo. Mas, depois da conversa que tivemos, sei que
ela
257
finalmente compreendeu quanto somos diferentes. Nunca seríamos felizes juntos.
- Tem certeza de que ela não voltará a nos prejudicar?
- Tenho. Mostrei-lhe quanto se prejudicou alimentando um sonho impossível. Senti que compreendeu. Por isso, hoje estou particularmente
feliz.
- Eu também. Faço votos de que ela encontre a felicidade. Houve um tempo em que senti muito ciúme dela. Mas isso também
foi uma ilusão de nossa adolescência.
- Naquele tempo você escondia seu brilho. Só consegui vê-lo quando regressei.
- Eu admirava as garotas que se sobressaíam, tinham admiradores. Como eu não tinha jeito para agir como elas, me menosprezava.

Durante muitos anos vivi retraída,
com medo de me expor. Foi você quem me ensinou a enxergar minhas qualidades, a reconhecer meus valores, a ter paciência
com meus pontos fracos.
- Apesar das diferenças, ninguém é menos. Cada pessoa tem dentro de si a essência divina. Fomos ensinados a olhar para fora,

valorizar mais os outros. É elegante
diminuir-se para que os outros brilhem. Muitos pagam um preço caro por essa ilusão.
- Vivem à margem da vida, insatisfeitos, procurando conformar-se com o pouco que tem.
- Quem acredita que é menos merece pouco. A vida nos deu um potencial imenso para desenvolver. Ela nos estimula de várias
formas, mas a conquista do progresso é
trabalho nosso. Ninguém pode fazê-lo por nós. Quando você se omite, está falhando em sua mais importante missão, que é a
de cuidar de si.
- Dizem que é egoísmo.
- Egoísmo é julgar-se superior aos outros. Se ninguém é menos, também ninguém é mais. Alguns estão mais desenvolvidos espiritualmente
que outros, mas todos têm o
mesmo potencial. Essa é a justiça divina. Mesmo Ele tendo criado a diversidade, não existem duas pessoas iguais. Mas todas
têm potenciais que, se desenvolvidos,
as tornariam felizes e realizadas. Mas essa é uma conquista individual.
- O fato de eu cuidar de mim, do meu progresso, reconhecendo minhas qualidades, meus pontos fracos, não significa que eu
precise menosprezar os outros. Para mim,
eu estou em primeiro lugar. Tenho de trabalhar para suprir minhas necessidades e tornar-me uma pessoa melhor. Mas o respeito
aos outros é necessário.
258
- Respeitar significa aceitar os outros como são, sem a pretensão de querer mudá-los.
- Resta-nos o cuidado de escolher bem os amigos. Quanto às pessoas em geral, deve-se ter o bom senso de evitar as que nos
incomodam.
Émerson sorriu.
- Vejo que aprendeu depressa.
- Desejo que Mildred nos esqueça. Não sinto nenhuma mágoa pelo que nos fez, mas não quero conviver com ela.
- Todos temos o direito de preservar o próprio equilíbrio evitando energias que nos perturbam.
Continuaram conversando, esquecidos do tempo, imersos na afinidade de pensamentos que tornava seu relacionamento agradável.

Juntos sentiam-se bem. Ambos interessavam-se
em aprender a viver melhor.

No fim da tarde Marcelo deixou o escritório, passou em uma banca de jornais, comprou uma revista e foi para casa. Como
sempre fazia antes do jantar, tomou um banho.
Enquanto esperava a refeição, sentou-se na sala para ler a revista.
De repente estremeceu. Havia uma foto de Rômulo e Nora abraçados, e a legenda dizia que, como o casamento se realizaria
em quinze dias, eles estavam atarefados com
os preparativos da festa.
Marcelo pensou em Renata. Teria ela visto a reportagem? Pensou em ligar, mas hesitou. Se ela não a viu, não seria ele a
dar-lhe a notícia.
A mãe chamou-o para o jantar, e ele sentou-se à mesa calado. Iolanda olhou-o séria e indagou:
- Aconteceu alguma coisa? Você parece preocupado.
- Não houve nada. Estava pensando em uma matéria que li na revista.
Após o jantar ele subiu para o quarto. Sentia-se inquieto, preo
cupado. Renata não saía de seu pensamento. Resolveu telefonar para
saber como ela estava. Decidiu que não tocaria no assunto.
Ligou e depois dos cumprimentos ele procurou conversar sobre
outros assuntos. Renata estava comunicativa e alegre como sempre,
e ele concluiu que ela não havia visto a revista.
- O que você está fazendo agora? - indagou ela. - Nada. Não tenho nenhum programa para hoje. - Nesse caso, venha tomar
um café comigo.
259
- Está bem, irei. Dentro de quinze minutos estarei aí.
Satisfeito, ele se arrumou e saiu. Seria bom estar por perto, caso alguém contasse a ela que em duas semanas Rômulo estaria
casado.
Durante o trajeto foi pensando em Renata. Sentia um carinho muito grande por ela. Tinha vontade de protegê-la para que ninguém
a fizesse sofrer.
Parou em uma floricultura e comprou algumas rosas. Quando tocou a campainha, o criado abriu a porta. Renata estava logo
atrás dele sorrindo.
Marcelo entrou e entregou-lhe as flores. Ele notou que os olhos
dela brilharam de satisfação.
- Que lindas, Marcelo! Venha, vamos colocá-las num vaso. Ele a acompanhou até a sala de estar e a observava enquanto ela
arrumava as flores. Seu rosto estava tranqüilo e corado, a expressão
de seu rosto era alegre.
- Pedi para você vir porque estou me sentindo muito feliz e
queria dividir esta alegria com você.
- Gosto de vê-la assim.
Sentaram-se no sofá e Renata contou que os pais haviam saído.
Marcelo convidou:
- A noite está muito bonita. Vamos dar uma volta, tomar um
sorvete?
- Vamos. Vou apanhar a bolsa.
Enquanto ele esperava, aproximou-se do porta-revistas e estremeceu. Em cima de todas as publicações estava um exemplar da
que ele havia comprado. Talvez Renata não
a tivesse visto ainda. Sentiu vontade de escondê-la. Mas nesse instante ela estava de volta.
- Vamos?
Saíram, e Marcelo estava indeciso. Não sabia se deveria tocar
no assunto, preveni-la, porque fatalmente ela leria a notícia. - Você mudou, ficou calado. O que foi? - Nada.
- Você tem alguma coisa. Por que não me conta?
- Não há nada. Gosto de vê-la alegre, e não desejo que nada
venha perturbar essa sua alegria.
- Você é meu melhor amigo. Vou contar-lhe o motivo da mi
nha felicidade.
- Eu sabia que havia algum.
Ele parou o carro, virou-se para ela e esperou.
- Hoje eu estou livre, completamente livre do passado.
260
- Explique melhor.
- Minha mãe trouxe uma revista esta manhã e encontrei nela notícias do casamento de Rômulo em breve. Não senti absolutamente
nada. Olhando os dois, pareceu-me estranho
que eu tivesse sofrido por ele. Foi como se tivesse caído uma venda de meus olhos. Então recordei-me de todas as implicâncias
dele, dos momentos desagradáveis do
nosso namoro, de como ele agia comigo, e cheguei à conclusão de que nunca o amei de verdade. Era por vaidade que eu me sentia
no ápice quando desfilávamos juntos
em sociedade. Descobri que esse namoro foi a forma que encontrei de me projetar como uma moça de classe, de sucesso. Foi
por vaidade ferida que sofri tanto com nosso
rompimento. Eu o usei como uma bengala para aparecer, porque me achava menos, sem condições de agradar por mim mesma. Foi
você primeiro e depois Émerson que me fizeram
enxergar a vida de outra forma. Aprendi com vocês a me ver como sou, a sentir que não preciso me apoiar nos outros para
ser feliz. Pedi para você vir porque queria
que soubesse como me sinto.
Os olhos de Renata brilhavam emotivos. Marcelo sentiu-se tocado e num gesto carinhoso abraçou-a apertando-a de encontro
ao peito. Depois beijou-a nos lábios com
amor. A emoção irrompeu forte e eles se beijaram longamente várias vezes.
- Eu a amo - disse ele emocionado. - Nunca senti por ninguém o que estou sentindo agora. Gostaria que este momento fosse
eterno.
- Eu ainda não sei o que é esta emoção que me invadiu quando me beijou. Também não havia sentido nada assim antes. Não sei
se é amor, mas este momento é mágico e
eu quero que me beije mais.
Eles se beijaram novamente, depois ela descansou a cabeça no peito dele e permaneceram assim longamente, sentindo as emoções
do momento, o prazer da descoberta e
a alegria de um amor correspondido.
261

Sentada na primeira classe do avião, Mirtes sentia-se impaciente para chegar a São Paulo. A viagem ao lado de Humberto tinha
sido maravilhosa. Ele, muito apaixonado,
disposto a agradar, cercava-a de atenções. Habituado àquelas viagens, levava-a para conhecer o que havia de mais interessante,

hospedava-a nos melhores hotéis e,
o que a deixava mais contente, dera-lhe um cartão de crédito sem limites para gastar.
Além de comprar roupas de grifes famosas, jóias e tudo que sua fantasia inventava, freqüentava os melhores salões de beleza.

Mirtes tinha bom gosto e com todo trato
havia se tornado ainda mais bonita. Por onde passava despertava interesse, e Humberto não escondia o ciúme, não a deixando
sozinha em momento algum.
De volta ao Brasil depois de um mês e meio de lua-de-mel - eles haviam esticado a viagem -, Mirtes não via a hora de chegar

para poder desfilar pela alta sociedade
263
usando as coisas lindas que comprara. Sentia prazer em provocar inveja nas mulheres e cobiça nos homens.
Finalmente o avião aterrissou em São Paulo. No saguão do aeroporto, o motorista de Humberto os aguardava. Os filhos dele
não foram esperá-los, cada um pretextando
uma desculpa. Mirtes não se importou. Sentia que os dois rapazes não haviam aceitado o casamento, mas essa atitude não a
incomodava. Pior para eles.
Uma vez em casa, enquanto os criados cuidavam da bagagem, que era volumosa, Mirtes percorreu a luxuosa propriedade, olhando
cada canto com olhos brilhantes de orgulho.
Tudo aquilo era seu! Finalmente era mulher da alta sociedade. Imaginou as festas que daria no magnífico salão, as pessoas
que convidaria. Certamente Valdo com a
família. A lembrança da cena de Alzira nos braços dele enchia-a de raiva. Mas, por outro lado, não levava aquilo muito a
sério.
Valdo era namorador. Alzira deve ter dado em cima e ele aproveitou. Era provável que nunca mais houvessem se encontrado

e tudo não tenha passado de um flerte de
festa.
Reconhecia que Alzira havia ficado bonita vestindo aquelas roupas, usando jóias e tendo sido cuidada por gente capacitada.

Mas Valdo estava familiarizado com mulheres
de classe, e Alzira seria uma entre tantas.
Com o tempo, ele ainda haveria de se interessar por ela. Agora que ele não precisaria assumir nenhum compromisso, tudo seria
mais fácil.
Mirtes estava disposta a conquistá-lo de qualquer jeito. Ele sempre se mostrou arredio, e isso o tornava mais interessante.

Era o que faltava para que a felicidade
dela fosse completa.
Humberto aproximou-se solícito:
- Não está cansada?
- Não. Estou ansiosa para ver nossos amigos.
- Entendo que sinta saudade de sua família. Foi a primeira vez que saiu de casa durante tanto tempo. Mas viajamos a noite
toda.
Saudade da família foi o que ela não sentiu em nenhum momento. Mas não negou. Para Humberto ela precisava continuar fazendo
o papel da boa moça. Por isso respondeu:
- Eu gostaria de ir lá agora mesmo. Mas tem razão: precisamos descansar. Vou mandar a criada preparar um bom banho com aqueles
sais que comprei em Paris. Preciso
ficar cheirosa e descansada para meu marido.
264
Ele a beijou delicadamente nos lábios e Mirtes esboçou ligeiro protesto, alegando:
- Estou transpirando. Não quero que se aproxime. Fico constrangida.
- Não fique. Você está sempre cheirosa. - Vou subir e me preparar para você.
Ele sorriu contente. Enquanto circulava pela casa com o mordomo, verificando tudo, ele se sentiu o mais feliz dos homens.

A indiferença dos filhos, que nem foram
ao aeroporto dar-lhes as boasvindas, não o incomodava. Ao contrário, justificava-se pensando que casar havia sido providencial,

porquanto filhos não se importam
com a solidão dos pais. Cuidam de suas vidas, seguem seu caminho e pronto. Agora, ele nunca mais ficaria sozinho. Havia
encontrado uma companheira que o amava e
o fazia feliz.
Estendida na tepidez da banheira cheia de espuma, Mirtes apanhou o telefone e discou para Mildred. A criada atendeu e informou:
- Dona Mildred não está.
- Quando ela chegar, diga que Mirtes voltou. Peça-lhe para me telefonar.
- Ela viajou ontem para a Itália sem data para voltar. Mirtes sentou-se na banheira, surpreendida. - Viajou para a Itália?

Com quem?
- Ela foi sozinha. Dona Augusta não queria que ela fosse. Mas a senhora conhece Dona Mildred. Quando ela quer uma coisa,

não desiste.
- Ela não deixou nenhum recado para mim? - Não, senhora.
- Peça a Dona Augusta o telefone e o endereço do hotel onde ela vai ficar. Preciso falar com ela. Acabei de chegar de viagem.

Mais tarde telefono para saber.
Mirtes desligou intrigada. O que teria feito Mildred modificar seus planos? Estava curiosa. Mildred ajudara-a muito com
os preparativos e o cerimonial do casamento,
mas agora não precisava dela para nada.
Sentia-se segura em sua nova posição. Apreciava a companhia de Mildred porque com ela não precisava fingir. Ela era sua
única amiga. Desejava mostrar-lhe as compras
que fizera, falar dos lugares que visitara.
Demorou-se na banheira, imaginando como seria sua vida dali para a frente. Humberto era o marido ideal. Manejava-o com facilidade.
265
Seus projetos amorosos, que incluíam Valdo, não iam além da aventura que o mistério tornaria mais interessante.

Mas de forma alguma desejava perder o apoio
do marido, porque era importante conservar o respeito e as aparências.
Mirtes pretendia brilhar em todos os aspectos, inclusive no papel de esposa virtuosa. Gostava de representar papéis convenientes,
conforme o momento. Sentia-se esperta,
inteligente, capaz.

Naquela tarde Valdo conversava com o pai no escritório sobre os negócios da empresa. Tudo ia muito bem: as vendas aumentando,

os clientes satisfeitos com o desempenho
dos novos produtos, que se multiplicavam rapidamente.
- Estou pensando em viajar um pouco com sua mãe - disse Péricles.
- Quando pensa ir?
- Laura se casa na semana que vem. Pensamos em partir alguns dias depois do casamento, o tempo suficiente para sua mãe se
preparar. Sabe como ela é.
- Sei. É uma boa idéia. Quanto tempo pensa ficar fora?
- Não sei ainda. Vai depender de Almerinda. Estou disposto a ficar quanto tempo ela desejar. Antigamente nossas viagens
eram curtas por causa dos negócios, mas agora,
com você na direção, podemos nos demorar.
- Aproveitem bem, porque, quando voltarem, será minha vez. Tenho viajado muito a trabalho, mas desta vez pretendo sair a
passeio.
- Sozinho não tem graça. Aliás, sua mãe ontem estava falando sobre você.
- Falando o quê?
- O casamento de Laura com Émerson deu-nos dupla satisfação. Ele sempre foi como um filho para nós. Tenho certeza de que
serão muito felizes e logo nos darão os
netos que desejamos. Mas você é mais velho do que ela e nem pensa em formar uma família.
- Não devem se preocupar com isso.
- Não é uma preocupação, mas uma interrogação. Você circula, as moças ficam em volta, é amável com elas, namora aqui e ali,
mas que eu saiba nunca se apaixonou para
valer.
- Não sou volúvel, pai. Estava apenas procurando encontrar a mulher com a qual valeria a pena casar.
- Estava? Quer dizer que já a encontrou?
- Sim.
266
Péricles sorriu e perguntou:
- Quem é ela? Nós conhecemos?
- Ela não é de nossa roda de amigos, mas vocês a conhecem. Estamos namorando. Se ela me quiser, acho que chegarei ao casamento.
- É mesmo sério! Gostaria de conhecê-la.
- É cedo. É uma moça de boa família, linda, lúcida, bonita por dentro e por fora!
- Você está apaixonado mesmo.
- Estou. Por mim, casaria amanhã. Mas preciso ir com calma. Ela também me ama, mas reluta, porque vive do próprio trabalho
e não pertence ao nosso meio social.
- Isso é bobagem. Quando conheci Almerinda, ela também trabalhava para se sustentar.
- Mas você também não era rico. Para mim o que conta são os valores espirituais, as qualidades pessoais. Conheci muitas
mulheres bonitas, mas nenhuma delas provocou
em mim esse sentimento de euforia, de alegria, de paz que sinto quando estou com ela.
- Nesse caso, decida de uma vez. Peça-a em casamento e pronto. Você não precisa casar com moça rica. O que você possui
é mais do que suficiente para manter uma
família. Se ela é tudo isso que você diz, não perca tempo. Não lhe dê chance de pensar muito.
Valdo sorriu. Talvez o pai estivesse certo. Depois que Péricles se foi, Valdo ficou pensando e tomou uma decisão. Mandou
chamar Antônio em sua sala.
O pai de Alzira bateu levemente na porta.
- Entre, Sr. Antônio. Sente-se, por favor. Precisamos conversar.
Antônio sentou-se em frente à escrivaninha, dizendo:
- O senhor precisa de algum relatório? Não me disseram nada. - Não. Não vamos conversar sobre trabalho. Nosso assunto é
particular.
- Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu, Sr. Antônio. E preciso de sua ajuda. - Estou à disposição.
- Quero que dê seu consentimento para eu me casar com sua filha Alzira.
Antônio abriu a boca e fechou-a de novo sem encontrar de pronto uma resposta. Alzira não dissera nada, e ele ignorava que
estivessem namorando.
267
- Gostei de Alzira desde o primeiro dia em que a vi. Mas foi no casamento de Mirtes que nos entendemos. Estamos namorando.

Eu a amo e tenho certeza de que ela corresponde.
Apesar disso, hesita em me aceitar por causa de minha condição financeira. Não acho válido esse argumento. Por isso, recorro
ao senhor.
- Não sei o que dizer. Alzira não me disse nada.
- O senhor me conhece apenas profissionalmente. Sou um homem de bem, amo minha família, pretendo ser um bom marido para
sua filha.
- Não tenho dúvidas sobre isso. Mas é que preciso conversar com Alzira, saber o que ela quer. Também tenho de falar com
minha mulher. Não posso decidir nada sem
conversar com elas.
- Compreendo. Eu deveria ir à sua casa, fazer esse pedido de maneira formal. Desculpe. É que ainda há pouco conversei com
meu pai, que me sugeriu formalizar logo
o pedido.
- Dr. Péricles concorda com esse casamento?
- Claro. Minha família deseja minha felicidade. Aprova a moça que eu escolher. Espero que o senhor também aprove. Garanto
que farei Alzira muito feliz.
- Bem, de minha parte fico muito honrado com seu pedido. Se Alzira concordar, terei muito gosto em recebê-lo como genro.
- Isto merece uma comemoração.
Valdo levantou-se, foi à sala contígua e voltou com bandeja, garrafa e dois copos. Serviu o vinho, ofereceu um copo a Antônio

e tomou o outro, dizendo:
- Um brinde à felicidade de nossas famílias.
Tocaram os copos e Antônio tomou alguns goles. Sentia-se emocionado. Nunca imaginara que Alzira pudesse casar-se com o dono
da empresa. Ela, que sempre fora uma
moça simples, discreta, ia casar-se com um moço bonito e tornar-se muito rica.
- Gostaria que me recebesse em sua casa hoje à noite para tratarmos do assunto.
- Será um prazer. Estaremos à sua espera.
Antônio saiu da sala procurando refazer-se da surpresa. Passou por Alzira e disse:
- Venha à minha sala. Temos de conversar.
Pela fisionomia do pai, percebeu que alguma coisa havia acon
tecido. Imediatamente o acompanhou. Uma vez na sala, ele disse: - Valdo acabou de me pedir sua mão em casamento. Alzira

sentou-se e murmurou:
268
- Ele não me disse nada. Como foi isso?
- Você também não me disse que estavam namorando. - Eu achava que você não ia gostar.
- Não ia mesmo. Ia pensar que ele estava querendo se aproveitar de você. Mas agora vejo que é sério. Ele quer casar. Você
gosta mesmo dele?
Os olhos dela brilharam quando respondeu: - Gosto muito!
- Hmm... Basta olhar para você para saber. - O que foi que você respondeu?
- Que ia falar com você e Estela. Ele vai em casa hoje à noite para saber a resposta. Mas tinha certeza de que você o aceitaria.

Abriu uma garrafa de vinho e fizemos
o brinde para comemorar.
- E a família dele, o que dirá quando souber?
- O pai já sabe. Foi o Dr. Péricles que o aconselhou a fazer logo o pedido.
- Puxa. Nesse caso, ele falava sério mesmo.
- Muito sério. Gostei do jeito como ele me pediu. Quis até
convencer-me de que será um bom marido para você.
Alzira levantou-se e beijou o pai na face, dizendo contente: - Pai, sou a mulher mais feliz do mundo!
- Sua mãe vai gostar, mas ao mesmo tempo vai ficar triste. Va
mos ficar sem você em casa.
- Estarei sempre com vocês.
- Nem sei o que dizer. Nossa vida melhorou mesmo. No ano passado eu estava desempregado, desesperado, sem dinheiro. Hoje
estou trabalhando em uma empresa séria,
sendo valorizado pelos patrões. Tenho uma filha rica e outra que vai se tornar a dona desta empresa.
- Se Deus nos deu tudo isso, foi porque merecemos. Nos momentos ruins não perdemos a coragem nem a fé. É hora de agradecer.
- É o que farei todos os dias. Depois que nos ligamos à espiritualidade, tudo começou a melhorar. Senti-me mais calmo e
alegre. Em casa há harmonia.
- Agora preciso voltar ao trabalho. Nem sei se conseguirei prestar atenção ao serviço.
Antônio sorriu contente. Ele também se sentia eufórico. Queria que o tempo passasse depressa para chegar em casa e contar
a novidade à esposa.
269
Quando Alzira ia saindo da sala de Antônio, Valdo estava à sua procura.
- Meu pai já me contou. Por que não me disse o que pretendia fazer?
- Eu queria fazer o pedido, mas não sabia como nem quando. Meu pai agora à tarde sugeriu que eu não perdesse mais tempo.

Então resolvi falar com seu pai, assim você
não teria mais argumentos para recusar.
Alzira alteou a cabeça levemente para trás, sorriu e respondeu: - Quem lhe disse que eu recusaria? Ele a abraçou e ela enrubesceu,

dizendo: - Estamos no corredor!
Alguém pode ver! - E daí? Vamos nos casar.
- Aqui sou uma funcionária. Não quero abusar. Vou terminar
meu serviço. A noite conversaremos.
Antes que ele respondesse, Alzira apressou-se a ir para sua mesa.
Precisava terminar algumas cartas. Era namorada do dono, mas não
queria abusar.
Quando chegaram em casa, Estela ao saber do pedido não conteve as lágrimas.
- O que é isso, mãe?
- São lágrimas de felicidade. Você não me contou nada. A ocasião merece comemoração. A que horas ele ficou de vir?
- Às oito - respondeu Alzira.
- Temos duas horas. Enquanto você vai se arrumar, Antônio vai comprar duas garrafas de champanha e alguns salgadinhos.
À noite, quando Valdo chegou à casa de Alzira, ela o esperava emocionada. Ele levou um ramo de flores para Estela, que agradeceu
com voz trêmula. Antônio convidou-o
a sentar-se na sala e Alzira sentou-se ao lado dele no sofá.
Os pais de Alzira sentiam-se inibidos diante do rapaz. Afinal ele era um moço fino, de classe. Porém Valdo, notando a timidez
dos futuros sogros, logo colocou-se
à vontade, conversando com naturalidade e respeito.
Falou do amor que sentia por Alzira, da felicidade por haver sido aceito como membro daquela família. Suas palavras sinceras
tocaram o coração deles, que logo perderam
a timidez inicial.
O carisma de Valdo tornava-o querido por todos onde quer que fosse. Quando ele se despediu, Alzira acompanhou-o ao portão.
Estela comentou com o marido:
270
- Que moço encantador! Chorei pensando que íamos perder nossa filha, mas agora acho que acabamos de ganhar um filho.
- Também gosto dele. Você precisa ver no escritório, como ele age. É firme, direto, exigente no serviço, mas ao mesmo tempo
justo e compreensivo. É um verdadeiro
líder. Por isso Dr. Péricles o colocou na direção da empresa.
Alzira voltou à sala. Estendeu a mão na qual luzia um anel de brilhantes, dizendo:
- Estamos noivos! Ele quer marcar a data do casamento.
- Puxa, por falar nisso, Mirtes já deve ter voltado da lua-de-mel. Nem nos telefonou.
- Ela deve estar muito ocupada - tornou Alzira.
- Por que não telefona para ela? - sugeriu Antônio.
- Não - disse Estela. - A vida dela agora mudou. Não quero
incomodar. Ela sabe onde estamos. Virá quando quiser.
Alzira lembrou-se das palavras que a irmã costumava dizer:
- Um dia vou sair desta casa, ser muito rica, e vocês não vão
me ver mais.
Porém não disse nada. Sua mãe tinha razão. Quando sentisse vontade, ela os visitaria.
Foi para o quarto olhando encantada para o anel que brilhava em seu dedo. Era lindo! Mas seu significado era ainda maior.

Era um laço de amor entre ela e Valdo.
Naquela noite Alzira custou a adormecer, sonhando com o futuro.

No dia seguinte, Mirtes acordou tarde. Tornou o café na cama. Humberto havia saído e ela aproveitou para abrir os pacotes
e rever tudo que comprara durante a viagem.
Em meio a tantas coisas bonitas, nem notou o tempo passar. Humberto chegou para almoçar e foi encontra-la ainda no quarto.

- Veja que lindo este colar de jade.
- Você é mais linda do que tudo isso.
Ela sorriu contente.
- Já avisou sua família que chegamos? Mirtes fingiu surpresa:
- Fiquei tão entretida que esqueci.
- Seria bom irmos até lá esta noite para levar os presentes. Cer
tamente você comprou muitas coisas para eles.
Mirtes mordeu os lábios. Ela não havia comprado nada. - Eu prefiro telefonar. Melhor não irmos lá esta noite.
271
- Pensei que estivesse com saudade deles.
- Estou. Mas preciso confessar uma coisa. Espero que com
preenda. Eu discuti com meus pais antes de nosso casamento. - Por quê?
Ela hesitou um pouco, depois disse:
- É que eles fizeram de tudo para eu desistir. Diziam que você era muito velho para mim, que eu ia me arrepender. De nada
valeu eu dizer que o amava. Eles insistiram
tanto... Como eu não quis obedecer, nos desentendemos.
- Mas eles vieram ao casamento, trataram-me bem. Não percebi nada.
- É que, quando viram que eu fiquei firme, conformaram-se. Mas até o último momento tentaram fazer com que eu mudasse de
idéia. Por isso, não acho bom irmos lá juntos.
- Eles temiam que eu não a fizesse feliz. Mas agora, vendo que nos damos bem, verão que estavam enganados.
- Vamos deixar o tempo passar. Eu telefono, aviso que voltamos, levo os presentes amanhã ou depois, e pronto.
- Faça como quiser.
Mirtes sorriu contente. Humberto não lhe daria trabalho para manejar.
Só no fim da tarde Mirtes resolveu ligar para a mãe e avisar da chegada. Depois de conversar com Estela, falar de sua felicidade
e das coisas que havia comprado,
Mirtes concluiu:
- Diga a Alzira para deixar as jóias que lhe emprestei com você. Amanhã passarei para buscá-las. Tenho muitos compromissos
e não sei a hora que irei.
- Estão guardadas comigo desde o dia de seu casamento. Passe a hora que quiser.
Estela desligou o telefone pensativa. Por que suas filhas eram tão diferentes uma da outra?
Quando Alzira e Antônio voltaram do trabalho, Estela contou-lhes que Mirtes havia ligado, mas omitiu o recado das jóias.

Estavam felizes, e ela não desejava de forma
alguma entristecê-los. Havia aprendido que, para conservar a harmonia no lar, era preciso evitar pensamentos ruins. A mesquinhez
de Mirtes era inoportuna e desagradável.
Estela resolveu não dar nenhuma importância a suas palavras.
272
Mirtes apareceu na casa dos pais às quatro da tarde, ostentando seu luxo, satisfeita por notar a vizinha olhando-a atrás
de uma das janelas.
Estela recebeu-a com alegria:
- Como você está bonita!
- Estou muito bem. Fiz uma viagem maravilhosa. Minha casa, então, acabaram de decorar. Ficou deslumbrante! - Que bom. Quer
um café, um suco?
- Não. Tenho um chá logo mais com alguns amigos. Passei aqui para saber de vocês e buscar minhas jóias.
Estela subiu, apanhou os estojos e entregou-os a ela, que esperava na sala. Mirtes abriu e conferiu tudo.
- Está em ordem. Alzira continua trabalhando naquele emprego pobre?
- Continua. Mas será por pouco tempo. Ela ficou noiva ontem à noite.
Mirtes franziu o cenho admirada:
- Noiva? De quem?
- Do chefe dela. Valdo.
Mirtes levantou-se de um salto e exclamou:
- De Valdo! Não pode ser! Ele só pode estar se aproveitando da ingenuidade dela. Bem que os vi juntos no jardim no dia de
meu casamento. Mas não tive tempo de avisar.
- Você está enganada. Ele falou com seu pai e pareceu-nos muito sério. Quer marcar a data do casamento.
- Ele não vai se casar com ela. Sempre foi um namorador, não leva nenhuma moça a sério.
- Não é o que nos pareceu. Tem certeza do que está falando?
- Claro que tenho. Eu o conheço há tempos. Uma vez me convidou para ir ao cinema. Eu fui, mas depois eu não quis mais sair
com ele. Vi logo que era um aproveitador.
Estela ficou preocupada. Teriam se enganado tanto?
Mirtes sentiu-se sufocar de raiva. Apanhou a bolsa, dizendo:
- Agora preciso ir. Mas fale com papai para não deixar esse namoro ir adiante. Ele é quem poderá tomar providências. Com
Alzira não vai adiantar falar, ela não vai
me ouvir.
Depois que ela se foi, Estela sentiu-se atordoada. Foi à cozinha, tomou um copo de água e respirou fundo. Aos poucos foi
se acalmando. Mirtes podia estar errada.
Antônio trabalhava todos os dias com
273
Valdo. Se ele não fosse um bom moço, teria sabido. Em um ambiente de trabalho essas coisas nunca ficam ocultas.
Mirtes saiu de lá tentando conter a raiva. Como a insignificante Alzira havia conseguido conquistar Valdo? Como ela se atrevia
a roubar seu sonho de amor? Isso não
iria ficar assim. Aquele casamento não poderia consumar-se. Faria tudo para impedir. Valdo era seu e não o deixaria para
mais ninguém.
Pensou em Mildred. Se ela estivesse por perto, poderia ajudá-la a dar um jeito naquilo. Precisava falar com ela.

Na véspera tinha con
seguido o endereço onde ela estava. Ligara para o hotel, mas ela ha
via saído. Tentaria novamente.
Pensando nisso, decidiu voltar para casa. Trancou-se no quarto
e ligou para o hotel. Desta vez foi mais feliz: Mildred havia acabado
de chegar.
Depois dos cumprimentos, Mirtes tornou:
- Cheguei ansiosa para ver você e fui surpreendida com sua viagem. O que aconteceu? Você não me contou que pretendia viajar.
- Aconteceu que resolvi mudar minha vida. O tempo passa e não vou perder mais tempo esperando por alguém que não me quer.

Agora vou cuidar de mim. Encontrei aqui
na Itália algumas pessoas com as quais tenho saído. Estou me divertindo muito.
- Quer dizer que desistiu de Émerson?
- Sim. Ele não serve para mim. Não faria minha felicidade. Vou levar a vida do jeito que eu gosto. Ele vai casar-se com
Laura. Que faça bom proveito.
- Então aquele pai-de-santo não fez nada. Bem que eu avisei. Essas besteiras nunca funcionam.
Mirtes falou da viagem, das coisas que havia comprado, de como a casa ficara bonita. Depois disse:
- Preciso de sua ajuda. Você é minha única amiga. Quando é que você volta?
- Não sei. Enquanto estiver bom aqui, vou ficando.
- Não posso esperar muito. Valdo resolveu casar com minha
irmã. Preciso fazer alguma coisa para impedir esse casamento. Queria
que estivesse aqui para me ajudar.
- Você ainda está apaixonada por ele?
- Não. Mas quero que ele se apaixone por mim. Ele não serve
para a boba da Alzira. Então, você vem?
274
- Não. Quando eu disse que ia pensar em mim, falei sério. É o que estou fazendo. Para dizer a verdade, seu problema não
me interessa. Ou melhor, seria bom que você
deixasse sua irmã e Valdo em paz. Posso dizer por experiência própria que isso não vai dar certo. Ele não ama você. Insistir

não vai adiantar.
- Quer dizer que se recusa a me ajudar?
- Sim. Já ajudei você até demais. Agora chega.
- Nunca esperei isso de você. Ainda vai precisar de mim.
- Não preciso de ninguém. Posso cuidar da minha vida muito
bem.
Mirtes bateu o telefone irritada. Mildred havia mudado. O que teria acontecido com ela?
Estendeu-se na cama tentando chegar a alguma idéia para separar Alzira de Valdo. Ela não notou que alguns vultos escuros
se aproximaram dela, segredando-lhe frases
aos ouvidos.
Continuou ali sem perceber que as idéias que lhe ocorriam vinham dos vultos negros que a circundavam.
275
I

Todas as tardes Mercedes lia as colunas sociais à procura de notícias de Humberto e a esposa. Por isso, pôde vêlos nas revistas
em vários lugares da Europa. A beleza
e a juventude de Mirtes exacerbavam seu ciúme, e ela passava noites em claro imaginando um nos braços do outro na intimidade,
sentindo seu ódio aumentar a cada dia.
A solidão e a saudade dos bons momentos que desfrutara ao lado dele aumentavam seu sofrimento, sua sensação de perda, sua
insatisfação. Era com impaciência que esperava
que o tempo passasse e eles voltassem ao Brasil
Diante de alguns amigos que conheciam seu drama e que tentavam confortála, ao mesmo tempo que a aconselhavam a tentar esquecer
Humberto, Mercedes dissimulava o ódio
que sentia. Lamentava-se, revelava sua tristeza, dizia-se vítima da ingratidão de Humberto, chorava. Mas, apesar disso, dizia

que o perdoava porque
277
ainda o amava e desejava de coração que ele fosse feliz com a nova companheira.
Foi um amigo comum quem lhe telefonou informando que o casal havia regressado. Imediatamente ligou para o detetive Sobral,

porém ninguém atendeu. Ligou várias vezes,
mas só no fim da tarde conseguiu encontrá-lo.
- Você precisa agir. Eles já voltaram.
- Está bem, madame. Temos de conversar. Onde podemos nos encontrar?
- Não quero que venha à minha casa. Ninguém pode saber
que está trabalhando para mim.
- Pode confiar. Nosso trabalho é sigiloso.
Ela combinou um encontro em um lugar discreto e pouco
freqüentado. Queria que fosse naquele mesmo dia, mas, como ele não
podia, ficou para a manhã seguinte.
Foi com impaciência que Mercedes esperou pelo encontro.
Compareceu pontualmente no local combinado, onde ele já a estava
esperando. Ela parou o carro, e ele abriu a porta e sentou-se a seu lado. - Vamos dar uma volta - pediu ele. Pararam em uma
rua deserta e Mercedes indagou impaciente:
- E então? Já planejou o que vai fazer? - Estive pensando... Talvez possamos resolver isso de uma for
ma mais leve e com menos risco. - Como?
- Armando uma cilada para ela. O que o marido faria se a sur
preendesse nos braços de outro?
- Ficaria furioso. Humberto é cheio de princípios. Perderia a
cabeça, com certeza.
- Talvez ele mesmo acabasse com ela, o que nos deixaria livres
de qualquer suspeita.
Mercedes pensou um pouco, depois respondeu:
- Ele iria preso, e de que me serviria? Estaríamos separados do
mesmo jeito. Eu quero que ele volte para mim.
- Ele tem nome e dinheiro. Iria se livrar da justiça com facili
dade. Um homem que mata a mulher por traição tem a simpatia do
júri. Os homens são solidários entre si.
- Mesmo assim, acho arriscado. Ele está apaixonado por ela. Em
vez de matá-la, pode até se suicidar.
Sobral coçou a cabeça, dizendo:
- Nesse caso, só resta fazer a encomenda.
278
- Quanto tempo vai demorar?
- Terei de ir ao Mato Grosso falar com Dinho e acertar os detalhes. O plano tem de ser bem-feito.
Ela concordou. Combinaram que ela daria a Sobral uma quantia em dinheiro para as despesas. Quando ele voltasse, informaria
o preço estipulado por Dinho.
Tudo acertado, deixou o detetive no lugar em que o apanhara e voltou para casa.
Quando pensava que dentro de pouco tempo Mirtes estaria fora de seu caminho, sentia um aperto no peito, um certo medo,
mas visualizava novamente as cenas de amor
que havia imaginado, pensava nos anos de amor e dedicação que dera a Humberto, e o rancor reaparecia com toda a força.
Aquela moça não podia amar Humberto. Era pobre e com certeza casara por causa do dinheiro dele. Iria fazê-lo infeliz, não
merecia ficar ao lado dele. Ela, Mercedes,
sim, amava-o com sinceridade e cuidaria bem dele até o fim de seus dias
Nesses momentos, imaginava como se amariam quando ele voltasse, sofrido, triste, em busca de aconchego e conforto. Ela então
o perdoaria e o receberia de braços
abertos.

Mirtes chegou em casa satisfeita. Passara a tarde no cabeleireiro. À noite iria com o marido a um jantar na casa de um ministro.

Queria apresentar-se impecável e
mostrar a todas aquelas damas cheias de pose que ela tinha classe o suficiente para freqüentar suas casas.
Depois, Humberto sentia-se orgulhoso quando a levava pelo braço, porque todos a fitavam com admiração e as revistas importantes
disputavam um bom ângulo para fotografa-la.
Era disso que Mirtes gostava.
Entrou em casa pensando em tomar um banho e descansar até o momento de vestir-se para o jantar. Humberto não havia chegado
e ela subiu disposta a fazer o que pretendia.
Ao passar pela porta do escritório, que estava aberta, viu um envelope bonito na salva de prata sobre a mesa. Entrou, apanhou-o

e, como estava aberto, abriu-o.
Era o convite de casamento de Émerson e Laura, que se realizaria dentro de quinze dias. Junto, um cartão de Émerson, dizendo
que havia ido pessoalmente entregar
o convite, mas, como não encontrara ninguém em casa, deixara-o com um dos serviçais. Pedia desculpas por não ter podido
esperar.
279

Mirtes sentou-se com o convite na mão. Então era verdade mesmo. Eles iam casar e era por isso que Mildred havia partido

e estava tão mudada.
Deu de ombros. Devolveu o envelope à salva de prata e subiu para o quarto. Afinal, não tinha nada com aquilo. Era mais uma
festa para ir.
Enquanto se deliciava dentro da banheira, ficou imaginando as roupas que compraria para ir àquele casamento e o sucesso
que faria, porquanto lá estariam todos os
seus conhecidos, inclusive Marcelo.
Seria divertido tentar tirá-lo de Renata. Ele nunca resistira aos seus encantos. Seria fácil e excitante.

Valdo chamou Alzira em sua sala. Assim que ela entrou e fechou a porta, ele abraçou-a e beijou-a nos lábios com amor. Ela
retribuiu e beijaram-se várias vezes. Por
fim ela disse:
- Você mandou me chamar. Precisa de alguma coisa?
- Sim. Estava louco para beijá-la.
- Não deveria fazer isso. Os funcionários sabem que estamos noivos, e não quero abusar.
- Eu preferia que você concordasse em deixar o emprego, em marcarmos o casamento para daqui a um mês e começarmos a cuidar
dos preparativos.
- Você sabe que não posso. Se não trabalhar, não poderei comprar o que desejo para o enxoval.
- Eu acharia melhor que, em vez de preocupar-se com essas coisas, se preocupasse comigo, que estou impaciente para tê-la
em meus braços e nunca mais nos separarmos.
Alzira suspirou:
- Meu pai não quer que você pague todas as despesas. Diz que como pai tem a responsabilidade de contribuir com o que puder.
- Vocês disseram que estão aprendendo sobre a espiritualidade, mas eu duvido.
- Por quê?
- Porque dão mais valor às coisas materiais do que às espirituais. - Isso não é verdade.
- É, sim. Ou então você ainda tem dúvidas de que me ama o
suficiente para casar.
- Como pode pensar isso de mim? Sabe que eu sou louca por
você.
280
- Nesse caso, o orgulho é mais forte do que seu amor. Que importa quem paga nossas despesas? A vida deu-me condições de
fazer isso. O que tenho é mais do que suficiente.
Alzira olhou-o séria e protestou:
- Você está enganado. Nós temos dignidade. Meu pai quer ter o prazer de casar a filha pagando parte das despesas.
- Orgulho. O que importa o dinheiro? Ele é apenas um meio que nos permite usufruir de coisas boas. Seu pai é um homem digno,

independentemente de suas posses. Não
é o dinheiro que lhe dá dignidade. A modéstia é uma qualidade que enobrece o homem. Por que temos de adiar nossa felicidade
tendo de esperar para nos casarmos, quando
nós dois ansiamos por viver juntos?
Alzira olhava-o hesitante. Ele insistiu:
- Vamos marcar a data logo e preparar tudo.
- Eu gostaria. Mas penso em meus pais. Minha mãe tem chorado às escondidas porque logo deixarei a casa.
- É natural. Minha mãe também anda assim por causa de Laura. Olhe, Alzira, depois do casamento de minha irmã, meus pais
vão tirar férias, viajar, ficar um mês fora.
Vamos marcar nosso casamento para daqui a dois meses. Assim teremos tempo de concluir os preparativos. Até lá meu pai terá
regressado e retomado o comando da empresa,
e nós poderemos viajar em lua-de-mel.
Valdo começou a discorrer sobre os lugares que conheceriam, o que fariam na viagem, e os olhos de Alzira brilhavam de prazer.

Por fim, ela disse:
- Está certo. Vamos marcar. Hoje à noite falaremos com meus pais. Quero ver se você terá coragem de dizer a eles o que me
disse agora há pouco.
- O que foi que eu disse?
- Que somos materialistas, orgulhosos e não aprendemos nada sobre espiritualidade.
- Se for preciso, direi, sim. Não vê que eu a amo e que estou
lutando para tê-la em meus braços para sempre? Ela sorriu e beijou-o delicadamente nos lábios. - Foi isso que me comoveu.
- Seja sincera: você também está louca para casar comigo.
- Não seja pretensioso. O pior é que não dá para negar. Beijaram-se novamente, depois ela saiu apressada.
O noivado deles havia provocado comentários na empresa. Val
do era muito cobiçado pelas mulheres que disputavam cada gesto seu.
281
Naquela noite mesmo, Valdo conversou com os sogros. Estela foi contra a antecipação. Um casamento apressado poderia dar
margem a comentários desagradáveis, com
o que Antônio concordou. Valdo, porém, argumentou de várias formas e finalmente conseguiu o que desejava. Marcaram o casamento
para dali a dois meses.
Quando Alzira acompanhou o noivo até a porta, Estela comentou com o marido:
- Logo perderemos nossa filha. Sinto o coração apertado.
- A casa vai ficar vazia sem ela. Mas eles se amam. Viu como estavam felizes?
- É o que me conforta. Mas ao mesmo tempo não sei se fizemos bem em concordar. Depois do que Mirtes falou...
- Não acredito em uma só palavra do que ela disse. Ela nunca foi boa irmã. Sempre fez tudo para diminuir Alzira, que é uma
boa filha. Tão boa filha que eu gostaria
de dar um dote a ela, mesmo pequeno.
- Eles sabem que ainda estamos pagando nossas dívidas. Não querem esperar.
- Viu com que empenho ele insistiu em marcar a data? Estão apaixonados.
- Eu preferia que esperassem mais para se casar. Assim teríamos tempo para conhecê-lo melhor.
- Pois eu não preciso disso. Se você visse como ele é querido e respeitado pelos funcionários, não diria isso. Depois,

Mirtes não tem de dar nenhuma opinião. Ela
trouxe em casa um desconhecido com idade para ser seu pai e casou-se rapidinho.
- Você concordou com o casamento.
- Apesar da idade, gostei dele. Pareceu-me um homem de bem. Só não sei se ela gosta dele ou do dinheiro e da posição que
ele tem.
- Infelizmente, penso como você. Rezo todos os dias para que eles sejam felizes.
Os noivos, dentro do carro, combinavam as primeiras providências para o casamento. Valdo dizia:
- Meus pais mandaram convidá-la para jantar em nossa casa no próximo sábado. Será uma ocasião excelente para tratarmos do
assunto com eles.
- Acha que vão concordar?
- Por certo. Estavam ansiosos para me verem casado. Tenho cer
teza de que vão adorar você.
- Estou nervosa só de pensar nisso.
282
Ele riu.
- Não há por quê. Eles são adoráveis.
- Você tem certeza de que não se sentiram contrariados por você ter escolhido uma moça simples como eu?
- Quando se casaram, eles viviam do salário dele, que naquele tempo não era maior do que o de seu pai. Apesar de haverem
progredido financeiramente, ganhado respeito
da comunidade, continuam sendo as mesmas pessoas.
- Eles estavam no casamento de Mirtes, mas é claro que não se recordam de mim.
- Ao contrário. Mamãe, quando soube, lembrou-se da cor de seu vestido, até de quantas vezes dançamos. Ela notou logo meu
interesse por você.
Quando Alzira entrou em casa, sentia-se feliz e com a cabeça cheia de planos.

A tarde do casamento de Émerson e Laura decorreu rápida em meio aos preparativos. O casamento civil seria realizado no salão
de festas da casa da noiva, especialmente
decorado para aquele fim. Para a bênção espiritual, o casal havia convidado um mestre budista amigo de Émerson, pertencente
à órdem que ele freqüentara.
Depois, haveria o jantar e o baile. Os pais dela a princípio estranharam o fato de os dois não se casarem na igreja católica,
como era hábito na família. Mas acabaram
respeitando a vontade dos noivos.
A cerimônia estava marcada para as sete da noite. Os convidados começaram a chegar pouco antes, recebidos e acomodados pelo
chefe do cerimonial.
Mirtes entrou no salão pelo braço do marido, cabeça erguida, olhos brilhando de satisfação, sentindo-se a mulher mais bela
do mundo. E, de fato, muito bem vestida,
ostentando belíssimas jóias, chamava a atenção por onde passava pelo seu bom gosto, beleza e classe.
Vendo-a desfilar como uma princesa, ninguém cogitaria sua origem pobre. Humberto sentia-se orgulhoso por ter uma esposa
tão bela.
As pessoas amigas de Humberto aproximavam-se para cumprimentá-los, e Mirtes sorria contente, notando a admiração dos homens
e o brilho invejoso das mulheres. O triunfo
conquistado colocava um brilho especial em seus olhos, e o prazer refletia-se em seu sorriso.
283
Quando Valdo aproximou-se com Alzira, Mirtes estremeceu.
Ele cumprimentou Humberto e sorriu para Mirtes, perguntando: - Como vai?
- Bem - respondeu ela examinando a irmã de alto a baixo. -
Que surpresa, Alzira! Não pensei que viesse ao casamento.
Alzira, que acabara de cumprimentar Humberto, respondeu: - Eu não poderia faltar. Gosto muito de Émerson e Laura. Ela estava
muito elegante em seu vestido cor de
malva que real
çava a cor de sua pele clara e acetinada. Mirtes notou logo o anel de
brilhantes que ela ostentava.
- Mesmo porque Alzira agora faz parte da família - completou
Valdo.
Humberto cumprimentou o casal pelo noivado e concluiu:
- Espero que sejam tão felizes quanto nós.
Mirtes procurou sorrir e dissimular a raiva. Havia notado o brilho apaixonado dos olhos de Valdo quando fixava Alzira. Aquilo
não podia ser verdade. Sua insignificante
irmã havia conseguido o que ela, com toda a sua inteligência e beleza, não conseguira.
- Agora vocês vão nos dar licença - disse Valdo. - Precisamos ir. Temos uma participação na cerimônia.
Eles se foram e Mirtes a custo conseguiu dominar a contrariedade. As pessoas foram encaminhadas para a sala ao lado. A cerimônia
ia começar.
As cadeiras estavam dispostas em fileiras. No centro, a passadeira vermelha; no fundo, uma mesa ao redor da qual Émerson,
o juiz de paz e seu auxiliar esperavam.
Havia flores em profusão e muito bom gosto na decoração.
A música começou e os presentes levantaram-se. Laura, de braço com o pai, entrou caminhando lentamente até a mesa. Atrás
deles o cortejo dos familiares e padrinhos,
que se postaram ao lado dos noivos.
O juiz realizou o casamento e cumprimentou os noivos. Depois, o monge budista amigo de Émerson, que estava ao lado, colocou-se
de frente aos noivos e falou sobre
a vida a dois, salientando os valores que levam à conquista da felicidade: amor, compreensão, respeito, dedicação e
bom humor.
Depois circulou em volta do casal, rezando em idioma desconhecido dos presentes, e seu auxiliar balançava de vez em quando
o pequeno sino que trazia. Enquanto rezava,
colocava as mãos sobre os noivos. No final da cerimônia, cantou e, por fim, deu aos
284
noivos alguns objetos sagrados, desejando-lhes vida longa, muitos filhos e fartura.
A cerimônia tocante comoveu os presentes. Mirtes, porém, não prestou atenção. Só tinha olhos para Alzira e Valdo. Ela viu
Almerinda abraçar Alzira com carinho e
Péricles beijá-la delicadamente na face. Isso a irritou ainda mais. Ela não se conteve:
- Não sei por que resolveram fazer esta cerimônia horrível. Por que não se casaram na igreja, como todo mundo?
Humberto olhou-a surpreendido. Ele havia se emocionado com as palavras do monge.
- Você não gostou? - perguntou baixinho.
Diante do olhar surpreso do marido, Mirtes percebeu que havia exagerado.
- Não é isso. Eu acho lindo um casamento na igreja. De fato,
é mais solene. Depois, estou com um pouco de dor de cabeça.
- Você estava tão bem... Quer que vá buscar um comprimido? - Não, obrigada. Isto vai passar.
Depois dos cumprimentos, o jantar foi servido e Alzira sentou-se ao lado de Valdo na mesa dos noivos.
Mirtes estava descontrolada e esforçava-se para dissimular. Sorria, conversava, mas seus olhos furtivamente acompanhavam
cada passo da irmã.
O baile começou, e ela viu Alzira circular nos braços de Valdo, corada e feliz. Notou a inveja das moças que costumavam
circular esperançosas à volta dele e a amabilidade
dos pais de Valdo, com Péricles chegando a dançar com Alzira enquanto Valdo dançava com a mãe.
Mirtes foi ao toalete. Enquanto esperava, sentou-se em uma poltrona perto do biombo que separava as duas salas. Atrás do
biombo, duas senhoras conversavam enquanto
uma delas esperava a filha.
- Que linda a noiva de Valdo!
- É mesmo. Ele demorou para decidir-se, mas agora acertou. Ela é uma doçura. Conversamos e adorei-a. Almerinda está muito
feliz. Disse que a moça é inteligente,
alegre e cativante.
- Por isso Valdo está pelo beicinho. Só tem olhos para ela.
Quando as duas senhoras se foram, Mirtes levantou-se nervosa. Alzira estava fazendo mais sucesso do que ela. Não conseguia
entender. Precisava acalmar-se. Não podia
deixar ninguém perceber o que estava sentindo. Teria de encontrar um jeito de acabar com aquele noivado.
285
Voltou para o salão e apanhou uma taça de champanha, que ingeriu rapidamente. Precisava relaxar. Aos poucos sentiu-se mais
calma. Apanhou outra taça. Ela era uma
vencedora. Não podia deixarse dominar pelo pessimismo. Haveria de tirar Alzira de seu caminho. Não ia suportar ver a irmã
freqüentando os mesmos lugares que ela
e sendo mais valorizada.
A festa decorria animada, e passava das duas da manhã quando as pessoas começaram a ir embora. Mirtes sentia-se atordoada.

Havia bebido além da conta, e Humberto,
solícito, queria levá-la para casa.
- Não quero. Vamos ficar mais um pouco. Agora que a festa está boa...
Ele concordou. Ela quis dançar, mas ficou tonta e ele a conduziu para um sofá em outra sala. Passava das três quando finalmente
conseguiu convencê-la a ir embora.
Ao chegarem em casa, o motorista abriu o portão e o carro entrou nos amplos jardins, parando em frente à porta principal.

Humberto desceu amparando Mirtes atordoada
e colocou a chave na fechadura.
- Vamos voltar para a festa - disse ela rindo. - Não quero ir para casa.
- Você precisa descansar, deixe-me abrir a porta.
O motorista levou o carro. Humberto girou a chave, abriu a
porta e, quando se voltou para Mirtes, viu um vulto escuro sair por
trás da coluna da varanda. Quis gritar mas não teve tempo. Ouviu
um disparo, depois outro, e Mirtes tombou em uma poça de sangue. Desesperado, Humberto abraçou-a enquanto gritava por socorro.
Correria. As luzes da casa acenderam-se e ele gritava:
- Chamem uma ambulância! Mirtes foi ferida!
Ele se debruçou sobre ela, que havia desmaiado, e gritou:
- Tragam um lençol, depressa! Precisamos estancar o sangue! Com o lençol nas mãos, Humberto rasgou-o e envolveu a cin
tura de Mirtes, onde o sangue escorria. Em seu desespero, não sabia
o que fazer.
A ambulância demorou quinze minutos que, para Humberto, ao lado de Mirtes pálida e sem sentidos, pareceram horas. Quando
finalmente chegou, procederam-se os primeiros
socorros e Mirtes foi levada para o hospital. Humberto foi junto na ambulância.
A polícia foi chamada e interrogou os criados da casa. Eles não haviam notado nada de especial. O motorista também não.

Ele
286
estava colocando o carro na garagem quando ouviu os tiros. Não havia visto nada.
A polícia foi ao hospital e tentou conversar com Humberto, mas ele estava em choque e não ajudou muito. Foi o mordomo quem
avisou os filhos de Humberto e a família
de Mirtes.
Alzira estava no portão de sua casa despedindo-se de Valdo quando o telefone tocou com insistência.
- É melhor eu atender - disse ela soltando-se dos braços dele. - Alô. O quê? Como? Onde? Meu Deus!
Alzira empalideceu e quase desmaiou. Valdo apanhou o telefone
e soube o que havia acontecido. Amparou Alzira e pediu: - Procure se acalmar. Pode não ter sido grave. Alzira chorava

desconsolada:
- Temos de avisar meus pais. Meu Deus!
Valdo correu à copa, apanhou um copo de água e deu-o a ela. Nesse instante, Antônio descia as escadas.
- Escutei o telefone e parece que você gritou. O que houve? Alzira correu para o pai dizendo aflita:
- A casa de Humberto foi assaltada e Mirtes está ferida. Foi levada para o hospital.
- Vou acordar sua mãe. Iremos imediatamente.
Valdo ligou para a casa de Humberto, informando-se sobre o hospital. Meia hora depois chegaram e foram conduzidos à sala
de espera, onde Humberto, sentado em uma
poltrona, com a cabeça entre as mãos, não escondia seu desespero.
Eles se aproximaram e ele levantou o rosto pálido, dizendo com voz angustiada:
- Ela estava tão alegre! De repente, aquele vulto escuro apareceu e atirou. Não consegui fazer nada!
- Onde está ela? - indagou Estela aflita.
- O que dizem os médicos? - quis saber Antônio. - Levaram-na para a sala de cirurgia.
- É grave? - perguntou Antônio.
Enquanto eles conversavam, Valdo procurou o médico de plantão para informar-se.
- Nada posso dizer por enquanto. Eu a atendi. Estava quase sem pulso, pois deve ter perdido muito sangue. Mandei fazer uma
transfusão e chamei o cirurgião. Uma
bala estava alojada nos intestinos e ela foi levada para a cirurgia.
- É grave?
287
- Ela é jovem e saudável. Vamos esperar que reaja. Vamos
precisar de mais sangue.
- Se o meu servir, estou à disposição.
Valdo voltou à sala onde os outros estavam e todos olharam em
sua direção. Estela perguntou:
- Como ela está? Soube de alguma coisa?
- Eles estão cuidando dela. Temos de esperar. Estão extraindo
a bala.
Estela não disse mais nada. Sentou-se, baixou a cabeça e começou a rezar. Sentia o coração apertado. Alzira sentou-se a
seu lado, segurando sua mão.
- Vamos rezar juntas, mãe. É o que podemos fazer por ela agora.
Enquanto rezava pedindo pela recuperação da irmã, Alzira recordou-se do sonho que tivera com Mirtes e sentiu um aperto no
peito. Lágrimas rolaram pelo seu rosto,
mas ela não disse nada. Precisava ser forte, confiar em Deus e apoiar a família naquele momento difícil.
As horas passavam e Mirtes continuava no centro cirúrgico. Valdo cuidou das formalidades da internação.
Passava das dez horas quando finalmente o médico procurou pela família. Todos voltaram-se para ele ansiosos, crivando-o
de perguntas.
- Ela resistiu à cirurgia e foi levada para a unidade de terapia intensiva.
- Ela vai ficar boa? - indagou Estela.
- É cedo para dizer. Ela está muito fraca. Vamos esperar que reaja.
- Quer dizer que ela ainda corre risco de vida? - perguntou Antônio.
- Infelizmente sim. Mas ela é jovem e saudável. Vamos pensar no melhor.
Alzira estava pálida, e Valdo abraçou-a dizendo:
- Vamos respirar um pouco lá fora. Você está precisando de ar fresco.
Alzira deixou-se conduzir em silêncio. Ele tentou confortá-la. - Coragem! Mirtes vai ficar boa. - Sinto que ela não vai

resistir. - Não seja pessimista. Vamos pensar
no melhor.
Alzira tentou reagir. Aquele sonho não tinha nada a ver com
288
aquela situação. Nele Mirtes aparentava idade avançada. Sorriu dizendo:
- Tem razão. Ela vai ficar boa.
- Vamos tomar um café. Você não comeu nada até agora.
- Não estou com fome. Sinto um nó no estômago.
- Vamos levar café para nosso pessoal. Seria bom pedirmos um
dormitório. Assim ficaremos mais à vontade. Vocês poderão relaxar
um pouco.
- Obrigada, Valdo. Ainda bem que você está aqui.
Ele a beijou levemente no rosto e respondeu em tom jocoso:
- Eu sei que você não pode mais viver sem mim.
Valdo sabia que o caso era grave e tentava dissimular a preocupação. Mirtes estava no limiar entre um estado e outro. Tanto
poderia morrer quanto se recuperar. O
futuro dela, só o tempo poderia revelar. Quanto a eles, precisavam esperar para saber o que lhes reservava o destino.
Começou para eles o tempo da espera. As horas passavam e Mirtes continuava na mesma. Veio a noite e ela continuava inconsciente.
Estela e Antônio insistiram para que Humberto fosse para casa descansar um pouco, mas ele se recusou. Estava inconformado.

Parecia estar vivendo um pesadelo.
Ninguém queria ir para casa. Antônio decidiu dizendo:
- Não podemos ficar todos aqui. Não sabemos por quanto tempo ela ficará no hospital. Teremos de nos revezar para fazer-lhe
companhia. Alzira, vá para casa, tome
um banho e tente dormir um pouco.
- Eu quero ficar aqui.
(corrigir - 289)
como ela está e para pedir algumas coisas
de que vamos precisar. - E, voltando-se para o marido: - Seria bom
que você fosse também. Eu e Humberto permaneceremos aqui. Não é preciso tanta gente. Quando ela melhorar, vai precisar
de todos nós.
- De jeito nenhum - contestou Antônio. - Eu fico. Ela pode acordar, e eu quero estar junto. Depois, Humberto está tão deprimido

que, se ela precisar de alguma coisa,
ele não terá condições de atender.
Valdo levou Alzira para casa. No trajeto, insistiu para que ela
se alimentasse. Pararam em um restaurante e a custo conseguiu que
ela engolisse um pouco de sopa.
Quando estavam quase chegando em casa, Alzira pediu: - Vamos passar na casa de Dona Isaltina e pedir ajuda. Isaltina atendeu-os
com carinho e foi logo dizendo:
- Entrem, vamos conversar. Eu soube o que aconteceu. Sinto
muito.
- Viemos pedir ajuda espiritual - disse Alzira depois de apresentar o noivo. - Ela foi operada esta manhã mas até agora
não voltou a si. Sinto-me angustiada.
- Compreendo como se sente. Mas você é pessoa de fé, tem conhecimento espiritual. Este é o momento de confiar em Deus. Você
sabe que ele faz tudo certo e não cai
uma folha da árvore sem que ele permita.
- A senhora acha que ela vai ficar boa? - indagou Alzira.
- Claro que vai. Tudo quanto nos acontece é passageiro.
Ainda bem. Ela vai demorar muito para se recuperar?
- Isso depende de como o espírito dela enfrentará a situação. Sua irmã é pessoa muito apegada ao mundo material.
- A senhora quer dizer que ela não tem conhecimento espiritual? - desta vez foi Valdo quem perguntou.
- Todos os desafios que a pessoa enfrenta no mundo acontecem para ensinar-lhe determinada lição. Uma vez aprendida, tudo
se resolve. Mirtes valoriza mais a matéria
do que o espírito. Essa é uma inversão de valores que sempre atrai sofrimento. Sua recuperação vai depender de como ela
reagir a essas experiências. Nossas preces
em favor dela devem ser no sentido a que ela consiga aprender o que a vida está querendo ensinar-lhe.
- O médico diz que ela está correndo risco de vida. Desde que eu soube do caso, sinto um terrível pressentimento. Será que
ela vai morrer?
- A vida e a morte pertencem a Deus. É natural que sinta angústia. Uma violência como a de que Mirtes foi vítima nos faz

sentir
292

quanto somos vulneráveis. Você ainda está em choque. Vamos orar juntos para que Deus nos ajude, esclareça e conforte.
Não esqueça que a vida sempre faz o melhor.
Isaltina levantou-se, colocou as mãos sobre a cabeça de Alzira, fez uma prece e começou a ministrar energias durante alguns
minutos. Depois fez o mesmo com Valdo.
Por fim, agradeceu aos amigos espirituais a ajuda que receberam.
- Sente-se melhor? - indagou ela.
- Sim - tornou Alzira. - A angústia desapareceu. - Vamos confiar, minha filha.
Quando saíram, Valdo comentou:
- Que energia boa! Eu estava tenso, com dor de cabeça. Agora estou aliviado.
- Eu também. Parece que saiu um peso de cima do meu peito. Os dois foram para a casa dela. Ao entrarem, Valdo disse: - Não
vou deixar você sozinha.
- Eu estou mais calma. Ficarei bem.
- Acho que vou dormir aqui.
- De jeito nenhum. Papai não iria gostar. Depois, você também não dormiu, não descansou nada. Melhor ir para casa, tomar
um banho, refazer-se. Eu ficarei bem.
Ele só partiu depois que ela prometeu ligar se precisasse de algo. Alzira tomou um banho. Assim que se deitou, o telefone
tocou. Era Valdo.
- Como você está? - perguntou ele.
- Bem. Acho que conseguirei dormir.
- Minha mãe não contou nada a Laura e Émerson. Eles viajaram logo cedo.
- Fez bem. Se eles soubessem, não teriam ido, o que seria uma
pena. Estragar a lua-de-mel deles não iria beneficiar Mirtes em nada. - Mamãe pediu que eu ligasse e explicasse isso a você.

- Sua mãe é muito atenciosa. Diga-lhe
que agradeço e concor
do com ela.
Conversaram um pouco mais, depois despediram-se. Alzira pensou na irmã na UTI do hospital. Sentiu tristeza mas reagiu. Não
podia deixar-se abater. Evocou a luz divina
e pediu a Deus que ajudasse Mirtes a aprender a lição que a vida queria lhe ensinar para que pudesse curar-se.
Sentiu um brando calor no peito e, vencida pelo cansaço, adormeceu.
293

Mercedes acordou e recebeu um telefonema do detetive Sobral. Na véspera ela havia pago a quantia que Dinho pedira adiantado.
Sobral garantira que ele era de confiança
e que só trabalhava daquela forma. Dinho planejava tudo para estar longe do local do crime quando a polícia começasse a
investigar. Graças a essa cautela, nunca
fora apanhado.
- E então? - indagou, agitada.
- Missão cumprida. - Tem certeza?
- Sim. Tenho amigos na delegacia onde o caso foi registrado.
Há mais algumas despesas que a senhora precisa reembolsar.
- Você não disse que eu teria de pagar mais alguma coisa.
- São despesas de viagem. O dinheiro que levei não foi suficien
te. Depois, eu também tenho um preço.
- Pensei que já tivesse pago tudo. Não tenho muito dinheiro. - O serviço foi bem-feito, e isso custa caro.
- Está bem. Diga o valor e vamos nos encontrar no lugar de sem
pre. Vou levar o dinheiro.
Depois de desligar o telefone, Mercedes procurou os jornais da
manhã mas não viu nenhuma notícia a respeito do assunto. Teria sido
enganada?
A criada, que chegou cedo, foi logo dizendo:
- A senhora viu o que aconteceu com o Dr. Humberto? Mercedes estremeceu:
- Não. O que foi?
- A casa dele foi assaltada e a esposa dele levou dois tiros. Está
entre a vida e a morte no hospital.
- Quem lhe contou?
- Meu namorado. A senhora lembra que foi o Dr. Humberto
quem deu emprego a ele? - Sim.
- Foi uma tragédia. Parece que ela não escapa. Não acha que foi castigo por ele ter largado a senhora e casado com uma moça
que poderia ser filha dele?
- Não acho nada. Humberto me deixou e estou conformada. A vida dele não me interessa. Não quero falar mais nesse assunto.
A criada se foi e Mercedes sentou-se apreensiva. O serviço não fora feito como devia. Mirtes ainda estava viva e poderia
escapar.
Foi para o quarto, fechou a porta e ligou para Sobral. Assim que ele atendeu, foi dizendo:
294
- Vocês me enganaram. Ela não morreu. - Não? Acalme-se. Ele nunca falha.
- Ela está na UTI. Foi inútil.
- Vamos esperar. Fique calma. Como soube? Nos jornais não há nada.
- Minha criada me contou. O namorado dela trabalha na casa de Humberto.
- Ela pode estar enganada. Vou informar-me e volto a ligar. - Cuidado ao telefonar para cá. Desligue se não for eu que atender.
No hospital, o estado de Mirtes continuava igual. Nenhum sinal de melhora. À tarde, o médico passou para vê-la. Quando saiu
da UTI, Antônio abordou-o preocupado.
- Doutor, ela não acorda. Por quê?
- Infelizmente o estado dela se agravou. Ela entrou em coma. Antônio empalideceu:
- Por favor, doutor, salve minha filha!
- Estamos nos empenhando, mas ela perdeu muito sangue. Além disso, a bala perfurou os intestinos e misturou elementos contaminados
à corrente sangüínea. Apesar da
assepsia e dos cuidados, não conseguimos evitar que a infecção aparecesse e se generalizasse.
Quando Antônio voltou ao quarto onde Humberto, Estela, Al
zira e Valdo esperavam, todos o olharam preocupados.
- E então? - perguntou Estela. - Falou com o médico? - Sim. Ela não melhorou.
- Ela está demorando muito para acordar - tornou Humberto. - Não é um bom sinal.
- De fato. O médico disse que ela está com infecção.
- Eu solicitei uma junta com especialistas. Temos de fazer alguma coisa - disse Humberto.
Enquanto Valdo e Humberto cuidavam de tudo, Alzira insistia para que a mãe descansasse um pouco. Estela estendeu-se na cama,

mas estava tensa. Ao menor ruído, estremecia.
Apesar de haver passado a noite em claro, não conseguia dormir.
As oito da noite os especialistas compareceram, estudaram o caso, examinaram a paciente e confirmaram o diagnóstico do cirurgião
que cuidava do caso. Estavam fazendo
tudo que era possível, mas ela não reagia.
295
Passava das onze quando o médico procurou a família para dizer que o coma havia se aprofundado e que ela estava dando sinais
de não conseguir resistir.
Diante do desespero de todos, Alzira chamou Valdo e pediu:
- Vá à casa de Dona Isaltina, conte-lhe tudo e peça-lhe que venha nos ajudar.
Valdo partiu imediatamente.
A médium, assim que o viu, tornou:
- Eu sei, meu filho. Ela piorou.
- É. A família está aflita e perguntou se a senhora pode ir até lá para fazer uma prece.
- Está bem. Vou apanhar a bolsa.
Assim que eles apareceram no quarto do hospital, Estela levantou-se e abraçou Isaltina, chorando.
- Por favor, peça para Mirtes melhorar.
- Vamos confiar na bondade divina, que faz sempre o melhor. Quando a dor nos visita, muitas vezes não entendemos o que ela
quer nos ensinar. Mas acreditem: ela só
aparece depois de haver esgotado todos os outros meios. Neste momento, Mirtes precisa de nosso apoio na forma de energias
puras que a sustentem e auxiliem a passar
por essa situação. Vamos nos esforçar para melhorar nossas energias, pensando na fé que temos no amparo divino, que nunca
nos abandona. Vamos lembrar de Mirtes cheia
de alegria e saúde, abraçá-la com amor, desejando que ela se restabeleça.
Todos acompanhavam as palavras de Isaltina, tentando reagir ao estado de angústia que os dominava. Ela continuava falando,
e aos poucos todos foram se sentindo melhor.
Estela, que estava sentada na cama, recostou-se nos travesseiros e adormeceu. Isaltina continuou falando, pedindo ajuda
espiritual.
- Senhor, derrame sobre nós a bênção da paz. Desconhecemos as causas que envolvem este triste acontecimento. Fortaleça-nos
para que, ainda assim, tenhamos força
para aceitar a vontade divina, que nunca erra. Permita, Senhor, que o entendimento de Mirtes se abra e que ela possa aprender
o que a vida está pretendendo ensinar-lhe.
Naquele momento, Isaltina viu o espírito de Mirtes, amparado por duas enfermeiras, aparecer no quarto, olhos abertos, parecendo
alheia ao que estava acontecendo.
Isaltina, emocionada, continuou:
296
- Mirtes, que Deus a abençoe. Vá em paz e perdoe os que a feriram. Eles não sabem o que fazem.
Isaltina viu que duas lágrimas rolaram dos olhos de Mirtes. Em seguida as enfermeiras a levaram.
Valdo olhou preocupado para Alzira. Ele sentiu que Mirtes estava partindo. As lágrimas desciam pelo rosto de sua noiva e

ele segurou sua mão. Ela também havia entendido.
Estela dormia, vencida pelo cansaço. Antônio segurou Humberto pelo braço, levando-o para fora. Valdo, Alzira e Isaltina

também saíram.
- Vamos à UTI - pediu Humberto.
Assim que chegaram ao corredor, viram um movimento incomum na sala em que Mirtes estava.
Assustado, Humberto gemeu:
- Meu Deus! Ela piorou! Vamos lá.
Isaltina abraçou Alzira, dizendo:
- Ela já partiu. Vamos orar para que siga em paz.
Alzira não chorou mais. Ela sabia que a morte era apenas uma viagem e que Mirtes estava seguindo seu destino. Olhou para
o pai, que, abatido, tentava conter Humberto,
que mal podia suster-se nas pernas.
- Humberto precisa de socorro médico - disse Valdo. - Vamos
colocá-lo na poltrona. Fiquem com ele que vou buscar um médico. Isaltina segurou a mão dele, dizendo baixinho: - Coragem.

Não se entregue assim. Tudo vai passar.
Valdo voltou com um médico, que o examinou e disse:
- Ele precisa de repouso. Está com a pressão muito alta e alteração
dos batimentos cardíacos. Vou aplicar-lhe um calmante. Humberto não queria afastar-se dali, mas o médico mandou dois
enfermeiros colocarem-no no carrinho e levarem-no para o quarto. Estela acordou assustada, sem perceber o que estava acontecen
do. Viu quando os enfermeiros aplicaram a injeção em Humberto,
que em seguida adormeceu.
"Meu Deus!", pensou ela. "Ele está mal. Será que Mirtes..." Levantou-se e foi até o corredor da UTI. Isaltina abraçou-a,
dizendo-lhe ao ouvido:
- Você precisa ser forte. Sua filha partiu.
Estela sentiu as pernas fraquejarem. Isaltina sentou-a na poltrona. Imediatamente, Alzira e Antônio abraçaram-na enquanto
Isaltina e Valdo oravam por eles.
297
Os dias que se seguiram foram de tristeza e dor.
Valdo tomou todas as providências para o sepultamento. Humberto, contrariando o médico, fez questão de acompanhar tudo.

Seus filhos, tocados pelo sofrimento dele,
cercaram-no de atenções. Queriam levá-lo para a mansão da família, mas Humberto não quis. Queria ficar lá, na casa onde
fora feliz ao lado da esposa.
Apesar da dor que os entristecia, Estela, Antônio e Alzira sentiam-se fortalecidos pela fé e pela certeza de que a vida
continua após a morte do corpo, diferentemente
do que pensava Humberto. Embora chocados pela brutalidade do acontecimento, procuravam confortá-lo, o que estava sendo difícil.

Inconformado, ele mergulhou na depressão,
perdeu o gosto de viver.
O médico conversou com os filhos para que tentassem ajudá-lo. Assustados com o abatimento dele, nos primeiros dias os dois
rapazes procuraram levantar-lhe o ânimo.
Não obtendo resultado, aos poucos foram desistindo.
Em menos de um mês após a morte de Mirtes, apenas a família dela o visitava, tentando fazê-lo levantar-se. Humberto, porém,
não reagia de forma alguma. Passava os
dias na cama, apático, entregue ao desânimo.
A pedido de Estela, Isaltina fora visitá-lo algumas vezes. No entanto, embora Humberto a recebesse educadamente, ele não
melhorava.
- Ele perdeu o gosto de viver. Se continuar assim, não viverá
muito tempo - considerou Isaltina à família de Mirtes.
- É uma pena. É um homem bom e gostava muito de minha
filha - lamentou Estela.
- Ele estava no auge da paixão. Não se conforma com a tragé
dia - comentou Valdo.
- Não é fácil para um homem como ele passar por uma
experiência dessas - tornou Antônio.
- Eu penso de outra forma - disse Alzira. - A bondade não
impede ninguém de passar pelos desafios na vida.
Todos a olharam admirados.
- A bondade atrai o bem - comentou Estela.
- Mas não impede que as pessoas passem por experiências
dolorosas.
- Não acha que você está sendo injusta? - perguntou Antônio ligeiramente escandalizado com as palavras da filha.
- Não, papai. Uma pessoa pode ser muito boa mas ingênua. E
298
a vida quer que aprendamos a viver com sabedoria. Por isso a evolução do espírito nunca pára. E esse processo ocorre através
do atrito. Ninguém gosta de mudanças.
As pessoas se acomodam. De repente, tudo muda e elas são obrigadas a aceitar o novo, a seguir em frente.
- Tem razão, Alzira - concordou Isaltina. - Foi a sabedoria divina que falou pela sua boca. Estamos vendo todos os dias
pessoas que consideramos bondosas sofrerem
toda sorte de problemas. Observamos, depois de algum tempo, quanto elas amadureceram com eles.
Valdo abraçou Alzira, dizendo:
- Você acabou de responder às minhas indagações. Acho injusto uma pessoa boa sofrer. Onde está seu merecimento?
- Na ajuda espiritual que sempre têm - respondeu Isaltina. - Os amigos que fazemos pelo caminho, seja no astral ou no mundo
terreno, são energias positivas que nos
apóiam nos momentos difíceis. Com elas encontramos forças para enfrentar as situações com menos dor e mais lucidez, o que
favorece nossa vitória. Mas, já que você
falou em mérito, nós só conquistamos algum quando vencemos nossos pontos fracos. Ajudar os outros é bom, dá prazer, faz
bem à alma, mas não nos dá merecimento. Em
nosso progresso espiritual, o que conta mesmo é a modificação de nossas atitudes para melhor.
Essas conversas faziam muito bem a todos eles, criando à sua volta um ambiente de paz. Isaltina, embora se ocupasse em muitas
atividades, sempre encontrava um tempo
para um café com os amigos e a troca de idéias sobre espiritualidade. Entre eles havia nascido uma amizade sincera e proveitosa.
Por causa da morte de Mirtes, Alzira resolveu adiar a data do casamento. Valdo, embora contrariado, acabou aceitando. Ela

queria ficar mais um pouco morando com
os pais, confortando-os. Marcaram uma nova data para seis meses depois.

Foi com satisfação que Mercedes ficou sabendo da morte de Mirtes. Sobral havia ido investigar no hospital e confirmou que
ela morrera. Imediatamente foi dar a notícia.
Mercedes continuou pagando Sobral para acompanhar a vida de Humberto. Ela queria saber tudo que estava acontecendo.
A criada às vezes comentava quanto ele estava abatido, fechado na mansão, sozinho com os criados, sem vontade de viver.
"Isso passa", pensava ela. "O tempo cura todas as feridas. Logo ele estará aqui à minha procura."
299
Mas o tempo passava e ele não aparecia. As notícias não eram animadoras. Sobral dizia que ele estava doente. O detetive
acompanhava também as investigações da polícia
sobre o crime. Assim soube do interesse de Humberto em oferecer recompensa a quem desse alguma pista do assassino.
Mas, apesar do esforço, a polícia não tinha nenhuma pista. Ninguém havia visto nada. Mesmo Humberto só enxergara um vulto.

O delegado várias vezes o interrogara
sem resultado. Certa vez comentou com Humberto:
- Para mim não foi assalto. Foi encomenda.
- Como assim? - indagou Humberto.
- Matador profissional. O tipo de arma, o calibre da bala revelam que a pessoa entende do assunto e atirou para matar. Sua
mulher tinha inimigos?
- Não. Mirtes era amada por todos. Isso não pode ser, doutor.
- Se fosse algum inimigo seu, o senhor estaria morto agora. Infelizmente, esses tipos sabem o que estão fazendo e nunca
erram. Não deixam pista.
Depois que o delegado se foi, Humberto ficou pensando em suas palavras. Mas não chegou a nenhuma conclusão. Ele estava errado.

Só podia mesmo ter sido um assalto.
Não havia outra explicação.
Mas, fosse o que fosse, ele não iria desistir. Sua vida estava destruída e dali para a frente viveria para a vingança. Precisava
fortalecer-se, ficar bem para poder
investigar por conta própria.
A partir daquele dia esforçou-se em alimentar-se melhor, obedecer às indicações médicas e recuperar a saúde.

Dois meses depois, Mercedes telefonou para Humberto. Com voz triste, disse que lamentava o acontecimento e estava preocupada
com ele. Ouviu dizer que estava doente.
Humberto comoveu-se com as palavras dela. Mercedes amava-o de fato. Havia se afastado completamente para não prejudicar seu
casamento e agora procurava-o preocupada
com seu bem-estar. Agradeceu seu interesse.
Ela finalizou:
- Avalio como deve estar se sentindo sozinho. Eu sei como é isso. Se desejar conversar, venha tomar um chá comigo. Você
sabe que sempre será bem-vindo à minha
casa.
A princípio ele pensou em não ir, mas, decorridos alguns dias, começou a achar insuportável sua solidão. A presença de Mirtes
com sua risada alegre, sua exuberância, enchia sua casa, que, agora vazia e silenciosa, o deprimia.
Uma tarde, triste e abatido, foi à casa de Mercedes, que o recebeu com carinho. Humberto sentiu-se apoiado. Não teve vergonha
de falar de seus sentimentos.
Mercedes controlou a raiva e ouviu-o pacientemente falar do amor que sentia por Mirtes, de como fora feliz a seu lado e
de como sofria com a separação. Ela a custo
conseguiu controlar a revolta ouvindo-o discorrer sobre a rival. Porém o pensamento de que ela vencera e que ele em breve
estaria de volta e esqueceria aquela aventura
dava-lhe forças.
O tempo todo Mercedes mostrou-se como uma amiga leal e dedicada.
- Chorei muito quando soube. Sua felicidade é tudo quanto desejo na vida. O amor que sinto por você é puro e verdadeiro.
Embalado em falar de si, Humberto nem pensou que ela podia estar mentindo, que sua atitude não era natural em uma mulher
de meia-idade que havia sido trocada por
outra muito mais jovem e bonita.
A partir daquele dia, Humberto passou a visitar Mercedes com freqüência. Agora, seu assunto predileto era a vingança. Contoulhe
que havia contratado um detetive
para procurar o assassino. Ele não descansaria enquanto não o colocasse atrás das grades.
Mercedes imediatamente comunicou-se com Sobral, que procurou descobrir quem era a pessoa que estava trabalhando para Humberto.
Sobral era bem relacionado no meio policial, mas não conseguiu identificar ninguém. Sabia que eles eram discretos, porque
os clientes queriam sigilo. Passou na delegacia
e conversou com policiais amigos, tentando obter uma pista, mas foi inútil.
- A senhora tem certeza de que Humberto contratou mesmo um detetive?
- Tenho - respondeu Mercedes. - Disse até que tem recebido alguns relatórios. Ele está levantando a vida da família dela

porque o delegado suspeita de que foi um
profissional.
- Ele disse isso?
- Disse. Mas Humberto acha que o delegado está enganado. Não acredita nessa hipótese.
- Ainda bem. Eles não vão descobrir nada.
- É o que eu acho. Humberto me conta tudo. Vou ver o que posso descobrir. Qualquer novidade, eu ligo.

Estela e Antônio de vez em quando visitavam o genro, preocupados com seu abatimento. Espaçaram as visitas depois que ele
se recuperou.
Agora era Humberto que, quando a saudade batia forte, ia à casa dos sogros conversar. Falava das providências que estava
tomando para descobrir o assassino de Mirtes.
Depois que ele saía, Estela comentava com o marido:
- Não gosto da maneira como Humberto fala.
- Mas eu concordo com ele. Gostaria de ver esse assassino na cadeia.
- Eu também. Mas tenho procurado não cultivar a vingança. Não quero ter ódio no coração.
- Quando penso em nossa filha agredida daquele jeito, sinto muita raiva.
- Não é fácil. Há momentos em que a dor fica insuportável. Mas então me recordo das palavras de Dona Isaltina e procuro
trabalhar isso de outra forma.
- Não há palavras que possam ajudar nesta hora.
- Há, sim. São palavras de sabedoria. Às vezes questiono por que Deus permitiu que esse crime se consumasse. Somos pessoas
de bem... Por que ele não impediu que
esse assassino a atingisse?
- São perguntas que eu fiz mil vezes, sem encontrar resposta.
- Isaltina me explicou. Nós somos responsáveis por tudo que nos acontece na vida. Nossas atitudes criam nosso destino.

Não existe injustiça. Deus está no leme de
tudo. Se fomos atingidos por essa tragédia, foi porque precisávamos aprender alguma coisa.
- O que se pode aprender com uma coisa dessas? Eu senti raiva, impotência, desânimo.
- Onde está sua fé? Esqueceu como fomos ajudados quando estávamos sem dinheiro e sem emprego?
- Eu não esqueci. Mas por que Mirtes teve de passar por isso?
- Eu não sei. Mas, como Deus é misericordioso, justo, deve haver uma boa razão. Eu prefiro perdoar, procurar aceitar o
que aconteceu, deixar o castigo do criminoso
nas mãos de Deus. Tenho certeza de que um dia, seja onde for, ele terá a lição de que precisa para respeitar o sagrado direito
à vida.
Antônio abraçou a esposa, dizendo comovido:
- Você é muito melhor do que eu. Por favor, ensine-me a suportar esta mágoa e perdoar.
Ela o beijou na face com carinho:
- A vingança não trará Mirtes de volta. Ao contrário, só vai perturbá-la no astral. Precisamos mandar-lhe pensamentos de
luz, de amor e de paz. Não sabemos como
ela está aceitando o que lhe aconteceu.
- Você acha que ela está sofrendo?
- Mirtes tinha gênio forte, era um pouco rebelde. Isaltina disse que, se ela aceitar a ajuda dos espíritos socorristas e
lhes obedecer, ficará bem. Mas, se se rebelar,
poderá sofrer muito mais.
- Nesse caso, vamos nos esforçar para manter a calma e mandar-lhe pensamentos bons.
- Isso mesmo. Deus nos dará forças para superarmos nossos sofrimentos.
Eles não viram que um vulto escuro em um canto da sala chorava copiosamente, em franco desespero. Trazia um longo vestido
roto e uma ferida aberta na barriga, sobre
a qual colocava uma das mãos como a impedir que sangrasse.

Mirtes abriu os olhos assustada. Sua barriga queimava. Além disso, sentia tonturas e tinha dificuldade de raciocinar.
Lembrou-se de que havia bebido um pouco a mais, e talvez a bebida lhe tivesse feito mal. Olhou em volta. A sala branca estava
silenciosa. Não havia ninguém. Que
lugar era aquele?
A um canto, algumas macas e dois corpos cobertos por um lençol. O lugar era frio e provocou-lhe desagradável sensação. Estaria
sonhando?
Passou a mão pela cabeça tentando mandar embora aquele atordoamento. Sentiu medo e desejou sair dali, mas a curiosidade
foi mais forte.
Que corpos eram aqueles cobertos? Claro que estavam mortos. Só se cobre a cabeça de uma pessoa quando está morta.
Aproximou-se de um deles e tentou levantar o lençol, mas não conseguiu. Sua mão passava por ele sem tocá-lo. Sem
saber o que fazer, fixou o olhar sobre o corpo e imediatamente viu que era o de um homem jovem.
Aproximou-se do outro e naquele momento dois rapazes de branco entraram na sala. Um deles levantou o lençol e Mirtes estremeceu:


era ela que estava estendida naquela
maca, nua e gelada.
O que significava aquilo? Que pesadelo era aquele? Apavorada, saiu correndo e nem sequer notou que passou através das portas

fechadas. Viu-se na rua. Mas era estranho,
as pessoas falavam, os carros andavam e ela não ouvia nenhum ruído. Era como se estivesse morta.
Claro que só podia ser um pesadelo. Em breve ela acordaria e tudo voltaria ao normal. Aquele corpo costurado e frio não

era o dela. Era uma ilusão, um sonho. Ela
estava viva. Podia se apalpar, sentir, pensar.
Mirtes não sabia por quanto tempo perambulou pelas ruas tentando voltar para casa. Cansada, sentou-se em uma praça. Um jovem

sentou-se a seu lado, olhou para ela
e sorriu.
Ela notou que ele a estava vendo, o que não acontecia com as pessoas com quem havia tentado conversar. Aproveitou o momento:
- Você está me vendo?
- E ouvindo muito bem.
- Quero ir para casa, sair deste pesadelo horrível. - Não é um pesadelo.
- O que é, então?
- Uma mudança de estado. Você está em outra dimensão. Sua
casa agora é outra.
- Não acredito. Como pode dizer uma coisa dessas?
- É verdade. Você não pertence mais ao mundo dos encarnados.
- Não pode ser. Quem fez isso comigo? Como me tiraram de lá, assim, de uma hora para outra, sem meu consentimento, justo

agora que eu estava no auge de minha vida?
- Há momentos em que a vida assume a direção e é preciso aceitar.
- Eu quero voltar para minha casa. Você não está dizendo a verdade.
- É melhor aceitar o inevitável. Você não pode mais voltar para lá. Vim buscá-la. Vou levá-la para um lugar onde ficará

amparada e receberá todos os esclarecimentos
que quiser.
306
- Não quero ir. Não o conheço e não acredito em nada do que está dizendo. Quero ir para minha casa. Fique sabendo que tenho

dinheiro. Agora sou muito rica. Se me
levar para lá, posso recompensá-lo muito bem.
Ele sorriu e respondeu:
- Eu não preciso de nada. Vim para ajudá-la. Venha comigo. - Já disse que não quero. Deixe-me em paz. Está confundindo minha

cabeça.
- Você está chegando agora e desconhece os perigos a que está sujeita. Venha comigo. Se não gostar do lugar, poderá sair.
- Não. Você está querendo me seqüestrar. Vou procurar a polícia e dar queixa.
- Está bem. Não posso forçá-la.
Ele desapareceu e Mirtes olhou em volta assustada. Ninguém podia desaparecer daquele jeito. Que loucura era aquela? A lembrança

do corpo costurado a atormentava.
Aquilo só podia ser um pesadelo. Ela estava viva, bem viva.
Sentou-se novamente e começou a pensar em sua casa, em como gostaria de estar lá. Era tudo tão lindo, tão agradável...
De repente, sem saber como, ela se viu em seu quarto, em casa. Humberto estava deitado, abatido, pálido. Estaria doente?
Radiante, Mirtes aproximou-se dele, dizendo:
- Finalmente eu o encontro! Como é bom estar em casa! O pesadelo acabou.
Humberto, porém, não se mexeu. Continuou cabisbaixo, triste. Mirtes insistiu:
- Humberto, sou eu. Voltei para casa! Ajude-me! Não sei o que aconteceu, mas meu vestido está roto, sujo de sangue, estou

machucada, preciso de um médico.
Ele continuava sem nenhuma reação. Talvez estivesse doente mesmo. Mirtes saiu à procura de algum criado que pudesse explicar-lhe

o que estava acontecendo.
Foi em vão que tentou atrair a atenção deles. Ninguém a ouvia ou via, e ela foi ficando desesperada. Aquilo não podia continuar.


Tinha de haver uma explicação.
Mas ninguém a socorria. Precisava prestar atenção à conversa deles, talvez assim pudesse saber o que tinha acontecido.
A princípio não foi fácil. Ela via as pessoas conversando, mas não conseguia ouvir o que diziam. Redobrou a atenção e aos

poucos foi conseguindo ouvir.
307
Falavam de um assalto, de um crime, estavam procurando um assassino. Ela viu Humberto contratar um detetive para investigar

o crime. Até que, um dia, quando o detetive
estava com ele, finalmente ela ouviu o marido dizer:
- Continue investigando. Não descansarei enquanto não pegar o assassino de minha querida Mirtes.
"O assassino de minha querida Mirtes..."
Aquelas palavras caíram sobre ela como uma bomba e continuaram martelando em seus ouvidos. Ela gritou e perdeu os sentidos.
Quando acordou, continuava no quarto do casal. Aquelas palavras voltaram e ela ficou apavorada. Crime? Então era verdade


mesmo? Ela estava morta? Aquele corpo frio,
costurado, era o seu? Como podia ser isso se ela estava mais viva do que nunca? Lembrou-se das palavras de Isaltina e estremeceu.


Estava ela falando a verdade?
Desesperada, Mirtes chorou copiosamente. Por que aquilo havia acontecido? Agora que ela tinha conseguido o que queria, jovem,

admirada, rica, prestigiada na sociedade,
alguém havia destruído tudo? Cerrou os punhos com raiva. Quem teria feito aquilo?
Quando se sentiu mais calma, decidiu ficar ao lado do marido e acompanhar as investigações. A pessoa que fez aquilo haveria

de pagar caro pela maldade.
Mirtes ficou junto a Humberto e presenciou seu sofrimento. Triste e comovida com a atitude dele, quando o via triste, olhando
seu retrato, dizia-lhe ao ouvido:
- Você é meu único amigo. Estou a seu lado. Juntos vamos descobrir esse assassino e nos vingar. Ele não pode ficar impune.
Naqueles momentos, Humberto sentia aumentar sua raiva e o desejo de vingança. Era em vão que os familiares de Mirtes tentavam

demovê-lo. Ela ficava irritada vendo-os
insistir para que ele deixasse a polícia cuidar do caso.
Foi com curiosidade que ela acompanhou Humberto à casa de Mercedes. Mais lúcida e habituada a seu novo estado, Mirtes conseguia
perceber os pensamentos das pessoas.
Notou logo que Mercedes fingia-se compungida mas estava feliz com sua morte. Isso despertou nela uma suspeita.
Certa tarde, quando Humberto se despediu, ela continuou na casa de Mercedes. Pôde perceber o ciúme que ela sentia e o esforço

que fazia para controlá-lo. Mirtes
resolveu ficar ao lado dela para vigiá-la. Assim, ouviu uma conversa dela com Sobral ao telefone. Suas suspeitas tinham

fundamento.
308
Quando Mercedes marcou um encontro com Sobral para pagarlhe os serviços no acompanhamento de Humberto e do caso, Mirtes

foi atrás.
Sobral entrou no carro e Mercedes indagou como estava a investigação, ao que ele informou:
- Não descobriram nada. Nem podiam. Dinho está muito longe e não deixou pista.
- Humberto não desiste. Está com uma idéia fixa.
- A senhora pode ficar sossegada. Ninguém descobrirá nada. Tenho visto Humberto ir à sua casa muitas vezes. Desse jeito,

a senhora logo conseguirá o que deseja.
- Você descobriu quem está trabalhando para ele?
- Ainda não. Mas, seja quem for, vai quebrar a cara. Foi tudo muito bem-feito.
- Espero que seja assim. Ninguém pode saber que fui a mandante. Paguei um preço caro. Espero que Dinho me esqueça e nunca

volte para me chantagear.
- O que é isso, madame? Sou um profissional de confiança. Não teria contratado Dinho se ele não fosse um homem sério, cumpridor

da palavra.
- Está bem. Se continuarem assim, não vão se arrepender. Sei reconhecer quem me é fiel.
Mirtes, sentada no banco traseiro do carro, ouvia estarrecida. Suas suspeitas estavam certas. Aquela mulher abandonada havia

realizado sua vingança. Ao invés de
acabar com o traidor, voltara-se contra ela. Se tivessem matado Humberto, teria sido até um bem, porque Mirtes estaria rica,

jovem e viúva, pronta para usufruir
da vida como gostaria. Mas não. Ela lhe tirara a vida. E agora teria de pagar por isso.
Irritada, Mirtes atirou-se sobre Mercedes dando-lhe socos e empurrões, dizendo revoltada:
- Sua traidora infame! Pensa que acabou comigo, mas estou aqui. Agora você vai pagar por tudo que me fez. Você e esse réptil


que por dinheiro não hesita em chegar
ao crime.
Mercedes sentiu uma tontura violenta e empalideceu. Sobral olhou-a assustado.
- O que foi? A senhora está se sentindo mal?
- Foi de repente... Fiquei tonta, minha cabeça pesa, estou com enjôo. Acho que vou desmaiar.
Sobral abriu as janelas do carro.
309
- Por favor, não faça isso. Não posso chamar ninguém. É perigoso que nos vejam juntos.
Mirtes afastou-se um pouco, procurando acalmar-se. Ela precisava saber quem havia atirado. Todos os culpados iriam pagar

pelo crime. Ela não os deixaria em paz.
Mercedes respirou fundo e disse:
- Já passou. Tudo isso me deixou nervosa. Não gosto de tratar deste assunto.
- Nem eu. Mas precisamos ir até o fim.
Mirtes observava atentamente e decidiu acompanhar Sobral. Mercedes havia sido a mandante; restava saber quem consumou o

crime.
Desde aquele dia, Mirtes passou a seguir Sobral. Descobriu que ele ganhava a vida enganando as pessoas para explorá-las.
Na tarde do dia seguinte foi que ela viu
o detetive ligar para Dinho. Exultou. Ele era quem procurava. Lembrava-se perfeitamente do nome.
Ouviu que Sobral dizia:
- Estou ligando para dizer que está limpo. Nosso negócio deu certo. Fique tranqüilo que o caminho está livre.
- Entendi. Mas não telefone mais. Só se tiver novidades. Por aqui está coberto, tudo como sempre, na mais perfeita ordem.
Despediram-se e Mirtes colou-se em Sobral. Ela queria conhecer Dinho.
Mas não conseguiu nada. Como saber onde ele estava? Apesar de não saber como fazer, continuou colada ao detetive. Seguia

todos os seus passos.
Dois dias depois viu um rapaz entrar no escritório. Trazia a rou
pa rasgada e uma cicatriz feia no pescoço. Vendo-a, perguntou:
- Quem é você? O que faz aqui? - Eu é que pergunto. O que quer?
- Tenho umas contas a ajustar com esse sujeito. Mirtes riu satisfeita:
- Eu também. Estou aqui para me vingar.
O rapaz abriu um sorriso largo e estendeu a mão, dizendo: - Nesse caso, estou com você. Meu nome é Jairo. - O meu é Mirtes.
Em um canto da sala eles conversaram e desabafaram.
Jairo contou que estava apaixonado por uma mulher casada. O
marido contratou Sobral para seguir a esposa. Ele fotografou tudo,
mas o marido não quis fazer o flagrante. Disse que não queria
310
escândalo. Preferia que alguém desse cabo do rival. Quanto à esposa, ele mesmo daria jeito.
- Sobral, esse bandido, contratou um matador que me tirou a vida à queima-roupa.
- Já sei: Dinho.
- Esse mesmo. Como você sabe?
Mirtes contou tudo e finalizou:
- Preciso descobrir onde ele está. Por isso estou aqui. Todos os que me mataram vão pagar.
- Você não pode fazer nada. Faz um ano que o estou seguindo. Sei onde esse canalha está, mas não consegui fazer nada contra

ele. Voltei para tentar alguma coisa
contra Sobral.
Mirtes entusiasmou-se:
- Você vai me levar aonde esse assassino está.
- Não adianta. Ele é muito perigoso. Tentei de todas as formas me vingar dele, mas ele tem alguns asseclas que o protegem.


Quase acabaram comigo.
- Como assim?
- Pessoas como nós, sem corpo de carne. Eles nem me deixaram chegar perto dele.
Mirtes ficou pensativa, depois disse:
- Nesse caso é preciso usar inteligência, fazer tudo sem que eles saibam.
- Como pensa agir?
Antes que Mirtes pudesse responder, entrou na sala uma mulher com roupas sujas de sangue, cabelos desalinhados, olhos aflitos.


Aproximou-se de Jairo, dizendo:
- Procurei você por toda parte. Por que me abandonou?
- Eu não a abandonei. Estou procurando resolver nossos pro
problemas. - Voltando-se para Mirtes, que os observava curiosa, continuou:
- Esta é Eli. Foi por ela que me apaixonei.
- Quer dizer que ela também foi assassinada?
- Sim. Pelo próprio marido. Ele fez umas alterações no carro
dela. Na estrada ela ficou sem breque e despencou no barranco. Assim
ela veio. Todos pensaram que foi acidente.
- Quer dizer que o marido dela continua livre? - Livre e já está saindo com outra.
- Aquele cachorro não perde por esperar - interveio Eli com raiva.
- Todos temos contas a ajustar. Juntos poderemos conseguir
311
o que pretendemos. Eu ajudo vocês e em troca vocês me ajudam. Que tal?
Os dois concordaram e ali mesmo selaram o pacto de vingança. Jairo e Eli tinham morrido havia mais de cinco anos. Nesse
período haviam se juntado a outros que como
eles desejavam ajustar contas com pessoas na Terra que os tinham prejudicado.
Graças a alguns serviços que prestavam ao grupo, haviam conseguido lugar para morar e convidaram Mirtes para ir com eles.

Assim, poderiam planejar os próximos passos.
Ela concordou.
O lugar era um sobradão abandonado onde viviam outros desencarnados. Mirtes não gostou do lugar, mas precisava ter paciência.


Depois cuidaria de seu futuro. Naquele
momento queria vingarse. Com a ajuda deles, tudo seria mais fácil. Conformou-se em ficar ali por algum tempo.
A primeira providência foi conhecer Dinho. Jairo e Eli a levaram até ele. Residia em um pequeno sítio onde plantava alguns

alimentos e vivia com simplicidade. Vendo
sua casa simples, sua vida modesta, ninguém imaginaria que ele tivesse dinheiro no banco, muito bem aplicado, e algumas

propriedades em São Paulo.
Era tido pela vizinhança como pessoa de bem, embora vivesse retraído. Morava em companhia de uma mulata que lhe servia de

criada e de amante.
Mirtes duvidou, mas Jairo mostrou-lhe no porão as armas muito bem cuidadas, munição e as roupas que usava quando saía para

fazer seu trabalho. Vendo-o, Mirtes não
se conteve. Atirou-se sobre ele gritando com raiva:
- Assassino! Você me tirou a vida, precisa pagar. Você vai ver!
Jairo tentou segurá-la, dizendo:
- Não faça isso. Eles vão nos pegar.
Nesse instante dois homens apareceram e agarraram Mirtes, que se debatia tentando soltar-se sem conseguir.
- Este terreno é proibido. Como você entrou aqui?- gritou um deles.
Jairo, que se escondera fora da sala, apareceu dizendo:
- Ela não sabia. Está alucinada. Vou levá-la embora. Isso não
vai mais acontecer.
- Eu conheço você - disse o outro. - Eu já disse que não era
mais para voltar aqui.
- Vim atrás dela para impedir que entrasse na casa. Ela não
está em seu juízo perfeito.
312
Mirtes estava muito assustada, mas aproveitou a deixa, fingindo-se de louca, rindo e não falando coisa com coisa.
Os dois olharam-na desconfiados. Depois um deles segurou-a pelos braços e sacudiu-a, gritando:
- Vou deixá-la ir. Mas nunca mais apareça por aqui. Da próxima vez coloco você no calabouço. Lá aprenderá a respeitar nossas

ordens.
Ela continuou resmungando. Jairo segurou-a e levou-a embora rapidamente. Eli, que os esperava, foi dizendo:
- Você já não a tinha avisado que não podia fazer isso? Acho que não devemos ajudá-la. Ela vai nos meter em confusão.
- Não - apressou-se a dizer Mirtes. - Pode confiar. Nunca mais farei isso.
Lágrimas corriam pela sua face. Ela estava assustada.
- É melhor assim - disse Jairo. - Vamos planejar tudo com inteligência. Não foi isso que você disse? Eles são mais fortes

do que nós. Não podemos fazer nada.
- Mas, quando me atirei sobre a mulher que mandou me matar, ela passou mal.
- Ela está encamada. Não pode ver você. Além do mais, os encarnados pensam que nós estamos mortos. Não sabem que continuamos

vivos.
- Nesse caso, você tem razão. Vamos deixar esse matador para o final, já que ele é protegido por desencarnados. Trataremos

primeiro dos outros: o detetive, Mercedes
e o marido de Eli. Afinal, foram eles que pagaram o matador que Sobral intermediou.
Os dois concordaram com entusiasmo. Combinaram vigiar todos os passos dos três. Enquanto Mirtes cuidaria de Mercedes, Eli


cuidaria do marido e todos vigiariam Sobral.

Depois daquele dia que Mercedes passou mal no carro, ela começou a não dormir bem. Tinha pesadelos, via-se perseguida por

vultos escuros. Por causa disso, tinha
medo de dormir. Quando estava pegando no sono, estremecia e acordava sem ar, suando muito, coração disparado.
Foi ao médico, que receitou um calmante. Vencida pelo cansaço, Mercedes comprou o remédio. Tomou um comprimido antes de

dormir e logo pegou no sono. Viu-se saindo
do quarto e no corredor encontrou-se com Mirtes, que a esperava, olhos brilhantes de ódio, vestido roto sujo de sangue,


cabelos em desalinho. Apavorada,
313
Mercedes quis voltar ao corpo, mas Mirtes segurou-a pelo braço gritando:
- Assassina! Assassina! Acha que seu crime ficará impune? Você vai pagar!
Ela ria sinistramente, e Mercedes, apavorada, esforçava-se para soltar-se dela. A custo conseguiu desvencilhar-se e correu
para o corpo adormecido, mergulhando nele.
Mirtes acompanhou-a dizendo:
- Não adianta fugir. Você vai me pagar. Mulher malvada, traidora. Humberto vai saber de tudo e vai ajudar minha vingança.
Mercedes conseguiu finalmente mergulhar no corpo. Queria levantar-se, mas o calmante havia deixado seu corpo mole. Apavorada,

entre o sono e a lucidez ela viu Mirtes
à sua frente brigando, ora irônica, ora enraivecida. Assim a noite passou, sem que ela pudesse descansar.
Na manhã seguinte, assim que acordou, jogou fora o calmante. Sentira-se pior com ele.
Humberto, que havia voltado a freqüentar sua casa por sentirse muito só, notou seu abatimento.
- Você precisa voltar ao médico. Está abatida.
Ao que ela respondia:
- É que fico triste vendo sua infelicidade. Se eu pudesse, faria qualquer coisa para devolver-lhe a alegria de viver.
- Minha alegria se foi com Mirtes. Nunca mais serei feliz. Você é muito boa. Fico comovido vendo sua preocupação. Não quero

que nada de mau lhe aconteça. Precisa
se cuidar.
Mirtes assistia àquelas conversas e sentia a raiva aumentar. A falsidade de Mercedes incentivava sua raiva. Se ao menos
Humberto não fosse tão bobo! Mas ele se deixava
conduzir, sem disposição para fazer nada. Seus filhos afastavam-se dele a cada dia, e Mercedes o conduzia como queria.
Mirtes via o apartamento luxuoso, as jóias que Mercedes possuía, e tudo aquilo era motivo de raiva. À noite, quando Mercedes

se recolhia, ela reiniciava sua agressão.
Mercedes ia ficando mais abatida, vivia sonada, cochilando durante o dia, apavorando-se quando a noite ia chegando. A instâncias

de Humberto, ia ao médico, que diagnosticava
crise nervosa, uma vez que os exames de laboratório nada acusavam. Receitava calmantes que ela não comprava com medo de

tomá-los e sentir-se pior.
314
Uma tarde, Humberto estava na casa de Mercedes, quando ela se aproximou dele chorosa e triste. Observando seu rosto pálido,

Humberto foi tocado de compaixão:
- Você não está bem. Receio que minha presença tenha contribuído para isso. Não sou boa companhia para ninguém. Talvez seja

melhor eu espaçar minhas visitas.
Mercedes sentou-se ao lado dele no sofá, segurou sua mão e levou-a aos lábios dizendo:
- Se você me deixar, morrerei mais depressa. Eu o amo muito.
Aproximou seu rosto do dele e começou a beijá-lo nas faces, na testa, nos lábios. Surpreendido, Humberto não teve forças

de repeli-la. Ele voltara a freqüentar sua
casa apenas como amigo e não haviam retomado o antigo relacionamento.
Quando ela o beijou nos lábios, ele retribuiu sem coragem de resistir. Mirtes, que se encontrava em um canto da sala, ficou

indignada. Era aquilo que Mercedes queria.
Para tê-lo de volta foi que mandou assassiná-la.
Agora estava conseguindo, enquanto ela, Mirtes, havia perdido tudo, transformando-se naquela sombra triste, mal vestida


e infeliz.
Cheia de raiva, atirou-se sobre Mercedes, gritando furiosa:
- Assassina! Você não vai tê-lo de volta. Estou aqui para impedir. Assassina! Assassina miserável!
Mercedes estremeceu e separou-se de Humberto. Olhos arregalados, gritou aflita:
- Você está morta! Os mortos não voltam! Deixe-me em paz. Mirtes, percebendo que havia sido vista, respondeu:
- Eu estou viva! Você matou meu corpo, mas eu estou viva! A
morte não me destruiu. Agora você vai pagar, sua assassina. Nunca
vai ser feliz. Voltei para me vingar.
- O que foi, Mercedes? O que há com você? Responda!
Ela continuava olhando fixamente para o vazio, olhos esbuga
lhados, rosto mais pálido ainda, trêmula, sem poder falar. Assustado, Humberto segurou-a pelos braços e sacudiu-a,
dizendo:
- Mercedes! O que você tem? Olhe para mim.
Ela estremeceu e perdeu os sentidos. Humberto, aflito, chamou a criada e estenderam-na no sofá. Ele pediu:
- Ligue para o médico. Peça-lhe que venha imediatamente. Enquanto a criada corria ao telefone, Humberto tentava reanimar
315
Mercedes, friccionando seus pulsos, abrindo sua blusa, dando
lhe palmadinhas nas faces e chamando:
- Mercedes... Mercedes... Volte! Acorde!
Aos poucos ela foi voltando. A criada trouxe um copo de água.
Humberto levantou-lhe a cabeça e colocou o copo em seus lábios. - Beba, Mercedes.
Ela começou a tremer e não conseguiu beber a água. - Acalme-se. O médico logo estará aqui.
Ele continuou segurando as mãos dela murmurando palavras de
carinho, tentando acalmá-la. Quando ela conseguiu falar, disse: - Onde está ela? Você a expulsou? - Quem?
- Ela me odeia, me persegue, não me deixa dormir. Eu sei que é ela.
- Não estou entendendo. Ela quem?
- Sua mulher, ela me persegue. Está com ciúme de mim. Humberto olhou para a criada preocupado. Mercedes estava
variando.
- Não pode ser. Mirtes está morta.
- Eu a vi. Estava com vestido sujo de sangue, cabelos arrepia
dos, cheia de ódio. Quer me matar.
- Foi alucinação, Mercedes. Quem morre não volta. Você
precisa refletir. De onde tirou essa idéia?
- Eu vi. Não a deixe me pegar. Tenho medo!
Humberto foi conversando, procurando acalmá-la. O médico
chegou e examinou-a. Prescreveu a receita e pediu que fossem comprar
o medicamento imediatamente porque ele mesmo queria aplicá-lo. A criada saiu apressada e voltou poucos minutos depois com


o remédio. O médico aplicou uma injeção e Mercedes adormeceu em
seguida. Preocupado, Humberto conversou com ele para saber o que
pensava.
- Dona Mercedes está com o sistema nervoso abalado. Fizemos todos os exames clínicos. Ela não tem nenhuma doença.
- Mas ela teve alucinações, crise nervosa. Nunca a vi assim. Mercedes sempre foi pessoa equilibrada.
- Aconselho-o a levá-la a um psiquiatra. Sou clínico geral, e o caso dela requer tratamento especializado. Com a injeção,


ela vai dormir algumas horas e acordar
melhor.
- Vou seguir seu conselho.
Humberto sentia-se angustiado, triste. Imaginava que sua
316
presença estava perturbando Mercedes, que o amava e acreditava estar traindo Mirtes. Por isso ela estava em crise. Era melhor
ele ir embora. Antes de ir, prometeu à
criada uma boa gratificação para que ela cuidasse bem de Mercedes.
Quando o médico aplicou a injeção, Mirtes ficou ao lado do leito esperando que Mercedes deixasse o corpo para continuar
sua perseguição. Mas, para sua surpresa,
viu que o duplo dela dormindo elevou-se apenas uns cinqüenta centímetros sobre o corpo adormecido e ficou ali, sem dar acordo
de nada.
Mirtes nunca havia visto aquilo e chamou Jairo, perguntando o que estava acontecendo. Ele riu e respondeu:
- Há medicamentos fortes que fazem esse efeito. Não me pergunte por quê, que eu não sei. Mas é caso comum. Vamos embora,
porque agora você não vai poder fazer nada.
Tem de esperar esse efeito passar. Vamos ajudar Eli, que está precisando de nós.
Os dois saíram rapidamente, enquanto Mercedes finalmente havia conseguido adormecer sem sonhar.
317
Quando Mercedes acordou, chamou diversas vezes por Humberto. A criada ligou com urgência para ele, que dirigiu-se para lá


acompanhado de um médico psiquiatra. Chegando
ao apartamento, o médico pediu para ficar a sós com ela.
Humberto esperou na sala ansioso. Desejava deixar Mercedes nas mãos de um especialista capacitado e afastar-se. Ele havia

se convencido de que sua presença a estava
prejudicando.
Uma hora depois, quando o médico entrou na sala, Humberto levantou-se e indagou:
- E então, doutor, o que achou?
- Ela está mesmo com o sistema nervoso muito abalado. Ao deixar o quarto, conversei com a criada, que me informou que Dona
Mercedes não gosta de tomar calmantes.
Imagina que eles lhe fazem mal.
- É um absurdo.
- Se ela tivesse tomado os medicamentos
319
que lhe foram receitados, não teria chegado a este estado. Está com idéia fixa, julga-se culpada
pelo afeto que tem pelo senhor e imagina
que sua esposa morta deseja vingar-se.
- Ela me disse isso. Infelizmente minha esposa morreu assassinada por um assaltante e até agora a polícia não conseguiu
descobrir nada. Mercedes é muito dedicada
a mim. Depois que enviuvei de minha primeira esposa, ela se tornou minha companheira. Sempre foi muito boa. Quando me apaixonei
por Mirtes, aceitou nossa separação,
mas, segundo diz, nunca deixou de me amar. É uma pessoa boa, que só deseja minha felicidade.
O médico olhou-o admirado.
- Penso que o senhor está enganado. Dona Mercedes odeia sua esposa.
- Ela lhe disse isso?
- Não. Mas percebi claramente seu ódio quando a mencionava. Ela não quer ver essa realidade.
- Nunca me pareceu isso.
- Pois para mim ficou claro. Ela aceitou a separação aparentemente. No fundo odiou ser trocada por uma mulher mais jovem.


Essa é uma reação natural em um caso desses.
Ela foi rejeitada, abandonada, odiou a rival que lhe roubou o homem amado. Fez mais: em seu inconsciente desejou que ela
desaparecesse, que morresse. Quando soube
que sua mulher havia sido assassinada, sentiu-se culpada. A culpa faz a pessoa sentir-se má. Ninguém quer ser mau. Passou
a ter pesadelos, insônia, medo de dormir,
e alucinou.
Humberto passou a mão pelos cabelos, pensativo. O que o médico dizia tinha lógica.
- Pode ser isso, doutor. Hoje, quando cheguei aqui, ela se sentou a meu lado no sofá dizendo quanto me amava e sofria vendo
meu sofrimento. Depois que terminamos
nosso caso, tornamo-nos apenas amigos e nunca mais tivemos intimidade. Mas, nesta tarde, além de declarar seu amor, ela me
beijou com tal calor que não tive coragem
de repelir. Foi nessa hora que ela teve a alucinação.
- Aí está. Tal como eu disse! Ela está sob o efeito da culpa.
- Decidi afastar-me dela. Pretendo acompanhar o tratamento, mas não quero vê-la. Sinto que minha presença a prejudica.
- Ela vai ter de aprender a lidar melhor com isso. Mas no início do tratamento será melhor mesmo que fique afastado dela.
O senhor também está muito abalado. Por
que não faz uma viagem, tenta distrair-se um pouco?
320
- Não tenho vontade. Minha vida acabou depois da morte de Mirtes.
- O tempo cicatriza as feridas. Hoje há medicamentos que ajudam a vencer a depressão.
- Não há remédio que cure a dor que sinto. Mas obrigado pelo interesse. O que sugere para o caso de Mercedes?
- Ela precisa de um tratamento firme, contínuo. Como não toma remédio, seria indicado ela ficar algum tempo em minha clínica.


Lá tomará os medicamentos na hora certa,
e na terapia vamos procurar torná-la consciente de sua ilusão. Quando ela aceitar a realidade, estará curada.
- Ela não vai querer ir.
- Procure convencê-la. Nossa clínica é moderna, agradável. Tenho certeza de que se sentirá bem lá. Se ela continuar como
está, vai piorar.
- A injeção fez bem a ela. Apesar da inquietação que tem, seu rosto está mais corado.
- No início poderemos fazer uma semana de sonoterapia. Antes preciso fazer-lhe alguns exames clínicos.
- Farei o possível para convencê-la. Amanhã mesmo a levarei até lá.
- Seria bom. Quanto antes iniciarmos o tratamento, melhor será. Depois que o médico se foi, Humberto foi ter com Mercedes.


- Sua aparência melhorou.
- Dormi e o sono fez-me bem.
- O médico disse que preciso cuidar de minha depressão. Aconselhou-me a fazer uma viagem. Hoje mesmo vou procurar a agência
de turismo. Quero ir o mais cedo possível.
- Posso ir com você?
- Não. Você também precisa tratar-se. Ele quer que você fique alguns dias hospedada em sua clínica para tratamento. - Quer
me internar?
- Não. Ele apenas deseja que tome os remédios na hora certa e faça terapia. Acha que você precisa trabalhar suas emoções.


Se fizer isso, dentro de pouco tempo estará
curada.
- Ele disse isso?
- Garantiu. Então eu pensei: enquanto você fica se tratando com ele, eu faço uma viagem. Quando voltar, estaremos bem e
falaremos sobre nossas vidas.
- Você promete que pensará em mim?
321
Ele segurou as mãos dela com carinho:
- Amor eu não posso lhe dar. Estou incapacitado de amar. Mas
gosto muito de você, desejo que fique bem, que seja feliz. Quando
eu voltar da viagem, estaremos melhor, tudo terá passado. Os olhos dela brilharam esperançosos. - Sim. Eu confio em você.


- Vai fazer o tratamento? - Vou.
- Amanhã mesmo eu a levarei até lá. Dentro de pouco tempo estará curada.
No dia seguinte pela manhã, Humberto levou Mercedes à clínica. Era um lugar agradável, mais parecido com um hotel do que
com um hospital. Mercedes estava nervosa,
chorou ao despedir-se, e Humberto não via a hora de deixar aquele lugar.
Chegou em casa mais deprimido do que nunca. Sentou-se na sala pensativo, sem coragem de fazer nada. Pouco depois, o criado
avisou-o que Alzira e os pais haviam chegado.
Humberto levantou-se para recebê-los. Os recém-chegados logo notaram que ele estava mais magro e mais triste. Depois dos
cumprimentos, tentaram animá-lo um pouco,
falando dos preparativos para o casamento de Alzira, marcado para dali a dois meses.
Alzira aproximou-se de Humberto e tomou-lhe a mão, dizendo:
- Pensei que iria encontrá-lo melhor. Sinto que aconteceu alguma coisa que o abalou muito. O que foi?
Talvez por estar fragilizado por haver sofrido tantos problemas e pelo fato de a voz de Alzira lembrar a de Mirtes, Humberto
não conseguiu controlar-se e chorou
convulsivamente.
Estela e Antônio levantaram-se emocionados, e Alzira fez-lhes sinal para que se permanecessem sentados. Em silêncio, esperaram
que ele se acalmasse. Por fim, Alzira
disse:
- As lágrimas lavam a alma.
- Desculpem. Melhor seria eu ter morrido com ela. Aonde vou só levo tristeza e dor.
- Não diga isso. Nós compartilhamos sua dor. Mas temos de aceitar a vontade de Deus. A morte é irreversível.
- Eu sei. É isso o que me dilacera.
- Juntos encontraremos forças para superar este momento difícil. Às vezes, desabafar é bom. O que aconteceu que o abalou
tanto?
- Preciso desabafar mesmo. Não sou de ferro... Vocês não ignoram que, antes de conhecer Mirtes, tive um caso com uma
322
mulher chamada Mercedes. Ela me fazia companhia e ajudava a preencher o vazio deixado pela morte de minha primeira esposa.
Ele fez uma pausa e, notando que os três o ouviam com respeito e atenção, continuou:
- Quando me apaixonei por Mirtes e fui correspondido, senti que havia encontrado o amor de minha vida. Quando ela aceitou
meu pedido, terminei o caso com Mercedes.
Ela foi compreensiva. Deixei-a bem financeiramente e nos separamos.
Humberto continuou falando de sua tristeza e de como encontrava em Mercedes a ouvinte atenta, a amiga carinhosa. Finalmente


falou dos últimos acontecimentos, omitindo
apenas o detalhe do beijo. Finalizou:
- Hoje acompanhei Mercedes à clínica e deixei-a internada e chorando.
Alzira olhou-o firme e disse:
- Está na hora de você saber que a morte é apenas uma viagem. Mirtes continua viva em outra dimensão.
- O que está me dizendo? Isso não é verdade. Ela está morta, e os mortos não voltam.
- Está enganado. O corpo de carne de Mirtes morreu, mas seu espírito continua vivo no outro mundo.
Humberto olhou para os sogros como que pedindo esclarecimentos.
- É verdade - confirmou Antônio comovido.
- É essa certeza que nos tem confortado depois da tragédia - completou Estela.
- Não... Não posso crer. Isso é ilusão.
- Ilusão é pensar que a vida seja tão pequena que termine com a morte. O espírito é eterno. No universo nada se perde, tudo
se transforma. A morte é uma transformação.
Mas o espírito continua do mesmo jeito, consciente de tudo, com os mesmos amores e desejos que sempre teve - esclareceu
Alzira.
- Nunca ninguém provou nada disso - tornou Humberto.
- Ao contrário: para os pesquisadores sérios, há inúmeras provas da sobrevivência do espírito após a morte. Creio que Mirtes
apareceu mesmo para Mercedes. Ela era
muito ciumenta. Pode ter se irritado com o afeto de vocês.
Humberto baixou a cabeça envergonhado. Lembrou-se do beijo que trocara com Mercedes. Se Mirtes estivesse ali em espírito,
teria ficado muito irritada. Mas isso era
difícil de acreditar.
- Seria muito bom se fosse verdade, mas não podemos cultivar uma ilusão.
- Você está precisando de ajuda espiritual - disse Alzira com voz firme. - Vamos levá-lo ao centro espírita de dona Isaltina.


Tenho certeza de que essa ajuda se
estenderá sobre Mercedes.
- Eu nunca fui a um lugar desses...
- Há sempre uma primeira vez. Hoje à noite, eu e Valdo viremos buscá-lo. Depois da morte de Mirtes senti vontade de levá-lo
lá, mas não quis passar por cima de suas
crenças. Agora sinto que é necessário. Não dá para esperar mais.
- Por quê, filha? - indagou Antônio. - Humberto não está inclinado a ir. Temos de respeitar sua vontade.
A voz de Alzira tornou-se mais firme e segura quando respondeu:
- Trata-se de necessidade urgente. Mirtes não está bem. Se queremos ajudá-la, devemos fazer o que nossos mentores pedem.
Humberto precisa atender à parte espiritual
com urgência.
- Nesse caso, eu vou - concordou ele, impressionado com o tom com que Alzira dissera aquelas palavras.
- Viremos buscá-lo às sete.
Quando deixaram a casa de Humberto, tanto Estela quanto Antônio estavam admirados com a atitude da filha, muito diferente
do habitual.
- O que aconteceu com você? - indagou Antônio assim que se viram a sós.
- Senti uma força muito forte e, quando vi, estava falando todas aquelas coisas com Humberto.
- Acho que é mediunidade - considerou Estela.
- Está se sentindo bem? - indagou Antônio.
- Muito bem. Durante nossa conversa com ele, parecia que eu estava flutuando. Uma sensação muito agradável.
- Nesse caso, só podemos agradecer pela ajuda - tornou Estela.
Na hora combinada, Valdo e Alzira foram buscar Humberto. Durante o trajeto, notando que ele estava tenso, procuraram conversar
sobre outros assuntos.
Quando chegaram ao centro, Isaltina abraçou Humberto com carinho e levou-o a uma sala onde ficaram a sós. Vendo-o acomodado,


disse:
324
- Finalmente você veio. Fazia tempo que o esperávamos.
- Devo dizer que não creio em vida após a morte. Alzira insistiu dizendo que aqui eu teria provas de que Mirtes continua
viva em outro mundo.
- O mais importante agora é ajudá-lo a equilibrar-se. Chegou a hora de pensar em você, em sua responsabilidade diante da
vida que lhe deu tudo.
- O que importa o resto, se perdi o que mais amava? Pensar em mim para quê, se não sinto mais vontade de viver?
- Precisa entender que cada um tem seu próprio processo de evolução. Todos caminham amparados pelas leis perfeitas da vida.


De acordo com as escolhas pessoais, essas
leis determinam as experiências que conduzirão ao desenvolvimento da consciência. Nesse processo une e separa, conforme
a necessidade.
- Não entendo por que Mirtes foi assassinada na flor da idade, quando estávamos tão felizes.
- É difícil trabalhar a perda. Quando amamos, temos a ilusão de achar que a pessoa nos pertence. Acreditamos que ficará
ao nosso lado para sempre. Mas qualquer união
no mundo sempre será temporária. Assim como, quando existe amor, nenhuma separação será para sempre.
- A senhora fala como se algum dia eu e Mirtes fôssemos nos reencontrar...
- Estou certa disso. Só não posso dizer quando. - Esse seria o dia mais feliz de minha vida. Isaltina sorriu e considerou:
- É melhor que pense assim. Mas vamos cuidar de você. Vou indicar-lhe um tratamento espiritual que o ajudará a recuperar
as forças. Mas precisamos de sua cooperação.
A depressão, a tristeza e a angústia não trarão Mirtes de volta. Você tem dois filhos que, embora sejam adultos, precisam
muito de sua proteção. Há quanto tempo
não os vê? Por acaso sabe o que está acontecendo com eles?
Humberto sobressaltou-se:
- Eles não ligam para mim, não me procuram nem se interessam pelos meus problemas.
- Você acha que foi bom pai apenas porque lhes deu luxo e dinheiro à vontade. Mas carinho, companheirismo, isso faltou.


Primeiro por causa dos negócios, ultimamente
por causa de seu segundo casamento. Ser pai envolve um compromisso sério com a vida, e você responderá por isso. Enquanto
está pensando só em seu sofrimento,
325
em uma situação que não volta mais, seria mais útil que se aproximasse de seus filhos. Faça isso, e garanto que terá uma
surpresa.
Humberto remexeu-se na cadeira. Ele fora até lá sentindo-se vítima da maior injustiça e de repente começou a sentir-se culpado.
Recordou-se de como se dedicara ao trabalho, deixando os filhos primeiro só aos cuidados da esposa e, depois de sua morte,


com criados que escolhia com cuidado e
pagava regiamente.
Naqueles tempos, o máximo que fazia era chamá-los à ordem quando praticavam travessuras, ou uma ou duas vezes por semana


exigir que jantassem formalmente com ele.
Essas recordações inesperadas o incomodaram.
Tentou justificar-se:
- Sempre fui um homem muito ocupado, mas me preocupei com o bem-estar deles. Nunca deixei faltar nada. Tiveram a melhor
educação, desfrutaram do bom e do melhor.
Não têm nenhum motivo para reclamar de mim. Eu, sim, posso dizer que nunca me demonstraram afeto. São frios, e Mirtes chamava-os
de ingratos.
Isaltina sorriu levemente e respondeu:
- Não se iluda com as aparências. As coisas podem ser muito diferentes do que imagina. Se quer reconquistar seu equilíbrio
emocional, comece por aproximar-se de
seus filhos. Mostre interesse por sua maneira de pensar, de ser. Eles têm muito para lhe oferecer. Vamos começar o tratamento
espiritual. Prometa que fará o que
estou lhe pedindo.
- Está bem. Reconheço que tenho me omitido um pouco. Vou fazer o que me pede.
Isaltina levou Humberto a uma sala em penumbra, iluminada por uma luz azul. Uma música suave enchia o ar e algumas pessoas
aguardavam em oração.
Foi conduzido a uma cadeira e algumas pessoas o rodearam enquanto uma moça à sua frente ergueu as mãos para o alto por alguns
segundos, depois começou a passá-las
sobre ele, sem tocá-lo.
Humberto sentiu que uma brisa fresca e agradável o envolvia. Olhou em volta para ver de onde ela vinha, mas não viu nada.
- Pense em Deus - pediu a moça à sua frente.
Humberto foi dominado por forte emoção. As lágrimas desceram pelo seu rosto e ele sentiu que, conforme elas corriam, sua
tensão ia desaparecendo. A moça tocou seu
ombro e ofereceu-lhe um copinho com água, que ele bebeu.
Ao deixar a sala, a angústia e a tristeza haviam desaparecido,em
326
seu lugar ficando apenas sono e cansaço, como se ele estivesse há muito tempo sem dormir.
Quando Humberto deixou a sala, no corredor encontrou-se com Alzira e Valdo.
- Sente-se melhor? - indagou Valdo.
- Sim. De certa forma fez-me bem ter vindo. Estou me sentindo aliviado.
- Se continuar o tratamento direitinho, tenho certeza de que vai sentir-se muito melhor - tornou Alzira.
Valdo convidou-os para tomar alguma coisa e Humberto aceitou. Pela primeira vez depois da tragédia ele se deu conta de que
estava com fome. Levaram-no a uma lanchonete
agradável, e a conversa fluiu com naturalidade.
Tomaram refresco, comeram alguns salgadinhos. Alzira tomou sorvete.
- Vocês conhecem Dona Isaltina há muito tempo? - indagou Humberto.
Alzira contou como ela socorrera Mirtes e ajudara toda a família.
- Mirtes nunca me falou nela.
- É que tinha muito medo desse assunto. Hoje sei que ela era médium. Quem tem a sensibilidade desenvolvida precisa ter cuidado
com os lugares em que entra.
- Mirtes era muito especial - disse Humberto, com o rosto sombreando-se de tristeza.
- Vamos deixar Mirtes livre para seguir seu caminho - tornou Alzira. - Ela precisa de nossa ajuda e compreensão.
- Por quê? Acha que, se ela de fato estiver viva no outro mundo, pode estar sofrendo?
- Receio que Mirtes não seja pessoa fácil de se conformar. Sempre foi muito determinada com o que queria. Ser tirada da
vida ná Terra em plena juventude, justamente
quando havia conquistado o que mais queria, certamente a terá desesperado. Por isso, temos de nos esforçar para deixar a
tristeza de lado e mandar-lhe pensamentos
bons, cheios de luz, que possam ajudá-la a entender sua nova situação.
- Você acha que ela pode sentir minha tristeza?
- Sua tristeza vai somar-se à dela, que ficará duplicada. Isso vai deixá-la mais revoltada. Conheço bem minha irmã. Tenho
certeza de que ela está precisando de energias
de equilíbrio e de paz, que a ajudem a recuperar-se.
327
- Se isso for verdade, posso estar atrapalhando seu sossego. O que eu mais queria era vê-la feliz. Faria qualquer coisa
para isso. Agora não posso fazer mais nada.
- Pode, sim. Ao pensar nela, tente vê-la bem, como quando estava a seu lado, alegre, feliz. Tenho certeza de que assim a
estará ajudando.
- Mesmo querendo, não sei se conseguirei. Penso que você está dizendo isso para que eu fique melhor. Ela morreu, não pode
mais nos ver.
- É difícil aceitar a idéia de que a vida continua após a morte - disse Valdo, sério. - Eu mesmo, que acho isso viável,
tenho dúvidas de vez em quando. Mas pense:
se o que ela diz for verdade, e tem grande possibilidade de ser, como Mirtes ficaria ao vê-lo desesperado, aflito? Claro
que seria mais infeliz e teria maior dificuldade
de aceitar o que lhe aconteceu e seguir em paz seu novo caminho.
Humberto ficou pensativo alguns segundos, depois disse:
- Você pode ter razão. Eu não sei nada sobre esse assunto. E se eu estiver errado? E se ela estiver mesmo viva em outro
mundo?
- Sua tristeza contribuirá para torná-la mais revoltada, mais infeliz.
Humberto levantou os olhos para Alzira, fixando-a, e respondeu com voz firme:
- Prometo que vou fazer este tratamento direitinho e esforçarme para enviar bons pensamentos a Mirtes.
Alzira sorriu:
- Faça isso. Todos desejamos ajudá-la, e o caminho é esse.
Uma vez em casa, Humberto preparou-se para dormir. Sentou-se ná cama e, lembrando-se das palavras de Alzira, procurou recordar-se
de Mirtes alegre e feliz. Depois
deitou-se e logo adormeceu.
Sonhou que estava em casa descendo as escadas e, ao entrar ná sala, deparou com Mirtes, que o olhava com raiva. Ela estava
com o vestido roto, manchado de sangue,
olhos arregalados e rosto conturbado.
Assustado, ele se aproximou dela tentando abraçá-la. Ela o empurrou, gritando colérica:
Não preciso de seus bons pensamentos! Você foi culpado da minha morte! Se gostasse mesmo de mim, estaria procurando os
assassinos em vez de ficar choramingando
indo naquele centro espírita. Eu preciso ser vingada! Você precisa castigar aquela assassina. Se
328
não fizer isso, virei atormentá-lo pelo resto da vida. Mexa-se. Faça alguma coisa. Eu estarei vigiando.
Humberto ainda tentou segurá-la, dizer alguma coisa, mas ela o empurrou violentamente e ele acordou assustado, sentindo
falta de ar, molhado de suor.
- Foi um sonho! - murmurou aliviado. - Fiquei tão preocupado com aquelas histórias de espíritos que criei este pesadelo.
Acho melhor não voltar mais àquele lugar.
com mãos trêmulas, apanhou um copo de água e bebeu, mas não conseguiu dormir de novo. Quando o dia amanheceu, levantou-se
e foi caminhar pelo jardim. A imagem de
Mirtes no sonho não lhe saía do pensamento. Ela vestia a mesma roupa que usara no casamento de Émerson.
Depois de caminhar um pouco, entrou em casa. Precisava ocupar-se, fazer alguma coisa para ver se conseguia apagar aquele
sonho do pensamento.
Decidiu ir ao escritório. Desde que conhecera Mirtes, havia deixado a administração da empresa com os filhos. Apesar de
não serem muito ligados a ele afetivamente,
os dois estavam preparados e a par de tudo.
Humberto chegou ao escritório passava das dez, e foi diretamente à presidência. Bateu levemente ná porta. Como não obtivesse
resposta, abriu-a.
Renato estava sentado atrás da escrivaninha, com a cabeça entre as mãos, fisionomia triste.
- Renato, aconteceu alguma coisa?
O filho estremeceu e imediatamente mudou a postura.
- Pai! Não aconteceu nada. Por quê?
- Quando entrei, você me pareceu triste, desanimado.
- Impressão sua. E você, que milagre foi esse?
- Preciso me ocupar, fazer alguma coisa. Não posso ficar parado só pensando no que nos aconteceu.
- Trabalhar ajuda. Se não fosse isso, talvez eu não estivesse em pé.
Humberto recordou-se das palavras de Isaltina: "Seus filhos precisam muito de sua proteção". Aproximou-se de Renato, colocou
a mão no braço dele e disse emocionado:
- Sinto que tenho me omitido com você. Depois da desgraça que me feriu, comecei a pensar que talvez não tenha sido um bom
pai. Achava que, dando dinheiro, estudo,
estava fazendo minha parte.
329
Tentei cumprir o papel de pai conforme fui educado. Ao homem cabia sustentar a família, prover suas necessidades; e
à mulher, os cuidados com os filhos e com
o lar. Confesso que me enganei. Tenho me sentido muito só. Quando reclamei que vocês me abandonaram, uma pessoa fez-me ver
que fui eu quem não lhes deu o afeto,
o apoio que esperavam. Envolvido nos negócios, nunca fui companheiro de vocês. Agora não posso exigir de vocês o afeto que
nunca lhes dei.
Humberto tinha os olhos marejados. Renato em um impulso abraçou-o apertando-o de encontro ao peito e não conseguia dizer
nada. O pai sentiu que o filho tremia de
emoção e retribuiu o abraço sentindo um carinho que não se lembrava de haver sentido antes.
- Pai, sinto muito o que lhe aconteceu. Apesar de acharmos que você não seria feliz naquele casamento, tanto eu quanto Mauro
ficamos chocados com a tragédia.
- Eu sei, meu filho. Sente-se aqui a meu lado. Vamos conversar como nunca fizemos. Estou sendo sincero. Quero deixar claro
que, mesmo me omitindo, sempre amei vocês
dois e me preocupei com seu futuro. Sinto não ter feito isso do jeito certo.
Renato sentou-se ao lado dele no sofá. Sentia que o pai estava sendo sincero. E decidiu pela primeira vez abrir seu coração
para o pai, contando-lhe os problemas
que o angustiavam: um caso de amor frustrado, uma separação.
Humberto ouviu com interesse, aconselhando-o a esperar com calma.
- Acredito que vocês se amam e tudo vai se resolver.
- Também acho. Só de desabafar já me sinto melhor.
Falaram dos negócios e, quando Mauro chegou, ná hora do almoço, admirou-se de encontrá-los tão próximos. Sentiu-se bem ao
lado deles e, quando Humberto lhe pediu
opinião sobre alguns assuntos, vendo o interesse com que o pai perguntava, ficou alegre em poder dar seu parecer.
Humberto convidou-os a almoçar em um bom restaurante, e lá a conversa fluiu animada. Pela primeira vez depois da morte
de Mirtes ele esqueceu a tragédia. Ficou
impressionado com a lucidez das idéias de Mauro e orgulhoso da postura de Renato.
Quando os levou de volta ao escritório, ao despedir-se, ainda dentro do carro, Mauro segurou sua mão, abraçou-o e pediu:
- Pai, nossa casa está muito vazia sem você. Quero pedir que volte a morar conosco.
330
- Isso mesmo - completou Renato. - Nós também temos nos sentido muito sozinhos. Aquela casa não é a mesma sem você. Volte.
- Ainda não sei. Vamos ver...
Humberto não quis dizer que preferia ficar onde estava porque pensava estar mais perto de Mirtes.
- Nosso encontro hoje foi tão agradável! Gostaríamos de poder estar mais tempo juntos - disse Mauro.
- Também gostaria muito de ficar com vocês.
- Somos só nós três. Foi o"que sobrou da família". Temos de aproveitar para ficar juntos, usufruir da companhia uns dos outros,
antes que nos separemos.
No trajeto de volta, Humberto não esquecia as palavras de Renato: "Temos de aproveitar para ficar juntos, usufruir da companhia
uns dos outros, antes que nos separemos".
Ele sabia que um dia teriam de se separar. A morte pode vir quando menos se espera. Seria bom mesmo aproveitar o tempo
que lhes restava.
Assim que entrou em casa, Humberto lembrou-se do sonho e estremeceu. Sentou-se ná sala pensativo. Havia decidido não fazer
o tratamento espiritual no centro, mas
uma coisa era certa: Isaltina havia lhe dito a verdade. Procurar os filhos fora um bom conselho.
Decidiu que iria lá pelo menos mais uma vez para contar-lhe seu encontro com eles. Tirando aquelas conversas de espíritos,
ele se sentira muito bem com aquele
tratamento.
Mirtes apareceu ná sala, aproximou-se e ouviu seus pensamentos. Estremeceu de raiva. Ele pretendia voltar àquele centro.
Ela não deixaria. Aproximou-se dele dizendo-lhe
aos ouvidos:
- Você não deve voltar lá. Eu estou aqui, fique comigo. Se você for, terei de ir embora. Não me abandone, fique comigo.
Humberto não ouviu as palavras, mas de repente sentiu uma onda de medo e tristeza. Os filhos haviam pedido para ele voltar
a morar ná casa da família. Mas ele não
iria. Não podia deixar o lugar onde fora tão feliz com Mirtes. Seria o mesmo que abandoná-la.
Naquele instante, Mirtes viu uma luz clara. Em seguida, uma mulher ainda moça entrou ná sala e aproximou-se dela, dizendo:
- Afaste-se dele. Você não vai mais prejudicar minha família. Estou aqui para defendê-los. Vá embora e deixe-nos em paz.
- Quem é você? Por que está se intrometendo em nossa vida?
- Você já abusou demais. Agora terá de deixá-lo.
Dois rapazes entraram e Mirtes encolheu-se em um canto
331
assustada. Eles eram jovens, belos, e à sua volta havia uma luz muito branca.
- Vamos, Mirtes. Chegou sua hora.
- Não quero ir. Para onde vão me levar?
- Somos trabalhadores do bem. Você terá de vir conosco - disse um.
- Não tenha medo. Irá para um lugar onde terá tempo de pensar e avaliar o que fez de sua vida. Agora vamos.
- Não vou. Preciso me vingar. Se vocês fossem do bem, teriam impedido Mercedes de me matar.
- Seu tempo acabou. Não poderá mais ficar em volta das pessoas.
Antes que Mirtes pudesse dizer alguma coisa eles a rodearam, passaram o braço em sua cintura e ela não teve como resistir.
Em poucos instantes eles desapareceram.
A mulher aproximou-se de Humberto, beijou-o delicadamente ná fronte e disse ao seu ouvido:
- Meu querido, estou feliz por ter procurado nossos filhos. Há muito venho pedindo a Deus que isso aconteça. Vá morar com
eles. Venda sem remorsos esta casa e tente
recuperar a felicidade ao lado das pessoas que o amam de verdade.
Ela se foi e Humberto olhou em volta admirado. Parecia que estava vendo aquela casa pela primeira vez.
Talvez fosse melhor mesmo ir morar com os filhos. Enquanto estivesse vivendo ali, não conseguiria esquecer aquela tragédia.
Ele se sentia cansado e desejava um
pouco de paz.
com esse pensamento, decidiu repousar um pouco. Não havia dormido bem. Foi para o quarto, deitou-se e logo adormeceu. Mas
desta vez foi um sono tranqüilo e reparador.
332
Jairo procurou Eli preocupado. - Você sabe onde está Mirtes?
- Não estava com você?
- Não. Ela disse que ia ficar alguns dias perto do marido para evitar que ele voltasse àquele centro espírita. Como tenho
novidades, fui procurá-la. Mas, assim que
entrei ná casa, encontrei uma mulher que me mandou sair.
- E você obedeceu?
- Não tive outro jeito. Ela trabalha para a luz. Não quero nada com eles. Têm poder para acabar com nossa liberdade.
- Vai ver que Mirtes fez como você.
- Não sei, não. Ela é novata e briguenta. Pode bem ter discutido com eles.
- Nesse caso...
- Eles a levaram. Sei como é isso.
- E agora, como ficamos? Ela estava nos ajudando.
- Vamos esperar. Posso estar enganado. Mas tenho novidades: meu trabalho com Sobral está dando certo.
333
- Que bom!
- Conforme combinamos, trabalhei duro e consegui afastar todos os clientes dele. Ele ficou desesperado.
- Ele ganhou muito dinheiro.
- Mas gastou tudo. Claro que eu o ajudei - disse ele rindo.
- E então?
- Está sem nada, devendo, sendo cobrado. Se não pagar o aluguel, será despejado.
- Então você o inspirou a chantagear meu marido. Ele está muito nervoso com essa história. Quando ele dorme, sai do corpo
e eu estou por perto para cobrar o que
me deve.
- Isso mesmo. Sobral ameaça dizendo que é Dinho que está pedindo esse dinheiro. É mentira, claro.
- Você vai voltar para o lado dele, vigiá-lo e me contar tudo que acontecer. Nossa vingança está chegando. Eles vão pagar.
Eli concordou e voltou para a casa do marido.
Naquela mesma noite Sobral foi procurar Alberto. Este o conduziu ao escritório, fechando a porta em seguida.
- Você está facilitando. Não deveria me procurar em casa.
- É urgente. Dinho não quer esperar mais. Diz que precisa sumir do país. Tenho medo do que ele possa fazer.
Alberto pensou um pouco, depois disse:
- Como eu lhe disse, minha situação financeira não é boa. Para ser mais exato, estou arruinado.
- Nesse caso, não vou poder fazer nada por você. Ele já fala que vai apagar quem se recusar a ajudá-lo.
- Eu tenho uma solução. Se vocês toparem, tudo dará certo.
- Fale.
- Bem, talvez você não saiba, mas o dinheiro que tenho era de minha mulher. Ela era muito rica. Mas o irmão dela entrou
ná justiça alegando que nos casamos com
separação parcial de bens e que eu não tenho direito a nada, uma vez que ela já possuía esses bens antes de nosso casamento.
Eu ignorava essa lei, mas, desde que
o processo foi aberto, tudo foi bloqueado. Não posso vender nada e ainda estou arriscado a perder tudo que tenho.
- E seu advogado, o que diz?
- Que vou perder. Mas esse meu cunhado é o único parente vivo de Eli. Se ele for vítima de um assalto ou sofrer um acidente,
tudo se resolverá.
334
- É muito perigoso. A polícia vai desconfiar de você. Será preso com certeza.
- Sei como fazer. Não corro esse risco. Se Dinho acabar com ele, logo terei muito dinheiro e os recompensarei regiamente.
Sobral pensou um pouco e perguntou:
- Tem certeza de que não desconfiarão de você?
- Absoluta. Eu não iria fazer isso se houvesse risco. Fique tranqüilo.
- Nesse caso, vou falar com ele. Preciso pelo menos de dinheiro para a viagem.
- Isso posso arrumar.
Tudo combinado, Sobral foi embora.
Eli imediatamente procurou Jairo e contou-lhe tudo. Ele ouviu com interesse e, quando ela terminou, perguntou:
- O que Alberto disse é verdade?
- Qual nada! Eu tenho mesmo um irmão, mas ele nunca entrou ná justiça contra Alberto. É golpe dele. Está armando uma para
se livrar dos dois.
- Ele vai trabalhar para nós sem querer. Vamos acompanhar tudo e agiremos ná hora certa.
- Soube alguma coisa de Mirtes?
- Sim. Ela sumiu de circulação. Foi mesmo levada pelos seres da luz.
- Nesse caso, não podemos mais contar com ela.
- É melhor voltar para lá e continuar vigiando Alberto. Não podemos perder nenhum detalhe.
Ela obedeceu imediatamente. Quando chegou ao lado do marido, esforçou-se para ligar-se com o pensamento dele.
- Aqueles safados não perdem por esperar. vou me livrar deles de uma vez! Quando for a hora, a polícia vai entrar em ação.
Três dias depois, Sobral voltou à casa de Alberto. Uma vez no escritório, informou:
- Dinho topou. Mas desta vez quer quinhentos mil.
- Se ele conseguir, terei mais do que isso.
- Eu também quero mais. Estou precisando.
- Duzentos mil. É mais do que você espera. Os olhos de Sobral brilharam satisfeitos.
- Está bem.
- Para quando será?
- Ele virá amanhã. Como sempre, ficará de campana algum
335
tempo para estudar os passos do homem. Quando achar que é o momento, fará o serviço. Você sabe como ele trabalha.
- Está bem. Espero que ele faça tudo certo.
- Trabalho garantido.
Depois que Sobral foi embora, Alberto pegou o telefone. Eli observava atento.
- Alô, quero falar com o detetive Roque.
- Roque falando.
- Aqui é Alberto Camargo Lira. O senhor não me conhece pessoalmente, mas talvez já tenha ouvido falar de mim. Preciso muito
conversar com o senhor.
- Pode vir até aqui?
- O assunto é urgente, sigiloso e muito perigoso. Gostaria de encontrá-lo em um lugar discreto.
- Onde, então?
Alberto deu-lhe o endereço de sua casa. Pediu que ele tomasse cuidado para não ser seguido e entrasse pela porta dos fundos.
- Irei imediatamente.
Quinze minutos depois, Alberto estava à espera no portão dos fundos. O carro parou e desceram dois homens, um de meia-idade
e outro mais jovem. Alberto fê-los entrar
imediatamente. Levou-os a seu escritório e fechou a porta. Depois dos cumprimentos, Roque, o mais velho, perguntou:
- E então? Do que se trata?
- De chantagem. Estou sendo ameaçado de morte e não sei a quem recorrer. Lembrei-me do senhor porque já ouvi dos meus amigos
referências elogiosas a seu respeito.
Estou apavorado.
- Conte-me tudo. Quem o está chantageando?
- Um detetive particular chamado Sobral.
Os dois policiais entreolharam-se curiosos. Havia muito tempo suspeitavam que Sobral estivesse envolvido em coisas ilícitas.
- Continue - pediu Roque.
- Bem, minha adorada esposa morreu em um acidente de carro. Depois que fiquei viúvo, tive um caso com uma senhora casada.
O marido desconfiou e contratou Sobral
para nos seguir. Ele logo descobriu nosso caso, mas, ao invés de revelar tudo ao marido que o contratou, procurou-me dizendo
que, se eu estivesse mesmo apaixonado
por ela, ele poderia livrar-me dele. Sobral tinha um amigo que morava no estado do Mato Grosso e que por bom dinheiro poderia
"apagar" meu rival, e assim nosso
caminho estaria livre. Se eu recusasse
336
essa proposta, ele iria ao marido e contaria tudo. Fiquei apavorado. ná ocasião eu deveria ter procurado a polícia,
mas tive medo.
- Sei. E por que nos procurou agora?
- Bem, eu procurei ganhar tempo. Paguei o que ele me pediu para manter silêncio sobre o caso e fiquei de dar uma resposta
quanto ao restante. Claro que eu não ia
aceitar. Sou um homem de sociedade, muito conhecido. Tive medo do escândalo e também da ameaça de morte. Mas há um segredo
que preciso contar-lhes.
- Fale.
- É que a mulher com a qual eu mantinha relações era minha cunhada. O marido é o irmão da minha falecida esposa.
O policial coçou a cabeça e comentou:
- O senhor conseguiu se enrolar.
- Sabe como é: eu estava muito triste depois da morte de minha mulher, muito sozinho, ela tentou me consolar e aconteceu.
Hoje à tarde Sobral veio aqui e deu-me
um ultimato. Disse que amanhã Dinho, o tal assassino, chegará a São Paulo. Quer o dinheiro de qualquer maneira. Se eu der,
ele acaba com meu cunhado; se recusar,
acaba comigo. Preciso de ajuda. Por isso liguei para o senhor.
Roque pensou um pouco, depois disse:
- O senhor fará o seguinte: ligue para Sobral e diga que dará o dinheiro para ele acabar com seu cunhado. Nós tomaremos
conta do caso. Deixarei dois homens aqui
para protegê-lo. Preciso do endereço de seu cunhado.
- Ele não pode saber. É muito ciumento. Será uma tragédia. Depois, apesar de tudo, eu o estimo e não desejo que nada de
mau lhe aconteça. Estou muito arrependido
do que fiz. Eu e ela decidimos nunca mais nos encontrar. O caso acabou.
- Não se preocupe. Diremos a ele que recebemos uma denúncia anônima. Vamos prender esse matador. Aja normalmente e fique
atento. Avise-nos se souber de qualquer
coisa.
- O senhor nunca viu esse matador? - indagou o outro policial.
- Não. Sobral disse-me que ele não se mostra para ninguém. É contratado, vem, faz o serviço e volta sem ser visto.
- Como Sobral faz o contato? - indagou Roque.
- Ele vai até o Mato Grosso, onde ele mora. É só o que sei.
- Eu vou embora e Lopes ficará aqui enquanto providencio sua segurança. O senhor teve a atitude mais acertada. Se todos
agissem assim, esses bandidos não lesariam
tanta gente.
337
Roque voltou à sede da polícia, reuniu dois colegas e juntos traçaram um plano de ação.
- Vamos trabalhar ná surdina. Ninguém pode saber nossos planos. Cuidado com os jornalistas.
- Pode deixar. Sei como driblá-los - disse um deles.
- Vamos vigiar Sobral. Ele poderá nos levar ao homem - sugeriu o outro.
Roque pensou um pouco e respondeu:
- Eles combinaram tudo e certamente o matador já tem todas as informações de que necessita. Vai agir e ir embora. Eles não
vão se encontrar. Não iriam se expor assim.
Tenho uma idéia melhor. Esta noite vamos visitar o escritório de Sobral. Algo me diz que será revelador.
O espírito de Jairo, que os ouvia e fazia sugestões aos ouvidos de Roque, sorriu satisfeito. Era isso que ele queria.
- Isso não irá alertá-lo? Os pássaros poderão voar.
- Se encontrarmos o que espero, ele não terá tempo para mais nada.
Passava da meia-noite quando Roque e mais dois companheiros chegaram ao escritório de Sobral. O prédio, no centro da cidade,
estava às escuras. Nenhuma luz.
com facilidade abriram a porta principal do edifício, entraram e fecharam-na novamente. com as lanternas procuraram a
sala de Sobral e entraram. Como não havia
janela para a rua, acenderam a lâmpada e começaram as buscas.
Mexeram no arquivo, mas não encontraram nada suspeito. Inspirado por Jairo, Roque teve a idéia de procurar ná pequena saleta
que intermediava o banheiro. Havia um
armário de parede, um balcão com fogareiro, uma pequena mesa e duas cadeiras.
Roque abriu o armário, olhou tudo e não encontrou nada. Foi então que uma lata de biscoitos que estava no alto, sobre o
armário, caiu.
Roque olhou admirado. Ele não havia tocado nela. Apanhoua, sacudiu-a e notou um barulho diferente. Abriu-a e encontrou um
caderno de anotações. Era ali que Sobral
anotava os casos ilícitos.
- Encontrei - disse Roque, satisfeito.
Os outros dois se aproximaram e ele lhes mostrou o caderno, dizendo sério:
- Isto é muito interessante. Esse Alberto que nos chamou
338
utilizou os serviços excusos de Sobral. Aqui estão anotadas as quantias que ele pagou, inclusive a Dinho. Esse é o nome do
tal matador. Ele está querendo livrar-se
dos comparsas e nos usar, mas vai descobrir que com a polícia não se brinca.
Voltaram à delegacia, com Roque carregando o caderno de Sobral.
- Não seria melhor prendê-lo já? - indagou um deles.
- Não. Vamos vigiá-lo para que não fuja. Temos dois, falta-nos o principal. Quero pegar esse matador.
O espírito de Jairo acompanhava todos os procedimentos com satisfação, esforçando-se por inspirá-los. Em breve estariam
vingados. Procurou Eli para dar a notícia.
- Do jeito que fizemos, Mirtes também estará vingada. Sua assassina será desmascarada. Gostaria que Mirtes soubesse.
Mirtes, porém, estava muito longe dali. Quando os dois rapazes a retiraram da casa de Humberto, ela os acompanhou a contragosto.
Um de cada lado, abraçaram-na pela
cintura e ela sentiu que não poderia resistir. Eles tinham uma força que a obrigava a seguilos. Sentia-se sonolenta enquanto
deslizava com eles por lugares desconhecidos.
Quis perguntar para onde a estavam levando, mas não teve forças.
Depois de algum tempo, pararam em frente a um grande portão que parecia ser de ferro trabalhado. O portão abriu-se e entraram
por um parque. Por fim, pararam diante
da porta de um enorme prédio.
Entraram e Mirtes sentia-se cansada, sonolenta, não conseguindo pensar nem reagir. Colocaram-na em uma maca e conduziram-ná
a uma sala. Uma senhora de branco aproximou-se
e passou a mão em seus cabelos, dizendo:
- Seja bem-vinda, minha filha. Vamos ajudá-la. Logo ficará bem.
Mirtes ouviu, mas não conseguiu responder. A mulher apanhou uma esponja, mergulhou em um líquido azul e começou a passá-la
em seu corpo. Mirtes sentiu agradável
sensação de frescura. A ferida em sua cintura, que às vezes queimava e sangrava, deixou de incomodar.
Depois a senhora disse:
- vou colocar-lhe uma roupa e levá-la ao tratamento. Logo se sentirá melhor.
Ela havia tirado seu vestido roto, vestindo-a com uma camisola
339
leve, e Mirtes suspirou aliviada. Depois foi conduzida para uma porta que se abriu e duas moças levaram-na para dentro.
Mirtes olhou em volta admirada. A atmosfera
daquela sala era verde.
Ela sentiu muito sono e logo adormeceu. Quando acordou, sentia-se muito melhor. Olhou em volta tentando concatenar os pensamentos.
O quarto era claro, o sol entrava
pela janela aberta fazendoa vislumbrar um pedaço de céu azul e sem nuvens. Onde estava? Aos poucos foi se recordando de
tudo. Colocou a mão ná cintura sobre a ferida,
mas para sua surpresa ela havia fechado. Ficara apenas o sinal.
Levantou-se devagar. Sentia-se um pouco fraca. Segurando-se nos móveis, foi até a janela e olhou para fora. Estava no segundo
andar de um enorme edifício cheio de
janelas. No exterior, um jardim muito bonito a fazia respirar gostosamente o ar perfumado. Nos últimos tempos ela havia
circulado por lugares escuros, abafados,
malcheirosos.
Era gratificante poder estar ali. Que lugar seria aquele? Quem eram os dois rapazes que a transportaram e por que a estavam
auxiliando? Sentia que estava sendo ajudada.
Sua cabeça estava mais lúcida, o raciocínio mais fácil, como havia muito não sentia.
- Como se sente, Mirtes?
Ela se voltou e viu uma mulher de meia-idade, rosto agradável, sorrindo para ela. De onde a conhecia?
- Estou melhor. Não conheço este lugar. Por que me trouxeram? O que estou fazendo aqui? É um hospital?
- Você está em uma casa de socorro. É um lugar de auxílio e de recuperação.
- Como se chama? Onde fica?
- Próximo à crosta terrestre. Chama-se Casa Transitória.
- Por que transitória?
- Porque as pessoas ficam por algum tempo e depois tomam
seu rumo.
- O lugar é muito bonito. Fazia tempo que não via algo tão lindo.
A mulher sorriu.
- Concordo. Meu nome é Emília. Desejo ajudá-la em sua recuperação.
- Eu estou muito bem. Tanto que gostaria de voltar à Terra, ver minha família.
- Ainda é cedo. As energias lá são conturbadas. Você ainda não está preparada para enfrentá-las.
340
- Mas eu preciso ir. Quero saber como estão as coisas por lá.
- Irá quando for oportuno. Por enquanto é melhor fazer seu tratamento. Não quer ficar bem?
- Quero. Nos últimos tempos tenho me sentido muito mal. Desde que...
Mirtes lembrou-se dos tiros que a atingiram. Sentiu a cabeça rodar e teria caído se Emília não a houvesse amparado, acomodandoa
ná cama. Alisou sua cabeça com carinho,
dizendo:
- Esqueça aquele momento. Já passou. Você agora está bem. Pense que está com saúde, em um lugar alegre, bonito, cheio de
luz.
Ela obedeceu e aos poucos foi melhorando.
- Tem razão - disse. - Ainda não estou bem para ver minha família.
- Aqui vai melhorar. Confie em Deus e não tenha medo.
Nos dias que se seguiram, Mirtes foi melhorando. Cada vez que a colocavam ná sala verde, sentia que ficava mais lúcida e
mais forte. Começou a circular pelos jardins,
conheceu pessoas, notou que nem todas estavam tão bem quanto ela. Pareciam distantes, alheias, e com elas não adiantava
puxar conversa.
À medida que melhorava, Mirtes sentia cada vez mais vontade de procurar Jairo e Eli para saber como estavam as coisas. Conversou
com Emília sobre o assunto:
- Eles são meus amigos. Ajudaram-me quando eu estava perdida, sem ter para onde ir. Gostaria que soubessem onde estou.
- Por enquanto não é possível.
- Sei que vocês estão me ajudando. Melhorei com esse tratamento, mas não entendo o que está acontecendo comigo. Por que
foram me buscar? Meus companheiros estão
deste lado há mais tempo do que eu e vocês não os trouxeram para cá.
- É que eles ainda não estão prontos.
- Eu também não queria vir. Havia algumas coisas que eu precisava fazer por lá antes de cuidar de minha nova vida.
- É que intercederam por você.
- Quem? Não conheço ninguém aqui.
- Uma pessoa que está encarnada ná Terra e gosta muito de você. Ela é uma das fundadoras deste lugar, tem muita experiência.
A pedido dela fomos buscá-la.
Mirtes ficou pensativa. Deveria ser alguém muito importante. Ela estava sendo tratada com muita consideração e amizade.
341
- Agradeço o interesse dela por mim, mas assim que ficar boa de tudo pretendo voltar à Terra. Tenho um trabalho importante
para terminar.
Emília olhou-a séria e respondeu:
- Nada é mais importante do que cuidar de seu bem-estar. Mirtes inquietou-se:
- Já estou bem. Quero ir embora. Só preciso saber como fazer para ir aonde quero.
- Você não pode sair daqui sozinha e sem proteção. Fora de nossos muros há muitos perigos.
- Sei cuidar de mim. Só preciso saber o caminho.
- Poderá ir quando o médico lhe der alta.
- Não estou doente. Meu ferimento sarou. Sinto-me perfeitamente bem. Por que querem me prender aqui?
- Ninguém quer prendê-la. Acontece que seu tratamento ainda não terminou.
Mas à medida que o tempo passava Mirtes ia ficando mais nervosa e exigente. Começou a ficar deprimida, irritada, implicando
com tudo e com todos.
Preocupada, Emília procurou seu superior:
- Olavo, temos de fazer alguma coisa. Mirtes está ficando muito desequilibrada. Quer ir embora.
- Ela ainda não desistiu de vingar-se. Esse pensamento a atormenta.
- Falarei com ela.
Pouco depois, Mirtes foi conduzida à sala de Olavo.
- Ainda bem que me recebeu - disse ela assim que se viu sentada à frente dele. - Agradeço o tratamento. Melhorei mesmo,
mas tenho de ir embora. Não posso ficar aqui
por mais tempo.
- O que você tem para fazer, de tão urgente?
- Cuidar de meus interesses. Como você sabe, deixei o corpo contra minha vontade. Fui covardemente agredida. Estava no auge
de minha juventude, havia conseguido
tudo que mais desejava ná vida. Sentia-me muito feliz, realizada. Então fui barbaramente assassinada, arrancada do corpo.
Sofri muito. Até agora, quando penso nisso,
sinto-me mal. É difícil esquecer uma agressão dessas. Depois, eu não merecia. É verdade que me casei com Humberto por interesse,
mas eu o tratava bem, ele se sentia
feliz. Eu pensava poder retribuir a ele um pouco do prazer que ele me dava realizando todas as minhas vontades, tratando-me
com tanto carinho. Ele está sofrendo
342

muito com o que aconteceu. Pensou até em deixar a vida. Enquanto isso, ela, a causadora de nossa desgraça, continuava
feliz, pensando em tê-lo pelo resto da
vida. O que me conforta é que ela nunca vai conseguir.
Vendo que Olavo a ouvia com atenção, Mirtes finalizou triunfante:
- Eu exijo justiça. Fui uma vítima da maldade da amante de meu
marido. Quero que a verdade apareça. Todos precisam saber quem foram os culpados pela minha morte! Até agora eles circulam
impunes e vitoriosos. Quero que a verdade
apareça. Olavo olhou-a sério e disse com voz firme:
- Tem certeza de que é isso o que quer? A verdade?
- Sim. Os culpados não podem ficar impunes, precisam pagar pelos seus crimes.
- Nesse caso posso ajudá-la. Venha comigo.
Satisfeita, Mirtes acompanhou-o pelos corredores e entraram em uma sala onde havia algumas poltronas e uma tela. Olavo designou
uma cadeira e Mirtes sentou-se.
Olavo sentou-se ao lado de uma mesa com muitos botões luminosos e coloridos. Ele acionou um botão e a tela iluminou-se.
Apareceu uma moça muito bonita, muito bem
vestida, com roupas do século dezenove.
Mirtes estremeceu. Aquela mulher era-lhe muito familiar. Andava apressada, rosto contraído pela raiva. Podia-se ouvir seus
pensamentos como se ela estivesse falando:
- Não posso perder tudo! Não depois dos sacrifícios que fiz para conseguir. Essa criança não pode nascer.
Ela chegou a uma casa luxuosa e tocou a sineta. O criado abriu a porta e ela entrou. ná sala, um casal abraçado conversava
animadamente. Vendo-a, foram cumprimentá-la.
Depois ela disse:
- Seu pai me pediu que viesse. Ele queria vir, mas ultimamente não tem andado bem.
- Tenho notado isso - disse o rapaz. - Tive vontade de leválo à capital para ver um especialista.
- Ele não quer. Confia apenas no Dr. Valdemar.
- Nós pedimos que ele viesse porque temos boas notícias e queríamos que ele compartilhasse nossa alegria. Aline está esperando
um filho! Finalmente um herdeiro!
- Parabéns! Não sabe como me sinto feliz.
343
A cena foi interrompida. Mirtes remexeu-se ná cadeira. Sentiu vontade de sair dali, não ver mais nada. Mas apareceu outra
cena e ela a fixou curiosa.
Um quarto de luxo, um homem deitado muito abatido, Ester disfarçadamente ministrando algumas gotas escuras em um vidro de
remédio.
- Isso vai acabar com tudo. É preciso agir antes que ele mude
o testamento.
Surge então a imagem de Ester oferecendo o remédio a ele, que bebeu tudo. Algumas cenas rápidas mostrando-o no velório,
depois uma sala solene, um homem abrindo
o testamento. Ele havia deixado quase toda a fortuna para o filho. Para ela, sua segunda esposa, deixara apenas a casa e
uma pensão.
Ester abandonou a sala tentando engolir a raiva que sentia e mostrar-se satisfeita. Ela havia se casado com o viúvo ná
esperança de ficar de posse de tudo. Tinha
esperado por aquele momento ansiosamente, sonhando ser livre e poder ter a vida com a qual sempre sonhou.
Nicolau amava-a muito, mas era um homem de vida metódica, não gostava de gastar. Por isso, Ester, mesmo morando em casa
luxuosa onde nada lhe faltava, levou uma
vida recatada e simples. Ela sonhava com muito mais.
O marido tinha um filho do primeiro casamento, moço sem juízo que, ao contrário do pai, gostava de gastar e levar vida desregrada.
ná última briga que tiveram, Nicolau
deserdou-o e fez um testamento no qual determinou Ester como sua única herdeira. Ela fingia gostar do rapaz e prometera-lhe
que, se seu pai morresse, ela cuidaria
do dinheiro, providenciando para que nada lhe faltasse.
Porém ele se apaixonou perdidamente por Aline, e sob inspiração dela mudou completamente de comportamento. Tornou-se maduro
e responsável, a ponto de ser perdoado
pelo pai. Quando soube que esperava um filho, cuidou rapidamente do casamento.
Diante da felicidade do casal, Nicolau disse que iria alterar o testamento. Ester resolveu agir antes que ele tivesse tempo
para isso. Mas descobriu que era tarde.
Depois da abertura do testamento, ela no quarto andava de um lado para o outro pensando no que fazer para recuperar a fortuna
que pensava ser sua.
A tela mudou novamente de cena: Ester conversando com dois homens de fisionomia sinistra e dando-lhes um saco de jóias.
- Quando terminarem, darei o restante.
344
Eles se foram, enquanto ela sorria pensando"Agora, tudo será meu e poderei finalmente obter o que quero."
Mirtes sentia-se inquieta, o peito oprimido. Tentou ir embora, mas a tela iluminou-se novamente e ela sentou-se outra vez.
Uma carruagem ná estrada. Dentro, o jovem casal. Cavaleiros se aproximam atirando. O cocheiro grita, os cavalos disparam,
a carruagem tomba. Dentro dela, o casal
estendido em meio ao sangue. Mirtes viu que dois tiros haviam atingido a moça ná altura da cintura, no mesmo lugar onde
ela, Mirtes, havia sido ferida. Deu um grito
e perdeu os sentidos. Quando acordou, estava no quarto e Emília estava a seu lado. Ela estremeceu e sentou-se ná cama, dizendo:
- Diga que foi um pesadelo. Que nada daquilo aconteceu.
- A verdade fere, mas acaba com as ilusões. Você pediu e a obteve.
- Aquela moça, Ester. Eu a conheço.
- É verdade.
- Sou eu! - gritou ela chorando. - Eu!
- Lamento que precisasse saber dessa forma. Mas você não
queria nos ouvir.
- Você acha mesmo que eu fiz tudo aquilo?
- Eu não acho nada. Você é quem deve saber.
- Eu fiz. Eu queria viver a vida, ter luxo, ser feliz. Nunca consegui.
- A felicidade não está onde você imagina. Você criou uma ilusão e por ela fez o que fez.
Mirtes soluçava desconsolada Pela sua mente desfilavam os acontecimentos que se seguiram após aquele trágico acontecimento.
Ela herdou tudo, tentou levar a vida
com a qual sempre sonhara. Mas nunca teve paz. Quando dormia, sonhava com o marido cobrando-lhe contas. Durante o dia,
ouvia-o chamá-la de assassina, dizendo que
pagaria caro por seus crimes.
Assustada, perdeu o gosto pela vida. Querendo fugir de seus fantasmas, acabou fechando-se em sua casa luxuosa, tornando-se
desequilibrada e infeliz.
Viveu muitos anos ainda naquele tormento, e acabou morrendo sozinha, abandonada pelos criados assustados. Acordou no astral,
perseguida pelo espírito do marido inconformado.
Por anos viveu em um lugar escuro e triste. Sentia fome, sede, pensou enlouquecer. Durante muito tempo o marido assassinado
perseguiu-a, acusando-a, agredindo-a,
tentando vingar-se.
345
Até que um dia ele desapareceu e ela respirou aliviada. De vez em quando, uma caravana de seres iluminados passava pelo
local, levando alguns com eles. Mirtes
sentia vontade de sair dali.
Certa vez em que chorava desconsolada em meio à escuridão, viu uma luminosidade aproximar-se e gritou:
- Piedade! Por favor. Ajudem-me! Estou arrependida. Uma moça aproximou-se e disse-lhe:
- Ainda não podemos levá-la.
- Estou cansada de sofrer. Por favor. Ajudem-me!
- Peça a ajuda de Deus. Reflita sobre tudo que lhe aconteceu. Seja sincera. Pense no bem. Se fizer isso, logo será auxiliada.
Ester obedeceu. Repassou toda a sua vida e chegou à conclusão de que havia errado muito. Rezou e pediu nova oportunidade.
Pouco tempo depois, quando os seres da luz passaram por lá novamente, uma moça pegou-a pela mão, dizendo:
- Viemos buscá-la.
Revendo aquela cena, Mirtes estremeceu. A moça que a retirara daquele pântano escuro era Alzira! Assustada, ela disse:
- Não pode ser Alzira!
Emília, que estava a seu lado, respondeu:
- Sim, era ela!
Soluçando, Mirtes recordou-se de tudo. Durante o período que estivera em tratamento, Alzira procurava-a, ajudando-a, doando-lhe
energias curativas quando as crises
de desespero a acometiam.
- Meu Deus! Eu não sabia!
- Alzira sempre trabalhou pelo seu bem-estar.
Durante alguns dias Mirtes inquietou-se recordando detalhes de sua vida passada. Aos poucos foi reconhecendo seus enganos.
Recebeu tratamento energético e a assistência
de Olavo, com quem conversava muito.
Descobriu que estava em um lugar de recuperação e que Alzira era um espírito muito evoluído. Antes de reencarnar, ela residia
em uma colônia mais adiantada.
Mirtes lembrou quanto havia sofrido por causa da ambição, como havia sido difícil conseguir uma nova encarnação. Naquela
ocasião havia prometido a si mesma nunca
mais deixar-se levar pela vaidade. Ficara contente ao saber que iria reencarnar em um lar feliz e que Alzira estaria a seu
lado como irmã.
Depois de reconhecer que fizera tudo errado outra vez, ela entrou em depressão, culpando-se sem piedade.
Emília tentava fazê-la entender que aquele não era o melhor caminho.
- Você teve uma recaída, o que até certo ponto é natural. Dentro da energia terrestre, deixou-se levar pela ambição, prejudicou
a si mesma. Isso revela que ainda
não havia aprendido o suficiente. Recebeu dura lição, que pode ter sido o bastante. Reflita sobre tudo isso. Aproveite o
momento de reflexão para que nunca mais
precise passar por tantos sofrimentos. Depende só de você.
- Mas eu tinha raiva de Alzira. Achava-a boba. A boba era eu! Eu, que me achava a rainha da esperteza.
- Você estava iludida. Agora sabe que estava enganada.
- Eu acreditava que possuir coisas caras, bonitas, exibir-me para os outros era felicidade.
- Não é errado gostar de viver com conforto, ter coisas boas. É bom viver em um lugar agradável. Nós fomos criados para
termos tudo. A vida dá isso e muito mais
a quem cultiva o bem e respeita os verdadeiros valores espirituais.
- Eu fiz tudo errado!
- Lamentar-se não vai mudar nada. Agora, é renovar suas crenças, caminhar para a frente, descobrir o que a fará realmente
feliz.
Mais tarde, conversando com Olavo, ela disse triste:
- Depois do que fiz, nunca mais encontrarei a felicidade. A vida me castigou. VÍ que Aline morreu do mesmo jeito que eu!
As balas foram no mesmo local! Eu tive de
pagar pelo meu crime.
- Você está enganada. A vida não castiga ninguém. Foi você quem criou essa alternativa. Quando decidiu acabar com a vida
de seu marido e do jovem casal, acreditava
que o crime e a violência eram a melhor forma de conseguir o que desejava. Foi esse padrão de pensamento ao qual você deu
força que atraiu esse tipo de morte que
a vitimou.
- Quer dizer que eu mesma me castiguei?
- Não se trata de castigo, mas de conseqüência. Você quis manipular os fatos do seu jeito, deu largas à ambição, ficou longo
tempo alimentando pensamentos colocando
a violência como solução. Essa crença criou seu destino.
- Quer dizer que nesta última encarnação eu fatalmente teria de passar por isso?
- Não. Antes dela você recebeu esclarecimentos, aprendeu responsabilidade, teve ajuda reencarnando em uma família boa. Tinha
conhecimento, e a vida esperava que
se utilizasse dele.
347
- Onde foi que eu errei?
- Você reencarnou para aprender, entre outras, a lição do desapego. Seu erro foi manter o mesmo padrão de pensamentos que
atraiu o crime. Se tivesse entendido que
a violência não resolve nenhum problema, que os valores eternos da alma que cultivou quando ainda estava aqui eram mais
importantes do que os bens materiais, tudo
teria sido diferente.
- Quer dizer que eu poderia ainda estar viva, usufruindo da vida que levava?
- Você casou por interesse com um homem bom, sincero. Se tivesse sido uma boa esposa, voltada ao bem-estar dele, a vida
teria desviado aquele matador de seu caminho.
Mas você tinha outros pensamentos.
Mirtes baixou a cabeça envergonhada.
- Estou arrependida.
- Você já sabe como foi que criou essa situação. O importante agora é perceber que você tem o poder de mudar essas crenças
que a infelicitaram. Quando as substituir
por algo melhor, sua vida se transformará de acordo com os novos padrões que incorporar.
- Estou cansada de sofrer! Eu quero mudar para melhor! Mas como?
- Esse é um trabalho interior que só você pode fazer. Terá de prestar atenção aos pensamentos que surgem e só dar importância
aos que forem positivos. vou indicar-lhe
também um curso onde aprenderá a diferenciar o bem verdadeiro do falso.
- O bem pode ser falso?
- O bem é o bem. Mas a respeito dele os homens criaram muitos conceitos falsos. Identificá-los é melhorar o discernimento
e a lucidez.
Mirtes ficou pensativa alguns segundos, então disse triste:
- Depois que lembrei o passado, senti muita culpa. Gostaria de saber o que aconteceu a Nicolau, Roberto e Aline e pedir-lhes
perdão.
- Aline se recuperou logo. Como ex-suicida, sabia que teria pouco tempo de vida. Roberto passou largo tempo procurando por
Aline e nem pensou em vingança. Nicolau
foi quem mais sofreu, porque se entregou ao ódio. Senhor de escravos, habituado a mandar, acreditando no poder da força
bruta, custou a equilibrar-se. Foi Aline
quem o auxiliou. Ela havia sido sua filha em outra vida e ele a adorava. Esforçou-se para perdoar, esquecer. Está reencarnado,
casou-se
348
novamente com a que havia sido sua primeira esposa, recebeu Aline como filha, tem Roberto como genro. Como ele é um espírito
fraco, Nicolau, por amor a Aline,
faz tudo para ajudá-lo.
- Eles estão bem, mas ainda assim eu gostaria de ajudá-los de alguma forma.
- Agora você precisa se ajudar. Desta vez vai demorar para reencarnar. Mas eu prometo que, quando estiver em condições,
poderá ajudá-los.
- Também sou grata a Humberto. Ele estava sofrendo com minha morte. Gostaria de dizer-lhe que continuo viva.
- vou ver o que posso fazer.
Mirtes sorriu. Sentiu-se mais tranqüila. Não adiantava mais queixar-se nem culpar os outros pelo seu sofrimento. Se tudo
dependia dela, estava disposta a esforçar-se
ao máximo para melhorar.
349
Roque, reunido com quatro policiais, disse satisfeito:
- Faremos tudo como o planejado. Vocês vão continuar vigiando o Dr. Martins, revezando-se conforme o costume. Qualquer coisa
diferente, avisem imediatamente. Lembrem-se
de que esse matador é esperto e perigoso. Não sabemos como é nem como estará vestido. Cuidado com entregadores, vendedores
ou prestadores de serviço doméstico.
Se aparecer algum, tomem providências. Ninguém pode desconfiar de vocês.
- Não se preocupe. Temos tudo sob controle - respondeu Lopes.
- Ele ia chegar hoje, fazer campana, vigiar a vítima. Se desconfiar de alguma coisa, irá embora. Temos de apanhá-lo.
Depois que eles saíram, Roque continuou examinando o caderno com as anotações de Sobral. Mandou fazer algumas pesquisas.
Descobriu que o assassinato da jovem esposa
de Humberto de Morais, que
351
havia chocado a sociedade, tinha sido cometido por Dinho a mando de uma mulher chamada Mercedes. Não havia sobrenome, mas
seria fácil descobrir.
Havia vários crimes não solucionados, feitos com o mesmo tipo de arma que matara a jovem e que possivelmente haviam sido
cometidos pela mesma pessoa.
Roque sentiu que estava prestes a conseguir pegar aquele assassino e resolveu dedicar-se totalmente à solução daqueles casos.
Começou para eles a espera. Os homens revezavam-se disfarçados de prestadores de serviços variados, observando tudo.
Dois dias depois, Roque recebeu o aviso. Passava das dez quando um motoqueiro vestido de negro apareceu de repente. Eles
nem ouviram o ruído da moto. O motoqueiro
escondeu-a cuidadosamente atrás das frondosas árvores em frente da casa.
- Iremos imediatamente. Fiquem atentos. Se for preciso, prendam-no.
Os dois policiais cautelosamente observavam e viram quando ele apanhou uma arma. Antes que ele tivesse tempo de empunhá-la,
os dois caíram sobre ele. Apanhado de
surpresa, ele ainda tentou reagir, mas um dos policiais torceu-lhe o braço obrigando-o a soltar a arma com um grito de
dor.
Imediatamente deitaram-no de bruços no chão e algemaram-no.
- Você está preso.
Os olhos dele brilhavam rancorosos e o policial arrancou seu capacete.
- Eu queria ver sua cara.
Dinho não disse nada. Pouco depois, Roque chegou com as viaturas.
- bom trabalho, rapazes - disse satisfeito. Colocou a lanterna no rosto de Dinho e disse:
- Eu conheço você!
Levaram-no à delegacia. Pouco depois Sobral chegou escoltado por dois policiais. Vendo Roque, disse indignado:
- Isto é uma arbitrariedade. Vocês me conhecem. Estou do lado da lei. Tenho ajudado a polícia.
- Você está preso, Sobral.
- Sob que acusação?
- Chantagem, extorsão e assassinato. Sobral empalideceu.
- Ninguém pode provar nada contra mim.
352
Roque levou-o à sala onde Dinho estava sendo fotografado. Vendo-o, Sobral sentiu-se mal. Gritou assustado:
- Esse homem é um mentiroso. Não acreditem em nada do que ele lhes disse. É um matador. Há mais de vinte anos, foi preso
por assassinato e conseguiu fugir. Vocês
não vão acreditar mais nele do que em mim.
Roque interveio:
- Bem me pareceu que ele era conhecido. Fique sabendo que ele ainda não foi interrogado. Não disse nada.
Sobral estremeceu. Dinho, que ouvira as acusações, olhou-o cheio de ódio.
Roque mandou Sobral para outra sala, onde iria fazer o interrogatório. Pouco depois chegou Alberto. Ele fora conduzido à
delegacia pensando que seu plano de prender
os outros dois tinha dado certo.
Entrou ná sala de Roque sorridente:
- Soube que o senhor conseguiu prender aqueles assassinos. Sabia que podia confiar ná polícia.
- O que você não sabia é que a polícia não se deixa usar por malfeitores.
- O que quer dizer?
- Você está preso por assassinato. Não adianta negar. Sabemos de tudo. Você usou esse matador para liquidar o amante de
sua mulher. Aliás, descobri que pouco tempo
depois ela morreu em um acidente de carro. Isso despertou minhas suspeitas. Vamos reabrir esse caso.
Alberto ouvia aterrorizado e não encontrou palavras para responder.
- Quero falar com meu advogado.
- Depois. Primeiro temos muito que conversar.
Roque fez um trabalho completo. Reabriu vários casos não resolvidos, inclusive o acidente que vitimou Eli, a morte de Jairo,
de Mirtes.
Roque conversou com o delegado que havia aberto inquérito sobre o assassinato de Mirtes e logo descobriu quem era Mercedes.
Ela ainda se encontrava internada ná clínica. Vendo-se desmascarada, não fazia outra coisa senão chorar.
O psiquiatra recebeu a visita da polícia e assustado descobriu que a culpa de Mercedes era real. Não fez nenhuma objeção
a que a levassem.
O delegado Marques, que cuidara das investigações sobre o caso de Mirtes, foi pessoalmente conversar com Humberto.
353
Encontrou-o no escritório da empresa. Ele havia se mudado para a mansão da família e voltara para a firma tentando ocupar-se.
Os filhos, depois que ele os procurara mostrando quanto os amava, haviam se unido mais a ele.
Apesar da tristeza e da saudade que ainda o incomodavam, Humberto estava mais disposto. A companhia e o amor dos filhos
faziam-lhe muito bem.
Ele continuara freqüentando o centro de Isaltina. Muitas vezes ainda sentia dúvidas sobre a continuidade da vida após a
morte, mas aquele ambiente de oração e de
paz fazia-lhe imenso bem.
- Sente-se, Dr. Marques - disse Humberto depois dos cumprimentos, designando uma poltrona e sentando-se ná outra ao lado.
- Tenho novidades, Dr. Humberto.
- Tentei falar consigo ontem mas não consegui. O senhor estava muito ocupado. Li nos jornais que a polícia havia prendido
um suspeito da morte de Mirtes.
- Sim. Prendemos o assassino de sua esposa. Conforme suspeitávamos, e eu lhe disse isso ná ocasião, trata-se de um perigoso
matador profissional. Ele cometeu um
crime há mais de vinte anos, foi julgado, condenado, fugiu da prisão e nunca mais conseguimos encontrá-lo.
- Então era mesmo! Um matador profissional!
- Sim. Ele arranjou documentos falsos, foi para o Mato Grosso, comprou um pequeno sítio e vivia lá sem que ninguém desconfiasse.
Era até estimado. Mas tinha um cúmplice
aqui em São Paulo que de vez em quando lhe arranjava trabalho. Ele vinha, discretamente fazia o serviço e voltava sem que
ninguém o visse. Cobrava bom dinheiro.
- Custo a crer. Sou um homem de paz. Nunca tive inimigos. Minha esposa era uma moça alegre, de bem com a vida. Não entendo.
- Quando o senhor decidiu acabar seu caso com Mercedes para casar-se com Mirtes, arranjou uma terrível inimiga.
Humberto levantou-se de um salto.
- Mercedes! Não pode ser!
- Pois foi. Ela contratou Sobral, o contato de Dinho aqui em São Paulo, e planejaram a morte de Mirtes. Pagou muito dinheiro
a eles!
Humberto deixou-se cair ná poltrona emudecido pela surpresa. Então ela não estava sofrendo por amor a ele... Era remorso,
era culpa.
- Sei que é difícil para o senhor aceitar, mas foi o que aconteceu.
354
Ela, Sobral e Dinho, o matador, estão presos e vão pagar pelos seus crimes. Os dois cometeram outros crimes. Serão
julgados e condenados. Passarão o resto
da vida ná cadeia.
- Eu nunca suspeitei dela. Que horror! Pobre Mirtes, que morreu por minha culpa.
- O senhor não teve culpa de nada.
- Meus filhos nunca aceitaram meu relacionamento com Mercedes. Não gostavam dela. Arrependo-me de não os ter escutado,
acabado tudo e procurado outra pessoa.
- O senhor ainda pode encontrar uma pessoa boa e refazer sua vida.
- Eu amava Mirtes. Nunca mais quero outra mulher. Estou resolvido a dedicar todos os meus dias à felicidade dos meus filhos
e aos cuidados desta empresa. Apesar
de tudo, estou contente. A polícia está de parabéns.
- O senhor terá de nos ajudar, prestar depoimentos.
- Pode contar comigo. Farei tudo para que esses assassinos sejam condenados.
Depois que Marques se foi, Humberto não conseguiu retomar o trabalho. Renato chegou uma hora depois e encontrou-o sentado
no mesmo lugar, pensativo.
- Pai, sente-se bem? Humberto suspirou e respondeu:
- Estou assustado.
- Pelo visto já sabe a verdade. Prenderam o assassino de Mirtes. Eu li nos jornais hoje cedo.
- Vamos comprar os jornais da tarde. O delegado esteve aqui. Fiquei pasmo. Foi um assassino profissional quem matou Mirtes.
E a mandante foi Mercedes.
Renato deixou-se cair ná poltrona ao lado do pai.
- Bem que eu desconfiei. Aquela mulher nunca me enganou.
- Eu não desconfiava. Ela parecia tão solidária com minha tristeza... Nunca imaginei.
Renato levantou-se e abraçou o pai, dizendo:
- Você é muito bom, muito honesto, incapaz de imaginar uma maldade dessas.
As lágrimas corriam pelo rosto de Humberto.
- Eu nunca iria imaginar. Sou culpado pela morte de Mirtes.
- Você não tem culpa da maldade de Mercedes. Não se deixe envolver por esse pensamento. Ninguém poderia imaginar o que
355
aconteceu - finalizou e, ansioso por mudar de assunto, declarou: - Pai, hoje Antônia me procurou e nos entendemos. Vamos
nos casar. Humberto olhou-o e sorriu.
- É uma boa moça. Tenho certeza de que serão felizes.
- Você vai se admirar, mas a vida às vezes nos prepara uma surpresa. Ela freqüenta aquele centro espírita em que você vai.
- Nunca a VÍ por lá.
- Ela já o viu, mas não quis abordá-lo para não incomodar. Ela me convidou para ir lá esta noite. Quero que nos acompanhe.
- Hoje não é meu dia de ir.
- Depois do que soube, será bom comparecer. Sempre que vai lá, volta calmo, bem-disposto.
- Está bem. Irei.
No horário combinado, eles foram ao centro. Isaltina recebeu-os com o carinho de sempre. Abraçou Renato, dizendo contente:
- Há tempos esperava que viesse. Agora só falta Mauro.
- Ele virá - garantiu Humberto. - De tanto nos ouvir falar desta casa abençoada, tem demonstrado vontade de vir.
Eles entraram. Após ouvirem a palestra, tomaram passe e foram despedir-se de Isaltina. Ela segurou entre as suas a mão de
Humberto.
- O senhor está cada dia melhor. Seu filho encontrou a companheira que o fará muito feliz. Logo mais haverá netos alegrando
seu coração e sua casa.
- De fato, meus filhos têm me ajudado muito. Não imaginava que isso fosse possível. Mas, embora eles me cerquem de cuidados
e atenções e os amigos me visitem, a
morte de minha querida Mirtes ainda dói. Tenho me esforçado para não pensar nela com tristeza, mas nem sempre consigo.
Antônia e Renato estavam conversando com alguns conhecidos de Isaltina. Esta, vendo-os afastar-se, confidenciou:
- Tenho boas notícias a respeito de Mirtes.
Humberto estremeceu e seus olhos brilharam emotivos. Isaltina continuou:
- Nos primeiros tempos ela estava revoltada, inconformada, com raiva. Só pensava em descobrir seus assassinos e vingar-se.
Mas felizmente nossos amigos espirituais
intercederam por ela e conseguiram que fosse recolhida em um posto de socorro. Recebeu tratamento, recordou-se de outras
vidas, descobriu por que precisou passar
por aquela tragédia. Agora está muito melhor.
356
- A senhora fala como se Mirtes tivesse feito uma viagem. Mas ela morreu. Mesmo que esteja viva em outro lugar, é apenas
espírito. Não entendo como pode haver posto
de socorro, tratamentos... É difícil acreditar.
- O senhor precisa ler a respeito. Nas outras dimensões, embora os elementos naturais sejam diferentes e nossa faixa visual
não consiga vê-los, para quem está lá
o lugar é tão sólido como a Terra para nós. Aqui, precisamos do corpo de carne para atuar ná matéria. Quando o deixamos,
ficamos com nosso corpo astral, que é perfeitamente
adaptado aos elementos onde passará a viver.
- É extraordinário. Gostaria de ter certeza disso.
- vou emprestar-lhe alguns livros científicos sobre o assunto.
- Ter certeza de que Mirtes está bem ajudaria muito.
Renato e Antônia aproximaram-se e, juntamente com Humberto, despediram-se de Isaltina. Depois foram tomar um lanche, e
a conversa fluiu agradável. Humberto comentou
o que Isaltina dissera sobre Mirtes. Renato ouviu pensativo. Quando o pai terminou, disse:
- Você tem dúvidas; eu, não. Mamãe, depois que morreu, sempre nos visita.
Humberto surpreendeu-se:
- Visita? Por que nunca disse nada?
- Mauro também a viu. Sempre quando temos algum problema ela aparece.
- Aparece, como?
- Algumas vezes em sonho, só que não me parece um sonho como os outros. A emoção é mais forte. Conversamos, e ao acordar
nem sempre recordo o que falamos, mas sinto-me
mais calmo e confiante. Outras vezes ela passa de relance. Sinto seu perfume, recordo-me de alguma coisa que ela disse.
Nessa hora sei que ela está comigo.
- Renato tem mediunidade, Dr. Humberto - interveio Antônia. - Por isso o convidei para vir esta noite. Agora sei que nossos
desentendimentos foram causados por nossa
invigilância. Nós nos deixamos envolver por pensamentos negativos, e alguns espíritos perturbadores nos envolveram. Dona
Isaltina nos explicou como é isso.
- Essa mulher não é apenas bondosa, mas também sábia. Antônia complementou:
- É pessoa simples, sincera e dedicada ao bem. Eu lhe sou muito grata.
- Depois do que soube esta noite - considerou Humberto -, acho que vou me dedicar ao estudo da espiritualidade.
357
- Eu também - concordou Renato.
Depois daquela noite, o jovem casal convidava Humberto para irem juntos uma vez por semana ouvir as palestras de Isaltina.
Quando saíam do centro, iam tomar lanche
e trocavam idéias sobre o tema abordado.
Humberto estava lendo com interesse os livros que Isaltina lhe emprestara e, sempre que estava com os filhos e a futura
nora, discorria sobre suas descobertas
a respeito dos fenômenos mediúnicos, e os jovens relatavam suas experiências pessoais.
Essas conversas criaram entre eles um elo de amizade prazeroso e sincero. Antônia passou a freqüentar a casa do noivo com
mais assiduidade. Mauro, cuja sensibilidade
era acentuada, interessou-se muito por aquelas conversas.

O casamento de Alzira e Valdo estava marcado para dali a duas semanas e eles estavam entregando pessoalmente os convites
aos amigos.
A casa que ele comprara fora decorada por Alzira, auxiliada pela futura sogra. As duas descobriram que possuíam os mesmos
gostos, e com satisfação Almerinda segredava-lhe
as preferências do filho.
Valdo, ocupado com a empresa cujo crescimento e progresso tomavam boa parte do tempo dele e do pai, havia deixado os preparativos
aos cuidados das duas. Ele notara
o bom relacionamento que havia entre elas e o prazer com que cuidavam de tudo. Valdo queria deixar o trabalho organizado
para facilitar as tarefas durante o mês
que estaria viajando em lua-de-mel.
Laura e Émerson, que iam ser os padrinhos do casamento, compraram uma bela casa próxima ao instituto. Eles decidiram que
morar perto do local de trabalho seria
ideal.
O instituto progredia sempre. As pessoas que Émerson havia escolhido e preparado ajudavam-no nas preliminares dos '
atendimentos. Laura era uma delas. A alegria
do casal era verificar como as pessoas mudavam e conseguiam melhorar seu padrão de vida.
Embora o instituto funcionasse de forma aberta, atendendo a todos que o procurassem, era notório observar que enquanto aqueles
que estavam maduros para aprender
se maravilhavam, descobriam seus potenciais, experimentavam novas atitudes e mudavam suas VÍdas para melhor, outros iniciavam
os cursos mas não conseguiam continuar.
Laura não entendia por quê. Eles estavam ensinando coisas boas
358
e importantes. Dava para perceber que aquelas pessoas precisavam delas. Por que, então, se afastavam?
Levou suas dúvidas a Émerson, que esclareceu:
- Essas pessoas ainda não estão prontas para mudar. Precisam de mais tempo. Vêm movidas pela curiosidade, querem viver melhor,
mas, quando descobrem que precisam
trabalhar interiormente, afastam-se. Não se preocupe com os que se vão. A vida cuidará deles no tempo certo. Nós vamos
trabalhar com quem está maduro para dar
outros passos. Depois, nosso trabalho é apenas semear, esclarecer como as coisas funcionam. Fazer bem o que nos compete
é responsabilidade nossa. Já o que eles vão
fazer com nossos ensinamentos é exclusivamente da responsabilidade deles.
Dois dias após as prisões dos envolvidos no assassinato de Mirtes, Alzira e o noivo foram visitar Laura e Émerson. O casal
estava em casa, pois naquela noite não
havia curso. Receberam os dois VÍsitantes com carinho. ná sala, depois de animada conversa sobre os preparativos do casamento,
Alzira disse:
- Ontem o Dr. Humberto veio nos visitar. O delegado procurou-o para contar detalhes sobre a morte de Mirtes.
- Eu li a notícia no jornal de hoje - informou Laura. - Fiquei impressionada.
- Quando ele pediu Mirtes em casamento, contou-lhe que tivera um caso com essa mulher, mas que tudo estava resolvido. Ele
a deixara bem de vida e ela aceitara a
separação - disse Alzira.
- Certa vez eu os VÍ juntos, por acaso. Ele não a levava aos lugares que freqüentamos - comentou Valdo. - Ela me pareceu
pessoa altiva, vaidosa. Olhava todos de cima.
- Agora está presa. Terá tempo suficiente para meditar sobre as conseqüências de suas atitudes - tornou Émerson.
- Ela negou tudo, mas os dois cúmplices confessaram. O matador vai responder por outros crimes e ficará muitos anos preso.
Quanto ao outro, não sei. A justiça vai
seguir seu curso. Você diz sempre que tudo tem uma causa. Por que será que Mirtes atraiu isso? Foi por causa de sua ambição?
Será tão ruim gostar de viver bem, ter
dinheiro, levar vida boa? - perguntou Valdo.
- Não. Ao contrário. A vida é farta. Basta olhar a natureza para perceber isso. Mas para obter todas essas coisas é necessário
VÍver bem. A vida tem leis próprias
que funcionam independentemente de nossa vontade. Ela dá tudo ou tira tudo, sempre para nos ensinar a sabedoria, o equilíbrio.
De quem não valoriza o bem que
359
possui, ela os tira para que se descubra sua falta. Há pessoas que só valorizam alguma coisa quando a perdem.
- Mirtes vivia se queixando. Não via que em nossa casa, apesar de não sermos ricos, todos gozavam de boa saúde, nós nos
estimávamos mutuamente, não nos faltava o
que comer, vivíamos em paz. Ela não cooperava com nada. Dizia que um dia iria embora, seria muito rica e nunca mais nos
procuraria.
- Sua obstinação deu-lhe o que ela ambicionava, mas, como ela menosprezava os bens que possuía, a vida tirou-lhe tudo, inclusive
a vida, seu maior bem. Espero que
com o que lhe aconteceu tenha descoberto os valores eternos da alma, que ela não via - esclareceu Émerson.
- Dona Isaltina tem tido notícias dela. Está em tratamento no astral - lembrou Alzira.
- Agora você está muito ocupada com o casamento. Mas, quando voltar da lua-de-mel, gostaria que fosse trabalhar conosco
no instituto. Você está pronta. Traz uma
boa experiência de outras vidas.
- Não me lembro de nada. Sinto-me muito bem tanto no instituto quanto no centro espírita. Mas custo a crer que possa ajudar
alguém.
Émerson sorriu e considerou:
- Você vai saber em breve. Então conversaremos - E, voltando-se para Laura: - Conte a eles.
Laura sorriu:
- Vocês serão os primeiros a saber. Hoje descobri que estou grávida.
Imediatamente os dois a abraçaram.
- Que alegria! Mamãe já sabe? Laura meneou a cabeça.
- Ainda não tivemos tempo. Émerson trouxe o resultado do exame agora.
Valdo beijou-a ná testa com carinho e Alzira tornou:
- É uma felicidade. Parabéns!
- Isso merece comemoração. Por que não vamos até em casa dar a notícia? Papai vive sonhando com os netos.
Todos concordaram e foram imediatamente. Almerinda e Péricles ficaram radiantes. Abriram um vinho especial em comemoração.
O assunto da noite foi a chegada do bebê. Sugeriram nomes, falaram do possível sexo. Almerinda disse que, após o casamento
de Valdo e Alzira, ela cuidaria do enxoval.
360
Laura sorriu:
- Mãe, eu vou cuidar do enxoval do meu filho.
- Eu queria tanto! Você está muito ocupada no instituto.
- Não tanto. Tenho tempo de cuidar bem disso. Mas você pode me ajudar com sua experiência.
Almerinda sorriu satisfeita. Enquanto os homens conversavam, as três trocavam idéias sobre o enxoval e o quarto do bebê.
ná véspera do casamento, Alzira chegou em casa cansada mas feliz. Havia ido com Valdo até a casa em que iriam morar. Valdo
queria que ela visse alguns objetos de
arte que comprara e ela queria verificar se as peças do enxoval estavam arrumadas conforme desejava.
Depois que ele se despediu, Alzira foi ter com a mãe, que a abraçou emocionada:
- Você vai nos deixar! Vamos ficar sozinhos.
- Não vou deixar ninguém. Você fica com o pai. Tenho observado que ele nos últimos tempos tem andado tão amoroso!
- De fato. Nunca nos entendemos tão bem quanto agora. Ele está muito feliz. Vive agradecendo a Deus por você se casar com
um moço tão bom. Ele admira muito Valdo.
Fala nele com olhos brilhantes.
- Já notei. Os dois têm alguns pontos em comum, principalmente no que se refere ao trabalho.
- Por isso ele o admira.
Alzira abraçou a mãe com carinho:
- Não fique triste, mãe. E estou muito feliz. Amo Valdo.
- Eu sei, filha. Estou emocionada, só isso. Casar uma filha, principalmente uma filha como você, é emocionante.
- Compreendo. Mas nunca esquecerei o que você e papai fizeram por mim a vida toda, os exemplos de honestidade, de paciência,
de dedicação. Aprendi muito com vocês.
Estela beijou-a com amor.
- Você sabe quanto nós a amamos. Desejo-lhe toda a felicidade do mundo. Agora vá se deitar. Precisa descansar para ficar
linda amanhã. É seu dia!
Alzira beijou a face da mãe e foi para o quarto. Preparou-se para dormir. Estendida ná cama, agradecia a Deus pela sua felicidade.
Pensou em Mirtes e comoveu-se. Por que ela havia escolhido aquele caminho?
Seus olhos se fecharam e ela imaginou que a irmã estava ali, à sua frente, e abraçou-a com muito carinho.
361
Depois, sem sentir, adormeceu. Viu-se deslizando por sobre a cidade, vendo as luzes lá embaixo e pensou:
"Isto não é um sonho!"
Sentia uma sensação de prazer vibrando dentro do peito e uma alegria imensa. Notou que uma mulher a abraçava pela cintura,
e pareceu-lhe que a conhecia muito.
Chegaram diante de um imenso portão de ferro. A um toque da mulher, ele se abriu. Elas foram deslizando pelos jardins e
pararam diante de um prédio enorme.
- Eu conheço este lugar! Que saudade! - disse Alzira emocionada.
- Nós também sentimos muita saudade de você. Entraram e caminharam pelos corredores. Alzira olhava tudo com
interesse e pensava:
- Quando voltar, quero me lembrar disto tudo!
Pararam diante de uma porta. Alzira estremeceu de emoção. Ela sabia quem estava dentro daquele quarto. A porta abriu-se
e Mirtes estava lá, olhando-a com os olhos
cheios de lágrimas.
Alzira abraçou-a com amor, dizendo emocionada:
- Minha irmã, que saudade!
Mirtes apertou-a em seus braços e a emoção não a deixava falar. Por fim, disse:
- Como eu estava enganada! Como me arrependo de não ter ouvido você e aproveitado aqueles momentos felizes. Agora é tarde!
Só me resta chorar e procurar aproveitar
a dura lição.
- Tenho certeza de que você agora sabe do que precisa para ser feliz!
- Eu daria tudo para voltar ao tempo em que éramos adolescentes. Ah, se eu pudesse! Como eu ajudaria nossos pais, apreciaria
sua companhia! Eu tinha tudo: beleza,
mocidade, saúde e uma imensa vontade de viver! Mas me iludi e caminhei para a morte!
- Não - retrucou Alzira. - Você caminhou para a vida! Tornou-se consciente dos verdadeiros valores. Escolheu um caminho
mais longo e mais sofrido, e a vida deu-lhe
a realidade.
- Ela foi muito dura!
- Foi do tamanho de suas ilusões. Alegre-se, Mirtes. Agradeça a Deus a bênção do conhecimento que lhe deu mais capacidade
para construir sua felicidade. O tempo
passa rápido. Logo você receberá a bênção da reencarnação e poderá escolher melhor.
362
- Fui informada de que vou demorar para reencarnar. Terei de esperar muito tempo ainda.
- Vai depender de seu progresso, de como você vai trabalhar interiormente as experiências vividas. A vida não joga para
perder. Ela só vai permitir sua volta à Terra
quando você tiver todas as possibilidades de enfrentar os desafios com mais firmeza e coragem.
- Venha, Alzira, sente-se a meu lado. Emília, agradeço ter ido buscá-la para mim. Ver os meus é o que eu mais queria.
- Emília! Eu me recordo de você! Fomos amigas quando eu trabalhava aqui!
- Sim. Você foi uma das fundadoras deste lugar. Quando eu reencarnei, você me ajudou muito. Fui muito feliz com Humberto.
Mas eu não podia ficar mais e tive de
voltar. É muito difícil deixar no mundo as pessoas que amamos. O pior foi afastar-me de meus dois filhos.
Mirtes olhou-a assustada:
- Você foi a primeira esposa de Humberto! Agora eu me lembro que foi você quem me tirou de lá. Não entendo... Você sabia
que eu não o amava, que havia casado por
interesse, que pretendia traílo com outros homens. Deveria odiar-me por isso...
Emília abraçou-a sorrindo:
- Há muito tempo descobri como as ilusões nos envolvem, por isso nunca mais me atrevi a julgar ninguém. A vida faz tudo
certo. Se Humberto ligou-se a Mercedes e
atraiu você, que pretendia usálo, deve haver uma razão para isso. Nunca lhe disse, mas, quando Alzira a retirou daquele
pântano, eu a ajudei. Acompanhei sua recuperação.
Quando você reencarnou, depois de havermos decidido que Alzira iria pouco depois viver a seu lado, prometi ajudá-la.
Mirtes olhou-a comovida:
- Eu não sabia! Desde que cheguei aqui, você tem me assistido como uma mãe. Sinto-me envergonhada.
Emília sorriu:
- Não sinta. A vergonha revela que a vaidade ainda não foi vencida. Prefiro que me diga: "vou me esforçar para não julgar
ninguém". Ou então: "Esta situação revela
que, quando há entendimento, a mágoa desaparece e não há necessidade de perdão".
Mirtes lembrou-se de Mercedes, e seu rosto contraiu-se.
- Não é fácil esquecer.
- Talvez não. Mas, se já sabe que suas atitudes atraíram os acontecimentos
363
que a vitimaram, não acredita que o mesmo acontecerá com os seus assassinos?
Mirtes estremeceu. Ainda era difícil para ela pensar neles sem rancor.
- A lei é igual para todos - continuou Emília. - A vida responde conforme as atitudes de cada um.
- É verdade, Mirtes - ajuntou Alzira. - O assassino não deixou pista. Mas os fatos foram se sucedendo e todos eles foram
presos.
Os olhos de Mirtes brilharam emotivos:
- Tenho certeza de que Jairo e Eli contribuíram para isso. Alzira olhou surpreendida para Mirtes, que lhe contou como
conhecera os dois e finalizou:
- Apesar de tudo, eles me apoiaram em uma hora que eu estava enlouquecida. Gostaria muito de saber como estão. Se pudesse
conversar com eles, pediria que aceitassem
ser recolhidos aqui. Eles têm medo.
Desta vez foi Emília quem respondeu:
- Temos tentado ajudá-los. Eles vão precisar de mais tempo para terem condições de ser trazidos para cá. Agora está ná hora:
Alzira precisa voltar.
Mirtes abraçou-a inquieta.
- Sei que precisa, mas gostaria que ficasse mais um pouco.
- Hoje é o dia de meu casamento com Valdo. Sei que quem queria casar-se com ele era você. Mas aconteceu. Nós nos amamos
muito.
Mirtes olhou-a com olhos enevoados pelas lágrimas:
- Eu o achava atraente, mas nunca o amei. Queria usá-lo da mesma forma que usei Humberto. Tive ciúme quando notei que estavam
namorando, mas foi pura vaidade. Quero
que sejam muito felizes.
Alzira abraçou-a com carinho e permaneceram alguns segundos abraçadas.
- Vamos, Alzira. Precisamos voltar.
- Deus a abençoe, minha irmã querida. Beije nossos pais por mim. Diga-lhes que estou bem e que os amo muito.
Alzira, abraçada a Emília, deixou o prédio e deslizou por sobre as luzes acesas da cidade adormecida. Era madrugada. Em
pouco tempo estava de volta ao lar.
364

Alzira abriu os olhos ainda sentindo o peito dilatado de prazer. As últimas palavras de Mirtes ainda soavam em seus ouvidos:
- Deus a abençoe, minha irmã querida. Beije nossos pais por mim. Diga-lhes que estou bem e que os amo muito.
"Meu Deus!", pensou Alzira. "É verdade! Mirtes continua viva! Eu me lembro de tudo! Conheço aquele lugar! Emília, minha
amiga! Que maravilha!"
Emocionada, Alzira ajoelhou-se ao lado da cama:
- Meu Deus! Eu não mereço tantas bênçãos! Mas de hoje em diante vou procurar merecer esta dádiva! vou estudar a espiritualidade
e trabalhar pela divulgação das leis
divinas.
Lembrou-se de Isaltina. Seria com ela no centro espírita ou seria com Émerson, que insistia para que fosse ajudá-lo no
instituto? Como não sabia o que decidir,
pediu a Deus que lhe indicasse o caminho.
365
Ela queria acordar os pais, contar tudo. Abriu a porta do quarto, mas o silêncio indicava que eles ainda dormiam. Resolveu
esperar.
Deitou-se outra vez pensando em tudo. Desejava gravar aquela experiência, não esquecer nenhum detalhe. Sentiu que aqueles
momentos ficariam em sua lembrança para
sempre.
O dia estava clareando quando finalmente adormeceu um sono tranqüilo e repousante. Acordou ouvindo batidas ná porta do quarto.
Olhou o relógio: passava das nove.
Levantou-se apressada. Lavou-se e desceu para o café. Era sábado e seus pais ainda estavam conversando à mesa. Alzira sentou-se,
dizendo alegre:
- Esta noite visitei Mirtes e trago um recado para vocês. Estela quase deixou cair a jarra de leite que segurava. Colocou-a
sobre a mesa e sentou-se emocionada.
- Como, recado? - indagou Antônio, admirado.
Alzira contou-lhes detalhadamente sua experiência, feliz por não haver se esquecido de nenhum detalhe. Quando terminou,
Estela ficou silenciosa por alguns instantes,
depois disse:
- Como eu gostaria de ter ido com você!
- Foi maravilhoso. Não dá para descrever o que senti. A leveza, o bem-estar, a alegria...
- Deve ser mesmo muito bom! Eu também gostaria de ter ido - tornou Antônio.
- Se eu fui, vocês também poderão ir. vou pedir a Emília que consiga essa concessão.
- Foi um belo presente de casamento - tornou Estela. - Quem é Emília, que tem tanto poder?
- Éramos amigas no astral, antes de nosso nascimento. Ela nasceu antes, casou-se com Humberto.
- Foi a primeira esposa dele? - admirou-se Antônio.
- Foi, pai. Além de proteger a família, tentou também ajudar Mirtes, mesmo sabendo que ela havia se casado com Humberto
por interesse. É um espírito bom. Agora
cuida dela com carinho de mãe.
- É difícil acreditar, principalmente quando sabemos o que fez Mercedes, que também amava Humberto - comentou Antônio.
- As pessoas são diferentes, pai. Mercedes estava iludida e já está respondendo por isso. Emília acredita que a compreensão,
o bem são mais importantes do que qualquer
castigo.
366
- Dá para perceber como ela é boa - disse Estela, comovida. - Fico mais calma sabendo que Mirtes reconheceu seus erros
e se prepara para uma vida melhor.
- Sinto-me protegido. Aqui temos Dona Isaltina, e no astral, essa sua amiga. Só podemos agradecer a Deus tanta bondade.
Alzira abraçou-os com carinho.
- Sinto-me feliz. Hoje vou me mudar, mas podem ter certeza de que nunca esquecerei o carinho, o amor que vocês sempre me
deram.
Eles a beijaram comovidos e Estela procurou dissimular a emoção, dizendo:
- Você vai tomar seu café, depois vamos acabar de arrumar suas malas para a viagem. Não podemos nos atrasar para o cabeleireiro.
Quando estava quase ná hora de ir para a igreja, Péricles procurou Almerinda e foi encontrá-la pronta, sentada ná biblioteca,
pensativa. Aproximou-se dela, que ergueu
para ele os olhos cheios de lágrimas.
- Você está chorando outra vez! Desse jeito vai estragar toda a maquiagem.
Ela sorriu:
- Estava recordando nosso casamento. O tempo passou rápido. Laura espera o primeiro filho, Valdo hoje está se casando!
-É a vida, minha querida.
- Temos sido felizes, Péricles. Você tem sido bom marido, temos dois filhos maravilhosos. Laura casada com Émerson, que
amamos como filho; Valdo trará Alzira para
a família, uma moça linda por dentro e por fora.
- Sou um homem privilegiado. Deus me deu uma família especial. Precisamos agradecer tantas bênçãos. Não quero vê-la chorando.
Sairemos dentro de cinco minutos. Valdo
já está pronto.
- São lágrimas de felicidade, meu caro. Vamos embora.
Quando Valdo e os pais chegaram à igreja, já a encontraram repleta de amigos, entre eles Marcelo e Renata, que seriam os
padrinhos da noiva, e Émerson e Laura.
Vendo Valdo entrar e dirigir-se à sacristia, Émerson disse baixinho a Marcelo:
- Vamos junto para você ver como é.
- Isso mesmo - concordou Laura. - Afinal, vocês estarão casando dentro de três meses.
Marcelo apertou a mão de Renata que retinha entre as suas e beijou-a delicadamente ná face.
- Gostaria que fosse hoje!
- Eu também.
- Calma - disse Émerson. - O tempo passa depressa.
Em um canto da igreja, Mildred observava-os pensativa. Lembrava-se de Mirtes. O que diria ela se estivesse viva? com certeza
estaria se remoendo de raiva.
Ainda se encontrava ná Itália quando sua mãe ligou para falar do crime. Ficou chocada. Mas estava disposta a divertir-se,
estar alegre, esquecer os problemas que
havia deixado.
Arranjara um namorado italiano e encontrava-se freqüentemente com uma turma de amigos. Gostava da vida que estava levando.
Foi ficando.
Retornara ao Brasil havia poucos dias.
Gino estava muito apaixonado, mas era ciumento e exigente. Mildred, apesar de gostar dele, resolveu regressar. Ela não queria
prender-se a ninguém.
Teve curiosidade de ir àquele casamento rever os amigos.
Admirava-se de Valdo ter escolhido Alzira, uma moça pobre, ele que poderia escolher entre as jovens mais finas e ricas da
melhor sociedade.
Sabia que ia encontrar-se com Émerson e Laura, mas isso não a incomodava mais. Ainda assim, surpreendeu-se com a mudança
de Laura. Ela havia como que desabrochado.
Olhos brilhantes, lindos cabelos, pele de veludo, até o corpo havia se tornado mais bem torneado. Ganhara busto, afinara
cintura.
Apesar de estar preparada para encontrá-los, sentiu uma ponta de inveja vendo-a tão linda. Não entendia como uma moça insignificante
como ela podia ter-se transformado
daquele jeito.
- Laura mudou muito mesmo - comentou Augusta, mãe de Mildred, que estava a seu lado.
- O que será que ela fez?
- Não sei. Dizem que foram os cursos de Émerson naquele instituto. Mas eu acho que foi o amor.
- É. O amor pode mudar uma pessoa.
368
A música começou anunciando a entrada da noiva. Todos se levantaram.
Alzira, caminhando lentamente, entrou de braço dado com o pai. No altar, além dos padrinhos, a família dos noivos.
Valdo, olhos brilhantes de emoção, recebeu Alzira, e teve início a cerimônia. Eles estavam felizes. Havia alegria, amor
e felicidade.
Humberto, Renato, Antônia e Mauro assistiam comovidos. Humberto não conteve as lágrimas, recordando-se de Mirtes. Apesar
do tempo decorrido, ele não a havia esquecido.
Por sua mente passavam todas as cenas de seu casamento com ela, sua felicidade, seu amor, sua alegria.
Em um canto da igreja, Mirtes, abraçada a Emília e a um amigo, não perdia nenhum detalhe da cerimônia. A emoção e a saudade
eram fortes, mas ela se controlou.
Emília havia conseguido permissão para que Mirtes assistisse ao casamento se prometesse controlar-se. Mirtes sabia que,
ao menor sinal de desequilíbrio, eles a levariam
de volta.
Notando a emoção dela, Emília tornou:
- Pense nas coisas boas, ná alegria de rever os seus em um momento tão especial.
- Sinto que tanto mamãe e papai quanto Alzira não me esqueceram.
- Há mais alguém que pensa em você com amor e saudade.
- Humberto! Se ele soubesse que eu não era nada daquilo que ele pensava, talvez me odiasse.
- Você não era, mas pode tornar-se. Depende só de você.
- É verdade. Eu posso. Eu vou tornar-me uma pessoa de bem. Vocês vão ver.
A cerimônia terminou e os noivos, acompanhados pelos familiares e padrinhos, caminhavam para a saída.
Apesar da emoção do momento, Alzira viu Mirtes e Emília de relance. Foi muito rápido, mas tinha certeza de que eram elas.
Em seguida teve a sensação de ser abraçada,
e sentiu o perfume predileto de Mirtes.
- Vocês vieram! Que felicidade!
- O que disse? -indagou Valdo.
-Nada. Depois eu conto.
Enquanto Alzira se afastava com o marido, Mirtes e Emília
369

aproximaram-se de Humberto, que estava ao lado de Antônia e dos filhos.
- E sua família -disse Mirtes.
- É nossa família.
De repente, Mirtes fixou Antônia e emocionou-se:
- Quem é ela? Acho que a conheço de algum lugar.
- É uma das nossas. Em breve vai se casar com meu filho Renato. Serão muito felizes.
- Ela deve ser muito boa. Nunca senti tanto bem-estar perto de uma pessoa.
Emília sorriu mas não respondeu. Depois de alguns instantes, disse:
- Agora precisamos ir. Vamos nos despedir.
Mirtes aproximou-se de Humberto e abraçou-o, dizendo-lhe ao ouvido:
- Obrigado por me amar mais do que mereço. Desejo que seja feliz.
Abraçou os rapazes e, quando abraçou Antônia, emocionou-se.
-Não sei o que é - confidenciou para Emília. - Mas quando a abracei senti carinho, apoio, segurança.
- Eu queria muito trazê-la aqui hoje, não só para que visse sua família mas para que estivesse com Antônia.
- Porquê?
- Eu lhe havia dito que iria demorar para reencarnar. Mas, diante de seu progresso, sua vontade de aprender, posso adiantar
que, se continuar assim, talvez possa
voltar à Terra pelos braços de Antônia.
- Quer dizer que poderei reencarnar em breve?
-É apenas uma hipótese. Conhecendo detalhes de seu passado e do dela, seria providencial. Mas é apenas uma possibilidade
entre outras, que vai depender de você,
deles, da vida.
- Eu gostaria muito! Assim teria Humberto como avô e poderia cercá-lo de carinho. Seria uma forma de acabar com a culpa
que sinto quando o vejo chorar por mim.
Emília abraçou-a com carinho.
- Se você ficar firme e escolher o bem, pode ser que a vida lhe conceda essa bênção. Agora vamos embora.
A noite havia descido completamente sobre a Terra e os três abraçados volitaram por sobre as luzes da cidade, que iam ficando
cada vez mais distantes.
370
Mirtes tinha os olhos marejados, uma vontade muito grande de agradecer por poder ter nova oportunidade de refazer seu caminho.
Olhando a lua que brilhava em meio
às estrelas, ela prometeu a si mesma que dali para a frente trabalharia muito para conquistar a própria felicidade.
Naquele momento, uma estrela cadente correu pelo céu e ela teve certeza de que dessa vez conseguiria.
Poucos instantes depois, os três desapareceram rumo ao infinito.
Fim
371
Sucessos de ZIBIA GASPARETTO
Crônicas e romances mediúnicos. Mais de cinco milhões de exemplares vendidos. Há mais de dez anos Zibia Gasparetto vem se
mantendo ná lista dos mais vendidos, sendo
reconhecida como uma das autoras nácionais que mais vende livros.
• Crónicas: Silveira Sampaio PARE DE SOFRER
O MUNDO EM QUE EU VIVO BATE- PAPO com O ALÉM
• Crônicas: Zibia Gasparetto CONVERSANDO CONTIGO!
• Autores diversos PEDAÇOS DO COTIDIANO VOLTAS QUE A VIDA DÁ
• Romances: Lucius O AMOR VENCEU
O AMOR VENCEU (em edição ilustrada)
O MORRO DAS ILUSÕES
ENTRE O AMOR E A GUERRA
O MATUTO
O FIO DO DESTINO
LAÇOS ETERNOS
ESPINHOS DO TEMPO
ESMERALDA
QUANDO A VIDA ESCOLHE
SOMOS TODOS INOCENTES
PELAS PORTAS DO CORAÇÃO
A VERDADE DE CADA UM
SEM MEDO DE VIVER
O ADVOGADO DE DEUS
QUANDO CHEGA A HORA
NINGUÉM É DE NINGUÉM
QUANDO É PRECISO VOLTAR
TUDO TEM SEU PREÇO

















Sem medo
de viver





























Capa:
Kátia Cabello



Revisão c Editoração Eletrônica:
João Carlos de Pinho


Eoto 4ª capa:
Renato Cirone






2ª edição
28ª impressão
Maio ? 2004
10.000 exemplares





Publicação, Distribuição
Impressão e Acabamento
CENTRO DE ESTUDOS
VIDA & CONSCIÊNCIA EDITORA LTDA.


Rua Agostinho Gomes, 2312
Ipiranga • CEP 04206-001
São Paulo • SP • Brasil
Fone / Fax: (11) 6161-2739 / 6161-2670
E-mail: grafica@vidaeconsciencia.com.br
Site: www.vidaeconsciencia.com.br





Zibia Gasparetto
ditado por Lucius










Sem medo
de viver


Prólogo





S
érgio chegou em casa muito nervoso. Esperara tanto tempo por aquela promoção e agora, quando tudo indicava que ela aconteceria, outro tomara-lhe o lugar.
Fechou a porta do pequeno apartamento onde morava e deixou-se cair em uma poltrona da modesta sala, desanimado. De que lhe adiantara mourejar no trabalho
com tanto empenho? De que lhe valera colocar os negócios da empresa em primeiro lugar, se na hora em que deveria colher a recompensa merecida passavam-no para trás?
Um sentimento de rancor o acometeu. Tanta dedicação e esforço haviam sido inúteis. Por que, para ele, as coisas saíam sempre erradas?
Passou a mão pelos cabelos num gesto impaciente. Tinha consciência de ter agido sempre com honestidade. Era uma pessoa decente e esforçada. Por que nada
dava certo? Parecia que a vida se comprazia em destruir todos os seus sonhos desde a adolescência.
Havia desejado estudar, graduar-se em medicina, mas nunca conseguira condições financeiras para isso. Vinha de uma família muito pobre do interior de São
Paulo. Seus pais nunca puderam financiar-lhe os estudos. Fez até o ginásio com muito esforço e aos quinze anos deixou a pequena cidade onde nascera e veio para a
capital na esperança de conseguir o que pretendia.
Tinha uma boa aparência e muita vontade de trabalhar. Depois de alguns dias conseguiu emprego em uma loja do centro da cidade como mensageiro. O salário
era pequeno, mas para ele representava um bom começo. Arranjou vaga em uma pensão de um bairro afastado e todos os dias, antes das sete, já se pendurava no estribo
do bonde para entrar na loja pontualmente às oito.
Durante o dia inteiro, até as dezoito e trinta, envergando a fardinha com o emblema da loja, ele ia e vinha, fazendo entregas, comprando pequenas coisas,
indo ao banco, ao correio, com diligência e boa vontade. No princípio havia sido duro, porque ele não conhecia a cidade. Mas comprou um guia e dentro de poucas semanas
já circulava por todos os lugares muito bem.
Logo descobriu que o salário que lhe parecera uma fortuna mal dava para cobrir-lhe as despesas indispensáveis. O sonho de poder estudar ficava mais distante
a cada dia. Decidiu procurar outro emprego, mas era muito jovem e teve de sujeitar-se a trabalhar naquele serviço durante três anos, até que completasse dezoito
anos.
Conseguiu fazer um curso noturno de datilografia e passou a procurar outro emprego. Descobriu que para passar nos testes a que era submetido teria de praticar
melhor a datilografia e estudar um pouco mais de matemática. Arranjou um estudante, colega de pensão, para dar-lhe algumas aulas e conseguiu treinar a datilografia
em casa da vizinha, que possuía uma máquina e o deixava usá-la à noite.
Sérgio suspirou recordando-se de sua alegria quando conseguiu ir trabalhar no escritório de uma fábrica de biscoitos. Além de ganhar mais, seria um escriturário.
Sentiu-se feliz. Ele estava ficando importante! Logo conseguiria recursos para continuar os estudos. Naqueles tempos, imaginava cursar a faculdade, graduar-se e
ser doutor! Ter o nome escrito em uma placa do lado de fora do seu consultório e ganhar dinheiro para poder ajudar a família.
Vicente, seu pai, era lavrador; Rita, sua mãe, mulher simples e trabalhadeira, bem como Dirce e Diva, suas irmãs mais novas. Havia ainda o irmão mais velho,
Rubens, que, ao contrário dele, aceitara a vida simples da sua cidade e trabalhava na lavoura como o pai.
Imaginava sua volta à terra natal, formado, rico, levando presentes para todos, podendo oferecer-lhes uma vida melhor.
Contudo, os anos haviam passado e, por mais que perseguisse esse sonho, nunca conseguiu realizá-lo. Esforçara-se muito, progredira, tinha aprendido muitas
coisas durante os quinze anos que viveu na cidade, e nos últimos anos, trabalhando em uma grande empresa onde tantos colegas haviam conseguido progredir, acreditou
que finalmente conseguiria o que desejava.
Claro que não pensava mais em estudar medicina. Renunciara a esse sonho da juventude, mas ainda guardava a esperança de poder subir na vida e ajudar a
família e, principalmente, mostrar-lhes que ele não se havia enganado. Que valera a pena ter saído de casa tão cedo, ter se esforçado. Queria ser vencedor.
Quando tudo parecia favorecê-lo, e pela ordem das coisas o cargo já era seu, a direção nomeou outra pessoa para ocupá-lo. A ele, nem uma palavra, nenhuma
explicação, nada. Além da decepção, o descaso feriu-o fundo. Afinal, ele se dedicava muito ao trabalho.
O telefone tocou e ele fez um gesto de contrariedade. Não sentia vontade de falar com ninguém. Contudo, depois do terceiro toque levantou-se da poltrona
e atendeu.
- Pronto.
- Sérgio? O que aconteceu? Estou esperando há mais de meia hora. Esqueceu que combinamos ir ao cinema? Já perdemos a sessão das oito.
- Desculpe, Flora. Tive um contratempo e me atrasei. Hoje não estou me sentindo bem.
- Está doente?
- Não. Apenas indisposto. Sinto muito tê-la feito esperar.
- Está mesmo indisposto ou está me evitando?
- Por que faria isso?
- Não sei. Mas se não lhe agrada sair comigo, posso compreender. Não precisa desculpar-se.
- Não é nada disso. Você está enganada.
- Não gosto de me sentir assim.
- Assim como?
- Você não apareceu, nem telefonou para avisar. Acho até que se esqueceu do nosso encontro. Por isso, é melhor ficarmos por aqui. Não me procure mais.
Não gosto de ser colocada em segundo plano, e não telefonaria para procurá-lo se não fosse para dizer-lhe isto. Portanto, adeus.
Ela desligou. Desapontado, Sérgio colocou o telefone no gancho.
- E essa, agora? - pensou. Além de perder o cargo ainda perdia a namorada! Isso não ia ficar assim.
Ele reagiu. Apanhou o telefone e ligou para ela. O telefone tocou, tocou, mas ninguém atendeu. Irritado, insistiu várias vezes até que uma voz masculina
atendeu.
- A Flora? Ela saiu. Quem está falando?
- Um amigo dela. Boa noite e obrigado.
Deixou-se cair novamente na poltrona. Além da decepção, agora estava com raiva. Gostava de Flora, mas não estava apaixonado. O namoro já se estendia por
seis meses. Ela era bonita, inteligente, agradável, porém demasiado exigente. Ambiciosa, inteirava-se de suas atividades profissionais, dizendo claramente que esperava
vê-lo prosperar na empresa.
Ele achava bom o interesse dela. Contava-lhe todos os problemas relacionados ao seu trabalho e acatava suas opiniões. Sentia que ela o apoiava para subir
na vida e fazer carreira. Ela cursava a faculdade de direito e Sérgio a admirava por isso. Os pais de Flora estavam bem de vida e ela nunca precisou trabalhar. Terminaria
o curso universitário naquele ano e o pai já estava providenciando um escritório para ela, junto a um famoso advogado.
Para ele, que sempre lutara com dificuldade, a situação de Flora já era ótima. Entretanto, ela desejava muito mais. Não queria ser apenas uma advogada
de fama, mas uma milionária. Seu objetivo era enriquecer. Sonhava com muito luxo, em freqüentar a alta sociedade. Amava as jóias caras, os lugares da moda, estar
em evidência.
Sérgio percebeu isso e até certo ponto achava positivo. Era um estímulo para que ele progredisse. Tinha certeza de que jamais seria milionário. Uma fortuna
não se faz de um dia para o outro. Ele nunca teve sorte.
Flora teria percebido isso? Ela sempre acreditou que ele havia de ser muito rico um dia, que chegaria a ser não só diretor-presidente da empresa como seu
maior acionista. Claro que ela delirava. Mas ele se sentia envaidecido, mesmo sabendo que o sonho dela nunca aconteceria.
De repente, ele percebeu tudo: Flora descobriu que a esperada promoção não acontecera. Por isso, deu-lhe o fora. Não quis esperar mais. Compreendeu a verdade.
Um simples atraso de meia hora não era motivo bastante forte. Já aconteceu antes e ela tinha reagido de outra forma
Apesar de sua desilusão e desconforto, Sérgio começou a rir. A ambição de Flora tornou-a interesseira e vulgar. Pensando bem, ela era vulgar mesmo. Estava
sempre representando, utilizando regras, fazendo jogos de interesse para se beneficiar, tornar-se evidente, admirada, aplaudida, valorizada.
Usou-o enquanto achava que ele poderia oferecer-lhe o que ela pretendia. Percebendo seu engano, não hesitou em colocá-lo de lado, e certamente sairia à
procura de outro que pudesse dar-lhe o que desejava.
Mesmo sem estar apaixonado por ela, essa conclusão irritou-o mais ainda. Além disso, a lembrança de quem o havia substituído na escolha para a diretoria
só piorou seu estado de ânimo.
Levantou-se e começou a andar de um lado a outro da pequena sala pensando:
- Eu sou capaz! Tenho a certeza de que eu desempenharia aquelas funções melhor do que ele, que foi nomeado para o cargo apenas por ser sobrinho do dono.
Estudara, trabalhara, tinha competência. Estava cansado de ser preterido, de ficar em segundo plano, de esperar que os outros reconhecessem sua capacidade.
Tinha de fazer alguma coisa. Não podia continuar mais assim. Estava com trinta e dois anos. O tempo passava rapidamente e nada acontecia.
- Nenhuma mulher pretensiosa e interesseira vai desligar o telefone na minha cara, nem nenhum patrão protecionista vai passar seus apadrinhados por cima
dos meus direitos. Não vou aceitar isso. De hoje em diante, as coisas vão mudar. Eles vão ver do que sou capaz! Até agora, obedeci às regras do esforço, do jogo
aberto, da honestidade. Não deu certo. De agora em diante, cuidarei dos meus interesses. Eles ainda vão voltar atrás, e eu é que direi não! Isso vai acontecer, eu
juro!
Foi até a cozinha, fez um sanduíche, abriu uma garrafa de vinho, encheu o copo e, levantando-o, disse:
- Ao meu sucesso!
Depois de comer, foi até o quarto, apanhou sua agenda e, sentado na cama, à luz fraca do abajur, começou a escrever. Acabava de ter algumas idéias e desejava
pô-las em prática no dia seguinte. Haveria de conquistar seu lugar, aquilo a que tinha direito, e ninguém o impediria de chegar aonde queria.
Estava determinado. O mundo era um jogo de interesses. O mais astuto levava vantagem sempre. Se esse era o caminho para o sucesso, ele o percorreria. As
pessoas, no mundo dos negócios, eram insensíveis a quaisquer sentimentos de solidariedade ou de fraternidade. O lucro era mais importante do que tudo. Tudo era competição,
e em uma competição era preciso ganhar. Estava cansado de perder, e para ganhar tinha que aprender as regras do jogo. Para entrar nessa disputa tinha que usar as
mesmas armas; para vencer, era preciso endurecer os sentimentos e enxergar só o próprio objetivo: o sucesso, o dinheiro.
Tomou um banho e foi deitar-se. Pretendia levantar-se cedo no dia seguinte. Tudo iria mudar e ele precisava estar bem-disposto para começar.

Capítulo 1





A
o chegar pontualmente na manhã seguinte, Sérgio sentiu logo o clima de expectativa entre seus funcionários. Percebeu que o olhavam disfarçadamente, tentando descobrir
como ele reagiria. Eles, tanto quanto Sérgio, tinham como certa a promoção dele.
Sérgio procurou aparentar indiferença e agir da maneira habitual. Se pensavam que ele estava arrasado, enganavam-se. Sentiu a raiva aumentar, mas controlou-se.
Tinha vontade de pedir demissão, de dizer como se sentia injustiçado, de quanto se esforçara para progredir na empresa, e de sua certeza de estar perfeitamente preparado
para exercer o novo cargo.
Não disse nada, porém. Para quê? Serviria apenas para revelar aos colegas o quadro da sua insatisfação e do seu fracasso.
Quando o chamaram para apresentar-lhe o novo chefe, ele precisou de todo o controle para dissimular sua contrariedade. Olhou para o moço bem-posto e sorridente,
vestido na moda e muito seguro de si, e foi tomado por um sentimento desagradável de inveja.
Cumprimentou-o sério, porém com amabilidade, entreabrindo os lábios em um sorriso de boas-vindas que procurava encobrir o mal-estar.
- Este é o Dr. Flávio, nosso novo diretor administrativo - disse o presidente da empresa. - É com ele que você deverá tratar daqui por diante.
- Sim, senhor - respondeu Sérgio.
Ele era doutor! Bonito, elegante, rico. Sobrinho do presidente da empresa. Certamente um "filhinho de papai" que lhe daria muito trabalho para introduzir
nos assuntos administrativos. Doutor! De quê?
Esse pensamento aumentou sua raiva. Era injusto que alguém que não merecia lhe roubasse o que lhe pertencia por direito. Ele trabalhara duro, dedicara-se
tenazmente e era quem tinha o direito de crescer com a empresa.
A vida era injusta e cega com as pessoas. A desigualdade, o protecionismo acentuavam sua revolta. Todavia, nada deixou transparecer.
Flávio fixou-o com certa indiferença dizendo:
- Meu tio falou muito bem de você. Hoje desejo percorrer todos os departamentos, mas amanhã começaremos a trabalhar.
Sérgio curvou-se levemente.
- Estarei à disposição.
Saiu da sala tentando disfarçar, sentindo o olhar curioso dos colegas. Em sua sala, sentou-se atrás da escrivaninha e fingiu que começava a trabalhar.
A disposição da véspera tinha esmaecido. Sentia-se muito desanimado, mas o orgulho falou mais alto. Ninguém haveria de perceber. Alguns colegas tentaram
mostrar solidariedade, procurando tocar no assunto, mas Sérgio sorriu e respondeu:
- Não estou nem um pouco preocupado com o novo diretor! Tenho outros planos em vista!
Eles o olharam com incredulidade. Sabiam como Sérgio gostava da firma e quanto se dedicava. Com certeza ele dissimulava. Fingia para não demonstrar toda
a sua decepção.
Vendo-os sair calados e pensativos, Sérgio compreendeu que não conseguira enganá-los. Irritado, pegou sua agenda e procurou alguns telefones. Fechou a
porta da sala e, sozinho, começou a ligar. Eram pessoas que tinham negócios com a empresa e que o cumulavam de gentilezas, algumas oferecendo vantagens e dinheiro
a troco de favores.
Marcou vários almoços e fez apontamentos. Sabia que precisava ser cauteloso. Dali para a frente, só importaria seu sucesso, seu bem-estar, seus interesses.
Depois disso, sentiu-se mais calmo. Estava dando o troco.
Ele não desejava lesar a empresa. Mas iria aproveitar as vantagens que seu cargo lhe oferecia e prestaria favores a outras firmas para obter lucro e fazer
seu próprio capital. Pensava que ainda poderia ter seu próprio negócio. Prática de mercado não lhe faltava. Só precisava de dinheiro para começar. Isso ele havia
de conseguir em pouco tempo.
Satisfeito, saiu para almoçar e quando encontrou os colegas, principalmente seus amigos, sentia-se muito bem. Tão bem que eles começaram a pensar que haviam
se enganado, que Sérgio realmente não se incomodara com a preterição.
Nos dias que se seguiram, Sérgio sentiu-se muito melhor. Na verdade, prestar esclarecimentos e assessoria ao novo diretor não lhe custava nada, uma vez
que, por outro lado, começara a realizar alguns negócios com os quais ganhara bom dinheiro ao dar preferência a algumas firmas para fornecimento de determinados
materiais.
Um dos seus almoços fora com o dono de uma agência de publicidade que lhe pagou gorda comissão para conseguir a conta da empresa. Sérgio aceitou, e notando
crescer sua conta bancária, sentiu-se satisfeito.
O novo diretor era muito diferente do que Sérgio havia imaginado. Nunca parecia estar trabalhando. Dava impressão de um visitante, sempre impecavelmente
vestido e com a mesa sempre arrumada e limpa.
- Um almofadinha! Não quer nada com o trabalho - pensou Sérgio com certo prazer.
Claro que ele torcia para que Flávio fizesse muitas asneiras. Tinha a certeza de que esse grã-fino nunca saberia levar o trabalho a sério. Fizera-lhe apenas
algumas perguntas e nada mais.
As secretárias viviam suspirando por ele. Certamente um bom partido. Trinta anos, solteiro, rico.
- As mulheres sempre são interesseiras - pensou ele. Isso aumentava sua raiva. Sabia que o estava invejando, e tal sentimento incomodava-o, mas não conseguia
evitá-lo. Se ao menos ele se mostrasse mais humano, cometesse algum erro, falhasse de alguma forma, seria mais fácil suportá-lo. Contudo, Flávio guardava distância,
era discreto, e não trocava qualquer tipo de comentário com ele. Falava pouco e Sérgio nunca sabia se ele concordava ou não.
Se a presença de Flávio o incomodava, sua personalidade começou a intrigá-lo, e ele prestava atenção a tudo quanto o novo diretor dizia ou fazia. Sabia
quantos ternos ele trocava por semana, como combinava as cores das camisas e das gravatas, quantos cafés ele tomava, a que horas chegava, a que horas saía.
Depois de um mês, começou a perguntar-se o que ele fazia fora da empresa. Como gastava seu tempo, os lugares que freqüentava... Quando o via sair em seu
carro sempre limpo e bem cuidado, imaginava onde ele iria, o que faria, como seria sua vida.
Quando ele fosse rico, saberia aproveitar bem o tempo. Todas as mulheres haveriam de querer sua companhia. Teria roupas e carro de luxo.
Sérgio sonhava com o futuro, imaginando-se a desfrutar de posição e vida social.
A campainha do interfone soou e ele atendeu.
- Sim?
- Venha à minha sala, precisamos conversar.
Sérgio levantou-se imediatamente e dirigiu-se à sala de Flávio. Bateu levemente na porta e entrou.
- Sente-se, por favor - pediu ele. Vendo-o acomodado, continuou. - Tenho algumas perguntas a fazer-lhe.
- Estou à sua disposição.
- Primeiro, nós mudamos de agência publicitária. Certamente você teve uma boa razão.
Sérgio admirou-se. Não esperava que ele se ocupasse desses detalhes. Apressou-se a responder.
- É verdade. Durante muito tempo permanecemos com a mesma empresa, porém, estudando bem, notei que os resultados eram insignificantes e resolvi mudar.
A nova agência apresentou-me um programa melhor e acredito que venhamos a obter maiores resultados.
- Desejo cumprimentá-lo por isso. Na verdade, nossa publicidade estava muito antiquada e nada agressiva. A nova campanha está muito melhor. Talvez possamos
melhorar ainda mais. Confesso que você me surpreendeu.
Sérgio olhou-o curioso.
- Por quê?
Flávio sorriu levemente.
- Não pensei que tivesse essa atitude. Não é sua postura habitual. - Olhou-o firme nos olhos e continuou. - Alguma coisa está mudando em você. Para melhor.
Sérgio sorriu enquanto dizia:
- Talvez. Sinto vontade de fazer coisas novas. Flávio balançou a cabeça aprovando.
- Isso mesmo. Você me parecia muito conservador. Sérgio surpreendeu-se. Não era essa a idéia que fazia de si mesmo.
- Eu? Conservador? Tem uma opinião errada a meu respeito. Toda minha vida sempre fui diferente dos meus. Deixei-os lá no interior e vim para a cidade.
Na minha família, só eu tive essa coragem.
Flávio olhou-o sério, como se medindo bem o que ia dizer.
- É verdade. Saiu de lá, mas nunca os deixou realmente. Tudo quanto fez aqui tem sido no sentido de provar-lhes que você estava certo. Que era melhor do
que eles.
Sérgio não ocultou a surpresa. Flávio mal o olhava, como podia saber tanto a seu respeito? Fez um gesto evasivo.
- Por que diz isso? Eu nunca pretendi ser melhor do que eles. Sempre fui um bom filho e amo minha família.
- Não duvido disso. Falo da sua postura interior. Do que está oculto em suas atitudes. Essa postura deve tê-lo limitado muito. Aposto que tudo para você
tem sido muito difícil, e com muita luta.
Sérgio não escondeu um travo de amargura.
- E verdade. Mas a vida não é nada fácil para um pobre menino como eu que veio do interior, sem cultura, e não conseguiu sequer ir para uma universidade.
- Se cultiva essa espécie de pensamento, posso compreender por que não conseguiu o que pretendia.
- Aprendi que a honestidade, a vontade de trabalhar e o esforço eram o caminho para o sucesso. Mas tudo o que conquistei tem sido com muito esforço e muita
luta. Não acredito que na vida as coisas possam ser diferentes.
- Se isso fosse verdade, os desonestos e ociosos nunca teriam sucesso. Eu posso apontar-lhe alguns nomes de homens conhecidos e até famosos, ocupando altos
cargos na política, que fraudaram todas as leis dos homens e até de Deus.
Sérgio não concordou.
- É verdade, mas não é justo. Onde ficam os valores sagrados da religião e da vida? Acreditar nisso é perder todos os referenciais do que é bom ou mau.
- Você fala das regras da sociedade. Hum... Elas nem sempre são verdadeiras.Todavia, pense nisto. O sucesso não depende dos valores morais de cada um.
Ele pode ocorrer mesmo quando a pessoa é despudorada e desonesta.
Sérgio sacudiu a cabeça negativamente.
- Sei que é verdade, mas não me conformo. Está tudo errado. Como a vida pode premiar o mal? Nesse caso, onde está Deus?
Flávio sorriu e, pela primeira vez, Sérgio viu seus dentes alvos e bem distribuídos.
- Está enganado. A vida nunca erra. Tudo está certo como está. Pense nisso. Agora fiquemos por aqui.
Sérgio saiu da sala intrigado. Flávio o elogiara logo quando ele não tinha agido de acordo com seus manuais de honestidade! Ele estava enganado, com certeza.
Que idéias malucas lhe passariam pela cabeça?
Ele, querendo ser melhor do que todos na família! Era verdade que sempre desejara progredir para ajudá-los. Traze-los para a cidade, dar-lhes presentes
e fazê-los subir na vida. Isso não poderia ser um mal. Ao contrário. Ele era um bom filho.
O resto do dia Sérgio não conseguiu esquecer sua conversa com Flávio. Reconhecia que ele estava muito bem informado. Parecia seguro e nunca demonstrara
qualquer dúvida. Chegara a examiná-lo, a observar suas atitudes.
Sérgio sentiu-se envaidecido. Flávio prestara atenção nele. Estar-se-ia perguntando por que não o haviam promovido? Perceberia que lhe roubara o lugar
na hora em que ele, Sérgio, mais esperava por isso?
Se isso fosse verdade, haveria de mostrar-lhe que era melhor do que ele mesmo. As palavras de Flávio não lhe saíam da cabeça. "Saiu de lá, mas nunca os
deixou realmente." Estaria a chamá-lo de provinciano? Foi até o banheiro e olhou-se no espelho. Talvez o corte de cabelo pudesse melhorar. O colarinho era um tanto
acanhado. Também, ele nunca dispusera de dinheiro para comprar boas roupas.
Na manhã seguinte, um sábado, Sérgio decidiu fazer compras. Afinal, agora ele dispunha de mais dinheiro e ninguém haveria de chamá-lo de provinciano. Morava
na cidade há bastante tempo e se considerava um homem elegante. Lembrou-se dos ternos bem talhados de Flávio, suas camisas finas e gravatas sempre combinando e decidiu-se.
Estava disposto a gastar e a vestir-se melhor.
Parado em frente à vitrine de uma luxuosa loja, ele olhava com atenção cada roupa exposta. Ficou encantado com um blazer azul-marinho, vestido em elegante
manequim, a camisa de seda cor de palha e a gravata estampada, com delicado toque cor de vinho. Olhou, olhou e finalmente resolveu entrar.
Sentia-se envergonhado. Nunca conseguira entrar em uma loja luxuosa como aquela. Sempre pensara que essas coisas não eram para ele e que nunca poderia
comprá-las. Timidamente pediu para ver a roupa, e no provador, vendo-se vestido com ela, sentiu-se outra pessoa. Num assomo de entusiasmo, comprou tudo, não só o
blazer, a camisa e a gravata, mas a calça combinando com a camisa, os sapatos de cromo alemão e até as meias de seda.
Gastou quase todo o dinheiro que tinha, mas não se importou. Sentia-se eufórico, feliz. Ele nunca pensara em si mesmo; agora, estava na hora de, pelo menos,
viver melhor.
À noite, tomou um banho caprichado, vestiu-se com a roupa nova e, diante do espelho, sentiu-se entusiasmado. Parecia outro homem, mais alto e muito elegante.
Virando-se e olhando-se, pensou:
- Hoje não vou pensar em tristeza, nem em minha vida pobre. Sou rico, estou preparado para o sucesso!
Uma vez na rua, conjeturou: aonde iria? Não sentia vontade de ir a um simples cinema ou aos lugares costumeiros. Decidiu ir à cinelândia, dar uma olhada.
Andando pela avenida São João, sentia-se o dono do mundo. As mulheres olhavam-no interessadas e ele pensava com satisfação:
- Elas imaginam que tenho dinheiro!
Ele procurava andar com naturalidade. Os ricos são descontraídos e naturais. Iria a um teatro. Talvez fosse melhor. Depois veria o que fazer. O que será
que Flávio fazia nas noites de sábado? Ele tinha carro e isso mudava muito as coisas.
Depois do teatro, sentiu fome e resolveu cear em um bom restaurante. Aquela noite teria que ser completa. Ele não estava à vontade em um lugar de luxo,
porém, naquela noite, sentiu-se muito bem, observando a atenção do maître, a gentileza dos garçons, a beleza do lugar.
Pediu um aperitivo, encomendou o jantar, provou o vinho. Estava deliciando-se com a comida e com o piano que tocava suavemente, quando o garçom aproximou-se
respeitoso.
- Senhor, aquele cavalheiro convida-o a jantar com eles.
Admirado, Sérgio voltou-se e não conteve um gesto de surpresa. Sentado alguns metros atrás, estava Flávio, em companhia de duas moças. Uma delas era Flora.
O que significaria aquilo? Pensou em recusar, mas sentiu-se envaidecido. Era uma oportunidade para mostrara Flora e a Flávio, ao mesmo tempo, que ele não era o provinciano
fracassado que eles julgavam.
Sorriu cortesmente. O garçom continuou:
- Ele disse que lhe daria muito prazer.
- Foi ele quem convidou?
- Sim, senhor.
- Muito bem. Aceito.
Sérgio levantou-se e dirigiu-se à mesa deles, cumprimentando-os.
- Que prazer vê-lo aqui! Venha fazer-nos companhia! - disse Flávio com um sorriso. - Esta é Flora, e esta é Arlete, minha prima.
Sérgio curvou-se, estendendo a mão para Flora.
- Como vai, Flora?
- Bem... - respondeu ela.
Sérgio percebeu que ela estava contrariada. Sentiu-se alegre com isso. Estendeu a mão para Arlete, dizendo com um sorriso:
- É um prazer conhecê-la.
O garçom já mudara o jantar de Sérgio e este sentou-se calmamente entre as duas moças. Olhando Flora com naturalidade, disse:
- Está tudo bem com você?
- Tudo ótimo.
- Vocês já se conheciam? - indagou Flávio, admirado.
- Já.
- Velhos amigos... - disse Flávio.
- É, eu diria velhos conhecidos - respondeu ela tentando dissimular o desagrado.
- Não sabia que você conhecia o Dr. Flávio. Ele é o novo diretor da nossa empresa.
- Nada de doutor, por favor - disse ele. - Não há necessidade de formalidades. Na verdade, estamos a nos conhecer hoje. Ela é colega de faculdade de Arlete.
- Ah! Você estuda advocacia também?
- Não. Eu estudo letras. Estou no último ano.
Ela sorriu. Era muito diferente de Flora. Seu rosto moreno e delicado, levemente corado, a pele muito bonita, olhos grandes e castanhos, seus cabelos escuros
e levemente ondulados, davam-lhe um ar de menina.
- Não é muito cedo para estar no fim do curso? Com que idade começou a estudar? - indagou Sérgio.
Ela meneou a cabeça negativamente e sorriu. Tinha delicadas covinhas quando sorria e um brilho malicioso nos olhos ao responder:
- Quantos anos pensa que eu tenho?
- Não sei... talvez uns dezessete.
- Tenho vinte e três.
- Arlete não aparenta a idade que tem. Aliás, é uma característica da nossa família. O pai dela parece mais irmão dos filhos do que pai - esclareceu Flávio.
A conversa prosseguiu agradavelmente. Flávio era delicado e falava pouco, Flora estudava um jeito de agradá-lo e Sérgio pensou:
- Ela preparou tudo, pretende dar o golpe do baú. Está furiosa porque eu apareci. Vai dar com os burros n´água. Flávio não vai interessar-se por ela.
Ele estava adorando o jantar. Arlete era bonita e graciosa. Amável e delicada. Não parecia ser de família tão importante. Para provocar Flora, Sérgio resolveu
redobrar as amabilidades com Arlete. O que ela, Flora, estaria pensando, vendo-o tão bem vestido e freqüentando restaurante de luxo? Estaria arrependida de haver
terminado o namoro? Haveria de arrepender-se muito mais, a interesseira.
Terminado o jantar, Flávio não permitiu de forma alguma que ele pagasse.
- Absolutamente. Está tudo pago. Eu tenho conta neste restaurante.
Sérgio agradeceu. Aquele era seu dia de sorte. Uma noite mágica que ele não queria ver terminar. Por isso, quando Flávio sugeriu irem a outro lugar, ele
concordou deliciado.
- Está uma noite muito agradável - disse ele. - Poderíamos ir a uma boate.
- Está bem - disse Sérgio.
- Eu adoraria! - disse Arlete.
- Eu sei. Por isso estou convidando.
- Com você, papai deixa - continuou ela, sorrindo. Uma vez na boate, Sérgio sentia-se deslumbrado. Tantas coisas bonitas, muitas flores, gente bem vestida,
música agradável, e ele, pela primeira vez em sua vida, sentia-se à vontade num lugar fino como esse. Havia bebido um pouco de vinho, sentia-se bem-disposto e alegre.
Naquela noite, tudo lhe parecia natural e ele tinha vontade de cantar.
Convidou Arlete para dançar e logo estavam circulando pelo salão. Arlete era leve e dançava deliciosamente bem. Abraçando seu corpo delicado e bem torneado,
Sérgio sentia-se como se fosse o astro de um filme americano. Um musical onde ele fosse o primeiro dançarino. Não é que ele gostava de dançar? Nunca imaginara isso
antes.
Os dois continuaram dançando animadamente. Não paravam. Era rumba, bolero, samba, foxtrote, tudo. Até tango Sérgio animou-se a dançar. Flávio era mais
comedido. Dançara algumas vezes com Flora, e Sérgio de vez em quando percebia o olhar dela fuzilando sobre ele. Quanto mais percebia que ela estava com raiva, mais
feliz ele ficava. Estava saboreando a vingança.
Quando eles se sentaram à mesa, corados e alegres, Flávio considerou:
- Parece que Arlete encontrou um parceiro ideal. Eu não consigo acompanhá-la. Ela nunca se cansa.
- É tão raro eu poder vir a uma boate e, principalmente, que encontre alguém capaz de dançar divinamente como Sérgio, que quero aproveitar. Para dizer
a verdade, estou muito feliz e gostaria que esta noite nunca acabasse.
Sérgio olhou-a com olhos brilhantes e respondeu:
- Pois eu também. Esta noite quero esquecer que sou um simples mortal e que o dia vai amanhecer.
- Nunca pensei que você apreciasse a dança - disse Flora admirada. - Nunca o vi dançar. Pensei que não soubesse dar um passo.
Havia ressentimento na voz dela e Sérgio respondeu:
- Depende da companhia e do lugar. Esta noite, encontrei uma parceira ideal. Ela dança divinamente. Parece uma pluma.
- Isso é verdade. Arlete, desde pequenina, sempre dançou muito bem e tem muito senso musical. Toca piano maravilhosamente, canta bem e se tio Antônio houvesse
permitido ela teria se dedicado à vida artística.
Flora lutava para encobrir o desapontamento. Ela é que queria brilhar, ser a primeira em tudo, ter as atenções. Aquela menininha rica e sem graça, filhinha
de papai, estava roubando-lhe o lugar. Os dois pareciam derreter-se diante dela.
- Está ficando tarde - disse. - Está na hora de irmos embora.
Arlete olhou para Flávio com ar suplicante.
- Não ainda, por favor. Está tão bom aqui!
- De fato, já é tarde - considerou ele consultando ligeiramente o relógio. - Fiquemos mais meia hora.
- Venha, Sérgio - disse Arlete levantando-se e puxando-o pela mão. - Não podemos perder tempo.
Logo os dois estavam circulando animadamente pela pista de danças.
- Não pensei que Arlete fosse tão animada! - tornou Flora.
- Na faculdade ela é sempre discreta.
- Ela é sempre discreta em tudo. Mas quando se trata de música, dança, ela muda. Parece que com o Sérgio acontece o mesmo. Nunca pensei que ele fosse tão
extrovertido. No escritório é sempre muito discreto. Você o conhece há muito tempo?
- Quase um ano. Para dizer a verdade, se quer saber, ele foi apaixonado por mim. Chegamos a um namorinho sem importância. Eu não quis continuar.
Flávio olhava-a imperturbável. Ela continuou:
- Na verdade, ele sempre me pareceu, como direi... um tanto antiquado, é de família pobre, veio do interior, seus pais são lavradores. Pretendia fazer
carreira, estudar, mas nunca conseguiu. Não sei se por falta de sorte ou de capacidade.
- Ele é um dos melhores funcionários da nossa empresa - disse Flávio com naturalidade.
Flora mordeu os lábios. Não esperava essa resposta.
- Claro. Trabalha lá há vários anos. Certamente.
- E você, o que espera fazer quando se formar? Os olhos dela brilharam de satisfação.
- Termino este ano e estou montando meu próprio escritório. Naturalmente, junto com um advogado famoso para que eu possa começar uma carreira bem assessorada.
Sabe como é, eu tenho a certeza de que serei uma excelente profissional; contudo, uma mulher, e ainda mais recém-formada, não vai inspirar confiança aos clientes.
Eles preferem entregar suas causas aos advogados experientes.
Eles continuaram conversando. Flora contando seus projetos, ele ouvindo calmamente.
Quando finalmente saíram da boate, Flávio ia levar as moças para casa e Sérgio não permitiu que ele o levasse. Não gostaria que eles vissem o lugar modesto
onde residia.
- Absolutamente. Vou tomar um táxi. Você já fez demais por mim esta noite. Além de não me deixar pagar a conta.
Despediram-se, e quando chegou em casa Sérgio olhou em volta e o contraste de seu apartamento pobre e modesto o incomodou. Mas ele fechou os olhos. Não
queria pensar. Não queria que aquela noite maravilhosa acabasse. Sentia-se feliz e realizado.
O dia estava amanhecendo quando ele se deitou e finalmente adormeceu.

Capítulo 2





N
a segunda-feira, Sérgio levantou-se alegre e bem-disposto. Porém, olhando-se no espelho não gostou do que viu. Sua camisa era malfeita e seu terno sem elegância.
Suspirou preocupado. Aquelas roupas não lhe caíam bem. Abriu o armário e procurou algo melhor. Não encontrou. Que falta de gosto! Sua roupas eram horríveis.
Como não percebera isso antes? Sentiu vontade de desfazer-se de todas elas.
Talvez por isso ele não conseguira a promoção. Um diretor de empresa precisava estar impecavelmente vestido. Como não tinha pensado nisso? Flávio andava
sempre muito bem arrumado.
Diante do espelho, olhou-se procurando analisar sua aparência. Embora houvesse mudado o penteado, os cabelos ainda continuavam mal cortados. Pensando bem,
ele não era feio. Ao contrário. Alto, moreno, cabelos castanho-escuros, dentes alvos e bem distribuídos, sabia ser agradável quando queria. Faltava-lhe apenas verniz
para tornar-se tão elegante quanto qualquer homem da alta sociedade.
Ele estava disposto a ter sucesso. Para isso, pretendia investir o que pudesse. Nesse jogo, pensava ele, as aparências eram fundamentais. Como não havia
remédio, vestiu-se e foi para o escritório.
Uma vez lá, fez um inventário de suas despesas e de sua conta bancária e chegou à conclusão de que o salário que ganhava não era suficiente para conseguir
viver como desejava. Na verdade, ele nunca reivindicara nada. Pensava que fazendo tudo quanto podia e dedicando-se ao trabalho, seus superiores lhe dariam a justa
compensação financeira. Pensava até que economizando e não se mostrando ambicioso, seria mais apreciado.
Isso não acontecera. Ele mudara de cargo, assumira mais responsabilidade, mas o dinheiro pouco tinha aumentado. Insatisfeito, Sérgio começou a achar, pela
primeira vez, que estava sendo usado.
Sua dedicação fora aproveitada sem que houvessem feito por ele o que esperava. A injustiça de que fora vítima deixava isso muito claro, pensava ele.
A experiência que tivera no fim-de-semana fazia-o desejar ardentemente ingressar nesse mundo bonito e alegre que então havia conhecido. Era isso que ele
buscava quando saíra de sua pequena cidade. Não queria mais viver naquele pequeno apartamento pobre e feio, vestir-se mal, contar os trocados, nunca comprar aquilo
de que gostava e sim o mais barato.
Esses pensamentos o agitavam, mas ele não conseguia esquecer o assunto. Sentia-se triste e desanimado.
Alguns dias depois, Flávio chamou-o à sua sala. Vendo-o sentado à sua frente fez-lhe algumas perguntas sobre o andamento de vários assuntos e depois, olhando-o
com firmeza, disse:
- Noto que você não tem estado bem. Algum assunto da empresa o está preocupando?
Sérgio tentou dissimular.
- Não. Está tudo bem.
- Percebo que você anda desligado do trabalho, sem entusiasmo. Está acontecendo alguma coisa?
- Não. Nada.
- Gostaria que soubesse que a falta de interesse de alguém na equipe pode prejudicar todos os nossos negócios. Você sempre foi considerado um ótimo funcionário.
Ontem, pela sua falta de atenção, quase perdemos um cliente importante.
Sérgio enrubesceu. Orgulhava-se de nunca haver sido advertido. Trincou os dentes de raiva e fechou a boca com força. Flávio, imperturbável, continuou.
- Espero que esteja consciente disso. Mas como tem sido um dos nossos melhores funcionários, pensei que poderia estar com algum problema.
Sérgio sentiu uma onda de indignação. Ele estava sendo usado, explorado, e Flávio ainda se achava no direito de chamar-lhe a atenção. Não se conteve.
- Realmente, Flávio. Sinto-me insatisfeito. Tenho me dedicado à empresa, trabalhado com dedicação e seriedade, julgando que saberiam reconhecer meu valor,
mas isso não aconteceu.
- Você tem progredido. Passou por diversos cargos e agora dirige uma boa parte da empresa, tem o respeito e a admiração de todos.
Sérgio respirou fundo e tomou coragem para dizer:
- Você pode pensar que sim. Gosto da empresa, do trabalho, do ambiente, de tudo. Mas tenho um problema financeiro. Meu salário não é suficiente para as
minhas despesas. Por isso, andei até pensando em procurar outro emprego. Isso para mim seria doloroso, porque eu aprendi a amar esta casa, mas realmente não posso
continuar mais a viver dessa forma. Eu mereço uma vida melhor. Sei que sou competente e realizo um bom trabalho, e sinto que não venho sendo valorizado como mereço.
No início, a voz de Sérgio estava um pouco trêmula, mas depois ele foi se firmando e no final falou de maneira decidida, segura. Sentia-se muito bem falando
assim. Um brando calor aqueceu-lhe o peito e seus olhos brilharam expressivos.
Flávio olhou-o admirado e disse:
- Você sempre me surpreende. Realmente está amadurecendo. Posicionar-se como fez revela dignidade e valor. Pelo que sei a seu respeito, foi a primeira
vez em todos estes anos.
- Obrigado. Você perguntou a causa dos meus problemas e eu lhe disse.
- Muito bem. Espero que continue assim. Gostaria que fosse sempre objetivo como hoje. Fica muito mais fácil resolver os problemas quando as pessoas se
posicionam corretamente. Quanto você acha que seria justo receber pelo trabalho que faz?
- O mesmo que outras empresas do porte da nossa pagam aos que ocupam o meu cargo.
Flávio fixou-o pensativo por alguns minutos. Depois disse:
- É justo. Vou estudar a questão e voltaremos a falar assim que eu tiver as informações. Mudando de assunto, gostaria que fosse jantar em minha casa neste
sábado. Estarão lá alguns amigos.
Sérgio sorriu com satisfação.
- Obrigado pelo convite. Eu irei.
- Arlete vai gostar.
- Eu também. Ela é encantadora.
- Muito bem, às nove.
- Está bem.
Sérgio saiu da sala com vontade de cantar de alegria. Aquela sensação de tristeza e de desvalorização desaparecera. Sentia-se leve e feliz. Havia conseguido
dizer o que sentia e fora compreendido. Sentia-se respeitado e bem-disposto.
Animado, começou a pensar no jantar de sábado. Claro que ele precisaria de roupas novas. Não podia ir com a mesma roupa que usara na outra noite. Consultou
seu saldo no banco e viu que não era muito, mas talvez ele pudesse comprar a prestações. Não podia perder aquele jantar, de forma alguma. Irá casa de Flávio, ver
como ele vivia, vinha ao encontro de seus desejos.
Pensou em comprar outro blazer e uma camisa, que ele usaria com o restante das roupas que já havia adquirido. Não seria tão caro assim. Estava disposto
a não olhar o preço. Ele merecia e haveria de ter boas roupas.
Na sexta-feira, Flávio chamou-o novamente dizendo-lhe haver estudado seu caso e que ele tinha razão. Seu salário não estava à altura do cargo que ocupava.
Ofereceu-lhe não só o dobro do que ganhava como uma pequena participação nos lucros da empresa.
Sérgio ficou radiante. Finalmente estava sendo valorizado. Mas e as roupas? Precisava comprá-las. Seu novo salário só viria no fim do mês.
Sábado saiu logo cedo, percorrendo as lojas de luxo em busca do que precisava. Seu dinheiro não dava para comprá-las. Vendo sua preocupação, um vendedor
perguntou:
- Não gostou dessa?
- Gostei, mas no momento estou desprevenido. Gastei demais e só vou receber no fim do mês. Poderia dividir o pagamento?
- Infelizmente nossa loja não vende a prestações.
- É que eu tenho um jantar importante hoje à noite e queria uma roupa nova. Sabe como é, é a casa do meu chefe.
O vendedor sorriu e disse:
- Olha, se você não se incomodar, eu tenho aqui um terno muito elegante, camisa e gravata, um traje completo, por um preço muito barato. É de excelente
qualidade. Corte impecável. Mas não é novo. Um cliente comprou e não pagou. A loja o obrigou a devolver tudo, mas ele já havia usado. Quando é assim, nosso gerente
vende as peças aos empregados. Porém, não serviram em ninguém. Acho que a roupa vai cair como uma luva em você.
Sérgio aceitou e experimentou. Realmente, a roupa era muito elegante e lhe assentava muito bem. O preço foi exatamente o que ele tinha no banco. Ia ficar
sem nada, mas pretendia fazer um vale e re-mediar.
Comprou tudo com satisfação.
- Hoje é meu dia de sorte - pensou feliz.
Faltava ainda dar um jeito nos cabelos. Mas o dinheiro não era suficiente. Chegando em casa, dirigiu-se à dona do apartamento dizendo bem-humorado:
- Dona Antônia, hoje é meu dia de sorte! Recebi um bom aumento!
Ela sorriu satisfeita. Para ela, todos os seus inquilinos eram como filhos. Viúva e sem filhos, ela interessava-se pela vida de todos eles, consolando-os
quando tinham problemas e comemorando quando estavam alegres.
- Precisamos comemorar, Sérgio!
- É, mas eu tenho um problema. O dinheiro só vem no fim do mês e meu chefe me convidou para um jantar hoje à noite em sua casa. Tive que comprar uma roupa
nova e fiquei sem dinheiro. Preciso cortar o cabelos e pagar o táxi.
- Isso é mau. O que pensa fazer?
- A senhora não poderia emprestar-me algum até o fim do mês? Pagarei com juros.
- Logo vi que você queria alguma coisa. Quando me olha desse jeito!
Ela emprestou-lhe o dinheiro e Sérgio imediatamente foi a um salão famoso cortar os cabelos, fazer manicure.
À noite, quando se olhou no espelho, sorriu com satisfação. Estava perfeito. Faltava o perfume. Com prazer, lembrou-se do perfume francês que ganhara
no aniversário. Com algumas gotas, completou a tarefa.
Às nove horas em ponto, Sérgio foi introduzido pelo mordomo no hall do belíssimo palacete do Jardim América, onde Flávio residia. Com os olhos brilhantes,
ele observava tudo em detalhes, desde o lindo jardim iluminado que rodeava a casa até os lustres de cristal, as cortinas e as obras de arte que já conseguia vislumbrar.
Conduzido a uma sala de estar, onde já se encontravam algumas pessoas, Flávio levantou-se para cumprimentá-lo.
- Você é pontual - disse após os primeiros cumprimentos. - É uma qualidade rara no Brasil. Venha, quero apresentá-lo a alguns amigos. Arlete, você já
conhece.
- Como vai? - disse ela olhando-o com olhos brilhantes. Estava ainda mais bonita num vestido justo de seda vermelho, que a fazia parecer mais alta, e
com os cabelos presos em coque na nuca por um belíssimo arranjo de pérolas.
- Bem. É um prazer reencontrá-la.
Flávio apresentou-o aos outros amigos, dois casais de meia-idade, três rapazes, que haviam sido colegas de universidade, e duas moças. Todos muito agradáveis
e elegantes. Sérgio sentiu-se logo à vontade. Aceitou um aperitivo que a criada lhe ofereceu e a conversa fluiu fácil e agradável.
Foi quando Flora chegou. Arlete apressou-se a abraçá-la e apresentá-la aos outros convidados. Ela não os conhecia. Ao cumprimentar Sérgio lançou-lhe um
olhar onde havia certa irritação e surpresa.
- Ela não gosta de me ver por perto - pensou ele. - Ela sabe que eu a conheço bem.
Vendo-a, ele não ficou contrariado, pelo contrário. Percebendo o quanto ele progredira, ela por certo estaria arrependida de tê-lo desprezado. Ele se
sentia vingado.
Aproximou-se de Arlete e sentou-se ao seu lado no sofá.
- Que bom vê-la de novo.
Ela sorriu e seus olhos brilharam.
- Eu digo o mesmo.
- Nunca me diverti tanto quanto naquela noite. Foi maravilhoso!
- É verdade. Você dança muito bem.
- Você também. Aliás, fazia anos que eu não dançava.
- Não acredito. Você estava em ótima forma. Parece que nunca fez outra coisa na vida.
- Vindo de você, é um grande elogio. Mas é verdade. Há anos que eu não dançava. Quando eu era menino, dizia que queria ser dançarino, aprender a sapatear,
como Fred Astaire. Quando vim para São Paulo, mergulhei no trabalho e esqueci tudo o mais. A vida na cidade grande é absorvente. A luta do dia-a-dia não nos deixa
tempo para o lazer.
Ela abanou a cabeça negativamente.
- Não é verdade. Quando você se organiza, há tempo para tudo. Esse é o encanto de viver. Cada coisa em sua hora e em seu momento.
- Você diz isso porque nasceu em uma família abastada. Nunca precisou preocupar-se com o pão de cada dia.
- Algum dia a preocupação lhe rendeu algum dinheiro?
- O que disse? - estranhou ele.
- Ganhou dinheiro com suas preocupações? Sérgio sorriu.
- Você está brincando comigo. Eu estava falando a sério.
- Eu também. Até hoje eu nunca vi ninguém ter lucro ou ganhar alguma coisa com a preocupação. Para mim, ela só faz mal à saúde e diminui nossa capacidade
de perceber as coisas.
- Quer dizer que nunca se preocupa com nada?
- Pelo menos eu tento fazer isso.
- Nesse caso, a vida seria um caos. Uma desorganização. É preciso tomar conta das coisas, fazer tudo direito.
Arlete sorriu suavemente e em seus olhos havia um brilho malicioso quando considerou:
- Fazer as coisas com capricho e atenção não tem nada a ver com preocupação. Ocupar-se com as coisas antes da hora, temer que elas saiam erradas, pensar
em coisas ruins que ainda não aconteceram desvia nossa atenção do que precisamos fazer no momento e diminui nossa capacidade de ação. Quando eu estou confiante,
serena e calma, consigo fazer tudo muito melhor.
Sérgio olhava-a com admiração. Arlete era diferente das outras moças que conhecera.
Flávio aproximou-se dizendo:
- Pela sua cara, Arlete já deu voltas à sua cabeça. Ela adora fazer isso!
Ela levantou-se enfiando o braço no braço do primo e disse alegremente:
- Olha quem fala! Isso é mal de família. Não ligue para ele. A maior parte das minhas idéias me vem dele. Sabia que o Flávio é o maior pensador que eu
conheço?
- Ele é muito observador - disse Sérgio.
- Não é só isso. Ele é um estudioso da vida, do homem, do comportamento. É um sábio.
Arlete falou suavemente e havia muita ternura em seus olhos. Sérgio sentiu uma ponta de ciúme. Arlete estaria apaixonada pelo primo? Flávio era muito
requisitado pelas mulheres. Seria Arlete mais uma das suas admiradoras?
Flávio sorriu suavemente quando respondeu:
- Nem tanto. É que nós nos compreendemos, temos as mesmas idéias, logo... quando ela me admira é porque está se vendo e se admirando através de mim. Sou
apenas seu espelho. Essa é a forma como me vê.
- Viu? Eu não disse? Ele conseguiu esconder-se e colocar-me em evidência. Ele sempre faz isso. Coloca-se como observador.
- É só o que eu sou. Um observador.
- Você nunca participa? - indagou Sérgio admirado.
- Alguma vez você me achou ausente?
- Não. Ao contrário. Parece sempre muito bem informado. Mas ao mesmo tempo... - parou indeciso. Flávio era seu chefe e, apesar de estar em sua casa como
um convidado, não sabia até onde poderia ir.
- Continue - pediu ele.
- Ao mesmo tempo me parece sempre olhando de fora, sem tomar parte. Fala pouco e não se entusiasma muito com as coisas.
- O que não quer dizer que não as sinta. Flávio é muito sensível.
Sérgio não concordava com isso, mas não se atreveu a contestar Arlete. Disse apenas:
- Se sente, controla-se muito bem. Está sempre calmo, aconteça o que acontecer.
- Alegra-me saber que pensa assim. Há longo tempo venho me esforçando para ser apenas um bom observador, e só intervir se eu puder, na hora certa, do
modo mais adequado.
- O que não quer dizer que ele seja indiferente. Controlar-se é sinal de força, de domínio interior.
- Controlar as emoções não é tão simples assim. Eu mesmo tenho tentado fazer isso e nem sempre consigo.
- Uma das técnicas que nós usamos com muito bom resultado é a de observar do lado de fora, como se o problema não fosse nosso - disse Arlete.
- Eu não saberia fazer isso - tornou Sérgio. - As emoções brotam e ficam de tal forma que, quando aparecem, tomam conta de mim. Como poderia manter-me
de fora? Se eu pudesse fazer isso, por certo não teria mais problemas com elas.
- É só fechar os olhos e imaginar que você dá um passo para trás, e observa sua figura à frente. É como se você fosse outra pessoa. Experimente. Nessa
hora, você está neutro. Não tem que decidir nada, nem enfrentar nada. É mero observador.
- Se eu fizer isso, o que vai acontecer?
- No mínimo descobrirá que tem um refúgio para ir quando as coisas ficarem muito perturbadoras. Nesse estado, sentirá serenidade e paz. Quase sempre,
novas idéias, novos ângulos em que você não havia ainda pensado aparecerão. O silêncio e a meditação são sempre um grande remédio para os problemas da alma.
- Interessante! - disse Sérgio. - Nunca fiz nada disso.
- Vale a pena tentar. Arlete sabe o que diz - tornou Flávio.
O jantar foi servido e a conversa fluiu alegre e agradável. As pessoas que estavam ali eram todas muito educadas e simpáticas. Uma coisa era certa: Flávio
sabia viver e reunir em torno de si pessoas interessantes.
Sérgio sentou-se ao lado de Arlete e do outro lado estava uma senhora muito viva e bem-humorada que o fez sentir-se muito à vontade.Todo o tempo, Sérgio
observou Flora disfarçadamente. Percebia que ela estava tentando introduzir-se naquele meio, aproveitando-se do seu conhecimento com Arlete.
Esforçava-se para ser encantadora, agradável, delicada. Sérgio sabia que ela não era nada disso. Sua personalidade era áspera e dura, chegando por vezes
à arrogância. Contudo, ali, ela mostrava-se dócil e bem-humorada. Com certo prazer e ironia, observava suas investidas sobre Flávio, que, imperturbável, não demonstrava
perceber nada.
Prazer porque sabia que, com Flávio, ela não iria conseguir nada. Ele era muito inteligente para se deixar envolver por uma interesseira como Flora.
Havia momentos em que surpreendia o olhar dela sobre ele, estudando-o. Por certo, estaria arrependida de haver acabado o namoro. Com certeza, estaria
tentando descobrir o que acontecera, uma vez que sabia que ele não fora promovido. Ele se divertia com a curiosidade dela. O que estaria pensando? Que ele estava
tendo mais dinheiro? Se ela soubesse que ele continuava como sempre...
Não. Ele não continuava como sempre. Ele mudara. Ele agora provava o prazer das coisas boas. Ele queria mais. Com isso conseguiu maior salário. Era justo.
Ele merecia. Sempre trabalhou muito. Esforçara-se, dedicara-se. Agora, não estava mais disposto a continuar naquela vidinha pobre e sem perspectivas. Dali para a
frente, sua vida iria mudar. Nunca mais sentiria o gosto do fracasso!
Lembrou-se da família, dos seus projetos de trazê-los para a cidade grande e sentiu um certo remorso. Estaria sendo egoísta pensando só em si mesmo, em
sua satisfação e prazer, deixando a família continuar naquela vida pobre e sem futuro em que viviam?
Ele não queria pensar. Quando ganhasse bem, por certo realizaria seus projetos com relação a eles. De que lhe adiantaria ir buscá-los agora para fazê-los
morar num pequeno apartamento sem conforto?
Após o jantar, Sérgio sentou-se em um sofá, enquanto Flávio colocava alguns discos na vitrola. Os outros convidados espalharam-se prazerosamente pela
imensa sala e Sérgio viu surpreendido Flora sentar-se a seu lado.
- Como vai?- indagou.
- Muito bem. E você?
- Bem. Pelo que estou vendo você agora resolveu mudar de vida. O que aconteceu? Ganhou na loteria?
Ela falou em tom de brincadeira, mas Sérgio percebeu que ela não conseguia mais controlar a curiosidade.
- Por que diz isso? - replicou ele não desejando dizer a verdade.
- Porque você está diferente. Nós nos encontramos naquele restaurante de luxo outra noite e agora, aqui, em casa de pessoas da mais alta sociedade.
- Uma das quais por acaso é meu chefe. Para falar a verdade, estar aqui para mim é natural. Eu é que nunca pensei encontrá-la nesta casa. Nunca me disse
que conhecia os Bastos.
Ela meneou a cabeça negativamente.
- Há muita coisa que você não sabe sobre mim. Eu sempre freqüentei a mais fina sociedade. Arlete é minha colega de faculdade, e lá eu sempre tive muitas
amizades. Costumo receber em casa também.
- Não sabia. Também, você nunca me convidou!
- Pensei que não gostasse de lugares mais requintados. Quando nós saíamos, sempre íamos a lugares modestos. Você estava sempre sem dinheiro.
Ele sorriu.
- As coisas mudam - disse.
Os olhos dela brilharam quando retrucou:
- O que mudou com você? Conseguiu aquela promoção?
- Que promoção?
- Aquela pela qual suspirava há tanto tempo.
- Não, não consegui. Continuo no mesmo posto.
Pelos olhos dela passou um lampejo de reflexão. Depois de alguns segundos ela disse:
- Então não entendo. Como conseguiu dinheiro para comprar roupas caras e freqüentar lugares de luxo? Vai ver que guardava o dinheiro e não queria gastar
quando saía comigo.
Pelos olhos de Sérgio passou um brilho de malícia.
- Pode ser - disse.
Ela irritou-se um pouco, mas estava disposta a controlar-se, por isso sorriu e respondeu fitando-o provocadoramente:
- Acha que eu não mereço?
- Você é quem está dizendo. Pense o que quiser.
Ela empalideceu e levantou-se imediatamente. Se ele pensava que ia esnobá-la estava enganado. Ela era e sempre fora melhor do que ele em tudo. Não seria
um pobre-diabo metido a elegante, sem ter onde cair morto, que iria divertir-se às suas custas.
Ele por certo estava escondendo alguma coisa. Talvez algo ilícito que ela ainda descobriria, e quando soubesse o que era, acabaria com o sucesso dele.
Haveria de vingar-se. Achegara-se a ele, tentando reatar a amizade, talvez até o namoro. Por que não? Agora ele já oferecia uma boa perspectiva de futuro. Com a
orientação dela, poderia ir longe.
Mas ele tripudiara sobre sua boa vontade. Por certo ainda estava ofendido pelo fora que lhe dera. Pior para ele.
Sorriu pensando que ele não perdia por esperar. Quando se casasse com Flávio, haveria de calcá-lo sob os pés.
Afinal, Flávio era muito melhor partido do que Sérgio. Bonito, jovem, rico, inteligente, de boa família. Era nele que colocaria seu objetivo dali para
a frente. Ele mostrara-se educado, porém indiferente. Mas ela sabia como agir e haveria de conquistá-lo. Precisava fazer um plano.
Algumas pessoas se despediram. Sérgio fez menção de despedir-se. Não queria abusar. Arlete o impediu.
- Que nada. Ainda é cedo. Vamos para outra sala. Lá poderemos dançar um pouco.
Sérgio atendeu com prazer. Flávio conversava com um amigo e Flora com outro que, lisonjeado pela atenção dela, dizia-lhe galanteios.
- A noite está tão agradável - disse ela. - O jardim é tão lindo e tão cheio de flores! Gostaria de dar uma volta.
Mário concordou prontamente:
- Vamos - disse oferecendo o braço com galanteria. - Desejo mostrar-lhe um lugar maravilhoso.
Saíram para o jardim, passeando pelas alamedas. A certa altura, Flora foi andando na frente para ver uma linda roseira quando tropeçou e só não foi ao
chão porque Mário correu e a segurou a tempo.
- Meu Deus - gemeu ela -, torci o tornozelo! Ai, que dor!
Quase não estou suportando. Acho que vou desmaiar! O rapaz, assustado, pediu:
- Por favor, não faça isso agora. Calma. Deixe-me ver. - Abaixou-se ao lado de Flora, que estava sobre uma perna só, sustendo-se sobre a outra e gemendo.
- Está um pouco inchado. Acho que se deslocou.
- Pela dor que estou sentindo, acho que quebrou. Não agüento mais.
- Vou carregá-la para dentro.
Tomou-a nos braços e levou-a para a sala deitando-a num sofá. Imediatamente Flávio e os demais convidados se aproximaram. Um dos presentes era médico
e logo tomou a dianteira.
- Deixe-me ver. O que foi?
- Ela tropeçou e torceu o tornozelo.
O médico examinou-a cuidadosamente.
- Não foi nada. Apenas uma torção.
- Está doendo muito - reclamou ela.
- Isso dói mesmo. Você não vai poder pôr o pé no chão por um ou dois dias. Vou dar-lhe um comprimido para a dor. Mas depois de tomá-lo você precisa dormir.
É calmante.
- Meu Deus! E agora? Como vou voltar para casa?
- Acho melhor ficar aqui por esta noite - disse o médico. Flávio, que ouvia atentamente, disse:
- Certamente. Ela ficará no quarto de hóspedes até se recuperar.
Flora esforçou-se para ocultar a satisfação. Era isso mesmo que ela queria. Por isso provocara o acidente. Procurou dissimular.
- Preciso ir para casa - disse. - Minha família ficará muito preocupada se eu não voltar. Não estou habituada a dormir fora. Meu pai é muito rigoroso.
Arlete aproximou-se dizendo:
- Não se preocupe. Eu vou ligar para sua casa e falarei com sua mãe, explicarei tudo.
- Ela vai ficar muito assustada.
- Você fala com ela e conta que está muito bem, já foi atendida pelo médico e é só questão de tempo.
Flora sorriu com doçura.
-Obrigada, Arlete. Não sei como agradecer. Sinto-me constrangida. Não quero dar trabalho, nem abusar da hospitalidade. Logo na minha primeira visita a
esta casa!
- Fique à vontade - disse Flávio com naturalidade. - Já mandei preparar o quarto e vamos levá-la para lá.
- Ela não pode forçar o tornozelo - disse o médico.
- Eu a levo - decidiu Flávio.
Tomou-a nos braços e carregou-a para o andar superior, colocando-a delicadamente sobre a cama. O médico que os acompanhou disse dirigindo-se a Arlete:
- Fique comigo. Vamos ajudá-la a ficar mais confortável. Flávio saiu e os dois ajudaram-na a tirar o vestido, as meias e a vestir uma camisola de Arlete
que esta lá deixava porque era muito comum dormir na casa do primo quando havia festa e ficava até muito tarde.
Assim que saíram, Flora sentiu-se profundamente feliz e satisfeita. A dor passara e ela, deitada na belíssima cama de casal, macia e confortável, olhando
o luxo e o bom gosto do quarto, as obras de arte, as flores, pensava que essa vida era tudo quanto sonhara para si.
Depois, quando Flávio a tomou nos braços, ela sentiu uma deliciosa sensação de prazer. Tendo seu rosto próximo ao dele, sentindo sua respiração, seu perfume,
pensou como seria bom se ele a beijasse. Seria maravilhoso poder juntar o útil ao agradável. Casar com um homem rico e tão atraente cuja proximidade fazia seu coração
bater mais forte e seu corpo estremecer de prazer.
Satisfeita, embalada pelos seus sonhos de felicidade, Flora entregou-se prazerosamente ao torpor que sentia e adormeceu.
Sérgio tinha observado tudo e desconfiara do acidente de Flora. Estava sendo muito conveniente para ela dormir ali, na mesma casa de Flávio, e poder assim
estreitar uma amizade que ela desejava transformar em amor.
A princípio, Sérgio duvidou que Flora conseguisse impressionar Flávio, porém, vendo-o carregá-la nos braços até o quarto, começou a sentir um pouco de
receio. Ela era ousada e muito esperta. Até que ponto Flávio resistiria? Ela era uma mulher bonita e atraente. Sabia provocar um homem.
Não chegara a amá-la e pouco lhe importava se ela se casasse com este ou aquele. Mas não gostaria que ela envolvesse Flávio nessa aventura. Afinal, ele
merecia coisa melhor.
Quando Sérgio se despediu, Arlete prometeu telefonar-lhe para irem ao vernissage de um famoso pintor seu amigo, e ele ficou radiante. Ela pretendia passar
a noite ali, em casa do primo, e fazer companhia a Flora.
Sérgio gostou da idéia. Certamente Flora teria preferido ficar só e a presença de Arlete a atrapalharia. Ele gostava de tudo que pudesse dificultar os
planos de Flora. Tinha a certeza de que ela tramara aquela situação. Ela era mulher sempre às voltas com planos disso e daquilo, não se defendo diante de nada para
conseguir seus objetivos.
Já Arlete era tão diferente! Tão simples e agradável! Ela, uma moça rica, de família importante, era natural e espontânea. Embora não pertencendo à alta
sociedade, Flora era toda cheia de regras e preconceitos.
Junto com Arlete, ele se sentia à vontade e bem-disposto. Com ela, tudo acontecia normalmente, sem problemas ou dificuldades. Parecia-lhe que a vida,
para ela, deslizava suavemente, sem os tropeços de todo mundo. Como ela conseguia isso? A seu lado, ele se esquecia de suas dúvidas, de seus problemas, suas dificuldades
e seus projetos.
- Engraçado - pensou ele. - Enquanto Flora é estressante, Arlete é repousante. Deliciosamente fresca e relaxante. Nunca me senti assim perto de uma mulher.
Em casa, estendido no leito, Sérgio começou a contar os dias que faltavam para ele receber seu salário e pensou nas coisas que compraria para ir ao vernissage
com Arlete.
- Preciso comprar um carro. Juntar dinheiro. Mas como? Ainda não dá para isso. Um dia ele ainda teria um carro. Agora já não duvidava mais de que havia
de conseguir. Era só questão de tempo.
Embalado em seus projetos para o futuro, Sérgio finalmente adormeceu.

Capítulo 3





N
o dia seguinte Flora acordou bem-disposta e alegre. O sol brilhava lá fora e, apesar de as cortinas estarem corridas, a claridade se espalhava pelo quarto em caprichosos
desenhos de luz e sombra.
- Deve ser tarde - pensou ela.
Dormira profundamente a noite inteira. Afastou as cobertas e examinou o tornozelo luxado. Ainda estava um pouco inchado. Tentou levantar-se, buscando
apoio no outro pé. Foi ao banheiro e lavou-se, vestiu o robe que Arlete delicadamente colocara sobre uma cadeira. Alguém bateu na porta.
- Entre - disse Flora.
A criada entrou com uma bandeja de prata onde estavam dispostas várias iguarias.
- Trouxe o seu café. A senhora deseja comer na cama ou na mesa?
- Na cama. Infelizmente meu pé está doendo muito e não posso apoiá-lo no chão.
Flora deitou-se e a criada colocou um porta-mesa sobre o leito e a bandeja em cima.
- Está satisfatório ou a senhora deseja mais alguma coisa?
Flora passou uma vista de olhos pela rica bandeja, pelo delicado vaso onde havia uma rosa, pelos bules, pela louça, pelas iguarias e sorriu:
- Está tudo muito bem, obrigada.
A criada saiu e ela, deliciada, serviu-se de café e leite. Apanhando um pãozinho delicado, passou a manteiga e suspirou satisfeita.
Essa era a vida que ela queria para si. Beleza, luxo, conforto, e ser servida. Além do mais, havia Flávio. Ele começava a aparecer em seu pensamento como
o prêmio maior. Quanto mais pensava nessa possibilidade, mais se animava.
Estava terminando o café quando Arlete apareceu.
- Bom dia - foi dizendo logo. - Está melhor? Flora sorriu.
- Um pouco. Que vexame! Logo no primeiro dia! Estraguei o jantar de seu primo. Espero que ele não tenha se aborrecido comigo.
- Ele não se aborreceu. Foi um acidente.
- Preciso ir embora. Não desejo abusar. Tentei levantar, mas ainda dói terrivelmente.
- Não se preocupe. Fique o tempo que precisar. Descanse.
- Não quero incomodar Flávio. Arlete deu de ombros.
- Ele não se incomoda. Sei o que estou dizendo. Ele saiu um pouco e encarregou-me de dizer-lhe que se cuide e descanse bastante. Aliás, Walter ficou de
voltar após o almoço, para examinar o seu tornozelo e ver se você já pode levantar-se.
- O Dr. Walter foi muito gentil ontem à noite.
- Ele é muito nosso amigo e, além do mais, excelente profissional. Pode ficar tranqüila. Ele fará o melhor.
- Ele inspira muita confiança. Você também não foi para casa. Teria sido por minha causa?
- Eu costumo dormir aqui quando fico até tarde.
- Sua mãe não fica preocupada?
- Por quê?
- Flávio mora só, é tão moço, bonito. Arlete riu com gosto.
- É verdade. Ele é encantador. Mas nosso caso é só de amizade. Somos como irmãos.
Flora suspirou e Arlete sorriu bem-humorada:
- Você não está nem um pouco preocupada com o que minha mãe pensa. Está é interessada pelo Flávio. Esse suspiro...
Flora fingiu-se envergonhada.
- De fato, ele é um homem muito interessante. Capaz de interessar a qualquer mulher de bom gosto. Muito diferente do Sérgio.
- Você conhece o Sérgio há muito tempo?
- Conheço. Para dizer a verdade, ele estava apaixonado por mim. Saímos algumas vezes. Mas eu não quis mais. Terminei o namoro. Ele é muito provinciano.
Sabe como é, eu não me afino com certas coisas.
- Você não o amou.
- Claro que não.
- Você já amou alguma vez?
- Eu? Nunca. Aliás, eu tenho a cabeça no lugar. Não me permito amar qualquer pessoa. Não quero sofrer. Só amarei alguém que preencha todas as qualidades
que eu aprecio num homem.
Arlete ficou silenciosa por alguns instantes. Depois disse:
- Juntar amor com regras e programas parece-me impossível.
- Não para mim.
Havia uma expressão indefinível nos olhos de Arlete quando ela disse:
- Quero ver isso. Pelo jeito Flávio preenche todas as suas condições.
- Até certo ponto, sim. Conheço-o tão pouco! - respondeu Flora, tentando não mostrar muito interesse. - Ele já se apaixonou alguma vez?
- As mulheres o disputam o tempo todo. Mas amar mesmo eu acho que nunca aconteceu. Às vezes ele me parece interessado em alguém, mas logo passa e nada
acontece.
- Isso torna ainda mais interessante a conquista.
- Pelo jeito você vai tentar. Flora sorriu.
- Ainda não sei. Pode ser. Esse jogo pode tornar-se muito agradável.
- Cuidado. Não brinque com fogo. Flávio tem um encanto especial. Você pode apaixonar-se.
- Estou precavida. Só me apaixono se eu quiser.
- Quero ver o dia em que sua barreira cair.
- Esse dia nunca chegará. Arlete sorriu divertida.
- O amor costuma pregar peças. Aparece quando menos se espera.
Flora sacudiu a cabeça negativamente.
- Não comigo. Sou uma pessoa equilibrada. Posso me controlar muito bem. Você não?
- Normalmente sim. Contudo, em se tratando dos sentimentos, ainda não sei.
- Convivendo com seu primo, nunca se apaixonou por ele?
- Não. Já disse que somos como irmãos.
- É, você disse. Está interessada pelo Sérgio?
Os olhos de Arlete brilhavam de forma singular ao responder:
- É muito cedo para dizer. Damo-nos bem. Aprecio sua companhia. Gosta de dançar tanto quanto eu e nos divertimos muito juntos. Não há nada além disso.
Flora fez um gesto de enfado.
- Nunca soube que ele gostasse de dançar. Estou estranhando esse prazer repentino. Talvez ele pretenda conquistá-la. Afinal você é um bom partido para
ele, que sempre foi pobre e lutou muito para subir na vida.
Arlete levantou-se dizendo:
- Ele não me parece interesseiro. Você está indo depressa demais. Só nos vimos duas vezes e você já fala como se estivéssemos namorando. Não lhe parece
muita imaginação?
- Bem... eu pensei... Afinal, sempre que ele está por perto vocês ficam juntos.
- Ele é um excelente funcionário na empresa de meu pai. Em minha família, só tenho ouvido elogios a ele. Flávio o aprecia e eu confesso que gosto da sua
companhia. Está com ciúmes?
- Eu?!! Que idéia! Se eu gostasse dele, teria continuado a namorá-lo. Fui eu quem lhe deu o fora.
- Quer dizer que se um dia eu me apaixonasse por ele, você não se aborreceria.
Flora sacudiu a cabeça energicamente.
- Claro que não! Só que...
- Sim?
- Ele me parece tão insignificante e, sinceramente, penso que você merece coisa melhor. Um homem da sua classe, rico e culto.
Arlete sorriu alegre.
- Não sabia que você era casamenteira.
- Sou sua amiga. Não gostaria de vê-la envolvida com pessoas sem expressão.
- Não se preocupe comigo. Sei cuidar de mim.
Havia qualquer coisa no tom de Arlete que levou Flora a enrubescer.
- Desculpe - disse ela. - Não tenho nada com sua vida. Mas você tem sido tão amiga convidando-me para sair, que eu me excedi. Sinto-me feliz em privar
da sua amizade. Ainda agora, depois do que me aconteceu, vocês foram tão gentis que nem sei como agradecer.
- Não precisa. Agora vou deixá-la descansar.
- Dormi bastante. Gostaria de levantar um pouco.
- Em seu caso o repouso é o melhor remédio. Descanse.
- Não gosto muito de ficar só.
- Logo mais voltarei para fazer-lhe companhia. Vou buscar um livro. Flávio adora ler e tem uma boa biblioteca. Que gênero de leitura prefere?
- Ótimo. Talvez um romance...
Ela não apreciava a leitura, mas se Flávio gostava, ela precisava fingir.
- Ele tem vários. Eu li um maravilhoso, vou buscá-lo. Arlete saiu e voltou em seguida colocando o livro na mesa de cabeceira de Flora.
- Esse é ótimo. Você vai adorar. Eu e Flávio gostamos muito.
- Obrigada. Vou começar agora mesmo.
Arlete saiu, e Flora, tomando o livro entre as mãos, avaliando que ele era volumoso, suspirou resignada e, abrindo-o decidida, começou a ler.
Só no final da tarde foi que Flávio apareceu.
- Como vai, Flora?
Ela largou o livro e sorriu com prazer.
- Melhor, felizmente. Penso até que poderei levantar-me. Já dei trabalho demais a vocês.
Ele meneou a cabeça negativamente.
- Isso não é verdade. Lamento não ter podido estar aqui, mas tenho certeza de que Arlete a tratou muito bem.
Flora corou levemente.
- Certamente. Cuidou de mim com carinho.
- Walter disse que passaria aqui para vê-la logo mais. Antes disso, é melhor não se levantar. Esses casos podem tornar-se crônicos. É bom não facilitar.
Falando no diabo, eis que ele aparece... - brincou ele, levantando-se para abraçar o amigo.
Depois dos cumprimentos, Flávio saiu discretamente e Arlete entrou. Após examiná-la, Walter fez Flora levantar-se e caminhar um pouco pelo quarto.
- Já está bom. Mas é melhor não forçar muito por hoje. Ainda está ligeiramente inflamado. Se quiser, pode ir para casa, mas lá continue repousando. Amanhã
estará tudo bem. Se doer um pouco, friccione com esta pomada.
- Obrigada, Dr. Walter. Não sei como agradecer.
- Então não diga nada - brincou ele. E voltando-se para Arlete: - Espere que ela se vista e ajude-a a descer a escada com cuidado.
Arlete concordou. Flora vestiu-se e Arlete julgou prudente que ela não calçasse os sapatos por causa dos saltos muito altos.
- Fique com os meus chinelos.
- Está bem. Eu os devolvo na faculdade a semana que vem. Amparada por Arlete, Flora desceu lentamente as escadas e sentou-se em um sofá da sala. Walter
colocou uma banqueta para que ela descansasse a perna.
- Vou telefonar para chamar um táxi - disse ela.
- Fique e jante conosco - sugeriu Arlete. Flora olhou para Flávio, que se apressou a dizer:
- Certamente. Você nos dará muito prazer.
- Nesse caso, eu aceito. Vocês são muito amáveis. Adoro estar em sua companhia. Em casa vivo muito só. Sou filha única.
Arlete sorriu bem-humorada. Ela percebia que Flora corava perto de Flávio e seus olhos brilhavam mais quando o fitava.
Na verdade, ela não tinha muita amizade com Flora. Mas esta, de repente, se achegara, procurando companhia. Arlete também era única filha, tendo mais
dois irmãos que, sempre às voltas com seus próprios interesses, nunca estavam com ela.
Apesar disso, Arlete não se sentia só, tinha muitos amigos, inclusive o primo, a quem admirava e com o qual realmente tinha afinidade. Mas podia compreender
que alguém como Flora se sentisse só. Ela mostrava-se agradável e atenciosa e Arlete aceitara sua companhia com naturalidade, convidando-a a participar da sua roda
de amigos, na intenção de que tia não se sentisse tão só quanto dizia estar.
Contudo, Arlete não lhe franqueara sua intimidade. Ela não se transformara em amiga. Havia qualquer coisa em Flora que deixava Arlete em guarda e não
lhe permitia ir além dos limites da boa educação.
Walter também ficou para o jantar e a conversa fluiu agradável e fácil. Flora sentia-se maravilhada. Esse ambiente a fascinava. O relógio do hall deu
as dez badaladas e Flora levantou-se assustada.
- Meu Deus! Já? Preciso ir embora.
- Meu motorista a levará para casa - disse Flávio. - Tem certeza de que deseja mesmo ir?
- Por mim eu ficaria aqui pelo resto da vida. A conversa está tão agradável! Mas preciso ir. Obrigada por tudo.
Eles a instalaram confortável mente no automóvel e despediram-se atenciosamente. No caminho de casa, Flora, recostada nas macias almofadas do carro, sentia-se
muito bem. Passou uma vista de olhos pelo interior do automóvel e decidiu-se.
- É isso mesmo. Um dia tudo isso será meu e eu viajarei aqui todos os dias. Irei para os lugares de luxo e viverei como uma rainha. Flávio vai ser meu.
Eu juro.
Enquanto Flora dava asas à sua fantasia, Sérgio se perguntava o que estaria acontecendo em casa de Flávio. Sabia que Flora estava tentando seduzir seu
chefe e não sabia até que ponto ela o conseguiria.
Tinha certeza de que Flora se aproximara de Arlete, interessada em usá-la para subir na vida. Arlete era rica e freqüentava a melhor sociedade. Flora
não tinha amigas. Sempre dizia que mulher nunca é amiga, mas sim rival.
Ele poderia prevenir Arlete, mas não era do seu feitio. Não gostava de maledicência. Entretanto, ficaria vigilante. Apreciava Arlete. Era uma moça boa
e confiante. Ele não gostaria que Flora a envolvesse em seus projetos escusos.
Na segunda-feira, assim que Flávio chegou ao escritório, Sérgio o procurou para informar-se.
- Está tudo bem com ela. Walter deu-lhe alta e ela foi para casa ontem à noite.
- Ótimo.
- Ela é sua amiga?
- Não. Nós tivemos um namoro sem importância, só isso.
- Ela é interessante, eu diria bonita. Você não se apaixonou?
- Não. Ela é mesmo bonita, mas, para mim, é só. Não chegou a mexer com meus sentimentos.
Flávio sorriu.
- Quando, mexe com os sentimentos é o diabo.
- E você? Ela está mexendo com seus sentimentos? Ele riu com gosto.
- O que o fez pensar isso? Estará com ciúmes?
- Não. É que eu sei que o que ela quer mesmo é um bom partido. Eu não corro perigo algum, quanto a você...
- Também não. Até agora tenho escapado incólume.
- Cuidado com ela. Você pode estar sendo um alvo sem perceber.
- Essas baterias estão por toda parte. Pode imaginar quantas mulheres sonham com o casamento?
- Principalmente com o cifrão.
- Você é amargo com as mulheres. Quero crer que nem todas sejam tão interesseiras.
- Pois eu sei que é assim. Se você não estiver bem vestido, se não tiver um belo carro, nem posição social, tudo fica mais difícil.
- Não é o que eu tenho percebido.
- Pudera, você tem tudo que elas querem e ainda uma boa aparência! Elas enxameiam ao seu redor como moscas. Eu já percebi.
- Será apenas pelo meu dinheiro? Não sou tão rico assim.
- Não diria só pelo seu dinheiro. Mas que isso conta, principalmente para as que não têm nada, isso conta.
- Eis aí um bom tema para estudo. Vou pensar sobre isso. Em todo caso, quer dizer que você, mesmo tendo boa aparência, não tem sucesso com as mulheres?
Não foi isso o que me pareceu...
- É?
- É. Elas bem que se movimentam quando você aparece. Sérgio sorriu satisfeito. Ele também observara esse fato, que tinha ficado mais evidente depois de
ele vestir-se melhor e mudar o corte de cabelo.
- Mas foi depois que melhorei minhas roupas e meu corte de cabelo que isso se acentuou - reconheceu ele. - Elas pensam que tenho dinheiro.
- Não. Elas têm bom gosto e preferem um homem elegante. Além do que, quando você se sente mais elegante, torna-se menos tímido e comporta-se de maneira
diferente. Já notou isso? Quer coisa pior do que se sentir inadequado em algum lugar? Quem se veste mal ou sem capricho está sempre destoando e quem se sente assim
procura passar despercebido, esconder-se. Não mostra o seu brilho. Não será essa a verdadeira causa do interesse? Sei de casos de mulheres muito finas, ricas, da
mais alta sociedade, que se apaixonaram por homens pobres e até feios, dentro do conceito de beleza social. Largaram tudo por eles. Sabe por quê? Porque essas pessoas
possuíam um brilho especial, alguma coisa além da roupa, do dinheiro ou até da beleza física. Um brilho interior, um carisma, que as atraiu. Não acredita nisso?
Sérgio sacudiu a cabeça.
- Não sei. Para ser franco, nunca amei ninguém de verdade.
- Pense nisso. Observe. Verá que nem todas as mulheres são interesseiras. Eu conheço várias que provam o contrário.
- É. Talvez eu esteja generalizando. Deve haver alguma exceção em algum lugar. Tenho certeza de que Arlete é uma delas.
- Isso mesmo.
- Em todo caso, se eu fosse você tomava muito cuidado para não cair em nenhuma armadilha.
Ele riu com gosto.
- Pode deixar. Sei o que faço.
- Nem sei por que estou dizendo isso. Talvez porque eu tenha tido uma experiência um pouco desagradável. Mas, como você disse, nem todas as mulheres são
iguais.
Sérgio sentiu-se mais tranqüilo. Flávio não era ingênuo nem precisava que ele lhe desse conselhos. Flora não iria conseguir nada com ele. Sentia prazer
em vê-la fracassar. Seus planos não iriam dar certo.
De volta à sua sala, encontrou uma carta do seu irmão Rubens. Ao abri-la sentiu-se um pouco culpado. Fazia mais de um mês que não escrevia para casa.
Era um convite de casamento. Emocionou-se. Rubens iria casar-se! O nome da moça era-lhe desconhecido.
Segurando o convite entre os dedos, sentou-se pensativo. Gente pobre como seu irmão não deveria pensar em ter família. Viver ali, naquela vida simples
e sem conforto, longe das conquistas do progresso e da cidade, não era agradável.
Junto havia uma carta. Abriu-a e leu.
"Querido Sérgio. Como você sabe, há algum tempo comecei uma criação de galinhas e juntei algum dinheiro. Não muito, mas o bastante para manter uma família.
Vou me casar. Conheci a Antônia e gosto muito dela. Ela mudou-se para cá há pouco tempo, mas nós nos gostamos desde o primeiro dia. Contamos com sua presença no
grande dia. Abraços do Rubens."
Sérgio sacudiu a cabeça inconformado. Uma criação de galinhas! Quanta ingenuidade. Sentiu aumentar sua sensação de culpa. Se ao menos ele tivesse conseguido
trazer a família para a cidade!
Suspirou desanimado. Para casar-se, Rubens precisaria de uma porção de coisas. Um lugar para morar, móveis, etc. Embora eles não fossem nada exigentes,
onde teriam dinheiro para tanto? Se ao menos ele tivesse algumas economias... Havia gasto todo seu dinheiro em roupas! Não teria sido leviandade? Sentiu uma ponta
de remorso. Não estaria sendo egoísta?
Decidiu, então. Iria receber seu salário dentro de alguns dias e o guardaria para as despesas do casamento. Chegaria lá e teria dinheiro para ajudar o
irmão. Roupa para a cerimônia, ele já tinha. Compraria um belo presente. Escreveria para que Rubens lhe dissesse do que precisava. O dormitório, um fogão, uma geladeira,
compraria o que ele pedisse.
Depois disso, sentiu-se menos culpado.
- O que aconteceu, alguma má notícia?
Flávio estava parado diante dele. Sérgio levantou-se imediatamente.
- Não. Isto é...
- Estava tão preocupado que nem me ouviu entrar.
- Desculpe. Recebi uma carta de meu irmão. Ele vai casar-se dentro de vinte dias.
- É contra o casamento?
- Não é que eu seja contra, mas não sei se ele tem condições financeiras para manter uma família.
- Se ele decidiu, com certeza já pensou nisso. Sérgio deu de ombros.
- É, ele disse que tem.
- Por que não acredita? Não confia nele?
- Ele tem suas próprias idéias, nem sempre combinam com as minhas.
- Isso é normal acontecer. Cada um é um. Eu vim buscá-lo para irmos conversar com um diretor de empresa. Ele quer negociar conosco e eu preciso de alguns
detalhes técnicos. Gostaria que fosse comigo. Vamos almoçar juntos.
- Certamente.
Sérgio apanhou o paletó e saíram. Uma vez no carro, Flávio voltou ao assunto:
- Você nunca falou sobre sua família.
- É verdade. São pessoas simples que moram no interior. São lavradores. Meu pai ganhou do patrão um pedacinho de terra, fez uma casa modesta onde vive
com minha mãe, minhas duas irmãs e meu irmão Rubens, que é o mais velho.
- Ele é quem vai se casar agora.
- É. Quando eu vim para cá, ele não quis vir comigo. Disse que ama a terra e não gosta da cidade. Se ele tivesse vindo, nós dois juntos, talvez pudéssemos
ter trazido a família. Esse foi sempre o meu maior sonho, mas eu nunca consegui. Por isso fiquei triste com a notícia. É mais uma família que vai viver na pobreza
e na falta de conforto.
- A vida rural pode ser muito boa, principalmente se as pessoas gostam da terra e sabem trabalhar com ela.
Sérgio não concordou.
- Qual nada. É uma vida onde tudo falta. Eu não agüento ficar lá mais do que uma semana ou duas.
- Isso é porque você prefere a cidade. É uma questão de gosto.
- Pois eu não me conformo. Gostaria que eles estivessem aqui, estudando, aprendendo coisas novas, vivendo melhor. Infelizmente, não consegui ganhar o
suficiente para isso.
- Ultimamente você tem melhorado de vida. Mudou suas idéias. E quando as idéias mudam, tudo muda.
- Tenho pensado mais em mim, parecia-me justo. Mas agora, estou questionando: não terá sido egoísmo? Ao invés de guardar o dinheiro para a família, gastei
tudo em roupas, lugares elegantes. Pensei só em mim.
- Cuidado. Você deu um passo que não tem volta. Começou a acreditar em seu próprio valor e as coisas melhoraram para você. Seu salário aumentou, sentiu
que merece uma vida melhor. Se alimentar idéias de pobreza novamente, se valorizar a carência, sentir que deve pensar nos outros antes de pensar em si mesmo, se
pretender economizar com medo do amanhã, provavelmente as portas do sucesso financeiro e da prosperidade se fecharão novamente e seu dinheiro começará a minguar.
Sérgio admirou-se.
- Por que diz isso? Deixar de lado minha família, cuidar só do meu progresso, não é ser egoísta?
- É preciso ver a realidade. Durante todos esses anos, desde que você veio para a cidade, teve sucesso financeiro? Ganhou muito dinheiro?
- Claro que não.Tudo para mim tem sido extremamente difícil. Tenho trabalhado durante anos com dedicação e honestidade, mas o que ganhei deu apenas para
me manter modestamente. Nunca pude realizar esse sonho.
- Durante esses anos todos você ficou do lado da sua família. Tentou economizar dinheiro para melhorar a vida deles.
- É verdade.
- Mas nunca conseguiu. Você pensou neles e esqueceu-se de si mesmo. Não acreditou em sua capacidade, não se julgou capaz do sucesso, não pensou que merecia
viver bem, no luxo, no conforto. Na verdade, você deu as costas à prosperidade. O sucesso tem suas leis e, para obtê-lo, é preciso aprendê-las. A primeira delas
é valorizar o que tem. Você é jovem, inteligente, honesto, trabalhador, dedicado. Tornou-se um bom profissional. Não acha que merece viver bem? Sérgio aprumou-se
com dignidade.
- Eu acho. Contudo, os meus estão lá, na pobreza.
- Você não tem condições de tirá-los de lá agora, tem?
- Não.
- Então é preciso investir em você. Reconhecer seu potencial. A valorização das nossas qualidades é um bom começo. Você sabe o que pode fazer bem-feito.
Isso é valorização. Mas ainda há mais.
- O quê?
- Suas crenças a respeito da vida. Suas atitudes. Que mensagens você está lhe passando. Quando pretende privar-se de coisas que merece ter para economizar,
está mostrando que não confia no futuro. Que a vida é falha e não prove as suas necessidades.
Sérgio abriu a boca e tornou a fechá-la. Nunca ouvira semelhante frase. O assunto era novo e muito interessante. Flávio continuou.
- Criticando a vida, julgando-a falha, você está criticando o Criador. Acredita que Deus não vai cuidar das suas necessidades, você é quem precisa fazer
isso. Está, portanto, duvidando de Deus e da sua proteção.
- Eu sou pessoa de fé! Eu acredito em Deus. Sempre que posso, vou à igreja.
- Não falo de religião. Você pensa que tem fé, mas sua atitude demonstra o contrário. A vida não é intelectual, ela é energia, ação. Ela recebe sua mensagem
energética, não o que você pensa que é. Mas o que você faz. E, como vê, você pensa uma coisa e faz outra.
- Isso é incrível!
- Mas é a verdade. Pensar em si mesmo, cuidar de seus próprios valores, viver melhor, é contribuir para a melhoria da sociedade e do mundo. O egoísmo
é muito diferente disso. O egoísmo é justamente o contrário. É usar os outros para cuidar de você. Claro, se você não cuidar de si mesmo é porque espera que os outros
o façam. É anular-se, não cumprindo com seu papel como ser humano, é pendurar-se nos outros. Isso realmente é ser egoísta. Não fazer nada por si mesmo. Claro que
se você progredir, cuidar do seu sucesso, vai ter o que dar às pessoas de sua família. É melhor fazer o que se pode do que ficar iludindo-se a vida inteira sem conseguir
nada.
- Quando eu estou em um lugar de luxo, sinto remorsos por causa deles. Parece-me que os estou traindo.
- Não acha que está sendo pretensioso e prepotente?
- Eu?!!
- É preciso conhecer os próprios limites. Você não tem condições de modificar a vida de ninguém. Só a sua. A situação deles é a que eles escolheram, a
que eles se colocaram, e a vida, só a vida pode decidir a hora da mudança. Você não pode fazer nada quanto a isso. Por que se rebela?
- Eu?!!
- Sim. Parece uma criança mimada dizendo que, se não for da forma que você quer, não aceita mais nada. "Se eles estão lá na pobreza, eu preciso ficar
como eles." Pensando desse jeito, dá para entender por que você não conseguiu nada.
Sérgio passou a mão pelos cabelos pensativo, ficou silencioso por alguns momentos, depois disse:
- Eu nunca olhei a vida desse modo. Onde aprendeu essas idéias?
- Estudando a vida, a maneira de pensar de pessoas de sucesso.
- E isso dá certo mesmo?
- Claro. As pessoas que conseguiram realizar grandes coisas, que construíram grandes fortunas e que tiveram uma vida cheia de boas realizações certamente
descobriram a forma de conquistar tudo isso. A vida é composta de leis que sustentam a harmonia do universo. Tudo tem sua razão e seu caminho. Você pode conseguir
o que quiser, desde que descubra a fórmula adequada. É como um quebra-cabeças.
Sérgio meneou a cabeça admirado.
- Que idéia! Acredita mesmo nisso?
- Certamente.
- Nesse caso qualquer pessoa poderia ser milionária, ter tudo que quisesse neste mundo.
- Isso mesmo. Se encontrasse o caminho adequado, por que não?
- Isso é contra o senso moral. Nesse caso, os valores, a honestidade, o esforço de cada um, o trabalho, perderiam a razão de ser.
- Esses valores são importantes, mas sozinhos não vão trazer o resultado que você pretende. Não é isso o que você tem feito toda sua vida?
- É.
- E não conseguiu nada.
- Não mesmo.
- Para ganhar dinheiro, eles são até desnecessários. Há muita gente inescrupulosa que consegue enriquecer. Amontoam dinheiro, mas carregam problemas graves
na alma, doenças no corpo, infelicidade. Para mim, isso não é sucesso. Claro que o dinheiro é um bem, mas é preciso muito mais do que isso para fazer a nossa felicidade.
É preciso saúde, gosto pela vida, prazer, entusiasmo, bem-estar, alegria e paz.
- Ah! Mas isso é impossível! Você conhece alguém assim?
- Conheço. É a esses que me refiro. Sucesso abrange tudo isso. Riqueza interior, felicidade.
- Não acredito que isso seja possível neste mundo. É só olhar em volta para perceber a dor e a infelicidade.
- É verdade. Mas eu sou dos que acreditam que nós podemos ser felizes e que isso só depende de nós. Se alguns conseguiram, por que nós não? Eu poderia
citar vários nomes. Homens que conseguiram levar vida harmoniosa e proveitosa. Colocaram o dinheiro a serviço da humanidade. Aliás a circulação do dinheiro é uma
condição importante para que a prosperidade apareça. Quem economiza como você fez, guardando para o amanhã, está alimentando a idéia da falta que ele vai fazer.
Quem usa o dinheiro fazendo-o circular sabe que a vida vai trazer-lhe mais.
- Não posso acreditar. Aprendi durante toda vida que a economia é a base do futuro. É preciso poupar para ter. Se o que diz fosse verdade, o perdulário,
o preguiçoso, o que desperdiça o dinheiro e não trabalha seria valorizado. Ficaria de braços cruzados e esperaria a vida trazer-lhe tudo.
- Não é assim que funciona. É o prazer da realização interior que atrai o sucesso. Tanto quem não trabalha, mas até quem trabalha só pelo dinheiro e não
sente esse prazer vai empobrecer cada vez mais. A vida é movimento, ação, participação. Fazer o dinheiro circular é produzir, é movimentar recursos, é participar.
As pessoas confundem muito o que é riqueza. Ela não é só o dinheiro. Seria bom que você tentasse descobrir quais seus verdadeiros sentimentos em relação a esse assunto.
Os preconceitos contra o dinheiro estão fundo em nossa cultura. Há até quem pense que ter dinheiro seja um pecado. Esse não sairá da pobreza tão cedo.
Eles haviam chegado ao destino e Flávio direcionou o assunto para o negócio que iam tratar. Mas não só durante o almoço como depois, quando voltaram ao
escritório, Sérgio não podia esquecer o que haviam conversado.
Seria por essa razão que Flávio lhe parecia tão bem? Sempre tinha imaginado que ele era feliz por ter nascido em berço de ouro, sem necessidade de lutar
para abrir caminho na vida. Claro. Para ele, que sempre contara com recursos, falar desse modo podia ser fácil. Se ele tivesse nascido lá no mato, como ele próprio,
no meio daquela gente ignorante e analfabeta, sem ambições nem conforto, talvez pensasse de outra forma.
Apesar disso, Sérgio não conseguia esquecer o que Flávio lhe dissera. No final da tarde, quando Arlete telefonou, ele imediatamente esqueceu as preocupações.
Ela o avisava de que seu amigo pintor inauguraria a exposição na noite seguinte. Aceitou prazerosamente o convite para acompanhá-la.
Nunca freqüentara esses lugares, mas estava disposto a aprender. Arlete era tão natural que ele não se sentia acanhado. Com Flora era diferente. Ele não
gostava de ir a lugares desconhecidos porque ela fazia tantas recomendações, estabelecia tantas regras que ele se sentia tolhido e desajeitado. Que diferença!
Esquecido dos propósitos de horas antes, ele planejou:
- Amanhã preciso pelo menos comprar uma camisa!
Naquele instante os problemas de sua família estavam muito distantes e o rosto expressivo de Arlete tomou-lhes o lugar.

Capítulo 4





S
entado no trem que o levaria a Barretos, Sérgio pensava na família. O rosto queimado de sol do pai, o jeito doce de sua mãe, o carinho das irmãs, a simplicidade
de Rubens. Apesar de a distância não ser tão grande, ele ficara dois anos sem visitar os seus. O tempo havia passado tão depressa que ele nem se deu conta. Levava
presentes para todos e pretendia comprar um para o irmão quando chegasse. Queria saber de que ele precisava mais.
Conseguiu quinze dias de férias, e faltavam três dias para o casamento. Teria tempo para ajudar Rubens. Estava disposto a fazer o que pudesse. Além do
salário, ele recebeu uma participação no negócio que Flávio realizou com aquele almoço. Ao entregar-lhe o cheque, ele lhe disse:
- Este é seu. Nada mais justo. A empresa fez excelente negócio. Você realmente foi convincente e ajudou bastante. Estamos gratos.
Sérgio sentia-se feliz. O dinheiro chegara em boa hora. Olhando a paisagem que ia ficando para trás, ele pensava:
- Agora, tudo vai mudar. Logo estarei em condições de levar a família para São Paulo.
Ele não sabia se Rubens aceitaria ir. Casado, tudo ficava mais complicado. Depois, ele fez só os quatro anos do primário e certamente teria dificuldade
para encontrar um emprego. Sabia por experiência própria. Havia muita concorrência e os que haviam sido criados na cidade certamente levavam vantagem. Eram mais
desembaraçados, mas eficientes.
Quanto a Rubens, ele não ia insistir. Primeiro, queria aconselhá-lo a fazer alguns cursos em Barretos. Havia lá boas escolas. Datilografia, a rotina de
um escritório, um pouco de contabilidade. Quando ele estivesse mais preparado, haveria de levá-lo também.
Já com as irmãs, tudo seria diferente. Elas eram jovens e aprenderiam com mais facilidade. Dirce estaria com 22 anos e Diva com 24. Ainda bem que não
estavam pensando em se casar. Ali, no sítio, que futuro poderiam ter? Formariam uma família pobre e viveriam em uma casa sem conforto. As mulheres se adaptam com
mais facilidade. Uma vez na cidade, elas logo aprenderiam a comportar-se como as moças que ele conhecia. Acabariam por perder aquele sotaque do interior. Se fosse
preciso, ele contrataria um professor para ensiná-las a falar corretamente.
Enquanto o trem vencia a distância, Sérgio, envolvido pelos seus pensamentos, nem sequer prestava atenção às paisagens que se sucediam. Havia mandado
um telegrama avisando a família da sua chegada. Teriam recebido? Eles moravam distantes da cidade. As cartas que escrevia de vez em quando eram remetidas para a
fazenda do coronel Manuel Carlos, que era o patrão de seu pai. Na fazenda havia telefone. Com certeza o moço do telégrafo teria avisado.
Rubens costumava ir esperá-lo com a velha charrete e ele já pensava na poeira que teria que engolir pelo caminho. Mas mesmo assim, sentia-se emocionado
e feliz. Abraçar os seus, comer o arroz com feijão de sua mãe, tomar leite fresquinho, matar a saudade, era muito bom.
Passava um pouco das dezessete horas quando Sérgio desembarcou. Colocando a mala no chão, logo viu Rubens, que se aproximou para abraçá-lo efusivamente.
- Que bom que você veio! A mãe estava com medo de que você desistisse na última hora.
- Eu disse que vinha! Sempre cumpro o que prometo. Como estão todos em casa?
- Estão bem. Todo mundo alvoroçado com o casamento. Até parece que nunca viram alguém se casar!
- É natural. Você é o primeiro da família que se casa.
- E você, não pensou ainda nisso? Sérgio sorriu ao responder:
- Essa é a mania de todos os que se casam. Logo querem arrastar os outros. Primeiro vou esperar para ver o resultado do seu.
Rubens suspirou.
- O meu vai ser muito feliz! A Antônia é a luz que apareceu em meu caminho. Onde ela passa, tudo fica lindo.
- Hum! Pelo jeito você está apaixonado mesmo. Vamos ver daqui há alguns anos o que você vai dizer.
- A mesma coisa, tenho a certeza.
- Você está diferente. Está muito melhor.
- Estou feliz. O coração alegre faz milagres.
- É. Começo a pensar que essa Antônia é mesmo milagrosa.
- Espere até conhecer ela. Vamos indo. O pessoal está ansioso esperando. Se eu demorar, eles me matam.
Rubens não quis carregador. Ele mesmo fez questão de carregar a mala do irmão. Uma vez na rua, Sérgio não viu a charrete costumeira.
- E a charrete?
- Vendi ela.
- Vendeu? E agora, como é que vocês vão se locomover?
- Com meu carro.
- Carro?!
- É. Eu comprei um carro. Uma perua rural. Sabe como é, é só o que agüenta nessas estradas.
Sérgio emudeceu de surpresa. A perua de Rubens estava parada em frente à estação. Não era nova, mas estava conservada. Uma vez instalados, puseram-se
a caminho de casa.
- Veja só, você tem um carro!
- É. Eu precisei comprar para transportar as galinhas. Eu tiro o banco traseiro e coloco os engradados. Duas ou três vezes por semana venho a Barretos
entregar as encomendas e comprar algumas coisas.
- E o pai? Ele usava muito a charrete. Como está se arranjando?
- Eu dei uma nova pra ele. Aquela não agüentava mais conserto. Vendi ela e comprei outra.
Sérgio continuava surpreso.
- Eu pensei que tivesse vendido a charrete para arranjar dinheiro e comprar o carro.
- Não. Eu vendi ela porque estava muito ruim. Tive medo de que ela despencasse e alguém se machucasse. O pai teimava. Mas eu convenci ele. Eu vivia preocupado,
agora estou mais sossegado.
- E você, vai morar em casa depois do casamento?
- Não. Quem casa quer casa. Eu tenho a minha. É modesta, mas é minha.
- Quero lhe dar um presente de casamento. O que você ainda não tem?
- A arrumação é coisa da Antônia. Você vai ver a casa, fala com ela e resolve depois. Ela é muito caprichosa. Tem muito gosto. Eu acho bonito tudo quanto
ela faz.
- Você gosta muito dela!
- Muito. Quero que ela se sinta feliz. Faço tudo do jeito dela. Quero ter o prazer de chegar no fim do dia e ver o brilho em seus olhos, o sorriso em
sua boca, e a alegria no coração.
- O que faz o amor! Você virou até poeta! Quem diria! Rubens sorriu.
- Poeta eu não sou. Mas cantador, isso eu faço muito bem.
- É mesmo. Você sempre gostou de cantar.
- Cantar faz bem. Quem canta não pensa em prejudicar os outros.
A conversa seguiu animada, e quando chegaram ele buzinou ruidosamente. Os cachorros aproximaram-se latindo alegremente e toda a família correu a abraçar
Sérgio, que, emocionado, não conseguia articular palavra.
Passada a euforia inicial, Rita contemplou o filho com enlevo.
- Você está bonito! Até parece um doutor! Mas está muito magro. Acho que não anda comendo direito.
- Estou muito bem. Engordar não é saúde.
- Hum! Vamos ver. Vou fazer aquele bolo de fubá de que você gosta. O milho faz muito bem à saúde.
- Estou com saudades do seu feijão com arroz! Ela sorriu orgulhosa.
- Lá na cidade garanto que você não come um igual ao meu.
- Não mesmo. O seu é o melhor do mundo! Abraçados e contentes eles entraram em casa.
- Vejo que tudo está mais bonito - disse Sérgio com satisfação. - Pintaram a casa, tem toalha nova na mesa.
- Fizemos roupa nova para o casamento! - declarou Dirce contente.
- Grandes preparativos para o grande dia! E a festa? Vai haver festa?
- Vai. O pai da noiva já contratou dois cantadores e vamos fazer um almoço para os convidados - esclareceu Diva.
- A D. Jandira vai fazer os doces. Começou há mais de uma semana - tornou Dirce com entusiasmo.
- Pelo jeito vai ser uma grande festa! - disse Sérgio.
- Vai mesmo. O pai da Antônia está muito feliz com o casamento. Vai até ter baile! - comentou Diva.
- Agora chega - disse Rita. - Sérgio precisa se acomodar.
- Deixe, mãe. Não estou cansado. Quero mais é saber tudo. Antes eu quero dar meus presentes. Tem para todo mundo!
Abriu a mala e foi tirando os pacotes, distribuindo-os com alegria diante das exclamações entusiastas dos presentes. O jantar decorreu festivamente. Como
já havia escurecido, combinaram que, no dia seguinte, Sérgio iria conhecer Antônia e ver a casa que haviam preparado para o jovem casal.
Terminado o jantar, Sérgio sentou-se na velha cadeira de balanço de sua mãe e as três mulheres sentaram-se ao redor querendo saber tudo a respeito da
sua vida, da cidade, dos seus namoros. Vicente foi dormir, Rubens apanhou o violão e foi cantarolar do lado de fora.
Sérgio foi respondendo, contando que fora aumentado e ainda sonhava levá-los a morar na cidade. Rita balançou a cabeça dizendo:
- Qual o quê, meu filho! Nós não vamos nos acostumar na confusão da cidade. Fomos criados aqui no mato, não vamos saber andar por aquelas bandas.
Ele riu bem-humorado.
- A senhora pensa assim porque nunca foi lá. O conforto é bom e logo nos acostumamos a ele.
- Eu gostaria de ir - disse Diva com os olhos brilhantes.
- Pois eu não sei, não - tornou Dirce pensativa.
- Não sabe porque anda de namoro com o João das Conchas - respondeu Diva.
Dirce corou.
- Isso não é verdade. E o nome dele é João das Neves.
- Ela fica brava quando eu o chamo de João das Conchas. Mas esse é o apelido dele. Todo mundo chama ele assim - justificou-se Diva.
- Por quê? - indagou Sérgio curioso.
- Não sei, não - esclareceu Diva. - Parece que ele veio do Rio de Janeiro e tem um cavalo cheio de conchinhas na montaria.
- O povo tem inveja dele - disse Dirce - porque é moço bonito, se veste bem. O cavalo dele é o mais bonito e ninguém por aqui tem uma montaria tão bonita
quanto essa.
Sérgio olhou a irmã um pouco preocupado. Não gostaria que ela se casasse com um roceiro qualquer. Tinha outros planos para ela. Perguntou à mãe:
- Quem é esse João?
- É o capataz da fazenda do Dr. Bastos.
- Aquele advogado que mora no Rio de Janeiro?
- Esse mesmo. Quando ele veio e trouxe o João, pensei que ele não fosse ficar muito tempo. Mas parece que já está lá há seis meses - concluiu Rita.
- Por que pensou isso? Ele não é bom?
- Não é isso. Ele é moço da cidade. Pensei que ele não fosse acostumar com o serviço da fazenda.
Sérgio franziu o cenho.
- Ele é da cidade... por que será que veio para cá?
- Não sei, não. Ninguém sabe. O Dr. Bastos trouxe ele, apresentou aos empregados da fazenda, mas não contou nada. E parece que ele é muito quieto e não
fala nada - esclareceu Rita.
- Aí tem coisa. Ninguém da cidade viria enterrar-se aqui nessa fazenda sem motivo sério - deduziu Sérgio.
- Não é nada disso - protestou Dirce. - Se ele não fosse bom, o Dr. Bastos não deixava ele ficar tomando conta de tudo. Ele quase nem vem mais na fazenda!
- Isso é verdade - concordou Rita. - O Neco da Mariinha trabalha lá e disse que a fazenda tá uma beleza! O Dr. Bastos, depois da morte de D. Aninha, quase
não tem vindo na fazenda. Pudera! Era ela quem gostava de tudo lá.
- Não sabia que o Dr. Bastos estava viúvo. Ela era nova ainda - comentou Sérgio.
- Tinha quase cinqüenta anos. - Dizem que ele ficou desesperado. Mas com a morte ninguém pode. Quando chega a hora, a pessoa pode ter o dinheiro que tiver,
que não vale de nada - disse Rita.
- Você está namorando esse moço? - perguntou Sérgio a Dirce.
A moça corou e respondeu:
- Não estou namorando ninguém.
- Mas gosta dele! - disse Diva.
- Eu não gosto de ninguém e você não tem nada com isso - retrucou Dirce, irritada.
- Não vão brigar agora por causa disso - interveio Rita com calma.
- Isso mesmo - aduziu Sérgio. - Se ela gosta, ninguém tem nada com isso. Ele está interessado em você? - perguntou ele dirigindo-se a Dirce.
- Não sei. Se está, ele nunca demonstrou - respondeu ela.
- Mas quando nós vamos à cidade no domingo e ele passa, ela fica corada e começa a tremer - disse Diva.
Vendo que Dirce ia retrucar indignada, Sérgio interveio.
- Vamos deixar isso de lado. A Dirce tem todo o direito de gostar ou não de quem quiser. Acho que você está se metendo muito na vida dela.
- Porque ela é mais velha do que eu, acha que pode mandar em mim. Vive me vigiando - reclamou Dirce.
- Não é isso, não. É que ela é muito boba. Ele é moço estudado, da cidade. Tenho medo que não dê certo - explicou Diva.
- Ele tem dado em cima dela? - perguntou Sérgio preocupado.
- Não. Isso não. Mas se ele souber que ela gosta dele pode se aproveitar - concluiu Diva.
- Vocês estão todos enganados. Eu não sou boba nem nada. Sei cuidar de mim muito bem. E ele nem olha pra mim - disse Dirce.
- Nesse caso, vocês estão fazendo tempestade em um copo d'água. Mudemos de assunto que é melhor - sugeriu Sérgio.
- É que ela não quer mais ir para a cidade com você quando chegar a hora. Pretende ficar por aqui, por causa dele - esclareceu Diva.
- Não é por isso, não - disse Dirce. - Não sei se quero ir, a mãe e o pai não vão e eu não sei se me acostumo lá sem eles, no meio daquela gente estranha.
Sérgio pegou a mão da irmã dizendo com carinho:
- Não diga isso. Quando chegar a hora, e agora eu penso que não vai demorar, vocês irão comigo. A mãe e o pai também. Quero toda a família reunida. Lá
vamos ser muito felizes.
Sérgio foi falando da vida na cidade, contando coisas, que elas ouviam fascinadas. Passava das dez quando finalmente se recolheram para dormir. Rubens
já se havia recolhido e Sérgio procurou deitar-se sem fazer barulho para não acordá-lo. Deitado na velha cama de sua infância, Sérgio se recordava de seus sonhos.
Ainda não pudera realizá-los, mas, agora, sentia que tudo estava diferente. Ele mudara e sua vida também. Revendo aquele ambiente pobre e simples, mais se animava
a melhorar de vida e poder oferecer à sua família o merecido conforto. Embalado por novos sonhos, finalmente adormeceu.
Quando acordou no dia seguinte, o sol já ia alto e o dia estava quente. Levantou-se, lavou-se e respirando gostosamente o cheiro que vinha da cozinha,
procurou a mãe, abraçando-a com carinho.
- Que cheiro gostoso! O que está cozinhando?
- Um franguinho especial. Sente pra tomar seu café. Rubens vai vir pra almoçar às onze horas e levar você pra conhecer a Antônia e ver a casa dele.
- Já são quase nove. Se eu comer agora, não vou almoçar às onze.
- Come só umas broas e bebe um pouco de café com leite. O Rubens tirou leite fresquinho pra você.
- Está bem. Eu não resisto mesmo às suas broas.
Ela o serviu de café com leite e ele gostosamente comeu algumas broinhas de milho que ela fazia tão bem Depois de tanto tempo sozinho, esse carinho da
família, essas atenções faziam-lhe muito bem.
Quando terminou, foi à janela e olhando o jardim que circundava a casa disse satisfeito:
- Tudo agora está mais bem cuidado! E a charrete do pai? Rita sorriu satisfeita.
- É linda! Ninguém aqui tem uma igual! Sérgio não conteve a curiosidade.
- Deve ter custado caro! Como foi que o pai comprou? Está devendo muito dinheiro?
- Custou mesmo. Mas nós pagamos tudinho. Rubens foi quem deu o dinheiro.
Sérgio não conseguia acreditar.
- Mãe, como foi que ele conseguiu tanto dinheiro? Ele não tinha nada quando vim aqui da outra vez.
- Com a criação de galinhas, ora essa! Tá uma beleza! Você precisa ver. Ele pediu pró pai deixar ele ocupar um pedaço de terra, aquele pedaço que não
dava nada, nem capim. O pai deixou. Então, ele começou a trabalhar com os comerciantes na cidade, nos fins de semana. Aí, com o dinheiro, ele fez um cercado, à moda
das granjas, foi o que ele me disse. E começou a criação.
- Uma criação dessas precisa de conhecimento. Alguém o ajudou nisso?
- Não. Foi ele mesmo. Comprou um livro que ensinava tudo. Mandou vir mais da cidade e estudou como devia fazer. Os ovos vingavam todos e não morreu nenhum
pintinho. Sabe que ele vacina todos eles? A Antônia ajuda ele quando precisa fazer isso. Eles vivem lendo nos livros como melhorar a criação. Os bichinhos cresciam
bonitos e ele vendia na cidade. Agora, quase não dá conta dos pedidos. Ele tá ganhando muito dinheiro! Fez uma casa e mobiliou tudinho. Comprou o carro, a charrete
do pai e ainda muitas coisas pra nós todos. Tá vendo essa louça? Foi ele quem me deu. Sérgio estava admirado.
- Uma criação de galinhas dá para tudo isso?
- Pois deu. Ele ainda tem dinheiro guardado no banco. Tem até cheque!
Sérgio riu com gosto. Rubens com talão de cheques, ele não podia imaginar. Ele não era ignorante. Ao contrário, estudara até o quarto ano com facilidade,
sem repetir. Mas para ele, o irmão não passava de um roceiro, sem nenhum conhecimento das coisas da cidade. Ele sempre havia morado na roça!
- Ele tem muitas galinhas? - perguntou curioso.
- Bastante. Acho que mais de duas mil. Não sei bem, mas é uma galinhada que faz gosto. Logo cedo fazem um barulhão! Ele gasta muito milho, mas nós plantamos
lá nas bandas do córrego. Mesmo assim, não vence a fome delas. Ele precisa comprar mais. O tal do farelo, não sei mais o quê. Ele tem até dois empregados.
- É? Agora virou patrão?
- Virou. Não dava conta do serviço sozinho. Sabe como é, ele precisa ir vender, entregar a mercadoria, comprar coisas e aqui precisava de gente. Tem de
limpar o lugar muito bem pra não dar doenças. É tudo muito bem cuidado.
Sérgio meneou a cabeça com satisfação:
- Quem diria! O Rubens um homem de negócios! Por essa eu não esperava.
- Ele merece. É muito trabalhador. Gosta de ter tudo bonito e arrumado. Depois que conheceu a Antônia, então, ficou muito mais exigente. Tudo tem que
ficar brilhando.
- Eu notei que agora aqui em casa tudo está mais bonito.
- Está mesmo. Nós estamos muito felizes. Agradeço a Deus todos os dias. Pena que você não esteja morando aqui com a gente. Fica lá na cidade, comendo
aquelas bobagens. A comida lá é toda falsificada.
- Eu estou muito bem, mamãe, e a comida lá não é ruim. Claro que a sua é muito melhor, mas eu sei cuidar de mim e estou muito bem alimentado.
- Antes você era mais corado e mais gordinho.
- Eu era criança nesse tempo e a gordura não é saúde. Rubens chegou e Sérgio aproveitou para perguntar-lhe sobre sua criação de galinhas. Os olhos de
Rubens brilharam de prazer.
- Depois do almoço levo você lá - respondeu animado. Quando terminaram de almoçar, foram ver a criação e Sérgio admirou-se uma vez mais. Tudo estava muito
bem organizado e enquanto eles percorriam o local pelo lado de fora, Rubens ia explicando o sistema que usava, o acasalamento, a chocadeira, tudo. Mas as surpresas
de Sérgio não pararam aí. Foram visitar a casa em que ele iria morar depois do casamento. Era uma modesta construção, com dois quartos, uma sala, cozinha e banheiro.
Mas mesmo sendo simples, estava muito graciosa e arrumada, com cortinas nas janelas e flores nas jardineiras.
- Que alegre sua casa! - exclamou ele. - Muito bom gosto.
- A Antônia que fez tudo - declarou ele com orgulho.
- Você é um homem de sorte! Ela tem muito capricho e bom gosto!
- Tem mesmo. Não existe mulher igual a ela!
- Bem se vê que está apaixonado! Fala nela com tanta devoção!
- Estou mesmo. Se não fosse assim, não casava.
Foi nessa hora que Antônia entrou na casa, e Rubens a abraçou com alegria. Depois apresentou-a ao irmão. Ela não era muito alta, corpo delicado e bem-feito,
cabelos e olhos castanhos. Bonito era seu sorriso. Quando sorria, seu rosto se iluminava em vivacidade e alegria. Sérgio logo gostou dela. Abraçou-a com carinho.
Conversaram alegremente sobre o casamento próximo e Sérgio admirou-se por ver que ela se expressava muito bem e corretamente. Não se conteve e perguntou:
- Você sempre morou na roça?
- Não. Eu morava em Barretes. Lá estudei. Meu pai era comerciante. Mas depois adoeceu. Vivia atribulado com os problemas do armazém e decidimos vender
tudo, vir para cá. Ele comprou um sítio e viemos. Foi a melhor coisa que fez. Recuperou a saúde.
- Você não estranhou vir para cá?
- A princípio fiquei com medo de não me acostumar. Mas depois, a vida aqui é melhor do que na cidade. Agora, eu não voltaria para lá por nada deste mundo!
Rubens abraçou-a com carinho.
- Agora, vai ter que ficar aqui pra sempre!
- É isso o que eu mais quero! Sérgio não se conformou:
- Vocês dizem isso agora, porque estão noivos e vão se casar. Mas com o tempo isso aqui fica monótono. Os dias são sempre iguais e as noites, então...
O que vão fazer?
Antônia meneou a cabeça negativamente.
- Você está enganado. Aqui é muito mais divertido do que na cidade. Lá eu quase não saía. Aqui há muitas coisas para fazer durante o dia, e à noite é
sempre uma festa. Conhecemos os vizinhos, nos reunimos, os violeiros tocam e cantam, às vezes até dançamos. Sem falar dos casos. Aqui há grandes contadores de casos.
Seu Vicente tem sempre um caso novo de assombração, meu pai já gosta de contar das pescarias e quando vem Seu Altino, então, só conta casos de caçadas e do saci-pererê.
Sérgio riu gostosamente.
- O pai ainda conta casos de assombração?
- Conta - respondeu Rubens.
- O que me admira é que ele sabe inventar tão bem! Nunca repete um.
- Você gosta realmente de viver aqui.
- Gosto - disse Antônia, convicta.
- Eu disse pra ela quando ficamos noivos: gosto daqui e não pretendo mudar de forma nenhuma. Pra casar comigo, era preciso que ela pensasse assim também,
senão não ia dar certo - explicou Rubens. - Eu até disse pra ela que pensasse muito bem nesse caso. Porque ela é professora, poderia ir pra cidade, casar com um
moço instruído. Eu, se quisesse, até poderia ir morar na cidade, comprar casa lá. Prefiro viver aqui. É mais gostoso. Mas isso é gosto meu. Ela poderia pensar diferente.
- Mas não penso. Adoro viver aqui. Quero que nossos filhos sejam bem-criados, respirando esse ar puro, convivendo com as pessoas de bem.
- É - disse Sérgio satisfeito - vocês foram feitos um para o outro. Quer dizer que se eu os convidasse para morar em São Paulo, não iriam.
- Não - disse Rubens -, eu não saberia viver lá. Tem muito barulho, gente nervosa, sem tempo pra viver.
Sérgio não soube o que responder. Se eles pensavam assim, eram felizes, ele não podia fazer nada.
- Eu queria dar um presente de casamento, alguma coisa que vocês ainda não compraram. O que está faltando?
Eles se entreolharam, mas não disseram nada. Sérgio continuou.
- Pelo que estou vendo, a casa já está bem montada, mas deve ter alguma coisa que vocês ainda não têm.
- Uma vitrola! - disse Antônia decidida.
- Muito bem. Eu vou a Barretes e compro. E os discos, precisamos comprar alguns.
- Eu já tenho alguns em casa - disse Antônia.
- Façam uma lista dos que gostariam de ter e os comprarei. Pronto. Esse será meu presente.
Ela abraçou-o com olhos brilhantes e beijou-o delicadamente no rosto.
- Obrigada - disse. - Sempre que tocarmos nossos discos nos lembraremos de você.
Sérgio se comoveu e esforçou-se para disfarçar. Quando voltou para casa, no fim da tarde, estava feliz e bem-disposto. Seu irmão soube escolher e seria
muito feliz. À noite, deitado no escuro do quarto, ele pensou em Flora. Que diferença! Essa nunca aceitaria morar ali, naquela modesta casa. Tinha sonhos de grandeza,
pretendia conquistar palácios. E nessa hora, um pensamento lhe ocorreu: teria ela num palácio a mesma felicidade que vira nos olhos de Rubens e Antônia? Ele duvidava.
Um casamento de interesse, sem amor, jamais poderia oferecer a mesma alegria. Lembrou-se de Arlete. Esta não era tão ambiciosa quanto Flora. Se amasse um homem como
Rubens, ela se casaria com ele e iria morar lá?
Essa pergunta ficou sem resposta, mas ele adoraria descobrir quando voltasse.

Capítulo 5





S
entado à sua escrivaninha, Sérgio segurava uma carta entre os dedos sem entender. Havia feito tudo certo, e quando o negócio parecia fechado, o cliente havia desistido.
O que teria acontecido?
Ficou contrariado. Desde seu primeiro trabalho com Flávio, ele o chamara para ajudá-lo nessa área. Sérgio sempre havia trabalhado internamente e agora,
pela primeira vez, começava a participar diretamente dos negócios da empresa. Essa mudança lhe trazia mais responsabilidade. Porém, a cada negócio realizado, recebia
uma participação que vinha a aumentar muito seus proventos.
Fazia seis meses que voltara de Barretes e durante esse tempo tinha conseguido juntar bom dinheiro. Desejava ardentemente comprar um carro. Sua amizade
com Flávio e Arlete se estreitara. Costumavam sair juntos nos fins de semana e Sérgio constantemente era convidado a freqüentar a casa do chefe.
Ele havia se mudado para um apartamento melhor, em um bairro de classe média, e agora sentia falta de um carro. Apesar de sua posição subalterna, Sérgio
não se sentia diminuído com essa amizade. Eles eram tão finos e agradáveis, tratavam-no com tanta delicadeza que a diferença de classes desaparecia. Ele sentia-se
valorizado e a cada dia mais e mais desejava progredir na vida.
Fechar aquele negócio era realizar seu desejo, ou seja, completar o montante para a compra do carro. Tentara de todas as formas falar com o cliente mas,
inexplicavelmente, este, que antes se mostrara muito amável, agora recusava-se a recebê-lo.
Apanhou o telefone e ligou para a secretária dele. Notara o interesse dela todas as vezes que lá estivera. Resolveu aproveitar.
- Como vai, Susana? - disse logo que ela atendeu.
- Oi, Sérgio! - respondeu ela com prazer. - Quer falar com o Dr. Resende? Ele não está.
- Quero falar com você. Ontem, quando estive aí, você parecia tão atarefada que eu não quis incomodar.
- Poderia ter falado. Sempre terei tempo para você.
- Que ótimo. Penso que teremos muito que conversar. Gostaria de jantar comigo uma noite dessas?
- Claro. Quando?
- Quanto antes, melhor. Seu rosto não sai do meu pensamento. Que tal hoje à noite?
- Está bem. Pode me apanhar às oito.
Depois de anotar o endereço, Sérgio desligou satisfeito. Queria descobrir o que havia acontecido. O negócio era de vulto e Flávio estava aborrecido com
o cancelamento. Se conseguisse resolver esse caso, não só agradaria a seu chefe como receberia o dinheiro que esperava.
O encontro com Susana foi produtivo, mas também o deixou muito surpreendido. Ela lhe contou que o Dr. Resende tinha recebido a visita de uma mulher e
que, depois de conversarem, desistira do negócio. O Dr. Resende parecia muito zangado e deu ordens terminantes para que Sérgio não fosse mais recebido na empresa.
Era evidente a intervenção da mulher. Por quê?
Intrigado, ele pediu a Susana para descobrir quem era essa mulher. O que teria ela dito para ocasionar a desistência? Que interesse ela teria em prejudicá-lo?
- Ela não seria de uma empresa concorrente? - indagou ele.
- Não. Ela não trabalha, segundo me parece. Vou informar-me.Tem a Glorinha, minha colega, que a conhece bem. Ligue amanhã.
Meia hora depois de haver chegado ao escritório, Sérgio telefonou a Susana.
- O nome dela é Flora de Alvarenga.
- Flora?!
- É. Conhece?
- Conheço. É uma moça alta, morena, bonita?
- Essa mesmo. Bonita mas antipática.
- É ela mesmo.
- Acho que ela fez de propósito. Chegou, pediu para falar com o Dr. Resende, e quando saiu, ele cancelou tudo. Aí tem coisa! Eu pensei logo isso. Ela
tem alguma coisa contra você?
- Nada. Nós nos conhecemos, tivemos um pequeno namoro, nada importante. Só isso.
- Hum!. Vai ver que anda despeitada. Foi você quem lhe deu o fora?
- Isso não vem ao caso. Tente descobrir mais alguma coisa com a Glorinha, já que são tão amigas. Estou surpreso. Garanto que o negócio é excelente para
a sua firma. Nossa empresa é muito conceituada e séria. Nada justificaria esse cancelamento. Principalmente por causa de uma interferência dessas! Não é justo. Posso
contar com sua ajuda?
- Claro. Verei o que posso conseguir. Adoraria atrapalhar aquela antipática!
- Estarei aguardando. Telefone assim que tiver alguma coisa.
Depois de desligar, Sérgio ficou pensativo. Ele não podia acreditar que Flora houvesse feito uma coisa dessas. Não que ela não fosse capaz disso, ou até
de coisa pior, mas logo com eles, quando ela estava tão interessada em Flávio!
Ela continuava freqüentando a casa de Flávio e tentando envolvê-lo em sua teia. Várias vezes acreditara que ele estivesse entrando. Os dois haviam saído
juntos algumas vezes e o relacionamento parecia muito bom. Ela mostrava-se amável e solícita; ele, atencioso e gentil.
Seria mesmo verdade que ela tentara prejudicá-los? Por quê? Não conseguia entender. Queria investigar melhor, só depois contaria a Flávio. Não confiava
nela. Sentia que ela desejava que ele se afastasse de Arlete e de Flávio, embora ela fingisse muito bem e o tratasse com gentileza. Entretanto, nunca pensou que
ela pudesse tentar algo assim contra ele.
Contudo, Sérgio nada mais conseguiu saber. Glorinha disse apenas que conhecia Flora e que ela lhe dissera ter ido lá para uma pesquisa de um trabalho
de sua faculdade. Susana chegou a dizer que certamente fora apenas coincidência. Ela associou a decisão do chefe com a presença de Flora, mas, pensando melhor, ela
poderia não ter nada com isso.
Entretanto, Sérgio ficou desconfiado. Era coincidência demais. Flora era capaz de tudo. Mas ele não possuía nenhuma prova de que ela tivesse provocado
a desistência daquele cliente.
Ele decidiu que ficaria atento a tudo quanto ela fizesse. Tomaria cuidado e não falaria mais sobre qualquer negócio diante dela. Não era costume seu nem
de Flávio falarem dos assuntos da empresa fora do expediente. Não se lembrava de haver mencionado nada diante dela, mas não estava certo. Dali em diante, em sua
presença, mediria todas as palavras.
Sentiu raiva. Bem que Arlete poderia cortar aquela amizade. Gostaria de vê-la longe do seu grupo de amigos. Mas não podia forçar a situação. E se Flávio
estivesse interessado nela? Só de pensar nisso, irritou-se. Se ela conseguisse o que pretendia, com certeza tudo faria para vê-lo fora da empresa. Ela não aceitara
sua recusa em reatar o namoro. Era vingativa e nunca esquecia uma ofensa. O que teria inventado para que o Dr. Resende não só cancelasse o negócio como até o proibisse
de entrar na sua empresa? Sempre teve uma vida honesta e não havia nada que o desmerecesse. Foi procurá-lo diversas vezes, tentou falar com ele, mas não conseguiu.
Resolveu falar com Flávio. Foi procurá-lo.
- Achei muito estranho o Dr. Resende haver cancelado o pedido. Ele parecia tão satisfeito e tenho a certeza de que lhe oferecemos um excelente negócio!
- A mim também pareceu. Mas essas coisas podem acontecer de vez em quando.
- Tentei conversar com ele, saber a razão, mas soube que ele proibiu minha presença na empresa.
- Verdade? Como descobriu?
- Susana, a secretária. Convidei-a ontem à noite para jantar na tentativa de descobrir algo mais.
- E conseguiu?
- O que consegui intrigou-me ainda mais. Ele recebeu a visita de uma mulher, e depois que ela saiu foi que cancelou o pedido. Pedi a Susana que procurasse
descobrir o nome dessa mulher. Ela disse que era Flora de Alvarenga.
- Flora?! O nome dela é esse, não é?
- É. Ela tem uma amiga que trabalha lá e Susana descobriu que ela foi ver o Dr. Resende por causa de um trabalho da faculdade.
- Pode ter sido só uma coincidência. Que interesse ela teria em nos prejudicar? Temos sido amigos.
- A vocês, não, mas quanto a mim, tenho minhas dúvidas. Ela não gosta de mim.
- Não acha que está sendo muito severo com ela?
- Pode ser. Mas conheço-a bem. Sei que quando quer uma coisa, é capaz de tudo.
- Suponhamos que esteja certo. Que ela tenha querido prejudicá-lo. Para isso precisaria ter um bom motivo. O Dr. Resende não iria tomar uma atitude dessas
sem mais nem menos.
- Isso é o que mais me intriga. O que ela teria feito? O negócio era bom... nossa empresa, conceituada. O que teria acontecido?
- Talvez você esteja exagerando e tudo não passe de uma coincidência mesmo. Em todo caso, reconheço que a mudança de atitude dele foi radical. Deve ter
tido um motivo.
- Sim. Mas qual?
- Pode ter sido particular. Algo que não tenha nada a ver conosco, mas com ele mesmo. Essa é a mais lógica explicação, uma vez que, de nossa parte, fizemos
o nosso melhor.
- Espero que esteja certo. Você se lembra se fizemos algum comentário desse negócio diante de Flora?
- Conversamos sobre isso em minha casa, mas Flora não estava na sala, havia saído.
- Bem poderia ter ficado ouvindo atrás da porta! Flávio riu gostosamente.
- Pelo jeito você cismou com ela mesmo.
- Tomara que eu esteja errado. Mas ainda vou descobrir.
- Se encontrar alguma coisa, avise-me.
Sérgio saiu pensativo. Não gostava de falar de Flora com Flávio, era desagradável, poderia parecer despeito, intriga, uma vez que eles haviam sido namorados.
Não tocaria mais no assunto, a não ser que aparecesse algo muito concludente.
De repente, sentiu-se aborrecido, oprimido, como se algo ruim estivesse por acontecer. Tentou espantar esses pensamentos.
- Estou deprimido pelo que aconteceu - pensou.
Tratou de reagir. Se aquele negócio falhara, outros apareceriam com certeza. Não ia mais preocupar-se com isso. Lembrou-se de Arlete. Ela tinha o dom
de colocá-lo de bem com a vida. Apanhou o telefone e discou.
- Que prazer ouvi-lo! Como vai? - disse ela com alegria.
- Estou me sentindo muito sozinho. Tive vontade de falar com você.
- Aconteceu alguma coisa?
- Pequenas coisas, nada de mais. Estava um pouco aborrecido e você tem o dom de devolver-me a alegria.
Ela riu com prazer.
- Ainda bem!
- Não teve aula hoje?
- Já estou de férias. Sou uma formanda, sabia?
- É mesmo! Parabéns!
- Só isso? Você vai ser meu par no baile de formatura no começo do ano. Esqueceu que prometeu?
- Não. Faço questão. Você tem compromisso para hoje à noite? Gostaria de passar em sua casa para conversarmos.
- Venha logo que sair do escritório, assim teremos mais tempo. Jantará conosco.
- Não. Seria abusar. Irei depois do jantar.
- Faremos melhor. Passarei aí para apanhá-lo às seis. Resolveremos o que fazer.
- Ótimo. Estarei esperando.
Quando desligou o telefone, Sérgio já se sentia melhor. No fim da tarde, preparou-se cuidadosamente. Sempre deixava uma camisa no cabide para trocar em
caso de necessidade e havia perfume na gaveta.
Quando saiu, Arlete já o esperava. Entrou no carro e beijou-a delicadamente no rosto.
-Todo mundo está me invejando! - disse ele bem-humorado. - Você, aqui, me esperando!
- É uma honra mesmo. Não costumo fazer isso. É só de vez em quando.
- Que pena! O que é bom dura pouco.
- Aonde vamos?
- Não sei. Está com fome? Quer comer alguma coisa?
- Não acha que é muito cedo? Deixe comigo. Vamos passear um pouco. Relaxar. Conheço um lugar excelente. Jantaremos mais tarde.
- Você é quem manda.
Arlete ligou o carro e saíram. A tarde estava quente, mas agradável. Janelas abertas deixavam entrar uma brisa gostosa, enquanto o rádio tocava música
suave. Olhando o rosto delicado de Arlete, lábios entreabertos, olhos atentos, mãos na direção do carro, sentiu imenso carinho por ela! Teve vontade de beijá-la.
Isso já acontecera várias vezes, contudo ele refreava esse desejo. Não desejava misturar as coisas. Prezava muito essa amizade para arriscar-se a perdê-la. Por isso,
ficou calado, sentindo grande prazer por estar ali, vivendo aquele momento.
Chegando a um parque ela parou o carro.
- Chegamos. Gosto de vir aqui quando quero pensar. É o meu bosque encantado.
- Sempre pensei que você fosse uma fada, mas não sabia que tinha um bosque.
- Esse é o meu segredo. Nunca trouxe ninguém aqui. Estacionou o carro em uma graciosa praça e desceram. Ela tomou-o pela mão dizendo:
- Venha. Vou levá-lo a um lugar mágico. Caminharam por alamedas onde as copas das árvores se juntavam sobre suas cabeças e havia um cheiro acentuado de
flores. Sérgio a seguia deliciado. O lugar era maravilhoso. Por fim chegaram a uma clareira onde havia um lago cuja tranqüilidade era quebrada pelo ruído dos patos
que nadavam alegremente. Sob uma árvore, um tronco caído estava cercado por samambaias e flores.
- É aqui - disse ela sentando-se e puxando-o também. Sérgio respirou prazerosamente e disse:
- Que delícia! Bem que eu estava precisando de um lugar assim! Como descobriu?
Ela deu de ombros.
- Pelo tom de sua voz. Quando estou triste, venho aqui e converso com Deus. Sei que Ele está em toda parte, mas em um lugar como este eu tenho mais condições
de me ligar a El